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Foram  tomados  os  devidos  cuidados  para  confirmar  a  exatidão  das  informações  aqui  apresentadas  e  para  descrever  as
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condutas  geralmente  aceitas.  Contudo,  as  autoras  e  a  editora  não  podem  ser  responsabilizadas  pelos  erros  ou  omissões  nem
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por quaisquer eventuais consequências da aplicação da informação contida neste livro, e não dão nenhuma garantia, expressa
ou implícita, em relação ao uso, à totalidade e à exatidão dos conteúdos da publicação. A aplicação desta informação em uma
situação particular permanece de responsabilidade profissional do médico.
As  autoras  e  a  editora  envidaram  todos  os  esforços  no  sentido  de  se  certificarem  de  que  a  escolha  e  a  posologia  dos
medicamentos  apresentados  neste  compêndio  estivessem  em  conformidade  com  as  recomendações  atuais  e  com  a  prática  em
vigor na época da publicação. Entretanto, em vista da pesquisa constante, das modificações nas normas governamentais e do
fluxo  contínuo  de  informações  em  relação  à  terapia  e  às  reações  medicamentosas,  o  leitor  é  aconselhado  a  checar  a  bula  de
cada  fármaco  para  qualquer  alteração  nas  indicações  e  posologias,  assim  como  para  maiores  cuidados  e  precauções.  Isso  é
particularmente importante quando o agente recomendado é novo ou utilizado com pouca frequência.
Alguns  medicamentos  e  dispositivos  médicos  apresentados  nesta  publicação  foram  aprovados  pela  Food  and  Drug
Administration  (FDA)  para  uso  limitado  em  circunstâncias  restritas  de  pesquisa.  É  da  responsabilidade  dos  provedores  de
assistência de saúde averiguar a postura da FDA em relação a cada medicamento ou dispositivo planejado para ser usado em
sua atividade clínica.

O  material  apresentado  neste  livro,  preparado  por  funcionários  do  governo  norte­americano  como  parte  de  seus  deveres
oficiais, não é coberto pelo direito de copyright aqui mencionado.

As  autoras  e  a  editora  empenharam­se  para  citar  adequadamente  e  dar  o  devido  crédito  a  todos  os  detentores  dos  direitos
autorais de qualquer material utilizado neste livro, dispondo­se a possíveis acertos caso, inadvertidamente, a identificação de
algum deles tenha sido omitida.

Capítulo 11, Um Relato de The Book of Sorrows, Book of Dreams: A First­Person Narrative e pranchas coloridas Copyright
© 2008 Mary Feldhaus­Weber.

Traduzido de:
WILLARD & SPACKMAN’S OCCUPATIONAL THERAPY, ELEVENTH EDITION
Copyright © 2009, 2003, Lippincott Williams & Wilkins, a Wolters Kluwer business.
Copyright © 2003 Lippincott Williams & Wilkins; Copyright © 1998 Lippincott­Raven
Publisher; Copyright © 1993, 1988, 1983, 1978, 1971, 1963 by J. B. Lippincott Company;
Copyright © 1954, 1947 by J. B. Lippincott Company
All rights reserved.
530 Walnut Street
Philadelphia, PA 19106 USA
LWW.com
Published by arrangement with Lippincott Williams & Wilkins, Inc., USA.
Lippincott Williams & Wilkins/Wolters Kluwer Health did not participate in the translation of this title.

Direitos exclusivos para a língua portuguesa
Copyright © 2011 by
EDITORA GUANABARA KOOGAN LTDA.
Uma editora integrante do GEN | Grupo Editorial Nacional

Reservados todos os direitos. É proibida a duplicação ou reprodução deste volume, no todo ou em parte, sob quaisquer formas
ou  por  quaisquer  meios  (eletrônico,  mecânico,  gravação,  fotocópia,  distribuição  na  internet  ou  outros),  sem  permissão
expressa da Editora.

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Produção Digital: Freitas Bastos

CIP­BRASIL. CATALOGAÇÃO NA FONTE
SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ
W68t
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Willard, Helen S.
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Terapia  ocupacional  /  Willard  &  Spackman  ;  [editado  por]  Elizabeth  Blesedell  Crepeau,  Ellen  S.  Cohn,  Barbara  A.  Boyt
Schell  ;  [revisão  técnica  Eliane  Ferreira  ;  tradução  Antonio  Francisco  Dieb  Paulo...  et  al.].  –  Rio  de  Janeiro  :  Guanabara
Koogan, 2011.
il.

Tradução de: Willard & Spackman’s occupational therapy, 11th ed.
Inclui bibliografia
ISBN 978­85­277­2498­2

1.  Terapia  ocupacional.  I.  Spackman,  Clare  S.  II.  Crepeau,  Elizabeth  Blesedell.  III.  Cohn,  Ellen  S.  IV.  Schell,  Barbara  A.
Boyt. V. Título.
10­4191. CDD: 615.85152
CDU: 615.851.3
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Revisão Técnica

Eliane Ferreira
Professora do Departamento de Ciências da Saúde,
Universidade Veiga de Almeida. Professora do Departamento de
Ciências da Saúde do Centro Universitário Augusto Motta.
Mestre em Morfologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
Fisioterapeuta Graduada pelo Centro Universitário Augusto Motta
 

Tradução
Antonio Francisco Dieb Paulo
Caps. 53 a 59

Cláudia Lúcia Caetano de Araújo
Caps. 63 a 66

Fernando Diniz Mundim
Caps. 60 e 61

José Eduardo Ferreira de Figueiredo
Caps. 1 a 52, 62, 67, 68, 69, Unidades XV, XVI e Glossário
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Coronel Brandon para a Srta. Dashwood:
“O que posso fazer?
Dê­me uma ocupação ou enlouquecerei!”

JANE AUSTEN, Razão e Sensibilidade
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Helen Hopkins, Ed.D, OTR, FAOTA e
Helen D. Smith, MS, OTR, FAOTA

Coeditoras, Willard & Spackman | Terapia Ocupacional, da 5a à 8a edição

H elen Hopkins e Helen D. Smith editaram da 5a à 8a edição do Willard & Spackman | Terapia Ocupacional.
Helen Hopkins foi membro fundador do Departamento de Terapia Ocupacional da Temple University. Ela
comandou  esse  programa  por  muitos  anos  antes  de  sua  aposentadoria,  em  1986.  Helen  Smith  foi  docente  por
longo tempo na Tufts University — Boston School of Occupational Therapy, aposentando­se em 1998. As duas
“Helen’s” eram professoras dedicadas e carinhosas, profundamente comprometidas com a aprendizagem de seus
alunos.  Elas  dedicaram­se  igualmente  à  terapia  ocupacional.  Durante  muitos  anos,  pudemos  encontrá­las  na
Conferência Anual da AOTA. Seja conversando e compartilhando histórias com antigos alunos, colaboradores
do Willard & Spackman, seja em diálogos com seus muitos colaboradores, elas sempre estavam promovendo e
estimulando o pensamento. Mesmo depois de passarem a responsabilidade editorial do Willard & Spackman para
suas sucessoras, essas exímias profissionais permaneceram interessadas na evolução do livro e apoiaram nosso
trabalho como editoras. Somos gratas a elas pelos muitos anos de serviço prestados e dedicamos esta edição em
sua homenagem, pelas inúmeras contribuições que legaram à profissão.
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O Willard & Spackman | Terapia Ocupacional tem uma longa tradição que remete à 1a edição, publicada em
1947.  Helen  Willard  e  Clare  Spackman,  que  ensinavam  juntas  no  Programa  de  Terapia  Ocupacional  na
University  of  Pennsylvania,  publicaram­no  em  conjunto  desde  a  1a  até  a  4a  edição.  Elas  transferiram  as
responsabilidades  editoriais  para  Helen  Hopkins  e  Helen  Smith,  docentes  das  Temple  University  e  Tufts
University, respectivamente. Elas editaram da 5a à 8a edição. Maureen Neistadt e Elizabeth Crepeau, colegas da
University of New Hampshire, editaram a 9a edição e começaram a trabalhar a 10a. Com a morte de Maureen,
Ellen Cohn, na Boston University, e Barbara Schell, na Brenau University, uniram­se a Betty na editoração da
10a e 11a edições.
Revisamos e atualizamos a 11a edição para destacar os avanços no conhecimento da terapia ocupacional e da
ciência ocupacional nos últimos 5 anos. Esta edição inclui alterações significativas no espectro e na natureza do
conteúdo  da  9a  e  10a  edições.  Essas  mudanças  derivaram  da  evolução  observada  no  campo,  de  resultados  de
questionários  de  professores  e  de  estudantes  que  utilizam  o  livro,  bem  como  do  enfoque  de  três  grupos  de
estudantes de terapia ocupacional, de docentes de terapia ocupacional e de visionários em terapia ocupacional
mantidos durante a Conferência Anual da AOTA de 2004 em Minneapolis, Minnesota. As informações dessas
fontes indicaram que as pessoas utilizam o livro para obter uma compreensão abrangente do campo e por seu
conteúdo  enciclo  pédico.  Fomos  incentivadas  a  incluir  mais  informações  sobre  a  ciência  ocupacional  e  a
natureza  ocupacional  dos  seres  humanos  e  a  apresentar  uma  perspectiva  internacional  do  campo.  Além  de
fornecer uma revisão abrangente da profissão, fomos instigadas a incluir uma perspectiva crítica, examinando a
profissão  em  relação  aos  interesses  atendidos  (e  aos  que  estão  sendo  negligenciados)  na  prática.  Também
descobrimos que as unidades pediátricas e de adultos da 10a edição foram menos importantes para os leitores,
provavelmente devido ao surgimento de muitos textos mais especializados em terapia ocupacional. Os leitores
também pareceram estar utilizando fontes de teorias diferentes das teorias baseadas na ocupação. Nossa revisão
incorpora  essas  observações  e  recomendações.  Na  presente  edição,  tentamos  equilibrar  a  tradição  da  função
enciclo  pédica  do  Willard  &  Spackman  como  o  “ponto  de  partida”,  enquanto  mantemos  a  profundidade
suficiente na cobertura de temas críticos para um texto introdutório.
Esta nova edição do Willard & Spackman | Terapia Ocupacional é estruturada para facilitar a navegação ao
longo do texto. Isto foi conseguido através de:

1. Nova sequência das unidades;
2. Eliminação de capítulos com múltiplas seções;
3. Integração da teoria, da avaliação e do tratamento em unidades isoladas; e
4. Adição de recursos específicos para condições comuns e ambientes de prática.

Além disso, esta edição reflete as tendências atuais em relação à centralidade da ocupação como a base para a
prática. Por fim, foi dada atenção mais explícita à influência do ambiente social e político mais abrangente sobre
a participação no cotidiano das pessoas.
As  Unidades  I  a  II  apresentam  aos  leitores  conceitos  de  ocupação,  narrativas  pessoais  de  pessoas  com
necessidades  especiais  e  a  relação  da  sociedade  com  a  ocupação.  Essa  organização  dos  capítulos  coloca
importantes  conceitos  centrais  da  ocupação  logo  no  início  do  livro,  como  uma  base  para  a  compreensão  da
prática  da  terapia  ocupacional.  A  retroalimentação  da  10a  edição  indicou  que  o  capítulo  de  Mary  Feldhaus­
Weber  (The  book  of  sorrows,  book  of  dreams)  foi  muito  efetivo.  O  relato  de  Mary  descreve  vividamente  sua
experiência  pessoal  em  termos  de  lesão  cerebral  adquirida,  tornando  sua  história  acessível  aos  leitores  com
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pouca compreensão do que possa significar viver com uma incapacidade. Portanto, acrescentamos na Unidade II
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seis  novos  capítulos,  que  começam  http://lista.mercadolivre.com.br/_CustId_161477952
com  uma  breve  revisão  da  teoria  narrativa.  Os  capítulos  subsequentes
fornecem relatos de três pessoas diferentes. O primeiro capítulo é o relato de Mary sobre viver com uma lesão
cerebral adquirida; o segundo capítulo descreve como crescer com paralisia cerebral da perspectiva da criança
(agora um adulto jovem) e de seus pais; e o terceiro capítulo é a narrativa de uma pessoa com doença mental
crônica.  A  perspectiva  do  cuidador  é  apresentada  em  um  quarto  capítulo.  A  unidade  se  encerra  com  dois
capítulos  de  autores  internacionais  que  refletem  a  prática  da  terapia  ocupacional  baseada  na  comunidade,
envolvendo  o  desenvolvimento  de  narrativas  do  cliente  como  uma  maneira  de  promover  compreensão  e
mudanças.
A Unidade III, Ocupação e Saúde na Sociedade, aborda importantes questões de política social e de saúde,
promoção  da  saúde,  integração  à  comunidade  e  justiça  ocupacional.  Esses  capítulos  fornecem  as  informações
fundamentais  que  promovem  as  amplas  responsabilidades  sociais  da  profissão  de  terapia  ocupacional.  Esses
capítulos sustentam o ideal de que toda pessoa tem o direito de ser capaz de atender às suas necessidades básicas
e  de  ter  oportunidades  e  chances  de  vida  iguais  para  atingir  seu  potencial  por  meio  do  engajamento  em
ocupações diversificadas e significativas.
A  Unidade  IV,  Perfil  da  Profissão  da  Terapia  Ocupacional,  começa  com  uma  revisão  da  história  da
profissão  e,  em  seguida,  fornece  ao  leitor  uma  revisão  da  prática  contemporânea  de  terapia  ocupacional.  O
restante da unidade consiste em novos capítulos: um deles fornece uma revisão da prática da terapia ocupacional
no mundo, um segundo capítulo aborda a organização da profissão nos Estados Unidos e um terceiro capítulo
descreve os conceitos de potencial de desenvolvimento e o desenvolvimento real. Um capítulo substancialmente
revisado sobre o trabalho de campo também se inclui nessa unidade. O capítulo final dessa unidade fornece uma
perspectiva crítica da prática da terapia ocupacional em nossos dias.
As Unidades V a IX apresentam aos leitores as bases de prática a partir de um conteúdo relacionado com os
valores e crenças da própria profissão, com o raciocínio básico e processos analíticos inerentes à prática. Além
desses capítulos substancialmente atualizados sobre a análise ocupacional, a entrevista e o trabalho da equipe,
novos capítulos abordam as relações terapêuticas e a comunicação com os clientes, bem como as comunicações
e  apresentações  profissionais.  A  Unidade  VIII,  Base  Conceitual  da  Prática,  inclui  amplos  capítulos  sobre  as
principais teorias baseadas na ocupação, enfatizando a centralidade da ocupação como núcleo da prática.
As Unidades X a XII apresentam aos leitores a avaliação e o tratamento de terapia ocupacional em relação às
ocupações,  aos  fatores  pessoais  e  ao  ambiente.  Cada  capítulo  revisa  perspectivas  teóricas  relevantes  e  integra
essas perspectivas aos processos de avaliação e tratamento, demonstrando a natureza integrada da prática. Esses
capítulos  fornecem  exemplos  de  avaliação  e  tratamento  do  cliente  ao  longo  de  toda  a  vida,  bem  como  o
continuum  da  prática  da  terapia  ocupacional.  Os  autores  fornecem  um  resumo  da  evidência  importante  que
norteia  a  prática,  bem  como  uma  análise  crítica  dos  hiatos  na  evidência  disponível.  Um  novo  capítulo
consagrado  aos  fatores  pessoais  fornece  uma  lista  de  funções  e  estruturas  corporais  úteis  para  consideração
imediata dos muitos fatores que afetam o desempenho.
A Unidade XIII, Terapeutas em Ação: Exemplos da Prática Especializada, é totalmente nova, mostrando
uma perspectiva de narrativa da prática da terapia ocupacional do ponto de vista de profissionais experientes que
discutem  seu  trabalho.  Essa  unidade  fornece  ideias  sobre  o  raciocínio  prático  dos  profissionais  experientes  e
ajuda os leitores a compreender os desafios e as complexidades da prática da terapia ocupacional em diferentes
ambientes,  incluindo  a  prática  escolar,  abrigos  para  indigentes,  cuidados  de  longo  prazo  e  ambientes  médicos
ambulatoriais.
A Unidade XIV, Gerenciando a Prática, aborda os princípios de gerenciamento básicos da prática da terapia
ocupacional. Todos os capítulos novos nessa seção abordam as funções básicas de gestão, inclusive a supervisão,
com  atenção  específica  para  os  terapeutas  ocupacionais,  assistentes  de  terapia  ocupacional  e  auxiliares  (as
funções  de  assistentes  e  auxiliares  de  terapia  ocupacional  não  existem  no  Brasil).  Uma  revisão  do  pagamento
pelos  serviços  descreve  as  muitas  opções  para  o  pagamento  e  apresenta  o  contexto  para  compreensão  das
estruturas de reembolso nos Estados Unidos. O capítulo final sobre consultoria traz as ideias dos profissionais
atuantes para que os leitores possam considerar essa forma de atuação.
A Unidade XV, Condições Comuns: Evidências e Recursos Correlatos,  inclui  breves  resumos  de  muitas
condições  comumente  observadas  na  prática  da  terapia  ocupacional,  com  informações  básicas  sobre  sinais  e
sintomas,  critérios  diagnósticos,  intervenções  médicas/sociais,  avaliação  e  tratamento  da  terapia  ocupacional,
revisão  da  evidência  que  dá  suporte  à  prática,  além  de  considerações  quanto  ao  cuidador.  Mais  recursos  são
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listados para leitura adicional.
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A Unidade XVI, Tabela de Avaliações, apresenta todos os instrumentos de avaliação mencionados no livro,
dispondo­os em ordem alfabética por título. Esse recurso contém informações sobre a avaliação, incluindo autor,
finalidade, faixa etária, áreas avaliadas e informações do editor.
O  Glossário  inclui  as  definições  das  principais  palavras  de  cada  capítulo,  assim  como  a  importante
terminologia do esboço da segunda edição do Protocolo de Prática da Terapia Ocupacional.
Esta edição inclui a terminologia da Classificação Internacional de Funcionalidade e das versões escolhidas da
a
2   edição  do  Protocolo  de  Prática  da  Terapia  Ocupacional.  No  momento  em  que  este  livro  foi  impresso,  o
Protocolo ainda estava sob revisão; por conseguinte, parte de nossa terminologia pode não refletir a versão final.
Como estamos cientes do poder da linguagem para influenciar a maneira pela qual pensamos, tentamos ser o
mais  inclusivas  possível  nas  descrições  das  pessoas.  Utilizamos  ao  máximo  o  termo  profissionais  de  terapia
ocupacional para representar o terapeuta ocupacional graduado e o assistente de terapia ocupacional certificado.
Tentamos evitar termos preconceituosos e “rótulos”. Utilizamos a linguagem não médica até o ponto em que esta
mostrou­se apropriada.
Ao longo de todo o livro existem aspectos especiais que ampliam e estendem o texto. Além dos estudos de
casos  e  dos  Dilemas  da  Prática,  os  leitores  encontrarão  Comentários  Sobre  as  Evidências,  Dilemas  da  Ética  e
Questões Instigantes para estimular o melhor processamento do material do livro.
Somos  gratas  a  muitos  de  nossos  colegas  que  nos  forneceram  subsídios  para  a  10a  edição.  Nossos  esforços
foram  no  sentido  de  criar  um  livro  que  representasse  os  melhores  aspectos  de  nosso  campo,  refletindo
positivamente a importante herança que suas páginas devem veicular. As antigas editoras e os atuais e antigos
colaboradores forneceram uma base sólida para que viéssemos a edificar sobre ela. Esperamos que esta edição
honre o passado e sirva de caminho para as futuras gerações de profissionais da terapia ocupacional.

Elizabeth Blesedell Crepeau
Ellen S. Cohn
Barbara A. Boyt Schell
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Alyssa Wells Arnold, MS, OTR
University of New Hampshire
Durham, NH

Sara Baker, MS, OTR/L
Occupational Therapist
Radius Specialty Hospital
Roxbury, MA

Kim Bennet
Brenau University
Athens, GA

Sue Berger, MS, OTR/L
Clinical Assistant Professor
Boston University
Sargent College of Health and Rehabilitation Sciences
Occupational Therapy Department
Boston, MA

Christy Billock, PhD, OTR/L
Assistant Professor
Occupational Therapy Department
School of Allied Health Professions
Loma Linda University
Loma Linda, CA

Cheryl Lynne Trautmann Boop, MS, OTR/L
Occupational Therapist
Athens Regional Medical Center
Athens, GA

Brent Braveman, PhD, OTR/L, FAOTA
Clinical Professor
University of Illinois at Chicago
Chicago, IL

Sara Jane Brayman, PhD,OTR, FAOTA
Professor and Chair
Brenau University
Gainesville, GA

Catana Brown, PhD, OTR, FAOTA
Associate Professor
APOSTILASMEDICINA@HOTMAIL.COM
Touro University—Nevada
Henderson, NV PRODUTOS: http://lista.mercadolivre.com.br/_CustId_161477952

Mary Ellen Buning, PhD, OTR, ATP
Assistant Professor
University of Colorado, Denver
School of Medicine, Department of Physical Medicine & Rehabilitation
Assistive Technology Partners
Denver, CO

Jim Charlton
Lecturer, Disabilities Studies
University of Chicago
Chicago, IL
Founder, Access Living
Chicago, IL

Florence Clark, PhD, OTR/L, FAOTA
Associate Dean and Professor
University of Southern California
Los Angeles, CA

Ellen S. Cohn, ScD, OTR/L, FAOTA
Clinical Associate Professor
Boston University
Sargent College of Health and Rehabilitation Sciences
Occupational Therapy Department
Boston, MA

Elizabeth Blesedell Crepeau, PhD, OTR, FAOTA
England Professor of Occupational Therapy
Occupational Therapy Department
College of Health and Human Services
University of New Hampshire
Durham, NH

Terry Crowe, PhD, OTR/L, FAOTA
Director and Professor
The University of New Mexico School of Medicine
Albuquerque, NM

Debora Davidson, PhD, OTR/L
Associate Professor and Administrator of Professional Programs
Department of Occupational Science and Occupational Therapy
College of Health Sciences
Saint Louis University
Saint Louis, MO

Gloria Dickerson
Recovery Specialist
Institute for Homelessness and Trauma
Newton, MA

Virginia Dickie, PhD, OTR/L, FAOTA
Associate Professor and Director
APOSTILASMEDICINA@HOTMAIL.COM
Division of Occupational Science
PRODUTOS: http://lista.mercadolivre.com.br/_CustId_161477952
The University of North Carolina at Chapel Hill
Chapel Hill, NC

Regina Ferraro Doherty, OTD, OTR/L
Lecturer
Occupational Therapy Department
Graduate School of Arts and Science
Tufts University
Medford, MA

Laura J. Dossett, MS, OTR/L
Occupational Therapist
Evergreen Healthcare
Tacoma, WA

Brian J. Dudgeon, PhD, OTR, FAOTA
Associate Professor
University of Washington
Seattle, WA

Winnie Dunn, PhD, OTR, FAOTA
Professor and Chair
Department of Occupational Therapy Education
University of Kansas Medical Center
Kansas City, KS

Mary Evenson, MPH, OTR/L
Academic Fieldwork Coordinator
Tufts University
Medford, MA

Mary Feldhaus­Weber
Writer, Painter, Head Injury Survivor
Jamaica Plain, MA

Rachel W. Fleming
The Schenck School
Atlanta, GA

Kimberly Fletcher, OTR/L
Occupational Therapist
Eastern Suffolk BOCES
Suffolk County, NY

Kirsty Forsyth, PhD, OTR
Senior Lecturer
Occupational Therapy
Queen Margaret University
Edinburgh, Scotland

Karen R Garren, MS, OTR/L, CHT
Certified Hand Therapist
New Milford, CT
Clare Giuffrida, PhD, OTR/L, FAOTA
APOSTILASMEDICINA@HOTMAIL.COM
Chair and Associate Professor
PRODUTOS: http://lista.mercadolivre.com.br/_CustId_161477952
Department of Occupational Therapy
Rush University
Rush University Medical Center
Chicago, IL

Coralie “Corky” Glantz, OT/L, BCG, FAOTA
Co­Owner
Glantz/Richman Rehabilitation Associates
Riverwoods, IL

Kathleen Golisz, OTR, MA
Associate Professor
Mercy College
Dobbs Ferry, NY

Don Gordon, PhD, OTR/L
Assistant Professor
University of Southern California
Los Angeles, CA

Yael Goverover, PhD, OT
Assistant Professor
New York University
New York, NY

Stephanie Grant, MS,OTR/L
Project Development
United Osteoporosis Centers
Gainesville, GA

Meredith Grinnell, MS, OTR/L
Centre for Neuro Skills,
Bakersfield, CA

Lou Ann Griswold, PhD, OTR, FAOTA
Associate Professor
University of New Hampshire
Durham, NH

Stacey Halpern, MS, OTR/L
Senior Occupational Therapist
New York City Department of Education
New York, NY

Joy Hammel, PhD, OTR/L, FAOTA
Associate Professor
University of Illinois at Chicago
Chicago, IL

Alexis D. Henry, ScD, OTR/L, FAOTA
Research Assistant Professor
Center for Health Policy and Research
University of Massachusetts Medical School
Shrewsbury, MA
Clare Hocking, PhD, MHSc(OT)
Associate Professor APOSTILASMEDICINA@HOTMAIL.COM
AUT University PRODUTOS: http://lista.mercadolivre.com.br/_CustId_161477952
Auckland, New Zealand

Margo B. Holm, PhD, OTR/L, FAOTA, ABDA
Professor and Director of Post­Professional Education
Occupational Therapy Department
School of Health and Rehabilitation Sciences
University of Pittsburgh
Pittsburgh, PA

Justina Hsu, MS, OTR/L
Occupational Therapist
Rapid City Regional Hospital
Rapid City, SD

Pai­Chuan Huang, MS, OT
Doctoral Candidate
Boston University
Boston, MA

Ruth Humphry, PhD, OTR/L, FAOTA
Professor
Division of Occupational Science
University of North Carolina
Chapel Hill, NC

Karen Jacobs, EdD, OTR/L, CPE, FAOTA
Clinical Professor
Boston University
Sargent College of Health and Rehabilitation Sciences
Occupational Therapy Department
Boston, MA

S. Essie Jacobs, PhD, OTR/L
Seattle, WA

Anne Birge James, PhD, OTR/L
Professor
Bay Path College
Longmeadow, MA

Robin A Jones, MPA, COTA/L, ROH
Project Director and Instructor
DBTAC–Great Lakes ADA Center
Department of Disability and Human Development
University of Illinois at Chicago
Chicago, IL

Alisa Jordan, MSOT, OTR/L
Occupational Therapist
London Children’s Practice
London, England

Bridget Kane, MS, OTR/L
West Springfield, MA
APOSTILASMEDICINA@HOTMAIL.COM
Jennifer Keller, MS, OTR/L
PRODUTOS: http://lista.mercadolivre.com.br/_CustId_161477952
Boston University
Boston, MA

Gary Kielhofner, PhD, OTR, FAOTA
Professor and Wade­Meyer Chair
University of Illinois at Chicago
Chicago, IL

Phyllis King, PhD, OT, FAOTA
Professor
University of Wisconsin, Milwaukee
Milwaukee, WI

Kristin Knesek, MS, OTR/L
Rehabilitation Director
Forum at Memorial Woods
Five Star Rehabilitation & Wellness
Houston, TX

Jessica M. Kramer, MS, OTR/L
PhD Candidate, Disability Studies
Head Research Assistant
MOHO Clearinghouse University of Illinois at Chicago
Chicago, IL

Hsin­yu Kuo
Doctoral Candidate
Boston University
Boston, MA

Amy Jo Lamb, OTD, BS, OTR/L
AJ Lamb Consulting
Blair, NE

Mary C. Lawlor, ScD, OTR, FAOTA
Professor
Division of Occupational Science and Occupational Therapy
University of Southern California
Los Angeles, CA

Lori Letts, PhD, OT Reg. (Ont.)
Associate Professor
School of Rehabilitation Science
McMaster University
Hamilton, Ontario, Canada

Ling­Yi Lin, MS, OT
Doctoral Candidate
Boston University
Boston, MA

Helene Lohman, OTD, OTR/L
Associate Professor
Creighton University
Omaha, NE APOSTILASMEDICINA@HOTMAIL.COM
PRODUTOS: http://lista.mercadolivre.com.br/_CustId_161477952
Theresa Lorenzo, BSc (OT), PhD
Senior Lecturer
Occupational Therapy Department
University of Cape Town
Cape Town, South Africa

Cathy Lysack, PhD, OT(C)
Associate Professor
Wayne State University
Detroit, MI

Karen Marticello, MS OTR/L
Dallas Children’s Medical Center
Dallas, TX

Cheryl Mattingly, PhD
Professor
University of Southern California
Los Angeles, CA

Juli McGruder, PhD, OTR
Distinguished Professor
University of Puget Sound
Tacoma, WA

Alexander McIntosh
Undergraduate
University of New Hampshire
Durham, NH

Laurie S. McIntosh, MS, OTR/L
Occupational Therapist
Supervisory Union 16
Exeter, NH

Lou McIntosh
Parent Consultant
Merrywing Corporation
Eliot, ME

Jane Melton, MSc, DipCOT
Consultant Occupational Therapist in Mental Health
Gloucestershire Partnership NHS Trust
Gloucester, United Kingdom

Penelope A. Moyers, EdD, OTR/L, BCMH, FAOTA
Professor and Chair
Department of Occupational Therapy
University of Alabama at Birmingham
Birmingham, AL

Mary Muhlenhaupt, OTR/L, FAOTA
Clinical Research Coordinator,
Child and Family Studies Research Programs
APOSTILASMEDICINA@HOTMAIL.COM
Adjunct­Instructor, Occupational Therapy Program
PRODUTOS: http://lista.mercadolivre.com.br/_CustId_161477952
Thomas Jefferson University
Philadelphia, PA

Donald Murray
Professor Emeritus
English Department
University of New Hampshire
Durham, NH

Jan Nisbet, PhD
Director, Institute on Disability
University of New Hampshire
Durham, NH

Darcie L. Olson, MHS, OTR, CHT
Madison Area Technical College
Madison, Wisconsin

Jan Miller Polgar, PhD, OT Reg (Ont.), FCAOT
Associate Professor and Graduate Chair
The University of Western Ontario
London, ON

Nick Pollard, BA, DipCOT, PGCE, MA, MSc
Senior Lecturer in Occupational Therapy
Faculty of Health and Wellbeing
Sheffield Hallam University
United Kingdom

Janet Poole, PhD, OTR/L, FAOTA
Professor
Occupational Therapy Graduate Program
University of New Mexico
Alburquerque, NM

Pollie Price, PhD, OTR/L
Assitant Professor
University of Utah, Division of Occupational Therapy
Salt Lake City, UT

Loree A. Primeau, PhD, OTR, FAOTA
Occupational Therapist
Treehouse Pediatric Center
San Antonio, TX
Formerly
Associate Professor
Department of Occupational Therapy
School of Allied Health Sciences
University of Texas Medical Branch
Galveston, TX

Kirsten M. Protos
Brenau University
Gainesville, GA
APOSTILASMEDICINA@HOTMAIL.COM
Martin S. Rice, Ph.D., OTR/L
PRODUTOS: http://lista.mercadolivre.com.br/_CustId_161477952
Associate Professor
The University of Toledo
Toledo, OH

Patty Rigby
Associate Professor and Graduate Coordinator
Department of Occupational Science and Occupational Therapy
University of Toronto
Toronto, Ontario, Canada

Laurie Ringaert
Senior Researcher,
Canadian Centre on Disability Studies
Winnipeg, Manitoba, Canada

Pamela S. Roberts, PhD, OTR/L,

SCFES, CPHQ, FAOTA
Manager, Rehabilitation, Neurology,
and Neuropsychology
Cedars­Sinai Medical Center
Los Angeles, CA

Joan C. Rogers, PhD, OTR/L, FAOTA
Professor and Chair
University of Pittsburgh
Pittsburgh, PA

Susan Ayres Rosa, PhD, OTR
Clinical Instructor
Occupational Therapy Program,
Department of Kinesiology
University of Wisconsin, Madison
Madison, WI

Graham D. Rowles, Ph.D.
Professor and Director
Graduate Center for Gerontology
University of Kentucky
Lexington, KY

Karen M. Sames, MBA, OTR/L
Associate Professor
The College of St. Catherine
St. Paul, MN

Barbara A. Boyt Schell, PhD, FAOTA, OTR
Professor and Graduate Coordinator
Occupational Therapy Department
Brenau University
Gainesville, GA

Sally A. Schreiber­Cohn, MTS
Editor and friend
APOSTILASMEDICINA@HOTMAIL.COM
Minister, Sufi Order International Boston Area
Marblehead, MA PRODUTOS: http://lista.mercadolivre.com.br/_CustId_161477952

Sally Schultz, PhD, OTR, LPC
Professor and Director
School of Occupational Therapy
Texas Woman’s University
Denton/Dallas/Houston, TX

Winifred Schultz­Krohn, PhD, OTR/L, BCP, FAOTA
Professor of Occupational Therapy
San Jose State University
San Jose, CA

Sharan L. Schwartzberg, EdD, OTR/L, FAOTA
Professor Occupational Therapy
Graduate School of Arts and Sciences
Adjunct Professor Psychiatry
School of Medicine
Tufts University
Medford, MA

Janie B. Scott, MA, OT/L, FAOTA
Occupational Therapy and Aging­in­Place Consultant
Columbia, MD

Susanne Smith Roley, MS, OTR/L, FAOTA
Project Director, USC USC/WPS Comprehensive
Program in Sensory Integration
Los Angeles, CA
Coordinator of Education and Research,
Pediatric Therapy Network
Torrance, CA

Susan Stark, PhD, OTR/L, FAOTA
Assistant Professor of Occupational Therapy and Neurology
Washington University School of Medicine
St. Louis, MO

Perri Stern, EdD, OTR/L, FAOTA
Consultant
Pittsburgh, PA

Kate­Lyn Stone
Occupational Therapy Master’s Student
University of New Hampshire
Durham, NH

Yvonne Swinth
Professor
University of Puget Sound
Tacoma, WA

Kayoko Takahashi, MS, OT
Doctoral Candidate
Boston University
Boston, MA APOSTILASMEDICINA@HOTMAIL.COM
PRODUTOS: http://lista.mercadolivre.com.br/_CustId_161477952
Linda Tickle­Degnen, PhD, OTR/L, FAOTA
Professor and Chair
Tufts University
Medford, MA

Joan Toglia, PhD, OTR
Associate Professor
Mercy College
Dobbs Ferry, NY

Elizabeth Townsend, PhD, OT (C), Reg. NS, FCAOT
Professor and Director
School of Occupational Therapy
Dalhousie University
Nova Scotia, Canada

Grace M. Trudeau, MS, OTR/L
Thom Child and Family Services
Boston­Metro Early Intervention
Boston, MA

Barbara Prudhomme White, PhD, OTR/L
Associate Professor
University of New Hampshire
Durham, NH

John A. White, Jr., PhD, OTR/L
Program Director and Associate Professor
Pacific University School of Occupational Therapy
Forest Grove, OR

Ann A. Wilcock, PhD, FCOT
Honorary Professor
Occupational Science and Therapy
Deakin University, Geelong
Victoria, Australia

Tom Wilson, MA
Personal Assistant and Health Care Team Leader
Access Living
Chicago, IL

Mary Jane Youngstrom, MS, OTR/L, FAOTA
Occupational Therapist and Health Care
Management Consultant
Overland Park, KS
APOSTILASMEDICINA@HOTMAIL.COM
PRODUTOS: http://lista.mercadolivre.com.br/_CustId_161477952
APOSTILASMEDICINA@HOTMAIL.COM
PRODUTOS: http://lista.mercadolivre.com.br/_CustId_161477952

E
sta edição do Willard & Spackman foi realizada com os esforços coletivos de colaboradores, membros do
grupo de orientação, conselho de revisão editorial, fotógrafos, estudantes, colegas, amigos e família. Mais
de  120  pessoas  contribuíram  diretamente  para  o  desenvolvimento  deste  livro.  Somos  gratas  às  suas  muitas
contribuições, e sabemos que a generosidade com que nos contemplaram melhorou a qualidade do trabalho aqui
apresentado.  Ficamos  contentes  pelo  fato  de  que  Anne  James  concordou  em  assumir  o  papel  de  editora  para
materiais  de  instrução  da  edição  em  inglês  baseados  na  rede,  e  somos  gratas  por  seu  trabalho  para  ampliar  os
horizontes deste texto dentro do contexto virtual do espaço cibernético.
Nosso  trabalho  em  equipe  também  foi  essencial  para  o  desenvolvimento  do  livro.  Participamos  de  muitas
conversas  sobre  a  estrutura  do  texto,  do  conteúdo,  como  abordar  as  questões  para  as  quais  ainda  não  há  um
consenso,  além  de  como  representar  a  amplitude,  o  espectro  e  a  profundidade  da  base  de  conhecimento  de
campo  em  evolução.  Esta  obra  não  é  algo  isolado,  mas  um  somatório  de  nossas  vidas  cotidianas  com  nossas
famílias,  nosso  trabalho  e  nosso  envolvimento  com  a  comunidade.  Os  últimos  5  anos  trouxeram  novos  netos:
para  Betty  (Naomi,  Owen  e  Theo)  e  para  Barb  (Samarra  e  Akhasa).  As  filhas  de  Ellen  transformaram­se  em
mulheres  maduras  e  atuantes,  tendo  participado  de  competições  de  patinação  sincronizada  nacionais  e
internacionais.  Adrienne  foi  para  a  faculdade  e  Maggie  começou  a  dirigir.  Experimentamos  os  desafios  de
receber  cuidados  de  saúde  e  benefícios  dos  serviços  de  reabilitação  competentes  quando  Betty  submeteu­se  a
artroplastia  patelar,  Barb  submeteu­se  a  artroplastia  de  quadril  e  Ellen  trabalhou  para  restaurar  um  joelho
lesionado.  Nossos  maridos  toleraram  o  tempo  que  gastamos  neste  livro  com  muito  mais  paciência  do  que
podíamos esperar. No meio da vida pessoal e profissional já plena, praticamos o que Elizabeth Larson descreve
como  orquestração  ocupacional  quando  trabalhamos  neste  livro.  Por  vezes,  essa  orquestração  exigiu  que  nos
abstivéssemos de algumas ocupações valiosas para as quais planejamos retornar – Betty, para seu jardim, tricô e
costura;  Ellen,  para  passeios  no  campo,  caminhadas  e  praias;  e  Barb,  para  seu  golfe,  trabalhos  manuais  e
caminhadas  com  os  cachorros  da  família.  Apesar  disso,  editar  este  livro  foi  um  privilégio.  Trabalhamos  com
colaboradores igualmente devotados para compartilhar seu conhecimento do campo com a próxima geração de
profissionais da terapia ocupacional. Nossas relações com os colaboradores nos puseram em contato com alguns
dos principais mestres, o que enriqueceu nossa compreensão das mudanças e dos desafios que enfrentaremos no
futuro. Agradecemos a todos que nos apoiaram e que contribuíram para esta jornada, e esperamos que nossos
esforços para apresentar essas contribuições revivam a tradição que o Willard & Spackman tem no assunto.
Embora  trabalhar  neste  livro  tenha  sido  um  empreendimento  sério,  a  injeção  de  humor  suavizou  a  carga.
Como  muitas  equipes  coesas,  desenvolvemos  versos  e  frases  que  são  uma  maneira  de  marcar  momentos  e
questões especiais. Algumas delas incluem:
APOSTILASMEDICINA@HOTMAIL.COM
Colocar o feno onde as cabras podem alcançar – Esta frase foi um lembrete de nossa audiência primária,
PRODUTOS: http://lista.mercadolivre.com.br/_CustId_161477952
estudantes de terapia ocupacional, e nos desafiou a tornar temas complexos relevantes e acessíveis a todos.
Os cavalos sentem o cheiro do estábulo – Esta frase refere­se ao fato de que, à medida que os cavalos se
aproximam de casa, eles aceleram porque sabem que há comida e água no estábulo. Nós cantávamos esta
frase quando atingíamos marcos importantes no livro, como o término da sua proposta inicial, capítulos ou
unidades críticas etc.

Agradecemos  às  pessoas  e  instituições  listadas  a  seguir  que,  com  sua  generosa  assistência,  nos  ajudaram  a
planejar este livro e a fazer com que ele se tornasse uma realidade.

Fotografias e Documentos Históricos
John Adams, Gary Samson, Ron Bergeron, Doug Prince, Lisa Nugent, University of New Hampshire
Photographic Services Department, Durham, NH.
Linda Anderson, Wisconsin Occupational Therapy Association
Lori Andersen & Barbara Kornblau
Ellen Cohn
Laura Collins e Bob Sacheli, American Occupational Therapy Association
Roderick Crepeau
Mindy Hecker, American Occupational Therapy Foundation
Barbara e John Schell

Secretárias e Suporte Administrativo
Janice Mutschler e Renate Jurden, Occupational Therapy Department, University of New Hampshire
Elaine Chu e David Richie, Occupational Therapy Department, Boston University, Sargent College
Vivian Gammell e Alicia Kinsey da Brenau University
Donna Rinaldi e Meg Trafton, Dover Secretarial Services, Dover, NH

Colegas Profissionais e Estudantes
Com  gratidão  e  apreço,  agradecemos  aos  nossos  colegas  na  Boston  University,  Brenau  University  e  na
University  of  New  Hampshire,  por  sua  assistência,  apoio,  informações  e  vontade  de  ouvir  conversas
intermináveis sobre o Willard & Spackman.

Boston University
Sue  Berger,  Sharon  Cermak,  Wendy  Coster,  Linda  Duncombe,  Karen  Jacobs,  Nancy  Lowenstein,  Deane
McCraith, Naomi Moran, Gael Orsmond e Elsie Vergara
Patricia Nemec, por recomendar Gloria Dickerson como autora
Estudantes de terapia ocupacional: Pamela Errico, Christine Hegarty, Brooke Howard e Kate Runge
Rebecca Hanson, por manter a atenção para os detalhes, provas e clareza conceitual
Estudantes  de  graduação  do  seminário  HP  870:  Theory  and  Research  in  the  Health  and  Rehabilitation
Sciences, Primavera 2005

Brenau University
Colegas  de  faculdade:  M.  Irma  Alvarado,  Lori  Andersen,  Sara  Brayman,  Mary  Shotwell  e  Robin
Underwood
Turmas de 2007 e 2008

University of New Hampshire
Kasey Dutra, Kristy Golt, Meredith Grinnell, Christine Leonard, Hilary Maynes, Amanda Neill, Kate­Lyn
Stone,
Turmas de 2007 e 2008
Sajay Arthanat, Lou Ann Griswold, Susan Merrill, Shelley Mulligan, Douglas Simmons, Elizabeth Stewart,
Barbara Prudhomme White, Kerryellen Vroman e Therese Willkomm
Lippincott Williams & Wilkins
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Os profissionais atuais e antigos da Lippincott Williams and Wilkins contribuíram para o desenvolvimento
deste livro PRODUTOS: http://lista.mercadolivre.com.br/_CustId_161477952
Pamela Lappies, Susan Katz, Nancy Peterson, Emily Lupash e Matt Hauber
Laura  Horowitz,  do  Hearthside  Publishing  Services,  forneceu  a  diretriz  geral  do  desenvolvimento  do
manuscrito ao longo da produção do livro. Sua orientação equilibrada, experiência, paciência e bom humor
deram significativo suporte aos nossos esforços.
Gina  Aiello  e  Eve  Malakoff­Klein,  editoras  de  produção,  que  colaboraram  conosco  nas  etapas  finais  da
transformação do manuscrito no texto final.
Barbara  Willette,  editora  de  revisão,  que  cuidadosamente  corrigiu  nossa  linguagem  confusa,  vírgulas  mal
posicionadas e erros no formato da APA.
Gelya Frank, da University of Southern California, inspirou nossa epígrafe.
APOSTILASMEDICINA@HOTMAIL.COM
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APOSTILASMEDICINA@HOTMAIL.COM
PRODUTOS: http://lista.mercadolivre.com.br/_CustId_161477952

Ben Atchison, PhD, OTR, FAOTA
Professor
Department of Occupational Therapy
Western Michigan University
Kalamazoo, MI

Becky Alwood, OTR
Director of Rehabilitation
Starke Memorial Hospital
Knox, IN

Sue Berger, MS, OTR/L
Assistant Clinical Professor
Department of Occupational Therapy and Rehabilitation Counseling
Boston University—Sargent College of Health and Rehabilitation Sciences
Boston, MA

Melissa Best, MS
McKenna Farms Therapy Services
Dallas, GA

Roxie Black, PhD, OTR/L, FAOTA
Director and Associate Professor
Master of Occupational Therapy Program
University of Southern Maine/
Lewiston­Auburn College
Lewiston, ME

Emily DeGroat, MS, OTR/L
Occupational Therapist
Rehabilitation Sources
Beth Israel Deaconess Medical Center
Boston, MA

Cathy Dolhi, MS, OTR/L, FAOTA
Director, Homecare & Community Services
Centers for Rehab Services
McKeesport, PA

Nancy Dooley, PhD, OTR/L
Assistant Professor, Department Chair
Occupational Therapy Assistant Program
New England Institute of Technology
Warwick, RI
APOSTILASMEDICINA@HOTMAIL.COM
Elizabeth Francis­Connolly, PhD, OTR
PRODUTOS: http://lista.mercadolivre.com.br/_CustId_161477952
Head
School of Health Sciences
Eastern Michigan University
Ypsilanti, MI

Cynthia Hughes Harris, PhD
Professor and Dean
School of Allied Health Sciences
Florida A&M University
Tallahassee, FL

Esther M. Huecker, PhD, OTR/L
Assistant Professor
Department of Occupational Therapy
Loma Linda University
Loma Linda, CA

Kathleen R. Kannenberg, MA, OTR/L, CCM
Specialist, Occupational Therapy, Psychiatry
Department of Rehabilitation Medicine
Harborview Medical Center
Seattle, WA

Kathy Lemcool, MS, PhD
Assistant Professor
Department of Occupational Therapy
University of South Alabama
Mobile, AL

Susan Lin, ScD, OTR/L
Adjunct Assistant Professor
Department of Occupational Therapy
Shenandoah University
Winchester, VA

Deane Mc Craith, MS, OTR/L, LMFT
Clinical Associate Professor
Department of Occupational Therapy
Boston University—Sargent College of Health and Rehabilitation Sciences
Boston, MA

Scott McPhee, MS, DrPH, OTR/L, FAOTA
Associate Professor
Department of Occupational Therapy
Belmont University
Nashville, TN

Susan Cook Merrill, BS, MA
Academic Fieldwork Coordinator
Clinical Assistant Professor
Department of Occupational Therapy
University of New Hampshire
Durham, NH
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Jaime Phillip Muñoz, PhD, OTR, FAOTA
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Assistant Professor
Department of Occupational Therapy
Duquesne University
Pittsburgh, PA

Catherine Piersol, MS, OTR/L
Associate Professor and Program Director
Occupational Therapy Program
Philadelphia University
Philadelphia, PA

Carlatta Roache, MS, OTR/L
Occupational Therapist
Interfaith Medical Center
Brooklyn, NY

Joyce Salls, OTD, MS, OTR/L, BCP
Assistant Professor
Department of Occupational Therapy
Chatham College
Pittsburgh, PA

Marjorie Scaffa, PhD, OTR/L, FAOTA
Chairperson/Professor and Director
Department of Occupational Therapy
University of South Alabama
Mobile, AL

Colleen Schneck, ScD
Professor and Chair
Department of Occupational Therapy
Eastern Kentucky University
Richmond, KY

Mary P. Shotwell, PhD, OTR/L
Assistant Professor
Department of Occupational Therapy
Brenau University
Gainesville, GA

Kit Sinclair, PhD
Department of Rehabilitation Sciences
Hong Kong Polytechnic University
Hung Hom, Hong Kong

Deborah Yarett Slater, MS, OTR/L, FAOTA
Practice Associate
Liaison to Ethics Commission
Liaison to the Special Interests Sections
American Occupational Therapy Association
Bethesda, MD

Linda Thomson, MOT, OTR, OT(C), FAOTA
Director of Rehabilitation Services
St. Joseph Hospital APOSTILASMEDICINA@HOTMAIL.COM
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Barbara Townsend, MPH, OT/L, FAOTA
Vice President, Business Development and Community Affairs
Mercy Hospital and Medical Center
Chicago, IL

Carolyn Unsworth, BApp Sci (Occ Ther), PhD
Associate Professor
Department of Occupational Therapy
La Trobe University
Bundoora, VIC
Australia

Alison Wicks, PhD, M H Sc (OT), B H Sc(OT), AccOT
Director, Australasian Occupational Science Centre
Honorary Research Fellow, Centre for Health Services Development
Senior Lecturer—Occupational Science
Shoalhaven Campus
University of Wollongong
Nowra, Australia

JoAnne Wright, PhD, OTR/L
Chair, Associate Professor
Division of Occupational Therapy
University of Utah
Salt Lake City, UT

Ruth Zemke, PhD, OTR, FAOTA
Professor Emerita, University of Southern California
Division of Occupational Science and Occupational Therapy
Fullerton, CA
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UNIDADE I Ciência Ocupacional e a Natureza Ocupacional dos Seres Humanos
UNIDADE II Perspectivas da Narrativa Sobre a Ocupação e a Incapacidade
UNIDADE III Ocupação e Saúde na Sociedade
UNIDADE IV Perfil da Profissão da Terapia Ocupacional
UNIDADE V Valores e Crenças da Terapia Ocupacional em Ação
UNIDADE VI O Processo Terapêutico
UNIDADE VII Comunicação em Terapia Ocupacional
UNIDADE VIII Base Conceitual da Prática
UNIDADE IX Prática da Terapia Ocupacional
UNIDADE X Avaliação e Tratamento em Terapia Ocupacional: Ocupações
UNIDADE XI Avaliação e Tratamento em TO: Fatores Pessoais
UNIDADE XII Avaliação e Intervenção em TO: Ambientes
UNIDADE XIII Terapeutas em Ação: Exemplos da Prática Especializada
UNIDADE XIV Gerenciando a Prática
UNIDADE XV Condições Comuns: Evidências e Recursos Correlatos
UNIDADE XVI Tabela de Avaliações: Listadas em Ordem Alfabética por Título
Glossário
Índice Alfabético
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UNIDADE I
CIÊNCIA OCUPACIONAL E A NATUREZA OCUPACIONAL DOS SERES HUMANOS
1 A Elaboração e o Significado da Ciência Ocupacional
Florence Clark e Mary C. Lawlor

2 O que é Ocupação?
Virginia Dickie

3 Ocupação e Desenvolvimento: Uma Perspectiva Contextual
Ruth Humphry

4 Compreendendo as Perspectivas da Família Sobre as Experiências de Doença e Incapacidade
Mary C. Lawlor e Cheryl Mattingly
5 Contribuição da Ocupação para a Saúde e o Bem­estar
Clare Hocking

6 Cultura, Raça, Etnia e Outras Formas de Diversidade Humana em Terapia Ocupacional
Juli McGruder

7 Fatores Socioeconômicos e Suas Influências Sobre o Desempenho Ocupacional
Cathy Lysack

8 O Significado do Lugar
Graham D. Rowles

9 Espiritualidade, Ocupação e Terapia Ocupacional
Christy Billock

UNIDADE II
PERSPECTIVAS DA NARRATIVA SOBRE A OCUPAÇÃO E A INCAPACIDADE
10 A Narrativa como a Chave para a Compreensão
Elizabeth Blesedell Crepeau e Ellen S. Cohn

11 Trechos de The Book of Sorrows, Book of Dreams: A First­Person Narrative
Mary Feldhaus­Weber

Sally Schreiber­Cohn, editora do capítulo

12 Ele Não Está Quebrado – Ele é Alex: Três Perspectivas
Alexander McIntosh, Laurie McIntosh e Lou McIntosh

13 Enquanto Concentrava­me na Recuperação, Esqueci de Ter uma Vida
Gloria Dickerson
14 O Privilégio de Cuidar
Donald M. Murray
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15 Vozes Falam, Mãos Escrevem
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Nick Pollard com o Grupo Literário Vozes Falam, Mãos Escrevem

16 Mobilização  da  Ação  Coletiva  de  Mulheres  com  Incapacidades  para  Desenvolvimento  de  Contextos  para
Combater a Pobreza e Garantir o Desenvolvimento
Theresa Lorenzo

UNIDADE III
OCUPAÇÃO E SAÚDE NA SOCIEDADE
17 Políticas Sociais e de Saúde nos Estados Unidos
Jan Nisbet

18 Promoção da Saúde
Lori Letts

19 Integração à Comunidade
Brian J. Dudgeon

20 Justiça Ocupacional
Ann A. Wilcock e Elizabeth A. Townsend

UNIDADE IV
PERFIL DA PROFISSÃO DA TERAPIA OCUPACIONAL
21 A História da Terapia Ocupacional
Don M. Gordon

22 Prática de Terapia Ocupacional Contemporânea nos Estados Unidos
Elizabeth Blesedell Crepeau, Barbara A. Boyt Schell e Ellen S. Cohn

23 Prática Contemporânea Mundial da Terapia Ocupacional
Terry K. Crowe

24 Organizações Profissionais de Terapia Ocupacional
Sara Brayman

25 Profissionais de Terapia Ocupacional: Competência e Desenvolvimento Profissional
Penelope Moyers

26 Estágio Supervisionado: A Transição de Aluno para Profissional
Mary E. Evenson

27 Questões para Prática da Terapia Ocupacional
John White

UNIDADE V
VALORES E CRENÇAS DA TERAPIA OCUPACIONAL EM AÇÃO
28 Tomada de Decisão Ética na Prática da Terapia Ocupacional
Regina F. Doherty

29 Colaboração Centrada no Cliente
Susan Ayres Rosa

30 Prática Baseada em Evidência – Utilizando a Evidência Disponível para Informar a Prática
Linda Tickle­Degnen

31 Protegendo os Clientes Vulneráveis
Debora A. Davidson
UNIDADE VI
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O PROCESSO TERAPÊUTICO
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32 Raciocínio Profissional na Prática
Barbara A. Boyt Schell

33 A Relação Terapêutica
Pollie Price

34 O Processo de Entrevista na Terapia Ocupacional
Alexis D. Henry e Jessica M. Kramer

35 Analisando Ocupações e Atividades
Elizabeth Blesedell Crepeau e Barbara A. Boyt Schell

36 Princípios de Aprendizado e Mudança de Comportamento
Perri Stern

37 Processo de Grupo
Sharan L. Schwartzberg

UNIDADE VII
COMUNICAÇÃO EM TERAPIA OCUPACIONAL
38 Modelos de Interação de Equipe e Comunicação de Equipe
Ellen S. Cohn
39 Documentação na Prática
Karen M. Sames

40 Apresentações e Publicações Internacionais
Karen Jacobs

41 Orientação do Cliente
Sue Berger

UNIDADE VIII
BASE CONCEITUAL DA PRÁTICA
42 Teoria e Prática em Terapia Ocupacional
Elizabeth Blesedell Crepeau, Barbara A. Boyt Schell e Ellen S. Cohn

43 Modelos Ecológicos na Terapia Ocupacional
Catana E. Brown
44 O Modelo de Ocupação Humana
Gary Kielhofner, Kirsty Forsyth, Jessica M. Kramer, Jane Melton e Emma Dobson

45 Teoria da Adaptação Ocupacional
Sally Schultz

UNIDADE IX
PRÁTICA DA TERAPIA OCUPACIONAL
46 O Processo da Terapia Ocupacional
Joan C. Rogers e Margo B. Holm

47 Crítica à Avaliação
Janice Miller Polgar

UNIDADE X
AVALIAÇÃO E TRATAMENTO EM TERAPIA OCUPACIONAL: OCUPAÇÕES
48 Atividades de Vida Diária e Atividades Instrumentais de Vida Diária
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Anne Birge James
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49 Cuidar e Criar Filhos
Ellen S. Cohn e Alexis D. Henry

50 Avaliação e Tratamento de Terapia Ocupacional com Relação à Educação
Yvonne L. Swinth

51 Trabalho
Phyllis M. King e Darcie L. Olson

52 Brincadeira e Lazer
Loree A. Primeau

UNIDADE XI
AVALIAÇÃO E TRATAMENTO EM TO: FATORES PESSOAIS
53 Visão Geral dos Fatores Pessoais que Afetam o Desempenho
Barbara A. Boyt Schell, Ellen S. Cohn e Elizabeth Blesedell Crepeau

54 Fatores Musculoesqueléticos
Janet L. Poole

55 Habilidades Motoras e Desempenho Ocupacional: Avaliação e Tratamento
Clare G. Giuffrida e Martin S. Rice
56 Fatores Psicobiológicos
Barbara Prudhomme White

57 Avaliação e Tratamento para Comprometimentos Cognitivo­perceptuais,
Joan Pascale Toglia, Kathleen M. Golisz e Yael Goverover

58 Sensibilidade e Processamento Sensorial
Winnie Dunn

59 Integração Sensorial
Susanne Smith Roley e S. Essie Jacobs

UNIDADE XII
AVALIAÇÃO E INTERVENÇÃO EM TO: AMBIENTES
60 Ambientes Físicos
Patty Rigby, Susan Stark, Lori Letts e Laurie Ringaert

61 Tecnologia Assistencial e Mobilidade na Cadeira de Rodas
Mary Ellen Buning

62 Dos Direitos da Incapacidade à Conscientização Esclarecida
Joy Hammel, Jim Charlton, Robin Jones, Jessica M. Kramer e Tom Wilson

UNIDADE XIII
TERAPEUTAS EM AÇÃO: EXEMPLOS DA PRÁTICA ESPECIALIZADA
63 Prática Baseada na Escola: Capacitação para a Participação
Mary Muhlenhaupt

64 Não Há Lugar Como o Lar: Serviços de Terapia Ocupacional para Pessoas Desabrigadas
Winifred Schultz­Krohn

65 Lesão da Mão de um Marceneiro: A Reconstrução de uma Vida
Karen Garren
66 “Sra. W”: Uma Mulher com Demência
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Coralie “Corky” Glantz
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UNIDADE XIV
GERENCIANDO A PRÁTICA
67 Gerenciamento de Serviços de Terapia Ocupacional
Brent Braveman

68 Supervisão
Mary Jane Youngstrom

69 Consultoria
Janie B. Scott

UNIDADE XV
CONDIÇÕES COMUNS: EVIDÊNCIAS E RECURSOS CORRELATOS

UNIDADE XVI
TABELA DE AVALIAÇÕES: LISTADAS EM ORDEM ALFABÉTICA POR TÍTULO
Cheryl Boop

GLOSSÁRIO
ÍNDICE ALFABÉTICO
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Dilemas da Prática
Capítulo 23: Fornecendo Serviços em Outro País
Capítulo 30: O que Rebecca Poderia Ter Feito?
Capítulo 31: Íris e o Colaborador Irritante
Capítulo 36:
 Perspectiva de Construtivismo na Aprendizagem
 Promovendo a Autoeficácia
Capítulo 38: Comunicando o Papel da Terapia Ocupacional
Capítulo 41: Comunicação com os Clientes
Capítulo 48: Como Fornecer Tratamento Ótimo com Recursos Limitados?
Capítulo 51: Questões na Prática do Trabalho
Capítulo 52: Programa de Aconselhamento de Lazer
Capítulo 58: Levando as Evidências para a Prática Cotidiana
Capítulo 61: Quando Não Significa Algo Diferente de Não!
Capítulo 64: Satisfação das Necessidades de uma Família Desabrigada
Capítulo 67: Christopher Gerencia a Produtividade
Capítulo 68: Modificando os Padrões de Prática: Taylor Supervisiona um Assistente de Terapia Ocupacional
Capítulo 69: Rachael e Sua Oportunidade de Consultoria
 
Dilemas da Ética
Capítulo 39: Padrões de Documentação
Capítulo 40: Como um Estudante de Terapia Ocupacional Pode Satisfazer as Demandas de Tempo e Ainda
Realizar uma Apresentação Profissional Baseada em Evidência
Capítulo 46: Ética, Educação e Tratamento
Capítulo 48: O Cuidado Centrado no Cliente Pode Entrar em Conflito com as Necessidades de uma
Organização?
Capítulo 54: Quanto Conhecimento é Necessário para o Uso de Métodos Fisioterapêuticos
Capítulo 57: Como um Profissional Pode Equilibrar Obrigações Éticas Conflitantes?
Capítulo 60: Deve um Terapeuta Ocupacional Recomendar Modificações Dispendiosas do Ambiente?
Capítulo 64: Sigilo: Quais São os Riscos
Capítulo 68: Joel Supervisiona um Funcionário com Depressão
 
Comentários Sobre as Evidências
Capítulo 18: Avaliando a Eficácia da Terapia Ocupacional e a Promoção da Saúde
Capítulo 25: A Educação Continuada e as Auditorias Melhoram a Prática Profissional?
Capítulo 37: Processo de Grupo
Capítulo 46: Terapia Ocupacional e Evidência Relacionada ao Processo de Terapia Ocupacional
Capítulo 48:
 Aplicando a Evidência na Prática por Meio do Uso de Medidas Padronizadas
 Encontrando as Melhores Estratégias Educacionais para o Aprendizado do Cliente
Capítulo 49: Tratamento para Cuidadores
Capítulo 50: Prática na Escola
Capítulo 52: Brincadeira e Lazer na Avaliação e no Tratamento
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Capítulo 54: Tratamentos para Clientes com Comprometimentos Musculoesqueléticos
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Capítulo 55: Condutas Terapêuticas para Melhorar o Controle Motor na Vida Diária
Capítulo 56:
 Exemplos de Pesquisa Relevante com Uso de ASR (Tônus Vagal)
 Pesquisa Relevante Utilizando o Cortisol Salivar
 Pesquisa Relevante Utilizando RM ou RMf
Capítulo 57: Literatura de Evidências e em Expansão Sobre Comprometimentos da Função Executiva, de
Conscientização e Cognitivos Sutis
Capítulo 58: Relacionando a Neurociência à Vida Cotidiana com Conhecimento do Processamento Sensorial
Capítulo 59: Integração Sensorial
Capítulo 60: A Eficácia das Modificações no Ambiente Físico
Capítulo 67: O Estado da Evidência Relacionado ao Gerenciamento
Capítulo 68: Supervisão em Terapia Ocupacional
 
Estudos de Casos
Capítulo 4: A Caixa Mágica
Capítulo 5: Fazer ou Morrer
Capítulo 7: Apenas Espero que Deus me Ajude
Capítulo 15: Mark Wainwright: Um Escritor com Dificuldades de Aprendizado
Capítulo 17: Vivendo com Esclerose Lateral Amiotrófica
Capítulo 19: A História de Jason: Vivendo com uma Lesão de Medula Espinhal
Capítulo 20:
 Petra: Injustiças Ocupacionais e Problemas Sociais
 A Família El Khalil: Injustiças Ocupacionais e Imigração
Capítulo 24: Kanesha Inicia na Profissão
Capítulo 25: José, um Terapeuta Melhorando a Capacidade e as Competências
Capítulo 28: Obrigações Duais e Conversas Difíceis: Questões Éticas na Confidencialidade e Recusa de
Atendimento
Capítulo 31:
 O “Péssimo Humor” de Hannah
 A Falta de Dinheiro da Sra. Nash
Capítulo 32: Terry e a Sra. Munro: Determinando as Recomendações Apropriadas
Capítulo 35: Lauro, um Adolescente que Quer Usar o Transporte Público
Capítulo 36: Olívia: Mudança de Comportamento
Capítulo 37:
 Silêncio e Competição
 Membros Atrasados ou Ausentes
 Reuniões de Subgrupo Fora do Grupo
 Quebra da Confidencialidade
 Colíder Conivente com o Grupo
 Um Membro do Grupo Recusa­se a Participar da Atividade
Capítulo 38:
 Rose: Uma Abordagem Interdisciplinar para Planejar a Transição para Casa de uma Mulher com Lesões
Múltiplas
 Comunicação Interdisciplinar em uma Residência Comunitária
Capítulo 42: Pensamento por Trás da Terapia: George Demonstra à Sra. Rivera uma Transferência para a
Banheira
Capítulo 43: O Café Asbury
Capítulo 44:
 Betty: Uma Mulher de 82 Anos com Fratura de Quadril
 Lin: Um Pré­escolar com Transtorno Convulsivo e Outros Problemas de Desenvolvimento
Capítulo 45: Alfonso Aprende uma Nova Resposta à Frustração
Capítulo 47: Aplicação de Protocolo de Crítica na Avaliação da Ferramenta FIMTM
Capítulo 48: Avaliação de um Cliente com Obesidade Mórbida e Insuficiência Respiratória
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Capítulo 49: Uma Mãe com Depressão
Capítulo 50: PRODUTOS: http://lista.mercadolivre.com.br/_CustId_161477952
 Serviços de Intervenção Precoce para Dar Suporte ao Programa Educacional de Devon
 Processo de Desenvolvimento do Perfil Ocupacional para Kristi, uma Estudante de 13 Anos de Idade com
Paralisia Cerebral
 Documentação do Estabelecimento de Meta para Shanna
Capítulo 51: Um Laminador de Metal Lesionado
Capítulo 52: Juntando Tudo: Avaliação e Construção do Tratamento para Participação de uma Criança na
Brincadeira
Capítulo 54:
 Marita: Uma Cliente Submetida à Artroplastia Total de Quadril
 Joy: Uma Cliente com Amputação de Membro Inferior
 Joe: Um Cliente com Lesão na Mão
 Lee Ann: Uma Cliente com Artrite
 Michelle: Uma Cliente com Tendinite do Abdutor Longo do Polegar e do Extensor Curto do Polegar
(DeQuervain)
Capítulo 55:
 Emily: Uma Criança com Problemas para Andar
 Aetos: Um Homem com Ferimento na Cabeça por Projétil de Arma de Fogo
Capítulo 56:
 Callie: Exercícios e Atividade Após Substituição Bilateral de Joelho
 Estabilidade do SNA em um Bebê Prematuro
 Ansiedade em uma Mulher com Distúrbio Alimentar
 Uma Resposta Saudável ao Estresse
 Dor em uma Mulher com Síndrome do Túnel do Carpo
 Depressão em Pessoas com Lesão Cerebral Adquirida
 Distúrbios da Modulação Sensorial em uma Menina de 5 Anos de Idade
 Perda de Peso e Prevenção da Obesidade
 Técnicas de Restrição Induzida
Capítulo 57: Cognição e Contextos de Desempenho
Capítulo 58: Danielle, por Favor, Venha Jantar Conosco!
Capítulo 59:
 Larissa: Uma Menina de 3 Anos de Idade que Não Estava Interessada em Brincar com Outras Crianças
 Todd: Um Menino de 6 Anos de Idade Encaminhado para Avaliação do Desenvolvimento
Capítulo 60:
 Terapeuta Ocupacional que Trabalha com um Cliente que Volta para Casa
 Consultoria de Terapia Ocupacional a um Centro Comunitário
Capítulo 61: Fazendo um Computador Trabalhar para Ted
Capítulo 62: Capacitação por Pessoas com Incapacidades Intelectuais
Capítulo 68: Marta e Kim: Supervisão Integrada à Prática
Capítulo 69:
 Determinando o Foco: Cindy e Truby
 Ampliando um Negócio de Consultoria: As Experiências de Cindy, Truby e Roxanne
 Lições dos Especialistas: Conselho de Becky
 
Questões Instigantes
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulo 12 APOSTILASMEDICINA@HOTMAIL.COM
Capítulo 18 PRODUTOS: http://lista.mercadolivre.com.br/_CustId_161477952
Capítulo 19
Capítulo 21
Capítulo 25
Capítulo 26
Capítulo 27
Capítulo 29
Capítulo 30
Capítulo 31
Capítulo 32
Capítulo 33
Capítulo 37
Capítulo 38
Capítulo 39
Capítulo 41
Capítulo 43
Capítulo 44
Capítulo 46
Capítulo 48
Capítulo 50
Capítulo 51
Capítulo 52
Capítulo 54
Capítulo 57
Capítulo 58
Capítulo 59
Capítulo 60
Capítulo 68
Capítulo 69
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A Elaboração e o Significado da Ciência
Ocupacional
FLORENCE CLARK E MARY C. LAWLOR

Sumário
Domínios de Preocupação da Ciência Ocupacional
Abordagens Metodológicas
O Crescimento da Ciência Ocupacional
Relações entre a Ciência Ocupacional e a Terapia Ocupacional
Um Exemplo do Processo de Pesquisa: O Estudo do Idoso Sadio da USC*
Reconstruindo a Ciência Ocupacional e as Condições Biomédicas por meio do Estudo de
Prevenção da Úlcera de Pressão da USC/Rancho Los Amigos National Rehabilitation
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Conclusão

Objetivos de Aprendizagem
Após a leitura deste capítulo, você será capaz de:

1. Descrever a história recente do desenvolvimento da ciência ocupacional.
2. Demonstrar compreensão dos domínios de preocupação da disciplina da ciência
ocupacional.
3. Discutir as relações entre a ciência ocupacional e a terapia ocupacional.
4. Identificar as maneiras pelas quais o conhecimento gerado por meio da pesquisa na ciência
ocupacional dá subsídios para a prática da terapia ocupacional.

A
ciência ocupacional foi descrita como uma disciplina emergente (Molke,  Laliberte­Rudman & Polatajko,
2004;  Wilcock,  2001;  Yerxa,  1993;  Yerxa  et  al.,  1989)  e  como  uma  disciplina  em  evolução  (Zemke  &
Clark,  1996a).  Ainda  que  a  disciplina  da  ciência  ocupacional  esteja  em  seus  primórdios,  em  comparação  com
outras disciplinas já estabelecidas, inúmeros avanços excitantes ilustram o formato que o campo está assumindo
e  anteveem  futuras  possibilidades.  Neste  capítulo,  discutimos  a  natureza  desta  disciplina,  descrevemos  sua
evolução, analisamos as inter­relações da ciência ocupacional e da terapia ocupacional e fornecemos evidências
das  contribuições  da  disciplina  para  a  terapia  ocupacional.  Além  disso,  abordamos  como  a  compreensão  da
ciência ocupacional, incluindo a recente história do campo, informa e influencia a prática inovadora da terapia
ocupacional.
O próprio nome da disciplina justifica um desdobramento adicional, pois os termos ocupacional e ciência têm
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sido  o  foco  de  muita  consideração  e,  por  vezes,  de  debate.  Palavras  têm  significado.  Embora  estas  palavras
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possam  parecer  autoexplicativas,  http://lista.mercadolivre.com.br/_CustId_161477952
interpretações  dos  significados  continuam  a  influenciar  as  compreensões.
Nas passagens a seguir, iremos construir as questões de definição e as implicações para os avanços futuros. A
ciência  ocupacional  foi  fundamentada  nas  ciências  sociais  interdisciplinares  e  continua  a  sustentar  as  inter­
relações  com  diversas  destas  disciplinas,  incluindo  a  sociologia,  a  antropologia,  a  filosofia  e  a  psicologia.  À
medida que a disciplina evoluiu, novas e produtivas relações conceituais e práticas formaram­se com disciplinas
em  outras  tradições  acadêmicas,  incluindo  a  neurociência,  a  biologia,  a  medicina  preventiva,  a  ciência  da
reabilitação,  a  gerontologia,  a  engenharia  biomédica,  a  saúde  pública  e  a  fisiologia.  A  ciência  ocupacional
também é reconhecida por sua relação única com a terapia ocupacional e, de maneira mais geral, com o notável
sucesso desta jovem disciplina de comandar a interseção das disciplinas acadêmicas e das práticas profissionais.
Esta realização marca a ciência ocupacional como uma nova forma de disciplina, uma disciplina que se coloca
para facilitar a aplicação ou a tradução de novos conhecimentos e teorias em soluções eficazes para problemas
do mundo real.

DOMÍNIOS DE PREOCUPAÇÃO DA CIÊNCIA OCUPACIONAL
As  definições  destinam­se  a  esclarecer  o  que  alguma  coisa,  neste  caso  a  ciência  ocupacional,  é  ou  significa.
Embora  as  definições  possam  ser  valiosas,  elas  tendem  a  simplificar  excessivamente  a  natureza  de  uma
disciplina, seus domínios de preocupação e, talvez de maneira mais importante, o que a disciplina faz, a utilidade
de  uma  ciência,  as  formas  pelas  quais  uma  ciência  aborda  as  necessidades  da  sociedade.  Como  descrevemos
mais  adiante  neste  capítulo,  a  ciência  ocupacional  tem  atualmente  uma  presença  global  e,  nos  níveis  local  e
nacional,  há  considerável  diversidade  na  definição  ou  detalhamento  das  características  primordiais,  pois  os
estudantes e profissionais adaptam as suposições teóricas às necessidades das sociedades locais.
As  definições  podem  fornecer  um  retrato  dos  domínios  de  preocupação  de  uma  disciplina.  Tomadas  em
conjunto,  as  definições  também  oferecem  insights  sobre  uma  gama  de  perspectivas  que  se  relacionam  com  a
identificação  das  dimensões  mais  proeminentes  do  campo.  A  ciência  ocupacional  foi  definida  como  “uma
ciência  básica  dedicada  ao  estudo  do  ser  humano  como  um  ser  ocupacional”  (Yerxa,  1993,  p.  5)  e,  de  modo
similar,  como  “o  rigoroso  estudo  dos  seres  humanos  como  seres  ocupacionais”  (Wilcock,  1998,  p.  257).  A
expressão  ciência  ocupacional  é  mais  frequentemente  abordada  pela  definição  dos  termos  ocupação  ou
ocupações. Uma das definições mais precoces e mais citadas é a seguinte: “partes da atividade significativa dos
pontos de vista cultural e pessoal em que os seres humanos se engajam e que são nomeadas no léxico da cultura”
(Clark et al., 1991, p. 4). Ocupação também foi descrita como “uma síntese do fazer, ser e se tornar” (Wilcock,
1999, p. 3).
Yerxa  (1993)  colocou  em  primeiro  plano  questões  sobre  o  desenvolvimento  de  habilidade,  holismo  e
experiência  ao  descrever  os  princípios  fundamentais  da  ciência  ocupacional.  A  ciência  ocupacional  aborda  a
centralidade do engajamento em ocupações e na vida humana, principalmente como elas se relacionam com a
saúde e o bem­estar, e a participação social. Amplamente conceitualizadas como as atividades que constituem a
experiência  cotidiana,  as  ocupações  incluem  os  tipos  de  atividade  intencional  que  compõem  as  vidas  das
pessoas, como as atividades da vida diária, atividades interpessoais, atividades físicas, atividades de restauração
e as práticas sociais e culturais. Como as ocupações vêm variando até agora, elas são idealizadas como cruzando
o  espectro  das  necessidades  humanas  e  dos  desejos  de  sobrevida  e  reprodução  até  a  subsistência  econômica,
participação na vida social e expressão artística e espiritual (p. ex., Wilcock, 2005; Yerxa et al., 1989; Zemke &
Clark,  1996a,  1996b).  Contudo,  o  foco  da  ciência  ocupacional  não  está  apenas  sobre  a  atividade  em  si,  mas
também sobre os atores sociais que estão engajados nas ocupações dentro de circunstâncias sociais, culturais e
históricas de seu mundo vivido – em essência, como as pessoas vivem e aprendem na vida cotidiana; as relações
entre  atividade,  participação  e  saúde;  e  como  os  engajamentos  sociais  e  as  estruturas  sociais  propiciam  e
restringem  a  saúde,  a  participação,  a  qualidade  de  vida  e  a  experiência  humana  (p.  ex.,  Dickie,  Cutchin  &
Humphry, 2006; Farnworth, 1998; Hocking, 2000; Lawlor, 2003; Molineux & Whiteford, 1999). De acordo com
esta perspectiva, seria possível pensar na ciência ocupacional como a abordagem de uma gama de maneiras pelas
quais  as  pessoas  se  ocupam  como  seres  humanos  e  o  impacto  que  este  engajamento  tem  sobre  seus  próprios
corpos (Abbott, 2004),1 as comunidades e o mundo.

ABORDAGENS METODOLÓGICAS
As  modalidades  de  inquirição  e  as  abordagens  metodológicas  na  ciência  ocupacional  foram  desenvolvidas  de
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maneira  a  refletir  a  natureza  evolutiva  da  disciplina  e  o  fortalecimento  das  inter­relações  entre  a  ciência
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ocupacional  e  a  terapia  http://lista.mercadolivre.com.br/_CustId_161477952
ocupacional.  Quando  a  ciência  ocupacional  foi  estabelecida,  foram  implementados
esforços  para  diferenciar  esta  ciência  das  condutas  positivistas  tradicionais  que  se  fundamentavam  em
paradigmas experimentais para gerar o conhecimento e testar a teoria (Zemke & Clark, 1996b). Pareceu existir
uma  afinidade  natural  entre  as  questões  de  pesquisa  na  ciência  ocupacional  e  as  modalidades  qualitativa,
fenomenológica e narrativa da inquirição (Gray, 1997; Hocking, 2000; Lentin, 2002; Mattingly & Lawlor, 2000;
Wicks  &  Whiteford,  2003).  Embora  essas  condutas  tenham  produzido  novos  conhecimentos  e  estimulado  o
desenvolvimento da teoria, elas representam apenas parcialmente a gama de abordagens metodológicas que são
inerentes à pesquisa da ciência nutricional.
Em seus esforços para gerar novas compreensões teóricas das dimensões ocupacional, social, cultural, política
e  histórica  da  participação  na  vida  cotidiana,  os  cientistas  ocupacionais  expandiram  as  abordagens
metodológicas para estudar a ocupação e sua relação com a saúde e a participação social. A ciência ocupacional
destina­se a sistematizar o conhecimento sobre a ocupação, principalmente com relação à saúde e ao bem­estar.
Além  disso,  os  cientistas  ocupacionais  estão  colaborando  com  estudantes  de  outras  disciplinas  para  gerar  o
suporte  metodológico  e  teórico  de  programas  de  pesquisa  interdisciplinar  em  que  as  questões  relativas  à
compreensão de engajamento, atividade, participação, experiência e saúde propicia desafios únicos. O estudo das
ocupações necessita de estruturas analíticas complexas para capturar os aspectos multifacetados das ocupações,
principalmente nos ambientes naturais. Como Glass e McAtee (2006) atestaram, compreender as relações entre
os  comportamentos  e  a  saúde  exige  uma  orientação  contextual  que  é  multidimensional,  com  o  exame  dos
aspectos sociais distais e individuais, dos aspectos biológicos nos múltiplos níveis, da ação humana e de outras
características  ao  longo  do  tempo.  A  ciência  da  ciência  ocupacional  fundamenta­se  em  múltiplos  métodos  e
reflete uma recente tendência para evitar a diferenciação da pesquisa nas categorias francamente simplistas de
básico e avançado (p. ex., Flyvberg, 2001).
Um  dos  avanços  mais  significativos  na  ciência  ocupacional  é  o  desenvolvimento  de  novos  métodos
cientificamente  rigorosos,  que  abrangem  um  continuum  de  paradigmas,  desde  a  etnografia  até  estudos
controlados randomizados, e facilitam a tradução na prática. Além disso, os cientistas ocupacionais idealizaram
programas  de  pesquisa  que  avaliam  e  utilizam,  de  maneira  inovadora,  as  abordagens  de  método  misto.  Estes
desenvolvimentos combinam as abordagens conceituais para a inquirição e a aplicação de novas tecnologias em
esforços de pesquisa. Mais adiante, neste capítulo, fornecemos exemplos desse trabalho, recorrendo ao Estudo
do Idoso Sadio da University of Southern California (USC) e o Estudo de Prevenção da Úlcera de Pressão da
USC/Rancho Los Amigos National Rehabilitation Center (PUPS).

O CRESCIMENTO DA CIÊNCIA OCUPACIONAL
Embora a ciência ocupacional tenha apenas 18 anos de idade, não há dúvida de que ela está crescendo. Nesse
curto período de tempo, mais de 45 mestres receberam seu grau de PhD em ciência ocupacional apenas na USC,
e muitos deles assumem atualmente posições de liderança acadêmica nos Estados Unidos e no mundo. Ademais,
20  programas  acadêmicos  de  terapia  ocupacional  receberam  nova  denominação  para  incluir  a  ciência
ocupacional  em  seus  títulos.  Compatível  com  esta  tendência,  diversos  programas  oferecem  hoje  titulação  em
vários níveis na ciência ocupacional. Por exemplo, atualmente a Towson State University confere um título de
ScD  em  Ciência  Ocupacional,  a  University  of  North  Carolina  (UNC)  e  a  USC  concedem  o  título  de  PhD  na
disciplina e uma junção de MSc/PhD em Ciência Ocupacional pode ser obtida na University of Western Ontario.
Outras  faculdades  e  universidades  optaram  por  oferecer  programas  de  pré­graduação  maiores  e  menores  em
ciência ocupacional que visavam fornecer um fundamento consistente para a entrada em programas profissionais
de  terapia  ocupacional.  No  total,  20  programas  por  todo  o  mundo  são  identificados  como  programas
universitários em ciência ocupacional (www.jos.edu.au). Por fim, fundada na University of South Australia em
1993, primeiro como Journal of Occupational Science: Australia  (JOS:A),  a  Journal  of  Occupational  Science
(JOS)  está  atualmente  em  seu  15o  ano  de  publicação.  Diferente  das  revistas  que  contêm  as  palavras  terapia
ocupacional em seu título, a JOS é dedicada a publicar artigos sobre seres humanos como seres ocupacionais e
tem uma política de bloquear a publicação de manuscritos que enfoquem estritamente a terapia (Wilcock, 2003).
De  maneira  discutível,  um  dos  aspectos  mais  impressionantes  da  ciência  ocupacional  é  a  magnitude  com  a
qual ela criou raízes em nível internacional (Clark, 2006; Hocking, 2000; Mounter & Ilott, 1997, 2000; Wilcock,
2005;  Yerxa,  2000).  Em  1999,  apenas  10  anos  depois  de  ser  fundada  a  disciplina,  a  International  Society  of
Occupational Scientists (ISOS) foi criada por 32 cientistas ocupacionais que desejavam promovê­la ao construir
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contatos  internacionais.  As  metas  da  ISOS  estão  delineadas  em  seu  endereço  eletrônico
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(http://isos.nfshost.com/aims.php) da seguinte maneira:
Promover  o  estudo  e  a  pesquisa  dos  seres  humanos  como  seres  ocupacionais  dentro  do  contexto  de  suas
comunidades e da organização da ocupação na sociedade
Disseminar  a  informação  de  modo  a  aumentar  a  compreensão  geral  das  necessidades  ocupacionais  das
pessoas e a contribuição da ocupação para a saúde e o bem­estar das comunidades
Defender a justiça ocupacional em nível internacional
Incentivar  uma  gama  de  disciplinas  para  considerar  e  estruturar  suas  próprias  pesquisas  a  partir  de  uma
perspectiva ocupacional, de modo que elas possam expandir sua influência sobre os processos sociocultural,
político, médico, ambiental e ocupacional

Logo  após  ser  estabelecida  a  ISOS,  começaram  a  ser  formadas  sociedades  nacionais  ou  regionais  que  se
espelhavam,  em  uma  considerável  extensão,  no  modelo  da  ISOS,  mas  que  também  eram  idealizadas  para
abordar as prioridades de cada um de seus próprios mantenedores. A Tabela 1.1 lista os endereços eletrônicos e
as datas de fundação das 10 organizações e sociedades mundiais que têm como um de seus principais objetivos o
fomento da ciência ocupacional. Como a tabela revela, estas organizações são relativamente novas, tendo sido
todas estabelecidas entre os anos de 2000 e 2006. Os diversos endereços eletrônicos fornecem uma sensação de
ampla existência de atributos comuns compartilhados por estas organizações e as diferenças em seus objetivos.
Embora  todas  as  organizações  tenham  como  objetivos  primários  promover  a  pesquisa  sobre  a  ocupação,
principalmente  de  que  modo  esta  se  relaciona  com  a  saúde,  elas  diferem  quanto  à  ênfase  aplicada  a  outros
objetivos,  como  multidisciplinaridade,  promoção  da  justiça  social  ou  relação  da  ciência  ocupacional  com  a
terapia  ocupacional.  Um  avanço  novo  e  promissor  é  que,  em  2006  e  2007,  foram  criados  dois  grupos
internacionais  de  pesquisa  interdisciplinar,  o  primeiro  na  Austrália  (Wicks,  2006)  e  o  segundo  nos  Estados
Unidos,  com  representantes  de  até  14  países  e  cinco  continentes,  muitos  dos  quais  pertencem  às  organizações
listadas na Tabela 1.1, para explorar as maneiras pelas quais as várias organizações poderiam se relacionar entre
si e dar sustentação à ISOS. O principal resultado do grupo de pesquisa interdisciplinar foi a decisão unânime de
buscar relações de afiliação entre as organizações e o suporte potencial da ISOS.
TABELA 1.1 ORGANIZAÇÕES INTERNACIONAIS DE CIÊNCIA OCUPACIONAL
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Nome Ano de Endereço Eletrônico
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Fundação
International Society of Occupational 1999 http://isos.nfshost.com/
Scientists (ISOS)
Australasian Society of Occupational 2000 http://asos.nfshost.com/
Scientists (ASOS)
Continuing Education and Research: 2000 http://www.enothe.hva.nl/cer/index.html
Occupational Science Project Group
ENOTHE (European Network of
Occupational Therapy in Higher
Education)
Occupation UK: The British Institute of 2000–2001 http://www.occupationuk.org/
Occupation and Health
Canadian Society of Occupational 2001 http://occupationalsciencecanada.dal.ca/home.html
Scientists (CSOS)
The Society for the Study of 2002 http://www.sso­usa.org/
Occupation: USA (SSO:USA)
Australasian Occupational Science 2004 http://shoalhaven.uow.edu.au/aosc/whatis.html
Center (AOSC)
European Cooperative in Occupational 2006 http://www.enothe.hva.nl/cer/research.htm
Therapy Research and Occupational
Science (ECOTROS)
Japanese Society for the Study of 2006 http://www.amrf.or.jp/jsso./.indexe.htm
Occupation
WFOT International Advisory Group: 2006 http://www.wfot.org.au/
Occupational Science

Outro  indicador  de  que  a  ciência  ocupacional  está  florescendo  consiste  no  número  e  na  qualidade  de
simpósios  científicos  que  estão  sendo  realizados.  Por  19  anos  consecutivos,  um  simpósio  anual  de  ciência
ocupacional tem sido realizado na USC, dando destaque a mais de 100 apresentações sobre temas relacionados à
ciência ocupacional interdisciplinar e à pesquisa correlata. Estes simpósios incluem tipicamente apresentações de
cientistas,  filósofos  e  especialistas  de  renome  mundial.  Entre  os  apresentadores  mais  eminentes  estão  a
primatologista  Jane  Goodall,  o  neurocientista  Antonio  Damasio,  o  sociólogo  Andrew  Abbott,  a  cientista  de
reabilitação  Margaret  Stineman,  a  neurocientista  Candace  Pert,  o  filósofo  John  Searle,  o  psicólogo  Mihaly
Csikszentmihalyi,  o  psicólogo  Jerome  Bruner,  a  antropóloga  e  linguista  Mary  Cetherine  Bateson  e  o  físico
Stephen Hawking.
À medida que as sociedades científicas se estabeleceram por todo o mundo, dedicadas a fomentar a ciência
ocupacional,  elas  também  vêm  realizando  simpósios  anuais.  Entre  2000  e  2007,  foram  realizados  18  destes
simpósios. Coletivamente, esses simpósios (incluindo aqueles realizados na USC nesse período) incluíram mais
de  300  apresentações,  com  oradores  de  mais  de  uma  dúzia  de  países.  É  interessante  notar  que  os  temas  mais
frequentemente abordados abrangeram a ocupação e a saúde, a ocupação e o ambiente, as influências culturais
sobre as ocupações, a justiça ocupacional, o uso do tempo, o trabalho, a arte e a criatividade, a paternidade, e a
importância das atividades cotidianas. As populações mais frequentemente abordadas foram as das mulheres, as
dos indivíduos com incapacidades ou doenças crônicas e as dos lactentes, crianças e adolescentes. As pessoas
desabrigadas,  os  internos  e  os  ex­internos,  estudantes  universitários,  indivíduos  que  se  identificam  como
homossexuais  masculinos  ou  femininos,  bissexuais  ou  transexuais,  e  refugiados  e  imigrantes  também
participaram na pesquisa da ciência ocupacional apresentada nesses simpósios.
Por fim, talvez os principais indicadores da vitalidade da ciência ocupacional sejam o número e a qualidade
dos  artigos  que  seus  acadêmicos  produzem  anualmente  em  periódicos  revistos  por  colegas.  Certamente,  esses
marcos de referência são difíceis de rastrear completamente por diversos motivos. Em primeiro lugar, os artigos
que os cientistas ocupacionais produzem frequentemente não são identificados nas bases de dados como ciência
ocupacional.  Em  segundo  lugar,  é  difícil  desenvolver  critérios  para  a  inclusão  dos  artigos  como  ciência
ocupacional. Em terceiro lugar, determinadas publicações na ciência ocupacional são de autoria de cientistas não
ocupacionais e/ou são publicadas em periódicos que não estão associados à terapia ocupacional. Além disso, os
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cientistas  ocupacionais  podem  publicar  seus  trabalhos  em  periódicos  interdisciplinares  sem  indicar  no
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manuscrito que seus estudos ou parte do conhecimento consistem em ciência ocupacional.
Não  obstante,  recentemente  foram  realizados  dois  estudos  que  identificam  as  tendências  de  publicação  na
ciência  ocupacional.  Molke,  Laliberte­Rudman  e  Polatajko  (2004)  focalizaram­se  nos  anos  1990  e  2000  para
detectar alterações nos padrões de publicação entre estes dois pontos no tempo. Para serem incluídas no estudo,
as  publicações  precisaram  satisfazer  os  seguintes  critérios:  (1)  a  expressão  ciência  ocupacional  ou  ciência  da
ocupação deveria estar no título, identificada como uma palavra­chave no resumo ou em um título de indexação,
e  (2)  a  publicação  não  deveria  ser  uma  revisão  literária,  carta  ao  editor  ou  resumo  de  seminário.  Os  autores
descobriram  que  apenas  10  publicações  se  qualificaram  em  1990  (um  ano  após  a  fundação  da  ciência
ocupacional), mas em 2000 foram identificados 44 artigos, um aumento de quatro vezes. Ademais, no segundo
intervalo de tempo, houve uma pronunciada expansão no número de autores de outros países que não os Estados
Unidos  na  comparação  com  o  grupo  de  autores  em  1990.  Da  mesma  maneira,  em  2000,  as  publicações
apareceram  em  maior  variedade  de  periódicos  e  mostraram  uma  tendência  de  crescimento  em  números  no
emprego  de  métodos  qualitativos  em  vez  de  métodos  quantitativos  ou  mistos.  Apesar  disso,  o  percentual  de
publicações que estava na base de dados, diferenciadas daquelas focalizadas na discussão, permaneceu em 30%
nos  dois  intervalos  de  tempo.  Por  fim,  os  temas  mais  comuns  identificados  na  revisão  que  foram  percebidos
como modelados para adequar­se ao campo emergente foram identificados: (1) fornecer compreensão ampla e
geral da ocupação, (2) dar suporte à terapia ocupacional ao provê­la com fundamentos baseados na ciência, (3)
visualizar  a  ciência  ocupacional  como  um  veículo  para  defender  o  compromisso  da  terapia  ocupacional  com
determinados valores ou ideais, e (4) descrever a disciplina como aquela que atinge a reforma social ao lutar pelo
lugar  da  ocupação  na  justiça  social,  um  tema  que  foi  muito  observado  no  último  conjunto  de  publicações  e
naquelas escritas por autores canadenses e australianos.
O  segundo  estudo,  que  acabou  de  ser  encerrado  por  Glover  (2007),  baseia­se  no  anterior  ao  examinar  um
período ainda maior para conseguir um quadro mais refinado das tendências de publicação. Para ser incluída no
estudo,  a  publicação  precisava  ter  aparecido  em  um  periódico  em  qualquer  um  dos  anos  entre  1996  e  2006.
Como no primeiro estudo, a publicação devia utilizar o termo ciência ocupacional ou ciência da ocupação em
seu  título,  palavras­chave  ou  resumo.  No  entanto,  nesse  estudo,  apenas  artigos  que  apareceram  em  periódicos
revistos por seus pares foram incluídos, porque são considerados pela comunidade científica como os veículos
mais legítimos para a disseminação de novas descobertas. O processo de seleção resultou na identificação de 244
artigos.  Quando  as  publicações  dos  primeiros  anos  foram  comparadas  com  aquelas  dos  últimos  anos,  Glover
descobriu que, em geral, embora a quantidade de publicações flutuasse de um ano para outro, mais artigos foram
publicados nos anos mais recentes. Ademais, com o passar do tempo, aumentou a proporção de artigos baseados
em dados, sendo muitos de natureza qualitativa. Assim, a maioria das publicações abordou adultos de 18 a 64
anos  de  idade  e  sem  incapacidades,  embora  uma  massa  de  26,8%  se  voltasse  para  pessoas  com  patologias
incapacitantes, uma representação maior que a que seria tipicamente encontrada nas ciências sociais tradicionais
(como  a  antropologia  ou  a  geografia).  Houve  uma  tendência  de  os  autores  se  originarem  dos  Estados  Unidos,
Canadá  e  Austrália,  embora  outros  países  também  estivessem  representados.  Por  fim,  nos  últimos  anos,  uma
maior proporção de artigos indicou que o trabalho reportado havia se apoiado em financiamentos externos. Esta
tendência  é  particularmente  importante  porque  o  prestígio  e  o  crescimento  de  uma  disciplina  acadêmica
dependem  muito  de  subvenções  federais  ou  de  outras  agências.  Em  síntese,  embora  esses  dois  estudos
representem apenas uma primeira parte na avaliação de como as publicações sobre a ciência ocupacional estão
se desenvolvendo, eles sugerem, no entanto, que a disciplina cresceu de maneira impressionante, à medida que
entra em sua terceira década.

RELAÇÕES ENTRE A CIÊNCIA OCUPACIONAL E A TERAPIA OCUPACIONAL
Em 2017, a profissão de terapeuta ocupacional completará 100 anos de idade (nos EUA). Em antecipação a esta
ocasião marcante, a American Occupational Therapy Association (AOTA) adotou a seguinte visão centenária:

“Em torno de 2017, prevemos que a terapia ocupacional seja uma profissão poderosa, amplamente reconhecida, orientada
pela  ciência  e  baseada  em  evidência,  com  uma  força  de  trabalho  globalmente  diversificada  e  conectada  que  satisfaça  as
necessidades ocupacionais da sociedade.” (AOTA, 2007, parágrafo 1)
Como a ciência ocupacional se relaciona com esta visão? Ou, voltando um pouco atrás, qual é a relação entre
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a  ciência  ocupacional  e  a  terapia  ocupacional?  Justificaremos  que  a  relação  entre  a  ciência  ocupacional  e  a
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terapia ocupacional é simbiótica, que cada uma contribui para a sobrevivência da outra (Clark, 2006), e que a
ciência ocupacional é o veículo por meio do qual a profissão é cada vez mais direcionada pela ciência e baseada
em evidência.
Os  fundadores  da  ciência  ocupacional,  como  explicamos,  conceberam  originalmente  a  disciplina  como  de
natureza básica, mas existindo, em parte, para fundamentar a terapia ocupacional (Clark et al., 1991; Wilcock,
1991; Yerxa, 1993; Yerxa et al., 1989). Designar a ciência como básica, na ocasião, fez sentido por dois motivos:
em primeiro lugar, os fundadores viram a vantagem de construir a teoria sobre a ocupação (ciência básica), no
sentido  geral,  sem  preocupar­se  com  sua  aplicação  específica  na  terapia  (ciência  aplicada).  Naquele  tempo,
nenhuma disciplina tinha a ocupação como seu tema central, e ficou claro que uma ciência dedicada ao estudo da
ocupação  poderia  ter  benefícios  que  iam  bem  além  da  prática  da  terapia  ocupacional.  Por  exemplo,  esta
disciplina  poderia  contribuir  com  novos  conhecimentos  sobre  a  ocupação  e  sintetizar  o  conhecimento
interdisciplinar  existente  para  ser  usado  por  aqueles  que  estão  interessados  em  evitar  a  doença  crônica  e  a
incapacidade, promover a saúde global ou simplesmente expandir nossa compreensão sobre esse aspecto central
da existência humana. O segundo motivo era mais prático. Na década de 1980, as universidades privilegiavam a
ciência básica em detrimento da ciência aplicada. O clima era tal que eram melhores as chances de se estabelecer
uma  nova  ciência  básica  em  lugar  de  uma  aplicada.  No  entanto,  deve  ser  reiterado  que,  na  conceitualização
original  dos  fundadores,  a  ciência  ocupacional  sempre  se  destinou  a  fornecer  o  conhecimento  que  poderia  ser
utilizado para informar teoricamente e, por conseguinte, refinar e desenvolver as técnicas da terapia ocupacional.
Embora inicialmente se tenha debatido se a ciência ocupacional devia ser independente da terapia ocupacional
ou não (Carlson & Dunlea, 1995; Clark, 1993; Clark et al., 1993; Lunt, 1997; Mosey, 1992, 1993), as duas se
tornaram,  mais  adiante,  intimamente  interligadas.  Grande  atenção  foi  dirigida  para  a  relação  entre  a  terapia
ocupacional e a ciência ocupacional no início, um tipo de história da criação, na qual se expressa que a ciência
ocupacional  originou­se  da  terapia  ocupacional.  Lunt  (1997)  propôs,  de  modo  algo  provocativo,  que  a  ciência
ocupacional  poderia  ter  sido  criada  como  um  veículo  para  elevar  a  condição  de  estudo  da  ocupação  e  para
distanciar  o  campo  do  “trabalho  com  argila”  de  um  campo  de  prática  como  a  terapia  ocupacional,  uma
perspectiva que nós e outros contestariam.
Na  realidade,  os  laços  entre  a  ciência  ocupacional  e  a  terapia  ocupacional  foram  reforçados  em  1997  (nove
anos  depois  da  criação  da  disciplina),  quando  Zemke  e  Clark  (1996a,  1996b)  deixaram  de  definir  a  ciência
ocupacional  como  uma  ciência  básica,  recomendando  que  seu  foco  fosse  não  apenas  sobre  a  natureza  da
ocupação, mas também sobre como ela é utilizada nos contextos da terapia ocupacional. As maneiras produtivas
pelas  quais  a  ciência  ocupacional  contribuiu  para  a  profissão  da  terapia  ocupacional  e  para  a  abordagem  das
necessidades da sociedade aumentaram a excitação em torno da disciplina e sobre o sentido de sua valorização
(Carlson  &  Dunlea,  1995;  Clark,  1993;  Jackson,  Carlson,  Mandel,  Zemke  &  Clark,  1998).  A  geração  do
conhecimento para a terapia ocupacional é frequentemente descrita como o objetivo ou a finalidade primária da
disciplina, sendo também percebida a necessidade de mais teoria a respeito da ocupação dentro do currículo da
terapia ocupacional (Whiteford & Wilcock, 2001; Yerxa, 1993). O interesse no estudo da ocupação em relação à
prática da terapia ocupacional surgiu nos últimos anos, e muitas pessoas no campo consideram que ela faz parte
de  um  tipo  de  correção  de  curso  para  levar  a  prática  atual  de  volta  às  suas  raízes  filosóficas,  superando  o
reducionismo que marcou o rigoroso acoplamento do campo com a biomedicina, principalmente durante os anos
1970 (p. ex., Wilcock, 2001).
A pesquisa básica sobre a natureza da ocupação, incluindo seus aspectos observáveis e fenomenológicos, pode
ser catalítica para melhorar as abordagens terapêuticas e para criar novas abordagens, levando a profissão para
longe da segurança do “conhecimento baseado na prescrição, para este fim específico” (Abbott, 2004, p. 4). De
maneira similar, estudos sobre o impacto da ocupação na saúde dos indivíduos, das comunidades e do cenário
global  podem  resultar  em  uma  expansão  no  escopo  da  prática  da  terapia  ocupacional.  Ao  abordar  uma  ampla
variedade  de  tópicos  relevantes  para  a  população  geral,  a  ciência  ocupacional  pode  alargar  a  jurisdição
profissional da terapia ocupacional, enquanto dá maior visibilidade e credibilidade à profissão. Por exemplo, à
medida que evidências científicas forem produzidas para demonstrar de que modo a atividade de promoção de
saúde  diminui  o  risco  de  desenvolvimento  de  incapacidade  ou  doenças  crônicas,  a  terapia  ocupacional  ficará
mais  bem  posicionada  para  afirmar  seu  papel  na  área  de  prevenção.  Do  mesmo  modo  que  muito  da  prática
dentária  (desde  a  descoberta  do  flúor)  é  dedicado  à  prevenção,  também  uma  parte  significativa  da  terapia
ocupacional  poderia  visar  à  prevenção  das  muitas  patologias  e  incapacidades  que  seus  profissionais  têm
tradicionalmente remediado. Dessa maneira, a profissão será capaz de balizar o seu novo território de trabalho
terapêutico  (Abbott, APOSTILASMEDICINA@HOTMAIL.COM
2004).  Por  fim,  o  braço  aplicado  da  ciência  ocupacional  pode  produzir  os  estudos  de
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resultado extremamente necessários sobre a eficácia do tratamento. Esta conceitualização mais ampla da ciência
ocupacional, isto é, como uma ciência de tradução abrangente, é a maneira pela qual a disciplina está tomando
forma  nos  Estados  Unidos,  um  desenvolvimento  que  propicia  uma  excelência  de  adaptação  necessária  para  a
realização da visão centenária da AOTA.
A Figura 1.1  demonstra  graficamente  como  a  ciência  ocupacional  se  relaciona  com  outras  disciplinas,  bem
como  com  a  terapia  ocupacional,  seu  principal  ramo  de  prática.  Neste  modelo,  a  ciência  ocupacional  é  vista
como  contribuindo  com  seu  tema  e  achados  de  pesquisa  para  o  universo  do  conhecimento.  Ao  fazer  isso,  ela
enriquece  outras  disciplinas  e  profissões  acadêmicas,  criando  simultaneamente  a  compreensão  disseminada  de
seu foco. De modo inverso, esses campos fornecem o conteúdo intelectual e os achados de pesquisa que são de
relevância para a ocupação de volta para a ciência ocupacional. Além disso, a ciência ocupacional é demonstrada
como intimamente entremeada com a terapia ocupacional. No geral, os diversos tipos de conhecimento que são
produzidos pelo campo são vistos como sustentação da credibilidade científica da profissão e poderiam levar ao
crescimento  maior  de  fontes  pagadoras  para  os  serviços  de  terapia  ocupacional  e  à  promulgação  de  políticas
públicas  que  aumentariam  a  disponibilidade  de  serviços  de  terapia  ocupacional.  As  sínteses  do  conhecimento
interdisciplinar e da ciência básica sobre a ocupação podem ser traduzidas em avanços do tratamento inovador
ou utilizadas para refinar os protocolos existentes. Elas também podem fornecer a justificativa para expandir as
solicitações jurisdicionais profissionais (Abbott, 2004).
Como  pode  ser  observado  na  Figura  1.2,  acreditamos  que  a  confluência  dessas  atividades  levará  à  maior
consciência  pública  e  à  valorização  da  profissão  da  terapia  ocupacional,  gerando,  por  fim,  benefícios  para  a
sociedade. No entanto, para que a ciência ocupacional e a terapia ocupacional  se  entremeiem  dessa  maneira e
fomentem  os  aspectos  primordiais  da  visão  centenária,  é  necessária  uma  divisão  rigorosamente  pensada  do
trabalho. Na Figura 1.3 é mostrada a força de trabalho diferenciada da ciência ocupacional/terapia ocupacional
(incluindo  cientistas,  educadores  e  profissionais).  Os  profissionais  (terapeutas  ocupacionais  e  assistentes  de
terapia ocupacional*)  são  apresentados  trabalhando  em  ambientes  diversos,  onde  eles  implementarão  modelos
tradicionais  e  novos  de  prática  para  indivíduos,  grupos  e  comunidades.  Eles  também  podem  ser  convidados  a
compartilhar sua experiência clínica atualizada em programas educacionais ou participar de equipes de pesquisa
de ensaios clínicos. Os cientistas ocupacionais com graus de PhD ou ScD representam os membros permanentes
da  academia  e  principais  treinadores  de  novos  pesquisadores  que  desenvolvem  a  massa  do  conhecimento  da
ciência ocupacional, como realizadores dos estudos de resultados em grande escala e como os introdutores dos
achados  nos  currículos.  Os  profissionais  e  as  instituições  que  possuem  os  graus  de  Doutor  em  Terapia
Ocupacional  (OTD)  são  apresentados  em  posição  de  liderança  para  levar  a  ciência  ocupacional  ao
desenvolvimento  de  modelos  de  tratamento  e  ao  estudo  de  sua  eficácia,  bem  como  para  unir  as  instituições
portadoras de PhD na atualização de currículos de acordo com as inovações científicas. Concebemos esta nova
linhagem de OTD como especialistas pioneiros na prática clínica e como líderes para a facilitação da educação,
de política ou de mudanças administrativas para adequação à visão centenária.
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Fig. 1.1 Interligações entre ciência ocupacional, terapia ocupacional e outros campos e disciplinas acadêmicas:
um mecanismo para promover a visão centenária.

UM EXEMPLO DO PROCESSO DE PESQUISA: O ESTUDO DO IDOSO SADIO DA USC
Para explicar a maneira pela qual a ciência ocupacional tem fundamentado a terapia ocupacional, descreveremos
agora um modelo para a condução de pesquisa translacional que é empregado pelo grupo de USC Well Elderly
Study (Estudo do Idoso Sadio da USC) (Clark et al., 1997; Clark, Azen et al., 2001; Hay et al., 2002; Jackson et
al.,  1998;  Mandel,  Jackson,  Zemke,  Nelson  &  Clark,  1999).  Uma  equipe  de  pesquisa  tem  sido  financiada  por
meio  de  subsídios  federais.  O  roteiro  das  atividades  de  pesquisa  conforme  idealizado  por  esta  equipe  é
apresentado na Figura 1.4. O programa de pesquisa começa por identificar um problema digno de investigação
(Etapa  1).  Por  exemplo,  no  Estudo  do  Idoso  Sadio  da  USC,  o  problema  foi  estruturado  para  avaliar  se  um
tratamento  baseado  na  atividade  (ocupação)  poderia  lentificar  ou  não  os  declínios  normalmente  associados  ao
envelhecimento  ou  se melhoraria a  saúde do idoso (Clark et al.,  1997;  Mandel  et al.,  1999).  O  grupo  utilizou
métodos qualitativos de pesquisa para obter uma compreensão detalhada e complexa dos fatores contextuais que
precisavam  ser  levados  em  consideração  (Etapa  2)  (Mandel  et  al.,  1999).  Após  esse  trabalho  qualitativo,  que
pode ser creditado mais como ciência básica do que aplicada, os achados foram então utilizados para realçar os
aspectos da prática da terapia ocupacional, com o refinamento das abordagens existentes ou a criação de novos
tratamentos (Etapa 3) (Mandel et al., 1999).
O  grupo  de  pesquisa  buscou  custeio  federal  para  realizar  um  estudo  clínico  em  larga  escala  (Etapa  4)  que
emprega  métodos  quantitativos  para  demonstrar  a  relação  custo­benefício  (Etapa  5)  de  novas  ou  refinadas
abordagens  terapêuticas  (ciência  aplicada).  Se  os  resultados  do  estudo  demonstram  eficácia,  a  próxima  etapa
consiste em obter recursos para empreender os estudos subsequentes sobre os mecanismos que contribuem para
o resultado positivo (Etapa 6). Este trabalho, por sua vez, pode levar ao desenvolvimento adicional da teoria e à
melhoria da prática (Etapa 7). O processo, que a princípio poderia ter parecido desconectado da prática, culmina
com  a  inovação  terapêutica  e  a  divulgação  de  dados  de  resultado  que  podem  ter  um  efeito  positivo  sobre  o
reembolso pelos serviços e sobre as decisões de políticas públicas. Por fim, o Estudo do Idoso Sadio demonstrou
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a  relação  custo­benefício  de  um  programa  preventivo  de  terapia  ocupacional,  intitulado  Lifestyle  Redesign®,
para  a  melhoria  dos PRODUTOS:
resultados  de  http://lista.mercadolivre.com.br/_CustId_161477952
saúde  nos  idosos  (Clark  et  al.,  1997;  Clark,  Azen  et  al.,  2001;  Hay  et  al.,
2002).

Fig. 1.2 Revisão das relações que podem fundamentar a consciência pública da terapia ocupacional.

RECONSTRUINDO A CIÊNCIA OCUPACIONAL E AS CONDIÇÕES BIOMÉDICAS POR
MEIO DO ESTUDO DE PREVENÇÃO DA ÚLCERA DE PRESSÃO DA USC/RANCHO
LOS AMIGOS REHABILITATION CENTER
Um conceito equivocado comumente utilizado é o de que a ciência ocupacional é uma disciplina muito “frágil”
para  criar  uma  inovação  substancial  no  tratamento  de  condições  biomédicas.  Esta  linha  de  pensamento  supõe
que os fatores contextuais e outras circunstâncias complexas da vida não são particularmente relevantes para o
cuidado  dos  pacientes  que  têm  ou  estão  em  risco  de  comprometimentos,  doenças  ou  incapacidades
biologicamente  distintas.  Também  se  fundamenta  na  ideia  pré­concebida  de  que  uma  disciplina  que  enfoca  a
explicação da ocupação e de seu impacto sobre a saúde está muito afastada em sua ênfase dos procedimentos e
práticas  biomédicas  tradicionais  para  ter  desfechos  genuínos  quanto  ao  fornecimento  do  cuidado.  Tentaremos
demonstrar  que  este  raciocínio  circunscrito  é  limitador  e  problemático.  Para  tanto,  descreveremos  os  métodos
utilizados,  bem  como  os  achados  e  as  fontes  gerados  por  meio  do  Estudo  de  Prevenção  de  Úlcera  de  Pressão
(Pressure Ulcer Prevention Study [PUPS]) da USC/Rancho Los Amigos National Rehabilitation Center (Clark et
al., 2006). Este programa de pesquisa resultou não somente em inovações no tratamento da terapia ocupacional
na  área  da  prevenção  da  úlcera  de  pressão,  como  também  produziu  materiais  de  consulta  (USC/RLRPUPP,
2006a,  2006b,  2006c)  que  se  destinam  a  aprimorar  as  melhores  práticas  para  a  ampla  comunidade  dos
profissionais de reabilitação.
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Fig. 1.3 Contribuições primárias para a visão centenária.

A equipe do PUPS selecionou o problema da prevenção da úlcera de pressão nas pessoas com lesão de medula
espinhal para trabalhar por três motivos (Etapa 1 na Figura 1.4). Em primeiro lugar, a área geral da prevenção da
úlcera de pressão foi identificada como uma preocupação significativa da saúde nacional. Por exemplo, tanto o
Healthy People 2010 como as Joint Commission on Accreditation of Health Care Organizations identificaram­na
como  uma  prioridade  primordial  (Martucci,  2006).  Em  segundo  lugar,  as  melhores  práticas  existentes
fracassaram  em  abordar  o  problema  da  maneira  adequada  com  relação  aos  custos  do  tratamento  da  ferida.
Quando  as  úlceras  de  pressão  estão  em  estágios  avançados,  o  custo  do  cuidado  é  astronômico,  com  os  custos
cirúrgicos  atingindo  até  US$70.000  por  ferida  (Clark  et  al.,  2006).  Tendo  a  experiência  de  fazer  estudos  de
custo­benefício, a equipe de pesquisa do PUPS sentiu­se atraída para esta área, em parte por causa do potencial
para redução dos custos referentes aos cuidados com a saúde por meio de descoberta científica. No entanto, por
fim,  e  talvez  mais  importante,  uma  revisão  da  literatura  revelou  que  as  úlceras  de  pressão  recorrentes  eram
ameaças graves para a qualidade de vida das pessoas com lesões raquimedulares, comprometendo seu potencial
para se expressar como seres ocupacionais (Clark et al., 2006; Clark, Sanders, Carlson, Jackson & Imperatore­
Blanche,  no  prelo;  Consortium  for  Spinal  Cord  Medicine,  2000;  Cutajar  &  Roberts,  2005).  Tipicamente,  a
ocorrência de uma úlcera de pressão avançada requer meses de confinamento no leito, resulta em diminuição na
capacidade  funcional  por  causa  da  perda  muscular  decorrente  da  cirurgia  e  pode  provocar  depressão  e  uma
sensação  esmagadora  de  impotência.  Portanto,  a  equipe  do  PUPS  decidiu  utilizar  uma  estratégia  baseada  na
ciência ocupacional madura que incorpora as etapas do modelo de pesquisa translacional apresentadas na Figura
1.4  para  investigar  este  problema  aparentemente  intratável,  que  se  manifesta  inicialmente  como  lesão  da  pele,
uma  patologia  biomédica  distinta,  mas  que  apresenta  efeitos  distais  que  atingem  a  vida  privada  e  o  setor  de
reembolso público.
Ao  executar  a  segunda  etapa  do  modelo  de  pesquisa  translacional  (veja  Figura  1.4),  a  equipe  do  PUPS
garantiu um Subsídio de Pesquisa Iniciada em Campo (no H133G000062) do National Institute of Disability and
Rehabilitation Research para realizar um estudo qualitativo para obter novas e detalhadas compreensões sobre a
complexa  inter­relação  das  circunstâncias  de  vida  e  outros  fatores  contextuais  que  contribuem  para  o
desenvolvimento  de  úlceras  de  pressão  em  pessoas  com  lesão  da  medula  espinhal.  A  metodologia  incluiu  a
realização de entrevistas aprofundadas e a observação participante dos eventos que levaram ao desenvolvimento
da  úlcera  de  pressão  nas  vidas  de  19  pessoas  com  lesão  da  medula  espinhal  e  em  uma  pessoa  com  mielite
espinhal,  todas  as  quais  tinham  uma  história  de  desenvolvimento  de  úlcera  de  pressão  recorrente.  Os  achados
sublinham  o  grau  significativo  pelo  qual  um  conjunto  complexo  de  fatores  leva  ao  surgimento  das  úlceras  de
pressão  (Clark  et  al.,  2006).  Os  resultados  revelaram  diversos  princípios  que  abordaram  a  complexidade  das
preocupações contextuais que tendiam a explicar o desenvolvimento da úlcera de pressão em pessoas com lesão
da medula espinhal (USC/RLRPUPP, 2006c). Eles também levaram à criação de um conjunto de modelos que
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descreveram  os  fatores  do  estilo  de  vida  que  influenciaram  a  probabilidade  de  surgir  uma  úlcera  de  pressão
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(Clark  et  al.,  2006).  A  partir  dos http://lista.mercadolivre.com.br/_CustId_161477952
achados,  ficou  claro  que  concentrar­se  sobre  fatores  convencionalmente
associados,  como  quebra  de  equipamentos  ou  falha  em  aderir  aos  procedimentos  do  alívio  de  pressão,  foi
insuficiente para explicar como os participantes desenvolveram úlceras de pressão. Com frequência, os fatores
relacionados com a ocupação foram centrais na contribuição para o desenvolvimento da úlcera de pressão, como
a tomada de decisão passo a passo sobre o engajamento ou não em uma atividade de alto risco, negociação dos
limites entre realizar um desejo e repousar quando uma úlcera se encontra em estágio inicial, ou resolução de
problemas  em  circunstâncias  imprevistas  e  incomuns,  como  ficar  retido  em  um  aeroporto  por  16  horas.  Até  o
momento, este programa de pesquisa demonstrou que os esforços de prevenção precisam levar em consideração
as  características  particulares  das  circunstâncias  da  vida  cotidiana  de  uma  pessoa  (Clark  et  al.,  2006),  que  as
avaliações  tradicionais  para  o  risco  de  úlcera  de  pressão  precisam  ser  ampliadas  para  englobar  fatores
relacionados  com  as  situações  de  vida  (Seip,  Carlson,  Jackson  &  Clark,  2007),  e  que  precisa  ser  dada  maior
atenção às decisões que as pessoas tomam quanto a seu engajamento em atividades diárias quando uma úlcera de
pressão  se  encontra  em  estágio  inicial,  para  minimizar  a  probabilidade  de  que  ela  venha  a  avançar  para  um
estágio em que a cirurgia será necessária (Dunn, Carlson, Jackson & Clark, 2007).
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Fig. 1.4 Esboço para um programa de pesquisa de ciência translacional.

Embora o impulso do estudo PUPS descrito acima se apoiasse no lado de ser de natureza básica, em que a
meta primária do estudo inicial era descritiva, a equipe de pesquisa transferiu os achados para as aplicações que
poderiam  ser  utilizadas  não  somente  para  expandir  os  limites  da  terapia  ocupacional  na  área  do  cuidado  e
prevenção da ferida, mas também para gerar benefícios práticos para outros profissionais de reabilitação, bem
como benefícios reais para pessoas que estão propensas ao desenvolvimento da úlcera de pressão. Em primeiro
lugar,  a  equipe  PUPS  utilizou  os  achados  para  desenvolver  o  inovador  Programa  de  Prevenção  de  Úlcera  de
Pressão — Lifestyle Redesign® Pressure Ulcer Prevention Program (USC/RLRPUPP, 2006a), destinado para ser
usado  por  terapeutas  ocupacionais.  Em  segundo  lugar,  ela  produziu  um  Manual  para  Profissionais  de
Reabilitação  (Rehabilitation  Professionals  Manual)  e  um  Manual  para  o  Acompanhante  (Companion  Manual)
disponíveis em cópia impressa e em CD­ROM, que foram idealizados como fonte para todos os profissionais de
reabilitação  que  trabalham  nesta  área  (USC/RLRPUPP,  2006c).  Esses  manuais  contêm  narrativas  de
circunstâncias de vida que levaram ao desenvolvimento das úlceras de pressão nos 20 participantes do estudo. O
formato é interativo, contendo algoritmos, questões que abordam os diferentes dilemas relacionados ao risco de
úlcera  de  pressão  com  a  escolha  das  várias  possíveis  soluções  de  graus  variados  de  correção,  e  palavras  em
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destaque  inseridas  nas  histórias  que  representam  os  fatores  que  colocam  determinados  participantes  em  risco
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para o desenvolvimento da úlcera de pressão. Destaques no Manual para Profissionais de Reabilitação levam o
leitor a um artigo correspondente no Manual para o Acompanhante que resume a pesquisa recente sobre o tema
de interesse. Por fim, a equipe do PUPS fundamentou­se nos achados para criar um manual para ser usado pelo
consumidor, o qual pode ser facilmente acessado em http://www.pressureulcerprevention.com e contém artigos
sobre 46 fatores que demonstraram contribuir para o desenvolvimento de úlceras de pressão na vida atual dos
participantes do estudo.
Neste  ponto,  com  um  manual  de  tratamento  em  mãos  que  incorpora  as  condutas  tradicionais  de  terapia
ocupacional  para  a  prevenção  da  úlcera  de  pressão  com  novas  estratégias  derivadas  do  PUPS,  a  equipe  de
pesquisa está tentando garantir recursos federais para conduzir um estudo clínico randomizado em larga escala
com  a  esperança  de  demonstrar  o  custo­benefício  do  tratamento.  Os  membros  da  equipe  também  pretendem
desenvolver uma avaliação baseada nos achados que seja capaz de predizer o risco com maior exatidão do que a
que  é  típica  das  avaliações  de  risco  de  úlcera  de  pressão  atualmente  utilizadas.  Supondo  que  elas  sejam  bem­
sucedidas,  o  PUPS  será  capaz  de  demonstrar  a  maneira  pela  qual  a  ciência  ocupacional  fundamenta  o
desenvolvimento de técnicas de reabilitação aprimoradas, de contribuir para a complexa compreensão do risco
de úlcera de pressão, de traduzir­se em abordagens concretas de terapia ocupacional e de promover o acesso do
consumidor a novas informações sobre os fatores que levam ao desenvolvimento de úlceras de pressão.

CONCLUSÃO
O PUPS tem o potencial de demonstrar como a compreensão detalhada da vida diária e das ocupações, adquirida
por  meio  da  ciência,  pode  levar  a  abordagens  multifacetadas  teoricamente  informadas  e  fortes,  que  vão  bem
além  dos  protocolos  biomédicos  tradicionais.  Dessa  maneira,  a  ciência  ocupacional  pode  fortalecer  a  terapia
ocupacional.  Por  sua  vez,  a  terapia  ocupacional,  fortalecida  pela  ciência  ocupacional,  ficará  mais  bem
posicionada  para  garantir  novos  fluxos  de  reembolso  e  expandir  seu  espectro.  À  medida  que  a  terapia
ocupacional  se  tornar  reconhecida  como  uma  prática  cientificamente  orientada  e  baseada  em  evidência,  seus
profissionais continuarão a identificar as próximas áreas de problema que precisam ser vencidas pelos cientistas
ocupacionais.

QUESTÕES INSTIGANTES
1. Como se descreve a relação mutuamente benéfica entre a ciência ocupacional e a terapia ocupacional?
2. Em sua opinião, quais são os problemas mais urgentes para abordar por meio do programa de pesquisa da
ciência translacional proposto?
3. Em sua imaginação, avance 10 anos. Visualize­se escrevendo um estudo que descreva os recentes avanços
na ciência ocupacional durante a última década. O que você poderia ser capaz de dizer ou espera ser capaz
de dizer?

NA REDE
Consulte http://www.pressureulcerprevention.com para maiores informações sobre o Projeto de Prevenção
da Úlcera de Pressão.

AGRADECIMENTOS
(Para o PUPS) Este estudo foi custeado por um subsídio (no H133G000062) do National Institute on Disability
and  Rehabilitation  Research.  Agradecemos  a  todos  os  membros  do  grupo  Estudo  de  Prevenção  da  Úlcera  de
Pressão  do  USC/Rancho  Los  Amigos  National  Rehabilitation  Center  por  suas  contribuições  para  o  PUPS,  do
qual parte do conteúdo é utilizada neste capítulo. Especificamente, agradecemos a Jeanne Jackson, PhD, OTR,
que  serviu  como  colaboradora  no  projeto,  e  Michael  Scott,  MD,  Mike  Carlson,  PhD,  Michal  Atkins,  MA,
OTR/L, Debra Uhles­Tanaka, MA, Salah Rubayi, MD, Erna Blanche, PhD, OTR/L, Rod Adkins, PhD, Kathleen
Gross,  MA,  OTR/L,  Clarissa  Saunders­Newton,  MA,  OTR/L,  Stephanie  Mielke,  OTD,  OTR/L,  Mary  Kay
Wolfe,  OTD,  OTR/L,  Paul  Bailey,  MSc,  Elizabeth  Crall,  MA,  OTR/L,  Aaron  Eakman,  PhD,  OTR/L,  e  Faryl
Saliman Reingold, MA, OTR/L.
(Para  o  Idoso  Sadio)  Este  estudo  foi  custeado  por  um  subsídio  (no  1R01  AG021108­01A3)  do  National
Institutes  of  Health.  Agradecemos  a  todos  os  membros  do  grupo  Estudo  do  Idoso  Sadio  da  USC  por  suas
contribuições  para  o  estudo  do  Idoso  Sadio,  do  qual  parte  do  conteúdo  é  abordada  neste  capítulo.
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Especificamente, agradecemos a Jeanne Jackson, PhD, OTR, que serviu como colaboradora no projeto, e Stan
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Azen, PhD, Ruth Zemke, PhD, OTR, Mike Carlson, PhD, Deborah Mandel, MS, OTR, Joel Hay, PhD, Karen
Josephson,  MD,  Barbara  Cherry,  PhD,  Colin  Hessel,  MS,  Joycelynne  Palmer,  MS,  Loren  Lipson,  MD,  Geyla
Frank, PhD, Laurie Nelson, MA, OTR, Laurie LaBree, MS, Brian Young, MA, OTR, Shan­Pin Fanchiang, PhD,
OTR, Karen Patterson, MA, OTR/L, Bridget Larson Ennevor, MA, OTR, LuAn Hobson, MA, OTR/L, Jennifer
Crandall,  MA,  OTR/L,  Allyn  Rankin­Martinez,  MA,  OTR,  Roger  Luo,  PhD,  Jeanine  Blanchard,  MA,  OTR,
Karen McNulty, MA, OTR/L, Gitu Bhatvani, MA, OTR/L, Joan Vartanian, BS, OTR, Patricia Gonzalez, MA,
OTR, e Aisha Mohammed, MA, OTR.

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Zemke, R., & Clark, F. (Eds.). (1996a). Occupational science: The evolving discipline. Philadelphia: F. A.
Davis.
Zemke, R., & Clark, F. (Eds.). (1996b). Preface. In Occupational science: The evolving discipline (pp. vii–
xviii). Philadelphia: F. A. Davis.
*N.R.T.: University of Southern California.
1Esta declaração se baseia em citação do Dr. Andrew Abbott no artigo “Creating an Academic Discipline That Supports Practice”, que foi

apresentado no 16o Occupational Science Symposium (USC, 16 de janeiro de 2004). Em seu artigo, interessante e provocador, o Dr. Abbott
argumentou  que  a  disciplina  deve  se  desenvolver:  “para  organizar  a  ciência  ocupacional  em  torno  da  teoria  geral  das  atividades  diárias
imediatas com as quais ocupamos nossos corpos e mentes” (p. 12). Somos profundamente gratos ao Dr. Abbott por sua sabedoria, incluindo os
outros trabalhos publicados por ele, e continuamos a ser influenciados, cativados e desafiados por seus insights.
*N.R.T.: Essa categoria profissional não existe no Brasil.
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O Que É Ocupação?
VIRGINIA DICKIE

Sumário
Conhecer e Aprender sobre Ocupação
A Necessidade de Compreender a Ocupação
Introjetar para Conhecer a Ocupação
Observar para Conhecer a Ocupação
Buscar a Pesquisa e o Estudo para Compreender a Ocupação
Definindo Ocupação
Contexto e Ocupação
A Ocupação Sempre É Boa?
Organizando a Ocupação

“Sr. Jourdain. Você quer dizer que quando digo ‘Nicole, pegue minhas sandálias’ ou ‘Me dê minha touca de
dormir’ isto é prosa? Filósofo. Certamente, senhor. Sr. Jourdain. Bem, meu Deus! Venho fazendo prosa há
quarenta anos e nunca soube disto...”

— MOLIERE (1670)

Objetivos de Aprendizagem
Após a leitura deste capítulo, você será capaz de:

1. Identificar e avaliar as maneiras de conhecer a ocupação.
2. Organizar as diferentes maneiras de definir e classificar a ocupação.
3. Descrever a relação entre ocupação e contexto.

CONHECER E APRENDER SOBRE OCUPAÇÃO
Ler  um  artigo,  lavar  as  mãos,  arremessar  um  disco,  caminhar  por  um  mercado  colorido  em  um  país  estranho,
contar uma história (em poesia ou prosa) – são todas ocupações que as pessoas realizam sem sequer pensar nelas
como  ocupações.  Muitas  ocupações  são  comuns  e  se  tornam  parte  do  contexto  da  vida  diária.  Tais  ocupações
geralmente não são valorizadas e na maior parte das vezes são habituais (Aarts & Dijksterhuis, 2000; Bargh &
Chartrand, 1999; Wood, Quinn & Kashy, 2002). Entre a variedade de atividades que as pessoas realizam todos
os dias, elas praticam ocupação por toda a vida, talvez sem sequer saber disto.
As ocupações são comuns, mas elas também podem ser especiais, quando representam uma nova realização,
como dirigir um carro, ou quando elas fazem parte de celebrações e ritos de passagem. Preparar e receber para o
jantar  do  dia  de  Ação  de  Graças  pela  primeira  vez  e  cozinhar  as  tortas  para  as  férias  anuais  da  família  pela
vigésima  vez  constituem  exemplos  de  ocupações  especiais.  As  ocupações  tendem  a  ser  especiais  quando  elas
acontecem de modo infrequente e carregam significados simbólicos, como representar a chegada à fase adulta ou
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o  amor  de  alguém  pela  família.  As  ocupações  também  são  especiais  quando  elas  fazem  parte  de  uma  rotina
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preciosa, como ler uma história, cantar uma canção de ninar e arrumar as cobertas ao redor do corpo de um filho
na hora de dormir. Porém, mesmo as ocupações especiais, embora marcantes pela tradição, podem mudar com o
passar  do  tempo.  Hocking,  Wright­St.  Clair  e  Bunrayong  (2002)  ilustraram  a  complexidade  das  ocupações
tradicionais em seu estudo sobre a preparação dos alimentos em feriados por mulheres idosas na Tailândia e na
Nova  Zelândia.  O  estudo  identificou  muitas  semelhanças  entre  os  grupos  (como  as  atividades  que  os  autores
denominaram “receita  de  trabalho”),  mas  as  mulheres  tailandesas  valorizavam  a  manutenção  de  uma  tradição
invariável  quanto  ao  que  preparavam  e  como  o  faziam,  enquanto  as  mulheres  neozeolandesas  mudavam  os
alimentos que preparavam com o passar do tempo e esperavam que tais mudanças continuassem. Apesar disso, a
execução  de  ocupações  centradas  na  preparação  de  alimentos  nos  feriados  era  uma  tradição  para  ambos  os
grupos.
Ser  humano  é  ser  ocupacional.  A  ocupação  é  um  imperativo  biológico,  evidente  na  história  da  evolução  da
espécie  humana,  nos  comportamentos  atuais  de  nossos  parentes  primatas  e  nas  necessidades  de  sobrevivência
que devem ser satisfeitas por meio da ocupação (Clark, 1997; Krishnagiri, 2000; Wilcock, 1998; Wood, 1998).
Fromm  (conforme  citado  por  Reilly,  1962)  afirmou  que  as  pessoas  têm  a  “necessidade  fisiologicamente
condicionada”  de  trabalhar  como  um  ato  de  autopreservação  (p.  4).  Os  seres  humanos  também  possuem
necessidades ocupacionais que vão além da sobrevivência. Abordando um tipo de ocupação, Dissanayake (1992,
1995) argumentou que fazer arte, ou, como ela o descreveu, “tornar especial”, é uma necessidade biológica da
existência  humana.  De  acordo  com  Molineux  (2004),  os  terapeutas  ocupacionais  compreendem  atualmente  os
seres humanos, suas funções e suas necessidades terapêuticas de uma maneira ocupacional, na qual a ocupação é
a própria vida [ênfase acrescentada]. Townsend (1997) descreveu a ocupação como o “processo ativo de viver:
desde o início até o final da vida, nossas ocupações são todos os processos ativos de cuidar de nós mesmos e dos
outros, e apreciar a vida e ser produtivo do ponto de vista social e econômico durante toda a vida e em diferentes
contextos” (p. 19).

A NECESSIDADE DE COMPREENDER A OCUPAÇÃO
Os  profissionais  da  terapia  ocupacional  precisam  basear  seu  trabalho  na  plena  compreensão  da  ocupação  e  de
seu papel na saúde. Compreender a ocupação é mais que obter uma definição fácil (o que por si só é um grande
desafio). Para conhecer o que é ocupação é necessário examinar o que os seres humanos fazem com seu tempo,
como tais atividades são organizadas, quais são seus objetivos e o que elas significam para os indivíduos e para a
sociedade.
A  experiência  pessoal  de  realizar  a  ocupação,  quer  atendida  conscientemente  ou  não,  fornece  uma
compreensão fundamental da ocupação – o que é, como acontece, o que significa, o que há de bom sobre isto e o
que não há. Esta maneira de conhecer é básica e extraordinariamente rica.

Introjetar para Conhecer a Ocupação
Se você me perguntasse sobre jardinagem quando eu era jovem, eu teria descrito o trabalho árduo de limpar o
jardim da família nos dias quentes de verão, enfatizando que a jardinagem era uma tarefa doméstica. No jardim
de  meus  pais,  aprendi  muita  coisa  sobre  como  cuidar  do  jardim,  tal  como  as  variedades  de  flores  e  legumes,
necessidade de luz solar e de chuva, identificação das sementes e como segurar uma erva daninha para arrancá­la
com todas as suas raízes. Este é o conhecimento das regras e técnicas, de como fazer jardinagem. Agora, muitos
anos depois, sei cuidar de um jardim de uma maneira bem diferente. Capinar e cuidar do jardim é um dos meus
prazeres.  Compreendo  os  desafios  de  aprender  a  jardinagem  em  novos  locais,  a  paciência  necessária  para
descobrir  o  que  crescerá  ali  e  o  momento  certo  do  ano  para  plantar.  Entre  a  minha  juventude  e  o  presente,  a
jardinagem  assumiu  diferentes  forma  (não  é  mais  uma  tarefa  doméstica  designada  por  meus  pais,  mas,
atualmente, consiste em criar e manter uma série de pequenos canteiros com ervas, arbustos, flores e legumes
selecionados por minha própria iniciativa ou por meu marido), função (antes eu cuidava do jardim para evitar
desagradar  meus  pais  e  agora  cuido  do  meu  jardim  para  atender  minhas  próprias  necessidades  de  prazeres
estéticos e de “fazer”) e significado (deixou de ser parte da série de desagradáveis tarefas domésticas para tornar­
se  uma  fonte  de  relaxamento,  reflexão,  tempo  compartilhado  e  trabalho  duro  gratificante).  Estes  elementos  –
forma,  função  e  significado  da  ocupação  –  são  as  áreas  básicas  de  foco  para  a  ciência  da  ocupação  (Larson,
Wood & Clark, 2003).
Para  ser  útil  aos  profissionais  da  terapia  ocupacional,  o  conhecimento  da  ocupação  baseada  na  experiência
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pessoal demanda exame e reflexão. O que fazemos, como fazemos, quando e onde acontece, e o que significa?
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Quem está envolvido direta e indiretamente? Quais capacidades isto exige de nós? Qual é o custo? É desafiador
ou  fácil?  Como  esta  ocupação  se  alterou  com  o  passar  do  tempo?  Como  seria  se  não  mais  existisse  esta
ocupação?  Meu  exemplo  de  jardinagem  ilustra  como  a  ocupação  é  uma  troca  entre  ambiente  ou  contexto  de
outras pessoas, plantas, terra e tempo. Isso inclui a natureza temporal da ocupação – as variações sazonais, mas
também mudanças pelo passar do tempo e, talvez, alguma noção da ocupação para preenchimento do tempo. O
fato  de  eu  me  considerar  uma  jardineira  exemplifica  como  a  ocupação  tornou­se  parte  de  minha  identidade  e
sugere que poderia ser difícil para mim abandonar a jardinagem.
No  entanto,  sendo  básica,  a  compreensão  derivada  da  experiência  pessoal  é  insuficiente  como  base  para  a
prática.  Confiar  apenas  nesta  fonte  de  conhecimento  traz  o  risco  de  se  esperar  que  todos  experimentem  a
ocupação  da  mesma  maneira  que  o  terapeuta.  Desse  modo,  ao  mesmo  tempo  que  os  profissionais  da  terapia
ocupacional  lucram  por  estar  em  harmonia  com  suas  próprias  ocupações,  eles  também  devem  observar  as
ocupações ao seu redor e compreendê­las por meio de estudo e pesquisa.

Observar para Conhecer a Ocupação
A  observação  do  mundo  através  da  lente  ocupacional  é  outra  rica  fonte  de  conhecimento  ocupacional.
Especialistas em ocupação podem treinar novas maneiras de enxergar um mundo rico em ocupações: a maneira
pela  qual  uma  recepcionista  de  restaurante  gerencia  a  multidão  quando  a  espera  por  um  assento  é  longa,  a
economia de movimentos de um operário da construção civil que realiza uma tarefa repetitiva, as atividades dos
músicos  no  fosso  da  orquestra  quando  eles  não  estão  tocando.  As  pessoas  gostam  de  falar  sobre  o  que  elas
fazem,  de  modo  que  o  estudante  da  ocupação  pode  aprender  muito  ao  pedir  informações  sobre  o  trabalho  e  o
lazer  das  pessoas.  Por  serem  observadoras  e  fazerem  perguntas,  as  pessoas  aumentam  seus  repertórios  de
conhecimento ocupacional muito além dos limites dos interesses, práticas e capacidades pessoais (Figura 2.1).

Fig. 2.1 Quais ocupações estão representadas nesta fotografia?
A  observação  das  ocupações  dos  outros  enriquece  o  conhecimento  do  profissional  de  terapia  ocupacional
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sobre a gama de possibilidades ocupacionais e de respostas humanas às oportunidades ocupacionais. Entretanto,
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embora esse tipo de conhecimento vá além dos limites da experiência pessoal, ele ainda é limitado pelo mundo
que cada pessoa é capaz de acessar e carece da profundidade do conhecimento que é desenvolvido por meio da
pesquisa e da educação.

Buscar a Pesquisa e o Estudo para Compreender a Ocupação
O  conhecimento  da  ocupação  que  advém  da  experiência  e  da  observação  pessoal  deve  ser  aumentado  com  a
compreensão da ocupação coletada pela pesquisa em terapia ocupacional e pela ciência ocupacional, bem como
de outras disciplinas. Hocking (2000) desenvolveu uma estrutura do conhecimento necessária para a pesquisa em
ocupação,  organizada  nas  categorias  dos  “elementos  essenciais  da  ocupação  ...  processos  ocupacionais  ...[e  a]
relação da ocupação com outros fenômenos” (p. 59). Esta pesquisa está sendo feita dentro da terapia ocupacional
e  da  ciência  ocupacional,  mas  também  existe  uma  abundância  de  informações  a  ser  descoberta  no  escopo  de
outras disciplinas. Por exemplo, na antropologia, Orr estudou o trabalho de reparadores de copiadoras (1996), e
Downey  (1998)  estudou  engenheiros  de  computador  e  o  que  eles  faziam.  Os  pesquisadores  de  consumo
estudaram as compras de Natal (Sherry & McGrath, 1989), os motociclistas (Schouten & McAlexander, 1995) e
muitas  outras  ocupações  de  consumo.  Psicólogos  estudaram  hábitos  (Aarts  &  Dijksterhuis,  2000;  Bargh  &
Chartrand, 1999; Wood, Quinn & Kashy, 2002) e uma gama de outros temas relacionados com a maneira com
que  as  pessoas  se  engajam  na  ocupação.  A  compreensão  da  ocupação  irá  se  beneficiar  de  maior  número  de
pesquisas dentro da terapia ocupacional e da ciência ocupacional, bem como ao acessar trabalhos relevantes de
estudiosos em outras áreas.

DEFININDO OCUPAÇÃO
Durante muitos anos, a palavra ocupação não fez parte da linguagem diária dos terapeutas ocupacionais nem foi
proeminente na literatura da profissão (Hinojosa, Kramer, Royeen & Luebben, 2003). De acordo com Kielhofner
e  Burke  (1977),  o  paradigma  de  fundação  da  terapia  ocupacional  era  a  ocupação,  e  a  perspectiva  ocupacional
focalizava­se  nas  pessoas  e  em  sua  saúde  “no  contexto  da  cultura  da  vida  diária  e  suas  atividades”  (p.  688).
Porém,  iniciada  nos  anos  1930,  a  terapia  ocupacional  esforçou­se  para  se  tornar  mais  semelhante  à  profissão
médica, adotando um paradigma de reducionismo que perdurou até os anos 1970 com a ocupação, tanto como
conceito quanto como significado e/ou resultado de tratamento, essencialmente ausente. Com o passar do tempo,
algumas  lideranças  profissionais  começaram  a  exigir  que  a  terapia  ocupacional  voltasse  às  suas  raízes  na
ocupação (Schwartz, 2003) e, desde os anos 1970, tem crescido a aceitação da ocupação como o fundamento da
terapia  ocupacional  (Kielhofner,  1997).  Com  este  crescimento,  surgiram  os  debates  profissionais  a  respeito  da
definição e da natureza da ocupação, que se mantêm até nossos dias.
Definir ocupação em terapia ocupacional é desafiador porque a palavra faz parte da linguagem comum com
significados que a profissão não consegue controlar. O termo ocupação e conceitos correlatos, como atividade,
tarefa,  emprego  e  trabalho,  são  utilizados  de  muitas  maneiras  dentro  da  terapia  ocupacional.  Parece  bastante
lógico pensar em um trabalho, ou limpar a casa, ou andar de bicicleta como uma ocupação, mas o conceito é
mais impreciso quando pensamos sobre os componentes menores destas categorias maiores. Espanar a poeira é
uma ocupação ou é parte da ocupação de limpar a casa? Andar de bicicleta é uma habilidade que faz parte de
alguma ocupação maior, como o condicionamento físico ou ir de casa para a escola, ou é uma ocupação por si
só? Isto se modifica com o passar do tempo?
Os fundadores da terapia ocupacional utilizaram a palavra ocupação para descrever uma maneira de utilizar
“adequadamente” o tempo que incluía o trabalho e as atividades semelhantes ao trabalho, além das atividades de
lazer (Meyer, 1922/1977). Breines (1995) apontou que os fundadores escolheram um termo que era ambíguo e
abrangente  para  denominar  a  profissão,  e  mostrou  que  a  escolha  não  foi  acidental.  O  termo  era  aberto  às
interpretações  holísticas  que  sustentavam  as  diversas  áreas  de  prática  da  época,  englobando  os  elementos  da
ocupação  definidos  por  Breines  (1995)  como  “mente,  corpo,  tempo,  espaço  e  outros”  (p.  459).  O  termo
ocupação gerou exame continuado, controvérsia e redefinição à medida que a profissão amadureceu.
Nelson (1988, 1997) introduziu os termos forma ocupacional, “a estrutura preexistente que gera, orienta ou
estrutura o subsequente desempenho humano”, e desempenho ocupacional, “as ações humanas empreendidas em
resposta  a  uma  forma  ocupacional”  (1988,  p.  633).  Esta  distinção  separa  indivíduos  e  a  execução  real  das
ocupações da noção geral de uma ocupação e o que ela requer de qualquer pessoa que a realize.
Yerxa et al. (1989) definiram a ocupação como “partes específicas de atividade dentro do fluxo contínuo do
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comportamento humano que são denominadas no léxico da cultura... Estas atividades diárias são autoiniciadas,
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direcionadas para a meta (propositais) e socialmente aprovadas” (p. 5). Yerxa (1993) elaborou ainda mais esta
definição  para  incorporar  uma  perspectiva  ambiental  e  uma  maior  liberalidade  de  características.  “Ocupações
são unidades de atividade que são classificadas e denominadas pela cultura de acordo com as finalidades a que
elas  servem  na  capacitação  das  pessoas  para  satisfazer  com  sucesso  os  desafios  ambientais...  Algumas
características essenciais da ocupação são que ela é autoiniciada, direcionada para a meta (mesmo que a meta
seja uma diversão ou prazer), experimental bem como comportamental, socialmente valorizada ou reconhecida,
constituída  de  repertórios  ou  habilidades  de  adaptação,  organizada,  essencial  para  a  qualidade  da  vida
experimentada, e possui a capacidade de influenciar a saúde” (p. 5).
De acordo com a Canadian Association of Occupational Therapists (conforme citado em Law, Steinwender &
Leclair,  1998),  a  ocupação  representa  “grupos  de  atividades  e  tarefas  da  vida  cotidiana,  a  saber,  organizada  e
com  valor  e  significado  conferidos  pelos  indivíduos  e  por  uma  cultura.  A  ocupação  é  tudo  o  que  as  pessoas
fazem para se ocupar, incluindo cuidar delas mesmas (autocuidado), apreciar a vida (lazer) e contribuir para a
estrutura  social  e  econômica  de  suas  comunidades  (produtividade)”  (p.  83).  Mais  recentemente,  os  cientistas
ocupacionais Larson, Wood e Clark (2003) forneceram uma definição simples de ocupação como “as atividades
que compõem nossa experiência de vida e podem ser nomeadas na cultura” (p. 16).
As definições anteriores de ocupação a partir da literatura da terapia ocupacional ajudam a explicar por que a
ocupação  é  o  foco  da  profissão  (principalmente  no  contexto  da  terapia),  embora  elas  sejam  suficientemente
abertas  para  permitir  a  pesquisa  continuada  sobre  a  natureza  da  ocupação.  Apesar,  e  talvez  por  causa,  da
ubiquidade da ocupação na vida humana, ainda existe muito a aprender sobre a natureza da ocupação por meio
da  pesquisa  sistemática  utilizando  diferentes  metodologias  (Hocking,  2000;  Molke,  Laliberte­Rudman  &
Polatajko,  2004).  Esta  pesquisa  deve  incluir  o  exame  das  premissas  que  estão  inclusas  nas  definições  de
ocupação aceitas.

CONTEXTO E OCUPAÇÃO
A  fotografia  de  dois  meninos  brincando  com  o  esguicho  do  jardim  evoca  uma  sensação  de  um  dia  quente  de
verão  e  a  experiência  da  água  gelada  saindo  do  esguicho,  batendo  e  tocando  a  face  e  a  língua  dos  meninos
(Figura  2.2).  Brincar  com  o  esguicho  tem  um  contexto  de  elementos  temporais  (o  verão,  a  brincadeira  das
crianças e as lembranças do observador de ter feito isto no passado), um ambiente físico (grama, tempo quente,
mangueira de água, esguicho, água fria) e um ambiente social (um par de crianças e a probabilidade de um pai
indulgente). Brincar com o esguicho não pode ser descrito ou compreendido – ou mesmo ter acontecido – sem o
seu contexto. É difícil imaginar que qualquer um dos meninos gostaria tanto da atividade se brincasse sozinho; o
contexto social é parte da experiência. Um esguicho poderia ser montado para brincadeira na calçada, mas não
na sala de estar. Seria pouco provável que os pais permitissem que seus filhos ficassem encharcados no tempo
frio. Os contextos das pessoas que veem a fotografia também são importantes; muitas irão relacionar a fotografia
com suas próprias experiências anteriores, porém alguém que vivesse em um lugar onde os esguichos de chão
nunca  são  utilizados  poderia  achar  a  fotografia  sem  significado  e/ou  confusa.  Este  exemplo  ilustra  como  a
ocupação e o contexto se entrelaçam um com o outro.
Em  geral,  aceita­se  que  o  significado  específico  de  uma  ocupação  é  totalmente  conhecido  apenas  para  o
indivíduo  engajado  nela  (Larson,  Wood  &  Clark,  2003;  Pierce,  2001;  Weinblatt,  Ziv  &  Avrech­Bar,  2000).
Porém, também é bem aceito que as ocupações acontecem no contexto (por vezes referido como o ambiente) (p.
ex., Baum & Christiansen, 2005; Kielhofner, 2002; Law, Cooper et al., 1996; Schkade & Schultz, 2003; Yerxa et
al., 1989) e dessa maneira possuem dimensões que consideram outros seres humanos (tanto de maneira social
quanto  cultural),  temporalidade,  o  ambiente  físico  e  mesmo  os  ambientes  virtuais  (American  Occupational
Therapy Association, 2002).
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Fig. 2.2 Dois meninos em um dia quente de verão.

A descrição da ocupação que ocorre no ou com o ambiente ou contexto implica uma separação da pessoa e do
contexto que é problemática. Na realidade, pessoa, ocupação e contexto são inseparáveis. O contexto é mutável,
porém  sempre  presente.  Cutchin  (2004)  fez  uma  crítica  às  teorias  da  terapia  ocupacional  de  adaptação  ao
ambiente que separam a pessoa do ambiente e propôs que a visão da experiência humana de John Dewey como
“sempre  situada  e  contextualizada”  (p.  305)  seria  uma  perspectiva  mais  útil.  De  acordo  com  Cutchin,  “as
situações sempre nos incluem, e nós a elas” (p. 305). A ocupação ocorre no nível da situação e, dessa maneira,
inclui o indivíduo e o contexto (Dickie, Cutchin & Humphry, 2006). As intervenções da terapia ocupacional não
podem  estar  livres  do  contexto.  Mesmo  quando  um  profissional  da  terapia  ocupacional  está  trabalhando  com
indivíduos, estão presentes os contextos de outras pessoas, a cultura do terapeuta e a do cliente, o espaço físico e
as experiências pregressas.

A OCUPAÇÃO SEMPRE É BOA?
Na terapia ocupacional, a ocupação está associada à saúde e ao bem­estar, tanto como um meio quanto como um
fim. Contudo, a ocupação também pode ser insalubre, perigosa, de má adaptação ou destrutiva para si ou para os
outros  e  pode  contribuir  para  problemas  sociais  e  para  a  degradação  ambiental.  Por  exemplo,  o  ato
aparentemente benigno de utilizar um carro para ir trabalhar, enviar uma mensagem e procurar outras ocupações
pode limitar a atividade física da pessoa e gerar risco de lesão para si própria e para os outros. Além disso, a
preferência dos norte­americanos pelo automóvel contribui para o caos urbano, para o declínio das relações de
vizinhança, para a poluição do ar e o uso excessivo de recursos naturais não renováveis.
As  escolhas  ocupacionais  pessoais  e  da  sociedade  têm  consequências  boas  e  más.  Para  chegarmos  a
compreender a ocupação, precisamos reconhecer a amplitude das escolhas ocupacionais e seus efeitos sobre os
indivíduos e o próprio mundo.

ORGANIZANDO A OCUPAÇÃO
A categorização das ocupações (p. ex., em áreas de atividades da vida diária, trabalho e lazer) é frequentemente
problemática. As tentativas de definir trabalho e lazer demonstram que as distinções entre os dois nem sempre
são nítidas (Csikszentmihalyi & LeFevre, 1989; Primeau, 1996). Trabalho pode ser definido como alguma coisa
que as pessoas têm de fazer, uma necessidade desagradável da vida, mas muitas pessoas gostam de seu trabalho e
o  descrevem  como  “divertido”.  Na  realidade,  Hochschild  (1997)  descobriu  que  empregados  no  ambiente  de
trabalho por ela estudado frequentemente preferiam as qualidades do trabalho semelhantes às de casa a estar em
suas  casas  reais  e,  por  conseguinte,  gastavam  mais  tempo  no  trabalho  que  o  necessário.  O  conceito  de  lazer
também é problemático. O lazer poderia envolver atividades que são experimentadas como trabalho árduo, como
ajudar um amigo a construir um deque em um fim de semana.
Problemas similares podem ser descritos em qualquer esquema de categorização. A fotografia das mulheres ao
redor da mesa ilustra a dificuldade de aplicar categorias a uma situação real (Figura 2.3). Algumas pessoas estão
se alimentando, de modo que elas estão engajadas em uma atividade da vida diária. Outras estão conversando ou
ouvindo,  então  a  sua  ocupação  poderia  ser  a  participação  social.  As  mesas  colocadas  juntas  e  o  caderno  e  a
caneta sugerem que a refeição poderia ser uma reunião de algum tipo, de modo que, talvez, esta refeição seja de
trabalho. Observe as posições das mãos das mulheres que estão se alimentando; o estilo europeu de comer com o
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garfo na mão esquerda e a faca na direita utilizado por algumas (mas nem todas) poderia ser um indício de que
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esta reunião envolve viagem internacional. Isto a torna uma ocupação de lazer? Nenhuma designação simples do
que está acontecendo na figura será suficiente.
Outro  problema  com  as  categorias  é  que  um  indivíduo  pode  experimentar  uma  ocupação  como  algo
totalmente  diferente  do  que  ela  parece  ser  para  os  outros.  Weinblatt,  Ziv  &  Avrech­Bar  (2000)  descreveram
como uma mulher idosa utilizava o supermercado para finalidades bastante diferentes da compra de gêneros (o
que  seria  provavelmente  chamado  de  uma  atividade  instrumental  da  vida  diária).  Em  vez  disso,  esta  mulher
passava seu tempo na loja como uma fonte de novos conhecimentos e de informações interessantes sobre a vida
moderna. Como poderíamos descrever sua ocupação neste caso?
A construção da ocupação poderia muito bem desafiar os esforços para reduzi­la a uma simples definição ou a
um conjunto  de  categorias.  Da  mesma  maneira  que  a  fotografia  das  mulheres  fazendo  uma  refeição  ilustra  as
armadilhas de tentar adaptar as ocupações a uma única categoria, podem ser encontrados exemplos de ocupação
que  desafiam  outras  condutas  e  definições  teóricas.  Apesar  disso,  a  riqueza  e  a  complexidade  da  ocupação
continuarão  a  desafiar  os  terapeutas  ocupacionais  a  conhecer  e  valorizá­la  por  meio  da  experiência  pessoal,
observações e trabalhos escolares. A prática da terapia ocupacional depende deste conhecimento.

Fig. 2.3 Uma ocupação social complexa.

QUESTÕES INSTIGANTES
1. Por que um sistema nacional de cuidado de saúde (embora este sistema seja organizado) deve se preocupar
com  ocupação  e  serviços  de  suporte  de  terapia  ocupacional?  Construa  um  argumento  que  se  focalize  na
ocupação.
2. É  de  primordial  importância  para  a  profissão  de  terapeuta  ocupacional  utilizar  uma  definição  simples  de
ocupação? Defenda sua resposta.

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Ocupação e Desenvolvimento:
Uma Perspectiva Contextual
RUTH HUMPHRY

Sumário
Introdução e Definições
O Que é Em Desenvolvimento e O Que é Desenvolvimento?
Duas Perspectivas Importadas da Psicologia do Desenvolvimento
Uma Terceira Perspectiva sobre o Processo do Desenvolvimento
Recursos da Sociedade que Estimulam o Desenvolvimento das Ocupações na Infância
Influências Interpessoais sobre o Engajamento Ocupacional
A Dinâmica do Fazer
Conclusão

Objetivos de Aprendizagem
Após a leitura deste capítulo, você será capaz de:
1. Explorar  de  maneira  reflexiva  as  origens  e  a  natureza  de  seu  próprio  conhecimento  sobre  as
crianças, o desenvolvimento e o que as crianças de determinadas idades gostam de fazer.
2. Explicar  a  natureza  social  das  atividades  cotidianas  das  crianças  e  a  cultura  produzida  para
crianças.
3. Engajar­se  na  análise  das  interações  interpessoais  das  crianças  durante  uma  ocupação
compartilhada  e  descrever  as  forças  que  influenciam  a  aquisição  e  a  transformação  em
ocupações.
4. Descrever como as experiências de significado e propósito das crianças modelam o engajamento
ocupacional e servem como mecanismos de mudança.
5. Reconhecer  as  transações  complexas  das  crianças  com  seus  ambientes  como  sistemas
funcionais.

INTRODUÇÃO E DEFINIÇÕES
Como você aprendeu, o construto da ocupação tem desfiado a definição e a categorização (veja o Capítulo 2).
Isto também se aplica às ocupações das crianças. A ideia geral de que as ocupações são as atividades cotidianas
e os eventos especiais determinados pela cultura apreende uma definição centrada no adulto (Spitzer, 2003). O
que  dizer  sobre  as  atividades  idiossincrásicas  que  as  crianças  pensam  ser  maneiras  interessantes  de  gastar  seu
tempo,  como  caminhar  sobre  uma  gangorra  (Figura  3.1)  ou  pular  na  cama  (Figura  3.2).  Estas  “ocupações
inventadas”  poderiam  ser  aceitas  em  situações  especiais,  como  na  casa  da  avó,  mas  não  são  tipicamente
incentivadas.  Aqui,  as  ocupações  são  definidas  como  padrões  coerentes  de  ação  que  surgem  por  meio  das
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transações  entre  a  criança  e  o  ambiente  e  as  coisas  que  a  criança  quer  fazer  ou  se  espera  que  faça  (Humphry,
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O  ambiente  é  composto  de  pessoas,  materiais,  tempo  e  espaço  que  têm  significado  em
relação  às  ocupações  potenciais  das  crianças.  Dessa  maneira,  o  desempenho  ocupacional  das  crianças  emerge
tanto de suas capacidades de agir como de suas interpretações destes significados. Os motivos para se engajar
em ocupações pode ser o interesse da criança, bem como alcançar um resultado. Ou as crianças podem engajar­
se em ocupações porque outras pessoas criam situações que tornam significativo o engajamento. A definição de
ocupação  é  ampla  para  incluir  os  comportamentos  de  exploração  e  brincadeira  das  crianças  que não possuem
outros nomes. No entanto, estas ocupações específicas para a criança e para a situação não refletem as práticas
culturais  mais  amplas,  uma  maneira  rotineira  da  comunidade  de  fazer  as  coisas  e  a  apreciação  comum  da
importância de uma ocupação (Gallimore & Lopez, 2001; Miller & Goodnow, 1995; Rogoff, 2003). As práticas
culturais são observadas em ocupações mais convencionais, como brincar de tomar chá com os amigos (Figura
3.3). Este capítulo enfoca o desenvolvimento das ocupações convencionais, aquelas esperadas das crianças por
suas comunidades, mas eu incentivo você a considerar o papel que as ocupações não convencionais têm no bem­
estar das crianças.

Fig. 3.1 Caminhar sobre uma gangorra é uma “ocupação inventada” pela criança e que não é habitualmente
incentivada.

O QUE É EM DESENVOLVIMENTO E O QUE É DESENVOLVIMENTO?
Ao se engajarem em ocupações, as crianças satisfazem suas necessidades e interesses atuais, enquanto também
aprendem com seus ambientes, habilidades de controle e formas de comportamento de que irão precisar quando
forem mais velhas. Quando as crianças estão em risco de não se engajar nas ocupações valorizadas e esperadas
ou  não  realizá­las  para  sua  própria  satisfação  ou  para  a  satisfação  de  outros,  os  terapeutas  ocupacionais
trabalham com as famílias, professores e outros membros da equipe para melhorar o desempenho das crianças
nas  ocupações  convencionais.  Primordial  para  a  prática  bem­sucedida  com  crianças  é  a  maneira  pela  qual  os
terapeutas  ocupacionais  conceitualizam  o  desenvolvimento  e  o  processo  de  mudança.  Estas  ideias  são
organizadas  em  diferentes  modelos  de  prática  que  levam  a  formas  alternativas  de  atendimento.  Este  capítulo
explora as diferentes maneiras de pensar sobre o desenvolvimento, discutindo suposições sobre o que determina
as  coisas  que  as  crianças  fazem  e  as  forças  que  transformam  suas  ocupações.  Sugiro  que  uma  maneira  de
estruturar as questões consiste em deslocar o foco do desenvolvimento das capacidades de desempenho de um
indivíduo para o desenvolvimento das ocupações em um contexto social.
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Fig. 3.2 Pular na cama é outra “ocupação inventada” que poderia ser tolerada por um parente e não permitida
pelos pais.

Antes  de  debater  o  processo  de  mudança,  é  importante  pensar  sobre  o  que  significa  desenvolver  uma
ocupação. Para explorar o que isto engloba, considere a Figura 3.4, na qual uma avó, sua filha adulta e sua neta
em idade pré­escolar estão construindo castelos de areia. A avó aprendeu a prática de construir castelos de areia
como uma maneira de estar na praia com seus pais, e ela compartilhou isto com seus filhos. Assim, embora isto
seja  novo  para  esta  pré­escolar,  a  ocupação  de  fazer  castelos  de  areia  na  praia  possui  raízes  que  ultrapassam
gerações. O desenvolvimento de uma ocupação é construído sobre a estrutura das experiências de outras pessoas.

Fig. 3.3 Brincar de chá com os amigos é uma ocupação convencional para as crianças.
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Fig. 3.4 Construir castelos de areia é uma ocupação intergerações para esta avó, sua filha e sua neta.

Embora a fotografia capture um momento no tempo, o leitor pode imaginar que construir um castelo de areia
com uma criança se mostra como um projeto grandioso com um resultado incerto. No entanto, a avó e a filha
adulta compartilham uma ideia não verbalizada das características essenciais que definem um castelo de areia, o
conhecimento do procedimento e uma sensação de por que é significativa a construção de um castelo. Em graus
variados, estas ideias são compartilhadas por outras pessoas que construíram castelos de areia. Então, as práticas
culturais  organizam  e  coordenam  as  ações  das  mulheres,  o  uso  de  ferramentas  e  como  elas  orientam  a
participação  da  pré­escolar  na  construção  de  castelos  de  areia.  A  pré­escolar,  sem  ensinamento  explícito  por
parte  de  sua  mãe  ou  avó,  começa  a  compartilhar  suas  ideias  sobre  castelos  de  areia,  as  opções  de  ações
oferecidas por baldes e pás de brinquedo e o que é significativo a respeito de construir castelos de areia na praia.
Então,  o  desenvolvimento  de  uma  ocupação  é  parte  de  uma  situação  social  maior  e  do  domínio  das  práticas
culturais.
Por  fim,  o  desenvolvimento  capta  tanto  a  continuidade  como  as  alterações  nas  ocupações  que  acontecem
durante  dois  momentos  distintos.  No  contexto  de  trabalhar  ao  lado  de  dois  outros  construtores  de  castelos  de
areia, a menina modifica seu desempenho para organizar o desenvolvimento de sua compreensão da ocupação.
Dentro  do  intervalo  de  tempo  de  um  dia  na  praia,  o  conhecimento  e  o  desempenho  da  pré­escolar  sofrem
transformações  que  podem  ser  descritas  como  aprendizado.  Durante  meses  e  anos,  ela  construirá  castelos  de
areia com outras pessoas e sozinha, e estas experiências cumulativas informarão, mais tarde, à sua compreensão
sobre construção de castelos de areia e às suas experiências o que significa a construção deles, e ainda mais tarde
ela  irá  criar  estruturas  inovadoras  e  de  idealização  mais  complexa.  O  desenvolvimento  da  ocupação  reflete  as
mudanças  de  conhecimento,  significado  e  desempenho  durante  esses  intervalos  de  tempo  mais  prolongados,
durante os quais a menina passa a se identificar como uma experiente construtora de castelos de areia com um
estilo próprio. Embora diferente nos intervalos de tempo, o aprendizado está associado a mudanças provocadas
pelo desenvolvimento, com muitas dessas mudanças tendo as mesmas origens, de modo que o aprendizado pode
ser compreendido como um microdesenvolvimento (Granott & Parziale, 2002; Siegler, 2000).
Os  mecanismos  de  desenvolvimento  que  precisam  ser  compreendidos  são  as  forças  que  inicialmente
conduzem  a  realizar  uma  ocupação  e  como  o  microdesenvolvimento  transforma  a  maneira  pela  qual  ela  é
realizada e experimentada. Por séculos, gerações de crianças aprendem a realizar as ocupações valorizadas por
suas  comunidades.  O  leitor  poderia  questionar  se  este  conhecimento  já  não  está  disponível;  afinal,  pais,
professores, irmãos mais velhos e técnicos ajudam as crianças a aprender a fazer suas ocupações o tempo todo.
Contudo, nem todas as crianças têm pais ou professores que possam ajudá­las a dominar as ocupações. Também
podem existir circunstâncias especiais que impeçam que as crianças desenvolvam as ocupações necessárias para
a participação. Então, o que um terapeuta ocupacional deve saber?
Nosso  conhecimento  sobre  crianças  e  o  que  elas  fazem  em  determinadas  idades  origina­se  de  diferentes
fontes. Em primeiro lugar, existem ideias “do senso comum” que são criadas por adultos que cuidam e trabalham
com crianças. As pessoas fazem observações e conversam entre elas sobre comportamentos relacionados à idade
das  crianças  e  suas  ocupações  em  transformação.  Em  essência,  as  pessoas  constroem  um  conjunto  de  ideias
sobre as ocupações na infância. Como todos na comunidade veem as crianças e suas ocupações de uma maneira
similar, o conhecimento “do senso comum” é aceito como fato. Outra fonte de conhecimento sobre crianças e
suas  ocupações  é  o  testemunho  relatado  de  pessoas  experientes  consideradas  detentoras  de  conhecimento  que
gera  autoridade.  Os  indivíduos  que  possuem  anos  de  experiência  com  muitas  crianças  podem  ser  vistos  como
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detentores  de  conhecimento  digno  de  confiança.  Na  terapia  ocupacional,  os  profissionais  experientes
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frequentemente oferecem relatos de informações para os profissionais principiantes à medida que atuam como
supervisores clínicos ou proferem seminários com base em suas experiências práticas. Contudo, estas formas de
conhecimento podem ser aplicadas para além das situações que as originaram?
O conhecimento de “senso comum” e as informações relatadas são socialmente construídos, modelados pelo
modo  como  uma  sociedade  vê  as  crianças  naquele  momento  na  história.  Isto  significa  que  as  ideias  sobre  as
crianças e o que elas fazem mudam com o passar do tempo (Davis, Polatajko & Ruud, 2002). Estes sistemas de
crenças variam entre as comunidades, de modo que as crianças podem engajar­se em ocupações muito distintas
(Larson & Verma, 1999; LeVine et al., 1994). Por exemplo, algumas sociedades acreditam que a brincadeira tem
pouca importância para o futuro das crianças, e que crianças com 6 anos de idade são consideradas responsáveis
o suficiente para criar ou cuidar de um irmão mais jovem (Rogoff, 2003). Nos Estados Unidos, as crianças de 6
anos de idade são vistas como imaturas, de modo que os pais incentivam suas brincadeiras como uma maneira de
aprender habilidades. Ideias diversas como estas são tão prontamente aceitas localmente que elas não sustentam
a crítica científica. Em uma era em que se espera que os profissionais ofereçam serviços baseados em evidências,
a terapia ocupacional orientada apenas pelo senso comum ou por informações relatadas se mostra inadequada.
Em  um  esforço  para  se  obter  a  prática  informada,  a  terapia  ocupacional  voltou­se  para  a  literatura  sobre
crianças  produzida  por  pesquisadores  de  outras  disciplinas.  As  teorias  do  desenvolvimento  de  psicólogos  são
consideradas  úteis  para  a  terapia  ocupacional,  e  os  estudantes  são  incentivados  a  aprendê­las  (Edwards  &
Christiansen,  2005;  Law,  Missiuna,  Pollock  &  Stewart,  2005).  No  entanto,  a  profissão  precisa  considerar
diversas questões. Em primeiro lugar, grande parte do trabalho foi realizada na América do Norte e na Europa, o
que limita a generalização para outras culturas. Em segundo lugar, os cientistas que estudam crianças produzem
questões  baseadas  no  interesse  de  suas  disciplinas.  A  psicologia  do  desenvolvimento  tende  a  enfatizar  o
indivíduo,  de  modo  que  as  teorias  são  idealizadas  para  explicar  funções  psicológicas  mutáveis.  Em  terceiro
lugar,  esses  modelos  teóricos  clássicos  estão  obsoletos  e  não  são  considerados  pelos  psicólogos  como  sendo
ciência de ponta (Lerner, 2002).

DUAS PERSPECTIVAS IMPORTADAS DA PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO
Os prestadores de serviço, os pais e os cientistas partem de diferentes visões filosóficas de mundo sobre como as
coisas funcionam, o que, por sua vez, modela a massa de conhecimento que eles empregam para explicar o que
modifica os comportamentos das crianças (Lerner, 2002; Meacham, 2004; Super & Harkness, 2003). Por vezes,
a  mudança  é  explicada  como  um  produto  das  forças  no  ambiente.  Outros  autores  têm  uma  visão  biológica  da
criança,  explicando  o  desenvolvimento  como  o  resultado  de  um  programa  geneticamente  direcionado  para  se
tornar  mais  maduro.  Ambas  as  perspectivas  de  como  o  desenvolvimento  age  aparecem  nas  literaturas  da
psicologia e da terapia ocupacional.
Originalmente  expressa  sob  a  perspectiva  quase  mecânica  de  causa­e­efeito,  a  teoria  do  aprendizado
focalizou­se no poder das recompensas positivas ou negativas na modelagem do comportamento dos animais e
das crianças (Lerner, 2002; Skinner, 1971). Bandura (1978) expandiu a natureza social do aprendizado e como o
comportamento  autodirigido  ocorre  quando  as  crianças  se  empenham  para  atingir  os  resultados  observados.
Royeen  e  Duncan  (1999)  observaram  que  uma  perspectiva  comportamental  não  é,  em  geral,  identificada  na
literatura da terapia ocupacional, mas é frequentemente implícita. Ao escrever sobre a abordagem para aquisição
de habilidade, esses autores sugerem que os profissionais criam suportes ambientais e retroalimentação positivos
para ajudar as crianças a aprender as habilidades ou sub­habilidades das ocupações desejadas. Uma abordagem
baseada no desenvolvimento acrescenta uma compreensão da hierarquia das habilidades imaturas para as mais
maduras e utiliza o incentivo positivo, de modo que a criança pratique o nível de habilidade mais inicial daquele
desempenho ocupacional que ela não é capaz de realizar (Hinojosa & Kramer, 1999). A forma e a frequência da
retroalimentação  sobre  o  desempenho  não  são  ressaltadas;  em  vez  disso,  a  massa  de  conhecimento  enfatiza  a
sequência  de  comportamentos  mutáveis.  Estão  disponíveis  listas  de  marcos  de  desenvolvimento  típicos
associados  à  idade  nos  domínios  de  brincadeira  e  de  autocuidado  e  as  habilidades  motoras  finas,  motoras
grosseiras,  cognitivas  e  sociais  associadas  (p.  ex.,  Case­Smith,  2005).  Basear  os  serviços  no  desenvolvimento
típico, no entanto, despreza a realidade de que as crianças com necessidades especiais podem ter suas próprias
maneiras  de  fazer  as  coisas.  Além  disso,  conceitualizar  o  desenvolvimento  como  um  continuum  e  praticar  a
habilidade mais primitiva que uma criança não consegue realizar poderia ser apropriado para o desenvolvimento,
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mas não para a idade, deixando a criança exposta à estigmatização.
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Em contraste, outros teóricos do desenvolvimento descreveram as forças para a mudança sistemática como o
resultado  de  um  estímulo  inato  ou  de  um  programa  de  autorregulação  da  criança.  O  que  gera  este  estímulo
intrínseco  para  alcançar  o  potencial  de  um  indivíduo  foi  uma  fonte  de  especulação  entre  os  psicólogos.  Os
teóricos  clássicos  em  psicologia  do  desenvolvimento  descrevem  uma  necessidade  intrínseca  de  ajuste
psicossocial, conhecimento ou domínio (Erikson, 1982; Piaget, 1952; White, 1959). Na terapia ocupacional, o
estímulo  para  uma  criança  se  engajar  na  ocupação  é  observado  como  o  meio  através  do  qual  a  criança  traz  o
desenvolvimento  de  suas  próprias  capacidades  para  a  realização  das  ocupações  (Primeau  &  Ferguson,  1999).
Quando  as  crianças  apresentam  dificuldades  de  desempenho  ocupacional,  os  profissionais  são  incentivados  a
trabalhar para uma compatibilização ótima entre a pessoa, a tarefa e o ambiente. Isto pode incluir a remediação
dos  componentes  de  desempenho  subjacentes  com  o  emprego  de  abordagens  do  neurodesenvolvimento.  Em
lugar da ocupação, o foco desloca­se então para o uso de atividades terapêuticas para modificar a organização do
sistema nervoso e desenvolver a capacidade (Law et al., 2005). No entanto, as atividades terapêuticas que são
criadas para as experiências sensoriais ou motoras carecem de significado contextual que se origina do ambiente
natural  da  criança;  dessa  maneira,  elas  são  inventadas  em  vez  de  serem  ocupações  verdadeiras  das  crianças
(Fisher, 1998).
Sem  evidência  de  que  tanto  uma  abordagem  de  habilidades  do  desenvolvimento  como  as  técnicas  de
neurodesenvolvimento  sejam  efetivas  (Mahoney,  Robinson  &  Fewell,  2001),  os  terapeutas  ocupacionais
adotaram  práticas  ecléticas.  Por  exemplo,  Case­Smith  (2000)  descreve  as  atividades  terapêuticas  preparatórias
baseadas  na  abordagem  de  integração  sensorial  e,  em  seguida,  na  prática  motora  controlada  para  construir  as
habilidades  motoras  finas,  utilizando  interações  divertidas  para  reforçar  os  esforços  da  criança  em  ocupações
desafiadoras. Outros autores sugerem que o desenvolvimento das crianças mais jovens pode ser explicado por
experiências  que  de  alguma  maneira  deflagram  o  crescimento  biológico  de  suas  capacidades,  mas  aquele
desenvolvimento das crianças em idade escolar é explicado pelas forças em seus ambientes (Cronin, 2005). Se
este  fosse  o  caso,  então  as  abordagens  do  neurodesenvolvimento  seriam  apropriadas  para  lactentes  e  pré­
escolares, mas não para crianças em idade escolar. Em síntese, a estratégia de adotar as teorias da psicologia do
desenvolvimento  a  respeito  das  crianças  não  produziu  uma  massa  coerente  de  conhecimento  que  trate  do
desenvolvimento das ocupações.

UMA TERCEIRA PERSPECTIVA SOBRE O PROCESSO DO DESENVOLVIMENTO
Lembre­se do exemplo no início do capítulo, no qual uma pré­escolar aprende com sua mãe e sua avó a construir
castelos  de  areia.  Esta  e  outras  ocupações  convencionais  são  socialmente  construídas,  determinadas  pelas
culturas das crianças. Assim, a massa de conhecimento que informa a terapia ocupacional não pode ser apenas
sobre  o  desenvolvimento  das  capacidades  das  crianças.  Nossa  compreensão  precisa  ser  contextual,  olhando  a
pessoa­situação  como  um  sistema  funcional  completo  (Dickie,  Cutchin  &  Humphry,  2006).  A  partir  desta
perspectiva,  a  ocupação  é  a  maneira  pela  qual  uma  pessoa  se  relaciona  com  o  ambiente.  A  pesquisa  sobre  as
ocupações das pessoas e as teorias do desenvolvimento que evoluíram a partir das ideias de psicólogos russos
como Vygotsky e Luria e dos escritos do filósofo pragmatista Dewey (p. ex., Engestrom, Miettinen & Punamaki,
1999; Gallimore & Lopez, 2002; Goncu, 1999; Rogoff, 2003), contribuíram para as ideias apresentadas a seguir.
Perguntei o que constitui um modelo apropriado para orientar a prática com crianças centrada na ocupação e
participei  de  uma  série  de  dois  estudos  observacionais  com  crianças  em  situações  da  creche  para  demonstrar
como elas aprendem a fazer as coisas que elas fazem. Uma maneira diferente de pensar é delineada adiante, com
os  exemplos  obtidos  a  partir  de  minhas  observações  (usando  pseudônimos).  Em  primeiro  lugar,  estudei  bebês
com  desenvolvimento  típico  em  uma  sala  da  creche.  Em  seguida,  observei  pré­escolares  com  necessidades
especiais e seus colegas de classe que mostravam desenvolvimento típico. Observei crianças de ambos os grupos
aprendendo  práticas  culturais  como  “brincar  de  amarelinha”  e  cantar  músicas  com  gestos  ou  movimentos
associados.  Essas  ocupações  transformaram­se  em  rotinas  na  classe  e  uma  maneira  pela  qual  as  crianças  se
conectavam entre si (McNamara & Humphry, no prelo).
Os mecanismos de desenvolvimento identificados neste capítulo são as forças que agem sinergicamente para
promover  o  engajamento  em  uma  ocupação  e  transformam  a  maneira  pela  qual  ela  é  feita  e  experimentada
(Humphry, 2005). Estas mudanças ocorrem em uma escala de tempo de microdesenvolvimento e gradualmente,
durante  meses  e  anos,  as  ocupações  se  desenvolvem.  Para  facilitar  o  rastreamento  destes  conceitos  principais
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pelo leitor, os mecanismos estão listados na Tabela 3.1, organizados em três categorias amplas.
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Recursos da Sociedade que Estimulam o Desenvolvimento das Ocupações na Infância
Com a mudança do foco do desenvolvimento do indivíduo para o desenvolvimento da ocupação, é mais fácil ver
os aspectos socioculturais nas ocupações cotidianas e como estes fazem parte do processo de desenvolvimento.
Ann Wilcock (1998) defende a evolução concomitante da natureza ocupacional e cultural do Homo sapiens, de
modo  que,  como  grupos  de  pessoas  trabalharam  em  colaboração,  seus  objetivos,  valores  e  padrões  criaram
práticas  culturais.  Cantar  ou  compartilhar  a  música  com  as  crianças  reflete  uma  prática  cultural  que  assume
muitas formas ao redor do mundo e ocorre regularmente nos Estados Unidos (Custodero, Britto & Brooks­Gunn,
2003). O investimento social nas ocupações das crianças é refletido pela criação de coisas para elas fazerem e
objetos  fabricados  para  suas  ocupações  (Mouritsen,  2002).  Na  categoria  bebês,  existem  rádios  de  brinquedo
adaptados  para  as  capacidades  de  desenvolvimento  das  crianças  mais  jovens.  O  pré­escolar  dispõe  de
instrumentos musicais em tamanho infantil. Músicas escritas para crianças são parte regular das brincadeiras de
roda de pré­escolares.
Outro  investimento  social  nas  ocupações  das  crianças  é  o  comprometimento  dos  recursos  humanos.  Toda
comunidade  tem  pessoas  que  detêm  papéis  socialmente  designados  para  supervisionar  o  engajamento  das
crianças nas ocupações que são valorizadas e esperadas das crianças. Rogoff, Paradise, Arauz, Correa­Chavez e
Angelillo (2003) observaram que, quando as crianças não são levadas a realizar ocupações dos adultos de suas
comunidades, são criadas ocupações especialmente para elas. Nos Estados Unidos, os pais controlam o ambiente
em  casa,  oferecem  ocupações  voltadas  para  a  criança  e  servem  como  parceiros  nas  brincadeiras  (Pierce  &
Marshall, 2004; Rogoff et al., 2003). Nas salas de aula, os professores de cada turma têm formação especializada
em educação na primeira infância e assumem a tarefa de organizar as rotinas da sala de aula com base em seus
objetivos educacionais. Para os pré­escolares, cantar é considerado “parte da brincadeira de roda”, enquanto a
música é menos formal para os bebês e seus professores sentam­se no chão com um par de crianças e cantam as
músicas.
Na  terapia  ocupacional,  compreender  as  influências  sociais  sobre  o  desenvolvimento  da  ocupação  é
informativo. Parte da informação do senso comum que é compartilhada por uma comunidade é o que as crianças
gostam de fazer em diferentes idades. Estas ocupações carregam expectativas normativas por meio das quais
uma comunidade compartilha a compreensão de que, em uma determinada idade, as crianças irão se comportar
de uma determinada maneira. Assim, os pais e os educadores podem encaminhar crianças para tratamento se elas
não participarem das ocupações esperadas. Da mesma maneira, as crianças raramente fazem parte apenas de uma
comunidade,  de  modo  que  as  práticas  culturais  e  as  expectativas  normativas  de  suas  famílias  e  aquelas  das
creches  e  dos  programas  educacionais  podem  ser  diferentes.  O  terapeuta  ocupacional  desejará  ouvir  sobre  as
ocupações que são esperadas em diferentes situações.
TABELA 3.1 MECANISMOS PROPOSTOS QUE GERAM MUDANÇA NAS OCUPAÇÕES
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Categorias Amplas Mecanismos de Mudança Propostos no Desenvolvimento
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de uma Ocupação
Investimento social nas ocupações das As comunidades investem nas ocupações da infância e
crianças expressam as expectativas normativas de que as crianças em
determinadas idades participem destas ocupações.
As pessoas na comunidade mantêm os papéis socialmente
estabelecidos com a responsabilidade de coordenar o tempo
das crianças e apoiar as ocupações valorizadas.
Influências interpessoais sobre o O aprendizado indireto a partir de pessoas familiares engajadas
engajamento ocupacional em suas ocupações informa as crianças sobre as ocupações.
Como espectadores ativos, as crianças aprendem sobre os
possíveis resultados e o que é significativo nas ocupações.
Durante o desempenho da ocupação compartilhada, as
demandas são distribuídas entre os participantes e as
crianças aprendem novas informações sobre os resultados e
os significados da ocupação.
O ensino explícito e o suporte da ocupação elevam o nível de
desempenho da criança. O parceiro mais experiente introduz
ideias com maior influência cultural sobre o resultado e o
significado.
A dinâmica de realizar uma ocupação Os desafios às maneiras habituais de fazer as coisas levam as
crianças a tentarem novas combinações de suas capacidades,
contribuindo para a descoberta de novas estratégias de
desempenho. Gradativamente, as crianças aprendem a
selecionar as estratégias de desempenho para se adaptar a
situações particulares.
As experiências modificadas de resultado e significado da
ocupação levam a criança a encontrar novas estratégias de
desempenho.
O desempenho e as capacidades estão inter­relacionadas com
as influências recíprocas dos múltiplos níveis de mudança.
Dessa maneira, as experiências na ocupação fomentam o
desenvolvimento em múltiplos níveis, que, em seguida, é
disponibilizado de modo que o desempenho da criança na
ocupação reflita as práticas da comunidade.

Influências Interpessoais sobre o Engajamento Ocupacional
Antes de discutir os processos interpessoais, eu primeiro considero as experiências de ocupação das crianças. Os
comportamentos  das  crianças  ao  realizarem  diferentes  ocupações  são  organizados  em  esforços  intencionais,  a
fim de experimentar os efeitos que são significativos para elas ou para alcançar os resultados que elas têm em
mente (Humphry 2002; Spitzer, 2003). Os bebês com um ano de idade tinham ideias sobre ocupações específicas
e  solicitavam  os  adultos  para  fazer  algo  em  particular.  Por  exemplo,  Helen  aproximou­se  de  uma  visitante,
carregando um livro sobre o alfabeto. Ela entregou o livro à visitante e sentou­se ao lado da mulher, que se viu
obrigada  a  ler  as  primeiras  páginas.  No  entanto,  Helen  ficou  em  pé,  pegou  o  livro  de  volta  e  o  deu  para  sua
professora, que cantou o alfabeto. Helen pareceu satisfeita e sentou­se durante a canção, olhando as figuras. Em
suma, o livro era a maneira pela qual Helen dizia o que ela queria fazer. Quando seu ato de comunicação falhou
em gerar a rotina esperada com a visitante, Helen procurou uma companhia mais informada para sua ocupação.
O exemplo ilustra a consciência das ocupações das crianças mais novas como distintas, com significado único e
resultados esperados. Esta seção aborda como as crianças constroem esta compreensão no contexto de suas vidas
cotidianas.
Como  foi  observado  no  exemplo  inicial  do  aprendizado  para  construir  um  castelo  de  areia,  as  conexões
interpessoais  em  uma  situação  social  com  pessoas  familiares  são  fundamentais  para  o  desenvolvimento  das
ocupações.  Os  terapeutas  ocupacionais  procuram  indicadores  de  aprendizado  sobre  as  ocupações  e  tiram
proveito  desses  processos  ao  trabalhar  com  as  crianças  que  estão  em  risco  de  atrasos  (Humphry  &  Wakeford,
2006).  O  meio  social  criado  por  pessoas  que  estão  engajadas  em  diversas  ocupações  forma  um  poderoso
mecanismo de mudança interpessoal. O ato de observar sustenta a participação indireta nas ocupações antes que
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as crianças mais novas façam realmente as coisas. As crianças, antecipando que um dia elas farão alguma coisa
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em  particular,  observam  http://lista.mercadolivre.com.br/_CustId_161477952
com  maior  atenção  as  outras  pessoas  fazendo  coisas  (Rogoff  et  al.,  2003).  Neste
contexto, as crianças adquirem as informações sobre como realizar a ocupação e o que constitui o desempenho
satisfatório.  Elas  também  desenvolvem  ideias  sobre  os  resultados  e  obtêm  uma  sensação  a  respeito  do
significado da ocupação. Nos papéis de espectadores, as crianças são participantes ativos, aprendendo sobre uma
ocupação bem antes de participarem dela.
Há  controvérsia  com  relação  às  capacidades  das  crianças  para  interpretar  o  que  outras  pessoas  fazem  como
intencional  (Reddy  &  Morris,  2004).  Um  grupo  de  psicólogos  do  desenvolvimento  sugere  que,  antes  que  as
crianças interpretem as ações de outras pessoas como intencionais, elas precisam ter a apreciação mental de que
as  ações  da  outra  pessoa  são  orientadas  pela  mente  daquela  pessoa  (“teoria  da  mente”).  Um  argumento  mais
contextual  e  alternativo  é  o  de  que  as  crianças  mais  jovens  não  ficaram  separadas  dos  familiares  durante  a
realização de suas ocupações. As crianças não precisam de conceitos abstratos tais como a maneira pela qual as
ações  de  outras  pessoas  são  orientadas  por  pensamentos  antes  de  compreender  os  atos  do  outro  como
propositais; em vez disso, as crianças são sensíveis ao fluxo organizado e focalizado das pessoas por meio de seu
engajamento emocional (Reddy & Morris, 2004). Pode haver uma base fisiológica para esta assertiva. Recente
estudo  sobre  os  chamados  neurônios­espelho  sustenta  a  possibilidade  da  participação  indireta,  mesmo  entre
outros  primatas.  Rizzolatti,  Fogassi  e  Gallese  (2006)  explicaram  que  eles  encontraram,  em  primatas  não
humanos  e  em  voluntários  humanos,  um  subgrupo  de  neurônios  que  respondem,  tornando­se  ativos,  às
observações de um pesquisador que se movimenta para pegar o alimento. O padrão de ativação foi idêntico ao
que teria ocorrido se o primata não humano ou pessoa fosse ela mesma pegar o alimento. Em outras palavras, os
observadores estavam mentalmente compartilhando a experiência de se movimentar de modo funcional. Esses
cientistas argumentam que, por meio da ativação dos neurônios­espelho, uma pessoa experimenta em primeira
mão  o  ato,  a  intenção  e  as  emoções  de  outra  pessoa.  Ainda  que  mais  pesquisa  seja  necessária,  isto  poderia
explicar como as crianças são capazes de aprender a realizar as ocupações por meio da observação.
Por exemplo, um dos pré­escolares, Joshua, apresentava comprometimentos físico e intelectual e era incapaz
de  ficar  em  pé  sem  auxílio  por  causa  de  seu  tônus  muscular  flutuante.  Ele  frequentemente  participava  da
brincadeira de roda utilizando um estabilizador, de modo que era incapaz de mover as pernas. Ele podia e se unia
a  seus  colegas  de  turma  ao  levantar  seus  braços  na  parte  da  música  sobre  as  formigas  que  subiam  do  chão  e
observava quando eles cantavam outras partes da música. Joshua demonstrava que ele não era um observador
passivo quando uma das auxiliares da professora o ajudava a se unir ao grupo, segurando­o por baixo dos braços
na  posição  em  pé.  Ele  sorria  abertamente  e  batia  com  o  pé  na  parte  da  música  em  que  as  formigas  estavam
marchando. Tanto a auxiliar quanto a professora comentaram sobre seu sorriso ao fazer o que ele via as outras
crianças fazerem.
Na  Tabela  3.1,  na  categoria  das  influências  interpessoais,  o  segundo  e  terceiro  mecanismos  de  mudança
propostos  apresentam  muitos  aspectos  em  comum.  As  crianças  podem  alternar  entre  aprender  por  meio  da
participação indireta e pela participação compartilhada com com um colega ou com um parceiro mais experiente
em  uma  ocupação.  Existem  duas  maneiras  pelas  quais  o  compartilhamento  de  uma  ocupação  promove  seu
desenvolvimento. Em primeiro lugar, quando as crianças fazem alguma coisa em conjunto, elas organizam seus
desempenhos  em  torno  de  sua  situação  compartilhada,  ou  seja,  criando  a  ocupação  em  colaboração.  Ao
coordenarem  suas  ações  para  manter  sua  participação,  as  demandas  de  desempenho  são  distribuídas  entre  os
participantes. Dessa maneira, uma criança pode modelar, apontar ou oferecer sugestões para apoiar um colega
que está tendo problemas de desempenho (Johnson­Pynn & Nisbet, 2002). Assim, os desafios do desempenho
são compartilhados entre os participantes, contribuindo para a aquisição de novas habilidades de desempenho.
Enquanto  se  apoiam  em  suas  ocupações,  as  crianças  também  introduzem  variabilidade,  desafiando  uns  aos
outros a inventar novas maneiras de fazer as coisas.
O  segundo  aspecto  no  mecanismo  de  mudança  interpessoal  diz  respeito  à  progressão  do  sentimento  de
significado da criança e ao resultado esperado na ocupação. As ideias de uma criança sobre a ocupação fazem
parte  da  maneira  como  ela  interpreta  o  que  está  acontecendo,  parte  de  sua  “definição  da  situação”  (Wertsch,
1999, p. 69). À medida que colegas coordenam suas ações, definições individuais da situação são compartilhadas
por meio de expressões faciais, palavras e ações, de modo que, conforme a ocupação se desenvolve, eles trocam
sentimentos  sobre  significado  e  propósito.  Desse  modo,  os  participantes  de  uma  ocupação  obtêm  uma
compreensão  mútua  que  é  diferente  das  suas  definições  de  situação  originais.  As  novas  ou  modificadas
experiências de significado e os resultados esperados transformam o desempenho e se tornam parte da definição
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de situação da criança na próxima vez que for percebida a oportunidade para aquela ocupação.
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Lawlor (2003) aponta que, por vezes, o significado de uma ocupação está principalmente na sensação de estar
socialmente  engajado.  Mesmo  quando  a  criança  poderia  hesitar  em  fazer  alguma  coisa,  o  fato  de  isto  incluir
outra  pessoa  poderia  ser  suficiente  para  fazer  com  que  ela  realize  a  ocupação.  Este  fenômeno,  encontrar
significado  em  fazer  parte  de  um  grupo,  é  descrito  como  “a  condição  de  estar  junto”,  e  acredita­se  que  esteja
associado a uma sensação de pertencimento (van Oers & Hannikainen, 2001). O importante é que, como parte da
definição  de  situação  da  criança,  mesmo  quando  se  engajar  na  ocupação  sozinha  na  próxima  vez,  ela  retém  a
sensação de pertencer a um grupo maior, definido pela ocupação.
Por exemplo, na sala de aula dos bebês, Anya sentou­se com um rádio de brinquedo sobre um colchonete. Ela
ligou o rádio ao empurrar uma alavanca e ele tocou uma música. Um colega de turma mais jovem caminhou e
sentou­se ao lado de Anya. Sentada, Anya balançou seus braços e torceu os ombros, acompanhando a música.
Ela  olhou  para  o  colega,  que  balançava  a  parte  superior  do  tronco  para  frente  e  para  trás  enquanto  a  música
tocava.  Eles  sorriam  ao  ver  o  outro  dançar.  As  observações  de  Anya  dançando  se  repetiram  durante  todo  o
estudo e eu concluí que sua definição de situação quando utilizava brinquedos musicais incluía pertencer a um
grupo de dançarinos.
Uma  das  ideias  do  senso  comum  que  os  terapeutas  ocupacionais  podem  ouvir  é  que  as  crianças  precisam
demonstrar  amadurecimento  de  habilidades  antes  de  participar  de  uma  ocupação.  Por  exemplo,  poderíamos
argumentar que, antes que uma criança jovem ou uma pessoa com problemas intelectuais possa compreender o
significado  e  os  resultados  de  uma  ocupação  compartilhada,  ela  precisa  de  habilidades  de  comunicação.  Uma
alternativa consiste em reconhecer que, no contexto de experimentar dançar junto, os atos de comunicação dos
bebês (gestos, movimentos rítmicos, olhar criança­para­criança, sorrir) definiram a condição de estar junto como
um elemento significativo para dançar a música. As interações coordenadas deles são transacionais; uma criança
fez  gestos  ou  olhou,  e  a  outra  criança  interpretou  a  expressão  e  sorriu,  comunicando  suas  experiências  para  a
primeira criança (Budwig, 2003; Reddy & Morris, 2004). Mais do que definir capacidades como pré­requisito
para a ocupação, o terapeuta ocupacional compreende que, ao compartilhar uma ocupação, a criança entra em
uma situação em que as capacidades necessárias são desencadeadas e praticadas.
O poder de uma ocupação compartilhada assume um peso adicional como um mecanismo de mudança quando
a outra pessoa detém um papel socialmente identificado com expectativas para explicitamente ensinar, apoiar ou
orientar  a  participação  das  crianças  nas  ocupações  (Rogoff,  2003;  Valsiner,  1997).  Quando  adultos  e  crianças
constroem  ao  mesmo  tempo  uma  ocupação,  o  adulto  ajusta­se  inicialmente  à  definição  de  situação  da  criança
(Wertsch, 1999). Quando a conexão para realizar a ocupação em conjunto é estabelecida, o adulto introduz novas
definições de significado e resultados esperados que refletem as práticas culturais da comunidade. O Boxe 3.1
lista as maneiras pelas quais a pessoa experiente contribui para o desenvolvimento da ocupação.
Em  minhas  observações,  a  presença  de  outras  pessoas  foi  um  elemento  central  para  o  desenvolvimento  das
ocupações, e por vezes o professor tirou vantagem das situações de grupo. Por exemplo, quando estimulou as
crianças mais jovens com a música “Atirei o pau no gato”, o professor chamou a atenção para o comportamento
do colega de turma mais velho que aprendeu a agachar quando a música falava a palavra “miau”. No entanto, o
aprendizado com os colegas nem sempre ocorria quando o professor ensinava uma ocupação individual. Quando
foi  mostrado  a  Joshua  o  interruptor  que  ativava  um  brinquedo  musical,  ele  mostrou  interesse  limitado  e  não
persistiu em tentar apertar o botão. Quando o professor se afastou, Joshua perdeu totalmente o interesse, até que
um colega de turma acionou o interruptor e o brinquedo. Isto tornou a chamar a atenção de Joshua para a música.
Ele observou seu colega de turma acionando o interruptor e tocando a música até que o professor voltou e disse
ao colega, “Não toque neste brinquedo, ele é para Joshua”. Afastar o colega de turma para que Joshua pudesse
praticar como acionar o botão interrompeu seu aprendizado sobre o resultado esperado de acionar o botão e o
significado social da música.
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Como uma Pessoa Experiente Pode Apoiar o Engajamento de uma Criança em uma
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Ocupação Desafiadora
1. Incentive alegremente a criança a fazer uma atividade que de outra forma teria pouco significado.
2. Preencha as falhas de desempenho, realizando as partes difíceis da atividade.
3. Sugira maneiras diferentes de realizar a atividade.
4. Introduza e modele a utilização de novos objetos na atividade.
5. Adicione informações relevantes sobre a atividade.
6. Introduza resultados alternativos.
7. Apresente significados culturalmente mais sofisticados a respeito de por que a atividade é significativa.

A Dinâmica do Fazer
Os mecanismos de mudança social e interpessoal discutidos anteriormente estão integrados a uma compreensão
da natureza dinâmica e contextual do desempenho ocupacional (Case­Smith, 2005; Humphry, 2002; Kielhofner,
2002). Os  padrões  coerentes  de ação na  ocupação  refletem  o  desempenho emergente,  a  integração  única  das
capacidades  nas  ações.  As  diferentes  combinações  são  reunidas  naquele  momento  e  em  uma  determinada
situação. Dessa maneira, o modo pelo qual alguma coisa é feita não é predeterminado e o uso combinado das
capacidades  sensorimotoras,  psicossociais  e  cognitivas  da  criança  na  ação  são  interdependentes,  influenciando
umas  às  outras.  Ademais,  as  ideias  de  uma  criança  sobre  a  ocupação  e  as  disponibilidades  no  ambiente
determinam o desempenho ocupacional (American Occupational Therapy Association, 2002; Law et al., 1996).
Isto  se  opõe  ao  pensamento  do  desempenho  ocupacional  como  determinado  apenas  pela  maturação  de
determinadas  capacidades  intrínsecas  à  criança.  Em  um  momento,  o  aparecimento  de  uma  nova  habilidade,
como dar um até logo com o indicador e o polegar ou pular, era creditado como reflexo da maturação motora do
sistema nervoso. No entanto, atualmente é reconhecido que o desempenho é influenciado de modo simultâneo
por várias estruturas e funções orgânicas e por vários aspectos da situação (Thelen, 1995). Kevin, por exemplo,
conhecia a letra de uma música sobre o alfabeto. Ele a cantou enquanto pulava na cama elástica na turma de pré­
escolares. No entanto, seu desempenho ocupacional, cantar, foi mudado pelo contexto. Quando a mesma música
era cantada como parte da brincadeira de roda, Kevin participava como um espectador, achando a situação social
muito difícil para se cantar. Este fenômeno – que o desempenho ocupacional emerge da relação criança­ambiente
como  um  sistema  funcional  –  é  a  base  para  os  mecanismos  de  mudança  descritos  adiante.  Estas  mudanças
refletem  principalmente  o  microdesenvolvimento,  as  mudanças  sutis  nas  estratégias  de  desempenho  que  se
acumulam com o passar do tempo para transformar o desempenho, refletindo o desenvolvimento da ocupação.
Três  mecanismos  de  mudança  interligados  ocorrem  quando  uma  criança  se  engaja  na  realização  de  uma
ocupação (veja a Tabela 3.1). Em primeiro lugar, em resposta aos desafios do desempenho, uma criança recruta e
reorganiza  suas  capacidades,  utilizando  as  capacidades  existentes  de  novas  maneiras  para  continuar  a
participação.  Os  desafios  originam­se  de  novos  ambientes,  novos  objetos  utilizados  na  ocupação,  ou
modificações  na  maneira  pela  qual  outra  pessoa  colabora  em  sua  realização  (como  sugerido  anteriormente).
Quando  uma  maneira  familiar  de  realizar  a  ocupação  fracassa,  a  criança  tenta  diferentes  combinações  das
capacidades. Em um processo de tentativa e erro, a criança funciona por vezes acima do limite de sua faixa de
desempenho (Siegler, 2000). A criança aprende que novas combinações de capacidades funcionam e em quais
condições, empregando mais amiúde as estratégias que alcançam o resultado esperado e selecionando com mais
exatidão a estratégia que se adapta a uma determinada situação. Dessa maneira, a participação na ocupação leva
ao desempenho mais refinado e constrói a generalização entre os contextos.
Por  exemplo,  durante  a  brincadeira  de  roda,  a  professora  cantou  uma  música  e  incentivou  as  crianças  a
manterem seus punhos para cima e estenderem seus polegares. Ari levantou as duas mãos, apontando com seus
dedos  indicadores  para  o  teto  (um  movimento  de  mão  familiar).  A  professora  posicionou  os  dedos  e  disse
“polegares  para  cima”.  Ari  manteve  uma  mão  aberta  e  observou  como  ele  fechava  os  dedos.  (Ele  utilizou  a
retroalimentação  visual  para  manter  seus  polegares  estendidos.)  Na  semana  seguinte,  quando  sua  professora
anunciou a mesma canção, Ari pareceu lembrar­se do que ele precisava fazer. Naquele momento, no entanto, ele
começou  com  seu  punho  esquerdo  e  manteve  o  polegar  erguido  com  a  mão  direita.  No  entanto,  ele  não  pôde
manter  a  mão  esquerda  cerrada  quando  transferiu  seu  esforço  e  tentou  fazer  o  mesmo  procedimento  com  sua
mão direita. Naquele dia, ele brincou durante a canção com uma das mãos. Com a prática repetida de diferentes
estratégias,  Ari  utilizou  mais  tarde  a  retroalimentação  sensorial  fornecida  por  músculos  e  articulações  para
manter suas mãos na posição correta, de modo a acompanhar a música.
As mudanças na compreensão de uma criança quanto ao resultado ou às ideias sobre o significado de realizar
uma  ocupação  também  APOSTILASMEDICINA@HOTMAIL.COM
modificam  o  desempenho  (Humphry,  2002).  Como  discutido  anteriormente,  observar
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as  coisas  e  construir  de  modo  concomitante  uma  ocupação  com  os  outros  altera  a
definição de situação da criança a respeito de uma ocupação. As crianças também podem descobrir suas próprias
novas ideias sobre os resultados ou experimentar algum aspecto da ocupação como mais interessante que antes.
Mesmo  quando  uma  ocupação  parece  ser  rotineira,  um  novo  significado  modifica  a  maneira  como  ela  é
realizada. Por exemplo, parte da rotina de brincar de roda consistia em cantar uma canção de bom dia, com cada
verso saudando um dos pré­escolares pelo nome. As crianças sentavam e batiam em seus joelhos à medida que a
professora  cantava  um  verso.  Com  o  tempo,  Molly  compreendeu  que  um  verso  falaria  especificamente  seu
nome. Desde então, em lugar de bater em seus joelhos quando era sua vez de ser chamada, ela sorria e balançava
sua cabeça para aquele verso.
Por  fim,  embora  a  maturação  das  capacidades  não  explique  por  completo  as  mudanças  no  desempenho
ocupacional,  as  capacidades  realmente  se  modificam  com  o  uso.  Em  um  sentido  biológico  amplo,  o
desenvolvimento de uma criança ocorre ao mesmo tempo em diversos níveis, incluindo a atividade genética, a
estrutura  corporal,  as  funções  dos  sistemas  orgânicos,  as  capacidades  e  o  desempenho  (Gottlieb,  2000).  Além
disso, existem influências recíprocas entre os níveis. Isto significa que, à medida que as crianças utilizam suas
capacidades, as experiências repetidas modificam esses níveis e direta ou indiretamente levam suas capacidades
e  seu  desempenho  a  níveis  de  maior  maturidade.  Subsequentemente,  capacidades  mais  maduras  tornam­se
disponíveis e o desempenho ocupacional se altera. No entanto, a natureza situada e emergente do desempenho no
contexto  precisa  ser  lembrada.  Quando  se  acreditava  que  o  desempenho  ocupacional  era  um  produto  da
maturidade  de  determinadas  partes  do  sistema  nervoso,  pensava­se  que  qualquer  atividade  terapêutica  que
desafiava  a  capacidade  funcional  considerada  “imatura”  levava  à  maturação  daquela  parte  do  cérebro.  Esta
suposição  de  que  o  desempenho  se  origina  dentro  da  criança  e  não  é  influenciado  pela  situação  e  pelas
oportunidades ocupacionais da criança levou à abordagem das habilidades do desenvolvimento que enfatiza os
componentes de desempenho.
Por  exemplo,  Lyle,  que  nasceu  com  síndrome  de  Down,  observou  seus  colegas  pré­escolares  de  turma  que
participavam das canções batendo palmas, levantando seus braços ou marchando. Ele participava apenas quando
os adultos seguravam suas mãos e o ajudavam a bater palmas ou a fazer gestos com as mãos. Seu interesse pela
ocupação,  mas  com  incapacidade  de  planejar  e  sequenciar  os  movimentos  de  maneira  eficiente,  é  compatível
com seu distúrbio genético (Fidler, Hepburn, Mankin & Rogers, 2005). Utilizando a abordagem de habilidades
de  desenvolvimento,  o  tratamento  poderia  incluir  atividades  terapêuticas  com  movimentos  repetitivos  e
sequenciados,  como  empilhar  blocos  e  desenhar  círculos  em  um  quadro  negro  para  remediar  os  problemas  de
Lyle  com  o  planejamento.  À  luz  do  que  atualmente  compreendemos  sobre  a  natureza  emergente  e  situada  do
desempenho,  a  maneira  mais  efetiva  para  desencadear  os  mecanismos  de  desenvolvimento  aqui  descritos
consiste em ajudar Lyle a participar das canções. Isto poderia ser feito utilizando mão sobre mão, ensino direto
ou canções mais lentas, ou ao dar a ele tempo para se deslocar e se aproximar dos outros enquanto realizam as
atividades durante as canções.

CONCLUSÃO
A terapia ocupacional está indicada quando uma criança é incapaz de realizar as ocupações convencionais, como
passar algum tempo na mesa de desenho, participar com um dos pais das rotinas da hora de dormir ou almoçar
com os colegas de turma no refeitório. O modo pelo qual os terapeutas ocupacionais conceitualizam o processo
de mudança determina como eles atuam. Este capítulo aponta uma forma de pensar sobre o desenvolvimento que
assume uma perspectiva contextual segundo a qual as ocupações são a maneira de conectar a pessoa com seu
ambiente  (Dickie  et  al.,  2006).  Compreender  o  processo  de  desenvolvimento  exige  conhecimento  das
circunstâncias  que  envolvem  as  ocupações  da  infância.  As  condições  a  considerar  incluem  as  origens  da
ocupação e uma apreciação das situações atuais da criança. Por exemplo, as crianças são membros de diversas
comunidades  que  criam  oportunidades  ocupacionais  diferentes.  Dessa  maneira,  ocupações  distintas  podem  ser
construídas  concomitantemente  e  compartilhadas  com  uma  gama  de  pessoas  em  diferentes  contextos.  Estas
ideias são importantes, pois o desenvolvimento da ocupação ocorre porque as crianças e seus ambientes formam
um sistema funcional, algo que é compreendido em sua totalidade. As forças de mudança incluem os processos
sociais,  interpessoais  e  dinâmicos  e  agem  de  maneira  sinérgica.  A  aplicação  destas  ideias  tem  sido  posta  em
prática  com  as  crianças  (Humphry  &  Wakeford,  2006).  O  microdesenvolvimento  e  o  desenvolvimento
acontecem ao longo de toda a vida, e as implicações deste modelo de desenvolvimento para o trabalho com as
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pessoas de outras idades aguardam pesquisa adicional.
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QUESTÕES INSTIGANTES
1. As  crianças  em  outros  países  apresentam  desempenho  diferente  das  crianças  nos  Estados  Unidos  nas
avaliações  padronizadas  que  são  consideradas  como  medidas  de  capacidades  internas,  como  destreza
manual, equilíbrio e habilidades perceptomotoras. Com base nos mecanismos de desenvolvimento descritos
neste  capítulo,  o  que  explica  este  achado?  Quais  são  as  implicações  para  as  crianças  que  apresentam
necessidades especiais?
2. Selecione uma de suas ocupações da infância (p. ex., desenhar, jogar futebol, jantar com a família). Quais
eram as influências sociais e interpessoais que contribuíram para o desenvolvimento de sua ocupação?
3. Neste  capítulo,  você  foi  incentivado  a  pensar  sobre  a  importância  das  ocupações  idiossincrásicas  que  as
crianças  consideram  como  meios  interessantes  de  ocupar  seu  tempo.  Como  estas  ocupações  contribuem
para  o  bem­estar  delas?  Diante  da  natureza  dos  mecanismos  de  desenvolvimento  previamente  debatidos,
você esperaria que estas ocupações não convencionais se modificassem com o passar do tempo?

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Compreendendo as Perspectivas da
Família sobre as Experiências de Doença e
Incapacidade
MARY C. LAWLOR E
CHERYL MATTINGLY

Sumário
Por Que as Famílias São Importantes no Cuidado da Saúde?
Cuidado Centrado na Família
Os Processos de “Parceria” e Colaboração
Desenvolvendo as Compreensões sobre as Experiências de Doença e Incapacidade
Premissas Problemáticas sobre Incapacidade, Experiências de Doença e Famílias
A Incapacidade Pertence ao Indivíduo
Existe Apenas uma Perspectiva por Família
Doença e Incapacidade Geram Apenas Experiências Negativas
O Profissional É o Especialista
Experiências da Família e a Prática da Terapia Ocupacional
Estudo de Caso: A Caixa Mágica
Conclusão

Objetivos de Aprendizagem
Após a leitura deste capítulo, você será capaz de:

1. Discutir  as  maneiras  pelas  quais  os  membros  da  família  experimentam  a  doença  e  a
incapacidade e como estas experiências estão situadas na vida da família.
2. Reconhecer a experiência que os familiares têm e trazem para as reuniões sobre os cuidados da
saúde, incluindo as sessões de terapia ocupacional.
3. Compreender a reunião sobre o cuidado de saúde como uma área social complexa na qual as
percepções  e  decisões  a  respeito  do  cuidado  são  criadas,  contestadas  e  negociadas  pelos
múltiplos atores sociais.
4. Descrever  o  conhecimento,  as  habilidades  e  os  comportamentos  que  facilitam  a  “parceria”  e  a
colaboração efetivas.

Assim, o que eu fiz foi tornar­me muito próximo de minha terapeuta. Ela não era apenas uma mulher que eu via uma vez
por semana; ela foi adotada pela minha família. E eu trazia a minha família para a terapia comigo. Eu trazia as crianças.
Eu trazia minha avó (risos), de modo que ela pudesse participar daquilo que nós tentaríamos conseguir. Isso era o que
nos precisávamos que minha irmã conseguisse. Eu trazia crianças, tias, tios, vizinhos próximos – todo mundo que fazia
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parte do meu ambiente diário próximo ia à terapia. E foi exatamente assim. Então, aquela terapia não era apenas uma vez
por semana, eram sete dias na semana. Ocorria desde o minuto em que acordávamos até o minuto em que íamos dormir.
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O
parágrafo  acima  é  um  trecho  transcrito  de  uma  entrevista  com  uma  mãe  que  contava  a  história  sobre  o
programa de terapia ocupacional de sua filha. Foi retirado de um estudo de pesquisa etnográfica realizado
pelas  autoras  e  uma  equipe  de  pesquisa  interdisciplinar  que  será  descrito  em  maiores  detalhes  adiante.1  Esta
breve passagem ilustra as maneiras pelas quais as sessões de cuidados da saúde, incluindo a terapia ocupacional,
são esforços de colaboração que ocupam posição central na vida da família. As reuniões sobre os cuidados de
saúde não são apenas eventos específicos, mas também episódios nas histórias da vida do cliente e da família e,
de  maneira  concebível,  também  são  episódios  que  estão  embebidos  nas  vidas  dos  profissionais  e  nas  culturas
institucionais.  Reuniões  como  as  sessões  de  terapia  ocupacional,  principalmente  aquelas  em  que  acontecem
experiências  significativas,  são  eventos  em  trajetórias  mais  longas  de  doença  e  de  desenvolvimento.  Os
momentos significativos nas sessões de terapia podem ressoar ao longo do tempo para outros momentos da vida
da pessoa e entre locais, a ponto de o impacto ser percebido em outros contextos, como a vida em casa, na escola
ou no trabalho. De maneira similar, os momentos importantes em casa e na vida familiar podem influenciar as
sessões de cuidados de saúde e os acontecimentos que ocorrem nas sessões de terapia ocupacional.
Este capítulo aborda a necessidade de atender às perspectivas da família quanto ao fornecimento de serviços
para pessoas com doenças ou incapacidades crônicas e as experiências dos membros da família relacionadas com
sua  participação  nos  serviços  de  terapia  ocupacional.  O  movimento  do  cuidado  centrado  na  família,  as
iniciativas de contenção de custos e os avanços tecnológicos no fornecimento dos cuidados alteraram de modo
fundamental  as  expectativas  das  famílias  e  dos  profissionais,  a  natureza  do  cuidado  de  saúde  e  as  práticas  de
cuidar, além dos resultados dos tratamentos. As reuniões sobre os cuidados de saúde, outrora caracterizadas pela
comunicação dual entre um paciente e o médico, são atualmente áreas sociais complexas nas quais se reúnem
múltiplos  atores  sociais,  inclusive  os  familiares.  As  reuniões  sobre  os  cuidados  de  saúde  que  envolvem
familiares  são  locais  de  superação de limites  em  que  as  famílias  e  profissionais  criam,  negociam,  contestam
e/ou  modificam  percepções,  perspectivas  e  práticas  de  cuidado  e  tratamento.  Múltiplas  perspectivas  sobre  os
eventos dos cuidados de saúde são tanto antecipadas quanto controladas dentro de momentos de interação com
frequência  relativamente  breves.  Alguns  dos  dilemas  e  oportunidades  interessantes  que  surgem  quando  os
profissionais envolvem ativamente as famílias no processo terapêutico são destacados neste capítulo.
Começamos por discutir a necessidade de trazer as famílias para o centro da cena e o movimento recente (em
grande  parte  na  Pediatria)  para  o  cuidado  centrado  na  família,  levantando  algumas  questões  sobre  o  que  este
termo poderia significar na prática. Investigamos por que as famílias têm sido desprezadas no modo pelo qual a
maioria  dos  profissionais  de  saúde  define  sua  prática  e  discutimos  como  o  envolvimento  dos  familiares  no
cuidado  da  saúde  modifica  fundamentalmente  a  natureza  da  sessão.  O  cerne  do  capítulo  muda  destas
considerações  mais  gerais  para  complexidades,  dilemas,  surpresas  e  riquezas  do  trabalho  terapêutico  que
considera  seriamente  as  experiências  de  doença  e  de  incapacidade  das  famílias.  Também  são  examinados  os
processos relativos à “parceria” entre profissionais e membros da família.

POR QUE AS FAMÍLIAS SÃO IMPORTANTES NO CUIDADO DA SAÚDE?
O senso comum nos diz que a maioria das pessoas que procuram a terapia ocupacional vive em mundos sociais
que  incluem  famílias  de  algum  tipo.  Mesmo  quando  as  pessoas  vivem  separadas  de  suas  famílias,  é  muito
provável que algum familiar venha a ser, de alguma maneira, um instrumento para o cuidado. Mesmo naqueles
casos  em  que  nenhum  familiar  está  ativamente  envolvido  no  cuidado,  é  provável  que  alguém  da  família  do
cliente  venha  a  se  preocupar  com  este  cuidado,  incluindo  os  serviços  do  terapeuta  ocupacional.  Ademais,  a
maneira  pela  qual  os  clientes  experimentam  a  incapacidade  e  como  ela  afeta  sua  atuação  no  mundo
frequentemente depende das relações do cliente com os familiares e com outras pessoas significativas em seus
mundos sociais. Isto fica mais evidente no cuidado pediátrico, quando o cliente é uma criança muito jovem, e no
cuidado geriátrico, quando cônjuges e filhos adultos participam do cuidado. As famílias, sob diversas formas e
arranjos  de  parceria,  tendem  a  se  importar  com  a  maioria  das  pessoas  que  experimentam  doença  ou
incapacidade, independente de qual seja a idade, a etnia, a condição socioeconômica ou a localização geográfica.
Não só as famílias se importam, como também mudam em resposta aos problemas gerados por ter um familiar
com  uma  doença  ou  incapacidade.  Os  pa  péis  mudam.  As  relações  de  poder  se  alteram.  As  atividades
modificam. É provável que seja afetada a maneira pela qual as refeições são feitas, as férias são aproveitadas, as
disputas  são  negociadas,  as  camas  são  arrumadas,  o  dinheiro  é  ganho  e  as  casas  são  organizadas,  bem  como
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outros aspectos da vida familiar.
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A implementação de iniciativas federais relacionadas com o fornecimento de serviços especiais de cuidados
de  saúde  para  crianças  com  necessidades  e  suas  famílias  data  de  1912,  com  o  estabelecimento  do  Children’s
Bureau in Maternal and Child Health (Hanft, 1991), e expandiu­se com a homologação da Title V legislation em
1935  (Colman,  1988).  A  implementação  do  P.  L.  94­142,  Parte  B,  uma  emenda  para  o  Education  for  the
Handicapped Act (EHA) em 1975, e do P. L. 99­457, Parte H, uma emenda para o EHA em 1986, promoveu
dramáticas alterações na natureza da prestação de serviços para crianças em ambientes educacionais e de início
da infância (Hanft, 1991; Lawlor, 1991). Em 1990, o EHA foi renomeado como Individuals with Disabilities Act
(IDEA,  P.  L.  101­476).  A  implementação  destes  serviços  trouxe  novas  demandas  para  que  os  profissionais
reestruturassem os modelos de prática médica tradicionais para atender as necessidades das famílias, bem como
da  criança  encaminhada  para  atendimento  (American  Occupational  Therapy  Association,  1999).  Em  2004,  o
IDEA foi reautorizado e, embora grande parte do texto sobre a participação da família tenha sido modificada,
muitos  dos  princípios  iniciais  foram  mantidos.  Por  exemplo,  o  novo  estatuto  ainda  incorpora  um  programa
individualizado  de  atendimento  familiar  como  um  dos  requisitos  mínimos  para  um  sistema  nacional  de
fornecimento de serviços a cada bebê ou criança com incapacidade e à família dessa criança (108th Congress,
2004).

Cuidado Centrado na Família
Embora o desenvolvimento dos serviços com foco nas necessidades e nos valores das famílias tenha iniciado nos
programas de primeira infância por meio de iniciativas de cuidado centrado na família (Hanft, 1991; Lawlor &
Mattingly,  1998),  muitos  dos  princípios  aplicam­se  aos  serviços  para  pessoas  de  todas  as  idades  (Humphry,
Gonzales & Taylor, 1993). À medida que os sistemas de serviços de saúde voltaram­se para a comunidade e os
membros da família começaram a fornecer o cuidado domiciliar, os profissionais desenvolveram uma apreciação
mais  profunda  da  centralidade  das  famílias  na  cura,  recuperação  e  adaptação.  Os  profissionais  também
reconheceram que membros da família frequentemente tinham perspectivas diferentes daquelas dos profissionais
a respeito das necessidades, prioridades e potenciais. Este reconhecimento levou a uma mudança da percepção
dos membros da família como pessoas que obedecem às prescrições de médicos e terapeutas para a percepção
dos  familiares  como  pessoas  que  conhecem  melhor  o  cliente  e  que  são  parceiras  na  tomada  de  decisão.  As
perspectivas dos membros da família sobre o desempenho do cliente, o que o cliente necessita, o que a família
necessita, e o que é mais importante e significativo na vida cotidiana, tornou­se parte do diálogo clínico.
O  cuidado  centrado  na  família  envolve  muito  mais  que  a  decisão  de  acrescentar  os  membros  da  família  na
sessão  de  terapia;  a  prática  da  terapia  ocupacional  é  fundamentalmente  modificada  quando  os  familiares  são
trazidos  para  o  processo  terapêutico  com  um  papel  central  (Lawlor  &  Mattingly,  1998).  Com  frequência,  os
membros da família, inclusive os pais, têm pa péis poderosos na criação de experiências significativas na terapia
(Mattingly & Lawlor, 2001). O desafio para o terapeuta ocupacional consiste em colaborar com os clientes, suas
famílias e outros membros da equipe no estabelecimento de um programa que desenvolva os potenciais e aborde
as necessidades. Quando isso é realizado com sucesso, o tratamento é individualizado para cada família e reflete
seu mundo cultural próprio. Com base no trabalho de Dunst, Trivette e Deal (1988), temos o cuidado centrado na
família  definido  como  uma  experiência  que  acontece  quando  os  terapeutas  ouvem  de  maneira  efetiva  e
compassiva  as  preocupações,  abordam  as  necessidades  e  apoiam  as  esperanças  das  pessoas  e  suas  famílias
(Lawlor & Cada, 1993; Lawlor & Mattingly, 1998). Por vezes, os terapeutas podem envolver melhor os clientes
e  as  famílias  no  processo  de  tomada  de  decisão  ao  oferecer  múltiplas  opções  para  o  tratamento  (Rosen  &
Granger, 1992). Este tipo de engajamento é frequentemente descrito como um meio de capacitar e fortalecer as
famílias (p. ex., Deal, Dunst & Trivette, 1989).
O cuidado centrado na família é desempenhado por meio de esforços colaborativos dos membros da família e
dos terapeutas  (Edelman,  Greenland &  Mills, 1993;  Lawlor  &  Mattingly,  1998) e  é tipicamente  fornecido  por
equipes  multidisciplinares  e  interdisciplinares.  As  parcerias  são  criadas  com  base  no  estabelecimento  de
confiança  e  comunicação,  bem  como  no  respeito  por  valores,  crenças  e  rotinas  da  família  (Hanft,  1989).  Os
elementos  adicionais  da  colaboração  bem­sucedida  incluem  a  clareza  e  a  honestidade  na  comunicação,  a
concordância mútua sobre as metas, o compartilhamento efetivo de informações, a acessibilidade e a ausência de
culpa (McGonigel, Kaufmann & Johnson, 1991). A colaboração bem­sucedida acontece quando os terapeutas e
os  familiares  formam  relações  que  fomentam  a  compreensão  compartilhada  de  necessidades,  esperanças,
expectativas e contribuições de todos os parceiros (Lawlor & Cada, 1993).
Os Processos de “Parceria” e Colaboração
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A  colaboração  é  muito  mais  que  ser  “agradável”  (Lawlor  &  Mattingly,  1998;  Mattingly,  1998).  Envolve  atos
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interpretativos  complexos  pelos  quais  http://lista.mercadolivre.com.br/_CustId_161477952
o  terapeuta  deve  compreender  o  significado  dos  tratamentos,  os
significados da doença ou da incapacidade na vida da pessoa ou da família e os sentimentos que acompanham
estas  experiências.  A  colaboração  também  depende  do  desenvolvimento  da  qualidade  de  inter­relacionamento
que deixa evidente em muitas sessões de terapia não ser apenas uma questão de estabelecer a boa comunicação,
gerar a cooperação ou levar um cliente ou paciente a comprar em uma determinada agenda a fim de que ele ou
ela  realize  as  tarefas  exigidas  (Lawlor,  2003).  A  questão  central  para  os  terapeutas,  clientes  e  suas  famílias  é:
“Como podemos nos conhecer o suficiente para estabelecer uma parceria efetiva?” (Lawlor & Mattingly, 2001).
Para os terapeutas, a natureza do trabalho em colaboração “não é meramente técnica no sentido da aplicação de
um  procedimento  ou  técnica  ou  de  como  outro  tratamento  é  fornecido,  nem  o  trabalho  depende  apenas  da
experiência  clínica.  Ao  contrário,  a  ‘construção  da  parceria’  exige  o  trabalho  habilidoso  de  relacionamento  e
envolve a fundamentação em uma gama de habilidades sociais que incluem a intersubjetividade, a comunicação,
o engajamento e a compreensão” (Lawlor, 2004, p. 306). As premissas sobre raça, cultura, etnia, condição social,
nível  econômico  e  educação  (e  frequentemente  a  contestação  destas  premissas)  muitas  vezes  influenciam  de
forma poderosa o processo de “parceria” entre famílias e profissionais. Os membros da família e os terapeutas
vivem  e  atuam  em  uma  multiplicidade  de  domínios  culturais  que  são  modelados  por  sua  profissão,  condição
econômica,  etnia  e  afiliações  comunitárias.  Quando  os  terapeutas  e  os  membros  da  família  interagem,  seus
valores, premissas e percepções sobre a interação estão modelados por suas culturas.
A  “parceria”  também  envolve  superar  diferenças,  estabelecer  pontos  de  interesses  comuns  e  mutualidade  e
capitalizar sobre  as  complementaridades.  Este  aspecto  da  colaboração  é  particularmente  importante  quando  os
membros  da  família  e  os  terapeutas  percebem  que  eles  advêm  de  mundos  aparentemente  distintos.  Mattingly
(2006),  fundamentando­se  nas  reconceitualizações  da  cultura  que  são  prevalentes  na  antropologia  atual,
argumenta  que  as  reuniões  de  cuidados  de  saúde  são  semelhantes  a  zonas  de  fronteira  onde,  com  frequência,
existe  maior  engajamento  para  marcar  as  diferenças,  encontrar  semelhanças  e  gerar  compreensão.  De  muitas
maneiras,  as  famílias  são  viajantes  consumados  em  zonas  de  fronteira  com  a  tarefa  assustadora  de  precisar
compreender  os  mundos  e  as  práticas  culturais  biomédicos,  institucionais  e  do  terapeuta,  além  de  participar
destas  práticas  de  modo  que  seus  conceitos  não  biomédicos  sobre  seus  filhos,  suas  famílias,  doença  e
incapacidade possam modelar as reuniões de cuidados de saúde.

Desenvolvendo as Compreensões sobre as Experiências de Doença e Incapacidade
Embora atenção crescente seja dada aos membros da família, as famílias são sistematicamente desconsideradas
quando  se  trata  de  cuidado  da  saúde.  Treinamento  profissional,  estruturas  institucionais,  procedimentos  de
reembolso  e  sistemas  de  recompensa  tendem,  sem  exceção,  a  contribuir  para  a  marginalização  das  famílias.
Quando os terapeutas ocupacionais tentam realmente considerar as necessidades de seus clientes e dos familiares
cuidadores,  eles  podem  se  descobrir  abordando  uma  gama  de  problemas  e  se  confrontando  com  inúmeros
dilemas para os quais eles podem não se sentir preparados.
A maneira mais fácil de compreender por que as famílias não têm sido tradicionalmente mais incluídas nas
decisões  a  respeito  do  cuidado  da  saúde  é  lembrar  que  os  profissionais  de  saúde,  inclusive  os  terapeutas
ocupacionais,  são  membros  de  culturas  profissionais  e  trabalham  em  organizações  que  possuem  culturas
institucionais. Todos os profissionais de saúde têm sido vigorosamente influenciados pelo que os antropologistas
por vezes chamam de “cultura da biomedicina ocidental” (B. Good, 1994; Hahn & Gaines, 1985; Jackson, 2000;
Locke  &  Gordon,  1988;  Rhodes,  1991).  É  um  pouco  decepcionante  falar  de  uma  cultura  monolítica  da
biomedicina,  como  se  esta  fosse  uma  entidade  homogênea  única.  Os  terapeutas  ocupacionais,  por  exemplo,
poderiam  achar  que  eles  vivem  apenas  parcialmente  na  mesma  cultura  profissional  que,  por  exemplo,  os
neurocirurgiões.  Assim,  profissionais  que  trabalham  em  uma  instituição  podem  descobrir  que  a  cultura  da
instituição é bastante diferente da cultura de outra instituição onde já tenham trabalhado. Isto pode ser verdade
mesmo se as organizações aparentem ser semelhantes – dois hospitais de reabilitação diferentes, por exemplo.
Mas,  mesmo  que  todas  estas  diferenças  e  nuanças  sejam  consideradas,  existem  inúmeras  premissas  poderosas
que  são  compartilhadas  em  algum  nível  por  muitos  profissionais  de  saúde  que  trabalham  em  diferentes
instituições.
Profissionais  como  os  terapeutas  ocupacionais  não  aprendem  somente  as  habilidades  da  profissão  quando
iniciam  o  estágio,  eles  também  assimilam  um  conjunto  de  valores  e  crenças  que  os  tornam  membros  de  uma
cultura profissional ou da comunidade de prática (M. J. Good, 1995; Wenger, 1998). A cultura da biomedicina
tem se desenvolvido nos últimos 250 anos.2 A biomedicina proporcionou uma poderosa visão do que significa
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estar doente e o que se espera do cliente, do profissional de saúde e da família ou dos cuidadores principais do
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cliente (B. Good, 1994). Existem algumas crenças profundamente arraigadas sobre o que constitui uma relação
adequada  entre  profissional,  cliente  e  os  familiares  cuidadores.  Estas  premissas  sobre  a  relação  profissional­
cliente­cuidador são influenciadas, por sua vez, por outras suposições básicas sobre a natureza da doença e como
ela  é  mais  bem  tratada.  Algumas  destas  premissas  são  especialmente  problemáticas  para  os  profissionais  de
reabilitação,  como  o  terapeuta  ocupacional,  que  tratam  de  clientes  com  doenças  crônicas  e  condições
incapacitantes.
As  tentativas  de  compreender  as  experiências  da  doença  e  da  incapacidade  foram  facilitadas  pela  “forma
narrativa”  na  medicina  (Garro  &  Mattingly,  2000a;  Hurwitz,  Greenhalgh  &  Skultans,  2004).  Como  Garro  e
Mattingly  (2000b)  escreveram,  “Uma  linha  importante  na  literatura,  que  emergiu  da  ou  é  direcionada  para  a
comunidade clínica e aspira a reorientar a prática médica na sociedade, é a necessidade de distinguir a doença
como  fenômeno  observado  pela  perspectiva  do  profissional  (a  partir  do  exterior)  da  doença  como  fenômeno
observado  pela  perspectiva  daquele  que  a  sofre”  (p.  9).  A  literatura  em  antropologia,  principalmente  em
antropologia  médica,  ciência  ocupacional  e  terapia  ocupacional,  medicina  e  outras  áreas  relacionadas  à  saúde
está se fundamentando cada vez mais em abordagens narrativas para (1) aumentar a compreensão da doença e da
incapacidade nas perspectivas dos indivíduos e das famílias que estão vivendo com doenças ou incapacidades (p.
ex.,  Bluebond­Langer,  1978;  A.  Frank,  1995;  G.  Frank,  2000;  Kleinman,  1988,  2006;  Monks  &  Frankenberg,
1995;  Murphy,  1990);  (2)  analisar  como  os  modos  narrativos  de  raciocínio  ou  da  ética  baseada  na  narrativa
influenciam  as  práticas  terapêuticas  e  de  saúde  (p.  ex.,  Becker,  1997;  Cain,  1991;  Charon  &  Montello,  2002;
Fleming  &  Mattingly,  1994;  Hurwitz  et  al.,  2004);  e  (3)  reconhecer  a  narrativa  como  uma  estrutura  para  a
criação de experiências significativas nas práticas terapêuticas (Clark, 1993; Mattingly, 1998).
Os  terapeutas  ocupacionais  também  descobriram  como  é  valioso  ler  e  refletir  sobre  os  relatos  em  primeira
pessoa de experiências com doença e incapacidade (p. ex., Bauby, 1997; Greenfeld, 1978, 1986; Hockenberry,
1995;  Park,  1982,  2001;  Williams,  1992).  Por  vezes,  mídias  populares,  incluindo  filmes  e  programas  de
televisão, podem gerar insights que embasam as reflexões dos profissionais sobre suas práticas clínicas. Mesmo
filmes ou programas de televisão que apresentam descrições de doenças ou incapacidades ou práticas de saúde e
terapêuticas  que  podem  ser  perturbadoras,  humilhantes  ou  inexatas  podem  proporcionar  experiências
importantes para esclarecer as crenças e as filosofias que são críticas para a provisão eficaz do cuidado centrado
na família, colaborativo e compassivo.

PREMISSAS PROBLEMÁTICAS SOBRE INCAPACIDADE, EXPERIÊNCIAS DE
DOENÇA E FAMÍLIAS
Diversas  premissas  iniciais  que  são  particularmente  potentes  e  particularmente  persistentes  (Gordon,  1988)  na
cultura da biomedicina e na terapia ocupacional foram significativamente influenciadas pela maneira com que as
famílias  são  inseridas  no  processo  terapêutico.  Embora  durante  os  últimos  20  anos  tenha  sido  dada  crescente
atenção no sentido de compreender as maneiras pelas quais os membros da família participam das práticas de
cuidados  de  saúde  (p.  ex.,  Hinojosa,  Sproat,  Mankhetwit  &  Anderson,  2002;  Lawlor  &  Mattingly,  1998),  há
necessidade  de  maior  conhecimento  e  de  reflexões  adicionais  (p.  ex.,  Cohn,  2001;  Ochieng,  2003).  Muitos
profissionais que trabalham em ambientes multiculturais reconhecem a complexidade de organizar o cuidado de
saúde e as práticas de terapia de modo a compreender e abordar as necessidades específicas dos familiares que
têm fundamentos diversos. As seções a seguir ilustram como as premissas problemáticas ou falhas a respeito das
experiências de doença e de incapacidade dos membros da família podem afetar o cuidado.

A Incapacidade Pertence ao Indivíduo
Uma das suposições mais difusas na biomedicina é que a tarefa do profissional consiste em tratar o indivíduo
que apresenta a doença. Por vezes, isto é estritamente interpretado entre profissionais de saúde como “tratar a
patologia”,  mas  os  terapeutas  ocupacionais  comumente  tentam  lembrar  que  eles  também  estão  tratando  uma
pessoa que tem uma condição incapacitante. O terapeuta de mão está tratando não somente uma lesão na mão,
por  exemplo,  mas  também  um  mecânico  de  automóveis  afastado  do  trabalho  que  tem  esposa  e  três  filhos.  O
terapeuta reconhece que este cliente, cuja mão foi lesionada no trabalho, teme por sua capacidade de recuperar
seu papel como o provedor da família.
Por outro lado, os profissionais tentam tratar o que os antropólogos chamam a experiência da doença, mais do
que  apenas  a  doença  APOSTILASMEDICINA@HOTMAIL.COM
(B.  Good,  1994;  B.  Good  &  M.  J.  Good,  1994;  Kleinman,  1988;  Luhrmann,  2000).  No
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contexto da terapia ocupacional, um termo mais acurado seria, provavelmente, a experiência de incapacidade,
pois  certamente  é  possível  ter  uma  incapacidade,  mesmo  aquela  que  requer  terapia,  sem  estar  doente.  Os
profissionais tentam abordar ambas em relação à incapacidade como uma condição fisiológica e o significado
que esta condição particular carrega para a pessoa portadora da incapacidade (Mattingly, 1998, 2000; Mattingly
& Fleming, 1994). Quando um profissional sabe que um cliente quer reaprender como dirigir, vestir­se de modo
independente,  comer  em  restaurantes  ou  continuar  a  trabalhar  como  mecânico  de  automóveis,  ele  é  capaz  de
organizar as tarefas terapêuticas que ajudam o cliente a realizar estas atividades.
No entanto, algumas metas são muito menos tangíveis. Isto é particularmente verdadeiro para as metas que se
relacionam com o mundo social do cliente e a conexão entre as habilidades funcionais e as relações sociais. É
artificial tratar apenas as habilidades funcionais estritamente definidas, como se elas não se relacionassem com o
mundo  social  de  um  cliente,  pois  um  aspecto  primordial  do  significado  de  uma  condição  é  como  ela  afeta  as
relações  pessoais  de  um  indivíduo,  o  que  é  um  dos  aspectos  mais  difíceis  do  trabalho  terapêutico.  Em
contrapartida, no caso de metas como aprender a se vestir e a se locomover em cadeira de rodas, as metas e as
preocupações que estão associadas às relações familiares são muito mais difíceis de definir e, com certeza, elas
são provavelmente de difícil medição. Ajudar um cliente a recuperar sua identidade como um bom pai para sua
filha  de  5  anos  de  idade,  mesmo  após  uma  lesão  medular,  por  exemplo,  é  mais  difícil  de  traduzir  em  metas
isoladas e baseadas na habilidade do que aprender como fortalecer a parte superior do corpo ou aprender como
se  alimentar  de  modo  independente.  No  entanto,  aprender  o  que  os  membros  da  família  desejam  –  o  que  eles
gostariam de ver acontecer – é fundamental para o desenvolvimento das práticas de terapia com a colaboração
das  famílias.  Como  Cohn,  Miller  e  Tickle­Degnan  (2000)  mostraram  em  seu  estudo  qualitativo  sobre  pais  de
crianças com transtornos de modulação sensorial, ouvir atentamente as perspectivas dos pais pode gerar insights
que promovem um tratamento significativo com relação às metas e aos valores da família.
É provável que as metas orientadas para a família estejam atreladas a resultados que são difusos, complexos,
sutis  e  difíceis  de  mensurar,  mesmo  quando  eles  sejam  significativos  para  o  cliente  e  para  a  família.  Quando
metas e preocupações de um cliente estão atreladas a mudanças nas relações familiares, isso pode parecer estar
fora  dos  limites  profissionais  para  o  terapeuta  ocupacional.  Apesar  das  muitas  dificuldades  para  tentar
compreender  uma  condição  incapacitante  como  pertencente  ao  papel  de  um  cliente  na  família,  ignorar  este
aspecto frequentemente significa estar cego para os aspectos mais significativos da experiência da doença (ou da
incapacidade). Ignorar as metas orientadas para a família ou o significado de uma incapacidade na medida em
que se relaciona com as preocupações da família e os relacionamentos familiares pode significar também ignorar
a pessoa.

Existe Apenas uma Perspectiva por Família
Embora parte da literatura sobre o cuidado centrado na família presuma que os profissionais venham a conhecer
todos os membros da família, descobrimos que, com frequência, um membro da família, tipicamente uma mãe
ou  cônjuge,  serve  como  o  contato  primário  com  o  profissional.  É  a  perspectiva  deste  indivíduo  que  os
profissionais chegam a conhecer. No entanto, esta poderia ser apenas uma das várias perspectivas mantidas pelos
familiares. Por vezes, os profissionais vêm a conhecer outros membros da família, mas, em muitas instituições, o
contato primário é o membro da família que traz a criança para a terapia ou que acompanha um adulto ou pai até
a  terapia.  Com  frequência,  o  membro  da  família  que  vem  à  sessão  de  terapia  tem  o  complicado  papel  de
intermediário cultural, no qual a pessoa precisa tanto representar a casa, a família e a vida na comunidade dentro
do mundo clínico, como representar o mundo clínico e institucional dentro da vida em casa e na família. Certas
perguntas, como “Então, o que aconteceu?”, são indicativas de solicitações de informações que cônjuges, outros
entes queridos, avós e outros familiares poderiam dar.
Os membros da família também podem apresentar perspectivas divergentes sobre a natureza do problema, as
prioridades para o tratamento e os significados de doença e incapacidade na vida diária. Estas diferenças dentro
da família frequentemente geram negociações intrafamiliares e um tipo de “parceria” dentro da vida da família
que  influenciará  as  parcerias  família­profissional.  A  dinâmica  dessas  múltiplas  perspectivas  e  as  negociações
intrafamiliares  provavelmente  se  modificarão  com  o  passar  do  tempo  e  serão  influenciadas  por  mudanças  na
trajetória das doenças, agendas de desenvolvimento, configurações domésticas e constelação de necessidades e
recursos  domiciliares.  Além  disso,  a  doença  e  a  incapacidade  poderiam  ser  apenas  um  enredo  ou  drama
secundário na vida familiar, competindo com outras necessidades e preocupações prementes.
Doença e Incapacidade Geram Apenas Experiências Negativas
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Houve e continua a existir uma suposição de que todos os efeitos da doença e da incapacidade sobre uma família
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são negativos. Esta crença leva à conclusão equivocada de que as reações da família à doença e à incapacidade
são  tanto  previsíveis  como  compartilhadas.  Em  outras  palavras,  o  profissional  poderia  presumir  conhecer  o
efeito  de  uma  doença  ou  incapacidade  sobre  a  família  sem  compreender  totalmente  uma  determinada  família.
Estas  ideias  são  desconsideradas  quando  ouvimos  as  famílias  falarem  sobre  suas  experiências.  Somos
surpreendidos  pela  incrível  riqueza  de  suas  histórias  e  pela  dificuldade  que  as  pessoas  têm  em  reduzir  suas
reações  complexas  a  algumas  categorias  distintas,  como  estresse,  pesar  ou  aceitação.  Alguns  teóricos  também
tentaram  desenvolver  teorias  baseadas  nos  estágios  das  reações,  mas  a  rigidez  destes  estágios  foi  censurada
(Moses, 1983).
Parte da pesquisa conduzida sobre a resposta dos familiares à doença ou à incapacidade foi feita com pais de
crianças portadoras de necessidades especiais de cuidados de saúde. Recentemente, os pais e outros familiares
fizeram  críticas  a  essa  pesquisa  (p.  ex.,  Lipsky,  1985),  citando  a  falha  dos  pesquisadores  em  reconhecer  os
resultados positivos obtidos a partir dessas experiências. Os pesquisadores tenderam a mensurar certas variáveis
predeterminadas, como depressão materna e estresse. Os críticos notam que os relatos pessoais de outros efeitos,
incluindo  as  alterações  positivas  na  vida  familiar,  não  foram  considerados.  Os  defensores  do  movimento  do
cuidado  centrado  na  família  observam  a  falha  de  muitos  pesquisadores  e  profissionais  em  compreender  os
aspectos únicos de adaptação e de enfrentamento da família e defendem a necessidade de pesquisa adicional que
se fundamente nas perspectivas dos familiares. Embora esteja além do escopo deste capítulo resumir esta massa
de literatura, a suposição de que os efeitos da incapacidade são unilaterais e negativos deve ser contestada como
simplista e inadequada.
Os profissionais precisam compreender os efeitos da doença e da incapacidade sobre as famílias das pessoas
que  os  procuram  para  tratamento.  Estes  efeitos  provavelmente  irão  mudar  com  o  passar  do  tempo  e  as
percepções do estresse relativo das famílias serão modeladas por outros eventos na família e pela disponibilidade
de recursos. A presunção de que a totalidade da experiência de uma família pode ser resumida como estressante
frequentemente  leva  a  compreensões  equivocadas  e  à  perda  de  oportunidades  para  promoção  de  quaisquer
aspectos positivos e para celebrar os sucessos (Lawlor & Cada, 1993; Lawlor & Mattingly, 1998; Mattingly &
Lawlor, 2000).

O Profissional É o Especialista
Tradicionalmente, a biomedicina ocidental tem se preocupado em curar pessoas. A noção do profissional como
um curador aqui é importante. O curador é um especialista que pode tanto determinar o que está errado (avaliar e
diagnosticar)  quanto  identificar  o  tratamento  correto  para  curar  o  mal  (tratar)  (Biesele  &  Davis­Floyd,  1996;
Davis­Floyd  &  Sargent,  1997;  M.  J.  Good,  1995).  O  papel  do  paciente  tem  sido  considerado  como  submisso,
oferecendo  as  informações  quando  solicitado,  submetendo­se  ao  exame  físico  e  seguindo  as  orientações  do
especialista  para  o  tratamento.  Nesta  visão,  os  profissionais  de  saúde  tornam  as  pessoas  saudáveis  ao  curar  a
doença. A preocupação do profissional reside em grande parte na doença, em vez de incidir na pessoa que tem a
doença  (o  oncologista  que  combate  as  células  cancerosas  com  radiação,  por  exemplo).  A  história  pessoal  do
paciente,  a  situação  familiar  e  a  história  de  trabalho  poderiam  ser  apenas  de  importância  periférica  para  o
curador  na  tarefa  de  diagnosticar  e  tratar  a  condição  patológica  que  está  provocando  a  doença.  Apesar  de  a
esperança da medicina ter sido a de curar, o que implica a capacidade do profissional de saúde de trazer uma
pessoa  de  um  estado  de  doença  para  algum  estado  de  “normalidade”  ou  pré­morbidade,  os  terapeutas
ocupacionais raramente estão em posição de curar uma pessoa. As pessoas que eles tratam podem ter vidas ricas
e plenas, mas elas geralmente estão vivendo estas vidas com um comprometimento ou condição crônica que não
pode ser totalmente erradicado ou resolvido.
As práticas fundamentadas nas tradições biomédicas ocidentais frequentemente adotam relações profissionais­
clientes  que  se  baseiam  em  modelos  hierárquicos  ou  em  modelos  controlados  por  especialistas.  O  modelo  do
especialista permanece prevalente nas práticas no início da infância, apesar do crescente reconhecimento de que
os  elementos  deste  modelo  criam  barreiras  para  o  desenvolvimento  de  parceiras  colaborativas  e  para  a
compreensão da vida da família. O modelo do especialista tende a promover a dependência entre os que recebem
os  serviços,  limitar  as  oportunidades  para  que  as  famílias  contribuam  com  insights  e  tenham  necessidades  e
preocupações específicas abordadas, sobrecarregar o profissional com a expectativa irreal de contar sempre com
a  experiência  para  responder  a  todas  as  perguntas  (Cunningham  &  Davis,  1985)  e  a  organizar  os  serviços  de
maneira que funcionem como um autosserviço para o especialista (Howard & Strauss, 1975).
Os  profissionais  sabem  que  a  terapia  terá  sucesso  apenas  se  seus  clientes  (e,  com  frequência,  também  os
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principais  cuidadores  da  família)  estiverem  motivados  para  trabalhar  com  afinco.  Porém,  mesmo  como
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participantes ativos, os clientes e os membros da família recebem com frequência a atribuição de um papel de
receptores das instruções fornecidas pelos terapeutas ocupacionais e outros especialistas em reabilitação. Embora
estes  “receptores  ativos”  recebam  por  vezes  uma  gama  de  opções  de  metas  ou  de  atividades  preferidas  e  os
terapeutas  tentem  com  frequência  acomodar  essas  metas  terapêuticas  à  vida  do  cliente  ou  da  família,  os
terapeutas  ainda  encontram  bons  pacientes  e  boas  famílias  na  mesma  proporção  que  pacientes  e  famílias
complacentes.  Desse  modo,  um  cenário  bastante  típico  é  aquele  em  que  o  terapeuta  designa  uma  atividade
domiciliar para o cliente realizar entre as sessões de terapia. Quando os familiares estão envolvidos na terapia,
eles recebem pa péis de facilitadores do programa domiciliar de terapia. Ainda que não haja nada de errado com
esse  tipo  de  relação  de  colaboração  entre  terapeuta  e  família,  ela  apresenta  alguns  perigos,  principalmente
quando os terapeutas não estão cientes de seu poder para mudar a dinâmica da família e as relações familiares ao
pressionar  os  cuidadores  da  família  a  se  tornarem  responsáveis  pelos  ganhos  terapêuticos.  Um  perigo
fundamental é que tanto os terapeutas como os familiares poderiam começar inconscientemente a presumir que o
papel primário da família seja um tipo de terapeuta assistente.
Não  constitui  surpresa  que  a  confiança  nos  modelos  de  especialista  fomente  relações  entre  terapeutas  e
familiares que incorporam estratégias de complacência e coerção. Isto leva à considerável confusão sobre se o
“caso”  é  de  colaboração,  coerção  ou  complacência  (Lawlor  &  Mattingly,  1998).  A  questão  não  é  apenas  um
problema de semântica. Cada conduta para trabalhar os relacionamentos cria experiências nitidamente diferentes
para  todos  os  envolvidos.  O  julgamento  do  terapeuta  de  que  uma  pessoa  não  é  submissa  ou,  nos  termos
empregados por familiares, é “mau pai”, “má filha”, entre outros, desvia energia da análise mais reflexiva ou das
tentativas diretas de compreender perspectivas alternativas (Trostle, 1988). Comentários como “eles apenas estão
em negação” frequentemente indicam uma ruptura na compreensão, uma rejeição das perspectivas da família ou
da  pessoa.  Tipicamente,  as  famílias  possuem  um  enorme  conhecimento  e  experiência  com  relação  a  seus
membros,  a  vida  familiar,  a  doença  ou  incapacidade  de  seus  membros  e  das  maneiras  pelas  quais  as
recomendações de tratamento serão provavelmente implementadas na casa. Como Bedell, Cohn e Dumas (2005)
observaram, os pais estão bem situados para promover e apoiar o desenvolvimento de seus filhos em casa e na
vida comunitária, sendo capazes de modificar ou desenvolver as estratégias efetivas.

EXPERIÊNCIAS DA FAMÍLIA E A PRÁTICA DA TERAPIA OCUPACIONAL
Passamos muitas horas observando as práticas de terapia ocupacional, principalmente com crianças. Além disso,
entrevistamos muitos pais e outros membros da família e terapeutas. Esses dados foram reunidos como parte de
um projeto urbano longitudinal de pesquisa etnográfica, atualmente intitulado Superando Limites: Ressituando a
Competência Cultural. Também estamos acompanhando uma coorte de crianças afro­americanas com doenças
e/ou incapacidades, seus cuidadores primários, familiares e os terapeutas que as tratam por aproximadamente 10
anos. Este é um estudo multifacetado que inclui a análise dos significados de doença e incapacidade no mundo
familiar e clínico; a comunicação cultural cruzada nos encontros de cuidados da saúde; práticas de cuidados de
saúde,  incluindo  a  terapia  ocupacional;  desigualdades  de  saúde;  processos  de  “parceria”  e  como  a  doença  e  a
incapacidade,  a  vida  familiar,  o  cuidado  de  saúde  e  o  desenvolvimento  se  inter­relacionam  (Lawlor,  2003;
Lawlor, 2004; Mattingly, 2006). A estrutura conceitual para o estudo fundamenta­se fortemente nas abordagens
narrativa, interpretativa e fenomenológica para compreender a experiência humana.
Uma  das  descobertas  mais  evidentes  é  a  maneira  pela  qual  a  conversa  aparentemente  casual,  os  breves
momentos de engajamento social, a atenção para a conectividade e os momentos compartilhados no curso das
sessões  de  terapia  podem  afetar  profundamente  as  experiências  dos  membros  das  famílias  e  dos  terapeutas  e,
talvez o mais importante, o resultado da terapia. Esses momentos podem ser bastante sutis e parecem ser um tipo
de  pano  de  fundo  para  o  trabalho  real  no  momento  da  terapia  ou  nos  encontros  de  cuidados  de  saúde.  Sua
natureza aparentemente corriqueira pode desvirtuar seu impacto. Conforme é ilustrado adiante, também existem
períodos de maior engajamento em que há intensidade de aprendizado ou insights para compreensão do que é
revelado.  Certamente,  existem  outros  tipos  de  momentos  no  cuidado  centrado  na  família  que  também  são
importantes e parecem ser marcados por conflito, tensão, drama ou emoção intensa. Como Laderman e Roseman
(1996) nos lembram, “Encontros médicos, não importa quão corriqueiros, são eventos dramáticos” (p.1).
Nas  passagens  a  seguir,  fornecemos  exemplos  de  experiências  familiares  relacionadas  com  a  doença  e  a
incapacidade  e  as  interações  com  os  profissionais,  incluindo  os  terapeutas  ocupacionais.  Os  terapeutas
ocupacionais compartilharam muitas histórias relacionadas a como eles ou suas práticas foram influenciados por
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suas  experiências  com  famílias.  Começaremos  por  retornar  ao  trecho  que  foi  utilizado  para  apresentar  este
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capítulo. Naquele trecho, a mãe compartilhou sua estratégia para garantir que sua família, inclusive os membros
mais afastados, fosse instruída sobre o programa de terapia da filha e o mundo clínico em que a terapia ocorria.
As passagens seguintes, retiradas de entrevistas com a terapeuta ocupacional, fornecem insights da experiência
dela,  terapeuta,  relacionada  ao  encontro  com  esta  família  e  sua  profunda  gratidão  pelas  lições  aprendidas  por
meio  desta  parceria.  A  terapeuta  ocupacional  agradece  a  esta  mãe,  a  quem  chamaremos  Leslie,  por  ajudá­la  a
aprender  como  se  relacionar  com  sua  filha,  uma  criança  que,  a  princípio,  não  deixava  que  a  terapeuta  se
aproximasse para trabalhar. A passagem a seguir revela que esta parceria bem­sucedida começou com um início
bastante precário:

E foi uma relação bastante agradável, construir uma relação e depois voltar e ajudá­la a realizar seu tratamento comigo
foi  uma  coisa  realmente  bonita.  Mas,  nos  primeiros  quatro  meses  de  terapia,  eu  não  podia  tocar  nela.  E  isto  era
interessante. Acho que quase fui bem­sucedida, porque precisava trabalhar por meio de Leslie. Leslie fazia toda a terapia
e  eu  ficava  mais  apenas  observando...  Era  realmente  engraçado  [risos].  Gostaria  que  tivéssemos  feito  algum  filme,  era
muito engraçado. Eu sentava num canto da sala. Eu tinha que... Eu nem mesmo podia me aproximar dela (a criança) ou
ela começava a chorar. E eu ficava sentada a certa distância, que passou a ser menor a cada sessão, e eu orientava tudo o
que Leslie precisava fazer. E eu acho que ensinei o máximo que podia sobre o que ela precisava fazer e forneci a ela uma
experiência  física,  uma  experiência  de  fazer  algo  por  sua  filha  e  sabendo  o  que  era,  quais  eram  as  metas,  em  vez  de
apenas sentar e observar. O que poderia ter sido... Eu não sei. Como eu a observava sendo tão bem­sucedida, por vezes,
eu imaginava se isso não fazia parte do tratamento... Por que ela precisava fazer a terapia [risos]. Eu, eu não podia. Eu
não  podia  chegar...  você  sabe.  Então,  por  fim,  e  foi  ideia  de  Leslie  e  minha  ideia,  também,  trazer  outro  filho  para  o
trabalho  porque  não  conseguíamos  fazê­la  se  mover.  Ela  não...  ela  estava  aterrorizada...  subir  nas  coisas  ou  qualquer
coisa normal que... uma criança normal exploraria. Ela estava aterrorizada. Quando você a vê hoje, não é mais a mesma
coisa. Foi realmente, realmente interessante.

Em outro momento, a terapeuta elaborou sobre o que ela aprendeu com esta mãe:

E ela me ensinou muito sobre aquilo. Ela também – o que acontece quando você trabalha com uma mãe naquela situação,
elas  lhe  ensinam  sobre  o  poder  da  negociação  e  a  respeitar  os  direitos  de  um  indivíduo.  Como  por  vezes,  quando  a
terapeuta não tem filhos, pode aprender mais sobre o papel de professor e insisti e fui adiante. E eu posso fazer aquilo.
Como  mãe,  não  acho  que  isto  funcione  em  minha  casa.  Você  apenas  teria  confronto.  Você  não  tem  poder  sobre  seus
filhos  como  professor.  Ela  tinha  uma  maneira  mais  incrível  de  negociar  com  a  personalidade  e  realmente  me  ensinou
como  fazer  aquilo  com  sua  filha.  Assim,  ocorreram  situações  em  que  eu  precisava  ser  mais  um  tipo  de  instrutora  e
insistia e dizia que estas são as regras e continuamos. E Leslie me mostrou um tipo de compreensão mais produtiva de
como ela criava seus filhos que foi realmente valioso.

A terapeuta, a quem iremos chamar de Megan, esclarece ainda como o conhecimento sobre a vida da família
facilita o processo terapêutico. A estratégia de Leslie de trazer os membros da família para a terapia não apenas
possibilitou que eles compreendessem mais a respeito da terapia, como também deu a Megan informações que a
ajudaram  a  visualizar  as  possibilidades  da  vida  da  família.  Megan  também,  habilidosamente,  incorporou
histórias  às  conversas  da  terapia  que  esclareceram  ainda  mais  a  vida  fora  da  clínica.  Em  uma  entrevista,  ela
comentou:

mas  não  é  como  no  caso  de  Leslie,  em  que  você  consegue  esta  fabulosa  compreensão  do  que  está  acontecendo.  E  este
tipo  de  comunicação,  compromisso  e  feedback  sobre  o  que  está  ocorrendo  aqui  neste  outro  mundo.  Como  eu  tenho  o
conhecimento  do  que  está  ocorrendo  no  mundo  de  Leslie.  Sei,  sinto  como  se  eu  quase  tivesse  retratos  de  sua  vida
familiar, e eu imagino, você sabe, que ela me contará uma história sobre a árvore de Natal e como Kylie (a filha), você
sabe,  faz  para  enfeitar  a  parte  alta  da  árvore  porque  ela  precisa  utilizar  seu  braço  de  certa  maneira.  E  eu  posso  ver  a
família e eu, eu...

Como parte de nossa pesquisa, estamos tentando compreender mais sobre a maneira pela qual os terapeutas e
as  famílias  se  conhecem  e  compreendem  o  suficiente  para  estabelecer  uma  parceria  efetiva  e  quais  atributos
influenciam as parcerias. Leslie compartilha suas perspectivas da seguinte maneira:

Não  tem  nada  a  ver  com  o  seu  grau  de  escolaridade.  Tem  a  ver  com  sua  experiência  de  vida.  E  faz  diferença.  Pela
experiência que tive com Megan, à medida que tivemos de nos comunicar uma com a outra... Não sei muito – Não sei e
não sabia nada sobre sua vida pessoal. Tudo bem, mas sabia o suficiente para saber que o que quer que tenha acontecido
em  sua  vida  a  tornou  mais  forte,  ou  não  sei  se  isto  era  o  que  eu  procurava  –  isso  deu  a  ela  a  vontade  de  cuidar  das
pessoas.  Se  foi  alguma  coisa  ruim,  ela  disse,  tudo  bem  eu  não  vou  ficar  assim,  ou  foi  algo  realmente  bom  porque  a
trouxe  para  um  ambiente  de  estimulação,  isso  despertou  sua  personalidade  de  cuidadora.  E  isso  fez  uma  grande
diferença. Porque foi isso que ela trouxe para o tratamento. Você sabe? E meu forte senso de família e, é claro, é sobre
meu  bebê  que  estamos  falando,  você  sabe.  E  você  tem  estas  duas,  nós  duas  voltando  à  discussão...  quando  nos
sentávamos para discutir o que é melhor para um filho. Acho que fez uma grande diferença. Se – se Megan tivesse sido
apenas  profissional,  mantido  uma  postura  muito  técnica...  você  sabe,  acho  que  o  resultado  teria  sido  diferente.  Eu
provavelmente  teria  dito  a  alguém,  não  quero  que  ela  seja  a  terapeuta  da  minha  filha.  Você  sabe,  acho  que  porque  não
teria sentido aquilo, aquele incentivo que estava dentro dela. Acho que isto é necessário, para lidar com toda criança, não
apenas com a minha. Mas isso, isso é realmente demais!

Queremos  agora  apenas  descrever  sucintamente  uma  parte  da  sessão  ocupacional  que  ilustra  a  participação
frequentemente sutil, mas altamente efetiva dos familiares nas sessões de terapia. O momento que descrevemos
no Estudo de Caso ocorreu durante uma sessão em que uma terapeuta ocupacional estava trabalhando com um
menino com lesão de plexo braquial. A atividade que ela planejou proporcionou uma oportunidade para avaliar
sua sensibilidade, as capacidades motoras finas e a coordenação bilateral. Esta passagem mostra a estrutura de
narrativa das sessões de terapia e as maneiras pelas quais os familiares podem contribuir como atores sociais no
cenário  da  terapia  (Lawlor,  2003;  Mattingly,  1998).  Mesmo  que  aqui  descrevamos  apenas  alguns  minutos  de
uma  sessão  de  terapia,  estamos  extraindo  os  aspectos  principais.  O  tempo  de  tratamento,  principalmente  as
sessões  com  maiores  engajamento  e  participação  familiares,  é  muito  rico  e  muito  complexo  para  que  se
forneçam todos os detalhes e a descrição completa.
Sempre é um pouco difícil escrever um texto para transmitir a ação entre os atores sociais participantes. Nas
breves  passagens  descritas  no  Estudo  de  Caso,  tentamos  evocar  os  tipos  de  animação,  sintonia,  engajamento,
alegria  e  a  coordenação  conjunta  que  marcaram  esses  momentos.  Os  membros  dessa  família  e  essa  terapeuta
criaram  uma  experiência  terapêutica  que  abordou  as  desafiadoras  necessidades  clínicas  de  Micah,  ao  mesmo
tempo que ofereceu uma oportunidade para momentos de participação. Esses momentos eram suficientemente
estimulantes  para  que  essa  família  descrevesse  ativamente  maneiras  de  reproduzir  a  experiência  doméstica,
visando recriar na clínica um evento da experiência familiar em casa.

ESTUDO DE CASO: A Caixa Mágica

A terapeuta, a quem chamaremos de Geórgia, anuncia o jogo de adivinhação e apresenta uma caixa muito
bem decorada, com aproximadamente 20 centímetros de largura e 30 centímetros de altura. Micah, que tem
aproximadamente  4  anos  de  idade,  seu  irmão  Damian,  mais  velho,  e  sua  mãe,  Sheana,  estão  presentes,
juntamente com uma das autoras, que está filmando a cena. Sheana, que está sentada ao lado, diz: “Ooh”,
com entonação dramática. Geórgia revela que ela é uma “caixa mágica”. Os dois irmãos se unem a ela em
um círculo fechado, sentados no chão sobre o tapete. Geórgia instrui Micah que ele deve segurar a caixa e,
sem olhar, encontrar coisas (estas coisas são pequenos objetos que estão misturados aos feijões). Ao tocar
seu braço esquerdo, ela indica que este é o braço que ela quer que ele utilize. (A lesão do plexo braquial de
Micah é à esquerda.) “Veja se você pode encontrar alguma coisa. Mexa com seu braço dentro dela. Eu lhe
direi quando você encontrar alguma coisa. Não. [sussurra] É uma caixa secreta. Não, você não pode olhar.
É  secreta.  Encontrou  alguma  coisa  dentro  dela?”  Micah  tentou  olhar  sob  a  tampa  da  caixa  como  uma
estratégia de adaptação, pois ele aparentemente estava tendo problemas para sentir os objetos misturados
aos  feijões.  Micah  lamenta­se  um  pouco  com  frustração  e  desliza  sua  mão  direita  para  dentro  da  caixa  e
pega rapidamente um objeto. Geórgia diz, “Não, não, com esta mão não pode...” e sua mãe diz, “Apenas a
esquerda é que pode, Micah”, apoiando assim a determinação da terapeuta para que ele utilize seu braço
esquerdo. Geórgia pega o objeto encontrado e o coloca na mão esquerda de Micah. Então ela pede a ele
para  mostrar  e  dar  o  objeto  para  seu  irmão,  incorporando,  assim,  de  maneira  sutil,  o  irmão  mais  velho  de
Micah nesta atividade terapêutica que tem claramente o potencial para fomentar a disputa.
A atividade desenvolve­se com a narrativa habilidosa concomitante e contínua e a participação de Sheana
e  Damian.  Os  irmãos  estão  intensamente  engajados,  e  Damian,  por  vezes,  parece  apoiar  seu  irmão,
fortalecendo  assim  o  potencial  de  Micah  para  o  sucesso.  Por  exemplo,  quando  Micah  alcança  a  caixa,
Damian comenta, “Eles poderiam estar todos aqui embaixo”, facilitando assim as tentativas de Micah para
procurar  mais  profundamente  na  caixa.  Sheana,  por  vezes,  tenta  comandar  habilidosamente  a  sessão,
parecendo vigilante para que Damian não ultrapasse os limites ou fique muito envolvido, perturbando assim
a sessão de Micah, ou fique isolado de maneira a limitar sua capacidade de apoiar a atividade terapêutica.
Por  exemplo,  ela  chama  Damian  pelo  nome  quando  quer  que  ele  se  retraia  um  pouco  ou,  ao  contrário,
preste mais atenção.
A  ação  que  todos  estes  quatro  atores  produzem  é  quase  contínua,  quase  coreografada  em  sua  fluidez,
mas também é obviamente espontânea e organizada no fluxo da terapia. O trabalho que a mãe, o irmão e a
terapeuta fazem para ajudar a tornar esta sessão tão efetiva não está apenas relacionado com a promoção
do  comportamento  desejado,  embora  isto  seja  importante.  Tanto  a  mãe  quanto  o  irmão  utilizam
habilidosamente as mudanças no tom de voz para apoiar os esforços de Micah. A transcrição da sessão é
temperada  por  comentários  como  “Você  conseguiu!”  e  “Oooh!”,  um  tipo  de  admiração  tranquila.  Eles
também parecem estar destacando o engajamento no fazer, tornando o “jogo de adivinhação” mais atraente,
mais  dramático.  Por  exemplo,  Damian  torna­se  um  tipo  de  locutor  sobre  os  objetos  que  são  retirados  da
caixa. O que parecia ser inicialmente uma caixa de animais de fazenda transformou­se em uma caixa com
singularidades, de modo que Mickey Mouse, leões e gorilas surgiam com considerável surpresa e diversão.
Isto é demonstrado por Damian ao comentar quando o Mickey é encontrado, “O que ele está fazendo aqui?”
Em  outros  momentos  nesta  sessão,  Damian  recebeu  muitas  tarefas  iguais  às  de  seu  irmão,  como
balançar no tra pézio ou pegar os feijões que caíam no chão enquanto Micah revolvia a “caixa mágica”. A
inclusão  de  Damian  não  somente  ajudou  a  tornar  a  sessão  mais  divertida,  como  também  proporcionou
muitas  oportunidades  para  a  reciprocidade,  ceder  a  vez  e  compartilhar  entre  dois  irmãos.  A  atenção
cuidadosa de Sheana à sessão e aos comportamentos de seus filhos, bem como sua conarrativa habilidosa,
aumentou ainda mais a percepção de que este era um evento familiar.
Próximo ao fim da atividade, Sheana comenta, “É uma coisa muito agradável”. Geórgia responde com um
sorriso e um comentário: “É alguma coisa com que você realmente pode se divertir em sua casa.” Esta é a
repetição de uma conversa que aconteceu durante a brincadeira, quando Damian disse, “Vamos levar para
casa” em meio à sua diversão, após sua mãe comentar que “Esta é uma boa ideia – eu gosto disso”. Segue
um  pequeno  debate  sobre  se  seria  melhor  feijão  ou  arroz.  Durante  toda  esta  atividade  foram  feitos
comentários com Geórgia relatando os motivos para esta ser uma atividade terapêutica para Micah.

CONCLUSÃO
Neste capítulo, destacamos muitos dos desafios que estão envolvidos na tentativa de responder às necessidades
dos clientes e de suas famílias. Os desafios estão associados a oportunidades. Quando os terapeutas descobrem
maneiras  de  conhecer  melhor  as  famílias  e  compreender  suas  perspectivas,  surgem  oportunidades  para  que  os
profissionais  construam  experiências  mais  ricas  e  mais  significativas.  Quanto  mais  significativa  for  a
experiência, mais provavelmente o tratamento será eficaz.
Descobrimos  que  as  discussões  das  oportunidades  precisam  ser  temperadas  com  precauções  específicas.  As
abordagens  para  conhecer  melhor  as  famílias  devem  ser  não  invasivas,  sensíveis,  isentas  de  julgamento  e
respeitosas em relação aos parâmetros de privacidade e de revelação que os indivíduos indicam. Compreender
uma perspectiva não supõe que, como um terapeuta ocupacional, você seja responsável por intervir em todas as
dimensões  daquela  perspectiva.  O  cuidado  centrado  na  família  é  implementado  de  maneira  mais  efetiva  nas
situações  em  que  os  esforços  interdisciplinares  são  bem  coordenados  e  comunicados  de  maneira  efetiva.  Nas
situações em que os  profissionais  trabalham  em  isolamento  relativo,  deve­se ter cautela para garantir que eles
atuem dentro dos limites de sua experiência e facilitar de maneira apropriada o acesso a outros recursos, quando
necessário.
Um dos maiores desafios  para  os  terapeutas  é  o  de  compreender  como  suas próprias experiências modelam
suas interações com os membros da família durante a prestação dos serviços. Os modelos conceituais de prática
e  teoria  sobre  sistemas  familiares  e  desenvolvimento  humano,  ética  e  políticas  públicas  e  institucionais
contribuem,  sem  exceção,  para  nossa  estrutura  de  tratamento  centrado  na  família.  No  entanto,  os  terapeutas,
como  instrumentos  para  o  tratamento,  trazem  as  visões  culturais  de  suas  famílias  e  as  suas  próprias  para  as
interações clínicas.
Reconhecemos  intuitivamente  que  certos  fatores,  como  nossa  etnia,  nacionalidade,  origem  geográfica  e,
talvez,  até  mesmo  a  nossa  religião,  nos  provêm  com  mundos  culturais  poderosos.  Estes  aspectos  de  nossa
história nos ajudam a construir o que somos do ponto de vista cultural. Com frequência, não estamos totalmente
cientes de que nossa profissão e nossa família também oferecem mundos culturais que modelam parte de nossas
suposições, crenças e valores mais profundos. Este capítulo preocupa­se com um tipo de interseção cultural entre
o profissional (atuando como um membro da cultura de uma profissão) e o cliente (atuando como membro de
uma  cultura  familiar).  Os  profissionais,  obviamente,  têm  famílias,  e  os  clientes  frequentemente  têm  profissão.
No entanto, quando os profissionais e os clientes se encontram durante o tratamento de terapia ocupacional, as
culturas do profissional e da instituição são particularmente significativas na modelagem de como o profissional
define bom tratamento e boa relação profissional­cliente.
Os  terapeutas  ocupacionais  iniciam  em  sua  profissão  com  experiências  de  vida  de  ser  um  membro  de  uma
família.  A  experiência  vivenciada  de  crescer  em  família  modela  significativamente  quem  somos  enquanto
profissionais, principalmente em situações nas quais os terapeutas procuram conhecer uma família e procuram
compreender  suas  necessidades,  prioridades,  valores,  esperanças  e  recursos.  Estas  suposições  sobre  a  vida  da
família  tendem  a  ser  bastante  tácitas  e,  com  frequência,  não  estamos  cientes  de  sua  influência,  a  menos  que
reflitamos ativamente sobre nossas ações. A reflexão orientada através da atuação como mentor e supervisor e as
discussões com outros membros da equipe com relação às crenças sobre famílias específicas são componentes
essenciais do planejamento e da implementação do tratamento dos clientes e suas famílias.

AGRADECIMENTOS
Este capítulo foi fundamentado no trabalho relacionado a quatro projetos de pesquisa. Um estudo foi financiado
pelo subsídio MCJ­060745 do Maternal and Child Health Program (Title V, Social Security Act), da Health and
Services  Administration,  Department  of  Health  and  Human  Services.  Nossos  agradecimentos  à  American
Occupation  Therapy  Foundation  por  seu  apoio  ao  trabalho  piloto  relacionado  com  aquele  estudo.  A  pesquisa
também  foi  fundamentada  pelos  Boundary  Crossing:  A  Longitudinal  and  Ethnographic  Study  (no  R01  HD
38878)  e  Boundary  Crossings:  Re­Situating  Cultural  Competence  (no  2R01  HD  38878),  financiados  pelo
National  Institute  of  Child  Health  and  Human  Development  (NICHD),  National  Institutes  of  Health  (NIH).  O
conteúdo  deste  capítulo  é  de  responsabilidade  única  dos  autores  e  não  representa  necessariamente  as  opiniões
oficiais  de  qualquer  uma  destas  instituições.  Também  gostaríamos  de  expressar  nosso  agradecimento  a  muitas
crianças, famílias, terapeutas e profissionais que participaram nestes esforços de pesquisa e que compartilharam
suas experiências de maneira voluntária. Também gostaríamos de agradecer especialmente a Melissa Park, Beth
Crall, Cristine Carrier, Kim Wilkinson, Jesus Diaz, Lisa Hickey, Cynthia Strathmann, Emiley Areinoff e Claudia
Dunn por suas contribuições e assistência na preparação deste capítulo.

QUESTÕES INSTIGANTES
1. Reflita sobre as citações de Leslie e Megan e comente o que mais lhe surpreendeu.
2. O que você acha que ajudou para que esse relacionamento funcionasse?
3. Como você acha que as experiências de sua própria vida e de sua vida familiar poderiam afetar a maneira
pela qual você “faz parcerias” com as famílias?
4. Você  pode  identificar  qualquer  suposição  problemática  adicional  que  poderia  influenciar  sua  colaboração
com as famílias?

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1Os dados que são utilizados neste capítulo foram retirados de um estudo longitudinal baseado em três fontes: Crossin Cultural Boundaries:

An Ethnographic Study (MCJ Grant no MCJ 060745); Boundary Crossing: A Longitudinal and Ethnographic Study (NICHD, NIH, no 1 R01
38878);  e  Boundary  Crossings:  Re­Situating  Cultural  Competence  (NICHD,  NIH,  no  2  R01  38878).  São  utilizados  pseudônimos  para
proporcionar maior confidencialidade.
2Para uma leitura detalhada desta história como um fenômeno cultural, veja, por exemplo, Foucault (1973, 1979).
Contribuição da Ocupação para a Saúde e o Bem­Estar
CLARE HOCKING

Sumário
Ocupação e Saúde
Necessidades, Habilidades e Capacidades
Desenvolvendo as Habilidades e Exercitando as Capacidades
Saúde e Bem­Estar
Ocupação e Bem­Estar
Uso do Tempo e Bem­Estar
Ocupação, Comprometimento e Bem­Estar
Estruturando a Ocupação para Aumentar o Bem­Estar
Estudo de Caso: Fazer ou Morrer
Conclusão

Objetivos de Aprendizagem
Após a leitura deste capítulo, você será capaz de:

1. Explicar como a saúde é tanto um recurso que dá suporte à participação na ocupação como um resultado da participação.
2. Definir o que significa saúde e como a saúde difere de bem­estar.
3. Explicar saúde em relação às necessidades biológicas, habilidades e capacidades.
4. Identificar os aspectos físicos, mentais e sociais do bem­estar e como estes podem ser influenciados pelos ambientes físico e social e pela
atitude de uma pessoa.
5. Discutir as maneiras pelas quais as ocupações das pessoas e como tais ocupações são organizadas poderiam apoiar ou minar a saúde e
o bem­estar.
6. Explicar como um comprometimento poderia afetar o bem­estar, considerando as experiências ocupacionais atuais, as expectativas para o
futuro e a influência das barreiras ambientais.

Jane: Sempre fiz tortas de frutas cristalizadas no Natal. Espero ter feito uma coisa boa, porque fiz minha própria salada de frutas e pus bastante licor nela. É realmente
deliciosa, mesmo que eu tenha que dizer isto para mim mesma. Cozinho uma quantidade, acho que umas quatro a cinco dúzias. Tenho uma pequena linha de
produção em funcionamento. Quando vou visitar meus amigos, faço um pequeno embrulho com duas ou quatro delas, dependendo do número de pessoas. Não é
um presente. Não estamos nos presentes de Natal, é ridículo que você possa gastar tanto com eles. É apenas uma pequena lembrança.
Brenda: Isto funciona muito bem.
Dawn: Gosto de sua ideia de que isto não seja um presente. Não é caro e não dá a quem recebe uma sensação de “Oh, trouxe alguma coisa para você.”
Jane: Isto funciona bem. É o que as pessoas gostam de receber e elas gostam de minhas tortas de frutas. Elas comem no dia e eu deixo uma quantidade suficiente para
o primeiro dia após o Natal.
   
(Wright­St. Clair & Hocking, dados não publicados, 2000)

J
ane, Brenda e Dawn concordam que as tortas de frutas no Natal constituem um presente perfeito. Jane tem o prazer de saborear o cheiro da fruta picada
enquanto matura durante várias semanas e gosta do processo de preparar todas as tortas de maneira eficiente. Ela sabe que seus amigos apreciam o tempo e
o esforço que ela investe no presente, mas não se sentem obrigados a comprar alguma coisa para ela em retribuição. O melhor de tudo, como eles sabem que
são frescas e deliciosas, Jane sabe que suas tortas são consumidas logo que chegam. Nesta ocupação comum, embora amável, Jane exercita suas habilidades
como cozinheira, emprega seu conhecimento sobre o significado do Natal e reforça os relacionamentos que tornam seu mundo um lugar caloroso e agradável.
Em contrapartida, ela recebe o feedback de que seu esforço, sua experiência e sua amizade são apreciados.
Os  sentimentos  de  competência  e  relacionamento  social  que  Jane  experimenta  ao  cozinhar  e  oferecer  o  alimento  contribuem  para  sua  sensação  geral  de
bem­estar. Apesar de sua idade avançada, Jane mantém esta tradição anual juntamente com muitas outras ocupações que considera importante. Embora sua
rotina diária e as escolhas ocupacionais sejam diferentes daquelas de outros tempos em sua vida, ela de modo geral está satisfeita com sua vida e condições.
Além disso, quando está totalmente engajada e aprecia o que faz, como quando está embrulhando suas tortas de frutas cristalizadas, Jane experimenta uma
sensação agradável de vitalidade e de envolvimento com seus amigos, sua família e sua comunidade.

OCUPAÇÃO E SAÚDE
A experiência de Jane se assemelha à compreensão popular de saúde e bem­estar. Diferente da visão biomédica de saúde, que tende a enfatizar a ausência de
doença (Glanze, 1990), as pessoas na sociedade ocidental comumente percebem a si próprias como física e mentalmente saudáveis quando são capazes de
fazer as coisas que são importantes para elas. Na realidade, as pessoas frequentemente alegam estar com boa saúde apesar de apresentarem condições de saúde
bastante  graves,  condições  restritas  de  vida  e  limitações  evidentes  no  funcionamento  (Organização  Mundial  de  Saúde  [OMS],  2001).  Por  exemplo,  uma
mulher que declarou estar “muito saudável, não obstante sua artrite” foi descrita por um pesquisador como “uma mulher de 61 anos presa em casa e inválida”
(Blaxter,  1990,  p.  22).  Em  geral,  as  pessoas  igualam  sua  saúde  à  aparência,  à  aptidão  física,  aos  níveis  de  energia,  ao  bem­estar  psicossocial,  aos
relacionamentos sociais e ao fato de serem capazes de realizar suas ocupações normais (Blaxter, 1990). É esta cisão ocupacional de saúde que é o foco desta
discussão.
O primeiro ponto a se observar é que estar em boa saúde sustenta claramente a capacidade de realizar as ocupações diárias habituais. Em outras palavras,
isso ajuda se as pessoas estão suficientemente aptas, fortes e flexíveis; são capazes de focar seus pensamentos e atenção; e não ficam muito fatigadas em fazer
o que precisa ser feito. Por exemplo, Bruce e John (Figura 5.1) dependem do fato de estarem saudáveis para realizar as tarefas na fazenda. Ou seja, isso ajuda
se seus esforços não são excessivamente comprometidos por dor, deformidade, falta de ar, desnutrição, confusão, desespero ou apatia que resulta do tédio ou
da desesperança. Neste sentido, a saúde é um recurso, embora muitas pessoas não reconheçam isso. Um exemplo do cuidado com a saúde como um recurso
para  a  ocupação  é  a  resposta  à  doença.  Para  muitas  pessoas,  estar  doente  é  um  motivo  legítimo  para  não  fazer  as  coisas  que  elas  usualmente  fazem.  Com
frequência, doença significa estar liberado das responsabilidades e que outros farão as coisas em lugar das pessoas doentes. Assim, as mães fazem canja ou o
equivalente  cultural  para  os  membros  doentes  da  família,  enquanto  os  colegas  de  trabalho  assumem  tarefas  extras  para  garantir  que  as  funções  da  pessoa
doente sejam realizadas a tempo.

Fig. 5.1 Bruce e John no trabalho de separar ovelhas.

Necessidades, Habilidades e Capacidades
Embora a saúde facilite  a participação,  o  oposto  também  é  verdadeiro:  a  participação  na  ocupação  contribui  para  a  boa  saúde.  No  nível  da  sobrevivência
individual e da es pécie, conforme Wilcock (1993) argumentou de maneira convincente, a ocupação é essencial porque as necessidades biológicas  básicas
para sustento, autocuidado, abrigo e segurança são satisfeitas por meio das coisas que as pessoas fazem. Ao satisfazer estas necessidades, e por meio de outras
ocupações da vida diária, as pessoas desenvolvem “habilidades, estruturas sociais e tecnologia direcionadas para a superioridade em relação aos predadores e
ao ambiente” (Wilcock, 1993, p. 20). Estas habilidades incluem, por exemplo, cultivar e cozinhar alimentos nutritivos e produzir roupas quentes e casas secas.
Também  importante,  embora  nem  sempre  desenvolvida,  é  a  habilidade  de  viver  em  paz  com  os  vizinhos.  Dependendo  das  circunstâncias,  muitas  outras
habilidades também são relevantes para a saúde. Ler e escrever, por exemplo, são meios importantes de transmissão de informações relevantes para manter a
saúde e procurar os cuidados de saúde nas sociedades ocidentais, porém podem ser menos relevantes em outras regiões. Também é importante observar que
nem todas as pessoas precisam de todas as habilidades que são relevantes para a sobrevivência. Em vez disso, a saúde depende do fato de ser parte de uma
família ou comunidade de pessoas que, em conjunto, têm as habilidades necessárias para sobreviver e, talvez, para prosperar, bem como depende do acesso aos
recursos para colocar suas habilidades em uso.
Satisfazer as necessidades pessoais e se tornar hábil não é suficiente para garantir a boa saúde; de igual importância é a contribuição dada pela ocupação
para  desenvolvimento  e  uso  das  capacidades  (Wilcock,  1993,  1995).  Estas  capacidades  surgem  das  características  biológicas  comuns  a  todos  os  seres
humanos: caminhar ereto, opor o polegar e os dedos para segurar objetos, e assim por diante. As pessoas têm a capacidade, entre outras coisas, de transportar
cargas,  criar  novas  ferramentas  e  encontrar  novos  usos  para  as  antigas  ferramentas,  compreender  o  funcionamento  do  universo,  acumular  e  difundir  o
conhecimento, predizer o que poderia ter acontecido e se preparar para o futuro, estabelecer relacionamentos e se expressar de maneira artística e espiritual. As
pessoas também apresentam a capacidade de brincar, como nos mostra Jamie, fotografada no momento de arremessar uma bola (Figura 5.2).

Fig. 5.2 Jamie concentrada em jogar a bola.

As  capacidades  de  cada  pessoa  refletem  esse  potencial  humano,  por  meio  de  sua  herança  genética,  traduzida  pelo  processo  de  desenvolvimento  e  uma
história de vida única de oportunidades ocupacionais, preferências e escolhas. Com base em sua história de como fazer as coisas e nas expectativas do que elas
poderiam fazer no futuro, as pessoas geralmente estão cientes das capacidades que possuem: se elas são melhores nos esportes, na arte ou na música; se elas
acham o trabalho escolar ou as tarefas práticas mais agradáveis; e se preferem ocupações solitárias ou uma mistura social.
As capacidades que são mais frequentemente citadas em relação a ser saudável são aquelas relacionadas com o desempenho físico. Por exemplo, estima­se
que 20 a 30 milhões de norte­americanos que correm regularmente afirmam fazer isto para aumentar sua aptidão física, isto é, sua capacidade para a atividade
física intensa, bem como para os benefícios concomitantes para controle do peso e a sensação de se sentir bem (Primeau, 1996). No entanto, nem todos gostam
de correr, e muitas pessoas não se engajam regularmente em outras ocupações de demandas físicas, como jardinagem, natação, andar de bicicleta, praticar um
esporte  ou  fazer  limpeza.  Em  resumo,  pessoas  que  não  se  exercitam  não  estão  mantendo  a  capacidade  de  se  esforçar  fisicamente.  As  consequências  são
potencialmente  graves.  Além  de  não  serem  capazes  de  sustentar  o  esforço  físico,  caso  elas  precisem  fazê­lo,  as  pessoas  que  não  realizam  exercício  físico
suficiente apresentam maior risco de doença cardiovascular e câncer (Wallis, Miranda & Park, 2005). A falta de exercício também está associada à crise da
obesidade infantil (veja o Estudo de Caso). Para aqueles que não se exercitam de outra maneira, caminhar com razoável rapidez durante um mínimo de 30
minutos por dia, cinco dias por semana, é considerado o requisito mínimo para manter a saúde (Wallis, Miranda & Park, 2005). As estimativas do número de
pessoas  que  alcançam  este  nível  de  atividade  variam.  Apenas  6%  dos  noruegueses  com  mais  de  65  anos  de  idade  satisfazem  esta  orientação  de  exercício
(Loland,  2004).  Nos  Estados  Unidos,  22,4%  dos  adultos  se  engajam  em  atividades  físicas  vigorosas  cinco  vezes  por  semana;  o  percentual  por  faixa  etária
diminui de 31,7% entre as pessoas com 18­24 anos de idade para 6,2% entre aquelas com 75 anos ou mais (Centers for Disease Control and Prevention [CDC],
2005a). Estas estatísticas indicam que o estilo de vida de muitas pessoas não sustenta a saúde ótima.
Embora menos enfatizado na literatura, também é importante exercitar as capacidades mentais e sociais, visando manter o funcionamento cognitivo, a saúde
psicológica  e  as  redes  sociais  positivas.  Na  realidade,  participar  de  ocupações  pode  gerar  benefícios  que  excedem  os  aspectos  físicos,  mentais  e  sociais  da
saúde.  Por  exemplo,  um  estudo  em  grande  escala  com  idosos  norte­americanos  mostrou  que  as  ocupações  sociais  e  produtivas  diminuíram  seu  risco  de
mortalidade tanto quanto o fizeram as atividades físicas (Glass, de Leon, Marottoli & Berkman, 1999). Da mesma maneira, as pessoas mais velhas sob cuidado
domiciliar na Inglaterra vivem por mais tempo e têm menos probabilidade de apresentar depressão quando estão cientes das oportunidades para se ocupar e
apreciam  as  coisas  que  fazem  (Mozley,  2001).  De  modo  semelhante,  quanto  mais  norte­americanos  idosos  praticam  jardinagem,  dançam,  jogam  golfe  ou
boliche, nadam, andam de bicicleta ou correm, ou caminham para se exercitar, mais provável é que seu funcionamento cognitivo melhore. Participar dessas
ocupações parece reduzir a probabilidade de depressão e fortalecer as redes sociais (Vance, Wadley, Ball, Roenker & Rizzo, 2005).

Desenvolvendo as Habilidades e Exercitando as Capacidades
Muito se debate sobre o que estimula as pessoas a se engajarem em ocupações que aumentam suas chances de sobrevivência, de desenvolver habilidades e de
exercitar  as  capacidades.  Uma  sugestão,  dada  pela  primeira  vez  por  Wilcock  em  1993,  é  que  os  seres  humanos  experimentam  necessidades  biológicas  que
estimulam a ocupação, o que, por sua vez, promove a saúde. Estas necessidades estão relacionadas, a princípio, com a correção das ameaças a nosso estado
fisiológico, como estar excessivamente quente ou frio ou sentir fome ou sede. O desconforto dessas sensações nos estimula à ação: encontrar uma sombra,
vestir mais roupas ou procurar alimento ou bebida. (Veja a Figura 5.3.)
O segundo conjunto de necessidades é de proteção e prevenção, como a necessidade de desenvolver as habilidades e exercitar as capacidades. Estas são
experimentadas como uma onda de energia que nos impulsiona a adquirir e praticar as habilidades necessárias para solucionar problemas e planejar, interagir
com os outros, fazer qualquer coisa que garanta nossa subsistência, e assim por diante. Ao fazerem isso, pelo menos antes que a tecnologia reduzisse muitas
das demandas físicas de antigos estilos de vida, as pessoas exercitavam suas capacidades para o funcionamento físico, mental e social. O terceiro e último
conjunto  de  necessidades  nos  leva  ao  engajamento  imediato  na  ocupação  e  recompensa  o  engajamento  nesta.  Satisfazer  essas  necessidades  confere  uma
sensação de propósito, satisfação e realização. Mais tipicamente associados a níveis mais elevados de saúde e bem­estar, estes conceitos são abordados mais
adiante na discussão.

Fig. 5.3 Hierarquia biológica de necessidades para a ocupação. (De Wilcock, 1993.)

SAÚDE E BEM­ESTAR
Embora não exista nenhuma descrição definitiva de bem­estar, este é geralmente compreendido como a percepção subjetiva de uma pessoa sobre sua saúde.
Nas sociedades ocidentais, na qual prevalecem os valores individualistas, o bem­estar está comumente associado a conceitos como autoestima, felicidade, uma
sensação de pertencer e crescimento pessoal, englobando os sentimentos da pessoa com relação à sua saúde física, mental e social (Wilcock, 1998). As culturas
das populações indígenas também incluem frequentemente noções de bem­estar espiritual, espírito comunitário e conexão com a terra (Aguis, 1993; Durie,
1994).  Tomando  uma  perspectiva  ecológica,  Wilcock  (1998)  sugeriu  que  o  bem­estar  das  pessoas  estaria  inexoravelmente  ligado  à  saúde  dos  ecossistemas
locais e globais.
Reconhecer que a saúde e o bem­estar são afetados por fatores externos a um indivíduo sugere que alguma coisa pode ser aprendida a respeito da saúde e do
bem­estar dos indivíduos ao se examinarem as medidas relevantes da saúde da população. Dessa maneira, quando considerado em relação às estatísticas de
mortalidade,  o  bem­estar  parece  relacionar­se  com  emprego,  prosperidade  e  etnia,  pois  as  pessoas  que  estão  empregadas,  aquelas  com  rendimentos  mais
elevados e os membros do grupo étnico dominante em uma sociedade apresentam incidências menores da maioria das doenças crônicas e melhores resultados
dos cuidados de saúde (CDC, 2005b; Ministry of Health Manat˜u Hauora, 2005). Além disso, seus filhos têm maior probabilidade de sobreviver (Whitehead,
1988).
Isto não quer dizer que o bem­estar é incompatível com a doença e a lesão. De fato, mesmo as pessoas com uma doença terminal podem colocar este fato de
lado  e,  pelo  menos  por  um  período,  apreciar­se  por  completo  (Hasselkus,  2002).  Isso  reforça,  porém,  a  carga  adicional  de  possuir  uma  patologia,
principalmente quando o contexto físico, social ou de atitude dá menos suporte à participação na gama de ocupações normais que os outros apreciam (OMS,
2001).  Os  exemplos  dessas  circunstâncias  incluem  os  prédios  inacessíveis,  a  pobreza  e  os  altos  níveis  de  desemprego,  além  dos  estigmas  associados  a
condições como AIDS, hanseníase e doença mental. Enfrentar essas barreiras, principalmente quando elas persistem, poderia desafiar as percepções de bem­
estar.

OCUPAÇÃO E BEM­ESTAR
Na seção anterior, o bem­estar foi definido como a experiência subjetiva da saúde ou os sentimentos das pessoas a respeito de sua saúde. A partir de uma
perspectiva  ocupacional,  os  sentimentos  de  bem­estar  originam­se  das  coisas  que  as  pessoas  fazem  que  propiciam  uma  sensação  de  vitalidade,  propósito,
satisfação ou plenitude. O bem­estar ocupacional também está relacionado com as coisas que as pessoas planejam realizar no futuro. O bem­estar é expresso
em  termos  de  sentir­se  no  topo  do  mundo:  sentir­se  nutrido,  contente,  transformado,  em  paz,  forte,  interessado  e  totalmente  vivo;  ou  experimentar  a
concentração intensa (Wilcock, 1998). Esses conceitos estão alinhados em sua maioria com a Carta de Ottawa que diz que para atingir o bem­estar completo
“um indivíduo ou grupo deve ser capaz de identificar e realizar as aspirações, satisfazer as necessidades e lidar com o ambiente” (OMS, 1986, p. 1). Conforme
discutido anteriormente, o mecanismo pelo qual as pessoas alcançam estas coisas é por meio da ocupação.
Contudo, não é surpresa que as tentativas de igualar o bem­estar à frequência ou extensão da participação nas ocupações valorizadas tenham sido, em sua
maioria,  malsucedidas  (veja,  por  exemplo,  Christiansen,  1996;  Stanley,  1995).  Este  achado  apoia  a  noção  de  que  o  bem­estar  se  relaciona  mais  com  a
qualidade  ou  intensidade  da  própria  experiência  (Csikszentmihalyi,  1993;  Persson,  Eklund  &  Isacsson,  1999).  São  inúmeros  os  exemplos  de  pessoas  que
experimentam  uma  sensação  de  bem­estar  por  meio  da  ocupação.  Na  literatura  da  ciência  ocupacional,  eles  incluem  as  alegações  de  que  a  dança  é  uma
ocupação de transformação que pode despertar as pessoas para sua essência espiritual (Graham, 2002) e que decorar um bolo tanto reduz o estresse como gera
imensa satisfação. Além disso, as pessoas interpretam o tempo gasto na decoração de seu bolo como um presente de amor, o que implica um impacto positivo
sobre sua sensação de bem­estar (Scheerer, Cahill, Kirby & Lane, 2004). De maneira semelhante, a fabricação de colchas revela a criatividade, mesmo quando
as mulheres trabalham seguindo padrões tradicionais de fabricação das colchas, e para algumas isso se torna um objetivo fundamental. Além disso, fomenta o
aprendizado  e  o  compartilhamento  e  nutre  a  curiosidade  (Dickie,  2003,  2004).  Da  mesma  forma,  as  mulheres  que  frequentam  clubes  do  livro  na  Austrália
aproveitam a oportunidade para “se revelar por completo” (Howie, 2003, p. 135) e expressam livremente ideias e sentimentos.
Conforme é sugerido por aqueles que recebem os bolos decorados, as ocupações também criam oportunidades para influenciar o bem­estar de outros. Um
exemplo é formado pelas mulheres idosas no norte da Tailândia que cozinham o kha nom jok, um lanche doce ou salgado, para a celebração do Ano­Novo
(Figura  5.4).  O  significado  literal  do  nome  deste  prato  é  “junto”  ou  “embrulhado  junto”.  Ao  realizarem  voluntariamente  a  tarefa  de  preparar  este  prato  e
garantir que ele seja da melhor qualidade, essas mulheres esperam fornecer esse epítomo de bem­estar social a suas famílias (Hocking, Wright­St. Clair &
Bunrayong,  2002).  Além  disso,  ao  compartilharem  o  alimento  que  elas  cozinham  com  os  amigos  e  vizinhos,  as  idosas  tailandesas  reforçam  os  valores  de
construir uma sociedade boa e generosa (Wright­St. Clair, Bunrayong, Vittayakorn, Rattakorn & Hocking, 2004).

Fig. 5.4 Enrolar juntos os ingredientes do kha nom jok simboliza reunir as pessoas.

A meio mundo de distância, em um subúrbio do norte de Londres, as donas de casa esforçam­se para alcançar melhoras mais individualistas do bem­estar.
Isto significa comprar alimentos mais saudáveis do que seus filhos poderiam escolher por conta própria, escolher roupas de melhor qualidade do que aquela
que seus filhos preferem e comprar ocasionalmente pequenos presentes para si próprias e para outros membros da família (Miller, 1998). Certamente, uma
única  ocupação  pode  influenciar  o  bem­estar  de  múltiplas  maneiras.  Por  exemplo,  enquanto  cozinhar  o  jantar  para  a  família  pode  ser  uma  experiência
agradável por si só, consumi­lo em conjunto à mesa pode proporcionar alimentação e criar uma sensação de conexão com outros. Dependendo do cardápio, ele
também poderia ser servido como uma recompensa, uma celebração da família e um potente símbolo de afeto (De Vault, 1991). Embora grande parte destes
exemplos  se  relacione  com  ocupações  de  mulheres,  não  há  motivo  para  pensar  que  os  homens  não  experimentem  benefícios  semelhantes  com  relação  aos
objetivos masculinos. Trevor, por exemplo, subiu voluntariamente em uma escada para ajudar, consertando uma calha no banheiro do acampamento em que
estava passando o feriado (Figura 5.5).
Fig. 5.5 Trevor consertando a calha no acampamento.

USO DO TEMPO E BEM­ESTAR
Da  mesma  maneira  que  ocupações  específicas  trazem  uma  contribuição  para  o  bem­estar,  o  impacto  dos  padrões  gerais  das  ocupações  é  importante.  Uma
tendência amplamente percebida é o ritmo crescente dos estilos de vida modernos. Este fenômeno, em que as pessoas correm de uma ocupação para outra, está
associado a altas cargas de trabalho, acesso limitado a buscas de tempo de lazer e níveis crescentes de estresse e de doença relacionada ao estresse (Zuzanek,
1998).  Talvez  mais  significativo,  como  não  têm  tempo  para  refletir  sobre  e  experimentar  o  significado  de  viver,  as  pessoas  são  canalizadas  no  sentido  de
ocupações culturalmente construídas, como fazer compras em shoppings em lugar de diversões que elas poderiam achar mais absorvedoras e recompensadoras
(Clark,  1997).  Estes  estilos  de  vida  parecem  incompatíveis  com  o  alto  nível  de  bem­estar.  Em  resposta  a  essas  preocupações,  Cusick  (1990)  sugeriu  a
categorização das ocupações rotineiras que são realizadas em uma semana comum como agradáveis, tediosas, antipáticas ou realizadas automaticamente, na
esperança de que as pessoas pudessem entender a relação entre as coisas que elas fazem e a sua falta de bem­estar.
Três insights adicionais com relação à ocupação e às maneiras pelas quais as pessoas utilizam o tempo também são pertinentes neste momento. O primeiro é
a relação que Erlandsson (2003) estabeleceu entre o uso do tempo e o bem­estar. Seu estudo rastreou as ocupações diárias de 100 mulheres suecas, focando­se
principalmente  nas  transições  de  uma  atividade  para  outra.  Ela  mostrou  que  padrões  altamente  complexos  de  ocupação,  caracterizados  por  interrupções
frequentes  e  mudanças  de  tarefa,  correlacionam­se  com  níveis  mais  baixos  de  bem­estar  relatados  do  que  aqueles  que  são  encontrados  em  mulheres  com
padrões ocupacionais menos complexos. O segundo relaciona­se com as demandas temporais do turno de trabalho e os motivos pelos quais enfermeiras que
trabalham no turno da noite sacrificavam o sono para desempenhar suas responsabilidades como mães, cuidadoras e donas de casa (Gallew & Mu, 2004). O
impacto  de  longo  prazo  das  rotinas  ocupacionais  interrompidas  e  da  privação  do  sono  parece  mais  uma  vez  incompatível  com  o  bem­estar.  A  terceira
consideração quanto ao uso do tempo é o tédio que resulta da falta de ocupação. A partir de seu estudo de jovens criminosos, Farnworth (1998) propôs que o
tédio  seria  talvez  “endêmico  nos  países  ocidentais  industrializados”  (p.  145).  O  impacto  de  curto  e  longo  prazo  do  tédio  sobre  a  saúde  e  o  bem­estar  é
desconhecido, em parte porque o próprio tédio é mal compreendido. Apesar disso, o tédio no local de trabalho foi associado à baixa disposição, à depressão e
ao engajamento em atividades destrutivas e não autorizadas (Long, 2004).
Ao longo de um período maior de tempo, os cientistas ocupacionais e outros têm sugerido que as pessoas se transformam naquilo que elas fazem. Dois
estudos em particular dão suporte a uma relação entre o que as pessoas fazem durante seu tempo de vida e o bem­estar. Eles primeiro propuseram o conceito
da personalidade ocupacional, que é descrito como um aspecto do eu que “é modelado e, até certo ponto, reinventado” por meio do engajamento na ocupação
(Whiteford & Wicks, 2000, p. 48). De nota, no contexto desta discussão, estão vários temas utilizados para demonstrar essas personalidades, diferentemente
descritos como sentir uma paixão, aproveitar oportunidades, criar diversão, sentir­se orgulhoso e satisfeito, e criar um mundo melhor, que refletem definições
de bem­estar.
O segundo estudo abordou o potencial ocupacional que cada pessoa percebe no contexto das influências pessoal, histórica, sociocultural e política (Wicks,
2001, 2005). Olhando para trás durante um período da vida, a pessoa poderia ou não ter uma sensação de bem­estar, dependendo de sua avaliação sobre suas
escolhas e realizações e das restrições e pesares dessa própria pessoa. Como esta discussão conclui, é a avaliação de suas escolhas e realizações que influencia
a extensão em que as pessoas experimentam o bem­estar. Conforme Casey (1995) observou, algumas “experimentam limitadas oportunidades para controle
pessoal, uso de habilidade e intimidade” (p. 81). Se, além disso, as oportunidades para o desenvolvimento pessoal são poucas e o uso da “iniciativa, raciocínio
e julgamento independente... [não é bem­vindo], o que as pessoas fazem em seu trabalho afeta diretamente seu funcionamento cognitivo, seus valores, seus
conceitos do eu e suas orientações quanto ao mundo a seu redor” (p. 82). Embora o foco de Casey fosse as experiências de emprego das pessoas, é concebível
que outras pessoas experimentem restrições similares em outras esferas de vida.

OCUPAÇÃO, COMPROMETIMENTO E BEM­ESTAR
É bem sabido que a ocupação pode causar dano às pessoas. Na realidade, para chocar a nação e provocar uma reforma legislativa, os reformistas sociais do
século  XIX  expuseram  graficamente  as  maneiras  pelas  quais  o  trabalho  nas  minas  de  carvão  da  Inglaterra  prejudicou  o  desenvolvimento,  mutilou  e  gerou
doença  nos  trabalhadores  (Wilcock,  2001).  Embora  os  padrões  de  segurança,  as  horas  trabalhadas  e  as  demandas  físicas  estafantes  das  décadas  anteriores
tenham melhorado substancialmente (Guber, 1995), os riscos que as ocupações no local de trabalho impõem à saúde e ao bem­estar permanecem como uma
preocupação  para  sindicatos  e  órgãos  governamentais  semelhantes.  Foi  dada  menor  atenção  aos  riscos  que  as  ocupações  fora  do  trabalho  podem  gerar  e  à
experiência de participação das pessoas em ocupações cotidianas quando elas apresentam um comprometimento.
O termo comprometimento, na linguagem cotidiana, sugere uma lesão, falha ou imperfeição ou que ocorreu algum dano. Neste contexto, está implícito um
significado mais exato, compatível com a Classificação Internacional de Função, Incapacidade e Saúde da Organização Mundial de Saúde (2001). Ou seja,
um comprometimento é qualquer problema com a função psicológica ou fisiológica normal ou com uma estrutura corporal como uma articulação ou órgão.
Neste sentido, as condições de saúde podem provocar comprometimentos, como a perda de força em um braço depois de um acidente vascular cerebral. Além
disso, os comprometimentos podem colocar as pessoas em risco de uma condição de saúde, como a pessoa que fica deprimida quando lhe é negado acesso ao
trabalho por causa de um comprometimento cognitivo.
Embora poucos estudos tenham explorado a relação entre ocupação, comprometimento e bem­estar, uma pequena massa de estudos baseados no ponto de
vista  ocupacional  sugere  que  a  presença  de  comprometimento  pode  ou  não  afetar  o  bem­estar.  Um  fator  determinante  parece  ser  o  efeito  que  o
comprometimento  exerce  sobre  a  participação  na  ocupação.  Por  exemplo,  as  pessoas  idosas  que  foram  hospitalizadas  após  um  episódio  agudo  de  saúde
descobriram,  ao  tentar  fazer  as  coisas,  como  os  seus  comprometimentos  tinham  modificado  sua  capacidade  para  a  ocupação.  Este  conhecimento  revelou  a
gravidade de sua condição. No entanto, quando a saúde estabilizou e elas dominaram as novas maneiras de realizar as tarefas, elas aumentaram a esperança e
procuraram  oportunidades  para  testar  e  fortalecer  a  função  recuperada  (Gooder,  2001).  Elas  tiveram  uma  experiência  de  retorno  ao  bem­estar.  De  maneira
semelhante, ao mesmo tempo que homens com dispraxia se empenham em realizar tarefas outrora familiares, como calçar meias e sapatos ou preparar uma
bebida quente, seus pequenos sucessos e sinais de melhora provocam expressões de triunfo e de esperança renovada quanto ao futuro (Blijlevens, 2005).
Em contraste, adultos com uma doença neurológica de progressão rápida experimentam seus comprometimentos como perdas, evidenciando não apenas a
capacidade  ocupacional  decrescente,  mas  também  a  perda  de  aspectos  valorizados  da  identidade,  incapacidade  de  acessar  os  ambientes  ocupacionais  que
proporcionaram variedade para a vida e um declínio inevitável para a dependência e a morte (Brott, 2004; Hocking, Brott & Paddy, 2006). As expressões de
coragem,  humor,  gratidão  pelas  capacidades  remanescentes  e  apreciação  pelo  suporte  recebido  da  família  e  dos  profissionais  de  saúde  são  ofuscadas  por
fadiga, frustração, sofrimento em relação à perda do futuro que eles idealizavam e o medo de se tornarem um fardo. Cada um destes aspectos apresenta um
componente ocupacional:
Fadiga por causa das tarefas básicas de autocuidado
Frustração em relação à capacidade ocupacional em declínio, barreiras para as ocupações valorizadas, e longas horas que não deixam de ser preenchidas
com uma atividade produtiva
Lamento pelas ocupações que eles tinham planejado e não realizaram, como segurar um neto

À medida que sua saúde declina, a sensação de bem­estar fica sob constante ameaça.
Considerados em conjunto, esses estudos sugerem que a diminuição do bem­estar pelos comprometimentos é influenciada tanto pelas expectativas de uma
pessoa para o futuro como por suas experiências no presente.
Apesar de apreciarem o que elas fazem e de terem esperança quanto ao futuro, porém, as pessoas que apresentam um comprometimento podem enfrentar
barreiras externas que diminuem o bem­estar. Roulstone (1998) descobriu que 90% das pessoas com incapacidade que utilizavam aparelhos para capacitá­las
ao trabalho identificaram maneiras pelas quais os aparelhos as beneficiavam diretamente. Não obstante, elas relataram a existência das barreiras no emprego,
incluindo problemas de “acesso limitado ao local de trabalho, treinamento inadequado, uso inadequado ou equivovado da nova tecnologia e permanência de
atitudes  incapacitantes”  (p.  125).  Elas  relataram  ter  se  sentido  como  um  trabalhador  inferior,  casos  de  comprometimento  físico  sendo  igualados  ao  baixo
intelecto, e uma expectativa geral de que elas “deveriam se sentir abençoadas pelo fato de que seus empregadores terem sensibilidade para empregá­las” (p.
115). Ademais, elas se defrontavam com atitudes de má vontade e ressentimento pelo fornecimento de tecnologia quando elas recebiam equipamentos que não
estavam disponíveis para os trabalhadores sadios.
Além  destas  questões  referentes  ao  local  de  trabalho,  as  pessoas  com  comprometimento  que  afeta  o  desempenho  ocupacional  descobrem  que  os  fatores
sociais dificultam ainda mais a participação no trabalho. As mulheres no estudo de Jakobsen (2004), por exemplo, lutavam com a falta de reconhecimento dos
rigores  físicos  e  psicológicos  adicionais  das  tarefas  do  autocuidado  e  das  tarefas  domésticas  para  aquelas  que  não  são  capazes  fisicamente.  Elas  também
relataram dificuldade em gerenciar as consultas com os profissionais de saúde, empregados domésticos, profissionais de manutenção de cadeiras de rodas e
cuidadores que estavam disponíveis apenas durante o horário de trabalho. Apesar de altamente motivadas para trabalhar e usufruir de todos os benefícios do
emprego relatados pelos outros, todas as três mulheres acharam a participação no trabalho muito extenuante e se demitiram de seus cargos. Em resumo, os
estudos de Roulstone e de Jakobsen sugerem que os benefícios que a maioria das pessoas usufrui do emprego poderiam não ser suficientes para sustentar o
bem­estar diante das inevitáveis barreiras no ambiente físico, social e de atitude.

ESTRUTURANDO A OCUPAÇÃO PARA AUMENTAR O BEM­ESTAR
Mesmo quando a experiência no local de trabalho nem sempre sustenta o bem­estar, as pessoas são surpreendentemente habilidosas na estruturação de suas
ocupações para sustentar e aumentar o bem­estar. Por exemplo, as mulheres imigrantes, recentemente chegadas à Nova Zelândia vindas da Índia, adotaram três
estratégias principais para ajudá­las a se estabelecer e sentir­se em casa. Elas preservaram conscientemente algumas ocupações de seu país, escolheram trajetos
e locais familiares para repetir ocupações como fazer compras no mercado, e pediram orientação sobre como as coisas são efetuadas no país que elas adotaram
(Nayar, 2005).
De maneira semelhante, quando as pessoas se recuperavam da doença mental, elas relatavam evoluir de uma experiência desintegrada de fazer e de ser, que
elas descrevem como não fazer, para diferentes níveis de engajamento ocupacional caracterizados de maneira variada como fazer pela metade, engajado em
fazer e absorto em fazer. Esta progressão possibilitou sua participação no mundo humano e não humano em uma intensidade que elas podiam sustentar e que
contribuiu para sua reconexão com o ambiente, com a estruturação do tempo e do espaço, reintegração do sentimento do eu e abertura de futuras possibilidades
no mundo cotidiano (Sutton, 2006).
No nível comunitário, mais do que no nível individual, um idoso da tribo Windjingare na Austrália descreveu como ele se baseava em ideias tradicionais
sobre o trabalho socialmente útil para ajudar as pessoas a romperem o ciclo de dependência da Previdência Social, do alcoolismo e da violência. O esforço foi
focado  nas  oportunidades  vocacionais  no  sertão  australiano,  onde  os  jovens  aprendiam  os  valores  e  as  habilidades  tradicionais  e  construíam  casas
culturalmente apropriadas, utilizando seu próprio trabalho e incorporando os materiais do sertão. Um elemento primordial, alinhado com práticas há muito
estabelecidas, foi a intenção de se deslocar entre diferentes locais e ocupações durante as estações de seca e de chuva (Shaw & Dann, 1999).

ESTUDO DE CASO: Fazer ou Morrer

Dennis tem 11 anos de idade e vive em um bairro de baixo nível socioeconômico de uma grande cidade na Suécia. Ele gosta de ver televisão e, conforme
crescia,  começou  a  brincar  com  jogos  de  computador  e  a  navegar  pela  internet.  Na  média,  ele  gasta  aproximadamente  3  horas  por  dia  no  computador
(Magnusson, Hulthén & Kjellgren, 2005). Se ele vivesse em Israel, este número poderia ser de 4,5 ou 5 horas por dia (Nemet et al.,  2005).  Enquanto  vê
televisão, joga ou navega na internet, Dennis gosta de tomar um copo de suco de fruta ou limonada. Como os outros 30% de crianças em seu bairro que
estão acima do peso ou obesos, ele também tende a dispensar o café da manhã. Apesar dos riscos para a saúde que os adultos associam a baixos níveis
de atividade física, alta ingestão de caloria e começar o dia sem alimento, Dennis não acredita que seu estilo de vida tenha qualquer efeito sobre sua saúde
(Magnusson, Hulthén & Kjellgren, 2005).

A Obesidade é Muito Ruim?
Se ele morasse na Nova Zelândia, os riscos de saúde enfrentados por Dennis seriam reconhecidos. Se ele fosse um dos 26% de meninos com herança das
Ilhas do Pacífico com idades entre 7 e 14 anos que são obesos, ele enfrentaria riscos bem documentados de se unir àqueles que já apresentam diabetes do
tipo II (Ministry of Health, 2003). Em alguns anos, ele poderia contribuir para os dados vertiginosamente crescentes de doença cardiovascular com risco de
vida e, em vez de seguir a tendência de aumentar a longevidade registrada nas últimas décadas, ter a expectativa de vida substancialmente reduzida.

O Que Aconteceria se Dennis Fosse Norte­Americano?
Se  ele  fosse  norte­americano,  poderíamos  suspeitar  que  a  obesidade  de  Dennis  estivesse  associada  a  alguns  aspectos  bem  conhecidos  da  paisagem
urbana.  Conforme  relatado  pela  revista  Time,  muitas  cidades  norte­americanas  foram  idealizadas  para  automóveis  (Wallis,  Miranda  &  Park,  2005).  Isto
significa  que  muitos  bairros  carecem  de  calçadas  e  ciclovias.  Não  se  admira  que,  entre  1991  e  1995,  caminhar  em  qualquer  local  se  tornou  40%  menos
provável e que as chances de caminhar até a escola foram reduzidas em 60%. Na realidade, em torno de 2001, as estatísticas relatam que caminhar e andar
de  bicicleta  contribuiu  com  apenas  13%  dos  deslocamentos  até  a  escola.  Tudo  isto  sugere  que,  mesmo  se  Dennis  vivesse  a  menos  de  mil  e  seiscentos
metros da escola, ele não teria caminhado.
Na  realidade,  localizar  Dennis  nos  Estados  Unidos  em  vez  de  na  Suécia  poderia  ter  significado  um  estilo  de  vida  com  muito  pouco  esforço  físico,
principalmente  diante  do  fato  de  que  muitas  escolas  com  orçamentos  apertados  cortaram  as  aulas  de  educação  física  do  currículo.  Ademais,  seus  pais
poderiam estar entre os 65% de norte­americanos que gostariam de se exercitar mais, porém não têm tempo suficiente, acham o exercício tedioso (28%) ou
não têm acesso a um local conveniente para se exercitar (24%). Uma vantagem de estar nos Estados Unidos, no entanto, é que Dennis estaria em meio a
uma  consciência  crescente  de  que  a  falta  de  exercício  físico  pode  ser  uma  ameaça  ainda  maior  para  a  saúde  que  a  obesidade  (Wallis,  Miranda  &  Park,
2005).

Alguma Coisa Pode Ser Feita?
Talvez se vivesse em Israel, Dennis poderia ter sido uma das 54 crianças obesas recrutadas para um grupo de pesquisa (Nemet et al., 2005). Com um pouco
de sorte e a atitude correta, ele poderia ter descoberto uma maneira de estar no grupo de tratamento ativo e teria sido um dos 20 participantes a completar
um programa de exercício de três meses de duração e um ano de acompanhamento. Neste caso, Dennis teria tido o privilégio de participar de atividades
lideradas pelos antigos membros da equipe nacional de atletismo durante duas horas a cada semana. Para suplementar esse programa, Dennis e seus pais
teriam participado das sessões de aconselhamento voltadas para a escolha alimentar e para a modificação de comportamento. Este aconselhamento teria
incluído cortar sua ingestão alimentar em torno de 30%. Ele também seria incentivado a caminhar ou a se engajar em algum outro exercício físico por mais
30 a 45 minutos por semana.
No  acompanhamento,  é  provável  que  Dennis  tivesse  ganhado  menos  que  um  quilo  de  peso,  em  comparação  com  a  média  de  5,2  quilos  ganhos  pelas
crianças no grupo de controle. Ele teria muito menos gordura corporal e, o mais importante, níveis de atividade e de resistência física muito maiores. Além
disso, ele teria reduzido seu tempo de TV e videogame em mais de uma hora por dia (Nemet et al., 2005).

Questões e Exercícios
Os  resultados  de  pesquisa  citados  neste  estudo  de  caso  identificam  a  ingestão  calórica,  a  inatividade  física  e  a  estrutura  urbana  como  fatores
contribuintes  para  a  obesidade  infantil  e  os  problemas  de  saúde  associados.  Que  outros  fatores  hereditários,  ambientais,  sociais  ou  legislativos  você
pode identificar como contribuintes para o problema?
O programa implementado em Israel poderia ou não ser adequado em seu contexto. Se você estivesse trabalhando com crianças entre 6 e 16 anos de
idade, quais aspectos do programa de Israel você esperaria replicar e o que você modificaria?

CONCLUSÃO
As coisas que fazemos satisfazem às nossas necessidades biológicas de sustento e abrigo. A ocupação nos mantém vivos. No longo prazo, a ocupação pode
fornecer a atividade física, o estímulo mental e a interação social de que precisamos para manter nossos corpos, mentes e comunidades saudáveis. Além disso,
por  meio  da  participação  na  ocupação,  nos  expressamos,  desenvolvemos  habilidades,  experimentamos  prazer  e  envolvimento,  e  alcançamos  as  coisas  que
acreditamos ser importantes. Em resumo, temos oportunidades para alcançar níveis mais altos de bem­estar. Ser saudável sustenta o engajamento na ocupação
e, com frequência, está no processo de fazer coisas que nos fazem compreender como somos saudáveis e usufruir de uma sensação mais intensa de bem­estar.
Do mesmo modo, a ocupação pode ameaçar ou destruir a saúde. Fazer muito, fazer pouco e fazer coisas que nos expõem a risco pode, sem exceção, ter
efeitos  deletérios.  Também  é  importante  reconhecer  que,  com  frequência,  por  causa  do  aparecimento  de  problemas  ao  fazer  as  coisas,  nos  tornamos
conscientes  das  questões  de  saúde  e  de  todo  o  impacto  dos  comprometimentos.  Além  disso,  as  barreiras  físicas,  sociais  ou  de  atitude  no  ambiente  podem
exacerbar  o  impacto  de  um  comprometimento  ou  de  uma  patologia,  por  vezes  até  o  ponto  em  que  a  participação  na  ocupação  se  torna  insustentável.  No
entanto,  se  nós  estruturarmos  cuidadosamente  as  coisas  que  fazemos,  revermos  as  escolhas  de  estilo  de  vida  e  abordarmos  as  barreiras  à  participação,  o
engajamento na ocupação poderá melhorar a saúde e o bem­estar das pessoas.

QUESTÕES INSTIGANTES
1. Wilcock  propôs  que  as  pessoas  têm  necessidades  que  servem  como  advertências,  nos  protegem  e  recompensam  a  participação  na  ocupação.  Por  que,
então, a maioria das pessoas nas sociedades pós­industriais não consegue realizar exercício suficiente?
2. Se mulheres imigrantes, pessoas que se recuperam de doença mental e líderes comunitários podem estruturar ocupações para aumentar a saúde e o bem­
estar próprios e os de outros sem auxílio de um terapeuta ocupacional, os terapeutas ocupacionais são necessários?
3. Qual  de  suas  ocupações  sustenta  sua  saúde  e  bem­estar?  O  que  os  ameaçam?  Como  você  poderia  mudar  seu  estilo  de  vida  ou  ambiente  de  modo  a
maximizar o bem­estar?
4. Se  você  pudesse  mudar  alguma  coisa  no  ambiente  físico,  social  e  de  atitude  de  seu  país  para  melhorar  a  saúde  e  o  bem­estar  da  nação,  o  que  você
mudaria? Como a mudança que você propôs afetaria as ocupações das pessoas?

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Cultura, Raça, Etnia e Outras Formas de
Diversidade Humana em Terapia
Ocupacional
JULI McGRUDER

Sumário
Cultura e Outras Formas de Diversidade Humana em Terapia Ocupacional
O Que É Cultura: Uma Lista de Consenso
A Cultura É Real
A Cultura Não É Herdada, É Aprendida
A Cultura Não É Idiossincrásica, Mas É Compartilhada na Sociedade Humana
A Cultura Se Modifica, Em Geral Lentamente
A Cultura Direciona os Valores
A Cultura É Invisível
Diferenças Humanas que Podem Influenciar a Cultura, Mas que Não São Exatamente
Culturais
Diversidade Étnica e Racial
Diversidade de Grupo de Linguagem
Diversidade de Orientação Sexual
Mitos, Estereótipos, Xenofobia e Generalizações
Cultura e Outras Formas de Diversidade na Teoria e na Prática da Terapia Ocupacional
Adquirindo Competência Multicultural como um Profissional de Terapia Ocupacional
Conclusão

“O que coloca os mundos em movimento é a inter­relação das diferenças, suas atrações e repulsões. Vida é
pluralidade, a morte é uniformidade. Ao suprimir as diferenças e peculiaridades, ao eliminar civilizações e culturas
diferentes, o progresso enfraquece a vida e favorece a morte. O ideal de uma civilização única para todos, implícito
na cultura do progresso e da técnica, nos empobrece e mutila. Cada visão de mundo que é extinta, cada cultura que
desaparece, diminui a possibilidade de vida.”

— OCTAVIO PAZ (1967)

Objetivos de Aprendizagem
Após a leitura deste capítulo, você será capaz de:

1. Discutir a cultura em termos de uma lista de seis atributos de consenso.
2. Listar  e  discutir  cinco  motivos  para  que  os  terapeutas  ocupacionais  se  empenhem  na
compreensão exata da cultura e de outras formas de diversidade.
3. Distinguir entre a consciência cultural e a sensibilidade cultural e examinar os níveis de cada uma
delas em si próprio.

CULTURA E OUTRAS FORMAS DE DIVERSIDADE HUMANA EM TERAPIA
OCUPACIONAL
Minha amiga Lizzi cresceu na região rural do Oregon, rodeada por plantas e animais. Agora adulta, vivendo num
condomínio, Lizzi planta dúzias de bulbos de flores e “soma” mais canteiros de frutas e vegetais a cada ano. Ela
ainda  faz  conserva  com  alimentos  que  ela  não  come,  como  peixes.  Ela  tem  um  jovem  labrador  retriever
impetuoso,  um  gato  idoso  e  um  papagaio  barulhento.  Lizzi  também  tem  tetraplegia,  decorrente  de  uma  lesão
raquimedular  em  C5­6,  e  a  função  da  mão  muito  comprometida.  Ela  admite  que  debulhar  feijões  e  descascar
pêssegos  são  atividades  laboriosas  e  difíceis  para  ela  e  que  realizar  o  escaldamento  dos  alimentos  por  ela
enlatados  causou­lhe  tantas  queimaduras  que  ela  agora  delega  esta  parte  da  atividade  da  preparação  das
conservas  para  a  afilhada.  Além  disso,  ela  nunca  desistiria  de  preparar  as  conservas.  Enquanto  observa  que
Bijou, o labrador, poderia facilmente fazer a cadeira de rodas tombar, ela continua em sua rotina de voltar para
casa depois de um longo dia de trabalho de advocacia para treinar pacientemente seu jovem cão.
Quando  visito  Lizzi,  eu  admiro  o  poder  da  cultura  para  influenciar  a  escolha  ocupacional.  Se  eu  tivesse  as
limitações físicas de Lizzi, eu diminuiria um pouco a jardinagem que faço. Eu não faria as rotinas de cuidado dos
três animais de estimação ou as tarefas laboriosas de preparar conservas. Ainda assim, Lizzi escolhe restabelecer
com suas irmãs, sobrinhas e afilhadas a atividade social produtiva de se reunir na cozinha várias vezes por ano
para fazer os alimentos em conserva, exatamente como faziam sua mãe e tias. Ela opta por transmitir a tradição
cultural de conservar as melhores ervilhas verdes em picles. Isso é a cultura em ação. O alto valor associado aos
alimentos  processados  em  casa,  o  conhecimento  do  conteúdo  da  receita  e  dos  processos,  a  forma  de  reunião
social unissexual, e até mesmo a ideia de que a substância vegetal mergulhada em vinagre e sal é deliciosa têm
sido culturalmente transmitidos sem exceção. Como a cultura ressalta a escolha ocupacional, ela é de interesse
central para os profissionais da terapia ocupacional.
A  cultura  é  um  conceito  de  definição  notoriamente  difícil.  Um  recente  diálogo  no  American  Journal  of
Occupational  Therapy  revisou  as  definições  de  cultura,  a  história  de  sua  utilização  por  antropólogos  e  sua
utilidade atual para os profissionais da terapia ocupacional (Bonder, Martin & Miracle, 2004; Dickie, 2004). Na
terapia  ocupacional,  a  cultura  tem  sido  definida  como  a  experiência  aprendida  e  compartilhada  que  provê  “o
indivíduo  e  o  grupo  com  mecanismos  efetivos  para  interagir  tanto  com  os  outros  quanto  com  o  ambiente  ao
redor”  (Krefting  &  Krefting,  1991,  p.  102)  e  como  evidente  tanto  nos  padrões  do  grupo  como  nas  variações
individuais  do  comportamento  ocupacional  (Bonder,  Martin  &  Miracle,  2004).  A  American  Occupational
Therapy  Association  (AOTA)  define  cultura  como  “costumes,  crenças,  padrões  de  atividade,  padrões  de
comportamento e expectativas aceitos pela sociedade da qual um indivíduo é membro” (2002, p. 623). Frank e
colaboradores  preferem  uma  definição  que  reconhece  um  estado  contestado  das  culturas  “como  compostas  de
discursos e práticas competitivos dentro de campos sociais caracterizados pela distribuição desigual do poder”
(2001, p. 503). Os profissionais da terapia ocupacional visam descobrir e apoiar o papel dos clientes ao conferir
significado  às  ações  e  atividades  cotidianas,  o  que  exige  a  interação  com  os  mundos  culturais  nos  quais  seus
clientes foram socializados (Mattingly & Beer, 1993).
No  entanto,  a  cultura  é  apenas  uma  característica  de  diferenciação  humana  e  não  pode  ser  utilizada  como
única  fonte  para  explicar  todos  os  tipos  de  diferença.  Dyck  (1992)  advertiu  os  profissionais  da  terapia
ocupacional para não confundirem cultura e outras fontes de diferença quando ela escreveu:

Apoiar­se na cultura como crenças, valores e práticas habituais distintas para explicar a não adesão e as dificuldades no
processo terapêutico é equivocado. As condições sociais e de trabalho cotidianas que modelam as experiências de saúde e
comportamentos  também  devem  ser  reconhecidas.  Por  sua  vez,  estas  são  forjadas  dentro  de  um  ambiente
socioeconômico e político (p. 696).

Dyck (1993) e Fitzgerald (2004) fizeram esta advertência específica ao uso do conceito de cultura na terapia
ocupacional.  Sua  preocupação  é  apresentada  por  três  críticas  mais  gerais  aos  conceitos  de  cultura:  que  o
conceito, mal utilizado, tende a essencializar, materializar e mistificar a diferença humana. Essencializar consiste
em  pegar  fenômenos  multifacetados  complexos,  como  os  modos  de  vida,  as  ideias  e  tudo  o  que  um  grupo  de
seres humanos adquiriu por meio do aprendizado e reduzir isto a algumas “essências” básicas e inerentes que se
reúnem  para  explicar  este  grupo  na  totalidade.  As  descrições  que  essencializam  não  são,  com  frequência,
históricas e, dessa maneira, geram distorções. Materializar é “tornar algo real”, pegar o abstrato e tratá­lo como
algo fixo e concreto com limites definíveis. Tratar a cultura como coisa pode promover estereótipos. Materializar
a cultura ignora a natureza interativa dos seres humanos como criadores da cultura situados em ambientes que
mudam.  Materializar  falha  em  observar  que  muitos  seres  humanos  incorporaram  ideias  originárias  de  mais  de
uma cultura. Mistificar é obscurecer as causas importantes, fatores contribuintes ou resultados de um fenômeno.
Por  exemplo,  quando  o  senador  norte­americano  Daniel  Patrick  Moynihan  (1965)  referiu­se  à  família  afro­
americana como um “emaranhado de patologia”, ele obscureceu os fatores econômicos e políticos que sustentam
os fenômenos culturais que ele estava criticando. Dyck, anteriormente citada, estava especialmente preocupada
que  as  diferenças  na  busca  e  na  obediência  dos  conselhos  de  saúde  observadas  entre  mulheres  imigrantes
chinesas  no  Canadá  não  fossem  mal  interpretadas  como  culturais,  quando,  na  realidade,  a  fonte  da  diferença
estava  relacionada  com  as  situações  econômicas  e  de  trabalho.  Ela  documentou  uma  preocupação  similar
relacionada com a pesquisa de promoção de saúde em mães Sikh indo­canadenses (Dyck, 1993). As tentativas
de definir ou discutir cultura devem tentar não reproduzir falácias e erros comuns. Com tal precaução em mente,
vamos examinar uma lista de atributos de definição acordados da cultura.

O QUE É CULTURA: UMA LISTA DE CONSENSO

A Cultura É Real
Embora  não  concreta,  nem  tangível,  a  cultura  é  real.  Quando  alguém  adoece  por  causa  de  uma  maldição,  a
doença  é  real.  Quando  alguém  sente  paz  ou  alegria  porque  os  rituais  apropriados  apaziguaram  os  seres
sobrenaturais, o estado emocional é significativo e real. Quando as pessoas colocam as vestes rituais diante de
um  representante  de  Deus  ou  do  Estado,  recitam  uma  série  de  palavras  tradicionais  e  trocam  especificamente
joias abençoadas, elas atingem uma condição social que modifica as suas relações de parentesco e sua condição
econômica e social com o governo: Elas estão casadas! Este é o poder da cultura, e cada cultura modela, entre
outras coisas, as formas e os significados das trocas de condição social no grupo. Não podemos ver ou tocar a
cultura, mas seus efeitos nos circundam, tornando a cultura uma força bastante real.

A Cultura Não É Herdada, É Aprendida
As crenças e os valores nos são ensinados, tanto de modo explícito quanto de forma tácita, em nossas famílias e
comunidades e por meio da mídia de massa. Muitos leitores não terão aprendido muito sobre espírito, maldições
e rituais de expiação, mas terão aprendido de milhares de modos que eles são, cada um, indivíduos únicos com
direitos inalienáveis. A ideia de que nós somos indivíduos com livre­arbítrio e com um direito “natural” a nossas
próprias opiniões parece uma dádiva para os norte­americanos, mas é uma ideia cultural, bastante estranha para
outros.  Observadores  oriundos  de  outras  culturas  têm  comentado  sobre  como  nós  incutimos  essa  ideia  de
autodeterminação  individual  nas  crianças.  Uma  vez  eu  contei  quantas  decisões  uma  criança  europeia­norte­
americana  de  classe  média  em  idade  pré­escolar  precisava  tomar  na  primeira  hora  do  dia  após  acordar.  As
decisões – sobre o que usar, onde vestir, o que comer – foram em torno de 20. A criança estava sendo ativamente
ensinada sobre sua individualidade e seu direito à escolha. Mais tarde, naquela noite, quando os adultos estavam
discutindo  onde  ir  jantar,  esta  criança  anunciou,  “Essas  são  suas  ideias  e  eu  tenho  minhas  próprias  vontades”.
Aos  3  anos  de  idade,  ela  já  havia  internalizado  o  ideal  cultural  dominante  de  independência  intelectual
individual.

A Cultura Não É Idiossincrásica, Mas É Compartilhada na Sociedade Humana
Embora possa ser transportada nas mentes dos indivíduos, conforme sustentado por alguns, as manifestações da
cultura são sociais. Como você saúda seu avô? Com uma saudação verbal apenas, com um abraço ou com um
beijo na bochecha ou em sua mão? Quantos beijos? Você se curva para tocar nos pés dele? Você aperta sua mão,
depois  a  beija  e  a  coloca  sobre  seu  coração,  como  faria  uma  criança  respeitosa  na  costa  da  África  Ocidental?
Você procura ou evita o contato visual com ele? Ou você o ignora? Os grandes conhecedores da cultura podem
questionar se é o próprio comportamento de saudação ou a compreensão compartilhada que o fundamenta que
constitui o lócus da cultura, porém todos concordam que a cultura é compartilhada socialmente. Dessa maneira,
ela  é  percebida  com  maior  facilidade  nas  interações  entre  duas  ou  mais  pessoas.  Dickie  (2004)  lembra  aos
terapeutas ocupacionais que, embora o foco possa estar nos efeitos da socialização cultural sobre o indivíduo e a
ação, não devemos ignorar a natureza coletiva e social da cultura.

A Cultura Se Modifica, Em Geral Lentamente
A  cultura  tem  incrível  poder  de  resistência,  é  conservadora  e  não  se  modifica  com  facilidade  (Dickie,  2004).
Contudo,  a  cultura  não  é  estática,  fixa  ou  imutável.  Valores,  atitudes,  estética,  modos  de  vida,  arte,  moral,
costumes,  leis  e  muitas  outras  coisas  que  estão  incluídas  na  cultura  podem  mudar  em  resposta  às  forças  da
história, da política e da economia. A cultura é maleável e dinâmica.
Mesmo uma olhada superficial na mídia de anúncios dos Estados Unidos no século XXI revelaria que somos
incentivados a pensar que a pele morena ou bege, nádegas musculosas estreitas, tórax largo e lábios carnudos são
esteticamente agradáveis em ambos os sexos. Contudo, nem sempre foi assim. Por exemplo, antes da Revolução
Industrial,  quando  os  aldeões  europeus  trabalhavam  ao  ar  livre,  a  pele  bronzeada  não  era  considerada
esteticamente adequada; era considerada uma marca da classe baixa. As classes privilegiadas norte­americanas e
europeias da era pré­industrial esforçavam­se para proteger a brancura de suas peles, mesmo que apreciassem as
atividades  ao  ar  livre.  Somente  depois  que  os  trabalhadores  foram  colocados  em  recintos  fechados  dentro  de
fábricas, sem sol, o bronzeamento transformou­se em um sinal de maior renda e tempo de lazer e, assim, tornou­
se  culturalmente  valorizado.  Uma  revisão  da  mídia  racial  de  massa,  como  aquela  realizada  por  Marlon  Riggs
(1986) no filme “Ethnic Notions”, mostra que os lábios carnudos eram um aspecto da origem africana que era
outrora  rejeitado  e  diminuído.  Agora,  atrizes  e  modelos  recebem  injeções  de  colágeno  para  tornar  seus  lábios
mais cheios. A estética é cultural, e as culturas mudam à medida que os grupos humanos se encontram. Quando
os  grupos  de  seres  humanos  entram  em  contato,  eles  influenciam  as  culturas  uns  dos  outros  por  imitação,
inovação e, até mesmo, coerção. Quando os ambientes políticos e econômicos se alteram, as culturas se adaptam
a essa mudança. Dickie (2004) inclui um exemplo maravilhoso dos aspectos mutáveis e imutáveis de um ritual
cultural norte­americano, a reunião de família. Dentre os aspectos imutáveis está a preferência por locais ao ar
livre no verão, com os idosos sentando na sombra e as crianças brincando. O que mudou para muitas famílias é a
definição mais inclusiva de família, com pessoas convidadas que teriam sido excluídas algumas décadas atrás:
casais homossexuais, casais não casados que vivem juntos, cônjuges divorciados e avós não consanguíneos.

A Cultura Direciona os Valores
A cultura modela os valores humanos. Fundamentamos nossa aculturação em um ou mais mundos culturais para
determinar  o  que  é  certo  ou  errado,  bom  ou  ruim,  bonito  e  feio,  incluído  ou  excluído,  apropriado  ou
inapropriado, seguro e perigoso. Os valores culturais que internalizamos guiam nossas escolhas ocupacionais e
nossas rotinas diárias para realizar as coisas. Romper as normas culturais que aprendemos anteriormente pode
provocar uma reação visceral. Em viagem por um país muçulmano, quando dou alguma coisa a alguém com a
mão esquerda, sinto­me imediatamente errada e envergonhada porque fui orientada a utilizar minha mão direita
para trocas nas culturas muçulmanas. Quando retorno aos Estados Unidos, tenho esta mesma sensação de “erro”
até  me  reajustar  às  expectativas  norte­americanas,  comumente  depois  de  algumas  trocas  desajeitadas  com
funcionários de olhares estupefatos.
Como profissionais da terapia ocupacional, estamos frequentemente em contato com pessoas que, por causa
de infortúnios ou de um momento de crise, estão se empenhando para decidir o que é certo e bom. Respeitamos
suas culturas ao fornecer a elas um espaço com suporte psicológico, em que se dê significado ao que aconteceu a
elas e se apliquem os valores pelos quais elas vivem.

A Cultura É Invisível
A cultura é invisível, principalmente para aqueles que participam dela. Ela é considerada óbvia. Uma analogia
comumente utilizada é “como a água está para o peixe”. Com frequência, ficamos cegos para as nossas próprias
culturas  mas,  quando  encontramos  modos  culturais  que  são  diferentes  dos  nossos  próprios,  percebemos  a
diversidade,  a  estranheza  dos  modos  do  outro  grupo.  Ainda  assim,  é  necessário  contato  repetido  com  outros
espaços culturais, associado à introspecção, para fazer com que nossas próprias suposições culturais se tornem
visíveis para nós.
Whiteford  e  Wilcock  (2000)  apontaram  que  é  mais  provável  que  a  pessoa  que  não  percebe  suas  próprias
suposições  culturais  seja  da  raça  branca,  heterossexual  e  da  classe  média.  Com  frequência,  os  membros  de
grupos  minoritários  foram  socializados  tanto  do  modo  de  seus  próprios  grupos  como  do  modo  do  grupo
majoritário dominante, o que deu a eles uma experiência inicial de superação de limites culturais. Os terapeutas
do grupo majoritário podem equivocadamente pensar que apenas “os outros” do grupo minoritário apresentam
uma  cultura  que  deva  ser  considerada  na  terapia.  Dickie  (2004)  sugere  que  o  foco  sobre  a  cultura  como  um
aspecto problemático em nossas interações clínicas poderia produtivamente passar da cultura dos clientes para a
cultura do terapeuta. Isto é, mais do que observarmos que a cultura precisa ser abordada porque alguns clientes
trazem  históricos  diferentes  dos  terapeutas,  poderíamos  deslocar  o  foco  e  observar  que  excursões  culturais
limitadas  da  maioria  dos  terapeutas  comprometem  sua  capacidade  de  compreender  e  ajudar  a  todos  os  seus
clientes.
Uma manifestação da cegueira cultural ocasional de nossa profissão que é repetidamente destacada em nossa
literatura é a ênfase sobre a independência como se ela fosse uma condição naturalmente valorizada. Diversos
autores  nos  lembram  que  a  interdependência  ou  a  dependência  de  determinados  familiares,  em  determinadas
atividades, pode ser valorizada e, portanto, são opções válidas para os clientes (Fitzgerald, 2004; Whiteford &
Wilcock, 2000). Este embate potencial e frequentemente observado entre os valores culturais e profissionais dos
terapeutas e das famílias dos clientes é apenas uma dentre as muitas áreas em que podem surgir dificuldades na
colaboração dentro da superação cultural.
Mesmo a “natureza” da natureza humana é uma entidade culturalmente construída, invisível para nós porque
estamos imersos nela. Na cultura ocidental, aceitamos sem questionar a unidade da consciência e a continuidade
da  personalidade  como  óbvia  e  natural.  Muitas  culturas  incluem  ideias  sobre  consciência  e  personalidade  que
nos  pareceriam  incomuns.  A  maioria  de  nós  não  acredita,  por  exemplo,  que  viajamos  fisicamente  em  nossos
sonhos  até  outros  locais,  que  os  espíritos  dos  ancestrais  mortos  habitam  o  ambiente  ao  nosso  redor,  ou  que
nossos  corpos  podem  ser  assumidos  –  possuídos  –  por  outras  entidades  ativas.  Ainda  assim,  nossa  cultura
popular nos últimos anos inclui histórias de anjos que ajudam os seres humanos, e nós parecemos estar cada vez
mais  fascinados  por  esta  possibilidade.  Ideias  sobre  espíritos,  maléficos  ou  benéficos,  e  os  limites  talvez
permeáveis da pessoa fazem parte das práticas espirituais ou cosmologias e, conforme orientado pela Estrutura
de  Prática  da  Terapia  Ocupacional,  compreender  estas  ideias  como  pertinentes  aos  clientes  está  dentro  do
espectro de nossa atuação.

DIFERENÇAS HUMANAS QUE PODEM INFLUENCIAR A CULTURA, MAS QUE NÃO
SÃO EXATAMENTE CULTURAIS

Diversidade Étnica e Racial
Cultura não é o mesmo que etnia ou raça. Cultura não é um sinônimo educado para a palavra raça, embora as
pessoas  que  se  sentem  desconfortáveis  em  debater  raça  e  etnia  a  utilizem,  por  vezes,  desta  maneira.  Muitos
autores  de  terapia  ocupacional  advertem  contra  este  erro  (Bonder,  Martin  &  Miracle,  2004;  Evans,  1992;
Fitzgerald, 2004). Os grupos étnicos, de acordo com a clássica definição de Weber (1922/1968), são grupos que
“acolhem  uma  crença  subjetiva  em  sua  descendência  comum  por  causa  de  semelhanças  do  tipo  físico  ou  de
hábitos, ou de ambos, ou por causa das memórias da colonização e migração” (p. 389). A identidade étnica pode
ser autosselecionada e construída a partir de um grupo, imposta a partir do exterior, ou de ambos. É dinâmica e
fluida, modificando­se em resposta à mudança social (Cornell & Hartmann, 1998). Raça e etnia são categorias
socialmente  construídas,  conceitos  acordados  em  discurso  público  e  privado  que  podem  ser  compreendidos
apenas no contexto da história de seu emprego em determinado local.
Quando os rótulos étnicos são atribuídos de fora do grupo, a aparência ou o fenótipo do grupo é a base para a
sua  designação.  O  fenótipo,  a  aparência  física  real  de  um  indivíduo,  é  diferente  do  genótipo,  que  é  a
constituição genética exata de um indivíduo. Mesmo gêmeos idênticos, cujos genótipos são cópias exatas um do
outro, apresentam diferenças fenotípicas sutis, incluindo suas impressões digitais.
Na  triste  história  das  atrocidades  humanas,  um  determinado  fenótipo  ou  aparência  é  frequentemente
representado na propaganda voltada para isolamento e destruição de um grupo étnico. Assim, a propaganda de
Hitler incluía descrições do “tipo judeu.” Os hutus em Ruanda massacraram aqueles que eles percebiam como
tutsis,  pessoas  que  eram  ditas  como  mais  altas,  com  narizes  mais  longos  e  mais  estreitos.  Durante  os  séculos
anteriores, sob a colonização belga e alemã, os tutsis – ou aqueles percebidos como tutsis – foram favorecidos
com  terras  e  trabalho,  tendo  ajudado  a  oprimir  aqueles  percebidos  como  hutus.  Os  indivíduos  que  não  se
adaptam ao fenótipo da propaganda nas situações de conflito étnico ou genocídio são mais prováveis de escapar.
A  raça  –  embora  um  conceito  operativo  na  vida  social,  na  política,  na  economia  e  no  marketing  do
entretenimento  norte­americano  –  não  é  uma  entidade  biológica.  Os  biólogos  mostraram  que  existe  mais
variação  dentro  do  que  entre  as  chamadas  raças  de  seres  humanos,  invalidando  assim  a  categorização  de  base
estatística.  Ademais,  tanto  com  a  raça  como  com  a  etnia,  há,  com  frequência,  uma  diferença  entre  fenótipo  e
genótipo. No entanto, dizer que a raça é um conceito biologicamente falso ou que é socialmente construído não
significa  que  ela  não  seja  real  do  ponto  de  vista  psicológico  ou  social.  Lidar  com  as  relações  de  raça  é  parte
muito real da vida. Os seres humanos são mortos com base na raça. Os seres humanos recebem ou têm negado
os  direitos  e  privilégios  com  base  na  raça.  Embora  raça  e  etnia  não  sejam  a  mesma  coisa  que  cultura,  a
experiência  histórica  da  opressão  –  ou  quanto  à  questão  do  privilégio  –  baseada  na  afiliação  racial,  étnica,
religiosa  ou  de  outro  grupo  pode  modelar  a  cultura.  Portanto,  embora  raça,  etnia  ou  religião  e  cultura  sejam
conceitos distintos, eles podem se sobrepor, interagir e fazer interseção entre si.
Grandes  grupos,  como  aqueles  baseados  na  raça,  na  linguagem,  na  religião  ou  na  nacionalidade,  são,  com
frequência, mais heterogêneos que homogêneos e poderiam não compartilhar grande parte da sobreposição das
crenças,  atitudes  e  práticas  culturais.  Por  exemplo,  embora  os  afro­americanos  sejam  agrupados  em  uma
categoria  racial,  as  práticas  culturais  variam  dentro  do  grupo  (Llorens,  1971).  Os  cidadãos  americanos  com
descendência  africana  que  migraram  recentemente  e  de  maneira  voluntária  ou  que  vieram  do  Caribe  possuem
crenças  culturais,  práticas  e  modos  de  vida  que  são  diferentes  daqueles  dos  afro­americanos  cujas  famílias
estavam nos Estados Unidos desde que foram forçadas a fazer isto por meio da escravidão; contudo, estes grupos
compartilham uma designação racial em nosso sistema social de rotulagem da raça. Infortúnios à parte, a raça, a
etnia  e  a  cultura  se  tornam  mais  complicadas  quando  imaginamos  que  as  práticas  ou  forças  sociais  que  são
empregadas para isolar um grupo racial ou étnico afetarão a cultura daquele grupo. As tendências raciais ou o
tratamento  discriminatório  é  algo  que  muitos  norte­americanos  de  descendência  africana  experimentaram.
Algumas práticas e crenças culturais comumente mantidas foram organizadas em resposta a esta experiência e
funcionaram para proteger os familiares em um ambiente hostil.
Raça,  etnia,  classe,  religião,  grupo  de  linguagem,  orientação  sexual  e  diversidade  sexual  interagem  sem
exceção e afetam a adaptação cultural dos grupos de pessoas. Com frequência, as tradições culturais carregam
consigo uma ênfase sobre uma linguagem compartilhada, da mesma maneira que a linguagem é modelada pela
cultura.  Considere  todos  aqueles  que  falam  espanhol  como  a  primeira  língua.  Não  seria  exato  dizer  que  eles
compartilham  uma  cultura  “espanhola”.  Além  disso,  muitos  de  seus  valores  culturais,  práticas  de  saúde  e
tradições ocupacionais empregam termos próprios do espanhol que não possuem uma tradução simples e exata
em outras línguas.
Os  Estados  Unidos  incluem  uma  quantidade  crescente  de  famílias  e  indivíduos  que  são  multirraciais  e
multiculturais.  O  censo  de  2000  permitiu  que  os  norte­americanos  multirraciais  marcassem  pela  primeira  vez
todas as categorias que se aplicam à descrição de sua raça. No passado, estes cidadãos eram forçados a escolher
uma raça. Aproximadamente 2,4% dos norte­americanos, quase 7 milhões, identificam­se como de mais de uma
raça.

Diversidade de Grupo de Linguagem
Como  os  profissionais  de  terapia  ocupacional  baseiam­se  em  entrevistas  para  reunir  dados  relevantes  para  o
planejamento  do  tratamento,  talvez  a  diversidade  que  mais  complique  o  processo  de  tratamento  seja  a
diversidade da linguagem. De acordo com o censo de 2000, quase 47 milhões de norte­americanos falam uma
língua diferente do inglês em casa. Alguns profissionais são ingênuos a respeito de problemas que envolvem a
comunicação cultural  cruzada (Wardin, 1996).  Wardin  examinou  terapeutas  ocupacionais para identificar tanto
as dificuldades na comunicação lingual cruzada como exemplos de interação bem­sucedida durante o processo
de  avaliação.  Ela  descobriu  que,  quando  familiares  ou  tradutores  profissionais  não  estavam  disponíveis,  a
comunicação  gestual  era  considerada  confiável.  Apesar  disso,  os  gestos  não  são  universais  e,  sem  uma
compreensão do que significam os gestos em diferentes contextos culturais, os profissionais da terapia correm o
risco  de  insultar  seus  clientes.  Na  América  do  Norte,  quando  fazemos  gestos  para  alguém  se  aproximar,
flexionamos  o  dedo  indicador  e,  quanto  mais  justificativos  e  apologéticos  formos,  mais  provável  será  que
devamos minimizar o movimento e o tamanho desse gesto. No leste da África, um sinal de “venha cá” educado
deve  ser  feito  com  toda  a  mão  e  o  antebraço,  e  a  utilização  de  um  dedo  ou  o  ato  de  minimizar  o  tamanho  do
gesto  constitui  um  insulto  grave.  Sinalizar  “tudo  certo”  com  o  polegar  e  o  indicador  ou  com  um  polegar  para
cima  parece  positivo  e  benigno  para  muitos  de  nós,  porém,  em  algumas  culturas,  estes  gestos  são  obscenos.
Mesmo um sorriso pode ser erroneamente interpretado. Sorrisos podem ser vistos como indicações irônicas da
superioridade  de  quem  sorri  ou  que  aquele  que  sorriu  parece  um  tolo.  Um  estudante  estrangeiro  nos  Estados
Unidos percebeu que deveria retornar a seu quarto para se certificar de que a braguilha da calça estava fechada,
porque ele não podia imaginar outro motivo para que seus colegas continuassem a sorrir para ele. Claramente, a
comunicação não verbal é uma base inadequada para estabelecer uma relação terapêutica entre culturas.
Muitos  daqueles  que  responderam  à  pesquisa  de  Wardin  (1996)  trabalhavam  com  sistemas  em  que  eles  se
baseavam  nos  familiares  para  a  tradução.  No  entanto,  ocorrem  problemas  quando  os  familiares  servem  como
intérpretes,  com  frequência  porque  eles  fornecem  ajuda  ou  sugerem  respostas  nas  avaliações.  Ademais,  os
membros  da  família  com  menos  idade  podem  experimentar  a  tensão  deste  papel  quando  solicitados  a  fazer
perguntas  pessoais  ou  a  dar  orientações  assertivas  para  os  familiares  com  mais  idade.  A  legislação  federal
americana  exige  o  fornecimento  de  serviços  de  tradução  nas  instituições  de  cuidados  primários  que  recebam
recursos federais (National Center for Cultural Competence, 2000). Em algumas áreas, os serviços de intérpretes
médicos estão disponíveis por telefone. Veja o Boxe 6.1 para dicas sobre o uso efetivo de intérpretes.
Em comparação com os cidadãos de outras nações, aqueles dos Estados Unidos são, com maior frequência,
monolíngues  e  têm  menos  consciência  dos  problemas  de  comunicação  cultural  cruzada.  O  estudo  de  Wardin
(1996)  mostrou  que  os  profissionais  que  eram  funcionalmente  bilíngues  relataram  estratégias  de  prática  mais
efetivas, mesmo com clientes cujas línguas eles não falavam. Dessa maneira, há evidência de que o estudo da
língua sensibiliza os profissionais para as questões que envolvem a proficiência limitada do inglês.
A  comunicação  não  é  um  processo  simples  ou  direto.  Quando  analisada  com  rigor,  ela  pode  ser  observada
como repleta de tantas complicações que é surpreendente que compreendamos uns aos outros. Os profissionais
reconhecem a necessidade do emprego habilidoso de intérpretes e da audição ativa para verificar se o significado
recebido é aquele pretendido e para assistir tanto aos aspectos verbais quanto aos não verbais da comunicação.

Diversidade de Orientação Sexual
A orientação sexual consiste na atração física e emocional no sentido da intimidade com outros, observada nos
sentimentos  espontâneos  e  nos  desejos  eróticos  (Hall,  2001).  A  orientação  sexual,  seja  ela  heterossexual,
homossexual, bissexual ou assexual, não é uma escolha ou uma preferência (McNaught, 1993a). Por exemplo,
dizer  que  um  homem  tem  uma  orientação  homossexual  não  é  dizer  que  ele  acha  todos  os  outros  homens
sexualmente atraentes, que ele não consegue controlar seus impulsos sexuais em relação a eles, ou que ele ache
as mulheres repugnantes. Isto significa apenas que os indivíduos pelos quais ele se sente amorosamente atraído
são  homens.  As  pessoas  homossexuais  não  têm  um  “estilo  de  vida”  ou  cultura  particular;  nem  as  pessoas
heterossexuais.  Ambos  os  grupos  incluem  pessoas  que  possuem  muitos  estilos  de  vida,  culturas,  raças,  etnias,
classes  sociais  e  ocupações  diferentes.  A  experiência  de  perseguição  a  um  grupo,  porém,  é  um  forte  estímulo
para  o  desenvolvimento  de  valores  e  compreensões  culturais  compartilhadas  e  para  a  formação  de  rituais
comunitários compartilhados, como as paradas anuais do Orgulho Gay e vocabulários próprios.
O censo de 2000 relatou que 594.391 domicílios nos Estados Unidos eram constituídos de casais de mesmo
sexo que se definiam como parceiros; isto representou 1% de todos os domicílios de casais. Não sabemos o que
torna  a  maioria  da  população  heterossexual.  De  maneira  similar,  não  sabemos  as  causas  de  outras  orientações
sexuais,  sendo  útil  imaginar  que  a  gama  de  orientações  sexuais  pode  ser  uma  expressão  de  variações  naturais
simples nos seres humanos (Hall, 2001). Não há nada que pais, famílias, amigos ou amantes façam para que uma
pessoa tenha uma orientação ou outra, e é difícil, se não impossível, mudar a orientação sexual de uma pessoa
(Hall,  2001).  Muitos  mitos  e  estereótipos  envolvem  a  orientação  sexual.  A  desaprovação  cultural  dominante
(incluindo molestar e assassinar indivíduos homossexuais) torna difícil para aqueles que compreendem que não
se  sentem  atraídos  por  pessoas  do  sexo  oposto  aplicar  um  rótulo  de  orientação  sexual  para  si  próprios.  A
autoaceitação  é  desafiadora,  sendo  o  processo  de  alcance  da  maturidade  psicossexual  complicado  para  muitos
jovens  com  orientação  diferente  da  orientação  heterossexual  porque  nossa  cultura  atual  é  calcada  em  imagens
que  descrevem  algumas  variedades  de  expressão  sexual  e  de  orientação  sexual  como  demoníacas  ou  erradas
(McNaught,  1993b).  Isto  não  quer  dizer  que  jovens  homossexuais  masculinos  ou  femininos  sejam  menos
saudáveis do ponto de vista psicológico mas, em vez disso, eles podem sentir que alcançar a maturidade sexual é
algo  assustador  e  repleto  de  mais  desafios  (Crepeau,  1998;  Walsh  &  Crepeau,  1998).  Existem  muitos  bons
recursos de vídeo, impressos e de Internet para aqueles que desejam mais informações sobre a orientação sexual;
recomendo os livros e vídeos de Brian McNaught (uma lista completa pode ser encontrada em http://www.brian­
mcnaught.com/resources.html)  e  o  endereço  eletrônico  interativo  Sex  101
(http://www.yforum.com/sex101.html), que possibilita que os leitores façam perguntas e respostas.
DICAS PARA SEGUIR QUANDO UTILIZAR UM INTÉRPRETE

Um  intérprete  médico  treinado  deve  obedecer  aos  mesmos  padrões  de  confidencialidade  que  qualquer
outro  profissional  de  saúde.  Ao  empregar  um  familiar  ou  membro  bilíngue  da  família  em  lugar  de  um
intérprete treinado, lembre ao intérprete, diante do cliente, de que tudo o que você e o cliente disserem é
informação confidencial, não podendo ser repetida.
Aborde diretamente o cliente. Não converse com o intérprete a respeito do cliente.
Não  peça  um  resumo  ou  espere  que  o  intérprete  filtre  os  detalhes  importantes  daqueles  que  não  são
essenciais.  O  trabalho  do  intérprete  é  preservar  e  transmitir  a  fala  e  o  tom  emocional  do  cliente  com  o
maior detalhamento possível. Um intérprete médico profissional transmite não apenas o que é dito, mas
também como é dito. Isto exige tempo; portanto, ofereça um tempo adicional.
Pare com frequência e pergunte ao cliente se ele tem dúvidas. Em uma situação de cuidado de saúde, é
papel tanto seu quanto do intérprete minimizar o desconforto do cliente e garantir a compreensão mútua.

Os acadêmicos de terapia ocupacional observaram que é importante compreender a orientação sexual como
um tema de significado e identidade nas vidas dos clientes e que, como tal, ela é frequentemente expressa nas
escolhas das ocupações (Jackson, 1995; Wood, 1992). Como suas vidas são mais do que sua sexualidade, muitas
pessoas  preferem  termos  como  gays  e  lésbicas  ao  termo  homossexual.  À  medida  que  nos  empenhamos  para
compreender a plenitude das vidas e ocupações de nossos clientes, não podemos ignorar as dimensões sexuais de
suas  personalidades.  Isto  não  significa  que  precisamos  saber  as  peculiaridades  das  atividades  sexuais  que  eles
praticam – exceto nos momentos em que poderíamos estar envolvidos para ajudar as pessoas com incapacidades
a  solucionar  problemas  cinesiológicos  inseridos  na  expressão  sexual.  Para  todos  os  clientes,  profissionais
habilitados criam um ambiente em que a aceitação da sexualidade, da mesma maneira que a aceitação da cultura,
é  clara  e  convida  à  colaboração  verdadeira.  Ao  estabelecerem  a  empatia  adequada  com  nossa  clientela
diversificada, os profissionais habilitados na terapia ocupacional evitam a homofobia,  da  mesma  maneira  que
eles evitam o racismo e a etnocentricidade. Criar um clima de tolerância e aceitação no local de trabalho também
significa  que  os  colaboradores  homossexuais  e  bissexuais  podem  focalizar  seus  esforços  sobre  o  cuidado  do
paciente e não precisam manter suas identidades em segredo (McNaught, 1993a).

MITOS, ESTEREÓTIPOS, XENOFOBIA E GENERALIZAÇÕES
Com relação à consciência multicultural, um mito é uma crença infundada ou mal fundamentada que recebe uma
aceitação não crítica pelos membros de um grupo. Os mitos agem no suporte de instituições e práticas existentes
ou tradicionais. Os estereótipos são quadros mentais baseados em mitos que levam as pessoas a associar uma
característica  ou  um  conjunto  de  características  a  determinados  grupos  de  pessoas.  Xenofobia  é  um  medo  ou
ódio irracional daqueles diferentes de nós próprios. A xenofobia é apenas uma parte da natureza humana, como
alguns argumentaram, ou é ensinada e aprendida, passada dos adultos para as crianças como parte e parcela da
cultura de um grupo social? O fato de que a xenofobia pode ser não aprendida e que alguns seres humanos são
consistentemente atraídos para aqueles que são diferentes deles próprios pesa contra a visão dos seres humanos
como naturalmente suspeitos em relação a outros seres humanos não pertencentes a seu próprio grupo.
Contudo, as tendências para generalizar e agrupar as percepções na memória parecem ser partes inerentes ao
aparelho mental humano. Piaget (1969) descreveu o desenvolvimento do pensamento das crianças com relação à
formação  e  ao  refino  de  esquemas  para  agrupar  objetos  e  criaturas  no  mundo  natural  em  torno  delas.  O
pensamento a respeito deste agrupamento cognitivo pode proporcionar alguns insights sobre como são formados
os  mitos  e  estereótipos  sobre  outros  grupos.  É  uma  maneira  de  começar  a  desvendar  alguns  dos  mitos  e
estereótipos que poderíamos ter incorporado em nossos próprios pensamentos a respeito da diversidade humana.
Vamos  dizer  que,  em  algum  momento  de  sua  juventude,  você  ouviu  a  frase  mulher  motorista.  As
circunstâncias sob as quais você ouviu o emprego deste termo permitiram que você compreendesse rapidamente
que era uma frase que significa desacreditar que as mulheres sejam capazes de operar veículos motorizados de
maneira  segura  e  eficiente.  Tendo  ouvido  a  frase  ser  utilizada  uma  ou  duas  vezes,  você  internalizou  este
conceito,  mesmo  que  apenas  com  base  em  um  julgamento.  Com  o  conceito  inserido  em  seu  aparelho  mental,
você foi prontamente capaz de incorporar e registrar nesta categoria conceitual qualquer e todos os exemplos que
você  observou  pessoalmente  ou  ouviu  falar  em  que  uma  mulher  realmente  operou  um  veículo  motorizado  de
maneira  não  habilidosa  ou  insegura.  Em  contrapartida,  não  houve  um  esquema  cognitivo  conveniente  no  qual
você poderia registrar mentalmente, em uma categoria já definida, todos os incidentes ou relatos de homens que
dirigem mal. Desafiado a relembrar casos ou relatos sobre dirigir mal para mulheres e homens, você recuperaria
mais prontamente em sua memória todos aqueles casos pré­codificados de direção ruim por parte das mulheres.
Um conceito é apresentado e, assim como um destino que se cumpre, as evidências começam a ser acumuladas
por meio da experiência – a experiência filtrada através de categorias cognitivas previamente aprendidas. Você
poderia concluir que as mulheres são piores motoristas que os homens. Então, você seria confrontado com uma
realidade  diferente.  As  tabelas  atuariais  de  seguro  mostram  que,  na  realidade,  as  mulheres  são  melhores
motoristas que os homens, e as companhias de seguro, grandes e pequenas, confirmam este fato, uma vez que
aplicam taxas diferenciadas para a cobertura por sexo em determinados grupos etários e onde é permitido pela lei
estadual.
Os  seres  humanos  aparentemente  não  conseguem  se  desligar  dos  aspectos  de  grupo,  generalização  e
construção  de  esquemas  de  suas  mentes.  No  entanto,  nós  podemos  examinar  com  rigor  as  generalizações  que
fazemos  a  respeito  de  outros  seres  humanos  e  as  conclusões  às  quais  chegamos.  Para  atuar  de  maneira
competente  e  ética  com  uma  diversidade  de  indivíduos  e  grupos,  os  profissionais  de  saúde  aceitam  a
responsabilidade  de  examinar  suas  próprias  generalizações,  porque  a  adesão  a  mitos  e  estereótipos  leva  a
resultados de cuidados de saúde deficientes para os grupos estigmatizados. Por exemplo, as pessoas de cor têm
menos  acesso  aos  cuidados  da  saúde,  recebem  serviços  de  saúde  inferiores  e  experimentam  resultados  de
tratamento  piores,  incluindo  maiores  taxas  de  mortalidade  e  morbidade  em  muitas  categorias  de  doença
(Williams, Lavizzo­Mourey & Warren, 1994).
As  generalizações  a  respeito  de  grupos  culturais  ou  raciais  não  são  todas  negativas  ou  destrutivas.  Os
profissionais  de  saúde  por  vezes  acham  útil  generalizar  a  partir  de  listas  publicadas  de  caracterizações  de
determinados grupos étnicos, culturais ou de linguagem. Debates recentes na literatura sobre terapia ocupacional
se  uniram  a  este  texto  ao  declarar  que  estas  listas  devem  ser  utilizadas  com  cautela,  mas  que  o  aprendizado
específico sobre grupos culturais é o ponto de partida para atingir a competência multicultural (Bonder, Martin
& Miracle, 2004; Dickie, 2004; Wells & Black, 2000; Whiteford & Wilcock, 2000). Como um exemplo, aqui
está  uma  lista  que  compara  as  crenças,  valores  e  práticas  de  nativos  norte­americanos  com  aquelas dos norte­
americanos de origem anglo­europeia, de modo que todas as assertivas são consideradas comparações relativas.
Em contraste com os norte­americanos de origem europeia, os nativos norte­americanos são caracterizados como
(Joe & Malch, 1992):
Mais orientados para o grupo do que orientados para o indivíduo
Tendo respeito pelos idosos e especialistas
Vendo tempo e lugar como permanentes e estabelecidos
Sendo introvertidos e evitando expor­se ao ridículo ou à crítica por parte dos outros
Sendo pragmáticos e aceitando o que houver
Enfatizando  a  responsabilidade  pela  família  e  por  si  próprio  mais  do  que  a  autoridade  sobre  ou  a
responsabilidade por grupos sociais maiores
Atentos ao modo como os outros se comportam mais do que ao que eles dizem que pensam ou sentem, e
procurando a harmonia

Estas podem ser informações úteis para se ter como ponto de partida para observações e conversas com um
determinado  cliente  ou  família  de  indígenas  norte­americanos,  mas  é  importante  permanecer  aberto  para  a
possibilidade  de  que  a  pessoa  ou  diferentes  membros  da  família  adotem  e  propaguem  todas,  algumas  ou
nenhuma dessas crenças e desses valores. Se, por exemplo, a cliente hipotética fosse uma líder ativista urbana do
Movimento Indígena Norte­Americano, é pouco provável que ela se preocupasse apenas consigo própria e com a
família ou aceitasse  pragmaticamente  o status quo.  Quanto  mais  informações  você  tiver  a  respeito  da  história
social e do contexto social de um indivíduo ou grupo familiar, mais capaz você será de discernir se há aplicação
das descrições publicadas desses outros grupos sociais.
As  tentativas  de  generalizar  a  partir  do  conhecimento  da  religião  da  outra  pessoa  apresentam  dificuldades
particulares.  Embora  norte­americanos  e  europeus  tendam  a  dar  dedicação  total  a  uma  tradição  religiosa,
excluindo a possibilidade de participar de práticas religiosas originadas em outras tradições, esta não é uma regra
global. Os muçulmanos no norte, oeste e leste da África, por exemplo, não experimentam rituais com objetivo de
conhecer  ou  propiciar  ideias  diferentes  e  problemáticas,  bem  como  contraditórias  ou  desrespeitosas  à  sua  fé
islâmica.  De  maneira  similar,  a  possessão  espiritual  e  as  práticas  de  sacrifício  de  animais  por  brasileiros
praticantes  do  candomblé  ou  cubanos  praticantes  da  santeria,  ambas  as  quais  misturam  elementos  do
cristianismo com cultos de seitas do oeste da África, não são visualizadas por eles como uma interferência em
sua prática do catolicismo romano. Líderes ortodoxos conservadores sunitas ou do catolicismo romano podem
desaprovar tais práticas, mas sua desaprovação é algo discutível a partir da perspectiva da relação profissional­
cliente e das tentativas de compreensão cultural cruzada. Os antropólogos médicos há muito têm observado que,
confrontados com a adversidade, os seres humanos geralmente experimentam qualquer remédio percebido como
útil, mesmo se tais remédios não se adaptem a uma visão sistemática de mundo ou a um conjunto de crenças no
sobrenatural.
Também  é  prudente  considerar  as  forças  de  assimilação  na  aplicação  das  generalizações.  Conforme  foi
observado anteriormente, a mídia de massa e as interações com membros de outros grupos sociais propiciam um
poderoso  ímpeto  para  que  as  minorias  culturais  ou  raciais  adotem  os  valores,  crenças  e  práticas  do  grupo
dominante.  Isto  é  mais  prontamente  observado  nas  gerações  nascidas  de  cidadãos  imigrantes.  O  espírito  e  as
crenças pessoais de um cliente (visão de mundo e conduta para a vida) poderiam ser uma mistura criativa dos
elementos culturais a partir da sociedade prévia ou da cultura da geração anterior e da nova sociedade e cultura
na qual o cliente adentrou.
Por fim, é importante compreender que o processo de generalização a respeito de outras pessoas culturalmente
diferentes  é  multidirecional.  Enquanto  você  interage  com  aqueles  que  são  diferentes  de  você  e  testa  hipóteses
com  base  em  suas  generalizações  aprendidas,  outros  estarão  fazendo  o  mesmo  em  relação  a  você.  Mitos  e
estereótipos  sobre  todos  os  grupos  culturais  e  raciais,  incluindo  os  norte­americanos  de  origem  europeia,  são
incontáveis. Livros como Colored People (1994), de Henry Louis Gates, The  Spirit  Catches  You  and  You  Fall
Down (1997), de Anne  Fadiman,  e  Twilight,  Los  Angeles,  1992  (1994)  e  Fires  in  the  Mirror  (1993),  de  Anna
Deavere Smith, fornecem insights inestimáveis sobre a formação de mitos e estereótipos culturais e raciais na
América.  Distant  Mirrors  (DeVita  &  James,  2002)  inclui  muitos  ensaios  que  detalham  as  impressões  dos
imigrantes e visitantes sobre a cultura norte­americana. Alguns deles provavelmente lhe surpreenderão.

CULTURA E OUTRAS FORMAS DE DIVERSIDADE NA TEORIA E NA PRÁTICA DA
TERAPIA OCUPACIONAL
Mattingly e Beer (1993) ofereceram dois motivos para que os profissionais de terapia ocupacional se empenhem
para  a  compreensão  exata  das  bases  culturais  de  seus  clientes:  permitir  a  colaboração  no  estabelecimento  de
metas e planejamento do tratamento e individualizar a terapia. Eu acrescentaria outros três: garantir a avaliação
exata,  refinar  a  teoria  da  terapia  ocupacional  de  modo  a  considerar  todos  os  seres  humanos  e  aumentar  a
probabilidade de tratamento equitativo. Por trás de todas essas metas do tratamento sensível está o imperativo de
que estabeleçamos a empatia adequada com nossos clientes.
Afro­americanos, hispano­americanos, latino­americanos e indígenas norte­americanos são sub­representados
em  nossa  profissão.  Mais  de  90%  dos  profissionais  de  terapia  ocupacional  são  brancos,  considerando­se  que
76%  da  população  norte­americana  é  formada  por  brancos.  Embora  a  raça  e  a  etnia  não  sejam  o  mesmo  que
cultura, elas são atributos que, como a cultura, são considerados como diferenças na sociedade norte­americana.
Como  tal,  elas  podem  criar  desafios  para  a  compreensão  interpessoal  entre  indivíduos  oriundos  de  diferentes
grupos,  bem  como  classes  e  culturas.  Ademais,  os  profissionais  da  terapia  ocupacional  originam­se  de  um
histórico de menor variedade de classes do que seus clientes, e todos os profissionais compartilham a influência
socializante  da  educação  superior.  Quando  não  damos  atenção  às  diferenças  de  maneira  respeitosa  e  não
refletimos sobre nosso próprio potencial para viés, falhamos em estabelecer empatia adequada e boas relações de
trabalho com nossos clientes. Os terapeutas ocupacionais de raças diferentes que responderam a uma pesquisa
concordaram sobre uma lista de crenças e valores, porém atribuíram diferentes conjuntos de valores aos grupos
étnicos diferentes de seu próprio grupo (Pineda, 1996).
Observamos  diferenças  culturais  durante  o  processo  de  avaliação  e  tentamos  escolher  instrumentos  e
estratégias de avaliação que não sejam culturalmente tendenciosos e interpretar corretamente os resultados. Por
sua  própria  natureza,  os  instrumentos  de  avaliação  padronizados  e  referenciados  por  uma  norma  fazem
suposições  sobre  normalidade  que  podem  estar  relacionadas  com  a  cultura.  Muitos  instrumentos  de  avaliação
presumem características de um indivíduo­modelo, frequentemente baseadas nas experiências e modos de vida
da classe média norte­americana e europeia. Por exemplo, Law (1993) descobriu que avaliações de atividades da
vida diária (AVD) e  de  atividades  instrumentais  da  vida  diária  refletem  os  valores culturais dominantes norte­
americanos  com  relação  à  independência  e  aos  direitos  individuais.  Os  pesquisadores  em  terapia  ocupacional
estudaram o lócus de controle – uma medida do sentimento de autodeterminação e fortalecimento – em diversas
populações  e  descobriram  que  as  pessoas  de  cor  frequentemente  exibem  um  escore  menor  (ou  mais
externamente controlado) que o previsto, talvez por causa das influências desmoralizantes do racismo (Elliot &
McGruder,  1995;  Janelle,  1992;  Spadone,  1992).  Os  profissionais  da  terapia  ocupacional  descobriram  que  os
instrumentos  de  avaliação  pediátrica  utilizados  nos  Estados  Unidos  podem  ser  tendenciosos,  inaplicáveis  ou
apenas inúteis na avaliação de crianças pobres, minorias étnicas, órfãos estrangeiros em desvantagem social ou
imigrantes  recentes  (Bowman  &  Wallace,  1990;  Colonius,  1995;  Fudge,  1992;  Miller,  1992;  Myers,  1992).
Mesmo as escalas de comportamento infantil não poderiam ser aplicadas onde as práticas de criação dos filhos
diferem com a cultura (Packir, 1994).
Uma preocupação quanto à remoção de tendências culturais, à medida do possível, das avaliações de AVD em
adultos inspirou o esboço da Avaliação de Habilidades e Processos Motores, um instrumento de avaliação em
terapia ocupacional que permite que os clientes escolham em que atividades eles querem atuar e como realizá­
las.  Está  em  andamento  a  pesquisa  para  determinar  se  esta  conduta  elimina  realmente  as  tendências  e  leva  à
validade  cultural  cruzada;  até  o  momento,  os  resultados  são  promissores  (Goto,  Fisher  &  Mayberry,  1996;
Stauffer, Fisher & Duran, 2000).
Humphry  (1995)  descreveu  como  a  pobreza  crônica,  uma  experiência  que  é  desigualmente  compartilhada
entre grupos culturais e raciais nos Estados Unidos, despersonaliza e corrói o senso do “eu”, altera a progressão
do desenvolvimento das crianças e provoca conflitos potenciais entre profissionais e clientes ou seus cuidadores
em torno de cinco problemas universais de orientação em relação a tempo, atividade, relacionamentos humanos,
natureza humana e controle das forças naturais. Estes conflitos de valores têm implicações não somente sobre os
testes que mensuram o lócus de controle, a motivação humana ou o desempenho da AVD, como também para
saber como representamos seres humanos e a ocupação humana na teoria da terapia ocupacional.
Os  teóricos  da  terapia  ocupacional  constroem  e  refinam  continuamente  os  modelos  de  prática.  A  profissão
valoriza  esta  atividade  acadêmica.  O  refinamento  ocorre  quando  os  acadêmicos  submetem  seus  trabalhos  à
crítica  e  ao  debate  por  seus  colegas.  O  exame  rigoroso  das  suposições  de  um  modelo  de  prática  baseado  na
cultura é uma maneira de testá­lo.
O  modelo  da  ocupação  humana,  uma  das  teorias  mais  abrangentes  em  terapia  ocupacional,  incorpora
múltiplos níveis de obtenção de dados a respeito das habilidades, hábitos e pa péis, interesses e motivações dos
seres humanos em um ambiente social e cultural. O modelo enfatiza as relações dos seres humanos com o tempo
e inclui o lócus de controle e a crença na eficácia pessoal como elementos da regulação voluntária do resultado
produtivo  e  agradável  (Kielhofner,  2002).  Apesar  disso,  é  quase  impossível  fazer  afirmações  sobre  o  que  é
normal, universal, funcional ou adaptativo nesses domínios, pois essas áreas são definidas em grande parte por
meio da cultura. Alguns teóricos que trabalham com o modelo da ocupação humana se afastaram de avaliações
quantitativas  padronizadas  da  vontade  em  favor  de  uma  conduta  mais  qualitativa  das  narrativas  reveladoras
(Helfrich  &  Kielhofner,  1994;  Helfrich,  Kielhofner  &  Mattingly,  1994).  Outros  questionaram  a  adequação  da
atenção  ao  ambiente  cultural  e  social,  muito  mencionada,  mas  pouco  analisada,  nas  descrições  anteriores  do
modelo  e  questionaram  a  suposta  hierarquia  entre  subsistemas  com  a  vontade  direcionando  a  habituação  e  a
habilidade de desempenho (Haglund & Kjelberg, 1999).
A partir desta dedução, a ciência ocupacional abraçou a narrativa, ou a narração de histórias, como a melhor
maneira  para  compreender  as  experiências  dos  clientes  com  relação  às  suas  doenças  ou  incapacidades  (Clark,
1993). A ênfase na ciência ocupacional sobre as perspectivas íntimas confere a ela o potencial para superar as
barreiras culturais. A preocupação com a contribuição do próprio cliente sobre sua vida faz parte da tradição da
terapia ocupacional (Frank, 1996). Na aplicação dos métodos narrativos de avaliação entre culturas, no entanto, é
importante  reconhecer  que  aquilo  que  é  uma  narrativa  satisfatória  para  as  mentes  ocidentais  apresenta  uma
especial  estrutura  linear.  Esta  estrutura  foi  debatida  (e  prescrita)  na  cultura  ocidental  desde  o  tempo  de
Aristóteles. Os proponentes dos métodos narrativos de avaliação admitem que a “história” fornecida pelo cliente
(e pela família) e pelo profissional é o resultado de uma negociação entre a narrativa do cliente e a reconstrução
da história pelo profissional (Frank, 1996). Quando os profissionais de terapia ocupacional entrevistam clientes
para  descobrir  as  metas  de  atividade  ou  os  significados  que  as  atividades  possuem,  por  vezes,  eles  produzem
histórias que não fazem sentido para os profissionais. A tarefa dos profissionais éticos consiste em se posicionar
fora dos limites confortáveis, embora invisíveis, da sua própria cultura e classe, a fim de obter uma compreensão
exata  das  situações  de  vida  e  visão  de  mundo  de  seus  clientes.  Fazer  isto  é  uma  etapa  necessária  no
estabelecimento mútuo de metas, exame acurado, planejamento do tratamento individualizado e fornecimento de
tratamento equitativo.

ADQUIRINDO COMPETÊNCIA MULTICULTURAL COMO UM PROFISSIONAL DA
TERAPIA OCUPACIONAL
Existem quase tantas definições de competência cultural quanto as de cultura. Felizmente para a extensão deste
capítulo, há uma grande concordância sobre o que está envolvido para se tornar um profissional culturalmente
competente.  Muitos  modelos  de  competência  multicultural  englobam  a  ideia  de  que  o  conhecimento  de  si
próprio e a compreensão dos próprios valores e orientações culturais constituem um primeiro passo necessário.
Este aspecto é frequentemente denominado consciência cultural (Dillard, Andonian, Flores, MacRae & Shakir,
1992). Em conjunto com a consciência cultural está a necessidade de sensibilidade cultural, definida como uma
abertura para os valores culturais dos outros (Dillard et al., 1992).
Os programas voltados para aumentar a conscientização da pessoa sobre sua própria cultura frequentemente
começam  com  o  exame  dos  valores  culturais  norte­americanos  dominantes,  para  tornar  estes  valores  menos
invisíveis  para  aqueles  que  os  assimilaram  e  para  diminuir  o  etnocentrismo  ou  a  tendência  de  considerar  a
própria cultura uma norma e uma expectativa contra a qual são comparadas as outras culturas. A lista a seguir
inclui  algumas  observações  sobre  os  valores  culturais  norte­americanos  dominantes  (DeVita  &  James,  2002;
Humphry, 1995; Pineda, 1996; Sanchez, 1964). Em alguns casos, a orientação dos valores da cultura dominante
e aquela dos profissionais de terapia ocupacional coincidem, criando uma forte tendência, da qual devemos estar
cientes – e ansiosos por abandonar – quando trabalhamos com aqueles cujos valores possam ser diferentes.

Na comparação com outros grupos culturais, os membros do grupo dominante nos Estados Unidos da
América declararam:

Valorizar o futuro em relação ao presente e valorizar o planejamento de longo prazo e posterior gratificação
Valorizar a individualidade e colocar o bem de um indivíduo acima daquele do restante do grupo social
Valorizar a independência em relação à interdependência e valorizar a ação dos membros do grupo por eles
próprios mais do que serem servidos pelos outros
Ser  mais  reservados  e  discretos  a  respeito  de  sua  renda  e  propriedades  do  que  sobre  o  comportamento
sexual
Resistir a compartilhar o espaço ou alimento sem notificação e planejamento prévios e não ver com bons
olhos os visitantes “forçados”
Considerar o lócus da identidade como a pessoa e definir a unidade social primariamente como a família
nuclear
Desejar  e  valorizar  a  sensação  de  estar  no  controle  e  não  aceitar  prontamente  as  situações  que  outros
possam considerar como destino
Considerar a ciência e a tecnologia como uma fonte de controle em relação ao mundo natural, incluindo os
seres humanos
Valorizar o aspecto físico e o fazer mais do que a introspecção e o ser
Acreditar que os seres humanos podem se aperfeiçoar e valorizar a disciplina e a aprendizagem como um
meio para alcançar este fim.

Para  profissionais  europeus­norte­americanos,  aumentar  a  consciência  cultural  e  aprender  a  estabelecer  a


empatia  adequada  começa  com  o  reconhecimento  de  privilégios  e  vantagens  inerentes  à  afiliação  ao  grupo
dominante  (Evans,  1992;  Matala,  1993).  Este  não  é  um  passo  fácil,  mas  necessário.  Os  membros  do  grupo
cultural dominante podem ter sido criados com mitos de que os seres humanos podem subir por seus próprios
esforços e que o trabalho árduo sempre é bem­sucedido. Mais do que isso, eles podem ter trabalhado muito por
suas  conquistas.  Dessa  maneira,  eles  veriam  sua  condição  apenas  como  uma  recompensa  e  se  surpreenderiam
com  o  fato  de  os  outros  não  terem  atingido  uma  condição  similar.  Os  privilégios,  pequenos  e  grandes,  que
acompanham  a  condição  de  filiação  ao  grupo  dominante  poderiam  ser  invisíveis  para  eles.  O  Boxe  6.2  exibe
uma amostra desses privilégios, obtidos a partir de uma lista maior de McIntosh (1997).
A  sensibilidade  cultural  sobrevém  quando  os  aprendizes  tomam  ciência  de  suas  orientações  valorizadas  e
estão prontos para explorar os valores dos outros com uma visão imparcial. O contato com os indivíduos dotados
de poder, cuja cultura, raça, etnia, classe, gênero ou orientação sexual são diferentes de suas próprias, é o tipo de
atividade mais altamente valorizado para aumentar a sensibilidade cultural.

RECONHECENDO O PRIVILÉGIO INERENTE À FILIAÇÃO AO GRUPO
DOMINANTE

Se eu quiser, posso conseguir estar na companhia de pessoas de minha raça a maior parte do tempo.
Posso evitar passar tempo com pessoas que fui treinado para desconfiar e que aprenderam a desconfiar
de mim ou de meu tipo.
Se precisar me mudar, posso assegurar­me de que comprarei ou alugarei uma casa em um local que eu
possa pagar e no qual gostaria de viver.
Posso me assegurar de que meus vizinhos nesta localidade serão neutros ou amigos com relação a mim.
Posso  fazer  compras  sozinho  na  maioria  das  vezes,  bastante  seguro  de  que  não  serei  seguido  ou
molestado. Se usar cheques, cartões de crédito ou pagar em dinheiro, posso contar com o fato de que a
cor da minha pele não irá ameaçar a aparência da confiabilidade financeira.
Posso  ligar  a  televisão  ou  abrir  a  primeira  página  do  jornal  e  ver  pessoas  da  minha  raça  amplamente
representadas.
Quando ouço falar sobre nossa herança nacional ou sobre “civilização”, me é mostrado que as pessoas de
minha cor fizeram o que devia ser feito... Posso ter certeza de que meus filhos receberão material escolar
que irá testemunhar a existência de sua raça.
Posso fazer arranjos para proteger meus filhos na maioria das ocasiões contra pessoas que poderiam não
gostar deles.
Não preciso educar meus filhos para que fiquem cientes do racismo sistêmico para sua própria proteção
física diária.
Posso me assegurar de que os professores e empregadores de meus filhos irão tolerá­los caso eles se
adaptem  às  normas  da  escola  e  do  local  de  trabalho;  meu  chefe  preocupa­se  por  eles  não  se
incomodarem com as atitudes dos outros em relação à sua raça.
Nunca fui solicitado a falar por todas as pessoas de meu grupo racial.
Posso ser indiferente à linguagem e aos costumes das pessoas de cor que constituem a maior parte do
mundo sem sentir, em minha cultura, qualquer objeção por esta indiferença.

Adaptado de McIntosh, P. (1997). White privilege and male privilege: A personal account of coming to see correspondences
through work in women’s studies. Em R. Delgado & J. Stefancic (Eds.), Critical white studies: Looking behind the mirror (pp.
291­299). Philadelphia: Temple University Press.

Embora  alguma  discussão  sobre  a  competência  cultural  enfatize  esta  díade  de  consciência  e  sensibilidade,
outros incluem uma terceira dimensão: a habilidade (Wells & Black, 2000). A inclusão da dimensão habilidade
nos lembra que a competência multicultural é mais que um conjunto de atitudes ou uma compreensão geral: em
vez  disso,  ela  engloba  um  conjunto  de  ações  aprendidas  que  podem  ser  praticadas  e  refinadas.  Bonder  e
colaboradores (2004) recomendaram três ações gerais que os terapeutas podem praticar de modo a aumentar a
competência multicultural: (1) atentar cuidadosamente para o “momento de interação”, levando em consideração
o  maior  número  possível  de  aspectos  verbais  e  não  verbais  da  comunicação;  (2)  ser  curioso  a  respeito  do
significado de tudo aquilo que é percebido ao fazer isso; e (3) engajar­se na avaliação reflexiva de sua própria
comunicação  nas  interações.  Embora  o  contato  face  a  face  e  a  imersão  em  ambientes  culturalmente  distintos
sejam  extremamente  úteis,  muito  também  pode  ser  aprendido  a  partir  da  leitura  de  autobiografias  e  romances
escritos por pessoas diferentes.

CONCLUSÃO
Desenvolver a competência multicultural é um desafio, porém o aprendizado que acontece ao longo do trajeto
pode ser uma alegria. Nada é mais interessante que as variedades de modos que os seres humanos utilizam para
solucionar  os  problemas  da  vida  diária  e  da  variedade  de  ocupações  que  eles  escolhem.  Uma  apreciação  da
cultura  permite  que  o  profissional  habilidoso  tenha  um  insight  sobre  como  alguma  coisa  tão  comum  como
produzir conservas em casa pode assumir grande importância para os indivíduos quando eles escrevem, através
da ocupação, as histórias de suas vidas.
Conhecer  a  cultura  por  meio  de  cuidadosa  observação  e  interação  com  os  outros,  juntamente  com  a
introspecção  de  si  próprio,  capacita  o  estabelecimento  da  empatia  adequada  entre  o  profissional  e  o  cliente.
Então, a diferença cultural torna­se uma base para compreender e trabalhar em conjunto, não uma barreira para
os ganhos terapêuticos. Um dos encorajamentos ao desenvolvimento em nossa profissão foi o uso consciente da
compreensão cultural para o desenvolvimento de programas de promoção de saúde para populações saudáveis e
em risco. Por exemplo, veja a descrição de DeMars (1992) sobre a comunidade, levando em conta uma vila de
indígenas canadenses; a descrição de Frank e colaboradores (2001) de um programa multidisciplinar baseado na
ocupação  e  voltado  a  ajudar  adolescentes  negros  e  latinos  a  se  transformarem  em  produtores  de  cultura,  não
apenas  em  consumidores  passivos  de  produtos  culturais  de  massa;  e  a  descrição  de  Barnard  e  colaboradores
(2004) de um projeto voltado para aumentar o bem­estar em uma comunidade rural predominantemente negra na
Carolina do Norte.
Existem inúmeros recursos excelentes que o ajudarão em sua jornada pessoal para a aquisição da competência
multicultural.  Há  uma  variedade  de  endereços  eletrônicos.  Os  trabalhos  extensos  em  livros  sobre  cuidados  da
saúde e cultura produzidos por terapeutas ocupacionais incluem Cultural Competency for Health Professionals,
de Wells e Black (2000), e Culture in Clinical Care, de Bonder, Martin e Miracle (2001).

AGRADECIMENTOS
A autora deseja agradecer à sua própria família multirracial e multicultural por aumentar sua consciência sobre
os temas anteriormente debatidos. Agradece em particular à Sra. Mary Frances Evans e aos falecidos Rev. Banks
Evans (pai) e Banks Evans Jr., a cujas memórias dedica este capítulo.

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Fatores Socioeconômicos e Suas
Influências sobre o Desempenho
Ocupacional
CATHY LYSACK

Sumário
Introdução
Estudo de Caso: “Apenas Espero que Deus Me Ajude”
Definindo as Causas Sociais de Saúde e Doença
O Que Nós Entendemos por Posição Socioeconômica, Classe e Mobilidade Social?
O Que São Desigualdades Sociais, Gradiente Social e Disparidades de Saúde?
As Interseções de Gênero, Etnia, Idade e Incapacidade
A Política Econômica do Sistema de Cuidados de Saúde
Comparações Internacionais
O Papel do Seguro de Saúde
Mecanismos da Desvantagem durante a Trajetória de Vida
Questão do Dinheiro: Privação Econômica e Saúde
Privação ao Longo da Vida
Serviços de Terapia Ocupacional: Somos Equitativos? Somos Responsivos?
Conclusão

Objetivos de Aprendizagem
Após a leitura deste capítulo, você será capaz de:

1. Diferenciar entre condição socioeconômica, posição socioeconômica e classe.
2. Compreender que a saúde está relacionada com a posição da pessoa na hierarquia social.
3. Identificar os grupos de clientes que estão sob maior risco para as dificuldades de desempenho
ocupacional com relação à desvantagem socioeconômica.
4. Nomear o mecanismo pelo qual as desigualdades sociais afetam de maneira adversa à saúde.
5. Descrever  os  cinco  principais  determinantes  sociais  da  saúde  que  influenciam  o  desempenho
ocupacional dos clientes.
6. Descrever  três  ações  que  os  profissionais  de  terapia  ocupacional  podem  empreender  para
reduzir o impacto das desigualdades sociais e disparidades de saúde nas vidas dos clientes.

INTRODUÇÃO
O  foco  deste  capítulo  trata  das  causas  sociais  de  saúde  e  incapacidade  e  como  os  fatores  socioeconômicos
influenciam as pessoas que procuram e recebem serviços de terapia ocupacional. Como ilustrado pelo estudo de
caso, o ambiente em que Annie e Desmond viveram influenciou suas possibilidades de saúde. Desmond pode ter
contraído  sua  doença  em  um  local  de  trabalho  insalubre.  Como  Annie  e  Desmond,  seus  filhos  frequentaram
escolas públicas de cidades do interior que podem não ter fornecido uma ótima educação. Além disso, como os
benefícios médicos estão relacionados com o emprego, a família pode não ter tido a mesma chance de alcançar
boa saúde. Quão boa foi a saúde da família de Annie ao longo dos anos? Como isso se compara às famílias das
mulheres que Annie encontrou durante sua permanência no hospital? Também vale a pena perguntar o quão justo
é Annie não se qualificar para os serviços de suporte domiciliar e por que não existe nenhum transporte público
acessível ou programas do tipo entrega de refeições em casa em sua vizinhança.
Annie está se empenhando para recuperar a mobilidade e a independência depois de sua queda, mas não são
seus  comprometimentos  corporais  que  decidem,  atualmente,  seu  futuro.  Em  vez  disso,  são  os  seus  recursos
socioeconômicos,  determinados  por  diferentes  condições  físicas  e  sociais  ao  longo  da  vida  e  seu  lugar  na
hierarquia  social,  que  é  ditado  pelas  diferenças  e  desigualdades  entre  os  grupos  a  que  Annie  pertence.  Estas
diferenças  geram  sistematicamente  vantagens  para  alguns  e  ônus  para  outros.  Neste  capítulo,  nos
concentraremos  naquelas  pessoas  que  estão  sistematicamente  em  desvantagem  –  aquelas  tornadas  mais
vulneráveis  pelas  estruturas  sociais  e  instituições  políticas,  econômicas  e  legais  subjacentes.  Grupos  que  são
reconhecidos  por  sofrer  desvantagem  neste  sentido  incluem  as  mulheres,  porém,  mais  que  elas,  as  minorias
visíveis,  os  pobres  e  as  pessoas  com  incapacidades.  Conforme  outros  apontaram,  os  profissionais  de  terapia
ocupacional como um grupo são, em sua maioria esmagadora, pessoas da raça branca e da classe média (Wells &
Black,  2000).  Em  geral,  vivemos  vidas  mais  privilegiadas  que  quase  todos  os  nossos  clientes.  Uma  das
responsabilidades de um profissional competente e ético consiste em reconhecer que essas diferenças têm raízes
históricas  profundas  que  modelam  as  escolhas  e  os  comportamentos  de  saúde  dos  clientes,  bem  como  as
respostas dos profissionais da saúde. A realidade das influências sociais e econômicas sobre a saúde exige exame
e  discussão  vigorosos  do  conjunto  de  fatores  que  influenciam  a  saúde  e  a  incapacidade  na  sociedade  e  como
estes influenciam nossa prática.

ESTUDO DE CASO: “Apenas Espero que Deus Me Ajude”

Annie tem 72 anos de idade e passou 11 dias no hospital. Ela “parou para descansar” e sofreu uma queda
nos  degraus  do  porão,  fraturando  o  quadril  esquerdo  e  duas  costelas  do  lado  direito.  Ela  agora  está
utilizando  uma  cadeira  de  rodas,  mas  espera  que  seja  temporário.  Annie  está  preocupada  sobre  como  irá
atuar em casa. Para piorar as coisas, ela ainda está lidando com as consequências de um pequeno acidente
vascular  cerebral  ocorrido  dois  anos  atrás.  Annie  vive  no  centro  de  Detroit.  Sua  casa  tem  dois  pequenos
quartos de dormir e um banheiro no segundo andar, com a lavanderia no porão. Ela é viúva e seu único filho
vivo  mora  em  Chicago.  Durante  toda  a  vida,  Annie  ficou  em  casa  para  criar  os  três  filhos,  enquanto  seu
marido Desmond trabalhava em uma companhia de peças de automóveis. Infelizmente, depois de 31 anos
de trabalho, Desmond foi demitido aos 52 anos de idade. Logo depois, ele adoeceu com câncer de pulmão e
morreu. Desmond não fumava e os trabalhadores em sua fábrica imaginaram que suas tarefas no emprego
fizeram com que ele adoecesse. Isto nunca foi confirmado. Para piorar ainda mais as coisas, os problemas
financeiros da companhia geraram mudanças nos benefícios da pensão dada às esposas. Logo depois que
Des faleceu, Annie descobriu que ela teria que viver com o valor do cheque do seguro social e o Medicare.
Ela nada receberia da pensão de seu marido.
Pouco  antes  de  receber  alta  do  hospital,  Annie  foi  examinada  por  um  terapeuta  ocupacional  e  recebeu
recomendações sobre como tomar banho e se vestir, bem como sobre como cozinhar e fazer a limpeza de
maneira segura e independente quando retornasse para casa. Ela também recebeu informações sobre um
serviço de transporte para idosos e pessoas com incapacidades, além do nome de um centro para terceira
idade  onde  ela  poderia  frequentar  grupos  de  exercício  e  participar  de  atividades  sociais  sem  frequência
obrigatória. Annie ficou desapontada pelo fato de não receber uma avaliação domiciliar como as recebidas
por muitas mulheres que ela encontrou no hospital. De acordo com Annie, essas mulheres receberam “boas
e confortáveis cadeiras de banho e barras de segurança”. Também havia o boato de que algumas poderiam
“conseguir ajustes nos seus armários de cozinha” e, até mesmo, “uma boa rampa.” O seguro de Annie não
cobria nada disso, nem mesmo o assento sanitário elevado que sua terapeuta lhe havia dito que ajudaria a
evitar outra queda. Além disso, seu médico disse que seus problemas de mobilidade eram “muito discretos”
para qualificá­la para a reabilitação adicional.
Depois de três semanas em casa, Annie está mais preocupada que antes a respeito da lentidão de sua
recuperação e com suas crescentes despesas extras com medicamentos. Amigos da igreja de Annie estão
trazendo  refeições  e  ajudando  nas  compras  de  mercado,  mas  Annie  está  ansiosa  para  ser  mais
autossuficiente.  Além  disso,  ela  não  confia  que  suas  pernas  “não  irão  arquear  embaixo  dela.”  Em  uma
ligação telefônica para seu filho, ela chegou a expressar medo de sair pelas redondezas, dizendo sentir­se
como “um alvo fácil” para qualquer um que “não tivesse boa intenção”. Annie imagina se as mulheres que
ela  encontrou  no  hospital  semanas  atrás  estão  se  saindo  melhor  que  ela  e  quão  diferente  seria  se  ela
pudesse conseguir um pouco mais de ajuda. Ela está rezando para que Deus “a ajude”.

DEFININDO AS CAUSAS SOCIAIS DE SAÚDE E DOENÇA

O Que Nós Entendemos por Posição Socioeconômica, Classe e Mobilidade Social?
Diversos  termos  são  empregados  para  sinalizar  a  influência  dos  fatores  sociais  e  econômicos  sobre  a  saúde,  e
cada  um  deles  tem  um  significado  ligeiramente  diferente.  Um  dos  termos  mais  familiares  é  condição
socioeconômica  (CSE).  Este  termo  refere­se  a  realizações  ocupacionais,  educacionais  e  financeiras  dos
indivíduos  e  dos  grupos.  A  CSE  pode  enfatizar  excessivamente  o  prestígio  social  e  subenfatizar  o  papel  dos
recursos  materiais  na  modelagem  das  oportunidades  de  vida  de  alguém,  principalmente  com  relação  à  saúde.
Dessa  maneira,  como  Krieger  (2001)  sugere,  poderia  ser  o  momento  de  substituir  o  termo  CSE  pelo  termo
posição socioeconômica.
O  termo  classe  também  é  utilizado  para  indicar  diferenças  sociais,  como  em  classe  baixa,  classe
trabalhadora, classe média e classe alta. A classe não é facilmente definida. Para alguns, classe denota cultura e
gosto, atitudes e pretensões particulares, estilo de vida ou fonte de identidade. Para outros, significa apenas ter
dinheiro. As classes são grupos de pessoas com recursos econômicos semelhantes, principalmente aqueles com
níveis semelhantes de posse de propriedades e capital. Em graus variados, todas as sociedades são estratificadas
por  classe.  Como  os  Estados  Unidos  são  uma  economia  industrializada  de  livre  comércio,  o  grau  em  que  nos
movemos  para  cima  ou  para  baixo  na  escada  social,  algo  que  os  sociólogos  chamam  de  mobilidade  social,  é
ditado, em grande parte, por nossa classe, isto é, por nossos rendimentos e riquezas.

O Que São Desigualdades Sociais, Gradiente Social e Disparidades de Saúde?
Os termos desigualdades sociais, gradiente social e disparidades de saúde nos chegam por meio da literatura de
saúde  pública  e  estão  intimamente  relacionados  com  a  classe.  A  desigualdade  social  refere­se  ao  padrão  de
recompensas  e  oportunidades  desiguais  que  surgem  para  diferentes  indivíduos  e  grupos  na  sociedade,
principalmente aquelas recompensas e oportunidades consideradas injustas, desiguais, evitáveis e desnecessárias
(Krieger,  2001).  Embora  algumas  diferenças  entre  as  pessoas  na  sociedade  sejam  fixas  e  não  possam  ser
alteradas, outras são moralmente erradas e podem ser melhoradas. Por exemplo, a discriminação contra pessoas
com base no gênero ou na orientação sexual é moralmente errada. As desigualdades sociais são uma realidade
lamentável nos Estados Unidos, havendo a necessidade de que muito trabalho seja feito para a abordagem dos
fatores subjacentes que criam estas desigualdades.
Uma razão para que as desigualdades sociais sejam uma grande preocupação para os profissionais de saúde é
que  elas  colocam  as  pessoas  em  risco  de  uma  saúde  deficiente.  A  expectativa  de  vida  é  mais  curta,  e  muitas
doenças são mais comuns nos níveis mais baixos da escada social. A realidade de que a saúde diminui a cada
degrau mais baixo na hierarquia social tem sido chamada de gradiente social. Décadas de pesquisa mostraram
que isto é verdade nas sociedades ricas e pobres (Marmot & Wilkinson, 1999). Para piorar as coisas existe o fato
de que a “mobilidade para cima”, isto é, viver melhor e ter mais que os pais, acontece menos do que se pensava.
É  mais  provável  hoje  do  que  30  anos  atrás,  e  não  menos  provável,  que  os  norte­americanos  permaneçam  na
mesma  classe  em  que  nasceram  (Bradbury  &  Katz,  2002).  Embora  a  igualdade  e  a  recompensa  estejam
incorporadas ao ideal do sonho americano, o sonho é acessível somente para alguns.
As disparidades de saúde referem­se às diferenças de serviços de tratamento e de cuidados de saúde que são
desiguais  e  podem  ser  resultado  direto  das  desigualdades  sociais  subjacentes  ou  de  ações  inadequadas  de
profissionais  do  sistema  de  saúde.  O  relatório  Healthy  People  2010  (Pessoas  Saudáveis  em  2010)  (U.  S.
Department  of  Health  and  Human  Services,  2000a)  define  as  disparidades  como  diferenças  que  ocorrem  por
gênero, raça ou etnia,  educação ou rendimento,  incapacidade,  localização  geográfica  ou  orientação sexual. Os
fatores  que  contribuem  para  as  disparidades  de  saúde  são  uma  importante  preocupação  nos  Estados  Unidos
porque existe evidência crescente de que os membros das minorias recebem cuidados de saúde em níveis abaixo
do  padrão  e  apresentam  uma  saúde  muito  pior.  Estudos  mostraram  que  mesmo  depois  que  os  sintomas  e  a
cobertura do seguro estão controlados, é mais provável que os médicos ofereçam aos brancos tratamentos para
preservação  da  vida,  incluindo  angioplastia  e  cirurgia  de  revascularização,  e  é  mais  provável  que  ofereçam  às
minorias  diferentes  procedimentos  menos  desejáveis,  como  amputações  por  causa  do  diabetes  (Institute  of
Medicine, 2002). Esta pesquisa indica que os encontros clínicos entre os membros de minorias e os profissionais
da saúde podem ser a fonte do tratamento deficiente adicional. A estereotipagem e o racismo institucional são
amplamente reconhecidos como forças injustas no ambiente de cuidados de saúde que devem ser modificadas.
As consequências de longo prazo de uma vida de racismo percebido também devem ser compreendidas como
influência adversa para a saúde (Clark, 2004). As diferenças na idade, no gênero e na etnia sempre existirão; no
entanto, é errado quando estas diferenças levam ao cuidado desigual. Até que ponto os profissionais de terapia
ocupacional discriminam as minorias, os pobres e os idosos? Suas atitudes restringem o acesso aos serviços de
terapia ocupacional de boa qualidade para esses indivíduos?

As Interseções de Gênero, Etnia, Idade e Incapacidade
O  reconhecimento  das  diferenças  de  classe  e  das  desigualdades  sociais  não  é  atraente.  Tipicamente,  os  norte­
americanos evitam falar sobre este problema (Fussell, 1983; hooks, 2000). A consciência de que todos nós temos
chances e oportunidades iguais é uma ideia que queremos acreditar que seja verdadeira. Por exemplo, queremos
acreditar  que  todos  nós  podemos  frequentar  as  escolas  de  nossa  escolha,  participar  de  qualquer  ocupação  que
desejemos e ser livres para participar em qualquer atividade de lazer que nos interesse. Por outro lado, sabemos a
partir da experiência que, com frequência, precisamos mudar nossos planos ou reconsiderar nossas metas porque
não  dispomos  dos  meios  necessários  para  alcançá­las.  A  capacidade  de  obter  o  que  queremos  em  nossa  vida
depende de nossos recursos – com bastante frequência, recursos financeiros, mas não somente. Uma perspectiva
positiva  de  vida  ou  um  forte  sistema  de  suporte  familiar,  por  exemplo,  pode  fazer  com  que  nós  atravessemos
com  mais  sucesso  um  período  difícil  do  que  o  fato  de  possuir  uma  grande  quantidade  de  dinheiro.  Os  outros
fatores  que  influenciam  os  resultados  de  saúde  estão  fortemente  intrincados  às  categorias  sociais  a  que
pertencemos,  incluindo  se  somos  do  sexo  masculino  ou  feminino;  quais  as  nossas  idade,  etnia  e  orientação
sexual; e se estamos incapacitados ou não. Estes fatores também ditam nosso futuro e não são modificados com
tanta facilidade.

Desigualdades Sexuais
Para muitas mulheres, a experiência sexual de ser uma mulher continua a ser a de desigualdade. Por exemplo, as
mulheres  descobriram  que  é  difícil  entrar  em  algumas  profissões  por  causa  de  questões  sexuais.  Outras  se
sentiram aprisionadas nos pa péis que são percebidos como “trabalho de mulheres” (Apter, 1993; Hesse­Biber &
Carter, 2000). A publicação americana The Economist (2005) relata que as mulheres contribuem com menos de
8%  do  PIB  nos  Estados  Unidos,  ainda  que  constituam  46%  da  força  de  trabalho  nacional.  Isto  é  apenas  um
pouco melhor que a situação de uma década atrás. A pesquisa também confirma a defasagem de salários entre
homens e mulheres. A análise dos dados do censo norte­americano mostra que, em média, o salário das mulheres
ainda é de apenas 77 centavos para cada dólar ganho por um homem (Economic Policy Institute, 2005). Embora
isto possa ser parcialmente explicado pelos tipos de trabalho executados pelas mulheres e pelos baixos salários
associados a estes empregos, não explica toda a diferença.
O gênero também exerce forte influência sobre a saúde. Atualmente, as mulheres têm uma expectativa de vida
média maior que a dos homens. No entanto, quando os padrões de doença e incapacidade são examinados por
gênero,  o  quadro  é  mais  ambíguo.  Embora,  em  geral,  os  homens  morram  mais  cedo  que  as  mulheres,  as
mulheres  experimentam  taxas  mais  elevadas  de  doença  crônica  em  cada  faixa  de  idade.  Por  exemplo,  as
mulheres  com  15  anos  de  idade  ou  mais  contribuem  com  60%  de  todas  as  pessoas  diagnosticadas  com  artrite
(National  Center  for  Health  Statistics,  2004).  De  maneira  semelhante,  a  depressão  é  quase  duas  vezes  mais
comum  nas  mulheres  que  nos  homens.  Algumas  dessas  diferenças  sexuais  são  por  conta  das  diferenças
biológicas  entre  os  sexos;  outras  se  relacionam  com  as  diferenças  nos  pa  péis  sexuais.  Por  exemplo,  como  as
mulheres vivem mais tempo que os homens e têm menos recursos financeiros na aposentadoria (devido a uma
vida de menores salários e menos tempo na força laborativa remunerada em consequência da criação dos filhos),
elas têm menos dinheiro para cuidar de sua saúde (Collins, Estes & Bradsher, 2001).
Desigualdades Étnicas
A etnia afeta significativamente as possibilidades de vida dos indivíduos. Usamos aqui o termo etnia, em lugar
de  raça,  para  assinalar  as  explicações  culturais  em  lugar  de  biológicas  para  as  diferenças  nas  oportunidades
sociais e econômicas. Em primeiro lugar, e da forma mais básica, a etnia afeta as oportunidades educacionais. A
extensão  e  a  qualidade  da  educação  são  fatores  críticos  na  vida  porque  as  oportunidades  de  emprego,  assim
como  de  renda,  estão  atreladas  à  aquisição  educacional  precoce  (Miringoff  &  Miringoff,  1999;  Shonkoff  &
Phillips,  2000).  Mas  nem  as  oportunidades  educacionais  nem  a  qualidade  das  experiências  educacionais  são
distribuídas  de  maneira  equitativa.  O  governo  norte­americano  reconheceu  este  fato  nos  anos  1950,  quando
estabeleceu o programa Head Start, uma rede nacional abrangente de programas de desenvolvimento infantil que
se destinava a famílias de baixa renda e suas comunidades. Não deve ser difícil compreender que as crianças das
classes  minoritárias  e  pobres  estão  em  desvantagem  educacional  em  comparação  aos  filhos  de  pais  saudáveis
vindos  de  famílias  predominantemente  brancas  (Young,  1997).  As  crianças  pobres  crescem  em  vizinhanças
pobres  que  possuem  escolas  de  pior  qualidade  e  que  são  dotadas  de  professores  com  menos  recursos  para
enriquecer  o  ambiente  do  aprendizado.  Os  indivíduos  com  poucas  oportunidades  nos  primeiros  anos  de  vida
raramente  se  recuperam.  Isto  tem  um  impacto  particularmente  dramático  sobre  as  minorias  visíveis,  que  são
provavelmente mais pobres.
A pobreza afeta ainda mais a saúde que a etnia, embora os dois fatores estejam frequentemente associados.
Em  nenhum  lugar  as  desigualdades  são  mais  claras  que  nos  estudos  de  mortalidade  infantil.  A  organização
internacional  Population  Reference  Bureau  (2005)  publica  dados  sobre  as  taxas  de  mortalidade  infantil  em
muitos  países.  Estes  dados  mostram  que  a  taxa  de  mortalidade  infantil  da  Suécia  é  de  3,1  por  1.000  nascidos
vivos,  enquanto  a  média  norte­americana  é  de  6,6.  No  entanto,  para  os  negros  norte­americanos  nos  Estados
Unidos,  o  dado  alarmante  é  de  14,4  mortes  por  1.000  nascidos  vivos  (National  Center  for  Health  Statistics,
2004). Existem disparidades também nas taxas de mortalidade e nos riscos específicos de doença. Os dados do
censo  mostram,  por  exemplo,  que  a  prevalência  da  hipertensão  é  aproximadamente  40%  mais  elevada  entre
negros  norte­americanos  do  que  entre  brancos  norte­americanos,  enquanto  a  prevalência  do  diabetes  é  quase
60% maior nos negros (National Center for Health Statistics, 2004).

Desigualdades Etárias
A idade é outro fator que modela a oportunidade social e, por sua vez, a saúde individual. Todas as sociedades
compartilham algum tipo de expectativa cultural de seus membros com base na idade. Por exemplo, comumente
se aceita que os japoneses tratam seus idosos com mais respeito e honra do que nos Estados Unidos. Ageísmo é
o  termo  utilizado  para  descrever  a  discriminação  com  base  na  idade  (Estes,  2001).  O  envelhecimento  não  é
percebido de maneira positiva nos Estados Unidos. Apesar da pesquisa substancial em contrário, as pessoas na
faixa  etária  que  poderíamos  chamar  de  “idoso  jovem”  são  frequentemente  vistas  como  “velhas”.  Embora  seja
contra  a  lei  discriminar  pessoas  na  contratação  para  empregos,  as  pessoas  com  60  anos  de  idade  ou  mais  que
querem  ou  precisam  encontrar  um  novo  emprego  não  encontram  muitas  portas  abertas,  independente  de  sua
experiência. Diante disso, poderíamos observar uma diminuição no ageísmo à medida que se observa o impacto
total  do  envelhecimento  da  geração  do  pós­guerra.  Os  filhos  do  pós­guerra  são  mais  saudáveis,  mais  ricos,
estudaram  mais  e  são  politicamente  mais  progressistas  do  que  as  gerações  anteriores  (Soto,  2005).  Eles
provavelmente  exercerão  uma  considerável  influência  sobre  os  pa  péis  sociais  apropriados  para  a  idade,
incluindo o que significa ser “velho”.
A  saúde  e  o  envelhecimento  estão  intimamente  entrelaçados.  Não  é  surpresa  que  “a  idade  seja  o  preditor
isolado  mais  importante  para  mortalidade  e  morbidade”  (Weitz,  2004,  p.  52).  As  taxas  de  mortalidade  caem
dramaticamente após o nascimento e se elevam novamente apenas em torno dos 40 anos de idade. Somente após
os 65 anos de idade é que as doenças crônicas superam as doenças agudas como a principal causa de morte. No
entanto, como a idade e a doença estão tão intimamente atreladas, quando a idade média da população aumenta,
o mesmo acontece com a prevalência dos problemas de saúde. Projeta­se que a proporção de norte­americanos
com  65  anos  de  idade  ou  mais  alcance  18%  em  torno  de  2020  (U.  S.  Administration  on  Aging,  2005).  Os
problemas  de  saúde  associados  às  populações  idosas  e  os  recursos  financeiros  para  abordá­los  são  previstos
como um dos maiores desafios de saúde que muitas nações já enfrentaram.

Desigualdades Decorrentes da Incapacidade
A  incapacidade  está  associada  à  desvantagem,  independente  das  habilidades  individuais  ou  dos  recursos
financeiros. No censo de 2000, a incapacidade foi definida como uma condição de saúde crônica que dificulta
realizar  uma  ou  mais  atividades  geralmente  consideradas  apropriadas  para  os  indivíduos  de  uma  determinada
idade:  brincadeiras  ou  escola  para  crianças,  trabalho  para  adultos  e  atividades  básicas  da  vida  diária  para  os
idosos.  Em  2003,  o  censo  contou  49,7  milhões  de  pessoas  com  incapacidade.  Isto  representa  19,3%  da
população, ou 257,2 milhões de pessoas com 5 anos de idade ou mais que vivem na comunidade (U. S. Census,
2003). O mesmo censo revelou desigualdades empregatícias para pessoas com incapacidade: 79% dos homens
em  idade  produtiva  sem  uma  incapacidade  estavam  empregados  em  2000,  mas  apenas  60%  daqueles  com
alguma incapacidade estavam empregados. O percentual cai acentuadamente para as pessoas com incapacidades
mais  graves.  Daqueles  com  patologias  mentais,  41%  estão  empregados.  Para  usuários  de  cadeiras  de  rodas,  o
número chega a 22% (Stoddard, Jans, Ripple & Kraus, 1998). Os avanços médicos e tecnológicos possibilitaram
que as pessoas vivam por mais tempo e sejam mais independentes, mas a integração e a inclusão social plenas
não  podem  ser  atingidas  sem  o  acesso  à  escola,  ao  emprego  e  ao  lazer.  As  ações  com  base  na  legislação
específica para os portadores de incapacidades e na legislação anterior refletem os esforços de longo prazo do
movimento  pelos  direitos  dos  incapacitados  e  seus  aliados  (inclusive  os  profissionais  da  terapia  ocupacional)
para  melhorar  as  condições  de  vida  das  pessoas  com  incapacidades.  Algumas  das  principais  metas  do
movimento pelos direitos dos portadores de incapacidades são modificação de atitudes, políticas públicas e a lei
(Colker, 2005; Trattner, 1994).
Por fim, as pessoas com incapacidades têm uma saúde pior que aquelas sem déficits. Foram relatadas taxas
mais  elevadas  de  diabetes,  depressão,  colesterol  e  hipertensão,  obesidade  e  comprometimentos  da  visão  e
audição (U. S. Department of Health and Human Services, 2000b). Taxas menores de comportamentos de saúde
recomendados,  como  o  condicionamento  cardiovascular,  também  foram  demonstradas,  assim  como  pouca
orientação ao paciente e tratamento para a doença mental.
Por causa das interseções entre idade, etnia e pobreza, é possível identificar subgrupos específicos de pessoas
incapacitadas  que  se  encontram  sob  risco  particular.  Um  destes  grupos  é  o  de  mulheres  idosas  que  vivem  nas
zonas centrais das cidades, muitas das quais pertencentes a minorias. Lembra de Annie, que vive sozinha em sua
casa  no  centro  depois  de  sua  queda?  Lysack  e  colaboradores  (2003)  demonstraram  que  as  mulheres  afro­
americanas idosas residentes em zonas urbanas que vivem sozinhas estão sob maior risco para problemas físicos,
inclusive quedas, e declínio cognitivo, ambos os quais podem preceder a perda completa da independência e a
internação  em  instituições.  Também  foi  demonstrado  que  os  adultos  idosos  têm  menos  acesso  aos  serviços
especializados  de  reabilitação  do  que  os  adultos  trabalhadores  mais  jovens  com  necessidades  de  reabilitação
similares (Neufeld & Lysack, 2006). Os profissionais da terapia ocupacional estão cientes e são suficientemente
responsivos a esses grupos em desvantagens específicas?
Em  resumo,  independente  de  nossa  crença  professada  em  oportunidades  iguais,  e  apesar  da  legislação
destinada a evitar a discriminação, as escolhas de vida e as chances não são iguais; elas são mediadas por um
conjunto  de  poderosas  variáveis  sociais  e  econômicas  que  podem  dramaticamente  determinar  o  destino  das
pessoas e sua saúde. A discussão a seguir nos lembra que estas variáveis não são modificadas ou superadas com
facilidade  pelo  esforço  e  pelo  desejo  individual.  Forças  muito  maiores  na  sociedade,  incluindo  o  sistema  de
saúde, desempenham um papel decisivo.

A POLÍTICA ECONÔMICA DO SISTEMA DE CUIDADOS DE SAÚDE
Para avaliar plenamente a influência dos fatores socioeconômicos nas vidas das pessoas, estes fatores precisam
ser  colocados  contra  o  pano  de  fundo  do  sistema  de  cuidados  de  saúde  que  foi  descrito  como  um  sistema
altamente  dinâmico  e  fragmentado  de  competição,  regulação  e  reembolso  (Shi  &  Singh,  1998).  Também  é  o
sistema de saúde mais caro no mundo. Os gastos com saúde nos Estados Unidos em 2004 totalizaram 1,7 trilhão
de  dólares  ou  14,6%  do  produto  interno  bruto,  e  uma  média  de  5.274  dólares  por  pessoa  por  ano  (Anderson,
Hussey, Frogner & Waters, 2005).

Comparações Internacionais
Apesar da enorme quantia gasta com o cuidado médico, os Estados Unidos apresentam níveis baixos em muitos
indicadores de saúde (Organização Mundial de Saúde, 2005) e há crescente evidência de que o sistema é afetado
por graves problemas em todos os níveis (Moss, 2000; Rylko­Bauer & Farmer, 2002). A expectativa de vida nos
Estados Unidos é de 77,2 anos, abaixo da média de 77,8 anos para os 30 países desenvolvidos que pertencem à
Organização  para  Cooperação  e  Desenvolvimento  Econômico  (OECD,  2005).  Isto  coloca  os  Estados  Unidos
atrás  de  países  como  Polônia,  Coreia  e  México.  Da  mesma  maneira,  embora  as  taxas  de  mortalidade  infantil
tenham  caído  muito  durante  as  últimas  décadas,  não  caíram  tanto  quanto  as  taxas  em  muitos  outros  países  da
OECD.  A  mortalidade  infantil  ainda  se  mantinha  em  7  mortes  por  1.000  nascidos  vivos  em  2002,  acima  da
média da OECD de 6,1 e bem atrás de países como Japão, Islândia, Finlândia e Suécia. Como cidadãos de um
dos  países  mais  ricos  do  mundo,  os  norte­americanos  têm  o  direito  de  esperar  uma  saúde  melhor  (Whiteis,
2000).

O Papel do Seguro de Saúde
O seguro de saúde (ou, com mais exatidão, seguro médico) é importante porque o acesso aos cuidados de saúde
no sistema norte­americano, em sua maior parte privado, depende de um emprego com benefícios de saúde ou de
recursos financeiros para pagar por ele. Um número substancial de norte­americanos carece de ambos. Estima­se
que quase 45 milhões de norte­americanos não possuam seguro de saúde, e acredita­se que outros 52 milhões
possuam  coberturas  insuficientes  (Brouwer,  1998;  Cutler,  2004).  As  minorias  constituem  uma  parte
desproporcional daqueles sem seguro: os negros são duas vezes mais prováveis e os hispânicos três vezes mais
do  que  os  brancos  de  não  possuir  seguro  por  causa  do  tipo  de  emprego  e  do  rendimento  menor  (Centers  for
Disease  Control  and  Prevention,  2003).  O  seguro  é  importante  porque  aqueles  sem  seguro  e  com  seguro
insuficiente  têm  acesso  reduzido  e  cuidado  menos  apropriado,  são  mais  pobres  e  mais  prováveis  de  morrer
prematuramente (DeNavas­Walt, Proctor & Lee, 2005; Institute of Medicine, 2002; Krieger, 1999).
A desvantagem de saúde associada à falta do seguro de saúde não é apenas um problema das pessoas pobres.
A  Fundação  Kaiser  Family  (2003)  mostrou  que  mais  da  metade  dos  trabalhadores  sem  seguro  nos  Estados
Unidos,  em  2002,  trabalhou  em  horário  integral  naquele  ano.  O  problema  está  aumentando  porque  menos
empregos de classe média estão atrelados a benefícios de saúde custeados pelo empregador (Lee, Soffel & Luft,
1994; Shi & Singh, 1998). Uma série recente de reportagens do jornal New York Times mostrou exatamente quão
intensamente a classe média está sendo esmagada pelo fechamento de fábricas, pela demissão de trabalhadores e
pela  queda  das  atividades  econômicas  em  grande  escala  (Scott,  2005).  Isto  se  relaciona  com  a  saúde.  Por
exemplo, em 2003, mais de 27 milhões de trabalhadores adultos tinham dívidas médicas, embora apenas 62%
deles tivessem seguro de saúde (Doty, Edwards & Holmgren, 2005).
Nos programas em que as pessoas têm o seguro de saúde pago pelo governo, como o Medicare e o Medicaid,
o  impacto  dos  gastos  pagos  “do  próprio  bolso”  ainda  pode  ser  significativo.  Pesquisadores  da  Fundação
Americana de Aposentados (Caplan & Brangan, 2004) mostraram que os beneficiários do Medicare (com mais
de  65  anos  de  idade)  gastaram,  em  média,  3.455  dólares  ou  22%  de  suas  rendas  em  serviços  de  saúde  não
reembolsados.  O  custo  maior  foi  com  a  prescrição  de  medicamentos.  A  situação  é  ainda  pior  para  os
trabalhadores sem seguro com doenças crônicas. Quase metade do total de 6,6 milhões de norte­americanos sem
seguro e com doenças crônicas relatam problemas com despesas médicas, tornando­os muito mais prováveis de
abrir mão ou retardar os cuidados médicos necessários (Ha, 2004). Isto está levando muitos a grande privação.
Um estudo demonstrou que 28,3% de todas as falências pessoais nos Estados Unidos, atualmente, são causadas
principalmente por doença ou lesão; a mesma taxa no Canadá é inferior a 7% (Himmelstein, Warren, Thorne &
Woolhandler, 2005).
Não há dúvida de que os norte­americanos precisam se preocupar com os custos crescentes e não segurados
dos  cuidados  de  saúde,  seja  com  base  na  justiça  social,  seja  apenas  por  uma  questão  de  dólares  e  centavos.
Kawachi e Berkman (2003) advertiram que os menos afortunados na sociedade devem ser cuidados ou os efeitos
disto irão afetar a todos de maneira adversa. As grandes disparidades de renda levam a estresse, ruptura familiar
e à frustração em massa, o que, por sua vez, leva à violência e ao crime. De acordo com Lynch e colaboradores
(1998),  se  essa  tendência  não  for  alvo  de  preocupação,  a  prosperidade  econômica  da  nação  poderá  ser
comprometida de modo permanente.

MECANISMOS DA DESVANTAGEM DURANTE A TRAJETÓRIA DE VIDA
Existe uma suposição não testada de que as disparidades na saúde se originam de disparidades no cuidado de
saúde.  Certamente,  existe  um  hiato  nesta  lógica:  o  fato  de  que  existem  defeitos  em  um  sistema  médico  não
significa que o sistema tenha provocado os problemas. Então, por que existem diferenças na condição de saúde
em diferentes grupos na sociedade? Parte do problema são a pobreza e a desigualdade de renda.
Questão do Dinheiro: Privação Econômica e Saúde
A pobreza é ruim para a saúde. O termo pobreza refere­se à falta de recursos materiais que são necessários para
a subsistência. A pobreza aumenta a exposição aos fatores que fazem as pessoas adoecer e diminui as chances de
se  ter  um  seguro  médico  de  alta  qualidade  (e,  por  consequência,  o  cuidado)  quando  a  pessoa  necessitar  dele.
Crianças,  idosos,  imigrantes  recém­chegados,  pessoas  incapacitadas  e  membros  de  minorias  étnicas  estão  em
risco  máximo  de  pobreza  (U.  S.  Census,  2003).  Talvez  mais  alarmante  seja  o  fato  de  que  a  taxa  de  pobreza
oficial em 26 anos nos Estados Unidos aumentou em cada um dos quatro últimos anos consecutivos em que foi
mensurada, de 11,3% em 2000 para 12,7% em 2004. Desde 2004, 37 milhões de norte­americanos vivem abaixo
da linha de pobreza oficial (U. S. Census, 2005).
Especialistas em economia e em políticas de saúde questionam se os níveis pronunciados de desigualdade de
renda  representam  um  imposto  permanente  sobre  outros  aspectos  das  vidas  das  pessoas,  não  somente  sobre  a
saúde. Uma reportagem publicada no jornal New York Times, em 2003 (Browening, 2003), apontou que 1% dos
norte­americanos mais ricos, em 2000, tinham mais dinheiro para gastar após o pagamento dos impostos do que
os  40%  mais  pobres  em  conjunto.  Isto  representa  três  milhões  de  pessoas  ganhando  mais  de  110  milhões  de
dólares  –  um  dado  bastante  assombroso.  Talvez  isto  tenha  acelerado  o  uso  de  dois  novos  termos  no  linguajar
popular: o trabalhador pobre e o novo pobre. Trabalhador pobre caracteriza­se como as pessoas que trabalham
em horário integral, mas cujos salários não as elevam acima da linha de pobreza. Quase 6% dos trabalhadores
norte­americanos ganham atualmente o salário mínimo federal de US$5,15 por hora (U. S. Department of Labor,
2005). Com base em uma semana de 40 horas, isto perfaz um rendimento anual de US$10.700. Muitos críticos
perguntam  como  um  trabalhador  pobre  sobrevive  (Ehrenreich,  2001;  Shipler,  2005;  Wilson,  1997).  Os  novos
pobres  são  aquelas  pessoas  que  entraram  na  pobreza  por  causa  de  circunstâncias  súbitas  e  inesperadas,  como
doença  grave,  divórcio  ou  demissão  inesperada  do  emprego.  Sidel  (1996)  descreve  a  situação  de  uma  mulher
que, depois de 23 anos de casamento, divorciou­se do marido. Quando ele saiu do estado e se recusou a pagar a
pensão do filho, a renda anual da família caiu de US$70.000 para US$7.000. Seu emprego em horário parcial
não era suficiente para tirá­la da pobreza.
O trabalhador pobre e os novos pobres fazem intenso contraste com as pessoas mais abastadas nos Estados
Unidos.  Você  sabia  que  o  ganho  médio  de  um  vice­presidente  de  empresa  nos  Estados  Unidos  é  de  US$11,8
milhões?  Como  o  trabalhador  norte­americano  médio  ganha  apenas  US$27.460  por  ano,  esta  é  uma
impressionante  proporção  de  431  para  1  (Institute  for  Policy  Studies  and  United  for  a  Fair  Economy,  2005).
Lembre­se do empenho de Annie para recuperar sua mobilidade após uma fratura de quadril e como ela depende
de recursos médicos e financeiros limitados (veja a Figura 7.1). Annie atingirá a classificação dos novos pobres?
Quais sugestões viáveis você daria a Annie se você fosse seu terapeuta ocupacional? Que tipo de barreiras você
deve prever à medida que Annie tenta implementar suas recomendações?
O  estudo  de  caso  sobre  Annie  que  abriu  este  capítulo  nos  lembra  que  o  dinheiro  importa  nos  esforços  para
atingir a boa saúde. Entretanto, o dinheiro não é a única coisa. Vários outros fatores também importam. A partir
de um conjunto de estudos famosos, comumente referidos como os estudos Whitehall, Marmot, Shipley e Rose
(1984)  estudaram  funcionários  civis  ingleses  durante  três  décadas  para  determinar  mais  precisamente  como  o
lugar  de  uma  pessoa  na  hierarquia  ocupacional  influencia  a  saúde.  Como  a  ocupação  é  modelada  tanto  por
circunstâncias  econômicas  como  por  outros  fatores  no  ambiente  social,  isto  tornou  a  pesquisa  bastante
importante.  Os  resultados  dos  estudos  Whitehall  mostraram  que  os  homens  nos  níveis  mais  baixos  do
funcionalismo civil, os auxiliares de serviços gerais em escritórios, tinham uma taxa de mortalidade quatro vezes
maior  que  a  dos  homens  em  cargos  administrativos  mais  altos.  Os  achados  eram  consistentes  em  todas  as
categorias de emprego. Estar no topo era logicamente melhor para sua saúde, mas cada degrau mais próximo do
topo  também  importava  (ou  seja,  o  gradiente  social).  Esse  trabalho  e  os  estudos  que  se  seguiram  lançaram  as
bases para um novo ramo da epidemiologia denominado determinantes sociais de saúde. Hoje, é amplamente
aceito que qualquer que seja a importância dos fatores biológicos e genéticos, e mesmo dos fatores de estilo de
vida pessoal e do acesso aos cuidados de saúde, o ambiente social e físico também tem um enorme significado.
Fig. 7.1 Muitas mulheres idosas que vivem nas regiões centrais das cidades carecem de recursos financeiros
para modificar suas casas de modo a melhorar a segurança e a independência. O que pode ser feito de maneira
viável a baixo custo para facilitar a mobilidade na comunidade e a participação neste grupo? (Fonte: Lee Ann
Johnson, fotógrafo, Wayne State University, Detroit, utilizada com permissão.)

Os proponentes da perspectiva dos determinantes sociais argumentam que o mecanismo pelo qual a saúde é
afetada de modo adverso consiste no estresse fisiológico. Quanto mais baixo na hierarquia social as pessoas se
situam,  mais  comuns  e  evidentes  são  seus  problemas  relacionados  com  o  estresse.  As  desvantagens  estão
concentradas entre as mesmas pessoas e os efeitos destas desvantagens sobre a saúde são cumulativos (Lynch et
al., 1998). Simplificando, quanto mais tempo a pessoa vive sob circunstâncias sociais e econômicas estressantes,
maior  será  seu  desgaste  fisiológico  e  menos  provável  será  que  ela  desfrute  de  uma  velhice  saudável.  As
implicações disso são enormes. Basicamente, isto significa que “consertar” o sistema de cuidados de saúde ao
abordar as disparidades no tratamento constitui apenas uma parte da solução. Se realmente quisermos melhorar a
saúde  daqueles  que  estão  em  maior  desvantagem  na  sociedade,  devemos  trabalhar  para  reduzir  as  diversas
formas de desigualdade social e de privação social existentes na sociedade. Isto exigiria começar no início da
infância e continuar durante toda a vida.

Privação ao Longo da Vida
Uma  grande  quantidade  de  pesquisa  observacional  e  de  estudos  sobre  tratamento  demonstra  que  as  bases  da
saúde  no  adulto  são  construídas  no  início  da  infância  ou  mesmo  antes  do  nascimento  (Brown  et  al.,  2004;
Young, 1997). A combinação de um mau começo e crescimento lento “afeta a biologia durante os processos de
desenvolvimento e forma a base da essência biológica e humana da pessoa, o que afeta a saúde ao longo da vida”
(Wilkinson & Marmot, 2003, p. 14). Estudos demonstraram que, à medida que estímulos cognitivos, emocionais
e sensoriais programam as respostas cerebrais, relação emocional insegura e estimulação deficiente podem levar
a  baixa  realização  educacional,  comportamento  problemático  e  risco  de  marginalização  social  na  vida  adulta
(Barker,  1998).  O  crescimento  físico  lento  na  infância  também  está  associado  à  redução  das  funções
cardiovascular, respiratória, pancreática e renal, o que aumenta o risco de doença grave na vida adulta (Shonkoff
& Phillips, 2000).
As crianças também aprendem e desenvolvem­se por meio das brincadeiras. As brincadeiras não somente as
ajudam  a  aprender  sobre  elas  mesmas  como  pessoas,  mas  também  a  adquirir  habilidades  fundamentais  de
socialização  e  muitas  habilidades  motoras  e  cognitivas.  Kozol  (1991,  1995)  descreve  vizinhanças
sobrecarregadas  por  pobreza,  crime  e  negligência  econômica.  Nestas  vizinhanças,  os  pais  temem  deixar  seus
filhos brincarem fora de casa por causa das altas taxas de violência e da maior exposição a toxinas ambientais,
lesões e doenças (Kozol, 1991, 1995). O dano cumulativo é tal que alguns argumentam que nenhuma quantidade
de terapia e tratamento pode desfazer as consequências (Brown et al., 2004).
As  desigualdades  sociais  ao  longo  da  vida  também  contribuem  para  a  privação  nos  adultos.  Isto  ocorre
principalmente no âmbito do trabalho. Embora o trabalho seja, de muitas maneiras, um marcador da boa saúde,
ele também pode ser a fonte da saúde deficiente. Ansiedade, uso abusivo de substâncias e as taxas de depressão
são,  sem  exceção,  mais  elevados  nas  populações  em  que  o  subemprego  é  alto  (Lawrence,  Chau  &  Lennon,
2004).  Para  aqueles  que  estão  empregados,  existem  outros  problemas  relacionados  com  o  estresse;  a  pesquisa
demonstrou  que  a  falta  de  autonomia  pessoal  e  de  controle  no  trabalho  de  uma  pessoa  está  fortemente
relacionada  com  a  doença  cardiovascular  (Bosma,  Peter,  Siegrist  &  Marmot,  1998).  Esse  mecanismo  parece
estar  relacionado  com  a  produção  excessiva  de  cortisol  ou  de  “hormônios  do  estresse”.  Além  do  local  de
trabalho, as notícias para os trabalhadores são ruins: o tempo de lazer está diminuindo. Um recente estudo sobre
viagens internacionais realizado por Expedia.com (2005) mostrou que os norte­americanos trabalham mais horas
que em qualquer país rico. Os norte­americanos ganham uma média de 12 dias de férias por ano, ficando atrás
do Canadá, com 21 dias, e da Alemanha e França, com 27 e 39 dias de férias, respectivamente. Ainda assim,
31%  dos  norte­americanos  não  utilizam  a  totalidade  de  seu  período  assegurado  de  férias  anuais,  com  10%
relatando estar “muito ocupados no trabalho” para sair de férias.

SERVIÇOS DE TERAPIA OCUPACIONAL: SOMOS EQUITATIVOS? SOMOS
RESPONSIVOS?
Townsend  e  Wilcock  (2003)  declararam  que  é  uma  injustiça  ocupacional  ignorar  os  determinantes  sociais  e
econômicos  da  saúde.  Outros  conclamaram  os  terapeutas  ocupacionais  a  abordar  a  segregação  de  grupos  de
pessoas  com  base  na  falta  de  participação  significativa  em  ocupações  da  vida  diária,  algo  que  Kronenberg  e
Pollard  (2005)  denominaram  de  maneira  provocativa  segregação  ocupacional.  Há  pouca  dúvida  de  que  os
fatores socioeconômicos sejam reais e exerçam uma poderosa influência sobre a saúde, mas o que o terapeuta
ocupacional  médio  deve  fazer  diante  do  que  parecem  ser  problemas  insolúveis  em  grande  escala?  Mesmo
quando desenvolvemos maior consciência da influência das desigualdades sociais sobre a saúde e a extensão das
disparidades de saúde entre os clientes a quem servimos, quais são as próximas etapas práticas?
Em primeiro lugar, podemos aplicar a pequena, porém crescente massa de evidências disponíveis a partir da
pesquisa  em  terapia  ocupacional  de  que  os  tratamentos  específicos  podem  gerar  benefícios  significativos.  Por
exemplo,  a  terapia  ocupacional  com  crianças  pode  abordar  efetivamente  déficits  de  desempenho  sensorimotor
(Case­Smith, 2002), relacionamento com colegas de brincadeiras (Tanta, Dietz, White & Billingsley, 2005) e as
interações familiares (Bedell, Cohn & Dumas, 2005) que, sem exceção, podem ser mais prevalentes nas famílias
em  desvantagem  socioeconômica.  Os  terapeutas  ocupacionais  também  podem  apoiar  os  pais  para  melhorar  a
compreensão das necessidades emocionais e cognitivas de seus filhos e na modificação dos ambientes escolar e
domiciliar  (Letts,  Rigby  &  Stewart,  2003).  Os  terapeutas  ocupacionais  que  trabalham  em  gerontologia  podem
ajudar a organizar ambientes de suporte para idosos que facilitem o envelhecimento no local.
Os terapeutas ocupacionais são especialistas na adaptação pessoa­ambiente e em reconhecer a importância das
ocupações significativas para facilitar a boa saúde. Ainda assim, existem graves falhas em nosso conhecimento.
Por exemplo, sabemos muito pouco sobre o engajamento ocupacional significativo para pessoas cronicamente
desempregadas e que tipos de tratamento poderiam ser efetivos para elas. Sabemos ainda menos sobre a privação
ocupacional em virtude da imigração, do isolamento geográfico e do encarceramento (Whiteford, 2000). Muito
mais pesquisa é necessária se nós esperamos estender os tratamentos terapêuticos benéficos para esses grupos de
pessoas, que poderiam ser aquelas em maior desvantagem ocupacional dentre todos.
Um  segundo  passo  concreto  e  imediato  que  podemos  dar  consiste  em  abandonar  “perigo  ocupacional”
pervasivo em terapia ocupacional, o que significa pensar em nossos clientes como categorias despersonalizadas e
em  nossa  atuação  como  politicamente  neutra.  Com  relação  à  primeira  questão,  tendemos  a  tratar  “uma  lesão
cerebral traumática realmente interessante” ou nos queixarmos de “um antigo acidente vascular cerebral que se
estabilizou”.  Estas  frases  são  abstrações  abreviadas  do  que  realmente  pretendemos  oferecer  no  processo  da
terapia  ocupacional.  Gostamos  de  dizer  que  uma  das  forças  ímpares  de  nossa  profissão  é  nossa  abordagem
holística. Esta frase não significa apenas que abordamos os domínios físico e psicossocial nas metas terapêuticas
para nossos clientes. Significa que precisamos aprender sobre nossos clientes da mesma forma que Annie, em
termos de seu mundo, suas percepções, suas experiências e suas realidades. É fácil dizer e é muito mais difícil
fazer. Purtillo e Haddad  (2002)  descrevem  muitas  dificuldades  que  surgem entre os profissionais e os clientes
por  causa  das  diferenças  socioeconômicas  e  culturais.  Estas  diferenças  influenciam  o  modo  pelo  qual  nos
sentimos a respeito de nossos clientes, incluindo até que ponto simpatizamos eles e, até mesmo, compreendemos
suas rotinas diárias.
A prática da terapia ocupacional não é neutra. As diferenças socioeconômicas e culturais afetam a prática de
maneira  muito  real  a  cada  dia.  Fitzgerald,  Williamson,  Russell  e  Manor  (2005)  descrevem  os  dilemas  com  os
quais os terapeutas se deparam quando tentam equilibrar sua preocupação profissional e a proteção dos clientes
com  os  desejos  que  estes  expressam.  Ao  rever  esses  dilemas,  os  pesquisadores  relataram  que,  embora  todo
terapeuta  ocupacional  “queira  vestir  o  manto  da  competência”  e  “queira  que  os  outros  vejam  isto  como
agradável e bom” (p. 344), não há como negar a força dos julgamentos morais em seu trabalho. Os terapeutas
não podem evitar, mas são modelados pelas atitudes culturais prevalentes de seu tempo e seriam negligentes em
não reconhecer como estas atitudes e valores, por vezes, atuam para gerar mais desvantagem para seus clientes.
No mínimo, essa pesquisa lembra aos terapeutas a importância fundamental da prática da reflexão crítica.
Em terceiro lugar, ser capaz de agir sobre aspectos da privação ocupacional e da injustiça ocupacional requer
que os terapeutas conheçam melhor as barreiras socioeconômicas ao tratamento e os resultados de saúde ótimos.
Mais de uma década atrás, Dunn, Brown e McGuigan (1994) referiram­se à necessidade de considerar o efeito
do contexto e questionaram se “as avaliações funcionais padronizadas são válidas para capturar o que realmente
se  sabe  a  respeito  do  desempenho  da  pessoa  no  contexto  natural”  (p.  605).  O  contexto  a  que  esses  autores  se
referiam  era  o  contexto  da  casa  e  da  comunidade.  Contudo,  o  contexto  pode  ser  ampliado  para  incluir  a
adequação da vizinhança e da comunidade para proporcionar um ambiente de vida seguro, acesso ao transporte e
à  moradia,  e  até  mesmo  a  disponibilidade  de  emprego  para  indivíduos  com  incapacidades.  Utilizamos
rotineiramente  ou  temos  avaliações  adequadas  sobre  a  segurança  nas  vizinhanças  e  a  mobilidade  na
comunidade? O que sabemos sobre as medidas de adequação do trânsito e dos prédios públicos para pacientes
que  recebem  alta?  Os  terapeutas  ocupacionais  estão  preparados  para  expandir  seu  campo  de  prática  para  o
ambiente social e econômico, mesmo quando as questões de reembolso podem ser superadas?
Outra questão é a capacidade financeira de nossos clientes de implementar as ações destinadas a aumentar sua
independência e participação na vida diária. Em um estudo dedicado às recomendações de modificação da casa,
Lysack  e  Neufeld  (2003)  demonstraram  que  os  pacientes  que  dependiam  apenas  do  Medicaid  e  do  Medicare
receberam menos recomendações de seus terapeutas ocupacionais do que aqueles com seguros privados, mesmo
quando  suas  condições  de  saúde  eram  semelhantes.  Mathieson,  Kronenfeld  e  Keith  (2002)  mostraram  que  ter
seguro  de  saúde  suplementar  serve  como  um  fator  habilitador  em  relação  ao  uso  de  equipamentos  e  à
implementação de recomendações de modificações da casa. Em conjunto, estudos como esses sugerem que os
clientes que carecem da capacidade de pagamento ou que são percebidos como carentes desta capacidade podem
fracassar.  Sua  independência  funcional  e  mesmo  sua  participação  na  sociedade  podem  ser  comprometidas  em
consequência disso. Mais pesquisas são necessárias para determinar quão prevalentes são essas práticas e quão
importantes realmente são os rendimentos como um fator na determinação dos resultados da reabilitação com o
passar  do  tempo.  Esse  trabalho  é  urgentemente  necessário,  caso  desejemos  compreender  a  desvantagem
socioeconômica  que  alguns  de  nossos  clientes  enfrentam  a  cada  dia  e  para  identificar  maneiras  efetivas  de
compensação.
Além de serem profissionais com prática baseada em evidência que identificam e utilizam novas avaliações
que mergulham nas realidades socioeconômicas dos clientes com mais profundidade, os terapeutas ocupacionais
podem  alavancar  sua  posição  dentro  do  sistema  de  saúde  para  ajudar  a  reduzir  o  impacto  da  desvantagem
socioeconômica.  Por  exemplo,  os  terapeutas  podem  esclarecer  as  fontes  pagadores  dos  seguros  quanto  às
necessidades  de  seus  clientes  de  baixa  renda  ao  listar  os  serviços  de  terapia  ocupacional  recomendados  como
ideais para esses clientes, além da documentação necessária para os serviços elegíveis para reembolso. Este tipo
de prática de documentação mantém os hiatos entre o ideal e o real vivos na mente dos tomadores de decisão que
têm o poder de produzir modificações mais amplas.
Lohman e Brown (1997) abordaram a questão das obrigações éticas e de equilíbrio moral dos terapeutas no
contexto do cuidado gerenciado e conclamaram os profissionais a representarem e defenderem vigorosamente os
pacientes  –  não  somente  nas  situações  de  atendimento  direto,  como  também  nos  níveis  políticos.  Muitos
terapeutas  ocupacionais  que  trabalham  em  ambientes  urbanos  já  buscam  modalidades  alternativas  de  custeio
para implementar as recomendações de segurança em casa (Pynoos, Tabarah, Angelelli & Demiere, 1998). Outra
estratégia consiste em aplicar regras e linguagem específicas das companhias de seguro de maneira estratégica,
de  modo  que  os  tratamentos  de  terapia  ocupacional  tenham  a  maior  chance  de  serem  aceitos  pelos  pagadores
(Uili & Wood, 1995). Esforços como este exigem compromisso e persistência, mas podem ser efetivos – e não
apenas  para  um  único  cliente  quanto  a  uma  única  questão.  Uma  modificação  bem­sucedida  na  política  pode
beneficiar milhares, senão dezenas de milhares de clientes, tornando mais valiosos esses esforços.

CONCLUSÃO
A maioria dos profissionais de saúde diria que eles aprenderam suas lições mais importantes com seus clientes.
Estas histórias geralmente são sobre como faltou ao profissional a compreensão quanto a uma situação e como o
cliente  esclareceu  o  profissional  sobre  como  as  coisas  realmente  eram.  Isto  significa  que  precisamos  ouvir  e
precisamos fazer as perguntas corretas, além de dar tempo e espaço para as respostas (Law, 1998; Lawlor, 2003;
Wood,  1996).  Porém,  ao  mesmo  tempo  que  ouvir  e  aprender  com  clientes  é  fundamental  para  um  tratamento
efetivo  de  terapia  ocupacional,  devemos  lembrar  que  esta  conduta  individualiza  os  problemas  subjacentes  às
disparidades  e  às  desigualdades  de  saúde  que  são  fundamentalmente  de  natureza  social.  Os  terapeutas
ocupacionais que trabalham com clientes em desvantagem socioeconômica estão bem familiarizados com esta
tensão. Embora alguns especialistas argumentem que o caminho a seguir está em associações profissionais em
larga  escala  voltadas  para  as  principais  transformações  do  sistema  de  cuidados  de  saúde  (Cutler,  2004),  isto
demora para ser alcançado, caso seja de todo alcançado. Neste meio tempo, os terapeutas ocupacionais precisam
atuar  em  um  sistema  que  é  imperfeito,  sabendo  que  ele  não  satisfaz  a  muitas  das  necessidades  prementes  de
nossos clientes.
Lembre­se  mais  uma  vez  do  empenho  de  Annie  para  se  recuperar  de  uma  vida  de  desvantagem  social  e
econômica. Existem muitas Annies na prática da terapia ocupacional e, muito provavelmente, você encontrará
mais  de  uma.  Alcançar  o  verdadeiro  compromisso  da  terapia  ocupacional  requer  indubitavelmente  maior
conhecimento  sobre  as  comunidades  de  onde  se  originam  nossos  clientes  e  das  forças  socioeconômicas,
históricas  e  políticas  que  modelaram  suas  vidas  e  sua  saúde.  O  nosso  ônus  é  identificar  as  desigualdades  e  as
disparidades  onde  elas  existam  e  trabalhar  para  melhorá­las.  Esta  é  a  única  maneira  de  melhorar  a  saúde  para
todos.

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O Significado do Lugar
GRAHAM D. ROWLES

Sumário
A Relação Pessoa­Ambiente na Terapia Ocupacional
O Lugar na Experiência Humana
Perspectiva Fenomenológica
Relevância para a Terapia Ocupacional
Dimensões do Estar no Lugar
Utilização do Espaço
Significado no Lugar
Significado do Lar
Transformando os Espaços em Lugares durante a Trajetória de Vida
Transições e Rupturas do Estar no Lugar
Criando e Recriando o Lugar
O Lugar do Lugar na Terapia Ocupacional
Conclusão

Objetivos de Aprendizagem
Após a leitura deste capítulo, você será capaz de:

1. Identificar,  definir  e  explicar  as  dimensões  da  relação  de  uma  pessoa  com  o  ambiente  e  o
fenômeno de estar no lugar.
2. Descrever e explicar as mudanças na maneira pela qual as pessoas experimentam seu ambiente
em relação ao curso da vida, à medida que elas progridem da infância para a velhice.
3. Explicar o papel do ambiente físico e dos objetos pessoais na definição e manutenção do “eu”.
4. Descrever  os  efeitos  primários  da  modificação  do  ambiente  e  relocação  e  explicar  os
mecanismos  que  os  indivíduos  utilizam  para  se  adaptar  à  modificação  do  ambiente  e  se
restabelecer em novos ambientes.
5. Compreender e explicar o significado fundamental da compreensão do ambiente e do lugar para
a prática efetiva da terapia ocupacional.

A RELAÇÃO PESSOA­AMBIENTE NA TERAPIA OCUPACIONAL

O Lugar na Experiência Humana
O  crescente  reconhecimento  do  papel  do  ambiente  no  condicionamento  da  experiência  humana  começou  a
permear a terapia ocupacional durante os anos 1980 (Barris, 1986; Barris, Kielhofner, Levine & Neville, 1985;
Kiernat, 1982, 1987). Atualmente, é amplamente reconhecido que a compreensão plena de uma pessoa não pode
ser alcançada sem uma apreciação do contexto ambiental – o lugar em que ela vive. Os terapeutas ocupacionais
propuseram diversas teorias sobre a relação pessoa­ambiente que enfatizam essa interdependência (Christiansen
&  Baum,  1997;  Dunn,  Brown  &  McGuigan,  1994;  Kielhofner,  1995;  Law  et  al.,  1996;  Schkade  &  Schultz,
1992).  Estas  teorias  transacionais,  bem  como  as  perspectivas  dominantes  mais  recentes  que  se  baseiam  na
fenomenologia do “estar no lugar” (Rowles, 1991, 2000), “mesclagens físicas” (Seamon, 2002) e as perspectivas
holísticas  de  Dewey  sobre  a  “integração  do  lugar”  (Cutchin,  2004;  Dickie,  Cutchin  &  Humphry,  2006),
representam  uma  mudança  das  simples  conceitualizações  sequenciais  de  estímulo­resposta  do  indivíduo  de
acordo  com  a  influência  do  ambiente  ou  do  ambiente  de  acordo  com  a  modificação  por  ação  humana.
Atualmente, tendemos a reconhecer diretamente até que ponto o relacionamento envolve a integração da pessoa
e do lugar na experiência humana. Na realidade, atualmente, aceita­se que o ser evolui por meio da atividade no
ambiente, em vez de estar isolado do ambiente, e que as vidas são definidas de maneira íntima e inseparável pelo
lugar e estão imersas nele.
Também  há  crescente  reconhecimento  de  que  a  relação  de  cada  pessoa  com  o  ambiente  não  pode  ser
considerada  independente  de  seu  contexto  histórico  e  do  acúmulo  de  experiências  sobre  o  lugar  ao  longo  do
tempo  (Settersten,  1999,  2003;  Wheeler,  1995).  Cada  pessoa  nasce  em  um  determinado  local,  em  uma
determinada  configuração  familiar,  em  uma  cultura  particular  e  em  uma  coorte  específica  de  nascimentos.
Durante a trajetória de vida, cada indivíduo é moldado pela experiência – uma mistura de capacidade fisiológica,
atividade individual e circunstância – de tal maneira que isso influencia profundamente a pessoa em que ela se
transforma (Jonsson, Josephson & Kielhofner, 2000).

Perspectiva Fenomenológica
A  prática  efetiva  da  terapia  ocupacional  requer  mais  que  a  inspeção  superficial  de  um  ambiente  físico  e  a
compilação resumida de uma história pessoal. Investigando de forma mais profunda, é importante compreender
cada pessoa a partir da perspectiva de um contexto experimentado – o mundo dentro do qual a pessoa se define,
realiza  as  atividades  diárias  e  recebe  o  tratamento  de  terapia  ocupacional.  A  partir  de  uma  perspectiva
fenomenológica,  como  a  pessoa  experimenta  seu  mundo?  Até  que  ponto  a  pessoa  criou  o  ambiente  físico  da
casa,  com  sua  mobília  familiar,  coisas  ou  fatos  memoráveis  e  fotografias,  como  uma  expressão  de  si  própria,
talvez durante o curso de décadas (Rowles & Chaudhury, 2005)? Até que ponto a pessoa continua a modificar o
ambiente  para  acomodar  as  necessidades  e  as  capacidades  dinâmicas,  de  modo  a  facilitar  a  manutenção  do
sentimento  da  identidade,  da  atividade  e  de  uma  vida  significativa?  De  maneira  alternativa,  de  que  maneira  a
pessoa é uma prisioneira do espaço, restrita pela configuração e pelos equipamentos do ambiente e aprisionada
em um lugar que se mostra cada vez mais confinado e restrito? Em essência, qual é o significado de viver em um
determinado  lugar  e  quais  são  as  implicações  deste  significado  para  a  prática  da  terapia  ocupacional?  Para
responder a estas perguntas, é importante compreender as dimensões complexas do significado que caracterizam
o fenômeno de viver e que nutrem um sentimento terapeuticamente desejável de estar no lugar (Rowles, 1991,
2000).

Relevância para a Terapia Ocupacional
Desenvolver o sentimento de contexto ambiental, de trajetória de vida e fenomenológica e integrar esta sensação
à compreensão holística da condição de cada pessoa é de primordial importância para os profissionais porque o
tratamento de terapia ocupacional é invariavelmente estruturado a partir de um conjunto único de circunstâncias
sociais e ambientais (Gitlin, Corcoran & Leinmiller­Eckhardt, 1995) e contra um pano de fundo de integração de
uma pessoa a essas circunstâncias dentro do sentimento ímpar de si própria e de pertencer. Os tratamentos que
tiram uma pessoa do lugar – por exemplo, aqueles que envolvem a reconfiguração radical da residência (p. ex., a
reorganização  significativa  da  mobília)  ou  aqueles  que  ocorrem  em  um  ambiente  hospitalar,  clínico  ou  de
reabilitação  –  estão  invariavelmente  comprometidos  porque  a  organização  da  pessoa  é  necessariamente
modificada para lidar com a adaptação a um ambiente novo e desconhecido. Em alguns casos, o tratamento no
ambiente  hospitalar  ou  da  clínica  é  inevitável  por  causa  da  disponibilidade  de  equipamento  e  pessoal
especializados. Isto não diminui a necessidade de compreender as dimensões da pessoa de estar no lugar. Pelo
contrário,  isto  torna  esta  compreensão  ainda  mais  importante,  de  modo  que  possamos  organizar  ambientes  de
tratamento que criem um nível de conforto ambiental que facilite a prática efetiva da terapia ocupacional.

DIMENSÕES DO ESTAR NO LUGAR
A sensação de uma pessoa de estar no lugar é um fenômeno complexo e dinâmico (Rowles, 1978, 1991, 2000;
Rubinstein  &  Parmalee,  1992;  Tuan,  1977).  Vários  temas  ou  dimensões  subjacentes  podem  ser  identificados,
como descrito no Boxe 8.1.

Utilização do Espaço
Em  seu  nível  mais  fundamental  e  facilmente  observável,  estar  no  lugar  envolve  padrões  de  atividade  na
utilização  do  espaço.  O  espaço  é  utilizado  em  múltiplos  níveis.  Primeiro  está  o  domínio  da  atividade  física
imediata  ou  amplitude  de  movimento.  Isto  envolve  as  atividades  da  vida  diária,  como  a  capacidade  funcional
para alcançar uma prateleira alta ou para se agachar sem dificuldade para calçar as meias ou amarrar os cadarços
do sapato. O uso do espaço neste nível torna­se um foco primário da terapia ocupacional quando a atividade se
torna limitada por causa de doença ou acidente, havendo comprometimento dos movimentos básicos.
Em maior escala, deixamos o ambiente físico e percorremos trajetos regulares da atividade cotidiana que, com
o passar do tempo, se tornam habituais (Rowles, 1978, 2000; Seamon, 1980). Na manhã de cada dia da semana,
caminhamos até a esquina de nossa rua para pegar o ônibus para ir ao trabalho. Aos domingos, dirigimos pelo
caminho usual até a igreja. Com o passar do tempo, tendemos a desenvolver um ritmo de tempo­espaço regular e
uma  rotina  para  o  uso  do  ambiente  físico  que  é  aceita  como  correta  e  de  modo  subconsciente,  à  medida  que
nosso corpo se adapta ao ambiente (Fig. 8.1). A pesquisa em terapia ocupacional sugere que a compreensão mais
profunda  dos  hábitos  e  da  habituação  poderia  ser  vital  para  importantes  tratamentos  terapêuticos  (American
Occupational Therapy Foundation, 2000, 2002).
A rotina regular dos comportamentos cotidianos é enriquecida ou interrompida por viagens ocasionais que nos
levam além de nosso trajeto diário. Passamos as férias em locais distantes ou fazemos uma visita anual para estar
com um parente. Depois de um acidente automobilístico, poderíamos passar um período nos recuperando em um
hospital de reabilitação um pouco distante de nossa residência.
Durante  a  trajetória  de  vida,  os  padrões  de  utilização  do  espaço  evoluem  gradativamente  em  conjunto  com
capacidades e recursos dinâmicos. O bebê fica restrito ao berço ou ao cercado. Pode­se permitir que a criança,
sob o olhar cuidadoso de um dos pais ou de parentes, brinque no jardim ou nas redondezas. O acesso ao primeiro
automóvel aumenta substancialmente a amplidão espacial e, na vida adulta, poderia levar à maior propensão de
ir  cada  vez  mais  longe.  Com  a  progressão  da  idade,  o  espaço  dentro  do  qual  residimos  e  nos  deslocamos
fisicamente poderia tornar­se novamente limitado, à medida que nos tornamos vulneráveis ao ambiente.

DIMENSÕES DO ESTAR NO LUGAR

Uso do Espaço
Atividade física imediata: Amplitude de movimento e movimento relacionado com a capacidade funcional
no ambiente próximo.
Atividade  cotidiana:  Viagens  rotineiras  e  diárias  frequentemente  repetidas,  juntamente  com  os  trajetos
familiares envolvidos na condução da vida diária.
Viagens ocasionais: Férias e viagens de longa distância, geralmente envolvendo a permanência noturna.

Orientação no Espaço
Esquema pessoal: Uma orientação axial em bases fisiológicas que possibilita que o indivíduo mantenha o
equilíbrio e diferencie esquerda e direita, frente e trás e em cima e embaixo.
Esquemas  específicos:  Mapas  lineares  cognitivos  dos  trajetos  regularmente  percorridos,  incluindo  uma
consciência das pistas ambientais que facilitam percorrer com sucesso estes caminhos.
Esquemas gerais: Um mapa cognitivo implícito do mundo conforme conhecido, o qual pode ser evocado e
mentalmente constituído em diversas escalas e em diferentes manifestações que variam de acordo com
as circunstâncias em que ele é invocado.

Afiliações Emocionais com o Lugar
Pessoal:  As  emoções  evocadas  por  experiências  pessoais  em  determinados  locais  que  mesclam  os
ambientes com o objetivo e o significado para o indivíduo (podem ser positivas ou negativas).
Compartilhadas:  Emoções  mutuamente  desenvolvidas  e  refinadas  para  o  lugar  por  meio  da  interação,
com o passar do tempo, entre os residentes de um ambiente compartilhado ou por meio da experiência
compartilhada de um ambiente.

Participação Indireta nos Ambientes Deslocados de Maneira Espacial e/ou Temporal
Reflexiva: O envolvimento dos locais do passado de uma pessoa (seja o ambiente atual como ele era no
passado, seja os locais previamente experimentados e localizados em outro ponto).
Projetiva:  A  projeção  indireta  dos  locais  contemporâneos  que  estão  geograficamente  distantes  da
localização atual do indivíduo.

Os padrões de utilização do espaço estão intimamente relacionados com a maneira pela qual nos orientamos
cognitivamente  no  ambiente.  Isto  envolve  uma  orientação  fisiológica  dentro  do  sistema  sensorial  do  corpo
humano que propicia a capacidade de discriminar em cima e embaixo, esquerda e direita e na frente e atrás. Este
esquema  pessoal  é  considerado  natural.  Seu  papel  crítico  pode  ser  totalmente  reconhecido  apenas  quando  nos
tornamos desorientados por causa de uma patologia, como a doença de Ménière, consumo excessivo de álcool
ou pelos efeitos secundários de medicamentos.

Fig. 8.1 O hábito cotidiano do café da manhã em uma lanchonete local forma relações importantes. (Cortesia de
D. Prince, University of New Hampshire Photographic Services, Durham, NH.)

A  orientação  fisiológica  é  uma  condição  necessária,  porém  insuficiente,  para  nos  movermos  no  ambiente.
Também devemos desenvolver imagens mentais, isto é, mapas cognitivos da configuração do ambiente que nos
orientam  quando  atravessamos  o  espaço  (Downs  &  Stea,  1973).  Com  o  passar  do  tempo,  desenvolvemos  a
consciência  cognitiva  detalhada  dos  trajetos  que  percorremos  a  cada  dia.  Esta  consciência  pode  envolver  um
conjunto  de  pistas  ambientais,  compreendendo  esquemas  específicos  que  marcam  cada  trajeto  que  fazemos:
quanto mais familiar for a jornada, mais implícito estará o esquema. A primeira vez que percorremos um trajeto
desconhecido,  ficamos  atentos  para  as  orientações  e  pistas  ambientais  que  marcam  os  locais  para  virar  ou
atravessar a rua. Quando percorremos repetidamente este trajeto, a necessidade de utilizar essas pistas transfere­
se para o subconsciente.
A  consciência  cognitiva  dos  trajetos  habituais  está  inserida  em  um  esquema  geral.  Este  mapa  cognitivo
implícito  do  mundo  como  conhecemos  centraliza­se  caracteristicamente  em  nossa  residência.  Ele  envolve  a
consciência detalhada das zonas do espaço imediatamente adjacente, por exemplo, a zona de vigilância – a área
dentro  do  campo  visual  em  que  podemos  desenvolver  relações  visuais  intensas  ou  de  suporte  mútuo  com  os
vizinhos  caracterizada  por  um  elevado  nível  de  reciprocidade  cotidiana  (Rowles,  1981)  (Fig.  8.2).  Também
podemos estar familiarizados com o espaço além do campo visual, que é identificado como nossa vizinhança. À
medida  que  nos  afastamos  de  casa,  a  consciência  cognitiva  do  espaço  se  torna  cada  vez  mais  fragmentada  e
imprecisa.  Pode  haver  conhecimento  cognitivo  limitado  sobre  a  configuração  dos  espaços  além  de  nossa
comunidade, cidade ou bairro. A exceção é um número limitado de “espaços distantes”. Estes são espaços que
visitamos  em  viagens  ocasionais,  ambientes  em  que  vivemos  no  passado,  ou  locais  conhecidos  onde  residem
parentes. Poderíamos reter imagens detalhadas da configuração de certos espaços não contíguos apesar da falta
de exposição cotidiana.
As transições no decorrer da vida quanto ao uso do espaço fazem paralelo com a evolução da maneira pela
qual nos orientamos dentro do espaço. Na infância, o ambiente imaginado poderia estar limitado a nossa casa e
arredores na vizinhança mediata. À medida que a experiência aumenta e nos tornamos geograficamente livres,
nosso mundo cognitivo se torna mais amplo. Um padrão de vida cosmopolita dinâmico na fase adulta pode levar
à  familiarização  com  ambientes  por  todo  o  mundo  e  a  uma  sensibilidade  intensa  da  relação  espacial  e  da
configuração  entre  vários  ambientes.  Se  levarmos  uma  vida  centrada  em  uma  única  vizinhança  urbana  ou
comunidade rural, nossa orientação poderia ser igualmente rica e detalhada, contudo mais localmente centrada.
Por  fim,  à  medida  que  envelhecemos,  os  truques  da  memória  e  o  volume  absoluto  de  experiências  de  lugar
acumuladas podem resultar em imagens cognitivas sobrepostas complexas, em que locais específicos podem ser
conhecidos  simultaneamente  pelo  que  foram  durante  momentos  diferentes  de  nossa  existência.  Nossa
consciência de um local visitado com menor frequência poderia ser uma memória residual de seu passado, em
lugar de uma imagem exata de sua configuração atual.

Significado no Lugar
Os padrões de uso e de orientação cognitiva para o lugar fazem paralelo com o desenvolvimento e o reforço das
emoções  distintas  relacionadas  com  o  lugar  (Altman  &  Low,  1992;  Seamon,  1984).  Alguns  destes  são
significados individuais e bastante pessoais. Eles podem expressar uma sensação de afinidade com os locais em
que  aconteceram  eventos­chave  na  vida  –  onde  encontramos  pela  primeira  vez  nossa  futura  esposa,  fizemos
amor pela primeira vez ou experimentamos um evento traumático. A simples presença nesses locais pode evocar
memórias, o reaparecimento na consciência de incidentes importantes em nossas vidas e fortes reações viscerais.
À  medida  que  se  acumulam  experiências  de  vida,  os  locais  frequentemente  habitados  onde  aconteceram
múltiplos  eventos  durante  um  longo  período  de  tempo  ficam  impregnados  com  um  conjunto  de  emoções  que
refletem uma biografia de si próprio e do ambiente (Cattell, 2005).

Fig. 8.2 A zona de vigilância. (Cortesia de G. Rowles.)

Outras  emoções  relacionadas  com  o  espaço  refletem  significados  compartilhados.  Elas  se  originam  da
habitação comum do espaço – por exemplo, as vizinhanças do centro da cidade ou o subúrbio residencial – por
um grupo de residentes que, por meio da interação e das experiências compartilhadas, permeiam gradativamente
o  local  com  a  própria  personalidade,  a  identidade  e  os  significados  como  um  espaço  social  (Després  &  Lord,
2005;  Peace,  Holland  &  Kellaher,  2005;  Rowles,  1978;  Suttles,  1969).  Os  residentes  de  longa  data  de
vizinhanças  em  evolução  podem  compartilhar  uma  identificação  emocional  complexa  com  uma  colagem  de
muitos locais diferentes em que estiveram durante suas vidas, variando desde o desenvolvimento novo e vibrante
até a decadência e o abandono total da favelização.
O reconhecimento do papel crítico do tempo na experiência humana nos permite compreender o estar no lugar
como muito mais que a ocupação física do espaço, o uso das habilidades de orientação e o desenvolvimento de
afiliação emocional com determinados lugares. Por meio da capacidade exclusivamente humana de se lembrar,
imaginar  e  se  projetar  mentalmente  nos  espaços  além  do  nosso  campo  visual  imediato,  podemos  atuar  de
maneira indireta em espaços que estejam deslocados no espaço e no tempo. Em nossas mentes, podemos retornar
a locais de nossa infância por meio de um processo de reimersão reflexiva indireta (Chaudhury, 1999). Também
podemos  nos  engajar  na  participação  indireta  de  projeção  nos  ambientes  contemporâneos  dos  familiares  e
imaginar o que eles poderiam estar fazendo a meio continente de distância, quando uma previsão nacional do
tempo nos mostra que está chovendo no local onde eles vivem (Rowles, 1978).
A capacidade de atravessar o espaço e o tempo em nossa mente e habitar um mundo experimental que é muito
mais vasto que o ambiente físico imediato e contemporâneo é nutrida e reforçada pelos artefatos com os quais
nos envolvemos. Determinados itens do mobiliário, os objetos pessoais valiosos, álbuns de recortes de jornais e
revistas e de fotografias servem, sem exceção, como pistas para a recuperação ou estimulação da experiência do
lugar na consciência (Belk, 1992; Boschetti, 1995; Sherman & Dacher, 2005). Estes itens transmitem um sentido
de  identidade,  capturam  elementos  essenciais  de  nossa  autobiografia  e,  ao  fazer  isto,  nos  ajudam  a  definir  e
manter um sentimento de “eu”. Nos tornamos os locais de nossas vidas – onde vivemos e o que possuímos.
Resumindo, os espaços de nossas vidas são transformados em lugares de nossas vidas por meio de diversos
processos  físicos,  cognitivos,  emocionais  e  imaginativos  de  habitação  que  preenchem  a  existência  com
significado  e  importância  pessoal.  A  presença  física  contemporânea  é  apenas  uma  pequena  parte  de  estar  no
lugar. É apenas o aspecto observável e mais imediato de um ser complexo que evoluiu gradativamente ao longo
da vida, com o acúmulo e a integração de diferentes experiências de modelagem da vida e formação da pessoa
nos diferentes lugares que ocupamos desde o nascimento até o presente.

Significado do Lar
A expressão mais intensa de estar no lugar envolve caracteristicamente nossa relação com o lar – usualmente,
embora  não  de  modo  invariável,  a  casa  em  que  moramos.  Neste  local,  encontramos  as  expressões  mais
sofisticadas  do  relacionamento  humano  com  o  ambiente  quanto  a  todos  os  níveis  de  estar  no  lugar:  uso,
orientação cognitiva, afiliação emocional e envolvimento vicariante (Marcus, 1995; Rowles & Chaudhury, 2005;
Rubinstein, 1989; Sixsmith, 1986; Zingmark, Norberg & Sandman, 1995). Na realidade, estar no lugar engloba
estar “em casa”.
Lar é território – um local de posse e propriedade que pode ser vigorosamente defendido. O lar é o local de
privacidade,  segurança  e  seguridade.  Com  frequência,  o  lar  é  o  fulcro  espacial  de  nossa  vida,  um  lugar  de
conforto e centralização que pode se transformar no cerne de nossa existência e um lugar a partir do qual nos
aventuramos  para  um  mundo  externo  potencialmente  hostil  além  da  nossa  casa  e  para  o  qual  retornamos  em
busca de abrigo. O lar é um lugar de liberdade, um local onde podemos relaxar e sermos nós mesmos. O lar é um
repositório  dos  itens  que  acumulamos  que  catalogam  nossa  história  e  definem  quem  nós  somos.  Além  dos
significados pessoais com que esses itens podem estar impregnados, o lar também se torna com frequência um
lugar  de  expressão  quando  nos  apresentamos  para  os  visitantes,  vizinhos  e  para  aqueles  que  passam,  pela
maneira com que mantemos e decoramos a propriedade e que cuidamos do nosso quintal.
Por causa da complexa interação entre estes temas durante um longo período de moradia, o lar pode vir a ser
visualizado como um local sagrado e o lugar da identidade e do ser de uma pessoa (Eliade, 1959; Rowles, 2006).
Para  muitas  pessoas,  abandonar  o  próprio  lar  não  é  apenas  ficar  desabrigado  e  sem  lugar  (Hasselkus,  2002;
Relph, 1976; Watkins & Hosier, 2005), mas também, em um sentido bastante literal, experimentar uma ruptura
de si próprias.

TRANSFORMANDO OS ESPAÇOS EM LUGARES DURANTE A TRAJETÓRIA DE VIDA
Estar  no  lugar  e  sua  relação  consigo  mesmo  é  um  fenômeno  dinâmico.  Durante  toda  a  trajetória  de  vida,  à
medida que nos mudamos de um local para outro, estamos constantemente criando e recriando o lugar como um
componente  da  identidade  pessoal.  A  cada  mudança,  nós  abandonamos  elementos  do  nosso  passado.  A  cada
mudança,  nós  levamos  elementos  selecionados  deste  passado  e  os  misturamos  às  novas  experiências  e  à
influência dos novos ambientes para criar um estilo de vida contemporâneo e o sentimento de estar no lugar no
presente.  Este  processo  seletivo  de  transferência  nos  permite  manter  uma  continuidade  de  nós  próprios  e
identificar  aquilo  que  é  reforçado  por  uma  relação  em  evolução  com  os  lugares  de  nossa  vida  (Rowles  &
Watkins, 2003; Twigger­Ross & Uzzell, 1996).

Transições e Rupturas do Estar no Lugar
Diversas  circunstâncias  resultam  em  alterações  na  relação  de  um  indivíduo  com  o  lugar,  as  quais  têm
importantes  consequências  para  o  sentimento  de  “eu”  e  de  bem­estar.  Dentre  as  mais  profundas  estão  as
mudanças na capacidade pessoal. Durante a primeira parte da vida, estas mudanças são geralmente liberadoras.
À medida que progredimos da fase de lactância para a infância e para a adolescência, o mundo geográfico tende
a  se  expandir  à  proporção  que  se  desenvolvem  as  capacidades  físicas  e  mentais  e  que  se  obtém  acesso  a  um
conjunto sempre mais amplo de recursos (educação, renda, transporte). A competência tende a aumentar dentro
de  uma  crescente  diversificação  de  ambientes.  Na  outra  extremidade  da  trajetória  de  vida,  à  medida  que
envelhecemos,  os  declínios  físicos  e  sensoriais  podem  tornar­se  restritivos  e  confinadores,  pelo  menos  com
relação ao nosso uso físico do espaço. Pode tornar­se mais difícil aventurar­se fora de casa, manter a casa, até
mesmo subir escadas até o quarto de dormir no andar de cima.
As vidas também são vividas dentro do contexto de ambientes em constante mutação. Novas ruas são abertas
nas  vizinhanças,  a  paisagem  física  se  modifica  com  a  adição  de  novos  prédios  ou  com  a  deterioração  e
demolição  dos  antigos,  novas  populações  migram  para  grupos  residenciais  outrora  estáveis,  e  os  desastres
naturais e provocados pelo homem transformam as paisagens de nossa vida. Na juventude, esta mudança poderia
ser uma fonte de estímulo e de novas oportunidades; porém, à medida que envelhecemos, podemos nos tornar
menos  flexíveis  à  acomodação  às  mudanças  do  ambiente  externo.  Independente  de  sua  origem,  mudanças  na
relação das pessoas com o ambiente, sejam elas localizadas ou por relocação, transforma­se em uma motivação
predominante de vida nas sociedades ocidentais contemporâneas.

Criando e Recriando o Lugar
Uma  tensão  humana  fundamental  existe  entre  a  necessidade  de  familiaridade,  seguridade  e  sentimento  de
continuidade  e  a  urgência  em  explorar  e  se  aventurar  no  desconhecido  (Balint,  1955;  Buttimer,  1980).  Esta
tensão é expressa na sequência de habitação dos ambientes de nossas vidas por meio de processos pelos quais
criamos e recriamos constantemente o lugar como uma expressão de um “eu” em evolução (Rowles & Watkins,
2003). Muitas pessoas exibem inércia residencial e relutância para se mudar. A intensidade desta inércia pode
variar  durante  a  vida  e  entre  diferentes  gerações;  muitos  jovens  exibem  maior  entusiasmo  para  a  mudança,  e
muitos idosos expressam um desejo de envelhecer no lugar (Callahan, 1992; Tilson, 1990). Quando a mudança
ocorre, existem determinadas constâncias na maneira pela qual as pessoas se adaptam a ela.
As  pessoas  que  apresentam  história  de  mudanças  frequentes  comumente  se  transformam  em  experientes
construtoras de lugar. A cada mudança, elas se tornam mais dispostas a manter as ligações com os locais de seu
passado,  mesmo  quando  se  adaptam  às  oportunidades  fornecidas  pelos  novos  ambientes.  O  processo  envolve
vários  elementos  sobrepostos,  e  cada  um  deles  serve  para  preservar  uma  continuidade  da  própria  pessoa.  Em
primeiro lugar, existe uma tendência para “permanecer”, o que se manifesta na maneira rotineira de se adaptar ao
estresse da separação dos ambientes de nosso passado. O contato com os ambientes anteriores pode ser mantido
por  meio  de  visitas  periódicas,  ligações  telefônicas  para  antigos  vizinhos  ou  pela  manutenção  da
correspondência. Manter relações com os locais e o “eu” do passado também pode envolver a transferência dos
objetos  de  alta  estima,  incluindo  fotografias  e  lembranças,  que  servem  como  pistas  sobre  eventos  e  locais
importantes na história pessoal (Boschetti, 1995; Paton & Cram, 1992).
Um  segundo  elemento  para  criar  e  recriar  o  lugar  é  um  processo  recorrente  de  “continuar”  –  crescimento
pessoal por meio do investimento ativo em cada novo ambiente (Leith, 2006). Com frequência, isto envolve a
modificação no estilo de vida em consequência de adaptação à doença, incapacidade ou a outras circunstâncias
modificadoras. O processo pode envolver a utilização de estratégias aprendidas para fazer novos amigos e para
se  tornar  participante  no  meio  social  local,  como  fazer  esforços  conscientes  para  visitar  os  novos  vizinhos  ou
outros residentes (Reed & Payton, 1996). Isso pode englobar esforços, por vezes subconscientes, para recriar os
elementos  familiares  em  cada  novo  ambiente.  Por  exemplo,  algumas  pessoas  facilitam  a  manutenção  de  uma
rotina confortável no uso do espaço ao arrumar sua mobília em uma configuração semelhante àquela que existia
em  sua  residência  anterior  (Hartwigsen,  1987;  Toyama,  1988).  A  recriação  do  lugar  também  pode  envolver  a
transferência seletiva de objetos e pertences e sua arrumação dentro de um novo espaço de maneira que sirva
para definir e reforçar um sentimento de evolução do “eu” (Belk, 1992; Boschetti, 1995). Por fim, o “continuar”
pode envolver uma reformulação fenomenológica determinada, consciente e adaptativa do significado do lar por
meio  de  um  processo  continuado  de  mesclar  as  expectativas  de  vida  e  as  experiências  dos  antigos  locais  de
residência com as potencialidades e limitações de cada novo ambiente, “criando, assim, uma essência de lar que
é, ao mesmo tempo, antiga e nova” (Leith, 2006, p. 331).
Criar e recriar o lugar é um processo de vida. Durante a primeira parte da vida, os processos de acumulação
tendem a ser dominantes. Assim, o apartamento de um estudante dá lugar ao condomínio do jovem profissional,
a primeira casa própria da família, seguido por uma série de habitações cada vez maiores em paralelo com as
necessidades  dinâmicas,  à  medida  que  encontramos  uma  parceira  e  estabelecemos  uma  família.  Tendemos  a
acumular cada vez mais posses — posses que podem vir a definir nossa pessoa. À medida que envelhecemos,
em  muitos  casos,  somos  obrigados  a  mudar  de  habitações  espaçosas  para  residências  com  espaço
progressivamente  menor.  Este  processo  pode  gradativamente  dar  lugar  aos  processos  de  dispersão  e
despojamento domiciliar que envolvem uma redução de posses cuidadosamente pensada, mas, com frequência,
emocionalmente  onerosa  (Eckerdt,  Sergeant,  Dingel  &  Bowen,  2004;  Morris,  1992).  Uma  prioridade  pode  ser
colocada sobre a retenção dos itens de significado pessoal e autodefinição particular, enquanto outros itens são
dados seletivamente para os filhos e para outras pessoas no processo de estabelecer um legado que possibilitará
que aspectos da própria pessoa resistam depois da morte (Hunter, 2005). Para os idosos, o sentimento contínuo
de  estar  no  lugar  pode  estar  intimamente  relacionado  com  a  capacidade  de  realizar  esses  processos  de  uma
maneira que facilite a retenção da identidade.

O LUGAR DO LUGAR NA TERAPIA OCUPACIONAL
Este capítulo sugere que a compreensão do sentimento de “eu” e de bem­estar de uma pessoa está intimamente
relacionado com uma compreensão fenomenológica de uma negociação pessoa­ambiente em evolução baseada
no  curso  da  vida.  Dentro  deste  conceito,  a  definição  de  pessoa  foi  ampliada  para  enfatizar  o  papel  da
autobiografia  na  definição  do  “eu”.  O  conceito  de  ambiente  é  elaborado  e  remodelado  como  a  noção
experimental do lugar. Esta reconfiguração é mais que uma inovação semântica. Ao contrário, ela fornece a base
para  a  compreensão  mais  profunda  do  “ser  humano  no  ambiente  como  um  todo”,  os  aspectos  do  mundo
experimentado pelo cliente que têm implicações importantes para a prática (Dickie, Cutchin & Humphry, 2006).
No nível mais fundamental, há uma necessidade de que os profissionais da terapia ocupacional se tornem mais
intimamente sintonizados e sensíveis à complexidade do estar no lugar de cada cliente. Não é suficiente apenas
observar o ambiente arquitetônico contemporâneo de uma pessoa e identificar as barreiras físicas que interferem
no desempenho das tarefas ocupacionais diárias. Reconhecidamente, é importante que os profissionais se tornem
defensores de um desenho de ambiente centrado no cliente que aumente o desempenho ocupacional por meio da
modificação  do  desenho  e  do  uso  de  dispositivos  de  assistência.  Embora  isto  possa  ser  necessário  como  uma
primeira etapa na busca de tratamentos para melhorar o desempenho funcional, não é suficiente se a meta for
capacitar  o  cliente  para  exercer  seu  potencial  pleno  de  modo  a  atingir  a  mais  alta  qualidade  de  vida  possível.
Para alcançar este objetivo mais sofisticado, é necessário adotar uma compreensão mais ampla do lugar como
um componente da terapia – desenvolver a terapia do lugar (Scheidt & Norris­Baker, 1999).
Com  o  que  se  pareceria  uma  terapia  ocupacional  do  lugar?  Mais  que  um  conjunto  rígido  de  procedimentos
prescritos,  esta  terapia  se  concentraria  principalmente  na  atitude  e  na  maneira  do  profissional  de  se  relacionar
com cada cliente. Ela se concentraria em identificar os padrões habituais do uso do espaço, no papel do hábito e
da  rotina  nestes  comportamentos  e  nas  maneiras  pelas  quais  os  tratamentos  podem  minimizar  a  ruptura  de
hábitos e rotinas ou criar novos que sejam consoantes com a história pessoal do cliente. Ela se concentraria em
identificar  a  maneira  pela  qual  cada  cliente  orienta  cognitivamente  os  comportamentos  diários  em  relação  aos
lugares de sua vida e utiliza normativamente estas construções para adaptar­se à mudança pessoal ou ambiental.
Ela se concentraria em desenvolver uma apreciação sensível ao cliente quanto às rupturas de estar no lugar em
casa que acontecem à medida que, com a prevalência crescente do cuidado domiciliar, as residências são física e
socialmente  transformadas  em  lugares  de  cuidado  proporcionado  por  estranhos,  vindos  do  ambiente  externo
(Dyck, Kontos, Angus & McKeever, 2005).
Estas informações possibilitariam ao profissional fornecer o suporte e a reorientação apropriados em resposta
à  modificação  das  circunstâncias.  Elas  se  concentrariam  explicitamente  nas  implicações  de  romper  relações
emocionais  antigas  com  ambientes  específicos  e  com  os  objetos  que  estes  ambientes  contêm  e  procurariam
maneiras  de  compensar  estas  rupturas,  de  modo  a  facilitar  a  transferência  dos  principais  pertences  pessoais
quando fosse necessária a mudança (Wapner, Demick & Redondo, 1990). Além disso, focalizaria as estruturas
dos  tratamentos  diante  das  restrições  e  oportunidades  fornecidas  pela  miríade  de  ambientes  que  os  clientes
habitam indiretamente em sua mente – os ambientes que foram deslocados no espaço e/ou no tempo – que, com
frequência, são elementos primordiais para a definição do “eu”. Neste domínio, o principal tratamento da terapia
ocupacional  poderia  incluir  a  terapia  da  lembrança  ou  outros  tipos  de  atividade  que  servem  para  manter  a
conexão dos clientes com os locais de suas vidas que constituem seu mundo experimental (Burnside & Haight,
1994; Chaudhury, 1999).
A questão passa a ser como traduzir essas aspirações grandiosas em termos práticos no contexto do lar e da
mudança. As possibilidades para facilitar o ajuste tanto à capacidade física reduzida in situ como a uma mudança
necessária incluem as estratégias de preparação que variam desde o modelo antecipatório da mudança (Hunt &
Pastalan, 1987) por meio de processos de “construir a familiaridade” (Reed & Payton, 1996) até a psicoterapia
baseada  na  “ecoanálise  do  lar”  (Peled  &  Schwartz,  1999).  Estas  estratégias  destinam­se  a  preparar  os  clientes
para lidar com as consequências da separação do lugar familiar e rotineiro e para facilitar a recriação do lugar de
uma maneira compatível com as circunstâncias modificadas.
É  importante  acrescentar  palavras  de  cautela  neste  momento.  Em  primeiro  lugar,  para  algumas  pessoas,  as
expressões  do  “eu”  e  do  estar  no  mundo  derivam  de  dimensões  de  vida  diferentes  do  lugar  e  do  lar.  Pode  ser
argumentado que estas pessoas “sem lugar” poderiam estar alienadas de seu ambiente e talvez, por extensão, de
si próprias. Contudo, é importante evitar os riscos do romantismo e evitar uma visão estereotipada do papel do
lugar nas vidas das pessoas. Em segundo lugar, a terapia ocupacional do lugar poderia ser mais apropriada para
alguns  clientes  que  para  outros.  Por  exemplo,  as  pessoas  com  histórias  longas  e  múltiplas  experiências  de
adaptação  à  mudança,  tanto  dentro  de  seu  próprio  ambiente  como  por  meio  da  experiência  de  construção  do
lugar obtida a partir de mudanças frequentes, poderiam ser bastante fáceis de se adaptar ao estilo de vida e às
modificações  comportamentais  exigidas  por  um  tratamento  de  terapia  ocupacional  necessário.  Porém,  o  que
dizer sobre aquelas que tiveram uma residência mais estável e se acostumaram, durante toda a vida, às rotinas de
utilizar  um  único  espaço  e  se  relacionar  apenas  com  poucos  lugares?  Estes  indivíduos  poderiam  experimentar
grande dificuldade em abandonar as rotinas familiares para se ajustar à natureza de seu “estar no lugar” em uma
residência familiar ou, caso seja necessária a mudança, em transformar um novo espaço em um lugar. Para estes
indivíduos, a mudança poderia ser particularmente traumática.

CONCLUSÃO
Há  uma  tendência  na  sociedade  contemporânea  para  assumir  que  a  reabilitação  bem­sucedida  é  conseguida
apenas  ao  devolver  os  indivíduos  para  os  níveis  prévios  de  funcionamento  físico  e  de  competência
comportamental.  Esta  visão  é  míope  e  degradante  em  relação  à  riqueza  da  experiência  humana.  Quando  um
profissional  defende  a  remoção  de  um  tapete  potencialmente  perigoso  do  caminho  de  um  cliente,  oferece
assistência para rearrumar o espaço do cliente para acomodar uma incapacidade ou fornece treinamento para uso
do mais moderno dispositivo de terapia ocupacional, o profissional pode estar aumentando a segurança da casa e
a competência física do cliente, enquanto também diminui a sensação de controle e autonomia do cliente. Esses
tratamentos poderiam significar jogar fora um tapete que foi herdado de uma avó preferida e que foi transportado
de  uma  casa  para  outra  durante  uma  vida  –  um  objeto  que  é  um  símbolo  de  resistência  da  história  e  da
continuidade da família. Rearrumar o espaço poderia colocar importantes fotografias da família fora do campo
de visão de uma cadeira favorita que estava originalmente próxima à janela, mas que foi mudada para um local
mais  seguro  que  não  mais  permite  a  visão  das  atividades  fora  da  zona  de  vigilância.  O  dispositivo  que  o
terapeuta acha tão inovador e valioso poderia atingir seu propósito, mas reforça uma sensação de inadequação e
incompetência em um indivíduo que poderia estar mais bem servido ao adaptar­se à sua incapacidade por uma
estratégia menos intrusiva.
Com  a  percepção  tardia  da  história,  as  últimas  décadas  podem  vir  a  ser  conhecidas  como  uma  era  em  que
nossa  tecnologia  excedeu  nossa  humanidade,  quando  a  es  pécie  humana  caiu  na  obsessão  hedonística  com  a
inventividade material e tecnológica. Ao reinvestir no significado por meio do lugar, a terapia ocupacional pode
ser  capaz  de  nos  ajudar  a  redescobrir  nossa  humanidade.  Ao  procurar  novas  maneiras  para  capacitar  os
indivíduos  a  manter  o  sentimento  duradouro  de  estar  no  lugar  como  uma  competência  do  “eu”,  a  prática  da
terapia ocupacional pode ser elevada a um plano mais elevado.

QUESTÕES INSTIGANTES
1. Como o seu relacionamento com o lugar difere daquele de seus pais? De seus avós? De seus filhos?
2. De  quais  maneiras  as  dimensões  do  estar  no  lugar  apresentadas  no  Boxe  8.1  são  modificadas  sob  as
circunstâncias em que múltiplos indivíduos habitam uma residência compartilhada?
3. Em uma sociedade cada vez mais dinâmica, como a maior frequência de mudanças durante a trajetória da
vida afetará a capacidade do indivíduo de estabelecer e manter o sentimento de estar no lugar? O resultado
será a alienação do lugar? Quais são as implicações disto para a terapia ocupacional?
4. Como o tratamento de terapia ocupacional pode facilitar o processo de mudança?

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Espiritualidade, Ocupação e Terapia
Ocupacional
CHRISTY BILLOCK

Sumário
Introdução
Estruturando a Espiritualidade a partir da Perspectiva da Terapia Ocupacional
Experimentando a Espiritualidade por meio da Ocupação
Fatores Contextuais
A Centralidade da Reflexão e da Intenção
Engajamento Ocupacional
Integrando a Espiritualidade à Prática da Terapia Ocupacional
Conclusão

“De uma maneira, toda experiência sagrada e todas as jornadas da alma nos conduzem ao mais breve momento do
dia mais comum”

—SUE MONK KIDD (1996)

Objetivos de Aprendizagem
Após a leitura deste capítulo, você será capaz de:
1. Desenvolver uma compreensão do significado da espiritualidade em relação à prática da terapia
ocupacional, incluindo definição, temas correlatos e distinção de religião.
2. Reconhecer a relação entre espiritualidade, ocupação, saúde e bem­estar.
3. Identificar a relação da espiritualidade com a história da terapia ocupacional.
4. Compreender a relevância das experiências individuais da espiritualidade por meio da ocupação
ao examinar fatores importantes como contexto, reflexão e intenção e engajamento ocupacional.
5. Descrever estratégias para integrar a espiritualidade à prática da terapia ocupacional.
6. Explorar  como  a  espiritualidade  e  a  ocupação  poderiam  se  integrar  em  sua  própria  experiência
de vida.

INTRODUÇÃO
À  medida  que  a  terapia  ocupacional  evolui  como  uma  profissão  fundamentada  na  rica  e  complexa  noção  de
ocupação,  a  espiritualidade  emerge  como  um  tema  correlato  relevante  que  merece  exploração  adicional.
Habituados a se confrontar com a complexidade, os terapeutas ocupacionais e os cientistas ocupacionais insistem
na necessidade de criação de uma base teórica e prática mais profunda para compreensão da espiritualidade em
relação  à  participação,  ao  tratamento  e  às  práticas  profissionais  ocupacionais.  Este  capítulo  serve  como  um
recurso introdutório para compreender a espiritualidade na prática da terapia ocupacional. Eu começo fazendo
uma  pergunta  fundamental:  O  que  é  espiritualidade  e  como  ela  se  relaciona  com  a  terapia  ocupacional?  Em
segundo  lugar,  discutirei  as  diferentes  maneiras  pelas  quais  a  espiritualidade  é  experimentada  por  meio  da
ocupação. Em terceiro lugar, integrarei a espiritualidade à prática da terapia ocupacional. Por fim, irei apresentar
perguntas reflexivas que permitirão aos leitores explorar sua própria noção de espiritualidade.

ESTRUTURANDO A ESPIRITUALIDADE A PARTIR DA PERSPECTIVA DA TERAPIA
OCUPACIONAL
A  natureza  multidimensional  e  complexa  da  espiritualidade  dificulta  uma  definição  simples.  De  acordo  com
Hasselkus (2002):

A  espiritualidade  não  pode  ser  diretamente  observada  no  sentido  físico.  Nós  não  estamos  totalmente  certos  de  quais
comportamentos  poderíamos  identificar  como  representativos  deste  fenômeno.  Temos  dificuldade  de  encontrar  as
palavras  para  descrever  o  que  pensamos  que  queremos  dizer  quando  empregamos  a  palavra  espiritualidade.  Até  o
momento,  provavelmente  nós  todos  reconhecemos  a  existência  de  algum  tipo  de  natureza  espiritual  em  nós  próprios  e
nas vidas de todos os seres humanos. (p. 102)

As  definições  enfatizam  tipicamente  a  espiritualidade  como  um  fenômeno  interno  metafísico  e  experimentado
individualmente, envolvendo um espírito essencial, uma alma ou essência de uma pessoa (Egan & DeLaat, 1994;
Hasselkus,  2002;  Moore,  1992).  As  pessoas  podem  experimentar  a  espiritualidade  como  uma  sensação  de
conexão que as relaciona com um ser transcendental, uma crença, elas mesmas, outros ou o mundo físico. Os
temas  recorrentes  relacionados  com  a  espiritualidade  dentro  da  terapia  ocupacional  e  da  literatura  de  outras
profissões de saúde são esperança, fé, enfrentamento e autotranscendência (Haase, Britt, Coward, Leidy & Penn,
1992; Kelly, 2004; Spencer, Davidson & White, 1997).
A espiritualidade  pode  ser  definida  como  uma  experiência  profunda  do  significado  (Urbanowski  &  Vargo,
1994)  que  surge  a  partir  do  engajamento  em  ocupações  que  envolvem  a  promoção  de  ideologias  pessoais,
reflexão e intenção em um ambiente contextual de suporte. A terapia ocupacional coloca o significado como um
princípio central da profissão, sendo a construção do significado, em sua essência, um processo espiritual que
busca  expressão  por  meio  da  ocupação  (Peloquin,  1997).  Com  frequência,  as  pessoas  experimentam  a
espiritualidade por meio do engajamento em atividades cotidianas (Moore, 1992); por conseguinte, a ocupação
cria o significado e ajuda a responder questões existenciais maiores sobre o significado da vida (Christiansen,
1997;  Frankl,  1959).  Recentemente,  a  American  Occupational  Therapy  Association  (AOTA)  incluiu  a
espiritualidade na estrutura de prática como um contexto para a ocupação, que é “a orientação fundamental da
vida  de  uma  pessoa,  aquilo  que  motiva  e  inspira  aquele  indivíduo”  (AOTA,  2002,  p.  633).  A  noção  de  uma
“orientação fundamental” evoca uma compreensão da espiritualidade como o tipo mais profundo e mais central
de significado que uma pessoa experimenta.
A  religião  muitas  vezes  é  relacionada  com  a  espiritualidade  e  pode  informar  sobre  a  compreensão  e  a
experiência de significado de uma pessoa. A religião é definida como um sistema integrado de crenças com suas
práticas  correlatas  (Engquist,  Short­DeGraff,  Gliner  &  Oltjenbruns,  1997).  Como  um  conjunto  de  práticas
individuais e comunitárias, a religião permeia as experiências de espiritualidade de muitas pessoas por meio de
ocupações como prece, meditação, leitura de livros teológicos e frequência em serviços religiosos. Não somente
as religiões proveem os seguidores com práticas que se relacionam diretamente com as crenças teológicas, como
as crenças religiosas frequentemente atribuem significado espiritual às ocupações diárias como a preparação de
alimentos, trabalho e intimidade, principalmente quando elas são “compreendidas como comandadas por Deus”
(Frank et al., 1997, p. 201). Embora muitas pessoas utilizem a religião como um instrumento para a estruturação
da espiritualidade em suas vidas, a experiência espiritual individual não é dependente da prática ou da afiliação
religiosa.
As práticas espirituais e religiosas estão relacionadas ao bem­estar e à saúde (Low, 1997; Miller & Thoresen,
2003). A saúde espiritual tem muitas definições, mas, em geral, conota ser capaz de experimentar significado,
plenitude e conexão consigo próprio, com os outros e com uma força superior ou realidade maior (Hawks, Hull,
Thalman & Richins, 1995). Estes pontos de vista também reconhecem que a enfermidade e a doença afetam a
pessoa em sua totalidade, incluindo o corpo, a mente e o espírito, e tudo precisa ser abordado para restaurar a
saúde  (do  Rozario,  1997).  As  experiências  de  alienação  ocupacional  (Townsend  &  Wilcock,  2004),  isto  é,  a
incapacidade de criar significado e expressar o espírito de uma pessoa por meio da ocupação, demonstram falta
de saúde espiritual ou de bem­estar para uma pessoa (Simo Algado et al., 2002).
É importante abordar o direito das populações marginalizadas, como as pessoas com incapacidades, doença
mental e os idosos, a experimentar a espiritualidade e de praticar uma religião (Eisland & Saliers, 1998; Koenig,
George  &  Peterson,  1998;  Richards,  1990).  Estas  questões  de  acesso  às  ocupações  como  um  direito  humano
fundamental estão relacionadas com os princípios de justiça ocupacional e espiritualidade (Wilcock, 2001).
Explorar  as  raízes  históricas  da  terapia  ocupacional  revela  traços  da  espiritualidade  desde  a  fundação  da
profissão.  O  tratamento  moral  influenciou  os  fundadores  da  terapia  ocupacional  no  início  do  século  XX
(Bockhoven, 1971). Os defensores do tratamento moral valorizavam ideais como o holismo, o humanismo e o
reconhecimento  de  que  o  uso  de  mente,  corpo  e  espírito  por  meio  da  ocupação  promovia  saúde  e  gerava
significado para a vida (Meyer, 1922/1977). Nos anos 1920 e 1930, a Medicina criticou a terapia ocupacional
por sua falta de fundamentação teórica em princípios científicos (Gritzer & Arluke, 1989). Em uma tentativa de
legitimizar  a  profissão,  os  terapeutas  ocupacionais  adotaram  modelos  reducionistas  ao  longo  dos  anos  1950,
minimizando  assim  a  ênfase  sobre  o  reconhecimento  do  espírito  humano  como  expresso  na  ocupação  (Yerxa,
1992). Em 1962, Reilly expressou preocupação de que a visão reducionista da terapia ocupacional poderia não
compreender  o  papel  que  a  ocupação  poderia  desempenhar  na  facilitação  da  saúde.  As  palavras  de  Reilly
mostraram  ser  um  catalisador  para  o  ressurgimento  da  perspectiva  holística  que  valorizava  a  espiritualidade
como um conceito central da terapia ocupacional (Atler, Fisher, Moret & White, 2000).
No final do século XX, a Canadian Association of Occupational Therapy (CAOT) integrou explicitamente a
espiritualidade nas teorias  sobre  a  prática  centrada  no  cliente  e  sobre  o  desempenho ocupacional, colocando a
espiritualidade  no  centro  das  construções  teóricas  da  ocupação  que  norteiam  a  prática  da  terapia  ocupacional
(CAOT, 1991, 1997). Nos Estados Unidos, a AOTA, em 1997, devotou toda uma edição do American Journal of
Occupational Therapy ao tema da espiritualidade. A espiritualidade ganhou inclusão na Occupational Therapy
Practice Framework (AOTA, 2002) como um contexto para a ocupação, introduzindo o reconhecimento oficial
da importância da espiritualidade para a terapia ocupacional nos Estados Unidos.

EXPERIMENTANDO A ESPIRITUALIDADE POR MEIO DA OCUPAÇÃO
A  capacidade  de  uma  pessoa  criar  e  experimentar  uma  profunda  sensação  de  significado  por  meio  da
participação na ocupação torna a espiritualidade atrativa. Embora a espiritualidade possa ser experimentada fora
da ocupação, engajar­se na ocupação é o mecanismo mais comum e efetivo para essas experiências porque é por
meio  do  engajamento  ocupacional  que  a  espiritualidade  se  torna  mais  tangível.  Peloquin  (1997)  refere­se  à
ocupação como um ato de construção que representa uma extensão e animação do espírito humano:

Ver tal construção radical nas ações que comumente denominamos fazer atividades propositais, realizar as tarefas e pa
péis  da  vida,  adaptar­se  ao  ambiente,  ajustar­se  à  incapacidade  e  atingir  as  habilidades  ou  o  domínio  é  discernir  a
profundidade espiritual da ocupação. (p. 167)

Relacionar a ocupação e a espiritualidade à noção de “construção” implica uma abordagem fluida e ativa do
fenômeno. Ao construir, uma pessoa expressa concretamente as realidades abstratas, embora vitais, da vida. Esta
expressão, embora invariavelmente interligada ao mundo social, é essencialmente criada e interpretada internamente
por cada indivíduo. Estas representações internas sobre o significado da realidade e do mundo levam as pessoas a
organizar as ocupações para expressar tais significados (Kroeker, 1997).
As tendências na sociedade ocidental significam passar das práticas direcionadas pela religião organizada para
a construção pessoal de práticas que construam a vida espiritual (Wuthnow, 1998). McColl (2002) afirma que,
diante da erosão do significado do trabalho a partir da industrialização e da prevalência do pluralismo secular na
sociedade moderna, a ocupação “pode ser o meio mais efetivo disponível pelo qual as pessoas podem afirmar
sua  conexão  consigo  próprias,  com  os  outros,  com  o  cosmo  e  com  o  divino”  (p.  352).  A  organização  e  o
engajamento  na  ocupação  cotidiana  têm  o  potencial  de  ajudar  as  pessoas  a  satisfazer  uma  necessidade
fundamental para a expressão espiritual. Por exemplo, para o executivo atarefado participar de uma aula de ioga,
receber  uma  massagem  ou  fazer  uma  caminhada  poderia  atender  ao  importante  papel  vital  de  facilitar  suas
experiências de espiritualidade.

Fatores Contextuais
As  experiências  contextuais  por  meio  da  ocupação  são  dependentes  de  e  vulneráveis  a  diversos  fatores
contextuais,  incluindo  o  mundo  físico  e  social.  O  simbolismo  é  um  nexo  potente  do  construir­significar
intrínseco a esses fatores contextuais (Fine, 1999). Locais, objetos e comunidades detêm significados simbólicos
para os indivíduos que são informados pela história do passado, tanto individual como da comunidade (Holland,
Lachicotte, Skinner & Cain, 1998).
O  mundo  físico  pode  servir  para,  potencialmente,  facilitar  ou  impedir  as  experiências  espirituais  (Jackson,
1996).  Muitas  pessoas  relatam  experiências  de  espiritualidade  por  meio  das  ocupações  na  natureza,  como
escalada  de  montanha,  pesca  com  vara  em  rios  ou  caminhadas  ao  longo  da  praia.  Construir  espaços  como
igrejas, casas e outras construções serve para refinar e tornar mais vívidos o sentimento humano, a percepção e a
compreensão  da  realidade  (Tuan,  1977).  Ao  experimentar  tais  espaços  e  os  objetos  dentro  dele,  uma  pessoa
percebe uma sensação de lugar que é “um mundo de significado organizado” (Tuan, 1977, p. 179). Por exemplo,
uma casa cheia de lembranças das reuniões de família e decorada com peças especiais de arte e fotografias dos
entes queridos pode fornecer o suporte para a experimentação da espiritualidade por meio das ocupações que são
executadas dentro desse espaço. A reunião em torno de uma mesa arrumada com as toalhas da avó e cerâmicas
feitas  por  amigos,  iluminada  com  velas  quando  os  amigos  chegam  para  compartilhar  uma  refeição,  marca  o
evento como tendo significado e importância espirituais especiais. Embora a casa possa permitir experiências de
espiritualidade a uma pessoa, para outra a casa poderia ser um local de lembranças e de relacionamentos tensos.
Para  uma  mulher  que  é  fisicamente  abusada  por  seu  marido  na  privacidade  de  sua  casa,  as  experiências  de
ocupação dentro de sua casa podem mostrar pouco potencial para a experiência espiritual.
O mundo social pode influenciar significativamente a experiência espiritual porque o significado é construído
tanto  de  forma  pessoal  como  social  (Hasselkus,  2002).  Assim,  as  tentativas  para  compreender  a  experiência
espiritual envolvem olhar para o agente da ocupação em relação aos mundos social e cultural do engajamento.
Engajar­se nas ocupações com outros, ou em ocupação concomitante (Zemke & Clark, 1996), pode potencializar
a  probabilidade  de  uma  experiência  espiritual.  As  religiões  reconhecem  a  importância  de  que  praticantes
professem sua fé junto a outros como um meio de suporte mútuo e de afirmação da crença (Howard & Howard,
1997).  Ocupações  comuns  como  frequentar  eventos  esportivos,  concertos  ou  protestos  políticos,  bem  como
celebrações familiares, como casamentos ou formaturas, podem ser ambientes ricos para a experiência espiritual.

A Centralidade da Reflexão e da Intenção
A  experiência  espiritual  também  se  fundamenta  na  reflexão  e  na  intenção  pessoais.  A  reflexão  refere­se  à
exploração do mundo interior da pessoa e envolve necessariamente o reconhecimento de sentimentos, emoções e
motivações para agir. A reflexão também se torna um instrumento de interpretação que pode levar a separar um
conjunto  de  experiências  espirituais  como  diferentes  da  vida  cotidiana,  algo  especial  ou  transcendental  (Bell,
1997).  A  intenção  envolve  um  permeio  consciente  do  significado  ou  o  direcionamento  da  experiência
ocupacional  no  sentido  de  algo  como  um  valor,  crença  ou  ideologia.  A  reflexão  ou  a  intenção  em  uma
experiência  ocupacional  não  precisa  ser  necessariamente  rotulada  como  “espiritual”;  pelo  contrário,  pode  ser
sentida como profundamente satisfatória ou significativa.
As  ocupações  que  exigem  criatividade  por  parte  de  uma  pessoa  oferecem  a  oportunidade  para  níveis
profundos  de  reflexão,  intenção  e,  por  fim,  experiência  espiritual.  Kidd  (1996),  tratando  de  criatividade  e
espiritualidade, diz, “minha vida criativa é minha maior prece” (p. 123). Cameron (1992) compartilha uma visão
semelhante do entrelaçamento da espiritualidade e da criatividade,

A criatividade é uma experiência – a meu ver, uma experiência espiritual. Não importa a maneira que você pense sobre
ela:  a  criatividade  levando  à  espiritualidade  ou  a  espiritualidade  levando  à  criatividade.  Na  realidade,  não  faço  uma
distinção entre as duas. (p. 2)

Impregnar a ocupação com a criatividade permite a expressão dos estados internos de natureza espiritual inata
(Simo  Algado  et  al.,  2002).  Embora  as  ocupações  artísticas  como  pintar,  fazer  cerâmica  ou  escrever  poesia
mostrem  alto  potencial  para  a  experiência  espiritual,  várias  outras  ocupações  cotidianas  também  podem  estar
repletas  de  criatividade  (Hasselkus,  2002).  Ocupações  como  cozinhar,  conversar  com  outros  ou  planejar  uma
festa, juntamente com inúmeras outras, podem ser ocupações em que a criatividade é expressa.

Engajamento Ocupacional
Nem todas as ocupações são experimentadas como espirituais, mas todas as ocupações têm o potencial para ser
espirituais.  Embora  as  pessoas  frequentemente  nomeiem  as  ocupações  oriundas  das  tradições  religiosas  como
espirituais,  a  experiência  vivida  nestas  ocupações  poderia  não  ser  espiritual.  As  ocupações  cotidianas  como
trabalhar,  caminhar  com  o  cachorro  ou  cuidar  dos  jardins  poderiam  ser  experimentadas  como  espirituais,  mas
provavelmente não seriam nomeadas como religiosas (Howard & Howard, 1997; Unruh, 1997). As ocupações
que são intensamente significativas para a pessoa, imbuídas de reflexão pessoal e intenção, e realizadas em um
ambiente  contextual  de  suporte  proporcionam  o  mais  elevado  potencial  para  a  experiência  espiritual.  Kidd
(1996) descreve a natureza flexível da espiritualidade em meio a detalhes de uma manhã corriqueira:

Levantei para fazer café. Caminhei até a porta e parei. Quando olhei para trás, vi minha vida brilhando em cada objeto
comum. Eu fui tomada pelo mesmo sentimento que sinto sempre que vejo o mar – a sensação de que é muito para se ver,
muito bonito, muito para sentir – e eu me sinto preenchida por um pulsante amor por ele. Em um instante, o momento
havia  passado  e  eu  estava  descendo  as  escadas,  caminhando  para  a  cozinha,  em  um  dia  de  coisas  pequenas,  simples  e
desinteressantes,  e  de  algum  modo  nada  parecia  mais  sagrado  para  mim  do  que  apenas  estar  ali,  sendo  eu  mesma,  em
meio  a  tudo.  Certos  momentos  não  são  tão  comuns  para  mim  como  eu  poderia  desejar.  Mas  quando  eles  surgem,  me
fazem  desejar  me  relacionar  com  meu  espaço  habitual  –  meu  trabalho,  minha  família  e  meus  amigos,  e  todas  as
obrigações mundanas – de maneira mais autêntica. (p. 222)

As  demandas  das  atividades  rotineiras  que  devem  ser  realizadas  algumas  vezes  bloqueiam  a  capacidade  de
refletir, de ser intencional e de encontrar significado profundo em um momento (Norris, 1998).
Com  frequência,  as  pessoas  entendem  rituais  como  espirituais  e,  ao  longo  da  história,  muitas  atividades
corriqueiras, como servir alimentos, têm sido utilizadas em rituais (Bell, 1997). Em comum nas compreensões de
rituais estão os preceitos de repetição, fixação e predição que estão usualmente intrínsecos na prática da religião
(Hasselkus, 2002). Fora da religião, qualquer ocupação pode assumir características ritualísticas de formalismo,
tradição,  invariabilidade,  simbolismo  e  desempenho  sagrados.  São  estas  características  que  diferenciam  a
experiência  sagrada  dos  aspectos  mais  mundanos  da  vida  (Bell,  1997).  Dependendo  do  engajamento  de  um
indivíduo,  uma  ocupação  como  tomar  um  banho  poderia  ser  experimentada  como  espiritual  devido  às
características  ritualísticas.  Bell  reconhece  a  importância  de  desempenhos  semelhantes  a  rituais,  porque  eles
“comunicam­se com múltiplos níveis sensoriais, usualmente envolvendo intensamento o imaginário visual, sons
dramáticos  e,  por  vezes,  até  mesmo  a  estimulação  tátil,  olfativa  e  gustativa”  (p.  160).  Por  exemplo,  o
engajamento  em  ocupações  para  a  celebração  de  um  dia  sagrado  com  suas  práticas  rituais  associadas,
envolvendo  alimentos  e  determinadas  ações,  oferece  a  possibilidade  da  experiência  espiritual  ao  agrupar
aspectos pessoais, familiais, sociais, religiosos e culturais da vida (Luboshitzky & Gaber, 2001).

INTEGRANDO A ESPIRITUALIDADE À PRÁTICA DA TERAPIA OCUPACIONAL
Como uma profissão baseada em valores holísticos e humanistas, a terapia ocupacional tem a oportunidade única
de  ajudar  os  clientes  a  restaurar  o  significado  de  suas  vidas,  uma  tarefa  de  importância  vital  e  essencialmente
espiritual.  Embora  a  maioria  dos  terapeutas  ocupacionais  reconheça  a  espiritualidade  como  um  aspecto
importante da vida, integrar a perspectiva espiritual à prática da terapia ocupacional mostra­se problemática por
causa de sua ambiguidade e da grande diversidade de compreensão desse conceito entre os terapeutas (Enquist et
al.,  1997).  Da  mesma  maneira,  à  luz  do  estímulo  para  a  prática  baseada  em  evidência,  a  inclusão  da
espiritualidade  no  núcleo  do  desempenho  ocupacional  torna­se  cada  vez  mais  controversa  (Unruh,  Versnel  &
Kerr,  2002).  Estes  desafios  levam  à  ambiguidade  de  papel  e  a  uma  falta  de  confiança  na  abordagem  da
espiritualidade na prática, apesar da necessidade reconhecida de sua inclusão (Belcham, 2004). Como indicado
por Howard e Howard (1997), “os terapeutas ocupacionais não precisam olhar além de instrumentos, teorias e
valores da profissão para proporcionar um contexto para reconhecimento da espiritualidade na clínica” (p. 185).
Se  a  espiritualidade  é  uma  experiência  profunda  do  significado,  vivenciada  por  meio  do  engajamento
ocupacional,  então  as  estratégias  de  tratamento  da  terapia  ocupacional  que  conservam  o  holismo  por  meio  de
técnicas baseadas na ocupação e centradas no cliente provavelmente promoverão a saúde e o bem­estar espiritual
desses clientes.
Reconhecendo a dificuldade para integrar a espiritualidade à prática, Egan e Swedersky (2003) identificaram
quatro estratégias utilizadas por terapeutas ocupacionais que alcançaram com sucesso esta integração:
Abordar as preocupações religiosas dos clientes
Auxiliar os clientes no enfrentamento do sofrimento
Ajudar os clientes a reconhecer seu próprio valor e sua eficácia
Reconhecer as próprias transformações produzidas pelo trabalho com os clientes
A  integração  da  espiritualidade  à  prática  começa  com  o  profissional  da  terapia  ocupacional  (Townsend  et  al.,
1999).  Os  profissionais  precisam  considerar  sua  própria  compreensão  da  espiritualidade  e  como  sua
espiritualidade afeta as suas ocupações e experiências. Além disso, este processo de autorreflexão pode levar ao
reconhecimento  de  tendências  ou  crenças  pessoais  que  poderiam  interferir  na  abertura  fundamentalmente
necessária para as diferentes crenças e experiências dos clientes. A autorreflexão também ajuda na necessidade
ética  importante  para  que  os  tratamentos  terapêuticos  sejam  compatíveis  com  a  vida  espiritual  do  cliente,  não
com a do terapeuta (Rosenfeld, 2001). Aqueles que praticam o uso terapêutico do “eu” por meio de audiência
ativa,  empatia,  tolerância,  aceitação  incondicional  e  flexibilidade  em  relação  aos  desejos  e  às  necessidades  do
cliente demonstram uma abordagem espiritual para a interação terapêutica.
Muitos clientes da terapia ocupacional experimentaram rupturas e a perda das ocupações por meio das quais
eles  experimentam  a  espiritualidade  e  o  significado.  Valorizando  as  experiências  subjetivas  dos  clientes  nos
processos de avaliação, estabelecimento de metas e planejamento do tratamento, o profissional consegue integrar
a  espiritualidade  à  prática  e,  provavelmente,  aumentará  a  motivação  do  cliente  (Townsend  et  al.,  1999).
Instrumentos  como  a  Canadian  Occupational  Performance  Measure  (Medida  Canadense  de  Desempenho
Ocupacional)  permitem  uma  abordagem  centrada  no  cliente  e  baseada  na  ocupação  que  consegue  abordar  as
necessidades espirituais pela integração ativa do cliente nas fases de avaliação e tratamento (Law et al., 1994).
Uma abordagem de terapia ocupacional centrada no cliente que traga a espiritualidade para a prática requer
atenção rigorosa à cultura do cliente (Simo Algado et al., 2002), bem como à forma, à função e ao significado
das  ocupações  utilizadas  no  tratamento  (Larson,  Wood  &  Clark,  2003).  Por  vezes,  os  profissionais  se  sentem
desconfortáveis  em  integrar  as  ocupações  religiosas  dos  clientes  ao  tratamento.  Quando  estas  ocupações  são
aspectos importantes da vida diária de um cliente, as ocupações religiosas como a prece ou a leitura de textos
sagrados podem ser integradas às sessões de tratamento como ocupações profundamente significativas. Abordar
a  cultura  pode  exigir  aprender  mais  sobre  rituais  e  tradições  religiosas  diferentes  da  exposição  ou  experiência
religiosa  do  próprio  profissional.  O  representante  da  religião  do  cliente,  bem  como  os  familiares,  pode  servir
como  recurso  para  o  profissional  aumentar  a  competência  cultural  e  religiosa  (Rosenfeld,  2001).  Para  clientes
que estão lidando com um trauma emocional, as ocupações que incentivam a reflexão e a expressão dos estados
internos,  como  contar  histórias  ou  atividades  artísticas,  podem  proporcionar  a  oportunidade  para  introversão  e
enfrentamento espiritual (Simo Algado et al., 2002).

CONCLUSÃO
O rico conceito da espiritualidade fornece aos terapeutas ocupacionais um valioso instrumento para compreender
o  significado  profundo  do  engajamento  na  ocupação.  Importante  para  a  saúde  e  o  bem­estar  dos  clientes,  a
integração da espiritualidade à prática da terapia ocupacional dá relevância para a meta da profissão de fornecer
o cuidado centrado no cliente e baseado na ocupação.

QUESTÕES INSTIGANTES
1. Como  você,  pessoalmente,  define  a  espiritualidade?  Quais  experiências  de  vida  ou  ocupações  você
chamaria de espirituais?
2. Pense em sua ocupação preferida. Como você se sente quando a está realizando? Como você se sentiria se
você não mais pudesse realizá­la?
3. Pense em seus locais preferidos. Como você se sente quando está neles? O que os torna especiais para você?
4. Traga um de seus objetos especiais para compartilhar com a turma. Por que ele é especial para você? Como
você se sente quando o observa?
5. Em que ocupações você se engaja para abordar suas necessidades espirituais?
6. Quais valores levaram você a escolher a terapia ocupacional como sua profissão?
7. Conte a história de sua vida a partir da perspectiva espiritual.

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A Narrativa Como a Chave para a
Compreensão
ELIZABETH BLESEDELL CREPEAU
E ELLEN S. COHN

Sumário
Narrativa e História
A Narrativa como um Processo Interpretativo
O Papel da Narrativa na Prática da Terapia Ocupacional
Contar Histórias
Criar Histórias
Conclusão

Objetivos de Aprendizagem
Após a leitura deste capítulo, você será capaz de:

1. Explicar por que ouvir as histórias dos clientes é um componente essencial da prática da terapia
ocupacional.
2. Explicar a relação entre experiência, narrativa e o processo interpretativo.
3. Discutir os tipos de narrativa.
4. Descrever o papel das narrativas na prática da terapia ocupacional.

P
ense nos últimos dias. Quantas vezes você narrou uma história sobre uma experiência sua? Quantas vezes
você  ouviu  uma  história  contada  por  um  amigo  ou  familiar?  O  tempo  todo  nós  contamos  histórias  sobre
coisas  que  fizemos  ou  que  aconteceram  conosco  e  com  os  outros  como  uma  maneira  de  compartilhar  e
interpretar  nossa  experiência.  Na  realidade,  poderíamos  ser  chamados  de  Homo  narratus,  em  lugar  de  Homo
sapiens, por causa da centralidade da narrativa de histórias para a experiência humana (Fisher, 1984). Algumas
pessoas  são  melhores  contadoras  de  história  que  outras.  Bons  contadores  de  história  podem  infundir  às  suas
narrativas tensão, drama e suspense, mas, independente de como a história seja contada, é da natureza humana
compartilhá­la com os outros. Por conseguinte, não constitui surpresa que os clientes de terapia ocupacional e
seus familiares tenham histórias para contar sobre suas experiências com a lesão, a doença ou a incapacidade.
Esta  unidade  é  dedicada  a  essas  histórias,  escritas  pelas  próprias  pessoas,  seus  familiares  ou  terapeutas
ocupacionais que incorporam a perspectiva de narrativa ao seu trabalho com os clientes. O fato de devotarmos
uma  unidade  inteira  a  essas  narrativas  indica  a  importância  das  perspectivas  da  narrativa  das  pessoas  que
procuram  a  terapia  ocupacional  e  como  a  narrativa  essencial  consiste  na  totalidade  do  processo  da  terapia
ocupacional.
Nos  anos  1980,  os  cientistas  sociais  redescobriram  o  significado  da  narrativa  como  um  meio  para
compreender a experiência humana e houve crescente interesse nas histórias dos pacientes nas áreas de cuidado
da  saúde  (J.  A.  Clark  &  Mishler,  1992;  Kleinman,  1980;  Mishler,  1984;  Polkinghorne,  1988).  O  interesse  nas
histórias  dos  pacientes  sobre  suas  experiências  de  viver  com  a  doença  surgiu  a  partir  de  uma  abordagem
“desumanizada”  e  altamente  tecnológica  para  o  cuidado  da  saúde  que  carecia  de  atenção  suficiente  para  os
aspectos  humanos  da  experiência.  A  “volta  à  narrativa”  na  terapia  ocupacional  aconteceu  na  metade  dos  anos
1980,  quando  uma  antropóloga,  Cheryl  Mattingly,  dirigiu  o  AOTA/AOTF  Clinical  Reasoning  Sudy  (Estudo
sobre o Raciocínio Clínico da AOTA), um estudo etnográfico de terapeutas ocupacionais em um grande hospital
de  ensino  (Mattingly,  1994;  Mattingly  &  Fleming,  1994).  Mattingly  e  a  equipe  de  pesquisa  utilizaram  a
observação, as entrevistas com terapeutas e clientes e as sessões de terapia ocupacional gravadas em vídeo para
analisar  e  descobrir  as  histórias  que  emergiram  durante  o  tratamento  de  terapia  ocupacional.  Em  suas
observações dos terapeutas durante todo o dia de trabalho, Mattingly notou que eles utilizavam diferentes formas
de conversa para debater seu trabalho com os clientes. Os terapeutas utilizavam o que Mattingly descrevia como
a “conversa padrão”, um registro de relato formal que ocorria tipicamente durante as reuniões de equipe e em
outras  situações  estruturadas  para  descrever  os  aspectos  técnicos  e  reembolsáveis  do  atendimento.  Em
contrapartida,  os  terapeutas  contavam  histórias  durante  o  almoço  e  em  outros  momentos  para  descrever  os
aspectos  mais  ricos  e  interpretativos  de  suas  interações  significativas  com  os  clientes.  Estas  histórias  tinham
todos os elementos que devemos esperar de uma história: cenário, drama, suspense, ação e uma moral ou lição.
O  trabalho  de  Mattingly  legitimou  a  narração  de  histórias  como  um  processo  interpretativo  que  ajuda  os
terapeutas a dar sentido às suas experiências. O influente trabalho de Mattingly focalizou a atenção sobre o valor
de  os  terapeutas  ouvirem  as  histórias  dos  clientes  e  explicou  como  os  clientes  e  os  profissionais  de  terapia
ocupacional criam, de modo colaborativo, novas ou diferentes narrativas de vida “significativas” no contexto de
viver  com  uma  doença  ou  incapacidade.  Ela  introduziu  a  ideia  de  que  o  próprio  tratamento  de  terapia
ocupacional envolvia um processo “narrativo” em que a terapia é cenário dramático para transformar o momento
em um caminho para a recuperação, a cura ou um novo potencial, enquanto se vive com uma doença.
Desde então, uma quantidade significativa de pesquisa em terapia ocupacional examinou a narrativa a partir
das  perspectivas  dos  clientes  (Braveman  &  Helfrich,  2001;  Jonsson,  Kielhofner  &  Borell,  1997;  Knutas  &
Borell, 1995; Price­Lackey & Cashman, 1996), suas famílias (Cohn, 2001; Kautzmann, 1993) e seus terapeutas
(Labovitz, 2003; Mattingly, 1991). A volta à narrativa ainda influenciou a pesquisa sobre encontros (Boje, 1991;
Schwartzman,  1998)  e  reuniões  de  equipe  de  cuidados  de  saúde  (Atkinson,  1995,  1997;  Griffiths  &  Hughes,
1994; Opie, 1997) e como o contar histórias influencia o raciocínio clínico dos membros da equipe (Crepeau,
1994, 2000).

NARRATIVA E HISTÓRIA
Existem  inúmeras  maneiras  para  definir  narrativa  e  história.  Em  algumas  tradições,  principalmente  na  teoria
literária,  narrativa  e  história  referem­se  a  fenômenos  distintos.  No  entanto,  neste  capítulo,  utilizaremos
narrativa  e  história  de  modo  equivalente  (como  fizeram  Hamilton,  2008;  Mattingly  &  Garro,  2000;  e
Polkinghorne,  1988).  Na  fala  cotidiana,  as  histórias  são  bastante  comuns,  talvez  tão  “naturais”  que  elas  não
necessitam  de  explicação.  Embora  comuns,  as  histórias  são  incrivelmente  complexas  e  bastante  difíceis  de
descrever. De um modo muito básico, as histórias associam­se à ação e oferecem uma maneira para dar sentido
às experiências. Ao associarem a narrativa, o ato e a consequência, as histórias nos oferecem janelas para a vida
social  e  o  caráter  humano.  Alguns  teóricos  literários  defendem  que,  por  meio  de  uma  cadeia  de  eventos,  as
histórias  oferecem  explicações  causais  dos  eventos.  Neste  capítulo,  utilizaremos  a  definição  de  Mattingly:
“histórias  são  sobre  alguém  tentando  fazer  alguma  coisa,  e  o  que  acontece  a  essa  pessoa  e  aos  outros  como
consequência” (Mattingly, 1998, p. 7). Considere um trecho do capítulo de Alex McIntosh (veja o Capítulo 12).
A  história  de  Alex  apresenta  inúmeros  aspectos  que  tornam  as  histórias  particularmente  atraentes  para
compreender  suas  experiências  de  viver  com  paralisia  cerebral.  A  história  de  Alex  é  centrada  no  evento,
preocupa­se com a ação e a interação humanas e inclui os aspectos sociais do comportamento humano. Como
narrador  dessa  história,  Alex  sabe  o  final  e  seleciona  cuidadosamente  os  detalhes  relevantes  para  direcionar
nossa atenção para seu cenário. Ele narra a história de uma maneira particular para transmitir sua mensagem e,
por  fim,  comunicar  ao  leitor  que  ele  tem  uma  imaginação  extraordinária  e  que  caminhar  com  muletas  é
secundário para o que ele é como pessoa. Sua história tem uma mensagem moral mais profunda: a história de
Alex  nos  ensina  que  as  ideias  das  pessoas  sobre  incapacidade  não  são  racionalmente  determinadas,  mas
socialmente construídas. Alex nos mostra que uma incapacidade é determinada pelas expectativas sociais, e não
pelas condições diagnósticas.
Nessa  história,  Alex  diz  o  que  aconteceu  a  ele  e  como  ele  e  sua  mãe  compartilharam  um  segredo  não
confessado sobre a construção social de uma mulher ingênua e a compreensão de quem realmente Alex é.

Quando  eu  tinha  aproximadamente  7  anos  de  idade,  estava  firmemente  convencido  de  que  era  um  lobisomem.  Nunca
tinha  sofrido  realmente  nenhuma  modificação  física  na  lua  cheia,  mas  crianças  com  7  anos  de  idade  não  se  preocupam
com estas trivialidades. O máximo era que minhas muletas agiam como um segundo par de pernas e, embora quando as
usasse  nunca  pudesse  realmente  correr  como  um  lobo,  eu  fazia  isto  com  um  tipo  de  salto  de  galope.  Apesar  disso,  era
rápido  o  suficiente  (para  mim)  para  reforçar  as  fantasias  de  correr  suavemente  pela  floresta  sobre  patas  silenciosas,
procurando uma presa insuspeita.
    O termo técnico para a condição de ser um lobisomem é licantropia, derivado do mítico rei grego Lycaon, a quem o
deus Zeus transformou em lobo como punição por sua tirania. Conheci a palavra aos 7 anos, tendo lido todos os livros
sobre lobisomens que podia encontrar e compreender. Eu ficava orgulhoso por me declarar um licantropo a qualquer um
que encontrasse.
    Em um dia daquele ano, minha mãe, meu irmão mais novo e eu assistíamos a uma corrida de barcos, cujo objetivo era
permitir que ricos proprietários de iates angariassem dinheiro para os incapacitados. Eu estava pulando na entrada do iate
clube  onde  o  evento  estava  ocorrendo,  dando  uivos  longos,  pesarosos  e  estridentes,  como  o  próprio  lobisomem  faria.
Minha mãe estava em um canto com meu irmão, tentando fingir que eu era mais que uma criança.
        Uma  proprietária  de  barco  me  viu  e  disse,  “Olhe  para  você,  está  se  saindo  tão  bem.  Qual  é  a  sua  incapacidade,
querido?
    “Tenho licantropia!”, disse, radiante.
    Alguns minutos depois, ela estava conversando com minha mãe e disse, “Acabei de conhecer seu filho. Que menino
agradável. É tão triste que ele tenha licantropia.”
    Minha mãe sorriu. “Hum, acho que existe uma coisa que você deve saber...”
    Isto é o que acontece às pessoas que não têm consciência da incapacidade.

Alex,  agora  aos  20  anos  de  idade,  começa  sua  história  orientando­nos  quanto  aos  personagens  e  locais,
descrevendo­se em uma idade mais jovem. Esta história em particular tem uma função de referência. Ao contar
sobre  coisas  que  aconteceram  a  elas  e  aos  outros,  as  pessoas  conectam  sua  experiência  ao  mundo  além  delas
mesmas e propiciam uma visão retrospectiva sobre eventos passados. Alex, um menino de 7 anos de idade que,
utilizando suas próprias palavras, “nunca realmente poderia realizar uma determinada marcha, transforma­se em
um lobo, “correndo suavemente pela floresta, movendo­se furtivamente à procura de uma presa insuspeita” (a
proprietária  de  barco)  para  descrever  ao  leitor  quem  ele  é  e  o  que  ele  é  neste  mundo.  Alex  transformou­se,
imaginariamente, de um jovem menino caminhando de muletas em um lobisomem “pulando” e “uivando” pelo
lobby da entrada. Ele comunica sua experiência, aquela em que ele não é uma criança com incapacidade, mas um
menino  esperto  e  competente  fazendo  um  truque  e,  talvez,  educando  um  adulto  que  não  compreende
“incapacidade”. Alex nos leva para dentro de sua fantasia de lobisomem como uma maneira de comunicar sua
experiência.  Assim,  o  momento  de  narrativa  nesta  história  não  está  nela  em  si  e  não  tem  palavras.  Apenas
podemos  imaginar  o  prazer  irônico  que  Alex  e  sua  mãe  compartilharam  em  suas  palavras  não  ditas,  “Se  ela
apenas soubesse”. A finalização de Alex cria uma experiência para nós, a audiência, e nos permite deduzir algo
sobre  o  que  é  se  sentir  em  seu  mundo.  É  válido  contar  a  história  de  Alex  porque  ela  transmite  ao  leitor  um
resultado  particular  que  ele  acredita  ser  importante  que  nós  compreendamos.  Podemos  compartilhar  a  alegria,
imaginar como seria se divertir ao mesmo tempo que ensinamos aos outros que Alex é uma criança criativa e
inteligente que, por acaso, utiliza muletas.
Aprendemos  muito  sobre  Alex  em  sua  história.  Sabemos  que  ele  tem  uma  imaginação  fértil,  que  amava  a
leitura desde muito jovem e que é um eficiente contador de histórias, que pode incorporar o drama, a comédia e
a  ironia  em  sua  narrativa  da  história.  Ao  ouvir  as  histórias  de  nossos  clientes,  podemos  compreender  a
interpretação de suas experiências e começar a perceber quem eles são como indivíduos, suas experiências de
doença ou incapacidade, e como esta experiência modelou suas ocupações diárias. O processo interpretativo de
contar  histórias  ajuda  a  diferenciar  nossos  clientes  uns  dos  outros,  mesmo  aqueles  com  histórias  médicas  e
sociais  muito  semelhantes.  Embora  possamos  trabalhar  com  muitos  clientes  com  o  mesmo  diagnóstico,  as
experiências por eles vividas e as histórias que eles contam sobre suas vidas serão tão importantes quanto seus
problemas ocupacionais particulares na modelagem da maneira com que trabalharemos com eles para planejar e
implementar seus tratamentos de terapia ocupacional.
A NARRATIVA COMO UM PROCESSO INTERPRETATIVO
Criar  histórias  ou  narrativas  é  um  processo  interpretativo  que  envolve  selecionar  aspectos  de  uma  experiência
passada  e  representar  essa  experiência  para  os  outros  no  presente  (Bruner,  1986,  1990,  1991).  Como  contar
histórias  é  um  processo  interpretativo,  a  maneira  pela  qual  um  indivíduo  interpreta  o  passado  pode  ser
fortemente influenciada por circunstâncias atuais. Isto não significa que contar histórias seja uma invencionice;
ao  contrário,  as  histórias  são  construídas  para  apresentar  uma  interpretação  coerente  do  passado  à  luz  do
presente.
A partir da organização de Reissman (1993) dos múltiplos níveis de representação da experiência na análise
da narrativa, propomos que os capítulos nesta unidade tenham vários níveis de representação. Estes níveis são
(1) a atenção do autor para a experiência no momento, (2) a narração desta experiência ao escrever o capítulo,
(3)  o  processo  editorial  e  (4)  a  interpretação  derivada  da  leitura  do  capítulo.  Em  primeiro  lugar,  da  mesma
maneira que Alex foi seletivo, outros não conseguem observar tudo no ambiente; em vez disso, selecionam o que
é importante ou significativo para eles naquele momento, que então é disponibilizado para uma futura história.
Em  segundo  lugar,  pedimos  aos  autores  dos  capítulos  que  contassem  suas  histórias  de  modo  que  você  tenha
acesso.  Ao  fazer  isto,  eles  ordenaram  e  interpretaram  eventos  para  criar  um  relato  coerente  que  você,  como
leitor, possa compreender. Como eles foram solicitados a escrever sobre suas experiências para alunos de terapia
ocupacional,  suas  histórias  são  contadas  a  partir  desse  ponto  de  vista.  Seus  capítulos  poderiam  ter  um  foco
diferente se eles estivessem escrevendo para um público diferente. Neste sentido, os capítulos são “construídos”
para  um  determinado  propósito,  transmitir  suas  experiências  para  leitores  que,  algum  dia,  estarão  trabalhando
com  pessoas  que  podem  ter  tido  experiências  semelhantes  com  doença  ou  incapacidade.  Assim,  os  capítulos
estão posicionados de modo a refletir a experiência a partir de uma determinada lente interpretativa: “deixe­me
contar  a  você  a  minha  história,  de  modo  que  você  compreenda  a  experiência  de  seus  futuros  clientes.”  Na
realidade,  alguns  autores  terminam  seus  capítulos  se  dirigindo  diretamente  a  vocês  como  futuros  terapeutas
ocupacionais, de modo a se certificar de que vocês compreendem a importância de sua mensagem. O terceiro
nível do processo envolve a edição do capítulo, o que pode modelar ainda mais a história. Como editoras destes
capítulos,  tentamos  manter  a  perspectiva  dos  autores  enquanto  os  ajudamos  a  dar  clareza  e  ordem  ao  que
escrevem.  Este  é  um  processo  delicado  porque,  ao  editar,  corremos  o  risco  de  mudar  a  representação  de  suas
experiências de acordo com nosso modelo. Por fim, você trará seu próprio processo interpretativo para a leitura
destes capítulos com base em sua própria experiência de vida.
Contar  histórias  é  importante.  Sabíamos  disto  quando  decidimos  ter  narrativas  pessoais  nesta  edição  do
Willard & Spackman  –  Terapia  Ocupacional.  Contudo,  trabalhar  com  os  autores  deste  capítulo  lembrou­nos  a
importância  das  narrativas  do  mesmo  modo  que  os  autores  nos  lembraram  do  valor  de  os  próprios  autores
escreverem  suas  narrativas.  Laurie  McIntosh  declarou  que  o  capítulo  que  ela  escreveu  com  seu  filho  e  seu
marido  (Capítulo  12)  os  ajudou  a  compreender  a  individualidade  de  suas  perspectivas  –  ser  uma  criança  com
uma  incapacidade,  ser  a  mãe  da  criança  ou  ser  o  pai  da  criança.  Escrever  o  capítulo  proporcionou  uma
oportunidade de refletir sobre suas experiências individuais de criar Alex a partir de uma perspectiva de sua ida
para a universidade, um importante marco do desenvolvimento. Caso eles revisem este capítulo para a próxima
edição do Willard & Spackman – Terapia Ocupacional, eles poderão interpretar de modo diferente a infância de
Alex  por  causa  dos  eventos  no  decurso  dos  anos.  Você  verá  parte  desta  interpretação  no  capítulo  de  Mary
Feldhaus­Weber  (Capítulo  11),  nas  seções  em  que  ela  escreve  sobre  sua  lesão  cerebral  em  vários  momentos,
desde  o  acidente  até  o  presente.  Os  elementos  básicos  da  história  de  Mary  permanecem  os  mesmos,  mas  a
passagem do tempo e a experiência mudaram a sua interpretação. Ao trabalhar no capítulo para esta edição, ela
disse que achava que poderia revelar alguns dos aspectos “mais sombrios” de sua experiência porque não mais
considerava essencial projetar uma imagem forte. Don Murray escreveu seu capítulo um ano depois da morte de
sua esposa (veja o  Capítulo  14).  Embora  ele  fosse  um  escritor  profissional  que escrevia frequentemente sobre
Minnie Mae em sua coluna do Boston Globe, este capítulo proporcionou a ele um meio mais amplo para integrar
e sintetizar a experiência da doença dela, seu cuidado e sua morte. Ele nos agradeceu por esta oportunidade e
disse que isto o tinha ajudado a viver o luto durante o ano após a sua morte. O capítulo de Gloria Dickerson (veja
o Capítulo 13) ilustra sua excelente habilidade para dar sentido às experiências de vida e às ações incrivelmente
dolorosas  que  ela  não  compreendia  quando  criança.  Ela  coloca  suas  experiências  no  contexto  de  grandes
narrativas  de  racismo  e  sexismo  de  nossa  cultura  e,  por  fim,  mostra  aos  leitores  como  ela  modela  suas  ações
futuras  ao  refletir  sobre  sua  experiência  para  reescrever  e  viver  uma  nova  história  de  vida.  O  modo  pelo  qual
você reage a essas histórias fortes e inspiradoras muito lhe ensinará a respeito de como suas lentes interpretativas
influenciam sua visão de mundo.
Frank  (1995,  2002)  argumenta  que,  ao  ouvirem  as  histórias  dos  pacientes,  os  profissionais  de  saúde
conseguem testemunhar o sofrimento, bem como os potenciais e triunfos pessoais. Os capítulos nesta unidade
oferecem uma oportunidade para você começar a pensar sobre as histórias de seus clientes e o que estas histórias
lhe  dizem  sobre  o  caráter  dos  clientes  e  o  significado  que  eles  atribuem  às  suas  experiências.  Ouvindo  as
histórias dos outros e lendo relatos pessoais de doença e incapacidade, Frank identificou três tipos de narrativas
de doença: as narrativas de restituição, de caos e de busca (veja a Tabela 10.1 para as definições destes tipos de
narrativa). Frank diz que esses tipos de narrativa poderiam não ser os únicos tipos de narrativas de doença, mas
que eles se apresentaram em muitas das histórias que ele ouviu e leu. Os indivíduos podem utilizar um ou mais
tipos em uma história ou podem mudar os tipos de narrativa, dependendo de um ponto de vista particular a partir
do  qual  eles  estejam  contando  a  história.  A  finalidade  de  Frank  ao  delinear  vários  tipos  de  narrativa  é  a  de
sensibilizar os outros e ajudá­los a ouvir as narrativas dos pacientes de maneira mais efetiva. Ter em mente os
três  tipos  de  narrativa  quando  você  ouve  as  histórias  dos  clientes  pode  ajudá­lo  a  compreender  melhor  suas
experiências.
Os clientes que contam uma história de restituição estão mostrando como a medicina resolveu seus problemas
para  fazer  com  que  eles  voltassem  à  saúde  (Frank,  1995).  Com  frequência,  os  clientes  contam  histórias  de
restituição de maneira retrospectiva, porém eles também podem usar esta forma de história para se projetar no
futuro.  O  fio  condutor  pode  envolver  uma  cirurgia  importante,  como  uma  substituição  articular,  seguida  pela
reabilitação e, por fim, pelo retorno às atividades ocupacionais prévias. Essas histórias são fáceis de ouvir porque
representam  o  triunfo  da  medicina  ocidental.  Em  contraste,  Frank  (1995)  diz  que  as  narrativas  de  caos  são  as
mais  difíceis  de  ouvir  porque,  diferentes  da  narrativa  de  restituição,  elas  não  seguem  um  fio  condutor  a  que
fomos socializados para seguir. Em vez disso, a pessoa que conta uma narrativa de caos está tão envolvida na
experiência que pouca ordem ou interpretação é possível. As narrativas de caos representam uma vida que está
fora de controle, sem soluções à vista. Elas se caracterizam por eventos que são conectados por frases como “e
então...e  então...e  em  seguida....”  Esta  falta  de  ordenamento  causal  ou  temporal  torna  a  narração  difícil  de
compreender porque a pessoa ainda está imersa na experiência. As narrativas de busca, em contraste, mostram a
transformação pessoal que pode acontecer quando os clientes se confrontam com doença grave e incapacidade e,
em consequência disso, empreendem alterações fundamentais em suas vidas. Muitas das narrativas publicadas de
doença são narrativas de procura. Por exemplo, o livro de Phillip Simmons Learning to Fall: Reflections on an
Imperfect Life  (2000)  propicia  um  veículo  para  que  ele  utilize  seu  diagnóstico  de  esclerose  lateral  amiotrófica
como um instrumento para compreender a maneira pela qual ele viveu no passado e como ele buscou uma vida
significativa apesar da incapacidade crescente que levaria, mais adiante, à sua morte. Ao darem aos clientes a
oportunidade  de  contar  suas  histórias,  não  importa  quão  caóticas,  os  profissionais  de  saúde  podem  criar  uma
oportunidade para reflexão ou interpretação. Isto pode ser tão importante como o tratamento médico.

O PAPEL DA NARRATIVA NA PRÁTICA DA TERAPIA OCUPACIONAL

Contar Histórias
A prática da terapia ocupacional proporciona muitas oportunidades para ouvir e estimular histórias dos clientes e
para contar histórias aos clientes como uma forma de motivação ou para ajudá­los a ver a si próprios em tipos
particulares  de  esquemas  terapêuticos  (Mattingly,  1998).  Os  terapeutas  ocupacionais  também  contam  histórias
entre  si,  enquanto  se  socializam  e  durante  as  reuniões  de  equipe  e  em  outras  formas  interdisciplinares  de
comunicação  (Crepeau,  1994,  2000).  Eles  podem  compartilhar  histórias  intrincadas  para  compreender  o  que
aconteceu  ou  para  determinar  como  eles  devem  proceder  com  um  determinado  cliente.  Eles  também  podem
utilizar as histórias para convencer outros de um determinado ponto de vista ou determinada opinião sobre um
cliente. Por exemplo, um terapeuta ocupacional usou um relato muito persuasivo de uma paciente internada em
uma unidade de gerontopsiquiatria para reformular o problema da paciente de se recusar a participar do ambiente
para o de incapacidade de participar. A interpretação da história da cliente pelo terapeuta ocupacional revelou­se
como um ponto de mudança para o planejamento do cuidado desta cliente por parte da equipe (Crepeau, 2000).
Por conseguinte, a interpretação pelo terapeuta do comportamento da paciente reconstruiu a visão da equipe e os
programas de seu atendimento.
TABELA 10.1 TIPOS DE NARRATIVAS DE DOENÇA
Tipo Definição Característica Fio Condutor
da História
Narrativa de Uma narrativa de restituição é uma narrativa de Um fio condutor “Ontem eu
restituição doença que delineia o curso da doença desde os típico demonstra estava
sintomas iniciais e o diagnóstico e ao longo do o poder da saudável,
tratamento da e recuperação. Estas histórias medicina para hoje estou
podem ser contadas por pacientes ou por suas curar. O foco se doente, mas
famílias e seus amigos. Hospitais e outras faz sobre o papel amanhã
instituições de saúde também podem utilizar as da medicina para estarei
narrativas de restauração para demonstrar o curar, saudável
poder de cura da medicina. demonstrando a novamente”
natureza (Frank,
transitória da 1995, p. 77).
doença. Embora
o indivíduo conte
a história, o foco
primário é sobre
o poder de
restauração da
medicina.
Narrativa de Uma narrativa de caos, como seu título sugere, Não há um fio “Da mesma
caos representa a falta de controle e a vulnerabilidade condutor da forma que a
que um indivíduo experimenta. Estas narrativas história ou de narrativa de
demonstram poucos elementos das histórias definição. caos é uma
típicas, como uma sequência lógica ou linha de Embora a história antinarrativa,
definição. As pessoas que contam estas histórias gire em torno do também não
estão tão envolvidas pela doença que apresentam indivíduo, a é uma auto­
limitada capacidade de ordenar ou interpretar pessoa não é um história.
suas experiências. Como estas histórias tendem a personagem Onde a vida
ser dolorosas e carecem das convenções típicas ativo. A doença pode
esperadas das histórias, elas são difíceis de ouvir. predomina, com receber uma
Por conseguinte, ouvir cuidadosamente em vez uma ordenação
de interromper ou mudar o tema é correspondente de narrativa,
particularmente importante. falta de controle o caos já
pelo contador da está
história ou pelos instalado”
profissionais de (Frank,
saúde. 1995, p.
105).
Narrativa de As narrativas de busca, conforme sugerido por seu A voz das “O que quer
busca título, representam a jornada transformadora de narrativas de que tenha
uma pessoa que experimenta doença ou busca é a da acontecido a
incapacidade grave. Como as narrativas de pessoa, e a mim ou que
restituição, estas narrativas capturam o busca envolve a acontecerá...
diagnóstico e o curso da doença; no entanto, o transformação da o objetivo
resultado da história está focalizado não em um pessoa. A ainda sou eu
retorno à saúde, mas na transformação do experiência da a
contador de história. As narrativas de busca doença faz parte determinar”
focalizam­se sobre como a doença mudou da história; no (Frank,
fundamentalmente o caráter, os valores e a entanto, o foco é 1995, p.
perspectiva de vida da pessoa. sobre como esta 131).
doença
transformou a
vida da pessoa
de maneira
fundamental.
Fonte:  Frank,  A.  W.  (1995).  The  wounded  storyteller:  Body,  illness  and  ethics.  Chicago:  University  of  Chicago
Press.

Criar Histórias
Embora  este  capítulo  tenha  enfocado  a  narração  de  histórias  como  uma  maneira  de  interpretar  e  compartilhar
experiência,  as  histórias  não  olham  simplesmente  para  trás  e  interpretam  eventos  passados  à  luz  do  presente.
Mattingly  propôs  que  as  narrativas  podem  modelar  a  ação  e  que  o  tratamento  de  terapia  ocupacional  envolve
uma  “adequação  terapêutica”  prospectiva,  na  qual  os  clientes  e  os  terapeutas  criam  novas  narrativas;  isto  é,
novas “histórias são, criadas no tempo clínico” (Mattingly, 2000, p. 183). Ela argumentou que os terapeutas e os
clientes criam um processo colaborativo de tratamento para compreender e capacitar os clientes a mover­se de
onde  ou  quem  eles  são,  para  onde  ou  quem  eles  querem  ser  (Mattingly,  1991,  1998).  Refletindo  sobre  o
argumento  de  Mattingly,  Clark  introduziu  o  termo  criar  a  história  ocupacional  para  descrever  como  os
terapeutas  ocupacionais  engajam  as  pessoas  nas  ocupações  desejadas  para  reescrever,  revisar  e  recriar  sua
história de vida e imaginar novas possibilidades. À medida que os clientes se engajam nas ocupações desejadas e
experimentam seu potencial para participar das atividades desejadas, uma nova história é elaborada no processo
de tratamento (F. Clark & Ennevor, 1996). Clark (1993) descreveu seu tratamento para Penny Richardson, uma
colega que sofreu um aneurisma  cerebral  aos  47  anos  de  idade.  Como  Clark  ouviu  Penny  e  compreendeu  sua
história  de  vida,  eles  foram  capazes  de  identificar  os  desafios  de  Penny  para  participação  nas  ocupações
desejadas  e  reescreveram  soluções  potenciais  para  os  problemas  ocupacionais.  Em  um  exemplo  do  processo,
Clark e Penny identificaram o andador como um lembrete constante dos problemas constantes de equilíbrio de
Penny e um símbolo da incapacidade. Antes do aneurisma, Penny apreciava as atividades ao ar livre, era uma
ávida praticante de caminhadas e se considerava fisicamente competente. Revisando passagens de sua história
familiar  e  atendendo  a  seus  motivos  para  remover  as  barreiras  estigmatizantes,  Penny  começou  o  que  ela
chamava de “caminhada de bengala” para fazer a transição de caminhar com um andador para andar com o uso
de uma bengala. Para reescrever a narrativa, Clark e Penny engajaram­se nas ocupações que permitiram que ela
conectasse seu antigo eu ao seu eu atual.
Muitos  dos  capítulos  nesta  unidade  fornecem  ilustrações  vivas  do  “contar  histórias”  e  “criar  histórias”
ocupacionais. Nick Pollard (Capítulo 15) mostra como contar história em um ambiente acolhedor capacitou as
pessoas com dificuldades intelectuais para escrever, publicar e compartilhar suas histórias com os outros. Estas
histórias proporcionam uma janela para a experiência vivida pelos participantes do projeto Voices Talk, Hands
Write [Vozes falam, Mãos escrevem]. Theresa Lorenzo (Capítulo 16) fala do poder terapêutico de criar histórias,
o  que  capacitou  mulheres  sul­africanas  pobres  com  incapacidades  a  reconhecer  seus  potenciais  e  a  construir
vidas mais independentes por meio do engajamento ocupacional.

CONCLUSÃO
Nossa finalidade ao escrever este capítulo é dar a você uma visão geral muito breve da importância da narrativa
para  a  prática  da  terapia  ocupacional.  Nossa  esperança  é  que  você  leia  os  capítulos  nesta  unidade  e  aborde  o
trabalho com os outros respeitando a importância da narrativa para compreender como as pessoas interpretam
suas  experiências  e  como  os  atos  de  contar  histórias  e  criar  histórias  podem  ser  empregados  como  parte  do
processo terapêutico. À medida que você ler os próximos capítulos, considere as questões listadas abaixo.

QUESTÕES INSTIGANTES
1. Qual é o pano de fundo do capítulo e qual é a moral da história?
2. Quais são os principais temas representados na história?
3. Quais opiniões você passou a ter a partir das histórias nestes capítulos?
4. Se  você  fosse  o  terapeuta  ocupacional  desses  indivíduos,  como  suas  narrativas  modelariam  seu  trabalho
com eles?

REFERÊNCIAS
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Trechos de The Book of Sorrows, Book of
Dreams: A First­Person Narrative
MARY FELDHAUS­WEBER
Sally Schreiber­Cohn, EDITORA DO CAPÍTULO

Sumário
Introdução da Editora da Unidade
1979 a 1981
O Acidente
Seis Meses depois do Acidente
Um Ano depois do Acidente
Dois Anos depois do Acidente
Maio de 1996: Dezessete Anos depois do Acidente
Julho de 2001: Vinte e Dois Anos depois do Acidente
Julho de 2007: Vinte e Oito Anos depois do Acidente
Como Estou Agora?
Pós­Escrito: Ideias para Profissionais de Terapia Ocupacional

INTRODUÇÃO DA EDITORA DA UNIDADE
Mary Feldhaus­Weber estava com cerca de 30 anos, vivia em Boston e era produtora de televisão, diretora de
cinema e escritora teatral bem­sucedida. Ela produzia documentários para o Public Broadcasting System (PBS).
Ela havia acabado de produzir Joan Robinson: One Woman’s Story, um documentário premiado sobre a luta por
três anos e a morte de sua amiga por câncer de ovário. Em dezembro de 1979, três semanas antes que seu filme
fosse transmitido no PBS, Mary era uma passageira em um carro que foi abalroado por um motorista bêbado.
Mary  foi  retirada  dos  destroços  do  carro  e  levada  à  Emergência  de  um  hospital.  Embora  sua  cabeça  tivesse
colidido com a janela do carro durante o acidente, ela recebeu alta do hospital naquela noite. Três noites depois,
Mary começou a ter convulsões. Meses depois, ela foi diagnosticada como portadora de epilepsia, um transtorno
convulsivo causado por lesão cerebral traumática. Seu cérebro havia sido lesionado quando ela bateu a cabeça
durante o acidente de carro. Ela nunca foi hospitalizada por esta lesão traumática. A princípio, suas convulsões
não eram bem controladas com a medicação. Recentemente, novos medicamentos as colocaram em grande parte
sob controle; no entanto, ela nunca foi capaz de retornar ao trabalho.
O  que  se  segue  é  a  história  do  esforço  de  Mary  Feldhaus­Weber  para  viver  com  os  efeitos  de  sua  lesão
cerebral e seu transtorno convulsivo – em suas próprias palavras. Estes relatos foram retirados de seu livro em
elaboração, The Book of Sorrows, Book of Dreams. A primeira parte da história cobre os anos de 1979 a 1981.
Mary ditou esta parte para amigos e estudantes de terapia ocupacional que trabalharam com ela. Mary foi capaz
de escrever sozinha as três partes finais de sua história. Por todo o capítulo estão anotadas referências a pranchas
coloridas das pinturas de Mary.

1979 A 1981

O Acidente
Agora deixe­me contar a você sobre isto. Minha amiga Sally estava dirigindo, levando­me para casa às 3 horas
da manhã, depois de trabalhar no filme de Joan Robinson, aprontando­o para sua estreia nacional na televisão.
Um grande carro americano, indo em alta velocidade, bateu no pequeno carro estrangeiro em que me encontrava,
no lado do passageiro.
Eu  era  a  passageira.  O  carro  em  que  estávamos  foi  abalroado  com  tanta  intensidade  que  ambos  os  carros
ficaram destroçados, perda total (veja a Prancha Colorida 1, “Cruzamento”). Minha cabeça foi para o lado contra
a  janela  do  carona.  O  lado  da  minha  cabeça  acima  da  têmpora  estilhaçou  totalmente  o  vidro,  bateu  com  tanto
impacto que cada pedaço de vidro foi derrubado (veja a Prancha Colorida 2, “O Despedaçar”). As pessoas na
Emergência  ficaram  espantadas  por  que  eu  não  tinha  cortes  na  face.  Disse  a  elas  que  minha  dura  cabeça
escandinava era mais resistente do que o vidro – como pedra ou um diamante.
Posso  me  lembrar  das  luzes  do  carro  vindo  em  nossa  direção.  Posso  me  lembrar  da  sensação  de  que  não
conseguiríamos  sair  do  caminho.  Posso  me  lembrar  de  gritar  para  minha  amiga,  “cuidado”,  e  em  seguida  o
impacto do carro. Mas estranhamente, quando o carro colidiu, tive a sensação de que ele realmente não havia me
atingido ou ao carro em que eu estava, de que tinha havido um amortecedor feito de tempo e espaço. Eterno. Não
quebraria. Um escudo.
Também estava certa de que a motorista de meu carro, minha amiga Sally Schreiber­Cohn, havia se esticado
no  momento  do  impacto  e  me  protegido  com  o  próprio  corpo.  Estava  absolutamente  certa  de  que  isto  havia
acontecido.  Quando  chegamos  ao  hospital,  perguntei  a  ela.  Ela  disse,  “Oh,  não,  mantive  ambas  as  mãos  no
volante,  é  claro”.  Se  o  outro  carro  tivesse  batido  algumas  polegadas  atrás,  eu  provavelmente  teria  sido
decapitada. Mas ele bateu onde bateu. Sally estava com escoriações e sentia­se mal. Todo o dano ocorreu dentro
do meu cérebro.
Um  médico  descreveu  isto  como  se  alguém  tivesse  pego  uma  gelatina,  a  consistência  do  cérebro,  e  a
arremessasse na parede com a maior força possível. Essa foi a força do impacto com que o cérebro bateu em um
lado  do  crânio  e,  em  seguida,  ricocheteou  de  volta  e  bateu  no  outro  lado  do  crânio,  deixando­me  com  lesões
cerebrais  nos  lados  direito  e  esquerdo.  Ainda  que  apenas  um  lado  de  minha  cabeça  tivesse  batido  na  janela,
ambos os lados de meu cérebro foram lesionados (veja a Prancha Colorida 3, “Cérebro Lesionado”).

Seis Meses depois do Acidente
Seis meses depois do acidente, quando comecei a ter cada vez mais convulsões, ficou claro que não mais poderia
viver sozinha, de modo que tive de pedir a minha mãe que viesse de Dakota do Sul para morar comigo. Fiz isto
com  grande  relutância  porque  ela  tinha  78  anos  de  idade  e  meu  pai  queria  que  ela  ficasse  lá,  cuidando  dele.
Quando ela chegou, a coisa que me lembro de ela dizer foi que ela não imaginava que havia sido tão ruim. Por
que eu não a chamei antes? Isso foi antes que as convulsões ficassem sob qualquer tipo de controle, o que quer
dizer que eu estava muito doente.
Eu me sentava num canto dia após dia, percebendo que estava claro ou escuro, percebendo que minha mãe
estava muito atarefada, ou dormindo, ou chorando, percebendo que, por vezes, o telefone tocava ou que era o dia
da  consulta  com  meu  médico,  percebendo  que  por  vezes  sentia  dor  em  minha  cabeça.  Minha  mãe  disse,
“Imagino se ajudaria uma toalha úmida fria em sua cabeça?” Penso que nós duas nos lembramos que, quando
um cavalo torce a perna, você enrola a perna em toalhas. E assim, mamãe pegava toalhas molhadas no banheiro
e  as  enrolava  ao  redor  de  minha  cabeça,  com  meu  cérebro  se  transformando  em  uma  perna  enrolada,  um
músculo que não estava trabalhando. Com câimbras e tenso. Convulsionando. Cheio de medo.
E então, como as coisas mudam e o tempo passa, a dor passava e eu conseguia ter a consciência por breves
momentos, de que a capa do sofá era azul ou que o cachorro havia rolado na sujeira, ou que mamãe queria fazer
sopa  no  almoço.  E  nós  descobrimos  que  depois  que  eu  tinha  uma  convulsão  ou  surto,  como  um  médico  as
chamava,  eu  não  tinha  coordenação  ou  ficava  muito  confusa  para  tomar  a  sopa  ou  segurar  uma  colher.  Como
mamãe gostava muito de sopa, parecíamos tentar isto muitas vezes, colheres maiores, colheres menores, xícaras
enormes, xícaras menores. Decidi que sopa de tomate era a mais fácil. O por quê, não tenho certeza. Finalmente,
disse  para  minha  mãe  que  não  gostava  de  sopa  e  que  não  a  beberia  durante  anos.  Portanto,  poderíamos
experimentar outra coisa?
Nesse período, eu estava tendo convulsões constantes. Não havia momento em que não estivesse tendo uma,
estivesse  prestes  a  ter  uma,  me  sentindo  “no  espaço”,  com  um  forte  sabor  metálico  em  minha  boca,  ou  me
sentindo confusa e desorientada depois de ter tido uma convulsão. Eu sentia como se as convulsões fossem uma
força poderosa de fora de mim que subitamente arrebatava meu cérebro, a mim, a minha essência e, com o tipo
de  fúria  dos  ventos,  nevascas  e  chuva,  me  prendia  embaixo  do  gelo  (veja  a  Prancha  Colorida  4,  “Convulsão
Azul”). Enquanto o eu que estava presente conseguia respirar a água embaixo do gelo, eu sabia que estava presa,
forçada a estar lá. Sabia que se eu me empenhasse, mesmo que discretamente, a dor, o terror, ficariam piores. E
durante  o  período  em  que  a  convulsão  ativa  estava  arfando  dentro  de  mim,  tinha  de  me  concentrar  na
imobilidade total até que a fúria se dissipasse e eu fosse liberada.
Todo o controle e a tenacidade, a ambição, a criatividade, todas as coisas que me fizeram quem eu era não me
ajudavam  neste  lugar.  Estava  aterrorizada  e  estava  sozinha.  Não  sabia  as  palavras  para  perguntar  ou  dizer  a
alguém o que eu estava passando. Podia apenas sentir o que doía e doía menos ficar absolutamente parada até
que a força decidisse me liberar. Não tinha controle de quando ela me pegaria ou quando ela decidiria me liberar.
Minha amiga Sally me disse agora que olhar para mim era como olhar para uma vela prestes a apagar. Para
ela, parecia que apenas 3 por cento de mim ainda existiam.
Sentia que estava sendo aniquilada. O eu em que eu tinha me transformado, com quem tinha vivido, estava
deixando de existir, cada vez mais e mais. Ocorreu­me que isto era o que eu imaginava que fosse o morrer e, por
qualquer que seja o motivo, estava morrendo outra e outra vez.

Um Ano depois do Acidente
Minha mãe havia voltado para Dakota do Sul, de modo que eu estava vivendo sozinha. Um dia, no consultório
do neurologista, um ano depois do acidente, ainda confusa e em uma névoa profunda, eu percebi a gravata do
médico.  Era  uma  gravata  Marimekko  amarelo­clara  brilhante.  Fiquei  olhando  fixo  para  a  cor  amarela.  Foi  a
primeira coisa que fazia sentido para mim desde o acidente. Compreendi que estava vendo. A cor amarela. A
névoa me abandonou por um minuto. Compreendi alguma coisa e não precisei me esforçar para compreender.
Posso me lembrar de pensar: vou ficar boa.
Quando  cheguei  em  casa  naquele  dia,  alguém  me  trouxe  um  conjunto  de  tintas  para  cartaz  e  eu  pintei  uma
pequena  margarida  amarela,  vívida  e  brilhante  (veja  a  Prancha  Colorida  5,  “Margarida”).  E  comecei  a  pintar.
Quando  comecei  a  pintar,  fiquei  surpresa  em  descobrir  que  não  era  tão  ruim,  ainda  que  nunca  tivesse  pintado
antes. Pintar era uma coisa que eu podia fazer sozinha, quer alguém estivesse lá ou não. Não importava se eu
estava  flutuando  ou  doente.  Apenas  podia  colocar  de  lado  o  pedaço  de  papel  em  que  eu  estava  trabalhando  e
continuar novamente depois que a convulsão tivesse acabado.
Em  alguns  dias,  eu  chegava  a  fazer  até  dez  pinturas.  Relembrando,  eu  compreendo  que  estava  desesperada
para  entender  minha  situação.  Podia  ouvir  as  pessoas  conversando,  mas  nada  fazia  sentido.  Olhava  para  suas
faces. Olhava suas bocas se movendo, mas não podia me concentrar no que elas estavam falando. Posso lembrar­
me de pensar: tenho de tentar explicar tudo isto para mim mesma – o que está acontecendo comigo – porque não
posso compreender os outros. Então eu pintava. A única hora em que me sentia como a pessoa que eu costumava
ser era quando estava pintando.
Comecei a pintar com tinta acrílica, papel de aquarela e tintas para cartazes. Eu estava atraída pelas cores e
pelas formas das coisas. Comecei a pintar cérebros. Eu tentei pintar a experiência das convulsões, que eu tinha
cada vez mais (veja a Prancha Colorida 6, “Hemisfério”). De uma maneira estranha, era como ter meu próprio
modelo  artístico  –  não  um  modelo  que  eu  pudesse  ver,  mas  um  modelo  que  estava  em  mim  mesma,  uma
experiência  interna  que  eu  tentava  então  traduzir  em  cores.  A  pintura  deu­me  alguma  coisa  para  conversar  a
respeito que não fosse sobre eu mesma quando as pessoas vinham à minha casa. Era um alívio ter alguma coisa
para mostrar para alguém, fazer com que elas olhassem para os pedaços de papel, não para mim. Também me
permitiu tentar conversar sobre o que eu estava enfrentando. Parte de mim tinha a esperança de que as pinturas
não eram deploráveis porque, de todas as coisas que eu não queria ser, ser deplorável parecia a pior delas.
Eu também estava consciente de que tive que começar fazendo riscos com as tintas. Estava no ápice da minha
carreira  no  cinema  e  agora  tinha  de  me  esforçar  para  apertar  tubos  de  tinta.  Precisava  aprender  a  ser  paciente
comigo mesma. Estava muito no começo e agradecida por estar ali.

Dois Anos depois do Acidente
Ainda não tenho um quadro real do que aconteceu ao meu cérebro, passo grande parte do tempo pensando sobre
isto.  Tentando  pensar  sobre  isto  (veja  a  Prancha  Colorida  7,  “Dendritos”).  Eu  tinha  ouvido  explicações  de
médicos, enfermeiras e assistentes sociais, e nenhuma delas fazia sentido. Tudo o que eu sabia é que era incapaz
de fazer a coisa mais simples – arrumar uma cama, dizer as horas, contar. Somar ou subtrair. Reconhecer faces.
Distinguir  a  direita  da  esquerda.  Ler.  Compreender  o  que  as  pessoas  diziam  para  mim.  Lembrar  as  coisas.  E,
talvez o pior de tudo, não me sentia como eu mesma, como eu. Sentia­me como alguém, mas não como qualquer
um  que  eu  conhecia.  Era  uma  estranha  para  mim  mesma.  Estava  perdida  (veja  a  Prancha  Colorida  8,
“Autorretrato”).
Nos dias em que tinha convulsões constantes, precisava pedir a minha amiga Sally para vir e ficar comigo. Era
nestes momentos que estávamos cientes de que não estava melhorando; na realidade, eu mal estava resistindo.
A  liturgia  de  todo  dia  era  longa  e  inflexível:  eu  caía  o  tempo  todo.  Estava  coberta  com  manchas  negras  e
azuladas por todos os lugares. Eu saía de uma convulsão para descobrir que havia mordido minha boca e estava
sangrando  e  tinha  um  fragmento  do  meu  dente  da  frente  quebrado  preso  ao  meu  lábio  inferior.  Por  vezes,  eu
colocava meu dedo em meus olhos durante uma convulsão, e o olho ficava avermelhado e edemaciado durante
dias. Eu bati minha cabeça. Quebrei meu cotovelo. Não me parecia seguro viver sozinha.
Perdi meus rendimentos quando minha produtora de filmes fechou depois do acidente, e perdi meu seguro de
saúde com ela. Por causa destes fatores, minha única opção seria ficar sob a Previdência Social e ir para uma
clínica de repouso. Meu neurologista achava que, se eu fizesse isto, eu provavelmente nunca sairia. Acho que ele
havia  visto  muitas  pessoas  serem  internadas.  Em  outras  palavras,  elas  tinham  se  tornado  incapazes  e  tinham
desistido. Ainda havia uma pequena luta dentro de mim; eu havia sido um adulto funcional e bem­sucedido. Os
3 por cento de mim que ainda existiam eram 3 por cento de uma lutadora. Estávamos todos contando com o fato
de  que  eu  continuava  lutando  e  que  melhoraria.  Isto  eu  controlava  de  alguma  maneira.  Também  sabia  que
precisava desesperadamente de alguém para me ajudar a ajudar a mim mesma.
Por fim, mais de dois anos depois do acidente, encontramos alguém que me ajudasse. Sally ligou para uma
amiga terapeuta que disse que conhecia alguém que era uma terapeuta ocupacional talentosa e que gostava de
cães. E que era generosa. Quando Sally ligou para a terapeuta ocupacional – Anna Deane Scott – ela disse que
sabia muito pouco sobre traumatismo craniano. Ela era uma professora na Boston University e era a coautora de
um famoso livro­texto de terapia ocupacional, e, sim, que ela gostava de cães. Ela concordou em vir até minha
casa para me encontrar.
Quando ela me viu pela primeira vez, Anna Deane me disse mais tarde, eu estava sentada no escuro em um
sofá, chorando. Nós conversamos; ela admirou meus cachorros e me contou sobre seu próprio cão. Depois que
ela saiu, eu liguei para ela para perguntar o que ela achou do encontro. Estava com medo de que ela pudesse ter
sentido  que  eu  estava  além  da  ajuda.  Perguntei  a  ela  como  ela  se  sentiu  em  relação  ao  nosso  encontro.  Anna
Deane disse: “Me senti triste.” Ela me disse a verdade. Sabia que poderia confiar nela.
Cada vez que Anna Deane me visitava, conversávamos sobre coisas na casa que eram um problema para mim.
Tinha  medo  de  cair  no  chuveiro  quando  estivesse  voltando  de  uma  convulsão,  de  modo  que  colocamos  uma
cadeira de banho e uma barra metálica na parede e tapetes de borracha dentro e fora da banheira. Para cada uma
destas áreas que trabalhamos, demorava meses para identificar o problema e, com o método de tentativas e erro,
descobrir as soluções. No caso do chuveiro, no entanto, finalmente eu era capaz de tomar banho e não tinha mais
medo.  Também  tinha  medo  de  me  queimar  nas  chamas  de  meu  fogão  a  gás  quando  estivesse  me  sentindo
confusa, de modo que instalamos uma grande chapa elétrica e eu podia aquecer alguma coisa sem ter medo de
atear fogo às minhas roupas ou de me queimar.
Perdi a capacidade de fazer as coisas; sabia que havia etapas a cumprir para completar qualquer tarefa, mas
não tinha ideia de qual etapa vinha em primeiro lugar. Mais tarde, aprendi que havia perdido a capacidade de
sequenciar, uma perda que às vezes acontece quando você sofre uma lesão no lobo frontal do cérebro.
Anna  Deane  e  eu  decidimos  descobrir  como  me  ensinar  a  fazer  as  coisas  novamente.  Ela  disse  que  sempre
havia outra maneira de fazer alguma coisa. Primeiro tínhamos de descobrir como eu ainda era capaz de aprender.
Você  perceberá  que,  quando  eu  falar  de  Anna  Deane  e  mim,  sempre  direi  NÓS  fizemos  isto,  NÓS  decidimos
aquilo. Diferente de muitos outros profissionais de saúde, Anna Deane sentiu que sua função não era me dizer o
que fazer, mas trabalhar comigo para me fortalecer. Ela constantemente me perguntava o que era importante para
mim. O que eu pensava a respeito de alguma coisa? O que eu queria fazer? E ela me OUVIA. Espantoso!
Um problema na minha vida era como abrir a porta da frente de minha casa. Minha casa tinha duas portas,
uma porta externa e uma interna e, portanto, existiam duas chaves diferentes. Se alguém me trouxesse para casa
do  consultório  do  médico,  um  dos  poucos  lugares  aonde  eu  ia,  eu  frequentemente  tentaria  colocar  a  chave  na
fechadura  e  não  seria  capaz.  Eu  tentaria  abrir  a  fechadura  pelo  que  pareciam  ser  horas  e,  desesperadamente,
tentaria várias vezes entrar em minha própria casa. Pedia a quem me levava para ver se eu tinha entrado em casa
antes de sair. Com frequência, eles precisavam abrir a porta para mim. Sentia­me uma idiota, incapaz de fazer a
coisa mais simples.
Anna  Deane  observou­me  tentando  entrar  em  casa  e  disse  que  compreendia  qual  era  o  problema.  Ela  dizia
que, quando eu não pudesse entrar pela porta externa com uma chave, eu deveria tentar com a outra. Não havia
me ocorrido tentar abrir com a outra chave. Ficava em pé por um tempo enorme com a chave errada, tentando
várias vezes, mas quando eu recebi esta nova estratégia, fiquei livre para entrar em casa e cada vez que eu abria a
porta sozinha, era como se fosse uma vitória. E comecei a sentir esperança para mim.
Anna  Deane  e  eu  descobrimos  que  era  impossível  para  mim  apenas  seguir  ou  compreender  orientações
verbais,  mas,  se  eu  também  pudesse  ver  alguém  realizando  uma  tarefa,  ouvir  as  orientações,  ou  até  mesmo
colocar  as  minhas  mãos  nas  coisas  ao  mesmo  tempo,  eu  podia,  depois  de  inúmeras  tentativas,  fazer  a  coisa
novamente sozinha.
Anna Deane disse que nós não podíamos ter certeza de qual parte do meu cérebro ainda estava funcionando,
mas tínhamos a melhor chance de sucesso se utilizássemos a maior quantidade de sentidos possível, esperando
que pudéssemos atingir as áreas de meu cérebro que ainda funcionassem. Quando Anna Deane disse isto pela
primeira  vez,  soou  como  o  tipo  mais  primitivo  de  investigação  em  territórios  desconhecidos,  todos  os  quais
estavam dentro de mim. Estávamos procurando pelo eu que ainda estava lá. Mas ela estava certa. Com a ajuda
de Anna Deane, aprendi a fazer tudo (as atividades de minha vida diária) novamente – absolutamente tudo. Não
é muito forte dizer que ela me devolveu a vida.
Outra  coisa  que  Anna  Deane  e  eu  trabalhamos  foi  sobre  um  quadro  em  que  monitorava  minhas  atividades
diárias. Um dos problemas era que eu perdia o senso de tempo. Com a epilepsia, é importante que você tome
certa quantidade de comprimidos em um determinado horário a cada dia. É muito simples – se você não faz isto,
as  convulsões  reaparecem.  Você  também  precisa  se  alimentar  e  descansar  regularmente  em  relação  à  ingestão
dos comprimidos, e antes de conhecer Anna Deane, não conseguia me lembrar se havia tomado um comprimido,
almoçado, levado os cachorros na rua; não conseguia dizer se era de tarde ou de manhã ou que dia era.
Gradativamente, durante um período de meses e muitos fracassos, elaboramos um cronograma em um quadro
magnético  que  dividimos  em  manhã,  tarde  e  noite.  Utilizávamos  ímãs  com  cores  diferentes  para  as  diferentes
partes do dia, quando descobrimos que eu podia compreender melhor as cores que as palavras. Para cada vitória,
como  a  descoberta  de  que  eu  ainda  me  lembrava  das  cores,  havia  dúzias  de  fracassos.  Anna  Deane  repetia
constantemente que sempre havia outra maneira de fazer as coisas. Nós apenas precisávamos encontrar a outra
maneira.  E  a  cada  vez  que  falhávamos,  ela  aprendia  mais  sobre  meu  cérebro,  o  que  ainda  funcionava  e  como
estava  funcionando.  Ela  disse  que  não  havia  isso  de  “fracasso”.  Ela  aprendia  alguma  coisa  a  cada  vez  que
experimentávamos alguma coisa nova.
Eu, pelo meu lado, sentia muito profundamente os fracassos. Como eu era rápida e a vida havia facilitado as
coisas para mim, não estava acostumada a tentar e falhar em coisas simples várias vezes seguidas. As coisas que
estávamos  tentando  fazer,  como  um  sistema  para  me  lembrar  de  tomar  meus  comprimidos,  eram  ao  mesmo
tempo muito simples e muito importantes. Ficava impaciente comigo mesma e me julgava por quem eu havia
sido. A cada fracasso, eu chorava.
Tentava não chorar na frente de Anna Deane. Meus cachorros, Desmond e Todd, ouviam meu choro. Eu os
acariciava e seus pelos ficavam molhados. A princípio ficava intrigada e depois me lembrava que havia chorado.
E eles ficavam sentados ao meu lado no sofá, molhados com minhas lágrimas.
Anna  Deane  disse  que  eu  estava  fazendo  o  que  precisava  fazer,  lamentando  as  minhas  perdas.  Eu  havia
perdido muito. E que se eu não me lamentasse e deixasse o passado para trás, seria difícil fazer coisas novas.
Que o luto poderia atrapalhar a minha caminhada (veja a Prancha Colorida 9, “A Cor do Meu Pesar”). Mas, por
outro lado, também precisava buscar o equilíbrio das coisas. Precisava encontrar coisas que ainda me fizessem
feliz,  que  me  dessem  prazer.  Isto  se  tornou  meu  trabalho  diário,  fazer  uma  coisa  que  me  desse  prazer  (veja  a
Prancha Colorida 10, “Duende”). Às vezes, isto era tão difícil quanto a tarefa do luto. Ficou evidente para mim
que as duas coisas estavam ligadas entre si.
Assim,  refinamos  ainda  mais  o  sistema  do  quadro  magnético:  ímãs  coloridos  para  cada  período  do  dia,
divididos  em  tomar  os  comprimidos,  almoçar,  alimentar  os  cachorros,  e  assim  por  diante.  Quando  a  atividade
tinha sido completada, movia o ímã da categoria não feito para a categoria feito. O quadro é grande e colorido e
posso enxergá­lo de qualquer lugar do quarto e dizer o que foi feito e o que ainda não foi feito e como vou fazer.
E  assim,  mais  tarde,  o  tempo  e  a  memória  pareceram  estar  novamente  um  pouco  sob  meu  controle  (veja  a
Prancha Colorida 11, “Curando o Cérebro”).
Anna Deane vinha à minha casa toda semana durante uma hora e conversávamos pelo telefone inúmeras vezes
entre  as  visitas.  No  ano  em  que  trabalhei  com  ela,  podia  ver  as  pequenas  mudanças  em  minha  vida;  e,  como
consegui maior controle sobre os detalhes da minha vida novamente, a pessoa que eu fui começou a ressurgir. Eu
não  estava  fazendo  filmes,  mas  podia  trocar  os  lençóis  em  minha  cama.  Não  estava  escrevendo  poesia,  mas
conseguia  me  vestir.  Estas  podem  parecer  pequenas  coisas,  mas  a  cada  capacidade  que  eu  recuperava,  podia
sentir como se eu estivesse vivendo novamente.
Outro  triunfo  que  reapareceu  foi  a  capacidade  de  entrar  e  sair  de  edifícios.  Existem  muitos  edifícios  em
Boston  em  que  você  precisa  tocar  a  campainha  da  empresa  ou  escritório  onde  você  está  indo  e,  então,  eles
apertam  um  botão  e  a  porta  abre.  Eu  não  era  mais  capaz  de  decifrar  isto  do  que  a  Pedra  da  Roseta.  Era
extremamente  complexo  para  mim  e,  portanto,  frustrante  e,  por  conseguinte,  produzia  lágrimas  e,  por
consequência, era mais uma coisa que eu não conseguia fazer.
Anna  Deane  e  eu  conversamos  sobre  todo  tipo  possível  de  solução  e  chegamos  a  uma  que  trabalhamos.  A
solução era ficar em pé e observar até que alguém viesse e apertasse um botão e entrasse pela porta, observar
como eles faziam isto e ou entrar com a pessoa ou fazer a mesma coisa que ela. E funcionava.
Nos grandes edifícios, ainda é um problema encontrar o escritório certo se eu não estive lá antes, porque, no
elevador, não sou capaz de compreender até que ponto o 5 é o mesmo que 7 que é o mesmo que 9 quando a porta
se abre. Desse modo, eu me perdi nos melhores hospitais de Boston. As pessoas que me levavam iam estacionar
o carro e, contra a vontade, me deixavam saltar, eu dizendo a elas para não se preocupar, que nos encontraríamos
no consultório. E então, 45 minutos depois, quando eu não aparecia no consultório, e ficava claro que havia um
problema, várias pessoas eram enviadas para me encontrar. De minha parte, eu estava perguntando às pessoas se
aquele era o quarto andar, etc., etc.
Entre  as  pessoas  menos  dispostas  para  dar  este  tipo  de  orientação  simples  estão  médicos,  enfermeiras  ou
qualquer  pessoa  das  “profissões  de  saúde”.  Dentre  as  mais  dispostas,  certamente,  estão  os  outros  pacientes  e
todas  as  pessoas  da  limpeza  e  manutenção.  No  entanto,  Anna  Deane  e  eu  não  idealizamos  uma  maneira  para
solucionar  este  problema,  uma  maneira  para  me  tornar  independente,  para  fazer  tudo  sozinha.  Com  tristeza,  é
ainda algo que me faz chorar.
Com a ajuda de Anna Deane, ouvi livros ditados para leitura e utilizava uma calculadora para somar e subtrair,
via  a  hora  com  um  relógio  digital,  pedia  às  pessoas  para  me  levarem  aos  locais  e  não  apenas  darem  as
orientações, e utilizava setas de cores fortes que me diziam qual a maneira de girar o termostato para aquecer a
minha casa e ligar as torneiras de água no chuveiro. Em outras palavras, muitas vitórias. E mais viriam.
Às  vezes,  as  pessoas  me  perguntam  que  tipo  de  honorários  Anna  Deane  me  cobrou  por  esta  quantidade  de
trabalho  e  de  devoção.  A  resposta  é  –  nenhum  centavo.  Ela  me  disse  que  não  sabia  o  suficiente  sobre
traumatismo craniano para cobrar por seus serviços; era uma experiência de aprendizagem para ela também. E
ela não dizia, mas eu sabia que ela sabia que eu não tinha um centavo em meu nome.

MAIO DE 1996: DEZESSETE ANOS DEPOIS DO ACIDENTE
Como estou agora? Haviam me dito que se uma função não retornasse dentro de um ano, ela não retornaria mais.
Eles estavam errados sobre isto em alguns casos. Continuei a recuperar coisas durante um período de 16 anos.
Posso discriminar entre direita e esquerda novamente. Estou muito melhor em reconhecer faces – não é perfeito,
mas melhor. Posso compreender a poesia e muitas abstrações novamente. Recuperei minha sensação do olfato,
posso ler um pouco quando as letras são grandes. Posso escrever novamente.
Ainda não faço contas. Ainda não faço multiplicações ou sei dizer os meses do ano. Ainda tenho visão dupla
em um dos olhos. Ainda preciso sentar e pensar um longo tempo sobre quais etapas realizar em uma tarefa como
colocar a roupa na máquina de lavar e qual deve ser a ordem destas etapas. Ainda tenho problemas de equilíbrio.
Ainda tenho muitas convulsões – várias ao dia na maioria das vezes. Aprendi a viver com estas coisas – as coisas
que perdi e as coisas que recuperei, mas que são diferentes.
Fiz uma bateria de testes neuropsicológicos recentemente e ainda estou ruim em muitos deles. Você está lendo
a escrita de alguém que atualmente possui um QI ainda muito abaixo de 100.
Eu fiquei surpresa com a quantidade de emoções fortes que senti quando comecei a responder à mais simples
das perguntas — “Como você está?” Em primeiro lugar, até começar a me sentir melhor, não imaginava quanto
eu tinha perdido. Antes disso, estava muito doente ou muito abalada para perceber, para compreender a extensão
da perda. Em passos largos, perdi 10 anos da minha vida em que quase deixei de existir. E ainda lamento em
relação  a  esta  perda;  em  alguns  dias  parece  uma  perda  imensa,  em  outros  não  (veja  a  Prancha  Colorida  12,
“Sonhos Partidos”).
Então como estou agora? Estou melhor sem ter melhorado. Em outras palavras, aprendi a fazer muitas coisas
de  novas  maneiras,  exatamente  como  Anna  Deane  Scott,  a  terapeuta  ocupacional  que  trabalhou  comigo,  disse
que seria – dizer a hora com um relógio digital, ler com livros falados, escrever com um computador de tela e
letras  grandes.  Eu  me  sinto  como  eu  mesma  novamente.  Sou  feliz  na  maioria  dos  momentos  –  na  realidade,
pareço  ser  uma  das  pessoas  mais  felizes  e  contentes  que  conheço.  Eu  me  tornei  grata  pelas  coisas  grandes  e
pequenas,  aprecio  mais  as  outras  pessoas.  Na  realidade,  acho  que  devemos  agradecer  às  estrelas  e  aos
passarinhos por acordar de manhã. O traumatismo craniano me forçou a olhar para mim mesma. Olhar toda a
tristeza, as partes ruins de mim que eu não considerava quando era uma produtora de televisão de sucesso. Eu
estava muito ocupada, trabalhando 18 horas por dia. Estar muito ocupada em um emprego de alta visibilidade
pode ser sedutor. O que você está fazendo parece tão importante que você pode facilmente deixar qualquer coisa
de  lado.  Mas  quando  você  fica  em  casa,  dia  após  dia,  quando  o  telefone  deixa  de  tocar  sem  parar,  é  menos
possível ignorar as coisas.
Sofrer uma lesão cerebral deu­me tempo para olhar para quem eu era, como cheguei lá e perguntar para mim
mesma o que eu quero fazer da minha vida. O aconselhamento me ajudou a sobreviver a muitas agressões ao
espírito que podem acontecer quando você é forçada a lidar infinitamente com profissionais de saúde. Ser um
paciente pode ser uma vida extenuante. Sei que isto parecerá estranho; parece estranho para mim mesma quando
escrevo.  Existe  uma  crença  de  que  se  você  perdeu  um  dos  sentidos,  como  a  visão,  sua  audição  se  torna  mais
aguçada para compensar. Para compreender meu próprio sofrimento, precisei compreender melhor o sofrimento
dos outros.
Também dou mais risadas, fico feliz com mais facilidade, estou mais em paz comigo mesma, sinto de modo
bastante literal que caminhei, caminhei e caminhei pelo vale da sombra da morte, tropeçando, chorando, caindo,
quebrando ossos e finalmente saí do outro lado. Quando me perguntam sobre a lesão cerebral, digo às pessoas
que não desejaria isto nem para meu pior inimigo. Embora estranho, também sou grata a este caminho.

JULHO DE 2001: VINTE E DOIS ANOS DEPOIS DO ACIDENTE
Continuo a viver com os problemas físicos que surgiram com a lesão inicial. E ainda tenho problemas porque
sou  quem  sou.  Recentemente  estava  ao  telefone  com  uma  pessoa  do  tipo  morde­e­assopra  de  quem
particularmente  não  gosto.  Em  um  momento  na  conversa,  não  fui  capaz  de  compreender  o  que  ela  estava
dizendo. Então comecei a perseveração – dizer repetidamente a mesma palavra, o que ela não percebeu. Estes
sinais me dizem que provavelmente eu estava tendo uma convulsão.
Eu  me  senti  frustrada  e  envergonhada,  não  podia  fazer  nada  para  parar  a  convulsão.  Pior  ainda,  pensei  que
poderia começar a chorar, mas me esforcei para ser educada. Finalmente, desliguei quando comecei a perder a
capacidade  de  falar.  E  me  senti  terrível  a  respeito  de  mim  mesma.  Podia  ouvir  a  voz  de  Anne  Deane  Scott
quando  costumava  contar  a  ela  sobre  este  tipo  de  situação  social:  “Apenas  desligue  o  telefone.  E  se  eles  não
gostarem, pior para eles!” Uma lição de vida que ainda preciso aprender. Mesmo depois destes 22 anos, ainda
preciso agradar os outros à minha própria custa.
Tive a melhor ajuda no mundo, então por que não aprender estas lições? Suponho que é porque sou um ser
humano e ainda carrego a mesma bagagem que tinha antes do acidente.
E agora acho que é o momento de falar sobre coisas boas.
Cerca de cinco anos atrás, surgiu um novo medicamento anticonvulsivante no mercado que fez uma diferença
grande e positiva na qualidade de minha vida. Finalmente tenho menos convulsões e estou mais consciente. Eu
sou eu na maior parte do tempo. É maravilhoso. Tenho um computador e gosto dele pelos mesmos motivos que
todos. Ainda que esteja na maior parte do tempo presa em casa, tenho o mundo diante de mim.
Sempre  amei  animais  e  agora  sou  uma  salvadora  de  animais  atuante  e  descubro  casas  para  animais
abandonados  e  abusados  (veja  a  Prancha  Colorida  13,  “Parada  Enquanto  Bons  Cães  Morrem”).  Como  grande
parte disto pode ser feita por telefone ou pela Internet, posso fazer isto quando estou me sentindo bem. Tornei­
me parte de uma rede de pessoas que se preocupam com os animais tanto quanto eu. Elas não têm ideia de que
eu costumava ser uma produtora de filmes ou mesmo que sofri um terrível acidente, embora eu fale com elas
sobre  a  lesão  cerebral,  se  houver  motivo  para  isto.  Sou  apenas  mais  uma  pessoa  que  se  dedica  a  ajudar  os
animais.
Adoro esta parte da minha vida.
Nos 22 anos desde o acidente, evolui da incapacidade de ler e escrever por completo ou mesmo de virar as
páginas de um livro até ser capaz de escrever o que você está lendo agora. Escrevo com facilidade agora.
Por  fim,  existe  algo  inesperado  que  raramente  ouvi  ser  discutido  por  sobreviventes  de  lesões  cerebrais  ou
pelas pessoas que trabalham com eles.
O acidente de carro foi uma agressão esmagadora para mim. Durante os primeiros anos depois do acidente, a
pergunta que eu fazia repetidamente foi esta: Como Deus pôde fazer isto comigo?
Antes  do  acidente,  eu  era  uma  pessoa  espiritualizada.  Acreditava  em  um  Deus  compassivo  e  sábio  que
cuidava de cada pardal que caía e cada lírio do campo.
Depois, parecia que Deus cuidava de tudo, menos de mim. Fiquei chocada e magoada com o fato de Deus ter
deixado isto acontecer. Pensava sobre isto constantemente e conversava com qualquer um que me escutasse. Eu
me senti revirada e lesionada por dentro e por fora (veja a Prancha Colorida 14, “Quando Penso em Morrer”) – e
com raiva. Raiva. Você pode ver isto em minhas pinturas (veja a Prancha Colorida 15, “Dor no 2”).
Os anos se passaram e nunca compreendi. Depois de um tempo, meu pesar desapareceu como fumaça (veja a
Prancha Colorida 16, “Cérebro Branco”).
Compreendo  agora  que  a  maior  lesão  que  experimentei  foi  a  lesão  que  ninguém  pode  enxergar.  Ela  me  fez
sentir medo das coisas, não confiar na vida, não ser capaz de acreditar em um Deus agradável, amoroso. Eu me
senti sozinha.
Eu recebi a melhor terapia ocupacional e o melhor aconselhamento e me beneficiei disto. Aprendi muitas das
habilidades da vida diária novamente. Mudei e cresci.
E há mais.
Minha alma foi a última a sarar.
Ainda estou sarando.

JULHO DE 2007: VINTE E OITO ANOS DEPOIS DO ACIDENTE
Quando  ouvi  pela  primeira  vez  o  termo  terapia  ocupacional,  isto  me  fez  lembrar  uma  fotografia  em  preto  e
branco da virada do século com dúzias de mulheres jovens resolutas trabalhando em tecelagens. Certamente, era
a palavra ocupacional. Quando ela se revela, a terapia ocupacional lida com todas as coisas que nos fazem sentir
como seres humanos – a delicada interação entre mente e corpo. Ouvi pessoas com lesão cerebral dizerem, “Não
me sinto como eu mesma”. E eu dizia a mesma coisa. Experimentei uma mudança interior terrível e chocante
que me tirou a capacidade de ser e de fazer. A terapia ocupacional nos ajuda a nos realinhar, célula a célula.
Quando Anna Deane Scott começou a trabalhar comigo, ela primeiramente me testou. Os médicos, em 1982,
ficaram  perplexos  porque  fiquei  inconsciente  apenas  por  alguns  segundos.  Comumente,  ocorre  maior  falta  de
consciência  para  haver  tanta  lesão.  Entre  os  muitos  problemas  que  os  testes  apontaram,  minha  capacidade  de
sequenciar mostrou ser a mais comprometida. Em outras palavras, eu sabia que existiam etapas para realizar as
coisas,  mas  não  tinha  ideia  em  que  ordem  elas  ocorriam.  Portanto,  eu  literalmente  não  conseguia  contar,  não
sabia dizer os meses do ano, os dias da semana. Não sabia dizer a hora, não conseguia ler. Infelizmente, o mundo
é feito de sequências.
Outro problema era uma incapacidade de, às vezes, encontrar um nome para um objeto ou mesmo reconhecê­
lo. Para trabalhar isto, Anna Deane disse que deveríamos experimentar todos os meus sentidos – toque, audição,
e assim por diante. Uma vez ela pôs inúmeras coisas – batom, pente, lápis, colher – em um saco. Não era capaz
de reconhecê­las com meus olhos. Quando utilizei meu sentido de tato, fui capaz de reconhecê­las, compreendê­
las  com  meus  dedos  e  dizer  seus  nomes.  Disse  à  Anna  Deane  que  me  sentia  como  Helen  Keller  quando  ela
escreveu a palavra ÁGUA pela primeira vez. Foi uma vitória para mim. Havia esperança. Eu estava fazendo com
que as células sadias assumissem outra função. E elas fizeram isto, mesmo que tenha levado anos.
Especialistas  no  campo  da  lesão  cerebral,  em  1982,  disseram­me  que  os  homens  adultos  jovens  eram  mais
prováveis de sofrer lesão craniana. E sendo jovens, eles apresentavam cura mais rápida. As mulheres na minha
idade,  por  outro  lado,  estatisticamente  não  sofriam  lesão  cerebral  e,  sendo  mais  velhas,  não  saravam  tão
rapidamente. Estas pessoas jovens não viveram tanto e, portanto, não tiveram experiência de vida e, por causa
disto, não tinham tantas habilidades de vida quanto um adulto. Por outro lado, eu, uma mulher mais velha – eu –
havia  desenvolvido  um  conjunto  de  habilidades  de  trabalho.  Sabia  como  fazer  muitas  coisas.  Tinha  sido  uma
produtora de televisão e uma cineasta. Para ser uma produtora de televisão e cineasta bem­sucedida, você precisa
ter um enorme controle, saber como fazer as coisas acontecerem e ser uma trabalhadora dedicada. O acidente
não esmagou estas partes de mim. Isto e a minha parte criativa ainda estavam lá, embora naquele momento eu
não  soubesse  disso.  Eu  estava  apenas  tentando  preencher  meus  dias,  os  quais  também  eram  preenchidos  com
convulsões e confusão.
Se você olhar minhas pinturas, você pode ver como eram simples no início. Eu utilizava o dedo para pintar,
água e papel­toalha torcido. Pintava pelo menos 10 quadros por dia. Fazia uma pintura, deitava e descansava.
Fazia uma pintura, acariciava os cachorros. Fazia uma pintura, chorava. Fazia uma pintura, olhava para o teto. E
gradativamente, e com a graça de Deus, comecei a sarar. Havia outro estímulo em minha pintura. Quando um
artista amigo e outros amigos chegavam, eu frequentemente conversava sobre pintura. Tinha algo diferente da
dor e do sofrimento para conversar a respeito. Acima de tudo, não queria que as pessoas sentissem pena de mim.
Pensei muitas vezes que eu era feliz por ter nascido nesta época e neste lugar. Eu tinha sorte em ter vivido
numa  época  em  que  as  pessoas  estavam  começando  a  compreender  o  traumatismo  craniano.  Traumatismo
craniano – as pessoas hoje chamam de lesão cerebral. Uma centena de anos atrás, se eu tivesse este tipo de lesão
cerebral,  poderia  não  ter  sobrevivido.  Ou  se  tivesse  sobrevivido,  teria  ficado  presa  a  uma  cadeira  em  alguma
instituição lúgubre.
Por outro lado, houve muitos momentos sombrios em que eu frequentemente pensava que teria sido mais fácil
morrer.  Como  a  vida  tinha  se  tornado  um  fardo  insuportável,  não  me  sentia  como  eu  mesma.  Eu  havia  me
perdido. Sentia que ficaria presa para sempre nesta teia terrível. Parecia que não havia maneira de fugir dela. E
como Deus poderia ter feito isto comigo? O que eu fiz para merecer isto? Pensava constantemente em suicídio.
Não  falava  sobre  isto.  Nem  para  meus  pais.  Nem  para  Sally.  No  início,  um  homem  de  grande  conhecimento
sobre os prós e contras do traumatismo craniano me visitou. Ele era delicado e encorajador. Ele também sofria
de lesão cerebral e epilepsia. Ele me disse para não dizer a ninguém que havia pensado em suicídio – você seria
considerada incapaz “para seu próprio bem”. Significando que você seria colocada em um asilo para malucos.
Principalmente,  não  diga  nada  para  os  médicos,  ele  disse,  e  eu  acreditava  nele.  Você  pode  apostar  que  eu
acreditava nele. Isto era tudo de que eu precisava, ficar em um asilo.
Durante  um  tempo  participei  de  um  grupo  de  discussão  de  pessoas  com  convulsões  e  lesão  cerebral.  Ouvi
muitas coisas horríveis “para o seu próprio bem” que fizeram com as pessoas. Mas este é outro livro.
Estou  falando  com  minha  própria  voz  agora  –  não  com  a  voz  da  pessoa  derrotada  e  abalada.  Na  realidade,
naquele  tempo,  eu  ainda  era  incapaz  de  fazer  as  coisas  mais  simples.  E  Anna  Deane  Scott,  abençoado  seu
coração,  enviou  algumas  de  suas  alunas  de  terapia  ocupacional  à  minha  casa  para  trabalhar  comigo  para  o
crédito  acadêmico.  Elas  eram  maravilhosas.  Nós  todas  ganhamos.  Elas  aprenderam  na  prática  sobre  a  lesão
cerebral e eu aprendi a fazer coisas que não era capaz de fazer sozinha. Eu queria escrever uma história sobre
meu cão terrier Jack Russell, Todd. As alunas escreveram as histórias de Todd que eu não era capaz de ler ou
escrever sozinha. Eu dizia as palavras uma a uma, e as alunas as escreviam uma por uma. A história se chamava
“Todd e as Estrelas”. Eu estava pintando e as alunas foram à loja para comprar tinta amarela para mim. E elas
me ajudaram. Elas eram como a luz do sol entrando em um quarto escuro. Anna Deane era muito esperta. Eu
continuava pintando. Eu podia ver que minhas pinturas estavam melhorando. E embora eu não soubesse disso
naquele tempo, eu estava melhorando.
Eu estava sarando. Eu sobrevivi e continuei a contar esta história. E estou feliz por estar viva.
Passaram­se 28 anos desde o acidente de carro. Aprendi a viver com minha lesão cerebral. Durante a maior
parte do tempo, sinto­me bem em casa, com meus amigos, em locais conhecidos. Mas esqueço que não estou
bem  aos  olhos  do  mundo.  Não  me  saio  bem  com  as  novas  situações.  Alguns  anos  atrás,  eu  precisei  de  uma
substituição do joelho e fui a um hospital altamente conceituado e a uma instituição de reabilitação. Depois da
cirurgia, fui trazida para meu quarto, tonta, chorando, confusa e com dor. A enfermeira de plantão me dizia que
havia  uma  maneira  para  controlar  minha  dor  –  bastava  apertar  um  botão  com  a  minha  mão  e  eu  receberia  a
quantidade  correta  dos  medicamentos  para  dor.  Ela  demonstrou  e  saiu.  A  dor  continuava.  Minha  amiga  Sally
pôde ver que eu não compreendia a sequência de etapas para acionar o aparelho para tratar a dor. Ela chamou a
enfermeira e contou a ela que eu tinha uma lesão cerebral. Sally perguntou se ela poderia apertar o botão por
mim? A enfermeira disse a Sally que, com certeza, ela NÃO poderia tocar no aparelho e que eu precisava fazer
aquilo sozinha.
Uma frustrada Sally repetiu a explicação sobre minha incapacidade de lidar com sequências e que por causa
disto eu não era capaz de utilizar o aparelho para tratar a dor. A enfermeira nos disse que qualquer um é capaz de
utilizar  a  máquina  de  analgesia  –  até  mesmo  pessoas  com  80  anos  de  idade  podem  fazer  isto  e  “assim  você
também pode”. A enfermeira saiu. A dor continuou. Sally chamou a enfermeira e mais uma vez explicou sobre
minha  lesão  cerebral.  Esta  sequência  continuou  por  inúmeras  vezes.  Não  estou  certa  de  como  o  problema  se
resolveu, mas, por fim, outra enfermeira veio e começou a me dar injeções para a dor. Foi o primeiro de muitos
outros  episódios  deste  tipo.  A  equipe  parecia  achar  que  se  eu  era  capaz  de  conversar,  eu  deveria  ser  capaz  de
compreender o que eles queriam que eu fizesse.
A próxima foi levantar da cama. Existem etapas a aprender para se levantar de um leito depois de uma cirurgia
de  colocação  de  prótese  de  joelho.  Uma  enfermeira  e  uma  auxiliar  de  enfermagem  me  disseram  o  que  fazer
repetidamente.  Eu  perguntava  repetidamente  e  tentava  compreender  o  que  elas  estavam  me  dizendo.  E,  para
piorar, quando eu me empenhava em explicar alguma coisa, minha voz ficava embaralhada e confusa. A auxiliar
de enfermagem virou­se para a enfermeira e perguntou o que havia de errado comigo. A enfermeira olhou para
mim e fez um círculo com seu dedo ao redor do ouvido – o sinal que as crianças utilizam para dizer “louco”.
Isto, muito embora Sally tivesse falado a toda a equipe de enfermagem sobre minha lesão cerebral, fez com
que um aviso fosse colocado sobre meu leito e me fez ter certeza de que a informação foi acrescentada a meu
prontuário médico, juntamente com a avaliação de meu próprio médico sobre minha situação. Grande parte da
equipe  de  enfermagem  e  médica  não  estava  interessada  em  qualquer  coisa  que  eu  dissesse  sobre  minha  lesão
cerebral. Eles desconsideraram totalmente o que Sally e eu havíamos dito. Além disso, ai de mim!, eles foram
rápidos em criticar e dizer que eu não estava me esforçando o suficiente. Eles conversavam sobre mim na minha
frente e de outras pessoas. Eles falavam de mim como se eu fosse uma criança que se comportava mal.
Algumas  das  situações  mais  apavorantes  aconteceram  quando  os  profissionais  da  reabilitação  estavam
tentando  me  ensinar  a  fazer  as  coisas  sozinha:  subir  escadas,  entrar  e  sair  da  banheira  ou  caminhar  com  o
andador.  Eu  estava  apavorada  porque  eles  não  ouviam  nenhuma  palavra  que  eu  dizia.  Eu  sabia  como  esta
situação era perigosa para mim. Em casa, eu caía e quebrava ossos, quebrava dentes, mordia a parte interna de
minha boca e colocava meus dedos em meus olhos. Estas pessoas não me ouviam sobre minha lesão cerebral. Eu
pedi para falar com a supervisora e descrevi a situação em que me encontrava. Falei com ela sobre a equipe de
reabilitação  não  me  ouvir.  A  supervisora  disse  que  eles  deviam  estar  cansados  naquele  dia.  Falei  com  meu
médico sobre a mesma coisa. Ele disse que escreveu para o diretor do hospital e que ninguém também o tinha
ouvido.
Por fim, graças a Deus, saí daquele lugar. Estava em um pesadelo. Também com muita frequência, deve ser
desta maneira que algumas pessoas – os idosos, os retardados, os dementes, os pobres, as pessoas que não falam
inglês – são tratadas. O que elas precisam suportar. E eu suportei.
O  tempo  passou  e  precisei  ir  a  um  hospital  por  causa  de  uma  pneumonia.  Este  novo  hospital  foi  uma
experiência  muito  diferente.  É  conhecido  por  seu  trabalho  inovador  com  o  trauma  cerebral.  A  equipe  coletou
informações detalhadas sobre minha lesão cerebral. Eles estavam tão interessados nela como nenhum outro lugar
o fez. Suspirei aliviada. Não tinha que me esforçar para me comunicar. Quando eu disse que havia sofrido uma
lesão cerebral no lobo temporal, eles compreenderam. Era como se eu estivesse em outro país. Eu não precisava
mais ficar em uma postura defensiva. Melhor que isto – eles acreditavam em mim quando eu descrevia, embora
muito estranhas até mesmo para mim, as características de minha lesão cerebral.
E agora, na televisão, vejo nossos soldados, homens e mulheres, feridos, acidentados, trazidos de volta para
muitos hospitais militares e instituições de reabilitação onde pode haver pouco ou nenhum conhecimento sobre a
lesão  cerebral  ou  sobre  como  lidar  com  ela.  Imagino  que  estas  pessoas  que  estão  voltando  da  guerra  e  suas
famílias irão enfrentar problemas semelhantes àqueles que eu tive e que minha amiga Sally combateu para meu
benefício.  Um  recente  artigo  na  revista  DISCOVER,  intitulado  “Dead  Men  Walking:  What  Sort  of  Future  Do
Brain­Injured Iraq Veterans Face?” [Homens mortos que andam: que tipo de futuro os veteranos do Iraque irão
enfrentar?],  escrito  por  Michael  Mason  (2007),  descreve  a  situação  enfrentada  por  estes  veteranos.  Quando  li
este artigo, meu coração doeu porque sei que a lesão cerebral pode ser uma tragédia para o resto da vida.

Em  um  relâmpago,  a  rajada  incinera  o  ar,  pulveriza  o  metal,  queima  a  carne.  Milésimos  de  segundo  depois,  um
dispositivo  explosivo  improvisado  (DEI)  detona  e,  em  um  piscar  de  olhos  depois  que  o  cartucho  do  morteiro  explode,
uma onda de pressão excessiva envolve o corpo humano e, na mesma velocidade, uma onda de subpressão se sucede e
desaparece.  Os  tímpanos  queimam,  bolhas  aparecem  na  corrente  sanguínea  e  o  coração  fica  lento.  Um  soldado  ou  um
civil  pode  sobreviver  à  explosão  sem  uma  única  ferida  penetrante  e  ainda  receber  o  pior  diagnóstico:  lesão  cerebral
traumática, ou LCT, uma lesão típica da Guerra do Iraque.
Mas,  no  mesmo  instante  em  que  a  explosão  revela  o  caos,  ela  também  ativa  o  atendimento  mais  organizado  e
sofisticado de trauma na história. Em poucas horas, um soldado pode ser enviado a um hospital de campanha adequado,
colocado em um avião com unidade de terapia intensiva e receber atendimento crítico contínuo a um oceano de distância.
(Durante  a  Guerra  do  Vietnã,  demorava  uma  média  de  15  dias  para  se  receber  tal  nível  de  tratamento.  Hoje  em  dia,  o
militar o recebe em 13 horas.) As medidas heroicas podem estar gerando taxas de sobrevivência sem precedentes, mas
elas  ainda  trazem  uma  consequência  impiedosa.  Nenhuma  outra  guerra  criou  tantos  veteranos  tão  gravemente
incapacitados, com apenas seus troncos encefálicos preservados. (Mason, 2007, parágrafos 1­2).

Mais  adiante  no  artigo,  Mason  continua  a  escrever  sobre  as  possibilidades  de  reabilitação  para  soldados  com
lesão cerebral. Quando li esta parte, pensei a respeito de todas as coisas que os terapeutas ocupacionais poderiam
fazer por seu sofrimento. Em uma entrevista, Marilyn Price Spivack disse que

Homens  e  mulheres  das  forças  armadas  receberão  cuidados  excelentes  durante  um  período,  porém,  mais  tarde,  eles
voltarão  para  suas  comunidades.  “As  forças  armadas  estão  realizando  um  trabalho  extraordinário  ao  salvar  jovens
soldados e tratando­os durante a fase aguda da reabilitação”, diz Spivack, que trabalha com a população de lesão cerebral
no Spaulding Rehabilitation Hospital em Boston. No início dos anos 1980, ela fundou a Associação para Lesão Cerebral,
atualmente  a  principal  organização  de  defesa  para  pacientes  com  LCT.  “Agora,  o  governo  precisa  assumir  o
compromisso  de  ajudá­los  em  sua  recuperação,  mas  de  onde  virão  os  recursos?  Como  profissionais  especializados  em
lesões cerebrais, sabemos que os serviços para LCT não estão disponíveis em muitos locais por todo o país e estamos
cientes  dos  enormes  hiatos  no  sistema”,  diz  ela.  “Francamente,  estou  frustrada  e  com  raiva  por  causa  da  recusa  do
governo em fornecer à população com LCT o suporte de que ela precisa desesperadamente.”
Spivack  não  fala  sem  razão;  enormes  hiatos  são  evidentes.  Muitos  estados  não  contam  com  um  único  centro  de
reabilitação  para  a  lesão  cerebral  e,  dentre  os  estados  que  oferecem  algum  nível  de  tratamento  para  a  LCT,  poucos
realmente  fornecem  assistência  suficiente  que  se  equipare  ao  mais  básico  nível  de  cuidado  especializado.  Por  causa  de
valores  que  podem  exceder  a  mil  dólares  por  dia  para  a  reabilitação  pós­aguda  da  LCT,  não  existem  muitas  famílias
norte­americanas que possam fazer frente ao custo mensal do tratamento, muito menos para o mínimo recomendado de
90 dias.
Apenas recentemente, na metade de julho de 2006, o governo admitiu que os pacientes e as famílias estavam lidando
com importantes inadequações. A realidade é que um nível fundamental de cuidado está simplesmente ausente na maioria
dos estados. (Mason, 2007, parágrafos 29­31.)

Incentivo você a ler o maravilhoso artigo de Mason (veja em NA REDE, no final do capítulo). Temo que estes
veteranos se deparem com o pior tipo de ignorância – pessoas que não sabem que eles não sabem. Este é um
grande problema que não tem respostas fáceis.

COMO ESTOU AGORA?
Frequentemente eu imagino como as coisas teriam sido se eu não tivesse sofrido o acidente de automóvel. Por
causa dele, eu perdi muitos anos de minha vida. Alguns desses anos foram perdas completas, porque não existem
palavras para o que passei. Senti que havia caído em uma depressão muito profunda. Estava viva, mas não estava
vivendo. Gradativamente, melhorei de muitas maneiras.
Eu tenho quatro ou cinco horas por dia – horas boas em que posso fazer as coisas. Depois disso, minha fala
fica enrolada, minha coordenação fica ruim e eu preciso me preocupar se irei cair. Preciso ser MUITO cuidadosa
ao me segurar nas coisas para não cair. Tenho pegadores e barras de segurança por toda a casa que me ajudam a
caminhar. Mas se estou muito exausta, eu preciso ficar na cama. Se eu faço alguma coisa um pouco mais difícil,
meu cérebro fica congelado, rígido, como um carro antigo ou um bebê desengonçado. Nunca sei quando terei de
optar por parar. Quando isto acontece, preciso ficar quieta e repousar.
Existem  coisas  que  gostaria  de  poder  fazer.  Gostaria  de  cavalgar.  Adoraria  ir  ao  cinema.  Gostaria  de  ir  à
Suécia  e  ver  o  sol  da  meia­noite  novamente.  Gostaria  de  mais  uma  vez  assistir  a  uma  orquestra  sinfônica.
Gostaria de ver a floração das cerejeiras em Washington. E as sequoias. E os animais na África. E assistir aos
cinco dias de um festival de cinema. E dançar com um homem bonito – um malandro.
Fig. 11.1 Mary, Sally e LaBeam conversando no jardim. (Fotografia por cortesia de L. Nugent, Photographic
Services, University of New Hampshire, Durham, NH.)

Eu  tentei  assistir  a  um  filme  no  cinema,  precisei  sair  e  sentar  em  um  banheiro  acessível  por  causa  da
sobrecarga de fotos e som. Tive que dizer às pessoas que foram comigo que eu precisava ir para casa. O filme
era Piratas do Caribe e gostei muito dos 30 minutos a que assisti.
Mas, apesar de tudo, consigo assistir à televisão em casa porque posso abaixar o volume, se necessário.
E se isto fracassar, eu ouço meus Livros Sonoros, que tratam de todo tipo de tema. Eu posso ouvir poesia ou
ensaios ou histórias com as luzes apagadas, com meus quatro cães na cama, e eu fico muito, muito feliz.
Amanhã eu vou a uma reunião em minha cadeira de rodas e, se precisar ir ao banheiro, precisarei de ajuda
porque  muitos  banheiros  não  são  acessíveis  para  pessoas  portadoras  de  deficiências.  Não  falo  sobre  os  prós  e
contras disto, mas acredite, é verdade. As pessoas gostam de pensar que tudo isto mudou e que os banheiros são
acessíveis e que todas as calçadas têm rebaixamentos do meio­fio, de modo que você não precisa lidar com o
meio­fio. NÃO.
Não faço tantas coisas quanto sou capaz de fazer por causa da complexidade de gerenciar o ir e vir.
Vivo sozinha e tenho pessoas que me ajudam. Minhas compras são entregues em casa. Tenho pessoas que me
ajudam nas tarefas da casa. Tenho pessoas que me levam ao médico, se eu consigo fazer com que isto aconteça –
tanto  coordenar  como  pagar  pessoas  para  me  levarem  ao  médico.  Muitas  vezes  não  consigo  pessoas  que  me
levem ao médico por amizade ou pagando.
Voltemos,  então,  para  coisas  mais  interessantes.  Muitos  de  meus  amigos  e  eu  resgatamos  animais  e
encontramos bons lares para eles. Quando vemos um cão que passava fome e era agredido se tornar um cachorro
saudável e feliz, é uma grande experiência. E eu pratico jardinagem na minha varanda da frente. E como todo
mundo, eu tenho um computador e, também como com todo mundo, ele é a minha ligação com o mundo.
Mais recentemente comecei a trabalhar com pessoas no centro da cidade. Elas fazem comemorações de Natal
para  crianças  há  anos.  No  último  Natal,  distribuímos  brinquedos,  livros  e  coisas  gostosas  de  comer  para  800
crianças. Disseram­me que estes presentes poderiam ser os únicos que as crianças iriam receber. Este evento foi
maravilhoso. Eu me sentei em uma mesa especial de presentes de Natal com livros sobre animais e brinquedos
para  os  animais  de  estimação  das  crianças.  Senti  que  estava  exatamente  no  lugar  onde  deveria  estar  –  com
crianças que gostavam de animais tanto quanto eu. Um menino pequeno perguntou se eu tinha algum livro sobre
cobras, e por sorte eu tinha. Ele ficou maravilhado quando abriu o presente e disse, “COBRAS!!!” Estávamos
ali. A criança. O livro sobre cobras. E eu. Este foi um dos momentos mais felizes de minha vida.
Comecei a pintar novamente. Eu me divirto com meus amigos, tenho sorte de ter chegado até aqui.
Eu tive a sorte de encontrar Anna Deane Scott, que tinha a crença de que sempre havia outra maneira de fazer
alguma coisa. E na realidade este era o caso.
Eu conheci Maureen Neistadt, que me pediu para falar com seus alunos de terapia ocupacional e que mostrou
a eles minhas pinturas.
Eu tive meu querido cão guia treinado Timmy, que me ajudou a caminhar, me impedia de cair, fazendo com
que eu me sentisse mais segura. Ele foi um incrível presente para mim quando eu estava atemorizada e sozinha.
Nos primeiros anos logo após o acidente, o Dr. Thomas Glick, um neurologista, foi importante para mim. Ele
me incentivou, foi bom comigo, foi generoso com seu tempo e ouviu muito do meu choro. O Dr. Glick foi um
homem notável.
Minha  mãe  e  meu  pai  em  Dakota  do  Sul  me  apoiaram  financeira  e  emocionalmente.  Eles  me  ligavam
diariamente. Não posso imaginar o que teria acontecido comigo sem a ajuda deles, quando eu fiquei com quase
nada.  Eles  tinham  muito  orgulho  de  mim  –  de  minhas  peças,  meus  filmes  –  que  havia  recebido  prêmios  e
aclamação  e  acrescentado  significado  às  suas  vidas.  Eu  sabia  que  o  que  havia  acontecido  comigo  os  tinha
deixado arrasados. Eu podia ouvir isto em suas vozes quando eles conversavam comigo ao telefone.
Se eu tivesse vivido 100 anos atrás ou tivesse nascido no terceiro mundo, eu não teria sobrevivido.
Em vez disto, estou aqui, tendo a honra de conversar com você.
E quem eu sou agora? Sou um ser humano. Exatamente como todo mundo.

PÓS­ESCRITO: IDEIAS PARA OS PROFISSIONAIS DE TERAPIA OCUPACIONAL
Tenho  um  pensamento  final  que  quero  compartilhar  com  você.  Passei  muito  tempo  pensando  sobre  o  que
“ajuda”  no  tipo  de  situação  em  que  eu  estive  por  causa  de  minha  lesão  cerebral.  Por  que  algumas  pessoas  se
afastam  de  mim  e  outras  não?  Por  que  algumas  pessoas  me  confortam  e  me  curam  e  outras  pessoas
aparentemente  esclarecidas  me  envergonham  ou  me  humilham?  Em  outras  palavras:  O  que  funciona?  O  que
cura? O que ajuda?
Eu descobri que a força está no cerne do viver com uma lesão, e a força está no cerne do viver melhor. Muitos
de nós, principalmente as mulheres, não pensam em si mesmos como tendo força. Esta é apenas uma palavra,
não  alguma  coisa  que  possuímos  ou  sobre  o  que  pensamos  muito.  Assim,  a  força  é  a  capacidade  de  fazer  as
coisas acontecerem.
Quando  eu  estava  mais  deprimida,  sentia  como  se  qualquer  pessoa  fosse  mais  forte  do  que  eu  –  desde  a
secretária  no  consultório  do  médico  que  precisava  separar  um  tempo  para  apertar  o  botão  correto  do  elevador
para  mim  até  o  motorista  de  táxi  que  eu  confiava  para  me  devolver  o  troco  correto  porque  eu  não  conseguia
contar. As pessoas que precisavam me mostrar o banheiro quando eu não era capaz de encontrá­lo. O médico
que  preenchia  os  formulários  do  seguro  de  modo  que  eu  conseguisse  os  benefícios  por  incapacidade  para
comprar alimento e pagar o aluguel. Era uma lista muito longa e eu estava no final. Eu tinha que depender de
todos.
Por causa de questões de poder (quem o detinha, quem o quer, quem precisa dele, quem pode compartilhá­lo),
penso que é importante verificar por que você busca as profissões de cura. Faça a você mesmo perguntas duras e
continue  fazendo  estas  perguntas.  Perguntas  como  “O  que  faço  para  me  livrar  deste  trabalho?”  “Como  esta
situação me faz sentir sobre eu mesma?” “Preciso ter coisas em preto e branco ou posso lidar com a incerteza de
todos os matizes de cinza que a doença e o pesar nos trazem?” “Posso confiar nas pessoas, ainda que lesionadas,
para saber o que é melhor para elas mesmas?”
Então, a pergunta que lhe faço é esta: Você consegue dar poder a outra pessoa? Você pode seguir seus próprios
desejos, sonhos, capacidades? Você pode ficar tão interessada em suas próprias capacidades quanto você está em
suas incapacidades? Você pode dar a elas os instrumentos para fazer com que suas vidas fluam normalmente?
E  você  ouve  as  pessoas?  Você  escuta  o  que  elas  estão  lhe  dizendo?  Acredito  que  estamos  muito  longe  de
perceber o crédito que damos a nós mesmos ou entre nós. Então eu estou dizendo a você que as duas coisas mais
importantes que você pode fazer como profissional da terapia ocupacional é ouvir e dar poder. As pessoas que
mais me ajudaram fizeram estas duas coisas. Continuo a agradecer a elas e a utilizar diariamente o que elas me
ensinaram.
Desde que comecei minha terapia ocupacional pela primeira vez com Anna Deane, em 1982, foram escritos
livros sobre a lesão cerebral e aulas foram dadas. Criaram hospitais inteiros para pessoas com lesão cerebral. Por
causa da guerra no Iraque, este é um novo tempo para a lesão cerebral e este é o momento em que você, como
terapeuta ocupacional, vai precisar pensar de uma nova maneira, e pensar grande – porque existe esta situação
desesperadora.  Penso  que  é  uma  vergonha  que  todo  soldado  lesionado  não  possa  receber  terapia  ocupacional.
Quando leio que os soldados que retornaram nem ao menos foram avaliados quanto à lesão cerebral – é como se
estivéssemos na Idade Média. E tanto sofrimento tem sido desnecessário.
Então, queridos amigos que estão lendo isto, penso que seu chamado poderia ser o de cuidar dos soldados que
estão voltando da guerra. Estes são momentos para ficar ao lado dos soldados e defendê­los.
Vocês  escolheram  uma  profissão  que  ajuda,  restaura,  ensina  e  dá  conforto.  Alguns  dos  seres  humanos  mais
agradáveis  que  conheci  são  terapeutas  ocupacionais.  Vocês  falam  por  nós,  as  pessoas  a  quem  vocês  servem.
Vocês  estão  do  nosso  lado.  Vocês  são  necessários.  Cada  um  de  nós  e  todos  nós  estamos  extremamente
necessitados. Estou feliz por vocês terem escolhido esta profissão. Estou orgulhosa de vocês. Agradeço a vocês.
Agradeço a vocês todos.

AGRADECIMENTO
Deixe­me contar a você sobre minha amiga Sally. Sally Schreiber­Cohn me ajudou a fazer este capítulo existir,
desde  escrever  parte  do  ditado  original,  quando  eu  estava  muito  adoentada  para  fazê­lo,  até  me  trazer  os
suprimentos  para  minhas  pinturas.  Sally  e  eu  éramos  amigas  antes  do  acidente  e  ela  se  manteve  como  minha
amiga durante estes 28 anos. Sally, ela mesma uma artista, me apoiou diariamente, de forma paciente, agradável,
e trabalhou para que eu visse que a artista que há em mim não havia morrido. Ela sempre esteve ao meu lado.
Sally é em grande parte responsável por eu me tornar tudo isso.

NA REDE
Para uma perspectiva adicional sobre a reabilitação de soldados veteranos com lesão cerebral, veja o relato sobre
a Palo Alto Veterans’ Administration em http://www.pbs.org/newshour/bb/health/july­dec06/brain_09­14.html

REFERÊNCIA
Mason, M. (2007, February 23). Dead men walking: What sort of future do brain­injured Iraq veterans face?
Discover Magazine. Retrieved June 4, 2007, from http://discovermagazine.com/2007/mar/dead­men­walking
Ele Não Está Quebrado – Ele é Alex: Três
Perspectivas
ALEXANDER McINTOSH, LAURIE McINTOSH, E LOU McINTOSH

Sumário
Laurie
Lou
Alex
Conclusão

D urante toda a vida, existem direções a tomar e opções a fazer. Cada um de nós carrega uma perspectiva de
nosso  futuro.  Quando  acontece  alguma  coisa  inesperada  que  nos  coloca  em  um  caminho  desconhecido,
precisamos ajustar nossa visão e mudar nossas expectativas, enquanto mantemos nossa autoidentidade. Quando
os  pais  descobrem  que  seu  filho  possui  uma  incapacidade,  eles  devem  adaptar­se  a  esta  alteração  e  criar  uma
nova perspectiva para eles próprios e para seu filho. Esta é a história de Alex, uma pessoa com paralisia cerebral,
contada a partir de três perspectivas. Laurie, a mãe de Alex, começa o capítulo. Em seguida, vem Lou, pai de
Alex. Alex tem a palavra final, porque é de sua história que queremos que você se recorde.

LAURIE
Antes  de  Alex  nascer,  era  fácil  navegar  nas  fantasias  sobre  seu  futuro.  Eu  podia  vê­lo  brincando  no  deque  de
nosso barco. (Precisaria lembrar de investigar a rede de segurança.) Eu precisaria ser cuidadosa ao vigiá­lo pela
nossa casa, que também era uma garagem de barcos. Quando ele tivesse idade suficiente, nós lhe daríamos sua
primeira  caixa  de  ferramentas.  Ele  martelaria  com  seu  pequeno  martelo  de  brinquedo  ao  lado  de  seu  pai,
enquanto este estivesse trabalhando nos barcos.
Alex  nasceu  12  semanas  antes  do  previsto.  Ele  pesava  900  gramas  e  precisou  de  todo  o  suporte  médico  da
unidade  de  terapia  intensiva  neonatal  (UTIN)  para  manter­se  vivo.  Dez  dias  depois  de  seu  nascimento,  meu
marido Lou e eu fomos conduzidos até a sala de reunião próxima ao posto de enfermagem. Lembro que a sala
estava escura. As cortinas estavam fechadas para evitar a luz solar intensa e ninguém acendeu as luzes. Fiquei
surpresa  ao  ver  a  assistente  social  e  o  neonatologista  se  juntarem  a  nós  –  todos  os  atores.  O  neurologista  foi
simpático, mas triste quando mostrou as fotos da última ultrassonografia cerebral de Alex. Quando ele disse as
palavras leucomalacia periventricular, tentei nadar até a superfície ao assumir meu papel de profisisonal e ser a
terapeuta  ocupacional  que  eu  fui  treinada  para  ser.  Sim,  eu  sabia  tudo  sobre  a  diplegia  espástica.  Ele  teria
problemas para movimentar seus braços e suas pernas. Certamente, eu poderia ajudar a explicar isto para meu
marido.  A  cognição  provavelmente  não  seria  afetada.  Bem,  isto  é  algo  bom.  Com  certeza,  sempre  há  uma
possibilidade...  o  cérebro  faz  coisas  impressionantes.  Estava  atordoada  quando  saí  da  sala,  tentando  encontrar
sentido nas notícias.
Lou e eu caminhamos de volta para a incubadora de Alex. Nós nos juntamos ao pequeno ser desconfortável,
que ainda puxava sua sonda de alimentação e fazia um tênue som de resmungo. Coloquei minhas mãos através
das  aberturas  laterais  da  incubadora  e  afastei  seus  braços  para  longe  da  sonda.  Eu  não  conseguia  me  ver
conversando com ele. Fiquei parada, olhando para ele, mas eu não conseguia compreender o que estava vendo.
Quem era esta nova pessoa?... “Diplegia espástica.” Ele caminharia algum dia? Eu não conseguia prever nada.
Saí do hospital naquele dia com uma sensação de vazio. Era quase como se Alex tivesse morrido.
No entanto, Alex não morreu. Ele cresceu e mudou. Ele desenvolveu uma personalidade própria antes mesmo
de deixar a UTIN. Quando ele finalmente veio para casa, próximo à data provável de seu nascimento, ele parecia
um bebê comum. Eu adorava mostrá­lo às pessoas e dizer que bebê maravilhoso ele era. Houve dias em que eu
me  esqueci  por  completo  do  exame  cerebral  e  via  Alex  como  eu  o  via  em  meus  sonhos  antes  de  ele  nascer.
Outros dias, eu entrava em pânico com sua incapacidade de rolar ou sentar. Eu temia que ele precisasse utilizar
uma cadeira de rodas ou fosse incapaz de conseguir um emprego. A parte de Alex que estava em seu futuro era
totalmente obscura para mim. Tudo o que eu podia fazer era me focar no Alex que estava presente.
Durante toda a juventude de Alex, passamos repetidamente pelos estágios do luto. Uma vez, quando eu estava
furiosa  com  um  neurologista,  lembrei  de  ter  lido  sobre  a  raiva  ser  um  dos  estágios  típicos,  juntamente  com  a
negação,  a  barganha  e  a  culpa,  entre  outros.  Em  minha  prática,  ouvia  frequentemente  profissionais  de  saúde
zombando  sobre  este  pai  ou  mãe  estar  em  negação  ou  que  aquele  pai  “estava  apenas  passando  pela  fase  de
raiva”. Eles pareciam tão superiores, como se nunca fossem lidar com uma situação como esta de uma maneira
não saudável. Estive em negação a respeito de Alex? Por vezes. Foi uma coisa ruim? Isto me enfraqueceu ou me
tornou neurótica? Absolutamente não. Os profissionais que criticam os pais por atravessarem os estágios do luto
deviam ter eles próprios uma chance de experimentá­los. Dizer a alguém que ela não deve ficar em negação ou
não ter raiva é como tentar dizer a ela para se autoevoluir. E isso não é algo que você possa fazer sob comando.
Nossos melhores profissionais de saúde eram aqueles que ouviam com atenção, reconheciam o que tínhamos
passado  em  um  determinado  dia,  e  aceitavam  que  aquela  era  a  realidade  do  dia.  Em  alguns  dias  eu  estava
otimista, e em outros não conseguia ver como nós poderíamos resolver a situação. Alguns dias eu estava cheia
de energia e procurava mais exercícios ou sugestões para atividades, e em outros me envergonhava por não ter
feito os alongamentos de Alex corretamente. Eu era grata aos profissionais que conseguiam se adaptar às minhas
mudanças e eram pacientes e sabiam quando me incentivar e quando parar.
À medida que Alex se tornava uma pequena pessoa, começamos a ser capazes de visualizar seu futuro. Nosso
círculo de amigos começou a incluir famílias de outras crianças com incapacidades. Frequentávamos grupos de
apoio  e  atividades  especiais  que  eram  oferecidas  na  instituição  local.  Lou  começou  a  trabalhar  em  algumas
questões  nacionais  sobre  a  incapacidade  que  o  colocaram  em  contato  com  adultos  com  incapacidades  que
estavam fazendo importantes mudanças na legislação. Lou e eu podíamos conseguir aconselhamento de outros
pais  e  perguntar  a  adultos  incapacitados  bem­sucedidos  o  que  devíamos  fazer  para  ajudar  Alex.  Foi  esta
exposição  aos  outros  na  comunidade  com  incapacidade  que  nos  permitiu  começar  a  visualizar  Alex  como  um
adulto bem­sucedido. Meu treinamento e minha experiência como terapeuta ocupacional me ajudaram a focar na
criação  de  um  ambiente  domiciliar  com  expectativas  típicas.  Em  meus  cursos  de  terapia  ocupacional,  aprendi
como  hábitos,  rotinas,  atitudes  e  valores  de  uma  pessoa  são  enraizados  nas  experiências  durante  a  infância.
Queria  ter  certeza  de  que  Alex  cresceria  com  hábitos,  atitudes  e  valores  que  o  tornariam  um  adulto  bem­
sucedido.
Quando Alex atingiu a idade pré­escolar, eu quis proporcionar a ele experiências que fossem as mais típicas
possíveis.  Nesse  momento,  ele  era  uma  criança  inacreditavelmente  verbal  e  imaginativa  que  utilizava  uma
diminuta cadeira de rodas. Sua mão esquerda era quase normal, mas a direita não tinha habilidade motora. Ele
precisava  de  exercícios  para  fortalecer  e  alongar  suas  pernas  e  para  melhorar  o  uso  de  sua  mão.  Achei  muito
mais fácil inserir as atividades terapêuticas em nossa rotina diária do que separar horários especiais para fazer os
“exercícios”. Quando eu preparava as refeições, dava todas as embalagens para Alex abrir, misturas para mexer e
alimentos para colocar nas tigelas. Por exemplo, picava ervilhas e colocava porções de ervilhas picadas em sua
bandeja, de modo que ele pudesse colocá­las na panela. Ele me ajudava a dobrar e selecionar a roupa para lavar.
Sua especialidade era encontrar os pares de meias. Dei a ele um controle remoto para que ele pudesse controlar
os aparelhos elétricos como o aspirador de pó, o liquidificador, o rádio ou as luzes da árvore de Natal. Incentivei­
o a ficar em pé na pia da cozinha de modo que ele pudesse “ajudar” com os pratos. Ele adorava lavar o carro
com  a  mangueira  de  borracha.  Este  tipo  de  “trabalho”  era  “brincadeira”  para  Alex.  Com  frequência,  ele
imaginava ser um adulto como um cozinheiro, operador de máquina ou “lavador de carros”, quando realizava
essas tarefas.
Descobri mais tarde, enquanto fazia pesquisa para minha tese de mestrado, que os pré­escolares têm um forte
estímulo para imitar seus cuidadores. Os afazeres domésticos não somente motivam as crianças, como também
as ajudam a sentir­se parte da família. É uma das primeiras oportunidades que as crianças têm para contribuir e
para sentir­se gratificadas por ajudar os outros. Naquele momento, Alex estava na fase escolar, ocupado com os
trabalhos de casa e as atividades extracurriculares, e não estava tão interessado em me ajudar na casa. Queria que
ele  tivesse  uma  sensação  de  responsabilidade  e  imaginasse  que  poderia  ser  uma  pessoa  da  qual  outros
dependeriam.
Por  causa  de  suas  limitações  físicas,  era  difícil  encontrar  uma  tarefa  que  ele  pudesse  cumprir  de  modo
totalmente independente. Dei a ele o trabalho de limpar a pia do banheiro. Logo descobrimos que ele precisava
usar  um  avental  para  esta  tarefa,  para  manter  o  limpador  afastado  de  sua  camisa.  Ele  se  tornou  “Myrtle,  a
faxineira”. Demorou várias  semanas  para  treiná­lo  para  fazer  todas  as  etapas  da  limpeza  da  pia.  Ele  precisou
aprender a regular a quantidade de sabão em pó que ele derramava. Ele aprendeu a segurar a esponja no ângulo
correto para secar a pia limpa. Ele aprendeu a trabalhar de maneira organizada, de modo que não sujasse uma
área  que  havia  acabado  de  limpar.  Quando  terminava  de  limpar  a  pia,  ele  me  chamava  para  o  teste  da  “luva
branca”, para que eu aprovasse seu trabalho. Alex ficava orgulhoso pelo seu trabalho, mas aquele orgulho não o
motivava a limpar a pia por livre iniciativa. Quando eu escolhi esta tarefa para ele, eu me comprometi a nunca
limpar  a  pia.  Eu  precisava  que  ele  compreendesse  que  nossa  família  dependia  do  que  ele  fazia.  Isto  era  um
desafio para mim quando nós tínhamos visita e eu percebia que a pia não estava limpa. Eu aprendi a avisar a
Alex  quando  as  visitas  viriam,  de  modo  que  ele  pudesse  limpar  a  pia  antes  que  elas  chegassem.  Lou  e  eu
colocamos avisos presos no espelho, endereçados para “Myrtle, a faxineira”, pedindo a ela o favor de limpar a
pia. Alex assumiu sua responsabilidade com seriedade e, apesar de reclamar, fazia bem o seu trabalho. Depois de
dominar a limpeza da pia, ele mudou para a limpeza do vaso sanitário, retirar o pó e passar o aspirador.
Alex sempre trabalhava para transformar os afazeres domésticos em algo divertido, mas não gostava de suas
tarefas de vida diária, como se vestir. Alex começou a perceber que eu não tinha certeza do que ele podia fazer
sozinho. Ele aprendeu que, se ele tinha muita dificuldade com uma tarefa, eu provavelmente a acabaria por ele.
Como  qualquer  criança,  ele  preferia  brincar  a  trabalhar,  e  vestir  suas  roupas  era  trabalho.  Eu  o  observava  se
esforçando  para  vestir  parte  das  roupas,  tentando  repetidamente  e  ficando  frustrado  por  um  minuto.  Sempre
estávamos com pressa, pois tudo demorava muito tempo para Alex. Inevitavelmente, eu cedia e o ajudava. No
dia  seguinte,  ele  não  precisaria  se  esforçar  tanto  para  conseguir  minha  ajuda  porque  ele  estava  me  treinando
inconscientemente para que eu respondesse à sua frustração e raiva. Tudo o que ele precisava fazer era ficar com
raiva e frustrado. Por fim, me controlei e decidi escolher cuidadosamente minhas batalhas. Nos finais de semana,
quando havia tempo suficiente, fazia com que ele praticasse algum aspecto do ato de se vestir, de modo que eu
soubesse o que ele podia fazer. Então, durante a semana, eu fazia todas as partes do ato de se vestir que ele havia
dominado e deixava que ele gastasse tempo com uma habilidade que ele precisasse praticar mais. Alguns dias,
eu fazia com que ele executasse apenas partes do ato de se vestir que eu sabia que ele podia fazer com rapidez.
Apenas quando havia tempo suficiente é que eu pedia a ele para se vestir por completo. Mais tarde, ele colocava
tudo junto e era capaz de se vestir, embora ainda levasse muito tempo e precisasse de muita paciência.
Lou e eu conhecíamos o poder da dependência aprendida e trabalhamos muito para criar um ambiente em que
Alex  se  sentisse  responsável  por  si  próprio,  mesmo  quando  ele  precisasse  de  ajuda  com  algumas  coisas.
Tentamos  ter  certeza  de  que  ele  sentiria  as  consequências  de  suas  escolhas.  Os  padrões  de  comportamento
tornaram­se  parte  de  nossas  vidas.  Por  exemplo,  pelas  manhãs,  Alex  concordava  em  arrumar  as  coisas  dele,
arrumar a cama, vestir um casaco e ir até o ponto de ônibus. A princípio, precisávamos ajudá­lo com estas coisas
porque  elas  eram  fisicamente  difíceis  e  consumiam  tempo,  mas,  gradativamente,  tentamos  diminuir  nossa
assistência.  Uma  vez  que  percebíamos  que  ele  era  capaz  de  fazer  as  coisas  sozinho,  tínhamos  que  reforçar  a
independência e torná­la parte de sua rotina. Durante muitos anos, ele precisava completar todas as tarefas em
uma lista e sair a tempo de pegar o ônibus para ganhar uma recompensa. A recompensa para Alex era, em geral,
um livro para ler no ônibus. Lou e eu descobrimos que padrões de comportamento bem­idealizados funcionavam
para nós e para Alex. Nós precisávamos de lembretes constantes para deixar que ele fizesse as coisas sozinho e
não nos afobássemos em ajudar quando as coisas não iam muito bem.
Como pais, tínhamos uma boa ideia de quais eram as capacidades de Alex em um determinado momento. Era
muito mais fácil para Alex tirar vantagem da equipe bem­intencionada da escola. As pessoas queriam ajudá­lo
em todos os momentos, principalmente as pessoas na lanchonete ou no ônibus. Todos os anos, precisávamos nos
reunir  com  os  professores  e  a  equipe  para  explicar  a  eles  quão  importante  era  para  Alex  aprender  a  pensar
sozinho. Um dia no final do outono, quando Alex estava na escola secundária, eu o trouxe de volta para a escola
depois  de  uma  consulta  ao  dentista.  Depois  da  consulta,  disse  a  Alex  para  ir  para  a  sala  e  eu  carregaria  sua
mochila.  Eu  percebi  que  Alex  não  tinha  ideia  de  como  encontrar  sua  sala  de  aula.  Ele  sempre  tinha  tido  um
auxiliar  ou  colega  para  carregar  sua  mochila  e  simplesmente  os  seguia.  No  dia  seguinte,  ele  foi  à  escola
utilizando uma mochila com rodas para que pudesse puxá­la. No entanto, ainda havia alguém com ele porque
existia uma política de que um aluno com incapacidade não poderia pegar o elevador sozinho. Foram precisos
alguns telefonemas para mudar a política, e Alex logo estava andando totalmente sozinho pela escola.
A  terapia  ocupacional  e  a  fisioterapia  estavam  disponíveis  para  Alex  na  escola,  mas  era  sempre  difícil
equilibrar as terapias com as aulas. Alex era um aluno muito bom e queria estar na aula o máximo possível. Na
escola primária, ele saía da sala para a fisioterapia, mas a terapia ocupacional era feita em regime de consulta.
Mais tarde, a fisioterapia de Alex mudou para o modelo de consulta, o que significava que ele precisava assumir
mais responsabilidade por seu próprio alongamento e por seus exercícios domiciliares. No período em que Alex
estava no curso secundário, ele mudou de um plano de educação individual para um plano de educação comum
por não precisar de educação especial, apenas modificações do ensino regular. Alex aprendeu a se defender ao se
reunir  com  seus  professores  para  ajustar  os  requisitos  do  programa,  conforme  a  necessidade.  Os  aparelhos  de
assistência se transformaram em uma necessidade no curso secundário, de modo que ele utilizava um programa
de reconhecimento da voz no computador, o qual convertia sua voz em texto para fazer anotações e escrever as
provas.  Ele  também  descobriu  que  uma  agenda  de  voz  digital  era  valiosa  para  fazer  anotações,  registrar
compromissos e lembrar as tarefas que precisavam ser feitas.
As atividades de lazer foram outra área que exigiu um planejamento rigoroso. Meu primeiro instinto foi o de
fazer  com  que  Alex  se  envolvesse  apenas  com  as  atividades  de  lazer  “típicas”  para  crianças  “comuns”.  Não
queria  que  ele  crescesse  se  sentindo  à  parte  e  diferente  das  outras  crianças.  Alex  tinha  aulas  de  caratê  e
frequentava  uma  colônia  de  férias  diurna  de  caratê  no  verão.  Ele  nadava  em  uma  piscina  comunitária  e
frequentava  aulas  de  teatro/marionetes.  Ele  até  mesmo  se  tornou  um  escoteiro  mirim.  Todas  estas  atividades
eram o máximo para ele, embora elas tivessem um custo. Embora os adultos responsáveis por estas atividades
tivessem boas intenções, eles tinham dificuldade para planejar as atividades tendo em mente as habilidades de
Alex. Transformei­me em sua assistente durante muitas atividades, de modo que ele fosse totalmente incluído.
Viagens  ao  campo  e  atividades  especiais  exigiam  planejamento  especial  para  assegurar  que  a  acessibilidade
havia  sido  considerada  e  que  Alex  seria  capaz  de  permanecer  com  o  grupo.  Tivemos  alguns  dissabores  com
viagens  para  locais  que  acreditávamos  que  seriam  acessíveis,  mas  não  eram,  ou  com  líderes  que  planejavam
atividades que eram fisicamente muito exigentes para ele.
Foi um grande alívio relaxar os meus padrões e permitir que Alex tentasse atividades de lazer especializadas.
Ele  participou  de  cavalgadas  adaptadas,  andou  de  bicicletas  utilizando  as  mãos,  fez  esportes  de  quadra  com
cadeira de rodas e esquiou com um escorregador (Figura 12.1). Nestes programas especializados, não precisava
me preocupar em fazer modificações porque tudo era adaptado para crianças com incapacidades. Voluntários e
líderes  de  programas  eram  treinados  para  lidar  com  tudo,  desde  transferências  até  ajudar  uma  criança  no
banheiro. Em muitos desses programas, os pais eram capazes de deixar seus filhos e pegá­los duas horas depois.
Esta era uma nova experiência para mim! Quando eu optava por ficar, adorava poder sentar e ver meu filho se
divertindo  enquanto  eu  permanecia  próxima  e  conversava  com  outros  pais.  Eu  me  sentia  tão  “normal”.  Alex
adorava o fato de estar com outras crianças que tinham desafios similares, de modo que muitas das amizades que
começaram nessas atividades continuaram durante anos.
Preparar  Alex  para  ir  para  a  faculdade  exigiu  muito  planejamento  e  criatividade.  Alex  decidiu  ficar  a  três
horas  de  viagem  de  casa,  de  modo  que  procuramos  faculdades  por  todo  o  Nordeste.  Várias  delas  desejavam
receber  estudantes  com  incapacidades,  mas  não  tinham  muita  experiência  com  isto  e  os  campi  não  eram
totalmente acessíveis para cadeiras de rodas. Alex decidiu frequentar uma universidade próxima de casa. Esta
escola tinha um escritório de acesso, o qual coordenava as acomodações para os alunos com incapacidades. Ele
queria  viver  no  campus  e  ter  uma  experiência  universitária  comum,  inclusive  vivendo  sozinho  em  um
alojamento. No verão, antes de se mudar para o campus, verificamos seu quarto no alojamento, que havia sido
escolhido  cuidadosamente  para  satisfazer  às  suas  necessidades.  Ele  passou  várias  tardes  dirigindo  seu  novo
triciclo pelo campus e aprendendo como passar pelas portas e operar elevadores. Alex decidiu não contratar um
atendente para cuidados pessoais, ainda que ele levasse uma hora para tomar um banho de chuveiro e se vestir
pela manhã. Arrumamos cuidadosamente seu quarto com uma prateleira especial para seu esticador, calçadeira e
bastão de se vestir. Ele comprou um tapete para o quarto de modo que ele pudesse empurrar seus pés para dentro
de  suas  órteses  e  dos  calçados  sem  precisar  fazer  com  que  eles  deslizassem.  O  alojamento  já  possuía  um
chuveiro acessível e totalmente equipado. Compramos prateleiras especiais para o armário, de modo que Alex
pudesse  alcançar  seus  alimentos.  Colocamos  vários  ganchos  de  plástico  para  fazer  com  que  ficasse  mais  fácil
para  ele  pendurar  seu  roupão  e  seu  casaco.  Um  pequeno  carrinho  de  compras  dobrável  servia  como  um  cesto
com tampa e era um  meio  para  levar  as  roupas  até  a  lavanderia.  Praticamos lavar e dobrar as roupas em uma
lavanderia local durante o verão.

Fig. 12.1 Alex esquiando com o escorregador. (Fotografia por cortesia do Maine Handicapped Skiing.)

As primeiras semanas na faculdade foram difíceis para Lou e para mim, pois esperávamos em casa para saber
como as coisas estavam indo. Como muitos estudantes universitários, Alex estava gostando de ficar sozinho e
não  tinha  vontade  de  ligar  para  casa.  Quando  finalmente  nos  comunicamos  com  ele,  ele  estava  indo  bem.
Ocorreram alguns problemas com portas automáticas que não funcionavam, mas Alex contatou as pessoas certas
para consertar as coisas. Atravessar as ruas movimentadas com seu triciclo havia sido um desafio a princípio,
mas ele aprendeu a utilizar os cruzamentos com sinais de pedestres. Lou e eu estávamos contentes por admitir
que  ele  tinha  passado  no  teste.  Alex  estava  pronto  para  ficar  sozinho.  Aprendemos  muito  como  pais  e
cometemos muitos erros no caminho, mas sabíamos que tínhamos feito algumas coisas certas: Alex cresceu se
sentindo  como  uma  pessoa  comum  que  tinha  uma  incapacidade  física.  Ele  sabia  que  haveria  obstáculos  a
superar, mas que também havia pessoas para ajudá­lo quando ele pedisse. Ele sabia que nada é impossível e que
sempre há uma maneira para modificar e adaptar as coisas com sucesso. Ele sabia que podia ajudar os outros e
contribuir para o mundo. Acima de tudo, ele aprendeu que estava no comando de sua própria vida.

LOU
Quando Alex nasceu, eu suponho que fui um típico pai de primeira viagem em muitos aspectos. Eu não tinha
uma ideia clara do que seria a paternidade. Até onde eu sabia, supunha que os pais faziam o que lhes era pedido
pelas mães, que de alguma maneira “apenas sabiam” tudo a respeito de bebês e crianças. Eu estava certo de que
seria informado do meu papel quando fosse o momento de eu saber. Meus pensamentos certamente não incluíam
a possibilidade de que meu filho poderia nascer com necessidades especiais. Pensava que estaria brincando de
pique com meu filho de 6 anos de idade dentro de alguns anos e discutindo sobre o uso do carro em outros tantos
anos. Eu esperava ser um pai adequado que não decepcionasse meu filho.
Assim, a notícia de que Alex tinha apresentado uma ultrassonografia anormal e uma provável lesão cerebral
estava totalmente fora da minha experiência. Não tinha ideia do que fazer. Eu esperava ser menos importante do
que a mãe, mas agora eu era irrelevante. A mãe era uma terapeuta ocupacional e tinha conhecimento profissional
sobre incapacidade. Eu não. Não havia muito com que eu pudesse contribuir para a família, exceto para trocar as
fraldas e para o cheque de pagamento.
Lembro de me sentir totalmente marginalizado quase desde o início. Médicos e enfermeiras conversavam com
a  mãe,  não  comigo.  A  mãe  conseguia  panfletos  e  palestras  sobre  como  cuidar  de  Alex.  Quando  eu  ia  a  uma
consulta  com  Alex,  era  sempre  gentilmente  questionado  se  a  mãe  estava  planejando  chegar  mais  tarde  ou...  ?
Afinal, era trabalho da mãe cuidar deste filho, saber sobre incapacidade, aprender sobre o serviço social, marcar
consultas e tomar as decisões sobre os cuidados com Alex. Assim, comecei a ficar à parte: passava menos tempo
com a família, tomava muitas cervejas à noite, e comecei a ouvir tudo o que me era dito como uma reprovação
ou um insulto.
Com o passar do tempo, aprendi que minha experiência foi típica. Pais recentes de crianças com necessidades
especiais descobrem imediatamente que o mundo de cuidados com as crianças é centrado nas mães. Isto é triste
porque,  para  nossa  própria  saúde  mental,  além  de  nossa  capacidade  de  prover  emocional  e  financeiramente
nossas famílias, os pais precisam do reconhecimento de que seu papel se estende para além de se “certificar de
que a mãe seja ouvida” e de “ameaçar bater”. Precisamos do reconhecimento de que um “pai” não é apenas uma
forma  inferior  de  “mãe”.  (Como  muitos  dos  médicos  são  do  sexo  masculino,  muitos  deles  são  protetores  e
condescendentes e muitos nem parecem saber quase nada a respeito da experiência da incapacidade, exceto pela
parte  médica,  as  mães  ficam  marginalizadas  no  cuidado  de  seus  filhos  e  têm  suas  histórias  de  horror  para
compartilhar. Mas eu estou contando a história dos pais.)
Por  outro  lado,  esta  marginalização  também  pode  ser  muito  importante  ao  permitir  que  os  pais  pensem  de
maneira  independente  sobre  as  incapacidades  de  seus  filhos.  Uma  das  minhas  lembranças  é  sobre  o  primeiro
pediatra  de  Alex,  que  adorava  crianças.  Na  primeira  vez  em  que  Alex  voltou  para  casa  do  hospital,  o  médico
orgulhosamente  o  carregava  e  desfilava  pela  sala  de  espera,  exclamando  quão  perfeito  ele  era.  Mas,  à  medida
que  Alex  cresceu  e  suas  pernas  e  braços  não  agiam  da  mesma  maneira  que  os  das  outras  crianças,  o  médico
parecia  relutar  cada  vez  mais  em  lidar  com  ele.  Ele  tranquilizou  a  mãe  e  a  mim  de  que  nosso  filho  estava
“evoluindo  bem!  Ele  ficará  bem,  vocês  vão  ver!”  Quando  Alex  tinha  1  ano  de  idade  e  era  incapaz  de  rolar,
apenas rastejando, o médico nos avisou que precisávamos nos certificar de que todas as partes da casa eram à
prova de criança. Quando Alex tinha 3 anos, ainda incapaz de ficar em pé sem assistência e capaz de dar apenas
alguns passos com muletas, o médico nos falou sobre nos certificarmos de segurar sua mão de modo que ele não
corresse para o meio da rua. O médico ainda me aconselhou, “de um pai para outro”, que eu “não devia perder a
esperança” sobre meu filho.
Por fim, durante uma consulta no consultório, quando Alex tinha 4 anos de idade, repentinamente pensei no
que estava acontecendo. Este médico adorava bebês perfeitos, mas ele considerava meu filho “imperfeito” como
um fracasso – uma criança que ele não pôde salvar por completo dos resultados da prematuridade, uma criança
que ele precisava consertar. Perdi minha educação e disse ao médico que, apesar da incapacidade para correr
para  o  trânsito,  meu  filho  já  estava  bem,  e  tinha  paralisia  cerebral;  e  que  eu  não  precisava  de  esperança.  Eu
precisava de aconselhamento médico de rotina. Como Alex não estava quebrado e não precisava ser consertado,
eu achava que era hora de o médico parar de me dar avisos sobre as tristes possibilidades que não seriam, de
forma alguma, as possibilidades para Alex.
Depois  desta  experiência,  comecei  a  perceber  que  os  mundos  médico  e  terapêutico  têm  o  paradigma  do
“quebrado/consertado”:  “Este  membro  não funciona  e  devemos  restaurá­lo  a  uma  condição  saudável.”  Isto  é
apropriado para situações de reabilitação, mas não se adapta aos fatos quando falamos de uma criança ou adulto
que já está bem e cujas pernas ou braços não funcionam. Como pai, certamente, eu desejo orientação e apoio
sobre como tornar os movimentos de meu filho mais funcionais, mas, por favor, não desperdice minha energia
ou  a  autoestima  dele  ao  tentar  me  dizer  que  ele  está  quebrado!  Eu  sei  que  não:  ele  está  absolutamente  bem,
exatamente da maneira que ele é.
As famílias de crianças com incapacidades frequentemente declaram que nossos níveis de estresse e nossas
taxas  de  divórcio  são  mais  elevados  que  os  das  famílias  comuns.  Os  dados  que  tenho  observado  tendem  a
sugerir,  surpreendentemente,  que  estamos  errados  a  respeito  das  taxas  de  divórcio,  mas  não  há  dúvida  de  que
estamos  certos  sobre  os  níveis  de  estresse.  Os  primeiros  anos  como  pais  de  crianças  com  incapacidade
constituem um período muito solitário para pais e mães, e os pais dispõem de muito poucos modelos de função e
não  recebem  tanto  apoio.  É  particularmente  difícil  para  os  pais  admitir  suas  próprias  fraquezas.  Nem  sempre
sabemos como procurar o apoio adequado e, muitas vezes, nossa maneira de pedir não é muito clara. Por vezes
são bruscas e por vezes ameaçadoras. O resultado é que nos antagonizamos com as pessoas de quem precisamos
mais compreensão e apoio. Como muitos outros pais, caí na marginalidade e na indiferença nos primeiros anos
de  vida  de  Alex  e  tive  a  sorte  de  escapar  da  armadilha.  As  experiências  que  me  resgataram  foram  as
oportunidades  que  tive  para  contribuir  de  maneira  especial  para  a  vida  de  Alex.  Aquelas  experiências  são  as
coisas mais importantes que preciso compartilhar com vocês, porque elas transformaram a minha vida.
Um dia, quando Alex tinha aproximadamente 3 anos de idade, sua mãe e eu tivemos a nossa briga habitual, na
qual ela me acusava (corretamente) de evitar a família e de passar horas a fio “brincando” no trabalho em lugar
de “praticar o compartilhar agradável”. No final, ela disse algo semelhante a isto:

Sei que você vai fugir novamente e se esconder naquela loja; então, enquanto você estiver lá, se você realmente quer ser
útil,  você  pode  provar  isto  construindo  alguma  coisa  em  que  Alex  possa  sentar.  Ele  precisa  ter  algum  tipo  de  cadeira,
com  um  descanso  para  os  pés  cerca  de  25  centímetros  abaixo  do  assento,  e  uma  profundidade  de  assento  de  27
centímetros,  e  as  costas  do  assento  com  um  par  de  cantoneiras  para  empurrar  suas  escápulas  para  diante  e  romper  o
padrão de hiperextensão. Oh, sim, e precisa de um suporte para que ele não consiga se jogar para fora dela – e precisa de
um cinto de segurança – e seria realmente agradável se você pudesse fazê­la suficientemente leve de modo que eu possa
pegá­la e movê­la – você sempre exagera em tudo.

Estas  foram  palavras  de  briga,  porém  mamãe  havia  crescido  em  uma  loja  de  madeiras  e  estava  certa  em  sua
opinião, mesmo que eu não concordasse com ela.
Então  eu  fui  para  o  trabalho,  com  um  humor  muito  ruim,  e  serrei,  moldei  e  aparafusei  durante  um  par  de
horas, e construí um pequeno assento portátil com todas as dimensões que ela havia me passado. Não era apenas
portátil, mas também podia na realidade ser desmontado, e todas as peças soltas poderiam ser guardadas sob a
cadeira. Estava bastante orgulhoso de minha invenção, embora, certamente, estivesse totalmente certo de que ela
não seria apreciada.
Eu  trouxe  a  obra  para  casa  e  a  mãe  colocou  Alex  cuidadosamente  na  cadeira  e  o  posicionou  na  mesa  da
cozinha com alguns pa péis e um par de lápis de cera. Para meu total espanto, Alex pegou um dos lápis de cor e
começou a colorir e a desenhar no papel sozinho – habilidades que eu nunca havia visto ele utilizar antes. Deve
haver  alguma  coisa  boa  neste  “posicionamento  adequado”  de  que  eu  havia  ouvido  falar!  Repentinamente,
imaginei  que  eu  realmente  havia  feito  algo  que  estava  direta  e  nitidamente  relacionado  a  fazer  com  que  Alex
fosse  bem­sucedido  ao  superar  alguns  dos  efeitos  de  sua  incapacidade.  Talvez  eu  não  fosse  totalmente  inútil
como eu pensava (Figura 12.2).
Certamente  existe  um  limite  de  quantas  cadeiras  um  pai  pode  construir  antes  que  faltem  bebês  para  sentar
nelas, de modo que, se esta era minha única habilidade como pai, eu ainda era uma pessoa bastante inútil. Mas
foi  um  bom  ponto  de  partida,  e  eu  estava  suficientemente  contente  para  ser  capaz  de  continuar.  Nos  anos
seguintes,  transformei­me  em  um  defensor  não  só  de  minha  família,  como  também  de  outros  no  mundo  da
intervenção  precoce.  Desenvolvi  uma  rede  eletrônica  para  famílias  de  crianças  com  necessidades  especiais;
tornei­me parte de um comitê nacional para supervisionar serviços de intervenção precoce para crianças jovens
em todo o país; e, mais tarde, tornei­me um advogado especializado em educação especial. Sei que não teria tido
qualquer uma dessas experiências se não fosse por aquela pequena cadeira e pela oportunidade que ela me deu,
como pai, de contribuir para a vida de meu filho.

Fig. 12.2 Alex sentado em sua cadeira no barco a vela. (Fotografia por cortesia de Laurie McIntosh.)
Hoje, como um defensor, vejo mães e pais desempenhando os mesmos pa péis estereotipados que a mãe de
Alex e eu desempenhávamos quando ele era pequeno. A mãe mantém os registros. A mãe lida com as questões
escolares e com os médicos, e frequenta as reuniões. Em geral, existe um sentimento de que, se o pai vai a uma
reunião,  deve  haver  alguma  coisa  errada.  Mesmo  hoje  em  dia,  a  maioria  das  pessoas  nas  reuniões  de  equipes
educacionais  é  formada  por  mulheres,  e  não  é  provável  que  um  pai  se  sinta  à  vontade;  na  realidade,  ele  é
frequentemente visto como uma pessoa muito tímida, que não compreende o quanto todas estão se esforçando e
que “não sabe como ser razoável”. Ele é marginalizado e excluído, por vezes de modo gentil e por vezes sem
temor e hostilidade, e a mãe é deixada para lidar com a incapacidade da criança sem sua assistência.
É particularmente lamentável porque sabemos, a partir de pesquisas, como isso é ruim para a criança. Estudos
longitudinais sobre crianças com incapacidade mostraram que a união familiar é um dos melhores preditores de
bons  resultados  para  crianças  com  incapacidades  (Hauser­Cram  et  al.,  1999;  Shonkoff  &  Philips,  2000).  A
qualquer momento que excluamos os pais das vidas das crianças ou que façamos alguma coisa para diminuir a
importância  dos  pais,  temos  um  impacto  negativo  direto  sobre  a  perspectiva  de  sucesso  na  vida  para  tais
crianças.1 Se você se preocupa com as crianças, isto é inaceitável.
Ao mesmo tempo, também aprendemos a lembrar que o trabalho do pai é ser pai e o trabalho da mãe é ser
mãe.  Nem  a  mãe  nem  o  pai  precisam  ser  médicos,  terapeutas  ou  professores  para  terem  credibilidade.  O  que
trazemos à discussão como simples pais é suficiente, porque somos os guardiões dos sonhos e perspectivas para
nossos filhos e seremos defensores e companheiros muito tempo depois da aposentadoria de seus cuidadores e
professores.  A  mãe  e  o  pai  podem  ser  também  ser  profissionais  com  títulos  e  credenciais  e  muita  educação,
porém o mais importante boné que sempre usaremos é o boné de pais.

ALEX
Quando eu tinha aproximadamente 7 anos de idade, estava firmemente convencido de que era um lobisomem.
Nunca tinha sofrido realmente qualquer transformação física na lua cheia, mas meninos de 7 anos de idade não
são importunados por essas frivolidades. O toque final era que minhas muletas agiam como um segundo par de
pernas e, embora eu realmente nunca pudesse galopar como um lobo quando as usava, eu dava um tipo de salto
galopante.  Apesar  disso,  eu  era  suficientemente  rápido  (para  mim)  para  reforçar  as  fantasias  de  correr
suavemente através da floresta com patas silenciosas, procurando uma vítima inocente.
O  termo  técnico  para  a  condição  de  ser  um  lobisomem  é  licantropia,  em  homenagem  ao  rei  grego  mítico
Lycaon, que o deus Zeus transformou em lobo como punição por sua tirania. Eu conhecia a palavra aos 7 anos
de idade, por ter lido todos os livros sobre lobisomens que pude encontrar e compreender. Eu ficava orgulhoso
em me declarar um licantropo para todos que encontrava.
Um  dia,  naquele  ano,  minha  mãe,  meu  irmão  mais  jovem  e  eu  fomos  a  uma  corrida  beneficente  de  barcos,
cujo propósito era permitir que ricos proprietários de iates angariassem dinheiro para os incapacitados. Eu estava
pulando no lobby do iate clube onde o evento estava sendo realizado, dando uivos longos, tristes e muito altos,
como um próprio lobisomem faria. Minha mãe estava em um canto com meu irmão, tentando fazer de conta que
eu era filho de outra pessoa.
Uma proprietária de iate me viu e disse, “Veja você, se saindo tão bem. Qual é sua incapacidade, querido?”
“Tenho licantropia!” disse, sorridente.
Alguns minutos depois, ela estava conversando com minha mãe e disse, “Acabei de encontrar seu filho. Que
menino lindo. É tão triste que ele tenha licantropia.”
Mamãe sorriu, “Hum, acho que existe alguma coisa que você deve saber...”
Isto é o que acontece a pessoas que não conhecem a incapacidade.
Quando eu tinha 15 anos, decidi tentar fazer trabalhos em metal. Meu pai tem uma oficina próxima de casa e
me deu luvas, casaco, óculos e avental necessários para trabalhar com o metal aquecido. Meu objetivo durante
meu primeiro experimento era fazer um modelo de espada de 7,5 centímetros sem cravos.
Aprendi como manusear um forno de carvão naqueles primeiros dias e, mais tarde, um maçarico de propano.
Aprendi a não deixar um cravo no fogo por mais de um ou dois minutos por medo de queimar o metal e que o
calor  se  dissipa  com  muita  rapidez  depois  que  o  cravo  é  retirado  do  fogo.  Também  aprendi  (de  uma  maneira
difícil)  que,  embora  o  cravo  não  esteja  mais  vermelho,  isso  não  significa  que  ele  não  esteja  suficientemente
quente para queimar a mão através da luva.
Como eu precisava bater rapidamente no cravo enquanto o calor ainda estivesse presente, havia uma grande
tensão nas minhas mãos quando batia com o martelo. Minha paralisia cerebral mantinha os músculos das mãos
bastante tensos para começar. Tentei como podia, não conseguia golpear o metal em ângulo reto para fazer uma
lâmina reta ou o punho. Os cravos ficavam torcidos em uma forma de saca­rolhas. O que eu precisava fazer era
martelar as formas grosseiras o melhor que pudesse, temperando­as (mergulhando em um balde de água fria para
resfriá­las),  tirando­as  das  tenazes  de  um  torno  em  que  eu  as  fixava  e  prendendo­as  em  um  torno,  utilizando
depois as tenazes do torno para retificar as partes torcidas (Figura 12.3).
Por  vezes  as  torções  eram  tão  sutis  que  eu  mal  podia  vê­las  a  olho  nu.  Nestes  casos,  precisava  fazer
movimentos  muito  finos  e  precisos  com  as  mãos,  o  que  é  bastante  difícil  mesmo  para  aqueles  que  não  têm
paralisia cerebral. Com frequência, não afetava em nada o metal e, com frequência ainda maior, eu ultrapassava
a  marca  e  a  torcia  mais  do  que  havia  feito  originalmente.  Ainda  estou  aprendendo  esta  habilidade;  tenho  um
longo caminho a percorrer antes que possa corrigir defeitos sutis no metal.
Meu pai diz que a mente das pessoas que aprenderam a utilizar ferramentas e a construir coisas trabalha de
maneira  fundamentalmente  diferente  das  mentes  de  outras  pessoas.  A  mente  dos  construtores  faz  uma  melhor
combinação de prática e criatividade, e eles estão mais bem capacitados a analisar um problema e chegar a uma
solução. À medida que eu me envolver mais com trabalhos em metal, espero também começar a pensar assim
(Figura 12.4).

Fig. 12.3 Alex engajado no trabalho com metal. (Fotografia por cortesia de Laurie McIntosh.)

Eu  tenho  participado  do  programa  de  esqui  para  deficientes  do  Maine  desde  que  tinha  6  anos  de  idade.
Durante a maior parte de meu tempo aqui (lições duas vezes ao mês de janeiro a março, todos os anos), utilizei
esquis  normais  combinados  a  estabilizadores  laterais,  dispositivos  que  se  assemelham  a  muletas  com  esquis
acoplados. Utilizei o mesmo trajeto em cada lição: o final de uma trilha logo ao lado do alojamento.
Aprendi  muito  rapidamente  que  não  há  nada  mais  capaz  de  fazer  com  que  alguém  se  torne  claramente
consciente de seu próprio corpo do que o medo de bater em alguma coisa. Aprendi a utilizar esta consciência
para julgar as mudanças de direção e a mover minhas pernas, meus esquis e os estabilizadores da maneira correta
para fazer com que eu parasse. No entanto, em onze dos meus doze anos de esqui, minha capacidade de girar
aumentou e diminuiu.
Quando eu utilizava os estabilizadores, precisava colocar boa parte do peso sobre meus braços para me manter
ereto  na  neve.  Isto  não  me  deixava  livre  para  colocar  sobre  meus  esquis  o  peso  necessário  para  girar  quando
quisesse e na direção escolhida. Por conseguinte, minha capacidade de girar num dia dependia diretamente de
quão desejoso eu estava de tirar o peso de meus braços e, na minha mente, aumentar o risco de cair.
Neste  último  ano,  tentei  um  novo  método,  utilizando  esquis  e  um  dispositivo  chamado  escorregador,
padronizado para andadores utilizados por idosos. O escorregador age como um sistema de suporte para a parte
superior do corpo, deixando­me livre para deslocar o peso sobre minhas pernas, quando necessário. Também me
amarrei a um dos meus instrutores de esqui, que me ajuda a descer rampas particularmente íngremes.
Com a ajuda do sistema de escorregador e amarras, sou capaz de ir muito mais longe, nas trilhas de esqui, do
que eu já fui em todos os meus onze anos anteriores de esqui. Eu posso manobrar pelo terreno acidentado. Em
consequência disso, acredito que estou controlando melhor o meu corpo.
Fig. 12.4 Alex e seu pai realizando trabalhos com metal na oficina. (Fotografia por cortesia de Laurie McIntosh.)

Nas escolas primária e secundária, a aula de ginástica raramente era um tempo produtivo para mim. Este fato
se devia à minha incapacidade de correr. Eu utilizava muletas em vez da cadeira de rodas na escola. Embora o
instrutor delicadamente me desse a posição de guardião da bandeira nos jogos de pegar a bandeira, os membros
da  equipe  adversária  que  passavam  por  mim  sempre  estavam  um  pouco  fora  de  alcance  para  que  eu  pudesse
alcançar e tocar, o que era extremamente frustrante. Devo admitir que por vezes minha incapacidade de pegar as
pessoas tinha mais a ver com minha atenção do que com minha incapacidade.
Ocorreram  ocasiões  em  que  meus  professores  fizeram  modificações  criativas  em  algumas  atividades,  mas
estas  foram  tão  poucas  e  espaçadas  que  não  consigo  agora  me  lembrar  com  clareza  delas.  A  maior  parte  do
tempo, minha participação nesses jogos consistia principalmente em pular ao redor de minhas muletas enquanto
todos  corriam  e  fazer  os  movimentos  que  os  outros  estudantes  estavam  realizando.  Provavelmente  eu  parecia
ridículo.
A exceção era o beisebol. Nunca aprendi tão bem as regras do jogo quanto meus colegas, mas podia rebater
tão bem quanto qualquer um em minha turma. Quando chegava a vez de correr até as bases, tinha alguém que
me representava ou era exigido que meu oponente saltasse em um só pé para atenuar as desigualdades.
No todo, estou feliz por não ter mais de frequentar aulas de educação física.
Recentemente, eu me inscrevi em uma universidade estadual, que fica a dez minutos de distância de minha
cidade natal. O processo de mudança começou com a avaliação da acessibilidade de meu dormitório: a facilidade
ou a dificuldade de entrar e me mover nos quartos em um carrinho elétrico e à pé e a acessibilidade de banheiros,
lavanderia  e  salas  de  espera.  Embora  tenhamos  ido  ao  alojamento  durante  o  verão  para  ver  como  tudo
funcionaria,  ainda  demorei  um  pouco  para  me  acostumar  com  as  novas  rotinas  quando  as  aulas  realmente
começaram. Eu precisava me lembrar de pegar minha pequena bolsa de suprimentos de banheiro antes de descer
até o banheiro. Agora, meu horário precisava incluir tempo para ir até a sala de jantar para as refeições e tempo
para lavar a roupa nos fins de semana. Em síntese, precisava planejar antecipadamente quase tudo.
Um  dos  maiores  desafios  para  mim  era  aprender  a  encontrar  o  meu  caminho  no  campus.  Penso  que  minha
falta  de  mobilidade  quando  criança  impediu­me  de  aprender  algumas  lições  fundamentais  sobre  direções.
Quando  eu  era  criança,  era  empurrado  por  longas  distâncias  em  uma  cadeira  de  rodas  e  as  distâncias  que  eu
caminhava  eram  muito  curtas.  Nunca  fiquei  sozinho  para  encontrar  meu  caminho  por  questões  de  segurança.
Quando adolescente, saía para caminhadas na vizinhança, mas era uma área conhecida e, em geral, caminhava
no quarteirão.
No verão, antes de ir para a faculdade, minha mãe levou­me ao prédio vazio para praticar meus trajetos pelo
menos  três  vezes  antes  de  sentir­me  seguro.  Quando  cheguei  ao  campus  da  universidade,  descobri  que  tinha
pouca capacidade para ler mapas. Não tinha ideia de como ir de um lugar para outro olhando no mapa. Mesmo
quando eu perguntava às pessoas sobre as direções, frequentemente precisava indagar de várias outras pessoas ao
longo do caminho antes de encontrar meu destino. Desde que eu ganhei meu novo triciclo elétrico, exatamente
antes de começar a faculdade, não tinha tido muitas oportunidades de praticar a sua direção. Eu não tive carro e
nunca tinha tido um veículo motorizado. Na maioria das vezes, eu conseguia ir aos lugares sem correr muito ou
esmagar muitos dedos. Pequenos elevadores eram um desafio, bem como manobrar na sala de jantar cheia, sem
bater  em  pilhas  de  pratos  e  derramar  bebidas.  As  portas  automáticas  dos  prédios  no  campus  costumavam
funcionar, mas sempre havia algumas com defeito. Por vezes, eu tinha sorte suficiente de encontrar alguém para
segurar a porta para mim, mas logo aprendi a manter a porta aberta com uma das mãos enquanto dirigia o triciclo
com  a  outra.  Como  a  minha  mão  que  segura  as  portas  é  fraca,  tenho  medo  de  deixar  alguns  arranhões  em
algumas  delas.  O  problema  mais  difícil  era  estacionar  em  ônibus  adaptados.  Eles  eram  acessíveis  e  tinham
rampas adequadas, mas, uma vez dentro, via­me tendo que estacionar em paralelo em uma marca específica e
restrita a fim de que meu triciclo fosse adequadamente fixado. Gostaria de ter tido lições de direção de triciclo na
escola secundária.
Meu alojamento é dotado  de  portas  automáticas  que  têm  controle  remoto.  Os estudantes com problemas de
mobilidade  recebem  pequenas  unidades  de  controle  remoto  para  prender  a  seus  chaveiros.  Isso  me  dá  uma
grande sensação de poder ao me aproximar da porta do alojamento em alta velocidade, apertar o pequeno botão e
atravessá­la  sem  ao  menos  parar.  É  claro  que  eu  faço  isto  apenas  quando  não  existe  ninguém  para  atropelar.
Outros  estudantes  ficavam  na  porta  e  se  atrapalhavam  com  seus  cartões  de  identificação  ao  passá­los  na
fechadura eletrônica. Muitos dos outros estudantes não sabem que eu tenho este controle remoto, de modo que
posso abrir “magicamente” as portas para meninas atraentes quando estou a seis metros de distância.
Diante do fato de que me atraso com mais frequência para a aula do que gostaria (porque minha rotina matinal
sempre leva mais tempo do que planejo), frequentemente preciso dirigir meu triciclo mais rapidamente através
do campus. Isto por vezes se mostra perigoso. Certa vez, eu estava correndo na direção do prédio em que a aula
estava acontecendo e minha mochila cheia, pendendo ao lado do triciclo, fez com que este se inclinasse para o
lado. Bati na calçada de concreto, xingando baixo, mas profusamente. Felizmente, o ruído atraiu a atenção de
dois transeuntes atenciosos, que me ajudaram a ficar em pé e também desviraram o triciclo. Desde aquela vez,
tenho o cuidado de carregar menos peso na minha mochila e virar as esquinas com mais lentidão (Figura 12.5).
A universidade tem sido boa ao garantir que minhas aulas sejam dadas em salas acessíveis à cadeira de rodas.
Existe  um  escritório  de  acesso  que  coordena  todos  os  serviços  e  modificações  para  estudantes  com
incapacidades. Eles mudam as aulas para salas acessíveis para alunos específicos. O escritório de acesso também
coordena os tomadores de nota para os alunos, de modo que os alunos com incapacidades possam contar com
outros  alunos  que  anotem  para  eles.  Os  tomadores  de  nota  nunca  sabem  qual  estudante  em  sua  sala  está
recebendo  suas  anotações.  Eles  fornecem  as  anotações  para  o  escritório  de  acesso,  e  então  as  anotações  são
distribuídas para os alunos que necessitam delas. Nesta universidade, as adaptações que são listadas nos planos
504  ou  nos  planos  de  Educação  Individual  universitária  do  aluno  são  respeitadas.  Por  exemplo,  na  escola
secundária, era fornecido tempo adicional para fazer as provas e eu tive a mesma concessão na universidade.
À  medida  que  os  prédios  no  campus  são  reformados,  eles  se  tornam  acessíveis.  Infelizmente,  o  prédio  do
Departamento de Inglês ainda não foi reformado, e como estou me especializando em inglês, isto gerou alguns
problemas.  Os  gabinetes  do  departamento,  inclusive  o  gabinete  de  minha  orientadora,  estão  a  um  lance  de
escadas. Se eu preciso pegar formulários ou entregar coisas, ligo pelo meu celular e alguém desce. Se eu quero
encontrar  minha  conselheira,  preciso  enviar  um  e­mail  para  marcar  uma  consulta  especial  porque  não  posso
subir  durante  seu  horário  de  atendimento  ou  fazer  com  que  ela  desça  caso  esteja  no  gabinete.  Até  agora  este
esquema parece funcionar, embora seja mais uma situação em que minha vida requer mais planejamento.
Os professores e os alunos no campus me tratam da mesma forma que a qualquer outro estudante. É evidente
que esta escola é utilizada para estudantes com incapacidades porque a comunidade é muito receptiva. Não me
sinto  prestigiado  ou  desrespeitado.  Meus  professores  esperam  o  mesmo  trabalho  de  mim  que  esperariam  de
qualquer outra pessoa, exceto pelo fato de que eles são suficientemente agradáveis para me conceder mais tempo
para realizá­lo. Existem muitos alunos com diversas incapacidades no campus, e todos eles parecem adaptar­se
da mesma maneira que qualquer outro.
Fig. 12.5 Alex indo para as aulas no campus. (Fotografia por cortesia de Lisa Nugent, Photographic Services,
University of New Hampshire.)

CONCLUSÃO
Muitas  pessoas,  inclusive  muitos  pais  recentes  de  filhos  com  incapacidades,  supõem  que  uma  incapacidade  é
como uma sombra que pesa sobre a vida de uma criança, sempre lembrando a ela as coisas que não podem ser
feitas ou conseguidas. Como meu comportamento durante o incidente da licantropia demonstrou, eu não podia
ter me importado menos, quando criança, com minha incapacidade em relação ao que me foi impedido de fazer.
Eu estava apenas me divertindo e vivendo minha própria vida. Eu era capaz de fazer isto livremente por causa do
que meus pais aprenderam e me ensinaram enquanto eu estava crescendo: não estou quebrado; não preciso ser
consertado.  Sabendo  disso,  eu  era  e  sou  capaz  de  escolher  quem  e  o  que  ser:  lobisomem,  ferreiro,  esquiador,
estudante, escritor. A lista ainda está sendo aumentada.

PERGUNTAS DE ALEX
1. O que você esperava encontrar neste capítulo? Como isto vai ao encontro ou difere de suas expectativas?
2. Você pode lembrar algum caso em que as ações de alguém com incapacidade contestaram suas suposições
sobre como aquela pessoa deveria se comportar?
3. Liste  alguns  estereótipos  comuns  sobre  pessoas  com  incapacidades  e  identifique  as  informações  neste
capítulo que negam tais estereótipos.
4. Imagine por um momento que você sofreu um terrível acidente e que suas pernas precisaram ser amputadas.
Imagine  algumas  modificações  (físicas)  para  sua  atividade  de  lazer  preferida  que  possibilitarão  que  você
continue a realizá­la.
5. Pesquise exemplos atualmente disponíveis do que você propôs na Pergunta 4? Quais são as semelhanças e
diferenças entre estes exemplos e suas próprias ideias? Você propôs algo que pense ser inovador? Assim,
por que você ainda não promoveu sua ideia?

PERGUNTAS DE LOU
1. Para ter um papel bem­sucedido e pleno na vida de uma criança com incapacidade, cada membro da família
precisa ter a oportunidade de contribuir para a qualidade de vida dessa criança. Determinar o “trabalho de
casa” não é a mesma coisa e pode ser muito danoso para a família. Qual é a diferença? Como o trabalho do
terapeuta ocupacional apoia a criação de oportunidades em vez da simples designação de tarefas?
2. O que um terapeuta ocupacional pode fazer para apoiar a união da família e por que isto é importante para a
criança?
3. Neste capítulo, o pai de Alex diz que “Alex não estava quebrado e não precisava ser consertado”.  Como
você integraria esta perspectiva ao modelo de serviço de reabilitação? Você pode integrá­la ao modelo de
ocupação humana ou a outro modelo de terapia ocupacional? Por que sim ou por que não?
4. Pais e irmãos de uma criança com uma incapacidade frequentemente não tem conhecimento sobre a terapia
ocupacional e não compreendem por que o trabalho terapêutico é necessário. Ainda assim, estes “simples
pais”  trazem  uma  perspectiva  vital  para  o  processo  de  planejamento.  Qual  é  esta  perspectiva,  e  como  o
terapeuta ocupacional deve integrar tal perspectiva ao programa de tratamento da criança?

PERGUNTAS DE LAURIE
1. A  dependência  aprendida  pode  ser  uma  incapacidade  mais  grave  do  que  a  paralisia  cerebral.  Pessoas  que
nunca aprendem a ser responsáveis por si próprias podem precisar de assistência pelo resto de suas vidas.
Como os terapeutas ocupacionais podem evitar situações que levem à dependência aprendida?
2. Utilizamos as tarefas domésticas para dar a Alex uma sensação de responsabilidade e um papel importante
na família. O que os terapeutas ocupacionais podem fazer para ajudar os pais a encontrarem pa péis úteis
para seus filhos com incapacidades?
3. Certificamo­nos  de  que  todas  as  modificações  necessárias  foram  executadas  para  que  Alex  viva  em  um
dormitório  e  frequente  as  aulas  na  universidade.  Algumas  destas  devem  ser  de  responsabilidade  do
terapeuta ocupacional da escola secundária como parte do plano de transição de Alex? Por que sim ou por
que não?
4. Qual era a diferença que Alex sentia em relação a ele próprio nas aulas de educação física versus  esquiar
com incapacidade? Como estas aulas de educação física poderiam ter sido elaboradas de maneira diferente
para que ele se sentisse melhor a respeito dele próprio?

PERGUNTAS DA EDITORA
1. Este  capítulo  apresenta  três  perspectivas  da  vida  de  Alex.  Como  estas  perspectivas  diferem  e  por  que  é
importante fazer uma apreciação de cada uma das perspectivas?

REFERÊNCIAS
Hauser­Cram, P., Warfield, M. E., Shonkoff, J. P., Krauss, M. W., Upshur, C. C., & Sayer, A. (1999). Family
influences on adaptive development in young children with Down syndrome. Child Development, 70, 979–
989.
Shonkoff, J. P., & Philips, D. A. (Eds.). (2000). From neurons to neighborhoods: The science of early childhood
development. Washington, DC: National Academies Press.
1Uma excelente fonte para o envolvimento do pai é o Head Start Bureau’s June 2004 Bulletin, Father Involvement: Building Strong Programs
for Strong Families, disponível em download em http://www.headstartinfo.org/pdf/father_involvement.pdf.
Enquanto Concentrava­me na
Recuperação, Esqueci de Ter uma Vida
GLORIA DICKERSON

O
lá! Meu nome é Gloria. Sou uma mulher negra 54 anos, que vive em Boston. A maior parte da minha vida
eu vaguei dentro da bolha do tratamento da saúde mental, sob uma variedade de atributos de ser doente.
Até o momento, meus relacionamentos principais e confiáveis foram com os profissionais dos serviços de saúde.
Com 15 anos de idade, fui apresentada ao sistema de saúde mental como uma paciente. Agora, olho para trás e
torno  a  visitar  minha  jornada  ao  longo  de  uma  vida  de  tratamento  à  luz  do  presente.  Desse  ponto  de  vista
privilegiado, minha vida parece ter sido um limbo onde nada era bom o suficiente e nunca se atingia as metas
impostas, cheio de esforços cíclicos repletos de dor e alguns raios de sol. Meu nascimento parece ter me lançado
a uma condenação per pétua de ser menos e a uma interminável jornada de esforços repetidos de tentar crescer.
Resisti a uma vida de injustiça e maus­tratos, tornada suportável por minha educação religiosa e pelos anos de
terapia.  Minha  educação  religiosa  foi  extremamente  dolorosa  e  extraordinariamente  inspiradora.  A  profunda
esperança que está inserida nas palavras e nos conceitos da Bíblia e da Igreja dos Negros deram­me uma base de
esperança  que  serve  como  uma  bússola  e,  embora  intensamente  testada,  nunca  foi  destruída.  A  ideia  de  que
todos nós estamos conectados, comprometidos e incluídos em uma missão maior que cada um de nós dá à minha
vida propósito e significado. Eu tentei me afastar de minha fé e conexão muitas vezes, mas a vida sempre me
trouxe de volta à razão.
Além da religião, a terapia é uma fonte primária de esperança na generosidade das pessoas, para permanecer
viva e para tentar encontrar uma maneira de viver bem. A ajuda especializada de minha terapeuta contribuiu para
reduzir os efeitos dos maus­tratos, da tortura e dos abusos físico e sexual de meus pais. A terapia efetiva é tão
boa quanto a qualidade da relação entre o terapeuta e o cliente, juntamente com a “boa vontade para adequar” as
necessidade do cliente aos instrumentos terapêuticos específicos utilizados. Minha terapia foi efetiva ou “boa”
apenas  quando  houve  colaboração  entre  mim  e  minha  terapeuta.  Minha  terapeuta  mais  efetiva  conhecia  a
diferença entre sua intenção de ajudar e minha percepção de ser ajudada. Ela compreendia que minha percepção
de ser ajudada é um estado subjetivo de se sentir ajudada que somente pode ser discernido por mim.
Minha terapeuta é extremamente respeitosa. Ela sabe que qualquer tentativa de me ajudar deve basear­se em
minhas vontades, desejos e necessidades. Ela me permite escolher, assumir riscos e por vezes até mesmo falhar.
A intenção de “ajudar”, “ser útil” ou “ prestar ajuda” é apenas uma parte do processo de ajuda. A “finalidade” do
processo de ajuda é atingida quando a pessoa que está sendo ajudada se sente “ajudada”. A capacidade de fazer
escolhas tem sido fundamental para que eu torne a aprender minhas habilidades de autoconfiança e segurança
quando  me  relaciono  com  os  outros.  O  engajamento  e  a  construção  da  confiança  sempre  foram  conceitos
abstratos. Para mim, confiar em um terapeuta começa por saudações calorosas, amabilidade e reconhecimento de
meus direitos como um adulto. Posso resistir a conflitos, receios, dores e desfeitas quando me sinto conectada e
valorizada como um adulto.
Existem algumas qualidades básicas e essenciais para todos os terapeutas efetivos, independente da orientação
teórica. Os terapeutas precisam gostar de pessoas, ter capacidade de censura pessoal, ser curiosos, respeitar as
diferenças,  criar  um  repertório  de  habilidades  e  ter  a  capacidade  de  manter  o  compromisso  com  o  passar  do
tempo.  Os  terapeutas  precisam  aprender  a  reconhecer  as  tendências  pessoais,  evitar  risco  e  utilizar  seu
autoconhecimento  pessoal  para  orientar  a  mudança.  Os  terapeutas  habilidosos  empregam  todo  o  seu
conhecimento,  habilidades  e  dons  e  dificuldades  pessoais  acumulados  durante  a  vida  e  atuam  no  papel  de  um
agente de mudança e cura. Não é suficiente ser correto teoricamente. Os terapeutas precisam ser seres humanos
habilidosos que cuidam e gostam de outras pessoas. Os terapeutas que amo têm todas estas qualidades. Minha
terapia, embora libertadora, era muito concentrada e objetiva. Infelizmente para mim, todos nós nos esquecemos
de uma pequena coisa: uma relação terapêutica é um auxílio para aprender a estabelecer outras relações que se
tornam  uma  fonte  de  sustentação  primária.  As  relações  terapêuticas  nunca  devem  se  transformar  em  um
substituto para amigos e familiares queridos e íntimos.
A  vida  é  maior  que  a  relação  da  terapia.  A  estabilização  e  a  manutenção  são  os  objetivos  maiores  para
despertar almas doentes. No entanto, quando um indivíduo se agarra e lamenta as perdas e a dor que o levaram à
terapia,  o  que  fazer?  Precisamos  lembrar  que  a  dor  primária  associada  a  uma  doença  mental  e  trauma  graves
frequentemente advém de relacionamentos fracassados e abusivos. Minha “desconexão” primária surgiu com o
passar  do  tempo.  Como  um  bombardeiro  oculto,  silencioso  a  princípio,  ela  surgiu  à  noite  e,  em  seguida,
mergulhou rapidamente, destroçando meu interior, simplesmente mudando o curso de minha vida para sempre.
Meus  primeiros  anos  no  Sul  como  menina  foram  crivados  de  incidentes  traumáticos.  Considero­me  uma
sulista, porque, até os 5 anos de idade, minhas raízes ancestrais, minha psique e minha consciência advinham de
eventos que ocorriam em uma pequena cidade no Alabama. As relações familiares e a vida nessa pequena cidade
provocaram  desconexões  fundamentais  dentro  de  mim,  com  os  outros  e  com  o  mundo.  Minhas  experiências
incluem  o  abuso  paterno,  resultando  no  nascimento  de  minha  filha,  longas  internações  em  hospitais
psiquiátricos, a graduação na faculdade, mais hospitalizações, tentativas de suicídio, cinco diferentes programas
de  pós­graduação,  trabalho  por  todo  o  campo  dos  serviços  humanos  e  39  anos  de  terapia.  Estas  são  apenas
algumas das experiências mais importantes e influentes que pontilharam o curso de minha vida.
Neste texto, vou lhe contar sobre quem sou e onde estive. Tentarei explicar como aprendi quem eu era e como
isto afetou cada aspecto de meu ser, desde o excesso de peso até minhas escolhas ocupacionais e mesmo do meu
modo de me vestir. Meus dons e minhas capacidades atuais, minha dor e minha esperança, bem como minhas
deficiências  e  desespero,  podem  ser  rastreados  até  os  eventos  dos  primeiros  anos  de  minha  vida.  Como  para
qualquer  pessoa  no  planeta,  cada  evento  e  experiência,  boa  ou  má,  me  modelou  e  culminou  em  me  tornar  a
pessoa que sou. Depois de saber sobre os fatos de minha vida, as pessoas que me conhecem ficam surpresas e
atônitas  com  o  fato  de  que  sobrevivi  com  minha  inteligência  e  esperança  intactas.  Depois  de  ouvirem  o  que
passei na vida, muitas pessoas ficam de bocas abertas, espantadas e em silêncio. À medida que as pessoas me
conhecem,  elas  reconhecem  que  minha  vida  foi  repleta  de  horror  extremo  e  que  minha  resistência  e
sobrevivência são surpreendentes.
Começo com relatos das lembranças de minha família de origem e meus primeiros anos. Durante anos, era a
única filha mulher de meus pais. Meu pai (James) nasceu em 1925. Minha mãe (Stella) nasceu em 1927. Meu
irmão Andrew é um ano mais velho e nasceu em 1949. Eu era a filha mais velha e nasci em 1951. Meu irmão
Roger nasceu 11 meses depois, em 1952. Frequentemente brincávamos que esta grande proximidade de nossos
nascimentos nos tornava quase gêmeos. Nós sempre nos sentimos muito próximos uns dos outros. Meu irmão
Junior nasceu em julho de 1953 e foi o caçula por muitos anos. Meu irmão Donnie nasceu em 1955. Ele morreu
de  modo  trágico  e  repentino,  sendo  sua  existência  apagada  de  todos  os  relatos  da  família.  Minha  irmã  Daisy
nasceu  em  1958.  Seu  nascimento  fez  meus  sonhos  virarem  realidade.  Sempre  pensei  que  ela  era  um  presente
pessoal de Deus. Sua escolha em se afastar e permanecer afastada de mim foi uma das maiores perdas da minha
vida.  Meu  irmão  George  nasceu  em  1962.  De  maneira  surpreendente,  ele  ainda  não  é  reconhecido  como  uma
pessoa  valorizada  e  independente  por  meu  sistema  familiar.  Meu  irmão  David  nasceu  em  1967.  Embora  ele
tenha quase 40 anos, sua vida confirma sua condição de “filhinho” de minha mãe. Como um homem negro com
dislexia não tratada, ele age e foge de todos os aspectos do ser adulto, exceto quanto à procriação, e vive sem
renda financeira, dependendo de outras pessoas.
Da  mesma  maneira  que  para  a  maioria  de  nossos  vizinhos,  negros  e  brancos,  a  vida  no  Sul  significava
domingos na igreja, a vida como um meeiro e extremos de alegria, violência, tranquilidade e dor. Os resíduos
das  vidas  tocadas  por  noites  violentas  e  caóticas  e  a  aparência  renhida  de  dias  calmos  e  tranquilos  criam  um
cenário para uma cultura de medo. O pastor era fundamental para ajudar as pessoas envolvidas na violência a
encontrarem  significado  e  manterem  a  esperança  necessária  para  resistir.  Existem  pelo  menos  dois  tipos  de
ministros.  Alguns  acreditam,  são  motivados  por  e  amam  “Deus”  e  todas  as  coisas  que  um  bom  “Deus”
representa.  Um  pastor  que  age  a  partir  das  necessidades  urgentes  de  “fazer  crescer  um  mundo  de  amor  e  de
esperança pela vida” cometerá erros, mas sua intenção é a de promover relações entre pessoas que se baseiem
nos  ideais  de  amor  e  esperança.  As  ações  conscientes  de  um  bom  pastor  surgem  de  crenças  básicas
profundamente  arraigadas,  como  “Ame  seu  vizinho  como  ama  a  si  próprio”  e  “Não  cause  dano  intencional”.
Outros  ministros  proclamam  seus  temores  de  sentimentos  e  pensamentos  confrontantes  que  eles  consideram
demoníacos  e  projetam  intenções  e  motivações  negativas  para  os  outros.  Meu  avô  era  do  segundo  tipo:  um
pastor do tipo furor e repugnância. Ele não podia ter idealizado um contexto mais adequado (o de ministro) em
que  poderia  ocultar  e  demonstrar  sua  marca  pessoal  de  medo  e  dor.  Sob  o  manto  dos  mitos  prevalentes  de
bondade  e  louvor  e  atributos  de  qualidade  de  um  “Ministro”,  ele  agia  sem  questionamento.  Ele  não  cometia
erros. Seus motivos nunca eram questionados. Suas ações eram reverenciadas. Sua destruição é imensurável.
Os filhos de meus pais podem ser compreendidos ao se observar o contexto de vida de meus pais. Saber como
aprendemos a ser as pessoas que somos não é uma desculpa para nossas falhas e para nossas deficiências. Isto
nos  ensina  como  fazer  sentido  e  encontrar  a  compreensão.  Os  significados  que  produzimos  nos  dizem  como
compreender a nós próprios, aos outros e às nossas relações no mundo. Esta é a base a partir da qual começamos
a  agir  ou  não,  escolher  ou  não  escolher,  saber  ou  não  saber.  Aprendemos  cedo  o  que  é  ser  um  ser  humano.
Aprendemos  sobre  relacionamentos  com  aqueles  que  nos  cercam.  Aprendemos  o  que  é  importante,  nossos
valores  e  o  que  é  certo  e  o  que  é  errado  a  partir  de  nossos  primeiros  relacionamentos.  Eles  formam  a  lente
através da qual enxergamos e sabemos tudo. O que vem a seguir são algumas das experiências que constituem a
minha lente. Este é o meu princípio.
Minha  mãe  tinha  23  anos  de  idade  e  meu  pai,  25  quando  nasci.  Minha  mãe  conta  a  história  sobre  meu
nascimento  e  os  primeiros  dias  de  vida  que  foram  fundamentais  para  construir  a  visão  de  mim  própria,  meu
caráter e minha força que, em momentos distintos, suportaram e diminuíram a avaliação de meu valor perante
meus próprios olhos. Ouvi esta história desde... bem... o início. Ela dizia:

Quando você nasceu, pesava 2.080 gramas. Seu pai veio vê­la. Ele disse que você era tão pequena que ele tinha medo de
segurá­la.  Quando  ele  a  viu  pela  primeira  vez,  olhou  você  e  disse.  “Deus,  ela  tem  muito  cabelo  e  parece  um  rato.”  E
enquanto você estava no hospital, você perdeu 800 gramas. Todos pensavam que você ia morrer. Você ficou no hospital
por  um  mês  em  uma  incubadora.  O  Dr.  Everage  foi  muito  bom.  Ele  construiu  uma  incubadora  a  partir  de  sucatas  e
bombeava  oxigênio  para  dentro  dela  para  mantê­la  viva.  Mas  você  não  estava  ganhando  peso,  de  modo  que  eles  a
mandaram para casa. Acho que eles pensavam que você ia morrer. Eu sentia muito medo e coloquei você em uma gaveta
da  cômoda  com  uma  bolsa  de  água  quente.  Fiquei  acordada  a  noite  toda  e  beliscava  você  para  fazer  com  que  você
chorasse, porque estava com muito medo de que você fosse morrer. Tive de me empenhar e trabalhar muito para manter
você viva. Você me pôs à prova.

Minha mãe me lembrava periodicamente e com exatidão dessa história durante minha vida, reiterando o fato
de que meu pai achou que eu parecia um rato e mantendo as feridas desta imagem vivas e poderosas. A narração
de  seu  grande  sacrifício  e  a  extrema  dedicação  e  sacrifício  com  meu  nascimento  pesaram  muito,  e  em  certas
ocasiões  penderam  a  balança  a  favor  da  tentativa  de  garantir  a  minha  morte  prematura  por  meio  de  várias
tentativas de suicídio. Com frequência, para marcar posição nos momentos em que eu “era muito grande para
minhas vitórias” ou me “tornava muito cheia de mim mesma” ao pensar que era esperta ou merecedora de louvor
ou amor, ela me lembrava de minha entrada atabalhoada no mundo, reduzindo­me à realidade de sua percepção
de  que  eu  era  “sórdida  e  menos  que  suja”.  Seu  discurso  frequentemente  terminava  com  a  declaração  de  que
minha dívida para com ela nunca poderia ser paga e que eu tinha sorte de estar viva. O quadro que minha mãe
pintava sobre como ela e meu pai me acolheram e seus sentimentos sobre mim, combinados com todo o peso dos
eventos subsequentes, me deixaram com profundos sentimentos de culpa e terror, bem como com períodos de
dor  e  pensamento  dissociados  que  me  empurraram  para  dentro  das  profundezas  do  desespero  e  para  minha
própria visão do inferno por toda a minha vida.
A família de minha mãe trabalhava como meeira em uma fazenda no Alabama, em 1954. Meus avôs de ambos
os  lados  da  família  eram  pastores.  Como  familiares  de  um  pastor,  tínhamos  alguma  ascensão  social  sobre  as
outras famílias negras pobres da região. Ainda assim, a situação difícil de minha avó não parecia ser diferente da
de  outras  mulheres  negras  da  região.  Muitas  das  mulheres  do  Sul  viviam  como  pessoas  silenciosas  na  terra
dominada  pelos  maridos.  Contudo,  as  mulheres  negras  com  quem  cresci  tinham  a  carga  adicional  de  serem
alternadamente desejadas sexualmente, ao mesmo tempo que sua essência como pessoas era desdenhada, muitas
vezes por seus maridos e, na maioria das vezes, por todos os homens e mulheres dentro desta fatia da sociedade.
Aprendi com muito pouca idade que a segurança de uma mulher dependia do repertório de manobras defensivas
femininas  e  do  estado  emocional,  dos  caprichos  e  das  ações  dos  homens.  Infelizmente  para  minha  mãe,  ela
cresceu com homens que ficavam raivosos e fisicamente abusivos com qualquer mulher que ousava pensar e agir
como se ela fosse tão inteligente e dotada dos mesmos direitos que qualquer outro ser humano, principalmente
um homem. Minha mãe conta histórias que mostram sua insistência radical em dizer o que ela queria, quando ela
queria, verbalizando insistentemente sua opinião e nomeando o que era inaceitável. Para meu grande desespero,
seus surtos de bravura frequentemente terminavam com descrições épicas de “de apanhar até cair”. Para minha
surpresa, ela obtinha grande prazer na luta – para se erguer. O revés parecia ser incidental. O orgulho que ela
transmitia cada vez que jogava a cabeça para trás e recontava sua rebeldia, luta após luta, deixou sua marca em
meu  coração  e  na  minha  mente.  Eu  vibrava  com  sua  força  física  e  rápida  capacidade  de  recuperação,  mas,
principalmente, com seu orgulho em ser rebelde. Essa resistência “às surras” me faz lembrar que eu venho de
uma longa linhagem de sobreviventes. A necessidade de combater a injustiça frequentemente me impressionava
e me motivava. Por tudo, a vida de minha mãe ensinou­lhe que ela era inferior. Ela aprendeu que sua dor e terror
eram  causados  por  ela  ser  negra  e  mulher.  Dependendo  do  contexto,  sua  cor  ou  sua  qualidade  feminina,  ou
ambas, a vitimizaram sem piedade. Ela precisava resistir, iludir­se e lutar contra o estupro e as agressões verbais
e físicas, desde sua tenra infância, por seu pai, seu irmão e outros parentes do sexo masculino. Mais tarde, como
mulher, ela entrou em um mundo em que precisava lutar contra os homens brancos nas casas em que trabalhava.
Estas  são  as  coisas  que  infiltraram  o  coração  de  minha  mãe,  tornando­a  o  que  ela  era  e  fazendo  com  que  ela
odiasse o que veio dela: sua primeira filha.
É  como  se  todas  as  vezes  que  minha  mãe  me  olhasse,  ela  visse  uma  menina  com  todas  as  qualidades  e
características que ela imaginava que todas as pessoas vissem e que as levavam a feri­la e a odiá­la. Minha face
era um espelho. Ela olhava para meu rosto uma vez por semana, a cada ano e pelo resto de minha vida, e ela
somente podia enxergar a pequena menina vil e desprezível que a tornara fatigada e brutalizada e que impedia
que ela tivesse a vida que queria. Sempre me senti odiada por minha mãe. Podia ver que, quando ela me olhava,
ela sentia raiva e ódio enormes. Não havia como fugir da consequência de meu significado para ela. Eu era tudo
o que ela achava que os outros viam e que os levava a fazer com que ela sofresse. E eu estava pagando!
O  contexto  de  vida  em  que  minha  família  vivia  esmagou  seu  potencial  humano  e  sua  capacidade  de  ter
esperança.  Neste  contexto,  suas  ações  podem  ser  compreendidas,  embora  isto  nunca  possa  vir  a  ser  uma
justificativa.  O  contexto  mostra  como  aprendi  a  ter  pensamentos  que  sustentaram  minha  vida  durante  toda  a
recuperação dos eventos devastadores e incrivelmente sofridos em minha vida.
A frase passar um tempo no caos descreve adequadamente minha vida durante o surgimento de minha doença
mental  e  por  anos  depois  disto.  Meus  primeiros  cinco  anos  de  vida  cotidiana  no  Sul  tiveram  momentos  de
extremo prazer, de correr pelos campos, de pegar amendoins quando queria e de encontrar o tesouro escondido
ao cavar profundamente no chão e pegar cenouras ou batatas­doces despreocupadamente. Sentada à beira d’água
em uma das únicas áreas de pesca e natação perto de casa, eu frequentemente observava as formigas. Meus olhos
iam de um lado para o outro enquanto eu as seguia conforme elas andavam apressadamente. Lembro de pensar
no que elas poderiam estar pensando.
Eu sempre aceitei os princípios básicos da vida, fazer limonada com limões. Por eu não ter recebido o amor de
uma  família  e  de  amigos,  não  desenvolvi  um  eu  viável  que  é  baseado  no  conhecimento  de  estar  seguro  e  ser
amado. Descobri que eu substituí a vida pela terapia e o amor pelas relações terapêuticas. Não era possível evitar
ter  uma  doença  mental,  distúrbio  do  estresse  pós­traumático  e  depressão.  As  circunstâncias  de  vida  e  meus
relacionamentos  iniciais  tornaram  isto  inevitável.  Tinha  sorte  e  azar  –  sorte  porque  tive  tratamento  de  saúde
mental. Tive azar porque minhas patologias são o distúrbio do estresse pós­traumático e o distúrbio dissociativo
de identidade (DDI). O surgimento do DDI foi uma técnica para salvar a vida. Aprendi que podia sobreviver às
experiências esmagadoras ao “me voltar para dentro de mim mesma” e logo tinha uma gama de amigos e entes
queridos  imaginários.  Ter  DDI  permitiu­me  compartimentar  minha  vida  –  as  tarefas,  os  estágios  de
desenvolvimento,  as  reações,  os  sentimentos,  os  pensamentos  e  a  realidade.  Aprendi  a  colocar  de  lado  aquilo
com que não podia lidar, de modo que podia passar o dia e manter­me funcional com uma quantidade módica de
sanidade. O DDI, minha recompensa, foi uma grande habilidade. Podia, na minha mente, transformar­me para
me adaptar a qualquer situação, atender as necessidades de outras pessoas, evitar ameaças e, como o camaleão, a
mudança era uma boa ferramenta para a função.
Esta técnica de sobrevivência, como todas as manobras para mudar a realidade, tornou­se uma faca de dois
gumes.  O  lado  ruim  da  dissociação,  como  todas  as  ações  para  a  mudança  dos  estados  internos  por  meio  de
diferentes técnicas de fuga, foi que isto adquiriu vida própria. Meu “funcionamento” baseava­se no “pensamento
mágico” e na aparente “boa função”. Mudar minha condição por meio do pensamento mágico substitui minha
consciência de adulto pela visão dos olhos de uma criança, pelas reações de uma criança e pelos sentimentos de
uma  criança,  o  que  está  fora  de  propósito.  A  solução  de  ontem  é  uma  dificuldade  agora.  Juntamente  com  os
desvios mágicos de minha consciência vieram as imagens de dor e horror, pensamentos e sentimentos, e minha
profunda imersão no “inferno da memória”. Estar no inferno da memória é como estar trancada em um armário
cheio  de  sentimentos  e  padrões  de  pensamento  originados  dos  momentos  mais  torturantes  na  minha  vida.  Os
temas de abandono, terrores, humilhações, condições físicas dolorosas e perda preenchem minha visão e turvam
meu julgamento. Eu caminho pelo vida em um corpo de 54 anos de idade fingindo – fingindo muito bem que eu
não estou ciente da incongruência entre ter 54 anos e agir como se tivesse 5 anos de idade.
Como uma adulta jovem,  tinha  apenas  vagas  lembranças  sobre  meu  passado.  Eu nunca descobri quando ou
como minha dissociação havia começado. Até um mês atrás, eu não compreendia a implicação de minha reação
ao trauma e como ela afetou minhas percepções, pensamentos, sentimentos e a vida cotidiana. Eu sinto vergonha
e humilhação por estar em um corpo de 54 anos de idade sem qualquer capacidade de monitorar lapsos de tempo
e  de  alguma  forma  colocar  as  coisas  em  ordem  cronológica.  Quando  eu  sou  solicitada  a  lembrar  quando  um
evento aconteceu, surgem a confusão e o embaraço e, em geral, eu respondo dizendo: “Bem, acredito que tenha
sido umas duas semanas atrás.” Com frequência, eu desperto para descobrir que fui capaz de justificar utilizando
um tom abusivo e questionando o compromisso, a integridade e o equilíbrio moral de meus aliados porque fui
instigada.
A capacidade de dividir minha consciência e de me convencer de que este desvio é real começou muito cedo
em  minha  vida.  Eu  lembro  de  testemunhar  meu  irmão  sendo  baleado  por  minha  mãe.  Mais  tarde,  assisti  ao
estupro e ao brutal assassinato de minha melhor amiga. Experimentei abuso sexual e tortura nas mãos de minha
mãe  e  meu  pai.  Testemunhei  o  linchamento  de  meu  tio.  Isto  tudo  ocorreu  antes  que  fizesse  6  anos  de  idade.
Depois  que  meu  irmão  bebê  foi  morto,  antes  de  minha  amiga  morrer  e  antes  que  meu  tio  fosse  morto,  minha
família mudou­se de nossa casa em Birmingham. Fomos viver na casa de meu avô no Alabama. Acredito que
minha família estivesse fugindo das perguntas sobre a morte de meu irmão bebê.
A  vida  havia  começado  novamente.  Meus  irmãos,  meus  pais  e  eu  nunca  mais  mencionamos  o  nome  ou  a
existência  de  meu  irmão.  Tornei­me  a  melhor  amiga  de  uma  pequena  menina  branca,  chamada  Paula.  Ambas
sabíamos  que  nunca  poderíamos  ser  vistas  juntas.  Um  dia,  estávamos  brincando  no  celeiro  e  Paula,  minha
melhor  amiga  no  mundo,  foi  morta.  Seu  assassinato  foi  brutal,  e  ainda  hoje  as  palavras  de  minha  mãe  me
assolam: “Veja o que acontece com seus amigos.” Fui levada a acreditar que sua morte ocorreu porque ela era
branca e um alvo necessário para o abuso sexual. Depois que Paula foi morta, uma noite, enquanto dormia, fui
acordada  por  gritos  e  batidas  altas  na  porta.  Minha  família  foi  levada  para  fora,  no  escuro,  e  agredida.  Fui
estuprada  na  frente  de  minha  família.  Meu  tio  foi  torturado,  linchado  e  eviscerado.  Meu  coração  de  criança
estava partido. Como adulta, tive de reviver cada episódio nauseante, tentar metabolizar aquela dor e me libertar
da  lembrança,  sabendo  que  isto  aconteceria  por  meio  da  compulsão  da  repetição,  e,  então,  das  tentativas
desvairadas de desfazer as coisas que vêm com a hipervigilância.
Acredito  que  o  nível  de  trauma  que  meus  pais  experimentaram  e  sua  desmoralização  são  diretamente
responsáveis  pelo  abuso  que  eles  impingiram  aos  meus  irmãos,  a  mim  e  a  outros  em  seu  mundo.  Meu  pai  e
minha mãe proferiam palavras de alto valor espiritual e tinham uma ética central de trabalho que os orientava.
Meu pai trabalhava na construção civil e minha mãe trabalhava como passadeira em uma lavanderia e, mais no
final da vida, como auxiliar de saúde domiciliar. Minha mãe demonstrou que manter sua vida é a principal tarefa
de vida. Sou uma sobrevivente e venho de uma longa linhagem de sobreviventes. Sobrevivemos fisicamente –
alguns  de  nós  com  o  amor  e  a  esperança  intactos,  mas  a  maioria  não.  Como  outras  vítimas  de  racismo  e
genocídio, acreditei que as relações abusivas e traumáticas eram o único modelo de vida. O racismo e a opressão
pós­escravidão criaram um ambiente cáustico, mostrando a meus pais que a esperança por um futuro melhor e
pelos direitos dos norte­americanos à cidadania plena parecia condenada a permanecer como uma ilusão teórica
apenas por causa da cor de sua pele. A ilusão de liberdade e aceitação de toda a sociedade tornou a realidade de
todos mais difícil de suportar. Como uma faca serpenteando e distorcendo suas almas, as palavras de liberdade,
igualdade  e  aceitação  permaneceram  como  os  valores  inatingíveis  que  pareciam  nunca  se  tornar  realidade  em
suas vidas.
Vim para Boston quando estava me aproximando de meu sexto aniversário, deixando para trás minha bisavó
materna. Ao chegar a Boston, fiquei mais imersa na vida em minha cabeça, porque acreditava que minha bisavó
era tudo o que havia entre min e minha morte. Quando entrei na escola, perdi toda a esperança de estar segura no
mundo.  A  escola  era  terrível  porque  eu  nunca  tive  permissão  para  ficar  próxima  das  pessoas  brancas  no  Sul,
principalmente depois do assassinato de minha melhor amiga na fazenda em que meu avô era meeiro. O terror
interferiu com meu funcionamento quando entrei para a escola e vi meus professores e encontrei o diretor. Todos
eram pessoas brancas, e todas as crianças eram negras.
Eu  era  basicamente  não  verbal,  mas  tinha  uma  grande  imaginação.  Viver  na  minha  cabeça  criava  um  oásis
longe  do  caos,  do  terror  e  da  dor  criados  por  adultos  sexualmente  abusivos  e  que,  com  frequência,  ficavam
enraivecidos  por  motivos  que  eu  não  podia  compreender.  Durante  o  mês  de  setembro  daquele  ano,  ouvi  pela
primeira  vez  meu  nome  de  nascimento,  “Gloria”,  quando  minha  mãe  me  levou  para  o  jardim  de  infância.  Ao
entrar  para  o  jardim  de  infância,  eu  já  sabia  como  escrever  meu  nome.  Meu  irmão  mais  velho  ensinou­me  a
desenhar as letras e escrever meu nome. Ele estava me ensinando que as letras significavam alguma coisa. Ele
dizia, “Agora Fay”, porque todos me chamavam de “Fay”, “faça uma linha reta para baixo, como um bastão. É
desta maneira que você faz um ‘T’”. Aprendi a odiar me confundir, porque meu irmão era bom em tudo. Minha
mãe  adorava  tudo  o  que  ele  fazia.  Meu  pai  gostava  do  que  ele  fazia.  Meus  avós  achavam  que  ele  era  muito
esperto. Ele era tudo para todos eles. Além do mais, ele era sortudo. Era um menino. A diferença de como minha
mãe olhava para ele e como olhava para mim me fez trabalhar muito para superar meu defeito primordial de ser
uma menina. Assim, aprendi que precisaria trabalhar muito mais para ser apreciada, para me tornar uma pessoa,
para finalmente merecer estar viva. Meus preciosos segredos eram que eu realmente era melhor que meu irmão e
que eu poderia fazer qualquer coisa tão bem quanto meu irmão mais velho ou qualquer menino ou homem. Esta
noção de que eu era considerada inferior por todos aqueles que eu amava foi crítica para meu desenvolvimento.
Eu vivi uma vida de empenho e superação. Eu iria mostrar a todos que era tão boa quanto um menino. Qualquer
pessoa  que  afirmasse  ou  insinuasse,  de  qualquer  maneira,  que  eu  era  inferior  a  um  menino  por  causa  de  meu
sexo  podia  contar  com  meu  protesto  irado.  Qualquer  autoridade  que  fizesse  tais  acusações  podia  contar  com
minha retribuição secreta de que o que eu sentia era a mais abominável das agressões contra o meu ser. Tentei
fazer tudo o que um menino podia fazer. Rebelei­me bastante na vida por causa do fato inalterável de que eu
havia nascido menina.
Quando  a  professora  descobriu  minhas  habilidades,  ela  tomou  uma  decisão  e  eu  fui  colocada  no  primeiro
grau. Em seguida, a maré mudou. O fascínio da professora por meus dons teve curta duração e fui rebaixada e
devolvida  ao  jardim  de  infância.  Este  evento  plantou  sementes  de  dúvida  sobre  minha  inteligência  que  me
assombraram  por  toda  a  vida.  Não  é  qualquer  criança  que  pode  dizer  que  foi  rebaixada  no  primeiro  ano.  A
explicação  de  minha  professora  era  que  eu  era  extremamente  “imatura”.  Meu  choro  histérico  e  persistente,
minha agitação e os gritos chamando minha mãe os levaram a concluir que eu era muito infantil. Esta primeira
entrada na escola começou a mostrar que meu sofrimento e minha dor estavam profundamente arraigados.
Quando  tinha  15  anos,  minha  mãe  e  meu  pai  brigavam  constantemente  por  dinheiro,  com  acusações  de
relacionamentos extraconjugais, infidelidade e estresse causado pelo álcool. Eles também brigavam por causa da
atenção excessiva e do abuso sexual de meu pai para comigo. Eu tinha sido uma excelente estudante, e até os 15
anos de idade considerava a escola um santuário. Com 15 anos, fiquei aterrorizada com a escola. Dormia pouco.
Durante a noite, eu literalmente fugia de minha casa para o Boston City Hospital. Eu sentava na área de espera
com os doentes que aguardavam para se consultar com o médico. Somente ia ao hospital porque estava ciente de
que, como uma menina nas ruas de Boston, eu ainda era uma presa desprotegida. Todas as noites, durante meses,
eu  fugia  depois  de  ficar  amedrontada  enquanto  tentava  dormir.  A  cada  noite,  eu  imaginava  que,  assim  que
adormecesse, um homem viria e ficaria em pé próximo a mim. Ele aguardaria até que meu sono fosse profundo
e, quando o terror atingisse o máximo e o medo da surpresa fosse iminente, sabia que ele se lançaria sobre mim.
Eu sabia, com tanta certeza quanto posso ver as palavras nesta página, que ele daria fim à minha vida de maneira
torturante.  Tornou­se  mais  seguro  ficar  acordada  a  noite  inteira  na  sala  da  emergência.  Dormia  durante  o  dia.
Faltei bastante na escola. Era capaz de forjar anotações de minha mãe e escapei das consequências das ausências
sem justificativa durante quase um ano. Meu estado físico e emocional tornou­se incontrolável e meu sofrimento
ficou aparente. Chorei durante dias. Sentia­me sozinha, aprisionada e abandonada. Fui à escola um dia e caí no
chão do ginásio. Tive um aborto. Minha amiga Wanda me disse recentemente que eu fiquei enroscada em uma
bola no chão. Eu sussurrava para ela, “Wanda, por favor, não deixe que venham e me peguem...por favor...por
favor!” Ela cita isto como a minha entrada no sistema de saúde mental. Tudo o que sei é que, em 1966, com 15
anos de idade, fiz minha primeira visita ao psiquiatra.
O psiquiatra era uma mulher que veio de outro país. Ela tinha um forte sotaque. Eu ficava muito envergonhada
para dizer a ela que, com frequência, não entendia uma palavra do que ela estava falando. Eu queria confiar nela.
Eu agi imediatamente como se ela me amasse e cuidasse de mim, ainda que eu realmente não soubesse. Ansiava
por  afeição  e  amor.  Eu  estava  tão  solitária  que  poderia  morrer.  Queria  alguém  para  confiar  e  amar  tanto  que
qualquer semelhança com fidelidade e qualquer pergunta sobre o que eu queria passavam por amor e carinho. A
simples  cortesia  e  a  proximidade  com  outro  ser  humano  que  me  fazia  perguntas  eram  reconfortantes.  Estes
simples  atos  de  ternura  e  profissionalismo  eram  o  bálsamo  e  o  linimento  que  suavizavam  minhas  feridas
causadas  por  tortura,  abandono  e  negligência.  Aprendi  a  buscar  esperança  e  segurança  em  seus  gestos,
pseudoconfiança  e  perguntas  que  eu  pensava  que  fossem  suficientes  para  me  provar  que  ela  me  amava.  Os
profissionais se transformaram em uma família substituta com todos os conflitos e lealdades pertinentes, e com o
tempo as relações terapêuticas eram suficientes.
Aos  16  anos  de  idade,  entrei  em  uma  instituição  psiquiátrica  pública  e  comecei  minha  trajetória  de  receber
atendimento  profissional  em  vez  das  relações  protetoras  de  amor  mútuo,  com  o  objetivo  de  reduzir  a  dor  e  o
medo. Fiquei aterrorizada ao entrar no Boston State Hospital, mas, desde o primeiro momento em que os adultos
me perguntaram o que eu pensava, o que havia me ferido e do que eu precisava, me engajei no tratamento. O
foco estava sobre mim e as pessoas diziam que elas queriam me ajudar a me sentir melhor. Estou sob tratamento
de saúde mental há 39 anos porque aceitei a promessa de cuidado. O cuidado profissional era, e ainda é, o único
cuidado em que senti segurança suficiente para me permitir na minha vida. Este é o único cuidado que eu senti
que poderia ter.
Meu tratamento para os sintomas da doença mental foi bem­sucedido por ter me permitido frequentar a Tufts
University e frequentar cinco programas de graduação, ainda que não tenha obtido o grau de mestre. Eu tenho
conseguido trabalhar e viver na periferia da vida, direcionada para o amor de minha terapeuta e um apartamento,
e usando o trabalho para melhorar e ter uma vida. Se a aparência fosse o teste de minha recuperação total, eu
facilmente passaria como vitoriosa. Para a maioria de nós que tem uma doença mental, a recuperação é cheia de
recidivas e recorrências da doença. A jornada da recuperação é repleta de interrupções e platôs entre montanhas
e  vales.  A  jornada  torna­se  menos  tumultuada  para  muitos,  mas  a  exacerbação  dos  sintomas  nunca  pode  ser
excluída. A vida com doença mental é precária e uma situação difícil e terrível em que se encontra uma pessoa.
Pense sobre o que eu lhe disse a respeito do início da minha vida: os relatos de testemunho da morte de meu
irmão antes dos 6 anos de idade, o assassinato e o estupro de minha melhor amiga, o abuso sexual e a tortura que
experimentei,  e  o  linchamento  de  meu  tio.  Alguns  médicos  consideram  minhas  declarações  inacreditáveis  e
absurdas. Um médico chegou a me censurar dizendo, “Agora Gloria, pense sobre o que você está dizendo. Você
não acredita que a polícia teria agido?” Eu teria rido, exceto por saber que este pensamento é gerado pelo fato de
que  muitas  pessoas  esqueceram  como  era  a  vida  para  as  pessoas  negras  em  1955.  Esta  falta  de  conhecimento
histórico,  juntamente  com  uma  necessidade  pervasiva  de  “não  conhecer”  a  dor  do  racismo  e  da  disfunção
familiar, é extremamente prevalente em nossa sociedade. Eu sempre sinto como uma afronta pessoal quando os
cuidadores substituem minhas experiências da vida real por suas teorias do que “realmente” aconteceu. Isso de
não  ser  crível  simplesmente  porque  o  que  aconteceu  comigo  está  fora  da  experiência  de  meus  amigos
profissionais  provoca  continuamente  em  mim  a  maior  dor  na  minha  vida.  O  questionamento  da  verdade  da
minha  experiência  acontece  porque  meus  amigos  profissionais  acreditam  na  intensidade  do  impacto  do  meu
trauma  e  porque  o  treinamento  deles  exige  que  eles  dissequem  cada  afirmação  que  faço  em  uma  tentativa  de
encontrar  os  erros  no  meu  pensamento  e  julgamento.  Esta  maneira  sofisticada  de  “anular  e  invalidar”  minha
experiência  e  substituí­la  pela  suposição  teórica  baseia­se  realmente  apenas  na  fantasia  de  suas  cabeças.  Estas
conversas sempre me fazem sentir isolada, discriminada e desmoralizada, me deixando sem esperança de obter
credibilidade  quando  a  experiência  de  minha  vida  é  diminuída  por  ser  radicalmente  diferente  da  vivida  pela
maioria das pessoas.
Eu compreendi que uma vez tenha aceitado o contrato de terapia e tratamento – como em um pacto com o
demônio – ele é per pétuo e seu curso é determinado. Raramente uma pessoa que entra no tratamento da saúde
mental escapa ou mesmo perde o rótulo e os devastadores atributos associados à condição de ser um “paciente
mental”.  Depois  de  anos  de  fervorosa  imersão  e  compromisso  com  o  tratamento  terapêutico,  descubro­me
sentindo  enganada,  decepcionada  e  abandonada.  Acredito  que  estes  sentimentos  sejam  principalmente  uma
consequência de minha sensação de ser magoada pelos poderosos administradores do sistema de saúde mental, o
que  piorou  quando  meu  irmão  Junior,  aos  46  anos,  morreu  desnecessariamente  por  causa  da  negligência  da
equipe dentro de uma instituição de atendimento do sistema de saúde mental.
Minha interface com os profissionais médicos foi aumentada por uma carga adicional para minha recuperação.
Sou idosa e preciso de cuidados médicos fornecidos por médicos que me estigmatizam e humilham porque fui
diagnosticada  como  “mentalmente  doente”,  então  reagem  com  raiva  e  hostilidade  em  retribuição  às  minhas
queixas sobre seus comportamentos dolorosos. Meus outros cuidadores profissionais não responderam às minhas
súplicas  para  que  eu  tivesse  acesso  aos  direitos  básicos  de  tratamento  humanizado  e  decente  nos  ambientes
médicos.  Todos  estes  fatores  culminaram  em  me  deixar  com  profundo  sentimento  de  desespero.  Deixei  de
estruturar uma vida que me apoie e sustente depois que os amigos profissionais das nove às cinco vão embora.
Meus antigos terapeutas diziam, sem exceção, que meus traumas eram muito devastadores até mesmo para que
eu me casasse. A terapia e os hospitais psiquiátricos criaram um casulo que me mantinha isolada, com medo de
viver. O estigma de ser um paciente mental idoso agora me enche de tristeza.
Minha  existência  na  América  significou  que  minha  vida  estava  fadada  a  ser  difícil.  A  carga  adicional  de
abuso,  os  39  anos  de  tratamento  de  saúde  mental  e  uma  mente  ativa,  curiosa  e,  em  geral,  muito  delicada  me
deixaram desiludida. Consciente do que poderia ter sido, minhas perdas testam minha resistência, esperança e fé.
Agora existo sem muitos dos meus disfarces, meus “eus” alternativos, e sem o benefício de um sistema de apoio
amoroso. Esta vida de ter de fazer limonada com os limões criou respostas habituais de resistência que agora me
mantêm  no  planeta,  no  entanto  infeliz  e  me  empenhando  em  ser  melhor.  Minha  própria  crise  existencial  se
reflete em de que modo eu resisto, não causo dano e aguardo – depois de tudo que passei? Ainda tenho fé na
bondade das pessoas.
No Boston University Center for Psychiatric Rehabilitation Center, encontrei pessoas que eram profissionais.
Suas teorias de como ajudar não se baseavam em procurar o que estava errado comigo. Eles não pensavam que
seria  impossível  que  eu  fosse  igual.  Eles  não  me  rotulavam  como  defeituosa  ou  me  diziam  o  quanto  eu  era
doente. Eles me falavam sobre ter opções e sobre ter um papel valorizado na vida. Eles me disseram que minha
incapacidade de ser bem­sucedida era causada por barreiras. Eles fizeram exigências e tinham expectativas. Eles
fizeram planos baseados em minhas necessidades, desejos e preferências, exigindo que eu fizesse escolhas. Eles
acreditavam  que  eu  conseguiria  e  cresceria.  Eles  me  inspiraram  e  se  aliaram  à  minha  rápida  capacidade  de
recuperação,  deixando  que  eu  me  sentisse  energizada,  pronta  para  agir  a  meu  favor  e  esperançosa  por  um
resultado  melhor.  O  Dr.  Spaniol  me  orientou  e  me  deu  um  papel  valorizado  de  facilitação  de  grupos  de
recuperação  e  cofacilitação  concomitantemente  em  workshops  estaduais.  Ele  forneceu  conhecimento  e
habilidades  para  aumentar  minha  competência  e,  juntando  isto  a  expectativas  exequíveis,  melhorou  meu
desempenho  global  de  vida  e  minha  satisfação  de  maneira  exponencial.  Atualmente,  tenho  uma  recentemente
descoberta identidade de educadora. Este era um sonho meu quando era uma menininha, eu brincava de escola
com meus amigos na infância. Estas experiências me permitiram vislumbrar um mundo em que eu era aceita e
respeitada.  Agora,  estou  definitivamente  mudada  e  desistir  é  muito  mais  difícil  por  causa  deles.  Seu  uso  do
conceito  universal  de  que  as  dificuldades  são  causadas  por  barreiras  me  tirou  do  mundo  do  ser  humano
defeituoso que falha ao desempenhar seus pa péis e me colocou de volta no mundo dos seres humanos que se
empenham em superar os obstáculos ambientais sem julgamentos sobre meu intelecto, caráter ou motivação. Eu
fui  colocada  no  mesmo  patamar  que  os  outros.  Eu  fui  uma  pessoa  que  precisou  de  ajuda,  conhecimento,
habilidades e apoio. Não sou um ser inferior tratado por superiores. Muitos dos conflitos e esforços potenciais
encontrados  na  terapia  tradicional  não  são  mais  problema.  Esta  mudança  sutil  e  extraordinária  de  perspectiva
permite que os profissionais tenham maior probabilidade de ir ao encontro da vida real de uma pessoa e não a
uma coleção de sintomas.
Sou uma parceira igual com responsabilidades de participação para garantir um bom resultado. Como parceira
de  um  profissional,  eu  não  sento  passivamente  e  aguardo  que  me  salvem.  O  conhecimento  de  que  meus
conselheiros da Boston University se importavam criou em mim um sentimento de que suas teorias sobre mim,
seus  tratamentos  e  seus  resultados  de  tratamento  específicos  nunca  foram  tão  curativos  quanto  suas
personalidades, seus desejos e intenções declarados. Sem a curiosidade genuína deles, que permitiu que eles me
ouvissem, o respeito que os impediu de julgar e a grande consideração por meu individualismo, que permitiu que
eles me tolerassem do modo que eu era, eu não teria conseguido enfrentar minhas feridas e meu desespero. As
palavras “Nem sempre sei como ajudar, mas realmente quero ajudá­lo” parecem um bálsamo sobre uma ferida
aberta e me tranquilizam, de modo que eu somente posso me aproximar de seu significado ao dizer, “Isto curou
minha  alma.”  Este  é  um  dos  muitos  presentes  supremos  da  conexão  humana  que  encontrei  apenas  em  minha
relação com minha terapeuta e com meus conselheiros na Boston University.
Eu tive inúmeras experiências que me mostraram como “fazer sentido” e transformar a lesão e a devastação
em  cenários  de  esperança.  Afirmar  rotineiramente  a  esperança  e  responder  habitualmente  à  devastação  com
rápida  capacidade  de  recuperação  são  habilidades  que  me  ajudaram  a  transformar  o  inferno  e  a  renascer  das
cinzas.  “O  nascimento  da  fênix”  é  minha  metáfora  de  vida.  À  medida  que  a  vida  me  empurra  para  as
profundezas do desespero, olho para dentro de mim e encontro uma luz de esperança para tentar e viver bem.
Tenho repetidamente renascido das cinzas e, com minha fé intacta, não posso visualizar outra resposta.
O Privilégio de Cuidar
DONALD M. MURRAY

“N
ão sei quem ele é, mas todas as manhãs e tardes um homem vem me ver, e ele é tremendamente gentil.”
A mulher que disse estas palavras foi Minnie Mae, minha esposa por 54 anos, e vivi com estas palavras
durante meses, desde que ela manifestou sua demência, em uma tarde de sexta­feira, e disse à enfermeira: “Não
quero mais água, nem alimento, nem comprimidos.”
Quatorze anos antes, quando tinha 72 anos, ela realizou seu exame físico anual. Parecia não haver nenhuma
surpresa  durante  este  exame  que  testou  a  coragem,  o  senso  de  humor  e  a  capacidade  de  sobreviver  à  dor  no
passado.  A  calma  e  as  interjeições  profissionais  do  médico  durante  o  exame  nos  tranquilizaram.  O  médico
estudou  os  resultados  dos  exames  laboratoriais  –  outra  interjeição,  “mmm”,  reconfortante  –  e,  sorrindo,  nosso
médico foi até a porta da sala de exame, virou­se e disse para minha mulher: “Você tem doença de Parkinson”,
saiu para o corredor e fechou a porta atrás dele.
Esta não é uma história “de velho” e as dificuldades e prazeres da velhice. Não tenho teorias. Nem estatísticas.
Não  li  livros,  estudos  ou  artigos  de  periódicos  sobre  envelhecimento.  Este  é  simplesmente  um  relato  da
intimidade  final  e  do  amor  de  um  casal  confrontado  com  o  desafio  da  doença  de  Parkinson,  uma  doença
duradoura e fatal para a qual não existe cura. Como muitos de nós, na faixa dos oitenta, Minnie Mae era uma
paciente experiente. Antes desta última doença, ela havia sofrido toxemia com risco de vida com nosso primeiro
filho, uma crise de apêndice com três infecções diferentes uma histerectomia de emergência, nove – acredite –
cirurgias no olho e câncer de pele e de mama.
Realmente não sabíamos o que era a doença de Parkinson, mas sabíamos que não era boa. Parece haver dois
tipos de pacientes idosos: aqueles que se preocupam e predizem e pesquisam sobre o que poderia acontecer e
aqueles,  como  nós,  que  apenas  se  deparam  com  cada  “surpresa”  com  toda  aceitação,  coragem  e  firmeza  que
puderem  congregar.  Passamos  a  vida  dando  um  passo  por  vez.  Agora,  temos  um  novo  desafio:  a  doença  de
Parkinson.
Nos dirigimos imediatamente para meu cardiologista, que nos encaminhou para um neurologista. Isso não nos
ajudou  tanto  quanto  esperávamos.  Queríamos  aprender  como  tratar  o  mal  de  Parkinson,  como  ele  poderia
evoluir,  como  isto  afetaria  nossa  vida  diária  e  nosso  futuro.  Em  lugar  de  respostas,  entramos  em  um  tipo  de
debate com terminologia profissional que interessa aos médicos, não a nós.
Nosso  neurologista  realizou  um  debate  com  ele  próprio  na  nossa  frente.  Minnie  Mae  poderia  ter
“parkinsonismo”  ou  poderia  ter  a  doença  de  Parkinson.  Nunca  ficava  claro  qual  era  a  diferença  e  como  ela
poderia  afetar  a  vida  de  Minnie  Mae.  A  doença  de  Parkinson  e  o  parkinsonismo  evoluem  para  a  morte  em
velocidades diferentes? Nunca fomos capazes de compreender a diferença, exceto pelo fato de que nos foi dito
que  um  medicamento  anti­hipertensivo  que  Minnie  Mae  havia  utilizado  anteriormente  estava  associado  ao
“parkinsonismo”  ou  à  “doença  de  Parkinson”  em  cerca  de  25%  dos  pacientes  que  fizeram  uso  daquele
medicamento. Minnie Mae (uma pessoa direta que gostava de respostas diretas) perguntou: “O que causou meu
parkinsonismo ou minha doença de Parkinson, ou o que quer que seja isto?” O médico respondeu: “Vou saber
quando fizer cortes em seu cérebro.”
Olhando  para  trás,  parecíamos  incrivelmente  inocentes  e  tranquilos.  A  mensagem  médica  oculta  era  que  o
envelhecimento era inflexível, mas nós também (Figura 14.1).
Molhou suas calças?
“Tenho muitos pacientes idosos que têm este problema.”
O tremor piorou?
“À medida que envelhecer, você terá a caligrafia dos médicos.”
Cambaleou?
“Isto acontece. Meu pai era um pastor, mas, quando envelheceu, ele caminhava como se tivesse 2 anos.”
Pescoço curvo?
“Artrite. Vem com a idade.”
O neurologista prescreveu uma composição de carbidopa­levodopa que Minnie Mae tomava no almoço e se
sentia melhor após uma hora. O especialista pode ter sido uma pessoa fria, mas havia um comprimido para o que
quer que ela tivesse. Nossas personalidades, nossos genes e nossa experiência pessoal com a morte e a doença
nos tinham ensinado a não procurar problemas. O problema apareceria a seu tempo e teríamos que lidar com ele
de cabeça erguida. Penso que este estoicismo pragmático é típico da nossa geração da Depressão e da Segunda
Guerra  Mundial,  mas  também  acredito  que  muitos  de  minha  geração  desenvolveram  um  fatalismo  passivo
juntamente com a crença de que, quanto mais desafios enfrentam e vencem, mais fortes eles se tornam. Pode ter
alguma coisa a ver com isto. Fomos estoicos, nos vestindo de coragem para enfrentar os problemas médicos e
fazer o que fosse necessário para lidar com eles. Não ficamos felizes com a personalidade de nosso neurologista,
mas os comprimidos  funcionaram.  Ele deve  saber  alguma  coisa,  mesmo  que  não soubesse como se relacionar
com  seus  pacientes.  Ele  então  planejou,  já  que  Minnie  Mae  estava  evoluindo  tão  bem,  prescrever  um
medicamento moderno, mais poderoso.
Naquele momento, experimentamos uma feliz coincidência. Fui convidado a falar no Hospital Beth Israel em
Boston por causa da minha coluna sobre envelhecimento no jornal Boston Globe. Depois da palestra, uma leitora
veio conversar sobre a coluna e mencionou que era neurologista. Perguntei qual médico ela recomendaria para
um membro de sua família com o mal de Parkinson e ela nos encaminhou para um médico gentil que era tido
como o melhor neurologista de Boston. Ele era bom ouvinte e esclarecedor e nos disse que eles haviam testado o
novo medicamento que nosso neurologista pretendia dar a Minnie Mae e que ele lesaria de maneira irreversível
seu cérebro. Nós nos mantivemos como seus pacientes até que Minnie Mae não mais pudesse fazer a viagem de
New Hampshire até o Beth Israel.

Fig. 14.1 Don e Minnie Mae Murray em sua casa. (Cortesia de Donald M. Murray.)

Quando perguntamos a ele sobre o futuro – nos orgulhávamos de ser realistas – ele explicou que cada caso era
tão diferente do outro que não havia maneira de predizer o futuro. Além disso, ele nos disse que apenas havia
“tratamento”. Não saímos assustados com seu diagnóstico, não perguntamos a Deus por que eu, não procuramos
na Internet por milagres nem nos unimos a um daqueles grupos de terapia que ajudam a tantos. Apenas fizemos
aquilo  que  precisava  ser  feito  a  cada  hora.  Aprendemos  novas  habilidades,  sabendo  que  novas  demandas
exigiriam aquelas habilidades nos anos seguintes.
Nós aprendemos que a maneira mais eficiente de ajudar Minnie Mae a se levantar depois de uma queda era eu
ficar em pé a 30 centímetros de seus pés para impedir que eles deslizassem, segurando suas mãos com as minhas
em  seguida,  levantando­a,  tentando  manter  a  pressão  igual  em  ambas  as  mãos.  Por  vezes,  eram  necessárias
muitas tentativas para fazer com que Minnie Mae ficasse em pé. Ela usava sua blasfêmia preferida: “Que se dane
o incêndio e salvem­se os fósforos”, e muitas vezes ela sentava no chão e ria de nossas desajeitadas tentativas
fracassadas. E quando não conseguíamos levantá­la, pedíamos ajuda a um jovem vizinho.
Sobrevivemos ao nosso próprio humor negro. “Você costumava se esforçar para tirar meu sutiã, agora você
tem problemas para vesti­lo.” Continuamos a sair para comer enquanto foi possível. Gostávamos do The Olive
Garden com suas cadeiras de correr. Um dia, dirigindo para o restaurante, Minnie Mae disse: “Devíamos trazer
uma  garrafa  de  vinho.”  À  medida  que  ela  entrava  cada  vez  mais  na  confusão  da  demência,  ela  mantinha  seu
humor e eu mantinha o meu. Ela nunca foi uma “paciente”, mas a mulher que eu amava.
À  medida  que  a  doença  evoluía  inevitavelmente,  compreendemos  que  nossa  geografia  havia  mudado.  Nós
evitávamos  escadas  sem  grades,  calçadas  inclinadas,  superfícies  de  grama  e  areia  desniveladas  e  o  vento,  que
poderia empurrar Minnie Mae para o lado. Ainda digo às pessoas que me acompanham para tomar cuidado com
o meio­fio.
Os dias passaram como um poeta disse, como uma grande roda d’água que girava lentamente, uma pá depois
da outra. Nunca questionei minha obrigação e nunca a senti como um dever. Este era outro estágio em nossas
vidas.  As  tarefas  mais  difíceis  –  acidentes  com  a  urina  e  a  defecação,  tombos,  quedas,  fazer  com  que  Minnie
Mae tomasse seus comprimidos – tornaram­se intimidades adicionais em nossa longa vida juntos.
Eu tentei manter a vida de Minnie Mae a mais normal possível. Um amigo meu com boas intenções assumiu
toda  a  parte  de  cozinhar,  fazer  as  compras  e  a  limpeza.  Ele  estava  cuidando  –  cuidando  demais.  Minnie  Mae
perdeu todo o objetivo de vida. Ela era dispensável e sua saúde mental se agravou.
Eu ajudava Minnie Mae com as compras, mas ela comandava. Durante anos, ela andava entre as estantes do
supermercado em alta velocidade com a ajuda de um carrinho de compras. Ela tinha sido uma grande cozinheira,
mas  suas  refeições  se  tornaram  banais  ou  piores.  Ela  sabia  disso,  mas  era  importante  que  ainda  estivesse  no
comando  da  cozinha.  Comer  fora  permitia  que  ela  visse  pessoas  diferentes  e  a  beleza  da  zona  rural  de  New
Hampshire. Durante um longo tempo, Minnie Mae ainda podia fazer as compras e frequentar os jogos de hóquei
da  UNH,  gritando  instruções  das  arquibancadas  muito  além  do  que  eu  pensei  ser  possível.  E  ela  percorria  o
gramado cambaleando com uma bengala, tentando trabalhar em seu adorado jardim (Figura 14.2).
Durante todo o tempo, eu continuei a escrever minha coluna, meus livros e minha poesia. Precisava me perder
no  exercício  de  minha  arte  e  em  sua  profunda  concentração.  O  novelista  Bernard  Malamud  explicou:  “Se  é
inverno no livro, a primavera me surpreende, quando olho ao meu redor.”
Era trágico ver o mundo de Minnie Mae encolher, mas nenhum de nós se fixava no passado. Nos focávamos
no que poderíamos fazer agora – esta manhã, esta tarde, esta noite. Minhas filhas e eu tentamos tratar Minnie
Mae como a mulher inflexível com o mordaz humor seco que ela sempre teve.
Muitas pessoas idosas se recusam a permitir que a ajuda entre em sua casa quando elas precisam. Isto é um
erro. Nós estávamos felizes por ter Dot Benson, que vinha duas a três vezes por semana. Ela continuava a ser
nossa mulher da limpeza, mas, à medida que o Parkinson aumentava, o mesmo aconteceu com as contribuições
de Dot para a qualidade de nossas vidas. Ela tornou­se mais uma amiga do que uma empregada. Ela assumiu as
tarefas que Minnie Mae não mais podia fazer, e que eu não tinha tempo para fazer se quisesse continuar a ser um
cronista.  Ela  também  foi  terapeuta,  trazendo  o  mundo  até  Minnie  Mae,  cujo  horizonte  se  reduzia  a  um  ponto
cada vez mais próximo. Ela deu a cada um de nós o suporte físico e emocional de que precisávamos. Quando um
casal de quem ela cuidava faleceu, minha filha assistente social psiquiátrica disse: “Fique com ela. Agora. Ocupe
estas horas.” Eu resisti, agora reconheço, porque não queria admitir que Minnie Mae estava iniciando o estágio
terminal. Nós precisávamos de Dot e eu sou grato à ordem de minha filha.
Como Minnie Mae precisava cada vez mais de cuidados, uma das filhas, com as melhores intenções, contratou
uma  equipe  de  cuidadores  adicionais.  Aquilo  não  funcionou.  Eles  não  chegavam  no  horário  e  saíam  antes  da
hora, eles traziam alimentos que não necessitávamos ou comíamos, e solicitavam adiantamentos de salário que
não devolviam e, o pior de tudo, conversavam com Minnie Mae em uma linguagem de bebês. Dot Benson agia
de modo exatamente oposto e aumentamos seu horário quando isto se tornou possível e, em seguida, assinamos
sua carteira de trabalho. Eu tinha 80 anos de idade quando Minnie Mae morreu. Dot continuou a me ajudar a
fazer a contabilidade e me dando assistência no computador. Ela me proporciona um sopro de bom humor cada
vez  que  aparece.  Nenhuma  bajulação,  nada  de  retrocesso  a  uma  fase  infantil,  apenas  um  modelo  de  realidade
sobre  como  viver  a  vida  com  aceitação,  enquanto  se  realiza  o  máximo  que  se  pode  a  cada  dia.  Não  posso
imaginar minha vida antes e depois da morte de Minnie Mae sem a sua ajuda.
Fig. 14.2 Don e Minnie Mae Murray em seu jardim. (Cortesia de Donald M. Murray.)

Os anos de cuidado se tornaram normais e acelerados ao mesmo tempo. Eu ficava desconfortável com o termo
demandas.  Não  existiam  demandas,  apenas  a  necessidade  crescente  de  proximidade  e  compartilhamento.  Em
meu  caso,  o  tempo  que  passei  em  combate  como  paraquedista  ajudou.  Na  frente  de  batalha,  você  faz  o  que
precisa ser feito, não pergunta, não foge, não se desculpa. Os elogios de amigos e vizinhos que diziam o quão
maravilhoso eu era me deixavam embaraçado e confuso. Eu não era maravilhoso. Eu amava Minnie Mae, apenas
isto. Nós tivemos o melhor e, com a morte de nossa filha em 1977, sobrevivemos ao pior. Quem mais poderia
cuidar dela senão o homem que a encontrou quando ela foi a um encontro casual 54 anos atrás?
Eu tive a felicidade de me aposentar na Universidade e ter tido tempo para cuidar dela, enquanto continuava a
escrever em casa. Cuidar de alguém com mal de Parkinson e outras tantas doenças crônicas é uma questão de
pequenas tarefas – administrar os comprimidos no horário, trocar as roupas, levar ao médico – que se acumulam
tão  lentamente  que  você  dificilmente  percebe  seu  aumento.  Nós  tivemos  que  desenvolver  nossos  próprios
truques para esta nova e não planejada tarefa de cuidador: como apertar nossos pés uns contra os outros de modo
que eu pudesse levantá­la de maneira eficiente e indolor depois das inevitáveis quedas, como uma pegada suave
sob  a  axila  (desenvolvida  a  partir  de  uma  pegada  nada  gentil  que  aprendi  como  policial  militar)  podia  dizer  a
Minnie  Mae  que  eu  estava  ali,  pronto  para  ajudá­la  se  precisasse,  como  eu  podia  acordar  de  madrugada  e
arrumar seu cobertor de modo que eu pudesse saber se ela ainda estava respirando.
Com certeza, nós dois fomos pacientes. Ela precisou aprender a controlar sua abordagem de vida agressiva e
mal­humorada. Eu precisei adequar minha personalidade do tipo A para um tipo C para cuidar de alguém que
vivia em câmera lenta. Eu precisei aprender a não invadir seu território e, por exemplo, assumir a cozinha desde
o início. Isto ficava cada vez mais difícil para ela, mas cozinhar era seu orgulho. Não podia tirar isto dela. Nós
tivemos  que  descobrir  como  acalmar  ou  apoiar  um  ao  outro  nos  momentos  de  terror  ou  desespero.  Quando  o
humor ou outra reprise de “Law & Order” não funcionava, uma saída para comprar sorvete resolvia. O sorvete
de  gengibre  era  o  mais  terapêutico.  Minnie  Mae  recusava­se  a  se  preocupar  sobre  como  seus  déficits  mais
evidentes poderiam perturbar as pessoas e nós comíamos fora com frequência. Eu devo acrescentar que todos,
garçons e outras pessoas, mostravam respeito, gentileza e bom humor, e ajudavam quando necessário.
Eu  sofria  mais  estresse  do  que  percebia  ou  admitia.  Eu  fazia  o  que  precisava  ser  feito,  mas  quando  minhas
filhas,  amigos  e  médicos  me  pediam  para  cuidar  de  mim  mesmo,  eu  desdenhava  de  seus  conselhos.  Eu  havia
recebido um bypass cardíaco anos atrás e, quando senti algum sintoma cardíaco, fui ao meu cardiologista, que
me examinou e disse que voltaria a me ver em três meses. Os sintomas continuaram, de modo que alguns dias
depois consegui que Dot ficasse com Minnie Mae e liguei para o 911 às três da manhã. Horas depois, cheguei de
ambulância  ao  hospital,  eu  já  tinha  um  novo  cardiologista  e,  no  dia  seguinte,  recebi  seis  stents  nas  artérias
próximas ao meu coração. Eu devo ter passado por mais estresse do que imaginei.
Eu estou surpreso por descobrir que sinto falta de cuidar, que isto agora acabou, enquanto aprecio a liberdade
de  folhear  livros  em  uma  livraria  ou  ouvir  minha  música  em  volume  alto.  De  alguma  maneira  que  ainda  não
compreendo, a intimidade erótica de nossos primeiros anos pareceram fluir para a intimidade de ajudar Minnie
Mae a se vestir e despir. Não havia nada que não soubéssemos a respeito do outro e não havia nenhum momento
em  que  não  estivéssemos  disponíveis  um  para  o  outro.  Meu  trabalho  era  impedir  que  Minnie  Mae  sentisse
vergonha ou ficasse desconcertada à medida que seu corpo a enganava. Isto é o que ela teria feito por mim.
A  jornada  do  mal  de  Parkinson  foi  aterrorizante.  Mas  as  tarefas  do  dia  a  dia  que  se  tornaram  essenciais  à
medida  que  realizávamos  essa  jornada  tornaram­se  íntimas  e  apropriadas.  Estes  não  foram  anos  de  esperança.
Existiam comprimidos que podiam diminuir a velocidade da evolução da doença de Parkinson, mas não havia
cura.  Nós  tivemos  que  aceitar  a  realidade,  mas  aquilo  não  transformou  esse  tempo  em  anos  negros.  Quando
Minnie Mae começou a chamar sua bengala de escada de mão, nós rimos. Não nos aborrecemos. Não a corrigi,
apenas trouxe a bengala. Agora compreendo que a demência chegou muito tempo antes do que admitimos. Isto
não foi uma negação, apenas tentamos nos adaptar à linguagem, da mesma maneira que nos tínhamos ajustado
aos primeiros esforços  de  nossas  filhas  para  falar,  os  quais  apenas  nós  podíamos compreender. Teria esperado
um horror incapacitante ver mudar o cérebro desta mulher inteligente, sagaz e de personalidade. Certamente, isto
era o que ambos mais temíamos, mas, de maneira alguma, foi assim.
Existem  muitos  casamentos  dentro  de  um  longo  casamento:  nenhum  filho,  três  filhas,  mudança  para  novas
cidades  e  novos  estados,  promoções  e  demissões,  aceitação  e  rejeição  de  manuscritos,  a  mudança  dos  filhos,
aposentadoria e, agora, a doença de Parkinson. Mais tarde, o neurologista de Minnie Mae sugeriu que ela fosse
examinada em uma instituição psiquiátrica e geriátrica de um hospital próximo. Logo que chegamos e vi Minnie
Mae  com  os  outros  nove  pacientes,  soube  que  tínhamos  entrado  em  um  novo  território  em  algum  momento
anterior.  Minutos  depois  de  o  psiquiatra­chefe  começar  o  que  seria  um  longo  exame,  ele  virou­se  para  mim  e
disse  que  eu  deveria  colocar  em  ação  a  minha  procuração.  Foi  um  momento  desalentador.  Depois  de  dias  de
exames,  ficou  claro  que  ela  não  viria  para  casa.  O  medo  que  todos  nós  tínhamos  de  terminar  nossos  dias
internados em uma clínica de repouso havia se tornado realidade para ela. Eles a enviaram para uma clínica de
repouso afiliada ao hospital que era a pior que eu já tinha visto. Estava ao lado de Minnie Mae no primeiro dia
em que ela foi amarrada a uma cadeira, quando duas enfermeiras tiveram uma briga de socos diante de nós. Ela
disse: “Vamos embora daqui.” Respondi: “Certamente, nós vamos.”
Dot  e  eu  percorremos  uma  instituição  após  outra  em  um  dia  e  meio.  Obviamente,  devemos  ter  visitado  a
maioria  delas  antes,  mas  nossa  política  de  “um  passo  por  vez”  nos  impediu  de  olhar  muito  adiante  com
antecedênica. Talvez estivéssemos certos. O mal de Parkinson varia radicalmente entre os pacientes e nenhum
dos médicos sequer poderia predizer os cuidados de que ela precisaria. Felizmente, descobrimos uma pequena
instituição de vida assistida – com o máximo de 32 pacientes – a doze quilômetros de nossa casa. Minnie Mae
tinha dito que se mataria antes que fosse para uma clínica de repouso, mas ela se instalou sem qualquer queixa.
Parecia, apesar da demência, que ela sabia que precisava deste tipo de tratamento.
Quando  Minnie  Mae  foi  internada  na  Kirkwood  Corners,  uma  destacada  instituição  de  vida  assistida,  uma
enfermeira me disse que a demência de minha esposa produzia fantasias fascinantes. Ela disse que Minnie Mae
havia dito ter sido uma das primeiras pessoas a trabalhar no Pentágono, que ela retransmitia as mensagens do
Secretário de Guerra George Marshall para o General Walter Bedell Smith em Londres, que, então, dizia o que o
General  Dwight  D.  Eisenhower  precisava  fazer.  Minha  mulher  acrescentou  que  ela  era  uma  mesossoprano
profissional  que  havia  feito  exibições  como  solista  em  Washington  e  Boston.  Ela  disse  que  possuía  o  grau  Q
Clearance, o maior grau de segurança possível. Ela acrescentou que poderia perder o status, pois foi, de acordo
com a Associated Press, a primeira pessoa no país a conclamar as pessoas na calçada a assinarem uma petição
exigindo o impeachment do Presidente Richard Nixon.
Eu  disse  à  enfermeira  que  era  tudo  verdade,  e  não  o  produto  da  demência.  A  equipe  precisava  conhecê­la
como uma mulher de realizações e não apenas como outra paciente. “Não sei por que estas pessoas me tratam
tão  bem”,  disse  minha  esposa,  que  havia  prometido  tirar  a  própria  vida  se  precisasse  ir  para  uma  clínica  de
repouso. A equipe de Kirkwood Corners tratava todos os seus pacientes com respeito, mas Minnie Mae sentia
como se tivesse uma atenção especial.
Compreensivelmente, muitos médicos, enfermeiras, terapeutas, auxiliares e as pessoas dedicadas e abençoadas
das equipes de tratamento focalizam o paciente. O cuidado é intenso e contínuo. Eles são pacientes, homens e
mulheres,  que  possuem  doenças  crônicas  e  terminais  que  exigem  cuidados  e  amor.  A  equipe  do  Kirkwood
Corners  compreendia  que  os  pacientes  se  viam  não  como  pacientes,  mas  como  aquilo  que  eles  foram:
marceneiros,  soldados,  pais  e  avós,  advogados,  padeiros,  secretárias,  executivos  de  corporações,  jardineiros,
pesquisadores, jogadores, professores, vendedores.
Se aqueles que tratam os idosos conhecem os mundos em que eles foram produtivos, então o respeito é algo
fácil  de  conseguir  e  todos  os  tratamentos  são  administrados  no  contexto  global  de  suas  vidas.  Durante  minha
cirurgia de bypass, fui visto como um paraquedista de combate que estava habituado com a dor. Isto me ajudou,
com a equipe, a retornar para a outra vida.
O  pai  de  Minnie  Mae  havia  sido  um  padeiro  e,  quando  ela  abriu  uma  padaria  imaginária  no  porão  da
Kirkwood  Corners,  a  cozinheira  discutiu  as  receitas  como  se  o  negócio  realmente  existisse.  Os  membros  da
equipe cuidavam do par de cães cor­de­rosa de Minnie Mae. A equipe do consultório ajudava com os horários de
voo quando ela precisava voar para Londres em uma missão secreta para a CIA. Eles a tratavam como se ela
tivesse a Q Clearance. Minnie Mae estava obviamente mais feliz que em casa. Ela recebia um cuidado melhor
que aquele que podíamos oferecer e não estava isolada como ficaria se estivesse em casa. Ela via a parada diária
da equipe, residentes e visitantes com alguma compreensão e uma grande quantidade de diversão.
E  como  eu  me  sentia  visitando­a  duas  vezes  ao  dia?  Eu  colocava  de  lado  a  visão  geral,  como  fazia  em
combate,  e  focava  totalmente  a  mulher  que  eu  amava.  Ela  me  reconhecia  cada  vez  menos,  mas,  quando  eu
segurava sua mão, ela dava um aperto forte e súbito, e eu sabia que em algum lugar naquele cérebro confuso
estava um “Eu te amo.”
O que eu aprendi durante os anos em que cada vez cuidei mais dela? Há tanta intimidade, carinho e amor no
final de uma vida conjunta como quando nos revelamos um para o outro pela primeira vez e construímos nossas
vidas juntos, talvez mais. Um casal de idosos que se confronta com uma longa batalha com uma doença terminal
precisa de uma explicação calma e detalhada da doença. Eles não precisam de evasivas. Eles viveram uma longa
vida  juntos  e,  em  geral,  são  mais  resistentes  que  eles  –  ou  vocês  –  pensam.  A  verdade  é  melhor,  não  importa
quão dura ela seja, do que a imaginação do paciente e as fofocas sobre a doença contadas pelos amigos. O que
mais podia aprender?
Não  puxe.  Minnie  Mae  foi  puxada  e  segurada  com  força  em  suas  quedas  por  muitos  transeuntes  que
queriam ajudar. Aprendi a permitir que ela fizesse tudo o que podia e só então ficar próximo para ajudar,
caso  ela  precisasse:  a  mão  apenas  tocando  em  sua  axila  dizia  a  ela  que  a  ajuda  estava  ao  lado  –  se  ELA
precisasse.
Compartilhe parte de si próprio. Minnie Mae tinha prazer em ouvir histórias sobre crianças, netos e cães.
Não  corrija  alguém  com  demência,  dizendo:  “Isto  não  aconteceu  em  Atlanta,  mas  em  Utica.”  Eles  não
podem compreender, e que diferença isto faz?

Aqueles entre nós que são colocados na condição de cuidadores descobrirão que temos forças e habilidades
das quais não temos consciência. O que eu fiz e que todos os outros cuidadores fazem é feito sem obrigação,
responsabilidade e dever, mas, acima de tudo, com amor.
De repente, em uma tarde de sexta­feira, a demência de Minnie Mae cedeu e ela deu ordens claras à equipe:
“Nenhum comprimido. Nenhum alimento. Nenhuma água.” É o que ela havia querido, documentado por escrito,
e minhas filhas e eu percebemos que ela tinha o direito de morrer da sua maneira, no comando, até o fim. As
equipes de cuidados e do Kirkwood Corner foram profissionais, carinhosos e experientes. As filhas de Minnie
Mae e eu ficamos com ela na maior parte dos 11 dias que ela levou para descansar em paz. Ela foi tratada com
dignidade e não sentiu dor. Eu estava segurando sua mão quando ela respirou pela última vez e morreu.

AGORA E SEMPRE
Amigos que Cuidam e Compartilham Mostram o Caminho
Donald M. Murray

P ara  aqueles  que  são  introspectivos,  a  vida  é  uma  exploração  contínua  de  si  próprios,  onde  esperamos
encontrar a pessoa que somos e a pessoa que podemos vir a ser. Certamente, a maçã não cai longe da
árvore e nós descobrimos que somos uma mistura de nossos pais, avós, tios e tias. Eu descobri que isto é
desencorajador. Eu pensei que tivesse escapado.
Agora, aceito meus genes, mas imagino que tenho um botão de sintonia, de modo que posso ajustar seus
instintos e seus padrões a uma vida, muito diferente das deles, que eu construí. Esta nova vida foi criada por
amigos  que  me  viram  como  eu  ainda  não  tinha  sido  capaz  de  me  ver.  Com  o  respeito  ianque,  eles  se
mantiveram, em sua maioria, a distância, mas quando falavam ou tocavam em meu ombro, ou me davam um
sorriso de incentivo, isto foi importante para mim.
Quando  perdemos  nossa  filha  Lee  com  20  anos,  foi  o  apoio  sutil,  mas  firme,  dos  amigos  que  nos  fez
atravessar aqueles primeiros anos. Eles nos viram como fortes quando nos sentíamos fracos. Eles disseram
que  tínhamos  feito  mais  do  que  o  suficiente,  quando  achávamos  que  havíamos  feito  muito  pouco.  Eles  nos
deram um futuro quando acreditávamos que não havia mais nada.
Depois, vieram os anos de Parkinson de Minnie Mae. Nós atendemos às demandas físicas a cada momento
da vida, e em seguida a demência chegou, e mais uma vez foram os amigos que me apoiaram e orientaram.
Com frequência, eu me sentia como um grande barco sendo atracado no porto por cordas amigas.
Estes  amigos  e  vizinhos,  muitos  para  nomear,  estavam  lá  quando  comecei  uma  nova  vida  sozinho.  Em
primeiro  lugar,  eles  eliminaram  grande  parte  da  solidão  com  convites  e  visitas.  Eles  aprovaram  as  futuras
relações  antes  que  eu  as  imaginasse.  Eles  sugeriram  pequenos  passos  de  independência  e  me  apoiaram
quando eu os realizava.
E o que eu aprendi? A transmitir solidariedade. Falar, tocar e estar ao lado quando os outros precisarem de
mim.

Donald  M.  Murray,  “Now  and  Then:  Friends  Caring  and  Sharing  Show  the  Way”.  The  Boston  Globe,  December  29,  2006,
reimpresso com permissão.

POSFÁCIO
Em 2 de janeiro de 2007, logo depois de terminar este capítulo, Donald  M.  Murray  faleceu  enquanto  visitava
amigos.  Ele  era  Professor  Emérito  de  Inglês  na  University  of  New  Hampshire.  Ele  ganhou  o  Prêmio  Pullitzer
pelo  editorial  escrito  em  1954  e  escrevia  a  coluna  semanal  “Now  and  Then”  (Agora  e  sempre)  para  o  jornal
Boston  Globe,  que  explorava  suas  reações  ao  processo  do  envelhecimento.  Ele  também  publicou  memórias,
novelas,  contos,  poesias  e  livros­texto  sobre  o  processo  de  escrever.  Pedi  a  ele  que  escrevesse  este  capítulo
porque ele era um renomado membro na University of New Hampshire. Eu conhecia seu trabalho porque havia
assistido  a  vários  de  seus  seminários  sobre  a  arte  de  escrever  e  conhecia  vários  de  seus  antigos  alunos  que
elogiavam sua contribuição para suas formações e carreiras. Durante anos, comprei vários de seus livros sobre
escrever e suas memórias. Todas as manhãs de terça­feira eu procurava sua coluna, “Now and Then”, no jornal
Boston Globe.
Apenas depois de sua morte é que eu compreendi quantas pessoas ele influenciou como professor, mentor e
escritor. Muitas das cartas ao editor detalhavam a conexão pessoal que pessoas sentiam por Don e Minnie Mae
por  causa  de  sua  coluna.  Muitos  de  seus  antigos  alunos  são  editores  de  jornais,  escritores  e  professores.  Ele
apresentou  sua  última  coluna  ao  Boston  Globe  em  29  de  dezembro,  apenas  alguns  dias  antes  de  sua  morte.
Tornamos a publicá­la aqui, pois representa grande parte de seu encanto e caráter.

—ELIZABETH CREPEAU
Vozes Falam, Mãos Escrevem
NICK POLLARD COM O GRUPO LITERÁRIO VOZES FALAM, MÃOS ESCREVEM

Sumário
Brian Haughie
A Vida de Vestir Meu Terno
Ericka Turner
Boneca que Caminha e Fala
Iris Garrity
O que Faria, o que Realmente, Realmente Faria
Discussão
Quais São as Práticas de Publicação Comunitária?
Não é Terapia, mas Capacitação: Por que Levar a Escrita a Sério?
Nós em Nossa Cidade
Estudo de Caso: Mark Wainwright: Um Escritor com Dificuldades de Aprendizado

BRIAN HAUGHIE
Nasci em Dumfries há 42 anos. Quando era um menino, fui para a Carnforth School e era feliz lá. Minha aula
favorita era a de matemática, porque eu aprendia a somar as coisas. Fiz muitos amigos, tenho muitos amigos.
Eu  moro  sozinho  em  um  apartamento  agora.  Gosto  de  ler  o  jornal  Telegraph  todas  as  noites  em  casa  para
saber  das  notícias  e  gosto  de  ler  os  anúncios.  Eu  escrevo  cartas  sobre  problemas  do  tipo  como  é  difícil  para
pessoas  com  necessidades  especiais  utilizar  os  ônibus  e,  algumas  vezes,  elas  são  publicadas.  Sento  em  minha
cadeira favorita para assistir à televisão e saber o que está acontecendo.
Onde eu moro, os vizinhos são algumas vezes agradáveis comigo e alguns não são muito agradáveis comigo,
eles  me  xingam.  Eles  me  dizem  para  fazer  coisas  quando  eu  não  consigo  fazê­las.  Se  eu  estou  carregando
alguma  compra  em  minhas  mãos,  eles  dizem  para  eu  utilizar  as  escadas  quando  não  posso.  Digo,  eu  preciso
utilizar o elevador para minha segurança, para evitar que eu caia.
Eu gosto de ir ao “pub” para tomar uma Coca­Cola sozinho e gosto de ir ao cinema para assistir filmes. Gosto
de comprar alimentos no Asda e na Kwik Save e gosto de ir ao centro para olhar as lojas (Figura 15.1). Eu gosto
de ir ao boliche no Cleethorpes Bowling Alley. Às vezes, eu ganho.

A Vida de Vestir Meu Terno por Brian Haughie*
A primeira vez que vesti um terno foi como padrinho no casamento de meu irmão Scott, e o outro padrinho era
meu irmão gêmeo Alan.
O  jornal  Telegraph  veio  ao  casamento  de  meu  irmão  e  tirou  fotografias.  O  casamento  de  meu  irmão  Scott
aconteceu em 22 de dezembro de 1990 e a fotografia apareceu no Telegraph em 27 de dezembro, o último dia
em que eu e meu irmão Alan tínhamos 26 anos de idade. Eu usava uma gravata com o terno.
A segunda vez que vesti um terno foi para o funeral de minha avó em 13 de junho de 1994 em Bolton, que
não foi um dia agradável para minha prima Jacqueline, porque era seu aniversário, mas eu fiquei alegre quando
minha prima Jacqueline colocou sua mão em meu ombro ao me ver chorando quando saímos da igreja. Eu vestia
um terno com gravata.
A terceira vez que vesti o terno foi quando fui a uma das minhas festas anuais de Natal. A festa de Natal em
que vesti um terno com gravata foi a festa de Natal que tenho frequentado há muitos anos desde que eu era um
menino e que é a festa de Natal da Spastics’ Society. A festa de Natal ocorreu em 10 de dezembro de 1994 no
Centro  de  Atendimento  Heneage  Road  Youth.  Foi  ideia  de  minha  mãe  que  eu  vestisse  o  terno  para  a  festa  de
Natal em 1994 e porque meu irmão Alan veio me visitar e Alan colocou a gravata em mim antes de eu ir para a
festa.

Fig. 15.1 Brian Haughie. (Cortesia de N. Pollard.)

A quarta vez que vesti o terno foi cerca de oito anos atrás no funeral de minha mãe. O funeral de minha mãe
aconteceu no Crematório Gromsby em 23 de abril de 1996, que foi uma terça­feira. Eu estava chorando mais
uma vez no funeral de minha mãe. Eu comecei a chorar quando vi o elevador com o caixão de minha mãe sobre
ele.  Minha  mãe  gostava  da  peça  Noviça Rebelde.  No  início  do  funeral,  eles  tocaram  a  música  “My  Favourite
Things”, e “So Long, Farewell” no final.
Eu fui ao Restaurante Steels Corner House vestindo o terno. Eu vesti o terno com gravata. E finalmente eu
vesti o terno novamente este ano, em 16 de julho, quando me pediram para escrever esta história sobre eu vestir
o  meu  terno.  O  jornal  Telegraph  fez  uma  fotografia  e  a  foto  apareceu  no  jornal  em  29  de  julho,  que  é  o
aniversário de minha tia. Eu fiquei muito surpreso ao me ver no jornal em um dos aniversários de minha tia.
E esta é a história de eu vestir o meu terno.

ERICKA TURNER
Eu vivo com três homens, todos os três frequentam este centro em Queen’s Road. Somos locatários em nossa
própria casa.
Eu gosto de assistir Beleza Negra no vídeo e Mary Poppins. Eu também assisto Dirty Dancing. Assisto estes
vídeos no final de semana. Eu gosto de meus cafés da manhã nas manhãs de sábado, meu prato preferido é torta
de carne, batatas e cenouras.
Eu gosto de assistir “Neighbours”, “EastEnders”, “Emmerdale Farm” e “Coronation Street” na televisão. Meu
programa preferido é “Coronation Street”, todos os meus atores favoritos estão lá.
Eu digito no computador em casa. Eu gosto de praticar jardinagem. Gosto de sair à noite. Vou ao “pub” com
Keith e Paul, bebo Coca­Cola e gosto de jogar sinuca. Meu lugar preferido para ir é o clube da juventude.
Boneca que Caminha e Fala por Ericka Turner*
Minha mãe e meu pai compraram para mim uma boneca com longos cabelos negros. Eles a trouxeram para mim
quando eu estava de cama. Eu não estava muito bem. A boneca caminhava e falava. Ela dizia: “diga a eles para
me encontrar quando eu fugir.” Quando subi as escadas até o banheiro, ela fugiu!
Chamei­a de Susan. Comprei algumas roupas para ela, alguns vestidos e algumas calças. Eu brincava sozinha
com ela. Quando a coloquei de volta em meu quarto e fui deitar, ela estava no andar de baixo, minha mãe disse:
“ela está aqui embaixo.”
Se eu colocasse pilha na boneca, ela corria, mas se eu não colocasse, ela não funcionava. Ela descia as escadas
e saía de casa.
Eu saía e a encontrava sozinha no jardim dos fundos, puxando as flores. Pensei: “o que você está fazendo no
jardim do quintal?” Ela disse: “Colhendo flores.” Tentei levá­la comigo quando saía, mas ela queria ficar com
minha mãe. “Quero ficar com sua mãe e seu pai, não quero sair”, disse ela. Eu fui à loja para comprar alguns
sapatos para ela.
Eu queria calçá­los nela, mas ela não me deixava amarrá­los. Eu disse: “se você não quer calçá­los, então vou
tirá­los de você.” Ela disse: “se você quer eles, você pode ficar.”
Meu  irmão  quebrou  a  boneca.  Ele  arrancou  todo  cabelo  dela  porque  não  gostava  da  cor.  Foi  divertido,  não
estava sujo porque eu havia lavado ele. Então minha mãe brigou com ele por causa disso. Eu tinha que brincar
com  ela  sem  os  cabelos.  “Todo  o  meu  cabelo  caiu,  então  tenho  de  comprar  uma  peruca”,  disse  ela.  Então
comprei uma peruca para ela.

IRIS GARRITY
Tenho 66 anos, faço 67 no próximo aniversário, e moro em Cleethorpes (Figura 15.2). Existem muitas lojas em
nossa  rua.  Nossa  casa  é  grande,  é  um  local  de  reunião.  A  minha  casa  tem  três  quartos,  um  grande  e  dois
pequenos. Eu moro com minha amiga Jayne, nós duas, mas nós recebemos alguma ajuda.
Gosto  de  costurar  e  cozinhar.  Nas  tardes  de  terça­feira,  vamos  à  Fort  School.  Eu  faço  toalhas  de  mesa  e
tapeçaria e tenho meu computador e meus jogos. Eu faço compras na Sainsbury e vou ao mercado para comprar
algumas frutas. Eu gosto de laranjas, peras e morangos com creme. Eu gosto de cozinhar bolinhos de chuva para
comer, mas não posso comê­los porque sou diabética. Eu como batatas cozidas com queijo e torta de carne com
legumes. Eu gosto do trabalho de casa, principalmente limpar meu quarto.

Fig. 15.2 Iris Garrity. (Cortesia de N. Pollard.)

O que Faria, o que Realmente, Realmente Faria por Iris Garrity*
Gostaria de ser Tony Blair por uma semana, sair e encontrar pessoas e ajudar as pessoas como ele diz, e ir até o
Parlamento para conversar sobre reuniões e outras coisas, sobre a guerra e quando as pessoas se machucam e vão
para hospitais para se curar, e como elas estão. Conversar sobre as notícias de como elas estão.
Muitas  pessoas  estão  falando  sobre  aquele  carro­bomba  de  ontem  à  noite  e  seus  destroços,  algumas  boas
pessoas morreram na noite passada.
Depois, houve também o Michael Jackson, a história sobre ele e seu bebê.
Eu mudaria outras coisas, como mudar a equipe no hospital de modo que existissem mais pessoas na equipe, e
fosse mais seguro.
Os médicos de lá eu mudaria. Eu despediria os antigos porque eles não são muito bons e colocaria médicos e
enfermeiras mais jovens. Trocaria os leitos por melhores e assoalhos por melhores do que os existentes.
Mais faxineiros e melhores aspiradores e melhores jantares do que os que existem agora.
Melhores recepcionistas nos hospitais e no Parlamento porque elas não são muito boas quando você as vê na
televisão.
E Tony, ele continua a conversar com as pessoas e a cumprimentar outras pessoas. Mudaria isto porque ele
sempre está se exibindo.
Ele sempre está se exibindo para outras pessoas.
Ele faz isto sim.
E carros melhores do que os que existem agora.
Eu tiraria os antigos e colocaria os novos para tornar os carros mais seguros do que são hoje.
Eu trocaria a polícia e colocaria mais e melhores policiais porque eles não são muito bons, eles nunca estão
por perto quando você precisa deles.
E também sobre as máquinas de vender pirulito. Eu mudaria tudo. Faria mais seguro porque não é tão bom,
pois elas se trancam, em duas delas aconteceu isto.
Eu mudaria os cabeleireiros. Colocaria novos e despediria os antigos porque... eles são bons, mas não tão bons
quanto costumavam ser e penteados diferentes e tipos diferentes de secadores seriam bons.
Eu  mudaria  a  equipe  do  andar  superior  do  Farnhurst.  Contrataria  novos  e  despediria  os  antigos,  mas  não
Mandy Ives. Me livraria de todos os antigos do andar superior e contrataria novos, porque eles não são muito
bons no andar de cima, porque não posso subir até lá. Eu não consigo subir as escadas e isto faz com que eu não
me sinta bem­vinda.

DISCUSSÃO
Com  frequência,  supõe­se  que  as  pessoas  com  dificuldades  de  aprendizado  não  conseguem  realmente  se
expressar. Este capítulo demonstra como os terapeutas ocupacionais podem fornecer um programa centrado no
cliente  que  proporcione  esta  oportunidade  às  pessoas  com  dificuldades  de  aprendizado.  O  Voice  Talk,  Hands
Write (Vozes Falam, Mãos Escrevem) foi negociado como uma iniciativa de educação e arte comunitária com os
serviços sociais – em outras palavras, fora do contexto da saúde. O projeto envolveu o estímulo complexo vindo
da Federation of Wirker Writers and Community Publishers (ou Fed) e de alguns dos membros do grupo: Pecket
Well  College  (uma  instituição  de  educação  básica  e  de  adultos  na  forma  de  cooperativa),  o  grupo  Grimsby
Writers e os trabalhadores locais de apoio. Eles asseguraram recursos para doze sessões de um grupo de escrita
de um centro ambulatorial e outros clientes locais com dificuldades de aprendizado que optaram por entrar no
grupo.  O  projeto  enfocou  o  desenvolvimento  das  capacidades  criativas,  de  expressão  e  sociais.  Seus  objetivos
principais eram:
Formar um grupo de escrita para pessoas com dificuldades de aprendizado
Produzir publicações comunitárias dos textos dos participantes
Publicar o projeto nos meios profissionais com a concordância dos participantes.

Quais São as Práticas de Publicação Comunitária?
A  escrita  criativa  é  frequentemente  utilizada  na  terapia  ocupacional  (Pollard,  2004a),  porém  a  escrita  e  a
publicação  comunitária  envolvem  uma  gama  complexa  de  outras  ocupações.  A  finalidade  e  o  significado  da
atividade de escrita aqui descrita constituem um veículo para abordar múltiplas metas ocupacionais, que estão
contidas no próprio objetivo do Fed de “tornar a escrita e a publicação acessíveis a todos” (FWWCP, 2005). Esta
associação  internacional  de  pessoas  que  escrevem  sobre  a  vida  em  suas  comunidades  inclui  muitos  escritores
com experiências em condições incapacitantes. Este projeto surgiu porque o Fed queria capacitar mais pessoas a
experimentar os benefícios da publicação comunitária.
Um  dos  principais  objetivos  do  projeto  foi  o  de  capacitar  o  grupo  e  seus  mantenedores  a  desenvolver
habilidades para a sustentabilidade. A publicação comunitária originou­se na contracultura politicamente radical
dos anos 1970, por meio de alianças com grupos marginalizados da população com base nas desigualdades de
sexo, raça, classe ou pouca educação formal (Courtman, 2000; Mace, 1995). Como as pessoas marginalizadas
frequentemente  não  sabiam  como  abordar  os  financiadores  de  arte,  as  atividades  dependiam  do  compromisso
voluntário e da capacidade de publicar a baixo custo por meio do aprenda a fazer você mesmo. Até que decida
publicar,  um  grupo  de  escrita  precisa  apenas  de  canetas  e  papel,  o  que  as  pessoas  geralmente  possuem.  Os
maiores  custos  são  com  o  espaço  de  reunião  e  a  entrada  dos  trabalhadores  de  suporte.  Isto  é  importante  ao
trabalhar  entre  pessoas  com  necessidades  especiais,  as  quais,  com  frequência,  têm  contato  apenas  com
trabalhadores  pagos  e,  por  conseguinte,  são  excluídas  da  construção  de  “relacionamentos  reais  dentro  de  suas
próprias comunidades” (Mason, 2002, p. 56), um elemento essencial para ser um editor comunitário ativo.
O  Grimsby  ofereceu  o  potencial  para  estas  conexões  essenciais.  Em  seguida,  a  então  presidente  do  Fed
trabalhou no Departamento de Serviço Social do Grimsby e propôs trabalhar com um centro local para pessoas
com dificuldades de aprendizado. Ela elaborou o grande e forte seminário de escritores locais, com pessoas que
estavam interessadas em desenvolver novas atividades em torno da escrita (Figura 15.3). O editor da revista do
Fed é um terapeuta ocupacional que estava trabalhando na época como pesquisador em horário parcial no grupo
de saúde mental que servia ao Grimsby.
Em consequência de suas origens, a editoração comunitária é uma atividade muito aberta. Dois princípios são
que  a  escrita  pode  incluir  a  composição  oral  que  não  é  necessariamente  transmitida  para  o  papel  e  que  a
editoração  comunitária  engloba  qualquer  meio  de  alcançar  uma  audiência,  incluindo  a  representação.  Os
formatos em fitas de áudio e, cada vez mais, em CD­ROM (com som e texto) podem ter boa relação de custo­
benefício e são mais acessíveis que a impressão (Pollard, 2003, 2004b, 2004c). Este tipo de mídia, combinada
com a natureza participativa e diversa de tornar a editoração comunitária acessível, propicia muitas extensões do
processo de escrever e conexões com novos pa péis ocupacionais (Pollard, 2004a; Pollard, Smart & Voices Talk
and Hands Write, 2005).

Fig. 15.3 O grupo trabalha em seu texto durante as reuniões, mas muitos membros também escrevem em casa.
(Cortesia de N. Pollard.)

Não é Terapia, mas Capacitação: Por que Levar a Escrita a Sério?
A escrita é uma atividade privada que esclarece a verdade apenas para o escritor, mas a editoração torna estas
verdades disponíveis para os outros. Nos contextos da saúde mental, os projetos de escrita terapêutica têm sido
empregados  para  ajudar  na  promoção  da  comunidade  e  da  confiança  (Philips,  Linington  &  Penman,  1999),
mesmo  depois  da  guerra,  principalmente  entre  as  crianças  (Simo  Algado  &  Burgman,  2005).  Alguns  (p.  ex.,
Foster, 1988) incluíram uma subsequente publicação comunitária (Cox & Duffin, 1988), enquanto o movimento
dos sobreviventes em saúde mental (veja os endereços eletrônicos no final do capítulo) incentivou publicações
que  visam  a  uma  ampla  audiência.  Aquelas  produzidas  com  e  para  pessoas  com  dificuldades  de  aprendizado
foram idealizadas em sua maior parte para seus próprios grupos locais em vez de comunidades mais amplas, em
parte por causa da apreensão de expor esses indivíduos à crítica pública. Com frequência, essas publicações são
difíceis  de  obter;  por  conseguinte,  elas  permanecem  ocultas.  Existem  exceções:  Our  Lives,  Our  Group  (The
Thursday  Group,  2002),  produzido  por  mulheres  adultas  com  dificuldades  de  aprendizado,  foi  uma  inspiração
para este projeto.
Para editores comunitários, escrever é um ato político socialmente inclusivo que promove a expressão artística
e  a  exploração  dos  sentimentos  para  a  apreciação  de  outros  por  meio  da  escrita  e  da  divulgação.  A  palavra  é
tratada “como se fosse contada no mundo” (Willinsky, 1990, p. 187), o escritor com dificuldades de aprendizado
é  considerado  em  valor  nominal  como  um  escritor  (Sampson  &  Hunt,  1998).  A  conexão  da  publicação
comunitária com as atividades terapêuticas pode ser controversa e problemática. As responsabilidades associadas
a este ponto de vista devem ser cuidadosamente negociadas:
A colaboração em projetos de publicação aumenta as preocupações profissionais e éticas relacionadas com
a publicação do “conteúdo sem revisão de uma mente com problemas” (Bolton, 1999, p. 225).
A  publicação  pode  criar  uma  intensa  efervescência  local,  com  a  qual  os  indivíduos  não  estão  por  vezes
preparados para lidar (Pollard, 2004c). Isto pode levar à ação de difamação e, mesmo, à retaliação física,
caso os membros da comunidade sintam que eles foram difamados.
Os aspectos catártico e terapêutico das atividades de escrever têm sido empregados para descartar o valor e
o conteúdo do “trabalhador da escrita” (Morley & Worpole, 1982), principalmente quando o escritor possui
incapacidade ou é um aluno adulto.
A publicação do trabalho deles significa reconhecer publicamente uma doença estigmatizante ou que eles
estão aprendendo a ler e a escrever; por conseguinte, algumas pessoas não participaram na celebração de
suas publicações (Fitzpatrick, 1995).

Nós em Nossa Cidade pelo Grupo VTHW
Gostamos de viver em nossa comunidade
Com nossos amigos, temos real unidade
Optamos por viver em Grimsby, Cleethorpes e arredores
Vivemos em casas. Do andar de cima, precisamos gritar
Não vamos deixar que vândalos nos destruam
Podemos nos mudar para outras regiões da cidade
Nos jardins de nossa comunidade existem flores e árvores
Podemos ficar tão sossegados quanto nos agradar
É por isto que vivemos em nossa cidade.

O  grupo  Voices  Talk,  Hands  Write  é  um  grupo  que  emerge  diretamente  da  consciência  local  das  reais
necessidades  e  das  vidas  de  pessoas  com  dificuldades  de  aprendizado  por  meio  da  publicação  e  execução  da
escrita  (Figura  15.4).  Uma  vez  estabelecido  e  com  voluntários  locais  para  apoiá­lo,  o  grupo  decidiu  então
continuar as reuniões, embora fosse difícil obter recursos financeiros. O grupo não poderia ter se mantido sem a
participação voluntária constante. O texto é usualmente produzido nas sessões do grupo em resposta a um tema
que  é  escolhido  e  negociado  entre  os  membros.  As  peças  terminadas  são  lidas  imediatamente  para  os  outros
membros,  mas  alguns  membros  também  escrevem  em  casa  sobre  temas  de  sua  própria  escolha.  Todos  os
membros  participam  de  apresentações  públicas  e  eventos,  da  prefeitura  até  o  bar  local  e  até  mesmo  na  rádio
local.  Em  dezembro  de  2005,  um  dos  membros  do  grupo,  Brian  Haughie,  foi  agraciado  com  um  laptop  e
impressora por uma empresa local em reconhecimento por suas realizações, no momento em que uma segunda
antologia  estava  prestes  a  ser  impressa.  Esta  continuidade  é  uma  indicação  valiosa  do  contínuo  interesse,
compromisso e sensação de realização do grupo.
Fig. 15.4 Grupo Voices Talk, Hands Write no bar local, Tap and Spile, em Grimsby. Os grupos literários também
têm a ver com socialização e o Voices Talk, Hands Write frequentemente sai junto, para variar. (Cortesia de N.
Pollard.)

ESTUDO DE CASO: Mark Wainwright: Um Escritor com Dificuldades de Aprendizado

Mark  Wainwright  é  um  homem  de  35  anos  de  idade  com  dificuldades  de  aprendizado  que  vive  com  seus
pais. Ele tem um emprego em horário parcial no mercado local, onde trabalha em uma banca de verduras.
Por vezes ele vai ao bar depois do trabalho com outras pessoas do mercado.
Dois dias por semana, Mark frequenta um centro para pessoas com dificuldades de aprendizado, onde ele
encontra sua namorada e participa de um grupo de escrita que é liderado por uma terapeuta ocupacional. O
grupo realizou apresentações no centro e em residências e, agora, publicou uma coleção de poemas. Mark
e  seus  colegas  membros  do  grupo  receberam  a  notícia  de  que  sua  coleção  coincidirá  com  o  festival  de
literatura da cidade. Eles estão muito ansiosos para ter seu trabalho publicado e para organizar uma festa de
lançamento.  A  terapeuta  ocupacional  está  muito  orgulhosa  das  realizações  do  grupo  e  mal  pode  esperar
para começar a distribuir a coleção de poesias, com a qual seus diretores estão muito satisfeitos.
No dia seguinte, a terapeuta ocupacional recebe uma ligação telefônica da mãe de Mark. Ela faz objeções
a respeito de seu poema sobre embebedar­se com seus colegas do mercado. Ela diz que deveria ter sido
avisada  antecipadamente  de  que  este  trabalho  seria  publicado.  Se  ela  soubesse,  teria  impedido  sua
participação. Ela solicita uma retratação.

1. O direito da pessoa com dificuldades de aprendizado de escrever e publicar compromete o direito de
confidencialidade de seus parentes ou de seus cuidadores? Como um terapeuta ocupacional determina
se a publicação comunitária é uma atividade ocupacional apropriada?

A terapeuta ocupacional leva o grupo e alguns dos trabalhadores de apoio para um evento de leitura na
biblioteca.  Os  membros  do  grupo  estão  com  suas  melhores  roupas  e  ensaiaram  cuidadosamente  suas
apresentações. A audiência receptiva aplaude entusiasticamente, ainda que algumas leituras sejam de difícil
compreensão.  No  entanto,  Mark  fica  aborrecido,  quando  ele  ouve  uma  ressalva:  “Vim  para  ouvir  alguma
literatura, não um grupo de palhaços vindos de um grupo de terapia.”

2. Quais  são  as  barreiras  para  pessoas  com  dificuldades  de  aprendizado  que  desejam  participar  em
atividades artísticas e criativas na comunidade e como um terapeuta ocupacional capacita os indivíduos
e os grupos a superarem estas barreiras?

Vários  meses  depois,  o  grupo  revê  suas  realizações.  Eles  lembram­se  das  coisas  sobre  as  quais
escreveram  e  dos  eventos  de  que  participaram.  Muitas  das  antologias  ainda  não  foram  vendidas.  Eles
decidem fazer uma “coletiva de imprensa” com o jornalista do serviço social para celebrar um ano desde que
o grupo começou e para promover as antologias restantes por meio de uma revista do centro. Sua entrevista
também  é  publicada  no  jornal  local,  mas  eles  acham  que  os  artigos  se  concentraram  na  terapeuta
ocupacional em vez de no grupo. Muitas das respostas fornecidas por membros do grupo foram ignoradas.
“Eles nos fizeram parecer bobos”, disse Mark.

3. Se  eles  se  baseiam  na  comunidade,  os  projetos  artísticos  que  envolvem  pessoas  com  incapacidades
podem  ter  resultados  imprevisíveis.  Como  um  terapeuta  ocupacional  estrutura  a  experiência  para
capacitar qualquer pessoa para obter o benefício máximo a partir da participação?

AGRADECIMENTOS
Os  autores  agradecem  a  Jim  White  por  seus  valiosos  comentários  e  sugestões  e  à  participação  de  June
Baxendale,  Matthew  Blastard,  Mandy  Carpenter,  Claire  Clayton,  Jayne  Fletcher,  Sally  Fox,  Gary  Gant,  Iris
Garrity,  Trevor  George,  Michael  Hardaker,  Brian  Haughie,  Ellen  Jebsen,  Maggie  Macdonald,  Kenny  Money,
Andy  Murdoch,  Fiona  Murdoch,  Trevor  Parkinson,  Kim  Stowe  e  Ericka  Turner,  bem  como  a  Jo  Barnes,  Tim
Diggles e Pat Smart.

REFERÊNCIAS
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*De Voices Talk Hands Write. (2004). Stoke on Trent, UK: The Federation of Worker Writers and Community Publishers.
*De Voices Talk Hands Write. (2004). Stoke on Trent, UK: The Federation of Worker Writers and Community Publishers.
*De Brian Haughie. (2005). Stories. Grimsby, UK: Voices Talk and Hands Write.
Mobilização da Ação Coletiva de Mulheres
com Incapacidades para Desenvolvimento
de Contextos para Combater a Pobreza e
Garantir o Desenvolvimento
THERESA LORENZO

Sumário
Bulelwa: Me Vejo como uma Luz para Outras Pessoas com Incapacidades
Thandiswa: Agora Sinto que Posso Fazer Alguma Coisa
Gloria: Eles Veem uma Mãe que é um Modelo para o Papel
Nontsidiso: Um Pilar de Força
Autodesenvolvimento, Criatividade e Defesa
Aguardando o Sucesso
Sumário Reflexivo

Objetivos de Aprendizagem
Após a leitura deste capítulo, você será capaz de:
1. Compartilhar  as  narrativas  de  mulheres  sul­africanas  com  incapacidades  que  participaram  de
uma série de seminários de narrativa, ação e reflexão.
2. Descrever uma abordagem de direitos da mulher para equalizar as oportunidades para mulheres
com  incapacidades,  com  foco  particular  em  mulheres  que  vivem  em  contextos  de
desenvolvimento.
3. Ilustrar  a  mudança  do  foco  individual  na  reabilitação  para  uma  abordagem  populacional  no
tratamento de aspectos da incapacidade.

E
ste capítulo compartilha as narrativas sobre o desenvolvimento humano de mulheres com incapacidades que
vivem em barracos de madeira nas áreas da periferia urbana de Khayelitsha e Greater Nyanga, na Cidade do
Cabo, na Província de Western Cape da África do Sul. O desenvolvimento humano é

um  processo  de  mudança  que  capacita  as  pessoas  a  assumirem  a  responsabilidade  por  seus  próprios  destinos  e
desenvolverem  todo  o  seu  potencial.  Ele  requer  a  construção,  nessas  pessoas,  de  confiança,  habilidades,  capacidades  e
liberdades necessárias para atingir este objetivo (Taylor, 2000, p. 49)
Um aspecto importante desta definição de desenvolvimento humano é o acesso que os cidadãos de um país
têm a um ambiente em que eles sejam capazes de obter oportunidades e recursos, bem como de fazer as escolhas
para viver vidas decentes. Taylor (2000) acrescenta que o desenvolvimento humano reconhece que as pessoas
necessitam  de  direitos  econômicos,  sociais,  culturais,  políticos  e  humanos  a  fim  de  desenvolver  seu  potencial
máximo  e  de  viver  vidas  significativas.  Ela  identificou  acesso  à  água,  conhecimento,  cuidados  de  saúde,
emprego e outros recursos de produção como ingredientes básicos para o desenvolvimento humano. Na África
do Sul, o desenvolvimento humano foi prejudicado porque esses direitos foram negados à maioria das pessoas.
A taxa de pobreza na África do Sul é de 45%, o que significa que mais de 18 milhões de pessoas (ou 3.126.000
domicílios) vivem abaixo da linha de pobreza, representada por um rendimento de aproximadamente US$59 por
adulto por mês (Taylor, 2000). Nas regiões rurais, a taxa de pobreza fica acima de 50%. Além de experimentar
opressão  simultânea  relacionada  à  raça,  ao  gênero  e  à  incapacidade,  a  pobreza  cria  uma  quarta  forma  de
opressão.
Durante um período de dois anos e meio, muitas mulheres com incapacidades participaram de encontros para
narrativa­ação­reflexão  (NAR)  organizados  pela  autora  (uma  terapeuta  ocupacional),  por  outro  terapeuta
ocupacional e por uma mulher com incapacidade. Nós planejamos esses encontros para combinar o aprendizado
de  ações  (Taylor,  Marais  &  Kaplan,  1997)  e  o  contar  história  (Slim  e  Thompson,  1993)  com  a  investigação
narrativa  para  permitir  que  os  participantes  descrevam  o  significado  das  ações  humanas  e  as  relacionem  a
preocupações sociais maiores (Clandinin & Connelly, 2000). Nós facilitamos os encontros de modo a permitir
que as mulheres contassem suas histórias e as analisassem para aumentar sua consciência a respeito das causas
fundamentais  de  sua  opressão.  Esse  ciclo  de  ação  e  reflexão  ocorre  durante  um  mesmo  encontro,  bem  como
entre e após os encontros (Hope & Timmel, 1995). Desta maneira, o processo visa capacitar cada mulher a se
sentir ouvida de um modo que a mobilize a empreender uma ação no sentido da mudança social (Figura 16.1).
As mulheres que participaram desses encontros são, em sua maioria, mães solteiras que fazem mais do que
cuidar  de  seus  próprios  filhos.  Elas  também  são  responsáveis  por  outros  membros  de  suas  famílias.  Muitas
migraram  de  áreas  rurais  de  Eastern  Cape  na  esperança  de  encontrar  melhor  assistência  médica  e  melhores
oportunidades econômicas para aliviar sua pobreza.

BULELWA: ME VEJO COMO UMA LUZ PARA OUTRAS PESSOAS COM
INCAPACIDADES
Bulelwa  é  uma  empresária  vibrante,  muito  dedicada,  ao  mesmo  tempo  preocupada  com  o  bem­estar  e  o
crescimento das outras mulheres do encontro. Ela compartilha sua história:
Fig. 16.1 As mulheres nos encontros aprendem a ouvir as histórias umas das outras, tendo Marjorie como
facilitadora.

Depois  do  primeiro  encontro  em  que  contei  minha  história,  me  senti  muito  mais  fortalecida.  Eu  compreendi  que  estes
encontros  realmente  poderiam  ajudar  outras  mulheres  na  mesma  situação  que  eu.  Nossa  reabilitação  não  nos  ajudou  a
voltar  e  nos  restabelecer  em  nossas  famílias  ou  comunidades.  Aqui  eu  fiz  uma  escultura  de  um  prato  de  argila  e  duas
mulheres para demonstrar como eu mudei ao ganhar o conhecimento sobre os direitos da incapacidade e as habilidades
de  defesa.  Os  encontros  nos  ajudaram  a  descobrir  o  conhecimento  e  as  informações  umas  com  as  outras.  Nós  nos
sentimos  mais  felizes.  Nós  reconhecemos  os  ganhos  que  alcançamos  ao  mudar  nossas  condições  de  vida.  Estas
habilidades levaram a uma vida, em geral, melhor. Eu me fiz usando a argila. Quero lhe mostrar que, antes de eu ficar
incapacitada, meu corpo era magro. Eu era pequena antes, e agora você pode ver o quanto eu sou grande. Então eu quero
compartilhar  as  boas  notícias,  de  modo  que  outros  possam  ser  grandes  como  eu.  Eu  preciso  ser  a  luz,  mesmo  na
comunidade,  e  falar  sobre  a  incapacidade  e  como  eles  podem  tratar  as  pessoas  incapacitadas.  Eu  converso  sobre  a
incapacidade.  Tornei­me  mais  confiante  e  ganhei  habilidades  que  me  fizeram  ser  capaz  de  modificar  as  coisas.  Eu
costumava falar na igreja e dar meu testemunho. Agora, eu falo sobre a incapacidade. Também adoro cantar e dançar.
Eu  me  vejo  como  uma  luz  para  outras  pessoas  com  incapacidades  e  não  tenho  medo.  Eu  sei  que  sou  capaz  de
conversar.  Geralmente  eu  sou  tímida  mas,  desde  que  passei  a  vir  aqui,  eu  me  sinto  livre.  Eu  costumava  ficar  bastante
preocupada  em  casa  mas,  desde  que  estou  aqui,  me  sinto  muito  melhor.  Quando  vejo  meus  vizinhos  brigando,  digo  a
eles: “Liguem para sua família e cheguem a um acordo.” Mais tarde, eles me contam que: “Nós ligamos para eles e nos
entendemos.” É por causa disso que estou dizendo que sou uma luz. Vejo que mesmo com as mulheres existe mudança.
Sou capaz de ver como elas eram antes e como estão agora. Desde que nós começamos a nos reunir em grupos, o peso
foi retirado e tudo ficou mais leve.
Assim, eu não fui a única que desejou incentivar mudanças de atitude em relação à incapacidade entre nossas famílias
e nossos vizinhos. Os encontros também nos ajudaram a ver como poderíamos curar uns aos outros. Os encontros nos
deram  coragem  para  sermos  novamente  visíveis  em  nossas  famílias  e  nossa  comunidade.  Eu  contei  uma  história  da
Bíblia:  “Me  identifiquei  com  a  pessoa  que  estava  próxima  ao  açude  e  as  pessoas  estavam  vindo  e  indo  sem  ajudá­la.
Então  Jesus  perguntou  a  ela,  ‘você  quer  ficar  bem?’  ‘Eu  quero,  mas  eu  não  tenho  uma  pessoa  que  me  ajude  e  que  me
coloque neste açude.’ Jesus disse ‘pegue sua esteira e vá e por estas palavras você está curado.’ Agora estou bem, mas é
triste quando você vê outros tendo problemas.

THANDISWA: AGORA SINTO QUE POSSO FAZER ALGUMA COISA
Depois  de  sua  alta  de  um  hospital  geral  onde  recebeu  reabilitação  física  após  um  acidente  vascular  cerebral,
Thandiswa  ficou  em  casa  e  se  sentia  bastante  isolada  de  sua  comunidade.  Ela  disse  ao  grupo  o  quanto  a  sua
participação nos encontros a ajudou nos níveis pessoal, familiar e comunitário:

Experimentei  alterações  profundas  sobre  como  eu  me  sinto.  Eu  costumava  chorar  bastante,  mas  desde  que  encontrei
outras mulheres, tive novas ideias. Eu me uni ao grupo Nobantu.1 Quando Bulelwa me apresentou ao grupo, fiquei feliz
e me tornei uma delas. Agora eu compreendo mais sobre esse comprometimento. Quando eu me tornei incapacitada, eu
sempre me diminuía quando estava com meus amigos. Eu sempre ficava parada sentada. Mas quando eu encontrei essas
outras mulheres, me senti mais forte e acabou aquela coisa de sempre ter pena de mim mesma. Meus sogros e cunhados
não  gostavam  de  mim,  mas  hoje  minha  casa  está  sempre  cheia.  Eu  sou  forte.  Hoje,  eu  não  estou  chorando.  Agora,
ninguém  consegue  acreditar  que  antes  eu  usava  muletas.  Ninguém  pode  dizer  atualmente  que  eu  sou  incapaz.  Eu  me
identifico com o sol porque antes tudo era escuro e eu não queria aceitar minha incapacidade. Eu nem sequer conseguia
sentar  ao  sol.  Agora,  eu  posso  fazer  coisas  com  minhas  mãos  e  ganhei  um  certificado  em  negócios.  Depois  disso,  eu
consigo fazer as coisas sozinhas. Agora, sou como uma mãe na casa mesmo quando as crianças não estão lá. Eu nunca
fui assim. Eu costumava esperar que elas voltassem da escola. Agora, eu sinto que posso fazer alguma coisa.

GLORIA: ELES VEEM UMA MÃE QUE É UM MODELO PARA O PAPEL
Gloria ficou incapacitada por causa da poliomielite quando era criança. Ela contou como seus filhos encontraram
suporte  nos  workshops,  assim  como  eles  também  sentiram  a  pressão  para  mudar  o  estigma  da  incapacidade.
Gloria disse:

Estou recebendo muito apoio de minha família. Meus dois filhos sempre mostram interesse pelo que estou fazendo. Na
escola,  eles  costumavam  ser  ridicularizados  pelas  outras  crianças  por  causa  de  minha  incapacidade.  Mas  meus  filhos
dizem  a  elas  que,  em  sua  mãe,  não  conseguem  enxergar  qualquer  incapacidade,  mas  veem  uma  mãe  que  é  um  modelo
para  o  papel  e  que  consegue  proporcionar  tudo,  diferente  de  mães  não  incapazes  que  não  conseguem  proporcionar  o
básico.  Você  vê  mães  não  incapazes  que  não  conseguem  nem  mesmo  comprar  os  sapatos  de  seus  filhos.  Como  mães,
aprendemos a ensinar a nossos filhos o respeito e as boas maneiras. Seus filhos têm o direito de pedir coisas a você, mas
você  precisa  ensiná­los  a  falar  educadamente  quando  eles  estão  pedindo  alguma  coisa.  Eles  não  precisam  sair  e  pedir
coisas a outras pessoas por acharem que você não pode fazer as coisas uma vez que você é incapacitada.

NONTSIDISO: UM PILAR DE FORÇA
Nontsidiso sofreu uma deformidade por tuberculose na coluna vertebral quando criança, deixando­a corcunda.
No entanto, não foi seu comprometimento que fez com que ela se sentisse diferente das outras crianças, mas sim
a  pobreza  e  a  solidão  que  ela  experimentou  depois  da  morte  de  seus  pais,  quando  ainda  era  muito  jovem.
Nontsidiso foi incapaz de completar seus estudos por causa da pobreza. Como adulta e mãe solteira, ela também
se confrontou com a falta do suporte de um marido. A seguir, um resumo de sua história:

Sou Nontsidiso. Eu sou intsika, um pilar de força, porque agora não há nada que eu não consiga fazer. Eu chorava muito
quando, no início, contava minha história, pois nunca antes eu a havia compartilhado com outras mulheres. Eu não me
sentia  diferente  das  outras  crianças  por  crescer  corcunda.  Vivíamos  no  Transkei.2  Vim  para  a  Cidade  do  Cabo  com
minha mãe porque ela estava doente. Minha mãe morreu, deixando­me sozinha com seu filho mais jovem. Eu me sentia
sozinha e impotente porque não tinha mãe, nem pai, nem mesmo um irmão mais velho para me ajudar. Eu não tinha uma
irmã.  Eu  não  tinha  dinheiro  e  costumava  pedir  comida  aos  vizinhos.  Agora  eu  vejo  que  eu  não  era  como  as  outras
crianças.  As  outras  crianças  não  passavam  fome;  eu  passava  fome.  Eu  abandonei  a  escola  por  problemas  financeiros.
Então, eu tive dois filhos, mas o pai deles não me ajudou. Ele era um alcoólatra e viciado em droga, além de me bater.
Um dia eu chamei a polícia e os policiais me bateram. Eu também contei meu problema de ser agredida na comunidade,
mas  ninguém  fez  nada.  Eu  estava  sofrendo  e  meus  filhos  estavam  sofrendo.  Algumas  vezes,  amigos  e  vizinhos  me
ajudam com comida. Eu não conseguia um benefício por incapacidade. Então, ouvi a assistente social falar sobre o grupo
de mulheres. Eu vim porque queria orientação para ajudar meus filhos.
Eu também fiz parte do grupo que foi ao encontro sobre cozinhar como parte do desenvolvimento de habilidades para
negócios (Figura 16.2). Eu não imaginava o quanto poderia ganhar com tão pouca pipoca. Eu agora tenho um certificado,
de  modo  que  posso  conseguir  um  emprego  no  fornecimento  de  alimentos  e  fazer  alguma  coisa  com  minhas  próprias
mãos. Eu não sabia que poderia ser ensinada e me tornar educada. Eu vejo que eu fui capaz de deixar de acreditar que
não era capaz de trabalhar. Agora, sou capaz de fazer esteiras, o que aprendi no Philani Nutrition Centre.3 Trabalho por
conta própria. Outro homem prometeu me levar a um lugar para conseguir material. Mesmo em relação às contas, eu não
peço ajuda a ninguém. Eu faço sozinha.
Minha  confiança  aumentou,  assim  como  minha  esperança  e  a  crença  de  que  os  sentimentos  e  as  crenças  de  minha
família e meus vizinhos em relação a mim irão mudar. Eu queria deixar de ser chamada por rótulos. Mesmo quando eu
ando, as pessoas dizem “coitada daquela aleijada”. Eu queria mudar o que elas dizem quando eu falo: “não a escutem, ela
é  uma  pessoa  deficiente”.  Eu  queria  ser  vista  na  TV  ou  voar  e  então  minha  família  diria:  “oh  é  ela,  nós  a  estamos
assistindo”.  Minha  oportunidade  chegou  com  Marjorie  na  cerimônia  nacional  de  premiação  do  Disabled  People  South
Africa  (DPSA)  Women  Achiever  Award.  O  grupo  estava  animado  comigo,  batendo  palmas  e  exultante.  Era  a  primeira
vez  que  eu  ia  para  Johannesburgo.  Eu  estava  realmente  exultante  a  respeito  de  voar.  Eu  agora  não  tenho  medo  da
incapacidade.  Eu  serei  alguém  um  dia.  Minha  família  começou  a  me  ver  participando  das  conferências  nacionais  da
DPSA.  Antes  eu  não  participava  de  eventos  na  comunidade  porque  era  tímida.  Agora,  eu  me  habituei  a  me  apresentar
para  pessoas  de  diferentes  áreas.  Eu  esqueci  totalmente  que  eu  não  tenho  pais.  Eu  realmente  aprecio  o  que  recebo  das
pessoas. Assim, se as pessoas riem de mim agora, eu não choro, pois estou com Marjorie.
Como mulheres com incapacidades, não sabíamos o que fazer depois que nos tornamos incapacitadas. O trabalho das
mulheres  na  comunidade  era  fabricar  a  tradicional  cerveja  africana  que  é  consumida  pelos  homens  em  cerimônias
especiais. Nós ficamos muito alegres quando uma das mulheres esculpiu em argila o pote em que os homens bebem as
diferentes  infusões  africanas.  O  pote  lembrou  às  outras  mulheres  o  que  elas  poderiam  fazer.  Quando  sentamos  e
pensamos sobre o nosso futuro, compreendemos que podíamos fabricar a mqombothi [cerveja africana] e vendê­la. Nós
compreendemos que neste grupo seríamos bem­sucedidas. Nós podíamos produzir o marewu [leite de soja] nesta cabaça,
porque ainda estamos vivas, e assim podemos ser bem­sucedidas. Assim, este pote (grupo) nos deu vida e um nome em
nossa comunidade.

Fig. 16.2 As mulheres participam de encontros sobre a preparação de alimentos para desenvolver as habilidades
para um negócio.

AUTODESENVOLVIMENTO, CRIATIVIDADE E DEFESA
As  mulheres  descobriram  que  os  encontros  constituíam  um  espaço  onde  elas  se  sentiam  valorizadas.  Uma
mulher  fez  uma  escultura  de  uma  árvore  em  argila  para  simbolizar  a  força  entre  elas.  As  raízes  da  árvore
representavam  as  mulheres  crescendo  como  pessoas  diferentes,  vindas  de  diferentes  regiões.  Elas  se  tornaram
amigas, pois estavam juntas nos encontros. A paixão e a energia para a defesa e a disseminação da mensagem
revelaram um zelo evangélico. As mulheres cresceram em termos de confiança para falar sobre a incapacidade
para  outras  mulheres  com  ou  sem  necessidades  especiais,  bem  como  para  organizações  comunitárias  maiores
(Figura 16.3). Isto inspirou seu autodesenvolvimento. Elas se mobilizaram para repensar suas imagens sobre a
incapacidade e para desafiar os estereótipos públicos. Elas agiram de modo coletivo para aumentar a consciência
e defender a mudança nas atitudes em relação à incapacidade.
Estas histórias retratam algumas das tensões de mudança pessoal e social que as mulheres com incapacidades
precisam negociar na busca de liberdade, inclusão e participação igualitária. A incapacidade e o potencial inato,
o realismo e a antecipação, o fato e a fé, a permanência e a transitoriedade estão justapostos ao longo do poema,
“Aguardando o sucesso”, que foi composto a partir das respostas das mulheres a uma pergunta – “O que você
espera?” – feita pelos facilitadores. O poema é um conjunto editado de uma coleção publicada de suas histórias
sobre viver com incapacidade em Khayelitsha (Lorenzo et al., 2002).
Fig. 16.3 Mulheres e homens com incapacidades são treinados por meio de dramatizações para conscientização
e defesa da incapacidade pelo Community Arts Project.

Aguardando o Sucesso
Estou esperando o sucesso em minha vida,
por meio do qual Deus me dará força para vencer minhas batalhas de modo que um dia eu possa ajudar outras pessoas
que estejam lutando
e ensiná­las que elas precisam usar o que elas têm, mesmo que seja pouco
e saber que o sucesso está dentro delas.
Estou esperando o sucesso em meu coração;
Como uma pessoa com necessidades especiais, mesmo se só estou sentada,
Tenho a esperança dentro de mim.
Estou aguardando o sucesso quanto aos meus problemas;
Desde que me tornei incapacitada, as coisas são lentas,
Agora devo pensar em primeiro lugar
sobre como vou conseguir alguma coisa,
depois esperar até que consiga...
Estou esperando que Deus
me dê a liberdade
para ter um emprego, para ter dinheiro
de modo que possa comprar pequenas coisas para vender...
de modo que possa fazer um permanente
e ficar mais bonita do que estou.
Estou esperando a felicidade,
a esperança de que Deus me dará mais anos de vida...
Estou esperando ser ajudada em minha incapacidade,
por uma bengala para me ajudar a caminhar,
porque minhas pernas estão muito fracas para que eu caminhe sozinha...
Algumas dificuldades neste mundo vêm e vão.
Estou esperando que Jesus venha e me liberte
De minhas amarras e de meus problemas.
O demônio está esperando grandes coisas de mim
mas ele nunca as terá
porque eu não pertenço a ele.
Rezo e me empenho para que Aquele que está acima de nós me ajude.
Estou esperando o sucesso
Em tudo o que desejo e espero e rezo.
E verei os resultados de todas estas coisas
em minha incapacidade e em meus filhos.4
Fig. 16.4 Mulheres com incapacidades participam de um encontro para desenvolvimento de habilidades para
demonstrar habilidade para costurar e tricotar à máquina como um meio para o desenvolvimento de pequenos
negócios.

SUMÁRIO REFLEXIVO
Os  encontros  criaram  um  espaço  para  que  as  mulheres  fossem  ouvidas.  Suas  histórias  revelam  que  a
incapacidade é uma questão de direitos humanos na luta das pessoas com incapacidades por oportunidades para
participar  como  cidadãos  iguais  em  suas  comunidades  e  seus  países.  A  complexidade  e  a  natureza
multidimensional  da  pobreza  necessitam  de  uma  abordagem  coletiva  das  pessoas,  famílias,  comunidades,
organizações e instituições para sustentar as iniciativas de mudança. As histórias neste capítulo mostram que é
possível que os terapeutas ocupacionais trabalhem em parcerias como profissionais e acadêmicos com pessoas
incapacitadas para a pesquisa e desenvolvimento que levem à ação e à mudança social.
Quinze  mulheres  que  participaram  regularmente  dos  encontros  mensais  publicaram  suas  histórias  a  respeito
das  mudanças  que  aconteceram  em  um  livro  intitulado  On  the  Road  of  Hope:  Stories  of  Disabled  Women  in
Khayelitsha  (Lorenzo,  Saunders,  January  &  Mdlokolo,  2002).5  As  mulheres  ficaram  alegres  e  orgulhosas
quando receberam cópias do livro, o que aumentou sua autoestima e moral. Os lucros decorrentes do livro são
aplicados no Disabled Women’s Development Project da DPSA para outras iniciativas de desenvolvimento.
Este  capítulo  sugere  que  não  existe  muito  nestas  histórias  que  diferencie  estas  mulheres  de  outras  não
incapacitadas. Esta evidência sustenta o fato de que os comprometimentos não tornam as mulheres incapazes de
aprender e vencer. O  potencial  para  responder  à  reconstrução  da  trama  social de nossas comunidades também
seria aplicável a quaisquer outros grupos com desvantagens. A força do coletivo para fomentar a mudança por
meio  da  participação  em  ocupações  nos  níveis  individual  e  social  ficou  evidente,  pois  facilita  uma  jornada
interior que leva a ações externas. A espiritualidade das mulheres reforçou sua maleabilidade para enfrentar os
obstáculos  que  encontraram.  Os  terapeutas  ocupacionais  devem  deixar  o  ambiente  confortável  da  reabilitação
individual para abraçar os desafios sociopolíticos e econômicos enfrentados por muitas das pessoas com as quais
trabalhamos. Estas mudanças para uma abordagem populacional fomentarão o desenvolvimento humano ótimo e
o engajamento em ocupações que contribuirão para a promoção dos estilos saudáveis de vida e uma sociedade
justa e inclusiva.

REFERÊNCIAS
Clandinin, D. J., & Connelly, F. M. (2000). Narrative inquiry: Experience and story in qualitative research San
Francisco: Jossey­Bass Publishers.
Hope, A., & Timmel, S. (1995). Training for transformation: A handbook for community workers (rev. ed.).
Zimbabwe: Mambo Press.
Lorenzo, T., Saunders, C., January, M., & Mdlokolo, P. (Eds.). (2002) On the road of hope: Stories told by
disabled women in Khayelitsha. Cape Town: Division of Occupational Therapy, University of Cape Town.
Slim, H., & Thompson, P. (1993). Listening for a change: Oral testimony and development London: Panos
Publications Ltd.
Taylor, J., Marais, D., and Kaplan, A (1997). Action learning for development: Use your experience to improve
your effectiveness. Cape Town: Juta and CDRA.
Taylor, V. (2000). South Africa: Transformation for human development 2000. Pretoria: United Nations
Development Programme.
1Um pequeno grupo de negócios que foi iniciado em Khayelitsha em 1996, que começou com alguns homens com necessidades especiais com
o apoio de profissionais de reabilitação na comunidade.
2Uma área rural em Eastern Cape.

3Uma ONG em Khayelitsha que fornece programas de nutrição para crianças e de desenvolvimento de habilidades na geração de rendas para
mães e mulheres.
4“Aguardando o sucesso”, retirado de uma atividade criativa com mulheres em um encontro da NAR. O poema é um extrato editado de uma
coleção publicada de suas histórias sobre viver com incapacidade em Khayelitsha (Lorenzo et al., 2002).
5O livro foi custeado pelo Centre for the Book e constituiu parte da Adult Literacy Week em setembro de 2002.
Políticas Sociais e de Saúde nos Estados
Unidos
JAN NISBET

Sumário
Política Pública
Defendendo a Mudança
Saúde Pública: O Papel Federal
Iniciativas de Saúde Pública
A Força de Trabalho no Cuidado de Saúde
Prioridades em Saúde Pública
Participação do Setor Privado
Estudo de Caso: Vivendo com Esclerose Lateral Amiotrófica

Objetivos de Aprendizagem
Após a leitura deste capítulo, você será capaz de:

1. Compreender  as  políticas  sociais  e  de  saúde  e  as  principais  agências  norte­americanas
responsáveis  por  pessoas  com  problemas  de  saúde  e/ou  necessidades  especiais  e  suas
famílias.
2. Compreender  o  papel  de  defesa  no  desenvolvimento  de  políticas  públicas  e  processos
reguladores associados.
3. Distinguir entre o cuidado geral de saúde e o cuidado de longo prazo.
4. Compreender os programas intitulados públicos e como eles afetam as vidas das pessoas com
problemas de saúde e/ou necessidades especiais e suas famílias.
5. Relacionar  as  iniciativas  legislativas  que  criaram  programas  e  serviços  para  pessoas  com
problemas de saúde e/ou necessidades especiais e suas famílias.

POLÍTICA PÚBLICA
De modo simples, “política pública é alguma coisa que um governo opta por fazer ou por não fazer” (Dye, 1972,
p.  2).  As  decisões  de  política  pública  ou  social  tomam  forma  em  leis,  regulamentações,  decisões  de
financiamento e outras ações que servem para se comunicar com os cidadãos ou constituintes. A construção de
políticas públicas requer escolhas sobre o papel do governo nas vidas das pessoas e a responsabilidade gerada
pelos  cidadãos,  estados  e/ou  pelo  governo  federal.  As  políticas  refletem  atitudes,  opiniões,  interesses  e
ideologias  (Howlett  &  Ramesh,  2003).  As  teorias  sugerem  que  os  elaboradores  das  políticas,  bem  como  os
cidadãos,  são  orientados  pelo  autointeresse  e  fazem  as  escolhas  de  acordo  com  o  “melhor  benefício”.  Por
exemplo,  nos  EUA  a  lei  Americans  with  Disabilities  Act  (1990)  foi  promulgada  depois  que  pessoas  com
necessidades  especiais  se  organizaram  para  ter  acesso  a  serviços  e  instalações  públicas  e  privadas.  Muitas
empresas se opuseram à ADA porque temiam que a garantia do acesso e a promoção de acomodações fossem
muito dispendiosas. Os elaboradores da política tomaram a decisão de apoiar a lei com advertências, do tipo “até
a  máxima  extensão  possível”,  apaziguando  assim  as  empresas  e  os  indivíduos  com  necessidades  especiais  e
garantindo a satisfação do constituinte. Logicamente, grupos e organizações privadas e públicas influenciam as
políticas  públicas,  mas  eles  não  promulgam  leis.  Os  representantes  eleitos  para  o  legislativo  têm  essa
responsabilidade.  No  entanto,  compreender  como  influenciar  a  política  pública  é  primordial.  É  igualmente
importante compreender a natureza da influência e o papel que podem ter os grupos organizados com recursos
organizados.
Silverstein (2000) identificou cinco categorias de leis que afetam as pessoas com necessidades especiais:
Estatutos de direitos civis (p. ex., ADA, Fair Housing Act de 1968)
Programas de habilitação (p. ex., Medicaid, reabilitação vocacional)
Programas  de  concessão  especiais  (p.  ex.,  a  lei  Individuals  with  Disabilities  Education  Act,  Centers  for
Independent Living))
Estatutos regulamentadores (p. ex., Voter Registration Act de 1973, Family Leave Act)
Provisões diversas (p. ex., Targeted Jobs Credit, Disabled Access Tax Credit).

Ele  também  resumiu  os  princípios  fundamentais  subjacentes  que  fornecem  a  estrutura  para  a  política  para  as
necessidades  especiais  nos  Estados  Unidos.  Estes  incluem  (1)  a  igualdade  de  oportunidade;  (2)  a  participação
plena,  fortalecendo  os  indivíduos  e  as  famílias;  (3)  a  vida  independente;  e  (4)  a  autossuficiência  econômica.
Estes  princípios  fundamentais  foram  articulados  pelos  defensores  e  legisladores  em  muitos  esforços  e  ações
legislativas, e continuam a ser reestruturados e enfatizados nas iniciativas de política emergentes.

DEFENDENDO A MUDANÇA
Inúmeros defensores da comunidade que se organizam para influenciar a política pública (Alinsky, 1989; Biklen,
1982) tornam claro o papel de poderosos interesses e corporações no desenvolvimento de políticas e práticas que
não  são  compatíveis  com  o  bem­estar  da  comunidade.  Nossa  incapacidade,  como  nação,  de  mudança  para  o
cuidado universal da saúde pode ser creditada em parte a poderosos mercados privados, incluindo o seguro de
saúde, a medicina privada e companhias farmacêuticas (Johnson & Broder, 1996). Os grupos de defesa, como o
ADAPT,  representam  indivíduos  com  necessidades  especiais  que  desejam  transporte  acessível  e  adequado  e  o
abandono da tendência institucional no programa Medicaid. A tendência institucional refere­se ao fato de que
dólares  podem  ser  gastos  no  cuidado  institucional,  nas  instituições  de  cuidados  de  enfermagem  ou  nos  outros
ambientes segregados, mas que não podem ser gastos em ambientes da comunidade. Os grupos de defesa têm
utilizado estratégias efetivas que requerem esforços organizados para enfrentar poderosos grupos de interesses.
A cada ano, os membros do ADAPT protestam na reunião anual da American Hospital Association, outro grupo
que  se  opôs  ao  abandono  da  tendência  institucional  no  programa  Medicaid.  A  legislação  federal  destinada  a
apoiar  e  a  custear  mais  amplamente  os  serviços  na  comunidade  foi  rechaçada  pela  poderosa  indústria  da
enfermagem  domiciliar  e,  em  consequência  disto,  não  foi  promulgada  nem  implantada.  O  ADAPT  é  um
exemplo de um tipo de grupo de defesa. Existem outros para representar os interesses de organizações como as
clínicas comunitárias e os prestadores de serviços (p. ex., American Occupational Therapy Association), além de
populações específicas, como crianças, aposentados, pessoas com doença de Alzheimer e pessoas com esclerose
lateral amiotrófica, esclerose múltipla, síndrome de Down, autismo e outras patologias.
Os protestos organizados constituem uma forma de defesa. Christopher Kush (2004). em seu livro The One­
Hour Activist, recomenda 20 estratégias que qualquer pessoa pode utilizar para influenciar as políticas:
1. Aprender como funciona o movimento popular.
2. Selecionar seus temas e sua posição.
3. Identificar e encontrar­se com seus senadores e outros representantes.
4. Unir­se a um grupo de interesse.
5. Criar uma causa legislativa.
6. Analisar um projeto de lei.
7. Realizar pesquisa de oposição.
8. Escrever uma carta efetiva.
9. Enviar um e­mail poderoso.
10. Fazer uma ligação telefônica efetiva.
11. Persuadir outros a participar.
12. Revelar o voto. Aprender como funciona o movimento popular.
13. Contribuir com recursos financeiros para candidatos que apoiem a sua causa.
14. Iniciar um arquivo de reportagens divulgadas na mídia.
15. Escrever uma carta para o editor.
16. Ter um encontro pessoal com seu representante.
17. Dar testemunho em audiência pública.
18. Participar de um protesto.
19. Ser voluntário para uma campanha política.
20. Protagonizar uma notícia ou conceder uma entrevista (p. viii).

Cada uma destas estratégias, isolada ou combinada, pode impulsionar uma causa de política pública. Embora os
indivíduos  possam  fazer  alguma  diferença  ao  agir  isoladamente,  os  grupos  organizados  mostraram  ser  mais
efetivos para influenciar os resultados de eleições e de reformas de políticas públicas.

SAÚDE PÚBLICA: O PAPEL FEDERAL
A  Organização  Mundial  de  Saúde  (1946)  define  saúde  como  um  estado  de  bem­estar  físico,  mental  e  social
pleno, não apenas a ausência de doença ou de enfermidade. A saúde pública enfatiza as medidas e os tratamentos
voltados  para  a  população,  bem  como  a  prevenção  das  condições  e  incapacidades  primárias  e  secundárias.  A
saúde pública pode ser encarada e interpretada de forma ampla para englobar a prevenção, o cuidado tanto agudo
como de longo prazo e a infraestrutura comunitária global, estando focada na saúde da população em vez de na
saúde  de  uma  pessoal  em  especial.  De  acordo  com  o  Institute  of  Medicine  (1988,  2002),  a  missão  da  saúde
pública é definida como “atender ao interesse da sociedade em assegurar condições em que as pessoas possam
ser saudáveis”. Gordon  (1997)  define saúde pública  como  a  arte  e  a  ciência  de  prevenir  a  doença  e  a  lesão  e
promover  a  saúde  e  a  eficiência  por  meio  do  esforço  organizado  da  comunidade.  Em  contraste,  o  cuidado  de
saúde  envolve  o  diagnóstico,  o  tratamento  ou  a  reabilitação  do  paciente  que  está  em  tratamento,  realizado  na
proporção de um para um (conforme citado em Patel & Rushefsky, 2005, p. xii). Apenas 2% a 3% de todos os
gastos dos cuidados de saúde nos Estados Unidos são direcionados para a saúde pública (McFarlane, 2005). A
maior parte do dinheiro é gasta na saúde curativa e não na saúde preventiva (Patel & Rushefsky, 2005). Apesar
dessa disparidade no financiamento, a expectativa de vida dos norte­americanos aumentou em torno de 30 anos
no último século. Vinte e cinco desses anos são atribuíveis a campanhas de saúde pública para aumentar o uso do
cinto de segurança e para reduzir a doença da artéria coronária, melhor planejamento familiar, melhora da saúde
oral, fluoração da água potável, diminuição do tabagismo, melhores condições sanitárias, melhora da segurança
nos locais de trabalho, vacinas e melhora das práticas gestacionais (Patel & Rushefsky, 2005).
O Medicaid,  por  exemplo,  é  um  programa  americano  federal  e  estadual  que  muitas  pessoas  consideram  um
programa  de  saúde  pública  e  que  é  direcionado  para  pessoas  de  baixa  renda  e  para  aquelas  com  necessidades
especiais. Apesar de alguém poder argumentar que ele se concentra principalmente no cuidado da saúde, ainda
assim financia muitas coisas que estão no âmbito da saúde pública, como exames e vacinação. O programa dá
suporte  a  pais,  crianças,  idosos  e  pessoas  com  incapacidades.  Administrado  pelos  Centers  for  Medicaid  and
Medicare Services  [Centros  de  Serviço  do  Medicaid  e  Medicare]  (CMS)  do  U.  S.  Department  of  Health  and
Human  Services,  o  Medicaid  serve  como  uma  lente  através  da  qual  se  compreendem  a  saúde  pública  e  as
políticas de cuidados de saúde que afetam as pessoas pobres, idosas e/ou portadoras de necessidades especiais. O
Medicare, o programa de seguros mantido pelo governo federal americano para pessoas com mais de 65 anos de
idade  e  para  jovens  com  necessidades  especiais  específicas,  também  é  considerado  um  programa  de  saúde
pública  por  alguns,  embora  financie  principalmente  atividades  relacionadas  ao  tratamento.  Como  existem
inúmeras definições de saúde pública, por vezes é difícil descrever com exatidão o que ela é e por que ela precisa
ser apoiada (Patel & Rushefsky, 2005).
O Centers for Disease Control [Centro de Controle das Doenças] (CDC) “é a principal agência no governo
dos  Estados  Unidos  de  proteção  da  saúde  e  da  segurança  de  todos  os  norte­americanos  e  fornece  os  serviços
humanitários básicos, principalmente para as pessoas menos capazes de se ajudar” (CDC, 2006). Fundado em
1948  para  ajudar  os  Estados  Unidos  a  combaterem  a  ameaça  da  malária,  o  CDC  tem  hoje  em  dia  metas
abrangentes (veja o Boxe 17.1). O CDC busca essas metas por meio de conscientização pública, disseminação de
práticas baseadas em  evidência,  pesquisa  e  trabalho  com  outras  entidades  públicas e privadas para melhorar a
prevenção e o bem­estar (Lang, Moore, Harris & Anderson, 2005). Conscientiza o público das “ameaças” à sua
saúde, como tabagismo, etilismo excessivo, comportamento sexual de risco, nutrição deficiente, sedentarismo,
obesidade  e  toxinas  ambientais.  O  CDC  também  serve  como  importante  fonte  de  informação  e  alerta  para  os
elaboradores  das  políticas  sobre  as  ameaças  iminentes  à  saúde  pública.  Por  exemplo,  o  CDC  dedicou­se  à
melhoria da infraestrutura de saúde necessária para responder ao vírus da gripe aviária, ao bioterrorismo e aos
desastres naturais, como os furacões.

METAS DO CDC

1. Pessoas saudáveis em todos os estágios da vida
2. Pessoas saudáveis em lugares saudáveis
3. Pessoas preparadas para as ameaças à saúde emergentes
4. Pessoas saudáveis em um mundo saudável

A  Health  Resources  and  Services  Administration  [Administração  de  Serviços  e  Recursos  de  Saúde]
(HRSA),  no  U.  S.  Department  of  Health  and  Human  Services,  é  a  principal  agência  federal  para  melhorar  o
acesso  aos  serviços  de  cuidados  de  saúde  para  pessoas  sem  seguro  de  saúde,  isoladas  ou  clinicamente
vulneráveis (HRSA, 2007). Tem sete objetivos (veja o Boxe 17.2). A agência atende a estas metas financiando
inúmeros  programas,  como  centros  de  saúde  comunitários,  corporações  nacionais  de  serviço  de  saúde,
treinamento para a diversidade e as desigualdades nos cuidados de saúde, desenvolvimento da força de trabalho
da saúde pública, programas de enfermagem, atendimento conjunto da saúde materno­infantil, programas para
pessoas com lesões cerebrais traumáticas, Healthy Start, avaliação auditiva universal do recém­nascido, serviços
genéticos e serviços de emergência para programas rurais de saúde infantil. A HRSA trabalha em conjunto com
outras agências, como o CDC, o Food and Drug Administration, a Environmental Protection Agency, o Indian
Health Service, a Occupational Safety and Health Administration e o National Institutes of Health, para alcançar
suas metas.

METAS DA HRSA

1. Melhorar o acesso aos cuidados de saúde.
2. Melhorar os resultados de saúde.
3. Melhorar a qualidade dos cuidados de saúde.
4. Eliminar as disparidades de saúde.
5. Melhorar a saúde pública e os sistemas de cuidados de saúde.
6. Aumentar  a  capacidade  do  sistema  de  cuidados  de  saúde  de  responder  às  emergências  de  saúde
pública.
7. Atingir a excelência nas práticas de tratamento.

INICIATIVAS DE SAÚDE PÚBLICA
Existem  inúmeros  programas  e  iniciativas  de  saúde  pública,  muitos  deles  com  financiamento  insuficiente.  Por
exemplo,  em  1988,  o  Institute  on  Medicine  (IOM),  que  tem  como  missão  “servir  como  consultor  imparcial  e
objetivo  para  melhorar  a  saúde  da  nação”,  realizou  um  estudo  sobre  o  sistema  de  saúde  pública  dos  Estados
Unidos. Muitos membros acreditavam que o sistema norte­americano estava mal direcionado e que os Estados
Unidos estavam ignorando certas questões, como HIV­AIDS,  exposição  a substâncias  tóxicas, envelhecimento
da América, doenças crônicas e incapacidade. O IOM relatou que milhões de norte­americanos (mais de 25%)
não  contam  com  uma  fonte  regular  de  cuidados  de  saúde  ou  têm  dificuldade  para  acessá­la.  A  Kaiser
Commission on Medicaid e a Uninsured (2006) relataram que 17% das pessoas com renda remediada, 36% dos
pobres e 30% dos quase pobres não estavam segurados em 2003, um aumento de 1,4 milhão desde 2002. Isto
perfaz um total de 44,7 milhões de não idosos (com menos de 65 anos) sem seguro de saúde nos Estados Unidos.
Aqueles  sem  seguro  apresentam  resultados  de  saúde  piores,  mais  hospitalizações  desnecessárias  e  taxas  mais
elevadas  de  utilização  das  Emergências;  são  diagnosticados  mais  tardiamente  com  doenças  significativas;  e
apresentam taxas de mortalidade mais elevadas que aqueles com seguro (Bodenheimer & Grumbach, 2002).
O  IOM  levou  adiante  o  estudo  anterior,  realizado  em  1988,  e  fez  inúmeras  recomendações  em  relação  ao
sistema  de  saúde  pública,  as  quais  abordam  os  múltiplos  fatores  que  afetam  a  população.  Cada  uma  dessas
recomendações  tem  implicações  para  o  refinamento  e  o  desenvolvimento  das  políticas  públicas  (Institute  of
Medicine, 2002, p. 4):
1. Adotar uma conduta de saúde da população que considere os múltiplos determinantes da saúde
2. Fortalecer  a  infraestrutura  governamental  da  saúde  pública,  que  forma  o  esqueleto  do  sistema  de  saúde
pública
3. Construir  um  novo  conjunto  de  parcerias  intersetoriais  que  também  amplie  perspectivas  e  recursos  de
diversas comunidades e que as insira ativamente na ação de saúde
4. Desenvolver sistemas de responsabilidade para garantir a qualidade e a oferta de serviços de saúde pública
5. Fazer da evidência a base da tomada de decisão e a medida do sucesso
6. Estimular  e  facilitar  a  comunicação  dentro  do  sistema  de  saúde  pública  (p.  ex.,  entre  todos  os  níveis  da
infraestrutura  governamental  da  saúde  pública  e  entre  profissionais  da  saúde  pública  e  os  membros  da
comunidade)

A FORÇA DE TRABALHO NO CUIDADO DE SAÚDE
Claramente,  um  dos  fatores  necessários  para  melhorar  a  saúde  pública  é  a  mão  de  obra.  Diferentes  dos
profissionais  de  saúde  que  atuam  em  clínicas,  os  profissionais  da  saúde  pública  são  treinados  especificamente
para  ter  um  foco  na  população  e  não  em  um  paciente  ou  indivíduo.  Gebbie,  Rosenstock  e  Herandez  (2003)
relatam que esses profissionais são treinados para utilizar um modelo ecológico de saúde que enfatiza a interação
entre  os  múltiplos  determinantes  da  saúde  e  as  disciplinas  básicas  da  bioestatística,  epidemiologia,  saúde
ambiental, administração de serviços de saúde e as ciências sociais e comportamentais. Novas disciplinas estão
surgindo e formam gradativamente parte dos currículos de saúde pública. Áreas como a informática, a genômica,
a  comunicação,  a  competência  cultural,  a  pesquisa  com  participação  da  comunidade,  a  política  e  legislação,  a
saúde  global  e  a  ética  são  consideradas  instrumentos  essenciais  para  verificar  as  tendências  da  população,
identificar aspectos de saúde da população e aspectos regionais específicos, e compreender o impacto das novas
tecnologias sobre os resultados de saúde. Escolas e programas de saúde pública estão e precisarão continuar se
adaptando às forças globais e aos problemas e ameaças emergentes, como gripe aviária, tuberculose resistente a
medicamentos, AIDS e doenças induzidas pelo ambiente. Os elaboradores de políticas públicas, principalmente
por meio da HRSA, têm direcionado o dinheiro público para os objetivos de treinar profissionais de saúde. Estas
respostas políticas, no entanto, não satisfizeram a necessidade expressa pelo IOM e pela American Public Health
Association.

PRIORIDADES EM SAÚDE PÚBLICA
O Office of the Surgeon General (2006) identificou sete prioridades de saúde pública (veja o Boxe 17.3). Cada
uma  dessas  prioridades  exigirá  políticas,  regulamentações  e  recursos  financeiros  do  governo  federal  norte­
americano,  governos  estaduais  e,  cada  vez  mais,  fundações  particulares,  como  a  Fundação  Robert  Wood
Johnson,  a  Fundação  Kaiser  Family  e  inúmeras  fundações  voltadas  para  a  saúde  que  resultaram  da  venda  de
entidades sem fins lucrativos, como a Blue Cross/Blue Shield e/ou hospitais para entidades com fins lucrativos.

PARTICIPAÇÃO DO SETOR PRIVADO
O  acesso  ao  seguro  de  saúde  financiado  pelo  empregador  diminuiu  nos  últimos  10  anos.  A  economia  norte­
americana fez uma transição para a mão de obra não sindicalizada, de tempo parcial e com menores salários. Em
consequência  disto,  existem  cada  vez  mais  norte­americanos  sem  seguro  de  saúde.  Ainda  assim,  os  Estados
Unidos  dependem  fortemente  do  setor  privado  para  custear  e  manter  os  cuidados  de  saúde.  Nosso  sistema
pluralista de cuidado de saúde é o resultado de inúmeras decisões políticas sem uma reestruturação abrangente
do  sistema  composto  pela  saúde  pública,  pelos  prestadores  privados,  incluindo  médicos  e  hospitais,  e  pelos
mercados de seguro  público  e  privado.  Rosenbaum  (2003)  argumenta  que  a  saúde pública está ameaçada pela
excessiva  confiança  no  mercado  privado  de  seguro.  O  Medicare  Part  D,  o  programa  de  fornecimento  de
medicamento prescrito para indivíduos com mais de 65 anos de idade, é um exemplo de política pública que se
fundamenta  nos  mercados  privados  –  neste  caso,  a  indústria  farmacêutica,  para  fornecimento  do  cuidado  de
saúde. As organizações de manutenção de saúde – health maintenance organizations (HMO) tentaram reduzir os
custos dos cuidados com a saúde ao se concentrar na prevenção e no gerenciamento do cuidado. Bodenheimer e
Grumbach (2002) argumentam que as HMO atualmente se consideram responsáveis por segurados individuais,
mas deveriam ter também a responsabilidade da oferta de cuidado preventivo abrangente para toda a população
segurada.

PRIORIDADES DO OFFICE OF THE SURGEON GENERAL

1. Prevenção  da  doença  (HIV­AIDS,  tabagismo,  defeitos  congênitos,  prevenção  da  lesão,  obesidade  e
atividade física crescente)
2. Eliminar  as  disparidades  de  saúde  (eliminar  a  maior  carga  da  morte  e  doença  a  partir  do  câncer  de
mama, câncer de próstata, câncer de colo de útero, doença cardiovascular, diabetes e outras doenças em
comunidades minoritárias)
3. Prontidão  para  a  saúde  pública  (terrorismo,  infecções  emergentes,  desastres  naturais,  saúde  mental  e
resiliência)
4. Melhorar  a  educação  de  saúde  (a  capacidade  de  um  indivíduo  de  acessar,  compreender  e  usar  as
informações e serviços relacionados com a saúde para tomar as decisões apropriadas acerca da saúde)
5. Doação de órgãos
6. Incentivar as crianças e adolescentes a fazerem opções saudáveis
7. Saúde óssea e osteoporose (10 milhões de norte­americanos com mais de 50 anos de idade apresentam
osteoporose, a doença óssea mais comum, enquanto outros 34 milhões estão sob risco de desenvolver
osteoporose, e, a cada ano, quase 1,5 milhão de pessoas sofrem uma fratura óssea relacionada com a
osteoporose)

ESTUDO DE CASO: Vivendo com Esclerose Lateral Amiotrófica

Este estudo de caso destina­se a ilustrar os diferentes aspectos de saúde pública e de políticas públicas com
que  uma  pessoa  e  sua  família  podem  se  confrontar  durante  uma  doença  ou  na  instalação  de  uma
incapacidade.

Toby  é  um  homem  de  57  anos  de  idade  que  foi  recentemente  diagnosticado  com  esclerose  lateral
amiotrófica (ELA). Antes de seu diagnóstico, ele trabalhava como gerente de restaurante sem os benefícios
do seguro de saúde. Ele é capaz de trabalhar, mas se cansa facilmente. Seus médicos dizem que o curso
de sua doença é imprevisível e que ele poderia precisar de uma cadeira de rodas ao final do ano. Ele não
tinha seguro de saúde em seu emprego e não foi capaz de pagar as anuidades de um plano individual. Seus
dois  filhos  adolescentes  qualificaram­se  para  o  State  Children’s  Health  Insurance  Plan  e  recebem  os
cuidados médicos rotineiros. Sua esposa, que também trabalha em horário integral, tem um plano de saúde
limitado por meio de seu empregador. Quando Toby observou pela primeira vez os seus sintomas, fraqueza
e  dormência  crescente,  ele  foi  à  Emergência,  onde  foram  realizados  inúmeros  exames.  Ele  foi  mandado
para  casa  sem  diagnóstico.  Ele  retornou  várias  vezes,  a  cada  vez  queixando­se  de  que  estava  piorando.
Depois  de  sua  terceira  consulta,  ele  foi  diagnosticado  com  ELA,  uma  doença  neurodegenerativa  que
comumente ataca os neurônios motores superiores e inferiores e causa degeneração em todo o cérebro e
na medula espinhal. Um sintoma inicial comum é a fraqueza sem dor na mão, no pé, no braço ou na perna,
o  que  acontece  em  mais  da  metade  dos  casos.  Os  outros  sintomas  iniciais  incluem  a  dificuldade  de  fala,
deglutição ou deambulação. Mais frequentemente, a doença afeta pessoas entre 40 e 70 anos de idade e
cerca de 30.000 norte­americanos manifestam a doença nesse período. A ELA é progressiva e geralmente
fatal (Amyotrophic Lateral Sclerosis Association, 2004). O médico da Emergência recomendou que Toby se
candidatasse ao Seguro por Incapacidade da Previdência Social (SIPS) e ao Medicaid. Toby não conhecia
estes  programas  e  foi  ao  escritório  da  Previdência  Social  para  solicitar  sua  inscrição.  Isto  foi  o  que  ele
aprendeu sobre SIPS, Medicaid e Medicare.

Programas de Habilitação: Seguro por Incapacidade da Previdência Social, Renda
Previdenciária Suplementar, Medicaid e Medicare
O  Seguro  por  Incapacidade  da  Previdência  Social  (SIPS)  é  um  programa  público  para  pessoas  que  se
encaixam na definição médica de “incapacidade” e que trabalharam pelo menos 10 anos e pagaram as taxas
FICA por 5 dos últimos 10 anos de emprego. Para ser considerada incapacitada, uma pessoa deve provar
que ela é incapaz de realizar atividade de remuneração substancial durante um período de 12 meses ou que
se  espera  ser  de  12  meses.  Quando  um  médico  credenciado  determina  que  a  pessoa  está  incapacitada,
calcula­se  um  benefício  com  base  nos  rendimentos  obtidos  durante  o  período.  O  valor  é  de
aproximadamente  85%  dos  maiores  salários  recebidos  nos  últimos  anos.  Este  programa  é  diferente  da
Renda Previdenciária Suplementar (RPS). A renda previdenciária suplementar está disponível para pessoas
que  se  encaixam  na  definição  legal  de  incapacidade,  sendo  também  incapazes  de  realizar  atividade  de
remuneração  substancial,  e  que  são  “indigentes”.  Isto  significa  que  elas  têm  renda  anual  menor  que  US$
2.000,00 e não têm um histórico de recebimento de salário substancial. O State Children’s Health Insurance
Program (P. L. 105­33), Capítulo XXI do Social Security Act, permite que os estados ampliem a elegibilidade
para o Medicaid para crianças de baixa renda sem seguro. Em consequência da lei, os estados ampliaram a
elegibilidade para mais crianças. Para o adulto com incapacidade, o teto dos rendimentos fica em torno de
US$ 690,00 por mês, dependendo da fonte de renda (salário ou não). Acima desse limite, a pessoa pode ser
elegível para o Medicaid, mas é responsável por um percentual dos custos mensais (denominado franquia).
Por  exemplo,  um  adulto  que  recebe  US$  1.800,00  de  RPS  teria  que  pagar  franquia  de  US$  1.300,00  por
mês para se qualificar para o Medicaid. Cada um de seus filhos seria alocado como uma exceção, mas os
estados têm opções para isentar diferentes tipos de rendimentos e despesas clínicas necessárias.
Quando a pessoa é elegível para a isenção, os limites de renda são mais altos para a qualificação para o
Medicaid,  porém  a  pessoa  deve  pagar  uma  mensalidade  (chamada  custo  de  tratamento).  As  isenções  do
Medicaid estão autorizadas pela seção 1915 (c) do Social Security Act e permitem que o Secretário do U. S.
Department  of  Health  and  Human  Services  isente  determinados  requisitos  legais  do  Medicaid.  Em
consequência  disso,  os  estados  podem  pagar  por  serviços  domiciliares  e  comunitários  (HCBS)  para
determinadas  populações.  Pelo  Deficit  Reduction  Act  de  2006,  os  serviços  que  antes  necessitavam  de
isenção  podem  ser  oferecidos  como  um  benefício  opcional.  No  entanto,  se  os  estados  optam  por  assumir
essa  provisão,  eles  também  podem  limitar  o  número  de  pessoas  que  recebem  os  serviços,  o  que  muitos
acreditam reduzir o credenciamento do Medicaid para os serviços. Em muitas famílias, como consequência,
as  crianças  têm  seguro  de  saúde,  enquanto  seus  pais  não  os  têm.  Por  exemplo,  em  New  Hampshire,  as
crianças podem receber o “Healthy Kids” Medicaid se o rendimento da família é 300% menor do que o nível
federal  de  pobreza  (baseado  no  número  de  pessoas  no  domicílio).  Para  uma  família  de  dois  adultos  com
dois  filhos,  isto  representa  uma  renda  anual  de  cerca  de  US$  28.000,00.  Os  adultos  não  receberão  o
Medicaid, a menos que a família seja de baixa renda e os adultos tenham alguma incapacidade.
Os indivíduos são elegíveis para o Medicaid se eles ou seus cônjuges trabalharam pelo menos 10 anos e
tiveram  os  descontos  em  folha  e  têm  65  anos  de  idade  ou  estão  em  uma  determinada  categoria  de
incapacidade. As pessoas portadoras de ELA também se qualificam para o Medicare ainda que não tenham
65 anos de idade. Existe uma provisão especial para esta população. Nestas situações, elas são elegíveis
para  o  Medicaid  e  para  o  Medicare.  O  Medicare  é  um  seguro  federal  de  saúde  pública  fornecido  a  cada
norte­americano com mais de 65 anos e para alguns outros grupos, incluindo aqueles que receberam SIPS
por  dois  anos,  aqueles  com  insuficiência  renal  e  aqueles  com  ELA  antes  da  idade.  Existem  outros  grupos
específicos,  conforme  descrito  na  regulamentação,  que  também  se  qualificam.  O  Medicare  custeia
hospitalizações e despesas médicas e, mais recentemente, por meio da Parte D, medicamentos prescritos.
É  financiado  pelos  valores  descontados  em  folha  pelo  empregador  e  pelo  empregado  sobre  o  salário  e
valores mensais deduzidos dos cheques do Seguro Social. O sistema não paga muitas despesas associadas
ao tratamento de longa duração.

Toby qualifica­se para o SIPS, de acordo com seu médico e com o escritório da Previdência Social. Foi
dito  a  ele  que  o  processo  de  determinação  de  incapacidade  levará  provavelmente  60  a  90  dias,  e  que  a
partir  dessa  data  ele  terá  um  período  de  espera  de  seis  meses  a  partir  do  momento  em  que  ele  for
considerado  elegível  até  receber  o  seu  primeiro  cheque  de  SIPS.  Nesse  meio  tempo,  Toby  precisa  de
tratamento  médico  contínuo,  incluindo  equipamentos  de  adaptação  para  ajudá­lo  nas  tarefas  diárias.  Ele
precisará de um andador e, mais tarde, de uma cadeira de rodas, além de fisioterapia e terapia ocupacional
no futuro. Também existem diversos medicamentos recomendados que são muito caros. Toby dependerá do
salário de sua esposa e de suas economias até que comece a receber o cheque mensal do SIPS. Toby é
elegível  para  o  Medicare  por  ser  portador  de  ELA.  Ele  poderia  se  qualificar  para  o  Medicaid  porque  se
encaixou  na  definição  de  incapacidade.  Contudo,  ele  também  deve  qualificar­se  com  base  em  seus
rendimentos  (renda  inferior  a  US$13.330,00  para  uma  família  de  três  pessoas).  Para  qualificar­se,  ele
precisaria gastar parte de seu rendimento e precisaria ter US$ 2.500,00 ou menos em ativos liquidáveis.

Medicaid
O Medicaid, ou Capítulo XIX do Social Security Act, é um programa administrado pelo estado para pessoas
que  se  encaixam  em  determinadas  categorias  de  elegibilidade  e  apresentam  renda  limitada.  Estas
categorias incluem crianças, mulheres grávidas e indivíduos com incapacidades e/ou com mais de 65 anos
de  idade.  O  governo  federal  contribui  com  parcela  igual  à  do  governo  estadual,  utilizando  uma  fórmula
complicada  baseada  nas  características  demográficas  do  estado.  O  programa  Medicaid  não  foi  idealizado
para  pessoas  que  são  apenas  pobres.  Elas  também  devem  estar  em  uma  das  categorias  de  eleição.  A
Kaiser Commission (2006) relatou que, em 2005, o Medicaid forneceu cobertura de seguro para 52 milhões
de  indivíduos.  Seu  orçamento  cresceu  em  um  terço  desde  2001.  O  crescimento  está  relacionado  ao
aumento no número de pessoas na pobreza e daquelas sem seguro privado de saúde. São os seguintes os
grupos reconhecidamente necessitados (Centers for Medicaid and Medicare Services, 2006):

Os  indivíduos  que  se  encaixam  no  programa  Aid  to  Families  with  Dependent  Children  (AFDC)  que
estavam ativos em seu estado em 16 de julho de 1996
Crianças com menos de 6 anos de idade cuja renda familiar é ou está abaixo de 133% do nível federal
de pobreza (FPL)
Mulheres  grávidas  cuja  renda  familiar  está  abaixo  de  133%  do  FPL  (os  serviços  para  estas  mulheres
são limitados àqueles relacionados à gravidez, às complicações da gestação, ao parto e aos cuidados
pós­parto)
Beneficiários  da  Renda  Previdenciária  Suplementar  (RPS)  na  maioria  dos  estados  (alguns  estados
utilizam os requisitos de restrição de elegibilidade do Medicaid que antecedem o RPS)
Beneficiários de assistência à adoção ou guarda temporária pelo Capítulo IV do Social Security Act
Grupos protegidos especiais (tipicamente, os indivíduos que perdem sua assistência em dinheiro devido
ao aumento dos ganhos em decorrência do trabalho ou de benefícios da Previdência Social, mas que
podem manter o Medicaid por um período)
Todas  as  crianças  nascidas  depois  de  30  de  setembro  de  1983  que  estão  com  menos  de  19  anos  de
idade e que estão em famílias com renda igual ou menor que o FPL
Alguns beneficiários do Medicare

Também  existem  grupos  opcionais  (CMS,  2006)  para  os  quais  os  estados  podem  decidir  conceder  a
cobertura do Medicaid. Estes incluem os seguintes:

Bebês com até 1 ano de idade e mulheres grávidas não cobertos pelas regras obrigatórias, cuja renda
familiar não seja maior que 185% do FPL (o percentual é estabelecido por cada estado)
Crianças com menos de 21 anos de idade que se encaixam em critérios mais liberais do que a renda
para o AFDC e a requisição de recursos que estavam ativas em seu estado em 16 de julho de 1996
Indivíduos institucionalizados elegíveis por um “nível de rendimentos especial” (a quantia é estabelecida
por cada estado – até 300% da taxa de benefício federal RPS)
Indivíduos que seriam elegíveis quando institucionalizados, mas que estão recebendo os cuidados por
isenções do HCBS
Determinados  adultos  idosos,  cegos  ou  incapacitados  que  apresentam  renda  maior  do  que  os  valores
de cobertura obrigatória, mas que estão abaixo do nível federal de pobreza (FPL)
Beneficiários do pagamento de renda suplementar estadual
Determinados  trabalhadores  e  incapacitados  com  renda  familiar  inferior  a  250%  do  FPL  que  se
qualificariam para o RPS se não trabalhassem
Indivíduos  com  tuberculose  que  seriam  financeiramente  elegíveis  para  o  Medicaid  quanto  à  renda  do
RPS  caso  estivessem  dentro  de  uma  categoria  coberta  pelo  Medicaid  (no  entanto,  a  cobertura  é
limitada aos serviços ambulatoriais relacionados à tuberculose e aos medicamentos para o tratamento
da tuberculose)
Determinadas  mulheres  sem  seguro  ou  com  baixa  renda  com  diagnóstico  de  câncer  de  mama  ou  de
colo  de  útero  por  meio  de  um  programa  administrado  pelo  CDC.  A  Lei  para Prevenção e Tratamento
para o Câncer de Mama e Colo do Útero, de 2000 (P.L. 106­354) concede a estas mulheres assistência
médica e serviços diagnósticos de acompanhamento por meio do Medicaid
“Crianças de baixa renda opcionais” incluídas no Programa de Seguro de Saúde de Crianças do estado,
estabelecido pela Lei do Orçamento Equilibrado, de 1997 (P.L. 105­33)
Indivíduos “clinicamente necessitados”

Como  cada  estado  idealiza  e  administra  seu  próprio  programa,  a  elegibilidade  e  os  benefícios  variam.
Uma  pessoa  poderia  ser  elegível  em  um  estado  e  ser  considerada  inelegível  em  outro.  Além  disso,  uma
pessoa  poderia  receber  um  conjunto  de  serviços  em  um  estado  e  um  conjunto  diferente  em  outro.  O
Medicaid custeia serviços médicos, tanto cuidados intensivos como cuidados de longo prazo. Estes incluem
o seguinte:

Serviços hospitalares para pacientes internados
Serviços hospitalares para pacientes ambulatoriais
Cuidados pré­natais
Vacinas para crianças
Serviços médicos
Serviços de enfermagem para pessoas com 21 anos de idade ou mais
Suprimentos e serviços de planejamento familiar
Serviços de saúde em clínica rural
Cuidados  domiciliares  de  saúde  para  indivíduos  que  são  elegíveis  para  serviços  de  enfermagem
especializada
Serviços de laboratório e radiografia
Serviços de enfermeiras especializadas em crianças e na família
Serviços de enfermeira parteira
Serviços de centro de saúde qualificado em nível federal
Serviços de investigação, diagnóstico e tratamento precoce e periódico para crianças com menos de 21
anos de idade

Os  estados  também  podem  optar  por  receber  recursos  federais  comparáveis  ao  Medicaid  para  serviços
opcionais. Estes incluem serviços diagnósticos, serviços clínicos, instituições de cuidado  intermediário  para
pessoas com atraso mental, medicamentos prescritos e próteses, serviços de optometria e óculos, serviços
em  instituições  de  enfermagem  para  crianças  com  menos  de  21  anos  de  idade,  serviços  de  transporte,
serviços de terapia ocupacional e fisioterapia, cuidado domiciliar e comunitário para determinados indivíduos
com comprometimentos crônicos e outros (CMS, 2006). O nível de reembolso para esses serviços varia. Em
alguns  casos,  médicos  particulares  se  recusarão  a  atender  beneficiários  do  Medicaid  porque  o  reembolso
por seus serviços é inferior a 25% do custo da prestação dos serviços. Esta é uma enorme barreira para o
acesso ao cuidado de saúde de boa qualidade, incluindo o cuidado odontológico.

Atualmente, Toby não se qualifica para os serviços do Medicaid com base no plano estadual. Ele também
tem  muitos  bens  e  vêm  economizando  para  a  educação  de  seus  filhos.  O  rendimento  de  sua  esposa
também é considerado disponível para ele. Para receber os serviços do Medicaid, ele precisará gastar suas
economias. Sua casa e seu carro não contam contra suas posses. Seu cheque mensal do SIRS previsto não
será mais que cerca de US$ 1.800,00 por mês. Ele rapidamente se tornará pobre, pois seus gastos médicos
não  reembolsáveis  aumentam  com  sua  doença.  Neste  ponto,  ele  irá  se  qualificar  financeiramente  para  o
Medicaid. Os médicos de Toby dizem que ele poderia se internar em uma clínica de repouso. Ele não quer
isso.  Ele  deseja  permanecer  em  casa  com  sua  família  e  receber  tratamento  domiciliar.  Um  programa  do
Medicaid estadual estabelecido por meio de uma opção chamada Isenção para Idosos e Doentes Crônicos
(IDC)  paga  os  gastos  do  tratamento  de  longa  duração  e  poderia  ajudá­lo.  Toby  ligou  para  o  escritório  do
Medicaid para se informar sobre a obtenção dos serviços de isenção. Foi dito a ele que, no seu estado, o
limite para o atendimento domiciliar e comunitário pela Isenção IDC é que o custo dos serviços precisa ser
inferior  a  50%  do  de  uma  clínica  de  repouso.  Isto  significa  que,  se  os  seus  serviços  excedem  o  limite  de
50%, ele precisará ir para uma clínica de repouso para receber o cuidado necessário, mesmo quando este
pode ser fornecido em casa. Alguns críticos referem­se a isso como uma tendência à institucionalização do
programa  do  Medicaid.  Como  Toby  tem  uma  incapacidade,  ele  pode  receber  o  Medicaid,  mas  precisará
gastar suas economias com o passar do tempo para permanecer qualificado.
Cuidado Comunitário
As áreas de incapacidade, doença crônica e envelhecimento têm observado inúmeras mudanças ao longo
da última década. Esta tendência ideológica e legislativa da institucionalização para o atendimento domiciliar
e comunitário tem sido apenas em parte apoiada por políticas fiscais com importantes incentivos no Capítulo
XIX (Isenções para os Estados pela Assistência Médica) e no Capítulo XVIII (Seguro de Saúde para o Idoso
e  Incapacitado)  em  programas  da  Lei  de  Seguridade  Social  e  estruturas  fiscais  que  apoiam  o  cuidado
institucional.  A  alocação  de  recursos  tem  variado  amplamente  entre  os  grupos  e  os  estados,  não
favorecendo  necessariamente  o  suporte  comunitário.  O  desequilíbrio  tem  produzido  uma  população  de
pessoas  institucionalizadas  com  incapacidades  do  desenvolvimento,  bem  como  numerosa  população  de
idosos em clínicas de repouso. Isso também tem estabelecido um conjunto de interesses diferentes entre os
profissionais e a equipe de atendimento direto empregados nessa área. Existe um poderoso protecionismo
às clínicas de repouso nos Estados Unidos que rejeitou o abandono da tendência institucional no programa
Medicaid. As pessoas que necessitam de serviços e suporte de longo prazo precisam desesperadamente de
alguma alternativa, de modo a superar as atuais tendências de custeio institucional. Sob a Lei de  Redução
de  Déficit  (2005),  os  estados  podem  fornecer  serviços  domiciliares  e  comunitários  como  parte  de  seu
programa estadual sem procurar uma isenção específica para isso. Isso tem o potencial de melhorar a oferta
do cuidado domiciliar e comunitário e de abandonar a tendência institucional nos serviços do Medicaid. No
entanto,  existem  esforços  permanentes  para  restringir  o  acesso  ao  Medicaid  por  causa  de  seu  rápido
crescimento.

Toby  compreende  que  ele  e  sua  família  enfrentam  desafios  significativos.  Ele  procurou  a  ajuda  de  um
grupo de apoio para ELA que realiza reuniões mensais. Ele sente que está aprendendo mais a respeito da
doença e de sua incapacidade. Um dos membros do grupo sugeriu que ele faça contato com o Centro de
Vida Independente para ajudar com os benefícios do aconselhamento e dos serviços de assistência pessoal.
Estes serviços consistem em ajuda formal e informal fornecida para as pessoas com incapacidades de modo
a  auxiliá­las  nas  atividades  da  vida  diária.  O  Centro  de  Vida  Independente  presta  serviços  de  assistência
pessoal.  O  grupo  também  sugeriu  que  Toby  contatasse  o  Centro  de  Tecnologia  de  Assistência  para
conhecer aparelhos que poderiam ajudá­lo. Ele contatou ambos e recebeu inúmeras ideias e apoio para o
presente e o futuro.

Política Contemporânea para a Incapacidade: Vida Independente, Inclusão e Opção
Os  valores  fundamentais  da  política  contemporânea  para  a  incapacidade  têm  como  base  a  vida
independente, as mesmas oportunidades, a autodeterminação, a inclusão e a participação na comunidade.
As  legislações  federal  e  estadual  incorporam  amplamente  os  princípios  da  não  discriminação;  ambiente
minimamente  restritivo;  acesso  a  educação,  emprego  e  moradia;  e  decisão  e  controle  pelo  consumidor.  O
Americans with Disabilities Act (1990) promove o acesso a programas e instalações públicos e privados, ao
mesmo tempo que proíbe a discriminação contra as pessoas com necessidades especiais. Muitos estados já
incluíram  a  linguagem  estatutária  na  legislação  que  trata  de  pessoas  com  incapacidades  e  aquelas  que
estão envelhecendo para assegurar a opção, o controle e o planejamento do consumidor. A Corte Suprema
norte­americana normatizou em Olmstead v. L. C. & E. W. (1999). Escrevendo para a maioria, a juíza Ruth
Bader  Ginsburg  disse  que,  pelo  Capítulo  II  da  lei  federal  Americans  with  Disabilities  Act:  “os  estados  são
obrigados  a  inserir  as  pessoas  com  incapacidades  mentais  em  ambientes  comunitários  em  vez  de
instituições, quando os profissionais de tratamento do estado determinarem que a inserção na comunidade é
apropriada,  a  transferência  do  ambiente  institucional  para  um  ambiente  menos  restritivo  não  recebe
oposição  pelo  indivíduo  afetado  e  a  inserção  pode  ser  razoavelmente  alcançada,  levando­se  em
consideração  os  recursos  disponíveis  para  o  Estado  e  as  necessidades  de  outros  com  incapacidades
mentais.”
A decisão dessa corte, bem como em outros casos estaduais, moveu o estímulo necessário para motivar
os  estados  a  desenvolverem  “Planos  Olmstead”  que  identifiquem  barreiras  para  a  vida  independente  na
comunidade.  Estas  barreiras,  relacionadas  com  a  atitude,  a  condição  financeira  e  a  política,  estão  sendo
abordadas de maneira sistemática em muitos estados. Cada vez mais pessoas estão rejeitando o cuidado
em  clínicas  de  repouso  e  outras  formas  de  cuidado  institucionalizado  em  favor  das  opções  domiciliar  e
comunitária.  Além  disso,  elas  procuram  maior  controle  em  relação  aos  serviços  e  ao  suporte  que  elas
realmente  recebem.  Novas  soluções,  como  os  serviços  de  assistência  pessoal,  pagamento  e
aconselhamento, e serviços e suportes autodirecionados, estão sendo desenvolvidos por todos os Estados
Unidos. O Pagamento e Aconselhamento, por exemplo, é um programa que fornece dinheiro na forma de
vale para indivíduos que desejam contratar seu atendimento fora do sistema de serviços existente.
Outras leis e políticas apoiam os princípios de inclusão e autodeterminação. O Individuals with Disabilities
Education  Improvement  Act  (2006)  promove  o  acesso  de  estudantes  com  incapacidades  aos  cursos  de
educação  básica.  O  Rehabilitation  Act,  de  1973,  proíbe  a  discriminação  pelas  entidades  que  recebem
assistência  federal  contra  a  discriminação  por  incapacidade.  O  Capítulo  VII  da  lei  autorizou  a  criação  dos
Centros de Vida Independente: instituições comunitárias, não residenciais, sem fins lucrativos, gerenciadas
por  e  para  pessoas  com  incapacidades,  que  fornecem  o  suporte  de  iguais,  defesa,  treinamento  de
habilidades  de  vida  independente,  informações  e  encaminhamento.  O  desenvolvimento  desses  centros
permite aos membros com incapacidade da comunidade identificar e ajudar a desenvolver soluções políticas
para  as  barreiras  políticas  e  falhas  existentes  nos  serviços.  Muitos  centros  fornecem  aparelhos  de
assistência, conserto de equipamentos, serviços de assistência pessoal e assistência de moradia, incluindo a
modificação da casa. Esta capacidade foi ampliada pela lei da  Tecnologia  de  Assistência  de  Pessoas  com
Incapacidades,  de  1988,  que  “fornece  assistência  financeira  para  que  os  Estados  realizem  atividades  que
auxiliem cada Estado a manter e fortalecer um programa estadual permanente e abrangente de tecnologia
de assistência para pessoas com necessidades especiais de todas as idades, e que se destina a aumentar a
oferta, o financiamento, o acesso e o fornecimento de dispositivos e serviços de tecnologia de assistência”. O
acesso  aos  dispositivos  de  assistência  permite  que  muitos  indivíduos  participem  de  maneira  plena  da
educação,  do  emprego  e  da  comunidade.  Ainda  assim,  não  aborda  necessariamente  as  questões
relacionadas ao modelo universal. Mace, Hardie e Place (1991) definiram modelo universal como o modelo
de produtos e ambientes que possa ser utilizado por todas as pessoas, o mais possível, sem a necessidade
de adaptação ou modelo especializado. Uma área em que o modelo universal foi aplicado é o domicílio. As
casas  estão  sendo  idealizadas  de  modo  que  as  pessoas  cadeirantes  ou  que  precisem  de  suporte  para  a
mobilidade  possam  entrar  pela  porta  da  frente  e  usar  os  banheiros  e  as  cozinhas.  O  movimento  da
visitabilidade reconhece que nossas residências devem ser capazes de acomodar nossos parentes idosos e
amigos portadores de incapacidades. (Veja os Capítulos 19 e 61 para saber mais sobre visitabilidade.)

Passaram­se  três  anos  desde  que  Toby  foi  diagnosticado  com  ELA.  Atualmente,  ele  faz  uso  de  uma
cadeira de rodas e precisa de assistência para se vestir e para se alimentar. Sua doença parece ter reduzido
a  velocidade  de  progressão  nos  últimos  três  meses.  Por  causa  dos  gastos  médicos  excessivos,  durante  o
último ano, Toby qualificou­se para o Medicaid e foi capaz de se qualificar para o perdão do HCBS sob o ECI
Waiver oferecido pelo estado. Ele continua a receber o Medicare, que não cobre de modo suficiente todo o
seu gasto médico, e mesmo com a nova opção para medicamento prescrito do Medicaid (Parte D), ele tem
de  pagar  por  muitos  dos  medicamentos  de  que  necessita.  Por  causa  da  isenção,  ele  está  recebendo  os
serviços de enfermagem e de cuidados domiciliares em sua casa. No entanto, de acordo com a isenção, ele
pode receber no máximo de US$16.000,00 por ano para todos os seus atendimentos. A agência de saúde
domiciliar cobra ao estado pelos serviços US$30,00 por hora. Isto significa que Toby pode receber apenas
533  horas  de  atendimento  por  ano,  ou  44  horas  de  atendimento  por  mês.  A  esposa  e  os  filhos  de  Toby
também estão ajudando, mas a quantidade de atendimentos não é suficiente para suas necessidades. Sua
esposa  precisa  manter  seu  emprego  em  horário  integral  para  fazer  frente  aos  gastos.  Além  disso,  houve
ocasiões  em  que  uma  enfermeira  não  estava  disponível.  Ocorrem  frequentes  mudanças  no  quadro  de
pessoal  e,  em  diversas  situações,  a  esposa  de  Toby  precisou  chegar  atrasada  ou  faltar  ao  emprego  para
cuidar  de  Toby.  Seus  demais  parentes  fornecem  alguma  ajuda,  mas  eles  não  são  capazes  de  preencher
todos os vazios. Toby e sua esposa, com o apoio do Centro de Vida Independente, estão administrando seu
próprio  atendimento  e  decidiram  que  não  é  necessário  o  cuidado  de  enfermagem.  Eles  estão  arranjando
para que uma assistente de cuidados pessoal sob a Opção de Cuidado Dirigido pelo Consumidor forneça o
apoio  pela  metade  dos  custos  dos  serviços  de  cuidados  domiciliares.  Isto  significa  que  Toby  e  sua  família
receberão  aproximadamente  duas  vezes  mais  serviços,  ou  88  horas  por  mês.  Eles  imaginam  por  quanto
tempo conseguirão se manter com apenas 22 horas de serviço por semana.
O transporte também é um problema. Embora a família tenha um utilitário, este é o único veículo. Quando
Toby tem uma consulta médica, sua esposa precisa perder um dia de trabalho, ou Toby precisa utilizar os
serviços de transporte especializado. Sair apenas por sair de casa, quando sua esposa está trabalhando, é
quase impossível por falta de um transporte acessível de rota fixa ou de transporte alternativo. Toby é uma
pessoa praticamente presa em casa.

Autodirecionamento e Cuidado Direcionado para o Consumidor
O  controle  em  relação  à  própria  vida  foi  positivamente  correlacionado  com  a  boa  saúde  e  com  a  boa
autoestima.  Wagner,  Nadash,  Friedman,  Litvak  e  Eckels  (1996)  propuseram  princípios  dos  serviços
domiciliares  e  comunitários  direcionados  para  o  consumidor  para  idosos  e  pessoas  com  necessidades
especiais. Wehmeyer e Schwartz (1997) demonstraram, em um estudo de acompanhamento, que os adultos
jovens  com  atraso  mental  que  exibiam  comportamentos  mais  autodeterminados  solucionavam  mais
facilmente  os  problemas;  eram  mais  assertivos  e  mais  autoconscientes;  e  detinham  percepções  de
adaptação significativamente maiores de controle, autoeficácia, expectativa de resultado e autoestima. Estes
achados  foram  apoiados  por  outros  que  estudam  a  habilitação  e  o  estado  de  saúde  geral.  Portanto,  o
modelo  de  qualquer  sistema  de  saúde  pública  deve  reduzir  a  dependência  das  pessoas  de  estruturas
médicas  formais  e  integrar  os  princípios  de  autodeterminação  e  controle  pelo  consumidor.  Pagamento  e
Aconselhamento é uma abordagem reconhecida nacionalmente que fornece aos participantes do Medicaid a
capacidade  de  pagar  diretamente  por  seus  próprios  atendimentos  e  suporte  por  meio  de  um  sistema
semelhante a um vale com apoio dos coordenadores do serviço ou gerentes de caso. Em uma avaliação dos
projetos de demonstração de Pagamento e Aconselhamento de três estados (Dale, Brown & Shapiro, 2005),
os  participantes  citaram  os  seguintes  motivos  para  a  participação:  mais  controle  sobre  a  contratação  de
cuidadores, contratação da família e de amigos, recebimento de cuidado em horários mais convenientes e
cuidados  maiores  e  de  melhor  qualidade.  O  Pagamento  e  Aconselhamento  foi  implementado  em  três
estados e atualmente está sendo replicado com suporte da Robert Wood Johnson Foundation em outros 12
estados.  A  conduta  para  o  fornecimento  do  serviço  é  apoiada  pelo  CMS  através  da  Isenção  de
Independência  Adicional.  Esta  isenção  foi  especificamente  informada  por  demonstrações  do  Pagamento  e
Aconselhamento,  bem  como  por  demonstrações  de  Autodeterminação  que  foram  implementadas  em  12
estados.  O  CMS  reporta  que:  “estes  programas  proporcionaram  aos  receptores  do  serviço  ou  a  suas
famílias a opção de dirigir o desenho e o fornecimento dos serviços e suportes, de evitar a institucionalização
desnecessária,  de  experimentar  níveis  mais  elevados  de  satisfação  e  de  maximizar  o  uso  eficiente  dos
serviços  e  suportes  comunitários”  (CMS,  2006).  Para  que  os  estados  recebam  uma  Isenção  de
Independência Adicional, eles devem incluir os seguintes componentes em seus Planos do Medicaid:

Planejamento centrado na pessoa: Um processo, dirigido pelo participante, destinado a identificar as
forças, as capacidades, as preferências, as necessidades e os resultados desejados do participante.
Orçamento individual: A quantidade total de dinheiro dos serviços e suportes, conforme especificado
no plano de cuidados, sob o controle e a direção do participante do programa.
Serviços e suportes autodirigidos: Um sistema de atividades que ajuda o participante a desenvolver,
implementar e gerenciar os serviços de suporte identificados em seu orçamento individual.
Garantia de qualidade e melhoria da qualidade (QA/QI): O modelo QA/QI será erguido sobre a base
existente, introduzida formalmente sob a Estrutura de Qualidade do CMS, de descoberta, remediação e
melhoria contínua (CMS, 2006).

Toby está precisando cada vez mais de cuidados. Ele deixou claro que não deseja ir para uma clínica de
repouso.  Ele  está  apresentando  dificuldade  de  deglutição  e  está  utilizando  alguns  métodos  alternativos  de
alimentação. Durante anos, ele usou o suporte respiratório durante a noite. Seus médicos acreditam que ele
não  irá  sobreviver  por  mais  de  três  meses.  Seus  filhos,  atualmente  na  universidade,  o  visitam  com
frequência. Sua mulher continua a trabalhar. O Medicare está pagando por seu cuidado médico domiciliar. O
Medicaid  está  pagando  pelos  serviços  de  assistência  pessoal.  Toby  permanece  no  controle  de  sua  vida  e
das decisões acerca de seu tratamento.

Conclusão
Toby  e  sua  família  precisaram  atravessar  os  complicados  sistemas  de  cuidados  de  saúde  e  de  serviços
sociais. A falta de coordenação dos cuidados por agências de serviços humanos e a falta de acesso dentro
da  comunidade  desafiaram  os  recursos  intelectuais,  físicos  e  financeiros  da  família.  No  entanto,  novos
modelos que enfatizam a autodireção, o engajamento comunitário e o cuidado coordenado podem promover
novas  oportunidades  para  que  profissionais  e  pessoas  com  incapacidades  trabalhem  em  conjunto  para
conseguir  melhores  políticas  públicas  que  resultem  em  melhores  resultados  de  saúde  para  todas  as
pessoas. Estes modelos fazem parte de um sistema de saúde pública maior que permanece fragmentado, é
de difícil travessia e é focalizado no tratamento em lugar da prevenção. As mudanças desses sistemas serão
realizadas apenas mediante esforços de defesa organizados em favor das pessoas e com as pessoas que
não têm seguro de saúde e que precisam de serviços de assistência pessoal e de programas de suporte de
renda baseados na comunidade. Existem poderosos interesses que devem ser organizados antes que haja
qualquer desvio fundamental no sistema de saúde dos Estados Unidos.
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Promoção da Saúde
LORI LETTS

Sumário
Introdução
Definições de Saúde
Abordagens para a Saúde
A Abordagem Médica para a Saúde
A Abordagem Comportamental para a Saúde
A Abordagem Socioambiental para a Saúde
Pensando Contra a Corrente: Uma Metáfora Poderosa
Determinantes da Saúde
Promoção da Saúde
Princípios
Processo
Abordagens para a Promoção da Saúde
Conceitos Relacionados à Promoção da Saúde
Saúde da População
Saúde Pública
Cuidados Primários de Saúde
Adiamento da Incapacidade
Prevenção de Doença e Lesão
Desenvolvimento da Comunidade e Construção da Capacidade
Promoção da Saúde e Terapia Ocupacional
Relações Conceituais
Exemplos Práticos: Envelhecimento Saudável
Exemplos Práticos: Promoção da Saúde no Local de Trabalho
Desafios e Oportunidades para a Terapia Ocupacional na Promoção da Saúde
Conclusões

Objetivos de Aprendizagem
Após a leitura deste capítulo, você será capaz de:
1. Compreender as definições e as abordagens da saúde.
2. Familiarizar­se  com  a  terminologia  comum  empregada  em  relação  à  saúde  e  à  promoção  da
saúde.
3. Compreender os princípios e o processo da promoção da saúde.
4. Compreender como os terapeutas ocupacionais podem participar da promoção da saúde.
INTRODUÇÃO
A promoção da saúde parece alguma coisa que os terapeutas ocupacionais devem ser capazes de realizar muito
facilmente.  A  meta  da  profissão  consiste  em  promover  a  saúde  por  meio  do  engajamento  em  ocupações
significativas. Esta meta aplica­se igualmente às pessoas que enfrentam desafios no desempenho ocupacional, às
pessoas com necessidades especiais e às pessoas saudáveis e independentes. Como a terapia ocupacional baseia­
se  na  premissa  da  importância  da  saúde  por  meio  da  ocupação,  parece  natural  que  os  terapeutas  ocupacionais
estejam  envolvidos  na  promoção  da  saúde;  promover  a  saúde  por  meio  do  engajamento  significativo  na
ocupação  para  todos.  No  entanto,  a  promoção  da  saúde  é  compreendida  de  muitas  maneiras  distintas,  como
acontece com a própria saúde. A finalidade deste capítulo é fornecer definições de saúde, promoção de saúde e
de  termos  correlatos,  bem  como  compartilhar  ideias  sobre  como  os  terapeutas  ocupacionais  podem  aplicar  os
princípios da promoção da saúde na prática.

DEFINIÇÕES DE SAÚDE
Saúde pode ser definida de muitas maneiras, embora a definição da Organização Mundial de Saúde (OMS) seja,
provavelmente, aquela citada com maior frequência: “saúde é um estado de completo bem­estar físico, mental e
social, e não simplesmente a ausência de doença ou enfermidade” (WHO, 1948).
Embora  frequentemente  citada  por  muitos  dos  envolvidos  no  cuidado  da  saúde  e  na  promoção  da  saúde,  a
definição de saúde da OMS também tem sido criticada. Seedhouse (2001) observa inúmeros problemas com esta
definição. Ela implica que as pessoas podem não ser saudáveis, caso elas tenham uma doença ou enfermidade; as
definições de bem­estar físico, mental e social não são claras; e a definição de saúde é tão ideal que é impossível
ser alcançada. Callahan (conforme citado em Raeburn & Rootman, 1998) sugeriu que a definição de saúde da
OMS ameace a orientação e os custos dos serviços de saúde ao sugerir que qualquer coisa pode estar relacionada
com a saúde. As definições de enfermagem e acadêmicas de saúde tendem a ser multidimensionais, com ênfase
sobre os componentes biopsicossociais (Raeburn & Rootman, 1996). Evans e Stoddart (1990) sugerem que as
definições de saúde podem ser colocadas em um continuum com a definição da OMS em uma extremidade e a
definição tradicional de ausência de doença na outra.

ABORDAGENS PARA A SAÚDE
Dependendo  de  como  se  compreende  a  saúde,  e  mesmo  quando  a  definição  da  OMS  é  aceita,  existem  várias
maneiras  de  abordar  a  saúde.  Labonte  (1993)  fornece  uma  estrutura  para  descrever  como  as  diferentes
compreensões  de  saúde  levam  a  diferentes  ações  ou  abordagens  para  lidar  com  os  problemas  de  saúde.  Estas
incluem  as  abordagens  médica,  comportamental  e  socioambiental  para  a  saúde.  Labonte  observa  que  as
diferenças entre essas  abordagens  nem sempre  são  nítidas;  nem  os  profissionais de saúde seguem apenas uma
abordagem.  Pelo  contrário,  elas  representam  abordagens  globais  que  trazem  à  luz  as  diversas  maneiras  pelas
quais os problemas de saúde são compreendidos e tratados. Essas abordagens estão resumidas na Tabela 18.1.

A Abordagem Médica para a Saúde
Na  abordagem  médica,  os  problemas  de  saúde  são  compreendidos  principalmente  em  relação  aos  estados
patológicos,  incluindo  problemas  de  saúde  comuns,  como  câncer,  doença  cardiovascular,  diabetes,  doenças
mentais,  hipertensão  e  AIDS,  bem  como  as  lesões  que  precisam  ser  tratadas  nas  Emergências.  A  abordagem
médica  para  promoção  da  saúde  identifica  os  fatores  de  risco  para  esses  estados  patológicos  e  trabalha  para
evitar  as  doenças  ao  diminuir  os  fatores  de  risco.  Isto  é  feito  por  meio  de  intervenções  como  medicamentos,
tratamento  da  doença  em  hospitais,  programas  de  redução  do  tabagismo  ou  programas  de  alimentação  com
supervisão médica e investigação de outros fatores de risco, como níveis de colesterol ou pressão arterial. Com
relação à prevenção, o foco da abordagem médica está em evitar que uma pessoa fique mais doente ou morra, o
que, às vezes, é descrito como prevenção terciária. A abordagem médica enfoca os resultados, como taxas de
morbidade, taxas de mortalidade e menor prevalência dos fatores de risco para a doença (Labonte, 1993).
TABELA 18.1 ABORDAGENS PARA A SAÚDE
Abordagem Médica Comportamental Socioambiental
Definição de Biomédica; ausência Individualizada; capacidade Estado positivo; capacidade para
saúde de doença ou de funcional física, bem­estar fazer as coisas que são
incapacidade físico importantes e que têm
significado
Alvos para as Indivíduos com Adultos e crianças em alto Condições ou ambiente de alto
iniciativas problemas de saúde risco para problemas de risco para problemas de saúde
de saúde e ou em alto risco para saúde, para lidar com os como pobreza, desemprego,
problemas problemas de saúde, problemas de saúde como poluição, condições perigosas
de saúde como câncer, tabagismo, falta de aptidão de trabalho
diabetes, obesidade física, capacidades
limitadas de vida
Estratégias Tratamento de Melhoria do estilo de vida ou Criação de ambientes saudáveis
para problemas de saúde criação de estilos de vida e criação de estilos de vida
melhorar a por meio de: cirurgia, saudáveis por meio da saudáveis por meio da
saúde medicamentos, educação de saúde, capacitação pessoal,
cuidado com a promoção social, defesa organização da comunidade,
doença, mudanças de políticas públicas que desenvolvimento de pequenos
de comportamento sustentem as opções de grupos, ação política e defesa
controladas estilo de vida da coalizão
clinicamente

Os terapeutas ocupacionais que trabalham com pessoas com lesão cerebral pós­traumática ou em centros de
reabilitação  para  pessoas  que  sofreram  acidentes  vasculares  cerebrais  frequentemente  adotam  a  abordagem
médica para a saúde. Em muitas situações, isso é bastante apropriado, pois os clientes procuram os terapeutas
com uma lesão aguda ou recente que é sensível ao tratamento para ajudá­los a retornar à sua condição anterior à
lesão.  Órteses,  condicionamento  para  o  trabalho  e  terapia  com  restrição  induzida  ao  movimento  podem  ser
técnicas adotadas pelos terapeutas ocupacionais que trabalham de acordo com a abordagem médica para a saúde.

A Abordagem Comportamental para a Saúde
A  abordagem  comportamental  para  a  saúde  focaliza­se  em  opções  individuais  de  estilo  de  vida,  com  a  saúde
estando,  com  frequência,  intimamente  relacionada  ao  bem­estar.  Os  problemas  de  saúde  são  principalmente
relacionados a fatores comportamentais de risco, e esta abordagem lida com comportamentos como tabagismo,
sedentarismo,  consumo  abusivo  de  drogas  e  álcool  ou  limitada  capacidade  para  lidar  com  o  estresse.  A
abordagem comportamental envolve a educação de saúde, o treinamento de habilidades de enfrentamento ou o
controle do estresse, a promoção social para ajudar as pessoas a optarem por um estilo de vida mais saudável
que, por sua vez, irá melhorar sua saúde, e encorajar as crianças a adotarem estilos de vida saudáveis desde os
primeiros  anos  de  vida.  Algumas  vezes,  as  estratégias  são  implementadas  em  nível  comunitário,  embora,
frequentemente,  as  preocupações  com  a  saúde  sejam  identificadas  e  estratégias  sejam  desenvolvidas  por
profissionais.  Se  o  foco  da  intervenção  se  faz  sobre  a  prevenção  de  doença  ou  lesão  pela  modificação  de
comportamentos de risco, isto é descrito como prevenção secundária. Se o foco se faz sobre o desenvolvimento
e a manutenção de comportamentos saudáveis, isto é prevenção primária. O sucesso é mensurado com base nas
alterações comportamentais e na redução dos fatores de risco comportamentais (Labonte, 1993).
A  American  Occupational  Therapy  Association  (AOTA)  (2001)  fornece  inúmeros  exemplos  que  ilustram
estratégias  para  promover  a  saúde  por  meio  de  uma  abordagem  comportamental,  incluindo  (para  nomear
algumas) educação e treinamento para evitar as incapacidades secundárias por meio de certas estratégias, como
as verificações regulares da glicemia e inspeções dos pés para pessoas com diabetes, orientação de cuidadores
sobre a mecânica corporal adequada para levantar um familiar com incapacidade, ensino do autotratamento para
pessoas com patologias crônicas e fornecimento de palestras sobre prevenção de quedas para idosos.

A Abordagem Socioambiental para a Saúde
A abordagem socioambiental para a saúde considera a saúde como um estado positivo que tem como principal
prioridade  as  conexões  sociais  com  a  família,  os  amigos  e  as  comunidades.  Os  problemas  de  saúde  são
compreendidos como atrelados às condições ambientais de risco e a fatores psicossociais de risco. Os exemplos
de  condições  de  risco  englobam  pobreza,  baixa  escolaridade,  desemprego  e  condições  de  vida  ou  de  trabalho
perigosas. Os fatores psicossociais de risco incluem aspectos como isolamento, estresse e redes sociais limitadas.
Labonte  (1993)  discute  cinco  estratégias  para  abordar  os  problemas  de  saúde  a  partir  da  perspectiva
socioambiental:  cuidados  pessoais,  desenvolvimento  de  pequenos  grupos,  organização  da  comunidade,
construção  e  defesa  da  coalizão  e  ação  política.  Estes  serão  discutidos  mais  adiante,  neste  capítulo,
especificamente  com  relação  à  promoção  da  saúde.  A  abordagem  socioambiental  está  centrada  na  prevenção
primária (criação de estilos saudáveis de vida) e na promoção da saúde (criação de condições de vida saudáveis).
O  sucesso  a  partir  da  perspectiva  socioambiental  baseia­se  em  indicadores  como  as  práticas  sustentáveis  do
ponto  de  vista  ambiental  nos  níveis  pessoal  e  público,  melhoria  das  redes  sociais  e  distribuição  social  mais
equânime do poder e dos recursos (Labonte, 1993).
Muitos  terapeutas  ocupacionais  que  trabalham  em  organizações  comunitárias  adotam  uma  abordagem
socioambiental para a saúde. Por exemplo, o Canadian Association of Occupational Therapists (CAOT) Seniors’
Health  Promotion  Project  (Letts,  Fraser,  Finlayson  &  Walls,  1993)  incluiu  iniciativas  como  um  programa  de
história  verbal  em  que  voluntários  experientes,  treinados  pelo  terapeuta  ocupacional,  visitavam  e  coletavam
histórias verbais de pessoas idosas presas à casa em Newfoundland. Os objetivos do programa de história verbal
consistiam  em  abordar  o  isolamento  social  de  pessoas  idosas  presas  à  casa  e  fomentar  o  desenvolvimento  da
habilidade  para  os  voluntários  experientes.  Em  Manitoba,  o  terapeuta  ocupacional  realizou  um  encontro
educacional com a equipe de um centro de recreação da comunidade para promover a inclusão de idosos com
incapacidades no programa regular de recreação do centro.
As  três  abordagens  para  a  saúde  aqui  descritas  são  complementares.  Elas  podem  ser  aplicadas  de  várias
maneiras para atender as metas de saúde. Os problemas são mais prováveis de surgir quando muitos recursos são
aplicados a uma conduta em detrimento das outras. A seguinte parábola ilustra este ponto e demonstra o valor de
cada uma dessas três condutas.

PENSANDO CONTRA A CORRENTE: UMA METÁFORA PODEROSA
Inúmeros documentos de promoção da saúde citam uma metáfora para explicar como a promoção da saúde pode
ser  concebida  como  diferente  das  abordagens  médicas  tradicionais  para  a  saúde.  A  metáfora,  embora  varie
dependendo  de  sua  fonte,  também  pode  ser  empregada  para  ilustrar  as  diferentes  abordagens  para  a  saúde
descritas  por  Labonte  (1993)  e  como  cada  uma  delas  tem  seu  lugar  nos  esforços  para  otimizar  a  saúde  das
pessoas e das comunidades.

Um  dia,  um  grupo  de  aldeões  estava  trabalhando  no  campo  próximo  ao  rio.  De  repente,  alguém  percebeu  um  homem
vindo na corrente, agitando­se na água. Um grupo de pessoas correu e salvou o homem, trazendo­o para a margem. Uma
mulher que ajudou a salvá­lo levou­o para casa para cuidar dele.
No  dia  seguinte,  havia  duas  pessoas,  um  homem  e  uma  mulher,  agitando­se  na  água,  e  as  pessoas  que  as  salvaram
levaram­nas para casa para cuidar delas. No terceiro dia, havia três pessoas. Logo, havia um fluxo contínuo de pessoas
que  precisavam  de  salvamento  no  rio.  Em  breve,  todo  o  vilarejo  estava  envolvido  na  atividade  de  tirar  pessoas  que  se
afogavam no rio e garantindo que elas fossem reabilitadas.
Um dia alguém decidiu ir corrente acima para descobrir como ou por que as pessoas acabavam caindo no rio. Surgiu
uma enorme controvérsia. Um grupo argumentou que eram necessárias todas as pessoas possíveis para salvar as pessoas
no  rio,  pois  elas  apenas  estavam  acompanhando  o  fluxo  da  corrente.  Outros  argumentaram  que,  se  eles  descobrissem
como as pessoas estavam caindo na água, poderiam impedir isto e não mais seria necessário salvar qualquer pessoa – ou
pelo  menos  com  a  mesma  frequência.  (Saskatoon  District  Health  Community  Development  Team  e  Dr.  Ron  Labonte,
1999, p. 1. Adaptado com permissão de Prairie Regional Health Promotion Research Center.)

Esta  parábola  pode  ser  utilizada  para  ilustrar  as  diferentes  abordagens  para  a  saúde  descritas  anteriormente.
Uma  abordagem  médica  resultaria  na  ação  que  as  pessoas  rio  abaixo  empregaram  em  primeiro  lugar;  isto  é,
fornecer  o  tratamento  e  a  reabilitação  para  as  pessoas  que  foram  salvas  do  rio.  Utilizando  a  abordagem
comportamental,  poderia  haver  tentativas  de  fornecer  a  prevenção  secundária  para  as  pessoas  depois  de  sua
recuperação. Por exemplo, as pessoas poderiam aprender a nadar depois de serem salvas, de modo que elas não
se desesperassem na água; elas poderiam ser instruídas a se comportar de maneira segura, de modo que elas não
caíssem; ou as pedras na água poderiam ser removidas ou modificadas de modo que as pessoas não viessem a se
ferir  ao  cair.  Em  um  nível  de  prevenção  primária,  utilizando  a  abordagem  comportamental,  o  foco  estaria  em
ajudar  as  crianças  mais  novas  a  adotar  estilos  de  vida  saudáveis,  inclusive  natação  e  aptidão  física  global,  de
modo que elas pudessem enfrentar melhor a situação, caso caíssem, e ensinar­lhes as práticas seguras na água
em uma fase precoce de suas vidas. De acordo com a abordagem socioambiental, o foco no nível de prevenção
primário seria a promoção de estilos de vida saudáveis nas crianças jovens. Também incluiria um foco sobre as
circunstâncias que resultam na queda das pessoas no rio. Por exemplo, os cais são mal idealizados? As pessoas
são  forçadas  a  trabalhar  próximo  à  borda  da  água  para  sua  sobrevivência?  O  que  pode  ser  mudado  em  seu
ambiente para tornar esta sobrevivência possível sem colocá­las em risco de cair na água?
A parábola também ilustra a necessidade de considerar as questões “rio acima” relacionadas aos problemas de
saúde,  independente  da  abordagem  adotada  para  lidar  com  a  saúde.  Todas  as  três  abordagens  consideram  os
fatores de risco para os problemas de saúde, embora eles assumam diferentes perspectivas sobre como o risco é
definido  e  compreendido.  Independente  disso,  existe  a  aceitação  da  necessidade  de  considerar  as  origens  dos
problemas da saúde. Nos últimos anos, os determinantes da saúde receberam atenção significativa na literatura
e nos campos da saúde pública e da promoção da saúde. Explorar os determinantes da saúde é uma maneira de
olhar contra a corrente, para melhor compreender a origem dos problemas de saúde.

DETERMINANTES DA SAÚDE
Considerando  a  necessidade  de  pensar  contra  a  corrente  e  as  várias  abordagens  para  a  saúde,  é  importante
compreender  os  fatores  que  determinam  o  que  torna  as  pessoas  saudáveis.  Se  estes  fatores  podem  ser
identificados,  múltiplos  setores  e  abordagens  podem  ser  mobilizados  para  melhorar  a  saúde  das  pessoas  e  das
comunidades.
A  saúde  é  determinada  por  muitos  fatores.  Em  um  relatório  nacional  norte­americano  intitulado  Healthy
People  2010,  os  determinantes  da  saúde  são  descritos  em  seis  categorias  amplas:  biologia,  comportamentos,
ambiente social, ambientes físicos, políticas e intervenções, e acesso ao cuidado de saúde de alta qualidade (U.
S.  Department  of  Health  and  Human  Services,  2000).  Diferentes  metas  e  objetivos  estão  relacionados  com  a
saúde global da nação e são relevantes para a terapia ocupacional. Por exemplo, os objetivos enfatizam a redução
da proporção de adultos com sintomas articulares crônicos que experimentam limitação de atividade em função
da  artrite  e  o  aumento  da  proporção  de  adultos  com  incapacidades  que  participam  de  atividades  sociais.  No
Healthy People 2010,  as  desigualdades  da  saúde  são  reconhecidas,  embora  elas  não  sejam  identificadas  como
determinantes  da  saúde.  São  percebidas  desigualdades  ou  diferenças  de  saúde  significativas  entre  grupos  de
pessoas de acordo com gênero, raça e etnia, renda e escolaridade, incapacidade, situação geográfica e orientação
sexual.  Embora  estes  não  sejam  descritos  como  determinantes  da  saúde  nesse  documento,  existem  nítidas
diferenças entre os grupos de pessoas com base nesses fatores. Outros documentos descreveram muitos desses
fatores  como  determinantes  fundamentais  da  saúde  (Hamilton  &  Bhatti,  1996;  WHO  Regional  Office  for
Europe, 2002). As listas de determinantes da saúde frequentemente incluem os seguintes fatores:
Renda e condição social
Suportes sociais
Gênero
Escolaridade
Condições de trabalho
Ambientes físicos
Qualidade do ar
Segurança alimentar
Água
Biologia e genética
Práticas de saúde pessoal e habilidades de enfrentamento
Nutrição
Atividade física
Desenvolvimento saudável da criança
Serviços de saúde

Pesquisas  e  informações  relacionadas  aos  determinantes  da  saúde  são  frequentemente  encontradas  na
literatura relacionada à saúde da população. Os dados de saúde da população podem ajudar os elaboradores de
políticas  a  identificar  os  principais  fatores  de  uma  comunidade  que  contribuem  para  as  mudanças  de  saúde  e
podem levar a políticas e iniciativas para promover a saúde.
PROMOÇÃO DA SAÚDE
Os determinantes da saúde podem ser empregados como fundamentação para considerar como a saúde pode ser,
então, promovida. Promoção da saúde é um termo que recebeu atenção significativa da Organização Mundial de
Saúde e de nações por todo o mundo. A promoção da saúde tem sido comumente definida como o “processo de
capacitação das pessoas para aumentar o controle e melhorar sua saúde” (WHO, 1986, p. 2). Embora a definição
de  promoção  da  saúde  não  reconheça  diretamente  os  determinantes  da  saúde,  a  Carta  de  Ottawa  identifica  os
pré­requisitos para a saúde, que incluem “paz, abrigo, educação, alimento, renda, ecossistema estável, recursos
sustentáveis, justiça e equidade social” (WHO, 1986, p. 2). Logicamente, alguns dos determinantes ambientais e
sociais da saúde são considerados tão vitais para a saúde que são, na realidade, pré­requisitos, fatores que são
fundamentais para quaisquer melhorias na saúde.
A Carta de Ottawa inclui três categorias que podem ser aplicadas às iniciativas de promoção da saúde: defesa
das  condições  que  são  favoráveis  à  saúde,  capacitação  das  pessoas  para  alcançar  seu  potencial  de  saúde  e
mediação entre diferentes interesses da sociedade. A Carta de Ottawa também descreve cinco áreas de ação para
a promoção da saúde: construir uma política pública saudável, criar ambientes de sustentação, fortalecer a ação
da comunidade, desenvolver habilidades pessoais e reorientar os serviços de saúde.

Princípios
Subjacentes à definição, às estratégias e às ações para a promoção da saúde descritas na Carta de Ottawa (WHO,
1986) estão inúmeros princípios relacionados com a promoção da saúde que não são identificados de maneira
explícita na carta. Estes princípios foram articulados por outros, incluindo de Leeuw (1989) e Thibeault e Hebert
(1997).
O  primeiro  princípio  está  relacionado  com  a  participação  da  comunidade.  A  promoção  da  saúde  precisa
envolver  os  membros  da  comunidade  durante  todas  as  fases,  desde  a  identificação  da  questão  da  saúde
preocupante até a determinação de como melhor abordá­la e, em seguida, avaliar se ela foi abordada ou não. Por
princípio, a promoção da saúde é participativa. Todas as fases dos processos de promoção da saúde envolvem a
participação da comunidade como um componente integral.
O  segundo  princípio  da  promoção  da  saúde  está  relacionado  com  a  capacitação,  que  por  sua  vez  está
intimamente relacionada com o primeiro princípio de participação da comunidade. A capacitação implica que as
pessoas  e  as  comunidades  envolvidas  nos  processos  de  promoção  da  saúde  adquirirão  conhecimento  e
habilidades e, por meio destes, uma sensação de autoeficácia e capacitação. Embora Labonte (1994) observe que
a  promoção  da  saúde  pode  por  vezes  tornar­se  burocrática  e  enfraquecida,  as  finalidades  subjacentes  das
iniciativas de promoção da saúde devem ser a participação e o controle da comunidade, de modo que ocorra a
capacitação.
Subjacente  aos  princípios  da  participação  da  comunidade  e  da  capacitação  está  um  princípio  de  respeito  à
diversidade.  Os  grupos  e  as  comunidades  interessados  em  participar  de  processos  de  promoção  da  saúde  são
bastante  diversos  e  podem  representar  os  grupos  que  enfretam  a  marginalização  por  diferentes  motivos,  como
idade,  raça  ou  etnia,  ou  orientação  sexual.  A  promoção  da  saúde  envolve  respeito  por  todos  os  envolvidos  ao
abordar uma questão de saúde e respeito à diversidade que existe dentro e entre as comunidades.
Justiça social é outro princípio subjacente à promoção da saúde. Muitos dos determinantes sociais de saúde,
como pobreza, escolaridade e discriminação com base na raça ou no gênero, podem ser mais bem abordados por
meio de iniciativas de justiça social. Na terapia ocupacional, Townsend e Wilcock (2004) descrevem a justiça
ocupacional e sugerem que ela está relacionada porém é distinta da justiça social. Eles descrevem a justiça social
como “um conceito que reconhece os seres humanos como seres sociais que participam de relações sociais” e
sugerem que a defesa na justiça social “favorece o acesso igualitário (idêntico) a oportunidades e recursos, a fim
de reduzir as diferenças de grupo” (Townsend & Wilcock, 2004, p. 262). A justiça ocupacional é “um conceito
para orientar os seres humanos como seres ocupacionais que precisam e querem participar de ocupações a fim de
se desenvolver e prosperar” com a defesa relacionada com a “capacitação de diferentes acessos a oportunidades
e  recursos  a  fim  de  conhecer  as  diferenças  individuais”  (Townsend  &  Wilcock,  2004,  p.  262).  Os  terapeutas
ocupacionais que estão envolvidos na promoção da saúde objetivam a justiça social ao tentar garantir o acesso a
oportunidades  que  sejam  igualitárias  em  cada  e  dentre  os  grupos  (justiça  social)  e  àquelas  que  satisfaçam  as
necessidades individuais das pessoas (justiça ocupacional). (Veja o Capítulo 20 para uma discussão aprofundada
da justiça ocupacional.)
Os determinantes de saúde vão muito além do setor de saúde apenas. Os serviços de cuidados de saúde podem
contribuir  para  a  melhoria  da  saúde,  mas  outros  setores  também  são  suportes  importantes  e  precisam  estar
envolvidos em iniciativas para melhorar a saúde. Por exemplo, a disponibilidade e a acessibilidade a sistemas de
transporte  nos  grandes  centros  urbanos  podem  influenciar  a  capacidade  de  acesso  das  pessoas  à  educação,  ao
lazer e ao emprego. A mídia pode ter papel significativo nas iniciativas de promoção da saúde pela divulgação
de serviços públicos. As escolas também podem desempenhar pa péis significativos ao influenciar a saúde e ao
abordar os problemas de saúde. Como a saúde é influenciada por muitos setores, as iniciativas de promoção da
saúde são mais bem implementadas quando elas são intersetoriais. Por exemplo, abordar o isolamento social dos
idosos poderia envolver os sistemas de transporte, as organizações culturais e religiosas, os serviços sociais, de
previdência social e de habitação.
A promoção da saúde também é um processo de integração que inclui muitas estratégias para abordagem da
questão de saúde, incluindo educação, legislação e desenvolvimento da comunidade. Por exemplo, a promoção
da saúde no local de trabalho envolve a legislação por meio de leis que garantam segurança básica no local de
trabalho, políticas de organização (p. ex., programas de assistência ao empregado), iniciativas educacionais (p.
ex., encontros sobre levantamento seguro no local de trabalho), bem como iniciativas organizacionais para criar
um local de trabalho colaborativo fundamentado nos princípios de respeito e capacitação.
Por  fim,  a  promoção  da  saúde  é  contínua.  De  maneira  ideal,  as  iniciativas  de  promoção  da  saúde  bem­
sucedidas  resultarão  em  comunidades  fortalecidas  e  políticas  de  saúde  pública  que  possam  levar  a  iniciativas
adicionais para promover a saúde, seja por abordar novas questões de saúde, seja por construir uma iniciativa
para  criar  outra  de  modo  a  aprofundar  ainda  mais  a  questão  original.  Os  profissionais  comprometidos  com  a
promoção da saúde precisam estar comprometidos com a mudança (Letts et al., 1993). Embora os profissionais
de terapia ocupacional não precisem estar necessariamente envolvidos em todas as iniciativas de promoção da
saúde depois de uma interação com um grupo ou comunidade, eles precisam compreender que a promoção da
saúde raramente é restrita a uma atividade ou iniciativa.

Processo
A  promoção  da  saúde  deve  ser  considerada  um  processo  em  vez  de  uma  única  intervenção  específica
padronizada.  Os  estágios  do  processo  nem  sempre  estão  claramente  definidos,  mas  podem  ser  descritos  os
elementos comuns ou as fases da promoção da saúde. Letts e colaboradores (1993) descreveram as fases iniciais
do processo da promoção da saúde como incluindo o seguinte:
Redes de trabalho (dentro das comunidades para identificar os líderes e comunidades ou setores)
Consulta (para identificar as questões da saúde)
Colaboração (para selecionar um problema de saúde específico para abordar) e
Planejamento (para planejar especificamente as ações e desenvolver os objetivos).

Em seguida, as ações são implementadas em parceria e podem ser avaliadas pelo grupo. Raeburn e Rootman
(1998)  descrevem  um  processo  de  treze  etapas  de  participação  na  promoção  da  saúde  centrada  nas  pessoas,  a
partir  do  início  das  primeiras  consultas,  realização  da  avaliação  das  necessidades,  estabelecimento  de  metas,
planejamento de recursos e ações e avaliação da evolução. O processo global de promoção da saúde geralmente
inclui  um  processo  de  consulta  à  comunidade  ou  ao  grupo  para  identificar  o  problema  de  saúde  (a  estatística
epidemiológica  ou  da  comunidade  também  pode  fornecer  informações  sobre  os  problemas  de  saúde),  realizar
avaliações  das  necessidades,  identificar  prioridades  e  planejar  as  ações  em  parceria  com  as  comunidades  para
abordar o problema de saúde identificado.

Abordagens para a Promoção da Saúde
Como as ideias da Carta de Ottawa (WHO, 1986) e os princípios de promoção da saúde podem ser aplicados a
pessoas, grupos e comunidades? O que isso significaria e como os terapeutas ocupacionais deveriam participar?
Os conceitos de capacitação, mediação e defesa descritos na Carta de Ottawa servem de ponto de partida. Dentro
da estrutura da promoção da saúde, os terapeutas ocupacionais podem utilizar suas habilidades e conhecimento
de inúmeras maneiras.
Wilcock  (1998)  sugere  cinco  modelos  que  representam  abordagens  diferentes,  mas  não  mutuamente
excludentes,  para  a  promoção  da  saúde.  Estes  incluem  bem­estar,  medicina  preventiva,  desenvolvimento  da
comunidade, justiça social e sustentabilidade ecológica. Essas abordagens variam desde iniciativas centradas no
indivíduo  para  ajudar  as  pessoas  a  fazerem  escolhas  mais  saudáveis  (bem­estar)  com  base  em  consultas  à
comunidade  que  promovam  a  responsabilidade  nacional  pela  saúde  (desenvolvimento  da  comunidade),  até
iniciativas em nível global para promoção de relações saudáveis entre os seres humanos e todos os outros seres
para sustentar a vida no planeta (sustentabilidade ecológica).
McComas e Carswell (1994) desenvolveram um modelo para descrever o processo para a ação de promoção
da saúde com base em uma iniciativa com mulheres com incapacidades. Seu modelo baseia­se na estrutura de
Labonte  (1994)  para  que  os  profissionais  de  saúde  pensem  sobre  como  aplicar  os  conceitos  de  promoção  da
saúde  na  prática,  desde  as  estratégias  de  capacitação  individual,  passando  pelo  desenvolvimento  de  pequenos
grupos, a organização comunitária, a defesa da coalizão e a ação política. O modelo de Labonte é semelhante ao
de Wilcock (1998), no qual existe uma variação do foco individual para um foco mais amplo, embora Labonte
não aborde a saúde do planeta.
O modelo de Labonte (1994) descreveu as estratégias de capacitação como seguindo um continuum desde o
trabalho com pessoas que enfrentam desafios de saúde até a defesa política para abordagem das desigualdades de
saúde. Ele descreveu o modelo como uma holosfera, com cada estratégia sendo uma esfera que se sobrepõe às
demais. Ao trabalhar com as pessoas, por exemplo, Labonte observa que o cuidado pessoal para os indivíduos
fundamentado nos princípios de promoção da saúde seria de suporte e não controlador, com os profissionais de
saúde fornecendo informações e recursos para os indivíduos. O desenvolvimento em grupo consiste em ajudar
grupos  de  pessoas  a  se  organizar  em  torno  de  seus  problemas  de  saúde.  Os  profissionais  de  saúde  precisam
conhecer os grupos que poderiam ser apropriados para o encaminhamento de clientes, mas também desejar atuar
como facilitadores ou  convidados.  A organização  da  comunidade  consiste  em grupos de pessoas que se unem
como  comunidade  para  discutir  os  problemas  de  saúde.  Embora  os  profissionais  da  saúde  possam  participar
dessas  iniciativas,  Labonte  os  alerta  para  garantir  que  estas  não  se  tornem  burocráticas.  A  defesa  da  coalizão
ocorre  quando  relações  entre  as  organizações  são  estabelecidas  para  abordar  problemas  de  saúde  por  meio  da
defesa,  ao  unir  comunidades  ao  redor  de  um  interesse  comum  para  mudar  as  estruturas  ou  políticas.  Com
frequência, a ação política é a próxima etapa, após a defesa da coalizão, e, com frequência, envolve o conflito e a
necessidade de que alguém assuma um papel de facilitador da organização de modo cooperativo.
A partir das ideias de Labonte, McComas e Carswell (1994) sugerem que as ações podem ser ensinadas como
uma  série  de  círculos  que  se  tornam  cada  vez  mais  amplos  à  medida  que  as  iniciativas  se  expandem  e  se
desenvolvem  uma  a  partir  da  outra.  Além  disso,  os  conceitos  de  participação,  ambientes  de  suporte,  controle
pessoal e de grupo e competência pessoal sugerem os princípios fundamentais ou bases que precisam existir para
que o processo da promoção da saúde seja bem­sucedido (Figura 18.1).
O  processo  para  a  ação  de  promoção  da  saúde,  conforme  descrito  por  McComas  e  Carswell  (1994),
proporciona  uma  maneira  pela  qual  os  terapeutas  ocupacionais  considerem  como  seu  conhecimento  e  suas
habilidades  podem  ser  aplicados  nos  diferentes  níveis  de  promoção  da  saúde.  Também  demonstra  como  as
diferentes abordagens ou níveis de ação se relacionam entre si. Exemplos adicionais das iniciativas por parte de
terapeutas ocupacionais serão descritos mais adiante no capítulo.
Fig. 18.1 Processo para ação de promoção da saúde.

CONCEITOS RELACIONADOS À PROMOÇÃO DA SAÚDE
Esta  seção  fornece  um  resumo  dos  termos  comumente  utilizados  em  conjunto  com  a  promoção  da  saúde,  sua
utilização  mais  comum  e  os  pontos  principais  de  sua  relação  com  a  promoção  da  saúde.  Um  recurso  valioso
sobre a terminologia da promoção da saúde é o Glossário de Promoção de Saúde (Health Promotion Glossary),
que foi escrito por Nutbeam (1998) para a Organização Mundial de Saúde.

Saúde da População
Mais recentemente, a saúde da população foi fortemente associada à pesquisa sobre os determinantes de saúde,
em particular os trabalhos de Evans, Barer e Marmor (1994) e de Evans e Stoddart (1990). A saúde da população
foi definida como “os resultados de saúde de um grupo de indivíduos, incluindo a distribuição destes resultados
dentro  do  grupo”  (Kindig  &  Stoddart,  2003,  p.  381).  O  foco  da  pesquisa  de  saúde  da  população  tende  a  estar
sobre  os  indicadores  de  saúde  ou  os  resultados  no  nível  de  populações  e,  com  frequência,  ela  é  realizada  por
epidemiologistas.
Os críticos da saúde da população observaram que ela tenta ser apolítica, enquanto fornece justificativa para o
financiamento  reduzido  do  setor  de  cuidados  com  a  saúde  sem  exigir  necessariamente  a  realocação  desses
recursos  para  abordagem  dos  determinantes  sociais  da  saúde  (Robertson,  1998);  ela  não  tenta  compreender
adequadamente as condições sociais subjacentes que resultam nas diferenças entre os grupos de pessoas na saúde
e  não  fornece  uma  sugestão  de  como  as  mudanças  podem  ser  feitas  nos  níveis  individuais  ou  comunitários
(Coburn et al., 2003).
Hamilton e Bhatti (1996) descrevem a natureza complementar da saúde da população e da promoção da saúde,
destacando  a  importância  de  que  sejam  considerados  os  determinantes  de  saúde  para  compreensão  dos
problemas  de  saúde  que  poderiam  ser  abordados  pelas  iniciativas  de  promoção  da  saúde.  Seu  modelo
tridimensional descreve a relação entre os determinantes de saúde, os níveis de atividade e as cinco estratégias
articuladas  na  Carta  de  Ottawa  para  a  Promoção  da  Saúde  (WHO,  1986).  Contudo,  faltam  na  discussão  de
Hamilton  e  Bhatti  alguns  dos  princípios  subjacentes  da  promoção  da  saúde  previamente  discutidos  neste
capítulo,  incluindo  a  participação  da  comunidade,  o  fortalecimento  e  a  justiça  social.  Embora  estes  sejam
conceitos correlatos e provavelmente complementares, saúde da população e promoção da saúde diferem entre
si.

Saúde Pública
A promoção da saúde tem suas raízes na saúde pública. Nutbeam (1998, p. 3) definiu a saúde pública como “um
conceito social e político destinado a melhorar a saúde, prolongar a vida e melhorar a qualidade de vida entre as
populações por meio de promoção da saúde, prevenção da doença e outras formas de intervenção na saúde”. A
saúde  pública  engloba  a  promoção  da  saúde,  mas  também  a  proteção  da  saúde,  por  meio  de  determinados
eventos, como inspeções de restaurantes e prevenção de doença com os programas de imunização infantil.

Cuidados Primários de Saúde
O cuidado primário de saúde, definido pela Organização Mundial de Saúde em 1978, é “o cuidado de saúde
essencial disponibilizado a um custo que o país e a comunidade possam pagar, com métodos que sejam práticos,
cientificamente  razoáveis  e  socialmente  aceitáveis”  (Nutbeam,  1998,  p.  3).  Recentemente,  a  reforma  dos
cuidados  primários  de  saúde  foi  iniciada  em  inúmeros  países,  incluindo  Reino  Unido,  Canadá,  Austrália  e
Suécia.  No  Canadá,  uma  conferência  em  2004  sobre  o  cuidado  primário  de  saúde  observou  que  surgem
problemas quando os termos cuidado primário e cuidado primário de saúde são empregados de forma indistinta,
pois o cuidado primário limita­se ao fornecimento dos serviços de cuidados de saúde e o cuidado primário de
saúde é um termo mais abrangente que aborda a saúde, mas também as questões sociais (Lewis, 2004). Muitas
definições  de  cuidado  primário  de  saúde  parecem  sobrepor­se  de  maneira  significativa  com  a  promoção  da
saúde.  Uma  diferença  pode  estar  mais  na  ênfase  do  que  na  abordagem  ou  compreensão  da  saúde  ou  de  seus
determinantes, embora isto ainda precise ser determinado ou debatido na literatura de promoção da saúde.

Adiamento da Incapacidade
O  adiamento  da  incapacidade  foi  descrito  como  “aquelas  atividades  de  intervenção  que  objetivam  retardar  o
declínio  físico  ou  mental,  o  uso  de  serviço  ou  a  utilização  de  cuidados  de  longo  prazo  em  pessoas  que
apresentam  uma  doença  crônica”  (Finlayson  &  Edwards,  1997,  p.  457).  Os  terapeutas  ocupacionais  que
trabalham com pessoas com condições e incapacidades preexistentes poderiam achar útil a ideia do adiamento da
incapacidade quando consideram as oportunidades para aplicar na prática os princípios de promoção da saúde.

Prevenção de Doença e Lesão
A prevenção é um conceito intimamente relacionado com a promoção da saúde, principalmente quando se adota
uma abordagem comportamental para a saúde. Embora muitas descrições de prevenção enfatizem a prevenção
da doença, os terapeutas ocupacionais poderiam achar que também é importante considerar a prevenção da lesão
como um papel potencial (Finlayson & Edwards, 1997). Embora por vezes exista uma sobreposição significativa
entre a promoção da saúde e a prevenção de doenças e lesões, as iniciativas de prevenção tendem a ser iniciadas
no setor da saúde e a tratar dos fatores e comportamentos de risco que resultam em problemas de saúde.

Desenvolvimento da Comunidade e Construção da Capacidade
Wilcock  (1998,  p.  238)  descreve  o  desenvolvimento  da  comunidade  como  “consulta,  deliberação  e  ação  da
comunidade  para  promover  a  responsabilidade  individual,  familiar  e  de  toda  a  comunidade  para  o
desenvolvimento autossustentado, a saúde e o bem­estar. É um modelo holístico e participativo com objetivo de
facilitar o desenvolvimento social e econômico de uma comunidade, baseado na análise da comunidade, no uso
dos  recursos  locais  e  em  programas  de  autossustentação”.  Embora  alguns  aspectos  do  desenvolvimento  da
comunidade  se  relacionem  com  a  saúde,  o  desenvolvimento  da  comunidade  não  se  limita  à  saúde;  ele  pode
resultar  em  iniciativas  que  promovam  o  desenvolvimento  econômico  da  comunidade.  As  iniciativas  de
desenvolvimento  da  comunidade  destinam­se  a  expandir  a  capacidade  de  uma  comunidade  com  relação  ao
conhecimento e às habilidades necessárias para que ela sobreviva e prospere.
Quanto  ao  desenvolvimento  comunitário,  as  comunidades  podem  ser  definidas  pela  localização  geográfica,
mas também são definidas por membros que compartilham um interesse comum. Por exemplo, os idosos de uma
cidade  em  crescimento  poderiam  não  viver  na  mesma  vizinhança,  mas  reunir­se  como  uma  comunidade  por
causa da preocupação em comum a respeito de como suas vozes serão ouvidas em uma nova área metropolitana
(Letts,  2003a).  As  comunidades  podem  ser  definidas  de  diversas  maneiras.  Bulmer  (1987)  observa  que
comunidade  é  um  conceito  normativo,  bem  como  analítico  e  descritivo,  e  que  as  comunidades  são  diversas  e
mutáveis na maneira pela qual são compreendidas, tornando importante descrever a comunidade que é o foco de
qualquer iniciativa de desenvolvimento comunitário.
O desenvolvimento comunitário é a base da reabilitação na comunidade (RNC), a qual surgiu quase ao mesmo
tempo  que  o  cuidado  primário  de  saúde  e  é  descrita  como  uma  estratégia  de  desenvolvimento  da  comunidade
para  a  reabilitação  (Kronenberg,  Fransen  &  Pollard,  2005).  Por  meio  de  uma  recente  declaração  de  posição  a
respeito  da  RNC  (World  Federation  of  Occupational  Therapists  [WFOT],  2004)  e  de  outras  atividades  para
reunir  informações  sobre  os  pa  péis  dos  terapeutas  ocupacionais  na  RNC,  a  WFOT  assumiu  um  papel  de
liderança  ao  demonstrar  como  o  desenvolvimento  da  comunidade  pode  ser  utilizado  para  promover  a
participação na comunidade de pessoas com incapacidades por todo o mundo.
Nem todas as iniciativas de promoção da saúde se ajustam à estrutura de desenvolvimento da comunidade. Por
exemplo,  as  iniciativas  de  foco  individual  que  empregam  uma  abordagem  comportamental  para  a  saúde  não
envolveriam  necessariamente  um  processo  de  consulta  participativa  aos  membros  da  comunidade  para  sua
implantação.  No  entanto,  muitas  iniciativas  de  promoção  da  saúde  descritas  pelos  terapeutas  ocupacionais
realmente se inserem na estrutura de desenvolvimento da comunidade (Banks & Head, 2004; Letts et al., 1993;
Wilcock, 1998).

TABELA 18.2 COMPARAÇÃO ENTRE OS PRINCIPAIS DOGMAS
DA PROMOÇÃO DA SAÚDE E DA TERAPIA OCUPACIONAL
Promoção da Terapia Ocupacional
Saúde
Participação da Valorização da pessoa em sua natureza, suas necessidades, seus potenciais e
comunidade crescimento únicos, ativa em seu próprio ambiente e sua comunidade; ocupação
como o centro da vida humana
Capacitação Capacitação e habilitação; terapeutas ocupacionais, clientes e membros da
comunidade como iguais
Justiça social Justiça social
Maior autonomia Maior autonomia para a pessoa e para a comunidade
para a comunidade
Importância de Importância de estilos de vida ativos e significativos; dimensão terapêutica da
estilos de vida ocupação
ativos e
significativos
Respeito pela Respeito pela diversidade cultural e pelos grupos marginalizados
diversidade cultural

Fonte:  Reproduzida  com  permissão  de  Thibeault,  R.,  &  Hebert,  M.  (1997).  A  congruent  model  for  health
promotion in occupational therapy. Occupational Therapy International, 4, 271­293. © John Wiley & Sons Limited.

PROMOÇÃO DA SAÚDE E TERAPIA OCUPACIONAL
Então, como os terapeutas ocupacionais devem reunir a grande massa de conhecimento e modelos de promoção
da saúde e aplicá­los à sua prática? de Leeuw (1989) sugeriu que “os profissionais da saúde devem compreender
que  seu  envolvimento  pessoal  na  promoção  da  saúde  não  deve  significar  o  abandono  de  seu  treinamento
profissional  nem  de  sua  área  de  atuação,  mas,  pelo  contrário,  que  eles  devem  se  associar  a  algum  tipo  de
estrutura de referência na qual possam empenhar seus esforços no contexto da promoção da saúde integrada e
intersetorial” (p. 103). Ao aplicar esta citação à terapia ocupacional, Letts e colaboradores (1993) sugeriram que,
em lugar de pensar sobre “fazer” a promoção da saúde, os terapeutas ocupacionais devem pensar sobre “fazer” a
terapia ocupacional, mas dentro da estrutura de promoção da saúde.
Os terapeutas ocupacionais têm participado de estruturas de promoção da saúde, demonstrando um papel para
os  terapeutas  ocupacionais  em  diversos  contextos.  Reitz  (1992)  documentou  ideias  relacionadas  com  a  saúde
preventiva  e  o  bem­estar  nos  primórdios  da  terapia  ocupacional.  Wilcock  (2001)  documentou  a  ideia  do
Regimen Sanitatis, que foi uma influência do século XII até o século XIX. O Regimen inclui um conjunto de
seis regras para a saúde que englobam aspectos como alimentação, ingestão de líquidos e sono adequados. Ela
demonstra  a  relação  entre  essas  regras  históricas  e  os  princípios  e  estratégias  expressos  na  Carta  de  Ottawa
(WHO, 1986), bem como com a premissa básica da ocupação para a saúde da terapia ocupacional, isto é, que o
engajamento na ocupação é um pré­requisito para a saúde e que também pode ter benefícios restauradores para
as pessoas com preocupações de saúde.
A terapia ocupacional foi fundada sobre ideias relacionadas com a promoção da saúde e o bem­estar por meio
da ocupação, e o ressurgimento das discussões sobre as contribuições que os terapeutas ocupacionais poderiam
dar para prevenção e promoção da saúde teve início no final dos anos 1960 (Reitz, 1992). Na próxima seção,
exemplos de terapeutas ocupacionais que utilizam uma estrutura de promoção da saúde são apresentados em um
contexto conceitual, sendo considerados os desafios e as oportunidades da promoção da saúde.
Relações Conceituais
As  raízes  e  a  filosofia  subjacentes  à  prática  da  terapia  ocupacional  fundamentada  na  ocupação  e  centrada  no
cliente  alinham­se  bem  aos  princípios  e  aos  modelos  da  promoção  da  saúde.  Thibeault  e  Hebert  (1997)
compararam  a  promoção  da  saúde  e  os  princípios  da  terapia  ocupacional,  destacando  muitas  áreas  de
consistência nas abordagens (veja a Tabela 18.2). Por exemplo, os processos participativos descritos como um
princípio  da  promoção  da  saúde  são  muito  semelhantes  aos  processos  centrados  no  cliente  que  os  terapeutas
ocupacionais adotaram para uso com clientes em diversos ambientes. Também se destacam as relações entre a
justiça  social  como  um  princípio  de  promoção  da  saúde  e  a  justiça  ocupacional  e  a  justiça  social  que  são
valorizadas pelos terapeutas ocupacionais. Townsend (2003) focalizou a atenção de modo semelhante sobre as
ideias  de  justiça  na  prática  da  terapia  ocupacional  centrada  no  cliente.  A  promoção  da  saúde  e  a  prática  da
terapia  ocupacional  apresentam  princípios  fundamentais  relacionados  ao  respeito  pela  diversidade  no  trabalho
com pessoas e comunidades.
A comunidade é um dos focos principais da promoção da saúde. A promoção da saúde é implementada em
parceria  com  diferentes  comunidades  e  ocorre  mais  frequentemente  em  contextos  da  comunidade  do  que  nas
instituições  médicas.  As  iniciativas  que  enfatizam  o  bem­estar  individual  frequentemente  são  aplicadas  no
contexto  da  comunidade,  a  fim  de  alcançar  as  pessoas  que  são  os  alvos  das  iniciativas.  A  terapia  ocupacional
também  tem  uma  adaptação  natural  dentro  de  ambientes  comunitários  (Baum  &  Law,  1998;  Scaffa,  2001).
Thibeault e Hebert (1997) observaram que uma diferença entre a promoção da saúde e a terapia ocupacional é
que a promoção da saúde concentra­se sobre o trabalho com as comunidades, enquanto os modelos de terapia
ocupacional  tendem  a  enfocar  as  pessoas.  Eles  notaram  que  muitos  modelos  em  terapia  ocupacional  são
aplicáveis  a  comunidades  e  grupos,  mas  raras  vezes  são  aplicados  explicitamente  dessa  maneira.  A  prática  da
terapia  ocupacional  em  ambientes  comunitários  não  está  necessariamente  atrelada  a  modelos  ou  princípios  da
promoção da saúde. No entanto, os terapeutas ocupacionais em ambientes comunitários estão bem posicionados
para  contestar  os  modelos  existentes  de  prestação  de  serviços  e  para  trabalhar  de  modo  a  compartilhar
habilidades e conhecimento utilizando a estrutura da promoção da saúde.
Wilcock (1998, 2001) forneceu um rico panorama das relações conceituais entre a importância subjacente da
ocupação  como  um  determinante  da  saúde  e  como  um  meio  de  melhorá­la,  descrito  como  “ocupação  para  a
saúde”.  Thibeault  e  Hebert  (1997,  p.  277)  reforçam  isto  ao  observar  que  a  ocupação  é  compreendida  como  o
“pivô da vida humana” e observam que a terapia ocupacional considera a dimensão terapêutica da ocupação.
A ênfase da terapia ocupacional sobre a prática fundamentada na ocupação e centrada no cliente, com número
crescente de terapeutas em ambientes comunitários, significa que os terapeutas ocupacionais estão prontos para
aplicar  suas  habilidades  e  seu  conhecimento  à  estrutura  de  promoção  da  saúde.  As  seções  a  seguir  fornecem
exemplos de terapeutas ocupacionais que estão envolvidos em iniciativas de promoção da saúde em diferentes
contextos comunitários.

Exemplos Práticos: Envelhecimento Saudável
Exemplos  excelentes  que  demonstram  o  papel  dos  terapeutas  ocupacionais  na  promoção  da  saúde  quando
trabalham com idosos são descritos na literatura. O Well Elderly Study na Califórnia demonstrou, por meio de
um  desenho  de  estudo  clínico  randomizado,  que  uma  intervenção  de  terapia  ocupacional  preventiva  (Lifestyle
Redesign)  resultou  em  benefícios  à  saúde,  à  função  e  à  qualidade  de  vida  (Clark  et  al.,  1997),  sendo  estes
resultados  mantidos  após  um  acompanhamento  de  seis  meses  (Clark  et  al.,  2001).  O  tratamento  de  terapia
ocupacional por nove meses no estudo Well Elderly consistiu em ajudar idosos a realizar mudanças positivas em
seus estilos de vida, em áreas como transporte, segurança, finanças e relacionamentos sociais (Carlson, Clark &
Young, 1998). Os processos que foram utilizados no tratamento incluíram apresentação de informações para os
indivíduos e grupos, troca de colegas e exploração pessoal. Esta mesma abordagem de intervenção foi aplicada
(com  algumas  modificações)  em  outros  ambientes,  incluindo  um  programa  de  adulto­dia  em  modelo  médico
(Horowitz  &  Chang,  2004),  e  com  idosos  das  classes  média  e  alta  que  vivem  em  residências  para  idosos
(Matuska, Giles­Heinz, Flinn, Neighbor & Bass­Haugen, 2003). Os relatos de aplicações em outras populações
tenderam a ser estudos­piloto, com pequenos grupos de idosos e nenhuma comparação ou grupos de controle.
Apesar da falta de rigor nos desenhos de pesquisa, os estudos fornecem evidências de que o programa Lifestyle
Redesign pode ser adaptado e aplicado a vários contextos para promover a saúde de idosos.
No CAOT Seniors’ Health Promotion Project (Letts et al., 1993), os terapeutas ocupacionais trabalharam em
instituições  para  idosos  em  duas  províncias  canadenses  (Manitoba  e  Newfoundland)  para  explorar  como  as
competências e os conhecimentos da terapia ocupacional poderiam ser utilizados em uma estrutura de promoção
da  saúde.  Uma  diversidade  de  iniciativas  foi  empreendida,  incluindo  uma  grande  iniciativa  em  Newfoundland
para  melhorar  a  saúde  por  meio  da  melhoria  do  transporte  para  idosos  na  cidade  de  St.  John  e  sessões  de
orientação em Manitoba fornecidas por meio da televisão a cabo, mídia impressa e palestras em instituições para
idosos sobre temas fornecidos por eles, como manutenção da atividade física, segurança domiciliar e tratamento
da  artrite.  Barnard  e  colaboradores  (2004)  descrevem  uma  iniciativa  que  foi  desenvolvida  por  alunos  e  pela
faculdade  de  terapia  ocupacional  em  parceria  com  idosos  em  uma  pequena  cidade  da  Carolina  do  Norte.  Eles
desenvolveram  um  programa  de  bem­estar  de  cinco  semanas  focado  na  atividade  física,  utilizando  a
espiritualidade  como  um  meio  de  expressão,  aumentando  a  conscientização  sobre  nutrição  e  preparação  dos
alimentos e aumentando as funções cognitivas. Miller e colaboradores (2001) descrevem o Microwave Project,
no qual estudantes de terapia ocupacional trabalharam com uma equipe interdisciplinar e idosos que recebiam a
Meals on Wheels para lidar com o desafio que alguns clientes estavam enfrentando para aquecer suas refeições
de maneira adequada e segura. Os idosos que estavam sob risco de problemas de saúde por causa da dificuldade
na preparação do alimento foram envolvidos em um programa de lanches (se eles fossem capazes de sair de suas
casas  para  frequentá­lo)  ou  em  um  programa  domiciliar,  de  modo  que  pudessem  adquirir  habilidades  para
preparação e aquecimento do alimento, utilizando um forno de micro­ondas (Figura 18.2). A comunidade como
um todo comprometeu­se a fornecer aos idosos de baixa renda o acesso aos fornos de micro­ondas.
Além disso, inúmeros terapeutas ocupacionais participam de iniciativas de prevenção de quedas de idosos na
comunidade (p. ex., Clemson et al., 2004; Tolley & Atwal, 2003). Em geral, a literatura de terapia ocupacional
sugere a  existência  de  um  forte  papel  para  a  terapia  ocupacional  na  adoção  de  uma  estrutura  de  promoção  de
saúde junto aos idosos. As iniciativas variam desde aquelas que empreendem uma abordagem comportamental e
preventiva  (p.  ex.,  Lifestyle  Redesign,  prevenção  de  quedas)  até  aquelas  que  estão  mais  alinhadas  com  uma
abordagem  socioambiental  para  a  saúde  (p.  ex.,  o  CAOT  Seniors’  Health  Promotion  Project  e  o  Microwave
Project).

Fig. 18.2 Uma idosa pratica o reaquecimento do café no micro­ondas.

Exemplos Práticos: Promoção da Saúde no Local de Trabalho
Em  1986,  inúmeros  artigos  descreveram  a  contribuição  da  terapia  ocupacional  para  programas  realizados  nos
locais  de  trabalho,  incluindo  programas  de  assistência  aos  empregados  (Maynard,  1986),  programação  de
educação de saúde para empregados (Hollander Kaplan & Burch­Minakan, 1986) e reorganização do posto de
trabalho ou escritório (Allen, 1986). Mais recentemente, Moyers e Coleman (2004) identificaram estratégias que
os terapeutas ocupacionais podem implementar em parceria com trabalhadores e empregadores para promover a
saúde  de  trabalhadores  idosos,  incluindo  a  reorganização  do  emprego,  a  reestruturação  organizacional  e
iniciativas  de  promoção  de  saúde  que  incluem  programas  de  bem­estar  e  atividade  física,  assim  como
ergonomia,  manutenção  de  capacidades  e  promoção  do  interesse  contínuo  no  trabalho.  Kirsh,  Cockburn  e
Gewurtz  (2004)  descrevem  os  pa  péis  de  terapeutas  ocupacionais  na  promoção  da  saúde  no  local  de  trabalho,
incluindo  a  análise  das  demandas  do  emprego  e  as  habilidades  do  empregador,  bem  como  a  idealização  das
acomodações  do  local  de  trabalho.  Acredita­se  que  iniciativas  como  estas  promovam  trabalho  e  trabalhadores
saudáveis.
Embora os terapeutas ocupacionais estejam entre muitos profissionais que participam da promoção da saúde
no  local  de  trabalho,  o  papel  da  terapia  ocupacional  não  está  bem  definido  em  nível  internacional.  Em  uma
revisão  da  eficácia  da  promoção  da  saúde  no  local  de  trabalho,  a  terapia  ocupacional  não  foi  um  componente
explícito  em  qualquer  um  dos  35  programas  de  promoção  da  saúde  no  local  de  trabalho  com  múltiplos
componentes que foram revisados (Heaney & Goetzel, 1997). Ademais, parece haver limitada evidência rigorosa
que demonstre a eficácia dos terapeutas ocupacionais que utilizam suas competências e seu conhecimento dessa
maneira. Os terapeutas ocupacionais precisam demonstrar com dados rigorosos a eficácia de contribuições que
fazem uso de uma estrutura de promoção da saúde.

Desafios e Oportunidades para a Terapia Ocupacional na Promoção da Saúde
O  envelhecimento  saudável  e  a  promoção  da  saúde  no  local  de  trabalho  não  são  as  únicas  iniciativas  de
promoção  da  saúde  em  que  os  terapeutas  ocupacionais  estão  envolvidos.  Os  exemplos  citados  na  literatura
incluem parcerias com organizações que atendem às necessidades de pessoas com incapacidades físicas (Neufeld
& Kniepmann, 2001) e uma campanha para promover a seleção e o uso seguro da mochila por crianças (Jacobs,
2003) (Figura 18.3).
Outra  área  de  prática  da  terapia  ocupacional  é  a  promoção  da  saúde  mental  (Creek,  2002).  Embora  a
promoção da saúde mental não seja uma área comum da prática da terapia ocupacional nos Estados Unidos, os
exemplos  de  outros  países  ilustram  as  contribuições  que  podem  ser  dadas  pelos  terapeutas  ocupacionais.  Por
exemplo,  Russell  e  Lloyd  (2004)  descrevem  uma  iniciativa  na  Austrália  que  se  focou  na  promoção  da  saúde
física  e  mental  entre  pessoas  com  doença  mental.  Cada  sessão  incluiu  um  componente  de  atividade  física  e
apresentações didáticas sobre autoestima e autoimagem, competências de vida, nutrição, relaxamento e controle
do  estresse.  Babiski,  Sidle  e  McColl  (1996)  descreveram  um  papel  de  promoção  da  saúde  para  terapeutas
ocupacionais  e  trabalhadores  de  apoio  na  comunidade  que  prestavam  serviços  de  apoio  para  funcionários  e
moradores de uma pensão. O objetivo era melhorar a qualidade de vida dos inquilinos ao abordar as barreiras
individuais, de grupo e ambientais para a saúde mental. Olson, Heaney e Soppas­Hoffman (1989) descrevem o
papel de um terapeuta ocupacional em um grupo de atividades pai­filho, que foi idealizado em colaboração entre
um hospital universitário e uma creche local para atender às necessidades das famílias em risco. Um terapeuta
ocupacional  e  um  psicoterapeuta  desenvolveram  e  facilitaram  o  grupo  de  atividade  para  ajudar  as  crianças  a
obterem atenção positiva dos pais e para ajudar os pais a atenderem efetivamente às necessidades da criança. O
grupo  incluiu  a  discussão  das  interações  nas  atividades  pai­filho  e  facilitou  a  brincadeira  entre  as  mães  e  as
crianças.
Apesar do potencial e da esperança que estes exemplos oferecem, os terapeutas ocupacionais interessados em
trabalhar  com  uma  estrutura  de  promoção  da  saúde  deparam­se  com  desafios.  Com  frequência,  os  terapeutas
ocupacionais  se  descobrem  trabalhando  em  contextos  médicos  nos  quais  não  é  adotada  com  facilidade  uma
abordagem socioambiental. Além disso, muitas políticas relacionadas à promoção da saúde estão incluídas em
modelos  comportamentais  e  institucionalmente  direcionados  de  prestação  de  serviço.  Mesmo  as  práticas
baseadas na comunidade focalizam­se com frequência em tratamentos de curto prazo para clientes individuais,
abordando  preocupações  de  desempenho  ocupacional  específicas.  Scriven  e  Atwal  (2004)  afirmam  que  os  pa
péis  da  terapia  ocupacional  na  promoção  da  saúde  envolvem,  com  frequência,  a  promoção  terciária  da  saúde
(trabalho a favor da corrente), facilitando que os indivíduos desenvolvam competências pessoais para lidar com
a  incapacidade  ou  com  a  doença  crônica.  Para  terapeutas  ocupacionais  interessados  em  abordagens  de
desenvolvimento  mais  voltadas  para  a  comunidade,  pode  ser  difícil  encontrar  suporte  dentro  dos  modelos
existentes de prestação de serviços (Spalding, 1996).

Avaliando a Eficácia da Terapia Ocupacional e a Promoção da Saúde

E stabelecer  evidência  para  sustentar  a  eficácia  da  promoção  da  saúde  implementada  por  terapeutas
ocupacionais ou por qualquer pessoa pode ser desafiador à luz das abordagens tradicionais para pesquisa
e avaliação e dos princípios subjacentes da promoção da saúde.
Estudos  controlados  randomizados  são  frequentemente  descritos  como  a  maneira  mais  rigorosa  para
avaliar  a  eficácia  das  intervenções.  No  entanto,  eles  são  mais  bem  idealizados  quando  a  população  que
recebe uma intervenção (e um grupo de controle) está bem definida, a intervenção é padronizada e as linhas
de  tempo  são  razoavelmente  curtas.  Em  contrapartida,  as  iniciativas  de  promoção  da  saúde  estão
frequentemente  fundamentadas  em  comunidades  que  apresentam  membros  flutuantes  (dificultando  muito  a
definição da intervenção e dos grupos de controle) e em intervenções que flutuam dependendo das respostas
da comunidade (dificultando a padronização da intervenção), podendo exigir intervalos significativos de tempo
para resultar em mudança na saúde do indivíduo ou da comunidade.
Além  disso,  considerando  os  princípios  que  norteiam  a  promoção  da  saúde,  existe  uma  potencial  falta  de
adaptação entre a promoção da saúde e os métodos tradicionais de avaliação. Lincoln (1992, p. S10) observa
que “não tem sentido melhorarmos a saúde de um indivíduo se, ao mesmo tempo, minamos sua autoestima e
a  sensação  de  função”  por  meio  de  pesquisa  ou  avaliação.  Os  métodos  tradicionais  de  avaliação  podem
reforçar os desequilíbrios de poder que a promoção da saúde procura corrigir (Coombe, 1997).
Apesar  desses  desafios,  é  importante  demonstrar  a  eficácia  da  promoção  da  saúde.  Na  avaliação  da
promoção  da  saúde,  nem  sempre  um  estudo  de  controle  randomizado  pode  ser  a  melhor  abordagem  a  se
adotar. Gillies (1998, p. 114) observa que esta metodologia “simplesmente não consegue capturar a riqueza do
processo...  elas  simplesmente  não  são  suficientemente  sofisticadas  para  lidar  com  a  complexidade  e  a
diversidade do processo e do resultado da promoção de saúde no nível da comunidade [sic].”
Em consequência das preocupações sobre os métodos de avaliação tradicionais, inúmeras fontes exigiram
a  adoção  da  avaliação  participativa  ou  capacitada  (Green  et al.,  1995;  Papineau  &  Kiely,  1996;  Thibeault  &
Hebert, 1997; WHO European Working Group on Health Promotion Evaluation, 1998). Na terapia ocupacional,
a  pesquisa  participativa  também  vem  recebendo  crescente  atenção  (Cockburn  &  Trentham,  2002;  Letts,
2003b;  Taylor,  Braveman  &  Hammel,  2004).  A  avaliação  participativa  envolve  os  participantes  na  avaliação
durante  todos  os  estágios,  fundamenta­se  no  conhecimento  e  na  experiência  de  todos  os  participantes  e
implementa mudanças para a iniciativa de promoção da saúde resultantes da avaliação. Estas características
alinham­se bem aos princípios da promoção da saúde.
Em todas as avaliações, a abordagem selecionada precisa refletir o processo que está sendo empreendido.
Dependendo  da  abordagem  para  a  saúde  utilizada  no  desenvolvimento  de  uma  iniciativa  de  promoção  da
saúde,  pode  ser  apropriado  um  estudo  controlado  randomizado.  Por  exemplo,  um  estudo  controlado
randomizado pode ser útil nas situações em que uma intervenção bem definida é oferecida a um grupo distinto
de  pessoas,  havendo  a  disponibilidade  de  um  grupo  de  controle.  O  Well  Elderly  Study  (Clark  et  al.,  1997,
2001) e as iniciativas de prevenção de queda (p. ex., Clemson et al., 2004) são exemplos de intervenções que
foram  avaliadas  por  meio  de  estudos  controlados  randomizados.  Em  outras  situações,  uma  iniciativa  de
promoção da saúde participativa na comunidade ou de construção de capacidade pode ser mais bem avaliada
pelo  uso  de  uma  abordagem  participativa  (Letts,  2003b;  Taylor  et  al.,  2004).  Independente  do  tipo  de
avaliação,  é  necessário  que  os  terapeutas  ocupacionais  envolvidos  na  promoção  da  saúde  planejem
avaliações  dessas  iniciativas  para  construção  de  um  corpo  de  evidências  que  sustente  o  papel  da  terapia
ocupacional na promoção da saúde.

O  custeio  dos  serviços  de  terapia  ocupacional  a  partir  da  estrutura  de  promoção  da  saúde  é  igualmente  um
desafio. Quando os serviços de terapia ocupacional são mais frequentemente oferecidos e cobrados com base em
sua provisão para clientes individuais, é desafiador relacionar o custo ao trabalho com comunidades em questões
de  saúde  de  maneira  participativa,  capacitadora  e  intersetorial  (Spalding,  1996).  Relacionada  ao  custeio  está  a
disponibilidade dos recursos de terapia ocupacional e como estes são distribuídos para atender às necessidades
de saúde das comunidades. Se mais serviços de terapia ocupacional fossem oferecidos contra a corrente, focados
na  promoção  da  saúde  primária  em  comunidades  saudáveis  e  independentes,  haveria  provisão  adequada  de
terapia  para  atender  às  necessidades  de  pessoas  com  incapacidade  (Scriven  &  Atwal,  2004)?  Quase  sempre
haverá, indubitavelmente, uma necessidade de que os terapeutas ocupacionais prestem serviço com base nas três
abordagens  para  a  saúde:  médica,  comportamental  e  socioambiental.  O  desafio  consiste  em  encontrar  o
equilíbrio dos recursos para a otimização da saúde e a utilização dos serviços de terapia ocupacional.
Fig. 18.3 Alunas com mochilas seguras do modelo Iceland.

Por  fim,  se  a  promoção  da  saúde  deve  ser  valorizada  como  uma  função  para  os  terapeutas  ocupacionais,
precisa haver mais evidências para sustentar sua adoção. O trabalho de Clark e colaboradores (1997) fornece um
exemplo de iniciativa para avaliar rigorosamente a eficácia da terapia ocupacional no papel de prevenção para
idosos saudáveis. Evidência semelhante é necessária em outras áreas da prática da terapia ocupacional. Existem
debates na literatura da promoção da saúde sobre as melhores estratégias para avaliar as iniciativas comunitárias
de  promoção  de  saúde  (veja  Comentários  sobre  as  Evidências).  Independente  disso,  a  coleta  e  a  análise
sistemáticas  de  dados  são  necessárias  para  gerar  uma  massa  de  evidência  que  sustente  o  papel  da  terapia
ocupacional na promoção da saúde.
Desafios também podem ser vistos como oportunidades e, a partir destes, estratégias podem ser formuladas
para abordá­los. Quando os terapeutas ocupacionais enfrentam desafios ao usar uma estrutura de promoção da
saúde,  considera­se  uma  estratégia  útil  a  formação  de  alianças  com  outros  grupos.  Os  outros  grupos  de
profissionais  da  saúde  podem  ser  aliados  no  desenvolvimento  de  novos  pa  péis  na  promoção  da  saúde.  Por
exemplo, os assistentes sociais, os enfermeiros da saúde pública e os agentes comunitários podem ser parceiros
dos terapeutas ocupacionais. Trabalhar em equipe multidisciplinar é confortável para os terapeutas ocupacionais,
e  eles  têm  habilidades  para  otimizar  a  saúde  por  meio  de  parcerias  (Spalding,  1996).  Além  disso,  os  grupos
comunitários podem ser importantes aliados na criação de demanda para que os terapeutas ocupacionais utilizem
suas habilidades e seu conhecimento em uma estrutura de promoção da saúde (Fraser, Letts & Carswell, 1993).
Parcerias e alianças podem ser criadas em diversos níveis. Por exemplo, os terapeutas ocupacionais podem ser
voluntários para trabalhar com um grupo de idosos em um centro comunitário de recreação. Em um nível mais
amplo,  organizações  profissionais,  como  a  American  Occupational  Therapy  Association,  podem  estabelecer
parcerias  com  grupos  de  consumidores,  como  a  American  Association  of  Retired  Persons,  para  defender  que
mais terapeutas ocupacionais trabalhem com idosos de modo a manter e melhorar sua saúde.
Quando aplicam as habilidades e os conhecimentos da terapia ocupacional à estrutura de promoção da saúde,
os terapeutas ocupacionais podem também precisar avaliar se eles dispõem de todo o conhecimento necessário.
Por  exemplo,  ao  consultar  as  comunidades  e  os  grupos  a  respeito  de  seus  problemas  de  saúde,  os  terapeutas
ocupacionais  precisam  se  descrever  em  termos  daquele  foco  de  saúde  e  não  em  relação  à  doença  ou  à
incapacidade (Letts et al., 1993). Além disso, os terapeutas ocupacionais precisam compreender o processo da
política pública quando se envolvem na organização da comunidade, na defesa da coalizão ou na ação política.
Por  exemplo,  a  AOTA  desenvolveu  uma  iniciativa  abrangente  de  defesa  para  retirar  limites  de  cobertura  do
Medicare  da  reabilitação  ambulatorial.  A  estratégia  envolveu  a  associação,  bem  como  seus  membros,  para
defender a remoção dos limites de cobertura diante do governo federal e dos legisladores. Qualquer defesa exige
a compreensão de qual mensagem precisa ser transmitida, para quem e como isso pode ser realizado de maneira
efetiva. Por fim, as habilidades na avaliação do programa são necessárias para garantir que sejam avaliadas as
iniciativas de promoção da saúde.

CONCLUSÕES
A promoção da saúde evoluiu nas últimas décadas, e este capítulo demonstrou congruência entre a promoção da
saúde e a terapia ocupacional. Os terapeutas ocupacionais podem aplicar suas habilidades e seu conhecimento
utilizando  uma  estrutura  de  promoção  da  saúde,  mas  eles  deparam  com  inúmeros  desafios  para  fazer  isto.  É
importante  começar  por  compreender  as  abordagens  para  a  saúde,  a  promoção  da  saúde  e  os  conceitos
correlatos, como a saúde da população, a saúde pública, o desenvolvimento da comunidade e o cuidado primário
de saúde. Para desenvolverem parcerias na promoção da saúde, os terapeutas ocupacionais precisam ser capazes
de  descrever  a  terapia  ocupacional  de  modo  a  concentrar­se  na  saúde,  e  não  na  incapacidade.  Os  terapeutas
ocupacionais precisam trabalhar com indivíduos, grupos e comunidades para identificar os problemas de saúde
que precisam ser abordados. O financiamento para que os terapeutas ocupacionais trabalhem em uma estrutura
de promoção da saúde continua a ser um desafio e pode exigir criatividade e busca por financiamento além das
fontes  tradicionais.  Por  exemplo,  fundações  interessadas  em  organizar  a  comunidade  poderiam  custear  um
terapeuta  ocupacional  em  uma  função  de  coordenação.  Por  fim,  à  medida  que  aumenta  o  trabalho  na  área  da
promoção da saúde, avaliações rigorosas precisam demonstrar a eficácia da terapia ocupacional na promoção da
saúde.

QUESTÕES INSTIGANTES
1. “A menos que os profissionais pensem ao mesmo tempo de maneira pessoal e estrutural, eles correm o risco
de perder o foco da realidade simultânea de ambos. Quando focam apenas o indivíduo e apenas o controle
de uma crise ou a prestação de serviço, eles correm o risco de privatização ao tornar pessoais as bases social
e econômica para a pobreza e a impotência. Quando apenas se focam nos problemas estruturais, eles correm
o risco de ignorar as dores imediatas e as feridas pessoais da impotência e das pessoas em crise” (Labonte,
1994, p. 259). O que esta citação lhe diz a respeito do papel da terapia ocupacional na promoção da saúde?
Considere  exemplos  nos  quais  os  terapeutas  ocupacionais  possam  estar  enfatizando  excessivamente  os
problemas individuais ou estruturais e como pode ser mantido um equilíbrio entre ambos.
2. Os exemplos de promoção da saúde em terapia ocupacional frequentemente parecem estar fundamentados
em uma abordagem comportamental para a saúde. Os críticos da abordagem comportamental observam que
esta abordagem, mais que uma abordagem médica ou socioambiental, está em risco de culpar a vítima. Por
exemplo,  suponha  que  uma  pessoa  sofre  uma  lesão  porque  utilizou  uma  técnica  de  levantamento
inadequada mesmo depois de receber orientações sobre as técnicas adequadas de levantamento dadas por
um  terapeuta  ocupacional.  Além  disso,  apesar  de  receber  informações  sobre  a  importância  do  exercício
abdominal e da aptidão física geral para evitar lesões nas costas, suponha que a pessoa opte por um estilo de
vida mais sedentário, com atividades físicas limitadas. Quando a pessoa sofre uma lesão no trabalho, isto
poderia  resultar  na  conclusão  de  que  o  trabalhador  lesionado  é  culpado  pela  lesão  e  na  crença  de  que  a
pessoa merece menor compensação ou reabilitação porque ela devia ter aprendido melhor. Você concorda
que  o  trabalhador  lesionado  é  culpado?  Como  isto  afeta  sua  percepção  da  pessoa  em  geral  e  como  um
terapeuta ocupacional?

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Integração à Comunidade
BRIAN J. DUDGEON

Sumário
Introdução
Participação na Comunidade: Definições
Abordagens Centradas no Cliente
Abordagens Centradas na Comunidade
Avaliação e Tratamento para Facilitar a Participação na Comunidade
Avaliação e Tratamento Centrados no Cliente
Avaliação e Tratamento Centrados na Comunidade
Estudo de Caso: A História de Jason: Vivendo com uma Lesão de Medula Espinhal
Resumo

Objetivos de Aprendizagem
Após a leitura deste capítulo, você será capaz de:
1. Definir  incapacidade  e  identificar  os  desafios  à  participação  que  pessoas  com  incapacidades
podem experimentar como parte da vida na comunidade.
2. Diferenciar a abordagem centrada no cliente e a abordagem centrada na comunidade na prática.
3. Diferenciar o atendimento clínico e os pa péis de defesa relativos à integração na comunidade.
4. Discutir  abordagens  para  a  avaliação  centrada  na  comunidade  e  identificar  as  coalizões  que
podem ser formadas como parte da defesa para o acesso e para a aceitação.

INTRODUÇÃO
Para estabelecer metas e tratamentos que promovam a participação nas comunidades, é importante considerar as
preocupações  com  algumas  pessoas  em  especial,  bem  como  as  necessidades  de  toda  a  comunidade.  Na
promoção da participação são utilizadas as abordagens centradas no cliente e na comunidade. Estas abordagens
apresentam  problemas  e  metas  comuns,  mas  se  utilizam  de  estratégias  de  tratamento  distintas.  Este  capítulo
apresenta  o  continuum  dos  tratamentos  centrados  no  cliente  e  centrados  na  comunidade  para  facilitar  a
participação de pessoas com incapacidade.
Em base individual,  o  tratamento  pode  focar­se  na  integração  de  uma  criança com necessidades especiais à
comunidade  ou  na  reintegração  de  um  adulto  no  momento  de  instalação  da  incapacidade.  Esta  abordagem
centrada no cliente enfatiza o desenvolvimento, a restauração ou adaptação das habilidades do indivíduo, bem
como a organização e o uso da assistência disponível no suporte natural da família e dos amigos (Law & Milss,
1998). Também inclui a criação de ambientes acessíveis que promovam na pessoa a associação e as sensações de
pertencimento e de ter um papel construtivo.
Com base na população ou na comunidade, o tratamento enfatiza a acessibilidade e a aceitação nos ambientes
físico,  social  e  cultural.  Em  geral,  as  abordagens centradas  na  comunidade  envolvem  a  defesa,  a  criação  de
uma  metodologia  universal  ou  acessível  a  toda  a  comunidade  e  a  promoção  da  compreensão  e  da  inclusão
daqueles com capacidades ou características diferentes.

PARTICIPAÇÃO NA COMUNIDADE: DEFINIÇÕES
A  dificuldade  para  a  realização  de  atividades  é  considerada  incapacidade,  de  modo  que  diferentes
comprometimentos  dos  sistemas  orgânicos  podem  contribuir  para  a  incapacidade  de  uma  pessoa  realizar  as
atividades de maneira esperada ou aceitável. Embora muitas atividades sejam privadas, a incapacidade também
está  associada  a  problemas  na  participação  ou  no  envolvimento  de  um  indivíduo  em  situações  de  vida  nas
comunidades. A limitação da atividade, bem como as barreiras ambientais, pode contribuir para as restrições na
participação. Os fatores ambientais incluem os ambientes físico, social e atitudinal nos quais as pessoas vivem e
conduzem suas vidas (World Health Organization, 2001).
A reintegração na comunidade foi formalmente definida como o processo de fazer parte do fluxo principal da
vida da família e da comunidade, participando das responsabilidades e dos pa péis normais e sendo um membro
ativo e contribuinte dos grupos sociais da pessoa e da sociedade como um todo (Dijkers, 1998). Movimentos no
sentido da participação, mais do que no sentido da integração, são reconhecidos atualmente (Brown et al., 2004).
O construto da integração à comunidade tem sido trazido à discussão por meio do exame de medidas clínicas e
de  pesquisa  (Minnes  et  al.,  2004),  e  dilemas  similares  são  observados  em  aspectos  multidimensionais  da
participação como parte da vida na comunidade (Dumont, Bertrand, Fougeyrollas & Gervais, 2003). Enquanto a
integração denota associação, a participação implica no compartilhamento como um processo ativo e dinâmico,
podendo esta descrição caracterizar melhor as visões dos indivíduos com incapacidade.
Os  contextos  denominados  comunidade  também  foram  debatidos.  As  definições de comunidade  incluem  o
compartilhamento  entre  pessoas  de  uma  área  (p.  ex.,  localidade,  distrito,  governo),  bem  como  de  interesses  e
interações  e,  talvez,  da  sensação  de  uma  identidade  compartilhada  (Oxford  English  Dictionary,  2001).  A
comunidade também é definida pela designação de comunidades rurais, suburbanas e urbanas, que é baseada em
estatísticas  da  área  metropolitana  ou  em  medidas  da  densidade  populacional.  Estas  designações  são  por  vezes
empregadas  para  definir  as  comunidades  com  relação  à  disponibilidade  de  recursos,  bem  como  aos  estilos  de
vida e à diversidade (Fazio, 2001).
As visões tradicionais de comunidade são valiosas para conceitualizar as necessidades das pessoas, bem como
dos  grupos  na  comunidade.  Toennies  (traduzido  em  1957)  utilizou  o  termo  alemão  gemeinschaft  para
caracterizar  os  relacionamentos  entre  as  pessoas  que  são  privadas  e  se  baseiam  em  interesses  compartilhados
com seus semelhantes ou com a família, os vizinhos e os grupos de amigos. Tais elementos personalizados da
comunidade  foram  definidos  como  gesellschaft,  o  termo  utilizado  para  caracterizar  os  recursos  e  as  ações  do
sistema  que  são  uma  expressão  pública  ou  resposta  a  um  dever  ou  a  uma  organização  dentro  da  sociedade.
Embora tanto gemeinschaft quanto gesellschaft estejam presentes nas sociedades contemporâneas, os ambientes
urbanos são frequentemente considerados como tendo menos suportes personalizados em atuação e os ambientes
rurais  como  tendo  menos  recursos  do  sistema  (Christenson,  1979).  Os  contrastes  do  rural  versus  urbano,  do
pessoal  versus  sistema  poderiam  ser  excessivamente  simplistas,  em  particular  nos  tempos  atuais,  pois
comunidades  intencionais  ou  virtuais  se  formam  com  base  em  identidades  e  interesses  compartilhados,  com
conexões  que  são  eletrônicas  e  não  dependentes  da  geografia  compartilhada  (Fellowship  for  International
Community,  1996;  Rheingold,  1998).  Para  alguns,  a  participação  por  meio  da  Internet  pode  tornar  a
incapacidade invisível, juntamente com outros aspectos da identidade (Bowker & Tuffin, 2002).
Apesar  disso,  essas  definições  de  comunidade  lembram  aos  profissionais  contar  com  auxiliares  e  suportes
naturais  ao  ambiente,  ao  mesmo  tempo  que  também  informam  os  clientes  sobre  seus  direitos,  suas
responsabilidades e habilitações para participar dos sistemas e programas da comunidade. Os usos de auxiliares
e  suportes  naturais  são  marcos  da  integração  à  comunidade  e  podem  desempenhar  um  papel  central  no
planejamento da avaliação e do tratamento (Hagner, Rogan & Murphy, 1992; Israel, 1985).
Outra caracterização útil da comunidade é encontrada no modelo de Bronfenbrenner (1977), que reconhece as
interdependências existentes entre as pessoas e seus ambientes sociais. De acordo com Bronfenbrenner, a pessoa
vive  em  um  microssistema,  com  os  ambientes  imediatos  envolvendo  fatores  de  lugar,  tempo,  aspectos  físicos,
atividade, participantes  e  pa  péis. Inter­relações  dos  microssistemas  como  casa,  escola  e  local  de  trabalho  são
designadas como um mesossistema e incluem os grupos pessoais, como família e amigos, colegas de escola e
colaboradores. Os sistemas sociais formal e informal em nível local são denominados exossistemas e incluem as
influências  da  vizinhança,  da  mídia  de  massa,  das  agências  do  governo,  dos  negócios,  dos  sistemas  de
comunicação e transporte e de outras redes sociais. No nível social está o macrossistema, os padrões superiores
da cultura ou da subcultura que, com frequência, norteiam ou organizam a economia, assim como os sistemas
educacional, social, legal e político.
A complexa interdependência das pessoas com seu entorno ambiental é importante para a compreensão dos
problemas e para o desenvolvimento de programas que incluem todos os níveis da comunidade. As abordagens
centradas  no  cliente  se  focam  nos  microssistemas  (p.  ex.,  a  casa)  e  as  abordagens  baseadas  na  comunidade
também incluem os mesossistemas (p. ex., lojas locais, escola, ambientes de trabalho). As abordagens centradas
na  comunidade  se  focam  nos  exossistemas  (p.  ex.,  programas  de  saúde  pública)  e  nos  macrossistemas (p. ex.,
política pública, normas e regulamentações) que podem otimizar a acessibilidade e a aceitação nas comunidades.
O sucesso da transição de um indivíduo no sentido da participação na comunidade provavelmente envolverá uma
mudança nos níveis individual e da comunidade e aponta para uma mistura necessária das abordagens centrada
no cliente e centrada na comunidade.
O termo (re)integração na comunidade sugere que existe uma má adaptação entre o indivíduo e a comunidade
com  a  qual  ele  procura  uma  conexão.  A  pessoa  poderia  sentir­se  diferente,  excluída  e,  talvez,  malquista.  Os
esforços terapêuticos e sociais procuram conferir aos indivíduos o direito de tornar­se membros participativos de
uma comunidade e fornecer a orientação para a compreensão das responsabilidades e dos deveres com relação à
comunidade. Quando esses esforços são bem­sucedidos, a participação plena promove a associação, o acesso e a
aceitação  igual  e  irrestrita  em  uma  comunidade  (Fig.  19.1).  A  inclusão  pode  ser  utilizada  para  descrever  a
presença  de  alguém  em  um  grupo  ou  uma  oportunidade  para  participar  de  modo  pleno.  Com  uma  forte
compreensão das interações pessoa­ambiente, os profissionais da terapia ocupacional estão bem preparados para
promover a integração da comunidade (Collins, 1996).

Fig. 19.1 Um consumidor faz compras com sua esposa e paga pelas mercadorias em uma mercearia. A
acessibilidade e a aceitação fazem parte da participação na comunidade. Foto de Jackie Hall, M.S., OTR, VA
Puget Sound Health Care System.

Para terapeutas ocupacionais e outros profissionais, existe uma tensão entre o espectro de prática e o contexto
da  prática.  Temos  observado  mudanças  do  cuidado  institucional  para  o  cuidado  baseado  em  centros  e  para  o
cuidado baseado na comunidade. O cuidado institucional, agora geralmente desaprovado, começou como uma
estratégia pensada para congregar e proteger as pessoas que eram percebidas como vulneráveis. No entanto, a
proteção resultou em mais segregação, alienação e estigmatização (Priestly, 1999). Os movimentos no sentido da
desinstitucionalização levaram ao cuidado baseado em centros, em que prédios foram erguidos com a finalidade
de  congregar  os  serviços,  com  esforço  empreendido  para  que  os  centros  fossem  considerados  uma  parte  da
comunidade  regional  ou  local.  Ainda  existe  insatisfação  com  os  centros  em  virtude  da  desconexão  percebida
com  os  contextos  naturais.  Assim,  atualmente,  promove­se  uma  orientação  baseada na comunidade  com  um
foco  sobre  os  ambientes  reais  de  função  e  participação  (p.  ex.,  casas,  escolas,  locais  de  trabalho,  parques  e
transporte) (Law & Mills, 1998; McColl, 1998). A defesa da reabilitação baseada na comunidade também faz
parte da missão da Organização Mundial de Saúde para promoção da inclusão e de oportunidades para pessoas
com necessidades especiais por todo o mundo (WHO, 2004).
A  abordagem  centrada  no  cliente  e  a  abordagem  centrada  na  família  podem  estar  baseadas  na  comunidade
(Scaffa, 2001), porém são distintas das abordagens centradas  na  comunidade,  em  que  são  discutidos  sistemas,
locais  ou  atitudes  da  comunidade.  Estas  abordagens  apresentam  focos  específicos  de  preocupação  e  diferentes
práticas de avaliação e tratamento.

Abordagens Centradas no Cliente
A  preocupação  com  a  participação  da  pessoa  na  comunidade  envolve  tipicamente  a  análise  de  ambientes
pessoais, como a acessibilidade em casa, a segurança, a necessidade de supervisão e os engajamentos pessoais,
bem  como  sociais.  Reorganização  desses  ambientes,  aquisição  de  equipamentos  médicos  duráveis  e
modificações arquitetônicas são algumas vezes necessárias, do mesmo modo que acontece com o treinamento e
o aconselhamento da família em relação ao fornecimento de assistência. A abordagem centrada no cliente  ou
centrada na família pode incluir acesso, aconselhamento e/ou treinamento para dar suporte ao desempenho em
ambientes da comunidade local, como mercado, cinema, parque e sistema de ônibus ou trem da comunidade. Por
vezes,  a  atenção  é  focada  especificamente  no  desempenho  e  na  participação  em  programas  educacionais,
ambientes  de  trabalho  voluntário  ou  remunerado,  ou  envolvimento  com  instituições  e  programas  de  lazer
organizados da cidade ou do município. As atividades de cidadania, como o acesso ao voto, também podem ser
abordadas.
Os meios de que a pessoa e a família dispõem para modificar a casa, os sistemas de comunicação, os meios de
transporte e o retorno ou nova participação na atividade comunitária são planejados com e em torno do cliente e
seus recursos. Valores  apoiados  por  esse  esforço  são  específicos  para  o  cliente e culturalmente sensíveis. Para
algumas  pessoas,  a  independência  e  a  redução  da  carga  de  cuidados  e/ou  da  carga  econômica  sobre  a  rede
pessoal de uma pessoa (p. ex., família) são prioridades. Algumas vezes, as escolhas e as decisões finais tomadas
pelos clientes e pelas  famílias  podem  diferir  das  recomendações  do  profissional, mas, no cuidado centrado no
cliente, a autoridade e as preferências do cliente são apoiadas pelo ensino e orientação do profissional em vez do
direcionamento ou comando do profissional (Scaffa, 2001). O profissional utiliza um estilo não diretivo e uma
conduta fenomenológica ao fazer com que os indivíduos descrevam suas experiências e suas realidades (Law &
Mills,  1998).  O  respeito  pelo  cliente  e  pela  família  e  a  garantia  de  que  tempo  suficiente  é  devotado  para  a
audiência ativa são componentes essenciais da abordagem centrada no cliente. A autoeficácia também está no
cerne  do  cuidado  centrado  no  cliente  (Baum,  1998),  mas  os  clientes  e  as  famílias  irão  diferir  no  quanto  eles
querem  participar  da  parceria.  Independente  disso,  é  provável  que  o  tratamento  respeitoso  e  o  recebimento  de
informações que ajudarão na tomada de decisão aumentem a satisfação do cliente e da família.

Abordagens Centradas na Comunidade
A preocupação a respeito da integração de todos os membros da comunidade com incapacidade exige diferentes
orientações  e  estratégias  de  tratamento.  As  estratégias  focadas  na  comunidade  são  discutidas,  porém,  para  a
compreensão das necessidades e o estabelecimento das prioridades, é importante rever os desafios à participação
na comunidade enfrentados por pessoas com incapacidade. Um estudo recente relata que cerca de 49 milhões de
pessoas  (19%  da  população  norte­americana)  apresentam  alguma  incapacidade  ou  limitação  em  uma  ou  mais
atividades  de  vida  diária  (AVD)  ou  nas  atividades  instrumentais  de  vida  diária  (AIVD)  (Kraus,  Stoddard  &
Gilmartin,  1996).  Mais  de  12%  da  população  norte­americana  apresenta  o  que  pode  ser  considerado  uma
incapacidade grave, com cerca de 4% precisando de assistência pessoal durante suas vidas diárias. Os problemas
das AIVD são mais comuns do que as dificuldades com as AVD para pessoas com incapacidade, e os adultos
com  problemas  de  AIVD  são  mais  frequentemente  desafiados  por  problemas  de  mobilidade,  cognição,
manipulação e atividade envolvendo visão, audição e comunicação. Outra característica comum das pessoas da
comunidade  com  incapacidade  é  o  desemprego.  Para  muitos  grupos  com  incapacidade,  a  taxa  total  de
desemprego da comunidade é bem superior a 60%, sendo a taxa de pobreza para pessoas com idades de 25 a 64
anos com incapacidade grave de cerca de 28%, em comparação com 8% para aquelas sem incapacidade. Embora
a idade avançada e a residência em um ambiente rural sejam indicativas de taxas mais altas e maior gravidade da
incapacidade,  a  prevalência  da  incapacidade  e  as  necessidades  de  abordar  os  desafios  de  saúde  parecem  estar
aumentando em todos os grupos etários (Lollar, 2002; Rimmer & Braddock, 2002).
Uma mudança do foco centrado no cliente para o foco centrado na comunidade com relação à saúde e ao bem­
estar chama a atenção para a realidade de que, enquanto a saúde é uma questão pessoal, o estado de saúde e o
bem­estar  funcional  de  uma  pessoa  envolvem  uma  interação  dinâmica  entre  os  fatores  pessoais  e  os  fatores
comunitários.  Os  últimos  podem  ser  explorados  com  a  abordagem  das  práticas  do  movimento  para  a  vida
independente (MVI) da saúde pública e outros esforços para criar comunidades seguras, saudáveis e acessíveis
que permitam a participação plena.

Movimento para a Vida Independente
Durante  a  segunda  metade  do  século  XX,  à  medida  que  mais  pessoas  com  incapacidade  procuravam
oportunidades nas comunidades, o MVI foi criado e deu origem a várias mudanças públicas nas visões sobre a
incapacidade  (DeJong,  1979).  Por  exemplo,  a  lei  Americans  with  Disabilities  Act,  de  1990,  trouxe  um
sentimento de direitos civis para todas as comunidades, uma extensão dos direitos que haviam sido previamente
associados apenas a programas governamentais (p. ex., Rehabilitation Act de 1973, Education for All legislation
[PL  94­142]  de  1975).  O  MVI  é  um  movimento  social  que  foi  concebido  e  direcionado  para  uma  melhor
qualidade  de  vida  das  pessoas  com  incapacidade.  O  MVI  deve  muito  a  outros  movimentos  sociais
compensatórios,  como  os  direitos  civis,  o  consumismo,  a  autoajuda,  a  desmedicalização  do  autocuidado  e  a
desinstitucionalização. A autocapacitação das pessoas com incapacidade é creditada a uma mudança de valores
das  políticas  tradicionais  para  valores  de  vida  integrada.  Os  exemplos  incluem  mudanças  nos  conceitos  do
cuidado  para  a  participação,  da  segregação  para  a  integração,  da  normalização  para  a  autodeterminação,  da
caridade para os direitos civis e da carga de casos para a cidadania (Priestly, 1999). O MVI reconhece o seguinte:

Cada  pessoa  tem  o  direito  à  independência  por  meio  do  controle  máximo  de  sua  vida,  com  base  na  capacidade  e
oportunidade  de  realizar  as  escolhas  ao  empreender  as  atividades  cotidianas.  Estas  atividades  incluem:  gerenciar  a
própria vida pessoal; participar da vida da comunidade; preencher pa péis sociais, como casamento, paternidade, emprego
e  cidadania;  sustentar  a  autodeterminação;  e  minimizar  a  dependência  física  ou  psicológica  em  relação  aos  outros.  A
integração à comunidade incorpora ideias tanto de lugar quanto de participação, de modo que uma pessoa esteja alocada
fisicamente em um ambiente da comunidade e participe das atividades da comunidade. As questões de direcionamento e
controle do consumidor fazem parte dos conceitos de integração à comunidade. (National Center for the Dissemination
of Rehabilitation Research, 2006)

O MVI continua a ser uma força social que reconhece os sistemas comunitários mutáveis. Por exemplo, com o
aumento nos custos dos cuidados de saúde em nível nacional, as pessoas com incapacidade são colocadas em
risco  particular.  O  gasto  médico  per  capita  para  as  pessoas  que  relatam  duas  ou  mais  condições  crônicas
incapacitantes pode ser cinco vezes a quantia gasta por aquelas sem patologias limitantes e quase duas vezes a
quantia  gasta  por  aquelas  com  apenas  uma  condição  limitante  (Rice  &  LaPlante,  1992).  Aquelas  com
incapacidades  causadas  por  patologias  crônicas  têm  custos  de  cuidados  de  saúde  acima  da  média  e  são
consideradas  uma  população  de  alto  risco  que  exige  que  especialistas  em  reabilitação  façam  parcerias  com  os
consumidores  para  defender  efetivamente  os  serviços  (Batavia,  1999).  Os  movimentos  a  favor  do  cuidado
gerenciado  colocaram  tensão  sobre  pessoas  e  grupos  de  pessoas  com  incapacidade,  o  que  resulta  no  fato  de  o
Medicaid (i.e., o seguro de saúde com custeio público) ser o maior provedor isolado de financiamento para os
cuidados de saúde para pessoas com incapacidade (DeJong, Palsbo, Beatty, Jones, Kroll & Neri, 2002).

Perspectiva de Saúde Pública
Os dilemas financeiros associados aos custos dos cuidados de saúde e aos desafios particularmente associados à
incapacidade  chamaram  a  atenção  para  outra  orientação  comunitária  importante.  Uma  perspectiva  de  saúde
pública reconhece o valor do cuidado médico como sendo apenas um nível de intervenção, chamando a atenção
para  a  prevenção  dos  desafios  de  saúde  na  comunidade.  Na  saúde  pública,  a  condição­alvo  é  a  saúde  ou  o
resultado  da  doença  que  as  intervenções  de  cuidados  preventivos  evitam  (prevenção  primária),  identificam
precocemente (prevenção secundária) ou tratam de maneira efetiva (prevenção terciária). Os fatores de risco são
atributos associados à condição­alvo e podem englobar variáveis demográficas, fatores de risco comportamentais
e  fatores  ambientais.  O  papel  mais  promissor  para  a  prevenção  na  prática  atual  pode  residir  na  mudança  de
comportamento  de  saúde  das  pessoas  antes  do  estabelecimento  da  doença  ou  da  lesão.  Por  exemplo,
aproximadamente metade de todas as incapacidades e mortes pode ser atribuída ao tabagismo, ao etilismo e ao
uso de drogas ilícitas; padrões de nutrição e atividade; veículos automotores; e comportamento sexual. A prática
da  prevenção  pode  envolver  todos  os  profissionais  da  saúde  e  da  educação  (U.  S.  Preventive  Services  Task
Force, 1996).
Embora as práticas de saúde pública sejam encontradas em diversas instituições que não os hospitais ou outros
ambientes de cuidados de saúde, são reconhecidos pa péis importantes de todos os profissionais. Por exemplo, os
médicos são incentivados a fornecer um breve aconselhamento durante as consultas de rotina e a encaminhar os
clientes para profissionais de saúde com habilidades especiais de aconselhamento em suas áreas de atuação (p.
ex., terapia ocupacional para a segurança na condução de veículos automotores). Para todos os profissionais, os
princípios da prevenção  acompanham  as  ideias  de  ativação  do  paciente  (Hibbard, 2003) e incluem aqueles no
Boxe 19.1.
Toda  oportunidade  deve  ser  aproveitada  para  fornecer  os  serviços  preventivos,  principalmente  para  pessoas
que têm acesso limitado ao tratamento. Recomenda­se o fornecimento dos serviços de prevenção a cada visita.
Para alguns problemas de saúde, os tratamentos no nível da comunidade poderiam ser mais efetivos do que os
serviços  de  prevenção  clínica.  Um  papel  importante  para  os  médicos  é  sua  participação  em  sistemas  da
comunidade que abordam os diversos tipos de problemas de saúde.
As  práticas  de  saúde  pública  são  frequentemente  descritas  ao  se  utilizar  a  analogia  de  um  rio  que  corre
continuamente  (Orleans,  Gruman,  Ulmer,  Emont  &  Hollendonner,  1999).  Os  programas  ou  táticas  a  favor  da
corrente procuram modificar comportamentos individuais das pessoas em grupos considerados em risco e, por
vezes,  em  todos  os  grupos  das  comunidades.  As  estratégias  durante  as  iniciativas  destinam­se  a  influenciar
aqueles  que  poderiam  exercer  influência  sobre  os  indivíduos.  Médicos  e  outros  profissionais  de  saúde,  bem
como  educadores,  podem  ser  recrutados  para  fornecer  as  informações  a  respeito  da  prática  da  prevenção.  As
preocupações  básicas  confrontam  a  política  pública  e  os  mecanismos  reguladores  que  têm  um  foco  na
população. Os exemplos incluem as questões de poluição e outras questões ambientais, bem como a segurança
das ruas e a fabricação de aparelhos para uso público.

PRINCÍPIOS DA ATIVAÇÃO

Ajudar os indivíduos a assumirem maior responsabilidade por suas próprias saúdes e por suas práticas de
saúde pessoal.
Ver  os  indivíduos  como  os  principais  agentes  na  prevenção  primária  e  fortalecer  e  aconselhar  os
indivíduos a mudarem os comportamentos relacionados à saúde.
Compreender  que,  quando  as  pessoas  têm  confiança  para  modificar  a  sua  saúde,  é  mais  provável  que
elas o façam do que aquelas que não têm esta confiança (Schwarzer, 1992).
A tomada de decisão compartilhada e o respeito pelos valores acerca dos possíveis resultados.
Educação e consideração das escolhas, preferências e incertezas como parte da tomada de decisão em
vez de uma política uniforme para todas as pessoas.

Healthy People 2010
Nos Estados Unidos, as estratégias de saúde pública fazem parte do desenvolvimento das prioridades nacionais
de  saúde.  Custeado  pelo  U.  S.  Surgeon  General  e  elaborado  de  acordo  com  as  prioridades  nacionais  de  saúde
prévias,  o  Healthy  People  2010  identifica  10  prioridades  de  saúde  pública  para  o  país  (Office  of  Disease
Prevention and Health Promotion, 2001). O Healthy People 2010 procura aumentar a saúde de cada pessoa, a
saúde  das  comunidades  e  a  saúde  da  nação.  O  documento  serve  como  base  para  o  desenvolvimento  de
programas  comunitários  para  abordagem  de  duas  metas  primordiais  para  indivíduos  de  todas  as  idades:  (1)
aumentar a qualidade e os anos de vida saudável, e (2) eliminar as disparidades de saúde existentes dentro da
população. Existem grandes diferenças na saúde com base no gênero, na raça ou etnia, na escolaridade ou renda,
na incapacidade, na localização geográfica e na orientação sexual. Dez indicadores de saúde destinam­se a servir
como alvos para a ação individual e da comunidade, de modo que as áreas de foco exigem atenção especial para
as atividades principais para redução ou eliminação de doença, incapacidade e morte prematura entre indivíduos
nas comunidades (Boxe 19.2).
As atividades de promoção da saúde e prevenção da doença têm sido há muito defendidas dentro da terapia
ocupacional, e o Healthy People 2010 exige a aplicação centrada na comunidade desses ideais (Hildenbrand &
Froehlich, 2002). As áreas de foco podem ser ampliadas e incluir os esforços para promover o uso de aparelhos
de assistência, modelos acessíveis e acesso às ocupações de promoção de saúde para todas as pessoas. Embora
diferentes dos serviços tradicionais centrados no cliente, muitos esforços que abordam preocupações centradas
na  comunidade  podem  ser  tratados  por  meio  de  colaborações  com  boa  relação  custo­benefício  (Merryman,
2002).
ALVOS DESAFIANTES PARA A SAÚDE PÚBLICA

Promover a atividade física regular.
Promover o peso saudável e a boa nutrição.
Evitar e reduzir o tabagismo.
Evitar e reduzir o uso abusivo de substâncias.
Promover o comportamento sexual responsável.
Promover a saúde mental e o bem­estar.
Promover a segurança e reduzir a violência.
Promover ambientes saudáveis.
Evitar a doença infecciosa por meio da imunização.
Aumentar o acesso ao cuidado de saúde de alta qualidade.

Organizações  nacionais,  como  a  American  Occupational  Therapy  Association,  são  convocadas  para
desenvolver programas que habilitem os indivíduos a tomar decisões informadas sobre os cuidados de saúde e
para  promover  a  segurança  na  comunidade,  educação  e  acesso  ao  cuidado  de  saúde  (p.  ex.,  segurança  das
mochilas para as crianças em idade escolar) (American Occupational Therapy Association, 2005). A prevenção
primária é uma prioridade para a ação na comunidade. Para abordagem dos objetivos do Healthy People 2010, os
lugares para os programas de tratamento incluem locais onde as pessoas congregam e interagem. Estes podem
incluir ambientes escolares, ambientes de trabalho, ambientes de cuidados de saúde e a comunidade em geral por
meio de instalações públicas, agências governamentais locais e serviços sociais, bem como organizações cívicas
e religiosas, para alcançar as pessoas onde elas vivem, trabalham e têm lazer.

AVALIAÇÃO E TRATAMENTO PARA FACILITAR A PARTICIPAÇÃO NA
COMUNIDADE
Os  serviços  de  avaliação  e  tratamento  podem  ser  fornecidos  em  um  continuum,  utilizando  tanto  a  perspectiva
centrada no cliente quanto a perspectiva centrada na comunidade. A princípio, o tratamento pode ser focado no
indivíduo  e  na  mudança  de  um  contexto  de  cuidado  institucional  ou  clínico  para  a  própria  comunidade  do
cliente.  Esta  mudança  desloca  o  tratamento  para  ambientes  naturais,  nos  quais  os  clientes  empreendem  suas
vidas  e  encontram  e  se  adaptam  às  realidades  dos  contextos  físico,  social  e  político.  No  outro  extremo  do
continuum,  o  tratamento  pode  focar­se  principalmente  na  comunidade,  onde  alguém  empreende  a  ação  de
modificar  os  sistemas  da  comunidade  de  modo  a  possibilitar  a  participação  plena  de  todos  os  indivíduos,
incluindo aqueles com incapacidade (Fig. 19.2).

Avaliação e Tratamento Centrados no Cliente
A avaliação do indivíduo inclui uma abordagem tradicional de como lidar com as habilidades e necessidades do
cliente, mas também inclui as pessoas que fazem parte da rede de suporte do cliente (p. ex., família, amigos e
vizinhos).  Também  são  avaliados  o  local  de  residência  e  os  ambientes  de  um  indivíduo  na  comunidade  e  os
sistemas de transporte.
A  avaliação  da  participação  pode  focar­se  em  um  único  receptor  de  cuidados  ou  em  uma  amostra  de
indivíduos  com  condições  diagnósticas  ou  classificação  de  incapacidade  específica.  Embora  o  modelo  de
Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (CIF) aponte que maior atenção deva ser
dirigida para a participação como um resultado, a mensuração efetiva da participação é vista como problemática
e necessita de novas condutas de avaliação (Granlund, Eriksson & Ylven, 2004; Jette & Haley, 2005; Okochi,
Utsunomiya & Takahashi, 2005; Salter, Jutai, Teasell, Foley, Bitensky & Bayley, 2005). Embora várias medidas
tenham  sido  propostas  para  avaliar  a  integração  e  a  participação  na  comunidade,  os  críticos  destas  medidas
revelam que, com frequência, é difícil medir separadamente os níveis de atividade e participação (Perenboom &
Chorus, 2003). As abordagens para avaliação da participação na comunidade realmente indicam que o fenômeno
é mais bem abordado como um resultado autorrelatado. Como o indivíduo compreende seu nível de sucesso e a
identificação das barreiras à participação pelo indivíduo são aspectos importantes da avaliação.
Fig. 19.2 Crianças, incluindo aquelas que apresentam desafios de isolamento social em função do autismo ou de
transtornos emocionais, colocam pedras de um mosaico para ajudar os familiares em um projeto de revitalização
da vizinhança. Foto de Roger Ideishi, Ph. D., OTR, University of the Sciences in Philadelphia.

A mudança de uma abordagem baseada em um centro para a abordagem baseada na comunidade exige uma
mudança dos ambientes de prática, bem como uma mudança de filosofia da pessoa. Os profissionais precisam ter
experiência  na  orientação  e  no  desenvolvimento  de  programas,  bem  como  devem  focar­se  em  questões  mais
amplas  que  o  típico  serviço  direto  (Dudgeon  &  Greenberg,  1998).  Para  alcançar  a  efetividade,  pode  ser
necessário trabalhar por meio de professores nas escolas, supervisores nos empregos e outros suportes naturais
na  comunidade.  Na  transição  para  a  prática  baseada  na  comunidade,  Fazio  (2001)  sugere  que  os  ambientes
naturais poderiam ser o local mais efetivo para o fornecimento do serviço. As condutas baseadas na comunidade,
como  avaliar  as  necessidades  das  pessoas  em  suas  casas,  são  incentivadas  (Freeman,  1997;  Sabari,  Meisler  &
Silver, 2000) e, por vezes, são demonstradas como efetivas para a reabilitação no acidente vascular cerebral e
para indivíduos com lesão cerebral (Anderson et al., 2000; Willer, Button & Rempel, 1999).

Avaliação e Tratamento Centrados na Comunidade
A  avaliação  da  comunidade  pode  envolver  a  exploração  da  incidência  e  da  prevalência  das  necessidades  da
disfunção ocupacional nas populações. No entanto, a avaliação da disfunção poderia ser contraproducente e não
dar  suporte  a  uma  comunidade  por  se  concentrar  sobre  a  deficiência  em  vez  de  no  potencial.  Kretzmann  e
McKnight  (1993)  sugerem  que  precisamos  nos  afastar  do  foco  nas  deficiências  da  comunidade  (p.  ex.,
desemprego, crime, falta de educação, gangues e desaparecimento). Em vez disso, devem ser feitos movimentos
no sentido de reconhecer e utilizar as relações entre os pontos fortes da comunidade, como aqueles existentes nas
pessoas  (p.  ex.,  idosos,  juventude,  artistas),  organizações  de  cidadãos  (p.  ex.,  grupos  culturais,  igrejas)  e
instituições  locais  (p.ex.,  escolas,  negócios,  parques,  hospitais).  Um  “estudo  das  necessidades”  torna­se  um
inventário  de  deficiência,  enquanto  um  “inventário  de  capacidade”  move­se  no  sentido  da  capacitação  das
comunidades (Kretzmann & McKnight, 1993). McKnight (1994) argumenta que as organizações de cuidados de
saúde  podem  comportar­se  como  membros  da  comunidade  (p.  ex.,  por  meio  de  defesa,  financiamento,
voluntariado  e  disponibilidade  de  espaço)  e  abordar  as  necessidades  da  comunidade  ao  focar  não  sobre  uma
ideologia epidemiológica ou diagnóstica, mas sobre as capacidades e os valores das pessoas, das famílias ou da
comunidade.
Kretzmann  (2000)  sustenta  que  a  saúde  é  o  produto  de  quatro  determinantes:  (1)  o  comportamento  do
indivíduo,  (2)  a  força  dos  relacionamentos  sociais  individuais,  (3)  a  salubridade  do  ambiente  físico  e  (4)  a
condição  econômica  do  indivíduo.  Ele  propõe  “a  avaliação  e  o  desenvolvimento  da  comunidade  baseados  em
valores”. As competências dos residentes, o poder das associações de voluntários e os recursos de instituições
públicas, privadas e sem fins lucrativos devem ser aproveitados para promover a saúde em uma comunidade. Por
exemplo, para abordarem a influência das associações locais, os profissionais poderiam explorar parcerias com
escolas,  organizações  de  jovens,  negócios  e  associações  locais  que  promovam  a  participação  daqueles  com
incapacidade.  Estas  parcerias  poderiam  incluir  colaborações  com  a  Coalitions  of  Citizens  with  Disability,  a
National  Alliance  for  the  Mentally  Ill,  ARC  (a  organização  nacional  de  e  para  pessoas  com  retardo  mental  e
incapacidades de desenvolvimento correlatos e suas famílias), a Arthritis Foundation ou outras organizações de
suporte e defesa.
Os profissionais de terapia ocupacional têm muito a contribuir para a acessibilidade na comunidade e para a
aceitação das pessoas com incapacidades. As contribuições podem envolver o desenvolvimento de parcerias na
comunidade com uma “nova estrutura de colegas, incluindo pessoas com incapacidades, engenheiros, arquitetos,
assistentes pessoais, conselheiros de vida independente, profissionais de recreação e exercício, planejadores da
cidade, oficiais da lei e especialistas em transporte” (Baum & Law, 1997, p. 280). A mudança na comunidade
pode  ser  abordada  por  meio  de  conselhos  municipais  e  da  cidade,  centros  de  negócios  e  de  visitantes  e
organizações de mídia e de defesa local.

Defesa da Acessibilidade
A defesa, um elemento primordial do cuidado centrado na comunidade, chama a atenção para os problemas e
orienta os membros potenciais de uma comunidade, trazendo­os por fim para as ações de solução de problema
que podem solucionar ou diminuir as barreiras para a participação. No nível da comunidade, a defesa pode focar­
se na acessibilidade e na aceitação. A acessibilidade na comunidade envolve a aplicação das regras do modelo
acessível  que  foram  estabelecidas  ao  longo  dos  anos  nos  níveis  federal,  estadual  e  municipal  por  meio  dos
códigos de edificação. Tanto em novas construções como em reformas, as orientações de acessibilidade ajudam a
criar o acesso para aqueles que são desafiados nas áreas da mobilidade, cognição, manipulação, audição, visão
e/ou comunicação. Acesso aplica­se ao ambiente da construção, bem como aos produtos ou a outros sistemas na
comunidade, como transporte, comunicação e sistemas de informação. Por exemplo, para pessoas com qualquer
combinação de dificuldades  sensoriais,  motoras  ou  cognitivas,  o  acesso  à  Internet é desafiado por modelos na
rede que restringem as opções de acessibilidade e podem dificultar o acesso dos indivíduos às informações e à
participação em comunidades virtuais (World Wide Web Consortium, 2001).
Embora  as  diretrizes  de  acessibilidade  estejam  em  ação  há  várias  décadas,  alguma  insatisfação  continua  a
existir com o modelo porque os códigos ditam uma abordagem mínima para acesso em vez de uma aplicação
universal do modelo que possa promover uma comunidade mais inclusiva. Os princípios e conceitos de modelo
universal sugerem que os ambientes e os produtos sejam idealizados para ser utilizados por todas as pessoas, na
maior  extensão  possível,  sem  a  necessidade  de  arranjos  especiais,  adaptações  ou  custo  maior  (Center  for
Universal Design, 1997; Iwarsson & Stahl, 2003).
O  modelo  acessível  e  universal  precisa  ter  defensores  na  comunidade.  Embora  muitas  pessoas  com
incapacidade  realmente  defendam  sua  própria  causa  e  as  de  outros,  precisa  aumentar  a  consciência  da
comunidade e melhorar a adequação da atenção à acessibilidade. Tanto o modelo como a construção de prédios e
de  outros  sistemas  são  empreendimentos  dispendiosos,  e  a  falta  de  atenção  com  o  acesso  ou  um  modelo
universal  torna  o  custo  proibitivo,  quando  aplicado  tardiamente.  Como  defensores,  precisamos  praticar  o  que
pregamos. Uma atitude assim pode incluir a realização de negócios com aqueles que fornecem acesso e boicote
àqueles que não abordam a acessibilidade. Também podemos aplicar a acessibilidade e o modelo universal ao
nosso  próprio  ambiente.  Nos  últimos  anos,  o  conceito  de  visitabilidade  foi  sugerido  e,  por  vezes,  exigido
(Smith, 2003). Visitabilidade aplica­se a elementos de modelo simples aos ambientes residenciais. O conceito e a
prática criam pelo menos um nível de entrada para uma habitação e o acesso (p. ex., 80 centímetros de largura)
para um banheiro naquele andar. Outras sugestões para o modelo universal em casas são a criação de espaço no
chão  para  transferências  para  o  vaso  sanitário  e  a  banheira,  bem  como  reforços  estruturais  nas  paredes  para  a
montagem de barras de segurança que poderiam vir a ser necessárias para a segurança e a independência. Uma
carência de ambientes de vida acessíveis na vizinhança é um problema reconhecido, e a criação da visitabilidade
poderia ajudar a superar estas carências.

Defesa da Aceitação
Abordar a aceitação da comunidade em relação às pessoas com incapacidade pode ser um papel de defesa mais
difícil de assumir. A “diferença” que a incapacidade comporta frequentemente causa mistério e intranquilidade.
O conforto em uma comunidade baseia­se, por vezes, nas semelhanças, e não nas diferenças (Whyte & Ingstad,
1995). Um ambiente mais acessível poderia prover às pessoas com incapacidade maior sensação de aceitação,
mas  a  incapacidade  também  pode  evocar  sentimentos  de  vergonha,  culpa,  piedade  e  prevenção.  As  diferenças
físicas,  cognitivas,  sensoriais  e  comportamentais  precisariam  ser  abordadas  por  meio  da  educação  para  a
compreensão e a prática da inclusão nos ambientes residencial, educacional, empregatício e recreacional. Uma
das  características  da  reabilitação  baseada  na  comunidade  é  o  reconhecimento  de  que  existem  barreiras  à
participação  plena  na  comunidade  e  de  que  podemos  aumentar  a  consciência  da  comunidade  quanto  às
necessidades  dos  membros  com  incapacidade,  propiciando  mudanças  que  criem  oportunidades  ocupacionais
(Baker & Brownson, 1999). O acesso às oportunidades para cidadania, habitação, emprego, transporte, educação
e outras estruturas sociais fornece às pessoas com incapacidade as oportunidades para serem bem­sucedidas. Os
profissionais  da  terapia  ocupacional  podem  apoiar  as  iniciativas  das  pessoas  com  incapacidades  ou  grupos  de
defesa  que  promovam  o  desenvolvimento  social  e  levem  a  estruturas  institucionais,  políticas  e  sociais  que
sustentem  a  participação  plena.  Por  exemplo,  os  profissionais  poderiam  manter  fóruns  para  orientar  os
empregadores da comunidade local sobre as acomodações mais úteis no local de trabalho para as pessoas com
necessidades  especiais  psiquiátricas.  Diferentes  de  uma  acomodação  física  como  uma  rampa  para  cadeira  de
rodas,  as  acomodações  para  pessoas  com  necessidades  especiais  psiquiátricas  são  frequentemente  de  natureza
social e exigem atenção e retreinamento contínuos.

ESTUDO DE CASO: A História de Jason: Vivendo com uma Lesão de Medula Espinhal

Jason é um jovem que sofreu lesão completa da medula espinhal em C6 há um ano e meio em uma colisão
automobilística.  Como  uma  pessoa  de  23  anos  de  idade,  Jason  completou  a  universidade  e  trabalhou  em
vários  empregos  como  iniciante  antes  de  sua  lesão.  Com  a  perda  quase  completa  de  sensibilidade  e
movimento  de  C7  para  baixo,  sua  reabilitação  médica  envolveu  o  desenvolvimento  das  habilidades  de
mobilidade  em  cadeira  de  rodas  e  o  desempenho  adaptado  das  atividades  da  vida  diária,  incluindo  o
autocateterismo  e  um  programa  intestinal.  Jason  também  foi  instruído  para  realizar  a  inspeção  regular  da
pele, seguir as medidas de nutrição e controle de peso e participar de atividades de aptidão física.
Para  abordar  a  vida  independente  e  a  integração  à  comunidade  como  parte  do  plano  de  alta,  o  Craig
Handicap  Assessment  and  Reporting  Tool  (CHART)  (Whiteneck,  Charlifue,  Gerhart,  Overholser  &
Richardson,  1992)  foi  utilizado  como  parte  da  avaliação  e  do  planejamento  do  tratamento.  Jason  fez  boa
pontuação em todos os itens sobre a mobilidade, mas teve resultados abaixo do esperado em relação aos
resultados  de  ocupação,  econômicos  e  sociais.  Como  parte  do  planejamento  do  cuidado,  os  terapeutas
foram solicitados a fazer uma avaliação domiciliar, estagiando as tentativas de vida independente dentro do
hospital  e  saindo  com  Jason  e  com  outros  pacientes  para  diversos  ambientes  comunitários  de  modo  a
explorar o transporte e o funcionamento da comunidade.
Jason receberia alta para viver no apartamento em um prédio de sua família, no qual sua irmã residia e
gerenciava.  Ele  teria  uma  renda  reduzida  e  sua  irmã  e  seu  irmão  estariam  por  perto  para  fornecer
assistência quando necessário.
Dentro do ambiente hospitalar, havia disponibilidade de uma unidade de experimentação do estilo de um
apartamento  para  que  Jason  permanecesse  e  praticasse  as  atividades  da  vida  diária  no  sentido  da
conclusão de sua permanência, com os serviços de enfermagem e terapia prontamente disponíveis quando
necessário. Os passeios na comunidade foram coordenados por meio da terapia recreacional e da terapia
ocupacional.  Estes  incluíam  fazer  compras  em  um  mercado  como  parte  da  preparação  da  refeição  e  da
atividade  de  cozinhar,  assistir  um  filme  em  um  cinema  local  e  comprar  roupas  em  uma  loja  de
departamentos. Foi fornecida a orientação para os serviços de ônibus da cidade, e Jason foi incentivado a
utilizar  o  ônibus,  com  o  plano  de  que  ele  seria  posteriormente  encaminhado  para  a  autoescola.  Jason
também  trabalha  com  reabilitação  vocacional  e  está  planejando  frequentar  a  universidade  para  aumentar
sua possibilidade de conseguir um emprego que exigisse menor demanda física.
As experiências de Jason foram mais bem refletidas por seu último retorno para a terapia ambulatorial e
entrevista com seu terapeuta, que perguntou sobre o funcionamento na comunidade.
Em  relação  à  sua  transição,  Jason  disse:  “Acho  que  foi  como  a  noite  e  o  dia  entre  eu  receber  alta  do
hospital e como posso fazer as coisas rápido agora. Isto me deixa muito tempo livre. Quer dizer, é espantoso
como eu tenho muito mais tempo e tenho tempo para me concentrar em viver a vida em vez de passar pela
vida.  Quer  dizer,  cuidar  de  mim  mesmo  costumava  tomar  todo  o  meu  dia.  Agora  posso  estar  em  casa  e
talvez  pedir  alguma  coisa  para  comer  e  recuperar  o  fôlego  novamente,  e  sair  com  os  amigos  ou  alguma
outra coisa, mas, definitivamente, é uma questão de grande energia.” Jason continuou a falar: “Realmente
gosto  da  companhia  de  meus  amigos,  mas  não  posso  morar  com  eles  por  mais  que  alguns  dias  por  vez,
porque eles me esgotarão. Quero dizer... começarei a ficar exausto e cansado e dormirei sentado em minha
cadeira de rodas.”
Refletindo  sobre  sua  reabilitação  internado  no  hospital,  Jason  foi  positivo  a  respeito  do  “grupo  de  apoio
que  estava  lá,  a  terapia,  as  pessoas  vindo  no  meio  do  dia  para  tentar  e  levantar  você.  Acho  que  aqueles
estágios  iniciais  são  bastante  importantes.  Sem  isto,  é  fácil  apenas  ficar  parado  e  não  ter  realmente  a
vontade  de  melhorar  e  se  empenhar  para  melhorar”.  Jason  disse:  “Este  foi,  definitivamente,  o  tipo  de
sensações  que  tive  sob  a  proteção  de  uma  comunidade.  Claramente,  não  podia  ter  feito  o  que  fiz...  sem
aquele suporte.”
Jason descreveu a reabilitação como “simplesmente aprender tudo novamente... alguma coisa que você
aprende  inconscientemente  quando  você  é  uma  criança  pequena”.  Jason  mencionou  a  importância  da
exposição  a  vários  tipos  de  equipamento  e  de  aprender  como  utilizar  os  aparelhos  de  adaptação.  Ele
ressaltou. “Definitivamente, posso ser muito na vida de alguém e, assim, acho que é bom e importante ter
tais coisas aqui demonstradas para você.”
A  respeito  de  sua  alta,  ele  disse:  “É  como  se  você  fosse  arremessado  para  fora  de  algum  lugar.  Quero
dizer, sabia nitidamente que eles não estavam apenas dizendo adeus; sabia que ainda estava prestes a ir
para  a  terapia  ambulatorial.  Assim,  ao  mesmo  tempo,  você  realmente  sente  como  se  estivesse  sendo
definitivamente separado de você mesmo.”
Jason  relatou  que  “tem  definitivamente  mais  que  um  sentimento  de...  amor  incondicional”  e  que  a
compaixão que recebeu fez com que ele “visse o lado mais amoroso do mundo”. Ele também relatou sentir­
se  “mais  em  paz”  consigo  mesmo,  mas  continuou  a  ser  desafiado  por  ser  diferente.  Sobre  estar  na
comunidade, Jason disse: “É o último lugar que gostaria de estar, sou como um garoto em uma cadeira de
rodas  em  uma  loja  de  materiais  esportivos  e  isto  é  muito  frustrante.  Gostaria  de  me  esconder  de  todo
mundo. Estou apenas trabalhando para tentar ficar confortável comigo mesmo novamente.”

Fonte: Adaptado de Davidson, Dudgeon & Carpenter (submitted).

RESUMO
O bem­estar da comunidade é de natureza tanto comportamental quanto social e inclui comportamentos de estilo
de vida da pessoa, ambiente, fatores socioeconômicos e políticas e regulamentações locais, estaduais e federais.
A promoção da participação na vida da comunidade inclui as abordagens centradas no cliente e na comunidade.
Uma maneira de conceber o cuidado da comunidade consiste em aplicar um modelo de saúde pública, com os
profissionais  fornecendo  tratamento  no  início  e  no  meio  do  processo.  As  medidas  de  prevenção  primárias  são
aquelas  que  impedem  a  instalação  de  uma  determinada  condição  (p.  ex.,  antifumo,  promoção  da  atividade  e
aptidão física). Estas práticas podem ser defendidas e ensinadas em centros comunitários, programas de idosos,
escolas e locais de trabalho. As medidas de prevenção secundárias identificam e tratam pessoas assintomáticas
que desenvolveram fatores de risco ou doença pré­clínica antes que a condição se torne clinicamente evidente.
Os  exemplos  incluem  a  segurança  com  mochilas  para  as  crianças  em  idade  escolar,  a  ergonomia  para  os
trabalhadores  em  risco,  a  prevenção  de  quedas  entre  idosos  e  a  prevenção  contra  a  violência  em  diversos
ambientes.  As  medidas  de  prevenção  terciárias  focalizam­se  no  tratamento  de  pessoas  com  doenças  clínicas,
condições  de  saúde  e  necessidades  de  alívio  de  desastre.  Tradicionalmente,  os  profissionais  da  terapia
ocupacional  concentram­se  no  desenvolvimento,  na  recuperação  ou  adaptação,  bem  como  na  prevenção  das
complicações  secundárias  e  na  manutenção  das  habilidades  da  vida  na  comunidade.  Mais  recentemente,  os
profissionais  estão  mudando  seu  foco  para  incluir  as  abordagens  de  tratamento  centradas  na  comunidade  para
promover a participação de todas as pessoas, independente do estado de sua capacidade.

QUESTÕES INSTIGANTES
A  Classificação  Internacional  da  Funcionalidade  e  Incapacidade  enfatiza  a  participação  como  uma  importante
característica  na  mensuração  da  saúde.  A  participação  é  definida  como  “envolvimento  em  uma  situação  de
vida”,  e  as  restrições  à  participação  são  definidas  como  “problemas  que  um  indivíduo  pode  ter  com  o
envolvimento  em  situações  de  vida”.  Alguns  problemas  podem  decorrer  de  fatores  ambientais,  que  incluem
todos os aspectos do mundo físico, social e atitudinal.
Embora  definida,  a  mensuração  da  participação  é  mais  desafiadora  e  está  sujeita  a  alguma  controvérsia.
Brown  e  colaboradores  (2004)  sugeriram  que  a  integração  à  comunidade,  uma  construção  que  emergiu
primeiramente  como  parte  da  desinstitucionalização  das  pessoas  com  incapacidades  de  desenvolvimento  e  de
saúde  mental,  seria  substituída  ou  emendada  pelo  termo  participação  na  comunidade.  A  integração  à
comunidade  pode  ser  vista  como  um  termo  que  os  estranhos  utilizam  ao  descrever  a  adaptação  bem  ou
malsucedida na vida em comunidade. Em contraste, a participação na comunidade pode sugerir um estado mais
dinâmico como parte da vida na comunidade.
1. Você, um membro da família ou um amigo experimentaram uma diferença ou incapacidade que provocou
um  problema  relacionado  com  a  participação?  Qual  era  a  natureza  do  problema  e  de  que  maneira  a
participação poderia ter sido estimulada?
2. Faça esta mesma pergunta utilizando o termo integração. Você, um familiar ou um amigo experimentaram
uma  diferença  ou  incapacidade  que  gerou  um  problema  com  a  integração?  Qual  foi  a  natureza  deste
problema e de que maneira a integração poderia ter sido estimulada?
3. A  terminologia  acima  reflete,  de  algum  modo,  uma  tensão  entre  o  modelo  médico  e  o  modelo  social  de
incapacidade. No modelo médico, a incapacidade reflete um déficit na pessoa que é incapaz de levar a vida
da  maneira  tradicional  ou  aceita.  No  modelo  social,  a  falha  por  disfunção  é  deslocada  para  a  sociedade,
enquanto  os  sistemas  e  ambientes  são  vistos  como  capacitadores  ou  incapacitadores,  como  criadores  de
barreiras  para  o  desempenho  e  participação  efetivos.  Os  terapeutas  ocupacionais  podem  avaliar  os
ambientes como capacitadores ou incapacitadores, embora ainda exista uma tensão contínua entre dedicar
recursos  para  “solucionar  a  pessoa”  e  dedicar  recursos  para  “solucionar  o  ambiente”.  Por  exemplo,  o
modelo  acessível  e  universal  é  promovido  como  um  meio  para  criar  ambientes  mais  capacitadores  para
todos, embora os custos da readaptação do ambiente existente e a idealização de ideias de modelo universal
desde  o  início  sejam  frequentemente  vistos  como  excessivamente  altos  e  inatingíveis.  Depois  de  sua
promulgação, o ADA foi considerado um dos maiores mandados não consolidados do governo dos Estados
Unidos. Quais são seus pensamentos (e conflitos) com relação a solucionar a comunidade para possibilitar a
melhor participação versus solucionar a pessoa ou capacitar a pessoa para lidar melhor com os desafios da
participação em comunidades inalteradas?

NA REDE
Atividades educacionais

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Justiça Ocupacional
ANN A. WILCOCK E
ELIZABETH A. TOWNSEND

Sumário
Como Descrever a Justiça Ocupacional
Ocupação
Justiça
Justiça Social
Justiça Ocupacional
Reconhecendo o Lugar da Justiça Ocupacional na Terapia Ocupacional
O Que Discutir com os Outros sobre a Natureza da Justiça ou da Injustiça Ocupacional
Explicitando a Justiça Ocupacional na Prática da Terapia Ocupacional
Injustiça Ocupacional e Velhice
Injustiça Ocupacional e Problemas Sociais
Injustiça Ocupacional, Degradação Ambiental, Refugeísmo e Imigração
Estudo de Caso: Petra: Injustiças Ocupacionais e Problemas Sociais
Estudo de Caso: A Família El Khalil: Injustiças Ocupacionais e Imigração
Como Defender ou Mediar para Capacitar os Clientes a Participarem de Ocupação
Significativa

Objetivos de Aprendizagem
Após a leitura deste capítulo, você será capaz de:
1. Descrever a justiça ocupacional.
2. Descrever a integração da justiça ocupacional à terapia ocupacional.
3. Identificar as injustiças ocupacionais com relação aos clientes.
4. Discutir as condutas para defender e mediar mudanças para permitir que os clientes participem
das ocupações de acordo com suas necessidades.

A
justiça  ocupacional  é  um  aspecto  integrante,  porém  apenas  recentemente  reconhecido,  da  terapia
ocupacional. Desde os primórdios da profissão, os terapeutas basearam suas intervenções na ideia de que as
ocupações  contribuem  para  a  saúde  e  que  as  pessoas  têm  tanto  a  necessidade  como  o  direito  de  participar  de
ocupações significativas (Dunton, 1915; LeVesconte, 1935; Meyer, 1922; Wilcock, 1998). Para ilustrar o poder e
o  potencial  da  justiça  ocupacional,  são  apresentados  três  cenários  de  tratamento  utilizando  a  perspectiva  da
justiça ocupacional.
O conceito de justiça ocupacional confere voz ao apoio histórico e ético implícito dos terapeutas ocupacionais
com  relação  às  injustiças  potenciais  ou  reais  (Wood,  Hooper  &  Womack,  2005).  Na  metade  dos  anos  1990,  o
conceito de justiça ocupacional se origina de duas vertentes de estudo em duas partes distintas do mundo. Uma
vertente, relacionada com a compreensão da relação entre a ocupação e a saúde, descobriu que os resultados de
saúde benéficos ou negativos relacionados com a ocupação dependem de determinantes sociopolíticos e culturais
que  podem  ser  estruturados  em  termos  de  justiça  (Wilcock,  1993,  1995,  1998).  A  outra  vertente,  relacionada
com  as  análises  sociais  críticas  da  prática  centrada  no  cliente,  descobriu  que  o  trabalho  de  promover  a
capacitação  do  cliente  por  meio  da  ocupação  é  compatível  com  o  trabalho  da  justiça  social  (Townsend,  1993,
1996, 1998). Ambas as vertentes de pesquisa geraram reflexões sobre a ocupação e a justiça social e sobre se a
justiça  social  aborda  de  maneira  suficiente  ou  não  os  direitos  das  pessoas,  dos  pontos  de  vista  individual  e
coletivo, para participar em ocupações significativas. Os terapeutas ocupacionais espalhados por todo o mundo
discutem atualmente se a justiça ocupacional é apenas um aspecto importante da justiça social ou se é, em si, um
conceito. Alguns argumentam que ambos os conceitos imaginam sociedades ideais governadas por um conjunto
de princípios éticos, morais e cívicos em torno de direitos e responsabilidades entre pessoas; as maneiras pelas
quais elas se tratam e se relacionam entre si; as liberdades e independências da sociedade; e a distribuição dos
recursos humanos e financeiros. Outros argumentam que, como a justiça social não aborda de maneira suficiente
a diferença entre as necessidades e as naturezas ocupacionais individuais, a justiça ocupacional e a justiça social
devem  ser  pensadas  como  entidades  separadas,  de  modo  que  aspectos  importantes  da  justiça  ocupacional  não
passem  despercebidos.  Ambas  as  perspectivas  reconhecem  que  todas  as  pessoas  são  seres  ocupacionais  com
diferentes necessidades e naturezas e que satisfazer a estas necessidades é uma questão de saúde, o que a torna
um assunto de justiça.

COMO DESCREVER A JUSTIÇA OCUPACIONAL
Não existem interpretações simples para os termos ocupação e justiça para transcender as diferenças culturais,
linguísticas  e  sociais.  Em  vez  disso,  exige­se  a  consideração  de  quatro  termos  correlatos:  ocupação,  justiça,
justiça social e, por fim, justiça ocupacional.

Ocupação
Os terapeutas ocupacionais tendem a deter diferentes visões sobre o que engloba a palavra ocupação. Aqui, o
termo ocupação é utilizado para significar todas as coisas que as pessoas querem, precisam ou têm que fazer,
seja  de  natureza  física,  mental,  social,  sexual,  política,  espiritual  ou  de  qualquer  outra  natureza,  incluindo
atividades  de  sono  e  repouso.  A  ocupação  permite  que  populações  e  comunidades  participem  ativamente  da
modelagem de seus próprios destinos (Thibeault, 2002) e possam estimular ou ameaçar a saúde. A dualidade de
saúde ou dano na ocupação é uma tensão central que fundamenta a terapia ocupacional.
A ocupação é modelada pelo tempo, pelo lugar e pelas condições sociais e é uma unidade da economia. É um
meio prático e cotidiano de autoexpressão ou de geração ou experimentação do significado porque é o elemento
ativo da existência humana, seja o desempenho contemplativo, reflexivo ou baseado na meditação ou na ação. A
ocupação pode fornecer os meios para suprimir o eu, a identidade, o ser, a crença, o espírito e a autonomia, bem
como  os  meios  para  expressá­los.  Como  um  meio  fundamental  de  atingir  metas  implícitas  ou  explícitas,  as
relações  de  poder  são  centrais  às  possibilidades  e  limitações.  O  poder  de  participar  das  ocupações  pode  ser
controlado por meio da força física ou, de maneira invisível, por meio de regulação e de expectativas culturais.

Justiça
O termo justiça foi definido de diversas maneiras ao longo da história. Ele foi igualado a palavras como direito,
equidade e imparcialidade, e Benjamin Disraeli (1851) o descreveu como a “verdade em ação”. O termo justiça
é  mais  frequentemente  aplicado  a  sistemas  legais,  mas  também  é  utilizado  para  questionar  a  distribuição
igualitária de recursos e a discriminação positiva em relação às pessoas marginalizadas (Norton, 1994).

Justiça Social
A justiça social é um conceito sobre direitos, equidade e imparcialidade. Um aspecto aceito das sociedades pós­
modernas,  este  conceito  de  justiça  centraliza­se  em  condições  e  relações  sociais  justas,  independente  da
diferença  de  raça,  classe,  gênero,  renda  ou  incapacidade.  A  justiça  social  aplica­se  à  distribuição  ética  e  ao
compartilhamento  de  recursos,  direitos  e  responsabilidades  entre  as  pessoas  que  reconhecem  seu  igual  valor
como cidadãos, “seu igual direito de ser capaz de atender às necessidades básicas, à necessidade de disseminar
oportunidades e chances de vida da maneira mais ampla possível, e, por fim, à necessidade de reduzir e, onde
possível, eliminar desigualdades injustificadas” (Commission on Social Justice, 1994, p. 1).
Justiça Ocupacional
A  justiça  ocupacional  também  é  igualada  a  palavras  como  direito, igualdade  e  imparcialidade.  Além  disso,  é
aplicada ao direito de todo o indivíduo de ser capaz de atender às necessidades básicas e de ter oportunidades e
chances de vida iguais para progredir em seu potencial, especificamente quanto ao engajamento do indivíduo em
ocupações  diversas  e  significativas.  A  justiça  ocupacional  é  a  justiça  da  diferença  porque  as  pessoas  possuem
diferentes naturezas, necessidades e capacidades que são expressas por meio daquilo que elas fazem. Portanto, a
justiça ocupacional requer a distribuição ética e o compartilhamento de recursos, direitos e responsabilidades em
relação ao que os indivíduos querem, precisam ou estão obrigados a fazer dentro dos padrões sociais e éticos de
uma  comunidade.  A  ocupação  é  o  que  nos  traz  para  a  realidade  da  vida  cotidiana,  onde  podemos  discutir  as
experiências  de  ocupação  de  indivíduos,  grupos  e  populações  que  acontecem  dentro  de  amplas  condições  e
estruturas sociais que modelam as opções favoráveis e contrárias à justiça.
As  justiças  social  e  ocupacional  fornecem  diferentes  perspectivas  para  levantar  questões  em  torno  de  um
interesse  compartilhado  na  justiça  (Fig.  20.1).  Uma  teoria  exploratória  da  justiça  ocupacional  proposta  por
Townsend  e  Wilcock  (2004)  sugere  como  estas  quatro  ideias  –  ocupação,  justiça,  justiça  social  e  justiça
ocupacional – se relacionam entre si.
A  teoria  apresentada  na  Fig.  20.2  supõe  que  as  pessoas  são  seres  ocupacionais,  que  elas  participam  das
ocupações  como  seres  autônomos,  que  a  participação  é  interdependente  e  contextual,  e  que  é  determinante  da
saúde  e  da  qualidade  de  vida.  A  teoria  propõe  os  princípios  de  capacitação  por  meio  das  ocupações;  uma
classificação inclusiva de todas as ocupações; a capacitação individual e coletiva do potencial ocupacional; e a
diversidade, a inclusão e a vantagem compartilhada na participação ocupacional.
O propósito primário para o desenvolvimento da teoria da justiça ocupacional foi chamar a atenção para o fato
de  que,  por  todo  o  mundo,  pessoas  estão  contidas,  privadas  e  alienadas  do  engajamento  em  ocupações  que
fornecem satisfação, significado e equilíbrio pessoal, familiar e/ou comunitário por meio daquilo que elas fazem.
Em  muitos  casos,  as  pessoas  são  incapazes  de  atender  às  necessidades  de  vida  que  são  pré­requisitos  para  a
saúde:

As  condições  e  os  recursos  fundamentais  para  a  saúde  são  paz,  abrigo,  educação,  alimento,  renda,  um  ecossistema
estável, recursos sustentáveis, justiça social e equidade. (Word Health Organization [WHO], Health and Welfare Canada,
Canadian Public Health Association, 1986, p. 2)

A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda ações para promover a saúde de todos em muitas de suas
diretrizes,  como  a  Carta  de  Ottawa  para  a  Promoção  da  Saúde  (WHO  et al.,  1986),  que  exige  não  somente  o
atendimento das necessidades e a adaptação ao ambiente, mas também a satisfação das aspirações de bem­estar
físico, social e mental. O documento Saúde para Todos no Século XXI (WHO, 1998) valida “a singularidade de
cada  pessoa  e  a  necessidade  de  resposta  à  busca  espiritual  de  cada  indivíduo  por  significado,  objetivo  e
pertencimento” como parte da saúde e como uma questão de justiça.

Fig. 20.1 Justiça ocupacional e justiça social capacitando o atendimento das necessidades biológicas.
Durante os anos 1990, o desenvolvimento de “sociedades ativas” e de “estados  capacitadores”  foi  discutido
por organizações internacionais (Gilbert, 1995; Kalisch, 1991, pp. 3­9; Organization for Economic Cooperation
and  Development  [OECD],  1989).  A  Administração  Clinton,  por  exemplo,  incentivou  “um  projeto  para  uma
nova América” pelo Instituto de Política Progressiva, no qual

Fig. 20.2 Uma teoria exploratória da justiça ocupacional: interseção de ideias. (Reproduzida com permissão de
Prentice Hall.)

o  estado  capacitador  é  organizado  em  torno  de  metas  de  trabalho  e  habilitação  individual...  Acima  de  tudo,  ele  deve
ajudar  os  norte­americanos  pobres  a  desenvolver  as  capacidades  que  eles  precisam  para  se  libertar  da  pobreza  e  da
dependência... Uma estratégia capacitadora deve ver o pobre como o agente inicial de seu próprio desenvolvimento, e não
como um cliente passivo do sistema de seguridade social. (Marshall & Schram, 1993)

A  Declaração  Universal  dos  Direitos  Humanos  (United  Nations  [UN],  1998)  defende  que  todas  as  pessoas
tenham um padrão de vida que seja adequado à saúde e ao bem­estar. A defesa é para que as pessoas tenham
direitos iguais ao trabalho; à livre escolha do emprego; ao descanso, ao lazer e aos feriados; à participação na
vida cultural de uma comunidade; à participação nas artes e nos avanços científicos; a fazer parte dos governos
nacionais; e a desenvolver plenamente a personalidade humana. Esta declaração dos direitos fundamentais para
todos fornece temas para centralizar o debate nos conceitos de capacitação, escolha e oportunidade; na tensão
entre os direitos individuais e comunitários; e na tensão entre a justiça para os indivíduos e o bem comum. A
necessidade de que esses direitos sejam considerados parte do tratamento no cuidado de saúde é digna de debate
em  todos  os  níveis.  Os  terapeutas  ocupacionais  podem  tomar  parte  desse  debate  ao  abordar  a  necessidade  de
participação  em  ocupações  que  satisfaçam  à  natureza,  às  capacidades  e  às  escolhas  individuais  das  pessoas  e
como estas se relacionam com a saúde e o bem­estar.

RECONHECENDO O LUGAR DA JUSTIÇA OCUPACIONAL NA TERAPIA
OCUPACIONAL
Além das publicações de terapia ocupacional que enfocam a justiça, como o Spirit of Survivors: Occupational
Therapy  Without  Borders  (Kronenberg,  Algado  &  Pollard,  2005),  as  ideias  de  justiça  ocupacional  estão
influenciando  o  controle,  o  planejamento  e  as  políticas  profissionais  das  organizações  de  terapeutas
ocupacionais.  O  British  College  of  Occupational  Therapists  (COT,  2002)  lançou  um  plano  estratégico
fundamentado em ideias contemporâneas de saúde e justiça social. Em 2005, o COT argumentou que a igualdade
e a justiça social são centrais à estrutura conceitual das profissões, já que “os terapeutas ocupacionais trabalham
há  muito  com  pessoas  excluídas  e  em  maior  desvantagem  para  capacitá­las  a  alcançar  uma  vida  plena  como
membros das comunidades.” O COT segue afirmando:

A  profissão  utiliza  o  termo  “justiça  ocupacional”  para  referir­se  ao  conceito  que  atua  como  complementação  à  justiça
social. A justiça ocupacional fornece uma estrutura para discutir questões sobre as desigualdades de oportunidade para o
desenvolvimento ocupacional, ou as desigualdades relacionadas à falta de capacitação apropriada para aqueles que vivem
com uma incapacidade (p. 2–3).

A European Network of Occupational Therapists in Higher Education abraçou a justiça ocupacional como o
tema  de  sua  conferência  anual  em  2003.  Nessa  reunião,  Townsend  (2003)  perguntou:  “Por  que  os  terapeutas
ocupacionais  se  preocupariam  com  a  justiça  ocupacional?”  As  respostas  se  concentraram  nas  injustiças  que
acontecem  quando  os  seres  humanos  são  aprisionados,  tolhidos,  confinados,  segregados,  restritos,  proibidos,
incapazes de se desenvolver, isolados, alienados, desestabilizados, privados ou marginalizados de modos que os
impeçam de participar de forma ótima das ocupações que eles precisam e desejam realizar para manter a saúde
ao longo da vida.
A  World  Federation  of  Occupational  Therapists  [Federação  Mundial  de  Terapia  Ocupacional]  (WFOT)
também  reconhece  a  crescente  necessidade  por  justiça  ocupacional  para  conter  fatores  sociopolíticos  e
econômicos que estão subjacentes e são consequência da incapacidade. A WFOT afirma que: “muitas pessoas
com incapacidades têm acesso restrito ou negado à ocupação digna e significativa em suas vidas diárias e que
seu  bem­estar  está  por  vezes  comprometido  pela  segregação  ocupacional  e/ou  privação  ocupacional”  (WFOT,
2004­2005,  p.  2).  Além  disso,  o  corpo  profissional  internacional  elaborou  uma  Declaração  de  Posição  sobre
Direitos Humanos que discute as questões da justiça ocupacional (WFOT, 2006).
A  atual  prática  da  terapia  ocupacional  pode  verdadeiramente  basear­se  no  sucesso  da  profissão  ao  colocar
explicitamente a injustiça ocupacional na agenda pública e mostrar o que pode alcançar uma profissão focada na
ocupação  e  direcionada  pela  justiça.  Imagine,  por  exemplo,  o  poder  da  redução  das  perdas  ocupacionais  de
trabalhadores  que  perderam  seus  empregos  por  causa  de  lesões  relacionadas  ao  trabalho,  da  minimização  da
alienação ocupacional e dos desequilíbrios das pessoas que vivem com doenças mentais graves e persistentes, do
fomento  ao  desenvolvimento  ocupacional  de  crianças  com  incapacidades.  Além  disso,  imagine  os  impactos
potenciais de defesa e participação na reestruturação da economia global e de práticas para crises coletivas de
guerra, refugiados, deslocamento de grupos culturais ou desastres naturais em que a privação, a marginalização
ou a segregação ocupacional são o resultado implícito e, com frequência, não reconhecido.

O QUE DISCUTIR COM OS OUTROS SOBRE A NATUREZA DA JUSTIÇA OU DA
INJUSTIÇA OCUPACIONAL
A  justiça  ocupacional  traz  consigo  duas  poderosas  necessidades  biológicas:  a  necessidade  de  fazer  e  a
necessidade  de  ser  parte  de  um  grupo  social.  Ambas  são  mecanismos  de  sobrevivência  inatos,  conforme
demonstrado por pesquisas arqueológicas e antropológicas (Wilcock, 1998, 2006). A associação do bem­estar às
relações  de  suporte  é  fortemente  sustentada  pela  pesquisa  (Argyle,  1987;  Blaxter,  1990;  Cohen  et  al.,  1982;
Isaksson,  1990;  Warr,  1990).  A  associação  do  bem­estar  à  ocupação  é  menos  bem  reconhecida,  porém  foi
sustentada em um estudo no qual os participantes foram solicitados a definir seu conceito de bem­estar (Wilcock
et  al.,  1998,  2006).  As  respostas  mais  comuns  a  uma  pergunta  sobre  a  situação  ou  o  ambiente  que  eles
associariam ao sentimento de bem­estar relacionaram­se com a ocupação, embora a palavra ocupação não tenha
sido utilizada. Em vez disso, os participantes falavam de lazer, realização, trabalho, descanso, atividade altruísta,
autocuidado e práticas religiosas. A próxima resposta mais comum foi associada aos relacionamentos, sugerindo
que o que as pessoas fazem e o fato de ter outros para fazer junto são fundamentais para o bem­estar.
O termo justiça ocupacional pode ser empregado para atrair a atenção da mídia para questões que, de outro
modo, poderiam ser ignoradas por aqueles que se concentram nos aspectos técnicos da recuperação ou que estão
preocupados com a contenção de custos e a eficiência do tratamento. Depois do primeiro Canadian Symposium
on  Occupational  Science,  a  Canadian  Broadcasting  Corporation  entrevistou  Patrícia  Manuel  (2003)  sobre  a
privação  ocupacional  potencial  que  é  experimentada  quando  espaços  naturais  utilizados  para  a  brincadeira
informal  de  crianças  que  vivem  na  cidade  são  usurpados  para  a  construção  de  moradias.  As  referências  de
Patrícia para a justiça ocupacional reformularam as implicações do planejamento urbano.
EXPLICITANDO A JUSTIÇA OCUPACIONAL NA PRÁTICA DA TERAPIA
OCUPACIONAL
Três  cenários  ilustram  a  prática  da  terapia  ocupacional  com  clientes  cujas  preocupações  de  justiça  estão
relacionadas com envelhecimento, problemas sociais e imigração.

Injustiça Ocupacional e Velhice
Os idosos podem ficar aprisionados a uma vida limitada com poucas oportunidades, pouca chance de realização,
saúde  deficiente,  bem­estar  reduzido,  qualidade  de  vida  reduzida  e  sentimento  de  impotência  para  determinar
seus  próprios  destinos.  Por  uma  questão  de  justiça,  todos  os  idosos  necessitam  de  opções  de  ocupações  que
estimulem  a  saúde.  Negar  a  eles  as  opções  para  esta  participação  é  muito  mais  que  uma  questão  de  cuidados
médicos. Nem todas as pessoas idosas são enfermas, dementes ou incapazes de lutar por metas pessoais, como
alguns gestores de serviços para a população idosa poderiam deduzir. Muitos idosos permanecem interessados
no  futuro  e  no  papel  que  terão  nele.  Eles  permanecem  interessados  em  realizar  qualquer  coisa  que  tenha
significado para eles, a menos que, como ocorre com frequência, fiquem confinados ou aprisionados a situações
restritivas e incapacitantes ao serem cuidados por pessoas excessivamente zelosas, protetoras, “para sua própria
segurança”. A provisão de oportunidade para atendimento das necessidades e dos anseios ocupacionais únicos é
uma questão de justiça como parte do processo de envelhecimento ativo. Existe pouca ênfase na saúde, no bem­
estar  social  ou  na  literatura  popular  para  encorajar  os  idosos  a  se  engajarem  ativamente  no  processo  de
envelhecimento.  Existem  exceções,  talvez  relacionadas  com  aqueles  que  fazem  coisas  excepcionais  em  uma
idade mais avançada e que são consideradas extraordinárias. A natureza cada vez mais litigiosa das sociedades
ocidentais é, por si, contrária à justiça ocupacional para pessoas idosas. O medo de ações legais caso aconteçam
acidentes  enquanto  as  pessoas  idosas  participam  de  ocupações  além  do  autocuidado  resultou  na  redução  de
muitos  programas  excelentes  em  virtude  das  preocupações  com  o  gerenciamento  de  riscos.  A  partir  da
perspectiva ocupacional, as limitações de programas ou a ênfase excessiva sobre o risco para pessoas idosas se
tornam discriminatórias e injustas (Wilcock, 2005).
Esses  esforços  cotidianos  estão  situados  em  um  contexto  social.  Dessa  maneira,  os  terapeutas  ocupacionais
analisariam mais que comprometimentos físicos ou mentais e poderiam levantar questões críticas para explicitar
os temas da justiça ocupacional, conforme ilustrado com relação às pessoas idosas no Boxe 20.1.

Injustiça Ocupacional e Problemas Sociais
O racionalismo econômico e a legislação burocrática tornaram muitas pessoas incapazes de obter emprego com
remuneração regular que atenda a seus interesses e competências ou de ser autônomas. Condenadas a viver sob o
suporte social ou a aceitar empregos insatisfatórios, em geral de horário parcial, elas sofrem os efeitos negativos
de  longo  prazo  para  a  saúde.  Por  exemplo,  algumas  pessoas  perdem  a  autoestima  necessária  para  assumir  a
responsabilidade pessoal para a promoção da própria saúde. Os outros efeitos negativos podem incluir a perda de
renda  para  consumo  de  alimentos  saudáveis  ou  o  distanciamento  de  colegas  com  quem  as  ocupações  foram
compartilhadas  anteriormente.  As  pessoas  podem  preferir  aceitar  a  aposentadoria  em  vez  de  um  emprego
remunerado porque não existem incentivos financeiros ou sociais para trabalhar em horário parcial. As famílias
poderiam  se  ver  diante  de  políticas  de  emprego  que  esperam  que  elas  produzam  muito  mais  ou  perdem  seus
empregos.  Na  realidade,  o  desemprego  pode  ser  bem­vindo  para  aqueles  com  habilidades  ocupacionais
alternativas  de  subsistência,  como  cultivar  hortas,  cortar  madeira  e  consertar  coisas  para  reutilização  e
reciclagem.  As  pessoas  sem  essas  habilidades  ou  oportunidades  para  participar  de  ocupações  de  subsistência
podem adotar estilos de vida insalubres, de privação ocupacional, desequilibrados ou alienantes.

INJUSTIÇA OCUPACIONAL E IDOSOS: UMA LISTA DE VERIFICAÇÃO

1. Sentar­se sozinho em clínicas de repouso ou em outros ambientes de asilamento com nada para fazer
exceto ver os outros na mesma situação ou assistir à televisão que mostra programas após programas
que eles não escolheram
2. Ser levado para passeios em que eles não têm interesse
3. Não escutar quando eles falam sobre o que fizeram em suas vidas
4. Não pedir conselho ou ouvir os idosos
5. Não ter chance de ajudar os outros
6. Impedir que eles façam o que querem em nome do gerenciamento de risco
7. Dizer a eles que não podem fazer alguma coisa que eles apreciariam “para o bem deles”
8. Não alocar recursos, auxiliares, serviços ou suporte para encontrar ocupações satisfatórias
9. Contato  social  apenas  com  prestadores  remunerados  de  serviço  que  trazem  alimento  e  mudam  as
roupas de cama
10. Restritos, privados ou alienados por políticas das pessoas no comando ou pela legislação

Uma  perspectiva  ocupacional  pode  gerar  novas  soluções  para  os  problemas  sociais.  Dessa  maneira,  os
terapeutas  ocupacionais  combateriam  as  injustiças  ocupacionais  ao  levantar  questões  sobre  a  vida  diária,
conforme ilustrado no estudo de caso a seguir.

Injustiça Ocupacional, Degradação Ambiental, Refugeísmo e Imigração
Nas economias agrícolas, muitas pessoas têm necessidade urgente de ajuda para obter os pré­requisitos de saúde
por  causa  da  degradação  ambiental  provocada,  pelo  menos  em  parte,  pela  ganância  das  organizações
multinacionais e pela falta de capacitação do cidadão. Muitas pessoas encontram­se em privação ocupacional por
causa  de  guerras,  desavenças  políticas  e  ditaduras  rígidas  ou  por  desastres  naturais.  Os  efeitos  da  injustiça
ocupacional no entorno das pessoas retiradas de suas casas pela guerra ou por desastres ambientais podem levar
tempo para se manifestar e, em virtude disso, não ser reconhecidos ou detectados. Grande número de pessoas
deslocadas  é  alojado  em  campos  de  refugiados,  onde  elas  têm  pouco  a  fazer  ou  onde  a  vida  se  resume  a
ocupações de subsistência e ocupações de autoproteção constante contra a violência e o abuso. Algumas pessoas
reconhecem  a  impossibilidade  de  permanecer  em  condições  restritivas  ou  alienantes  e  procuram  um  futuro
melhor em outros locais. Lá, elas poderão ficar em desvantagem por causa de protocolos de refugiados, a ponto
de  serem  segregadas  em  centros  de  detenção  enquanto  buscam  o  direito  de  entrada.  Durante  os  processos
formais de imigração, muitas pessoas terão acesso a uma gama restrita de ocupações. Elas continuarão a exercer
ocupações  que  estão  muito  longe  de  gerar  saúde  e  que  são  injustas  em  relação  aos  direitos  humanos  ou  às
necessidades de saúde. A qualidade de vida, a capacitação e a inclusão social nas ocupações são temas de justiça
e de saúde, como é ilustrado pelo estudo de caso anterior.

ESTUDO DE CASO: Petra: Injustiças Ocupacionais e Problemas Sociais

Petra, de 8 anos de idade, é uma menina pequena, magra, tímida e agradável, com desempenho escolar
ruim.  Ela  frequenta  um  programa  de  cuidados  após  a  escola  fornecido  por  uma  instituição  municipal,  em
parte por causa de sua necessidade de suporte escolar adicional e em parte porque ninguém está disponível
em  casa  para  ficar  com  ela  depois  da  escola.  Sua  mãe,  Juliana,  de  35  anos  de  idade,  trabalha  em  dois
empregos apenas para manter sua filha em vez de aceitar o conselho da assistente social e colocar Petra
em  um  lar  adotivo.  A  irmã  de  12  anos  de  Petra,  Aggie,  está  se  tornando  uma  adolescente  rebelde,  cujo
desempenho  escolar  é  satisfatório,  embora  sua  frequência  esteja  caindo  rapidamente.  Aggie  deixa  Petra
pronta para a escola porque o primeiro emprego de Juliana começa às 5 horas da manhã. O tempo do final
de  semana  de  Juliana  é  quase  inexistente,  por  causa  da  costura  extra  que  ela  faz  para  complementar  a
renda. Um centro de desenvolvimento de carreiras para mulheres encaminhou Juliana para um programa de
Habilidades de Trabalho para Mulheres gerenciado por uma instituição comunitária municipal. O escritório de
bem­estar municipal contratou uma consultora terapeuta ocupacional para trabalhar com os cinco programas
de pós­escola e os dez programas de desenvolvimento de habilidades de emprego por ele gerenciados. A
equipe profissional inclui recursos e professores de educação especial, bem como assistentes sociais.
Uma perspectiva ocupacional pode trazer novas soluções para os problemas sociais. Dessa maneira, os
terapeutas  ocupacionais  combateriam  as  injustiças  ocupacionais  ao  levantar  questões  sobre  a  vida  diária,
conforme ilustrado no caso de Petra.

Exemplo de Questões para a Análise de Injustiças Ocupacionais e Problemas Sociais
1. Quem  o  terapeuta  ocupacional  denominaria  como  clientes:  Petra  ou  Aggie,  Juliana  como  uma  mãe
solteira, os programas pós­escola, os programas de capacitação para o emprego, a municipalidade?
2. Qual  documentação  demonstrará  a  validade  para  a  prática  da  terapia  ocupacional:  avaliação  da
espiritualidade  e  do  desempenho  ocupacional  físico,  mental  e  cognitivo  das  pessoas;  descrições  do
programa  de  consultoria;  dados  populacionais  sobre  crianças  e  pais  solteiros;  custos  e  resultados  do
programa?
3. Quais  são  as  preocupações  ocupacionais  com  relação  às  crianças  e  aos  adolescentes  que  não
superam condições sociais limitadas? E com relação a homens ou mulheres solteiros?
4. Quais são os aliados dos terapeutas ocupacionais na busca para justiça ocupacional?

ESTUDO DE CASO: A Família El Khalil: Injustiças Ocupacionais e Imigração

A  família  El  Khalil  estava  muito  contente  quando  chegou  como  refugiada  e  imigrante  recente  ao  Canadá.
Ambos os pais são médicos, e os quatro filhos, com 13, 12, 9 e 5 anos, haviam sido bem­sucedidos em sua
terra natal no Norte da África. Após dois anos de desafios com a imigração em sua condição de refugiados,
os  pais  estão  empregados  como  guardas  de  trânsito  escolares.  Com  pouca  renda,  eles  vivem  em  um
apartamento de um quarto em más condições, em uma vizinhança perigosa, onde o filho de 13 anos acabou
de ser acusado de assalto como um delinquente juvenil. Ele foi enviado para observação em um centro de
detenção juvenil, onde um terapeuta ocupacional trabalha na equipe de saúde mental.

Exemplo de Questões para a Análise de Injustiças Ocupacionais e Imigração
1. Quais  mudanças  de  rotinas  ocupacionais,  localização  e  suportes  provavelmente  aconteceram  com  a
família desde a imigração?
2. Quais preocupações ocupacionais estão afetando a família?
3. A  partir  de  uma  perspectiva  ocupacional,  o  que  o  menino  irá  ganhar  e  perder  com  a  admissão  no
centro de detenção?
4. Qual  orientação  pública  destacaria  os  problemas  ocupacionais  associados  à  imigração  e  à  detenção
juvenil e a necessidade de abordar as injustiças ocupacionais?

COMO DEFENDER OU MEDIAR PARA CAPACITAR OS CLIENTES A PARTICIPAREM
DE OCUPAÇÃO SIGNIFICATIVA
Fornecer programas justos do ponto de vista ocupacional pode incluir manter a conscientização sobre a natureza
ocupacional dos clientes em primeiro plano durante qualquer interação; engajar as pessoas no diálogo a respeito
das  necessidades  ocupacionais  percebidas;  avaliar  de  acordo  com  tais  necessidades;  e  implementar  programas
que  garantam  que  as  necessidades  sejam  atendidas.  Fornecer  programas  justos  do  ponto  de  vista  ocupacional
também envolve defender a justiça ocupacional e mediar o tratamento competitivo e as prioridades dos recursos.
Pode ser exigido o uso de argumentos poderosos e da mídia para aumentar a conscientização. Isto envolve ser
conhecedor  e  usar  a  linguagem  ocupacional,  estar  disponível  para  o  diálogo  público  sobre  a  capacitação  e  as
estruturas sociais e políticas de ocupação inclusiva, saber quando e como conversar a respeito das questões de
justiça ocupacional e estar pronto para melhorar a compreensão pública.
Tanto a Organização das Nações Unidas como a Organização Mundial da Saúde são fontes úteis de “discursos
de saúde” e “discursos de justiça” aceitos. O tema do Envelhecimento Ativo da OMS (WHO, 2002, p. 2), por
exemplo,  fornece  uma  estrutura  política  para  debate  e  ação  para  promoção  do  envelhecimento  saudável.  A
estrutura examina a necessidade de evitar a ação discriminatória que pode ser contraproducente para o bem­estar
e de capacitar aqueles que são capazes de continuar a contribuir para a sociedade de maneira importante, levando
questões que poderiam ser instrumentos úteis de defesa (WHO, 2002). Aumentar a conscientização do público,
em geral, é tão importante quanto discursar para terapeutas ocupacionais ou para outros profissionais da saúde.
Em toda e qualquer ocasião, é importante introduzir a noção da justiça ocupacional e a visão das pessoas como
seres ocupacionais. Todas as pessoas precisam ser capazes ou estar capacitadas a se engajar nas ocupações de
acordo  com  suas  necessidades  e  escolhas;  crescer  por  meio  daquilo  que  elas  fazem;  e  experimentar  a
independência ou a interdependência, a igualdade, a participação, a segurança, a saúde e o bem­estar.

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A História da Terapia Ocupacional
DON M. GORDON

Sumário
Introdução
A Pré­história da Terapia Ocupacional
O Nascimento do Asilo e o Tratamento Moral
O Nascimento da Terapia Ocupacional
Terapia Ocupacional: Uma Nova Abordagem de Tratamento
A Formação da Organização Profissional de Terapia Ocupacional e o Nascimento da
Profissão
A Filosofia da Terapia Ocupacional
Os Principais Eventos na História da Profissão
Segunda Guerra Mundial e o Crescimento da Reabilitação
Mudanças Desde os Anos 1960 até os Anos 1980
Crescimento e Desenvolvimento Contínuos da Profissão e Sua Relação com a História
Conclusão

Objetivos de Aprendizagem
Após a leitura deste capítulo, você será capaz de:
1. Articular a relação entre o tratamento moral e os fundamentos da terapia ocupacional.
2. Compreender como as novas ideias sobre a relação mente, corpo e saúde criaram um ambiente
fértil para o surgimento da terapia ocupacional.
3. Compreender  como  as  guerras  mundiais  influenciaram  o  crescimento  e  o  desenvolvimento  da
terapia ocupacional.
4. Compreender  como  projetos  continuados  na  comunidade  da  terapia  ocupacional  se  relacionam
com preocupações históricas.

INTRODUÇÃO
A  história  da  terapia  ocupacional  está  integralmente  relacionada  ao  momento  de  sua  origem  e  de  seu
desenvolvimento. Embora a terapia ocupacional seja uma ideia relativamente recente, surgida nos primeiros anos
do século XX, o reconhecimento dos efeitos de cura da ocupação remonta a milhares de anos. A própria história
da  terapia  ocupacional  também  é  a  história  do  desenvolvimento  da  compreensão  científica  da  ocupação.  Este
olhar  na  história  da  terapia  ocupacional  começará  com  um  olhar  sobre  as  origens  da  compreensão  de  que  a
ocupação  influenciou  a  saúde.  Então,  nós  acompanharemos  o  desenvolvimento  da  profissão  de  terapia
ocupacional. Isto incluirá a compreensão do crescimento da ciência e do profissionalismo em uma cultura mais
ampla e de como estes fatores afetaram o desenvolvimento da terapia ocupacional. Desvendar estes problemas é
fundamental para compreender como a influência crescente da ciência e da medicina levou à origem da terapia
ocupacional.

A PRÉ­HISTÓRIA DA TERAPIA OCUPACIONAL
As primeiras observações sobre os efeitos curativos da ocupação são quase tão antigas quanto a própria palavra
escrita;  as  primeiras  referências  ao  uso  da  ocupação  na  cura  remontam  aos  egípcios  (American  Occupational
Therapy  Association,  1967;  Pinel,  1806/1962).  As  observações  mais  antigas  sobre  os  efeitos  de  cura  da
ocupação e sua utilização como parte de um programa terapêutico começaram com o tratamento da “tristeza” ou
da  “insanidade”  –  o  que  hoje  em  dia  é  conhecido  como  doença  mental.  Por  exemplo,  Thomas  Willis  (1621­
1675), que cunhou o termo neurologia e que está imortalizado no termo polígono de Willis, reconheceu o valor
da  ocupação  no  tratamento  da  insanidade.  Ele  defendia  o  encaminhamento  das  pessoas  para  ocupações  que
promovessem  o  “bom­humor  e  a  alegria”,  como  música,  dança,  canto,  caça,  pesca  e,  até  mesmo,  estudos  de
química  e  matemática  (Hunter  e  Macalpine,  1963).  No  entanto,  esta  compreensão  foi  pouco  disseminada,  e  o
tratamento médico do insano consistia principalmente em sangrias e “tratamento de náusea”, o uso de purgantes
e  eméticos  para  enfraquecer  e  auxiliar  o  controle  dos  pacientes.  Também  eram  utilizados  açoites  e  chicotadas
diariamente,  visto  que  o  abuso  físico  era  o  meio  mais  utilizado  para  controlar  o  comportamento  (Kraepelin,
1917/1962). Somente no início do século XIX a maior compreensão do potencial de cura da ocupação passou a
ser  utilizada  de  modo  mais  amplo.  Então,  com  o  surgimento  do  asilo,  houve  um  avanço  fundamental  no
tratamento do insano: o tratamento moral.

O NASCIMENTO DO ASILO E O TRATAMENTO MORAL
Com o surgimento dos asilos, no início do século XIX, o tratamento do insano sofreu uma mudança fundamental
no sentido de uma conduta mais humanitária. A palavra asilo deriva de raízes gregas e latinas, significando um
lugar  de  refúgio  e  proteção  (Oxford  English  Dictionary,  1971).  O  asilo  era  visto  como  uma  instituição  de
reforma  que  representava  uma  possibilidade  otimista  e  de  esperança  para  o  tratamento  humano  da  insanidade
(Porter, 1997). O surgimento do asilo também direcionou formalmente a medicina para o tratamento do insano.
Em  1808,  Riel  cunhou  o  termo  psiquiatria  para  a  nova  disciplina  dirigida  à  cura  dos  transtornos  mentais
(Shorter, 1997). Sua prática mais fundamental era o tratamento moral, destinado a substituir a brutalidade pela
gentileza e a ociosidade pela ocupação. O tratamento moral descreveu uma abordagem geral para o cuidado do
insano, resumido de maneira agradável por William Browne em 1837: “o tratamento moral... pode ser resumido
em duas palavras, gentileza e ocupação” (conforme citado em Shorter, 1997, p. 43).
A  história  da  terapia  ocupacional  tem  sido  há  muito  associada  ao  tratamento  moral  (para  alguns  exemplos,
veja Bing, 1981; Bockoven, 1963, 1971; Hopkins, 1978, 1988; Kielhofner e Burke, 1977; Peloquin, 1989, 1994).
O tratamento moral foi um movimento de reforma social relacionado ao cuidado do insano que consistia em uma
mistura do otimismo esclarecido (Bockoven, 1963; Peloquin, 1989, 1994; Szasz, 1974) e da sabedoria folclórica
(Porter, 1997). Uma crença fundamental de que os insanos permaneciam criaturas da razão significava que seu
tratamento  exigia  compaixão  em  vez  de  crueldade.  Esta  reforma  fez  parte  de  um  movimento  mais  amplo  de
reforma  social  que  incluiu  o  sistema  penal,  as  condições  de  trabalho  e  os  direitos  das  crianças  (Rosen,  1968).
Também existiam muitas razões práticas para as mudanças no tratamento do paciente insano. Muitos diretores de
“hospícios”  reconheceram  que  açoites  e  chicotadas  diários,  acompanhados  pelo  uso  disseminado  de  eméticos,
purgantes e sangrias que eram comuns no tratamento do insano, levavam com mais frequência à morte aqueles
sob  seus  cuidados  do  que  à  cura.  Foi  observado  por  alguns  diretores  que  o  foco  sobre  o  controle  do
comportamento, em conjunto com a minimização do uso de tratamentos médicos, recuperava muitos daqueles
sob seus cuidados (Hunter e Macalpine, 1963). A partir destas observações e do espírito de reforma produzidos
pela  época,  surgiu  o  tratamento  moral.  O  tratamento  moral  foi  considerado  um  dos  três  avanços  mais
significativos  na  medicina  do  século  XIX,  juntamente  com  a  antissepsia  e  a  anestesia  (Hunter  e  Macalpine,
1963).
As  ocupações  foram  um  elemento  essencial  do  tratamento  moral  do  insano.  A  princípio,  alguns  médicos
recomendaram o uso da agricultura (Rush, 1812/1964), mas, à medida que o século XIX evoluía, as ocupações
utilizadas  no  tratamento  moral  se  expandiram.  Diversas  formas  de  trabalho  manual,  incluindo  agricultura,
modelagem,  sapataria  e  costura,  estavam  entre  as  várias  ocupações  utilizadas.  Muitas  ocupações  também  se
relacionavam com a manutenção da instituição e até mesmo com o trabalho remunerado na comunidade, uma
prática que era certamente útil, embora, por vezes, controversa (Bockoven, 1963; Dain, 1971; Grob, 1966). A
devoção religiosa também foi um componente comum, pois muitos diretores de asilos nos Estados Unidos eram
homens com forte formação religiosa (Dain, 1971; Grob, 1966).
Embora o tratamento moral representasse realmente um notável avanço no tratamento do insano, ele saiu de
evidência  no  final  do  século  XIX.  O  conceito  de  que  o  insano  merecia  tratamento  humano  não  foi  perdido,
permanecendo como uma das práticas e um dos princípios básicos da prática da psiquiatria (Hunter e Macalpine,
1963). O termo tratamento moral caiu em desuso por diversos motivos. Uma razão fundamental para o declínio
da utilização deste termo foi que o tratamento moral não era especificamente um tratamento médico. Clérigos,
filósofos e juristas todos tinham autoridade sobre a prática do tratamento moral (Vandermeersch, 1994). Além
disso,  a  autoridade  do  gestor  do  tratamento  moral  emanava  da  ordem  moral  e  social,  e  não  do  conhecimento
científico  (Grob,  1994).  Na  segunda  metade  do  século  XIX,  a  medicina  continuava  a  adquirir  poder,  e  suas
práticas tornaram­se cada vez mais atreladas ao conhecimento científico (Kimball, 1992; Starr, 1982). Isto expôs
outro  problema  crítico  na  fundamentação  do  tratamento  moral,  já  que  ele  não  tinha  base  científica.  Quase  no
final  do  século  XIX,  a  ciência  tornou­se  um  dos  elementos  mais  poderosos  da  cultura  norte­americana
(Bledstein, 1976; Burnham, 1987; Daniels, 1971; Ellenberger, 1970; Kimball, 1992; Reingold e Reingold, 1981;
Rosenberg, 1977). Quando a medicina assumiu a prática do tratamento da pessoa mentalmente doente, o jargão
não  científico  do  tratamento  moral  caiu  por  terra  e  foi  substituído  por  uma  nova  abordagem  de  tratamento:  a
psicoterapia.  Embora  muitos  tenham  argumentado  que  o  tratamento  moral  foi  descartado  e  desacreditado
(Bockoven,  1963,  1971;  Peloquin,  1989,  1994),  este  parece  não  ser  inteiramente  o  caso.  O  crescimento  da
ciência e o surgimento da psicoterapia preparam o cenário para o surgimento de uma nova profissão: a terapia
ocupacional.

O NASCIMENTO DA TERAPIA OCUPACIONAL
A  gênese  da  terapia  ocupacional  ocorreu  durante  uma  época  notadamente  dinâmica  de  mudanças  culturais  na
história  norte­americana,  bem  como  na  história  da  medicina,  marcada  por  dramáticas  mudanças  de  estilos  de
vida  e  hábitos  (Allen,  1952).  A  ciência  e  a  modernização  sustentavam  a  promessa  de  melhoria.  “Ciência,
eficiência,  velocidade  e  movimento  –  estes  eram  os  ideais”  (Jones,  1971,  p.  150).  A  teoria  da  evolução  de
Darwin  demonstrou  o  potencial  para  que  a  ciência  abordasse  questões  previamente  consideradas  fora  de  seu
alcance  (Hollinger,  1995).  A  ciência  passou  a  desempenhar  um  papel  muito  amplo  nas  políticas  sociais,
estimulando  W.  J.  McGee  a  declarar,  em  1898,  que  “a  América  tornou­se  uma  nação  da  ciência”  (conforme
citado em Daniels, 1971, p. 295). Embora a relação entre a ciência e o pensamento social seja frequentemente
desprezada  (Rosenberg,  1997),  a  ciência  foi,  possivelmente,  a  mais  poderosa  força  cultural  no  século  XX
(Daniels, 1971; Fuller, 1991; Shumway e Messer­Davidow, 1991).
Até a última parte do século XIX, considerações sobre a psique ou sobre os processos mentais no papel da
saúde  eram  essencialmente  ignoradas  pela  medicina.  A  doença  mental  era  vista  como  produto  de  doença  ou
disfunção somática. A crença prevalente no conceito de consciência de Lockean, a “tábula rasa”, significava que
todos  os  processos  mentais  eram  considerados  como  estando  sob  controle  consciente,  impedindo  processos
psíquicos inconscientes (Hunter e Macalpine, 1963). No final do século XIX, as novas ideias sobre a “energia
nervosa” e o papel da psique na doença e na saúde mental foram revolucionárias. As visões da consciência e da
inconsciência  mudaram  dramaticamente.  Então,  a  ocorrência  de  uma  confluência  de  eventos  impulsionou  a
psique para a linha de frente da prática médica: (1) o sucesso do repouso­cura, (2) os sucessos do movimento
Ciência  Cristã  e  (3)  a  revolução  psicodinâmica  e  o  surgimento  da  psicoterapia.  Com  o  nascimento  da
psicoterapia, foi estabelecido o cenário para a introdução de uma nova profissão: a terapia ocupacional (Gordon,
2002).
Depois  da  descoberta  da  natureza  elétrica  do  sistema  nervoso  em  1852,  muitas  teorias  foram  desenvolvidas
para explicar a regulação da energia nervosa da pessoa (Rosenberg, 1997). Uma das práticas mais influentes foi
produzida  pelo  “repouso­cura”  de  Silas  Weir  Mitchell.  O  repouso­cura  foi  idealizado  como  um  tratamento
somático, com o repouso e uma dieta à base de leite sugeridos como primordiais para a restauração da “bateria
nervosa” da pessoa. Este tratamento foi idealizado para curar a exaustão física que levava à doença nervosa e foi
imediatamente  bem­sucedido  e  muito  copiado.  No  entanto,  os  médicos  logo  reconheceram  que  o  elemento  de
cura  mais  poderoso  era  o  poder  de  sugestão  do  médico,  intensificado  pelo  isolamento  que  fazia  parte  do
tratamento (Shorter, 1997). Dessa maneira, esse tratamento com base somática era um fator que demonstrava o
elemento psicológico da cura, ajudando a estimular o reconhecimento do papel da mente na cura e da conexão
mente­corpo.
Para compreender esse reconhecimento emergente da unidade mente­corpo, era preciso também considerar os
eventos  culturais  que  sustentaram  esses  conceitos.  Os  movimentos  de  cura  pela  fé,  “as  curas  pela  mente”  e  o
Novo Pensamento representaram uma variedade de esquemas alternativos de cura que se destinavam a substituir
ou suplementar as crenças médicas tradicionais (Haller, 1981). A mais significativa dessas curas pela mente foi o
movimento Ciência Cristã, ou eddyismo, em homenagem à sua fundadora, Mary Baker Eddy (1821­1910). Este
movimento procurava controlar cientificamente os ensinamentos de Cristo a fim de restabelecer sua missão de
curar o doente. Um dogma da Ciência Cristã era que a doença representava uma condição anormal que poderia
ser  remediada  por  meio  de  exercícios  apropriados  para  a  mente.  A  Ciência  Cristã  tornou­se  muito  popular,
relatando curas incontáveis.
No entanto, essas alegações de cura foram consideradas um ultraje para a comunidade médica da época, que
se  encontrava  fervorosamente  engajada  na  busca  do  desenvolvimento  da  ciência  médica.  Embora  essas
alegações de cura fossem rejeitadas, elas não podiam ser ignoradas. Para discutir esse aspecto, Henry Goddard,
da  Clark  University,  realizou  um  estudo  em  1898  que  demonstrou  não  haver  nada  de  incompatível  no  uso
simultâneo  das  terapias  medicamentosas  e  da  terapêutica  mental;  na  realidade,  as  duas  se  reforçavam
mutuamente (Haller, 1981). Os achados de Goddard ajudaram a abrir as portas para fazer valer a reinvidicação
da terapêutica mental na ciência médica. Os sucessos dos curadores pela fé foram vistos não como concorrentes
da medicina, mas destacavam a desconsideração da comunidade médica em relação ao papel da mente na cura,
com  a  medicina  enfatizando  as  terapias  medicamentosas  até  aquele  momento.  O  sucesso  da  Ciência  Cristã
estabeleceu o cenário para que a medicina assumisse um equilíbrio mais holístico em relação à saúde humana,
que incorporava a mente e o corpo (Haller, 1981).
O  final  do  século  XIX  e  o  início  do  século  XX  também  foram  marcados  pelo  surgimento  da  psiquiatria
dinâmica. Nesse momento da história, o tratamento da doença mental estava em meio a uma mudança radical.
As ideias de Emile Kraepelin, Pierre Janet, Sigmund Freud e William James estavam mudando a maneira pela
qual a doença nervosa e a trajetória para a cura eram conceitualizadas. As teorias da energia nervosa e de como
as  forças  psíquicas  influenciavam  a  saúde  física  e  mental  foram  utilizadas  para  compreender  melhor  os
mecanismos  por  trás  da  saúde  e  da  doença.  A  palavra  psicoterapia  foi  cunhada  em  1891  para  descrever  uma
nova  forma  de  tratamento  médico  (Ellenberger,  1970).  A  nova  profissão  da  terapia  ocupacional,  inicialmente
considerada por alguns uma forma de psicoterapia (veja Barker, 1908; Carroll, 1910; Schwab, 1907), surgiu do
mundo da psiquiatria dinâmica.

TERAPIA OCUPACIONAL: UMA NOVA ABORDAGEM DE TRATAMENTO
Os primeiros fundadores da terapia ocupacional empenharam­se para criar um novo papel para a ocupação no
processo  de  curar  tanto  a  mente  quanto  o  corpo.  Embora  os  primeiros  escritores  certamente  reconhecessem  a
antiga tradição do uso da ocupação como uma medida curativa, incluindo o tratamento moral (para os primeiros
exemplos,  veja  Dunton,  1919b;  Slagle,  1914),  o  uso  sistemático  da  ocupação  era  visto  não  como  uma
continuação  de  antigas  práticas,  mas  como  um  esforço  realmente  novo  na  terapêutica  (Dunton,  1919b;  Hall,
1910a). A diferença fundamental entre as antigas práticas e a terapia ocupacional estava na natureza sistemática
de como a ocupação era utilizada e na integração das formações de conhecimento científico para a compreensão
do efeito terapêutico da ocupação (Gordon, 2002).
A partir do momento em que os médicos começaram a utilizar a ocupação como uma medida terapêutica, no
início do século XX, eles empenharam­se para compreender o efeito curativo da ocupação em termos científicos.
O  conhecimento  científico  não  é  apenas  a  base  da  legitimidade  profissional  (Bledstein,  1976;  Kimball,  1992),
mas  possivelmente  a  força  cultural  mais  poderosa  no  século  XX  (Daniels,  1971;  Fuller,  1991;  Shumway  e
Messer­Davidow, 1991). O que era considerado como ciência no início do século XX era bastante diferente do
nosso conceito atual de ciência. Uma visão mais antiga da ciência persistia no início do século XX, que percebia
o  conhecimento  obtido  do  mundo  natural  como  “ciência”.  Isto  significava  que  quase  todas  as  técnicas  ou
processos  que  produziam  resultados  positivos  eram  vistos  como  “ciência”.  Nos  Estados  Unidos,  aqueles  que
estavam envolvidos em ocupações relacionadas a disciplinas científicas e profissões aplicadas, como a medicina
ou  a  engenharia,  eram  considerados  cientistas,  e  seu  trabalho  era  considerado  ciência  (Reingold  e  Reingold,
1981). A tentativa de compreender o efeito terapêutico da terapia ocupacional em termos científicos certamente
fazia parte integrante da profissão desde sua implementação inicial.
No  despontar  do  século  XX,  o  repouso­cura  permanecia  como  o  tratamento  proeminente  para  a  doença
nervosa. No entanto, esse tratamento apoiado por uma justificativa somática foi fortemente questionado por um
médico que tinha sólida crença no poder da ocupação: Herbert Hall. Hall foi um médico que tratava a doença
nervosa e um dos primeiros líderes da terapia ocupacional. Para ele, a justificativa para o repouso­cura falhou em
reconhecer  o  papel  fundamental  da  psique  e  do  comportamento  cotidiano  da  pessoa  na  etiologia  da  doença
nervosa. Hall (1905a) construiu o “trabalho­cura” como “um protesto prático contra a aplicação quase universal
do  repouso  no  tratamento  da  neurastenia  e  das  condições  correlatas”  (p.  29).  Para  Hall  (1905b),  o  ajuste
deficiente do estilo de vida e as preocupações significavam que “a personalidade total do paciente está em guerra
com o ambiente” (p. 48). A resultante depleção nervosa não era idêntica àquela do repouso­cura postulada por
Mitchell,  mas  Hall  considerava  que  a  doença  nervosa  tinha  causas  psíquicas,  além  das  etiologias  somáticas.
Nesses  primeiros  artigos,  nós  observamos  a  combinação  do  conceito  somático  e  psíquico  de  doença  e  cura,
produzindo uma unificação conceitual da mente e corpo.
No  início  do  século  XX,  as  justificativas  científicas  para  o  tratamento  variavam  desde  aquelas  puramente
físicas  até  as  exclusivamente  psíquicas,  embora  uma  mistura  dos  dois  fatores  seja  geralmente  observada  na
literatura  inicial.  Por  exemplo,  no  exercício,  a  ocupação  do  corpo  restaurava  a  saúde  física,  que  por  sua  vez
restaurava a saúde mental (Cohn, 1908; Moher, 1907; Neff, 1910). A ocupação ajudava a reforçar a nutrição das
células  nervosas  e  as  livrava  de  toxinas  no  trajeto  para  abordar  a  doença  nervosa  (Hall,  1905b;  Moher,  1907;
Willson, 1908). Neff (1910) argumentou que a ocupação aumentava a felicidade, o que por sua vez fortificava o
sangue,  estimulava  o  metabolismo  e  melhorava  o  sono,  a  digestão  e  o  funcionamento  de  todos  os  órgãos  do
corpo.
As  explicações  psíquicas  viam  o  uso  terapêutico  da  ocupação  como  uma  conduta  “sintética”  (Hall,  1910b;
Thayer, 1908). Esta terminologia distinguia essa escola sintética do pensamento da conduta analítica comumente
associada à psicoterapia freudiana. Em vez de procurar as “primeiras causas” da psicopatologia em uma tentativa
de restaurar a unidade para funcionamento psíquico da pessoa, a abordagem sintética lidava com problemas de
comportamento manifestados em um estilo de vida desequilibrado, com objetivo de alcançar a síntese por meio
da unidade de pensamento e ação (Hall, 1910b). Isto suscitava uma preocupação de muitos médicos da época
com o método analítico, por que a introspecção mórbida era uma enfermidade comum nas pessoas com doença
nervosa.  Uma  vez  que  a  atenção  não  saudável  para  a  “autoconsciência  e  a  autopreocupação”  (Hall,  1910b)
apenas piorava o processo patológico, uma técnica terapêutica baseada em intensa autoanálise parecia perigosa
nas mãos de médicos que não fossem os mais altamente treinados (Atwood, 1907; Hall, 1910b, 1923; Schwab,
1908; Thayer, 1908). A ocupação terapêutica produziu seu efeito terapêutico ao redirecionar o pensamento da
pessoa  para  os  canais  mais  saudáveis,  evitando  a  “autoanálise  inútil”  (Hall,  1910b).  Embora  esta  coleção  de
justificativas  científicas  para  a  eficácia  do  tratamento  pudesse  parecer  muito  pouco  substancial  pelos  padrões
atuais, a investigação científica tinha no início do século XX, um significado, muito diferente do de nossos dias.

A FORMAÇÃO DA ORGANIZAÇÃO PROFISSIONAL DE TERAPIA OCUPACIONAL E
O NASCIMENTO DA PROFISSÃO
Em  março  de  1917,  um  pequeno  grupo  de  pessoas,  incluindo  médicos,  enfermeiras,  arquitetos,  assistentes
sociais, secretárias e professores de artes e trabalhos manuais, foi reunido pela ideia de que a ocupação poderia
desempenhar um importante papel na cura e na saúde (Fig. 21.1). (Dunton, 1918a, 1918b).
As  práticas  que  construíram  a  futura  profissão  de  terapia  ocupacional  eram  disseminadas  por  toda  a
comunidade médica, mas, com a reunião de 1917, a National Society for the Promotion of Occupational Therapy
(NSPOT),  posteriormente  renomeada  como  American  Occupational  Therapy  Association  (AOTA),  agrupou
estas práticas. Esta reunião marcou as origens da profissão de terapia ocupacional. Para compreender exatamente
o  que isto significa,  é  importante,  em  primeiro  lugar,  definir profissão. Kimball (1992)  define  profissão  como
“uma  ocupação  digna  que  adota  uma  ética  de  serviço,  organizada  em  uma  associação  e  praticando  ciência
funcional”  (p.  16).  A  profissão  novata  de  terapia  ocupacional  empenhou­se  para  se  adequar  a  esta  imagem.
George  Barton,  o  primeiro  presidente  da  NSPOT,  foi,  de  fato,  o  pivô  da  denominação  da  profissão,  tendo  a
percepção  de  insistir  no  termo  terapia  no  nome  das  organizações  (Barton,  1917,  comunicação  pessoal  para
William Rush Dunton). Terapia é definida como “o tratamento médico da doença” (Oxford English Dictionary,
1971, p. 3284). A insistência de Barton para o uso do termo terapia ocupacional reforçou a inclusão da futura
profissão  no  campo  da  ciência  médica.  Ele  também  incentivou  o  uso  da  linguagem  médica  para  promover  a
legitimidade da base profissional da terapia ocupacional. A terapia ocupacional aliou­se fortemente à profissão
médica, percebendo a prescrição e a supervisão médica como necessidades (Dunton, 1928; Hall, 1923; Kelleher,
1925;  Richardson,  1926).  A  nova  profissão  de  terapia  ocupacional  enraizou­se  na  ciência  médica  para
estabelecer a legitimidade, pois: “Qualquer forma de terapia que não repousa na ciência, no verdadeiro sentido
da palavra, se torna um culto ou, pior, um charlatanismo” (Robinson, 1925, p. 2).

Fig. 21.1 Os fundadores da terapia ocupacional na Consolation House, Clifton Springs, Nova York, março de
1917. Na fileira da frente (da esquerda para a direita): Susan Cox Johnson, George Edward Barton e Eleanor
Clarke Slagle. Fileira de trás (da esquerda para a direita): William Rush Dunton, Isabelle Newton e Thomas
Bessell Kidner. (Foto por cortesia dos arquivos da AOTA, Bethesda, MD.)

No  entanto,  os  fundadores  eram  um  tanto  ambivalentes  em  relação  ao  nome  desta  nova  profissão.  William
Rush Dunton, um dos fundadores da NSPOT e figura visionária das primeiras décadas da profissão, lutou com o
“embaraço do termo terapia ocupacional” (1919a, p. 36), pois ele carecia da “exatidão do significado existente
em outros termos científicos” (p. 36). Outros títulos, como “trabalho­cura”, “ergoterapia” (com ergo sendo a raiz
grega  para  “trabalho”)  e  “ocupações  criativas”,  foram  discutidos  como  substitutos,  mas,  na  verdade,  nenhum
apresentava o significado amplo que a prática da terapia ocupacional exigia a fim de agrupar as muitas formas de
tratamento que existiam desde o início (Gordon, 2002). Embora os profissionais continuem a se debater com a
natureza abstrata do termo terapia ocupacional até hoje, o nome da profissão parece ter sido bem escolhido.
Nos  primeiros  anos  da  terapia  ocupacional,  as  atividades  terapêuticas  predominantemente  utilizadas
envolviam  uma  grande  variedade  de  itens  e  atividades  de  trabalhos  manuais  (Fig.  21.2).  Por  vezes,  a
comercialização  destes  itens  foi  fundamental  para  a  viabilidade  econômica  da  instituição  (veja  Hall,  1905a,
1905b, 1910a, 1910b). Este, porém, era um ponto de discussão mesmo entre os líderes iniciais, temerosos de que
isto diminuiria a missão terapêutica da nova profissão (Barton, 1917, comunicação pessoal para William Rush
Dunton; Kidner, 1932). Outras formas de tratamentos terapêuticos foram encorajadas desde o início da profissão,
incluindo o uso de recreação, música e arte. Embora as artes fossem, a princípio, a principal forma de terapia
ocupacional  utilizada  com  as  crianças  (Clark,  1925;  Conrick,  1930),  rapidamente  reconheceu­se  o  valor
fundamental das brincadeiras como a ocupação mais fundamental para as crianças (Clark, 1925; Mackay, 1933;
Obrock, 1932).

A FILOSOFIA DA TERAPIA OCUPACIONAL
A  partir  do  momento  em  que  os  médicos  começaram  a  articular  um  conceito  da  aplicação  terapêutica  da
ocupação,  uma  filosofia  científica  de  trabalho  e  ocupação  começou  a  ser  desenvolvida.  Novas  ideias,  como  a
teoria da evolução de Darwin, estavam modificando conceitos sobre a natureza humana de maneira jamais vista
(Hollinger,  1995).  Os  médicos  empenhavam­se  para  compreender  o  papel  da  ocupação  dentro  do  espectro  da
evolução  humana.  A  capacidade  humana  para  o  trabalho  era  vista  como  um  fator  de  definição:  “O  trabalho  é
verdadeiramente  a  vida,  e  qualquer  tratamento  que  ignore  cada  meio  que  tornará  possível  esta  vida  em  maior
abundância  não  pode  ser  abrangente”  (Carroll,  1910,  p.  2033).  Os  seres  humanos  evoluíram  por  meio  do
trabalho e da ação, tornando estes elementos da vida uma necessidade humana fundamental (Gordon, 2002).
Fig. 21.2 Trabalhos manuais eram comumente utilizados como forma de terapia nos primeiros anos da profissão.
(Foto por cortesia do Wisconsin Occupational Therapy Association Archives.)

Contudo, foi Adolph Meyer quem mais claramente articulou a filosofia da terapia ocupacional em seu notável
artigo, de mesmo título, publicado em 1922 (Fig. 21.3). Incorporando o “espírito de Poliana” que se disseminou
entre  os  reformadores  da  saúde  naquele  período  (Burnham,  1987),  Meyer  (1922)  adotou  o  potencial  para  o
pensamento científico e progrediu para melhorar a condição humana. A modificação fundamental na psiquiatria
adveio da visualização dos “problemas mentais como problemas de vida” (p. 4). Ele observa como os últimos 30
anos trouxeram grandes ganhos em termos de conhecimento científico, principalmente na física, com o aumento
da  energética  e  da  compreensão  de  “aplicações  do  trabalho”  (p.  5).  Esse  artigo  embrionário  apresentou  a
preocupação da terapia ocupacional em alcançar uma compreensão mais ampla do papel do tempo na vida da
pessoa, ou da adaptação temporal. Meyer (1922) observou que, assim como os nossos corações batem em um
dado ritmo, o mesmo acontece quando nós respondemos a ritmos maiores de dia e noite, sono e vigília e fome e
saciedade, todos centrados em atividades fundamentais da vida humana: “trabalho e lazer e repouso e sono” (p.
8). Estas ideias permanecem como critérios do pensamento e da prática da terapia ocupacional até hoje.

Fig. 21.3 Adolf Meyer, renomado psicobiólogo e autor de The Philosophy of Occupation Therapy (1922). (Foto
por cortesia dos arquivos da AOTA, Bethesda, MD.)

OS PRINCIPAIS EVENTOS NA HISTÓRIA DA PROFISSÃO
Uma  variedade  de  eventos­chave  e  relevantes  forças  culturais  foram  fundamentais  para  o  crescimento  e  o
desenvolvimento  da  profissão  de  terapia  ocupacional.  No  início  do  século  XX,  o  mundo  recém­descoberto  da
psique  e  o  tratamento  médico  por  meio  da  psicoterapia  abriram  um  novo  mundo  de  possibilidades  para  o
tratamento da pessoa mentalmente doente e para melhorar a qualidade de vida da população geral. Embora os
norte­americanos abraçassem a ciência e a tecnologia, as rápidas mudanças culturais e o ritmo crescente da vida
eram considerados um fator na gênese da doença nervosa. William James (1899/1918) acreditava que a “tensão
excessiva, o espasmo e a falta de ar” norte­americanos (p. 59) eram um “hábito ruim” adquirido ao longo dos
anos. O desafio consistia em encontrar uma maneira de substituir esses traços por uma apreciação da “harmonia,
dignidade e tranquilidade” (James, 1899/1918, p. 65). Herbert Hall (1910b) acreditava que o uso apropriado da
ocupação poderia abordar essas preocupações da sociedade, garantindo que “muitas pessoas estão sofrendo na
mente  e  no  corpo  por  tentar  realizar  muito,  ou  por  causa  da  ociosidade  que  é  desnecessária,  que  um  reajuste
terapêutico  significaria  medicina  preventiva  e  curativa  em  grande  e  importante  escala”  (p.  297).  Estas
permanecem como questões desafiadoras.
O  início  do  século  XX  foi  um  período  em  que  a  crescente  incidência  de  incapacidade  relacionada  aos
acidentes industriais, à tuberculose, à Primeira Guerra Mundial e à doença mental trouxe à tona uma crescente
consciência  social  dos  aspectos  envolvidos.  Isto  criou  uma  crescente  preocupação  sobre  a  necessidade  de
aumentar a eficiência da sociedade, originando o movimento da eficiência (Daniels, 1971). George Barton era
uma voz proponente das técnicas de eficiência, incluindo o “método de estudo do movimento” (Barton, 1916, p.
82) de Kenneth e Lillian Gilbreth, especialistas em eficiência no início do século XX. Esta atenção para analisar
e compreender as maneiras de melhorar a atividade marcou o início das práticas de conservação de energia na
terapia ocupacional.
A  entrada  dos  Estados  Unidos  na  Primeira  Guerra  Mundial  também  foi  um  evento  crucial  na  história  da
profissão.  Até  esse  momento,  a  terapia  ocupacional  tinha  se  preocupado  principalmente  com  o  tratamento  de
pessoas  com  doença  mental.  No  entanto,  o  envolvimento  norte­americano  na  Grande  Guerra  e  a  quantidade
crescente  de  soldados  lesionados  e  incapacitados  representaram  um  desafio  desanimador  para  aqueles  no
comando. Os militares solicitaram a assistência da NSPOT para recrutar e treinar mais de 1.200 “auxiliares de
reconstrução”  para  ajudar  na  reabilitação  dos  feridos  na  guerra.  Como  a  “neurose  de  guerra”  era  uma  causa
comum de incapacidade durante a Primeira Guerra Mundial, essas precursoras da terapia ocupacional forneciam
o  tratamento  significativo  por  sua  conduta  holística,  curando  não  apenas  o  corpo  do  paciente,  mas  também  a
mente (Fig. 21.4). Isto produziu um reforço na atenção e no interesse que ajudariam a, mais tarde, impulsionar a
terapia ocupacional para a condição de profissão (Gordon, 2002; Quiroga, 1995).

Fig. 21.4 Auxiliares de reconstrução vestindo as capas do uniforme oficial de tecido cinza e marrom. (Foto por
cortesia da American Occupational Therapy Association, Inc. Photograph G4.119A.97.)

Os  anos  1920  e  1930  foram  a  época  de  estabelecimento  dos  padrões  de  formação  e  consolidação  dos
fundamentos da profissão e sua organização. Eleanor Clarke Slagle propôs um curso de treinamento de 12 meses
em  1922,  sendo  esses  padrões  adotados  em  1923  (Hopkins,  1978).  Os  padrões  educacionais  foram  ampliados
para  um  treinamento  total  de  18  meses  em  1930  de  modo  a  igualar  os  requisitos  para  a  graduação  no  mesmo
nível  dos  de  outras  profissões  (Kidner,  1930).  Durante  esse  período,  o  paradigma  psicodinâmico  continuou  a
crescer em influência, tornando­se o esquema dominante para a compreensão científica do efeito terapêutico da
ocupação em relação à saúde mental da pessoa. O behaviorismo e seus estudos de tempo de reação foram vistos
como  meios  para  fundamentar  a  compreensão  do  comportamento  humano  e  também  influenciaram  esses
primeiros  anos  (p.  ex.,  veja  Amar,  1922;  Meyer,  1922).  Vários  esquemas  psicológicos  foram  incorporados  e
mesclados, com conceitos sendo retirados de Adolph Meyer, Sigmund Freud, Carl Jung, Alfred Adler e outros
pensadores  influentes  no  mundo  da  psicologia  e  psiquiatria  naquela  época.  A  incorporação  das  ideias  mais
influentes em relação à psicologia humana serviu para reforçar os clamores para a legitimidade profissional da
terapia ocupacional e sua aliança com a medicina (Gordon, 2002). Embora a Grande Depressão dos anos 1930 se
mostrasse  como  um  tempo  de  desafio  para  a  nova  profissão,  a  terapia  ocupacional  permaneceu  viável,
continuando a elevar seus padrões educacionais. Então, com o advento da Segunda Guerra Mundial, a demanda
por  terapeutas  ocupacionais  novamente  explodiu,  gerando  de  imediato  novos  programas  de  formação
profissional  e  expandindo  a  filiação  nessa  área  de  meros  1.144  terapeutas  registrados  em  1941  para  2.265  em
1946 (Hopkins, 1978).

SEGUNDA GUERRA MUNDIAL E O CRESCIMENTO DA REABILITAÇÃO
Com a entrada na Segunda Guerra Mundial e o consequente aumento de demanda por terapeutas para tratar dos
feridos  de  guerra,  o  campo  da  terapia  ocupacional  sofreu  crescimento  e  mudança  dramáticos  (Fig.  21.5).  Os
terapeutas  ocupacionais  precisaram  ser  habilitados  não  somente  para  a  utilização  de  atividades  construtivas,
como  os  trabalhos  manuais,  mas  também,  cada  vez  mais,  para  o  uso  de  atividades  da  vida  diária  (Hopkins,
1978).  A  ciência  em  mutação  que  envolvia  as  práticas  de  reabilitação  das  incapacidades  físicas  exigiu  que  as
escolas certificadas passassem por intensa reorganização de seus currículos de formação. Isto levou de imediato
à  publicação  do  primeiro  livro­texto  nos  Estados  Unidos  escrito  principalmente  para  terapeutas  ocupacionais,
lançado em 1947 e editado por Helen S. Willard e Clare S. Spackman (Spackman, 1968) (Fig. 21.6). A terapia
ocupacional também começou a expandir sua formação para o nível de pós­graduação, com o primeiro grau de
mestre em terapia ocupacional sendo oferecido na University of Southern California em 1947.
A  profissão  continuou  a  crescer  e  a  se  redefinir  nos  anos  1950.  Programas  educacionais  e  o  número  de
profissionais graduados na profissão continuavam a aumentar, partindo das 13 escolas acreditadas em 1938 para
24  escolas  em  1960  (Hopkins,  1978).  A  profissão  também  começou  a  avaliar  o  potencial  para  o  uso  de
assistentes treinados na tentativa de atender à permanente carência de terapeutas qualificados, sendo os padrões
educacionais para os assistentes em terapia ocupacional implementados em 1960 (Hopkins, 1978).

Fig. 21.5 Wilma L. West, chefe da terapia ocupacional orto pédica, Walter Reed General Hospital, Washington,
DC, 1943­1944. West foi uma das fundadoras da American Occupational Therapy Foundation e sua presidente
de 1972 a 1982. Ela também foi presidente da AOTA de 1961 a 1964 e conferencista Eleanor Clarke Slagle em
1967. (Foto por cortesia dos arquivos da AOTA, Bethesda, MD.)

MUDANÇAS DESDE OS ANOS 1960 ATÉ OS ANOS 1980
Os anos 1960 e 1970 constituíram um período de mudança e crescimento contínuos para a profissão, à medida
que  esta  se  esforçava  para  incorporar  o  novo  conhecimento  e  se  adequar  ao  recente  e  rápido  crescimento  da
profissão  nas  últimas  décadas.  Novos  avanços  nas  áreas  da  pesquisa  neurocomportamental  levaram  a  novos
conceitos e novas abordagens de tratamento, sendo possivelmente a mais inovadora a abordagem de integração
sensorial  desenvolvida  por  A.  Jean  Ayres  (Ayres,  1972,  1979).  Ayres  foi  influenciada  precocemente  pelo
trabalho de Margaret Rood e de Carl e Berta Bobath no tratamento da disfunção neuromuscular e por Piaget, que
examinou o processo de desenvolvimento por meio da ótica sensorimotora (Baloueff, 2003). Ayres incorporou
uma  perspectiva  evolutiva  à  sua  tentativa  de  explicar  como  as  experiências  sensoriais  são  compreendidas,
incorporadas  e  utilizadas  pelos  seres  humanos  para  permitir  a  adaptação  do  comportamento  da  pessoa.  Seu
trabalho  pioneiro  nesta  área  foi  de  muitas  maneiras  notável,  integrando  novas  ideias  sobre  a  plasticidade
neuronal e a importância da informação sensorial no desenvolvimento normal e saudável do cérebro e do sistema
nervoso. Ela continuou a refinar suas ideias até sua morte, em 1988. Suas ideias continuam a ser desenvolvidas e
cada vez mais incorporadas à compreensão do comportamento da criança e às técnicas de terapia ocupacional da
atualidade.
Fig. 21.6 Anúncio da primeira edição do Willard & Spackman’s Occupational Therapy. (Foto por cortesia da Dra.
Lori Anderson & Dra. Barbara Kornblau.)

Houve  um  notório  crescimento  na  profissão  de  diversas  maneiras  desde  a  Segunda  Guerra  Mundial,  com  o
crescimento  envolvendo  os  terapeutas  ocupacionais,  o  surgimento  dos  assistentes  de  terapia  ocupacional  e  o
crescimento correspondente dos programas educacionais. No entanto, todo este crescimento e toda esta mudança
tiveram  um  custo,  e  alguns  profissionais  de  terapia  ocupacional  sentiram  que  a  profissão  havia  perdido  suas
âncoras e se desviado do curso originalmente projetado. Mary Reilly (1962) foi uma dessas vozes (Fig. 21.7).
Reilly acreditava que a profissão havia perdido seu foco na ocupação e a desafiou a trabalhar de maneira mais
diligente  para  a  compreensão  da  ocupação  a  partir  de  uma  perspectiva  interdisciplinar,  incluindo  os  recentes
achados em sociologia, psicologia, filosofia, economia e biologia. Ela exigiu um retorno à crença fundamental
da terapia ocupacional “de que o homem, por meio do uso de suas mãos, quando elas são energizadas pela mente
e pela vontade, pode influenciar o seu estado de saúde” (Reilly, 1962, p. 2). Citando pesquisa recente sobre a
privação  sensorial,  Reilly  (1962)  postulou  que  o  sistema  nervoso  humano  requer  uma  ampla  variedade  de
estímulos  para  manter  o  processamento  sensorial  saudável  e  que  a  ocupação  é  o  veículo  por  meio  do  qual
podemos experimentar esta necessidade básica.
Os anos 1960 e 1970 parecem ter sido um período de introspecção para muitos líderes nessa área. Somando­se
à  influência  dos  questionamentos  de  Reilly  para  a  profissão,  outros  seguiram  seus  passos.  Fidler  (1966/2005)
desafiou a profissão a reconhecer o compromisso profissional de aprendizagem, raciocínio crítico e criatividade.
Ela  advertiu  que  o  processo  educacional  precisava  ensinar  mais  do  que  habilidades  técnicas;  ao  contrário,  ele
devia focar­se nos princípios e conceitos básicos que pudessem ser aplicados de modo diferenciado a ambientes
variados.  Wilma  West  (1968/2005)  exortou  a  profissão  a  olhar  para  o  futuro  e  procurar  trajetórias  inovadoras
para  o  tratamento  em  resposta  às  necessidades  dinâmicas  da  sociedade.  West  argumentou  que  a  profissão
precisava  adequar­se  ao  novo  papel  do  “agente  de  saúde”,  pois  a  prevenção  precisava  se  tornar  um  elemento
integral do sistema de cuidados de saúde.
Fig. 21.7 A Dra. Mary Reilly criou uma estrutura de referência conhecida como comportamento ocupacional. Ela
foi a conferencista Eleanor Clarke Slagle em 1961 e membro fundador da Academy of Research of the American
Occupational Therapy Foundation. (Foto por cortesia dos arquivos da AOTA, Bethesda, MD.)

Fig. 21.8 A Dra. Elizabeth J. Yerxa liderou o desenvolvimento inicial da disciplina acadêmica de ciência
ocupacional. A Dra. Yerxa recebeu muitos prêmios por seu trabalho, incluindo o AOTA Award of Merit por sua
liderança na profissão. (Foto por cortesia dos arquivos da AOTA, Bethesda, MD.)

Elizabeth June Yerxa ampliou ainda mais esse chamado para discutir nossas metas e condições profissionais
(Fig. 21.8). Yerxa (1967/2005) observou que “a atitude científica não é incompatível com a preocupação com o
cliente como um ser humano, mas pode ser uma das melhores razões para atuar considerando essa preocupação”
(p. 128). No entanto, ela advertiu que a terapia ocupacional muitas vezes não atendeu ao desafio da profissão,
contentando­se simplesmente em aplicar o conhecimento no nível de habilidades técnicas e tratamentos. Yerxa
acreditava que a profissão devia focar­se em seus valores únicos, de modo a permitir que o cliente exercite sua
escolha de engajamento na “atividade propositada autoiniciada” (1967/2005, p. 134). Por fim, a meta da prática
consiste  em  fornecer  a  “terapia  ocupacional  autêntica”  (1967/2005,  p.  138).  Para  atingir  essa  meta,  podemos
estar realmente compromissados com as metas do cliente, com um envolvimento sincero em sua experiência de
cura,  enquanto  estabelecemos  uma  relação  mútua  e  significativa  com  nossos  clientes  durante  seu  processo  de
recuperação. Isto certamente permanece como o padrão­ouro de prática até nossos dias.
Jerry Johnson (1973) seguiu essas diretrizes que remetem às ideias dos fundadores, proclamando que a base
de conhecimento da terapia ocupacional era bastante adequada para lidar tanto com as necessidades individuais
quanto  com  as  da  sociedade.  Johnson  enfatizou  a  necessidade  de  que  a  terapia  ocupacional  reexaminase  as
relações da profissão com outras profissões para melhor adaptar­se a um mundo em mutação. Isto incluía uma
preocupação  com  relação  à  proximidade  da  terapia  ocupacional  com  a  medicina,  afirmando  que  a  terapia
ocupacional deveria buscar prestar serviços fora do mercado do hospital, o que inclui centros comunitários de
cuidados de saúde, sistemas de escolas e creches. Os avanços nas ciências comportamentais foram observados
como  de  enorme  potencial  para  o  enriquecimento  da  profissão  e  de  suas  práticas,  ajudando  a  lidar  com  o
sentimento de alguns na profissão de que ela se perdera no modelo médico durante o rápido crescimento na era
pós­Segunda Guerra Mundial (Dasio, 1971). Josephine Moore (1976/2005) repetiu o tema sobre a integração do
novo  conhecimento  originado  das  ciências  comportamentais  para  melhor  compreendermos  a  nós  mesmos  e  a
nossos  clientes.  Em  uma  vertente  similar,  Lorna  Jean  King  (1978/2005)  expressou  a  crença  de  que  o
conhecimento relacionado ao comportamento deve ser integrado a uma base teórica específica à compreensão da
adaptação e dos processos adaptativos para atender às necessidades da profissão. Os líderes dessa época tiveram
uma profunda influência sobre a geração seguinte de profissionais e de líderes da terapia ocupacional.
Em  1977,  a  análise  histórica  de  Kielhofner  e  Burke  caracterizou  esse  afastamento  do  modelo  conceitual  da
medicina em termos da competição de paradigmas do pensamento profissional. O seu relato foi provavelmente o
histórico mais abrangente da profissão publicado até aquele momento, considerando­se os primeiros 60 anos da
profissão. As raízes da terapia ocupacional foram caracterizadas como fortemente humanistas, mas gravitando na
direção  de  uma  prática  cada  vez  mais  reducionista  ou  mecanicista,  focando­se  mais  sobre  partes  do  corpo  e
funções  isoladas  do  que  sobre  grandes  grupos  de  ocupações  e  o  significado  associado  ao  engajamento.  Esse
afastamento  foi  caracterizado  por  uma  crise  crescente  do  pensamento  profissional.  Kielhofner  e  Burke  (1977)
discutiram  a  necessidade  de  a  profissão  continuar  a  desenvolver  um  paradigma  de  ocupação  que  considere  a
natureza  ativa  do  processo  humano  de  adaptação  com  atenção  à  pesquisa  continuada  relativa  à  teoria  do
desenvolvimento e à teoria social. Esta necessidade continua a ser o foco do trabalho de Gary Kielhofner (2002)
na  forma  do  modelo  da  ocupação  humana.  Desde  a  publicação  da  primeira  edição  de  seu  livro,  em  1985,
Kielhofner e seus colegas vêm trabalhando para aumentar a compreensão científica da necessidade humana por
ocupação  e  sua  aplicação  na  prática  da  terapia  ocupacional.  O  modelo  da  ocupação  humana  tem  mantido  um
olhar para o passado, lutando por uma perspectiva holística na busca para compreender a ocupação humana, ao
mesmo  tempo  que  incorpora  conceitos  e  teorias  contemporâneas.  O  modelo  da  ocupação  humana  respeita  o
passado, enquanto incorpora as atuais formações do conhecimento.

CRESCIMENTO E DESENVOLVIMENTO CONTÍNUOS DA PROFISSÃO E SUA
RELAÇÃO COM A HISTÓRIA
A profissão de terapia ocupacional continuou a se desenvolver em novas direções, sendo o desenvolvimento da
ciência  ocupacional  uma  inovação  influente.  A  ciência  ocupacional  traça  suas  raízes  até  as  ideias  dos
fundadores, que acreditavam que a ocupação e o conhecimento da sua capacidade para promoção da saúde e o
do bem­estar podem ser utilizados pela população em geral para melhorar a qualidade de vida. Sob a liderança
de Elizabeth June Yerxa em 1989, o primeiro programa de ciência ocupacional foi desenvolvido na University of
Southern  California  com  a  intenção  de  compreender  ainda  melhor  a  complexidade  da  ocupação  humana.  A
ciência ocupacional foi desenvolvida com a intenção de informar e fornecer inspiração para a prática da terapia
ocupacional,  enquanto  tenta  ver  a  ocupação  de  novas  maneiras,  propondo  novos  conceitos  e  ideias  para  a
compreensão  da  ocupação  (Clark,  Wood  e  Larson,  1998).  Isto  inclui  a  utilização  de  diferentes  abordagens  de
pesquisa como os estudos de caso que permitem uma inquirição mais naturalista e a experimentação de métodos
de  amostragem,  além  das  abordagens  de  pesquisa  mais  bem  padronizadas  como  as  experiências  clínicas
randomizadas.
O foco único da ciência ocupacional sobre as questões mais abrangentes da ocupação humana, em vez do foco
exclusivo  na  prática  da  terapia  ocupacional,  foi  idealizado  para  satisfazer  a  meta  de  produzir  técnicas
terapêuticas mais poderosas que possam ser utilizadas por terapeutas ocupacionais em ambientes tradicionais e
inovadores  de  tratamento  (Clark  et  al.,  2005).  Um  primeiro  exemplo  dessa  técnica  baseada  na  ocupação  é  o
estudo  do  idoso  saudável  (Clark  et  al.,  1997).  Este  projeto  de  pesquisa  lançou  novas  bases  para  a  terapia
ocupacional, demonstrando que a terapia ocupacional preventiva poderia ajudar a evitar os declínios usualmente
associados ao envelhecimento. A partir desse estudo, surgiu o conceito de “remodelação do estilo de vida”. Esta
nova  técnica  fundamenta­se  nas  ideias  da  terapia  ocupacional  fundamental  e  no  desenvolvimento  contínuo  da
teoria  e  da  pesquisa  da  ciência  ocupacional  que  fornecem  tratamento  individualizado  para  ajudar  as  pessoas  a
construírem  rotinas  de  vida  mais  saudáveis  e  para  fomentar  um  engajamento  mais  significativo,  sendo  o
resultado final a melhoria da qualidade de vida. Por exemplo, atualmente a pesquisa está sendo direcionada no
sentido  de  compreender  como  as  ocupações  influenciam  o  risco  de  úlceras  de  pressão  naqueles  com  lesão  de
medula espinhal. Outra aplicação dos princípios da remodelação do estilo de vida ocorre quanto ao aspecto de
redução do peso corporal. Utilizando a perspectiva da ciência ocupacional sobre as questões do ganho de peso e
da  regulação  da  atividade  da  pessoa,  o  programa  de  remodelação  do  estilo  de  vida  para  ajudar  as  pessoas  a
perderem e controlarem o peso demonstra potencial para ser uma maneira de abordar a crescente preocupação da
saúde pública a respeito  da  obesidade  nos  Estados  Unidos.  Assim  como  os  fundadores da terapia ocupacional
esperavam que o conhecimento da ocupação ajudasse a lidar com as crescentes preocupações de saúde pública a
respeito  da  saúde  mental  no  despontar  do  século  XX,  o  mesmo  acontece  com  os  profissionais  da  ciência
ocupacional que esperam ajudar a terapia ocupacional a lidar com as crescentes preocupações de saúde pública
do século XXI (Clark et al., 2005).
A  prática  baseada  em  evidências  é  outro  recente  e  poderoso  avanço  na  sociedade  e  na  profissão  da  terapia
ocupacional,  à  medida  que  a  profissão  se  empenha  em  refinar  suas  habilidades  e  a  compreensão  do  valor
terapêutico  de  nossos  tratamentos  (Holm,  2000).  Embora  a  prática  baseada  em  evidências  possa  parecer  uma
questão  nova  em  muitos  aspectos,  é  na  realidade  um  ideal  que  concorda  com  os  fundamentos  da  profissão.
Desde o início da profissão, muitos médicos foram capazes de observar os efeitos benéficos da ocupação sobre a
recuperação de seus pacientes. Utilizando a ciência do tempo, eles lutaram para compreender o mecanismo da
cura  naqueles  que  eles  cuidavam.  A  prática  baseada  em  evidências  está  intimamente  relacionada,  sendo  o
veículo  de  nosso  tempo  para  compreensão  dos  meios  mais  efetivos  para  ajudar  aqueles  de  quem  cuidamos  e
compreender os meios e os caminhos pelos quais nossos tratamentos ajudam a produzir ganhos na saúde e na
qualidade de vida.

CONCLUSÃO
Quando alguém considera a história da profissão de terapia ocupacional, surgem inúmeros temas consistentes.
Em  primeiro  lugar,  a  profissão  sempre  teve  uma  missão  altruísta,  buscou  fundamentos  científicos  para  a  sua
prática e utilizou a força de sua organização profissional para se estabelecer como uma verdadeira profissão. A
terapia ocupacional surgiu durante um período único em que a integração dinâmica da mente e do corpo estava
em destaque na profissão médica, e nossa profissão continua a incorporar uma perspectiva terapêutica na qual o
corpo e a mente são integrados ao conceito de saúde e bem­estar. A terapia ocupacional foi considerada como
tendo  potencial  para  ser  um  importante  contribuinte  para  a  sociedade  desde  seu  começo,  e  continua  a  ter  um
papel potencialmente poderoso para melhorar a vida das pessoas durante todo o curso da vida.

QUESTÕES INSTIGANTES
1. Os desafios sociais para modificação dos estilos de vida e as crescentes preocupações com a saúde geral da
população  foram  fatores  importantes  no  desenvolvimento  conceitual  inicial  da  terapia  ocupacional.  A
terapia ocupacional atendeu ao desafio de ajudar o público em geral a adotar estilos de vida mais saudáveis?
Como podemos melhorar nosso desempenho nesta área?
2. No  despontar  do  século  XX,  os  norte­americanos  estavam  preocupados  com  o  fato  de  a  vida  estar  muito
acelerada,  que  as  pessoas  sofriam  de  falta  de  energia  e  que  mudanças  no  estilo  de  vida  eram  necessárias
para lidar com esta preocupação crescente. Como você compararia as questões e preocupações sociais de
100 anos atrás com as encontradas em nossa atual discussão cultural?
3. A  incorporação  de  teorias  e  ideias  científicas  é  um  elemento  fundamental  à  condição  profissional  em
qualquer profissão. Como o desenvolvimento do conhecimento atual dá suporte à compreensão científica da
terapia  ocupacional?  Em  sua  opinião,  você  tem  uma  forte  compreensão  científica  de  nossas  práticas  de
terapia?

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Eleanor Clarke Slagle lectures in occupational therapy, 1955–2004 (pp. 127–140). Bethesda: AOTA Press.
Prática de Terapia Ocupacional
Contemporânea nos Estados Unidos
ELIZABETH BLESEDELL CREPEAU, BARBARA A. BOYT SCHELL E ELLEN S. COHN

Sumário
Definição de Terapia Ocupacional
Prática Centrada no Cliente
Prática Centrada na Ocupação
Prática Baseada em Evidência
Profissionais de Terapia Ocupacional
Visão para o Futuro
Conclusão

“As pessoas são mais verdadeiras em sua humanidade quando engajadas na ocupação.”

— YERXA ET AL. (1989)

Objetivos de Aprendizagem
Após a leitura deste capítulo, você será capaz de:
1. Definir terapia ocupacional.
2. Descrever os exemplos da gama de serviços fornecidos nos Estados Unidos.
3. Identificar os aspectos centrais comuns da prática.
4. Considerar as possibilidades futuras para a profissão.
Linda  é  uma  carpinteira  de  35  anos  de  idade  que  acidentalmente  cortou  os  tendões  no  dorso  de  sua  mão
direita, dominante, no trabalho. Ela vive com sua companheira, Susan, em uma casa cercada por um jardim
ao qual elas devotam consideráveis tempo e energia. Robin, um terapeuta ocupacional, fabricou uma órtese
de  mão  sob  medida  para  Linda  que  posiciona  e  protege  sua  mão  durante  a  cicatrização.  Robin  também
mostrou a ela como cuidar da ferida como parte de sua rotina diária de autocuidado. Juntos, eles discutiram
quais  atividades  Linda  poderia  executar  de  maneira  realista  e  segura,  tanto  em  casa  como  no  trabalho.
Robin  incentivou  Linda  a  utilizar  o  máximo  possível  os  dois  dedos  que  não  foram  afetados  em  sua  mão
lesionada  e  sugeriu  que  ela  poderia  querer  utilizar  as  próximas  semanas  para  fazer  no  computador  o
trabalho necessário para preparar seus impostos de final de ano, pois Linda gerencia seu próprio negócio.
Lauro  é  um  estudante  do  primeiro  ano  do  ensino  médio  de  14  anos  de  idade  com  incapacidades  do
desenvolvimento. Ele foi incluído com sucesso no ambiente da escola pública, mas ele, sua família e sua
equipe educacional devem começar a planejar sua transição da escola para a vida depois da graduação. Em
um  recente  encontro  de  planejamento  educacional,  Lauro  disse  que  gostaria  de  pegar  o  ônibus  com  seus
colegas  para  ir  ao  seu  treino  esportivo  semanal  após  a  escola  em  vez  de  ir  de  carro  com  sua  mãe  toda
semana. Lauro nunca utilizou o transporte público e tem pouca compreensão de como controlar o dinheiro.
Ele não está certo sobre o que gostaria de fazer quando crescer, porém sabe que quer viver em seu próprio
apartamento algum dia.
Jack,  Pete  e  Harry  gostam  de  frequentar  o  programa  Bridges  no  centro  de  recreação  local.  Bridges  é  um
programa  direcionado  para  associados  que  atende  pessoas  com  doença  mental.  Esta  manhã,  o  grupo  do
jornal discutiu ideias sobre artigos para a edição do próximo mês. Os membros selecionaram temas e foram
para a sala de informática do centro de recreação procurar ideias na internet. Quando eles chegaram à sala
de informática, Sally, uma terapeuta ocupacional assistente, ajudou cada membro a utilizar um computador
com as adaptações apropriadas.
A  Maplewood  Industries  é  uma  fábrica  de  móveis  cujos  empregados  sofreram  muitas  lesões  por  trauma
repetitivo  relacionado  ao  trabalho.  John,  um  terapeuta  ocupacional,  foi  contratado  pela  Maplewood  para
realizar  uma  avaliação  do  local  de  trabalho  de  modo  a  identificar  como  os  diversos  postos  de  trabalho
poderiam ser modificados para evitar as lesões por trauma repetitivo. Ele também vem trabalhando com a
enfermeira da companhia para desenvolver e implantar um programa de treinamento para os empregados
com a finalidade de evitar a ocorrência dessas lesões.
A Sra. Oak é uma professora aposentada cujo marido de 52 anos morreu na primavera passada. Ela acabou
de se mudar para um pequeno apartamento em uma comunidade de vida assistida. Sua filha, que vive em
outro estado, está preocupada com o fato de sua mãe parecer deprimida e não estar se ajustando a seu novo
ambiente,  mesmo  que  ali  existam  muitas  atividades  para  ela.  Pam,  a  terapeuta  ocupacional,  entrevistou  a
Sra.  Oak  quanto  aos  seus  interesses  e  atividades  de  vida  e  a  está  ajudando  a  adaptar  suas  rotinas  ao
ambiente.
Mary trabalha com o Prefeito e o Conselho da Cidade para ajudar a construir políticas e a angariar fundos
para as prioridades destinadas a tornar a cidade mais segura e mais fácil para todos aqueles que acessam o
serviço  público  e  se  engajam  em  comportamentos  saudáveis.  Em  consequência  de  seu  trabalho,  existem
agora calçadas bem iluminadas e seguras, com frequentes lugares para descansar que os cidadãos idosos e
as famílias com crianças pequenas estão apreciando. Além disso, calçadas e ciclovias dentro do raio de um
quilômetro  e  meio  das  escolas  são  monitoradas  por  guardas  escolares  e  voluntários  para  incentivar  as
crianças  a  caminhar  ou  a  andar  de  bicicleta  até  a  escola,  possibilitando  assim  que  elas  façam  mais
exercícios e que os pais economizem tempo de transporte. Atualmente, Mary está trabalhando com o diretor
do  departamento  de  recreação  em  uma  concessão  para  obter  equipamentos  destinados  a  facilitar  que  as
crianças com comprometimento da mobilidade brinquem nos parques públicos.

Estes  seis  cenários  representam  a  diversidade  do  tratamento  de  terapia  ocupacional  para  clientes  de  terapia
ocupacional,  sejam  eles  pessoas,  grupos,  organizações  ou  populações.  Linda  quer  ser  capaz  de  retornar  ao
trabalho e ao seu jardim. Como a maioria dos adolescentes, Lauro quer ter mais autonomia com relação a seus
pais, utilizar o transporte público, viver algum dia em seu próprio apartamento e aprender as habilidades para o
trabalho  de  modo  a  prepará­lo  para  a  vida  depois  da  escola  secundária.  Os  membros  do  programa  Bridges
querem ser capazes de contribuir para seu grupo e para toda a comunidade, além de passar seu tempo com os
amigos.  O  gerente  da  Maplewood  Industries  quer  se  certificar  de  que  seus  empregados  não  sofram  lesões  por
trauma repetitivo por sua preocupação com eles como seres humanos e com a produtividade da empresa. A Sra.
Oak  quer  encontrar  uma  maneira  de  viver  uma  vida  significativa,  e  sua  filha  quer  que  ela  fique  o  mais
confortável possível. Mary e os líderes de sua comunidade querem uma população saudável que seja capaz de
usufruir  plenamente  das  áreas  públicas.  Como  estes  cenários  demonstram,  os  profissionais  de  terapia
ocupacional prestam serviços para diferentes clientes em muitos ambientes, de hospitais e escolas até programas
comunitários e empresas. Estes serviços incluem atendimento direto às pessoas, organização de programas em
grupos,  consultoria  para  organizações  e  defesa  pública.  Em  todos  esses  casos,  a  meta  primordial  da  terapia
ocupacional  consiste  em  engajar  as  pessoas  em  ocupações  significativas  e  importantes  para  manter  a  saúde  e
participar da forma o mais plena possível da sociedade.

DEFINIÇÃO DE TERAPIA OCUPACIONAL
A  terapia  ocupacional  é  a  arte  e  a  ciência  de  ajudar  as  pessoas  a  realizarem  atividades  cotidianas  que  sejam
importantes e significativas para sua saúde e bem­estar por meio do engajamento em ocupações valorizadas. A
ocupação em terapia ocupacional vem do uso mais antigo da palavra, significando como as pessoas utilizam ou
“ocupam” seu tempo. Hasselkus (2006), em sua conferência Slagle, falou sobre a ocupação cotidiana como algo
que é tão comum e está tão integrado ao cotidiano que podemos não observar sua complexidade e como nossas
ocupações constituem uma rede entrelaçada a tudo o que fazemos a cada dia. A terapia ocupacional, baseada na
centralidade  da  ocupação  para  a  vida  diária,  refere­se  a  todas  as  atividades  que  ocupam  o  tempo  das  pessoas,
constroem  a  identidade  por  meio  do  fazer  e  proporcionam  significado  (Christiansen,  1999,  Zemke,  2004).  A
ocupação inclui a complexa rede de atividades cotidianas que capacitam as pessoas a manter a sua saúde, atender
às  suas  necessidades,  contribuir  para  a  vida  de  sua  família  e  participar  plenamente  da  sociedade  (American
Occupational Therapy Association [AOTA], no prelo). Por fim, o engajamento ocupacional é importante porque
é capaz de contribuir para a saúde e para o bem­estar (Clark et al., 1997; Glass, Mendes de Leon, Marottoli &
Berkman,  1999;  Law,  Seinwender  &  Leclair,  1998).  Como  ilustram  os  cenários  no  início  deste  capítulo  os
profissionais  de  terapia  ocupacional  fornecem  tratamento  individual  ou  em  grupo,  bem  como  serviços  de
consultoria que fomentam a participação da comunidade, a prevenção e o bem­estar dos grupos em uma ampla
gama  de  ambientes.  O  resultado  desejado  do  tratamento  de  terapia  ocupacional  é  que  as  pessoas  vivam  suas
vidas engajadas em ocupações que as sustentem, mantenham sua saúde e fomentem sua interação com outros em
seu mundo social.
A prática da terapia ocupacional contemporânea traz consigo as raízes históricas da profissão refinadas pela
prática  atual  da  terapia  ocupacional  e  pela  pesquisa  sobre  saúde  e  serviços  humanos.  Meyer  (1977/1922),  por
exemplo, em discurso à parte para a National Society for the Promotion of Occupational Therapy disse: “Nosso
papel  consiste  em  dar  oportunidades  em  vez  de  prescrições.  Deve  haver  oportunidades  para  trabalhar,
oportunidades  para  fazer,  planejar  e  criar,  e  para  usar  os  materiais”  (p.  641).  Englehardt  (1977),  e  mais
recentemente Pörn (1993), declarou que a saúde é mensurada pela capacidade de adaptação e de engajamento do
indivíduo nas atividades diárias. Em sua Conferência Eleanor Clarke Slagle, Yerxa (1967) explicou que a terapia
ocupacional  autêntica  concentra­se  na  humanidade  dos  clientes  e  em  sua  capacidade  de  escolher  e  iniciar
atividades que sirvam de base para a descoberta do significado. Ela argumentou ainda que a terapia ocupacional
autêntica requer que o profissional “em todo ato profissional defina a profissão” e, ao fazer isto, estabeleça uma
relação  recíproca  caracterizada  pelo  cuidado  mútuo  e  que  “cuidar  significa  ser  afetado  no  sentido  exato  que
significa afetar” (p. 8). Mais adiante em sua narrativa, Yerxa defendeu o engajamento do profissional na pesquisa
para  promover  o  desenvolvimento  da  base  de  conhecimento  da  profissão.  Estes  temas  traduzem­se  em  três
princípios de orientação da terapia ocupacional contemporânea:
1. Prática centrada no cliente
2. Prática centrada na ocupação
3. Prática baseada em evidência

PRÁTICA CENTRADA NO CLIENTE
No cerne da terapia ocupacional está o compromisso de considerar o cliente como um agente ativo que procura
realizar  atividades  cotidianas  importantes.  Com  frequência,  os  profissionais  de  terapia  ocupacional  trabalham
com  pessoas  que  estão  incapacitadas  (Kronenberg  &  Pollard,  2005;  Townsend,  1996).  Os  clientes  procuram
cuidado e ajuda profissional para “obter controle sobre suas condições” (Rappaport, 1987, p. 122). Para trabalhar
centrados  no  cliente,  os  profissionais  precisam  desejar  entrar  no  mundo  do  cliente  para  estabelecer  um
relacionamento que incentive o outro a melhorar sua vida nos aspectos mais significativos para aquela pessoa.
Os  profissionais  empenham­se  para  compreender  o  cliente  como  uma  pessoa  inserida  em  um  determinado
contexto constituído pela família e pelos amigos, pela condição socioeconômica, pela cultura etc.
No  modelo  centrado  no  cliente,  o  profissional  e  o  cliente  atuam  de  maneira  cooperativa  no  processo
terapêutico (Law, 1998). Mattingly (1991) declara que este processo é narrativo por natureza, o que significa que
o  profissional  e  o  cliente  desenvolvem  uma  compreensão  sobre  história  passada,  presente  e  futura  do  cliente.
Mattingly afirma ainda que a história futura é coconstruída e constantemente revisada ao longo do tratamento.
Os profissionais esforçam­se para compreender as intenções e os sentimentos humanos, bem como o significado
mais  profundo  da  vida  das  pessoas  por  meio  do  que  Clark  (1993)  denominou  narrativa  ocupacional.  Em
contraste, a elaboração da história ocupacional ocorre durante o tratamento. Este é o processo imaginativo por
meio do qual os clientes criam e, em seguida, assumem novas identidades ocupacionais (Clark, 1993).
PRÁTICA CENTRADA NA OCUPAÇÃO
A  terapia  ocupacional  contemporânea  enfatiza  o  engajamento  ocupacional.  Os  clientes  procuram  a  terapia
ocupacional  porque  eles  precisam  de  ajuda  para  se  engajar  em  suas  ocupações  valorizadas.  A  ênfase  no
engajamento  ocupacional  advém  das  crenças  da  profissão,  substanciadas  pela  pesquisa  emergente,  de  que  as
ocupações das pessoas são fundamentais para sua identidade e que elas podem se reconstruir por meio de suas
ocupações  (Jackson,  1998).  As  ocupações  não  são  atividades  isoladas,  mas  estão  conectadas  a  uma  rede  de
atividades  diárias  que  ajudam  as  pessoas  a  atender  suas  necessidades  básicas  e  a  contribuir  para  a  família,  os
amigos  e  toda  a  comunidade  (Hasselkus,  2006).  A  prática  centrada  na  ocupação  tem  foco  sobre  ocupações
significativas selecionadas pelos clientes e realizadas em seus ambientes típicos (Fisher, 1998; Pierce, 1998). A
avaliação sistemática das prioridades e das ocupações dos clientes é vital para a prática centrada na ocupação.
Esta informação – quando associada a análises cuidadosas das capacidades da pessoa, das demandas da tarefa e
do  contexto  de  desempenho  –  fornece  a  base  para  o  tratamento.  As  metas  de  tratamento  estão  diretamente
relacionadas  às  preocupações  ocupacionais  da  pessoa,  e  os  métodos  de  tratamento  se  baseiam  nos  interesses
ocupacionais da pessoa. Dessa maneira, tanto os meios (métodos) como os fins (metas) da terapia envolvem o
tratamento fundamentado nas ocupações do cliente (Fisher, 1998; Gray, 1998; Trombly, 1995).
Considerando  a  prática  centrada  no  cliente  e  baseada  na  ocupação,  Ann  Wilcock  e  Elizabeth  Townsend,
líderes  na  terapia  ocupacional  em  duas  diferentes  regiões  do  mundo,  introduziram  o  conceito  de  justiça
ocupacional para reconhecer que todas as pessoas são seres ocupacionais e que atender à necessidade de todas as
pessoas para o engajamento na ocupação significativa é uma questão de justiça (veja o Capítulo 20). Wilcock e
Townsend  igualam  a  justiça  ocupacional  aos  direitos,  à  equidade  e  à  imparcialidade  e  argumentam  que  cada
pessoa tem direito a ter oportunidades e acesso iguais. Para lidar com as injustiças, os profissionais de terapia
ocupacional começaram a desenvolver tratamentos e a defender pessoas que estão incapacitadas por legislação,
guerra, problemas políticos, ditadura ou desastres naturais. Embora muitas das iniciativas da terapia ocupacional
para  lidar  com  casos  de  injustiça  ocupacional  tenham  sido  desenvolvidas  em  outras  regiões  do  mundo,  os
profissionais  nos  Estados  Unidos  começaram  a  abraçar  os  ideais  de  um  mundo  “justo  do  ponto  de  vista
ocupacional” e a desenvolver tratamentos com essas metas em mente.

PRÁTICA BASEADA EM EVIDÊNCIA
Uma  das  tendências  importantes  no  cuidado  de  saúde  é  a  crescente  necessidade  de  basear  as  decisões  de
tratamento  no  “uso  consciente,  explícito  e  criterioso  da  melhor  evidência  atual”  (Sackett,  Rosenberg,  Muir
Grany,  Haynes  &  Richardson,  1996,  p.  71).  Este  processo,  chamado  prática  baseada  em  evidência,  inclui  a
capacidade de integrar a evidência da pesquisa ao processo de raciocínio clínico para explicar o raciocínio que
norteia o tratamento e predizer os prováveis resultados – ou, como Gray afirmou, “fazer certo as coisas certas”
(citado em Holm, 2000, p. 576). Além de “fazer certo as coisas certas”, a prática baseada em evidência inclui a
capacidade  de  explicar  aos  clientes  as  recomendações  da  terapia  ocupacional  em  uma  linguagem  que  eles
possam compreender (Tickle­Degnen, 2000). Além disso, o tratamento baseado em costumes da profissão não
atende mais ao requisito ético de “informar plenamente os consumidores do serviço sobre a natureza, os riscos e
os resultados potenciais de qualquer tratamento” (American Occupational Therapy Association [AOTA], 2000,
p. 614).
O desafio para os profissionais de terapia ocupacional é triplo.
Em primeiro lugar, para praticar a terapia ocupacional baseada em evidência de pesquisa, os profissionais
precisam saber como acessar, avaliar e interpretar a pesquisa relevante.
Em  segundo  lugar,  os  profissionais  precisam  ser  capazes  de  coletar  os  dados  que  fundamentem  as
recomendações de seus tratamentos.
Em  terceiro  lugar,  uma  vez  que  os  profissionais  compreendam  os  possíveis  tratamentos  e  os  resultados
correlatos, eles precisam comunicar os prováveis resultados aos clientes e/ou a seus cuidadores, de modo
que os clientes possam decidir se concordam com o tratamento de terapia ocupacional.

Os profissionais não precisam apenas estar dispostos a examinar as práticas de tratamento para verificar se estas
são efetivas, mas também precisam estar abertos a mudanças em seus padrões de tratamento quando a evidência
sugerir abordagens mais efetivas do que aquelas habitualmente utilizadas por eles.
PROFISSIONAIS DE TERAPIA OCUPACIONAL
Com  certeza,  os  clientes  constituem  um  componente  essencial  do  tratamento  de  terapia  ocupacional,  mas  os
profissionais de terapia ocupacional são a outra parte da equação. Os profissionais utilizam suas capacidades de
raciocínio  profissional  para  atualizar  seu  conhecimento  e  habilidade  de  prática.  Assim  como  os  clientes
apresentam  uma  história  ocupacional,  o  mesmo  ocorre  com  os  profissionais.  Eles  também  estão  inseridos  em
contextos pessoais, sociais e culturais que modelam sua visão de mundo. Estes incluem suas teorias e técnicas de
tratamento  preferidas,  as  realidades  práticas  do  ambiente  em  que  eles  atuam  e  os  membros  da  equipe  com  os
quais trabalham (Schell, 2007).
Assim  como  os  clientes,  os  profissionais  apresentam  forças  e  limitações  particulares  que  influenciam  suas
interações  com  as  outras  pessoas.  Estas  forças  e  limitações  influenciam  o  modo  pelo  qual  os  profissionais
estruturam os problemas do cliente e utilizam o contexto de tratamento para beneficiar os clientes.

VISÃO PARA O FUTURO
Em 2017, a American Occupational Therapy irá celebrar seu centésimo aniversário. Em reconhecimento a este
marco, a AOTA passou vários anos em um extenso processo de planejamento, destinado a orientar a profissão no
sentido de maximizar seu potencial para servir à sociedade. A Visão Centenária foi aprovada pela assembleia de
representantes da AOTA na conferência anual de 2006. A declaração da visão afirma:

Entendemos  que  a  terapia  ocupacional  é  uma  profissão  poderosa,  amplamente  reconhecida,  dirigida  pela  ciência  e
baseada  em  evidência,  com  uma  força  de  trabalho  diversificada  e  globalmente  conectada,  atendendo  as  necessidades
ocupacionais da sociedade. (AOTA, 2006)

A  Visão  Centenária  lista  os  pontos  principais  para  alcançar  esta  visão  em  torno  de  2017.  Estes  elementos
abordam  a  preparação  e  a  diversidade  da  força  de  trabalho  da  terapia  ocupacional,  de  modo  que  seja  mais
visível,  poderosa  e  capaz  de  colaborar  com  outras  para  melhorar  a  saúde  e  o  bem­estar  das  pessoas  e  da
sociedade como um todo. Além disso, nossos líderes vislumbram maior inovação fundamentada na ciência para
nortear a prática e fornecer a evidência que sustente o tratamento de terapia ocupacional. Por fim, a afiliação na
AOTA  será  vista  como  uma  responsabilidade  profissional,  porque  é  por  meio  do  forte  envolvimento  do
associado que o potencial da terapia ocupacional para atender as necessidades ocupacionais se transformará em
realidade (AOTA, 2006). Em sua palestra de boas­vindas presidencial, Carolyn Baum, presidente da AOTA de
2004­2007, disse:

Aqueles  que  fundaram  nossa  profissão  tiveram  uma  visão:  que  a  terapia  ocupacional  estudaria  e  utilizaria  a  ocupação
como influência para a saúde e orientaria as pessoas a respeito de seu valor. Muitos e muitos avanços estão tornando a
visão  de  nossos  fundadores  uma  realidade.  À  medida  que  nos  aproximamos  da  celebração  do  centenário,  chega  o
momento  para  que  os  terapeutas  ocupacionais  e  terapeutas  ocupacionais  assistentes  aproveitem  as  oportunidades  de
mudanças  no  sistema  de  cuidados  de  saúde  que  colocam  valor  na  saúde  e  na  participação.  Devemos  utilizar  nosso
conhecimento  e  nossas  capacidades  para  tornar  visíveis  nossas  contribuições,  as  quais  melhoram  a  qualidade  das  vidas
daqueles a quem servimos. (Baum, 2007)

CONCLUSÃO
A  terapia  ocupacional  é  um  processo  complexo  que  envolve  a  interação  colaborativa  entre  o  profissional  e  o
cliente  inseridos  no  contexto  do  tratamento.  O  tratamento  de  terapia  ocupacional  deve  ser  fundamentado  na
pesquisa  e  focado  no  cliente  como  um  ser  ocupacional.  O  processo  terapêutico  evolui  à  medida  que  o
profissional e o cliente trabalham juntos, com o objetivo de analisar rigorosamente as ocupações e o desempenho
do cliente. Como a terapia ocupacional é uma profissão de “fazer com” e não de “fazer para”, existe um aspecto
de improvisação do tratamento que exige que o profissional e o cliente coordenem suas ações para alcançar a
meta  do  cliente.  O  restante  deste  livro  delineia  os  diversos  aspectos  da  terapia  ocupacional.  Enfatiza
consistentemente  que  a  melhor  prática  envolve  (1)  compreender  e  respeitar  os  clientes,  (2)  colaborar  com  os
clientes para atingir suas metas ocupacionais e (3) utilizar tratamentos que estejam fundamentados pela pesquisa.
Para você que inicia sua carreira, nosso desafio consiste em se empenhar para atingir os ideais da profissão.
Em primeiro lugar, estar ciente da influência de suas crenças e de seus contextos pessoais e profissionais e de
como  estes  influenciam  suas  ações.  Em  segundo  lugar,  desafiá­lo  consistentemente  a  ouvir  seus  clientes,  de
modo que você possa facilitar a autonomia e o engajamento deles nas ocupações desejadas. Em terceiro lugar,
utilizar os tratamentos e os instrumentos de avaliação mais efetivos para dar suporte à evolução de seus clientes.
Em  quarto  lugar,  defender  seus  clientes,  de  modo  que  eles  possam  obter  os  serviços  de  que  necessitam  e
aprender  a  se  defender.  Por  fim,  avaliar  sistematicamente  sua  prática  para  garantir  que  seus  tratamentos
capacitem  seus  clientes  a  se  engajar  naquelas  ocupações  que  eles  mais  valorizam.  As  pessoas  cujos  cenários
abriram  este  capítulo  nos  lembram  que  nós  temos  a  responsabilidade  de  viver  pelos  ideais  da  profissão.
Peloquin,  um  dos  nossos  filósofos,  concluiu  sua  conferência  Eleanor  Clarke  Slagle  de  2005  com  a  seguinte
declaração:

As crenças e os princípios da terapia ocupacional restauram nossa lucidez, de modo a vermos o que é essencial: Somos
desbravadores. Capacitamos ocupações que curam. Criamos concomitantemente as vidas diárias. Alcançamos as mãos e
os  corações.  Somos  artistas  e  cientistas  ao  mesmo  tempo.  Se  discernirmos  isto  em  nós  mesmos,  se  agirmos  sob  esta
compreensão cotidiana, avançaremos para o futuro para englobar nossas crenças e nossos princípios de engajamento. E
teremos recuperado nosso coração magnificente. (2005, p. 623)

Consideramos você bem­vindo na trajetória da terapia ocupacional.

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Prática Contemporânea Mundial da Terapia
Ocupacional
TERRY K. CROWE

Sumário
Revisão Histórica
Congressos da WFOT
Organização da WFOT
Crescimento Global na Terapia Ocupacional
Formação de Terapeutas Ocupacionais no Mundo
Trabalhando em Nível Internacional
Perfis do País
Futuro da Terapia Ocupacional no Mundo
Resumo

Objetivos de Aprendizagem
Após a leitura deste capítulo, você será capaz de:
1. Revisar  o  desenvolvimento  histórico  da  World  Federation  of  Occupational  Therapists  [Federação  Mundial  de
Terapeutas Ocupacionais] (WFOT)
2. Reconhecer as funções e a estrutura da WFOT.
3. Visualizar a diversidade da prática profissional e da formação em nível de graduação em terapia ocupacional no
panorama mundial.
4. Compreender os requisitos e as oportunidades para o trabalho internacional.
5. Refletir sobre as tendências futuras da terapia ocupacional em nível internacional.

À
medida que o mundo se torna “menor” mediante as conexões de comunicação e as influências da globalização, podemos
conhecer  as  perspectivas  e  atividades  da  terapia  ocupacional  em  nível  mundial.  Este  capítulo  trata  do  crescimento  e  das
tendências futuras da terapia ocupacional em nível internacional.

REVISÃO HISTÓRICA
Em 1952 foi criada a World Federation of Occupational Therapists [Federação Mundial de Terapeutas Ocupacionais] (WFOT)
(Spackman, 1967). A WFOT é a principal representante internacional da terapia ocupacional e a organização internacional oficial
para  a  promoção  da  terapia  ocupacional  (World  Federation  of  Occupational  Therapists,  2006a).  Os  membros  fundadores  da
WFOT  foram  Austrália,  Canadá,  Dinamarca,  Grã­Bretanha  (Inglaterra  e  Escócia),  Índia,  Israel,  Nova  Zelândia,  África  do  Sul,
Suécia  e  Estados  Unidos  (Spackman,  1967).  Helen  Willard  e  Clare  Spackman  estavam  entre  os  líderes  iniciais  da  WFOT
(Mendez,  1986).  Spackman  tornou­se  a  primeira  delegada  da  WFOT  vinda  da  American  Occupational  Therapy  Association
[Associação Americana de Terapia Ocupacional] (AOTA) e tornou­se a presidente da WFOT de 1959 a 1961.

Congressos da WFOT
Apenas dois anos após a fundação da WFOT foi realizado o primeiro congresso da WFOT, em Edimburgo, Escócia. O congresso
recebeu participação de cerca de 400 membros de 21 países (Paterson, 1994). Os temas das conferências refletiram as principais
áreas  da  terapia  ocupacional  naquele  momento:  tuberculose,  poliomielite,  psiquiatria,  paralisia  cerebral  e  reabilitação  e
recolocação. As questões internacionais enfrentadas pela profissão foram resumidas como número insuficiente de programas de
formação profissional, escassez de terapeutas ocupacionais, falta de suporte governamental, médico e civil e falta de unificação
dos padrões de formação profissional e termos de serviço. O Congresso da WFOT continua a ser realizado a cada quatro anos,
reunindo  terapeutas  ocupacionais  de  todo  o  mundo.  No  14o  Congresso,  na  Austrália,  em  2006,  mais  de  2.000  terapeutas
ocupacionais de 80 nações trocaram informações (Crowe, 2006a). O próximo Congresso ocorrerá em Santiago, Chile, em 2010.

Organização da WFOT
A  WFOT  compreende  66  membros  organizacionais,  10  membros  associados  e  mais  de  6.000  membros  individuais,  dos  quais
2.038  são  dos  Estados  Unidos  (Tabela 23.1)  (Evert  &  Cronin,  2007;  World  Federation  of  Occupational  Therapists,  2006b).  A
WFOT  é  estruturada  em  cinco  áreas  temáticas  principais:  educação  e  pesquisa,  promoção  e  desenvolvimento,  padrões  e
qualidade,  cooperação  internacional  e  programa  executivo  (World  Federation  of  Occupational  Therapists,  2006c).  Projetos
específicos  desses  programas  são  conduzidos  por  terapeutas  ocupacionais  em  todo  o  mundo.  A  federação  é  gerenciada  por
liderança  voluntária  que  utiliza  um  escritório  virtual.  A  AOTA  elege  três  profissionais  para  representar  os  Estados  Unidos  na
World  Federation  (American  Occupational  Therapy  Association,  2005).  O  delegado  é  o  membro  votante  nas  reuniões  do
Conselho da WFOT. O primeiro delegado suplente tem assento na Assembleia de Representantes para representar os membros da
AOTA  que  atuam  em  países  estrangeiros.  O  segundo  delegado  suplente  atua  como  uma  ponte,  ajudando  os  terapeutas  que
gostariam  de  trabalhar  de  modo  temporário  ou  permanente  em  outros  países.  Todos  os  três  delegados  planejam  e  conduzem  o
International Day na Conferência Anual da AOTA.

CRESCIMENTO GLOBAL NA TERAPIA OCUPACIONAL
A terapia ocupacional continua a se expandir mundialmente. Por exemplo, os profissionais na Geórgia, uma antiga república da
União  Soviética  que  tem  uma  população  de  4,7  milhões  de  pessoas  (World  Factbook,  2006)  reconheceram  a  necessidade  de
desenvolver  a  terapia  ocupacional  em  2001  (World  Federation  of  Occupational  Therapists,  2005a).  Com  a  ajuda  da  Rede
Europeia  de  Terapia  Ocupacional,  oito  alunos  da  Geórgia  foram  treinados  e  graduados,  em  seu  próprio  país,  em  2004,  sendo
formada  a  Georgian  Occupational  Therapy  Association.  As  áreas  de  prática  na  Geórgia  e  em  outros  países  da  antiga  União
Soviética incluem integrar as crianças e os adultos à comunidade e melhorar o tratamento fornecido às pessoas que residem em
instituições. Em 2006, a Geórgia tornou­se membro da WFOT. De maneira similar, assistido pela WFOT, o Egito, que tem uma
população  de  78,9  milhões  de  habitantes  (World  Factbook,  2006),  planeja  desenvolver  programas  de  graduação  em  terapia
ocupacional em três de suas universidades (World Federation of Occupational Therapists, 2005e).

TABELA 23.1 CATEGORIAS DE AFILIAÇÃO DA WFOT
Categoria Requisitos
Afiliação Plena Ter uma associação de terapia ocupacional com constituição aprovada
do País Ter pelo menos um programa educacional de nível iniciante aprovado pela WFOT
Pode votar sobre itens da agenda da WFOT
66 Nações­Membros da WFOT
Afiliação de País Uma associação de terapia ocupacional com constituição aprovada
Associado Não pode votar sobre itens da agenda da WFOT
10 Países Membros Associados da WFOT
Afiliação Aberta  a  Terapeutas  Ocupacionais  e  Terapeutas  Ocupacionais  assistentes  que  sejam  membros  da  associação
Individual profissional de Terapia Ocupacional de seu país (i.e., AOTA)
Pagamento de valores para WFOT por meio da associação nacional
Recebe o Boletim da WFOT
Acesso a itens exclusivos para membros da página eletrônica da WFOT
Elegível para o WFOT Research Awards
Pode participar em Equipes de Projeto da WFOT
6.749 membros individuais
Destes, 2.038 a partir dos Estados Unidos + 490 membros estudantes

[Da World Federation of Occupational Therapists (2006d).]

FORMAÇÃO DE TERAPEUTAS OCUPACIONAIS NO MUNDO
A formação de terapeutas ocupacionais em nível internacional é primordial para o avanço e a expansão da terapia ocupacional no
mundo (Fig. 23.1). Muitos desses programas de formação são orientados por padrões educacionais estabelecidos pela WFOT. Os
primeiros Padrões Educacionais Mínimos da WFOT foram publicados em 1958 (Hockings & Ness, 2002). Os Padrões Mínimos
Revisados da WFOT, de 2002, são visionários e abordam o desafio de tornar a educação superior relevante para a singularidade
cultural, as estruturas social e econômica e as prioridades e necessidades de saúde prevalentes de cada país (Hockings & Ness,
2004a). Esses padrões destacam a centralidade da ocupação, a compreensão das diferenças culturais na ocupação e nas práticas
de  cuidados  de  saúde  e  o  poder  da  ocupação  na  construção  de  comunidades  saudáveis.  Eles  enfatizam  que  os  programas  de
formação profissional precisam disseminar o conhecimento local, bem como o internacional, relacionado à profissão. O contexto
local corresponde à área geográfica do país, às características das necessidades e sistemas de saúde e bem­estar e à diversidade
das  bases  culturais.  Os  Padrões  Educacionais  da  AOTA  atendem  ou  excedem  os  Padrões  Educacionais  Mínimos  da  WFOT
(American Occupational Therapy Association, 1998).
Atualmente,  a  WFOT  reconhece  566  programas  de  formação  profissional  de  terapia  ocupacional  (World  Federation  of
Occupational Therapists, 2006e). Por todo o mundo existem vários programas de formação profissional em terapia ocupacional
que  ensinam  a  terapia  ocupacional,  mas  que  não  foram  revisados  ou  aprovados  pela  WFOT.  Os  programas  educacionais  para
terapia  ocupacional  variam  muito  em  intensidade  e  nível  de  conteúdo.  O  requisito  mínimo  recomendado  pela  WFOT  para  a
formação em terapia ocupacional é de 90 semanas (Hocking & Ness, 2004b). Os programas educacionais podem ser oferecidos
em universidades, faculdades, instituições particulares ou instalações médicas. Os alunos podem ser graduados nos níveis de grau
certificado,  diplomado,  graduado  ou  pós­graduado.  Os  Estados  Unidos  e  o  Canadá  têm  o  requisito  de  grau  educacional  mais
elevado: os terapeutas ocupacionais iniciais devem ter um grau de mestre (American Occupational Therapy Association, 1998;
Canadian  Association  of  Occupational  Therapy,  2005).  Apenas  Estados  Unidos,  Reino  Unido  e  África  do  Sul  dispõem  de
programas  educacionais  reconhecidos  para  terapeutas  ocupacionais  assistentes  (American  Occupational  Therapy  Association,
1998; British Association/College of Occupational Therapist, 2006; Van der Reyden, 2005).

Fig. 23.1 Estudantes de terapia ocupacional na Cidade do México facilitam a participação em uma casa de vida assistida para
pessoas idosas.

TRABALHANDO EM NÍVEL INTERNACIONAL
Os terapeutas ocupacionais podem trabalhar em outros países quando atendem às exigências do país em questão. Muitos países
empregarão terapeutas ocupacionais apenas se eles forem graduados por uma escola aprovada pela WFOT (World Federation of
Occupational Therapists, 2007). Uma boa maneira de acessar as oportunidades de trabalho e voluntariado na terapia ocupacional
internacional  é  por  meio  da  Occupational  Therapy  International  Outreach  Network  (OTION),  um  fórum  para  troca  de
informações (Newton & Fuller, 2005). A meta da OTION é formar parcerias entre os terapeutas ocupacionais de países ricos em
recursos e organizações que atendem pessoas com incapacidades em países carentes de recursos. Existem muitas alternativas para
o  trabalho  em  nível  internacional,  incluindo  o  voluntariado  no  Peace  Corps  (Crowe,  2005a,  2007),  o  trabalho  em  uma
organização  não  governamental  internacional,  o  voluntariado  de  curta  ou  longa  duração  (Crowe,  2005b,  2005c,  2006b)  ou  o
trabalho em uma instituição que forneça a terapia ocupacional.

PERFIS DO PAÍS
Embora  a  terapia  ocupacional  seja,  atualmente,  uma  profissão  mundial,  a  natureza  da  prática  é  modelada  para  se  adequar  às
diferentes culturas e aos recursos de cada país. A Tabela 23.2 fornece um perfil resumido da prática da terapia ocupacional em
cada  um  dos  cinco  continentes  no  mundo.  Um  país  é  destacado  em  cada  continente.  Observe  que  questões  de  saúde  bastante
distintas são enfrentradas em cada país. O endereço eletrônico da WFOT fornece informações similares sobre muitos países no
mundo.

FUTURO DA TERAPIA OCUPACIONAL NO MUNDO
Como  apenas  76  das  271  nações  e  outros  territórios  reconhecidos  no  mundo  dispõem  de  práticas  estabelecidas  na  terapia
ocupacional conforme reconhecido pela WFOT, é necessário um crescimento significativo para que a terapia ocupacional alcance
os  6  bilhões  e  538  milhões  de  pessoas  estimados  no  mundo  (U.  S.  and  World  Population  Clocks,  2007).  Por  exemplo,  em
Bangladesh,  um  país  de  147  milhões  de  pessoas  (World  Factbook,  2006),  em  2005,  havia  apenas  25  terapeutas  ocupacionais
treinados no país e dois terapeutas ocupacionais que haviam sido treinados em outros países (Newton & Fuller, 2005). Outros
países, como Camboja, Vietnã e Bermudas, não dispunham de qualquer terapeuta ocupacional treinado no país (Crowe, 2005c;
M.  Patterson,  comunicação  pessoal,  26  de  agosto  de  2005),  embora  possa  haver  alguns  terapeutas  ocupacionais  estrangeiros
trabalhando  em  projetos  especiais  ou  terapeutas  locais  treinados  fora  de  seu  país  (Fig.  23.2).  Muitos  países  fornecem
oportunidades para o desenvolvimento da terapia ocupacional de modo culturalmente relevante. A terapia ocupacional precisa ser
contextualizada e reconhecer as crenças tradicionais e culturais que cercam a saúde, a doença e a incapacidade. Isto oferece ao
terapeuta ocupacional uma oportunidade para desenvolver uma prática inovadora e modelos educacionais para ajudar as pessoas
por todo o mundo a enriquecerem suas vidas do ponto de vista ocupacional.
TABELA 23.2 FATOS DA TERAPIA OCUPACIONAL PARA AUSTRÁLIA, CHILE, ÍNDIA, UGANDA E REINO UNIDO
Austrália Chile Índia Uganda Reino Unido
(www.ausot.com.au) (www.terapia­ (www.aiota.org) (ott@infocom.co.ug) (www.cot.co.uk)
ocupacional.cl)
População 20,3 milhões 16,1 milhões 1,1 bilhão 28,2 milhões 60,6 milhões
Número de 11.500 900 5.000 70 26.031
Terapeutas
Ocupacionais
Ano de 1952 2005 1952 1998 1952
Afiliação na
WFOT
Periódico Australian Occupational Revista Chilena de Indian Journal of Nenhum, um informativo British Journal of
Profissional Therapy Journal, 4 Terapia Occupational produzido uma vez ao Occupational
números/ano Ocupacional, um Therapy, 3 ano Therapy (BJOT),
número/ano números/ano 12 números/ano
Número de 17 1 20 1 56 em 34
programas Universidades
de educação diferentes
aprovados
pela WFOT
Prioridades Fortalecer, estimular Fortalecer o Aumentar a Desenvolver Desenvolver a
estratégicas e unificar a parceria compromisso conscientização tratamentos de força de
da entre o TO National profissional, sobre a Terapia Terapia Ocupacional trabalho para
da AUSTRALIA e ético, social e Ocupacional que sejam relevantes enfrentar os
organização
todas as político a fim nos setores para residentes rurais desafios de
associações­membro de abordar médico, Aumentar a fornecimento de
para desenvolver e problemas de governamental conscientização do novos serviços
fornecer aos saúde pública e público governo sobre a Integrar e
membros resultados do país Aumentar as terapia ocupacional reformar os
de qualidade Certificar­se de oportunidades (S. Shann, serviços de
Promover e facilitar que os serviços de emprego em comunicação Terapia
ativamente o de terapia organizações pessoal, 9 de Ocupacional
desenvolvimento da ocupacional governamentais novembro de 2006) para permitir a
excelência na estarão e não administração
profissão em todas disponíveis nos governamentais mais efetiva e
as áreas de atuação novos sistemas Aumentar a eficiente do
Ser uma organização de saúde e pesquisa em serviço
eficiente, efetiva e irão assegurar Terapia Aumentar o
financeiramente a maior Ocupacional papel da
viável por meio da participação do Garantir que o Terapia
prática de excelência Terapeuta Indian Council Ocupacional na
Maximizar a Ocupacional of Occupational reabilitação
relevância, a eficácia Continuar a Therapy profissional e
e o perfil do TO da trabalhar em gerencie a no emprego
AUSTRÁLIA por cooperação profissão com Garantir que a
meio da com diferentes relação à ocupação seja o
representação organizações, educação e à cerne da
profissional de grupos e prática da prestação do
qualidade e de outras Terapia serviço
atividades/iniciativas associações Ocupacional Criar mais
de marketing profissionais Aumentar a papéis para
para Terapia terapeutas
(M. Pattison, desenvolver a Ocupacional ocupacionais
comunicação pessoal, maior baseada na com relação à
13 de outubro de participação comunidade e promoção de
2006) cívica baseada em saúde e à
Avançar a evidência saúde pública
certificação
profissional até (A, Srivastava, (B. Steeden,
o nível comunicação comunicação
nacional para pessoal, 21 de pessoal, 13 de
garantir a alta novembro de outubro de 2006)
qualidade dos
2006)
tratamentos de
Terapia
Ocupacional
Estimular a
especialização
e o
treinamento
contínuos dos
terapeutas
ocupacionais
(E. Henny e O.
Castro,
comunicação
pessoal, 16 de
dezembro de
2006)

Fig. 23.2 A autora trabalha com uma criança e sua mãe, enquanto presta uma consulta com um enfermeiro visitante em uma vila
cambojana.

Um  avanço  inspirador  na  terapia  ocupacional  em  escala  mundial  é  o  envolvimento  na  reabilitação  baseada  na  comunidade,
uma  abordagem  utilizada  principalmente  em  países  com  recursos  limitados  (Fransen,  2005;  Sinclair,  Sakellariou,  Kronenberg,
Fransen & Pollard, 2006). Profissionais como os terapeutas ocupacionais trabalham a reabilitação em nível comunitário, tentando
equalizar  as  oportunidades  e  promover  a  integração  social  das  pessoas  com  necessidades  especiais  (Fig.  23.3).  Os  direitos
humanos  são  um  problema  mesmo  em  países  com  serviços  estabelecidos  de  terapia  ocupacional,  onde  muitas  pessoas
marginalizadas  não  são  capazes  de  acessar  os  serviços.  Os  exemplos  incluem  pessoas  sem  seguro  de  saúde,  refugiados,
sobreviventes da violência, indígenas ou sem­teto (Algado & Burgman, 2005; Algado & Cardona, 2005; Davis & Kutter, 1998;
Kronenberg,  2005;  Petrenchik,  2006;  Simmond,  2005).  Os  desafios  incluem  grandes  adversidades  pessoais,  ocupacionais  e
ambientais.  A  terapia  ocupacional  precisa  ampliar  os  modelos  de  prestação  de  serviços  para  atender  a  esses  desafios  e  para
alcançar  mais  pessoas  em  nível  internacional.  Peloquin  (2005)  declara  de  forma  elegante:  “Por  meio  do  uso  de  ocupações
habilidosas,  nossos  programas  de  terapia  transformam  os  ambientes.  Em  um  mundo  que  se  tornou  pequeno  por  causa  das
facilidades de viagem e da cobertura ampla da mídia, aqueles que são pobres, que estão privados dos direitos civis, socialmente
isolados e tratados com discriminação acenam para nós (como terapeutas ocupacionais) como nunca fizeram antes” (p. 101). É
responsabilidade de todos nós promover a participação das pessoas com incapacidades em todos os países.
Fig. 23.3 Uma criança com transtorno do espectro do autismo faz atividade em um campo de elefantes implantado por terapeutas
ocupacionais na Tailândia. Por meio de interações cuidadosamente monitoradas com os elefantes, os resultados incluem níveis
mais elevados de respostas adaptativas e capacidades sociais/comunicação nas crianças.

DILEMAS DA PRÁTICA

FORNECENDO SERVIÇOS EM OUTRO PAÍS

Você  foi  voluntário  para  trabalhar  em  um  programa  educacional  para  crianças  com  necessidades  especiais  na  cidade  de
Oaxaca, Oaxaca, México. Oaxaca tem apenas um punhado de terapeutas ocupacionais, a maioria trabalhando em um hospital
de reabilitação próximo do governo. Você fala espanhol em nível intermediário. Você graduou­se em um programa educacional
aprovado pela American Occupational Therapy Association (AOTA).

1. Você pode atuar no México sem qualquer qualificação adicional? Como você sabe?
2. Já que você não é fluente em Espanhol, como você compreenderá as necessidades ocupacionais e as visões de saúde,
doença  e  incapacidade  de  uma  família?  Como  você  irá  desenvolver  prioridades  ocupacionais  para  crianças  que  sejam
especificamente relevantes para as crianças e suas famílias em seu contexto cultural?

RESUMO
A  terapia  ocupacional  expandiu­se  muito  por  todo  o  mundo  desde  seu  início  em  1917.  Com  a  ampliação  global  da  rede  de
trabalho  profissional  e  a  colaboração  internacional,  os  terapeutas  ocupacionais  serão  precursores  dos  esforços  cooperativos
internacionais para melhorar as respostas aos desastres naturais e àqueles produzidos pelo homem, melhorar a saúde e o bem­
estar de todos os cidadãos do mundo e fornecer ocupações significativas para todos. Na próxima década, veremos muitos países
afiliando­se  à  WFOT.  Além  disso,  a  terapia  ocupacional  fortalecerá  seu  papel  e  continuará  a  ampliar  as  abordagens  para  o
fornecimento de serviços de modo a atender as necessidades de mais pessoas em nível internacional. Yerxa (2003) disse que “a
terapia  ocupacional  está  comprometida  com  a  melhoria  das  oportunidades  de  vida,  saúde  e  capacidade  de  todas  as  pessoas,
incluindo aquelas com comprometimentos crônicos, ao empregar a ocupação como terapia, contribuindo com novo conhecimento
da  ocupação  para  a  sociedade,  e  ao  influenciar  as  políticas  públicas  para  as  pessoas”  (p.  976).  Isto  precisa  ocorrer  em  nível
internacional, de modo que as pessoas com desafios ocupacionais possam viver vidas mais significativas.

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Lippincott Williams & Wilkins
Organizações Profissionais de Terapia
Ocupacional
SARA BRAYMAN

Sumário
Estudo de Caso: Kanesha Inicia na Profissão
American Occupational Therapy Association (AOTA)
Administradores e Diretores da AOTA
Assembleia de Representantes
Comissões
Seções de Interesse Especial
Afiliação dos Presidentes de Associações Estaduais
Assembleia de Delegados Estudantes
Equipe da AOTA
Conselho de Acreditação para Educação da Terapia Ocupacional
Publicações
Resumo
Conselhos Reguladores Estaduais
Outras Organizações Importantes
American Occupational Therapy Foundation
National Board for Certification of Occupational Therapists
World Federation of Occupational Therapy
Conclusão

Objetivos de Aprendizagem
Após a leitura deste capítulo, você será capaz de:
1. Descrever  os  pa  péis  da  AOTA,  do  NBCOT  e  dos  conselhos  reguladores  estaduais  no
credenciamento de profissionais da terapia ocupacional nos Estados Unidos.
2. Avaliar  os  pa  péis  que  tanto  os  membros  voluntários  como  os  remunerados  da  equipe  nas
organizações  profissionais  desempenham  no  desenvolvimento  e  suporte  de  todos  os  aspectos
da profissão e seus membros.
3. Compreender  como  as  organizações  profissionais  e  reguladoras  servem  aos  consumidores  da
terapia ocupacional por meio de educação e ambientes comuns.

A
lunos  de  terapia  ocupacional,  assistentes  de  terapia  ocupacional  e  terapeutas  ocupacionais,  em  virtude  de
sua formação, licença e/ou certificação, são elegíveis como membros da profissão da terapia ocupacional.
A formação da identidade profissional é um processo de desenvolvimento que começa no momento em que um
indivíduo  escolhe  a  terapia  ocupacional.  Ela  se  constrói  enquanto  o  indivíduo  está  na  escola,  começando  a
aprender as teorias, técnicas e procedimentos da prática. Este processo de desenvolvimento não cessa quando o
indivíduo se gradua e inicia a prática, e continua a se desenvolver durante toda a sua vida profissional. Ser um
profissional requer que o indivíduo reconheça e faça adesão ao código de ética da profissão, pratique respeitando
seus preceitos e contribua para o desenvolvimento contínuo do conhecimento e das habilidades necessárias para
refinar  continuamente  aquela  profissão.  Todo  o  processo  é  sustentado  por  organizações  profissionais  que
estabelecem  padrões  e  fornecem  suporte  para  os  indivíduos  e  a  profissão  como  um  todo.  O  Estudo  de  Caso  a
seguir  apresenta  um  exemplo  que  ilustra  as  diversas  organizações  que  apoiam  o  início  na  profissão  da  terapia
ocupacional. À medida que você ler este capítulo, retorne a este caso.
Este capítulo apresenta ao leitor as principais organizações de terapia ocupacional profissionais nos Estados
Unidos.  Como  muitos  dos  principais  padrões  e  políticas  da  profissão  são  desenvolvidos  pela  American
Occupational  Therapy  Association,  grande  parte  deste  capítulo  aborda  diferentes  componentes  dessa
organização. As organizações estaduais e internacionais e as entidades legais que afetam a terapia ocupacional
também são debatidas de maneira resumida, incluindo como a AOTA se relaciona com a World Federation of
Occupational Therapy, que foi discutida no Capítulo 23.

ESTUDO DE CASO: Kanesha Inicia na Profissão

Kanesha está no terceiro ano do ensino médio. Ela acabou de descobrir que gostaria de ser uma terapeuta
ocupacional  que  trabalhe  com  crianças  com  necessidades  especiais.  Ela  aprendeu  sobre  a  terapia
ocupacional (TO) por meio de um vídeo e de uma apresentação realizada por alunos de TO durante uma
feira de profissões em sua escola. Os estudantes convidaram­na a ir até a universidade, assistir a uma aula
e  conhecer  alguns  dos  professores.  Eles  também  sugeriram  que  ela  consulte  o  endereço  eletrônico  da
American Occupational Therapy Association (AOTA) para aprender mais sobre a TO. Consultar o endereço
eletrônico serviu apenas para aumentar o interesse de Kanesha pela TO, de modo que ela fez arranjos para
visitar a universidade e falar com um dos membros da faculdade de TO. Ela realizou o processo de seleção
e  foi  aceita  na  classe  de  calouros  como  uma  pré­aluna  de  terapia  ocupacional.  Ela  trabalhou  muito  para
manter uma boa média de pontos e foi cuidadosa para cumprir todas as disciplinas necessárias para entrar
no programa de TO.
Kanesha  ficou  muito  feliz  por  ter  sido  aceita  no  programa.  Suas  primeiras  disciplinas  foram  muito
desafiadoras e ela ficou contente por aprender mais sobre a profissão escolhida. Ela se filiou à AOTA como
estudante­membro e tornou­se cada vez mais interessada em todas as áreas em que atuam os terapeutas
ocupacionais. Ela tirou vantagem de um dos benefícios de pertencer à AOTA como estudante­membro. Ela
descobriu que a revista American Journal of Occupational Therapy, OT Practice e o Special Interest Section
Quaterlies  continham  artigos  interessantes  que  eram  relevantes  para  seu  trabalho  de  conclusão  de  curso.
Além disso, ela utilizou a busca em TO através do endereço eletrônico da AOTA para descobrir rapidamente
as fontes de TO para artigos de pesquisa.
Enquanto  realizava  seu  trabalho  de  conclusão  de  curso,  Kanesha  e  seu  coordenador  de  estágio
trabalharam  juntos  para  descobrir  um  local  de  estágio  de  Nível  II  na  Flórida,  de  modo  que  ela  pudesse
finalizar seu estágio enquanto estivesse morando com seus avós. Utilizando a lista de e­mail da AOTA, seu
coordenador  descobriu  outros  coordenadores  de  estágio  na  Flórida  e  foi  capaz  de  localizar  um  local  de
estágio apropriado. Durante a fase final de seu estágio de Nível II, Kanesha contatou o National Board for
Certification  of  Occupational  Therapists  (NBCOT®)  e  se  inscreveu  para  realizar  seu  exame  de  certificação
após  o  término  de  seu  período  de  estágio.  Ela  pôde  realizar  o  exame  em  um  local  próximo  à  sua  casa.
Durante  esse  período,  ela  estudou  revisando  as  informações  de  seus  livros  e  de  todos  os  seus  trabalhos
realizados ao longo do curso. Ela ficou feliz por ter estudado porque o exame foi rigoroso.
Kanesha começou a responder anúncios para terapeutas ocupacionais. Ela foi entrevistada em diversos
lugares e, por fim, reduziu suas escolhas a um emprego na Carolina do Sul e outro próximo à sua casa no
Texas.  Como  não  tinha  certeza  de  qual  emprego  aceitaria,  ela  fez  contato  com  os  conselhos  reguladores
estaduais em ambos os estados para solicitar a licença. Ela solicitou que o NBCOT enviasse os resultados
de  seu  exame  para  ambos.  Ela  aguardou  ansiosamente  por  uma  comunicação  do  NBCOT  e,  após  duas
semanas,  emocionou­se  ao  saber  que  havia  passado  no  exame  e  que,  agora,  era  uma  terapeuta
ocupacional  registrada.  Ela  aceitou  a  oferta  de  um  grupo  de  prática  privada  no  Texas  e  começou  em  seu
novo  emprego  trabalhando  com  crianças  com  autismo.  Ela  tinha  tanto  a  aprender!  Quando  sua  afiliação
como  estudante  venceu,  ela  renovou  sua  afiliação  à  AOTA  e  filiou­se  às  seções  de  Incapacidades  do
Desenvolvimento e de Interesse Especiais no Sistema Escolar, de modo que ela pudesse comunicar­se com
outros  terapeutas  ocupacionais  que  trabalhavam  com  esta  população.  Kanesha  recebeu  informações  e
recursos  fornecidos  por  esses  terapeutas  e  por  seu  supervisor  e  colaboradores.  Ela  se  filiou  à  Texas
Occupational Therapy Association, de modo a conhecer outros terapeutas ocupacionais em seu estado e se
tornar um membro ativo de sua profissão.

AMERICAN OCCUPATIONAL THERAPY ASSOCIATION
A  American  Occupational  Therapy  Association  [Associação  Americana  de  Terapia  Ocupacional]  (AOTA)  é  a
organização­membro nos Estados Unidos responsável por orientar e desenvolver os padrões e o código de ética
da terapia ocupacional e por definir os limites de prática da profissão. Ela foi criada em Nova York, em 1917,
como  Society  for  the  Promotion  of  Occupational  Therapy.  Seu  nome  foi  mudado  em  1927  para  American
Occupational Therapy Association. Sua afiliação compreende terapeutas ocupacionais individuais, assistentes de
terapia ocupacional (OTA) e alunos de todas as áreas de prática. Os membros desenvolvem e refinam a missão
da AOTA, padrões de educação e prática e código de ética, todos os quais modelam a profissão. Isto é feito por
membros que trabalham em conjunto como voluntários, servindo em comitês da associação.
Os  líderes  voluntários,  bem  como  os  membros  da  associação,  são  apoiados  pela  equipe  empregada  pela
AOTA.  A  equipe  é  supervisionada  pelo  Diretor  Executivo  da  AOTA,  que,  por  sua  vez,  é  supervisionado  pelo
Conselho  de  Diretores  da  AOTA.  Como  a  maior  parte  dos  padrões,  recursos  e  políticas  da  profissão  é
desenvolvida  por  voluntários,  é  útil  conhecer  os  muitos  líderes  e  grupos  dentro  da  associação.  A  Tabela  24.1
fornece um resumo dos principais grupos e escritórios voluntários da AOTA. A Tabela 24.2 resume alguns dos
acrônimos que são utilizados para descrever esses grupos.
TABELA 24.1 PAPÉIS E FUNÇÕES DE LIDERANÇA NA AOTA
Papel de Liderança Função Como é Eleito ou Designado
Administradores da
AOTA Comandam a associação Eleitos por todos os membros da AOTA.
Presidente
Vice­Presidente
Secretário
Tesoureiro
Conselho de
Diretores Fornecem a supervisão para a Eleitos por todos os membros da AOTA,
Conselheiros  da organização; legalmente exceto pelo membro consumidor, que é
AOTA responsáveis pelas ações e designado pelo presidente.
Orador  da finanças da associação
Assembleia  de
Representantes
Diretores (TO/OTA)
Consultor público
Consultor  do
consumidor
Assembleia de
Representantes Elaboram e aprovam políticas que Representantes eleitos pelos membros da
Representantes  das orientam a organização e a AOTA no estado/área de eleição. Os
áreas  de profissão estudantes elegem os delegados
eleição/estados estudantes.
Presidentes  de
Comissões
Presidente  do
Comitê  de  Definição
da  Seção  de
Interesse Especial
Delegado  dos
Presidentes  das
Associações
Estaduais Afiliadas
Delegado  da
Assembleia  de
Delegados
Estudantes
Delegado dos OTA
Delegado  dos
terapeutas
residentes  no
exterior
Comissões
Comissão de Prática Desenvolve diretrizes e responde as Presidente eleito por todos os membros da
questões relativas à prática AOTA. Membros da comissão apontados
Comissão  de Aborda questões relacionadas com a ou designados pela política da AOTA.
Padrões e Ética ética e os padrões profissionais
Comissão  de
Desenvolve diretrizes e responde as
Educação questões relativas à educação
Desenvolve diretrizes e responde as
Comissão  de questões relativas à competência
Competência  e avançada
Desenvolvimento
Profissional
Continuados
Presidentes das Coordenam as atividades das Presidente eleito pelos presidentes das
Associações organizações de terapia associações estaduais
Estaduais ocupacional estaduais
Afiliadas

Administradores e Diretores da AOTA
A AOTA possui quatro administradores: o presidente, o vice­presidente, o secretário e o tesoureiro. O presidente
dirige o Conselho de Diretores (BOD) e a reunião de trabalho anual, sendo o principal orador da profissão. A
principal responsabilidade do vice­presidente é orientar o desenvolvimento e a direção de planos estratégicos e
de  longo  prazo  da  organização.  Por  exemplo,  nos  últimos  anos,  o  presidente  e  o  vice­presidente  da  AOTA
levaram  a  associação  a  definir  a  visão  de  onde  a  profissão  deveria  se  situar  no  ano  de  2017.  O  secretário  é
responsável por manter os protocolos e documentos oficiais da associação, e o tesoureiro tem a responsabilidade
de orientar os processos orçamentários.
O  BOD  é  responsável  financeiramente  pela  associação  e  é  legalmente  responsável  pelas  ações  da  AOTA.
Entre  as  reuniões,  o  trabalho  é  conduzido  pela  uso  da  internet  ou  por  meio  de  conferência  telefônica.  Com
frequência,  o  presidente  convida  outros  para  servir  como  referências  para  o  BOD,  de  modo  que  sejam
considerados diferentes pontos de vista. Esses indivíduos não podem votar, mas podem participar das discussões.

TABELA 24.2 ACRÔNIMOS COMUNS PARA GRUPOS RELACIONADOS COM A AOTA
ACOTE Accreditation Council for Occupational Therapy Education (Conselho de Acreditação para
Educação em Terapia Ocupacional)
AOTF American Occupational Therapy Foundation (Fundação Norte­Americana de Terapia Ocupacional)
ASAP Affiliated State Association Presidents (Presidentes de Associações Estaduais Afiliadas)
ASD Assembly of Students Delegates (Assembleia de Delegados Estudantes)
AOTA American Occupational Therapy Association (Associação Norte­Americana de Terapia
Ocupacional)
BOD The Board of Directors (Conselho de Diretores)
CCCPD Commission on Continuing Competence and Professional Development (Comissão de
Competência e Desenvolvimento Profissional Continuados)
COE Commission on Education (Comissão de Educação)
COP Commission on Practice (Comissão de Prática)
NBCOT National Board for Certification in Occupational Therapy (Conselho Nacional para Certificação em
Terapia Ocupacional)
OT Occupational Therapist (Terapeuta Ocupacional)
(TO)
OTA Occupational Therapy Assistant (Assistente de Terapia Ocupacional)
(ATO)
RA Representative Assembly (Assembleia de Representantes)
(AR)
SCB Specialty Certification Board (Conselho de Certificação de Especialidade)
SEC Commission on Standards and Ethics (Comissão de Padrões e Ética)
SIS Special Interest Section (Seção de Interesse Especial)
WFOT World Federation of Occupational Therapists (Federação Mundial de Terapeutas Ocupacionais)

Adaptado  de  American  Occupational  Therapy  Association.  (2004).  The  reference  manual  of  the  official
documents (10th ed.). Bethesda: Author.

Assembleia de Representantes
O maior corpo da AOTA, a Assembleia de Representantes (AR) elabora as políticas que orientam a associação.
A AR reúne­se pessoalmente a cada primavera na Exposição e Conferência Anual da AOTA e também conduz
os  trabalhos  em  uma  reunião  via  internet  a  cada  outono.  Cada  seção  de  afiliados  é  representada  neste  corpo
legislativo.  Cada  representante  é  eleito  nacionalmente  ou  por  membros  da  AOTA  que  residem  em  um
determinado estado ou jurisdição. Antes dessas reuniões, os representantes buscam informações e solicitações de
seus membros a respeito de importantes decisões políticas enfrentadas pela profissão. Questões como a mudança
de  um  requisito  de  grau  de  bacharel  para  um  grau  de  pós­graduado  para  início  da  atividade  profissional
precisavam ser aprovadas pela reunião. Os padrões de prática, em geral, bem como as declarações sobre o papel
da  terapia  ocupacional  em  diversas  áreas  de  especialidade,  como  reabilitação  do  motorista  e  terapia  intensiva
neonatal,  são,  em  última  análise,  aprovados  por  este  grupo.  (Veja  o  Boxe  24.1  para  uma  visão  por  trás  dos
cenários  relacionados  à  controvérsia  que  por  vezes  ocorre  no  processo  do  estabelecimento  da  política.)  Cada
representante serve durante um mandato de três anos, sendo os mandatos exercidos em regime de rotação para
garantir  a  continuidade.  Os  representantes  elegem  os  líderes  dentro  do  grupo  para  orientar  os  trabalhos  da
assembleia.

Comissões
Existem  quatro  comissões  na  AOTA:  Prática,  Educação,  Padrões  e  Ética  e  Competência  e  Desenvolvimento
Profissional Continuado. O representante de cada uma delas é um membro da AR. Cada comissão tem um papel
importante na modelagem da identidade da profissão. O responsável por cada comissão indica profissionais para
servir  na  comissão,  selecionando  os  membros  da  AOTA  que  representam  as  diversas  áreas  de  expertise  e  a
diversidade geográfica. A quantidade de membros de cada comissão é variada. Cada membro da comissão é um
membro votante da AR.

Comissão de Prática (COP)
Esta comissão é responsável por desenvolver padrões e outros documentos, como artigos sobre postura, artigos
sobre  pa  péis  e  funções,  diretrizes  práticas  e  artigos  abertos  que  se  relacionam  e  definem  a  prática  da  terapia
ocupacional. Por exemplo, os Padrões de Prática para a Terapia Ocupacional servem para definir a profissão ao
descrever como os terapeutas ocupacionais respondem aos encaminhamentos, realizam triagens e avaliam seus
clientes, planejam e executam o tratamento, encaminham o cliente para outros serviços necessários e encerram
os  serviços  quando  apropriado.  Também  incluem  a  prática  em  relação  ao  credenciamento  e  à  certificação
necessários (AOTA, 2005).

Comissão de Educação (COE)
Esta  comissão  produz  as  recomendações  de  política  relacionada  à  educação  para  deliberação  pela  AR.  Por
exemplo,  esta  comissão  definiu  as  competências  de  função  para  o  ensino  em  faculdades  nos  programas  de
terapia  ocupacional,  como  aquele  frequentado  por  Kanesha  (veja  o  Estudo  de  Caso  anterior).  A  Comissão  de
Educação identifica, analisa e antecipa questões relacionadas à educação em conjunto com a Seção de Interesse
Especial na Educação.

POR TRÁS DA CENA

Q uando você lê um capítulo como este, pode parecer que todas essas organizações e as políticas que elas
promovem  “simplesmente  acontecem”.  Nada  poderia  estar  tão  longe  da  verdade.  Não  existe  somente
uma  quantidade  de  trabalho  voluntário  e  de  profissionais,  mas  também  muita  discussão,  negociação  e,  por
vezes, tensão profissional na elaboração de políticas e padrões. Uma das melhores maneiras de observar isto
consiste  em  assistir  às  discussões  da  AR.  Temas  calorosamente  debatidos  durante  anos  incluíram  os
seguintes:

Se  a  AOTA  deve  apoiar  o  licenciamento  estadual  de  terapeutas  ocupacionais:  muitos  terapeutas  acham
que seria melhor manter uma certificação nacional, de modo que os terapeutas não fossem prejudicados
quando  se  mudassem  de  um  estado  para  outro.  No  entanto,  com  o  passar  do  tempo,  o  argumento  de
licenciamento  venceu,  pois  os  terapeutas  queriam  permanecer  legais  em  seus  estados.  Antes  que  os
terapeutas  fossem  licenciados  em  seus  estados,  qualquer  um  podia  dizer  que  era  um  terapeuta
ocupacional, quer a pessoa tivesse credenciais profissionais ou não.
Se  o  nível  de  formação  acadêmica  para  os  terapeutas  ocupacionais  devia  mudar  do  nível  de  bacharel
para  o  de  mestre:  esta  discussão  durou  20  anos,  até  que  foi  feita  a  mudança  para  um  nível  de  pós­
graduação para terapeutas ocupacionais. Aqueles que eram contrários à mudança ficaram preocupados
com o fato de que isto reduzisse o número de terapeutas, gerando mais um problema para o acesso aos
serviços  durante  o  período  de  escassez.  Aqueles  que  defendiam  a  mudança  acreditavam  que  muitos
programas exigiam tantos créditos que parecia ser um programa de pós­graduação sem o título. Embora
os terapeutas ocupacionais devam apresentar agora o grau de mestre, o diálogo sobre os padrões e os
pa péis apropriados do doutorado em terapia ocupacional seguia em discussão durante a confecção deste
livro.
O  espectro  da  terapia  ocupacional:  uma  preocupação  permanente  está  relacionada  com  as  diretrizes
sobre que tipos de avaliação e tratamento que são “realmente do tipo da terapia ocupacional” e o que é ir
além  do  espectro  da  prática.  Por  exemplo,  uma  questão  referia­se  à  adequação  dos  terapeutas
ocupacionais  utilizarem  as  modalidades  de  agente  físico  ou  tratamentos  complementares  e  alternativos
em sua prática.
O  papel  do  Assistente  de  Terapia  Ocupacional  Certificado  (COTA):  Embora  as  políticas  da  AOTA  sejam
bastante  claras  de  que  o  COTA  atua  sob  a  supervisão  de  um  terapeuta  ocupacional  (TO)  registrado,  a
natureza exata desta supervisão é frequentemente reexaminada à medida que a prática evolui e surgem
novas áreas.

Comissão de Padrões e Ética (SEC)
Esta comissão desenvolve o código de ética da associação e os padrões e a ética recomendados para a profissão.
Ela  serve  como  um  grupo  de  supervisão  relacionado  com  as  queixas  a  respeito  da  prática  aética  de  seus
membros.

Comissão de Competência e Desenvolvimento Profissional Continuado (CCCPD)
O papel desta comissão consiste em desenvolver os critérios e os exames de certificação para as áreas avançadas
de  prática.  Ela  recomenda  os  padrões  para  a  competência  continuada  e  desenvolve  estratégias  para  comunicar
aos membros as informações a respeito de questões de competência continuada e da competência que afetam a
terapia ocupacional. A CCCPD também desenvolve instrumentos para auxiliar os membros no desenvolvimento
e na implantação de planos de competência continuada.

Seções de Interesse Especial
Além  das  quatro  comissões,  existe  uma  rede  de  membros  da  AOTA  que  representa  onze  seções  de  interesse
especial. As seções de interesse especial (SIS) destinam­se a responder as necessidades da prática ao concentrar­
se sobre um componente específico da prática, reconhecendo, ao mesmo tempo, que todos os profissionais da
terapia  ocupacional  devem  agir  dentro  do  espectro  geral  da  profissão.  As  seções  de  interesse  especial  são
definidas por cada cliente atendido individualmente, pela idade das pessoas atendidas, por uma determinada área
de competência ou experiência, pelo papel da prática e pela localização da prática. A Tabela 24.3 lista as seções
de interesse especial que existiam no momento da elaboração deste capítulo. É mais que provável que nenhuma
seção de interesse especial venha a abordar todas as necessidades de prática de um terapeuta, porque a prática é
uma  integração  do  conhecimento  de  muitas  áreas  (AOTA,  2007a).  Por  exemplo,  no  estudo  de  caso,  Kanesha
optou por pertencer a dois grupos para ajudar a atualizar­se nas questões de prática relacionadas às crianças com
autismo.
Cada SIS oferece a seus membros a oportunidade de dialogar por meio de suas cartas e por meio de listas de
e­mails que são disponibilizadas para seus membros. Estes são instrumentos inestimáveis para os terapeutas que
desejam  se  comunicar  com  outros  terapeutas  que  possuem  interesses  de  prática  similares.  Os  membros  das
seções  de  interesse  especial  frequentemente  trabalham  em  cooperação  com  diversas  comissões  sobre  projetos,
como  a  definição  dos  pa  péis  e  funções  dos  terapeutas  ocupacionais  em  uma  determinada  área  de  prática,
orientação do desenvolvimento de competências avançadas e habilidades especializadas, ou desenvolvimento de
padrões  para  a  educação  dos  profissionais  da  terapia  ocupacional.  Cada  presidente  de  comissão  pertence  ao
Comitê de Orientação da Seção de Interesse Especial (SISSC), que age para coordenar os esforços e colaborar
em questões de importância mútua. O presidente do SISSC tem assento na AR, com voz e voto.
TABELA 24.3 SEÇÕES DE INTERESSE ESPECIAL DA AOTA POR FOCO
Foco Seção de Interesse Especial
Condição de saúde do cliente Incapacidades de Desenvolvimento (DDSIS)
Saúde Mental (MHSIS)
Incapacidades Físicas (PDSIS)
Integração Sensorial (SISIS)
Idade do cliente Gerontologia (GSIS)
Habilidades de terapia Aparelhos (TSIS)
Programas de Trabalho (WPSIS)
Pa péis de prática Administração e Supervisão (AMSIS)
Educação (EDSIS)

Afiliação dos Presidentes de Associações Estaduais
Existe uma associação de terapia ocupacional em cada estado. Estas organizações são independentes da AOTA,
porém atuam com a AOTA para melhorar a profissão naquele estado e para defender as pessoas e as populações
servidas  pela  terapia  ocupacional.  O  presidente  de  cada  associação  pertence  à  Afiliação  dos  Presidentes  de
Associações  Estaduais.  Este  grupo  propicia  um  canal  para  que  os  presidentes  se  comuniquem  e  deem  suporte
entre si.

Assembleia de Delegados Estudantes
Os estudantes são membros valorizados da AOTA e pertencem à Assembleia de Delegados Estudantes (ASD).
Cada  curso  de  formação  pode  selecionar  um  estudante  como  seu  delegado  para  a  reunião  da  ASD  que  ocorre
durante  a  Exposição  e  Conferência  Anual  da  AOTA.  A  ASD  fornece  um  espaço  para  que  os  estudantes
compartilhem suas perspectivas sobre temas que afetam a profissão. Um representante da ASD tem lugar na AR
e em cada uma das comissões.

Equipe da AOTA
Todos os esforços desta grande rede de membros voluntários não seriam possíveis sem uma equipe dedicada e
altamente competente na sede nacional localizada em Bethesda, Maryland (Fig. 24.1). A equipe inclui terapeutas
ocupacionais,  advogados,  contadores,  especialistas  em  políticas  e  profissionais  administrativos,  escriturários  e
técnicos.  A  equipe  da  sede  nacional  é  liderada  por  um  diretor  executivo  que  é  responsável  por  todos  os
profissionais e todas as operações na sede nacional. Esta pessoa se reporta diretamente ao presidente da AOTA e
frequenta todas as reuniões do conselho e da AR, tendo voz, mas não o voto. A finalidade da sede nacional é dar
sustentação aos esforços da associação, fornecendo pessoal e a experiência necessária para consolidar a missão
da  associação  e  as  políticas  e  posturas  estabelecidas  pela  AR.  Algumas  de  suas  principais  operações  incluem
apoiar o trabalho dos grupos de membros voluntários, idealizar e fornecer a educação continuada, compilar as
informações  de  prática  baseadas  em  evidência,  monitorar  e  influenciar  as  políticas  públicas  e  defender  a
profissão e as pessoas a quem ela serve, além de manter operações razoáveis de negócios.
Fig. 24.1 O prédio da sede nacional da AOTA em Bethesda, Maryland.

Membros da equipe que sejam terapeutas ocupacionais servem como ligação com a AR, com cada uma das
comissões e com comitês de sugestão das seções de interesse especial. Os outros membros servem como ligação
com  os  diversos  comitês,  comissões  e  grupos  de  voluntários  na  associação.  As  ligações  fornecem  suporte
especializado e consistente para os presidentes de comitês, o que capacita cada grupo voluntário a abordar suas
tarefas com a garantia de que o suporte necessário administrativo e de colegiado está disponível para realização
das  tarefas.  A  equipe  também  responde  a  incontáveis  solicitações  de  informações  pelos  membros  sobre  temas
específicos relacionados à profissão.

Desenvolvimento Profissional e Educação Continuada
Outro  grupo  de  membros  da  equipe  desenvolve  e  coordena  as  ofertas  de  educação  continuada,  incluindo
treinamento ao vivo e online, seminários, cursos online e cursos clínicos a distância. Muitos deles são oferecidos
em  nível  nacional  e  em  formatos  variados,  destinados  a  melhor  atender  as  necessidades  dos  participantes.  O
evento mais evidente e amplamente divulgado é a Exposição  e  Conferência  Anual  da  AOTA  (Fig. 24.2).  Este
grande  evento  envolve  a  solicitação  e  a  seleção  de  apresentações  de  temas  que  abordem  as  necessidades  do
afiliado, o recrutamento de vendedores para a parte comercial da conferência e a coordenação de hospedagem e
salas  de  conferência  para  acomodar  os  milhares  de  participantes.  Os  membros  da  AOTA  podem  participar  a
custo  reduzido.  Esta  Exposição  e  Conferência  é  planejada  e  realizada  pela  equipe  da  sede  nacional,  embora
voluntários  revisem  e  classifiquem  as  apresentações  submetidas  para  inclusão  na  conferência  e  ajudem  a
fornecer os recursos humanos necessários durante a conferência em si.

Evidência para Prática
Outra iniciativa importante da equipe da AOTA consiste em pesquisar a literatura para localizar e reunir dados
que forneçam evidência para a prática da terapia ocupacional. À medida que estes dados são coletados, eles são
compilados  em  Resumos  Baseados  em  Evidência  que  os  terapeutas  e  outros  profissionais  podem  utilizar  para
fundamentar o tratamento de terapia ocupacional. Além dos Resumos Baseados em Evidência, a AOTA mantém
um Diretório para a Prática que fornece acesso a diversas publicações e fontes de consulta na internet contendo
informações adicionais que fundamentam a prática. Este diretório é um recurso inestimável à disposição para os
membros da AOTA.

Defesa e Política Pública
Um papel importante da equipe consiste em representar e defender os interesses dos terapeutas ocupacionais e de
seus  clientes  nas  áreas  das  políticas  públicas.  Este  trabalho  envolve  a  negociação  com  os  legisladores  das
iniciativas  que  são  empreendidas  pela  terapia  ocupacional.  Em  nível  federal,  isto  também  pode  envolver  o
trabalho  com  os  elaboradores  das  políticas  a  partir  do  Office  of  Special  Education,  da  Rehabilitation  Services
Administration  e  de  outras  agências  governamentais  em  relação  à  elegibilidade  para  o  serviço,  bem  como  em
relação às diretrizes para reembolso. A equipe da AOTA é frequentemente solicitada a fornecer informações e
testemunho perante comitês do Congresso que fazem recomendações relativas à interpretação e à implantação da
legislação.
Esse  grupo  também  apoia  as  atividades  das  associações  estaduais  e  municipais  de  terapia  ocupacional  e  os
conselhos  de  licenciatura  para  garantir  que  o  suporte  de  linguagem  da  terapia  ocupacional  seja  incluído  na
legislação  estadual  e  que  a  terapia  ocupacional  seja  apoiada  e  não  inadequadamente  restrita  pela  invasão  por
outras  profissões.  Os  membros  da  equipe  da  AOTA  também  fornecem  materiais  educacionais  e  suporte
individual para os membros e associações estaduais de modo a prepará­los para negociar, testemunhar e defender
de maneira efetiva a profissão e aqueles que por ela são atendidos em sua região.

Fig. 24.2 Alunos da Brenau University encontram a Dra. Penelope Moyers, presidente da AOTA, durante a
Exposição e Conferência da AOTA de 2007.

Operações de Negócios
Inúmeros  membros  da  equipe  da  AOTA  gerenciam  as  operações  de  negócios  da  associação.  A  renda  provem
principalmente das contribuições dos membros, publicações, registros de conferências e direitos sobre vendas. A
AOTA é proprietária de um prédio de oito andares em Bethesda, Maryland, que aloja a sede nacional. O espaço
no  prédio  que  não  é  utilizado  pela  associação  é  alugado,  sendo  a  renda  dos  aluguéis  uma  importante  fonte  de
rendimentos para a associação. Os maiores gastos da AOTA são com viagens e diárias para os muitos membros
que  servem  voluntariamente  a  comitês,  conselhos  e  comissões  que  apoiam  o  trabalho  da  associação.  Outros
gastos importantes custeiam as iniciativas aprovadas pela AR e o pagamento dos salários e benefícios da equipe
(AOTA, 2007b).

Conselho de Acreditação para Educação da Terapia Ocupacional
Trabalhando sob a chancela da AOTA está o Conselho de Acreditação para Educação da Terapia Ocupacional
[Accreditation  Council  of  Occupational  Therapy  Education]  (ACOTE®).  Os  membros  do  conselho  são
terapeutas  ocupacionais  e  terapeutas  ocupacionais  assistentes  membros  da  AOTA  que  representam  tanto  os
interesses clínicos como os acadêmicos. O papel do ACOTE consiste em desenvolver e implantar os padrões em
todos  os  cursos  de  terapia  ocupacional  e  de  assistência  em  terapia  ocupacional.  Os  padrões  da  ACOTE  estão
relacionados  a  todos  os  aspectos  do  curso,  incluindo  o  currículo,  as  credenciais  da  instituição  e  da  equipe,  o
conteúdo  das  disciplinas,  os  recursos  e  instalações  físicas  e  as  políticas  administrativas  da  escola  relacionadas
com  o  curso  de  terapia  ocupacional.  Para  ser  acreditado  e  manter  a  acreditação,  todo  curso  de  TO  e  OTA  é
avaliado regularmente pelo ACOTE. A finalização de um curso de terapia ocupacional que seja acreditado pelo
ACOTE é um requisito de elegibilidade para que os alunos realizem o exame de certificação (AOTA, 2007c). No
Estudo de Caso, Kanesha graduou­se em um programa acreditado pelo ACOTE como parte do processo para se
tornar uma terapeuta ocupacional.

Publicações
A  publicação  oficial  da  Associação  é  a  revista  American  Journal  of  Occupational  Therapy  (AJOT®).  Este
periódico revisado está disponível para todos os membros da associação, e está incluído nas mensalidades dos
profissionais. O BOD seleciona o editor do AJOT que, por sua vez, seleciona um conselho editorial composto
por  doutores  e  profissionais  em  terapia  ocupacional,  os  quais  recebem  a  solicitação  e  revisam  cada  artigo
submetido.
A  associação  também  publica  a  OT  Practice,  uma  revista  bimensal  que  inclui  artigos  informativos  sobre  a
profissão. Além desta revista e da AJOT, a AOTA publica Special Interest Section Quarterlies, Newsletters on
State Policy, atualizações mensais sobre questões legislativas e atualizações quinzenais sobre questões atuais de
interesse para os membros da profissão (AOTA, 2007d). Muitas destas publicações são distribuídas por meios
eletrônicos.
Além  de  suas  publicações  contínuas  regulares,  a  AOTA  Press  publica  livros,  manuais,  monografias  e  guias
para clientes que abordam temas de preocupação para terapeutas ocupacionais e seus clientes. A AOTA também
mantém  um  ponto  de  venda  ou  de  câmara  de  divulgação  para  essas  publicações,  vídeos  e  outros  documentos,
bem como itens apropriados para a divulgação da terapia ocupacional. O custo de muitos desses itens é reduzido
para os membros da AOTA.

Resumo
Como  fica  evidente  a  partir  desta  revisão,  a  AOTA  é  um  parceiro  importante  para  todos  os  membros  da
profissão, fornecendo serviços que variam desde os padrões educacionais, passando por recursos que apoiam o
desenvolvimento profissional, até a defesa necessária para garantir que os terapeutas ocupacionais e os clientes
por eles servidos sejam bem representados nas decisões das políticas nacionais. Embora esta seção tenha focado
a AOTA, existem muitas organizações paralelas nos países em que a terapia ocupacional é uma profissão bem
aceita.

CONSELHOS REGULADORES ESTADUAIS
Cada  estado  ou  jurisdição  regula  a  terapia  ocupacional  de  alguma  maneira.  A  maioria  o  faz  por  meio  de  um
conselho  de  licenciamento  ou  agência  reguladora.  As  definições  e  diretrizes  são  promulgadas  pela  legislação
naquele  determinado  estado.  A  AOTA  é  um  recurso  valoroso  para  essas  agências  reguladoras,  fornecendo
informações sobre a profissão. Quando os estudantes terminam seu estágio de Nível II e são bem­sucedidos no
exame de certificação do National Board for Certification of Occupational Therapists, eles são elegíveis para se
candidatar à licença para atuação.

OUTRAS ORGANIZAÇÕES IMPORTANTES
Além  da  AOTA,  existem  outras  organizações  de  terapia  ocupacional  com  missões  que  apoiam  a  profissão  da
terapia  ocupacional.  Existem  duas  dessas  organizações  nos  Estados  Unidos:  uma  fundação  de  filantropia  e  a
outra,  uma  organização  de  credenciamento  do  corpo  profissional.  Também  existe  a  World  Federation  of
Occupational Therapy, discutida no Capítulo 23.

American Occupational Therapy Foundation
A  American  Occupational  Therapy  Foundation  (AOTF)  é  uma  organização  filantrópica  estabelecida  em  1965
para promover a ciência da terapia ocupacional e para aumentar a compreensão pública de seu valor. A fundação
inclui  os  terapeutas  ocupacionais  e  seus  parceiros  corporativos  que  dão  suporte  à  profissão.  É  financiada  por
contribuições  e  corporações  que  valorizam  a  terapia  ocupacional.  A  cada  ano,  a  fundação  patrocina  eventos
especiais na exposição e conferência anual da AOTA para angariar fundos para sustentar seu trabalho.
Como  parte  de  sua  missão  de  promoção  da  ciência  da  terapia  ocupacional,  a  AOTF  publica  um  periódico
acadêmico,  Occupational  Therapy  Journal  of  Research:  Occupation,  Participation  and  Health  (OTJR).  A
fundação  também  mantém  a  Wilma  West  Library,  uma  câmara  de  divulgação  de  informações  de  terapia
ocupacional.  Além  da  excelente  biblioteca,  a  fundação  mantém  o  OT  SEARCH,  um  instrumento  de  pesquisa
eletrônica abrangente para a literatura relacionada à terapia ocupacional. O OT SEARCH e os serviços de outras
bibliotecas  estão  localizados  na  sede  da  AOTA  em  Bethesda  e  estão  disponíveis  para  todos  os  membros  da
AOTA.
A AOTF apoia a formação acadêmica e a pesquisa por meio de bolsas de estudo e assistência financeira para
estudantes cujas pesquisas promovam avanço na profissão. Pequenos valores estão disponíveis para financiar as
pesquisas  de  alunos.  Quantias  maiores  são  fornecidas  aos  acadêmicos  para  custear  estudos  inovadores  que
possam  afetar  a  profissão  e  construir  a  compreensão  sobre  a  ciência  ocupacional.  Por  fim,  a  fundação  faz
parceria com centros de educação superior para custear centros acadêmicos e de pesquisa (AOTF, 2007).

National Board for Certification of Occupational Therapists
A  profissão  também  se  apoia  no  trabalho  do  National  Board  for  Certification  of  Occupational  Therapists
[Conselho  Nacional  de  Certificação  de  Terapia  Ocupacional]  (NBCOT®).  Este  conselho  é  o  órgão  de
credenciamento  para  que  terapeutas  e  assistentes  atuem  nos  Estados  Unidos.  Terapeutas  ocupacionais
registrados,  assistentes  de  terapia  ocupacional  certificados  e  consumidores  atuam  neste  conselho.  O  NBCOT
desenvolve  e  administra  os  exames  iniciais  de  certificação  que  os  terapeutas  ocupacionais  e  os  assistentes  de
terapia ocupacional realizam após o estágio de Nível II. Os exames são abrangentes e se destinam a mensurar
conhecimento e habilidades necessários para que um terapeuta ocupacional ou assistente de terapia ocupacional
possa atuar profissionalmente. Os itens nos exames de certificação baseiam­se em uma extensa análise da prática
de  terapeutas  ocupacionais  principiantes  por  todo  o  país.  O  exame  de  certificação  inclui  itens  que  refletem  a
avaliação e o tratamento da terapia ocupacional em diversas populações em diferentes ambientes de prática. Os
resultados do exame são compartilhados com cada conselho estadual de licenciamento. A obtenção de um escore
de  aprovação  no  exame  de  certificação  é  necessária  em  quase  todos  os  estados,  a  fim  de  que  a  pessoa  seja
elegível para obter uma licença para atuação. Os terapeutas ocupacionais e assistentes de terapia ocupacional de
outros países que desejam atuar nos Estados Unidos devem ser aprovados no exame de certificação (NBCOT,
2007).

World Federation of Occupational Therapy
A  terapia  ocupacional  é  uma  profissão  global.  Como  discutido  no  capítulo  anterior,  a  World  Federation  of
Occupational Therapy (WFOT) foi criada como a “organização internacional oficial para a promoção da terapia
ocupacional”. Os Estados Unidos estão entre os 57 países­membros que pertencem à WFOT (WFOT, 2007).
A  AOTA,  o  NBCOT  e  a  WFOT  são  as  principais  organizações  nos  Estados  Unidos  relacionadas  à  terapia
ocupacional. A AOTA também busca ativamente e participa de parcerias com muitos outros grupos para discutir
áreas  de  preocupação  em  comum.  Estas  organizações  colaboram  com  a  AOTA  para  atuar  na  consecução  de
metas  comuns.  Por  exemplo,  a  American  Society  of  Speech  and  Hearing  Association  (ASHA),  a  American
Physical  Therapy  Association  (APTA)  e  a  AOTA  formaram  a  TriAlliance  of  Health  and  Rehabilitation
Professions, que colabora para a defesa de questões que possam afetar os membros dessas três profissões.
Além da TriAlliance, a AOTA colabora com outras associações, grupos sem fins lucrativos e coalizões para
abordar  temas  de  preocupação  mútua.  A  principal  preocupação  de  alguns  desses  grupos,  como  a  American
Arthritis  Foundation,  a  American  Foundation  for  the  Blind  e  a  Alzheimer’s  Association,  é  com  as  pessoas
portadoras de determinada condição ou doença, enquanto outros grupos poderiam colaborar com a AOTA sobre
questões específicas. Por exemplo, a American Association of Retired Persons (AARP), a American Automobile
Association (AAA) e a AOTA estão trabalhando em conjunto para abordar questões relativas à mobilidade na
comunidade  e  às  necessidades  dos  motoristas  idosos.  A  AOTA  também  colabora  com  a  AARP  e  a  National
Association  of  Home  Builders  a  respeito  das  modificações  em  casas  e  adaptações  para  adultos  idosos  nesses
locais.  De  maneira  similar,  a  AOTA  frequentemente  trabalha  em  conjunto  com  grupos  de  defesa  e  de
profissionais, como o Consortium for Citizens with Disabilities (CCD) e o Mental Health Liaison Group, sobre
questões de políticas públicas críticas (F. Sommers, comunicação pessoal, 28 de fevereiro de 2007).

CONCLUSÃO
Está  claro  que  a  profissão  da  terapia  ocupacional  envolve  muitas  áreas  e  diferentes  oportunidades  de  prática.
Como  terapeutas  ocupacionais,  assistentes  de  terapia  ocupacional  e  alunos  de  terapia  ocupacional,  somos
apoiados pela AOTA e por outras organizações, que fornecem os recursos e as informações de que precisamos
para  atuar.  Como  profissionais,  também  temos  a  oportunidade  e  a  responsabilidade  de  apoiar  e  participar  de
nossas  organizações  profissionais,  de  modo  que  possamos  desenvolver,  modelar  e  promover  continuamente  a
nossa profissão.

REFERÊNCIAS
American Occupational Therapy Association. (2005). Standards of practice for occupational therapy. American
Journal of Occupational Therapy, 59, 663–665.
American Occupational Therapy Association. (2007a). Special interest sections. Retrieved January 21, 2007,
from www.aota.org/members/area3/index.asp
American Occupational Therapy Association. (2007b). Retrieved July 25, 2007
http://www.aota.org/Govern/RefDocs.aspx
American Occupational Therapy Association. (2007c). Accreditation. Retrieved from
http://www.aota.org/nonmembers/area13/links/LINK13.asp
American Occupational Therapy Association. (2007d). Publications. Retrieved January 21, 2007, from
www.aota.org/non­members/area7/index.asp
American Occupational Therapy Foundation. (2007). Scholarships. Retrieved February 15, 2007, from
http://www.aotf.org/#
National Board for Certification of Occupational Therapy. (2007). About us. Retrieved February 12, 2007, from
http://www.nbcot.org/webarticles/anmviewer.asp?a=45&z=12
World Federation of Occupational Therapy. (2007). History. Retrieved February 28, 2007, from
http://www.wfot.org.au/linkresource/asp
Additional Resources
To learn more about the profession of occupational therapy and the organizations that support it, check out the
following Websites:
American Occupational Therapy Association: www.aota.org
American Occupational Therapy Foundation: www.aotf.org
National Board for Certification of Occupational Therapy: www.nbcot.org
World Federation of Occupational Therapy: www.wfot.org (Note: There are links or contact information to
professional organizations in countries throughout the world at this site.)
Each of these Websites contains numerous links that will aid in your exploration of the profession.

RECURSOS ADICIONAIS
Para aprender mais sobre a profissão da terapia ocupacional e sobre as organizações que a sustentam, visite os
seguintes endereços eletrônicos:

American Occupational Therapy Association: www.aota.org
American Occupational Therapy Foundation: www.aotf.org
National Board for Certification of Occupational Therapy: www.nbcot.org
World Federation of Occupational Therapy: www.wfot.org (Nota: Existem acessos ou informações de contato
para organizações profissionais em países espalhados por todo o mundo neste endereço eletrônico.)

Cada um destes endereços eletrônicos fornece inúmeros acessos que ajudarão na sua exploração da profissão.
Profissionais de Terapia Ocupacional:
Competência e Desenvolvimento
Profissional
PENELOPE MOYERS

Sumário
Competências de Nível Inicial
Melhora do Aprendizado e Desempenho Prático
O que Significa Ser Competente?
Fatores que Afetam a Capacidade e a Competência Continuadas
Estudo de Caso: José, um Terapeuta Melhorando a Capacidade e as Competências
Quem Determina se Alguém é Competente?
Quem é Responsável por Garantir que Alguém é Competente?
Como Você Aprende a Selecionar as Atividades de Aprendizado Mais Efetivas?
O que Significa Certificação Avançada e de Especialidade?
Conclusão

Objetivos de Aprendizagem
Após a leitura deste capítulo, você será capaz de:
1. Compreender  as  competências  de  nível  inicial  para  terapeutas  ocupacionais  e  assistentes  de
terapia ocupacional.
2. Avaliar  as  múltiplas  variáveis  que  influenciam  a  complexidade  da  capacidade  e  competência
continuadas.
3. Diferenciar  os  termos  competência  e  capacidade  continuadas,  ser  competente  e
desenvolvimento profissional.
4. Compreender e aplicar o Modelo Triangular de Capacidade e Competência Continuadas.
5. Determinar a importância do licenciamento e do credenciamento como aspecto da competência
na aceitação da responsabilidade da pessoa por este processo.
6. Ser capaz de desenvolver um programa de aprendizado e selecionar as melhores atividades de
aprendizagem para a implantação do programa.
7. Estar ciente da evidência que sustenta a capacidade e competência continuadas.
8. Considerar se as certificações avançada e de especialidade seriam importantes para sua prática.
sociedade  espera  que  os  profissionais  forneçam  serviços  que  reflitam  os  padrões  de  sua  profissão.  Ambientes
dinâmicos de atuação, mudanças nas tecnologias de cuidados de saúde e novas evidências determinam, sem

A exceção,  que  os  profissionais  devem  continuamente  desenvolver  seu  conhecimento  e  suas  habilidades.
Espera­se que os profissionais assumam a responsabilidade por seu desenvolvimento profissional contínuo e que
avaliem cuidadosamente o quanto seu conhecimento e suas habilidades são adequados para atender as demandas
de  seus  ambientes  de  atuação  conhecidos  ou  previstos.  Este  capítulo  discute  aspectos  da  responsabilidade
profissional,  principalmente  a  partir  da  perspectiva  de  prática  nos  Estados  Unidos.  Os  conceitos  gerais  são
possivelmente de uso internacional e incluem as discussões sobre a competência do nível inicial e a diferença
entre  a  capacidade  e  a  competência  continuadas.  As  seções  subsequentes  deste  capítulo  abordam  os  diversos
fatores  associados  ao  desenvolvimento  e  à  manutenção  da  capacidade  e  competência  continuadas,  finalizando
com uma discussão sobre a certificação avançada e a certificação de especialidade.

COMPETÊNCIAS DE NÍVEL INICIAL
O  terapeuta  ocupacional  e  o  assistente  de  terapia  ocupacional  dispõem  de  diferentes  competências  de  nível
inicial quando começam a atuar. O terapeuta ocupacional recebe o grau de pós­graduação, que pode ser o grau
de mestrado ou de doutorado em nível inicial; e o assistente de terapia ocupacional recebe o título de associado.
Embora existam diferenças na profundidade do aprendizado, ambos os profissionais recebem educação em artes
liberais;  preenchem  os  pré­requisitos  nas  ciências  biológicas,  físicas,  sociais  e  comportamentais;  e  aprendem
sobre  os  dogmas  básicos  da  terapia  ocupacional  (Accreditation  Council  for  Occupational  Therapy  Education
[ACOTE®], 2007). O terapeuta ocupacional compreende e sabe como aplicar as diversas perspectivas teóricas
da  terapia  ocupacional  e  entende  o  processo  de  avaliação,  o  qual  enfatiza  a  interpretação  das  avaliações  com
relação aos fatores contribuintes subjacentes aos problemas de desempenho ocupacional, bem como a maneira
pela  qual  o  ambiente  produz  barreiras  para  e  apoia  a  participação  na  vida  diária.  O  assistente  de  terapia
ocupacional ajuda no processo de triagem e avaliação, fazendo a coleta de dados.
O  terapeuta  ocupacional  utiliza  a  interpretação  dos  dados  da  avaliação  para  formular  um  programa  de
tratamento – em colaboração com o cliente e com o assistente de terapia ocupacional – destinado a melhorar o
desempenho ocupacional e a participação na vida diária. Ambos os profissionais podem implantar o programa de
tratamento, mas o terapeuta ocupacional é, sem dúvida, responsável por todo o processo da terapia ocupacional.
O  terapeuta  ocupacional  é  treinado  no  gerenciamento  do  serviço  dentro  de  vários  tipos  de  modelo  de
fornecimento de serviços. O assistente de terapia ocupacional apoia o terapeuta ocupacional no gerenciamento
do serviço e compreende a influência desses modelos de prestação de serviço, como educacionais, médicos ou
comunitários. Ambos os profissionais consultam a literatura profissional, mas o terapeuta ocupacional é capaz de
determinar  como  utilizar  e  aplicar  a  pesquisa  à  prática.  Há  uma  ênfase  na  formação  acadêmica  de  ambos  os
profissionais sobre defesa, aprendizado pelo resto da vida, ética profissional, valores e responsabilidades. (Veja a
Tabela 25.1 para comparação e  diferenciação  de  papéis  entre  o  terapeuta  ocupacional  e  o assistente de terapia
ocupacional.)

MELHORA DO APRENDIZADO E DESEMPENHO PRÁTICO
A  prática  da  terapia  ocupacional  modifica­se  rapidamente  em  resposta  às  novas  informações,  aos  novos
conhecimentos  e  à  moderna  tecnologia.  Por  conseguinte,  consumidores  e  clientes,  empregadores,  agências  de
acreditação,  conselhos  de  licenciamento  e  outros  interessados  esperam  que  os  terapeutas  ocupacionais  e  os
assistentes de terapia ocupacional atuem ativamente para manter sua capacidade ou competência continuadas
nas áreas de prática e nos contextos da prestação de serviços específicos. No entanto, os profissionais de terapia
ocupacional são desafiados a garantir sua capacidade e competência continuadas por inúmeros motivos:

As habilidades e capacidades de todos os profissionais diminuem com a falta de prática, retroalimentação
ou suporte administrativo/do sistema
A explosão do conhecimento dificulta a manutenção e o foco no aprendizado
É  necessária  sofisticação  significativa  para  traduzir  estas  descobertas  do  conhecimento  para  a  prática,
principalmente porque o conhecimento deve atender a necessidade do cuidado centrado no cliente em uma
confluência de culturas.
Soma­se a isto a pressão originada dos complexos sistemas de cuidados de saúde e sociais que impedem a
modificação da prática (Moyers, 2005).
Além disso, não há uma relação linear entre o aprendizado e a melhora do desempenho na atuação. Em vez
disso,  podem  ocorrer  intervalos  de  tempo  em  que  não  há  melhora  ou  há,  até  mesmo,  um  discreto  declínio  no
desempenho. A interação dinâmica entre o cliente, o profissional, a natureza da intervenção terapêutica baseada
na ocupação e o contexto em que a terapia acontece influencia a maneira pela qual os novos conhecimentos e
habilidades podem ser aplicados à situação prática. A situação de cada cliente é distinta; assim, o desempenho do
profissional é altamente dependente do contexto. O profissional pode ter melhores resultados em uma situação
em  comparação  com  outra  situação  similar  (Handfield­Jones  et  al.,  2002).  Aplicar  um  novo  aprendizado  à
prática  requer,  tipicamente,  reorganização  cognitiva,  incluindo  o  abandono  de  ideias  e  princípios  previamente
armazenados ou a incorporação deste aprendizado para reestruturar maneiras de pensar previamente existentes.
Por conseguinte, existem períodos de pequena alteração seguidos por saltos bruscos no desempenho prático, em
vez  de  um  aprendizado  demonstrado  na  forma  de  mudança  contínua  e  gradual  (Handfield­Jones  et  al.,  2002).
Parecem  ocorrer  períodos  em  que  o  desempenho  prático  melhora  em  algumas  áreas,  enquanto  deteriora
simultaneamente em outras.
Para  facilitar  a  compreensão  de  questões  complexas  para  manter­se  atualizado,  este  capítulo  examina  o
Modelo Triangular de Capacidade e Competência Continuadas (Fig. 25.1).  A  meta  consiste  em  se  familiarizar
com  os  Padrões  para  Competência  Continuada  da  AOTA  (2005)  e  a  maneira  pela  qual  eles  servem  como
indicadores  da  obtenção  das  competências  associadas  às  responsabilidades  profissionais  da  pessoa.  O
Instrumento  de  Desenvolvimento  Profissional  (PDT)  da  AOTA  (AOTA,  maio  de  2003)  é  descrito  como  uma
diretriz  para  construção  de  um  portfólio  reflexivo  útil  para  registrar  os  esforços  da  pessoa  no  sentido  da
competência continuada. Os processos do National Board for Certification in Occupational Therapy (NBCOT)
para  certificação  inicial  e  renovação  da  certificação  são  resumidamente  explicados  junto  aos  programas  de
certificação  de  especialidade  e  do  conselho  da  AOTA,  que  se  utilizam  das  condutas  de  autoexame  e
autoavaliação. Ressalta­se a importância do licenciamento no estado.
TABELA 25.1 DIFERENÇAS NOS PADRÕES DE PRÁTICA DE TERAPEUTAS OCUPACIONAIS E
ASSISTENTES DE TERAPIA OCUPACIONAL
Padrões de Prática para a Terapia Ocupacional (AOTA, 2005c)
Processo da Terapia Ocupacional Terapeuta Assistente
Ocupacional de Terapia
Ocupacional
Triagem, Avaliação e Reavaliação
1. Aceita  e  responde  aos  encaminhamentos  de  acordo  com  as  leis  estaduais  ou X
outros dispositivos regulatórios.
2. Em  colaboração  com  o  cliente,  avalia  a  capacidade  deste  de  participar  das X
atividades  da  vida  diária  ao  considerar  as  capacidades  do  cliente,  as  atividades  e
os ambientes em que estas atividades ocorrem.
3. Inicia  e  direciona  o  processo  de  investigação,  avaliação  e  reavaliação  e  analisa  e X Contribui
interpreta  os  dados  de  acordo  com  a  lei,  os  dispositivos  regulatórios  e  os
documentos da AOTA.
4. Segue protocolos definidos quando são utilizadas avaliações padronizadas. X X
5. Estabelece e registra os resultados da avaliação de terapia ocupacional. X Contribui
6. Comunica  os  resultados  da  investigação,  avaliação  e  reavaliação  dentro  dos X X
limites  da  confidencialidade  do  cliente  para  pessoa,  grupo  ou  organização
apropriados.
7. Recomenda  consultas  adicionais  ou  encaminha  o  cliente  para  instituições X
apropriadas  quando  as  necessidades  do  cliente  podem  ser  mais  bem  atendidas
pela experiência de outros profissionais ou serviços.
8. Orienta  as  fontes  de  encaminhamento  e  potenciais  sobre  o  espectro  dos  serviços X X
de  terapia  ocupacional  e  o  processo  de  iniciação  dos  serviços  de  terapia
ocupacional.
Tratamento
1. Tem  a  responsabilidade  global  pelo  desenvolvimento,  registro  e  realização  do X
tratamento  de  terapia  ocupacional  com  base  na  avaliação,  nas  metas  do  cliente,
na melhor evidência atual e no raciocínio clínico.
2. Garante  que  o  programa  de  tratamento  seja  documentado  nos  intervalos  de X
tempo,  formatos  e  padrões  estabelecidos  pelos  locais  de  atuação,  agências,
programas de acreditação externos e fontes pagadoras.
3. Seleciona,  executa  e  faz  as  modificações  no  tratamento  e  nas  atividades X X
terapêuticas  que  sejam  compatíveis  com  as  responsabilidades  delegadas  e  a
competência  demonstrada  pelo  assistente  de  terapia  ocupacional,  programa  de
tratamento e exigências do local de atuação.
4. Revê  o  programa  de  tratamento  com  o  cliente  e  com  outras  pessoas  apropriadas X X
em  relação  à  justificativa,  às  questões  de  segurança  e  aos  benefícios  e  riscos
relativos ao tratamento planejado.
5. Modifica  o  programa  de  tratamento  ao  longo  do  processo  de  tratamento  e X Contribui
documenta mudanças de necessidades, metas e desempenho do cliente.
6. Documenta os serviços de terapia ocupacional nos intervalos de tempo, formatos e X X
padrões  estabelecidos  pelos  locais  de  atuação,  agências,  programas  de
acreditação externos, fontes pagadoras e documentos da AOTA.
Resultados
1. Responsável  por  selecionar,  mensurar,  documentar  e  interpretar  os  resultados X
esperados  ou  atingidos  que  estejam  relacionados  com  a  capacidade  do  cliente  de
participar de ocupações.
2. Responsável  por  documentar  as  modificações  do  desempenho  e  das  capacidades X Contribui
do  cliente  e  por  interromper  os  serviços  quando  o  cliente  atingiu  as  metas
identificadas, alcançou o benefício máximo ou não deseja continuar o tratamento.
3. Prepara  e  executa  um  plano  de  interrupção  ou  transição  com  base  em X Contribui
necessidades, metas, desempenho e recursos de acompanhamento apropriados ao
cliente.
4. Facilita  o  processo  de  transição  em  colaboração  com  o  cliente,  membros  da X X
família, outras pessoas significativas, equipe e recursos e pessoas da comunidade,
quando adequado.
X Contribui
5. Responsável  por  avaliar  a  segurança  e  a  eficácia  dos  processos  e  do  tratamento
de terapia ocupacional no local de atuação.

Fig. 25.1 Modelo Triangular de Capacidade e Competência Continuadas.

O QUE SIGNIFICA SER COMPETENTE?
Há uma importante diferença entre os termos capacidade continuada e competência continuada;  no  entanto,  a
palavra  continuada  após  cada  termo  indica  o  foco  significativo  sobre  o  aprendizado  durante  toda  a  vida.
Capacidade continuada “refere­se à capacidade de um indivíduo para realizar as responsabilidades do emprego
[profissionais]”  (McConnell,  2001,  p.  14).  Por  exemplo,  Maria,  que  é  terapeuta  ocupacional,  está  trabalhando
com pessoas com esquizofrenia em regime de internação e planeja desenvolver um programa nos moldes de um
clube para seus clientes que retornam à comunidade. Ela precisa focar seu aprendizado nos aspectos teóricos do
modelo de clube, nas evidências da eficácia da abordagem e nos modelos de negócio para sua implantação. Esta
capacidade construtiva que envolve a preparação para mudança significativa é a capacidade continuada.
“Competência  continuada  foca­se  no  desempenho  real  de  um  indivíduo  em  uma  determinada  situação”
(McConnell,  2001,  p.  14).  Competência  implica  a  determinação  de  que  alguém  é  capaz  de  realizar  um
comportamento  ou  tarefa  conforme  avaliação  de  acordo  com  um  critério  específico  (Hinojosa  et  al.,  2000a).
Tiffany,  uma  assistente  de  terapia  ocupacional,  acabou  de  assumir  um  emprego  no  hospital  local.  Antes  que
possa  começar  a  observar  os  clientes  com  problemas  de  desempenho  ocupacional  relacionados  ao  membro
superior, ela deve demonstrar suas habilidades ou competências à terapeuta ocupacional supervisora no uso de
avaliações padronizadas em terapia da mão, imobilização com tala e implementação de tratamentos de acordo
com protocolos baseados em evidência e baseados na ocupação, desenvolvidos para cada tipo de diagnóstico ou
intervenção cirúrgica.
Ser competente  envolve  a  capacidade  de  selecionar  os  melhores  instrumentos  de  avaliação,  abordagens  de
tratamento  e  medidas  de  resultado  de  acordo  com  a  evidência  indicativa  de  eficiência  e  eficácia,  bem  como
fornecer  de  modo  habilidoso  os  serviços  apropriados  para  atender  as  necessidades  do  cliente  (Moyers,  1999).
Profissionais  competentes  de  terapia  ocupacional  apresentam  os  pré­requisitos  de  conhecimento,  habilidade  e
atitude que os autorizam a realizar atividades habilidosas privativas que conduzem aos resultados definidos para
o cliente. Apenas alguém licenciado ou registrado em uma determinada profissão ou área técnica pode realizar
uma atividade privativa ou processos e procedimentos atribuídos a determinadas profissões ou classificações de
emprego em que se fazem necessários formação e treinamento específicos (Moyers & Hinojosa, 2003).
A  próxima  distinção  importante  entre  palavras  consiste  em  diferenciar  desenvolvimento  profissional  com
capacidade  continuada  e  com  competência  continuada.  O  desenvolvimento  profissional  é  um  processo  de
desenvolvimento de carreira e se foca sobre o que o profissional de terapia ocupacional deseja aprender a fim de
alcançar  futuras  aspirações  na  carreira,  como  se  tornar  um  especialista,  administrador,  educador,  pesquisador,
consultor ou profissional de consultório. O foco do desenvolvimento profissional está em determinar os futuros
papéis que você gostaria de desenvolver e os tipos de tarefas e conhecimentos que estão incluídos nesses papéis.
A partir da compreensão das possíveis tarefas desses futuros papéis, você pode começar a determinar habilidades
e  raciocínios  que  necessitam  de  desenvolvimento  adicional,  bem  como  os  critérios  utilizados  para  mensurar  o
desempenho bem­sucedido.

FATORES QUE AFETAM A CAPACIDADE E A COMPETÊNCIA CONTINUADAS
Por  fim,  o  interesse  na  capacidade  existe  por  causa  dos  riscos  associados  ao  tratamento  ruim.  Quando  o
tratamento  é  fornecido  de  maneira  incompetente,  pode  causar  dano  ao  cliente,  cujos  resultados,  por  sua  vez,
podem gerar o risco adicional de uma ação legal por imperícia. Fornecedores, pagadores, negócios e indústria,
agências do serviço social e consumidores do serviço esperam que o tratamento efetivo conduza aos resultados
desejados.  Embora  existam  muitos  fatores  contribuintes  para  os  resultados  insatisfatórios,  os  profissionais  que
não atualizam de modo consistente seus conhecimentos e habilidades podem ser uma fonte de erros técnicos. O
modelo triangular de capacidade e competência continuadas explica os elementos que contribuem para o sucesso
da manutenção da proficiência da pessoa (Moyers, 2005) (veja a Fig. 25.1).
O Estudo de Caso sobre José ajuda a compreender por que a competência nas tarefas do emprego se situa no
centro do Modelo Triangular de Capacidade e Competência Continuadas (Fig. 25.1). Os profissionais de terapia
ocupacional  podem  ter  diferentes  deveres,  incluindo  aqueles  do  profissional,  supervisor  de  estágio,  gestor  ou
administrador, consultor, empresário, defensor, professor, pesquisador, cientista ou acadêmico. Independente do
tipo  de  papel  profissional  assumido,  o  terapeuta  ocupacional  e  o  assistente  de  terapia  ocupacional  devem
gerenciar de maneira eficiente as múltiplas responsabilidades inerentes ao cargo. A competência nas tarefas do
emprego varia desde ser iniciante até ser um especialista, não dependendo apenas da experiência com a tarefa,
mas também de fatores  contextuais  que  interagem  dinamicamente  com  a tarefa do  emprego. Novas  tarefas ou
projetos de trabalho, ou trabalho em novos contextos, ainda que o profissional da terapia ocupacional possa estar
há  muito  tempo  em  determinado  emprego,  resultam  em  que  o  empregado  seja  considerado  um  novato.  Ainda
que o profissional seja um especialista em determinada tarefa do emprego, um cliente de uma cultura diferente
daquela dos clientes tratados anteriormente pode criar uma situação de tarefa na qual o especialista atua como
um novato por causa das complexidades culturais acrescentadas à situação.

ESTUDO DE CASO: José, um Terapeuta Melhorando a Capacidade e as Competências

José é um terapeuta ocupacional com três anos de experiência de trabalho com clientes com lesão cerebral
tanto  em  reabilitação  em  regime  de  internação  como  em  programa  de  retorno  à  comunidade  em  regime
ambulatorial. As últimas avaliações de  desempenho  realizadas  por  seu  supervisor  indicam  que  José  gosta
de  aprender,  relaciona­se  bem  com  os  outros  e  exerce  uma  influência  tranquilizadora  e  racional  sobre  a
equipe  e  os  clientes.  Estas  são,  sem  exceção,  habilidades  subjacentes  importantes  à  capacidade  e  à
competência continuadas. Ele demonstra as virtudes necessárias porque realmente cuida de seus clientes e
tem integridade para focar o aprendizado em áreas de insuficiência e prudência para selecionar métodos de
aprendizado  que  o  ajudarão  a  aplicar  o  aprendizado  na  prática.  De  acordo  com  a  análise  de  suas
responsabilidades,  as  competências  relacionadas  principalmente  ao  seu  trabalho  envolvem  a  avaliação
baseada em evidência, o planejamento e a execução dos tratamentos, o planejamento da alta, a execução
do  programa  de  retorno  à  comunidade  e  a  mensuração  dos  resultados,  todos  com  foco  no  desempenho
ocupacional para a participação na vida diária.
Embora  não  seja  mais  um  novato  na  realização  dessas  competências,  os  resultados  do  cliente  indicam
que existe um grupo de clientes com altas taxas de fracasso no programa de retorno à comunidade. Quando
se entrevista este grupo de clientes, eles apontam sentimentos de depressão e problemas não resolvidos de
visão.  Os  cuidadores  destes  clientes  descrevem  seus  comportamentos  como  sendo  difícil  de  controlar
porque  os  clientes  são,  com  frequência,  questionadores  e  raivosos  e,  comumente,  recusam­se  a  realizar
muitas  tarefas  da  vida  diária  que  realizavam  antes  da  lesão  cerebral.  José  agenda  uma  reunião  com  seu
supervisor para desenvolver algumas metas de aprendizado relacionadas ao treinamento dos cuidadores no
gerenciamento  do  comportamento  e  para  avaliação  e  intervenção  para  a  depressão  e  problemas  visuais.
Seu  supervisor  concorda  que  este  programa  de  aprendizado  irá  melhorar  a  competência  de  José,  mas
também chama a atenção de José para o fato de que o hospital está implementando um novo sistema de
documentação  e  mensuração  de  resultado,  com  um  processo  de  implantação  ao  longo  dos  próximos  dois
anos.  José  concorda  em  acrescentar  esta  questão  de  competência  continuada  em  seu  programa  de
aprendizado.
A  fim  de  desenvolver  de  modo  mais  abrangente  seu  programa  de  aprendizado,  José  compreende  que
precisa decidir como fracionar suas metas de aprendizado de modo que ele possa selecionar os melhores
métodos de aprendizado que o auxiliarão a aplicar esse aprendizado à sua prática, para reduzir a taxa de
fracasso de seus clientes no programa de retorno à comunidade. Ele decide que sabe o suficiente a respeito
do controle do comportamento (característica de competência), mas precisa aprender a melhor maneira de
ensinar  este  conhecimento  (habilidade  de  desempenho)  aos  cuidadores  para  que  eles  sejam  capazes  de
utilizar  estas  estratégias  para  melhorar  o  desempenho  diário  de  seus  clientes.  Ele  está  preocupado  sobre
como fornecer retroalimentação de maneira construtiva e não prejudicar a relação (habilidade interpessoal)
quando  trabalhar  com  os  cuidadores  a  prática  destas  novas  habilidades  de  controle  de  comportamento.
Dessa forma, ele identificou alguns desequilíbrios potenciais entre a sua competência e conhecimento atuais
e  aqueles  necessários  no  futuro.  Ele  também  compreende  que  recebeu  apenas  informações  básicas
(característica de competência) em seu programa de graduação sobre os problemas de visão das pessoas
com  lesões  cerebrais  e  que  precisa  melhorar  seu  conhecimento  e  raciocínio  crítico  por  meio  de  alguns
cursos de aperfeiçoamento e consulta à literatura de pesquisa e a alguns estudos de caso. À medida que
seu  conhecimento  e  raciocínio  crítico  melhoram,  ele  decide  contatar  um  terapeuta  ocupacional  local  com
experiência  em  problemas  de  visão  de  pessoas  com  lesões  cerebrais  para  orientá­lo  em  seu  raciocínio
crítico  e  ético  e,  talvez,  para  fornecer  algumas  oportunidades  de  observação  e  de  experiências  práticas
supervisionadas (habilidades de desempenho).
Seu supervisor forneceu parte dos recursos para o aprendizado ao pagar um curso de aperfeiçoamento
sobre visão reduzida e ao fornecer treinamento para os novos sistemas de documentação e mensuração de
resultado; contudo, José sabia que era sua responsabilidade ética pesquisar e buscar outras oportunidades
de  aprendizado  além  daquelas  que  sua  empregadora  estava  disposta  a  oferecer.  No  entanto,  sua
empregadora estava preparada para adquirir os suprimentos ou equipamentos recomendados para apoiar a
aplicação  de  seu  aprendizado  à  prática,  pois  sabia  que  José  havia  pesquisado  com  cuidado  qual  seria
provavelmente o equipamento mais econômico e efetivo para avaliação e fornecimento de tratamento para
pessoas com problemas visuais que afetam o desempenho ocupacional. José trabalhou com seu supervisor
em um projeto para modificar o programa de retorno à comunidade, bem como a maneira para incorporar o
novo sistema de documentação e mensuração.

De  acordo  com  o  Princípio  4  do  Código  de  Ética  de  Terapia  Ocupacional  (AOTA,  2005b),  é  dever  do
profissional da terapia ocupacional atingir e manter continuamente altos padrões de competência. Assim, diante
de tarefas de trabalho, projetos ou contextos em que é inexperiente, o profissional de terapia ocupacional deve
engajar­se  em  uma  abordagem  autoiniciada  para  desenvolver  e  implementar  um  programa  individual  de
aprendizado (Hinojosa et al., 2000b). Um programa de aprendizado baseia­se na análise do emprego e nos dados
de  melhoria  da  qualidade  para  determinar  competências  ou  atribuições  explícitas  que  se  relacionam  de  modo
causal com o desempenho efetivo no trabalho ou com os resultados do cliente.
Tipicamente, as competências abordam questões que são comuns a todos os cargos em uma organização (p.
ex., serviço de orientação ao consumidor), que se relacionam aos papéis de gestão ou supervisão (p. ex., controle
orçamentário ou de pessoal), que estão no limiar ou que representam o requisito mínimo de um trabalho (p. ex.,
ser  capaz  de  avaliar  um  cliente)  e  que  são  específicas  para  um  trabalho  (p.  ex.,  ser  capaz  de  realizar  uma
avaliação da alimentação e da deglutição) (Decker & Strader, 1997).
Uma vez determinadas as competências e os resultados, a próxima etapa consiste em identificar os indicadores
fundamentais  para  estas  competências  (Decker  &  Strader,  1997).  O  modelo  triangular  de  capacidade  e
competência  continuadas  utiliza  os  Padrões  de  Competência  Continuada  (AOTA,  2005a)  como  indicadores.
Estes  incluem  conhecimento,  raciocínios  crítico  e  ético  e  habilidades  de  desempenho  e  interpessoais.  Por
exemplo, a capacidade de avaliar o cliente requer a seleção dos instrumentos de avaliação mais apropriados para
a condição do cliente, a seleção de metas e preferências para resultados específicos e a administração adequada
dos instrumentos para fornecer dados exatos e confiáveis. Esta capacidade requer conhecimento sobre diferentes
instrumentos  de  avaliação,  habilidades  de  raciocínios  crítico  e  ético  para  determinar  qual  seria  o  melhor  teste
diante da natureza do instrumento e das condições do cliente e habilidades interpessoais e de desempenho para
conduzir  adequadamente  a  avaliação,  ao  mesmo  tempo  que  se  estabelece  empatia  com  o  cliente.  As
características  da  competência  são  intrínsecas  ao  profissional  ocupacional  e  englobam  certos  aspectos,  como
habilidades e conhecimento especializados, motivação para modificar o desempenho, autoconceito positivo de
que  a  pessoa  pode  se  tornar  proficiente  e  atitudes  que  propiciem  e  valorizem  o  aprendizado.  Quando  há  um
desequilíbrio  entre  a  declaração  de  competência  e  as  características  da  competência,  como  não  conhecer  os
instrumentos  de  avaliação  disponíveis,  o  terapeuta  ocupacional  deve  estabelecer  um  plano  para  melhorar  o
conhecimento necessário para a obtenção da competência.
Permanecer  competente  e  buscar  a  competência  depende  das  capacidades  cognitivas,  emocionais  e  de
relacionamento  do  profissional  de  terapia  ocupacional.  Para  aprender,  o  profissional  da  terapia  ocupacional
precisa  utilizar  o  requisito  cognitivo  e  as  capacidades  intelectuais  para  compreender  e  sintetizar  informações
complexas.  O  profissional  de  terapia  ocupacional  precisa  demonstrar  uma  personalidade  bem­ajustada,  o  que
inclui capacidade de manter a mente aberta, flexibilidade e automonitoração ou autorregulação. Além disso, o
profissional  de  terapia  ocupacional  deve  ter  capacidade  de  relacionamento  para  estabelecer  relações  bem­
sucedidas e defender os clientes e suas famílias ou outras pessoas relevantes.
Existem virtudes específicas relacionadas à competência que o profissional de terapia ocupacional é chamado
a aspirar no sentido dos ideais e do desenvolvimento de virtudes de caráter que permitam alcançar esses ideais.
A integridade envolve honestidade e sinceridade, o cuidado envolve a compreensão da responsabilidade altruísta
associada  ao  fornecimento  de  serviços  para  o  cliente,  e  a  prudência  envolve  a  capacidade  de  governar  e
disciplinar a si próprio por meio do uso da razão (AOTA, 1993). Estas virtudes ajudam a motivar o profissional
de  terapia  ocupacional  a  aprender  pelo  desejo  de  fazer  melhor  em  benefício  do  cliente  (cuidar).  A  prudência
facilita a implementação disciplinada do programa de aprendizado planejado, de maneira honesta em termos de
uma  tentativa  sincera  para  atingir  a  competência  no  trabalho,  em  vez  da  implementação  de  um  programa  que
foque o que é mais fácil ou conveniente aprender.

QUEM DETERMINA SE ALGUÉM É COMPETENTE?
O credenciamento, como uma licença estadual, é um indicador para o público de que o profissional de saúde
possui  algum  nível  de  competência  para  fornecer  serviços  habilitados  dentro  de  um  espectro  de  atuação
específico; no entanto, o público está cada vez mais consciente de que a licença reflete os padrões mínimos de
competência necessários para proteger os clientes (Grossman, 1997). Os conselhos estaduais de licenciamento
são  responsáveis,  principalmente,  pelo  início  da  prática  profissional  ao  exigir  que  o  profissional  de  terapia
ocupacional  seja  aprovado  no  exame  administrado  pelo  National  Board  for  Certification  in  Occupational
Therapy (NBCOT) após o término de um programa acreditado de formação em terapia ocupacional e do estágio
necessário. Também podem ser necessárias a pesquisa do histórico pessoal e a impressão digital.
A  renovação  da  licença  para  atuação  em  uma  jurisdição  acontece  quando  o  profissional  paga  uma  taxa.  A
renovação  da  licença  também  pode  depender  de  evidência  de  educação  continuada,  adesão  a  padrões  éticos  e
evidência de conhecimento sobre leis e regulamentações que regem a prática da terapia ocupacional (testes de
jurisprudência). O profissional da terapia ocupacional também precisa atestar, antes da renovação, que ele nunca
foi acusado de ou recebeu uma queixa por imperícia ou negligência, e que nunca teve revogados ou suspensos os
privilégios  de  sua  licença.  Quando  as  respostas  a  essas  perguntas  são  positivas,  o  conselho  de  licenciamento
instaura uma investigação para determinar se a licença de atuação deve ser renovada.
Enquanto  a  licença  estadual  tem  relação  com  a  restrição  da  prática  em  uma  determinada  jurisdição  para
aqueles  que  estão  adequadamente  qualificados  e  que  mantêm  regularmente  sua  licença,  o  NBCOT,  uma
organização privada de credenciamento, avalia a capacidade dos terapeutas ocupacionais de utilizarem as iniciais
OTR®  e  a  do  assistente  de  terapia  ocupacional  de  utilizar  as  iniciais  COTA®.  A  capacidade  de  utilizar  as
credenciais depende da realização inicial bem­sucedida do exame de adesão e, em seguida, da renovação regular
da  certificação.  Este  programa  de  renovação  de  certificação  é  voluntário,  não  é  exigido  pela  maioria  dos
conselhos reguladores estaduais, e não é exigido para recebimento de reembolso do Medicare ou do Medicaid
pela prestação de serviços de terapia ocupacional. Alguns empregadores podem requerer a renovação junto ao
NBCOT. A renovação da certificação do NBCOT envolve a coleta e o registro de unidades de desenvolvimento
profissional  (PDU)  (algumas  das  quais  devem  ter  ligação  direta  com  a  terapia  ocupacional),  mediante  a
participação em diversas atividades de aprendizado (NBCOT, 2006).
Os  conselhos  de  licenciamento  e  as  organizações  de  certificação  tendem  a  empregar  a  abordagem  mais
comum na determinação da competência, por meio de testes, credenciamento, e exigindo a educação continuada
apropriada.  No  entanto,  a  qualidade  do  cuidado  é  um  exemplo  de  construto  que  não  pode  ser  observado
diretamente  nem  mensurado  em  todos  os  seus  aspectos.  Os  testes  de  certificação  utilizados  por  muitos
programas de certificação não conseguem avaliar quão bem o candidato realmente atua em determinada situação
da prática.
Por conseguinte, compreender o conceito emergente de especificidade do contexto cria um debate a respeito
do modo pelo qual a competência é atualmente definida e mensurada. A especificidade do contexto indica que
“o  desempenho  de  um  indivíduo  em  determinado  problema  ou  em  determinada  situação  é  apenas  fracamente
preditivo do desempenho do mesmo indivíduo em um problema diferente ou em uma situação diferente” (Eva,
2003,  p.  587).  De  acordo  com  esta  definição,  a  competência  é  mais  bem  determinada  ao  se  observar  o
profissional  de  terapia  ocupacional  realizando  as  principais  competências  importantes  para  o  sucesso  do
desempenho no trabalho e dos resultados do cliente. Devido ao custo e à impraticabilidade do teste baseado no
desempenho,  a  metodologia  e  os  recursos  não  são  adequados  neste  momento  para  uso  por  conselhos  de
licenciamento e outras organizações de credenciamento. Em vez disso, os empregadores podem estar em melhor
posição para realmente determinar a competência, o que foi um foco recente de tais programas de acreditação de
organizações como a Joint Commission on the Accreditation of Healthcare Organizations (JCAHO). De acordo
com  estes  padrões,  as  organizações  de  cuidados  de  saúde  precisam  comprovar,  acompanhar  e  melhorar  a
competência dos funcionários (Herringer, 2002). Os programas de renovação dos conselhos de licenciamento e
outras organizações de credenciamento estão realmente focando a busca da competência contínua e a capacidade
de realização na área de certificação.

QUEM É RESPONSÁVEL POR GARANTIR QUE ALGUÉM É COMPETENTE?
Independente  das  exigências  legais  associadas  ao  licenciamento  para  manutenção  da  competência  e  da
importância da competência para os empregadores, é dever profissional do terapeuta, de acordo com o Código
de Ética da AOTA (2005b), avaliar, manter e documentar sua própria competência. Visto que esta competência é
responsabilidade  primária  do  profissional,  Hinojosa  et  al.  (2000b)  idealizaram  o  Plano  de  Competência
Continuada  para  o  Desenvolvimento  Profissional  da  AOTA,  constituído  de  nove  componentes,  cada  um  dos
quais se encontra descrito no Boxe 25.1.
O desenvolvimento e a execução do plano de competência continuada podem ser orientados por meio do uso
do  Instrumento  de  Desenvolvimento  Profissional  da  AOTA  (AOTA,  maio  de  2003),  que  é  um  modelo  de
construção  do  currículo  pessoal  que  pode  ser  empregado  por  conselhos  de  licenciamento,  empregadores,
NBCOT e certificações avançada e de especialidade da AOTA.
Conforme  sugerido  pelo  plano  da  AOTA  para  a  competência  continuada,  o  profissional  deve  julgar  sua
competência  de  acordo  com  as  atuais  responsabilidades  de  trabalho.  O  profissional  tem  o  conhecimento
necessário, a capacidade de raciocínios crítico e ético e as habilidades interpessoais e de desempenho necessárias
para  a  realização  bem­sucedida  e  para  facilitar  a  obtenção  dos  resultados  especificados  pelo  cliente?  Há
necessidade  de  manter  as  habilidades  exigidas  para  implementar  o  cerne  da  terapia  ocupacional,  para
desenvolver conhecimento especializado e uma base de habilidades, e para obter as capacidades avançadas. Por
exemplo, embora os fundamentos da terapia ocupacional não se alterem, a tecnologia relacionada à promoção da
adaptação de um cliente ou à análise de uma ocupação e suas atividades associadas pode sofrer modificações.

COMPONENTES DO PROGRAMA DE COMPETÊNCIA CONTÍNUA

1. Reconhecimento dos eventos que sinalizam a necessidade de examinar a competência
2. Exame das responsabilidades de prática do profissional
3. Autoavaliação da condição de competência do profissional para uma determinada responsabilidade
4. Identificação das necessidades educacionais relacionadas à competência de acordo com os Padrões de
Competência Continuada (AOTA, 2005a)
5. Desenvolvimento de um programa de melhoria de competência
6. Execução do programa de capacitação
7. Documentação do desenvolvimento profissional e modificação da competência
8. Realização das mudanças na atuação com base na nova competência e
9. Demonstração da competência contínua.

Adaptado de Hinojosa et al. (2000b, p. CE­1). Usado por cortesia da AOTA.

COMO VOCÊ APRENDE A SELECIONAR AS ATIVIDADES DE APRENDIZADO MAIS
EFETIVAS?
A fim de desenvolver  um  programa  efetivo  de  aprendizagem,  você  precisa  estar ciente dos melhores métodos
para  o  desempenho  do  aprendizado  e  das  habilidades  interpessoais,  adquirir  conhecimento  e  desenvolver  os
raciocínios  crítico  e  ético  relativos  às  suas  competências  de  trabalho.  Por  exemplo,  a  leitura  pode  levar  ao
aumento  do  conhecimento,  mas  as  estratégias  de  representação  e  simulação  podem  ser  mais  efetivas  em
aumentar as capacidades interpessoais. A questão crítica na seleção dos métodos de aprendizagem consiste em
utilizar processos cognitivos similares ao raciocínio criativo típico da complexidade do ambiente real de atuação
(Fraser & Greenhalgh, 2001). Portanto, as abordagens para o aprendizado devem ajudar o profissional a “avaliar
a  situação  como  um  todo,  priorizar  as  questões  e,  em  seguida,  integrar  e  compreender  as  fontes  distintas  de
dados  para  chegar  a  uma  solução”  (p.  801).  Estas  abordagens  criativas  para  o  aprendizado  frequentemente
envolvem a narrativa de históriaa, o histórico dos casos, a reflexão e as estratégias de aprendizado baseadas em
problemas. Há uma ênfase sobre o aprendizado autodirigido, em que o conteúdo do assunto varia, dependendo
das  necessidades  do  aluno,  e  são  utilizadas  diferentes  condutas  de  aprendizado,  englobando  o  aprendizado
experimental, a rede de contatos, as listas de grupos de interesses profissionais, as oportunidades para ensinar os
outros e o tempo para a retroalimentação a respeito da aplicação do aprendizado (Fraser & Greenhalgh, 2001, p.
802).

A Educação Continuada e as Auditorias Melhoram a Prática Profissional?

O ’Brien  et  al.  (2001)  terminaram  uma  revisão  sistemática  de  evidências  de  estudos  randomizados  e
estudos  quase  experimentais  para  examinar  o  efeito  de  eventos  da  educação  continuada  (incluindo
conferências,  treinamentos  e  cursos)  sobre  a  prática  clínica  de  profissionais  de  saúde  ou  os  resultados  dos
cuidados  de  saúde.  Foram  incluídos  32  estudos  envolvendo  de  13  a  411  profissionais  de  saúde  (N  total  =
2.995). Nesses estudos, houve substancial variação nos comportamentos­alvo, nos métodos para mensurar o
desempenho inicial, nas características dos eventos de aprendizado e nos resultados. Os tipos planejados de
atividade  educacional  incluíram  conferências,  reuniões,  palestras,  treinamentos,  seminários,  simpósios  e
cursos que ocorreram fora do ambiente de atuação. Estas atividades educacionais foram classificadas pelos
métodos  gerais  de  aprendizado  como  treinamentos  interativos,  treinamentos  e  apresentações  didáticas
combinados e apenas apresentações didáticas. Os autores concluíram, de acordo com suas análises, que os
treinamentos  interativos  resultaram  em  alterações  importantes  na  prática  profissional,  enquanto  as  sessões
didáticas isoladas foram pouco prováveis de modificar a prática profissional.
Jamtvedt,  Young,  Kristoffersen,  O’Brien  e  Oxman  (2006)  realizaram  outra  revisão  sistemática  de  estudos
randomizados  para  avaliar  os  efeitos  da  auditoria  e  da  retroalimentação  sobre  a  prática  de  profissionais  de
saúde e sobre os resultados dos pacientes. Auditoria e retroalimentação foi definida como qualquer resumo do
desempenho clínico em um período específico que relata objetivamente os resultados da prática profissional.
Eles  investigaram  a  variação  na  eficácia  dos  tratamentos  quanto:  ao  tipo  de  tratamento  (auditoria  e
retroalimentação  isoladas,  auditoria  e  retroalimentação  em  eventos  educacionais  ou  intervenções
multifacetadas  que  incluíram  a  auditoria  e  a  retroalimentação),  à  intensidade  da  auditoria  e  da
retroalimentação, à complexidade do comportamento­alvo, à seriedade do resultado, à complacência basal e à
qualidade  do  estudo.  Com  base  em  118  estudos  revisados,  os  autores  concluíram  que  fornecer  aos
profissionais  de  saúde  dados  sobre  seu  desempenho  (auditoria  e  retroalimentação)  pode  ajudar  a  melhorar
sua  prática;  contudo,  os  efeitos  foram  variáveis  e,  quando  efetivos,  produziram  um  impacto  pequeno  ou
moderado sobre os resultados do cliente.
Estas  duas  revisões  sistemáticas  são  importantes  porque  deixam  claro  que  os  métodos  de  aprendizado
escolhidos  podem  ter  diferentes  capacidades  para  impactar  positivamente  os  resultados  do  cliente.  Os
aprendizes precisam, portanto, estar certos se estão tentando ganhar conhecimento, melhorar os raciocínios
crítico  e  ético  ou  aumentar  as  habilidades  de  desempenho  e  interpessoais.  Apresentações  didáticas  ou
conferências  podem  aumentar  o  conhecimento,  porém  podem  não  levar  à  aplicação  deste  conhecimento  na
prática,  em  comparação  com  métodos  de  aprendizagem  mais  ativos  e  o  uso  da  retroalimentação  sobre  o
desempenho.

O QUE SIGNIFICA CERTIFICAÇÃO AVANÇADA E DE ESPECIALIDADE?
Especialização  refere­se  a  se  tornar  proficiente  em  determinada  área  de  atuação,  categoria  diagnóstica  ou
abordagem de tratamento. No entanto, a especialização é frequentemente confundida com a prática avançada. De
maneira peculiar, o público vê o profissional avançado como um profissional independente que possui um grau
elevado  de  habilidade  por  causa  de  responsabilidades  mais  complexas.  Madill  e  Hollis  (2003)  descreveram  as
principais características da competência do profissional avançado de cuidados de saúde como ser portador de
amplitude  e  profundidade  de  conhecimento  e  capaz  de  esforços  para  adicionar  continuamente  novos
conhecimentos,  ser  capaz  de  utilizar  raciocínio  e  análise  críticos,  dar  extensa  contribuição  para  uma  ou  mais
áreas  de  atuação,  ter  compromisso  com  a  qualidade,  motivação  para  desenvolver  continuamente  novas
habilidades  e  qualificações  avançadas  (p.  32).  O  profissional  pode  estar  no  nível  inicial  de  uma  área  de
especialização  ou  pode  estar  no  nível  avançado  de  uma  área  de  especialização.  Quer  especializado,  quer
avançado,  a  competência  inclui  a  capacidade  do  profissional  de  aplicar  os  fundamentos  de  prática  da  terapia
ocupacional, bem como a capacidade de trabalhar em áreas especializadas da prática, desde o nível inicial até o
avançado, dependendo das exigências do trabalho (Youngstrom, 1998, p. 719).
O  conselho  da  AOTA  (saúde  mental,  pediatria,  gerontologia  e  reabilitação  física)  e  as  certificações  de
especialidade (visão reduzida; alimentação, nutrição e deglutição; modificação ambiental; e condução de veículo
e  mobilidade  na  comunidade)  são  exemplos  de  maneiras  para  estimular  a  capacitação  contínua  de  um
profissional  de  terapia  ocupacional  que  inclui  o  desenvolvimento  da  capacidade  e  das  características  das
competências  necessárias  para  o  futuro.  Existem  certificações  de  especialidade  oferecidas  por  meio  de  outras
organizações, como a credencial de Terapeuta de Mão Certificado da Hand Therapy Certification Commission
(www.htcc.org). Consulte a Tabela 25.2 para exemplos de certificações avançada e de especialidade.
TABELA 25.2 CERTIFICAÇÕES DO NÍVEL DE ENTRADA E DO NÍVEL PÓS­ENTRADA NOS ESTADOS
UNIDOS
Credenciais Organização
Garantidora
Credenciamento no Nível de Entrada e Renovação da Certificação
Acreditado Refere­se à condição de um curso de formação em terapia ACOTE
pela ACOTE ocupacional que esteja totalmente acreditado
OTR (TO) Terapeuta ocupacional registrado (nível superior) NBCOT
COTA (ATOC) Assistente de terapia ocupacional certificado (nível técnico) NBCOT
Certificações de Prática Avançada
BCG (CCG) Certificação do Conselho de Gerontologia AOTA­BASC
BCMH Certificação do Conselho de Saúde Mental AOTA­BASC
(CCSM)
BCP (CCP) Certificação do Conselho de Pediatria AOTA­BASC
BCPR (CCRF) Certificação do Conselho de Reabilitação Física AOTA­BASC
Certificações de Especialidade
ATP (PTA) Profissional de Tecnologia de Assistência RESNA
CCM (GCC) Gerentes de Caso Certificados CCMC
CDRS (PCRM) Profissional Certificado em Reabilitação para Motoristas ADED
CHT (TMC) Terapeuta de Mão Certificado HTCC
CLVT (CTVR) Certificação em Terapia para Visão Reduzida ACVREP
CPE (EPC) Ergonomista Profissional Certificado BCPE
CVE (EAVC) Certificação de Especialista em Avaliação Profissional CCWAVES
SCDCM Certificação de Especialista em Condução de Veículo e Mobilidade na AOTA­BASC
(CECVMC) Comunidade
SCEM Certificação de Especialidade em Modificação Ambiental AOTA­BASC
(CEMA)
SCFES Certificação de Especialidade em Alimentação, Nutrição e Deglutição AOTA­BASC
(CEAND)
SCLV (CEVR) Certificação de Especialidade em Visão Reduzida AOTA­BASC

ACOTE,  Accreditation  Council  for  Occupational  Therapy  Education;  AOTA­BASC,  American  Occupational
Therapy  Association:  Board  and  Specialty  Certification  programs;  ACVREP,  Academy  for  Certification  of  Vision
Rehabilitation  and  Education  Professionals;  ADED,  Association  for  Driving  Rehabilitation  Specialists;  BCPE,
Board  of  Certification  in  Professional  Ergonomics;  CCMC,  Commission  for  Case  Management  Certification;
CCWAVES, Commission on Certification of Work Adjustment and Vocational Evaluation Specialists; HTCC, Hand
Therapy  Certification  Commission;  RESNA,  Rehabilitation  Engineering  &  Assistive  Technology  Society  of  North
America
As  certificações  da  AOTA  exigem  que  o  candidato  desenvolva  um  portfólio  reflexivo.  Estes  estão
aumentando em popularidade como “instrumentos [de desenvolvimento profissional] que agregam informações
de  avaliação  ao  longo  do  tempo”  (Melnick,  2004,  p.  844).  Um  currículo  reflexivo  registra  cada  atividade  de
aprendizado  cuidadosamente  selecionada  para  cada  competência,  a  evidência  apropriada  deste  aprendizado,
reflexões  sobre  este  aprendizado  e,  apenas  para  o  conselho,  uma  autoavaliação  ou  identificação  das
necessidades e um programa para novo aprendizado. A autoapreciação das atividades de aprendizado responde
a pergunta: Qual evidência melhor indicaria que adquiri as competências necessárias para a prática especializada
ou avançada? Em outras palavras, o portfólio não é uma coleção ou livro de recortes de tudo o que alguém fez,
mas  exige  a  cuidadosa  seleção  das  atividades  de  aprendizado  que  mais  provavelmente  contribuirão  para  a
capacitação do profissional para alcançar a competência em um determinado contexto.
Dessa maneira, a autoapreciação começa por examinar a declaração de competência e os resultados do cliente,
a  fim  de  tomar  as  decisões  sobre  como  melhor  aprender.  Uma  ampla  variedade  de  atividades  de  aprendizado
pode  ser  empregada  para  atingir  cada  competência.  Múltiplos  métodos  de  aprendizado  são  incentivados  e
valorizados, à medida que o aprendiz determina como melhor alcançar os seguintes resultados (Miller, 1990):
Saber e saber por quê: Métodos de aprendizado que aumentam o conhecimento necessário para que haja
um impacto significativo em termos de melhora de resultados do cliente.
Saber  como,  quando  e  com  quem:  Métodos  de  aprendizado  centrados  no  aprendiz  para  desenvolver  e
utilizar  os  raciocínios  crítico  e  ético.  Em  outras  palavras,  saber  não  apenas  as  etapas,  mas  quando  e  com
quem utilizar os procedimentos.
Mostrar  como:  Métodos  de  aprendizado  que  facilitam  o  desenvolvimento  da  habilidade,  de  modo  que  a
pessoa possa realmente empreender as etapas e os procedimentos em diversos contextos.
Fazer: Métodos de aprendizado que facilitam a aplicação do conhecimento, dos raciocínios crítico e ético e
das habilidades interpessoais e de desempenho para atuar de maneira consistente. Esta aplicação resulta em
modificação dos resultados do cliente.

CONCLUSÃO
A capacidade e a competência contínuas e o desenvolvimento profissional são responsabilidade do profissional,
educador,  administrador  e  pesquisador.  O  público,  nossos  clientes,  nossos  colegas  e  nossos  empregadores
esperam que terapeutas ocupacionais e assistentes de terapia ocupacional competentes forneçam serviços de alta
qualidade. O aprendizado deve ser gerenciado sistematicamente por meio de cuidadosa avaliação dos resultados
de  nosso  cliente,  das  responsabilidades  do  trabalho  e  das  tendências  futuras  no  fornecimento  do  serviço.  A
autoavaliação  ajuda  o  profissional  a  idealizar  um  programa  completo  de  aprendizagem  com  as  atividades  de
aprendizado que mais provavelmente levarão a uma mudança na atuação. O programa deve ser implementado da
maneira adequada, com a ajuda da administração, a fim de aplicar e avaliar a consequência do novo aprendizado
na prática.

QUESTÕES INSTIGANTES
1. Como podemos evitar o engajamento em atividades de aprendizado que achamos interessantes em vez de
naquelas que precisamos conhecer para atuar de maneira mais efetiva?
2. Quais são algumas das maneiras para garantir que o novo aprendizado seja aplicado à prática?
3. Como você saberá se a aplicação de seu novo aprendizado na prática é efetiva?

REFERÊNCIAS
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Estágio Supervisionado: A Transição de Aluno
para Profissional
MARY E. EVENSON

Sumário
Finalidade e Níveis do Estágio Supervisionado: Estados Unidos
Experiência no Estágio Supervisionado de Nível I
Experiência no Estágio Supervisionado de Nível II
Estágio Supervisionado: Perspectivas Internacionais
Modelos e Ambientes do Estágio Supervisionado
Transição de Estudante para Profissional
Papéis e Responsabilidades de Estudantes e Supervisores
Diretrizes do Supervisor de Estágio
Avaliação do Estágio Supervisionado
Avaliação do Estudante Sobre a Experiência do Estágio Supervisionado
Conclusão

Objetivos de Aprendizagem

Após a leitura deste capítulo, você será capaz de:

1. Compreender como o estágio supervisionado integra o currículo de graduação e o desenvolvimento profissional
do aluno.
2. Compreender as exigências e os níveis de supervisão de estágio em programas internacionais de formação em
terapia ocupacional e nos Estados Unidos.
3. Familiarizar­se com ambientes de estágio e modelos de supervisão tradicionais e inovadores.
4. Captar  a  natureza  dinâmica  das  transições  pessoais  e  profissionais  inerentes  às  mudanças  do  papel  de
estudante para o papel de profissional.
5. Apreciar os papéis e as responsabilidades dos tutores envolvidos no processo de supervisão de estágio.
6. Compreender  o  processo  e  os  tipos  de  competência  utilizados  para  avaliar  o  desempenho  do  estudante  no
estágio supervisionado.

E
stágio  supervisionado  pode  ser  definido  como  “Trabalho  realizado  ou  observações  diretas  realizadas  em  campo  em
oposição ao realizado ou observado em um ambiente controlado” (Pickett, 2000). Para a graduação em terapia ocupacional,
o estágio supervisionado é frequentemente descrito como o trabalho realizado fora do ambiente de sala de aula. O consenso na
profissão  de  terapia  ocupacional  é  que  a  experiência  do  estágio  supervisionado  tem  papel  fundamental  no  desenvolvimento
profissional.  Em  1923,  os  primeiros  padrões  exigindo  experiências  de  estágio  supervisionado  foram  aprovados  pela  American
Occupational  Therapy  Association  (AOTA)  (Pressler,  1983).  O  estágio  supervisionado  continua  a  funcionar  como  a  conexão
crítica  entre  o  mundo  acadêmico  da  teoria  e  o  mundo  da  prática,  demonstrando  o  valor  que  a  profissão  coloca  nos  currículos
baseados na experiência (Cohn & Crist, 1995; Lewis, 2005).
As  experiências  no  estágio  supervisionado  destinam­se  a  fornecer  aos  estudantes  oportunidades  para  assumir
responsabilidades profissionais sob a supervisão de profissionais que também atuam como modelos para o papel (Accreditation
Council for Occupational Therapy Education, 2007). Trabalhando no contexto de prática na vida real, os estudantes desenvolvem
uma  gama  de  habilidades  que  os  capacita  a  estabelecer  as  bases  de  suas  futuras  carreiras  profissionais.  As  duas  principais
categoriais de desenvolvimento de habilidades que são inerentes à participação no estágio supervisionado são (1) as técnicas e
habilidades  centrais  relevantes  ao  fornecimento  dos  serviços  de  terapia  ocupacional  em  determinado  ambiente  e  (2)  as
habilidades  pessoais  que  evoluem  e  transformam  o  nível  de  comportamento  profissional  da  pessoa  (Missiuna,  Polatajko  &
Ernest­Conibear, 1992). O estágio supervisionado propicia um caminho para a aculturação na profissão, já que a inter­relação
entre o estudante como pessoa, a profissão e o ambiente sustenta o desenvolvimento de uma identidade profissional juntamente
com  um  grupo  de  competências  profissionais  básicas  (Alsop  &  Donald,  1996).  Este  componente  da  formação  profissional
funciona  como  a  porta  de  entrada  na  profissão,  pois  capacita  os  estudantes  a  estabelecerem  as  habilidades  fundamentais  da
profissão  que  os  sustentarão  na  transição  da  prática  do  estágio  supervisionado  para  o  emprego.  Além  disso,  por  exemplo,  os
estudantes no Canadá e nos Estados Unidos precisam cumprir as exigências do estágio supervisionado para se tornarem elegíveis
para os respectivos exames de certificação nacional.
O processo e o conteúdo das experiências do estágio supervisionado têm sido debatidos ao longo dos anos. Apesar disso, o
valor da oportunidade de integrar o conhecimento acadêmico à aplicação de habilidades e responsabilidades em níveis cada vez
altos  de  desempenho  foi  sempre  reconhecido  (AOTA,  2003;  Pressler,  1983).  Christie,  Joyce  e  Moeller  (1985)  ressaltaram  tal
valor ao documentar a experiência do estágio supervisionado como influência máxima sobre o desenvolvimento da preferência
de um terapeuta por uma área específica da prática clínica. Dos 131 terapeutas que foram entrevistados, 55% indicaram que as
preferências da prática clínica foram construídas ou modificadas durante a experiência do estágio supervisionado, e outros 24%
observaram  que  a  experiência  do  estágio  supervisionado  expandiu  seus  interesses  para  outras  áreas  da  prática.  De  maneira
similar, Crowe e Mackenzie (2002) examinaram a influência do estágio supervisionado sobre as áreas da prática preferidas pelos
alunos de terapia ocupacional. Esse estudo também demonstrou que “os alunos utilizam a experiência do estágio supervisionado
para orientar suas decisões para selecionar uma área de atuação” (Crowe & Mackenzie, 2002, p. 25). Assim, a experiência do
estágio supervisionado pode ser rica e recompensadora e, como tal, é provável que tenha enorme impacto sobre as escolhas de
carreira de um estudante.

FINALIDADE E NÍVEIS DO ESTÁGIO SUPERVISIONADO: ESTADOS UNIDOS
O objetivo do estágio supervisionado é fornecer aos estudantes oportunidades para aplicar conhecimento, habilidades e atitudes
que eles aprendem em sala de aula à prática no ambiente do estágio supervisionado (Costa, 2004). Os Padrões e Diretrizes de
Interpretação do Accreditation Council for Occupational Therapy Education [Conselho de Acreditação para o Ensino de Terapia
Ocupacional  da  Associação  Americana  de  Terapia  Ocupacional]  (ACOTE)  (ACOTE,  2007)  estabelecem  requisitos  gerais  do
estágio supervisionado para os estudantes. Os requisitos são divididos em duas classificações: estágio supervisionado nos Níveis
I e II. O estágio supervisionado de Nível I oferece aos estudantes experiências práticas que são integradas ao longo de todo o
curso de graduação. Os padrões da ACOTE descrevem o estágio supervisionado de Nível I como “experiências destinadas a
enriquecer  o  componente  didático  do  curso  por  meio  da  observação  orientada  e  participação  em  aspectos  selecionados  do
processo da terapia ocupacional” (ACOTE, 2007). Para os alunos de terapia ocupacional e de assistência em terapia ocupacional,
a  meta  do  estágio  supervisionado  de  Nível  I  é  introduzir  os  estudantes  à  experiência,  “aplicar  o  conhecimento  à  prática  e
desenvolver a compreensão das necessidades dos clientes” (ACOTE, 2007).

Experiência no Estágio Supervisionado de Nível I
Por meio das experiências do estágio supervisionado de nível I, os estudantes são expostos a valores e tradições da prática da
terapia ocupacional e têm a oportunidade de examinar suas reações aos clientes, sistemas de prestação de serviço, profissionais
correlatos e papel (papéis) potencial(ais) na profissão. Como as expectativas de desempenho acadêmico de Nível I e os objetivos
específicos da experiência do estágio supervisionado de Nível I variam em cada currículo de terapia ocupacional, o momento, a
duração,  as  exigências  e  o  foco  específico  da  experiência  são  determinados  por  cada  curso  de  graduação  individualmente
(AOTA,  1999a).  Por  exemplo,  as  opções  de  horário  podem  incluir  tempo  integral  ou  parcial  durante  todo  um  semestre
acadêmico, uma alocação a cada semana ou, de outro modo, visitas pré­agendadas a locais de estágio.
Um  estudo  dos  contextos  e  das  percepções  do  estágio  supervisionado  de  Nível  I  na  prática  atual  revelou  que  o  número  de
locais para estágio supervisionado está aumentando e que os estudantes geralmente classificam como positivas suas experiências
de estágio supervisionado de Nível I (Johnson, Koenig, Piersol, Santalucia & Wachter­Schutz, 2006). Ao serem examinados os
tipos  de  oportunidade  de  aprendizado  proporcionados  aos  estudantes  de  Nível  I,  as  habilidades  de  observação  e  comunicação
foram  as  mais  comumente  praticadas  em  todos  os  tipos  de  ambiente  (Johnson  et al.,  2006).  A  prática  de  habilidades  clínicas
adicionais durante o estágio supervisionado de Nível I inclui mais frequentemente atividades motoras finas e grosseiras (94%)
em pediatria, amplitude de movimento (82%) em incapacidades físicas, entrevista (77%) em ambientes emergentes de prática e
controle  comportamental  (73%)  em  ambientes  de  saúde  mental  (Johnson  et  al.,  2006,  p.  281).  No  geral,  os  estudantes
consideraram  que  sua  experiência  de  aprendizado  foi  maximizada  quando  tiveram  a  oportunidade  de  praticar  as  habilidades  e
experimentar a prática baseada na ocupação.
Um  modelo  de  estágio  supervisionado  que  pode  apoiar  os  estudantes  na  prática  das  habilidades  durante  o  estágio
supervisionado  de  Nível  I  e  conduzi­los  ao  estágio  de  Nível  II  é  o  Modelo  de  Mesmo  Local  de  Estágio  Supervisionado
(Evenson, Barnes & Cohn, 2002). Esta conduta singular proporciona a continuidade na estruturação do aprendizado, por meio do
qual  um  estudante  vivencia  as  experiências  de  estágio  supervisionado  de  Níveis  I  e  II  no  mesmo  local  de  treinamento.  A
investigação  exploratória  demonstrou  que  os  estudantes  e  os  supervisores  de  estágio  identificaram  benefícios  nesse  modelo,
incluindo familiaridade com o ambiente, maior conforto com a diminuição da ansiedade e ganho na preparação para o estágio
supervisionado de Nível II.
Experiência no Estágio Supervisionado de Nível II
A meta do estágio supervisionado de Nível II para o estudante de terapia ocupacional e de assistência em terapia ocupacional
consiste  em  “desenvolver  profissionais  generalistas  competentes  em  nível  de  graduação  ”  (ACOTE,  2007).  Os  Padrões  de
Acreditação da ACOTE (2007) determinam que “o estágio supervisionado de Nível II precisa fazer parte do currículo do curso
de  formação  profissional  e  precisa  incluir  uma  experiência  bem­sucedida  na  prestação  de  serviços  de  terapia  ocupacional  aos
clientes, focando­se na aplicação da ocupação objetiva e significativa”. A meta dos estudantes que participam da aplicação e do
controle de serviços e pesquisa em terapia ocupacional é diferente no estágio supervisionado de Nível II em terapia ocupacional,
quando  aplicável.  Os  resultados  adicionais  de  aprendizado  do  estágio  supervisionado  de  Nível  II  em  terapia  ocupacional  são
“promoção  do  raciocínio  clínico  e  da  prática  reflexiva;  transmissão  de  valores  e  crenças  que  capacitam  a  prática  ética;  e
desenvolvimento  do  profissionalismo  e  da  competência  como  responsabilidades  da  profissão”  (ACOTE,  2007).  Para  os
estudantes de assistência em terapia ocupacional, a finalidade do estágio supervisionado de Nível II é a “promoção do raciocínio
clínico  apropriado  ao  papel  de  assistente  de  terapia  ocupacional”,  bem  como  a  obtenção  de  profissionalismo  e  competência
(ACOTE, 2007).
Trabalhando inicialmente sob supervisão direta, os estudantes testam primeiramente as teorias e os fatos que eles aprenderam
no estudo teórico e têm a oportunidade de refinar suas habilidades por meio da interação com clientes de todas as idades, com as
famílias  dos  clientes  e  com  os  membros  da  equipe,  enquanto  trabalham  em  diferentes  ambientes  e  sistemas  de  prestação  de
serviço. À medida que as capacidades dos estudantes aumentam, a supervisão pode tornar­se menos direta, quando apropriado,
de  acordo  com  o  ambiente  e  a  gravidade  da  condição  do  cliente.  Um  modelo  de  supervisão  do  desenvolvimento  pode  ser
aplicado como uma abordagem para planejar, modificar e avaliar a disposição dos estudantes para o aprendizado e a participação
durante  todo  o  curso  do  estágio  supervisionado.  Dentro  de  uma  estrutura  de  desenvolvimento,  a  relação  entre  o  aluno  e  o
supervisor avança através de quatro fases distintas: ensino, orientação, suporte e delegação (Barnes & Evenson, 2000). No geral,
a  supervisão  dos  estudantes  deve  atender  às  exigências  de  saúde  e  segurança  municipais,  estaduais  e/ou  federais/nacionais  de
políticas, leis e regulamentações para a prática da terapia ocupacional.
Para os estudantes, a finalidade global da experiência do estágio supervisionado consiste em ganhar o domínio do raciocínio
clínico e das técnicas da terapia ocupacional para desenvolver a competência no nível de graduação. Comunicação oral e escrita
efetiva  de  ideias  e  objetivos  relevantes  para  os  papéis  e  os  deveres  de  um  terapeuta  ocupacional  ou  assistente  de  terapia
ocupacional, incluindo a interação profissional com os clientes e com a equipe, é esperada dos alunos. Os estudantes precisam
demonstrar sensibilidade e respeito quanto à confidencialidade com relação ao cliente, estabelecer e manter relações terapêuticas
e trabalhar de maneira colaborativa com outras pessoas. Outra expectativa mais interna para o desenvolvimento de autoimagens
profissionais  positivas  dos  estudantes  inclui  assumir  a  responsabilidade  de  manter,  avaliar  e  melhorar  a  autocompetência.  Os
estudantes são responsáveis por articular sua compreensão das informações teóricas e identificar suas capacidades de executar as
técnicas  de  avaliação  ou  tratamento.  Além  disso,  a  capacidade  de  beneficiar­se  da  supervisão  como  um  recurso  para  o
aprendizado autodirecionado é crucial para o desenvolvimento profissional.
As exigências estabelecidas pela ACOTE (2007) incluem um mínimo equivalente a 24 semanas de estágio supervisionado de
Nível II em horário integral para estudantes de terapia ocupacional em pelo menos uma instituição, se esta apresenta mais de uma
área de atuação, ou em um máximo de quatro instituições diferentes, e um mínimo equivalente a 16 semanas de horário integral
para  estudantes  de  assistência  em  terapia  ocupacional  em  pelo  menos  uma  instituição,  se  esta  apresenta  mais  de  uma  área  de
atuação,  ou  em  um  máximo  de  três  instituições.  O  estágio  supervisionado  de  Nível  II  pode  ser  realizado  em  tempo  parcial
“conforme definido pelo local de estágio de acordo com as políticas usuais e costumeiras de pessoal, contanto que corresponda a
um  mínimo  de  50%  do  equivalente  em  horário  integral  naquele  local”  (ACOTE,  2007).  As  alternativas  para  o  estágio
supervisionado em horário integral, como os modelos em horário parcial ou experiências de 12 meses, estão se tornando mais
comuns (Adelstein, Cohn, Baker & Barnes, 1990; Phillips & Legaspi, 1995).

ESTÁGIO SUPERVISIONADO: PERSPECTIVAS INTERNACIONAIS
Em nível internacional, os Padrões Mínimos para a Formação de Terapeutas Ocupacionais da World Federation of Occupational
Therapy  (WFOT)  (Hocking  &  Ness,  2002)  exigem  que  os  estudantes  completem  um  mínimo  de  1.000  horas  de  estágio
supervisionado clínico aprovado, que são distribuídas por todos os anos do curso de graduação. A WFOT exige que a realização
do estágio supervisionado ocorra em locais que ofereçam diferentes níveis de cuidados de saúde, como os ambientes de terapia
intensiva, reabilitação, incapacidade, comunidade e bem­estar. Nestes tipos de ambiente, o estágio supervisionado deve prover
aos  estudantes  a  oportunidade  de  trabalhar  com  pessoas  de  diferentes  idades  que  apresentem  condições  agudas  e  crônicas  de
saúde, realizando tratamentos centrados na pessoa, na ocupação e no ambiente (Hocking & Ness, 2002). Pelo menos em um local
de  estágio,  a  permanência  precisa  ter  duração  mínima  de  oito  semanas  para  possibilitar  uma  experiência  de  aprendizado
abrangente.  Os  resultados  de  aprendizado  esperados  para  os  graduados  em  cursos  aprovados  pela  WFOT  devem  demonstrar
conhecimento,  habilidades  e  atitudes  nas  seguintes  competências:  pessoa­ocupação­ambiente  e  suas  relações  com  a  saúde,
relações terapêuticas e profissionais, processos da terapia ocupacional, comportamento e raciocínio profissionais e contexto da
prática profissional (Hocking & Ness, 2002).

MODELOS E AMBIENTES DO ESTÁGIO SUPERVISIONADO
Tradicionalmente, o estágio supervisionado ocorre no contexto de um hospital ou de serviço de cuidados primários de saúde, nos
quais  os  estudantes  passam  de  seis  semanas  a  três  meses  em  uma  instituição  com  um  único  supervisor.  No  entanto,  inúmeros
fatores,  como  a  demanda  crescente  por  serviços  de  terapia  ocupacional,  a  escassez  de  pessoal  e  a  necessidade  crescente  de
alocação  de  estudantes,  estão  influenciando  a  profissão  a  desenvolver  e  expandir  oportunidades  inovadoras  de  estágio
supervisionado  (AOTA,  2000;  Thomas,  Penman  &  Williamson,  2005).  Os  cursos  de  graduação  estão  desenvolvendo  estágios
supervisionados no contexto da prática emergente, como em programas comunitários de tratamento­dia, centros de convivência
para a terceira idade, instalações de vida assistida, treinamentos assistidos, centros de acolhimento de desabrigados, programas
pós­escola,  cuidado  domiciliar  de  saúde,  instituições  rurais  e  instituições  internacionais  (AOTA,  1999b;  Johnson  et al.,  2006).
Em  particular,  o  estágio  supervisionado  focado  no  projeto  proporciona  uma  abordagem  viável  para  o  desenvolvimento  de
novos  programas  ou  recursos  ou,  ao  avaliar  os  programas  existentes,  para  ambientes  de  prevenção  ou  de  promoção  de  saúde
(Fortune, Farnworth & McKinstry, 2006).
Além  disso,  diversos  modelos  inovadores  de  supervisão  foram  propostos  como  abordagens  para  a  promoção  do
autodirecionamento entre os estudantes e para melhor equipá­los de modo a transformá­los em aprendizes por toda a vida, como
uma  alternativa  ao  modelo  de  supervisão  de  um  para  um,  que  pode  reforçar  a  dependência  (Thomas  et  al.,  2005).  O
desenvolvimento  de  três  modelos  de  supervisão  foi  identificado:  papel  emergente,  colaborativo  e  interagências.  O  estímulo  a
essas  abordagens  alternativas  para  supervisão  consiste  em  fomentar  a  meta  profissional  dos  recém­graduados  de  serem
profissionais reflexivos e pensadores críticos efetivos (Bonello, 2001). A supervisão do papel emergente, que acontece em um
local  onde  não  existe  terapeuta  ocupacional  atuando,  fornece  oportunidade  para  que  os  estudantes  sejam  mais  autônomos  e
independentes,  promovendo  maior  crescimento  profissional.  Os  Padrões  da  WFOT  (Hocking  &  Ness,  2002)  e  os  Padrões  da
ACOTE (2007) observam, sem exceção, que o estágio supervisionado pode acontecer em locais em que a terapia ocupacional
esteja emergindo. A ACOTE exige que os estudantes nesse tipo de situação recebam um mínimo de oito horas de supervisão por
semana por um profissional que tenha um mínimo de três anos de experiência. Nessas circunstâncias, um membro da equipe da
instituição assume as responsabilidades pela supervisão diária.
A supervisão colaborativa é outro modelo empregado no estágio supervisionado que pode incluir um ou mais supervisores
que  trabalham  com  vários  estudantes  “com  todos  os  participantes  considerados  parceiros  igualitários  no  processo  de
aprendizagem” (Thomas et al., 2005, p. 80). Este modelo incentiva os estudantes a assumirem maior responsabilidade por seu
aprendizado  por  meio  do  ensino  de  colegas  e  solução  de  problemas  mútuos  (Ladyshewsky,  1995).  No  caso  de  mais  de  um
supervisor,  é  útil  identificar  quem  será  o  supervisor  principal,  responsável  pela  gestão  da  experiência  global  do  estágio
supervisionado, incluindo o processo de avaliação.
Outra conduta para a supervisão consiste em mesclar o modelo tradicional um­para­um em uma área de prática emergente; isto
foi  descrito  como  o  Modelo  Interagência  de  Estágio  Supervisionado  (Fisher  &  Savin­Badin,  2002).  Nesta  abordagem,  os
terapeutas ocupacionais que almejam o desenvolvimento de uma nova posição para a terapia ocupacional trabalham em parceria
com as agências da comunidade ou com as indústrias para estabelecer uma oportunidade de estágio supervisionado. Este modelo
é merecedor de estudos adicionais para determinar como oferecer experiências de aprendizagem de alta qualidade, incluindo o
financiamento da formação necessária e o treinamento de supervisores de estágio e de estudantes, de modo que este modelo seja
bem­sucedido.  Essas  experiências  mantêm  a  promessa  de  construir  habilidades  que  capacitarão  os  profissionais,  bem  como  a
profissão, a gerenciar as oportunidades e as transições que virão no futuro.

TRANSIÇÃO DE ESTUDANTE PARA PROFISSIONAL
A  mudança  do  ambiente  acadêmico  para  o  ambiente  do  estágio  supervisionado  é  uma  mudança  de  vida  evidente,  embora
frequentemente subestimada. Os estudantes de terapia ocupacional fazem a transição do ambiente da sala de aula para o ambiente
do  estágio  supervisionado  ao  mesmo  tempo  que  emergem  do  papel  de  estudantes  para  o  papel  de  profissionais  de  terapia
ocupacional. Como em qualquer transição, os estudantes de terapia ocupacional que deixam a academia enfrentam um processo
de mudança de estrutura, papel ou sensação de si próprio. O empenho para se encontrar no novo ambiente e para desenvolver o
novo papel pode desequilibrar os estudantes, e alguns deles têm dificuldade de ajustar­se ao novo papel. Da mesma forma que
isso é verdadeiro para todas as mudanças de vida, esse desequilíbrio pode ser uma oportunidade para o crescimento, em especial
no contexto de uma relação de supervisão de suporte.
Esse período de transição para os estudantes resulta em mudanças nas suposições sobre si próprios e o mundo e exige uma
mudança correspondente nos comportamentos, nos relacionamentos, nos estilos de aprendizado e nas autopercepções. À medida
que transitam pelos ambientes de estágio supervisionado, os estudantes podem começar a reavaliar suas suposições a respeito da
terapia ocupacional, da teoria que eles aprenderam na escola e suas visões de si próprios como profissionais, alunos e pessoas.
Como as pessoas diferem em sua capacidade de se adaptar à mudança, e porque cada estudante é colocado em um ambiente de
estágio supervisionado diferente, a transição tem um efeito diferente sobre cada estudante.
A  natureza  do  ambiente  de  estágio  supervisionado  é  fundamentalmente  diferente  da  do  ambiente  acadêmico.  Conhecer  e
reconhecer algumas das diferenças entre os dois ambientes pode facilitar a transição e dar aos estudantes um suporte para aceitar
os desafios da experiência de estágio supervisionado (veja a Tabela 26.1). Dentro do ambiente de estágio, o foco do aprendizado
desloca­se para a aplicação ou execução das técnicas de terapia em um contexto interpessoal. As técnicas que foram apresentadas
em um contexto simulado agora devem ser dominadas e aplicadas com atenção às necessidades emocionais do cliente.
Questões  abstratas  que  são  apropriadas  ao  ambiente  acadêmico  transformam­se  em  questões  pragmáticas  para  reduzir  a
possibilidade de erro no raciocínio do aluno. Por exemplo, em vez de pensar sobre a função de um cliente na cozinha a partir de
uma perspectiva abstrata, o estudante precisa pensar sobre a função do cliente no contexto de uma determinada cozinha em um
apartamento  pequeno  e  atender  às  preocupações  do  cliente  sobre  papéis,  atividades,  família  e  ambiente  domiciliar.  Como  o
estudante reconhece que suas ações têm influência sobre a vida do cliente, a tolerância com a ambiguidade ou a incerteza diminui
durante o estágio supervisionado.

TABELA 26.1 DIFERENÇAS ENTRE OS AMBIENTES ACADÊMICO E DE ESTÁGIO SUPERVISIONADO
Característica Ambiente Acadêmico Ambiente de Estágio Supervisionado
Objetivo Disseminação do conhecimento, Fornecer cuidado de alta qualidade para o cliente
desenvolvimento do raciocínio criativo,
crescimento do estudante
Responsabilidade da Com o estudante, com a Com o cliente e parentes, com a equipe e o local do
faculdade/supervisor universidade/faculdade estágio supervisionado, com o estudante
Responsabilidade do Consigo próprio Com os clientes e parentes, com o supervisor e a equipe,
estudante com o local do estágio supervisionado
Ritmo Depende do currículo, adaptável às Depende das necessidades dos clientes, menos
necessidades do estudante e da adaptável, formatado pelos procedimentos da instituição
faculdade
Proporção Muitos estudantes para um membro Um estudante para um supervisor, pequenos grupos de
estudante/supervisor da faculdade estudantes para um supervisor, um ou dois estudantes
para dois supervisores
Fonte de Aditivo na metade ou final do período, Fornecido pelos clientes e parentes, supervisor e outros
retroalimentação fornecido pela faculdade membros da equipe; formativo
Grau de controle da Capaz de planejar, controlado Controle limitado, vários diagnósticos e duração da
faculdade/supervisor permanência do cliente, ritmo de estabelecimento e
da experiência tamanho da carga de trabalho variam de um ambiente
educacional para outro
Principal instrumento Livros, artigos em periódicos, Situação de prática; clientes, famílias, parentes e equipe;
de aprendizado congressos, materiais audiovisuais, pode ser pessoalmente ou eletrônico (p.ex., webcams, e­
estudos de caso, simulações, mail)
aparelhos, internet
Aprendizado Abstrato, teórico Pragmático, aplicado ao contexto interpessoal
conceitual
Processo de Dirigido pelo professor Dirigido pelo cliente, por si próprio, por colegas, pelo
aprendizagem supervisor
Tolerância à Alta Baixa
ambiguidade
Estilo de vida Flexível, capaz de planejar o tempo Estruturado, tempo flexível limitado às noites e aos finais
em função do horário da aula de semana
Contextos Sala de aula da universidade ou Hospitais, escolas, clínicas de repouso, creches,
faculdade, aprendizado online programas de tratamento­dia, agências comunitárias,
casa dos clientes

No  ambiente  acadêmico,  os  estudantes  são  responsáveis  principalmente  por  si  próprios,  sendo  o  desempenho  avaliado  com
base na soma de testes, exercícios e graus. Os estudantes escolhem se revelam suas notas para a família ou os colegas, e o seu
desempenho não afeta os outros. No estágio supervisionado, o desempenho de um estudante é avaliado com base na formação,
podendo ser discutido por toda a equipe de saúde, principalmente nas reuniões de equipe. O desempenho não é mais um tema
privado  como  na  escola,  mas  é  discutido  publicamente  porque  tem  consequências  diretas  e  críticas  para  os  clientes.  Colegas,
clientes  e  suas  famílias  podem  oferecer  uma  retroalimentação  significativa.  Embora  todas  essas  oportunidades  possam  causar
desequilíbrio ou tensão, elas também constituem novas maneiras pelas quais os estudantes aprendem sobre si próprios e sobre
sua profissão. A experiência abrangente e diversificada no ambiente de estágio desafia os estudantes a redefinirem seu próprio
sentido.
O estágio supervisionado acontece em uma situação sobre a qual os supervisores de estágio têm pouco controle. Os fatores de
organização do ambiente de cuidado de saúde, combinados aos fatores de cuidado do cliente, como a natureza e a complexidade
do  problema  do  cliente,  a  duração  da  permanência  e  a  flutuação  na  quantidade  de  clientes,  dificultam  o  planejamento,
principalmente  nos  ambientes  de  tratamento  intensivo.  Nas  instituições  que  oferecem  tratamento  para  pacientes  crônicos,  no
entanto, os supervisores de estágio são capazes de planejar antecipadamente, porque a população de clientes é mais constante e o
supervisor de estágio sabe quais clientes estarão disponíveis durante a permanência do estudante.
A principal responsabilidade dos supervisores de estágio é o tratamento do cliente; eles têm o imperativo ético de garantir o
bem­estar  dos  clientes.  Esta  ética  profissional  apropriada  pode  restringir  atividades  desejáveis  do  ponto  de  vista  da  formação
profissional. No entanto, a relação de supervisão possibilita que os supervisores de estágio adaptem­se às restrições do ambiente.
Esta  relação  singular  é  um  aspecto  positivo  do  ambiente  de  estágio  supervisionado  porque  os  supervisores  podem  adaptar  as
experiências do estágio para atender as necessidades do aluno.
O exame das percepções dos supervisores sobre os estudantes bem­sucedidos no estágio supervisionado apontou importantes
temas  de  experimentação  ativa  como  parte  do  processo  de  aprendizagem,  incluindo  adaptação  e  realização,  bem  como  ser
flexível  e  engajar­se  no  trabalho  em  equipe  (Herzberg,  1994).  Uma  revisão  da  literatura  sobre  o  sucesso  do  estágio
supervisionado identifica inúmeros atributos positivos para promover a participação do estudante (Sladyk, 2002, p. 8), conforme
resumido no Boxe 26.1. A consciência desses atributos e características, além das estratégias positivas de enfrentamento, pode
ajudar os estudantes na preparação e participação nas situações do estágio supervisionado.
A exploração das estratégias de enfrentamento dos estudantes e de suas percepções do estágio supervisionado demonstrou que
a maioria considera a experiência importante, enquanto mais da metade deles considerou a experiência estressante (Mitchell &
Kampfe, 1993). Os estudantes no estágio supervisionado de Nível II investem significativamente mais esforços em estratégias
positivas de enfrentamento ao se focarem no problema, elaborando um plano de ação e seguindo­o, e procurando suporte social
para obter informações, aconselhamento ou suporte emocional. Esses resultados verificam condutas saudáveis e “habilidades de
enfrentamento para lidar com a transição do estágio supervisionado e com o estresse” (Mitchell & Kampfe, 1993, p. 537). Os
alunos utilizaram com menor frequência as estratégias consideradas negativas, como culpar os outros, lamentar­se, ou retrair­se,
demonstrando  que  eles  dispõem  de  habilidades  saudáveis  de  enfrentamento  para  apoiar  sua  participação  nas  transições
associadas ao estágio supervisionado.

ATRIBUTOS POSITIVOS DOS ESTUDANTES BEM­SUCEDIDOS NO ESTÁGIO
SUPERVISIONADO

Demonstrar interesse na área de atuação e na profissão
Demonstrar preocupação com as necessidades e os problemas do cliente
Considerar a segurança como prioridade
Assumir a responsabilidade por sua atitude e seus comportamentos
Gestão do tempo
Adesão aos prazos e às reuniões obrigatórias
Busca de informações adicionais
Prática das habilidades
Audiência
Uso efetivo do tempo de supervisão
Troca de retroalimentação com o supervisor
Aceitação de críticas
Evitar desculpas
Exploração de novas abordagens ou novos projetos
Participação na resolução criativa de problemas

Sladyk (2002)

Um modelo de adaptação ocupacional do desenvolvimento profissional, como aplicado ao estágio supervisionado de Nível
II,  delineia  três  classes  de  comportamentos  de  resposta  adaptativa:  primitiva,  transicional  e  madura,  que  são  tipicamente
demonstradas  por  todos  os  estudantes  (Garrett  &  Schkade,  1995).  Quando  confrontados  com  situações  que  percebem  como
muito difíceis ou desconhecidas, os estudantes tendem a regredir para comportamentos de nível inferior. Este modelo pode ser
um recurso útil tanto para estudantes no estágio supervisionado, a fim de avaliar seus próprios comportamentos, como para seus
supervisores, de modo a ajudar a compreender as implicações e o ritmo para o aumento da carga de trabalho e fornecer novos
desafios de aprendizado durante o estágio supervisionado.

PAPÉIS E RESPONSABILIDADES DE ESTUDANTES E SUPERVISORES
Após  completarem  as  disciplinas  que  são  pré­requisito  no  curso  de  graduação,  os  estudantes  de  terapia  ocupacional  e  de
assistência  em  terapia  ocupacional  são  elegíveis  para  o  início  de  suas  experiências  no  estágio  supervisionado.  Em  geral,  os
coordenadores  acadêmicos  de  estágio  supervisionado  são  responsáveis  pelos  arranjos  administrativos  que  promovem  a
participação dos estudantes nas experiências do estágio supervisionado, de acordo com as metas do currículo e com as políticas
das instituições e do sistema de cuidados de saúde associados. Diretrizes e objetivos claramente definidos ajudam os estudantes a
organizarem  seus  esforços  para  atingir  a  competência  profissional.  Trabalhar  para  obter  o  domínio  das  habilidades  de  nível
inicial necessárias para a alta qualidade do cuidado do cliente é um compromisso mútuo entre os supervisores de estágio e os
estudantes.  Ambos  assumem  a  responsabilidade  primária  pelo  processo  de  avaliação  do  progresso  dos  estudantes  e  de
modificação  da  experiência  de  aprendizagem  dentro  da  instituição,  após  prévia  consulta  ao  coordenador  de  estágio
supervisionado, quando apropriado. Veja a Tabela 26.2 para saber como cada pessoa contribui e participa no processo global do
estágio supervisionado.

Diretrizes do Supervisor de Estágio
O papel das pessoas responsáveis por supervisionar os estudantes é formalmente designado como supervisor de estágio, embora
os  termos  supervisor  clínico,  preceptor  de  estágio  e  supervisor  de  estudante  também  sejam  comumente  utilizados  (AOTA,
2000). Os responsáveis pelo programa do estágio supervisionado e pela supervisão direta dos estudantes de terapia ocupacional
devem ser terapeutas ocupacionais que atendam às leis e regulamentos da prática e tenham o mínimo de um ano de experiência
prática,  além  do  exigido  para  a  certificação  inicial  (ACOTE,  2007;  CAOT,  2005).  Para  estudantes  de  assistência  em  terapia
ocupacional,  a  supervisão  pode  ser  fornecida  por  um  terapeuta  ocupacional  registrado  ou  por  um  assistente  de  terapia
ocupacional  certificado,  também  com  um  mínimo  de  um  ano  de  experiência.  Embora  o  requisito  mínimo  seja  um  ano  de
experiência, os supervisores de estágio devem ser profissionais competentes que possam servir como bons modelos de papel ou
mentores  para  os  futuros  profissionais.  Por  fim,  o  supervisor  de  estágio  empenha­se  em  desenvolver  e  proporcionar  a  melhor
oportunidade  para  a  aplicação  dos  conceitos  teóricos  oferecidos  como  parte  do  programa  de  formação  acadêmica,  ao  mesmo
tempo  que  cria  um  ambiente  que  facilite  o  aprendizado,  o  questionamento,  o  autodirecionamento  e  a  reflexão  sobre  a  própria
prática.

TABELA 26.2 PAPÉIS E RESPONSABILIDADES NO ESTÁGIO SUPERVISIONADO
Papéis Responsabilidades
Coordenador Acadêmico de Serve como um mediador e colaborador entre a faculdade e os supervisores de estágio,
Estágio Supervisionado garantindo  a  integração  das  metas  curriculares  ao  estágio  supervisionado  (ACOTE,
(AFWC) 2007)
Seleciona os locais de treinamento e designa os estudantes
Lida  com  as  exigências  administrativas,  como  contratos  e  registros  de  saúde  dos
estudantes
Disponível para orientação dos supervisores de estágio e dos estudantes
Supervisor de Estágio Atende  às  exigências  de  elegibilidade  para  o  papel  de  supervisão,  quando  aplicável
(ACOTE, 2007; Canadian Association of Occupational Therapy, 2005)
Engaja­se  na  colaboração  administrativa  com  o  AFWC  para  determinar  e  agendar  os
encaminhamentos
Fornece supervisão cotidiana ao estudante
Realiza a avaliação de desempenho do estudante, quando designado
Estrutura o aprendizado e cria um ambiente positivo de aprendizado
Estudante Completa todas as tarefas identificadas pelos supervisores de estágio supervisionado e
coordenadores acadêmicos de estágio supervisionado dentro dos prazos estabelecidos
Adere aos padrões profissionais identificados pela instituição de estágio supervisionado,
pelo curso de graduação e pelo Código de Ética da Terapia Ocupacional (AOTA, 2005)

Avaliação do Estágio Supervisionado
Com frequência, os estudantes recebem retroalimentação informal durante as reuniões de supervisão. No entanto, os mecanismos
formais para o fornecimento da retroalimentação e para a avaliação de desempenho, julgamentos e atitudes de um estudante são
construídos sobre a experiência do estágio supervisionado. A avaliação do estágio supervisionado tem duas finalidades distintas.
Uma delas é o processo formativo, contínuo, de direcionamento do aluno ao aprendizado durante toda a experiência do estágio
supervisionado;  a  outra  é  aditiva,  documentando  o  nível  atingido  de  habilidade  ao  término  da  experiência  do  estágio
supervisionado.  Embora  esses  dois  processos  sejam  diferentes,  eles  não  são  mutuamente  exclusivos.  O  processo  formativo
acontece  durante  toda  a  experiência  do  estágio  supervisionado,  de  modo  que  estudantes  e  supervisores  de  estágio  possam
comparar percepções, avaliar as atividades do estudante importantes e as menos importantes, revisar os objetivos, planejar novas
oportunidades de aprendizado e fazer as modificações necessárias nos comportamentos. O segundo processo, que é cumulativo,
requer a documentação do desempenho de um estudante no ponto médio do processo e após o término da experiência de estágio
supervisionado.
Nos  Estados  Unidos,  a  Avaliação  de  Desempenho  do  Estágio  Supervisionado  para  o  Estudante  de  Terapia  Ocupacional
(FWPE/OTS)  (AOTA,  2002b)  e  a  Avaliação  de  Desempenho  no  Estágio  Supervisionado  para  o  Estudante  de  Assistência  em
Terapia Ocupacional (FWPE/OTAS) (AOTA, 2002a) são instrumentos próprios, adotados pela Comissão de Educação da AOTA,
em 2002 (Atler, 2003). Independente de um sistema numérico de classificação, os formulários dispõem de espaço para que os
supervisores  acrescentem  ou  qualifiquem  seus  escores  com  descrições  e  comentários  por  escrito  (Atler,  2003).  A  intenção  da
avaliação do estágio supervisionado não é diferenciar os estudantes, mas mensurar sua aquisição de competências específicas do
nível  de  graduação.  Usualmente,  uma  profissão  define  seus  limites  ao  estabelecer  critérios  para  a  graduação.  Na  terapia
ocupacional,  a  experiência  do  estágio  supervisionado  é  um  componente  essencial  dos  critérios  de  graduação.  O  término  bem­
sucedido do estágio supervisionado de Nível II é uma exigência para a certificação como terapeuta ocupacional registrado (OTR)
ou como assistente de terapia ocupacional certificado (COTA) (National Board for Certification in Occupational Therapy, 2007).
O estágio supervisionado provê aos estudantes situações para praticar habilidades interpessoais com os clientes e com a equipe e
para  desenvolver  características  essenciais  para  as  relações  produtivas  de  trabalho  (AOTA,  2000).  Os  futuros  empregadores
querem a garantia de que os estudantes atendem às exigências do nível de graduação. Os dados do FWPE podem ser sintetizados
para servir como referências para um emprego.
Em  nível  internacional  existe  uma  tendência  para  o  uso  de  abordagens  padronizadas  para  avaliação  do  desempenho  do
estudante  no  estágio  supervisionado.  A  Avaliação  do  Estágio  Supervisionado  com  Base  na  Competência  para  Terapeutas
Ocupacionais  (CBFE­OT)  (Bossers,  Miller,  Polatajko  e  Hartley,  2001),  amplamente  utilizada  no  Canadá  e  no  Reino  Unido,
destina­se  para  uso  em  qualquer  nível  de  estágio  supervisionado,  em  qualquer  área  de  atuação.  Este  instrumento  é  usado  em
conjunto  com  um  contrato  de  aprendizado  associado  a  cada  competência.  Na  Austrália,  oito  entre  dez  programas  acadêmicos
adotaram  o  uso  do  Formulário  de  Avaliação  da  Colocação  do  Estudante  (SPEF)  (Allison  &  Turpin,  2004;  University  of
Queensland,  1998).  Um  aspecto  característico  desse  instrumento  é  o  banco  de  itens,  agrupados  de  acordo  com  os  tipos  de
ambientes de prática, a partir do qual os supervisores podem selecionar os objetivos de aprendizado e os itens mais relevantes
para  avaliação  do  desempenho  do  estudante.  Vale  ressaltar  que  cada  um  desses  instrumentos  de  avaliação  do  estágio
supervisionado  destina­se  a  ser  utilizado  por  e  em  todos  os  ambientes  da  prática.  Ademais,  áreas  de  conteúdo  e  competência
similares são evidentes entre esses instrumentos, como observado na Tabela 26.3.

Avaliação do Estudante Sobre a Experiência do Estágio Supervisionado
Os  estudantes  também  têm  a  oportunidade  de  fornecer  uma  retroalimentação  aos  supervisores  do  estágio  e  à  instituição  do
estágio  supervisionado.  A  AOTA  (2006)  recomenda  o  formulário  Avaliação  do  Estudante  Sobre  as  Experiências  do  Estágio
Supervisionado (SEFWE). Este formulário permite que os estudantes forneçam retroalimentação sobre a orientação, a carga de
trabalho,  o  processo  de  terapia  ocupacional;  as  teorias,  estruturas  de  referência  e  modelos  de  prática;  as  áreas  do  estágio
supervisionado; as interações com o supervisor; os aspectos do ambiente, como as relações da equipe; e como toda a experiência
de aprendizagem se relacionou com o currículo acadêmico e o seu próprio desenvolvimento profissional. Os locais de estágio
supervisionado  utilizam  esta  informação  para  melhorar  os  programas  de  estágio,  e  os  cursos  de  graduação  compartilham  a
informação  com  os  futuros  estudantes  que  estejam  interessados  no  treinamento  naqueles  locais.  No  Canadá,  um  formulário
similar  é  utilizado  para  que  os  estudantes  forneçam  retroalimentação  aos  locais  de  estágio  supervisionado.  No  geral,  a
documentação da retroalimentação dos estudantes a respeito de suas experiências de estágio supervisionado é informação valiosa
tanto para o local de treinamento como para o curso de graduação.

TABELA 26.3 AVALIAÇÃO DO ESTÁGIO SUPERVISIONADO NOS ESTADOS UNIDOS, AUSTRÁLIA, CANADÁ E REINO
UNIDO
Autores e FWPE/OT (EUA) FWPE/OTA (EUA) SPEF (Austrália) CBFE­OT (Canadá,
Avaliações do (AOTA, 2002b) (AOTA, 2002a) (University of Reino Unido)
Estágio Queensland, 1998) (Bossers et al., 2001)
Supervisionado
Finalidade Mensurar a competência Mensurar a competência Avaliar o desempenho Avaliar o aprendizado
do estudante de terapia do estudante de do estudante no estágio e o desempenho de
ocupacional no nível de assistência em terapia supervisionado um estudante
graduação ocupacional no nível de
graduação
Conteúdo: Fundamentos da Fundamentos de Prática profissional Conhecimento
Áreas de prática prática Habilidades de da prática
Competência Conceitos básicos Conceitos básicos autogestão Raciocínio clínico
Habilidades de Facilitação da
Avaliação/investigação Avaliação/investigação comunicação mudança com
Tratamento Tratamento Documentação um processo
Gestão de serviços Comunicação Avaliação/obtenção prático
de TO Comportamento de informação Interações
Comunicação profissional Tratamento profissionais
Comportamento Avaliação Comunicação
profissional Habilidades de Desenvolvimento
grupo (opcional) profissional
Gestão de
desempenho
Número de 42 25 Variável; banco de Variável; os objetivos
itens itens, selecionado pelo de aprendizado são
supervisor; os itens estabelecidos para
variam por: cada local de estágio
contato direto com supervisionado
o cliente quando relevante
gestão de caso para a instituição
gestão de
projeto/parecer
Escala de 4 pontos 4 pontos 5 pontos 3 pontos
quantificação
Avaliação Metade do período, final Metade do período, final Metade do período Metade do período,
(parcialmente) final final

CONCLUSÃO
O  estágio  supervisionado  é  o  início  de  um  processo  que  relaciona  a  teoria  à  prática  para  toda  a  vida.  A  profundidade  da
experiência  depende,  em  grande  parte,  do  grau  em  que  os  estudantes  e  os  supervisores  de  estágio  compartilham  a
responsabilidade pelo ensino e pelo aprendizado. Os atuais sistemas de prestação de serviços humanos e de saúde em constante
mutação estão proporcionando novas oportunidades para a prática da terapia ocupacional e supervisão no estágio supervisionado.
Em  nível  global,  a  profissão  se  interessa  por  abordagens  inovadoras  para  melhorar  a  qualidade  do  estágio  supervisionado,  ao
mesmo tempo que considera as condições de saúde, econômicas, educacionais e sociais de cada país (Bonello, 2001). Para serem
bem­sucedidos nessas situações dinâmicas e complexas, os profissionais devem ser capazes de fazer julgamentos com base em
entrevista,  análise  e  reflexão  sobre  a  prática  cuidadosa,  a  fim  de  apoiar  seus  clientes  na  melhoria  de  suas  participações  nas
atividades diárias e sociais e na qualidade de vida global.

AGRADECIMENTO
Um sincero agradecimento a Ellen S. Cohn por sua extensa orientação e pelo fornecimento de conceitos fundamentais como base
para este capítulo desde a décima edição do Williard & Spackman’s Occupational Therapy.

QUESTÕES INSTIGANTES
1. Como a profissão pode reconciliar a tensão entre a evolução do estágio supervisionado na prática emergente, em que pode
não  haver  um  supervisor  de  terapia  ocupacional  no  local,  e  a  tendência  de  aumento  das  regulamentações  que  exigem  a
supervisão direta, como o Medicare nos Estados Unidos?
2. Você é um estudante interessado em uma oportunidade de estágio supervisionado de Nível II em um ambiente de saúde e
bem­estar. No entanto, seu curso de graduação estabeleceu convênios de estágio apenas com hospitais, escolas e instituições
particulares de cuidados de saúde. Como você poderia proceder para comunicar suas metas de aprendizado e desenvolver
um plano de ação para explorar a possibilidade de desenvolver um novo tipo de experiência de estágio supervisionado de
Nível II?

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Author.
Questões para Prática da Terapia
Ocupacional
JOHN WHITE

Sumário
Questões Abertas
Mudança Rápida
Ameaças à Prática
Ameaças Externas
Ameaças Internas
Justiça Ocupacional
Resumo

Objetivos de Aprendizagem
Após a leitura deste capítulo, você será capaz de:

1. Descrever  exemplos  da  prática  atual  da  terapia  ocupacional  baseada  no  indivíduo  e  na
população.
2. Refletir  e  debater  questões  fundamentais  que  ajudam  a  fornecer  informações  para  decisões
sobre as práticas atual e futura da terapia ocupacional.
3. Desenvolver questões que fundamentem as críticas à prática atual da terapia ocupacional.
4. Identificar  as  possíveis  orientações  para  o  desenvolvimento  da  prática  futura  da  terapia
ocupacional.
5. Descrever as ameaças e as oportunidades para o desenvolvimento futuro da terapia ocupacional.
6. Identificar  e  descrever  quem  é  mais  bem  atendido  pelos  recursos  existentes  da  terapia
ocupacional e como esses serviços serão mais bem fornecidos e distribuídos.

Vivo na Possibilidade –
Uma casa mais agradável que a Prosa –
Com mais Janelas –
Que – Portas

De Quartos como os Cedros –
Invencíveis aos Olhos –
E como um Teto Eterno –
O Telhado do Céu

Dos Visitantes – o mais agradável –
Para a Ocupação – Esta –
Abre minhas Mãos fechadas –
Para ganhar o Paraíso

— EMILY DICKINSON

V
iver  nas  possibilidades”  é  tão  natural  para  os  profissionais  de  terapia  ocupacional  quanto  a  crença  na
relação entre ocupação e saúde (Meyer, 1977; Rebeiro, 2001; Wilcock, 1993, 1998a, 1998b; Yerxa, 1998).
A  terapia  ocupacional  enfrenta  as  limitações  que  ambientes,  circunstâncias,  comprometimentos,  políticas  e
situações socioculturais impõem às pessoas e busca possibilidades para criar vidas plenas e satisfatórias. Neste
capítulo,  iremos  explorar  as  visões  de  possíveis  futuros  para  a  terapia  ocupacional  a  partir  de  perspectivas
individuais e organizacionais.

QUESTÕES ABERTAS
Como estamos nos saindo como uma profissão para criar possibilidades para os clientes que mais necessitam de
nossos serviços? Estamos fazendo o melhor que podemos? Em caso negativo, o que nos está impedindo de fazer
o  melhor?  Quem  está  sendo  atendido  por  nossas  atividades:  clientes,  sistemas  de  cuidados  de  saúde,  fontes
pagadoras, nós próprios? Para onde iremos no futuro? Este capítulo aborda estas e outras questões correlatas a
fim  de  levar  o  terapeuta  a  refletir  sobre  a  relevância  de  nossa  prática  atual  e  quão  bem  ela  corresponde  às
necessidades  mais  apropriadas  daqueles  a  quem  servimos.  Ao  abordar  estas  questões,  a  prática  da  terapia
ocupacional nos Estados Unidos será o ponto de referência primário, mas também serão utilizados exemplos de
prática  em  outros  países.  Em  primeiro  lugar,  abordarei  os  exemplos  de  mudanças  no  campo  de  atuação  e,  em
seguida, identificarei algumas ameaças significativas à nossa viabilidade. Durante todo o capítulo, apresentarei
questões para reflexão à medida que caminhamos para um futuro em rápida mutação.

MUDANÇA RÁPIDA
A  sociedade  está  mudando  em  uma  velocidade  dramática  e  imprevisível,  assim  como  está  aumentando  em
complexidade  em  certas  áreas,  como  tecnologia,  conhecimento,  política  e  cultura.  A  terapia  ocupacional  faz
parte  desta  “hipermudança”  –  a  mudança  que  é  rápida,  imprevisível,  caótica  e  turbulenta  (Hinojosa,  2007;
Weiner  &  Brown,  2006).  Nos  30  anos  em  que  tenho  atuado,  principalmente  nos  últimos  15  anos,  houve  uma
explosão de mudanças na terapia ocupacional. Estas mudanças ocorreram na formação profissional e na prática
da  terapia  ocupacional,  assim  como  nos  cuidados  de  saúde,  na  política  e  na  tecnologia.  Consideraremos  os
exemplos de mudança na teoria, na pesquisa e na tecnologia.
Parte  da  mudança  na  formação  profissional  e  na  prática  da  terapia  ocupacional  tem  sido  direcionada  pela
modificação  das  teorias  relacionadas  à  terapia  ocupacional.  Por  exemplo,  muitas  das  modificações  teóricas  e
algumas das mudanças na prática foram incentivadas pelo advento da ciência ocupacional (p. ex., teorias que
são abordadas na Unidade I), bem como por novas abordagens para avaliação, tratamento, formação profissional
e  pesquisa.  A  ciência  ocupacional  é  apenas  uma  das  muitas  influências  sobre  teoria  e  prática  dinâmicas.  A
prática e a teoria no Canadá, por exemplo, foram levadas a mudar por pressão do ministro da Saúde do Canadá
para  que  a  associação  nacional  de  terapia  ocupacional  se  desenvolvesse  a  partir  de  diretrizes  de  prática  mais
centradas no cliente (Law et al., 2005). O resultado foi o Modelo Canadense de Desempenho Ocupacional (Law,
1998; Law, Baptiste & Mills, 1995), que trouxe o conceito de espiritualidade para o domínio de preocupação da
terapia ocupacional (Christiansen, 1997; Collins, 1998; Crepeau, 1991; Egan & De Laat, 1994; Townsend, De
Laat,  Egan,  Thibeault  &  Wright,  1999;  Urbanowski  &  Vargo,  1994)  e  assegurou  um  processo  de  avaliação  e
tratamento centrados na pessoa.
A abordagem para conduzir e utilizar pesquisa em terapia ocupacional foi modificada dramaticamente com o
advento da prática baseada em evidência (EBP) como uma forma modificada da medicina baseada em evidência
(EBM).  Embora  a  EBM  tenha  sido  introduzida  nos  anos  1970  (Cochrane,  1972),  ela  não  exerceu  influência
significativa sobre a terapia ocupacional até o final dos anos 1990. A EBP surgiu nesse período no Reino Unido
(Culshaw,  1995;  Eakin,  1997)  e  espalhou­se  rapidamente  para  os  Estados  Unidos  e  o  Canadá  (Hayes  &
McGrath, 1998; Law, 1998; Ottenbach & Maas, 1999). Atualmente, a EBP está se tornando uma força condutora
na formação profissional e prática da terapia ocupacional (Baum, 2006; Corcoran, 2006) e em outras áreas. Eu
exploro as questões relativas à EBP mais adiante neste capítulo.
No  âmbito  da  tecnologia  dinâmica,  os  computadores  domésticos  ou  de  consultório  ainda  pareciam  ficção
científica  em  1976,  embora  menos  de  10  anos  depois  eu  já  utilizasse  programas  simples  de  retreinamento
cognitivo  em  um  computador  Apple®  e  aprendia  sobre  um  sistema  de  reconhecimento  de  voz  que  custava
US$25.000 (um programa similar custa atualmente cerca de US$100). Hoje, a tecnologia de assistência evolui
com mais rapidez do que muitos terapeutas podem acompanhar, e inovação tecnológica está tornando possível a
participação de pessoas com incapacidades em ocupações apenas sonhadas cerca de 20 anos atrás (Cate & Perez,
2004; Gentry, 2005; Lange & Brians, 1995). Como podemos melhor incorporar a tecnologia em nosso campo de
atuação que há muito tem celebrado a conexão entre os seres humanos?
As  mudanças  na  tecnologia,  o  papel  da  EBP  e  as  teorias  são  apenas  alguns  dos  muitos  exemplos  que  têm
efeitos  potencialmente  profundos  sobre  a  profissão  e  as  condições  da  prática.  Quando  consideramos  a  força
combinada  de  todas  as  possíveis  modificações  globais  e  locais  que  afetam  a  prática,  começamos  a  observar  a
influência da hipermudança. Com frequência, diz­se que a mudança é boa para nós, mas, em geral, é desafiadora
e pode ser ameaçadora se sentimos que nossa segurança ou nossos pa péis e rotinas estabelecidos estão em risco.
Se  alguma  mudança  é  boa,  a  hipermudança  é  melhor  –  ou  apenas  mais  ameaçadora?  Nossa  resposta  é
determinada  em  grande  parte  pela  maneira  como  somos  preparados  para  lidar  e  nos  adaptar  às  mudanças.  O
“pensamento  futuro”,  ou  raciocínio  e  resolução  antecipados  de  problemas,  é  uma  abordagem  que  Weiner  e
Brown (2006) recomendam como sendo a maneira mais efetiva de evitar os estresses e os resultados negativos
em  meio  aos  eventos  turbulentos  que  envolvem  a  hipermudança.  Estas  são  algumas  etapas  do  pensamento
futuro:
1. Empreender uma análise completa da situação ao fazer boas perguntas e não apenas procurar pelas respostas
que você espera encontrar, mas procurar por aquelas que sejam parte da realidade.
2. Buscar o cenário maior em seu contexto mais holístico ao relacionar eventos e tendências para os padrões
gerais e as principais conexões.
3. Relacionar a informação à ação. Uma vez que você compreenda o cenário maior em seu contexto pleno e
saiba como proceder, empreenda a ação para executar a solução a fim de evitar os bloqueios que conduzem
à inércia (Weiner & Brown, 2006).

AMEAÇAS À PRÁTICA
Considerando a extensão da mudança atual, pode ser que a própria mudança seja uma ameaça à profissão. Nós
analisaremos agora algumas ameaças externas e internas à terapia ocupacional.

Ameaças Externas
As ameaças externas  ao  sucesso  da  profissão  como  um  todo  são  mais  facilmente identificadas. Estas ameaças
garantem a ação se pretendemos utilizar nosso “potencial para criar um impacto significativo sobre o mundo do
futuro” (Yerxa, 2003, p. 979) ao promover um “novo conceito de saúde” que estimule a ação e a participação
daqueles  a  quem  servimos  (Yerxa,  2003,  p.  978).  Um  dos  maiores  desafios  externos  para  o  crescimento  e  o
sucesso sustentado em terapia ocupacional é a fonte de pagamento pelos serviços de terapia ocupacional, quer no
mercado  privado,  quer  em  sistemas  de  saúde  custeados  pelo  governo,  juntamente  com  a  pressão  sempre
crescente e os desafios éticos correlatos para o aumento da produtividade do terapeuta (Howard, 1991; Slater,
2006). Por exemplo, nos Estados Unidos, o reembolso por serviços de reabilitação em instituições especializadas
de  enfermagem  foi  severamente  reduzido  em  1999.  Neste  caso,  a  política  governamental  foi  a  principal
responsável pela redução do pagamento pelos serviços (Daus, 1999). Esta mudança no pagamento pelos serviços
aconteceu  logo  após  as  mudanças  nos  sistemas  de  saúde,  como  o  advento  de  práticas  de  gestão  do  cuidado
(Christiansen,  1996).  Estas  crises  profissionais  (Baptiste  &  Martin,  1994;  Fine,  1998;  Wood,  1998)  foram
precedidas por uma modificação constante da abordagem para o reembolso por seguradoras federais, estaduais e
privadas  que  estabeleceram  quais  serviços  dos  terapeutas  ocupacionais  seriam  pagos  ou  não  (Walker,  2001).
Orçamentos mais restritos para serviços de terapia levam à necessidade de aumento da produtividade em termos
de  “unidades  de  tratamento”  (a  unidade  de  tempo  de  tratamento  que  é  cobrada  na  conta  do  cliente)  cada  vez
maiores.  Um  tipo  distinto  de  crise  de  recursos  acontece  em  algumas  nações  em  desenvolvimento,  em  que  os
terapeutas  ocupacionais  deixam  seus  países  de  origem  para  buscar  oportunidade  de  prática  em  países  onde  os
salários  são  maiores,  muitas  vezes  após  serem  recrutados  por  companhias  nos  países  em  desenvolvimento
(Sinclair, 2005). Considerando nosso compromisso com o serviço ético e de alta qualidade, qual é nossa resposta
para a tendência que é essencialmente tirar do pobre para dar ao rico? Como equilibramos a liberdade individual
para atuar onde quer que desejemos e a necessidade de prestar serviços onde eles sejam mais necessários?
A disputa da “corrida” profissional, frequentemente realizada no nível de licenciamento profissional, é uma
ameaça crescente, pois outros grupos profissionais clamam por áreas de atuação que tradicionalmente têm sido
mantidas  invioláveis  pela  terapia  ocupacional  (veja  a  seção  “alertas  quanto  à  prática”  em  www.aota.org  para
diversas  questões  da  competição).  Certamente,  existem  desafios  que  devem  ser  abordados  pelos  membros  da
profissão por meio da atividade e da defesa do indivíduo e da organização. Quando desafiados dessa maneira por
grupos  que  se  consideram  capazes  de  realizar  o  trabalho  tradicionalmente  defendido  pelos  terapeutas
ocupacionais, é primordial que nos perguntemos: “O que fazemos que seja tão próprio da terapia ocupacional e
que não seja redundante às profissões correlatas?” Por exemplo, o que torna a terapia de mão uma parte singular
e  obviamente  especial  da  terapia  ocupacional?  Existem,  na  literatura,  exemplos  de  terapia  de  mão  baseada  na
ocupação  que  iniciam  com  a  avaliação  centrada  no  cliente  (Amini,  2004;  Earley  &  Shannon,  2006).  Eles
comprovam ser exclusivamente terapia ocupacional e ao mesmo tempo ser mais efetivos do que as abordagens
centradas na patologia? O que diferencia o atendimento da terapia ocupacional do atendimento da terapia com
atividade ou da fisioterapia em uma instituição de cuidados de longo prazo (Atwal, 2003) ou do trabalho social
em um programa comunitário de saúde mental (Rebeiro, Day, Semeniu, O’Brien & Wilson, 2001)?
Considerando  os  modelos  de  prática  inovadores  e  emergentes  a  partir  de  exemplos  internacionais,  como
nossos  recursos  são  mais  bem  aplicados  a  populações  relativamente  novas?  Novos  modelos  de  atuação  são
observados  na  terapia  ocupacional  para  crianças  que  sobreviveram  à  guerra  em  Kosovo  (Algado  &  Burgman,
2005)  e  na  defesa  e  participação  de  crianças  com  HIV/AIDS  na  África  do  Sul  por  meio  da  brincadeira
(Ramugondo,  2005).  Outro  exemplo  ainda  é  o  compartilhamento  do  poder,  utilizando  abordagens  como  a
reabilitação  baseada  na  comunidade  (CBR),  que  aplica  abordagens  tradicionais  de  reabilitação  em  ambientes
comunitários  para  lidar  com  a  segregação  ocupacional  e  a  privação  ocupacional  (Kronenberg  &  Pollard,
2005).
Se  conseguimos  abordar  com  sucesso  as  questões  desta  seção,  devemos  ser  capazes  de  evitar  o  risco
identificado por Mary Reilly ao descrever um dilema potencial para a profissão, já que a necessidade de serviços
relevantes do ponto de vista ocupacional sempre existirá, porém cabe à terapia ocupacional dar o máximo de sua
contribuição singular à sociedade, garantindo a sobrevivência da profissão. Reilly disse que, mesmo se a terapia
ocupacional  estivesse  prestes  a  fracassar  como  profissão,  outro  grupo  em  condição  semelhante  surgiria  para
“servir à necessidade de ação da sociedade” (Reilly, 1962, p. 2).
Porém,  embora  estes  sejam  exemplos  significativos  de  ameaças  externas,  se  permitirmos  que  as  ameaças
profissionais  internas  nos  impeçam  de  desenvolver  nosso  potencial  máximo  para  servir  àqueles  que  mais
necessitam de nossos serviços, haverá pouca força ou estrutura que possamos utilizar para descobrir maneiras de
enfrentar os desafios externos.

Ameaças Internas
Que forças internas ameaçam diminuir nossa eficácia em um mundo que necessita de nossos serviços? Alguns
exemplos  a  serem  explorados  aqui  incluem  a  questão  da  unificação  versus  a  diversificação,  a  tensão  entre  a
prática geral e a especialização e o papel das associações profissionais. Uma busca por concordância acerca de
nosso objetivo comum, nossos valores fundamentais e a teoria da unificação talvez seja um dos desafios mais
significativos  que  os  terapeutas  têm  enfrentado  nos  últimos  30  anos  (Engelhardt,  1977;  Hocking,  Whiteford,
Henare  &  Hansen,  1995;  Kimura,  1987;  Nelson,  1997;  Polatajko,  2006;  Whiteford,  Townsend  &  Hocking,
2000).  Ganhamos  mais  força,  credibilidade  e  valor  como  profissão  por  meio  da  diversidade  de  muitas
abordagens de prática ou nos beneficiaremos mais de uma conduta universal?
A  ciência  ocupacional  contribuiu  para  a  busca  de  um  núcleo  único  comum  que  se  iniciou  com  um  debate
inspirador sobre se a nova disciplina deveria ser distinta da terapia ocupacional (Clark et al., 1993; Mosey, 1992,
1993).  O  tempo  tem  mostrado,  cada  vez  mais,  que  a  evolução  da  ciência  e  a  da  terapia  estão  intrinsecamente
relacionadas, levando a novas teorias, aplicações e horizontes de pesquisa. Há uma crescente presença global já
que, no momento, existem pelo menos oito sociedades promovendo diferentes aspectos da ciência ocupacional
que influenciam a prática da terapia ocupacional em nível mundial (veja http://isos.nfshost.com/links.php).
Ainda  há  necessidade  de  determinar  quão  bem­sucedida  tem  sido,  na  verdade,  a  interação  entre  a  ciência
ocupacional e a terapia ocupacional, mas diversos exemplos demonstram as influências iniciais. Um é o notável
USC  Well­Elderly  Study  [Estudo  do  Idoso  Saudável  da  USC]  (Clark  et  al.,  1997;  Mandel,  Jackson,  Zemke,
Nelson & Clark, 1999), que demonstrou o aumento do valor do tratamento de terapia ocupacional pela pesquisa
da  ciência  ocupacional  para  melhorar  a  saúde  e  a  satisfação  com  a  vida  de  idosos  que  vivem  na  comunidade.
Outro  exemplo  da  influência  da  ciência  ocupacional  sobre  a  prática  fica  evidente  na  mudança  no  foco  das
apresentações  da  conferência  nacional  na  América  do  Norte,  no  Reino  Unido  e  na  World  Federation  of
Occupational  Therapy  (WFOT).  Antes  do  desenvolvimento  de  programas  de  doutoramento  e  de  outros
programas  da  ciência  ocupacional  a  partir  de  1989  (Clark  et  al.,  1991;  Yerxa  et  al.,  1989),  era  raro  o  uso  do
termo ocupação nos artigos da conferência nacional de terapia ocupacional. Atualmente, ocupação é destaque
nos títulos de programa, embora persista o desafio de desenvolver uma definição de ocupação universalmente
aceita e sua distinção de atividade (American Occupational Therapy Association, 1995; Baum & Edwards, 1995;
Evans,  1987;  Pierce,  2001;  Wilcock  &  Townsend,  2000;  Wu  &  Lin,  1999).  Os  programas  de  graduação  estão
incorporando  a  ciência  ocupacional  a  seus  currículos  na  esperança  de  preparar  os  estudantes  para  melhor
compreender  e  aplicar  a  ocupação  na  prática  (Behr,  Bass­Haugen,  Gordon,  Bennett  &  Henderson,  2003;
Henderson,  2004;  Hilton  &  Randolph,  2003;  Wilcock,  2003;  Wood  et  al.,  2000).  Por  fim,  as  associações
profissionais  em  vários  países  adotaram  diretrizes  de  prática  que  refletem  a  influência  da  pesquisa  da  ciência
ocupacional  e  do  desenvolvimento  da  teoria  (College  of  Occupational  Therapists,  2004;  Youngstrom  et  al.,
2002). A questão fundamental que surge dessa discussão é: a ciência ocupacional será uma força capaz de unir a
profissão  da  terapia  ocupacional  por  seu  foco  internacional  sobre  a  compreensão  da  ocupação  e  promoção  de
novas e mais efetivas abordagens para aplicar tal compreensão à prática?
A  especialização  é  outro  fenômeno  que  poderia  representar  uma  força  ou  uma  ameaça  potencial  para  a
profissão. Enquanto auxilia os profissionais a desenvolverem individualmente a experiência que eles necessitam
para abordar problemas específicos de alta complexidade, a especialização também pode diluir uma identidade
profissional comum e levar, potencialmente, a uma disputa por recursos. O debate não é exclusivo dos Estados
Unidos e está relacionado ao poder das organizações nacionais de terapia ocupacional no controle da questão da
especialização (Chacksfield,  2006;  Crawford­White,  1996;  Cromwell,  1979;  Knutsson, 1980). A ex­presidente
da  American  Occupational  Therapy  Association  (AOTA)  Mary  Foto  apresentou  uma  revisão  abrangente  de
argumentos  a  favor  e  contra  a  especialização  que  existem  nos  Estados  Unidos  desde  pelo  menos  1952.  Ela
propôs  uma  posição  de  compromisso  em  que  a  profissão  poderia  englobar  “especialistas,  generalistas  e
assistentes”.  No  entanto,  muito  trabalho  ainda  é  necessário  para  definir  claramente  os  diferentes  pa  péis  e
desenvolver  competências  claras  para  cada  um  deles  (Foto,  1996).  Foto  propôs  que  tal  trabalho  seria  mais
adequadamente realizado pela AOTA.
A  AOTA  aparentemente  respondeu  à  recomendação  de  Foto  com  o  desenvolvimento  de  conselhos  de
certificação  em  diversas  áreas  de  atuação,  como  saúde  mental,  pediatria  e  reabilitação  física,  bem  como  a
certificação  nas  especialidades  práticas  relacionadas  com  a  condução  de  veículos,  visão  reduzida  e  disfagia
(AOTA,  2007).  Outras  organizações  também  oferecem  certificação  de  especialidade  com  diferentes  critérios
para  a  obtenção  do  certificado.  Por  exemplo,  a  American  Society  of  Hand  Therapists  (ASHT)  concede  a
certificação  em  terapia  de  mão  por  meio  de  um  processo  rigoroso  e  extenso  (American  Society  of  Hand
Therapists,  2007;  Hand  Therapy  Certification  Commission,  2007).  Algumas  empresas  com  fins  lucrativos
oferecem  certificação  em  técnicas,  como  o  Teste  de  Integração  Sensorial  e  Praxia  (Western  Psychological
Services, 2007), ou procedimentos de tratamento, como o tratamento do edema linfático (Coast to Coast School
of  Lymphedema  Management,  2007).  Quais  são  as  implicações  para  tal  especialização  e  quem  está  sendo
adequadamente atendido por meio dessas certificações? Em que momento uma pessoa se torna um terapeuta de
mão  ou  especialista  em  linfedema  e  perde  sua  identidade  como  terapeuta  ocupacional?  Se  o  especialista  está
ajudando o cliente, importa que título profissional é utilizado para identificar o terapeuta? O cliente seria mais
bem atendido se a especialidade fosse exercida em contexto de terapia ocupacional autêntica (Wilcock, 1998a;
Yerxa, 1967)? Nós precisamos também nos questionar sobre as questões legais e éticas que surgem quando uma
pessoa  que  é  certificada  como  um  terapeuta  ocupacional  presta  serviços  que  têm  pouca  semelhança  com  a
terapia ocupacional, mas que estão sendo cobrados em nome da terapia ocupacional. Eu acredito que importam o
título do profissional e os tipos de prática que o profissional executa, e que a especialização deve agregar valor a
um tratamento que seja ministrado em concordância com os princípios de orientação da terapia ocupacional, não
tomando seu lugar ou os substituindo, de modo que se perca a identidade profissional de terapeuta ocupacional.
As  ameaças  podem  ser  o  lado  paradoxal  da  força.  Este  é  o  caso  das  associações  profissionais  que  são
geralmente vistas como uma força para evolução do campo de atuação, mas também podem ser encaradas como
um freio para a evolução por causa das tradições e burocracias enraizadas. Quais pa péis de nossa organização
profissional  são  mais  apropriados  para  nos  ajudar  a  lidar  com  um  mundo  em  rápida  mutação?  Hinojosa
(Hinojosa,  2007)  sugeriu  que,  se  esperamos  prosperar  em  uma  época  de  hipermudança,  nós  precisamos
considerar as questões desafiadoras relacionadas à estrutura de nossas organizações profissionais, à avaliação de
modo mais crítico e rápido das nossas atuações e à criação de paradigmas inovadores para lidar com a rápida
mudança  social  e  científica.  Uma  das  maneiras  pela  qual  a  AOTA  está  projetando  um  curso  para  o  futuro  da
terapia ocupacional nos Estados Unidos consiste no desenvolvimento e na promoção da Visão Centenária para
2017, que declara: “visualizamos que a terapia ocupacional é uma profissão poderosa, amplamente reconhecida,
dirigida pela ciência e baseada em evidência com uma força de trabalho globalmente conectada e diversificada
que atende às necessidades ocupacionais da sociedade” (AOTA, 2006) com ações sugeridas para realizar estas
metas. Esta visão capta a natureza singular e a contribuição da terapia ocupacional? Em caso positivo, esta visão
será adequada para enfrentar os desafios da hipermudança? A profissão está preparada para se posicionar para
realizar o trabalho que precisa estar pronto para incorporar a visão? Ao empreender a ação, a profissão praticará
o  bom  “pensamento  futuro”  (Weiner  &  Brown,  2006)?  Por  exemplo,  nossas  associações  profissionais  nos
levarão  a  abraçar  sem  questionamento  a  prática  baseada  em  evidência  como  um  critério  para  a  validação
profissional?

Prática Baseada em Evidência
Um fator externo que foi imposto, mas está sendo mantido pelas organizações profissionais e adotado na prática,
é a prática baseada em evidência (Holm, 2000, 2003). O que começou como a proposta de um epidemiologista
para  utilização  de  resultados  da  pesquisa  médica  relevante  para  orientar  a  tomada  de  decisão  sistemática
(Cochrane,  1972),  denominada  mais  tarde  medicina  baseada  em  evidência  (EBM),  transformou­se  em  um
fenômeno  mundial  que  a  maioria  dos  profissionais  de  saúde  adotou  como  a  mais  importante  característica  da
melhor prática. A agenda da EBM promove eficácia, eficiência e igualdade na prestação de serviços de saúde e
desenvolveu uma ética social de cuidado e distribuição igualitária dos serviços (Cochrane, 1972). Outras áreas,
incluindo a terapia ocupacional, adotaram uma abordagem semelhante à EBM, denominada prática baseada em
evidência  (EBP).  A  EBP  tem  claramente  potencial  para  melhorar  a  tomada  de  decisão  clínica  e  fomentar  o
crescimento e a aceitação da terapia ocupacional. No entanto, existe um risco inerente à pressa de abraçar a EPB
que ameaça nossa capacidade de demonstrar a eficácia de nossos resultados. Este risco surge quando adotamos
sem  critério  a  hierarquia  dos  níveis  de  evidência  e  quando  é  ignorada  a  perspectiva  do  cliente  (Coster,  2005;
Sudsawad, 2006).
Felizmente,  existem  líderes  nas  áreas  de  EBM/EBP  que  promovem  uma  abordagem  mais  integrada  à  EBP.
Esta  conduta  ajuda  os  profissionais  e  os  pesquisadores  a  valorizarem  a  colaboração  do  cliente  no  processo  de
tomada  de  decisão  clínica  e  a  se  fundamentarem  em  sua  própria  experiência  prática,  ao  mesmo  tempo  que
valorizam a melhor evidência científica disponível. David Sackett, um líder de prática e ensino da EBM, e seus
colaboradores  atualizaram,  assim,  a  definição:  “A  medicina  baseada  em  evidência  (EBM)  é  a  integração  da
melhor evidência de pesquisa com a experiência clínica e os valores do paciente” (Sackett, Straus, Richardson,
Rosenberg  &  Haynes,  2000,  p.  1).  Eles  enfatizam  que  os  profissionais  precisam  incorporar  as  expectativas,
preocupações e preferências do paciente se as decisões da prática são para realmente atender o indivíduo.
As metodologias qualitativas podem ser uma forma de evidência de pesquisa que informa aos profissionais os
valores  e  as  experiências  dos  clientes  (Sackett  et  al.,  2000;  Sudsawad,  2006;  Tickle­Degnen  &  Bedell,  2003;
Whiteford,  2005,  2007).  No  entanto,  os  estudos  qualitativos  ainda  são  considerados  o  nível  mais  baixo  na
hierarquia  dos  níveis  de  evidência  (Mykhalovskiy  &  Wier,  2004;  Tickle­Degnen  &  Bedell,  2003;  Whiteford,
2007). A medicina baseada em evidência é adequadamente dependente do método científico quantitativo estrito
para o estudo das questões da fisiopatologia. No entanto, é provável que esses métodos reducionistas fracassem
ao  estudar  os  complexos  fenômenos  associados  ao  comportamento  humano,  ao  significado  e  à  ocupação.  Em
uma prática estritamente baseada em evidência, os métodos de pesquisa qualitativos que são mais descritivos,
narrativos ou de natureza mais interpretativa são mais facilmente deduzidos e, assim, diminui a credibilidade da
maior  parte  do  núcleo  do  serviço  da  terapia  ocupacional  (i.e.,  restauração  de  uma  vida  de  ação  significativa
[Yerxa, 1991, 1998]).
A terapia ocupacional precisa de uma abordagem para a EBP que dê suporte aos profissionais integrados que
utilizam a “ciência integrada”. Um profissional integrado é aquele que considera a melhor evidência científica
enquanto  considera  simultaneamente  os  aspectos  humanistas  da  narrativa  do  cliente  e  a  experiência  vivida
(Yerxa,  2005).  O  fato  de  os  terapeutas  ocupacionais  desenvolverem  esta  abordagem  da  EBP  e  ganharem  o
respeito dos outros em sua utilização ou não provavelmente dependerá de nossa habilidade em utilizar a melhor
prática como atualmente definida, demonstrando o valor de nossas práticas com múltiplos métodos de pesquisa e
orientando  de  maneira  colaborativa  a  mudança  para  um  modelo  mais  inclusivo  de  tipos  de  evidência  que  são
necessários em uma área de prática holística e integrada como a terapia ocupacional.
Entre  as  profissões,  existem  clamores  por  novas  abordagens  para  incorporar  novos  métodos  e  fatores  ao
processo de avaliação da pesquisa (Clarke, 1999; Kuzel & Engel, 2001; McGuire, 2005; Mykhalovskiy & Wier,
2004;  Upshur,  VanDenKerkhof  &  Goel,  2001).  Tickle­Degnen  e  Bedell  (2003)  oferecem  um  modelo  de
avaliação alternativo em sua abordagem heterárquica, que sugere que os terapeutas considerem uma rede de
fatores  para  a  tomada  de  decisão  clínica  em  vez  de  uma  hierarquia  de  níveis.  Humphris  (2000)  sugere  que  os
níveis de evidência sejam vistos como um continuum em que o significado do nível é determinado pela natureza
da questão ou situação clínica a ser considerada. Nesta abordagem, a congruência entre a pesquisa ou questão
clínica e a metodologia da pesquisa tem precedência na avaliação da evidência (Ottenbacher, 1992).
Ainda que sejam criados modelos mais inclusivos e integrados, eles somente serão úteis se os terapeutas os
adotarem  como  padrão  de  prática.  McCluskey  (2006)  descreve  as  barreiras  para  adoção  da  EBP  pela  terapia
ocupacional  e  o  processo  de  gerenciamento  da  mudança  em  um  mundo  rapidamente  mutável.  Como  os
terapeutas  encontrarão  tempo  suficiente  e  desenvolverão  as  habilidades  adequadas  (as  barreiras  mais
frequentemente  citadas)  para  integrar  a  EBP  às  suas  práticas?  Estes  desafios  não  podem  ser  abordados  pelos
profissionais  individuais,  mas  devem  ser  empreendidos  por  organizações  profissionais,  empregadores  e
instituições educacionais para levar à mudança sistemática no uso da EBP. O desenvolvimento teórico da terapia
ocupacional também precisa incorporar estes conceitos para apoiar a prática baseada na melhor evidência.

Teorias e Modelos de Prática
Nossas teorias, quando não constantemente questionadas, testadas a partir de novas perspectivas e validadas por
meio da pesquisa e da prática, podem limitar nosso sucesso. Kuhn (1970) argumentou que áreas que se apegam a
paradigmas  inadequados  para  sustentar  suas  teorias  e  práticas  provavelmente  perderão  oportunidades  para
idealizar  paradigmas  novos  e  mais  adequados,  estando,  assim,  sob  risco  de  se  tornar  ineficazes.  Quão  bem
nossas teorias explicam nossos fenômenos mais importantes de preocupação, como ocupação, equilíbrio de vida,
adaptação,  independência  e  desempenho?  Quão  universalmente  podem  ser  aplicadas  as  teorias  que  são
desenvolvidas em um país? Quão abertos nós somos para considerar as teorias explanatórias alternativas?
Michael  Iwama,  um  terapeuta  ocupacional  de  origem  japonesa  que  cresceu  no  Canadá,  foi  confrontado  por
este dilema de paradigma durante um programa de extensão no Japão. O resultado foi o desenvolvimento, com
seus  alunos,  do  modelo  Kawa  (River)  (Iwama,  2003,  2006).  Este  modelo  foi  desenvolvido  por  causa  da
dificuldade que seus alunos no Japão tinham em compreender e aplicar alguns conceitos e modelos ocidentais de
terapia  ocupacional  e  da  ciência  ocupacional  em  suas  próprias  vidas.  O  modelo  Kawa  foi  construído  sobre
suposições a respeito da cultura japonesa, que é mais coletivista, naturalista, interdependente e hierarquicamente
estruturada  do  que  culturas  ocidentais  típicas  e  demonstra  o  valor  do  relativismo cultural.  Se  visualizamos  a
terapia  ocupacional  como  universalmente  relevante,  nós  precisamos  compreender  as  implicações  culturais  de
nossos conceitos de ocupação e tratamento (Iwama, 2005) e estar dispostos a reinterpretá­las ou revisá­las. Os
questionamentos de Iwama instigaram importantes desafios à consideração:

Por quais normas culturais vemos nossos clientes – principalmente aqueles clientes que estão fora de nossos conceitos
de normalidade? Nossas epistemologias, ideologias, teorias e práticas atuais de terapia ocupacional realmente se situam
dentro das realidades vividas por aqueles a quem servimos? Até que ponto os terapeutas ocupacionais situados fora das
principais  esferas  sociais  da  experiência  participam  da  produção  de  nosso  conhecimento  e  discurso?  (Iwama,  2005,  p.
252)

Muitos outros conceitos comumente utilizados em terapia ocupacional precisam desta investigação crítica. O
equilíbrio é uma das ideias que necessitam de elaboração por meio de pesquisa e desenvolvimento da teoria, bem
como  de  um  meio  de  aplicação  clara  à  prática,  caso  se  mostre  útil.  O  trabalho  inicial  está  sendo  feito  para
examinar  o  que  é  equilíbrio  de  vida  (Blessing,  2004;  Matuska  &  Christiansen,  2003),  como  mensurá­lo
(Erickson  &  Matuska,  2006;  Matuska  &  Christiansen,  2003)  e  como  utilizá­lo  na  prática  (Davis,  2004).  A
terapia ocupacional tem enfatizado repetidamente a importância da independência como um objetivo da prática,
embora  o  conceito  não  tenha  sido  totalmente  explicado  ou  pesquisado.  Estão  surgindo  alternativas  ao
funcionamento  independente,  como  a  noção  de  interdependência  (Gage,  1997;  Higgs  &  Titchen,  2001),
principalmente  à  medida  que  os  terapeutas  ocupacionais  consideram  visões  culturais  mais  inclusivas  (Iwama,
2006). A justiça ocupacional é uma ideia relativamente nova que demanda maior competência e está propiciando
um meio para consideração da terapia ocupacional baseada na população.

JUSTIÇA OCUPACIONAL
Se  nós  sentimos  dificuldade  para  compreender  as  diferenças  culturais  de  nossos  clientes,  quão  bem  seremos
capazes de servir a eles? Até aqui, neste capítulo, a questão de quem está sendo atendido tem se focado mais no
indivíduo, a unidade tradicional de interesse na terapia ocupacional. No entanto, com o advento do conceito de
justiça  ocupacional  (Townsend  &  Wilcock,  2004;  Wilcock,  1998b),  os  terapeutas  ocupacionais  estão
considerando cada vez mais grupos maiores e populações inteiras em termos de oportunidades para a ocupação e
os  fatores  sociais,  culturais,  políticos,  econômicos  e  geográficos  que  controlam  ou  afetam  o  acesso  à
participação.  Quantidades  significativas  da  população  mundial  experimentam  privação  ocupacional,  a  falta  de
oportunidade para participar de ocupações necessárias ou desejadas; por exemplo, mais da metade das pessoas
do mundo estão desnutridas ou carecem de cuidados básicos de saúde (Organização Mundial de Saúde, 2002).
Quando  estas  necessidades  básicas  não  são  atendidas,  é  difícil  buscar  as  necessidades  de  nível  mais  elevado
(Maslow, 1943), aquelas que estão usualmente associadas à realização ocupacional. Pessoas que apresentam uma
incapacidade  estão  frequentemente  privadas  de  oportunidades  ocupacionais,  seja  diretamente,  por  causa  do
comprometimento subjacente à incapacidade, seja, em muitos casos, devido à construção social da incapacidade
(Beer,  1998;  Higgins,  1992;  Liachowitz,  1988),  na  qual  as  barreiras  políticas,  de  atitude,  físicas  ou  sociais
limitam as oportunidades ocupacionais.
Com frequência, quando eu ensino a respeito da justiça ocupacional, os alunos ou os terapeutas parecem ser
inspirados pelo conceito de melhorar a justiça no mundo por meio da terapia ocupacional. Contudo, surge uma
questão  simples:  “Com  tanta  necessidade  da  terapia  ocupacional  nos  ambientes  tradicionais,  por  que  estamos
procurando fazer este tipo de trabalho?” Minha resposta é que, quando o profissional abraçou a filosofia básica
da profissão (i.e., que o engajamento ocupacional e a ocupação significativa são essenciais para a saúde e o bem­
estar [Wilcock, 1998a, 1998b] e que o ambiente facilita ou restringe o desempenho ocupacional), é difícil pensar
em como a terapia ocupacional não seria utilizada para promover a justiça ocupacional. Em outras palavras, a
justiça  ocupacional  é  fundamental  para  a  nossa  prática.  Além  disso,  sempre  que  o  processo  da  terapia
ocupacional  é  utilizado  para  ajudar  uma  pessoa  a  atingir  suas  metas  ocupacionais,  supõe­se  que  a  privação
ocupacional é remediada ou evitada e, assim, a justiça ocupacional é promovida para aquela pessoa.
Qual  é  nossa  responsabilidade  ao  abordar  os  problemas  das  pessoas  no  mundo  que  estão  “restringidas,
privadas e alienadas de se engajar em ocupações que proporcionem satisfação, significado e equilíbrio pessoal,
familiar e/ou da comunidade por meio do que elas fazem” (Wilcock & Townsend, 2000, p. 85)? Nós aceitamos o
preço imposto pela Organização Mundial de Saúde para “responder à busca espiritual por significado, propósito
e  pertencimento  de  cada  indivíduo”  juntamente  com  os  direitos  da  pessoa  ao  emprego,  repouso  e  lazer
(Organização  Mundial  de  Saúde,  1998,  p.  2)  ao  promover  a  participação  e  auxiliar  a  busca  por  atividades
significativas,  ou  seja,  ao  aplicar  um  processo  de  terapia  ocupacional  que  ajude  a  corrigir  a  injustiça  nestas
áreas?  Se  nós,  como  uma  profissão  internacional,  realmente  abraçarmos  a  justiça  ocupacional,  existem  muitos
desafios  para  sua  visão  reconhecidamente  utópica.  No  entanto,  se  não  estamos  em  busca  de  um  mundo  ideal,
corremos o risco de aceitar menos do que o melhor que a terapia ocupacional tem a oferecer.
Contudo,  existe  uma  conscientização  crescente  de  justiça  ocupacional  por  meio  de  publicações  e  projetos
sobre as desigualdades em saúde (Braveman, 2006; Ford, Waring & Boggis, 2006). A atenção internacional aos
projetos relacionados à justiça ocupacional apresentados em Occupational Therapy Without Borders: Learning
from the Spirit of Survivors (Kronenberg, Algado & Pollard, 2005) e a adoção do CBR da WFOT (Kronenberg,
2003) são exemplos úteis. Atualmente, a justiça ocupacional é mais bem conhecida nos círculos de educadores e
daqueles  que  estão  ativamente  envolvidos  em  atividades  profissionais  internacionais.  Por  conseguinte,  uma
questão importante a considerar é se os conceitos relacionados à justiça ocupacional serão adotados ou não, no
futuro,  pela  maioria  dos  terapeutas  e  incorporados  àquilo  que  Kronenberg  chamou  de  atividades  políticas  da
vida diária (Kronenberg & Pollard, 2005). “A disponibilidade da justiça ocupacional é determinada por fatores
políticos no ambiente ocupacional” (Kronenberg & Pollard, 2005, p. 67), e Kronenberg acredita que aqueles com
liberdades políticas precisam empreender ações políticas em qualquer nível possível de modo a colaborar para a
solução  das  injustiças  ocupacionais.  A  prática  de  atividades  políticas  da  vida  diária  estende­se  para  além  de
escrever  cartas  para  os  legisladores,  levantar  fundos  para  uma  causa  política  ou  votar  regularmente,  por  mais
importantes que sejam essas atividades. Compreender a natureza política das relações humanas e das sociedades,
e então incorporar esta compreensão de modo que a consciência política e a ação para a justiça se transformem
em atividades da vida diária, é primordial para alcançar a justiça ocupacional.
Quando  se  considera  a  justiça  ocupacional  na  terapia  ocupacional,  visualiza­se  a  prática  aplicada  a  grandes
populações, embora o conceito também se aplique às pessoas. No entanto, para atingir as metas ambiciosas do
conceito de justiça ocupacional, ao pensar e trabalhar em nível populacional, a terapia ocupacional pode ter um
impacto muito maior do que seu foco habitual sobre o indivíduo. Assim, qual será o custo para a criação de uma
massa crítica de terapeutas que veja a prática de modo a ser capaz de conquistar ganhos significativos para um
mundo  mais  justo  do  ponto  de  vista  ocupacional?  Quanto  o  processo  educacional  precisará  mudar  para  os
terapeutas ocupacionais? Isso pode ser integrado a um currículo já tumultuado de modo que ainda permita que os
graduados iniciem de forma competente a prática nas áreas mais típicas? A justiça ocupacional representa uma
ameaça para a profissão ao tirar o foco de nossa unidade de interesse tradicional (o indivíduo) ou ela proporciona
um beneficio potencial ao atingir maior número de pessoas por meio do trabalho populacional, demonstrando,
assim, maior valor para a sociedade? Um terapeuta ocupacional trabalhando estritamente no nível da política em
um governo nacional ainda estaria realizando terapia ocupacional? Se ele está promovendo a justiça ocupacional
por meio do trabalho político, isto importa? Estas estão entre as questões para ponderação e reflexão.

RESUMO
Este  capítulo  forneceu  uma  revisão  da  prática  da  terapia  ocupacional  com  exemplos  que  apresentam  uma
pequena  amostra  da  ampla  variedade  de  maneiras  como  a  terapia  ocupacional  é  praticada  e  levanta  muitas
questões (e poucas respostas), visando a nos ajudar a avaliar a condição do campo de atuação no momento e no
futuro. O capítulo começou lançando um olhar sobre as muitas possibilidades existentes para a profissão e em
seguida examinou alguns fatores que ameaçam a realização dessas possibilidades. Ao longo de todo o capítulo,
consideramos  periodicamente  a  questão  de  quem  está  sendo  atendido  por  nossas  ações,  o  que  talvez  seja  a
pergunta mais crucial que precisamos fazer continuamente a nós mesmos.
A revisão aqui apresentada destina­se a ajudar a criar uma visão mais ampla da prática da terapia ocupacional.
Uma  visão  mais  ampla  sim,  mas  dentro  dos  limites  deste  breve  capítulo,  o  que  representa  um  quadro
necessariamente incompleto. Manter uma visão exata do cenário maior é uma das três etapas recomendadas para
ter sucesso ao lidar com a hipermudança (Weiner & Brown, 2006), na qual estamos todos imersos. Em paralelo a
esta  recomendação,  eu  o  incentivo,  leitor,  a  completar  este  cenário  maior  da  prática  por  meio  da  leitura  deste
texto e de muitas outras fontes de informação sobre a prática e a terapia ocupacional internacional. Filie­se à sua
associação estadual e nacional, bem como à World Federation of Occupational Therapists. Frequente congressos
para  se  encontrar  com  outros  de  sua  área  e  ouvir,  em  primeira  mão,  as  histórias  de  pesquisa,  prática,  teoria  e
sonhos  de  seus  colegas  terapeutas  ocupacionais.  Ao  fazer  isto,  você  provavelmente  aprenderá,  como  eu  tenho
aprendido, que o cenário maior da terapia ocupacional está sempre mudando, sempre crescendo. A compreensão
do cenário maior da terapia ocupacional é como a vista de um avião decolando: você vê mais e mais do mundo e
você compreende que nunca conseguirá ver o cenário completo – mas quanta fascinação existe em buscá­lo!
Espero que você seja levado a refletir sobre estas questões e cobre de si e de seus alunos e colegas as respostas
e o uso destas respostas para ajudar a escrever o futuro da profissão. Sendo assim, deixarei duas perguntas finais
para você:
1. Que possibilidades a terapia ocupacional compreenderá?
2. Que restrições e ameaças permitiremos que nos detenham ou enfrentaremos de maneira criativa e adaptativa
para compreender a promessa de nosso singular campo de atuação?

QUESTÕES INSTIGANTES
1. Onde  reside  o  maior  potencial  para  a  terapia  ocupacional  compreender  seu  benefício  máximo  para  a
sociedade? Como a profissão persegue este potencial?
2. Supondo que os modelos atuais de EBP não sirvam de maneira ótima à prática da terapia ocupacional, que
forma de EBP servirá melhor ao desenvolvimento da terapia ocupacional?

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Tomada de Decisão Ética na Prática da
Terapia Ocupacional
REGINA F. DOHERTY

Sumário
Por que a Ética?
Ética, Moralidade e Raciocínio Moral
Implicações Éticas das Tendências no Cuidado de Saúde e na Prática de Terapia
Ocupacional
Virtudes dos Profissionais de Saúde
Distinção entre os Problemas Clínicos, Legais e Éticos na Prática
Reflexão e Prática Ética
Identificação dos Diferentes Tipos de Problemas Éticos
Teorias e Princípios Éticos que se Aplicam à Prática Clínica
Abordagem Baseada em Princípios
Ética Baseada em Virtude e Caráter
Utilitarismo
Deontologia
Recursos Éticos e Jurisdição
Recursos
Agências Reguladoras
O Processo Ético de Tomada de Decisão
Estudo de Caso: Obrigações Duais e Conversas Difíceis: Questões Éticas na
Confidencialidade e Recusa de Atendimento
Conversas Difíceis
Conclusão

“Os instrumentos da tomada de decisão ética incluem o desenvolvimento do ‘hábito de pensar’ para refletir sobre
situações complexas e mutáveis que fazem parte da prática cotidiana.”

— JENSEN (2005)

Objetivos de Aprendizagem
Após a leitura deste capítulo, você será capaz de:
1. Reconhecer as questões éticas que os profissionais de terapia ocupacional encontram na prática
clínica.
2. Compreender as teorias éticas básicas e as condutas para a ética.
3. Compreender e aplicar uma diretriz de tomada de decisão ética para a análise do caso.
4. Compreender e aplicar o raciocínio ético como um construto do processo de tomada de decisão
clínica.
5. Identificar e saber como acessar os recursos éticos.
6. Compreender estratégias efetivas de comunicação para conversas difíceis.

POR QUE A ÉTICA?
Faça a si próprio as seguintes perguntas:
O que eu faria se um cliente me dissesse que parou de tomar sua medicação, mas não quer que eu conte isto
para seu médico, porque o cliente está repassando seu medicamento para sua namorada que “precisa mais
da droga”, mas não consegue comprá­la?
Como eu me sentiria se a família de um bebê com síndrome de Down me dissesse que gostaria de retirar a
sonda de alimentação do bebê porque não achava que ele teria uma boa qualidade de vida?
O que eu diria para uma colega que me pedisse para alterar meus registros para indicar que um cliente está
pior do que realmente está, de modo que o cliente possa se qualificar para serviços adicionais?

Questões  éticas  como  estas  frequentemente  surgem  para  os  profissionais  da  terapia  ocupacional  em  suas
práticas clínicas diárias. Essas questões devem ser abordadas de modo que o fornecimento do cuidado habitual
não seja interrompido e que se alcance a melhor prática. Isto exige que os profissionais reconheçam as situações
éticas e tenham a vontade e a capacidade de lidar com essas situações de modo sistemático. Este capítulo discute
as questões éticas que surgem na prática da terapia ocupacional. Ele serve como fundamentação para auxiliar o
leitor a compreender, reconhecer e raciocinar sobre as questões éticas. Os profissionais da terapia ocupacional,
em  todos  os  pa  péis  profissionais,  enfrentarão  problemas  éticos.  A  ética  está  relacionada  com  reflexão,
pensamento, raciocínio crítico, justificativa, ação e avaliação de decisões. Com frequência, os problemas éticos
são  dinâmicos  e  complexos,  exigindo  o  conhecimento  adicional  e  a  consulta  a  diversos  recursos.  Por  isso,  o
conhecimento  e  a  compreensão  do  raciocínio  e  da  tomada  de  decisão  éticos  são  essenciais  para  a  prática
competente da terapia ocupacional.

ÉTICA, MORALIDADE E RACIOCÍNIO MORAL
Os termos ético e moral são frequentemente empregados como sinônimos na prática clínica e, embora correlatos,
eles têm significados ligeiramente distintos. O termo ética deriva da palavra grega ethos, que significa “caráter”.
A ética é um ramo da filosofia que envolve o estudo sistemático e a reflexão que fornecem linguajar, métodos e
diretrizes  para  o  estudo  e  a  reflexão  sobre  a  moralidade  (Purtilo,  2005).  Em  contraste,  o  termo  moralidade
refere­se  às  convenções  sociais  sobre  a  conduta  humana  certa  e  errada  e  estabelece  o  cenário  para  o
comportamento ético. Valores,  deveres  e  o  caráter  moral  orientam  o  raciocínio  e  informam  as  decisões  éticas
(Beauchamp & Childress, 2001). Os valores são as crenças ou os objetos que uma pessoa ama (p. ex., vida). Os
deveres descrevem uma ação que é necessária (p. ex., prover alimento e abrigo para cuidar da própria família). O
caráter  moral  descreve  traços  ou  disposições  que  facilitam  a  confiança  e  o  crescimento  humano  (p.  ex.,
compaixão, honestidade) (Purtilo, 2005). Existem três tipos de moralidade: pessoal, de grupo ou profissional e
social  (Glaser,  2005).  A  moralidade  pessoal  inclui  as  crenças  e  valores  da  pessoa.  A  moralidade  de  grupo  é  a
moralidade da profissão ou do grupo ao qual pertence a pessoa. Uma organização profissional, como a American
Occupational  Therapists  Association  (AOTA),  mantém  valores  coletivos  que  norteiam  as  decisões  do  grupo.
Para terapeutas ocupacionais, isto poderia ser a ênfase sobre o desempenho ocupacional. A moralidade social é a
moralidade da sociedade como um todo. Os valores sociais podem mudar com o passar do tempo, e diferentes
comunidades  podem  empenhar­se  pela  proteção  de  diferentes  valo­res  e  direitos.  É  importante  refletir  sobre
como  esses  diferentes  tipos  de  moralidade  se  inter­relacionam,  porque,  em  uma  sociedade  pluralista,  nenhum
conceito isolado da moralidade prevalece, tornando a tomada de decisão ética ainda mais desafiadora.
Utilizamos o raciocínio moral para refletir sobre questões éticas. O raciocínio moral gira em torno de normas
e  valores,  ideias  de  certo  e  errado  e  como  os  profissionais  tomam  decisões  na  atuação  profissional  (Barnitt,
1993). A ética fornece os mecanismos para esse processo de reflexão (Purtilo, 2005), que resulta, por fim, em
um  curso  de  ação  que  os  profissionais  consideram  ser  o  mais  ético  a  seguir.  A  prática  ética  exige  um
comprometimento da conduta pessoal e uma avaliação de seus efeitos sobre os outros (Jennings, 2003).
A  prática  da  terapia  ocupacional  envolve  colaborar  com  os  clientes  para  ajudá­los  a  otimizar  sua
independência e sua qualidade de vida. Este trabalho consiste em encontros pessoais que podem trazer consigo
situações  difíceis  que  desafiam  o  sistema  de  valores  dos  profissionais  e  da  sociedade.  Por  conseguinte,  o
raciocínio moral efetivo e a tomada de decisão ética estão intimamente relacionados à prática efetiva (Bebeau,
2002; Hartwell, 1995; Sisola, 2000).

IMPLICAÇÕES ÉTICAS DAS TENDÊNCIAS NO CUIDADO DE SAÚDE E NA PRÁTICA
DE TERAPIA OCUPACIONAL
Os sistemas de cuidados de saúde são cada vez mais complexos. Novas tecnologias, incluindo aquelas utilizadas
em  terapia  intensiva,  tratamento  de  manutenção  de  vida,  medicina  da  reprodução,  genética  e  transplante  de
órgãos, criaram dilemas éticos para os profissionais de saúde em relação à autonomia do paciente e à alocação de
recursos. Melhores escolhas de estilo de vida, cuidados gerenciados e mudanças na legislação dos cuidados de
saúde  também  complicam  a  prática  da  terapia  ocupacional,  aumentando  a  probabilidade  de  se  encontrarem
dilemas  éticos.  Os  profissionais  podem  confrontar­se  com  obrigações  duais  relacionadas  aos  clientes  e  às
instituições em que eles atuam, centralizando­se nos recursos limitados em relação ao acesso e à cobertura de
cuidados  de  saúde.  As  tensões  entre  o  que  é  bom  para  a  sociedade  como  um  todo  e  o  que  é  melhor  para  o
indivíduo também se originam na prestação dos serviços (Smith, Hiath & Berwick, 1999; Organização Mundial
de Saúde, 1994). As questões éticas comuns que os profissionais de terapia ocupacional enfrentam incluem as
seguintes:
1. Confidencialidade e divulgação
2. Qualidade de vida
3. Capacidade de tomada de decisão dos clientes
4. Limites pessoais e profissionais
5. Uso do poder
6. Alocação de recursos e prioridades no tratamento
7. Considerações culturais, religiosas e familiares
8. Equilíbrio  entre  os  benefícios  e  os  danos  no  cuidado  dos  pacientes  (Barnitt,  1998;  Fletcher,  Miller  &
Spencer, 1997; Foye, Kirschner, Wagner, Stocking & Siegler, 2002; Purtilo, 2005).

As  questões  éticas  mais  frequentemente  citadas  pelos  profissionais  de  reabilitação  estão  relacionadas  ao
reembolso dos cuidados de saúde, aos conflitos em torno do estabelecimento de metas e à recusa dos pacientes
e/ou cuidadores em seguirem as recomendações da equipe (Foye et al., 2002). Com frequência, os profissionais
da terapia ocupacional confrontam­se com demandas competitivas entre o acesso ao cuidado e o reembolso pelos
serviços.  Equilibrar  as  obrigações  em  relação  aos  pacientes  e  grupos  de  não  pacientes  (p.  ex.,  seguradoras,
administradores) é uma luta comum, e questões éticas surgem quando as obrigações para com ambos não podem
ser atendidas (Foye et al., 2002; Triezenberg, 2005).

VIRTUDES DOS PROFISSIONAIS DE SAÚDE
Os profissionais de saúde exercem um papel social único porque o público espera que eles apresentem virtudes
especiais.  Estas  incluem  as  virtudes  de  benevolência,  competência,  objetividade,  cuidado  e  compaixão
(Devettere, 2000; Fletcher et al., 1997; Pellegrino, 1995, 2002; Purtilo, 2005). Em primeiro lugar, o profissional
de  terapia  ocupacional  deve  ser  benevolente  e  focar­se  no  bem  do  cliente.  Com  frequência,  isto  requer  a
subordinação do próprio interesse ao do cliente. Em segundo lugar, o profissional deve ser competente. Todos os
profissionais  são  responsáveis  por  atingir  e  manter  a  competência  em  sua  área  de  prática  clínica.  Em  terceiro
lugar, os profissionais devem ser objetivos e utilizar a evidência para nortear as decisões da prática. Em quarto
lugar,  os  profissionais  precisam  se  importar,  porque  o  cuidado  estimula  o  conforto  e  a  recuperação  (Fry  &
Veatch, 2000). Embora muitos profissionais reconheçam que o cuidar seja inerente ao papel do profissional de
saúde, existem momentos em que os profissionais precisam lidar com clientes ou famílias difíceis. Pode haver
falta  de  reciprocidade  e  mutualidade  causada  pela  própria  condição,  como  a  combatividade  resultante  de  um
traumatismo  de  crânio,  que  pode  erodir  a  relação  de  cuidado.  Os  desgastes  nas  relações  de  cuidado  também
podem acontecer quando surge a acuidade e a equipe diminui (Maupin, 1995). Por fim, os profissionais precisam
ter compaixão. A compaixão é a capacidade de participar da experiência de doença com o cliente (Pellegrino,
1982).  A  compaixão  consiste  em  ser  delicado,  compreensivo,  genuíno,  carinhoso,  atencioso  e  profissional  ao
realizar  uma  tarefa  ou  obrigação.  De  tempos  em  tempos,  todos  os  profissionais  de  saúde  experimentarão
situações  complexas  e  demandas  conflitantes.  É  nesses  momentos  que  os  profissionais  precisam  basear­se  no
caráter e na conduta para fornecer o cuidado compassivo.

DISTINÇÃO ENTRE OS PROBLEMAS CLÍNICOS, LEGAIS E ÉTICOS NA PRÁTICA
Os profissionais devem aprender a diferenciar as questões éticas de outras questões que encontram no tratamento
dos clientes. Muitas vezes, o que poderia parecer ser uma questão ética é, na realidade, alguma outra coisa, como
uma  comunicação  equivocada  ou  uma  questão  clínica  ou  legal.  Por  exemplo,  uma  questão  clínica  seria:  “Os
clientes  com  disfagia  grave  em  virtude  da  esclerose  lateral  amiotrófica  (ELA)  em  estágio  terminal  podem  se
alimentar?” Esta é uma questão clínica porque existe uma resposta diagnóstica para a pergunta. Os clientes que
passam por um teste de contraste de bário modificado (MBS) são clinicamente capazes de ingerir alimentos. Se
eles fracassam nesse teste, mas continuam a ingerir alimentos por via oral, poderia surgir uma questão ética. A
questão  ética  seria:  “Os  clientes  com  ELA  em  estágio  terminal  que  falham  no  teste  de  MBS  devem  ingerir
alimentos?”  Esta  é  uma  questão  ética,  pois  ela  levanta  questões  relativas  à  qualidade  de  vida  e  aos  riscos  e
benefícios da alimentação com capacidade de deglutição diminuída.
As questões legais também podem surgir na tomada de decisão durante o tratamento do cliente. A lei e a ética
são  campos  correlatos;  no  entanto,  elas  apresentam  metas  e  sanções  diferentes.  Ambas  fundamentam­se  em
processos analíticos e regras estabelecidas para a tomada de decisão correta; contudo, as leis são legisladas e são
legalmente aplicáveis (Horner, 2003). As leis prescrevem o que não podemos fazer. O que pode ser legalmente
permitido poderia não ser eticamente justificado e vice­versa. No caso dos clientes com ELA, uma questão legal
seria:  “Os  clientes  competentes  têm  o  direito  de  recusar  o  aconselhamento  médico  e  continuar  a  ingestão  oral
apesar da recomendação da equipe?” Este exemplo destaca a importância de diferenciar o tipo de questão para
raciocinar mais criticamente sobre o problema.

Reflexão e Prática Ética
Reconhecer os aspectos moralmente significativos de uma situação constitui a primeira etapa na reflexão ética.
A  reflexão  é  uma  forma  de  autoavaliação  que  pode  ser  utilizada  para  melhorar  a  prática.  Desenvolver  a
capacidade reflexiva é um elemento primordial no desenvolvimento e na competência profissionais (Jensen &
Richert, 2005). Quando refletem sobre os aspectos éticos da prática, os profissionais precisam considerar seus
próprios valores e como tais valores podem influenciar seu trabalho. Um valor é uma crença ou um ideal com o
qual o indivíduo está comprometido (Kanny, 1993). A elucidação de valores é comumente utilizada para ajudar
os  profissionais  na  reflexão.  Elucidar  valores  e  opiniões  permite  que  os  profissionais  observem  elementos  de
uma situação que ainda não teriam sido vistos, possibilitando melhor apreciação da complexidade das decisões.
Outra  forma  de  reflexão  é  a  diligência.  A  prática  diligente  engloba  o  metaprocessamento  –  pensar  sobre  o
pensamento ou sentir sobre os sentimentos. A prática diligente capacita os profissionais a ouvirem de maneira
mais atenta as angústias dos clientes, a reconhecerem seus próprios erros, a refinarem suas habilidades técnicas,
a tomarem decisões baseadas em evidência e a reconhecerem os valores necessários para agir com compaixão,
competência, presença e discernimento (Epstein, 1999).
O uso de narrativas, tanto por escrito como orais, é outra forma de reflexão. Contar histórias possibilita que os
terapeutas  raciocinem  sobre  os  aspectos  morais  de  uma  situação  e  desenvolvam  um  julgamento  sobre  o  que
deveria ser feito (Mattingly, 1998). A revisão da narrativa orientada  por  um  mentor  é  uma  maneira  efetiva  de
infundir o raciocínio ético à prática clínica.

Identificação dos Diferentes Tipos de Problemas Éticos
Ao refletir sobre uma questão ética, é importante diferenciar os vários tipos de problemas éticos que acontecem
na prática clínica. Um problema ético é uma situação que supostamente tem implicações negativas em relação
aos valores morais e aos seus deveres e que levará a uma escolha extremamente difícil do indivíduo ou do grupo
(Purtilo,  2005).  Pode  manifestar­se  como  uma  reação  emocional,  um  desconforto,  ansiedade  ou  raiva.  Uma
questão  ética  é  frequentemente  percebida  quando  o  médico  diz:  “Isto  apenas  não  me  parece  correto.”  Esta
sensação  de  “não  correto”  é  uma  resposta  emocional  que  serve  como  um  gatilho  para  iniciar  a  reflexão  ética.
Estes  sentimentos  são,  com  frequência,  desafios  morais  e  precisam  ser  trabalhados  para  além  dos
pressentimentos até alternativas e ações racionalizadas.
O sofrimento ético é um problema que acontece quando os profissionais sabem a coisa certa a fazer, mas não
podem  fazê­la  por  causa  de  barreiras  externas  ou  de  incerteza  quanto  ao  resultado  (Purtilo,  2005).  Com
frequência, múltiplos suportes estão envolvidos no cuidado do cliente (p. ex., o médico responsável, especialistas
consultores,  profissionais  de  reabilitação,  administrador  da  organização,  segurador  particular  e  a  família).  O
sofrimento ético ocorre quando os suportes têm opiniões diferentes em relação às metas do cuidado, deixando os
profissionais  sem  um  curso  claro  de  ação.  Embora  o  conflito  possa  surgir  no  tratamento  de  pacientes,  a  meta
primordial sempre deve ser o bem­estar do paciente. O sofrimento ético deve ser trabalhado de modo que esta
meta possa ser atingida.
Um  dilema  ético  é  ligeiramente  diferente  de  um  sofrimento  ético.  Um  dilema  é  uma  situação  marcada  por
conflito entre crenças éticas e envolve a escolha entre alternativas que parecem ser igualmente inaceitáveis do
ponto de vista moral (Purtilo, 2005). Um dilema ético existe quando o indivíduo tem obrigação de fazer X e Y,
mas não pode fazer ambos (Horner, 2003). Em um dilema verdadeiro, existem um forte argumento persuasivo a
favor e outro contra um curso de ação, promovendo um conflito moral para o indivíduo.

TEORIAS E PRINCÍPIOS ÉTICOS QUE SE APLICAM À PRÁTICA CLÍNICA
As  teorias  proporcionam  o  suporte  para  a  tomada  de  decisão  clínica.  Os  princípios  e  as  teorias  éticas  nos
propiciam a linguagem para diagnóstico, comunicação e resolução dos problemas éticos na prática clínica. As
teorias  éticas  são  estruturas  sistemáticas  e  bem­desenvolvidas  de  regras  e  princípios  (R.  J.  Nash,  2002).  Elas
fornecem  razões  e  ideais  para  os  padrões  éticos.  Muitas  teorias  e  abordagens  éticas  servem  como  ponto  de
referência para orientar a tomada de decisão clínica. As abordagens éticas mais comumente utilizadas na ética do
cuidado  da  saúde  são  as  abordagens  baseadas  em  princípios,  a  ética  baseada  na  virtude  e  no  caráter,  o
utilitarismo e a deontologia.

Abordagem Baseada em Princípios
Uma  abordagem  à  ética  baseada  em  princípios  fundamenta­se  nas  crenças  morais  comumente  compartilhadas
como  fundamento  teórico.  Os  princípios  são  deveres,  direitos  ou  outras  diretrizes  morais  que  fornecem  uma
abordagem lógica para análise das questões éticas em determinada situação. Na análise de caso, os princípios são
identificados, aplicados e comparados de modo a pesar um princípio contra outro ao se decidir sobre um curso
de ação. Os seguintes princípios são comumente utilizados na ética clínica:
Autonomia.  Autonomia  é  a  capacidade  de  agir  de  forma  independente  a  partir  das  próprias  decisões
(Beauchamp  &  Childress,  2001).  Como  a  autonomia  é  altamente  valorizada  na  medicina  e  na  sociedade
ocidental, ela é frequentemente considerada o elemento mais importante na tomada de decisão de cuidados
de saúde (Pellegrino, Siegler & Singer, 1991).
Benefício. Benefício refere­se às ações realizadas em ou para o benefício de outros.
Não maleficência. Não maleficência é o dever de não causar dano aos outros.
Fidelidade. Fidelidade significa ser leal às promessas ou aos compromissos implícitos e explícitos.
Justiça. Justiça refere­se ao tratamento igualitário. Lida com a distribuição adequada de benefícios, ônus e
recursos.  A  justiça  de  procedimento  é  frequentemente  utilizada  para  refletir  procedimentos  imparciais  de
tomada  de  decisão.  A  justiça  distributiva  refere­se  à  alocação  igualitária  de  recursos  sociais,  como  os
cuidados de saúde (Horner, 2003).
Veracidade. Veracidade refere­se a dizer a verdade.
Paternalismo ou parentelismo. O paternalismo ou parentelismo ocorre quando um indivíduo presume saber
mais e toma decisões pelo cliente (e não com o cliente). O paternalismo pode limitar o acesso dos clientes à
informação e viola sua autonomia.

Ética Baseada em Virtude e Caráter
As virtudes são disposições de caráter e conduta que motivam e capacitam os profissionais a fornecerem o bom
tratamento (Fletcher, Miller & Spencer, 1997). A ética da virtude, derivada de Aristóteles e Tomás de Aquino,
tem  foco  sobre  agentes  morais  e  seu  bom  caráter.  Utilizando  esta  abordagem,  a  excelência  moral  é  atingida
quando são escolhidos comportamentos para o bem da virtude (cuidado e delicadeza) em vez da obrigação.
Utilitarismo
O  utilitarismo  deriva  do  trabalho  de  Jeremy  Bentham  e  John  Stuart  Mill  e  está  relacionado  com  as  ações  que
maximizam  as  boas  consequências  e  minimizam  as  consequências  ruins.  A  partir  desta  perspectiva,  atos
moralmente corretos produzem os melhores resultados gerais; isto é, os fins justificam os meios. O utilitarismo é
frequentemente utilizado no desenvolvimento de políticas públicas. Uma crítica comum ao utilitarismo é que ele
tira a ênfase das relações para maximizar os resultados para o maior número possível de pessoas.

Deontologia
A deontologia é uma teoria moral baseada no dever que se fundamenta principalmente no trabalho de Immanuel
Kant. Nesta teoria, as regras morais são universais e nunca devem ser quebradas; por isso, cumprir o nosso dever
é  considerado  fundamental,  independente  das  consequências.  Por  exemplo,  a  veracidade  é  um  dever
incondicional para Kant. Um profissional nunca protegeria um cliente da verdade, mesmo que a verdade ferisse
o cliente de alguma maneira. A partir da perspectiva de Kant, o respeito pelas pessoas é um imperativo moral;
por isso, omitir a verdade desrespeita o direito de saber dos clientes. Uma crítica comum à deontologia é que ela
despreza  o  potencial  para  obrigações  conflitantes,  enfatiza  excessivamente  as  regras  e  minimiza  as
consequências da ação.

RECURSOS ÉTICOS E JURISDIÇÃO

Recursos
Os  profissionais  que  deparam  com  questões  éticas  devem  ser  instruídos  quanto  aos  recursos  existentes  para
apoiá­los  nesta  dimensão  de  seu  raciocínio  clínico.  Os  recursos  são  cruciais  para  compartilhar  as  incertezas
relacionadas com as questões éticas que os profissionais enfrentam em todos os níveis de atuação.

Comitês de Ética
Os comitês de ética apoiam os profissionais que precisam de assistência para raciocinar a respeito das dimensões
éticas  do  cuidado.  Os  três  pa  péis  primários  dos  comitês  de  ética  são  a  consulta,  a  orientação  e  a  revisão  e
desenvolvimento  de  políticas.  As  cortes,  a  Comissão  Presidencial  para  o  Estudo  dos  Problemas  Éticos  na
Medicina e Pesquisa Biomédica e Comportamental e as agências de acreditação, como a Joint Commission on
the  Accreditation  of  Hospital  Organizations,  recomendam  a  consulta  aos  comitês  de  ética  (Aulisio,  Arnold  &
Younger,  2000).  Os  comitês  de  ética  representam  um  ambiente  para  a  discussão  segura  e  franca  de  questões
morais  básicas,  alívio  dos  sentimentos  da  equipe,  fornecimento  de  recursos  reconhecidos  e  fortalecimento  dos
profissionais para a tomada de decisões moralmente justificadas.
Comitês  de  ética  efetivos  são  interdisciplinares  e  têm  forte  suporte  institucional.  Eles  analisam  os  casos  de
perspectivas diferentes para garantir o melhor resultado para os clientes. Os profissionais da terapia ocupacional
que sejam principiantes interessados ou experientes em ética devem servir como membros dos comitês de ética,
porque podem trazer perspectivas mais amplas para as discussões éticas, são recursos para temas relacionados à
elucidação  de  valores  e  à  qualidade  de  vida  e  são  habilidosos  na  facilitação  do  grupo.  Os  profissionais  em
instituições  sem  comitês  de  ética  devem  utilizar  seus  supervisores,  gestores,  suportes  administrativos  e  suas
organizações profissionais para assistência quanto às questões éticas. Outros recursos organizacionais, como o
gabinete  de  defesa  do  cuidado  do  paciente  (também  conhecido  como  ouvidoria),  o  departamento  de  serviço
social, capelães e escritório de aconselhamento legal, também podem proporcionar orientação quanto às questões
éticas.

Conselhos Institucionais de Revisão
O  aumento  do  estímulo  à  pesquisa  e  à  atenção  para  a  prática  baseada  em  evidência  resultou  em  aumento  no
número  de  profissionais  de  terapia  ocupacional  envolvidos  na  pesquisa  clínica.  Todos  os  profissionais
envolvidos em atividade de pesquisa têm a obrigação moral de se familiarizar com as regras, regulamentações e
obrigações éticas para condução da pesquisa responsável. Existem muitas considerações éticas quanto à pesquisa
(p. ex., integridade dos dados, conflito de interesse, autoria), porém as mais conflitantes dizem respeito a seres
humanos como participantes da pesquisa.
Para garantir uma revisão objetiva das questões éticas relacionadas com a pesquisa que se utiliza do indivíduo
humano,  é  necessário  que  qualquer  instituição  que  receba  recursos  federais  disponha  de  um  Conselho
Institucional  de  Revisão  –  Institutional  Review  Board  (IRB).  Um  IRB  consiste  em  um  painel  de  diversos
indivíduos, incluindo a equipe da organização e pelo menos um membro da comunidade, que são responsáveis
por revisar todas as propostas e licenças de pesquisa para assegurar que esteja sendo adotada proteção adequada
aos  participantes  da  pesquisa.  Esta  proteção  inclui  o  consentimento  informado,  a  metodologia  e  o  desenho  da
pesquisa, o recrutamento, o balanço de riscos e benefícios e a confidencialidade. Os três princípios fundamentais
que  orientam  a  condução  ética  da  pesquisa  que  envolve  participantes  humanos  são  o  respeito  pelas  pessoas
(autonomia), o benefício e a justiça (National Commission for the Protection of Human Subjects of Biomedical
and  Behavioral  Research,  1979).  Os  profissionais  de  terapia  ocupacional  devem  consultar  as  políticas  e
regulamentações específicas de suas organizações quanto à supervisão e ao treinamento para condução ética da
pesquisa.

Códigos de Ética
Os  códigos  de  ética  personificam  a  ética  profissional  (Banks,  2004).  Eles  são  documentos  produzidos  por
associações  profissionais,  organizações  ou  corpos  reguladores  que  declaram  o  compromisso  com  um  ideal  de
serviço  ou  objetivo  central.  Os  códigos  de  ética  garantem  a  confiança  pública  e  salvaguardam  a  reputação  de
uma  profissão.  Com  frequência,  os  códigos  de  ética  são  inspiradores,  orientadores  e  regulatórios  por  natureza
(Banks, 2004). Os valores articulados no código de ética servem para orientar a prática profissional.
O Código  de  Ética  da  Terapia  Ocupacional  da  AOTA  (AOTA,  2005)  serve  como  um  guia  para  a  condução
profissional. É apoiado pelas Diretrizes para o Código de Ética da Terapia Ocupacional (AOTA, 2006) e pelos
Valores  e  Atitudes  Centrais  da  Prática  da  Terapia  Ocupacional  (AOTA,  1993).  Em  conjunto,  estes  três
documentos,  conhecidos  como  Padrões  de  Ética,  servem  como  recursos  para  todos  os  profissionais  de  terapia
ocupacional,  incentivando­os  a  atingir  o  mais  alto  nível  de  comportamento  profissional.  Estes  documentos
refletem  os  valores  e  as  crenças  da  profissão  e  fornecem  elucidação  e  apoio  quando  surge  uma  questão  ética.
Informações  adicionais  sobre  o  código  e  documentos  relacionados,  e  sobre  a  Comissão  de  Ética  da  AOTA,
podem ser encontradas em www.aota.org.

Agências Reguladoras
Três  tipos  de  organizações  supervisionam  a  prática  da  terapia  ocupacional:  a  AOTA,  o  National  Board  of
Certification in Occupational Therapy e os conselhos reguladores  estaduais.  Cada  um apresenta preocupações,
sanções e jurisdições distintas, mas um ponto comum é sua preocupação com a prática ética.

A American Occupational Therapy Association
A AOTA, a associação profissional para a terapia ocupacional, é o principal veículo para influenciar, promover e
desenvolver  os  serviços  da  profissão  para  a  sociedade  (Doherty,  Peterson  e  Braveman,  2006).  A  AOTA
desenvolve padrões de prática para todos os profissionais de terapia ocupacional. Esses padrões são um recurso
essencial para profissionais, alunos, professores e pesquisadores. Como profissionais de cuidados de saúde, os
terapeutas ocupacionais têm a obrigação de compreender, respeitar e demonstrar os valores e a ética da profissão
(Slater, 2006).
Na  AOTA,  a  Comissão  de  Ética  revisa  o  Codigo  de  Ética  da  Terapia  Ocupacional  a  cada  cinco  anos.  Sua
principal responsabilidade é recomendar os padrões de ética para a profissão. Ela também orienta seus membros
e os consumidores com relação aos padrões éticos. Os membros da Comissão de Ética e a equipe do Programa
de  Ética  da  AOTA  são  recursos  para  estudantes,  profissionais,  professores  e  consumidores.  Eles  fornecem  a
assistência  com  relação  à  interpretação  de  princípios  éticos  relevantes  por  meio  da  emissão  de  pareceres,
consultas, artigos e apresentações. Por fim, a Comissão de Ética é responsável pelo processo de desenvolvimento
e aplicação dos procedimentos de fortalecimento do código. As ações disciplinares são aplicáveis aos membros
da  AOTA  e  incluem  advertência,  censura,  suspensão  condicional,  suspensão  da  afiliação  e  revogação
permanente da afiliação.

National Board for Certification of Occupational Therapy
O National Board  for  Certification  in  Occupational  Therapy  (NBCOT)  é  uma  agência  de  credenciamento  que
fornece certificação para a profissão da terapia ocupacional (NBCOT, 2006). Sua missão consiste em atender o
interesse  público  ao  garantir  a  competência  de  todos  os  profissionais  de  terapia  ocupacional  certificados.  O
NBCOT  estabelece  padrões  mínimos  para  a  certificação  para  início  da  atuação  profissional  e  padrões  de
recertificação  contínua,  incluindo  a  capacitação  contínua  pelo  desenvolvimento  profissional.  O  Código  de
Conduta  do  Certificado  pelo  NBCOT  identifica  as  responsabilidades  profissionais  para  os  terapeutas
ocupacionais  certificados.  Como  em  muitos  códigos  organizacionais  de  conduta,  o  Código  de  Conduta  do
Certificado  pelo  NBCOT  inclui  princípios  relacionados  à  ética,  como  integridade,  honestidade,  veracidade  e
competência  técnica.  A  violação  deste  código  de  conduta  permite  sanção  que  pode  envolver  advertência,
suspensão  temporária  ou  suspensão  ou  revogação  da  certificação.  A  suspensão  ou  revogação  da  certificação
proíbe que indivíduos penalizados atuem na terapia ocupacional.
O  Comitê  de  Revisão  de  Qualificação  e  Adesão  do  NBCOT  supervisiona  as  questões  de  violação  da
certificação,  como  quebras  da  ética  e  prática  não  profissional.  O  NBCOT  notifica  os  conselhos  reguladores
estaduais e o público em geral sobre qualquer queixa que receba e a ação disciplinar por ele aplicada em resposta
a  esta  queixa.  Informações  adicionais  sobre  o  NBCOT  e  o  Código  de  Conduta  do  Certificado  pelo  NBCOT
podem ser encontradas em www.nbcot.org.

Conselhos Reguladores Estaduais
Os  conselhos  de  licenciamento  ou  conselhos  reguladores  estaduais  –  State  regulatory  boards  (SRB)
salvaguardam  e  promovem  o  bem­estar  público  ao  garantir  que  as  qualificações  e  os  padrões  para  a  atuação
profissional sejam adequadamente avaliados, aplicados e instituídos (Doherty, Peterson & Braveman, 2006). A
terapia ocupacional está regulamentada em todos os 50 estados e nos três territórios dos Estados Unidos. O nível
de  regulamentação  varia;  portanto,  todos  os  profissionais  de  terapia  ocupacional  precisam  estar  cientes  das
provisões  e  dos  estatutos  específicos  do  estado  em  que  atuam.  Muitos  estados  utilizam  o  licenciamento
profissional para regular a prática, mas muitos dispõem de requisitos de certificação, registro ou apenas marca
registrada.  O  licenciamento  é  um  meio  de  definir  o  escopo  de  atuação  legal.  Ele  garante  proteções  para  o
paciente  e  articula  legalmente  o  domínio  de  atuação  para  a  profissão.  O  licenciamento  também  impede  que
indivíduos não qualificados pratiquem a terapia ocupacional ou utilizem o título de “terapeuta ocupacional” ou
“assistente de terapia ocupacional”. Muitos estados incluem códigos de ética ou declarações (códigos de conduta
ética)  em  suas  leis  ou  regulamentações  de  licenciamento.  Os  SRB  têm  autoridade  por  lei  estadual  para  impor
sanções para os profissionais de terapia ocupacional que violem as regulamentações, inclusive o código de ética
do  estado.  Os  profissionais  têm  a  responsabilidade  de  compreender  as  regulamentações  sob  as  quais  eles
trabalham e o procedimento para processar uma queixa.

O PROCESSO ÉTICO DE TOMADA DE DECISÃO
O processo ético de tomada de decisão, como o processo de raciocínio clínico, ajuda a raciocinar através de um
problema  de  uma  maneira  estruturada  e  sistemática.  Este  processo  propicia  uma  maneira  para  que  os
profissionais deem a consideração devida aos problemas, reflitam sobre eles, formulem as possíveis alternativas
e façam escolhas pensadas. Aspectos comuns dos modelos éticos de tomada de decisão envolvem a necessidade
de o profissional:
1. Identificar a questão ética
2. Reunir dados relevantes
3. Formular um diagnóstico moral
4. Formular alternativas práticas para solução do problema e selecionar uma alternativa de ação
5. Agir conforme a decisão e avaliar os resultados (Bailey & Schwartzberg, 2003; Gervais, 2005; Hansen &
Kyler­Hutchinson, 1989; Miller, Fletcher & Fins, 1995; Purtilo, 2005; Scanlon & Glover, 1995).

ESTUDO DE CASO: Obrigaçães Duais e Conversas Difíceis: Questães Éticas na
Confidencialidade e Recusa de Atendimento

Maura  é  uma  terapeuta  ocupacional  que  trabalha  em  um  programa  de  intervenção  precoce  —  early
intervention (EI). Ela recebeu o encaminhamento de uma menina de 2,5 anos de idade, chamada Jen Stone,
que  recentemente  recebeu  alta  do  hospital.  Jen  é  a  mais  jovem  de  cinco  filhos  e  o  motivo  de  seu
encaminhamento  para  a  EI  foi  uma  recente  internação  após  um  acidente  domiciliar.  Jen  sofreu  uma  lesão
durante  a  mudança  da  família  Stone.  Durante  a  mudança,  eles  retiraram  a  porta  de  suas  dobradiças  para
mover  várias  peças  grandes  da  mobília.  A  porta  caiu  sobre  Jen,  resultando  em  traumatismo  craniano.  A
avaliação  inicial  de  Maura  observou  que  Jen  estava  bastante  atrasada  em  todos  os  marcos  de
desenvolvimento. Seu vocabulário limitava­se a aproximadamente 10 palavras, e ela demonstrou uma discreta
fraqueza  na  mão  esquerda  e  atrasos  significativos  nas  habilidades  motoras  finas.  Jen  raramente  sorria  e
demonstrava  muita  ansiedade  com  estranhos  durante  a  avaliação.  A  Sra.  Stone  relatou  que  todos  os  seus
filhos  “falam  devagar”.  A  Sra.  Stone  pensa  que  Jen  precisa  de  medicamentos  por  causa  do  traumatismo
craniano.  Na  conversa  seguinte  com  a  Sra.  Stone,  Maura  compreendeu  que  ela  estava  falando  sobre
fenobarbital,  um  medicamento  anticonvulsivante  que  é  prescrito  para  evitar  convulsões  e  não  se  destina  a
estimular o desenvolvimento. Maura explicou a finalidade do remédio e que Jen precisa de terapia abrangente
para ajudar em sua recuperação neurológica. A Sra. Stone disse à Maura que todos no hospital queriam que
Jen  fosse  para  uma  instituição  de  reabilitação,  mas  que  ela  realmente  queria  levar  Jen  para  casa.  Maura
concluiu  que  a  Sra.  Stone  tinha  pouca  compreensão  sobre  o  desenvolvimento  infantil  típico  e  como  este
traumatismo craniano afetaria Jen.
Maura ficou perturbada com o caso e com sérias dúvidas em relação a Jen e sua família. Em sua reunião
mensal com a equipe de EI, Maura discutiu suas preocupações. Shoshona, a assistente social designada para
o caso de Jen, relatou que “esta é uma família de alto risco” e que outros irmãos já tinham sido internados e
receberam  alta  a  revelia.  Depois  daquela  reunião,  Maura  e  alguns  de  seus  colaboradores  foram  tomar  uma
xícara de café. Quando Maura aguardava na fila na cafeteria, Shoshona disse: “Fique com o caso Stone. Faça
o que tiver que fazer para permanecer com esse caso. Lembre que esta é uma família de alto risco.” Maura
ficou  chocada  com  esta  quebra  de  confidencialidade  e  disse:  “Lembre­se  que  não  estamos  mais  no
consultório.”
Na semana seguinte, quando Maura foi ver Jen, a Sra. Stone não queria deixá­la entrar, dizendo que seu
marido  tinha  ouvido  algumas  pessoas  conversando  sobre  eles  na  cafeteria.  O  Sr.  Stone  havia  dito  a  sua
mulher:  “Se  você  deixá­los  entrar  em  casa  novamente,  você  irá  se  arrepender.”  Maura  rapidamente  pediu
desculpas e saiu, embaraçada, incomodada e preocupada com Jen e sua família.
Este caso ressalta como, na ética clínica, a história do cliente frequentemente começa em um ambiente e
continua a se desdobrar em outro. Ele também destaca a natureza imperativa dos fatos na tomada de decisão
em uma situação ética complexa. Para garantir uma resposta profissional e carinhosa a esta situação, Maura
precisa analisar cuidadosamente as questões éticas. O processo ético de tomada de decisão ajuda a orientar
seus pensamentos e ações. As seções a seguir descrevem este processo.

Identificar a Questão Ética
A primeira etapa ao abordar uma questão ética consiste em determinar se o problema contém uma dimensão
ética  separada  de  outras  dimensões  (clínica,  legal  e  política).  O  profissional  da  terapia  ocupacional  deve
identificar  e  refletir  sobre  as  questões  éticas  que  surgiram  no  caso.  Com  frequência,  isto  começa  com  a
pergunta: “O que devo fazer?” No caso de Jen e Maura, algumas das questões éticas são as seguintes:

Maura  deve  insistir  em  acompanhar  a  Sra.  Stone  e  Jen?  Em  caso  positivo,  ela  estará  provocando  mais
dano do que benefício?
Os Stones têm o direito de recusar o atendimento para sua filha?
A  instituição  deve  discutir  a  quebra  da  confidencialidade  com  os  Stones?  Com  suas  agências
supervisoras? A instituição poderia recuperar a confiança da família apesar desta violação?
Maura deve defender a organização ou Jen e os Stones? Como ela pode equilibrar suas obrigações duais
para com a família Stone e com a organização?

Na prática clínica, as questões éticas frequentemente surgem em paralelo com questões clínicas e legais.
Nossa  ênfase  aqui  é  sobre  a  análise  ética  deste  caso.  No  entanto,  os  profissionais  também  devem  estar
cientes  das  dimensões  legais  e  clínicas  para  analisar  efetivamente  os  casos  complexos.  Uma  das  questões
éticas acima identificadas é: “Os Stones devem ter o direito de recusar o atendimento para sua filha?” Isto é
diferente  da  questão  legal:  “Os  Stones  têm  o  direito  (legalmente)  de  recusar  o  atendimento  para  sua  filha?”
Uma  das  questões  clínicas  neste  caso  é:  “Qual  seria  o  impacto  da  intervenção  terapêutica  negada  sobre  o
desenvolvimento  de  Jen?”  Outra  é:  “Qual  é  a  evidência  para  apoiar  o  momento  de  tratamento  após  o
traumatismo craniano?” O profissional deve considerar estas várias dimensões e refletir sobre a contribuição
de  cada  uma  delas  para  o  processo  de  raciocínio  crítico  geral,  sendo  a  meta  conseguir  o  melhor  resultado
para o cliente.

Reunir Dados Relevantes
A  próxima  etapa  na  análise  ética  consiste  em  reunir  dados  relevantes  que  identifiquem  os  fatos  e  crenças
conhecidos  sobre  o  caso.  É  importante  distinguir  entre  os  dois.  Os  fatos  são  necessários  para  a  tomada  de
decisões criteriosas. Os fatos relativos às informações médicas e a fatores como contexto familiar, preferências
do  cliente,  questões  sociais  e  culturais,  fatores  institucionais  e  considerações  do  profissional  devem  ser
confirmados para a exatidão. Quando necessário, devem ser pesquisadas informações adicionais.
Alguns dos fatos relativos ao problema atual são os seguintes:

Jen  apresenta­se  com  habilidades  de  desenvolvimento  bem  abaixo  dos  parâmetros  para  sua  idade
cronológica.
Os  Stones  levaram  Jen  para  casa  contra  o  aconselhamento  dos  membros  da  equipe  do  hospital,  que
recomendaram a transferência de Jen para uma instituição de reabilitação em caráter de internação.
A Sra. Stone tem um baixo nível de escolaridade.
Maura teve seu acesso à casa negado.
A assistente social quebrou a confidencialidade e violou o privilégio da cliente quando conversou sobre o
caso na cafeteria.
Algumas das crenças são as seguintes:

Poderia ter havido negligência ou abuso em casa.
Os  pais  de  Jen  não  estão  agindo  no  melhor  interesse  dela  ao  recusarem  a  reabilitação  em  regime  de
internação e a intervenção precoce.
A condição inicial de Jen era de atraso de desenvolvimento significativo.
Jen teria feito maior progresso em uma instituição de reabilitação do que em casa.
Os Stones acreditam que a violação da confidencialidade da assistente social foi intencional. (Na maioria
dos  casos,  as  violações  da  confidencialidade  não  são  de  natureza  maliciosa,  mas  revelações  acidentais
com objetivo de discutir um bom resultado ou o resultado de imprudência.)

Formular um Diagnóstico Moral
Uma  vez  que  as  informações  tenham  sido  reunidas,  deve  ser  formulado  um  diagnóstico  moral  ao  serem
identificados o tipo de problema ético e os princípios que se aplicam ao caso. Se houver mais de um problema,
eles devem ser classificados em ordem de importância.
Tendo considerado as questões éticas no caso de Jen, Maura deve decidir se o problema ético é sofrimento
ou dilema. Como é comum na prática clínica, muitos casos causam sofrimento; no entanto, o caso de Jen é
um verdadeiro dilema porque Maura está diante de dois cursos de ação, e ambos parecem ser inaceitáveis.
Se  ela  retorna,  Jen  e  a  Sra.  Stone  poderiam  ser  agredidas  pelo  Sr.  Stone.  Se  ela  não  retorna,  o
desenvolvimento de Jen fica em risco. Maura está tendo dificuldade para decidir o que fazer para honrar tanto
os princípios de benefício (fazer o bem para Jen) como de não maleficência (não causar mal para Jen e para a
Sra.  Stone).  Maura  sabe  que  a  quebra  de  confidencialidade  de  Shoshona  violou  a  confiança  da  família
(fidelidade) e que ela precisa consultar sua instituição para garantir que a confidencialidade de outros não seja
violada  novamente  desta  maneira  (justiça).  Maura  também  está  em  uma  posição  em  que  poderia  precisar
equilibrar as responsabilidades organizacionais e profissionais.
Existem  muitos  suportes  neste  caso,  e  existem  múltiplas  questões  de  poder  entre  o  Sr.  e  a  Sra.  Stone,
Maura, Shoshona e a agência de EI.

Alternativas Práticas de Solução de Problema e Decisão sobre um Curso de Ação
Agora  que  Maura  delineou  os  fatos  e  as  crenças  sobre  o  problema,  ela  deve  começar  a  identificar  as
alternativas práticas e decidir o que fazer. Maura deve perguntar a si própria: “O que é o bom ou qual a coisa
certa  a  fazer?”  Seria  prudente  ela  consultar  recursos  éticos  de  sua  instituição  e  pedir  orientação  a  seus
supervisores nesta análise ética. Ela poderia consultar­se com várias pessoas de suporte, como o escritório do
serviço  social,  o  diretor  do  serviço  EI,  o  pediatra  de  Jen  e  a  equipe,  a  fim  de  identificar  as  estratégias para
engajar a família e recuperar sua confiança. Ela também poderia reunir­se com o comitê de ética da agência
ou  consultar  fontes  como  o  Código  de  Ética  de  Terapia  Ocupacional  da  AOTA.  Estes  recursos  ajudarão  a
orientar  a  reflexão  de  Maura  e  as  ações  subsequentes.  A  criação  de  uma  lista  de  alternativas  possibilita  a
avaliação das consequências positivas e negativas. Quando as alternativas forem identificadas, a teoria ética
deverá ser aplicada para apoiar e justificar a ação proposta.
Maura elaborou uma lista de possíveis alternativas:

Abordar a Sra. Stone mais uma vez para esclarecer os fatos e garantir que ela está fazendo uma recusa
informada dos serviços.
Pedir desculpas pela quebra da confidencialidade em uma tentativa de progredir
Informar  a  família  sobre  as  providências  tomadas  pela  instituição  para  garantir  que  esta  quebra  da
confidencialidade não mais acontecerá
Oferecer outro profissional para trabalhar com Jen
Oferecer outra instituição ou serviço para fornecer o atendimento.

Maura precisará refletir sobre as alternativas, aplicar a teoria ética para apoiar suas ações e chegar a um
julgamento sobre a melhor conduta. Maura e seu empregador também poderiam precisar consultar o conselho
legal da agência, pois a quebra da confidencialidade representa uma violação da HIPAA – Health Insurance
Portability  and  Accountability  Act  (Lei  de  Responsabilidade  e  Portabilidade  do  Seguro  de  Saúde).  Virtude,
sensibilidade às questões éticas e um processo para analisar as questões éticas são elementos importantes
na tomada de decisão ética. Maura pesa todas as alternativas e, depois de conversas com múltiplas fontes,
decide  reaproximar­se  da  Sra.  Stone  para  garantir  que  ela  está  fazendo  uma  recusa  informada  e,  em  caso
positivo,  oferecer  instituições  alternativas  para  atender  Jen  e  recursos  de  serviços  sociais,  caso  ela  deseje
procurá­los.

Agir de Acordo com a Escolha e Avaliar os Resultados
Agora que Maura decidiu sobre o curso da ação, ela deve agir de acordo com a decisão, preenchendo o hiato
entre saber o que deve fazer e realmente fazê­lo. É neste ponto que o conceito de Aristóteles de sabedoria
prática  e  argumento  moral  se  une  ao  julgamento  clínico  para  a  ação.  Com  frequência,  esta  é  a  etapa  mais
difícil  porque  exige  coragem  moral  para  assumir  posições  impopulares  ou  contrárias  ao  interesse  de  outros
(Aulisio  et  al.,  2000).  A  coragem  moral  é  uma  habilidade.  Ela  envolve  enfrentar  e  superar  o  medo  para
alcançar um bem final.
Maura precisará de coragem para conversar com a Sra. Stone. Ela deve valer­se da virtude da humildade e
reconhecer  o  erro  no  sistema  EI.  Maura  também  precisa  ter  firmeza  e  habilidade  para  engajar  a  família  na
recuperação  da  confiança,  de  modo  que  Jen  venha  a  ter  acesso  à  terapia.  Ela  precisará  estar  atenta  aos
interesses e às emoções da família e lembrar a meta principal, que é dar a Jen o tratamento que ela necessita.
Maura precisa justificar sua ação com motivos morais. Se a assistente social e Maura reunirem evidências de
abuso ou negligência doméstica, elas precisarão se familiarizar com as políticas estaduais e da instituição de
EI  sobre  a  denúncia  obrigatória.  Maura  precisará  ser  criativa  ao  discutir  as  alternativas  para  esta  situação
complexa,  de  modo  que  a  meta  principal,  que  é  cuidar  de  Jen,  seja  alcançada.  Ela  também  pode  precisar
fazer  sacrifícios  para  o  beneficio  de  Jen.  Isto  poderia  incluir  retirar­se  do  caso  e  encaminhar  Jen  para  uma
instituição de EI diferente, para que ela receba tratamento.
Por fim, Maura precisa avaliar os resultados de sua ação. A avaliação inclui a análise atual e retrospectiva.
Buscar  informações  com  colegas  experientes  e,  até  mesmo,  com  membros  do  comitê  de  ética  pode  ser
valioso na avaliação do resultado das ações realizadas. Esta análise pode orientar a ação futura ao evitar ou
impedir  uma  situação  similar  ou  saber  como  agir  se  acontecer  uma  situação  similar  no  futuro.  As  perguntas
que Maura poderia fazer são as seguintes:

O que aprendi com este caso para ajudar a melhorar o tratamento de um futuro paciente?
O que aprendi que contribuirá para minha própria vida moral e para minhas virtudes como profissional?
Como este caso me afetou como profissional de saúde?
De que conhecimento adicional eu preciso para ser mais efetiva no manuseio de futuros dilemas éticos?

A avaliação do processo de tomada de decisão, em casos como este, tem o potencial de modificar a prática
clínica, políticas, educação ou sistemas de fornecimento de serviço. A avaliação proporciona a oportunidade
para  reflexão  pessoal  e  profissional  que  pode  levar  a  um  desenvolvimento  profissional  adicional  e  maior
confiança para responder aos futuros dilemas éticos. Maura também poderia trabalhar com seus colegas e a
instituição para modificar as políticas (como a confidencialidade e a revelação) e a orientação da equipe, de
modo que uma quebra similar da confidencialidade não aconteça no futuro. Maura também deve considerar
como aqueles a quem ela consultou contribuíram para o caso e deve criticar seu próprio processo de tomada
de decisão para melhorar sua prática futura.

CONVERSAS DIFÍCEIS
O caso de Maura e Jen ressalta como os profissionais precisam se engajar em conversas difíceis. Algumas destas
são  com  clientes,  algumas  com  as  famílias  e  algumas  com  os  colegas.  Embora  estas  conversas  possam  ser
desconfortáveis e indesejadas, por meio do desenvolvimento de estratégias efetivas de comunicação e audiência,
os profissionais podem tornar­se mais habilidosos e confiantes ao enfrentar este desafio.
Os  profissionais  de  terapia  ocupacional  que  são  empáticos  estão  mais  bem  preparados  para  as  conversas
difíceis. A discussão da empatia é relevante na tomada de decisão ética, pois ela pode ajudar os profissionais a
analisarem a experiência daqueles que procuram seus cuidados. Independente de quão difíceis possam ser estas
discussões, os clientes também têm escolhas difíceis. Desenvolver a capacidade de avaliar o comportamento de
um cliente ou da família requer que os profissionais apreciem e aceitem uma perspectiva diferente e diferentes
escolhas (Cohen, 2004). Esta é a primeira etapa para demonstração de sensibilidade moral.
A comunicação aberta e a empatia são componentes primordiais para o fornecimento do cuidado compassivo.
As sugestões para a comunicação efetiva são as seguintes:
1. Estar  presente.  Sempre  respeite  os  outros.  Tente  minimizar  as  interrupções  e  assegure  que  o  ambiente
esteja livre de distrações, o mais possível. Escolha um estilo de comunicação apropriado para a situação.
Estabeleça uma relação de confiança, fazendo bom contato visual, sentando próximo à pessoa e/ou tocando
a pessoa quando apropriado para comunicar apoio.
2. Utilizar a comunicação aberta e ouvir com tranquilidade. Com frequência, falamos muito, o que não dá
tempo  para  que  a  outra  pessoa  fale.  Frases  como  “prossiga”  podem  incentivar  a  pessoa  a  examinar  as
questões em um nível mais profundo (Cameron, 2004).
3. Permanecer  focado  na  pessoa  e  nas  metas  do  tratamento.  As  metas  são  adequadas  e  possíveis  de
alcançar? Elas maximizam o benefício e minimizam o esforço? Se a conversa começa a se desviar do tema,
traga­a de volta ao dizer: “Embora eu aprecie compartilhar esta informação interessante, nos desviamos de
nosso foco de hoje, que é sobre...”
4. Ser contido e humilde. Se você não sabe a resposta para uma pergunta, diga isto e garanta à pessoa que
você irá encontrar a resposta. Em seguida, encontre a resposta e relate à pessoa. Compartilhe sua incerteza
sobre o caso ou prognóstico.
5. Legitimar  as  perdas  que  a  pessoa  está  experimentando.  É  importante  reconhecer  a  experiência  da
pessoa.  Muitos  clientes  não  estão  preparados  para  lidar  com  a  condição  diagnosticada.  Eles  jamais
imaginaram  estar  em  um  estado  comprometido  e  sua  família  pode  não  ser  capaz  de  lidar  com  as
implicações  pessoais  ou  financeiras  desta  mudança.  Negação,  depressão  e  raiva  são  respostas  comuns  à
doença e à incapacidade. Os profissionais precisam reconhecer estas emoções abertamente ao dizer: “O que
eu estou ouvindo você dizer é que você está com raiva porque você não pode mais cozinhar” ou “Deixe­me
ver se posso resumir o que sua filha está tentando dizer... É correto?”
6. Se  você  está  tendo  dificuldade  com  uma  questão,  pense  como  o  problema  seria  experimentado  pela
perspectiva do cliente (L. Nash, 1981). Ao ouvir mais abertamente o outro lado do argumento, podemos
avaliá­lo pelo que representa (Cohen, 2004).
7. Reconhecer “o elefante na sala” (Quill, 2000). Perguntas relativas à qualidade de vida e questões sobre o
término  da  vida  podem  ser  particularmente  complexas.  Os  profissionais  de  terapia  ocupacional  que
estabeleceram  relacionamentos  com  seus  clientes  são  obrigados  a  informá­los  claramente  sobre  a
probabilidade do sucesso ou fracasso das técnicas terapêuticas. É importante engajar os clientes na tomada
de  decisão  compartilhada.  Os  profissionais  devem  fazer  perguntas  diretas,  ouvir  cuidadosamente  as
respostas e obedecer à vontade da pessoa, fazendo perguntas de acompanhamento que utilizem as palavras
da própria pessoa. Fazer perguntas como “Quais são suas maiores esperanças?” e “Quais são seus maiores
temores?”  pode  ajudar  o  profissional  e  o  cliente  a  estabelecerem  as  metas  apropriadas  para  o  tratamento
(Quill, 2000).
8. Prestar  atenção  às  palavras  que  você  utiliza  e  como  você  as  utiliza.  Esteja  ciente  de  seu  tom,  suas
expressões  faciais  e  sua  linguagem  corporal.  Utilize  uma  fala  calma  e  pausada  (Weeks,  2001).  Se  o
conteúdo de sua mensagem é claro, o ouvinte pode processar melhor a informação.

CONCLUSÃO
As  questões  éticas  sempre  estão  presentes  na  prática  profissional  e  continuarão  a  desafiar  os  profissionais  de
terapia ocupacional à medida que evoluem os campos da medicina, da tecnologia e do fornecimento de cuidados
de  saúde.  Os  terapeutas  ocupacionais  precisam  reconhecer,  raciocinar  de  forma  crítica,  agir  e  refletir  sobre  as
questões  éticas  que  surgem  em  suas  funções  profissionais.  Os  profissionais  de  terapia  ocupacional  que  são
reflexivos e experientes nos processos de tomada de decisão ética estão mais bem preparados para abordar com
sucesso  os  aspectos  éticos  da  prática.  O  comportamento  ético  é  responsabilidade  de  todos  os  profissionais  de
terapia ocupacional.

     Você escolheu uma trajetória de carreira que irá exigir julgamentos complexos (e, por vezes, perplexos) a respeito da
moralidade  em  relação  ao  tratamento  do  paciente,  à  política  de  saúde  e  a  outros  aspectos  da  vida  profissional.  Muitos
destes  julgamentos  terão  significado  em  relação  à  sua  própria  vida  moral,  à  da  sua  profissão  e  da  sociedade.  Mas  o
caminho não é único, você precisa avançar a cada etapa do caminho. (Purtilo, 2000)

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Colaboração Centrada no Cliente
SUSAN AYRES ROSA

Sumário
Introdução
Colaboração no Cuidado de Saúde
Estar Centrado no Cliente
Evidência de Pesquisa
Os Desafios da Colaboração Centrada no Cliente
Influências do Contexto sobre a Colaboração Centrada no Cliente
Influências Pessoais sobre a Colaboração Centrada no Cliente
Conclusão

Objetivos de Aprendizagem
Após a leitura deste capítulo, você será capaz de:

1. Discutir  os  termos  colaboração,  cuidado  centrado  no  cliente  e  atuação  moral  autônoma  no
contexto do cuidado de saúde.
2. Descrever  os  benefícios  da  colaboração  centrada  no  cliente  para  os  clientes  e  para  os
profissionais.
3. Identificar  os  fatores  ambientais  e  pessoais  que  podem  produzir  desafios  para  a  utilização  dos
princípios centrados no cliente na prática da terapia ocupacional.
4. Discutir  a  importância  da  defesa  do  cliente,  habilidades  de  comunicação  e  negociação  de
diferenças com os clientes em relação às metas da terapia e às expectativas da prática centrada
no cliente.

INTRODUÇÃO
Em destaque entre os valores presentes nos documentos oficiais da American Occupational Therapy Association
(AOTA) está uma apreciação da e o respeito pela singularidade de cada cliente e pelos direitos de cada cliente
exercer  a  escolha  e  o  autodirecionamento  (AOTA,  1998,  2002,  2005).  O  Código  de  Ética  da  AOTA  (AOTA,
2005) obriga especificamente que os profissionais respeitem os direitos dos clientes de influenciarem as decisões
que  os  afetam.  Uma  das  maneiras  de  os  profissionais  agirem  de  acordo  com  esses  ideais  e  diretrizes  éticos  é
incentivar  os  clientes  a  participarem  de  todas  as  fases  do  processo  terapêutico,  incluindo  identificação  do
problema,  estabelecimento  da  meta,  planejamento  do  tratamento  e  avaliação  dos  resultados.  Trabalhar  em
conjunto  com  os  clientes,  dessa  maneira,  está  no  cerne  dos  modelos  colaborativos  do  cuidado  e  da  prática
centrada no cliente na terapia ocupacional (Corcoran, 1993; Law, 1998).
Neste  capítulo,  examinamos  os  termos  colaboração  e  centrado  no  cliente  e  revisamos  as  evidências  de
pesquisa  sobre  os  resultados  das  práticas  centradas  no  cliente.  Também  exploramos  alguns  dos  desafios
enfrentados pelos profissionais que podem ajudar a explicar por que estar centrado no cliente ainda é de difícil
aceitação para os terapeutas ocupacionais.

COLABORAÇÃO NO CUIDADO DE SAÚDE
Colaborar  com  os  clientes  no  cuidado  de  saúde  significa  trabalhar  com  eles  para  encontrar  um  denominador
comum, considerando os problemas relacionados à saúde e o que fazer a respeito deles. A colaboração envolve
um processo dinâmico  de  compartilhamento  de  informações  de  negociação, em que tanto os clientes como os
profissionais são parceiros ativos. Os clientes devem ser capazes e ter vontade de expressar suas preocupações.
Os profissionais devem empenhar­se para compreender tais preocupações, ao mesmo tempo que compartilham
sua experiência e conhecimento técnico.
Os métodos colaborativos de cuidado, como a prática centrada no cliente, são estabelecidos na convicção de
que  os  clientes  são  capazes  de  agir  como  agentes  morais  autônomos  a  seu  próprio  favor  (Bartholome,  1992).
Esta é a noção de que os clientes não somente têm o direito e a capacidade de contribuir para as decisões que os
afetam,  mas  também  são  especialistas  em  suas  próprias  experiências  relacionadas  à  doença.  Por  causa  do
conhecimento pessoal que os clientes têm de sua própria condição, é provável que eles saibam melhor que os
profissionais  de  saúde  o  que  irá  funcionar  para  eles.  Como  nossa  profissão  se  empenha  para  relacionar  o
conhecimento obtido a partir de evidências de pesquisa relativamente escassas para nortear as decisões sobre a
melhor  prática,  os  profissionais  precisam  se  empenhar  para  buscar  e  honrar  o  conhecimento  pessoal  que  os
clientes trazem para o encontro terapêutico; ele pode ser a melhor e mais relevante evidência disponível.

ESTAR CENTRADO NO CLIENTE
Na terapia ocupacional, o ideal de colaboração está incorporado ao conceito da prática centrada no cliente (Law,
Baptiste  &  Mills,  1995).  O  termo  prática  centrada  no  cliente  data  do  final  dos  anos  1930  e  dos  escritos  do
psicólogo Carl Rogers, que patrocinou uma abordagem para aconselhamento que focava as preocupações que os
próprios clientes identificavam (Law & Mills, 1998). O fundamento da abordagem de Rogers é o respeito pelos
valores culturais únicos dos clientes e a crença de que os clientes desejam e têm a capacidade de assumir um
papel  ativo  no  direcionamento  de  seu  próprio  tratamento.  Rogers  acreditava  ardentemente  que  os  clientes
conhecem melhor suas próprias necessidades e experiências.
Os  sete  conceitos  a  seguir  são  comuns  a  todos  os  modelos  de  prática  centrada  no  cliente  da  terapia
ocupacional:

1. Respeito aos clientes e suas famílias e as escolhas feitas por eles
2. Reconhecimento  de  que  os  clientes  e  as  famílias  têm  a  responsabilidade  final  pelas  decisões  sobre  os
serviços ocupacionais diários e de terapia ocupacional
3. Fornecimento de informação, conforto físico e suporte emocional com ênfase na comunicação centrada na
pessoa
4. Facilitação da participação do cliente em todos os aspectos do atendimento de terapia ocupacional
5. Fornecimento de serviços individualizados e flexíveis de terapia ocupacional
6. Facilitação da capacidade dos clientes para solucionar seus problemas de desempenho ocupacional
7. Reconhecimento e foco sobre a relação pessoa­ambiente­ocupação (Law & Mills, 1998)

Esta  lista  reflete  claramente  o  respeito  pelos  clientes  como  agentes  morais  autônomos  e  pelos  princípios
defendidos por Rogers.

EVIDÊNCIA DE PESQUISA
Embora seja escassa a evidência de pesquisa que aborde a eficácia de uma abordagem especificamente centrada
no cliente em terapia ocupacional, uma massa emergente de achados de pesquisa sugere múltiplos benefícios a
serem alcançados pela incorporação dos princípios centrados no cliente. Ademais, esta evidência sugere que os
clientes e os profissionais são beneficiados.
Os benefícios relatados para os clientes de terapia ocupacional pelo uso de uma abordagem centrada no cliente
incluem melhora do desempenho funcional nas áreas de interesse, retomada dos pa péis de vida, diminuição da
dor,  aumento  da  segurança  e  da  saúde  física  e  aumento  dos  níveis  de  satisfação  com  a  terapia  e  com  os
resultados  do  tratamento  (Case­Smith,  2003;  Horowitz,  2002;  Van  Leit  &  Crowe,  2002).  A  maior
conscientização  dos  clientes  com  relação  às  suas  metas  de  tratamento  e  a  maior  adesão  às  recomendações  de
tratamento  também  foram  associadas  às  abordagens  de  tratamento  que  incorporam  os  princípios  centrados  no
cliente  (Case­Smith,  2003;  Law,  Baptiste  &  Mills,  1995;  Wressle,  Eeg­Olofsson,  Marcusson  &  Henriksson,
2002).
Um número de estudos examinou, de modo geral, as perspectivas do cliente com relação à terapia ocupacional
(McKinnon, 2000; Palmadottir, 2003) e, de maneira específica, às práticas centradas no cliente (Corring & Cook,
1999; Darragh, Sample & Krieger, 2001; Sumsion, 2005). Estas, como o testemunho pessoal de Mary Feldhaus­
Weber descrito no Capítulo 11, nos ensinam o quanto são importantes para os clientes e o quão fortalecedoras
elas  podem  ser  quando  os  profissionais  se  dispõem  a  ouvir  cuidadosamente  as  preocupações  dos  clientes,  a
respeitar suas capacidades e confiar em seus conhecimentos sobre o que é melhor para eles próprios.
A pesquisa também mostrou que trabalhar de maneira centrada no cliente pode ter importantes consequências
para  os  profissionais.  Os  profissionais  ocupacionais  que  sentem  que  ajudaram  os  clientes  de  maneira
significativa para estes relatam uma forte sensação de conexão com estes clientes e uma sensação de união em
parcerias de suporte mútuo. Esses tipos de experiências estimulam e sustentam os profissionais e os motivam e
inspiram em seu trabalho (Rosa & Hasselkus, 1996). É interessante notar que os achados dessa mesma pesquisa
sugerem que não ser capaz de trabalhar em colaboração com os clientes pode estar associado a um esgotamento
dos recursos emocionais dos profissionais e a sentimentos de culpa, rejeição e, até mesmo, fracasso.

OS DESAFIOS DA COLABORAÇÃO CENTRADA NO CLIENTE
Em vista da exigência ética de estar centrado no cliente e dos benefícios documentados para os clientes e para os
profissionais,  é  importante  apontar  que  estar  centrado  no  cliente  tem  sido  perturbadoramente  difícil  de
compreender  para  os  profissionais  de  terapia  ocupacional.  Por  exemplo,  os  estudos  demonstraram  que  os
profissionais  nem  sempre  tentam  colaborar  com  os  clientes;  fazem  menos  do  que  poderiam  para  assegurar  a
participação  dos  clientes  na  identificação  do  problema,  no  estabelecimento  da  meta  e  no  planejamento  do
tratamento;  e  utilizam  estilos  de  comunicação  que  inibem  a  participação  do  cliente  e  o  compartilhamento  da
informação (Allison & Strong, 1994; Clark, Corcoran & Gitlin, 1995; Hasselkus & Dickie, 1990, 1994; Helm &
Dickerson,  1995;  Levine  &  Gitlin,  1993;  Neistadt,  1995;  Northen,  Rust,  Nelson  &  Watts,  1995;  Rosa  &
Hasselkus,  1996).  Os  motivos  para  estes  comportamentos  podem  ser  complexos.  Os  desafios  incluem  as
barreiras institucionais associadas aos ambientes de tratamento e fatores pessoais relacionados aos terapeutas e
aos clientes.

Influências do Contexto sobre a Colaboração Centrada no Cliente
Os  profissionais  de  terapia  ocupacional  trabalharam  tradicionalmente  em  hospitais  e  em  outros  ambientes
clínicos  onde  o  modelo  médico  ou  de  especialista  tende  a  ser  o  modelo  dominante  de  prestação  de  serviço.
Historicamente, o modelo médico incluiu as crenças de que o poder e o controle em relação às decisões clínicas
residem principalmente nos profissionais por causa de seu conhecimento superior e autoridade. Nesse modelo,
os  clientes  têm  o  dever  correspondente  de  aderir  ao  aconselhamento  experiente  oferecido  pelos  profissionais
médicos.  O  modelo  da  experiência  continua  a  exercer  forte  influência  em  alguns  ambientes  (Fearing  &
Fergusson­Pare, 2000; Kyler, 2005; Lawlor & Mattingly, 1998; Wilkins, Pollock, Rochon & Law, 2001). Estar
centrado  no  cliente  nesses  contextos  desafia  os  profissionais  a  defenderem  os  clientes,  cujas  vozes,  de  outro
modo,  poderiam  não  ser  ouvidas  e  permitir  a  liderança  na  promoção  da  mudança  na  instituição  (Fearing  &
Ferguson­Pare, 2000).
Nos  ambientes  de  reabilitação,  as  metas  e  as  expectativas  da  terapia  enfatizam  a  independência,  o  trabalho
árduo  e  fazer  com  que  os  clientes  realizem  o  máximo  possível  por  eles  próprios.  Como  estas  metas  são
universais na reabilitação e tão fortemente defendidas, por vezes sem a determinação de que estejam adequadas
ao que os clientes querem para si próprios, alguns sugeriram que elas constituem uma ideologia da reabilitação
(Hasselkus,  Dickie  &  Gregory,  1997;  Lawlor  &  Mattingly,  1998).  De  fato,  os  profissionais  de  terapia
ocupacional  que  trabalham  em  ambientes  de  reabilitação  descrevem  as  maneiras  pelas  quais  persistiram  para
estabelecer uma agenda de reabilitação mesmo diante da forte resistência dos clientes (Rosa & Hasselkus, 2005).
O desafio para os profissionais que trabalham em reabilitação é compreender os valores e as preocupações dos
clientes  e  refletir  sobre  quanto  estes  possam  diferir  de  qualquer  meta  e  expectativa  considerada  adequada  que
possa ser imposta aos clientes em consequência de uma ideologia de reabilitação.

Influências Pessoais sobre a Colaboração Centrada no Cliente
Além das barreiras institucionais, os fatores pessoais associados aos clientes e aos terapeutas podem representar
barreiras  para  o  processo  de  compartilhamento  de  informação  e  negociação  necessário  para  a  prática
colaborativa  e  centrada  no  cliente.  Quando  os  clientes  são  incapazes  ou  não  têm  vontade  de  se  expressar,
verbalizar suas preocupações ou assumir, de alguma maneira, uma participação ativa no processo, ou quando os
profissionais não dão atenção às preocupações dos clientes ou não têm as habilidades ou a paciência necessárias
para atenuar as muitas dificuldades que possam surgir, o processo pode ser prejudicado.
Entre os motivos pelos quais os clientes poderiam ser incapazes ou não ter vontade de ser parceiros efetivos
dos terapeutas estão as diferenças de linguagem, afasia, perda da audição e outras barreiras para a comunicação
básica,  déficits  físicos  e  cognitivos,  questões  psicológicas  e  diferenças  culturais.  Os  clientes  simplesmente
poderiam estar muito doentes ou muito cansados para identificar metas ou tomar decisões sobre seu tratamento.
As limitações cognitivas, o nível de escolaridade e a doença mental podem interferir na capacidade de um cliente
pensar de maneira clara ou compreender os problemas envolvidos. Desconfiança, raiva, ansiedade, depressão e o
pensamento desorganizado e ilusório podem limitar a capacidade de se engajar em parcerias efetivas. Os clientes
podem ter crenças culturais que façam com que eles fiquem desconfortáveis em tomar decisões a respeito de seu
próprio tratamento. Os profissionais precisam vencer as barreiras existentes dentro do possível em um esforço
para  compreender  os  clientes  plenamente  e  compartilhar  o  poder  e  a  responsabilidade  da  tomada  de  decisão
(Precin, 2002; Sumsion, 1999).
Os exemplos acima tornam claro que o cuidado colaborativo centrado no cliente pode exigir comunicação de
alto  nível  e  sofisticadas  habilidades  de  interação  pessoal.  Thomson  (2000)  sugeriu  que  os  clientes  que
apresentam algum dos tipos de dificuldade citados anteriormente deveriam, talvez, ser considerados “casos de
especialista” (p. 11), por causa do nível de habilidade que Thomson acredita ser necessário para colaborar com
eles de forma efetiva.
Além da habilidade, os profissionais devem estar abertos para explorar as diferenças em relação às metas da
terapia  e  às  expectativas  dos  clientes  cujas  metas,  cultura  e  experiências  de  vida  podem  ser  muito  diferentes
daquelas dos profissionais (Sumsion & Smyth, 2000). A gama de diferenças individuais dentro das culturas e o
potencial  para  visões  de  mundo  bastante  distintas  entre  as  culturas  podem  propiciar  novos  desafios  a  cada
paciente. Quando as diferenças estão presentes, a comunicação efetiva demanda uma abertura para exploração
destas diferenças junto aos clientes, além de habilidade e paciência em sua negociação.
Os achados de um estudo recente revelam que os terapeutas ocupacionais nem sempre demonstram esse tipo
de abertura para explorar as diferenças com os clientes (Rosa & Hasselkus, 2005). Pelo contrário, a concordância
entre as metas e as expectativas da terapia pareceu ser baseada mais na compatibilidade dos clientes do que na
negociação dessas diferenças. Os terapeutas ocupacionais que participaram do estudo colaboraram prontamente
com os clientes com quem eles tinham uma relação pessoal considerável, os clientes que estavam “em sintonia”
em  termos  de  metas  e  expectativas  do  tratamento  e  com  os  quais  eles  estabeleceram  uma  forte  conexão.  Em
contrapartida,  os  terapeutas  se  descobriram  em  desacordo  com  os  clientes  com  quem  isso  não  acontecia  e
experimentaram  conflito  e  tensão  em  torno  das  metas  e  expectativas  do  tratamento  quando  trabalharam  com
estes clientes.
Psicólogos sociais nos dizem que é natural que cada um de nós seja mais aberto com algumas pessoas do que
com  outras.  Por  exemplo,  é  mais  provável  que  ajudemos  alguém  por  quem  nos  sentimos  atraídos,  sejamos
atraídos por pessoas com as quais sentimos alguma compatibilidade e que nos comuniquemos mais prontamente
com aqueles com quem estabelecemos interações positivas (Schroeder, Penner, Dovidio & Piliavin, 1995). Estes
comportamentos  são  uma  expressão  espontânea  de  nossos  sentimentos  em  relação  àqueles  por  quem  nos
sentimos atraídos e por quem sentimos alguma conexão. De maneira correspondente, pode ser natural para nós
que estejamos menos abertos para ajudar clientes que estão zangados, que são exigentes ou desagradáveis ou que
nos apresentam outros desafios importantes de comunicação ou comportamento. É fácil compreender, então, que
pode ser mais difícil para nós encontrar motivação para compreender clientes como estes.
Nas  relações  profissional­cliente,  o  profissional  tem  a  responsabilidade  de  tentar  compreender  todos  os
clientes,  mesmo  aqueles  com  quem  tem  pouco  ou  nada  em  comum,  que  são  desagradáveis,  ou  com  os  quais
sente  pouca  ou  nenhuma  atração  ou  relação.  Se  os  profissionais  de  terapia  ocupacional  aceitam  a
responsabilidade de enfrentar esses desafios, transpor as diferenças e resolver os conflitos, eles, como todos os
profissionais, devem ir além do que apenas vem naturalmente até eles. Este é o ponto que Montgomery (1993),
enfermeira e pesquisadora, ressalta:

Este estado natural de responsividade e compromisso não é suficiente por si só para garantir o cuidado efetivo em nível
profissional. Os clientes que fazem contato com profissionais que os ajudam esperam mais que boas intenções. Portanto,
os  profissionais  que  ajudam  precisam  não  apenas  ser  competentes  nas  habilidades  e  na  ciência  de  sua  profissão,  como
também  precisam  apresentar  sofisticadas  capacidades  de  relacionamento  e  comunicação  para  manusear  uma  gama  de
demandas  e  desafios  interpessoais  e  de  relacionamento.  Em  outras  palavras,  assumir  o  compromisso  de  cuidar  não  é
fácil.  Os  cuidadores  precisam  desenvolver  capacidades  de  comunicação  que  permitirão  que  eles  se  mantenham
envolvidos e continuem a ser terapêuticos diante destas demandas e destes desafios. (p. 14)

Por causa dos muitos desafios que podem estar presentes, engajar­se no tipo de diálogo necessário para atingir
a  colaboração  efetiva  e  a  troca  significativa  de  informação  com  todos  os  clientes  pode  ser  bastante  difícil.  A
importância  de  desenvolver  forte  comunicação  e  habilidades  interpessoais  pode  não  ser  suficientemente
enfatizada.

CONCLUSÃO
Os  profissionais  de  terapia  ocupacional  têm  a  responsabilidade  ética  de  incluir  os  clientes  nas  discussões
relativas a seu próprio tratamento e dar a eles a oportunidade de compartilhar as decisões que os afetam. Porém,
como pudemos observar, múltiplos fatores se apresentam como grandes desafios para a manutenção do ideal de
nossa  profissão  para  a  colaboração  centrada  no  cliente.  Para  serem  bem­sucedidos,  os  profissionais  de  terapia
ocupacional  precisam  trabalhar  contra  os  fatores  institucionais  que  podem  influenciar  negativamente  os
processos  de  tomada  de  decisão,  comprometer­se  com  o  desenvolvimento  de  requisitos  das  habilidades  de
comunicação e lutar pelo tipo de abertura que os diferencie de outros pelos valores e crenças que são necessários
para superar a falta de compreensão. Só então, os profissionais de terapia ocupacional serão capazes de fomentar
a melhora da saúde e do bem­estar dos clientes a quem eles desejam ajudar e deles próprios.

QUESTÕES INSTIGANTES
1. Todos os clientes devem ser considerados “agentes morais autônomos?” Haveria algum indivíduo incapaz
de atuar como seu próprio agente moral?
2. Penny  Kyler  (2005)  defendeu  que  os  terapeutas  ocupacionais  e  os  fisioterapeutas  ultrapassem  o  modelo
centrado no cliente ou centrado na família e cheguem a uma abordagem centrada no relacionamento, que
considere a pessoa do cliente e sua relação com os outros e com todos os ambientes externos que possam
exercer influência sobre a interação terapeuta­cliente. Estes ambientes externos incluem os contextos social,
político,  econômico,  físico  e  cultural  em  que  acontece  a  interação  cliente­terapeuta.  Até  que  ponto  você
concorda  com  Kyler?  O  modelo  de  colaboração  centrado  no  cliente  aqui  descrito  é  adequado  à  noção  de
Kyler de uma abordagem centrada no relacionamento?
3. Como  você  se  sente  a  respeito  da  importância  relativa  do  conhecimento  pessoal  dos  clientes  sobre  suas
experiências de doença e o conhecimento técnico baseado em evidência que os terapeutas apresentam? Até
que ponto você concorda que o primeiro é mais importante que o segundo?

REFERÊNCIAS
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11.
Prática Baseada em Evidência
Utilizando a Evidência Disponível para Informar a
Prática
LINDA TICKLE­DEGNEN

Sumário
Introdução
Raciocínio Clínico sobre os Seres Humanos em Relação à Evidência de Pesquisa
O Profissional Baseado em Evidência
Organizando a Evidência de Acordo com as Tarefas Clínicas Principais
As Etapas da Prática Baseada em Evidência
Etapa 1: Formular uma Questão Clínica Apropriada
Etapa 2: Reunir Evidência Publicada Recentemente
Etapa 3: Avaliar a Evidência
Etapa 4: Comunicar a Evidência para a Tomada de Decisão
Ética, Valores de Prática e Prática Baseada em Evidência
Incorporar a Ideologia da Mudança ao Conhecimento e à Prática da Terapia Ocupacional

Objetivos de Aprendizagem
Após a leitura deste capítulo, você será capaz de:
1. Descrever  como  a  evidência  de  pesquisa  fornece  tendência  central,  ou  generalização,
informação acerca dos indivíduos, bem como a variação individual entre as pessoas.
2. Descrever as tarefas clínicas nas quais se utiliza a evidência.
3. Nomear as etapas básicas de o uso da evidência.
4. Formular questões clínicas apropriadas.
5. Identificar termos­chave para busca efetiva na literatura de pesquisa.
6. Descrever como avaliar a relevância clínica e a probidade de um relato de pesquisa.
7. Descrever as qualidades da comunicação efetiva sobre a evidência.
8. Descrever como a prática baseada em evidência pode ser centrada no cliente.

INTRODUÇÃO
Imagine  que  você  está  indo  atender  um  novo  cliente  amanhã.  O  que  você  faz?  Como  você  decide  o  que  este
cliente  necessita  e  como  poderia  ajudá­lo  a  atingir  as  metas  ocupacionais?  Você  poderia  fazer  o  que  uma
estudante de terapia ocupacional, Rebecca Reis (1994), fez quando se preparava para encontrar um novo cliente.
O  supervisor  de  estágio  de  Rebecca  designou­a  para  trabalhar  com  Wanda,  uma  mulher  de  meia­idade  com
fratura  de  Colles  que  até  então  recebia  do  supervisor  o  tratamento  de  terapia  ocupacional.  Wanda  não  seria
apenas uma nova cliente, mas também sua primeira cliente em uma clínica ambulatorial cheia e rápida e uma
cliente com um diagnóstico desconhecido.
Na  preparação,  Rebecca  conversou  a  respeito  de  Wanda  com  seu  supervisor  para  receber  as  orientações  do
especialista  e,  em  seguida,  revisou  o  prontuário  médico  de  Wanda  para  se  orientar  quanto  à  natureza  do
problema médico e do tratamento atual de Wanda. Durante a consulta inicial, Rebecca perguntou a Wanda como
ela  estava  se  saindo  em  casa,  para  compreender  a  experiência  pessoal  de  Wanda  nas  atividades  de  vida  diária
com  esse  tipo  de  fratura,  e  examinou  o  punho  de  Wanda  para  avaliar  diretamente  seu  funcionamento.  Wanda
relatou poucos problemas em casa, e Rebecca aplicou um protocolo supervisionado de modalidades e exercícios
destinados a maximizar a função do punho de Wanda.
Durante  cinco  ou  seis  sessões,  Rebecca  percebeu  que  Wanda  era  agradável  e  cortês,  mas  relativamente
indiferente às perguntas a respeito de como estava se saindo em casa com relação a seu punho. Elas mantiveram
conversas leves durante as sessões de terapia até a última sessão. Nesse momento, Wanda abriu­se e contou­lhe
detalhes sobre sua vida pessoal, incluindo o abuso sexual sofrido quando era criança e a longa reabilitação por
uso  abusivo  de  substâncias.  Ela  falou  sobre  como  uma  amiga  sempre  lhe  dissera  que  ela  deveria  escrever  um
livro sobre tudo o que havia experimentado e como ela, uma vez, começara a escrever. Rebecca ficou “surpresa”
(Reis, 1994, p. 351) e comovida. Rebecca terminou a sessão de terapia acreditando que a fratura de Colles era
insignificante  diante  da  história  de  vida  de  Wanda.  Rebecca  não  sabia  o  que  fazer  com  as  informações  que
Wanda  havia  lhe  fornecido  naquela  última  sessão,  embora  reconhecesse  que  as  informações  eram  bastante
significativas.
Nós, como Rebecca, não podemos saber se as informações que ela recebeu naquela última sessão poderiam ter
sido  utilizadas  ou  poderiam  ter  sido  valiosas  ou  não,  se  tivessem  sido  conhecidas  anteriormente  ou  se,  caso
fossem  previamente  conhecidas,  teriam  modificado  o  direcionamento  do  tratamento  ou  seu  resultado.  No
entanto, para o próposito deste capítulo, utilizei a história vívida de Rebecca (Reis, 1994), conforme relatada por
Mattingly e Fleming (1994) em seu estudo de pesquisa sobre raciocínio clínico, para esclarecer como a prática
baseada  em  evidência  poderia  criar  um  cenário  diferente  para  o  trabalho  com  um  cliente  como  Wanda.  Na
realidade, Rebecca e Wanda trabalharam juntas antes que o movimento da prática baseada em evidência fosse
considerado no cuidado de saúde (Sackett et al., 2000). Rebecca fez tudo de maneira correta, diante de seu papel
de aluna e dos padrões da terapia ocupacional e de outras profissões de saúde nos anos 1980 e nos períodos mais
recentes.  Ela  reconheceu  que  precisava  de  informações  ou  evidências  para  fornecer  a  terapia  ocupacional  que
beneficiasse  Wanda.  As  formas  de  evidência  que  ela  utilizou  para  informar  seu  trabalho  com  Wanda  foram  a
opinião  especializada,  os  prontuários  médicos  sobre  os  testes  e  tratamentos  realizados  por  Wanda,  as
informações fornecidas pela própria Wanda e a observação direta da função do punho de Wanda.
Como  não  era  prática  comum  fazer  isto  naquele  tempo,  existe  uma  forma  de  evidência  que  Rebecca  não
procurou ou utilizou. Ela não empregou a evidência a partir de estudos de pesquisa para informar sua atuação
com  Wanda,  o  tipo  de  evidência  expresso  no  termo  prática  baseada  em  evidência.  Apenas  agora,
aproximadamente 20 anos depois, os profissionais da terapia ocupacional estão começando a utilizar esse tipo de
evidência  em  sua  prática,  embora  ainda  não  de  forma  consistente.  Este  capítulo  descreve  como  a  evidência  a
partir de estudos de pesquisa pode ser aplicada à prática de modo consistente e de uma maneira que enriqueça as
contribuições da terapia ocupacional e os resultados com os clientes.

DILEMAS DA PRÁTICA

O QUE REBECCA PODERIA TER FEITO?

C omo uma profissional da terapia ocupacional em uma clínica ambulatorial, o que Rebecca poderia ter feito
com  as  informações  sobre  a  vida  e  o  histórico  de  Wanda?  Mais  do  que  isso,  e  se  Rebecca  tivesse
recebido  estas  informações  precocemente  em  suas  sessões  com  Wanda?  A  terapia  teria  sido  diferente?
Rebecca teria sentido ter dado a Wanda um tratamento mais significativo?
RACIOCÍNIO CLÍNICO SOBRE OS SERES HUMANOS EM RELAÇÃO À EVIDÊNCIA
DE PESQUISA
A tendência central é uma abstração, variação da realidade... Não sou uma medida da tendência central, seja média, seja
mediana.  Sou  um  simples  ser  humano  com  mesotelioma...  Eu  preciso  não  imaginar  simplesmente  que  meu  destino
pessoal corresponderá a alguma medida da tendência central. (Gould, 1996, pp. 48­49)

Minhas sugestões para a prática baseada em evidência são embasadas pelas ideias de Gould (1996) sobre os
achados  de  pesquisa  e  os  resultados  pessoais  conforme  aplicados  à  sua  própria  experiência  com  mesotelioma.
Foi­lhe dito que sua sobrevida após o diagnóstico seria de oito meses, com base nos achados de pesquisa. Em
vez  disso,  ele  viveu  por  mais  de  20  anos  após  o  diagnóstico,  tendo  uma  carreira  vitoriosa  como  escritor  e
paleontologista  evolucionário.  Eu  utilizo  os  conceitos  que  Gould  representa  na  citação  acima  como  base  para
descrever  o  raciocínio  clínico  sobre  a  evidência  que  equilibra  a  compreensão  da  tendência  central,  ou
generalização, dos atributos das pessoas com uma compreensão da variação individual desses atributos (Tickle­
Degnen, 2001). Esta perspectiva é compatível com o conceito de raciocínio condicional de Mattingly e Fleming
(1994).
Uma das forças subjacentes ao uso dos achados de pesquisa para nortear a prática com um cliente individual é
que os seres humanos compartilham muitos atributos similares em virtude do compartilhamento dos genes e do
ecossistema  da  terra.  Em  consequência  disto,  existe  um  grau  de  tendência  central  ou  generalização  no
comportamento humano e nos resultados que podem ser obtidos de estudos de pesquisa com seres humanos. É
possível  que  um  cliente  individualmente  venha  a  responder  aos  procedimentos  de  avaliação  e  tratamento  da
mesma maneira que os participantes de estudos de pesquisa responderam. Por outro lado, cada pessoa é única,
tendo  um  padrão  de  experiências  de  vida,  pensamentos  e  percepções  em  diferentes  contextos  que  não  se
compatibilizam  exatamente  entre  si.  Ao  aplicar  a  evidência  da  pesquisa  às  pessoas,  devemos  ser  bastante
conscientes desta variação individual, avaliando em todos os pontos da decisão como este determinado cliente
pode  variar  em  relação  aos  outros.  Compreender  esta  dinâmica  da  generalização  e  da  variação  é  a  chave  para
utilizar efetivamente a prática baseada em evidência com todos os clientes, incluindo Wanda.

O PROFISSIONAL BASEADO EM EVIDÊNCIA
Imagine­se, no presente, como um profissional baseado em evidência que está prestes a encontrar a Wanda da
experiência  clínica  de  Rebecca.  Como  um  profissional  baseado  em  evidência,  você  utilizaria  o  raciocínio
científico juntamente com a melhor evidência atual de estudos de pesquisa para fundamentar as principais tarefas
clínicas, como a seleção de procedimentos apropriados e válidos de avaliação, tratamentos e procedimentos para
monitorar  o  progresso  clínico  (Law,  2002;  Sackett  et  al.,  2000).  É  importante  compreender  que,  na  prática
baseada  em  evidência,  o  raciocínio  científico  não  substitui  o  raciocínio  fundamentado  por  experiência  clínica,
teoria,  valores  centrais  da  prática  e  ética.  Nem  o  uso  da  evidência  de  pesquisa  substitui  o  uso  clínico  da
informação  obtida  pela  observação  dos  clientes  e  pela  entrevista  com  seus  familiares  ou  a  consulta  a
especialistas e colegas.  O  raciocínio clínico  baseado  em  evidência  envolve  a  utilização  de  todas  as  formas  de
evidência na busca dos resultados ótimos para o cliente. É a integração do raciocínio científico com o raciocínio
que  amadureceu  com  a  experiência  clínica,  a  teoria  de  prática  validada  e  os  valores  centrados  no  cliente  e  na
ética (Egan, Dubouloz, von Zweck & Vallerand, 1998; Lee & Miller, 2005; Rappolt, 2003).

ORGANIZANDO A EVIDÊNCIA DE ACORDO COM AS TAREFAS CLÍNICAS
PRINCIPAIS
A  Tabela  30.1  mostra  como  você,  profissional  baseado  em  evidência,  poderia  organizar  a  pesquisa  e  a
interpretação  da  evidência  de  acordo  com  as  principais  tarefas  clínicas,  das  maneiras  geral  e  específica,  com
relação  à  Wanda.  Uma  das  primeiras  tarefas  clínicas  com  que  se  depara  o  profissional  ao  trabalhar  com  um
cliente é conhecer o cliente com relação às condições e às necessidades de ocupação, de modo a assegurar que
os serviços sejam relevantes e especificamente benéficos para aquela pessoa. A evidência de pesquisa que seria
relevante  para  essa  tarefa  inclui  achados  sobre  (1)  as  experiências  ocupacionais  típicas  e  as  necessidades  de
indivíduos  com  características  pessoais  ou  condições  de  saúde  similares  às  do  cliente  e  (2)  a  qualidade  dos
procedimentos  de  avaliação  ocupacional  com  relação  à  identificação  das  necessidades  clínicas  únicas  de  cada
tipo de pessoa.
Com  relação  à  Wanda,  as  descrições  das  vidas  ocupacionais  de  mulheres  com  fraturas  de  Colles  ou  lesões
semelhantes poderiam aumentar a compreensão a respeito das possíveis questões que Wanda poderia enfrentar
em sua vida e poderiam gerar uma discussão com Wanda sobre sua vida. Essa discussão poderia identificar os
tipos  específicos  de  informações  aprofundadas  sobre  Wanda  que  você  gostaria  de  obter  nos  procedimentos  de
avaliação.  Depois  de  identificar  as  principais  áreas  a  serem  avaliadas,  você  poderia  voltar  à  literatura  para
encontrar  evidências  sobre  a  confiabilidade,  a  validade,  a  probidade  ou  a  utilidade  clínica  dos  métodos  para
selecionar os mais valiosos para avaliação dessas áreas.
Uma segunda tarefa clínica fundamental é escolher uma abordagem efetiva de tratamento  e  o  procedimento
para atender às necessidades e metas específicas do cliente. A evidência de pesquisa relevante para essa tarefa
inclui achados sobre a eficácia relativa dos diferentes tipos de tratamento destinados a pessoas com determinado
tipo de característica pessoal ou condição de saúde. Com relação à Wanda, você poderia utilizar a evidência de
eficácia  dos  tratamentos  destinados  para  pessoas  com  fraturas  de  Colles  e  lesões  semelhantes,  de  modo  a
selecionar  um  tratamento  adequado.  Em  uma  abordagem  centrada  no  cliente,  essa  seleção  envolveria  a
colaboração de Wanda (Tickle­Degnen, 2002a).

TABELA 30.1 ORGANIZANDO AS EVIDÊNCIAS DE ACORDO COM AS TAREFAS CLÍNICAS COM
WANDA
Uso das Evidências para o Caso
Tarefa Evidência de Pesquisa Específico de Wanda
Clínica
Central
I. Conhecer A. Experiências ocupacionais típicas e necessidades dos Conversar com Wanda a respeito de suas
um cliente clientes a partir de populações que podem ser próprias experiências ocupacionais e
comparadas a Wanda necessidades em comparação às
B. Qualidade (p. ex., confiabilidade, validade, probidade, amostras de pesquisa
utilidade) dos procedimentos de avaliação Selecionar o melhor método de avaliação
ocupacional para essas populações para identificar as necessidades e
experiências ocupacionais únicas de
Wanda
II. Escolher A eficácia relativa de diferentes tipos de tratamento Selecionar, de preferência em colaboração
um destinados a essas populações com Wanda, um tratamento
tratamento potencialmente benéfico
efetivo
III. Monitorar Qualidade dos procedimentos de avaliação ocupacional Selecionar o melhor método de avaliação
a resposta para monitorar as mudanças nos clientes a partir para monitorar a mudança em Wanda
ao dessas populações com relação à obtenção das
tratamento metas de tratamento

Uma terceira tarefa clínica fundamental é o monitoramento da resposta ao tratamento. Uma vez escolhido e
em  seguida  aplicado  o  tratamento  ao  cliente,  sua  eficácia  para  este  cliente  deve  ser  monitorada,  registrada  e
revisada, se necessário. A evidência de pesquisa relevante para esta tarefa inclui achados sobre a qualidade dos
procedimentos  de  avaliação  ocupacional  no  que  se  refere  ao  monitoramento  de  mudanças  relacionadas  ao
progresso  do  cliente  quanto  às  metas  do  tratamento.  Observe  como  esta  tarefa  difere  da  tarefa  inicial  de
reconhecimento  em  que  os  procedimentos  de  avaliação  são  selecionados  para  a  identificação  inicial  das
necessidades  de  um  cliente  e  para  o  desenvolvimento  de  metas  terapêuticas  relevantes  para  o  cliente.  Os
procedimentos  de  avaliação  válidos  para  esta  avaliação  inicial  poderiam  ser  válidos  ou  não  para  examinar  a
mudança. Com relação à Wanda, você poderia utilizar as informações sobre confiabilidade, validade, probidade
ou utilidade clínica dos métodos para avaliar as mudanças em Wanda com relação às metas estabelecidas para
seu tratamento de terapia ocupacional.
Além  das  três  tarefas  clínicas  fundamentais  aqui  discutidas  –  conhecer  o  cliente,  escolher  um  tratamento
efetivo e monitorar a resposta ao tratamento – existem outras tarefas clínicas importantes que os profissionais da
terapia  ocupacional  realizam  com  seus  clientes,  como  idealizar  e  executar  um  plano  de  alta.  Independente  de
quais sejam as tarefas fundamentais para um ambiente ou prática de determinado profissional, os procedimentos
da  prática  baseada  em  evidência  são  idênticos  quanto  à  ênfase  sobre  a  utilização  da  análise  reflexiva  e
sistemática  da  evidência  para  orientar  a  tomada  de  decisão  e  os  procedimentos  clínicos  para  obtenção  de
resultados benéficos para os clientes.
AS ETAPAS DA PRÁTICA BASEADA EM EVIDÊNCIA
O profissional baseado em evidência integra sistematicamente a evidência de pesquisa na prática ao realizar uma
série de estapas em torno de cada tarefa clínica (Law, 2002; Sackett et al., 2000; Tickle­Degnen, 1999).
1. Formular uma questão clínica apropriada
2. Reunir a evidência atual publicada que poderia responder a pergunta
3. Avaliar a evidência obtida para determinar a “melhor” evidência para responder a questão
4. Comunicar aos clientes e colegas a evidência obtida para a tomada de decisão

Etapa 1: Formular uma Questão Clínica Apropriada
A primeira etapa sistemática, formular uma pergunta, ajuda o profissional a se concentrar sobre o tipo específico
de evidência que ajudaria na tarefa clínica. A pergunta deve ser escrita utilizando palavras­chave e terminologia
que abranjam a parte do corpo da literatura de pesquisa que contenha uma resposta para a pergunta e que localize
evidência  que  seja  relevante  para  aplicação  em  uma  determinada  tarefa  clínica  com  um  cliente  específico.
Portanto, uma pergunta apropriada não deve ter um foco muito amplo nem muito restrito (Sackett et al., 2000).
Para a terapia ocupacional, esse tipo de pergunta é composto de três elementos (Tickle­Degnen, 1999): (1) o tipo
de evidência que é necessário para executar a tarefa clínica específica; (2) uma variável ou atributo que esteja
relacionado à experiência ocupacional, ao comportamento, ao processo da terapia ocupacional ou aos resultados;
e (3) uma descrição da população do cliente.

Tipo de Evidência
A tarefa clínica determina que tipo de evidência é necessário. Para ser capaz de encontrar esta evidência com
sucesso,  o  profissional  precisa  possuir  um  conhecimento  de  trabalho  básico  da  terminologia  de  métodos  e
desenhos de pesquisa ou utilizar um manual de métodos de pesquisa como referência (p. ex., Domholdt, 2005;
Portney & Watkins, 2000). A tarefa de conhecer um cliente envolve a reunião de evidências que descrevam as
experiências  e  necessidades  dos  clientes  em  geral  (i.  e.,  clientes  que  participaram  de  pesquisa  em  estudos
publicados)  e  de  evidências  que  testem  a  qualidade  dos  procedimentos  de  avaliação  para  determinar  as
experiências  e  as  necessidades  de  um  cliente  individual.  A  evidência  descritiva  é  publicada  em  estudos  que
utilizam um procedimento ou uma metodologia de pesquisa descritiva, incluindo estudos de correlação, estudos
de  entrevista  qualitativa  e  estudos  de  observação  de  participantes.  A  evidência  de  avaliação  é  publicada  em
estudos que empregam um desenho metodológico para estudar a confiabilidade, a validade ou a probidade de um
procedimento de avaliação.
A  tarefa  de  escolher  um  tratamento  efetivo  para  um  cliente  envolve  a  reunião  de  evidências  que  avaliem  a
efetividade ou a eficácia de um tipo de tratamento em comparação a tratamentos alternativos ou a nenhum tipo
de tratamento. A evidência de efetividade é publicada em estudos que utilizam um procedimento ou desenho de
pesquisa  de  intervenção  ou  tratamento,  incluindo  os  estudos  controlados  randomizados  e  outras  formas  de
experimentos,  ou  estudos  quase  experimentais  de  tratamento  ou  outros  estudos  não  experimentais  de
tratamentos.
A tarefa de monitorar a resposta ao tratamento envolve a reunião de evidências que atestam a responsividade
de testes e procedimentos para a mudança clínica nos clientes. A evidência de responsividade é publicada em
estudos  que  utilizam  um  desenho  de  mensurações  repetidas  durante  intervalos  de  tempo  para  avaliar  a
confiabilidade,  validade  ou  probidade  de  um  procedimento  de  avaliação  em  relação  ao  monitoramento  da
mudança nos clientes.

Variável Ocupacional
Além  de  formular  uma  pergunta  apropriada  em  linguagem  que  demonstre  que  tipo  de  evidência  está  sendo
pesquisado,  a  pergunta  precisa  ser  escrita  em  linguagem  que  demonstre  que  tipo  de  variável  ou  variáveis
ocupacionais  são  de  interesse.  As  variáveis  de  interesse  são  os  atributos  dos  clientes  abordados  pela  terapia
ocupacional,  como  seu  funcionamento  físico  ou  psicossocial,  seu  desempenho  ocupacional  ou  sua  satisfação
com  os  resultados.  Os  modelos  e  teorias  da  ocupação  e  da  terapia  ocupacional,  como  o  Modelo  de  Pessoa­
Ambiente­Ocupação  (Law,  Cooper,  Strong,  Stewart,  Rigby  &  Letts,  1996),  bem  como  os  modelos  mais
genéricos de saúde que englobam a perspectiva da terapia ocupacional, como a Classificação Internacional de
Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (Organização Mundial da Saúde, 2005), fornecem a linguagem necessária
para  identificação  das  variáveis  ocupacionais.  O  profissional  baseado  em  evidência  utiliza  os  recursos  de
referência,  como  a  atual  edição  de  Terapia  Ocupacional  de  Willard  &  Spackman,  como  um  instrumento  para
identificar e nomear estas variáveis.

População de Cliente
Um  elemento  final  encontrado  na  construção  de  uma  questão  clínica  apropriada  identifica  os  aspectos  de
interesse da população do cliente, como diagnóstico ou condição clínica, gênero, etnia, grupo etário e condição
socioeconômica.  O  profissional  baseado  em  evidência  utiliza  o  conhecimento  clínico,  os  manuais  clínicos  e
outros  recursos  práticos  para  identificar  que  aspectos  da  população  do  cliente  são  importantes  para  orientar  o
raciocínio clínico e a tomada de decisão. Os aspectos importantes são aqueles que identificam as populações ou
subpopulações das quais o cliente é membro, garantindo que a evidência coletada seja relevante para o cliente.

Etapa 2: Reunir Evidência Publicada Recentemente
Uma  vez  formulada  a  questão  clínica,  o  profissional  estabelece  os  elementos  da  questão  para  buscar  e  reunir
evidências de modo a encontrar possíveis respostas para a questão. Pesquisa relevante é publicada em diversas
áreas: terapia ocupacional, medicina, enfermagem, fisioterapia, educação, psicologia, sociologia, antropologia e
assim por diante. Por isso, as estratégias de busca devem incluir a pesquisa na literatura de diferentes disciplinas.
Cada  elemento  de  uma  questão  clínica  apropriada  contém  uma  ou  mais  palavras­chave  para  a  busca  na
literatura. Todo um montante da literatura pode ser inadvertidamente excluído apenas porque as palavras­chave
utilizadas  na  busca  não  se  adequam  à  terminologia  utilizada  pelos  pesquisadores  ou  pelos  indexadores  da
literatura  de  pesquisa.  Algumas  das  palavras  importantes  que  os  profissionais  de  terapia  ocupacional  utilizam
para identificar as condições clínicas (p. ex., transtorno sensorial integrativo) ou variáveis ocupacionais (p. ex.,
desempenho  ocupacional)  não  são  os  termos  tipicamente  utilizados  para  descrever  ou  indexar  estudos  de
pesquisa na literatura. Portanto, é importante produzir uma lista de sinônimos para cada palavra­chave em cada
elemento da questão antes de iniciar a busca. Felizmente, as bases eletrônicas de dados estão se tornando cada
vez mais flexíveis na integração da terminologia entre diferentes disciplinas. Os serviços de busca na literatura,
como  o  PubMed  (U.  S.  National  Library  of  Medicine,  2005),  fornecem  tutoriais  online  de  modo  que  os
profissionais  baseados  em  evidência  possam  aprender  como  pesquisar  efetivamente  a  literatura  com  o  uso  de
palavras­chave.
A Tabela 30.2  mostra  exemplos  de  questões  que  você  poderia  formular  com  relação  a  Wanda  para  a  tarefa
clínica de conhecê­la. São apresentadas prováveis palavras­chave e alternativas que sejam sinônimos ou termos
mais amplos ou mais específicos. Com relação à Pergunta A na Tabela 30.2 (“Quais são os papéis de vida diária
de  mulheres  com  fratura  de  Colles?”),  a  combinação  de  três  termos  –  descritivo,  papéis  da  vida  diária  e
mulheres  com  fratura  de  Colles  –  resultou  em  0  resumo  no  PubMed.  A  substituição  do  termo  papéis da vida
diária  por  atividades  da  vida  diária  também  resultou  em  0  resumo.  A  combinação  das  palavras  descritivo,
qualidade  de  vida  e  mulheres  com  fraturas  de  Colles  revelou  um  único  resumo  (Dolan,  Torgerson  &
Kakarlapudi,  1999).  A  substituição  da  expressão  mulheres  com  fratura  de  Colles por mulheres  de  meia­idade
revelou muito mais resumos úteis (466) e a substituição da expressão por punho resultou em um resumo sobre
lesão da medula espinhal.
Com  relação  à  Pergunta  B  (“Qual  é  o  método  válido  para  avaliar  as  metas  ocupacionais  de  clientes  com
disfunção  da  mão?”),  as  palavras­chave  validade,  metas  ocupacionais  e  disfunção  da  mão  resultaram  em  0
resumo.  As  palavras  validade,  metas  ocupacionais  e  mulheres  resultaram  em  seis  resumos,  incluindo  aquele
publicado no American Journal of Occupational Therapy (Melville, Baltic, Bettcher & Nelson, 2002).
TABELA 30.2 PERGUNTAS CLÍNICAS, PALAVRAS­CHAVE E TERMOS ALTERNATIVOS (ENTRE
PARÊNTESES) PARA ORIENTAR A BUSCA POR EVIDÊNCIA PARA CONHECER CLIENTES COMO
WANDA
Elementos da Questão
Questão Clínica Tipo de Variável Ocupacional População Clínica
Evidência
A. Quais são os papéis de vida diária Descritiva Papéis de vida diária Mulheres com
de mulheres com fratura de Colles? (correlacional) (atividades da vida diária) fratura de Colles
(Relato do (qualidade de vida) (meia­idade)
cliente) (punho)
B. Qual é o método válido para avaliar Validade Metas ocupacionais Disfunção da mão
as metas ocupacionais de clientes (avaliação) (metas) (aspirações) (mulheres) (fratura
com disfunção da mão? (metodológica) do punho)

Talvez, depois de realizar uma avaliação de terapia ocupacional com Wanda, você entenda o interesse dela em
escrever sobre a própria vida. Se a fratura de Colles afetou a capacidade dela de escrever ou digitar, você poderia
fazer  a  seguinte  pergunta:  “Qual  é  o  tratamento  efetivo  para  melhorar  a  capacidade  de  escrever  das  mulheres
com fratura de Colles?”. Esta e outras perguntas sobre a efetividade do tratamento são úteis para a escolha do
tratamento depois que o profissional conheceu as necessidades e as metas da cliente. Um serviço de busca que
foi especialmente desenhado para encontrar citações de pesquisa relacionadas às questões sobre o tratamento é o
OTseeker (Bennett et al., 2003, link encontrado em www.otseeker.com). Muitas bases de dados são úteis (p. ex.,
ProQuest em www.proquest.com ou Ovid em www.ovid.com) se você tiver acesso a elas através dos recursos de
uma biblioteca.
Por fim, você poderia formular uma pergunta destinada a ajudá­lo a encontrar uma avaliação para monitorar a
resposta de Wanda ao tratamento, como “Qual é um método responsivo para avaliar a recuperação da capacidade
de  escrever  das  mulheres  com  fratura  de  Colles?”.  Os  procedimentos  de  busca  são  semelhantes  àqueles
utilizados para as perguntas descritivas e de avaliação listadas na Tabela 30.2.
A  experiência  lhe  mostrará  que  diferentes  combinações  de  palavras­chave  encontram  resumos  com  sucesso
variado. Não há método seguro para apontar os resumos mais relevantes para responder as perguntas. Uma busca
eletrônica por meio de palavras­chave é apenas uma estratégia parcial para encontrar a evidência de pesquisa.
Uma vez que um único estudo relevante seja encontrado, a lista de referências bibliográficas do estudo deve ser
examinada  para  indicar  outros  estudos  relevantes.  Obviamente,  essas  estratégias  de  busca  exigem  tempo  para
resultar em evidências que sejam úteis e abrangentes.

Acúmulo Eficente de Evidências
Os profissionais de terapia ocupacional são muito ocupados e raramente têm tempo suficiente para realizar uma
revisão reflexiva, completa e sistemática da literatura para orientar suas tarefas clínicas com um único cliente.
Deve  ser  lembrado  que  o  conhecimento  obtido  por  meio  da  reunião  de  evidências  é  cumulativo;  isto  é,  o
conhecimento da literatura de pesquisa acumula­se cada vez que mais clientes são atendidos. Como existe pelo
menos  um  pequeno  grau  (por  vezes  maior)  de  generalização  ou  tendência  central  quanto  aos  clientes  (p.  ex.,
compartilhamento  de  idade,  sexo  ou  estado  socioeconômico),  as  informações  encontradas  em  relação  a  um
cliente ou um grupo de clientes podem ser, de modo típico, pelo menos minimamente úteis para fundamentar sua
atuação  com  os  clientes  em  geral.  Em  consequência  disso,  os  profissionais  precisam  desenvolver  rotinas  para
coletar  e  catalogar  evidências  para  uso  eficiente  com  futuros  clientes.  Estas  rotinas  podem  incluir  o  seguinte
(Tickle­Degnen, 2000a):
1. Buscar  periodicamente  e  catalogar  artigos  de  síntese  de  pesquisa  ou  diretrizes  de  prática  que  sejam
relevantes para sua área de atuação. Estas sínteses fornecem uma grande quantidade de evidências em um
formato conciso e rigoroso.
2. Manter uma biblioteca atualizada de textos que compile as evidências atuais, como este e outros textos (p.
ex., Law, Baum & Dunn, 2005).
3. Coletar e arquivar bibliografias e listas de referências retiradas de periódicos e conferências sobre a prática.
4. Inscrever­se  na  lista  de  um  periódico  ou  de  um  grupo  de  correio  eletrônico  que  discuta  evidências
relevantes.
5. Formular  uma  questão  clínica  cada  vez  que  for  estimulado  por  uma  necessidade  ou  dilema  clínico  e,  em
seguida, categorizar e priorizar aqueles que são mais relevantes para sua atuação. Este exercício simples o
manterá alerta para as evidências que surjam em sua vida profissional.

A Importância de Acumular Evidências Não Confirmadas
Uma das metas do acúmulo de evidências de pesquisa consiste em determinar sob que condições e com quais
populações  as  avaliações  de  terapia  ocupacional  são  mais  válidas  e  os  tratamentos  de  terapia  ocupacional  são
mais  efetivos.  Naturalmente,  ocorrerão  algumas  situações  em  que  as  avaliações  serão  menos  válidas  e  os
tratamentos menos efetivos. Para fornecer o melhor atendimento aos clientes, o profissional fundamentado em
evidência  precisa  ir  além  da  meta  número  um,  a  confirmação  do  valor  das  avaliações  e  dos  tratamentos  de
terapia  ocupacional,  para  alcançar  uma  segunda  meta,  a  não  confirmação  de  seus  valores.  Ter  essa  visão
equilibrada  sobre  a  evidência  promove  uma  busca  completa,  aberta  e  crítica,  em  oposição  àquela  incompleta,
fechada e não reflexiva. Expectativas e crenças de prática estimuladas ou enraizadas podem ser não confirmadas
ou revisadas, mas é provável que os resultados do cliente sejam maximizados. Por exemplo, no caso de Wanda,
você  poderia  descobrir  que  centrar  a  terapia  ocupacional  apenas  na  função  do  punho,  com  a  exclusão  de  suas
necessidades psicossociais, não será tão valioso como você imaginava (p. ex., Chan & Spencer, 2004).

Etapa 3: Avaliar a Evidência
A meta de busca pela evidência consiste em encontrar a melhor resposta possível para a questão clínica, não uma
resposta correta (Sackett et al., 2000; Tickle­Degnen, 2000b). A evidência pode ser útil e valiosa para orientar o
trabalho com um cliente ainda que ela não possa proporcionar uma prescrição definitiva de prática. Ela oferece
hipóteses a testar e possibilidades a experimentar. Antes que você possa utilizar a evidência, no entanto, você
deve determinar sistematicamente quão útil e valiosa ela é para fornecer uma possível resposta à sua pergunta.

Base da Avaliação da Relevância e Probidade da Evidência de Pesquisa
A evidência clinicamente útil e valiosa é relevante tanto para a tarefa clínica como para a validade (Domholdt,
2005). Existem muitas fontes excelentes para orientar a avaliação da evidência de pesquisa (p. ex., Law, 2002;
Sackett  et  al.,  2000).  Portanto,  a  apresentação  aqui  é  sobre  o  raciocínio  sistemático  geral  que  fundamenta  o
processo de avaliação.

AVALIAÇÃO  DA  RELEVÂNCIA  DE  UM  ESTUDO  DE  PESQUISA.  A  relevância  de  um  estudo  de  pesquisa  é
determinada pelo grau em que ele responde a questão clínica e pelo grau em que seus métodos se adequam às
restrições  e  aos  recursos  do  contexto  de  prática  do  profissional  (Tickle­Degnen,  2001,  2002b).  Raramente  a
busca por evidência localizará um estudo ou um grupo de estudos que responda diretamente a questão clínica.
Os estudos foram idealizados para responder as perguntas de pesquisa dos autores, não sua questão clínica. O
estudo de pesquisa mais relevante é aquele que (1) fornece o tipo de evidência necessário para a tarefa clínica,
(2) investiga uma variável que é a variável ocupacional de interesse ou uma variável fortemente relacionada a
esta  variável,  (3)  inclui  participantes  de  pesquisa  que  são  membros  da  população  de  seu  cliente  e  (4)  oferece
métodos clínicos que são adequados para seu contexto de atuação.
Para  ilustrar  o  processo  de  exame  da  relevância,  voltamos  às  citações  obtidas  em  resposta  à  Pergunta  B  na
Tabela  30.2,  “O  que  é  um  método  válido  para  avaliar  as  metas  ocupacionais  dos  clientes  com  disfunção  da
mão?” Uma citação foi um artigo de Melville e colaboradores (2002), que pode ser obtido com texto completo a
partir  do  endereço  eletrônico  da  American  Occupational  Therapy  Association  (www.aota.org).  A  obtenção  do
texto integral de artigos publicados no American Journal of Occupational Therapy está disponível para todos os
membros.
A finalidade da pesquisa de Melville e colaboradores (2002) foi investigar as perspectivas do paciente quanto
à  validade  da  Avaliação  da  Meta  Autoidentificada  –  Seft  Indentified  Goal  Assessment  (SIGA).  Os  pacientes
foram  entrevistados  sobre  a  utilidade  do  instrumento  em  relação  à  identificação  de  suas  próprias  metas.  Esta
finalidade significa que o estudo fornece evidência de avaliação sobre metas ocupacionais e, assim, é relevante
quanto ao tipo de evidência e elementos ocupacionais variados da questão clínica. No entanto, lembre­se que a
palavra­chave mulheres foi utilizada para recuperar esta citação depois que o termo disfunção da mão falhou em
revelar qualquer citação com o tipo de evidência e variável ocupacional relevante. Como resultado, o estudo é
menos  relevante  em  relação  ao  elemento  população  clínica  da  questão.  Quanto  a  Wanda,  a  amostra  consistia
principalmente  em  mulheres;  no  entanto,  elas  eram  idosas  e  frágeis,  na  média,  em  vez  de  terem  meia­idade  e
serem relativamente robustas. Mais importante, elas eram pacientes internadas em uma unidade de reabilitação
semi­intensiva,  e  não  pacientes  ambulatoriais.  Os  itens  contidos  na  SIGA  foram  construídos  para  identificar
tarefas “que você gostaria de realizar ou melhorar na terapia antes de ir para casa” (p. 653). Por isso, embora a
avaliação seja relevante para examinar as metas ocupacionais de pacientes internados, ela não é relevante, como
dito, para avaliar as metas de pacientes ambulatoriais.
Embora a SIGA possa não ser a avaliação mais relevante para Wanda por causa de algumas de suas palavras,
sua estrutura é bastante prática para sua atuação em instituição ambulatorial. As autoras (Melville et al., 2002)
descobriram  que  o  tempo  de  administração  médio  da  SIGA  é  de  5,6  minutos,  em  comparação  com  os  18,8
minutos para a administração de outra medida de avaliação de metas possivelmente relevante, como a Canadian
Occupational  Performance  Measure  (Medida  Canadense  de  Desempenho  Ocupacional)  (COPM;  Law  et  al.,
2005). Como a SIGA geralmente é relevante para suas finalidades, você deve continuar com sua avaliação da
validade de achados do estudo.

AVALIAÇÃO DA VALIDADE DE UM ESTUDO DE PESQUISA. Enquanto a relevância de um estudo de pesquisa é
avaliada principalmente como o grau de adaptação entre sua necessidade clínica, representada na questão clínica,
e  os  métodos  do  estudo,  a  validade  de  um  estudo  de  pesquisa  é  avaliada  principalmente  como  o  grau  de
adaptação  entre  a  pergunta  ou  finalidade  da  pesquisa  do  pesquisador  e  os  métodos  de  um  estudo.  Um  estudo
digno de confiança é aquele em que as conclusões são passíveis de defesa em relação aos métodos de estudo,
existindo poucas, se existirem, explicações científicas plausíveis alternativas para achados além das conclusões
propostas  pelo  estudo  e  seus  pesquisadores  (Domholdt,  2005).  A  validade  é  aumentada  quando  o  pesquisador
mantém padrões rigorosos e cuidadosos de descoberta, descrição e explicação (Carpenter & Hammell, 2000).
O  estudo  de  pesquisa  mais  fidedigno  é  aquele  que  (1)  reúne  o  tipo  de  evidência  que  alcança  a  finalidade
proposta, (2) investiga a validade utilizando vários métodos e (3) identifica claramente os métodos, as forças e as
limitações do estudo em relação aos padrões da ciência. O profissional baseado em evidência tenta avaliar até
que ponto um estudo descritivo fornece uma descrição defensável de um cliente ou população de clientes; até
que  ponto  um  estudo  de  avaliação  fornece  um  teste  forte  da  confiabilidade,  validade  ou  utilidade  de  um
procedimento de avaliação; ou até que ponto um estudo de eficácia de tratamento sustenta a conclusão de que os
resultados do cliente são consequência do tratamento, e não de outros fatores.
Em  geral,  os  estudos  de  interesse  para  os  profissionais  de  terapia  ocupacional,  ou  seja,  estudos  sobre
desempenho  humano,  comportamento,  motivação  e  interesses  clinicamente  relevantes,  têm  limitações  em  sua
capacidade  de  atender  a  seus  objetivos.  Por  exemplo,  os  indivíduos  de  uma  determinada  população  clínica
poderiam ser raros ou ter dificuldade para participar dos procedimentos da pesquisa. Ou a variável de interesse
poderia ser complexa e difícil de descrever ou avaliar. Ou fatores imprevistos ou que não sejam compreendidos
pelos pesquisadores poderiam contribuir para os achados, como o tempo frio inesperado que afeta a resposta ao
exercício de um indivíduo. Contudo, alguns estudos fornecem evidências mais fortes em relação à validade do
que outros porque tentam abordar com rigor e cuidado estas e outras limitações potenciais (Domholdt, 2005).
Com  relação  ao  estudo  da  SIGA  de  Melville  e  colaboradores  (2002),  a  finalidade  declarada  do  estudo  era
investigar as perspectivas do paciente sobre a validade da SIGA. Logicamente, a finalidade era coletar evidência
de avaliação. Para atingir esta finalidade, os pesquisadores modelaram sua metodologia e seus procedimentos de
acordo  com  aqueles  utilizados  nos  estudos  de  validação  da  COPM.  Os  profissionais  de  terapia  ocupacional
administraram a SIGA a 20 mulheres e 10 homens logo após a admissão em uma unidade de reabilitação semi­
intensiva,  e  uma  vez  mais  antes  da  alta.  Após  cada  administração,  um  pesquisador  realizou  uma  entrevista
estruturada  com  cada  paciente  para  obter  as  perspectivas  do  paciente  em  relação  à  utilidade  da  SIGA  na
identificação  das  metas  pessoais  relacionadas  à  terapia.  A  análise  de  dados  consistiu  na  análise  descritiva  dos
resultados  da  administração  da  SIGA  para  os  clientes  (p.  ex.,  número  e  tipos  de  metas  identificadas)  e  no
resumo,  quantitativo  e  qualitativo,  das  respostas  dos  clientes  às  entrevistas  estruturadas  sobre  a  utilidade  da
SIGA. Os pesquisadores compararam seus resultados com os de um estudo prévio sobre a SIGA, bem como os
de estudos sobre a COPM, descobrindo resultados semelhantes. Eles também discutiram claramente as forças e
as limitações dos métodos de estudo e da SIGA e forneceram sugestões para futuros estudos de validação.
A partir de sua leitura do estudo de avaliação SIGA, você poderia concluir o seguinte:
1. O estudo reuniu dados de uma amostra relativamente pequena por ter utilizado procedimentos de entrevista
rigorosos  para  medir  as  perspectivas  de  pacientes  de  reabilitação  semi­intensiva  quanto  à  SIGA.  Os
pesquisadores foram cuidadosos ao fazer com que a SIGA fosse administrada pelo profissional de terapia
ocupacional  do  paciente  e  que  um  pesquisador  imparcial  conduzisse  as  entrevistas  para  obter  as
perspectivas  do  paciente.  Os  itens  da  entrevista  destinavam­se  a  reunir  evidências  que  descreveriam  as
perspectivas dos pacientes que fossem tanto positivas (i.e., confirmação) como negativas (i.e., negação) em
relação à utilidade da SIGA.
2. O  estudo  comparou  seus  achados  com  os  resultados  de  um  estudo  prévio  sobre  a  SIGA  e  de  estudos
publicados sobre a COPM. Esta comparação foi utilizada para determinar se os resultados do estudo SIGA
convergiam  ou  divergiam  dos  de  outros  estudos,  possibilitando  um  teste  adicional  de  confiabilidade  dos
achados do estudo.
3. O relato do estudo incluiu informações claras sobre as forças e limitações do estudo, incluindo uma listagem
de  outros  estudos  de  validação  que  foram  necessários  para  promover  um  teste  mais  forte  de  validade  da
SIGA. Além disso, as autoras encaminham o leitor para um endereço eletrônico onde pode acessar a SIGA
e seu protocolo de administração. Este acesso possibilita que o leitor inspecione rigorosamente as medidas e
avalie ainda mais as forças e as fraquezas.

Embora  o  estudo  tivesse  amostra  pequena  e  limitada  para  testar  a  validade,  os  métodos  de  pesquisa  foram
rigorosos e, em geral, adequados aos padrões da prática científica razoável em relação à reunião de evidências
preliminares sobre uma nova medida. É razoável confiar nos achados do estudo para a amostra pequena que é
testada.  Da  mesma  maneira,  também  é  razoável  ser  cauteloso  na  conclusão  de  que  os  achados  seriam
semelhantes para outros pacientes em ambientes de reabilitação semi­intensiva e ainda mais cauteloso sobre as
conclusões em relação a outras populações clínicas, como clientes em ambientes ambulatoriais.

Interpretação dos Resultados de um Estudo
Agora que você completou a avaliação básica da relevância e da validade da evidência de um estudo, é hora de
examinar  como  os  resultados  podem  ajudar  a  responder  a  questão  clínica.  Os  resultados  gerais  do  estudo  de
Melville e colaboradores (2002) foram favoráveis à validade da SIGA. Em geral, os achados concordaram com
outros  estudos  sobre  as  avaliações  de  metas  do  cliente,  conferindo  credibilidade  à  utilidade  das  avaliações  de
metas dos clientes em geral. Por exemplo, a SIGA identificou metas que quase todos os pacientes tenderam a se
lembrar  em  48  horas  após  a  aplicação  e  a  visualizar  como  metas  próprias  em  oposição  às  metas  que  outros
queriam para eles. A SIGA apresentou maior validade para identificação de metas imediatas atuais da pessoa e
menor validade para identificação de metas que foram consistentemente mantidas pelos pacientes. Um terço dos
participantes  disse  que  gostaria  de  modificar  suas  metas  48  horas  após  a  administração.  Os  pesquisadores
apresentaram  um  argumento  defensável  de  que  a  SIGA  pode  ser  útil  como  um  meio  para  monitorar  metas
dinâmicas e para revisar metas à medida que os clientes se engajam na terapia com o passar do tempo.
Os  achados  de  pesquisa  de  tendência  central,  como  as  médias  e  as  respostas  majoritárias,  são  valiosos  para
compreender  como  os  clientes  responderão  em  geral,  sendo  os  achados  de  pesquisa  de  variação  individual
valiosos para antecipar a gama de possibilidades de como um único cliente poderia responder (Glasziou et  al.,
1998; Tickle­Degnen, 2001). Por exemplo, embora a maioria dos clientes (29 em 30) visse a SIGA como útil,
um indivíduo relatou que ela não era muito útil. E embora a SIGA identificasse metas com as quais 70% dos
participantes continuaram a estar satisfeitos 48 horas depois, 30% estavam dispostos a alterar suas metas naquele
período  de  acompanhamento.  Melville  e  colaboradores  (2002)  realizaram  entrevistas  abertas  e  descreveram
qualitativamente as respostas individuais de maneira a individualizar as respostas quantitativas. Esta descrição
ajuda o leitor a compreender como os participantes chegaram às suas opiniões sobre a SIGA. Em estudos com
amostras maiores que a de Melville e colaboradores, as informações sobre a variação individual são encontradas
em  estatísticas  descritivas,  como  as  faixas  e  os  desvios­padrões  (Tickle­Degnen,  2003),  bem  como  nos
resultados  das  análises  para  diferentes  subgrupos  de  participantes  da  pesquisa,  como  os  achados  em  separado
relatados para mulheres e homens (Tickle­Degnen, 2001).
Com base nos achados da tendência central e da variação individual, bem como na avaliação da relevância e
validade dos resultados, você pode interpretar que os resultados indicam ser possível que um procedimento de
avaliação  de  meta  similar  à  SIGA  seja  um  meio  válido  para  conhecer  Wanda  melhor.  A  leitura  de  Melville  e
colaboradores (2002) aponta para a possibilidade de utilizar a COPM. O ideal seria que você realizasse o mesmo
processo de avaliação aqui delineado para um estudo de SIGA com um estudo sobre a COPM. Sua nova questão
de  avaliação  poderia  ser  “A  Medida  Canadense  de  Desempenho  Ocupacional  (Canadian  Occupational
Performance  Measure)  é  um  método  válido  para  avaliar  as  metas  ocupacionais  dos  clientes  com  disfunção  da
mão?”.  Uma  pesquisa  utilizando  a  base  de  dados  PubMed  com  as  palavras­chave  Canadian  Occupational
Performance Measure e disfunção da mão resulta em cinco resumos, incluindo um que aborda especificamente o
uso  da  COPM  em  um  estudo  de  eficácia  de  tratamento  de  terapia  ocupacional  com  mulheres  portadoras  de
fratura  de  Colles  (Dekkers  &  Soballe,  2004).  Embora  o  estudo  fosse  idealizado  para  registrar  a  evidência  de
eficácia do tratamento, ele também fornece evidência de avaliação. No PubMed estão relacionadas referências
relevantes  à  reabilitação  da  fratura  de  Colles.  Pode  ser  importante  a  consulta  de  alguns  desses  resumos  para
melhor compreensão do que Wanda enfrenta em relação à fratura de Colles.
Se houver tempo, ou em uma data posterior, você deve avaliar a massa de evidências com relação à resposta
da  questão,  dando  um  peso  extra  aos  estudos  isolados  com  a  evidência  mais  forte.  A  “melhor”  evidência  é  a
melhor que pode ser encontrada, não a “melhor” no sentido de atender a todos os padrões. A possível resposta
fornecida pela melhor evidência pode ser aquela sobre a qual você pode sentir uma grande, moderada ou pouca
confiança.  Você  pode  não  ter  tempo  suficiente  para  reunir  e  avaliar  evidências  suficientes  para  formar  uma
opinião segura, o que é muito provável neste cenário em que você é uma profissional muito ocupada em uma
clínica ambulatorial. Mesmo com pouca evidência de pesquisa a respeito do que você considera uma quantidade
limitada  de  confiança,  você  pode  passar  para  a  etapa  seguinte  da  prática  baseada  em  evidência:  comunicação
sobre a evidência ao cliente, neste caso Wanda, e a outros indivíduos importantes para o cliente.

Etapa 4: Comunicar a Evidência para a Tomada de Decisão
A principal finalidade da comunicação sobre a evidência é tomar decisões prudentes quanto aos procedimentos e
metas  terapêuticos  (Tickle­Degnen,  2000b,  2002c).  As  decisões  sensatas  são  aquelas  que  provavelmente
beneficiarão o cliente e os familiares e são adotadas pelo cliente, pelos familiares, por você (o profissional de
terapia ocupacional) e por outras pessoas importantes para o cliente, como outros profissionais. A comunicação
que  atinge  esses  tipos  de  decisão  (1)  tem  conteúdo  que  representa  com  exatidão  a  evidência  da  pesquisa,
incluindo  os  pontos  fortes  e  fracos  relacionados  com  a  relevância  e  a  validade,  (2)  envolve  linguagem  que  é
compreendida por todos os participantes e (3) incentiva uma discussão aberta e mútua da informação e das ideias
em  vez  do  fornecimento  fechado  ou  unidirecional  da  informação  de  um  indivíduo  para  outro.  Mesmo  uma
pequena quantidade de evidências nas quais você tenha pouca confiança pode ser valiosa na tomada de decisão,
quando é apresentada com essas qualidades em mente.

Conteúdo Exato sobre a Evidência
A comunicação exata do conteúdo deve ser equilibrada em sua descrição dos achados de tendência central sobre
a média ou a maioria das respostas dos participantes da pesquisa e nos achados de variação sobre até que ponto
estes  participantes  diferem  em  suas  respostas.  A  comunicação  com  foco  excessivo  nos  achados  de  tendência
central  implica  que  o  cliente  certamente  apresenta  os  mesmos  aspectos  ocupacionais,  metas  e  resultados  da
maioria  dos  participantes  da  pesquisa  ou  daqueles  com  uma  resposta  média.  Por  exemplo,  um  relato
excessivamente focado nos achados de tendência central pode ser o seguinte: “Os clientes encontram satisfação
ao estabelecer suas metas para a terapia” (ou, se a evidência aponta nesta direção, substituindo satisfação  pela
palavra  associada  à  insatisfação).  Este  exemplo  implica  que  todos  os  participantes  da  pesquisa  ficaram
satisfeitos,  o  que  não  foi  o  caso.  Por  outro  lado,  a  comunicação  com  foco  excessivo  nos  achados  de  variação
implica que o cliente certamente apresentará aspectos ocupacionais, metas e resultados diferentes dos da maioria
dos participantes ou do participante médio da pesquisa. Por exemplo, considere a frase “Alguns clientes estão
satisfeitos e alguns não quanto à determinação de suas próprias metas para a terapia, porque todos são diferentes
e únicos”. Este exemplo falha em informar a Wanda sobre a maioria ou a média das respostas, o que ela poderia
achar importante na orientação de sua própria resposta.
Um exemplo de comunicação que equilibra os achados de tendência central com a perspectiva de variação, e
que  portanto  é  mais  exato  do  que  as  declarações  no  parágrafo  anterior,  seria:  “Em  geral,  os  clientes  ficaram
satisfeitos em estabelecer suas próprias metas para a terapia. Contudo, alguns ficaram mais satisfeitos que outros
por  participar  do  estabelecimento  de  suas  metas.  Você  gostaria  de  se  envolver  na  elaboração  de  algumas  das
metas que nós trabalhamos em sua terapia?”. Nesta comunicação, os achados são demonstrados com exatidão,
no tempo passado, em vez de no presente, e a questão da relevância pertinente é abordada, possibilitando que
Wanda avalie, ela própria, a evidência.
O equilíbrio entre os achados de tendência central e de variação é a base da comunicação para todos os tipos
de evidência. Quando a evidência é do tipo descritiva, tratamento ou evidência responsiva, aplica­se a mesma
construção das questões. Frases como “Você deve realizar este tratamento porque ele demonstrou bom resultado
com outros clientes” são inexatas, enganosas e contrárias à prática centrada no cliente.
Linguagem Mutuamente Compreensível
Informação compreensível é comunicada com palavras e linguagem que se adequam ao histórico e à capacidade
de compreensão do cliente. O importante é fornecer informações que apoiem a participação ativa do cliente nas
decisões clínicas. O emprego de terminologia profissional (p. ex., desempenho funcional) ou jargão (p. ex., AVD)
deve ser evitado ou explicitamente ensinado ao cliente. Do mesmo modo, a terminologia científica de pesquisa e
estatística não deve ser utilizada, a menos que seja de interesse para o cliente. Como demonstrado nas seções
anteriores, os achados podem ser discutidos sem explicações ou descrições complexas.
A  principal  meta  da  comunicação  sobre  a  evidência  é  informar  o  processo  da  tomada  de  decisão,  e  não  o
detalhamento de pontos que não sejam necessários para esta meta. Informações compreensíveis e utilizáveis são
resumidas e diretas. Quadros e gráficos podem ser utilizados, dependendo do estilo de aprendizagem preferido
pelo cliente (Redman, 1997).

Incentivando a Discussão Aberta e Mútua de Informações e Ideias
Em sua revisão da pesquisa sobre prática centrada no cliente, Law (1998) demonstrou que os elementos respeito
e colaboração da relação terapêutica eram importantes preditores do resultado da reabilitação, assim como em
todos  os  relacionamentos  de  cuidado  de  saúde  (Martin,  Garske  &  Davis,  2000).  Os  profissionais  e  os  clientes
chegam  a  uma  compreensão  das  perspectivas  um  do  outro  por  meio  da  comunicação  e  das  atividades
terapêuticas que eles realizam (Crepeau, 1991; Mattingly & Fleming, 1994). Quando o profissional começa uma
discussão  sobre  uma  evidência,  as  palavras  devem  mostrar  que  a  discussão  será  sobre  probabilidades  e
possibilidades em aberto, e não sobre certezas estabelecidas.
Ao  comunicar­se  com  Wanda  sobre  a  possibilidade  de  realizar  uma  avaliação  de  suas  metas  ocupacionais,
construindo  as  qualidades  de  comunicação  anteriormente  descritas,  você  poderia  dizer:  “Wanda,  existem
algumas perguntas que eu gostaria de fazer sobre suas metas para a terapia que seriam valiosas para que eu saiba
mais sobre o que é importante para você, de modo que possamos focar sobre certas coisas na terapia. Em uma
pesquisa,  muitos  pacientes  ficaram  satisfeitos  com  estas  perguntas  para  identificação  de  suas  metas,  embora
alguns  não  ficassem  satisfeitos.  É  um  estudo  bastante  pequeno  sobre  pessoas  mais  velhas  do  que  você  e  que
estavam  internadas  em  um  hospital,  mas  o  método  geral  parece  útil  para  suas  necessidades  atuais.  Você  tem
vontade  de  me  perguntar  sobre  suas  metas  de  tratamento?”.  Mais  tarde,  se  vocês  duas  experimentassem  os
métodos de avaliação, modificados para a situação de Wanda, você poderia sugerir a Wanda que você repetiria
perguntas similares em cada sessão, pois a pesquisa de Melville e colaboradores (2002) sugeriu que as pessoas
podem mudar rapidamente suas metas.

ÉTICA, VALORES DE PRÁTICA E PRÁTICA BASEADA EM EVIDÊNCIA
Como comentado anteriormente neste capítulo, a prática baseada em evidência surge dos valores centrais e da
ética  da  terapia  ocupacional  (American  Occupational  Therapy  Association,  2000;  Christiansen  &  Lou,  2001;
Kanny, 1993). A prática baseada em evidência ocorre em uma relação de respeito, verdadeira e colaborativa com
o cliente e com aqueles que atuam em favor do cliente. Os clientes são considerados contribuintes ativos para o
planejamento  e  o  processo  de  tratamento  da  terapia,  em  vez  de  receptores  passivos  das  informações  sobre  os
serviços (Law, Baptiste & Mills, 1995). Para ser ativo em vez de passivo, isto é, agir com a maior autonomia e a
mínima dependência possíveis, os clientes e aqueles que atuam em seu favor precisam estar informados em vez
de  desinformados  ou  mal­informados.  Ser  um  cliente  informado  significa  saber  o  significado  de  sua  condição
ocupacional em relação à sua qualidade de vida, conhecer a natureza e a qualidade das possíveis avaliações de
terapia ocupacional a serem aplicadas, conhecer a qualidade e os prováveis resultados de tratamentos relevantes
e  ter  meios  para  avaliar  o  próprio  progresso  no  sentido  de  resultados  significativos.  Uma  vez  informados,  os
clientes  e  aqueles  que  atuam  em  seu  favor  podem  raciocinar  e  agir  com  o  grau  de  autonomia  de  que  sejam
capazes.
Uma  implicação  do  raciocínio  e  ação  autônomos  é  que  os  clientes  podem  escolher  participar  ou  não  das
avaliações e dos tratamentos de terapia ocupacional. Da mesma maneira, os familiares ou outros profissionais de
saúde podem decidir incentivar ou desencorajar a participação do cliente. A prática baseada em evidência não
consiste na imposição da vontade de um indivíduo sobre a de outro, mas, em vez disto, é uma busca e discussão
mútuas sobre as informações que irão auxiliar a tomada de decisão prudente e informada. A responsabilidade do
profissional é fornecer as informações de modo que a tomada de decisão seja maximizada.
INCORPORAR A IDEOLOGIA DA MUDANÇA AO CONHECIMENTO E À PRÁTICA DA
TERAPIA OCUPACIONAL
Talvez  um  dos  maiores  desafios  da  prática  baseada  em  evidência  seja  que  o  que  é  considerado  a  melhor
evidência para responder uma questão clínica pode ser modificado à medida que mais pesquisas são realizadas.
O que poderia ser a melhor informação para trabalhar com Wanda hoje pode estar fora de padrão daqui a um
ano.  O  fato  de  que  não  existe  resposta  definitiva  sobre  como  trabalhar  com  pessoas  como  Wanda  requer  uma
abordagem  para  orientação,  prática  e  desenvolvimento  de  teoria  da  terapia  ocupacional  que  englobe  uma
ideologia de mudança e desenvolvimento. Certamente aderimos a essa ideologia para nossos clientes, esperando
que eles estejam abertos a ela e se modifiquem de acordo com as novas circunstâncias de nossas vidas, nossas
perdas e nossos ganhos.
Como podemos aderir à ideologia da mudança? Em primeiro lugar, devemos reconhecer que o conhecimento
não  é  estático  e  fechado,  mas  dinâmico  e  aberto  (Kaplan,  1964/1998).  As  estratégias  para  uso  da  evidência
dinâmica  e  aberta  iniciam  ao  reconhecer  que  saber  como  aprender  diariamente  é  uma  habilidade  fundamental
para um profissional da terapia ocupacional. A experiência não é saber os fatos, mas, em vez disto, saber como
encontrar as respostas prováveis para perguntas complexas de maneira que possam nos ajudar a tomar decisões
práticas (Mattingly & Fleming, 1994; Tickle­Degnen & Bedell, 2003).
Em  segundo  lugar,  precisamos  lutar  por  recursos  para  realizar  a  prática  baseada  em  evidência.  Utilizar  um
conjunto de evidências sempre mutáveis exige tempo e suporte institucional, organizacional e governamental sob
a  forma  de  política,  treinamento  e  infraestrutura.  Sem  este  tempo  e  este  suporte  de  modo  sistêmico,  é  muito
difícil para o profissional basear­se em evidência (Illott, 2003).
Ao  se  adaptar  às  circunstâncias  e  evidências  mutáveis,  a  terapia  ocupacional  continuará  a  ser  uma  força
vibrante,  saudável  e  importante  na  saúde  de  pessoas  com  necessidades  ocupacionais.  Os  instrumentos  e  as
estratégias da prática baseada em evidência trabalham essa mudança para o beneficio de nossos clientes e para o
nosso próprio desenvolvimento profissional.

QUESTÕES INSTIGANTES
1. Qual é a evidência de que a lesão da mão ou a terapia da mão está inter­relacionada a aspectos psicossociais
da vida e das experiências dos clientes?
2. O que Rebecca deve fazer com a informação que Wanda lhe revelou durante o tratamento?
3. Imagine que você tem um novo cliente com um diagnóstico de adrenoleucodistrofia, um diagnóstico que é
desconhecido  para  você.  Que  etapas  você  empreenderia  para  encontrar  evidências  que  lhe  permitissem
melhor compreensão das necessidades de clientes originários desta população?
4. Quando  você  está  desenvolvendo  um  programa  de  tratamento,  você  pode  não  encontrar  evidências
específicas  sobre  a  eficácia  da  terapia  ocupacional  quanto  aos  resultados  para  indivíduos  com
adrenoleucodistrofia. O que você deve fazer como um profissional baseado em evidência?
5. Em um ambiente clínico que não fornece suporte organizacional para a prática baseada em evidência, quais
estratégias você desenvolveria para apoiar sua prática baseada em evidência?

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Protegendo os Clientes Vulneráveis
Evitando e Respondendo aos Maus­Tratos do
Cliente por meio de Atendimento Direto,
Gerenciamento de Caso e Defesa
DEBORA A. DAVIDSON

Sumário
Introdução
Maus­Tratos e Desempenho Ocupacional
Incapacidade: Um Fator de Risco para Abuso ao Longo da Vida
Causas de Abuso e Negligência
Fatores de Risco Ambientais
Fatores de Risco Relacionados aos Cuidadores
Fatores de Risco Relacionados ao Cliente
Prevenindo os Maus­Tratos
Identificando e Respondendo aos Maus­Tratos
Tratamento de Terapia Ocupacional para Crianças Vítimas de Abuso e Seus Cuidadores
Tratamento para os Cuidadores ou Pais
Tratamento para a Criança
Tratamento para o Relacionamento Pais­Filho
Tratamento de Terapia Ocupacional para Clientes Adultos
Estudo de Caso: O “Péssimo Humor” de Hannah
Estudo de Caso: A Falta de Dinheiro da Sra. Nash
Conclusão

“Sou apenas um. Mas ainda sou um. Não posso fazer tudo, mas ainda posso fazer alguma coisa. Não me recusarei a
fazer alguma coisa que possa.”

—EDWARD EVERETT­HALL (1822­1909)

“No momento em que você protege a pessoa, você protege a sociedade.”

—KENNETH KANUDA (nascido em 1924)
Objetivos de Aprendizagem
Após a leitura deste capítulo, você será capaz de:

1. Definir os termos abuso, negligência e exploração e dar exemplos de cada um deles com relação
às pessoas com incapacidade ao longo da vida.
2. Reconhecer  os  principais  fatores  de  risco  que  contribuem  para  a  vulnerabilidade  dos  clientes  e
conhecer maneiras para identificar estes riscos nas vidas das pessoas.
3. Identificar  as  maneiras  pelas  quais  o  abuso  e  a  negligência  podem  ser  evitados  por  meio  da
terapia ocupacional.
4. Conhecer a lei e os padrões de prática da American Occupational Therapy Association a respeito
do papel do profissional de terapia ocupacional em resposta à suspeita de abuso ou negligência.

INTRODUÇÃO
O domínio de prática e a principal missão da terapia ocupacional é a promoção do engajamento das pessoas em
pa péis e atividades significativas em suas casas e comunidades (American Occupational Therapy Association,
2002).  Prevenir  abuso,  negligência  e  exploração  de  clientes  de  terapia  ocupacional  atende  a  duas  missões
centrais da profissão: ajudar as pessoas a perseguirem as metas ocupacionais e protegê­las de dano. A sensação
de  segurança  física  e  emocional  é  necessária  para  que  os  clientes  trabalhem  para  alcançar  as  muitas  metas  de
desempenho ocupacional (Christiansen & Townsend, 2004). O Código de Ética da Terapia Ocupacional – 2005
cita o benefício, ou a demonstração de preocupação com o bem­estar dos clientes, como seu primeiro princípio
(American Occupational Therapy Association, 2005). Logicamente, os profissionais de terapia ocupacional têm
a obrigação de compreender a dinâmica que resulta em dano para os clientes e de unir­se aos colegas de outras
disciplinas  para  se  empenhar  para  eliminação  deste  problema  de  saúde  pública.  A  finalidade  deste  capítulo  é
ajudar o leitor a compreender por que e como ocorre o abuso, ajudar a evitar que tais situações se desenvolvam e
reconhecer e responder a situações abusivas que afetam várias populações de clientes.

MAUS­TRATOS E DESEMPENHO OCUPACIONAL
Para muitas pessoas com incapacidade, as experiências de maus­tratos por familiares ou cuidadores remunerados
resultam  na  redução  de  longo  prazo  de  suas  oportunidades  ocupacionais.  Os  maus­tratos  incluem  exploração
econômica,  negligência  e  várias  formas  de  abuso  (veja  Boxe  31.1).  A  pesquisa  demonstrou  relação  entre  os
maus­tratos no início da vida e problemas neurológicos, de desenvolvimento e psiquiátricos pelo resto da vida
(Egeland, Sroufe & Erickson, 1983; Haskett & Kistner, 1991; Hoffman­Plotkin & Twentyman, 1984; Jaudes &
Diamond,  1985;  Manly,  Kim,  Rogosh  &  Cicchetti,  2001;  Pears  &  Fisher,  2005;  Putnam,  2003).  Pessoas  com
incapacidades que sofrem maus­tratos podem evitar as oportunidades de participar de pa péis ocupacionais por
causa do medo de punição ou podem ter acesso restrito aos recursos e contextos exigidos para muitas atividades
(Milberger et al., 2003; Ryan, Salenblatt, Schiappacasse & Maly, 2001; Stancliff, 1997).

INCAPACIDADE: UM FATOR DE RISCO PARA ABUSO AO LONGO DA VIDA
Pessoas de todas as idades com incapacidades estão sob risco aumentado de negligência, abuso e exploração em
comparação com aquelas cujas capacidades são típicas (McAllister, 2000; Milberger et al., 2003; Spencer et al.,
2005;  Strand,  Benzein  &  Saveman,  2004).  Um  estudo  comparando  a  prevalência  de  maus­tratos  em  escolares
encontrou uma taxa de 11% entre crianças não incapacitadas e uma taxa de 31% no grupo incapacitado (Sullivan
& Knutson, 2000). Em 47% dos casos, acreditou­se que a incapacidade da criança contou como fator etiológico
do  abuso;  em  outros  14%  dos  casos,  as  incapacidades  foram  o  resultado  do  abuso.  Em  um  questionário  de
instituições  que  atendem  a  sobreviventes  de  agressão  e  abuso  sexual,  Sobsey  (como  citado  por  Lumley  &
Miltenberger, 1997) descobriu que 54% dos clientes apresentavam comprometimento cognitivo. Um estudo de
mulheres com retardo mental leve demonstrou que 71% da amostra havia experimentado contato sexual forçado
ou coagido (Stromsness, 1993). Pesquisa envolvendo 177 mulheres com incapacidades físicas, muitas das quais
viviam de modo independente, apontou que 56% da amostra experimentou alguma forma de abuso (Milberger et
al.,  2003).  Os  resultados  de  um  estudo  nacional  indicaram  que  pelo  menos  450.000  norte­americanos  idosos
experimentaram abuso, negligência ou exploração em 1996 (National Center on Elder Abuse, 1998). O National
Center on Elder Abuse (1998) estimou que, para cada caso de abuso, negligência ou exploração financeira de
idoso relatado às autoridades estaduais, cerca de outros cinco permaneceram sem relato.
Estudos  demonstram  que  o  abuso  ocorre  em  muitos  ambientes:  residências,  escolas,  ambientes  de  trabalho,
alojamentos e instituições de vida assistida (Lumley & Miltenberger, 1997; Marchetti & McCartney, 1990). A
residência  é  o  local  mais  comum  de  maus­tratos,  embora  o  abuso  em  ambientes  institucionais  também  esteja
bem documentado (Bonner, Crow & Hensley, 1997; National Center on Elder Abuse, 1998). Dados relativos à
incidência do abuso e da negligência não são completos ou totalmente exatos, devido ao sub­relato significativo
e  às  limitações  na  coleta  de  dados  (Bonner  et  al.,  1997;  Kenny,  2001;  Oktay  &  Tompkins,  2004).  É  muito
provável que o número real de pessoas que sofrem maus­tratos seja muito maior do que pode ser estabelecido
por meio dos atuais métodos de coleta de dados (National Center on Elder Abuse, 1998).

DEFINIÇÕES DE TERMOS

A exploração econômica consiste no uso não ético ou na retirada de dinheiro ou propriedade de outra
pessoa,  seja  sem  seu  conhecimento,  seja  por  meio  de  influência  indevida.  Furto  e  coerção  para  “dar”
presentes ou empréstimos são exemplos disto.
A negligência consiste na suspensão de nutrição, abrigo, vestimenta ou cuidados médicos, de modo que
a saúde da pessoa dependente fique em risco. Redução de supervisão e abandono estão incluídos nesta
categoria.
A  autonegligência  ocorre  quando  uma  pessoa  idosa  adota  um  comportamento  que  coloca  sua
segurança  ou  saúde  em  perigo,  sem  a  capacidade  cognitiva  ou  julgamento  para  antecipar  as
consequências.
O abuso físico  inclui  golpear,  sacudir,  chutar,  morder,  arremessar,  queimar  e  outras  formas  de  punição
lesiva.
O abuso sexual  é  qualquer  sedução,  coerção  ou  imposição  a  uma  pessoa  a  observar  ou  participar  de
atividade sexual para a gratificação sexual de um indivíduo mais poderoso.
O abuso psicológico envolve coerção e punição por meio de ameaças ao indivíduo ou àqueles de quem
ele cuida, humilhação ou prejuízo ou coerção deliberada da autoestima e do bem­estar de uma pessoa.

CAUSAS DE ABUSO E NEGLIGÊNCIA
Abuso,  negligência  e  exploração  são  os  resultados  de  uma  inter­relação  dinâmica  de  fatores  que  envolvem  o
ambiente,  o  perpetrador  e  a  vítima  (Hoffman­Plotkin  &  Twentyman,  1984;  McAllister,  2000).  Apenas  com  a
compreensão de cada um desses domínios e de como eles interagem é que os problemas referentes aos maus­
tratos podem ser evitados e ser melhorados os métodos para lidar com os maus­tratos.

Fatores de Risco Ambientais
As atitudes sociais, comunitárias e familiares prevalentes sobre como resolver os conflitos e o valor das pessoas
com  incapacidades  influenciam  os  comportamentos  pessoais.  Na  cultura  dominante  nos  Estados  Unidos,  o
individualismo  geralmente  é  valorizado  em  relação  ao  coletivismo  (Kondo,  2004).  Pessoas  e  famílias  são
encorajadas  a  assumir  responsabilidades  por  si  próprias,  sendo  a  privacidade  altamente  valorizada.  A
autoconfiança e a realização por meio do esforço independente também são premiadas. Esses valores ajudaram
os Estados Unidos a se tornarem a maior potência econômica que o mundo já conheceu. Esses valores também
podem  ter  contribuído  para  o  isolamento  e  a  desvalorização  das  pessoas  que  apresentam  necessidades  que
demandem  um  modo  de  vida  mais  interdependente.  Além  disso,  a  cultura  norte­americana  contemporânea
promove a violência como uma solução aceitável para o conflito, um meio de estabelecer o poder e, até mesmo,
uma  fonte  de  entretenimento  (Noguera,  2001;  Prothrow­Stith,  1991).  As  condições  culturais  prevalentes
resultam em um ambiente que sustenta o uso da agressão nos lares e instituições norte­americanos.
A cultura da comunidade mais imediata pode ter maior impacto sobre o comportamento das pessoas do que a
cultura em nível nacional. Alguns bairros e cidades são coesos e interativos, resultando em disponibilidade de
suporte  e  vigilância  social  positivos,  uma  combinação  que  tende  a  reduzir  o  comportamento  antissocial
(Sampson & Groves, 1989). Em outras comunidades, os vizinhos podem não se conhecer ou ter desconfiança e
antipatia  mútuas.  Nessas  comunidades,  pode  não  haver  ninguém  a  quem  recorrer  em  momentos  de  crise  e
nenhuma sensação de preocupação ou interesse mútuo. Nas comunidades em que as pessoas se agridem verbal
e/ou  fisicamente,  ou  em  que  os  vizinhos  raramente  interagem,  todas  as  pessoas  estão  sob  risco  maior  de
vitimização (Vondra, 1990).
Pobreza  é  um  fator  de  risco  para  muitos  problemas  de  saúde  pública,  incluindo  violência  e  negligência
domésticas.  Ela  se  correlaciona  de  maneira  positiva  com  taxas  mais  altas  de  abuso  e  negligência  infantis
(Coulton,  Korbin,  Su  &  Chow,  1995;  Sedlak  &  Broadhurst,  1996;  U.  S.  Department  of  Health  and  Human
Services, 2000). Além disso, o desemprego (Milberger et al., 2003) e a renda baixa (Oktay & Tompkins, 2004)
estão positivamente correlacionados com os maus­tratos de adultos com incapacidades. Embora a pobreza esteja
relacionada com níveis mais altos de abuso, os altos níveis de integração social e moral comunitária parecem ser
fatores  mitigadores  que  podem  reduzir  os  níveis  de  abuso  infantil  mesmo  em  populações  de  baixa  renda
(Garbarino & Kostelny, 1992).

Fatores de Risco Relacionados aos Cuidadores
As pessoas que perpetram o abuso variam desde o pai assoberbado ou o cuidador que ocasionalmente reage de
maneira áspera por exaustão e desespero até o sociopata calculista, que busca deliberada e sistematicamente ferir
as vítimas (MacNamara, 1992). Alguns cuidadores são negligentes por ignorância das necessidades médicas ou
dos cuidados diários da pessoa sob seus cuidados ou por falta de recursos. Por vezes, os familiares apresentam
suas próprias complicações de saúde ou de vida e são incapazes de gerenciar as demandas da carga de um grupo
complexo  de  responsabilidades  (McAllister,  2000).  Alguns  cuidadores  alimentam  sentimentos  de  raiva  e
ressentimento com base em uma história de conflito com o cônjuge ou pai que agora está sob seus cuidados.
O isolamento social, um fator de risco crítico nos casos de maus­tratos, pode ser uma função da pessoa, bem
como do ambiente. Muitos cuidadores, tanto parentes quanto remunerados, trabalham sozinhos por muitas horas,
resultando em grande estresse e na falta de supervisão externa. Se um cuidador tem contato limitado com outros
que dão apoio emocional e funcional, o risco de abuso aumenta (Windham, 2000). Os cuidadores que procuram
e  utilizam  suportes  sociais  dentro  da  família  ou  da  comunidade  estão  reduzindo  o  risco  de  maus­tratos,  bem
como aumentando sua satisfação com o trabalho (Gerits, Derksen & Verbruggen, 2004).
Cuidadores  que  têm  pouca  sensibilidade  quanto  aos  sentimentos  ou  às  perspectivas  dos  outros,  capacidade
limitada de colocar as necessidades dos outros antes de suas próprias e/ou baixa tolerância à frustração estão sob
maior risco de agir de maneira abusiva. Pessoas que abusam de álcool ou drogas ou que apresentam problemas
de  saúde  mental,  como  depressão  ou  transtorno  da  personalidade  limítrofe,  estão  mais  propensas  a  agir  de
maneira  abusiva  do  que  o  cuidador  típico.  Uma  mãe  adolescente  está  sob  risco  maior  de  maltratar  seu  filho
apenas  pelo  fato  de  ser  imatura,  tanto  psicologicamente  como  do  ponto  de  vista  neurológico  (Strauch,  2003).
Como  ocorre  com  todos  os  fatores  de  risco,  essas  características  pessoais  não  são  preditores  confiáveis.  No
entanto, elas são fatores que, quando combinados a outros fatores da situação, podem influenciar os resultados.

Fatores de Risco Relacionados ao Cliente
Um traço compartilhado por pessoas que se tornam vítimas de abuso ou negligência doméstica ou institucional é
a  dependência  de  outros  para  satisfazer  suas  necessidades  básicas,  como  moradia,  alimentação,  vestimentas,
cuidados médicos ou contato social. Este grupo inclui todos os bebês e crianças, com ou sem desenvolvimento
típico,  bem  como  adolescentes  e  adultos  com  incapacidades  significativas  e  idosos.  Quanto  mais  longa  for  a
dependência de uma pessoa, maior será o risco de maus­tratos.
Quanto  mais  frágil  for  a  saúde  de  uma  pessoa,  maiores  serão  as  chances  de  dano  a  longo  prazo  por  maus­
tratos. Os bebês e as crianças mais novas estão sob risco maior de lesões que ameaçam a vida do que as crianças
mais  velhas  e  os  adolescentes  (Sedlak  &  Broadhurst,  1996).  Dentre  todos  os  idosos,  aqueles  com  80  anos  de
idade ou mais foram abusados duas ou três vezes mais do que a taxa de pessoas mais jovens que responderam a
uma pesquisa nacional (National Center on Elder Abuse, 1998).
Pessoas que são incapazes de relatar ou resistir aos maus­tratos estão sob risco maior de abuso e negligência
por diferentes motivos (Lumley & Miltenberger, 1997; Vondra, 1990). Pessoas com incapacidades cognitivas são
frequentemente aculturadas para tornar­se passivas e complacentes (Tharinger, Horton & Millea, 1990). Espera­
se que elas confiem e obedeçam a uma grande variedade de cuidadores e, com frequência, são recompensadas
por serem “boas” (Lumley & Miltenberger, 1997). A discordância assertiva ou resistência em obedecer pode ser
considerada  como  problemática  ou,  até  mesmo,  sintomática,  e  ser  tratada  como  tal.  Além  das  questões  da
aculturação, muitas pessoas com independência limitada apresentam vidas sociais intensamente restritas e ficam
ansiosas por agradar seus cuidadores, a quem podem considerar como amigos potenciais.
Se um cuidador abusivo ou explorador fornece a assistência básica, aquele que recebe os cuidados pode não
ser capaz ou não ter vontade de arriscar a perda dos serviços, mesmo que isto signifique resistir aos maus­tratos
(Milberger et  al.,  2003).  Em  alguns  casos,  mesmo  quando  as  pessoas  vitimizadas  gostariam  de  ter  ajuda,  sua
incapacidade e seu isolamento social impedem a comunicação efetiva do problema.
Além  da  dependência  prolongada,  alguns  indivíduos  apresentam  comportamentos  ou  traços  inerentes  ou
adquiridos  que  podem  deflagrar  a  agressão  por  um  cuidador  suscetível.  Pessoas  dependentes  que  resistem  às
tentativas  de  fornecimento  do  cuidado  e  aquelas  que  são  mais  ativas,  por  exemplo,  podem  provocar  reações
agressivas com maior frequência do que os indivíduos passivos (Strand et al., 2003). Os clientes portadores de
déficits  cognitivos  podem  agredir  ou  ferir  os  cuidadores,  os  quais  podem  retaliar  de  outra  forma  (Oktay  &
Tomkins, 2004; Strand et al., 2004).
Contudo, as evidências atuais indicam que as características do cuidador são mais importantes na predição do
abuso do que o nível de dependência e a gravidade do comprometimento daquele que recebe os cuidados. Um
recente estudo das características de crianças que foram abusadas concluiu que as atitudes paternas em relação às
crianças  foram  mais  preditivas  do  abuso  do  que  o  tipo  ou  a  gravidade  dos  problemas  de  saúde  da  criança
(Sidebotham  &  Heron,  2003).  Os  assistentes  de  cuidados  pessoais  de  adultos  com  incapacidades  são  mais
prováveis  de  abusar  se  forem  do  sexo  masculino,  forem  inexperientes,  trabalharem  por  longos  períodos  ou
receberem remuneração baixa (Oktay & Tompkins, 2004). Uma exceção a esta tendência podem ser as mulheres
com  comprometimento  auditivo,  o  qual  pode  ser  um  tipo  de  incapacidade  que,  por  si  só,  aumenta  o  risco  de
abuso, independente das características do cuidador (Milberger et al., 2003).

PREVENINDO OS MAUS­TRATOS
MacNamara (1992, p. 4) declara: “Um motivo para a persistência do problema [do abuso] é que ele tende a ser
tratado  de  forma  episódica  e  não  de  maneira  sistemática.”  Os  profissionais  de  terapia  ocupacional  podem
influenciar o ambiente, incluindo os cuidadores e o cliente. Ajudar os clientes a desenvolverem habilidades que
reduzam  a  dependência  nas  atividades  da  vida  diária  diminui  o  estresse  dos  cuidadores  e  a  necessidade  de
intrusão. A participação rotineira das pessoas com incapacidades em funções comunitárias também reduz o risco
de  vitimização.  Não  é  apenas  o  isolamento  social  que  é  reduzido,  mas  a  pessoa  com  incapacidade  tem  a
oportunidade  de  desenvolver  habilidades  sociais  e  de  tomada  de  decisão  que  são  opostas  ao  ato  de  agir  como
uma vítima.
A  maioria  dos  abusos  é  causada  por  alguém  conhecido,  com  acesso  à  vítima  (Sobsey  &  Doe,  1991).  Os
cuidadores podem beneficiar­se de uma conduta educacional de suporte que inclua o treinamento e a avaliação
de  desempenho,  o  que  facilita  uma  sensação  de  poder  juntamente  com  as  habilidades  necessárias.  Ajudar  os
cuidadores familiares  a  desenvolverem  um  horário  para  que  a  família,  os  amigos ou membros da comunidade
que possam comparecer regularmente auxiliem ou forneçam os cuidados, substituindo esses cuidadores, diminui
o  isolamento  e  reduz  o  risco  de  abuso  no  domicílio.  Conectar  as  famílias  a  grupos  de  apoio  ao  paciente  e
instituições  de  cunho  social  que  fornecem  respaldo  profissional,  programas  diários,  convivência  em  grupo
supervisionada, transporte ou outros serviços para pessoas incapacitadas é outra maneira de reduzir o risco de
abuso e negligência.
Quando  os  clientes  passam  para  o  cuidado  institucional,  a  probabilidade  de  experimentar  abuso  sexual
aumenta muito (Lumley & Miltenberger, 1997). Os profissionais de terapia ocupacional podem fornecer suporte
e  as  informações  necessárias  aos  profissionais  da  instituição  por  meio  de  visitas  regulares  de  consultoria  e
durante o tratamento direto (Marchetti & McCartney, 1990). Uma abordagem ainda mais sustentada consiste em
orientar os gestores sobre as maneiras de maximizar a qualidade da equipe. Estabelecer plantões regulares e de
duração  razoável,  fornecer  supervisão  frequente  e  regular  e  exigir  treinamento  e  desenvolvimento  da  equipe
ajudam a reduzir o risco de abuso nos ambientes institucionais (MacNamara, 1992).
Outro nível de ação preventiva situa­se em um ambiente maior. Os profissionais da terapia ocupacional são
posicionados  para  ajudar  as  instituições  a  desenvolverem  programas  que  tragam  os  membros  da  comunidade
para dentro da instituição e levem pessoas com incapacidades para dentro da comunidade. Os profissionais de
terapia ocupacional podem orientar os membros de instituições comunitárias e empresas quanto às oportunidades
para  incluir  pessoas  com  incapacidades  de  desenvolvimento  e  seus  cuidadores.  Instituições  que  convidam  o
público  para  ações  voluntárias  e  eventos  sociais  abertos  e  que  estabelecem  um  bom  perfil  na  comunidade
proporcionam um ambiente mais saudável para os membros da equipe e os residentes.
O  treinamento  da  assertividade,  que  ensina  especificamente  as  pessoas  a  reconhecerem  e  responderem  a
situações  perigosas  ou  de  exploração,  pode  ajudar  os  clientes  a  evitarem  a  vitimização  (Khemka  &  Hickson,
2000; Lumley & Miltenberger, 1997). A educação sexual é uma ação necessária e frequentemente desprezada
para  as  pessoas  com  incapacidades  de  desenvolvimento  (Lumley  &  Miltenberger,  1997;  Tharinger,  Horton  &
Millea, 1990). É impossível que clientes e cuidadores façam boas escolhas sem as informações adequadas. Os
profissionais  de  terapia  ocupacional  que  completaram  uma  preparação  educacional  adequada  podem  dar
importantes contribuições nesse aspecto, seja de modo independente, seja em conjunto com outros profissionais
na equipe de tratamento.

IDENTIFICANDO E RESPONDENDO AOS MAUS­TRATOS
Infelizmente, nem sempre é possível evitar que o abuso aconteça. Os profissionais de terapia ocupacional podem
desempenhar um papel efetivo na identificação e no tratamento em caso de existência de abuso. A presença dos
profissionais  nos  ambientes  institucionais,  comunitários  e  domiciliares  possibilita  que  eles  avaliem
continuamente  as  interações  do  cliente  com  os  cuidadores  remunerados  ou  familiares,  amigos  e  assistentes
durante  as  atividades  rotineiras.  Com  frequência,  os  sinais  de  abuso  físico  ou  sexual  contínuo  são  sutis  e
indiretos,  principalmente  quando  o  cliente  tem  linguagem  limitada,  está  intimidado  ou  é  habitualmente
complacente. Os profissionais devem ser sensíveis às mudanças de comportamento e à comunicação não verbal
para avaliar a possibilidade de abuso (Tharinger et al., 1990). Comportamentos do cliente que podem indicar o
abuso incluem agir de maneira ansiosa ou fora do perfil na presença de determinada pessoa. Os profissionais da
terapia ocupacional devem estar vigilantes para a evidência física de abuso, como equimoses ou outros tipos de
lesão que não são explicados de maneira lógica. As interações entre o cuidador e o cliente podem indicar padrões
de dominação, intimidação ou negligência. Os cuidadores devem ser avaliados por entrevista e observação para
sinais  de  sofrimento  e  estresse,  raiva  ou  falta  de  disposição  para  as  tarefas  pelas  quais  eles  são  responsáveis.
Recursos  e  suportes  sociais  relacionados  ao  trabalho  dos  cuidadores  que  eles  possam  acessar  em  emergências
também fazem parte da avaliação.
Os profissionais em todos os estados são legalmente obrigados a encaminhar casos de suspeita de abuso ou
negligência para a agência apropriada e conhecer as leis e os procedimentos de seu estado para relato da suspeita
de abuso (Child Welfare Information Gateway, 2005; Schauer, 1995; Tharinger et al., 1990). Em muitos casos, a
decisão  de  encaminhar  uma  família  para  os  Serviços  de  Proteção  da  Criança  ou  Adulto  é  tomada  por  uma
equipe, sendo o chefe da equipe o responsável pelo relato. No entanto, na ausência de uma decisão em equipe,
um profissional que tenha motivo para suspeitar de maus­tratos é responsável do ponto de vista legal e ético para
fazer  o  encaminhamento  de  maneira  independente.  As  pessoas  que  relatam  preocupações  razoáveis  para  os
serviços de proteção estão legalmente protegidas contra ações legais, sendo sua identidade mantida sob sigilo.
Em caso de suspeita de abuso, negligência ou exploração, o profissional de terapia ocupacional deve contatar a
instituição  local  apropriada.  A  informação  para  contato  sobre  esse  tipo  de  evento  está  disponível  na  lista
telefônica, em órgãos governamentais e nas seções de números de emergência, bem como na Internet.

DILEMAS DA PRÁTICA: Íris e o Colaborador “Irritante”

Í ris  era  uma  mulher  de  23  anos  de  idade  com  síndrome  de  Down  que  estava  no  segundo  mês  de  um
emprego  competitivo  em  uma  loja  de  varejo  com  descontos,  onde  ela  arrumava  as  prateleiras  e  limpava  o
chão. Íris recebia a orientação semanal de trabalho de uma terapeuta ocupacional, que estava impressionada
pelo  desenvolvimento  de  hábitos  de  trabalho  e  de  habilidades  sociais  de  Íris.  Uma  semana,  a  profissional
percebeu que Íris parecia preocupada e reprimida. Quando ela perguntou a Íris como estavam indo as coisas e
como  ela  estava  se  sentindo,  Íris  respondeu,  caracteristicamente,  “Bem”.  Durante  a  visita  seguinte,  a
profissional  soube  que  Íris  havia  faltado  dois  dias  ao  trabalho  na  semana  anterior.  A  profissional  de  terapia
ocupacional observou Íris e um colega, Bob, enquanto eles arrumavam as prateleiras. Bob irritava Íris por jogar
“acidentalmente”  os  artigos  para  fora  das  prateleiras,  de  modo  que  ela  tinha  de  se  curvar  para  pegá­los
enquanto  ele  a  olhava.  Ele  a  chamou  de  “coisa  sensacional”,  o  que  fez  Íris  ficar  envergonhada  e  parecer
desconfortável.  Quando  perguntada  em  particular  como  se  sentia  a  respeito  de  trabalhar  com  Bob,  Íris
respondeu: “Ele me aborrece!”
Questões para Reflexão e Discussão
Quais são os três sinais de que existe risco de abuso nesta situação?
Qual é a responsabilidade da profissional de terapia ocupacional nesta situação?
Como a profissional de terapia ocupacional poderia intervir ao facilitar modificações no ambiente?
Como a profissional de terapia ocupacional poderia intervir ao facilitar as mudanças no comportamento da
cliente?

Todos os relatos de boa­fé são aceitáveis, mesmo que seja demonstrado que não ocorreram maus­tratos. Os
encaminhamentos incluem fazer uma chamada telefônica seguida por uma carta que identifique o nome, a idade
e  o  endereço  do  cliente  e  um  resumo  dos  motivos  para  a  preocupação.  Os  relatos  são  categorizados  por
gravidade  e  tipo,  sendo  feitas  investigações  de  acordo  com  eles.  O  profissional  de  terapia  ocupacional  deve
submeter  repetidos  relatos  quando  ocorrem  observações  continuadas  de  comportamentos  problemáticos;
múltiplos  encaminhamentos  são  por  vezes  necessários  antes  que  um  caso  se  qualifique  para  uma  avaliação
aprofundada  dos  Serviços  de  Proteção  ou  para  uma  intervenção  legal.  O  intervalo  de  tempo  médio  entre  a
denúncia e o início dos serviços de investigação é de 29 dias (U.S. Department of Health and Human Services,
2000).
Aproximadamente  21%  dos  casos  de  abuso  e  negligência  infantis  relatados  chegam  aos  tribunais  (U.S.
Department  of  Health  and  Human  Services,  2000).  Os  dados  disponíveis  indicam  que  7%  dos  casos  de  abuso
infantil  são  resolvidos  nos  tribunais  (National  Center  on  Elder  Abuse,  1998).  Os  juízes  fundamentam­se  em
anotações  e  relatos  de  profissionais  para  tomar  as  decisões  sobre  os  casos  de  alegação  de  abuso.  Para  que  a
documentação  sirva  como  evidência  aceitável  em  um  tribunal,  ela  deve  parecer  confiável  e  válida  (Barth  &
Sullivan,  1985;  Kreitzer,  1981).  A  evidência  confiável  é  registrada  próximo  à  ocorrência  do  evento  e,  quando
possível,  por  mais  de  um  observador.  As  observações  ou  avaliações  repetidas  realizadas  em  um  intervalo  de
tempo  fortalecem  o  relato.  A  evidência  válida  utiliza  uma  variedade  de  medidas  diretas,  envolve  o  máximo
possível de testes padronizados e baseia­se em informações objetivas, e não na interpretação do profissional.
Envolver os serviços de proteção em um caso representa outra faceta do trabalho “da equipe de” tratamento. O
papel  dos  serviços  de  proteção  é  fazer  a  triagem  dos  casos  quanto  a  possível  abuso  ou  negligência;  avaliar
aqueles  cujos  problemas  satisfazem  os  critérios  de  aceitação;  e  intervir  em  casos  confirmados  de  abuso,
negligência  ou  exploração.  Os  orgãos  de  serviços  de  proteção  oferecem  ou  providenciam  um  conjunto  de
serviços para as famílias que são admitidas em seu universo de casos. Os serviços podem incluir gerenciamento
de caso, aconselhamento quanto à saúde mental, tratamento para abuso de droga e álcool, assistência domiciliar,
cuidado  asilar  e  assistência  para  moradia  e  cuidados  médicos  (National  Center  on  Elder  Abuse,  1998;  U.S.
Department of Health and Human Services, 2000).
Os orgãos de serviços de proteção são frequentemente criticados pela mídia e pela comunidade em geral. Eles
são tipicamente sobrecarregados e subfinanciados (Faller, 1985; Roche et al., 2000). Os assistentes sociais dos
serviços  de  proteção  são  tipicamente  profissionais  que  atuam  em  uma  grande  quantidade  de  casos
emocionalmente  desgastantes  e  dispõem  de  recursos  limitados  para  atender  às  complexas  necessidades  dos
clientes. Eles recebem salários relativamente baixos por longas horas de trabalho estressante e, com frequência,
perigoso. Os profissionais ocupacionais cujos clientes são atendidos pelos serviços de proteção de crianças ou
adultos devem empenhar­se para iniciar e manter o contato regular com os assistentes sociais de seus clientes de
modo  a  compartilhar  informações  e  criar  uma  relação  de  trabalho  positiva.  Os  profissionais  de  serviços  de
proteção  podem,  por  sua  vez,  apoiar  os  esforços  terapêuticos  ao  incentivar  os  clientes  e  seus  cuidadores  a
frequentarem as consultas e trabalharem com o profissional.
Os  profissionais  de  terapia  ocupacional  têm  um  posicionamento  estratégico,  contam  com  conhecimento  e
habilidades e são ética e legalmente obrigados a abordar essa preocupação de saúde pública em todos os níveis.
Para a sociedade atingir a meta de inclusão total é essencial criar e manter ambientes que sejam livres de abuso e
exploração. Todos os profissionais de terapia ocupacional devem ser proficientes em evitar, identificar e intervir
em casos de suspeita de abuso ou de abuso real.

TRATAMENTO DE TERAPIA OCUPACIONAL PARA CRIANÇAS VÍTIMAS DE ABUSO
E SEUS CUIDADORES
O  tratamento  efetivo  de  pacientes  vitimizados  e  suas  famílias  ou  cuidadores  exige  uma  abordagem  de  equipe
interdisciplinar para lidar com as necessidades do sistema, bem como com as necessidades de cada membro da
família.  Em  muitas  instituições,  a  equipe  inclui  assistentes  sociais,  professores,  psicólogos,  médicos,
enfermeiras, fonoaudiólogos e/ou fisioterapeutas.

Tratamento para os Cuidadores ou Pais
O  profissional  de  terapia  ocupacional  pode  dar  assistência  aos  cuidadores  ao  ajudá­los  a  identificar  e
potencializar as forças de sua família, ensinando conceitos e habilidades que podem não existir, e auxiliá­los na
construção de um sistema de suporte social natural. O desenvolvimento de um sistema de suporte começa com o
relacionamento cuidador­profissional, que é facilitado por meio da comunicação de cuidado e respeito por parte
do profissional. Quando o cuidador considera o profissional alguém em quem pode confiar e com quem pode
trocar confidências, além de alguém que tentará ajudar, um marco foi alcançado. Grupos de orientação e apoio
aos pais ou outros cuidadores ajudam os participantes a compreender que eles não são os únicos a se preocupar
e, com frequência, eles descobrem soluções valiosas para problemas comuns. Formas ainda mais resistentes de
suporte podem ser desenvolvidas ao ajudar os pais ou outros cuidadores a desenvolver relacionamentos mútuos
com amigos confiáveis, famílias e recursos comunitários.
O  treinamento  do  cuidador  deve  ser  individualizado  para  adaptar­se  às  capacidades  de  desenvolvimento,
cognitivas, físicas, sociais e emocionais do cliente e ao contexto de sua vida. Com isso em mente, a formação do
cuidador  poderia  incluir  técnicas  de  controle  de  comportamento,  como  elogio  pela  aproximação  de
comportamentos  desejáveis,  adesão  ao  registro  e  retirada  suave.  A  informação  relacionada  às  necessidades  de
desenvolvimento e capacidades do cliente para autorregulação e segurança pode reduzir a frustração e o perigo
causados por expectativas irreais dos cuidadores. A teatralização do papel e a prática das novas habilidades em
sessões  direcionadas  para  a  atividade  de  cuidador  do  cliente  ajudam  a  consolidar  novos  conhecimentos  e
habilidades. O treinamento da assertividade pode ajudar os pais e outros cuidadores a melhorarem a capacidade
geral de comunicação e facilitar a capacitação. O treinamento e a prática das técnicas de prevenção de crise (i.e.,
elaboração de lista; orçamento financeiro; planejamento das obrigações de trabalho, lazer e cuidados de saúde,
considerando  o  cuidado  diário  e  a  disponibilidade  de  recursos  de  transporte)  são,  com  frequência,  úteis.  O
encaminhamento  cuidadosamente  planejado  e  organizado  para  ajuda  adicional,  como  aquela  que  pode  ser
oferecida  por  psicoterapeutas,  programas  de  creche,  programas  de  treinamento  educacional  ou  vocacional  do
adulto e aconselhamento financeiro, também pode influenciar significativamente o funcionamento da família.

Tratamento para a Criança
O  vínculo  emocional  com  um  adulto  carinhoso  é  requisito  para  o  desenvolvimento  da  personalidade  saudável
(Bowlby,  1988;  Feeny,  1996;  Hazan  &  Zeifman,  1999;  Waters  &  Stroufe,  1983)  e  as  relações  sociais
subsequentes  (Schneider,  Atkinson  &  Tardif,  2001).  De  maneira  ideal,  esse  tipo  de  relacionamento  deve  ser
desenvolvido com um cuidador que seja um membro permanente do mundo da criança. Por vezes, o profissional
precisa auxiliar a criança a estabelecer a confiança inicial no ambiente de tratamento e, em seguida, transferir
esta nova capacidade para um cuidador no mundo real. O profissional pode facilitar a capacidade de uma criança
estabelecer  relacionamentos  por  meio  das  atividades  encontradas  nas  interações  pai­filho  saudáveis,  incluindo
afagar  e  abraçar,  alimentar,  arrumar  e  ensinar  as  habilidades  apropriadas  para  o  desenvolvimento.  Confiança,
delicadeza  e  comunicação  do  cuidado  são  aspectos  essenciais  nesse  tipo  de  terapia.  As  abordagens  para  lidar
com as necessidades psicossociais da criança abusada podem ser combinadas às técnicas de terapia ocupacional
utilizadas  no  tratamento  de  outras  necessidades  de  desenvolvimento,  como  habilidades  motoras,  vestir­se  e
alimentar­se.  As  atividades  terapêuticas  baseadas  na  teoria  da  integração  sensorial,  no  tratamento  pelo
neurodesenvolvimento  e  nas  abordagens  comportamentais  são  facilmente  aplicadas  tendo­se  atenção  quanto  à
natureza e à qualidade da relação terapêutica.

Tratamento para o Relacionamento Pais­Filho
O  resultado  mais  desejável  para  famílias  problemáticas  é  a  reunificação  de  filhos  e  pais,  desde  que  se  tenha
estabelecido  um  ambiente  seguro  e  carinhoso.  À  medida  que  os  pais  e  a  criança  se  tornam  mais  capazes  de
receber e responder ao suporte dado pelo profissional, a probabilidade de facilitação de suas interações positivas
aumenta.  O  profissional  de  terapia  ocupacional  pode  selecionar  atividades  que  resultem  em  comportamentos
apropriados dos cuidadores ao graduar a quantidade de interação e a estrutura externa necessária. As atividades
devem ser selecionadas quanto à adequação em relação aos níveis de desenvolvimento dos pais e da criança e
devem ser apresentadas como um suporte. O profissional pode precisar demonstrar e ensinar algumas atividades,
inicialmente. Em todas as atividades, o contato físico suave, a conversação agradável e a alegria mútua são as
metas principais. O profissional de terapia ocupacional também pode utilizar­se de sessões pai­filho para ensinar
conceitos  sobre  o  desenvolvimento  da  criança.  As  sessões  pai­filho  também  podem  permitir  que  os  pais
observem e pratiquem as habilidades de controle de comportamento, como elogiar e corrigir os comportamentos.

TRATAMENTO DE TERAPIA OCUPACIONAL PARA CLIENTES ADULTOS
O  tratamento  de  terapia  ocupacional  para  clientes  adultos  que  sofreram  abuso  ou  negligência  objetiva
principalmente assegurar um ambiente apropriado e, quando possível, ajudar o cliente a obter conhecimento e
habilidades  que  reduzam  o  risco  futuro.  O  profissional  de  terapia  ocupacional  pode  ser  o  instrumento  para  a
determinação  dos  níveis  adequados  do  suporte  necessário  para  um  adulto  com  incapacidades  cognitivas  ou
físicas e pode trabalhar junto à equipe de tratamento para ajudar a localizar ou estabelecer uma situação segura
de vida que maximize as oportunidades de participação. Muitos clientes beneficiam­se da assistência da terapia
ocupacional  no  estabelecimento  de  uma  rede  durável  e  acessível  de  amigos,  reduzindo,  dessa  maneira,  o
isolamento social. Isso pode ser alcançado com a conexão de clientes e cuidadores a grupos que compartilham os
interesses  do  cliente,  como  clubes  sociais  e  grupos  de  atividade.  O  treinamento  e  a  prática  das  habilidades  de
comunicação também podem ser úteis para melhorar a capacidade dos clientes de expressar desejos, estabelecer
limites e pedir ajuda. Os profissionais de terapia ocupacional que trabalham em ambientes domiciliares e asilares
podem ajudar a evitar o abuso por meio de orientação e apoio aos cuidadores principais. As pessoas nesses pa
péis  estão  sob  risco  de  exaustão,  um  problema  que  pode  ser  reduzido  por  meio  de  melhores  condições  de
trabalho,  estabelecimento  de  turnos  de  trabalho,  conhecimento  e  habilidades  apropriados  e  empatia  e  respeito
pelos outros (Marchetti & McCartney, 1990). Os clientes ou cuidadores que demonstram sofrimento emocional
intenso ou crônico devem ser encaminhados para avaliação da saúde mental por profissionais apropriados.

ESTUDO DE CASO: O “Péssimo Humor” de Hannah

Hannah, de dois anos de idade, foi encaminhada por seu pediatra a uma avaliação de terapia ocupacional
para  determinar  sua  condição  de  desenvolvimento,  a  qual  era  monitorada  anualmente  em  uma  clínica
ambulatorial para bebês e crianças nascidas prematuras. Durante a entrevista de pré­avaliação, a mãe de
Hannah, Joyce, comentou que sua filha tinha “um péssimo humor, como o pai”. Joyce estava particularmente
angustiada  porque  a  permanência  de  Hannah  na  creche  estava  ameaçada  por  ela  ter  mordido  outras
crianças. “Se eu não tiver a creche, perderei meu emprego. O pai dela não ajuda nem com o sustento da
filha. Terminarei na rua!”, lamentou Joyce.
Como  parte  da  avaliação  do  desenvolvimento,  a  profissional  pediu  a  Joyce  para  estimular  Hannah  a
brincar com uma caixa com vários botões e alavancas que liberavam figuras de brinquedo de mola. Joyce
mostrou a caixa para Hannah, que ficou excitada e esticou­se até a caixa. Joyce rapidamente ficou frustrada
com  a  incapacidade  de  Hannah  de  usar  imediatamente  as  alavancas  e  os  botões  e  tirou  bruscamente  a
caixa  do  alcance  de  Hannah  para  ela  própria  brincar.  Então,  Hannah  bateu  na  mãe  e  ficou  angustiada,  à
medida que Joyce virava os olhos e dizia: “Veja o que digo? Ela é violenta!”
Os  resultados  da  avaliação  de  desenvolvimento  indicaram  que  o  desenvolvimento  motor  grosseiro  de
Hannah era apropriado, mas suas habilidades motoras finas, de linguagem e cognitivas­adaptativas estavam
abaixo  dos  níveis  esperados.  Somados  a  essas  preocupações,  foram  observados  fatores  de  risco  para
abuso  ou  negligência  infantil.  Joyce  havia  demonstrado  compreensão  limitada  sobre  o  nível  de
desenvolvimento e as necessidades de Hannah, estava se sentindo frustrada e associava negativamente o
comportamento  de  Hannah  ao  do  pai  da  criança.  Joyce  interagia  com  Hannah  de  maneira  insensível  e
parecia preocupada com suas próprias necessidades. O dinheiro era uma preocupação, e era possível uma
crise financeira. Os profissionais da creche de Hannah tinham avaliado seu comportamento agressivo como
além  do  das  crianças  típicas  em  intensidade  e  frequência.  Hannah  tinha  problemas  de  comunicação,
causando  frustração  e  maior  dependência  da  capacidade  dos  outros  para  identificar  suas  necessidades  e
vontades.
A  terapeuta  ocupacional  apreciou  que  essa  criança  e  a  mãe  tivessem  vindo  para  tratamento  nesse
momento,  antes  que  problemas  mais  graves  tivessem  ocorrido.  De  acordo  com  a  recomendação  da
terapeuta  ocupacional,  a  equipe  médica  concordou  em  encaminhar  Joyce  para  uma  assistente  social  que
trabalharia com ela para avaliar suas necessidades e os recursos relacionados com a renda e a moradia e
que  poderia  encaminhar  Joyce  para  aconselhamento  legal  com  relação  ao  sustento  da  criança.  Joyce
mostrou­se  receptiva  a  isso  e  ao  encaminhamento  para  os  serviços  infantis  iniciais  custeados  pelo  estado
que forneceriam os serviços necessários de desenvolvimento e orientação dos pais. A terapeuta ocupacional
obteve a permissão por escrito de Joyce para contatar os profissionais da creche de Hannah e ofereceu a
eles até duas horas de consultoria para ajudar Hannah a participar com sucesso e segurança da creche.

ESTUDO DE CASO: A Falta de Dinheiro da Sra. Nash

Jonita era uma profissional de terapia ocupacional que trabalhava em atendimento domiciliar. A Sra. Nash,
sua  cliente,  estava  se  recuperando  de  um  acidente  vascular  cerebral.  A  Sra.  Nash  vivia  sozinha,  com  a
assistência ocasional do filho e de sua família e da assistente de cuidados pessoais duas vezes por semana,
fornecida por uma agência local. Durante uma sessão, Jonita e a Sra. Nash estavam trabalhando no controle
do  dinheiro,  habilidades  cognitivas  e  habilidades  motoras  finas,  manuseando  o  talão  de  cheques  da  Sra.
Nash. Depois de ajudar a Sra. Nash a reunir e arrumar os materiais necessários para a tarefa e, em seguida,
solucionar  o  problema  de  como  abrir  os  envelopes  fechados  de  três  meses  de  extratos  bancários,  elas
começaram o processo de rever os recibos bancários e comparar as entradas com aquelas mostradas no
talão de cheques. Logo ficou evidente que os valores mostrados no talão de cheques não se comparavam
nem  de  longe  com  os  do  banco.  Retiradas  de  várias  centenas  de  dólares  haviam  sido  feitas,  reduzindo
dramaticamente as reservas da Sra. Nash. A Sra. Nash ficou agitada com essa descoberta e não conseguia
se lembrar de ter feito as transações. Ela expressou preocupação de que “estivesse enlouquecendo”.
Depois de verificarem cuidadosamente as datas das retiradas, Jonita e a Sra. Nash perceberam que as
retiradas  tinham  ocorrido  nos  dias  em  que  a  Sra.  Nash  era  transportada  de  carro  para  o  salão  de
cabeleireiro pelo assistente de cuidados pessoais. Jonita descobriu que a Sra. Nash havia dado seu cartão
de débito para o cuidador fazer a retirada de dinheiro do caixa automático enquanto a conduzia até o salão
de cabeleireiro. É provável que a retirada adicional tenha sido roubada da conta naqueles momentos.
Jonita e a Sra. Nash trabalharam juntas para elaborar um plano de ação que incluía (1) sustar o contrato
do cuidador agressor e solicitar uma substituição, (2) ir ao banco e trocar o cartão de débito e os números
das senhas, (3) concordar que a Sra. Nash faria, de agora em diante, a atualização de seu talão de cheques
a  cada  dois  dias  depois  de  receber  uma  correspondência  do  banco,  (4)  envolver  o  filho  da  Sra.  Nash  no
auxílio para entrevistar potenciais cuidadores remunerados e levar a Sra. Nash semanalmente ao banco, e
(5)  obter  e  revisar  materiais  de  orientação  do  banco  e  recursos  via  internet  para  aprender  sobre  a
exploração financeira de idosos e as maneiras de evitar isto.

CONCLUSÃO
Os profissionais de terapia ocupacional estabelecem relacionamentos de ajuda com os clientes em ambientes que
variam  desde  instituições  de  tratamento  até  a  comunidade  e  a  casa.  Além  de  trabalharem  diretamente  com  os
clientes, os profissionais de terapia ocupacional contemporâneos interagem com cuidadores, administradores e
colegas  de  outras  disciplinas  para  criar  ambientes  que  deem  suporte  ao  desempenho  ocupacional  ótimo  dos
indivíduos. Este amplo espectro de influência possibilita que os profissionais de terapia ocupacional iniciem e
orientem as melhorias sistêmicas que são essenciais para prevenir e amenizar a vitimização.

QUESTÕES INSTIGANTES
1. Ocasionalmente, os colegas de outras disciplinas ficam surpresos e espantados que o profissional de terapia
ocupacional da equipe esteja levantando preocupações a respeito do abuso potencial de um cliente. O que
você  diria  se  alguém  perguntasse:  “Por  que  você  está  tão  preocupada  com  isto?  Este  não  é  um  papel  da
assistente social?”
2. Qual é o impacto potencial do abuso ou da negligência sobre o desempenho ocupacional de um indivíduo
idoso?

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 RECURSOS ADICIONAIS
Child Abuse Prevention Network: <http://child­abuse.com>
Disability, Abuse and Personal Rights Project: <http://www.disability­abuse.com/about.htm>
Elder Abuse Law Center: <http://www.elder­abuse.com>
National Center on Elder Abuse: <http://www.elderabusecenter.org/>
National Coalition Against Domestic Violence: <http://www.ncadv.org/gemeric>
Raciocínio Profissional na Prática
BARBARA A. BOYT SCHELL

Sumário
Introdução
Estudo de Caso: Terry e a Sra. Munro: Determinando as Recomendações Apropriadas
Raciocínio na Prática: Um Processo de Corpo Inteiro
Teoria e Prática
Processos Cognitivos Subjacentes ao Raciocínio Profissional
Aspectos do Raciocínio Profissional
Raciocínio Científico
Raciocínio Narrativo
Raciocínio Pragmático
Raciocínio Ético
Raciocínio Interativo
Raciocínio Profissional: Um Processo de Síntese
Raciocínio para Solução de Problemas
Processo Condicional
Visão Ecológica do Raciocínio Profissional
Desenvolvimento e Melhoramento do Raciocínio Profissional
Reflexão na Prática
Continuum da Experiência
Conclusão

Objetivos de Aprendizagem
Após a leitura deste capítulo, você será capaz de:
1. Descrever os aspectos importantes do raciocínio na prática da terapia ocupacional.
2. Identificar  as  diferentes  facetas  do  raciocínio  profissional  com  base  na  reflexão  pessoal,  nas
descrições dos profissionais e nos estudos de caso.
3. Descrever  o  processo  de  desenvolvimento  da  experiência  e  discutir  os  processos  de  raciocínio
característicos ao longo de um continuum de experiência.

INTRODUÇÃO
O raciocínio profissional consiste no processo que os profissionais utilizam para planejar, direcionar, aplicar e
refletir quanto ao tratamento do cliente. De maneira típica, é rapidamente realizado porque o profissional deve
agir imediatamente a partir desse raciocínio. É um processo complexo e multifacetado e tem sido chamado por
diversos nomes. No passado, muitos autores referiam­se a ele como raciocínio clínico  (Mattingly  &  Fleming,
1994; Rogers, 1983; Schell, 2003), porém, mais recentemente, termos como raciocínio profissional  (Schell  &
Schell, 2008) e raciocínio terapêutico (Kielhofner & Forsyth, 2002) foram idealizados na tentativa de encontrar
uma  palavra  que  não  estivesse  tão  rigorosamente  vinculada  à  medicina,  uma  vez  que  a  práticas  da  terapia
ocupacional  não  ocorre  somente  em  ambientes  médicos,  mas  também  em  ambientes  educacionais  e
comunitários. Quando utilizam esses rótulos, os autores estão discutindo como os terapeutas realmente  pensam
quando estão atuando na prática. Isto requer uma análise metacognitiva ou, em termos simples, pensar sobre o
pensamento.  Isto  é  importante  porque  os  iniciantes  da  prática  poderiam  compreender  de  maneira  incorreta  o
raciocínio profissional como algo que os profissionais “optam por fazer” ou se confundem com muitas teorias de
tratamento  de  terapia  ocupacional.  Não  é  nada  disso.  Sempre  que  você  pensa  sobre  ou  aplica  a  terapia
ocupacional em um indivíduo ou grupo determinado, você está engajado no raciocínio profissional. Não é uma
questão de estar fazendo isso, apenas uma questão de quão bem você o está fazendo. Além disso, muitas teorias
da prática discutidas ao longo do texto informarão seu raciocínio e o ajudarão a pensar sobre seus clientes. No
entanto,  as  teorias  que  são  debatidas  sobre  o  raciocínio  neste  capítulo  são  teorias  sobre  como  você,  um
profissional de terapia ocupacional, provavelmente irá raciocinar ao aplicar a terapia. Dessa maneira, o foco é
sobre  o  terapeuta,  não  sobre  o  cliente,  embora,  obviamente,  os  terapeutas  empreendam  esse  raciocínio  nos
serviços de cuidados com o cliente. Tenha em mente essas importantes distinções à medida que você se tornar
mais preocupado com seu próprio processo de raciocínio.
Este capítulo examina o raciocínio profissional a partir de diversas perspectivas. Para ajudá­lo a ver exemplos
reais sobre o material discutido, o Estudo de Caso a seguir, que foi adaptado, com mudanças de nomes, a partir
de uma situação real, fornece um exemplo do encontro entre uma terapeuta ocupacional, Terry, e sua cliente, Sra.
Munro. Leia esse estudo de caso antes de continuar a ler o texto, dando atenção especial aos diferentes tipos de
questões e problemas que o profissional de terapia ocupacional deve abordar. Então, volte a consultá­lo à medida
que ler sobre a natureza do raciocínio profissional.

ESTUDO DE CASO: Terry e a Sra. Munro: Determinando as Recomendações Apropriadas

Terry, uma terapeuta ocupacional, vai até o quarto de uma cliente na unidade de neurologia de um centro
médico  regional.  No  caminho,  ela  compartilha  seus  pensamentos  com  Barb,  uma  pesquisadora  que  está
observando a atuação de Terry. Terry atualiza Barb sobre a cliente que elas estão prestes a ver. A cliente, a
Sra. Munro, é uma viúva que vive sozinha em uma casa na cidade. Dois dias antes, ela sofreu um derrame
— um acidente vascular cerebral direito — e foi trazida por um vizinho ao hospital. A Sra. Munro teve uma
rápida  recuperação  e  demonstra  bom  retorno  de  suas  habilidades  motoras.  Ela  ainda  apresenta  alguma
incoordenação  e  fraqueza  à  esquerda,  juntamente  com  alguns  problemas  cognitivos.  Ela  é  uma  mulher
idosa agradável e alegre, e está ansiosa para voltar para casa.
Terry está vendo essa cliente pela terceira vez e sua principal preocupação consiste em avaliar se a Sra.
Munro tem algum efeito residual cognitivo causado pelo acidente vascular cerebral que a coloque em risco
grave caso ela volte a viver sozinha. Terry planeja realizar algumas atividades de vida diária mais complexas
com  a  Sra.  Munro  para  verificar  como  ela  demonstra  consciência  da  segurança.  Terry  acha  que  ela
provavelmente  fará  com  que  a  Sra.  Munro  se  levante  da  cama,  pegue  suas  roupas  e  artigos  de  higiene,
realize  sua  rotina  de  higiene  matinal  no  lavatório  e,  em  seguida,  se  vista.  Terry  quer  ver  o  quanto  a  Sra.
Munro  é  capaz  de  gerenciar  espontaneamente  essas  tarefas,  bem  como  se  seu  julgamento  é  bom.  O
raciocínio de Terry é que, se ela puder engajar a Sra. Munro em atividades de múltiplas etapas, que também
exijam  que  ela  atue  em  diferentes  posições,  Terry  será  capaz  de  detectar  qualquer  problema  cognitivo  e
motor que represente uma ameaça importante à segurança.
Quando Terry chega ao quarto, ela saúda a Sra. Munro, que diz: “Estou muito feliz. O médico disse que
posso ir para casa amanhã.”
Terry  vira­se  para  Barb  e  levanta  as  sobrancelhas  como  se  dissesse:  “Eu  lhe  falei.”  No  caminho  até  o
quarto,  Terry  havia  dito  a  Barb  que  ela  estava  preocupada  com  o  fato  de  que  o  médico  responsável  pelo
caso da Sra. Munro tendia a pensar que, tão logo os clientes pudessem ficar em pé, eles poderiam ir para
casa.  Terry  saiu  em  defesa  do  médico  ao  dizer  que,  no  atual  ambiente  de  custo  consciente,  os  médicos
estavam sob muita pressão para não manter os clientes no hospital.
Enquanto Terry conversa com a Sra. Munro sobre generalidades, ela percebe que a Sra. Munro já está
vestida  com  seu  roupão.  Quando  ela  conversa  com  a  Sra.  Munro  sobre  fazer  algumas  atividades  de
autocuidado, fica evidente que a Sra. Munro já terminou suas rotinas de banho e de se vestir, com a ajuda
de  uma  enfermeira.  Quando  Terry  sugere  que  ela  talvez  escove  os  dentes  e  penteie  seus  cabelos,  a  Sra.
Munro fica feliz por se levantar do leito, mas percebe que seu vizinho não trouxe suas dentaduras. A Sra.
Munro senta na borda do leito e, depois de um lembrete de Terry, calça os chinelos. Em seguida, ela fica em
pé e caminha até a pia, pega seu pente e penteia os cabelos. Enquanto ela está fazendo isto, Terry olha ao
redor  para  ter  algumas  outras  ideias  sobre  o  que  fazer,  pois  a  Sra.  Munro  já  completou  as  tarefas  de
autocuidado que Terry havia planejado fazer com ela.
Os olhos de Terry caem sobre algumas flores murchas ao lado do leito. Ela sugere a Sra. Munro que ela
poderia querer jogar fora as flores e limpar o vaso, de modo que ele fique pronto para ser embalado quando
ela for para casa. A Sra. Munro concorda e prossegue caminhando de maneira desajeitada até o vaso. Ela o
pega e vai até a pia, onde retira as flores mortas. Terry a segue, ficando ligeiramente atrás e mantendo a
Sra. Munro dentro do alcance. Quando a Sra. Munro para depois de retirar as flores, Terry sugere que ela
lave  o  vaso,  o  que  ela  faz.  Em  seguida,  ela  o  seca  e  devolve  o  vaso  para  a  mesinha  de  cabeceira.  Terry
lembra a ela para jogar no lixo as flores mortas. Enquanto a Sra. Munro faz isto, elas conversam um pouco
mais sobre seus planos para voltar para casa.
A Sra. Munro diz a Terry que viveu em sua casa por 40 anos e que, embora seu marido tenha morrido há
mais de 10 anos, ela ainda sente a sua presença lá. Ela costumava cozinhar para ele e ainda prepara três
refeições por dia para ela. A Sra. Munro começa a chorar quando fala sobre cozinhar, mas em seguida se
anima.  Terry  diz  a  ela  que  poderia  ser  mais  seguro  se  ela  tivesse  alguém  na  casa  durante  algumas
semanas, até que se recuperasse um pouco mais de seu acidente vascular cerebral. A Sra. Munro acha que
pode conseguir alguma ajuda de sua vizinha. Terry diz que também irá sugerir algum tratamento domiciliar,
apenas  para  ter  certeza  de  que  a  Sra.  Munro  está  segura  na  cozinha,  no  banheiro  e  assim  por  diante,
dizendo: “Nós com certeza não queremos que você tenha uma queda, logo agora que você está evoluindo
tão bem após o seu acidente vascular cerebral.”
Depois  de  revisar  alguns  exercícios  de  coordenação  para  a  mão  esquerda  da  Sra.  Munro,  Terry  se
despede. Terry e Barb saem do quarto. Terry para no posto de enfermagem para anotar no prontuário que a
Sra.  Munro  demonstrou  boa  consciência  de  segurança  nas  tarefas  corriqueiras  durante  a  visita,  mas  que
precisou de pistas para completar tarefas em múltiplas etapas. Terry também observa alguma instabilidade
motora  na  realização  de  tarefas  durante  a  deambulação.  Terry  recomenda  o  encaminhamento  a  um
profissional  de  terapia  ocupacional  domiciliar  “para  avaliar  as  necessidades  de  segurança  e  de
equipamentos  durante  atividades  no  banheiro,  preparação  de  refeições  e  tarefas  domésticas  rotineiras”.
Terry comenta com Barb, enquanto saem da unidade, que acha que a Sra. Munro está evoluindo muito bem,
mas que permanece preocupada sobre os riscos quando a Sra. Munro for para casa, principalmente quando
ela estiver cansada. Terry quer que alguém monitore a Sra. Munro no ambiente familiar para ver se ela lida
adequadamente com suas rotinas diárias. Terry realmente gostaria que a Sra. Munro fosse para um centro
de reabilitação, mas a cliente não tem seguro para financiar o custo. Terry acredita que ela pode conseguir
ao  menos  algum  atendimento  domiciliar,  porque  existem  alguns  programas  que  fornecem  alguns  serviços
para  idosos  carentes.  Ficar  na  própria  casa  parece  ser  o  principal  objetivo  da  Sra.  Munro,  e  Terry  está
fazendo o que pode para tentar ajudá­la a alcançar este objetivo. Terry entrará em contato com a assistente
social local mais tarde para discutir a necessidade da Sra. Munro de um bom suporte por parte de vizinhos,
amigos ou parentes.

Questões e Exercícios
1. Como Terry desenvolveu suas preocupações a respeito da Sra. Munro?
2. Como Terry soube o que fazer quando seus planos iniciais não funcionaram?
3. Que fatores parecem orientar as recomendações de Terry no final?

RACIOCÍNIO NA PRÁTICA: UM PROCESSO DE CORPO INTEIRO
Com o estudo  de  caso  em  mente,  vamos  explorar  a  natureza  do  raciocínio  durante  a  prática.  Talvez  uma  das
primeiras coisas a perceber é que o raciocínio profissional é um processo de corpo inteiro. Este é o motivo pelo
qual  ler  um  estudo  de  caso  é  uma  experiência  diferente  de  ser  o  profissional  da  situação.  Parte  do  raciocínio
profissional  envolve  processos  de  pensamento  objetivo  que  o  profissional  pode  descrever  com  facilidade.
Exemplos incluem avaliar o desempenho ocupacional, como as habilidades de vida diária e os comportamentos
de  trabalho.  Os  profissionais  de  terapia  ocupacional  utilizam  suas  observações  e  o  conhecimento  teórico  para
identificar  fatores  relevantes  do  cliente  que  contribuem  para  os  problemas  do  desempenho  ocupacional.  Os
profissionais também prestam atenção a fatores contextuais que afetam o desempenho. Por exemplo, Terry foi
capaz  de  descrever  suas  preocupações  sobre  a  segurança  da  Sra.  Munro  ao  retornar  para  casa.  Em  particular,
Terry  estava  abordando  o  autocuidado  e  as  atividades  domésticas.  Ela  havia  analisado  os  fatores  contextuais
relevantes sobre o ambiente domiciliar e as situações social e financeira da Sra. Munro. Terry identificou alguns
comprometimentos na cognição e no controle motor que afetavam as habilidades de desempenho ocupacional de
sua  cliente.  Esta  era  toda  informação  que  Terry  poderia  compartilhar  com  Barb.  No  entanto,  havia  mais
conhecimento nessa sessão de terapia que Terry não poderia ou conseguiria traduzir em palavras.
Parte do raciocínio profissional de Terry envolveu o conhecimento baseado no corpo que obteve a partir de
seus sentidos. Por exemplo, Terry utilizou seu sentido do tato para sentir a tensão muscular (ou falta de tensão)
no braço afetado da Sra. Munro quando ela estava realizando uma atividade. Durante sua avaliação, Terry fez
alguns alongamentos rápidos no cotovelo e no punho da Sra. Munro para determinar se ela poderia demonstrar
evidência de espasticidade, uma resposta reflexa anormal que é comumente encontrada nos indivíduos que estão
se  recuperando  de  um  acidente  vascular  cerebral.  Quando  a  Sra.  Munro  ficou  em  pé,  Terry  mensurou
cuidadosamente a distância entre ela e a Sra. Munro, porque a Sra. Munro apresentava algum risco de queda.
Terry  foi  cautelosa  ao  ficar  em  pé  não  tão  próxima  que  pudesse  esbarrar  inadvertidamente  ou  superproteger  a
Sra. Munro, mas próxima o suficiente para ampará­la caso ela perdesse o equilíbrio. Enquanto estava próxima à
Sra.  Munro,  Terry  pôde  sentir  o  cheiro  dela,  obtendo  uma  rápida  informação  sobre  possíveis  problemas  de
higiene  ou  de  continência.  Terry  utilizou  a  qualidade  de  sua  voz  para  demonstrar  incentivo  e  apoio.  Terry
observou e ouviu cuidadosamente indícios sobre a natureza do estado emocional da Sra. Munro. Em particular,
ela observou as expressões  faciais  e  procurou  ouvir  evidência  de  medo  ou  insegurança durante o desempenho
das  atividades  pela  Sra.  Munro.  Todas  essas  sensações  contribuíram  para  uma  imagem  da  Sra.  Munro  que
influenciou a atuação de Terry.
Existem outros aspectos de raciocínio durante o tratamento que são ainda mais difíceis de descrever. Fleming
(1994a) descreveu isto como “saber mais do que podemos descrever” (p. 24). Ela explicou que grande parte do
conhecimento da profissão é conhecimento prático, que “raramente é discutido e raramente é descrito” (p. 25).
Este conhecimento tácito, combinado com os ricos aspectos sensoriais da prática real, ajuda a explicar por que a
leitura  sobre  o  tratamento  e  a  realização  do  tratamento  são  experiências  muito  diferentes.  Na  realidade,  um
trabalho  recente  (Harris,  2005)  sugere  que  as  preferências  e  diferenças  corporais  de  cada  terapeuta  podem
modelar  sutilmente  a  terapia,  pelo  fato  de  que  alguns  terapeutas  podem  evitar  situações  que  considerem
fisicamente  desconfortáveis  (p.  ex.,  se  eles  são  intolerantes  a  certos  odores)  e  outros  poderiam  se  engajar  em
práticas  de  tratamento  que  eles  próprios  consideram  confortáveis  (p.  ex.,  aplicar  pressão  profunda,  muito
semelhante àquela que sentimos quando somos apertados). Hooper (1997, 2007) também observou a importância
de como nossos próprios valores, crenças e suposições sustentam o domínio do processo de tratamento de cada
profissional. Assim, tenha sempre em mente que a terapia acontece no mundo real com pessoas reais e você verá
variações porque cada terapeuta é diferente.

TEORIA E PRÁTICA
Tem ocorrido uma longa discussão em muitas profissões sobre o papel da teoria na prática profissional (Kessels
& Korthagen, 1996). As teorias ajudam os profissionais a tomar decisões, embora Cohn (1989) observe que os
problemas da prática raramente se apresentam da maneira objetiva descrita nos manuais teóricos. O raciocínio
profissional  envolve  a  identificação  e  a  estruturação  dos  problemas  com  base  na  compreensão  pessoal  da
situação  do  cliente  (Schön,  1983).  Para  identificação  e  resolução  do  problema,  os  profissionais  misturam  as
teorias às suas próprias  experiências  pessoais  e  de  prática  para  direcionar  suas ações. O conhecimento teórico
ajuda o profissional a evitar suposições injustificadas ou o uso de técnicas ineficazes de tratamento e a refletir
sobre  como  suas  próprias  experiências  no  tratamento  são  semelhantes  ou  diferentes  do  entendimento  teórico
(Parham, 1987). No Capítulo 42, você encontrará mais informações sobre como as teorias informam a prática. A
questão aqui é que, embora a prática possa (e deva) ser fundamentada em teorias, ela é no final das contas uma
consequência de como cada terapeuta interpreta cada situação de terapia e atua a partir dessa compreensão.

PROCESSOS COGNITIVOS SUBJACENTES AO RACIOCÍNIO PROFISSIONAL
No estudo de caso, Terry precisou lembrar, obter e gerenciar uma grande quantidade de informações com rapidez
para fornecer o tratamento efetivo e eficiente. Como ela fez isto? Achados de pesquisa do campo da psicologia
cognitiva  ajudam  a  explicar  como  os  profissionais  raciocinam  e  como  a  experiência  combinada  à  reflexão
estimula o aprimoramento da especialidade. Os indivíduos recebem, armazenam e organizam as informações em
estruturas ou modelos, que são representações complexas dos fenômenos (Bruning, Schraw & Ronning, 1999;
Carr & Shotwell, 2007). Esse processo envolve a memória de trabalho e a memória de longo prazo. A memória
de trabalho pode reter poucos pensamentos por vez, motivo pelo qual alguém por vezes precisa olhar na agenda
telefônica  duas  ou  três  vezes  a  fim  de  lembrar  corretamente  um  número  que  está  sendo  discado.  De  maneira
similar,  os  estudantes  e  os  profissionais  recém­graduados  descobrem  que  é  desafiador  ter  em  mente  todas  as
considerações importantes quando trabalham com um cliente. Os profissionais com mais experiência têm essa
informação  organizada  e  armazenada  em  suas  memórias  de  longo  prazo  e,  assim,  não  precisam  utilizar
artimanhas para lembrar de todos os detalhes. Por exemplo, na faculdade, Terry provavelmente conheceu muitos
dos problemas comuns associados a alguém que sofreu um acidente vascular cerebral. Ela talvez também tenha
atendido  cerca  de  100  pessoas  com  acidente  vascular  cerebral  durante  os  últimos  anos.  Ela  construiu  uma
representação geral em sua mente do que esperar quando receber o encaminhamento de uma pessoa que sofreu
um acidente vascular cerebral. Ela antecipa que muitos desses indivíduos terão prontuários médicos volumosos,
porque eles quase sempre têm problemas médicos prévios, como diabetes e hipertensão. Ela não ficará surpresa
se  a  pessoa  apresentar  sobrepeso.  Ela  espera  observar  comprometimentos  na  cognição  que,  com  frequência,
afetam a capacidade da pessoa de realizar as tarefas cotidianas, como vestir­se, cozinhar e dirigir. Como parte de
sua estrutura de ação, Terry construiu regras mentais que a ajudaram a categorizar e detectar as diferenças. Por
exemplo,  embora  ela  saiba  que  muitas  pessoas  que  sofrem  acidentes  vasculares  cerebrais  apresentam
comprometimentos  do  movimento,  ela  sabe  que  nem  todas  os  exibem.  Além  disso,  quando  o  movimento  está
prejudicado, ela espera que indivíduos com um acidente vascular cerebral (AVC) esquerdo apresentem fraqueza
no lado direito e aqueles com um AVC direito tenham fraqueza à esquerda. Além disso, ela sabe que o sistema
de suporte social de uma pessoa é fundamental para a promoção de uma resposta adaptativa à incapacidade. Ela
pode utilizar determinadas pistas, como a presença ou ausência frequente de visitas familiares, para classificar de
imediato uma família como de suporte ou não.
Além  de  estruturar  ou  “compilar”  informações,  Terry  também  cria  e  utiliza  modelos  ou  regras  de
procedimento que orientam seu pensamento (Brunning et al., 1999; Carr & Shotwell, 2007). Do mesmo modo
que  suas  estruturas  mentais  a  ajudam  a  organizar  e  a  utilizar  seu  conhecimento  sobre  os  aspectos  comuns  do
acidente vascular cerebral, os modelos a ajudam a organizar eventos ou ocorrências comuns. Por exemplo, ela
compreende  que  seu  papel  envolve  responder  ao  encaminhamento  com  o  exame  do  cliente,  registrando  por
escrito seus achados no formulário adequado, fornecendo o tratamento, comunicando­se verbalmente com outros
membros da equipe e desenvolvendo o plano de alta. Provavelmente, Terry tem modelos acerca das implicações
para clientes que têm famílias que os apoiam e para os que não têm. Em sua experiência, uma família que apoia
cuida  de  seu  familiar  em  casa,  independente  dos  recursos  financeiros  da  família.  De  maneira  alternativa,  os
clientes  com  pouco  suporte  familiar  são  os  que  mais  provavelmente  recebem  cuidado  institucional.  Mais  uma
vez,  esses  modelos  são  construídos  pelas  observações  e  experiências  de  Terry  ao  longo  do  tempo  e  têm  a
finalidade de ajudá­la a antecipar eventos prováveis.
A mente parece utilizar estruturas e modelos para apoiar o processamento efetivo da informação ao fornecer
estruturas mentais eficientes para uso de informações complexas. Cada pessoa as constrói individualmente. Não
causa  surpresa  que  estudantes  e  profissionais  novatos  frequentemente  se  esforcem  para  reter  e  utilizar
efetivamente  seu  conhecimento  de  terapia.  O  desenvolvimento  do  raciocínio  efetivo  leva  tempo  e  exige  a
repetição das experiências, com base no armazenamento eficiente na memória de longo prazo, permitindo o uso
direcionado  da  memória  de  curto  prazo  durante  o  tratamento.  Os  aspectos  importantes  do  processo  são  os
seguintes (Bruning et al., 1999; Roberts, 1996; Robertson, 1996):
Aquisição de pista: Busca da informação valiosa e direcionada por meio da observação e questionamento.
Reconhecimento de padrão: Percepção de semelhanças e diferenças entre as situações.
Limitação do espaço do problema: Uso de padrões para ajudar a focar a aquisição de pistas e a aplicação do
conhecimento em áreas mais proveitosas.
Formulação  do  problema:  Desenvolvimento  de  uma  explicação  do  que  está  acontecendo,  por  que  está
acontecendo e qual poderia ser a melhor situação ou resultado.
Solução do problema: Identificação dos cursos de ação com base na formulação do problema.

Esses  processos  cognitivos  são  interativos  e  raramente  acontecem  de  uma  maneira  linear.  Em  vez  disso,  a
mente  salta  entre  as  informações  disponíveis  e  aquilo  que  foi  armazenado  pelo  aprendizado  prévio,  enquanto
tenta compreender a situação.

ASPECTOS DO RACIOCÍNIO PROFISSIONAL
Embora  pareçam  existir  processos  comuns  subjacentes  ao  raciocínio  na  prática,  o  foco  dessa  atividade  mental
parece  variar  de  acordo  com  as  demandas  dos  problemas  a  serem  abordados.  Fleming  (1991)  foi  a  primeira
dentro  da  terapia  ocupacional  a  descrever  como  os  terapeutas  ocupacionais  pareciam  utilizar  diferentes
abordagens  de  raciocínio,  dependendo  da  natureza  do  problema  clínico  que  eles  enfrentavam.  Ela  referiu­se  a
esse processo como a “mente de três vertentes do terapeuta” (p. 1.007). Desde então, outros têm examinado os
diferentes aspectos do raciocínio profissional da terapia ocupacional. A maior parte dessa pesquisa foi realizada
com  terapeutas  ocupacionais,  embora  pelo  menos  um  estudo  de  caso  (Lyons  &  Crepeau,  2001)  sugira  que
também há alguma aplicação para assistentes de terapia ocupacional. Esses aspectos do raciocínio profissional
são listados na Tabela 32.1, juntamente com o foco típico e as pistas para reconhecer quando ocorre determinado
tipo de raciocínio.

Raciocínio Científico
O  raciocínio  científico  é  utilizado  para  compreender  a  condição  que  afeta  o  indivíduo  e  decidir  sobre  o
tratamento  no  melhor  interesse  do  cliente.  É  um  processo  lógico  que  faz  paralelo  com  o  questionamento
científico.  As  formas  de  raciocínio  científico  descritas  na  terapia  ocupacional  são  o  raciocínio  diagnóstico
(Rogers & Holm, 1991) e o raciocínio de procedimento (Fleming, 1991, 1994b), além do uso geral do raciocínio
hipotético­dedutivo (Tomlin, 2008). O raciocínio científico também é denominado planejamento de tratamento
(Pelland, 1987), no qual o terapeuta emprega teorias selecionadas tanto para identificar os problemas como para
nortear a tomada de decisão.
O raciocínio diagnóstico está relacionado com a percepção do problema clínico e a definição do problema. O
processo  inicia  antes  da  observação  do  cliente.  Os  profissionais  de  terapia  ocupacional,  por  causa  de  seus
domínios  de  preocupação,  buscam  principalmente  os  problemas  de  desempenho  ocupacional.  Além  disso,  a
natureza dos problemas que eles esperam encontrar é influenciada pelas informações na solicitação de serviços.
Parte do raciocínio diagnóstico de Terry, descrito anteriormente, incluía as informações sobre os sintomas típicos
associados a um acidente vascular cerebral.
O  raciocínio  de  procedimento  ocorre  quando  os  profissionais  “pensam  sobre  a  doença  ou  a  incapacidade  e
decidem  que  atividades  de  tratamento  (procedimentos)  poderiam  ser  utilizadas  para  remediar  os  problemas  de
desempenho funcional da pessoa” (Fleming, 1991, p. 1.008). Isto pode envolver uma entrevista, a observação da
pessoa durante a realização de uma tarefa ou avaliações formais que empregam medidas padronizadas. Embora
se espere que o raciocínio de procedimento seja baseado na ciência, Tomlin faz a importante observação de que
o  raciocínio  de  procedimento  pode  tornar­se  uma  aplicação  sem  questionamento  de  protocolos  de  tratamento,
situação que apre senta natureza menos científica (Tomlin, 2008). É por isto que existe certa ênfase para a prática
baseada  em  evidência,  o  que  desafia  o  profissional  a  avaliar  constantemente  as  abordagens  costumeiras  de
tratamento  com  base  nas  melhores  informações  disponíveis  no  momento  (Holm,  2001;  Law,  2002;  Tickle­
Degnen, 1998).
No  estudo  de  caso,  Terry  utilizou  uma  combinação  de  entrevista  e  observação,  ambas  orientadas  por  sua
hipótese  de  trabalho  de  que  a  Sra.  Munro  apresentava  problemas  cognitivos  que  poderiam  afetar  seu
funcionamento seguro em casa. Ela provavelmente estava tomando decisões com base em sua compreensão das
teorias  cognitivas  (como  aquelas  descritas  no  Capítulo  57)  e  com  base  em  suas  próprias  experiências  com
clientes  similares.  À  medida  que  se  inicia  o  tratamento,  dados  adicionais  são  coletados,  e  o  profissional  de
terapia ocupacional tem uma visão clínica mais aguçada. Esta visão clínica é o resultado da inter­relação entre o
que o profissional de terapia ocupacional espera encontrar (como o curso usual da doença) e o desempenho real
do  cliente.  No  estudo  de  caso,  houve  congruência  entre  os  problemas  e  as  capacidades  da  Sra.  Munro  para
realizar  as  atividades  da  vida  diária  e  as  expectativas  de  Terry  em  relação  a  alguém  que  apresenta  uma  boa
recuperação após um acidente vascular cerebral.
Mattingly (1994a) argumentou que os terapeutas ocupacionais exercem uma “prática em dois corpos” (p. 37).
Com isso, ela quis dizer que os profissionais da terapia ocupacional veem uma pessoa de duas maneiras: o corpo
como  uma  máquina  cujas  partes  podem  ser  quebradas,  e  a  pessoa  como  uma  vida,  cheia  de  esperanças  e
significados  pessoais.  Grande  parte  do  raciocínio  de  procedimento  na  terapia  ocupacional  aborda  questões
relacionadas  ao  corpo  como  máquina.  A  próxima  forma  de  raciocínio,  o  raciocínio  narrativo,  fornece  ao
profissional de terapia ocupacional um modo de compreender a experiência de doença da pessoa.
TABELA 32.1 DIFERENTES ASPECTOS DO RACIOCÍNIO EM TERAPIA OCUPACIONAL
Aspecto do Descrição e Foco Pistas para Reconhecer nas
Raciocínio Discussões com o Terapeuta
Raciocínio Raciocínio envolvendo o uso de métodos Impessoal, focado no diagnóstico,
científico lógicos e científicos aplicados, como teste de condição, teoria de orientação,
hipótese, reconhecimento de padrão, tomada evidência de pesquisa ou o que
de decisão baseada em teoria e evidência “tipicamente” acontece a clientes
estatística. semelhantes àquele que está sendo
considerado.
Raciocínio Raciocínio investigativo e de análise da causa Uso de informações pessoais e
diagnóstico ou natureza das condições que necessitam do impessoais. Os terapeutas tentam
tratamento de terapia ocupacional. Pode ser explicar por que o cliente está
considerado um componente do raciocínio experimentando os problemas pelo
científico. uso de uma mistura de informações
baseadas na ciência e no cliente.
Raciocínio de Raciocínio em que o terapeuta considera e Caracterizado pelo terapeuta que
procedimento utiliza as rotinas de tratamento para condições utiliza modelos ou rotinas de
identificadas. Pode ser baseado na ciência e tratamento considerados efetivos para
pode refletir os hábitos e a cultura do ambiente os problemas identificados e que são
de tratamento. tipicamente empregados com clientes
nesses ambientes. Tende a ser mais
impessoal e direcionado ao
diagnóstico.
Raciocínio Processo de raciocínio utilizado para Pessoal, focado no cliente, incluindo
narrativo compreender as circunstâncias particulares das passado, presente e futuro antecipado.
pessoas, projetar o efeito da doença, Envolve a apreciação da cultura do
incapacidade ou problemas de desempenho cliente como a base para a
ocupacional sobre suas vidas diárias, e criar compreensão da narrativa do cliente.
uma história colaborativa que seja Relaciona­se “ao que importa” da
desempenhada pelos clientes e famílias por condição para a vida da pessoa.
meio do tratamento.
Raciocínio Raciocínio prático que é utilizado para adequar Geralmente não focado no cliente ou
pragmático as possibilidades de tratamento à realidade na condição do cliente, mas, em vez
atual de prestação de serviço, como agendar disso, nos “dados” físicos e sociais que
opções, pagamento por serviços, cercam o encontro terapêutico, bem
disponibilidade de equipamento, habilidades como no sentimento interno do
dos terapeutas, diretrizes de tratamento e terapeuta do que ele é capaz de e tem
situação pessoal do terapeuta. tempo e energia para realizar.
Raciocínio Raciocínio direcionado para a análise de um Com frequência, a tensão é evidente
ético dilema ético, aquisição de soluções alternativas quando o terapeuta tenta determinar
e determinação das ações a serem qual é a coisa certa a fazer,
empreendidas. Abordagem sistemática do principalmente quando enfrenta
conflito moral. dilemas no tratamento, princípios em
competição, riscos e benefícios.
Raciocínio Pensamento direcionado para a construção de O terapeuta se preocupa com que o
interativo relações interpessoais positivas com os clientes, cliente gosta ou não gosta. Uso do
permitindo a identificação colaborativa do elogio, comentários empáticos e
problema e a resolução do problema. comportamentos não verbais para
incentivar e apoiar a cooperação do
cliente.
Raciocínio Mistura de todas as formas de raciocínio com Encontrado tipicamente nos
condicional objetivo de responder com flexibilidade às terapeutas mais experientes, que
condições dinâmicas ou predizer as podem “enxergar” múltiplos futuros,
possibilidades futuras do cliente. baseados nas experiências pregressas
dos terapeutas e nas informações
atuais.
Utilizada  com  permissão  de  Schell  &  Schell  (Eds.)  (2008)  e  baseada  nos  escritos  por  Tomlin,  Hamilton,  Schell,
Kanny e Slater em Schell & Schell (2008); Rogers & Holm (1991); e Mattingly & Fleming (1994).

Raciocínio Narrativo
Compreender  o  significado  que  uma  doença,  enfermidade  ou  incapacidade  tem  para  uma  pessoa  é  uma  tarefa
que vai além da compreensão científica dos processos patológicos e dos sistemas orgânicos. Em vez disso, exige
que os profissionais encontrem um modo de compreender o significado dessa experiência a partir da perspectiva
do  cliente.  Mattingly  (1994b)  sugeriu  que  os  profissionais  fazem  isso  por  meio  de  uma  forma  de  raciocínio
chamada  raciocínio  narrativo.  O  raciocínio  narrativo  é  assim  denominado  porque  envolve  o  pensamento  na
forma  de  histórias.  Não  é  raro  que  um  profissional  de  terapia  ocupacional  que  esteja  se  preparando  para
substituir um colega junto a um cliente pergunte para o outro profissional: “Então, qual é a história do cliente?”
Conforme Kielhofner observou (1997), o raciocínio narrativo “torna­se particularmente importante ao considerar
como  a  história  de  vida  perturbada  da  pessoa  pode  ser  constituída  ou  reconstituída”  (p.  316).  O  Boxe  32.1
explica como o raciocínio narrativo relaciona­se com o raciocínio científico.

RACIOCÍNIOS CIENTÍFICO E NARRATIVO: DOIS LADOS DE UMA MOEDA

O raciocínio narrativo lida com especificidades e particularidades subjetivas e personalizadas da experiência
vivida,  da  intenção  humana  e  da  ação  que  conecta  os  eventos  ao  longo  do  tempo  e  define  as
possibilidades. O uso da experiência pessoal e a preocupação com a condição humana definem sua posição
subjetiva  e  personalizada  característica.  Uma  suposição  frequente  e  equivocada  é  a  de  que  o  raciocínio
científico e o raciocínio narrativo se opõem ou que um tem maior validade ou utilidade que o outro. Podemos
ilustrar  isto  ao  examinar  uma  moeda.  Percebemos  que  cada  lado  contribui  com  diferentes  aspectos  para  a
moeda  que  rotulamos  como  “cara”  e  “coroa”.  Independente  do  lado  da  moeda  mostrado,  reconhecemos  o
objeto  como  uma  moeda.  De  maneira  similar,  quando  utilizamos  uma  moeda  para  fazer  uma  compra,  não
importa  se  inserimos  a  moeda  na  ranhura  da  máquina  ou  a  entregamos  ao  caixa.  A  validade  da  moeda  é
evidente,  independente  de  qual  lado  da  moeda  se  mostre...  Juntos,  o  raciocínio  científico  e  o  narrativo  nos
ajudam  a  criar  perspectivas  de  uma  única  realidade  e  verdade,  da  mesma  forma  que  a  cara  e  a  coroa
mostram lados diferentes de uma moeda.

Hamilton (2008).

No estudo de caso, parte do raciocínio de Terry relacionou­se com a tomada de decisões a partir do que era
importante  para  a  Sra.  Munro.  Esse  processo  de  colaboração  e  empatia  foi  descrito  como  “construção  de  um
ambiente de compreensão mútua” (Clark, Ennevor & Richardson, 1996, p. 376). Terry obteve compreensão ao
ouvir com atenção as histórias da Sra. Munro sobre o marido e como ele adorava sua comida. Ficou evidente, a
partir  dessa  sessão,  que  a  casa  da  Sra.  Munro  era  mais  do  que  uma  casa.  É  o  lugar  onde  ela  viveu  com  seu
marido, onde ele morreu e onde ela ainda sente sua presença. Parte da história da Sra. Munro é que voltar para
casa é voltar para seu marido. Se o acidente vascular cerebral fosse impedir isso, a Sra. Munro perderia mais que
sua  independência;  ela  perderia  as  conexões  simbólicas  com  o  marido.  Embora  uma  decisão  lógica  pudesse
concluir que a Sra. Munro deveria considerar viver em um ambiente com suporte maior, Terry compreende que,
para  a  Sra.  Munro,  isto  não  seria  um  final  aceitável.  Por  conseguinte,  Terry  trabalhou  muito  para  obter  os
sistemas de suporte que seriam necessários para que a Sra. Munro funcionasse no ambiente escolhido, onde ela
continuará sua história de vida.
Com  frequência,  os  profissionais  de  terapia  ocupacional  trabalham  com  pessoas  cujas  histórias  de  vida  são
intensamente modificadas, de modo que elas não conseguem imaginar como será seu futuro. Mattingly (1994b)
acredita que, nessas situações, os profissionais habilidosos ajudam seus clientes a criar novas histórias de vida.
Até certo ponto, essas histórias se tornam reais, à medida que o profissional de terapia ocupacional e o cliente
desenvolvem metas em conjunto. A utilização das histórias de vida também é evidente quando as atividades são
selecionadas por seu potencial de cura e por seu significado particular para a pessoa. Para fazer isso é preciso
primeiro solicitar as histórias ocupacionais da pessoa (Clark et al., 1996). Com uma compreensão das histórias
ocupacionais pregressas dos clientes, os profissionais podem ajudar os indivíduos a criar novas histórias e novos
futuros.  Se  os  sintomas  da  Sra.  Munro  fossem  mais  intensos  e  ela  estivesse  em  um  processo  de  terapia  mais
duradouro,  Terry  poderia  explorar  o  interesse  da  Sra.  Munro  em  cozinhar  como  uma  atividade  de  que  ela
gostasse e que ofereceria muitas oportunidades terapêuticas. Além disso, a Sra. Munro poderia descobrir como
expressar  prazer  em  cozinhar  para  os  outros  ao  preparar  pratos  especiais,  primeiro  para  outros  clientes  e,  em
seguida,  talvez,  para  vizinhos  em  troca  de  sua  ajuda  nos  afazeres  domésticos.  Durante  esse  processo,  a  Sra.
Munro  não  estaria  apenas  recuperando  a  coordenação  e  a  destreza,  ela  também  estaria  recuperando  o  próprio
sentido  de  si  como  uma  pessoa  produtiva.  Esse  aspecto  narrativo  do  raciocínio  clínico,  que  está  centrado
principalmente  na  pessoa  como  um  ser  ocupacional,  constrói  uma  relação  entre  os  valores  fundamentais  da
profissão e as atuais demandas da prática (Gray, 1998).

Raciocínio Pragmático
O raciocínio pragmático é outra vertente do raciocínio que vai além da relação profissional­cliente e aborda o
mundo em que a terapia acontece (Schell, 2008; Schell & Cervero, 1993). Este mundo é considerado a partir de
duas  perspectivas:  o  contexto  da  prática  e  o  contexto  pessoal.  Como  o  raciocínio  durante  a  terapia  é  uma
atividade  prática,  inúmeras  questões  cotidianas  que  afetam  o  processo  de  tratamento  foram  identificadas  ao
longo  dos  anos.  Estas  incluem  recursos  para  o  tratamento,  cultura  organizacional,  relações  de  poder  entre  os
membros  da  equipe,  práticas  de  reembolso  e  tendências  da  prática  na  profissão  (Barris,  1987;  Howard,  1991;
Neuhaus,  1988;  Rogers  &  Holm,  1991).  Estudos  que  abordaram  o  raciocínio  clínico  confirmaram  que  os
profissionais de terapia ocupacional tanto consideram ativamente como são influenciados por seus contextos de
atuação (Creighton, Djikers, Bennett & Brown, 1995; Schell, 1994; Strong, Gilbert, Cassidy & Bennett, 1995).
Um  exemplo  do  raciocínio  pragmático  no  estudo  de  caso  foi  o  uso  dos  recursos  imediatos  no  quarto  da  Sra.
Munro  (o  vaso  de  flores)  por  Terry  como  um  instrumento  de  tratamento.  Embora  Terry  tenha  pensado  em
atividades  apropriadas  relacionadas  ao  autocuidado,  ela  precisou  identificar  rapidamente  alternativas  práticas
quando descobriu que a Sra. Munro já estava vestida. As restrições práticas para Terry incluíram (1) o tempo que
levaria  para  deslocar  a  Sra.  Munro  até  a  clínica,  onde  haveria  mais  recursos;  (2)  a  necessidade  de  obter  as
informações necessárias naquele dia, pois a Sra. Munro estava indo para casa; e (3) as restrições físicas do que
estava disponível dentro do quarto. A criação por Terry de uma alternativa possível foi um produto tanto de sua
imaginação terapêutica como das pistas fornecidas pelo ambiente de prática.
A  atenção  de  Terry  quanto  à  influência  dos  membros  da  equipe  demonstra  o  raciocínio  pragmático
direcionado  para  questões  interpessoais  e  de  grupo.  Ela  sabia  que  o  médico  tinha  o  poder  de  tomar  a  decisão
sobre  a  alta.  Ela  estava  ciente  das  pressões  das  seguradoras  sobre  o  médico  para  dar  alta  aos  clientes  o  mais
rapidamente  possível.  A  prática  requer  que  os  profissionais  raciocinem  sobre  a  negociação  dos  interesses  dos
clientes dentro da cultura da prática.
A  situação  pessoal  do  profissional  também  faz  parte  do  processo  de  raciocínio  pragmático.  Competências
clínicas, preferências, compromisso com a profissão e as demandas do papel de vida da pessoa fora do trabalho
afetam, sem exceção, as escolhas de tratamento que são consideradas e, dessa maneira, fazem parte do processo
de raciocínio. Por exemplo, quando um profissional não se sente seguro em ajudar um cliente a ficar em pé ou a
se transferir para o leito, é mais provável que ele utilize atividades sobre a mesa, em que o cliente pode participar
sentado em uma cadeira de rodas. Outro profissional de terapia ocupacional poderia sentir­se desconfortável em
interagir com indivíduos que apresentam depressão e, por conseguinte, poderia ser rápido em sugerir que esses
clientes não estão motivados para a terapia. Um profissional que tem uma família jovem em casa poderia optar
por não agendar clientes para o final do dia, de modo que pudesse chegar cedo em casa. Essas questões pessoais
simples  resultam  em  decisões  clínicas  que  afetam  o  espectro  e  a  regulação  temporal  dos  serviços  da  terapia.
Hooper (1997, 2008) sugeriu que as questões fundamentais, como a visão geral de mundo e os valores de um
profissional,  afetam  fortemente  a  maneira  pela  qual  a  pessoa  constrói  seu  raciocínio.  Essas  visões  de  mundo
desempenham um papel importante no próximo tipo de raciocínio: o raciocínio ético.

Raciocínio Ético
Todas as formas de raciocínio que foram descritas até o momento ajudam o profissional a responder as seguintes
perguntas:  Qual  é  a  situação  ocupacional  atual  da  pessoa?  O  que  pode  ser  feito  para  melhorar  a  situação  da
pessoa? O raciocínio ético vai um passo além e pergunta: O que deve ser feito? Rogers (1983) estruturou estas
três  perguntas  (aqui  parafraseadas)  em  sua  Conferência  Eleanor  Clark  Slagle  e  afirmou:  “O  processo  do
raciocínio clínico termina em uma decisão ética, em vez de científica, e a natureza ética da meta do raciocínio
clínico  se  projeta  sobre  toda  a  sequência”  (p.  602).  No  estudo  de  caso,  o  dilema  ético  de  Terry  consiste  em
compreender as vontades pessoais da Sra. Munro e atendê­las quando desenvolve um programa de tratamento
que  aborde  realisticamente  as  limitações  da  Sra.  Munro.  Isso  pode  ser  particularmente  desafiador  quando  as
pressões da realidade financeira (como a falta de seguro da Sra. Munro) afetam as opções disponíveis. Inúmeros
autores  de  terapia  ocupacional  discutiram  o  aspecto  ético  do  raciocínio  profissional  (Fondiller,  Rosage  &
Neuhaus,  1990;  Howard,  1991;  Neuhaus,  1988;  Peloquin,  1993),  sendo  o  Capítulo  28  deste  texto  dedicado  à
questão  da  ética  da  profissão.  Aqui,  a  finalidade  consiste  em  introduzir  o  raciocínio  ético  como  mais  um  dos
componentes do raciocínio profissional na terapia ocupacional.

Raciocínio Interativo
O  fornecimento  do  tratamento  é  um  processo  inerentemente  comunicativo  (Schwartzberg,  2002).  Na  terapia
ocupacional, os profissionais devem ganhar a confiança de seus clientes e das pessoas que são importantes no
mundo dos clientes. É por isso que a terapia ocupacional envolve “fazer com” em vez de “fazer para” os clientes
(Mattingly & Fleming, 1994, p. 178). Um terapeuta obtém essa confiança ao entrar no mundo de vida do cliente
(Crepeau,  1991)  e  ao  utilizar  diferentes  estratégias  interpessoais  com  o  objetivo  de  motivar  os  clientes,  como
aquelas discutidas no Capítulo 33. Uma vez no mundo do cliente, os profissionais de terapia ocupacional podem
compreender melhor como ajudar o indivíduo a resolver seus problemas de desempenho.
É provável que algum raciocínio focado na interação seja consciente, como quando um profissional se lembra
que  “preciso  me  assegurar  de  elogiar  com  frequência  o  cliente,  porque  ele  desanima  com  facilidade”.  Outras
ações  interpessoais  podem  ser  automáticas,  como  quando  um  terapeuta  toca  o  braço  de  uma  pessoa  para
transmitir­lhe simpatia. É por vezes mais fácil detectar a importância do raciocínio interativo efetivo quando o
terapeuta comete um erro ou demonstra uma reação inesperada e é forçado a reorganizar e reconstruir a relação
de tratamento.

RACIOCÍNIO PROFISSIONAL: UM PROCESSO DE SÍNTESE
A seção anterior descreveu os aspectos do raciocínio profissional separadamente para ilustrar as diferentes partes
do processo. A Tabela 32.2 fornece um resumo dos tipos de perguntas que os profissionais procuram responder
com os diferentes aspectos do raciocínio profissional. No entanto, essas facetas do raciocínio não são processos
estanques ou paralelos; mais do que isso, o oposto parece ser o caso. Quase toda pesquisa sobre o raciocínio na
prática sugere que essas formas diferentes interagem entre si.

Raciocínio para Solução de Problemas
Os processos de raciocínio científico, narrativo, pragmático, ético e interativo são entremeados ao longo de todo
o processo de tratamento. Na realidade, cada perspectiva informa a outra. No estudo de caso, a compreensão de
Terry  da  ciência  médica  permitiu  que  ela  soubesse  quais  poderiam  ser  os  comprometimentos  e  problemas  de
desempenho  potenciais,  mas  seu  raciocínio  narrativo  ajudou­a  a  compreender  a  importância  do  retorno  à  casa
para a Sra. Munro. Em conjunto, essas duas formas de raciocínio ajudam Terry a obter uma compreensão não
verbalizada  de  que  haveria  um  grande  risco  de  depressão  (a  qual  poderia  agravar  a  condição  clínica  de  sua
cliente)  se  a  Sra.  Munro  não  retornasse  à  casa,  o  que  significava  muito  para  ela.  Além  disso,  as  restrições
práticas associadas ao ambiente e ao reembolso para a Sra. Munro levaram Terry a raciocinar de imediato sobre
a ética de encaminhar a Sra. Munro para um centro de reabilitação (que ela não poderia pagar), de permitir que
ela voltasse para casa sozinha (onde ela poderia não estar segura) e, por fim, de permitir que ela retornasse para
casa com o suporte dos vizinhos e dos cuidados domiciliares.

Processo Condicional
Os  profissionais  não  devem  apenas  mesclar  os  diferentes  aspectos  do  raciocínio  a  fim  de  interagir  de  modo
efetivo com seus clientes, mas devem também modificar o tratamento em resposta às condições dinâmicas. Terry
demonstrou sua flexibilidade ao criar uma atividade com o vaso de flores quando seu plano de trabalhar com a
Sra.  Munro  no  banho  e  no  vestir  foi  por  água  abaixo.  Creighton  e  colaboradores  (1995)  observaram  que  os
profissionais  de  terapia  ocupacional  planejam  os  tratamentos  de  maneira  hierárquica.  Eles  observaram  que  os
profissionais  tipicamente  trazem  vários  conjuntos  de  materiais  para  uma  sessão  de  tratamento.  Um  conjunto
estaria  direcionado  para  o  nível  esperado  de  desempenho,  os  outros  para  um  estágio  acima  e  um  abaixo  da
atuação  esperada.  Como  exemplo,  um  profissional,  ao  se  preparar  para  uma  atividade  de  escrever  com  um
cliente  que  sofreu  lesão  da  medula  espinhal,  traz  uma  tala  curta  para  escrever  e  papel  sem  pauta.  Este
profissional também traz uma tala mais longa para dar suporte ao punho (para o caso de o controle da mão do
cliente ser pior do que o esperado) e papel pautado, que exige maior precisão (para o caso de o controle da mão
ser  melhor  do  que  o  esperado).  Este  profissional  mesclou  preocupações  científicas  e  pragmáticas  ao  antecipar
várias situações que possam acontecer.
Em  maior  escala,  Fleming  (1994c)  descreveu  a  capacidade  dos  profissionais  de  terapia  ocupacional
habilidosos de “criar uma imagem das futuras possibilidades de vida para a pessoa” (p. 234). A capacidade de
criar essas imagens (ou esquemas, utilizando um termo cognitivo) parece exigir uma mistura de todas as formas
de raciocínio clínico, juntamente com a experiência clínica suficiente pela observação de resultados diferentes
com  antigos  clientes.  Essas  imagens  ajudam  os  profissionais  a  selecionar  atividades  terapêuticas  com  base  no
cotidiano. Por exemplo, a atividade de escrever para o cliente que sofreu lesão de medula espinhal não apenas é
uma boa atividade para aumentar a coordenação, como também antecipa as ocupações que capacitarão o cliente
a recuperar o controle de sua vida por meio da capacidade de escrever seus próprios cheques, assinar seu nome
em documentos legais e utilizar as diversas formas de tecnologia para trabalho e lazer. Se este cliente fosse um
contador,  essas  seriam  imagens  poderosas.  Em  contrapartida,  se  o  cliente  fosse  um  atleta  de  competição,  o
profissional  da  terapia  ocupacional  poderia  precisar  criar  atividades  diferentes  que  permitissem  ao  cliente
desenvolver a imagem de si próprio como um futuro treinador ou professor. As atividades utilizadas na terapia
ocupacional  podem  ajudar  a  estabelecer  metas  de  curto  prazo  específicas  e  modelar  as  expectativas  de  longo
prazo. É dessa maneira que os profissionais ajudam os indivíduos a se reengajar em suas vidas mediante o uso de
ocupações significativas.

VISÃO ECOLÓGICA DO RACIOCÍNIO PROFISSIONAL
Na Unidade I, vários capítulos discutiram como o desempenho ocupacional resulta de uma complexa negociação
entre  as  capacidades  inerentes  da  pessoa,  as  experiências  anteriores  da  pessoa  e  as  demandas  do  contexto  de
desempenho.  De  modo  semelhante,  o  processo  de  raciocínio  profissional  e  as  ações  de  tratamento  resultantes
representam  negociações  que  acontecem  entre  o  profissional,  o  cliente  e  o  contexto  de  tratamento  (Schell,
Unsworth & Schell, 2008) conforme ilustrado na Fig. 32.1.
O  raciocínio  do  profissional  é  modelado  por  perspectivas  pessoais  e  profissionais.  Cada  profissional  traz  o
conhecimento  da  situação  de  tratamento  e  as  habilidades  que  são  fundamentadas  em  experiências  de  vida,
incluindo características pessoais, como capacidades físicas, personalidade, valores e crenças. Estes formam o eu
pessoal. Estes fatores pessoais modelam a percepção e a interpretação de cada pessoa sobre todas as atividades
da vida e, dessa maneira, atuam como uma lente através da qual cada profissional enxerga os eventos da vida.
Depositado sobre ou entremeado a esse eu pessoal está o eu profissional, que inclui o conhecimento técnico do
terapeuta  de  sua  formação,  experiências  com  clientes  anteriores  e  crenças  sobre  o  que  é  importante  fazer  no
tratamento,  juntamente  com  o  conhecimento  de  habilidades  técnicas  importantes  e  das  rotinas  de  tratamento
disponíveis para uso no contexto de prática. Os “eus” pessoal e profissional atuam em conjunto para responder
aos diversos problemas da prática.
TABELA 32.2 ASPECTOS E EXEMPLOS DO PROCESSO DE RACIOCÍNIO CLÍNICO
Preocupações do Raciocínio Clínico Primário
Quais são as preocupações de desempenho ocupacional da pessoa?
Quais são o potencial e a condição de desempenho ocupacional da pessoa?
O que será feito para melhorar o desempenho ocupacional?
Quão efetivo é o tratamento?
Quando e como o tratamento deve cessar?
Científico Narrativo Pragmático Ético Interativo
Utilizado para Utilizado para Utilizado para Utilizado para escolher Utilizado para
compreender a compreender o compreender ações moralmente desenvolver
natureza da significado da as questões defensáveis, diante e promover
condição condição para práticas que dos interesses em as relações
a pessoa afetam a ação conflito interpessoais
clínica com o cliente
Qual é a natureza da Qual é a história Quem Quais são os benefícios Como posso
doença, de vida desta encaminhou e riscos para a pessoa me
enfermidade ou pessoa? esta pessoa e em relação à relacionar
problema de por quê? prestação do serviço e melhor com
desenvolvimento? estes benefícios esta pessoa?
realmente justificam os
riscos?
Quais são as Qual é a Quem está Diante de tempo e Como posso
incapacidades natureza desta pagando pelos recursos limitados, tranquilizar
comuns pessoa como serviços e qual a maneira mais esta pessoa?
decorrentes desta um ser quais são as adequada para
condição? ocupacional? expectativas? priorizar o tratamento?
Quais são os Como a condição Que recursos da Como posso equilibrar Qual é a
comprometimentos de saúde família ou do as metas da pessoa melhor
típicos associados afetou a cuidador que recebe maneira de
a esta condição? história de vida existem para atendimento com incentivar
da pessoa ou a apoiar o aquelas do cuidador esta pessoa?
capacidade de tratamento? quando elas não
continuar sua concordam?
história de
vida?
Quais são os fatores Que atividades Quais são as Até que ponto devo Que
contextuais típicos ocupacionais expectativas customizar a estratégias
que afetam o são mais de meu documentação dos não verbais
desempenho? importantes supervisor e serviços para melhorar devo
para esta do meu local o reembolso? empregar
pessoa? de trabalho? nesta
situação?
Quais teorias e Quais atividades Quanto tempo é O que devo fazer Como devo me
pesquisas estão ocupacionais necessário quando outros posicionar
disponíveis para são para o membros da equipe de em relação a
orientar a significativas atendimento tratamento estão esta pessoa
avaliação e o para esta desta pessoa? atuando de maneira de modo que
tratamento? pessoa e úteis Qual é a que eu perceba eu a apoie,
para atender disponibilidade conflito com as metas mas não
às metas da de espaço e da pessoa que está “invada” a
terapia? equipamento recebendo o pessoa?
para a atendimento?
terapia?
Quais protocolos de Quais são Quais fatores
tratamento são minhas culturais eu
aplicáveis à competências preciso
de prática? considerar
condição desta quando me
pessoa? engajo com
esta pessoa?

Fig. 32.1 Modelo ecológico do raciocínio profissional de Schell. [Adaptado de Schell, B. A. B., Unsworth, C., &
Schell, J. (2008).]

De  maneira  similar,  o  cliente  traz  para  o  tratamento  suas  próprias  experiências  de  vida  e  características
pessoais,  situação  de  vida  e  problemas  de  desempenho  que  levam  à  necessidade  imediata  de  tratamento.  O
cliente  também  possui  suas  próprias  teorias  sobre  o  que  está  causando  os  problemas  de  desempenho  e  o  que
esperar do processo de tratamento. O terapeuta e o cliente atuam em uma comunidade de prática que modela a
natureza, o espectro e a trajetória do processo de tratamento.

DESENVOLVIMENTO E MELHORAMENTO DO RACIOCÍNIO PROFISSIONAL
Compreender a complexidade do raciocínio profissional ajuda os estudantes e profissionais afins a apreciarem
por que é preciso tempo para realmente se transformarem em profissionais de excelência. A pesquisa demonstra
que  é  preciso  um  mínimo  de  10  anos  para  que  as  pessoas  obtenham  experiência  em  determinado  campo
(Boshuizen & Schmidt, 2000). Embora a experiência seja necessária, apenas a experiência não é suficiente para
garantir melhoria nas habilidades de raciocínio clínico. Os terapeutas devem refletir sobre aquela experiência de
modo a adquirir excelência.

Reflexão na Prática
Schön  (1983)  cunhou  o  termo  profissional  reflexivo  para  descrever  como  os  especialistas  raciocinam
criticamente a respeito de suas próprias experiências. A reflexão acontece de duas maneiras. Em primeiro lugar,
os profissionais “refletem sobre a ação” (p. 49). Isto envolve a capacidade do profissional de pensar em meio à
ação e adaptar­se para atender às demandas da situação. A reflexão sobre a ação ocorre mais amiúde quando as
abordagens  usuais  não  funcionam.  “Reflexão  sobre  a  ação”  (p.  61)  é  o  termo  utilizado  por  Schön  para  o
raciocínio  crítico  que  ocorre  após  o  fato.  A  reflexão  sobre  a  prática  identifica  o  que  funcionou  e  o  que  não
funcionou e está aberta a conceitos alternativos que sejam necessários para sustentar o aprendizado associado à
experiência  em  evolução.  O  uso  de  evidência  de  pesquisa  para  sustentar  a  prática  e  a  aplicação  de  teorias
formais,  juntamente  com  a  observação  sistemática  e  a  coleta  de  dados,  pode  ser  auxílio  inestimável  para  o
processo de reflexão (Gambrill, 2005; Tickle­Degnen, 2000).
Continuum da Experiência
Embora  exista  uma  quantidade  crescente  de  evidência  sobre  a  natureza  do  raciocínio  profissional  na  terapia
ocupacional,  ainda  há  pouca  pesquisa  empírica  que  examine  diretamente  seu  desenvolvimento  além  do  nível
inicial da profissão. A conceitualização da experiência profissional de Dreyfus e Dreyfus foi aplicada à terapia
ocupacional (Slater & Cohn, 1991). Esta conceitualização, resumida na Tabela 32.3, descreve as alterações no
raciocínio dos terapeutas ocupacionais à medida que eles adquirem experiência. Embora as alterações listadas na
Tabela 32.3 sejam apresentadas como uma hierarquia relacionada a anos de experiência, é importante reconhecer
que o desenvolvimento é dinâmico e influenciado por muito mais fatores que apenas os anos de experiência. As
experiências profissionais e pessoais, juntamente com a reflexão ativa sobre essas experiências, são primordiais
para a transformação em um especialista (Benner, 1984; Gambrill, 2005; Slater & Cohn, 1991). Além disso, a
experiência é uma função de como a pessoa atua em determinado contexto. Alguém que demonstra experiência
em  prestar  serviço  no  ambiente  escolar  poderia  ser  apenas  minimamente  competente  no  ambiente  de
enfermagem domiciliar. Consulte o Capítulo 25 para discussão da competência e do contexto de atuação.
TABELA 32.3 CONTINUUM E CARACTERÍSTICAS DO RACIOCÍNIO PROFISSIONAL
Categoria Anos de Características
Prática
Reflexiva
Principiante 0 Nenhuma  experiência  na  situação  de  prática;  depende  da  teoria  para
orientar a atuação
Usa  raciocínio  de  procedimento  com  base  nas  normas  para  orientar  as
ações,  mas  não  reconhece  pistas  contextuais;  não  é  habilidoso  na
adaptação das regras para se adequar à situação
O raciocínio narrativo é utilizado para estabelecer as relações sociais, mas
não informa significativamente a atuação
O  raciocínio  pragmático  é  ressaltado  em  termos  das  habilidades  de
manutenção do emprego
Reconhece as questões éticas evidentes
Principiante <1 Começa  a  incorporar  a  informação  contextual  ao  raciocínio  baseado  nas
avançado normas
Reconhece  diferenças  entre  as  expectativas  teóricas  e  os  problemas
apresentados
A  experiência  limitada  impede  o  reconhecimento  de  padrões  e  a
identificação de pistas evidentes; não estabelecem as prioridades
Acumula habilidade de raciocínio pragmático e narrativo
Começa a reconhecer questões éticas mais sutis
Competente 3 Realiza  automaticamente  mais  habilidades  terapêuticas  e  atende  a  mais
questões
É  capaz  de  desenvolver  um  horizonte  comum  com  as  pessoas  que
recebem os serviços
É  capaz  de  selecionar  os  dados  relevantes  e  priorizar  as  metas  de
tratamento relacionadas com os resultados desejados
O  planejamento  é  propositado,  eficiente  e  responsivo  às  questões
contextuais
Utiliza o raciocínio condicional para modificar o tratamento, mas carece da
flexibilidade dos profissionais mais experientes
Reconhece  os  dilemas  éticos  impostos  pelo  ambiente  de  prática,  porém
pode ser menos sensível a respostas éticas justificadamente diferentes
Proficiente 5 Percebe as situações como um todo
Reflete  sobre  maior  gama  de  experiências,  permitindo  a  avaliação  mais
focada e maior flexibilidade no tratamento
Combina  de  forma  criativa  diferentes  abordagens  de  diagnóstico  e  de
procedimento
Mais atento às histórias ocupacionais e à relevância para o tratamento
Mais habilidoso ao negociar os recursos para atender às necessidades do
paciente/cliente
Maior  sofisticação  para  reconhecimento  da  natureza  condicional  do
raciocínio ético
Especialista 10 O  raciocínio  clínico  torna­se  um  processo  intuitivo  rápido,  que  está
profundamente  internalizado  e  baseado  em  ampla  variedade  de  casos,
permitindo a prática com menor rotina de análise, exceto quando enfrenta
situações em que a abordagem não funciona
Uso altamente habilidoso da elaboração da história ocupacional ao longo
do  tratamento  para  promover  a  satisfação  com  o  desempenho
ocupacional a longo prazo

Modificada de Dreyfus e Dreyfus (1986) para incluir informações de Benner (1984); Clark, Ennevor e Richardson
(1996); Creighton, Dijkers, Bennett e Brown (1995); Mattingly e Fleming (1994); Slater e Cohn (1991); e Strong,
Gilbert, Cassidy e Bennett (1995).

CONCLUSÃO
O raciocínio profissional é o processo que os profissionais empregam para planejar, direcionar, aplicar e refletir
sobre  o  tratamento  do  cliente.  É  um  processo  de  corpo  inteiro  e  multissensorial  que  exige  atividade  cognitiva
complexa. Os profissionais desenvolvem estruturas e modelos cognitivos à medida que acumulam experiência,
formando a base do conhecimento e ação profissionais. O raciocínio profissional é multifacetado e capacita os
profissionais  a  compreenderem  os  problemas  do  cliente  a  partir  de  diferentes  perspectivas.  Os  profissionais
utilizam  os  processos  lógicos  associados  ao  raciocínio  científico  para  compreender  os  comprometimentos  do
cliente,  as  incapacidades  e  os  contextos  de  desempenho,  bem  como  para  predizer  o  impacto  destes  sobre  o
desempenho ocupacional. O raciocínio narrativo ajuda os profissionais a apreciarem o significado das limitações
de  desempenho  ocupacional  para  o  cliente,  apoiando  assim  o  tratamento  centrado  no  cliente.  Os  profissionais
utilizam o raciocínio pragmático quando abordam as realidades práticas associadas à prestação do atendimento.
Todas  essas  formas  de  raciocínio  levam  a  um  processo  de  raciocínio  ético  por  meio  do  qual  os  profissionais
selecionam  a  melhor  ação  terapêutica  para  atender  às  necessidades  de  desempenho  ocupacional  do  cliente.  O
processo  de  raciocínio  profissional  envolve  uma  negociação  entre  as  perspectivas  pessoal  e  profissional  do
terapeuta,  as  perspectivas  do  cliente  e  as  demandas  do  contexto  de  atuação.  A  experiência  desenvolve­se  à
medida  que  o  profissional  acumula  experiência  e  reflete  sobre  essa  experiência  para  uma  compreensão  mais
profunda.

QUESTÕES INSTIGANTES
1. Quais  são  alguns  dos  fatores  pessoais  que  você  considera  que  influenciarão  o  exercício  da  terapia
ocupacional?
2. Como você pode lidar com as evidências de pesquisa que estão em conflito com sua própria experiência ou
crenças pessoais? Quais seriam algumas respostas adequadas?

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A Relação Terapêutica
POLLIE PRICE

Sumário
Por que o Relacionamento Terapêutico é Importante na Terapia Ocupacional?
Como os Terapeutas e os Clientes Desenvolvem uma Relação Terapêutica?
Fase Um: Desenvolvimento da Comunicação: Entrando no Mundo do Outro
Fase Dois: Estabelecendo a Confiança
Fase Três: Desenvolvendo uma Parceria Colaborativa
Fase Quatro: Mantendo a Relação Terapêutica
Fase Cinco: Fortalecendo os Relacionamentos
O Processo Terapêutico Está Inserido e é Impulsionado pela Relação Terapêutica
Estágio Um: Estar Disponível e Compreender o Cliente
Estágio Dois: Envolvendo o Cliente no Processo da Terapia
Estágio Três: Trabalhando em Conjunto
Estágio Quatro: Capacitando o Desempenho Ocupacional
Estágio Cinco: Resultados
Um Exemplo de Prática
Conclusão

Objetivos de Aprendizagem
Após a leitura deste capítulo, você será capaz de:
1. Identificar as fases do relacionamento terapêutico e os estágios do processo terapêutico.
2. Descrever as estratégias para estabelecer uma relação terapêutica com os clientes.
3. Descrever as estratégias para conduzir o processo de tratamento até os resultados desejados.

POR QUE O RELACIONAMENTO TERAPÊUTICO É IMPORTANTE NA TERAPIA
OCUPACIONAL?
Todos  os  profissionais  que  prestam  serviços  estabelecem  relacionamentos  de  algum  tipo  com  as  pessoas  que
procuram por esses serviços. Em alguns tipos de serviço, o relacionamento é secundário, superficial e baseado na
troca de informações. No entanto, os profissionais de terapia ocupacional frequentemente encontram pessoas em
pontos de transição importante, exigindo trocas mais íntimas. Os profissionais podem encontrar os pais quando
estes recebem pela primeira vez a informação de que seu filho de 3 anos de idade apresenta autismo, quando um
homem desperta em uma unidade de terapia intensiva para descobrir que sofreu um acidente vascular cerebral e
ficou com um lado do corpo paralisado, quando uma mulher chega a um abrigo com dois filhos jovens para se
refugiar  de  um  marido  abusivo,  ou  quando  um  adulto  jovem  tem  uma  experiência  confusa  e  ameaçadora  de
esquizofrenia. Os terapeutas ocupacionais que entram nas vidas das pessoas nesses momentos são solicitados a
estabelecer relacionamentos terapêuticos com rapidez e a transmitir empatia e vontade consistente de “estar lá” e
“fazer com” os clientes por meio de um processo em que os clientes não barganham e podem não ser capazes de
enfrentar sozinhos (Lawlor, 2003; Peloquin, 1995).
Na  terapia  ocupacional,  as  relações  ocupacionais  não  são  apenas  um  subproduto  do  trabalho  com  seres
humanos.  Em  vez  disso,  o  relacionamento  terapêutico  constitui  o  aspecto  central  do  processo  terapêutico  da
terapia  ocupacional  e  um  catalisador  para  a  mudança  (Devereaux,  1984;  Peloquin,  1990;  Price,  2003;
Schwartzberg, 1993; Yerxa, 1967). Os terapeutas ocupacionais compreendem que, para empreender a ação em
seu próprio benefício, os clientes precisam de esperança, bem como de orientação profissional (Fleming, 1994).
O processo de recuperação e adaptação de um indivíduo necessita de experiência profissional, mas também de
um  parceiro  empático  que  esteja  disposto  a  sentir  o  medo,  a  incerteza  e  o  desespero  do  indivíduo  e  fornecer
suporte,  incentivo  e  esperança.  Até  que  ponto  o  terapeuta  ocupacional  é  capaz  de  compreender  os  medos,  as
esperanças,  as  prioridades  e  os  desejos  do  cliente  e  da  família  influenciará  o  estabelecimento  de  metas
colaborativas, programas e atividades de tratamento e todo o processo de tratamento (Van Amburg, 1997).

O relacionamento terapêutico é o aspecto central do processo terapêutico da terapia ocupacional e um catalisador
para a mudança.

O aspecto relacionamento do processo de tratamento tem sido frequentemente denominado “a arte da prática”.
O processo de estabelecer um relacionamento com outra pessoa é um ato criativo e interdependente, exigindo
que as duas pessoas se compreendam, confiem e se respeitem, e criem significados compartilhados sobre o que
representa  o  processo  de  terapia  para  a  vida  e  para  o  futuro  da  pessoa  (Clark,  1993;  Clark,  Ennevor  &
Richardson,  1996).  As  qualidades  interativas  que  permitem  que  duas  pessoas  construam  um  relacionamento
terapêutico não são instintivas ou automáticas, mas exigem vontade mútua, vigilância, atenção e responsividade
(Tickle­Degnen, 2003). Os aspectos interativos do relacionamento terapêutico exigem habilidades interpessoais
e de comunicação que um terapeuta ocupacional pode aprender e desenvolver por meio da prática reflexiva. Em
um  estudo  recente,  Gahnström­Strandqvist,  Tham,  Josephsson  e  Borell  (2000)  chamaram  essas  habilidades  de
“competência empática”  (p.  23),  a  qual  é  definida  como  a  capacidade  emocional  do  terapeuta  de  perceber  e
responder com exatidão aos clientes e às suas experiências a fim de estabelecer a sintonia fina do processo da
terapia. Pesquisadores fornecem evidência empírica de que a competência empática é um aspecto importante da
competência  profissional  e  do  conhecimento  profissional  (Gahnström­Strandqvist  et  al.,  2000).  Essas
habilidades interativas, interpessoais e de comunicação não podem ser aprendidas e aplicadas na prática como
uma lista de procedimentos e técnicas; em vez disso, os relacionamentos terapêuticos emergem do cuidado real,
a partir de interações dinâmicas e responsivas, e a partir do raciocínio tácito e explícito à medida que o terapeuta
e o cliente trabalham em conjunto para um resultado desejado comum. Portanto, compreender verdadeiramente e
se  preocupar  com  os  clientes  e  suas  experiências,  esperanças  e  sonhos  são  essenciais  para  esse  aspecto
emocional  da  prática  e  exige  um  compromisso  pessoal  de  autoconsciência,  reflexão  e  desenvolvimento  de
habilidades interativas, interpessoais e de comunicação.
Por  diversas  razões,  os  terapeutas  ocupacionais  frequentemente  “emperram”  seu  trabalho  com  os  clientes,
dificultando  o  processo  terapêutico.  Nesses  momentos  de  emperramento,  os  terapeutas  precisam  refletir  sobre
suas abordagens e determinar como melhorá­las a fim de fazer evoluir o processo de tratamento ou trabalhar de
modo  mais  efetivo  com  os  clientes  subsequentes  (Spencer,  Davidson  &  White,  1996).  Assim,  terapeutas
experientes  que  refletiram  sobre  seus  processos  provavelmente  apresentarão  habilidades  interativas  mais
desenvolvidas que os terapeutas novatos (Mattingly & Fleming, 1994). Os estudantes da terapia ocupacional e os
novos profissionais são incentivados a focar no desenvolvimento de suas habilidades interativas, interpessoais e
de comunicação tanto quanto focariam no desenvolvimento de suas habilidades manuais musculares (Neistadt,
1995).
A  relação  terapêutica  serve  de  base  para  o  desenvolvimento  de  parcerias  colaborativas  entre  clientes  e
terapeutas.  Dois  importantes  preditores  dos  resultados  de  reabilitação  são  o  respeito  e  a  colaboração  que  se
desenvolvem entre os clientes e seus terapeutas (Law, 1998). O estabelecimento de metas em colaboração resulta
em  internações  mais  curtas,  melhor  atendimento  à  meta  e  maior  satisfação  do  cliente  (Neistadt,  1995).  Os
terapeutas ocupacionais sentem­se mais competentes quando tanto eles como seus clientes ficam satisfeitos com
os resultados alcançados com o tratamento (Gahnström­Strandqvist et al., 2000). Ao misturarem a competência
profissional e a empatia, os terapeutas podem ajudar a vislumbrar um curso de ação que é alcançável e que vale a
pena  trabalhar  para  atingir  (Gahnström­Strandqvist  et  al.,  2000;  Mattingly,  1994;  Peloquin,  1990).
Compreendendo  que  não  basta  apresentar  aos  clientes  um  conjunto  de  procedimentos  e  técnicas  que  irão
otimizar  os  resultados  físicos,  emocionais  ou  clínicos,  os  terapeutas  ocupacionais  embarcam  em  uma  jornada
espiritual ou existencial com os clientes, colaborando e ajudando a criar possibilidades.
Colaboração  e  relacionamento  colaborativo  têm  sido  utilizados  como  sinônimos  na  literatura,  e  estão
intimamente relacionados à “prática centrada no cliente” (Law, Baptiste & Mills, 1995). A terapia ocupacional
centrada  no  cliente  foi  descrita  como  uma  filosofia  de  tratamento  compromissada  com  o  “respeito  por  e  a
parceria  com  as  pessoas  que  recebem  os  tratamentos”  (Law  et  al.,  1995.  p.  253).  A  colaboração  foi  descrita
como o processo pelo qual os terapeutas e os clientes discutem prioridades, estabelecem metas e tomam decisões
a respeito das opções de tratamento e pós­tratamento (Cipriani et al., 1999; Spencer, 1993) e trabalham juntos no
esforço  mútuo  no  sentido  das  metas  (Neistadt,  1995).  No  entanto,  os  clientes  têm  necessidades  e  desejos
diferentes em relação ao grau e ao tipo de colaboração nas relações terapêuticas. Alguns clientes querem que o
terapeuta seja “o especialista” em tomar decisões clínicas, enquanto outros querem assumir a liderança no seu
processo  de  tratamento.  Quando  os  terapeutas  atendem  às  necessidades  dos  clientes,  estes  experimentam
relacionamentos  positivos  com  seus  terapeutas  e  satisfação  com  os  resultados  do  tratamento  (Cipriani  et  al.,
1999).

COMO OS TERAPEUTAS E OS CLIENTES DESENVOLVEM UMA RELAÇÃO
TERAPÊUTICA?
Na terapia ocupacional, a relação terapêutica requer um grau de intimidade que se desenvolve ao longo de um
continuum, dependendo da natureza da condição do indivíduo, do grau de ruptura de sua identidade e vida, da
extensão  da  recuperação  esperada  e  da  duração  e  complexidade  dos  processos  de  recuperação  e  adaptação,
incluindo  o  processo  de  terapia  ocupacional.  Diversos  autores  sugerem  que  o  relacionamento  terapêutico
desenvolve­se  em  fases  e  que  a  relação  em  desenvolvimento  modela  e  é  modelada  pelo  engajamento  do
terapeuta  e  do  cliente  e  pela  experiência  no  processo  de  terapia  (veja  Tabela  33.1)  (Paddy,  Wright­Sinclair  &
Smythe, 2002; Peloquin, 1993, 2003; Tickle­Degnen, 2002).
TABELA 33.1 COMO A RELAÇÃO TERAPÊUTICA FAZ INTERSEÇÃO COM O PROCESSO
TERAPÊUTICO
Fases do Estratégias Estágios do Estratégias
Desenvolvimento Processo
do Terapêutico
Relacionamento
Fase 1: Respeitar a dignidade do Estágio 1: Estar com no nível social.
Desenvolver a cliente. Estar Perguntar  sobre  hábitos,  pa
comunicação Demonstrar  vontade  de disponível e péis,  interesses,  prioridades
conhecer  o  pesar,  o compreender e recursos.
desespero  e  a o cliente Criar  imagens  narrativas
esperança do cliente. pregressas  e  presentes  do
Satisfazer  o  nível  de cliente.
intimidade  desejado  do Observar  as  respostas,  as
cliente. capacidades  e  o  estilo  de
adaptação do cliente.
Fase 2: Conquistar  a  confiança Estágio 2: Fazer  com  que  o  cliente  se
Estabelecer a ao  longo  do  tempo, Envolver o autoavalie por meio do fazer,
confiança fornecer  informações  e cliente na utilizando  uma  escala  de
assegurar  a  escolha  do terapia medida funcional, videoteipes
cliente. e  outros  clientes,  a  fim  de
Transmitir  as  melhores aumentar a conscientização.
opções  de  atuação  de Oferecer  opções
acordo  com  a significativas  e  explorar  as
compreensão  das possibilidades.
prioridades do cliente. Explicar  o  objetivo  das
atividades terapêuticas.
Fase 3:  No papel de contratante Estágio 3: O  terapeuta  e  o  cliente
Desenvolver (Peloquin,  1990), Trabalhar em assumem  pa  péis  e  esforços
uma parceria compartilhar  o  difícil conjunto ativos e iguais.
colaborativa trajeto  até  o O  terapeuta  traz  a
conhecimento  e  a experiência  profissional;  o
competência. cliente  traz  a  experiência
sobre sua própria vida.
Apoiar  o  cliente  para
estabelecer  as  metas  e
tomar  decisões  sobre  as
atividades terapêuticas.
Transmitir  confiança  nas
capacidades do cliente.
Revelar  e  ativar  os  recursos
e  a  resolução  de  problemas
do cliente.
Fazer com que o cliente atue
para  explorar  limitações  e
soluções.
Fase 4: Manter a À  medida  que  a Estágio 4: Agrupar  os  recursos  e
relação confiança  e  a Capacitar o perseverar na descoberta de
terapêutica confidência  se desempenho soluções.
aprofundam,  os  pa  péis ocupacional Apontar  as  incapacidades  e
terapêuticos,  as as realizações.
estratégias  e  as Ajustar  as  estratégias
atividades se modificam. terapêuticas.
O  cliente  oscila  entre  a Ensinar  a  resolução  de
necessidade de afiliação problemas  e  transmitir
e  a  necessidade  de confiança  ao  assumir  riscos;
autonomia. criar  oportunidades  para
praticar em situações reais.
Entrar no ritmo do cliente.
Mudar  os  pa  péis  de  diretor
para acompanhante.
Fase 5: O relacionamento resiste Estágio 5: Os  clientes  alcançam  as
Fortalecer o após  o  término  do Resultados próprias metas.
relacionamento tratamento. Os  clientes  vivem  vidas
O  cliente  é  “lembrado” plenas,  realizando  suas
(Paddy  et  al.,  2002); ocupações.
“eles  sempre  estarão Os  resultados  do  tratamento
presentes  para  você” são  satisfatórios  para  o
(Mitchell,  Price  &  Ward, cliente e para o terapeuta.
2006). O  cliente  tem  a  sensação  de
controle  e  autonomia  em
relação à sua vida.

Fase Um: Desenvolvimento da Comunicação: Entrando no Mundo do Outro
Quando desenvolvem a comunicação, o terapeuta e o cliente trocam informações a fim de compreender motivos
e desejos mútuos. Para estabelecer a comunicação, o terapeuta deve respeitar a dignidade ou o valor do cliente
(Devereaux, 1984; Peloquin, 1990, 1995, 2003) e transmitir empatia e competência profissional (Fig. 33.1). “A
empatia, na prática dos cuidados de saúde, é a confirmação da convicção de que, fortalecida pela disposição do
outro em compreender, a pessoa terá coragem” (Peloquin, 2003, p. 159). Tornar­se parte da vida de um cliente
requer  um  conhecimento  profundo  que  se  origina  em  preocupar­se,  abrir­se,  ouvir  e  responder,  e  no
relacionamento  como  ser  humano  (Paddy  et  al.,  2002;  Peloquin,  1995).  Quando  os  terapeutas  transmitem
interesse genuíno em compreender o modo de vida do cliente, pode ser mais provável que o cliente participe de
um processo terapêutico colaborativo e mutuamente construído.
O processo da terapia ocupacional começa com um perfil ocupacional que consiste em uma entrevista formal
com o cliente e/ou outras pessoas importantes (p. ex., esposa, pai, professor, cuidador), utilizando, por exemplo,
a Medida Canadense de Desempenho Ocupacional – Canadian Occupational Performance Measure (Law et al.,
1990),  ou  a  Entrevista  sobre  a  História  do  Desempenho  Ocupacional  –  Occupational  Performance  History
Interview  (Kielhofner  et  al.,  1997).  Estas  medidas  ajudam  os  terapeutas  ocupacionais  a  explorar  o  mundo  de
vida, a história ocupacional e as prioridades de um cliente.
Fig. 33.1 O terapeuta ouve o cliente para estabelecer a comunicação.

Além  de  utilizarem  as  medidas  de  entrevista  formal,  os  terapeutas  usam  estratégias  de  narrativa  informais,
incluindo  contar  história  (Clark,  1993;  Jackson,  1998;  Mattingly,  1994,  1998;  Spencer,  Krefting  &  Mattingly,
1993).  Capacitar  os  clientes  a  contarem  histórias  sobre  suas  vidas  e  suas  esperanças  para  o  futuro  é  uma
habilidade  que  os  terapeutas  podem  desenvolver  (Clark,  1993;  Mattingly,  1994,  1998).  Os  terapeutas  utilizam
diferentes  estratégias  para  capacitar  os  clientes  a  contar  e  elaborar  histórias,  como  compartilhar  experiências
pessoais, conversar sobre interesses compartilhados e fazer perguntas como “O que você tem maior interesse em
retomar mais tarde?” ou “O que você estaria fazendo se estivesse em casa e se sentindo bem?” (Price­Lackey &
Kennedy,  dados  não  publicados)”.  Esses  gestos  simples  transmitem  humanidade  e  dão  aos  clientes  a
oportunidade  de  dizer  aos  terapeutas  o  que  os  preocupa  e  também  permitem  a  descoberta  ou  criação  de
estratégias de adaptação (Clark, Ennevor & Larsen, 1996).

Fase Dois: Estabelecendo a Confiança
Um  terapeuta  constrói  a  confiança  ao  longo  do  tempo  que  passa  com  o  cliente,  dando  atenção  exclusiva  ao
cliente e estimulando e ouvindo suas histórias. Transmitir interesse e expressar compreensão sobre o modo de
vida,  os  medos  e  as  prioridades  do  cliente  fornecerá  um  contexto  de  narrativa  para  consideração  e  oferta  das
melhores opções de tratamento. Um terapeuta demonstra competência tanto profissional como empática quando
oferece  aos  clientes  um  leque  de  opções  baseadas  em  evidência  que  abordam  suas  prioridades  (Gahnström­
Strandqvist  et  al.,  2000;  Peloquin,  1990,  2003).  Essa  mistura  de  competências  forma  a  base  de  confiança  e
confidência a serem estabelecidas entre os terapeutas e os clientes e embasará as parcerias colaborativas.

Fase Três: Desenvolvendo uma Parceria Colaborativa
Com  base  no  respeito  e  na  confiança  mútuos  que  se  desenvolvem  entre  clientes  e  terapeutas  nas  primeiras
interações,  pode  então  desenvolver­se  uma  aliança  de  trabalho  (Tickle­Degnen,  2002).  O  terapeuta  e  o  cliente
discutem  o  que  é  importante  para  este,  identificam  os  resultados  desejados,  desenvolvem  as  metas  e  os
programas de tratamento e se comprometem a trabalhar juntos para alcançar essas metas. O terapeuta e o cliente
discutem e tomam decisões sobre as opções de tratamento com base na evidência da pesquisa atual (Cipriani et
al., 1999; Tickle­Degnen, 2002). À medida que a terapia se inicia, pode haver um período de tentativa e erro e
uma  revisão  de  programas,  atividades  e  abordagens  (Mattingly  &  Fleming,  1994).  O  terapeuta  pode  assumir
diferentes pa péis, sendo um líder inicialmente e, em seguida, retirando­se e deixando que os clientes explorem
suas capacidades, limitações e as soluções potenciais, ao mesmo tempo que demonstra ao cliente que o terapeuta
estará lá para orientação profissional, suporte e incentivo pessoal e retroalimentação direta sobre as habilidades e
o potencial do cliente (Gahnström­Strandqvist et al., 2000; Guidetti & Tham, 2002). Este “fazer com” transmite
a  qualidade  de  ser  um  “compromissado”  que  estará  com  o  cliente  até  que  ele  possa  atuar  sozinho  (Peloquin,
1990). À medida que a confiança se aprofunda, o terapeuta pode aumentar as demandas sobre o cliente e deixar
que  este  assuma  mais  riscos  e,  possivelmente,  experimente  o  fracasso  para  ajudá­lo  a  desenvolver  maior
conscientização, capacidade de resolução de problemas e soluções efetivas (Guidetti & Tham, 2002). A relação
terapêutica se modifica à medida que aumenta a compreensão compartilhada do que é importante e do que está
em jogo. Esta compreensão aumentada modela o processo terapêutico, capacitando o terapeuta a fazer a sintonia
fina e a individualizar o tratamento para alcançar os resultados em que o cliente está mais investido (Crepeau,
1991). Este desenvolvimento fortalece a relação à medida que o cliente e o terapeuta reavaliam continuamente as
metas e o processo de tratamento até que as metas sejam alcançadas e a relação formal seja dissolvida.
O  terapeuta  e  o  cliente  continuam  a  revelar  importantes  informações  por  meio  das  interações  que  estão
inseridas nas ações de tratamento, incluindo contar e elaborar histórias (Clark, 1993; Jackson, 1998; Mattingly,
1994). Por meio do engajamento mútuo no processo da terapia e na criação de histórias narrativas, o significado
compartilhado surge entre o terapeuta e o cliente em relação ao tratamento com as metas do cliente para o futuro
(Mattingly,  1991,  1994,  1998;  Price,  2003).  Por  exemplo,  um  dos  terapeutas  no  estudo  de  Gahnström­
Strandqvist e colaboradores (2000) incentivou seu cliente a consertar uma torneira que pingava:

Encorajei­o a consetar a torneira que pingava, o que o aborrecia muito. “Se estivesse bem, eu o faria”, disse ele. “Mas,
você ainda pode fazer isto”, eu disse, “faça agora”. Ele foi muito meticuloso e levou um longo tempo, mas conseguiu.
(p. 21)

A partir de um ponto de vista da narrativa, a atividade do tratamento, consertar a torneira que pingava, estava
carregada de significado simbólico. Ela transmitiu a confiança do terapeuta na capacidade do cliente de realizar a
tarefa  de  maneira  competente  e  fundamentou­se  na  confiança  do  cliente  na  competência  profissional  do
terapeuta para escolher uma tarefa que ele fosse capaz de executar. Por fim, ao selecionar uma tarefa de natureza
essencialmente ocupacional, o terapeuta propiciou uma oportunidade para que o cliente experimentasse seu “eu”
realizando uma antiga ocupação de uma nova maneira.
Contar  histórias  pode  ajudar  os  terapeutas  a  compreenderem  os  significados  e  os  motivos  subjacentes  às
decisões,  às  ações  e  à  inércia  de  seus  clientes;  elaborar  a  história  pode  ajudar  os  terapeutas  e  os  clientes  a
construírem  o  significado  narrativo  sobre  o  que  poderá  ser  possível  no  futuro,  e  pode  capacitar  os  clientes  a
empreenderem  ações  com  base  na  esperança  e  nas  novas  possibilidades  (Clark,  1993;  Mattingly,  1994;
Polkinghorne, 1996).
Em  resumo,  estabelecer  uma  relação  colaborativa  requer  que  os  clientes  tenham  vontade  de  se  engajar
ativamente como parceiros no processo da terapia e que os terapeutas tenham vontade de oferecer e ajustar de
maneira fina as atividades de tratamento com base nas prioridades do cliente e em uma leitura minuciosa de seus
desejos, motivos e experiências de tratamento.

Fase Quatro: Mantendo a Relação Terapêutica
Uma  vez  estabelecida  uma  parceria  colaborativa,  e  quando  o  cliente  e  o  terapeuta  se  engajam  no  processo
terapêutico, a comunicação entre o terapeuta e o cliente deve continuar com relação às experiências do cliente, à
necessidade  de  revisão  de  metas  e  planos  e  às  diferentes  necessidades  de  afiliação  e  relacionamento  ou
autonomia  e  privacidade  (Tickle­Degnen,  2002).  À  medida  que  a  relação  se  torna  mais  confortável,  cliente  e
terapeuta podem assumir mais riscos na comunicação ou podem tornar­se menos atenciosos. Em todas as fases
da relação terapêutica podem ocorrer erros de comunicação ou mal­entendidos que ameaçam a relação e exigem
atenção,  sensibilidade,  responsividade  e  correção  (Tickle­Degnen,  2002).  O  terapeuta  e  o  cliente  continuam  a
explorar  opções  adicionais  de  tratamento  e  a  tomar  decisões  sobre  as  metas  de  resultado,  suportes  e  recursos
necessários  da  comunidade  e  término  do  tratamento  quando  o  terapeuta  e  o  cliente  ficam  satisfeitos  com  os
resultados (Tickle­Degnen, 2002).
Vários estudiosos sugerem que o relacionamento terapêutico e os pa péis dentro dessa relação se modificam à
medida  que  o  cliente  adquire  competência,  confiança  e  independência  para  resolução  de  problemas  e  para
gerenciamento e direcionamento de sua própria vida (Peloquin, 1990; Price, 2003). Por exemplo, os terapeutas
são,  com  frequência,  bastante  direcionadores  no  início  da  terapia  quanto  às  estratégias  de  ensino,  assistindo
fisicamente  ou  fazendo  com  os  clientes  para  incentivá­los  e  assegurar  o  sucesso.  No  entanto,  a  pesquisa
demonstrou que, à medida que os clientes demonstram capacidades emergentes, o papel dos terapeutas passa a
ser de correção; e à medida que os clientes alcançam a competência nas habilidades, o papel dos terapeutas se
modifica para o de orientador ou treinador (Clark, 1993; Gahnström­Strandqvist et al., 2000; Guidetti & Tham,
2002; Price, 2003).

Fase Cinco: Fortalecendo os Relacionamentos
Paddy  e  colaboradores  (2002)  sugeriram  que  existe  uma  quinta  fase  para  a  relação  terapêutica,  em  que  o
relacionamento  se  mantém  após  o  término  do  processo  formal  de  tratamento.  A  seguinte  descrição  de
relacionamento preservado de uma cliente com sua terapeuta ilustra o que Paddy e colaboradores chamaram de
“ser lembrado”:

Sinto como se ela me mantivesse em sua mente enquanto faz as coisas. Posso não ter conversado muito com ela durante
alguns meses... quando se passa um tempo maior, eu posso telefonar para ela quando precisar... Parece que quando ela
descobre alguma coisa que é adequada, ela pensa em mim e isto é realmente brilhante... Acho que estou sempre com ela.
(p. 17)

Estas  reflexões  da  cliente  demonstram  que  a  qualidade  do  relacionamento  terapêutico  tem  um  impacto
sustentado sobre a terapeuta e a cliente.

O PROCESSO TERAPÊUTICO ESTÁ INSERIDO E É IMPULSIONADO PELA
RELAÇÃO TERAPÊUTICA
A relação terapêutica e o processo de tratamento são dinâmicos, estão entremeados e são interdependentes, uma
vez que um influencia o outro (Gahnström­Strandqvist et al., 2000; Guidetti & Tham, 2002; Price, 2003; Rosa &
Hasselkus, 1996). À medida que o terapeuta e o cliente aprofundam sua compreensão sobre o que é importante
para  o  cliente  e  os  recursos  e  habilidades  de  adaptação  a  que  o  cliente  precisa  recorrer,  o  terapeuta  ajusta  e
individualiza o tratamento. Quando o cliente começa a fazer progresso, a confiança que ele sente no terapeuta
aumenta. Se o cliente e o terapeuta consideram que o cliente está pronto, eles podem aumentar a complexidade,
as  demandas  ou  o  risco  do  tratamento,  com  o  terapeuta  se  mantendo  por  perto  caso  o  cliente  necessite  de
assistência.

A  relação  terapêutica  e  o  processo  de  tratamento  são  dinâmicos,  entremeados  e  interdependentes,  uma  vez  que
um influencia o outro.

O  processo  terapêutico  inclui  a  totalidade  das  múltiplas  ações,  interações,  atividades  e  estratégias  que
acontecem  entre  o  terapeuta,  o  cliente  e  a  família  e  que  ajudam  o  cliente  e  a  família  a  buscar  os  resultados
desejados.  Nos  estudos  sobre  as  práticas  de  terapeutas  experientes,  os  terapeutas  trabalham  a  partir  do
conhecimento tácito que desenvolveram por meio da experiência prática, improvisando continuamente, criando,
negociando  e  direcionando  as  condições  terapêuticas  para  a  meta  desejada  (Crepeau,  1991;  Mattingly  &
Fleming,  1994;  Price,  2003).  Utilizando  um  misto  de  competência  profissional  e  empatia  (Guidetti  &  Tham,
2002;  Peloquin,  1990)  e  as  compreensões  científica  e  da  narrativa  (Mattingly,  1994),  o  terapeuta  emprega
inúmeras  estratégias  (Price,  2003)  para  manter  o  processo  de  tratamento  direcionado  ao  resultado  e  para
desenvolver e manter a relação terapêutica (veja a Tabela 33.1).
Os  cinco  estágios  do  processo  da  terapia  estão  em  paralelo  e  fazem  interseção  com  o  processo  de
desenvolvimento  da  relação  descrito  anteriormente.  Os  estágios  do  processo  de  tratamento  são  (1)  estar
disponível  e  compreender  o  cliente,  (2)  engajar  o  cliente,  (3)  trabalhar  em  conjunto,  (4)  possibilitar  o
desempenho ocupacional, e (5) alcançar os resultados. Estes estágios não ocorrem de maneira linear e estanque;
pelo  contrário,  os  pa  péis  assumidos  pelo  terapeuta  e  pelo  cliente  e  as  estratégias  que  o  terapeuta  utiliza  se
modificam e se misturam durante todo o processo da terapia.
O  resultado  pelo  qual  o  terapeuta  e  o  cliente  trabalham  terá  uma  influência  significativa  sobre  o  que  eles
decidem  fazer  na  terapia  e  como.  Alcançar  resultados  que  são  valiosos  e  satisfatórios  para  o  cliente  e  para  o
terapeuta  é  o  tema  máximo  e  a  característica  de  uma  forte  conexão  interpessoal  entre  o  terapeuta  e  o  cliente
(Gahnström­Strandqvist  et  al.,  2000;  Rosa  e  Hasselkus,  1996).  Em  um  estudo  sobre  estratégias  terapêuticas
utilizadas por terapeutas ocupacionais para realizar o treinamento de autocuidado em ambientes de reabilitação,
Guidetti  e  Tham  (2002)  concluíram  que  os  terapeutas  utilizam  várias  estratégias  para  capacitar  os  clientes  a
atingir  a  independência  e  a  adaptação  no  controle  de  si  próprios  em  um  “novo  corpo  em  um  novo  mundo
cotidiano”  (p.  273).  Por  meio  do  processo  de  treinamento  do  autocuidado,  os  terapeutas  ajudam  os  clientes  a
enfrentar  suas  incapacidades,  reconhecer  suas  capacidades  e  desenvolver  suas  habilidades  para  a  solução  de
problemas e adaptação que, por fim, os ajudarão a recuperar a sensação de controle, autonomia e independência
em suas vidas. À medida que os clientes passam de uma posição direcionada pelo terapeuta e mais ou menos
dependente para uma posição mais independente e autodirecionada, a relação terapêutica se modifica e reflete o
processo  terapêutico  conforme  este  evolui.  As  estratégias  que  um  terapeuta  utiliza  também  se  modificam  à
medida que o cliente se torna mais competente e autodirecionado.

Estágio Um: Estar Disponível e Compreender o Cliente
O primeiro estágio do processo terapêutico, estar disponível, inclui todas as ações que um terapeuta empreende
para  expressar  o  desejo  de  compreender  profundamente  o  cliente  e  suas  experiências,  desejos,  motivações,
medos  e  esperanças  (Peloquin,  1990;  Rosa  &  Hasselkus,  1996).  Estas  ações  acompanham  o  processo  de
desenvolvimento da comunicação. Ao desenvolver a comunicação, o terapeuta informa que respeita a dignidade
do cliente, valoriza a personalidade do cliente e simpatiza com a situação do cliente.
Os  terapeutas  constroem  a  comunicação  por  meio  de  suas  ações.  Para  transmitir  respeito,  os  terapeutas
começam  se  apresentando  e  explicando  o  papel  e  os  objetivos  da  terapia  ocupacional.  Para  maximizar  a
privacidade do cliente, os terapeutas podem fechar a porta ou a cortina antes de prestar as informações sobre a
avaliação e o processo de tratamento. Os terapeutas transmitem interesse ao manter um contato visual apropriado
e  respeitoso,  inclinando­se  ligeiramente  na  direção  do  cliente  e  mantendo  uma  postura  aberta.  É  importante
discernir  o  quanto  de  intimidade  o  cliente  está  disposto  a  aceitar  e  se  engajar  neste  nível  de  intimidade.  Para
incentivar e auxiliar o cliente a expressar suas emoções e seus pensamentos, os terapeutas devem utilizar um tom
de voz semelhante para refletir sua compreensão sobre o que ele possa estar sentindo (Tickle­Degnen, 2003). O
terapeuta pode então solicitar ao cliente que resuma ou confirme o que foi acordado. Demonstrar preocupação
pode ajudar a tranquilizar o cliente e aumentar seu desejo de adesão ao processo da terapia.
Para  compreender  o  perfil  ocupacional  de  uma  pessoa,  os  terapeutas  perguntam  sobre  a  vida,  os  medos,  as
preocupações,  as  prioridades  e  ocupações  prévias  do  cliente,  incluindo  passatempos  e  interesses,  e  tentam
compreender  o  significado  destes  para  o  cliente  (McAndrew,  McDermott,  Vitzakovitch  &  Holm,  1999).  Os
terapeutas  poderiam  começar  utilizando  um  instrumento  de  entrevista  formal,  como  a  Medida  Canadense  de
Desempenho  Ocupacional  (Law  et  al.,  1990)  de  modo  a  estabelecer  um  diálogo  com  o  cliente  sobre  suas
prioridades  ocupacionais.  Após  uma  entrevista  formal,  os  terapeutas  poderiam  formular  perguntas  mais
informais,  como  “Do  que  você  gosta  [ocupação]?”,  que  darão  aos  clientes  a  oportunidade  de  expressar  o  que
pensam. Para ajudar a visualizar os resultados potenciais, os terapeutas podem perguntar então sobre os recursos
e suportes do cliente na comunidade (McAndrew et al., 1999).
O  desejo  do  cliente  de  colaborar  pode  variar  (Cipriani  et  al.,  1999).  Alguns  clientes  desejam  participar  da
tomada de todas as decisões sobre seu tratamento, enquanto outros preferem que o “especialista” diga a eles o
que fazer. Um cliente pode apresentar limitações cognitivas que dificultem o processamento das informações e a
tomada  de  decisões.  Neste  caso,  a  consulta  a  uma  pessoa  próxima  ao  cliente  ajuda  a  compreender  as
necessidades  e  os  desejos  deste.  Por  fim,  a  meta  consiste  em  ajudar  o  cliente  a  se  envolver  na  elaboração  de
programas e metas; no entanto, isto pode não ser possível para todos os clientes (Cipriani et al., 1999).
Com base na compreensão sobre a vida, os recursos, as prioridades e as preocupações do cliente, os terapeutas
avaliam  a  capacidade  deste  de  executar  tarefas  e  ocupações  significativas  no  contexto  mais  natural  possível
dentro dos parâmetros da instituição (Price, 2005). Os terapeutas compartilham os resultados e as implicações da
avaliação  e  fornecem  opções  de  tratamento  com  base  em  evidências  e  abordam  metas,  prioridades  e  estilo  de
adaptação do cliente (Spencer, 1993; Tickle­Degnen, 2002).

Estágio Dois: Envolvendo o Cliente no Processo da Terapia
O  segundo  estágio  do  processo  da  terapia  consiste  em  envolver  o  cliente  no  processo  da  terapia.  Como  os
resultados  da  terapia  ocupacional  frequentemente  exigem  transformação  e  adaptação,  os  clientes  devem
desempenhar  um  papel  ativo  em  sua  própria  recuperação.  Um  cliente  pode  se  dispor  e  desejar  se  envolver  no
processo de tratamento quando sente que a terapia o ajudará. Outro cliente pode ter dificuldade de se envolver na
terapia ocupacional. Os clientes podem resistir à terapia ocupacional, suspeitar do tratamento ou não perceber a
relevância ou a oportunidade de ajuda. Os terapeutas utilizam diversas estratégias e negociações sutis para ajudar
o  cliente  a  criar  significado  e  motivação  para  participar  do  tratamento  (Gahnström­Strandqvist  et  al.,  2000;
Mattingly, 1994, 1998; Price, 2003). Algumas opções incluem “plantar uma semente” (Gahnström­Strandqvist et
al., 2000, p. 20) ao passar algum tempo com o cliente, fornecer informações e opções e assegurar que ele tenha o
controle na tomada de decisão, inclusive a de participar do tratamento.

Fig. 33.2 A criança e o terapeuta desenvolvem uma relação de confiança.

Nos ambientes hospitalares em que os clientes precisam receber determinada quantidade de tratamento a cada
dia que permanece na unidade, a necessidade de envolver o cliente no processo de tratamento é mais urgente. O
terapeuta precisa ser cuidadoso para não manipular ou coagir o cliente por meio de ameaça, pois esta conduta
certamente  impedirá  o  desenvolvimento  da  comunicação  e  da  colaboração.  Fornecer  informações,  opções  e
controle em relação à decisão de participar do tratamento em um período de tempo coloca o cliente e a família
no centro da tomada de decisão e fortalece potencialmente o relacionamento.
Os terapeutas utilizam seu conhecimento profissional para explicar a incapacidade ou o processo patológico,
ajudar os clientes a visualizar os possíveis resultados e identificar metas e atividades de tratamento que sejam
fundamentadas  em  evidência  de  pesquisa  (Mattingly,  1994,  1998;  Spencer,  1993;  Tickle­Degnen,  2003).
Explicar o objetivo das atividades de tratamento em relação à vida do cliente ou solicitar que o cliente participe
de tarefas desafiadoras para ajudar na autoavaliação de seus potenciais e limitações pode gerar significado e o
desejo  de  participar  da  terapia.  Os  terapeutas  podem  utilizar  uma  escala  como  a  Medida  de  Independência
Funcional (Center for Functional Assessment Research, 1996), uma fita de vídeo ou outro cliente para ajudar seu
cliente a compreender o processo de tratamento e para gerar a intenção de participar do trabalho duro da terapia.
Envolver o cliente no processo da terapia faz paralelo e faz interseção com a segunda fase do relacionamento:
estabelecer  a  confiança.  Dar  ao  cliente  a  oportunidade  de  participar  de  atividades  significativas  faz  o  cliente
experimentar e apreciar melhor suas capacidades e seus limites, além de fomentar a confiança no terapeuta e no
processo da terapia, mesmo que provisoriamente (Fig. 33.2).

Estágio Três: Trabalhando em Conjunto
Trabalhar  em  conjunto  corresponde  à  terceira  fase  do  desenvolvimento  do  relacionamento:  desenvolver  uma
relação colaborativa. As experiências de tratamento mais satisfatórias são aquelas em que o cliente e o terapeuta
estão igualmente motivados e envolvidos no processo de tratamento, cada qual trazendo sua própria experiência.
Os terapeutas trazem seu conhecimento e experiência profissional, e os clientes trazem a experiência sobre suas
vidas, pa péis, ocupações e estilos de adaptação. Os terapeutas fornecem as informações a respeito do processo
de avaliação e dos resultados e oferecem as melhores opções de tratamento com base tanto na evidência como na
compreensão das prioridades do cliente. Juntos, o cliente e o terapeuta estabelecem as metas e os resultados do
tratamento e iniciam um percurso por vezes difícil para o desenvolvimento do conhecimento e da competência
de que o cliente precisará para viver uma vida satisfatória (Gahnström­Strandqvist et al., 2000).
O trecho a seguir, retirado de uma observação de um terapeuta ocupacional enquanto realiza uma avaliação
inicial  na  casa  de  uma  mulher  que  sofreu  múltiplas  lesões  em  um  acidente  de  bicicleta,  ilustra  o  processo  de
estabelecimento de metas (Price, dados não publicados):
O terapeuta pergunta a ela sobre seus horários, responsabilidades, estratégias de organização e outras atividades fora do
trabalho.  Depois  que  ele  realiza  várias  avaliações  físicas  e  cognitivas  com  ela,  ele  pergunta:  “...Que  coisas  você  deseja
fazer? Quais são algumas das expectativas que você tem para si própria como metas pessoais...? Ela responde... “Quero
ser  capaz  de  voltar  a  trabalhar...”  No  final  da  sessão,  ele  resumiu  sua  compreensão  quanto  à  prioridade  dela  para  a
terapia: “Vamos [ajudá­la] fazer com que você retorne ao trabalho...”

Estágio Quatro: Capacitando o Desempenho Ocupacional
Os  estágios  iniciais  do  tratamento  são  caracterizados  por  tentativa  e  erro  na  identificação  das  atividades  de
tratamento,  abordagens  mútuas  para  a  resolução  de  problemas  e  revisões  de  programas  e  resultados.  Os
terapeutas utilizam diversas estratégias para se engajar em um relacionamento colaborativo com base no esforço
mútuo e na resolução conjunta de problemas, o que aumentará o desempenho ocupacional do cliente.

Fornecer Opções e Escolhas de Atividades de Terapia
Os terapeutas perguntam aos clientes se eles desejam realizar determinadas atividades de terapia; o cliente pode
declinar  ou  oferecer  alternativas.  Por  exemplo,  um  cliente  em  um  estudo  de  Cipriani  e  colaboradores  (1999)
refletiu:  “ela  irá  perguntar  se  eu  quero  fazer  isto...  se  não  achar  necessidade,  vou  dizer  a  ela”  (p.  51).  Outra
paciente,  Mary,  disse  que  seu  terapeuta  deu  a  ela  a  oportunidade  de  tomar  decisões  sobre  as  atividades  de
terapia: “Se quero fazer determinadas coisas, ela deixa que eu as faça” (Cipriani et al., p. 51).
Os terapeutas empregam uma gama de estratégias para ajudar o cliente a se dedicar totalmente e melhorar o
desempenho ocupacional por meio do processo de tratamento (Gahnström­Strandqvist et al.,  2000;  Guidetti  &
Tham,  2002).  Essas  estratégias  enfatizam  que  o  cliente  realize  as  ocupações  para  ter  uma  percepção  das
limitações e capacidades. Os terapeutas graduam a dificuldade das atividades, modificam as demandas físicas e
sociais  do  ambiente  e  fornecem  maior  ou  menor  suporte,  dependendo  das  necessidades  do  cliente.  Com
frequência, os terapeutas ajudam os clientes a se adaptar ou os ensinam a solucionar problemas e a produzir suas
próprias soluções.

Desenvolvendo a Capacidade do Cliente de Criar Suas Próprias Soluções
Para ajudarem na solução de um problema do cliente, os terapeutas precisam transmitir confiança na capacidade
deste  de  perceber,  por  meio  da  realização  de  atividades  ocupacionais,  as  habilidades  necessárias  para  o
desenvolvimento  de  soluções  pessoais.  Com  frequência,  os  terapeutas  aguardam,  deixam  que  o  cliente  tente
trabalhar o problema e intervêm quando ele precisa de assistência. Por vezes, os terapeutas incentivam o cliente
a  se  engajar  em  uma  atividade  ocupacional  que  o  terapeuta  acredita  que  ele  seja  capaz  de  realizar,  mesmo
quando o cliente não está certo do resultado. Esta abordagem transmite a confiança do terapeuta no cliente, mas
também  gera  a  confiança  do  cliente  no  julgamento  e  experiência  profissionais  do  terapeuta  na  avaliação  da
capacidade e do potencial do cliente. Respeito mútuo, confiança e esforço conjunto reforçam o relacionamento
colaborativo.

Ajustando a Tarefa e as Condições Ambientais
Os  terapeutas  fazem  os  ajustes  finos  nas  demandas  e  oportunidades  das  condições  de  tratamento  para
proporcionar a quantidade correta de desafio para os clientes. Esta abordagem é a mais fácil de aplicar quando o
tratamento  ocorre  em  ambientes  naturais,  como  residência,  escola,  comunidade  e  trabalho  (Dunn,  Brown  &
McGuigan,  1994;  Hocking,  2001;  Pierce,  2001,  2003).  No  entanto,  quando  isso  é  impedido  pelo  ambiente  de
tratamento, como nos ambientes de reabilitação intensiva, perguntar sobre hábitos, padrões e rotinas pregressos e
atuais do cliente e realizar uma visita à residência, à comunidade, à escola ou ao trabalho ajuda o terapeuta e o
cliente a visualizarem os ambientes físico e social do cliente e a criarem condições de tratamento que sejam mais
próximas à vida real do cliente. Enquanto observam o cliente realizando as atividades desejadas, os terapeutas
ajustam a dificuldade das tarefas, dividindo­as em etapas menores, adicionando um equipamento de adaptação,
ensinando  uma  técnica  de  adaptação  ou  orientando  sobre  as  técnicas  de  conservação  de  energia.  Incentivar  o
cliente  a  tentar  diferentes  soluções  com  base  nas  experiências  do  terapeuta  pode  capacitá­lo  a  desenvolver
estratégias  que  melhoram  o  desempenho  ocupacional  (Unsworth,  2005).  Ensinar  o  cliente  a  solucionar  um
problema  com  suas  próprias  soluções  pode  estimular  a  resolução  de  problemas,  a  autonomia  e  o  controle  em
situações desconhecidas e desafiadoras em sua vida futura (Mattingly & Fleming, 1994; Mitchell, Ward & Price,
2006).  Os  terapeutas  fornecem  oportunidades  para  que  o  cliente  generalize  suas  habilidades  de  resolução  de
problemas e fortaleça o senso de personalidade, ao fazer com que ele pratique em diferentes ambientes sociais
que não sejam adaptados. Passeios pela comunidade proporcionam, com frequência, experiências potenciais para
os clientes e para os terapeutas, a fim de dar confiança para que os clientes sejam fortalecidos em seus mundos
sociais (Jackson, 1998).

Utilizando o Tempo de Modo Estratégico
Os  terapeutas  ocupacionais  precisam  de  tempo  para  deixar  que  os  clientes  atuem  em  seu  próprio  ritmo
(Gahnström­Strandqvist et al., 2000; Guidetti & Tham, 2002). Os terapeutas utilizam o julgamento profissional
para discernir sobre quando deixar o cliente continuar e quando intervir. A intervenção precoce ou a aceleração
de  uma  atividade  apenas  para  encerrar  a  tarefa  reprime  o  processo  de  adaptação  e  diminui  a  oportunidade  do
cliente de se envolver na resolução de um problema em suas próprias situações.
Outra  maneira  pela  qual  os  terapeutas  e  os  clientes  utilizam  o  tempo  de  maneira  estratégica  consiste  em
empregar o tempo como marcador do progresso (Guidetti & Tham, 2002). A eficiência em completar a rotina
matinal  do  autocuidado  pessoal,  atravessar  uma  rua  ou  fazer  as  compras  de  mercado  pode  ser  uma  meta
importante para um cliente e pode fazer diferença no fato de ele poder viver e atuar de modo independente ou
com assistência.

Ajustar o Papel do Terapeuta de Acordo com a Necessidade do Cliente
Os  terapeutas  utilizam  a  si  próprios  como  agentes  terapêuticos  quando  modificam  seus  pa  péis  em  relação  às
necessidades e capacidades do cliente. Os terapeutas deslocam­se entre múltiplos pa péis, como direcionadores,
treinadores,  apoiadores  e  acompanhantes,  respondendo  com  rapidez  e  utilizando  múltiplas  estratégias
(Gahnström­Strandqvist et al.,  2000;  Guidetti  &  Tham,  2002,  p.  257;  Price,  2003,  2006).  Com  frequência,  os
terapeutas  estão  no  papel  de  liderança  no  início  de  um  processo  de  terapia,  focando  a  atenção  do  cliente,
ensinando  e  demonstrando  técnicas,  produzindo  ideias  e  oferecendo  soluções.  Quando  o  cliente  se  envolve  e
começa  a  experimentar  o  sucesso  na  resolução  dos  problemas  de  desempenho  ocupacional,  os  terapeutas
assumem  um  papel  mais  de  correção,  apoio  ou  treinamento  (Hasselkus,  2002;  Price,  2003).  Quando  o  cliente
adquire  competência  na  resolução  de  problemas  e  no  desempenho  da  ocupação,  os  terapeutas  tornam­se
acompanhantes, distanciando­se dos clientes, permanecendo quietos, afastando­se ou saindo do quarto (Guidetti
&  Tham,  p.  268).  Estas  estratégias  transmitem  confiança  no  cliente  e  ajudam  a  criar  uma  sensação  de
competência, um resultado desejado da terapia ocupacional.
À  medida  que  os  clientes  desenvolvem  suas  próprias  habilidades  de  resolução  de  problemas  e  sua
competência  no  desempenho  ocupacional,  os  pa  péis  e  as  estratégias  dos  terapeutas  mudam.  A  relação
terapêutica está inserida neste processo de evolução. À medida que o cliente experimenta sucesso, constrói­se
maior  confiança  entre  o  terapeuta  e  o  cliente.  O  cliente  confia  na  experiência  profissional  do  terapeuta  e  o
terapeuta confia nas capacidades emergentes do cliente para a autonomia. Isto capacita o terapeuta e o cliente a
decidirem quando aumentar a complexidade e a dificuldade das demandas do tratamento e quando o cliente está
pronto para assumir mais riscos. Com frequência, à medida que o tratamento progride, as necessidades do cliente
se  deslocarão  entre  a  interdependência  com  o  terapeuta  e  a  necessidade  de  autonomia  (Tickle­Degnen,  2002).
Manter a relação terapêutica por meio desse processo dinâmico exige vigilância e uma percepção adequada do
que o cliente está experimentando, boa comunicação e responsividade para ajustar de modo fino as demandas e
as oportunidades da terapia.

Estágio Cinco: Resultados
Por  fim,  e  de  maneira  ideal,  os  resultados  da  terapia  colocam  o  cliente  em  uma  trajetória  que  o  capacitará  a
alcançar  as  metas  desejadas;  viver  uma  vida  plena,  participando  das  ocupações  desejadas;  ter  controle,
autonomia e confiança para gerenciar a vida; e ser otimista a respeito do futuro (Gahnström­Strandqvist et  al.,
2000; Guidetti & Tham, 2002; Rosa & Hasselkus, 1996). A relação terapêutica entre o terapeuta e o cliente, quer
positiva, quer negativa, frequentemente resiste por muito tempo após o término do tratamento formal (Paddy et
al., 2002). Os terapeutas descrevem a visão de narrativa de clientes bem­sucedidos como “um mundo de vida
ampliado  e  enriquecido”  (Gahnström­Strandqvist  et  al.,  2000,  p.  17).  Os  clientes  que  tiveram  um  bom
relacionamento terapêutico com seus terapeutas sentem que eles são “lembrados” (Paddy et al., 2002, p. 17), isto
é,  os  clientes  podem  ligar  para  o  terapeuta  a  qualquer  momento  e  a  relação  e  a  parceria  ainda  se  mantêm.
Enquanto refletia sobre a experiência da terapia ocupacional, uma cliente disse: “...o terapeuta ocupacional será
o que você terá, você sabe, pelo resto da vida... eles sempre estarão disponíveis para você” (Mitchell, Ward &
Price,  2006).  Os  clientes  frequentemente  voltam  meses  depois  do  término  do  tratamento  para  agradecer  aos
terapeutas e para compartilhar histórias sobre a importância da terapia e do terapeuta em ajudá­los a retomar suas
vidas.
A  relação  terapêutica  é  fundamental  para  o  processo  da  terapia  ocupacional  (Devereaux,  1984;  Peloquin,
1990;  Schwartzberg,  1993;  Yerxa,  1967).  O  processo  terapêutico  ocorre  em  estágios,  está  entremeado  e  é
impulsionado  pela  relação  terapêutica.  A  evidência  mostra  que  os  terapeutas  utilizam  múltiplas  estratégias
pessoais (uso terapêutico de si próprio) para tornar a terapia significativa e relevante. Quando os clientes estão
engajados  na  terapia,  os  terapeutas  empregam  múltiplas  estratégias  pessoais  para  ajustar  e  individualizar  o
tratamento.  Com  a  divisão  da  quantidade  correta  de  desafio  e  apoio,  os  clientes  experimentam  sucesso,  o  que
aumenta  a  confiança  e  a  confidência  que  os  clientes  e  terapeutas  têm  entre  si.  O  relacionamento  fortalecido
sustenta e reforça o processo terapêutico no sentido de resultados mutuamente satisfatórios e resiste por longo
tempo após o término da terapia.

UM EXEMPLO DE PRÁTICA
Dados obtidos a partir de observações e entrevistas (Price, 2003) ilustram as inúmeras estratégias e negociações
que o terapeuta costuma desenvolver em uma relação terapêutica. O exemplo mostra que a relação terapêutica
está inserida e direciona o processo terapêutico.
Os dados são de uma observação realizada por uma terapeuta, Nancy, quando ela trabalhou com Hannah para
aquisição  da  meta  de  Hannah  de  ir  para  a  escola  e  ter  um  amigo.  Os  dados  demonstram  que  Nancy  utilizou
inúmeras  estratégias  pessoais  com  Hannah,  como  contar  história  e  incentivar  Hannah  a  permanecer  engajada,
para  manter  seu  movimento  no  sentido  da  meta  mutuamente  desejada  (Clark,  1993;  Mattingly,  1994;  Price,
2006).  Sua  relação  –  especificamente,  a  confiança  e  a  confidência  que  elas  tinham  entre  si  –  as  manteve
mutuamente engajadas e voltadas para a evolução do processo terapêutico.
Nancy  e  Hannah  começaram  a  trabalhar  juntas  quando  Hannah  tinha  dois  anos  e  meio  de  idade.  A  mãe  de
Hannah explicou que, desde que Hannah era uma criança muito jovem, ela tinha medo de qualquer pessoa que
não fosse a sua mãe. Hannah gritava e chorava quando Nancy começou a encontrá­la para o tratamento. Hannah,
agora  com  quatro  anos,  ficava  muito  parada  e  quieta  com  outras  crianças  por  perto;  no  entanto,  durante  as
sessões sem as outras crianças, ela era espontânea, alegre e conversava com Nancy. Durante todo o tratamento,
Hannah  e  Nancy  mantiveram  uma  relação  terapêutica  que  possibilitava  o  desempenho  ocupacional.  Nancy
manteve o relacionamento ao descobrir o equilíbrio entre apoiar e incentivar Hannah a melhorar seu desempenho
e sua competência em um amplo repertório de brincadeiras e ao se tornar um membro de um grupo social. A
Tabela  33.2  fornece  uma  revisão  abreviada  da  observação  e  das  interpretações  de  fases  e  estágios  do
relacionamento  e  processo  terapêuticos  para  ilustrar  as  estratégias  que  Nancy  utilizou  para  a  evolução  do
processo.  O  exemplo  ilustra  a  mistura  de  competência  profissional  e  empatia  no  processo  de  tratamento  entre
Nancy e Hannah (Gahnström­Strandqvist et al., 2000; Peloquin, 1990). Hannah confiava em Nancy para provê­
la  com  a  quantidade  correta  de  desafio.  A  confiança  de  Nancy  nas  capacidades  emergentes  de  Hannah
possibilitou  que  Hannah  embarcasse  em  uma  transformação  que  ela  e  a  mãe  não  poderiam  ter  feito  acontecer
sozinhas (Lawlor, 2003). A mãe de Hannah, Susan, conversou sobre o progresso que ela observou no conforto e
na capacidade de Hannah para se envolver com a família, os vizinhos e os amigos por causa de sua observação
de Nancy. Em seguida, ela falou sobre seu relacionamento:

Hannah adora Nancy. Acho que, para Hannah, Nancy foi a primeira pessoa que ela percebeu que a amava e a desafiava ao
mesmo  tempo.  Acho  que  Hannah,  que  ela  tem  este  respeito,  que  ela  tem  esta  relação  diferente  com  Nancy...  é  quase
como se ela quisesse mostrar a Nancy o que ela conseguiu. Mas, ao mesmo tempo, acho que ela se sente igual à Nancy;
como se existisse um nível de confiança, em que ela sabe que se tentar alguma coisa e não conseguir, tudo estará bem.

A  descrição  de  Susan  do  relacionamento  de  Nancy  e  Hannah  demonstra  que  a  relação  terapêutica,
fundamentada  em  respeito  e  confiança  mútuos,  está  inserida  no  processo  terapêutico  e  que  o  processo
terapêutico  é  uma  mistura  das  competências  empática  e  profissional  (Gahnström­Strandqvist  et  al.,  2000;
Peloquin, 1990).

CONCLUSÃO
Com frequência, os terapeutas ocupacionais entram nas vidas dos clientes quando estes deparam com desafios
significativos de vida que os impedem de participar da “vida como de costume”. Os terapeutas são impelidos a
estabelecer rapidamente relacionamentos terapêuticos que transmitem respeito, empatia e uma vontade de “estar
disponível” e de “aceitar”; estas ações e atitudes constroem a confiança e estabelecem a comunicação. Como a
obtenção de resultados que sejam tanto alcançáveis como desejáveis pode ser um processo complexo e difícil, os
clientes  precisam  de  terapeutas  que  sejam  profissionalmente  e  empaticamente  competentes  (Gahnström­
Strandqvist  et  al.,  2000;  Peloquin,  1990,  2003).  O  quanto  os  terapeutas  desejam  e  são  capazes  de  entrar  nos
mundos  dos  clientes  e  ouvir  atentamente  e  conhecer  suas  esperanças  e  seus  temores  irá  determinar  o  grau  de
colaboração  que  os  clientes  e  os  terapeutas  podem  alcançar  para  desenvolver  tratamentos  significativos  (Van
Ambrug, 1997).
As  relações  terapêuticas  desenvolvem­se  em  fases:  desenvolvimento  da  comunicação,  estabelecimento  da
confiança,  desenvolvimento  de  parceria  colaborativa,  manutenção  da  relação  terapêutica  e  manutenção  de
relacionamentos  persistentes  depois  do  término  formal  do  tratamento.  Os  terapeutas  utilizam  múltiplas
estratégias  pessoais,  como  solicitar  aos  clientes  que  contem  histórias  sobre  suas  vidas,  preocupações  e
prioridades.  Os  terapeutas  ouvem  de  maneira  atenta  e  propositada  e  devolvem  empatia  e  compreensão.  Os
terapeutas trabalham com os clientes até que eles possam agir sozinhos; mesmo assim, os terapeutas “mantêm
em mente” seus pacientes e seus relacionamentos (Paddy et al., 2002).
O processo terapêutico é entremeado e impulsionado pela relação terapêutica. O processo terapêutico também
evolui  em  estágios:  estar  disponível  e  compreender  o  cliente,  envolver  o  cliente  no  tratamento,  trabalhar  em
conjunto,  capacitar  o  desempenho  ocupacional  e  atingir  os  resultados.  Os  terapeutas  empregam  várias
estratégias para ajudar os clientes a testar suas habilidades, limitações e capacidade de adaptação por meio da
participação em atividades  de  terapia. Os  terapeutas  ajustam  as  demandas  da  terapia para prover a quantidade
certa de desafio físico, social e emocional ao mesmo tempo que ajustam seus pa péis e níveis de suporte. Através
de uma síntese complexa da competência profissional e empática, os terapeutas capacitam os clientes a assumir
ou retomar possibilidades de vida (Gahnström­Strandqvist et al., 2000; Peloquin, 1990).
TABELA 33.2 ANÁLISE DO PROCESSO E RELACIONAMENTO TERAPÊUTICOS DE HANNAH E NANCY
Dados de Observação e Entrevista Fases e Estágios do Processo e
Desenvolvimento do Relacionamento
Terapêutico e Estratégias Utilizadas
Hannah: Minhas pernas cresceram. Fase 3 do desenvolvimento do relacionamento:
Nancy (fazendo o gesto de crescer com as mãos à mantendo seu relacionamento
medida que elas subiam): Oh, meu Deus, você Estágio 4 do processo terapêutico: capacitar o
cresceu! Você acha que logo estará pronta para ir desempenho ocupacional
para a escola?
Hannah: Um hum (sim), minha escola ainda está de Estratégias:
férias. Transmitir  confiança  e  confidência  nas
Nancy: Você sabe, muitas outras crianças também capacidades  e  no  potencial  de  Hannah  para
estão esperando para ir para a escola. atingir as metas.
Hannah: Hum. Contar  histórias  e  elaborar  histórias
Nancy: E elas poderiam ser boas amigas, hein? ocupacionais  (Clark,  1993;  Mattingly,  1994,
Hannah: Hum, porque estou realmente crescendo. 1998):  As  pernas  longas  de  Hannah  significam
Nancy: Você está. Você sabe, você estará pronta que ela está quase pronta para a escola e para
para ir para a escola. Você vai ficar bem. fazer amizades
Hannah: Hum.
Nancy: Você sabe, Hannah, estou com vontade de
comer espaguete. Estágio 3 do processo terapêutico: criar uma
Hannah: (Nenhuma resposta) situação social em que elas trabalhariam em
Nancy: Você sabe, nós estamos apenas fingindo. conjunto para explorar as limitações de Hannah e
Este é o meu pequeno prato (a tampa de um para ativar seus recursos
recipiente de massa para modelar). Estou com
muita fome. Estratégias:
Hannah: Hum. Vou fazer. (Ela começou a cortar as Ajustar as estratégias da terapia para utilizar os
tiras finas em pedaços.) recursos  de  Hannah,  as  potenciais  habilidades
Nancy: Você é a cozinheira? cognitivas, para ensinar a Hannah o que outras
Hannah: Um hum (sim). (Hannah coloca dois crianças aprenderiam de maneira tácita
pedaços de massa no “prato” de Nancy.)
Nancy: Oooh! Aquelas são almôndegas?
Hannah: Um hum (não).
Nancy: O que são?
Hannah: Massa de brincar.
Nancy: Bem, temos de fingir. O que é? Não posso
comer massa de brincar.
Hannah: Hum hum (não).
Nancy: O que é?
Hannah: Isto é um faz de conta.
Nancy: O que devo imaginar que isto é?
Hannah: Hum. É de mastigar.
Nancy: É de mastigar. Uh, é um pedaço de pão?
Hannah: Hum hum (sim). (Hannah coloca pedaços
da massa de brincar no “prato”.)
Hannah: Aqui está a comida.
Nancy: Está pronto para comer?
Hannah: Hum. Hannah tenta escapar da brincadeira imaginária
Nancy: Sim? declarando que é hora de brincar com a massinha
Hannah: Agora é branca. branca.
Nancy: Espera. Eu quero comer primeiro... é melhor
ver se eu gosto. Quer um pedaço? Estratégias:
Hannah: Um hum (não). Incentivar Hannah a lidar com as demandas.
Nancy: Aqui. Finja (segurando a massinha até a Transmitir  a  confiança  de  que  ela  é  capaz  de
boca de Hannah). Olhe os meus lábios. Você não fazer
precisa comer realmente. (Nancy coloca a Instigar  a  confiança  de  Hannah  de  que  Nancy
massinha perto de sua boca e estala os lábios.) não exigiria mais do que ela poderia fazer
Você apenas finge e faz um barulho.
Fornecer  as  oportunidades  para  que  Hannah
explore seus limites, crie estratégias e baseie­se
em seus recursos
Hannah (observando): Hum.
Nancy: Certo, você tenta. Olhe, Hannah. (Nancy Estratégias:
segura a massinha próximo a sua boca, estalando Elogiar  Hannah,  uma  estratégia  narrativa  que
os lábios, em seguida segura a massinha próximo transmite  confiança  à  Hannah  de  que  ela  está
à boca de Hannah, que estala a boca de modo indo em direção à sua meta
relutante.) Aqui, pegue outro pedaço.
Hannah: Certo. (Nancy estalou a boca e, em
seguida, Hannah estalou.) Estratégias:
Nancy: Está delicioso. Me dê cinco; você é uma Envolver  Hannah  na  resolução  do  problema  e
grande cozinheira! na autoavaliação
Nancy: Por que você não gosta de fingir que come Transmitir respeito pela experiência de Hannah
essas coisas? Por que você acha? É muito bobo Recorrer  aos  recursos  de  Hannah,  às  suas
(Hannah: hum) ou você apenas não gosta? habilidades  cognitivas  potenciais,  para  ensinar­
Hannah: Não gosto disto. lhe  o  que  as  outras  crianças  aprendem  de
Nancy: Você não gosta disto. (sussurrando) Mas maneira tácita
você sabe de uma coisa? Obedecer ao ritmo de Hannah, sabendo quando
Hannah: Hum? fazer uma pausa
Nancy: Algumas vezes, quando você estiver na Elaborar  uma  história  (Clark,  1993;  Mattingly,
escola, você pode precisar fingir com as crianças. 1994) para aumentar as demandas da terapia e
Hannah: Certo. para  expandir  o  repertório  de  brincadeiras  de
Nancy: Você sabe? Isso, mesmo que você não Hannah, de modo a capacitá­la a fazer e manter
goste. os amigos na pré­escola
Hannah: Posso pegar a branca? (Nancy tentou fazer Recorrer  aos  recursos  pessoais  de  Hannah
com que Hannah fingisse comer algum espaguete, (Kielhofner,  2002):  a  respiração  é  uma
e Hannah estava muito relutante.) estratégia que Nancy ensinou Hannah a utilizar
e que Hannah pode empregar para se acalmar
Nancy (concordando): Eu lhe darei a branca. Desenvolvimento do relacionamento: Nancy
(sussurrando para Hannah): Você sabe? Algumas transmite confiança em Hannah ao pedir que ela
vezes, meninas pequenas gostam de fingir. Você torne a se envolver; Hannah transmite confiança
sabia? em Nancy ao se envolver
Hannah: (indecisa). Processo da terapia: Hannah demonstrou seu
Nancy: Vamos fazer algumas respirações profundas, aprendizado ao fingir
certo?
Nancy: (Hannah voltou a cortar a massinha) Você Estratégia:
sabe o que eu acho? Talvez, você faça alguma Elogiar Hannah delicadamente
comida para mim. Mas você sabe, eu não tenho
prato. Preciso fazer um. Uma ruptura; Hannah demonstra que pode fingir,
Hannah: Com a massinha, como fingir. mesmo que não goste; um momento altamente
Nancy (calmamente): Como fingir, certo, anjo. narrativo (Mattingly, 1998) que simboliza a
(Nancy fez uma pequena tigela da massinha capacidade de Hannah de se engajar na
enquanto Hannah continuava a cortar.) brincadeira que a ajudaria a fazer e manter amigos
Nancy: Hannah?
Hannah: Hum?
Nancy: Você acha que poderia me dar um pouco da
sopa de massinha?
Hannah: Claro. (Hannah fingiu encher a tigela.)
Nancy: Oh, obrigada! Está muito bom. O que você
colocou aqui?
Hannah: Hum. Hum. Arroz.
Nancy: Hmm. (fingindo gostar) Você quer provar?
(Nancy coloca a colher perto da boca de Hannah, e
Hannah finge provar.)
Nancy: Oh, estava bom.

Fonte: Adaptada de Price (2003).
QUESTÕES INSTIGANTES
1. Reflita  sobre  as  interações  entre  Nancy  e  Hannah:  Como  você  acha  que  o  processo  de  tratamento  e  os
resultados seriam influenciados se a ênfase sobre a relação terapêutica fosse minimizada?
2. Como você se sentiria e o que você faria se o seu processo de tratamento de um cliente não fosse efetivo?

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O Processo de Entrevista na Terapia
Ocupacional
ALEXIS D. HENRY E JESSICA M. KRAMER

Sumário
O que é Entrevistar?
Quando e a Quem Entrevistar
A Entrevista Inicial: Entrevista como Avaliação
Durante o Curso da Terapia: Entrevista como Tratamento
Entrevistando Adolescentes e Adultos
Entrevistando Crianças e Adolescentes Jovens
Por que Entrevistar
Compreendendo a História do Cliente
Construindo a Aliança Terapêutica
Reunindo Informações e Desenvolvendo o Perfil Ocupacional
Observando o Comportamento
Identificando as Forças do Cliente e as Potenciais Áreas Problemáticas
Esclarecendo Seu Papel no Ambiente
Estabelecendo Prioridades para o Tratamento
Como Entrevistar
As Habilidades para a Entrevista Efetiva
Estruturando a Entrevista
Entrevistas em Terapia Ocupacional
Entrevistas para Uso com Crianças e Adolescentes
Entrevistas para Uso com Adolescentes e Adultos
Adjuntos para as Entrevistas: Medidas de Autorrelato com Papel e Lápis
Medidas de Autorrelato para Crianças e Adolescentes
Autorrelatos para Uso com Pais de Crianças e Adolescentes
Medidas de Autorrelato para Adultos
Conclusão

“Entrevisto porque estou interessada nas histórias das outras pessoas... histórias constituem uma maneira de
conhecer.”

— IRVING SEIDMAN (1991)

Objetivos de Aprendizagem
Após a leitura deste capítulo, você será capaz de:
1. Descrever o uso da entrevista como um procedimento de avaliação na terapia ocupacional.
2. Identificar os aspectos de uma entrevista efetiva.
3. Identificar  as  entrevistas  padronizadas  e  os  autorrelatos  disponíveis  destinados  a  identificar  os
desejos e as necessidades ocupacionais dos clientes.

D
epois de revisar as informações preliminares sobre um cliente, a entrevista é a primeira etapa na condução
de  uma  avaliação  centrada  no  cliente  e  para  o  desenvolvimento  de  um  perfil  ocupacional  (American
Occupational Therapy Association, 2002). Entrevistar é uma habilidade essencial para um dos procedimentos de
avaliação mais comuns utilizados pelos profissionais de terapia ocupacional. As metas da entrevista são tanto o
produto  como  o  processo.  Além  de  reunirem  informações  (produto),  as  entrevistas  são  úteis  porque  ajudam  a
desenvolver uma aliança terapêutica com o cliente (processo).

O QUE É ENTREVISTAR?
Entrevistar foi definido como uma experiência verbal compartilhada, construída em conjunto pelo entrevistador
e  pelo  entrevistado,  organizada  em  torno  de  fazer  e  responder  perguntas  (Mishler,  1986).  Enquanto  seu
“trabalho”,  como  entrevistador,  é  principalmente  o  de  formular  perguntas  e  o  “trabalho”  do  cliente,  como
entrevistado,  é  principalmente  o  de  responder,  a  entrevista  efetiva  não  prossegue  de  uma  maneira  “estímulo­
resposta”.  Em  vez  disso,  você  e  o  cliente  estão  tentando  alcançar  alguma  compreensão  compartilhada  de  uma
determinada realidade. Esta realidade é a história do cliente.
Quando  você  encontra  um  cliente  pela  primeira  vez,  as  informações  que  mais  provavelmente  você  coleta
formam um rótulo que identifica o cliente como tendo um determinado tipo de problema. Mais frequentemente,
este rótulo assume uma forma de diagnóstico; por exemplo, o cliente poderia ter um diagnóstico de esquizofrenia
ou  artrite,  ou  incapacidade  de  aprendizado.  É  provável  que  o  diagnóstico  faça  com  que  você  formule
determinadas  hipóteses  sobre  os  problemas  de  desempenho  ocupacional  que  o  cliente  poderia  apresentar,  com
base  em  sua  experiência  pregressa  com  outras  pessoas  que  receberam  esse  mesmo  diagnóstico  ou  em  seu
conhecimento a partir de um manual clínico sobre a condição diagnóstica. Contudo, na realidade, informações
como  o  diagnóstico  do  cliente  apresentam  utilidade  limitada  para  influenciar  o  curso  do  tratamento.  Para
desenvolver um programa de tratamento significativo, você precisa conhecer as particularidades da situação do
cliente e precisa conhecê­las a partir da perspectiva do cliente. Em outras palavras, você precisa compreender a
história do cliente.
Quando  um  profissional  considera  como  a  atual  condição  do  cliente  se  ajusta  à  história  maior  de  vida  do
cliente, ele está raciocinando de modo narrativo a respeito do cliente (Clark, 1993; Franits, 2005; Frank, 1996;
Helfrich  &  Kielhofner,  1994;  Mattingly,  1991).  Uma  abordagem  narrativa  ou  de  história  de  vida  envolve
considerar  o  conjunto  particular  de  circunstâncias  que  descrevem  a  vida  de  um  cliente  antes  de  ele  vir  para  o
tratamento, como o cliente considera sua vida agora, e para onde o cliente considera que a vida irá depois do
tratamento.  Quando  pensa  de  maneira  narrativa,  o  profissional  se  empenha  em  compreender  os  valores  e  os
motivos do cliente a fim de tornar o tratamento significativo.
As entrevistas são estratégias que podem ajudá­lo a pensar sobre o cliente em termos narrativos. A história,
metas, preocupações e aspirações do cliente são essenciais para determinar o curso do tratamento. Quando existe
um desequilíbrio entre sua percepção e a percepção do cliente do que é necessário, os tratamentos provavelmente
serão inúteis (Mattingly, 1991). Uma percepção compartilhada do que é necessário pode ser mais bem alcançado
por meio de um diálogo entre você e o cliente.
As  entrevistas  são  estratégias  estruturadas  para  envolver  o  cliente  no  diálogo,  embora  funcionem  melhor
quando acontecem como uma conversa corriqueira em vez de uma sessão formal de perguntas e respostas. Uma
entrevista  sempre  deve  ocorrer  no  início  do  processo  de  tratamento.  No  início  do  tratamento,  uma  das  metas
importantes de uma entrevista é reunir informações específicas sobre o cliente. Dessa maneira, uma entrevista é
um dos muitos procedimentos que podem ser empregados na avaliação abrangente de um cliente. No entanto,
como se trata de uma interação entre você e o cliente, uma entrevista também é uma técnica que pode ter valor
terapêutico por si só. No contexto de uma entrevista, você e o cliente podem, em conjunto, começar a construir
uma nova história de vida para o cliente (Mattingly & Fleming, 1994).

QUANDO E A QUEM ENTREVISTAR
A Entrevista Inicial: Entrevista como Avaliação
Como a entrevista é parte integrante de uma avaliação abrangente do funcionamento ocupacional de um cliente,
ela acontece com maior frequência no início de seu trabalho com um cliente. Durante essa interação inicial, sua
meta  consiste  em  começar  a  compreender  a  história  do  cliente  (veja  o  Boxe  34.1).  A  segunda  meta,  mas
correlata, consiste em começar a construir um relacionamento colaborativo com o cliente. Estas e outras metas
da entrevista serão debatidas mais adiante nesta seção.

Durante o Curso da Terapia: Entrevista como Tratamento
Embora a entrevista quase sempre seja feita no início de um processo de tratamento, este não é o único momento
em que ela pode ser apropriada. Uma entrevista que acontece após o início de seu trabalho com o cliente pode
ser  tanto  uma  forma  de  reavaliação  como  de  tratamento.  Essas  entrevistas  são  usualmente  menos  estruturadas
que o processo de obtenção de dados utilizado durante a fase de avaliação formal inicial. Esse tipo de interação
mais informal pode envolver você e o cliente na revisão do que aconteceu até o momento e na antecipação e no
planejamento para o futuro. Essa discussão pode ajudar o cliente a construir uma imagem de um eu futuro que
seja  capaz  de  fazer  mais  do  que  o  cliente  consegue  realizar  agora.  Essas  imagens  são  importantes  para
transformar  o  tratamento  em  algo  com  que  o  cliente  possa  se  comprometer  e  investir  (Helfrich  &  Kielhofner,
1994; Polkinghorne,  1996).  Além  disso,  revisar  seu  trabalho  em  conjunto  pode ser uma estratégia útil quando
você parece estar em um “beco sem saída”, quando parece que o tratamento não está progredindo. Em conjunto,
você e o cliente podem perguntar: “Por que isto não está funcionando?” e “O que podemos fazer para tornar as
coisas melhores?” Neste sentido, a entrevista é um instrumento colaborativo que é utilizado repetidamente por
todo o processo de tratamento.

NOTAS PRÁTICAS

Em minha prática, quando trabalhei em uma unidade de internação de pacientes psiquiátricos, uma entrevista
quase sempre era minha primeira interação significativa com um novo paciente. Antes de administrar qualquer
outra  avaliação,  eu  me  sentava  com  o  paciente  para  conversar.  Quem  é  esta  pessoa?  O  que  a  trouxe  para
este  lugar?  Com  o  que  a  pessoa  se  preocupa?  Para  onde  a  pessoa  espera  ir  a  partir  daqui?  As  respostas
para  estas  perguntas  eram  importantes  para  modelar  as  recomendações  que  eu  faria  para  o  trabalho  que
poderíamos executar juntos no tempo que tivéssemos. AH

Entrevistando Adolescentes e Adultos
Muitos  adolescentes  mais  velhos  e  adultos  que  você  encontrará  na  prática  são  candidatos  apropriados  para  a
entrevista.  As  técnicas  para  entrevistar  que  são  discutidas  mais  adiante  nesta  seção  se  aplicam,  em  sua  maior
parte, para a entrevista de indivíduos dessas idades. No entanto, algumas pessoas não são candidatas adequadas
para  entrevistas  ou  devem  ser  entrevistadas  apenas  em  situações  muito  bem  estruturadas.  Por  exemplo,  os
indivíduos  com  depressão  grave  podem  ter  dificuldade  de  se  concentrar  e  de  responder  as  perguntas  da
entrevista;  pessoas  com  mania  podem  ficar  muito  distraídas  por  estímulos  externos  para  participar  de  uma
entrevista. Pessoas com psicose podem apresentar pensamento tão desorganizado que suas respostas às perguntas
são difíceis de compreender. Pessoas com déficits expressivos ou receptivos de linguagem (p. ex., afasia) tanto
podem não compreender as perguntas como podem não ser capazes de responder, mesmo quando compreendem.
Se uma entrevista é conduzida como uma conversa, um tempo em que você e o cliente estão indo “conversar”,
em vez de uma avaliação formal do cliente, pode­se prosseguir ou interromper a entrevista (quando isto parece
necessário) sem que o cliente pense que fracassou na avaliação.

Entrevistando Crianças e Adolescentes Jovens
Embora  a  pediatria  seja  uma  das  maiores  áreas  de  prática  na  terapia  ocupacional,  até  recentemente  poucos
procedimentos  de  entrevista  haviam  sido  desenvolvidos  para  a  obtenção  de  dados  sobre  o  comportamento
ocupacional  das  crianças  diretamente  a  partir  delas.  Foram  feitos  alguns  avanços  no  desenvolvimento  da
entrevista e de outros procedimentos de autorrelato para uso com crianças; alguns desses procedimentos serão
discutidos mais adiante no capítulo.
As  crianças  representam  um  desafio  único  para  o  entrevistador.  A  capacidade  das  crianças  de  descreverem
suas experiências e seus sentimentos depende de sua aquisição de habilidades cognitivas, linguísticas e sociais
necessárias  (Krahenbuhl  &  Blades,  2006;  Stone  &  Lemanek,  1990).  Antes  de  7  ou  8  anos  de  idade,  muitas
crianças  se  descrevem  apenas  em  termos  das  características  e  comportamentos  observáveis  e  fazem
diferenciações  entre  elas  e  os  outros  com  base  nestes  traços  observáveis  em  vez  de  estados  internos.  Por
exemplo,  uma  criança  jovem  pode  ser  capaz  de  se  descrever  em  relação  aos  atributos  físicos  (p.  ex.,  “Tenho
olhos azuis.”), posses (p. ex., “Tenho um gato.”) ou atividades preferidas (p. ex., “Gosto de andar de bicicleta.”).
No entanto, estas noções sobre si própria não estão integradas em um autoconceito global (Stone & Lemanek,
1990). Além disso, as crianças jovens podem ter dificuldade em identificar ou comunicar verbalmente seu estado
emocional subjetivo (LaGreca, 1990). As crianças jovens também têm dificuldade em relacionar os eventos em
uma ordenação temporal, principalmente se os eventos aconteceram no passado (relativamente) distante.
Em torno dos 8 anos de idade, as crianças adquirem uma sensação mais global de si próprias. Depois dessa
idade,  as  crianças  são  mais  capazes  de  relatar  seus  pensamentos  e  sentimentos  e  fornecer  informações  mais
exatas sobre diversas experiências e situações. Durante a adolescência, a capacidade de autorreflexão aumenta
ainda mais. Os adolescentes têm a capacidade de se descrever em termos psicológicos abstratos e interpessoais
em vez dos termos concretos e físicos utilizados por crianças mais jovens. Além disso, os adolescentes começam
a avaliar seus próprios pensamentos e comportamentos de maneira crítica e a analisar as reações dos outros a seu
comportamento (Stone & Lemanek, 1990). Dessa maneira, à medida que a autoconsciência aumenta, as crianças
com mais idade e os adolescentes mais jovens são capazes de responder as questões da entrevista com crescente
sofisticação. No entanto, o uso de comparações sociais e a maior consciência psicológica que surge à medida que
as  crianças  envelhecem  podem  contribuir  para  uma  tendência  a  responder  as  perguntas  da  entrevista  de  uma
maneira socialmente desejável (Stone & Lemanek, 1990).
Outros  fatores  podem  influenciar  a  maneira  pela  qual  as  crianças  e  os  adolescentes  respondem  durante  as
situações  de  entrevista.  Um  dos  fatores  mais  importantes  a  considerar  é  o  desequilíbrio  de  poder  inerente  ao
relacionamento entre uma criança e um entrevistador adulto (Cohn, 1994). Em geral, os adultos têm maior poder
social do que as crianças; as crianças são, em sua maioria, socializadas para responder aos adultos da maneira
que elas pensam que os adultos desejam. Por causa do desequilíbrio de poder, quer real, quer apenas percebido,
as crianças podem não intencionalmente criar respostas para as perguntas de modo a agradar um entrevistador
adulto (Cohn, 1994; Krahenbuhl & Blades, 2006).
Estabelecer a comunicação e a sensação de confiança é fundamental para a entrevista ser bem­sucedida. Ao
lidar com crianças, envolver a criança em uma atividade de brincadeira ou uma discussão sobre o livro ou filme
favorito antes da entrevista pode ajudar a estabelecer a comunicação (veja o Boxe 34.2). Com os adolescentes, a
comunicação  honesta  sobre  os  motivos  da  entrevista  e  sua  natureza  confidencial  pode  ajudar  a  estabelecer  a
confiança. A comunicação apropriada para a idade é outro aspecto para uma entrevista bem­sucedida. Com as
crianças jovens, pode ser efetivo o uso de frases curtas e vocabulário simples e perguntas diretas e concretas (p.
ex.,  “O  que  você  faz  na  escola?).  Os  adolescentes  podem  comumente  responder  perguntas  abertas  mais
complexas (p. ex., “Fale­me sobre como a escola está sendo para você.”)

NOTAS PRÁTICAS

Em  vez  de  trabalhar  imediatamente  sobre  o  que  uma  criança  ou  adolescente  está  tendo  dificuldade  em
realizar, comece perguntando à criança o que ela gosta e o que ela faz bem. Isto faz a criança saber que você
está  igualmente  interessada  em  suas  capacidades,  bem  como  em  seus  desafios,  e  cria  uma  interação
terapêutica segura e positiva. Quando conversar sobre os desafios, em vez de pedir às crianças que relatem o
que elas têm dificuldade de fazer, pergunte o que torna difícil que elas realizem no melhor de sua capacidade.
Isto permite que a criança aborde o ambiente, além de suas capacidades. JK

Por  fim,  o  processo  de  reunir  informações  relacionadas  às  ocupações  das  crianças  deve  envolver  outras
pessoas  do  ambiente  da  criança,  incluindo  pais  e  professores  (LaGreca,  1990).  Como  as  crianças  estão  sob  o
controle social de outros, seu comportamento em determinado ambiente poderia não ser o mesmo se estivessem
em outro ambiente. Por conseguinte, é importante reunir as informações a partir de múltiplos contextos dentro
dos quais a criança atua (veja o Boxe 34.3). Além disso, como as crianças são encaminhadas para tratamento por
outras  pessoas,  comumente  um  dos  pais,  é  importante  compreender  e  respeitar  a  perspectiva  das  pessoas  que
podem estar perturbadas pelo comportamento da criança (LaGreca, 1990).

POR QUE ENTREVISTAR

Compreendendo a História do Cliente
O motivo isolado mais importante para entrevistar o cliente é que você pode compreender melhor como o cliente
enxerga as coisas. Como discutido previamente, uma entrevista é uma oportunidade para que o cliente conte a
sua  história.  Mattingly  (1991)  observou:  “uma  incapacidade  é  algo  que  interrompe  e  modifica  de  maneira
irreversível  a  história  de  vida  de  uma  pessoa”;  “a  terapia  pode  ser  vista  como  uma  história  curta  dentro  da
história  maior  de  vida  do  cliente”  (p.  1.000).  Durante  o  curso  da  entrevista,  você  está  tentando  revelar  a
“mancha” da história do cliente. Antes da entrevista, você pode ter algumas informações gerais sobre o cliente.
Durante a entrevista, você quer conhecer as particularidades da história. Assim, suas perguntas principais devem
ser as seguintes:

NOTAS PRÁTICAS

Quando  eu  era  terapeuta  ocupacional  em  uma  escola,  entrevistar  pais  e  professores  era  parte  essencial  de
meu trabalho. No entanto, era difícil adaptar uma entrevista em uma reunião cheia de pais e professores. Ao
dividir as questões em partes menores que poderiam ser respondidas durante um telefonema rápido, por meio
de  e­mail,  ou  em  uma  discussão  curta  no  corredor,  na  sala  de  aula  ou  no  consultório,  eu  consegui  reunir
informações suficientes para preencher uma avaliação. JK.

O que aconteceu com você?
Como você veio para a terapia ocupacional?
Como era um dia típico para você antes de você vir para cá (hospital, clínica etc.)?
O que era e o que é importante para você?
Onde você espera ir depois de sair daqui?

Perguntar e valorizar as respostas a essas perguntas são o que significa ser “centrado no cliente” (Law, 1998).
A terapia ocupacional centrada no cliente é “uma abordagem de trabalho que abraça uma filosofia de respeito e
parceria com as pessoas que recebem o atendimento” (Law, Baptiste & Mills, 1995, p. 253). Os tratamentos da
terapia  ocupacional  centrada  no  cliente  são  individualizados  e  desenvolvidos  em  colaboração  com  o  cliente.
Uma  entrevista  pode  ser  a  primeira  etapa  efetiva  na  individualização  e  priorização  do  serviço  para  um
determinado cliente.

Construindo a Aliança Terapêutica
Como a entrevista é uma interação entre duas pessoas, um relacionamento começa a se desenvolver durante o
curso  da  entrevista.  Durante  a  entrevista,  você  quer  estabelecer  uma  relação  com  o  cliente  que  os  ajudará  a
estabelecer e atingir juntos as metas do tratamento. A maneira pela qual você conduz a entrevista irá fomentar ou
inibir o desenvolvimento dessa relação (Haidet & Paterniti, 2003). À medida que você conversa com um cliente,
sua capacidade de comunicar uma sensação de preocupação e respeito pelo indivíduo e pelas informações que
estão sendo compartilhadas e sua capacidade de ser real e genuíno na interação percorrerão um longo caminho
para o estabelecimento deste relacionamento. O cliente virá até você para pedir ajuda. Para que o cliente sinta
que  você  é  alguém  que  pode  ser  valioso,  deve  ser  desenvolvida  uma  sensação  de  confiança,  segurança  e
colaboração entre vocês dois (Okun, 1997). Uma entrevista pode estimular uma sensação de colaboração entre
você e o cliente por proporcionar uma oportunidade de comunicar que você se preocupa com o que é importante
para  o  cliente.  Quanto  melhor  você  estabelecer  um  relacionamento  colaborativo  com  o  cliente,  maior  será  a
probabilidade de você alcançar as metas do tratamento (Neistadt, 1995; Tickle­Degnen, 1995).
Reunindo Informações e Desenvolvendo o Perfil Ocupacional
As entrevistas da terapia ocupacional são utilizadas para obter informações sobre o funcionamento do cliente nas
ocupações.  Muitas  entrevistas  consideram  o  funcionamento  atual  ou  recente  do  cliente;  algumas  também
assumem  uma  perspectiva  histórica  e  procuram  compreender  o  funcionamento  do  cliente  ao  longo  do  tempo.
Embora  as  perguntas  específicas  variem  de  acordo  com  as  diferentes  entrevistas,  estas  solicitam,  em  geral,
informações sobre os padrões de desempenho do cliente, como o uso diário do tempo, o envolvimento no papel
atual  e  no  pregresso  (p.  ex.,  trabalhador,  estudante,  do  lar,  pai),  a  participação  em  atividades  de  lazer  e  os
valores, as metas e a sensação de competência do cliente em relação às ocupações. Algumas entrevistas também
fazem perguntas sobre o ambiente atual do cliente (humano e não humano), a fim de avaliar se o ambiente apoia
ou restringe o funcionamento da pessoa. Estas informações formam o perfil ocupacional (AOTA, 2002).
É  importante  reunir  informações  sobre  o  funcionamento  do  cliente  no  passado,  porque  o  funcionamento
pregresso  frequentemente  é  um  dos  melhores  preditores  do  funcionamento  futuro  (Fig.  34.1).  Os
comprometimentos,  as  limitações  e  as  restrições  associadas  a  uma  determinada  condição  de  saúde  podem
predizer, em parte, o futuro de um cliente (Organização Mundial de Saúde, 2001). Contudo, os sucessos de uma
pessoa no passado, principalmente no passado recente, são, com frequência, recursos aos quais ela pode recorrer.
As metas e a sensação de competência de uma pessoa são indicadores do desejo e da motivação da pessoa para
retornar à vida anterior.

Observando o Comportamento
Durante  o  curso  de  uma  entrevista,  você  tem  a  oportunidade  de  observar  o  comportamento  do  cliente.  A
capacidade  de  participação  do  cliente  em  uma  entrevista  pode  revelar  muito  a  respeito  de  seu  funcionamento
atual.  Você  será  capaz  de  fazer  observações  sobre  o  nível  de  energia,  vigor,  afeto,  compreensão,  memória,
concentração, organização do raciocínio, aparência física e comportamento interpessoal do cliente.
O cliente é capaz de se envolver ativamente com você em uma entrevista de 45 minutos sem fadiga?
O cliente parece deprimido ou agitado?
A  memória  do  paciente  parece  intacta?  Por  exemplo,  o  cliente  é  capaz  de  se  lembrar  das  datas  de  seus
últimos empregos e relacioná­las para você em ordem cronológica?
A pessoa compreende as perguntas que estão sendo formuladas?
O cliente é capaz de contar sua história de modo que você possa compreender e acompanhar?
O  cliente  raciocina  de  maneira  organizada  e  direcionada  para  a  meta  ou  exibe  raciocínio  tangencial  (i.e.,
“fora de curso”)?
O cliente está vestido e arrumado de maneira adequada para a situação ou parece desarrumado?
O cliente é amistoso e acessível às informações ou parece raivoso, hostil e resiste a ser entrevistado?

Quando você faz esses tipos de observações comportamentais, uma entrevista pode servir como um tipo de
procedimento  de  investigação  e  dar  uma  indicação  de  que  poderia  ser  apropriado  administrar  outra  avaliação
adicional das habilidades de desempenho. Além disso, até que ponto o cliente se envolve com você durante a
entrevista pode ser indicativo de até que ponto ele se envolverá no tratamento. Logicamente, se o cliente parece
estar na defensiva ou resistente durante a entrevista, é importante se perguntar se é algo que você está fazendo
que o coloca na defensiva.

Identificando as Forças do Cliente e as Potenciais Áreas Problemáticas
À medida que a entrevista progride e você começa a construir uma compreensão mais profunda da história da
pessoa  e  a  observar  seu  comportamento,  você  deve  começar  a  formar  uma  percepção  inicial  das  forças  ou
vantagens do cliente, bem como dos problemas que podem ser abordados pelas técnicas da terapia ocupacional.
Todos os clientes, independente da incapacidade, trazem determinadas forças (competências atuais, experiências
pregressas  e  suportes  e  recursos  ambientais)  para  o  trabalho  com  você.  É  importante  identificar  essas  forças
precocemente, pois o cliente poderá recorrer a esses trunfos ao longo do tratamento.
Fig. 34.1 Uma terapeuta ocupacional entrevistando os pais a respeito de seu filho de quatro anos de idade.

Um  conjunto  de  problemas  também  começará  a  tomar  forma  a  partir  do  que  o  cliente  diz  e  do  que  você
observa. É importante lembrar, porém, que esta ideia inicial sobre os problemas é uma tentativa e está sujeita à
revisão  à  medida  que  você  e  o  cliente  trabalham  juntos.  Além  disso,  sua  perspectiva  sobre  os  problemas
enfrentados pelo cliente pode não ser a mesma perspectiva do cliente. Você precisa compartilhar sua impressão
inicial  com  o  cliente  para  confirmar  o  quanto  vocês  veem  as  coisas  da  mesma  maneira.  Isto  envolve  tanto
confirmar o que você percebeu como as principais preocupações do cliente como compartilhar suas impressões e
observações ao longo da entrevista em relação às forças e aos problemas potenciais do cliente. Ao se engajar no
estabelecimento mútuo do problema, você estabelece as bases para um relacionamento colaborativo centrado no
cliente.  Próximo  ao  final  da  entrevista,  você  pode  dizer  para  o  cliente:  “Bem,  a  partir  do  que  você  me  disse,
parece que você está preocupado com... e me parece que você também está tendo alguma dificuldade com...” A
meta é que os dois cheguem a um acordo sobre os problemas enfrentados pelo cliente.

Esclarecendo Seu Papel no Ambiente
Você também pode utilizar o final da entrevista para descrever e esclarecer o seu papel na instituição e o trabalho
que  você  e  o  cliente  podem  realizar  em  conjunto.  Não  fique  surpreso  se  o  cliente  não  souber  o  que  fazem  os
terapeutas  ocupacionais.  Nesse  momento,  você  pode  explicar  quais  serviços  são  oferecidos  pela  terapia
ocupacional,  quais  opções  podem  estar  disponíveis  para  o  cliente,  se  você  e  outro  profissional  (p.  ex.,  um
fisioterapeuta, enfermeira ou assistente social) podem vir a trabalhar em conjunto com o cliente, ou se você pode
encaminhar  o  cliente  para  outro  profissional  para  um  serviço  que  a  terapia  ocupacional  não  forneça.  É  nesse
ponto que você pode fazer as recomendações iniciais sobre os possíveis tratamentos.

Estabelecendo Prioridades para o Tratamento
Uma  vez  que  você  e  o  cliente  concordam  sobre  o  trabalho  a  ser  realizado,  que  você  explicou  seu  papel  e  os
serviços  que  a  terapia  ocupacional  pode  oferecer  e  que  você  fez  algumas  recomendações  iniciais  para  o
tratamento,  você  e  o  cliente  podem,  então,  trabalhar  em  cooperação  para  estabelecer  as  prioridades  do
tratamento. Estar centrado no cliente significa que as prioridades do cliente devem ser as suas prioridades. No
entanto,  é  importante  reconhecer  outros  fatores  que  podem  influenciar  as  recomendações  que  você  faz.  Por
exemplo, você pode ser influenciado pelos serviços que são fornecidos com maior facilidade em sua instituição,
seus próprios interesses e competências, e o custo e o reembolso, entre outras coisas. As metas e as prioridades
do  cliente  são  centrais  na  determinação  do  curso  do  tratamento.  Envolver  o  cliente  no  estabelecimento  e  na
priorização de metas constitui uma boa maneira de finalizar uma entrevista.

COMO ENTREVISTAR
Pode parecer que a entrevista deveria acontecer naturalmente; afinal, você conversa com pessoas todos os dias.
Contudo, grande parte de nossa comunicação cotidiana com outras pessoas é bastante superficial. Quando você
realiza  uma  entrevista  com  um  cliente,  você  está  se  envolvendo  em  um  diálogo  com  a  finalidade  expressa  de
tentar compreender a outra pessoa, de modo que você possa ser útil (Coulehan et al., 2001; Okun, 1997). Dessa
maneira, a “comunicação terapêutica” difere da conversa do dia a dia em aspectos fundamentais. Desenvolver as
habilidades de comunicação necessárias para se tornar um entrevistador eficiente exige tempo e experiência. As
habilidades  para  a  entrevista  efetiva  e  as  maneiras  para  estruturar  uma  entrevista  terapêutica  são  discutidas
adiante.

As Habilidades para a Entrevista Efetiva

Preparação
Preparar­se  para  a  entrevista  é  uma  importante  primeira  etapa.  Antes  de  iniciar  uma  entrevista,  você  deve
preparar  a  si  próprio,  o  cliente  e  o  ambiente.  Ao  se  preparar,  você  deve  ter  alguma  noção  das  perguntas  que
deseja fazer ao cliente. Vários procedimentos de entrevista em terapia ocupacional foram publicados nos últimos
anos, os quais serão debatidos mais adiante nesta seção. É preferível utilizar uma das entrevistas existentes em
vez  de  desenvolver  a  sua  própria,  pois  estes  procedimentos  geralmente  foram  submetidos  a  exames  de
confiabilidade e validade. Se você é um entrevistador novato, precisará praticar antes de entrevistar seu primeiro
cliente.  Observar  entrevistadores  experientes,  reparando  como  eles  estruturam  a  entrevista,  fazem  perguntas  e
respondem às informações que o cliente compartilha, é uma boa maneira de desenvolver uma noção de como
flui uma entrevista. Você também pode praticar a administração de uma entrevista com um colega ou supervisor
e fazer com que esta pessoa lhe forneça uma retroalimentação. Fazer um videoteipe e criticar suas práticas de
entrevistas também pode ajudar a aprimorar suas habilidades de entrevistador.
Antes de realizar uma entrevista com um cliente, você deve consultar toda a informação preliminar disponível
sobre  ele.  Esta  informação  pode  fornecer­lhe  algumas  ideias  iniciais  sobre  as  áreas  que  você  pode  abordar
durante  a  entrevista.  Além  disso,  as  informações  sobre  o  diagnóstico  ou  o  problema  apresentado  pelo  cliente
podem ajudá­lo a antecipar quanto o cliente pode participar ativamente da entrevista, se o cliente pode tolerar
apenas uma entrevista curta, ou se entrevistar o cliente pode não ser apropriado nesse momento. Em ambientes
como hospitais, clínicas de repouso ou programas­dia, a equipe de enfermagem ou outros profissionais que estão
em contato próximo com o cliente podem dar informações úteis sobre como ele está passando naquele dia.
Além de se preparar, você deve preparar o cliente para a entrevista. Ao se encontrar pela primeira vez com um
novo  cliente,  certifique­se  de  se  apresentar  e  de  falar  resumidamente  sobre  seu  papel  na  instituição.  Peça
permissão para fazer a entrevista, apresentando resumidamente ao cliente o conteúdo e a finalidade da entrevista.
Dependendo das restrições do ambiente e de tempo, você pode realizar uma entrevista “sucinta” ou agendar um
horário para um momento posterior. Agendar um horário (mesmo que apenas para mais tarde, no mesmo dia)
pode  fornecer  um  grau  de  controle  para  seu  cliente;  então,  ele  tem  alguma  escolha  sobre  quando  irá  vê­lo.
Alguns  horários  do  dia  são  melhores  que  outros  para  muitas  pessoas.  Por  exemplo,  muitas  pessoas  com
depressão se sentem pior pela manhã e experimentam melhora em seu humor e nível de energia à medida que
avança o dia. Ao permitir que o cliente tenha algum grau de controle sobre uma situação em que ele pode sentir­
se  sem  controle,  você  ajudará  a  estabelecer  o  tom  para  um  relacionamento  colaborativo.  Por  fim,  você  pode
precisar  dar  alguma  atenção  ao  ambiente  em  que  realizará  a  entrevista.  Obviamente,  um  espaço  privativo  é  o
mais desejável. Algumas das perguntas que você fará são bastante pessoais, e um espaço privativo fará com que
vocês se sintam mais confortáveis. Você não deve fazer suposições sobre o que pode ou não ser uma pergunta
pessoal ou difícil para o cliente. Um cliente pode ter uma resposta emocional a uma determinada questão que
você não previu. As cadeiras devem ficar a uma distância apropriada (três ou quatro passos). A sala deve ter uma
temperatura confortável para ambos e deve ser bem iluminada. Tenha lenços de papel e água à disposição. Se
não for possível contar com um espaço privativo, seria adequado criar alguma sensação de privacidade em um
espaço  mais  aberto,  arrumando  as  cadeiras  em  um  canto  da  sala.  Pode  haver  situações  em  que  você  precise
realizar  uma  entrevista  em  um  ambiente  em  que  a  privacidade  é  muito  limitada;  por  exemplo,  em  uma
enfermaria, você pode precisar entrevistar um cliente em um espaço semiprivado porque ele não pode deixar o
leito. Em uma situação desse tipo, você desejará se certificar de que o cliente se sente confortável em responder
às suas perguntas quando outros podem ouvir a conversa de vocês.

Questionamento
Entrevistar envolve formular perguntas. A maneira pela qual você faz as perguntas influenciará a qualidade e a
quantidade de informações que você obtém e, dessa maneira, o nível de compreensão da história do cliente que
você pode atingir. Como você faz as perguntas também influenciará o modo como você é percebido pelo cliente
e  influenciará  o  desenvolvimento  de  sua  relação  com  o  cliente  (Coulehan  et  al.,  2001).  Em  geral,  perguntas
abertas  incentivam  o  cliente  a  contar  sua  história  e  são  mais  prováveis  de  fornecer  informações  significativas
sobre  um  cliente  do  que  as  questões  fechadas  que  exigem  apenas  sim  ou  não  como  resposta  ou  uma  resposta
muito curta. Por exemplo, a pergunta “Você gosta de seu trabalho?” pode ser respondida com “sim” ou “não”.
“Fale­me  sobre  o  que  acha  a  respeito  de  seu  trabalho”  é  uma  questão  que  irá  resultar  em  uma  resposta  mais
detalhada.  Além  disso,  o  uso  de  perguntas  de  acompanhamento  e  de  sondagem  (p.  ex.,  “Fale­me  mais  sobre
isto”) incentiva o cliente a relatar sua história e ajuda a estabelecer a empatia (Coulehan et al., 2001). Durante
uma  entrevista,  é  provável  que  você  venha  a  formular  dois  tipos  de  perguntas:  aquelas  que  são  de  natureza
factual ou descritiva (p. ex., “O que você faz no trabalho?”) e aquelas que se destinam a fornecer dados mais
narrativos.  As  perguntas  narrativas  fornecem  dados  sobre  eventos  da  vida  do  cliente  e  sobre  as  percepções  e
motivações  dele  em  relação  aos  eventos  (p.  ex.,  “Fale­me  sobre  um  momento  em  que  o  trabalho  estava  indo
muito  bem  para  você.”).  Kielhofner  e  Mallinson  (1995)  sugerem  que  a  entrevista  efetiva  envolve  uma
alternância  entre  essas  duas  maneiras  de  questionar.  Podem  existir  clientes  para  os  quais  é  apropriada  uma
abordagem  factual,  mais  estruturada  para  o  questionamento.  Por  exemplo,  um  cliente  cujo  pensamento  está
desorganizado pode ter dificuldade em responder de maneira coerente perguntas mais abertas ou narrativas, mas
pode responder uma pergunta estruturada, como “Onde você mora?”. Comumente, isto ficará evidente quando
você precisar utilizar uma abordagem mais estruturada para a entrevista.
Durante a entrevista, você deseja saber se as perguntas que está fazendo estão deixando o cliente ansioso ou
desconfortável. Sua intenção é tranquilizar o cliente. Para fazer isto, é melhor que as perguntas sejam abertas,
claras, únicas (isto é, você faz apenas uma pergunta por vez) com isenção, incentivando o cliente a contar sua
história. Você quer evitar colocar o cliente na defensiva. Por vezes, perguntas que começam com “por que” (p.
ex., “Por que você fez isto?”) podem ter o efeito inesperado de fazer com que os clientes se sintam na obrigação
de  dar  uma  explicação  sobre  seus  sentimentos  ou  comportamentos  (Okun,  1997).  Principalmente  durante  a
entrevista inicial, é mais útil assumir uma posição neutra e sem julgamento.

Respondendo
Uma  entrevista  precisa  ser  mais  que  uma  série  de  perguntas  de  sua  parte,  entremeadas  com  as  respostas  do
cliente. Você precisará responder às informações que o cliente está compartilhando com você. Existem muitas
maneiras  pelas  quais  você  poderia  responder.  Com  frequência,  em  decorrência  da  vontade  de  ajudar,  nosso
impulso é responder com um conselho ou sugestão. No entanto, principalmente durante a entrevista inicial, você
deve resistir a este impulso, pelo menos até que tenha chegado ao término da entrevista (Coulehan et al., 2001).
Antes  disso,  é  duvidoso  que  você  venha  a  obter  informações  suficientes  sobre  as  quais  possa  basear  seu
aconselhamento. Assim, mesmo que você deseje resistir a dar o aconselhamento até que tenha alcançado alguma
compreensão  da  história  do  cliente,  ainda  assim  você  precisa  responder.  Durante  a  entrevista,  suas  respostas
devem  ser,  principalmente,  tentativas  de  parafrasear  o  que  o  cliente  acabou  de  dizer.  Parafrasear  é  mais  que
apenas repetir o que o cliente disse. Envolve tentar captar a essência do que ele disse e reafirmar isto com suas
próprias palavras para comunicar seu desejo de compreender (Coulehan et al., 2001). Parafrasear ajuda você a
comunicar ao cliente que ouviu, compreendeu e valorizou a informação que está sendo compartilhada com você.
Parafrasear também permite que você confirme que, de fato, compreendeu claramente o cliente.
Existem dois tipos gerais de respostas que você pode utilizar durante uma entrevista: respostas de conteúdo e
respostas afetivas. As respostas de conteúdo são utilizadas quando você quer esclarecer os fatos ou comunicar
que  compreendeu  o  que  o  cliente  quis  dizer.  Uma  resposta  de  conteúdo  poderia  começar  “Então,  você  está
dizendo  que...”.  As  respostas  de  conteúdo  servem  ao  objetivo  de  esclarecer  informações  e  significado.  As
respostas afetivas são empregadas quando você quer demonstrar um tom de afeto ou um sentimento subjacente
ao que o cliente está comunicando. Uma resposta afetiva pode começar com “Parece que você está sentindo...”
ou “Eu teria me sentido muito... nesta situação”. Uma resposta afetiva deve ser formulada de modo experimental
até que você tenha confirmado que o cliente sente dessa maneira. As respostas afetivas servem ao objetivo de
comunicar que você está tentando compreender e que está preocupado com o que o cliente sente.

Dar Atenção e Observar
Dar atenção envolve o uso de comportamentos não verbais e verbais que ajudam a comunicar seu interesse pelo
cliente  e  podem  facilitar  o  desenvolvimento  da  comunicação  terapêutica.  Os  comportamentos  não  verbais
incluem posturas e movimentos da face e do corpo, bem como as qualidades da voz, como tom, intensidade e
velocidade (Sommers­Flanagan & Sommers­Flanagan, 2003; Tickle­Degnen, 1995). Colocar sua cadeira diante
da  cadeira  do  cliente  ou  ligeiramente  angulada,  com  cerca  de  1  metro  de  distância,  permite  que  você  veja
totalmente o cliente e que o cliente o veja. Você pode comunicar seu interesse pelo cliente ao fazer contato visual
frequente. Outros comportamentos não verbais que comunicam interesse incluem sinalizar com a cabeça, sorrir e
inclinar­se para a frente. Comportamentos verbais, como dizer “uh­huh”, “humm”, “sim” ou “prossiga”, fazem o
cliente saber que você está ouvindo e o incentivam a continuar sua história. Tickle­Degnen (1995) observa que o
tom de voz é um importante atributo a que se deve prestar atenção. Um tom de voz carinhoso nem sempre é o
mais apropriado. Em vez disso, o tom de voz que é genuíno e transmite preocupação com o cliente pode ser mais
efetivo. Com frequência, os entrevistadores efetivos acomodam seus corpos, movimentos e o tom de voz para
estar “em sintonia” com os do cliente (Bradburn, 1992; Tickle­Degnen, 1995).
Dar  atenção  também  envolve  observar  como  o  cliente  parece  estar  se  sentindo  à  medida  que  avança  a
entrevista. O cliente parece estar ficando fatigado? O conteúdo da entrevista parece ser emocionalmente difícil
para  o  cliente?  Se  você  percebe  que  o  cliente  está  considerando  a  entrevista  difícil,  você  deve  perguntar  para
verificar  isto.  Por  exemplo,  perguntas  como  “Como  você  está?”  ou  “Você  está  ficando  cansado?”  comunicam
que  você  está  preocupado  com  o  cliente.  Um  efeito  colateral  comum  de  medicamentos  psiquiátricos  é  o
ressecamento  da  boca;  oferecer  um  copo  de  água  é  outra  maneira  de  demonstrar  que  você  está  atento.  A
observação efetiva envolve observar o comportamento do cliente à medida que a entrevista progride.

Audição Efetiva
Por  fim,  embora  pareça  óbvio  dizer  isto,  durante  toda  a  entrevista  você  precisa  ouvir  o  cliente.  Ouvir
efetivamente  permite  que  você  responda  de  maneira  efetiva.  Dar  rigorosa  atenção  tanto  ao  conteúdo  como  ao
sentimento ou afeto subjacente consome energia (Sommers­Flanagan & Sommers­Flanagan, 2003). Ouvir é mais
difícil do que parece, porque existem muitas distrações para a audição efetiva. Podem existir distrações externas,
como atividade no ambiente, ou distrações internas, como seus pensamentos a respeito de um encontro do qual
você acabou de chegar ou sobre seu próximo cliente. Mesmo quando sua atenção está focada no cliente, podem
existir distrações. Denton (1987) identificou alguns bloqueios para a audição efetiva ao cliente. Ela os chama de
pensamento sobre o cliente, pensamento pela pessoa e pensamento antes da pessoa.
Pensar  sobre  a  pessoa  envolve  fazer  julgamentos  sobre  o  estilo  de  vida,  os  fundamentos  morais  e  as
motivações  do  cliente;  estes  julgamentos  podem  criar  distância  entre  você  e  o  cliente  e  interferir  em  sua
capacidade  de  compreender  a  perspectiva  do  cliente.  Quando  você  pensa  pela  pessoa,  você  pensa
prematuramente sobre as soluções para os problemas do cliente. Como um dos objetivos da entrevista consiste
em facilitar um relacionamento colaborativo com o cliente, oferecer soluções prematuramente diminui o papel
do  cliente  no  relacionamento  e  pode  reforçar  a  sensação  de  impotência  do  cliente.  Pensar  antes  da  pessoa
envolve  apressar  o  cliente  durante  a  sua  história  apenas  para  obter  os  fatos.  Isto  pode  acontecer  quando  você
sente  que  já  conhece  realmente  a  história,  quando  o  cliente  está  falando  muito  ou  colocando  detalhes
aparentemente  irrelevantes,  ou  quando  você  se  encontra  pressionado  pelo  tempo  (Denton,  1987;  Haidet  &
Paterniti, 2003). A verdade é que você nunca conhece realmente a história; a história de cada pessoa é única. No
entanto,  se  o  cliente  está  dando  mais  detalhes  do  que  você  precisa  no  momento  e  você  começa  a  ficar  sem
tempo,  você  pode  respeitosamente  redirecionar  o  cliente  ao  dizer:  “Posso  perceber  que  este  tema  é  muito
importante para você. Talvez devamos marcar outro horário para falarmos mais sobre isto. Agora, preciso fazer
algumas perguntas sobre outra coisa.”
Por  fim,  principalmente  quando  você  é  um  entrevistador  iniciante,  você  pode  distrair­se  da  audição  porque
está pensando sobre o que deve dizer em seguida. Se você está pensando sobre o que dizer em seguida, então
não está ouvindo o cliente. Um modo de melhorar suas habilidades de audição consiste em aprender a utilizar o
silêncio  de  maneira  efetiva.  Muitos  de  nós  se  sentem  desconfortáveis  com  o  silêncio  e  têm  a  necessidade  de
preencher  um  momento  silencioso  logo  que  ele  acontece.  No  entanto,  se  você  pode  se  sentir  confortável  ao
realizar uma breve pausa silenciosa para pensar sobre o que o cliente acabou de dizer e sobre o que você pode
dizer em seguida, então não precisará preparar sua próxima pergunta enquanto o cliente está falando. Você pode
até mesmo dizer para o cliente: “Estou apenas dando um tempo para pensar sobre o que você falou.” Raramente
você precisará de mais do que 10 segundos para fazer isto.

Estruturando a Entrevista
Independente do tipo de entrevista que você utiliza, existem três fases para uma entrevista: a abertura, o corpo da
entrevista e o fechamento (Sommers­Flanagan & Sommers­Flanagan, 2003).

Abertura
Na abertura da entrevista, você faz o cliente saber a finalidade da entrevista. Ainda que provavelmente já o tenha
feito quando marcou o horário para a entrevista, você pode querer se apresentar novamente, dizer novamente que
você é um terapeuta ocupacional e descrever resumidamente seu papel no processo. Você deve então explicar a
finalidade da entrevista e os tipos de pergunta que irá fazer.

Corpo
O  corpo  é  a  fase  de  exploração  e  desenvolvimento  da  entrevista,  o  momento  em  que  você  e  o  cliente  estão
construindo  ativamente  a  história  do  cliente.  Embora  procedimentos  específicos  de  entrevista  frequentemente
forneçam  uma  sequência  recomendada  de  perguntas,  é  uma  boa  ideia  iniciar  esta  fase  da  entrevista  com
perguntas neutras e relativamente genéricas que permitem que você comece a delinear a base da história. Como
você está interessado nas ocupações de um cliente, você pode começar perguntando como ele ocupa seu tempo
em  um  dia  típico.  Esta  pergunta  abrangente  tende  a  não  ser  ameaçadora,  porém  permite  que  você  comece  a
desenvolver um quadro sobre os pa péis do cliente. As perguntas subsequentes servem para fornecer detalhes.
Alguns clientes são muito abertos e capazes de relatar com facilidade suas histórias; outros precisarão de muito
apoio e estrutura. É durante esta fase que você necessitará de suas habilidades na audição, assistência, resposta e
questionamento.

Fechamento
Próximo  ao  final  da  entrevista,  você  precisará  começar  a  encerrar  a  sessão.  É  importante  não  terminar  a
entrevista  de  maneira  abrupta.  Certifique­se  de  que  dispõe  de  tempo  suficiente  para  resumir  as  informações,
identificar  temas  importantes  na  história  do  cliente  e  conversar  sobre  como  você  e  o  cliente  trabalharão  em
conjunto.  Com  frequência,  este  será  o  momento  em  que  você  e  o  cliente  começarão  a  estabelecer,  de  comum
acordo, as metas para o tratamento. À medida que a entrevista chega ao final, você deve deixar o cliente saber
quais serão as próximas etapas e quando você o verá novamente. Você pode marcar o horário de sua próxima
consulta. Você também deve agradecer ao cliente por compartilhar sua história com você.

ENTREVISTAS EM TERAPIA OCUPACIONAL
Durante  as  duas  últimas  décadas,  diversas  entrevistas  foram  desenvolvidas  para  uso  tanto  com  crianças  como
com  adultos.  As  entrevistas  que  são  resumidamente  revisadas  a  seguir  fornecem,  sem  exceção,  métodos  de
coleta  de  informações  diretamente  a  partir  do  cliente  ou  consumidor  do  serviço  pretendido.  Também  existem
entrevistas  que  permitem  que  você  colete  dados  a  partir  de  outros  informantes,  frequentemente  cuidadores  ou
pais. Por exemplo, a história da brincadeira (Behnke & Fetkovich, 1984) coleta informações a partir de um dos
pais sobre a participação da criança em brincadeiras. As entrevistas que coletam dados a partir de informantes
que não sejam o cliente do serviço pretendido não são descritas aqui, mas são revisadas em outros pontos por
todo o livro. Todas as entrevistas aqui revisadas podem ajudá­lo a desenvolver um perfil ocupacional do cliente e
demonstraram pelo menos evidência preliminar de confiabilidade e validade.

Entrevistas para Uso com Crianças e Adolescentes

A Entrevista no Ambiente Escolar
A  Entrevista  no  Ambiente  Escolar  –  School  Setting  Interview  (SSI)  (Hemmingsson,  Egilson,  Hoffman  &
Kielhofner,  2005)  é  uma  entrevista  colaborativa  que  permite  que  crianças  e  adolescentes  com  incapacidades
(inclusive incapacidades físicas, de desenvolvimento e emocionais/ comportamentais) descrevam o impacto do
ambiente  sobre  seu  funcionamento  nos  diferentes  ambientes  escolares  (p.  ex.,  sala  de  aula,  área  de  recreio,
ginásio, corredores) e identifiquem quaisquer necessidades de acomodação. Adequada para estudantes desde os
9 anos de idade até a universidade, a SSI exige aproximadamente 40 minutos para sua administração. A SSI foi
originalmente  desenvolvida  na  Suécia  e  foi  traduzida  para  o  inglês.  Os  estudos  indicam  que  a  SSI  tem  boa
confiabilidade de teste­reteste (Hemmingsson & Borrell, 1996), demonstra validade construída (Hemmingsson,
Kottorp, & Bernspång, 2004), mensura efetivamente as necessidades não atendidas de acomodações no ambiente
escolar para estudantes com incapacidades (Borg & Nålsén, 2003), e pode ser usada para examinar a adaptação
estudante­ambiente nos ambientes escolares (Hemmingsson & Borrell, 1996, 2000).

Avaliação do Papel do Adolescente
A Avaliação do Papel do Adolescente – Adolescent Role Assessment (ARA) (Black, 1976) é uma entrevista de
terapia  ocupacional  que  foi  especificamente  desenhada  para  adolescentes.  A  ARA  é  um  procedimento  de
entrevista semiestruturada que reúne informações sobre o envolvimento do papel ocupacional do adolescente ao
longo  do  tempo  e  através  dos  domínios.  As  21  perguntas  da  ARA  abrangem  seis  áreas:  brincadeira  infantil,
socialização  dentro  da  família,  funcionamento  escolar,  socialização  com  os  colegas,  escolha  ocupacional  e
trabalho adulto antecipado. Pesquisa inicial revelou que a ARA tinha confiabilidade teste­reteste aceitável, e os
escores da ARA demonstraram fazer a discriminação entre os adolescentes sob hospitalização psiquiátrica e os
adolescentes  não  hospitalizados  (Black,  1982).  Um  estudo  recente,  que  procurou  explorar  a  utilidade  da  ARA
como  uma  medida  de  adaptabilidade  para  a  carreira  do  adolescente  (Huebner,  Emery  &  Shordike,  2002),
mostrou que a consistência interna da ARA era baixa. No entanto, os aspectos identificados por meio da análise
de fator (desenvolver aspirações, autoeficácia, competências interpessoais e autonomia) foram compatíveis com
a literatura de adaptabilidade à carreira, e esses fatores foram capazes de diferenciar os adolescentes com baixa e
com  alta  pontuação.  Diante  da  falta  de  procedimentos  de  entrevista  desenhados  especificamente  para
adolescentes,  o  desenvolvimento  e  refinamento  adicionais  da  ARA  e  de  entrevistas  similares  devem  constituir
uma prioridade.

Entrevistas para Uso com Adolescentes e Adultos

A Entrevista de Avaliação das Condições Ocupacionais e a Escala de Pontuação
A  versão  mais  recente  da  Entrevista  de  Avaliação  das  Condições  Ocupacionais  e  Escala  de  Pontuação  –
Occupational  Circumstances  Assessment  Interview  and  Rating  Scale  (OCAIRS)  (Forsyth,  Deshpande  et  al.,
2005), uma revisão da OCAIRS original desenvolvida por Kaplan e Kielhofner (1989), fornece aos terapeutas
um  método  de  reunião  de  dados  sobre  a  adaptação  ocupacional  de  um  cliente.  Três  formatos  de  entrevista
semiestruturada desenhada de acordo com as necessidades de diferentes grupos de clientes (incapacidade física,
saúde mental e saúde mental forense) são administrados e os clientes são então pontuados em 12 itens, usando­se
uma escala de quatro pontos. Os itens abrangem causa pessoal do cliente, valores e metas, interesses, pa péis,
hábitos, habilidades, ambientes físico e social e a disposição para a mudança. A OCAIRS pode ser utilizada com
clientes  adolescentes  e  adultos  com  diferentes  incapacidades  e  necessita  de  cerca  de  uma  hora  para
administração e pontuação.
Estudos mostraram que a OCAIRS revisada apresenta consistência interna aceitável e excelente confiabilidade
interexaminadores  (Haglund,  Thorell  &  Walinder,  1998a;  Lai,  Haglund  &  Kielhofner,  1999).  Os  escores
OCAIRS  também  mostraram  capacidade  de  discriminar  clientes  que  precisam  de  tratamento  de  terapia
ocupacional e aqueles que não precisam, e entre aqueles com diferentes graus de distúrbio psiquiátrico (Haglund
et al., 1998a, 1998b).

A Entrevista de História do Desempenho Ocupacional – Segunda Versão
A Entrevista de História de Desempenho Ocupacional – Segunda Versão – Occupational Performance History
Interview  –  Second  Version  (OPHI­II)  (Kielhofner,  Mallinson  et  al.,  2004)  é  uma  entrevista  de  histórico  que
reúne  informações  sobre  a  adaptação  ocupacional  de  um  cliente  ao  longo  do  tempo  e  pode  ser  utilizada  com
adolescentes  e  adultos  em  diversos  ambientes.  A  OPHI­II  consiste  em  três  partes:  (1)  uma  entrevista
semiestruturada  relacionada  à  história  da  vida  ocupacional  do  cliente;  (2)  três  escalas  de  pontuação  que
classificam a identidade ocupacional, a competência ocupacional e o impacto do ambiente do cliente; e (3) uma
narrativa da história de vida com um ângulo da reta da narrativa. O formato flexível da entrevista destina­se a
reunir  informações  em  cinco  áreas  temáticas:  (1)  escolhas  de  atividade/ocupacionais,  (2)  eventos  críticos  de
vida,  (3)  rotinas  diárias,  (4)  pa  péis  ocupacionais  e  (5)  ambiente.  As  três  escalas  de  pontuação  fornecem  uma
medida  (1)  dos  interesses,  valores  e  confidência  do  cliente;  (2)  da  capacidade  de  um  cliente  sustentar  a
participação ocupacional satisfatória; e (3) do impacto do ambiente sobre a vida ocupacional de um cliente. A
narrativa da história de vida e o ângulo de inclinação da reta propiciam uma descrição tanto qualitativa como
visual da história do cliente. A OPHI­II pode ser administrada em aproximadamente uma hora.
A  validade  da  OPHI  original  foi  examinada  em  estudos  sobre  indivíduos  com  incapacidades  físicas  e
psiquiátricas  (Henry,  1994;  Lynch  &  Bridle,  1993;  Mauras­Nelson  &  Oakley,  1996).  Um  estudo  internacional
sobre a OPHI­II (utilizando versões em seis idiomas diferentes) forneceu evidência da consistência interna e da
validade da construção das três escalas de pontuação da OPHI­II (Kielhofner, Mallinson, Forsyth & Lai, 2001).
Os terapeutas também podem usar as pontuações do cliente para obter instantaneamente o intervalo das medidas
do  cliente  utilizando  um  formulário  preenchido  à  mão  como  um  modo  de  documentar  a  função  do  cliente,
monitorar o progresso  e  acompanhar a  mudança  para  a  avaliação  de  resultado (Kielhofner, Dobria, Forsyth &
Basu, 2005).
A OPHI­II tem sido utilizada em diferentes instituições com muitos tipos de clientes, incluindo clientes que
fazem a transição para a mobilidade motorizada (Buning, Angelo & Schmeler, 2001), pessoas com síndrome de
fadiga  crônica  (Gray  &  Fossey,  2003),  clientes  em  instituições  de  psiquiatria  forense  (Farnworth,  Nikitin  &
Fossey, 2004), mães adolescentes desabrigadas (Levin & Helfrich, 2004) e pessoas com HIV/AIDS (Braveman
& Helfrich, 2001; Kielhofner, Braveman et al., 2004). Os terapeutas e os clientes relatam que a entrevista OPHI­
II  é  uma  boa  oportunidade  para  construir  a  comunicação  e  é  valiosa  quando  se  estabelecem  as  metas  e  o
programa  de  tratamento  e,  com  frequência,  os  clientes  utilizam  o  ângulo  da  reta  da  narrativa  como  um
instrumento de motivação (Apte, Kielhofner, Paul­Ward & Braveman, 2005).

A Entrevista do Papel de Trabalhador
A  Entrevista  do  Papel  de  Trabalhador  –  Worker  Role  Interview  (WRI)  é  uma  entrevista  semiestruturada  que
reúne informações a respeito de fatores psicossociais e ambientais relacionados ao trabalho e é apropriada para
uso com qualquer pessoa cuja incapacidade teve impacto sobre sua participação no trabalho (Braveman et  al.,
2005).  A  WRI  inclui  um  conjunto  de  perguntas  recomendadas  (incluindo  um  formulário  de  entrevista  para
clientes  com  incapacidades  crônicas,  um  formulário  de  entrevista  para  aqueles  com  lesões  ou  incapacidades
recentes e uma entrevista que combina perguntas da WRI e da OCAIRS) que são usadas para reunir informações
a  fim  de  classificar  os  clientes  em  16  itens  com  o  uso  de  uma  escala  de  quatro  pontos.  Os  itens  formam  seis
subescalas que refletem a sensação de causa pessoal, valores, interesses, pa péis e hábitos do cliente relacionados
ao trabalho, bem como a influência do ambiente. Estudos indicam que os terapeutas utilizam a WRI de maneira
consistente  (boa  confiabilidade  interexaminador)  e  que  os  itens  representam  a  construção  da  capacidade  de
retornar  ao  trabalho  (construção  da  validade)  (Biernacki,  1993;  Forsyth  et  al.,  2006;  Velozo  et  al.,  1999).  A
pesquisa  realizada  sobre  as  traduções  da  WRI  para  outros  idiomas  demonstra  a  validade  do  instrumento  entre
outras  culturas  (Fenger  &  Kramer,  2007;  Haglund,  Karlsson,  Kielhofner  &  Shei  Lai,  1997),  e  um  estudo
utilizando  a  versão  sueca  demonstrou  que  determinados  itens  da  WRI  predisseram  o  sucesso  do  retorno  ao
trabalho (Ekbladh, Haglund & Thorell, 2004).

A Escala de Impacto do Ambiente de Trabalho
A Escala de Impacto do Ambiente de Trabalho – Work Enviroment Impact Scale (WEIS) (Corner, Kielhofner &
Olson, 1998) é uma entrevista semiestruturada e escala de pontuação destinada a examinar como os indivíduos
com incapacidade experimentam o ambiente de trabalho. A WEIS destina­se ao uso com pessoas que estejam
trabalhando  ou  que  estejam  antecipando  ativamente  o  retorno  para  um  emprego  ou  um  tipo  de  trabalho
específico. A WEIS faz perguntas relativas aos fatores do ambiente de trabalho, como espaço, suportes sociais,
demandas temporais, objetos utilizados ou funções do emprego, e os itens da escala refletem o quanto os fatores
ambientais afetam o desempenho, a satisfação e o bem­estar físico, social e emocional do trabalhador. Estudos
sobre  a  WEIS  fornecem  evidência  de  sua  validade  e  consistência  interna  (Corner,  Kielhofner  &  Lin,  1997;
Kielhofner et al., 1999).

A Medida Canadense de Desempenho Ocupacional
A  Medida  Canadense  de  Desempenho  Ocupacional  –  Canadian  Occupational  Performance  Measure  (COPM)
(Law et al., 1998) é um procedimento de entrevista semiestruturado centrado no cliente e destinado a mensurar
as  percepções  deste  sobre  seu  desempenho  ocupacional  ao  longo  do  tempo.  Durante  uma  avaliação  inicial,  o
terapeuta entrevista o cliente sobre seu funcionamento nas áreas de autocuidado, produtividade e lazer. O cliente
é  solicitado  a  identificar  quaisquer  atividades  que  sejam  difíceis  de  realizar  em  cada  área  e  a  indicar  quão
importante  é  ser  capaz  de  realizar  essas  atividades.  Por  fim,  o  cliente  é  solicitado  a  identificar  seus  cinco
problemas  mais  importantes  e  pontuar  seu  desempenho  e  nível  de  satisfação  nessas  atividades.  O  cliente
quantifica  a  importância  da  atividade  para  ele,  a  qualidade  de  seu  desempenho  e  seu  nível  de  satisfação
utilizando  escalas  de  10  pontos.  O  foco  específico  da  COPM  sobre  os  problemas  identificados  pelo  cliente  é
facilitar  o  estabelecimento  de  metas  colaborativas  entre  o  terapeuta  e  o  cliente.  A  COPM  também  pode  ser
utilizada para reavaliação e para detectar alterações nas percepções do cliente ao longo do tempo; dessa maneira,
tem utilidade como uma medida de resultado (Law et al., 1998).
Em muitos estudos, a COPM mostrou ter boa confiabilidade teste­reteste (Carswell et al.,  2004;  Law  et  al.,
1998). Outros estudos forneceram evidência da validade concomitante e construída da COPM (Carpenter, Baker
& Tyldesley, 2001; McColl, Paterson, Davies, Doubt & Law, 2000). Estudos que utilizam a COPM como uma
medida de resultado indicam que ela é sensível à mudança após o tratamento de reabilitação (Corr & Wilmer,
2003; Lewis & Jones, 2001), ao mesmo tempo que também é clinicamente útil e significativa (Carswell et al.,
2004).

ADJUNTOS PARA AS ENTREVISTAS: MEDIDAS DE AUTORRELATO COM PAPEL E
LÁPIS
Além  da  entrevista,  as  medidas  de  autorrelato  por  escrito  podem  ser  um  método  útil  para  a  obtenção  de
informações sobre o cliente. As medidas de autorrelato incluem questionários, formulários e listas de verificação
preenchidos pelo cliente. Por vezes, um cliente pode preencher o formulário ou a lista de verificação sozinho,
tornando  esta  uma  maneira  conveniente  de  se  obter  informação.  Entretanto,  mais  frequentemente,  você  deve
estar presente quando o cliente está preenchendo o instrumento, a fim de assegurar que ele compreenda o que
está sendo perguntado e responda da maneira adequada. Assim como as entrevistas, as medidas de autorrelato
podem não ser apropriadas para todos os clientes.
Na prática, as medidas de autorrelato não devem ser utilizadas para substituir uma entrevista com o cliente.
Contudo,  elas  podem  ser  um  coadjuvante  valioso,  porque  tendem  a  reunir  informações  detalhadas  sobre  um
tópico  específico,  como  o  uso  do  tempo  ou  padrões  de  interesse.  Elas  são  mais  úteis  quando  aplicadas  em
conjunto com uma entrevista. Após o cliente preencher um instrumento de autorrelato, cliente e terapeuta devem
revisar  o  formulário  em  conjunto.  As  medidas  de  autorrelato  ajudam  a  focar  a  discussão  em  torno  de  uma
determinada questão ou tema.

Medidas de Autorrelato para Crianças e Adolescentes

Os Perfis de Interesse Pediátrico
Os  Perfis  de  Interesse  Pediátrico  –  Pediatric  Interest  Profiles  (PIP)  (Henry,  2000)  são  formulários  sobre  o
interesse de brincadeiras e lazer que se destinam a crianças e adolescentes.Três versões dos PIP incluem o Perfil
de Brincadeira de Criança – Kid Play Profile (KPP), para crianças de 6 a 9 anos, o Perfil de Brincadeira do Pré­
Adolescente  –  Preteen  Play  Profile  (PPP),  para  crianças  com  9  a  12  anos,  e  o  Perfil  de  Interesse  de  Lazer  do
Adolescente – Adolescent Leisure Interest Profile (ALIP), para adolescentes com idades de 12 a 21 anos. Cada
versão pede ao jovem para relatar seu interesse e/ou participação em diferentes atividades de lazer apropriadas
para a idade e para indicar seus sentimentos de alegria e competência nas atividades. Os PIP também perguntam
se o jovem realiza as atividades sozinho ou com outros. As versões da Criança e do Pré­Adolescente dos PIP
utilizam representações ilustradas das atividades de brincadeira. Os escores totais para as três versões dos PIP
têm confiabilidade de teste­reteste aceitável (Henry, 2000). Além disso, demonstrou­se que os escores no ALIP
discriminam os adolescentes com e sem incapacidade (Henry, 1998).

A Avaliação da Participação e da Satisfação de Crianças e as Preferências de Atividades para Crianças
A Avaliação da Participação e Satisfação de Crianças – Children’s Assessment of Participation and Enjoyment
(CAPE) (King et al., 2004) é uma medida de autorrelato dividida em duas partes que reúne informações sobre a
participação das crianças em atividades cotidianas que não sejam as atividades escolares obrigatórias. A CAPE
destina­se  a  crianças  de  6  anos  ou  mais.  Na  Fase  1,  a  criança  (ou  a  criança  e  um  dos  pais)  indica  com  que
frequência realizou uma gama de atividades nos últimos quatro meses. Na Fase 2, um profissional entrevista a
criança sobre as atividades de que ela participa, considerando a satisfação nas atividades, e onde e com quem as
atividades  são  realizadas.  Como  nos  PIP,  os  itens  de  atividade  são  representados  de  maneira  ilustrada.  As
Preferências  para  Atividades  das  Crianças  –  Preferences  for  Activities  of  Children  (PAC)  (King  et  al.,  2004)
examinam as preferências de atividade de uma criança. A criança seleciona 50 cartões de atividades, indicando
se  ela  “realmente  gostaria  de  fazer”,  “gostaria  mais  ou  menos  de  fazer”  ou  “não  gostaria  de  fazer”  cada
atividade.  As  PAC  e  a  CAPE  podem  ser  utilizadas  em  conjunto  ou  separadamente.  O  manual  da  CAPE/PAC
relata  evidência  de  confiabilidade  de  teste­reteste,  consistência  interna  e  correlações  entre  os  escores  de
intensidade  da  participação  da  CAPE  e  entre  os  escores  de  preferência  da  PAC  (King  et  al.,  2004).  Em  um
estudo, a CAPE foi aplicada a 247 crianças com incapacidades físicas entre 6 e 14 anos de idade para avaliar a
participação  em  atividades  não  escolares  (Law  et  al.,  2004).  Correlações  baixas  a  moderadas,  porém
significativas, foram encontradas entre a sensação de competência de uma criança e os tipos de atividade que ela
prefere  e  aprecia,  e  foi  demonstrado  que  meninos  e  meninas  têm  níveis  muito  diferentes  de  intensidade  de
participação,  preferência  e  satisfação  em  determinadas  atividades  (p.  ex.,  atividades  sociais  versus  atividades
físicas ativas) (King et al., 2007).

Autoavaliação Ocupacional da Criança
Semelhante à Autoavaliação Ocupacional (veja a seção intitulada “Medidas de Autorrelato para Adultos”), os 25
itens da Autoavaliação Ocupacional da Criança (COSA) – Child Occupational Self­Assessment (Keller, Kafkes,
Basu,  Federico  &  Kielhofner,  2005)  abrangem  uma  gama  de  atividades  cotidianas,  incluindo  autocuidado,
tarefas  escolares,  atividades  sociais  e  atividades  relacionadas  à  família,  que  crianças  e  jovens  classificam  por
meio  do  autorrelato.  Os  jovens  clientes  refletem  sobre  quão  competentes  eles  se  sentem  ao  realizar  cada
atividade e quão importante a atividade é para eles (Fig. 34.2). Direcionada para crianças entre 8 e 12 anos de
idade,  a  COSA  também  tem  sido  utilizada  com  sucesso  com  jovens  até  17  anos  de  idade  (Keller,  Kafkes  &
Kielhofner,  2005;  Keller  &  Kielhofner,  2005).  As  pistas  visuais,  como  faces  sorrindo  e  estrelas,  incentivam
crianças  e  jovens  no  preenchimento  da  autoavaliação,  e  uma  variedade  de  modificações  podem  ser  realizadas
sem afetar a confiabilidade das escalas de pontuação (Keller & Kielhofner, 2005). A pesquisa demonstrou que as
duas escalas de pontuação da COSA (competência e valor) podem ser utilizadas de maneira válida e consistente
e  que  os  itens  representam  um  constructo  válido  do  valor  (importância)  e  da  competência  ocupacional  de
crianças e jovens em relação às ocupações (Keller et al., 2005; Keller & Kielhofner, 2005).

Fig. 34.2 Ao preencher uma avaliação de autorrelato, um jovem cliente tem a oportunidade de conversar sobre o
que ele gosta de fazer e identificar qualquer problema que tenha para realizar as atividades que são importantes
para ele.

Sistema de Estabelecimento de Meta e Eficácia Percebida
O  Sistema  de  Estabelecimento  de  Meta  e  Eficácia  Percebida  –  Perceived  Efficacy  and  Goal  Setting  System
(PEGS)  (Missiuna,  Pollock  &  Law,  2004)  dá  às  crianças  jovens  uma  oportunidade  de  relatar  sua  eficácia  na
realização  de  ocupações  que  envolvem  tarefas  motoras  grosseiras  e  finas.  Com  base  na  escala  Tudo  a  Meu
Respeito  (Missiuna,  1998),  o  PEGS  inclui  figuras  que  representam  24  atividades,  12  em  cada  subescala  de
atividades  motora  fina  e  motora  grosseira  (como  “andar  de  bicicleta”  e  “abotoar”).  Duas  figuras  correlatas
representam  cada  tarefa,  com  as  imagens  mostrando  uma  criança  realizando  uma  atividade  de  maneira  mais
competente  ou  menos  competente.  As  crianças  indicam  qual  imagem  é  mais  parecida  com  elas  e  se  aquela
imagem é muito ou pouco parecida com o seu desempenho. Assim, para identificar as metas do tratamento, a
criança prioriza as tarefas que ela relatou como tendo dificuldade na realização.
Os itens do PEGS mostraram discriminar crianças com dificuldades motoras e aquelas sem dificuldade e se
correlacionaram de maneira moderada com outras avaliações motoras padronizadas (Missiuna, 1998), indicando
que  o  instrumento  foi  discriminativo  e  com  validade  de  construção.  Os  escores  do  PEGS  pelos  pais  e  pelo
professor  correlacionaram­se  fortemente  com  a  Avaliação  Funcional  Escolar  (Coster,  Deeney,  Haltiwanger  &
Haley,  1998),  porém  os  escores  das  crianças  não  (Missiuna,  Pollock,  Law,  Walter  &  Cavey,  2006).  A
consistência interna  foi  aceitável  (Missiuna et al.,  2006),  a  confiabilidade  de  subescala  foi  boa  para  ambas  as
subescalas, e a confiabilidade de teste­reteste durante duas semanas para um grupo de crianças também foi boa
(Missiuna,  1998).  Embora  o  uso  do  PEGS  pelas  crianças  as  classificasse  como  mais  competentes  em
comparação com as classificações dos pais ou professores, os pais, os professores e as crianças frequentemente
concordavam quanto às tarefas mais ou menos difíceis para cada criança (Missiuna & Pollock, 2000; Missiuna et
al.,  2006).  As  crianças  também  demonstraram  utilizar  os  processos  de  estabelecimento  de  meta  de  maneira
efetiva  com  o  passar  do  tempo;  após  duas  semanas,  92%  das  crianças  selecionaram  entre  duas  e  quatro  das
mesmas metas (Missiuna et al., 2006).

Questionário de Autorrelato de Habilidades de Brincadeira
O Questionário de Autorrelato de Habilidades de Brincadeira – Play Skills Self Report Questionnaire (PSSRQ)
(Sturgess,  2007),  inicialmente  desenvolvido  e  denominado  Playform  (Formulário  de  Brincadeira)  (Sturgess  &
Ziviani,  1995,  1996),  destina­se  às  crianças  com  idade  de  5  a  10  anos  e  inclui  a  Versão  dos  Pais.  A  pesquisa
continuada sobre o Playform (Sturgess, 1997, 2003), com parte ainda a ser publicada, resultou em modificações.
Atualmente, o PSSRQ consiste em um livreto contendo uma questão e uma linha de apoio desenhada em cada
página.  A  criança  se  classifica  em  30  habilidades  de  brincadeira,  que  incorporam  brincar  sozinha,  brincar  em
dupla, brincar em grupo, brincadeira imaginária, brincadeira de luta, jogos com regras, coisas para colecionar e
outras. As crianças respondem perguntas como “Você é bom para ter ideias para jogos imaginários?” e “Você
corre, sobe em obstáculos e se movimenta bem quando brinca?”, usando quatro tipos diferentes de estrelas, que
simbolizam  “não  bom”,  “OK”,  “bom”  e  “muito  bom”.  As  versões  dos  pais  e  da  criança  possuem  o  mesmo
gráfico para assegurar que ambos estão se referindo a um estímulo semelhante e para aumentar a confiabilidade
das respostas.
O conteúdo da validade para os itens e da validade para a estrutura foi estabelecido por meio de uma série de
estudos­piloto com médicos experientes, pais e crianças. Os dados foram analisados a partir das respostas de 176
crianças em desenvolvimento e de seus pais, o que forneceu os dados normativos e comparativos preliminares
(Sturgess,  2007).  Nenhum  escore  total  foi  produzido,  pois  cada  item  é  único,  e  não  foi  encontrada  nenhuma
estrutura de fator. O PSSRQ deve ser aplicado à criança ao longo do tempo; pode ser utilizado para desenvolver
metas de tratamento; e também pode ser útil na promoção de saúde, educação dos pais e outras situações em que
a brincadeira seja reconhecida como tendo influência positiva sobre comportamentos saudáveis.

Autorrelatos para Uso com Pais de Crianças e Adolescentes
Ajudando  as  Crianças:  Responsabilidades,  Expectativas  e  Suportes  –  Children  Helping  Out:  Responsibilities,
Expectations, and Supports  (CHORES)  (Dunn,  2004)  é  um  autorrelato  para os pais que foi desenvolvido para
avaliar a participação de crianças nas tarefas domésticas e as mudanças na quantidade de assistência necessária
para participar. O CHORES consiste em 34 itens que representam as tarefas domésticas típicas; 13 itens formam
uma subescala de autocuidado (como “arrume o seu quarto” e “prepare a sua refeição”) e 21 itens formam uma
subescala  de  cuidado  da  família  (como  “arrume  ou  limpe  a  mesa”,  “cuide  de  seus  irmãos  mais  novos”  e
“alimente os animais de estimação”). Para cada item, os pais indicam se a criança participa da tarefa doméstica e
descrevem  tal  participação  utilizando  uma  escala  em  duas  partes.  Se  o  pai  relata  que  a  criança  não  realiza  a
tarefa, o pai indica se não é esperado que a criança realize a tarefa ou se a criança não consegue realizar a tarefa.
Se o pai relata que a criança se engaja na tarefa, utiliza­se uma escala de cinco pontos para apontar o nível de
assistência e supervisão que a criança necessita. No final do questionário, os pais classificam o quão importante
o envolvimento de seus filhos nas tarefas domiciliares é para eles e seus níveis de satisfação com a participação
de seus filhos.
O  CHORES  tem  sido  utilizado  em  crianças  e  adolescentes,  com  e  sem  incapacidades,  que  apresentam
diferentes bases culturais (Dunn, 2004). Os escores de desempenho e assistência no CHORES mostram variância
adequada para identificar as diferenças da participação nas tarefas domiciliares e demonstraram que os relatos
dos pais permanecem estáveis do teste até o reteste (Dunn, 2004). Há evidência de validade para discriminação e
identificação (Dunn, 2004).

Medidas de Autorrelato para Adultos

Listas de Verificação de Interesse
As listas de verificação de interesse estão entre as medidas de autorrelato mais comumente utilizadas. As listas
de verificação de interesse são empregadas para investigar o nível de interesse de um cliente em uma gama de
atividades,  principalmente  as  atividades  de  lazer.  As  medidas  de  interesse  nas  atividades  direcionadas  para  a
idade podem fornecer dados mais relevantes do que uma medida geral, já que os interesses de lazer variam muito
entre as faixas etárias. As listas de verificação de interesse são úteis para identificar problemas relacionados ao
lazer e para identificar as atividades potenciais para uso no tratamento.
Uma das mais antigas listas de verificação é a lista de verificação de interesse NPI (Matsutsuyu, 1969). A lista
de verificação de interesse NPI contém 80 itens de atividade, agrupados em cinco categorias: atividades da vida
diária, habilidades manuais, atividades culturais e educacionais, esportes e atividades sociais e recreativas. Ao
preencher  a  lista  de  verificação,  o  cliente  indica  um  interesse  forte,  casual  ou  nenhum  na  atividade  (Rogers,
1988).  A  lista  de  verificação  de  interesse  NPI  original  mostrou  ter  confiabilidade  de  teste­reteste  aceitável  e
mostrou evidência de validade de construção e predição (Barris et al., 1986; Ebb, Coster & Duncombe, 1989;
Henry, 1994; Weinstein, 1979). Kielhofner e Neville (1983) modificaram a lista de verificação de interesse NPI
para incluir perguntas relacionadas às alterações nas preferências de atividade com o passar do tempo e o desejo
de participar dos interesses no futuro.
Gregory (1983) descreveu duas medidas de autorrelato do envolvimento em atividade que são especificamente
destinadas a adultos idosos. Os escores totais do Índice de Atividade, que investiga o interesse e a participação
na  atividade,  e  da  Escala  de  Atividade  Significativa,  que  investiga  os  sentimentos  de  alegria,  autonomia  e
competência em relação às atividades, demonstraram boa confiabilidade de teste­reteste em pequenas amostras­
piloto.  Os  escores  de  ambas  as  medidas  também  se  correlacionaram  positivamente  com  uma  medida  de
satisfação de vida.

A Lista de Verificação do Papel
A  Lista  de  Verificação  do  Papel  –  Role  Checklist  (RC)  (Oakley,  Kielhofner,  Barris  &  Reichler,  1986)  é  um
inventário  de  duas  partes,  por  escrito,  de  dez  pa  péis  ocupacionais,  incluindo  o  de  trabalhador,  estudante,
membro da família, dona de casa, cuidador, voluntário e pessoa dedicada a um hobby. A primeira parte da RC
examina as intenções pregressas, atuais e futuras de um cliente relacionadas ao desempenho de cada papel. A
segunda  parte  examina  o  valor  atribuído  a  cada  papel  pelo  cliente.  A  RC  foi  traduzida  para  10  idiomas,  e  foi
determinado  que  a  tradução  para  o  espanhol  tem  validade  de  conteúdo  (Colon  &  Haertlein,  2002).  Estudos
indicaram que a RC tem boa confiabilidade de teste­reteste (Barris, Oakley & Kielhofner, 1988), é sensível às
mudanças  de  papel  (Hallett,  Zasler,  Maurer  &  Cash,  1994)  e  discrimina  entre  adultos  sem  incapacidades  e
aqueles com incapacidades psiquiátricas ou físicas (Dickerson, 1999). A RC também foi utilizada com sucesso
como um instrumento de avaliação de resultado para o estudo da eficácia do tratamento de terapia ocupacional
(Corr, Phillips & Walker, 2004; Corr & Wilmer, 2003; Schindler, Laguardia, Melchiorre & Bailey, 2004).

Autoavaliação Ocupacional
A Autoavaliação Ocupacional – Occupational Self­Assesment (OSA) (Baron, Kielhofner, Iyenger, Goldhammer
& Wolenski, 2002) é uma medida de autorrelato destinada a reunir dados sobre a percepção do cliente quanto à
sua competência ocupacional (21 itens) e ao impacto do ambiente sobre seu funcionamento (oito itens). A OSA
também solicita aos clientes que indiquem a importância de áreas específicas de funcionamento e identifiquem
prioridades para mudança, tornando­se particularmente útil para uso em conjunto com uma entrevista. A OSA
pode  ser  utilizada  como  uma  avaliação  inicial  e  como  uma  medida  de  acompanhamento  ou  de  resultado  que
mensure  a  mudança  no  funcionamento  relatada  pelo  cliente.  Uma  série  de  estudos,  envolvendo  1.000  clientes
internacionais,  foi  realizada  sobre  a  OSA  para  refinar  as  escalas  de  pontuação,  aumentar  a  sensibilidade  do
instrumento  e  confirmar  a  validade  dos  itens  de  avaliação  (Kielhofner  &  Forsyth,  2001:  Kielhofner,  Forsyth,
Kramer  &  Iyenger,  2007).  A  análise  dos  resultados  da  avaliação  da  OSA  no  momento  1  e  no  momento  2
confirmou  que  os  itens  sobre  a  escala  de  competência,  a  escala  de  classificação  de  competência  e  a  escala  de
classificação de valores permaneceram estáveis ao longo do tempo, permitindo a criação de formulários da OSA
em papel (Kielhofner, Forsyth, Dobria & Kramer, 2007). Semelhantes aos formulários OPHI­II, os formulários
da  OSA  permitem  que  os  terapeutas  produzam  medidas  instantâneas  do  cliente  que  podem  ser  utilizadas  para
registrar a mudança.

CONCLUSÃO
Além de fornecerem informações sobre o funcionamento de um cliente em ocupações específicas, as entrevistas
estão  entre  as  estratégias  mais  úteis  disponíveis  para  os  profissionais  tanto  para  compreender  melhor  a
perspectiva do cliente sobre sua situação como para aumentar o relacionamento de trabalho com o cliente. Cada
uma  das  entrevistas  e  medidas  de  autorrelato  discutidas  neste  capítulo  apresenta  características  únicas.  Os
profissionais  devem  escolher  a  combinação  de  entrevista  e  outras  avaliações  que  mais  bem  se  adapte  às
necessidades de seus clientes e dos ambientes.

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Author.
Analisando Ocupações e Atividades
ELIZABETH BLESEDELL CREPEAU
E BARBARA A. BOYT SCHELL

Sumário
Duas Perspectivas Sob Análise: Ocupação e Atividade
Ambientes e Contextos de Desempenho
Arenas e Ambientes
Pa péis: Construções Sociais Versus Pessoalmente Instituído
Análise e Significado Ocupacional
Atividade e Análise Ocupacional na Prática
Análise de Atividade
Formato da Análise de Atividade
Análise Ocupacional
Ocupação como Terapia
Gradação
Suporte, Retirada e Orientação
Adaptação e Modificação
Estudo de Caso: Lauro, um Adolescente que Quer Usar o Transporte Público
Análise das Habilidades de Desempenho Ocupacional
Conclusão

Objetivos de Aprendizagem
Após a leitura deste capítulo, você será capaz de:

1. Descrever as abordagens para analisar as ocupações e atividades em terapia ocupacional.
2. Descrever as semelhanças e as diferenças entre a análise de atividade e a análise ocupacional.
3. Compreender como o desempenho ocupacional é o resultado de negociações habilidosas entre a
pessoa e o contexto do desempenho.
4. Definir orquestração ocupacional.
5. Analisar a atividade em geral e conforme experimentada por um indivíduo.
6. Descrever como a gradação e a adaptação das atividades podem ser utilizadas para atender às
necessidades dos clientes.

P
ense em todas as coisas que você precisa fazer ou fará hoje, à medida que você faz as suas rondas diárias.
Talvez  você  tenha  começado  seu  dia  com  um  banho  de  banheira  ou  de  chuveiro.  Você  fez  isto?  Ou  você
prefere tomar banho à noite? Ou você é daquele tipo de pessoa que prefere tomar banho em dias alternados? Se
você  tomou  banho  de  banheira  ou  chuveiro,  você  lavou  seus  cabelos?  Se  você  lavou  seus  cabelos,  você  usa
xampu uma ou duas vezes? Você aplica condicionador? Você lavou seu cabelo antes de lavar o resto do corpo ou
depois?  Você  ficou  em  pé  no  chuveiro,  sentado  na  banheira  ou  inclinado  sobre  a  pia?  A  água  estava  muito
quente? Você ficou com os braços cansados? Você secou seus cabelos com uma toalha ou apenas os penteou e
deixou  que  eles  secassem?  Você  penteou  seus  cabelos  com  um  secador  de  cabelos?  Você  usou  um  pente  ou
escova? Quais funções físicas você diria que são primordiais para cuidar de seu cabelo? Quais funções mentais?
Quais  aspectos  do  ambiente  ou  do  contexto  são  importantes  para  você?  Você  acha  que  as  mesmas  coisas  são
importantes para todas as pessoas? Responder perguntas como estas faz parte do processo de raciocínio diário
que os profissionais da terapia ocupacional consideram quando planejam e aplicam o tratamento a seus pacientes
e clientes. Se a atenção incide sobre as atividades de automanutenção, como tomar banho e cuidar dos cabelos,
ou  sobre  atividades  de  trabalho,  como  operar  uma  escavadeira,  os  profissionais  precisam  de  estruturas
sistemáticas  para  compreender  com  exatidão  o  que  cada  pessoa  deseja  ou  precisa  fazer.  A  aplicação  dessas
estruturas sistemáticas é chamada análise ocupacional e análise de atividade.
Os  profissionais  de  terapia  ocupacional  analisam  as  atividades  para  compreender  seus  componentes,  seu
possível significado para os clientes e seus potenciais terapêuticos. Os profissionais analisam as ocupações dos
clientes  para  obter  uma  avaliação  dos  potenciais  específicos  de  desempenho  e  dos  problemas  potenciais
encontrados pelos clientes. A análise é utilizada para planejar o tratamento de modo a capacitar os clientes a se
engajarem ou reengajarem naquelas ocupações que têm valor e significado particulares. Os profissionais também
analisam  como  os  clientes  organizam  suas  ocupações  durante  o  dia,  a  semana  e  em  períodos  mais  longos.  A
orquestração ocupacional reflete a capacidade dos indivíduos de desempenharem suas ocupações diariamente
para atender tanto às suas necessidades como àquelas em seu mundo social. Orquestração, um termo musical,
implica uma composição rítmica e harmoniosa da vida diária que apresenta componentes habituais ou rotineiros,
mas que também responde às modificações das demandas de um dia para outro (Larson, 2000). O tratamento de
terapia  ocupacional  baseia­se  em  envolver  os  clientes  em  ocupações  significativas  para  capacitar  ou  melhorar
sua capacidade de alcançar suas metas e participar da vida diária. As ocupações podem parecer aparentemente
menores,  como  o  banho  de  chuveiro  pela  manhã,  ou  a  orquestração  de  um  conjunto  complexo  de  ocupações
diárias necessárias para viver uma vida plena e satisfatória, como gerenciar o comitê de cuidados pastorais da
igreja  ao  mesmo  tempo  que  trabalha  em  horário  integral  e  cuida  da  família.  Por  conseguinte,  os  processos
analíticos que os profissionais trazem para seu trabalho estão no núcleo da prática da terapia ocupacional. Este
capítulo descreve esses processos e os relaciona ao raciocínio profissional, à medida que ele ocorre ao longo de
todo o processo terapêutico.

DUAS PERSPECTIVAS SOB ANÁLISE: OCUPAÇÃO E ATIVIDADE
Os profissionais de terapia ocupacional abordam o processo da análise da atividade a partir de duas perspectivas
diferentes,  análise  ocupacional  e  análise  de  atividade.  Na  primeira  abordagem,  os  profissionais  estão
preocupados  em  compreender  a  situação  específica  do  cliente  e,  portanto,  devem  compreender  as  ocupações
específicas que a pessoa deseja ou precisa realizar no contexto real em que essas ocupações são efetuadas. Isto é
descrito  como  análise  ocupacional,  porque  o  termo  ocupação  significa  o  desempenho  pessoal  (Pierce,  2001).
Conforme discutido na Estrutura de Prática da AOTA, 2a Ed. (AOTA, 2007), esta é uma abordagem customizada
que está inserida na totalidade do processo de terapia ocupacional. A análise ocupacional atende cuidadosamente
a detalhes específicos das ocupações da pessoa no próprio contexto. Na realidade, é esta abordagem customizada
que  diferencia  a  perspectiva  da  terapia  ocupacional  de  muitas  outras  profissões  que  realizam  a  análise  de
atividade, como educadores vocacionais e engenheiros industriais. No exemplo de tomar banho, apresentado no
parágrafo  de  abertura,  as  respostas  sobre  como  você  realizou  especificamente  o  processo  de  tomar  banho
representam  parte  da  análise  ocupacional,  uma  vez  que  ajudam  a  descrever  de  que  maneira  você  realmente
realiza uma determinada ocupação em sua vida. Consulte o Boxe 35.1 para o fundamento lógico sobre os termos
específicos que são utilizados neste capítulo.
A  segunda  conduta  é  comumente  denominada  análise  de  atividade.  Na  análise  de  atividade,  o  profissional
considera uma atividade de modo geral, como ela pode ser tipicamente realizada em determinada cultura (Pierce,
2001).  Os  profissionais  realizam  esse  tipo  de  análise  de  atividade  pelo  menos  por  duas  razões.  Em  primeiro
lugar,  o  profissional  pode  desejar  antecipar  possíveis  áreas  de  preocupação  ao  trabalhar  com  clientes  com
diferentes  tipos  de  condições  de  saúde  ou  preocupações.  Em  segundo  lugar,  os  profissionais  frequentemente
precisam criar atividades propositadas, comportamentos direcionados para a meta que levam a uma ocupação
(AOTA, 2007), o que pode ser planejado ou graduado de maneira útil para ajudar um cliente a desenvolver­se,
recuperar­se de um comprometimento ou aprender uma abordagem adaptativa. Por exemplo, se um profissional
pensa no que costuma estar envolvido no ato de tomar banho de chuveiro ou de banheira para muitas pessoas nos
Estados  Unidos,  ele  pode  ser  capaz  de  antecipar  possíveis  problemas  para  alguém  com  paralisia  parcial  ou
dificuldade para se lembrar de como organizar a sequência das atividades. De modo alternativo, em uma loja de
brinquedos ou de material  de  construção,  o  profissional  pode  observar  brinquedos ou objetos que sirvam para
ajudar  as  pessoas  a  desenvolver  ou  melhorar  diferentes  habilidades  ou  capacidades  corporais  ou  que  exijam
determinados tipos de resolução de problemas. Ter estas ideias na “caixa de ferramentas” mental do profissional
torna  mais  fácil  criar  possibilidades  de  tratamento  para  trabalhar  com  os  clientes.  Esta  consideração  de
possibilidades de atividade é a abordagem descontextualizada, porque é uma ideia abstrata do que o profissional
pensa que ocorre habitualmente. Não é o que uma determinada pessoa realmente experimenta.
Para resumir, o termo atividade é utilizado neste capítulo para representar uma ideia abstrata sobre as coisas
que os indivíduos fazem e a maneira como eles habitualmente as fazem em determinada cultura (Pierce, 2001).
O  termo  ocupação(ões)  é  utilizado  para  descrever  as  atividades  pessoais  em  que  os  indivíduos  optam  por  se
engajar e as maneiras pelas quais cada indivíduo realmente as experimenta. Os profissionais devem ser capazes
de analisar a ideia abstrata de uma atividade dentro de uma cultura, assim como as ocupações reais de como elas
são realizadas por determinados indivíduos. Estas perspectivas também podem ser aplicadas a grupos de pessoas
(como  os  membros  de  um  coro  ou  trabalhadores  em  uma  fábrica),  organizações  (como  o  centro  de  recreação
local) e populações (como estudantes do ensino médio ou idosos em uma comunidade). Este capítulo irá enfocar
principalmente  a  análise  de  atividade  e  ocupação  no  nível  individual,  pois  a  aplicação  para  grupos  origina­se
dessas condutas analíticas fundamentais. Outros capítulos, mais adiante, fornecem exemplos de como a análise
ocupacional pode ser utilizada em relação aos grupos, às organizações e às populações.

AMBIENTES E CONTEXTOS DE DESEMPENHO
O desempenho ocupacional está, por natureza, inserido no ambiente social e físico, situado em um contexto de
desempenho  (AOTA,  2007;  Dunn,  Brown  &  Youngstrom,  2003;  Pierce,  2001).  Ambiente  inclui  os  ambientes
físico  e  social  em  que  o  cliente  realiza  suas  ocupações.  Contexto  inclui  os  ambientes  externos  físico,  social  e
cultural  nos  quais  as  pessoas  funcionam,  bem  como  aspectos  internos  ou  pessoais,  como  idade,  gênero,
motivação  da  pessoa.  Além  disso,  as  ocupações  situam­se  em  um  contexto  temporal,  tanto  em  termos  de
quantidade específica de tempo envolvido, como da história e do futuro projetado em relação à ocupação. Por
fim,  algumas  ocupações  ocorrem  em  contextos  virtuais,  como  espaços  e  blogs  criados  na  internet.  Como  na
distinção feita entre atividade e ocupação, muitos aspectos do ambiente e do contexto podem ser considerados na
teoria ou à medida que o cliente realmente os experimenta.

AS PALAVRAS IMPORTAM: DEFININDO ATIVIDADE E OCUPAÇÃO

A s palavras importam porque elas modelam a maneira que pensamos e os significados que atribuímos aos
seus  conceitos  subjacentes  (Hymes,  1972).  A  terapia  ocupacional,  como  muitas  outras  profissões  e
disciplinas,  engaja­se  em  debates  contínuos  sobre  o  significado  de  termos  específicos  relacionados  à
profissão. Este debate pode tornar­se confuso, pois o jargão profissional pode estabelecer ou não um paralelo
com a maneira pela qual as palavras são utilizadas na fala cotidiana (Reed, 2005). Ocupação e atividade são
duas destas palavras com significados cotidianos e significados profissionais específicos. Como estes termos
são  básicos  para  nossa  área  de  atuação,  muitos  especialistas  tentaram  articular  os  significados  exatos.  A
abundância destas definições pode ser confusa, principalmente para os estudantes de terapia ocupacional que
são novos na área e procuram compreendê­la.
As definições de ocupação incluem comumente uma combinação dos seguintes conceitosa:

É experimentada pessoalmente e direcionada para a meta
Reflete os valores culturais e a cultura
Fornece significado
Envolve múltiplas tarefas
Fornece organização e estrutura para viver
Atende às necessidades da pessoa e de outros no mundo social
Preenche o tempo
Utiliza capacidades e habilidades
Pode ter um componente físico e/ou mental
É reconhecida pela cultura
Fornece prazer e alegria
Contribui para a família e para a comunidade
Contribui para a saúde e o bem­estar
Alinha­se com o desenvolvimento do indivíduo

As definições de atividade comumente compartilham uma mistura dos conceitos centrais listados adiante. A
atividade é frequentemente modificada com o uso de termos como propositada, ocupacional ou funcional para
conferir a ela um significado mais específico. Nestes casos, o próprio termo atividade não é definido, mas se
supõe  que  seja  de  conhecimento  comum.  Os  conceitos  básicosb  para  a  maioria  das  definições  de  atividade
incluem o seguinte:

Pequenas unidades de comportamento
Uso de objetos
Ação
Pode ou não produzir um objeto
Direcionada para a meta
Necessária  para  desenvolvimento,  maturação  e  uso  das  funções  sensorial­perceptual,  motora,  social,
psicológica e intelectual

Em contraste, Pierce definiu atividade como

...uma ideia mantida na mente das pessoas e em sua linguagem cultural compartilhada. Uma atividade é uma
classe culturalmente definida e geral de ações humanas... Uma atividade não é experimentada por uma única
pessoa; não é observável como uma ocorrência; e não está localizada em um contexto temporal, espacial e
sociocultural plenamente existente. (Pierce, 2001, p. 139)

Para a finalidade deste capítulo, optamos por adotar a definição de atividade de Pierce porque esta definição
nos capacita a distinguir entre as ideias abstratas que temos a respeito de uma determinada atividade para a
análise  da  atividade,  por  exemplo,  nadar  versus  engajamento  na  natação  como  uma  ocupação  que  é
dependente da maneira ou das maneiras pelas quais uma determinada pessoa nada e o significado que ela
atribui  a  isto.  Por  conseguinte,  em  todo  o  capítulo,  quando  você  ler  atividade,  você  deve  lembrar  que  esta
reflete  o  conceito  abstrato  e  descontextualizado  e  que  ocupação  é  a  maneira  pela  qual  uma  determinada
pessoa  desempenha  esta  atividade  em  um  contexto  específico.  Em  outros  capítulos  neste  livro  você
encontrará a terminologia utilizada de modo diferente. Você precisa verificar a terminologia para compreender
a intenção dos autores em sua escolha da palavra.

aCompilado  de:  Christiansen,  Baum,  Bass­Haugen,  2005;  Spear  &  Crepeau,  2003;  Hinojosa  &  Kramer,  1997;  Law,
Polatajko, Baptiste & Townsend, 1997; Nelson & Jebson­Thomas, 2003; Clarke et al., 1991.
bCompilado  de:  Allen,  1987,  2007;  Cynkin,  1995;  Hinojosa  &  Kramer,  1997;  Llorens,  1986;  Mosey,  1981;  Reed,  2005;
Trombly, 1995.

Arenas e Ambientes
Lave (1988), uma antropóloga, fez uma distinção entre os usos potenciais de contextos ambientais e as maneiras
pelas  quais  as  pessoas  realmente  interagem  com  eles.  Ela  usou  o  termo  arena  para  descrever  locais  onde  as
atividades acontecem, como biblioteca, escola ou hospital. Em contraste, ela utilizou a palavra ambiente para
descrever aqueles aspectos da arena a que a pessoa atende. Esta distinção é útil porque mais uma vez ilustra as
ideias  gêmeas  da  experiência  real  versus  os  conceitos  abstratos.  Por  exemplo,  uma  biblioteca  é  uma  arena  e
muitos  de  nós  compartilhamos  a  ideia  do  que  é  uma  biblioteca.  Na  realidade,  podemos  até  mesmo  pensar  em
uma biblioteca em particular. No entanto, cada pessoa utilizará a biblioteca de diferentes maneiras e construirá
diferentes  significados  a  partir  de  suas  experiências.  Um  homem  que  entra  na  biblioteca  com  seu  filho  jovem
mais provavelmente irá para a seção infantil procurar livros com capítulos ou figuras coloridas. É provável que
ele  se  sente  em  uma  pequena  cadeira  ou  almofada  enquanto  lê  para  seu  filho.  Mais  tarde,  ele  pode  ajudar  a
criança  a  escolher  livros  para  levar  para  casa.  Do  mesmo  modo,  outra  pessoa  pode  ir  à  seção  de  áudio  para
buscar  livros  sonoros  para  ouvir  durante  o  trabalho.  Dessa  maneira,  a  biblioteca  enquanto  arena  permanece  a
mesma,  mas  a  biblioteca  como  ambiente  difere  de  pessoa  para  pessoa.  Assim,  a  distinção  que  Lave  faz  entre
arena e ambiente é similar à distinção feita anteriormente entre atividade e ocupação. Como a atividade, a arena
é uma ideia abstrata, enquanto os ambientes são os locais onde as atividades ocupacionais realmente acontecem.

Pa péis: Construções Sociais Versus Pessoalmente Instituído
A  teoria  do  papel  teve  influência  sobre  o  desenvolvimento  da  teoria  na  profissão.  Por  exemplo,  o  Modelo  de
Ocupação Humana descrito no Capítulo 44 utiliza o papel como uma maneira de articular o modo pelo qual os
indivíduos se veem e os múltiplos aspectos da vida de uma pessoa. O conceito de papel é filtrado em avaliações
como  a  Lista  de  Verificação  de  Papel  e  Entrevista  sobre  o  Papel  de  Trabalhador.  Nas  teorias  sociológicas  e
psicológicas, os pa péis são observados como posições sociais (Jackson, 1998a; Hagendorn, 2000). Como Fisher
observou  em  sua  conferência  Slagle,  “a  dimensão  do  papel  pertence  ao  relacionamento  entre  os  pa  péis  da
pessoa  e  a  coleção  correlata  dos  desempenhos  da  tarefa  que  precisam  ser  desdobrados  de  maneira  lógica,
gradativa  e  socialmente  adequada.  Nós  precisamos  compreender  a  percepção  das  pessoas  sobre  os  pa  péis  e
quaisquer  incongruências  entre  seu  comportamento  em  relação  ao  papel  e  o  comportamento  esperado  pela
sociedade  ou  desejado  pela  pessoa”  (1998,  p.  544).  Dessa  maneira,  os  pa  péis  podem  ser  cogitados  como
modelos  normativos  modelados  pela  cultura.  Eles  ajudam  a  articular  expectativas  para  o  que  se  considera  ser
uma “boa” mãe, “bom” pai, um “bom” estudante etc., e o que as pessoas nessas posições têm obrigação de fazer.
Os indivíduos em seus pa péis podem adotar expectativas normativas ou podem interpretar as expectativas para
adaptar seus próprios valores e crenças.
Jackson  (1998a,  1998b)  argumentou  que  nossa  preocupação  deve  estar  sobre  as  ocupações  em  que  os
indivíduos se engajam, e não sobre seus pa péis, porque o conceito de papel é problemático a partir de diversas
perspectivas.  Em  primeiro  lugar,  os  pa  péis  podem  se  sobrepor.  Por  exemplo,  é  frequentemente  impossível
diferenciar o papel de “estudante” de uma criança do seu papel de “amigo”. Quando alguém está cozinhando,
esta pessoa está no papel de mãe ou pai, voluntário de igreja ou chefe de cozinha? Em ambos os casos, nossa
preocupação  está  na  ocupação,  na  capacidade  da  pessoa  de  se  engajar  na  ocupação  e  no  significado  a  ela
atribuído, e não no papel ao qual a ocupação se conecta. Em segundo lugar, como o conceito de papel fornece
uma via rápida para compreensão do mundo ocupacional de uma pessoa, Jackson (1998a) argumentou que esta
abordagem  é  arriscada  porque  as  questões  de  poder  inseridas  em  muitos  modelos  culturais  são  inerentes  ao
conceito  de  papel.  Por  exemplo,  quem  decide  o  que  é  uma  “boa  mãe”?  Quem  diz  que  a  mãe  é  quem  deve
cozinhar para a família?
Além disso, não é fácil ignorar o papel porque este é um conceito amplamente aceito. Por exemplo, Trombly
Latham  (1995,  2008)  utiliza  o  papel  como  um  constructo  de  organização,  embora  ela  advirta  que,  quando  se
considera  o  papel,  isto  deve  ser  feito  a  partir  da  perspectiva  de  definição  da  pessoa,  e  não  das  expectativas
normativas da sociedade. No entanto, como alguém consegue essa perspectiva de definição senão por meio da
compreensão das ocupações que o indivíduo associa a um determinado papel? Focando nas ocupações em que as
pessoas se envolvem, podemos observar o que elas fazem, o que a ocupação significa para elas, como se sentem
a  respeito  de  seu  desempenho  e  como  organizam  suas  ocupações  para  atender  às  suas  necessidades  e  às  das
pessoas  a  seu  redor.  Nossa  análise  começa  com  a  ocupação  e  pode  resultar,  se  necessário,  no  ajuste  dessas
ocupações na definição pessoal do indivíduo de ocupações associadas a seus pa péis. Mais uma vez, observamos
o  contraste  entre  a  noção  abstrata  do  papel  e  a  situação  vivenciada  pelo  indivíduo,  muitas  vezes  denominada
papel ocupacional.
As advertências de Jackson (1998a, 1998b) sobre a utilização do papel são importantes porque é fácil desviar­
se  inconscientemente  para  as  expectativas  normativas  ou  utilizar  a  experiência  pessoal  de  uma  pessoa  para
estruturar  as  expectativas  para  outras.  Como  discutido  anteriormente  no  Capítulo  32,  os  profissionais  trazem
suposições pessoais não articuladas para o processo de terapia. Por conseguinte, optamos por não utilizar o papel
como  um  constructo  organizacional  para  este  capítulo  porque  queremos  focar  nas  ocupações  que  são  mais
importantes para uma pessoa, independente dos pa péis ou papel para os quais elas possam estar designadas. Em
vez disso, observamos a orquestração das ocupações à medida que elas são reveladas e integradas ao longo da
vida diária.

ANÁLISE E SIGNIFICADO OCUPACIONAL
Cada  vez  mais,  os  profissionais  precisam  lembrar  que  o  significado  é  construído  e  interpretado  de  maneira
individual e  é  fundamental  para  a  existência  humana  (Bruner,  1990;  Frankl,  1959;  Hasselkus,  2002;  Peloquin,
2005, 2007). Um profissional é obrigado a compreender o significado das ocupações a partir da perspectiva do
cliente. Utilizando o exemplo da biblioteca discutido anteriormente, é possível que, se você conversasse com o
pai sobre o significado de ir à biblioteca com seu filho, ele mencionasse o prazer de estimular na criança o valor
e a alegria da leitura e o tempo tranquilo que eles compartilham juntos. Ele poderia se lembrar de sua infância e
das vezes em que foi à biblioteca com um de seus pais. Por outro lado, ele poderia explicar que nunca teve a
oportunidade de ir a uma biblioteca com seu pai porque este havia abandonado a família. A última experiência
criaria  um  significado  e  estrutura  motivacional  totalmente  diferentes  para  esta  dupla  pai­filho  enquanto  eles
participam desta coocupação.
Como  é  ilustrado  por  este  exemplo,  diferentes  experiências,  valores  e  crenças  do  cliente  tornam  a
interpretação  do  significado  um  aspecto  particularmente  complexo  da  prática.  Este  desafio  é  aumentado  por
potenciais diferenças culturais e socioeconômicas entre os profissionais e seus clientes, tornando mais desafiador
para  os  profissionais  compreenderem  por  completo  as  experiências  de  seus  clientes  e  o  significado  que  eles
atribuem  às  suas  ocupações  (Crepeau,  1991;  Kielhofner  &  Barrett,  1998;  Payne,  DeVol  &  Smith,  2001).
(Consulte  também  os  Capítulos  de  6  a  9,  que  abordam  cultura,  aspectos  socioeconômicos,  lugar  e
espiritualidade.)  É  da  responsabilidade  do  profissional  desenvolver  relações  terapêuticas  que  estimulem  a
compreensão de seus clientes e de seus mundos (Crepeau, 1991; Peloquin, 1995; consulte também o Capítulo 29,
que aborda a colaboração centrada no cliente, e o Capítulo 33, que aborda a relação terapêutica). A análise de
atividade  e  a  análise  ocupacional  são  parte  do  instrumental  do  qual  os  profissionais  podem  lançar  mão  para
alcançar  essa  compreensão.  A  Tabela 35.1  fornece  uma  referência  rápida  para  lembrar  os  leitores  sobre  quais
conceitos  estão  associados  à  experiência  subjetiva  da  pessoa  versus  quais  termos  estão  mais  relacionados  à
compreensão abstrata das demandas típicas dos profissionais.

ATIVIDADE E ANÁLISE OCUPACIONAL NA PRÁTICA
Os profissionais de terapia ocupacional recorrem a seu treinamento, conhecimento de atividades e experiência
profissional  quando  analisam  as  atividades  (Neistadt,  McAuley,  Zecha  &  Shannon,  1993).  Esta  análise  é  tão
automática que, com frequência, é ignorada ou não é apreciada, tornando­se outro aspecto tácito da natureza do
processo de raciocínio empregado pelos profissionais (Mattingly & Fleming, 1994; Schell & Cervero, 1993). Os
profissionais analisam as atividades a partir das teorias de prática para compreender os problemas nas estratégias
de desempenho e tratamento apropriado a partir da perspectiva teórica. Sua análise também se baseia no acesso a
determinadas  atividades  e  em  até  que  ponto  eles  se  engajam  na  tentativa  e  erro  ou  na  experimentação  para
compreender mais plenamente as atividades (Schell, 2007).
Estudos  que  tentaram  fazer  da  análise  de  atividade  um  processo  objetivo  demonstraram  que  o  número  de
variáveis é tão grande que seria muito difícil atingir a meta da objetividade (Llorens, 1986; Neistadt et al., 1993;
Trombly,  1995).  Adotar  a  distinção  entre  a  análise  de  atividade  e  a  análise  ocupacional  torna  discutível  esta
preocupação. Se o resultado da análise de atividade consiste em compreender as demandas potenciais de uma
atividade, a objetividade não é a meta. Em vez disso, identificar as múltiplas habilidades tipicamente necessárias
e  os  significados  potenciais  da  atividade  pode  exigir  profissionais  capazes  de  uma  compreensão  geral  mais
profunda dessa atividade.
Em  contraste  com  a  consideração  abstrata  das  atividades  por  suas  implicações  terapêuticas,  a  análise
ocupacional é um processo altamente individualizado porque está inserido na perspectiva particular da pessoa,
no desempenho ocupacional da pessoa e no contexto do desempenho. A análise ocupacional acontece quando se
tenta compreender a pessoa como um ser ocupacional e identificar o desempenho ocupacional e as barreiras para
o  desempenho  efetivo  (Coster,  1998;  Fisher,  2001;  Hocking,  2001;  Polatajko,  Mandich  &  Martini,  2000;
Trombly, 1995; Trombly Latham, 2008). Os modelos de avaliação centrados no cliente examinam a capacidade
de uma pessoa se engajar em uma ocupação valorizada e a negociação entre o desempenho real, as demandas da
atividade  e  o  contexto  (Law,  1998).  O  Boxe  35.2  fornece  exemplos  dos  diversos  graus  de  foco  que  os
profissionais utilizam para considerar as ocupações.
Tanto a análise ocupacional como a análise de atividade são necessárias para a prática efetiva. Ao misturarem
esses  modelos  analíticos,  os  profissionais  podem  alcançar  uma  compreensão  dos  modos  particulares  como  os
clientes  se  relacionam  com  suas  ocupações  e  podem,  então,  utilizar  seu  conhecimento  sobre  a  atividade  e  as
teorias de prática para aplicar as atividades ocupacionais para fins terapêuticos. Esta compreensão é alcançada
por ambas as formas de análise. A Tabela 35.2 resume as questões abordadas tanto na análise de atividade como
na ocupacional. O Boxe 35.3  mostra  como  os  profissionais  aplicam  a  análise  do  desempenho  ocupacional  por
todo  o  processo  da  terapia.  O  Boxe  35.4  lista  algumas  das  maneiras  pelas  quais  essas  análises  informam  as
decisões de prática.

TABELA 35.1 TERMOS: DO ABSTRATO AO PARTICULAR
Conceito Abstrato Experiência Real
O que é feito Atividade Ocupação
Onde e com quem Arena Ambiente
Como é organizado Papel social Orquestração ocupacional

ESCALA OCUPACIONAL: UMA QUESTÃO DE FOCO

D a mesma forma que há pouca concordância a respeito da definição de atividade, há pouca concordância
sobre o espectro da escala do que realmente constitui uma ocupação. Hinojosa capturou este dilema de
maneira eloquente quando compartilhou suas reflexões pessoais sobre ocupação:

Sinto­me desconfortável com a tendência atual da profissão de chamar tudo o que fazemos de ocupação.
Pessoalmente, não posso acreditar que escovar meus dentes ou ser capaz de utilizar efetivamente o papel
higiênico no banheiro seja uma ocupação. Acredito que são atividades propositadas importantes. Imagino que a
combinação destas duas atividades seja fundamental para completar as ocupações de higiene pessoal (Hinojosa,
Kramer, Royeen & Luebben, 2003, p. 8).

O questionamento de Hinojosa poderia ser reformulado da seguinte maneira:

Seria a ocupação uma coleção de tarefas dentro de um espectro amplo da vida da pessoa (cozinhar) ou parte das
subtarefas dentro desta categoria (preparar uma refeição) ou mesmo unidades menores (preparar vegetais para a
salada)?

Lente Exemplo: Questões Analíticas


Cozinhar
Fazendo  uma O que esta pessoa cozinha e por quê?
refeição Em que ambientes elas cozinham (i.e., casa, centro comunitário, cozinha de abrigo para sem­teto?)
Com que frequência a pessoa cozinha?
Como isto se sobrepõe ou se insere em outras ocupações (i.e., é importante em seu trabalho, para
suas obrigações com seu cônjuge ou parceiro?)
A pessoa consegue fazer o planejamento e a organização necessários?
A pessoa tem habilidades para preparar o alimento?
A pessoa consegue preparar cada parte da refeição de maneira adequada?
A qualidade do resultado é satisfatória para a pessoa e para as outras pessoas significativas?

A pessoa consegue pegar os ingredientes de salada no refrigerador?
A pessoa se lembra de pegar tudo o que é necessário?
A pessoa utiliza faca com segurança para os diferentes ingredientes?
A pessoa consegue utilizar efetivamente a faca para todos os ingredientes?
Preparando  uma
A pessoa consegue colocar a salada na mesa?
salada A pessoa tempera a salada segundo seus próprios padrões e daquelas com os quais ela compartilha
a salada?
 
 
A pessoa segura o tomate?
A pessoa o segura com muita força ou de forma muito frouxa?
Fatiando um tomate A pessoa segura a faca pelo cabo?
A pessoa sabe segurar o cabo em oposição à lâmina?
A pessoa posiciona a faca em relação ao tomate?
A pessoa corre o risco de se cortar?
A pessoa corta o tomate da maneira desejada?
As fatias de tomate atendem aos padrões da pessoa e aos padrões das outras pessoas que comem
a salada?
Existe pouca concordância sobre esta questão, com os especialistas propondo várias maneiras de inserir as
subunidades das ocupações em categorias mais amplas. Estas incluem o seguinte:

Trombly Latham insere as atividades em tarefas que constituem pa péis de vida (1995, 2008).
Polatajko,  Mandich  e  Martini  (2000)  subdividem  as  ocupações  em  tarefas  que  contêm  segmentos,
unidades e subunidades.
Baum e Christiansen (2005) começam com pa péis, tarefas e ações.
Fisher  considera  as  dimensões  do  papel  das  ocupações  de  um  indivíduo  e  coloca  as  tarefas  (que  a
pessoa  realiza)  nesta  categoria  (1998),  mas  destaca  a  importância  de  começar  com  as  metas  de  uma
pessoa.

Nossa  finalidade  aqui  é  apontar  a  falta  de  concordância  e  dizer  que  não  temos  solução  para  o  problema.
Apenas  queremos  que  você  reconheça  que  existem  maneiras  variadas  de  considerar  a  análise  das
ocupações.  Pedimos  emprestada  a  metáfora  de  Crabtree  que  compara  o  processo  de  raciocínio  da  terapia
ocupacional  com  a  lente  de  uma  câmera.  Por  vezes,  abrimos  a  lente  para  ver  o  quadro  geral  e  por  vezes
aplicamos  o  zoom  para  capturar  os  pequenos  detalhes.  A  profundidade  e  o  espectro  da  análise  estão
diretamente  relacionados  com  as  metas  do  cliente  para  o  tratamento  e  com  o  processo  de  raciocínio  do
profissional diante destas metas.

ANÁLISE DE ATIVIDADE
A  análise  de  atividade  consiste  em  uma  maneira  de  raciocinar  sobre  as  atividades.  Os  profissionais  precisam
realizar análises rápidas enquanto trabalham com os clientes. Além disso, os profissionais de terapia ocupacional
também  podem  pensar  nas  atividades  por  seu  potencial  terapêutico,  por  exemplo,  ao  formarem  opinião  sobre
novos jogos, utensílios para cozinhar e outros objetos ou atividades. A análise de atividade aborda as demandas
típicas de uma atividade, a gama de habilidades envolvidas em sua realização e os diversos significados culturais
que  podem  ser  atribuídos  a  ela.  A  meta  da  análise  de  atividade  é  compreender  o  máximo  possível  sobre  uma
atividade,  incluindo  as  habilidades  específicas  necessárias  para  sua  execução  de  maneira  competente  e  sua
relação com a participação no mundo como um todo (Cynkin, 1995). É este conhecimento sobre as atividades,
suas propriedades e seus significados culturais potenciais que sensibiliza os profissionais para as ocupações de
seus  clientes  e  ajuda  os  profissionais  a  conhecerem  quais  atividades  em  particular  serão  sugeridas  para  seus
clientes. Por meio da análise de atividade, os profissionais obtêm uma compreensão do potencial terapêutico de
uma  ampla  gama  de  atividades.  Como  os  profissionais  estão  analisando  constantemente  as  atividades,  eles
desenvolvem  a  capacidade  de  examinar  com  rapidez  uma  ampla  gama  de  atividades  por  seu  potencial
terapêutico  ou  de  avaliação.  Por  exemplo,  na  vinheta  que  abre  o  Capítulo  32,  Terry,  a  terapeuta  ocupacional,
precisou identificar muito rapidamente maneiras alternativas para avaliar a segurança da Sra. Munro. A terapeuta
planejou  utilizar  a  observação  do  autocuidado  para  verificar  com  quanta  segurança  a  Sra.  Munro  se
movimentava e se ela lembrava e ordenava as atividades de maneira apropriada. Como a Sra. Munro já havia
realizado  seu  autocuidado,  Terry  rapidamente  encontrou  uma  tarefa  de  limpeza  significativa  que  exigiria
essencialmente habilidades semelhantes com base na cognição e na mobilidade.

Formato da Análise de Atividade
O formato da análise de atividade baseia­se na organização da Estrutura de Prática da Terapia Ocupacional –
Occupational Therapy Practice Framework (AOTA, 2002) e na edição subsequente (AOTA, 2007), bem como
nas  informações  contidas  em  diversos  capítulos  deste  texto.  A  Estrutura  de  Prática  da  Terapia  Ocupacional
destina­se  a  refletir  a  prática  atual  da  terapia  ocupacional  e  sua  preocupação  com  o  engajamento  ocupacional
para  apoiar  a  saúde  e  a  participação  das  pessoas  em  nossa  sociedade.  A  análise  de  atividade  concentra­se  na
identificação das demandas da atividade e das habilidades de desempenho. As demandas da atividade incluem
aspectos da atividade, como os objetos tipicamente utilizados, e as exigências de espaço e sociais da atividade. O
formato  da  análise  também  inclui  a  consideração  das  estruturas  e  funções  corporais  comumente  necessárias  à
medida  que  elas  se  relacionam  com  as  habilidades  frequentemente  empregadas  na  atividade.  Também  estão
incluídas  na  análise  as  habilidades  esperadas  que  representem  a  interface  entre  a  pessoa  e  o  ambiente  de
desempenho.
Como parte da análise da atividade, os profissionais podem considerar a utilidade da atividade conforme visto
através  de  diferentes  lentes  teóricas.  Por  exemplo,  um  terapeuta  que  trabalha  com  uma  população  de  pessoas
com  comprometimentos  relacionados  à  biomecânica  (i.e.,  lesões  da  mão,  lesões  nas  costas)  pode  analisar  as
atividades quanto à força típica, à amplitude de movimento e à resistência necessária para realizar as atividades.
De modo alternativo, alguém que está preocupado em dar suporte às habilidades interpessoais de clientes com
doença mental pode olhar principalmente para a complexidade das interações sociais comumente exigidas pela
atividade (Davidson, 2003). Ao utilizarem os princípios de uma determinada teoria de prática, os profissionais
de  terapia  ocupacional  analisam  as  atividades  à  medida  que  eles  consideram  as  forças  e  problemas  de
desempenho  abordados  pela  determinada  teoria.  O  tratamento  potencial  deve  ser  compatível  com  a  teoria  e
provavelmente  englobará  a  gradação  e  a  adaptação  das  ocupações  escolhidas  pelo  cliente.  A  Tabela  35.2
apresenta um formato para a análise das atividades.
TABELA 35.2 FORMATO DE ANÁLISE PARA ATIVIDADES E OCUPAÇÕES
Análise da Atividade Análise Ocupacional
Descrição Descrever a atividade em uma ou duas Descrever resumidamente a ocupação.
frases. Como a pessoa comumente realiza esta
ocupação e em que ambientes.
Objetos Descrever ferramentas, materiais e Descrever ferramentas, materiais e
utilizados e equipamentos comumente utilizados. equipamentos realmente utilizados.
suas Notar o simbolismo/significado potencial Notar o simbolismo/significado dos objetos
propriedades dos objetos na cultura predominante. para esta pessoa.
Demandas de Descrever o ambiente físico em que a Descreva o ambiente físico real em que a
espaço atividade está sendo analisada. Incluir ocupação será realizada. Considere
os principais aspectos, como os como o ambiente físico dá suporte ou
seguintes: compromete o desempenho. Inclua os
aspectos principais, como os seguintes:
Esta  acontece  em  um  ambiente Isto acontece em um ambiente natural
natural ou construído? ou construído?
Quais  são  as  principais  estruturas Quais  são  as  principais  estruturas
naturais ou construídas? naturais ou construídas?
Descreva  a  posição  de  qualquer Como  as  estruturas,  o  mobiliário  e  os
mobiliário e equipamento. equipamentos  afetam  o  desempenho
da pessoa?
Qual é o nível de iluminação? Muda Qual  é  o  nível  de  iluminação,  e  ele
ou é constante? muda?  Como  a  iluminação  afeta  o
Descreva  o  tipo  e  o  nível  de  ruído. desempenho?
Como ele pode ter impacto sobre a Descreva  o  tipo  e  o  nível  de  ruído  e
atividade a ser realizada? como ele afeta o desempenho.
Descreva  qualquer  outro  aspecto Descreva  qualquer  outro  aspecto  que
que  possa  impactar  os  sentidos afete  o  desempenho  da  pessoa  (i.e.,
(i.e.,  odor,  textura,  temperatura)  e odor, textura, temperatura).
afetar o desempenho. Além  do  contexto  previamente
Este  é  o  contexto  típico  para  a descrito,  onde  mais  esta  pessoa  se
atividade?  Em  caso  negativo,  que engaja  nesta  ocupação?  Descreva
outros  contextos  poderiam  ser resumidamente  todos  os  contextos
apropriados?  Descreva­os adicionais,  com  ênfase  sobre  como
resumidamente,  com  ênfase  sobre eles  são  diferentes  do  primeiro
como  os  outros  contextos  são descrito.
diferentes.
Demandas Descreva as demandas sociais e Descreva as demandas sociais e culturais à
sociais culturais ou a gama de demandas que medida que a pessoa se engaja nesta
podem ser necessárias para esta ocupação, utilizando as categorias
atividade ou criadas pelo engajamento listadas a seguir.
nesta atividade, utilizando as
categorias listadas a seguir. Descreva  outras  pessoas  envolvidas
na ocupação. Qual é o relacionamento
Descreva outras pessoas envolvidas entre elas? O que elas esperam umas
na  atividade.  Qual  é  o das outras?
relacionamento  entre  elas?  O  que Descreva  regras,  normas  e
elas esperam umas das outras? expectativas  desta  pessoa  à  medida
que ela se engaja nesta ocupação.
Descreva  regras,  normas  e Descreva  o  significado  cultural  e
expectativas  comuns  envolvidas  na simbólico  que  esta  pessoa  e  outras
realização desta atividade. pessoas  significativas  atribuem  a  esta
Descreva  o  significado  cultural  e ocupação.
simbólico atribuído a esta atividade. Considere  todos  os  outros  contextos
sociais  em  que  a  ocupação  poderia
Especule  sobre  outros  contextos ser  realizada.  Como  regras,
sociais  em  que  a  atividade  poderia expectativas  e  significados  variam  de
ser  realizada.  Como  regras, acordo com este ambiente?
expectativas  e  significados  variam
de acordo com este ambiente?
Sequência, Liste as etapas sequenciais (não mais Liste as etapas sequenciais (não mais que
regulação que 15) da atividade. Inclua quaisquer 15) da ocupação à medida que a pessoa
temporal e requisitos de regulação temporal, a executa. Inclua qualquer requisito de
padrões como esperar a cola secar, o pão regulação temporal, como esperar a cola
crescer etc. secar, o pão crescer etc.
Quanto  existe  de  flexibilidade  na Quanto  de  flexibilidade  existe  na
sequência  e  na  regulação  temporal sequência  e  na  regulação  temporal
das etapas desta atividade? das etapas desta ocupação?
A  atividade  ocorre  tipicamente  ou Esta  ocupação  comumente  ocorre  ou
torna  a  acontecer  em  um  horário torna  a  acontecer  em  um  horário
específico  do  dia?  Com  que específico do dia? Quando e com que
frequência?  (i.e.,  diariamente, frequência?  (i.e.,  diariamente,
semanalmente, mensalmente?) semanalmente, mensalmente?)
Habilidades Utilizando a Estrutura de Prática da Utilizando a Estrutura de Prática da Terapia
necessárias Terapia Ocupacional ou outra lista Ocupacional ou outra lista publicada de
(ações publicada de habilidades, identifique 5 habilidades, identifique 5 a 10 habilidades
observáveis) a 10 habilidades críticas para o críticas para o desempenho ocupacional
desempenho da atividade. desta pessoa.
Considere  as  habilidades  que  exigem
Considere  as  habilidades  que movimento,  cognição,  percepção
exigem  movimento,  cognição, sensorial e emocional da pessoa, bem
percepção sensorial e emocional da como ações comunicativas e sociais.
pessoa,  bem  como  ações Considere  as  habilidades  tipicamente
comunicativas e sociais. exigidas  pelo  ambiente  de  aplicação
Considere  as  habilidades (físico, social e virtual).
tipicamente  exigidas  pelo  ambiente
de aplicação (físico, social e virtual).
Funções e Considere as capacidades subjacentes Considere as capacidades subjacentes da
estruturas da pessoa que são tipicamente pessoa que são necessárias para a
corporais necessárias para realização desta realização desta ocupação nos contextos
necessárias atividade. previamente identificados.
Liste  resumidamente  as  estruturas
Liste  resumidamente  as  estruturas corporais  (partes  anatômicas  do
corporais  (partes  anatômicas  do corpo) que a pessoa utiliza.
corpo) tipicamente utilizadas. Liste  resumidamente  as  funções
Liste  resumidamente  as  funções corporais  essenciais  (fisiológicas  e
corporais  essenciais  (fisiológicas  e psicológicas).
psicológicas).
Riscos para a Liste os riscos potenciais para a Liste os riscos potenciais para a segurança
segurança segurança quanto a esta atividade. desta pessoa quando ela realiza esta
Pense principalmente nas crianças, ocupação. Considere os problemas
nas pessoas com problemas cognitivos e de julgamento, sensibilidade
cognitivos e de julgamento, nas diminuída etc.
pessoas com sensibilidade diminuída
etc.
Adaptabilidade Quanto de flexibilidade existe para que Quanto de flexibilidade existe para que esta
para promover as pessoas realizem esta atividade de pessoa realize esta ocupação de
a participação diferentes maneiras? Considere: diferentes maneiras? Qual é a vontade
da pessoa e dos principais cuidadores de
Variáveis  baseadas  na  pessoa  (i.e., considerarem sua realização de modo
contexto  pessoal, diferente? Considere:
comprometimentos) Variáveis  baseadas  na  pessoa  (i.e.,
Variáveis  contextuais  externas contexto pessoal, comprometimentos)
(físicas,  sociais,  temporais,  virtuais, Variáveis contextuais externas (físicas,
culturais) sociais, temporais, virtuais, culturais)
Gradação Liste três maneiras para facilitar a tarefa Liste três maneiras para facilitar a tarefa
em relação a uma variável pessoal ou em relação a uma variável pessoal ou
contextual identificada. contextual identificada.
Liste três maneiras para tornar a tarefa Liste três maneiras para tornar a tarefa
mais desafiadora em relação a uma mais desafiadora em relação a uma
variável pessoal ou contextual variável pessoal ou contextual identificada.
identificada.

Adaptada da AOTA (2002, 2007)

ANÁLISE DO DESEMPENHO OCUPACIONAL

O desempenho  ocupacional  consiste  na  realização  da  ocupação  ou  atividade  selecionada  resultante  da
negociação dinâmica entre o cliente, o contexto e o ambiente e a atividade. A avaliação do desempenho
ocupacional envolve

Sintetizar  as  informações  a  partir  do  perfil  ocupacional  para  focar  em  áreas  específicas  da  ocupação  e
contextos que precisam ser abordados
Observar  o  desempenho  do  cliente  nas  atividades  e  ocupações  desejadas,  verificando  a  eficácia  das
habilidades de desempenho e os padrões de desempenho.
Selecionar  e  utilizar  instrumentos  específicos  para  avaliar  os  padrões  e  as  habilidades  de  desempenho,
quando apropriado.
Selecionar avaliações, quando necessário, para identificar e mensurar mais especificamente contextos ou
ambientes, demandas de atividade e fatores do cliente que influenciem as habilidades de desempenho e
os padrões de desempenho.
Interpretar os dados da avaliação para identificar o que dá suporte ao desempenho e o que prejudica o
desempenho.
Desenvolver  e  refinar  as  hipóteses  sobre  os  potenciais  e  as  limitações  do  desempenho  ocupacional  do
cliente.
Criar metas em colaboração com o cliente que abordem os resultados desejados.
Determinar os procedimentos para mensurar os resultados do tratamento.
Delinear  a  abordagem  potencial  de  tratamento  ou  as  abordagens  com  base  nas  melhores  prática  e
evidência disponíveis.

MEIOS PELOS QUAIS A ANÁLISE DE ATIVIDADE E A ANÁLISE OCUPACIONAL
INFORMAM A PRÁTICA

O
 
s profissionais analisam a atividade no abstrato pelos seguintes motivos:

Compreender o potencial terapêutico de uma ampla gama de atividades
Identificar atividades que levem, por si só, a

a. Melhorar o desempenho do cliente por meio da aquisição de novas habilidades ou do aprendizado de
estratégias de adaptação
b. Restaurar uma habilidade ou um fator do cliente que tenha impacto sobre as habilidades de
desempenho
c. Prevenção de futuros problemas ao modificar ou adaptar as demandas da atividade ou o contexto de
desempenho.

Os profissionais analisam as ocupações de seus clientes para

Avaliar a qualidade do desempenho atual nas ocupações valorizadas e a eficácia da capacidade deles ao
orquestrar suas ocupações.
Determinar o impacto de fatores pessoais (incluindo a condição de saúde) sobre o desempenho atual.
Determinar o impacto de fatores contextuais sobre o desempenho atual.
Fazer prognóstico para o futuro desempenho nos contextos identificados.
Identificar  maneiras  para  graduar  ou  adaptar  as  ocupações  de  modo  a  estimular  o  desempenho
melhorado.

(AOTA, 2007, p. 21).

ANÁLISE OCUPACIONAL
Em contraste com a análise de atividade, a análise ocupacional coloca a pessoa em primeiro plano ao levar em
consideração experiências de vida, valores, interesses e metas da pessoa. A análise ocupacional atende às suas
funções  e  estruturas  corporais  reais  e  considera  a  arena  real  de  desempenho,  incluindo  os  contextos  físico  e
social,  juntamente  com  as  demandas  da  própria  ocupação.  Essas  considerações  modelam  os  esforços  do
profissional  em  ajudar  a  pessoa  a  alcançar  suas  metas  por  meio  de  avaliação  e  tratamento  minuciosamente
planejados.  Os  profissionais  variam  o  espectro  da  análise  ocupacional,  dependendo  da  natureza  das
preocupações do cliente, do problema de saúde e da natureza do ambiente de tratamento.
Como discutido anteriormente, a análise ocupacional pode estar focada em determinada ocupação, como usar
o  teclado  do  computador  ou  escovar  os  dentes,  ou  pode  estar  focada  no  espectro  mais  amplo  de  como  os
indivíduos orquestram inúmeros aspectos do desempenho ocupacional na vida diária, como ser um trabalhador
efetivo. Ilustramos duas abordagens para análise das ocupações, as quais variam de acordo com as preocupações
do cliente.
Análise ocupacional: A análise das ocupações faz paralelo com a análise de atividade, com a importante
diferença  de  que  ela  examina  uma  ocupação  real  que  a  pessoa  executa  de  maneira  própria.  As  questões
utilizadas para a análise ocupacional são encontradas na última coluna da Tabela 35.2.
Análise da orquestração ocupacional: A Tabela 35.3 ilustra as maneiras de considerar como os indivíduos
se engajam e gerenciam suas múltiplas ocupações.

OCUPAÇÃO COMO TERAPIA
O  uso  cuidadoso  das  ocupações  para  a  mudança  terapêutica  é  o  que  torna  a  terapia  ocupacional  única.  As
estratégias de tratamento comumente envolvem a mudança de ocupações de modo a facilitar o desenvolvimento
ou  a  melhora  do  desempenho  desejado  ou  permitir  a  participação  apesar  das  limitações.  Inerente  a  essas
abordagens  está  a  atenção  ao  desenvolvimento  e  à  manutenção  da  motivação  para  a  mudança  do  cliente.  As
condutas comuns são gradação, suporte, retirada, orientação e adaptação ou modificação. A capacidade de
utilizar estas condutas em uma gama de atividades/ocupações e a partir de diversas perspectivas teóricas é uma
habilidade fundamental para os profissionais da terapia ocupacional.

Gradação
A  gradação  de  uma  ocupação  envolve  aumentar  sequencialmente  suas  demandas  para  estimular  a  função  da
pessoa  ou,  pelo  contrário,  reduzir  as  demandas  ocupacionais  em  resposta  às  dificuldades  de  desempenho  do
cliente.  Com  frequência,  os  profissionais  graduam  as  ocupações  para  melhorar  habilidades  e  capacidades
subjacentes  do  cliente  (Fisher,  2001).  Dependendo  da  natureza  dos  problemas  de  desempenho  do  cliente  e  da
teoria ou das teorias de prática selecionadas pelo profissional para abordar estes problemas, a maneira particular
de graduação irá variar. Por exemplo, um profissional pode graduar a ocupação a partir de uma perspectiva da
teoria integrativa sensorial quando trabalha com uma criança que deseja andar de bicicleta, mas que não é bem­
sucedida  em  equilibrar­se  o  suficiente.  O  profissional  pode  fornecer  o  tratamento  à  criança  em  um  ambiente
sensorialmente  estimulante  (equipamento  suspenso,  grandes  bolas  terapêuticas,  equipamento  de  escalada)
destinado a provocar a exploração ativa por parte da criança. O equipamento sensorial disponível fornece uma
gama de estímulos vestibulares, táteis e proprioceptivos para criar experiências sensoriais que exijam o controle
postural, incluindo o equilíbrio. Esta criança inicia a ocupação desejada dentro de um ambiente sensorialmente
estimulante e, com base na observação cuidadosa da reação da criança, o profissional pode reduzir ou aumentar
as  demandas  de  equilíbrio  da  ocupação  para  fornecer  o  “desafio  exato”  para  a  criança.  A  criança  consegue
aprender a utilizar seu corpo de uma nova maneira, de modo que surjam possibilidades cada vez mais complexas
para o engajamento físico (consulte o Capítulo 59). O profissional define a estrutura e as possibilidades em que
os interesses e as capacidades da criança de se adaptar às demandas sensoriais, motoras e organizacionais ditam
o nível de desafio e a intensidade das atividades. O profissional pode, em seguida, utilizar uma perspectiva de
aprendizado motor (veja o Capítulo 55) para fazer com que a mesma criança pratique as habilidades de postura e
equilíbrio diretamente sobre uma bicicleta com rodinhas, variando as demandas do terreno (i.e., virar esquinas,
subir uma rampa) e, mais adiante, remover cuidadosamente os suportes, como as rodinhas, para permitir maiores
demandas  de  equilíbrio,  até  que  a  criança  esteja  pronta  para  andar  de  bicicleta  sem  supervisão  ou  assistência
física.

Suporte, Retirada e Orientação
Os profissionais observam o desempenho ocupacional dos clientes e ajustam sua gradação para criar o nível de
demanda  apropriado  para  estimular  o  crescimento  terapêutico  ou  a  mudança,  mas  não  tão  difícil  que  frustre  a
pessoa, ou seja, criam um “desafio exato” (Ayres, 1973). Suporte (Rogoff, 2003; Rogoff, Goodman Turkanis &
Bartlett, 2001) é um termo empregado quando o profissional ajuda o cliente a realizar as partes da tarefa que são
muito  difíceis,  mas,  em  seguida,  permite  que  o  cliente  realize  o  restante  da  tarefa,  de  modo  que  a  tarefa  seja
completada. Do mesmo modo que um andaime sustenta um edifício durante a construção, os profissionais que
utilizam  essa  conduta  ajudam  os  clientes  a  permanecer  motivados  ao  ver  que  conseguem  completar
substancialmente  uma  tarefa.  À  medida  que  os  clientes  desenvolvem  ou  melhoram  suas  habilidades,  os
profissionais reduzem ou retiram sistematicamente os suportes, de modo que as demandas da tarefa aumentem
até que a pessoa realize a totalidade da tarefa ou a ocupação de maneira independente. Para mudanças em maior
escala  nos  grupos  de  atividades  ocupacionais,  os  profissionais  podem  se  engajar  na  orientação.  A  orientação
envolve fornecer as expectativas verbais e o apoio destinados a ajudar o indivíduo a se engajar e dar suporte ao
crescimento ou às mudanças (Clark, Ennevor & Richardson, 1996).
TABELA 35.3 ANÁLISE DA ORQUESTRAÇÃO DAS OCUPAÇÕES
Análise da Orquestração das Ocupações
Ocupações Identificar as ocupações que são fundamentais para a identidade da pessoa. Listar
estas ocupações.
Significado Quão significativas são estas ocupações para o indivíduo?
Quão fundamentais são as ocupações para a identidade da pessoa?
Quão importantes são as ocupações para o indivíduo?
Qual  é  a  importância  da  ocupação  para  os  outros  no  mundo  social  da  pessoa
(família, amigos, colegas de trabalho etc.)?
Finalidade Qual é a finalidade(s) que cada ocupação desempenha na vida do indivíduo, p. ex.,
automanutenção, saúde, suporte da família, suporte de amigos ou outros,
contribuição para a comunidade, lazer ou recreação, trabalho.
Nível de Para cada ocupação, o indivíduo percebe ser capaz de realizar esta ocupação com um
Habilidade e nível de habilidade apropriado dentro do intervalo de tempo adequado?
Eficiência Em caso negativo, quais são os problemas/as preocupações a partir da perspectiva
do indivíduo?
Em caso negativo, quais são os problemas/as preocupações a partir da perspectiva
das pessoas no mundo social do indivíduo?
Rotinas Identifique o padrão em que o indivíduo se engaja nestas ocupações.
Quais ocupações ocorrem diariamente?
Quais ocupações ocorrem semanalmente?
Quais ocupações ocorrem mensal ou anualmente?
Descreva um dia comum.
Descreva uma semana comum.
Organização das O quanto o padrão diário e semanal é colocado como rotina? (padrões de
Rotinas comportamento que são observáveis, regulares, repetitivos e que fornecem estrutura
para a vida diária. Rotinas, ocupações com sequências estabelecidas.)
O indivíduo está satisfeito com este nível de organização? Em caso negativo, por
que não?
O  quanto  estas  rotinas  atendem  às  expectativas  da  família,  dos  amigos  e  dos
colegas de trabalho?
Estas expectativas são razoáveis diante da capacidade familiar, emocional e física
da  família  desta  pessoa,  expectativas  a  partir  de  contexto,  família,  amigos  e
empregadores?
Descreva o quanto estas rotinas estão desorganizadas, estáveis ou hiperestáveis.
Adaptabilidade O quanto as ocupações e/ou as rotinas se baseiam em
para Promover Variáveis  individuais:  contexto  pessoal,  comprometimentos,  abertura  para
a Participação mudança?
Expectativas a partir do ambiente social (família, amigos, colaboradores)
Ambiente  (potencial  para  mudar  o  ambiente  físico  para  promover  a  participação
aumentada)
Necessidades Descreva o quanto a rotina ocupacional é suficiente para atender às necessidades da
pessoa e às necessidades daqueles em seu mundo social? Descreva as mudanças
necessárias para atender às necessidades da pessoa
Mudanças na pessoa (desenvolvimento de habilidade)
Mudanças no ambiente social (expectativas de desempenho)
Mudanças  na  ocupação  (adaptar  ou  graduar  para  promover  o  desempenho  mais
efetivo)

ESTUDO DE CASO: Lauro, um Adolescente que Quer Usar o Transporte Público

Lauro  é  um  estudante  do  ensino  médio  com  14  anos  de  idade.  Em  um  recente  encontro  de  planejamento
educacional, Lauro afirmou que gostaria de ir com os amigos até um complexo esportivo próximo, às quartas­
feiras, depois da aula. Ele não quer que a mãe o leve de carro, mas gostaria de ir de metrô com seus amigos.
Lauro  nunca  usou  o  transporte  público  e  tem  pouca  compreensão  de  como  gerenciar  o  dinheiro.  Em  uma
primeira etapa, Lauro e sua terapeuta ocupacional decidem ir até o metrô e comprar um cartão de passagens
para que ele o utilize.

Habilidades Comportamento Observado Qualidade do Fatores Pessoais Fator Contextual


Selecionadas Desempenho Que Afetam o Que Afeta o
Desempenho Desempenho
Três habilidades bem executadas
1. Pergunta Perguntou ao atendente onde Precisou de Consciência e A sinalização na
obter os cartões de passagem pista verbal funções de entrada do metrô
mínima e foi, raciocínio indica claramente a
em geral, necessárias disponibilidade de
socialmente apropriadas para a atendente para
apropriado tarefa, boa auxílio
regulação das
emoções
2. Manipula Colocou as moedas na máquina Precisou de Boas sensibilidade, Fenda para moedas
e foi capaz de retirar o cartão da pouco esforço amplitude articular de fácil alcance, da
máquina físico, atuou de e força muscular no mesma forma que o
modo eficiente membro superior cartão que sai da
e independente máquina
3. Conforma­ Esperou pacientemente na fila Não precisou de Cognitivamente A fila estava
se para fazer as perguntas ao pistas, pareceu ciente das regras pequena, teve de
atendente fazer de sociais implícitas, aguardar apenas 3
maneira local do corpo no minutos
automática espaço,
necessidade de
resposta emocional
tranquila
Três habilidades “problemáticas”
1. Reunir Tirou todo o dinheiro do bolso e Precisou de Limitações Nenhuma carteira
ficou em pé parado com ele nas pistas verbais e cognitivas/de para organizar o
mãos físicas na forma conhecimento – dinheiro
de apontar as Não tenho certeza, Poucas pistas visuais
diferentes ele conhece o valor na máquina sobre a
moedas para das moedas? aparência do
reunir as Ele pode dinheiro necessário
necessárias discriminar entre as
moedas pelo
tamanho e
desenho?
2. Escolha Conforme observado Precisou de Idêntico ao anterior Nenhum sinal sonoro
anteriormente, não tentou assistência da máquina para dar
selecionar as moedas verbal máxima suporte ao
para selecionar desempenho
as moedas
corretas em
cada fase do
processo
3. Atenção Quando colocou o dinheiro na Precisou de Atenção às pistas Nenhum sistema
máquina, não mudou os valores indícios verbais visuais, capacidade para selecionar as
que estava colocando (em para ler e de compatibilizar a moedas em seu
moedas de 25 centavos) depois interpretar a quantidade escrita bolso. Pistas visuais
que a mensagem avisou que ele mensagem, (10 centavos) com da máquina
precisava de apenas mais 10 mudando o tipo a moeda (menor) posicionadas abaixo
centavos de moeda do nível de seus
olhos

(Formato adaptado de Fisher, 2005).

Perguntas
1. Utilizando o formato de análise ocupacional, o que você poderia fazer para ajudar Lauro a se tornar mais
capaz de realizar as principais tarefas necessárias?
2. Quais  modificações  você  poderia  empreender  na  tarefa  ou  no  ambiente  de  desempenho  para  tornar  o
desempenho de Lauro mais efetivo?
3. O que você gostaria de saber a respeito de Lauro a fim de elaborar um plano mais individualizado (i.e.,
ocupacional)?

Adaptação e Modificação
A  meta  de  adaptação  ou  modificação  consiste  em  permitir  o  envolvimento  da  pessoa  em  uma  ocupação
valorizada.  Em  vez  de  se  empenhar  para  melhorar  ou  modificar  a  capacidade  funcional  do  indivíduo,  a
adaptação  tem  foco  na  modificação  das  demandas  da  ocupação,  de  modo  que  elas  sejam  compatíveis  com  a
capacidade da pessoa. Essas adaptações podem envolver a modificação da própria ocupação com a redução de
suas  demandas,  uso  de  aparelhos  de  assistência  ou  alterações  no  ambiente  físico  ou  social  (Dunn,  McLain,
Brown & Youngstrom, 2003; Fisher, 2001, 2006). Modificar as demandas da ocupação pode envolver torná­la
mais  simples  do  ponto  de  vista  cognitivo  ou  reduzir  as  habilidades  físicas  necessárias  para  sua  realização.
Equipamento de adaptação, como extensores ou prendedores, pode ser utilizado para possibilitar o ato de vestir­
se ou uma rampa pode ser empregada para possibilitar o acesso ao pátio de brincadeiras para uma criança que
faz uso de cadeira de rodas. Programas de computador de reconhecimento da voz podem ser utilizados por uma
pessoa que não consegue acionar o teclado. A adaptação também pode envolver a mudança do mundo social por
meio da provisão de assistência por outra pessoa, como um assistente de cuidados pessoais ou um familiar, para
ajudar a pessoa com doença mental crônica a funcionar de modo mais efetivo na sociedade (Davidson, 2003).
Para pessoas com condições degenerativas, essas adaptações podem precisar ser feitas continuamente à medida
que  diminuem  as  habilidades  do  indivíduo.  Pessoas  com  AIDS,  câncer,  artrite,  transtorno  bipolar  e  outras
doenças crônicas podem precisar de adaptações diárias por causa dos níveis flutuantes de função, típicos dessas
patologias.

ANÁLISE DAS HABILIDADES DE DESEMPENHO OCUPACIONAL
Os profissionais de terapia ocupacional aplicam os processos analíticos previamente descritos quando observam
as  pessoas  enquanto  elas  realizam  as  ocupações  desejadas.  Isto  pode  incluir  observar  um  estudante  na  sala  de
aula  ou  no  playground,  uma  pessoa  trabalhando  em  um  escritório  ou  em  uma  fábrica,  um  idoso  em  uma
instituição  de  vida  assistida  ou  uma  pessoa  sem  teto  em  um  abrigo.  Em  todas  estas  situações,  a  atenção  do
profissional está voltada para a negociação dinâmica do desempenho ocupacional da pessoa dentro do contexto e
do ambiente de atuação. Embora o profissional deva estar preocupado com a qualidade dos resultados, o foco
principal  é  o  processo  de  engajamento.  Dessa  maneira,  os  profissionais  adotam  habilidades  de  observação
minuciosa  associadas  ao  desempenho  ocupacional.  Estas  habilidades  representam  pequenas  unidades  de
ocupação, pelo fato de que elas são exemplos da negociação entre a pessoa, a ocupação e o ambiente direcionada
para a meta. Consulte o Estudo de Caso para um exemplo de como as observações minuciosas levam a opções
de tratamento utilizando a análise de atividade e a análise ocupacional.

CONCLUSÃO
Este capítulo descreve dois tipos de análises: análise de atividade e análise ocupacional. O uso destas análises
exige que os profissionais compreendam o seguinte:
As propriedades gerais e as demandas das atividades que eles estão habituados a realizar em determinados
ambientes e culturas.
Como selecionar as atividades que são relevantes, do ponto de vista ocupacional, para os clientes.
Como  selecionar,  graduar  e  adaptar  as  atividades/ocupações  com  base  no  conhecimento  teórico  para
estimular o desenvolvimento, gerar a mudança terapêutica ou melhorar o desempenho.
Como utilizar as ocupações valorizadas pelos clientes para atingir suas metas como seres ocupacionais.

Estas habilidades básicas são primordiais para a avaliação e o tratamento efetivos da terapia ocupacional. Ambos
os processos centralizam­se, por fim, na ocupação e em sua capacidade de motivar as pessoas a agirem e criarem
significado em suas vidas. Brockelman (1980), um filósofo, reconheceu a importância da ocupação na seguinte
afirmação: “Os instrumentos de nossas mentes e os instrumentos de nossas mãos têm uso inútil sem os motivos
profundos e pessoais do coração para estabelecer sua finalidade e orientar sua utilização” (p. 24). É através da
profunda compreensão das pessoas como seres ocupacionais por parte dos profissionais que ocorre o tratamento
efetivo da terapia ocupacional.
AGRADECIMENTOS
Agradecemos a Anne Fisher e Ellen Cohn por suas muitas conversas que contribuíram para o desenvolvimento
deste capítulo. As revisões de Anne James e de Ellen auxiliaram no esclarecimento dos conceitos e do texto.

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Princípios de Aprendizado e Mudança de
Comportamento
PERRI STERN

Sumário
Introdução
Por que os Terapeutas Ocupacionais Devem Estudar as Teorias de Aprendizagem?
Onde Começar?
Teoria Behaviorista
Quais São os Elementos Essenciais e as Hipóteses da Teoria Behaviorista de Aprendizagem?
Terapia Ocupacional e Teoria Behaviorista
Aprendizagem Social e Teoria Cognitiva Social
Teoria Construtivista
Teoria da Autoeficácia
Teoria Motivacional
Terapia Ocupacional, Teoria da Autoeficácia e Teoria Motivacional
Estudo de Caso: Olívia: Mudança de Comportamento
Conclusão

Objetivos de Aprendizagem
Após a leitura deste capítulo, você será capaz de:

1. Identificar  e  descrever  cinco  teorias  de  aprendizagem:  behaviorista,  cognitiva  social,


construtivista, autoeficácia e motivacional.
2. Comparar os elementos essenciais e as hipóteses de cada teoria de aprendizagem.
3. Explicar  como  diferentes  teorias  de  aprendizagem  contribuem  para  o  tratamento  em  terapia
ocupacional.

INTRODUÇÃO
Julia,  uma  menina  curiosa  de  4  anos  de  idade,  frequenta  a  creche  municipal  de  Plymouth.  Ela  é  muito
falante,  amistosa  e  interessada  na  maioria  das  atividades.  No  entanto,  Julia  frequentemente  pega  os
brinquedos  de  outras  crianças  durante  as  atividades  livres.  O  comportamento  de  Julia  provoca  grande
estresse nas outras crianças, e Julia obteve muita atenção negativa por suas ações.
Jake  é  um  menino  de  14  anos  que  se  esforça  na  escola.  Durante  muitos  anos  ele  teve  um  desempenho
escolar ruim e constantemente ouvia dos professores e dos pais: “Basta se esforçar mais, e você ficará bem”
e  “Sabemos  que  você  é  inteligente.  Por  que  você  não  trabalha  seu  potencial?”.  Durante  anos,  Jake
desenvolveu um sentimento de que seu desempenho escolar e suas capacidades mentais não eram “bons o
suficiente”.
John, um homem de 37 anos, frequenta um centro comunitário de vida independente em Boston. Ele tem
várias metas, uma das quais é melhorar sua capacidade de organizar e estruturar seu autocuidado diário, sua
produtividade  e  suas  ocupações  de  lazer.  Uma  pessoa  solitária  por  natureza,  John  está  um  pouco  ansioso
quanto à sua capacidade de ser bem­sucedido no programa.

Além das situações descritas anteriormente, pense nas muitas coisas que você pode ter ensinado a diferentes
pessoas. Talvez você tenha ensinado um irmão mais novo a compartilhar os brinquedos; um amigo a utilizar o
sistema de ônibus ou metrô; os avós a manterem o horário de seus remédios; um colega de turma a organizar as
informações e preparar­se para uma prova importante; um filho ou filha a superar o medo ou a ansiedade; ou a si
próprio uma nova arte, trabalho manual ou atividade de lazer. Como você decidiu como ensinar a pessoa? Por
que  você  ensinou  a  habilidade  ou  o  comportamento  de  uma  determinada  maneira?  Quais  estratégias  você
empregou? Quais  crenças  sobre  como  as  pessoas  aprendem  o  orientaram  em  sua  seleção  de  estratégias? Em
seus esforços para ensinar os outros, você desenvolveu, mais provavelmente, um conjunto inicial de crenças a
respeito de como as pessoas aprendem melhor.
Este  capítulo  apresenta  uma  revisão  de  algumas  teorias  de  aprendizagem.  Em  geral,  as  “teorias  de
aprendizagem”  explicam  uma  perspectiva  sobre  o  que  é  “saber”  e  como  uma  pessoa  “vem  a  saber”  (Fosnot,
1996,  p.  ix).  Cinco  maneiras  globais  diferentes  de  pensar  sobre  e  conceituar  as  teorias  de  aprendizagem  são
revisadas  neste  capítulo:  behaviorista,  cognitiva  social,  construtivista,  de  autoeficácia  e  motivacional.  Existem
muitas outras teorias de aprendizagem, mas essas cinco são relevantes, sem exceção, para a terapia ocupacional.

As teorias de aprendizagem explicam uma perspectiva sobre o que é “saber” e como uma pessoa “vem a saber”.

POR QUE OS TERAPEUTAS OCUPACIONAIS DEVEM ESTUDAR AS TEORIAS DE
APRENDIZAGEM?
Suinicki  (2004)  identificou  vários  motivos  para  o  estudo  das  teorias  de  aprendizagem.  Muitos  deles  são
relevantes  para  os  terapeutas  ocupacionais.  O  Boxe  36.1  resume  seis  motivos  importantes  para  que  os
profissionais de terapia ocupacional estudem as teorias de aprendizagem.
A teoria fornece uma fundamentação geral para a prática em todas as áreas de atuação. Com frequência, as
pessoas  procuram  a  terapia  ocupacional  porque  querem  aprender  novas  maneiras  de  fazer  o  que  é
importante  para  elas,  e  os  profissionais  de  terapia  ocupacional  ajudam  as  pessoas  a  modificar
comportamentos, de modo que elas possam se engajar em ocupações significativas. A teoria proporciona a
base para o planejamento de tratamentos específicos para a abordagem dos problemas do cliente.
A  teoria  orienta  e  informa  a  prática.  A  teoria  nos  fornece  uma  estrutura  conceitual  relacionada  às
observações do comportamento humano. As teorias propiciam a orientação sobre o que observar e responde
as perguntas sobre como melhor facilitar a modificação do comportamento.

MOTIVOS PARA ESTUDAR AS TEORIAS DE APRENDIZAGEM

1. Fornece fundamentação para a prática
2. Orienta e informa a prática
3. Leva a perguntas pesquisáveis
4. Aumenta a eficácia e a capacidade de resolução de problemas dos profissionais
5. Promove tratamentos individualizados e criativos
6. Responsabilidade profissional central

A teoria apresenta uma estrutura de organização de ideias sobre como as pessoas aprendem, a qual conduz a
perguntas que podem ser testadas na prática – em outras palavras, pesquisa. Formular e responder perguntas
sobre a prática da terapia ocupacional por meio da pesquisa é uma responsabilidade fundamental de todos
os profissionais de terapia ocupacional.
A principal meta da terapia ocupacional consiste em ajudar as pessoas a atuarem em suas ocupações diárias.
Os  tratamentos  podem  ser  planejados,  sugeridos  e  executados  de  muitas  maneiras  diferentes.  Os
profissionais  que  compreendem  as  diferentes  perspectivas  sobre  como  as  pessoas  aprendem  são,
provavelmente,  mais  efetivos  na  apresentação  de  uma  variedade  de  tratamentos  que  compatibilizam  as
necessidades  de  aprendizagem  dos  clientes  e  os  estilos  de  aprendizagem.  E  quando  surgem  problemas,  é
importante  ser  capaz  de  analisar  por  que  o  tratamento  não  está  funcionando.  Compreender  as  teorias  de
aprendizagem  o  ajudará  a  solucionar  os  problemas  que  aparecem  durante  o  tratamento  e  a  criar  novas
abordagens quando uma estratégia de tratamento não é efetiva.
Cada  cliente  com  quem  você  trabalha  terá  diferentes  valores,  interesses,  necessidades,  capacidades  e
maneiras  preferidas  de  aprendizagem.  Compreender  as  teorias  de  aprendizagem  o  ajudará  a  planejar
tratamentos individualizados e criativos que respondam às forças e limitações únicas de cada cliente.
A prática da terapia ocupacional deve sempre seguir adiante; ela não é estática. Nem a teoria. A exploração
continuada da teoria e o desenvolvimento da teoria constituem uma responsabilidade profissional de todos
os profissionais de terapia ocupacional.

As  teorias  de  aprendizagem  servem  a  vários  outros  propósitos.  E  talvez  em  seu  nível  mais  básico,  elas  nos
proporcionam uma maneira de organizar as grandes quantidades de conhecimento que são utilizadas na prática.
A teoria nos ajuda a agrupar o conhecimento, a organizar o conhecimento de outro modo que não ao acaso em
um  conjunto  coeso  de  ideias  que  explicam  algum  fenômeno  –  neste  caso,  a  aprendizagem.  As  teorias  de
aprendizagem nos capacitam a ver como mesmo as coisas aparentemente mais simples podem ser interessantes e
complexas.  Isto  não  significa  que  a  teoria  torne  as  coisas  mais  complicadas.  Ao  contrário,  a  teoria  ajuda  a
compreender  que  comumente  existe  mais  em  qualquer  situação  de  ensino­aprendizagem  do  que  possamos
perceber. As teorias de aprendizagem podem explicar como as pessoas reúnem e interpretam as informações e,
em seguida, determinam como, se de fato, a informação é significativa, relevante e útil para suas circunstâncias
de vida. As teorias da aprendizagem refletem as crenças sobre como as pessoas pensam e como elas armazenam
e  utilizam  as  informações  (Suinicki,  2004).  E  “como  a  maioria  dos  comportamentos  humanos  é  aprendida,
investigar os princípios da aprendizagem nos ajudará a compreender por que nos comportamos de certa maneira.
A  conscientização  sobre  o  processo  de  aprendizagem  não  somente  permitirá  maior  compreensão  sobre  o
comportamento normal e adaptativo, mas também possibilitará maior compreensão sobre as circunstâncias que
produzem o comportamento de má adaptação e anormal” (Hergenhahn, 1976, p. 12). Em qualquer situação de
tratamento,  os  profissionais  precisam  compreender  o  motivo  ou  os  motivos  que  contribuem  para  o
comportamento problemático.

ONDE COMEÇAR?
O  que  é  aprendizagem?  Como  sabemos  quando  alguém  está  aprendendo?  Sob  que  condições  a  aprendizagem
acontece?  Por  que  a  aprendizagem  acontece?  O  que  o  aluno  faz  para  criar  a  aprendizagem?  Quais  são  os
resultados da aprendizagem? A resposta a todas estas perguntas é “depende”. Depende, porque diferentes teorias
de aprendizagem atribuem diferentes causas, razões, ações e circunstâncias à aprendizagem.

TEORIA BEHAVIORISTA
A teoria behaviorista tem foco sobre de que maneira os comportamentos tangíveis e observáveis são aprendidos
em  resposta  a  algum  estímulo  ambiental  (Ormrod,  1990).  Os  teóricos  behavioristas  enfocam  eventos
observáveis,  e  não  os  processos  mentais.  Por  exemplo,  como  uma  criança  aprende  a  ceder  a  vez  quando  joga
com  os  amigos,  como  uma  pessoa  com  incapacidade  de  desenvolvimento  poderia  aprender  a  responder  da
maneira adequada em uma conversa e como uma pessoa aprenderia a impulsionar e manobrar uma cadeira de
rodas em uma comunidade urbana? Nestes exemplos, os eventos observáveis são a criança esperando a sua vez
para chutar a bola, uma pessoa esperando que um parceiro de conversa termine a fala antes de fornecer novas
informações e uma pessoa se locomovendo com sucesso em uma comunidade urbana com uma cadeira de rodas.
A ênfase geral das teorias comportamentais de aprendizagem está na relação entre um estímulo ambiental e uma
resposta comportamental e em como o aprendizado é indicado por uma mudança observada no comportamento.
Quais São os Elementos Essenciais e as Hipóteses da Teoria Behaviorista de Aprendizagem?
Os  behavioristas  utilizam  o  termo  condicionamento  em  vez  de  aprendizagem  para  explicar  as  mudanças  no
comportamento,  pois  a  teoria  behaviorista  diz  que  o  comportamento  de  uma  pessoa  é  condicionado  pelos
eventos  do  ambiente.  Um  comportamento  é  gradativamente  modelado,  modificado  e  moldado,  pois  reflete  a
resposta  do  ambiente  ao  comportamento.  Existem  diversas  palavras­chave  que  você  observará  na  maioria  dos
tipos  de  teorias  comportamentais:  condicionamento  (designando  situações  que  aumentam  ou  diminuem  a
probabilidade  de  um  comportamento  acontecer),  estímulo  (algo  que  leva  a  um  comportamento),  resposta  (a
reação  ao  estímulo),  modelagem  (uma  estratégia  para  desenvolver  aproximações  cada  vez  maiores  de  um
comportamento),  punição  (resposta  a  um  comportamento  indesejado)  e  reforço  (algo  que  faz  com  que  um
comportamento seja fortalecido e realizado novamente).
Muitos teóricos conhecidos contribuíram para o desenvolvimento da perspectiva comportamental, como Ivan
Pavlov  (1849­1936),  Edward  Thorndike  (1874­1949),  John  Watson  (1878­1958)  e  Burrhus  Frederic  (B.F.)
Skinner  (1904­1990).  Embora  suas  teorias  sejam  ligeiramente  diferentes  entre  si,  elas  compartilham  hipóteses
comuns  sobre  a  natureza  da  aprendizagem,  principalmente  a  necessidade  de  focar­se  em  eventos  externos
observáveis como evidência da aprendizagem (Ormrod, 1990).
Ivan Pavlov desenvolveu a teoria do condicionamento clássico, que resultou de seus estudos iniciais sobre a
resposta de salivação de um cão a um estímulo neutro, em seguida a um estímulo neutro mais um estímulo não
condicionado  e,  por  fim,  a  um  estímulo  condicionado.  Pavlov  concluiu  que  as  alterações  no  comportamento
(aprendizagem) devem­se à experiência.
A perspectiva de Thorndike é conhecida como conexionismo, por meio da qual a aprendizagem é vista como
um  processo  que  faz  conexões  entre  coisas,  compreendendo  a  relação  de  um  estímulo  com  uma  resposta.
Thorndike  estudou  como  as  pessoas  estabeleciam  tais  conexões  e,  por  conseguinte,  como  desenvolviam  e
mantinham  os  comportamentos.  Ele  enfatizou  o  papel  da  prática  e  da  experiência  no  fortalecimento  ou
enfraquecimento  das  conexões  entre  um  estímulo  e  uma  resposta.  Por  meio  de  uma  série  de  experimentos,
Thorndike  concluiu  que  a  aprendizagem  de  um  comportamento  é  resultado  das  consequências  do
comportamento.  Assim,  as  respostas  a  um  comportamento  seguidas  de  uma  experiência  satisfatória  seriam
recompensadas,  fortalecendo,  dessa  maneira,  a  conexão,  a  ligação  neural  entre  o  estímulo  e  a  resposta,  e
aumentando a probabilidade de que o comportamento seria produzido novamente. Originalmente, ele pensou que
respostas que eram seguidas de desconforto ou experiências insatisfatórias seriam enfraquecidas e, mais adiante,
cessariam, mas ele reviu isto e diminuiu a ênfase no papel da punição. Em vez disso, Thorndike acreditava que a
punição  teria  um  efeito  indireto  sobre  a  aprendizagem  –  que,  como  uma  consequência  de  alguma  resposta
insatisfatória a partir do ambiente, um organismo se engajaria em algum outro comportamento.
Watson  introduziu  o  termo  behaviorismo.  Ele  enfatizou  a  importância  de  focar  em  comportamentos
observáveis.  Watson  foi  muito  influenciado  pelo  trabalho  de  Pavlov.  À  medida  que  expandiu  o  trabalho  de
Pavlov, Watson propôs duas “leis” que explicavam a relação entre o estímulo e a resposta e, por fim, como o
comportamento é aprendido. Watson propôs que “quanto mais frequentemente ocorram o estímulo e a resposta
em  associação  entre  si,  mais  forte  se  tornará  o  hábito  de  Estímulo­Resposta”  (Ormrod,  1990,  p.  20).  Isto  foi
denominado Lei da Frequência. Watson também propôs que “a resposta que tenha ocorrido mais recentemente
depois de determinado estímulo é a resposta mais provável de ser associada àquele estímulo” (Ormrod, 1990, p.
20). Isto foi chamado Lei da Recenticidade.
B. F. Skinner foi influenciado tanto por Pavlov como por Watson. Ele criou o condicionamento operante. O
princípio básico de Skinner era de que é provável que uma resposta seguida de algum reforço seja fortalecida. E
como  uma  resposta  é  uma  alteração  no  comportamento,  então,  a  partir  de  uma  perspectiva  behaviorista,  isto
indicaria aprendizagem. Qualquer comportamento, positivo ou negativo, pode ser reforçado.
Skinner utilizou o termo reforço em vez de recompensa por dois motivos. Em primeiro lugar, ele acreditava
que o termo recompensa implica algo agradável ou desejável, mas, por vezes, as pessoas fazem intencionalmente
as  coisas  para  produzir  uma  consequência  desagradável  (p.  ex.,  uma  pessoa  poderia  fazer  alguma  coisa  para
deixar  outra  pessoa  com  raiva  porque  gosta  de  observar  a  pessoa  ficando  com  raiva).  Em  segundo  lugar,  os
termos recompensa, agradável e desejável  são  altamente  subjetivos.  Os  behavioristas  como  Skinner  preferiam
manter as coisas objetivas e científicas.
Existem  três  condições  importantes  para  o  condicionamento  operante.  Em  primeiro  lugar,  o  reforço  deve
suceder e não anteceder a resposta. Em segundo lugar, o reforço deve suceder imediatamente o comportamento.
De outro modo, o reforço terá menos efeito. Em terceiro lugar, o reforço deve estar condicionado à resposta; ele
não deve ser dado para uma resposta não correlata ou involuntária.
Como  o  condicionamento  operante  difere  do  condicionamento  clássico?  No  condicionamento  clássico,
existem um estímulo não condicionado e um estímulo condicionado. O estímulo condicionado gera a resposta
condicionada. A resposta é automática e involuntária. No condicionamento operante, uma resposta é seguida de
um  estímulo  de  reforço.  A  resposta  é  voluntária.  O  organismo  tem  controle  sobre  se  emitirá  a  resposta.  Por
exemplo, o condicionamento operante seria ilustrado quando John, o homem de 37 anos de idade que frequenta
um  centro  de  vida  independente  na  comunidade,  recebe  elogio  e  entusiasmo  quando  frequenta  o  centro.  Em
consequência disto, John frequenta o centro com regularidade ainda maior.

Terapia Ocupacional e Teoria Behaviorista
Os  profissionais  de  terapia  ocupacional  que  utilizam  a  teoria  behaviorista  para  compreender  a  aprendizagem
humana e orientar seus tratamentos analisariam um comportamento complexo que precisa ser aprendido (p. ex.,
a  necessidade  de  Julia  ceder  a  vez  quando  brinca)  e  organizariam  este  comportamento  do  simples  para  o
complexo.  O  tratamento  consistiria  em  oportunidades  para  que  a  pessoa  participasse  de  comportamentos  cada
vez  mais  complexos,  utilizando  os  princípios  behavioristas,  como  reforço,  modelagem  e  recompensa.  O
progresso  seria  mensurado  pelo  desempenho  ocupacional  observado  pelos  clientes  e  suas  capacidades  de
completar comportamentos cada vez mais complexos necessários para o desempenho ocupacional.
Os  profissionais  de  terapia  ocupacional  utilizam  a  teoria  comportamental  de  aprendizagem  de  diversas
maneiras para orientar os tratamentos de seus clientes. Por exemplo, Giles e Wilson (1988) e Giles, Ridley, Dill e
Frye  (1997)  descreveram  programas  para  ajudar  a  reeducar  pessoas  que  sofreram  lesões  cerebrais  graves.  Os
clientes  apresentavam  comprometimentos  físicos  e  cognitivos  e  precisavam  de  ajuda  para  o  banho  e  se  vestir,
comportamentos de autocuidado básicos. Os profissionais planejaram e executaram um programa que consistia
em planos individualizados para dividir cada atividade (vestir­se) em etapas menores. Os profissionais utilizaram
um conjunto específico de instruções para adicionar gradualmente mais habilidades ao repertório de cada pessoa
e, mais tarde, para ensinar a totalidade do comportamento.
Katzmann e Mix (1994) apresentaram um relato de caso de uma mulher de 34 anos de idade com encefalite
viral. A mulher apresentava dificuldade de processar informações escritas e verbais e exibia grande dificuldade
em tarefas complexas de autocuidado. O tratamento prescrito pelos profissionais foi influenciado pelas teorias
comportamentais, utilizando determinadas técnicas, como estimular com instruções passo a passo, modelagem e
pistas  verbais  ou  físicas.  Os  profissionais  identificaram  e  ordenaram  todas  as  etapas  necessárias  para  que  a
mulher completasse sua rotina de banhar­se, vestir­se e arrumar­se, o que começava com o ato de levantar­se da
cama e terminava com a ida para o café da manhã na instituição de reabilitação. Uma série de instruções passo a
passo, a modelagem gradativa e consistente do comportamento, as pistas verbais e a assistência física ajudaram a
mulher a melhorar seu funcionamento geral em AVD. Os profissionais estimulavam a mulher com orientações
ou  forneciam  assistência  física  para  uma  etapa  que  precisava  ser  completada  e  removiam  gradualmente  os
indícios, à medida que ela iniciava e completava a tarefa de maneira independente.
As  teorias  behavioristas  enfatizam  o  comportamento  observável,  recompensando  e  reforçando  o
comportamento desejável e reduzindo os comportamentos problemáticos. Os clientes que poderiam se beneficiar
de  abordagens  de  tratamento  que  se  fundamentam  nas  teorias  behavioristas  de  aprendizagem  incluem  pessoas
que apresentam dificuldade para planejar e organizar atividades aquelas que têm problemas de memória e/ou de
atenção,  aquelas  que  apresentam  déficits  no  sequenciamento  das  atividades  e  aquelas  que  demonstram
comportamentos  sociais  inadequados.  Algumas  estratégias  que  poderiam  ajudar  Julia  a  desenvolver  sua
habilidade  de  compartilhar  e  ceder  a  vez  incluem  elogiar  o  comportamento  apropriado  (para  fornecer  reforço
para o compartilhamento), não dar atenção todas as vezes que ela pega os brinquedos dos outros (para diminuir o
reforço para o comportamento indesejado), utilizar um quadro de colagens para documentar o compartilhamento
(para  modelar  gradativamente  o  comportamento  apropriado)  e  fornecer  recompensas  para  Julia  pelo  bom
compartilhamento, como colocá­la no primeiro lugar da fila para ir para o playground.

APRENDIZAGEM SOCIAL E TEORIA COGNITIVA SOCIAL
A aprendizagem social e a teoria cognitiva social da aprendizagem são uma ampliação das teorias behavioristas.
Teóricos  como  Piaget  (1970)  e  Bandura  (1977a)  ficaram  insatisfeitos  com  os  limites  da  teoria  behaviorista
porque acreditavam que havia mais a aprender do que apenas a interação de uma pessoa com o ambiente. Eles
desenvolveram  teorias  de  aprendizagem  que  integravam  processos  comportamentais,  sociais  e  cognitivos.
Embora existam variações individuais e áreas de foco, em geral, a teoria cognitiva social explica a aprendizagem
como  ocorrendo  em  um  contexto  social,  isto  é,  os  aspectos  “onde,  o  quê,  quando,  com  quem,  com  qual
frequência  e  sob  quais  circunstâncias”  de  nossas  vidas.  Os  seres  humanos  aprendem  ao  observar  outros,
processando  cognitivamente  as  observações,  armazenando  aquelas  observações  e  pensamentos  e,  em  seguida,
utilizando­as,  muitas  vezes  em  um  momento  muito  mais  tardio.  Isto  é  um  contraste  importante  com  os
behavioristas,  que  visualizam  a  aprendizagem  como  uma  mudança  observável  no  comportamento.  Os  teóricos
cognitivos  sociais/da  aprendizagem  social  discordam  e  dizem  que  a  aprendizagem  pode  acontecer  mesmo  na
ausência  de  uma  alteração  observável  no  comportamento.  Processos  sociais  e  cognitivos,  como  observação,
armazenamento  das  observações  na  memória,  autoexame  e  avaliação,  promovem  a  aprendizagem.  São
enfatizadas as interações entre a pessoa, o comportamento e o ambiente.
Cinco hipóteses principais são inerentes à teoria de aprendizagem social/cognitiva social (Ormrod, 2006). Em
primeiro  lugar,  as  pessoas  podem  aprender  ao  observar  os  outros.  Em  segundo  lugar,  a  aprendizagem  é  um
processo interno. A própria aprendizagem pode levar ou não a uma mudança observável de comportamento. Por
exemplo,  as  pessoas  podem  observar  várias  habilidades  sociais,  como  o  modo  de  se  apresentar  a  alguém  que
conheçam,  o  modo  de  encerrar  educadamente  uma  conversa  e  o  modo  de  manter  uma  distância  socialmente
apropriada durante uma conversa. Essas habilidades podem ser armazenadas na memória para uso futuro e não
ser demonstradas de imediato. Em terceiro lugar, as pessoas geralmente são motivadas a atingir metas  para  si
próprias,  sendo  seu  comportamento  tipicamente  direcionado  para  essas  metas.  Em  quarto  lugar,  as  teorias
cognitivas sociais afirmam que, em vez de a aprendizagem ser uma resposta direta e dependente de estímulos
ambientais, ela ocorre à medida que as pessoas regulam e ajustam seus próprios comportamentos. Isso significa
que as pessoas observariam outras, determinariam seus próprios padrões individuais e, em seguida, trabalhariam
para se comportar de acordo com aqueles padrões. Em quinto lugar, a retroalimentação por meio de reforço e
punição  afeta  a  aprendizagem  e  o  comportamento  de  maneira  indireta  (não  diretamente,  como  acreditam  os
behavioristas).  Isto  significa  que  as  pessoas  podem  ajustar  seu  comportamento  com  base  em  consequências
antecipadas (positivas ou negativas). Ou as pessoas poderiam observar os resultados de um comportamento que
é demonstrado por outras e ajustar seus comportamentos com base naquela observação (Ormrod, 2006). O Boxe
36.2 resume essas principais hipóteses.
É importante para uma pessoa observar as habilidades e os comportamentos por meio de modelos e notar o
reforço que os modelos recebem para os comportamentos. Os modelos podem ser vivos, isto é, uma pessoa com
a qual o aluno tem um contato real, ou simbólicos, como por meio da televisão ou de outras mídias. Qualquer
que seja a origem, o comportamento modelado serve como informação para o observador/aprendiz. Uma pessoa
também pode aprender de maneira indireta,  aumentando  ou  diminuindo  um  determinado  comportamento  com
base no reforço que a pessoa observa que alguém esteja recebendo. Se um comportamento é reforçado de modo
positivo, o observador pode aumentar aquele comportamento. Se o comportamento é reforçado negativamente, o
observador pode diminuir aquele comportamento. Outros fatores determinantes incluem o quanto de atenção é
dada  ao  modelo,  o  quanto  o  modelo  é  digno  de  crédito  ou  tem  prestígio  e  como  o  modelo  é  recompensado
(Ormrod, 2006).

PRINCIPAIS PREMISSAS DA TEORIA DE APRENDIZAGEM COGNITIVA
SOCIAL

As pessoas podem aprender ao observar os outros.
A aprendizagem é um processo interno.
As pessoas são motivadas para alcançar as metas.
As pessoas regulam e ajustam seu próprio comportamento.
O reforço e a punição podem ter um efeito indireto sobre o comportamento.

Como  as  pessoas  podem  aprender  ao  observar  os  outros,  a  atenção  é  um  fator  muito  importante.  É  mais
provável que um aprendiz se lembre das informações quando assiste conscientemente ao comportamento, ensaia
o  comportamento  em  sua  própria  mente  e  desenvolve  modos  verbais  ou  visuais  pessoais  para  representar  a
informação para uso futuro (Ormrod, 1990). Uma pessoa deve ser capaz de descrever o comportamento ou ter
uma imagem desse comportamento em sua mente, armazenada para uso futuro.
As  pessoas  desenvolvem  expectativas  sobre  o  que  elas  pensam  que  irá  acontecer  em  consequência  de
diferentes comportamentos. Assim, o incentivo é uma consideração importante. O incentivo é uma antecipação
de que alguma coisa irá acontecer (reforço) se um determinado comportamento for ou não realizado. Esta é outra
diferença da teoria behaviorista. De acordo com a teoria do condicionamento operante, o reforço vem depois que
o  comportamento  foi  executado.  Na  teoria  cognitiva  social,  um  resultado  antecipado  poderia  preceder  o
comportamento a ser realizado (ou não).
Um profissional de terapia ocupacional que trabalha com Jake, o menino de 14 anos de idade que está tendo
dificuldade  na  escola,  poderia  fazer  com  que  Jake  identificasse  situações  problemáticas  específicas  (p.  ex.,
distrair­se  na  aula,  usar  esforço  mínimo  para  realizar  os  projetos  ou  ficar  entediado  na  aula)  e,  em  seguida,
identificar  estratégias  especiais  para  abordar  essas  dificuldades  (p.  ex.,  sentar­se  na  frente  na  sala  de  aula,
estabelecer  “metas  de  esforço”  para  si  próprio,  identificar  pelo  menos  um  aspecto  interessante  em  qualquer
projeto),  estabelecer  metas  mensuráveis  e  gerenciáveis  e,  em  seguida,  desenvolver  um  mecanismo  para
determinar quão bem ele atingiu suas metas. O profissional da terapia ocupacional também poderia incentivar o
professor de Jake a colocá­lo junto a colegas de turma que demonstrem bons hábitos de estudo e que estejam
altamente motivados para aprender. Ou o profissional poderia ensaiar conversas que provavelmente Jake tenha
com seus pais ou professores sobre seus sentimentos e atitudes em relação aos trabalhos escolares. As conversas
com  teatralização  poderiam  ajudar  Jake  a  verbalizar  suas  preocupações  e,  em  seguida,  a  trabalhar  para  dar
suporte à sua aprendizagem.
Vários  programas  de  tratamento  de  terapia  ocupacional  incorporam  aspectos  das  teorias  de  aprendizagem
social. Jao e Lu (1999) estudaram os efeitos de um tratamento para resolução de problema quanto às habilidades
interpessoais de pessoas com esquizofrenia crônica. Eles demonstraram que ajudar pessoas com esquizofrenia a
reconhecer e definir os problemas, pensar em soluções alternativas e determinar o melhor curso da ação facilita o
desenvolvimento das habilidades de resolução de problema interpessoais.
Stern  (1991)  descreveu  um  programa  de  tratamento  psicoeducacional  em  uma  unidade  de  pesquisa  para
pessoas com esquizofrenia. Aqui, os clientes participaram de uma série de grupos de tratamento semanal que se
baseou  na  hipótese  de  que  o  comportamento  que  se  desvia  das  normas  sociais  é  o  resultado  de  tentativas
malsucedidas de uma pessoa lidar com demandas ambientais e que os déficits de habilidade são principalmente
uma  consequência  de  oportunidades  insuficientes  ou  ausentes  para  a  aprendizagem  social.  Os  clientes
frequentaram os grupos para ajudá­los a desenvolver habilidades para gerenciar tempo, estresse, dinheiro e seu
próprio cuidado pessoal.
Muitos  desses  programas  enfatizam  a  importância  da  aprendizagem  em  um  contexto  social,  fornecendo
inúmeras  oportunidades  para  que  os  clientes  desenvolvam  ou  tornem  a  aprender  habilidades  essenciais  para
viver e a utilizar atividades como ensaio, observação, resolução de problema e prática em situações da vida real.

TEORIA CONSTRUTIVISTA
Suponha que você é um profissional de terapia ocupacional que está trabalhando em um centro comunitário de
vida independente. Seus clientes comumente estão se recuperando do uso abusivo de substâncias ou podem ter
doença  mental  crônica.  Parte  de  seu  tratamento  inclui  uma  série  de  sessões  de  Habilidades  de  Vida  que  se
destinam a ajudar as pessoas a aprender ou reaprender diferentes atividades instrumentais de vida diária. Uma
nova sessão começará na próxima semana com cinco novos clientes. Um segmento de seu programa tem foco no
uso  do  tempo  e  no  planejamento  de  lazer.  Todos  os  cinco  clientes  virão  para  o  curso  com  as  mesmas
experiências  de  vida?  Todas  as  cinco  pessoas  têm  a  mesma  perspectiva  sobre  a  vida?  Como  você  poderia
compreender o processo de ensino­aprendizagem, dadas essas diferenças e experiências individuais?
Um  construtivista  diria  que  as  diferenças  individuais  são  esperadas,  que  “a  construção  do  mundo  de  cada
pessoa é única, ainda que compartilhemos uma grande quantidade de conceitos” (Suinicki, 2004, p. 14). Embora
existam  vários  métodos  “tradicionais”  de  fornecimento  de  informações,  como  por  meio  da  transmissão  da
informação ou da busca de informações em livros ou na Internet, isto não indica ou resulta necessariamente em
aprendizagem, de acordo com o construtivismo. Para os construtivistas, o aprendiz deve acessar a informação,
utilizar esta informação para alterar ou modificar a compreensão e conhecimento existentes e integrar a nova
informação  às  informações  prévias  para  criar  uma  nova  compreensão  que  seja  relevante  para  si  próprio
(Marlowe & Page, 1998). Para o desafio Habilidades de Vida citado anteriormente, um construtivista englobaria
as diferentes perspectivas dos membros e as perceberia como essenciais para a aprendizagem individual.
Existem  algumas  premissas  básicas  sobre  o  processo  de  ensino­aprendizagem  que  são  comuns  ao
construtivismo:  em  primeiro  lugar,  os  aprendizes  devem  ser  participantes  ativos  de  sua  aprendizagem.  Em
segundo  lugar,  o  aprendiz  é  capaz  de  criar  seu  próprio  conhecimento  mediante  a  interação  com  o  ambiente
humano e não humano. Em terceiro lugar, quando os aprendizes atuam nesse tipo de ambiente de aprendizagem,
eles  desenvolvem  a  capacidade  de  pensar  de  maneira  crítica  para  solucionar  os  problemas.  Em  quarto  lugar,
quando  ativamente  engajadas  na  construção  de  seu  próprio  conhecimento,  as  pessoas  obtêm  informações  e
desenvolvem estratégias ao mesmo tempo (Marlowe & Page, 1998).
Bruner (1961) teve uma importante influência no desenvolvimento do construtivismo ou na “descoberta” da
aprendizagem.  De  acordo  com  Bruner  (1961),  uma  abordagem  construtivista  estimula  o  potencial  intelectual,
significando que, quando as pessoas procuram e encontram informações por elas próprias, estas informações são
mais  significativas,  relevantes  e  poderosas  para  elas.  Além  disso,  as  pessoas  organizam  a  informação  que
encontram por si próprias, de modo que esta seja recuperada de maneira mais eficiente e efetiva para uso futuro.
Em segundo lugar, como os aprendizes “detêm” a informação, esta abordagem estimula a motivação intrínseca.
Em vez de estabelecerem um padrão no qual aceitam o que o instrutor quer que eles aprendam, os aprendizes
descobrem por eles próprios. Isto promove a motivação para aprender. Em terceiro lugar, a única maneira para
melhorar  a  capacidade  de  uma  pessoa  pensar,  questionar  e  descobrir  é  fazer  isto  de  maneira  ativa  e  repetida;
engajar­se no processo. O construtivismo estimula as pessoas a aprenderem o processo de descoberta. Por fim,
quando as pessoas aprendem e descobrem por elas próprias, elas também organizam, categorizam e armazenam
esta  informação  de  modo  pessoalmente  significativo.  Esta  informação  é  acessada  com  mais  facilidade  quando
necessária.  Os  construtivistas  chamam  isto  de  conservação  de  memória.  O  Boxe  36.3  resume  as  principais
premissas do construtivismo.

PRINCIPAIS SUPOSIÇÕES DA TEORIA DE APRENDIZAGEM
CONSTRUTIVISTA

Os aprendizes podem ser participantes ativos em sua aprendizagem.
Os aprendizes são capazes de descobrir e criar seu próprio conhecimento.
A  participação  ativa  no  ambiente  de  aprendizagem  aumenta  as  capacidades  de  raciocínio  crítico  e
resolução de problema.
A participação ativa no ambiente de aprendizagem aumenta o significado e a relevância da experiência de
aprendizagem e a motivação para aprender.
Na  aprendizagem,  as  pessoas  obtêm  informações  e  desenvolvem  simultaneamente  estratégias  de
resolução de problemas

Um  profissional  que  utiliza  uma  abordagem  construtivista  no  processo  de  ensino­aprendizagem  enfatiza
habilidades  e  atividades  como  formulação  de  perguntas,  exploração  independente,  identificação  de  problemas,
livre  debate  e  geração  de  soluções  para  os  problemas  pessoais.  O  profissional  enfatiza  o  papel  essencial  do
cliente no processo e vê seu próprio papel como facilitador do progresso dos clientes. O profissional entende o
processo da terapia como reconhecer, englobar, respeitar e incentivar as pessoas a desenvolverem significados
individuais, visando promover e aumentar a habilidade e o conhecimento do cliente.
Nessa  perspectiva,  espera­se  que  os  clientes  decidam  ativamente  o  que  precisa  ser  aprendido  e  como  a
aprendizagem  acontecerá.  Os  clientes  ajudam  a  determinar  os  recursos  que  aumentarão  sua  aprendizagem.
Também  são  igualmente  importantes  o  raciocínio  independente,  a  resolução  colaborativa  de  problemas  e  a
utilização  de  experiências  pregressas  para  reestruturar  e  revisar  o  novo  aprendizado.  Além  disso,  são  muito
importantes o conhecimento e a experiência do profissional. No entanto, nessa perspectiva, o profissional utiliza
seu  conhecimento  e  experiência  como  pontos  de  referência.  De  muitas  maneiras,  o  profissional  “se  omite”  à
medida que o cliente busca aprender; o papel do profissional consiste em abordar os problemas que surgem. O
profissional  facilita  o  processo,  usando  a  si  próprio  para  promover  a  capacidade  do  cliente  para  identificar,
abordar e solucionar os problemas.
O construtivismo “permite que surjam múltiplas perspectivas e que novas soluções apareçam sinergicamente.
O  papel  do  professor  deixa  de  ser  direcionar  e  controlar  a  aprendizagem  para  ser  o  de  facilitar  a  mudança”
(Lederer,  2000,  p.  84).  Em  vez  de  ser  visto  como  o  especialista  e  a  pessoa  que  recomendará  um  determinado
tratamento  ou  plano  de  ação,  o  profissional  facilita  a  descoberta  e  o  significado,  a  discussão  e  a  resolução  do
problema. O profissional  de  terapia  ocupacional  não  fornece  “o  tratamento”, mas, em vez disso, trabalha para
ajudar a pessoa a desenvolver suas próprias estratégias para lidar com os próprios problemas. O profissional fica
alerta a problemas maiores, mas não é prescritivo nem diretivo.

DILEMAS DA PRÁTICA

PERSPECTIVA DE CONSTRUTIVISMO NA APRENDIZAGEM

Se cada pessoa constrói sua própria aprendizagem e, por conseguinte, não existe “realidade objetiva”, quais
desafios  se  apresentam  para  um  terapeuta  ocupacional  que  defende  a  perspectiva  construtivista  de
aprendizagem?  Quais  oportunidades  isto  propicia  para  o  profissional  e/ou  para  a  pessoa  com  quem  o
profissional está trabalhando? Quais são algumas das estratégias que você poderia aplicar para abordar o uso
do tempo do cliente e o desenvolvimento das habilidades de lazer no programa Habilidades de Vida, descrito
anteriormente?

TEORIA DA AUTOEFICÁCIA
A teoria da autoeficácia da aprendizagem tem foco nas crenças individuais de uma pessoa sobre o quanto efetiva
ela é ou será na aprendizagem ou na realização de uma nova habilidade ou novo comportamento. Albert Bandura
(1977b)  foi  o  primeiro  a  propor  a  teoria  da  autoeficácia.  Sua  perspectiva  sobre  como  os  comportamentos  são
aprendidos  e  modificados  envolve  processos  comportamentais  e  cognitivos.  Sua  tese  central  é  a  de  que  as
expectativas de eficácia de uma pessoa, as crenças da pessoa sobre quão bem­sucedida ou malsucedida ela será
ao realizar uma habilidade ou ocupação, influenciarão sua execução desta habilidade ou ocupação. A ênfase aqui
é sobre as crenças da pessoa e sobre como tais crenças influenciam seu desempenho. Por exemplo, uma pessoa
poderia acreditar que determinada ação realizada ou executada por uma pessoa em geral produzirá determinado
resultado. No entanto, difere da crença da pessoa de que ela é capaz de realizar a ação e que ela apresentará um
resultado positivo. As expectativas de eficácia de uma pessoa também influenciam a persistência da pessoa em
diferentes ocupações. “As expectativas de eficácia determinam quanto esforço as pessoas irão despender e por
quanto tempo elas persistirão diante de obstáculos e experiências adversas. Quanto mais forte for a autoeficácia
percebida, mais ativos serão os esforços” (Bandura, 1997b, p. 194).
As  expectativas  de  eficácia  apresentam  três  dimensões  importantes:  magnitude,  generalidade  e  força
(Bandura, 1977b). A magnitude envolve o nível de dificuldade de uma tarefa – por exemplo, fazer um sanduíche
versus  fazer  um  jantar  elaborado  ou  escrever  um  rascunho  versus  escrever  um  extenso  artigo  de  pesquisa.  A
generalidade  envolve  até  que  ponto  a  autoeficácia  percebida  de  uma  pessoa  para  uma  tarefa  se  transfere  para
outra – por exemplo, manobrar uma cadeira de rodas ao redor da clínica de terapia ocupacional versus manobrar
uma  cadeira  de  rodas  em  uma  comunidade  urbana  ou  fazer  um  sanduíche  na  clínica  de  terapia  ocupacional
versus fazer um sanduíche em casa. A força refere­se a até que ponto as pessoas acreditam que elas podem ser
bem­sucedidas – por exemplo, estar muito confiante e ter fortes crenças sobre o sucesso de alguém versus estar
apenas ligeiramente confiante ou ter não certeza sobre a probabilidade de sucesso.
Tipicamente, a autoeficácia de uma pessoa é desenvolvida com o passar do tempo e por meio de quatro fontes
de  informação:  resultados  que  foram  gerados  pelas  realizações  pessoais  da  pessoa;  por  meio  da  experiência
vicariante, isto é, ver os outros realizarem uma habilidade e por esta experiência de observação acreditar que “se
a outra pessoa pode realizar a habilidade, então eu posso”; ao ser persuadido por outros que a pessoa pode ser
bem­sucedida;  e  ao  sentir­se  calma  e  relaxada  quando  realiza  uma  habilidade  (Bandura,  1997b).  Qual  destes
quatro elementos têm o efeito mais forte? A realização pessoal. Embora uma pessoa possa realizar uma tarefa
com  sucesso  conforme  observado  por  um  espectador  ou  pela  retroalimentação  do  ambiente,  a  avaliação
cognitiva da própria  pessoa  de  quão  bem­sucedida  ou  malsucedida  ela  foi  no  desempenho  da  tarefa  afetará  a
expectativa de eficácia da pessoa. A experiência vicariante, a persuasão e a sensação de calma são igualmente
valiosas,  mas  nenhuma  é  tão  forte  quanto  o  sucesso  real  de  uma  pessoa  na  realização  de  uma  habilidade
(Bandura, 1997b).
O poder das crenças de uma pessoa a respeito de suas habilidades e capacidades é um ponto importante. Como
Gage e Polatajko (1994) observaram:

Com  frequência,  os  terapeutas  tentam  convencer  os  clientes  de  que  eles  são  capazes  de  ir  para  casa  e  viver  de  maneira
independente,  ou  de  voltar  ao  trabalho,  apenas  para  ter  que  enfrentar  uma  diversidade  de  motivos  pelos  quais  o  cliente
ainda não está pronto. Estes pacientes são rotulados como medrosos ou, pior ainda, como mentirosos. Talvez seja apenas
a sua autoeficácia percebida para o gerenciamento da casa ou das atividades do trabalho que ainda não alcançou o nível
necessário  para  o  engajamento  nestas  atividades  de  modo  independente.  Se  alguém  aceita  que  a  persuasão  é  o  método
menos efetivo para aumentar as expectativas de eficácia, então o terapeuta deve buscar novas técnicas de tratamento. (p.
460)

Embora  os  dois  conceitos  estejam  relacionados,  a  autoeficácia  percebida  não  é  idêntica  à  autoestima.  A
autoeficácia percebida é o que você acredita que pode fazer com sua habilidade. Autoestima refere­se à sensação
positiva ou negativa da pessoa sobre si própria. Assim, uma pessoa pode sentir­se competente e bem­sucedida ao
realizar várias ocupações, mas pode ter uma sensação geral negativa sobre si própria. Certamente, a autoeficácia
percebida pode contribuir para a autoestima de uma pessoa, mas elas constituem dois conceitos distintos (Gage e
Polatajko, 1994).
De acordo com Bandura (1997a), a autoeficácia relaciona­se diretamente com a mudança de comportamento.
Se uma pessoa tem expectativas apenas fracas sobre seu sucesso, é provável que as experiências malsucedidas
venham a resultar rapidamente na não realização da habilidade ou do comportamento. Se as crenças da pessoa
sobre seu sucesso são fortes, então é provável que a pessoa persista, mesmo enfrentando experiências negativas
ou malsucedidas.

DILEMAS DA PRÁTICA

PROMOVENDO A AUTOEFICÁCIA

Os  princípios  fundamentais  da  terapia  ocupacional,  como  o  uso  das  forças  para  superar  as  limitações  e  o
tratamento centrado na pessoa, são consistentes com o desenvolvimento e a promoção da autoeficácia. E, de
acordo  com  Gage  e  Polatajko  (1994):  “supõe­se  que  o  modo  mais  efetivo  para  aumentar  a  autoeficácia
percebida seja por meio de procedimentos baseados no desempenho” (p. 452). No início deste capítulo, você
leu  sobre  Jake  e  suas  dificuldades  na  escola.  Como  você  poderia  compreender  esta  situação  a  partir  da
perspectiva das teorias de autoeficácia? Quais seriam algumas das estratégias que poderiam ser valiosas para
Jake?

TEORIA MOTIVACIONAL
Prochaska,  Norcross  e  DiClemente  (1992)  propõem  uma  teoria  de  estágio  transteórico  de  como  as  pessoas
aprendem  a  modificar  os  comportamentos.  O  termo  transteórico  refere­se  à  integração  de  várias  teorias
diferentes a partir das disciplinas da psicologia e da psicoterapia. Prochaska e seus colaboradores aplicaram sua
teoria transteórica de mudança a diversas questões de sistemas e comportamentos humanos, como a cessação do
fumo (Prochaska & DiClemente, 1983), abordando os comportamentos de risco para a saúde (Nigg et al., 1999),
autotratamento  da  artrite  (Keefe  et  al.,  2000),  mudança  organizacional  (Prochaska,  Prochaska  &  Levesque,
2001)  e  controle  do  peso  (Sarkin,  Johnson,  Prochaska  &  Prochaska,  2001).  Este  modelo  apresenta  dois
elementos  essenciais:  os  cinco  estágios  integrados  da  mudança  e  os  vários  processos  que  podem  facilitar  a
mudança de uma pessoa de um estágio para o próximo.
Os estágios da mudança começam com a pré­contemplação. Aqui, uma pessoa pode ter um comportamento
que é percebido pelos outros como sendo perigoso ou destrutivo (p. ex., dependência ou uso de substância de
abuso, raiva ou estresse mal controlado ou questões de saúde e bem­estar geral). A pessoa pode desconhecer ou
ter consciência mínima de seu problema, ou pode estar ciente do problema, mas resistir a seu reconhecimento
pleno ou a sua abordagem. Uma pessoa que progrediu para o segundo estágio, a contemplação, provavelmente
está  ciente  desse  problema  e  pensa  sobre  como  superá­lo,  porém  não  está  suficientemente  pronta  para
empreender a ação. Quando uma pessoa começa a realizar algumas pequenas mudanças em seu comportamento,
ela progrediu para o terceiro estágio, a preparação. O quarto estágio é a ação. Esta ocorre quando acontece uma
mudança  mais  substancial.  A  pessoa  está  despendendo  grande  energia  para  modificar  os  comportamentos,  o
ambiente ou as suas experiências para efetuar uma mudança importante. O quinto estágio é a manutenção. Aqui,
a pessoa trabalha para manter as realizações e evitar a recidiva (Prochaska, Norcross & DiClemente, 1992).
Esses  estágios  podem  parecer  lineares,  ocorrendo  em  uma  progressão  etapa  por  etapa  de  um  estágio  para  o
próximo.  No  entanto,  Prochaska,  Norcross  e  DiClemente  (1992)  explicam  a  mudança  como  ocorrendo  em
espiral, porque muitas pessoas enfrentam recidivas ou outros obstáculos à medida que trabalham para modificar
comportamentos.  Você  ou  um  amigo  começou  a  mudar  um  determinado  comportamento  e  alcançou  o  estágio
três (preparação) ou o estágio quatro (ação) apenas para enfrentar um contratempo e retroagir na espiral para um
estágio anterior? De acordo com a teoria de Prochaska, isto é comum e esperado.
Os processos de mudança, a segunda parte da teoria de Prochaska, explicam como promover as mudanças. De
acordo com Prochaska, Norcross e DiClemente (1992), pessoas que alcançaram o estágio de contemplação estão
aptas a compreender os processos que podem contribuir para a mudança comportamental. A pesquisa indica que
as pessoas que estão no estágio pré­contemplação carecem da consciência para se engajar ou se beneficiar dos
processos  de  mudança.  As  pessoas  que  progrediram  para  o  estágio  de  contemplação  podem  beneficiar­se  de
estratégias  de  aumento  de  consciência  que  as  ajudam  a  obter  informação  sobre  seus  problemas  e  sobre  si
próprias, sendo incentivadas a expressar os sentimentos sobre seus problemas por meio de diversas estratégias de
alívio dramático, como o ensaio, e por reavaliação ambiental, para avaliar como o comportamento delas afeta
seu meio físico e social (p. ex., talvez o fumo de uma pessoa impeça que a família ou os amigos a visitem ou
existam  manchas  e  queimaduras  de  cigarro  nos  móveis  da  pessoa).  Estratégias  como  os  exercícios  de
esclarecimento sobre valores para melhorar a autorreavaliação ou como alguém pensa e sente a respeito de si
próprio podem ser valiosas quando a pessoa passa para o estágio de preparação. Durante o estágio da ação, pode
ser  valioso  assumir  um  compromisso  real  para  mudar,  acreditar  na  própria  capacidade  de  mudança  e  usar
técnicas  como  o  estabelecimento  pessoal  da  meta  para  aumentar  a  autolibertação  ou  a  força  de  vontade.
Diversos processos são importantes no estágio de manutenção, de modo a estimular relacionamentos de ajuda e
suportes  sociais  que  incentivem  a  pessoa  a  ser  aberta  e  honesta  sobre  seus  problemas,  evitando  coisas  que
provoque  o  comportamento  problemático  e  alternativas  substitutivas  (controle  do  estímulo  e
contracondicionamento)  e  o  gerenciamento  de  reforço,  recompensando  a  pessoa  por  fazer  as  mudanças.  A
libertação  social  ajuda  a  promover  a  alteração  ao  longo  dos  diversos  estágios  por  meio  de  mecanismos  de
defesa, fortalecimento e mudança social (Prochaska, Norcross & DiClemente, 1992).
A chave para o sucesso desse modelo é a adaptação cuidadosa, sistemática e rigorosa entre a pessoa, o estágio
e o processo. De acordo com Prochaska, Norcross e DiClemente (1992), “a automudança eficiente depende de
fazer as coisas corretas (processos) no momento correto (estágios)” (p. 1.110). A Tabela 36.1 resume os estágios
e os processos de alteração de Prochaska, Norcross & DiClemente (1992).

TERAPIA OCUPACIONAL, TEORIA DA AUTOEFICÁCIA E TEORIA MOTIVACIONAL
Tanto as teorias de autoeficácia como as teorias motivacionais têm grande relevância para a terapia ocupacional.
Com frequência, as autopercepções e crenças de uma pessoa sobre sua capacidade de ser bem­sucedida em uma
ocupação influenciam sua decisão quanto à participação nessa ocupação. Por exemplo, uma pessoa que acredita
ter boas habilidades em entrevistas mais provavelmente responderá a um anúncio de emprego, ainda que ela não
tenha experiência direta com o tipo de trabalho que precisa ser feito. Uma pessoa que não tenha esta sensação de
eficácia  pode  ser  menos  provável  de  se  candidatar  ao  emprego.  As  estratégias  de  tratamento  para  promover  a
autoeficácia percebida de uma pessoa na situação de entrevista de emprego aqui descrita incluiriam esclarecer à
pessoa  que  ela  tem  todas  as  habilidades  exigidas  para  ser  bem­sucedida  utilizando  colegas  como  modelos  do
papel, de modo que ela possa praticar ou “experimentar” as habilidades e comportamentos essenciais, fazer com
que  a  pessoa  pratique  as  habilidades  de  entrevista  ao  fornecer  retroalimentação  sobre  sucessos  específicos  e
incentivar a pessoa a avaliar suas habilidades de modo pessoal em vez de comparar essas habilidades com as de
outra  pessoa.  Essas  teorias  enfatizam,  sem  exceção,  a  importância  da  participação  de  um  indivíduo  em
ocupações significativas como a base e o resultado da motivação e da autoeficácia.
TABELA 36.1 ESTÁGIOS E PROCESSOS DE MUDANÇA
Estágio Processo (Como Promover a Mudança)
Pré­ As estratégias não são efetivas, pois a pessoa não tem consciência para se engajar na ou
contemplação beneficiar­se da mudança
Contemplação Estratégias de aumento da conscientização para aprender sobre o problema, estratégias
de ensaio para expressar os sentimentos, avaliação de como o comportamento afeta os
ambientes físico e social
Preparação Exercícios de esclarecimento de valores para promover a reavaliação dos sentimentos ou a
autopercepção
Ação Técnicas e estratégias de estabelecimento da meta
Manutenção Desenvolvimento dos suportes sociais, substituição das alternativas para o comportamento
problemático, prevenção das experiências que provocam o comportamento problemático,
recompensar­se por fazer as mudanças

ESTUDO DE CASO: Olívia: Mudança de Comportamento

Olívia,  uma  mulher  de  55  anos  de  idade,  sempre  apresentou  grande  sobrepeso.  Durante  anos,  ela  tentou
muitas  dietas  diferentes  e  participou  (e  abandonou)  de  vários  programas  e  grupos  de  exercício.  Após  um
recente episódio de dor torácica, o médico de Olívia recomendou fortemente que ela participe de atividades
organizadas de nutrição, exercício e promoção da saúde em geral.

Como você poderia ajudar Olívia a compreender e refletir sobre seus desafios quanto às questões de
saúde e bem­estar ao longo do tempo por meio da perspectiva transteórica?
Em qual estágio ela poderia estar no momento?
Como você pode ajudá­la a passar para o estágio seguinte?
Como você pode trabalhar para minimizar qualquer contratempo no processo e remediar estes
contratempos quando eles surgirem?

As estratégias poderiam incluir o seguinte:

O profissional de terapia ocupacional trabalharia com Olívia para ajudá­la a compreender os processos
de mudança. Seu trabalho em conjunto incluiria ajudar Olívia a compreender como acontece a
mudança, a natureza em espiral da mudança e os ganhos e contratempos naturais esperados.
O profissional de terapia ocupacional utilizaria o aconselhamento e a discussão para incentivar a
reflexão consciente de Olívia sobre seu comportamento e o reconhecimento dos diferentes estágios
da mudança. O estágio atual de Olívia poderia ser visto como a preparação.
Podem ser sugeridas várias estratégias de tratamento, como estabelecimento de meta pessoal,
desenvolvimento dos suportes sociais, criação de um sistema de autorrecompensa pela mudança
positiva ou progresso e a avaliação e reavaliação do progresso.
Olívia também seria encorajada a encarar os obstáculos ou contratempos iniciais para a mudança como
típicos e previsíveis. Quando ocorrem contratempos, o profissional de terapia ocupacional reforça a
importância da compreensão consciente da natureza em espiral do progresso, o sucesso em
identificar os contratempos quando eles acontecem, a oportunidade de evitar que qualquer
contratempo gere retrocesso e um retorno às estratégias que foram bem­sucedidas no passado ou a
manutenção do desenvolvimento de novas estratégias. O terapeuta ocupacional reforçaria a natureza
continuada da mudança e do progresso.

Gage,  Noh,  Polatajko  e  Kaspar  (1994)  desenvolveram  uma  avaliação  que  pode  ser  útil  para  os  terapeutas
ocupacionais.  Sua  avaliação,  a  Medida  da  Autoeficácia  Percebida  (Perceived  Self  Efficacy  Gauge),  avalia  a
autoeficácia percebida de adultos que apresentam incapacidades físicas e identifica as mudanças na autoeficácia
percebida da pessoa com o passar do tempo. Ela promove a crença de que “os clientes com maior confiança em
suas  capacidades  para  recuperação  de  seu  nível  usual  de  competência  para  as  atividades  diárias  são  menos
prováveis de desenvolver sentimentos de desesperança” (Gage, Noh, Polatajko & Kaspar, 1994, p. 785).
Ehrenberg,  Cox  e  Koopman  (1991)  estudaram  a  relação  entre  a  autoeficácia  percebida  e  a  depressão  em
adolescentes.  “A  percepção  da  autoeficácia  pode  ser  primordial  para  o  desenvolvimento  do  adolescente,
principalmente em relação ao desempenho acadêmico, à competência social, à escolha da carreira e à confiança
física” (p. 363). Ehrenberg, Cox e Koopman (1991) descobriram que os adolescentes com níveis mais elevados
de  autoeficácia  percebida  tinham  menos  depressão  que  os  adolescentes  que  exibiam  menores  níveis  de
autoeficácia percebida.

CONCLUSÃO
As  teorias  de  aprendizagem  behaviorista,  cognitiva  social,  construtivista,  de  autoeficácia  e  motivacional  têm
grande relevância e utilidade para os profissionais de terapia ocupacional. A Tabela 36.2 resume as cinco teorias
diferentes  de  aprendizagem  que  foram  apresentadas  neste  capítulo  e  destaca  sua  relevância  para  a  prática  da
terapia ocupacional. As informações apresentadas neste capítulo podem ser utilizadas para influenciar a maneira
pela qual você pensa sobre as necessidades de aprendizagem dos pacientes e clientes, para reforçar a importância
de  idealizar  os  ambientes  de  aprendizagem  ótimos,  para  contribuir  para  nosso  desenvolvimento  profissional
continuado e para promover as capacidades de seus clientes para alcançar suas metas.
TABELA 36.2 TABELA DE RESUMO
Teoria Principais Ênfases Relevância para a Prática da
Terapia Ocupacional
Behaviorista Comportamento  aprendido  como  um  evento Análise  e  ordenação  dos
observável (não um processo mental) comportamentos  do  simples
O  comportamento  é  condicionado  pelo para o complexo
ambiente Mensuração  do  progresso  à
A  resposta  ambiental  modifica  os medida  que  a  pessoa  realiza
comportamentos subsequentes comportamentos cada vez mais
complexos
Usar  estratégias,  incluindo
reforço,  modelagem  e
recompensas
Aprendizagem Integra  os  processos  comportamentais, Enfatiza  as  habilidades
social/cognitiva sociais e cognitivos essenciais  de  aprendizagem  do
social A  aprendizagem  acontece  em  um  contexto cliente para viver
social Utiliza  ensaio,  observação  de
A  aprendizagem  pode  acontecer  sem colegas,  modelagem  de  papel,
mudança de comportamento observável resolução  de  problemas  e
A  pessoa  regula  e  ajusta  seu  próprio atividades  de  prática  na  vida
comportamento real  para  promover  a
aprendizagem
Incentiva o cliente a identificar o
problema,  estabelecer  metas,
desenvolver  um  plano,  avaliar
os resultados
Construtivista O  aprendiz  é  um  participante  ativo  em  sua O  cliente  controla  ativamente  o
própria aprendizagem que deve ser aprendido e como
O  aprendiz  cria/constrói  o  conhecimento  por acontecerá a aprendizagem
meio da experiência pregressa e da interação Utiliza  estratégias,  incluindo
com o ambiente debate,  resolução  de  problema
O  conhecimento  autoconstruído  tem  grandes individual,  exploração
significado e relevância para o aprendiz independente,  formulação  de
O  conhecimento  autoconstruído  promove  a perguntas
motivação para a aprendizagem do aprendiz O terapeuta ocupacional facilita,
mas  não  direciona,  o  processo
de aprendizagem
Autoeficácia Enfatiza  as  crenças  de  uma  pessoa  sobre A  realização  pessoal  tem  o
quão efetiva ela é ou será efeito máximo
As  expectativas  de  eficácia  influenciam  a O  autoexame  e  a  avaliação
persistência de uma pessoa na atividade pessoal são importantes
As  expectativas  de  eficácia  são  influenciadas As  tarefas  devem  ser
pela  dificuldade  da  tarefa,  por  quão  bem  a desafiadoras,  mas  não
realização  da  tarefa  se  transfere  para  outras impossíveis,  devem  ser
situações  e  por  até  que  ponto  uma  pessoa transferíveis  para  outras
acredita que será bem­sucedida situações
A  autoeficácia  é  desenvolvida  com  o  passar As  experiências  de  observação
do tempo e através da experiência vicariantes  e/ou  a  persuasão
para  aumentar  as  crenças  da
pessoa  de  que  ela  pode  ser
bem­sucedida  são  menos
efetivas
Motivacional A aprendizagem e a mudança acontecem em Os  processos  de  tratamento
espiral. Elas não são lineares devem  compatibilizar­se  com  o
A  prontidão  de  uma  pessoa  para  mudar estágio de comportamento
influenciará os resultados Os  processos  de  tratamento  se
As  recidivas  são  comuns  e  devem  ser tornam  cada  vez  mais  ativos,
esperadas
autodirecionados  e
automonitorados

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Processo de Grupo
SHARAN L. SCHWARTZBERG

Sumário
Introdução
Definindo o Processo de Grupo
Processo do Aqui e Agora
Relacionamentos e Interações Entre os Membros e com o Líder
Estudo de Caso: Silêncio e Competição
O Significado do Processo
Os Níveis Micro e Macro do Processo
Nível Micro
Nível Macro
Estudo de Caso: Membros Atrasados ou Ausentes
Respostas dos Líderes
Estudo de Caso: Reuniões de Subgrupo Fora do Grupo
Estudo de Caso: Quebra da Confidencialidade
Estudo de Caso: Colíder Conivente com o Grupo
Estudo de Caso: Um Membro do Grupo Recusa­se a Participar da Atividade

Objetivos de Aprendizagem
Após a leitura deste capítulo, você será capaz de:

1. Apreciar a complexidade e o valor de pequenos grupos na terapia ocupacional.
2. Compreender os fatores que influenciam o desenvolvimento e a liderança de pequenos grupos.
3. Analisar a influência dos aspectos intrapessoais, interpessoais e intersubjetivos do processo e da
dinâmica do grupo.
4. Identificar  o  impacto  da  tarefa,  do  líder  e  das  respostas  de  membros  sobre  os  processos  de
grupo  e  o  efeito  da  dinâmica  e  dos  processos  de  grupo  sobre  os  indivíduos,  os  subgrupos  e  o
grupo como um todo.

INTRODUÇÃO
Os  terapeutas  ocupacionais  trabalham  em  grupos  em  diversos  ambientes.  Estes  ambientes  incluem  grupos
naturais,  como  as  reuniões  de  equipe  e  grupos  de  tratamento  para  fins  de  terapia.  Os  grupos  de  terapia
ocupacional incluem grupos de conservação de energia, grupos de psicoeducação, grupos de habilidades sociais,
grupos de atividades de vida diária, grupos de memória e grupos de estimulação sensorial, entre outros. A faixa
etária  dos  membros  desses  grupos  é  muito  ampla,  desde  crianças  até  idosos,  e  os  ambientes  incluem  todas  as
áreas de prática. Existem conjuntos de dinâmica que funcionam em pequenos grupos independente do ambiente.
As  inter­relações  entre  os  membros,  o  líderes  e  o  grupo  como  um  todo  são  chamadas  processo  grupo.  A
finalidade  deste  capítulo  é  definir  o  processo  de  grupo  e  a  dinâmica  que  influenciam  a  coesão  do  grupo  e  a
dissolução de um pequeno grupo. Fatores como coesão, esperança e aprendizagem interpessoal tornam benéficos
os grupos terapêuticos (Falk­Kessler, Momich & Perel, 1991; Yalom, 1985; Yalom & Leszcz, 2005).

DEFININDO O PROCESSO DE GRUPO
O processo de grupo “é a experiência do aqui e agora no grupo que descreve como o grupo está funcionando, a
qualidade  dos  relacionamentos  entre  os  membros  do  grupo  e  com  o  líder,  as  experiências  e  as  reações
emocionais do grupo e os desejos e medos mais fortes do grupo” (Brown, 2003, p. 228). De acordo com Brown,
“a definição proposta apresenta os seguintes componentes e premissas: (1) o processo ocorre no aqui e agora; (2)
o processo inclui os atuais relacionamentos e as interações entre os membros de grupo e com o líder; (3) reações,
respostas  e  sentimentos  proporcionam  acesso  e  significado  ao  processo;  e  (4)  o  processo  existe  tanto  no  nível
micro  como  no  nível  macro”  (2003,  p.  228).  Cada  um  desses  componentes  será  explicado  em  termos  dos
processos relevantes para a terapia ocupacional (Fig. 37.1).

Fig. 37.1 Comumente, a terapia ocupacional acontece em um formato de grupo. (Fotografia por cortesia de
Kinda Clinetf.)

Processo do Aqui e Agora
A  interação  a  cada  momento  entre  líderes  e  membros  constitui  o  processo  do  aqui  e  agora  de  um  grupo.  No
mínimo, como um sistema interdependente, a interação opera simultaneamente de seis maneiras: (1) membro a
membro,  (2)  líder­membro  e  membro­líder,  (3)  subgrupos,  (4)  grupo  como  um  todo,  (5)  engajamento  na
ocupação  e  (6)  cultura  ou  ambiente.  Em  um  grupo  funcional  (Howe  &  Schwartzberg,  2001;  Schwartzberg,
Howe  &  Barnes,  2008),  a  ação  propositada  promove  a  adaptação  por  meio  do  engajamento  na  ocupação.  As
ações características de um grupo funcional, descritas por Howe e Schwartzberg (2001), incluem quatro tipos de
ação de grupo: (1) ação propositada, (2) ação autoiniciada, (3) ação espontânea ou ação aqui e agora e (4) ação
centrada no grupo. Um exemplo rápido de ação centrada no grupo é um grupo de pessoas que toma uma decisão
em  conjunto  para  fazer  alguma  coisa  de  valor  para  o  grupo.  Os  membros  agem  de  maneira  espontânea  ao
oferecer sugestões e apoiar emocionalmente um ao outro. Existe um equilíbrio entre ter tomado a decisão e se
sentir satisfeito (Boxe 37.1).

Relacionamentos e Interações Entre os Membros e com o Líder
Os fatores que influenciam o processo do grupo incluem o papel do líder do grupo, o formato do grupo e o nível
funcional  dos  membros.  A  liderança  pode  ser  altamente  estruturada  e  autocrática  (centrada  no  líder),  centrada
nas necessidades do grupo ou aberta. Os grupos podem ser fechados, sem o acréscimo de novos membros, ou
abertos, com a mudança da afiliação. Os membros podem ser selecionados para assemelhar­se uns aos outros ou
heterogêneos.  Os  pequenos  grupos  podem  variar  em  tamanho,  desde  três  membros  até  dez  ou  mesmo  doze
membros. O tamanho do grupo influencia os métodos do grupo, as estratégias do líder e os resultados (Howe &
Schwartzberg, 2001).
Os  pa  péis  dos  associados  ao  grupo  foram  classificados  em  três  tipos  de  pa  péis,  que  são  positivos  ou
negativos  do  ponto  de  vista  socioemocional  e  neutros  na  área  de  trabalho  (Bales,  1950):  (1)  pa  péis  de
construção  e  manutenção  do  grupo,  como  “encorajador”,  “harmonizador”  e  “comprometedor”;  (2)  pa  péis  de
tarefa do grupo, como o “iniciador­contribuinte”, “buscador de informações” e “fornecedor de informações”, e
(3)  pa  péis  dos  membros  individuais,  como  “agressor”,  “bloqueador”  e  “buscador  de  reconhecimento”  (Boxe
37.2) (Benne & Sheats, 1978). As pessoas assumem esses diversos pa péis nos grupos orientados para a tarefa.
Pode haver um desequilíbrio entre os pa péis assumidos pelos membros e as demandas da situação. Se alguém
oferece suporte emocional e ninguém realiza ações como oferecer sugestões, o grupo vacila. Em contrapartida,
se o grupo se limita apenas a realizar o trabalho, os membros se sentirão emocionalmente insatisfeitos e isolados.
A coesão do grupo ocorre quando os pa péis dos membros são congruentes com a tarefa.

AÇÕES DE GRUPO FUNCIONAIS DE HOWE E SCHWARTZBERG (2001)

Ação propositada: Significativa para indivíduos e para o grupo como um todo
Ação autoiniciada: O membro toma a iniciativa por meios verbais ou não verbais
Ação espontânea: A ação acontece aqui e agora
Ação centrada no grupo: As ações dos membros são interdependentes

PAPÉIS DE ASSOCIAÇÃO AO GRUPO (BENNE & SHEATS, 1978)

Pa péis de construção­manutenção do grupo: Pa péis socioemocionais que sustentam os processos
de grupo
Pa péis de tarefa de grupo: O membro desempenha pa péis que sustentam as metas da tarefa do grupo
Pa péis de membros individuais: Pa péis individuais que se destacam dos processos de grupo

O nível de desenvolvimento do grupo pode ser visualizado em relação à função de membro, à complexidade
da  tarefa  e  ao  papel  do  líder.  Mosey  (1970)  categorizou  os  níveis  de  interação  de  desenvolvimento  do  grupo
como  paralelo,  projetado,  nível  cooperativo  egocêntrico,  cooperativo  e  maduro.  Em  uma  hierarquia  de
desenvolvimento,  desde  o  mais  direcionado  até  o  centrado  no  grupo,  um  grupo  mais  maduro  é  capaz  de  se
autodirecionar e apoiar suas necessidades (Boxe 37.3). A flexibilidade dos membros em atender as demandas da
tarefa  e  do  ambiente  demonstra  sua  adaptabilidade,  maturidade  e  capacidade  de  funcionamento.  Um  grupo
menos maduro, paralelo, é menos capaz de realizar a tarefa e dar suporte às necessidades emocionais. Por vezes,
a tarefa de um grupo demanda diferentes níveis de interação.

NÍVEIS DE DESENVOLVIMENTO DE GRUPO DE MOSEY (DONOHUE, 2003;
MOSEY, 1970)

Paralelo: Compartilhamento mínimo da tarefa; o líder sustenta emocionalmente e estrutura a tarefa
Projeto: Tarefa passível de compartilhamento por curto prazo; o líder ajuda na seleção e na cooperação
durante a tarefa
Egocêntrico  cooperativo:  Interação  conjunta  com  o  autointeresse;  modelo  de  papel  de  líder;  o  líder
assume os pa péis ausentes e age como pessoa de recurso
Cooperativo:  Os  membros  são  capazes  de  assumir  pa  péis  socioemocionais  e  a  satisfação  das
necessidades mútuas; o líder atua como consultor
Maduro:  Os  membros  são  capazes  de  equilibrar  os  pa  péis  para  sustentar  e  manter  a  tarefa  sem
supervisão; a liderança é compartilhada; o terapeuta é um colega

A  tarefa  de  selecionar  atividades  e  materiais  é  uma  importante  função  do  líder  que  se  relaciona  com  os
significados simbólicos dos processos de grupo. Quando as atividades selecionadas carecem de significado para
os  membros  do  grupo,  o  interesse  e  a  motivação  diminuem.  Como  líder,  agir  a  partir  apenas  da  própria
orientação cultural é etnocêntrico, em vez de ser centrado no grupo ou centrado no cliente. Tal etnocentrismo é
ilustrado quando um líder de grupo planeja atividades para os feriados cristãos e ninguém assume a iniciativa no
grupo. De modo contrário, um exemplo de uma seleção de atividade culturalmente responsiva é demonstrado por
adolescentes em um grupo de cozinha que seleciona e compartilha alimentos que são representativos para sua
cultura ou suas culturas.

ESTUDO DE CASO: Silêncio e Competição

Um  processo  de  grupo  orientado  para  a  tarefa  objetiva  ajudar  os  membros  a  aprenderem  mais  maneiras
adaptadas  de  participar  socialmente  de  um  grupo  por  meio  da  análise  dos  relacionamentos  entre  o
processo,  o  produto  e  a  interação.  Suponha  que,  em  um  processo  de  grupo  orientado  para  a  tarefa,  um
subgrupo de três pessoas iniciou o planejamento de jogos de grupo para sessões subsequentes. Ninguém
no  grupo  principal  discordou  do  plano  até  que  dois  membros  expressaram  apatia  e  tédio  depois  de  três
semanas  de  atividades  do  tipo  pergunta  e  resposta  “quebra­gelo”  em  paralelo,  sem  necessidade  de
nenhuma interação do grupo. Os membros do subgrupo expressaram surpresa e raiva pelo fato de ninguém
ter falado nada antes. “Bem, se você se sentia desta maneira, por que você não falou?”, disse um membro
do subgrupo. Houve silêncio na sala.
O  que  o  silêncio  simboliza  para  o  grupo  e  seus  membros?  É  possível  que  os  membros  não  tenham
verbalizado  seu  desacordo  por  medo  de  rejeição.  Eles  poderiam  ter  se  expressado  ou  se  calado,  porque
haviam  surgido  sentimentos  de  competição  em  relação  aos  membros  mais  ativos.  A  escolha  de  uma
atividade  paralela  também  era  importante.  Em  uma  atividade  paralela,  não  há  competição.  Os  membros
trabalham  lado  a  lado  em  uma  atividade  que  é  estruturada  para  assegurar  uma  situação  vitoriosa  para
todos. Mais uma vez, é provável que o grupo estivesse evitando a competição. Ao sugerirem a atividade em
paralelo,  os  membros  ativos  foram  coniventes  com  os  membros  silenciosos  para  evitar  a  competição.
Apenas quando os dois membros que expressaram apatia e tédio verbalizaram suas preocupações, é que a
competição surgiu de uma maneira franca.
Quando os fatores que atuam para que o grupo francamente evite competição entre si e com os líderes
são examinados no nível de processo, isto proporciona bastante informação para o grupo. No nível estrutural
do  processo  de  grupo,  poderíamos  encontrar  um  desequilíbrio  nos  pa  péis  dos  associados  do  grupo.
Assumir  o  papel  de  membro  no  âmbito  socioemocional,  incentivando,  comprometendo­se,  preservando  e
harmonizando,  ajudaria  o  grupo  a  explorar  seus  gostos,  aversões  e  conflitos.  Neste  grupo,  os  membros
tendem para os pa péis orientados para tarefas como fornecer informação, coordenar e estimular o grupo à
ação. Os aspectos psicodinâmicos do processo de grupo chamam a atenção para as questões subjacentes
ou  latentes.  As  forças  antigrupo  (Nitsun,  1996,  2002),  de  natureza  psicodinâmica,  sugerem  que  os
sentimentos de rivalidade e inveja em relação a outros membros do grupo ou aos líderes, bem como o medo
de rejeição, são possíveis fatores que contribuem para a reação do grupo.
O sexo dos membros também é relevante para o processo do grupo em relação à competição. No cenário
descrito anteriormente, todos os membros são do sexo feminino. Poderia haver uma forte tendência positiva
no  sentido  de  vencer  ou  vencer  em  uma  tarefa  em  relação  a  vencer  ou  finalizar.  Se  homens  fossem
introduzidos  no  processo,  é  possível  que  o  grupo  experimentasse  diferentes  cenários,  como  mais  conforto
com a competição aberta. Além disso, existe a possibilidade de que, em um grupo misto, o equilíbrio de pa
péis se desloque no sentido de estereótipos de gênero. Merece exame o potencial latente de as mulheres
assumirem mais os pa péis socioemocionais de cuidadoras e os homens, mais pa péis de tarefa.

O SIGNIFICADO DO PROCESSO
Não obstante o fato de os grupos serem de curto ou de longo prazo, eles mudam com o passar do tempo. Uma
gama de preocupações interpessoais emerge à medida que os grupos evoluem. As fases de desenvolvimento do
grupo  fornecem  um  modelo  conceitual  da  evolução  das  questões  de  um  grupo.  Bion  (1959)  propôs  que  as
tensões surgem em um grupo e que suas resoluções formam a base e o processo do desenvolvimento do grupo.
Ele  identificou  três  estágios  e  processos  de  enfrentamento  da  tensão:  (1)  luta  ou  fuga,  (2)  dependência  e
contradependência  do  líder  e  (3)  pareamento  (Boxe  37.4).  O  grupo  torna­se  um  grupo  de  trabalho  quando  os
membros  resolvem  as  tensões  inerentes  à  tarefa  de  atuar  em  grupo.  De  maneira  similar,  Tuckman  (1965)
identificou  quatro  estágios  de  desenvolvimento  do  grupo:  (1)  formação,  (2)  debate,  (3)  normalização  e  (4)
realização  (Boxe  37.5).  O  grupo  progride  à  medida  que  os  membros  resolvem  e  se  ajustam  às  questões
emocionais  subjacentes  em  relação  uns  aos  outros  e  ao  líder.  O  progresso  avança  e  regride  à  medida  que  os
estresses  emergem  no  grupo,  como  aqueles  que  surgem  com  a  adição  de  um  novo  membro  ou  a  perda  de  um
membro de longa data. Embora a noção de esquemas de desenvolvimento de grupo tenha sido uma questão de
debate,  existe  evidência  empírica  substancial  para  sustentar  o  surgimento  de  fases  em  um  grupo  (MacKenzie,
1994).  As  fases  são  sustentadas  por  um  modelo  centrado  em  sistemas  (Agazarian  &  Ganti,  2003)  e  têm
relevância para a função do líder e para as estratégias de tratamento para a facilitação da ação funcional do grupo
(Howe  &  Schwartzberg,  2001).  Em  um  modelo  centrado  no  sistema,  o  grupo  é  visto  como  uma  massa
organizada  de  partes  componentes  mutuamente  dependentes.  “É  o  sistema  interativo  que  muda  ao  longo  dos
estágios  de  desenvolvimento,  não  os  membros  individuais  do  grupo”  (Howe  &  Schwartzberg,  2001,  p.  22).
Independente de verificação, a evidência empírica não reduziu o debate sobre se existem ou não realmente fases
distintas de desenvolvimento do grupo.

COMPORTAMENTOS DE ENFRENTAMENTO DA TENSÃO (BION, 1959)

Luta ou fuga: Hostil e hierárquica; tempo gasto selecionando os inimigos e os atacando
Dependência: Insiste na proteção do líder e expressa a insatisfação com a adequação para a tarefa
Pareamento: Falha em desenvolver a coesão do grupo; os pares dominam

ESTÁGIOS DE DESENVOLVIMENTO DE GRUPO DE TUCKMAN (1965)

Formação: Incerteza quanto ao papel no grupo, os propósitos e os procedimentos de grupo
Tumulto: Conflito e rebelião no grupo à medida que os membros resistem à influência do grupo
Normalização:  O  grupo  descobre  maneiras  para  trabalhar  em  conjunto;  estabelece  normas  para
capacitar a coesão
Realização: O grupo é flexível na maneira de trabalhar em conjunto para atingir os objetivos

OS NÍVEIS MICRO E MACRO DO PROCESSO

Nível Micro
As  dificuldades  interpessoais  podem  surgir  entre  indivíduos  no  nível  estrutural  ou  micro  do  processo.  É
inevitável que todos os grupos focados na ocupação careçam de coesão em um momento ou outro, dependendo
da  maturidade  do  grupo.  Os  membros  podem  ser  incapazes  de  tomar  uma  decisão  de  grupo  ou  executar  um
planejamento. Nos grupos que são estruturados com a finalidade do autoexame e de avaliação de desempenho,
como  um  grupo  de  processo  orientado  para  a  tarefa,  parte  do  trabalho  do  grupo  consiste  em  identificar  os
problemas  estruturais  no  grupo.  O  medo  dos  membros  do  ridículo,  por  exemplo,  poderia  levar  à  tomada  de
decisão prematura ou a fundamentar­se unicamente no líder com relação às ideias. Lippitt (1961) identificou, há
muito  tempo,  os  fatores  facilitadores  da  tomada  de  decisão  do  grupo.  Estes  incluem  a  definição  clara  do
problema, a nítida compreensão de quem é responsável pela decisão, a efetiva comunicação pela produção das
ideias, o tamanho apropriado do grupo para a tomada de decisão, os meios para testar decisões alternativas, o
compromisso com a decisão, o compromisso do líder com o processo de tomada de decisão e a concordância nos
procedimentos  e  métodos  para  a  tomada  de  decisão  antes  das  discussões  sobre  a  questão  (Lippitt,  1961).  Os
fatores  de  Lippitt  definiram  parâmetros  estruturais  nítidos  e  podem  ajudar  na  tomada  de  decisão  em  grupos
orientados para a tarefa.

Nível Macro
No  nível  macro  ou  psicodinâmico,  os  conflitos  ocultos  ou  latentes,  os  desejos  e  fantasias  desconhecidos  do
membro surgem na forma de comportamentos. Subjacentes aos comportamentos estão as atitudes negativas em
relação ao grupo que foram caracterizadas como forças antigrupo (Nitsun, 1996). Quando essas forças não são
reconhecidas ou contidas, elas podem interferir com o processo do grupo.
De  acordo  com  Nitsun  (2002),  os  processos  antigrupo  que  emergem  incluem  a  ameaça  à  privacidade  de  si
próprio e a sobrevivência psíquica; a idealização de um relacionamento de um para um; falhas de comunicação,
principalmente empatia e a sintonia nos grupos; medo da exposição ou rejeição sexual; despertar de sentimentos
de rivalidade e inveja em relação ao terapeuta e entre os membros; os ataques sobre a conexão dos pensamentos,
sentimentos e ações; e a identificação projetiva. Pode­se esperar que esses processos de grupo surjam em grupos
de  psicoterapia  e,  quando  explorados,  eles  podem  formar  a  base  para  o  desenvolvimento.  As  forças  antigrupo
ocorrem no nível do indivíduo, do subgrupo e do grupo como um todo. Estas forças podem ser destrutivas ou
desafiadoras e se disseminam por grupos maiores, como instituições e organizações (Nitsun, 2002).
Nos grupos de terapia ocupacional, as forças antigrupo frequentemente assumem o formato de formação de
subgrupos, aparecimento de bode expiatório, fixação  de  papel,  raiva,  isolamento  ou  silêncio  e  competição.  Os
subgrupos consistem em aglomerações ou díades de membros que, de modo subconsciente, se unem para evitar
alguma  coisa  desagradável.  Eles  surgem  quando  a  tarefa  emocional  provoca  ansiedade  (Bion,  1959).  O  bode
expiatório recebe a projeção de partes indesejadas dos indivíduos no grupo ou opera por meio da identificação
projetiva.  “A  identificação  projetiva  é  uma  negociação  interpessoal  inconsciente  em  que  uma  pessoa  ou
subgrupo encontra um receptor passivo para as projeções indesejadas; então, o receptor identifica­se com estas
projeções, isto é, as partes rejeitadas do projetor” (Weber & Gans, 2003, p. 408). O bode expiatório consiste em
colocar os sentimentos indesejados e rejeitados dos membros do grupo em um membro (Weber & Gans, 2003).
A  fixação  de  papel  consiste  no  confinamento  da  participação  de  um  membro  do  grupo  à  parte  restrita  ao
indivíduo (Weber & Gans, 2003). Por exemplo, em um grupo de terapia ocupacional, os membros podem confiar
unicamente em um membro para trazer os suprimentos e iniciar a atividade ou uma discussão. O iniciador que é
colocado  nesse  papel  perde  as  oportunidades  de  ser  o  receptor,  e  os  outros  membros  permanecem  fixados  em
comportamentos passivos e dependentes. Por fim, essa fixação de papel leva à insatisfação de todos os membros
e a uma ruptura no processo do grupo e na realização da tarefa.

ESTUDO DE CASO: Membros Atrasados ou Ausentes

Semana após semana, um membro chega atrasado. Ninguém no grupo diz nada para o membro atrasado.
O membro apresenta desculpas, como o tráfego e o tempo. Encontra­se no contrato do grupo um acordo
por escrito segundo o qual o membro deve frequentar o grupo regularmente e chegar no horário. O líder fala
com  o  membro  do  grupo  sobre  chegar  atrasado.  Os  membros  expressam  raiva  com  o  líder  por  ser  muito
rude, por advertir o membro costumeiramente atrasado e por deixar a pessoa envergonhada.
Neste cenário, é importante perguntar sobre a fase de desenvolvimento do grupo. O comportamento do
membro atrasado e a evidente reação intempestiva do grupo constituem o início de movimentos no sentido
da independência? Os membros estão evitando um confronto direto com o líder a respeito dos limites que
estão sendo impostos? À medida que os membros se agrupam em torno de um colega, o líder, ao manter os
limites,  ajuda  o  grupo  a  se  tornar  coeso  e  autodirecionado.  É  mais  provável  que  a  confiança  seja
estabelecida  quando  os  limites  são  razoáveis  e  mantidos  de  maneira  consistente  pelo  líder  e  pelo  grupo.
Quando os limites não são mantidos, o comportamento é explorado e examinado. Esta exploração envolve a
descoberta  de  motivos  conscientes  e  inconscientes  para  o  comportamento,  incluindo  atender  ou  não  as
expectativas.  Por  vezes,  um  membro  pode  ser  solicitado  a  deixar  um  grupo  se  o  comportamento  for
prejudicial  para  o  processo  e  para  o  indivíduo  e/ou  o  grupo.  Esta  situação  está  relacionada  a  testar  a
vulnerabilidade do líder à rejeição e ao desejo de ser útil.
RESPOSTAS DOS LÍDERES
“As respostas de contratransferência nos terapeutas precisam ser decididamente compreendidas e gerenciadas. O
Antigrupo tende a gerar sentimentos de incompetência, fracasso, desamparo e raiva no terapeuta de grupo, e é
crucial, nesta situação, que o terapeuta tenha um sistema de suporte profissional e acesso à supervisão regular”
(Nitsun, 2002, p. 464). Essas respostas são reações tanto subjetivas como objetivas aos membros do grupo.
A resposta do líder poderia ser de vergonha (Weber & Gans, 2003) ou da construção concomitante do paciente
difícil  (Gans  &  Alonso,  1998).  “Comumente,  quando  as  pessoas  se  referem  aos  pacientes  difíceis,  elas  falam
como  estes  pacientes:  (a)  promovem  ou  impedem  o  trabalho  do  grupo;  (b)  aceitam  ou  falham  em  aceitar  a
retroalimentação de outros membros do grupo e/ou do líder, (c) vêm para simbolizar ou amplificar as partes mais
problemáticas de cada membro (d) e desafiam a honestidade, a capacidade empática e a competência do líder”
(Gans & Alonso, 1998, p. 314).
O exame do terapeuta da contratransferência resulta na compreensão do subjetivo e do objetivo. No caso da
contratransferência subjetiva, as projeções não examinadas do terapeuta sobre si próprio são vistas no paciente.
A  reação  do  terapeuta  baseia­se  em  sua  própria  resposta  (Ormont,  1991).  Na  contratransferência  objetiva,  o
paciente  gera  uma  resposta  emocional  induzida  entre  os  indivíduos  que  não  é  uma  reação  idiossincrática  do
terapeuta. Weber e Gans (2003) observaram que “quatro desafios comuns que podem provocar dificuldades de
contratransferência  e  que  produzem  vergonha  no  terapeuta  incluem  (1)  conivência  com  a  fixação  de  papel  ou
bode  expiatório,  (2)  conter  e  dirimir  as  identificações  projetivas  nocivas,  (3)  transferência  negativa  e  (4)
idealização do terapeuta” (p. 407). A transferência pode ser positiva ou negativa. O líder do grupo experimenta
as partes projetadas ou indesejadas dos membros no nível do grupo ou dos indivíduos.
A violação da confidencialidade levanta uma questão sobre a confiança do líder e dos membros. Além disso,
podemos perguntar que papel o “violador” desempenha para o grupo. Existe um risco de que venha a se tornar
um  bode  expiatório  ou  alvo  para  hostilidade  e  desconfiança.  Caso  o  líder  não  aborde  a  falha  do  membro,  os
limites  do  grupo  são  enfraquecidos,  é  pouco  provável  que  a  confiança  seja  restabelecida  e  é  provável  que  o
grupo  se  dissolva.  O  exame  da  transferência  do  membro  em  relação  a  violações  pregressas,  bem  como  a
autorreflexão da contratransferência pelo líder, poderia reforçar o grupo e os limites necessários para a segurança
emocional.
É  importante  que  os  líderes  examinem  seu  próprio  comportamento,  de  modo  que  os  tratamentos  sejam
totalmente  centralizados  no  membro,  em  vez  de  dirigir­se  para  o  preenchimento  das  próprias  necessidades  do
líder.  Weber  e  Gans  (2003)  descrevem  o  ego  ideal  como  totalmente  sábio,  totalmente  amoroso  e  totalmente
poderoso.  Como  os  terapeutas  podem  nunca  atingir  tal  perfeição,  eles,  por  vezes,  ficam  com  a  sensação  de
inadequação.  Estes  sentimentos  podem  ser  particularmente  intensos  no  terapeuta  iniciante  e  podem  ser
inconscientes. Ao agirem de modo inconsciente em seus próprios comportamentos, os líderes podem contribuir
para  os  problemas  no  processo  do  grupo  que  podem  resultar  no  aparecimento  de  membros  problemáticos  no
grupo. (Gans & Alonso, 1998). Gans e Alonso descrevem as ações do líder que podem resultar em problemas.
“Estas  incluem  (a)  seleção  equivocada  de  pacientes;  (b)  manuseio  inadequado  ou  perigoso  das  violações  de
limite,  bode  expiatório  e  normas  de  grupo;  (c)  incapacidade  ou  falta  de  vontade  de  reconhecer  os  erros;  (d)
recusa  de  ser  um  esclarecedor  quanto  aos  os  sentimentos  negativos;  (e)  falha  em  estabelecer  limites  sobre  a
expressão  de  sadomasoquismo  dos  membros;  e  (f)  falha  em  aceitar  seus  próprios  limites  à  medida  que  eles
afetam  a  prática  clínica  em  situações  dolorosas  inevitáveis  que  pontuam  a  vida  pessoal  e  a  carreira  de  um
profissional” (1998, pp. 316­317).

ESTUDO DE CASO: Reuniões de Subgrupo Fora do Grupo

Para promover a unidade do grupo, diz­se aos membros do grupo que, como parte do contrato de grupo, é
preferível  que  as  discussões  sobre  o  grupo  não  aconteçam  fora  das  sessões  agendadas.  Se  os  membros
têm  contato  fora  do  grupo,  espera­se  que  os  eventos  e  as  discussões  sejam  trazidos  para  o  grupo.  Por
exemplo, um membro menciona casualmente que convidou outro membro para sua casa e diz que sua mãe
ficou  muito  feliz  por  encontrar  um  membro  do  grupo.  Estabelece­se  um  silêncio.  O  evento  ocorre  durante
uma das sessões iniciais deste grupo de duração limitada.
Muitas questões podem estar subjacentes ao processo do grupo. Considere os motivos para a formação
de  um  subgrupo.  Os  dois  membros  estavam  expressando  alguma  coisa  em  favor  dos  outros  membros  do
grupo?  Por  terem  contato  externo  e  trazerem  isto  para  o  grupo,  os  dois  membros  estavam  testando  as
reações do grupo e do líder? Os temores de ser forçado a sair do grupo e o desejo de se manter e de ser
parte  do  grupo  estão  presentes.  O  líder  é  desafiado  a  superar  as  preocupações  emocionais  para
desencorajar uma quebra do grupo. Este encontro força o líder a evitar pender para um dos lados ou agir
por intermédio dos subgrupos.

Os profissionais da terapia ocupacional podem participar ou liderar muitos tipos de grupos. Os processos do
grupo, como as fases de desenvolvimento do grupo, os pa péis dos membros do grupo e a dinâmica interpessoal
e intrapessoal oculta, afetam, sem exceção, os grupos. Quando compreendidas, as reações de contratransferência
do  líder  podem  influenciar  as  estratégias  empregadas  para  estimular  a  eficácia  do  grupo.  Estes  processos  de
grupo  são  uma  importante  consideração  para  a  facilitação  de  grupos  efetivos.  Compreender  a  dinâmica  que
influencia a coesão do grupo pode levar à liderança bem­sucedida de pequenos grupos em terapia ocupacional.

QUESTÕES INSTIGANTES
1. Lembre­se de um momento em que você estava em um grupo de trabalho e experimentou fortes emoções. O
que estava acontecendo no grupo naquele momento? Que sentimentos você experimentou – por exemplo,
raiva, frustração, tristeza, ciúme, inveja? Considere a gama de sentimentos que poderiam ter estado ocultos
ou escondidos e aqueles que estavam manifestos ou eram conhecidos por você e pelos outros.
2. Na  situação  lembrada  por  você  na  pergunta  1,  como  você  respondeu  aos  outros  componentes  do  grupo?
Quais  sentimentos  poderiam  ter  estado  em  conflito?  Considere  os  sentimentos  análogos,  como  raiva  e
tristeza, ansiedade e tranquilidade. Quais pa péis de associação ao grupo você tende a assumir? Qual é o
ganho  social  ou  psicológico  subjacente?  Por  exemplo,  você  tende  a  ser  um  mediador  em  um  grupo  para
evitar conflito ou competição?

ESTUDO DE CASO: Quebra da Confidencialidade

Na primeira reunião de um grupo, o líder explica que o material no grupo permanece no grupo e não deve
ser  compartilhado  fora  da  sessão.  Imediatamente  em  seguida,  um  membro  comenta:  “Lembra­se  que  no
último  grupo  uma  das  meninas,  cujo  nome  era  Mary  Smith,  separou­se  do  namorado  e  chorou  o  tempo
todo?” O grupo começa a questionar o membro sobre as circunstâncias e faz pressão para saber mais sobre
o  incidente.  O  líder  fica  surpreso  e  aborrecido  com  o  membro  do  grupo  por  revelar  o  nome  e  as
circunstâncias de outro membro.

ESTUDO DE CASO: Colíder Conivente com o Grupo

Em  um  grupo  de  supervisão  de  estudantes  de  terapia  ocupacional,  durante  a  ausência  de  uma  líder,  a
colíder  traz  um  jogo  para  o  grupo  jogar  em  vez  de  planejar  o  processo  com  o  grupo,  que  envolve  a
discussão  de  alternativas  para  o  uso  do  tempo  pelo  grupo.  Quando  a  líder  ausente  retorna,  ela  expressa
confusão  sobre  a  agenda  do  grupo.  Os  membros  do  grupo  ficam  silenciosos  e  jogam  o  jogo  até  que  a
“colíder conivente” expresse irritação por não saber como seguir as regras do grupo.
A mudança de direcionamento sugere competição entre os líderes e representação inconsciente. A colíder
está modificando o processo para obter favor ou aprovação do grupo? A divisão é simbólica dos subgrupos
dentro do grupo ou expressa com raiva no grupo? Talvez a introdução de mais estrutura por meio do uso do
jogo seja uma tentativa de diminuir as ansiedades do grupo e da colíder sobre a ausência da outra líder. O
grupo poderia utilizar a estrutura do jogo como um meio de evitar os sentimentos de perda.

ESTUDO DE CASO: Um Membro do Grupo Recusa­se a Participar da Atividade
Um  membro  do  grupo  participa  apenas  quando  trabalha  ao  lado  do  líder.  Logo  que  o  líder  tenta  ajudar
alguém mais, esta pessoa sai da sala ou se senta em um canto e fica de mau humor.
O  comportamento  do  membro  levanta  dúvidas  sobre  a  adequação  do  grupo  para  este  indivíduo.  As
capacidades de interação do membro com o grupo podem não estar em um nível de desenvolvimento em
que ele possa compartilhar a atenção. A tarefa do grupo também pode ser questionada, pois o membro não
é  capaz  de  se  engajar  com  sucesso  na  atividade  sem  suporte  pessoal.  Os  motivos  para  a  seleção
equivocada  do  paciente  ou  da  atividade  precisam  ser  examinados.  Este  desequilíbrio  pode  advir  do  líder,
bem como das pressões da instituição para a inclusão do membro nos programas do grupo.

Processo de Grupo

A evidência  sugere  que  o  tratamento  relacionado  com  a  terapia  ocupacional  em  grupos  é  efetivo  na
abordagem de resultados sobre a função orgânica (p. ex., funções mentais) e as habilidades e áreas de
desempenho  ocupacional,  como  a  participação  social  e  as  habilidades  de  comunicação/interação  (Howe  &
Schwartzberg, 2001). As técnicas baseadas em evidência dependem dos resultados desejados e do problema
do cliente. O tratamento para habilidades e áreas de desempenho realizado em um ambiente de grupo pode
resultar  em  maiores  satisfação  e  adesão  do  cliente  aos  programas  de  tratamento  (Howe  &  Schwartzberg,
2001). Como a gama de habilidades abordadas é muito variada, é melhor examinar a literatura específica para
o fator cliente e para o resultado em questão.
A gama de preocupações relacionadas com o processo de grupo é muito ampla e dependente do contexto
de grupo, do ambiente e da população. Estudos de interesse para sustentar a prática incluem a emergência
das fases de desenvolvimento do grupo (Agazarian & Gantt, 2003), o tamanho do grupo e sua influência sobre
a  realização  do  grupo  (Howe  &  Schwartzberg,  2001;  Yalom  &  Leszcz,  2005)  e  a  importância  da  ação
propositada e autoiniciada em um grupo. Há uma necessidade de expandir a evidência em todas as áreas de
atuação da terapia ocupacional em que o processo de grupo é aplicado a problemas específicos do cliente ou
como um meio para aumentar as metodologias específicas para o problema.
Um  bom  exemplo  da  pesquisa  necessária  é  um  estudo  controlado  randomizado  realizado  para  avaliar  a
eficácia de um programa em grupo de oito sessões planejado para diminuir o medo de fracassar e aumentar
os níveis de atividade entre idosos (Peterson, 2003; Tennstedt et al., 1998). “Os dados coletados durante 12
meses  mostraram  que,  em  comparação  com  os  indivíduos  de  controle,  o  grupo  de  tratamento  experimenta
maiores participação social e mobilidade na comunidade” (Peterson, 2003, p. 12).

3. Volte à situação descrita na pergunta 1. Modifique a circunstância no grupo. Por exemplo, você pode mudar
o número de pessoas no grupo, o sexo dos membros, a tarefa, as recompensas e os líderes. Como o processo
de grupo e o papel no grupo seriam modificados? Considere o seguinte evento: é o primeiro dia de aula e
seu professor pede aos estudantes para decidir quando eles gostariam de apresentar o projeto final para a
turma. Um estudante que você considera tipicamente agressivo e autocentrado pega as datas que seriam as
melhores para você. No momento em que você tem a coragem de dizer qual data você prefere, as únicas
datas  existentes  entram  em  conflito  com  uma  marcação  de  trabalho  de  estágio.  Você  fica  zangado  e
desconsolado.  Em  vez  de  resmungar,  você  poderia,  por  exemplo,  alterar  o  processo  ao  sugerir  que  os
estudantes classifiquem suas preferências e negociem as datas entre si.

REFERÊNCIAS
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Yalom, I. D., & Leszcz, M. (2005). The theory and practice of group psychotherapy, (5th ed). New York: Basic
Books.
Modelos de Interação de Equipe e
Comunicação de Equipe
ELLEN S. COHN

Sumário
Equipes e Trabalho de Equipe
Modelos de Interação da Equipe
Estudo de Caso: Rose: Uma Abordagem Interdisciplinar para Planejar a Transição para Casa
de uma Mulher com Lesões Múltiplas
Criando um Significado Compartilhado e uma Linguagem Comum
Estudo de Caso: Comunicação Interdisciplinar em uma Residência Comunitária

“O caminho da grandeza corre junto aos outros.”

— BALTASAR GRACION, PADRE ESPANHOL (1637)

Objetivos de Aprendizagem
Após a leitura deste capítulo, você será capaz de:

1. Descrever os benefícios de uma abordagem em equipe para o tratamento.
2. Descrever os pa péis dos profissionais de medicina, reabilitação e educação.
3. Descrever a dinâmica da comunicação do processo de equipe.

EQUIPES E TRABALHO DE EQUIPE
No poema frequentemente citado sobre o Hinduísmo, “O Cego e o Elefante”, John Godfrey Saxe descreveu a
difícil situação de seis homens, todos cegos, que se depararam com um elefante. O primeiro homem, sentindo a
lateral  do  elefante,  relatou  que  o  animal  era  como  uma  parede.  O  segundo,  sentindo  as  presas,  interpretou  a
criatura como parecendo uma lança. O terceiro, encontrando sua tromba, declarou que era como uma cobra, e
assim por diante. Dessa maneira, quando cada observador deu sua opinião acerca do elefante, “cada um estava
parcialmente correto e todos estavam errados!” (Saxe, 1871, p. 260). Aqui está contido o conceito subjacente ao
uso da comunicação em equipe. Embora cada membro, representando uma perspectiva diferente, seja totalmente
cego, uma única maneira de observar limita a capacidade de compreender o todo. É a combinação da visão, da
avaliação e do programa coordenado de tratamento que fornece uma visão completa do cliente como um todo
que recebe o tratamento.
Para  a  maioria  das  áreas  de  prática,  as  interações  de  equipes  interdisciplinares  constituem  a  norma.  O
tratamento  bem­sucedido  envolve  um  processo  mútuo  e  de  colaboração  durante  o  qual  os  profissionais  e  os
clientes desenvolvem, em conjunto, o programa de tratamento (Golin & Duncanis, 1981; Humphry, Gonzalez &
Taylor,  1993;  Leff  &  Walizer,  1992).  De  acordo  com  Parham  (1987),  os  terapeutas  ocupacionais  estão
“preocupados  com  a  compreensão  das  ocupações  dos  seres  humanos,  as  maneiras  pelas  quais  as  pessoas
organizam  as  atividades  que  preenchem  suas  vidas  e  conferem  significado  às  suas  vidas”  (p.  555).  Para
compreender  como  um  determinado  cliente  experimenta  a  doença  ou  a  incapacidade  no  contexto  de  suas
ocupações  e  da  vida  diária,  o  terapeuta  ocupacional  precisa  colaborar  com  os  outros  membros  da  equipe
envolvidos na prestação de serviços para este cliente.
A equipe inclui diferentes especialistas que possuem fundamentação, treinamento, valores e visões distintas de
mundo  e,  por  vezes,  metas  diferentes.  Estes  especialistas  trabalham  em  conjunto  em  diferentes  configurações,
dependendo  das  necessidades  do  cliente,  do  tipo  de  ambiente  em  que  se  fornece  o  tratamento  e  dos  recursos
disponíveis.  A  equipe  de  tratamento  para  uma  criança  com  lesão  cerebral  traumática  que  retorna  à  escola
elementar  após  dois  meses  em  um  hospital  de  reabilitação  poderia  incluir  a  criança  e  seus  pais,  um  educador
especial,  um  fonoaudiólogo,  um  terapeuta  ocupacional,  um  professor  de  educação  física  e  uma  enfermeira
escolar. Uma idosa que sofreu recentemente um acidente vascular cerebral leve que afetou sua visão e que vive
em  moradia  para  populações  de  baixa  renda  poderia  receber  o  tratamento  de  um  terapeuta  ocupacional,  um
optometrista, um fisioterapeuta e um assistente social. Os profissionais que fornecem tratamento à comunidade
poderiam trabalhar com equipes de representantes do comércio local, organizações de cidadãos voluntários ou
agentes  oficiais  do  governo.  Cada  membro  da  equipe  aborda  as  preocupações  do  cliente  a  partir  de  uma
perspectiva  única,  e  todas  as  perspectivas  são  coordenadas  para  a  estruturação  do  programa  de  tratamento  do
cliente. Supõe­se que essa perspectiva coordenada fará diferença no resultado final para o paciente que recebe o
programa de tratamento (Crepeau, 1994a, 1994b; Unsworth, Thomas & Greenwood, 1995).
De  maneira  ideal,  os  membros  da  equipe  interdisciplinar  compartilham  um  conceito  comum  quanto  às
preocupações do cliente e uma filosofia comum de tratamento. Eles sintetizam as diversas informações obtidas a
partir de suas avaliações e aquelas de consultores externos e trabalham em conjunto para formular e aplicar um
programa de tratamento abrangente com base nos dados disponíveis. Principalmente, a equipe deve agir como
uma  unidade  funcional  cujos  membros  tenham  o  desejo  de  aprender  uns  com  os  outros  e  de  modificar  suas
próprias  opiniões,  quando  apropriado,  com  base  em  observações  e  experiências  combinadas  de  todo  o  grupo
(Perlmutter,  Bailey  &  Netting,  2001).  As  vantagens  de  uma  abordagem  em  equipe  são  uma  abordagem  mais
holística  para  o  tratamento  do  cliente,  os  tratamentos  integrados,  a  redução  ou  eliminação  dos  serviços
duplicados e da fragmentação ou dos intervalos no tratamento e decisões mais rápidas e mais bem informadas
quanto aos programas do cliente (Stancliff, 1995).
Historicamente, as equipes de cuidados de saúde têm decidido sobre o programa de tratamento do cliente a
portas fechadas, sem a participação do cliente, e, em seguida, compartilhado seus planos com o cliente. Contudo,
na  prática  atual,  vozes  adicionais  estão  influenciando  o  processo  da  equipe.  Atualmente,  os  profissionais  de
saúde  adotam  a  incorporação  do  cliente  como  um  membro  da  equipe  e  veem  isto  como  fundamental  para  o
sucesso no futuro do programa de tratamento (Baum, 1998; Crepeau, 1994a, 1994b). Além disso, o Individuals
with  Disabilities  Education  Improvement  Act,  IDEA  2004  (P.L.,  108­446),  a  legislação  federal  americana  que
delineia  o  requisito  educacional  para  crianças  com  necessidades  especiais,  esclarece  nitidamente  que  os
estudantes e seus pais ou cuidadores devem estar envolvidos nas decisões da equipe em relação às necessidades
do estudante. No ambiente de cuidados gerenciados, que se concentra na contenção de custos e na qualidade do
cuidado, a perspectiva da fonte pagadora é cada vez mais considerada como outro fator crucial no processo de
tomada de decisão da equipe.
Uma  compreensão  das  contribuições  potenciais  das  várias  pessoas  e  dos  vários  profissionais  envolvidos  na
vida  do  cliente  capacita  o  profissional  a  desenvolver  um  programa  mais  significativo  para  cada  cliente  (Fig.
38.1). Os membros da equipe têm funções inter­relacionadas. Dependendo do ambiente de prática, há variações
nas interações do profissional de terapia ocupacional com os outros profissionais e com as pessoas importantes
na  vida  do  cliente.  Em  um  ambiente  médico,  como  um  hospital  de  tratamento  intensivo  ou  uma  unidade  de
reabilitação, os membros da equipe atuam sob as ordens de um médico, e os profissionais conseguem interagir
com os profissionais da equipe várias vezes ao dia. De modo alternativo, um profissional que está na prática de
consultório ou empregado por uma empresa de cuidados domiciliares pode não ter contato frequente com outros
especialistas,  mas  pode  ter  contato  mais  repetido  com  familiares  ou  outras  pessoas  significativas  na  vida  do
cliente.
Independente  do  ambiente,  os  profissionais  de  terapia  ocupacional  precisam  estar  cientes  dos  pa  péis  dos
outros membros da equipe a fim de esclarecer sobre as contribuições que a terapia ocupacional pode dar e como
todos podem trabalhar em conjunto para o benefício do cliente. Portanto, os profissionais de terapia ocupacional
precisam apresentar seus pa péis e contribuições para a equipe de tratamento, pois nunca é seguro supor que os
demais  membros  de  qualquer  equipe  tenham  plena  compreensão  das  contribuições  potenciais  da  terapia
ocupacional. Considere, por exemplo, a história de Rose no estudo de caso a seguir.

Fig. 38.1 As reuniões de equipe fomentam a colaboração e o planejamento integrado da intervenção.

MODELOS DE INTERAÇÃO DA EQUIPE
Comumente,  cada  cliente  dispõe  de  um  gestor  de  caso  ou  líder  de  equipe  identificado.  O  gerente  de  caso  é  a
pessoa designada a quem os clientes e seus familiares podem recorrer consistentemente para explicar, esclarecer
ou obter as informações necessárias. Este gestor de caso também pode servir como um ouvidor para o cliente. A
liderança da equipe ou a gestão do caso podem mudar com o passar do tempo, de acordo com as preocupações
identificadas para determinado cliente, os membros da equipe, a natureza da tarefa e a estrutura da organização.
Em um modelo médico tradicional, o médico frequentemente é o líder da equipe. Hoje em dia, principalmente
em cuidados de reabilitação de longa duração, ambientes baseados na comunidade ou educacionais, o terapeuta,
a assistente social, a enfermeira, o coordenador de serviços especiais ou o professor podem liderar ou coordenar
a equipe e, ao mesmo tempo, servir como gestores de caso.
As  equipes  podem  ser  organizadas  de  acordo  com  o  modelo  multidisciplinar,  interdisciplinar  ou
transdisciplinar.  Com  frequência,  no  entanto,  uma  equipe  passa  de  um  modelo  para  outro  e  funciona  em  sua
própria  variação  dos  modelos  clássicos.  Na  abordagem  em  equipe  multidisciplinar,  os  membros  da  equipe
trabalham  lado  a  lado.  Cada  membro  cumpre  um  papel  claramente  definido  em  áreas  específicas  de
responsabilidade; os membros da equipe compreendem o espectro de prática profissional de cada um dos outros
membros  e  confiam  que  cada  membro  da  equipe  aborde  sua  área  de  preocupação.  Embora  a  avaliação,  o
planejamento e o tratamento aconteçam de maneira independente, os membros da equipe podem comunicar­se
entre si com regularidade ou por meio do prontuário ou do registro do cliente. Em geral, as famílias e os clientes
se encontram separadamente com os membros de cada disciplina da equipe. Os exemplos desse tipo de interação
de equipe podem ser observados em uma situação ambulatorial, quando uma pessoa recebe tratamento por meio
de um auxiliar de saúde domiciliar, de terapia ocupacional ou de fisioterapia.
Em  uma  abordagem  de  equipe  interdisciplinar,  os  membros  da  equipe  compartilham  a  responsabilidade  por
fornecer os serviços, frequentemente apoiando as metas de outros membros da equipe. Eles realizam avaliações
separadas,  porém  compartilham  os  resultados,  a  fim  de  desenvolver  um  programa  de  tratamento  integrado  e
coordenado.  Os  membros  da  equipe  dispõem  de  substancial  conhecimento  das  disciplinas  uns  dos  outros  e
compreendem  a  perspectiva  dos  outros.  Os  clientes  e  as  famílias  ou  outras  pessoas  significativas  na  vida  dos
clientes  reúnem­se  com  a  equipe  ou  com  um  representante  da  equipe,  como  o  líder  da  equipe  ou  o  gestor  de
caso.  As  equipes  interdisciplinares  efetivas  se  comunicam  para  resolver  conflitos  e  tomar  decisões
compartilhadas. Exemplos comuns das equipes interdisciplinares são encontrados nos hospitais de reabilitação,
onde  os  profissionais  de  inúmeras  disciplinas  (o  cliente  e  os  cuidadores,  terapia  ocupacional,  fonoaudiologia,
fisioterapia,  nutrição,  serviço  social,  recreação  terapêutica,  enfermagem  e  medicina)  reúnem­se  para
compartilhar  perspectivas  e  para  desenvolver  um  programa  coordenado  de  tratamento.  Os  profissionais  que
atuam  em  escolas  também  trabalham  em  equipes  interdisciplinares,  frequentemente  com  professores,
administradores escolares e, talvez, um professor de educação física especializada, fonoaudiólogo, psicólogo ou
auxiliar de sala de aula.

ESTUDO DE CASO: Rose: Uma Abordagem Interdisciplinar para Planejar a Transição
para Casa de uma Mulher com Lesões Múltiplas

Rose  é  uma  mulher  de  72  anos  de  idade  que  foi  recentemente  hospitalizada  depois  de  sofrer  múltiplas
lesões em um acidente automobilístico. Agora, ela está recebendo serviços de terapia ocupacional em sua
residência.  Embora  seu  marido  seja  devotado  a  ela,  ele  não  é  capaz  de  ajudá­la  a  manter  a  casa.  Uma
assistente social está disponível para consultar a equipe de tratamento. Juntos, a terapeuta ocupacional, a
cliente,  seu  marido  e  seus  filhos  adultos,  em  conjunto  com  a  assistente  social,  determinaram  que  a
contratação  de  serviços  de  um  programa  de  refeição  pronta  em  casa  aliviaria  a  pressão  de  preparar  as
principais  refeições.  Além  disso,  os  filhos  de  Rose,  todos  vivendo  longe,  ofereceram­se  para  pagar  um
serviço de limpeza da casa por três meses, enquanto ela se recupera. Este processo de tomada de decisão
em equipe ajudou a terapeuta ocupacional a determinar o foco do tratamento de terapia ocupacional. Com o
alívio dos afazeres domésticos mais extenuantes, a terapeuta ocupacional pode focar na ajuda de Rose para
recuperar  e  monitorar  sua  força  e  resistência,  de  modo  que  ela  pudesse  controlar  por  completo  seu
autocuidado e preparar refeições leves, bem como unir­se a seu marido semanalmente no grupo de canto.
Com a assistência da equipe de tratamento, a terapia ocupacional focou­se nas atividades significativas para
Rose e seu marido.
Embora praticamente todo profissional médico, de saúde ou de educação possa ser solicitado a fornecer
serviços  para  abordar  a  variedade  de  condições  do  cliente  observadas  pelos  profissionais  de  terapia
ocupacional,  os  profissionais  listados  na  Tabela  38.1  podem  ser  particularmente  relevantes  para  o
tratamento  de  terapia  ocupacional  (Wachtel  &  Compart,  1996).  Os  endereços  eletrônicos  das  associações
profissionais oferecem revisões das qualificações dos diversos profissionais com os quais é provável que os
terapeutas ocupacionais trabalhem.
TABELA 38.1 PROFISSIONAIS MÉDICOS, DE REABILITAÇÃO E EDUCACIONAIS E AS ASSOCIAÇÕES
PROFISSIONAIS
Profissionais Associações
Educador físico adaptado: Adapta o equipamento esportivo e os National Consortium for Physical
jogos para indivíduos com necessidades especiais. Education and Recreation for
Individuals with Disabilities
(NCPERID)
http://www.uwlax.edu/sah/ncperid
Administrador: Aplica e reforça as leis municipais, estaduais e Administrador escolar: American
federais que regulam as finanças, padrões e ambientes para a Association of School
maioria dos programas de saúde e educacionais; tem inestimável Administrators (ASA):
experiência no gerenciamento de pessoas, espaço e finanças. http://www.aasa.org
Administrador hospitalar: American
Hospital Association (AHA):
http://www.aha.org
Audiólogo: Especializa­se no diagnóstico e tratamento dos American Academy of Audiology
comprometimentos da audição; administra vários exames para (AAA): http://www.audiology.org
determinar o nível de audição e o local da lesão no sistema
auditivo; recomenda aparelhos de audição e outros aparelhos de
assistência para melhorar a perda auditiva residual ou a
necessidade de treinamento especial.
Engenheiro biomédico: Especializa­se na aplicação da teoria e Biomedical Engineering Society (BES)
tecnologia científica para o desenvolvimento de aparelhos e http://www.bmes.org
técnicas para tratamento médico, reabilitação e pesquisa; fornece
experiência técnica para recomendação de produtos comerciais e
modificação dos aparelhos existentes ou do design e da
fabricação de equipamentos sob medida ou ambientes ajustados.
Capelão: Dedica­se às necessidades religiosas e espirituais dos Association of Professional Chaplains
clientes; fornece aconselhamento individual e familiar não (APC):
confessional; oferece serviços especiais. http://www.professionalchaplains.org
Optometrista: Examina, diagnostica, trata e controla doenças, American Optometric Association
lesões e transtornos do sistema visual, do olho e das estruturas (AOA): http://www.aoa.org
associadas, além de identificar as patologias sistêmicas correlatas
que afetam o olho.
Ortotista e protético: O ortotista constrói e adapta moldes para American Orthotic & Prosthetic
sustentar ou corrigir partes do corpo enfraquecidas por doença, Association (AOPA): www.ama­
lesão ou deformidade congênita ou para ajudar a evitar assn.org
deformidades. O protético idealiza e fabrica membros artificiais,
com atenção especial para melhorar a adaptação, função e a
aparência.
Enfermeira: Fornece tratamento personalizado, direcionado para a American Nurses Association (ANA):
meta, que engloba os aspectos preventivo, de manutenção e de http://www.nursingworld.org
restauração da enfermagem; administra medicamentos e instrui o
cliente e parentes no gerenciamento dos cuidados e programas
de manutenção de saúde.
Nutricionista: Planeja os programas de alimentação e nutrição e American Dietetic Association (ADA):
supervisiona a preparação e o fornecimento de refeições; ajuda a http://www.eatright.org
evitar e tratar as doenças ao promover hábitos alimentares
saudáveis e ao recomendar modificações na dieta, como o uso de
menos sal para aqueles com hipertensão ou a redução da ingesta
de gorduras e açúcar para aqueles com sobrepeso.
Fisioterapeuta: Avalia as limitações e capacidades físicas; American Physical Therapy
administra tratamentos destinados a aliviar a dor, corrigir ou Association (APTA):
minimizar deformidades, aumentar a força e a estabilidade e http://www.apta.org
melhorar a saúde geral.
American Medical Association (AMA):
Médicos (especialistas): Comumente, os especialistas aos quais www.ama­assn.org
um cliente foi referido pelo médico assistente (p. ex., ortopedista,
oftalmologista, neurologista, cardiologista, fisiatra, psiquiatra).
Psicólogo: Realiza avaliações psicológicas, projetivas e American Psychological Association
comportamentais; fornece psicoterapia individual, do casal, da (APA):
família e de grupo relacionada com questões comportamentais ou http://www.apa.org/
de ajuste.
Conselheiro de reabilitação: Assiste os indivíduos com National Rehabilitation Counseling
incapacidades físicas, mentais, cognitivas ou sensoriais a se Association (NRCA): http://nrca­
tornarem ou permanecerem como cidadãos produtivos e net.org
autossuficientes; ajuda os clientes a lidarem com problemas da
sociedade e pessoais, planeja carreiras e encontra e mantém
empregos satisfatórios.
Terapeuta respiratório (terapeuta de inalação): Administra American Association of Respiratory
oxigênio e nebulização para fins clínicos; fornece programas de Care (AARC): http://www.aarc.org
avaliação de oxigênio e educação do cliente.
Assistente social: Auxilia o cliente, a família ou outras pessoas National Association of Social Workers
importantes na vida do cliente a atingirem o nível máximo de (NASW):
funcionamento social e emocional; fornece aconselhamento ao http://www.socialworkers.org
cliente e à família, planejamento de alta e educação sobre
benefícios e outros recursos disponíveis; auxilia a identificação
dos recursos de transporte e auxiliar de cuidados.
Educador especial: Serve como um professor de crianças com National Association of Special
potencial intelectual incomumente alto ou crianças que vivem com Education Teachers (NASET):
doença mental, incapacidades de aprendizado ou desvios do http://www.naset.org
comportamento; pode ter habilidades avançadas no ensino de
crianças cegas, surdas, emocionalmente conturbadas, com
retardo do desenvolvimento ou portadoras de incapacidades
físicas.
Fonoaudiólogo: Especializa­se em distúrbios da fala, American Speech­Language­Hearing
desenvolvimento da linguagem e produção da fala, fisiologia da Association (ASHA):
fala, teorias e medição da audição e fonética. http://www.asha.org
Professor: Certificado para fornecer a educação na fase inicial da National Education Association (NEA):
infância, jardim de infância, nível elementar, nível secundário ou http://www.nea.org
nível universitário.
Especialista em recreação terapêutica (terapeuta de American Therapeutic Recreation
recreação): Facilita o uso alegre do tempo de lazer para Association: http://www.atra­tr.org
promover o bem­estar físico e mental; emprega as atividades
sociais e de lazer para ajudar no ajuste à incapacidade e à
participação nas atividades comunitárias.

Em uma abordagem de equipe transdisciplinar, os membros da equipe comprometem­se em ensinar, aprender
e  trabalhar  além  dos  limites  de  suas  disciplinas  para  planejar  e  fornecer  serviços  integrados.  A  avaliação  é
planejada, aplicada e resumida pela equipe como um todo. A equipe assimila as perspectivas de seus diversos
membros para a tomada de decisões conjuntas. São transpostos os limites de papel tradicionais, e as habilidades
de  outras  disciplinas  são  integradas  em  um  programa  de  tratamento  abrangente.  Esta  abordagem  exige  que  os
profissionais compartilhem as informações relacionadas com sua disciplina. Tipicamente, o cliente interage com
um  profissional,  que  se  informa  com  os  demais  profissionais  da  equipe  para  comunicar  ao  cliente  uma
perspectiva compartilhada e aplica recomendações e técnicas de toda a equipe. As equipes transdisciplinares são
por vezes encontradas em ambientes de intervenção precoce, em que todos os membros da equipe avaliam uma
criança em um modelo de arena. Um membro da equipe interage com a criança, enquanto os outros membros da
equipe observam a criança e interagem com os pais, procurando ajuda e interpretação quanto ao comportamento
da  criança.  Depois  dessa  avaliação,  toda  a  equipe  sintetiza  os  resultados  da  avaliação  para  identificar  os
resultados  esperados  e  para  desenvolver  tratamentos  específicos  que  são  executados  por  um  dos  membros  da
equipe. Esta abordagem reduz a duplicação e a potencial fragmentação dos serviços.
CRIANDO UM SIGNIFICADO COMPARTILHADO E UMA LINGUAGEM COMUM
Os profissionais e os clientes podem ter diferentes pontos de vista ou prioridades quanto ao tratamento ou podem
ter  as  mesmas  metas,  embora  difiram  quanto  ao  significado  das  metas  ou  na  abordagem  para  atingi­las.  Por
conseguinte,  é  essencial  que  os  membros  da  equipe  desenvolvam  o  significado  compartilhado  a  respeito  da
totalidade da condição do cliente. Para que o tratamento de cada cliente seja efetivo, a equipe deve compreender
(Crepeau, 1994a; Salisbury, 1992):
Crenças
Atitudes
Maneiras de criar significado para suas vidas
Conhecimento de sua condição
Expectativas para o futuro
Expectativas sobre o tratamento

O  processo  construtivista,  conforme  descrito  por  Buckholdt  e  Gubrium  (1979)  e  Crepeau  (1994a,  1994b),
envolve  o  raciocínio  individual  dos  membros  da  equipe  e  o  raciocínio  coletivo  do  grupo.  As  linhas  de
comunicação  formal  e  os  métodos  para  compartilhar  essas  interpretações  frequentemente  se  desenvolvem  por
meio de reuniões de equipe, sessões de tratamento colaborativo, avaliações por escrito e notas de evolução. Cada
membro da equipe faz sua própria interpretação da experiência vivida pelo cliente e, em seguida, articula esta
interpretação  com  os  outros  membros  da  equipe.  Coletivamente,  a  equipe  reconstrói  a  interpretação  para  criar
uma  imagem  unificada  a  partir  da  diversidade  de  suas  perspectivas  individuais.  Por  meio  deste  processo
construtivista,  os  membros  da  equipe  descobrem,  interpretam  e  negociam  suas  compreensões  do  cliente  ao
“selecionar os dados conflitantes para chegar a uma definição comum dos problemas enfrentados pelo paciente”
(Crepeau, 1994b, p. 161).
Para  desenvolver  uma  equipe  de  tratamento  coesa  que  empregue  um  processo  construtivista,  a  equipe  deve
concentrar  sua  energia  e  criatividade  para  estabelecer  uma  missão  compartilhada.  Apenas  em  um  clima  de
respeito e confiança mútuos é que um grupo de pessoas com perspectivas diversas pode transformar­se em uma
equipe  coesa  (Zenger,  Musselwhite,  Hurson  &  Perrin,  1994).  Dessa  maneira,  é  importante  reconhecer  que
construir  a  equipe  é  um  processo  de  desenvolvimento;  exige  tempo  e  energia  para  aprender  a  respeito  dos
valores, metas e estilo de comunicação de cada membro (Blechert, Christiansen & Kari, 1987).
Embora  as  equipes  possam  ter  necessidades  distintas  em  diferentes  momentos,  Blechert  e  colaboradores
(1987)  descobriram  que  o  desenvolvimento  da  equipe  pode  ser  descrito  em  relação  aos  estágios  de  vida.  No
primeiro  estágio,  os  membros  da  equipe  exploram  e  definem  seus  pa  péis  dentro  do  contexto  da  equipe  e  do
ambiente de trabalho. Cada membro da equipe identifica sua área de experiência e interesse, definindo, assim, a
contribuição específica de cada membro. Quando a equipe está trabalhando em conjunto, ajuste e reorganização
dos pa péis podem ser necessários para progredir para o estágio seguinte. Por fim, quando os membros da equipe
redefinem seus pa péis e aprendem a valorizar uns aos outros, eles começam a pensar sobre as questões a partir
de  múltiplos  pontos  de  vista.  Quando  funcionam  bem,  os  membros  da  equipe  são  capazes  de  ver  as  questões
como um todo. Semelhante ao homem cego com o elefante, a imagem que a equipe desenvolve é mais ampla e
mais rica quando múltiplas perspectivas são compartilhadas para a construção de uma imagem unificada.

ESTUDO DE CASO: Comunicação Interdisciplinar em uma Residência Comunitária

Coordenar  uma  abordagem  interdisciplinar  para  fornecer  tratamento  em  uma  residência  comunitária  para
adultos jovens com doença mental crônica exige comunicação contínua entre todos os membros da equipe
da  residência  comunitária.  A  terapeuta  ocupacional,  a  nutricionista  e  os  clientes  do  grupo  domiciliar
idealizaram  um  tratamento  para  ajudar  os  clientes  a  estabelecerem  hábitos  saudáveis  com  relação  à
alimentação e a aumentarem o exercício físico em suas vidas diárias. Os clientes e a terapeuta planejaram
um  programa  diário  de  caminhada  para  os  clientes,  mas  a  equipe  na  residência  servia  repetidamente
lanches hipercalóricos ou convidava os clientes a se unirem a ela para ver um programa de televisão durante
o horário planejado para a caminhada.
A  terapeuta  ocupacional  compreendeu  que,  para  que  o  tratamento  fosse  aplicado  com  sucesso,  toda  a
equipe precisaria colaborar no planejamento do programa. Para obter consenso entre todos os membros da
equipe e os clientes da residência, a terapeuta agendou uma reunião com toda a comunidade da residência
para estabelecer metas de grupo e explorar todas as ideias para o sucesso do programa. Coletivamente, os
membros da comunidade da residência, equipe e clientes, elaboraram uma lista de problemas potenciais e
barreiras para o sucesso do programa. Com as barreiras explicitadas, o grupo foi então capaz de identificar
estratégias para promover o programa. A equipe decidiu afixar um cartaz na sala de estar da comunidade
para documentar o tempo e a distância percorridos nas caminhadas diárias. Os clientes decidiram planejar
uma saída especial para um parque aquático para todos os clientes que atingissem a meta de caminhar 16
quilômetros  ao  término  do  mês.  Dois  membros  da  equipe  que  estavam  interessados  em  se  exercitar  se
ofereceram como voluntários para serem os líderes do “Grupo de Exercício”, e toda a comunidade votou em
um novo nome para o grupo: “Step in Time.” A viagem até o parque aquático exigiu o uso da caminhonete
da instituição, e o diretor da residência precisou preencher a solicitação para a aprovação do uso da van. O
tratamento foi bem­sucedido somente quando todos compartilharam uma meta comum.

DILEMAS DA PRÁTICA

COMUNICANDO O PAPEL DA TERAPIA OCUPACIONAL
Carmem, uma terapeuta ocupacional, trabalhou em um programa comunitário infantil durante os últimos cinco
anos.  Durante  esse  período,  Carmem  e  a  psicóloga  colaboraram  para  liderar  em  conjunto  um  grupo  de
habilidades sociais para crianças com transtornos do espectro do autismo. Durante uma recente reorganização
do  programa,  a  psicóloga  foi  transferida  para  outro  programa  no  distrito.  A  nova  psicóloga  nunca  trabalhou
com uma terapeuta ocupacional e não compreende a contribuição de Carmem para o grupo. A nova psicóloga
e  Carmem  não  concordam  sobre  a  condição  de  uma  determinada  criança  para  participar  do  grupo  de
habilidades sociais.

Questões
1. Como Carmem poderia comunicar o papel da terapia ocupacional para a nova psicóloga?
2. Como Carmem e a psicóloga poderiam desenvolver uma “linguagem comum” para se comunicar?

QUESTÕES INSTIGANTES
1. Por que é essencial que uma equipe de tratamento chegue a um consenso a respeito das necessidades de um
cliente?
2. Que  estratégias  você  poderia  empregar  se  a  equipe  de  tratamento  em  que  você  trabalha  não  valorizasse  a
experiência de cada membro da equipe?
3. Alguns argumentam que uma equipe transdisciplinar é efetiva porque o cliente precisa trabalhar apenas com
uma  pessoa.  Outros  defendem  que  é  inadequado  para  um  profissional  fornecer  os  serviços  “fora”  de  sua
disciplina profissional. Quais são seus pensamentos a respeito do uso da abordagem transdisciplinar em um
ambiente de intervenção precoce?

REFERÊNCIAS
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occupational therapy (pp. 29–45). Thorofare, NJ: Slack.
Blechert, T. F., Christiansen, M. F., & Kari, N. (1987). Intra­professional team building. American Journal of
Occupational Therapy, 41, 576–582.
Buckholdt, D. R., & Gubrium, J. F. (1979). Doing staffing. Human Organization, 38, 255–264.
Crepeau, E. B. (1994a). Three images of interdisciplinary team meetings. American Journal of Occupational
Therapy, 48, 717–722.
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Golin, A. K., & Duncanis, A. J. (1981). The interdisciplinary team. Bethesda, MD: Aspen.
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Perlmutter, F. D., Bailey, D., & Netting, F. E. (2001). Managing human resources in the human service. New
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Zenger, J. H., Musselwhite, E., Hurson, K., & Perrin, C. (1994). Leading teams: Mastering the new role.
Homewood, IL: Business One Irwin.
Documentação na Prática
KAREN M. SAMES

Sumário
Introdução
Audiência
Considerações Legais e Éticas
Documentação nos Ambientes Clínicos
Documentação do Início do Tratamento de Terapia Ocupacional
Documentação do Tratamento Contínuo de Terapia Ocupacional
Documentação do Término do Tratamento de Terapia Ocupacional
Documentação em Ambientes Escolares
Documentação de Comunicação e Consentimento
Documentação do Tratamento Desde o Nascimento Até 2 Anos de Idade
Documentação do Tratamento de 3 a 21 Anos de Idade
Documentação nos Ambientes Emergentes de Prática
Documentação Administrativa
Documentação Eletrônica

“Não é o que você diz a eles...é o que eles ouvem.”

— RED AUERBACH

Objetivos de Aprendizagem
Após a leitura deste capítulo, você será capaz de:
1. Identificar os principais motivos para a documentação dos serviços de terapia ocupacional.
2. Descrever os tipos de documentação clínica, educacional e administrativa utilizados na prática da
terapia ocupacional.
3. Identificar os principais aspectos da documentação de terapia ocupacional nos ambientes clínico
e educacional.

INTRODUÇÃO
Os profissionais de terapia ocupacional comunicam­se diariamente com muitos tipos diferentes de pessoas. Eles
fornecem  instruções  para  programas  domiciliares  aos  clientes  e  seus  cuidadores.  Eles  informam  outros
profissionais na equipe de tratamento sobre a evolução do cliente na terapia ocupacional. Eles escrevem cartas
para  fundações  em  busca  de  recursos  para  novos  programas.  Este  capítulo  abordará  as  várias  audiências  e  os
tipos  de  documentação  que  os  profissionais  de  terapia  ocupacional  podem  usar  em  algum  momento  de  suas
carreiras.

AUDIÊNCIA
A  maneira  pela  qual  alguém  prepara  um  documento  depende  muito  de  quem  receberá  a  comunicação  –  a
audiência  da  pessoa.  Os  escritores  devem  compreender  os  motivos  e  o  histórico  do  leitor  (Oliu,  Brausaw  &
Alred, 1995). A forma pela qual se escreve uma carta para uma companhia de seguro pode ser muito diferente da
maneira pela qual se escreve uma carta para um pai ou um médico. A documentação lida por um fisioterapeuta
pode conter termos técnicos e anatômicos mais exatos do que a de um Programa de Serviço Familiar Individual
que  é  compartilhado  com  os  pais  de  uma  criança  de  2  anos  de  idade.  Saber  quem  irá  ler  o  que  está  sendo
comunicado é um aspecto importante da documentação efetiva.
As audiências potenciais para a documentação da terapia ocupacional incluem as seguintes:
Profissionais  médicos  (médicos,  enfermeiras,  psicólogos,  fisioterapeutas,  fonoaudiólogos,  assistentes
sociais, gestores de caso, equipe de controle de qualidade etc.)
Profissionais da educação (professores, diretores etc.)
Advogados, juízes e jurados
Agências de acreditação (JCAHO, CARF, Departamento de Educação etc.)
Fontes pagadoras (HMO, intermediários do Medicare, revisores do Medicaid etc.) e
O cliente ou o tutor do cliente

Cada audiência lê a documentação por meio de um prisma diferente, dependendo do ambiente de prática, do
nível de escolaridade e do histórico cultural (Sames, 2005).
Quando  alguém  se  comunica  com  profissionais  médicos,  é  preciso  ser  bastante  preciso.  Por  exemplo,  um
médico não ficaria satisfeito com um diagnóstico de “acidente vascular cerebral” para um cliente com quem o
terapeuta ocupacional está trabalhando. O médico pode querer saber se o acidente vascular cerebral afetou o lado
direito  ou  esquerdo,  se  foi  leve  ou  grave  e  quanto  tempo  transcorreu  desde  o  acidente  vascular  cerebral.  As
enfermeiras precisam saber aquilo que o paciente mais necessita além da assistência para se vestir; elas precisam
saber o quanto de assistência e a natureza da assistência.
Quando alguém se comunica em um ambiente escolar, há necessidade de enfocar a relevância educacional da
informação.  Nem  todos  na  equipe  que  trabalha  com  a  criança  podem  ser  capazes  de  compreender  o  jargão
médico, de modo que os termos educacionais são mais apropriados.
Os profissionais da terapia ocupacional precisam se comunicar entre si e com os outros profissionais e podem
fazê­lo por meio de cartas formais, memorandos, e­mails ou ligações telefônicas. A escolha das palavras e o tom
da escrita ou da fala utilizados na comunicação profissional ou formal são muito distintos daqueles utilizados na
comunicação informal entre amigos. A comunicação profissional exige um nível de respeito e formalidade que
não é necessário na comunicação informal.
A  comunicação  profissional  se  utiliza  de  frases  completas  e  evita  gírias  ou  palavras  emocionalmente
carregadas.  Com  frequência,  a  comunicação  informal  emprega  gírias  e  palavras  emocionalmente  carregadas,
pode  conter  expressões  idiomáticas  e,  comumente,  é  dirigida  a  alguém  conhecido  pelo  orador  ou  escritor.  Ao
escrever cartas de apelação, memorandos oficiais ou programas de tratamento, o autor pode conhecer a pessoa
que  recebe  a  comunicação  ou  não.  Os  títulos  profissionais,  em  vez  do  primeiro  nome,  são  usados  na
comunicação profissional. Isso valoriza a primeira impressão.
Com  frequência,  a  documentação  formal  torna  necessária  a  adesão  a  padrões  específicos.  Por  exemplo,  nos
Estados  Unidos,  o  Individuals  with  Disabilities  Act  (IDEA)  (Lei  da  Educação  para  Pessoas  com
Incapacidades)  exige  que  itens  específicos  sejam  incluídos  no  Programa  de  Educação  Individualizado,  e  o
Medicare  exige  elementos  específicos  de  documentação  para  o  reembolso  de  tratamento  ambulatorial.  A  Joint
Commission  on  Accreditation  of  Health  Care  Organizations  (JCAHO)  requer  que  determinadas  abreviaturas
sejam evitadas para minimizar a probabilidade de erros médicos decorrentes de abreviaturas muito semelhantes
(JCAHO, 2004). Além disso, os empregadores podem ter políticas ou procedimentos que direcionam ainda mais
o  método  (eletrônico  ou  papel  e  lápis),  a  regulação  temporal,  a  aplicação  e  as  escolhas  das  palavras  na
documentação. O Boxe 39.1 contém algumas dicas de documentação que se aplicam a todas as documentações.
Dois pontos são importantes considerações para todos os documentos (Sames, 2005):
1. As pessoas criam uma impressão de seu profissionalismo e inteligência ao ler o que você escreve.
2. O  que  você  escreve  pode  ser  usado  como  evidência  em  um  processo  judicial,  quer  você  esteja  em
julgamento ou não.

CONSIDERAÇÕES LEGAIS E ÉTICAS
Os  registros  médicos  são  documentos  legais.  Os  registros  médicos  podem  ser  fornecidos  como  evidência  em
qualquer tipo de ação legal envolvendo imprudência, fraude, negligência ou imperícia.  A  documentação  da
terapia ocupacional pode ser solicitada em juízo, com ou sem a presença do terapeuta ocupacional para explicar
os  registros  mesmo  anos  depois  da  prestação  dos  serviços.  O  que  foi  escrito  no  momento  real  ou  próximo  ao
momento em que ocorreu o evento ou eventos em questão é a evidência mais forte daquilo que uma pessoa pode
lembrar  meses  ou  anos  após  o  evento.  Para  se  lembrar  que  toda  documentação  é  evidência  legal,  algumas
pessoas fazem um prefácio mental de seus registros ao dizer para elas mesmas “Senhoras e senhores do júri...”
antes de escrever (Sames, 2005).
O Medicare e outras fontes pagadoras governamentais podem revisar a documentação clínica e os registros da
conta do cliente a qualquer momento para determinar se foi cometida uma fraude. Quando a documentação não é
adequada para justificar as cobranças, o Medicare (e outros pagadores) podem se recusar a pagar pelos serviços,
e o terapeuta ocupacional responsável por registrar os serviços pode enfrentar sanções civis e penais, bem como
a  perda  da  certificação  e  da  licença  (American  Occupational  Therapy  Association  [AOTA],  2000;  Fremgen,
2002; Kornblau e Starling, 2000; Liang, 2000).

DICAS DE DOCUMENTAÇÃO

Usar corretamente
Gramática
Ortografia
Sintaxe
Opção de palavra
Nível de escolaridade do(s) leitor(es)
Ler  cuidadosamente  as  recomendações  das  verificações  de  gramática  e  sintaxe;  por  vezes,  é  melhor
clicar “Ignorar” do que utilizar o que elas recomendam.
Revisar criteriosamente.
Seguir rigorosamente as orientações.
Ter à mão um dicionário e um manual de ortografia.
Escrever de maneira legível (Sames, 2005).

Além das questões legais relacionadas à documentação, existem preocupações éticas. O Código de Ética da
AOTA (2005) diz, no parágrafo 6.C, que o “uso de qualquer forma de comunicação que contenha declarações ou
alegações  falsas,  fraudulentas,  enganosas  ou  inadequadas”  é  antiético.  Isto  é  adicionalmente  esclarecido  nas
Diretrizes  do  Código  de  Ética  da  AOTA:  “Os  profissionais  da  terapia  ocupacional  não  fazem  declarações
enganosas, fraudulentas ou errôneas sobre a natureza dos serviços que eles fornecem ou sobre os resultados que
podem ser esperados” (AOTA, 2006, 2.1).

DOCUMENTAÇÃO NOS AMBIENTES CLÍNICOS
Em  hospitais,  instituições  de  reabilitação,  clínicas  ambulatoriais,  cuidados  de  longo  prazo,  centros  de  saúde
mental,  saúde  domiciliar  e  ambientes  correlatos,  são  utilizados  tipos  similares  de  documentação,  embora  a
frequência  do  registro  possa  variar.  Em  geral,  a  documentação  clínica  envolve  o  relato  e  a  interpretação  das
respostas dos clientes durante as avaliações e o tratamento em um prontuário médico. A documentação clínica é
importante pelos seguintes motivos:
Continuidade do tratamento dentro do departamento
Comunicação entre plantões e especialidades
Registro cronológico do tratamento
Registro legal
Requisitos de reembolso (Sames, 2005)

É  primordial  que  a  informação  objetiva  relatada  na  documentação  seja  nitidamente  diferenciada  da
informação subjetiva. Se um profissional diz que um cliente parecia deprimido, esta é uma declaração subjetiva.
É  uma  conclusão  tirada  a  partir  das  observações  do  profissional.  Para  fazer  uma  declaração  objetiva,  o
profissional  deve  descrever  o  que  foi  observado  ou  escutado  que  logicamente  levaria  à  conclusão  de  que  o
cliente parecia deprimido. Por exemplo, o profissional poderia dizer: “A cliente olhou para o chão durante toda a
sessão. Ela ficava inclinada para a frente em sua cadeira, respondia as perguntas com palavras monossilábicas e
não iniciava qualquer conversa com seus colegas.”
Toda documentação clínica deve ser feita obedecendo­se aos padrões da instituição, bem como aos padrões
estabelecidos  pela  profissão.  Por  exemplo,  qualquer  anotação  no  prontuário  clínico  deve  ser  datada  (AOTA,
2003). Na documentação eletrônica, a data fica automaticamente registrada pelo sistema. Se o registro for escrito
à  mão,  a  data  deve  ser  colocada  no  alto  do  documento  ou  na  parte  inferior,  juntamente  com  a  assinatura,
qualquer que seja o padrão da instituição (AOTA, 2003). Os aspectos essenciais de todo documento clínico são
os seguintes:
Data do término do relato
Assinatura por extenso e rubrica
Tipo de documento
Nome do cliente e número do prontuário
Abreviaturas aceitáveis conforme determinado pela instituição
Terminologia aceitável conforme determinado pela instituição
Correções feitas com uma única linha sobre o erro e as iniciais da pessoa que cometeu o erro escritas por
cima do erro
Não utilizar borracha ou corretivo líquido ou fita corretiva
Registrar o armazenamento e o descarte de acordo com as leis estaduais e federais e os procedimentos da
instituição
Proteção da confidencialidade
Tinta azul ou preta, nunca lápis (Sames, 2005)

Deve ser esclarecida na documentação a justificativa do profissional de terapia ocupacional – os motivos do
tratamento. Por exemplo, os clientes com transtornos da saúde mental podem ter problemas de vida que não são
tão  visíveis  quanto  os  problemas  físicos.  Embora  as  pessoas  que  utilizam  cadeiras  de  rodas  possam  ter
dificuldade  para  fazer  compras  em  supermercados  porque  não  conseguem  alcançar  todas  as  prateleiras  ou
empurrar  o  carrinho  de  compras  sentadas  na  cadeira  de  rodas,  as  pessoas  com  transtorno  bipolar  podem  ter
dificuldade em fazer compras por causa da incapacidade de controlar os impulsos para comprar tudo e conversar
com todos na loja.

Documentação do Início do Tratamento de Terapia Ocupacional
O  primeiro  tipo  de  documentação  clínica  reflete  as  primeiras  etapas  na  interação  profissional­cliente.  Em
algumas  instituições,  como  uma  instituição  de  cuidados  de  longo  prazo,  a  primeira  etapa  consiste  em  uma
triagem  de  todas  as  novas  admissões  na  instituição.  Em  outras  instituições,  a  primeira  etapa  poderia  ser  uma
apresentação ou o início do processo de avaliação.
Se o cliente é observado para triagem ou introdução antes de uma avaliação, uma anotação curta é usualmente
escrita  no  prontuário,  resumindo  a  conversa  e/ou  os  resultados  da  triagem.  O  terapeuta  ocupacional  ou  o
assistente de terapia ocupacional escreve um breve resumo e indica a próxima etapa no processo de tratamento.
Os  relatos  de  avaliação  são  escritos  por  terapeutas  ocupacionais  para  registro  da  condição  inicial  do
tratamento de terapia ocupacional. Os relatos da avaliação contêm dados factuais coletados durante o processo
de avaliação e uma interpretação dos achados da avaliação. A necessidade dos serviços de terapia ocupacional
deve ser documentada antes que os tratamentos possam ser iniciados. O relatório deve mostrar quais ocupações
estão limitadas ou em  risco  de  limitação.  Comumente,  haverá  um programa  inicial  de  tratamento (plano de
cuidado, plano de tratamento ou programa de cuidado). Este programa inclui metas  mensuráveis,  funcionais  e
limitadas no tempo para o cliente (Borcherding, 2000; Sames, 2005).
As  diretrizes  da  AOTA  (2003)  quanto  à  documentação  identificam  as  necessidades  de  conteúdo  de  um
relatório  de  avaliação.  O  conteúdo  do  relatório  de  avaliação  baseia­se  na  Estrutura  de  Prática  de  Terapia
Ocupacional  –  Occupational  Therapy  Practice  Framework  (AOTA,  2002).  Em  uma  instituição  de  cuidados
intensivos, principalmente para clientes de curta permanência, uma avaliação completa pode não ser realizada.
Embora  a  AOTA  recomende  que  uma  avaliação  completa  seja  realizada  e  documentada  para  cada  cliente,  as
restrições de tempo de determinados ambientes podem exigir que o terapeuta ocupacional abrevie o processo de
avaliação e a documentação.
Como as fontes pagadoras frequentemente tomam decisões sobre se pagam ou não pela terapia ocupacional
com  base  no  relatório  de  avaliação,  este  deve  mostrar  a  necessidade  do  tratamento  especializado  da  terapia
ocupacional (Lemke, 2004). A documentação deve conter informações suficientes para demonstrar que a terapia
ocupacional é a disciplina apropriada para fornecer o tratamento necessário, que ela satisfaz a uma necessidade
clínica e que o tratamento resultará em mudança na função do cliente (Lemke, 2004).
Tipicamente, o relatório de avaliação deve conter o seguinte (AOTA, 2003; Sames, 2005):
Informações  de  identificação  e  informações  básicas  (p.  ex.,  nome  do  cliente,  idade,  diagnóstico  ou
condição, data de encaminhamento, data do relato, precauções e contraindicações)
Informações do encaminhamento (data, quem encaminhou o cliente, e por quê)
Procedimentos e/ou testes de avaliação utilizados
Perfil ocupacional (percepção do cliente da necessidade da terapia ocupacional, contextos que sustentam
ou dificultam o desempenho ocupacional, história ocupacional resumida)
Achados ou resultados do processo de avaliação
Interpretação do significado dos achados ou resultados que refletem as necessidades ocupacionais do cliente
Um programa, incluindo as metas, a frequência, a duração e o local do tratamento
Assinatura e credenciais do terapeuta ocupacional

Documentação do Tratamento Contínuo de Terapia Ocupacional
Nos ambientes clínicos, as notas de evolução,  ou  notas  clínicas,  são  usualmente  escritas  após  cada  sessão  de
tratamento.  Estas  podem  ser  escritas  em  um  formato  de  narrativa  ou  SOAP  ou  em  um  fluxograma  (Sames,
2005).  Independente  do  formato,  esse  registro  deve  mostrar  o  que  o  cliente  realizou  na  terapia  ocupacional  e
descrever  a  reação  do  cliente  ao  tratamento  fornecido.  A  nota  de  evolução  deve  incluir  mais  de  uma  lista  de
atividades que o cliente tenha realizado durante a sessão. O leitor desejará saber como o desempenho do cliente
se  modificou  desde  a  última  sessão  de  tratamento,  quais  as  melhorias  funcionais,  qual  o  equipamento  de
adaptação fornecido e a compreensão do cliente ou do cuidador quanto às instruções fornecidas (Lemke, 2004;
Sames, 2005).
Uma  das  formas  mais  comuns  de  documentação  da  evolução  do  paciente  é  a  chamada  nota  SOAP.  Este
formato  de  anotação  por  escrito  é  utilizado  por  muitas  disciplinas  médicas,  uma  prática  que  fortalece  a
comunicação entre profissionais. Lawrence Weed, M.D., desenvolveu o formato de anotação SOAP nos anos de
1960  como  parte  do  Prontuário  Médico  Orientado  para  o  Problema  (Borcherding,  2000;  Sames,  2005).  Cada
letra da palavra SOAP representa um diferente componente da nota (Borcherding, 2000; Sames, 2005):

S = Subjetivo; a experiência subjetiva do cliente, o que o cliente diz
O = Objetivo; medidas e observações objetivas do médico
A = Avaliação; a interpretação do médico do significado da seção “O”
P = Planejamento (programa); a descrição do que irá acontecer em seguida (frequência, duração, local)

O  aspecto  mais  difícil  para  escrever  uma  nota  SOAP  é  separar  a  informação  objetiva  de  sua  interpretação
(avaliação). O Boxe 39.2 mostra um exemplo de uma nota SOAP.
Nos ambientes em que os clientes são observados por período prolongado (mais de 30 dias), escreve­se um
programa de tratamento atualizado. Um programa de tratamento mostra quanto progresso ocorreu desde que foi
descrito  o  último  programa  de  tratamento  (ou  uma  explicação  para  a  falta  de  evolução);  atualiza  as  metas  e
estabelece  novas  metas;  e  verifica  frequência,  duração  e  local  do  tratamento  que  está  em  andamento  (AOTA,
2003; Sames, 2005).
NOTA SOAP

S: “Dói para pegar os objetos na segunda prateleira. De maneira alguma alcançaria a última prateleira. Não
consigo prender meu cabelo como rabo de cavalo. Dói muito.”
O: A cliente alcançou os artigos na segunda prateleira do armário de cozinha com sua mão direita,
expressando desconforto durante todo o movimento. A cliente não tentou pegar os itens na prateleira mais
alta. A cliente apontou a face anterior da fossa glenoide quando perguntada onde dói. Elevação escapular
e rotação do tronco substituíram a parte de flexão e abdução do ombro; ela não elevou o braço acima de
80o. A cliente utilizou a rotação medial para colocar os itens pegos na prateleira sobre o balcão, sem
queixas. A cliente não utilizou a rotação lateral para recolocar os objetos na prateleira, relatando dor
intensa ao utilizar este movimento. Ela quantificou sua dor como 9 em uma escala de 0­10 pontos.
A: A amplitude de movimento do ombro direito está severamente limitada e é muito dolorosa. A amplitude de
movimento limitada interfere com os atos de preparar as refeições, vestir­se, de higiene e arrumar­se.
P: TO 2x/semana, em sessões ambulatoriais de 30 minutos para instruir a cliente no uso do pegador de cabo
longo, discutir os princípios de adaptação ambiental relacionados à colocação dos objetos em uma zona de
conforto e desenvolver um programa domiciliar para facilitar a recuperação da amplitude de movimento
sem dor.

Documentação do Término do Tratamento de Terapia Ocupacional
Quando os clientes atingiram suas metas ou outras circunstâncias exigem que os serviços de terapia ocupacional
sejam encerrados, escreve­se um sumário de encerramento (resumo de alta) (AOTA, 2003; Sames, 2005). Esse
resumo inclui o seguinte:
Informações de identificação e do histórico
Resumo da condição funcional do cliente no início do tratamento de terapia ocupacional
Resumo das mudanças na condição funcional ao fim do tratamento de terapia ocupacional
Recomendações para acompanhamento
Assinatura, credenciais e data

DOCUMENTAÇÃO EM AMBIENTES ESCOLARES
A  documentação  nos  ambientes  educacionais  pode  ser  bastante  distinta  da  documentação  clínica,  porém  se
aplicam  os  mesmos  princípios.  A  documentação  nos  sistemas  escolares  pode  ser  dividida  em  três  categorias
principais:  formulários  de  comunicação  e  consentimento,  Planos  de  Serviço  Familiar  Individualizado  –
Individualized  Family  Service  Plans  (IFSP)  e  Programas  de  Educação  Individualizada  –  Individualized
Education Programs (IEP) (AOTA, 1999; Sames, 2005).

Documentação de Comunicação e Consentimento
De  acordo  com  o  Individuals  with  Disabilities  Education  Act  (IDEA),  os  formulários  de  comunicação  e
consentimento  são  necessários  para  comunicação  com  os  pais  ou  tutores  das  crianças  sendo  atendidas  pelo
distrito  escolar.  Os  documentos  podem  incluir  notificações  das  reuniões  da  equipe,  comunicação  e
consentimento  para  avaliação  e  reavaliação,  encaminhamento  para  uma  avaliação  inicial,  salvaguardas  de
procedimentos e um relatório de uma reunião de IFSP ou IEP (Sames, 2005).

Documentação do Tratamento Desde o Nascimento Até 2 Anos de Idade
Os serviços para lactentes e infantes são descritos na Parte C do IDEA (AOTA, 1999). Os IFSP são escritos para
abordar  esses  serviços.  Cada  estado  designa  uma  agência  principal  (educação,  saúde  ou  serviços  sociais)  para
atender às necessidades de lactentes e infantes com necessidades especiais para ajudá­los na escola. A agência
principal  é  responsável  por  criar  um  IFSP  para  cada  criança  atendida,  que  é  modelado  de  acordo  com  as
necessidades  específicas  da  criança  e  da  família  da  criança.  Os  terapeutas  ocupacionais  podem  servir  como
coordenadores do tratamento (gestores de caso) para os IFSP. O coordenador de tratamento é responsável por
garantir que a documentação adequada seja preenchida e por agendar reuniões de equipe conforme a necessidade
ou o exigido pelo IDEA. Um IFSP inclui o seguinte:
Um resumo do nível atual de desempenho da criança (desenvolvimento físico, cognitivo, de comunicação,
social ou emocional e de adaptação)
Identificação das preocupações, prioridades e recursos da família
Um resumo dos resultados esperados (metas mensuráveis)
Identificação dos serviços necessários de intervenção precoce, incluindo frequência, intensidade e método
de prestação do atendimento
Identificação do ambiente natural da criança (onde o atendimento será prestado)
Data em que o atendimento iniciará e a duração prevista deste atendimento
Identificação de um coordenador de atendimento para a criança e
Identificação das etapas que serão utilizadas para ajudar a transição da criança para o ambiente pré­escolar
(20 U.S.C., Capítulo 33, Subcapítulo III, Seção 1436 [d] [1­8]).

Documentação do Tratamento de 3 a 21 Anos de Idade
O IEP é o documento que orienta o tratamento de uma criança com incapacidade entre 3 e 21 anos de idade. Os
requisitos  dos  IEP  são  descritos  na  Parte  B  do  IDEA.  Os  serviços  do  IEP  podem  incluir  tanto  a  educação
especial como os serviços associados. Para os fins do IEP, os serviços de terapia ocupacional são considerados
serviços  associados.  Como  prestador  de  serviço  associado,  o  terapeuta  ocupacional  não  serviria  como  um
coordenador de atendimento para crianças nos IEP, mas contribuiria para o processo de construção e revisão do
IEP. O IEP é construído a cada ano e revisado a cada seis meses.
Um IEP deve conter os seguintes elementos:
Nível atual de desempenho educacional
Metas anuais
Educação especial e serviços associados
Participação de crianças não incapacitadas
Participação em testes nos níveis distrital e estadual
Data do início e local do tratamento
Serviços de transição (para crianças com 14 anos de idade ou mais, que fazem a transição para programas
de adultos ou para ambientes de trabalho)
Mensuração da evolução (20 U.S.C., Capítulo 33, Subcapítulo III, Seção 1414)

A diferença fundamental entre o IFSP e o IEP é que o IFSP é mais abrangente; ele pode abordar uma gama
maior de necessidades (AOTA, 1999). Um IEP deve estar relacionado apenas à educação. Cada estado ou cada
distrito escolar dentro do estado pode criar seus próprios formatos para esses documentos; as regulamentações
federais não exigem o emprego de formulários específicos. As regulamentações federais exigem períodos para o
preenchimento dos documentos e o conteúdo dos documentos (Sames, 2005).

DOCUMENTAÇÃO NOS AMBIENTES EMERGENTES DE PRÁTICA
Os profissionais de terapia ocupacional trabalham atualmente em programas na comunidade, como abrigos para
sem­teto,  prisões,  programas  de  Bem­Estar  no  Trabalho,  cuidados  domiciliares  e  acampamentos  de  férias.  Em
alguns casos, os programas de terapia ocupacional são novidade nesses ambientes. A abordagem clínica para a
documentação  pode  não  ser  apropriada,  em  particular  quando  não  há  prontuário  médico.  Se  o  profissional  de
terapia  ocupacional  está  trabalhando  com  indivíduos  em  um  programa  novo,  é  aconselhável  desenvolver
relatórios  de  avaliação,  programa  de  tratamento,  evolução  e  encerramento  que  sejam,  o  mais  possível,
compatíveis  com  as  diretrizes  de  documentação  da  AOTA  (2003).  No  entanto,  se  os  profissionais  de  terapia
ocupacional prestam serviço a uma comunidade ou população, basta fornecer à agência relatórios periódicos de
consulta  com  um  formato  menos  estruturado.  Muitos  relatórios  de  consulta  são  descrições  narrativas  da
avaliação  das  necessidades,  do  planejamento,  da  execução  e/ou  dos  resultados  do  programa  de  terapia
ocupacional.
Como  os  profissionais  de  terapia  ocupacional  nos  ambientes  emergentes  de  prática  demonstram  o  valor  da
terapia  ocupacional  de  novas  maneiras,  eles  podem  utilizar  sua  documentação  como  um  mecanismo  para
apresentar resultados positivos e os benefícios dos serviços de terapia ocupacional.

DOCUMENTAÇÃO ADMINISTRATIVA
Os terapeutas ocupacionais em qualquer ambiente podem precisar escrever um relatório de incidente, uma carta
de apelo a uma fonte pagadora, uma proposta de financiamento ou políticas e procedimentos.  Esses  tipos  de
documentação são administrativos porque são necessários para a administração contínua dos serviços de terapia
ocupacional.  Por  exemplo,  para  serem  pagos  por  prestar  serviços  de  terapia  ocupacional,  os  terapeutas
ocupacionais  podem  precisar  escrever  cartas  para  solicitar  o  financiamento  ou  responder  a  uma  recusa  de
pagamento.  As  políticas  e  os  procedimentos  devem  ser  escritos  de  maneira  clara,  de  modo  que  todos  os
funcionários  do  departamento  compreendam  e  sigam  os  padrões  desse  departamento,  garantindo  seu
funcionamento de maneira correta. Para realizarem seu trabalho de maneira efetiva, os auxiliares com educação
de nível médio com algum treinamento para a função, bem como a equipe profissional, precisam compreender as
políticas e os procedimentos.
A documentação administrativa exige o emprego de terminologia que qualquer pessoa possa compreender; as
pessoas com compreensão limitada do jargão da terapia ocupacional ou de termos médicos podem precisar ler
esses documentos. Com frequência, a primeira pessoa que lê um recurso de apelação será alguém que é treinado
para interpretar os padrões das companhias de seguro, mas que pode não ter conhecimento clínico.
O Boxe 39.3 mostra o exemplo de uma seção de um relatório de avaliação para um prontuário médico e como
ele poderia ser traduzido em uma carta para uma companhia de seguro solicitando autorização para os serviços.

REDAÇÃO DE UM RELATÓRIO DE AVALIAÇÃO EM COMPARAÇÃO A UMA CARTA
DE SOLICITAÇÃO DE AUTORIZAÇÃO PRÉVIA

Tatiana  é  uma  menina  de  16  meses  de  idade  de  uma  grande  cidade  do  meio­oeste.  Três  semanas  atrás,
enquanto  estava  sob  os  cuidados  do  namorado  de  sua  mãe,  ela  foi  supostamente  sacudida  de  maneira
violenta. Sua mãe a trouxe para o hospital dois dias depois porque a criança estava mais sonolenta do que o
normal,  parecia  não  querer  ingerir  bebida  ou  alimento,  não  conseguia  manter  sua  cabeça  ereta  e  não
participava de qualquer brincadeira nem sorria para a mãe.

Extrato do Relatório de Avaliação:
Tatiana  não  focava  ou  rastreava  visualmente  qualquer  objeto  em  qualquer  direção.  Ela  não  alcançava
qualquer brinquedo que fosse colocado silenciosamente em sua frente, mas ela virava a cabeça para localizar
sons e agitava as mãos em reação ao som. Seus dedos se cerravam ao redor de um chocalho colocado na
palma de sua mão. A amplitude de movimento passiva estava dentro dos limites de normalidade em todos os
membros. Em geral, o tônus muscular estava baixo. Ela esfregava sua face ou braço em resposta ao toque
suave.  Quando  colocada  em  decúbito  ventral,  ela  virava  a  cabeça  de  um  lado  para  outro,  mas  não  a
levantava.  Quando  colocada  na  posição  sentada,  ela  não  era  capaz  de  manter  sua  cabeça  ereta  ou  de  se
manter sentada sem assistência. Tatiana não fazia tentativas de rolar ou de apoiar seu peso sobre os braços.
Ela  se  alimentava  através  de  uma  sonda  nasogástrica;  portanto,  a  mastigação  e  a  deglutição  não  foram
avaliadas  nesse  momento.  Ela  chorava  e  fazia  outros  ruídos,  mas  não  formava  qualquer  palavra.  Tatiana
precisará  de  assento  adaptado  com  suporte  de  cabeça  e  tratamento  de  terapia  ocupacional  para  maximizar
suas capacidades para interagir ativamente com as pessoas e seu ambiente.

Extrato da Carta de Autorização Prévia:
Esta  menina  de  16  meses  de  idade  foi  diagnosticada  com  a  síndrome  do  bebê  sacudido,  resultando  em
traumatismo  craniano  grave.  Ela  apresenta  baixo  tônus  muscular  e  não  consegue  assumir  ou  manter  a
posição  sentada  sem  assistência.  Esta  criança  precisará  de  assento  adaptado  e  dispositivos  de
posicionamento  para  garantir  o  posicionamento  correto  de  seu  tronco  e  de  seus  membros  e  para  evitar
deformidades.  O  posicionamento  correto  também  é  importante  para  seu  desenvolvimento  cognitivo,  social  e
físico.  Sua  visão  está  severamente  limitada;  ela  é  funcionalmente  cega.  Na  posição  sentada,  ela  será  mais
capaz  de  localizar  um  som,  utilizar  os  braços  e  as  mãos  e  começar  a  participar  de  interações  sociais.  Por
favor, consulte a lista em anexo de dispositivos de posicionamento recomendados e seus respectivos custos.
Além disso, recomendo tratamento de terapia ocupacional duas vezes por semana por três meses (24 visitas)
para  trabalhar  o  desenvolvimento  de  habilidades  motoras,  sociais  e  cognitivas  necessárias  para  permitir  a
participação em atividades de vida diária comuns às crianças. Uma lista de metas mensuráveis está incluída...
DOCUMENTAÇÃO ELETRÔNICA
À medida que mais instituições passam a utilizar os prontuários médicos eletrônicos, o uso de um teclado para a
inserção  de  dados  e  comentários  torna­se  cada  vez  mais  comum  do  que  pegar  uma  caneta  e  escrever  em  um
formulário.  Cada  sistema  de  documentação  eletrônica  apresenta  suas  sutilezas,  forças  e  fraquezas.  Alguns
sistemas  são  específicos  para  profissionais  de  terapia  ocupacional,  o  que  torna  mais  provável  que  todas  as
informações necessárias venham a ser incluídas no registro. Outros são mais genéricos e podem não ter espaço
adequado  para  acréscimo  de  informações  vitais.  É  primordial  que  o  sistema  seja  construído  de  modo  que  o
registro esteja de acordo com os padrões de acreditação da instituição e com as exigências da fonte pagadora. A
Tabela 39.1 lista os prós e os contras dos sistemas de documentação eletrônica.

QUESTÕES INSTIGANTES
1. Minha documentação pode ser utilizada em um julgamento, mesmo que eu não esteja sendo acusado?
2. Se eu não sou membro da AOTA, preciso seguir os padrões de documentação da AOTA?
3. O  que  faço  se  o  sistema  de  documentação  eletrônica  de  meu  hospital  não  oferece  uma  declaração
padronizada que descreva com exatidão a condição de meu cliente?

TABELA 39.1 VANTAGENS E DESVANTAGENS DOS SISTEMAS DE DOCUMENTAÇÃO ELETRÔNICA
Vantagens Desvantagens
Legibilidade Pouca flexibilidade no conteúdo
Velocidade (um clique pode introduzir uma Investimento de tempo e dinheiro
frase inteira)
Entrada automática da informação sobre o Curva de aprendizagem necessária para desenvolver a
cliente proficiência no sistema
Disponibilidade instantânea para alguém da
equipe

Fonte: Sullivan (2001).

DILEMAS DA ÉTICA
Padrões de Documentação

V ocê  trabalha  para  uma  empresa  que  oferece  profissionais  de  terapia  ocupacional  para  hospitais  e
instituições de cuidados de longo prazo em uma grande área metropolitana. Você foi solicitado a trabalhar
em uma grande instituição de cuidados de longo prazo que usualmente dispõe de terapeuta ocupacional em
horário parcial e um assistente de terapia ocupacional em horário integral. A terapeuta ocupacional entrou em
trabalho  de  parto  precoce  e  o  substituto  temporário  que  foi  contratado  para  assumir  seu  lugar  durante  sua
licença  maternidade  não  pôde  começar  durante  pelo  menos  três  semanas.  Você  nunca  trabalhou  nesta
instituição,  mas  trabalhou  em  outras  instituições  de  cuidados  de  longo  prazo  e  está  familiarizado  com  as
exigências de documentação para o Medicare e o Medicaid.
Em seu primeiro dia lá, você abre o arquivo de seus pacientes e vê que para alguns pacientes programas
de tratamento de 30 dias (renovações) deveriam ter sido anotados na última semana, mas você não consegue
encontrar nenhuma evidência de que isto foi feito. Você pergunta ao assistente de terapia ocupacional se a
documentação pode estar em algum outro lugar, e ele diz que não. Você encontra algumas notas de evolução
a  respeito  desses  pacientes,  mas  elas  são  irregulares  e  inconsistentes.  Em  sua  maioria,  elas  apenas  listam
algumas  atividades  que  os  pacientes  realizaram  e  relatam  que  os  pacientes  continuam  a  evoluir  quanto  às
suas  metas.  Dez  minutos  mais  tarde,  você  recebe  uma  ligação  da  diretora  de  registro  clínico  dizendo  que
existem  cinco  pacientes  sobre  os  quais  ela  não  encontrou  resumo  de  alta  e  que  os  resumos  de  alta  são
necessários para o reembolso. Ela lhe pede para escrevê­los, ainda que você nunca tenha visto os pacientes
e  que  os  pacientes  tenham  recebido  alta  da  instituição  uma  semana  atrás.  Você  sabe  que  o  documento
precisa deve ser feito para que a instituição possa receber o pagamento, mas você se sente desconfortável
em registrar o tratamento de pacientes que você nunca viu. O assistente de terapia ocupacional diz que não
pode  ajudá­lo  porque  está  muito  ocupado  com  seus  próprios  pacientes  e  que  ele  não  prestou  atenção  aos
pacientes com quem a terapeuta ocupacional estava trabalhando. O que você faz?

REFERÊNCIAS
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http://uscode.house.gov/download/pls/20C33.txt
Sumário
Apresentações Profissionais
Finalidade
Audiência
Orador
Mensagem
Linguagem e Apresentação
Recursos Audiovisuais
Retroalimentação
Publicações Profissionais
Periódicos Revisados por Colegas
Documentos Não Revisados por Colegas
Conclusão

Apresentações e Publicações Profissionais
KAREN JACOBS

“O maior problema na comunicação é a ilusão de que ela foi feita.”

— DANIEL W. DAVENPORT

Objetivos de Aprendizagem
Após a leitura deste capítulo, você será capaz de:

1. Descrever os sete aspectos de uma apresentação profissional efetiva.
2. Listar quatro fatores não verbais para a realização de uma apresentação profissional.
3. Descrever  a  diferença  entre  uma  publicação  revisada  por  colegas  e  uma  não  revisada  por
colegas.
4. Descrever os aspectos de uma publicação profissional efetiva.

APRESENTAÇÕES PROFISSIONAIS
Com  frequência,  os  profissionais  de  terapia  ocupacional  fazem  apresentações  profissionais  para  diversas
audiências.  Ouvimos  apresentações  profissionais  –  algumas  maravilhosas,  outras  que  nos  dão  sono.
Relembrando as apresentações profissionais de que gostou (ou não), você pode facilmente fazer uma lista do que
fazer  e  do  que  não  fazer  (Merchant,  2005).  Payne  identifica  sete  fatores  importantes  em  uma  apresentação
profissional  efetiva:  finalidade,  audiência,  orador,  mensagem,  linguagem  e  recepção,  recursos  audiovisuais  e
retroalimentação (Payne, 2002, p.142).

Finalidade
A primeira etapa no processo de desenvolvimento de uma apresentação profissional consiste em decidir sobre
sua  finalidade.  Por  que  você  está  apresentando?  É  para  informar,  instruir,  definir,  demonstrar  ou  ensinar?  Por
exemplo, você pode ser solicitado a realizar uma apresentação profissional em uma reunião semanal de equipe,
no  seu  segundo  período  de  estágio,  sobre  a  efetividade  dos  dispositivos  de  assistência  para  clientes  que
apresentam  comprometimentos  por  visão  reduzida.  A  finalidade,  nesta  situação,  pode  ser  a  de  informar  seus
colegas  sobre  a  mais  recente  evidência  baseada  em  pesquisa  sobre  o  tema.  Talvez  a  finalidade  de  sua
apresentação profissional seja a de persuadir, influenciar, convencer ou comercializar um produto ou serviço. Por
exemplo,  você  pode  ter  a  oportunidade  de  realizar  uma  apresentação  profissional  sobre  estratégias  de
conservação  de  energia  para  um  grupo  de  consumidores,  como  a  National  Multiple  Sclerosis  Society.  Aqui  a
finalidade  poderia  ser  a  de  anunciar  os  serviços  de  terapia  ocupacional  disponíveis  em  seu  local  de  trabalho.
Talvez  a  finalidade  de  sua  apresentação  seja  a  de  inspirar  ou  entreter  sua  audiência.  Um  exemplo  de  uma
apresentação profissional motivacional é o foco de abordagem anual do presidente da conferência nacional da
American Occupational Therapy Association (AOTA). Decidida a finalidade de sua apresentação profissional, a
próxima etapa é realizar uma análise da audiência.

Audiência
Quem  compõe  a  sua  audiência?  Antes  de  preparar  sua  apresentação  profissional,  é  importante  analisar  o
histórico, a demografia, os interesses, as atitudes e as expectativas de sua audiência. Obter informações sobre a
sua  audiência,  como  conhecimento  prévio,  crenças  e  atitudes  a  respeito  de  seu  tema,  o  ajudará  a  adequar  sua
mensagem e sua apresentação às necessidades e expectativas do grupo (Payne, 2002). No mínimo, determine o
tamanho  da  audiência  esperada.  Apresentar­se  para  um  pequeno  grupo  de  colegas  em  seu  local  de  trabalho  é
muito  diferente  de  apresentar­se  para  uma  audiência  de  50  a  100  terapeutas  ocupacionais  em  um  congresso
estadual ou nacional.

Orador
Uma coisa importante, mas por vezes desprezada, é o quanto de interesse da audiência e de ganho potencial de
conhecimento a partir de uma apresentação pode ser diretamente influenciado pelo próprio orador. Um orador
que tenha reconhecido sucesso na carreira (p. ex., um membro da American Occupational Therapy Association),
experiência de trabalho (p. ex., 20 anos de prática na área de ergonomia) ou um cargo de responsabilidade (p.
ex.,  Diretor  de  Serviços  de  Reabilitação);  alguém  que  transmita  probidade,  confiabilidade  ou  sinceridade;
alguém com quem a audiência tenha certo grau de identificação; ou alguém carismático tem a característica certa
para fazer uma grande apresentação profissional (Payne, 2002) (Fig. 40.1).

Fig. 40.1 Uma oradora carismática inspira a audiência com seu entusiasmo e gestos manuais.

Mensagem
A mensagem da apresentação tem três partes: a introdução, o corpo e a conclusão.

Introdução
A  introdução  sempre  deve  começar  com  uma  saudação  simples,  como  “bom  dia”,  ou  com  um  agradecimento
pela  hospitalidade  (p.  ex.,  “Agradeço  ao  Dr.  Jacobs  por  ter  me  convidado  para  falar  hoje”).  Em  seguida,
prossegue­se com uma breve síntese da apresentação. Uma piada relevante, uma história curta ou uma citação
também podem transformar­se em uma declaração inicial importante. Qualquer que seja a técnica utilizada, ela
deverá despertar a curiosidade da audiência sobre sua apresentação e reter a atenção da audiência.

Corpo
O corpo da apresentação deve conter pelo menos 75% de seus pontos principais. Sempre é bom seguir a regra
dos três pontos principais:
1. Fazer uma breve apresentação de seus pontos.
2. Descrever e fundamentá­los em uma ordem lógica.
3. Resumir seus pontos (Payne, 2002, p. 145).

Utilize  transições  naturais  entre  cada  ponto;  as  transições  “formam  uma  ponte  entre  as  partes  de  sua
apresentação” (Milan,  2002,  p.  2).  Certifique­se  de  incluir  referências  quando  invocar materiais de apoio ou a
pesquisa baseada em evidência.

Conclusão
Você chegou à conclusão de sua apresentação. Agora você tem a oportunidade de dizer à audiência o que espera
que ela se lembre. Faça uma conclusão breve, reveja os pontos principais e inclua uma frase final que deixará um
impacto  duradouro.  Poderíamos  utilizar  uma  citação  memorável  ou  reforçar  um  ponto  a  partir  da  história  que
você  apresentou  em  sua  introdução.  Sempre  termine  sua  apresentação  com  uma  pausa  e,  em  seguida,  um
“obrigado”, o que confere à audiência uma sensação de fechamento, e certifique­se de deixar algum tempo extra
para  responder  as  perguntas  da  audiência.  O  Boxe  40.1  fornece  o  exemplo  do  esboço  de  uma  apresentação
profissional persuasiva.

Linguagem e Apresentação

Linguagem
A  linguagem  que  você  emprega  dependerá  de  sua  análise  da  audiência.  Se  você  está  se  apresentando  para
terapeutas ocupacionais, você quer se certificar de que a linguagem empregada por você se adeque à Estrutura de
Trabalho da American Occupational Therapy Association (AOTA). Para uma audiência de pessoas que não são
terapeutas ocupacionais, minimize o uso de jargão ou linguagem técnica. Em geral, utilize­se de frases e palavras
convencionais, use associações e transições e tente fazer uso de comparações e metáforas para criar imagens nas
mentes da audiência. “O princípio orientador é que a linguagem seja adequada para o orador, para o tema e para
a ocasião.” (Payne, 2002, p. 147).

EXEMPLO DE UM ESBOÇO PARA UMA PALESTRA PERSUASIVA

Finalidade
Persuadir uma audiência, que consiste principalmente em estudantes de graduação, da importância de sentar­
se de maneira apropriada no computador, fazer pausas e utilizar o equipamento do computador.

Introdução
Inicie  com  uma  saudação  que  se  destine  ao  grupo,  como  “Bom  dia,  alunos  da  Boston  University.  Sou  a
Dra. Karen Jacobs, uma professora de terapia ocupacional da Sargent College”.
Apresente o tema utilizando uma questão de retórica (p. ex., “Quantos de vocês gostam de sentir dor ao
utilizar  o  computador?”),  espere  que  mostrem  as  mãos  e  continue:  “Estudantes  universitários  estão
passando  cada  vez  mais  tempo  em  frente  ao  computador  para  fazer  o  trabalho  de  casa,  navegar  na
Internet  e  jogar  videogame.  Como  vocês  se  posicionam  em  uma  cadeira  e  o  modo  pelo  qual  vocês
utilizam  o  computador  podem  afetar  não  somente  seu  conforto,  mas  também  sua  saúde”  (citação  da
AOTA).
Diga que “Hoje, estou aqui para conversar com vocês sobre a importância do uso saudável do computador
e do que vocês podem fazer para permanecer saudáveis”.
Antecipe os pontos a serem abordados: (1) postura apropriada, (2) arranjos na disposição do computador
e (3) pausas frequentes para alongamento.

Corpo
Comece com uma afirmação que prenda a atenção e, em seguida, focalize sobre três pontos com exemplos:
1. Postura  apropriada:  Incentive  a  postura  adequada  da  cabeça,  dos  antebraços,  das  costas  e  dos  pés:  a
cabeça deve ficar nivelada com o monitor e o alto da tela com o nível do olho. Os antebraços devem ficar
em  paralelo  com  o  teclado  e  mantidos  apenas  ligeiramente  acima  dele.  A  região  lombar  deve  ficar
apoiada enquanto estiver sentado diante de um computador. Coloque um pequeno travesseiro ou toalha
enrolada entre o encosto da cadeira e a região lombar para proporcionar apoio. Os pés devem repousar
apoiados totalmente no chão ou em um apoio de pé.
2. Arranjos na disposição do computador: Arrume a mesa do computador e o equipamento de modo a evitar
ser  ofuscado  pela  luz  solar.  Coloque  o  monitor  a  50  a  80  centímetros  de  distância  da  pessoa.  Ajuste  a
cadeira até uma altura adequada para a pessoa.
3. Pausas frequentes para alongamento: A cada 30 minutos, faça uma pausa para se alongar.

São incluídas as referências para a literatura à base de evidência.

Conclusão
Termine a apresentação destacando a responsabilidade que cada estudante tem com a própria saúde.
Revise rapidamente os três pontos abordados: postura adequada, arranjos na disposição do computador
e pausas frequentes para alongamentos.

Termine com uma citação ou referência para a questão de retórica na introdução.

Agradeça a audiência pela oportunidade de falar para eles.
Deixe seu cartão de visita, de modo que os ouvintes interessados possam contatá­lo se tiverem dúvidas.

Fontes:  Parte  do  conteúdo  relacionado  com  a  computação  foi  obtida  de  livretos  para  consumidores  da  AOTA:  Healthy
computing  for  adults  (2002)  e  Healthy  computing  for  today’s  kids  (2001).  Copyright  da  American  Occupational  Therapy
Association, Inc. Todos os direitos reservados. Informações da folha de abstrato podem ser reproduzidas e distribuídas sem
consentimento  prévio  por  escrito  (www.aota.org).  Veja  também  Payne,  G.  (2002).  Oral  presentations.  Em  D.  Nelson,  R.
Brownson,  P.  Remington  &  C.  Parvanta  (Eds.),  Communicating  public  health  information  effectively:  A  guide  for
practitioners (pp. 141­154). Washington, DC: American Public Health Association.

Apresentação
Evite  utilizar  palavras  ou  sons  como  “er”,  “hum”,  “você  sabe”  e  “certo”  em  sua  apresentação.  Eles  causam
distração e podem reduzir a credibilidade de um orador. “A apresentação do orador desempenha um papel vital
para  possibilitar  que  as  audiências  recebam  e  respondam  à  mensagem  e  consiste  nos  aspectos  verbais  e  não
verbais”  (Payne,  2002,  p.  147).  O  Boxe  40.2  fornece  exemplos  de  recomendações  para  apresentações
profissionais.
Agora que você compreende a necessidade da linguagem e apresentação efetivas, pratique, pratique e pratique
sua apresentação! Ensaiar a apresentação pode ajudá­lo a aumentar sua confiança e sensação de preparação e a
desenvolver  uma  atitude  positiva.  Pratique  diante  dos  amigos  e  da  família  e,  de  maneira  ideal,  filme  sua
apresentação  e  a  reveja  para  analisar  criticamente  sua  mensagem,  linguagem,  enunciação  e  uso  de  recursos
audiovisuais.

RECOMENDAÇÕES PARA A REALIZAÇÃO DE APRESENTAÇÕES
PROFISSIONAIS

Fatores Verbais
Varie o tom ou o ritmo de sua voz; evite falar em tom monocórdio.
Pronuncie e articule as palavras e as sílabas.
Fale lentamente. Uma frequência ótima é de 150­185 palavras por minuto.
Evite sons e palavras “tapa­buracos” (p. ex., “er”, “hum”, “você sabe”, “certo”).
Projete sua voz; se sua voz for baixa, utilize um microfone.
Utilize pausas ou mudanças no tom de sua voz para destacar os pontos principais.
Certifique­se de que suas frases estejam gramaticamente corretas.
Sempre respeite o tempo permitido.

Fatores Não Verbais
Vista­se  de  maneira  conservadora  e  evite  joias  em  excesso;  sua  aparência  afeta  diretamente  sua
credibilidade.
Olhe para sua audiência.
Certifique­se de que suas expressões faciais estão em concordância com sua mensagem.
Interaja com seus recursos audiovisuais, mas não os leia.
Envolva sua audiência, faça perguntas e espere pelas respostas; estimule as pessoas.
Evite apoiar­se ou inclinar­se sobre a bancada.
Utilize gestos e movimentos apropriados.
Evite maneirismos que gerem distração (p. ex., beber água, mastigar chiclete, mãos nos bolsos, rodar ou
pressionar uma caneta).

Fonte: Adaptado de Payne, G. (2002) Oral presentations. Em D. Nelson, R. Brownson, P. Remington & C. Parvanta (Eds.),
Communicating  public  health  information  effectively:  A  guide  for  practitioners  (pp.  141­154).  Washington,  DC:  American
Public Health Association.

Recursos Audiovisuais
Os  recursos  audiovisuais  utilizados  em  apresentações  profissionais  incluem  cartazes,  quadros  negros,  slides,
gráficos computadorizados, clipes de áudio e vídeo e o uso direto de sites da Internet. Para serem efetivos, os
recursos  audiovisuais  devem  nos  ajudar  a  esclarecer,  aumentar  e  sustentar  a  mensagem  enquanto  prendem  o
interesse da audiência (Payne, 2002). Se você estiver utilizando algum recurso visual, como o PowerPoint® do
Microsoft Office, aplique as diretrizes dispostas no Boxe 40.3.

Retroalimentação
Você está quase terminando sua primeira apresentação profissional. Suponha que você percebeu que os membros
de sua audiência ficavam balançando suas cabeças enquanto você falava, outros riam espontaneamente com suas
piadas e outros estavam sorrindo quando você fazia contato visual com eles. Esta retroalimentação não verbal
vinda de sua audiência comunica que sua apresentação foi um sucesso. A retroalimentação representa o aspecto
final  de  uma  apresentação  profissional  e  é  tipicamente  não  verbal.  Com  a  experiência,  você  pode  facilmente
identificar os indícios não verbais que as pessoas na audiência transmitem quando uma apresentação não é bem­
sucedida:  sobrancelhas  arqueadas,  bocejos,  inquietação,  conversas  ou  mesmo  sair  da  plateia.  É  sua
responsabilidade  como  orador  estar  constantemente  atento  para  a  comunicação  não  verbal  de  sua  audiência  e
fazer  os  ajustes  necessários  para  que  sua  mensagem  ou  enunciação  satisfaça  melhor  as  suas  necessidades  e
expectativas.

DIRETRIZES PARA SLIDES

Os slides devem ser um esboço da apresentação.
Não use mais que seis linhas por slide, com seis palavras por linha no máximo.
Os tamanhos da fonte devem ser de 32 pontos para os títulos, no mínimo.
Os tamanhos da fonte devem ser de 20 pontos para o texto, no mínimo.
Não use mais de um slide por minuto.
Ilustre os conceitos com imagens ou outros estímulos visuais.
Apresente crédito para o autor, a data, o título do artigo e o título do periódico no slide em letras pequenas
(18 pontos) na parte inferior.
As  referências  devem  estar  no  último  slide  no  formato  da  American  Psychological  Association  (APA).
Prepare  materiais  de  reserva,  isto  é,  imprima  os  slides  em  transparências  ou  traga  cartazes,  caso  o
computador ou o projetor deixe de funcionar.
Ensaie e manuseie antecipadamente os equipamentos na sala onde você os utilizará.
Chegue pelo menos 30 minutos antes de sua apresentação, organize seu material audiovisual e vá até o
fundo da sala para se certificar de que eles são visíveis.
Em uma sala com luz ambiente, é melhor utilizar cores de alto contraste; um fundo escuro (p. ex., azul)
com letras vivas (p. ex., amarelas) costuma ter um apelo visual.

DILEMAS DA ÉTICA
Como um Estudante de Terapia Ocupacional Pode Satisfazer as Demandas de Tempo e
Ainda Realizar uma Apresentação Profissional Baseada em Evidência?

A riel,  uma  estudante  graduada  de  terapia  ocupacional,  está  ansiosa  em  relação  a  sua  primeira
apresentação profissional em uma reunião da Associação de Pais e Professores local. Ela foi convidada a
falar  resumidamente  sobre  a  importância  do  uso  apropriado  de  mochilas  por  calouros  na  universidade  e  foi
instruída  a  limitar  sua  apresentação  a  10  minutos  e  10  slides.  Ela  tem  muita  informação  para  colocar  nos
slides e decidiu não incluir qualquer citação ou referência neles. Ela irá fornecer seus slides como notas para
os participantes da reunião.

Perguntas
1. Ariel tem a responsabilidade ética de incluir citações ou referências nos slides?
2. Que conflitos estão presentes entre não incluir as citações ou referências nos slides e fornecer os slides
como uma nota para os participantes da reunião?

PUBLICAÇÕES PROFISSIONAIS
Na  primeira  parte  deste  capítulo,  você  aprendeu  sobre  apresentações  profissionais.  Agora,  vamos  olhar  outro
aspecto  importante  da  comunicação  profissional:  as  publicações  profissionais.  Existem  várias  publicações
profissionais.  Entre  elas  encontram­se  livros,  periódicos,  capítulos  em  livros,  revistas  e  periódicos  comerciais,
cartas,  atas  de  conferências  e  filmes  ou  vídeos.  Também  existem  vários  tipos  de  mídia.  Estes  compreendem
impressos,  CD­ROM,  áudio,  vídeo,  Internet  e  programas  de  computador.  Na  hierarquia  das  publicações
profissionais estão os seguintes:
Periódicos revisados por colegas
Atas de conferências revisadas por colegas
Livros não revisados por colegas
Capítulos em livros não revisados por colegas
Outros materiais não revisados por colegas

Os documentos revisados por colegas são aqueles que são revisados por “leitores experientes”. Comumente,
os documentos não revisados por colegas apresentam padrões menos exigentes para triagem antes da publicação.
Os exemplos desses dois tipos de publicações incluem artigos originais, resumos, revisões, relatos de caso, cartas
ao editor, fóruns de prática e notas técnicas. O foco do restante deste capítulo será sobre documentos revisados e
não revisados por colegas em terapia ocupacional.

Periódicos Revisados por Colegas
O  processo  de  revisão  por  colegas  é  uma  forma  de  avaliação  que  se  destina  a  fornecer  retroalimentação
construtiva para os autores a respeito de sua potencial publicação. Comumente, as submissões são avaliadas por
pelo menos dois revisores, sem que eles conheçam a identidade dos autores (“às cegas”). Em geral, os revisores
são  membros  do  conselho  editorial  do  periódico  e  são  especialistas  em  suas  áreas  específicas  de  prática.
Dependendo do espectro do periódico, os manuscritos são avaliados quanto a sua relevância e contribuição para
o  conhecimento  e  prática  da  terapia  ocupacional,  aspectos  da  metodologia,  análise  estatística,  contribuições
teóricas, clareza e estilo de escrita. Um processo de revisão típico é mostrado no Boxe 40.4.
O  periódico  de  terapia  ocupacional  revisto  por  colegas  mais  lido  é  o  American  Journal  of  Occupational
Therapy  (AJOT).  “É  a  publicação  oficial  da  American  Occupational  Therapy  Association,  Inc.,  e  é  publicado
seis vezes por ano. Este periódico revisado por colegas focaliza­se em pesquisa, prática e questões de cuidados
de  saúde  no  campo  da  terapia  ocupacional”  (AOTA,  2007).  “A  revista  publica  artigos  que  são  teóricos  e
conceituais  e  que  representam  a  pesquisa  baseada  na  teoria,  as  revisões  de  pesquisa  e  a  pesquisa  aplicada
relacionada a abordagens inovadoras de programas, atividades educacionais e tendências profissionais” (AOTA,
2007).
Outra  revista  de  terapia  ocupacional  revisada  por  colegas  é  a  Occupational  Therapy  Journal  of  Research:
Occupation, Participation and Health (OTJR). Diferente da AJOT, a OTJR focaliza­se em artigos de pesquisa e
em  artigos  de  revisão  sistemática  que  promovem  o  avanço  do  conhecimento  da  ocupação  ou  focalizam­se  na
melhora  das  vidas  das  pessoas  que  estão  em  risco  de  restrições  em  suas  participações  em  atividades
significativas (American Occupational Therapy Foundation, 2007).
Na  área  da  ciência  ocupacional,  o  primeiro  periódico  é  o  The  Journal  of  Occupational  Science  (JOS).  O
objetivo declarado deste periódico é “dar voz às experiências, preocupações e perspectivas únicas do estudo dos
seres humanos como seres ocupacionais”. “Destina­se a fornecer a oportunidade para a publicação de artigos de
interesse para muitas disciplinas, como antropologia, etnologia, etologia, geografia humana, filosofia, psicologia,
terapia ocupacional, sociologia e biologia social” (Association of Occupational Science, 2007).

PROCESSO TÍPICO DE REVISÃO DE MANUSCRITO EM PERIÓDICOS
REVISADOS POR COLEGAS

Submissão de manuscrito original e designação do editor (~1 semana).

Um  manuscrito  é  submetido  por  seus  autores  ao  editor  do  periódico.  O  editor  avalia  se  o  manuscrito  está
dentro do espectro do periódico e se ele atende aos padrões científicos e técnicos do periódico.

O manuscrito é fornecido aos colegas revisores para a revisão às cegas (~4­8 semanas)

Os  manuscritos,  sem  qualquer  identificação  de  autoria,  são  revisados  por  pelo  menos  dois  revisores  da
profissão. Cada periódico dispõe de critérios específicos para a revisão de um manuscrito, mas, em geral, o
artigo  é  avaliado  com  base  em  sua  contribuição  para  o  conhecimento  e  prática  da  terapia  ocupacional,
metodologia, análises estatísticas, contribuições teóricas e empíricas e clareza e estilo da escrita. Tipicamente,
os revisores têm quatro opções possíveis para cada manuscrito:

1. Aceitar o manuscrito sem revisão.
2. Aceitar o manuscrito após revisão.
3. Não aceitar nem rejeitar até que o(s) autor(es) faça(m) as revisões e torne(m) a submeter o manuscrito.
4. Rejeitar o manuscrito.

O editor lê as revisões dos colegas e providencia a correspondência para contatar o autor (~1­3
semanas).

O editor compila as revisões dos colegas e comunica a condição do manuscrito ao autor de contato.

Publicação do manuscrito

1. Se o manuscrito é aceito sem revisão, ele é colocado na fila para publicação. O manuscrito é submetido
ao  editor,  que  enviará  as  provas  para  serem  revisadas  pelo  autor  (~3­12  meses,  dependendo  do
esquema de publicação do periódico)
2. Se  o  manuscrito  é  aceito  após  revisão,  ele  é  colocado  na  fila  para  publicação  se  a  revisão  foi  feita  e
aceita. O manuscrito é submetido ao editor, que enviará as provas para serem revisadas pelo autor (~5­
14 meses, dependendo do esquema de publicação do periódico).
3. Se o manuscrito não for aceito nem rejeitado, o manuscrito revisado e ressubmetido será enviado para
revisão; tipicamente pelos colegas revisores originais.

O  Boxe  40.5  contém  uma  lista  dos  principais  periódicos  internacionais  com  foco  primário  na  terapia
ocupacional.
Documentos Não Revisados por Colegas
Alguns exemplos de materiais não revisados por colegas são livros, capítulos de livros, periódicos comerciais,
revistas e cartas. As cartas e revistas não revisadas por colegas mais conhecidas na terapia ocupacional são o OT
Practice, as cartas SIS Quarterly e o 1­Minute Update E­Newsletter, publicados pela AOTA, e o ADVANCE for
Occupational  Therapy  Practitioners,  publicado  pela  Merion  Publications,  Inc.  Comumente,  essas  revistas  e
cartas  apresentam  padrões  de  exigência  mais  baixos  para  triagem  antes  da  publicação  do  que  os  periódicos
revisados  por  colegas,  porém  podem  incluir  material  acadêmico  e  de  notícias.  De  maneira  específica,  o  OT
Practice “cobre as informações profissionais em todos os aspectos da prática atual da terapia ocupacional. Os
aspectos incluem tudo, desde as técnicas manuais, passando pela educação continuada, questões legislativas para
aconselhamento de carreira e oportunidades de trabalho, até as últimas notícias profissionais” (AOTA, 2007).

PERIÓDICOS DE TERAPIA OCUPACIONAL REVISADOS POR COLEGAS

American Journal of Occupational Therapy
Australian Journal of Occupational Therapy
British Journal of Occupational Therapy
Canadian Journal of Occupational Therapy
Israel Journal of Occupational Therapy
Journal of the New Zealand Association of Occupational Therapists
Journal of Occupational Therapy Science Australia
Journal of Occupational Therapy Students
Occupational Therapy in Health Care
Occupational Therapy in Mental Health
Occupational Therapy Journal of Research
OTJR: Occupational, Participation and Health
Physical & Occupational Therapy in Geriatrics
Physical & Occupational Therapy in Pediiatrics
Scandinavian Journal of Occupational Therapy
The Journal of Occupational Science
Work: A Journal of Prevention, Assessment & Rehabilitation

A  AOTA  publica  onze  diferentes  cartas  SIS  Quarterly,  cada  uma  das  quais  focaliza  uma  área  de  atuação
específica, como trabalho, gerontologia, prática na escola ou tecnologia. Estas cartas são publicadas quatro vezes
ao ano. O 1­Minute Update E­Newsletter  é  uma  carta  quinzenal  por  e­mail que transmite notícias importantes
sobre terapia ocupacional, tendências, ideias e produtos. Essas publicações são grátis para os afiliados à AOTA
ou podem ser compradas em separado.
O  ADVANCE  for  Occupational  Therapy  Practitioners  é  uma  revista  quinzenal  de  notícias  que  contém
“histórias  sobre  as  mais  recentes  áreas  de  tratamento,  protocolos  e  produtos,  equipamento  e  modalidades  de
terapia juntamente com colunas regulares” (ADVANCE for Occupational Therapy Practitioners, 2005). Não há
custo para as subscrições para o ADVANCE for Occupational Therapy Practitioners.

CONCLUSÃO
À medida que você termina este capítulo sobre apresentações e publicações profissionais, pense em estabelecer
estas metas para você mesmo:
1. Seguir as estratégias descritas no capítulo em suas futuras apresentações profissionais.
2. Manter­se em dia com o conhecimento em expansão da terapia ocupacional, lendo pelo menos três artigos
revisados por colegas por mês.
3. Desenvolver suas habilidades para escrever artigos/manuscritos para uma publicação profissional.

REFERÊNCIAS
ADVANCE for Occupational Therapy Practitioners. (2005). Re­­trieved June 29, 2005, from
http://occupational­therapy.advanceweb.com/common/editorial/editorial.aspx?CTID=23
American Occupational Therapy Association. (2007?). Retrieved January 13, 2007, from
http://www.aota.org/ajot/aboutajot.asp
American Occupational Therapy Association. (2007). Publications. Retrieved January 13, 2007, from
http://www.aota.org/nonmembers/area7/index.asp
American Occupational Therapy Foundation. (2007). Retrieved January 13, 2007, from http://www.aotf.org
Association of Occupational Science. Aim and scope. (2007). Retrieved January 13, 2007, from
http://www.jos.org.au/aim.asp
Merchant, S. (2005) Oral communication. Retrieved June 28, 2005, from
http://planet.tvi.cc.nm.us/merchant/classesi.htm
Milan, S. (2002). Public speaking. Boca Raton, FL: Bar Chart.
Payne, G. (2002). Oral presentations. In D. Nelson, R. Brownson, P. Remington, & C. Parvanta (Eds.),
Communicating public health information effectively: A guide for practitioners (pp. 141–154). Washington,
DC: American Public Health Association.
Orientação do Cliente
SUE BERGER

Sumário
Introdução
Comunicação Verbal
Características do Cliente
Organização da Informação
Informações Incluídas
Ambiente e Momento
Comunicação por Escrito
Características do Cliente
Informações Incluídas
Nível de Leitura do Material
Apresentação do Material
Relevância Cultural
Avaliação do Material Impresso
Comunicando­se com a Mídia
Conclusão

Objetivos de Aprendizagem
Após a leitura deste capítulo, você será capaz de:

1. Compreender os principais fatores que contribuem para a comunicação efetiva com o cliente.
2. Compreender  a  importância  da  instrução  sobre  saúde  para  todos  os  tipos  de  orientação  do
cliente.
3. Escolher e/ou desenvolver materiais educacionais por escrito apropriados para o cliente.

INTRODUÇÃO
Como  profissionais  de  saúde,  os  terapeutas  ocupacionais  são  educadores.  Ensinamos  a  nossos  clientes
conhecimentos  e  habilidades  de  que  eles  precisam  para  aumentar  o  bem­estar  e  para  que  possam  viver  da
maneira  mais  segura  possível.  Ainda  assim,  nossa  própria  formação  se  foca  mais  sobre  as  habilidades  de
tratamento  e  menos  sobre  as  estratégias  de  que  precisamos  para  sermos  professores  efetivos.  O  Capítulo  36
fornece a base teórica relacionada à aprendizagem; este capítulo tem foco em estratégias específicas de educação
e como utilizá­las de maneira efetiva.
Rankin, Stallings e London (2005) enfatizam que a educação do cliente é uma parceria que depende de ouvir e
compartilhar.  Osborne  (2001)  identifica  cinco  estratégias  principais  para  aumentar  a  comunicação  na  parceria
cliente­profissional de saúde:
Criar um ambiente positivo
Limitar os objetivos da comunicação
Transmitir as informações com clareza e devagar
Utilizar múltiplas estratégias para comunicar a mensagem
Verificar a compreensão

Sempre que possível, essas cinco estratégias devem ser utilizadas em todos os tipos de comunicação.

COMUNICAÇÃO VERBAL
Estamos  constantemente  ensinando  nossos  clientes.  Ensinamos  a  eles  como  vestir­se  com  uma  das  mãos  após
sofrerem um acidente vascular cerebral. Os profissionais orientam os professores de sala de aula a respeito dos
ambientes  apropriados  para  facilitar  o  aprendizado  de  estudantes  com  necessidades  especiais.  Orientamos  as
pessoas  sobre  as  estratégias  para  uso  do  seguro  do  transporte  comunitário.  Com  frequência,  a  orientação
acontece verbalmente. Com quem se fala (característica do cliente), como é dito (organização da informação), o
que  é  dito  (informação  incluída)  e  quando  é  dito  (ambiente  e  momento)  afetam,  sem  exceção,  a  maneira  pela
qual a informação é recebida, aprendida e utilizada.

Características do Cliente
Como em todos os tratamentos, é fundamental conhecer o cliente e suas forças e limitações, sua cultura, seus
valores  e  interesses,  idade  e  nível  de  escolaridade.  Na  comunicação  verbal,  também  é  importante  conhecer  as
habilidades de escolaridade do cliente, o idioma nativo e sua capacidade auditiva. Embora a definição do nível
de  escolaridade  se  refira  a  ler  e  escrever,  ela  também  afeta  a  capacidade  da  pessoa  de  compreender  as
informações verbais (American Medical Association [AMA], 1999). Ao comunicar­se com alguém com baixo
nível  de  escolaridade,  é  importante  ser  cuidadoso  com  a  escolha  das  palavras.  Durante  uma  sessão  sobre
habilidades  de  alimentação,  por  exemplo,  a  palavra  talher  deve  ser  utilizada  por  todo  o  tempo  em  vez  de
alternada  com  utensílio.  Palavras  incomuns  ou  desafiadoras  usadas  na  conversação  devem  ser  definidas,  e  os
acrônimos  devem  ser  explicados  (Centers  for  Disease  Control  and  Prevention  [CDC],  1999).  Palavras  como
avaliação ou tratamento devem ser definidas, ou devem ser usadas palavras mais corriqueiras. Acrônimos como
ADM e AVD  devem  ser  utilizados  apenas  após  terem  sido  explicados.  Se  você  não  tem  certeza  da  escolha  da
palavra, pergunte ao cliente qual palavra ele usa para descrever um item e use tal palavra. Por exemplo, você
poderia perguntar a uma menina ou mulher se ela se refere à parte superior de sua roupa como blusa ou camisa.
Comunicar­se  com  os  clientes  com  dificuldade  auditiva  gera  outros  desafios.  É  útil  escolher  um  ambiente
tranquilo e livre de distrações, fazer com que o cliente preste atenção antes de falar e posicionar­se diretamente
diante do cliente (Osborne, 2001). Com frequência, um cliente ouve melhor de um lado que do outro, de modo
que é importante ter tempo para descobrir isso e posicionar­se no lado mais forte. Se a pessoa utiliza aparelhos
auditivos,  certifique­se  de  que  eles  estejam  na  posição  e  funcionando.  Se  a  audição  está  severamente
comprometida, utilize outros métodos de comunicação juntamente com a fala ou em seu lugar. Quando entrar em
um ambiente no qual existem distrações, pergunte ao cliente se ele pode ir para outro local, desligue a televisão
ou encontre um momento melhor que possa ser mais benéfico para a instrução.

Organização da Informação
A organização da informação a ser apresentada ajuda os clientes a compreenderem e aplicarem as informações.
Embora isso seja particularmente verdadeiro no que se refere aos indivíduos com baixo nível de escolaridade,
todas  as  pessoas,  em  especial  aquelas  que  se  encontram  em  um  novo  ambiente,  estão  aprendendo  novas
informações ou estão com dor ou ansiosas, irão se beneficiar quando o material for apresentado de maneira clara
e organizada. Assim, planeje a informação a ser transmitida antes de conversar e fale em sequência (Osborne,
2001).  Por  exemplo,  se  você  está  trabalhando  com  um  grupo  de  crianças  para  ajudá­las  a  fazer  com  que  suas
mochilas  fiquem  mais  leves,  comece  por  dizer:  “Em  primeiro  lugar,  decida  o  que  precisa  ir  com  você;  em
segundo  lugar,  coloque  os  livros  pesados  na  parte  de  trás  da  mochila;  e  em  terceiro  lugar,  coloque  os  objetos
mais leves na parte da frente da mochila.”
Utilizar  demonstrações,  modelos  e  figuras  durante  a  comunicação  verbal  também  ajuda  as  pessoas  a
compreenderem  as  informações  (AMC  Cancer  Research  Center,  1994).  Quando  orientar  os  clientes  sobre  a
importância  de  eliminar  a  confusão  para  garantir  a  segurança,  mostre  figuras  do  antes  e  do  depois  de  uma
cozinha e aponte os riscos à segurança e as maneiras pelas quais eles foram resolvidos. Quando orientar sobre o
uso de equipamentos de adaptação, explique e demonstre. Utilize diferentes métodos de ensino, em especial ao
trabalhar  com  grupos  de  pessoas,  porque  pessoas  diferentes  aprendem  de  maneiras  diferentes.  Mesmo  quando
você trabalha com um único cliente, diferentes métodos de ensino ajudam a enfatizar as principais informações e
facilitam a compreensão e a memorização.
Por fim, deve­se verificar a compreensão. O profissional pode pensar que foi claro, organizado e consistente,
mas, se o cliente não compreendeu a mensagem, o profissional não foi bem­sucedido. Existem muitas maneiras
para verificar a compreensão, incluindo pedir ao cliente para fazer uma demonstração, repetir em suas próprias
palavras  ou  explicar  um  conceito  que  utilize  um  exemplo  diferente  (Doak,  Doak  &  Root,  1996).  O  indivíduo
passivo  ou  que  balança  constantemente  a  cabeça  em  sinal  positivo  pode  não  compreender  ou  não  aderir
totalmente  às  recomendações.  Por  isso,  é  útil  incentivar  perguntas,  ideias  e  opiniões,  tudo  que  permita  o
envolvimento  e  um  maior  potencial  para  prosseguir  (DiMatteo,  1995).  Quando  possível,  peça  ao  cliente  para
demonstrar ou orientar os outros clientes. É mais provável que os clientes façam perguntas e admitam a falta de
compreensão com um colega do que com um terapeuta.

Informações Incluídas
Diversos estudos mostram grandes discrepâncias entre o que os clientes queriam saber e o que os profissionais
de  saúde  acreditavam  que  era  mais  importante.  Davis,  Fredrickson  e  colaboradores  (1998)  mostraram  que
mulheres  de  baixa  renda,  com  pouca  escolaridade  e  pertencentes  a  minorias  estavam  mais  interessadas  em
aprender sobre os custos dos procedimentos, um fator que raramente era abordado. Reid e colaboradores (1995)
aprenderam  que  muitas  pessoas  queriam  informações  sobre  o  tratamento  e  o  prognóstico,  embora  isso
frequentemente não fosse abordado. Para facilitar a compreensão e a lembrança, é importante compreender quais
informações o cliente quer e precisa saber e comunicar claramente estas informações (AMA, 1999).
Lembrar as informações depende de dois fatores: o tipo de informação e como a informação é apresentada.
Bradshaw,  Ley  e  Kincey  (1975)  estudaram  a  lembrança  dos  participantes  sobre  como  desenvolver  hábitos
alimentares  saudáveis.  Os  participantes  lembraram  a  informação  percebida  como  importante.  Da  mesma
maneira,  a  informação  fornecida  como  sugestão  específica  foi  lembrada  com  mais  frequência  do  que  as
sugestões gerais. Por exemplo, “Caminhe rapidamente por 30 minutos, três vezes por semana” seria lembrado
com maior frequência do que “Exercite­se várias vezes por semana”.
A sensibilidade cultural é um fator crítico para a orientação efetiva do cliente. Terminologia, temas e ideias
devem ser, sem exceção, relevantes para a audiência escolhida. Quando possível, a comunicação deve ocorrer no
idioma  original  da  pessoa.  Intérpretes  profissionais  são  melhores  para  evitar  a  comunicação  equivocada  e
garantir a privacidade (Rankin et al., 2005). No entanto, isso nem sempre é possível, e os familiares podem ser
os  únicos  intérpretes  disponíveis.  Deve­se  ter  cautela  nessa  situação,  pois  as  próprias  opiniões  e  reações  dos
familiares  também  são  frequentemente  transmitidas  com  ou  em  vez  das  do  cliente  (CDC,  1999).  Os  melhores
intérpretes são aqueles que foram treinados para interpretar, não apenas alguém que fale a mesma língua.
Ser culturalmente sensível envolve mais que falar o idioma original da pessoa. Devem ser utilizados exemplos
culturalmente relevantes, considerado o significado do espaço pessoal e do tempo dentro da cultura do cliente e
ter cuidado com julgamentos ou interpretações sem verificá­los com a pessoa (Purtilo & Haddad, 2002). Estar
ciente  das  diferenças  culturais  e  das  crenças  sobre  saúde  e  bem­estar  é  a  primeira  etapa  para  a  comunicação
efetiva com pessoas de culturas diferentes da sua. Consulte Huff e Kline (1999), Rankin e colaboradores (2005)
ou a World Education (2000) para informações mais aprofundadas sobre a orientação culturalmente competente
do cliente.

Ambiente e Momento
O ambiente em que ocorre a orientação do cliente pode influenciar a compreensão e a lembrança. É importante
que a informação seja compartilhada sem constrangimentos (Osborne, 2005), em um ambiente em que o cliente
se sinta livre para fazer perguntas, admitir a falta de compreensão ou solicitar a repetição. Distrações internas,
como dor, ansiedade, fome ou necessidade de ir ao banheiro, também afetam a capacidade da pessoa de absorver
e  compreender  a  informação.  E  como  algumas  pessoas  são  “pessoas  matinais”  e  outras  ficam  mais  alertas  (e
receptivas à informação) à noite, o momento da orientação de todo cliente é importante.
Quando  trabalhar  em  escolas,  agende  o  horário  noturno  para  fornecer  orientações  aos  pais.  Os  pais  que
precisam tirar horas de sua jornada de trabalho para ir a uma reunião podem ficar frustrados e raivosos e estarão
menos dispostos a ouvir novas informações.
COMUNICAÇÃO POR ESCRITO
Kessels  (2003)  mostrou  que  muitas  pessoas  esquecem  até  80%  do  que  lhes  é  dito  durante  uma  interação
paciente­médico  e  que  quase  metade  do  que  elas  acreditam  que  se  lembram  esá  incorreta.  Reforçar  a
comunicação  verbal  com  material  impresso  pode  ajudar  a  lembrança  e  a  compreensão.  Formulários  de
comunicação por escrito reforçam o que é dito, fornecem um registro do que é dito e fornecem lembretes do que
foi  transmitido.  Se  houver  tempo  para  escrever  a  informação,  é  importante  garantir  que  o  leitor  possa  utilizar
esse material.
As  principais  considerações  para  a  comunicação  escrita  efetiva  incluem  as  características  do  usuário  desse
material; as informações que o terapeuta quer transmitir ou, mais importante, a informação que o cliente precisa
e  quer  saber;  o  nível  de  leitura  do  material;  a  apresentação  do  material;  e  a  relevância  cultural  do  material
(Butow, Brindle, McConnell, Boakes & Tattersall, 1998; National Cancer Institute, 2003).

Características do Cliente
Em  toda  prática  de  terapia  ocupacional,  é  importante  que  o  profissional  conheça  o  cliente  e  suas  forças  e
limitações,  sua  cultura,  seus  valores  e  interesses,  sua  idade  e  seu  nível  de  escolaridade.  Para  a  comunicação
escrita também é importante conhecer a capacidade geral de leitura da pessoa. Os níveis de leitura podem estar
comprometidos em pessoas com incapacidades, em pessoas que leem um material que não esteja em seu idioma
nativo e, certamente, naquelas que nunca aprenderam a ler. Quando qualquer material por escrito é fornecido a
um cliente, deve­se observar se o cliente diz algo semelhante a “Lerei isto mais tarde, porque posso discutir com
meu marido”, “Esqueci meu óculos em casa”, ou “Vou me lembrar do que você falou – não precisa escrever”. O
cliente  parece  ler  alguma  coisa,  mas,  em  seguida,  é  incapaz  de  seguir  as  instruções?  Boas  habilidades  de
observação  podem  fornecer  uma  grande  quantidade  de  informações  sobre  o  nível  de  leitura.  Saber  que  um
cliente tem dificuldade com a leitura ajudará o profissional a utilizar­se de alguma das estratégias previamente
discutidas.  Embora  existam  avaliações  padronizadas  do  nível  de  leitura,  mais  pesquisa  é  necessária  para
determinar se a avaliação formal do nível de leitura de um cliente afeta o relacionamento profissional­cliente ou
melhora os resultados (AMA, 1999). A alfabetização também não implica compreensão da leitura.
Fazer a pergunta “Você lê muito?” pode orientar o tratamento. Se a resposta for negativa, isto poderá ser um
indício para utilização de estratégias diferentes dos materiais por escrito para reforçar as informações.

Informações Incluídas
Assim como com a comunicação verbal, é importante focar no material que o cliente quer ou precisa conhecer
ao  desenvolver  ou  selecionar  materiais  impressos.  Embora  alguma  coisa  que  seja  “apropriado  saber”  possa
parecer valiosa para a inclusão, uma grande quantidade não é, com frequência, melhor (CDC, 1999; Osborne,
2001). Ao considerar o material a ser incluído em panfletos, brochuras ou programas domiciliares, priorize as
informações  e  se  concentre  nos  objetivos  principais  e  relevantes.  Lembre­se  de  priorizar  as  informações  de
acordo com o que é importante para o cliente, não o que você acredita que seja importante para o conhecimento
do cliente.

Nível de Leitura do Material
Grande parte da informação pública, como os jornais, é escrita no nível do ensino médio ou mais. No entanto, o
National  Adult  Literacy  Survey  (NALS)  de  2003  mostrou  que  aproximadamente  um  em  cada  três  norte­
americanos  é  analfabeto  funcional,  definido  como  nível  de  leitura  abaixo  do  quinto  ano,  e  o  número  aumenta
para  uma  em  cada  duas  pessoas  que  se  esforçam  para  ler  quando  são  incluídos  aqueles  com  habilidades  de
leitura  apenas  um  pouco  melhores  (Kutner,  Greenberg,  Jin  &  Paulsen,  2006).  Embora  aproximadamente  20%
destas pessoas tenham distúrbios de aprendizagem ou tenham nascido fora dos Estados Unidos, a maioria dos
que  não  conseguem  ler  é  composta  por  pessoas  nascidas  nos  Estados  Unidos  e  da  raça  branca  (AMA,  1999).
Butow  e  colaboradores  (1998)  pesquisaram  as  preferências  por  cartilhas  sobre  o  câncer.  Os  participantes
mostraram  uma  clara  preferência  pela  cartilha  escrita  em  nível  de  ensino  fundamental  em  comparação  com
aquelas  no  nível  de  ensino  médio.  Em  um  grande  estudo  controlado  randomizado  com  informações  sobre  a
imunização  para  poliomielite,  Davis,  Fredrickson  e  colaboradores  (1998)  mostraram  que  a  compreensão
aumentou  com  o  material  por  escrito  em  um  nível  de  quarto  a  sexto  anos  para  todos  os  indivíduos.  O  estudo
também  mostrou  que  a  forma  mais  simples  não  agride  aqueles  com  nível  de  educação  e  rendimentos  mais
elevados.  O  uso  de  um  nível  baixo  de  leitura  nos  materiais  por  escrito  satisfaz  as  necessidades  de  um  grande
número de pessoas.
Embora existam inúmeras avaliações para determinar o nível de leitura do material escrito, em geral, o uso de
frases curtas e palavras monossilábicas ou dissilábicas constitui uma estratégia simples que irá manter o nível de
leitura baixo (AMC Cancer Research Center, 1994). Embora isso seja frequentemente impossível, e por vezes
não seja desejável eliminar todas as palavras com três ou mais sílabas, é uma boa ideia utilizar uma palavra mais
simples e comum, quando possível. O uso da palavra doutor  em  lugar  de  médico  ou  do  termo  habilidades de
pensamento  em  lugar  de  cognição  é  algumas  vezes  apropriado.  No  entanto,  devemos  ser  cuidadosos  quando
utilizamos essa estratégia. Frases curtas e variadas nem sempre são mais fáceis de ler, e algumas palavras de três
sílabas comumente utilizadas na conversação podem facilitar a capacidade de leitura (Reid et al., 1995). Frases
curtas e, principalmente, palavras de uma ou duas sílabas devem ser usadas apenas como orientação. Se o leitor
quer  aprender  mais  a  respeito  das  fórmulas  padronizadas  de  leitura  ou  fórmulas  geradas  por  computador,
recomenda­se o livro de Doak e colaboradores (1996) ou a ferramenta de ajuda no Microsoft Word 2007.
Além  do  nível  de  leitura,  outros  fatores  influenciam  a  capacidade  de  leitura  do  material  impresso.  Por
exemplo, o uso de letras maiúsculas é mais difícil de ler que uma combinação de letras maiúsculas e minúsculas,
porque os leitores utilizam as formas das palavras para auxiliar a leitura. Por exemplo, quando escrito somente
em letras maiúsculas, “COM” parece um retângulo e é muito semelhante no aspecto visual a “POR”, “LHE” e a
qualquer outra palavra de três letras. Quando escrito com letras minúsculas, “com”, “por” e “lhe” apresentam,
sem  exceção,  formas  diferentes  e,  portanto,  tornam  mais  fácil  a  rápida  determinação  da  palavra  (Doak  et  al.,
1996). O Boxe 41.1 fornece exemplos de fácil e difícil para o uso de formatos e tamanhos.
O  uso  de  palavras  corriqueiras  também  torna  a  leitura  mais  fácil  (CDC,  1999;  Executive  Secretariat,  2003;
Osborne,  2005).  Muitas  pessoas  compreendem  melhor  o  termo  pressão  arterial  alta  que  hipertensão.  Se  for
importante  utilizar  o  termo  hipertensão,  sugere­se  defini­lo  e  utilizá­lo  de  maneira  consistente.  O  uso  de
descrições  simples  para  visualização  é  outra  estratégia  valiosa.  Ao  encorajar  alguém  para  levantar  apenas
pequenos  objetos,  a  expressão  comumente  utilizada  “não  maior  que  uma  forma  de  pão”  é  mais  fácil  de
compreender do que “não maior que 60 centímetros por 30 centímetros por 30 centímetros”.

EXEMPLOS DE LETRAS E ORGANIZAÇÃO FÁCEIS OU DIFÍCEIS DE LER

1. É mais fácil ler o material que está escrito com uma combinação de letras maiúsculas e minúsculas QUE
O MATERIAL ESCRITO APENAS EM LETRAS MAIÚSCULAS.
2. É  mais  fácil  ler  a  impressão  em  Times  New  Roman,  um  tipo  de  letra  com  serifa,  que  ler  o  material
impresso em Arial, um tipo de letra sem serifa.
3. É mais fácil ler o material que utiliza um tamanho de letra de 12 pontos que o material com um tamanho
de letra de 9 pontos.
4. É mais fácil ler o texto anterior que apresenta espaçamento simples do que o que você está lendo agora,
que tem espaçamento menor que o simples. Lembre­se de que o espaçamento e os espaços em branco
são importantes.

Para  tornar  as  informações  escritas  mais  adequadas  à  leitura,  use  a  voz  ativa  em  vez  da  passiva  e  utilize
terminologia  positiva  (CDC,  1999;  Executive  Secretariat,  2003;  Osborne,  2001).  Por  exemplo,  escreva
“Primeiro, coloque seu braço direito ao se vestir” em vez de “Seu braço direito deve ser colocado em primeiro
lugar  quando  você  se  veste”,  e  diga  “Levante  lentamente  seu  braço”  em  vez  de  “Não  levante  seu  braço
rapidamente”. Utilize acrônimos, como AVD ou ADM, somente depois de claramente explicados; ainda assim,
certifique­se de verificar a compreensão.

Apresentação do Material
É importante a apresentação global de qualquer comunicação por escrito. A apresentação inclui o tipo de papel
utilizado, a cor do papel e da tinta, o tamanho e o estilo da fonte, o visual e a organização, mas não se limita a
isto. Esses fatores afetam a sua capacidade de ver, ler e compreender o material e a motivação da pessoa para ler
o material.
Tipo de Letra e Papel
Para garantir que a maioria das pessoas possa enxergar o material escrito, ele deve ser escrito com um tipo de
letra com serifa (as linhas minúsculas no final dos caracteres) e um tamanho de letra entre 12 e 14 pontos (CDC,
1999)  ou  de  14  pontos  ou  mais,  para  leitores  com  visão  reduzida  (Osborne,  2001)  (consulte  o  Boxe  41.2).  O
CDC  (1999)  também  recomenda  limitar  o  uso  de  letras  em  itálico  ou  fontes  de  fantasia.  Em  geral,  o  mesmo
estilo de fonte deve ser utilizado em todo o documento.
Deve ser utilizado papel fosco, pois o papel brilhoso pode ofuscar e dificultar a leitura. A letra em cor preta
sobre o papel branco é, com frequência, mais efetiva para contraste (Osborne, 2001). No entanto, caso se deseje
cor, é importante utilizar cores opostas na gama de cores. Por exemplo, em caso de papel amarelo, a fonte deve
ser  azul  (oposto  ao  amarelo)  em  vez  de  laranja  (próximo  ao  amarelo).  Por  fim,  para  garantir  que  o  material
escrito possa ser lido, o leitor deve ler o material em uma área com iluminação adequada.

Organização
A organização do material afeta a legibilidade. Destacar as informações principais, colocando­as em negrito ou
sublinhando­as, aumenta o foco sobre a informação importante. Títulos são valiosos para grupos de informação.
Incluir um espaço em branco, em vez de preencher todo o papel com palavras e figuras, facilita a autoeficácia
(Osborne, 2001). Ler uma cartilha que não é atraente e está repleta de informações será desencorajador para os
clientes,  independente  da  informação  na  brochura.  Inclua  as  informações  principais  em  primeiro  lugar  ou  por
último, conforme o leitor se lembre melhor desta informação (CDC, 1999; National Cancer Institute, 2003).
O  espaçamento  é  importante  para  as  pistas  visuais.  Deixe  mais  espaço  acima  dos  títulos  e  subtítulos  que
abaixo  deles.  Isto  associa  a  informação  a  uma  inspeção  visual  rápida.  Considere  a  utilização  de  perguntas
simples como subtítulos, como “O que é conservação de energia?” e “Quais são os princípios fundamentais da
conservação  de  energia?”.  Dividir  a  informação  em  cinco  ou  menos  categorias  facilita  a  lembrança.  A
informação  pode  ser  dividida  pelos  quartos  em  uma  casa  (para  uma  nota  sobre  adaptações  ambientais),  por
princípios  (para  uma  nota  sobre  conservação  de  energia)  ou  de  acordo  com  qualquer  categorização  que  seja
apropriada para o tema. O Boxe 41.2 fornece exemplos de formatação fáceis e difíceis de utilizar.
Quando possível, o material deve ser personalizado. Isto pode ser feito simplesmente escrevendo o nome do
usuário  no  alto  do  material  ou  ao  deixando  um  espaço  em  branco  para  individualização  dos  exercícios  ou
acréscimo de sugestões. Demonstrou­se que o uso de terminologia como “seu programa de exercício” em vez de
“programa  de  exercício”  faz  diferença  na  lembrança  e  na  satisfação  com  o  material  (Wagner,  Davis  &
Handelsman, 1998).

Aparência
A  antiga  frase  “Uma  figura  vale  mais  que  mil  palavras”  somente  é  verdadeira  quando  a  figura  é  clara  e
apropriada. Vários estudos demonstraram que os materiais escritos que empregam texto e recursos visuais foram
mais  bem  recebidos  que  os  materiais  que  continham  apenas  texto  (Bernardini,  Ambrogi,  Rardella,  Perioli  &
Grandolini, 2001; Davis, Bocchini et al., 1996; Michielutte, Bahnson, Dignan & Schroeder, 1992). A literatura
sobre  o  nível  de  instrução  em  saúde  enfatiza  a  importância  de  recursos  visuais  que  sejam  culturalmente
adequados, simples de compreender e utilizados com legendas simples (CDC, 1999; National Cancer Institute,
2003).  Utilize  formas  com  palavras  simples  que,  em  geral,  são  universalmente  reconhecidas.  Por  exemplo,
utilize a figura de um sinal de pare para reforçar a importância de interromper a atividade antes que aconteça a
dor.  As  pistas  visuais,  assim  como  as  palavras,  devem  transmitir  positividade.  Por  exemplo,  inclua  figuras  de
alimentos  saudáveis  em  vez  da  figura  de  batatas  fritas  e  biscoitos  com  uma  linha  sobre  elas.  Alguns  recursos
visuais  podem  gerar  confusão  em  vez  de  esclarecer.  Por  exemplo,  as  figuras  com  muitas  setas  ou  horários  de
ônibus com letras pequenas e muitas colunas são de difícil utilização. O uso de pistas visuais tem como objetivo
facilitar a compreensão. As figuras decorativas podem atenuar a mensagem. Todas as figuras incluídas devem
transmitir uma ideia, reforçando a mensagem no texto (AMC Cancer Research Center, 1994; CDC, 1999).

EXEMPLOS DE FORMATOS DE DIFÍCIL LEITURA VERSUS DE FÁCIL
LEITURA
Difícil Leitura
Quarto
– Coloque um abajur sobre a mesinha de cabeceira
– Mantenha um telefone próximo ao leito
Banheiro
– Mantenha uma luz fraca acesa à noite
– Aplique decalques antiderrapantes na banheira

Fácil Leitura
Quarto
– Coloque um abajur sobre a mesinha de cabeceira
– Mantenha um telefone próximo ao leito

Banheiro
– Mantenha uma luz fraca acesa à noite
– Aplique decalques antiderrapantes na banheira

Relevância Cultural
É importante ser culturalmente sensível em todo material escrito, tanto em palavras como nos recursos visuais. A
terminologia,  os  temas  e  as  ideias  devem  ser  relevantes  para  a  suposta  audiência.  A  maneira  mais  efetiva  de
garantir  a  relevância  cultural  é  pela  obtenção  de  informação  do  pretenso  usuário  (CDC,  1999),  tanto  no
desenvolvimento do material como para retroalimentação e sugestões quando o material estiver na forma final da
editoração e durante as revisões. Assim como ocorre com a comunicação verbal, sempre que possível, o material
impresso  deve  estar  disponível  no  idioma  original  do  cliente,  com  ênfase  particular  sobre  a  utilização  de
terminologia  culturalmente  relevante.  Embora  existam  endereços  eletrônicos  e  programas  de  computador  que
traduzam o material, a tradução é feita palavra por palavra e não é tão efetiva quanto a tradução feita por uma
pessoa.

Avaliação do Material Impresso
A Tabela 41.1 fornece uma lista de verificação rápida a considerar no desenvolvimento ou na escolha do material
impresso a ser utilizado com os clientes. Existem diversas avaliações publicadas para uso de modo a garantir que
os  materiais  escritos  estejam  bem  desenvolvidos.  Comumente  utiliza­se  a  Avaliação  de  Adequabilidade  de
Materiais (Suitability Assessment of Materials), desenvolvida e validada por Doak e colaboradores (1996). Ela
tem  tempo  de  aplicação  de  cerca  de  30  minutos  e  o  resultado  é  um  escore  numérico,  com  o  valor  mais  alto
indicando  a  melhor  adequabilidade  do  material  para  determinada  audiência.  A  melhor  maneira  de  avaliar  o
material impresso é solicitando a retroalimentação de usuários potenciais.
TABELA 41.1 DIRETRIZ A CONSIDERAR QUANDO DESENVOLVER OU ESCOLHER MATERIAIS
IMPRESSOS
Características do usuário
1. A idade do usuário foi considerada?
2. A escolaridade e/ou o nível de leitura do usuário foi considerado?
3. Valores, crenças e interesses do usuário foram considerados?
Informações incluídas
1. A informação é a que o usuário quer saber?
2. A informação é a que o usuário precisa saber?
3. Apenas as informações principais estão incluídas?
Nível de leitura do material
1. Existe uma quantidade limitada de frases longas e/ou compostas?
2. A maioria das palavras com três ou mais sílabas é de palavras comuns e cotidianas?
3. As palavras incomuns estão definidas? Quando possível, palavras comuns são utilizadas?
4. O mesmo termo é utilizado de modo consistente?
5. Descrições corriqueiras são utilizadas para ajudar a visualização?
6. A voz ativa é empregada?
7. A frase é construída de maneira positiva?
Apresentação do material
1. Um tipo de letra com cerifa é utilizado?
2. O tamanho da letra tem pelo menos 12 pontos (maior para as pessoas com visão reduzida)?
3. Existe um contraste forte entre a cor da letra e a cor do papel?
4. Utiliza­se papel fosco?
5. Emprega­se negrito ou sublinhado para dar ênfase?
6. Títulos e subtítulos são utilizados para dividir as informações e proporcionar boa apresentação?
7. Utiliza­se o espaço em branco adequado?
8. A informação principal está incluída no início ou no final?
9. A informação é personalizada?
Recursos visuais
1. Os recursos visuais são apropriados do ponto de vista cultural?
2. Legendas simples estão incluídas para cada recurso visual?
3. As pistas visuais são transmitidas de maneira positiva?
4. As pistas visuais transmitem informação (não apenas para decoração)?
5. Os recursos visuais exibem uma sequência clara?
Relevância cultural
1. O material é relevante para a audiência pretendida?
2. A terminologia é adequada do ponto de vista cultural?
3. O material foi revisado com a audiência pretendida antes da distribuição?
4. O material está disponível no idioma nativo do usuário?

COMUNICANDO­SE COM A MÍDIA
Comunicações por áudio, vídeo e multimídia são outras estratégias que podem ser utilizadas para comunicar a
informação aos clientes. Estas modalidades de comunicação podem ser efetivas quando bem desenvolvidas. As
pessoas com baixo grau de escolaridade podem beneficiar­se de informações sonoras e visuais quando estas são
desenvolvidas de maneira adequada, interativa e divertida. No entanto, os vídeos não constituem uma panaceia
para aqueles com baixo grau de escolaridade. Embora possivelmente tenham inteligência na média ou acima da
média, os indivíduos que se esforçam para ler frequentemente processam a informação de maneira diferente e
podem  ter  vocabulário  e  espectro  de  atenção  limitados  (Doak  et al.,  1996).  Cada  pessoa  prefere  um  estilo  de
aprendizagem diferente. Alguns aprendem melhor por meio da leitura, outros por meio da audição e outros por
meio da visão. Para muitos, aprender a informação sob múltiplas formas reforça a informação e ajuda a lembrá­
la.
Para  a  escolha  ou  o  desenvolvimento  de  materiais  de  áudio  ou  vídeo  devem  ser  feitas  considerações
semelhantes àquelas para o material escrito. Por exemplo, limitar os objetivos é importante para a instrução de
todo cliente. A mensagem deve ter cinco minutos ou menos para áudio e oito minutos ou menos para vídeo, a
menos que pausas sejam incorporadas (Doak et al., 1996). Embora no material impresso a informação incluída
no  início  e  no  final  do  material  seja  lembrada  com  maior  frequência,  no  áudio  e  no  vídeo  a  informação
apresentada no final é lembrada com maior frequência (Doak et al., 1996). Para o áudio, quando possível, utilize
vozes  de  pessoas  como  a  audiência  desejada  e,  para  o  vídeo,  certifique­se  de  que  as  imagens  são  de  pessoas
semelhantes  à  audiência  desejada.  Sempre  que  possível,  esses  instrumentos  devem  ser  utilizados  em  formato
interativo.
A  multimídia  ainda  é  uma  tecnologia  nova,  sendo  a  pesquisa  sobre  sua  utilização  limitada,  embora  exista
alguma  evidência  para  apoiá­la.  Jogos  e  programas  de  computador  que  exigem  a  interação  com  toque  na  tela
(com  a  resposta  gerando  a  pergunta  seguinte)  são  frequentemente  divertidos,  motivadores  e  efetivos  na
transmissão da informação (AMC Cancer Research Center, 1994; Rankin et al., 2005).
Vídeo, áudio e multimídia são métodos efetivos de comunicação, mas sua produção é mais cara e consomem
mais tempo para desenvolvimento do que os materiais escritos (AMC Cancer Research Center, 1994). Embora
existam inúmeras maneiras, como discutido anteriormente, de tornar agradável o material escrito e aumentar a
legibilidade,  muitas  pessoas  não  conseguem  compreender  sozinhas  os  materiais  impressos,  independente  de
quão  bem  eles  sejam  desenvolvidos  (Atkinson,  2003).  Para  o  cliente  que  se  esforça  para  ler,  o  uso  de  vídeo,
áudio ou multimídia pode ser útil em relação ao custo e ao tempo (Rankin et al., 2005).

CONCLUSÃO
Inúmeros  estudos  mostraram  que  nenhum  método  de  orientação  ao  cliente  é  efetivo  para  todas  as  pessoas
(Friedrich, Cermak e Maderbacher, 1996; Moore et al., 2002). Algum material e alguma aprendizagem são mais
bem adaptados para determinados métodos de ensino, e alguns indivíduos aprendem melhor por meio de certas
estratégias  de  ensino.  Um  modelo  “tamanho  único”  não  é  efetivo  para  a  orientação  do  cliente.  Embora  mais
pesquisa  seja  necessária  para  determinar  as  melhores  maneiras  de  fornecer  orientação  ao  cliente,  considerar
múltiplas modalidades de comunicação e as necessidades específicas do indivíduo ou dos grupos de indivíduos
ajudará a transmitir informações úteis aos clientes.

DILEMAS DA PRÁTICA

COMUNICAÇÃO COM OS CLIENTES
Você  trabalha  em  uma  clínica  ambulatorial  com  um  cliente  de  85  anos  de  idade  que  vem  duas  vezes  por
semana para a terapia após um acidente vascular cerebral ocorrido três semanas antes. Ele apresenta afasia
e se esforça para ler, embora possa ler palavras isoladas. Ele compreende grande parte do que lhe é dito. Ele
cursou até a sexta série. Sua meta consiste em ser capaz de realizar seu autocuidado, pois o enfisema de sua
mulher está se agravando e ela precisa deixar de dar assistência a ele. Atualmente, ele está trabalhando para
vestir­se com uma só mão. Embora ele possa vestir o suéter na clínica com pistas visuais e verbais, você quer
enviar instruções para casa para lembrar o que ele pode praticar entre as sessões, quando se vestir em casa.

1. Que estratégias você poderia utilizar para tornar esta nota agradável para o cliente?
2. Desenvolva um folheto de uma página abordando como vestir uma camisa.
3. Existem outras estratégias que você poderia utilizar além do material impresso para reforçar em casa o
que ele aprendeu na clínica?

QUESTÃO INSTIGANTE
Quais  são  algumas  das  maneiras  pelas  quais  o  baixo  nível  de  escolaridade  afeta  a  capacidade  dos  clientes  de
participar de ocupações significativas?
REFERÊNCIAS
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Teoria e Prática em Terapia Ocupacional
ELIZABETH BLESEDELL CREPEAU, BARBARA A. BOYT SCHELL E ELLEN S. COHN

Sumário
Por que a Teoria é Importante?
A Teoria Modela as Práticas da Profissão
O Uso das Teorias Varia com a Experiência
O que é Teoria?
Espectro das Teorias
Estudo de Caso: Pensamento por Trás da Terapia: George Demonstra à Sra. Rivera uma
Transferência para a Banheira
Termos Utilizados para Diferentes Níveis de Teoria
Espectro de Prática e as Teorias da Profissão
Relação Entre a Teoria e a Prática
Avaliação do Conhecimento e Inquirição Reflexiva
Conclusão

Objetivos de Aprendizagem
Após a leitura deste capítulo, você será capaz de:

1. Discutir a importância da teoria na modelagem do conhecimento de campo.
2. Descrever a relação entre a teoria e a prática.
3. Discutir  como  premissas,  teoria  pessoal  e  teoria  mais  formal  modelam  o  raciocínio  clínico  dos
profissionais de terapia ocupacional.
4. Discutir como avaliar a teoria e por que isso é importante.

T
ornar­se  um  profissional  de  terapia  ocupacional  envolve  aprender  o  conhecimento,  as  habilidades  e  os
valores  de  campo.  Uma  parte  importante  desse  processo  é  a  capacidade  de  compreender  e  utilizar  o
conhecimento teórico (Parham, 1987). O conhecimento teórico ou as ideias, quando combinados à experiência
pessoal e profissional dos terapeutas, formam a base para a ação profissional. Como descrito no Capítulo 32, a
combinação  de  todos  esses  fatores  resulta  no  desenvolvimento  dos  paradigmas  profissionais  individuais  ou
modelos  mentais  que  os  profissionais  utilizam  para  nortear  suas  ações  (consulte  também  Cervero,  1988;
Griswold, 1995; Hooper, 1997, 2007; Törnebohm, 1991). O paradigma profissional de um indivíduo envolve a
integração dos seguintes elementos:
Crenças, valores e compromissos subjacentes do profissional
O conhecimento, as capacidades e as habilidades de terapia ocupacional do profissional, incluindo teorias,
avaliação e estratégias de tratamento
Os  valores  profissionais  do  terapeuta  conforme  expresso  em  um  compromisso  com  a  prática  e  com  as
pessoas que procuram seus cuidados.

Os  profissionais  aproximam­se  de  seus  paradigmas  profissionais  à  medida  que  trabalham  para  melhorar  as
capacidades  de  seus  clientes  de  participar  de  ocupações  valorizadas.  Por  meio  da  experiência,  os  paradigmas
profissionais se desenvolvem e fornecem melhores recursos para que os profissionais reflitam sobre sua atuação
e  os  problemas  encontrados  por  seus  clientes  (Griswold,  1995;  Schön,  1983;  Törnebohm,  1991).  Consulte  o
Capítulo 32 para aprender mais sobre esses processos do raciocínio clínico e como eles são desenvolvidos. Para
esta seção, é de particular interesse explorar o conhecimento teórico e por que ele é importante para a prática
efetiva da terapia ocupacional.

POR QUE A TEORIA É IMPORTANTE?
A dificuldade dos profissionais experientes de explicar suas ações com base em premissas e teorias subjacentes é
uma das questões mais confusas para os estudantes de terapia ocupacional quando iniciam o período de estágio.
Essas experiências podem levar os estudantes a imaginar por que aprender teoria é importante se os profissionais
não a utilizam em seu trabalho diário com os clientes. Na realidade, os profissionais “empregam” a teoria todo o
tempo,  eles  apenas  nem  sempre  conseguem  identificar  com  facilidade  todas  as  teorias  que  fundamentam  sua
prática. Este capítulo explica como os profissionais utilizam a teoria e por que a teoria é importante.

A Teoria Modela as Práticas da Profissão
A  teoria  é  importante  porque  faz  parte  da  base  de  conhecimento  de  campo  e  é  um  aspecto  importante  do
paradigma  profissional  de  cada  terapeuta  (Argyris  &  Schön,  1974).  No  entanto,  os  profissionais  não  decoram
necessariamente  as  fontes  do  conhecimento  que  formam  seu  paradigma  profissional.  Por  exemplo,  os
profissionais geralmente são muito éticos em sua atuação, mas poucos seriam capazes de listar todos os termos
específicos  associados  a  seu  conhecimento  ético.  Com  mais  experiência,  os  profissionais  tendem  a  integrar  o
conhecimento de modo que este se torna automático (Argyris & Schön, 1974; Schön, 1983, 1987). Pense sobre
como  os  motoristas  com  pouca  experiência  dão  atenção  à  mecânica  do  ato  de  dirigir  um  carro.  Da  mesma
maneira,  os  profissionais  tornam­se  mais  automáticos  em  sua  utilização  do  conhecimento  teórico  e  apenas
“realizam a terapia”. Assim, embora o conhecimento teórico possa estar inserido no paradigma profissional, ele
faz  parte  dos  dados  que  o  profissional  traz  para  o  encontro  terapêutico  (Rogers,  1983,  1986).  Ele  ajuda  os
profissionais a “nomearem e estruturarem” os problemas que eles enfrentam (Parham, 1987; Schön, 1983, 1987).

O Uso das Teorias Varia com a Experiência
A  teoria  pode  ser  particularmente  importante  para  os  novos  profissionais  que  têm  pouca  experiência  a  que
recorrer.  Pode  ser  compreendida  como  uma  experiência  emprestada,  uma  estrutura  de  pensamento  (Neistadt,
1998) ou uma metáfora (Parham, 1987) para auxiliar os novos profissionais em seu raciocínio profissional. Para
profissionais experientes, a teoria ajuda seus processos de reflexão à medida que eles trabalham para articular os
motivos para suas ações e avaliar a eficácia dessas ações à luz da teoria existente e das respostas de seus clientes.
A ênfase atual sobre a prática baseada em evidência no cuidado de saúde é uma tentativa de fazer com que todos
os profissionais se tornem mais sistemáticos na compreensão das fontes e da validade do conhecimento que eles
empregam  na  prática.  A  fim  de  melhorar  a  prática,  é  responsabilidade  ética  dos  profissionais  verificar  de
maneira rotineira e sistemática seus paradigmas profissionais à luz da teoria e da pesquisa emergentes.

O QUE É TEORIA?
No sentido mais amplo, uma teoria é um conjunto de ideias ou conceitos que as pessoas utilizam para nortear
suas  ações  (Morse,  1997).  Uma  teoria  reflete  uma  imagem  ou  explicação  sobre  por  que  ou  como  ocorre  um
fenômeno.  Quando  totalmente  desenvolvida,  uma  teoria  define  conceitos  e  determina  as  relações  entre  eles
(Morse, 1997), dando às pessoas instrumentos para compreender, explicar ou predizer o fenômeno (McColl et
al.,  2003).  A  teoria  em  terapia  ocupacional  está  relacionada  com  a  ocupação,  como  a  ocupação  influencia  a
saúde e o bem­estar, e de que maneira a ocupação pode ser utilizada terapeuticamente para capacitar as pessoas a
se  engajarem  nas  ocupações  que  mais  valorizam.  Os  tipos  de  teorias  variam  desde  teorias  pessoais,  que  são
compreensões particulares sobre o tema de preocupação, até teorias formais, que são publicamente articuladas,
publicadas  e  validadas  em  graus  variados  por  estudo  científico.  Por  exemplo,  uma  estudante  de  terapia
ocupacional indicou que aprendeu a suspeitar de uma causa violenta ou abusiva sempre que uma mulher vinha
até a clínica com lesões de tendão e nervo por causa de ferimentos nas palmas das mãos. Ela percebeu, enquanto
trabalhava como estagiária, que essas mulheres descreviam o uso das mãos para proteger a face quando atacadas
por abusadores com facas, apresentando assim lesões por faca nas palmas das mãos. Este seria um exemplo de
uma  teoria  pessoal,  porque  essa  estudante  realmente  nunca  conversou  a  respeito  de  suas  observações,  muito
menos pesquisou ou publicou suas impressões. No entanto, sua teoria pessoal serviu para orientar seu raciocínio
de  alguma  maneira.  Outro  estudante  poderia  pensar  ser  capaz  de  utilizar  a  informação  tanto  das  teorias
comportamentais ocupacionais como das teorias cognitivas para compreender por que uma cliente de uma casa
de  vida  assistida  não  parecia  motivada  para  se  vestir  ou  tomar  sua  medicação.  Neste  caso,  o  estudante  estaria
utilizando uma ou mais teorias formais para apoiar seu raciocínio profissional.

Espectro das Teorias
A  teoria  formal  pode  ser  considerada  em  relação  à  amplitude  ou  ao  espectro  da  teoria  à  medida  que  ela  se
relaciona  com  a  prática  profissional.  Por  exemplo,  existem  teorias  que  abordam  a  ocupação  a  partir  de  uma
perspectiva  ampla.  Essas  teorias  incluem  teorias  originadas  da  ciência  ocupacional  sobre  a  natureza  dos  seres
humanos como seres ocupacionais, o que modela o modo pelo qual os membros da profissão compreendem a
atividade humana. A informação originada da ciência ocupacional e das disciplinas associadas forma a base para
os  capítulos  da  Unidade  I.  As  teorias  ocupacionais  são  teorias  de  amplo  espectro  e  ajudam  a  traduzir  nossa
compreensão  da  natureza  ocupacional  dos  seres  humanos  (McColl  et  al.,  2003).  Os  capítulos  restantes  desta
unidade  abordam  essas  teorias.  As  teorias  com  foco  estreito  tendem  a  abordar  aspectos  mais  específicos  da
avaliação  e  do  tratamento  da  terapia  ocupacional.  Por  exemplo,  a  teoria  biomecânica  trata  da  mecânica  do
movimento corporal, como a mobilidade articular e a postura, enquanto as teorias de controle motor tratam dos
processos neuromusculares envolvidos na realização de movimentos habilidosos necessários para responder às
demandas  da  vida  diária.  As  teorias  relacionadas  às  habilidades  cognitivas,  como  as  funções  executivas  e  a
resolução de problemas, fornecem a orientação para os profissionais que atuam com pessoas com lesão cerebral
e doenças mentais crônicas. Essas teorias podem incluir estratégias testadas para ajudar as pessoas a aumentar
sua  capacidade  de  planejar  e  organizar  suas  tarefas  e  atividades  diárias.  Essas  teorias  mais  focalizadas  são
discutidas nos capítulos das Unidades XI e XII, que abordam a avaliação e o tratamento para fatores pessoais e
para o ambiente. Os profissionais têm acesso a um número crescente de teorias formais que podem ser utilizadas
para orientar sua prática. Consulte na Tabela 42.1 exemplos de teorias amplas e focalizadas utilizadas em terapia
ocupacional.

ESTUDO DE CASO: Pensamento por Trás da Terapia: George Demonstra à Sra. Rivera
uma Transferência para a Banheira

Olhe  esta  fotografia  da  Sra.  Rivera,  uma  mulher  idosa  de  descendência  hispânica  totalmente  vestida,
sentada  em  um  banco  de  banho  em  uma  banheira,  segurando  uma  ducha  manual  acima  da  cabeça.
Pessoas leigas em termos de saúde poderiam ter dificuldade em ver algum sentido nesta fotografia. Por que
uma  mulher  idosa  totalmente  vestida,  bem­arrumada,  séria,  estaria  sentada  em  um  banquinho  de  banho
segurando  uma  ducha  sobre  sua  cabeça  em  uma  banheira  totalmente  (graças  a  Deus!)  seca?  A  resposta
para nós é óbvia; ela está em tratamento de terapia ocupacional após um acidente vascular cerebral leve.
George, o terapeuta ocupacional, agiu de acordo com suas premissas e perspectivas teóricas para utilizar a
“prática”  de  tomar  banho  no  boxe  como  esta,  em  vez  de  fazer  com  que  a  Sra.  Rivera  realmente  tomasse
banho de chuveiro em seu ambiente de vida atual.

O que Você Vê?
Quais  suposições  orientaram  George,  o  terapeuta  ocupacional  da  Sra.  Rivera,  para  fazer  com  que  ela
“tomasse”  um  banho  de  chuveiro  desta  maneira?  Com  base  no  que  você  vê  na  fotografia,  você  pode
descrever as hipóteses que o profissional poderia ter levantado sobre

Autonomia, independência, interdependência?
A importância da higiene diária?
Transferência de aprendizado?
Motivação?
Valores culturais?
Prática baseada na ocupação?
Mudança terapêutica?

Quais Teorias Podem Ter Modelado o Raciocínio de George?
Quais  teorias  poderiam  ter  modelado  o  raciocínio  de  George?  Provavelmente,  existem  algumas  teorias  de
amplo espectro sobre a importância do engajamento na ocupação que fornecem orientações gerais para o
processo  de  terapia.  Um  exemplo,  neste  caso,  é  o  Modelo  da  Ocupação  Humana  (Model  of  Human
Occupation), ou o modelo de Pessoa­Ambiente­Ocupação (Person­Environment­Occupation), que direciona
o  terapeuta  para  atender  o  desejo  da  Sra.  Rivera  de  realizar  suas  atividades  de  autocuidado  em  casa.  A
Teoria da Adaptação Ocupacional poderia fornecer uma hipótese sobre a maneira pela qual a Sra. Rivera
responde, bem como sobre sua própria avaliação de quão satisfatória é provável que seja esta abordagem
para  tomar  banho.  Talvez  existam  também  algumas  outras  teorias,  obtidas  de  outras  profissões,  como
pedagogia e psicologia, que sirvam de base para as premissas sobre como as pessoas aprendem e sobre a
melhor  maneira  de  ensiná­las.  Podemos  presumir,  a  partir  desta  fotografia,  que  o  terapeuta  acredita  que
esta  experiência  de  aprender  a  utilizar  um  banco  de  banho  na  clínica  capacitará  a  Sra.  Rivera  a  usar  um
banquinho  em  casa  para  tomar  banho  com  mais  segurança.  Outras  teorias,  tanto  dentro  como  fora  da
terapia  ocupacional,  ajudam  a  informar  o  profissional  sobre  aspectos  mais  específicos  do  processo  de
terapia. Por exemplo, as teorias biomecânicas e os princípios originados das teorias cinesiológicas ajudariam
o profissional a orientar a Sra. Rivera a se posicionar com segurança quando ela se transfere para dentro e
para fora da banheira. Os mecanismos de mudança estão inseridos em todas estas teorias.

Condutas Teóricas e Mecanismos de Mudança
George, o terapeuta ocupacional, provavelmente usou diferentes perspectivas teóricas quando pediu à Sra.
Rivera  para  “tomar  um  banho  de  chuveiro”.  Ainda  que  eles  possam  não  ser  capazes  de  descrever
prontamente suas perspectivas teóricas (veja o Capítulo 32 para uma explicação do raciocínio profissional e
clínico),  os  profissionais  devem  compreender  os  mecanismos  de  mudança  inseridos  nas  perspectivas
teóricas que adotaram, de modo que as estratégias de tratamento estejam alinhadas com esta perspectiva.

O que provocou o problema da Sra. Rivera?
Selecione uma teoria ou teorias que seriam apropriadas para este problema.
Com base em sua(s) perspectiva(s) teórica(s), o que você esperaria mudar e por quê?
De onde vêm as ideias sobre a mudança?
O que a teoria ou o modelo sugere que irá provocar a mudança?
Existe evidência para fundamentar as hipóteses da teoria sobre a mudança?

Após ler as teorias nesta unidade, bem como aprender mais sobre as muitas teorias que informam sobre a
prática,  você  pode  desejar  revisar  o  caso  para  identificar  as  muitas  teorias  que  podem  fundamentar  um
tratamento de terapia ocupacional simples como ensinar alguém sobre a transferência em uma banheira.
TABELA 42.1 DEFINIÇÕES DE TERMOS COMUMENTE UTILIZADOS
Termo Definição Função Exemplos
Paradigma Um paradigma fornece uma estrutura conceitual Sustenta a Mediante o
para a compreensão do mundo. Um paradigma identidade do engajamento nas
profissional fornece uma estrutura de orientação campo ao ocupações, as
aceita para a profissão, seus valores, crenças e fornecer o foco pessoas
conhecimento. comum encontram
significado, saúde
e bem­estar.
Modelo Um modelo profissional delineia e define o Define o espectro Modelo
Profissional espectro ou a área de interesse de uma profissão. de prática Canadense de
Ele descreve as crenças gerais e o conhecimento Desempenho
da profissão. Um modelo profissional deriva do Ocupacional
paradigma da profissão.
Teoria Um termo geral que descreve uma imagem ou Organiza as Veja adiante os
fornece uma explicação sobre por que ou como observações e exemplos formais
ocorre um fenômeno e como aquele fenômeno compreensões e informais
pode ser controlado para facilitar o
uso
Teoria Explica eventos ou relações observáveis ao Explica Modelo de
Formal determinar uma série de princípios ou proposições sistematicamente, Ocupação
abstratas. Estas teorias são baseadas na pesquisa prediz ou Humana
sistemática com conceitos e explicações descreve os Ecologia do
rigorosamente definidos das relações entre estes fenômenos Desempenho
conceitos Humano
Adaptação
Ocupacional
Modelo de
Pessoa,
Ambiente,
Ocupação
Teoria Compreensão particular com base na experiência Ajuda os A teoria de
Pessoal indivíduos a um
articularem suas profissional
experiências de que as
feridas da
mão de sua
cliente eram
o resultado
da proteção
contra o
abuso físico
Estrutura As estruturas de referência orientam a prática ao Orienta uma área Controle
de delinear crenças, suposições, definições e de atuação motor
Referência conceitos dentro de uma área de atuação específica Autodefesa
específica. Uma estrutura de referência deriva de Reabilitação
uma base teórica e tem uma visão particular do Diretrizes de
continuum de função/disfunção. Uma estrutura de Prática da
referência delineia os processos de avaliação e as AOTA
estratégias de intervenção que são compatíveis
com a base teórica.

(Kielhofner, 1997; McColl et al., 2003; Morse, 1997; Mosey, 1992; Turner, 1986).

Termos Utilizados para Diferentes Níveis de Teoria
Os  leitores  também  podem  encontrar  outros  termos  relacionados  às  teorias,  como  modelos  de  prática  ou
estruturas de referência. Em geral, esses termos são utilizados para descrever o nível de desenvolvimento ou de
complexidade  de  uma  teoria,  ou  como  uma  maneira  de  diferenciar  as  diretrizes  de  prática  a  partir  da  teoria
formal (Mosey, 1992). Embora úteis do ponto de vista acadêmico, essas distinções, para fins deste capítulo, são
menos  importantes.  Exemplos  desses  termos  são  encontrados  na  Tabela  42.1.  Mais  primordial  para  os  novos
profissionais  é  a  capacidade  de  compreender  as  diferentes  finalidades  ou  os  espectros  das  principais  teorias
utilizadas na profissão, seus componentes e quão bem essas teorias foram validadas por meio de pesquisa e se
mostraram úteis na prática.

ESPECTRO DE PRÁTICA E AS TEORIAS DA PROFISSÃO
O  conhecimento  profissional  amplamente  aceito  sobre  a  terapia  ocupacional  é  frequentemente  descrito  nos
principais documentos aprovados e publicados pelas organizações profissionais, como a American Occupational
Therapy  Association  (Associação  Americana  de  Terapia  Ocupacional)  ou  a  Canadian  Occupational  Therapy
Association  (Associação  Canadense  de  Terapia  Ocupacional).  O  Modelo  Canadense  de  Desempenho
Ocupacional (Townsend, 1997) serve como um guia geral para a profissão e define seu espectro de atuação e a
experiência e o conhecimento da prática da terapia ocupacional. Fornece uma estrutura que delimita a gama de
interesses  da  profissão  e  foca  sua  atenção  naqueles  aspectos  do  funcionamento  humano  que  são  de  máximo
interesse para os profissionais de terapia ocupacional (Moyers, 1999). Esses documentos frequentemente tentam
refinar premissas, conhecimento, valores e crenças comumente aceitos por todos os profissionais (Mosey, 1981)
e evoluem para refletir a natureza mutável da atuação profissional. A base do conhecimento deriva da pesquisa e
de teorias em terapia ocupacional, ciência ocupacional e disciplinas que vão além do campo de atuação.
Embora esses documentos sejam úteis para ajudar a estruturar os interesses gerais da profissão e, como tal,
sirvam como bons pontos de partida para estudantes, eles raramente refletem a informação detalhada fornecida
em diversas teorias formais. As teorias formais explicam eventos ou relacionamentos observáveis ao determinar
uma série de proposições ou princípios abstratos. Essas teorias baseiam­se na pesquisa sistemática com conceitos
e explicações rigorosamente definidos pelas relações entre estes conceitos (Turner, 1986). As teorias formais são
compartilhadas  publicamente  em  periódicos  de  pesquisa  ou  textos.  Este  compartilhamento  público  promove  a
análise crítica de suposições teóricas, que, por sua vez, serve para refinar continuamente as teorias em resposta
às análises e pesquisas contínuas. Por exemplo, o Modelo da Ocupação Humana (Model of Human Occupation)
é  uma  teoria  ampla  do  comportamento  ocupacional  que  evoluiu  durante  trinta  anos  e  tem  sido  continuamente
revisada em resposta às críticas oriundas da prática, da pesquisa direcionada para testar aspectos da teoria e de
teorias em evolução a partir de outras áreas que vão além da terapia ocupacional (consulte o Capítulo 44 para
uma discussão de parte dessa evolução). De maneira similar, as teorias sobre processamento sensorial, cognição
etc.  (consulte  os  Capítulos  57  e  58)  foram  desenvolvidas,  revisadas  e  melhoradas  por  meio  do  processo
acadêmico.  Outras  teorias  são  mais  recentes  na  prática  e,  dessa  maneira,  tiveram  menos  tempo  para  se
desenvolver,  como  a  Teoria  da  Adaptação  Ocupacional  (Theory  of  Occupation  Adaptation).  Por  fim,  algumas
teorias não foram pesquisadas o suficiente desde que introduzidas na prática. Isso destaca a importância de os
profissionais permanecerem atentos ao desenvolvimento do conhecimento na prática.

RELAÇÃO ENTRE A TEORIA E A PRÁTICA
Teorias  formais,  informais,  pessoais,  de  processo  ou  de  conteúdo  podem  auxiliar  os  profissionais  a  raciocinar
sobre o que observar, como compreender os problemas ocupacionais confrontados pelos clientes e como intervir
para abordar determinados tipos de problemas na prática. Ao explicarem os fatores que afetam o desempenho
ocupacional de uma pessoa, muitas teorias fornecem aos profissionais um mapa para pensar sobre o mecanismo
de mudança. O termo mecanismo de mudança refere­se a como uma ação ou um conjunto de ações resulta nas
mudanças desejadas. Por exemplo, as teorias do aprendizado motor sugerem que o aprendizado motor resulta da
experiência  e  da  prática,  o  que  produz  mudanças  permanentes  no  comportamento.  As  teorias  do  aprendizado
motor também postulam que a retroalimentação verbal do profissional sobre a qualidade do movimento ajuda a
pessoa a saber se a modificação é necessária para a próxima tentativa de movimento (veja o Capítulo 55 para
uma revisão adicional da teoria da aprendizagem motora).

AVALIAÇÃO DO CONHECIMENTO E INQUIRIÇÃO REFLEXIVA
É  essencial  considerar  a  teoria  como  o  conhecimento  em  evolução.  Ela  não  é  uma  verdade  objetiva  imutável.
Como  a  teoria  envolve  evolução  do  conhecimento  –  seja  a  teoria  formal,  seja  a  teoria  pessoal  derivada  da
experiência  profissional  e  da  inquirição  reflexiva  –  esta  precisa  de  exame  e  testagem  constantes.  Isto  pode
envolver a pesquisa continuada sobre a teoria, o exame crítico da pesquisa que sustenta a teoria ou a inquirição
reflexiva descrita por Schön (1983) e resumida anteriormente no Capítulo 25, em relação à competência, e no
Capítulo 32, em relação ao raciocínio profissional. A Tabela 42.2 lista seis perguntas que os profissionais podem
fazer para orientar o processo de exame do conhecimento teórico. Essas perguntas podem ser empregadas para
promover o exame de pesquisa e teorias publicadas, bem como para nortear as reflexões do profissional sobre
situações específicas de prática.

TABELA 42.2 AVALIANDO O CONHECIMENTO TEÓRICO PARA A AÇÃO
Que teoria ou teorias estão inseridas em Qual conhecimento teórico você utiliza?
nossa prática? Quais teorias são pessoais e quais são públicas?
Qual é o foco da teoria? Quem desenvolveu a teoria?
O que ela está tentando explicar?
A que tipo de cliente ou ambiente ela se destina?
Quão  bem  ela  se  compatibiliza  com  as  necessidades  de
sua terapia?
Quanto você sabe? Em quais dados este conhecimento se baseia?
Que referência está relacionada com este conhecimento?
Qual é a relevância da literatura para suas necessidades?
Quão bem você sabe? Como o conhecimento foi desenvolvido?
Como foram coletados os dados?
Como os dados foram analisados e interpretados?
Quais foram as circunstâncias da pesquisa?
Onde  a  teoria  está  publicada?  É  um  veículo  de  alta
qualidade?
Quais eram as qualificações dos autores da teoria?
Como a sua compreensão irá modelar Até  que  ponto  esta  teoria  é  única  e  oferece  uma  nova
suas decisões práticas? maneira de considerar sua atuação?
Como a teoria aumenta sua compreensão?
Quais são suas forças e limitações?
Como esta informação confirma suas condutas atuais?
Como ela contradiz suas condutas atuais?
Quais  condutas  diferentes  você  empregaria  com  base  em
sua compreensão?
De que informações adicionais você Quais dúvidas adicionais você possui?
precisa? Quais fontes podem ajudá­lo a responder suas dúvidas?
Como você irá acessar esta informação?

Adaptada de McColl et al., 2003; Watson, 2000.

CONCLUSÃO
É  essencial  que  uma  profissão  tenha  uma  base  de  conhecimentos  fundamentada  em  teorias  bem­descritas  e
especificadas que, por sua vez, forneçam o suporte científico para a prática e testem a eficácia dos tratamentos
da terapia ocupacional.
Os capítulos subsequentes desta unidade fornecem uma introdução para as teorias baseadas na ocupação em
nossa  área  de  atuação.  Essas  teorias  são  amplas  e  formam  a  base  de  conhecimento  da  profissão,  fornecendo
importantes  constructos  do  paradigma  profissional  dos  praticantes.  As  Unidades  X  a  XII  fornecem  muitos
exemplos  de  teorias  mais  específicas  e  de  como  misturar  perspectivas  de  amplo  espectro  das  teorias
ocupacionais  com  teorias  mais  específicas  e  referências  que  orientam  a  avaliação  e  o  tratamento.  Um  dos
desafios  da  prática  profissional  é  a  necessidade  de  superar  o  hiato  entre  o  conhecimento  teórico  atual  e  o  uso
deste conhecimento pelos profissionais em seus paradigmas profissionais. Assumir uma postura reflexiva sobre a
prática ajuda os profissionais a compreenderem seu raciocínio profissional e a explorarem os suportes teóricos
deste processo.

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Modelos Ecológicos na Terapia
Ocupacional
CATANA E. BROWN

Sumário
Herança Intelectual
Definições
Pessoa
Ambiente
Ocupação/Tarefa
Desempenho Ocupacional
Estratégias de Tratamento
Premissas dos Modelos Ecológicos
Aplicação na Prática
Evidência de Suporte aos Modelos Ecológicos
Estudo de Caso: O Café Asbury
Conclusão

Objetivos de Aprendizagem
Após a leitura deste capítulo, você será capaz de:
1. Explicar  como  a  compreensão  do  ambiente  é  essencial  para  a  compreensão  do  desempenho
ocupacional.
2. Descrever  os  modelos  ecológicos  (Ecologia  do  Desempenho  Humano,  Pessoa­Ambiente­
Ocupação e Pessoa­Ambiente­Desempenho da Ocupação) e seus conceitos.
3. Descrever  e  diferenciar  as  cinco  estratégias  de  tratamento:  estabelecer/restaurar,
adaptar/modificar, alterar, prevenir e criar.

N
os  anos  1990,  três  grupos  de  terapeutas  ocupacionais,  trabalhando  de  modo  independente,  criaram  três
modelos  diferentes  que  enfatizavam  a  importância  de  se  considerar  o  ambiente  na  prática  da  terapia
ocupacional. Os três modelos, o modelo Ecologia do Desempenho Humano – Ecology of Human Performance
(EHP)  (Dunn,  Brown  &  McGuigan,  1994),  o  modelo  Pessoa,  Ambiente  e  Desempenho  Ocupacional  –  Person
Environment Occupational Perfomance (PEOP) (Christiansen & Baum, 1997) e o modelo Pessoa, Ambiente e
Ocupação  –  Person  Environment  Occupation  (PEO)  (Law  et  al.,  1996),  compartilham  muitas  semelhanças  e
poucas  diferenças.  Os  três  modelos  dinâmicos  consideram  o  desempenho  ocupacional  (tarefa)  o  resultado
primário de interesse para os terapeutas ocupacionais. Além disso, todos os modelos indicam que o desempenho
ocupacional é determinado pela pessoa, pelo ambiente (contexto) e pela ocupação (tarefa). No entanto, entre os
constructos da pessoa, do ambiente e da ocupação, aqueles que desenvolvem os modelos tiveram maior intenção
de promover o significado do ambiente. Os terapeutas ocupacionais tendem a focar­se nos fatores da pessoa e
negligenciam  a  influência  do  ambiente  sobre  o  desempenho  ocupacional.  Portanto,  modelos  ecológicos  foram
desenvolvidos  para  que,  juntamente  com  a  consideração  sobre  a  pessoa  e  a  ocupação,  a  prática  da  terapia
ocupacional incluísse avaliações e tratamentos com foco no ambiente. Quando as características da pessoa, do
ambiente e da tarefa são consideradas em conjunto, a singularidade de cada situação é avaliada como um todo.
As  diferenças  entre  os  modelos  residem  principalmente  em  definições,  componentes  e  estruturas  dos  modelos
que serão discutidos adicionalmente nas seções a seguir.

HERANÇA INTELECTUAL
Os  modelos  ecológicos  foram  construídos  sobre  a  teoria  da  ciência  social,  os  modelos  anteriores  de  terapia
ocupacional  e  sobre  o  movimento  para  a  incapacidade.  Cada  um  dos  modelos  ecológicos  fundamenta­se
fortemente  em  teorias  da  ciência  social  que  descrevem  as  interações  pessoa­ambiente.  Bronfenbrenner  (1979)
desenvolveu um modelo ecológico que explorou a influência dos fatores sociais sobre o desenvolvimento. Este
modelo considera o indivíduo no centro de um sistema que é influenciado por família, amigos, comunidades e
instituições.  Estas  interações  podem  aumentar  ou  inibir  o  desenvolvimento.  Por  exemplo,  as  mudanças  nos
sistemas econômicos tiveram uma influência importante sobre a família em relação ao número de mulheres que
trabalham. Isto, por sua vez, afeta o desenvolvimento da criança. O conceito de concessões de Gibson (1979) é
aplicado principalmente ao ambiente físico. Pessoas percebem os objetos no ambiente como tendo características
específicas que resultam em ação ou significado. As pessoas não pensam conscientemente sobre as concessões,
mas suas percepções determinam como elas interagem com os objetos. Por exemplo, a superfície plana de uma
mesa possibilita certas atividades, como fazer uma refeição ou escrever uma carta. Lawton (1986) desenvolveu o
conceito de pressão ambiental. Pressão é descrita como as demandas do ambiente. Uma boa adaptação acontece
quando  o  comportamento  adaptativo  da  pessoa  e  o  afeto  se  compatibilizam  com  a  pressão  do  ambiente;  a  má
adaptação acontece quando a pessoa não consegue atender às demandas do ambiente. Quando rampas de meio­
fio  estão  disponíveis,  a  pressão  ambiental  é  mais  adaptativa  para  um  usuário  de  cadeira  de  rodas;  no  entanto,
outros  aspectos  ambientais,  como  uma  calçada  com  maior  grau  de  inclinação  ou  neve,  podem  criar  demandas
que  impossibilitam  o  desempenho.  Csikszentmihalyi  (1990)  criou  outro  modelo  de  excelência  de  adaptação
baseado no conceito de fluxo. Uma experiência de fluxo acontece quando as habilidades e capacidades da pessoa
se compatibilizam com os desafios da atividade. Ainda mais, quando em fluxo, a pessoa está imersa na ocupação
e tão completamente absorvida que o tempo passa sem ser percebido. Os modelos EHP, PEO e PEOP também se
baseiam  na  ideia  da  excelência  da  adaptação.  O  desempenho  ocupacional  é  ótimo  quando  o  ambiente  e  as
habilidades e capacidades da pessoa se compatibilizam com as demandas da ocupação (tarefa). Uma ruptura em
qualquer área, pessoa, ambiente ou ocupação irá interferir com o desempenho.
Os  modelos  anteriores  de  terapia  ocupacional  levavam  em  consideração  o  ambiente  e  contribuíram  para  a
conceitualização  dos  modelos  EHP,  PEO  e  PEOP.  No  Modelo  de  Ocupação  Humana  (Kielhofner,  2004),  o
impacto ambiental refere­se à influência única do ambiente sobre a pessoa. Os ambientes constituem uma fonte
de oportunidades e recursos, bem como de demandas e restrições. David Nelson (1988) faz uma distinção entre
os termos desempenho ocupacional e forma ocupacional. Desempenho é a realização de uma ocupação. Forma é
o  contexto  em  que  ocorre  a  realização  e  inclui  as  circunstâncias  físicas  e  socioculturais  que  são  externas  à
pessoa. A forma ocupacional contribui para o significado e para as finalidades pessoais que o indivíduo atribui a
uma ocupação. A Adaptação Ocupacional (Schkade & Schultz, 1992) propõe que a pessoa deseja o controle e o
ambiente ocupacional demanda controle. Assim, a interação entre a pessoa e o ambiente resulta em pressão para
o controle, o que resulta em uma resposta de adaptação.
Por  fim,  os  modelos  ecológicos  em  terapia  ocupacional  foram  influenciados  por  movimentos  pelos  direitos
civis que surgiram a partir de grupos de pessoas com necessidades especiais. A prática do cuidado de saúde é
dominada  por  um  foco  sobre  o  comprometimento  da  pessoa  e  os  tratamentos  que  se  destinam  a  resolver  este
comprometimento. As pessoas com incapacidades desafiaram esta perspectiva. Pessoas do movimento de vida
independente  demonstraram  que  as  barreiras  do  ambiente  são,  em  geral,  o  maior  impedimento  para  uma  vida
satisfatória  e  bem­sucedida  (DeJong,  1979;  Shapiro,  1994).  Além  disso,  as  pessoas  com  incapacidades
psiquiátricas revelaram que o poder do estigma e a subsequente discriminação interferem na participação plena
na vida comunitária (Chamberlin, 1990; Deegan, 1993). Os movimentos de pessoas com necessidades especiais
levaram  os  direitos  civis  às  pessoas  com  necessidades  especiais  e  promoveram  a  autodeterminação  e  a
capacitação. Os modelos ecológicos incorporaram os valores dos movimentos dos deficientes. Isto se reflete na
ênfase  sobre  o  ambiente  como  uma  barreira  significativa  e  um  facilitador  do  desempenho  ocupacional,  bem
como  na  adoção  dos  princípios  da  prática  centrada  no  cliente.  Nos  modelos  ecológicos,  a  primeira  etapa  no
processo de terapia ocupacional envolve a identificação das áreas de desempenho ocupacional importantes para
o  indivíduo.  Além  disso,  o  cliente  permanece  como  o  principal  tomador  de  decisões  em  todas  as  etapas  do
processo.

DEFINIÇÕES

Pessoa
Os  modelos  EHP,  PEO  e  PEOP  apresentam  definições  similares  de  pessoa.  Uma  visão  única  e  holística  da
pessoa reconhece a mente, o corpo e o espírito. As variáveis associadas à pessoa incluem os valores e interesses,
as  habilidades  e  capacidades  e  a  experiência  de  vida.  Os  valores  e  interesses  ajudam  a  determinar  o  que  é
importante,  significativo  e  agradável  para  a  pessoa.  As  habilidades  e  capacidades  incluem  as  habilidades
cognitivas, sociais, emocionais e sensorimotoras, bem como as capacidades como leitura e saber como gerenciar
um  talão  de  cheques.  As  experiências  de  vida  formam  a  história  da  pessoa  e  a  narrativa  pessoal.  A  pessoa
influencia  e  é  influenciada  pelo  ambiente.  Por  exemplo,  a  família  e  os  amigos  da  pessoa  contribuem  para  o
desenvolvimento  de  valores  e  interesses  particulares,  e  vice­versa.  Uma  criança  pode  desenvolver  amor  pela
leitura por causa da disponibilidade de livros em casa e dos pais que leem para ela, enquanto ter uma criança em
casa  poderia  fazer  com  que  os  pais  se  preocupassem  mais  em  ter  alimentos  saudáveis  em  casa  e  em  criar  um
ambiente físico seguro.

Ambiente
O ambiente também é descrito de modo semelhante pelos três modelos. O ambiente é onde ocorre o desempenho
ocupacional  e  consiste  nos  componentes  físico,  cultural  e  social.  O  modelo  EHP  também  inclui  o  ambiente
temporal. O ambiente físico é mais tangível. Ele inclui aspectos construídos e naturais, grandes elementos, como
o  terreno  ou  os  prédios,  e  pequenos  objetos,  como  os  instrumentos.  O  ambiente  cultural  baseia­se  em
experiências compartilhadas que determinam valores, crenças e hábitos. O ambiente cultural inclui etnia, religião
e  identidade  nacional,  mas  não  se  limita  a  estas.  Por  exemplo,  os  indivíduos  também  podem  adotar  valores  e
crenças da cultura de sua família, da identidade profissional, de organizações ou clubes e de grupos de colegas.
O  ambiente  social  é  constituído  de  muitas  camadas,  entre  elas  as  relações  interpessoais  mais  próximas,  como
família e amigos. A próxima camada inclui os grupos sociais, como grupos de trabalho ou organizações sociais a
que o indivíduo pertence. O ambiente social também é constituído de grandes sistemas políticos e econômicos
que podem exercer um efeito intenso sobre a vida diária das pessoas com necessidades especiais. Esses sistemas
tomam  decisões  relacionadas  aos  direitos  das  pessoas  com  incapacidades,  à  disponibilidade  de  serviços  e  aos
benefícios financeiros, como o seguro por incapacidade da previdência social. O ambiente temporal é constituído
de fatores associados à pessoa orientados pelo tempo (estágio de desenvolvimento e estágio de vida) e à tarefa
(quando  ela  acontece,  com  que  frequência  e  há  quanto  tempo).  O  desempenho  ocupacional  não  pode  ser
compreendido fora do contexto ou do ambiente. O ambiente pode criar barreiras para o desempenho ou melhorar
o  desempenho  ocupacional.  Por  exemplo,  um  mercado  bem­organizado  e  familiar  que  forneça  alimentos
culturalmente  familiares  e  compatíveis  com  os  gostos  da  pessoa  poderia  ser  descrito  como  um  ambiente
adaptativo.  O  mercado  também  pode  ser  uma  barreira  se  a  pessoa  fica  confusa  com  as  muitas  opções,  não
consegue encontrar os produtos que está procurando e se torna ansiosa com as muitas pessoas a seu redor.

Ocupação/Tarefa
A  maior  diferença  entre  os  três  modelos  é  encontrada  nos  conceitos  relacionados  às  ocupações  ou  tarefas.  Os
modelos  PEO  e  PEOP  utilizam  o  termo  ocupação,  enquanto  o  modelo  EHP  utiliza  o  termo  tarefa.  Os
idealizadores do EHP escolheram intencionalmente o termo tarefa  porque  uma  finalidade  primária  do  modelo
era  a  de  facilitar  a  colaboração  interdisciplinar.  Percebeu­se  que  o  termo  tarefa  seria  mais  acessível  às  outras
disciplinas. As tarefas são definidas como representações objetivas de todas as atividades possíveis disponíveis
no universo. Embora isto não fosse expresso de maneira explícita nas descrições iniciais do EHP, as ocupações
existem  quando  a  pessoa  e  os  fatores  do  contexto  se  unem  para  dar  significado  às  tarefas  (Dunn,  McClain,
Brown  &  Youngstrom,  2003).  Os  modelos  PEO  e  PEOP  descrevem  uma  série  de  conceitos  a  respeito  do  que
constituem as ocupações. No PEO, as atividades são as unidades básicas das tarefas. As tarefas são atividades
propositadas,  e  as  ocupações  são  tarefas  autodirecionadas  de  que  uma  pessoa  participa  durante  toda  a  vida.  O
modelo PEOP envolve ações que são comportamentos observáveis; tarefas que são combinações das ações com
uma  finalidade  comum;  e  ocupações  que  são  buscas  significativas  direcionadas  para  a  meta,  que  se  estendem
comumente  ao  longo  do  tempo.  Por  exemplo,  picar  vegetais  poderia  ser  a  atividade  ou  o  comportamento
aceitável, inserido na tarefa de preparar a sopa, que se situa sob a ocupação maior de cozinhar o jantar para a
família. Veja a Tabela 43.1 para uma comparação entre as definições dos modelos ecológicos.

Desempenho Ocupacional
O  desempenho  ocupacional  é  o  resultado  associado  à  confluência  dos  fatores  da  pessoa,  do  ambiente  e  da
ocupação.  Até  que  ponto  é  possível  o  desempenho  ocupacional  depende  da  excelência  da  adaptação  desses
fatores. As estruturas dos modelos são demonstradas de maneira ligeiramente diferente. No modelo PEO, utiliza­
se um diagrama de Venn para ilustrar a associação entre pessoa, ambiente e variáveis da ocupação (Fig. 43.1). O
espaço em que os três círculos se sobrepõem constitui o desempenho ocupacional. O PEOP é semelhante, mas,
em vez de três círculos, existem quatro (Fig. 43.2). A pessoa e o ambiente se tocam, mas não se sobrepõem. A
ocupação e o desempenho são dois círculos separados que se sobrepõem à pessoa e ao ambiente. Estes círculos
se  unem  para  formar  o  desempenho  e  a  participação  ocupacional.  No  modelo  EHP,  a  pessoa  está  inserida  no
contexto, com as tarefas ao redor (Figura 43.3). A faixa de desempenho inclui as tarefas que estão disponíveis
para  a  pessoa  em  função  dos  suportes  ambientais  existentes  e  de  suas  próprias  habilidades,  capacidades  e
experiências.  Em  todos  os  modelos,  a  faixa  de  desempenho  ou  a  área  de  desempenho  ocupacional  está  em
constante mutação, à medida que se alteram outras variáveis. A área do desempenho ocupacional aumenta ou a
faixa  de  desempenho  se  expande  quando  a  pessoa  adquire  novas  habilidades.  Da  mesma  maneira,  a  expansão
acontece quando o estigma diminui, as barreiras físicas são removidas, suportes sociais adicionais são adquiridos
ou os horários são acomodados. Infelizmente, muitas pessoas com incapacidades frequentemente se confrontam
com capacidades pessoais limitadas e múltiplas barreiras ambientais. O papel do terapeuta ocupacional é mudar
esta dinâmica, de modo que mais ocupações estejam disponíveis para a pessoa.

TABELA 43.1 DEFINIÇÕES DAS TAREFAS, ATIVIDADES E OCUPAÇÕES UTILIZADAS POR MODELOS
ECOLÓGICOS
PEO PEOP EHP Exemplo
Atividade Comportamento Unidades básicas Tarefas e atividades não são Picar
reconhecível e das tarefas diferenciadas. As tarefas são vegetais
observável um conjunto objetivo de
comportamentos necessários
para atingir uma meta
Tarefa Atividades Combinações de Preparar
propositadas ações com um uma
reconhecidas propósito comum refeição
pelo executor da
tarefa
Ocupação Tarefas Buscas significativas Tarefas que adquirem significado Fazer o
autodirecionadas direcionadas para por meio da interação pessoa­ jantar
que uma pessoa a meta que se ambiente para a
executa ao longo estendem ao família
da vida longo do tempo

Estratégias de Tratamento
Os  termos  adicionais  incluídos  no  modelo  EHP  consistem  em  cinco  estratégias  diferentes  de  tratamento:  (1)
estabelecer/restaurar,  (2)  adaptar/modificar,  (3)  modificar,  (4)  prevenir  e  (5)  criar.  Estes  tratamentos  foram
descritos detalhadamente, de modo que os terapeutas ocupacionais pudessem considerar uma grande variedade
de  opções.  Em  especial,  a  identificação  das  opções  de  tratamento  destinava­se  a  incentivar  os  terapeutas
ocupacionais a utilizarem mais tratamentos direcionados ao ambiente.
Fig. 43.1 Modelo Pessoa­Ambiente­Ocupação. (Reimpressa com permissão de Law et al., 1996.)

Técnicas para estabelecer/restaurar direcionam a pessoa e visam desenvolver e melhorar as habilidades e
capacidades, de modo que a pessoa possa realizar as tarefas (ocupações) dentro do contexto. Aumentar a
amplitude de movimento para que um indivíduo possa controlar melhor as tarefas de autocuidado e ensinar
alguém  a  utilizar  um  forno  de  micro­ondas  para  a  preparação  de  uma  refeição  envolvem  estratégias  para
estabelecer/restaurar.
Técnicas  para  adaptar/modificar  alteram  o  ambiente  ou  a  tarefa  para  aumentar  a  capacidade  de
desempenho do indivíduo. O uso de dispositivos de assistência, como um carro com a direção adaptada ou
uma  colher  com  cabo  adaptado  para  a  alimentação,  é  uma  técnica  que  modifica  o  ambiente  típico.  As
alterações  nos  ambientes  físicos  são  mais  comuns  em  terapia  ocupacional;  no  entanto,  é  importante
considerar  as  técnicas  que  também  se  direcionam  para  o  ambiente  social  e  cultural.  As  estratégias  para
adaptar/modificar podem incluir o fornecimento de orientação sobre necessidades especiais para estudantes
na sala de aula do curso elementar, de modo que a criança com necessidades especiais venha a ser aceita.
Isto  constitui  uma  estratégia  para  adaptar/modificar,  porque  o  ambiente  social  está  sendo  modificado.
Outras técnicas para adaptar/modificar poderiam incluir o fornecimento de suporte social para alguém que
tem medo de andar de ônibus ou mudar o horário para alguém com problemas de resistência de modo que
as tarefas fisicamente exigentes sejam distribuídas ao longo do dia.

Fig. 43.2 Modelo Pessoa­Ambiente­Desempenho Ocupacional. (Reimpressa com permissão de Christiansen,
Baum & Bass­Haugen, 2005.)
Técnicas para alterar não modificam a pessoa, a tarefa ou o ambiente, mas se destinam a produzir melhor
adequação.  Os  terapeutas  ocupacionais  podem  relutar  em  considerar  as  técnicas  para  alterar  porque  não
parece que eles estejam “fazendo” alguma coisa. No entanto, as técnicas para alterar podem estar entre as
mais efetivas porque tiram vantagem do que já está ocorrendo naturalmente. A boa adequação exige que o
terapeuta ocupacional tenha habilidade para a análise da atividade e para a avaliação ambiental. Mudar de
uma casa de dois andares com escada para uma casa colonial seria uma técnica de alteração para alguém
com resistência limitada. Ajudar um indivíduo a encontrar um clube ou organização para se unir com base
em seus valores e crenças também utilizaria as estratégias de alteração. Adequar as habilidades da pessoa a
um emprego é outro exemplo de uma técnica de alteração.
Técnicas de prevenção são implantadas para modificar o curso dos eventos quando se prediz um resultado
negativo.  A  prevenção  pode  usar  técnicas  que  modificam  a  pessoa  (estabelecer/restaurar)  ou  o  ambiente
(adaptar/modificar),  ou  que  promovem  melhor  adaptação  (alterar),  mas  antes  do  desenvolvimento  do
problema.  Ensinar  aos  pacientes  de  risco  as  habilidades  de  facilitação  da  atividade  apropriada  para  o
desenvolvimento  é  um  exemplo  de  estratégia  de  prevenção,  assim  como  utilizar  um  assento  especial  em
uma cadeira de rodas para evitar a úlcera de decúbito.

Fig. 43.3 Modelo de Ecologia do Desempenho Humano. (Reimpressa com permissão de Dunn et al., 2003.)

Técnicas de criação não supõem que um problema ocorreu ou irá acontecer, mas se destinam a promover o
desempenho  no  contexto.  Como  as  estratégias  de  prevenção,  as  técnicas  de  criação  podem  utilizar
abordagens  de  estabelecer/restaurar,  adaptar  ou  alterar.  Estabelecer  um  espaço  de  estudo  em  uma  área
tranquila com iluminação adequada é uma estratégia de criação. Estabelecer um bom entrosamento com o
colega de quarto é outra estratégia de criação, assim como praticar as habilidades de entrevista antes de ir a
uma entrevista real de emprego.

PREMISSAS DOS MODELOS ECOLÓGICOS
As relações entre pessoas, ambientes e ocupações são dinâmicas e únicas. Elas interagem continuamente e
ao  longo  do  tempo  e  do  espaço.  Assim,  os  terapeutas  ocupacionais  devem  abordar  sempre  cada  situação
como mutável e distinta.
O ambiente é um importante fator na predição do desempenho ocupacional bem­sucedido e satisfatório. Os
ambientes  podem  facilitar  ou  inibir  o  desempenho  ocupacional.  Todos  os  aspectos  do  ambiente  (físicos,
sociais,  culturais  e  temporais)  devem  ser  avaliados  para  a  determinação  das  influências  ambientais
relevantes.
Em  vez  do  uso  exclusivo  de  técnicas  que  modificam  a  pessoa,  com  frequência  é  mais  eficiente  e  efetivo
modificar o ambiente ou fazer a adequação pessoa­ambiente.
O  desempenho  ocupacional  é  determinado  pela  confluência  dos  fatores  da  pessoa,  do  ambiente  e  da
ocupação.  Pessoas,  ambientes  e  ocupações  estão  em  constante  mudança,  e  à  medida  que  esses  fatores
mudam, o mesmo acontece com o desempenho ocupacional.
A prática da terapia ocupacional começa por identificar que ocupações a pessoa deseja ou precisa realizar.
Por  meio  de  uma  abordagem  investigativa,  a  área  de  desempenho  ocupacional  desejada  é  identificada
primeiramente  pelo  cliente  ou  pela  família,  o  que  é  seguido  por  uma  avaliação  das  barreiras  e  dos
facilitadores da pessoa, do ambiente e da ocupação que afetam o desempenho ocupacional.
A  prática  da  terapia  ocupacional  envolve  a  promoção  da  autodeterminação  e  a  inclusão  das  pessoas  com
necessidades especiais em todos os ambientes. A pessoa ou o sistema que recebe o serviço são os principais
tomadores  de  decisão  no  processo  de  terapia  ocupacional.  Os  terapeutas  ocupacionais  agem  como
defensores de pessoas com incapacidades e devem apoiar seus clientes na autodefesa.

APLICAÇÃO NA PRÁTICA
Os  modelos  ecológicos  fornecem  uma  estrutura  para  reflexão  sobre  a  prática  da  terapia  ocupacional,  mas  não
estabelecem  técnicas  ou  avaliações  específicas.  O  uso  de  um  modelo  ecológico  exige  esforço  intencional  por
parte do terapeuta ocupacional para considerar o ambiente de maneira tão ampla quanto ele considera a pessoa.
A valorização dos modelos ecológicos consiste na prática baseada na abordagem centrada no cliente. A pessoa e
o terapeuta ocupacional colaboram durante todos os estágios do processo da terapia ocupacional, e o processo
começa  com  a  identificação  do  que  a  pessoa  quer  ou  deseja  fazer  em  sua  vida  (veja  o  Boxe  43.1).  Assim,  é
estabelecido um cenário em que a avaliação e o tratamento não são direcionados pelo terapeuta, mas estruturados
em  relação  ao  que  é  mais  importante  para  a  pessoa.  A  pessoa  não  é  vista  isoladamente,  pelo  contrário,  é
considerada em relação ao ambiente em que acontece o desempenho ocupacional. As inter­relações dinâmicas
entre  pessoa,  ambiente  e  ocupação  levam  o  terapeuta  a  avaliar  a  singularidade  de  cada  situação.  Isto  significa
que a prática não é um protocolo rígido aplicado a todas as pessoas com o mesmo diagnóstico, mas um processo
colaborativo de avaliação e tratamento, pensado e ponderado.
Quando  a  pessoa  identifica  a(s)  área(s)  relevante(s)  do  desempenho  ocupacional,  o  processo  de  avaliação  é
direcionado  para  determinar  quais  aspectos  da  pessoa,  do  ambiente  e  da  ocupação  apoiam  e  interferem  no
desempenho  ocupacional.  Por  conseguinte,  a  avaliação  da  terapia  ocupacional  deve  ser  abrangente  e  incluir
medidas  que  considerem  a  pessoa,  o  ambiente  e  a  ocupação.  Os  terapeutas  ocupacionais  estão  mais
familiarizados  com  as  medidas  dos  fatores  pessoais  e  habilitados  para  uma  análise  complexa  da  tarefa.  A
avaliação ambiental é uma área que recebeu menos atenção, embora existam vários bons recursos que descrevem
inúmeras medidas ambientais (Cooper, Letts, Rigby, Stewart & Strong, 2001; Letts et al., 1994; Letts, Rigby &
Stewart,  2003).  Os  terapeutas  ocupacionais  devem  escolher  avaliações  que  examinem  o  ambiente  no  qual
acontece  a  ocupação  escolhida.  Eles  também  devem  fazer  uma  observação  cuidadosa  do  ambiente  relevante.
Observar  a  pessoa  realizando  a  ocupação  no  ambiente  natural  é  uma  estratégia  de  avaliação  poderosa  e
informativa. Os terapeutas precisarão selecionar modelos de prática mais específicos para orientar a seleção das
avaliações e, mais adiante, o programa de tratamento. Os modelos ecológicos servem como uma orientação geral
para  a  prática,  mas  não  fornecem  orientações  específicas  ou  teorias  sobre  técnicas  de  avaliação  ou  tratamento
específicas.  No  entanto,  a  seleção  de  modelos  de  prática  deve  ser  condizente  com  os  valores  dos  modelos
ecológicos. Na maioria dos casos, isso significa que os modelos de prática utilizados para orientar a avaliação e
o  tratamento  não  podem  estar  limitados  à  pessoa  e  aos  fatores  ocupacionais,  e  muitos  também  abordam  o
ambiente.  A  natureza  dinâmica  dos  modelos  ecológicos  indica  que  as  situações  estão  se  modificando
constantemente. Levar em consideração essa mudança significa que devem ocorrer reavaliações frequentes.

QUESTÕES CLÍNICAS RELACIONADAS AOS CONSTRUCTOS DOS MODELOS
ECOLÓGICOS

Pessoa
Habilidades (cognitivas, sociais, psicológicas, sensoriais, motoras)
Quais são as forças inerentes à pessoa?
Quais são as áreas potenciais de comprometimento cognitivo, social ou sensorimotor?
 
Habilidades de vida
Quais habilidades de vida a pessoa aprendeu e quais habilidades a pessoa não aprendeu?
Quais habilidades de vida a pessoa dominou e quais habilidades são problemáticas?
 
Interesses
O que a pessoa gosta de fazer?
 
Experiências
Quais são as experiências de vida que contribuem ou interferem no desempenho ocupacional?
Quais são os principais eventos de vida para a pessoa?
Quais são os temas na história de vida da pessoa?

Ambiente/Contexto
Cultura
Quais são os grupos culturais com os quais a pessoa se identifica?
Quais são os valores que a pessoa adota a partir desses grupos culturais?
As crenças e as expectativas desses grupos culturais são aceitas pela pessoa?
 
Social
Os amigos e a família estão disponíveis para proporcionar apoio?
Os provedores estão envolvidos?
Como a política pública influencia a capacidade da pessoa de se engajar em tarefas ou ocupações?
 
Físicos
O ambiente construído ou o ambiente natural cria barreiras para o desempenho?
A pessoa tem acesso aos objetos que facilitam o desempenho?
 
Temporal
A  pessoa  é  capaz  de  se  engajar  em  ocupações  que  são  compatíveis  com  as  fases  de  vida  ou  de
desenvolvimento da pessoa?
A  pessoa  tem  muito  tempo  ou  não  tem  tempo  suficiente  para  realizar  as  tarefas  ou  ocupações
importantes?

Ocupação/Tarefas
O que a pessoa quer ou precisa fazer?
Quais ocupações ou tarefas se unem para criar pa péis ou identificar a pessoa?
Quais ocupações ou tarefas conferem significado à vida da pessoa?

Desempenho/Faixa de Desempenho
Quais tarefas ou ocupações estão dentro ou fora da faixa de desempenho?
Existem  fatores  relacionados  à  pessoa,  ao  ambiente/contexto  ou  à  ocupação  que  interferem  no
desempenho?

Intervenção terapêutica
Qual abordagem de tratamento seria mais eficiente ou tem os resultados mais desejáveis?
Existe evidência para fundamentar a abordagem de tratamento?
Qual abordagem de tratamento o cliente deseja?

As cinco opções de tratamento propostas pelo modelo EHP exigem que os terapeutas ocupacionais utilizem
uma ampla gama de abordagens de tratamento. O tratamento pode tomar muitas direções, e as técnicas voltadas
para o ambiente devem ser sempre consideradas uma opção. Ademais, a prática da terapia ocupacional não se
limita aos problemas existentes, mas inclui o estímulo ao desempenho ocupacional e a prevenção dos problemas
de desempenho ocupacional. A associação de modelos ecológicos com os direitos decorrentes da incapacidade
significa  que  os  terapeutas  ocupacionais  também  devem  ser  envolvidos  no  nível  dos  sistemas,  sustentando  a
política que promove a participação plena em todos os aspectos da vida na comunidade.

EVIDÊNCIA DE SUPORTE AOS MODELOS ECOLÓGICOS
Estudos indicam que a relação entre o ambiente e o desempenho ocupacional fornece suporte para os modelos
ecológicos.  Os  terapeutas  ocupacionais  vêm  realizando  cada  vez  mais  pesquisas  nessa  área.  Por  exemplo,
crianças com incapacidades e suas famílias identificaram barreiras físicas, sociais, culturais e institucionais como
limitadores  da  transição  para  a  vida  adulta  (Law  et al.,  1999).  Em  um  estudo  sobre  independência  e  emprego
para  pessoas  com  AIDS,  os  fatores  ambientais  representaram  barreiras  significativas  para  o  desempenho
ocupacional  (Paul­Ward,  Kielhofner,  Braveman  &  Levin,  2005).  Uma  das  principais  barreiras  para  a  vida
independente  foi  a  falta  de  moradia  para  pessoas  de  baixa  renda.  As  barreiras  para  o  emprego  incluíram
procedimentos relacionados aos benefícios da previdência social e o estigma por parte dos empregadores. Um
estudo qualitativo sobre o ambiente domiciliar para pessoas com incapacidades físicas descobriu que o suporte
social  era  um  importante  fator  para  a  superação  de  obstáculos  e  da  inacessibilidade  na  casa  (Lund  &  Nygard,
2004). O uso do tempo foi afetado pela disponibilidade do suporte de outros, e estes indivíduos frequentemente
passam  muito  tempo  esperando  pelos  outros  antes  que  possam  participar  da  ocupação  desejada.  Outro  estudo
mostrou  que  a  residência  pode  apresentar  barreiras  ambientais  físicas  para  pessoas  com  acidente  vascular
cerebral (Reid, 2004). Em sua maioria, os pacientes com acidente vascular cerebral foram capazes de se engajar
nas  ocupações  desejadas;  no  entanto,  era  difícil  passar  pelos  vãos  das  portas  e  subir  e  descer  escadas.  O  piso
irregular fora de casa também foi um problema.

ESTUDO DE CASO: O Café Asbury

O  Café  Asbury  é  um  programa  de  emprego  desenvolvido  pela  autora.  O  Café  Asbury  funciona  todas  as
quartas­feiras  à  noite  em  uma  igreja  local.  Cinco  pessoas  com  doença  mental  grave  são  funcionárias  do
café.  Uma  refeição  é  servida  a  custo  razoável  aos  membros  da  igreja,  vizinhos  e  amigos.  Um  terapeuta
ocupacional  supervisiona  o  funcionamento  do  café,  assistido  por  voluntários  e  estudantes  universitários.  É
um exemplo de um programa que utiliza os princípios dos modelos ecológicos para promover o desempenho
no trabalho de pessoas com comprometimentos psiquiátricos. No entanto, este é apenas um dos objetivos
do  programa,  que,  em  maior  escala,  aspira  à  modificação  do  ambiente  social  e  cultural  para  redução  do
estigma  associado  à  doença  mental  grave.  Pessoas  com  doença  mental  grave  são  frequentemente
mostradas  na  mídia  como  perigosas,  estranhas  e  necessitando  de  cuidado  e  proteção.  Embora  a  doença
mental grave seja comum, muitas pessoas não revelam seu diagnóstico por causa do estigma associado. O
Café Asbury propicia uma oportunidade de reunião e interação de pessoas com e sem doença mental em
um ambiente positivo (Fig. 43.4)
O  primeiro  objetivo  do  programa  é  dar  emprego  às  pessoas  com  comprometimento  psiquiátrico.  As
pessoas  encaminhadas  pela  equipe  vocacional  para  este  local  de  trabalho  são,  em  geral,  indivíduos  que
apresentam  menos  experiência  de  trabalho,  exibem  uma  sintomatologia  mais  evidente  e  precisam  de
adaptações mais amplas para o ambiente de trabalho. Não se realiza nenhuma avaliação formal; no entanto,
a observação cuidadosa e a análise da tarefa são utilizadas para compatibilizar os empregados às tarefas e
para promover as adaptações da tarefa e do ambiente.
ÁREA­ALVO DO DESEMPENHO OCUPACIONAL: TRABALHO
Componentes do Modelo Ecológico Técnicas
Fatores Pessoais
Os indivíduos com doença mental grave Estabelecer/restaurar: Fornecer instruções simples com demonstração,
frequentemente apresentam modelos e retroalimentação frequente.
comprometimentos cognitivos que Alterar: Compatibilizar o trabalhador com a tarefa do café que melhor
lentificam o processamento da atenda aos interesses e às capacidades da pessoa.
informação e interferem com o Adaptar: Parear os trabalhadores de modo que um com habilidades mais
aprendizado das tarefas do emprego. fortes possa modelar, ajustar o foco e fornecer retroalimentação para o
trabalhador com as habilidades em desenvolvimento.
Sintomas psiquiátricos como ansiedade Estabelecer/restaurar: Ensinar ao trabalhador estratégias individuais para
e alucinações auditivas podem tornar usá­las quando se sentir ansioso (p. ex., respiração profunda) ou
mais desafiador o foco nas tarefas do experimentar alucinações (p. ex., conversar alto com os outros).
trabalho. Adaptar: Promover pausas frequentes, estabelecer um ambiente de
aceitação e suporte, utilizar o ambiente para criar distrações por causa
de alucinações ou preocupações.
Fatores Ambientais
Menos oportunidades de emprego estão Adaptar: O programa do Café Asbury como um todo é uma estratégia de
disponíveis para empregados do café adaptação. Os supervisores e os voluntários têm experiência em
nas vizinhanças onde eles vivem, e os serviços de saúde mental. Os empregados do café são pessoas que
locais de trabalho comuns não precisam de suporte maior para o desempenho bem­sucedido no
oferecem o horário limitado trabalho.
necessário e desejado pelos
empregados atuais.
Os funcionários do café não têm carros, Adaptar: Embora isto não seja ideal, o centro de saúde mental fornece o
e nenhum transporte público está transporte.
disponível no local do trabalho.
Ocupação
A principal ocupação é trabalhar na área Adaptar: As tarefas são frequentemente adaptadas de modo que existam
da preparação das refeições, servindo menos etapas, ou uma tarefa é feita por duas ou três pessoas, de
e limpando. Cada tarefa contém modo que a tarefa total não seja muito difícil para um indivíduo.
muitos subcomponentes. Alterar: Com o passar do tempo, a melhor compatibilização se torna
conhecida, e os trabalhadores assumem a responsabilidade por suas
tarefas. Eles são capazes de realizar estas tarefas sem assistência ou
supervisão.
Fatores Pessoais
Muitos frequentadores do café têm Alterar: Funcionários com doença mental são designados para tarefas de
contato limitado com pessoas com trabalho em que tenham a oportunidade de interagir diretamente com
doença mental grave. os frequentadores do café (receber pagamento, servir refeições). Os
funcionários com doença mental também são designados para tarefas
de trabalho que exijam contato frequente com a equipe da igreja. Isto
propicia a oportunidade de desenvolver relações de trabalho reais.
Fatores Ambientais
Nossa cultura tende a retratar as Estabelecer/restaurar: As oportunidades educacionais são fornecidas por
pessoas com doença mental grave meio da igreja na forma de conferências, artigos de notícias e
como perigosas, imprevisíveis e com apresentações de frequentadores do centro de saúde mental para
necessidade de proteção. Ainda fornecer informações exatas aos potenciais frequentadores do café
assim, a igreja é um ambiente aberto sobre a doença mental grave.
para aceitar diferentes pessoas e Adaptar: O diretor do programa e os voluntários criaram um ambiente que
receber bem o programa. modela as interações positivas com pessoas com doença mental grave
(p. ex., evitar discriminar aqueles que têm daqueles que não têm
doença mental; além do trabalho um com o outro, também se
socializam juntos durante as pausas)
Ocupação
Comer em grupo Alterar: O Café Asbury proporciona uma oportunidade natural para que as
pessoas se socializem em um ambiente natural. Os funcionários do
café, o supervisor e os voluntários comem juntos ao mesmo tempo que
os frequentadores, de modo que existam mais momentos para
interação.

A segunda finalidade do Café Asbury é reduzir o estigma associado à doença mental grave por meio da
promoção de interações sociais positivas entre pessoas com e sem doença mental.
O  Café  Asbury  demonstra  como  a  terapia  ocupacional  pode  ter  impacto  fora  do  ambiente  tradicional  de
atendimento.  O  café  está  de  acordo  com  os  valores  dos  modelos  ecológicos  que  enfatizam  a  prática
centrada  no  cliente  e  a  participação  plena  na  vida  da  comunidade.  O  programa  melhora  o  desempenho
ocupacional nas áreas de trabalho e interação social ao utilizar técnicas voltadas para a pessoa, o ambiente
e  a  ocupação.  O  próprio  programa  destina­se  a  mudar  a  estigmatização  do  ambiente  social  e  cultural
atualmente tão arraigada com relação às pessoas com doença mental grave.

Fig. 43.4 Jess e Janet no Café Asbury. (Cortesia de C. Brown.)

Existem  diversos  exemplos  de  pesquisa  que  apoiam  a  eficácia  dos  tratamentos  de  terapia  ocupacional  com
base  ecológica.  Alguns  desses  tratamentos  foram  intencionalmente  idealizados  com  o  uso  dos  modelos
ecológicos, enquanto outros utilizam o ambiente na abordagem de tratamento. Brown, Rempfer e Hamera (2002)
utilizaram o modelo ecológico do desempenho humano como a estrutura conceitual para desenvolvimento de um
tratamento  que  permitisse  que  pessoas  com  esquizofrenia  fizessem  compras  no  mercado.  No  tratamento,  os
participantes aprendiam estratégias para utilizar melhor os aspectos ambientais de ocorrência natural no mercado
(p. ex., cartazes pendurados, produtos genéricos). A intervenção foi efetiva em melhorar a exatidão e a eficiência
da compra no mercado. O modelo PEO foi utilizado para o desenvolvimento de um programa de orientação por
colegas para adolescentes e adultos jovens com incapacidades físicas (Stewart, 2003). O suporte de colegas no
programa de supervisão resultou em maior exploração de si próprio e do ambiente. Isso incluiu um maior desejo
de  experimentar  coisas  novas,  socializar  com  os  outros  e  sair  na  comunidade.  O  Programa  de  Construção  de
Habilidade  Ambiental  (ESP)  (Corcoran  et  al.,  2002),  baseado  na  teoria  da  pressão  ambiental,  incorpora
estratégias  ambientais  para  promover  o  comportamento  adaptativo  de  indivíduos  com  demência.  No  ESP,  o
terapeuta trabalha com um cuidador para adaptar o ambiente domiciliar e ensinar as estratégias de interação. Em
um estudo controlado randomizado, os cuidadores que receberam a orientação ficavam menos perturbados com
os comportamentos destrutivos, apresentavam maior afeto e melhor bem­estar geral (Gitlin et al., 2003). Outro
estudo considerou o ambiente social um fator no desenvolvimento da habilidade de lazer (Tanta, Deitz, White &
Billingsley,  2005).  Utilizando  o  modelo  de  tarefa  única,  crianças  em  idade  pré­escolar  com  atraso  das
habilidades de lazer foram pareadas com crianças que apresentavam desenvolvimento menor das habilidades de
lazer  e  com  um  colega  com  desenvolvimento  maior  das  habilidades  de  lazer.  As  crianças  com  atraso  das
habilidades de lazer eram mais prováveis de iniciar a brincadeira e responder ao colega, quando pareadas com a
criança com habilidades de lazer mais desenvolvidas.
Esta  crescente  massa  de  pesquisa  fornece  suporte  para  o  impacto  do  ambiente  sobre  o  desempenho
ocupacional.  Em  especial,  a  pesquisa  propicia  informações  sobre  quais  fatores  ambientais  específicos  são  os
mais  importantes  para  um  desempenho  ocupacional  específico  para  um  determinado  grupo  de  pessoas,
enfatizando novamente a singularidade de cada situação. Por conseguinte, à medida que a pesquisa fornece aos
terapeutas  ocupacionais  informações  mais  específicas  sobre  os  ambientes,  os  terapeutas  ocupacionais  podem
planejar tratamentos mais relevantes.

CONCLUSÃO
A prática da terapia ocupacional é voltada para a promoção do desempenho ocupacional. Os modelos ecológicos
oferecem  uma  estrutura  para  compreensão  da  multiplicidade  de  fatores  que  devem  ser  considerados  para
avaliação e fornecimento de tratamento de modo a estimular o desempenho ocupacional. Esses modelos exigem
que o terapeuta ocupacional se utilize de uma abordagem centrada no cliente e considere sempre a importância
do ambiente no processo de terapia ocupacional.

QUESTÕES INSTIGANTES
1. Quais  são  os  exemplos  adicionais  de  técnicas  que  um  terapeuta  ocupacional  pode  aplicar  para  ajudar  a
fundamentar  as  metas  do  Café  Asbury?  As  técnicas  que  você  selecionou  visam  mais  frequentemente  às
alterações na pessoa, às alterações no ambiente ou à compatibilização pessoa­ambiente?
2. Você pode pensar nas maneiras pelas quais o Café Asbury poderia interferir em suas metas? Por exemplo, o
Café Asbury poderia interferir nas futuras metas de emprego de seus funcionários? O Café Asbury poderia
reforçar os preconceitos existentes?
3. Quais  são  os  aspectos  desta  intervenção  que  demonstram  as  forças  da  utilização  de  uma  abordagem
ecológica?
4. Se você quisesse reproduzir o Café Asbury em sua comunidade, quais concessões e barreiras você precisaria
considerar. Como você utilizaria as concessões? Como você abordaria as barreiras?
5. Utilizando  o  Café  Asbury  como  modelo,  aplique  o  modelo  ecológico  de  desempenho  humano  para
descrever outra intervenção que abordaria as necessidades dos clientes com doença mental e visaria reduzir
o estigma em sua comunidade.

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O Modelo de Ocupação Humana
GARY KIELHOFNER, KIRSTY FORSYTH, JESSICA M. KRAMER, JANE MELTON E EMMA
DOBSON

Sumário
Introdução
O Foco do Modelo de Ocupação Humana
Conceitos do Modelo de Ocupação Humana
Conceitos do MOHO Relacionados à Pessoa
Conceitos do MOHO Relacionados ao Ambiente
Dimensões do Fazer
Identidade, Competência e Adaptação Ocupacional
O Processo de Mudança e Terapia
Uso do MOHO na Prática: As Seis Etapas do Raciocínio Terapêutico
Formulação de Perguntas
Obtenção de Informações
Criação da Compreensão do Cliente com Base na Teoria
Estabelecimento de Metas e Estratégias de Terapia
Execução e Monitoramento do Tratamento
Coleta de Informações para Avaliação de Resultados
Estudos de Caso
Conclusão

Objetivos de Aprendizagem
Após a leitura deste capítulo, você será capaz de:
1. Descrever os principais fatores pessoais abordados pelo Modelo de Ocupação Humana e como
cada conceito afeta a vida ocupacional.
2. Descrever  os  principais  fatores  ambientais  abordados  pelo  Modelo  de  Ocupação  Humana  e
como cada conceito afeta a vida ocupacional.
3. Identificar os três níveis utilizados pelo Modelo de Ocupação Humana para descrever e examinar
o que uma pessoa faz.
4. Descrever as seis etapas do raciocínio terapêutico no Modelo de Ocupação Humana.
5. Descrever como ocorre a mudança em terapia ocupacional e identificar as ações do cliente e as
estratégias terapêuticas que levam à mudança.
6. Descrever como o Modelo de Ocupação Humana pode ser aplicado aos clientes com diferentes
diagnósticos ao longo da vida em diferentes contextos de atuação.
Betty  tem  82  anos  de  idade.  Ela  foi  internada  no  hospital  após  sofrer  uma  queda  em  casa,  na  qual  fraturou  o  colo  do
fêmur. Depois da cirurgia e de dois dias em terapia intensiva, ela foi transferida para uma instituição de vida assistida –
skilled nursing facility (SNF), onde ela faria a terapia ocupacional.

Lin  é  um  menino  de  3  anos  e  6  meses  de  idade  com  transtorno  convulsivo/epilepsia,  hidrocefalia,  hipotonia  e  retardo
mental  profundo.  Ele  sofre  várias  convulsões  por  dia,  tem  uma  dieta  alimentar  restrita,  em  forma  de  purê,  além  de
receber  a  nutrição  por  meio  de  uma  sonda  gástrica,  e  cansa  com  facilidade.  Durante  um  encontro  interdisciplinar  sobre
educação especial, os pais de Lin identificaram que sua principal meta era que ele fosse capaz de aceitar o alimento com
mais facilidade.

O  profissional  de  terapia  ocupacional  de  cada  um  desses  clientes  escolheu  utilizar  o  Modelo  de  Ocupação
Humana – Model of Human Occupation (MOHO) para orientar seu tratamento. Ao longo deste capítulo, esses
casos serão utilizados para ilustrar a teoria e a aplicação desse modelo.

INTRODUÇÃO
O MOHO foi introduzido há quase três décadas por três profissionais que buscavam organizar uma abordagem
de  tratamento  baseada  na  ocupação.  Eles  descreveram  o  MOHO  como  uma  teoria  para  orientar  o  raciocínio
sobre  os  clientes  e  o  processo  de  terapia  (Kielhofner,  1980a,  1980b;  Kielhofner  &  Burke,  1980;  Kielhofner,
Burke  &  Heard,  1980).  A  evidência  indica  que  o  MOHO  é,  atualmente,  o  modelo  baseado  na  ocupação  mais
amplamente  utilizado  na  prática  em  todo  o  mundo  (Haglund,  Ekbladh,  Thorell  &  Hallberg,  2000;  Law  &
McColl, 1989; National Board for Certification in Occupational Therapy, 2004; Wilkeby, Pierre & Archenholtz,
2006). Um estudo nacional de terapeutas ocupacionais nos Estados Unidos (Lee, Taylor, Kielhofner & Fisher, no
prelo) indicou que 75,7% dos terapeutas fazem uso do MOHO em sua prática. Estes terapeutas relataram que o
MOHO permite que eles tenham uma prática focada na ocupação e uma identidade profissional mais clara. Eles
também relataram que o MOHO fornece uma visão holística dos clientes, sustenta a prática centrada no cliente e
oferece uma estrutura útil para o planejamento do tratamento.
O  MOHO  foi  desenvolvido  por  meio  dos  esforços  de  uma  comunidade  internacional  de  especialistas  e
profissionais atuantes. É sustentado por uma base substancial de evidências em mais de 400 artigos e capítulos
que apresentam aspectos teóricos, aplicados ou de pesquisa sobre o MOHO. Uma referência atual desta literatura
é mantida no endereço eletrônico www.moho.uic.edu. A discussão mais abrangente e definida sobre o MOHO
encontra­se  no  livro  A  Model  of  Human  Occupation:  Theory  and  Application,  que  está  em  sua  quarta  edição
(Kielhofner, 2007). Este capítulo fornece uma breve revisão do foco, da teoria e dos recursos desse modelo para
a aplicação na prática.

O FOCO DO MODELO DE OCUPAÇÃO HUMANA
Esse  modelo  surgiu  em  um  momento  em  que  a  área  da  terapia  ocupacional  estava  apenas  começando  a
redescobrir a importância da ocupação como um resultado e um meio de tratamento. Nos anos 1970, quando o
MOHO  estava  sendo  formulado  como  uma  abordagem  para  a  prática,  grande  parte  da  teoria  e  da  prática  da
terapia  ocupacional  focalizava­se  na  compreensão  e  na  redução  do  comprometimento.  O  estímulo  para  o
desenvolvimento  do  MOHO  foi  o  reconhecimento  de  que  muitos  fatores,  além  dos  comprometimentos  motor,
cognitivo  e  sensorial,  contribuem  para  as  dificuldades  na  ocupação  cotidiana.  Estes  incluem  as  barreiras
impostas pelos ambientes físico e social, as dificuldades em escolher e encontrar significado nas ocupações e o
desafio de manter o envolvimento positivo em papéis e rotinas de vida. O MOHO foi desenvolvido para abordar
esses fatores.
Por conseguinte, os conceitos que constituem a teoria desse modelo abordam a motivação para a ocupação, a
padronização rotineira das ocupações, a natureza do desempenho habilidoso e a influência do ambiente sobre a
ocupação. Tais conceitos buscam não somente oferecer explicações para esses fatores, como também fornecer
uma  estrutura  para  reunir  dados  sobre  as  condições  de  um  cliente,  gerar  uma  compreensão  das  forças  e
limitações  ocupacionais  do  cliente  e  selecionar  e  executar  um  programa  de  terapia  ocupacional.  Uma  ampla
gama  de  avaliações  e  de  estratégias  de  tratamento  que  correspondem  aos  conceitos  desse  modelo  também  foi
desenvolvida  para  sustentar  a  prática.  O  MOHO  pode  ser  aplicado  a  clientes  com  uma  vasta  gama  de
comprometimentos (físicos, mentais, cognitivos e sensoriais) ao longo de toda a vida. O MOHO também pode
ser utilizado em muitos tipos de ambientes de tratamento.
CONCEITOS DO MODELO DE OCUPAÇÃO HUMANA
O Modelo de Ocupação  Humana  preocupa­se  com  o  quanto  os  indivíduos  podem participar das ocupações de
vida  e  atingir  um  estado  de  adaptação  positiva  (Fig.  44.1).  O  modelo  começa  com  a  ideia  de  que  as
características internas de uma pessoa e o ambiente externo estão reunidos em um todo dinâmico. Além disso, o
modelo  afirma  que  as  capacidades  internas,  as  motivações  e  os  padrões  de  desempenho  são  mantidos  e
modificados  por  meio  do  engajamento  nas  ocupações.  O  MOHO  conceitua  a  terapia  ocupacional  como  um
processo  em  que  os  profissionais  sustentam  o  engajamento  do  cliente  em  ocupações,  a  fim  de  modelar  as
capacidades dos clientes, as maneiras rotineiras de fazer as coisas e seus pensamentos e sentimentos a respeito
deles próprios.

Conceitos do MOHO Relacionados à Pessoa
Para  explicar  como  as  ocupações  são  selecionadas,  padronizadas  e  realizadas,  o  MOHO  conceitua  as  pessoas
como compostas de três elementos integrantes: vontade, habituação e capacidade de desempenho. As seções a
seguir discutirão esses elementos.

Vontade
A vontade descreve o processo pelo qual as pessoas se motivam e escolhem quais atividades realizar. O conceito
de  vontade  diz  que  todos  os  seres  humanos  têm  um  desejo  de  se  engajar  em  ocupações  e  que  este  desejo  é
modelado  por  experiências  prévias.  A  vontade  consiste  em  pensamentos  e  sentimentos  que  acontecem  em  um
ciclo  de  antecipação  das  possibilidades  de  fazer,  escolha  do  que  fazer,  experimentação  do  que  alguém  faz  e  a
subsequente  interpretação  da  experiência.  Esses  pensamentos  e  sentimentos  estão  relacionados  com  três
questões:  quão  capaz  e  efetivo  alguém  se  sente,  o  que  a  pessoa  considera  importante  e  o  que  é  sentido  como
agradável e satisfatório. Estes são descritos como causa pessoal, valores e interesses.
Causa pessoal refere­se aos pensamentos e sentimentos das pessoas a respeito das capacidades e da eficácia
pessoal  quando  elas  realizam  as  atividades  cotidianas.  Estas  incluem,  por  exemplo,  reconhecer  as  forças  e
fraquezas de alguém, sentir­se confiante ou ansioso quando confrontado com uma tarefa e refletir sobre quão boa
foi a execução após fazer alguma coisa.
Valores são crenças e compromissos sobre o que é bom, certo e importante fazer. Eles incluem pensamentos e
sentimentos  sobre  as  atividades  que  são  dignas  de  ser  realizadas,  as  crenças  sobre  a  maneira  apropriada  de
completar essas atividades e os significados que são atribuídos às coisas que fazemos. Os valores especificam o
que  é  digno  de  ser  feito,  como  fazer  e  quais  metas  ou  aspirações  merecem  compromisso.  As  pessoas
experimentam uma sensação de correção e pertencimento quando se engajam nas atividades que confirmam seus
valores.
Fig. 44.1 Conceitos do MOHO. (Reimpressa com permissão de Kielhofner, 2007.)

Interesses  são  gerados  por  meio  da  experiência  de  prazer  e  satisfação  com  a  ocupação.  Os  interesses
começam com as disposições naturais (p. ex., a tendência para apreciar a atividade física ou intelectual). Eles se
desenvolvem ainda mais por meio da experiência de prazer e satisfação originada do engajamento ocupacional
(Matsutsuyu, 1969). Portanto, o desenvolvimento dos interesses depende das oportunidades disponíveis para se
engajar nas ocupações.
A  vontade  tem  uma  influência  pervasiva  sobre  a  vida  ocupacional.  Ela  modela  como  as  pessoas  veem  o
mundo  e  como  se  apresentam  as  oportunidades  e  desafios.  A  vontade  norteia  as  escolhas  do  que  fazer  e
determina a experiência do fazer. Ela molda como as pessoas criam o significado para o que elas fizeram. Em
grande parte, o modo como as pessoas experimentam a vida e como elas se consideram e a seu mundo tem a ver
com a vontade. A vontade também é fundamental para o processo da terapia ocupacional. Toda terapia necessita
que os clientes façam opções para fazer as coisas; portanto, ela deve incluir a vontade dos clientes. Além disso,
como os clientes experimentam o que fazem na terapia (uma função da vontade) determina em grande parte os
resultados da terapia.

Habituação
Habituação refere­se ao processo pelo qual as pessoas organizam suas ações em padrões e rotinas. Por meio da
ação repetida em contextos específicos, as pessoas estabelecem padrões habituais de fazer. Estes padrões de ação
são  governados  por  hábitos  e  papéis.  Em  conjunto,  eles  modelam  como  as  pessoas  se  ocupam  dos  aspectos
rotineiros  de  suas  vidas.  Por  causa  dos  papéis  e  hábitos,  muitas  rotinas  da  vida  diária  acontecem  de  maneira
automática e previsível.
Os hábitos envolvem as maneiras aprendidas de fazer coisas que acontecem de modo automático. Os hábitos
funcionam em cooperação com o contexto, utilizando e incorporando o ambiente como um recurso para fazer
coisas  familiares.  Eles  influenciam  a  maneira  como  as  pessoas  realizam  as  atividades  rotineiras,  utilizam  o
tempo  e  se  comportam.  Por  exemplo,  os  hábitos  modelam  como  as  pessoas  realizam  intuitivamente  o
autocuidado a cada manhã, organizam a rotina semanal e executam uma tarefa familiar.
Os  papéis  conferem  às  pessoas  uma  identidade  e  uma  sensação  de  dever  que  se  atrelam  à  identidade.  As
pessoas se veem como estudantes, trabalhadores e pais e reconhecem que devem se comportar de determinadas
maneiras  para  preencher  estes  papéis.  Grande  parte  do  que  as  pessoas  fazem  é  realizado  como  cônjuge,  pai,
trabalhador,  estudante,  e  assim  por  diante.  As  expectativas  que  os  outros  têm  de  um  papel  e  a  natureza  do
sistema social em que cada papel se localiza servem como guias para aprender como se comportar em muitos
papéis.  Dessa  maneira,  por  meio  da  interação  com  os  outros,  as  pessoas  internalizam  uma  identidade,  uma
perspectiva e uma maneira de se comportar que pertence a cada papel internalizado.
Os hábitos e os papéis internalizados que constituem a habituação orientam como as pessoas interagem com
seus ambientes físico, temporal e social. Quando a habituação é desafiada por comprometimentos e/ou condições
ambientais,  as  pessoas  podem  perder  uma  grande  quantidade  do  que  conferiu  familiaridade,  consistência  e
relativa  facilidade  à  vida.  Uma  das  principais  tarefas  da  terapia  é  reconstruir  hábitos  e  papéis,  de  modo  que  a
pessoa possa participar mais prontamente das ocupações de vida no ambiente cotidiano.

Capacidade de Desempenho
Capacidade de desempenho refere­se às capacidades mentais e físicas subjacentes e como elas são utilizadas e
experimentadas  no  desempenho.  A  capacidade  de  desempenho  é  afetada  pela  condição  dos  sistemas
musculoesquelético,  neurológico,  cardiopulmonar  e  outros  sistemas  orgânicos  que  são  solicitados  quando  a
pessoa  faz  as  coisas.  O  desempenho  também  exige  capacidades  mentais  ou  cognitivas,  como  a  memória.  As
abordagens de integração biomecânica, controle motor, cognitiva e sensorial para a prática tratam desse aspecto
da capacidade de desempenho a partir de um ponto de vista objetivo, ao focar­se nas capacidades física e mental
como  fenômenos  que  podem  ser  observados,  mensurados  e  modificados  (Ayres,  1979;  Trombly  &  Radomski,
2001).
O  MOHO  reconhece  a  importância  das  abordagens  que  lidam  com  as  capacidades  física  e  mental  para  o
desempenho  e  é  tipicamente  utilizado  em  conjunto  com  esses  modelos.  O  MOHO  ressalta  a  importância  de
também  dar  atenção  à  experiência  do  desempenho  e,  em  particular,  à  experiência  de  ter  limitações  no
desempenho.  Aponta  que,  ao  darem  atenção  cuidadosa  ao  modo  pelo  qual  as  pessoas  experimentam  os
comprometimentos, os profissionais podem ser mais úteis para os clientes. Isto inclui, por exemplo, dar atenção
à  maneira  como  as  pessoas  sentem  seus  corpos  e  como  percebem  o  mundo  quando  apresentam
comprometimentos. Por exemplo, pesquisa baseada nessa abordagem demonstrou que as pessoas com diferentes
comprometimentos físicos comumente se alienam ou não se sentem em seus corpos. A terapia pode ajudar as
pessoas a “recuperarem” seus corpos ou partes de seus corpos e a integrarem esses corpos a uma nova maneira
de fazer as coisas.

Conceitos do MOHO Relacionados ao Ambiente
O MOHO ressalta que toda ocupação resulta de uma interação das características internas da pessoa (vontade,
habituação  e  a  capacidade  de  desempenho)  com  as  características  dos  ambientes  físico  e  social.  O  ambiente
pode ser definido como os aspectos físicos, sociais, culturais, econômicos e políticos específicos do contexto de
uma pessoa que influenciam a motivação, a organização e o desempenho da ocupação. Existem várias dimensões
do ambiente que podem exercer impacto sobre a vida ocupacional da pessoa. Por exemplo, as pessoas encontram
diferentes espaços físicos,  objetos  e  pessoas,  bem  como  expectativas  e  oportunidades para fazer as coisas. Ao
mesmo  tempo,  a  cultura  maior,  as  condições  econômicas  e  os  fatores  políticos  também  exercem  influência.
Dessa maneira, o ambiente inclui as seguintes dimensões: os objetos que as pessoas utilizam quando fazem as
coisas; os espaços nos quais as pessoas fazem as coisas; as formas ou tarefas ocupacionais que estão disponíveis,
são  esperadas  e/ou  são  necessárias  para  as  pessoas  em  um  determinado  contexto;  os  grupos  sociais  (p.  ex.,
família,  amigos,  colaboradores,  vizinhos)  que  constituem  o  contexto;  e  as  forças  culturais,  políticas  e
econômicas ao redor.
As  coisas  que  as  pessoas  fazem  e  como  elas  pensam  e  se  sentem  a  respeito  dessas  coisas  refletem  uma
complexa inter­relação de motivos, hábitos e papéis e as capacidades e as dimensões previamente mencionadas
do ambiente. As condições políticas e econômicas determinam os recursos de que as pessoas dispõem para fazer
as coisas e que papéis ocupacionais estão disponíveis para elas. A cultura modela a formação das ideias sobre
como alguém deve fazer e o que é válido fazer. As demandas de uma tarefa podem determinar o quanto a pessoa
se sente confiante ou ansiosa. A compatibilidade entre objetos e espaços e a capacidade do indivíduo influencia a
maneira pela qual a pessoa realiza a tarefa. Dessas e de outras muitas maneiras, o ambiente exerce impacto sobre
o que as pessoas fazem e como elas pensam e se sentem a respeito de sua realização. Por sua vez, as pessoas
também  escolhem  e  modificam  seus  ambientes.  Por  exemplo,  as  pessoas  selecionam  ambientes  que  sejam
compatíveis e que permitam que elas compreendam seus valores e interesses.

Dimensões do Fazer
Como demonstrado na Fig. 44.1, o MOHO identifica três níveis em que podemos examinar o que uma pessoa
faz: participação ocupacional, desempenho ocupacional e habilidade ocupacional.
Participação  ocupacional  refere­se  ao  engajamento  no  trabalho,  na  brincadeira  ou  nas  atividades  da  vida
diária que fazem parte do contexto sociocultural de alguém e que são desejados e/ou necessários para o bem­
estar deste alguém. Os exemplos de participação ocupacional são: oferecer­se espontaneamente como voluntário
para uma organização, trabalhar em um emprego de horário parcial ou integral, reunir­se regularmente com os
amigos,  realizar  o  autocuidado,  cuidar  de  seu  espaço  de  vida  e  frequentar  a  escola.  Cada  área  da  participação
ocupacional envolve um conjunto de fatores associados ao que a pessoa realiza. Por exemplo, cuidar do espaço
de vida pode incluir pagar o aluguel, fazer consertos e a limpeza. Realizar uma tarefa relacionada à participação
em uma área importante da vida é descrito como desempenho ocupacional.
Durante o desempenho ocupacional, realizamos ações propositadas discretas. Por exemplo, fazer café é uma
forma ou tarefa ocupacional culturalmente reconhecida em muitas culturas ocidentais. Para fazer isto, a pessoa
reúne o café, a cafeteira e uma xícara; manuseia esses materiais e objetos; e organiza as etapas necessárias para
coar  e  colocar  o  café  na  xícara.  Estas  ações  que  constituem  o  desempenho  ocupacional  são  descritas  como
habilidades.  As  habilidades  são  ações  direcionadas  para  a  meta  que  a  pessoa  realiza  durante  a  execução  da
tarefa (Fisher, 1998; Fisher & Kielhofner, 1995; Forsyth, Salamy, Simon & Kielhofner, 1998). Em contraste com
a capacidade de desempenho, que se refere à capacidade subjacente (p. ex., amplitude de movimento e força), a
habilidade descreve as ações de um desempenho ocupacional, como alcançar ou organizar. Existem três tipos de
habilidades:  habilidades  motoras,  habilidades  de  processo  e  habilidades  de  comunicação  e  interação.  Foram
desenvolvidas  taxonomias  detalhadas  para  cada  um  dos  três  tipos  de  habilidades  (Bernspang  &  Fisher,  1995;
Doble, 1991; Fisher, 1995; Forsyth, Lai & Kielhofner, 1999; Forsyth, Salamy, Simon & Kielhofner, 1998).

Identidade, Competência e Adaptação Ocupacional
Ao longo do tempo, o que as pessoas fazem constrói suas identidades ocupacionais. Esta identidade, gerada a
partir da experiência, é o senso cumulativo de quem as pessoas são e quem elas desejam se tornar como seres
ocupacionais.  Até  que  ponto  as  pessoas  são  capazes  de  manter  um  padrão  de  realização  que  promova  sua
identidade  ocupacional  é  descrito  como  competência  ocupacional.  Esses  dois  elementos  essenciais  da
adaptação ocupacional  englobam  a  criação  de  uma  identidade  ocupacional  e  a  capacidade  de  promover  esta
identidade em várias circunstâncias. Como mostra a Fig. 44.1, a adaptação ocupacional das pessoas se reflete no
quanto elas podem criar e promover de uma identidade ocupacional positiva.

O PROCESSO DE MUDANÇA E TERAPIA
A  premissa  básica  do  MOHO  é  que  toda  mudança  em  terapia  ocupacional  é  direcionada  pelo  engajamento
ocupacional dos clientes. O termo engajamento ocupacional refere­se ao fazer, pensar e sentir dos clientes sob
determinadas condições ambientais no ambiente da terapia ou como uma consequência planejada da terapia.
Quando  os  clientes  se  engajam  em  formas  ou  tarefas  ocupacionais  na  terapia  ou  como  consequência  da
terapia, as capacidades motivacionais, de habituação e de desempenho estão envolvidas de alguma maneira. Por
exemplo,  em  algum  momento  da  terapia,  um  cliente  pode  estar  (1)  fundamentando­se  na  capacidade  de
desempenho para exercitar a habilidade no desempenho ocupacional, (2) evocando antigos hábitos que modelam
como é realizado o desempenho ocupacional, (3) promovendo ou trabalhando para aquisição de um papel, (4)
experimentando um determinado nível de satisfação e prazer (ou insatisfação e desagrado) com o desempenho
ocupacional,  (5)  atribuindo  importância  e  significado  ao  que  é  feito  (i.e.,  o  que  isto  significa  para  a  vida  do
cliente), ou (6) se sentindo capaz (ou incapaz) de realizar a forma/tarefa ocupacional.
Cada  um  dos  aspectos  daquilo  que  o  cliente  faz,  pensa  e  sente  modela  o  processo  da  mudança.  Por  esse
motivo,  os  terapeutas  que  usam  o  MOHO  preocupam­se  com  a  habituação,  a  capacidade  de  desempenho  e  as
condições ambientais de seus clientes no ambiente da terapia e como esses elementos interagem à medida que a
terapia avança. Para ajudar os profissionais a pensarem sobre o processo do engajamento ocupacional, o MOHO
identifica  as  nove  dimensões  do  engajamento  ocupacional  mostradas  na  Tabela  44.1.  Essas  dimensões  do
engajamento  ocupacional  não  exaurem  as  possibilidades  do  que  os  clientes  fazem  para  alcançar  a  mudança.
Contudo, elas fornecem uma estrutura básica de raciocínio sobre como os clientes chegam à mudança e para o
planejamento de como as metas da terapia serão alcançadas. Este processo é discutido na próxima seção.

USO DO MOHO NA PRÁTICA: AS SEIS ETAPAS DO RACIOCÍNIO TERAPÊUTICO
Utilizar o MOHO na prática envolve pensar com seus conceitos teóricos, um processo descrito como raciocínio
terapêutico.  O  raciocínio  terapêutico  refere­se  especificamente  ao  uso  dos  conceitos  do  MOHO  no  raciocínio
sobre  as  necessidades  dos  clientes  durante  todo  o  processo  de  terapia  ocupacional  (American  Occupational
Therapy Association, 2002). O processo do raciocínio terapêutico tem seis etapas: (1) produção das perguntas
sobre o cliente, (2) obtenção das informações sobre e com o cliente, (3) utilização das informações obtidas para
criar uma explicação para a situação do cliente, (4) produção de metas e estratégias para a terapia, (5) execução e
monitoramento  da  terapia  e  (6)  determinação  dos  resultados  da  terapia.  Em  geral,  os  profissionais  avançam  e
retornam entre essas etapas durante o tratamento. Cada etapa é discutida resumidamente adiante.

Formulação de Perguntas
Os  profissionais  devem  compreender  seus  clientes  a  fim  de  planejar  e  executar  o  tratamento.  A  compreensão
começa  por  fazer  perguntas  sobre  seus  clientes.  A  teoria  do  MOHO  permite  que  um  profissional  crie  as
perguntas  de  maneira  sistemática.  Isto  é,  os  principais  conceitos  da  teoria  (impacto  ambiental,  vontade,
habituação,  capacidade  de  desempenho,  participação,  desempenho,  habilidades,  identidade  ocupacional  e
competência  ocupacional)  orientam  o  profissional  a  se  preocupar  com  determinadas  coisas  enquanto  aprende
sobre o cliente. Por exemplo, os profissionais que utilizam o MOHO perguntariam quais são os pensamentos e
sentimentos  de  seus  clientes  em  relação  à  causa  aos  valores  e  aos  interesses  pessoais.  Além  disso,  eles
perguntariam sobre os hábitos e papéis de seus clientes e como estes afetam as rotinas dos clientes. Certamente,
essas perguntas seriam modeladas de acordo com as condições dos clientes.

TABELA 44.1 DIMENSÕES DO ENGAJAMENTO OCUPACIONAL DO CLIENTE
Dimensões do Definição
Engajamento
Ocupacional
Comprometer­se Decidir empreender um plano de ação para alcançar uma meta ou projeto pessoal,
assumir um papel ou estabelecer um novo hábito.
Escolher/Decidir Antecipar e selecionar a partir das alternativas para a ação.
Explorar Investigar novos objetos, espaços, grupos sociais e/ou tarefas/formas ocupacionais; fazer
coisas com capacidade de desempenho alterada; experimentar novas maneiras de
fazer as coisas; examinar as possibilidades para a participação ocupacional no contexto
da pessoa.
Identificar Encontrar novas informações, alternativas para ação e novos sentimentos que forneçam
soluções para e/ou deem significado ao desempenho ocupacional e à participação.
Negociar Engajar­se em um dar e receber que cria perspectivas de mútuo acordo e/ou encontra
um ponto médio entre diferentes expectativas, planos ou desejos.
Planejar Estabelecer um programa de ação para o desempenho ou a participação.
Praticar Repetir um determinado desempenho ou participar consistentemente de uma ocupação
com a intenção de aumentar a habilidade, a facilidade e a eficácia do desempenho.
Reexaminar Avaliar criticamente e considerar as alternativas para as crenças, atitudes, sentimentos,
hábitos ou papéis previamente mantidos.
Sustentar Persistir no desempenho ou na participação ocupacional apesar da incerteza ou
dificuldade.

Obtenção de Informações
Para  responder  as  perguntas  formuladas  na  primeira  etapa,  os  profissionais  devem  reunir  informações  sobre  e
com  o  cliente.  Os  profissionais  podem  tirar  proveito  de  oportunidades  naturais  para  obtenção  de  informações.
Por exemplo, um profissional poderia conhecer a causa pessoal de um cliente ao observar a reação emocional
deste quando tenta aprender uma nova tarefa desafiadora ou ao se engajar em uma conversa informal sobre os
medos do cliente a respeito do futuro. Os profissionais também utilizam avaliações estruturadas desenvolvidas
para  produzir  informações  relevantes  para  os  conceitos  do  MOHO.  Algumas  avaliações  do  MOHO  reúnem
informações  específicas  sobre  certos  aspectos,  como  interesses  e  papéis.  Outras  avaliações  irão  obter
informações  mais  detalhadas  sobre  um  dado  aspecto  do  MOHO,  como  as  avaliações  que  tratam  da  vontade.
Outras  avaliações  do  MOHO  irão  obter  informações  abrangentes  sobre  diversos  aspectos  da  pessoa  e  do
ambiente. Muitas avaliações baseadas no MOHO têm sido desenvolvidas e encontram­se resumidas na Tabela
44.2.  Consulte  a  Unidade  XVI  para  informações  adicionais  sobre  essas  avaliações.  Dessa  maneira,  os
profissionais  que  empregam  o  MOHO  dispõem  de  uma  variedade  de  opções  quando  decidem  qual(is)
avaliação(ões) utilizar.

Criação da Compreensão do Cliente com Base na Teoria
A informação que o profissional reúne para responder as perguntas sobre um cliente é utilizada para criar uma
compreensão sobre este cliente com base na teoria. Nessa etapa, o profissional utiliza a teoria do MOHO como
uma estrutura para criação de um conceito ou explicação sobre a situação desse cliente em particular. Como será
demonstrado nos casos de Betty e Lin, os terapeutas utilizam o MOHO para criar um conceito sobre cada uma
das  condições  ocupacionais  desse  cliente  para  orientar  a  próxima  etapa  de  estabelecimento  de  metas  e  de
estratégias para o tratamento.
Como parte da criação de um conceito sobre as condições dos clientes, os profissionais identificam problemas
ou desafios que precisam ser abordados na terapia, bem como as forças que podem ser solicitadas na terapia. Os
problemas e os desafios podem ser uma função da vontade, da habituação, da capacidade de desempenho ou do
ambiente.
TABELA 44.2 TABELA DE RESUMO DA AVALIAÇÃO DO MOHO
Avaliação do MOHO Método de Descrição
Administração
Autoavaliação Autorrelato do Os clientes quantificam sua competência ocupacional para
Ocupacional – cliente participação em 21 atividades cotidianas e a
Occupational Self importância destas atividades. Permite que os clientes
Assessment (OSA) estabeleçam prioridades para a mudança. Utilizada
para estabelecer metas e avaliar resultados/mudança
na competência e valores.
Autoavaliação Autorrelato do Crianças e jovens quantificam sua competência
Ocupacional Infantil – cliente ocupacional para participar de 25 atividades cotidianas
Child Occupational Self em casa, na escola e na comunidade e a importância
Assessment (COSA) destas atividades. Utilizada para estabelecer metas e
avaliar os resultados/mudanças em competência e
valores.
Avaliação das Habilidades Observação Reúne informações sobre as habilidades de comunicação
de Comunicação e e interação que uma pessoa demonstra enquanto
Interação – Assessment engajada em uma ocupação mediante os domínios
of Communication and físicos, da troca de informações e dos relacionamentos.
Interaction Skills (ACIS) Utilizada para o estabelecimento de metas para a
terapia relacionadas com as habilidades de
comunicação/interação e para a avaliação dos
resultados/alterações na habilidade.
Avaliação das Habilidades Observação Reúne informações sobre as habilidades motoras e de
Motoras e de procedimento que uma pessoa demonstra enquanto
Procedimento – engajada em uma ocupação. Utilizada para estabelecer
Assessment of Motor metas de tratamento relacionadas com as habilidades
and Process Skills motoras e de procedimento e para avaliação dos
(AMPS) resultados/alterações na ocupação.
Avaliação do Entrevista e/ou Fornece informação qualitativa e perfil quantitativo do
Funcionamento autorrelato do impacto de causa pessoal, valores, papéis, hábitos e
Ocupacional – versão cliente habilidades sobre a participação ocupacional de um
Colaborativa cliente. Utilizada para informar o tratamento.
(Assessment of
Occupational
Functioning –
Collaborative version,
AOF­CV)
Avaliação­Entrevista das Entrevista A entrevista fornece informações para avaliar valores,
Circunstâncias metas, causa pessoal, interesses, hábitos, papéis,
Ocupacionais e Escala habilidades, disposição para mudança e impacto
de Quantificação – ambiental sobre a participação. Utilizada para
Occupational estabelecer metas e avaliar resultados/mudanças na
Circunstances participação.
Assessment­Interview
and Rating Scale
(OCAIRS)
Entrevista de Entrevista A entrevista trabalha com estudantes para reunir as
Estabelecimento Escolar informações sobre a adaptação estudante­ambiente e
– School Setting identificar a necessidade de adaptações. Utilizada para
Interview (SSI) gerar metas, informar o tratamento e avaliar
resultados/mudanças na adaptação estudante­
ambiente.
Entrevista de História de Entrevista Entrevista da história de vida detalhada que fornece (a)
Desempenho escalas de medida de competência, identidade e
Ocupacional­II – impacto ambiental e (b) representação/análise narrativa
Occupational da história de vida. Utilizada como uma avaliação
Performance History abrangente e aprofundada para estabelecer metas,
Interview­II (OPHI­II) informar o tratamento e construir a relação terapêutica.
Entrevista sobre o Papel Entrevista A entrevista fornece informações para quantificar o
de Trabalhador – impacto que a vontade, os hábitos e as percepções do
Worker Role Interview ambiente têm sobre a disposição psicossocial para o
(WRI) papel/retorno do trabalhador ao trabalho. Utilizada para
estabelecer metas e avaliar resultados/mudanças
quanto à prontidão psicossocial para o trabalho.
Escala de Impacto do Entrevista A entrevista trabalha com o cliente para avaliar o impacto
Ambiente de Trabalho – ambiental sobre a participação no papel de trabalhador
Work Environment e para identificar as adaptações necessárias. Utilizada
Impact Scale (WEIS) para estabelecer e informar o tratamento.
Lista de Verificação de Autorrelato do Lista de verificação que indica a força do interesse e os
Interesse (Interest cliente engajamentos pregressos, atuais e futuros em 68
Checklist) atividades. Utilizada para informar o tratamento.
Lista de Verificação do Autorrelato do A lista de verificação fornece informações sobre
Papel (Role Checklist) cliente participações pregressas, atuais e futuras em papéis e
o valor percebido destes papéis. Utilizada para informar
o tratamento e avaliar os resultados/mudanças no
desempenho do papel.
Modelo de Instrumento de Observação, A informação obtida avalia o impacto da vontade, dos
Triagem Ocupacional entrevista(s) hábitos, das habilidades e dos ambientes sobre a
Humana – Model of e/ou revisão de participação ocupacional do cliente. Utilizado para
Human Occupational prontuário estabelecer metas e avaliar resultados/mudanças na
Screening Tool participação.
(MOHOST)
Perfil Ocupacional Infantil Observação, As informações reunidas avaliam o impacto da vontade,
Resumido – Short Child entrevista(s), dos hábitos, das habilidades e dos ambientes sobre a
Occupational Profile e/ou revisão de participação ocupacional da criança/adolescente.
(SCOPE) prontuário Utilizado para estabelecer metas e avaliar
resultados/mudanças na participação.
Perfis de Interesse Autorrelato do A avaliação inclui três escalas adequadas à idade
Pediátrico – Pediatric cliente (algumas com desenhos) para crianças e adolescentes
Interest Profiles (PIP) para indicar participação, interesse e competência
percebida em diversas atividades de brincadeira e lazer.
Utilizado para estabelecer metas e avaliar
resultados/mudanças na participação.
Questionário Ocupacional Autorrelato do “Diário” de autorrelato registra as informações em
– Occupational cliente intervalos de meia hora durante todo o dia sobre as
Questionnaire (OQ) percepções de competência, valor e prazer
experimentadas quando do engajamento em diversas
ocupações nesse período. Utilizado para informar o
tratamento e avaliar os resultados/mudanças na
participação.
Questionário Volicional – Observação Orienta a observação sistemática de um cliente em
Volitional Questionnaire diversos ambientes para avaliar a vontade e o impacto
(VQ) do ambiente sobre a motivação. Utilizada como uma
avaliação aprofundada da motivação para estabelecer
metas e avaliar resultados/mudanças na motivação.
Questionário Volicional Observação Orienta a observação sistemática de uma criança em
Pediátrico – Pediatric múltiplos ambientes para avaliar a vontade e o impacto
Volitional Questionnaire do ambiente sobre a vontade. Utilizado como uma
(PVQ) avaliação aprofundada da motivação para o
estabelecimento de metas e avaliação de
resultados/mudanças na motivação.
Registro de Atividade NIH Autorrelato do “Diário” de autorrelato registra as informações em
cliente intervalos de meia hora durante todo o dia sobre as
percepções de competência, valor, alegria, dificuldade e
dor experimentados quando do engajamento em
diversas ocupações nesse período. Utilizado para
informar o tratamento e avaliar os resultados/mudanças
na participação.

Estabelecimento de Metas e Estratégias de Terapia
Essa etapa envolve o estabelecimento de metas de tratamento (i.e., identificar o que mudará em consequência do
tratamento), a decisão de que tipos de engajamento ocupacional capacitarão o cliente a mudar e a determinação
dos tipos de estratégias terapêuticas que serão necessários para apoiar o cliente para a mudança.
As  metas  indicam  os  tipos  de  mudança  que  a  terapia  pretende  alcançar.  A  mudança  é  necessária  quando  as
características e/ou o ambiente do cliente contribuem para os problemas ou desafios ocupacionais. Por exemplo,
se  um  cliente  se  sente  ineficaz,  a  terapia  buscaria  capacitá­lo  a  sentir­se  mais  efetivo  ou,  se  um  cliente  tem
poucos papéis, a terapia buscaria possibilitar que o cliente escolha e realize novos papéis ou, se o ambiente afeta
o  desempenho  do  cliente  de  maneira  negativa,  a  terapia  buscaria  modificar  o  ambiente.  Dessa  maneira,
identificar os desafios ou os problemas nessa terceira etapa possibilita que a pessoa selecione as metas na quarta
etapa.
O próximo elemento nessa etapa é a identificação de como as metas serão atingidas. Isto envolve indicar que
engajamento  ocupacional  por  parte  do  cliente  contribuirá  para  atingir  essas  metas  e  como  o  profissional  irá
apoiar o cliente. A seção anterior, sobre a mudança, apresentou nove dimensões do engajamento ocupacional, as
quais  servem  como  uma  estrutura  para  o  raciocínio  nessa  etapa.  O  MOHO  também  identifica  as  principais
estratégias terapêuticas que os profissionais utilizarão, as quais estão listadas no Boxe 44.1.
O texto O Modelo de Ocupação Humana: Teoria e Aplicação (The Model of Human Occupation: Theory and
Application,  Kielhofner,  2007)  fornece  um  recurso  abrangente,  a  Tabela  de  Raciocínio  Terapêutico,  para  esse
componente do processo de raciocínio terapêutico. Ela identifica uma ampla variedade de problemas e desafios
que correspondem aos conceitos do MOHO, juntamente com os tipos de mudanças que estariam asseguradas. A
tabela  também  indica  que  tipos  de  engajamento  ocupacional  poderiam  contribuir  para  atingir  as  metas  e  que
tipos  de  suporte  do  profissional  poderiam  facilitar  a  mudança.  A  Tabela  44.3  mostra  uma  pequena  seção  da
Tabela de Raciocínio Terapêutico relacionada à causa pessoal.

Execução e Monitoramento do Tratamento
Executar o tratamento significa não somente seguir o plano de ação que foi estabelecido na etapa anterior, como
também monitorar como se desdobra o processo da terapia. Esse processo de monitoramento pode confirmar o
conceito sobre a condição do cliente pelo profissional ou exigir que o profissional torne a avaliar a situação do
cliente.  O  processo  de  monitoramento  também  pode  confirmar  a  utilidade  do  engajamento  ocupacional  do
cliente  e  das  estratégias  do  terapeuta  planejadas  ou  exigir  que  o  profissional  modifique  as  metas  e/ou  o
engajamento  ocupacional  do  cliente  e  as  estratégias  planejadas  pelo  terapeuta.  Quando  as  coisas  não  evoluem
conforme o esperado, o profissional retorna às etapas anteriores de formulação de questões, seleção de métodos
para  obter  as  informações,  conceitualização  da  situação  do  cliente,  definição  de  metas  e  estabelecimento  de
programas de tratamento.

ESTRATÉGIAS TERAPÊUTICAS IDENTIFICADAS PELO MOHO

Validação: Assistir e reconhecer a experiência do cliente.
Identificação:  Localizar  e  compartilhar  uma  variedade  de  fatores  pessoais,  de  procedimento  e/ou
ambientais que podem facilitar o desempenho ocupacional.
Fornecimento de retroalimentação: Compartilhar sua compreensão da situação ou ação continuada do
cliente.
Orientação: Recomendar as metas/estratégias de intervenção.
Negociação: Engajamento na atividade de dar e receber com o cliente.
Estruturação:  Estabelecer  os  parâmetros  para  seleção  e  desempenho  ao  oferecer  alternativas  a  um
cliente, estabelecer limites, estabelecer as regras fundamentais.
Orientação: Instruir, demonstrar, direcionar, estimular verbal e/ou fisicamente.
Encorajamento:  Fornecer  suporte  emocional  e  tranquilidade  em  relação  ao  engajamento  em  uma
ocupação.
Suporte  físico:  Utilizar  o  corpo  de  uma  pessoa  para  fornecer  apoio  para  que  o  cliente  realize  uma
forma/tarefa ocupacional.

Coleta de Informações para Avaliação de Resultados
Determinar os resultados do tratamento consiste na etapa final do processo de terapia. Comumente, os resultados
do tratamento são registrados ao se mensurar o quanto das metas foi alcançado e ao readministrar as avaliações
estruturadas aplicadas inicialmente. Essas duas abordagens são valiosas na documentação dos resultados. Avaliar
os  resultados  ao  quantificar  a  realização  da  meta  é  útil  para  a  análise  de  o  quanto  o  processo  de  raciocínio
terapêutico  resultou  em  boas  decisões  para  a  terapia.  Utilizar  avaliações  estruturadas  também  possibilita  que
comparemos a mudança entre diferentes clientes ou quando estratégias distintas são aplicadas. Dessa maneira,
elas podem contribuir para a terapia baseada em evidência.

TABELA 44.3 EXTRATO DA TABELA DE RACIOCÍNIO TERAPÊUTICO MOSTRANDO UM
PROBLEMA/DESAFIO RELACIONADO À CAUSA PESSOAL E AS METAS E ESTRATÉGIAS DE
TRATAMENTO CORRESPONDENTES
Problema/Desafio Meta Engajamento Estratégias Terapêuticas para
Ocupacional Apoiar o Cliente
do Cliente
Sensação de Redução da Reexaminar Validar quão difícil pode ser fazer
falta de ansiedade e do as as coisas que provocam
controle sobre medo do fracasso ansiedades e ansiedade.
o do cliente no os temores Identificar as forças e fraquezas
desempenho desempenho sob a luz das do cliente no desempenho
ocupacional, ocupacional (p. novas ocupacional.
levando à ex., “O cliente irá experiências Fornecer retroalimentação para o
ansiedade fazer uma refeição de cliente a respeito da
(medo de simples de 3 desempenho. compatibilidade/incompatibilidade
fracasso) etapas em 20 Optar por entre a escolha das
durante as minutos sem fazer coisas formas/tarefas ocupacionais e a
ocupações. verbalização de relevantes e capacidade de desempenho.
ansiedade ou significativas Fornecer retroalimentação para
preocupação.”). que estejam dar suporte à reinterpretação
Construir dentro da positiva de sua experiência de
confiança para capacidade participação na ocupação.
lidar com as de Aconselhar o cliente a fazer
demandas de desempenho. coisas relevantes e significativas
desempenho Sustentar o que sejam compatíveis com sua
ocupacional (p. desempenho capacidade de desempenho.
ex., “O cliente irá nas tarefas e
identificar e formas
participar em 3 ocupacionais
novas atividades apesar da
de lazer com ansiedade.
apoio mínimo em
1 semana.”).

Fonte: Kielhofner (2007).
Fig. 44.2 Escores OCAIRS de Betty (veja o estudo de caso adiante).

ESTUDO DE CASO: Betty: Uma Mulher de 82 Anos com Fratura de Quadril

Coleta de Informações e Criação da Compreensão sobre Betty com Base na Teoria
Ao  chegar  à  enfermaria  de  reabilitação,  Betty  precisava  de  assistência  física  para  todas  as  atividades  em
função  da  mobilidade  limitada.  Ela  fazia  uso  de  um  andador  e  precisava  de  assistência  física  para
deambular.  Betty  carecia  nitidamente  da  sensação  de  eficácia  e  ficava  ansiosa  quando  se  engajava  em
atividades da vida diária. As principais questões da terapeuta sobre Betty eram as seguintes:

1. Quais haviam sido seus principais papéis e rotinas de vida antes da lesão?
2. Como sua vontade foi afetada pela lesão e pelo comprometimento subsequente?
3. Qual era sua capacidade funcional?
4. Sua  capacidade  funcional  provavelmente  melhoraria  até  o  nível  necessário  para  alcançar  suas
metas?

Além de uma avaliação funcional, a terapeuta optou por utilizar a Entrevista de Avaliação de Circunstância
Ocupacional  e  Escala  de  Quantificação  –  Occupational  Circumstance  Assessment  Interview  and  Rating
Scale  (OCAIRS)  (Forsyth  et  al.,  2005)  a  fim  de  construir  uma  compreensão  abrangente  sobre  a  vida
ocupacional  de  Betty.  A  terapeuta  selecionou  essa  entrevista  semiestruturada  como  método  de  avaliação
porque  Betty  apresentava  capacidade  cognitiva  e  emocional  para  participar  de  uma  entrevista  e  se
relacionava bem por meio da conversa. A entrevista OCAIRS foi completada em uma sessão. A entrevista
foi conduzida de maneira informal para incentivar Betty a compartilhar suas experiências, seus pensamentos
e  seus  sentimentos  a  respeito  de  sua  participação  ocupacional  antes  da  queda,  no  momento  e  no  futuro.
Betty  respondeu  bem  à  entrevista  e  agradeceu  à  terapeuta  a  oportunidade  de  compartilhar  suas
experiências e suas preocupações a respeito do futuro.
Os resultados da entrevista OCAIRS foram resumidos em uma escala de quantificação (mostrada na Fig.
44.2).  Como  mostram  as  categorias  da  OCAIRS,  Betty  tem  valores  e  interesses  que  facilitam  sua
participação; o principal fator de restrição à sua participação é sua causa pessoal. O padrão demonstrado na
escala  OCAIRS  é  refletido  na  seguinte  descrição  que  a  terapeuta  escreveu  em  relação  às  circunstâncias
ocupacionais de Betty:

No momento de sua queda, Betty vivia sozinha desde a morte de seu marido, quatro anos atrás. Ela vive na
casa da família na cidade pequena onde passou a vida inteira. Betty tem uma filha e dois netos, a quem ela vê
nos fins de semana, pois eles vivem em outra cidade. Ela conversa com sua filha diariamente pelo telefone.
Betty trabalhava em uma loja antes de casar­se, mas, depois de casada, permaneceu em casa para criar a
filha. Ela ainda valoriza muito seu papel de dona de casa. Antes da hospitalização, ela era independente em
todas as tarefas da casa, incluindo autocuidado, cozinhar e fazer compras. Betty passa grande parte de seu
tempo em atividades de lazer, como fazendo tricô, cozinhando e ouvindo música no rádio. Ela frequenta
semanalmente grupos comunitários em uma igreja local e vai à missa uma vez por semana. Ela tem bons
amigos na igreja que proporcionam suporte social.
Betty relata sentir que perdeu os papéis de família, principalmente desde a morte de seu marido e depois que
sua filha se mudou. Sua filha e seus netos são muito importantes para ela e ela anseia por suas visitas
semanais. Ela quer muito recuperar seu papel de dona de casa e religiosa praticante, pois estes papéis
estruturavam suas atividades diárias e semanais.
Retornar para casa é o mais importante para ela, e ela está intensamente motivada a recuperar sua rotina
diária e seus papéis anteriores, embora não esteja certa de como irá conseguir isto, diante de sua situação
atual. Betty não tem boa impressão do que será sua capacidade física. Ela valoriza muito sua independência e
não está feliz por necessitar da assistência da equipe. Ela se sente insegura sobre suas capacidades atuais e
seu futuro. No geral, Betty sente que perdeu o controle de sua vida e está ansiosa por causa desta situação. Ao
mesmo tempo, ela tem claros interesses e metas, bem como intenções de restaurar seus hábitos e papéis
anteriores.

Metas e Estratégias de Tratamento
Após a entrevista, a terapeuta validou os sentimentos e as preocupações de Betty e disse a ela que a meta
de voltar para casa poderia ser atingida. Juntas, elas identificaram as seguintes metas de tratamento:

Com modificações, realizar de modo independente todas as AVD de autocuidado em duas semanas,
Com  modificações,  realizar  de  modo  independente  as  AIVD  domiciliares,  incluindo  arrumar  a  cama,
varrer e preparar uma refeição em três etapas em duas semanas,
Demonstrar aumento da confiança enquanto realiza as AVD e AIVD em duas semanas e
Identificar as maneiras para retomar as três atividades de lazer com modificações na preparação para o
retorno para casa.

Execução e Monitoramento do Tratamento
A  terapeuta  colaborou  com  Betty  para  identificar  as  metas  diárias  e  para  reavaliar  o  progresso  diário  de
Betty  com  retroalimentação  da  terapeuta.  A  princípio,  a  terapia  consistia  no  engajamento  de  Betty  em
atividades da vida diária. A terapeuta forneceu orientação, incentivo e assistência física, quando necessário.
À  medida  que  Betty  praticava  as  tarefas  de  autocuidado  com  modificações  e  mantinha  o  engajamento
quando as tarefas eram difíceis, ela adquiriu maior sensação de eficácia. Então, ela começou a se engajar
nas  atividades  de  lazer,  bem  como  nas  AIVD  no  apartamento  modelo  da  SNF,  como  cozinhar  e  outras
tarefas domésticas. Durante todo esse tempo, a terapeuta e Betty monitoraram sua evolução e discutiram as
implicações para sua capacidade de retornar para casa de maneira segura e independente.

Resultados
Após duas semanas, Betty havia alcançado a independência nas AVD e nas AIVD no ambiente da SNF. Ela
participava  espontaneamente  das  atividades  de  lazer,  de  dona  de  casa  e  de  autocuidado  e  demonstrava
confiança e uma sensação de capacidade na SNF. O plano de alta de Betty confirmou que ela estava pronta
para voltar para casa.

ESTUDO DE CASO: Lin: Um Pré­escolar com Transtorno Convulsivo e Outros Problemas
de Desenvolvimento

Coleta de Informações e Criação da Compreensão sobre Lin com Base na Teoria
Como  a  terapeuta  sabia  que  atingir  a  meta  desejada  dos  pais  e  o  sucesso  de  Lin  na  escola  dependia  do
aumento de sua motivação, ela formulou as seguintes questões:

1. Que fatores de motivação poderiam estimular Lin no ambiente educacional?
2. Que aspectos do ambiente sustentariam melhor a participação de Lin nas atividades escolares?
A  terapeuta  primeiramente  observou  Lin  de  modo  informal  na  sala  de  aula.  Lin  não  parecia  interessado
em qualquer uma das atividades na sala e recusava o apoio mão sobre mão para participar nas atividades
de brincadeira ou educacionais. Ele raramente sorria ou fazia contato visual.
A terapeuta decidiu utilizar o Questionário Volicional Pediátrico – Pediatric Volitional Questionnaire (PVQ)
(Basu,  Kafkes,  Geist  &  Kielhofner,  2002),  a  fim  de  compreender  melhor  a  vontade  de  Lin  e  os  fatores
ambientais  que  poderiam  apoiá­lo.  A  terapeuta  também  decidiu  utilizar  o  Perfil  Ocupacional  Infantil
Resumido  –  Short  Child  Occupational  Profile  (SCOPE)  (Bowyer,  Ross,  Schwartz,  Kielhofner  &  Kramer,
2006) para documentar como diferentes fatores pessoais e ambientais influenciavam o nível de participação
de  Lin  na  sala  de  aula.  Ambas  as  avaliações  podem  ser  administradas  por  observação  e  não  exigem
realização  de  tarefa  específica,  de  modo  que  eram  adequadas  para  Lin.  A  terapeuta  complementou  sua
observação com entrevistas com os pais e com a professora para completar o SCOPE.
A  terapeuta  perguntou  aos  pais  de  Lin  sobre  o  que  ele  gostava,  a  rotina  da  família  em  casa  e  o
engajamento  de  Lin  nas  atividades.  A  mãe  de  Lin  disse  que  ele  era  uma  criança  agradável  e  de  fácil
relacionamento,  que  gostava  de  ouvir  música  e  cantar  e  de  ser  abraçado.  O  pai  de  Lin  disse  que  ele  era
complacente durante o banho, para se vestir, nas trocas de fralda, nas alimentações com a sonda gástrica e
em outras rotinas. No entanto, ele tinha problemas com a alimentação oral. A preocupação dos pais de Lin
com  sua  saúde  e  bem­estar  levou­os  a  protegê­lo  e  a  limitar  sua  fadiga.  Em  consequência,  eles  não
esperavam que Lin participasse ativamente de qualquer atividade. No entanto, a hora da refeição era uma
ocupação que exigia o engajamento ativo de Lin.
No dia seguinte, a terapeuta tentou engajar Lin na brincadeira, utilizando um brinquedo que sua mãe dizia
ser  seu  preferido  (um  brinquedo  de  berço  que  tocava  músicas  diferentes  e  um  mostrador  luminoso  em
destaque), bem como outros brinquedos e objetos. Quando colocado em decúbito ventral com a luz próxima
à  sua  cabeça,  Lin  virou  sua  cabeça  na  direção  do  brinquedo,  mas  não  levantou  sua  cabeça  contra  a
gravidade ou se esticou na direção do brinquedo. Quando a música parou, Lin choramingou muito baixo até
que a terapeuta pressionou o pequeno botão para reiniciar a música. Lin também demonstrou interesse em
um  brinquedo  semelhante  que  também  vibrava  e  era  acionado  por  um  toque  suave  em  uma  grande
almofada.  A  terapeuta  tentou  utilizar  a  assistência  mão  sobre  mão  para  fazer  com  que  Lin  se  esticasse,
pressionasse  a  almofada  e  começasse  a  música  e  a  vibração  novamente.  Lin  não  mostrou  vontade  ou
interesse em ser capaz de acionar o brinquedo sozinho. A terapeuta fez uma segunda observação durante a
hora da refeição. Ela incentivou Lin a segurar a colher e a trazê­la até a boca com o suporte mão sobre mão,
porém  Lin  resistiu.  Quando  a  terapeuta  colocou  uma  colherada  de  alimento  em  sua  boca,  Lin  deixou  sua
cabeça pender e a mistura em forma de purê caiu sobre seu babador. A terapeuta utilizou esta informação
da  entrevista  e  das  observações  para  pontuar  o  PVQ  e  o  SCOPE  (veja  as  Figs.  44.3  e  44.4).  Como
mostrado  no  SCOPE,  as  habilidades  de  Lin  restringem  sua  participação  de  maneira  importante  e  sua
vontade e habituação interferem com sua participação. Seus principais recursos para participação são suas
expressões vocais e seu ambiente. A terapeuta quantificou o PVQ duas vezes com base na brincadeira no
chão  e  nas  observações  do  almoço.  Os  escores  de  Lin  indicam  que  ele  é  passivo  ou  hesitante  na
demonstração  de  comportamentos  da  vontade  em  ambos  os  contextos.  Seus  escores  são  indicativos  de
uma criança com motivação muito limitada.
Com  base  nos  escores  do  PVQ  e  do  SCOPE,  a  terapeuta  chegou  à  seguinte  conclusão  sobre  as
circunstâncias ocupacionais de Lin:

O tônus baixo, a má coordenação, a resistência limitada e a saúde instável de Lin levaram ao padrão de
envolvimento passivo com o ambiente. Seus pais atendem suas necessidades básicas, bem como promovem
experiências agradáveis. Ele dispõe de demandas e oportunidades limitadas para testar suas capacidades.
Como resultado, a sensação de capacidade de Lin para afetar o ambiente limita­se principalmente à sua
capacidade de modificar as ações dos outros por meio das vocalizações. Seus interesses baseiam­se na
estimulação sensorial passiva, como música, luz e estímulo vestibular. Neste ponto, a vontade de Lin é uma
barreira importante, pois ele tolera e aprecia apenas o envolvimento passivo nas atividades de aprendizagem,
lazer e autocuidado. Embora os comprometimentos de Lin contribuam para seu conjunto limitado de
habilidades, sua falta de interesse em explorar seu ambiente também limitou o desenvolvimento das habilidades
necessárias para o aprendizado e para a participação no ambiente educacional.
Lin é capaz de aderir às rotinas relacionadas ao seu cuidado enquanto for esperado que ele seja apenas
passivo. Quando existem expectativas quanto ao desempenho, ele se abstém ou se torna resistente. Ele não
tem consciência dos comportamentos dos papéis e das rotinas associadas a ser um estudante.

Metas e Estratégias para a Terapia
A terapeuta estabeleceu as seguintes metas para a terapia ocupacional escolar:

Lin  desenvolverá  a  vontade  de  explorar  ativamente  os  brinquedos  e  as  atividades  educacionais  ao  se
esticar, olhar e interagir com os brinquedos por 10 minutos por meio de indícios verbais e modificações
no ambiente,
Lin  participará  das  atividades  em  sala  de  aula  e  irá  interagir  com  os  professores  e  colegas  utilizando
suportes ambientais e modificações executadas pela equipe educacional (i.e.,  posicionamento,  chaves
modificadas).
Lin  participará  ativamente  na  alimentação  na  hora  do  almoço  ao  trazer  a  colher  até  sua  boca  e
mantendo sua cabeça ereta com assistência mínima.

A terapeuta reconheceu que, em primeiro lugar, seria necessário abordar a vontade limitada de Lin, pois
ele  não  optaria  por  explorar,  participar  das  atividades  escolares  ou  cooperar  de  maneira  mais  ativa  nas
rotinas diárias e, na realidade, resistiria a esses tipos de ocupação. Por conseguinte, a terapeuta planejou
estruturar o ambiente de modo que Lin pudesse explorar novos interesses e experimentar uma sensação de
eficácia  e  sucesso  quando  tentasse  coisas  novas.  Além  disso,  a  terapeuta  planejou  trabalhar  com  a
professora  para  garantir  que  as  expectativas  de  desempenho  na  sala  de  aula  estariam  de  acordo  com  as
capacidades e os interesses atuais de Lin.

Execução e Monitoramento do Tratamento
A terapeuta começou a frequentar a sala de aula de Lin durante o horário de supervisão e trabalhou com a
assistente de ensino para o desenvolvimento de um esquema de posicionamento que facilitasse a interação
de Lin com o ambiente. Quando Lin era posicionado sobre um assento de canto, em pé em um imobilizador
ou  deitado  em  decúbito  ventral  sobre  uma  borda,  a  terapeuta  ou  a  assistente  de  ensino  incentivava  e
auxiliava  fisicamente  Lin  a  levantar  sua  cabeça,  se  esticar  e  tocar  em  brinquedos  e  teclas.  A  terapeuta
assegurou  que  as  tentativas  de  Lin  para  modificar  o  ambiente  fossem  agradáveis  e  bem­sucedidas.  Esta
experiência aumentou a sensação de capacidade de Lin para a brincadeira. Após quatro semanas, Lin era
capaz de explorar ativamente o ambiente por 10 minutos durante o horário da supervisão.
Durante a alimentação oral, a terapeuta graduou suas expectativas e começou por aumentar o controle de
cabeça de Lin. Além de fornecer assistência física e incentivo verbal, a terapeuta tocava a música favorita de
Lin enquanto ele mantinha sua cabeça ereta. Este interesse foi suficiente para incentivar Lin a cooperar com
a terapeuta e a manter sua cabeça ereta. Com a cabeça ereta, Lin aumentou sua capacidade de controlar o
bolo alimentar durante a refeição.

Resultados
A terapeuta utilizou itens específicos do PVQ como indicadores para monitorar o progresso volicional de Lin
durante  o  segundo  semestre  letivo.  Nesse  ponto,  Lin  mostrou  curiosidade  e  focou  a  atenção  visual  em
quatro  novos  brinquedos  quando  posicionado.  Ele  demonstrava  suas  preferências  ao  levantar  sua  cabeça
contra  a  gravidade  quando  a  terapeuta  ou  a  assistente  de  ensino  trazia  seu  brinquedo  favorito.  Lin
apresentou  aumento  da  sensação  de  capacidade  ao  iniciar  um  movimento  de  esticar  o  braço  direito  para
interagir com um brinquedo. Durante o almoço, Lin conseguia manter a cabeça ereta e participar da rotina
do almoço por cinco minutos. Ele era incapaz de segurar a colher sozinho, mesmo com adaptações, como
um  cabo  alongado,  e  não  tolerou  uma  correia  de  mão.  Contudo,  demonstrou  maiores  conscientização  e
cooperação na rotina de autocuidado. No geral, Lin demonstrou maior sensação de causa pessoal para se
engajar nas brincadeiras e na alimentação.
Fig. 44.3 Escores do SCOPE de Lin.

Fig. 44.4 Escores do PVQ inicial de Lin.

CONCLUSÃO
Este capítulo forneceu uma revisão da teoria e dos recursos práticos do MOHO. Dois casos foram utilizados para
demonstrar  como  os  conceitos  do  MOHO  são  empregados  para  nortear  o  processo  de  raciocínio  terapêutico.
Como ilustrado pelos casos, os terapeutas podem utilizar o MOHO para sustentar uma prática centrada no cliente
e  orientada  para  o  nível  ocupacional.  Este  capítulo  foi  capaz  de  demonstrar  apenas  uma  pequena  fração  dos
recursos teóricos, empíricos e práticos disponíveis nesse modelo. Qualquer pessoa que deseje utilizar o MOHO é
incentivada a tirar proveito desses recursos.

QUESTÕES INSTIGANTES
1. Pense  em  uma  ocupação  da  qual  você  participe.  Identifique  como  sua  vontade  (incluindo  causa  pessoal,
valores  e  interesse),  habituação  (incluindo  hábitos  e  papéis),  capacidade  de  desempenho  e  diferentes
ambientes  (incluindo  espaço,  objetos,  grupos  sociais  e  formas/tarefas  ocupacionais)  influenciam  sua
participação ocupacional. Imagine que sua capacidade de desempenho mudou por causa de uma doença ou
comprometimento.  Como  sua  vontade,  habituação,  capacidade  de  desempenho  e  ambiente  impactariam
agora a sua participação ocupacional?
2. Leia o minicaso a seguir sobre Joseph. Quando você terminar, utilize o processo de raciocínio terapêutico
para  formular  perguntas  baseadas  no  MOHO  sobre  as  atuais  circunstâncias  ocupacionais  de  Joseph.
Descreva as atuais circunstâncias ocupacionais de Joseph utilizando os termos do MOHO para identificar
os fatores que têm impacto sobre sua participação ocupacional.
      Joseph, um afro­caribenho de 30 anos de idade, foi encaminhado para terapia ocupacional durante a
admissão em uma unidade de saúde mental para pacientes internados. Recentemente ele vem apresentando
sintomas  psicóticos.  Seus  vizinhos  procuraram  ajuda  da  polícia  quando  Joseph  foi  visto  marchando  sem
sapatos na rua em um dia frio e úmido.
      A observação de Joseph, na unidade, indicou que ele ficava isolado e inativo durante o dia, desconfiado
dos outros, e que não participava das atividades de autocuidado. Joseph era frágil e recusava muitas de suas
refeições na enfermaria. Com frequência, ele cochilava enquanto estava sentado, vendo televisão. Contudo,
quando  determinada  música  tocava  no  rádio  da  enfermaria,  Joseph  cantava  a  música  em  voz  baixa  ou
acompanhava  o  ritmo,  batendo  as  mãos,  e  ficava  nitidamente  relaxado.  Durante  o  grupo  de  terapia
ocupacional,  ele  expressava  interesse  em  pintar,  mas,  em  seguida,  recusava­se  a  participar  da  atividade
porque  “ele  não  faria  um  trabalho  suficientemente  bom”.  Quando  na  visita  à  área  de  cozinha  da  terapia
ocupacional, Joseph mencionou que era conhecido em casa por seus ensopadinhos de legumes, mas achava
que não conseguiria se lembrar de qualquer uma de suas receitas.
      Durante sua breve conversa com Joseph, a terapeuta descobriu que ele vivia sozinho em um pequeno
apartamento. Desde os 16 anos de idade, quando saiu da escola, Joseph entrava e saía do emprego como
auxiliar  de  serviços  gerais  em  restaurantes  e  hotéis.  Durante  os  últimos  anos,  ele  tocava  bateria  em  uma
banda  e  passava  seu  tempo  de  lazer  ouvindo  música,  praticando  sozinho,  ensaiando  ou  tocando  com  a
banda. Joseph teve um longo relacionamento com uma mulher que fazia parte da banda. Recentemente, o
relacionamento terminou e Joseph optou por não continuar na banda.

REFERÊNCIAS
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Teoria da Adaptação Ocupacional
SALLY SCHULTZ

Sumário
Herança Intelectual
Hipóteses de Orientação da Teoria da Adaptação Ocupacional
Introdução à Teoria da Adaptação Ocupacional
Pessoa: Fatores Internos do Processo da AO
Ambiente Ocupacional: Fatores Externos do Processo da AO
O Processo da AO: Interação dos Fatores Internos e Externos
O Processo da AO: Subprocessos da Resposta Adaptativa
Introdução à Prática Baseada na Teoria da Adaptação Ocupacional
Interrupção do Processo da AO
Forças e Limitações
Estudo de Caso: Alfonso Aprende uma Nova Resposta à Frustração
Pesquisa
Conclusão

Objetivos de Aprendizagem
Após a leitura deste capítulo, você será capaz de:

1. Identificar os aspectos da adaptação ocupacional (AO) que mais a diferenciam de outras teorias
da prática baseada na ocupação.
2. Descrever  a  necessidade  de  uso  do  Guia  para  o  Raciocínio  Terapêutico  para  um  programa  de
tratamento baseado na AO.
3. Descrever os principais aspectos do Guia de AO para Avaliação e Tratamento.
4. Explicar por que o uso terapêutico do “eu” é uma das ferramentas terapêuticas mais poderosas.
5. Explicar  por  que  é  necessário  que  os  terapeutas  utilizem  uma  teoria  articulada  para  o
desenvolvimento de uma autêntica prática baseada na ocupação.

A
lfonso  é  um  menino  de  11  anos  de  idade  que  frequenta  a  quinta  série  em  uma  escola  pública.  Ele  foi
encaminhado para a terapia ocupacional por causa de transtorno de déficit de atenção, problemas de leitura
e  problemas  comportamentais,  tanto  na  sala  de  aula  como  no  recreio.  Sua  terapeuta  ocupacional,  Claudette,
planeja incluir Alfonso em um grupo de terapia com outros meninos que apresentam dificuldades semelhantes.
Esse grupo se baseia na teoria da adaptação ocupacional. Parte do trabalho de Claudette com Alfonso é descrita
no estudo de caso mais adiante neste capítulo.
HERANÇA INTELECTUAL
Em 1987, um grupo da faculdade de terapia ocupacional da Texas Woman’s University foi encarregado pela Dra.
Grace  Gilkeson  (decana  da  Escola  de  Terapia  Ocupacional  da  Universidade)  de  desenvolver  um  programa  de
doutoramento em terapia ocupacional. Um dos desafios do grupo era identificar e estruturar como o programa
contribuiria para a disciplina e para a prática da terapia ocupacional. Depois de prolongados estudo e debate, o
comitê  chegou  a  um  consenso  de  que  existiam  dois  conceitos  fundamentais  para  a  terapia  ocupacional  que
deveriam  ser  enfatizados  durante  todo  o  programa  de  doutorado.  Esses  dois  conceitos  eram  a  ocupação  e  a
adaptação.  O  comitê  considerava  a  ocupação  e  a  adaptação  partes  integrantes  dos  primórdios  da  profissão,
fundamentais  para  sua  filosofia  e  essenciais  para  a  integridade  de  seu  futuro.  O  foco  da  pesquisa  para  o  novo
programa de doutorado foi assim identificado como adaptação ocupacional (AO).
O desenho do programa de doutorado progrediu e as responsabilidades foram divididas entre os membros do
comitê. Sally Schultz e Janette Schkade foram solicitadas a desenvolver o conceito de adaptação ocupacional do
grupo, já que este estaria no cerne do programa de doutorado. As Dras. Anne Henderson, Lela Llorens e Kathlyn
Reed,  acadêmicas  renomadas  em  terapia  ocupacional,  forneceram  aconselhamento  contínuo  para  o
desenvolvimento  do  programa  de  doutorado  e  o  foco  da  pesquisa  na  adaptação  ocupacional.  O  programa  foi
estabelecido  em  1994.  Em  2007,  mais  de  30  pessoas  haviam  sido  tituladas  pelo  programa.  Schkade  e  Schultz
expandiram o conceito inicial de adaptação ocupacional. Elas introduziram a AO como um protocolo (Schkade
& Schultz, 1992; Schultz & Schkade, 1992) e, mais recentemente (Schkade & Schultz, 2003), como uma teoria
abrangente para a prática e a pesquisa em terapia ocupacional.
A  teoria  da  adaptação  ocupacional  descreve  a  integração  de  dois  conceitos  globais  há  muito  presentes  no
pensamento da terapia ocupacional: ocupação e adaptação. A herança intelectual dessa teoria data dos escritos
de  William  Dunton  (1913)  e  Adolph  Meyer  (1922).  Schkade  e  Schultz  também  foram  significativamente
influenciadas  pelos  escritos  de  vários  teóricos  contemporâneos,  tanto  dentro  como  fora  do  campo  da  terapia
ocupacional (i.e., Gilfoyle, Grady & Moore, 1990; King, 1978; Llorens, 1970; Seyle, 1956). Os tratamentos com
AO para populações específicas foram publicados pela primeira vez em 1992 (Schkade & Schultz, 1992). Um
modelo que destacava os cuidados domiciliares de saúde surgiu em 1994 (Schultz & Schkade, 1994). Inúmeras
aplicações  da  AO  para  populações  específicas  surgiram  ao  longo  dos  anos  (p.  ex.,  Ford,  1995;  Garrett  &
Schkade,  1995;  Pasek  &  Schkade,  1996;  Ross,  1994;  Schkade,  1999;  Schkade  &  McClung,  2001;  Schkade  &
Schultz, 2003; Schultz, 1997, 2000, 2003; Schultz & Schkade, 1994; Werner, 2000).

HIPÓTESES DE ORIENTAÇÃO DA TEORIA DA ADAPTAÇÃO OCUPACIONAL
Todas as teorias baseiam­se em hipóteses. Grande parte da terapia ocupacional é norteada pela hipótese de que, à
medida  que  os  clientes  se  tornarem  mais  funcionais,  eles  serão  mais  adaptativos.  A  teoria  da  adaptação
ocupacional presume o oposto. A prática baseada na adaptação ocupacional é direcionada pela hipótese de que,
se os clientes se tornarem mais adaptativos, eles se tornarão mais funcionais.
As fundadoras da teoria da adaptação ocupacional (Schkade & Schultz, 1992) propuseram seis hipóteses de
orientação sobre a relação entre o desempenho ocupacional e a adaptação humana. Presume­se que as hipóteses
sejam normativas e aplicáveis ao longo de toda a vida. As seis hipóteses são:

1. A competência na ocupação é um processo de adaptação às demandas internas e externas para a realização
ao longo da vida.
2. As demandas para a realização acontecem naturalmente como parte dos pa péis ocupacionais da pessoa e do
contexto (interações pessoa­ambiente ocupacional) em que elas ocorrem.
3. A disfunção ocorre porque a capacidade de adaptação da pessoa foi desafiada a ponto de as demandas para
o desempenho não serem mais atendidas de maneira satisfatória.
4. A capacidade adaptativa da pessoa pode ser suplantada por comprometimentos, incapacidades físicas ou
emocionais e eventos estressantes da vida.
5. Quanto maior for o nível de disfunção, maior será a demanda por mudanças nos processos adaptativos da
pessoa.
6. O  sucesso  no  desempenho  ocupacional  é  uma  consequência  direta  da  capacidade  da  pessoa  de  se  adaptar
com domínio suficiente para satisfazer a si própria e aos outros.
Essas seis hipóteses não tratam da terapia ocupacional. Elas tratam da relação normativa entre o desempenho
ocupacional e a adaptação humana. As hipóteses são relevantes para a terapia ocupacional porque fornecem ao
profissional uma maneira de compreender o cliente e os problemas que são apresentados na terapia. O ponto de
vista  mais  comum  experimentado  pelo  profissional  da  terapia  ocupacional  consiste  no  modelo  médico  e  suas
hipóteses subjacentes. Em medicina, os pacientes são geralmente vistos em termos de seus sistemas orgânicos. O
tratamento  tem  foco  na  correção  do  mau  funcionamento  do(s)  sistema(s)  identificado(s).  As  hipóteses
subjacentes da Medicina sobre a doença e o tratamento modelam a visão e os procedimentos que são utilizados.
Por exemplo, uma enfermeira revisa os resultados laboratoriais, os sinais vitais e a evolução do prontuário. A
enfermeira visita o homem branco de 68 anos de idade e pergunta: “Como o Sr. está passando hoje?” O paciente
responde: “Muito bem, mas ainda estou sentindo muita dor e fico cansado com facilidade.” A enfermeira pede
ao médico para prescrever mais medicação analgésica e aumento da atividade.
Um  profissional  cuja  prática  se  baseia  na  AO  enxergará  o  cliente  através  do  filtro  das  seis  suposições  que
fundamentam a teoria. Os constructos, os modelos e os métodos de tratamento da AO baseiam­se, sem exceção,
nessas hipóteses. Elas formam o cerne da teoria da adaptação ocupacional. O profissional baseado na AO visita o
mesmo  cliente  de  68  anos  de  idade.  O  profissional  está  ciente  de  que  o  homem  é  um  motorista  de  ônibus
aposentado, que é casado com a mãe de seus quatro filhos e que eles têm nove netos. “O que você gostaria de
fazer  hoje,  se  não  tivesse  quebrado  seu  quadril?”  O  cliente  responde:  “Oh,  não  sei,  a  única  coisa  que  importa
agora  é  ficar  sobre  meus  pés.”  O  profissional  replica:  “Está  bem,  nos  focaremos  nisto.  Você  teve  uma  fratura
muito ruim e pode precisar fazer algumas coisas de modo diferente quando for para casa. Eu o ajudarei nisto.
Vamos conversar sobre o que é mais importante para você.”

INTRODUÇÃO À TEORIA DA ADAPTAÇÃO OCUPACIONAL
A  primeira  publicação  sobre  a  teoria  da  adaptação  ocupacional  foi  apresentada  em  duas  partes  (Schkade  &
Schultz,  1992;  Schultz  &  Schkade,  1992).  A  Parte  I  apresenta  as  hipóteses  da  teoria  sobre  a  relação  entre  a
adaptação humana e o desempenho das ocupações cotidianas. Um modelo normativo, o processo de adaptação
ocupacional,  foi  proposto  para  descrever  a  interação  entre  a  pessoa,  o  ambiente  e  os  processos  adaptativos
internos  que  ocorrem  quando  as  pessoas  se  engajam  em  suas  ocupações  da  vida  diária  (Schkade  &  Schultz,
1992).  O  modelo  é  apresentado  em  um  formato  linear.  No  entanto,  a  autora  reconhece  que  o  processo  real  de
adaptação ocupacional  caracteriza­se  por  complexidade,  aleatoriedade  e  não  linearidade  (p.  ex.,  Davies,  1988;
Gleick,  1987;  Prigogine  &  Stengers,  1984).  Esses  processos  humanos  não  são  inerentemente  descritíveis  por
modelos  bidimensionais.  Por  outro  lado,  o  benefício  de  um  modelo  linear  é  que  ele  fornece  uma  organização
simples de fenômenos altamente interativos e complexos. Esta organização é necessária para o estabelecimento
de  um  exame  sistemático.  Em  síntese,  o  processo  de  adaptação  organizacional  é  um  processo  altamente
interativo,  complexo  e  de  auto­organização  que  tem  como  meta  alcançar  o  domínio  do  ambiente.  O  modelo
linear  proporciona  a  base  para  o  diálogo  acadêmico.  O  objetivo  nos  processos  dinâmicos  de  auto­organização
não  é  alcançar  um  determinado  equilíbrio.  A  teoria  da  adaptação  ocupacional  propõe  que  o  equilíbrio  ou
homeostase pode resultar, na realidade, em um estado de desadaptação. A adaptação pessoal é proposta na teoria
como  um  fenômeno  humano  que  está  em  contínuo  processo  de  ordenação  e  desordenação  e  reorganização.  A
Fig. 45.1 apresenta uma versão modificada do modelo original de 1992. O modelo revisado foi simplificado em
relação ao apresentado em 1992. Também é um modelo linear que foi criado como um meio de examinar esses
processos  complexos.  Embora  os  modelos  dinâmicos  sejam,  muitas  vezes,  mais  inclusivos  de  múltiplos
fenômenos, um processo identificável geralmente é ilusório. O modelo do processo da AO (Fig. 45.1) baseia­se
em elementos abrangentes: a pessoa, o ambiente ocupacional e a interação destes. Cada um é uma condição,
sempre dinâmica, que influencia o outro. A discussão a seguir trata da Fig. 45.1. A terminologia que é específica
para a teoria e/ou para o modelo é inicialmente apresentada em itálico.

Pessoa: Fatores Internos do Processo da AO
O lado esquerdo do modelo é dedicado aos fatores internos: aqueles que ocorrem dentro da pessoa. O processo
começa com um desejo de domínio. O desejo de domínio é proposto na teoria da AO como um fator constante
no processo da AO; sempre está presente. Mesmo em nível celular, existe demanda constante para adaptação e
domínio (Reilly, 1962). Buscar o domínio sobre o ambiente é compreendido como uma condição humana inata.
O segundo fator, a pessoa, é constituído dos sistemas sensorimotor, cognitivo e psicossocial dessa pessoa. Esses
sistemas são exclusivos dessa pessoa com atributos e déficits específicos. Eles também são afetados de maneira
única pelas influências genéticas, biológicas e fenomenológicas do indivíduo. A teoria da adaptação ocupacional
pressupõe que todas as ocupações são holísticas. Isto é, todas as ocupações envolvem os sistemas sensorimotor,
cognitivo e psicossocial. A contribuição relativa de cada sistema se modifica de acordo com as circunstâncias
que envolvem a ocupação.

Fig. 45.1 Modelo do Processo de Adaptação Ocupacional. Adaptado de AO Process Model (Schkade & Schultz,
1992).

Ambiente Ocupacional: Fatores Externos do Processo da AO
O lado direito do modelo é destinado aos fatores externos que afetam a pessoa (veja a Fig. 45.1).  De  maneira
correspondente, o processo externo também inicia com um fator constante: a demanda pelo domínio. A teoria da
AO propõe que qualquer circunstância se apresenta com um grau mínimo de demanda por domínio. O segundo
fator externo é o ambiente ocupacional. O termo foi criado pelas autoras com intuito de expressar o significado
dinâmico  que  elas  atribuíram  à  complexidade  dos  fatores  externos  à  pessoa  no  processo  da  AO.  O  ambiente
ocupacional é altamente significativo não apenas pela expectativa da pessoa, mas também exerce impacto direto
sobre a pessoa. O ambiente ocupacional representa o contexto global no qual a pessoa se engaja na ocupação em
questão e no papel ocupacional. Existem três tipos gerais de ambiente ocupacional: trabalho, brincadeira/lazer e
autocuidado. Cada tipo de ambiente ocupacional é afetado pelas influências físicas, sociais e culturais que fazem
parte  do  contexto  experimental  do  indivíduo.  A  influência  física  consiste  no  ambiente  real  em  que  ocorre  a
ocupação. A influência social é constituída pelas pessoas que participam do ambiente ocupacional. A influência
cultural  representa  hábitos,  costumes,  tradições  e  rituais  que  existem  no  ambiente  ocupacional.  O  ambiente
ocupacional também é um contexto experimental e continuamente dinâmico.

O Processo da AO: Interação entre os Fatores Internos e Externos
Os  fatores  internos  e  externos  interagem  continuamente  entre  si  ao  longo  da  modalidade  da  ocupação.  A
interação contínua do desejo por domínio da pessoa com a demanda por domínio do ambiente ocupacional cria
uma terceira constante: a pressão por domínio. Esta constante forma a parte central do modelo de processo da
AO. A pressão por domínio gera o desafio ocupacional. As expectativas do papel ocupacional da pessoa e do
ambiente  ocupacional  sofrem  interseção  em  resposta  ao  desafio  ocupacional  único  que  a  pessoa  experimenta.
Ocorre uma demanda por adaptação. A pessoa produz uma resposta adaptativa interna à situação e, em seguida,
uma  resposta  ocupacional.  A  resposta  ocupacional  é  o  resultado  –  o  subproduto  observável  da  resposta
adaptativa. É a ação ou o comportamento que a pessoa executa em resposta ao desafio ocupacional. O processo
de adaptação ocupacional começa no topo dos lados direito e esquerdo do modelo simultaneamente.

O Processo da AO: Subprocessos da Resposta Adaptativa
No processo abrangente de adaptação ocupacional, existem três subprocessos que são internos à pessoa. Eles são
propostos para explicar os processos adaptativos que a pessoa ativa em resposta a um desafio ocupacional. Os
subprocessos  da  adaptação  ocupacional  possibilitam  que  a  pessoa  planeje  a  resposta  adaptativa,  avalie  o
resultado  e  integre  a  avaliação  à  pessoa  como  adaptação.  Os  três  subprocessos  são  identificados  como
subprocesso de geração, subprocesso de avaliação e subprocesso de integração.
O subprocesso de geração da resposta adaptativa consiste na porção antecipatória da adaptação humana (veja
a Fig. 45.2). O subprocesso de geração é ativado por um mecanismo que explica como se produz uma resposta
adaptativa. O mecanismo da resposta adaptativa consiste em energia de adaptação, tipos de resposta adaptativa
e  comportamentos  de  resposta  adaptativa.  O  mecanismo  e  os  três  componentes  são  interativos;  eles  não  são
lineares  nem  hierárquicos.  Esses  componentes  fornecem  os  recursos  que  o  indivíduo  busca  para  gerar  uma
resposta adaptativa a um desafio ocupacional. O mecanismo de resposta adaptativa é mais bem compreendido
como um sistema dinâmico (p. ex., Davies, 1988; Gleick, 1987; Prigogine & Stengers, 1984).
A teoria da AO propõe que a pessoa utiliza a energia de adaptação em um nível primário ou secundário da
consciência cognitiva. Se a pessoa apresenta um alto nível de consciência cognitiva quando tenta produzir uma
resposta  adaptativa,  o  nível  primário  da  energia  de  adaptação  está  sendo  utilizado.  Se  a  pessoa  não  está
intensamente determinada a criar uma resposta adaptativa, está sendo utilizado um nível secundário da energia
de  adaptação.  Para  ilustrar,  uma  pessoa  pode  trabalhar  e  trabalhar  sobre  um  problema  (utilizando  a  energia
primária).  Quando  uma  solução  não  está  perto  de  ser  encontrada,  a  pessoa  poderia  decidir  cortar  a  grama  ou
fazer o jantar (essas atividades rotineiras possibilitam que a energia secundária continue a processar e trabalhar
sobre o problema). Com frequência, quando a pessoa volta ao problema inicial, “surge uma luz” e o indivíduo
tem uma nova ideia – uma solução que estava obscurecida enquanto a pessoa se concentrava no problema. Em
alguns casos, a solução aparece ainda mais cedo, enquanto a pessoa ainda está engajada na atividade rotineira. A
explicação  comum  para  essa  ocorrência  é  semelhante  a  “Apenas  precisei  tirar  aquilo  de  minha  mente”.  No
entanto, a teoria da adaptação ocupacional propõe que o problema não saiu da mente do indivíduo; em vez disso,
o problema continuou a ser processado em outro nível, isto é, com a energia secundária. O parágrafo seguinte
fornece uma discussão mais completa desse fenômeno.
A noção da energia de adaptação baseia­se na pesquisa de Selye (1956) sobre o estresse e seu efeito sobre as
glândulas  suprarrenais  em  animais  de  laboratório.  Selye  concluiu  que  o  estresse  constante  levava  ao  uso
excessivo  da  capacidade  adaptativa  dos  sistemas  endócrinos  dos  animais  e  à  morte  prematura.  Ele  pressupôs
uma  síndrome  de  adaptação  geral  para  descrever  esse  processo  e  extrapolou  a  presença  de  um  processo
semelhante  em  seres  humanos.  Com  base  nos  trabalhos  de  Selye  e  de  Posner  (1973),  a  teoria  da  adaptação
ocupacional  pressupõe  que  o  exemplo  anterior  ilustra  o  uso  da  energia  de  adaptação  que  ocorre  nos  níveis
primário  e  secundário  da  atenção  cognitiva.  A  noção  de  processamento  da  informação  de  Posner  em  níveis
simultâneos  ou  paralelos  foi  uma  importante  influência  para  essa  hipótese.  Uma  segunda  influência  foi  a
literatura  sobre  a  resolução  criativa  de  problemas  (Whetton  &  Cameron,  1984).  A  resolução  criativa  de
problemas envolve métodos de busca de alternativas para as abordagens existentes (“quadro de ruptura”) quando
outras tentativas falharam em produzir soluções.
Fig. 45.2 Os Subprocessos de Geração da Resposta Adaptativa são internos à pessoa (veja a Fig. 45.1).

Na  primeira  parte  do  cenário  anterior,  a  pessoa  utilizou  a  energia  de  adaptação  no  nível  primário  da
consciência cognitiva. Quando engajada na atividade rotineira, a pessoa não “retirou o problema de sua mente”.
À  medida  que  a  pessoa  passou  para  outras  atividades,  o  problema  foi  desviado  para  o  nível  secundário  de
consciência. O nível secundário não é inferior ao nível primário. O nível secundário da consciência continuou a
trabalhar o problema (utilizando a energia de adaptação) de maneira mais eficiente e sofisticada do que aquela
do nível primário. A ideia de um nível secundário de atenção cognitiva traz algumas semelhanças conceituais ao
conceito  de  processamento  subcortical  de  Ayres  (1972).  No  entanto,  na  teoria  da  adaptação  ocupacional,
compreende­se que o nível secundário de processamento cognitivo permanece na área cortical do cérebro.
O  segundo  componente  do  mecanismo  de  resposta  adaptativa  é  identificado  como  os  tipos  de  resposta
adaptativa. Este conjunto contém os padrões adaptativos ou as estratégias que a pessoa estabeleceu por meio das
experiências  de  vida.  Elas  são  classificadas  como  existentes,  modificadas  ou  novas.  Os  tipos  de  resposta
adaptativa  são  inicialmente  ações  reflexas  ou  aleatórias  no  bebê.  Elas  são  reforçadas  à  medida  que  são
generalizadas para novos desafios com resultados bem­sucedidos. Quando enfrenta um desafio ocupacional pela
primeira vez, a pessoa comumente seleciona um tipo de resposta adaptativa existente e atua de acordo com ela.
Se o resultado é malsucedido, a pessoa pode modificar o tipo de resposta e, então, alcançar um resultado bem­
sucedido. A pessoa desenvolve um novo tipo de resposta quando o desafio difere muito daquele experimentado
anteriormente. No entanto, o grau de desafio pode superar as experiências e a capacidade adaptativa da pessoa.
O terceiro componente é identificado como comportamento da resposta adaptativa. De acordo com a teoria da
AO, existem três classes gerais desses comportamentos: hiperestável, hipermóvel e transicional. Esse sistema de
classificação foi retirado da teoria da adaptação espaço­temporal de Gilfoyle, Grady e Moore (1990). Da mesma
maneira  que  com  os  outros  dois  componentes  do  mecanismo  da  resposta  adaptativa,  esses  comportamentos
existem no repertório de experiências da pessoa. Quando confrontado com um desafio ocupacional, o indivíduo
seleciona um dos comportamentos em resposta ao desafio. Os comportamentos hiperestáveis são aqueles em que
o indivíduo continua a tentar a mesma solução ou “empaca” (p. ex., o indivíduo que senta e fica olhando a tela
do computador, esperando que as ideias apareçam). O indivíduo que seleciona um comportamento hipermóvel
passará  rapidamente  de  uma  solução  para  outra,  com  uma  grande  quantidade  de  atividade,  mas  sem  nenhum
resultado.  O  comportamento  transicional  é  uma  mistura  do  hiperestável  e  do  hipermóvel  que  promove  maior
oportunidade de um resultado positivo.
Em  resumo,  quando  uma  pessoa  enfrenta  um  desafio  ocupacional,  o  mecanismo  de  resposta  adaptativa  é
ativado. O indivíduo recorrerá à experiência prévia que está disponível no mecanismo de resposta adaptativa. A
pessoa  seleciona  um  nível  de  energia  de  adaptação,  um  tipo  de  resposta  adaptativa  e  um  comportamento  de
resposta  adaptativa  para  utilizar  na  adaptação  a  um  desafio.  Nesse  ponto,  foi  criado  o  plano  de  ação.  Isso
completa o primeiro estágio da produção de uma resposta adaptativa.
O  segundo  estágio  é  igualmente  significativo.  A  pessoa  configura  seus  sistemas  pessoais  (sensorimotor,
cognitivo e psicossocial) para executar o plano de ação. A configuração resulta no que é denominado adaptação
de configuração do funcionamento sensorimotor, cognitivo e psicossocial idiossincrático da pessoa. A Fig. 45.2
apresenta  os  sistemas  equilibrados  na  configuração  do  todo.  No  entanto,  nas  situações  do  mundo  real,  o
equilíbrio relativo dos sistemas da pessoa irá se ajustar de acordo com o desafio ocupacional e o funcionamento
pessoal  do  indivíduo.  Da  mesma  maneira  que  com  o  mecanismo  da  resposta  adaptativa,  a  adaptação  de
configuração também se fundamenta na experiência prévia da pessoa. As configurações que a pessoa considerou
efetivas anteriormente podem ser ineficazes nas futuras necessidades. Dependendo das circunstâncias, a pessoa
pode  produzir  uma  configuração  fadada  ao  fracasso.  Por  exemplo,  o  desafio  pode  exigir  um  alto  nível  de
atividade cognitiva e baixa emotividade; contudo, por causa da ansiedade, a configuração da pessoa pode estar
excessivamente  concentrada  nos  aspectos  psicossocial  e  sensorimotor  e,  assim,  comprometer  a  configuração
restante disponível para o processamento cognitivo.
O mecanismo de resposta adaptativa e a adaptação da configuração produzem a resposta adaptativa interna ao
desafio  ocupacional.  A  resposta  ocupacional  consiste  no  produto  da  resposta  adaptativa  interna  do  indivíduo.
Embora a resposta adaptativa não seja diretamente observável, ela é operacionalizada na resposta ocupacional. A
natureza da resposta adaptativa interna pode ser prontamente observada por cuidadosas observação e análise da
abordagem do indivíduo à tarefa, de seus métodos de solução de problemas e do resultado.
O subprocesso de avaliação da resposta adaptativa é ativado quando a pessoa avalia a qualidade da resposta
ocupacional (veja a Fig. 45.3). A pessoa avalia a qualidade ao examinar sua experiência de domínio. Como esta
é  uma  avaliação  pessoal,  a  avaliação  é  relativa  à  pessoa  –  portanto,  o  termo  domínio relativo.  Existem  quatro
medidas no domínio relativo: eficiência (uso de tempo, energia, recursos); eficácia (o quanto a meta desejada
foi atingida); satisfação do “eu”; e satisfação à sociedade. O domínio relativo é essencialmente fenomenológico.
Se  a  avaliação  da  resposta  ocupacional  é  positiva  no  geral,  existe,  provavelmente,  pouca  necessidade  de
adaptação adicional. Se o resultado é negativo, o subprocesso de integração da resposta adaptativa (veja a Fig.
45.4) comunica essa informação à pessoa. A pessoa pode então produzir uma resposta adaptativa modificada ou
uma nova resposta a fim de alcançar o nível desejado de domínio em qualquer uma ou em todas as medidas do
domínio  relativo.  O  texto  acima  descreve  o  subprocesso  de  geração,  avaliação  e  integração  da  resposta
adaptativa normativa.

Fig. 45.3 Subprocesso de Avaliação da Resposta Adaptativa: os Subprocessos da Resposta Adaptativa são
internos à pessoa (veja a Fig. 45.1).
Fig. 45.4 Subprocesso de Integração da Resposta Adaptativa: os Subprocessos da Resposta Adaptativa são
internos à pessoa (veja a Fig. 45.1).

INTRODUÇÃO À PRÁTICA BASEADA NA TEORIA DA ADAPTAÇÃO OCUPACIONAL
Com frequência, é difícil diferenciar as teorias mais evidentes da terapia ocupacional. Estudantes e profissionais
dizem com frequência: “Há muita sobreposição e parece que existem apenas pequenas diferenças entre as várias
teorias.” Qual é a singularidade da adaptação ocupacional para a prática? A seguir, apresentamos uma resposta
para esta questão.
A  teoria  da  adaptação  ocupacional  direciona  a  prática  para  o  uso  terapêutico  da  ocupação  para  promover  a
adaptação.  A  ocupação  é  o  instrumento.  É  o  meio  do  qual  o  profissional  se  utiliza  para  melhorar  a
adaptabilidade do cliente. Por conseguinte, a meta fundamental do tratamento consiste em maximizar a eficácia
do cliente na utilização de sua capacidade de adaptação. A teoria da adaptação ocupacional baseia­se em uma
única hipótese central: que, à medida que a pessoa se torna mais adaptável, ela se torna mais capaz de ser uma
participante ativa na vida diária. Esta é uma diferença em relação a outras teorias da prática baseada na ocupação
que enfatizam o aumento da função e/ou do desempenho ocupacional como a meta da terapia. Toda a terapia é
direcionada por hipóteses centrais, quer estas hipóteses estejam ou não na consciência do profissional. A teoria
da AO tem foco no desenvolvimento da adaptabilidade do indivíduo. A ocupação é o meio de aquisição da meta.
Um profissional baseado na AO seleciona técnicas que sejam compatíveis com a hipótese fundamental da teoria.
O  profissional  alcança  a  meta  abrangente  do  tratamento  ao  apresentar  técnicas  que  ativarão  e  melhorarão  o
processo de adaptação interna da pessoa. O profissional orienta a pessoa a selecionar o papel ocupacional sobre
o qual ela quer se concentrar. As pessoas identificarão prontamente as atividades que elas desejam ser capazes de
realizar. No entanto, é importante que o profissional ajude os clientes a escolherem um papel de vida em que eles
façam um investimento significativo. A teoria da AO pressupõe que as atividades adquirem significado apenas
no contexto de um papel.
A  teoria  diz  que  a  adaptabilidade  do  cliente  determina  o  desempenho  ocupacional.  Algumas  pessoas  são,
caracteristicamente, mais adaptáveis e responderão de maneira efetiva ao enfrentar um divórcio, o nascimento de
um filho, um acidente vascular cerebral, a depressão ou uma importante mudança para uma nova cidade. Elas
assumem a responsabilidade por suas vidas e se adaptam. Elas são pessoas adaptáveis. Outras, por natureza, são
mais  facilmente  vencidas  pelos  desafios  da  vida.  Sua  capacidade  de  adaptação  (capacidade  de  gerar  respostas
adaptativas efetivas) é limitada.
Cada  cliente  da  terapia  ocupacional  apresenta  seu  padrão  característico  de  adaptação  pessoal.  A
adaptabilidade é relativa à pessoa. Cada cliente também apresenta diferentes fatores cognitivos, sensorimotores e
psicossociais que podem comprometer ou facilitar a capacidade do cliente de ser adaptável. A cada complicação
acrescentada, incluindo as expectativas internas e externas do papel, a demanda por adaptação torna­se cada vez
maior para essa pessoa.
Em  uma  prática  direcionada  pela  AO,  o  foco  do  profissional  deve  estar  sobre  o  aumento  da  capacidade  de
adaptação do cliente. A meta não é ajudar o cliente a se adaptar. A meta consiste em ajudar o cliente a se tornar
adaptável. No estágio inicial do tratamento, o profissional pode ensinar métodos de adaptação ao cliente e pode
introduzir dispositivos de assistência ou ensinar habilidades específicas (prontidão ocupacional). No entanto, o
tratamento  precisa  progredir  o  mais  rapidamente  possível  para  as  atividades  ocupacionais  que  o  cliente
considera  significativas  (Frankl,  1984).  O  Processo  de  Raciocínio  Clínico  e  Profissional  da  Adaptação
Ocupacional  fornece  uma  progressão  sistemática  das  questões  utilizadas  pelo  profissional  para  orientar  seu
pensamento global e o programa terapêutico (veja a Fig. 45.5). A Figura 45.6 apresenta o Guia para Avaliação e
Tratamento em Adaptação Ocupacional.
Os clientes ficam mais inclinados a descobrir suas próprias capacidades de adaptação quando são desafiados
por atividades ocupacionais,  isto  é,  atividades  significativas,  que  tenham  início e fim, sejam orientadas para o
processo e resultem em um produto final (Schkade & Schultz, 1992). É parte da natureza humana ser motivado a
participar  ativamente  quando  a  atividade  tem  um  significado  pessoal.  A  atração  do  indivíduo  para  a  atividade
estimula o desejo de se adaptar. A capacidade adaptativa do cliente é evocada pelo significado. Uma atividade
significativa dá ao profissional um instrumento poderoso para observar o processo de adaptação interna. Podem
ser prontamente observados os padrões de adaptação que interferem na capacidade do cliente de se adaptar. O
profissional intervém quando as oportunidades são apresentadas durante o engajamento do cliente na atividade.
Essas  oportunidades  são  tipicamente  inerentes  à  atividade  e  exigem  que  o  cliente  produza  uma  resposta
adaptativa.  O  profissional  aproveita  essa  janela  de  oportunidade  para  facilitar  a  adaptabilidade  do  cliente.  O
tratamento  pode  focar­se  na  abordagem  geral  do  cliente  para  o  problema,  na  dificuldade  de  produzir  uma
resposta  adaptativa  ou  de  avaliar  a  eficácia  das  respostas,  na  repetição  das  técnicas  ineficazes,  na  redução  da
capacidade  adaptativa,  na  depressão,  na  frustração,  e  assim  por  diante.  Estes  são  os  bloqueios  comuns  que
interferem  nos  processos  da  resposta  adaptativa  do  cliente.  O  profissional  intervém  por  meio  de  um  sistema
progressivo  de  formulação  de  questões  e  de  observações  do  cliente.  A  estrutura  de  perguntas  e  observações  é
modelada de acordo com o funcionamento cognitivo e psicossocial do cliente. O profissional orienta o cliente,
por meio de questões e observações, a assumir o papel de tomador de decisões e solucionador de problemas. O
profissional não fornece mais do que a orientação absolutamente essencial. É melhor errar para menos que para
mais. Quanto mais o profissional direciona, soluciona e ensina, menos adaptativo o cliente irá se tornar.
A relação terapêutica tem um significado primordial na teoria da adaptação ocupacional. A relação evolui para
uma dança habilidosa entre o cliente e o profissional. É uma parceria em que o cliente assume a liderança. O
profissional torna­se um facilitador. Isto é, a função do profissional é a de ajudar o cliente a descobrir sua própria
capacidade  de  ser  adaptável.  O  profissional  é  o  agente  do  ambiente  ocupacional.  O  cliente  é  o  agente  da
mudança (Schkade & Schultz, 1993).

Fig. 45.5 Adaptação Ocupacional: Processo de Raciocínio Terapêutico.

INTERRUPÇÃO DO PROCESSO DA AO
Embora a teoria da adaptação ocupacional não seja a respeito do domínio por si só, é a presença constante do
desejo,  da  demanda  e  da  pressão  pelo  domínio  que  proporciona  o  ímpeto  para  que  o  indivíduo  se  adapte.  Em
outras palavras, essas constantes são influências pervasivas e contínuas. Enquanto a pessoa puder alcançar um
equilíbrio satisfatório entre o desejo e a demanda pelo domínio, o processo de adaptação ocupacional normativa
(veja  a  Fig.  45.1)  estará  atuando  efetivamente  e  ocorrerá  com  pouca  ostentação.  Os  desafios  cotidianos
acontecem e as respostas adaptativas são produzidas, avaliadas e integradas. A pessoa é capaz de recorrer aos
sistemas pessoais existentes e ao repertório de respostas adaptativas, a fim de produzir um resultado satisfatório.
Quando o processo de adaptação ocupacional normativo é interrompido, as respostas adaptativas da pessoa se
tornam,  com  frequência,  inadequadas.  Os  comprometimentos  nos  sistemas  pessoais  impõem  limites
significativos à capacidade do indivíduo de utilizar efetivamente as respostas adaptativas existentes ou prévias.
Comumente, problemas cognitivos comprometem ainda mais a capacidade de adaptação. Surge a depressão, e o
domínio relativo da pessoa torna­se cada vez menor. Este cenário é uma ocorrência comum para clientes que são
encaminhados para a terapia ocupacional. Os desafios superam a capacidade de adaptação do cliente.
O estudo de caso demonstra uma situação baseada na escola. No entanto, a abordagem será idêntica caso o
cliente seja um paciente hospitalar com um acidente vascular cerebral ou uma mãe com uma criança prematura
frágil.  A  terapia  baseada  na  adaptação  ocupacional  está  centrada  no  trabalho  com  o  cliente  para  o
desenvolvimento de sua capacidade de responder de modo mais adaptável aos desafios ocupacionais. Por vezes,
as necessidades de prontidão ocupacional podem superar aquelas para a adaptabilidade. Este é um julgamento
que é feito pelo profissional. Muitas vezes, ambos precisam ser abordados durante a terapia. Quanto mais grave
for  o  comprometimento  ou  a  limitação,  maior  será  a  necessidade  do  cliente  de  se  tornar  o  mais  adaptável
possível.
Fig. 45.6 Adaptação Ocupacional: Guia para Avaliação e Tratamento.

FORÇAS E LIMITAÇÕES
A  teoria  da  adaptação  ocupacional  fornece  aos  profissionais  uma  orientação  teórica  holística.  Suas  hipóteses
estão de acordo com as ideias de ocupação e adaptação inerentes à história e à filosofia da profissão (Schultz &
Schkade,  1997).  Ela  fornece  uma  maneira  organizada  de  pensar  e  comunicar  acerca  do  tratamento  de  terapia
ocupacional  baseado  na  ocupação,  orientado  para  o  processo  e  centralizado  no  cliente.  Outra  força  é  a
compatibilidade da adaptação ocupacional com a terminologia da Organização Mundial de Saúde (2004) e sua
preocupação com a capacidade de pessoas e grupos de pessoas participarem plenamente da sociedade. Do ponto
de  vista  da  adaptação  ocupacional,  a  ocupação  desempenha  um  papel  significativo  como  um  facilitador  da
participação social. Da mesma maneira, a disfunção na ocupação torna­se um fator significativo de limitação à
participação  social.  A  teoria  da  adaptação  ocupacional  fornece  aos  profissionais  uma  maneira  de  pensar,
descrever e planejar o tratamento baseado na ocupação.

ESTUDO DE CASO: Alfonso Aprende uma Nova Resposta à Frustração

Claudette cumprimenta Alfonso à porta quando ele entra na sala de aula. “Olá, Alfonso, meu nome é Srta.
Murphy. Bem vindo ao grupo. Por que você não fica olhando por aí por enquanto... podemos conversar um
pouco mais tarde.” Enquanto Alfonso começa a ficar à vontade no ambiente ocupacional, existe uma grande
quantidade de atividade – conversar e fazer. Os membros do grupo (seis no total) observam Alfonso. Alguns
o  cumprimentam;  outros  não.  Ele  observa  de  modo  hesitante  um  par  de  meninos  trabalhando  em  seus
projetos individuais. Claudette percebe que Alfonso está esperando que ela assuma o controle. Ele reluta em
tocar em qualquer um dos materiais. Ele olha para Claudette, solicitando orientação. Ela lentamente balança
a cabeça e volta sua atenção para outro estudante. A maneira de Claudette de incluir o aluno no grupo está
totalmente de acordo com sua abordagem de tratamento.
O  grupo  é  fundamentado  na  teoria  da  adaptação  ocupacional.  Isto  se  reflete  nos  instrumentos
terapêuticos que Claudette utiliza (veja o Boxe 45.1). Um instrumento é seu gerenciamento, ou controle, do
ambiente ocupacional (AO) terapêutico. O segundo é o gerenciamento de si própria, isto é, sua capacidade
de incorporar o “uso terapêutico de si própria” nas sessões de terapia. Esta habilidade está inserida em todo
o  estudo  de  caso.  O  leitor  é  referido  ao  clássico  estudo  inicial  de  Gail  Fidler  (1963)  para  uma  discussão
sobre métodos e técnicas específicos. O terceiro instrumento é a compreensão de Claudette sobre como a
ocupação pode ser utilizada para ajudar a pessoa a se tornar mais adaptável e a responder de maneira mais
efetiva aos desafios ocupacionais. O quarto e mais poderoso instrumento é sua aceitação inquestionável do
estudante como agente da mudança.
As  atividades  ocupacionais  (artes  e  habilidades  importantes  para  os  estudantes)  representam  o  tipo  de
tratamento  escolhido.  Os  materiais  são  selecionados  por  sua  faixa  de  desafio  ocupacional  e  poder  de
atração para os estudantes. Alguns dos materiais são inerentemente estruturados; outros são mais abertos.
Claudette  foi  cuidadosa  na  escolha  da  natureza  e  da  essência  do  AO  terapêutico;  isto  é,  ela  organizou
espaço físico, selecionou os materiais e estabeleceu o clima social e os padrões culturais para o grupo da
terapia.
Claudette  segue  o  processo  de  raciocínio  clínico  e  profissional  identificado  na  Fig.  45.5.  O  profissional
deve engajar­se no processo de raciocínio para idealizar tratamentos baseados na adaptação ocupacional
apropriada.  O  formato  apresentado  na  Fig.  45.5  leva  o  profissional  a  pensar  de  imediato  sobre  quais
perguntas  precisam  ser  feitas  durante  todo  o  tratamento.  A  Fig. 45.6  apresenta  um  modelo  de  tratamento
que aplica o raciocínio mostrado na Fig. 45.5. Os métodos e tratamentos de Claudette são compatíveis com
as Figs. 45.5 e 45.6.
Na  terapia  baseada  na  escola,  o  ambiente  ocupacional  e  o  papel  ocupacional  associado  são
predeterminados.  O  ambiente  ocupacional  abrangente  foca­se  nos  trabalhos  e  brincadeiras  associados  à
educação.  (Cada  um  tem  suas  próprias  influências  físicas,  sociais  e  culturais.)  O  papel  ocupacional  é,  por
definição, o de ser um estudante. O ambiente ocupacional apresenta demanda específica por domínio e as
expectativas do papel ocupacional (veja a Fig. 45.1)  do  estudante.  Estas  incluem  a  demanda  por  um  nível
mínimo de desempenho de aprendizado e comportamento. Antes de encontrar Alfonso, Claudette realizou
uma  avaliação  do  ambiente  ocupacional  geral  onde  Alfonso  será  um  participante.  Ela  também  avaliou  as
expectativas do papel ocupacional do ambiente ocupacional para Alfonso. Ela descobriu que as pessoas na
escola esperam que Alfonso cause problemas e saia da escola quando tiver idade suficiente. Estas são as
expectativas reais do papel ocupacional que Alfonso experimenta a cada dia.
Como  demonstrado  no  modelo  de  processo  de  adaptação  ocupacional  (Fig.  45.1),  as  expectativas  do
papel ocupacional de uma pessoa são afetadas por aquelas do ambiente ocupacional. Depois das sessões
iniciais  de  terapia,  Claudette  deduziu  que  Alfonso  foi  fortemente  afetado  pelas  expectativas  da  escola.  Na
realidade,  ele  as  integrou  como  suas  próprias.  Seu  desejo  inato  de  domínio  tornou­se  uma  luta  poderosa
contra o ambiente ocupacional. Ele e a escola estão imersos em uma luta sem vitoriosos.
Claudette  também  revisou  os  registros  escolares  dos  déficits  de  sistemas  pessoais  de  Alfonso.  Estão
nitidamente documentados seu transtorno do déficit de atenção, sua hiperatividade e a dificuldade para ler.
Ela  poderia  incorporar  técnicas  de  prontidão  ocupacional  com  a  meta  de  aumentar  sua  capacidade  de
permanecer  na  tarefa  e  ajudá­lo  a  aprender  como  controlar  melhor  sua  hiperatividade.  Claudette  também
notou, durante os grupos de terapia, que Alfonso apresenta um severo atraso de desenvolvimento em seus
subprocessos de resposta adaptativa. Veja as Figs. 45.2, 45.3 e 45.4 para esclarecimento adicional. (Esses
subprocessos  são  internos  à  pessoa.)  Claudette  observou  que  sempre  que  Alfonso  tem  dificuldade  com
projetos,  ele  tende  a  gerar  repetidamente  o  mesmo  tipo  de  resposta  adaptativa:  ele  se  percebe  como  um
fracasso. Ele utiliza rotineiramente esse tipo de resposta ao abandonar o projeto ou o trabalho, fazendo uma
piada  com  seu  trabalho  ou  causando  problema  para  outro  estudante  no  grupo.  A  professora  de  Alfonso
relata que essa situação também é uma ocorrência frequente na sala de aula.
Em consequência de seu tipo de resposta adaptativa, a adaptação de configuração (Fig. 45.2) é composta
em  grande  parte  de  raiva  e  de  agitação  sensorimotora.  Pouca  atividade  cognitiva  está  presente  na
adaptação  de  configuração.  Como  resultado,  a  etapa  seguinte  de  seus  subprocessos  adaptativos,  a
avaliação  do  resultado,  não  acontece  (veja  a  Fig.  45.3).  Sua  adaptação  de  configuração  não  permite  o
raciocínio  cognitivo.  Claudette  concluiu  que  é  pouco  provável  que  Alfonso  venha  a  responder  de  maneira
mais  efetiva  aos  desafios  ocupacionais,  a  menos  que  ele  adquira  respostas  adaptativas  novas  ou
modificadas.  Seu  sentimento  atual  de  fracasso  (o  tipo  de  resposta  adaptativa)  leva  a  uma  resposta
ocupacional (o comportamento observado) que não é eficiente, nem efetiva, nem satisfatória para ele próprio
ou para os outros. Seu domínio relativo é muito baixo.
Claudette completa a avaliação dos fatores que afetam o desempenho ocupacional dele (veja a Fig. 45.6)
e conclui que seu tratamento deve se concentrar em aumentar a capacidade de Alfonso de produzir um tipo
mais efetivo de resposta adaptativa. Como a prática de Claudette baseia­se na adaptação ocupacional, ela
não  direcionará  a  terapia  para  a  mudança  do  comportamento  de  Alfonso;  isto  seria  incompatível  com  a
teoria.  A  intervenção  de  Claudette  será  idealizada  para  expandir  o  repertório  de  respostas  adaptativas  de
Alfonso com um novo tipo, como “Quando eu tenho problemas com um projeto, posso parar e descobrir qual
é o problema”. Este será um tipo de resposta totalmente novo para Alfonso. Quando ele começar a adquirir
o  novo  tipo  de  resposta,  isso  afetará  sua  adaptação  de  configuração  ao  diminuir  a  emoção  negativa  e  a
agitação  presentes  e  promover  a  configuração  para  o  processamento  cognitivo.  Com  seu  tipo  atual  de
resposta  adaptativa,  Alfonso  está  à  mercê  de  suas  emoções.  Elas  estão  no  controle.  À  medida  que
experimentar um tipo de resposta adaptativa em que tenha maior sensação de domínio, ele terá potencial
não somente para controlar suas emoções, como também para controlar seu comportamento.
Claudette  planeja  trabalhar  com  Alfonso  usando  atividades  ocupacionais  por  ele  selecionadas.  Grande
parte da terapia ocupacional é orientada pela hipótese de que, se o cliente se tornar mais funcional, ele será
capaz  de  se  adaptar.  A  teoria  da  adaptação  ocupacional  assume  o  ponto  de  vista  exatamente  oposto.  A
prática  baseada  na  adaptação  ocupacional  é  orientada  pela  hipótese  de  que,  se  o  cliente  se  tornar  mais
adaptável, ele será capaz de funcionar.
Por  meio  das  atividades  que  Alfonso  aprecia  e  considera  significativas,  Claudette  pode  observar  melhor
seus  processos  adaptativos  e  intervir  quando  apropriado.  Com  base  na  teoria  da  adaptação  ocupacional,
Claudette acredita que Alfonso precisa desenvolver a possibilidade de responder aos desafios ocupacionais
de novas maneiras. Seu método será facilitar isto com o uso dos quatro instrumentos centrais de intervenção
listados no Boxe 45.1. O desafio de Claudette é aproveitar as oportunidades que Alfonso oferece durante as
atividades  ocupacionais.  A  intervenção  no  subprocesso  de  produção  da  resposta  adaptativa  não  pode
acontecer  após  a  resposta  ocupacional  (comportamento  observado).  A  intervenção  deve  acontecer  ao
mesmo  tempo  que  o  cliente  começa  a  produzir  uma  resposta  adaptativa.  Esta  é  uma  breve  “janela”  que
tende  a  abrir  e  fechar  com  muita  rapidez.  Utilizar  a  janela  é  uma  habilidade  sofisticada  que  exige  muita
experiência.  Para  alcançar  a  meta,  Claudette  compreende  que  ela  precisa  utilizar  cada  um  dos  quatro
instrumentos  terapêuticos.  A  seguir,  apresentamos  um  exemplo  de  como  os  quatro  instrumentos  podem
funcionar em uma situação prática real.
À  medida  que  continua  a  observar  os  padrões  de  resposta  adaptativa  de  Alfonso  e  as  respostas
ocupacionais  resultantes,  Claudette  começa  a  reconhecer  os  indícios  de  quando  está  para  surgir  a
oportunidade para uma intervenção. Ela se senta perto de Alfonso, faz um comentário geral qualquer e fica
observando  e  esperando.  Ele  havia  começado  um  projeto,  uma  miniatura  de  carro  de  corrida  de  madeira.
Esta é sua segunda tentativa. Claudette acredita que seu desejo de domínio da atividade está começando a
surgir.  O  primeiro  carro  terminou  no  lixo,  depois  que  ele  tentou  martelar  a  roda  no  eixo  em  vez  de  lixar  o
eixo. Logo, ele se depara com o mesmo desafio do primeiro carro de madeira. Ele começa a ir em direção
ao martelo. A janela para a intervenção se apresentou. Claudette acredita que o caminho mais direto para o
tipo  de  resposta  adaptativa  de  Alfonso  será  por  meio  da  adaptação  de  configuração.  Sua  adaptação  de
configuração  está  tão  sobrecarregada  de  emoção  e  tensão  que  o  tipo  de  resposta  adaptativa  não  está
prontamente disponível para acesso terapêutico. O tratamento de Claudette inicia com uma técnica que ela
acredita  que  terá  o  efeito  positivo  desejado  sobre  sua  configuração.  Ela  conseguirá  isso  por  meio  de  seu
papel de agente do ambiente ocupacional. Claudette inicia a intervenção dizendo lentamente ao estudante
(enquanto  ela  vai  em  direção  ao  eixo  e  à  roda):  “Por  que  esta  coisa  é  tão  difícil  de  entrar  aqui?”  É  uma
declaração retórica, e não realmente uma pergunta para Alfonso. É uma observação que ela está fazendo
em voz alta para o estudante ouvir. É como se você fosse dar voz ao tipo de resposta adaptativa (“Posso
parar e entender isto”) que falta a Alfonso. Ela não está ensinando isto a ele; ela está mostrando. À medida
que  manipula  calma  e  lentamente  os  objetos,  Claudette  percebe  que  Alfonso  voltou  a  sentar­se  em  sua
cadeira;  sua  adaptação  de  configuração  parece  estar  mudando.  Ele  relaxa  um  pouco;  seu  afeto  suaviza.
Claudette  utilizou  seu  controle  do  ambiente  ocupacional  para  afetar  sua  configuração  da  adaptação.  Com
calma  e  curiosidade,  ela  assumiu  o  controle  físico  do  carro  de  corrida.  Sua  ação  reduz  as  demandas
sensorimotoras  sobre  Alfonso.  A  mudança  no  ambiente  ocupacional  possibilita  que  ele  se  distancie  das
emoções  que  também  estava  experimentando.  Por  meio  do  manejo  do  ambiente  ocupacional,  Claudette
promoveu uma poderosa mudança na adaptação de configuração de Alfonso. Logo depois, ele suspirou alto:
“Ufa!” Depois de alguns momentos, Claudette responde à sua autoconsciência verbalizada. Ela comenta: “É
frustrante quando as coisas não funcionam!” (Quanto menos palavras, mais intenso é o impacto.) Mais uma
vez, seu comentário não está sendo feito diretamente para Alfonso. É uma observação que é dita para ele
ouvir  e  talvez  utilizar,  possibilitando  que  ele  adquira  algum  controle  sobre  suas  emoções  ao  transformar
sentimentos em pensamento cognitivo.
Em  consequência  da  intervenção,  Alfonso  experimentou  uma  nova  adaptação  de  configuração.  Agora,
Claudette  direciona  o  tratamento  para  sua  primeira  experiência  com  o  novo  tipo  de  resposta  adaptativa
(“Posso parar e pensar nas coisas”) ao fazer outra observação. “Bem”, diz ela, “Você tentou martelá­lo antes
e  isto  não  funcionou,  então...”  A  observação  de  Claudette  é  a  primeira  etapa  para  ajudar  Alfonso  a
desenvolver um novo tipo de resposta. Ela o está preparando para se perceber de outra maneira – isto é,
experimentar­se  como  um  solucionador  de  problemas.  O  ponto  fundamental  para  o  tratamento  que  está
sendo descrito é que ele não é artificial. Ele não é construído ou teatralizado. Ele é real. Alfonso fala com
excitação:  “Talvez  seja  apenas  um  conjunto  de  má  qualidade.  Pegarei  outro.”  Alfonso  pega  outro  carro  e
logo descobre o mesmo problema. Seu entusiasmo diminui. Claudette não participa de seu desapontamento.
Ela  mantém  seu  foco  terapêutico  e,  mais  uma  vez,  inicia  uma  intervenção  para  afetar  a  adaptação  de
configuração  ao  gerenciar  o  ambiente  ocupacional.  Ela  diz  em  voz  alta:  “Hum,  imagino  que  as  instruções
digam  alguma  coisa  sobre  como  colocar  o  eixo  na  roda.”  Ela  mais  uma  vez  diz  uma  frase  que  leva,  de
imediato,  Alfonso  a  assumir  o  papel  de  solucionador  de  problema.  Alfonso  replica:  “Não  sei,  não  gosto  de
instruções.”  Este  é  um  ponto  central  no  tratamento.  Como  é  o  primeiro  tratamento  direto  com  Alfonso,
Claudette  sabe  que  precisa  fornecer  suporte  suficiente,  porém  não  mais  que  o  absolutamente  necessário.
Claudette também acredita que Alfonso considere o projeto bastante significativo e pode estar ansioso para
arriscar  tentar  ler  as  instruções.  (As  instruções  são  compatíveis  com  seu  potencial  de  leitura.)  Como  pode
ser  antecipado,  ele  tenta  refazer  sua  antiga  batalha  com  o  ambiente  ocupacional  ao  dizer  para  Claudette:
“Por que você não me mostrou o que fazer? Não é este o seu trabalho?” Claudette simplesmente replica:
“Não é o meu projeto... é o seu.” Ela tem o cuidado de dizer esta frase da mesma maneira que as demais. É
apresentada  simplesmente  como  uma  observação.  Por  meio  desse  comentário,  ela  comunica  seu
compromisso  com  Alfonso  de  que  ele  é  o  agente  da  mudança.  Seu  comentário  foi  um  teste  para  sua
autenticidade.  Claudette  continuará  a  trabalhar  com  Alfonso,  seguindo  os  princípios  da  adaptação
ocupacional  e  usando  os  quatro  instrumentos  terapêuticos  fundamentais.  Cada  intervenção  terá  o  objetivo
de ajudá­lo a adquirir um novo tipo de resposta adaptativa (“Posso parar e pensar nas coisas”). À medida
que  ele  começar  a  assumir  o  novo  tipo,  Claudette  mudará  seu  foco  para  o  segundo  subprocesso:  sua
capacidade de avaliar o resultado de sua resposta adaptativa. As Figs. 45.5 e 45.6 fornecem ao leitor uma
explicação mais aprofundada de todo o processo de avaliação e tratamento.

Com frequência, os profissionais questionam se a teoria da adaptação ocupacional é aplicável a pessoas com
sistema cognitivo comprometido. Esta é uma compreensão equivocada e infeliz da teoria. A teoria da adaptação
ocupacional  é  tão  aplicável  a  pessoas  com  déficits  cognitivos  como  àquelas  com  déficits  sensorimotores  ou
psicossociais. A demanda por adaptação para uma pessoa que sofreu um acidente vascular cerebral (AVC) grave
é  a  mesma  que  para  alguém  com  lesão  na  mão.  O  profissional  deve  ajustar  a  comunicação  e  os  métodos  de
tratamento  para  adequar­se  à  capacidade  de  processamento  de  informação  da  pessoa.  A  meta  continua  a  ser
ajudar a pessoa a se tornar o mais adaptável possível. Quanto menos a pessoa é capaz de gerenciar seus sistemas
pessoais,  mais  o  profissional  deve  gerenciar  o  ambiente  ocupacional  para  facilitar  o  potencial  da  pessoa  de
experimentar o nível mais elevado possível de domínio relativo.

ADAPTAÇÃO OCUPACIONAL: INSTRUMENTOS TERAPÊUTICOS CENTRAIS

1. O profissional é o agente do ambiente ocupacional.
2. O profissional incorpora os princípios do uso terapêutico do “eu”.
3. O profissional utiliza a ocupação para promover a adaptabilidade.
4. O cliente é o agente da mudança.

Por vezes, o principal caminho para a comunicação com a pessoa pode estar limitado ao sistema sensorimotor.
A  eficácia  dessa  intervenção  foi  corroborada  pela  consulta  da  autora  a  um  hospital  estadual  para  adultos  com
retardo  mental  severo  e  profundo.  A  equipe  de  tratamento  direto  utilizou  com  os  pacientes  um  sistema  de
recompensa. Quando os clientes eram “bons”, isto é, aderiam às rotinas de tratamento e não gritavam, eles eram
recompensados com o bichinho de pelúcia, a música ou o vídeo prediletos. A equipe estava tentando interromper
o comportamento negativo dos pacientes. A mudança foi direcionada externamente. Trabalhei com a equipe para
redesenhar o programa de reabilitação de modo a incluir os interesses ocupacionais dos residentes. Foi criado um
horário diário de atividades ocupacionais para cada pessoa. A rotina de tratamento foi reestruturada, passando
das tarefas que a equipe precisava cumprir pelos pacientes para tarefas que ajudarão os pacientes a fazer o que
eles consideram significativo. O novo objetivo era aumentar a experiência de domínio dos residentes sobre seus
ambientes.  A  necessidade  de  mudar  o  decúbito  do  paciente  para  evitar  úlceras  de  decúbito  transformou  o
posicionamento em um objetivo com propósito – por exemplo, a fim de assistir ao vídeo preferido, ou melhor,
segurar  o  bichinho  de  pelúcia.  Para  uma  paciente  que  odiava  a  hora  do  banho,  a  música  preferida  ajudou­a  a
relaxar. O ambiente ocupacional foi gerenciado de modo que os residentes tivessem a possibilidade de aumentar
sua  experiência  de  domínio  em  relação  às  situações  de  que  eles  não  gostavam.  Na  abordagem  da  adaptação
ocupacional,  a  mudança  foi  direcionada  pelas  preferências  do  paciente.  Em  consequência  do  aumento  da
sensação de domínio relativo dos pacientes, eles demonstraram menos espasticidade e menos surtos emocionais.
Embora  incapazes  de  comunicar  seu  domínio  relativo  por  meio  de  palavras,  eles  o  expressavam  muito
claramente por meio de seu sistema sensorimotor.
Outra limitação dessa abordagem de tratamento reside nos profissionais que desejam permanecer atrelados a
ambientes e práticas de tratamento de 50 anos passados. Esses profissionais acreditam que o tratamento baseado
no significado não é prático no mundo da atuação cotidiana. Esses profissionais parecem indiferentes à ampla
variedade de modalidades que um profissional pode usar em sua prática. Os resultados são a questão atual para a
prática. A pesquisa baseada nos tratamentos de adaptação ocupacional sustenta a noção de que os clientes cujo
tratamento  se  fundamentou  na  atividade  significativa  e  no  desenvolvimento  da  adaptabilidade  irão  superar
aqueles cuja terapia se concentrou em atividades da vida diária que podem ter pouco significado para os clientes
(p.  ex.,  Buddenberg  &  Schkade,  1998;  Dolechek  &  Schkade,  1999;  Ford,  1995;  Jackson  &  Schkade,  2001;
Johnson & Schkade, 2001).
Outra  limitação  frequentemente  mencionada  é  a  falta  de  um  instrumento  de  avaliação  da  adaptação
ocupacional. Relutei em incentivar o desenvolvimento desse instrumento por diversos motivos. Do meu ponto de
vista, o déficit mais significativo com que a profissão se depara consiste no fato de a maior parte da prática não
ser  direcionada  pela  teoria.  Parece  que  os  instrumentos  de  avaliação  estão  direcionando  a  prática.  Os
profissionais parecem preferir utilizar uma medida estática, em vez de uma teoria para nortear seu processo de
raciocínio.  Isto  afeta  a  natureza  da  prática  e  a  qualidade  da  pesquisa  que  pode  ser  realizada.  A  prática
direcionada pela teoria é obrigatória para que a terapia ocupacional se torne claramente diferenciada no cuidado
de saúde. A avaliação da adaptação ocupacional é inerente ao Processo de Raciocínio Terapêutico (veja a Fig.
45.5).  O  novo  Guia  de  Avaliação  e  Tratamento  de  Adaptação  Ocupacional  (Fig.  45.6)  foi  desenvolvido  para
fornecer  uma  diretriz  adicional  ao  terapeuta.  Parece  haver  algumas  abordagens  orientadas  por  processos  de
sistemas dinâmicos para a avaliação que podem ser compatíveis com a teoria da adaptação ocupacional e que
merecem exploração.

PESQUISA
A pesquisa sobre a eficácia do tratamento de adaptação ocupacional incluiu diferentes métodos. Muitos foram
quase  experimentais  com  distribuição  randômica  entre  os  grupos  de  tratamento  e  controle.  Duas  hipóteses
principais sobre a adaptação ocupacional e seus resultados foram estudadas. A primeira hipótese é a de que o
tratamento  baseado  na  AO  terá  maior  efeito  sobre  a  independência  funcional  do  que  a  terapia  baseada  em
atividades  tradicionais  de  vida  diária.  A  segunda  hipótese  da  AO  é  a  de  que  os  tratamentos  baseados  na
adaptação  ocupacional  resultarão  em  maior  generalização  das  habilidades  aprendidas  na  terapia  do  que  os
métodos de reabilitação da terapia ocupacional tradicional. A Medida de Independência Funcional – Functional
Independence  Measure  (FIM)  foi  utilizada  para  testar  a  primeira  hipótese.  O  desempenho  na  nova  atividade
selecionada pelo paciente foi utilizado para testar a segunda hipótese. Em Gibson e Schkade (1997), os escores
FIM de pacientes internados com AVC foram mais elevados em oito dos itens da FIM do que os do grupo de
controle. Jackson e Schkade (2001) conduziram um estudo semelhante com pacientes internados com fratura de
quadril  e  encontraram  resultados  comparáveis  da  FIM.  Buddenberg  e  Schkade  (1998)  pesquisaram  a
generalização das habilidades aprendidas na terapia para atividades novas com pacientes internados com fratura
de  quadril.  O  grupo  baseado  na  adaptação  ocupacional  realizou  melhor  as  tarefas  que  não  havia  treinado
anteriormente  do  que  o  grupo  de  controle.  Dolecheck  &  Schkade  (1999)  estudaram  o  efeito  de  um  programa
baseado na adaptação ocupacional com pacientes internados com AVC. Eles serviram como seu próprio grupo de
controle durante seis semanas. Os pacientes foram capazes de ficar em pé por mais tempo quando engajados em
uma ocupação significativa do que quando engajados na terapia ocupacional tradicional da instituição. Johnson
& Schkade (2001) realizaram um estudo de um único tema com três pacientes de AVC que receberam alta do
programa domiciliar por causa de progresso insuficiente na mobilidade. No encerramento do tratamento baseado
na adaptação ocupacional, cada um dos pacientes teve ganhos significativos na mobilidade, no autocuidado e no
nível geral de atividade. Esta descrição representa uma parte dos esforços de pesquisa para avaliar a eficácia dos
tratamentos baseados na AO em aplicações práticas.

CONCLUSÃO
A  teoria  da  adaptação  ocupacional  é  apresentada  como  uma  teoria  abrangente  para  a  prática.  Tratamentos
tradicionais,  como  abordagens  de  neurodesenvolvimento,  integração  sensorial  e  biomecânica,  formam  uma
interface  direta  como  parte  da  prontidão  ocupacional  no  planejamento  do  tratamento.  Os  tratamentos  de
prontidão ocupacional limitam­se a abordar os déficits nos sistemas pessoais. O foco nesses tratamentos está na
melhora  do  desempenho.  No  entanto,  a  adaptação  ocupacional  envolve  uma  perspectiva  mais  ampla.  O
tratamento é focado no aumento da adaptabilidade do paciente.

AGRADECIMENTO
Este capítulo é uma extensão direta do trabalho acadêmico de muitos anos da autora em colaboração com Janette
Schkade,  Ph.D.,  OTR,  FAOTA,  Professora  Emérita,  Texas  Woman’s  University.  O  benefício  desta  relação
mutuamente  recompensadora  está  além  da  descrição.  Eu,  assim  como  muitos  de  seus  alunos,  tornei­me  uma
pensadora mais madura e aprendi a abraçar o puro prazer da troca acadêmica vigorosa e veemente por meio de
nosso trabalho conjunto.

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Geneva: Author. Retrieved July 24, 2007, from http://www.who.int/classifications/en/
O Processo da Terapia Ocupacional
JOAN C. ROGERS E MARGO B. HOLM

Sumário
Revisão do Processo de Terapia Ocupacional
Desempenho Ocupacional: Perspectiva Histórica
Modelos Pessoa­Ambiente em Terapia Ocupacional
Modelos Pessoa­Ambiente em Reabilitação e Cuidados de Saúde
O PPTO e a CIF
Resumo
Processo de Terapia Ocupacional: Teoria
Capacidades da Pessoa (Cliente)
Demandas da Tarefa
Demandas Ambientais
A Negociação
Discrepância de Desempenho: As Demandas Excedem as Capacidades
Processo de Terapia Ocupacional (TO): Avaliação
Protocolos de Avaliação: Qual a Combinação Apropriada — PTA, PT, P?
Métodos de Avaliação da PTA: Como os Dados Devem Ser Obtidos?
Conteúdo da PTA: Que Áreas Ocupacionais Devem Ser Avaliadas?
Parâmetros da PTA: O que Queremos Saber Sobre o Desempenho Ocupacional?
Fatores Explicadores da PTA para as Discrepâncias de Desempenho
Processo de Terapia Ocupacional: Definição do Problema
Processo de TO: Planejamento e Execução do Tratamento
Estudos de Caso para Tratamento
Processo de TO: Reavaliação
A Hierarquia do Desempenho Ocupacional: Implicações para Avaliação e Tratamento
Vantagens e Desvantagens das Abordagens para Discrepâncias da Negociação PTA
O Processo de Terapia Ocupacional Revisitado
Conclusão

Objetivos de Aprendizagem
Após a leitura deste capítulo, você será capaz de:
1. Explicar o processo de terapia ocupacional e discutir a importância de seus componentes.
2. Aplicar a negociação Pessoa­Tarefa­Ambiente aos seus clientes.
3. Discutir  as  vantagens  e  desvantagens  de  três  abordagens  de  implementação  do  processo  de
terapia ocupacional: de baixo para cima, de cima para baixo, no contexto do cliente.
4. Desenvolver uma forma estruturada de um problema com o propósito de orientar a intervenção e
explicar sua utilidade na orientação da intervenção.
E
ste capítulo aborda o processo de terapia ocupacional e consiste em oito seções principais. Na primeira seção,
apresentamos  uma  revisão  do  processo  de  terapia  ocupacional  e  seus  principais  componentes:  teoria,
avaliação,  definição  do  problema,  planejamento  do  tratamento,  execução  do  tratamento  e  reavaliação.  Na
segunda e terceira seções, a ênfase da teoria em explicar o desempenho ocupacional – a negociação entre pessoa,
tarefa  e  ambiente  –  é  investigada  historicamente  e,  em  seguida,  é  detalhado  cada  um  dos  três  fatores.  Esta
discussão fornece a base para a compreensão da complexidade do comportamento que os profissionais de terapia
ocupacional  avaliam  e  tratam.  Da  quarta  à  sétima  seções,  os  componentes  restantes  do  processo  de  terapia
ocupacional  são  discutidos  separadamente  –  avaliação,  definição  do  problema,  planejamento  e  execução  do
tratamento e reavaliação. A seção oito revisita todo o processo da terapia ocupacional para enfatizar sua natureza
integrada. O capítulo termina com uma conclusão.

REVISÃO DO PROCESSO DE TERAPIA OCUPACIONAL
O  processo  de  terapia  ocupacional  é  o  método  de  resolução  do  problema  terapêutico  utilizado  pelos
profissionais para ajudar os clientes a melhorarem seu desempenho ocupacional. Consiste em seis componentes
principais  –  teoria,  avaliação,  definição  do  problema,  planejamento  do  tratamento,  execução  do  tratamento  e
reavaliação  (Fig.  46.1)  (Line,  1969;  Rogers  &  Holm,  1989).  Durante  a  avaliação,  os  profissionais  coletam  e
organizam sistematicamente os dados sobre o desempenho ocupacional. Durante a definição do problema, esses
dados são sintetizados para a formulação de um perfil das capacidades e incapacidades do cliente que devem ser
abordadas  pelo  tratamento  de  terapia  ocupacional.  Durante  o  planejamento  do  tratamento,  há  a  proposição  de
estratégias e modalidades de terapia ocupacional específicas para o alívio dos problemas abordados. Ao mesmo
tempo, estabelecem­se os resultados esperados para marcar o fim do tratamento e servir como indicadores da
eficácia do plano de tratamento. Durante a execução, o programa de tratamento é operacionalizado, isto é, ações
são iniciadas para a obtenção dos resultados estabelecidos. Durante a reavaliação, os mesmos dados coletados
durante  a  avaliação  e  que  levaram  à  definição  do  problema  são  novamente  coletados.  Os  dados  iniciais  são
comparados  aos  dados  da  reavaliação  para  determinar  se  foram  obtidos  os  resultados  estabelecidos  e
antecipados. Quando os resultados são alcançados, novos resultados, apropriados para melhorar o desempenho
do  cliente,  são  acrescentados  ou  os  serviços  de  terapia  ocupacional  são  encerrados,  porque  não  são  mais
necessários.  Quando  os  resultados  não  são  alcançados,  os  resultados  ou  o  programa  de  tratamento  são
modificados ou os serviços de terapia ocupacional são encerrados, porque foi atingido o benefício máximo. Em
qualquer  ponto  do  processo,  os  profissionais  da  terapia  ocupacional  podem  referir  os  clientes  para  outros
serviços de terapia ocupacional (p. ex., serviços especiais, como uma avaliação para condução de veículos ou de
segurança em casa), médicos, educacionais ou sociais.
O processo de terapia ocupacional é baseado na história e direcionado pelos dados. (Neste capítulo, o termo
teoria é sinônimo de protocolo, modelo conceitual, estrutura teórica, estrutura conceitual ou estrutura, conforme
discutido  no  Capítulo  42.)  Na  Fig.  46.1,  o  elemento  teoria  do  processo  é  representado  pelo  oval  no  topo  do
diagrama. Cada elemento do processo de terapia ocupacional é influenciado pela teoria usada pelo profissional
para  explicar  o  desempenho  ocupacional  em  determinado  cliente.  A  teoria  subjacente  determina  que  dados
devem ser coletados, o significado desses dados e sua organização nas apresentações do problema, a seleção dos
tratamentos para controle dos problemas identificados, o momento e a duração dos tratamentos executados e a
escolha dos resultados a serem utilizados para a avaliação se os tratamentos atingiram a finalidade pretendida.
Como muitas profissões de cuidado, a terapia ocupacional é uma profissão de múltiplas teorias. Isto significa
que  os  profissionais  aderem  a  diversas  teorias  (p.  ex.,  neurodesenvolvimento,  Modelo  de  Ocupação  Humana,
estrutura  biomecânica  de  referência,  estrutura  de  reabilitação  de  referência)  para  explicar  o  desempenho
ocupacional não somente com base em uma teoria. Essas teorias foram propostas por terapeutas ocupacionais (p.
ex., Modelo de Ocupação Humana), por outros profissionais de reabilitação (p. ex., teoria de reabilitação) e por
profissionais de outras áreas (p. ex., modelo de desenvolvimento). Diferentes teorias podem ser aplicadas para a
obtenção  de  resultados  distintos.  Por  exemplo,  o  Modelo  de  Ocupação  Humana  pode  ser  utilizado  para
revitalizar  os  hábitos  de  vida  diária,  enquanto  o  protocolo  biomecânico  pode  ser  aplicado  para  restaurar
habilidades  de  transferência.  Diferentes  teorias  também  podem  ser  aplicadas  para  o  mesmo  problema  de
desempenho  para  a  obtenção  do  mesmo  resultado.  Por  exemplo,  para  um  cliente  com  fraqueza  de  membro
superior, a independência na alimentação (resultado) pode ser atingida com o uso da abordagem biomecânica,
por meio de atividades de resistência funcional para aumentar a força do membro superior. No entanto, para o
mesmo  cliente,  a  independência  na  alimentação  também  pode  ser  alcançada  com  o  uso  de  uma  conduta
compensatória – utilizando talheres com cabos largos que substituam a força da garra manual reduzida. Dessa
maneira,  se  um  resultado  funcional  estabelecido  não  é  bem  abordado  por  uma  teoria,  outra  teoria  pode  ser
experimentada. Quando uma teoria substitui outra, todo o processo de terapia ocupacional é repetido.
À medida que a ciência subjacente à terapia ocupacional avança, mais dados sobre a eficácia dos tratamentos
de  terapia  ocupacional  são  disponibilizados  e  o  processo  de  terapia  ocupacional  se  torna  mais  acurado.  As
informações  sobre  teorias  específicas  da  terapia  ocupacional  são  abordadas  em  outros  capítulos  deste  livro
(consulte as Unidades VIII, X, XI e XII). O que é importante compreender neste capítulo é o papel fundamental
que a teoria desempenha no direcionamento do processo de terapia ocupacional.
Diversas  características  do  processo  de  terapia  ocupacional  merecem  destaque,  além  de  sua  fundamentação
teórica.
1. Em primeiro lugar, o processo de avaliação, definição do problema, planejamento, execução e reavaliação
da  terapia  ocupacional  é  genérico.  Sua  estrutura  básica  não  é  específica  para  a  condição  (doença,  trauma
etc.) nem para a idade, mas é culturalmente sensível. Ela sustenta o raciocínio terapêutico, independente do
constructo ocupacional (p. ex., área ocupacional, habilidades ou padrões de desempenho) ou da teoria (p.
ex.,  integração  sensorial,  comportamento  ocupacional).  Ela  pode  ser  aplicada  em  qualquer  ambiente  de
prática  –  hospital,  clínica  ambulatorial,  casa  do  cliente,  escola  ou  local  de  trabalho.  O  processo  torna­se
específico na prática dependendo da condição do cliente; da habilidade, do conhecimento e da experiência
do profissional; e do motivo do cliente para procurar os serviços de terapia ocupacional.
Fig. 46.1 O processo de terapia ocupacional.

2. Em  segundo  lugar,  o  processo  da  terapia  ocupacional  é  dinâmico.  Na  introdução  do  processo  de  terapia
ocupacional, os cinco principais componentes foram apresentados como se ocorressem em uma sequência
linear,  com  a  avaliação  seguida  pela  definição  do  problema,  seguida  pelo  planejamento  do  tratamento,  e
assim  por  diante.  No  entanto,  na  prática,  os  componentes  são  altamente  interativos.  Por  exemplo,  os
profissionais  formulam  e  refinam  a  definição  do  problema  em  “tempo  real”,  à  medida  que  os  dados  são
coletados,  em  vez  de  esperar  até  que  todos  os  dados  da  avaliação  sejam  reunidos  (Elstein,  Shulman  &
Sprafka, 1978).
3. Em terceiro lugar, além de ser dinâmico, o processo é cíclico. Por exemplo, quando os dados de reavaliação
indicam que o programa de tratamento não está atingindo os resultados desejados, o programa é revisado,
havendo, assim, um movimento do componente 5 (reavaliação) para o componente 3 (programa). De modo
semelhante, à medida que alguns problemas de desempenho são resolvidos (p. ex., equilíbrio para sentar­
se), outros problemas podem ser abordados (p. ex., vestir­se ou utilizar o computador). Desse modo, tendo
completado o processo para um problema, o profissional pode recomeçar com outros problemas.
4. Em  quarto  lugar,  o  processo  de  terapia  ocupacional  é  executado  de  maneira  colaborativa  pelos  clientes  e
seus  defensores  e  profissionais  (Cipriani  et  al.,  2000;  McAndrew,  McDermott,  Vitzakovich,  Warunek  &
Holm,  2000).  A  validade  dos  dados  da  avaliação  e  da  reavaliação  depende  da  vontade  dos  clientes  em
responderem de maneira franca e verdadeira quando entrevistados ou em questionários e para realizarem o
esforço  necessário  durante  os  testes  de  desempenho.  A  definição  do  problema  leva  em  consideração  as
preferências  e  as  prioridades  dos  clientes.  Os  resultados  estabelecidos  centralizam­se  em  atividades  que
sejam significativas para os clientes em seus ambientes de vida, trabalho e lazer. Os tratamentos de terapia
ocupacional  exigem  a  participação  ativa  dos  clientes  no  desenvolvimento  de  habilidades  e  hábitos
necessários à vida diária.
5. Em quinto lugar, o processo de terapia ocupacional é focado no problema. A identificação do problema ou o
“diagnóstico  ocupacional”  é  fundamental  para  o  planejamento  do  tratamento  (Rogers  &  Holm,  1989;
Rogers & Holm, 1991). Uma descrição acurada do problema (o que é disfuncional e por quê) é essencial
para  a  seleção  do  tratamento  mais  eficaz  (solução)  para  alcançar  resultados  específicos  (resultados
desejados).  Com  o  advento  da  prática  da  terapia  ocupacional  em  ambientes  de  prevenção,  promoção  da
saúde  e  bem­estar,  a  definição  do  problema  precisa  ser  ampliada  para  incluir  problemas  potenciais,  bem
como os problemas existentes. Os problemas podem se desenvolver potencialmente em um futuro próximo
(p.  ex.,  predição  da  dor  musculoesquelética  no  membro  superior  por  causa  da  digitação  prolongada)  ou
distante  (predição  do  diabetes  e  de  problemas  sensoriais  associados  em  clientes  que  estão  atualmente
obesos). A conscientização sobre problemas potenciais reflete uma abordagem proativa que não espera pelo
desenvolvimento  do  problema,  mas  que  reconhece  as  condições  que  facilitam  os  problemas  e  busca
controlá­las antes que provoquem dano.
6. Em sexto lugar, o processo de terapia ocupacional é orientado para o resultado. Todo o processo destina­se a
alcançar um resultado (Evans, Small & Ling, 1995). Espera­se que o desempenho ocupacional mude, em
uma direção positiva, em consequência do tratamento.
7. Por fim, o processo de terapia ocupacional serve de base para o raciocínio terapêutico, mas difere deste. Ele
delineia os blocos de construção para o raciocínio, mas não explica como os profissionais passam de um
componente  para  outro  ou  como  integram  as  informações  de  maneira  eficiente  e  efetiva  para  tomar  as
decisões terapêuticas.

DESEMPENHO OCUPACIONAL: PERSPECTIVA HISTÓRICA
Como  o  desempenho  ocupacional  orienta  todo  o  processo  de  terapia  ocupacional,  é  primordial  que  os
profissionais  compreendam  sua  natureza  e  avaliem  sua  complexidade.  O  desempenho  ocupacional  é
hipoteticamente uma função da negociação entre os fatores internos (pessoa) e externos (tarefa e ambiente da
tarefa) aos seres humanos. A palavra operacional nesta equação é negociação, a qual exige que a pessoa, a tarefa,
e  o  ambiente  sejam  considerados  uma  unidade  integrada  em  vez  de  três  unidades  separadas,  com  a  tarefa  e  o
ambiente sendo vistos isolados da pessoa (Wachs, 1999). A negociação implica uma transação em busca de um
acordo, isto é, um equilíbrio entre a pessoa (cliente) e a tarefa e os fatores do ambiente que sustentam de maneira
ótima  o  desempenho  ocupacional.  Se  os  profissionais  de  terapia  ocupacional  precisam  compreender  o
desempenho ocupacional e avaliá­lo com o objetivo de melhorar o desempenho, o cliente precisa ser percebido
como conectado à tarefa e ao ambiente ou aos ambientes em que a tarefa comumente acontece.
Assim, incorporar a perspectiva da negociação ao processo da terapia ocupacional não exige somente que o
cliente,  a  tarefa  e  os  fatores  do  ambiente  sejam  considerados,  mas  que  os  três  fatores  sejam  considerados  em
conjunto. Quando se avalia o desempenho ao tomar banho, por exemplo, não é suficiente avaliar os fatores do
cliente (p. ex., capacidades musculoesqueléticas dos membros superiores e inferiores) isolados das demandas do
ato  de  tomar  banho  (p.  ex.,  alcançar  os  pés,  alcançar  a  torneira)  e  da  área  de  banho  (p.  ex.,  equipamento  de
banho,  banheira  molhada,  suporte  do  cuidador  para  o  banho  independente).  De  modo  semelhante,  ao  intervir
para melhorar a segurança do banho (tarefa), a recomendação de um dispositivo de segurança, como uma barra
de  segurança  na  banheira,  seria  inútil,  a  menos  que  a  recomendação  fosse  acompanhada  de  treinamento  do
cliente (pessoa) e do cuidador (ambiente) para o uso do dispositivo nas transferências na banheira.
Da  mesma  maneira  que  fazer  malabarismo  com  três  bolas  aumenta  a  dificuldade  do  malabarismo,  é
extremamente complexo avaliar três fatores distintos, porém integrados, e intervir para mudar um, dois ou três
desses fatores de modo a alcançar o desempenho ótimo. Os antigos líderes da terapia ocupacional reconheceram
a  contribuição  do  ambiente  para  o  desempenho  ocupacional,  com  Slagle  (1922), Meyer  (1922) e  Haas (1944)
sugerindo  a  adaptação  do  ambiente  para  melhorar  o  desempenho  do  cliente.  Contudo,  as  tentativas  reais  para
elucidar essa complexidade e traduzir a filosofia da terapia ocupacional tradicional em modelos práticos datam
dos anos 1980. Desde então, uma série de modelos ecológicos relacionados às interações entre pessoas e seus
ambientes foi desenvolvida pelos teóricos da terapia ocupacional e da reabilitação para ajudar os profissionais a
compreenderem  a  negociação  pessoa­tarefa­ambiente.  Uma  breve  revisão  desses  modelos  em  terapia
ocupacional, reabilitação e cuidados da saúde é útil para estimular a compreensão do desempenho ocupacional.

Modelos Pessoa­Ambiente em Terapia Ocupacional
Em  1982,  Rogers  tomou  emprestado  conceitos  das  ciências  comportamentais  para  modernizar  e  enriquecer  as
premissas  fundamentais  sobre  a  relação  entre  a  independência  funcional  e  o  ambiente.  O  comportamento
independente  era  visto  como  consequência  da  interação  entre  a  competência  da  pessoa  e  as  demandas  dos
ambientes  físico,  social  e  temporal.  Normalmente,  os  hábitos  da  vida  diária  capacitam  os  seres  humanos  a
responder  de  maneira  automática  e  apropriada  às  diversas  demandas  ambientais.  O  equilíbrio  entre  a
competência  pessoal  e  as  demandas  ambientais  pode  ser  rompido  por  comprometimentos  físicos,  cognitivos  e
afetivos relacionados a doenças, acidentes, transtornos do desenvolvimento ou idade avançada. Uma estratégia
terapêutica  fundamental  para  aumentar  a  independência  funcional  reduzida  por  esses  comprometimentos  é,  a
princípio,  diminuir  as  demandas  ambientais  e,  em  seguida,  aumentá­las  gradativamente  à  medida  que  a
competência  melhora.  Kiernat  (1982)  elaborou  ainda  mais  o  conceito  de  ambiente  como  uma  modalidade
terapêutica.
Barris  (1982)  desenvolveu  o  conceito  de  ambiente  proposto  por  Kielhofner  e  Burke  (1980)  no  Modelo  da
Ocupação Humana. De acordo com este, as pessoas escolhem os ambientes com os quais se envolvem com base
nas propriedades ambientais, como novidade, complexidade e compatibilidade com os interesses e valores. As
demandas ambientais para o desempenho que estão associadas às pessoas e aos objetos no ambiente influenciam
fortemente o desenvolvimento de pa péis, hábitos e habilidades. O desenvolvimento da competência envolve a
capacidade  de  interagir  com  sucesso  com  uma  gama  cada  vez  maior  de  movimentos.  Dessa  maneira,  Barris
esclarece três aspectos das inter­relações pessoa­ambiente e as maneiras pelas quais a escolha, os objetos e os
ambientes podem ser utilizados de maneira terapêutica.
Howe  e  Briggs  (1982)  propuseram  o  Modelo  de  Sistemas  Ecológicos,  no  qual  os  seres  humanos  e  seus
ambientes  modelam  uns  aos  outros.  As  pessoas  estão  no  centro  do  ecossistema  e  são  circundadas  por  três
camadas de ambientes que interagem entre si – o ambiente imediato, as redes sociais e instituições e a ideologia.
Essas camadas constituem o espaço de vida para o desempenho de tarefas e pa péis na vida. O comportamento é
funcional  quando  as  interações  pessoa­ambiente  capacitam  as  pessoas  a  atingir  as  metas  de  acordo  com  seus
conceitos  de  qualidade  de  vida.  Alcançar  a  meta  envolve  a  adaptação  aos  ambientes  mutáveis  e,  ao  ser
modificada  a  relação  de  um  cliente  com  o  ambiente,  o  processo  adaptativo  pode  ser  considerado  de  modo
terapêutico.
Quando  definiu  ocupação,  Nelson  (1988)  diferenciou  forma  ocupacional  de  desempenho  ocupacional.  Ele
argumentou  que  o  desempenho  ocupacional,  ou  a  ação,  pode  ser  compreendido  apenas  no  contexto  da  forma
ocupacional – isto é, “um conjunto objetivo de circunstâncias, independente de e externo a uma pessoa” (p. 633).
Uma dimensão da forma ocupacional envolve os estímulos físicos presentes no ambiente, incluindo os materiais
utilizados, o ambiente circundante, o contexto humano e as relações temporais. Uma segunda dimensão da forma
ocupacional é sociocultural. A primeira dimensão focaliza­se no aspecto de realização do desempenho, enquanto
a  segunda  dimensão  enfatiza  o  aspecto  simbólico  (p.  ex.,  valores  e  normas).  De  acordo  com  Nelson,  o
desempenho  ocupacional,  então,  é  a  “ação  gerada,  orientada  ou  estruturada”  por  uma  forma  ocupacional  (p.
633).
Holm  e  Rogers  (1989)  descreveram  a  negociação  pessoa­tarefa­ambiente  (PTA)  como  uma  relação  entre  as
capacidades  necessárias  do  realizador  da  tarefa  e  as  propriedades  inerentes,  procedimentos,  equipamentos  e
materiais envolvidos nas atividades funcionais. A ênfase foi colocada sobre o ambiente natural, em oposição ao
ambiente clínico, como um meio de eliminar as influências ambientais restritivas. Subsequentemente, Rogers e
Holm (1991) adaptaram o modelo ecológico de Lawton (1982) de envelhecimento para explicar ainda melhor a
negociação  entre  PTA.  Lawton  descreveu  o  comportamento  como  decorrente  da  interação  das  capacidades  da
pessoa  com  as  demandas  ou  pressões  do  ambiente.  À  medida  que  as  capacidades  de  uma  pessoa  são
comprometidas,  a  influência  do  ambiente  ou  do  comportamento  aumenta.  Por  dedução,  então,  o  desempenho
ocupacional depende da compatibilidade entre as capacidades da pessoa e as demandas que o ambiente impõe
sobre estas capacidades. Para destacar o papel do ambiente não humano sobre o desempenho, Rogers e Holm
(1991) ampliaram a definição de ambiente para incluir os dispositivos de assistência, objetos no ambiente e o
ambiente estrutural.
O  Modelo  de  Pessoa­Ambiente­Desempenho  apresentado  por  Christiansen  (1991)  considera  os  fatores  da
pessoa  (p.  ex.,  motivação,  experiência,  crenças,  capacidades  e  habilidades)  capacitadores  intrínsecos  do
desempenho.  O  desempenho  inclui  atividades,  tarefas  e  pa  péis  de  ocupação,  e  o  ambiente  inclui  os  fatores
físicos,  sociais  e  culturais.  Uma  contribuição  única  desse  modelo  é  a  ênfase  sobre  as  capacidades  da  pessoa
como capacitadora do desempenho.
O  protocolo  de  Adaptação  Ocupacional  detalhado  por  Schkade  e  Schultz  inclui  a  pessoa,  o  ambiente
ocupacional e a interação entre a pessoa e o ambiente ocupacional durante a ocupação (Schkade & Schulz, 1992;
Schultz e Schkade, 1992). Ele tem foco na experiência do “eu” do cliente em contextos ocupacionais relevantes
e no uso de ocupações significativas para afetar o processo interno de adaptação do cliente em vez de medidas
externas  (Dolecheck  &  Schkade,  1999;  Gibson  &  Schkade,  1997).  Os  resultados  desejados  do  protocolo  de
adaptação ocupacional são respostas efetivas, eficientes e satisfatórias às demandas impostas pelo ambiente.
O modelo Ecologia do Desempenho Humano (EDH) (Dunn, Brown & McGuigan, 1994) foi construído sobre
a premissa de que “a interação entre a pessoa e o ambiente afeta o comportamento e o desempenho humanos e
de que o desempenho não pode ser compreendido fora do contexto” (p. 598). O contexto é o ponto de vista a
partir  do  qual  as  pessoas  percebem  seu  trabalho  e  inclui  os  fatores  temporal,  físico,  social  e  cultural.  A  EDH
define pessoa, tarefa, desempenho e contexto, utilizando a “Uniform Terminology for Occupational Therapy –
Third Edition” (Terminologia Uniforme para Terapia Ocupacional – Terceira Edição) (American Occupational
Therapy Association [AOTA], 1994), e descreve as possíveis relações entre os quatro componentes. Além disso,
são descritas as cinco abordagens colaborativas para o tratamento (estabelecer/restaurar, alterar, adaptar, prevenir
e criar) que incorporam os quatro componentes do modelo EDH.
Em um desenvolvimento teórico adicional do Modelo de Ocupação Humana, Kielhofner (1995) identificou a
influência  do  ambiente  sobre  o  comportamento  ocupacional  por  meio  da  permissão  e  da  pressão.  O  ambiente
permite  oportunidades  para  o  desempenho  e  pressiona  por  determinados  tipos  de  comportamento.  O  ambiente
físico  foi  conceituado  como  composto  dos  ambientes  natural  e  construído  e  dos  objetos.  O  ambiente  social
consiste em grupos sociais e formas ocupacionais – isto é, sequências de ação associadas à regra. Os ambientes
físico e social se entrelaçam para criar os ambientes de comportamento ocupacional ou contextos significativos
para o desempenho ocupacional.
Uma intenção primária do modelo Pessoa­Ambiente­Ocupação (PAO) (Law et al., 1996; Strong et al., 1999)
foi  a  de  explicar  o  uso  do  ambiente  na  prática.  A  visão  ímpar  da  terapia  ocupacional  sobre  o  desempenho
ocupacional  engloba  a  interseção  da  pessoa,  da  ocupação  e  do  ambiente.  O  ambiente  consiste  nos  domínios
cultural,  socioeconômico,  institucional,  físico  e  social,  todos  em  constante  mutação.  O  ambiente  pode  exercer
uma influência positiva ou negativa sobre o desempenho ocupacional, potencializando­o ou restringindo­o, e é
mais facilmente modificado do que a pessoa.
A análise da tarefa, que é essencial para a prática da terapia ocupacional, merece reconhecimento como uma
estrutura  ecológica.  A  análise  da  tarefa  define  a  relação  entre  a  pessoa  e  o  ambiente  como  uma  ação  (p.  ex.,
alcançar) orientada para um objeto (p. ex., dentro do armário). Como uma abordagem conceitual, a análise da
tarefa foi bastante desenvolvida para a construção dos fatores humanos (Militello & Hutton, 1998a, b; Pelland &
McKinley, 2001; Schaafstal, Schraagen & van Berlo, 2000; Yu, Hwang & Huang, 1999). Uma abordagem dos
fatores  humanos  para  modelos  de  capacidade­demanda  utiliza  a  análise  da  tarefa  para  dividir  as  tarefas  em
etapas  sequenciais  distintas  e,  em  seguida,  define  os  requisitos  fisiológicos  (p.  ex.,  ações,  posturas,  posições),
sensoriais  (p.  ex.,  sentir,  ver)  e  cognitivos  (p.  ex.,  buscar,  selecionar)  para  o  término  bem­sucedido  da  tarefa
(Faletti, 1984). Então, o profissional de terapia ocupacional compara as demandas de cada etapa da tarefa e do
ambiente  (p.  ex.,  calor,  luz)  com  as  capacidades  da  pessoa.  Quando  as  demandas  tarefa­ambiente  são  maiores
que  as  capacidades  da  pessoa,  se  estabelece  a  área  específica  para  tratamento  (Clark,  Czaja  &  Weber,  1990;
Czaja, Weber & Nair, 1993).
Mais  recentemente,  foi  introduzido  o  Protocolo  de  Prática  da  Terapia  Ocupacional  (PPTO)  (AOTA,  2002)
para uso da profissão, com uma segunda edição em andamento (AOTA, no prelo). O PPTO define o desempenho
ocupacional como “decorrente da negociação dinâmica entre o cliente, o contexto e a atividade” (2002, p. 632).
Os fatores do cliente sustentam o desenvolvimento das habilidades de desempenho (p. ex., motor, de processo e
de  comunicação)  necessárias  para  as  ocupações  cotidianas  e,  à  medida  que  se  desenvolvem  as  rotinas  de
desempenho dessas habilidades, surgem hábitos de desempenho. À medida que as pessoas assumem os pa péis
sociais esperados, necessários ou desejados por elas, elas combinam as habilidades de desempenho e os hábitos
das ocupações no engajamento mais amplo em situações da vida cotidiana, conhecido como participação social.
O engajamento acontece em sete áreas de ocupação: atividades de vida diária (AVD), atividades instrumentais da
vida diária (AIVD), educação, trabalho, passatempo, lazer, participação social. Nessas áreas ocupacionais, cada
atividade apresenta demandas próprias, associadas a suas complexidades, propriedades e uso (p. ex., demandas
sociais,  sequenciamento  e  regulação  temporal).  O  desempenho  de  qualquer  atividade  é  influenciado  pelos
diversos  contextos  em  que  ela  ocorre.  Por  definição,  o  contexto  inclui  sete  condições  inter­relacionadas:
culturais, físicas, sociais, pessoais, espirituais, temporais e virtuais. A espiritualidade, juntamente com os valores
e as crenças, pode ser listada como um fator do cliente no PPTO 2a Edição (AOTA, no prelo), ilustrando que não
existe  nítida  distinção  entre  o  cliente  e  o  contexto  e  que  essas  condições  são  conceituadas  como  internas  e
adjacentes aos clientes. De maneira semelhante, o caráter da demanda da atividade abrange aspectos intrínsecos
(p.  ex.,  funções  e  estruturas  orgânicas  e  ações  necessárias)  e  extrínsecos  (p.  ex.,  objetos,  espaço,  demandas
sociais, sequenciamento ou regulação temporal) aos clientes.

Modelos Pessoa­Ambiente em Reabilitação e Cuidados de Saúde
Embora a terapia ocupacional tenha reconhecido historicamente a negociação pessoa­tarefa­ambiente, esta tríade
ganhou destaque na teoria e na prática em reabilitação e cuidados de saúde nos últimos anos, em parte por causa
da  defesa  dos  direitos  dos  incapacitados,  que  enfatizou  o  papel  do  ambiente  na  produção  de  problemas  de
desempenho. Assim, durante as duas últimas décadas, ocorreu uma mudança importante na maneira pela qual os
grupos  de  políticas  de  saúde  definem  a  incapacidade  ou  as  limitações  em  atividades  e  pa  péis  socialmente
definidos. Na apresentação inicial do processo de capacitação­incapacitação do Institute of Medicine (1991), o
ambiente foi identificado como um dos três fatores de risco para a incapacidade. No entanto, em uma ampliação
subsequente  do  modelo,  o  ambiente  transformou­se  em  um  aspecto  primordial,  sendo  o  nível  de  suporte
fornecido  pelos  ambientes  físico  e  social  considerado  responsável  pela  intensidade  da  incapacidade
experimentada pela pessoa (Institute of Medicine, 1997).
Um  aumento  da  ênfase  sobre  os  fatores  externos  versus  internos  de  incapacidade  também  é  evidente  na
sequência  dos  modelos  desenvolvidos  pela  Organização  Mundial  de  Saúde.  A  Classificação  Internacional  de
Comprometimentos,  Incapacidades  e  Déficits  (World  Health  Organization,  1980),  que  foi  idealizada  para
descrever  as  consequências  funcionais  das  condições  clínicas,  não  reconheceu  o  ambiente.  Apesar  disso,  o
ambiente surgiu com destaque no último modelo, a Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade
e Saúde (CIF) (World Health Organization, 2001). A CIF descreve a saúde em duas partes: a Parte 1 preocupa­se
com  a  funcionalidade  e  a  incapacidade,  enquanto  a  Parte  2  enfatiza  os  fatores  contextuais.  A  funcionalidade
indica as condições de saúde não problemáticas, identificadas como estruturas e funções orgânicas, atividade e
participação.  Na  CIF,  a  funcionalidade  é  construída  sobre  uma  base  de  saúde,  manifestada  na  “integridade
funcional e estrutural” das funções e das estruturas orgânicas. Na condição de saúde, as atividades (i.e., tarefas e
ações  executadas  pela  pessoa)  não  estão  limitadas.  Quando  as  atividades  são  realizadas  em  um  ambiente
padronizado,  como  uma  clínica  de  terapia  ocupacional,  elas  são  descritas  como  capacidade  de  atividade.
Quando as atividades são realizadas no ambiente da vida real, como o local de trabalho ou a casa de um cliente,
elas  são  descritas  como  desempenho  de  atividade.  Quando  atividades  isoladas  são  combinadas  para  o
desempenho de pa péis sociais em situações de vida real, elas são descritas como participação. As atividades e a
participação podem ocorrer em nove categorias: aprendizagem e aplicação do conhecimento, tarefas e demandas
gerais,  comunicação,  mobilidade,  autocuidado,  vida  doméstica,  interações  e  relacionamentos  interpessoais,
principais  áreas  de  vida,  e  vidas  social  e  cívica.  Cada  componente  da  funcionalidade  pode  ser  expresso  em
termos  negativos,  resultando  em  um  continuum  de  incapacidades,  que  representam  comprometimentos  das
estruturas e das funções orgânicas, as limitações da atividade e as restrições na participação.
Na Parte 2 da CIF, os fatores contextuais são divididos em dois grupos principais – ambiental e pessoal. Os
fatores  ambientais  são  classificados  em  cinco  categorias:  produtos  e  tecnologia;  ambiente  natural  e  alterações
ambientais  causadas  pelo  homem;  suporte  e  relações;  atitudes;  e  serviços,  sistemas  e  políticas.  Fatores  como
sexo,  raça,  idade,  aptidão  física,  estilo  de  vida  e  hábitos  são  agrupados  sob  o  rótulo  pessoal.  Os  fatores
ambientais contribuem como influências externas sobre a funcionalidade e a incapacidade, enquanto os fatores
pessoais contribuem como influências internas.

O PPTO e a CIF
Por  causa  do  destaque  do  Protocolo  de  Prática  da  Terapia  Ocupacional  (PPTO;  AOTA,  2002)  na  terapia
ocupacional  e  da  Classificação  Internacional  de  Funcionalidade,  Incapacidade  e  Saúde  (CIF;  WHO,  2001)  na
reabilitação e no tratamento domiciliar, fizemos a justaposição das duas estruturas na Fig. 46.2  para  ilustrar  as
relações entre os conceitos. Embora nem o PPTO nem a CIF ordenem os conceitos em hierarquia, criamos uma
hierarquia  baseada  na  complexidade  crescente  da  interação  pessoa­tarefa­ambiente,  visando  facilitar  a
comparação dos conceitos. A Fig. 46.2 destina­se a ilustrar a semelhança dos conceitos, não a equivalência.
No modelo da CIF, a incapacidade origina­se de doença ou alteração. A doença e a alteração representam duas
explicações  opostas  para  a  incapacidade  –  a  saber,  o  modelo  médico  e  o  modelo  social.  O  modelo  médico
considera a incapacidade uma consequência de fatores internos da pessoa, enquanto o modelo social considera a
incapacidade  uma  consequência  dos  fatores  externos  à  pessoa.  Dessa  maneira,  doença  e  alteração  foram
deliberadamente  utilizadas  na  CIF  para  misturar  as  perspectivas  de  ambos  os  modelos  em  uma  conduta
biopsicossocial. Quando a doença ou a alteração afeta negativamente uma pessoa, pode acontecer uma mudança
ou perda de funções e estruturas orgânicas, levando ao comprometimento. Por sua vez, o comprometimento pode
influenciar negativamente a capacidade e o desempenho da atividade, gerando limitações da atividade. Quando
uma  ou  mais  atividades  diferentes  estão  limitadas,  pode  haver  redução  da  participação  em  situações  da  vida
cotidiana  ou  restrições  de  participação.  Nem  a  funcionalidade  nem  a  incapacidade  acontecem  em  um  vácuo.
Ambas são influenciadas por fatores contextuais. Os fatores internos às pessoas com incapacidades, como baixa
autoestima  ou  autoeficácia,  e  os  fatores  externos  a  elas,  como  edifícios  inacessíveis  às  cadeiras  de  rodas,  ou
atitudes preconceituosas em relação às pessoas com necessidades especiais, podem influenciar negativamente a
atividade e a participação, além de acentuarem a incapacidade.
Como  o  PPTO  não  trata  da  doença  e  da  alteração,  incorporamos  a  conduta  biopsicossocial  da  CIF  como  o
nível mais baixo no esquema hierárquico do PPTO. O bem­estar tem uma influência positiva, enquanto a doença
ou  alteração  (adicionalmente  especificada  como  trauma,  atraso  de  desenvolvimento,  declínios  associados  à
idade,  má  adaptação  psicológica,  privação  ambiental)  pode  ter  um  efeito  negativo  sobre  as  capacidades  de
desempenho de um cliente (p. ex., mentais, sensoriais, neuromusculares). Por conseguinte, as habilidades e os
hábitos  de  desempenho  utilizados  para  realizar  as  ocupações  cotidianas  (p.  ex.,  AVD,  AIVD,  lazer)  também
podem ser negativamente afetados. Por sua vez, os pa péis de participação social podem não ser exercidos de
maneira  adequada  ou  não  ser  exercidos  de  forma  alguma.  Como  parte  do  perfil  ocupacional,  os  profissionais
avaliam rotineiramente os clientes quanto às capacidades não afetadas pela doença e pela alteração, bem como
quanto às habilidades e aos hábitos não afetados. Estes constituem as forças de um cliente e podem compensar
ou substituir as capacidades disfuncionais.
Fig. 46.2 A relação entre os conceitos da CIF e do PPTO.

Diferente da CIF, o PPTO não apenas reconhece a influência do contexto sobre o desempenho ocupacional,
como  também  reconhece  que  cada  ocupação  apresenta  demandas  características  da  atividade  (p.  ex.,  objetos,
espaço,  sequência  de  etapas).  Em  ambos  os  modelos,  a  negociação  pessoa­tarefa­ambiente  torna­se
particularmente evidente no terceiro nível da hierarquia (i.e., atividades e limitações da atividade, ocupações) e
mantém  o  significado  no  quarto  nível  da  hierarquia  (i.e.,  participação  e  restrição  de  participação,  participação
social). Assim, os fatores essenciais para a negociação, embora externos aos clientes, precisam ser levados em
consideração quando se trata da incapacidade (i.e., limitações da atividade, restrição da participação).

Resumo
Este breve resumo dos modelos ecológicos indica que a negociação pessoa­tarefa­ambiente tem sido descrita a
partir  de  inúmeras  perspectivas,  dentro  e  fora  da  terapia  ocupacional,  e  com  diferentes  ênfases  sobre  diversos
fatores. Um tema comum que emerge delas é que as pessoas utilizam suas capacidades para realizar uma tarefa
em  um  determinado  tempo,  utilizando  os  objetos  disponíveis,  em  um  local  específico.  Por  conseguinte,  os
resultados do desempenho de uma pessoa, em relação a parâmetros como independência da tarefa, segurança e
adequação, dependem de negociações entre e por meio das capacidades da pessoa; das demandas da tarefa; e das
demandas  cumulativas  dos  diversos  ambientes  (p.  ex.,  culturais,  físicas,  sociais,  temporais)  em  que  a  tarefa
acontece.

PROCESSO DE TERAPIA OCUPACIONAL: TEORIA
Os  componentes  do  processo  de  terapia  ocupacional  –  avaliação,  definição  do  problema  (diagnóstico),
planejamento e execução do tratamento, além da reavaliação – são comuns a todas as profissões, assim como são
comuns  à  aplicação  de  todas  as  teorias  da  terapia  ocupacional.  O  que  torna  a  aplicação  desses  componentes
única para uma profissão é a visão abrangente da profissão do fenômeno que ela trata ou serve. O fenômeno que
torna a terapia ocupacional única é o desempenho ocupacional, motivo pelo qual é essencial que os estudantes e
profissionais de terapia ocupacional compreendam sua natureza fundamental e sua complexidade. Para facilitar
essa compreensão, apresentamos uma perspectiva do desempenho ocupacional que é suficientemente genérica,
de modo a informar qualquer teoria.
Nossa perspectiva de desempenho ocupacional baseia­se no constructo da negociação pessoa­tarefa­ambiente
(PTA).  Uma  negociação  de  desempenho,  a  PTA,  implica  uma  negociação  ou  arranjo  entre  três  fatores:
capacidades  da  pessoa  (P),  demandas  da  tarefa  (T)  e  demandas  do  ambiente  (A).  A  tarefa,  seja  ela  vestir­se,
escrever, dirigir um carro, preparar uma refeição ou jogar golfe, é central para a PTA. São a tarefa e os diversos
ambientes  em  que  ela  ocorre  que  exigem  que  os  clientes  atuem  de  diferentes  maneiras  para  alcançar  um
resultado.  Depois  de  definirmos  e  descrevermos  cada  um  dos  três  fatores  em  separado,  os  consideramos  em
conjunto nas discussões sobre a (PTA) e a discrepância de desempenho.

Capacidades da Pessoa (Cliente)
As capacidades da pessoa (cliente) incluem as capacidades genéricas inerentes e as habilidades específicas para
a  tarefa.  Inúmeras  capacidades  mentais,  sensoriais  e  neuromusculares  e  outras  funções  e  estruturas  orgânicas
fundamentam,  sustentam  e  promovem  o  desempenho  de  múltiplas  tarefas  (AOTA,  2002).  Os  exemplos  das
capacidades genéricas são atenção, propriocepção e mobilidade articular. As capacidades genéricas se mesclam
em  combinações  únicas  para  formar  as  habilidades  e  os  hábitos  de  desempenho  específicos  para  a  tarefa.  As
habilidades e hábitos específicos para a tarefa emergem para afetar o desempenho e a participação em ocupações
da  vida  real,  como  vestir­se,  preparar  a  refeição,  construir  um  site  e  jogar  basquete  em  cadeiras  de  rodas.  As
habilidades específicas para a tarefa são desenvolvidas por meio de treinamento e prática – isto é, por meio de
aprendizado e repetição da negociação PTA em situações padronizadas e da vida real (Giles, Ridley, Dill & Frye,
1997; Ma & Trombly, 1999; Mathiowetz & Wade, 1995; WHO, 2001).

Demandas da Tarefa
As  capacidades  do  cliente  são  desafiadas  pelos  requisitos  das  tarefas,  denominados  demandas  da  tarefa
(Johnson, 2000; Seki, Ishiai, Koyama & Sato, 1999; Steptoe, Cropley & Joekes, 2000). As demandas da tarefa
são  identificadas  por  meio  da  análise da tarefa,  que  consiste  no  processo  analítico  de  quebra  das  tarefas  em
etapas  sequenciais  distintas  (Creighton,  1992;  Cynkin,  1979).  A  análise  da  tarefa  identifica  as  ações  que  os
clientes devem realizar em relação aos objetos. Por exemplo, para fazer uma xícara de chá, os clientes devem
executar seis ações (veja a Tabela 46.1).
As ações que compõem o desempenho da tarefa são influenciadas pelos objetos utilizados para realizá­las, o
que  inclui  os  materiais,  os  instrumentos  e  os  equipamentos  da  tarefa.  Os  objetos  da  tarefa  apresentam
características  próprias  que  influenciam  as  demandas  da  tarefa.  Por  exemplo,  a  massa  de  panqueca  apresenta
menos resistência que o biscoito quando se faz a mistura, um saco plástico de lixo colocado sobre o assento do
carro produz menos resistência que capas de assento de tecido durante as transferências para dentro e para fora
do carro, e uma camisa de tricô estica com mais facilidade que uma de algodão ao se vestir.
Para o cálculo das propriedades de demanda de uma tarefa, devem ser analisadas as propriedades dos objetos
da tarefa. Um método que os profissionais utilizam para analisar as propriedades dos objetos da tarefa consiste
em considerar o efeito que as propriedades exercem sobre os sentidos. Quando tocados, levantados, carregados,
empurrados  ou  puxados,  os  objetos  da  tarefa  podem  ser  deslizantes,  pegajosos,  molhados,  secos,  oleosos,
friáveis, duros, macios, quentes, frios, afiados, ásperos, lisos, pesados ou leves. Quando visualizados, eles podem
ser  grandes,  pequenos,  coloridos,  brilhosos,  foscos,  próximos  ou  distantes  e  ter  formatos  e  padrões  distintos.
Quando ouvidos, eles podem produzir sons altos, suaves, irritantes, tranquilizadores ou inaudíveis. Os objetos da
tarefa  podem  ter  paladar  doce,  salgado,  azedo  ou  amargo  e  emanar  odores  agradáveis,  nocivos  ou
imperceptíveis.  As  propriedades  dos  objetos  também  podem  ser  danosas  à  saúde,  como  algumas  substâncias
químicas,  solventes,  metais  pesados  e  materiais  radioativos  (Brigham,  Engelberg  &  Richling,  1996).  Os
materiais  da  tarefa  (p.  ex.,  pão,  camisa,  frasco  de  xampu),  os  instrumentos  (p.  ex.,  garfo,  broca,  concha  de
sorvete) e os equipamentos (p. ex., computador, fogão, bancada de trabalho) variam de acordo com suas funções,
seus  modelos,  tamanhos  e  seus  formatos  (Cynkin,  1979;  Demore­Taber,  1995;  Hagedorn,  1995;  Levine  &
Brayley, 1991; Rogers & Holm, 1991).
TABELA 46.1 SEIS ETAPAS DE ANÁLISE DA TAREFA FAZER O CHÁ
Ação Objeto
1. Localizar Saco de chá e bule
2. Posicionar Saco de chá dentro do bule
3. Obter Recipiente para água
4. Obter e aquecer Água
5. Derramar Água sobre o saco de chá
6. Remover O saco de chá
As propriedades dos objetos da tarefa podem aumentar ou diminuir a qualidade da demanda das tarefas para
os clientes. Por exemplo, as demandas da tarefa para fazer uma xícara de chá podem variar muito, dependendo
do método de aquecimento, do tipo de chá e do recipiente da bebida. O aquecimento da água para uma xícara de
chá  pode  ser  obtido  ao  se  colocar  uma  panela  ou  chaleira  sobre  o  fogão,  aquecer  uma  xícara  de  água  em  um
forno de micro­ondas, ligar uma chaleira elétrica ou mergulhar um aquecedor elétrico dentro da xícara. As folhas
de  chá  podem  estar  soltas  em  uma  lata,  contidas  em  um  saquinho  de  chá  ou  moídas  em  pó  para  o  chá
instantâneo. O chá pode ser servido em um bule de cerâmica, em um bule de plástico, em um bule de porcelana
ou em outro dispositivo. Dessa maneira, as etapas da tarefa, e as propriedades inerentes e os modelos dos objetos
específicos utilizados para a realização da tarefa, exercem forte influência sobre as demandas e os resultados do
desempenho da tarefa.
No exemplo do chá, as demandas da tarefa exerceram sua influência por meio da manipulação dos objetos da
tarefa pelo cliente. No entanto, as demandas das tarefas também podem agir sobre os clientes quando eles atuam
em relação aos objetos. Quando executam transferências, por exemplo, os clientes atuam em relação a cadeiras,
vasos  sanitários,  camas  e  carros,  e  os  aspectos  específicos  destes  objetos  têm  uma  influência  direta  sobre  o
desempenho da tarefa.

Demandas Ambientais
Além  das  demandas  inerentes  às  tarefas,  o  desempenho  da  tarefa  também  é  influenciado  pelo  ambiente  que
envolve a tarefa (AOTA, 2002; Christiansen, 1991; Dunn et al., 1994; Iwarsson, Isacsson & Lanke, 1998; Law et
al.,  1996;  Letts  et  al.,  1994;  Rogers,  1982).  Esta  influência  é  denominada  demandas  ambientais.  Embora  o
ambiente  seja  uma  construção  multifacetada  (p.  ex.,  física,  social,  cultural,  temporal),  para  fins  de  ilustração,
discutiremos apenas seus aspectos físicos e sociais.
As  propriedades  do  ambiente  físico  geralmente  incluem  espaço,  disposição  do  equipamento  e  dos  objetos,
controle  dos  equipamentos,  alturas  das  superfícies,  iluminação,  temperatura,  ruído,  umidade,  vibração  e
ventilação (Demore­Tabor, 1995; Hagedorn, 1995; Jacobs, 1999; Raschko, 1991). Cada uma dessas propriedades
foi  mais  bem  delineada  na  literatura  sobre  arquitetura  (Raschko,  1991;  Stamps,  2000),  antropometria  (Baker,
1999;  Diffrient,  Tilley  &  Bardagjy,  1974;  Pheasant,  1998),  ergonomia  (Jacobs,  1999;  Kroemer  &  Grandjean,
1997;  Rice,  1998)  ou  saúde  e  segurança  ocupacional  (Brigham  et  al.,  1996,  Carson,  1994;  Kroemer  &
Grandjean,  1997;  Moore  &  Garg,  1995).  Não  existem  somente  aspectos  estáticos  no  ambiente  físico  a  serem
considerados, mas também aspectos dinâmicos: equipamentos que apresentam partes móveis, temperaturas que
variam, níveis de ruído que aumentam e diminuem, umidade que aumenta e diminui e ventilação que varia.
As demandas do ambiente físico podem fazer parte das da tarefa. Se um banheiro fica no segundo andar da
casa  de  um  cliente  que  não  consegue  subir  as  escadas,  o  cliente  não  será  capaz  de  chegar  ao  banheiro  para
utilizá­lo.  Uma  cadeira  higiênica  pode  ser  comprada  ou  alugada  e  instalada  em  quarto  de  dormir  ou  closet  no
primeiro andar para reduzir as demandas das estruturas físicas. Além disso, se o espaço no quarto de dormir é
restrito, ou quando não há iluminação no closet, a segurança nas transferências para o vaso sanitário pode ficar
comprometida e pode haver necessidade de uma adaptação para reduzir o efeito negativo da demanda ambiental.
Com frequência, a demanda ambiental é considerada unicamente em relação ao ambiente físico. Todavia, o
desempenho de tarefas também é circundado por um ambiente social (Woodward, Hales, Litidamu, Phillips &
Martin,  2000).  O  ambiente  social  inclui  mais  que  o  simples  número  de  pessoas  na  casa,  escola  ou  local  de
trabalho.  O  conhecimento,  as  habilidades,  os  hábitos,  as  expectativas,  os  valores,  as  atitudes  e  as  motivações
dessas  pessoas  criam  um  clima  social  que  facilita  ou  dificulta  o  desempenho  da  tarefa  (MacDonald,  Karasek,
Punnett  &  Scharf,  2001;  Seki  et  al.,  1999;  Walker,  Goodwin  &  Warren,  1995).  Crenças,  normas,  costumes  e
práticas culturais também influenciam o ambiente social (Hagedorn, 1995). Ademais, as pessoas organizam seus
ambientes temporais, bem como seus ambientes físicos e sociais. Por exemplo, elas estabelecem horários diários
e o ritmo das tarefas (MacDonald et al., 2001), além de selecionar e posicionar os objetos da tarefa e organizar e
controlar grupos sociais. Ao fazerem isso, as pessoas estabelecem o nível global de estimulação (p. ex., muito,
exato, pouco) que as rodeiam durante o desempenho da tarefa (Christiansen, 1991; Gerdner, Hall & Buckwalter,
1996; Keuter, Byrne, Voell & Larson, 2000). Em um dado momento, uma pessoa pode ter vários pa péis (p. ex.,
trabalhador, pai, marido, avô, colaborador, voluntário, cliente e ativista social), cada um dos quais apresentando
demandas características de tarefas que ocorrem em contextos físicos e sociais separados ou sobrepostos.

A Negociação
Os  clientes  não  são  receptores  passivos  dos  efeitos  de  seus  ambientes.  Ao  contrário,  eles  tanto  atuam  como
sofrem ação de forças da tarefa e do ambiente. Isto cria uma relação de negociação que se caracteriza como uma
interdependência entre as capacidades da pessoa, as demandas da tarefa e as demandas ambientais (Dunn et al.,
1994; Law et al., 1996; Lawton, 1982; Rogers, 1982). Por exemplo, um cliente que é incapaz de subir escadas
até a banheira pode construir um chuveiro no primeiro andar da casa, instalar um elevador até o segundo andar
ou se lavar na pia da cozinha. Cada uma dessas decisões altera os objetos e o ambiente da tarefa e, por sua vez,
essas mudanças ambientais modificam a negociação PTE.

Discrepância de Desempenho: As Demandas Excedem as Capacidades
Quando  as  capacidades  de  um  cliente  são  suficientes  para  controlar  as  demandas  da  tarefa  e  o  ambiente
adjacente,  o  desempenho  do  cliente  e  o  nível  de  desempenho  que  é  esperado,  necessário  ou  desejado  são
congruentes.  No  entanto,  quando  as  demandas  (da  tarefa  e/ou  ambientais)  excedem  as  capacidades,  o
desempenho da tarefa fica comprometido e ocorre uma discrepância de desempenho entre o desempenho real e
as habilidades ou os hábitos de desempenho esperados, necessários ou desejados (Lawton, 1982; Mager & Pipe,
1984;  Mangino,  2000).  A  discrepância  de  desempenho  pode  ser  reduzida,  eliminada  ou  prevenida  por
estabelecimento  ou  restauração  das  capacidades,  redução  das  demandas  da  tarefa,  redução  das  demandas
ambientais  ou  por  meio  do  uso  da  combinação  destes  três  métodos  (Holm,  Santangelo,  Fromuth,  Brown  &
Walter,  2000;  Law  et  al.,  1996;  Mathiowetz  &  Matuska,  1998;  Rogers  et  al.,  1999;  Rogers  et  al.,  2000;  van
Heugten et al., 1998). Com a diminuição de suas capacidades por causa de comprometimento, trauma, atraso de
desenvolvimento,  declínio  relacionado  à  idade,  má  adaptação  psicológica  ou  privação  ambiental,  os  clientes
tornam­se mais suscetíveis às influências ambientais. Eles dispõem de menos recursos internos e menos energia
para resistir às forças externas ou para selecionar estratégias de adaptação para enfrentá­las (Lawton, 1982). Ao
criarem  um  ambiente  terapêutico  para  acomodar  a  redução  da  capacidade,  os  profissionais  podem  melhorar  o
desempenho da tarefa (Close et al., 1999; Cummings et al., 1999; Mee & Sumsion, 2001; Rogers et al.,  1999,
2000).

PROCESSO DE TERAPIA OCUPACIONAL (TO): AVALIAÇÃO
A  teoria  do  desempenho  ocupacional  selecionada  pelo  profissional  de  terapia  ocupacional  permeia  todo  o
processo da terapia ocupacional, mas, a princípio, é aplicada na avaliação. Avaliar significa examinar e formar
uma  opinião  a  respeito.  O  exame  envolve  a  obtenção  sistemática  de  informação  sobre  o  desempenho
ocupacional  de  um  cliente.  A  formação  da  opinião  envolve  a  combinação  da  informação  obtida  com  o
conhecimento profissional e o julgamento para: descrever o perfil ocupacional do cliente, definir os problemas
de desempenho do cliente (discrepâncias), propor hipóteses sobre as causas desses problemas, estabelecer o(s)
resultado(s) ocupacional(ais) a ser(em) alcançado(s) por meio do tratamento e determinar o “melhor” tratamento
para alcançar os resultados estabelecidos.

Protocolos de Avaliação: Qual a Combinação Apropriada — PTA, PT, P?
Os profissionais usam um dos três protocolos pessoa­tarefa­ambiente (PTA), isoladamente ou em combinação,
para  avaliação  da  negociação.  Reconhecendo  a  influência  combinada  das  demandas  da  tarefa  e  dos  ambientes
sobre as capacidades dos clientes, o protocolo ótimo (PTA) consiste em avaliar de maneira direta e simultânea
todos  os  três  componentes  da  tarefa  na  situação  de  vida  real  atual.  Assim,  os  clientes  realizam  as  tarefas
avaliadas da maneira usual, com objetos da tarefa e equipamentos familiares, no ambiente ou nos ambientes em
que  eles  comumente  executam  essas  tarefas.  Quando  surgem  discrepâncias  de  desempenho,  a  contribuição
relativa das capacidades da pessoa, as demandas da tarefa e as demandas ambientais para seu desenvolvimento
podem ser prontamente determinadas. Os profissionais que trabalham em atendimento domiciliar, instituições de
vida assistida, sistemas escolares ou ambientes de trabalho têm a oportunidade de aplicar o protocolo PTA ótimo,
porque a avaliação e o tratamento acontecem em situações da vida real.
Em muitos outros ambientes de prática, como hospitais, instituições de reabilitação e clínicas ambulatoriais, as
avaliações são efetuadas em ambientes clínicos. As capacidades de desempenho dos clientes são avaliadas sob
condições de laboratório, e não nas condições da vida real. As condições de laboratório podem gerar demandas
diferentes  sobre  as  capacidades  dos  clientes  porque  os  objetos  e  equipamentos  da  tarefa  não  costumam  ser
idênticos aos da situação de vida real. Executar transferências para o leito pode ser mais fácil na clínica do que
na casa de um cliente porque o leito é mais baixo na clínica. A clínica (objetos da tarefa e ambiente da tarefa)
pode  facilitar  o  desempenho,  por  causa  de  suas  características  facilitadoras  e  capacitadoras,  que  reduzem  a
incapacidade  (p.  ex.,  acessibilidade  da  cadeira  de  rodas)  ou  dificultar  o  desempenho,  porque  os  objetos  e
equipamentos  da  tarefa  são  desconhecidos  (p.  ex.,  cozinhar  com  um  fogão  elétrico  em  vez  de  um  a  gás).  No
segundo protocolo PTA (PT), a menos que os clientes tragam seus próprios materiais da tarefa para uso durante a
avaliação  (p.  ex.,  roupas,  medicamentos),  suas  capacidades  são  avaliadas  com  materiais  e  equipamentos
desconhecidos.  Até  que  ponto  a  falta  de  familiaridade  exerce  influência  positiva,  neutra  ou  negativa  sobre  o
desempenho  da  tarefa  é,  em  grande  parte,  desconhecido.  A  pesquisa  sugere  que  essa  influência  é  tarefa­
dependente (Raina, Rogers & Holm, 2007). Quando o desempenho dos clientes é testado em ambientes clínicos,
todos  os  esforços  precisam  ser  realizados  para  aproximar­se  da  situação  de  vida  real  e  gerar  um  perfil  de
desempenho basal “verdadeiro”. Sob as condições laboratoriais das clínicas, a influência do ambiente pode ser
conhecida apenas de maneira indireta por meio do relato do cliente ou de outra pessoa. Portanto, os profissionais
devem utilizar seu julgamento terapêutico para deduzir o desempenho na vida real a partir do desempenho em
laboratório de modo a identificar os problemas de desempenho, os tratamentos e os resultados apropriados.
Enquanto o primeiro protocolo PTA contribui diretamente para a negociação pessoa­tarefa­ambiente (PTA), e
o segundo protocolo responde pela pessoa e pela tarefa (PT), o terceiro protocolo (P) considera apenas a pessoa.
Por isso, ele exige uma fundamentação ainda maior no julgamento terapêutico que o protocolo de pessoa­tarefa
(PT), porque apenas as capacidades da pessoa são avaliadas diretamente. Os dados reunidos a partir da avaliação
são  combinados  ao  conhecimento  do  profissional  sobre  a  tarefa  e  as  demandas  ambientais,  resultando  em  um
julgamento sobre as tarefas que os clientes são capazes ou não de desempenhar com base nessa combinação. Por
exemplo, sabendo que a rotação lateral do ombro é necessária para escovar os cabelos na parte de trás da cabeça
e  tendo  determinado  que  a  cliente  é  incapaz  de  realizar  esta  ação,  o  profissional  pode  deduzir,  a  partir  da
restrição da amplitude de movimento, que a cliente é dependente para pentear os cabelos. O ato de pentear os
cabelos  não  é  “testado”,  apenas  a  amplitude  de  movimento  necessária  para  pentear  os  cabelos.  A  pesquisa
demonstrou  que  esse  protocolo  é  o  mais  discrepante  dos  protocolos  PTA  e,  com  frequência,  leva  a  deduções
inexatas sobre o desempenho ocupacional (Rogers et al., 2003).

Terapia Ocupacional e Evidência Relacionada ao Processo de Terapia Ocupacional

A evidência  relacionada  ao  processo  de  terapia  ocupacional  pode  ser  encontrada  na  literatura  sobre
resolução de problemas/processamento de informação, raciocínio clínico, raciocínio terapêutico e prática
baseada  em  evidência.  Um  aumento  na  literatura  sobre  a  resolução  de  problema/processamento  de
informação  e  o  raciocínio  clínico  tem  sido  a  diferença  entre  iniciantes  e  especialistas,  ou  estudantes  e
profissionais  experientes.  Grande  parte  da  literatura  da  terapia  ocupacional  sobre  este  tema  tem  sido
apresentada  em  artigos  de  posicionamento,  revisões  da  literatura  correlata,  livros  e  estudos  com  pequenas
amostras (Higgs & Jones, 2000; Line, 1969; Robertson, 1996; Rogers, 1983). A evidência de pesquisa a partir
de  modelos  quase  experimentais  demonstrou  que  o  uso  de  um  protocolo,  como  o  processo  da  terapia
ocupacional,  serve  aos  iniciantes  como  uma  maneira  de  organizar  e  utilizar  o  conhecimento  atual  e  o
conhecimento tradicional (experiência prévia) (Griffin, 1975; Neistadt, 1987, 1992, 1998; Rogers & Masagatani,
1982).
Mais recentemente, a pesquisa deslocou­se do ensino do raciocínio terapêutico para o uso da evidência de
pesquisa  no  raciocínio  crítico  e  na  tomada  de  decisões  bem­fundamentadas  pelos  profissionais  (Gambrill,
2005).  Embora  a  literatura  de  pesquisa  que  confirma  a  eficácia  e  a  eficiência  dos  tratamentos  de  terapia
ocupacional tenha aumentado exponencialmente nos últimos dez anos (veja Comentários sobre Evidência por
todo este texto), infelizmente, a evidência sobre o uso da pesquisa por profissionais não é encorajadora neste
momento. Questionários, revisões, entrevistas e prática baseada em evidência pré e pós­tratamento revelaram
principalmente  um  foco  sobre  as  barreiras  que  impediram  a  utilização  da  evidência  de  pesquisa,  incluindo
tempo,  conhecimento  sobre  os  métodos  de  pesquisa,  acesso  à  literatura  de  pesquisa  e  sentimentos  de
inadequação  associados  à  não  compreensão  da  pesquisa  (Dubouloz,  Egan,  Vallerand  &  Von  Zweck,  1999;
Dysart  &  Tomlin,  2002;  Koch,  Cook,  Tankersley  &  Rumrill,  2006;  McKenna,  Bennett,  Dierselhuis,  Hoffmann,
Tooth & McCluskey, 2005). No entanto, ainda mais preocupantes são os achados de um estudo sobre a prática
baseada  em  evidência  pré  e  pós­tratamento  que  encontrou  que,  embora  o  conhecimento  dos  profissionais
sobre a prática baseada em evidência melhorasse significativamente, mesmo com o suporte contínuo, o uso
da evidência de pesquisa em sua prática não se modificou (McKluskey & Lovarini, 2005).
Além  disso,  em  um  estudo  sobre  o  uso  da  evidência  de  pesquisa  em  uma  amostra  de  131  terapeutas
registrados e membros da American Occupational Therapy Association, os achados indicaram que, à medida
que o nível educacional dos entrevistados aumentou, a compreensão da importância da pesquisa diminuiu, e à
medida  que  os  anos  de  prática  aumentavam,  o  uso  da  evidência  para  a  tomada  de  decisão  terapêutica
diminuía (Cameron et al., 2005).

DILEMAS DA ÉTICA
Ética, Educação e Tratamento

E mbora  o  Código  de  Ética  atual  da  AOTA  (AOTA,  2005)  aborde  especificamente  o  tratamento,  um
importante componente do processo de terapia ocupacional, ele não trata da avaliação, outro componente
importante  do  processo  de  terapia  ocupacional.  Uma  vez  que  o  tratamento  se  baseia  na  avaliação,  isto
representa um dilema ético?

Independente do conceito ou da teoria de desempenho ocupacional específica, a coleta de dados é sistemática,
ou seja, é orientada por aquele conceito ou aquela teoria e segue uma sequência lógica. Da mesma maneira que o
médico  clínico  geral  revisa  sistematicamente  os  sistemas  orgânicos  durante  o  exame  físico  anual,  o  mesmo
acontece  quando  o  profissional  de  terapia  ocupacional  avalia  sistematicamente  a  negociação  PTA  e  seus
componentes. A vantagem de coletar sistematicamente os dados foi demonstrada por Edwards e colaboradores
(2006)  em  um  estudo  com  pacientes  pós­acidente  vascular  cerebral.  Dois  métodos  foram  utilizados  para
identificar  os  comprometimentos  cognitivos  e  sensoriais  em  53  pacientes  hospitalizados  por  causa  de  um
acidente vascular cerebral agudo. O primeiro método aplicou um protocolo de pesquisa que seguiu as Diretrizes
de  Prática  Clínica  para  a  Reabilitação  Pós­Acidente  Vascular  Cerebral  recomendadas  pela  Agência  para
Qualidade  e  Pesquisa  dos  Cuidados  de  Saúde,  enquanto  o  segundo  método  obteve  os  dados  a  partir  de  uma
revisão do prontuário médico do paciente. O primeiro método, isto é, o protocolo de pesquisa, identificou muito
mais  comprometimentos  do  que  a  revisão  do  prontuário  com  relação  a  memória,  negligência  visuoespacial  e
depressão. Os resultados sugerem que, sem procedimentos estruturados de avaliação, vários comprometimentos
podem não ser identificados e, por conseguinte, podem permanecer sem tratamento.

Métodos de Avaliação da PTA: Como os Dados Devem Ser Obtidos?
Existem três métodos principais para que os profissionais obtenham os dados sobre o desempenho ocupacional
dos clientes:
1. Formulando perguntas sobre o desempenho com uso de questionários ou entrevistas estruturadas ou abertas.
2. Observando o desempenho em um contexto laboratorial (i.e., clínico) ou natural (i.e., casa, escola, local de
trabalho), usando avaliações estruturadas ou não.
3. Testando o desempenho, usando avaliações referenciadas por norma ou critério.

Os profissionais também podem obter dados a partir de prontuários médicos ou discussões de casos, contudo, os
dados  obtidos  a  partir  dessas  fontes  foram  inicialmente  coletados  por  meio  de  questionamento,  observação  ou
testagem.
Cada método de obtenção de dados apresenta vantagens e desvantagens. O método de questionamento é mais
subjetivo  do  que  a  observação  ou  a  testagem,  e  esta  subjetividade  pode  reduzir  a  confiabilidade.  O
questionamento  também  é  menos  dispendioso  e  demanda  menos  trabalho.  As  entrevistas  e  os  questionários
podem  ser  administrados  por  profissionais  com  custo  menor  do  que  os  testes  e  instrumentos  de  observação,
porque exigem menor julgamento habilitado. Além disso, os clientes não são colocados em risco de lesão física
quando  conversam  sobre  seu  desempenho  ocupacional,  o  que  pode  acontecer  quando  executam  as  tarefas.
Portanto, a observação do desempenho exige profissionais habilitados para controlar o risco durante a avaliação.
Por  meio  da  observação  e  da  testagem,  os  profissionais  quantificam  de  maneira  objetiva  o  desempenho  da
tarefa.  O  questionamento  fornece  classificações  subjetivas  do  desempenho  da  tarefa.  Quando  a  observação  é
estruturada, a confiabilidade é aumentada porque os itens da tarefa precisam ser operacionalizados para serem
realizados.  Dessa  maneira,  remove­se  a  ambiguidade  associada  ao  questionamento  (p.  ex.,  Você  pode  fazer  o
trabalho pesado da casa?) (ou seja, o trabalho de casa pesado é operacionalizado com o uso de um aspirador de
pó para aspirar uma sala). A maior confiabilidade, por sua vez, facilita a detecção de alterações no desempenho,
o que representa uma propriedade psicométrica essencial para avaliação da eficácia de um tratamento (Guralnik,
Branch, Cummings & Curb, 1989). A observação estruturada e os testes são semelhantes em sua padronização,
mas a testagem possibilita que os profissionais comparem os resultados de desempenho de seus clientes àqueles
dos  grupos  de  referência  de  seus  colegas  (teste  com  referência  de  norma)  ou  a  padrões  de  desempenho  (teste
com  referência  de  critério).  Os  profissionais  podem  utilizar  um  teste  com  referência  de  norma,  por  exemplo,
quando desejam conhecer as habilidades sociais de uma criança em comparação a crianças da mesma idade ou se
um idoso é capaz de reagir tão rapidamente quanto uma pessoa mais jovem. Em contraste, eles podem utilizar
um  teste  com  referência  de  critério  para  determinar  se  um  adolescente  consegue  realizar  todas  as  funções
essenciais de um auxiliar de cozinha ou se um idoso, que é legalmente cego, pode realizar as tarefas necessárias
para viver de maneira independente e segura na comunidade. As desvantagens da observação e da testagem em
relação  ao  questionamento  são  que  elas  são  mais  dispendiosas  com  relação  ao  tempo  e  ao  pessoal  habilitado,
bem como ao espaço e ao equipamento (Rogers et al., 2003).
Embora nenhum método de obtenção de dados seja intrinsecamente superior, um método pode ser preferido
aos outros para algumas finalidades da avaliação. Por exemplo, o questionamento é preferido para avaliar com
que  frequência  se  realiza  uma  tarefa  ou  hábitos  de  desempenho,  porque  observar  ou  testar  hábitos  exigiria  a
avaliação  repetida  ao  longo  do  tempo  e  seria  extremamente  dispendioso.  De  maneira  semelhante,  o
questionamento é o método de escolha para avaliar o papel ocupacional, isto é, a configuração característica das
tarefas  que  são  parte  de  diferentes  pa  péis  (cuidado  pessoal,  trabalhador,  pai  etc.)  para  um  cliente,  porque  o
“papel”  é  um  conceito  abstrato  que  precisa  ser  operacionalizado  para  ser  observado.  Em  contrapartida,  a
observação ou a testagem é preferida para avaliar o(s) motivo(s) de uma discrepância de desempenho, porque os
clientes podem não estar cientes do motivo pelo qual apresentam um problema de desempenho ou esses métodos
podem  ser  necessários  para  fornecer  uma  medida  acurada  (p.  ex.,  graus  de  restrição  de  amplitude  de
movimento).
A seleção de um método de obtenção de dados, ou a combinação dos métodos, é determinada em parte pela
finalidade  geral  da  realização  da  avaliação,  além  da  consideração  sobre  a  praticidade,  como  o  tempo  para  a
avaliação e os equipamentos disponíveis. Alguns instrumentos, como o Instrumento de Recurso e Avaliação de
Déficits  (HART  –  Handicap  Assessment  and  Resource  Tool)  (Vertesi,  Darzins,  Lowe,  McEvoy  &  Edwards,
2000),  por  exemplo,  possibilitam  a  coleta  de  dados  a  partir  de  diversas  fontes.  No  entanto,  os  profissionais
precisam  estar  cientes  de  que  diferentes  métodos  de  obtenção  de  dados  não  fornecem  necessariamente  os
mesmos  achados  com  relação  à  mesma  tarefa.  Os  clientes  podem  perceber­se  independentes  no  ato  de  tomar
banho, enquanto os profissionais podem quantificar seu desempenho como parcialmente dependente, por causa
da necessidade de suporte físico quando entram e saem da banheira (Rogers & Holm, 2000; Rogers et al., 2003;
Sager et al., 1992).
Conteúdo da PTA: Que Áreas Ocupacionais Devem Ser Avaliadas?
Quando  se  planeja  uma  avaliação,  devem  ser  tomadas  decisões  a  respeito  das  áreas  de  ocupação  e  de  tarefas
específicas  a  serem  avaliadas,  bem  como  sobre  os  parâmetros  das  tarefas  a  serem  avaliados.  Que  tarefas  são
importantes  para  o  cliente?  Vestir­se?  Utilizar  o  computador?  Ir  para  o  trabalho?  O  processo  de  terapia
ocupacional deve tratar das tarefas que apresentam significado para os clientes. As decisões sobre as tarefas a
serem  avaliadas  baseiam­se  nos  valores  dos  clientes.  Os  problemas  dos  clientes  podem  acontecer  em  uma  ou
várias  áreas  de  ocupação  –  atividades  de  vida  diária  (AVD),  atividades  instrumentais  de  vida  diária  (AIVD),
educação,  trabalho,  brincadeira,  lazer  ou  participação  social.  Cada  uma  destas  sete  áreas  ocupacionais  contém
um  conjunto  de  tarefas  individuais  (AOTA,  2002).  A  educação,  por  exemplo,  consiste  na  participação
educacional  formal,  na  exploração  das  necessidades  ou  interesses  educacionais  pessoais  informais  e  na
participação  na  educação  pessoal  informal  e,  por  sua  vez,  cada  uma  destas  atividades  consiste  em  tarefas
individuais. No início do processo de terapia ocupacional são identificadas as tarefas que os clientes precisam ou
desejam realizar ou nas quais eles apresentem problemas de realização ou estejam começando a ter problemas
para realizar. Comumente, as prioridades e os problemas são identificados inicialmente por meio de entrevistas
estruturadas  ou  não  estruturadas  ou  de  questionários  administrados  aos  clientes  ou  seus  responsáveis,  se  os
clientes não são capazes de responder por si próprios. Avaliações como a Lista de Verificação de Papel (Oakley,
Kielhofner,  Barris  &  Reichler,  1986)  e  a  Medida  Canadense  de  Desempenho  Ocupacional  (Canadian
Occupational Performance Measure – COPM) (Law et al., 2005) são exemplos de instrumentos que servem para
esse propósito.
O valor reflete a importância relativa que diferentes tarefas e áreas ocupacionais têm para os clientes. Quando
existe  limitação  de  energia,  os  seres  humanos  comumente  estabelecem  prioridades  para  o  uso  de  sua  energia.
Assim, os clientes podem escolher que o cônjuge os vista, em vez de se vestirem sozinhos, de modo que possam
economizar a energia que gastariam se vestindo para ir a um cinema ou restaurante. Como a motivação para o
engajamento  ocupacional  é  influenciada  pelos  valores  pessoais,  a  determinação  do  valor  relativo  de  diferentes
áreas e tarefas ocupacionais para os clientes é útil para o estabelecimento das prioridades de tratamento.
As tarefas individuais são sequenciadas para estabelecer rotinas e hábitos de vida diária personalizados, bem
como  pa  péis  socialmente  definidos.  Por  exemplo,  a  rotina  de  vida  diária  de  uma  pessoa  inclui  despertar  pela
manhã, tomar banho, vestir­se e simultaneamente comer um cereal frio e ler o jornal, enquanto a rotina de outra
inclui despertar, levantar, preparar e consumir o café da manhã e, em seguida, vestir­se, deixando o banho para a
noite.  Estas  rotinas  de  vida  diária  são  incorporadas  ao  “papel  de  cuidado  pessoal”  que  exige  que  os  adultos
realizem as ocupações necessárias para atender às suas necessidades de alimento, vestimenta e abrigo. O papel
de cuidado pessoal, por sua vez, dá suporte a outros pa péis, como os de estudante, trabalhador, dona de casa e
esposa. Avaliar o quanto os problemas em tarefas valorizadas perturbam o desempenho de rotinas, hábitos e pa
péis  coloca  esses  problemas  no  contexto  da  vida  normal  e,  assim,  fornece  uma  faceta  essencial  do  perfil
ocupacional do cliente.

Parâmetros da PTA: O que Queremos Saber Sobre o Desempenho Ocupacional?
Além  de  determinarem  as  áreas  ocupacionais  e  as  tarefas  específicas  a  serem  avaliadas,  os  profissionais
precisam  decidir  o  que  querem  saber  sobre  o  desempenho  ocupacional.  As  questões  principais  sobre  o
desempenho ocupacional a serem respondidas por meio da avaliação são: os clientes podem realizar a tarefa sem
ajuda? Eles podem realizá­la com segurança e fazer isso de maneira adequada? O que explica ou contribui para a
discrepância  de  desempenho?  Cada  pergunta  exige  que  os  profissionais  utilizem  um  parâmetro  de  medida  ou
padrão de medida diferente (veja o Boxe 46.1).

Independência
O parâmetro mais comumente utilizado para mensurar o desempenho ocupacional é o nível de independência
que  os  clientes  apresentam  quando  realizam  uma  tarefa.  As  classificações  de  independência  ou  capacidade
significam  que  os  clientes  conseguem  realizar  uma  tarefa  sem  a  assistência  de  outra  pessoa,  embora  possam
empregar  dispositivos  de  assistência.  Em  contrapartida,  dependente  ou  incapaz  implica  que  a  ajuda  de  outra
pessoa  se  faz  necessária.  Quando  o  desempenho  não  é  totalmente  dependente,  ele  pode  ser  classificado
utilizando­se o percentual da tarefa realizado de maneira independente (p. ex., 75%, 50%, 25%) ou a quantidade
de ajuda necessária (p. ex., nenhuma, mínima, moderada, máxima).
Quando  a  assistência  é  necessária  para  a  realização  de  uma  tarefa,  o  tipo  de  assistência  também  pode  ser
adicionado  à  escala  de  classificação.  São  reconhecidos  três  tipos  gerais  de  assistência,  classificados  da  menor
para  a  maior  necessidade  de  assistência  como:  dispositivos  de  assistência,  assistência  não  física  e  assistência
física (veja o Boxe 46.1).  A  tecnologia  de  assistência  é  classificada  como  o  tipo  de  menor  assistência  quando
possibilita  que  o  desempenho  da  tarefa  seja  adaptativo,  mas  independente.  O  desempenho  dos  clientes  que  se
alimentam sozinhos utilizando talheres com cabos mais largos ou longos se adequa a esta definição.
Um  cliente  que  necessita  de  assistência  não  física  é  considerado  menos  dependente  do  que  aquele  que
necessita  de  ajuda  física  atuante.  A  assistência  não  física  corresponde  a  diferentes  técnicas,  incluindo
organização da tarefa, supervisão, assistência à disposição e pistas verbais e não verbais para fornecer incentivo
ou instrução. Os exemplos de organização da tarefa são abrir a caixa de leite e arrumar a roupa em uma cadeira
na  sequência  em  que  os  itens  devem  ser  vestidos.  Supervisão  significa  que  o  cuidador  pode  não  estar  todo  o
tempo  presente,  porém  está  disponível  para  monitorar  o  desempenho  da  tarefa  e  para  intervir  caso  surjam
problemas. A assistência à disposição exige que o cuidador esteja fisicamente presente e próximo ao cliente em
todos os momentos. Um cuidador que verifica se os ovos fritos estão suficientemente cozidos é um exemplo de
supervisão; aquele que caminha ao lado de um cliente que está subindo escadas é um exemplo de assistência à
disposição.  Pista  verbal  significa  utilizar  palavras  faladas  ou  escritas  para  motivar  ou  instruir  clientes  sobre  o
desempenho da tarefa. Colocar um aviso dizendo “vaso sanitário” na porta do banheiro para ajudar um cliente
com demência a encontrar o caminho é um exemplo de pista verbal. Com a pista não verbal, a comunicação é
feita por meio de demonstração ou gestos.

PARÂMETROS DE AVALIAÇÃO DA PTA
A  assistência  física  envolve  orientar  fisicamente  os  clientes  para  a  realização  da  tarefa  ou  de  parte  de  uma
tarefa e executar a tarefa por eles. Com a orientação física, espera­se que os clientes participem ativamente da
tarefa, enquanto com a assistência física espera­se que os clientes cooperem com o cuidador. Posicionar as mãos
de um cliente sobre um andador ilustra a orientação física, enquanto levantar um cliente de uma cadeira ilustra a
assistência física.
A  Medida  de  Independência  Funcional  (Functional  Independence  Measure  –  FIM)  (UDSMR,  1997)  e  o
Instrumento  de  Avaliação  de  Paciente  em  Instituição  de  Reabilitação  com  Pacientes  Internados  (Inpatient
Rehabilitation Facility Patient Assessment Intrument – IRF­PAI) (www.resdac.umn.edu/IRF­PAI;  acessado  em
13 de agosto de 2007) são exemplos de medidas que utilizam a independência como o parâmetro de medida.
A  autoeficácia  percebida  ou  a  crença  dos  clientes  a  respeito  de  suas  capacidades  para  realizar  as  tarefas  de
maneira independente é outra faceta da independência na tarefa. Se para os clientes a distância entre o leito e a
cadeira de rodas se assemelha ao Grand Canyon e eles acreditam que não são capazes de realizar a transferência,
é  pouco  provável  que  eles  realizem  a  transferência.  As  autopercepções  da  capacidade  de  desempenho
influenciam  o  desempenho  de  modo  tão  significativo  quanto  as  capacidades  reais  (Gage,  Nohm  Polatajko  &
Kaspar, 1994). A autoeficácia percebida é específica para tarefas individuais. Dessa maneira, os clientes não se
percebem  capazes  ou  incapazes,  mas  sim  capazes  de  realizar  algumas  tarefas  e  outras  não.  A  Escala  de
Autoeficácia Percebida para Pessoas com Artrite (Lorig, Chastain, Ung, Shoor & Holman, 1989) e a Medida da
Autoeficácia (Gage, Noh, Polatajko & Kaspar, 1994) são exemplos de medidas da autoeficácia.

Segurança
A  segurança  é  o  risco  suscitado  pelos  clientes  ou  pelo  ambiente  quando  os  clientes  realizam  as  tarefas.  A
segurança  não  é  uma  qualidade  do  ambiente  em  si,  mas  uma  característica  da  negociação  pessoa­tarefa­
ambiente.  Embora  uma  barra  de  segurança  na  banheira  represente  um  aspecto  de  segurança,  sua  presença  no
banheiro  não  irá  melhorar  a  segurança  dos  clientes  a  menos  que  ela  seja  realmente  utilizada,  e  da  maneira
correta,  quando  são  realizadas  as  transferências  na  banheira.  No  entanto,  os  aspectos  inseguros  de  uma  casa
podem  indicar  um  desempenho  de  tarefa  inseguro  ou  um  risco  maior.  Uma  lata  de  gordura  de  porco  sobre  o
fogão ou um fio elétrico que atravessa a pia sugere que o cliente ou alguma outra pessoa na casa tem hábitos de
vida diária inseguros.
Comumente, risco conota o risco físico, o que acontece quando existe preocupação de que os clientes possam
se cortar enquanto preparam o alimento ou sofrer uma fratura quando andam sobre um carpete desnivelado. Os
riscos  para  a  segurança  também  podem  envolver  o  julgamento  equivocado,  por  exemplo,  esquecer  de  apagar
uma  vela,  tomar  muito  ou  muito  pouco  do  medicamento  prescrito  ou  manusear  notas  de  R$50  no  ponto  de
ônibus. A segurança é quantificada pela ausência, presença ou extensão do risco.
Embora a segurança sempre seja reconhecida como um parâmetro crítico de avaliação na terapia ocupacional,
ela  comumente  tem  sido  quantificada  como  parte  da  independência  da  tarefa.  No  entanto,  os  seres  humanos
podem agir independentemente, mas de maneira insegura, e instrumentos como a Avaliação de Desempenho das
Habilidades de Autocuidado (Performance Assessment of Self­Care Skills – PASS) (Rogers & Holm, 1994b) e a
Avaliação  de  Segurança  da  Função  e  do  Ambiente  para  Reabilitação  –  Medida  e  Avaliação  do  Resultado  de
Saúde (Safety Assessment of Function and the Environment for Rehabilitation – Health Outcome Measurement
and Evaluation – SAFER­HOME) (Letts & Marshall, 1995) contribuem para isto em suas pontuações. Quando
se trabalha com os clientes, costuma ser difícil saber onde deve ser desenhada a linha entre o desempenho seguro
e  inseguro  e  determinar  quando  o  desempenho  da  tarefa  é  suficientemente  inseguro  de  modo  que  a
independência deva ser restringida. À medida que a terapia ocupacional atue dentro das casas dos clientes; que
promova  mais  interface  com  o  sistema  legal  para  fins  de  tutela,  curadoria  e  compromisso  involuntário;  e  se
oriente mais para a prevenção e a promoção da saúde, a segurança se deslocará cada vez mais para a linha de
frente das ferramentas da avaliação.

Adequação
A  adequação  refere­se  à  eficiência  ao  realizar  as  tarefas,  bem  como  à  aceitabilidade  do  resultado  do
desempenho. Por exemplo, ao se vestir, o movimento pode ser suave e sem intercorrências (eficiência), e quando
o  ato  de  se  vestir  está  completo,  a  pessoa  pode  parecer  arrumada  ou  desarrumada  (aceitabilidade).  De  modo
similar, quando os clientes com tremor essencial escrevem cheques, suas mãos podem tremer e sua assinatura
pode ser legível ou ilegível.

EFICIÊNCIA.  A  eficiência  do  desempenho  da  tarefa  implica  um  mínimo  de  esforço  desnecessário.  Os
parâmetros comuns que enfatizam a eficiência da ação ou do processo são: dificuldade, dor, fadiga e dispneia,
além da duração.

DIFICULDADE.  A  dificuldade  é  a  facilidade  percebida  com  a  qual  uma  tarefa  é  realizada.  O  teórico  de
reabilitação  Verbrugge  (1990)  argumentou  que  a  dificuldade  é  a  maneira  mais  apropriada  de  mensurar  as
limitações  da  atividade,  porque  as  classificações  da  dificuldade  se  originam  dos  clientes,  enquanto  as
classificações da quantidade de assistência necessária para completar as tarefas se originam dos cuidadores dos
clientes. A classificação da assistência fornecida por cuidadores pode refletir mais a assistência fornecida que a
assistência realmente necessária. O Índice de Estado Funcional (Functional Status Index – FSI), uma medida da
limitação da atividade idealizada para uso em adultos com artrite, utiliza uma escala de quatro pontos: nenhuma
dificuldade,  dificuldade  leve,  moderada  e  severa  (Jette,  1980).  O  Questionário  de  Avaliação  da  Saúde  (Health
Assessment  Questionnaire  –  HAQ),  outro  instrumento  de  atividade  destinado  a  clientes  com  artrite,  também
utiliza  uma  escala  de  quatro  pontos.  A  escala  do  HAQ  considera  sem  qualquer  dificuldade,  com  alguma
dificuldade, com muita dificuldade e incapaz de realizar (Fries, Spitz, Kraines & Holman, 1980).
O nível de dificuldade experimentado durante o desempenho da tarefa tem sido considerado cada vez mais um
marcador  da  incapacidade  pré­clínica  –  isto  é,  como  um  sintoma  que  indica  que  o  indivíduo  está  em  risco  de
declínio  da  função  mesmo  que  o  declínio  ainda  não  esteja  aparente  (Fried,  Herdman,  Kuhn,  Rubin  &  Turano,
1991). A menos que o início da condição seja súbito, como o que acontece em um acidente de carro ou acidente
vascular  cerebral,  é  provável  que  os  clientes  percebam  que  é  mais  difícil  realizar  uma  tarefa  antes  que  sejam
incapazes de realizá­la por completo. Da mesma maneira, um aumento na dificuldade percebida ou a mudança
de difícil para mais difícil (p. ex., trabalho doméstico pesado) nas tarefas mais fáceis (p. ex., higiene oral) pode
sinalizar a progressão da incapacidade oculta.

DOR. A dor é o desconforto ou a sensação de sofrimento experimentada durante o desempenho da tarefa e pode
continuar  depois  de  o  desempenho  ser  interrompido  (Jette,  1980).  Com  relação  ao  desempenho  da  tarefa,  o
componente de dor que é uma das principais preocupações é a intensidade com que ela interfere no desempenho.
A interferência pode ser determinada quanto a tarefas específicas, como caminhar ou preparar uma refeição, ou
pode ser mensurada de maneira mais global em relação ao nível de atividade geral dos clientes (McDowell &
Newell, 1996). Por causa da dor, as tarefas podem ser modificadas, realizadas em menor velocidade, executadas
com  menor  frequência  ou  de  maneira  menos  adequada  ou  eliminadas  da  rotina  diária  da  pessoa.  Além  da
interferência sobre as tarefas, pode ser útil perceber a presença ou ausência da dor, a localização e distribuição da
dor, a intensidade da dor (nenhuma, branda, moderada, severa) e/ou o tipo da dor experimentada (em pontada,
em queimação, contusa). O Índice do Estado Funcional (Jette, 1980) examina a dor com relação ao desempenho
da atividade.

FADIGA E DISPNEIA.  A  fadiga  é  o  desconforto  ou  sensação  de  cansaço,  fraqueza  ou  exaustão  experimentada
durante  ou  após  o  desempenho  da  tarefa  (Hart  &  Freel,  1982;  Tack,  1991).  Quando  fatigados,  os  clientes  se
descrevem como cansados e precisando descansar (Freal, Kraft & Coryell, 1984). A fadiga e a dispneia ocorrem,
com  frequência,  em  conjunto.  A  dispneia  é  uma  sensação  de  respiração  difícil  ou  laboriosa  (Gift,  1987).  Os
clientes  descrevem  seus  sintomas  de  dispneia  como  falta  de  ar,  não  ter  ar  suficiente,  aperto  no  peito  e  ter
dificuldade para puxar o ar (Janson­Bjerklie, Carrieri & Hudes, 1986). A fadiga e a dispneia podem interferir na
capacidade de realização das tarefas e ser exacerbadas pela atividade física. Da mesma maneira que a dor, elas
podem levar a modificações na maneira pela qual as tarefas são realizadas, incluindo menor velocidade, redução
na  participação  e  a  transferência  de  responsabilidade  para  outros.  Um  aspecto  interessante  da  fadiga  e  da
dispneia é que elas podem resultar tanto do excesso (p. ex., trabalho de casa extenuante) como da ausência (p.
ex., estilo de vida sedentário) de atividade física (Gift & Pugh, 1993). Elas podem ser um componente da doença
física  (p.  ex.,  doença  pulmonar  crônica)  ou  mental  (p.  ex.,  ansiedade).  Do  mesmo  modo  que  a  dor,  a  relação
fadiga/dispneia­limitação da atividade é geralmente abordada ao se determinar a intensidade da interferência em
tarefas  específicas  e  o  nível  de  atividade  usual.  As  escalas  também  podem  registrar  a  presença  ou  ausência,  a
quantidade (nenhuma, bastante) e a intensidade (branda, intensa) da fadiga ou da dispneia (McDowell & Newell,
1996).  Uma  subescala  da  Avaliação  Multidimensional  da  Fadiga  (Multidimensional  Assessment  of  Fatigue  –
MAF) (Tack, 1991) pede às pessoas para quantificar o quanto a fadiga interferiu em sua capacidade de se engajar
nas atividades rotineiras. A Avaliação Multidimensional da Fadiga (MAF) (Tack, 1991) e a Escala de Atividade
da  Vida  Diária  de  London  Chest  (London  Chest  Activity  of  Daily  Living  Scale  –  LCADL)  (Garrod,  Bestall,
Paul,  Wedzicha  &  Jobes,  2000)  são  exemplos  de  instrumento  que  quantificam  a  interferência  na  atividade
secundária à fadiga e à falta de ar, respectivamente.

DURAÇÃO.  A  duração  do  desempenho  da  tarefa  –  isto  é,  o  tempo  necessário  para  completar  uma  tarefa  –  é
frequentemente utilizada como uma medida de eficiência. Menos tempo é interpretado como maior eficiência.
Em  essência,  o  tempo  fornece  uma  medida  da  velocidade  do  desempenho.  Alguns  instrumentos  de  avaliação
funcional  incluem  o  critério  tempo  na  definição  da  independência.  A  Medida  da  Independência  Funcional
(Functional Independence Measure)TM especifica, por exemplo, que as atividades devem ser realizadas em um
“tempo razoável” (USDMR, 1997). Com frequência, os profissionais comentam sobre as tarefas que estão sendo
realizadas “dentro dos limites da normalidade”. Curiosamente, nem o intervalo médio de tempo que os adultos
levam nem o tempo mínimo que eles necessitam para realizar as várias tarefas da vida diária foram calculados.
Embora  o  tempo  para  o  término  da  tarefa  forneça  uma  escala  de  proporção  para  medir  o  desempenho  da
tarefa, ele é um dado fundamental a ser coletado na situação terapêutica, porque exige o uso de um cronômetro e
o  estabelecimento  dos  pontos  de  início  e  fim  exatos  para  cada  tarefa.  Além  disso,  o  tempo  necessário  para
realizar as tarefas depende do motivo para o engajamento na tarefa. É provável que vestir­se para limpar a casa
leve  menos  tempo  que  vestir­se  para  ir  trabalhar.  O  tempo  também  é  um  marcador  ruim  da  eficiência  para
clientes que são impulsivos ou maníacos, porque eles podem se apressar durante as tarefas, dando pouca atenção
à  segurança  ou  à  adequação.  Embora  esses  indivíduos  possam  preparar  uma  refeição  em  tempo  recorde,  por
exemplo, o alimento pode não estar apetitoso e a cozinha pode estar repleta de potes e utensílios sujos quando as
tarefas estiverem terminadas.

ACEITABILIDADE.  Independente  da  eficiência  com  que  se  realiza  a  tarefa,  a  aceitabilidade  do  resultado  do
desempenho  é  um  critério  crítico  do  desempenho  ocupacional.  Contudo,  para  avaliar  a  aceitabilidade  é
necessário um padrão de desempenho. Os parâmetros de medida que enfatizam a aceitabilidade do resultado ou
do produto da ação são: padrões da sociedade, satisfação, experiência, atividade aberrante.

PADRÕES  DA  SOCIEDADE.  Uma  abordagem  para  avaliar  a  aceitabilidade  dos  resultados  ou  dos  produtos  da
tarefa consiste em avaliar os resultados contra as expectativas normativas da sociedade. O grau de diferença ou
de desvio do “normal” é o padrão de desempenho. Por exemplo, espera­se que os seres humanos mantenham a
limpeza pessoal e não passem cheques sem fundos. Embora possa existir uma faixa de variação ampla entre o
que  é  aceitável  e  o  que  é  inaceitável,  o  desempenho  da  tarefa  que  fica  consistentemente  fora  dessa  faixa  será
rotulado como inaceitável, inadequado ou inapropriado de acordo com os padrões da sociedade. Ao aplicarem
padrões normativos, os profissionais devem ter o cuidado de considerar a diversidade cultural, à medida que esta
é expressa no desempenho ocupacional (Purnell & Paulanka, 2005).

SATISFAÇÃO.  Um  segundo  parâmetro  da  aceitabilidade  dos  produtos  ou  resultados  da  tarefa  é  a  satisfação.  A
satisfação refere­se à experiência de prazer e contentamento com o desempenho de uma pessoa (Yerxa, Burnett­
Beaulieu, Stocking & Azen, 1988; Pincus, Summey, Soraci, Wallston & Hummon, 1983). Como um parâmetro
de desempenho, é provável que a satisfação interaja com a vontade de um indivíduo de se engajar em uma tarefa
ou assumir um papel. Se os clientes falham em obter satisfação com seu desempenho, eles podem restringir sua
participação. Para relacionar a satisfação ao desempenho, uma escala dicotômica pode ser utilizada, consistindo
em  satisfeito  ou  insatisfeito.  De  maneira  alternativa,  a  satisfação  pode  ser  quantificada  de  acordo  com  a
proporção  de  tempo  em  que  os  clientes  experimentaram  a  satisfação  (p.  ex.,  100%,  75%,  e  assim  por  diante)
como no caso do Questionário de Satisfação com Escala de Desempenho (Satisfaction with Performance Scaled
Questionnaire – SPSQ) (Yerxa et al., 1988) ou em uma escala do tipo Likert (p. ex., não totalmente satisfeito a
extremamente  satisfeito),  como  no  caso  da  Medida  Canadense  de  Desempenho  Ocupacional  (Canadian
Occupational Performance Measure – COPM) (Law et al., 2005). Os cuidadores dos clientes também podem ser
solicitados a quantificar até que ponto eles estão satisfeitos com o desempenho da tarefa do receptor do cuidado.
Este  procedimento  pode  fornecer  aos  profissionais  informações  sobre  as  expectativas  normativas  para  o
desempenho da tarefa em uma unidade social (p. ex., família, grupo cultural), conforme previamente discutido
sobre os padrões da sociedade.

COMPORTAMENTOS ABERRANTES  DE  TAREFA.  As  análises  de  tarefa  utilizadas  para  medida  baseiam­se  na
maneira  pela  qual  as  tarefas  são  normalmente  realizadas  –  isto  é,  a  maneira  pela  qual  elas  são  usualmente
realizadas  pelas  pessoas  sem  incapacidades.  No  entanto,  as  pessoas  com  comprometimentos  cognitivos,  como
aqueles  associados  a  demência,  lesão  cerebral  traumática,  esquizofrenia  e  retardo  mental,  podem  apresentar
comportamentos  aberrantes  ou  anormais.  Por  exemplo,  elas  podem  guardar  alimento  na  bochecha  ou  cuspi­lo
para  fora  da  boca.  Itens  de  vestuário  podem  ser  vestidos  em  partes  erradas  do  corpo.  Em  contraste  com  as
subtarefas  originadas  das  análises  da  tarefa,  que  devem  ser  incentivadas  durante  o  tratamento,  os
comportamentos  aberrantes  devem  ser  extintos  ou  reduzidos  em  sua  frequência.  Esses  comportamentos  não
estão bem representados nos instrumentos disponíveis para mensurar as atividades da vida diária, com a exceção
do  Inventário  de  Tarefas  Rotineiras,  um  instrumento  especificamente  idealizado  para  uso  na  população
psiquiátrica (Allen, 1985).

Fatores Explicadores da PTA para as Discrepâncias de Desempenho
Quando o desempenho é problemático, seja o desempenho dependente, inseguro, ineficiente ou inaceitável, os
profissionais  procuram  identificar  os  fatores  que  contribuem  para  a  perda  da  capacidade  de  desempenho.  Em
outras  palavras,  eles  procuram  explicar  o  que  contribui  para  a  discrepância  de  desempenho.  As  principais
explicações para uma discrepância de desempenho são: um déficit em um ou mais dos componentes da transação
PTA e a falta de experiência.

Déficit da PTA
A  quebra  da  negociação  da  PTA  pode  contribuir  para  uma  discrepância  de  desempenho.  Quando  realizam
qualquer  tarefa,  os  clientes  devem  ter  capacidade  afetiva  de  motivar­se  para  realizar  a  tarefa;  a  capacidade
cognitiva para planejar, executar, monitorar e terminar a tarefa; a capacidade motora para realizar a tarefa; uma
tarefa  consoante  com  seu  nível  de  competência  e,  por  fim,  um  ambiente  que  sustente  o  desempenho.  Quando
qualquer um desses fatores afetivos, cognitivos, motores, da tarefa ou ambientais necessários estiver ausente ou
deficiente,  o  desempenho  da  tarefa  será  disfuncional.  Determinar  a  explicação  mais  provável  para  uma
discrepância  de  desempenho  fornece  informações  críticas  para  o  planejamento  do  tratamento.  Se a explicação
sugerida  para  uma  disfunção  ao  se  vestir  é  um  déficit  na  amplitude  de  movimento  ativo  (p.  ex.,  articulações
rígidas),  o  tratamento  será  diferente  daquele  se  a  explicação  for  apraxia  (p.  ex.,  problemas  na  execução  do
movimento planejado), apatia (p. ex., falta de responsividade ou de iniciativa), uma tarefa que é muito complexa
(p. ex., comprar suprimentos  e  cartões  para  alguém  com  demência)  ou  ambiental (p. ex., um closet  que  não  é
acessível  à  cadeira  de  rodas).  De  maneira  semelhante,  o  tratamento  apropriado  para  um  déficit  de  habilidade
seria  diferente  daquele  para  um  déficit  de  hábito.  Um  déficit  de  habilidade  será  abordado  ao  se  praticar  a
habilidade sob condições supervisionadas para a melhora imediata. No entanto, se os clientes têm a habilidade
necessária, mas falham em utilizá­la de modo rotineiro – isto é, têm um déficit de hábito – seria apropriado um
plano de tratamento motivador para aumentar a frequência de utilização da habilidade.
Ao identificarem uma discrepância de desempenho, os profissionais podem pensar que ela pode ser explicada
por  um  ou  mais  dos  componentes  da  negociação  –  pessoa,  tarefa  e/ou  ambiente.  Portanto,  eles  podem  aplicar
uma  avaliação  mais  completa  ou  detalhada  de  um  ou  mais  desses  fatores  isoladamente  para  esclarecer  a
discrepância de desempenho.

CAPACIDADES  DA  PESSOA.  Com  relação  à  pessoa,  as  capacidades  afetivas,  cognitivas  e  motoras  são
mensuradas por avaliações específicas da capacidade. Para a função afetiva, poderia ser utilizada uma avaliação
da depressão; para a capacidade cognitiva, um exame do estado mental; e para a capacidade motora, uma medida
da  amplitude  de  movimento  ativo.  Os  parâmetros  de  medida  previamente  discutidos,  como  a  dor  ou  o
desconforto,  a  fadiga  e  a  dispneia,  também  podem  explicar  o  comportamento  dependente,  inseguro  e
inadequado.  Os  dados  das  avaliações  de  capacidade  indicam  tipicamente  a  extensão  do  desvio  a  partir  de  um
padrão. Por exemplo, um cliente pode obter um escore de 6 em 30 no Miniexame de Saúde Mental (Folstein,
Folstein & McHugh, 1975). Nesse teste, 24 ou mais é interpretado como dentro dos limites de normalidade. O
escore  6  do  cliente  desvia­se  18  pontos  de  24  (normalidade)  e  é  indicativo  de  comprometimento  cognitivo
severo.

DEMANDAS  DA  TAREFA.  Para  aumentar  a  compreensão  sobre  as  demandas  da  tarefa,  é  feita  uma  análise
detalhada das exigências da tarefa. Por exemplo, a ação de entrar e sair de uma banheira pode ser expandida para
cinco  etapas:  entrar  na  banheira;  abaixar­se  até  uma  posição  sentada  sobre  o  fundo  da  banheira;  sentar­se  no
fundo da banheira; elevar­se a partir do fundo da banheira; e sair da banheira. A mensuração das demandas da
tarefa  contribuiria  para  o  número  de  etapas  que  os  clientes  poderiam  realizar  de  maneira  independente,  com
segurança e do modo adequado. Ao observarem os clientes realizando cada etapa, os profissionais aprendem o
ponto de quebra da tarefa, que é uma explicação para a discrepância de desempenho. As avaliações baseadas na
análise  da  tarefa  incluem  a  Avaliação  de  Desempenho  das  Habilidades  de  Autocuidado  (Performance
Assessment of Self­Care Skills – PASS) (Rogers & Holm, 1994b) e a Escala de Atividades de Vida Diária de
Klein­Bell (Klein & Bell, 1982).

AMBIENTE  FÍSICO.  A  atenção  recente  ao  ambiente  como  um  fator  de  explicação  para  as  discrepâncias  de
desempenho está sendo filtrada lentamente para os aparelhos de assistência. O ambiente físico é mais evidente
em avaliações focadas nas demandas de funcionalidade e segurança. No entanto, facilitar a função e a segurança
é  interpretado  de  maneira  diferente  para  diferentes  grupos  de  comprometimento.  Rampas  de  meios­fios,  por
exemplo, ajudam aqueles em cadeiras de rodas, mas causam um perigo para aqueles que são cegos ou têm visão
reduzida. Dessa maneira, as avaliações ambientais tendem a ser específicas para o grupo de comprometimento.
Elas se concentram sobre as acomodações no espaço e no equipamento para pessoas em cadeiras de rodas; o uso
de  texturas  e  sons  para  promover  a  descoberta  do  caminho  para  aqueles  com  comprometimento  visual;  a
ausência  de  perigos  de  tropeçar,  para  aqueles  que  caem;  e  a  presença  de  barreiras  para  evitar  o  acesso  aos
espaços e objetos que podem ser utilizados de maneira perigosa (p. ex., colocar sal em excesso em um tomate),
para aqueles que apresentam comprometimento cognitivo. Historicamente, as avaliações ambientais têm sido um
“jardim  de  variedades”,  com  cada  ambiente  de  terapia  ocupacional  idealizando  suas  próprias  avaliações.  A
“pontuação”  tem  sido  qualitativa  com  o  registro  de  fatores  que  facilitam  e  dificultam  a  função.  Esses
instrumentos  específicos  para  ambientes  se  tornam  mais  padronizados  e  universais  com  o  passar  do  tempo.  A
Lista  de  Verificação  para  a  Remoção  de  Barreira  Prontamente  Atingível
(http://www.usdoj.gov/crt/ada/checkweb.htm,  acessada  em  13  de  agosto  de  2007)  e  a  Lista  de  Verificações  de
Segurança  para  Casa  Segura  de  Consumidores  Idosos
(http://www.cpsc.gov/CPSCPUB/PREREL/prhtml87/87026.html,  acessado  em  13  de  agosto  de  2007)  são
ilustrativas  dessa  tendência.  Mais  recentemente,  em  vez  de  avaliarem  os  ambientes  da  pessoa  isoladamente  e
utilizarem o registro descritivo, os instrumentos mais modernos favorecem a avaliação da pessoa no ambiente,
utilizando  dados  numéricos  e  estabelecendo  as  propriedades  psicométricas  dos  instrumentos.  O  Funcionando
Todo Dia com uma Cadeira de Rodas – Functioning Everyday with a Wheelchair (FEW; previamente intitulado
Avaliação Funcional em Cadeira de Rodas) é um exemplo de um instrumento de pessoa­tarefa­ambiente (Mills
et al., 2002).

AMBIENTE  SOCIAL.  As  pessoas  e  suas  perspectivas,  demonstradas  nas  atitudes  que  elas  expressam  e  nas
políticas  e  procedimentos  que  elas  formulam,  podem  causar  discrepâncias  de  desempenho,  assim  como  as
barreiras físicas que elas constroem! Por exemplo, se as regulamentações de casas de vida assistida especificam
que  os  residentes  não  podem  tomar  banho  sozinhos,  os  residentes  tornam­se  dependentes  para  o  ato  de  tomar
banho. Historicamente, a avaliação dos ambientes sociais tem sido limitada a registrar quem (pessoas) e o que
(serviços) está disponível para os clientes. Os recursos dos clientes devem ser levados em consideração, além de
suas capacidades e habilidades, quando se determina a severidade das discrepâncias de desempenho. Considere,
por  exemplo,  a  Sra.  Cross  e  a  Sra.  Lum,  que  são  incapazes  de  utilizar  o  fogão  e  o  forno  com  segurança  para
preparar uma refeição quente. A Sra. Cross tem uma sobrinha que vive no mesmo quarteirão que ela e que está
ansiosa para ajudá­la na preparação de suas refeições. A Sra. Lum vive em uma comunidade rural que não conta
com serviço de entrega de refeições e seus vizinhos também são idosos e não são capazes de ajudá­la. Embora as
habilidades de preparação de refeição de ambas as clientes sejam as mesmas, a Sra. Lum está sob maior risco de
apresentar  resultados  adversos  do  que  a  Sra.  Cross,  porque  ela  tem  menos  recursos  de  suporte  de  vida
disponíveis.  Dessa  maneira,  a  avaliação  do  desempenho  ocupacional  torna­se  significativa  apenas  quando  os
déficits estão relacionados a recursos, e esta relação é especialmente importante quando a avaliação faz parte do
planejamento  para  a  alta.  A  Avaliação  de  Recursos  e  Habilidades  de  Vida  (Assessment  of  Living  Skills  and
Resources  –  ALSAR)  relaciona  as  capacidades  da  pessoa  aos  recursos  ambientais  –  recursos  disponíveis  e
aqueles que são necessários (Williams et al., 1991).

Experiência
Um motivo pelo qual os clientes podem não ser capazes de executar uma tarefa é porque eles nunca aprenderam
a  realizá­la  ou  como  realizá­la  de  maneira  adequada.  Experiência  é  a  participação  direta  em  uma  tarefa
acumulada  por  uma  pessoa.  A  experiência  fornece  a  oportunidade  para  prática  e  aperfeiçoamento  do
desempenho e dos resultados. Em geral, todos os seres humanos aprendem a mobilidade funcional e as tarefas de
cuidado pessoal durante a infância e a adolescência. Como tarefas básicas e essenciais para a vida diária, elas são
praticadas  regularmente  ao  longo  da  vida  adulta.  As  possíveis  exceções  a  esta  norma  incluem  o  cuidado  dos
cabelos que é feito por cabeleireiros, o cuidado com as unhas que é feito por manicures e o cuidado das unhas
dos pés que é feito por podólogos. Contudo, a expectativa social é que todos os adultos apresentem uma ampla
experiência  com  essas  tarefas  e  as  realize  da  maneira  adequada.  No  entanto,  não  se  tem  uma  expectativa
semelhante para outros tipos de tarefas, para as quais os seres humanos têm mais opções. Alguns clientes podem
não ter experiência na preparação de refeições, lavagem de roupas ou controle das finanças. Do mesmo modo, as
tarefas  de  trabalho  e  lazer  são  muito  individualizadas.  A  história  de  desempenho  da  tarefa  dos  clientes  é
essencial para a compreensão de seu atual nível de desempenho.
Além da experiência pregressa, a experiência recente ou atual também precisa ser avaliada. Quando as tarefas
não são realizadas com frequência, a proficiência necessária para sua execução pode cair em desuso ou se tornar
obsoleta  com  os  avanços  tecnológicos.  Perguntas  sobre  quão  recente  e  frequente  é  a  experiência  na  tarefa  são
utilizadas  ao  se  determinarem  as  habilidades  e  os  hábitos  dos  clientes  (Rogers  &  Holm,  1991).  Habilidade
refere­se à capacidade de executar uma tarefa, enquanto hábito refere­se ao desempenho usual ou rotineiro da
tarefa.  Em  seus  repertórios,  todos  os  seres  humanos  têm  tarefas  que  eles  comumente  não  realizam,  mas  que
poderiam  realizar  se  surgissem  situações  em  que  fosse  necessário  executá­las  ou  desejar  executá­las.  Por
exemplo,  você  pode  saber  cozinhar,  mas  prefere  deixar  que  sua  esposa  faça  isto  diariamente.  Contudo,  se  sua
esposa sair em uma viagem de negócios, você é capaz de preparar o jantar sozinho. No uso do questionamento
para avaliar habilidades e hábitos de tarefa, perguntas sobre as habilidades da tarefa geralmente são construídas,
como  “Você  pode  [nomeie  a  tarefa]?”,  enquanto  aquelas  que  se  referem  aos  hábitos  usam  “Você  [nomeie  a
tarefa]?”.

PROCESSO DE TERAPIA OCUPACIONAL: DEFINIÇÃO DO PROBLEMA
Os dados sobre os clientes, suas tarefas prioritárias e ambientes obtidos por meio da avaliação são sintetizados.
Além de um perfil das capacidades e incapacidades dos clientes, a síntese fornece uma definição do problema
ou várias definições – o diagnóstico ocupacional (Rogers & Holm, 1989; Rogers, 2004). O estabelecimento do
problema apresenta quatro partes distintas, porém correlatas. Cada parte será ilustrada pelo caso do Sr. Martin,
um cliente idoso com demência do tipo Alzheimer (veja a Tabela 46.2).

TABELA 46.2 ESTRUTURA DA IDENTIFICAÇÃO DO PROBLEMA
Frase Descritiva Frase Frase de Indicação Frase
Explicativa Patológica
Incapaz de sair da Em relação Conforme evidenciado pelo cliente ao assumir Devido à
banheira (tarefas à apraxia posições que impedem o movimento desejado; demência
problemáticas) sem pistas de orientação são necessárias para o de
assistência física término da tarefa; não integra os movimentos Alzheimer
(parâmetro de dos membros superiores e inferiores para a
preocupação) realização da tarefa

A  primeira  parte  do  estabelecimento  do  problema  é  a  frase  descritiva  que  identifica  a  tarefa  perturbada  e  o
parâmetro  de  medida  que  define  o  problema.  Na  Tabela 46.2,  por  exemplo,  “incapaz  de  sair  da  banheira”  é  a
tarefa  perturbadora,  e  a  independência  é  o  parâmetro  de  medida  que  define  o  problema.  Nesse  caso,  a
independência da tarefa foi mensurada em relação à assistência do cuidador. Como demonstrado no Boxe 46.1,
existem  opções  na  maneira  pela  qual  a  independência,  a  segurança  e  a  adequação  de  desempenho  podem  ser
medidas. No entanto, comumente os profissionais avaliam esses parâmetros independente das tarefas específicas
avaliadas.  Essas  características  de  desempenho  são  essenciais  para  o  desempenho  ocupacional  competente.  O
desempenho que não é independente indica a necessidade de assistência por dispositivos ou por seres humanos.
O  desempenho  independente  mas  inseguro  coloca  os  clientes  em  risco.  O  desempenho  independente  mas
inadequado restringe  o  desempenho  do  papel  dos  clientes  e  também  pode  colocá­los em risco. Como também
fica evidente a partir do Boxe 46.1, há maior variabilidade nos parâmetros de medida para a adequação à tarefa
do que existe para a independência e a segurança. Para cada cliente, os profissionais selecionam os parâmetros
de adequação mais aplicáveis à condição do cliente ou ao ambiente da tarefa. Quantificar o quanto a dor interfere
no  desempenho,  por  exemplo,  seria  apropriado  para  clientes  com  fibromialgia  ou  artrite  reumatoide,  mas
provavelmente  não  seria  apropriado  para  aqueles  com  doença  de  Parkinson  ou  transtorno  bipolar  (decisão
baseada na condição). De maneira semelhante, a higiene inadequada pode ser admissível em casa, mas pode ser
ofensiva na sala de aula ou no local de trabalho (decisão baseada no ambiente da tarefa).
A segunda parte do estabelecimento do problema é a frase explicativa, que indica a explicação do profissional
para  o  problema  identificado.  A  frase  explicativa  é  seguida  pela  frase  de  orientação,  que  registra  os  dados
obtidos  por  meio  de  observação,  questionamento  ou  testagem  utilizados  pelo  profissional  para  identificar  o
problema. Para o Sr. Martin, o profissional sugeriu a hipótese de que o problema de transferência para a banheira
estava relacionado à apraxia apresentada por diferentes pistas observáveis: posicionamento ineficaz para ação,
incoordenação  dos  membros  superiores  e  inferiores  e  a  necessidade  de  orientação.  A  seleção  do  fator  ou  dos
fatores  explicativos  para  avaliar  advém  da  hipótese  do  profissional  sobre  o  motivo  para  o  problema  do
desempenho,  o  qual,  por  sua  vez,  é  orientado  pela  teoria  que  o  profissional  aplica  ao  processo  de  terapia
ocupacional.
A  última  parte  do  estabelecimento  do  problema  identifica  a  condição  médica  ou  o  problema  de  saúde,  que
consiste  na  explicação  secundária  ou  remota  para  o  problema  de  desempenho.  Embora  a  necessidade  de
assistência do Sr. Martin na transferência pudesse ser explicada pela demência, a apraxia é considerada o motivo
principal e a demência, o motivo secundário. Os profissionais de terapia ocupacional tratam as consequências da
doença (apraxia), enquanto os médicos tratam a doença (demência).
Portanto,  a  apraxia  é  a  explicação  primária  para  o  problema  que  é  o  objeto  do  tratamento  da  terapia
ocupacional.  Contudo,  reconhecer  que  a  apraxia  é  secundária  à  demência  de  Alzheimer  –  uma  doença
degenerativa  progressiva  –  informa  ao  profissional  a  provável  etiologia  da  apraxia  e  limita  as  opções  teóricas
disponíveis para o tratamento da terapia ocupacional (p. ex., uma abordagem curativa seria inadequada).
Definir uma discrepância de desempenho envolve mais que apenas “encontrar” um problema. A identificação
do  problema  bem  realizada  esclarece  o  problema  de  desempenho,  assim  como  fornece  informações  úteis  para
orientar  a  resolução  do  problema,  isto  é,  o  tratamento.  Como  observamos,  a  definição  do  problema  incorpora
dois  níveis  de  avaliação:  avaliação  do  problema  de  desempenho  e  avaliação  da  etiologia  do  problema  de
desempenho. A definição do problema fica na interface entre a avaliação e o tratamento.
PROCESSO DE TO: PLANEJAMENTO E EXECUÇÃO DO TRATAMENTO
Após definido o problema de desempenho ocupacional, os profissionais buscam uma solução para o problema,
decidem sobre o tratamento e executam o tratamento. Os dados da avaliação são combinados ao conhecimento
da terapia ocupacional para criar um futuro perfil do cliente – um perfil que será alcançado pelo tratamento da
terapia ocupacional.
As discrepâncias de desempenho ocorrem por causa de um desajuste entre as capacidades de desempenho do
cliente,  as  demandas  da  tarefa  e  as  demandas  ambientais.  Para  a  obtenção  de  uma  adequação  pessoa­tarefa­
ambiente melhor ou ótima, as capacidades da pessoa podem precisar ser mudadas, as demandas da tarefa podem
ser  alteradas  ou  as  demandas  ambientais  podem  ser  modificadas.  Vários  tipos  de  resultados  podem  surgir  do
tratamento de terapia ocupacional (Rogers & Holm, 1994a).
1. Um  possível  resultado  é  o  desenvolvimento  de  uma  capacidade,  habilidade  ou  hábito  de  tarefa  que  não
existia anteriormente. O desenvolvimento é, em geral, o objetivo terapêutico para bebês e crianças jovens
que não estejam se desenvolvendo normalmente, mas também é apropriado para adultos que precisam ou
desejam  aprender  novas  habilidades  ou  hábitos  de  estilo  de  vida  saudáveis.  Por  exemplo,  o
desenvolvimento  do  ato  de  se  arrastar  poderia  ser  apropriado  para  uma  criança  com  atraso  de
desenvolvimento que não deambula. De modo semelhante, um viúvo que nunca aprendeu a cozinhar pode
precisar  desenvolver  as  habilidades  de  cozinhar  após  a  morte  de  sua  esposa.  Um  adolescente  que  utiliza
uma cadeira de rodas para mobilidade e é obeso pode desejar desenvolver hábitos de lazer mais saudáveis
para promover o controle de peso.
2. Outro  possível  resultado  é  a  restauração  do  desempenho  ocupacional.  Os  tratamentos  de  restauração  são
direcionados para as capacidades da pessoa que se perderam ou que estão prejudicadas em consequência de
uma  condição  de  saúde.  Eles  podem  ser  curativos  ou  compensatórios.  A  terapia  de  restrição  induzida  do
movimento  para  clientes  com  acidente  vascular  cerebral  é  um  tratamento  curativo  destinado  a  curar  a
paralisia do membro superior, de modo que o membro retorne a sua condição pré­mórbida, não paralisado,
e funcione adequadamente outra vez (Taub et al., 1993). Nos mesmos clientes, o uso do membro superior
não  afetado  para  realização  das  ações  e  das  habilidades  previamente  executadas  com  o  membro  superior
afetado é um exemplo de um tratamento compensatório.
3. Um terceiro resultado possível é a estabilização do desempenho ocupacional. Quando o curso geral de uma
condição  médica  é  descendente  como,  por  exemplo,  na  doença  de  Alzheimer  ou  na  esclerose  múltipla,  é
adequado o tratamento para estabilizar ou manter uma função pelo maior tempo possível. Com o retardo do
início ou a lentificação do declínio funcional, os clientes mantêm um nível elevado de funcionamento por
um tempo maior.
4. Um  quarto  resultado  possível  é  a  prevenção.  Para  evitarem  que  ocorra  um  problema  de  desempenho,  os
profissionais podem predizer a ocorrência de um evento negativo a partir da atual situação. Por exemplo,
sabemos  que  nos  clientes  com  lesão  raquimedular  em  C5­C6  é  provável  que  as  úlceras  de  pressão  se
desenvolvam sobre as tuberosidades isquiáticas, a menos que seja aliviada a pressão sobre as nádegas. Para
evitar a ocorrência das úlceras de pressão, são instituídos tratamentos de redução de risco. Estes poderiam
incluir  uma  almofada  especial  no  assento  e  treinamento  dos  clientes  para  realizar  elevação  periódica  de
modo a aliviar a pressão no tecido sobre as tuberosidades isquiáticas.
5. Por fim, o resultado terapêutico pode ser paliativo.  Quando  a  condição  de  saúde  dos  clientes  se  deteriora
progressivamente, são apropriados tratamentos direcionados ao suporte e ao conforto. Os profissionais de
terapia  ocupacional  que  trabalham  em  asilos  ou  no  cuidado  terminal,  por  exemplo,  podem  ajudar  os
cuidadores  a  gerenciar  efetivamente  o  cuidado  pessoal  dos  clientes.  Utilizar  posturas  ergonomicamente
corretas  para  a  alimentação  ou  para  procedimentos  de  transferências  para  os  pacientes  pode  ser  uma
habilidade crítica para o domínio dos cuidadores.

Além de estipularem os resultados desejados do tratamento, os profissionais fazem um prognóstico funcional,
isto  é,  um  julgamento  sobre  as  possibilidades  de  que  o  resultado  desejado  seja  atingido.  No  caso  dos  clientes
com lesão da medula espinhal, por exemplo, o prognóstico para evitar as úlceras de pressão depende da vontade
dos clientes em realizar elevações periódicas a cada hora na posição sentada. Os clientes que desenvolvessem
este  hábito  teriam  um  bom  prognóstico,  enquanto  aqueles  que  não  o  desenvolvessem  teriam  um  prognóstico
ruim.
Ao  mesmo  tempo  que  decidem  o  tipo  específico  de  tratamento  a  administrar,  os  profissionais  também
precisam  tomar  decisões  sobre  a  duração  (p.  ex.,  por  quanto  tempo  a  terapia  ocupacional  será  necessária?),  a
frequência (p. ex., Com qual frequência a intervenção precisa acontecer?) e a intensidade (p. ex., Quanto tempo
terá  cada  sessão  de  terapia  ocupacional?).  Deve  o  tratamento  ser  aplicado  por  1  hora,  três  vezes  por  semana,
durante  quatro  semanas?  Ou  é  preferível  aplicá­lo  por  30  minutos,  cinco  vezes  por  semana,  durante  duas
semanas?  Nos  ambientes  de  internação,  essas  decisões  podem  ser  estabelecidas  de  acordo  com  as  orientações
clínicas, enquanto em outros ambientes os profissionais podem necessitar maior julgamento. Em ambos os casos,
as decisões devem basear­se na evidência científica sobre o melhor esquema para produzir a alteração desejada
no desempenho ocupacional.
Essas decisões envolvem o julgamento prognóstico. Em outras palavras, considerando o diagnóstico médico
do cliente (ou outra condição de saúde) e sua manifestação “neste” cliente, juntamente com o conhecimento da
terapia ocupacional sobre o provável curso funcional da condição, os profissionais predizem (prognosticam) o
futuro  perfil  ocupacional  dos  clientes  com  o  curso  proposto  da  terapia  ocupacional.  À  medida  que  evoluir  a
ciência  da  terapia  ocupacional,  mais  conhecimento  estará  disponível  para  ajudar  os  profissionais  na  tomada
dessas decisões.

Estudos de Caso para Tratamento
Na discussão a seguir, as estratégias de tratamento direcionadas às capacidades da pessoa, demandas da tarefa ou
demandas  ambientais  são  definidas  e,  em  seguida,  ilustradas  com  estudos  de  caso  envolvendo  os  déficits  de
habilidade  e  hábito.  Embora  apresentemos  cada  estratégia  de  tratamento  em  separado,  elas  são  comumente
utilizadas em combinação. Dessa maneira, em um cliente que sofreu acidente vascular cerebral, um profissional
pode  aplicar  de  maneira  simultânea  ou  sequencial  uma  estratégia  orientada  para  a  pessoa  (p.  ex.,  restaurar  o
membro  afetado  pelo  acidente  vascular  cerebral),  uma  estratégia  orientada  para  a  tarefa  (p.  ex.,  fornecer  uma
colher  com  cabo  alargado  para  aumentar  a  garra)  e  uma  estratégia  orientada  para  o  ambiente  [instalar  rampas
para uma cadeira de rodas (p. ex., ambiente físico); educar a esposa (ambiente social)].

Mudar as Capacidades da Pessoa
Quando  estimulam  o  desenvolvimento  ou  restauram  a  estratégia  de  tratamento,  os  profissionais  da  terapia
ocupacional  focam­se  no  componente  pessoa  da  negociação  PTA  com  o  objetivo  de  estabelecer  (inicialmente
desenvolvendo)  ou  restaurar  (retornando  ao  seu  estado  original)  uma  capacidade  específica  ou  diversas
capacidades  (Dunn  et  al.,  1994).  Após  o  estabelecimento  ou  a  restauração  das  capacidades,  supõe­se  que  as
discrepâncias  de  desempenho  nas  tarefas  que  exijam  essas  capacidades  serão  resolvidas  e  o  desempenho  será
normalizado.  Os  quatro  estudos  de  caso  para  os  déficits  de  habilidade  ilustram  o  desenvolvimento  da
coordenação  e  da  força  por  meio  de  atividades  funcionais  (Chelsea)  e  habilidades  de  adaptação  por  meio  do
treinamento para a resolução de problemas diários (Sra. Vocelli) e a restauração da função do membro superior
por  meio  de  atividades  funcionais  (Merilee)  e  da  audição  com  o  uso  de  aparelhos  de  adaptação  (Reverendo
Tengesdal).  Dois  casos  ressaltam  o  desenvolvimento  do  hábito  e  utilizam  uma  prótese  cognitiva  (lista  de
verificação)  como  um  auxílio  à  memória  (Sra.  Vocelli)  e  órteses  com  uma  rotina  de  exercícios  para  aliviar  os
sintomas do comprometimento sensorial nas mãos (Cara).

EXEMPLOS DE CASO: DESENVOLVER/RESTAURAR A HABILIDADE DA PESSOA PARA O DESEMPENHO EM
QUALQUER AMBIENTE
Chelsea é uma menina de cinco anos de idade com paralisia cerebral e espasticidade no membro superior.
Antes  de  ir  para  o  jardim  de  infância,  seu  médico  sugeriu  injeções  de  toxina  botulínica  A  nos  músculos
bíceps braquial, pronador redondo, flexor radial do carpo, flexor ulnar do carpo e músculos da região tenar.
Além disso, ela foi encaminhada para a terapia ocupacional para melhorar a função do membro superior na
preparação  para  a  escrita  e  outras  habilidades  motoras  finas  associadas  à  escola  (Friedman,  Diamond,
Johnston  &  Daffner,  2000).  Seu  programa  de  terapia  ocupacional  concentrou­se  no  uso  de  atividades
cotidianas  para  melhorar  a  força  e  a  coordenação  e  para  estabelecer  uma  garra  manual  funcional  para  a
escrita.  Após  um  mês,  Chelsea  obteve  aumento  da  amplitude  e  da  força  do  punho  e  uma  garra  manual
funcional.
A Sra. Vocelli é uma mulher de 72 anos de idade com osteoartrite que ficou viúva um ano atrás. Embora sua
família acreditasse a princípio que sua apatia e o abandono de suas atividades preferidas durante o último
ano  se  devessem  ao  luto,  seu  médico  encaminhou­a  para  um  psiquiatra  geriátrico  que  diagnosticou
depressão  maior.  Além  do  uso  de  medicação  antidepressiva,  a  Sra.  Vocelli  foi  encaminhada  para  terapia
ocupacional  ambulatorial.  De  acordo  com  o  encaminhamento  para  a  terapia  ocupacional,  a  Sra.  Vocelli
estava  habituada  a  que  seu  marido  tomasse  todas  as  decisões  e  resolvesse  os  problemas  cotidianos.  Ele
também “levantava, carregava, empurrava e puxava” quando a artrite da Sra. Vocelli causava dor. Assim, a
Sra.  Vocelli  sentiu­se  mal  preparada  para  sobreviver,  o  que,  por  sua  vez,  contribuiu  para  seu  humor
deprimido.  A  Sra.  Vocelli  aderiu  ao  grupo  de  terapia  funcional  para  resolução  de  problemas  (TRP)
organizado por uma terapeuta ocupacional. A cada semana, os membros do grupo, incluindo a Sra. Vocelli,
traziam exemplos de problemas recentes que “os deprimiam”. No início de cada sessão, o profissional de
terapia ocupacional revisava as sete etapas da TRP, a saber, definir o problema, escolher metas realistas para
resolver  o  problema,  produzir  múltiplas  soluções,  aplicar  as  diretrizes  de  tomada  de  decisão,  avaliar  e
escolher  a  solução  preferida,  aplicar  as  soluções  preferidas  e  avaliar  o  resultado  (Jang,  Haley,  Small  &
Mortimer, 2002; Oxman & Hull, 2001). Em seguida, o grupo aplicava as etapas da TRP para os problemas
previamente  identificados  por  seus  membros.  Durante  a  semana  seguinte  foram  experimentadas  as
soluções.  Com  a  repetição  do  processo  de  TRP  e  a  assistência  do  grupo,  a  Sra.  Vocelli  estabeleceu
habilidades de resolução de problemas que ajudaram a prepará­la para solucionar os problemas funcionais
cotidianos (Lin et al., 2003).
Merilee  é  uma  mulher  de  46  anos  de  idade  que  sofreu  um  acidente  vascular  cerebral  isquêmico  no
hemisfério  direito  três  meses  atrás.  Ela  completou  um  programa  de  reabilitação  de  duas  semanas,  sendo
atualmente  acompanhada  como  paciente  ambulatorial  duas  vezes  por  semana.  Embora  ela  tenha  obtido
ganhos significativos, ainda apresenta dificuldade com a flexão anterior, a extensão do punho e a garra no
membro  superior  direito.  A  terapeuta  ocupacional  de  Merilee  sugeriu  que  ela  colocasse  seus  copos  de
plástico dentro da pia e praticasse pegá­los e colocá­los sobre a bancada, três vezes ao dia. A terapeuta fez a
sugestão  com  base  na  evidência  que  indicava  que  o  uso  de  objetos  funcionais  para  praticar  as  ações  de
alcançar  e  pegar  de  modo  a  restaurar  a  função  fornece  melhores  resultados  do  que  apenas  praticar  o
alcançar e o pegar isoladamente (Dromerick, Edwards & Hahn, 2000; Platz et al., 2001; Wu, Trombly, Lin
& Tickle­Degnen, 1998, 2000).
O Reverendo Tengesdal tem 83 anos de idade e apresenta surdez profunda, que é corrigida um pouco com
um aparelho auditivo. Ele é o pastor visitador de uma grande igreja e está tendo dificuldade de ouvir sua
esposa  e  alguns  dos  paroquianos  frágeis  restritos  às  residências,  os  quais  ele  visita  rotineiramente.
Recentemente, ele começou a se retirar de conversas com mais de uma pessoa porque não conseguia mais
ouvir. Sua filha, uma terapeuta ocupacional, recomendou um dispositivo de bolso com uma alça magnética
para  aumentar  a  eficiência  de  seu  aparelho  auditivo  e  um  microfone  acoplado  (veja  a  Fig.  46.3).  O
dispositivo de bolso permite que ele ouça claramente a voz de sua companheira há 50 anos, bem como de
seus paroquianos – individualmente ou em grupos.

Fig. 46.3 Dispositivo que dispõe de uma alça magnética que o usuário passa ao redor do pescoço para aumentar
a ampliação do som no aparelho auditivo, o que possibilita a comunicação mais fácil com aqueles no ambiente
social.

EXEMPLOS DE CASO: DESENVOLVER/RESTAURAR HÁBITOS DA PESSOA PARA O DESEMPENHO EM
QUALQUER AMBIENTE
A Sra. Vocelli é uma mulher de 72 anos de idade com osteoartrite que ficou viúva há um ano. Um ano após
a  morte  do  marido,  ela  foi  diagnosticada  com  depressão  maior  e  encaminhada  para  terapia  ocupacional
ambulatorial.  Na terapia  ocupacional,  ela  aderiu  a  um  grupo  de  terapia  de resolução de problemas (TRP)
para desenvolver habilidades de resolução de problemas cotidianos. À medida que sua depressão melhorou
e ela voltou a participar de algumas de suas atividades anteriores, ela desenvolveu crises de ansiedade. Ela
recebeu  a  prescrição  de  um  medicamento  ansiolítico  e  mais  uma  vez  foi  encaminhada  para  o  grupo
ambulatorial  de  terapia  de  resolução  de  problemas  (TRP).  A  Sra.  Vocelli  relatou  que,  quanto  mais  ia  à
comunidade, mais ficava preocupada se havia deixado o fogão acesso ou o ferro ligado, a água aberta ou o
aquecedor ligado próximo às cortinas. Após rever as sete etapas do processo da TRP, a solução que ela e o
grupo  encontraram  foi  que  a  Sra.  Vocelli  precisava  fazer  uma  lista  de  verificação  dos  itens  que  deveria
verificar antes de sair. Ela foi incentivada a tornar um hábito a checagem da lista de verificação antes de
sair  de  casa,  anotando  a  data  e  colocando  a  lista  em  sua  bolsa,  de  modo  que  pudesse  consultá­la,  caso
ficasse ansiosa. O grupo sugeriu que ela também criasse o hábito de fazer listas de verificação para outras
atividades que a deixavam ansiosa, como pegar o ônibus. A lista de verificação do ônibus poderia incluir:
obter o horário do ônibus, assegurar que ela estivesse com o passe do idoso, perguntar sobre as baldeações e
dizer  ao  motorista  onde  ela  gostaria  de  saltar  do  ônibus.  A  Sra.  Vocelli  foi  observada  uma  vez  por  mês
durante os seis meses seguintes para manter os hábitos que ela começou a adquirir. Ela relatou que as listas
de verificação funcionavam e que sua ansiedade estava sob controle.
Cara é uma estudante de 24 anos que foi encaminhada para uma terapeuta ocupacional com experiência na
terapia  da  mão  por  causa  de  dormência  e  formigamento  em  suas  mãos.  Ela  relatou  que  utilizava  um
computador  para  seu  trabalho  de  doutorado  em  história,  bem  como  em  seu  emprego  de  horário  parcial
como  assistente  de  pesquisa.  Além  das  órteses  bilaterais  de  punho  para  serem  utilizadas  à  noite  (Burke,
Burke, Stewart & Cambre, 1994; Sevim et al., 2004), a terapeuta ocupacional enfatizou a necessidade de
desenvolver  hábitos  para  modificar  as  posturas  estáticas,  promover  o  movimento  e  aumentar  o  fluxo
sanguíneo para o punho e as mãos. A terapeuta ensinou a Cara exercícios (alongamento e relaxamento) para
a mão, o punho e os ombros que ela precisaria executar rotineiramente, forneceu folhetos que ilustravam
tais exercícios e sugeriu que Cara colocasse um alarme que tocasse a cada hora para realizar os exercícios.
Três  meses  depois,  Cara  relatou  que  seus  “hábitos  manuais  saudáveis”  estavam  em  atuação.  Ela  não
apresentava mais a dormência ou o formigamento e continuava a usar suas órteses à noite.

Modificar as Demandas da Tarefa para Capacitar ou Melhorar o Desempenho
Quando  modificam  uma  tarefa,  os  profissionais  alteram  as  propriedades  da  tarefa  para  obter  o  resultado
desejado,  o  que  pode  facilitar  o  desempenho  funcional  ou  retardar  o  desempenho  disfuncional  (Dunn  et  al.,
1994).  Uma  estratégia  de  modificação  de  tarefa  envolve  adaptar  o  equipamento  para  compensar  os
comprometimentos,  por  exemplo,  substituindo  os  controles  com  os  pés  por  controles  manuais  (Keenan).  Uma
segunda estratégia envolve aumentar as propriedades da tarefa para facilitar a função, como foi realizado para a
Sra.  Rogers  quando  a  iluminação  foi  melhorada  para  facilitar  a  visão.  Uma  terceira  estratégia  baseia­se  nos
dispositivos de assistência, que variam desde dispositivos de assistência de baixa tecnologia (p. ex., um assento
sanitário elevado) até produtos de alta tecnologia (o assento de banheira do Sr. Ibrahim; o carro adaptado do Sr.
Jakke).  Quando  o  equipamento  de  adaptação  não  está  comercialmente  disponível,  os  profissionais  podem
fabricá­lo (Matt). Quanto aos hábitos, o caso da Sra. Desai ilustra o uso de um gravador de áudio para substituir
um hábito perturbador (gritar) por um não perturbador (ouvir música), enquanto o caso de Gary enfatiza o uso do
mesmo equipamento para o desenvolvimento de um hábito (sentar ereto). O caso de Gary também exemplifica o
valor da quebra da tarefa para adaptar as tarefas (uso de pregos para a seleção). Diferente da Sra. Vocelli, que era
capaz de internalizar uma estratégia de memória por meio do uso de listas de verificação, Mark não era capaz de
fazer isto e, portanto, foi prescrito um sistema eletrônico de memória.

EXEMPLOS DE CASO: MODIFICAR AS DEMANDAS DA TAREFA PARA O DÉFICIT DE HABILIDADE
Keenan é um menino de três anos de idade com traumatismo craniano fechado, convulsões e paralisia de
membro  inferior.  Sua  terapeuta  ocupacional  adaptou  um  veículo  motorizado  com  controles  manuais  para
substituir os controles com pedais. Esta modificação possibilita que ele se locomova pelo seu jardim e pela
vizinhança (Fig. 46.4).
A  Sra.  Rogers  é  uma  mulher  de  83  anos  de  idade  com  história  de  cinco  anos  de  degeneração  macular,
resultando em perda da visão central e em acuidade flutuante de sua visão periférica. Ela sempre gostou de
costurar para feiras de artesanato, mas não consegue mais enxergar para colocar a agulha em sua máquina
de costura, mesmo quando usa uma guia para a agulha. Ela também não consegue enxergar os parâmetros
de  tensão  e  o  tamanho  do  ponto  na  máquina,  e  por  isso  deixa  sempre  ajustada  a  máquina  nos  mesmos
parâmetros,  os  quais  nem  sempre  são  apropriados  para  o  que  ela  deseja  costurar.  Sem  assistência,  ela  é
incapaz de manter o seu hobby. A terapeuta ocupacional sugeriu uma lupa iluminada que permite que a Sra.
Rogers utilize sua máquina de costura e continue a ter um passatempo agradável (Fig. 46.5).

Fig. 46.4 Veículos motorizados adaptados, como este quadriciclo, possibilitam as capacidades de exploração e
mobilidade funcional para crianças com comprometimentos motores. (Veículos adaptados por S. Shores, Good
Samaritan Hospital, Puyallup, WA.)

Fig. 46.5 Uma lupa iluminada utilizada para adaptar uma tarefa de costura.

O Sr. Ibrahim é um homem de 72 anos de idade com história de 30 anos de artrite reumatoide e de 10 anos
de  diabetes  do  tipo  2,  que  sofreu  um  acidente  vascular  cerebral  leve  do  lado  direito.  Sua  esposa  está
preocupada em como irá controlá­lo durante as transferências para a banheira. O Sr. Ibrahim gosta de ficar
imerso duas vezes por dia na banheira para aliviar a dor da artrite. A terapeuta ocupacional de atendimento
domiciliar recomendou um assento mecânico de banheira sustentado por mola que possibilitará que o Sr.
Ibrahim se transfira com segurança para dentro da banheira, se movimente para baixo e para cima a partir
do fundo da banheira e se transfira para fora da banheira, evitando as quedas (Fig. 46.6).
O Sr. Jakke é um homem de 48 anos de idade com história de 10 anos de esclerose múltipla, resultando em
fraqueza  e  dormência  bilaterais  nos  membros  inferiores,  diminuição  do  equilíbrio  e  redução  da
sensibilidade nas mãos. Desde o último surto de sintomas, o Sr. Jakke é incapaz de se transferir de modo
independente para dentro de seu carro e decidiu investir em um carro que atenda às suas necessidades. A
terapeuta  ocupacional  recomendou  uma  caminhonete  com  controle  remoto  e  controles  manuais  e  o
encaminhou para uma empresa especializada em adaptação de veículos. O controle remoto abre a porta da
caminhonete  e  posiciona  o  assento  do  motorista,  possibilitando,  assim,  que  o  Sr.  Jakke  se  transfira  com
facilidade para dentro e para fora do carro (Fig. 46.7). Os controles manuais proporcionam a ele o melhor
controle do veículo em relação à espasticidade dos membros inferiores. Essas adaptações capacitam o Sr.
Jakke a levar seus filhos à escola e para atividades sociais. Ele também pode ir à terapia e aos grupos de
apoio, enquanto sua esposa está no trabalho.

Fig. 46.6 Um banco de banheira mecânico é acionado por mola e se eleva do fundo da banheira, erguendo o
peso e passando simultaneamente sobre as bordas da banheira.

Fig. 46.7 Esta caminhonete adaptada possibilita que o motorista abra a porta com um controle remoto e, em
seguida, entre na caminhonete por meio da rampa. A rampa dobra­se para dentro da porta quando ela se fecha,
e o motorista se transfere para o assento e assume os controles manuais.

Matt é um menino de sete anos de idade com síndrome do pterígio múltiplo e artrogripose. Estas patologias
resultaram  em  severas  limitações  em  todas  as  articulações,  além  de  contraturas  e  deformidades.  Ele  foi
encaminhado  para  a  terapia  ocupacional  porque  sua  capacidade  de  realizar  transferências  é  restrita.  A
terapeuta  ocupacional  idealizou  uma  rampa  sob  medida  (montada  sobre  um  banco  de  biblioteca  com
rodinhas)  que  possibilita  que  ele  acesse  áreas  onde  não  conseguiria  subir,  como  sofá,  cama,  banheira,
cadeira da sala de jantar ou vaso sanitário (Fig. 46.8).
Fig. 46.8 Uma rampa feita sob medida montada sobre um banquinho de rodas possibilita o acesso ao vaso
sanitário, bem como ao sofá, ao leito, à banheira e às cadeiras. (Construída por S. Shores, Good Samaritan
Hospital, Puyallup, WA.)

EXEMPLOS DE CASO: MODIFICAR AS DEMANDAS DA TAREFA PARA O DÉFICIT DE HÁBITO
A Srta. Desai é uma mulher de 26 anos de idade que está confinada ao leito e que apresenta um transtorno
cerebral orgânico secundário a um tumor cerebral. Incapaz de comunicar suas vontades e necessidades, ela
aprendeu a gritar para conseguir a assistência da equipe da casa de vida assistida. Mais tarde, ela começou a
gritar  sempre  que  ficava  sozinha.  Por  causa  de  seus  gritos,  outros  residentes  a  evitavam  e  a  equipe  a
colocava  em  seu  quarto  com  a  porta  fechada  para  diminuir  o  incômodo  para  os  outros.  A  terapeuta
ocupacional sugeriu utilizar um gravador e um fone de ouvido e tocar fitas de suas músicas preferidas para
desviar sua atenção (Casby & Holm, 1994). Sua família trouxe sua coleção de fitas e, após uma semana, o
hábito de gritar da Sra. Desai havia diminuído para uma ou duas ocorrências por dia.
Gary é um adolescente de 17 anos de idade com paralisia cerebral (hemiplegia) e retardo mental moderado.
Como parte de seu programa individual de profissionalização, ele passa três horas por dia em um programa
de  trabalho.  Ele  está  designado  para  a  turma  de  montagem  de  artigos  de  decoração  de  gramados  para
desenvolver  hábitos  de  trabalho.  O  professor  de  educação  especial  informou  à  terapeuta  ocupacional  que
Gary  não  mantém  uma  boa  postura  enquanto  trabalha  e  que  ele  tem  dificuldade  de  montar  as  peças  do
catavento de papel na ordem correta. A terapeuta ocupacional modificou a tarefa de montagem ao dividi­la
em várias etapas adicionais que Gary pode gerenciar. Ela montou uma sequência de pinos em uma tábua de
modo  que  Gary  possa  retirar  os  pedaços  do  catavento  da  caixa  de  acordo  com  a  sequência  de  cores  dos
pinos  na  tábua  e  montá­los  sobre  uma  guia  para  que  o  próximo  estudante  continue  a  montagem.  Com
relação  à  postura,  a  terapeuta  ocupacional  observou  que,  quando  Gary  se  engaja  em  suas  tarefas,  ele
esquece a postura. Para solucionar esse problema, um gravador com as fitas preferidas de Gary foi acoplado
a um interruptor em placa (Fig. 46.9). Para ativar o interruptor em placa, Gary precisa manter a maior parte
da mão sobre o interruptor. Para atingir essa posição, ele deve desenvolver o hábito de sentar­se ereto em
vez de se inclinar para a esquerda com ombro protraído e cotovelo e punho flexionados.
Fig. 46.9 Um interruptor em placa para ativar um gravador de fita quando a mão do aluno é colocada firmemente
sobre o interruptor.

Mark  é  um  adolescente  de  18  anos  cujo  diagnóstico  é  de  esquizofrenia  indiferenciada.  Uma  terapeuta
ocupacional  o  acompanha  como  um  paciente  ambulatorial  como  parte  de  um  programa  de  emprego
supervisionado.  Mark  está  sendo  colocado  em  um  restaurante  de  comida  rápida  e  foi  designado  para
trabalhar  na  sala  de  suprimentos  e  na  grelha.  Para  desenvolver  os  hábitos  apropriados  de  trabalho,  Mark
recebeu  um  dispositivo  (Hersh  &  Treadgold,  1994)  que  está  programado  para  ser  ativado  para  dar  a  ele
pistas para: acordar pela manhã, reunir as coisas necessárias para o trabalho (p. ex., almoço) e tomar seus
medicamentos  conforme  a  prescrição  (p.  ex.,  hora,  nome).  O  resultado  desejado  é  a  diminuição  da
dependência de Mark do sistema de programação.

Modificar o Ambiente para Permitir ou Melhorar o Desempenho
O ambiente pode ser visto como uma série de círculos concêntricos cada vez maiores com os clientes no centro.
O  ambiente  imediato  do  cliente  consiste  nas  pessoas  (p.  ex.,  família  imediata)  e  nas  estruturas  físicas  (p.  ex.,
casas  ou  apartamentos  particulares,  postos  de  trabalho)  que  rondam  a  tarefa.  Os  círculos  maiores  englobam
membros  da  família,  amigos,  colaboradores,  colegas,  políticos,  políticas  e  procedimentos,  culturas,  prédios
públicos e privados, vizinhança e comunidades, e assim por diante. Embora todos os níveis exerçam influência
sobre o desempenho da tarefa, este capítulo lida com o processo da terapia ocupacional da forma pela qual ele é
aplicado no nível individual. Portanto, a discussão do ambiente fica restrita ao ambiente imediato.
Os  profissionais  da  terapia  ocupacional  utilizam  duas  estratégias  básicas  para  modificar  as  demandas
ambientais.  A  primeira  estratégia  consiste  em  modificar  o  ambiente  atual.  Conforme  demonstrado  no  caso  da
Sra.  Hill,  a  instalação  de  uma  escada  de  mão  era  uma  modificação  domiciliar  relativamente  menor,  mas  que
possibilitava que ela alcançasse sua meta de ficar em casa sozinha. Em contraste, as modificações maiores foram
necessárias na nova casa do Sr. Jakke para acomodar a mobilidade sobre rodas, bem como em seu jardim, para
que ele continuasse sua atividade de lazer de jardinagem. Tratamentos para promover a mobilidade e caminhos
seguros  são  exemplificados  nos  casos  da  Srta.  Yi­Sun  e  da  Sra.  Kochinski,  respectivamente.  As  modificações
voltadas para o ambiente social são primordiais no controle efetivo dos déficits de habilidade da Sra. Prescott
secundários à sua demência.
A segunda estratégia ambiental utilizada pelos profissionais consiste em recomendar um ambiente diferente.
Para o Sr. Bitner, por exemplo, o profissional recomendou a filiação a um centro de cuidados diários de adultos
que  permitisse  uma  mudança  limitada  de  ambiente.  Para  Andrew,  as  características  de  seu  espaço  de  estudo
foram dramaticamente modificadas para criar um ambiente que reduzisse a distração e facilitasse o estudo.

EXEMPLOS DE CASO: MODIFICAR AS DEMANDAS AMBIENTAIS PARA OS DÉFICITS DE HABILIDADE
A Sra. Hill é uma mulher de 63 anos com uma história de 20 anos de esclerose múltipla que resultou em
fraqueza e dormência bilateral abaixo dos quadris, diminuição da sensibilidade nas mãos e dor lombar na
posição  sentada  prolongada.  Em  virtude  de  diversas  quedas  recentes  da  cadeira  de  rodas  durante  as
transferências,  seus  familiares  querem  que  ela  tenha  uma  cuidadora  enquanto  seu  marido  estiver
trabalhando.  Ela  rejeita  a  sugestão  deles  de  modo  veemente.  Como  a  Sra.  Hill  utilizava  com  sucesso,  na
clínica  de  fisioterapia,  uma  escada  de  parede  para  voltar  para  sua  cadeira,  a  terapeuta  ocupacional
recomendou que uma escada semelhante fosse instalada na casa. Foi encontrado um local adequado para a
escada  e,  quando  a  Sra.  Hill  escorrega  para  o  chão  durante  uma  transferência  do  leito  para  a  cadeira  de
rodas,  ela  é  capaz  de  se  arrastar  até  a  escada,  empurrando  sua  cadeira  de  rodas  à  sua  frente,  e  utiliza  a
escada para voltar para sua cadeira (Fig. 46.10).

Fig. 46.10 Uma escada de parede desenhada para se misturar à decoração do ambiente domiciliar.

Antes  de  o  Sr.  Jakke  e  sua  família  se  mudarem  para  a  nova  casa,  várias  alterações  foram  feitas  para
acomodar uma cadeira de rodas. O Sr. Jakke (um empreiteiro) revisou as dimensões relevantes (Fig. 46.11)
e fez diversas modificações na estrutura física. O encanamento foi recuado embaixo da pia do banheiro para
permitir que o Sr. Jakke empurrasse a cadeira de rodas até embaixo da pia sem se preocupar com o risco de
queimar  nos  canos  de  água  quente,  seus  membros  inferiores  sem  sensibilidade,  e  duas  gavetas  foram
colocadas dentro de uma gaveta profunda, de modo que os itens pudessem ser pegos e armazenados com
facilidade  na  posição  sentada  (Fig. 46.12).  O  vaso  sanitário  padrão  de  37,5cm  foi  substituído  por  um  de
45cm de altura para  facilitar  as  transferências.  Barras  de  segurança  de  madeira foram instaladas perto do
vaso  sanitário  e  serviam  como  um  dispositivo  de  assistência  para  transferências  em  pivô  em  pé  e  como
suporte  de  toalha  (Fig.  46.13).  Na  cozinha,  as  prateleiras  foram  substituídas  por  gavetas  para  facilitar  o
acesso aos objetos (Fig. 46.14). O forno de micro­ondas foi posicionado próximo à bancada para facilitar a
transferência de pratos quentes para a mesa (Fig. 46.15).  Esta  disposição  possibilita  que  o  Sr.  Jakke,  que
tem  fraqueza  e  alguma  perda  de  sensibilidade  em  suas  mãos,  leve  um  prato  quente  do  micro­ondas  até  a
bancada, torne a posicioná­lo, mova­o da bancada para a tábua de cortar, torne a posicioná­lo e, em seguida,
mova­o da tábua de cortar para a mesa. Por fim, foi construído um balcão na lavanderia para possibilitar
que o Sr. Jakke dobre a roupa sentado em sua cadeira de rodas (Fig. 46.16).
A  Srta.  Yi­Sun  é  a  terapeuta  ocupacional  na  casa  de  vida  assistida  Vintage.  Ela  é  solicitada  pela
administração  a  criar  um  ambiente  que  seja  seguro  para  permitir  que  os  residentes  com  demência
perambulem  e  caminhem  quando  ficarem  ansiosos  (Hall  &  Buckwalter,  1987).  Com  a  assistência  dos
estudantes do programa educacional para assistentes de terapia ocupacional nas proximidades, ela idealizou
locais nos corredores onde os residentes possam parar e olhar relógios de bolso, dobrar toalhas, selecionar e
empilhar  pratos  de  plástico  pesados,  olhar  os  peixes  em  um  aquário  colocado  no  nível  dos  olhos  e  pegar
lanches para comer com a mão. No lado de fora, na área cercada do pátio, eles construíram jardineiras que
podem ser inclinadas sem dobrar e colocaram cercas ao redor de áreas onde o terreno está desnivelado ou
onde existe o perigo de tropeçar, o que poderia colocar os residentes em risco de quedas (Fig. 46.17). Toda
a equipe e os residentes desfrutam do pátio nos dias agradáveis, criando um ambiente positivo para todos.

Fig. 46.11 Medidas e proporções básicas podem ser utilizadas quando se planejam as modificações da casa. As
medidas são fornecidas em centímetros. (Adaptada de Diffrient, Tilley & Bardagly, 1974.)
Fig. 46.12 O encanamento recuado e as gavetas com dupla profundidade possibilitam o acesso fácil à área da
pia a partir da posição sentada.

Fig. 46.13 As barras de segurança de madeira também servem como um porta­toalha e o assento sanitário
extra­alto possibilita uma transferência lateral fácil a partir da cadeira de rodas.
Fig. 46.14 Gavetas rasas sobre trilhos tornam todos os artigos acessíveis a partir da posição sentada.

Fig. 46.15 A colocação do micro­ondas possibilita que os itens quentes sejam dispostos sobre a tábua de cortar
e, em seguida, transferidos para a mesa com facilidade.

Fig. 46.16 A mesa da lavanderia é chanfrada para permitir um caminho livre para a cadeira de rodas, e a altura
do balcão é de 81,3cm para facilitar a utilização quando sentado, com o acesso livre por baixo do balcão.
Fig. 46.17 O calçamento do caminho e as jardineiras suspensas possibilitam que os residentes de casas de vida
assistida caminhem e passeiem em um ambiente agradável e seguro.

A  Sra.  Kochinski  é  uma  mulher  de  86  anos  de  idade  com  demência  por  múltiplos  infartos,  que  reside
atualmente em um centro de vida assistida. Como ela está tendo dificuldade de localizar seu quarto após as
refeições e outras atividades, a terapeuta ocupacional ajudou­a a colocar algumas fotografias preferidas dela
com o marido na porta de seu quarto e, então, levou­a para encontrar a porta com seus retratos após cada
refeição e sessão de atividade (Fig. 46.18). Depois de três dias, suas habilidades para encontrar o caminho
estavam estabelecidas em seu novo ambiente.
A Sra. Prescott tem 51 anos e apresenta uma demência rapidamente progressiva de origem desconhecida.
Ela  foi  hospitalizada  em  uma  unidade  psiquiátrica  depois  que  perdeu  15  quilos  em  dois  meses,  exibia
apraxia durante as tarefas cotidianas e tornou­se extremamente lábil. Na alta, ela é incapaz de se vestir, não
consegue se lembrar de como usar os talheres e está incontinente. Sua família quer cuidar dela em casa e
contratou  uma  cuidadora.  A  terapeuta  ocupacional  teve  um  encontro  com  a  família  e  a  cuidadora  para
demonstrar um conjunto de dispositivos disponíveis para manter as habilidades que a Sra. Prescott conserva
e  fornecer  o  suporte  necessário,  caso  suas  capacidades  diminuam.  A  terapeuta  ocupacional  mostrou  aos
cuidadores  uma  fita  de  vídeo  feita  enquanto  a  Sra.  Prescott  preparava  uma  refeição  durante  a  terapia.  À
medida que eles assistiam ao filme, a terapeuta identificou pistas verbais de nível inferior, pistas gestuais de
nível médio e assistência física de nível mais elevado (orientação física e assistência total), à medida que
cada  uma  delas  era  fornecida.  Utilizar  assistência  de  nível  inferior  antes  da  assistência  de  nível  mais
elevado, variar o tipo de assistência de um dia para outro quando o desempenho da Sra. Prescott flutua e
aumentar o uso de assistência de nível superior à medida que a demência avança foram aspectos discutidos
com os cuidadores. A terapeuta forneceu a cada cuidador uma lista dos tipos de assistências de que a Sra.
Prescott  precisava  para  as  tarefas  de  cuidados  pessoais,  explicando  cada  uma  delas  e,  em  seguida,
respondendo as perguntas. Embora a deterioração progressiva da Sra. Prescott não possa ser evitada, o nível
adequado de assistência do ambiente social pode retardar a deterioração da habilidade (Rogers et al., 2000).
Fig. 46.18 Pistas familiares em um novo ambiente ajudam os residentes em centros de vida assistida a encontrar
o caminho para seus quartos.

EXEMPLOS DE CASO: MODIFICAR AS DEMANDAS AMBIENTAIS PARA OS DÉFICITS DE HÁBITO
O Sr. Bitner é  um  homem  de  68  anos  de  idade  com  demência  do  tipo  Alzheimer. Ele é um executivo da
indústria farmacêutica aposentado, e ele e sua esposa, Annie, gostam de receber a família e os amigos em
sua casa. O atual estágio da demência do Sr. Bitner manifesta­se no questionamento repetitivo e contínuo à
Sra.  Bitner,  na  dificuldade  de  concentração,  na  perda  do  interesse  pelas  atividades,  na  abstinência  de
atividades  sociais  e  na  marcha  continuada.  Ainda  que  a  Sra.  Bitner  tenha  reorganizado  a  mobília  para
acomodar o novo hábito de caminhar de seu marido, há duas semanas o Sr. Bitner sofreu fratura de Colles
bilateral, quando tropeçou em uma mesinha de café na sala da família. Depois de auxiliar a Sra. Bitner com
sugestões  para  o  cuidado  pessoal  de  seu  marido,  a  terapeuta  ocupacional  forneceu­lhe  informações  sobre
programas  de  hospital­dia  para  adultos  com  demência.  O  hospital­dia  é  benéfico  para  o  receptor  dos
cuidados e para o cuidador, com o Sr. Bitner recebendo a estimulação necessária e a supervisão apropriada e
a Sra. Bitner tendo a possibilidade de descansar dos hábitos de caminhar compulsivo e do questionamento
repetitivo do Sr. Bitner.
Andrew  é  um  adolescente  de  13  anos  de  idade  que  apresenta  um  diagnóstico  de  transtorno  de  déficit  de
atenção. Ele tem seu próprio quarto com uma mesa para estudar, mas fica distraído e raramente termina seu
trabalho de casa. O psicólogo de Andrew trabalha com uma consultora de terapia ocupacional, a quem ele
pede que avalie Andrew e faça recomendações. A terapeuta recomenda o seguinte: Organizar todos os itens
sobre  a  mesa  de  Andrew  de  modo  que  exista  um  sistema  evidente  para  acessar  os  materiais.  Retirar  os
cartazes das paredes próximas à sua mesa e colocá­los em outro local do quarto. Quando ele se preparar
para  estudar,  faça  com  que  Andrew  coloque  apenas  os  itens  necessários  para  uma  determinada  tarefa
sobre  a  mesa.  Para  diminuir  os  estímulos  visuais,  a  única  luz  no  quarto  de  Andrew  deve  ser  a  sua
luminária  de  mesa.  Além  disso,  faça  com  que  Andrew  realize  pausas  frequentes  no  estudo.  Andrew  deve
estudar  no  mesmo  horário  a  cada  noite  e  prosseguir  com  as  mesmas  rotinas  para  montar  sua  área  de
estudo até que os padrões de hábito sejam estabelecidos e mantidos.
O tratamento foi bem­sucedido.
O Sr. Jakke sempre gostou de sair de casa. Vários anos atrás, ele aprendeu jardinagem e sua rotina diária
envolvia passar cerca de duas horas a cada manhã inclinado sobre suas plantas, flores e árvores de bonsai.
Antes  ele  utilizava  um  banquinho  para  se  apoiar  na  posição  ajoelhada  ou  sentada.  No  entanto,  ele  não  é
mais capaz de utilizar este dispositivo por causa do aumento da espasticidade no membro inferior. Portanto,
sua  rotina  matinal  de  jardinagem  precisou  ser  interrompida.  A  terapeuta  ocupacional  sugeriu  jardineiras
altas  para  suas  plantas  e  flores  (Fig. 46.19)  e  uma  cerca  com  prateleiras  inclináveis  para  suas  árvores  de
bonsai. As modificações possibilitaram que o Sr. Jakke retomasse sua rotina de jardinagem pela manhã.

PROCESSO DE TO: REAVALIAÇÃO
O quinto componente do processo de terapia ocupacional é a reavaliação. Durante a reavaliação, os resultados
esperados são avaliados com o uso das mesmas medidas utilizadas na avaliação. A finalidade da reavaliação é
determinar se o tratamento de terapia ocupacional atingiu os resultados pretendidos. Portanto, os critérios para a
reavaliação  são  os  resultados  estabelecidos.  Se  o  resultado  estabelecido  foi  restaurar  a  independência  na
alimentação,  a  capacidade  dos  clientes  para  se  alimentar  de  maneira  independente  seria  testada  sob  diversas
condições na reavaliação. As condições envolveriam ingerir líquidos (bebidas) e sólidos (carne, purê de batata)
utilizando  vários  utensílios  de  alimentação.  Se  o  profissional  propôs  a  hipótese  de  que  a  discrepância  na
alimentação estava relacionada com a força inadequada de garra para segurar os talheres, e o tratamento aplicado
para  conseguir  a  independência  na  alimentação  fez  uso  de  atividades  funcionais  gradativas  para  fortalecer  a
garra,  o  profissional  também  pode  desejar  testar  novamente  a  força  de  garra.  Se  o  resultado  desejado  foi
alcançado (independência na alimentação) e a força de garra aumentou, a hipótese do profissional para explicar a
discrepância  de  desempenho  estaria  confirmada.  No  entanto,  se  houve  aumento  da  força  de  garra,  mas  o
resultado  não  foi  alcançado,  o  profissional  precisaria  decidir:  (1)  manter  o  tratamento  com  as  atividades
funcionais  gradativas  (p.  ex.,  a  duração  mais  longa  é  necessária  para  alcançar  a  mudança);  (2)  modificar  o
tratamento, como experimentar um dispositivo de adaptação (p. ex., compensar a redução da força de garra), (3)
manter  o  tratamento  com  atividades  funcionais  controladas,  mas  adicionar  outra  modalidade,  ou  (4)  revisar  o
resultado  (p.  ex.,  aumento  da  independência  vs.  independência).  Para  tomar  essas  decisões,  os  profissionais
recorrem ao conhecimento teórico, ao conhecimento prático e à sua experiência com “este” determinado cliente.

Fig. 46.19 As jardineiras suspensas possibilitam que os clientes se inclinem para cuidar das plantas a partir da
posição sentada.

O momento da reavaliação baseia­se na predição do profissional (julgamento prognóstico) de quanto tempo
será necessário para que o tratamento tenha efeito. Deve ser abordada a seguinte questão: diante do tratamento
de terapia ocupacional Xx, na intensidade Aa, com a frequência Bb, pela duração Cc, quanto tempo levará para
que  o  resultado  desejado  seja  atingido?  Por  exemplo,  fornecidas  as  atividades  funcionais  controladas
(tratamento) por uma hora (intensidade), três vezes por semana (frequência), durante quatro semanas (duração),
quanto tempo transcorrerá para que o cliente deixe de ser dependente na alimentação para ser independente na
alimentação?  Intensidade,  frequência  e  duração  dos  tratamentos  de  reabilitação  surgiram  com  o  início  da
discussão sobre a terapia de restrição induzida do movimento (TRIM). O protocolo de tratamento original exigia
um horário intensivo de prática de seis horas por dia, cinco dias por semana, durante duas semanas (Ostendorf &
Wolf,  1981).  Os  resultados  positivos  observados  com  a  TRIM  incentivaram  os  profissionais  a  questionar  se
maior  benefício  seria  alcançado  com  variações  do  protocolo  ao  aumentar  a  intensidade,  a  frequência  ou  a
duração.  De  maneira  significativa,  uma  metanálise  dos  estudos  envolvendo  diferentes  intensidades  de
reabilitação do acidente vascular cerebral encontrou um efeito estatisticamente significativo para as atividades da
vida diária (Kwakkel, Wagenaar, Koelman, Lankhorst & Koetsier, 1997).
Então,  a  reavaliação  deve  ser  agendada  para  coincidir  com  o  tempo  estimado  como  necessário  para  que
aconteça  a  mudança  nas  variáveis  de  resultado.  Modificar  a  tarefa  ou  o  ambiente  frequentemente  resulta  em
melhoria  imediata  no  desempenho  ocupacional,  enquanto  os  efeitos  da  mudança  das  capacidades  do  cliente
podem levar mais tempo. Por exemplo, os clientes com lesão da medula espinhal que não conseguem segurar um
talher comumente podem se alimentar imediatamente após a aplicação, na mão, de um manguito universal com
uma  colher  inserida  na  bolsa  do  manguito.  Restaurar  a  força  de  garra  o  suficiente  para  segurar  a  colher  pode
levar meses ou pode não ser adequado. Com frequência, os profissionais combinam estratégias de pessoa­tarefa­
ambiente no programa geral de tratamento para obter a vantagem dos resultados “quase” imediatos alcançados
quando as demandas da tarefa e do ambiente são manipuladas, bem como as alterações “tardias” são obtidas com
tratamento  orientado  para  a  pessoa.  Os  resultados  “imediatos”  após  modificações  na  tarefa  e  no  ambiente
frequentemente  motivam  os  clientes  a  participar  plenamente  nos  tratamentos  orientados  para  a  pessoa  que
exigem esforço maior. Assim, a combinação específica de tratamentos influencia como os resultados funcionais
podem ser obtidos em menor tempo.
O risco da reavaliação antes que a alteração possa ter se desenvolvido é que o tratamento bem­sucedido pode
ser considerado malsucedido. O momento da reavaliação é frequentemente abordado nas diretrizes de prática e
por boletins das companhias de seguros. Embora as orientações para a prática e as regulamentações do seguro
sejam cada vez mais formuladas com base em evidências, isto nem sempre acontece, e os profissionais precisam
estar cientes desta possibilidade.
Além de julgar o sucesso dos tratamentos de terapia ocupacional de acordo com o desempenho ocupacional
dos clientes, a reavaliação proporciona aos profissionais a oportunidade de avaliar seu próprio desempenho. A
exatidão  de  seus  julgamentos  terapêuticos  sobre  a  definição  e  natureza  das  discrepâncias  de  desempenho  e  da
intensidade, frequência e duração do tratamento pode ser examinada de acordo com os resultados estabelecidos
que  são  atingidos  ou  não.  Refletir  sobre  suas  decisões  terapêuticas  e  discuti­las  com  profissionais  mais
experientes  constitui  uma  excelente  maneira  de  melhorar  as  próprias  habilidades  de  raciocínio  terapêutico
(Rogers, 1983; Rogers & Holm, 1989).

A Hierarquia do Desempenho Ocupacional: Implicações para Avaliação e Tratamento
A hierarquia do desempenho ocupacional fornece uma perspectiva útil para estabelecer as principais abordagens
de avaliação e tratamento utilizadas na terapia ocupacional para as discrepâncias de desempenho. O desempenho
ocupacional pode ser visto como um fenômeno da terceira camada – a camada superior representa o desempenho
do papel ocupacional (p. ex., estudante, dona de casa); a camada média representa o desempenho da tarefa (p.
ex.,  vestir­se,  preparar  a  refeição,  o  trabalho  escolar);  a  camada  inferior  representa  as  capacidades  (p.  ex.,
amplitude de movimento, memória de curto prazo, motivação). Essas camadas estão dispostas em hierarquia, à
medida  que  as  capacidades  se  misturam  para  compor  as  habilidades  de  desempenho  da  tarefa,  e  as  tarefas  se
unem para constituir os pa péis ocupacionais. Dessa maneira, é válido perguntar em que nível se deve iniciar a
avaliação  da  terapia  ocupacional  e  como  ela  deve  progredir.  De  maneira  semelhante,  em  que  nível  devem  ser
considerados os tratamentos da terapia ocupacional?
Trombly (1993, 1995)  designou  a abordagem  que  começa  com  as  capacidades como a abordagem de baixo
para cima e a abordagem que começa com o desempenho do papel como a abordagem de cima para baixo. A
abordagem  de  cima  para  baixo  reflete  a  posição  delineada  no  Protocolo  de  Prática  da  Terapia  Ocupacional
(AOTA,  2002).  Uma  terceira  abordagem,  que  a  princípio  se  concentra  no  contexto  interno  do  cliente,  foi
estabelecida por Hinojosa e Kramer (1998).

A Abordagem de Baixo para Cima para a Discrepância de Desempenho
Quando  utilizam  uma  abordagem  de  baixo  para  cima,  os  terapeutas  ocupacionais  enfocam  a  avaliação  e  o
tratamento das capacidades gerais do cliente (i.e., estruturas e funções orgânicas e comprometimentos associados
de acordo com o modelo da CIF; ou os fatores e habilidades de desempenho do cliente utilizando o PPTO). Para
a  Sra.  Fisher,  uma  cliente  de  63  anos  de  idade  que  sofreu  um  acidente  vascular  cerebral  (AVC)  direito,  a
terapeuta  poderia  centrar­se  na  avaliação  de  tônus  muscular,  controle  postural,  integração  motora  visual  e
memória  de  curto  prazo.  Os  tratamentos  devem  ser  de  natureza  restauradora  com  a  intenção  de  normalizar  as
funções e as estruturas orgânicas perdidas em consequência do AVC.
A justificativa que fundamenta a abordagem de baixo para cima é que as estruturas e funções orgânicas dão
suporte  ao  desempenho  da  tarefa  em  todas  as  áreas  ocupacionais  e  que,  restaurando  essas  capacidades  a  seu
estado normal, o desempenho da tarefa, que estava disfuncional, torna­se automaticamente funcional, porque as
habilidades  e  os  hábitos  necessários  para  realizar  essas  tarefas  estão,  mais  uma  vez,  intactos.  Uma  vez  que  as
capacidades  gerais  sejam  revitalizadas,  alguns  tratamentos  de  restauração  podem  ser  idealizados  para  o
desempenho  da  tarefa,  a  fim  de  reintegrar  as  capacidades  gerais  recentemente  restauradas  ao  desempenho
cotidiano do cuidado pessoal do cliente, gerenciamento da casa, trabalho e atividades de passatempo ou lazer.
Esse tratamento não precisaria ser extenso, porque a “cura” dos comprometimentos restabelece as capacidades
do  cliente,  e  a  reativação  da  tarefa  ocorre  rapidamente,  em  especial  para  as  habilidades  cotidianas  bem­
aprendidas  e  bem­praticadas.  Assim,  a  abordagem  de  baixo  para  cima  para  a  discrepância  do  desempenho  é
eficiente porque a restauração das capacidades da tarefa faz com que os clientes retomem a sua condição pré­
mórbida (pré­doença, pré­transtorno), sendo as tarefas e a participação no papel retomadas em seu nível anterior.
A abordagem de baixo para cima possibilita que a terapeuta ocupacional enfoque a avaliação e o tratamento
das capacidades individualizadas do cliente, sem precisar considerar inicialmente as demandas da tarefa ou do
ambiente. O tônus muscular, os reflexos e o controle postural da Sra. Fisher podem ser avaliados em um tatame
sobre um estrado, podendo sua integração visual­motora e a memória de curto prazo ser avaliadas por meio de
testes  com  ela  sentada  em  sua  cadeira  de  rodas.  As  técnicas  para  normalizar  o  tônus  e  melhorar  o  controle
postural também podem ser aplicadas com a Sra. Fisher sobre o tatame. O tratamento para resolver os problemas
na constância da forma, no ajuste visual, na percepção figura­solo e na memória de curto prazo pode ser aplicado
com o uso de exercícios com papel e lápis feitos sobre uma prancheta. Em parte, as interações experimentais são
limitadas aos objetos e às instruções de teste e tratamento.
As demandas das situações da vida real são incluídas no programa de tratamento quando as capacidades gerais
foram restauradas ou quando sua melhora se estabilizou. Por exemplo, como a Sra. Fisher não atingiu o controle
voluntário  pleno  de  seus  membros  esquerdos  afetados  e  não  consegue  realizar  as  transferências  da  maneira
típica, sua terapeuta ocupacional pratica as transferências no leito e no vaso sanitário para ajudá­la a integrar as
técnicas de controle postural e do tônus anormal durante esses procedimentos.

Abordagem de Cima para Baixo para a Discrepância de Desempenho
A segunda abordagem importante para a avaliação e o tratamento de terapia ocupacional – a abordagem de cima
para baixo – começa por estabelecer as discrepâncias de desempenho no nível mais elevado – isto é, no nível do
papel social. Em seguida, passa às tarefas necessárias para manter os pa péis sociais valorizados – isto é, para o
nível  de  atividades/limitações  de  atividade  da  CIF  ou  para  o  nível  de  ocupações  e  padrões  e  habilidades  de
desempenho  associado  do  PPTO.  Por  fim,  o  foco  é  transferido  para  as  capacidades  gerais  que  dão  suporte  às
atividades e ao desempenho do papel social, ou para o nível dos fatores inerentes ao cliente do PPTO ou para o
nível de funções e estruturas orgânicas/comprometimentos da CIF. A justificativa fundamental para a abordagem
de cima para baixo é que, ainda que os comprometimentos nem sempre possam ser “curados”, as atividades e a
participação social podem ser melhoradas por meio do desempenho adaptado das tarefas e das ações associadas
a  essas  atividades  e  aos  pa  péis  sociais.  A  seguinte  lógica  fundamenta  essa  justificativa  (Mathiowetz,  1993;
Trombly, 1993, 1995):
A avaliação e o tratamento começam com tarefas que são valorizadas pelos clientes (i.e., necessárias para
realizar atividades e pa péis sociais valorizados).
Os  fatores  externos  aos  clientes  que  contribuem  para  as  discrepâncias  de  desempenho  podem  ser
identificados durante o desempenho da tarefa.
Inferências sobre as prováveis causas externas das discrepâncias de desempenho podem ser verificadas com
a  modificação  das  demandas  da  tarefa  ou  do  ambiente  durante  o  desempenho  da  tarefa,  reduzindo  ou
resolvendo, assim, a discrepância do desempenho.
A  contribuição  das  capacidades  e  dos  comprometimentos  pode  ser  observada  quando  eles  interagem  de
modo sinérgico no desempenho das atividades e pa péis sociais na vida real.
Uma avaliação mais focada nos comprometimentos pode acontecer no contexto do desempenho da tarefa
para identificação das estratégias de tratamento adequadas para estabelecer, restaurar ou evitar a perda das
capacidades gerais.
Para  a  Sra.  Fisher,  que  sofreu  um  AVC  do  lado  direito,  a  terapeuta  ocupacional  começa  por  avaliar  a
participação  da  Sra.  Fisher  nos  pa  péis  sociais  que  mais  provavelmente  estariam  limitados  pelo  AVC.  A  Sra.
Fisher valoriza mais seus pa péis como esposa e dona de casa. Ela gosta de cozinhar para seu marido e de assar
pão para seus netos, que a visitam todas as terças­feiras. Ela também está preocupada sobre seu papel como uma
pessoa que realiza seus próprios cuidados. Além de caminhar, alimentar­se, tomar banho, usar o vaso sanitário,
vestir­se  e  cuidar  da  higiene,  a  Sra.  Fisher  expressa  preocupação  com  o  gerenciamento  dos  medicamentos  e  a
comunicação de emergência quando seu marido não está em casa.
Quando as tarefas mais relevantes que compreendem cada papel social são identificadas, inicia­se a avaliação
baseada no desempenho para identificar o desempenho da tarefa que não está afetado, bem como as limitações
da  tarefa.  Avaliações  aprofundadas  são  necessárias  para  identificar  o  ponto  específico  na  sequência  da  tarefa
onde acontece a ruptura, bem como as demandas da tarefa, e para desenvolver hipóteses terapêuticas sobre os
comprometimentos responsáveis por essa ruptura. Podem ser aplicadas estratégias de tratamento para reduzir as
demandas da tarefa e do ambiente que envolvem os métodos compensatórios do desempenho da tarefa, o uso de
equipamentos  de  adaptação  e  a  modificação  dos  ambientes  físicos  e  social.  Estas  estratégias  compensatórias
podem  resolver  as  discrepâncias  de  desempenho  com  relativa  rapidez  e  podem  ser  soluções  temporárias  ou
permanentes  para  as  discrepâncias  de  desempenho.  Se  forem  soluções  temporárias,  elas  comumente  são
utilizadas  para  possibilitar  o  desempenho  adaptado  da  tarefa,  enquanto  os  tratamentos  orientados  para  a
capacidade (comprometimento) são instituídos mais tarde para restaurar as capacidades pessoais.
A abordagem de cima para baixo das discrepâncias de desempenho possibilita que a terapeuta ocupacional se
concentre,  a  princípio,  na  avaliação  e  no  tratamento  para  pa  péis  e  responsabilidades  sociais  que  definem  a
participação do cliente na residência e na comunidade. O conhecimento das demandas da tarefa e dos ambientes
físico e social faz parte do processo de terapia ocupacional desde o início.
A  Sra.  Fisher,  por  exemplo,  indicou  que  suas  atuais  preocupações  centralizam­se  em  seus  pa  péis  como  o
autocuidado e os de esposa, avó e dona de casa. Ela está ansiosa quanto à sua capacidade de realizar esses pa
péis desde seu AVC. De modo ideal, a avaliação das tarefas críticas que constituem seu papel de dona de casa (p.
ex.,  preparação  de  refeição,  manutenção  do  ambiente  da  casa,  cuidados  com  as  roupas)  e  seu  papel  no
autocuidado (p. ex., tomar banho, usar o vaso sanitário, vestir­se) seria efetuada em sua casa, de modo que as
informações obtidas sobre a negociação PTA fosse exata e válida. Sob condições menos que ideais, essas tarefas
são avaliadas em uma clínica de terapia ocupacional. A exatidão e a validade das informações são melhoradas
sob condições clínicas pela maior simulação possível das demandas de tarefa e ambiente que a Sra. Fisher irá
enfrentar em sua casa  após  a  alta.  Por  exemplo,  como  o  banheiro  na  casa  da  Sra. Fisher é muito estreito para
permitir  que  ela  manobre  sua  cadeira  de  rodas  enquanto  está  sentada,  a  terapeuta  ocupacional  treinou  a  Sra.
Fisher para empurrar sua cadeira de rodas para trás. Este procedimento possibilitou que a Sra. Fisher praticasse
transferências para o banco da banheira, bem como para o vaso sanitário, pelo lado direito não afetado e mais
forte de seu corpo. Em seguida, ela aprendeu a fechar a cadeira de rodas e a reposicioná­la na direção oposta,
antes  de  se  transferir  para  fora  da  banheira.  Girar  a  cadeira  de  rodas  possibilitou  que  ela  novamente  se
transferisse pelo seu lado mais forte e não afetado. O espaço necessário para girar a cadeira é menor quando ela
não  está  na  cadeira,  porque  o  comprimento  de  sua  coxa  não  precisa  ser  levado  em  consideração.  Além  das
condutas compensatórias, as abordagens de neurodesenvolvimento (i.e., restauradoras) para melhorar o controle
postural com a normalização do tônus muscular e inibição dos padrões reflexos anormais seriam incorporadas
aos exercícios de prática de transferências.

A Abordagem do Contexto Interno do Cliente para a Discrepância de Desempenho
Diferente das abordagens de baixo para cima e de cima para baixo, a terceira abordagem para as discrepâncias de
desempenho não prescreve um ponto de partida ou sequência específicos. Em vez disso, o processo de terapia
ocupacional  começa  com  uma  avaliação  de  triagem  que  é  estruturada  para  determinar  a  área  de  máxima
necessidade do cliente (Weinstock­Zlotnick & Hinojosa, 2004). O profissional procura compreender por que o
cliente  veio  ou  foi  encaminhado  para  a  terapia  ocupacional.  Os  dados  da  avaliação  de  triagem  direcionam  a
avaliação  abrangente  subsequente.  Se  o  problema  está  situado  em  uma  estrutura  ou  função  corporal,  esta
estrutura ou função é então avaliada de modo mais abrangente. Se o problema reside na tarefa ou no ambiente, a
tarefa ou ambiente é examinado em detalhes. O problema apresentado do cliente é o gatilho para futuras ações.
Durante a avaliação de triagem, a Sra. Fisher esclarece que suas maiores preocupações são sua capacidade de
transferência para o vaso sanitário, o controle de seus medicamentos e à comunicação em caso de emergência,
quando  seu  marido  estiver  no  trabalho  ou  fora  de  casa.  Por  conseguinte,  durante  a  avaliação  abrangente,  a
terapeuta  observa  a  Sra.  Fisher  realizando  uma  transferência  para  o  vaso  sanitário,  selecionando  os  vários
medicamentos de uso diário de acordo com as orientações da prescrição e fazendo uma ligação para 192 estando
no chão (como se tivesse caído) após puxar o telefone pelo fio até o chão. Além disso, ela avaliou o controle
motor da Sra. Fisher após observar a transferência para o vaso sanitário e a mobilidade no chão. O tratamento
concentrou­se no controle e uso da cadeira de rodas durante a transferência para o vaso sanitário, na seleção dos
medicamentos para a semana seguinte de acordo com dia e hora e na aquisição de um sistema de alerta médico
para  assistência  no  caso  de  uma  queda  ou  de  uma  emergência.  A  Sra.  Fisher  também  foi  agendada  para  a
reabilitação ambulatorial para trabalhar a normalização do tônus em seu lado afetado, bem como para melhorar o
controle postural.

Vantagens e Desvantagens das Abordagens para Discrepâncias da Negociação PTA

Uma Abordagem de Baixo para Cima
Uma vantagem da abordagem de baixo para cima para as discrepâncias da PTA é que o tratamento voltado para
o  desenvolvimento  e  a  restauração  das  capacidades  gerais  pode  beneficiar  muitas  tarefas.  Por  exemplo,  o
aumento da força muscular ou da amplitude de movimento nos membros superiores facilitará todas as tarefas em
que  essas  capacidades  estavam  deficientes.  De  maneira  semelhante,  a  redução  da  apatia  facilitará  o
reengajamento em áreas ocupacionais previamente negligenciadas. Do mesmo modo, a correção dos déficits de
sequenciamento  visual  estimulará  o  desempenho  em  todas  as  tarefas  afetadas  negativamente  por  este
comprometimento. Assim, potencialmente, com a remediação dos comprometimentos neuromusculares, mentais
ou psicológicos, múltiplas incapacidades de tarefa serão tratadas simultaneamente.
Como a abordagem de baixo para cima enfatiza os fatores de desempenho internos ao cliente, a consideração
dos  fatores  ambientais  externos  é  limitada.  Portanto,  a  abordagem  é  de  administração  econômica  porque  os
terapeutas  ocupacionais  não  precisam  avaliar  ou  gerenciar  as  demandas  das  tarefas  e  os  ambientes  físicos  e
sociais adjacentes, ou como eles afetam as capacidades do cliente.
Apesar disso, uma desvantagem inerente à abordagem de baixo para cima é que a melhora nas capacidades
gerais pode não se generalizar para tarefas específicas (p. ex., vestir­se, controlar a medicação) ou ações (p. ex.,
abotoar,  selecionar  medicamentos).  A  generalização  pode  não  acontecer  por  diversos  motivos.  Em  primeiro
lugar, os tratamentos orientados para as capacidades concentram­se nas funções e estruturas corporais que são
comuns a muitas tarefas. No entanto, o desempenho da tarefa exige a aplicação dessas capacidades às demandas
únicas  de  tarefas  específicas.  A  melhora  na  percepção  visual  figura­solo  demonstrada  nos  testes  com  lápis  e
papel,  utilizando  materiais  de  estímulo  em  preto  e  branco,  pode  não  capacitar  os  clientes  a  identificarem  os
perigos, como poças de água sobre um assoalho de vinil decorado e multicolorido. Em segundo lugar, quando as
capacidades  são  praticadas  isoladas  da  tarefa,  elas  não  são  integradas  a  outras  capacidades  que  também  são
necessárias  para  a  realização  desta  tarefa  (Ma  &  Trombly,  1999;  Trombly  &  Wu,  1999).  Em  outras  palavras,
tratamentos  orientados  para  capacidades  isoladas  não  reconhecem  nem  a  interação  entre  as  capacidades
associadas  à  tarefa  nem  sua  combinação  na  negociação  PTA  em  que  as  capacidades  serão  utilizadas  em
separado. Perceber uma poça de água no chão deve ser acompanhado da capacidade cognitiva de planejamento
motor para evitar o derramamento e de força e resistência neuromuscular para executar a marcha ao redor dela.
Por fim, a generalização pode não ocorrer porque, embora as capacidades possam estar melhoradas, elas podem
não estar melhoradas o suficiente para atender às demandas da tarefa. Um aumento na amplitude de movimento
de  10º  na  articulação  do  ombro  ainda  é  inadequado  para  se  arrumar,  caso  mais  25º  de  movimento  sejam
necessários para pentear os cabelos na parte de trás da cabeça.
A  abordagem  de  baixo  para  cima  também  pode  resultar  na  identificação  e  no  tratamento  de
comprometimentos  que  podem,  na  realidade,  não  ser  a  causa  das  disfunções  de  desempenho.  Um  escore  de
déficit  em  um  teste  de  percepção  visual  figura­solo  pode  não  se  traduzir  em  déficits  de  desempenho  nas
habilidades da vida diária bem­aprendidas. Sem a avaliação da negociação PTA durante as tarefas, o significado
dos comprometimentos para o desempenho é vago.
A abordagem de baixo para cima geralmente é iniciada com a intenção de adotar a abordagem de cima para
baixo,  caso  a  recuperação  plena  não  aconteça,  ou  quando  o  beneficio  máximo  é  alcançado  com  uso  de
tratamentos  de  restauração.  O  perigo  nessa  tática  é  que  um  tempo  exagerado  de  tratamento  pode  ser  gasto  na
remediação dos comprometimentos. No início do tratamento, é difícil predizer se a recuperação completa será
atingida, sendo os terapeutas ocupacionais propensos a persistir em tratamentos de restauração enquanto estão
sendo  obtidos  ganhos.  Infelizmente,  se  a  recuperação  plena  não  é  conseguida,  pode  haver  pouco  tempo  de
tratamento “reembolsável” para a abordagem das limitações na atividade ou das restrições na participação. Os
clientes  podem  ser  então  privados  do  desempenho  de  tarefa  independente,  seguro  e  adequado  que  poderia  ter
sido atingido – ou alcançado mais prontamente – por meio de tratamentos compensatórios. O risco de os clientes
receberem  alta  da  terapia  antes  que  a  melhora  máxima  no  desempenho  da  tarefa  tenha  sido  alcançada  foi
intensificado pela gestão do cuidado e pelo pouco tempo dedicado à reabilitação (Angelelli, Wilber & Myrtle,
2000; Banja & Dejong, 2000; Cope & Sundance, 1995; Eastwood, 1999).
Outra desvantagem da abordagem de baixo para cima é que os clientes podem não perceber a conexão entre
os tratamentos para comprometimentos isolados (p. ex., exercícios de controle motor, programas de busca visual
no computador, empilhar cones) e a melhora em suas atividades da vida diária e na participação social. Assim,
eles  podem  se  sentir  menos  motivados  a  participar  da  terapia  ocupacional.  No  entanto,  com  a  orientação  dos
clientes  e  de  suas  famílias  sobre  a  relação  entre  a  redução  do  comprometimento  e  a  melhora  na  tarefa,  esta
desvantagem pode ser superada ou minimizada.

Abordagem de Cima para Baixo
Uma vantagem importante da abordagem de cima para baixo é que a avaliação e o tratamento centralizam­se na
participação nos pa péis sociais e no desempenho de tarefas significativas para os clientes, embora estejam em
desacordo com o nível de desempenho esperado, necessário ou desejado (Trombly, 1993). Consistentes com essa
vantagem  estão  mais  dois  benefícios  adicionais.  Em  primeiro  lugar,  como  o  processo  de  terapia  ocupacional
enfoca  a  participação  no  papel  social  e  no  desempenho  da  atividade  que  são  significativos  para  o  cliente,  a
relevância da terapia para melhorar a vida diária é prontamente compreendida pelos clientes (Trombly, 1993).
Assim, a motivação para participar na terapia é aumentada. Em segundo lugar, o papel social e o desempenho da
tarefa  são  influenciados  diretamente  pelo  tratamento.  O  desempenho  na  vida  real  é  tanto  o  meio  como  o
resultado da terapia (Dirette & Hinojosa, 1999; Dolecheck & Schkade, 1999; van Heugten et al., 1998).
A abordagem de cima para baixo também apresenta a vantagem de reforçar e acelerar uma abordagem que as
pessoas  frequentemente  aplicam  de  modo  natural  quando  experimentam  problemas  no  desempenho  da  tarefa
(Fired, Herdman, Kuhn, Rubin & Turano, 1991: Yakobina, Yakobina & Tallant, 1997). Quando são encontradas
dificuldades  para  a  realização  das  tarefas,  as  pessoas  tendem  a  procurar  a  assistência  de  outros,  utilizar  um
dispositivo  de  auxílio  ou  tentar  realizar  a  tarefa  de  modo  diferente.  Esses  procedimentos  compensatórios
estimulam a realização da tarefa. Como a abordagem de cima para baixo estimula os processos para os quais as
pessoas se voltam naturalmente quando enfrentam problemas, ela é familiar aos clientes e, portanto, é provável
que seja aceita por eles.
A  abordagem  de  cima  para  baixo  oferece  uma  vantagem  adicional,  já  que  o  tratamento  passa  do  foco  na
participação no papel social ou na tarefa para a orientação para o comprometimento. A abordagem de cima para
baixo  facilita  a  identificação  dos  comprometimentos  no  contexto  dos  pa  péis  sociais  e  das  tarefas  que  fazem
parte desses pa péis; por conseguinte, a relevância dos comprometimentos para os pa péis sociais e suas tarefas é
clara  para  os  clientes.  Inversamente,  na  abordagem  de  baixo  para  cima,  na  qual  os  comprometimentos  são
avaliados  isoladamente,  a  relevância  dos  pa  péis  sociais  e  das  tarefas  pode  ser  somente  deduzida.  Os
comprometimentos visuoperceptuais identificados por meio de um teste com lápis e papel podem comprometer
ou não os pa péis sociais e as atividades. A identificação dos comprometimentos relacionados ao papel e à tarefa,
por sua vez, possibilita uma avaliação mais direcionada aos comprometimentos, bem como aos tratamentos de
restauração mais específicos.
A  desvantagem  da  abordagem  de  cima  para  baixo  é  que  a  avaliação  e  o  tratamento  são  específicos  para  o
papel  social  e  para  a  tarefa,  e  pode  haver  pouca  transferência  de  uma  tarefa  para  outra.  Ademais,  para  que  o
tratamento seja efetivo ao máximo, ele deve ocorrer no contexto ocupacional em que o cliente vive, trabalha ou
brinca,  o  que  pode  ser  difícil  de  conseguir  e  pode  não  ser  reembolsável.  Assim,  a  abordagem  exige  que  o
terapeuta ocupacional considere a complexidade dos fatores ambientais que prejudicam o desempenho.
Rogers  e  Holm  ressaltaram  a  ênfase  da  abordagem  de  cima  para  baixo,  bem  como  do  tratamento
compensatório, para maximizar os ganhos no desempenho (Holm & Rogers, 1989, 1991; Rogers & Holm, 1989;
Rogers et al., 1997). A pesquisa mostra que a correlação entre as capacidades da tarefa e o desempenho da tarefa
é  baixa,  embora  positiva.  Mathiowetz  (1993),  em  uma  discussão  sobre  avaliação  e  tratamento  para  função  na
capacidade  neuromuscular,  observou  que  é  possível  que  alguns  clientes  tenham  a  força  de  garra  ou  de  pinça
dentro  de  limites  normais,  mas  não  sejam  capazes  de  realizar  todas  as  suas  tarefas  funcionais.  Ele  apontou
adicionalmente que a literatura de cinesiologia sugere que o aprendizado motor é específico para a tarefa, com
pouca  transferência  para  outras  tarefas  e,  assim,  a  maneira  mais  adequada  para  melhorar  a  função  motora  é
praticar  a  tarefa  para  a  qual  ela  é  necessária.  De  acordo  com  Trombly  (1993),  “não  dispomos  de  um  estudo
definitivo  em  terapia  ocupacional  que  indique  que  o  funcionamento  ocupacional  de  uma  pessoa  é  melhor  em
consequência  da  terapia  restauradora  ou  da  terapia  de  adaptação”  (p.  255),  e  Wood  (1996)  resumiu  as
preocupações a respeito do uso isolado da abordagem de baixo para cima para as discrepâncias na negociação
PTA  (Humphrey,  Jewell  &  Rosenberger,  1995;  Neistadt,  1994a,  1994b;  Trombly,  1995)  ao  notar  que  “havia
crescente  evidência  de  que  a  melhora  nos  componentes  de  desempenho  não  se  traduz  necessariamente  em
funcionamento competente na vida cotidiana” (p. 631).
Argumentos incentivadores adicionais para a abordagem de cima para baixo vieram das companhias de seguro
de  saúde,  as  quais  definem  os  resultados  aceitáveis  da  terapia  por  meio  de  suas  práticas  de  reembolso.  Por
exemplo, uma empresa de seguro de saúde da Califórnia definiu resultado significativo da terapia como “aquele
em que o nível de atividade atingido pelo paciente... é o necessário para que o paciente atue da maneira mais
efetiva no trabalho e em casa” (Stewart & Abeln, 1993, p. 213). Outro parâmetro de aceitabilidade, um resultado
funcional da terapia, é definido como o resultado funcional que é atingido dos pontos de vista econômico e de
eficiência (Eastwood, 1999; Stewart & Abeln, 1993).
Por  fim,  os  movimentos  dos  direitos  das  pessoas  com  necessidades  especiais  também  promoveram  a
abordagem  de  cima  para  baixo  e  os  tratamentos  compensatórios  ao  tratarem  das  adaptações  da  tarefa  e  do
ambiente. Quando utilizam tratamentos compensatórios, os profissionais investigam como as demandas da tarefa
e  do  ambiente  afetam  o  desempenho  do  papel  e  da  tarefa  e,  em  seguida,  procuram  trabalhar  em  torno  dos
problemas  ou  tirar  proveito  de  seus  componentes  (Dunn  et  al.,  1994;  Verbrugge,  1990).  Desse  modo,  os
tratamentos  compensatórios  não  supõem  que  exista  alguma  coisa  errada  com  a  pessoa  com  incapacidade  que
precise  ser  resolvida  ou  modificada.  É  a  tarefa  ou  o  ambiente  que  precisa  ser  adaptado  para  acomodar  as
capacidades da pessoa. Como Verbrugge (1990) observou, a solicitação dos grupos de defesa das pessoas com
necessidades especiais é: “Mude o meio, não a mim” (p. 68).

A Abordagem do Cliente em um Contexto
O  cliente  é  o  ponto  central  na  abordagem  do  cliente  em  um  contexto.  Uma  importante  vantagem  dessa
abordagem  é  que  a  abrangência  da  entrevista  para  a  avaliação  é  restringida  de  maneira  imediata  e  eficiente.
Além disso, ela é restringida à preocupação primária do cliente, obtendo a adesão máxima do cliente à terapia e à
facilitação  da  cooperação.  Um  cliente  apresenta  o  diagnóstico  de  síndrome  do  túnel  do  carpo  de  intensidade
moderada com relato de dor e fraqueza que interferem as tarefas da vida diária. O profissional responde com a
fabricação  de  uma  órtese  de  uso  noturno  que  mantém  as  articulações  do  punho  e  metacarpofalangianas  em
posição neutra e o ensino de exercícios para deslizamento de tendão e nervo (Brininger et al., 2007). A dor e a
fraqueza desaparecem em três semanas e o desempenho das atividades diárias não é mais problemático.
As  vantagens  fornecidas  por  um  processo  de  terapia  ocupacional  localizado  e  eficiente  e  que  se  baseia  nos
problemas identificados pelos clientes são contrapostas por inúmeras desvantagens. Em primeiro lugar, para que
os  clientes  identifiquem  os  problemas  apropriados  para  o  tratamento  de  terapia  ocupacional,  eles  precisam  ter
uma nítida compreensão da terapia ocupacional. Infelizmente, a terapia ocupacional é pouco compreendida pelo
público  e  pelos  demais  profissionais  de  saúde  (Ahlstrand,  1989;  Chakravorty,  1993;  Jamnadas,  Burns  &  Paul,
2001; Kane, Robinson & Leicht, 2005; McAvoy, 1999; Patel & Shriber, 2000; Royeen, Zardetto­Smith, Duncan
& Mu, 2001). Por isso, os clientes podem precisar ser orientados sobre a terapia ocupacional, antes que sejam
capazes de identificar os problemas de desempenho.
Em  segundo  lugar,  clientes  com  comprometimentos  cognitivos  podem  não  ser  capazes  de  identificar  seus
problemas de desempenho. Os clientes com demência, por exemplo, podem negar que tenham problemas para
cuidar de si próprios ou de suas casas. De modo semelhante, aqueles com retardo mental podem querer viver em
uma  moradia  coletiva,  porém  podem  não  ter  consciência  das  habilidades  de  vida  diária  que  são  necessárias  a
esses residentes. Os clientes também podem não ter consciência de seus problemas, podem recusar­se a relatá­
los ou podem exagerá­los, como frequentemente acontece com os clientes com diagnósticos de saúde mental (p.
ex., esquizofrenia, depressão, transtorno bipolar) (Branch & Meyers, 1987; Pearson, 2000).
Em terceiro lugar, os clientes podem relutar em falar sobre os seus problemas. Os idosos, por exemplo, podem
hesitar em reconhecer as dependências por temer que isto possa ser interpretado como incapacidade de continuar
a residir de maneira independente na comunidade.

O PROCESSO DE TERAPIA OCUPACIONAL REVISITADO
O  desempenho  ocupacional  consiste  no  comportamento  humano  abordado  pelos  profissionais  de  terapia
ocupacional. O desempenho – “fazer” – é uma das características de definição de nossa profissão e, na situação
terapêutica,  os  profissionais  normalmente  se  sentem  ansiosos  para  passar  o  mais  rapidamente  possível  para  o
“fazer”.  Os  seis  componentes  do  processo  de  terapia  ocupacional  servem  como  um  dispositivo  de  assistência
cognitiva  para  lembrar  os  profissionais  de  “pensar  antes  de  agir”.  Embora  tenhamos  discutido  a  teoria,  a
avaliação, a definição do problema, o planejamento e a execução do tratamento, e a reavaliação em separado, na
situação  prática  o  processo  vai  para  frente  e  para  trás  entre  os  componentes.  Os  profissionais  não  coletam
“todos” os dados de avaliação e em seguida os organizam para definir os problemas. Em vez disso, eles vão para
frente  e  para  trás  entre  a  teoria,  a  avaliação  e  a  definição  do  problema  quase  ao  mesmo  tempo  que  teorizam,
avaliam, definem e tratam.
Algumas  técnicas  de  terapia  ocupacional,  em  especial,  levam  a  um  tipo  de  procedimento  de  “avaliação­
tratamento­reavaliação”.  Por  exemplo,  suponha  que  um  profissional  estabelece  por  meio  da  avaliação  do
desempenho  que  um  cliente  é  dependente  na  transferência  para  fora  da  banheira.  Agora,  suponha  que  o
profissional conclua que esta dependência é secundária à apraxia – uma incapacidade de solucionar o problema
de  como  sair  da  banheira.  Como  o  cliente  não  pode  permanecer  sentado  na  banheira,  o  profissional  aplica
técnicas  para  facilitar  a  saída  da  banheira.  O  cliente  é  instruído  (intervenção)  a  posicionar  os  pés  sob  o  corpo
para se elevar do fundo da banheira e, em seguida, sair da banheira. O tratamento é bem­sucedido e o cliente sai
da  banheira  (reavaliação).  Portanto,  a  hipótese  do  profissional  sobre  os  motivos  para  a  deficiência  de
desempenho  é  pelo  menos  parcialmente  confirmada,  e  o  profissional  obteve  novas  informações  sobre  a
capacidade do cliente (p. ex., o cliente pode seguir instruções verbais), que podem ser utilizadas na terapia. A
modalidade  “avaliação­tratamento­reavaliação”  é  descrita  como  um  processo  de  avaliação  dinâmico  ou
interativo (Rogers, Holm & Stone, 1997) e engloba todos os componentes do processo de terapia ocupacional.
A avaliação desempenha um papel primordial na compreensão dos problemas de desempenho experimentados
pelos clientes. No entanto, para servir de maneira ótima, a avaliação precisa fornecer dados úteis para a seleção
de  tratamentos  e  resultados,  bem  como  para  definição  de  problemas.  Os  efeitos  estipulam  os  resultados  que
deverão  ser  atingidos  por  meio  do  tratamento  de  terapia  ocupacional  (Rogers  &  Holm,  1994a).  Conforme
apontado pela sabedoria do Gato Risonho, no diálogo a seguir, os resultados determinam os métodos.

Alice: Oh, não, não. Estava apenas imaginando se você poderia me ajudar a encontrar meu caminho.
Gato Risonho: Bem, depende de onde você quer chegar.
Alice: Oh, realmente não importa, contanto que...
Gato Risonho: Então, realmente não importa qual direção você siga.

Os  profissionais  planejam  os  tratamentos  com  um  resultado  em  mente,  forjando,  assim,  a  conexão  entre  a
reavaliação e o tratamento.

CONCLUSÃO
O  processo  de  terapia  ocupacional  é  baseado  na  teoria  e  direcionado  por  dados.  É  o  processo  terapêutico  de
resolução de problema utilizado pelos profissionais para atender às necessidades de desempenho ocupacional de
seus clientes. O processo de terapia ocupacional é primeiramente direcionado pela teoria e, então, consiste em
cinco  componentes  principais  adicionais  –  avaliação,  definição  do  problema,  planejamento  do  tratamento,
execução do tratamento e reavaliação. Cada componente foi apresentado e sua utilidade terapêutica foi discutida.
Neste capítulo, optamos por apresentar o processo da terapia ocupacional utilizando o constructo da negociação
pessoa­tarefa­ambiente (PTA), em vez de escolher uma abordagem teórica específica. A negociação PTA implica
uma negociação ou um arranjo entre três fatores: capacidades da pessoa (P), demandas da tarefa (T) e demandas
do  ambiente  (A).  Por  fim,  fornecemos  inúmeros  exemplos  de  caso  que  combinaram  aspectos  do  processo  da
terapia ocupacional com a negociação PTA.

QUESTÕES INSTIGANTES
1. Quando  todos  os  fatores  da  negociação  pessoa­tarefa­ambiente  não  são  considerados  durante  a  avaliação,
que possíveis impactos poderiam haver sobre as opções de tratamento e os resultados do cliente?
2. Construir  uma  identificação  de  problema  fundamenta­se  na  interface  entre  a  avaliação  e  o  tratamento  e
fornece  informações  úteis  para  orientar  a  resolução  do  problema.  Para  a  Sra.  Rogers,  encontrada  em
“Exemplos  de  Caso:  Modificar  as  Demandas  da  Tarefa  para  o  Déficit  de  Habilidade”,  construa  uma
identificação  de  problema.  Também  tente  construir  a  identificação  de  problema  para  outros  Exemplos  de
Caso.

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Crítica à Avaliação
JANICE MILLER POLGAR

Sumário
Medida
Finalidades da Avaliação em Terapia Ocupacional
Criticando as Avaliações
Contexto Teórico da Avaliação
Utilidade Clínica
Construção do Teste
Testes Padronizados
Confiabilidade
Definição de Confiabilidade
Perspectivas Teóricas da Confiabilidade
Fontes de Variância do Erro
Tipos de Confiabilidade
Erro Padrão da Medida
Quão Alto Deve Ser o Coeficiente de Confiabilidade?
Validade
Definição de Validade
Evidência de Validade
Consequências Sociais
Construindo o Argumento da Validade
Práticas Adequadas de Testagem
Avaliação Culturalmente Adequada
Avaliações Críticas para Idosos
Questões na Avaliação de Pessoas com Necessidades Especiais
Fontes de Informação sobre os Testes Publicados
Estudo de Caso: Aplicação de Protocolo de Crítica na Avaliação da Ferramenta FIMTM

Objetivos de Aprendizagem
Após a leitura deste capítulo, você será capaz de:

1. Descrever um protocolo para crítica às avaliações em terapia ocupacional e aplicá­lo à prática.
2. Descrever o processo de construção de um teste padronizado.
3. Descrever os cinco benefícios de um teste padronizado em relação a um teste não padronizado.
4. Definir  confiabilidade  e  criticar  a  evidência  de  confiabilidade  relevante  para  uma  avaliação
específica.
5. Definir validade e criticar sua evidência relevante para uma avaliação específica.
6. Descrever os problemas relacionados às práticas adequadas de testagem e aplicá­los à prática.

A
avaliação tem dois objetivos principais na prática da terapia ocupacional: fazer parte do processo da terapia
para  ajudar  na  determinação  dos  problemas  de  desempenho  ocupacional  (Townsend  et  al.,  2002)  e  dar
suporte  à  base  de  evidência  de  nossa  profissão  (Hamer  &  Collinson,  1999;  Sackett,  Straus,  Richardson,
Rosenberg  &  Haynes,  2000).  Quando  se  utiliza  uma  avaliação  padronizada,  é  primordial  que  o  terapeuta
ocupacional  já  a  tenha  criticado  para  determinar  sua  adequação  ao  indivíduo  ou  ao  grupo  a  ser  avaliado,  bem
como à finalidade da avaliação. Como parte do processo de prática da terapia ocupacional, é importante rever a
construção teórica do teste, a fim de estabelecer sua adequação ao protocolo que orienta o tratamento (Townsend
et  al.,  2002).  O  terapeuta  ocupacional  precisa  assegurar  que  o  método  de  desenvolvimento,  padronização  e
desenvolvimento de normas do teste e as propriedades psicométricas atendam a um padrão aceitável quando se
determina a utilidade clínica do teste. Este capítulo oferece uma explicação sobre a importância da avaliação
crítica dessas medidas e discute cada componente de uma avaliação completa.
A principal finalidade deste capítulo é informar os terapeutas ocupacionais sobre os objetivos da avaliação e a
necessidade  de  criticar  as  avaliações  que  utilizamos  em  nossa  prática.  Será  apresentado  um  protocolo  para
organizar  a  crítica.  Serão  apresentadas  questões  de  desenvolvimento  e  padronização  de  teste,  confiabilidade  e
validade e sobre a influência da idade, da cultura e das incapacidades no uso do teste. Este capítulo destina­se a
fornecer  informação  suficiente  para  promover  uma  análise  adequada  das  avaliações  utilizadas  em  terapia
ocupacional.  Isso  não  significa  fornecer  uma  discussão  detalhada  das  diferentes  análises  estatísticas  que  estão
envolvidas  no  desenvolvimento  do  teste  ou  no  estabelecimento  de  suas  propriedades  psicométricas.  As  fontes
para  informações  mais  detalhadas  são  identificadas  no  final  do  capítulo.  Na  literatura,  vários  rótulos  são
empregados  para  identificar  um  instrumento  de  medida,  incluindo  teste,  instrumento,  exame,  medida  e
avaliação. Avaliação, instrumento ou teste serão utilizados neste capítulo. Exame, neste capítulo, refere­se não a
um instrumento de teste, mas ao processo integral de avaliação de um cliente.

MEDIDA
Medida é o processo de atribuir números para representar quantidades de um traço, atributo ou característica ou
para classificar objetos (Nunnally & Bernstein, 1994). Ela possibilita que os terapeutas compreendam aspectos
de funções, capacidades ou características pessoais dos clientes. Uma distinção importante aqui é que a medida
possibilita  que  os  terapeutas  quantifiquem  os  atributos  das  pessoas,  mas  não  as  próprias  pessoas  (Nunnally  &
Bernstein).  Ela  fornece  uma  maneira  de  definir  operacionalmente  comportamentos  e,  ao  quantificar  estes
comportamentos,  fazer  comparações  entre  pessoas  ou  comparar  a  mesma  pessoa  em  dois  momentos  distintos
(Dunn, 2001).
Algumas  premissas  fundamentais  sobre  a  medida  são  críticas  para  a  compreensão  das  propriedades  dos
instrumentos  aceitáveis  do  ponto  de  vista  psicométrico  (Dunn,  2001).  A  definição  de  medida  apresentada  no
parágrafo  anterior  presume  que  as  funções  psicológicas,  sociológicas  e  biológicas  são  observáveis  e,  por  isso,
mensuráveis. Uma segunda  premissa  é que  aquilo  que  é  observável  e  quantificável corresponde a aspectos do
comportamento  humano.  Em  terceiro  lugar,  supõe­se  que  esses  atributos  têm  uma  distribuição  normal  na
população, um conceito que será discutido mais adiante. Por fim, supõe­se que alguns traços são relativamente
estáveis ao longo do tempo, enquanto se espera que outros mudem.

FINALIDADES DA AVALIAÇÃO EM TERAPIA OCUPACIONAL
Os  testes  são  utilizados  de  diferentes  maneiras,  dependendo  da  finalidade  de  determinada  avaliação.  Foram
identificadas  três  finalidades  principais  para  a  avaliação  (Jackowski  &  Guyatt,  2003).  A  primeira  finalidade  é
discriminativa. Quando a intenção do terapeuta ocupacional é descrever as pessoas de um grupo ou discriminar
membros  de  um  grupo,  deve  ser  escolhido  um  instrumento  que  mensure  de  maneira  abrangente  o  atributo
desejado  (Law,  1987).  Por  exemplo,  quando  um  terapeuta  ocupacional  está  interessado  em  descrever  a
capacidade de uma criança de operar uma cadeira de rodas motorizada, o instrumento deve mensurar todos os
componentes considerados necessários para esta tarefa.
Uma  segunda  finalidade  consiste  em  predizer  tanto  a  função  futura  como  a  função  em  uma  área  correlata
(Jackowski  &  Guyatt,  2003).  O  terapeuta  ocupacional  poderia  estar  interessado  em  compreender  as  relações
entre  o  desempenho  de  uma  medida  de  habilidades  motoras  na  infância  e  o  desempenho  subsequente  em  um
teste  de  habilidades  motoras  finas  aos  cinco  anos  de  idade.  De  modo  alternativo,  o  terapeuta  pode  estar
interessado  em  determinar  a  relação  entre  a  obtenção  de  um  determinado  escore  em  um  teste  vocacional  e  a
função no local de trabalho.
Por fim, os terapeutas ocupacionais utilizam a medida para avaliar os resultados do tratamento. Nesse caso, é
importante  utilizar  um  instrumento  que  detectará  a  mudança  ocorrida  (Jackowski  &  Guyatt,  2003).  Duas
situações são importantes aqui. Na primeira, a avaliação do tratamento de um único cliente ajuda a determinar a
resposta  do  cliente  ao  tratamento.  Na  segunda,  a  evidência  cumulativa  do  resultado  do  tratamento  fornece
suporte para a prática da terapia ocupacional.
Se um instrumento é utilizado para fins discriminativos, para predizer a função ou para avaliar o resultado, os
resultados  dos  testes  são  utilizados  para  nortear  decisões  (Dunn,  2001).  Por  exemplo,  determinamos  a
adequabilidade de uma pessoa para a volta ao trabalho ou à sua comunidade, até que ponto a pessoa deve receber
dispositivos  de  assistência  ou  até  que  ponto  a  pessoa  está  segura  para  continuar  a  dirigir  veículos  ou  não.
Também tomamos decisões sobre a eficácia de nossa atuação. Essas decisões têm importantes implicações para
as vidas de nossos clientes e para nossa prática. Por causa da importância de nossas decisões, é primordial que os
terapeutas ocupacionais critiquem as avaliações para confirmar que estão selecionando um teste adequado.

CRITICANDO AS AVALIAÇÕES
Um esboço para orientação da crítica a um instrumento pode ser observado no Boxe 47.1.

Contexto Teórico da Avaliação
Alguma  perspectiva  teórica  orienta  a  abordagem  de  cada  terapeuta  ocupacional  para  o  tratamento,  seja  ela
explícita  ou  tácita.  Ao  selecionar  uma  avaliação,  é  importante  considerar  se  a  base  teórica  da  avaliação  é
compatível com a base do terapeuta. As seções a seguir irão descrever o processo de desenvolvimento do teste,
no qual uma etapa consiste em descrever o constructo a ser mensurado pelo teste e o domínio de preocupação
correlacionado.  Essa  informação  fornece  ao  usuário  uma  compreensão  da  perspectiva  teórica  daquele  que
desenvolveu o teste.
Por que é importante determinar o constructo subjacente a um teste e a evidência de que os escores refletem
realmente este constructo? Vamos considerar uma situação em que um terapeuta está avaliando uma criança com
problema motor. O protocolo do terapeuta considera o planejamento motor, uma função executiva, como a base
do problema motor. Um teste da função motora disponível baseia­se na premissa de que as dificuldades motoras
se  devem  a  uma  ausência  de  oportunidade  para  se  engajar  nas  atividades  físicas,  incluindo  fatores  como  o
envolvimento  dos  pais  no  esporte  e  a  existência  de  programas  de  atividade  organizada  na  comunidade,  para
escolher um exemplo extremo. Os escores resultantes do teste poderiam levar o terapeuta a recomendar que os
pais se envolvam mais no esporte com seu filho ou busquem mais programas de atividade física organizada em
sua comunidade. Embora esses resultados não sejam necessariamente ruins, eles ilustram o fato de que, se o teste
não  fornece  as  informações  relevantes  ao  protocolo  que  orienta  o  terapeuta,  o  tratamento,  então,  não  será
específico às questões identificadas de desempenho ocupacional, o que pode levar a um resultado insatisfatório.

UM PROTOCOLO PARA CRÍTICA DAS AVALIAÇÕES

1. A finalidade da avaliação é:
Descrever o atual nível de função do cliente?
Avaliar a resposta do cliente ao tratamento fornecido?
Predizer a futura função?
Avaliar um programa de tratamento?
2. Fundamentação teórica
O constructo subjacente ao teste está de acordo com a fundamentação teórica do profissional?
Que informação é fornecida?
A informação obtida é significativa e relevante para a população do cliente?
3. Utilidade clínica
O teste está amplamente disponível e é de fácil utilização?
São necessárias qualificações específicas para administrar o teste?
O teste pode ser administrado em um intervalo de tempo razoável?
É difícil aprender o uso do teste?
Qual é o formato do teste?
Quais são os procedimentos do teste?
Qual é o formato da resposta (p. ex., resposta motora ou verbal)?
O teste é fácil de quantificar?
4. Considerações técnicas
a. Normas
Que tipo de escore é obtido (p. ex., classificação de percentil, escore padronizado)?
Quais são as características da amostra padronizada?
Quais são os procedimentos padronizados?
Confiabilidade: que evidência de suporte existe?
Confiabilidade teste­reteste?
Confiabilidade interexaminadores?
Alternativa da confiabilidade?
Consistência interna do teste?
b. Validade: Que evidência existe para sustentar o constructo em relação a:
Conteúdo?
Estrutura interna?
Processos de resposta?
Relação com variáveis externas?
5. Aspectos de testagem adequada: como os desenvolvedores do teste abordaram as questões potenciais
de tendência relacionadas a:
Cultura?
Linguagem?
Idade?
Incapacidade?
6. Comentários da revisão externa
Que informação está disponível a partir das avaliações publicadas sobre o teste?
7. Resumo das forças e fraquezas do teste

Utilidade Clínica
O fornecimento do serviço de terapia ocupacional enfrenta demandas crescentes por eficiência e economia no
gerenciamento  do  tempo.  De  maneira  realista,  apenas  os  testes  que  ajudam  o  profissional  a  atender  a  essas
demandas  serão  utilizados  na  prática.  A  utilidade  clínica  é  definida  como  facilidade,  eficiência  e  uso  de  um
teste e relevância e significado clínicos das informações que ele fornece (Law, King & Russell, 2001; Letts et
al., 1999). Um protocolo de trabalho foi descrito para avaliar a utilidade clínica de um teste (Barlow & Miller
Polgar, 2002). Este propõe seis áreas que devem ser consideradas em relação à utilidade clínica. O protocolo de
trabalho foi modificado para este capítulo para incluir (1) disponibilidade do teste e facilidade de uso, (2) tempo
de  administração,  (3)  qualificações  do  profissional,  (4)  aspectos  relacionados  ao  aprendizado  do  teste,  (5)
formato, (6) procedimentos do teste, (7) formato da resposta e (8) pontuação. Com a exceção do primeiro ponto,
todas  essas  informações  devem  estar  no  manual  do  teste.  Também  podem  ser  encontradas  nas  revisões
publicadas  sobre  o  teste  (consulte  o  final  do  capítulo  para  as  fontes  dessas  revisões),  e  uma  breve  descrição
também deve ser disponibilizada pelo editor do teste. Segue a discussão de cada elemento.

Construção do Teste
O  manual  do  teste  deve  descrever  a  maneira  pela  qual  o  teste  foi  construído.  Ele  deve  fornecer  informações
suficientes de modo que a pessoa que está avaliando o teste seja capaz de determinar se ele foi desenvolvido de
maneira lógica, sistemática e rigorosa.

Definindo o Constructo
Os  atuais  Padrões  para  Testes  Psicológicos  e  Educacionais  (American  Educational  Research  Association
[AERA],  American  Psychological  Association  [APA]  &  National  Council  on  Measurement  in  Education
[NCME], 1999) definem um constructo como o conceito, a característica ou o comportamento que um teste se
destina a medir. Como existem muitas maneiras de compreender um constructo, aqueles que desenvolvem o teste
devem  descrever  sua  compreensão  do  constructo  e  seu  domínio  do  conteúdo.  Além  disso,  devem  associar
alguma estrutura teórica ao constructo que esteja fundamentada na literatura relevante (Wilson, 2005).
Desenvolvimento de Item
O desenvolvimento dos itens do teste é um processo complicado, cuja discussão detalhada está além do escopo
deste  capítulo.  Para  nossos  objetivos,  é  importante  iniciar  com  a  definição  do  constructo,  como  definido  pelo
desenvolvedor do teste. O processo de desenvolver e selecionar os itens do teste e o formato da resposta (p. ex.,
escala de quantificação, resposta de escolha forçada) pode ser então revisto. Deve ser considerado o seguinte: (1)
processo de definição e seleção do item, (2) processo de determinação do formato da resposta; (3) método de
estabelecimento  da  congruência  dos  itens  com  o  teste  total  (p.  ex.,  fator  de  análise  ou  investigação  da
consistência interna), e (4) o desenho do processo de pesquisa para revisar a estrutura do teste, dos itens e do
formato da resposta. Essas questões serão adicionalmente descritas nas seções subsequentes deste capítulo.

Escalas de Medida
Existem quatro escalas de medida: nominal, ordinal, de intervalo e de proporção (Pedhazur & Schmelkin, 1991;
Portney & Watkins, 2000). A escala nominal envolve categorias mutuamente exclusivas (p. ex., feminino versus
masculino, localização geográfica). Essa escala apenas identifica as diferenças, sem tentar quantificar ou ordenar
essas diferenças.
Um  segundo  nível  é  a  escala ordinal.  Essa  escala  envolve  escores  de  ordenação  de  classificação.  A  ordem
indica maior (ou melhor) que, mas não pode ser feita nenhuma dedução sobre a magnitude da diferença entre os
escores.  As  escalas  de  intervalo  são  um  terceiro  nível.  Esse  tipo  de  escala  é  o  mais  comum  nas  medidas
encontradas  em  terapia  ocupacional.  Os  intervalos  entre  os  escores  são  iguais,  de  modo  que  podem  ser  feitas
comparações  entre  as  pessoas  (Pedhazur  &  Schmelkin,  1991).  No  entanto,  0  não  é  um  ponto  absoluto  nessas
escalas.  Como  0  é  arbitrário,  não  podem  ser  feitas  comparações  de  proporção  entre  os  escores  (Pedhazur  &
Schmelkin,  1991;  Portney  &  Watkins,  2000).  Por  exemplo,  se  a  pessoa  A  tem  escore  de  20  em  um  teste  de
autoestima e a pessoa B tem um escore de 40 no mesmo teste, não é válido dizer que a pessoa B tem duas vezes
mais autoestima que a pessoa A. Para tornar essa comparação significativa, 0 precisaria ser um ponto fixo.
Nas escalas de proporção, 0 tem um ponto fixo, e podem ser feitas comparações de proporção (Pedhazur &
Schmelkin,  1991).  Para  uso  dessas  escalas,  a  ausência  do  atributo  a  ser  medido  deve  ser  significativa.  Ao  ser
mensurado  o  volume,  um  escore  de  0  indica  a  ausência  de  líquido.  Em  terapia  ocupacional,  a  amplitude  de
movimento  pode  ser  compreendida  como  uma  escala  de  proporção,  à  medida  que  pode  haver  ausência  de
movimento  mensurável  em  uma  articulação,  e  isto  é  significativo  para  indicar  que  uma  pessoa  dobrou  a
amplitude de movimento entre as medições.

Desenvolvimento de Normas
Muitos dos testes que os terapeutas ocupacionais usam são referendados por norma (Anastasi & Urbina, 1997;
Murphy & Davidshofer, 1998). As normas são estatísticas produzidas a partir de um grupo bem­definido que foi
avaliado  com  o  uso  do  teste  de  uma  maneira  padronizada  (Bolton,  2001;  Salvia  &  Ysseldyke,  2004).
Comumente, mas não necessariamente, as normas são medidas do desempenho médio desse grupo de referência.
Essas  estatísticas  são  utilizadas  para  fazer  comparações  entre  a  pessoa  que  está  sendo  testada  e  esse  grupo  de
referência (i.e., as normas fornecem um ponto de referência para a comparação do escore da pessoa).
É  primordial  compreender  que  as  normas  fornecidas  no  manual  não  são  as  normas  definitivas  (Murphy  &
Davidshofer, 1998). Elas representam o desempenho das pessoas que foram testadas para o desenvolvimento das
normas.  A  utilidade  das  normas  para  uma  interpretação  significativa  do  escore  de  um  indivíduo  depende  das
informações  fornecidas  sobre  as  características  da  amostra  utilizada  para  criar  as  normas,  do  método  de
recrutamento da amostra e de até que ponto a amostra representa a população­alvo do teste.
Em  algum  ponto  no  desenvolvimento  do  teste,  identifica­se  uma  população­alvo  (Murphy  &  Davidshofer,
1998; Salvia & Ysseldyke, 2004). A população define o grupo para o qual se destina o teste. O manual do teste
deve  identificar  com  clareza  a  população­alvo  pretendida.  Antes  de  utilizar  o  teste,  o  terapeuta  precisa
determinar que este se destina a avaliar pessoas com características similares àquelas do cliente.
Salvia e Ysseldyke (2004) descrevem três questões principais que são relevantes na determinação da utilidade
das  normas  relacionadas  à  população­alvo:  elas  devem  ser  representativas,  relevantes  e  recentes.  A  amostra
representa a população­alvo quando a distribuição das características críticas da população se reflete na amostra.
Um teste direcionado para uso nacional (ou internacional) deve demonstrar que as normas foram desenvolvidas
para  representar  a  distribuição  por  região,  vida  urbana  ou  rural,  sexo,  etnia  e  qualquer  outra  característica
relevante  da  população  nacional  ou  internacional  (Murphy  &  Davidshofer,  1998;  Salvia  &  Ysseldyke,  2004).
Um  teste  que  se  destina  a  fornecer  a  informação  sobre  o  desempenho  em  diferentes  idades  deve  utilizar  uma
amostra que inclua indivíduos de cada faixa etária.
O  manual  do  teste  deve  incluir  informações  claras  sobre  a  seleção  da  amostra  normativa  (AERA,  APA  &
NCME, 1999). Devem ser utilizados procedimentos de amostragem aleatória que incluam a seleção com base na
distribuição das características identificadas na população, não por conveniência (Salvia & Ysseldyke, 2004). O
tamanho  da  amostra  deve  ser  suficiente  para  minimizar  os  erros  de  medida  e  para  maximizar  a  confiança  do
usuário do teste nas normas fornecidas.
A  amostra  normativa  deve  ser  relevante  para  a  população­alvo  (Salvia  &  Ysseldyke,  2004).  Ela  deve
apresentar  características  semelhantes  às  da  população.  Por  exemplo,  as  normas  desenvolvidas  a  partir  do
desempenho  motor  de  adultos  tem  pouca  utilidade  para  a  interpretação  significativa  do  desempenho  motor  de
pré­escolares.
Por  fim,  as  normas  devem  ser  recentes  (Salvia  &  Ysseldyke,  2004).  O  material  do  teste  pode  se  tornar
ultrapassado. Por exemplo, considere um teste de vocabulário e figura. É pouco provável que as crianças de hoje
identifiquem corretamente a figura de uma máquina de escrever – não porque elas não tenham vocabulário para
fornecer a resposta correta, mas porque a máquina de escrever não é mais um objeto comum e não está dentro da
experiência  das  crianças  para  ser  reconhecida.  Com  o  passar  do  tempo,  o  desempenho  ou  os  atributos  podem
mudar na população. Vinte anos atrás, muitos executivos tinham pouca ou nenhuma habilidade com teclados e,
assim,  teriam  desempenho  ruim  nos  testes  que  mensuram  essa  capacidade.  Agora,  com  o  uso  constante  de
computadores, a capacidade de pressionar as teclas é uma habilidade mais universal.

Escores Padronizados
Os  escores  brutos  são  usualmente  convertidos  em  outra  forma  para  facilitar  a  comparação  e  a  interpretação
significativa. Essas formas incluem percentuais, escores z, escores t, estaninas e escores equivalentes para idade
ou  grau  (Murphy  &  Davidshofer,  1998;  Salvia  &  Ysseldyke,  2004).  Estes  serão  discutidos  adiante,  mas,  em
primeiro  lugar,  alguns  conceitos  estatísticos  básicos  relacionados  aos  escores  do  teste  serão  revistos
resumidamente.  Existem  três  medidas  de  tendência  central:  média,  mediana  e  moda.  A  média  é  a  média
aritmética  das  medidas  cumulativas  (Murphy  &  Davishofer,  1998;  Portney  &  Watkins,  2000).  A  mediana  é  o
ponto  na  distribuição  dos  escores  que  divide  os  escores  na  metade  (i.e.,  50%  estão  acima  da  mediana  e  50%
estão abaixo dela). A moda é o escore de ocorrência mais frequente (Portney & Watkins, 2000). É importante
saber qual dessas medidas de tendência central está sendo relatada.
Para  uma  determinada  população,  considera­se  que  os  escores  apresentem  distribuição  normal.  Na
distribuição normal,  a  maioria  dos  escores  se  encontra  no  centro  da  faixa,  com  poucos  escores  dispostos  nos
extremos da faixa (Portney & Watkins, 2000). A faixa da distribuição consiste na amplitude entre o escore mais
baixo e o escore mais alto (Portney & Watkins, 2000). A variância indica a dispersão dos escores (Portney &
Watkins,  2000).  O  desvio­padrão  (DP)  consiste  na  raiz  quadrada  da  variância  e  é  o  método  mais  comum  de
dividir a distribuição normal. Ele representa a variação dos escores nas mesmas unidades que o escore do teste
(Salvia & Ysseldyke, 2004). Aproximadamente 68% dos escores caem entre –1 e +1DP, 95% se situam entre –2
e +2DP e 99% caem entre –3 e +3DP (Portney & Watkins, 2000).
Os escores­padrão  utilizam  o  desvio­padrão  para  a  obtenção  de  uma  escala  com  intervalos  iguais.  Existem
várias formas de escores­padrão. Um escore z apresenta uma média de 0 e um desvio­padrão de 1 e é utilizado
para identificar a área sob a curva da distribuição normal (Hogan, 2003); os escores t são escores padronizados
com uma média de 50 e um desvio­padrão de 10 (Hogan, 2003). Uma classificação de percentil é expressa como
um número inteiro entre 1 e 99. O número representa o percentual daqueles submetidos ao teste que apresentam
resultado em determinado  escore  ou abaixo  dele  (Portney  &  Watkins,  2000;  Salvia & Ysseldyke, 2004). Uma
pessoa cujo escore está no 75o percentil realizou o teste tão bem, ou melhor, do que 75% daqueles que fizeram o
teste. A classificação de percentil é uma escala ordinal, de modo que os intervalos entre as classificações não são
iguais  (Salvia  &  Ysseldyke,  2004).  Considera­se  que  ela  tenha  uma  distribuição  normal,  com  a  maioria  dos
escores se localizando em torno do percentil 50 (Portney & Watkins, 2000).
Estanina é uma forma abreviada de standard­nine (Salvia & Ysseldyke, 2004). Esse método de padronização
de  escores  divide  a  distribuição  normal  em  nove  componentes,  cada  um  constituindo  metade  de  um  desvio­
padrão  para  fornecer  unidades  iguais  de  medida.  Ela  minimiza  a  tendência  para  supervalorizar  pequenas
diferenças nos escores, mas pode não ser suficientemente sensível para detectar pequenas mudanças (Salvia &
Ysseldyke, 2004).
Os  escores  equivalentes  à  idade  ou  ao  grau  relacionam  o  desempenho  de  uma  pessoa  no  teste  com  o  da
pessoa comum em uma determinada idade ou grau (Murphy & Davidshofer, 1998). É primordial que a amostra
utilizada para criar as normas tenha representação suficiente dos graus e das idades de comparação.

Testes Padronizados
Na prática clínica, são utilizados testes padronizados e não padronizados. Supõe­se que os testes padronizados
sofreram um rigoroso processo de desenvolvimento e são administrados e recebem escores da maneira prescrita.
Certamente, a revisão do rigor do processo de padronização é crítica. Nunnally e Bernstein (1994) identificam
cinco vantagens dos testes padronizados: (1) eles fornecem um modo objetivo de mensuração de um constructo
específico;  (2)  o  constructo  é  operacionalmente  definido  e  pode  ser  quantificado;  (3)  a  comunicação  entre
profissionais que utilizam o teste é permitida pela compreensão comum do constructo; (4) quando adequado, um
assistente pode administrar a avaliação padronizada, reduzindo o custo da administração; e (5) a generalização
dos resultados é facilitada em um teste padronizado bem­construído. Sem a padronização, não existe garantia de
que ele mensure o constructo que se pretende mensurar, que seus escores sejam confiáveis ou que as fontes de
variação sejam minimizadas nos escores resultantes.

Padronização do Teste
Por  causa  do  efeito  que  as  decisões  tomadas  a  partir  dos  escores  do  teste  têm  sobre  a  vida  das  pessoas,  é
importante  que  o  maior  número  possível  de  fatores  estranhos  seja  eliminado  do  método  de  administração,
pontuação  e  interpretação  dos  escores  (Murphy  &  Davidshofer,  1998).  Os  procedimentos  de  padronização  do
teste são utilizados para garantir o nível máximo de consistência nas situações de teste.
O  manual  do  teste  deve  descrever  com  clareza  a  organização  do  ambiente  de  teste,  a  apresentação  dos
materiais,  as  instruções  padronizadas  e  os  limites  de  tempo  (AERA,  APA  &  NCME,  1999).  Quando  os
desenvolvedores  do  teste  fazem  modificações  em  qualquer  uma  dessas  áreas  para  acomodar  as  diferentes
capacidades, essas modificações devem estar claramente indicadas, de modo que elas possam ser replicadas nas
situações  apropriadas.  Além  disso,  o  manual  deve  incluir  orientações  claras  quanto  à  pontuação  do  teste  e  à
interpretação dos escores (AERA, APA & NCME, 1999).
Não é possível padronizar todos os aspectos da administração do teste. Os aspectos do ambiente, como ruído,
ou os fatores individuais, como o humor do examinado no momento do teste, não são controláveis. Por causa
desses  fatores  incontroláveis,  que  podem  afetar  a  confiabilidade  do  escore  do  teste,  é  importante  seguir  com
exatidão as instruções padronizadas do teste. A falha em fazer isto influenciará a confiabilidade dos escores do
teste (AERA, APA & NCME, 1999). Também é importante garantir que o usuário do teste esteja adequadamente
treinado  ou  preparado  para  administrar  o  teste.  Muitos  testes  indicam  o  tipo  de  treinamento  necessário  para  a
administração.  Na  realidade,  alguns  testes  não  estão  disponíveis,  a  não  ser  para  pessoas  que  apresentam  as
qualificações necessárias.

CONFIABILIDADE

Definição de Confiabilidade
Em primeiro lugar, vamos considerar a definição geral de confiabilidade. Um teste padronizado empregado para
avaliar o desempenho de um indivíduo ou para medir a existência de um determinado traço fornece um escore. É
importante  demonstrar  que  o  escore  decorrente  do  uso  de  um  teste  é  consistente  e  passível  de  repetição.  A
consistência e a possibilidade de repetição são aspectos da confiabilidade, definida como “a consistência das...
medidas quando o procedimento de teste é repetido em uma população de indivíduos ou grupos” (AERA, APA
& NCME, 1999, p. 25). A confiabilidade baseia­se no coeficiente de correlação e é descrita como um coeficiente
de  confiabilidade.  O  coeficiente  de  confiabilidade  pode  variar  de  0  a  +1,  com  o  0  indicando  ausência  de
consistência e +1, a consistência perfeita.

Perspectivas Teóricas da Confiabilidade
Duas perspectivas teóricas relacionadas à confiabilidade serão aqui consideradas: a teoria do teste clássico e a
teoria da  capacidade  de  generalização  (Thompson,  2003).  A  teoria  do  teste  clássico  sugere  que  um  escore  de
teste contém dois componentes – o escore verdadeiro e o erro de medida – e que, embora existam muitas fontes
de  erro,  apenas  uma  é  estimada  em  determinado  estudo.  A  teoria  da  capacidade  de  generalização  também
reconhece  diferentes  fontes  de  erros  e  as  tentativas  de  quantificar  o  erro  das  várias  fontes.  Uma  terceira
perspectiva, a teoria da resposta ao item, não é considerada neste capítulo.
Tanto  a  teoria  da  capacidade  de  generalização  como  a  teoria  do  teste  clássico  supõem  que  cada  pessoa
apresenta um escore verdadeiro (Hogan, 2003). Na teoria do teste clássico, supõe­se que este escore verdadeiro
seja  independente  do  contexto  do  teste  (Portney  &  Watkins,  2000).  Em  contraste,  a  teoria  da  capacidade  de
generalização supõe que o escore verdadeiro e as condições do teste não são independentes e que determinados
fatores  (chamados  facetas)  influenciam  o  escore  verdadeiro.  Em  outras  palavras,  a  variação  durante  as
aplicações  do  teste  não  é  considerada  um  erro  unicamente  aleatório  na  perspectiva  da  capacidade  de
generalização.

Teoria do Teste Clássico
Um escore de teste é considerado confiável quando resultados semelhantes são obtidos em diversas situações,
como administrações repetidas, diferentes examinadores, e quando há consistência entre os itens de um teste. A
teoria do teste clássico supõe que um escore de teste consiste em três componentes: (1) o escore obtido; (2) a
variância do escore verdadeiro, considerada uma quantidade hipotética e não observável do atributo específico
sob  consideração  (Portney  &  Watkins,  2000);  e  (3)  o  erro  aleatório.  A  relação  entre  esses  componentes  é
expressa da seguinte maneira:

escore obtido = variância do escore verdadeiro + erro aleatório

Em outras palavras, todo escore obtido é constituído de dois componentes: uma porção do escore que reflete a
“verdadeira”  quantidade  do  atributo  e  os  erros  aleatórios  que  contribuem  para  a  inconsistência  da  medida
(Murphy & Davishofer, 1998). Supõe­se que não exista relação entre os escores verdadeiros e o componente do
erro (Murphy & Davidshofer, 1998). A confiabilidade é alta quando a proporção do escore obtido em função do
erro de medida é baixa.

Teoria da Capacidade de Generalização
Cronbach,  Gleser,  Nanda  e  Rajaratnum  (1972)  introduziram  a  teoria  da  capacidade  de  generalização,  que
reconhece as várias fontes de variância de erro e fornece um modo para estimá­las em um único estudo. A teoria
da capacidade de generalização supõe que o escore resultante do teste é uma das inúmeras possibilidades dentro
de um universo de escores obtidos sob condições equivalentes de teste e especifica essas condições de teste.
A  correlação  interclasse  (ICC)  é  usada  para  estimar  a  variância  de  diferentes  fontes  com  uma  única
administração utilizando a análise da variância. Com essa análise é possível calcular a variância decorrente das
facetas  especificadas,  bem  como  a  interação  entre  essas  facetas.  A  identificação  da  faceta  de  interesse  é
primordial  quando  se  realiza  essa  análise.  Diferentes  modelos  são  usados  para  determinar  a  ICC,  sendo
importante compreender a estrutura desses modelos e determinar se eles foram aplicados da maneira apropriada
em um estudo de confiabilidade. Uma discussão plena da ICC está além do escopo deste capítulo; no entanto,
Portney e Watkins (2000) fornecem uma excelente discussão deste tema.

Fontes de Variância do Erro
Thorndike  (2001)  identificou  seis  fontes  de  variação  que  podem  contribuir  para  o  erro  de  medida.
Características gerais duradouras são características individuais que se espera que sejam estáveis durante um
intervalo de tempo que não é específico para o constructo mensurado, como a capacidade de ler e escrever ou a
fluência. As características específicas duradouras são atributos pessoais, estáveis durante um longo período de
tempo, que são específicos para o constructo que está sendo mensurado, como o conhecimento ou as habilidades
previamente  adquiridos  ou  a  capacidade  de  responder  perguntas  de  múltipla  escolha  (Murphy  &  Davidshofer,
1998). Essas características afetam o desempenho no teste como um todo ou em subgrupos específicos de um
teste.  As  características  gerais  temporárias  são  aspectos  pessoais  inespecíficos  que  estão  presentes  por  curto
prazo,  como  a  fadiga  ou  o  estado  emocional  (Murphy  &  Davidshofer,  1998;  Thorndike,  2001).  As
características específicas temporárias são qualidades de curto prazo que são específicas para um teste, como o
reconhecimento de um padrão de respostas corretas ou a resposta às pistas não intencionais no formato do teste
(Thorndike, 2001).
Recursos sobre a administração e avaliação do desempenho do teste se originam de problemas relacionados
ao avaliador, como a familiaridade ou o treinamento e a adesão à padronização do teste; de questões relacionadas
ao ambiente do teste, como distrações, limites de tempo ou duração da avaliação; e de questões relacionadas com
a padronização e construção do teste. A variância de chance resulta de fatores não sistemáticos, como o registro
incorreto da resposta do examinado no formulário de coleta de dados (Murphy & Davidshofer, 1998; Thorndike,
2001).

Tipos de Confiabilidade
A confiabilidade do escore de um teste é importante em três situações diferentes: quando o teste é administrado
em  mais  de  uma  ocasião,  quando  tarefas  comparáveis  estão  envolvidas  e  quando  o  teste  é  administrado  e
pontuado por diferentes examinadores. Essas formas de confiabilidade são o teste­reteste, as formas alternativas
e  a  confiabilidade  interexaminador,  respectivamente.  Uma  forma  adicional  de  confiabilidade  é  descrita  como
consistência interna, que examina a estrutura ou consistência dos itens que compõem um teste.

Confiabilidade do Teste­Reteste
A  confiabilidade  do  teste­reteste  é  uma  medida  da  consistência  de  uma  avaliação  ao  longo  do  tempo.  Ela
também foi denominada estabilidade (Salvia & Ysseldyke, 2004), pois estima a estabilidade da medida ao longo
do  tempo.  Essa  forma  de  confiabilidade  é  determinada  ao  se  administrar  uma  avaliação  em  duas  ocasiões
diferentes  ao  longo  do  tempo.  Nunnally  e  Bernstein  (1994)  sugerem  que  uma  separação  desejável  é  de  duas
semanas.  Com  um  intervalo  de  tempo  menor,  o  examinado  poderia  lembrar­se  dos  itens  do  teste;  com  um
intervalo  de  tempo  maior,  poderiam  acontecer  mudanças  reais  (Hogan,  2003).  Uma  correlação  próxima  de  +1
sugere que o teste é estável ao longo do tempo.
A  confiabilidade  ou  estabilidade  do  teste­reteste  é  significativa  apenas  quando  se  espera  que  o  traço
mensurado seja estável durante o intervalo dos testes (AERA, APA & NCME, 1999). Não se espera que uma
avaliação do humor, por exemplo, forneça resultados durante um período de semanas, pois se considera que o
humor flutua. De maneira alternativa, um traço como a altura é estável e deve apresentar pouca variabilidade nos
escores  obtidos  em  medições  repetidas.  Muitos  atributos  mensurados  em  terapia  ocupacional  não  são  tão
claramente consistentes ou inconsistentes como os exemplos fornecidos. Em cada caso, as pessoas que analisam
o teste devem comparar sua compreensão sobre o constructo ou atributo mensurado com a descrita no manual do
teste para examinar se o atributo é estável e se a indicação da estabilidade é essencial.

Forma Alternativa de Confiabilidade
O  estabelecimento  da  confiabilidade  por  meio  de  formas  alternativas  tem  algumas  semelhanças  com  a
confiabilidade  do  teste­reteste,  uma  vez  que  é  estimada  pela  testagem  do  mesmo  grupo  de  pessoas  em  duas
ocasiões distintas (Hogan, 2003). No entanto, difere da estimativa de confiabilidade do teste­reteste por seu uso
de duas maneiras distintas, mas em paralelo, de um teste (Hogan, 2003). Quando se estima a forma alternativa de
confiabilidade, a administração do teste deve acontecer com cerca de duas semanas de intervalo para considerar
as flutuações cotidianas no desempenho (Nunnally & Bernstein, 1994).
Ocasionalmente, no tratamento de terapia ocupacional, o desempenho de um cliente em uma área específica
precisa ser repetidamente avaliado. As aplicações repetidas do mesmo instrumento causam problemas porque a
pessoa  poderia  lembrar  dos  itens  do  teste  ou  praticá­los.  Assim,  a  exposição  repetida  ao  mesmo  teste  pode
melhorar  artificialmente  o  escore  obtido.  O  uso  de  formas  paralelas  minimiza  a  influência  da  memória  ou  da
prática sobre o aumento da confiabilidade estimada. Essas duas formas não devem diferir de maneira substancial
(Hogan, 2003).

Confiabilidade Interexaminador
Esta forma de confiabilidade pode ser considerada como a consistência entre os escores atribuídos por diferentes
examinadores com o uso da mesma avaliação ao mesmo tempo ou quando se observa o mesmo comportamento
(Auerbach, Heft La Porte & Caputo, 2004). É importante ter confiança na consistência entre os examinadores
tanto para o exame como para a avaliação do resultado da prática clínica.
O  método  para  estimativa  da  confiabilidade  interexaminador  consiste  em  uma  consideração  importante  na
escolha  de  uma  avaliação  específica.  O  simples  cálculo  da  correlação  entre  os  escores  estabelecidos  por
diferentes  examinadores  pode  superestimar  a  confiabilidade  quando  os  examinadores  diferem  de  maneira
consistente  (Auerbach  et  al.,  2004).  O  kappa  de  Cohen  e  a  ICC  são  as  análises  estatísticas  mais  apropriadas
(Portney  &  Watkins,  2000).  O  kappa  de  Cohen  mensura  o  grau  de  concordância  entre  os  examinadores  ao
comparar o número de itens entre os quais é encontrada concordância entre os classificadores com o número de
itens para os quais se espera a concordância (Auerbach et al., 2004). O kappa de Cohen varia de –1 a 1, com 1
indicando a concordância perfeita e 0 indicando a concordância que acontece ao acaso. A aplicação da ICC aqui
especificaria o “examinador” como a faceta de interesse.

Consistência Interna
A  consistência  interna  é  uma  estimativa  da  homogeneidade  da  estrutura  de  um  teste.  O  teste  que  se  destina  a
mensurar um constructo único deve apresentar alto grau de consistência interna; isto é, todos os itens do teste
devem  estar  fortemente  correlacionados  entre  si.  O  tipo  mais  simples  e  mais  bruto  de  consistência  interna  é  a
confiabilidade  desdobrada  à  metade  (Nunnally  &  Bernstein,  1994;  Pedhazur  &  Schmelkin,  1991),  em  que  a
confiabilidade é determinada pela divisão pela metade dos itens do teste e a obtenção da correlação entre essas
duas metades. O método de desdobramento pela metade para estimar a confiabilidade é limitado pelas diversas
maneiras de divisão dos itens, o que pode resultar em diferentes coeficientes de confiabilidade (Hogan, 2003).
Os  métodos  mais  sofisticados  para  estimativa  da  consistência  interna  consideram  a  correlação  de  cada  item
com  os  outros,  bem  como  com  o  escore  total  (Hogan,  2003;  Nunnally  &  Bernstein,  1994;  Pedhazur  &
Schmelkin, 1991). As correlações entre os itens e entre os itens e o total proporcionam uma estimativa de quão
consistente são os itens entre si. Os itens que não se correlacionam fortemente com os outros itens ou com o teste
total poderiam mensurar um constructo diferente.
A  maneira  mais  comum  de  estimativa  da  consistência  interna  consiste  no  uso  da  fórmula  alfa  de  Cronbach
(Cronbach,  1951)  ou  das  fórmulas  de  Kuder­Richardson  (Kuder  &  Richardson,  1937).  A  fórmula  alfa  de
Cronbach  é  calculada  quando  os  itens  recebem  um  escore  de  maneira  não  dicotômica.  Quando  a  pontuação  é
dicotômica,  são  utilizadas  as  fórmulas  de  Kuder­Richardson.  Para  maiores  informações  sobre  a  teoria  e  os
cálculos da consistência interna, consulte um dos livros marcados com um asterisco nas referências ao final do
capítulo.

Erro Padrão da Medida
Nos casos em que o terapeuta gostaria de compreender quão próximo o escore obtido está do escore verdadeiro
para uma pessoa, as estimativas a partir dos dados de um grupo podem ser utilizadas para calcular o erro padrão
da  medida  (EPM).  O  EPM  indica  o  quanto  de  variabilidade  nos  escores  do  teste  pode  ser  atribuído  ao  erro
(Murphy & Davidshofer, 1998). Como pode ser observado pela equação a seguir, à medida que a confiabilidade
aumenta, o erro padrão da medida diminui:

Nesta equação, DP refere­se ao desvio padrão do grupo a partir do qual se calcula a confiabilidade.
Uma  vez  que  o  EPM  tenha  sido  calculado,  pode  ser  estabelecido  um  intervalo  de  confiança  em  torno  do
escore obtido. Um intervalo de confiança é definido como a faixa de variação na qual se pode afirmar, com um
grau  de  confiança  específico,  que  será  encontrado  determinado  escore  (Portney  &  Watkins,  2000).  O  grau  de
confiança  é  determinado  a  partir  das  propriedades  da  distribuição  normal.  Para  calcular  um  intervalo  de
confiança, por exemplo, deve ser utilizado o DP exato que corresponde a 95% da distribuição. Assim, a partir da
distribuição normal, 95% dos escores caem entre –1,96 e +1,96 DP a partir da média e 99% caem entre –2,54 e +
2,54 DP a partir da média (Anastasi & Urbina, 1997). Para construir um intervalo de confiança de 95%, o EPM é
multiplicado  por  1,96  (Murphy  &  Davidshofer,  1998).  Dessa  maneira,  sabe­se  que  o  escore  verdadeiro,  com
95% de confiança, situa­se entre [escore obtido – 1,96 (EPM)] e [escore obtido + 1,96 (EPM)].

Quão Alto Deve Ser o Coeficiente de Confiabilidade?
A questão “Quão alto deve ser o coeficiente de confiabilidade?” não tem uma resposta imediata. A finalidade do
teste deve ser considerada quando se decide se a confiabilidade relatada é aceitável (Salvia & Ysseldyke, 2004).
Os  testes  utilizados  para  tomar  decisões  sobre  uma  pessoa,  como  determinar  se  ela  é  capaz  de  retornar  ao
trabalho,  devem  ter  um  nível  mais  elevado  de  confiabilidade  do  que  os  testes  que  se  destinam  a  servir  como
instrumentos de triagem ou descritivos (Hogan, 2003; Murphy & Davidshofer, 1998; Salvia & Ysseldyke, 2004).
De  modo  semelhante,  os  instrumentos  que  tentam  classificar  as  pessoas,  como  um  teste  que  é  utilizado  para
atribuir níveis cognitivos, devem apresentar alto grau de confiabilidade (Murphy & Davidshofer, 1998).
Os  seguintes  níveis  mínimos  de  confiabilidade  devem  ser  considerados  como  diretrizes.  Em  geral,  um
coeficiente  de  confiabilidade  de  0,90  é  considerado  alto,  0,80  moderado,  0,70  baixo  e  0,60  comumente
inaceitável para uso clínico (Murphy & Davidshofer, 1998). Recomenda­se que, quando um escore de teste for
usado  para  a  tomada  de  decisões  significativas  sobre  uma  pessoa,  como  as  decisões  sobre  moradia,  deve  ser
relatado um nível mínimo de confiabilidade de 0,90 (Salvia & Ysseldyke, 2004); Nunnally e Bernstein (1994)
sugerem 0,95 como desejável. Se o teste foi administrado em um grupo e os dados são relatados para o grupo
como um todo, tem sido sugerido um nível mínimo de 0,60 (Salvia & Ysseldyke, 2004).
Deve  ficar  claro,  a  partir  desta  discussão,  que  as  estimativas  de  confiabilidade  não  são  entidades  estáticas.
Quando se examina a confiabilidade durante a decisão de usar determinada medida, é importante lembrar que a
confiabilidade  relatada  reflete  a  situação  específica  e  a  amostra  utilizada  para  coleta  dos  dados.  Os  usuários
potenciais  do  teste  devem  assegurar­se  de  que  compreendem  o  tipo  de  confiabilidade  relatada,  os  meios
apropriados de estabelecer esta confiabilidade específica e sua aplicabilidade para a finalidade do teste. A Tabela
47.1 resume essas informações.

TABELA 47.1 UM RESUMO DOS TIPOS DE CONFIABILIDADE, SUAS APLICAÇÕES E FONTES DE
VARIABILIDADE RELACIONADAS A CADA UM DELES
Tipo de Fornece Evidência para Fontes de Variabilidade
Confiabilidade
Teste­reteste Estabilidade Intervalo de tempo entre a
testagem da estabilidade
do traço mensurado
Memória dos itens do teste
Alteração real no traço
mensurado
Forma alternativa Equivalência de formas paralelas (equivalência e Capacidade de gerar formas
estabilidade quando as formas são paralelas
administradas em dois momentos)
Interexaminador Consistência entre examinadores Adesão do examinador à
pontuação
Adequação da descrição dos
critérios de pontuação
Consistência Interna:
dividida Método de divisão dos itens
Homogeneidade dos itens Duração do teste
Consistência do conteúdo do
teste
Fórmula alfa de Homogeneidade dos itens Consistência do conteúdo do
Cronbach e Fórmula teste
de Kuder­Richardson

VALIDADE

Definição de Validade
A compreensão contemporânea de validade é a de que este é um conceito unitário e que o estabelecimento da
validade consiste no processo de acumular evidências para dar suporte ao constructo que a avaliação pretende
mensurar (Cronbach, 1988; Messick, 1988, 1989, 1995). Esta noção é relevante não somente para a interpretação
do escore do teste, mas também para as consequências sociais desta interpretação. A atual edição dos Padrões
para Testes Psicológicos e Educacionais (AERA, APA & NCME, 1999) define validade como “o grau em que a
evidência e a teoria fundamentam as interpretações dos escores do teste vinculadas aos usos propostos para os
testes” (p. 9). Messick acrescenta que a validade é a adequação, o significado e a utilidade das conclusões e das
ações baseadas nos escores do teste” (Messick, 1988, p. 33). Além disso, a evidência de validade se relaciona
com  a  relevância  e  a  utilidade  dos  escores  para  determinadas  pessoas  ou  determinados  grupos  e  com  o
significado  do  valor  atribuído  ao  escore  ou  ao  constructo  subjacente  quando  eles  se  relacionam  com
consequências sociais para o indivíduo ou grupo (Messick, 1988).
Que conclusões podemos tirar dessas definições de conceitos? Em primeiro lugar, vamos considerar as ideias
adequação,  significado  e  utilidade,  que  são  relevantes  para  o  modo  como  o  teste  é  utilizado  e  para  as
consequências das inferências feitas a partir da interpretação dos escores. A adequação refere­se à questão se o
constructo e os elementos do teste são adequados à população­alvo e ao contexto e à finalidade da avaliação. O
significado está associado ao constructo subjacente e como este explica ou descreve o traço mensurado. Por fim,
a utilidade está relacionada com o uso do teste quanto às informações obtidas a partir dos resultados do teste,
considerando  o  esforço  necessário  para  a  realização  do  teste.  A  evidência  de  validade,  à  medida  que  ela  dá
suporte ao constructo subjacente, é necessária para justificar determinado teste em uma população específica em
determinado contexto.
Essas declarações são muito claras em relação ao fato de que não é o teste que tem validade. Pelo contrário, a
validade está relacionada com as interpretações e ações resultantes dos escores alcançados (Messick, 1988, 1989,
1995). As evidências empíricas e teóricas da validade são necessárias para dar suporte a essas interpretações e
ações.  Dessa  maneira,  uma  avaliação  precisa  estar  baseada  em  um  constructo  teórico  bem­fundamentado  ou
descrito e deve existir evidência empírica para sustentar a hipótese resultante da teoria. Ou seja, as inferências
feitas a partir dos escores do teste não têm significado e não são justificáveis.
Ademais,  essas  definições  sugerem  vários  usos  dos  resultados  do  teste.  Por  conseguinte,  a  evidência  de
validade deve ser fornecida para cada um dos usos pretendidos. Quando utiliza uma avaliação pela primeira vez,
o terapeuta ocupacional precisa estar ciente do uso pretendido. Como o escore do teste será interpretado e como
esta  interpretação  afetará  a  vida  do  cliente?  O  uso  pretendido  da  avaliação  pelo  terapeuta  é  compatível  com
aquele  descrito  pelos  desenvolvedores  do  teste?  A  abordagem  teórica  do  terapeuta  para  o  tratamento  é
compatível com a base teórica do teste? As respostas a essas perguntas influenciarão a adequação, o significado
e a utilidade das conclusões tiradas dos escores do teste.
Antes  de  uma  discussão  sobre  as  fontes  de  evidência  de  validade,  serão  descritas  duas  ameaças  à  validade.
Estas  consistem  na  sub­representação  do  constructo  e  na  irrelevância  do  constructo  (AERA,  APA  &  NCME,
1999; Messick, 1989, 1995). A sub­representação do constructo refere­se à amostragem inadequada do domínio
do constructo nos itens do teste; isto é, o conteúdo é insuficiente (AERA, APA & NCME, 1999; Messick, 1989,
1995). A interpretação resultante do escore não é abrangente, porque o teste deixou de englobar algum conteúdo,
processo subjacente ou forma de resposta que são importantes para a compreensão do constructo.
A  irrelevância  do  constructo  se  apresenta  quando  os  escores  do  teste  são  influenciados  por  processos  ou
capacidades que não são pertinentes ao constructo (AERA, APA & NCME, 1999; Messick, 1988, 1995). Aqui, a
pessoa  que  está  sendo  avaliada  precisa  apresentar  certo  nível  de  capacidade,  habilidade  ou  conhecimento
independente  do  constructo  mensurado  para  produzir  uma  resposta  ou  alcançar  um  escore  satisfatório.  Uma
interpretação válida de um escore baixo não pode ser feita, porque não se pode determinar se o escore reflete o
desempenho do constructo ou de alguma outra capacidade. Um exemplo desse tipo de variância é um teste de
capacidade aritmética que exige a compreensão da leitura para solução satisfatória dos problemas.
A evidência da validade origina­se do exame de diferentes aspectos do teste e do desempenho em diferentes
situações. A síntese e a análise dos estudos disponíveis relacionados a cada uma das dimensões a seguir ajudam
o usuário do teste a construir um argumento relacionado com a validade relevante.

Evidência de Validade

Evidência da Validade Resultante do Conteúdo
Os  atuais  Padrões  para  Testes  Psicológicos  e  Educacionais  referem­se  ao  conteúdo  como  temas,  linguajar,
formato de item, método de resposta e diretrizes para procedimentos de administração e pontuação (AERA, APA
&  NCME,  1999).  Em  outras  palavras,  não  somente  o  conteúdo  real  dos  itens  do  teste  fornece  evidências
importantes,  como  também  os  processos  que  fundamentam  a  interpretação  dos  itens  pelos  que  respondem  e  o
formato  da  resposta.  A  representatividade  do  constructo  é  aqui  interpretada  por  quão  bem  o  conteúdo  da
avaliação representa a estrutura e o domínio do conteúdo hipotético. A relevância do constructo considera o quão
importante são para o constructo o conteúdo, o significado da interpretação e o formato da resposta.
A  validação  do  conteúdo  de  um  teste  começa  no  estágio  de  desenvolvimento  do  teste.  Como  descrito
anteriormente,  os  estágios  iniciais  da  construção  do  teste  começam  com  uma  descrição  clara  da  teoria  que
fundamenta  o  constructo.  As  ideias  teóricas  definem  operacionalmente  o  constructo,  isto  é,  quais
comportamentos  são  considerados  indicadores  do  constructo  (Pedhazur  &  Schmelkin,  1991),  e  sugerem  a
estrutura  e  os  elementos  do  constructo  e  a  relação  entre  eles  (Messick,  1988,  1989).  A  partir  de  então,
desenvolve­se uma tabela de especificações para orientar o conteúdo, a dificuldade do item e as proporções do
teste que representam as dimensões particulares do constructo teórico a ser representado no teste.
A  validação  do  conteúdo  resulta  da  consideração  da  amostra  de  domínio  do  constructo,  isto  é,  todos  os
aspectos  do  domínio  são  adequadamente  abordados,  o  conteúdo  é  relevante  para  o  constructo  e  os  processos
subjacentes  necessários  à  interpretação  satisfatória  dos  itens  do  teste  e  da  resposta  também  são  relevantes
(AERA,  APA  &  NCME,  1999;  Messick,  1988,  1989).  Uma  maneira  de  obter  esta  evidência  é  por  meio  da
avaliação do conteúdo com um painel de especialistas para determinar a relevância e a representatividade. Por
exemplo, considere um instrumento que se destina a medir o desempenho em atividades de vida diária (AVD).
Aqueles  que  desenvolvem  o  teste  descrevem  sua  compreensão  do  constructo  da  AVD,  criam  os  itens
considerados medida para o desempenho da AVD e reúnem estes itens em uma medida. Um painel de terapeutas
ocupacionais  considerados  especialistas  revisa  a  avaliação.  A  análise  deles  fornece  evidência  para  a
representatividade e a relevância do conteúdo.
Quando um teste é usado em uma população diferente daquela para a qual originalmente se destinava ou para
uma finalidade diferente, o usuário do teste deve examinar o conteúdo para determinar se ele é apropriado para
aquela população ou finalidade. Aqui, em particular, aspectos da relevância são importantes. O usuário do teste
deve determinar se algum aspecto da administração do teste, interpretação do item ou formato de resposta é uma
fonte de tendência para sua finalidade ou população (AERA, APA & NCME, 1999; Messick, 1988, 1989, 1995).
As  inferências  de  escores  baixos  que  são  baseadas  no  conteúdo  podem  apenas  sugerir  que  a  pessoa  que
respondeu não foi competente na administração do teste. Não pode ser feita a interpretação de que o indivíduo é
incompetente  na  habilidade  ou  que  apresenta  conhecimento  inadequado.  Outras  fontes  de  variância  podem  ter
contribuído para esse escore baixo (Messick, 1989).

Evidência da Estrutura do Teste
Para reunir evidência a partir da estrutura do teste, é necessário examinar a relação entre a estrutura hipotética do
constructo e a estrutura da avaliação (AERA, APA & NCME, 1999; Messick, 1989). Esta avaliação é realizada
por meio da análise empírica da relação entre os itens (interitem) e o escore total (AERA, APA & NCME, 1999).
Se a estrutura conceitual sugere que o constructo é unidimensional, então a análise da relação entre os itens deve
revelar uma única dimensão. De outro modo, se é sugerida a hipótese de uma estrutura multidimensional, então a
análise deve sustentar uma estrutura com múltiplas dimensões de conteúdo que são distintas umas das outras e
compatíveis com a estrutura construída a partir da hipótese resultante da teoria, simplificando, se é sugerida a
hipótese de que o constructo apresenta três dimensões, a análise deve revelar três fatores. Os itens que mensuram
esses fatores devem ter conteúdo compatível com a descrição do constructo. Além disso, a forma de pontuação
deve refletir a dimensão teórica do constructo (Messick, 1989).

Evidência a partir dos Processos de Resposta
Parte das hipóteses do constructo inclui os processos necessários para indicar a resposta pretendida (AERA, APA
&  NCME,  1999).  O  exame  de  como  os  respondentes  chegam  a  uma  resposta  fornece  evidência  para  este
elemento  do  argumento  sobre  a  validade.  Por  exemplo,  pode  ser  proposta  a  hipótese  de  que  um  exame  de
certificação profissional exija um raciocínio clínico para chegar a uma resposta correta. Somente pelo exame da
abordagem  de  um  indivíduo  para  responder  as  perguntas  desse  exame  é  que  a  evidência  é  fornecida  para
sustentar ou refutar essa hipótese.
Aqui, é importante a questão da irrelevância do constructo. Como indicado anteriormente, deve ser fornecida
evidência de que os meios para obter uma resposta e indicar uma resposta são relevantes para o constructo. Esta
evidência é importante durante a construção do teste, porém, mais importante para os terapeutas ocupacionais, é
necessária quando se considera um teste que não foi desenvolvido para a população ou para a finalidade que o
terapeuta pretende. Deve ser fornecida evidência de que esses elementos da validade não constituam uma fonte
de tendência para nossos clientes.

Evidência a partir da Relação com as Variáveis Externas
Quando  examinamos  a  relação  com  outras  variáveis,  estamos  considerando  “o  quanto  a  relação  do  teste  com
outros  testes  e  com  o  comportamento  não  testado  reflete  as  relações  altas,  baixas  e  interativas  implícitas
esperadas  na  teoria  de  constructo  que  está  sendo  avaliada”  (Messick,  1989,  p.  45).  Aqui,  observamos  uma
evidência convergente (i.e.,  o  teste  relaciona­se  intensamente  com  outros  testes  ou  com  o  comportamento  não
testado que está teoricamente relacionado com o constructo) ou uma evidência divergente (i.e., o teste não está
relacionado com outros testes ou com o comportamento não testado que não está teoricamente relacionado com
o  constructo).  As  evidências  convergentes  e  divergentes  fornecem  as  informações  necessárias  para  nossa
compreensão  do  constructo  teórico  e  para  nossa  capacidade  de  mensurá­lo.  Esta  evidência  resulta  de  estudos
empíricos.
Historicamente,  existem  aqui  dois  tipos  de  estudos  importantes  (AERA,  APA  &  NCME,  1999):  estudos
preditores  e  estudos  concorrentes.  Os  estudos  preditores  fornecem  evidência  de  que  o  desempenho  no  teste
prediz o desempenho com base em um critério futuro. Clinicamente, esta evidência é útil para orientar decisões
sobre quem se beneficiará de determinado tratamento. Os estudos concorrentes fornecem evidência da relação
entre o teste e determinado critério no mesmo momento. Esses estudos são úteis quando se examinam métodos
diferentes para mensurar o mesmo constructo ou quando se analisam o comportamento ou as capacidades de um
cliente (AERA, APA & NCME, 1999).
O exame da relação com outras variáveis fornece informação sobre as diferenças de grupo. Ele pode sustentar
as  diferenças  preditas  entre  grupos  com  diferentes  características,  sugerindo  que  o  significado  do  escore  é
diferente para membros de diferentes grupos (AERA, APA & NCME, 1999). É importante fornecer evidência de
que as diferenças apresentam correspondência com as hipóteses relacionadas com o constructo e não se devem a
um tipo de constructo irrelevante.
Outro  constructo  importante,  quando  se  considera  a  evidência  de  validade,  é  a  responsividade.  Quando  se
utiliza  uma  medida  para  avaliar  os  resultados,  quer  individualmente,  quer  cumulativamente,  a  evidência  da
responsividade é importante (Guyatt, Walter & Norman, 1987). A responsividade é definida como a capacidade
de um teste detectar uma mudança considerada clinicamente significativa e de relativa importância para a função
de um cliente após o tratamento (Guyatt et al., 1987; Jackowski & Guyatt, 2003; Liang, 2000; Patrick & Chiang,
2000). Pode ser difícil determinar o que constitui especificamente uma mudança importante e com significado
clínico.  Liang  (2000)  sugeriu  que  conhecer  as  perspectivas  do  cliente,  de  outras  pessoas  significativas  e  do
médico é importante na determinação de uma mudança clinicamente significativa.

Consequências Sociais
Existe algum debate sobre se a consideração das consequências sociais das conclusões e ações baseadas em um
escore  de  teste  é  relevante  para  o  argumento  da  validade  (Lees­Haley,  1996;  Messick,  1988,  1989,  1995;
Zimiles, 1996). No entanto, tanto Messick (1988, 1989, 1995) como os atuais Padrões para Testes Psicológicos
e  Educacionais  (AERA,  APA  &  NCME,  1999)  apresentam  o  argumento  atraente  de  que  essas  consequências
precisam  ser  consideradas  no  processo  de  avaliação,  embora  elas,  por  si  só,  não  forneçam  evidência  para  o
argumento da validade. As consequências sociais referem­se às implicações que as conclusões tiradas e as ações
tomadas a partir do escore do teste têm para a vida da pessoa testada. Os testes de alto padrão (Haertel, 1999)
representam  a  avaliação  em  que  os  resultados  têm  implicações  significativas  para  a  vida  da  pessoa,  como  o
acesso  à  educação,  ao  tratamento  ou  a  uma  carreira;  o  valor  associado  a  um  rótulo  resultante  do  escore;  e  os
custos  que  resultam  das  ações  baseadas  no  escore.  Como  esses  testes  são  importantes  para  os  terapeutas
ocupacionais?
Quando avaliamos um cliente, o fazemos a partir de um protocolo teórico em particular, de maneira tácita ou
de  qualquer  outro  modo.  Esse  protocolo  orienta  o  que  mensuramos,  o  significado  dado  a  um  escore  e  sua
interpretação. Além disso, ele influencia o rótulo resultante; por exemplo, o desempenho em certas medidas de
desempenho  motor  resulta  na  rotulação  da  criança  como  portadora  de  distúrbio  de  desenvolvimento  da
coordenação. É importante reconhecer o valor associado a um rótulo e se este valor tem conotações positivas ou
negativas nas vidas de nossos clientes.
Os  resultados  de  nossa  avaliação  orientam  quem  receberá  o  tratamento  e  as  noções  teóricas  das  mudanças
decorrentes da terapia orientam os indicadores de quando a terapia deverá cessar. Existem aqui implicações para
custos,  tanto  financeiros  como  em  termos  de  tempo  e  esforço,  para  o  terapeuta  e  para  o  cliente.  Diante  da
situação econômica de muitos sistemas de cuidados de saúde, é crucial a evidência para dar suporte às decisões
relativas a para onde serão direcionados os esforços da terapia, de que maneira e por quanto tempo.

Construindo o Argumento da Validade
A  discussão  anterior,  sobre  as  diversas  fontes  de  evidência  relacionadas  com  a  validade  das  conclusões  e  das
ações  baseadas  nos  escores  de  teste,  sugere  um  processo  dinâmico  e  contínuo.  Um  argumento  inicial  para
sustentar o uso e a interpretação dos escores de teste é construído a partir da evidência disponível. No entanto,
estudos subsequentes poderiam fornecer informações que enfraquecem o argumento inicial, quando as hipóteses
sobre as relações não são sustentadas ou são reveladas novas fontes de irrelevância do constructo. Esta fluidez
destaca  a  importância  de  que  os  terapeutas  ocupacionais  examinem  a  evidência  para  determinar  que  o  uso
desejado do teste é apropriado e que a interpretação dos escores pode ser feita com algum grau de confiança. A
Tabela 47.2 identifica os diferentes elementos que contribuem para o argumento da validade, as informações que
eles fornecem e os métodos utilizados para construir a evidência para afirmações sobre a validade.

PRÁTICAS ADEQUADAS DE TESTAGEM
O usuário do teste é responsável por adotar todas as medidas possíveis para minimizar as tendências na testagem
de  determinados  grupos.  Como  o  resultado  da  avaliação  em  terapia  ocupacional  apresenta  implicações  não
somente  para  as  vidas  de  nossos  clientes,  mas  também  para  a  distribuição  dos  escassos  recursos  da  área  da
saúde,  devemos  considerar  seriamente  se  uma  avaliação  é  adequada  para  nossos  clientes  e  que  variáveis
estranhas poderiam influenciar seus escores. Os Padrões para Testes Psicológicos e Educacionais (AERA, APA
&  NCME,  1999)  descrevem  quatro  aspectos  da  testagem  adequada,  refletindo  a  ideia  de  que  os  testes  não
precisam ser idênticos para todos os grupos, mas que deve haver evidência de que a interpretação do escore é
válida, sem a influência indevida de sub­representação ou irrelevância do constructo (AERA, APA & NCME,
1999).  As  fontes  de  tendência  devem  ser  identificadas  e  eliminadas,  sempre  que  possível,  de  modo  que  não
alterem  o  significado  dos  escores  obtidos  por  nossos  clientes.  Quando  a  tendência  não  pode  ser  removida  de
maneira satisfatória, a medida não deve ser utilizada. Todos os clientes devem ser tratados da mesma maneira
com relação ao contexto e à finalidade do teste e à maneira pela qual os escores do teste são utilizados, devendo
haver oportunidade ou meio razoável para demonstrar sua competência no constructo mensurado. As diferenças
de  resultados  entre  os  grupos  não  significa  necessariamente  que  um  grupo  está  em  desvantagem  em  relação  a
outro. Contudo, essas diferenças precisam ser examinadas para determinar se tal situação está presente. Por fim,
todos  os  grupos  devem  ter  a  mesma  oportunidade  para  aprender  ou  praticar  o  conhecimento  ou  os
comportamentos mensurados pelo teste (AERA, APA & NCME, 1999). Para nossos propósitos, três exemplos
específicos  de  práticas  de  testagem  adequada  serão  considerados:  cultura,  idosos  e  pessoas  com  necessidades
especiais.

TABELA 47.2 RESUMO DA EVIDÊNCIA PARA A VALIDADE RELACIONADA COM OS DIFERENTES
ASPECTOS DE CONTEÚDO DO TESTE, PROCESSOS DE RESPOSTA, ESTRUTURA E RELAÇÃO COM
AS VARIÁVEIS EXTERNAS
Evidência Informação Método de Discriminação
Conteúdo O conteúdo fornece amostras adequadas dos domínios O suporte para o conteúdo é
do constructo e reflete o protocolo sugerido encontrado na literatura e na
opinião dos especialistas
Processos As formas de obter e indicar uma resposta são Exame de como o respondedor
de compatíveis com as hipóteses do constructo obtém e indica uma resposta
resposta
Estrutura do Estrutura do teste, p. ex., dimensões ou escores Exame da relação dos itens
teste compatíveis com aqueles do constructo subjacente entre si e com o teste total
Relação Os escores do teste relacionam­se com outras medidas Estudos empíricos de relações
com as ou comportamentos que não estão no teste conforme presumidas
variáveis predito pelo constructo teórico
externas

Quando se discutem modificações de um teste que se destinam a estimular a prática da testagem adequada, é
feita  uma  distinção  em  algumas  fontes  relacionadas  com  a  acomodação  versus  modificação  dos  exames
(Education  Accountability  Act,  2000;  Individuals  with  Disabilities  Education  Act  Amendments,  1997).  As
adaptações são consideradas mudanças que capacitam uma pessoa a participar da avaliação, mas não alteram o
conteúdo,  os  requisitos  de  desempenho,  o  método  de  resposta,  a  confiabilidade  ou  a  validade  (Ministry  of
Education, 2000). As modificações, pelo contrário, são mudanças mais significativas na avaliação e apresentam
implicações para a confiabilidade, a validade e as subsequentes conclusões tiradas a partir dos escores obtidos.

Avaliação Culturalmente Adequada
Em muitos países, a diversidade cultural está aumentando. Pode ser necessário que os terapeutas ocupacionais
avaliem uma pessoa cujo idioma natal não seja o idioma oficial do país. Aqui, existem duas questões principais:
a influência do idioma natal sobre o idioma do país na interpretação e na resposta dos itens do teste e a influência
de expectativas culturais, comportamentos e valores sobre o desempenho do teste (AERA, APA & NCME, 1999;
Padilla, 2001).
Mesmo na América do Norte, entre pessoas cujo primeiro idioma é o inglês, existe uma disparidade de cultura
(Padilla, 2001). A experiência de vida das pessoas que vivem em áreas remotas do Ártico é muito diferente da
das pessoas que vivem em áreas urbanas, sendo ambas diferentes das experiências de muitas pessoas de outras
etnias.
A linguagem pode confundir significativamente os resultados obtidos em uma avaliação. Quando a avaliação
exige uma resposta verbal, ou quando os itens do teste contêm um componente verbal substancial, o teste pode
medir mais a capacidade da linguagem do que o constructo subjacente (AERA, APA & NCME, 1999). É preciso
determinar o quão compreensível é o teste para pessoas cujo primeiro idioma não seja o idioma onde o teste é
aplicado (Springer, Abell & Hudson, 2002).
Uma  maneira  aparentemente  óbvia  de  minimizar  a  questão  da  linguagem  é  a  tradução  direta  do  teste.  No
entanto, essa abordagem não é tão útil quanto possa parecer, pois a linguagem é dinâmica, repleta de contexto
histórico  e  cultural  (Hambleton  &  Patsula,  1998).  Muitas  palavras  ou  frases  não  têm  o  mesmo  significado
quando  traduzidas  de  um  idioma  para  outro.  Por  exemplo,  em  francês,  poser  um  lapin  à  quelqu’un  significa
“faltar a um encontro”. Esta frase é traduzida como “colocar um coelho sobre alguém”, o que cria uma imagem
diferente do significado em francês. A denominação de objetos comuns difere, mesmo entre culturas que falam a
mesma lingua. Por exemplo, na Inglaterra, nappy, petrol e bonnet referem­se a fralda, gasolina e capota de um
carro, respectivamente (diaper, gasoline e hood of a car, nos Estados Unidos). De maneira similar, os conceitos
podem variar entre as culturas.
As  expectativas  comportamentais  variam  de  uma  cultura  para  outra  (AERA,  APA  &  NCME,  1999).  As
crianças em uma cultura podem ser desencorajadas a responder diretamente a um adulto ou a participar de uma
conversa  detalhada,  já  que  isso  é  considerado  falta  de  educação  (Salvia  &  Ysseldyke,  2004).  Se  a  avaliação
exige a expressão de ideias, é provável que as crianças dessa cultura tenham desempenho ruim, não porque suas
ideias sejam mal formadas, mas por causa de suas expectativas culturais.
As  pessoas  de  culturas  em  que  a  velocidade  não  é  enfatizada,  como  acontece  na  América  do  Norte,  não  se
sairão tão bem em um teste com tempo estipulado. A situação real de teste pode ser desconhecida das pessoas de
algumas culturas (Hambleton & Patsula, 1998). O simples ato de colocar as pessoas em uma situação de teste
pode deixá­las em desvantagem. De maneira semelhante, algumas pessoas podem não estar familiarizadas com o
preenchimento  de  cartões  de  resposta  com  marcação  de  computador,  de  modo  que  a  maneira  de  indicar  a
resposta nessa situação exige habilidades ou exposição a mídias que não são universais.
A  discussão  anterior  ilustra  a  complexidade  da  questão  da  realização  de  avaliações  com  pessoas  de  uma
cultura  diferente  daquela  para  a  qual  o  instrumento  foi  padronizado.  Os  Padrões  para  Testes  Psicológicos  e
Educacionais  (AERA,  APA  &  NCME,  1999)  apresentam  vários  padrões  para  minimizar  a  desvantagem
potencial de pessoas de uma cultura diferente. Esses padrões e as recomendações de outros escritores a seguir
reconhecem que, em geral, não é possível criar um teste que possa ser considerado livre de tendências culturais.
O examinador tem a responsabilidade ética de garantir que foram tomadas medidas para minimizar a tendência
cultural (AERA, APA & NCME, 1999).
Os Padrões para Testes Psicológicos e Educacionais recomendam que os testes e sua utilização para pessoas
de  língua  não  inglesa  ou  para  pessoas  que  falam  determinados  dialetos  ingleses  “devem  ser  desenhados  para
reduzir  as  ameaças  à  confiabilidade  e  à  validade  das  conclusões  sobre  os  escores  do  teste  causadas  pelas
diferenças de linguagem” (AERA, APA & NCME, 1999, p. 97). Deve ser determinada a capacidade das pessoas
de  língua  não  inglesa  de  compreender  os  itens  ou  as  instruções  do  teste,  talvez  por  meio  de  itens  práticos
(Hambleton & Patsula, 1998). Quando a linguagem ou outras modificações são aplicadas a testes originalmente
desenvolvidos  em  inglês,  devem  ser  fornecidas  informações  no  manual  do  teste  para  documentar  essas
modificações e suas influências sobre as propriedades psicométricas do teste.

Avaliações Críticas para Idosos
Pouca atenção foi dada na literatura psicométrica às questões relacionadas à avaliação de idosos. Ainda assim,
esse  grupo  é  um  segmento  em  crescimento  da  população  norte­americana,  com  as  estimativas  sugerindo  que
mais  de  21%  dos  canadenses  terá  65  anos  de  idade  em  2026  (Statistics  Canada,  2001)  e  78  milhões  de
americanos  terão  mais  que  esta  idade  em  2050  (Rosenbloom,  2004).  Este  grupo  representa  uma  proporção
significativa dos clientes aos quais os terapeutas ocupacionais prestam serviço.
Em primeiro lugar, vamos considerar algumas questões pessoais que influenciarão o desempenho de um idoso
em um teste padronizado. Muitas dessas questões estão bem documentadas na literatura, de modo que elas serão
apenas identificadas aqui. As alterações na função física e a incidência de incapacidades físicas aumentam com a
idade.  Um  questionário  sobre  limitações  físicas  identificou  que  pessoas  com  75  anos  de  idade  ou  mais
apresentavam probabilidade maior de relatar a presença de três ou mais incapacidades (Statistics Canada, 2002).
As  alterações  na  visão  incluem  dificuldade  em  situações  de  baixa  luminosidade,  perda  da  acuidade  visual  e
busca  visual  lenta,  juntamente  com  comprometimentos  como  catarata,  glaucoma  e  degeneração  macular
(Owsley,  2004).  As  questões  cognitivas  incluem  perda  da  memória,  dificuldades  de  atenção  e  demência.  As
preocupações afetivas incluem ansiedade relacionada à situação de teste e depressão.
As  visões  de  mundo,  as  experiências  de  vida  e  as  metas  podem  diferir  entre  o  cliente  e  o  profissional  ou
desenvolvedor  do  teste  (Mouton  &  Esparza,  2003).  Estes  têm  o  potencial  de  afetar  a  interpretação  do  cliente
quanto à finalidade do teste e os itens específicos que constituem o teste. As questões previamente identificadas
sobre a resposta à testagem e interpretação dos itens do teste, baseadas na cultura e na experiência de vida, são
relevantes para esta discussão.
Uma questão pessoal final talvez seja a menos reconhecida. A questão das consequências sociais foi discutida
anteriormente em relação à validade. Para os idosos, as consequências sociais referem­se às decisões que afetam
significativamente seus estilos de vida. Duas situações ilustram este ponto. O resultado de um exame de direção
pode ser a perda do direito legal de dirigir veículos, levando a consequências negativas para o motorista e para a
família  (Suen  &  Sen,  2004).  De  modo  semelhante,  os  resultados  de  um  exame  funcional  ou  de  competência
podem influenciar se um idoso irá permanecer em sua própria casa ou se deverá abdicar dessa independência e
aderir à vida assistida. Assim, fica claro que os idosos submetidos à avaliação podem trazer para a situação seus
temores  sobre  as  consequências  para  seus  estilos  de  vida  e  sobre  o  significado  dessas  consequências  para  seu
autoconceito.
As questões relacionadas ao próprio teste podem ser deduzidas da discussão anterior. Quando seleciona uma
avaliação  para  usar  com  um  idoso,  o  profissional  deve  avaliar  sua  adequação  para  esta  faixa  etária  (p.  ex.,  a
amostra  normativa  incluiu  idosos?).  O  conteúdo  deve  ser  examinado  quanto  às  tendências  relacionadas  ao
conhecimento e ao grau de escolaridade esperados. A consideração quanto ao formato da resposta deve incluir se
é  razoável  esperar  que  o  cliente  disponha  de  experiência  recente  o  suficiente  para  fornecer  uma  resposta.  As
questões culturais também precisam ser examinadas. As questões físicas do teste, como a fonte e a diagramação,
podem afetar o desempenho. As restrições de tempo podem ser uma fonte de ansiedade.
O  ambiente  de  testagem  também  pode  ser  uma  fonte  de  tendência.  É  importante  assegurar  iluminação
suficiente e que o cliente esteja em posição confortável. O administrador do teste deve assegurar que o ambiente
do teste forneça o melhor suporte possível.

Questões na Avaliação de Pessoas com Necessidades Especiais
Pela  natureza  de  nossa  profissão,  os  clientes  a  quem  avaliamos  comumente  apresentam  alguma  forma  de
incapacidade. Da mesma maneira que com o uso de testes com pessoas de culturas diversas e com idosos, aqui
as  questões  são  complexas  e  as  soluções  são,  em  geral,  insuficientes.  As  pessoas  com  incapacidades  podem
apresentar comprometimentos que afetam sua capacidade de compreender as instruções ou os materiais do teste,
processar as informações relacionadas à formação de uma resposta ou indicar uma resposta por meios verbais ou
motores (Hacker & Porter, 1987; Salvia & Ysseldyke, 2004; Taylor, Sternberg & Richards, 1995). Além disso,
um problema de saúde mental poderia limitar a capacidade do cliente de participar da situação de teste (Taylor et
al., 1995).
Os  Padrões  para  Testes  Psicológicos  e  Educacionais  (AERA,  APA  &  NCME,  1999)  recomendam  que  os
profissionais que modificam qualquer teste para uso com pessoas que apresentam incapacidade o façam com a
assistência  de  um  profissional  especialista  em  psicometria.  Além  disso,  o  usuário  do  teste  precisa  ter
conhecimento sobre a maneira pela qual a incapacidade pode afetar a confiabilidade e a validade das conclusões
do escore de teste. Como sempre, essas mudanças devem estar relatadas no manual do teste.
Quando  realizam  avaliações  de  crianças  com  necessidades  especiais  no  sistema  escolar,  os  terapeutas
ocupacionais  precisam  conhecer  a  legislação  que  orienta  esta  avaliação.  Dois  exemplos  dessa  legislação,  nos
Estados  Unidos  e  no  Canadá,  serão  descritos:  a  Emenda  de  1997  da  Lei  de  Educação  de  Indivíduos  com
Necessidades  Especiais  (Individuals  with  Disabilities  Education  Act  –  IDEA)  (P.L.  105­17)  e  a  Lei  de
Responsabilidade  da  Educação  (Education  Accountability  Act)  na  província  de  Ontário,  Canadá.  Ambos  os
exemplos  de  legislação  exigem  que  os  estudantes  com  necessidades  especiais  tenham  a  oportunidade  de
participar  de  testes  padronizados  da  província  ou  do  estado.  A  avaliação  precisa  ser  aplicada  de  modo  que  o
escore  possa  ser  interpretado  de  maneira  significativa  para  refletir  o  desempenho  da  criança  no  constructo
mensurado  e  não  ser  influenciado  por  alguma  variável,  irrelevante  ao  constructo,  como  a  linguagem  ou  a
capacidade motora (Education Accountability Act, 2000; IDEA, 1997).
Tanto a IDEA (1997) como a Education Accountability Act (2000) indicam que modificações ou adaptações
precisam  ser  utilizadas  quando  apropriado,  desde  que  exista  evidência  de  confiabilidade  e  validade  quanto  às
modificações específicas. Modificações específicas incluem as mudanças nos requisitos de tempo, na forma de
aplicação  ou  no  formato  da  resposta,  na  linguagem,  no  ambiente  e  na  aplicação  individual  ou  em  grupo.  As
adaptações  específicas  incluem  a  alteração  na  aplicação  do  teste  (p.  ex.,  letras  grandes,  tradução  em  Braille,
intérprete para aqueles com comprometimento auditivo, sessões múltiplas), método de resposta (p. ex., resposta
oral, uso de dispositivos de acesso ao computador) e ambiente (p. ex., área segregada) (Federal Register, 1999;
Ministry of Education, 2000).
Esta discussão sobre os desafios da avaliação dos clientes da maneira adequada demonstra a responsabilidade
do terapeuta. A evidência de validade satisfatória deve estar presente para sustentar a finalidade pretendida do
teste, a interpretação dos escores e as ações decorrentes desta interpretação. Principalmente quando o resultado
da avaliação apresenta potencial para influenciar a educação, o emprego ou a situação de vida, o terapeuta deve
ser capaz de demonstrar a validade das conclusões tiradas a partir do escore.

FONTES DE INFORMAÇÃO SOBRE OS TESTES PUBLICADOS
Este capítulo forneceu uma revisão das questões com as quais um terapeuta ocupacional deve estar familiarizado
para  criticar  uma  avaliação.  Inúmeras  fontes  estão  disponíveis  para  fornecer  revisões  dos  testes  publicados.  O
Anuário  de  Avaliações  Mentais  fornece  revisões  sobre  a  maioria  dos  testes  comercialmente  disponíveis.  As
revisões dos testes estão disponíveis on­line em http://burros.unl.edu/buros/jsp/search.jsp. Os Tests in Print  (p.
ex.,  Murphy,  Plake,  Impara  &  Spies,  2002)  fornecem  informações  descritivas  e  bibliografia.  Uma  excelente
fonte  de  informação  específica  sobre  os  testes  para  a  terapia  ocupacional  é  Measuring  Occupational
Performance: Supporting Best Practice in Occupational Therapy (Law, Baum & Dunn, 2001).
Este capítulo foi idealizado para servir de revisão sobre as preocupações primordiais na crítica de avaliações.
Não pretendeu incluir uma discussão detalhada dos vários aspectos, fórmulas ou cálculos da construção do teste,
análise de item, confiabilidade e validade. Para maiores informações, os livros na lista de referências marcados
com asterisco (*) fornecem informações mais detalhadas e, com frequência, revisões das avaliações comumente
utilizadas na terapia ocupacional.

ESTUDO DE CASO: Aplicação de Protocolo de Crética na Avaliação da Ferramenta
FIMTM

Nota:  Esta  revisão  da  ferramenta  FIMTM  é  apenas  para  fins  ilustrativos  e  não  pretende  ser  uma  revisão
exaustiva da literatura relacionada a este teste.

Finalidade do Teste
O instrumento FIMTM é uma medida da função e da incapacidade baseada no conceito da carga de cuidado
(Hamilton, Granger, Sherwin, Zielezny & Tashman, 1987). É utilizado para descrever a função atual, predizer a
futura função e o destino após a alta e avaliar a resposta de um cliente ao tratamento (Timbeck & Spaulding,
2003).  É  de  propriedade  do  Uniform  Data  System  for  Medical  Rehabilitation  (USDMR)  (Deustch,  Fiedler,
Granger & Russell, 2002).

Fundamentação Teórica
O  instrumento  FIMTM  baseia­se  no  conceito  da  carga  de  cuidado.  A  incapacidade  é  classificada  de  acordo
com a quantidade de assistência que uma pessoa requer para realizar as atividades diárias (Hamilton et al.,
1987). Destina­se a uma população de reabilitação adulta e fornece informações sobre os aspectos motor e
social da função.

Utilidade Clínica
Informação: Informações sobre o instrumento FIMTM estão disponíveis no Uniform Data System for
Medical Rehabilitation; www.udsmr.org.
Qualificações: As instituições que desejam fazer parte do USDMR devem ser acreditadas. Os
profissionais que administram o instrumento FIMTM em uma instituição acreditada devem fazer um
curso de treinamento e ser aprovados na avaliação.
Suporte para o aprendizado: Seminários estão disponíveis para os profissionais que administrarão o teste
em uma instituição acreditada. Para outros, estão disponíveis materiais de treinamento, incluindo
vídeos.
Formato de texto: O instrumento FIMTM tem 18 itens em seis áreas: autocuidado, controle de esfíncter,
mobilidade, locomoção, comunicação e cognição social. Os itens são classificados de 1 (dependência
total) até 7 (independência total) com uma faixa de escore total de 18­126. As quatro primeiras áreas
formam a subescala motora e as duas últimas formam a subescala cognitiva.
Procedimentos de teste: A informação é obtida por meio de observação direta, entrevista ou revisão de
prontuário.
Tempo de administração: O instrumento FIMTM demora aproximadamente 30 minutos para ser
administrado.
Formato de resposta: São necessárias respostas tanto motoras como verbais.
Pontuação: O escore resulta da observação do desempenho, da entrevista ou da revisão de prontuário.
Orientações, estudos de caso e linhas de decisão estão disponíveis para apoiar a determinação da
classificação.

Considerações Técnicas
Normas: Nenhuma norma está disponível, mas podem ser obtidos perfis de desempenho (Letts & Bosch,
2001)
Confiabilidade: A análise de 11 estudos que investigaram a confiabilidade demonstrou alta confiabilidade
interexaminador com correlações mais fortes para subescalas motoras do que para subescalas
cognitivas. As correlações foram fortes para teste­reteste e formas equivalentes de confiabilidade
(Ottenbacher, Hsu, Granger & Fielder, 1996).
O exame da consistência interna sustenta a estrutura do instrumento FIMTM (Hobart et al., 2001; Hsueh,
Lin, Jeng & Hsieh, 2002).
Validade: A pesquisa dá suporte à forte relação com o índice de Barthel (Deustch et al., 2002; Hobart et
al., 2001; Hsueh et al., 2002). Demonstra­se de maneira consistente que o instrumento FIMTM é
responsivo à mudança na condição funcional de uma população de pacientes de reabilitação
internados por AVC (Desrosier et al., 2003; Dromerick, Edwards & Diringer, 2003; Hsueh et al., 2002).
Demonstrou­se que o escore do instrumento FIMTM na admissão é um forte preditor do escore do
mesmo instrumento na alta, da classificação de incapacidade, da classificação na alta e do
encaminhamento após a alta (MacNeill & Lichtenberg, 1998; Timbeck & Spaulding, 2003).

Questões de Testagem Adequada
A observação das atividades necessárias pode acontecer em diversos ambientes ou condições, possibilitando
a administração do instrumento FIMTM em um ambiente que seja favorável ao cliente. O instrumento pode ser
administrado a qualquer cliente de reabilitação, independente da idade ou da incapacidade. As pessoas que
utilizam  dispositivos  de  assistência  para  realizar  as  atividades  diárias  não  podem  receber  o  escore  máximo,
quer precisem de assistência de outra pessoa ou não (Minkel, 2002).

Comentários do Revisor
O instrumento FIMTM é um instrumento amplamente utilizado, sendo excelente para a avaliação do programa
de  reabilitação.  As  propriedades  psicométricas  são  vigorosas,  o  que  o  torna  uma  boa  primeira  opção  como
medida de resultado em diversos ambientes (Letts & Bosch, 2001).

AGRADECIMENTOS
Um  agradecimento  especial  a  você,  Jill  Jacobson,  da  Escola  de  Terapia  Ocupacional,  da  Universidade  de
Western  Ontario,  que  forneceu  um  suporte  inestimável  e  realizou  um  trabalho  meticuloso  na  preparação  da
versão atual deste capítulo. Jennifer Landry, aluna de doutorado, da Universidade de Toronto, e Linda Miller, da
Escola  de  Terapia  Ocupacional,  da  Universidade  de  Western  Ontario,  que  forneceram  retroalimentação
inestimável na primeira elaboração deste capítulo. Joseph Hansen, da Detroit Country Day School, forneceu a
consultoria em língua francesa.
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Atividades de Vida Diária e Atividades Instrumentais de
Vida Diária
ANNE BIRGE JAMES

Sumário
Definição de AVD e AIVD
Avaliação das AVD e AIVD
Planejamento da Avaliação: Selecionando as Medidas Apropriadas de AVD e AIVD
Aplicando a Avaliação: Coleta de Dados, Observação Crítica e Produção da Hipótese
Estudo de Caso: Avaliação de um Cliente com Obesidade Mórbida e Insuficiência Respiratória
Estabelecendo as Metas para os Clientes: A Ponte entre Avaliação e Tratamento
Identificando os Comportamentos Apropriados Desejados
Identificando os Níveis de Meta Apropriados
Considerações Adicionais para o Estabelecimento de Metas Realistas para o Cliente
Tratamento para Déficits de AVD e AIVD
Planejamento e Execução do Tratamento
Revisão do Tratamento
Conclusão

Objetivos de Aprendizagem
Após a leitura deste capítulo, você será capaz de:

1. Descrever as finalidades da avaliação de AVD e AIVD em terapia ocupacional.
2. Diante do caso de um cliente, identificar os fatores referentes ao cliente e ao contexto que influenciariam o plano de evolução.
3. Desenvolver metas individuais para direcionar o programa de tratamento do cliente.
4. Descrever as considerações contextuais que influenciam o desenvolvimento da meta.
5. Explicar as abordagens mais comuns para tratamento em AVD e AIVD.
6. Descrever o papel da educação do cliente e do cuidador no tratamento dos déficits de AVD e AIVD.
7. Graduar as atividades de tratamento para a evolução dos clientes de modo a aumentar a participação em AVD e AIVD.

E
sta  seção  trata  da  avaliação  e  do  tratamento  de  áreas  de  ocupação  que  são  classificadas  como  atividades  de  vida  diária  (AVD)  e  atividades
instrumentais  de  vida  diária  (AIVD)  no  Protocolo  de  Prática  da  Terapia  Ocupacional  (PPTO)  (American  Occupational  Therapy  Association,
2002).  As  disfunções  em  AVD  e  AIVD  são  denominadas  limitações de atividade  na  Classificação  Internacional  de  Funcionalidade,  Incapacidade  e
Saúde  (World  Health  Organization,  2001).  A  avaliação  e  o  tratamento  da  disfunção  de  AVD  e  de  AIVD  são  fundamentais  para  a  participação  das
pessoas  em  ocupações  significativas.  As  pessoas  podem  considerar  as  AVD  e  AIVD  significativas  em  si  e  para  si  e  tarefas  de  pré­requisito  para  o
engajamento significativo em educação, trabalho, brincadeira, lazer e participação social.

DEFINIÇÃO DE AVD E AIVD
Conceitualmente, o termo atividades de vida diária (AVD) poderia aplicar­se a todas as atividades que as pessoas realizam rotineiramente. Contudo, no
PPTO, as AVD são definidas de modo mais restrito como “atividades que são orientadas para o cuidado com o próprio corpo” (AOTA, 2002, p. 620),
as  quais  incluem  11  categorias  de  atividade:  tomar  banho  de  chuveiro/banheira,  controle  dos  esfíncteres,  vestir­se,  comer,  alimentação,  mobilidade
funcional,  dispositivos  de  cuidado  pessoal,  higiene  e  arrumação  pessoal,  atividade  sexual,  sono/repouso  e  higiene  no  vaso  sanitário.  As  AIVD  são
definidas como “atividades orientadas para a interação com o ambiente e que, com frequência, são de natureza complexa” (AOTA, 2002, p. 620). As
AIVD  também  incluem  11  categorias  de  atividade:  cuidar  dos  outros,  cuidar  de  animais  de  estimação,  criação  dos  filhos,  uso  de  dispositivos  de
comunicação, mobilidade na comunidade, controle financeiro, saúde e manutenção, estabelecimento e manutenção da casa, preparação de refeição e
limpeza, procedimentos de segurança e respostas de emergência e fazer compras. Embora tanto as AVD como as AIVD incluam tarefas essenciais de
desempenho ocupacional, comumente as AIVD são mais fáceis de delegar a outras pessoas (AOTA, 2002).
O PPTO (AOTA, 2002) fornece uma nomenclatura e um esquema organizacional para os profissionais da terapia ocupacional nos Estados Unidos.
As definições de AVD e AIVD no PPTO são compatíveis com aquelas do National Center for Health Statistics (2007); no entanto, outros profissionais
da saúde e do serviço social ou terapeutas ocupacionais fora dos Estados Unidos podem utilizar­se de outros termos para referir­se a esses mesmos
conceitos de AVD e AIVD ou usar os mesmos termos, mas os definindo de maneira diferente. O termo AVD restringe­se tipicamente às atividades que
envolvem  a  mobilidade  funcional  (deambulação,  mobilidade  em  cadeiras  de  rodas,  mobilidade  no  leito  e  transferências)  e  ao  cuidado  pessoal
(alimentação, higiene, uso do vaso sanitário, banhar­se e vestir­se), compatíveis com o PPTO, embora alguns profissionais definam a AVD de modo
mais abrangente, referindo­se a todas as atividades que são realizadas na vida diária. Outros termos usados para se referir especificamente à mobilidade
funcional e ao cuidado pessoal são AVD básica e AVD pessoal, respectivamente (AOTA, 2002). O termo AIVD aparece fora da literatura da terapia
ocupacional de maneira menos consistente. As medidas da AIVD variam consideravelmente de acordo com as atividades incluídas nas escalas (Chong,
1995); por exemplo, a Escala Expandida de Atividades de Vida Diária de Nottingham inclui as atividades de lazer e de alimentação (Nouri & Lincoln,
1987), tarefas que se situam fora da definição de AIVD do PPTO. Os sinônimos para a AIVD são habilidades de vida independente e AVD expandida
(Nouri & Lincoln, 1987). Mais recentemente, entrou em uso o acrônimo AAVD – para atividade avançada de vida diária. O termo AAVD também foi
utilizado de diferentes maneiras por vários autores, por exemplo, para incluir as atividades que são mais extenuantes do ponto de vista físico que as
AIVD  (Reuben,  Laliberte,  Hiris  &  Mor,  1990)  ou  para  se  referir  às  atividades  que  são  mais  “voluntárias”  do  que  essenciais  (Ashworth,  Reuben  &
Benton, 1994), como hobbies, recreação e trabalho voluntário (Moore, Endo & Carter, 2003); estas definições estão mais alinhadas com o conceito do
PPTO  de  brincadeira  ou  lazer.  O  ponto  crucial  reside  em  compreender  que  os  termos  que  se  referem  às  atividades  diárias  são  utilizados  de  modo
variável, de maneira que é importante, ao consultar trabalhos publicados, observar as definições operacionais dos termos utilizados pelos autores e, em
um  ambiente  clínico,  identificar  a  linguagem  habitualmente  utilizada  pelos  profissionais.  Os  terapeutas  ocupacionais  precisam  estar  cientes  das
diferenças  de  terminologia  e  utilizar  as  formas  comumente  aceitas  para  o  contexto  quando  se  comunicam  com  outros  profissionais  e  quando
selecionam os instrumentos de avaliação.
Este capítulo enfoca a avaliação e o tratamento das limitações de desempenho ocupacional especificamente relacionadas às AVD e AIVD conforme
definido pelo PPTO. É essencial ter uma compreensão básica do processo de terapia ocupacional antes da leitura deste capítulo; o processo é descrito
no Capítulo 46. O leitor deve estar ciente de que, embora as AVD e as AIVD sejam com frequência o foco primário da prática da terapia ocupacional,
não representam tipicamente o universo total das tarefas de desempenho ocupacional necessárias para a participação satisfatória e significativa nos pa
péis pessoais e sociais. A avaliação e o tratamento devem sempre começar por um perfil ocupacional abrangente (AOTA, 2002). O tratamento deve
abordar todas as prioridades do cliente que se estenderão comumente além das AVD e das AIVD, embora o restante deste capítulo trate exclusivamente
das AVD e AIVD.

AVALIAÇÃO DAS AVD E AIVD
Avaliação refere­se ao processo de coletar e interpretar dados necessários para planejar o tratamento, incluindo o desenvolvimento de um programa de
avaliação, execução da coleta dos dados, interpretação dos dados e registro dos resultados da avaliação (AOTA, 1995). Medida refere­se ao método
específico  usado  para  coleta  dos  dados  e  é  um  componente  do  processo  de  avaliação  (AOTA,  1995).  Os  métodos  padronizados  de  medida  são
denominados instrumentos ou ferramentas de avaliação. A avaliação é realizada por um terapeuta ocupacional; um estagiário de terapia ocupacional
pode participar da aplicação das medidas selecionadas sob a supervisão de um terapeuta ocupacional, o qual é responsável pela interpretação dos dados
da avaliação para fins de planejamento do tratamento.
A avaliação da AVD/AIVD é discutida em dois estágios neste capítulo: (1) planejamento da avaliação, que inclui a seleção de métodos específicos
de  mensuração,  e  (2)  realização  da  avaliação,  que  inclui  a  coleta  dos  dados  de  avaliação,  observações  críticas,  a  produção  da  hipótese  e  a  revisão
contínua do programa de avaliação até que tenham sido coletados os dados adequados. Tenha em mente que a avaliação de AVD e AIVD é apenas
parte de uma avaliação de terapia ocupacional mais abrangente, que deve abordar todas as áreas de ocupação relevantes para cada cliente.

Planejamento da Avaliação: Selecionando as Medidas Apropriadas de AVD e AIVD
Os terapeutas ocupacionais podem escolher entre diferentes medidas de AVD e AIVD, destinadas a atender às diferentes necessidades dos clientes e
ambientes  de  tratamento.  A  seleção  de  uma  medida  adequada  facilitará  o  planejamento  ótimo  do  tratamento  e  pode  ser  iniciada  com  as  seguintes
etapas:

1. Identificar a finalidade geral da avaliação.
2. Fazer com que os clientes identifiquem necessidades, interesses e dificuldades percebidos em AVD e/ou AIVD como parte do perfil ocupacional.
3. Conhecer melhor as atividades relevantes ao cliente, de modo que as atividades sejam definidas do ponto de vista operacional.
4. Estimar os fatores do cliente que afetam o desempenho ocupacional e/ou o processo de avaliação.
5. Identificar os fatores contextuais que afetam a medida.
6. Considerar os aspectos dos instrumentos de medida.
7. Integrar as informações das etapas 1­6 para selecionar os instrumentos ótimos de medida de AVD e AIVD.

Na  prática,  o  terapeuta  ocupacional  experiente  realiza  esse  processo  rapidamente,  de  modo  que  grande  parte  da  avaliação  de  AVD  e  AIVD  é
executada na primeira sessão de terapia ocupacional. Da mesma maneira, embora essas etapas pareçam seguir uma progressão linear, na prática elas se
integram à medida que o terapeuta ocupacional mistura continuamente o conhecimento e a experiência com a informação obtida do e sobre o cliente.
No entanto, para o terapeuta iniciante é valioso explorar cada etapa de modo independente, a fim de examinar os fatores críticos que contribuem para o
complexo processo de raciocínio clínico utilizado no planejamento de uma avaliação.

Etapa 1: Identificar o Objetivo da Avaliação de AVD/AIVD
As  AVD  e  as  AIVD  podem  ser  avaliadas  com  diferentes  objetivos.  No  nível  do  cuidado  individual  do  cliente,  a  avaliação  pode  ser  realizada  para
examinar as limitações de atividade de modo a planejar o tratamento de terapia ocupacional ou a facilitar a tomada de decisão em relação ao ambiente
de  alta,  à  competência,  à  tutela  e/ou  ao  compromisso  involuntário.  No  nível  programático,  a  avaliação  pode  ser  realizada  para  documentar  a
necessidade de desenvolvimento do programa e para avaliação de resultados. Antes de iniciar uma avaliação, o profissional precisa determinar como a
informação será utilizada de modo que sejam obtidos dados apropriados e suficientes. A extensão da coleta de dados depende da finalidade específica
da avaliação.

AVALIAÇÃO PARA PLANEJAMENTO E MONITORAMENTO DO TRATAMENTO DE TERAPIA OCUPACIONAL. Antes de iniciarem o tratamento para
melhora  do  desempenho  de  AVD  ou  AIVD  dos  clientes,  os  terapeutas  ocupacionais  precisam  avaliar  o  desempenho  inicial  desses  clientes.  Quando
uma  evolução  é  realizada  para  planejar  o  tratamento  de  terapia  ocupacional,  são  necessários  determinados  tipos  de  dados  (Rogers,  Holm  &  Stone,
1997).  Em  primeiro  lugar,  as  atividades  em  que  o  desempenho  é  deficiente  precisam  ser  identificadas  para  que  o  tratamento  possa  abordar  os
componentes disfuncionais, ao mesmo em tempo que mantém e estimula aqueles que são funcionais. Em segundo lugar, são necessários dados sobre a
causa ou as causas da limitação da atividade. Por exemplo, uma limitação da capacidade de cozinhar poderia ser causada por visão reduzida, cozinha
não acessível à cadeira de rodas ou falta de motivação para cozinhar. O tratamento de terapia ocupacional para a limitação da capacidade de cozinhar é
diferente  para  cada  uma  dessas  causas.  Para  compreender  a  etiologia  de  uma  limitação  da  atividade,  os  dados  sobre  as  áreas  ocupacionais  (AVD,
AIVD)  precisam  ser  complementados  com  dados  sobre  as  habilidades  e  os  padrões  de  desempenho  do  cliente,  fatores  do  cliente,  demandas  da
atividade  e  os  contextos.  Em  terceiro  lugar,  a  avaliação  da  terapia  ocupacional  deve  fornecer  dados  sobre  as  possibilidades  de  modificação  de
desempenho  da  atividade  do  cliente.  As  informações  a  respeito  das  demandas  da  atividade  e  do  contexto  devem  incluir  a  consideração  sobre  os
aspectos  que  podem  ser  modificados  para  dar  suporte  ao  desempenho  e  sobre  os  aspectos  que  não  podem  ser  modificados.  O  potencial  para  a
modificação de habilidades e padrões de desempenho ou fatores dos clientes também deve ser examinado. Tratamentos que envolvem a aquisição de
habilidade  são  possíveis  para  algumas  pessoas,  dependendo  dos  fatores  que  interferem  no  desempenho  da  tarefa.  Por  exemplo,  uma  criança  com
déficits  de  equilíbrio  secundários  a  paralisia  cerebral  pode  apresentar  potencial  para  aumento  das  habilidades  de  equilíbrio  para  dar  suporte  à
participação em diferentes AVD e AIVD, enquanto uma pessoa com déficits similares por doença de Parkinson poderia não apresentar tal potencial
porque a doença é progressiva. Os três tipos de dados são necessários para o planejamento de programas de tratamento adequados.

AVALIAÇÃO  PARA  FACILITAR  A  TOMADA  DE  DECISÃO  SOBRE  AMBIENTE  DE  ELEGIBILIDADE  OU  DE  ALTA.  Os  clientes  também  podem  ser
encaminhados para avaliação de AVD e AIVD de modo a facilitar a tomada de decisão sobre o ambiente de elegibilidade ou de alta. A capacidade de
cuidar de si e da própria casa pode fazer a diferença entre a vida independente e a vida assistida. A vida assistida representa um continuum de opções
que  incluem  serviços  na  residência  (p.  ex.,  serviços  domiciliares),  assistentes  de  cuidados  pessoais,  centros  de  vida  assistida,  casas  de  proteção,
moradias  coletivas,  centros  de  vida  independente,  apartamentos  supervisionados,  apartamentos  de  transição  e  instituições  de  cuidados  permanentes.
São oferecidos níveis variados de suporte nesses ambientes para manter ou melhorar as habilidades de vida diária. Quando as AVD e as AIVD são
avaliadas para fundamentar decisões de elegibilidade ou alta, a avaliação pode ser menos abrangente e detalhada do que quando é realizada para o
planejamento de tratamentos individuais. A questão primária a ser respondida por meio da avaliação é: “O cliente atende aos critérios funcionais?”
Esta pergunta pode ser geralmente respondida por meio da identificação das atividades em que existem limitações.
Um  objetivo  de  avaliação  semelhante  existe  quando  os  terapeutas  ocupacionais  são  solicitados  a  fazer  recomendações  em  relação  à  competência
legal para a vida independente. Comumente, isto envolve a competência no autocuidado ou na gestão de seus bens. As dificuldades com o primeiro
tipo de competência levam a procedimentos legais denominados guarda, enquanto as dificuldades no segundo tipo de competência envolvem tutela. A
avaliação  também  pode  ser  solicitada  em  conjunto  com  os  compromissos  involuntários  em  instituições  psiquiátricas  para  avaliar  a  influência  da
condição  psiquiátrica  sobre  a  vida  diária.  Quando  a  competência  é  utilizada  no  sentido  legal,  a  capacidade  de  tomar  decisões  criteriosas  ou
responsáveis comumente tem precedência em relação à capacidade de executar atividades. As pessoas capazes de contratar serviços e supervisionar
cuidadores no gerenciamento de seu cuidado pessoal e situação de vida são vistas como competentes, ainda que elas não sejam capazes de realizar
essas  atividades  por  si  próprias.  Dessa  maneira,  as  avaliações  em  terapia  ocupacional  que  são  realizadas  com  a  guarda,  a  tutela  ou  o  compromisso
involuntário em mente precisam levar em consideração as capacidades de decisão e as habilidades de supervisão necessárias aos clientes.

AVALIAÇÃO  PARA  FINS  DE  PROGRAMAÇÃO.  Embora  este  capítulo  enfatize  a  avaliação  para  o  tratamento  individual  do  cliente,  é  importante
reconhecer que os dados coletados sobre os clientes podem ser agregados para fins de programação. Por exemplo, os dados sobre as características de
AVD  e  AIVD  dos  clientes  atendidos  em  uma  clínica  de  terapia  ocupacional  podem  ser  utilizados  para  documentar  a  extensão  de  uma  limitação
específica  de  atividade  e  dar  suporte  ao  desenvolvimento  de  programas  novos  ou  ampliados  para  controlá­la.  Na  atual  situação  do  sistema  de
atendimento à saúde baseada no custo­benefício e na contenção de custos, os dados de grupo são cada vez mais utilizados para avaliar os resultados
dos  programas  e  dos  tratamentos  de  terapia  ocupacional.  Com  frequência,  espera­se  que  os  terapeutas  ocupacionais  mensurem  e  documentem
consistentemente  os  dados  de  AVD  e  AIVD  de  seus  clientes  de  modo  que  possam  ser  usados  de  maneira  efetiva  para  a  avaliação  do  programa
(Robertson & Colburn, 2000).

Etapa 2: Fazer com que os Clientes Identifiquem Necessidades, Interesses e Dificuldades Percebidos nas AVD e/ou AIVD
Uma vez que o objetivo da avaliação de AVD/AIVD tenha sido estabelecido, o terapeuta ocupacional precisa identificar as atividades específicas a
serem  avaliadas.  Este  é  um  componente  do  perfil  ocupacional,  que  também  irá  abranger  outros  aspectos  do  desempenho  ocupacional,  incluindo
educação, brincadeiras, lazer, trabalho e participação social (AOTA, 2002). Desenvolver um perfil ocupacional do cliente constitui uma etapa crucial
em uma evolução centrada no cliente, o que melhora tanto o processo como os resultados da terapia ocupacional (Law, 1998). Uma abordagem para
avaliação de AVD e AIVD centrada no cliente requer que os profissionais comecem por descobrir os problemas de AVD e AIVD que preocupam o
cliente (Law & Baum, 2005). Os profissionais podem esperar que as atividades preocupantes variem significativamente para um estudante da escola
elementar  de  10  anos,  uma  dona  de  casa  de  29  anos  que  cuida  de  três  crianças  novas  e  um  executivo  de  49  anos  de  idade;  e  as  avaliações  desses
clientes precisam ser modeladas para considerar as diferenças do estilo de vida deles. É fácil fazer suposições sobre as prioridades de um cliente com
base nos valores e nas experiências clínicas e pessoais; no entanto, é importante lembrar que circunstâncias únicas podem afetar a seleção de AVD e
AIVD  que  os  clientes  desejam  abordar  no  tratamento.  A  percepção  dos  clientes  sobre  seus  problemas  de  AVD  e  AIVD,  suas  necessidades  e  metas
podem ser coletadas por meio de um processo semiestruturado de entrevista ou por meio de uma avaliação mais formal, como a Medida Canadense de
Desempenho Ocupacional (MCDO) (Law et al., 2005). O valor relativo das atividades pode ser quantificado ao fazer com que os clientes quantifiquem
as atividades em uma escala de Likert em que, por exemplo, 1 = “totalmente sem importância para a realização efetiva” e 10 = “realização primordial”.
De  maneira  alternativa,  os  clientes  podem  ser  solicitados  a  classificar  uma  lista  de  AVD  e  AIVD  em  ordem  de  importância  para  identificar  as
prioridades.

Etapa 3: Conhecer Melhor as Atividades Relevantes aos Clientes para que as Atividades Sejam Definidas do Ponto de Vista Operacional
O significado dos termos utilizados para AVD e AIVD selecionadas pode variar entre as pessoas. Antes que as atividades possam ser avaliadas, elas
precisam de uma definição operacional; isto é, o profissional da terapia ocupacional e o cliente precisam estar certos sobre o significado exato de cada
termo.  Por  exemplo,  a  preparação  da  refeição  para  um  estudante  de  ensino  médio  poderia  consistir  em  preparar  o  cereal  para  o  café  da  manhã  e
embalar o almoço, enquanto a preparação da refeição para uma dona de casa que alimenta uma família de cinco pessoas envolve uma gama maior de
tarefas de preparação de alimentos e um conjunto muito distinto de habilidades. Como os diferentes instrumentos de avaliação definem as atividades de
maneira distinta, é importante selecionar um que seja compatível com as atividades conforme definidas pelo cliente. Por exemplo, com a utilização do
índice de Barthel para examinar a alimentação, os clientes são classificados como “independentes” quando conseguem se alimentar sozinhos, o que
inclui cortar o alimento e passar manteiga no pão (Mahoney & Barthel, 1965). Os clientes são classificados como “necessitados de assistência” quando
conseguem levar o alimento do prato até a boca, mas precisam de ajuda para cortá­lo em pedaços mastigáveis. O Índice de AVD de Katz, porém, não
inclui a preparação do alimento no prato (p. ex., cortar e espalhar a manteiga no pão) na definição operacional de alimentação, de modo que os clientes
são  classificados  como  independentes  se  conseguem  levar  o  alimento  do  prato  à  boca,  mesmo  que  não  consigam  cortar  o  alimento  ou  espalhar  a
manteiga  (Katz,  Ford,  Moskowitz,  Jackson  &  Jaffe,  1963).  Muitos  adolescentes  e  adultos  ficariam  insatisfeitos  com  seu  desempenho  quanto  à
alimentação se este precisasse ser cortado ou se necessitassem que outra pessoa passasse a manteiga no pão, de modo que o Índice de AVD de Katz não
seria uma medida apropriada para as pessoas que consideram componentes essenciais da alimentação cortar e passar a manteiga no pão.
As definições operacionais das AIVD são mais variadas que aquelas para as AVD em virtude de sua maior complexidade. Considere a tarefa de
preparação da refeição. Na Escala de Atividades Instrumentadas de Vida Diária (Escala de AIVD), que é geralmente considerada o instrumento típico
de avaliação para as AIVD, o mais alto nível de competência é descrito como “planeja, prepara e serve refeições adequadas de maneira independente”
(Lawton, 1972, p. 133). Itens comparáveis na Escala Estendida de AVD de Nottingham examinam a capacidade de produzir uma bebida quente e um
lanche  quente  sozinho  e  com  facilidade  (Nouri  &  Lincoln,  1987).  Dessa  maneira,  uma  classificação  de  independência  para  cozinhar  obtida  com  a
Escala Estendida de AVD de Nottingham implica menor nível de competência que uma classificação de independência na Escala de AIVD.
Os terapeutas ocupacionais também precisam considerar parâmetros relevantes de desempenho quando planejam uma avaliação. Os parâmetros de
desempenho são descritos com detalhes no Capítulo 46 e incluem independência, segurança e adequação. As definições operacionais do desempenho
aceitável  em  AVD  e  AIVD  precisam  incluir  a  atenção  a  todos  os  parâmetros  relevantes,  a  fim  de  estabelecer  os  dados  iniciais  e  os  resultados
apropriados do tratamento.

NÍVEL DE  INDEPENDÊNCIA.  Embora  comumente  os  clientes  desejem  ser  independentes  nas  AVD  e  AIVD,  os  profissionais  não  devem  fazer  esta
suposição, pois pode ser aceitável algum nível de assistência, quer verbal, quer físico. Por exemplo, um cliente submetido a uma substituição total de
quadril pode não calçar os sapatos e as meias de maneira independente sem equipamento de assistência durante dois meses no período pós­operatório,
enquanto são válidas as restrições de movimento. Alguns clientes que vivem com outras pessoas preferem receber a assistência para essa tarefa em vez
de comprarem e utilizarem o equipamento de adaptação necessário. Enquanto o contexto lhes dá suporte, isto é, enquanto eles têm alguém disposto e
capaz de ajudar, a meta para vestir o membro inferior com assistência é perfeitamente apropriada, podendo o tratamento ser focado em assegurar que o
paciente e o cuidador possam realizar a tarefa juntos enquanto aderem às precauções para a artroplastia total do quadril. A independência é o parâmetro
de  desempenho  central  da  maioria  dos  instrumentos  de  avaliação,  de  modo  que  os  terapeutas  ocupacionais  podem  escolher  entre  os  diversos
instrumentos de medida de independência. Muitas outras considerações, discutidas mais adiante neste capítulo, podem ajudar o terapeuta ocupacional a
identificar qual dos instrumentos de avaliação é mais adequado para a situação.

SEGURANÇA. Muitos instrumentos de avaliação abordam indiretamente a segurança ao especificarem que o desempenho seja completado de maneira
segura,  a  fim  de  ser  classificado  como  independente  (p.  ex.,  o  FIMTM;  U.  B.  Foundations  Activities,  2004).  Alguns  instrumentos  não  abordam
diretamente a segurança (p. ex., o Índice de AVD de Katz; Katz et al., 1963) e alguns classificam a segurança em separado da independência (p. ex., a
Avaliação de Desempenho das Habilidades de Autocuidado; Holm & Rogers, 1999; Rogers & Holm, 1994). Quando a segurança é uma preocupação
específica, por exemplo, para os clientes com déficits cognitivos que comprometam o julgamento, uma medida separada de segurança pode ser mais
efetiva  para  documentar  o  progresso  para  aquisição  das  metas  de  tratamento.  Uma  medida  de  segurança  em  separado  também  deixa  claro  na
documentação de terapia ocupacional que a segurança foi abordada.

ADEQUAÇÃO. Os clientes podem apresentar critérios quanto à eficiência do desempenho da tarefa e da aceitabilidade do resultado do desempenho, e
estes devem ser considerados na seleção dos instrumentos de avaliação. Por exemplo, uma cliente poderia estar segura e ser independente para vestir a
metade inferior do corpo, mas seu desempenho poderia parecer ineficiente porque ela leva mais de uma hora para completar a tarefa e, após se vestir,
ela fica exausta fisicamente para realizar as tarefas de trabalho. Ou um cliente pode ser independente e seguro para se alimentar, mas se descobre que
seu  resultado  de  desempenho  é  inaceitável  quando  ele  deixa  cair  alimento  em  suas  roupas  em  todas  as  refeições.  Se  um  instrumento  de  avaliação
mensura apenas a independência e a segurança, será difícil justificar o tratamento em qualquer um dos exemplos anteriores porque ambos os clientes
foram  considerados  seguros  e  independentes.  No  entanto,  existem  problemas  do  desempenho  ocupacional,  em  ambos  os  casos,  que  poderiam  ser
efetivamente abordados pelo tratamento, isto é, redução do tempo necessário para completar o ato de vestir a parte inferior do corpo ou redução da
quantidade  de  alimento  derramado  sobre  as  roupas  durante  a  alimentação.  Os  parâmetros  de  adequação  que  merecem  consideração  no  contexto  do
desempenho  de  AVD  e  AIVD  incluem  dificuldade  percebida,  dor,  fadiga,  dispneia,  padrões  sociais,  satisfação,  comportamentos  aberrantes  e  a
experiência pregressa com a atividade. As opções específicas para mensurar os parâmetros de adequação são descritas no Capítulo 46. Os profissionais
precisam ter em mente que a independência pode não ser o único parâmetro de desempenho importante na avaliação de terapia ocupacional.

Etapa 4: Estimar os Fatores do Cliente que Afetam as AVD/AIVD e o Processo de Avaliação
Uma  finalidade  da  avaliação  de  AVD/AIVD  consiste  em  fornecer  uma  visão  sobre  os  problemas  subjacentes  aos  déficits  ocupacionais.  Entretanto,
algumas estimativas desses déficits antes da avaliação podem ajudar o terapeuta ocupacional a selecionar os instrumentos de avaliação que serão mais
efetivos para identificação e documentação dos problemas de desempenho ocupacional e dos déficits subjacentes. Os terapeutas ocupacionais utilizam
seu conhecimento sobre a patologia e como ela afeta o desempenho ocupacional quando selecionam os instrumentos de avaliação. Por exemplo, alguns
instrumentos fundamentam­se no autorrelato, que é uma maneira muito eficiente de coletar informações sobre uma variedade de atividades. Porém, se
o cliente apresenta déficits cognitivos significativos (p. ex., uma pessoa com a doença de Alzheimer), distorção das funções de raciocínio (p. ex., uma
pessoa com esquizofrenia) ou pouca experiência com o distúrbio (p. ex., um adolescente que sofreu uma lesão da medula espinhal com tetraplegia há
apenas  cinco  dias),  as  medidas  autorrelatadas  poderiam  ser  inexatas.  Para  muitos  tipos  de  déficits,  a  compreensão  dos  problemas  subjacentes  dos
clientes será melhorada ao se observar o cliente tentando realizar as tarefas em vez de se fundamentar em uma descrição do problema. Por exemplo,
um cliente que sofreu um acidente vascular cerebral poderia relatar que é incapaz de pegar objetos ou itens guardados em uma altura superior ao nível
do tórax com sua mão afetada, mas o terapeuta ocupacional pode obter as informações adicionais necessárias para o tratamento ao observar o cliente
enquanto  ele  tenta  alcançar  objetos  para  observar  pistas  sobre  se  o  problema  de  movimento  decorre  de  limitações  no  movimento  da  escápula,  da
articulação  glenoumeral  ou  do  cotovelo,  ou  de  alguma  combinação  dos  três.  O  conhecimento  da  patologia  subjacente  e  dos  comprometimentos
esperados também capacita os terapeutas ocupacionais a selecionarem os instrumentos de avaliação apropriados que se destinam a grupos diagnósticos
específicos, focando­se em atividades que são mais comumente afetadas naquela população. Por exemplo, a Escala de Medição de Impacto da Artrite
foi  desenvolvida  para  adultos  com  doenças  reumáticas  e  inclui  não  somente  as  medidas  de  desempenho  de  AVD  e  AIVD,  mas  também  sintomas
comumente experimentados por pessoas com artrite durante ou após atividades, como dor e fadiga (Meenan, Mason, Anderson, Guccione & Kazis,
1992).

Etapa 5: Identificar os Aspectos Contextuais que Afetam a Avaliação
Nessa etapa, o terapeuta ocupacional considera o contexto do tratamento e seu impacto sobre a avaliação das AVD e AIVD. Estes incluem contexto
físico, contexto social, segurança, experiência do cliente, restrições de tempo, treinamento e experiência do profissional, disponibilidade dos recursos e
exigências da instituição ou da fonte pagadora.

CONTEXTO  FÍSICO.  Os  profissionais  podem  observar  o  desempenho  da  atividade  sob  condições  naturais  ou  clínicas.  Sob  condições  naturais,  o
desempenho é observado no contexto em que ele comumente acontece ou se espera que ocorra, incluindo a localização (p. ex., residência), os objetos
usualmente  utilizados  para  as  atividades  (p.  ex.,  banheira,  sabão)  e  o  momento  rotineiro  em  que  as  atividades  ocorrem,  quando  possível.  Estas
condições, que com frequência podem ser atendidas nos ambientes de cuidados de longo prazo e no cuidado domiciliar, fornecem a avaliação mais
exata do desempenho dos clientes (Rogers et al., 2003). Quando os clientes são observados no hospital ou em clínicas ambulatoriais, a observação do
desempenho  da  atividade  acontece  sob  condições  clínicas.  Independente  de  onde  aconteça  a  avaliação,  a  influência  do  contexto  físico  sobre  o
desempenho da atividade deve ser levada em consideração, de modo que possam ser obtidas conclusões válidas sobre o desempenho. As clínicas de
terapia  ocupacional  destinam­se  a  promover  a  função  e  têm  inúmeros  aspectos  de  adaptação  para  compensar  os  comprometimentos.  Esses  aspectos
podem tornar mais fácil para os clientes a realização das atividades na clínica do que em suas próprias casas. Em contrapartida, o desempenho pode ser
mais difícil em algumas tarefas porque os clientes não estão familiarizados com o ambiente da clínica. Quando uma avaliação é realizada em casa, os
clientes  têm  a  vantagem  de  utilizar  seus  próprios  objetos  durante  a  atividade  nos  limites  da  arquitetura  familiar.  A  pesquisa  nessa  área  é  limitada,
porém demonstra um impacto variável do contexto sobre o desempenho. Por exemplo, Brown, Moore, Hemman e Yunek (1996) descobriram que os
clientes com doença mental desempenhavam, de maneira semelhante, a tarefa de compra simulada na clínica e a tarefa de compra real em uma loja,
enquanto Park, Fisher e Velozo (1994) demonstraram que as habilidades de processamento de idosos durante as AIVD eram melhores em suas casas do
que nos ambientes de clínica. Mais pesquisa se faz necessária para identificar as relações entre os diferentes tipos de comprometimentos do cliente e os
diferentes contextos de avaliação.

CONTEXTO SOCIAL. A avaliação de terapia ocupacional também acontece no contexto social. Os profissionais precisam supervisionar o desempenho
da atividade durante a avaliação, e sua presença pode afetar a maneira e a adequação das atividades realizadas. A presença do profissional modifica
especialmente a capacidade do cliente de iniciar a participação nas AVD ou AIVD, pois a estrutura do próprio processo de avaliação leva os clientes a
se  engajarem  nas  tarefas.  Se  a  iniciação  do  desempenho  da  tarefa  se  mostra  comprometida,  o  profissional  precisa  complementar  as  medidas  de
desempenho com uma sessão estruturada de terapia. Por exemplo, a Escala de Vida Independente inclui uma subescala para a iniciação (Ashley, Persel
&  Clark,  2001).  De  maneira  alternativa,  os  familiares  poderiam  ser  solicitados  a  manter  um  registro  do  número  de  dias  que  o  cliente  realizou  as
responsabilidades  de  cuidar  dos  animais  de  estimação  sem  ser  solicitado,  por  exemplo.  O  desempenho  ocupacional  dos  clientes  também  pode  ser
comprometido ou melhorado no ambiente natural em comparação com a clínica, dependendo de suas necessidades e das diferenças de contexto social
nos ambientes clínico e natural. Por exemplo, um cliente com lesão raquimedular que precisa ser capaz de dar orientações ao cuidador durante as AVD
pode  dar  orientações  efetivas  a  um  cuidador  com  experiência  em  cuidar  de  pessoas  com  necessidades  semelhantes,  mas  não  orientações
suficientemente detalhadas a um empregado doméstico que não tem essa experiência. Em contrapartida, uma cliente que precisa de organização prévia
para se alimentar será mais independente em casa do que na clínica se vive em uma família onde as refeições são rotineiramente servidas para toda a
família por um parente que faz toda a preparação do alimento.

SEGURANÇA.  Os  terapeutas  ocupacionais  precisam  avaliar  os  riscos  associados  às  AVD  ou  AIVD  identificadas  como  prioridades  pelos  clientes  e
podem precisar adiar a avaliação de uma tarefa que eles acreditam que poderia ser insegura. A identificação do risco potencial em uma determinada
medida  baseia­se  na  experiência  dos  terapeutas  ocupacionais  em  determinar  as  demandas  da  atividade  combinadas  à  estimativa  dos  problemas  do
cliente, apresentados na etapa 4. Por exemplo, uma cliente que sofreu um acidente vascular cerebral recente, resultando em pouco equilíbrio ao sentar,
poderia identificar o ato de tomar banho de chuveiro como uma meta importante; no entanto, colocar a cliente na cadeira de banho dentro do boxe em
um ambiente molhado e escorregadio para a avaliação poderia ser inseguro, diante do nível de assistência de que ela precisa para manter o equilíbrio
logo após o acidente vascular cerebral. Em vez disso, o terapeuta ocupacional poderia sugerir começar com uma avaliação das habilidades para tomar
banho que podem ser completadas na beira do leito e adiar a avaliação no boxe até que o equilíbrio na posição sentada melhore.

A EXPERIÊNCIA DO CLIENTE. Os clientes se apresentarão com experiência variada em termos de AVD e AIVD de acordo com o contexto pessoal.
Tipicamente,  a  prática  de  AVD  inicia  na  infância,  e  a  expectativa  da  sociedade  é  que  os  adolescentes  e  os  adultos  tenham  uma  ampla  gama  de
experiências com essas atividades e possam realizá­las da maneira adequada. No entanto, uma expectativa semelhante não se relaciona com as AIVD,
para as quais as pessoas têm mais opções. Por conseguinte, os clientes poderiam não ter desenvolvido proficiência em todas as atividades das AIVD.
Alguns podem não ter experiência no planejamento e preparo de refeições, nas atividades de lavanderia ou no controle financeiro. As crianças com
incapacidades  de  desenvolvimento  frequentemente  experimentam  atrasos  na  aquisição  de  habilidades  de  AVD  e  AIVD,  podendo  não  dispor  da
experiência  que  uma  criança  com  desenvolvimento  típico  teria  em  uma  determinada  idade.  A  história  de  desempenho  de  atividade  dos  clientes  é
essencial para a compreensão de seu nível de desempenho atual. Uma limitação da atividade é interpretada de maneira diferente para um cliente que
não teve experiência prévia ou teve pouca experiência na realização da atividade do que para aquele que costumava realizá­la no período anterior à
condição.

RESTRIÇÕES DE TEMPO. O tempo disponibilizado para o tratamento de terapia ocupacional é, com frequência, limitado por inúmeros fatores, como
as políticas de reembolso, de modo que o processo de avaliação precisa ser conduzido de maneira eficiente. Para os clientes com uma longa lista de
metas de AVD e AIVD, pode ser necessária a seleção das principais atividades para que o tratamento destinado a melhorar o desempenho ocupacional
possa  ser  iniciado  no  momento  adequado.  À  medida  que  as  metas  são  alcançadas,  avaliações  adicionais  podem  ser  realizadas  para  documentar  o
desempenho inicial de outras AVD ou AIVD e para justificar metas e tratamentos adicionais de terapia ocupacional.

O TREINAMENTO E A EXPERIÊNCIA DO  PROFISSIONAL  DE  TERAPIA  OCUPACIONAL.  A  experiência  de  um  profissional  de  terapia  ocupacional
também pode afetar a seleção dos instrumentos de avaliação. A familiaridade com um instrumento pode aumentar a eficiência do uso e a eficácia da
interpretação  dos  resultados  da  avaliação.  Alguns  instrumentos  de  avaliação  exigem  treinamento  especializado  e,  por  isso,  não  são  opções  para
terapeutas  sem  treinamento.  Por  exemplo,  a  Avaliação  das  Habilidades  Motoras  e  de  Processo  (Assessment  of  Motor  and  Process  Skills  –  AMPS)
(Fisher, 2006a, 2006b) fundamenta­se em um programa de computador que somente pode ser acessado por profissionais que realizaram o curso de
treinamento e o processo de calibração (Gitlin, 2005).

DISPONIBILIDADE  DOS  RECURSOS.  Os  materiais  necessários  para  as  avaliações  de  AVD  e  AIVD  variam,  e  o  terapeuta  ocupacional  precisa  se
certificar de que os materiais necessários estejam disponíveis. Realizar uma avaliação para cozinhar utilizando a receita de biscoito preferida de uma
cliente pode ser excelente para examinar o desempenho desta cliente mas, por causa da logística e do custo da procura dos ingredientes, é provável que
esta atividade não seja prática para um profissional de terapia ocupacional em um ambiente hospitalar, enquanto um cliente observado em atendimento
domiciliar  pode  ter  os  recursos  necessários  disponíveis  em  casa.  Algumas  medidas  exigem  conjuntos  especiais  de  teste  que  podem  ser  caros  e  as
instituições podem dispor apenas de alguns desses conjuntos para uso.

EXIGÊNCIAS  DAS  INSTITUIÇÕES  OU  DAS  FONTES  PAGADORAS.  Muitas  instituições  ou  fontes  pagadoras  adotam  formas  ou  procedimentos  de
avaliação  que  devem  ser  aplicados  a  todos  os  clientes.  Por  exemplo,  as  instituições  de  reabilitação  precisam  utilizar  o  Instrumento  de  Avaliação
Paciente­Instituições  de  Reabilitação  em  Internação  (Inpatient  Rehabilitation  Facilitics  –  Patient  Assessment  Instrument,  IRF­PAI),  o  qual  inclui  a
Medida de Independência Funcional (Functional Independence Measure – FIMTM) para mensurar as AVD (U.B. Foundation Activities, 2004). Se a
descrição  da  AVD  selecionada  pelo  cliente  difere  daquela  da  FIMTM,  ou  se  o  cliente  gostaria  de  abordar  parâmetros  de  adequação,  além  da
independência e da segurança, então o terapeuta ocupacional precisa utilizar uma medida suplementar, uma vez que o registro dos escores da FIMTM é
obrigatório.

Etapa 6: Considerar Aspectos dos Instrumentos de Avaliação
O  terapeuta  ocupacional  precisa  estar  familiarizado  com  as  avaliações  disponíveis  e  considerar  quais  tarefas  estão  incluídas  na  avaliação,  como  as
tarefas são definidas, as propriedades psicométricas, o tipo de dados a serem coletados e o método de coleta de dados.
TAREFAS  AVALIADAS.  As  tarefas  incluídas  em  uma  avaliação  de  AVD  ou  AIVD  precisam  ser  compatíveis  com  as  prioridades  dos  clientes,  e  a
definição operacional de desempenho efetivo deve adequar­se às necessidades dos clientes e abordar todos os parâmetros importantes. Por exemplo,
muitos instrumentos de avaliação quantificam a independência mas, se os clientes também gostariam de realizar as tarefas de maneira independente
sem falta de ar ou dor, os terapeutas ocupacionais poderiam utilizar uma escala de dispneia ou dor em conjunto com a medida da independência.

AVALIAÇÕES PADRONIZADAS VERSUS NÃO PADRONIZADAS. Algumas avaliações não são padronizadas; isto é, cada terapeuta idealiza a avaliação
e decide o tipo de informação a obter, ou os profissionais em uma clínica podem desenvolver seu próprio instrumento de avaliação. As avaliações não
padronizadas não são testadas quanto às propriedades psicométricas, como a confiabilidade, a validade ou a sensibilidade para a mudança na condição
do cliente (Lorch & Herge, 2007). As avaliações padronizadas fundamentam­se em uma conduta uniforme e bem­descrita. Há muita variação quanto
ao estabelecimento das propriedades psicométricas das avaliações padronizadas. Algumas avaliações foram extensivamente estudadas e incluem uma
ampla gama de estatísticas psicométricas de suporte à confiabilidade e à validade do instrumento. As propriedades psicométricas dos instrumentos de
teste podem estar publicadas no manual do teste ou nos periódicos profissionais, como o American Journal of Occupational Therapy (AJOT). Quando
possível, é melhor utilizar uma avaliação com propriedades psicométricas estabelecidas (Lorch & Herge, 2007).
Existem  diferentes  tipos  de  avaliações  padronizadas,  incluindo  testes  referenciados  por  norma  e  testes  referenciados  por  critério.  Os  tipos  de
avaliações são descritos em maiores detalhes no Capítulo 47. A finalidade do teste referenciado por norma é comparar o desempenho de um cliente em
um teste ao de outras pessoas no mesmo teste (Benson & Schell, 1997). As avaliações de AVD e AIVD não são, em geral, testes referenciados por
norma,  os  quais  costumam  ser  utilizados  para  avaliar  os  níveis  de  desenvolvimento,  habilidades  de  desempenho  ou  fatores  dos  clientes,  como  a
percepção visual, a força de garra ou a coordenação. Comumente, as avaliações de AVD e AIVD são baseadas em critério, isto é, testes que comparam
o  desempenho  de  um  cliente  a  um  padrão  de  desempenho  (Benson  &  Schell,  1997).  Os  testes  referenciados  por  critério  ressaltam  o  domínio  da
atividade e abordam questões como “Os clientes conseguem realizar todas as atividades ou buscar os serviços necessários para viver na comunidade
com  independência?”  Com  frequência,  os  testes  referenciados  por  critério  incorporam  análises  de  atividade,  sendo  o  grau  de  estruturação  exigido
destes testes geralmente mais flexível do que o dos testes referenciados por norma, possibilitando que os terapeutas modelem adequadamente os testes.
Por exemplo, uma avaliação do ato de se vestir é comumente realizada com as roupas que o cliente necessita e deseja utilizar, e que podem ter impacto
sobre o desempenho. Quando um paciente precisa ser capaz de controlar o ato de abotoar a roupa, este deve ser incorporado à avaliação, por medida,
mesmo  que  seja  difícil  para  o  paciente;  no  entanto,  se  o  paciente  não  utiliza  roupas  com  botões  há  muitos  anos,  não  há  motivo  para  avaliar  a
capacidade de abotoar.

DADOS DESCRITIVOS VERSUS QUANTITATIVOS. Algumas avaliações não padronizadas utilizam uma abordagem descritiva, isto é, as características
principais  de  desempenho  da  atividade  pelo  cliente  são  observadas  ou  obtidas  por  meio  de  descrições  do  cliente  ou  do  cuidador.  A  condição  dos
clientes  é  registrada  apenas  pela  descrição  de  seu  desempenho.  As  medidas  quantitativas  de  AVD  e  AIVD  utilizam  uma  escala  que  converte  o
comportamento  observado  ou  relatado  em  um  número.  Medidas  quantitativas  padronizadas  incluem  instruções  para  a  pessoa  que  está  realizando  a
avaliação, o que torna a avaliação mais confiável quando o instrumento é empregado para reavaliação ou quando existem muitos terapeutas em uma
instituição. Por exemplo, o termo assistência moderada poderia ser interpretado de inúmeras maneiras, mas se é especificamente descrito como “O
paciente  requer  mais  ajuda  que  o  toque,  ou  gasta  entre  50  e  74%  do  esforço”  (U.B.  Foundation,  2004,  p.  III­7),  é  provável  que  exista  maior
concordância entre os terapeutas que utilizam o instrumento. A redução do comportamento observado a um número também o torna eficiente para o
registro  dos  dados  na  documentação.  No  entanto,  a  falta  de  dados  descritivos  pode  dificultar  a  compreensão  clara  do  leitor  sobre  as  limitações  do
cliente. Com frequência, a documentação inclui dados de avaliação quantitativa que são acompanhados de alguns dados descritivos para fornecer um
quadro mais abrangente do desempenho do cliente. Um breve estudo de caso, apresentado na Tabela 48.1, compara os dados descritivos e quantitativos
de dois casos.
É  possível  a  utilização  dos  dados  descritivos  para  documentar  a  condição  inicial  de  um  cliente,  o  que  é  necessário  para  determinar  se  houve
progresso  ou  não  no  tratamento;  no  entanto,  isso  pode  ser  difícil  e  consome  tempo.  Por  exemplo,  se  o  terapeuta  ocupacional  de  Melinda  e  David
precisasse documentar a condição de todas as AVD e AIVD como na Tabela 48.1, o relato da avaliação levaria muito tempo para escrito e lido. Além
disso, o profissional de terapia ocupacional que faz o registro de dados descritivos deveria ser criterioso para conseguir diferenciar entre observações e
julgamentos  clínicos  (interpretações  subjetivas  das  observações).  As  declarações  listadas  na  Tabela  48.1  são  observações.  Uma  declaração  de
julgamento clínico é interpretativa, e várias interpretações plausíveis podem ser feitas a partir de mais observações objetivas. Por exemplo, o terapeuta
ocupacional  poderia  concluir  que  David  apresenta  fraqueza  na  musculatura  do  tronco,  o  que  interfere  no  equilíbrio.  Esta  conclusão  deve  ser
apresentada como uma hipótese, não como uma observação, porque a incapacidade de David de manter o equilíbrio enquanto se veste poderia decorrer
de outros fatores, como redução de estímulos proprioceptivos e vestibulares, o que interfere em sua capacidade de detectar quando ele está pendendo
para um lado.
TABELA 48.1 COMPARAÇÃO DOS DADOS DESCRITIVOS E QUANTITATIVOS A PARTIR DE UMA AVALIAÇÃO DO ATO DE SE VESTIR DE
DUAS CRIANÇAS
Descrição do Melinda é uma criança de 8 anos de idade que sofreu uma David é uma criança de 8 anos de idade com paralisia cerebral que
Cliente lesão cerebral traumática. Antes de sua lesão, ela era afeta o lado direito de seu corpo. Sua mãe o vinha vestindo
uma criança com desenvolvimento típico que se vestia de desde antes desta avaliação.
maneira independente.
Dados Movimentos  bem­coordenados  e  suaves  de  ambos  os Começou por colocar o braço esquerdo (mais forte) na manga
Descritivos membros superiores quando manipula as roupas. da  camisa.  Respondeu  imediatamente  ao  indício  verbal  para
Manutenção  da  postura  adequada  (não  sustentada, vestir o lado direito do corpo em primeiro lugar.
sentada no leito) para a tarefa. Oscilação  do  tronco  quando  ambos  os  membros  superiores
Capaz  de  alcançar  todas  as  áreas  de  seu  corpo estavam  sendo  utilizados  para  posicionar  a  camisa.  O
(alcança atrás, por sobre a cabeça e até os pés) sem terapeuta  equilibrou  o  tronco  de  David  para  evitar  que  ele
perda do equilíbrio ou qualquer instabilidade aparente caísse  para  a  frente  quando  puxou  a  camisa  sobre  suas
na manutenção de sua posição no leito. costas.  Ele  não  podia  levar  a  camisa  longe  o  suficiente  para
Parou  frequentemente  no  meio  da  tarefa  para alcançar  a  manga  e  o  terapeuta  moveu  a  camisa  de  modo
expressar  verbalmente  os  pensamentos  para  o que  ele  pudesse  alcançá­la  com  o  membro  superior
terapeuta ocupacional, o que era desagregador e difícil esquerdo.
de acompanhar. Os movimentos do membro superior esquerdo foram suaves e
Fez  repetidas  tentativas  (total  de  5)  para  enfiar  seu bem­coordenados quando manipulava as roupas e os fechos.
braço  esquerdo  na  manga  que  estava  invertida,  sem Os movimentos do membro superior direito foram mais lentos
tentativas  para  corrigir  a  orientação  da  roupa.  Não e ineficazes para as tarefas finas, como abotoar. Foram feitas
respondeu  às  orientações  verbais  para  colocar  a várias  tentativas  para  completar  o  abotoamento  de  três
manga  na  posição  correta.  O  profissional  inverteu  a botões,  e  o  terapeuta  ocupacional  precisou  abotoar  os  três
manga  para  Melinda  depois  de  três  tentativas  de botões superiores.
fornecer pistas verbais e de fazer gestos com relação Vestir  a  parte  superior  do  corpo  exigiu  25  minutos  e  David
à manga. relatou  que  se  sentiu  “bastante  cansado”  no  final  da  sessão.
Melinda  deixou  a  tarefa  de  se  vestir  para  ir  olhar  pela Durante  toda  a  sessão,  David  trabalhou  consistentemente,
janela  quando  ouviu  um  avião  passar  por  sobre  a mesmo  quando  seu  irmão  menor  entrou  e  saiu  correndo
cabeça  e  continuou  a  falar  sobre  o  avião  quando várias vezes do quarto.
solicitada pelo terapeuta a retornar para a tarefa de se David  seguiu  as  instruções  de  maneira  consistente  e  fez
vestir. quatro  ou  cinco  tentativas  de  ajudar  a  resolver  os  problemas
Melinda  voltou  à  tarefa  quando  o  terapeuta  a  guiou que encontrava ao longo do caminho, por exemplo, sugerindo
fisicamente até o leito e colocou um de seus braços na que usasse camiseta que não possuía botões.
manga.  Então,  Melinda  completou  a  colocação  da Quando  perguntado  ao  término  da  sessão  qual  braço  ele
blusa no outro braço sem assistência física ou indícios. vestiria  em  primeiro  lugar  quando  tentasse  executar  a  tarefa
Quando  solicitada  a  abotoar  sua  blusa,  Melinda no dia seguinte, David respondeu, “Meu braço direito”.
completou  dois  dos  seis  botões  que  ficaram
desalinhados.  Quando  perguntada  se  a  blusa  estava
bem abotoada, ela olhou para si própria e falou, “Estou
perfeita”,  em  seguida  saiu  do  quarto  dizendo  que
queria ir para a sala de televisão.
Dados Vestir a Parte Superior do Corpo = 4 Vestir a Parte Superior do Corpo = 4
Quantitativos
Baseados no
Wee FIMTM

Os métodos quantitativos são uma maneira mais eficiente de documentar o progresso, embora não possam fornecer informações adequadas ao leitor.
Por  exemplo,  embora  Melinda  e  David  tenham  o  mesmo  escore  quantitativo  na  Wee  FIMTM,  as  informações  descritivas  permitem  que  os  leitores
verifiquem  que  existem  problemas  subjacentes  distintos.  Os  terapeutas  ocupacionais  podem  registrar  alguns  dados  descritivos  importantes  para
fundamentar sua avaliação e seu programa de tratamento, mas a maioria das observações descritivas é utilizada pelos terapeutas apenas para planejar o
tratamento, enquanto os dados quantitativos são registrados na documentação. Muitas escalas quantitativas de AVD estão disponíveis, porém pode ser
difícil para os terapeutas ocupacionais encontrar medidas padronizadas para algumas AIVD, de modo que a abordagem descritiva também representa
uma opção razoável para a avaliação das tarefas selecionadas para as quais não existam medidas quantitativas.

DESEMPENHO  RELATADO  VERSUS  OBSERVADO.  Os  dados  sobre  o  desempenho  em  AVD  e  AIVD  podem  ser  obtidos  por  relato  ou  por  meio  da
observação direta. Os dados relatados sobre as capacidades e as limitações do cliente no desempenho podem ser obtidos junto ao cliente, ao cuidador
e/ou a outro profissional de saúde. O terapeuta ocupacional identifica problemas de desempenho de AVD e AIVD. O método de questionamento pode
ser  aplicado  em  um  formato  oral  ou  escrito,  com  uso  de  entrevistas  ou  de  questionários,  respectivamente.  Embora  o  questionamento  seja
frequentemente realizado frente a frente, ambos os formatos podem ser usados sem a interação física. As entrevistas podem ser feitas por telefone. Os
questionários podem ser preenchidos enquanto o cliente está aguardando uma consulta ou podem ser enviados por correio antes de um atendimento. A
obtenção de dados por meio de um relato pode ser feita de maneira informal, ou seja, o profissional desenvolve as perguntas a serem formuladas e os
dados são obtidos, ou pelo uso de um instrumento padronizado, como a MCDO (Law et al., 2005), a Autoavaliação Ocupacional (Baron, Kielhofner,
Iyenger,  Goldhammer  &  Wolenski,  2002)  ou  a  Autoavaliação  Ocupacional  Infantil  (Federico  &  Kielhofner,  2002).  Embora  o  autorrelato  seja  uma
maneira eficiente para quantificar as AVD e AIVD, nem sempre é compatível com o desempenho real (Brown et al., 1996; Hilton, Fricke & Unsworth,
2001; Rogers et al., 2003), e o terapeuta ocupacional deve realmente escolher medidas baseadas no desempenho quando está em questão a acurácia do
cliente.
Em algumas situações, os clientes poderiam não ser capazes de responder por si próprios. Por exemplo, eles podem estar fisicamente muito doentes
ou deprimidos para participar do questionamento, ou podem não ter consciência de seus problemas por causa de déficits cognitivos. Nessas situações,
os cuidadores ou outros procuradores podem ser solicitados a responder no lugar dos clientes. A utilidade da informação obtida a partir de cuidadores
ou de procuradores depende de sua familiaridade com as AVD e AIVD dos clientes. Por exemplo, se o cuidador ou procurador não observou realmente
um cliente tomando banho ou não faz isto há algum tempo, a informação que esta pessoa fornece sobre o ato de tomar banho pode basear­se mais na
opinião  do  que  no  conhecimento  concreto  do  desempenho.  Além  disso,  existem  tendências  conhecidas  nas  capacidades  de  relato  de  cuidadores  e
procuradores. Os procuradores familiares estão propensos a perceber os clientes como mais incapacitados do que estes se percebem e de perceber os
clientes  como  mais  incapacitados  do  que  o  fazem  os  cuidadores  profissionais  (Rubenstein,  Schairer,  Wieland  &  Kane,  1984).  Os  cuidadores  e  os
procuradores  podem  observar  parâmetros  de  evolução,  como  independência,  segurança  e  comportamentos  aberrantes  na  atividade.  Para  alguns
parâmetros de avaliação, no entanto, os clientes são os únicos respondedores apropriados. Por exemplo, valores, satisfação com o desempenho e dor
relacionada à atividade são subjetivos, e é difícil a observação dos índices desses parâmetros por outras pessoas.
As medidas que se fundamentam no autorrelato ou no relato do cuidador são particularmente úteis para a triagem de limitações da atividade porque
um grande número de atividades pode ser avaliado em curto intervalo de tempo. O questionamento também é o método de escolha para a obtenção de
dados quando são necessárias informações a respeito dos hábitos de vida diária – isto é, sobre o que os clientes fazem diariamente – ou para aprender
sobre a experiência dos clientes em AVD e AIVD. No entanto, o relato é menos útil na avaliação das limitações para fins de tratamento porque os
clientes podem não ser capazes de descrever suas limitações com detalhes suficientes para demonstrar os componentes das atividades que apresentam
problemas.
Os dados de avaliação também podem ser obtidos por meio da observação direta das AVD e AIVD, o que fornece ao profissional mais informações
sobre como o cliente realiza uma tarefa. Contudo, a observação do desempenho exige mais tempo e recursos materiais e, por isso, é mais dispendiosa.
A observação direta do desempenho também pode ser realizada de uma maneira não padronizada ou por meio do uso de uma avaliação padronizada.
As restrições dos ambientes de prática, frequentemente impostas pelas fontes pagadoras ou por financiamento limitado, podem impor restrições sobre o
tempo  que  um  terapeuta  ocupacional  tem  disponível  para  a  avaliação.  Os  terapeutas  ocupacionais  precisam  ser  estratégicos  para  selecionar  as
avaliações de AVD e AIVD que fornecerão informações relevantes para o cliente e que possam ser generalizadas para outras tarefas, de modo que o
profissional não precise observar todas as AVD e AIVD significativas que podem ser abordadas no tratamento. Por exemplo, se um cliente necessita
assistência para cozinhar por causa da incapacidade de transportar alimentos e equipamentos de cozinha com segurança, enquanto utiliza um andador,
o  terapeuta  ocupacional  pode  projetar  de  maneira  razoável,  sem  precisar  observar  o  desempenho,  que  o  mesmo  cliente  precisará  de  assistência  ao
realizar atividades de lavanderia, já que as atividades de lavanderia também exigem o transporte dos objetos da tarefa.
As avaliações padronizadas de AVD e AIVD selecionadas estão listadas na Tabela 48.2. As avaliações de AVD na Tabela 48.2 estão disponíveis e
são  comumente  utilizadas  na  prática  (p.  ex.,  o  FIMTM)  ou  fornecem  uma  abordagem  única  para  a  avaliação.  Por  exemplo,  a  Escala  de  Vida
Independente mensura o início da tarefa (Ashley et al., 2001). Informação para o aprendizado do uso de cada instrumento também é fornecida. Os
instrumentos de AIVD selecionados incluem uma gama de atividades. Mais avaliações de AVD e AIVD podem ser encontradas nas fontes listadas no
Boxe 48.1.
TABELA 48.2 RESUMO DOS INSTRUMENTOS DE AVD E AIVD SELECIONADOS
Título Áreas Abordadas População Método/Classificação Aprendizado para Uso da Avaliação
Avaliação das 85 atividades de Crianças e adultos Entrevista para Necessário treinamento. O programa de computador
Habilidades de AVD e AIVD identificar duas ou para a pontuação e a preparação necessária do
Processo e controladas; três tarefas para examinador estão disponíveis apenas por meio do
Motoras cliente e testar o curso. As informações sobre o curso e a extensa lista
(Assessment of terapeuta desempenho; de referência estão disponíveis no AMPS Project
Motor and selecionam duas atividades International: http://www.ampsintl.com
Process Skills ou três para a classificadas em 16
– AMPS) avaliação habilidades motoras
(p. ex., estica­se,
levanta) e 20
habilidades de
processo (p. ex.,
inicia, procura);
utiliza uma escala
ordinal de quatro
pontos
Avaliação das 17 atividades Adultos com Combinação de O manual incluído no conjunto do teste descreve os
Habilidades de agrupadas em comprometi­ entrevista e procedimentos de testagem. O KELS pode ser
Vida de categorias: AVD, mentos desempenho; utiliza comprado na AOTA: www.aota.org
Kohlman segurança e cognitivos. uma escala ordinal
(Kohlman saúde, AIVD de três pontos.
Evaluation of selecionadas,
Living Skills – trabalho e lazer.
KELS) Tende a enfatizar
o componente de
conhecimento das
atividades.
Avaliação das 20 tarefas de AVD e Adultos com Triagem, baseada nas Informações sobre os procedimentos dos testes em
Habilidades de AIVD. problemas de informações sobre os Leonardelli (1988) e Haertlein (1999)
Vida Diária de saúde mental clientes, as famílias
Milwaukee crônicos. dos clientes, a
(Milwaukee equipe de cuidados
Evaluation of de saúde e o
Daily Living prontuário médico
Skills – para determinar os
MEDLS) itens a serem
examinados; no
exame, as atividades
são realizadas,
simuladas ou
descritas.
Avaliação de 26 tarefas, incluindo Adultos. Instrumento de Os procedimentos padronizados estão descritos no
Desempenho tarefas de AVD e observação baseado manual. O PASS está disponível junto à Dra. Margo
das AIVD de no desempenho, que Holm na University of Pittsburgh, School of Health and
Habilidades de gerenciamento fornece escores Rehabilitation Sciences, Pittsburgh, PA
Autocuidado domiciliar; resumidos da (mbholm@pitt.edu). O manual inclui instruções
(Performance existem diferentes independência na detalhadas e os usuários podem se organizar para ir
Assessment of protocolos para atividade, segurança até a University of Pittsburgh para estabelecer a
Self­Care Skills uso na casa do e adequação; confiabilidade interexaminador com usuários
– PASS) cliente e em uma emprega uma escala experientes do PASS.
clínica de terapia ordinal de quatro
ocupacional. pontos.
Avaliação do Sete AVD que são Adultos em Baseado no O protocolo descreve os procedimentos de
Autocuidado de compatíveis com instituições de desempenho. As administração padronizados. O formulário e o
Melville­Nelson o Conjunto Mínino enfermagem tarefas são protocolo estão disponíveis em
(Melville­ de Dados. especializada. classificadas em http://hsc.utoledo.edu/allh/ot/melville/sca.html
Nelson Self­ duas escalas: quanto
Care o cliente realiza e
Assessment) quanto/qual tipo de
assistência é
fornecido. As
classificações de
desempenho do
cliente são feitas por
subtarefas e sub­
subtarefas para
ajudar a planejar o
tratamento.
Avaliação dos 11 habilidades de Adultos Entrevista com Autoestudo utilizando referências publicadas, incluindo
Recursos e AIVD perguntas de Williams et al. (1991) e Hilton, Fricke & Unsworth
Habilidades de orientação; utiliza (2001).
Vida uma escala ordinal
(Assessment of de três pontos
Living Skills
and Resources
– ALSAR)
Conjunto de Oito tarefas de AVD Clientes em Os dados podem ser O Sistema de Avaliação e Melhoria de Qualidade do
Informações de e oito tarefas de atendimento obtidos por vários Cuidado de Saúde (QIES) dispõe de manuais e guias
Avaliação e AIVD domiciliar. métodos de autoajuda em:
Resultado (observação, relato https://www.qtso.com/mdsdownload.html#RAI
(Outcome and do cliente ou de As sessões de treinamento gravadas estão disponíveis
Assessment procurador); as em
Information Set classificações são https://www.yourvirtualconference.com/qiesclasses.php
– OASIS) diferenciadas pelas
características da
tarefa; a escala varia
de um item para
outro
Conjunto Mínimo 10 atividades de Residentes em Desempenho, O Sistema de Avaliação e Melhoria de Qualidade do
de Dados — tarefas de AVD. cuidados de longo determinado a partir Cuidado de Saúde (QIES) dispõe de manuais e guias
Seção G. prazo. de múltiplos de autoajuda em
Escala de profissionais de https://www.qtso.com/mdsdownload.html#RAI
Funcionamento saúde, durante todos As sessões de treinamento gravadas estão disponíveis
Físico e os plantões nos em
Problemas últimos sete dias; as https://www.yourvirtualconference.com/qiesclasses.php
Estruturais atividades são
(Minimum Data classificadas quanto
Set – MDS) ao autodesempenho
e quanto ao suporte
fornecido.
Escala de Vida Seis tarefas de AVD Adolescentes e Observação durante As instruções para o teste estão disponíveis em Ashley
Independente e 10 tarefas de adultos com lesão uma semana et al. (2001). O formulário ILS e as informações gerais
(Independent AIVD. Também cerebral (necessário para podem ser baixados gratuitamente em
Living Scale) classifica os traumática. mensurar os http://www.neuroskills.com/cns/ilsmenu.shtml. O artigo
comportamentos comportamentos de de Ashley et al. pode ser obtido por um pagamento
no contexto das iniciação e aberrante nominal.
tarefas, incluindo de tarefa). Os dados
os podem ser
comportamentos suplementados por
de iniciação e outros membros da
aberrante de equipe.
tarefa.
Inventário de AVD, incluindo Crianças de 6 Relato de médicos ou O manual inclui instruções detalhadas e casos para
Avaliação da mobilidade, meses a 7,5 anos educadores que praticar a pontuação do PEDI. As instruções de
Incapacidade função social. (ou mais, quando estejam prescrição podem ser encontradas em
Pediátrica Tem tarefas de existe atraso de familiarizados com a www.bu.edu/hdr/products/pedi/order.html
(Pediatric AIVD amplas desenvolvimento). criança ou por meio
Evaluation of (afazeres de entrevista com os
Disability domésticos e pais. O PEDI é um
Inventory – função na teste normatizado.
PEDI) comunidade).
Medida Atividades Crianças e adultos Autorrelato utilizando Treinamento autoguiado disponível por meio de manual
Canadense de classificadas em uma entrevista (Law et al., 2005) e de DVD ou vídeo da Canadian
Desempenho três áreas: semiestruturada; os Occupational Therapy Association: www.caot.org
Ocupacional autocuidado (AVD problemas
(Canadian e algumas AIVD), identificados pelo
Occupational produtiva cliente são
Performance (algumas AIVD e classificados quanto
Measure – trabalho) e de à importância (escala
COPM) lazer de 1­10); os cinco
problemas mais
importantes são
classificados quanto
ao desempenho e à
satisfação (também
escalas de 1­10).
Medida de 18 atividades: 13 Adolescentes e Observação por um Treinamento recomendado para a confiabilidade
Independência tarefas de AVD e adultos observador treinado; interexaminador. O treinamento é frequentemente
Funcional cinco tarefas utiliza uma escala fornecido pelo empregador. Também disponível no
(Functional envolvendo a ordinal de sete Uniform Data System for Medical Rehabilitation:
Independence comunicação e a pontos, graduando a http://www.udsmr.org/fim2_services.php
Measure – cognição social quantidade de
FIMTM) (sem tarefas de assistência
AIVD) necessária pelos
clientes para
completar a atividade
Wee FIMTM Mensura a Crianças de 6 Observação, entrevista Pelo menos 80% dos profissionais em instituições
severidade da meses a 7 anos. ou ambas; utiliza o subscritoras devem ser credenciados. O treinamento
incapacidade em mesmo sistema de pode ser fornecido pelo empregador ou por várias
relação ao classificação do outras opções de treinamento disponíveis por meio da
comprometimento FIMTM; os escores UDSMR. Informações sobre o treinamento em
físico nos variam de 18 http://www.usdmr.org/wee_training.php
ambientes de (dependência total) a
saúde, 126 (independência
desenvolvimento, completa).
educacional e
comunitário. Os
Módulos de 0­3
mensuram os
precursores da
função.

Etapa 7: Integrar as Informações das Etapas 1­6 para Selecionar os Instrumentos Ótimos de Avaliação de AVD e AIVD
Após  estabelecidos  o  objetivo  da  avaliação  e  as  prioridades  do  cliente  e  obtidas  algumas  informações  preliminares  sobre  o  cliente  e  aspectos
contextuais  relevantes,  podem  ser  selecionados  instrumentos  de  avaliação  centrados  no  cliente,  confiáveis  e  válidos,  que  resultem  em  dados
apropriados  e  sejam  possíveis  de  aplicar.  Os  terapeutas  ocupacionais  devem  engajar­se  na  melhor  prática  ao  considerar  a  evidência  em  relação  à
seleção e ao uso das medidas, por exemplo, a confiabilidade dos instrumentos e a validade para uma determinada situação clínica. As considerações
adicionais para a avaliação baseada em evidência são discutidas no boxe Comentário sobre as Evidências. Talvez a melhor estratégia para obtenção de
dados consista na utilização de uma combinação de métodos e recursos, fundamentando­se na convergência de dados para traçar o melhor perfil das
capacidades e limitações de atividade dos clientes.
Com  frequência,  é  mais  efetivo  começar  a  avaliação  com  uma  abordagem  de  questionamento  para  obter  um  perfil  global  das  capacidades  e
limitações do cliente, compreender as prioridades dos clientes e identificar as atividades que precisam de avaliação mais detalhada. O questionamento
é  seguido  de  avaliação  por  observação.  Se  as  avaliações  por  observação  levantam  questões  adicionais  sobre  as  capacidades  de  desempenho  de
atividade do cliente, o plano de avaliação pode ser modificado para a obtenção de mais dados ou dados diferentes.
O planejamento de uma avaliação efetiva de AVD e AIVD é mais bem ilustrada por um exemplo de caso, seguindo as etapas previamente descritas.

Aplicando a Avaliação: Coleta de Dados, Observação Crítica e Produção da Hipótese

Coleta de Dados e Observação Crítica
Uma vez os terapeutas ocupacionais tenham desenvolvido o plano de avaliação, eles precisam aplicá­lo. A seleção consciente e objetiva das avaliações
apropriadas, previamente descritas, é primordial para fazer com que a coleta de dados evolua suavemente. Algumas considerações adicionais sobre a
efetiva aplicação da avaliação merecem discussão. O profissional de terapia ocupacional que realiza a avaliação deve fazer o seguinte:

RECURSOS PARA AVALIAÇÕES DE AVD E AIVD

Asher, I. A. (2007). Occupational therapy assessment tools: An annotated index (3rd es.). Bethesda, MD: American Occupational Therapy
Association.
Bolton, B. F. (2001). Handbook of measurement and evaluation in rehabilitation (3rd ed.). Austin, TX: Pro­Ed.
Finch, E., Brooks, D., Stratford, P. W., & Mayo, N. E. (2002). Physical rehabilitation outcome measures (2nd ed.). Philadelphia: Lippincott Williams &
Wilkins.
Dittmar, S. S., & Gresham, G. E. (1997). Functional assessment and outcome measures for the rehabilitation health professional. Austin, TX: Pro­Ed.
Gallo, J., Reichel, W., & Andersen, L (2003). Handbook of geriatric assessment (3rd ed.). Boston: Jones & Bartlett.
Hemphill­Pearson, B. J. (Ed.). (2008). Assessments in occupational therapy mental health: An integrative approach (2nd ed.). Thorofare, NJ: Slack.
Kane, R. L, & Kane, R. A. (Eds.). (2000). Assessing older persons: Measures, meaning, and practical applications. Oxford, UK: Oxford University
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Law, M., King, C, Russell, D., Stewart, D., Hurley, P., & Bosch, E. (1999). All about outcomes: An educational program to help you understand,
evaluate, and choose pediatric outcome measures [software]. Thorofare, NJ: Slack.
Law, M., King, C, Russell, D., Stewart, D., Hurley, P., & Bosch, E. (2000). All about outcomes: An educational program to help you understand,
evaluate, and choose adult outcome measures [software]. Thorofare, NJ: Slack.
McColl, M. A., Carswell, A., Law, M., Pollock, N., Baptiste, S., & Polatajko, H. (2006). Research on the Canadian Occupational Performance Measure
(COPM): An annotated resource. Toronto, ON: CAOT Publications.
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Osterweil, D., Brummel­Smith, K., & Beck, J. C. (2000). Comprehensive geriatric assessment New York: McGraw­Hill.

Aplicando a Evidência na Prática por Meio do Uso de Medidas Padronizadas

A melhor prática na terapia ocupacional indica que as medidas padronizadas de AVD e AIVD devem ser utilizadas porque elas fornecem medidas
objetivas  que  são  tanto  confiáveis  como  válidas  (Dunn,  2005;  Fasoli,  2008;  Lorch  &  Herge,  2007).  As  medidas  confiáveis  possibilitam  que  os
profissionais  acreditem  que  as  diferenças  nos  escores  calculados  em  diferentes  momentos  representam  alterações  reais  na  condição  de  AVD  ou
AIVD  e  que  as  reavaliações  por  medida  aplicadas  por  outro  profissional  podem  ser  seguramente  comparadas  com  os  escores  anteriores  de  um
cliente (Fasoli, 2008). As fontes pagadoras também preferem uma documentação que descreva a condição do cliente e o progresso para alcançar as
metas  com  medidas  padronizadas.  Apesar  disso,  muitos  profissionais  continuam  a  basear­se  em  medidas  não  padronizadas  na  prática  clínica,
citando  frequentemente  as  restrições  de  tempo  como  uma  barreira  significativa  para  sua  utilização  (Lorch  &  Herge,  2007).  Entretanto,  muitas
avaliações padronizadas de AVD e AIVD não exigem muito tempo ou esforço adicional, se é que exigem algum, para serem realizadas, uma vez que
os  profissionais  estão  familiarizados  com  os  protocolos  de  mensuração  e  pontuação.  Por  exemplo,  os  profissionais  frequentemente  começam  sua
avaliação com uma entrevista para estabelecer um perfil ocupacional e as prioridades dos clientes (Radomski, 2008; Stewart, 2005). Os terapeutas
podem utilizar a Medida Canadense de Desempenho Ocupacional (MCDO) para obter os mesmos dados em período de tempo semelhante. A MCDO
fornece dados descritivos, do mesmo modo que uma entrevista informal, mas também inclui medidas quantitativas confiáveis e válidas da capacidade
de desempenho autorrelatada dos clientes e da satisfação em tarefas de desempenho ocupacional selecionadas pelo cliente (Law et al., 2005). Os
escores iniciais dos clientes na MCDO servem como uma medida inicial objetiva, e a reavaliação do progresso percebido pelos clientes pode ser feita
rapidamente, solicitando­se aos clientes que classifiquem novamente seus desempenho e satisfação em tarefas previamente classificadas. Os testes
padronizados que não exigem tempo adicional também podem ser selecionados quando os profissionais precisam observar o desempenho real dos
clientes.  Por  exemplo,  o  Desempenho  das  Habilidades  de  Autocuidado  (Performance  of  Self­Care  Skills  –  PASS)  utiliza  uma  abordagem
padronizada para avaliar inúmeras AVD e AIVD ao estruturar as observações dos principais elementos de uma tarefa, como varrer o cereal jogado
no chão pelo terapeuta, em vez de precisar observar o cliente varrer toda a cozinha (Holm & Rogers, 1999; Rogers & Holm, 1994). Os profissionais
precisam primeiro se familiarizar com o sistema de pontuação PASS mas, quando o profissional é experiente, a avaliação pode ser pontuada com
rapidez e fornece medidas de três parâmetros diferentes: independência, segurança e adequação. Qualquer um desses ou todos esses parâmetros
de desempenho podem ser rastreados e relatados para documentação do progresso dos clientes para alcançar as metas.
Muitas medidas padronizadas estão disponíveis para mensurar o desempenho em AVD (Letts & Bosch, 2005). Por que, então, muitos profissionais
continuam  a  utilizar  as  avaliações  informais  das  AVD  na  prática  clínica?  Uma  busca  na  literatura  fracassou  em  revelar  pesquisa  substancial  que
responda essa questão. Pesquisas precisam ser conduzidas para examinar as barreiras que interferem no uso das avaliações padronizadas de AVD
pelos profissionais da terapia ocupacional para melhorar a prática durante o processo de avaliação. Instrumentos de avaliação apropriados para as
AIVD são mais difíceis de encontrar. A avaliação padronizada das AIVD é mais desafiadora por causa da variabilidade e da complexidade das tarefas
de AIVD.
Uma  limitação  potencial  para  o  uso  de  avaliações  padronizadas  para  as  AIVD  é  que  muitas  avaliações  de  AIVD  que  examinam  uma  gama  de
tarefas de AIVD (em vez de uma única habilidade, como cozinhar) fundamentam­se no autorrelato ou no relato de procuradores; exemplos são as
Atividades  Estendidas  da  Vida  Diária  (Nouri  &  Lincoln,  1987),  a  MCDO  (Law  et  al.,  2005),  a  Avaliação  das  Habilidades  e  dos  Recursos  de  Vida
(Williams et al., 1991) e algumas partes da Avaliação das Habilidades de Vida de Kohlman (Kohlman Thomson, 1992). As limitações do uso do relato
do desempenho foram abordadas anteriormente neste capítulo. O desenvolvimento de avaliações de AIVD confiáveis e válidas que permitam que os
profissionais  de  terapia  ocupacional  mensurem  objetivamente  o  desempenho  observado  por  meio  de  múltiplas  tarefas  de  AIVD  aumentaria  a
capacidade dos profissionais de se engajarem na avaliação baseada em evidência.

ESTUDO DE CASO: Avaliação de um Cliente com Obesidade Mórbida e Insuficiência Respiratória

A sra. Howard é uma mulher de 59 anos com história de obesidade mórbida (ela tem 1,57 metro e 170 quilos). Ela foi internada em um hospital com
dificuldade  respiratória  secundária  à  reação  alérgica  a  um  medicamento  de  venda  não  controlada.  Em  consequência  disso,  ela  entrou  em  parada
respiratória  e  precisou  de  traqueostomia  e  ventilação  mecânica.  Ela  foi  desmamada  do  ventilador  seis  semanas  depois  e  colocada  sob  oxigênio
suplementar. Ela desenvolveu um pé equino à direita, secundário à compressão do nervo fibular ocorrida durante seu repouso prolongado no leito.
Depois  de  dois  meses  em  terapia  intensiva,  a  sra.  Howard  foi  transferida  para  um  hospital  de  reabilitação,  onde  participou  da  terapia  ocupacional
(TO) para treinamento de AVD e AIVD e fisioterapia (FT) para treinamento da mobilidade. Ela estava dependente em todas as áreas de AVD e AIVD
na  admissão  e  obteve  ganhos  consideráveis  de  função  antes  de  sua  alta  para  casa,  seis  meses  depois  de  sua  hospitalização  inicial.  Na  alta,  ela
percorria distâncias curtas (até 15 metros) de maneira independente com um andador com rodas e uma órtese no pé direito (a órtese foi fixada em
seu calçado). Ela tinha uma cadeira de rodas extragrande para saídas limitadas à comunidade (p. ex., consultas médicas), mas a cadeira não se
adequava à sua casa. Ela continuava a necessitar de oxigênio suplementar e era independente no cuidado e na aspiração da traqueostomia. A sra.
Howard foi encaminhada para cuidado domiciliar, incluindo enfermagem especializada, aconselhamento nutricional, auxiliar de cuidados domiciliares
de saúde (três dias por semana, duas horas por dia), FT e TO.

Perfil Ocupacional
A sra. Howard vivia com seu marido havia mais de 30 anos. Ele trabalhava em horário integral, mas era fisicamente capaz e desejava ajudar sua
esposa  quando  estava  em  casa.  O  sr.  e  a  sra.  Howard  tinham  dois  filhos  adultos  e  dois  netos  em  idade  escolar  que  viviam  na  região.  Antes  da
hospitalização,  a  Sra.  Howard  era  independente  nas  AVD  e  AIVD.  Ela  tinha  como  responsabilidades  principais  cozinhar,  executar  as  tarefas
domésticas  leves  e  cuidar  das  roupas.  Ela  trabalhava  20  horas  por  semana  em  uma  biblioteca  pública  local.  A  sra.  Howard  tinha  várias  amigas
próximas  que  ela  gostava  de  encontrar  para  almoçar  ou  fazer  compras,  principalmente  pechinchar  nos  mercados  populares.  Ela  e  seu  marido
também frequentavam com assiduidade os eventos esportivos de seus netos em uma cidade próxima. As considerações a seguir foram utilizadas
para selecionar as avaliações de AVD e AIVD apropriadas para a sra. Howard:

1. Identificar a finalidade geral da avaliação. A principal finalidade era planejar e monitorar o tratamento de terapia ocupacional, de modo que
os dados basais precisavam ser efetivos para determinar o progresso em relação às metas.
2. Fazer com que os clientes identifiquem necessidades, interesses e dificuldades percebidas nas AVD e/ou AIVD. A meta primária da
sra.  Howard  era  recuperar  sua  independência  nas  AVD,  AIVD  e  no  lazer.  Ela  identificou  as  AVD  e  AIVD,  inclusive  dirigir  veículos,  como
prioridades porque estava preocupada com o fato de ser um peso para seu marido. Ela relatou que suas maiores dificuldades eram com as AVD
na  parte  inferior  do  corpo  (ser  incapaz  de  alcançar)  e  com  todas  as  AIVD  (fadiga,  falta  de  ar,  mobilidade  e  alcance  limitados).  Ela  tinha
frequentes consultas médicas e vivia em uma área rural, e ela odiava depender dos outros para ir e vir às consultas.
3. Conhecer  melhor  as  atividades  relevantes  da  cliente  para  que  as  atividades  sejam  definidas  de  modo  operacional.  As  “atividades
problemáticas”  apresentadas  pela  sra.  Howard  foram  rapidamente  discutidas  para  obtenção  de  mais  detalhes.  As  AVD  eram  realizadas  da
maneira  habitual,  exceto  pelo  suporte  que  ela  utilizava  em  seu  pé  direito.  Ela  relatou  que  a  atividade  sexual  não  era,  no  momento,  uma
prioridade, mas que ela gostaria de abordá­la mais tarde, quando tivesse energia e independência suficientes nas AVD. As prioridades de AIVD
da sra. Howard incluíam o seguinte:
Transportar a roupa suja do quarto para a cozinha (lavadora com tampa superior) e até o varal para secar (sem secadora).
Preparar jantares completos, incluindo acessar refrigerador, forno, fogão, utensílios de cozinha, lavadora de pratos e a pia. Um exemplo de
jantar incluiria peixe, batatas cozidas, ervilhas cozidas no vapor e uma salada.
Dirigir veículos e entrar em sua minivan.
Acessar todas as áreas de sua casa térrea, exceto o porão (escritório para controle das finanças e uso do computador, armários de roupas
etc.).
Além disso, a sra. Howard relatou adequação de parâmetros, inclusive a capacidade de realizar AVD e AIVD de maneira adequada quanto ao
tempo e recuperação da capacidade de manter a atividade sem fadiga ou falta de ar.
4. Estimar  os  fatores  da  cliente  que  afetam  o  desempenho  ocupacional  e/ou  o  processo  de  avaliação.  Os  principais  problemas  que
limitavam a função da sra. Howard eram causados por sua obesidade, que limitava sua capacidade de alcançar objetos e de se mover, além de
provocar  fadiga  e  dispneia.  A  cognição  e  a  percepção  não  pareceram  ser  fatores  de  interferência  sobre  a  função  na  revisão  inicial  de  seus
registros de reabilitação e na entrevista inicial.
5. Identificar  os  aspectos  contextuais  que  afetam  a  avaliação.  Os  fatores  contextuais  que  apoiavam  o  processo  de  avaliação  incluíam  os
seguintes:
A avaliação aconteceu na casa da sra. Howard, proporcionando a vantagem de um ambiente natural.
Havia uma rampa de acesso ao interior da casa, permitindo acesso ao jardim e à rua.
A sra. Howard tinha anos de experiência com todas as tarefas que ela desejava retomar, o que daria suporte ao desempenho das tarefas.
Os aspectos contextuais que constituíam barreiras para o processo de avaliação incluíam os seguintes:
A desorganização da mobília da casa representava uma questão de segurança potencial.
A sra. Howard fazia uso de oxigênio com a unidade na cabeceira da cama e um tubo muito longo que se conectava à sua cânula nasal, de
modo que ela precisava controlar o tubo à medida que se movia pela casa.
A  avaliação  ocorreu  durante  a  semana,  e  a  terapeuta  ficou  sozinha  com  uma  cliente  cujo  peso  representava  um  problema  de  segurança
potencial para a terapeuta, que não dispunha de assistência para proteger a sra. Howard quando experimentasse uma nova tarefa.
A sra. Howard tinha um seguro de saúde que exigia que a avaliação da terapia ocupacional fosse realizada em uma visita.
6. Considerar os aspectos dos instrumentos de avaliação. Esta etapa está incluída na discussão da etapa 7.
7. Integrar as informações das etapas 1­6 para selecionar os instrumentos ótimos de avaliação de AVD e AIVD. O limite de tempo de uma
visita (aproximadamente 60­75 minutos) teve um impacto significativo sobre as avaliações selecionadas. A terapeuta ocupacional decidiu iniciar
com a MCDO de acordo com as seguintes considerações:
A MCDO tem propriedades psicométricas bem­estabelecidas e avalia tanto as AVD como as AIVD (Law et al., 2005).
A MCDO fundamenta­se no autorrelato, porém a sra. Howard estava cognitivamente intacta e tinha aprendido a viver com sua incapacidade
durante os últimos quatro meses. Uma vantagem do formato do autorrelato é que ele não produz qualquer risco à segurança. Por exemplo,
a terapeuta ocupacional obteve uma medida do desempenho inicial e da satisfação em andar de carro (incluindo entrar e sair) sem ter de
tentar a tarefa sozinha com a sra. Howard.
A sra. Howard indicou que sentia estresse por ser um peso para seu marido. A MCDO ajudou a sra. Howard e a terapeuta ocupacional a
priorizarem as AVD e AIVD que reduziriam a carga do cuidador.
A  MCDO  inclui  uma  medida  de  satisfação  que  reflete  parte  dos  parâmetros  de  adequação  que  a  sra.  Howard  identificou  (p.  ex.,  se  ela
conseguisse vestir­se de maneira independente, mas levasse 45 minutos, ela daria um baixo escore de satisfação para isso).
A MCDO pode ser realizada em aproximadamente 20 minutos.
Depois da MCDO, a terapeuta ocupacional selecionou os subtestes de transferência da FIMTM, vestir a parte inferior do corpo e arrumar­se.
Outros subtestes não foram observados porque eram atividades para as quais a Sra. Howard não relatou dificuldade (incluindo alimentar­se,
usar o vaso sanitário e vestir a parte superior do corpo) ou por causa das restrições de tempo (p. ex., tomar banho). A FIMTM foi identificada
como uma medida apropriada pelos seguintes motivos:
A  sra.  Howard  relatou  que  precisava  de  assistência  física  para  vestir  a  parte  inferior  do  corpo  e  para  se  levantar  da  cama  (na  FIMTM,  a
transferência começa do decúbito dorsal e termina na posição em pé para pessoas que não utilizam uma cadeira de rodas), e acredita­se
que a escala tenha sensibilidade adequada para os níveis de assistência física para registro da evolução.
A FIMTM incluía os dispositivos da cliente na medida para vestir a parte inferior do corpo, e a sra. Howard relatou que sua órtese era uma
coisa que ela não conseguia dominar no centro de reabilitação.
A  terapeuta  ocupacional  obteve  os  escores  da  FIMTM  na  alta  do  centro  de  reabilitação  para  que  o  desempenho  na  clínica  pudesse  ser
comparado  com  o  desempenho  em  casa  com  o  uso  do  mesmo  instrumento  para  examinar  o  impacto  do  contexto  domiciliar  sobre  o
desempenho e ajudar na resolução de problemas para o tratamento.
Essas tarefas poderiam ser realizadas em 25 minutos.
Duas medidas de parâmetro adicionais foram utilizadas para suplementar a FIMTM. Vestir a parte inferior do corpo e arrumar­se tinham
regulação temporal, o que não exigiu tempo de avaliação adicional. A dispneia foi mensurada após cada uma das três subtarefas, com uso da
escala visual análoga de 100mm, onde 0 = “nenhuma falta de ar,” 50mm = “falta de ar moderada,” e 100mm = “falta de ar severa” (Lansing,
Moosavi & Banzett, 2003). A sra. Howard foi solicitada a colocar uma marca na linha que melhor representasse sua dispneia. O preenchimento
das escalas de dispneia exigiu pouco tempo adicional, adequando­se aos 25 minutos permitidos para a FIMTM.
    Nesse ponto, a sra. Howard precisou descansar, embora a terapeuta ocupacional quisesse incluir alguma observação das AIVD na
evolução. Enquanto a sra. Howard descansava, a terapeuta utilizou o andador para fazer uma avaliação informal da acessibilidade em várias
áreas importantes na casa, inclusive a penteadeira, o closet, o computador pessoal, os utensílios de cozinha e os armários da sra. Howard.
Embora avaliações padronizadas estejam disponíveis, a terapeuta ocupacional utilizou uma abordagem não padronizada porque o andador da
sra. Howard precisava de espaço adicional para o acesso e a terapeuta precisava focar­se em algumas áreas principais, pois o tempo era
limitado. A terapeuta ocupacional também pôde começar algum tratamento de imediato, fazendo uma lista de sugestões que tornaria o
ambiente da sra. Howard mais acessível. A terapeuta pôde rever as recomendações com a sra. Howard, de modo que ela pudesse solicitar
que um amigo ou familiar modificasse o contexto, tornando mais efetivas as sessões de tratamento. A avaliação informal do contexto e a
revisão com a sra. Howard pôde ser realizada em 15 minutos.
    Por fim, a avaliação foi concluída com uma avaliação não padronizada de uma tarefa na cozinha. A sra. Howard preparou uma xícara de
chá. A chaleira foi colocada em um armário baixo para avaliar sua capacidade de pegá­la. O chá estava em um armário acima da bancada. A
terapeuta obteve dados descritivos e também marcou o tempo da tarefa e utilizou a escala visual análoga para mensurar a dispneia ao final da
tarefa. A tarefa demorou menos de 10 minutos. Depois da avaliação, a sra. Howard sentou­se em sua cadeira preferida para tomar sua xícara
de chá.

Reúna todo o equipamento e suprimentos necessários para realizar os planos de avaliação, assegurando­se de que os kits de teste estão completos e
organizados e que há disponibilidade dos equipamentos e suprimentos necessários, incluindo itens pessoais dos clientes (p. ex., roupas trazidas de
casa).  Os  profissionais  iniciantes  podem  considerar  valioso  criar  uma  lista  dos  objetos  necessários  para  assegurar  que  tudo  está  disponível  e
funcionando.
Agende as sessões de avaliação no melhor ambiente disponível. Por exemplo, um cliente em um centro de reabilitação com pacientes internados
acharia mais confortável vestir­se em seu próprio quarto do que em um boxe separado por cortina em uma clínica lotada.
Seja sensível às características individuais de recato, o que pode variar bastante entre os clientes. Muitas AVD são tarefas pessoais realizadas pelo
cliente a sós, incluindo vestir­se, tomar banho e usar o vaso sanitário. A avaliação do comprometimento potencial na atividade sexual deve ser
incluída nas avaliações das AVD, porém deve ser gerenciada com sensibilidade.
Estruture o contexto social ótimo. Por exemplo, o profissional pode desejar ter a presença de familiares durante uma entrevista a fim de obter suas
perspectivas  sobre  as  capacidades  ou  necessidades  de  um  cliente,  embora  a  presença  de  familiares  observando  uma  avaliação  baseada  no
desempenho da tarefa de cozinhar possa distrair o cliente e interferir no processo de avaliação.
Traga os instrumentos de medida apropriados para registrar os dados. Uma sessão de avaliação bem­planejada revelará muitas informações sobre
o  cliente.  Com  frequência,  os  testes  padronizados  incluem  formulários  para  registro  dos  dados.  As  instituições  também  podem  dispor  de
formulários para registro dos dados utilizando as avaliações tipicamente realizadas naquele ambiente. O profissional também pode desejar fazer
rascunhos sobre as observações relevantes, por exemplo, anotando que um cliente se queixou de dor no ombro quando vestiu uma camisa por
sobre a cabeça ou que a lista de compras de um cliente incluiu principalmente alimentos não nutritivos. Se possível, os profissionais devem fazer
os registros diretamente nos formulários da instituição para, mais tarde, reduzir o tempo necessário para preenchimento do relatório de avaliação.

Durante a avaliação, o profissional deve realizar uma observação crítica, a qual pode estar estruturada com perguntas que os profissionais fazem para
si próprios durante todo o processo, como as seguintes:
Quais são algumas das possíveis causas dos déficits de desempenho ocupacional observados ou relatados? Por exemplo, um cliente que é incapaz
de alcançar as roupas em seu armário pode estar limitado em diferentes fatores, incluindo fraqueza de membros superiores, comprometimento da
amplitude  de  movimento,  coordenação  deficiente,  diminuição  do  equilíbrio  em  pé  ou  um  cabideiro  de  roupas  que  está  fora  do  alcance  para  a
altura  do  cliente.  As  observações  realizadas  à  medida  que  o  cliente  tenta  pegar  as  roupas  no  armário  podem  fornecer  pistas  para  as  causas
subjacentes que ajudarão o terapeuta ocupacional a tomar decisões de tratamento razoáveis, conforme mostrado na Fig. 48.1.

Fig. 48.1 Observações feitas durante o ato de alcançar: a flexão lateral do tronco sugere que o cliente está compensando a incapacidade de elevar o
braço, o que poderia originar­se da amplitude de movimento passiva limitada ou da força diminuída. A altura do cabideiro do armário em relação à
altura do cliente deve exigir apenas aproximadamente 50% da flexão típica do ombro. O equilíbrio não parece ser a questão, pois o cliente parece
estável mesmo enquanto desloca seu centro de gravidade para a esquerda ao alcançar.

Que alterações poderiam ser necessárias no plano de avaliação inicial com base nos dados das primeiras interações? Por exemplo, uma avaliação
do ato de cozinhar poderia revelar déficits cognitivos leves que não estavam aparentes durante as interações iniciais com a cliente, de modo que o
terapeuta ocupacional acrescentaria uma avaliação cognitiva ao plano de avaliação.
Existem discrepâncias nos dados coletados na avaliação? As discrepâncias precisam ser esclarecidas e dirimidas, e podem fornecer um valioso
conhecimento sobre a natureza das limitações de AVD e AIVD do cliente. Por exemplo, um profissional poderia determinar, por meio de testes de
desempenho, que um cliente é capaz de executar as transferências do leito para a cadeira de rodas, embora o cliente insista que não consegue fazer
isso. A inconsistência poderia surgir porque, embora o cliente realize a transferência de maneira independente com o profissional presente, ele se
sente  inseguro  quanto  às  suas  capacidades  e  não  irá  se  transferir  sozinho.  Neste  exemplo,  o  uso  de  fontes  de  dados  diferentes  identificou  a
discrepância de desempenho entre a habilidade e o hábito que não teria ficado evidente com o uso de uma fonte única.

Produção da Hipótese
Os dados da avaliação obtidos por meio de questionamento, observação e métodos de testagem devem ser analisados, sintetizados e integrados em uma
identificação coerente do problema. Esta integração de dados é feita por meio do raciocínio diagnóstico, que é um componente do raciocínio clínico
(Rogers,  1983;  Rogers  &  Holm,  1991).  O  raciocínio  clínico  dos  profissionais  acontece  como  um  tipo  de  diálogo  interno  sobre  a  interpretação  dos
dados.  A  evidência  de  suporte  de  uma  interpretação  é  comparada  à  evidência  que  rejeita  essa  interpretação,  e  a  interpretação  que  apresenta  maior
suporte  ou  evidência  favorável  é  selecionada.  Se  a  evidência  não  fornece  suporte  suficiente  para  uma  interpretação,  mais  dados  de  avaliação  são
coletados para suplementar o processo de raciocínio. Este processo é mais bem ilustrado por meio de um exemplo, com base nos casos apresentados na
Tabela 48.1. Melinda e David apresentam os mesmos escores para se vestir na FIMTM, uma medida de AVD quantitativa, mas a interpretação clínica
dos dados descritivos pelos terapeutas ocupacionais levará a suposições muito distintas sobre os problemas que estão causando os comprometimentos
do ato de vestir­se nas duas crianças. Antes de continuar a ler, gaste um minuto para refletir sobre as diferentes observações relatadas na Tabela 48.1 e
considere o seguinte:

Quais fatores subjacentes interferem na capacidade de Melinda para se vestir de maneira independente? Quais são as forças de Melinda, isto é,
quais  habilidades  sustentam  seu  desempenho  para  se  vestir?  Quais  comportamentos  observados  levaram  às  suas  conclusões  sobre  as  forças  e
limitações de Melinda?
Quais fatores subjacentes interferem na capacidade de David para se vestir de maneira independente? Quais são as forças de David, isto é, quais
habilidades sustentam seu desempenho ao se vestir? Quais comportamentos observados levaram às suas conclusões sobre as forças e limitações
de David?

Para  Melinda,  a  atenção  limitada,  a  conscientização  limitada  sobre  os  déficits  de  desempenho  ocupacional  e  a  resposta  inconsistente  à
retroalimentação pareciam ser os problemas subjacentes que limitavam sua capacidade de se vestir de maneira independente. Esta é uma hipótese ou
julgamento  clínico,  e  não  uma  observação  objetiva,  porque  os  constructos  como  a  atenção  e  a  conscientização  sobre  os  déficits  não  podem  ser
diretamente  observados  e  precisam  ser  deduzidos  a  partir  de  comportamentos  específicos.  Ao  mesmo  tempo,  as  capacidades  físicas  de  Melinda
pareciam constituir  um  componente  de  habilidade  e  davam  suporte  ao  desempenho  de  muitas  maneiras.  Compare  as  observações  e  os  julgamentos
clínicos feitos pelo terapeuta ocupacional sobre Melinda e aqueles feitos sobre David. Em ambos os casos, as crianças precisavam de pistas verbais e
assistência física ocasional; contudo, os dados descritivos levaram o terapeuta ocupacional a hipóteses muito distintas sobre as limitações de David
para  se  vestir.  Os  problemas  de  David  consistiam  em  comprometimentos  físicos,  por  exemplo,  pouco  equilíbrio  ao  sentar­se,  incoordenação  do
membro superior direito e pouca resistência. Os comportamentos que sustentavam o desempenho incluíam a atenção para a tarefa, a execução com
retroalimentação, a capacidade de se lembrar de estratégias de adaptação e o engajamento ativo na resolução de problemas. A produção de hipóteses
sobre a natureza do déficit de desempenho ocupacional é primordial para a seleção do tratamento efetivo, o qual deve abordar o problema identificado.
Por exemplo, o equipamento de adaptação pode ser fornecido para ajudar David a alcançar seus pés de maneira independente ou para compensar a
coordenação deficiente da mão direita durante o ato de abotoar, no entanto, esse equipamento não seria útil para Melinda e provavelmente impediria o
desempenho ao distraí­la da tarefa.
Por esse processo, o profissional chega a uma compreensão coerente do desempenho de AVD e AIVD pelo cliente, dos fatores que interferem no
desempenho e das ações terapêuticas apropriadas diante da natureza dos déficits do cliente. Essa compreensão é apresentada aos clientes ou aos seus
procuradores para discussão e tomada de decisão colaborativa com relação à ação terapêutica a ser executada.

ESTABELECENDO AS METAS PARA OS CLIENTES: A PONTE ENTRE AVALIAÇÃO E TRATAMENTO
O PPTO inclui o estabelecimento das metas dos clientes como a etapa final no processo de avaliação e como o primeiro componente do programa de
tratamento  (AOTA,  2002),  de  modo  que  essa  etapa  importante  realmente  sirva  como  uma  transição  da  avaliação  para  o  tratamento.  Sintetizar  os
resultados  da  avaliação  em  um  programa  de  tratamento  significativo  e  individualizado  é  uma  tarefa  cognitiva  complexa  e  pode  ser  difícil  para  o
estudante ou para o profissional iniciante de terapia ocupacional. O processo de planejar e executar o tratamento é mais fácil para os profissionais que
têm  metas  apropriadas,  alcançáveis  e  mensuráveis.  A  seção  a  seguir  enfoca  os  múltiplos  fatores  que  influenciam  os  resultados,  para  orientar  os
profissionais  iniciantes  quanto  ao  raciocínio  clínico  para  o  estabelecimento  de  metas  efetivas  para  o  cliente  e  para  a  estruturação  do  processo  de
resolução  de  problemas  para  profissionais  mais  experientes,  principalmente  quando  eles  estão  tratando  de  clientes  especialmente  complexos  ou
desafiadores.
O estabelecimento de metas exige a análise dos resultados da avaliação juntamente com a análise dos fatores adicionais que influenciam o resultado,
a  saber,  a  capacidade  de  aprendizagem  do  cliente,  o  prognóstico  do  cliente,  o  tempo  destinado  ao  tratamento,  o  destino  após  a  alta  do  cliente  e  a
capacidade do cliente de acompanhar novas rotinas ou técnicas. A próxima seção enfoca o uso de parâmetros de desempenho para estabelecer metas
significativas  para  clientes  que  apresentam  um  comportamento  claramente  identificado  e  um  grau  de  desempenho  apropriado,  ou  seja,  uma
característica de comportamento mensurável (p. ex., “de modo independente” ou “sem dor”) (Sames, 2005). Os comportamentos desejados podem ser
alcançados por habilidades subjacentes, por exemplo, aumento da força ou da amplitude de movimento para dar suporte à participação nas AVD. No
entanto, os exemplos neste capítulo serão de comportamentos desejados de desempenho ocupacional, como tomar banho ou executar as atividades de
lavanderia.

Identificando os Comportamentos Apropriados Desejados
Uma avaliação abrangente examina o desempenho em AVD e AIVD por meio de parâmetros de desempenho relevantes, descritos anteriormente neste
capítulo  e  no  Capítulo  46.  Três  desses  parâmetros  de  desempenho  –  valor,  nível  de  dificuldade  e  fadiga  e  dispneia  –  podem  ser  utilizados  para
estabelecer metas de tratamento que visem aos comportamentos apropriados ao cliente.

Valor
Os  terapeutas  ocupacionais  devem  selecionar  os  comportamentos  desejados,  isto  é,  tarefas  de  AVD  e  AIVD  que  reflitam  os  valores  definidos  pelo
cliente  durante  a  avaliação.  O  valor  que  os  clientes  atribuem  a  determinadas  atividades  influencia  sua  motivação  para  a  participação  em  qualquer
tratamento  de  modo  a  melhorar  o  desempenho  naquela  atividade.  Como  muitos  tratamentos  de  terapia  ocupacional  exigem  a  aquisição  de  novas
habilidades por meio da prática, a motivação pode influenciar o resultado funcional final. Os clientes que atribuem pouco valor à atividade abordada
durante  um  tratamento  podem  apresentar  pouca  adesão  ao  tratamento  e  é  pouco  provável  que  sigam  os  programas  necessários  para  melhorar  a
habilidade naquelas atividades além do tratamento direto.
As  AVD  e  as  AIVD  são,  com  frequência,  altamente  valorizadas  por  crianças  e  adultos  por  causa  da  dependência  dos  outros  que  acompanha  a
disfunção  de  papel  (Robinson­Smith,  Johnston  &  Allen,  2000).  No  entanto,  os  profissionais  de  terapia  ocupacional  devem  ser  cuidadosos  para  não
supor  que  as  AVD  e  AIVD  são  prioridades  imediatas.  Algumas  pessoas,  principalmente  aquelas  com  severas  limitações  da  atividade,  poderiam
necessitar ou desejar a assistência dos outros nas AVD para que elas possam conservar energia para a realização de outras atividades. Este era o caso do
sr. Fritz, um homem de 32 anos de idade que sofreu recentemente uma lesão medular em C6 que resultou em tetraplegia. Ele era casado, tinha três
filhos pequenos e exercia o cargo de contador. Sua esposa trabalhava em horário parcial como enfermeira e cuidava dos filhos antes e depois da escola.
A família dependia dos rendimentos do sr. Fritz e ele não tinha seguro para invalidez. Embora resultados em AVD fossem estabelecidos inicialmente
para  o  sr.  Fritz,  logo  ficou  evidente  que  as  tentativas  para  a  reeducação  do  autocuidado  estavam  sendo  realizadas  com  resistência  e  frustração.  A
discussão posterior dos resultados desejados para o tratamento revelou que o sr. Fritz estava ansioso para voltar ao trabalho e que ele poderia fazer isso
se pudesse utilizar o computador de seu escritório em casa. Embora expressasse interesse em se tornar independente no autocuidado, ele percebeu que
a  melhor  opção  era  retornar  ao  trabalho  o  mais  rapidamente  possível  para  minimizar  a  carga  financeira  sobre  sua  família  decorrente  de  sua  atual
incapacidade de trabalhar. Sua esposa era capaz e tinha vontade de ajudá­lo nas tarefas de autocuidado em casa. O casal achava que a reeducação no
autocuidado poderia ser adiada até que os negócios da família se tornassem novamente operacionais. Com os resultados do tratamento voltados para as
atividades mais valorizadas pelo Sr. Fritz – a saber, o acesso ao computador e a mobilidade em casa – ele ficou altamente motivado a participar da
terapia.
Os valores dos clientes devem direcionar as metas de longo prazo, mas os profissionais de terapia ocupacional podem ajudar os clientes a focar nas
AVD inicialmente quando eles estabelecem prioridades em áreas mais complexas de desempenho ocupacional (p. ex., AIVD, trabalho ou lazer) que
tornem o processo de tratamento ineficiente e potencialmente ineficaz (Cipriani et al., 2000). Com frequência, o treinamento de autocuidado ajuda os
clientes a desenvolverem capacidades e habilidades de resolução de problemas que podem ser aplicadas mais tarde em atividades mais complexas que
o  autocuidado,  principalmente  quando  se  lida  com  disfunções  graves  de  início  súbito  (p.  ex.,  acidente  vascular  cerebral,  lesão  traumática).  Por
exemplo, suponha que o sr. Fritz não pudesse trabalhar no escritório em casa e quisesse abordar a condução de um veículo para chegar ao trabalho, o
que  é  uma  meta  final  realista  para  alguém  com  tetraplegia  C6.  Contudo,  iniciar  o  tratamento  com  o  treinamento  de  condução  de  veículos  seria
impraticável  porque  o  sr.  Fritz  não  disporia  das  habilidades  de  mobilidade  funcional  que  são  um  pré­requisito  no  início  de  sua  reabilitação.  O
treinamento  de  AVD  –  incluindo  tomar  banho,  vestir­se,  transferir­se  e  a  mobilidade  em  cadeira  de  rodas  –  pode  facilitar  o  desenvolvimento  das
habilidades de mobilidade funcional. Por isso, esse treinamento logicamente antecederia o treinamento da condução de veículos. Nessa situação, as
necessidades do sr. Fritz poderiam ser atendidas ao encaminhá­lo ao serviço social para orientação sobre planejamento financeiro para ajudar a família
a gerenciar as finanças até que ele pudesse retornar ao trabalho. O terapeuta ocupacional também poderia orientar o sr. Fritz a respeito das semelhanças
entre as habilidades necessárias tanto para o autocuidado como para conduzir veículos. Este plano reconhece os pa péis valorizados do sr. Fritz e o faz
evoluir para o resultado desejado da maneira mais eficiente possível.
Quando os pa péis e as atividades mais valorizadas estão além do nível de habilidade potencial do cliente, o terapeuta ocupacional ajuda o cliente a
novamente identificar prioridades, de modo que as metas sejam realistas e alcançáveis. Se o sr. Fritz fosse o proprietário e cozinheiro de um pequeno
restaurante,  por  exemplo,  é  pouco  provável  que  ele  atendesse  aos  requisitos  de  trabalho  essenciais  de  um  cozinheiro  para  fazer  refeições  simples,
mesmo que a cozinha fosse adaptada para o acesso à cadeira de rodas, porque as atividades exigem a função manual bilateral e devem ser realizadas
com rapidez. No entanto, é possível que ele pudesse realizar as atividades de proprietário de restaurante. Por exemplo, ele poderia gerenciar o pessoal,
controlar as finanças, operar a caixa registradora e receber os clientes. Nesta e em outras situações similares, os profissionais de terapia ocupacional
auxiliam  os  clientes  a  estabelecer  metas  que  reflitam  comportamentos  realistas  ao  utilizar  sua  experiência  na  análise  de  atividade  e  na  adaptação
funcional (Liddle & McKenna, 2000).

Dificuldade
A facilidade percebida com a qual um cliente realiza uma atividade e a dificuldade esperada que irá permanecer após o tratamento são considerações
importantes na seleção dos comportamentos esperados (Thornsson & Grimby, 2001). O profissional de terapia ocupacional, que está habilitado para a
análise da atividade e tem conhecimento sobre a patologia e sobre o comprometimento, precisa determinar o prognóstico para a dificuldade funcional.
Este  prognóstico  deve  ser  então  comunicado  aos  clientes  para  que  decisões  sobre  os  níveis  aceitáveis  de  dificuldade  possam  ser  tomadas  de  modo
cooperativo. Os clientes estabelecem as prioridades de tratamento, em parte, ao avaliar o nível projetado de dificuldade no contexto do valor – isto é,
quanta dificuldade eles desejam tolerar para tornar­se independentes em uma atividade. A frequência com que uma atividade é realizada também deve
ser considerada no estabelecimento das metas para as AVD e AIVD que provavelmente permanecerão de difícil realização para um cliente. Em geral,
um  nível  mais  elevado  de  proficiência  ou  facilidade  de  desempenho  é  necessário  para  atividades  que  necessitam  ser  executadas  de  modo  rotineiro,
enquanto um nível menor de proficiência ou facilidade de desempenho pode ser aceitável para as atividades que são realizadas apenas ocasionalmente.
Por exemplo, James é um menino de 7 anos de idade com espinha bífida que lesionou sua medula espinhal em T4. Ele apresenta bexiga neurogênica
e necessita cateterismo intermitente de rotina. Ele identificou o autocateterismo como uma tarefa crítica para preencher seus pa péis de autocuidador e
estudante, porque ele prefere não necessitar da ajuda de sua família ou dos profissionais da escola para executar sua tarefa pessoal. James precisará ser
capaz  de  realizar  o  autocateterismo  de  modo  independente  e  eficiente  para  que  esta  tarefa  se  adeque  ao  seu  dia  escolar.  O  terapeuta  ocupacional
acredita  que  James  será  capaz  de  atingir  a  independência  com  pouca  dificuldade  após  um  período  de  prática.  Todos  concordam  com  a  meta  e  o
tratamento começa. Outra cliente, Amy, também apresenta espinha bífida que resultou em lesão incompleta da medula espinhal em C7. Ela costuma
conseguir  esvaziar  adequadamente  sua  bexiga  sem  o  autocateterismo.  No  entanto,  em  raras  ocasiões,  ela  apresenta  episódios  de  retenção  urinária,
necessitando do cateterismo em aproximadamente uma hora após o aparecimento dos sintomas. Amy também gostaria de ser independente para não
precisar de ajuda quando precisasse ser cateterizada na escola. O terapeuta ocupacional considera o autocateterismo independente com uso de técnica
segura e limpa uma meta razoável para Amy, mas sempre difícil, porque ela apresenta comprometimento da função da mão, e posicionar­se de modo
que possa enxergar e alcançar o cateter sempre será um desafio. Amy precisará ir para o consultório da enfermeira para se transferir para um leito.
Apesar  da  dificuldade,  Amy  opta  por  trabalhar  nessa  meta.  Como  ela  precisa  de  cateterismo  com  pouca  frequência,  ela  acredita  que  seu  nível  de
habilidade será adequado para atender às suas necessidades.

Fadiga e Dispneia
Fadiga, a sensação de cansaço experimentada durante ou após uma atividade, e a dispneia, uma respiração difícil ou laboriosa, podem interferir no
desempenho da atividade (Fuchs­Climent et al., 2001; Liao & Ferrell, 2000; Vanage, Gilbertson & Mathiowetz, 2003). É provável que tanto a fadiga
como a dispneia sejam exacerbadas pelo desempenho da atividade. O terapeuta ocupacional utiliza a análise de atividade para considerar o esforço
necessário para a realização de uma tarefa e sua duração típica. Além disso, toda a rotina diária do cliente precisa ser examinada para que as demandas
de  energia  de  uma  atividade  possam  ser  comparadas  com  as  de  outras  atividades  exercidas  pelo  cliente  (Mathiowetz,  Matuska  &  Murphy,  2001).
Ajudar  os  clientes  a  examinarem  as  demandas  físicas  de  suas  atividades  preferidas  pode  ajudá­los  a  priorizar  as  atividades  para  que  possam  ser
estabelecidas metas apropriadas. Semelhante ao controle do gasto de dinheiro, os clientes precisam ser incentivados a contar seu “dinheiro energia” e
decidir se desejam gastá­lo. O profissional de terapia ocupacional contribui para esse processo de tomada de decisão ao fornecer informações valiosas
sobre  as  opções  para  a  adaptação  da  atividade  que  possam  reduzir  as  demandas  de  energia  dessas  atividades,  economizando  assim  a  energia  dos
clientes para outras tarefas.
Por exemplo, a sra. Hernandez vivia sozinha em um apartamento em uma comunidade de aposentados. Sua irmã e cunhado também residiam na
comunidade  e  ela  tinha  muitas  amigas  íntimas  lá.  Ela  sofria  de  esclerose  múltipla  havia  muitos  anos,  com  alguma  fraqueza  e  espasticidade,  mas
permanecia independente em suas AVD até um surto recente, que exigiu sua hospitalização. Um aumento da fadiga e uma redução da força resultaram
na  necessidade  de  assistência  física  para  as  AVD  e  do  uso  de  uma  cadeira  de  rodas  para  mobilidade.  A  comunidade  de  aposentados  exigia  que  os
residentes gerenciassem suas próprias AVD e preparassem o café da manhã e um lanche noturno leve. Uma refeição quente era fornecida ao meio­dia.
A sra. Hernandez relatou que não podia contratar uma auxiliar para ajudá­la diariamente com essas tarefas. A terapeuta ocupacional explicou à sra.
Hernandez  que,  embora  a  independência  nas  AVD  e  a  preparação  de  uma  refeição  simples  fossem  metas  razoáveis,  a  realização  de  suas  AVD
provavelmente consumiria tempo e seria fatigante, deixando­a com pouca energia para outras atividades. A sra. Hernandez estava entusiasmada para
começar a terapia, indicando que ela estava com vontade de se engajar menos em AIVD e atividades de lazer, a fim de ser independente nas AVD e na
preparação de refeições simples, porque isso possibilitaria que ela permanecesse na comunidade de aposentados com a família e os amigos.
Um cenário diferente foi enfrentado pela sra. McKay, que também apresentava esclerose múltipla. Como a sra. Hernandez, ela sofreu uma recente
exacerbação que provocou declínio funcional e era provável que alcançar a independência em AVD gastasse grande parte de sua energia diária. A sra.
McKay vinha trabalhando em horário integral como programadora para uma estação de rádio local e era mãe de duas crianças novas. Ela percebeu que
seu papel como autocuidadora era importante, juntamente com os de trabalhadora e mãe. No entanto, quando ficou evidente que a independência nas
AVD a deixaria com pouca energia para executar os pa péis da maternidade e do trabalho, ela optou por não estabelecer metas para independência nas
AVD, escolhendo, em vez disso, contratar uma atendente de cuidados pessoais para a assistência, de maneira que ela pudesse se dedicar às metas de
trabalho e maternidade.

Identificando os Níveis de Meta Apropriados
As metas do tratamento devem incluir um resultado mensurável que indique quão bem ou em que nível o comportamento identificado será realizado, o
que  algumas  vezes  é  descrito  como  grau  de  desempenho  (Kettenbach,  2004).  A  independência  é  o  grau  de  desempenho  mais  comum,  no  entanto,
diversos parâmetros de desempenho também podem fornecer metas efetivas, principalmente quando o cliente é independente mas permanecem déficits
de desempenho ocupacional que merecem tratamento. Por exemplo, este seria o caso de um cliente que consegue abrir frascos de modo independente,
mas isso é doloroso e resulta em forças deformantes para as articulações da mão.

Independência
O parâmetro de desempenho mais comumente abordado nos tratamentos de terapia ocupacional é a independência no desempenho da atividade que se
torna o grau ou a parte mensurável da meta (Sames, 2005). Para todas as idades e incapacidades, a meta geralmente consiste em aumentar o nível de
independência (Croser, Garrett, Seeger & Davies, 2001; Ford et al., 2000; Healy & Rigby, 1999; Nyland et al., 2000). A independência no desempenho
da atividade pode ser dividida em três fases: início da tarefa, continuação da tarefa e término da tarefa. As metas mais comuns em terapia ocupacional
concentram­se no término da tarefa, o que implica que o início e a continuação da tarefa aconteceram; por exemplo, uma meta poderia ser “O cliente
estará  independente  na  alimentação  de  seus  gatos  em  12  de  dezembro  de  2007”  ou  “O  cliente  precisará  de  assistência  moderada  para  as
transferências do leito para/da cadeira de rodas em uma semana”. Os profissionais de terapia ocupacional também podem querer abordar uma meta
de independência no início do desempenho da tarefa quando isso é particularmente difícil para um cliente.
O  início  é  um  aspecto  do  desempenho  da  atividade  frequentemente  desprezado  quando  as  metas  são  estabelecidas,  em  parte  porque  é  difícil  de
avaliar  e  tratar.  A  simples  presença  do  profissional  de  terapia  ocupacional  pode  ser  um  indicativo  para  o  início  de  uma  tarefa,  e  certamente  uma
saudação como “Bom dia, sra. Smith, hoje trabalharemos o ato de se vestir” serve como uma preparação para a ação. Comumente, espera­se que os
adultos iniciem as AVD e AIVD de modo independente. Também existem expectativas quanto às crianças, dependendo de suas idades e habilidades e
da divisão das responsabilidades da tarefa entre os familiares. Os comprometimentos no início da atividade podem acontecer como consequência de
muitas doenças e muitos distúrbios, como transtorno do déficit de atenção, demência, depressão, esquizofrenia, lesão cerebral por trauma ou acidente
vascular  cerebral,  esclerose  múltipla  e  doença  de  Parkinson.  Em  geral,  os  familiares  consideram  frustrante  precisar  dar  uma  pista  (“lembrar
constantemente”) para um cliente que apresenta comprometimento para iniciar cada aspecto da rotina diária. O terapeuta ocupacional pode identificar
uma  meta  de  independência  que  inclua  o  início,  como  “O  cliente  iniciará  e  completará  o  banho  de  maneira  independente,  três  a  sete  vezes  por
semana, em 30 de novembro de 2007”. Neste exemplo, mensurar o progresso para alcançar a meta exigiria que o cliente ou um cuidador registrasse o
número de vezes em uma semana que o cliente iniciou o banho sem uso de pista ou assistência de outra pessoa.

Segurança
A  segurança  é  uma  qualidade  da  negociação  pessoa­tarefa­ambiente,  de  modo  que  ela  não  pode  ser  observada  ou  tratada  isoladamente  da
independência (Letts, Scott, Burtney, Marshall & McKean, 1998; Russell, Fitzgerald, Williamson, Manor & Whybrow, 2002). As metas relacionadas à
segurança estão tipicamente ligadas aos resultados da independência, isto é, supõe­se que o desempenho independente seja seguro, pois um terapeuta
ocupacional não poderia eticamente estabelecer uma meta para o desempenho independente que não fosse julgada segura. Embora os profissionais de
terapia  ocupacional  concordem  que  a  segurança  é  uma  prioridade  no  tratamento,  existe  menos  consenso  sobre  quais  comportamentos  de  atividade
específicos são seguros ou inseguros. Muitos comportamentos caem em uma zona questionável, onde alguns os classificariam como seguros, enquanto
outros os perceberiam como inseguros. Para a determinação do risco aceitável para o estabelecimento de metas de independência, é útil considerar o
nível de conforto do cliente quanto ao risco, sua capacidade de analisar os riscos associados a determinada atividade e propor um plano para controlá­
los  e,  mais  importante,  sua  capacidade  de  executar  o  plano  com  rapidez,  apesar  dos  comprometimentos.  Por  vezes,  a  meta  para  o  nível  de
independência no desempenho da atividade poderia precisar ser sacrificada pela segurança. A comparação entre dois clientes com fraturas bilaterais de
membros inferiores sofridas em acidentes automobilísticos que estão aprendendo as transferências independentes ilustra este ponto.
Ted e Ryan sofreram lesões recentes, não sustentam carga sobre ambos os membros inferiores e estão aprendendo as transferências em pranchas de
deslizamento. Ted demonstra bom julgamento e uma percepção realista de suas habilidades. O terapeuta ocupacional determinou que a seguinte meta é
realista: “O cliente será independente nas transferências em prancha de deslizamento da cadeira de rodas para/do leito após três sessões de terapia”.
Por meio do treinamento, Ted aprendeu a se transferir com segurança utilizando uma prancha de deslizamento ao seguir orientações específicas (p. ex.,
posicionar a cadeira de rodas em um ângulo de 45 graus com a cama; acionar os freios da cadeira de rodas; determinar se a altura do leito está nivelada
com a cadeira de rodas). Depois de algumas sessões, ele é capaz de seguir essas orientações de maneira consistente, e assim sua meta de independência
na transferência da cadeira de rodas para e do leito é alcançada. As lesões de Ryan são similares às de Ted, mas ele também sofreu uma leve lesão
cerebral.  Embora  as  habilidades  motoras  de  Ryan  sejam  comparáveis  às  de  Ted,  Ryan  tem  dificuldade  de  se  lembrar  das  orientações  para  as
transferências e apresenta o risco de apoiar o peso sobre seus membros inferiores durante as transferências, o que poderia interferir com a consolidação
das fraturas. Por isso, o terapeuta ocupacional acredita que as transferências independentes poderiam ser inseguras porque os déficits de memória de
Ryan  o  colocariam  em  risco  de  violar  as  precauções  de  sustentação  de  carga.  O  terapeuta  ocupacional  incorpora  as  considerações  de  segurança  ao
estabelecer  para  Ryan  uma  meta  voltada  para  um  nível  menor  de  independência,  por  exemplo:  “O  cliente  precisará  de  supervisão  e  pistas  verbais
ocasionais para as transferências com prancha de deslizamento da cadeira de rodas para/da cama enquanto aderir às precauções de sustentação de
carga após seis sessões de terapia”. O grau de independência na meta de Ryan foi ajustado para refletir de maneira realista sua capacidade de realizar a
transferência segura.
Em  algumas  situações,  pode  ser  melhor  estabelecer  as  metas  do  cliente  em  que  o  comportamento  desejado  está  diretamente  relacionado  com  a
segurança em vez de considerar o grau de independência indicado. As metas podem ser estabelecidas no nível do desempenho ocupacional, isto é, as
“respostas  de  emergência  e  os  procedimentos  de  segurança”  na  AIVD  (AOTA,  2002);  por  exemplo,  a  meta  poderia  ser  “O  cliente  descreverá
verbalmente as respostas corretas para um mínimo de 10 emergências domiciliares potenciais com 100% de exatidão em três semanas”. As metas de
segurança também podem ser estabelecidas por meio do desenvolvimento de hábitos seguros, por exemplo, “O cliente fará uma pausa ao entrar em
um cômodo e fará uma varredura visual de obstáculos no chão em 100% das ocasiões para reduzir o risco de queda durante a mobilidade funcional
em  1o  de  dezembro  de  2007”,  ou  “O  cliente  relatará  a  adesão  de  100%  ao  uso  de  preservativo  para  reduzir  o  risco  de  doenças  sexualmente
transmitidas em três semanas”.

Adequação
Vários aspectos do desempenho da atividade contribuem para a adequação ou a qualidade do comportamento identificado na meta, o que também pode
estar refletido na meta como até que ponto se espera que o comportamento seja executado. Além da independência, esses parâmetros de desempenho
podem ser componentes cruciais de metas significativas, principalmente para clientes que são independentes e seguros em seu desempenho, mas que se
sentem  insatisfeitos  com  o  processo  ou  com  algum  outro  aspecto  do  resultado.  As  metas  com  parâmetros  de  adequação  mensuráveis  podem  ser
utilizadas para justificar o tratamento, mesmo quando os clientes são independentes nas tarefas. Seis parâmetros de adequação podem ser utilizados
como resultados mensuráveis: dor, fadiga e dispneia, duração, padrões da sociedade, satisfação e comportamentos de tarefa aberrantes. Alguns desses
parâmetros podem ser encontrados em um único cliente. Por exemplo, a dor poderia levar a mudanças na duração do desempenho da atividade (p. ex.,
a atividade demora mais tempo), bem como na capacidade de atender aos padrões normativos e à satisfação pessoal. A meta deve incluir apenas um
parâmetro mensurável, de maneira que fique claro o que mudou ao se registrar o progresso para alcance das metas.

DOR. A dor, durante ou após uma atividade, pode influenciar a realização das AVD ou AIVD mesmo quando a atividade é completada de maneira
independente  (Birkholtz  &  Blair,  2001a,  2001b;  Dudgeon,  Tyler,  Rhodes  &  Jensen,  2006;  Mullersdorf,  2000).  A  origem  da  dor  e  seu  prognóstico
precisam  ser  cuidadosamente  considerados  quando  do  estabelecimento  de  metas  e  da  seleção  de  uma  abordagem  de  tratamento.  Tanto  a  avaliação
como as metas precisam incluir uma medida de dor para que o tratamento mantenha o foco na obtenção do nível esperado de independência ao mesmo
tempo que reduz a dor. Com frequência, a avaliação da dor pode ser incorporada à meta como um indicador da intensidade da dor, por exemplo, a meta
poderia ser “O cliente irá preparar uma refeição simples (sopa, sanduíche e bebida) de maneira independente com um nível máximo de dor de 2cm em
uma escala visual analógica de 10cm em 2 semanas”.

FADIGA E DISPNEIA.  A  fadiga  e  a  dispneia  podem  influenciar  os  reais  comportamentos  de  tarefa  selecionados  para  as  metas  do  cliente,  conforme
descrito anteriormente nesta seção, porém, quando a fadiga ou a dispneia podem ser reduzidas pela adaptação da tarefa ou do condicionamento, podem
ser estabelecidas metas que utilizem esses parâmetros de desempenho como resultados de desempenho. A avaliação inicial precisa incluir dados para
comparação. Por exemplo, uma meta poderia ser “O cliente completará a rotina de cuidados matinais (tomar banho de chuveiro, arrumar­se, vestir­se)
com um escore máximo de 6 na Escala de Esforço Percebido Relatado de Borg (Borg, 1998) em 28 de novembro de 2007”. Como a Escala de Borg foi
utilizada  durante  a  avaliação  inicial,  uma  pontuação  menor  (significando  menos  esforço)  pode  ser  utilizada  como  meta  para  indicar  o  progresso  ao
tornar  menor  a  fadiga  durante  as  tarefas  de  AVD  ou  AIVD.  A  dispneia  pode  ser  monitorada  de  maneira  semelhante  com  o  uso  da  escala  visual
analógica ou escala de quantificação numérica (Gift & Narsavage, 1998). É importante considerar o diagnóstico quando as metas são formuladas com
relação  à  fadiga  e  à  dispneia.  O  esforço  excessivo  pode  exacerbar  os  sintomas  ou  mesmo  o  próprio  processo  da  doença  em  condições  como  de
cardiopatia e esclerose múltipla. O prognóstico é outra consideração diagnóstica importante no estabelecimento de metas que mensuram a fadiga ou a
dispneia. É provável que os clientes com doença pulmonar obstrutiva crônica sofram agravamento; portanto, as metas precisam ser alcançáveis por
meio  de  adaptações  da  atividade  e  pode  ser  preciso  adaptá­las  a  um  declínio  na  função.  Um  cliente  com  paraplegia  secundária  à  lesão  de  medula
espinhal, em contrapartida, experimenta fadiga por precisar utilizar os músculos menores do membro superior na mobilidade em cadeira de rodas para
compensar  os  músculos  maiores  do  membro  inferior  previamente  utilizados  para  a  deambulação.  É  provável  que  a  resistência  melhore
significativamente à medida que aumente a força do membro superior com o uso, e poderiam ser apropriadas metas mais ambiciosas para reduzir a
fadiga.

DURAÇÃO.  O  intervalo  de  tempo  necessário  para  a  realização  das  atividades  é  tipicamente  considerado  um  reflexo  da  eficiência,  o  que  pode  ser
afetado  por  comprometimentos  distintos,  inclusive  a  redução  da  resistência,  o  comprometimento  da  coordenação  e  os  déficits  cognitivos,  como  a
dificuldade  de  manter  a  atenção  nas  tarefas,  o  que  é  comum  nas  pessoas  com  diferentes  transtornos  mentais.  Embora  a  mensuração  do  tempo  de
desempenho  possa  ser  relativamente  simples,  interpretar  os  dados  de  tempo  de  uma  maneira  significativa  é,  com  frequência,  difícil.  A  duração  das
atividades de vida diária depende muito da natureza da atividade e dos objetos da tarefa que as pessoas escolhem utilizar para a realização da atividade.
Demora mais tempo preparar o jantar do que preparar um lanche leve. Muitos de nós gastamos mais tempo nos vestindo quando vamos sair para jantar
em um restaurante elegante do que o fazemos quando estamos indo a uma lanchonete. Portanto, é difícil estabelecer normas significativas para AVD e
AIVD,  mas  a  duração  é,  com  frequência,  um  parâmetro  que  os  clientes  desejam  incorporar  a  suas  metas  de  terapia  ocupacional  quando  ficam
frustrados pelo desempenho lento.
O  estabelecimento  da  duração  aceitável  para  as  metas  de  AVD  precisa  ser  feito  de  maneira  cooperativa  com  os  clientes  e  seus  parentes.  Os
terapeutas ocupacionais devem considerar, ao mesmo tempo, os parâmetros de segurança e de independência. Os clientes podem estar sob maior risco
quando se apressam para realizar as atividades ou mesmo quando tentam realizá­las em uma velocidade típica. Por exemplo, os clientes com déficits de
deglutição  podem  precisar  se  alimentar  mais  lentamente  do  que  as  pessoas  sem  esses  déficits  para  evitar  sufocação.  As  pessoas  com  coordenação
motora fina deficiente ou déficits sensoriais podem precisar diminuir a velocidade quando utilizam facas afiadas para melhorar o controle das facas e
evitar  uma  lesão.  Nesses  exemplos,  estabelecer  metas  para  diminuir  a  duração  do  desempenho  seria  inadequado  porque  isso  poderia  resultar  em
desempenho inseguro.
Os  padrões  sociais  e  culturais  também  precisam  ser  considerados  no  estabelecimento  dos  resultados  para  a  duração  da  atividade.  Nos  Estados
Unidos,  a  eficiência  é  altamente  valorizada,  e  espera­se  o  desempenho  eficiente  em  habilidades  na  comunidade.  Os  clientes  poderiam  tornar­se
irritados ao ficar em pé na fila do caixa atrás de um consumidor que leva cinco minutos para identificar e contar o dinheiro, embora essa demora possa
passar  despercebida  em  outras  culturas.  Um  norte­americano  com  comprometimento  cognitivo  ou  visual  que  interfira  na  capacidade  de  contar  o
dinheiro pode desejar diminuir o tempo necessário para essa atividade para evitar embaraços quando fizer compras. A meta, então, precisa incluir uma
medida de eficiência para refletir esse parâmetro de desempenho, por exemplo, “O cliente terminará de maneira independente uma operação simples
de  compra  (selecionar  o  dinheiro  apropriado  e  contar  o  troco)  em  menos  de  um  minuto  após  três  semanas  para  dar  suporte  à  participação  nas
compras”.

PADRÕES DA SOCIEDADE. Os padrões da sociedade, determinados pela sociedade e pela cultura em que o cliente vive, são prováveis de existir em
relação tanto ao resultado final como ao processo pelos quais eles são atingidos. Conforme debatido no Capítulo 46, é provável que a linha entre os
desempenhos aceitável e inaceitável seja mais espessa que estreita e possa variar de maneira considerável, dependendo de características como idade,
sexo e afiliação de grupo (geração).
Por exemplo, existem padrões da sociedade para o asseio. Uma pessoa pode vestir­se de modo seguro e independente, mas se as cores das roupas
não combinam, ou se a aparência do cliente se mostra desarrumada (o produto final), o ato de vestir­se do cliente pode não atender aos padrões da
sociedade.  Se  a  cliente  for  uma  adolescente,  tal  aparência  poderia  ser  considerada  aceitável.  No  entanto,  se  a  cliente  for  uma  gerente  de  relações
públicas a caminho do trabalho, é provável que isso seja rotulado como inaceitável e coloque em risco o emprego da cliente. Terapeutas ocupacionais e
clientes podem identificar padrões relevantes da sociedade para inclusão nas metas. Identificar os padrões da sociedade pode parecer subjetivo e difícil,
mas o emprego de indicadores mensuráveis de padrões da sociedade é fundamental para metas efetivas e pode justificar o tratamento. A meta para um
cliente que se alimenta com rapidez, colocando alimento em sua boca quando ela ainda está cheia, pode incluir uma medida do padrão da sociedade,
como  “Quando  se  alimentar  durante  um  evento  social,  o  cliente  demonstrará  velocidade  adequada,  completando  uma  refeição  em  no  mínimo  15
minutos, deglutindo cada porção antes de colocar mais alimento na boca e conversando entre as porções de alimento, em 10 de dezembro de 2007”.

SATISFAÇÃO. Além dos padrões da sociedade, os clientes têm seus próprios padrões de desempenho aceitável, o que também precisa ser incorporado
às metas (Natterlund & Ahlstrom, 1999). Estabelecer metas com medidas de satisfação exige a colaboração dos clientes, pois os padrões pessoais irão
variar de uma pessoa para outra. O sr. Balouris, por exemplo, está sempre perdendo as coisas. Ele nunca parece saber onde estão sua carteira e suas
chaves, e ele sempre está procurando por alguma coisa. Contudo, as coisas costumam aparecer e ele não vê motivo para se preocupar em organizar
melhor seu apartamento para ajudá­lo a localizar seus pertences. O sr. Johns, porém, sempre foi meticulosamente arrumado e podia ter em mãos os
artigos no momento em que desejasse. Recentemente, ele procurou a atenção médica para problemas de memória. Ele se queixou de que precisava
procurar as coisas porque não as colocava em seus locais usuais. Ele estava particularmente preocupado com seu problema de memória por causa de
uma história familiar de doença de Alzheimer. Ele foi encaminhado para a terapia ocupacional para aprender estratégias que o ajudassem a se lembrar
de onde estavam os objetos. De maneira objetiva, o sr. Johns não apresenta pior desempenho do que o sr. Balouris; no entanto, o sr. Johns interpreta seu
desempenho como comprometido; além disso, ele está insatisfeito com seu desempenho.
Os clientes precisam identificar seu próprio nível de satisfação com uma tarefa, já que esta é uma experiência subjetiva. A satisfação do cliente pode
ser mensurada com rapidez e facilidade com o uso da escala visual analógica ou com uma escala numérica, como a escala de dez pontos utilizada na
MCDO (Law et al., 2005). As medidas de satisfação são facilmente incorporadas às metas para refletir o grau de desempenho, por exemplo, “O cliente
será independente em localizar os artigos necessários para as AVD e AIVD em casa com uma classificação de satisfação de pelo menos 8/10 em três
semanas para dar suporte à participação nas AVD e AIVD”.

COMPORTAMENTOS DE TAREFA ABERRANTES. As metas e os tratamentos também podem abordar quaisquer comportamentos de tarefa aberrantes
no desempenho da atividade (Ashley et al., 2001; Rogers et al., 2000). Os comportamentos de tarefa aberrantes variam e incluem o comportamento
motor indesejado, como os movimentos atetoides ou balísticos, e problemas comportamentais, como a autoestimulação ou a agressão aos cuidadores.
A exploração da causa subjacente ao comportamento de tarefa aberrante facilita o estabelecimento de metas realistas e a seleção de estratégias efetivas
de tratamento. As metas visam eliminar ou reduzir o comportamento de tarefa aberrante no contexto das tarefas de AVD e AIVD, por exemplo, “O
cliente diminuirá os comportamentos de mostrar a língua durante a alimentação até um máximo de três episódios em uma refeição dentro de dois
meses para dar suporte à alimentação oral que satisfaça suas necessidades nutricionais”.

Considerações Adicionais para o Estabelecimento de Metas Realistas para o Cliente
O  terapeuta  ocupacional  utiliza  parâmetros  de  desempenho  para  identificar  as  metas  de  comportamento  e  os  graus  de  desempenho,  mas  inúmeros
fatores adicionais que podem afetar a aquisição da meta também precisam ser considerados. Muitos desses fatores são contextuais, como o ambiente
físico  e  social,  os  recursos  financeiros,  o  tempo  disponível  para  o  tratamento,  a  experiência  prévia  e  a  capacidade  de  aprendizagem  do  cliente.  O
prognóstico para comprometimentos, diante da incapacidade do cliente, também pode afetar a aquisição da meta.

Prognóstico para os Comprometimentos
O potencial do cliente de melhorar os padrões e as habilidades de desempenho e os fatores do cliente precisam ser examinados no contexto de qualquer
doença ou transtorno existente e dos comprometimentos resultantes (Hansen & Atchison, 1999; Ostchega, Harris, Hirsch, Parsons & Kington, 2000).
Em primeiro lugar, o profissional precisa considerar quaisquer precauções ou contraindicações com relação ao diagnóstico que poderiam impedir o uso
de determinadas estratégias de tratamento. Compare, por exemplo, dois clientes cujas resistências limitam significativamente seus desempenhos. A sra.
Tanaka apresenta síndrome da fadiga crônica, um transtorno que pode ser agravado quando ela fica excessivamente fatigada. Um programa intensivo
para aumentar a resistência está contraindicado para ela, de modo que estratégias alternativas de tratamento precisam ser exploradas e as metas para
aumentar a resistência para AVD precisam ser razoáveis, diante do risco potencial da sra. Tanaka para exacerbação de sua doença. Em contrapartida, o
sr. Krull está bastante descondicionado em virtude da inatividade resultante de doença depressiva maior e gostaria de aumentar sua resistência para dar
suporte à participação nas tarefas pesadas da manutenção domiciliar, como aparar a grama e terminar uma expansão de sua casa. Um programa de
atividade para aumentar a resistência não está contraindicado e ajudaria a aumentar a participação do Sr. Krull nas AIVD.
Em segundo lugar, precisa ser considerado o prognóstico para a melhora dos comprometimentos, considerando o diagnóstico do cliente (i.e., doença,
distúrbio ou condição). Espera­se o aumento do comprometimento nos transtornos progressivos, como a distrofia muscular, a doença de Alzheimer e a
artrite reumatoide (tanto do adulto como juvenil). As metas precisam ser estabelecidas considerando esses declínios potenciais para que sejam realistas.
Contudo, os profissionais de terapia ocupacional precisam avaliar os comprometimentos separadamente, porque as doenças progressivas poderiam não
afetar  diretamente  todas  as  funções  e  estruturas  corporais.  Jorge,  um  adolescente  com  distrofia  muscular,  ilustra  este  ponto.  Ele  apresenta  fraqueza
muscular significativa no tronco e nos quatro membros e desenvolveu algumas limitações na amplitude de movimento (ADM) da pelve e do tornozelo
que o impedem de manter a posição ótima para a função em sua cadeira de rodas. Espera­se que sua força muscular diminua, mesmo com o tratamento.
No entanto, suas restrições de amplitude de movimento são secundárias à fraqueza muscular, e não o resultado direto da distrofia muscular. Ganhos de
amplitude de movimento podem ser esperados com o tratamento, apesar do prognóstico global. Por sua vez, o aumento da amplitude de movimento
pode melhorar o posicionamento de Jorge em sua cadeira de rodas.
Os  comprometimentos  estáveis  ou  decrescentes  podem  ser  antecipados  em  muitos  distúrbios  e  após  uma  lesão.  O  tratamento  farmacológico,  por
exemplo,  pode  melhorar  os  comprometimentos  associados  à  depressão,  de  modo  que  o  tratamento  de  terapia  ocupacional  pode  se  concentrar  em
transferir os ganhos obtidos nas capacidades mental e psicológica para o desempenho de AVD e AIVD. Comumente, clientes de todas as idades que
sofreram lesões cerebrais por trauma ou por acidente vascular cerebral podem esperar algum retorno espontâneo da função motora nos estágios iniciais
da recuperação. As metas de tratamento desejadas devem considerar as melhoras típicas para esse diagnóstico. A acurácia na predição das “melhoras
típicas” exige tempo e experiência para se desenvolver, e o profissional iniciante pode considerar importante consultar profissionais mais experientes
para facilitar a capacidade de estabelecer metas realistas.

Experiência
É importante considerar as informações, obtidas na avaliação, sobre as experiências prévias e recentes de um cliente na atividade de modo que metas
relevantes e alcançáveis possam ser estabelecidas. A experiência recente pode facilitar o progresso ao restabelecimento da independência em uma dada
atividade porque o cliente está aprendendo uma nova maneira de realizar a atividade em lugar de desenvolver uma nova habilidade. Por exemplo, a sra.
McCarthy precisa reaprender as habilidades de cozinhar após um acidente vascular cerebral. Ela utiliza uma cadeira de rodas para se mover e tem uso
mínimo de sua mão direita (dominante). Suas habilidades cognitivas estão intactas, e ela consegue seguir uma receita com facilidade. Além disso, ela
demonstra boas habilidades de resolução de problemas ao adaptar as atividades de cozinhar para melhorar seu desempenho. Miranda, uma adolescente
de 19 anos de idade com hemiplegia espástica secundária à paralisia cerebral, apresenta uso limitado de uma das mãos e utiliza uma cadeira de rodas
para mobilidade, assim como a sra. McCarthy. Ela deseja preparar refeições simples e fazer biscoitos. É provável que seu tratamento exija mais tempo
e  orientação  do  que  o  da  sra.  McCarthy,  porque  Miranda  precisa  aprender  as  habilidades  básicas  para  cozinhar  juntamente  com  as  adaptações  da
atividade necessárias para compensar seus comprometimentos.
Muitas  vezes,  os  adultos  também  enfrentam  a  necessidade  de  aprender  novas  atividades.  Algumas  dessas  atividades  estão  relacionadas  com  as
habilidades necessárias para gerenciar novos comprometimentos, como realizar o autocateterismo, vestir roupas de pressão ou aprender a operar uma
unidade de controle ambiental. O aprendizado também pode ser necessário quando novos pa péis são assumidos, por exemplo, quando um cônjuge fica
incapacitado  ou  morre  e  o  parceiro  precisa  assumir  novas  responsabilidades.  Sempre  que  uma  habilidade  não  for  familiar  a  um  cliente,  pode  haver
necessidade  de  tempo  de  tratamento  e  orientação  adicionais  fornecidos  pelo  profissional  de  terapia  ocupacional  para  a  aquisição  das  habilidades
básicas e que devem ser incorporados à meta e ao programa de tratamento.

Capacidade de Aprendizagem do Cliente e Disposição para Uso de Métodos Alternativos
A  capacidade  de  aprender  do  cliente  e  sua  disposição  para  utilizar  métodos  alternativos  para  o  término  da  tarefa  devem  ser  avaliadas,  porque  o
tratamento frequentemente exige o aprendizado de novas maneiras para realização das atividades (Flinn & Radomski, 2008; Fuhrer & Keith, 1998).
Existem menos opções de tratamento para clientes com capacidade limitada de aprendizagem, e pode ser necessário prolongar a duração do tratamento.
Clientes  que  não  desejam  utilizar  um  dispositivo  especial  para  realizar  uma  tarefa  que  a  maioria  das  pessoas  executa  sem  qualquer  dispositivo
poderiam  resistir  ao  tratamento  que  incorpore  um  equipamento  de  adaptação  (Lund  &  Nygård,  2003).  Os  clientes  com  uma  boa  capacidade  de
aprendizagem e disposição para uso de métodos alternativos frequentemente são capazes de abordar mais déficits da tarefa por causa do aumento de
opções de tratamento e do menor tempo necessário para o aprendizado. É importante compreender a capacidade de aprendizado como um continuum;
os  clientes  podem  cair  entre  os  extremos,  e  a  capacidade  pode  ser  melhor  para  algumas  tarefas  do  que  para  outras.  Um  cliente  pode  ser  capaz  de
aprender uma adaptação de tarefa relativamente simples ao utilizar uma alavanca para dirigir uma cadeira de rodas, porém ser incapaz de dominar um
dispositivo eletrônico mais complexo para a vida diária, mesmo aquele que usa os mesmos movimentos utilizados para controlar a alavanca.

Acompanhamento Planejado para Programa Além do Tratamento
Os esforços para conter os custos dos cuidados de saúde levaram a períodos de internação cada vez mais curtos em hospitais e centros de reabilitação e
a  uma  redução  nas  consultas  ambulatoriais  e  de  serviço  domiciliar.  Espera­se  que  os  clientes  assumam  um  papel  mais  ativo  em  seus  programas  de
terapia  e  suplementem  os  tratamentos  formais  com  o  tratamento  autodirigido  (p.  ex.,  programas  domiciliares).  Por  conseguinte,  precisam  ser
estabelecidas  metas  com  alguma  estimativa  da  capacidade  do  cliente  para  manter  um  programa  autodirigido,  pois  isso  influenciará  o  sucesso  de
qualquer tratamento (Cope & Sundance, 1995).
Vários  dos  parâmetros  de  desempenho  previamente  delineados  podem  fornecer  orientação  ao  profissional  de  terapia  ocupacional  nessa  área.  Os
clientes  têm  mais  motivação  para  programas  voltados  para  atividades  valorizadas  por  eles  do  que  para  aquelas  que  eles  não  valorizam,  tornando  a
abordagem  centrada  no  cliente  fundamental  para  o  sucesso.  Além  disso,  os  parâmetros  de  desempenho,  como  dificuldade,  fadiga,  dor  e  satisfação,
podem  ser  graduados  de  modo  que  os  programas  autodirigidos  sejam  controláveis  no  contexto  das  rotinas  diárias  do  cliente.  O  significado  de
gerenciável deve ser estabelecido por clientes em consulta com o profissional de terapia ocupacional e precisam ser consideradas as atividades e as
responsabilidades diárias, a tolerância à frustração e a perseverança dos clientes.
Muitos  clientes  necessitam  de  alguma  assistência  para  praticar  as  atividades,  e  o  profissional  de  terapia  ocupacional  precisa  assegurar­se  de  que
esses  recursos  estão  disponíveis.  Essa  assistência  pode  incluir  o  estabelecimento  de  uma  atividade,  o  fornecimento  de  assistência  para  etapas
específicas  da  atividade  e  a  permissão  de  mais  tempo  (conforme  prescrito)  para  a  prática  efetiva.  É  importante  lembrar  que  os  comprometimentos
podem afetar a capacidade do cliente de iniciar ou perseverar nas atividades cotidianas. Para esses clientes, a assistência se faz necessária para o início
e a manutenção do programa domiciliar. Essa responsabilidade comumente recai sobre os familiares, e os terapeutas ocupacionais precisam interagir
com e orientar os familiares sobre seu papel fundamental.

Tempo para Tratamento
O tempo planejado para a terapia ocupacional pode ser influenciado por inúmeros fatores, incluindo o prognóstico funcional, a motivação do cliente
para melhorar e suas condições financeiras. No cuidado de saúde gerenciado, está se tornando comum que os seguros de saúde estabeleçam o número
de  consultas  ou  de  internação  (Kramer  et  al.,  2000).  As  metas  da  terapia  ocupacional  precisam  ser  adaptadas  para  atender  o  mais  possível  às
necessidades do cliente no tempo permitido. Contudo, também deve ser reconhecido que a melhor prática leva em consideração todas as necessidades
do cliente. Com frequência, a documentação clara e completa do progresso adequado para a aquisição das metas estabelecidas assegura que as fontes
pagadoras  aprovarão  consultas  adicionais  de  terapia  ocupacional.  Os  terapeutas  ocupacionais  precisam  estar  cientes  de  sua  responsabilidade
profissional com os clientes para solicitar a ampliação do tratamento e para sustentar tal solicitação por meio de documentação detalhada.

Recursos e Contexto de Alta Esperado
As metas funcionais estabelecidas devem ser passíveis de obtenção com os recursos disponíveis do cliente, incluindo os recursos sociais e financeiros
(Seigley, 1998). Os ambientes de alta esperados pelos clientes precisam ser considerados no estabelecimento das metas e na seleção dos tratamentos
que serão relevantes para o ambiente em que os clientes, por fim, realizarão as tarefas (Cox, 1996; Dunn, 1993; Dunn, Brown & McGuigan, 1994; Law
et al.,  1996).  O  contexto  social  é  primordial  para  os  clientes  que  precisam  de  assistência  dos  outros  após  a  alta,  isto  é,  é  importante  determinar  se
existem pessoas que tenham vontade e sejam capazes de fornecer a assistência necessária. As necessidades dos clientes variam com relação ao tipo e à
duração da assistência necessária. Alguns clientes precisam apenas de serviços de suporte, como ajuda nas compras ou na limpeza da casa. Aqueles
com limitações significativas da atividade e cognição intacta podem precisar de assistência física considerável, mas podem permanecer sozinhos uma
vez as AVD tenham sido realizadas, tenham se alimentado e sejam móveis em suas cadeiras de rodas. Clientes com comprometimentos cognitivos nem
sempre precisam de assistência física, mas podem precisar de pistas verbais para manter o desempenho da atividade, e esta assistência pode precisar ser
constante. O suporte inadequado no ambiente esperado pelo cliente pode exigir uma mudança no plano de alta. Alguns familiares ou amigos podem ser
capazes de fornecer o nível e o tipo de assistência necessários, enquanto outras famílias podem ser incapazes ou não ter vontade de fazer isso.
O  ambiente  físico  também  precisa  ser  considerado  no  estabelecimento  de  metas  realistas  (Gitlin,  Corcoran,  Winter,  Boyce  &  Hauck,  2001).  Por
exemplo, O sr. Feng atingiu sua meta de independência para tomar banho em sua reabilitação no hospital. Ele precisa de um assento de banheira para
transferência, uma ducha manual e uma barra de segurança para tomar banho com segurança e sem ajuda. O profissional de terapia ocupacional quer
prescrever esse equipamento para ele. Contudo, o sr. Feng relata que precisa tomar banho em um boxe de 1,5 por 1,5m, porque a única banheira está no
segundo andar e ele não consegue subir escadas. Seu boxe não irá acomodar o banquinho que ele precisa para as transferências seguras e o equilíbrio
durante o banho. Deveria ter sido estabelecida uma meta alternativa de banho no início do tratamento, de modo que o programa do sr. Feng trabalhasse
para desenvolver as habilidades que ele poderia utilizar em casa, como tomar banho de esponja na pia.
A adaptabilidade do ambiente de alta também precisa ser conhecida antes do estabelecimento das metas. Uma casa elevada, acima do nível da rua,
em um pequeno lote com 21 passos até a porta da frente, impossibilita a instalação de uma rampa com inclinação adequada. As barras de segurança
não  podem  ser  instaladas  ao  redor  de  banheiras  de  fibra  de  vidro,  tornando  uma  barra  de  segurança  colocada  no  lado  da  banheira  a  única  opção
possível, independente de onde o cliente realmente necessite do suporte. Os clientes que vivem em moradias alugadas podem não ser capazes de fazer
alterações estruturais conforme desejado, porque não são os proprietários da unidade.
Por  fim,  os  ambientes  de  alta  do  cliente  devem  ser  conhecidos  quando  é  provável  que  as  atividades  sejam  realizadas  em  mais  de  um  local.  Os
clientes no ambiente hospitalar podem ser trabalhados principalmente para o retorno à casa, porém a maioria das pessoas não se confina a um único
ambiente. As adaptações para vasos sanitários, como assentos sanitários elevados e descansos de braço no vaso sanitário, são comumente utilizadas
para pessoas com mobilidade limitada. As adaptações domiciliares são feitas com facilidade, mas, comumente, os clientes se encontram em ambientes
que não foram adaptados, como prédios públicos, casas de amigos, aviões, hotéis e sanitários portáteis na feira local. Se é provável que os clientes
frequentem esses ambientes, suas metas devem abordar sua capacidade de realizar tarefas em ambientes variados.

DILEMAS DA ÉTICA
O Cuidado Centrado no Cliente Pode Entrar em Conflito com as Necessidades de uma Organização?

J éssica  é  uma  terapeuta  ocupacional  que  trabalha  em  uma  unidade  de  reabilitação  semi­intensiva  em  uma  instituição  de  enfermagem
especializada.  Ela  realizou  a  avaliação  da  sra.  Cabrini,  uma  mulher  de  82  anos  de  idade  com  múltiplos  problemas  clínicos,  incluindo  recente
artroplastia total de quadril secundária a uma fratura, doença cardiovascular e artrite reumatoide. A sra. Cabrini gostaria de ser independente nas
transferências, na mobilidade dentro de casa e no uso do vaso sanitário, o que a capacitaria a retornar para sua casa em uma instituição de vida
assistida. Ela relatou que poderia conseguir ajuda diária para as ações de vestir­se e tomar banho, e que preferiria fazer isto, porque fica fatigada
com rapidez e deseja preservar sua energia para o grupo de trabalhos manuais de todos os dias pela manhã. Durante a avaliação, a sra. Cabrini
tolerou cerca de 30 minutos de terapia pela manhã e 30 minutos à tarde, divididos entre a terapia ocupacional e a fisioterapia. Jéssica estabeleceu
metas centradas na cliente em cooperação com a sra. Cabrini. A fisioterapeuta concordou que a cliente poderia trabalhar de maneira produtiva por
apenas dois tratamentos de 30 minutos por dia, e elas optaram por dividir o tempo, então Jéssica registrou que a intensidade da terapia ocupacional
seria de 30 minutos diários, sete dias por semana.
O  supervisor  de  Jéssica  abordou­a  e  solicitou  que  ela  aumentasse  a  sra.  Cabrini  para  45  minutos  ao  dia,  de  maneira  que  a  sra.  Cabrini  se
qualificasse para um Grupo de Utilização de Recurso (Resourse Utilization Group – RUG) mais elevado sob o sistema de pagamento prospectivo do
Medicare.  O  supervisor  disse  à  Jéssica  que  se  a  instituição  não  pudesse  aumentar  as  taxas  de  reembolso  por  ter  mais  clientes  em  RUG  mais
elevadas, eles poderiam precisar diminuir a equipe, o que teria um impacto negativo sobre o cuidado da cliente. O supervisor de Jéssica também
sugeriu  que  seria  fácil  justificar  o  aumento  do  tratamento  se  Jéssica  acrescentasse  mais  metas  de  AVD,  como  a  independência  para  se  vestir  e
tomar banho, ao plano de tratamento da sra. Cabrini.
1. O que Jéssica deve fazer nessa situação?
2. Como o cuidado centrado no cliente poderia influenciar as ações de Jéssica?
3. Como Jéssica pode equilibrar as necessidades e desejos de sua cliente com as necessidades da instituição?

DILEMAS DA PRÁTICA

COMO FORNECER TRATAMENTO ÓTIMO COM RECURSOS LIMITADOS?
Jon  é  um  terapeuta  ocupacional  de  um  grande  hospital  de  reabilitação  em  uma  cidade  importante.  O  departamento  de  terapia  ocupacional
recentemente  instalou  os  mais  modernos  dispositivos  eletrônicos  para  a  vida  independente  (DEVI)  em  um  apartamento  utilizado  para
tratamento. Henry é um menino de 16 anos com distrofia muscular. Ele utiliza uma cadeira de rodas elétrica reclinável que ele consegue dirigir de
modo independente com um interruptor de cabeça. Ele tem uso limitado de seus membros superiores. Henry vive sozinho com sua mãe, que trabalha
em um emprego de baixa renda. Ele dispõe do Medicaid.
A  doença  de  Henry  progrediu  de  tal  modo  que  ele  não  é  mais  capaz  de  entrar  e  sair  de  sua  casa  ou  de  operar,  sem  assistência,  dispositivos
eletrônicos comuns, como televisão, telefone e luzes. Como sua mãe trabalha durante o dia, Henry precisa frequentar um programa após a escola
que é principalmente voltado para crianças pequenas. Henry disse a seu terapeuta ocupacional que sua meta mais importante é ser capaz de ir da
escola  para  casa  e  ter  acesso  à  sua  casa.  O  terapeuta  ocupacional  está  certo  de  que  esta  pode  ser  uma  meta  alcançável  para  Henry  com  um
sistema de DEVI que o capacitaria a ser independente para destrancar e abrir a porta, ligar e desligar as luzes e os aparelhos eletrônicos e utilizar o
telefone e o computador. No entanto, o terapeuta também está ciente de que o Medicaid não irá pagar por um DEVI em seu estado.
1. Como Jon deve proceder? Ele deve treinar Henry no uso do DEVI, mesmo que sua compra não seja possível?
2. Quais os membros da equipe que o terapeuta ocupacional poderia consultar para ajudá­lo a fazer Henry alcançar sua meta?
3. O diagnóstico de distrofia muscular, uma doença progressiva, afeta a abordagem que Jon adotaria para solucionar esse problema?
4. Como Jon pode ajudar Henry a atingir sua meta?

TRATAMENTO PARA DÉFICITS DE AVD E AIVD
Os tratamentos para os déficits de AVD e AIVD baseiam­se nas metas dos clientes e incluem a seleção de abordagens de tratamento e de atividades, a
execução do tratamento e a revisão do tratamento para garantir que ele é efetivo na progressão dos clientes para aquisição de suas metas.

Planejamento e Execução do Tratamento
Cinco  abordagens  de  tratamento  são  descritas  no  PPTO:  criar/promover,  prevenir,  manter,  modificar/adaptar  e  estabelecer/restaurar  (AOTA,  2002).
Embora  qualquer  uma  dessas  abordagens  possa  ser  utilizada  para  dar  suporte  ao  desempenho  de  AVD  e  AIVD,  modificar/adaptar  e
estabelecer/restaurar  são  as  mais  comumente  utilizadas  na  prática  e  serão  o  foco  do  tratamento  discutido  neste  capítulo.  As  abordagens  tanto
adaptativas  como  restauradoras  precisam  ser  combinadas  à  orientação  do  cliente  e/ou  do  cuidador  para  garantir  a  transposição  do  programa  para
funcionar na vida cotidiana (Flinn & Radomski, 2008). A seleção das atividades específicas de tratamento é orientada em grande parte pelo protocolo
selecionado pelo terapeuta ocupacional para cada cliente. Protocolos específicos estão além do escopo deste capítulo, mas podem ser encontrados na
Unidade VIII. A subseção a seguir trata das abordagens de tratamento mais abrangentes e de suas estratégias correlatas. Ela inclui uma discussão sobre
a orientação do cliente e do cuidador, graduando as atividades para progressão dos clientes até as metas estabelecidas.

Selecionando uma Abordagem de Tratamento
O profissional de terapia ocupacional considera inúmeras variáveis quando decide se é mais apropriado concentrar­se na compensação dos déficits de
um cliente por meio de adaptação ou na restauração das habilidades necessárias para atingir as metas. Essas considerações são abordadas nas seções a
seguir.

MODIFICAR.  O  desempenho  da  atividade  pode  ser  melhorado  por  meio  de  compensação  das  limitações  da  atividade  em  vez  da  restauração  das
capacidades  prévias.  Com  frequência,  isso  é  necessário  quando  a  restauração  não  é  uma  opção.  Por  exemplo,  nesse  momento,  um  cliente  com
tetraplegia  completa  C5  não  irá  recuperar  a  função  prévia  da  mão,  independente  da  abordagem  de  restauração  utilizada.  A  compensação  dos
comprometimentos é necessária para a participação bem­sucedida nas AVD e AIVD. Mesmo para os clientes nos quais a restauração é possível, uma
abordagem  compensatória  poderia  ser  mais  apropriada  se  as  limitações  de  tempo  ou  a  motivação  do  cliente  levassem  a  resultados  menores  do  que
ótimos. As estratégias compensatórias também podem ser apropriadas quando se consegue alguma, mas não toda, restauração da função. Em geral, as
estratégias compensatórias exigem menos tempo de tratamento para a obtenção de resultados funcionais em comparação às estratégias de restauração.
O  tratamento  para  as  limitações  de  desempenho  seguro  da  atividade  é  frequentemente  voltado  para  a  adaptação  da  atividade  ou  do  ambiente,  de
maneira  que  o  desempenho  possa  ser  melhorado  tão  logo  seja  possível  (Close  et  al.,  1999;  Cummings  et  al.,  1999).  Em  contraste,  a  melhora  na
independência  pode  acontecer  com  o  passar  do  tempo,  enquanto  estiver  disponível  uma  assistência  adequada.  O  tratamento  para  a  segurança  deve
incluir um componente de orientação dos clientes e de seus cuidadores quando os clientes estão reaprendendo atividades familiares com capacidade
reduzida ou em ambientes de desempenho novos ou desconhecidos.
Três  estratégias  gerais  de  tratamento  podem  ser  utilizadas  na  abordagem  compensatória.  O  modo  de  execução  da  atividade  ou  tarefa  pode  ser
alterado,  os  objetos  da  tarefa  podem  ser  adaptados  ou  o  ambiente  pode  ser  modificado.  As  combinações  desses  métodos  podem  ser  utilizadas  para
maximizar o desempenho do cliente. Os exemplos dessas três estratégias de tratamento para as AVD e AIVD selecionadas estão incluídos na Tabela
48.3.

TABELA 48.3 EXEMPLOS DE TRÊS ABORDAGENS PARA A MODIFICAÇÃO DE TAREFAS PARA COMPENSAÇÃO DE
COMPROMETIMENTOS
Tarefa Alterar o Método Alterar os Objetos da Tarefa Modificar o Ambiente da Tarefa
Tomar banho Substituir por lavar­se na pia para alguém Utilizar um tapete na banheira e Instalar barras de segurança e um
que é incapaz de entrar e sair da sabonete preso a um cordão, para assento de transferência de banheira
banheira com segurança, mesmo com que os objetos não caiam de para possibilitar que o cliente
equipamento de adaptação. alguém que não possa se curvar permaneça sentado durante o banho.
para pegá­los de volta.
Arrumar­se O cliente aprende a estabilizar pequenos Um cabo alongado é adicionado a Um espelho de parede extensível é
recipientes com os dedos ulnares um barbeador para que uma montado em uma altura apropriada
enquanto desenrosca as tampas com os mulher possa depilar suas pernas para um usuário de cadeira de rodas.
dedos radiais para compensar a perda do sem se curvar para a frente.
uso de uma das mãos.
Uso do vaso Utilizar um alarme de relógio para incentivar Usar um dispositivo de higiene Instalar um bidê no banheiro para eliminar
sanitário o esvaziamento regular da bexiga. íntima para estender a faixa de a necessidade de manipular o papel
alcance da higiene no vaso higiênico para a higiene.
sanitário
Vestir­se Aprender a vestir o lado afetado primeiro Utilizar uma calçadeira de meia para Abaixar as prateleiras de roupas ou
para compensar a perda do uso de um calçar as meias sem precisar se substituir um cabideiro alto por um baixo
lado do corpo. esticar até os pés. para aumentar o acesso às roupas.
Alimentação Servir diferentes itens alimentares (p. ex., Utilizar um talher com cabo alargado Fazer com que uma criança em idade
carne, grãos, vegetais) em locais para compensar a preensão escolar coma com alguns amigos em
consistentes no prato para alguém que é diminuída na mão. um pequeno cômodo em vez de na
cego. lanchonete, que tem muitas pessoas e é
repleta de distração.
Transferências Sentar­se primeiro no assento de carros Utilizar a prancha de deslizamento Reorganizar a mobília para permitir que a
antes de oscilar as pernas em vez de para eliminar a necessidade dos cadeira de rodas seja posicionada
entrar no carro primeiro com a perna. membros inferiores sustentarem o próxima ao leito ou a uma cadeira
peso do corpo. predileta.
Cozinhar Sentar­se à mesa da cozinha para picar Utilizar uma tábua de corte com Instalar um espelho acima do fogão para
vegetais de modo a conservar energia. grampos de alumínio para segurar permitir que o usuário de cadeira de
os vegetais para cortar ou rodas observe os itens em cozimento.
descascar.
Pagar contas Arredondar os valores para os valores Utilizar cheques grandes, uma Instalar quatro bolsas de plásticos na
cheios mais próximos para simplificar a caneta escura e uma guia de parede para separar as contas a pagar
matemática para um cliente com escrita para compensar a visão a cada semana do mês no caso de um
comprometimento cognitivo. reduzida. cliente com atenção ou memória
deficiente.
Fazer Utilizar para compras online e por catálogo Comprar uma cesta para andador Solicitar a assistência de um funcionário
compras para reduzir a necessidade de mobilidade para carregar os objetos. do mercado para ajudar a pegar os
na comunidade. artigos.

ALTERAR O MÉTODO DA TAREFA. Quando o método da tarefa é modificado, os objetos e o contexto da tarefa permanecem inalterados, mas o modo
de realizar a tarefa é alterado para torná­la adequada aos comprometimentos do cliente. Muitas das técnicas de utilização de uma das mãos para tarefas
que normalmente são efetuadas com as duas mãos utilizam essa estratégia, incluindo vestir­se como uma só mão, amarrar os calçados com uma só mão
(Fig. 48.2) e técnicas de digitação com uma só mão. Para dominar um método modificado da tarefa de maneira bem­sucedida, os clientes precisam ter
a  capacidade  de  aprender.  O  nível  necessário  de  capacidade  de  aprendizagem  depende  da  complexidade  do  método  que  deve  ser  aprendido.
Comumente,  as  pessoas  utilizam  o  processamento  automático  de  AVD  e  AIVD  bem­aprendidas,  as  quais  exigem  pouca  atenção  direta.  O
processamento  automático  de  tarefas  rotineiras  libera  o  indivíduo  para  outras  atividades,  como  planejar  o  dia  de  trabalho  enquanto  se  apronta  pela
manhã ou conversar com uma criança enquanto faz compras no mercado. A prática é um componente necessário a todo aprendizado e é especialmente
importante  para  os  clientes  que  desejam  desenvolver  ou  retomar  o  desempenho  automático  das  AVD  (Flinn  &  Radomski,  2008).  Os  clientes
beneficiam­se do bom acompanhamento de um programa de treinamento para atender aos parâmetros de adequação, como reduzir a dificuldade e a
duração do desempenho e aumentar a satisfação.

ADAPTAR OS OBJETOS DA TAREFA OU PRESCREVER DISPOSITIVOS DE ASSISTÊNCIA. Os objetos utilizados na tarefa podem ser modificados para
facilitar  o  desempenho.  Por  exemplo,  cabos  dos  talheres  adaptados  para  clientes  com  diminuição  da  amplitude  de  movimento  dos  dedos  ou  o
treinamento para uso de dispositivos de memória (p. ex., notebooks de memória, listas de verificação, cartões de lembretes e dispositivos eletrônicos de
lembretes)  podem  ajudar  os  clientes  com  dificuldade  para  iniciar  as  tarefas  (Knoke,  Taylor  &  Saint­Cyr,  1998;  Schwartz,  1995).  Para  algumas
adaptações  da  tarefa,  os  objetos  da  tarefa  não  modificam  muito  o  método  da  tarefa,  de  modo  que  a  necessidade  de  aprendizagem  é  menor  do  que
quando o método é modificado. Quando isso ocorre, a necessidade de prática também se mostra reduzida, e o desempenho pode melhorar rapidamente.
Os exemplos de adaptações simples incluem talheres com cabos alargados ou estendidos, uma tábua de corte com grampos para estabilizar o alimento
durante o corte e cadarços elásticos.
A  prescrição  de  dispositivos  de  assistência  precisa  considerar  as  capacidades  e  a  disposição  do  cliente  para  utilizar  o  dispositivo,  bem  como  as
características  do  dispositivo,  um  processo  que  comumente  é  simplificado  em  excesso.  Por  exemplo,  uma  calçadeira  pode  ajudar  um  cliente  com
equilíbrio deficiente a alcançar seus pés na posição sentada sem precisar se inclinar para a frente, o que o faria perder o equilíbrio. No entanto, se o
déficit de equilíbrio do cliente é secundário à hemiplegia e ele também apresenta uso deficiente de uma das mãos, será difícil ou impossível para ele
colocar  a  meia  na  calçadeira,  o  que  tipicamente  exige  ambas  as  mãos  (Fig.  48.3).  A  Fig.  48.4  demonstra  inúmeras  decisões  que  um  terapeuta
ocupacional  toma  quando  seleciona  uma  colher  adaptada,  um  tipo  de  dispositivo  de  adaptação  muito  simples.  Embora  muitos  dispositivos  de
assistência prescritos pelos profissionais de terapia ocupacional sejam bastante simples do ponto de vista mecânico, alguns são sofisticados e incluem
componentes  eletrônicos  complexos,  circuitos  e  microprocessadores,  como  os  dispositivos  eletrônicos  para  a  vida  diária  que  interagem  com  casas
inteligentes.
Uma desvantagem da adaptação de objetos da tarefa é que o dispositivo de adaptação precisa estar disponível para os clientes sempre que e onde
quer que eles se engajem na tarefa. Isso pode ou não causar um problema, dependendo da tarefa e da adaptação. Os clientes que utilizam agendas no
trabalho para compensar os comprometimentos cognitivos podem incorporar a estrutura e as pistas necessárias em um planejamento diário ou em uma
agenda  pessoal,  um  instrumento  habitualmente  usado  antes  do  comprometimento.  Se,  no  entanto,  um  cliente  necessita  de  talheres  especiais  para  a
alimentação  e  deseja  se  alimentar  em  um  restaurante,  os  talheres  precisam  ser  levados.  Isso  é  problemático,  e  alguns  clientes  o  consideram
embaraçoso.

Fig. 48.2 O método de amarrar o cadarço com uma das mãos.

Por fim, alguns clientes acreditam que o uso do dispositivo de adaptação reduz a satisfação com o desempenho da tarefa. Para aumentar a satisfação
pessoal com o desempenho da tarefa, eles podem ficar ansiosos por lidar com a maior dificuldade para a realização de uma tarefa sem os instrumentos
adaptados. Por exemplo, a sra. Lindstrom, uma mulher com esclerose múltipla, descobriu que sua mobilidade era mais segura e mais fácil em uma
cadeira de rodas, mas ela preferia caminhar quando saía na comunidade. Sua insatisfação com a cadeira de rodas superava outras considerações.

MODIFICAR O AMBIENTE DA TAREFA.  A  modificação  do  próprio  ambiente  pode  ser  utilizada  para  facilitar  o  desempenho  da  tarefa  (Dunn  et  al.,
1994). Tipicamente, quando o ambiente é modificado, a demanda por aprendizagem e prática é menor do que a necessária para aprender um método
alternativo ou utilizar objetos adaptados. As modificações ambientais são, com frequência, fixadas na posição, de modo que os clientes não precisem
se  lembrar  de  trazer  consigo  as  adaptações  necessárias  e  as  adaptações  não  podem  ser  deslocadas  com  facilidade  (p.  ex.,  elas  não  ficam  fora  do
alcance). Usualmente, o método da tarefa não é modificado ou é minimamente modificado, de modo que os clientes podem se basear na experiência
prévia.  Os  exemplos  incluem  instalar  uma  rampa  para  cadeira  de  rodas,  instalar  uma  barra  do  teto  ao  chão  no  banheiro  (Fig.  48.5),  retrair  o
encanamento sob a pia para acomodar um usuário de cadeira de rodas, aumentar a iluminação disponível, rotular as portas do armário para compensar
déficits cognitivos e instalar um suporte de assento de vaso sanitário.
A principal desvantagem das modificações ambientais é que os clientes podem tornar­se limitados com relação ao contexto de desempenho. Eles
precisam realizar a tarefa no ambiente modificado ou em um ambiente modificado de modo semelhante, porque as modificações não são facilmente
transportáveis e podem ser construídas sob medida para um ambiente específico.

ESTABELECER/RESTAURAR.  Comumente,  uma  abordagem  restauradora  inclui  o  tratamento  no  nível  de  comprometimento  com  o  objetivo  de
restaurar  ou  estabelecer  as  capacidades  necessárias  para  as  tarefas  funcionais  (AOTA,  2002).  O  tratamento  pode  ser  utilizado  para  restaurar
capacidades  como  força,  resistência,  amplitude  de  movimento,  memória  de  curto  prazo,  busca  visual  e  interesses.  Mais  informações  sobre  técnicas
específicas podem ser encontradas nos capítulos da Unidade XI. No entanto, independente do protocolo ou das técnicas específicas utilizadas, sempre
precisamos estabelecer a relação entre o comprometimento e as limitações de atividade resultantes. O registro cuidadoso da avaliação auxilia outros
profissionais  de  saúde  e  as  fontes  pagadoras  a  compreenderem  a  relação  entre  o  tratamento  e  os  resultados  funcionais  estabelecidos.  Os  clientes
também precisam ser orientados quanto à relação entre as capacidades inerentes e as tarefas cotidianas que eles buscam, de modo que compreendam
como  o  tratamento  levará  ao  melhor  desempenho  da  tarefa.  Todos  os  programas  de  tratamento  que  se  destinam  a  restaurar  ou  estabelecer  as
capacidades  inerentes  precisam  fornecer  aos  clientes  uma  oportunidade  estruturada  para  transferir  os  ganhos  alcançados  nessas  capacidades  para
tarefas funcionais relevantes (Latham, 2008a). Isso garante que o resultado do tratamento seja funcional e ajuda a manter os ganhos alcançados por
meio do aumento da capacidade e da redução do comprometimento ao proporcionar uma oportunidade para a prática na rotina diária. Por exemplo, os
exercícios  de  alongamento  que  resultam  em  aumento  do  movimento  ativo  de  flexão  do  ombro  direito  precisam  ser  acompanhados  por  tarefas
funcionais que exijam o movimento na amplitude recentemente adquirida, como utilizar o membro superior direito para alcançar e fixar fotos em um
quadro de avisos ou tirar a poeira da estante. Outros exemplos podem ser encontrados na Tabela 48.4.
Fig. 48.3 Uma calçadeira de meia é útil para as pessoas com limitação para alcançar, por exemplo, decorrente de limitação do equilíbrio ou da
amplitude de movimento. No entanto, o cliente precisa fazer uso de ambas as mãos para colocar a meia no dispositivo, o que poderia ser impraticável
para alguns clientes.

Fig. 48.4 As decisões potenciais para a prescrição de um dispositivo de assistência, uma colher adaptada.

O tratamento que visa à restauração é, com frequência, mais eficiente para os clientes nos quais alguns comprometimentos afetam muitas tarefas e
para os quais se pode esperar um aumento das capacidades. Por exemplo, o sr. Stapinski sofreu queimaduras de segundo grau ao redor de ambos os
membros superiores. As restrições bilaterais resultantes da flexão do cotovelo o impediam de realizar a maioria das AVD em função da incapacidade
de alcançar a face, a cabeça ou o tronco. As tarefas podiam ser facilmente adaptadas com dispositivos de cabo longo, mas estes dispositivos seriam
necessários para muitas tarefas de AVD (p. ex., talheres, escova de dente, pente, escova de cabelo, escova de banho). Como se espera que os clientes
com  queimaduras  aumentem  a  amplitude  de  movimento  com  alongamento  passivo,  controle  da  cicatriz  e  exercício,  o  tratamento  foi  mais  eficiente
quando  objetivou  o  aumento  da  flexão  de  cotovelo  do  sr.  Stapinski.  A  adaptação  de  objetos  de  tarefa  melhorou  seu  desempenho  de  AVD  em  curto
prazo; entretanto, a meta de longo prazo de restaurar a capacidade do sr. Stapinski de flexionar seus cotovelos melhorou a função em muitas tarefas
diferentes.
Fig. 48.5 Uma barra do teto ao chão pode ser utilizada para facilitar a estabilidade durante as transferências.

Uma  abordagem  restauradora  pode  ser  apropriada  para  alguns  clientes  com  doenças  progressivas,  ainda  que  se  espere  que  suas  capacidades
deteriorem  por  causa  da  evolução  típica  da  patologia.  No  entanto,  o  foco  se  volta  para  a  diminuição  do  declínio  de  capacidades  e  de  habilidades
específicas. Por exemplo, os clientes com doença de Parkinson podem reduzir a bradicinesia com o uso de um programa de exercício (Curtis, Bassile,
Cote & Gentile, 2001).
Para  os  clientes  com  alguns  tipos  de  comprometimentos,  as  atividades  cotidianas  cuidadosamente  estruturadas  podem  restaurar  ou  estabelecer  as
capacidades  ao  mesmo  tempo  que  promovem  a  prática  das  atividades.  Os  clientes  severamente  descondicionados  podem  apresentar  um  nível  de
atividade  limitado  em  função  da  resistência  deficiente.  O  tratamento  poderia  se  basear  em  exercícios  aeróbicos  para  aumentar  a  resistência
cardiopulmonar com o objetivo de participação em atividades funcionais quando for alcançado um aumento apropriado da capacidade cardiopulmonar.
Em  vez  disso,  um  tratamento  que  controlasse  a  intensidade  e  a  duração  das  atividades  diárias  poderia  ser  efetivo  para  aumentar  a  aptidão
cardiovascular,  enquanto  prepararia  o  cliente  para  participar  das  tarefas  desejadas.  Além  disso,  os  ganhos  alcançados  quanto  à  resistência  são
imediatamente  transferidos  para  as  atividades  funcionais.  As  crianças  e  os  adultos  podem  participar  de  maneira  mais  efetiva  em  atividades  de
brincadeira  que  incorporam  os  movimentos  repetitivos  necessários  em  comparação  ao  exercício  rotineiro  (Melchert­McKearnan,  Deitz,  Engel  &
White, 2000). A prática e a participação em programas de AVD e AIVD também conferem aos clientes com incapacidade recente uma oportunidade
para se familiarizar com seus novos corpos (Guidetti, Asaba & Tham, 2007).
Dependendo  da  natureza  da  discrepância  do  desempenho  e  do  grau  de  comprometimento,  o  tempo  de  tratamento  necessário  para  estabelecer  ou
restaurar as habilidades subjacentes pode ser mais longo do que aquele necessário para as abordagens compensatórias. Esse maior período de tempo
precisa  ser  considerado,  principalmente  em  instituições  de  cuidados  gerenciados.  Além  disso,  os  clientes  precisam  reconhecer  que  o  período  de
reabilitação pode ser mais longo e que o acompanhamento de um programa domiciliar é vital se ganhos devem ser alcançados.

INTEGRANDO O TRATAMENTO PARA COMPROMETIMENTOS E LIMITAÇÕES  DA  ATIVIDADE.  À  primeira  vista,  pode  parecer  que  as  abordagens
para  modificar/adaptar  e  estabelecer/restaurar  são  mutuamente  exclusivas  –  isto  é,  que  o  resultado  consiste  em  estabelecer/restaurar  a  capacidade
comprometida  ou  compensá­la.  Utilizar  ambas  as  abordagens  simultaneamente  pode  parecer  algo  como  vestir  cinto  e  suspensório.  No  entanto,  um
programa cuidadosamente elaborado possibilita que os clientes se tornem mais funcionais por meio de uso de estratégias compensatórias ao mesmo
tempo  que  trabalha  para  restaurar  as  capacidades  funcionais.  É  primordial  que  o  profissional  de  terapia  ocupacional  reduza  o  uso  de  estratégias
compensatórias à medida que os clientes obtêm ganhos no desempenho da habilidade quando utilizam as duas abordagens.
Por exemplo, o sr. Stapinski, cujas queimaduras resultaram em limitações bilaterais na flexão do cotovelo, poderia beneficiar­se do uso de utensílios
com cabos alongados. Com cabos alongados nos talheres, ele pode alimentar­se de maneira independente durante as duas a três semanas que ele levará
para aumentar a flexão de seu cotovelo o suficiente para se alimentar sem o uso desses utensílios. Os cabos alongados devem ser fabricados para exigir
que ele flexione totalmente o cotovelo na amplitude de movimento disponível e devem ser encurtados à medida que são obtidos ganhos na amplitude
de movimento para que a nova amplitude seja incorporada à tarefa da alimentação.
TABELA 48.4 INTEGRANDO OS GANHOS DO TRATAMENTO COM UMA ABORDAGEM PARA ESTABELECER OU RESTAURAR TAREFAS
FUNCIONAIS
Comprometimento Tarefa para Reduzir o Tarefa para Integrar os Ganhos Resultados Funcionais
Comprometimento Obtidos em AVD/AIVD
Comprometimento Exercícios com argila A tarefa de cozinhar começa com Aumento da capacidade de segurar os objetos da
da força de pinça pequena resistência (p. ex., tarefa com firmeza (p. ex., abrir recipientes, portas,
mexer a gelatina) e progride (p. levantar as calças)
ex., preparar a mistura de bolo)
Diminuição da Uso de um ergômetro de Mobilidade na cadeira de rodas, Aumento da capacidade de se engajar no trabalho
resistência da braço aumentando o tempo e a contínuo com o membro superior (p. ex.,
musculatura do dificuldade (p. ex., passar de impulsionar uma cadeira de rodas, aplicar xampu
membro superior superfícies planas para rampas) nos cabelos, lavar janelas)
Hiper­ Esfregar a pele Progride do banho de banheira Capacidade de tolerar os estímulos táteis nas tarefas
responsividade para o de chuveiro, o que cotidianas, inclusive vestir­se, escovar os dentes e
aos estímulos proporciona um estímulo mais interagir com os outros
táteis forte
Busca visual Tarefas de cancelamento Encontrar sem ajuda os objetos em Capacidade de utilizar um processo de busca mais
deficiente com papel e lápis (p. ex., um armário de cozinha ou no organizado para localizar os objetos (p. ex.,
riscar todas as letras M mercado encontrar uma blusa no armário, a escova em uma
em um cartão com letras) penteadeira cheia, o leite na geladeira)

Sempre que se prevê que as adaptações da tarefa ou do ambiente serão temporárias, é necessário considerar o custo em relação ao momento previsto
em  que  o  equipamento  será  necessário,  bem  como  o  benefício  potencial  para  os  clientes.  Extensões  termoplásticas  ou  de  madeira  podem  ser
acrescentadas  temporariamente  aos  cabos  de  talheres  regulares  em  vez  da  prescrição  de  talheres  com  cabos  alongados  comercialmente  disponíveis,
mas  dispendiosos.  Para  algumas  tarefas,  as  preocupações  com  a  segurança  superam  as  considerações  sobre  o  custo.  A  utilização  de  uma  cadeira
dobrável de tecido dentro do boxe seria uma alternativa barata para uma cadeira de banho, mas ela não forneceria a estabilidade adequada.

Orientação do Cliente ou do Cuidador
O treinamento do cuidador pode ser implementado de modo a maximizar o resultado funcional de um cliente e ao mesmo tempo minimizar os esforços
do cuidador (Bogardus et al., 2001; Dooley & Hinojosa, 2004; Hepburn, Tornatore, Center & Ostwald, 2001; Miller & Butin, 2000). Por exemplo, o sr.
Ford  sofreu  um  acidente  vascular  cerebral  esquerdo  e  precisou  de  assistência  física  mínima  com  pista  verbal  de  seu  terapeuta  ocupacional  para  as
transferências da cadeira de rodas. A sra. Ford era fisicamente capaz de ajudar seu marido, mas não tinha experiência prévia na transferência de uma
pessoa com hemiparesia. Um dia, ela decidiu ajudar seu marido a passar do leito hospitalar para a cadeira. Como ela não bloqueou seu joelho direito ou
disse  a  ele  para  aguardar  por  sua  ordem  antes  de  ficar  em  pé,  ambos  caíram  sobre  o  leito  enquanto  tentavam  executar  a  transferência.  Felizmente,
ninguém se machucou. Como consequência dessa experiência, a sra. Ford foi convencida de que não poderia cuidar de seu marido em casa. Ao mesmo
tempo,  ela  ficou  angustiada  pelo  pensamento  de  precisar  interná­lo  em  uma  instituição  de  cuidados  de  longo  prazo.  Ela  se  mostrou  receptiva  ao
treinamento  de  transferência  fornecido  pelo  terapeuta  ocupacional  e  ficou  contente  ao  descobrir  que,  ao  utilizar  as  técnicas  verbais  e  físicas
apropriadas, poderia ajudar o marido com facilidade e segurança. Neste exemplo, o treinamento do cuidador aumentou o nível de independência do
cliente e a probabilidade de seu retorno para casa na alta.

MÉTODOS DE INSTRUÇÃO. Diversos métodos de instrução estão disponíveis para a orientação do cliente e do cuidador (Fuhrer & Keith, 1998), e os
métodos  precisam  ser  selecionados  para  melhor  atender  às  necessidades  da  pessoa.  Quando  uma  instituição  conta  com  uma  população  de  clientes
homogênea, a orientação em grupo pode ser um método eficiente e efetivo para promover a educação básica. Muitos centros de tratamento de artrite
fornecem instrução em grupo sobre as técnicas de proteção articular. A orientação de um grupo tem bom custo­benefício e, quando bem­estruturada,
pode  facilitar  o  aprendizado  por  meio  da  interação  com  os  colegas.  Para  grupos  de  cuidadores,  o  contato  com  outras  pessoas  que  experimentam
problemas semelhantes em seus pa péis de cuidadores pode fornecer suporte emocional inestimável e uma oportunidade construtiva para a resolução de
problemas em grupo.
Algum tipo de instrução individualizada é tipicamente necessário para complementar a orientação em grupo, de modo que a informação possa ser
adaptada para atender a necessidades específicas e únicas de cada pessoa. Se a orientação em grupo antecedeu a instrução individualizada, as sessões
específicas  para  o  cliente  podem  ser  relativamente  curtas  e  centradas  no  fornecimento  das  informações  aprendidas  no  grupo  para  as  circunstâncias
particulares do cliente. Por exemplo, os clientes seriam orientados sobre como aplicar as técnicas apropriadas de levantamento de peso para os pesos e
as dimensões de objetos existentes em suas casas.
A orientação individualizada é mais apropriada para muitos clientes e cuidadores porque a natureza pessoal das tarefas que precisam ser aprendidas
não  se  presta  à  instrução  em  grupo  (p.  ex.,  tomar  banho).  Além  disso,  nos  ambientes  de  tratamento  que  servem  a  uma  variedade  de  casos,  a
oportunidade  de  instrução  em  grupo  raramente  acontece.  A  orientação  e  o  treinamento  individual  do  cliente  ou  do  cuidador  possibilitam  que  o
terapeuta ocupacional obtenha retroalimentação imediata da pessoa à medida que a sessão progride e modifique a intensidade e o foco do aprendizado
de modo apropriado.
Um vasto conjunto de mídias está disponível para os profissionais de terapia ocupacional de modo a facilitar o processo de aprendizagem do cliente
ou do cuidador. Materiais impressos podem ser desenvolvidos de maneira específica para um cliente ou cuidador, ou os materiais impressos poderão
ser utilizados quando os tipos adequados estiverem disponíveis. Os gravadores em vídeo ou digitais estão disponíveis, mesmo nas casas dos clientes, e
DVD  ou  fitas  de  vídeo  feitas  sob  medida  ou  comerciais  podem  ser  instrumentos  efetivos  de  ensino.  As  fitas  de  áudio  também  podem  ser  efetivas,
principalmente quando o estímulo visual provoca distração. Por exemplo, uma fita de áudio pode ser utilizada para facilitar a imaginação visual para
relaxamento ou redução do estresse. A Internet é acessível à população em geral, e muitas clínicas de terapia ocupacional dispõem de acesso à Internet.
Uma gama de informações sobre diversas alterações está disponível, especialmente para clientes e cuidadores. Os clientes também podem encontrar
grupos de apoio por meio de salas de bate­papo, fóruns eletrônicos ou listas de e­mail.

TREINAMENTO DO CUIDADOR. Além da avaliação da capacidade de aprendizagem dos clientes, precisa ser conhecida a capacidade de aprendizagem
de  seus  cuidadores.  Assim  como  os  clientes,  os  cuidadores  apresentam  estilos  de  aprendizagem,  capacidades  e  experiências  variados.  Em  muitas
situações, o cuidador é um familiar que ainda lida com o impacto emocional de ter um membro da família com incapacidade, seja o pai de uma criança
com  paralisia  cerebral,  seja  um  cônjuge  de  alguém  que  sofreu  um  acidente  vascular  cerebral.  Com  frequência,  as  pessoas  sob  estresse  emocional
precisam de mais tempo e de mais repetições para processar as informações com exatidão (Blake & Lincoln, 2000). Em outros casos, os cuidadores
vêm  fornecendo  cuidados  durante  anos  e  trazem  uma  riqueza  de  experiência  de  cuidado  para  a  sessão  de  tratamento.  O  profissional  de  terapia
ocupacional precisa trabalhar em cooperação com todos os cuidadores, porém pode assumir um papel de consultor com cuidadores experientes que
conseguem identificar os problemas e participar ativamente da resolução de problema baseada no aprendizado prévio (Toth­Cohen, 2000). Quando se
espera que os cuidadores assistam fisicamente os clientes, sua capacidade física de fornecerem essa assistência também merece avaliação.
Os cuidadores apresentam estilos de aprendizado variados, e é provável que a instrução adequada a seu estilo preferido seja a mais eficiente e efetiva
(Banford et al., 2001). Algumas pessoas, por exemplo, são aprendizes cinestésicos. Elas aprendem mais rapidamente ao fazer. Os aprendizes visuais
podem preferir observar uma demonstração da atividade várias vezes antes de tentar realizá­la. Outros podem preferir instruções por escrito. Todos os
aprendizes beneficiam­se da oportunidade de fazer perguntas para esclarecer as instruções. As mídias que dão suporte à orientação de um profissional
podem dar uma grande contribuição. Os vídeos ou DVD, por exemplo, fornecem aos cuidadores uma excelente informação visual sobre como deve ser
realizado um exercício ou atividade. Com frequência, podem ser produzidas fitas de vídeo do desempenho da atividade de um cliente gravadas em casa
ou na clínica. Essas produções acrescentam pouco tempo à sessão de tratamento, porque são registradas enquanto as atividades são praticadas durante
o atendimento regular. Elas têm a vantagem de proporcionar informações mais ricas e mais detalhadas do que as instruções orais ou por escrito.
Quando os cuidadores ajudam a realizar um programa de tratamento, as metas e as estratégias gerais de tratamento devem ser explicadas a eles. Em
programas de restauração, os clientes podem necessitar de assistência para a realização de exercícios específicos ou para a graduação das atividades de
modo  que  contribua  para  a  restauração  das  habilidades.  Os  cuidadores  precisam  aprender  as  estratégias  específicas  de  orientação  para  que  os
programas domiciliares sejam executados da maneira correta, seja nas casas dos clientes, em residências comunitárias ou em ambientes de cuidados de
longo  prazo.  Comumente,  os  cuidadores  são  fundamentais  para  a  motivação  dos  clientes.  Pode  ser  particularmente  desafiador  motivar  clientes  que
apresentam  condições  que  comprometam  a  motivação,  como  a  depressão.  Ajudar  os  cuidadores  a  compreenderem  que  o  desinteresse  e  a  falta  de
motivação  fazem  parte  da  condição  e  fornecer  estratégias  concretas  para  tratar  a  fase  do  “vamos”  do  programa  domiciliar  fomentará  seu  sucesso
(Resnick,  1998).  Para  clientes  com  problemas  de  comportamento,  como  as  reações  que  podem  acompanhar  o  autismo  ou  a  doença  de  Alzheimer,
ensinar aos cuidadores estratégias de gerenciamento do comportamento que neutralizam as situações potencialmente voláteis pode ser inestimável para
seu sucesso como cuidadores.
O  treinamento  do  cuidador  para  assistir  clientes  nas  atividades  funcionais  deve  focar­se,  em  primeiro  lugar,  na  segurança  dos  clientes  e  dos
cuidadores. O profissional de terapia ocupacional precisa enfatizar os componentes da atividade que promovem a segurança, como acionar os freios da
cadeira  de  rodas  ou  bloquear  o  joelho  do  cliente  para  evitar  o  arqueamento  durante  a  transferência  para  e  da  cadeira  de  rodas.  À  medida  que  o
tratamento progride, o profissional de terapia ocupacional deverá informar aos cuidadores quais atividades são seguras e inseguras para realização fora
da situação de terapia. Por exemplo, embora um cliente possa estar trabalhando nas transferências para a banheira durante a terapia, pode ser necessária
a facilitação habilitada para entrar e sair com segurança na banheira, tornando prematuro que o cliente pratique essas transferências em casa.
Quando os cuidadores precisam fornecer assistência física, eles devem ser treinados no uso da mecânica corporal apropriada, principalmente durante
as transferências ou a mobilidade no leito, bem como para o posicionamento na cadeira de rodas. Assistir um cliente em uma cadeira de rodas durante
as  AVD,  como  escovar  os  dentes  ou  alimentar­se,  com  o  cuidador  em  pé  pode  fatigar  os  músculos  da  região  lombar  do  cuidador.  Com  frequência,
despreza­se o cuidado com o cuidador nos tratamentos de terapia ocupacional, mas é um componente essencial da negociação pessoa­tarefa­ambiente,
principalmente quando se antecipa que o cliente irá necessitar de assistência por um longo tempo.

Graduando o Programa de Tratamento
Os  programas  de  tratamento  nunca  devem  ser  estáticos.  É  importante  levar  continuamente  o  cliente  à  aquisição  das  metas  estabelecidas  para  o
tratamento. Os meios específicos de graduação do tratamento quando uma abordagem de restauração é aplicada dependem dos comprometimentos e
das estratégias de tratamento utilizadas (Latham, 2008b). (Os capítulos sobre restauração dos comprometimentos neste texto fornecem orientação mais
específica.) Se o programa de tratamento utiliza a restauração e a compensação, ele pode ser graduado pela redução da quantidade de adaptações da
tarefa e do ambiente à medida que as capacidades dos clientes são restauradas. O tratamento para as limitações de atividade pode ser graduado pela
modificação de muitos dos parâmetros de desempenho descritos anteriormente no capítulo. Os clientes podem aumentar seu nível de independência no
desempenho das tarefas, assumir mais responsabilidade pela segurança, sentir maior satisfação pessoal em tarefa, reduzir o nível de dificuldade ou de
esforço exigido ou diminuir a duração ou a ocorrência de comportamentos de risco aberrantes.

Encontrando as Melhores Estratégias Educacionais para o Aprendizado do Cliente

C omo  o  tempo  de  tratamento  individual  foi  reduzido  pelos  planos  de  reembolso  das  fontes  pagadoras,  a  orientação  do  cliente  e  do  cuidador
desempenha um papel mais importante no tratamento. Muitos estudos demonstram a eficácia de programas educacionais diferentes e variados.
Por exemplo, os programas de orientação do paciente revelaram­se efetivos no aumento do autocontrole e na redução da dor e da incapacidade de
pessoas com artrite reumatoide (Hammond, 2004), na redução do impacto da fadiga sobre o desempenho ocupacional das pessoas com esclerose
múltipla (Vanage et al., 2003) e no aumento da confiança e da participação na atividade de idosos com medo de queda (Cheal & Clemson, 2001).
Eklund, Sonn e Dahlin­Ivanoff (2004) compararam um programa de educação em saúde para pessoas com comprometimento visual e o tratamento
individual tradicional e relataram que os participantes do programa de educação em saúde demonstraram maior segurança para inúmeras AVD e
AIVD,  sustentando  a  necessidade  de  programas  estruturados  de  orientação  ao  cliente.  Comumente,  os  pesquisadores  descrevem  os  programas
educacionais  utilizados  em  seus  estudos,  e  os  métodos  educacionais  relatados  variam  de  modo  significativo.  Embora  exista  vasta  pesquisa  para
confirmar a eficácia dos programas de orientação ao paciente sobre os resultados do cliente, não foi encontrado nenhum estudo que comparasse as
diferentes abordagens educacionais para clientes de modo a identificar a melhor prática nessa área. A aprendizagem é um processo complexo, e
fatores  como  motivação  e  autoeficácia  devem  ser  abordados  no  planejamento  das  experiências  de  aprendizagem  (Edelstein,  2005).  Os  clientes
precisam  estar  dispostos  a  aprender,  de  modo  que  o  momento  da  orientação  também  pode  afetar  sua  eficácia  (Hammond,  2004)  e  deve  ser
explorado de maneira adicional. Muitos programas educacionais objetivam a mudança de hábitos dos clientes, como realizar programas domiciliares
de  exercício  ou  incorporar  as  técnicas  de  conservação  de  energia  às  atividades  diárias,  o  que  pode  exigir  abordagens  comportamentais  para
sustentar  o  desenvolvimento  de  novos  hábitos  (Hammond,  2004).  A  pesquisa  futura  também  precisa  examinar  o  impacto  de  diferentes
comprometimentos  sobre  a  eficácia  da  educação,  por  exemplo,  os  problemas  com  o  início,  a  atenção  ou  a  função  executiva.  Reunir  evidências
adicionais possibilitará que os profissionais se tornem cada vez mais efetivos para ajudar os clientes a alcançar suas metas.
GRADUANDO A PROGRESSÃO DA TAREFA DE MAIS  FÁCIL  PARA  MAIS  DIFÍCIL.  Um  meio  de  graduar  um  programa  de  tratamento  consiste  em
começar  com  tarefas  mais  fáceis  e  progredir  para  as  mais  difíceis.  A  dificuldade  da  tarefa  será  relativa  às  limitações  de  atividade  e  aos
comprometimentos  subjacentes  de  um  cliente.  Por  exemplo,  pagar  as  contas  pode  ser  relativamente  fácil  para  um  cliente  com  tetraplegia  se  existe
domínio do uso de um instrumento de escrita, enquanto é mais difícil vestir o membro inferior. Em contrapartida, é provável que um cliente com lesão
na cabeça que resultou em comprometimento cognitivo significativo e habilidades motoras relativamente preservadas considere que vestir o membro
inferior é relativamente fácil, mas o controle do dinheiro é extremamente difícil.

AUMENTANDO A COMPLEXIDADE DA TAREFA. Em vez de progredir apenas das atividades mais fáceis para as mais difíceis, o tratamento também
pode ser graduado pelo aumento da complexidade de uma atividade ou pela progressão da maneira mais simples para a mais complexa de realizá­la.
As habilidades para cozinhar podem variar de preparações simples, como sanduíches frios, até jantares com múltiplos pratos complexos. Mesmo as
tarefas aparentemente simples podem ser frequentemente graduadas. Uma intervenção para calçar a meia, por exemplo, pode ser graduada do uso de
meias curtas mais frouxas até o de meias até o joelho e, por fim, até as vestimentas compressivas apertadas.

MESMA TAREFA EM AMBIENTES DE DESEMPENHO VARIADOS. Uma parte crítica de um programa graduado de tratamento envolve a progressão do
ambiente de tratamento até o ambiente de vida em que a atividade realmente será realizada. Isso pode envolver a transferência do ambiente da clínica
para o ambiente domiciliar ou a dinâmica mais sutil associada à transferência da ajuda do profissional de terapia ocupacional para o cuidador natural.
O cliente que é independente para vestir uma jaqueta sentado na mesa de exame da clínica poderá ser incapaz de fazer isso quando estiver sentado em
uma cadeira com encosto ou quando estiver em pé (a maneira pela qual uma jaqueta é comumente vestida pelas pessoas que são capazes de caminhar).
Promover  a  prática  em  ambientes  de  desempenho  cada  vez  mais  exigentes  pode  facilitar  a  generalização  das  habilidades,  aumentando  assim  a
flexibilidade funcional do cliente.

Revisão do Tratamento
As  AVD  e  as  AIVD  são  avaliadas  no  início  da  terapia  ocupacional  para  fornecer  uma  medida  da  condição  inicial  de  desempenho  do  cliente.
Independente da extensão e da duração do tratamento, a reavaliação do desempenho das AVD e AIVD é necessária para determinar se o tratamento
está resultando em melhora, se o tratamento precisa continuar ou ser modificado, ou se o benefício máximo da terapia ocupacional foi alcançado e o
desempenho da atividade atingiu um platô. Os profissionais de terapia ocupacional engajam­se rotineiramente na revisão informal do tratamento ao
observar o desempenho dos clientes durante o atendimento e considerar o impacto real ou potencial de seu desempenho sobre as metas estabelecidas.
Periodicamente, uma revisão mais formal do tratamento ou uma reavaliação é necessária para mensurar objetivamente o progresso dos clientes na
aquisição  das  metas  e  registrar  seu  progresso  no  prontuário  clínico.  A  melhor  estratégia  para  a  reavaliação  consiste  em  administrar  novamente  as
avaliações realizadas no início. A utilização do mesmo conteúdo de AVD e AIVD, dos mesmos parâmetros de medida e dos mesmos métodos de coleta
de dados aumenta a possibilidade de detectar uma mudança no desempenho do cliente atribuível ao tratamento. Se a reavaliação difere da avaliação
inicial, o potencial para detectar a mudança é reduzido. Por exemplo, se o desempenho na AVD é avaliado na clínica de terapia ocupacional utilizando­
se a observação imediatamente antes da alta e com o uso de uma entrevista por telefone em algum momento depois da alta, não é possível determinar
se  o  melhor  desempenho  reflete  a  melhora  real  do  cliente  ou  se  é  o  resultado  da  mudança  do  método  de  obtenção  de  dados  (observação  versus
questionamento).

CONCLUSÃO
Este  capítulo  descreveu  a  prática  complexa  de  avaliar  e  tratar  clientes  com  déficits  de  AVD  e  AIVD.  Foram  revistos  os  parâmetros  de  valor,
independência,  segurança  e  adequação  do  desempenho,  e  foi  descrita  sua  relevância  para  a  seleção  de  instrumentos  específicos  de  medida.  Os
terapeutas ocupacionais precisam estabelecer medidas iniciais objetivas pelo uso de medidas padronizadas de AVD e AIVD sempre que possível; no
entanto, a realidade do ambiente de tratamento também pode exigir a utilização de avaliações não padronizadas. O desenvolvimento de metas objetivas
que abordem todos os parâmetros de desempenho relevantes é uma etapa inicial fundamental para a execução do tratamento por fornecer um “mapa”
para orientação do cuidado ao cliente. As abordagens gerais de tratamento utilizadas pelos terapeutas ocupacionais para aumentar a participação nas
AVD e AIVD incluem a modificação da tarefa ou do ambiente, o estabelecimento ou a restauração dos comprometimentos subjacentes e a orientação
do cliente e do cuidador. A graduação efetiva das atividades maximizará o progresso dos clientes para aquisição das metas. As atividades específicas
de  tratamento  variam  de  acordo  com  a  idade  e  as  incapacidades  dos  clientes  e  estão  além  do  escopo  deste  capítulo.  Os  leitores  devem  utilizar  este
capítulo  para  orientação  quanto  ao  processo  global  de  tratamento  de  AVD  e  AIVD  e  consultar  as  fontes  que  tratam  de  populações  de  clientes
específicas e de modelos de fornecimento de serviço ao selecionar as atividades específicas de tratamento.

AGRADECIMENTOS
Gostaria de agradecer à Dra. Margo B. Holm e à Dra. Joan Rogers por me convidarem a ser a coautora das duas edições anteriores dos capítulos sobre
o tratamento de AVD/AIVD para o Willard & Spackman’s Occupational Therapy, o que me deu a oportunidade de ser a autora deste capítulo sobre
avaliação e tratamento. A Dra. Holm e a Dra. Rogers têm a capacidade de conceituar e descrever a prática da terapia ocupacional de modo acadêmico e
prático. Suas contribuições nas edições anteriores continuam a brilhar intensamente neste capítulo.

QUESTÕES INSTIGANTES
1. O único terapeuta ocupacional do hospital de uma pequena comunidade é do sexo masculino. Ele recebe o encaminhamento de uma paciente que
sofreu  uma  fratura  lombar  e  precisa  utilizar  um  colete  lombar  todo  o  tempo.  A  cliente  não  consegue  alcançar  a  região  perianal  para  higiene  e
banho  e  precisa  ser  capaz  de  realizar  essas  tarefas,  bem  como  se  vestir,  quando  retornar  para  casa.  A  cliente  vem  de  uma  cultura  em  que  é
inaceitável que as mulheres sejam vistas despidas pelos homens. Ela solicitou uma terapeuta ocupacional, mas o hospital não conta com nenhuma
entre seus funcionários. Como o terapeuta ocupacional deve lidar com esta situação?
2. Como diferiria o tratamento para os clientes que desejam ser independentes (i.e., capazes de controlar seu próprio cuidado), mas que planejam
receber assistência para as AVD e/ou AIVD em longo prazo?
3. O  que  você  faz  quando  os  clientes  e  seus  cuidadores  têm  opiniões  diferentes  sobre  as  prioridades  de  tratamento?  Por  exemplo,  a  mãe  de  um
menino de 12 anos com paralisia cerebral gostaria que seu filho se tornasse independente ao se aprontar para a escola pela manhã, mas ele pensa
que  demoraria  muito  e  exigiria  que  ele  levantasse  muito  cedo.  Ou  uma  mulher  de  73  anos  de  idade  que  sofreu  um  acidente  vascular  cerebral,
resultando em hemiparesia esquerda e negligência moderada à esquerda, que gostaria de cozinhar novamente, mas cujo marido pensa que ela não
estaria segura e, em vez disto, preferiria cozinhar ele próprio. Ele diz que seria muito mais eficiente, sendo muito frustrante para ele precisar dar
pistas para a esposa todo o tempo.

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Cuidar e Criar Filhos
ELLEN S. COHN E ALEXIS D. HENRY

Sumário
Ocupações de Cuidar e Criar Filhos
Avaliação do Cuidado
Cuidar de uma Criança com Incapacidade
Cuidar de um Adulto com Incapacidade
Ser um Cuidador com Incapacidade
Pais com Incapacidades Físicas
Pais com Incapacidades Cognitivas
Pais com Transtornos Psiquiátricos
Estudo de Caso: Uma Mãe com Depressão
Tratamento para Cuidadores
Resumo

“Uma pessoa que se preocupa com outra representa o maior valor da vida.”

— JIM ROHN

Objetivos de Aprendizagem
Após a leitura deste capítulo, você será capaz de:

1. Descrever uma perspectiva ecológica, de desenvolvimento e centrada na ocupação de cuidar e
de criar filhos.
2. Discutir o processo para evolução das necessidades de cuidar e de criar filhos.
3. Escolher  tratamentos  baseados  nos  valores  e  no  desempenho  ocupacional  de  clientes  com
relação a cuidar e criar filhos.

C
uidar  e  criar  filhos,  essenciais  para  a  continuidade  da  vida,  são  ocupações  comuns,  embora  complexas.
Tanto  públicas  como  privadas,  essas  ocupações  são  profundamente  significativas,  intensamente  pessoais,
francamente  compartilhadas  e  socialmente  construídas.  Neste  capítulo,  os  termos  cuidar  e  criar  filhos  são
utilizados de modo intercambiável para descrever a ocupação de cultivar o bem­estar dos outros. Compreender o
significado, os ideais e os valores de cuidar e criar filhos a partir das perspectivas da sociedade e da pessoa é
essencial para a prática da terapia ocupacional. Historicamente, o tratamento dirigia­se principalmente aos pais
cujo filho tinha uma incapacidade. Comumente, os tratamentos se destinavam a ajudar os pais a dar suporte ao
desenvolvimento  de  seu  filho  com  incapacidades  e  davam  pouca  atenção  a  ajudar  os  pais  a  criar  rotinas
sustentáveis para melhorar as prioridades e os estilos de vida da família. Os cuidadores que apresentavam, eles
próprios,  uma  incapacidade  também  eram  desprezados  pela  terapia  ocupacional.  Dessa  maneira,  este  capítulo
apresenta  uma  revisão  das  ocupações  referentes  a  cuidar  e  criar  filhos,  seguida  por  abordagens  de  avaliação  e
tratamento  para  aqueles  que  cuidam  de  pessoas  com  incapacidades  ao  longo  da  vida  e  para  aqueles  que  são
cuidadores com alguma incapacidade.
Historicamente, a criação dos filhos e o cuidado eram ações realizadas com maior frequência pelas mulheres,
tendo  os  homens  participação  limitada  no  cuidado  de  outros.  Atualmente,  os  homens  são  participantes  mais
ativos no cuidado e na criação dos filhos (Lamb, 2000). Por conseguinte, neste capítulo, o cuidado e a criação
dos filhos são ocupações consideradas neutras para o sexo.

OCUPAÇÕES DE CUIDAR E CRIAR FILHOS
O  cuidado  e  a  criação  dos  filhos  acontecem  em  vários  ambientes  e  podem  ser  conceituados  pelo  uso  de
perspectivas  ecológicas  (Bronfenbrenner,  1979),  de  desenvolvimento  (Olson  et  al.,  1983)  e  centradas  na
ocupação  (Jackson,  1998).  As  perspectivas  ecológicas  sustentam  o  conceito  de  que  o  cuidado  e  a  criação  de
filhos são influenciados pela interação entre a pessoa, a ocupação e o ambiente. Essas interações são recíprocas e
dinâmicas.  Em  geral,  as  pessoas  interpretam  as  experiências  por  meio  de  sua  própria  visão  personalizada  do
mundo. A perspectiva ecológica lembra os profissionais de considerarem os inúmeros fatores que influenciam
ideais, decisões e ações dos cuidadores. A família, definida como “um grupo de pessoas que vivem juntas ou em
contato íntimo para cuidar umas das outras e fornecer orientação para seus membros dependentes”, é o centro do
sistema ecológico, apoiando o crescimento dos membros da família (Wood, 1995). Os fatores pessoais, como as
características dos membros da família (p. ex., idade, educação, estado socioeconômico) e as características do
receptor  dos  cuidados  (p.  ex.,  idade,  tipo  de  incapacidade)  influenciam  o  modo  como  a  família  conceitua  a
paternidade, a incapacidade e o papel dos serviços (Luster & Okagaki, 1993).
Com base na perspectiva ecológica, Harkness e Super (1994) propuseram uma estrutura teórica, o “nicho de
desenvolvimento”,  para  compreender  como  os  ambientes  culturais  influenciam  a  vida  das  crianças,  incluindo
suas  atividades  diárias.  Segundo  esse  protocolo,  o  ambiente  cultural  da  criança  inclui  três  subsistemas
operacionais  inter­relacionados:  (1)  os  ambientes  físico  e  social  onde  a  criança  vive,  (2)  os  hábitos  regulados
culturalmente  de  cuidados  da  criança  e  de  criação  dos  filhos  e  (3)  a  psicologia  dos  cuidadores.  Os  ambientes
físico e social modelam a atividade da pessoa pelos tipos de atividades disponíveis e por meio das atividades de
definição das pessoas que estão presentes. Os costumes, como definidos por Harkness e Super (1994), referem­
se  às  técnicas  para  proteger,  ensinar  e  socializar  mais  comumente  utilizadas  pelos  membros  da  comunidade  e
estão  tão  integrados  na  cultura  que  os  cuidadores  não  precisam  considerá­los  conscientemente.  Isto  é,  os
costumes  são  frequentemente  considerados  a  maneira  natural  de  fazer  as  coisas.  A  psicologia  dos  cuidadores,
inclusive  suas  crenças  e  valores,  organizam  seu  comportamento  em  relação  aos  outros  e  a  muitas  decisões
maiores, como a adequação de determinados comportamentos. Esses subsistemas atuam de maneira coordenada,
interagem  de  modo  diferenciado  com  outros  aspectos  do  ambiente  maior  e  estão  mutuamente  adaptados.  O
conceito  de  um  nicho  de  desenvolvimento  fornece  uma  estrutura  útil  para  identificar  e  coletar  informações
relevantes relacionadas aos fatores que afetam as ocupações de cuidar e criar os filhos.
Por exemplo, os fatores sociais e culturais influenciam as ações de cuidar. Nas culturas asiáticas, as pessoas
idosas são cuidadas pela família; por conseguinte, as situações alternativas de vida fora da família podem não
representar  opções  aceitáveis  para  os  idosos  nas  culturas  asiáticas  (Spector,  1996).  Na  cultura  Hmong,  a
epilepsia é vista como um dom possuído apenas pelo xamã respeitado. Esta crença cultural contradiz o modelo
médico nas sociedades ocidentais, que consideram a epilepsia uma doença a ser tratada com medicamento. Essas
visões contraditórias de mundo podem ter implicações importantes para os profissionais que se dedicam a apoiar
pessoas  nas  ocupações  de  cuidar  e  criar  os  filhos  (Fadiman,  1997).  Apenas  quando  a  influência  das  crenças
culturais é examinada, é possível compreender as ações e as metas para tratamento dos cuidadores.
A família estendida, os vizinhos, os colaboradores e outros pais podem ser componentes integrantes de uma
rede social pessoal de cuidadores, influenciando, portanto, as atitudes e as crenças dos cuidadores (Dyck, 1990).
Essa rede social pode fornecer a assistência na criação dos filhos e o apoio para os cuidadores. Embora as redes
sociais sejam, comumente, uma fonte de apoio para os cuidadores, os membros da família estendida podem, em
alguns casos, minar a confiança de um pai ou cuidador em dificuldades.
Outro fator que influencia os cuidadores e as famílias é o conceito de desenvolvimento do ciclo de vida da
família.  Olson  e  colaboradores  (1983)  propuseram  um  modelo  para  conceituar  e  descrever  o  ciclo  de  vida  da
família que inclui fases específicas ou eventos de vida e desafios a serem enfrentados a cada fase do ciclo da
vida  familiar.  Por  exemplo,  as  famílias  fazem  uma  transição  quando  uma  criança  tem  idade  suficiente  para  se
desprender  do  sistema  familiar  imediato  e  viver  sozinha  ou  em  um  novo  ambiente.  As  trajetórias  de
desenvolvimento  fazem  interseção  com  outras  dinâmicas  familiares  e,  com  o  passar  do  tempo,  mudanças
acontecem na estrutura e na função da família. Os profissionais precisam compreender e considerar o impacto
dos principais eventos que as famílias podem experimentar em determinado momento.
Juntamente  com  as  perspectivas  ecológica  e  de  desenvolvimento,  os  estudiosos  da  ciência  ocupacional
defendem uma perspectiva centrada na ocupação (veja o Capítulo 1). Em vez de focar em tarefas ou atividades
específicas  isoladamente,  separadas  de  uma  compreensão  de  seu  significado,  a  análise  centrada  na  ocupação
trata da própria ocupação abrangente. A análise da maternidade por Ruddick (1995) nos ajuda a compreender o
significado  associado  à  criação  dos  filhos  entre  culturas  e  países.  Embora  Ruddick  trate  da  maternidade,  sua
análise  também  é  aplicável  aos  pais.  De  acordo  com  Ruddick,  o  “trabalho”  de  maternidade/paternidade  inclui
proteção,  criação  e  treinamento.  A  proteção  exige  a  avaliação  da  criança  e  do  ambiente,  juntamente  com  uma
aceitação de que uma criança estará inevitavelmente sujeita a contratempos menores ou maiores que os pais não
conseguem  controlar.  Os  pais  devem  aceitar  seus  próprios  limites  como  protetores  e  ainda  continuar  com  a
intenção de manter seus filhos seguros. A proteção fica em um continuum que se estende da falta de proteção até
a repressão. A criação ou fomento ao crescimento refere­se a desenvolvimento do corpo e do espírito de uma
criança.  Fomentar  o  crescimento  exige  a  capacidade  de  mudar,  à  medida  que  a  criança  cresce.  Um  cuidador
fornece as condições para o crescimento; estas condições variam entre culturas, níveis socioeconômicos e outros
fatores ambientais. O treinamento envolve os comportamentos e os valores da criança necessários para obter a
aceitação da família e da sociedade. Juntamente com a proteção, a criação e o treinamento, os pais das crianças
com  incapacidades  identificam  a  defesa  e  a  obtenção  dos  recursos  apropriados  como  um  aspecto  crítico  da
maternidade/paternidade (Landsman, 1998).
Jackson (1998) aborda a “natureza envolvida das ocupações”, um termo que reconhece os múltiplos fatores
que influenciam as ocupações (p. 58). Jackson cita a pesquisa de DeVault (1991), a qual sugere que os pais não
estão,  com  frequência,  delineando  suas  tarefas  de  criação  de  filhos  e  de  cuidador;  em  vez  disso,  eles  estão
misturando­as  umas  às  outras.  O  exemplo  de  “alimentar  a  família”  de  DeVault  ilustra  que  os  pais  fornecem  o
sustento para a criança, enquanto fomentam simultaneamente as habilidades de comunicação para a aceitação na
sociedade.  A  análise  de  Dyck  (1990)  de  pais  trabalhadores  oferece  outro  exemplo  das  ocupações  envolvidas.
Dyck propôs que as mulheres desenvolvem estratégias para permanecerem “boas mães”, enquanto participam da
força de trabalho. As estratégias poderiam envolver a contratação de uma babá para o horário depois da escola,
que leve a criança para atividades, de modo que a mãe possa trabalhar enquanto o filho participa de programas
que  estimulam  seu  desenvolvimento.  Uma  análise  centrada  na  ocupação  direciona  os  profissionais  para
considerarem  os  significados  social,  simbólico  e  interpessoal  associados  ao  ato  de  cuidar  e  criar  os  filhos
(Jackson, 1998).
Cuidar de pessoas com incapacidades, cujas necessidades possam estender­se indefinidamente no futuro, gera
benefícios e ônus potenciais. As demandas do cuidador de longo prazo foram associadas à depressão, ao pesar, a
problemas  de  saúde  física,  como  a  fadiga,  e  ao  desequilíbrio  ocupacional,  o  que  pode  levar  o  cuidador  ao
isolamento  social  (Pearlin,  Mullan,  Semple  &  Skaff,  1990).  Donovan,  VanLeit,  Crowe  e  Keefe  (2005)
entrevistaram  mães  de  crianças  com  incapacidades  e  descobriram  que  as  mães  estavam  mais  preocupadas  em
cuidar de seus próprios bem­estar e saúde; expandir sua vida social; melhorar a qualidade de vida de seus filhos;
gerenciar seus afazeres domésticos (incluindo tempo e recursos); equilibrar as responsabilidades com trabalho,
casa  e  comunidade;  e  compartilhar  a  carga  de  trabalho.  Preocupações  semelhantes  foram  expressas  pelos
cuidadores de pessoas com outras idades e patologias (Hasselkus & Murray, 2007).
Cuidar nem sempre resulta em efeitos negativos de longo prazo sobre os membros da família. Ao contrário, as
vidas  de  muitos  pais,  em  diferentes  classes  socioeconômicas  e  famílias  de  crianças  com  diferentes
incapacidades,  são  positivamente  modificadas  em  consequência  do  nascimento  de  um  filho  com  incapacidade
(Scorgie  &  Sobsey,  2000).  Alguns  pais  reexaminam  suas  expectativas  com  uma  transformação  de  valores  que
resulta em um novo conceito do “que realmente importa”. Chen e Greenberg (2004) observaram que familiares
de  parentes  com  esquizofrenia  relatam  maior  sensibilidade  aos  outros  e  consciência  de  si  próprios,  além  de
considerarem  o  familiar  com  esquizofrenia  um  membro  ativo  e  valorizado  da  família.  Os  pais  de  jovens  com
incapacidades relatam adquirir novos papéis de vida enriquecedores, como ser líder de um grupo de pais, escritor
ou  orador  em  conferências.  Alguns  pais  aprenderam  melhores  habilidades  de  comunicação  e  utilizaram  estas
habilidades para fomentar relacionamentos familiares abertos e de suporte (Scorgie & Sobsey, 2000).

AVALIAÇÃO DO CUIDADO
A primeira etapa do desenvolvimento de tratamentos para pais e cuidadores da família consiste em compreender
as experiências e as responsabilidades diárias das pessoas que realizam essas ocupações. O processo de evolução
deve ser centrado na família e na colaboração, com a meta de identificar forças, prioridades e valores da família,
bem como os desafios associados ao cuidado. É melhor começar com uma entrevista ou uma conversa aberta,
tratando  inicialmente  das  rotinas  diárias  associadas  ao  cuidador  e  à  vida  familiar,  o  que  pode  ajudar  o
profissional  a  compreender  os  desafios  diários  a  serem  enfrentados  por  um  pai  ou  cuidador.  Esse  processo
também  pode  ajudar  no  desenvolvimento  da  confiança  e  da  comunicação  entre  o  profissional  e  o  cuidador
(Orsmond, 2005). O profissional pode começar por pedir a um pai para descrever um dia comum, desde a manhã
até a noite. Quem na família é responsável pelas tarefas diárias do cuidado, e como e quando estas tarefas são
realizadas? Como os dias de semana diferem dos fins de semana? O que faz um dia comum correr bem ou não
tão  bem?  Quais  são  os  estressores  típicos  e  como  ou  quando  eles  acontecem?  Além  do  pai/mãe  ou  cuidador
primário, outros familiares podem ser perguntados sobre suas rotinas diárias.
No contexto de uma conversa sobre um dia comum, o profissional pode abordar como os costumes, as crenças
e  as  atitudes  da  família  afetam  as  rotinas  diárias  do  cuidado.  Também  é  importante  que  o  profissional
compreenda  a  sensação  de  competência  da  pessoa  como  pai  ou  cuidador,  bem  como  em  outras  ocupações
importantes. O que a pessoa considera fazer bem e o que a família faz bem? Que coisas são difíceis? Quais são
as  forças  ou  vantagens  das  crianças  ou  de  outros  membros  da  família?  Que  aspectos  do  cuidado  são  mais
importantes para a pessoa e para os outros familiares? Em que áreas as mudanças são necessárias?
Além de explorar as rotinas e os desafios diários da paternidade/maternidade e do cuidado, o profissional pode
utilizar­se  de  uma  entrevista  para  compreender  se  e  como  a  pessoa  é  capaz  de  atender  às  suas  próprias
necessidades  enquanto  cuida  de  outros  familiares.  Para  aqueles  com  a  responsabilidade  de  cuidar  de  outros
membros  da  família,  a  participação  em  outras  ocupações  depende,  em  grande  parte,  de  suas  capacidades  de
atender adequadamente às demandas de sua ocupação de cuidador. É importante que o profissional investigue
como os cuidadores equilibram as demandas do cuidar de outros com as demandas da escola, do trabalho, dos
afazeres domésticos e do autocuidado.
Também devem ser explorados os suportes e os recursos disponíveis para a família e para o cuidador. Durante
a entrevista, o profissional pode determinar o quanto outras pessoas, como amigos, vizinhos e os membros da
família  estendida,  consistem  em  uma  fonte  de  suporte  para  o  cuidador  e  para  a  família.  Além  dos  suportes
sociais,  que  outros  recursos  estão  disponíveis  para  o  cuidador  e  para  a  família?  A  família  tem  recursos
financeiros  adequados  e  outros  recursos  materiais  para  atender  às  suas  necessidades  em  relação  a  moradia,
alimentação, transporte, cuidados de saúde e lazer?
Nenhuma entrevista de terapia ocupacional foi desenvolvida com foco específico nas ocupações de cuidar ou
criar  os  filhos.  No  entanto,  as  perguntas  sobre  essas  ocupações  podem  ser  facilmente  incorporadas  às  amplas
entrevistas de desempenho ocupacional existentes, como a Entrevista de História de Desempenho Ocupacional II
(Occupational Performance History Interview II – OPHI­II) (Kielhofner et al., 2004) ou a Medida Canadense de
Desempenho  Ocupacional  (Canadian  Occupational  Performance  Measure  –  COPM)  (Law  et  al.,  1998).  As
escalas de Importância, Satisfação e Desempenho da COPM podem ser utilizadas para a classificação das tarefas
associadas às ocupações do cuidador. Estas duas entrevistas são discutidas em maiores detalhes no Capítulo 34.
Se um profissional usa uma dessas entrevistas formais ou uma abordagem mais informal, ele precisa estar ciente
de  que  pode  estar  entrevistando  famílias  vulneráveis,  tanto  com  crianças  como  com  adultos  em  risco.  As
entrevistas devem ser realizadas de maneira franca, sensível e respeitosa, que evite julgamento, mas que busque
identificar  as  forças  e  as  necessidades  do  cuidador  e  de  outros  familiares  (Orsmond,  2005).  Uma  meta
importante  da  entrevista  de  terapia  ocupacional  é  o  desenvolvimento  de  uma  parceria  positiva  com  o  pai  ou
cuidador,  de  modo  que  o  tratamento  de  terapia  ocupacional  possa  habilitar  os  cuidadores  e  aumentar  suas
capacidades de atender às suas obrigações de cuidadores. As diretrizes para uma entrevista efetiva são discutidas
no Capítulo 34.
Depois da entrevista, o profissional pode optar por realizar avaliações adicionais de padrões e habilidades de
desempenho  ocupacional  específicos,  como  os  afazeres  domésticos  e  os  cuidados  diretos  da  criança.  Por
exemplo, como essas atividades frequentemente envolvem tarefas tanto físicas como cognitivas, um profissional
pode optar por avaliar as capacidades biomecânicas relacionadas a levantar peso, transferência, carregar coisas,
curvar­se  e  agachar­se  enquanto  cuida  dos  outros  (Sanders  &  Morse,  2005)  ou  pode  avaliar  as  capacidades
cognitivas relacionadas ao controle do dinheiro e dos afazeres domésticos ou ao planejamento das refeições (veja
os Capítulos 54 e 57).
Inúmeras  escalas  de  classificação  foram  desenvolvidas  para  examinar  os  diversos  aspectos  da
paternidade/maternidade  e  do  cuidado.  Embora  estas  escalas  de  classificação  nunca  substituam  uma  conversa
frente  a  frente  com  um  cliente  a  respeito  de  suas  ocupações  de  paternidade/maternidade  e  de  cuidador,  os
profissionais podem considerar que uma ou mais dessas medidas são auxiliares úteis para uma entrevista e/ou
avaliação  das  habilidades  de  desempenho  no  planejamento  dos  tratamentos.  Além  disso,  esses  tipos  de  escala
podem  ser  adequados  para  uso  como  medidas  de  resultado  para  avaliação  do  impacto  dos  suportes  e  serviços
para  as  famílias.  As  informações  básicas  sobre  uma  amostra  das  avaliações  de  paternidade/maternidade  e  de
cuidador existentes são apresentadas na Tabela 49.1.
Um  processo  de  avaliação  colaborativo  e  centrado  na  família  leva  ao  estabelecimento  de  metas  e  ao
planejamento de tratamentos que sejam direcionados por valores, crenças, metas, experiências e necessidades do
pai/mãe ou cuidador. As abordagens para o estabelecimento das metas e do tratamento são discutidas adiante.

Cuidar de uma Criança com Incapacidade
Quando  os  pais  descobrem  que  seu  filho  tem  uma  incapacidade,  podem  surgir  sentimentos  de  raiva  e  um
processo de luto pela perda da “criança perfeita”. A princípio, os pais podem demonstrar sentimentos de choque
e  negação,  seguidos  por  raiva  e  depressão.  Os  pais  podem  repetir  o  processo  de  luto  quando  enfrentam
discrepâncias  inesperadas  entre  a  realidade  e  suas  esperanças  e  expectativas.  Entre  e  dentre  as  famílias,  pode
haver grande variação nas reações à incapacidade e nas percepções sobre o familiar com incapacidade. As mães
de crianças com incapacidades relatam maior estresse que os pais, enquanto os pais relatam maior dificuldade na
formação  de  laços  afetivos  com  seus  filhos  (Beckman  et al.,  1998).  Os  serviços  precisam  ser  modelados  para
atender  às  diferentes  necessidades  de  cada  membro  da  família.  Scorgie  &  Sobsey  recomendam  que  os
profissionais evitem valorizar os efeitos que a incapacidade pode exercer sobre a família. Em vez disso, deve­se
fazer  com  que  os  pais  saibam  que  os  sentimentos  iniciais  de  culpa  são  comuns,  mas  que  muitas  famílias  se
adaptam  à  incapacidade.  Apresentar  pais  que  estejam  nos  estágios  iniciais  da  adaptação  aos  pais  que  se
adaptaram  positivamente  à  vida  com  um  filho  com  incapacidade  pode  ajudar  as  famílias  a  formarem  uma
perspectiva positiva sobre o futuro (Scorgie & Sobsey, 2000).
Na última década, a pesquisa sobre a paternidade/maternidade de uma criança com incapacidades concentrou­
se  na  adaptação  e  no  ajuste  com  ênfase  sobre  o  que  as  famílias  fazem  para  manter  as  rotinas  diárias  que
consideram  suas  realidades,  interesses  e  valores  (Fiese  et al.,  2002;  Gallimore,  Bernheimer  &  Weisner,  1999;
Segal,  2004;  Summers  et al.,  2006).  Bedell,  Cohn  e  Dumas  (2005)  observam  que  as  famílias  comumente  têm
experiência  e  conhecimento  íntimos  e  diretos  em  relação  a  seus  membros,  à  vida  familiar  e  à  doença  ou
incapacidade  de  seu  familiar  e  conhecem  melhor  as  recomendações  de  tratamento  que  podem  ser  mais
provavelmente executadas na casa e na comunidade. Em sua busca pelas estratégias utilizadas pelos pais para
promover a participação social de seus filhos com lesão cerebral adquirida, Bedell, Cohn e Dumas observaram
que  os  pais  precisam  de  tempo  para  promover  o  processo  de  recuperação  para  se  desenvolver  e  a  seus  filhos.
Para  desenvolver  tratamentos  efetivos  com  base  na  parceria  colaborativa  com  as  famílias  e  que  valorizem  o
conhecimento e a experiência das famílias, Bedell e colaboradores defendem o questionamento dos pais acerca
das estratégias por eles já utilizadas e se eles percebem que as estratégias são efetivas, em vez de reinventar a
roda.

Cuidar de um Adulto com Incapacidade
Os pais de uma criança com incapacidades frequentemente continuam a cuidar deste filho mesmo durante a fase
adulta (Hodapp, Dykens, Evans & Merighi, 1992). Com frequência, a adolescência é um momento em que os
cuidadores constatam a permanência das incapacidades da criança e começam a se preocupar com o futuro. Os
aspectos  da  incapacidade  podem  se  modificar  à  medida  que  a  criança  cresce  em  idade  e  tamanho  (Seltzer,
Krauss, Orsmond & Vestal, 1997). À medida que o cuidador envelhece, suas necessidades de saúde podem se
modificar. O envelhecimento pode ter efeito sobre o envolvimento na comunidade, levando ao maior isolamento
social e ao estresse tanto para a pessoa com incapacidade como para o cuidador. Os profissionais podem abordar
o  bem­estar  físico  e  psicológico  do  cuidador  ao  fornecer  suportes  adicionais  na  casa  e  na  comunidade,
encaminhando  para  serviços  de  cuidado  e,  quando  apropriado,  fornecendo  estratégias  para  minimizar  as
dificuldades comportamentais (Biegel, Sales & Schultz, 1991).
TABELA 49.1 AVALIAÇÕES DA PATERNIDADE E DO CUIDADO
Título Autores Principais Domínios Avaliados Método de
(Data) Administração
Escalas de Paternidade e Vida da Família
Índice de Estresse da Abidin (1995) Características dos pais, como Autorrelato
Paternidade competência, isolamento,
(Parenting Stress relacionamento, saúde, restrição de
Index) papel; características da criança, como
capacidade de distração/hiperatividade,
adaptabilidade, exigência; estresse
familiar global
Escala de Sensação de Johnston & Autoestima na paternidade, eficácia na Autorrelato
Competência na Marsh paternidade e satisfação na paternidade
Paternidade (1989)
(Parenting Sense of
Competence Scale)
Escala de Ambiente da Moos & Dimensões do ambiente da família, Autorrelato
Família (Family Moos incluindo qualidade dos relacionamentos
Environment Scale) (1983) dentro da família, oportunidades para
crescimento pessoal e grau de
organização/controle dentro da família
Escala de Suporte da Dunst, Utilidade percebida do suporte do Autorrelato
Família Trivette & parceiro/cônjuge, suporte informal de
(Family Support Scale) Deal parentes, suporte formal de parentes,
(1988) organizações sociais e serviços
profissionais, número total de fontes de
suporte e suporte social global
Medida de Observação Caldwell & Qualidade e quantidade de estimulação Observações e a
Domiciliar do Bradley psicológica e suporte cognitivo classificação da
Questionário de (1984, disponíveis na casa; estão disponíveis interação
Ambiente (Home 2001) quatro versões para crianças de 0­3, 3­6, pai/filho;
Observation for 6­10 e 10­15 anos de idade entrevista com
Measurement of the os pais
Environment
Inventory)
Escala de Qualidade de Park, Importância e satisfação percebidas com a Autorrelato
Vida da Família de Hoffman, interação da família, paternidade, bem­
Beach Center (Beach Marquis, estar emocional, bem­estar
Center Family Quality Turnbull, físico/material e suportes relacionados
of Life Scale) Poston, com a incapacidade
Mannan,
Wang &
Nelson
(2003)
Hoffman,
Marquis,
Poston,
Summers
& Turnbull
(2006)
Escalas do Cuidador Adulto
Índice de Tensão do Robinson Tensão percebida relacionada com o cuidar Autorrelato
Cuidador (Caregiver (1983) e o impacto sobre emprego, finanças,
Strain Index) bem­estar físico e social e uso do tempo
Escala de Bem­estar do Berg­Weger, Bem­estar a partir da perspectiva baseada Autorrelato
Cuidador (Caregiver Rubio & nas forças, avalia as necessidades
Well­Being Scale) humanas básicas dos cuidadores e a
Tebb satisfação com as atividades da vida
(2000) diária
Entrevista de Carga de Zarit, Reever Carga percebida entre os familiares Entrevista e
Zarit & Bach­ cuidadores de idosos com demência autorrelato
(Zarit Burden Interview) Peterson
(1980)
Zarit, Todd &
Zarit
(1986)
Índice de Mudança Gitlin, Winter, Breve, 13 perguntas, mudança percebida Autorrelato
Percebido (Perceived Dennis & no bem­estar no afeto, somático e na
Change Index) Hauck, capacidade de gerenciamento
(2006)
Escala de Bem­estar do Tebb (1995) Até que ponto são atendidas as Autorrelato
Cuidador (Caregiver Berg­Weger, necessidades humanas básicas e das
Well­Being Scale) Rubio & atividades da vida diária do cuidador
Tebb
(2000)
Escala de Resultado do Bakas & Alterações na função social do cuidador, no Entrevista ou
Cuidador de Bakas Champion bem­estar subjetivo e na saúde física em autorrelato
(Bakas Caregiver (1999) consequência do cuidar
Outcome Scale)
Índice da Estratégia de Gitlin, Winter, Uso de estratégias do cuidador para Autorrelato
Controle da Tarefa Dennis, simplificar tarefas de autocuidado
(Task Management Corcoran, cotidiano para pessoas com doença de
Strategy Index) Schinfeld & Alzheimer e distúrbios associados
Hauck
(2002)

Adultos  de  meia­idade,  frequentemente  descritos  como  a  “geração  sanduíche”,  podem  enfrentar  demandas
simultâneas  da  paternidade  de  adolescentes  ou  adultos  jovens  e  do  cuidado  de  seus  pais  idosos  (Sorensen  &
Zarif,  1996).  Os  cuidadores  da  família  são  a  principal  fonte  de  suporte  para  pessoas  idosas  frágeis,  e  80%  de
todos os familiares que cuidam de idosos prestam serviços gratuitos, sete dias por semana (Hasselkus, 1989). A
pesquisa  de  Hasselkus  (1989)  sobre  os  familiares  que  cuidam  de  pessoas  idosas  frágeis  que  vivem  na
comunidade sugere que os cuidadores estão concentrados em fazer coisas que mantenham o sistema da família,
obter uma sensação de bem­estar para aquele que recebe os cuidados e obter uma sensação de bem­estar para si
próprios.  A  qualidade  de  vida  do  cuidador  está  relacionada  com  a  qualidade  de  vida  daquele  que  recebe  os
cuidados, portanto, tanto o cuidador como o receptor se beneficiarão do tratamento de suporte. Os cuidadores de
idosos,  seja  seus  cônjuges,  seja  seus  pais,  frequentemente  necessitam  de  suporte  para  lidar  com  o  estresse
emocional de experimentar o declínio de função de um ente querido. Hasselkus e Murray (2007) recomendam
um tratamento colaborativo em que o profissional se empenha para compreender o significado que os cuidadores
dão a seu papel e para ajudar o cuidador a equilibrar as ocupações diárias.

SER UM CUIDADOR COM INCAPACIDADE
Os  adultos  com  incapacidades  têm  os  mesmos  desejos  de  estabelecer  relacionamentos  íntimos  e  de  ter  e  criar
filhos  dos  adultos  sem  incapacidade.  As  estimativas  da  prevalência  de  incapacidade  sugerem  que  existem
milhões  de  famílias  nos  Estados  Unidos  em  que  um  ou  ambos  os  pais  apresentam  incapacidade  (LaPlante,
Carlson, Kaye & Bradsher, 1996; Nicholson, Biebel, Williams & Katz­Leavy, 2004). Além disso, as famílias em
que  um  adulto  tem  uma  incapacidade  apresentam  maior  probabilidade  de  ter  pelo  menos  um  filho  com
incapacidade  (LaPlante  et  al.,  1996).  Os  cuidadores  com  incapacidade  e/ou  doença  crônica  não  receberam
historicamente  atendimento  de  profissionais  de  terapia  ocupacional  ou  de  outros  profissionais  de  reabilitação.
Apesar  da  abordagem  funcional,  poucos  profissionais  de  reabilitação  responderam  às  necessidades  de  uma
pessoa  como  pai/mãe.  Um  paciente  com  câncer  disse:  “Ninguém  jamais  me  perguntou  se  eu  tinha  filhos”
(Tannen, 2000).
Cuidadores  com  incapacidades  enfrentam  as  mesmas  responsabilidades  e  os  mesmos  estresses  diários
relacionados  à  criação  dos  filhos  que  aqueles  sem  incapacidades.  Ter  uma  incapacidade  acrescenta  desafios
adicionais,  e  as  limitações  associadas  à  incapacidade  podem  afetar  a  capacidade  do  cuidador  de  realizar  as
ocupações  diárias.  Os  cuidadores  podem  enfrentar  desafios  físicos,  cognitivos  ou  psiquiátricos.  Outros  fatores
que  podem  colocar  um  indivíduo  em  risco  de  dificuldade  para  cuidar  incluem  ser  pai/mãe  adolescente,  ter
história de uso abusivo de substâncias, ter sofrido maus­tratos na infância, sofrer violência doméstica e divórcio
(Huxley & Warner, 1993; Kowal et al., 1989; Panzarine, 1988). Além disso, na medida em que a incapacidade e
outros fatores de risco estão associados a pobreza, falta de conhecimento e de acesso a suportes e recursos, baixa
escolaridade,  falta  de  habilidades  e  experiência  de  vida  limitada,  os  pais  com  incapacidades  podem  enfrentar
desafios ainda mais complexos (Whitman & Accardo, 1993).
A  pesquisa  atual  sobre  os  efeitos  da  incapacidade  e  da  doença  crônica  sobre  a  paternidade  é  limitada.  A
incapacidade ou doença é frequentemente vista como a característica predominante do indivíduo. A partir dessa
percepção  da  incapacidade  surgem  inúmeros  estereótipos  relacionados  aos  pais  com  incapacidades  ou  doença.
Esses estereótipos incluem as ideias de que os pais com incapacidades estão muito ocupados com seu próprio
autocuidado  para  cuidar  adequadamente  de  seus  filhos,  que  as  crianças  são  utilizadas  para  atender  às
necessidades  pessoais  dos  pais  com  incapacidades,  que  as  tarefas  paternas/maternas  não  são  realizadas  de
maneira  efetiva  por  pais  com  incapacidades  e  que  pais  com  incapacidades  passam  uma  autoimagem  negativa
para seus filhos. Esses estereótipos podem ser interpelados com intervenções de suporte aos pais (Tannen, 2000).

Pais com Incapacidades Físicas
Os pais com incapacidades físicas podem ter mobilidade, movimento e/ou vigor comprometido, o que apresenta
desafios  para  as  demandas  físicas  da  paternidade/maternidade.  Uma  pesquisa  nacional  sobre  pais  com
incapacidades,  realizada  no  final  dos  anos  1990,  indica  que  os  pais  com  incapacidades  físicas  encontram
múltiplas barreiras para a paternidade/maternidade e têm necessidades de atendimento em múltiplas áreas (Toms
Barker & Maralani, 1997). Muitos pais relataram a necessidade de equipamentos adaptados para cuidar de bebês
e crianças; barreiras para obter o equipamento incluíam a falta de disponibilidade e o custo. A maioria dos pais
relatou uso de serviços de assistência pessoal para ajudar na tarefa de cuidador, embora muitos considerassem
que  esses  serviços  interferiam  com  seus  papéis  como  pais.  Os  pais  também  relataram  dificuldade  para  obter
moradia acessível adequada, necessidade de assistência no lazer com seus filhos e problemas com o transporte
que  interferiam  ou  impediam  as  atividades  dos  cuidados  infantis  rotineiros  (Kirshbaum  &  Olkin,  2002;  Toms
Barker & Maralani, 1997).
Dessa maneira, os pais com incapacidades físicas podem ser ajudados por meio de modificações ambientais
que  possibilitem  que  eles  participem  plenamente  de  seus  papéis  como  pais  (Farber,  2000).  Os  terapeutas
ocupacionais  da  Through  the  Looking  Glass,  uma  organização  comunitária  sem  fins  lucrativos,  em  Berkeley,
Califórnia,  que  fornece  serviços  para  pais  com  incapacidades,  desenvolveram  recursos  e  materiais  de
treinamento  sobre  equipamentos  adaptados  para  cuidados  com  o  bebê  de  pais  com  incapacidades  físicas
(Vensand,  Rogers,  Tuleja  &  DeMoss,  2000).  Os  pais  com  doenças  que  se  caracterizam  por  períodos  de
exacerbação  e  diminuição  de  sintomas,  como  esclerose  múltipla  ou  artrite  reumatoide,  podem  necessitar  de
assistência  para  planejamento  desses  períodos  e  acesso  a  serviços  de  suporte  na  comunidade  que  serão  úteis
durante  as  exacerbações  (Crist,  1993).  Mulheres  com  incapacidades  físicas  que  estão  planejando  engravidar
precisam  considerar  as  possíveis  complicações  médicas  que  podem  advir  da  incapacidade.  As  futuras  mães
precisam de profissionais que tenham experiência e atitudes positivas no gerenciamento da gravidez de mulheres
com incapacidade física (Toms Barker & Maralani, 1997).

Pais com Incapacidades Cognitivas
Os  pais  com  incapacidades  cognitivas  podem  carecer  de  conhecimento  e  habilidade  em  áreas  específicas  da
paternidade/maternidade, como fornecimento de segurança, nutrição ou cuidado básico de rotina de uma criança.
Esses  pais  podem  ter  dificuldade  para  resolver  problemas,  habilidades  sociais  e  defesa  das  necessidades  da
família.  Por  exemplo,  uma  mulher  com  lesão  cerebral  traumática  que  pode  provocar  déficits  de  habilidades
sociais  e  cognitivas  pode  passar  por  uma  situação  difícil  ao  ajudar  sua  filha  de  12  anos  a  resolver  problemas
sociais entre os amigos na escola (Uysal, Hibbard, Robillard, Pappadopulos & Jaffe, 1998).
Os  pais  com  incapacidades  cognitivas  podem  ter  dificuldade  de  seguir  orientações  ou  aprender  novas
habilidades. Eles podem tender a generalizar excessivamente habilidades e estratégias de resolução de problemas
para contextos que exigem habilidades diferentes ou mais complexas. As pessoas com incapacidades cognitivas
alcançam  maior  sucesso  na  aprendizagem  quando  as  estratégias  são  divididas  em  etapas;  são  demonstradas,
modeladas  e  praticadas;  e  são  pareadas  e  recompensadas.  Por  causa  das  dificuldades  com  a  generalização,  os
serviços  de  treinamento  de  habilidades  para  pais  com  incapacidades  cognitivas  devem  ser  fornecidos  em
ambientes de ocorrência natural, como a residência e a comunidade (Bakken, Miltenberger & Schauss, 1993).

Pais com Transtornos Psiquiátricos
O estigma associado à doença mental é provavelmente o fator mais pervasivo que afeta o acesso e a participação
em  serviços  entre  os  pais  com  transtornos  psiquiátricos.  Por  causa  da  presunção  de  que  as  pessoas  com
transtornos psiquiátricos apresentam comprometimento de suas capacidades para a paternidade, muitos pais não
procuram serviços de suporte porque temem perder a custódia de seus filhos. Pais com transtornos psiquiátricos
(e aqueles com incapacidades do desenvolvimento) estão sob risco maior de perda da custódia, embora muitos
pais com transtornos psiquiátricos estejam criando ou ajudando a criar seus filhos (Hemmens, Miller, Burton &
Milner, 2002; Nicholson, Biebel, Hinden, Henry & Stier, 2001; Wong, 1995).
As necessidades da família em que um dos pais apresenta incapacidade psiquiátrica não são frequentemente
abordadas  até  que  a  criança  necessite  de  cuidado.  Quando  são  fornecidos  cuidados,  frequentemente  eles  não
estão centrados na criança e são fornecidos por profissionais que não são treinados para trabalhar com adultos.
Além disso, os serviços tendem a se concentrar no problema e a se basear no déficit e não na prevenção ou nos
potenciais (Nicholson, Geller, Fisher & Dion, 1993). Em todo o país, são raros os serviços centrados na família e
fundamentados  nas  forças  que  são  especificamente  voltados  para  as  necessidades  de  pais  com  transtornos
psiquiátricos  e  seus  filhos,  porém  o  número  parece  estar  crescendo.  Esforços  recentes  de  Nicholson  e
colaboradores foram direcionados para identificar as necessidades dos pais com transtornos psiquiátricos e suas
famílias e as práticas emergentes para a construção de uma base de evidência sobre serviços para essas famílias
(Hinden, Biebel, Nicholson, Henry & Katz­Leavy, 2006; Nicholson & Henry, 2003a; Nicholson, Hinden, Biebel,
Henry & Katz­Leavy, no prelo).
Os  pais  com  transtornos  psiquiátricos  podem  beneficiar­se  do  treinamento  das  habilidades  de
paternidade/maternidade  e  do  treinamento  em  estratégias  para  lidar  com  as  exacerbações  dos  sintomas.  Por
exemplo, os pais podem precisar de ajuda no planejamento do cuidado de seus filhos durante os períodos em que
um deles precisa ser hospitalizado. Os pais também podem beneficiar­se do treinamento de modo a defender os
serviços para eles próprios e para seus filhos (Henry & Nicholson, 2005). Os grupos de apoio de amigos podem
fornecer oportunidades para a construção de redes sociais e diminuição do isolamento. Uma forte rede de suporte
social  pode  agir  como  uma  mediadora  do  estresse,  melhorando  a  atuação  do  pai/mãe  durante  os  períodos  de
estresse. Os membros da família estendida podem ser uma importante fonte de suporte para pais com transtornos
psiquiátricos. No entanto, nos casos em que os pais com transtornos psiquiátricos apresentam relacionamentos
conturbados  ou  rompidos  com  suas  famílias  de  origem,  os  membros  da  família  estendida  podem  não  oferecer
suporte  ou  podem  até  mesmo  minar  o  papel  do  indivíduo  como  pai/mãe.  Muitos  pais  preocupam­se  com  a
compreensão de seus filhos sobre a doença mental; os profissionais podem ajudar os pais a desenvolver maneiras
para  conversar  com  os  filhos  sobre  o  transtorno  mental  que  sejam  apropriadas  para  a  idade  da  criança
(Nicholson, Henry, Clayfield & Phillips, 2001).
Nicholson  e  Henry  (2003b)  desenvolveram  uma  lista  de  verificação  de  metas  colaborativas,  o  formulário
ParentingWell® Strengths  and  Goals  (formulário  Paternidade  Adequada  Forças  e  Metas,  Boxe  49.1),  que  os
profissionais podem utilizar com os pais para ajudá­los a identificar o que eles fazem bem, determinar o que os
pais gostariam de fazer melhor e estabelecer prioridades para a mudança. Embora desenvolvido para ser usado
com  pais  com  transtornos  psiquiátricos,  o  formulário  lista  as  preocupações  e  responsabilidades  comuns  da
paternidade/maternidade, podendo, assim, ser apropriado para uso com diversos pais atendidos por profissionais
da terapia ocupacional.

PARENTINGWELL® STRENGTHS AND GOALS
Aqui está uma lista de coisas que você pode precisar Esta é Eu faço Gostaria Não se Verifique
fazer como pais. Para cada uma que se aplique a você, uma isto de fazer aplica. os itens
circule a resposta que melhor o descreve. força certo. isto a
minha. melhor. trabalhar.
 1. Gerencio as tarefas domiciliares cotidianas Força Certo Melhor NSA
 2. Planejo e preparo refeições saudáveis Força Certo Melhor NSA
 3.  Compreendo  a  relação  entre  meus  sentimentos  e  minhas Força Certo Melhor NSA
ações
 4. Controlo o dinheiro de minha família Força Certo Melhor NSA
 5. Estabeleço os limites do meu filho Força Certo Melhor NSA
 6. Tenho interações/visitas positivas com meu filho Força Certo Melhor NSA
 7. Tenho uma rotina agradável com meu filho Força Certo Melhor NSA
 8. Encontro coisas alegres para fazer com meu filho Força Certo Melhor NSA
 9. Obtenho o cuidado infantil adequado para meu filho Força Certo Melhor NSA
10. Equilibro trabalho ou escola e paternidade/maternidade Força Certo Melhor NSA
11. Sei o que fazer quando meu filho tem problemas Força Certo Melhor NSA
12. Identifico as forças de meu filho Força Certo Melhor NSA
13. Tenho o “tempo em família” positivo Força Certo Melhor NSA
14. Conheço minhas opções legais como pai Força Certo Melhor NSA
15. Consigo ajuda sozinho, quando necessito Força Certo Melhor NSA
16.  Converso  com  meu  filho  sobre  minha  situação  ou Força Certo Melhor NSA
preocupações
17.  Mantenho  contato  com  meu  filho  que  não  está  vivendo Força Certo Melhor NSA
comigo
18. Tenho um estilo de vida livre de drogas Força Certo Melhor NSA
19. Comunico­me bem com meu filho Força Certo Melhor NSA
20. Tenho bons relacionamentos com os cuidadores/auxiliares Força Certo Melhor NSA
de meu filho
21. Expresso raiva sem machucar ninguém Força Certo Melhor NSA
22. Mantenho minha segurança e a de meu filho Força Certo Melhor NSA
23. Tenho tempo para cuidar de mim Força Certo Melhor NSA
24.  Controlo  o  estresse  e  as  preocupações  de  maneira Força Certo Melhor NSA
saudável
25.  Lido  com  as  coisas  ruins  que  aconteceram  comigo  em Força Certo Melhor NSA
minha vida
26. Obtenho serviços e suportes especiais para meu filho Força Certo Melhor NSA
27. Outros: Força Certo Melhor NSA

Utilizado com permissão © 2003 J. Nicholson, PhD & A. Henry, ScD OTR/L ParentingWell® é uma marca registrada de Strengths Based
Solutions, LLC. www.parentingwell.org

ESTUDO DE CASO: Uma Mãe com Depressão

Missy, a mãe de dois filhos que lidou com a depressão durante muitos anos, conversa sobre a importância
de se conectar com os outros:
Possivelmente,  não  posso  exagerar  a  importância  de  minha  rede  de  suporte  para  atravessar  os  meus
momentos difíceis. Minha família, meus amigos, meu médico, meu pastor — eles foram, sem exceção, meu
suporte durante momentos bons e ruins. Não há nada como experimentar uma doença mental (ou qualquer
outra) para ensiná­lo a força dessas relações. Uma coisa que o pastor me falou teve enorme impacto sobre
mim. Eu estava no meio de uma depressão terrível e, como acontece com uma mente deprimida, continuava
pensando que, mais adiante, todos ficariam cansados de meu mau humor e não iriam mais querer ficar perto
de mim. Sentia como se estivesse sugando toda a boa energia dessas pessoas que eu amava muito e não
lhes dando nada, a não ser desgraça e desespero. Em um dia particularmente ruim, meu pastor me disse:
“Você  precisa  saber  que  você  ainda  é  uma  bênção  para  outras  pessoas,  mesmo  durante  seus  momentos
mais  tenebrosos.”  Foi  uma  lição  sobre  o  que  significa  amar  e  ser  amado  —  que  as  boas  relações  podem
resistir  às  oscilações.  Não  posso  pensar  em  uma  lição  mais  relevante  para  o  trabalho  da
paternidade/maternidade, que é todo fundamentado em amor incondicional. A paternidade/maternidade é o
trabalho mais difícil do mundo, com ou sem uma doença crônica. Embora eu preferisse não ter esta doença,
ensinei  meus  filhos  muito  cedo  em  suas  vidas  sobre  a  necessidade  da  compaixão  e  que  ninguém,  nem
mesmo  a  mãe,  não  tem  desafios  em  sua  vida.  E  eles  se  beneficiaram  do  cuidado  de  tantas  pessoas  que
foram lá para ajudar. Se é verdade que “é preciso construir uma vila para criar um filho” e eu acho que isto é
verdade, isto significa que você deve lutar contra a tendência de se isolar em sua própria casa, ter vontade
de pedir ajuda e, então, ter vontade de aceitá­la quando ela lhe for oferecida.

TRATAMENTO PARA CUIDADORES
A terapia ocupacional pode envolver o fornecimento de serviços diretos ou indiretos. Na parceria com os pais e
cuidadores,  os  profissionais  podem  fornecer  serviços  diretos  para  o  treinamento  de  habilidades,  adaptações
ambientais ou serviços de suporte.
As áreas de treinamento de habilidades podem incluir as seguintes:
Ajudar o cuidador a organizar agendas diárias e semanais para dar suporte ao bem­estar do cuidador e do
receptor, incluindo o engajamento em ocupações significativas e o bem­estar físico
Ensinar  ao  cuidador  os  princípios  biomecânicos  para  promover  o  alinhamento  adequado  do  corpo  e  a
segurança para o cuidador e o receptor
Ensinar  habilidades  de  paternidade/maternidade,  como  manutenção  da  casa,  controle  do  tempo  e  do
dinheiro, controle do comportamento da criança e defesa para ter os serviços
Ensinar os pais a dar suporte ao desenvolvimento de seus filhos e nutrir sua relação com seus filhos
Ajudar os cuidadores a se comunicar com o receptor a respeito da incapacidade

As adaptações ambientais podem incluir as seguintes:
Criar espaços de convivência na casa que sejam acessíveis aos membros da família com incapacidades
Ajudar os cuidadores a acessar os recursos humanos e outros recursos
Construir  ou  escolher  o  equipamento  de  cuidado  adequado  com  aspectos  de  modelo  que  promovam  a
segurança e o alinhamento corporal adequado
Construir ambientes para minimizar a fadiga

Os serviços de suporte podem incluir os seguintes:
Fornecer grupos de apoio para familiares cuidadores ou pais com incapacidades
Acessar os recursos de ocorrência natural, como amigos, vizinhos e serviços da comunidade

Além dos serviços diretos, os profissionais podem fornecer serviços indiretos, como a defesa das necessidades
das  famílias  em  que  um  membro  apresenta  uma  incapacidade  ou  encaminhamento  para  diferentes  serviços
comunitários que podem estar disponíveis para pais e cuidadores. Estes podem incluir serviços formais, como os
serviços  de  saúde  e  os  serviços  para  abuso  de  substâncias,  os  programas  Early  Intervention  and  Head  Start,
serviços  com  base  na  escola  e  serviços  de  substituição  de  cuidados.  Além  disso,  existe  uma  variedade  de
serviços  informais  que  podem  beneficiar  os  pais  e  os  cuidadores.  Estes  podem  incluir  os  grupos  nacionais  de
apoio  e  autoajuda,  como  o  Children  and  Adults  with  Attention  Deficient/Hiperactivity  Disorder  (CHADD),  a
National  Depressive  and  Manic  Depressive  Association  e  a  Alzheimer’s  Association.  Muitos  desses  grupos
nacionais  contam  com  escritórios  locais.  Por  fim,  existem  muitos  suportes  comunitários,  como  instituições
religiosas, centros comunitários e bibliotecas, que fornecem assistência para pais e cuidadores.

Tratamento para Cuidadores
ma metanálise das pesquisas sobre o tratamento do cuidador mostrou que ele pode resultar em ganhos
U positivos  para  as  famílias  (Sorensen,  Pinquart  &  Duberstein,  2002).  Um  exemplo  impressionante  é  um
tratamento de terapia ocupacional idealizado por Laura Gitlin e seus colaboradores. Eles realizaram um estudo
randomizado controlado da eficácia de seu Programa de Construção de Habilidade Ambiental Domiciliar, um
programa de treinamento de habilidades para ajudar as famílias a gerenciarem os problemas do cuidado da
demência  em  casa.  O  programa,  que  consiste  em  visitas  domiciliares  e  sessões  por  telefone,  enfoca  a
orientação,  a  resolução  de  problemas,  a  comunicação,  técnicas  de  simplificação  de  tarefas  e  ambientes  e
modificações  domiciliares  (Gitlin  &  Corcoran,  2005).  Os  receptores  do  tratamento  relataram  menos
desconforto  com  os  comportamentos  relacionados  à  memória,  menos  necessidade  da  assistência  de  outras
pessoas  e  melhora  do  afeto.  Seus  cônjuges  relataram  menos  desconforto  com  os  comportamentos
desintegradores.  Os  homens  relataram  passar  menos  tempo  na  supervisão  diária,  e  as  mulheres  relataram
menos necessidade de ajuda dos outros, melhora do afeto e aumento da capacidade de gerenciamento, bem­
estar  geral  e  domínio  relativo  para  controlar  as  contrapartidas  grupais  (Gitlin  et  al.,  2003).  Esses  achados
fornecem suporte valioso para os benefícios de tratamentos de terapia ocupacional para os cuidadores.

RESUMO
Cuidar e criar os filhos são ocupações complexas para toda a vida. Durante a trajetória de vida, é provável que os
indivíduos  se  engajem  na  paternidade  e/ou  no  cuidado  de  outros  membros  da  família.  As  pessoas  engajadas
nessas ocupações podem beneficiar­se de intervenções diretas ou indiretas para embasar seus papéis de criação.
Engajar os cuidadores em ocupações significativas pode contribuir para o bem­estar dos cuidadores e daqueles
que recebem os cuidados.

REFERÊNCIAS
Abidin, R. R. (1995). Parenting stress index (3rd ed.). Odessa, FL: Psychological Assessment Resources.
Bakas, T., & Champion, V. (1999). Development and psychometric testing of the Bakas Caregiving Outcomes
Scale. Nursing Research, 48, 250–259.
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Avaliação e Tratamento de Terapia
Ocupacional com Relação à Educação
YVONNE L. SWINTH

Sumário
Terapia Ocupacional nos Ambientes Educacionais
Fatores que Influenciam o Processo de Terapia Ocupacional nos Ambientes Educacionais
Equipes Educacionais
Tomada de Decisão em Equipe
Premissas Sobre o Processo de Avaliação nas Escolas
O Processo de Avaliação
Encaminhamento
Serviços de Intervenção Precoce
O Processo de Terapia Ocupacional
Perfil Ocupacional
Análise do Desempenho Ocupacional
Tratamento
Fatores que Influenciam os Tratamentos de Terapia Ocupacional nos Ambientes Educacionais
Desenvolvimento do Plano de Serviço Familiar Individualizado (IFSP) ou Programa de Educação
Individualizado (IEP)
O Programa de Tratamento de Terapia Ocupacional
Prestação do Serviço
Planejando o Tratamento
Modelos de Prestação de Serviço
Colaboração Interagências
Revisão Periódica
Resultados
Resumo

Objetivos de Aprendizagem
Após a leitura deste capítulo, você será capaz de:

1. Identificar os ambientes educacionais em que um terapeuta ocupacional pode fornecer serviços.
2. Descrever o processo de TO no ambiente educacional.
3. Reconhecer os principais requisitos dos serviços de terapia ocupacional de acordo com a Lei de
Melhoria da Educação para Pessoas com Incapacidades.
4. Descrever como uma incapacidade pode afetar a ocupação do estudante.
TERAPIA OCUPACIONAL NOS AMBIENTES EDUCACIONAIS
Os  profissionais  de  terapia  ocupacional  trabalham  em  diferentes  ambientes  educacionais.  Estes  podem  incluir
escolas  públicas,  escolas  públicas  independentes,  escolas  particulares,  escolas  alternativas,  escolas
profissionalizantes  e  ambientes  universitários  (Case­Smith,  Rogers  &  Johnson,  2001).  Nesses  ambientes,  os
profissionais trabalham com os estudantes de diferentes faixas etárias. Por exemplo, um profissional de terapia
ocupacional pode trabalhar com crianças jovens em uma pré­escola ou crianças com idade escolar em escolas
públicas ou adolescentes em uma escola alternativa de ensino médio. Os terapeutas ocupacionais também podem
trabalhar  com  um  cliente  idoso  que  está  voltando  para  a  escola  para  aprender  uma  nova  habilidade  após  uma
lesão  (p.  ex.,  preparação  para  o  trabalho,  retreinamento  no  emprego)  ou  para  o  crescimento  pessoal  (i.e.,
atividade de lazer). As escolas públicas são o ambiente de trabalho mais comum para os profissionais de terapia
ocupacional. Mais de 30% de todos os profissionais membros da American Occupational Therapy Association
(AOTA) identificam a escola pública como seu principal ambiente de trabalho (AOTA, 2003). De acordo com o
Bureau  of  Labor  Statistics  (2006),  “o  crescimento  do  emprego  [para  profissionais  de  terapia  ocupacional]  em
escolas  resultará  da  expansão  da  população  em  idade  escolar,  da  extensão  dos  serviços  para  estudantes
incapacitados  e  da  crescente  prevalência  dos  transtornos  sensoriais  em  crianças.  Serão  necessários  terapeutas
para  ajudar  as  crianças  com  incapacidades  a  se  preparar  para  entrar  em  programas  de  educação  especial”.
Também se antecipa que o nicho para terapeutas ocupacionais que trabalham em outros ambientes educacionais
(p. ex., faculdades, universidades, faculdades comunitárias e foros de educação continuada) crescerá à medida
que essas crianças se transformarem em adultos jovens e desejarem continuar sua educação.
O foco primário deste capítulo está na avaliação e no tratamento do desempenho ocupacional na intervenção
precoce e em escolas públicas, pois este é o ambiente educacional que mais comumente emprega os profissionais
de  terapia  ocupacional.  No  entanto,  o  leitor  é  incentivado  a  considerar  a  ampla  variedade  de  ambientes
educacionais que podem se beneficiar das habilidades e da experiência de um terapeuta ocupacional. Esses tipos
de  serviço  de  terapia  ocupacional  podem  ser  inovadores  e  preventivos,  podendo  aumentar  o  desempenho
ocupacional  das  pessoas  de  um  modo  que  historicamente  não  foi  explorado  ou  considerado.  Por  exemplo,  os
profissionais da terapia ocupacional podem desenvolver um programa de promoção de saúde para todo o sistema
escolar  de  modo  a  aumentar  o  engajamento  dos  alunos  na  atividade  física.  As  faculdades  ou  universidades
podem  beneficiar­se  da  experiência  de  um  terapeuta  ocupacional  ao  abordar  o  modelo  universal,  o  acesso  ao
material  didático  por  alunos  com  incapacidades  ou  as  necessidades  ergonômicas  da  equipe  e  dos  estudantes.
Muitos dos princípios discutidos neste capítulo podem ser generalizados para qualquer ambiente educacional.
Várias  fontes  legislativas  e  de  financiamento  sustentam  os  serviços  de  terapia  ocupacional  em  diferentes
ambientes educacionais. Embora a Individuals with Disabilities Education Improvement Act (Lei de Melhoria da
Educação  para  Pessoas  com  Incapacidades)  (IDEA,  2004)  aborde  especificamente  serviços  de  intervenção
precoce e em escolas, todo ambiente educacional deve atender aos requisitos da Seção 504 da Rehabilitation Act
(Lei  de  Reabilitação)  (1973),  bem  como  da  Americans  with  Disabilities  Act  (Lei  dos  Norte­Americanos  com
Incapacidades) de 1990 (ADA) (P.L. 101­336). Dessa maneira, os serviços de terapia ocupacional em ambientes
como universidades e foros de educação continuada podem ser fornecidos de acordo com a Seção 504 e a ADA.
A Seção 504 defende adaptações razoáveis para pessoas com necessidade especial, uma história de incapacidade
ou  uma  incapacidade  percebida,  caso  sejam  necessárias  adaptações  especiais  para  possibilitar  que  a  pessoa
participe dos ambientes educacionais. A ADA é uma lei de direitos civis e fornece a proteção para pessoas com
necessidades  especiais  semelhante  àquela  proporcionada  aos  indivíduos  com  base  em  raça,  cor,  sexo,
naturalidade, idade e religião. A ADA defende o direito das pessoas com necessidades especiais a oportunidades
iguais para viver, trabalhar e ter lazer na sociedade (incluindo os ambientes educacionais).
Além disso, um profissional de terapia ocupacional pode trabalhar em um hospital ou uma clínica particular
como  ambiente  de  trabalho  primário  e  ser  contratado  para  prestar  serviço  em  um  ambiente  educacional.  Em
alguns casos, um distrito de escolas públicas pode contratar os profissionais da terapia ocupacional para fornecer
os serviços para qualquer estudante que precise de seu apoio (educação especial ou educação comum). A Tabela
50.1 fornece uma revisão da legislação e do financiamento que sustentam os serviços de terapia ocupacional nos
ambientes educacionais.
A prática nas escolas públicas é orientada por legislação federal, com foco sobre a ocupação da educação e o
papel  do  estudante.  Os  terapeutas  ocupacionais  começaram  a  trabalhar  em  escolas  depois  de  1935,  quando
subvenções federais para as escolas criaram o Crippled Children’s Services como uma seção especial da Social
Securities Act (Lei de Seguridade Social). Inicialmente, esses serviços eram fornecidos em ambientes separados
ou escolas especiais e, principalmente, para crianças com comprometimentos ortopédicos e neurológicos (Hanft
& Place, 1996). Em 1975, foi promulgada a Education for All Handicapped Children Act (Lei de Educação para
Todas as Crianças com Necessidades Especiais) (EHA) (P.L. 94­142). Esta lei exigia que os estados fornecessem
educação especial e serviços correlatos, incluindo a terapia ocupacional, para todas as crianças elegíveis entre 6
e 21 anos de idade. Emendas à EHA, em 1986 (P.L. 99­457), acrescentaram os serviços para pré­escolares (3 a 5
anos de idade) e forneceram incentivos para que os estados desenvolvessem sistemas estaduais de prestação de
serviços de intervenção precoce para bebês, crianças e suas famílias. Em 1990, a EHA foi renomeada como a
Individuals  with  Disabilities  Education  Act  (Lei  da  Educação  de  Pessoas  com  Incapacidades),  ou  IDEA  (P.L.
101­476),  e  foram  acrescentados  serviços  adicionais.  Estes  incluíram  dispositivos  e  serviços  de  assistência,
serviços de transição e ampliação do foco, de fundos e de programas para crianças com distúrbios emocionais.
Emendas adicionais foram feitas à IDEA, em 1997 (P.L. 105­117), as quais lapidaram mais a intenção original
da  lei  (AOTA,  1999)  e  incluíram  maior  ênfase  no  acesso  ao  currículo  da  educação  geral  para  estudantes  com
necessidades especiais (veja o Boxe 50.1).
As  últimas  emendas  foram  realizadas  em  dezembro  de  2004,  sendo  o  nome  alterado  para  Individuals  with
Disabilities  in  Education  Improvement  Act  –  IDEA  2004  (Lei  de  Melhoria  da  Educação  para  Pessoas  com
Incapacidades) (P.L. 108­446) ou “a nova IDEA”. Essas emendas deram continuidade à tendência de aumento do
acesso ao currículo de educação geral e aumentaram a ênfase sobre o tratamento antes do encaminhamento ou
serviço  de  intervenção  precoce  (comumente  referidos  como  resposta  ao  tratamento  ou  RAT)  ao  colocar  a
maior parte do IDEA 2004 em acordo com a No Child Left Behind Act (Lei de Inclusão de Todas as Crianças)
de 2001. As emendas também colocam ênfase sobre o uso de práticas com base científica (fundamentadas em
pesquisa ou em evidência), treinamento pré­atendimento e educação profissional de alta qualidade, resolução de
conflitos sem ação em tribunais, aumento da representatividade de minorias em campos como ensino e terapia
ocupacional e uso e desenvolvimento de tecnologia apropriada (incluindo os dispositivos de assistência). Deve
ser observado que essa ênfase sobre o uso da pesquisa para informar a prática é aplicável a todos os ambientes
educacionais, não somente às escolas públicas, tanto em virtude das prioridades políticas como das prioridades
da AOTA.
TABELA 50.1 SERVIÇOS DE TERAPIA OCUPACIONAL EM AMBIENTES EDUCACIONAIS
Legislação/Fontes
de Financiamento População Atendida Papel da Terapia
Ocupacional
Individuals with Estudantes que são elegíveis para a educação Colaborar com a equipe de
Disabilities especial e que necessitam do serviço associado IEP para determinar as
Education de terapia ocupacional a fim de receber a EPGA necessidades do estudante
Improvement Act no AMR e, em seguida, prestar os
(Lei de Melhoria (A IDEA 2004 é aplicável apenas a estudantes (0 a serviços conforme
da Educação 21 anos de idade) que recebem serviços de estabelecido no IEP, a fim
para Pessoas educação especial em seu ambiente de escola de dar suporte ao
com pública.) desempenho relevante do
Incapacidades) estudante para o ambiente
de 2004 (IDEA educacional.
2004)
Section 504 of the Os estudantes que apresentam uma incapacidade, Colaborar com a equipe 504
Rehabilitation Act uma história de incapacidade ou uma para fornecer as
(Seção 504 da incapacidade percebida que afete seu acomodações e adaptações
Lei de desempenho na escola. (Nas escolas públicas, que o estudante necessita
Reabilitação) estes comumente são estudantes que não são para acessar o ambiente
elegíveis para a educação especial.) Os escolar e os serviços.
estudantes que atendem à definição de “pessoa
com uma necessidade especial” são definidos
como aquelas pessoas que apresentam um
comprometimento físico ou mental que limita
substancialmente uma ou mais atividades da vida.
Americans with A ADA garante oportunidade igual para pessoas Fornecer o suporte por meio
Disabilities Act com necessidades especiais no emprego, nos de parecer e
(Lei dos Norte­ serviços federais, estaduais e municipais, monitoramento para
Americanos com adaptações públicas, instalações comerciais e assegurar que os
Incapacidades) transporte. Assim, é uma legislação de direitos estudantes com
(ADA) civis que dá suporte aos estudantes com uma necessidades especiais
necessidade especial à participação no ambiente tenham acesso e possam
educacional. atuar no ambiente
educacional.
Frequentemente envolve
trabalhar com adaptações
ambientais, acomodações e
o uso de dispositivos de
assistência.
Outras fontes de Qualquer estudante que necessite do apoio de um Dar suporte ao desempenho
financiamento profissional de terapia ocupacional. do estudante em ocupações
Fundos de relevantes para o ambiente
educação geral educacional.
(para escolas
públicas)
Seguro privado
Agências
particulares (p.
ex., United
Cerebral Palsy)
Agências
estaduais (p. ex.,
Divisão de
Reabilitação
Vocacional)

Adaptada  de  Swinth,  Y.,  Chandler,  B.,  Hanft,  B.,  Jackson,  L.,  &  Shepherd,  J.  (2003,  April).  Personnel  issues  in
school­based occupational therapy: Supply and demand, preparation, and certification and licensure. Gainesville,
FL:  Center  on  Personnel  Studies  in  Special  Education.  Recuperado  em  15  de  julho  de  2003  de
http://www.coe.ufl.edu/copsse
Desde 1975, as principais metas da IDEA 2004 (originalmente EHA) permaneceram idênticas (veja o Boxe
50.2),  com  uma  mudança  crescente  do  antigo  paradigma  de  “se  não  podemos  consertá­lo,  excluímos”  para  o
novo paradigma de “a incapacidade como uma parte natural e normal da experiência humana” (Silverstein, 2000,
p. 1761). Dessa maneira, o papel da terapia ocupacional de acordo com a IDEA 2004 modificou­se para incluir
um  foco  sobre  os  fatores  contextuais,  como  o  acesso  ao  ambiente  para  que  as  pessoas  com  necessidades
especiais possam ter participação em seus ambientes em vez de “consertarem” a incapacidade.
A IDEA 2004 apresenta quatro partes, de A a D; no entanto, este capítulo abordará principalmente as partes B
e C. (A Parte A aborda as provisões gerais da IDEA, e a Parte D aborda a pesquisa e o treinamento.) Uma adição
positiva  às  emendas  de  2004  é  a  inclusão  dos  prestadores  de  serviços  associados,  inclusive  terapeutas
ocupacionais, como uma prioridade para questões financeiras e de suporte, na Parte D, relacionados à pesquisa e
ao  treinamento.  Na  Parte  C  da  IDEA  2004,  a  terapia  ocupacional  pode  ser  um  serviço  primário  para  bebês  e
crianças, desde o nascimento até os 2 anos de idade, que sejam elegíveis para os serviços de intervenção precoce
(AOTA,  1999).  A  Parte  B  da  IDEA  2004  identifica  a  terapia  ocupacional  como  um  serviço  associado  para
crianças  com  3  a  21  anos  de  idade,  para  as  quais  a  equipe  determina  que  o  serviço  é  necessário  para  que  os
estudantes se beneficiem de seu programa de educação especial. Dois conceitos principais da Parte B da IDEA
2004  são  uma  educação  pública  gratuita  apropriada  (EPGA)  em  um  ambiente  menos  restritivo  (AMR).
(Veja o Boxe 50.3 para a definição dos principais termos encontrados na IDEA 2004.) A IDEA 2004 permite a
cada agência de educação local e estadual alguma variação em como a legislação federal será aplicada, contanto
que  as  determinações  da  EPGA  e  do  AMR  não  sejam  comprometidas.  Desse  modo,  existem  diferenças  entre
programas estaduais e locais com relação à especificidade de como os serviços são fornecidos de acordo com a
IDEA 2004.

PRINCIPAIS ALTERAÇÕES NA IDEA DE 1997

1. Participação de crianças e jovens com incapacidades nos programas de avaliação distritais e estaduais
2. Maior participação dos pais em quaisquer decisões tomadas sobre seus filhos
3. Adição  do  planejamento  de  transição  começando  aos  14  anos  de  idade,  ou  mais  cedo,  quando
necessário
4. Apoiar  o  desenvolvimento  profissional  para  garantir  que  todos  os  profissionais  na  escola  tenham  o
conhecimento e as habilidades necessários para educar crianças com incapacidades.

NICHY (1998)

PRINCIPAIS PREMISSAS DA IDEA

1. Igualdade de oportunidade para todas as pessoas
2. Participação plena (fortalecimento)
3. Vida independente
4. Autossuficiência econômica

Silverstein (2000)

TERMOS COMUNS NA IDEA 2004
Ambiente Menos Restritivo (AMR): O ambiente que permite a interação máxima com colegas não
incapacitados e que seja compatível com as necessidades da criança/estudante.
Currículo de educação tradicional: O mesmo currículo das crianças sem incapacidade.
Educação especial: Ensino especialmente concebido, sem custo para os pais, para atender às necessidades
únicas de uma criança com incapacidade.
Educação Pública Gratuita Adequada (EPGA): Educação especial e serviços associados fornecidos com
financiamento público que atenda aos padrões da Secretaria Estadual de Educação (SEA).
Educação tradicional: Ambiente, currículo e atividades que estão disponíveis para todos os estudantes.
Nenhuma Criança Deixada para Trás: P. L. 107­110, voltada para melhorar o desempenho educacional de
todos os estudantes ao aumentar a responsabilidade pela realização do estudante. Enfatiza a reforma da
educação baseada em padrões, com a crença de que expectativas altas resultarão no sucesso para todos
os estudantes.
Plano de Serviço Familiar Individualizado (IFSP): Um compromisso de serviços que assegure que se
desenvolva um programa apropriado que atenda às necessidades de desenvolvimento e pré­educacionais
únicas de crianças de 0 a 3 anos de idade e suas famílias.
Programa de Educação Individualizado (IEP): Um compromisso dos serviços que garante que se
desenvolva um programa adequado que atenda às necessidades educacionais únicas de crianças de 3 a 21
anos de idade.
Resposta ao Tratamento (RAT): Uma abordagem integrada para a prestação de serviços que inclui as
educações geral e especial, além de englobar ensino de alta qualidade, tratamentos compatíveis com a
necessidade do estudante, tomada de decisão baseada em dados e monitoramento do progresso contínuo.
Serviços associados: Transporte e outros serviços de desenvolvimento, correção e de suporte (incluindo
serviços de fonoaudiologia, psicologia, fisioterapia e terapia ocupacional) necessários para ajudar a criança
a se beneficiar da educação especial.
Serviços de intervenção precoce: Suporte acadêmico e comportamental para ser bem­sucedido na
educação regular, mas que não faz parte da educação especial.

Fonte:  Adaptado  do  National  Council  on  Disabilities  (2000).  Back  to  school  on  civil  rights:  Advancing  the  federal
commitment to leave no child behind. Washington DC: National Council on Disabilities.

A finalidade da IDEA 2004 é “garantir que todas as crianças com necessidades especiais tenham à disposição
uma educação pública gratuita adequada que enfatize a educação especial e os serviços associados, destinados a
satisfazer  suas  necessidades  únicas  e  prepará­las  para  posteriores  educação,  emprego  e  vida  independente”
(Seção  300.1).  Os  profissionais  de  terapia  ocupacional  no  ambiente  da  escola  pública  prestam  serviços  nessa
estrutura  e,  em  geral,  constituem  um  serviço  associado  (de  suporte)  ao  programa  educacional  (instrução
especialmente  idealizada).  Os  alunos  vão  à  escola  para  obter  educação  e  a  terapia  ocupacional  serve  a  essa
prioridade  nas  escolas.  Assim,  os  serviços  de  terapia  ocupacional  no  ambiente  educacional  são  diferentes  dos
serviços no ambiente clínico.

FATORES QUE INFLUENCIAM O PROCESSO DE TERAPIA OCUPACIONAL NOS
AMBIENTES EDUCACIONAIS
Vários  fatores  afetam  o  processo  de  terapia  ocupacional  em  ambientes  educacionais.  Dois  fatores  principais
incluem  a  composição  da  equipe  educacional  e  como  são  tomadas  as  decisões.  Independente  do  ambiente
educacional  em  que  comumente  trabalha  o  terapeuta  ocupacional,  uma  equipe  de  profissionais  geralmente
influencia o processo de terapia ocupacional.

Equipes Educacionais
O conceito de formação de equipe ou de colaboração como equipe para a tomada de decisões sobre o programa e
os  serviços  a  serem  fornecidos  tem  sido  um  princípio  direcionador  dos  serviços  de  terapia  ocupacional  em
escolas  públicas  desde  a  promulgação  da  lei  federal.  Com  a  reautorização  em  1997,  a  IDEA  tornou­se  mais
explícita com relação à ênfase sobre a formação da equipe e a colaboração entre os profissionais e as famílias
para a tomada de decisões efetivas sobre a(s) necessidade(s) do estudante. A IDEA 1997 especificou com clareza
que,  sempre  que  são  tomadas  decisões  a  respeito  de  um  estudante,  os  pais  ou  cuidadores  precisam  estar
envolvidos. Dois tipos de equipes fazem parte do programa de um estudante: a equipe de avaliação e a equipe do
Programa de Educação Individualizada (Individualized Education Program – IEP). Ambas as equipes precisam
incluir profissionais qualificados que conheçam o estudante e sua(s) necessidade(s). Se uma decisão está sendo
tomada  a  respeito  do  envolvimento  da  terapia  ocupacional  no  programa  de  um  estudante,  então  o  terapeuta
ocupacional precisa estar envolvido no processo de formação da equipe. A IDEA 2004 manteve esses dogmas
com  relação  à  tomada  de  decisão  e  às  equipes,  embora,  de  acordo  com  a  IDEA  2004,  um  membro  da  equipe
pode  não  participar  da  reunião,  caso  exista  permissão  por  escrito  dos  pais  e  se  o  membro  da  equipe  ausente
acrescenta  dados  relevantes  à  reunião.  Nas  escolas  públicas,  a  composição  específica  de  cada  equipe  é
direcionada  pelas  necessidades  do  estudante  e  pode  incluir  os  professores  de  educação  geral  e  especial,
terapeutas  (fisioterapeutas,  terapeutas  ocupacionais  e  fonoaudiólogos),  psicólogos,  conselheiros,  pais,  o
estudante  e  diferentes  membros  da  comunidade.  O  foco  do  processo  de  tomada  de  decisão  da  equipe  precisa
estar  sobre  o  desempenho  e  os  resultados  do  estudante,  com  ênfase  na  participação  no  ambiente  da  educação
geral sempre que possível.

Tomada de Decisão em Equipe
A prestação de serviços efetivos e eficientes no ambiente escolar exige um processo sistemático de resolução de
problemas  e  tomada  de  decisão  em  equipe.  Existe  uma  tendência  dos  profissionais  de  identificarem  uma
necessidade  e  imediatamente  proporem  e  executarem  soluções,  sem  primeiro  identificarem  os  resultados
necessários demandados pelo estudante para atuar no ambiente educacional. As equipes educacionais utilizam
diferentes instrumentos que dão suporte ao processo sistemático de tomada de decisão e resolução de problema
em  equipe  (p.  ex.,  Sistema  de  Planejamento  de  Ação  de  McGill,  Escolha  de  Resultados  e  Adaptações  para
Crianças).  Por  exemplo,  o  Sistema  de  Planejamento  de  Ação  de  McGill  (McGill  Action  Planning  System  –
MAPS) consiste em sete perguntas específicas que sustentem o processo de planejamento e a identificação dos
resultados  estabelecidos  pela  equipe  para  estudantes  com  necessidades  especiais  (O’Brien,  Forest,  Snow,
Pearpoint & Hasbury, 1989). As perguntas incluem as seguintes:
1. Qual é a história do estudante?
2. Quais são seus sonhos para o estudante?
3. Quais são seus temores com o estudante?
4. Quem é o estudante? (declarações de uma só palavra que descrevam o estudante)
5. Quais são as forças, os dons e as capacidades do estudante?
6. Quais são as necessidades do estudante?
7. Como seria o dia ideal do estudante e o que deve ser feito para que isto aconteça?

Uma típica sessão de planejamento do MAPS pode levar até duas horas. A equipe inteira (pais, estudantes,
terapeutas  e  professores),  bem  como  outros  membros  convidados  (irmãos,  outros  familiares  ou  membros  da
comunidade), fornecem os dados para responder a cada pergunta. As perguntas não têm resposta rápida ou fácil,
mas o resultado de uma boa sessão de planejamento é uma base sólida a partir da qual se desenvolve o programa
do  estudante,  incluindo  quaisquer  serviços  de  terapia  ocupacional.  O  processo  está  focado  na  importância  de
integrar o estudante em escolas da vizinhança e em turmas de educação geral, de modo a desenvolver amizades e
para garantir uma educação de qualidade para a criança (Vandercook & York, 1988). No momento em que os
membros  da  equipe  abordam  a  pergunta  6  (“Quais  são  as  necessidades  do  estudante?”),  eles  têm  a  base  para
serem  capazes  de  estabelecer  resultados  de  curto  prazo  e  de  longo  prazo.  Essas  metas  de  resultado  são  então
utilizadas para orientar a discussão com relação ao dia ideal do estudante e como obter isso.
Um papel primário do profissional de terapia ocupacional no ambiente escolar consiste em contribuir para o
processo  de  avaliação.  De  maneira  ideal,  isso  é  feito  em  colaboração  com  outros  membros  da  equipe.  A
contribuição  do  profissional  pode  ser  valiosa  para  que  a  equipe  educacional  determine  a  elegibilidade  para  a
educação especial e/ou serviços associados e/ou colabore para determinar a necessidade de terapia ocupacional.
Muitos  aspectos  importantes  que  fundamentam  o  processo  da  avaliação  em  escolas,  de  acordo  com  a  IDEA
2004,  indicam  que  os  profissionais  de  terapia  ocupacional  não  precisam  recorrer  a  outros  ambientes.  Esses
aspectos são discutidos resumidamente adiante.

PREMISSAS SOBRE O PROCESSO DE AVALIAÇÃO NAS ESCOLAS
Assim como em outras áreas de prática da terapia ocupacional, o processo de avaliação nas escolas é dinâmico e
contínuo, prosseguindo, com frequência, durante o tratamento (Stewart, 2005). De acordo com a IDEA 2004, a
avaliação determina se uma criança apresenta uma incapacidade, bem como a natureza e a extensão de educação
especial e serviços associados necessários à criança (Seção 300.15). A IDEA 2004 não exige a utilização de um
tipo  específico  de  instrumento  ou  método  de  medida.  Em  vez  disso,  ela  exige  que  vários  instrumentos  e
estratégias sejam utilizados para obter “informação funcional e de desenvolvimento” para capacitar a criança a
“envolver­se  e  progredir  no  currículo  da  educação  geral”  (Seção  300.304  (1)).  Além  disso,  a  avaliação  deve
ajudar  a  determinar  as  necessidades  educacionais  da  criança  e  como  a  incapacidade  afeta  a  participação  da
criança em atividades escolares. Uma criança não se “qualifica” para a terapia ocupacional com base nos testes
de  acordo  com  a  IDEA  2004.  Em  vez  disso,  os  serviços  de  terapia  ocupacional  devem  ser  recomendados  e
fornecidos para uma criança, se necessários, a fim de que a criança “se beneficie de seu programa de educação
especial”. Ainda que o processo de avaliação nas escolas seja orientado pela lei federal, a ocupação permanece
como  o  centro  da  perspectiva  teórica  do  profissional  de  terapia  ocupacional.  No  ambiente  educacional,  os
profissionais de terapia recorrem aos protocolos adequados para nortear o processo de avaliação.
Nas escolas públicas, uma equipe de profissionais qualificados, que pode englobar um terapeuta ocupacional,
psicólogo escolar, professores de educação especial e educação geral, fisioterapeuta, fonoaudiólogo e outros, é
responsável  por  realizar  a  avaliação.  A  finalidade  do  processo  de  avaliação  não  é  apenas  determinar  as
necessidades do estudante a fim de ter acesso ao ambiente educacional o mais possível, mas também determinar
as necessidades do estudante a fim de atuar no ambiente escolar. Além disso, a IDEA 2004 exige que a avaliação
ajude a determinar quais serviços darão suporte à capacidade de um estudante demonstrar os resultados com um
foco  sobre  o  currículo  de  educação  geral.  Por  conseguinte,  o  processo  de  avaliação  é  direcionado  por  fatores
contextuais (o ambiente escolar) e pelas necessidades do estudante (cliente) (Dunn, Brown & McGuigan, 1994).
Em  outros  ambientes  educacionais,  embora  não  seja  obrigatória  a  exigência  da  IDEA  2004  de  haver  “uma
equipe  de  profissionais  qualificados”,  ela  é  compatível  com  a  melhor  prática.  Em  muitos  outros  ambientes,  a
equipe  será  menor,  mas  raramente  um  profissional  de  terapia  ocupacional  toma  decisões  isoladamente.
Independente do ambiente, a ênfase da avaliação é sobre a área de desempenho ocupacional da educação. No
entanto,  outras  áreas  de  ocupação,  como  a  participação  social,  podem  precisar  ser  abordadas  quando  a
participação nessas áreas afeta o desempenho educacional.
O processo de avaliação precisa ser individualizado (centrado no estudante) e precisa utilizar uma abordagem
de  cima  para  baixo  (Coster,  1998).  Isso  significa  que  a  avaliação  de  terapia  ocupacional  deve  começar
observando  o  desempenho  do  estudante  no  contexto  e  avaliar  fatores  específicos  do  cliente  fora  do  contexto.
Assim  como  em  qualquer  avaliação  da  terapia  ocupacional,  deve  ser  considerada  uma  visão  abrangente  do
estudante (cliente). Dessa maneira, a ênfase recai sobre o contexto educacional, incluindo considerações físicas,
temporais, sociais e culturais. No ambiente educacional, o foco da educação especial e dos serviços associados
está  sobre  os  resultados  do  estudante.  Se  a  equipe  educacional  e/ou  os  pais  requerem  serviços  (p.  ex.,
treinamento especializado) para que o estudante alcance seus resultados, então o profissional é responsável por
abordar essas necessidades (Primeau & Ferguson, 1999), bem como questões de sistemas mais amplos (p. ex.,
currículo,  adaptações  ambientais)  que  possam  necessitar  do  estímulo  e  do  suporte  da  terapia  ocupacional
(Muhlenhaupt,  2003).  De  acordo  com  a  IDEA  2004,  os  serviços  de  terapia  ocupacional  são  de  natureza  de
suporte,  a  fim  de  ajudar  a  criança  a  ser  bem­sucedida  na  escola,  bem  como  nas  atividades  extracurriculares
(Giangreco, 2001). Além disso, os serviços podem ser fornecidos “em favor da” criança e “para pais, professores
e outros membros da equipe” para que essas pessoas possam dar melhor suporte ao aprendizado da criança (veja
a Tabela 50.2).

TABELA 50.2 CLIENTES A CONSIDERAR DURANTE O PROCESSO DE AVALIAÇÃO DA TERAPIA
OCUPACIONAL
Cliente Consideração(ões) de Avaliação
Estudante Coletar dados considerando o perfil ocupacional e o desempenho ocupacional
Pais/equipe Com base no perfil ocupacional e no desempenho ocupacional do estudante, determinar se
educacional existe alguma necessidade de treinamento específico, suporte e/ou fornecimento de
informação
Sistema Com base no perfil ocupacional e no desempenho ocupacional do estudante, determinar se
é necessário algum sistema de suporte (p. ex., modificações ambientais, desenvolvimento
de currículo)

O PROCESSO DE AVALIAÇÃO
O terapeuta ocupacional no ambiente escolar foca sua avaliação sobre o que é necessário para que o estudante se
engaje em ocupações escolares significativas e objetivas. A avaliação da terapia ocupacional aborda as áreas de
forças  do  estudante  e  as  preocupações  em  áreas  de  ocupação,  incluindo  as  atividades  da  vida  diária,
educação/trabalho,  brincadeira/lazer  e  participação  social.  Em  cada  uma  dessas  áreas,  o  terapeuta  ocupacional
aborda as habilidades de desempenho e as funções física, sensorial, neurológica e cognitiva/mental do estudante.
Em primeiro lugar, um perfil ocupacional é desenvolvido em colaboração com a equipe, incluindo a família e o
estudante, quando apropriado. Este perfil é seguido por uma análise do desempenho ocupacional do estudante no
ambiente educacional.
A  seguir,  apresentamos  uma  breve  descrição  do  processo  de  avaliação  da  terapia  ocupacional.  O  papel
específico do terapeuta ocupacional durante o processo de avaliação de um determinado estudante dependerá da
experiência  e  das  habilidades  de  todos  os  membros  da  equipe,  bem  como  das  preocupações  quanto  ao
encaminhamento.  Pode  haver  sobreposição  entre  as  disciplinas  profissionais  com  relação  às  habilidades
específicas abordadas (p. ex., habilidades motoras grosseiras com fisioterapia, alimentação com fonoaudiologia
ou questões psicossociais com a psicologia), mas é necessário o estímulo de um terapeuta ocupacional por causa
da  ênfase  única  da  terapia  ocupacional  sobre  a  ocupação  e  os  fatores  contextuais/ambientais  que  afetam  o
desempenho ocupacional (veja a Fig. 50.1).
Como em todos os outros ambientes onde atuam profissionais da terapia ocupacional, o terapeuta ocupacional
é responsável pela administração de medidas e métodos de avaliação, pela interpretação e registro dos resultados
e pela comunicação dos resultados da avaliação aos outros membros da equipe. No entanto, se um estagiário de
terapia ocupacional faz parte da equipe, ele pode contribuir em qualquer parte do processo sob supervisão direta
do terapeuta ocupacional.

Fig. 50.1 Os terapeutas ocupacionais avaliam o desempenho ocupacional de um estudante no contexto
educacional.

Encaminhamento
Em geral, o processo  de  encaminhamento  no  ambiente  escolar  difere  daquele  em um ambiente clínico. Assim
como em qualquer procedimento da educação especial, etapas específicas podem variar de um estado para outro
ou de uma instituição para outra. No entanto, na maioria das situações em escolas públicas, quando existe uma
preocupação  com  o  desempenho  do  estudante,  uma  equipe  de  profissionais  discutirá  e  aplicará  diferentes
estratégias na sala de aula da educação tradicional antes de encaminhar o estudante para a educação especial. Se
essas  estratégias  não  são  bem­sucedidas,  então  o  estudante  é  encaminhado  para  uma  avaliação  de  educação
especial  para  determinar  a  elegibilidade  para  os  serviços.  A  terapia  ocupacional  pode  estar  envolvida  ou  não
nessa etapa do processo. Quando o terapeuta ocupacional não participa do processo inicial de avaliação, a equipe
pode  solicitar  uma  avaliação  de  terapia  ocupacional  a  qualquer  momento  após  determinar  que  o  estudante  é
elegível para a educação especial. Se o terapeuta ocupacional trabalha em um estado onde a prática da terapia
ocupacional  exige  o  encaminhamento  de  um  médico  para  os  serviços,  então  este  encaminhamento  pode  ser
necessário  antes  da  prestação  dos  serviços.  Se  um  médico  encaminha  um  estudante  para  uma  avaliação  de
terapia  ocupacional,  este  encaminhamento  não  assegura  os  serviços  no  ambiente  escolar.  O  terapeuta
ocupacional  na  escola  pública  precisa  primeiro  se  assegurar  de  que  o  estudante  é  elegível  para  a  educação
especial e, em seguida, determinar os serviços necessários para que o estudante se beneficie de seu programa de
educação.
Em outros ambientes educacionais, o processo de encaminhamento pode ser menos formal. Por exemplo, em
alguns ambientes universitários, um encaminhamento pode advir de um centro de acesso para a incapacidade (p.
ex., uma preocupação de acesso do estudante) ou de recursos humanos (p. ex., uma preocupação ergonômica da
equipe). Os terapeutas que prestam serviços nesses tipos de ambiente podem precisar desenvolver um sistema de
encaminhamento para assegurar que o processo atenda às necessidades do(s) cliente(s). Quando é necessário o
encaminhamento médico por causa da lei de prática estadual, então o terapeuta ocupacional precisa aderir a este
requisito, independente do ambiente.

Serviços de Intervenção Precoce
Ao longo dos anos, educadores e outros profissionais reconheceram a importância de fornecer suporte adequado,
quando  necessário,  o  mais  breve  possível,  para  estudantes  em  dificuldade.  No  entanto,  o  atual  sistema  de
educação  especial  exige  que  um  estudante  fracasse  antes  de  ser  elegível  para  os  serviços.  Durante  os  últimos
anos,  alguns  distritos  exploraram  o  fornecimento,  o  mais  precoce  possível,  desses  serviços.  Por  causa  dos
resultados positivos (p. ex., muitos desses estudantes nunca precisaram de serviços de educação especial) desses
serviços, a IDEA 2004 dá a opção de um pequeno fundo para educação especial a ser utilizado em serviços de
intervenção  precoce  ou  de  resposta  ao  tratamento  (RAT).  Dentro  da  IDEA  2004,  a  intervenção  precoce  é
definida  como  os  serviços  prestados  aos  estudantes,  não  incluídos  na  educação  especial,  que  necessitam  de
“suporte  acadêmico  e  comportamental  adicional  para  serem  bem­sucedidos  em  um  ambiente  de  educação
tradicional” (Seção 300.226). Dessa maneira, nas escolas públicas, quando um professor fica preocupado com
um estudante, a intervenção precoce pode ser desenvolvida e aplicada por meio de um processo colaborativo de
equipe  antes  que  o  estudante  seja  encaminhado  para  a  educação  especial.  Cada  vez  mais,  os  profissionais  de
terapia  ocupacional  estão  envolvidos  no  planejamento  e  na  prestação  de  serviços  de  intervenção  pré­
encaminhamento  ou  precoce.  Em  alguns  casos,  intervenção  pré­encaminhamento  efetiva,  como  o  uso  de  um
colchonete  transportável  por  um  estudante  inquieto  ou  o  desenvolvimento  e  a  aplicação  de  um  programa  de
caligrafia, podem dar suporte ao estudante no ambiente educacional, e pode não haver necessidade de tratamento
posterior.
Cada vez mais a pesquisa sugere que os estudantes precisam de suporte efetivo tão logo eles apresentem as
primeiras  dificuldades  na  escola.  Dessa  maneira,  a  IDEA  2004  incluiu  os  serviços  de  intervenção  precoce  em
seus estatutos. Atualmente, esses serviços não são obrigatórios, mas parte dos fundos da educação especial (até
15%) pode ser utilizada por sistemas que desejem oferecer serviços de intervenção precoce. Esses serviços são
para estudantes “do jardim de infância até o ensino médio (com ênfase particular entre o jardim de infância até o
3o ano) que não são atualmente identificados como necessitados de educação especial ou de serviços associados,
mas que necessitam de suporte acadêmico e comportamental adicional para serem bem­sucedidos no ambiente
de  educação  tradicional”  (CFR,  Seção  300.226(a)).  Esses  suportes  são  frequentemente  descritos  como
intervenções  pré­encaminhamento  ou  abordagens  escola  completa.  Muitos  distritos  atualmente  aplicam  o
modelo de intervenção precoce para abordar essa necessidade (National Association of State Directors of Special
Education, 2005).
A intervenção precoce, que se baseia na evidência de pesquisa e nos dados dos resultados dos estudantes, é
uma  abordagem  integrada  à  prestação  de  serviço  que  inclui  a  educação  tanto  tradicional  como  especial  e  o
ensino de alta qualidade, intervenções compatíveis com a necessidade do estudante, monitoramento frequente do
progresso e tomada de decisão com base em dados (NASDSE, 2005). É uma abordagem escolar completa para
os serviços que são especificamente direcionados à necessidade do estudante. A resposta ao tratamento baseia­se
em um modelo de resolução de problema no qual a equipe define o problema, analisa o que está acontecendo,
desenvolve um programa e avalia a eficácia do programa. Em geral, esse modelo utiliza uma abordagem em três
camadas para o suporte (veja a Fig. 50.2). A primeira camada envolve a avaliação e o tratamento em grupo; esta
abordagem geralmente tratará de cerca de 80% dos problemas. A segunda camada é a de intervenção de curto
prazo,  direcionada,  que  aborda  os  outros  15%  das  necessidades  do  estudante.  A  camada  final  é  o  ensino
intensivo,  exigido  por  aproximadamente  5%  dos  estudantes.  O  papel  da  terapia  ocupacional  em  cada  camada
varia  entre  os  distritos  escolares.  Alguns  distritos  consideram  que  a  primeira  camada  deve  ser  abordada  pela
equipe imediata, enquanto outros incluem o terapeuta ocupacional precocemente no processo. Se a preocupação
subjacente  está  no  domínio  da  terapia  ocupacional,  um  terapeuta  pode  estar  envolvido  na  segunda  ou  terceira
camada  de  tratamento.  O  estudo  de  caso  a  seguir  fornece  uma  ilustração  de  como  a  terapia  ocupacional  pode
atuar nos serviços de intervenção precoce.
Fig. 50.2 O modelo de RAT de três camadas. Adaptada do NASDSE (2005).

Nas  escolas  públicas,  quando  os  serviços  de  intervenção  precoce  não  são  efetivos,  o  estudante  é  então
encaminhado para uma equipe de avaliação de educação especial. A equipe de avaliação determina se o processo
de  educação  especial,  conforme  identificado  pela  IDEA  2004,  deve  ser  iniciado  ou  se  o  estudante  deve  ser
encaminhado  para  algum  outro  tipo  de  suporte.  Este  suporte  é  fornecido  com  base  na  Seção  504  da
Rehabilitation Act (Lei de Reabilitação). Por exemplo, se um estudante necessita de acomodações ou adaptações
especiais,  mas  não  necessita  de  ensino  especificamente  construído  para  alcançar  os  resultados  educacionais,  a
equipe de avaliação pode não recomendar uma avaliação de educação especial plena. Eles podem encaminhar o
estudante  para  a  equipe  504  da  escola.  Quando  a  equipe  de  avaliação  considera  que  o  estudante  poderia
necessitar  de  ensino  especialmente  construído  (educação  especial)  a  fim  de  receber  a  EPGA  na  AMR,  seria
iniciado  o  processo  de  avaliação  de  educação  especial.  De  maneira  ideal,  o  terapeuta  ocupacional  deve  estar
envolvido  no  processo  de  tomada  de  decisão  quando  a  equipe  de  avaliação  considera  que  o  estudante  pode
necessitar  de  serviços  de  um  profissional  da  terapia  ocupacional  ou  que  o  estudante  tem  necessidades  que
poderiam exigir a experiência de um terapeuta ocupacional. Quando o estudante é encaminhado para a educação
especial e determinado que o encaminhamento é apropriado, uma equipe de profissionais qualificados planeja e
inicia a avaliação. A equipe precisa conhecer o estudante e as supostas áreas de incapacidade. A finalidade da
avaliação  é  determinar  se  o  estudante  apresenta  incapacidade,  se  a  incapacidade  afeta  de  maneira  adversa  o
desempenho  educacional  do  estudante  no  currículo  da  educação  tradicional  e  a  natureza  e  a  extensão  da
necessidade do estudante de ensino especialmente construído e qualquer outro serviço associado.

ESTUDO DE CASO: Serviço de Intervenção Precoce para Dar Suporte ao Programa
Educacional de Devon

Fundamento
Devon tem 7 anos de idade e está na primeira série. Ele vem apresentando dificuldade com as atividades
educacionais em sala de aula desde o início do ano escolar. A professora do jardim de infância relata que
Devon  também  se  esforçou  no  ano  anterior,  mas  sempre  “fez  apenas  o  necessário”.  Sua  professora  da
primeira  série  está  preocupada  com  o  fato  de  que,  se  Devon  continuar  a  ter  dificuldade,  ele  ficará  muito
defasado  em  relação  a  seus  colegas  para  conseguir  alcançá­los  mais  tarde.  A  escola  elementar  que  ele
frequenta está iniciando a oferta de intervenção de pré­encaminhamento, utilizando o modelo de resposta ao
tratamento.

Camada Um
A  equipe  de  resposta  do  estudante  que  trabalha  com  Devon  discute  seu  caso  com  sua  professora  da
primeira  série.  Sua  professora  relata  que  ele  tem  dificuldade  de  copiar  e  escrever  mais  de  uma  ou  duas
palavras durante qualquer trabalho escrito. Comumente, ele também se recusa a participar das atividades de
leitura. Devon é inquieto e se distrai com facilidade, e por vezes tem surtos comportamentais. Utilizando o
modelo  de  resolução  de  problemas,  eles  determinam  que,  como  é  novembro,  precisam  fornecer  algum
suporte pró­ativo para evitar futuras dificuldades. A equipe decide colocar Devon em um grupo especializado
em  alfabetização  que  se  destina  explicitamente  a  abordar  os  resultados  de  educação  da  primeira  série.  A
terapia  ocupacional  não  participou  dessa  primeira  reunião  porque  a  equipe  não  considerou  que  houvesse
preocupações  a  respeito  do  desempenho  de  Devon  que  exigissem  as  habilidades  e  a  experiência  de  um
terapeuta ocupacional.

Camada Dois
Durante  três  meses,  Devon  participou  no  grupo  especializado  em  alfabetização,  e  foram  registrados
sistematicamente  os  dados  para  acompanhamento  das  técnicas  utilizadas  e  o  progresso  de  Devon.  As
habilidades  de  leitura  e  escrita  de  Devon  melhoraram,  mas  ele  continuou  a  ser  inquieto,  se  distrair  com
facilidade  e  a  apresentar  problemas  de  comportamento  durante  as  atividades  educacionais.  A  equipe
convidou  um  terapeuta  ocupacional  para  a  segunda  reunião  de  equipe,  imaginando  que  o  processamento
sensorial  poderia  estar  afetando  o  desempenho  de  Devon.  O  terapeuta  ocupacional  recomendou  ao
professor da sala de aula estratégias que pudessem dar suporte ao processamento sensorial de Devon (p.
ex.,  uso  de  uma  pequena  almofada  que  permitisse  que  Devon  segurasse  pequenos  objetos  em  sua  mão
para mexer, uso de uma garrafa de água) durante as atividades educacionais. Os pais de Devon também
concordaram em experimentar essas estratégias em casa. O professor apresentou as estratégias a todo o
grupo e permitiu que qualquer um as utilizasse. Foram registrados dados para ajudar Devon e a equipe a
determinar  as  melhores  estratégias  para  ele.  A  combinação  do  ensino  direcionado  pelo  professor  com  as
estratégias  sensoriais  recomendadas  pelo  terapeuta  ocupacional  resultou  em  melhora  do  desempenho,  e
Devon não precisou receber o tratamento da camada três. Um ano depois, ele ainda estava evoluindo bem.

O PROCESSO DE TERAPIA OCUPACIONAL
Quando a terapia ocupacional está envolvida no processo de avaliação, o terapeuta ocupacional pode utilizar o
Protocolo de Prática da Terapia Ocupacional (AOTA, 2002a) como guia para o processo. Como descrito adiante,
o  processo  da  educação  especial  aproxima­se  intimamente  do  processo  de  terapia  ocupacional  descrito  no
Protocolo. Segue­se uma descrição desse processo.

Perfil Ocupacional
O perfil ocupacional é desenvolvido ao se reunirem os dados do estudante, da família e da equipe educacional
(AOTA, 2002a). O estagiário de terapia ocupacional, pessoas da comunidade e outros que conhecem o estudante
também  podem  contribuir  para  esse  processo.  Com  frequência,  o  desenvolvimento  do  perfil  ocupacional
acontece ao longo do tempo. Diferentes medidas e procedimentos idealizados para uso no ambiente educacional
podem  ser  utilizados  para  desenvolver  o  perfil  ocupacional.  A  Tabela  50.3  lista  diferentes  medidas  e
procedimentos utilizados nos ambientes educacionais.
Muitas  dessas  medidas  são  orientadas  por  processo  e  precisam  ser  informadas  com  dados  de  todos  os
membros  da  equipe,  incluindo  o  estudante  e  a  família.  Muitas  dessas  medidas  têm  foco  na  resolução  de
problemas, que aborda as forças e as preocupações do estudante, bem como os fatores contextuais que possam
afetar  o  desempenho  e  os  resultados  do  estudante.  As  medidas  também  ajudarão  o  profissional  de  terapia
ocupacional a identificar os padrões de desempenho e as demandas de atividade. Ao aplicar uma ou mais dessas
medidas orientadas por processo, o profissional da terapia ocupacional terá abordado a maioria das questões do
perfil ocupacional que estão identificadas no Protocolo de Prática da Terapia Ocupacional (veja o Boxe 50.4).
TABELA 50.3 MÉTODOS E INSTRUMENTOS DE AVALIAÇÃO COMUNS UTILIZADOS NOS AMBIENTES EDUCACIONAIS
Participação Áreas de Ocupação Fatores do Cliente
Características Fatores Atividade Experiência Habilidades Capacidades
Contextuais de
Desempenho
Avaliação Interesse Escolhas Experiência Significado Satisfação
na de Subjetiva Pessoal
Atividade Atividade
Parte I: Instrumentos de Avaliação Orientados para o Processo: dão suporte à coleta de dados para o perfil ocupacional e a análise do
desempenho ocupacional
Avaliação das Habilidades Motoras
e de Processo (Versão Escolar) –
Assessment of Motor and Process
Skills (School Version) (AMPS)
Avaliação da Participação e Prazer
da Criança – Children’s
Assessment of Participation and
Enjoyment (CAPE)/Preferências
por Atividades das Crianças –
Preferences for Activities of
Children (PAC)
Seleção de Resultados e
Acomodações para Crianças –
Choosing Outcomes and
Accommodations for Children
(COACH)
Medida Canadense de
Desempenho Ocupacional –
Canadian Occupational
Performance Measure (COPM)
Elaboração de Planos de Ação –
Making Action Plans (MAP)
Escala de Diversão de Miller
Planejamento Alternativo do
Amanhã com Esperança –
Planning Alternative Tomorrows
with Hope (PATH)
Escala de Estabelecimento de Meta
e Eficácia Percebida – Perceived
Efficacy and Goal Setting Scale
(PEGS)
Entrevista com estudante, equipe
educacional, pais e outros
Avaliação da Função Escolar –
School Function Assessment
(SFA)
Observação habilitada
Abordagem em Equipe de Serviços
Interdependentes de Vermont –
Vermont Interdependent Services
Team Approach (VISTA)
Parte II: Avaliações de Fatores do Cliente: dão suporte à análise do desempenho com habilidades, padrões e tarefas de desempenho
específicos
Teste de Desenvolvimento das
Habilidades Motoras Visuais de
Beery – Beery Developmental
Test of Visual Motor Skills (Beery
VMI)
Teste de Proficiência Motora­2 de
Bruininks­Oseretsky (BOT­2)
Escala de Avaliação da Escrita de
Crianças – Children’s Hand
writing Evaluation Scale (CHES)
Teste de Integração Sensorial de
DeGangi­Berk
Teste de Desenvolvimento da
Percepção Visual – Development
Test of Visual Perception (DVPT)
Instrumento de Avaliação da Escrita
de Crianças – Evaluation Tool of
Children’s Handwriting (ETCH)
Medida da Função Motora
Grosseira – Gross Motor Function
Measure (GMFM)
Escala de Brincadeira Pré­Escolar
de Knox
Lista de Verificação de Interesse
Bateria Diagnóstica de Lazer
Avaliação da Escrita de Minnesota
Teste de Percepção Visual Motora
Livre – Motor Free Visual
Perception Test (MVPT)
Escalas de Desenvolvimento Motor­
2 de Peabody – Peabody
Developmental Motor Scales­2
(PDMs­2)
Avaliação Pediátrica do Questionário
de Incapacidade – Pediatric
Evaluation of Disability Inventory
(PEDI)
Teste de Praxia e Integração Social
– Sensory Integration and Praxis
Test (SIPT)
Perfil Sensorial (Bebê/Criança)
Perfil Sensorial (Adolescente/Adulto)
Sistema de Quantificação das
Habilidades Sociais
Teste de Habilidades de Escrita
Teste de Habilidades Perceptuais
Visuais – Test of Visual Perceptual
Skills (TVPS)
Teste de Habilidades Motoras
Visuais – Test of Visual Motor
Skills (TVMS)

PERGUNTAS DO PERFIL OCUPACIONAL DE ACORDO COM O PROTOCOLO DE
PRÁTICA DA TERAPIA OCUPACIONAL (Adaptadas para o Ambiente Escolar)

1. Quem é o estudante?
2. Por  que  o  estudante  foi  encaminhado  para  a  educação  especial  e/ou  para  uma  avaliação  de  terapia
ocupacional nas escolas?
3. Em quais áreas da ocupação educacional (AVD, educação, trabalho, brincadeira/lazer e/ou participação
social) o estudante é bem­sucedido e quais áreas apresentam problemas ou riscos?
4. Quais  os  contextos  que  sustentam  o  engajamento  nas  ocupações  educacionais  desejadas  e  quais  os
contextos que inibem o engajamento?
5. Qual é a história ocupacional do estudante?
6. Quais  são  as  prioridades  do  estudante,  da  família  e  da  equipe  educacional  e  os  resultados  desejados
identificados?

Adaptado da AOTA (2002a).

Análise do Desempenho Ocupacional
Uma vez que o perfil ocupacional tenha sido desenvolvido, o terapeuta ocupacional trabalha com a equipe para
determinar se medidas mais específicas são necessárias para ajudar a determinar necessidades adicionais de um
estudante.  No  ambiente  educacional,  o  terapeuta  ocupacional  aborda  o  desempenho  em  todas  as  áreas  de
ocupação, à medida que estas se relacionam com as necessidades educacionais da criança (veja a Tabela 50.4).
Com  frequência,  os  instrumentos  orientados  pelo  processo  não  somente  ajudam  no  desenvolvimento  do  perfil
ocupacional,  mas  também  auxiliam  o  terapeuta  ocupacional  a  compreender  melhor  os  fatores  contextuais,
“abordagens  escolares  completas”  potenciais  e  questões  curriculares  e  extracurriculares.  Esses  instrumentos
ajudam o terapeuta ocupacional a comunicar as observações da adaptação pessoa­atividade­ambiente à medida
que elas se relacionam com o desempenho ocupacional do estudante na escola.
Caso se determine a necessidade de informações adicionais sobre o desempenho ocupacional com relação às
funções  física,  sensorial,  neurológica  e/ou  mental  do  estudante,  o  terapeuta  ocupacional  pode  utilizar  medidas
padronizadas  ou  não  padronizadas  focadas  nos  fatores  do  cliente  (veja  a  Tabela  51.3).  Essas  medidas  podem
ajudar a obter informações específicas sobre o desempenho ocupacional, mas não devem ser utilizadas sem uma
ou  mais  medidas  orientadas  pelo  processo.  Além  disso,  o  terapeuta  ocupacional  pode  utilizar  observação,
entrevistas com os pais ou professores e revisão de arquivos para fundamentar a análise do desempenho de um
estudante. O estudo de caso a seguir descreve o processo de desenvolvimento do perfil ocupacional de Kristi,
uma estudante iniciante do ensino médio com paralisia cerebral, bem como outras etapas do processo de terapia
ocupacional.

TABELA 50.4 ÁREAS DE DESEMPENHO OCUPACIONAL ABORDADAS A PARTIR DO PROTOCOLO DE
PRÁTICA DA TERAPIA OCUPACIONAL (Adaptada ao Ambiente Escolar)
Área de
Desempenho Como Abordado no Ambiente Educacional
Ocupacional
Atividades da Trata das necessidades próprias básicas na escola (p. ex., alimentação, uso do vaso
vida diária sanitário, manuseio de calçados e casacos, vestir­se e despir­se para exercícios
(básicas e físicos); utiliza o sistema de transportes e aparelhos de comunicação para interagir com
instrumentais) os outros
Educação Participa e atua no ambiente educacional, incluindo as atividades acadêmicas (p. ex.,
matemática, leitura, escrita), não acadêmicas (p. ex., almoço, recreio, atividades depois
da escola), pré­profissionalizantes e profissionalizantes
Trabalho Desenvolve interesses, aptidões e habilidades necessárias para se engajar no trabalho e
na atividade voluntária para a transição para a vida na comunidade após a graduação
escolar
Brincadeira/lazer Identifica e utiliza brinquedos, jogos e experiências de lazer apropriadas para a idade;
participa de atividades de arte, música, esportes e de depois da escola
Participação Interações com os colegas, professores e outros profissionais de educação durante
social atividades educacionais acadêmicas e não acadêmicas, incluindo as atividades
extracurriculares e a preparação para atividades de trabalho

Adaptada  de  Swinth,  Y.,  Chandler,  B.,  Hanft,  B.,  Jackson,  L.,  &  Shepherd,  J.  (2003,  April).  Personnel  issues  in
school­based occupational therapy: Supply and demand, preparation, and certification and licensure. Gainesville,
FL:  Center  on  Personnel  Studies  in  Special  Education.  Acessado  em  15  de  julho  de  2003,  em
http://www.coe.ufl.edu/copsse

ESTUDO DE CASO: Processo de Desenvolvimento do Perfil Ocupacional para Kristi, uma
Estudante de 13 Anos de Idade com Paralisia Cerebral

Histórico
Kristi é uma estudante de 13 anos de idade com paralisia cerebral e tetraplegia. Ela foi submetida à terapia
ocupacional  no  passado,  tanto  em  ambientes  clínicos  como  na  escola.  Kristi  e  sua  família  mudaram­se
recentemente,  e  a  equipe  de  educação  em  seu  novo  distrito  escolar  decidiu  realizar  uma  avaliação  para
determinar suas necessidades educacionais.

Perfil Ocupacional
O  terapeuta  ocupacional  começou  coletando  dados  para  o  perfil  ocupacional  ao  conversar  com  Kristi  e  sua
família,  além  de  revisar  os  registros  anteriores  de  Kristi.  Por  meio  desse  processo,  o  terapeuta  ocupacional
começou  a  desenvolver  um  resumo  da  história  ocupacional  de  Kristi,  bem  como  os  potenciais  e  as
preocupações  nas  áreas  de  ocupação  relacionadas  com  o  programa  educacional  de  Kristi.  Em  seguida,  o
terapeuta  observou  Kristi  durante  as  aulas,  na  turma  de  educação  física,  no  almoço  e  em  períodos  de
transição (p. ex., entrar e sair do ônibus, entre as aulas). A equipe também se reuniu com Kristi e seus pais
para preencher um MAPS.
Análise do Desempenho Ocupacional
Com  base  nos  dados  obtidos,  o  terapeuta  ocupacional  resumiu  o  desempenho  ocupacional  de  Kristi
(potenciais e preocupações) com relação à maioria das funções físicas, sensoriais, neurológicas e/ou mentais
de  Kristi.  Como  Kristi  teve  alguma  dificuldade  com  a  caligrafia,  o  terapeuta  também  realizou  um  Teste  de
Habilidades  de  Percepção  Visual  e  um  Teste  de  Habilidades  Motoras  Visuais  para  avaliar  os  fatores
subjacentes  potenciais  do  cliente  que  afetam  o  desempenho  da  caligrafia  de  Kristi.  O  terapeuta  também
realizou um teste muscular manual para determinar a força e a amplitude de movimento de Kristi.

Resumo
O terapeuta ocupacional resumiu os seguintes achados e recomendações para a equipe educacional:

Área de
Desempenho Forças e Preocupações
Ocupacional
Atividades da vida Kristi é capaz de cuidar de suas necessidades de autocuidado básicas no ambiente escolar neste
diária (básicas momento. Contudo, ela tem dificuldade com algumas atividades para se vestir, o que pode
e afetar sua capacidade de participar das atividades de educação física quando chegar às séries
instrumentadas) mais avançadas e ao ensino médio. Kristi e sua mãe também desejam que ela entre o mais
breve possível para uma turma de culinária para determinar a necessidade de Kristi de
equipamentos adaptativos para cozinhar.
Kristi utiliza o ônibus escolar com um elevador para ir e vir da escola. Ela é capaz de comunicar­se
com seus colegas e professores sem qualquer dificuldade.
Educação Kristi é capaz de participar e completar as tarefas em suas aulas de educação geral com
acomodações e adaptações. Ela necessita de tempo adicional para completar as tarefas escritas
e utiliza um computador para trabalhos mais longos. Ela precisa desenvolver as habilidades de
autodeterminação necessárias para resolver problemas de modo independente e executar as
acomodações/adaptações.
Trabalho Kristi diz que gostaria de ser uma advogada ou professora de educação especial. Aos 14 anos de
idade, a equipe irá colaborar com Kristi e seus pais para começar a desenvolver seu plano de
transição. Este plano irá fundamentar a avaliação e abordar suas necessidades em ambientes
futuros.
Brincadeira/lazer Kristi anda a cavalo, nada na YMCA (Young Men’s Christian Association) e gosta de jogos de
computador e ver televisão.
Participação Kristi tende a se manter na escola. Sua mãe diz que ela é muito social quando está em casa com
social a família, mas que apresenta interação mínima com outras estudantes de sua idade. Kristi
relata que gosta de esportes e que, ainda que não consiga jogar, gostaria de participar
registrando os escores ou ajudando de alguma outra maneira.

Esses achados e recomendações foram incluídos no relatório da avaliação de educação especial, e a equipe os
utilizou  para  desenvolver  o  programa  de  educação  especial  de  Kristi.  Uma  vez  estabelecido  seu  programa,  a
equipe discutiu a necessidade do suporte da terapia ocupacional para Kristi de modo a atender a suas metas e
objetivos educacionais.

TRATAMENTO
O  serviço  de  terapia  ocupacional  pode  abordar  o  desempenho  de  um  estudante  em  educação,  trabalho,
brincadeira/lazer  e  habilidades  sociais,  com  os  resultados  direcionados  para  melhora  da  participação  do
estudante no currículo, acesso ao ambiente escolar e participação em atividades extracurriculares (veja as Figs.
50.3 e 50.4). Nos ambientes educacionais, os profissionais de terapia ocupacional precisam estar familiarizados
com  e  compreender  o  ambiente  educacional  em  que  eles  atuam,  bem  como  a  legislação  e/ou  fonte  de
financiamento que sustenta sua atuação na instituição educacional em questão.
Fig. 50.3 A terapia ocupacional em grupo facilita as habilidades sociais e motoras.

Fig. 50.4 A terapia ocupacional facilita o uso do computador pelo estudante para a comunicação por escrito.

Fatores que Influenciam os Tratamentos de Terapia Ocupacional nos Ambientes Educacionais
Além  do  ambiente  e  da  legislação,  vários  fatores  afetam  o  planejamento  e  a  aplicação  do  tratamento  por
profissionais  de  terapia  ocupacional  nos  ambientes  educacionais.  Estes  incluem  as  características  únicas  do
sistema, a gama de serviços fornecidos e as evidências de pesquisa que sustentam a intervenção.

Características Únicas do Sistema
Cada ambiente educacional apresenta características únicas que precisam ser consideradas no planejamento e na
execução  do  tratamento.  Em  um  mesmo  distrito  escolar,  diferentes  escolas  contêm  forças  e  barreiras  próprias.
Muitos  terapeutas  ocupacionais  que  trabalham  em  ambientes  educacionais  são  prestadores  de  serviço  e
trabalham em três ou mais escolas. As diferenças podem tornar difícil aos terapeutas manter­se alinhados com as
singularidades  dos  diferentes  ambientes.  Além  disso,  a  diferente  legislação  (p.  ex.,  504,  ADA)  e  a  ênfase
diferente  (p.  ex.,  escolas  públicas,  universidades,  educação  continuada,  sala  de  aula  virtual)  também  afetam  a
unidade  do  sistema.  Os  terapeutas  de  ambientes  educacionais  precisam  participar  de  questões  sistêmicas,
mudanças e desafios para o fornecimento de serviços mais efetivos. O leitor é encaminhado ao Capítulo 63 para
um exemplo de raciocínio de um terapeuta ocupacional em ambiente escolar.

Variedade de Serviços
Os  profissionais  de  terapia  ocupacional  fornecem  uma  variedade  de  serviços  em  ambientes  educacionais.  O
tratamento pode incluir atendimento direto (como atividades individuais ou em grupo) ou suporte à equipe para
identificar e executar as adaptações e modificações ambientais nos espaços físicos do campus escolar ou da sala
de  aula.  Por  fim,  os  serviços  podem  incluir  suporte  ao  sistema,  atividades  como  o  trabalho  no  comitê  de
currículos de um distrito para estabelecer uma disciplina de caligrafia ou o trabalho em uma escola elementar
para ajudar a construir uma área de brincadeira acessível a ser utilizada durante o recreio. Independente de como
os  serviços  são  prestados,  os  profissionais  que  trabalham  em  escolas  públicas  precisam  estar  conscientes  das
questões curriculares, como a reforma da educação, a avaliação baseada em padrões e as exigências da educação
tradicional.  A  IDEA  2004  exige  que  os  estudantes  com  incapacidades  sejam  considerados  quanto  e  tenham
acesso ao currículo da educação tradicional sempre que possível e sejam incluídos na reforma da educação e nas
avaliações estaduais. Por conseguinte, os serviços de terapia ocupacional também podem abordar as exigências
da educação tradicional. Por exemplo, nos Estados Unidos, em alguns estados, os terapeutas ocupacionais estão
sendo solicitados a abordar avaliações alternativas para estudantes com incapacidades severas ou participar na
tomada de decisão sobre adaptações razoáveis dos testes para estudantes com dificuldade de aprendizado. Para
participar plenamente dessas discussões e dar suporte à execução das recomendações, o terapeuta ocupacional
precisa  ter  uma  compreensão  básica  dos  resultados  educacionais  identificados  e  das  exigências  dos  testes  no
sistema de educação.
Além disso, os terapeutas ocupacionais precisam compreender a diferença entre acomodações e modificações
e  como  estas  afetam  os  resultados  da  aprendizagem.  Com  frequência,  esses  termos  são  utilizados  como
sinônimos,  mas,  nos  ambientes  educacionais,  as  mesmas  estratégias  podem  ser  utilizadas  em  ambas  as
categorias,  embora  obtenham  resultados  muito  distintos.  Acomodações  são  adaptações  ou  estratégias  que  dão
suporte  ao  aprendizado  do  estudante,  mas  exigem  o  mesmo  resultado  de  aprendizado  dos  outros  estudantes.
Modificações são adaptações ou estratégias que modificam o resultado do aprendizado ao exigir que o estudante
aprenda alguma coisa diferente ou aprenda menos (Nolet & McLaughlin, 2000). A Tabela 50.5 fornece alguns
exemplos de acomodações e modificações para ilustrar essas diferenças.
Nos  sistemas  educacionais  como  universidades  ou  ambientes  de  educação  continuada,  uma  variedade  de
serviços de terapia ocupacional também pode ser fornecida. No entanto, atualmente, muitos serviços de terapia
ocupacional nesses ambientes tendem a ser mais colaborativos/consultivos ou a tratar de acomodações em vez de
serviços  diretos  de  terapia.  Por  exemplo,  um  terapeuta  ocupacional  poderia  ser  consultado  por  um  centro
universitário de informática para recomendar os arranjos ergonômicos apropriados ou para fornecer os recursos
relacionados ao uso saudável da informática.

Desenvolvimento do Plano de Serviço Familiar Individualizado (Individualized Family Service Plan –
IFSP) ou Programa de Educação Individualizado (Individualized Education Program – IEP)
Uma vez realizada a avaliação, a equipe do IFSP ou do IEP coopera para construir o programa da criança ou do
estudante  (Giangreco,  2001).  Os  IFSP  são  planos  que  incluem  as  necessidades  da  família  e  da  criança,  sendo
utilizados  nos  programas  de  intervenção  precoce  (0­3  serviços).  Os  IEP  são  programas  que  abordam  as
necessidades dos estudantes da pré­escola até o ensino médio. Quando desenvolve o IFSP ou o IEP, a equipe,
que  inclui  os  pais  e  o  estudante  (quando  com  idade  suficiente),  revisa,  em  primeiro  lugar,  os  resultados  da
avaliação  e  registra  um  resumo  do  desempenho  educacional  do  estudante  denominado  níveis  atuais  de
realização acadêmica e desempenho funcional. Os níveis atuais descrevem as forças do estudante e as áreas de
preocupação  com  relação  às  expectativas  do  currículo  da  educação  tradicional.  Em  seguida,  a  equipe  do  IEP
desenvolve as metas e os objetivos do estudante com base nos dados registrados nos níveis atuais e os resultados
estabelecidos e identificados pela equipe.
TABELA 50.5 EXEMPLOS DE ACOMODAÇÕES E MODIFICAÇÕES
Acomodações Modificações
Modos alternativos de Ensinar menos conteúdo
aquisição Discriminar  entre  os  animais  e  plantas  versus  narrar  as  características  de
Intérpretes  de  linguagem  de diferenciação das células animais e vegetais
sinais
Computadores  com  simulação
de voz
Livros gravados em fita
Aumentos de conteúdo Ensinar conteúdo diferente
Organizadores avançados Identificar diferentes animais versus aprender a anatomia humana
Demonstrações visuais
Orientação de estudo
Ensino mediado por colegas
Modalidades alternativas de
resposta
Escriba
Situações  de  respostas  sem
limitação de tempo

Prática na Escola

A IDEA  2004  exige  que  os  terapeutas  utilizem  “práticas  de  ensino  com  base  científica,  o  mais  possível”
(Seção 601 (c)(5)(E)). Esta exigência é compatível com a terapia ocupacional em qualquer ambiente e é
aplicável  a  todos  os  profissionais  que  prestam  serviços  em  escolas  públicas.  Os  profissionais  de  terapia
ocupacional podem utilizar a evidência de pesquisa para examinar as premissas que norteiam sua prática. Por
exemplo, o valor da consulta e abordagens de ensino e do fornecimento de tratamento em contextos naturais
de  desempenho  está  bem­documentado  na  literatura  de  pesquisa  e  serve  como  uma  diretriz  para  a  melhor
prática (Spencer, Turkett, Vaughan & Koenig, 2006).
Embora alguma evidência de pesquisa esteja disponível, ainda estão surgindo estudos rigorosos de suporte
à  prática  efetiva  nas  escolas.  Swinth,  Spencer  e  Jackson  (2007),  em  um  artigo  desenvolvido  no  Center  on
Personnel  Studies  in  Special  Education  (COPSSE),  resumiram  o  estado  atual  da  pesquisa  que  sustenta  as
práticas  efetivas  em  escolas.  (O  leitor  é  encaminhado  ao  relatório  completo  para  informações  específicas  e
aprofundadas.) Como a promulgação da IDEA é para serviços a serem fornecidos o mais possível no contexto
natural,  Swinth  e  colaboradores  recomendam  que  “os  terapeutas  ocupacionais  que  trabalham  em  escolas
precisam considerar os resultados no contexto do ambiente, bem como as expectativas em que são prestados
seus  serviços”  (p.  8).  Considerar  os  resultados  no  ambiente  educacional  cria  um  desafio  para  os  terapeutas
porque algumas estratégias de tratamento que apresentam sólida base em pesquisa em um ambiente clínico
podem  não  ser  tão  apropriadas  ou  tão  efetivas  nos  ambientes  educacionais.  Por  exemplo,  em  vez  de
trabalharem  no  processamento  sensorial  fora  da  sala  de  aula  em  um  ambiente  semelhante  ao  ambiente
clínico,  os  terapeutas  nas  escolas  podem  trabalhar  com  o  professor  e  o  estudante  para  a  aplicação  de
estratégias de processamento sensorial na sala de aula. O terapeuta escolar pode trabalhar com o professor
para integrar objetos como almofadas pequenas, uma cadeira em forma de bola e as inquietações na rotina da
sala de aula (Schilling, Washington, Billingsley & Deitz, 2003). Além disso, o terapeuta pode trabalhar com o
professor  para  ajustar  o  ambiente  da  sala  de  aula,  como  tocando  música  em  volume  baixo,  diminuindo  as
luzes ou utilizando a iluminação natural, ou desenvolver um “canto tranquilo” para onde os estudantes possam
ir para diminuir a quantidade de estímulos sensoriais que estão recebendo.
A revisão do COPSSE da evidência específica para a prática na escola revelou uma falta de evidência de
pesquisa de alto nível em virtude dos poucos estudos controlados randomizados ou metanálises de estudos
relacionados  aos  serviços  de  terapia  ocupacional  na  escola.  Apesar  desse  achado,  existe  uma  massa
crescente  de  pesquisa  descritiva.  “Assim,  atualmente,  os  terapeutas  ocupacionais  podem  fundamentar­se
mais  nas  práticas  efetivas  ou  promissoras,  na  experiência  clínica  e  nos  valores  do  cliente,  bem  como  em
dados  coletados  de  maneira  sistemática,  ao  prestar  atendimento  efetivo”  (Swinth  et  al.,  2007,  p.  34).  Para
aumentar  a  abrangência  e  a  profundidade  da  evidência,  uma  cultura  de  entrevista  precisa  ser  estabelecida
entre  os  profissionais  que  atuam  em  escolas.  Nessa  cultura  de  entrevista,  deve  ser  estabelecido  um  forte
compromisso  de  pesquisa  para  ajudar  a  informar  e  modelar  a  prática  na  escola.  Esse  compromisso  de
pesquisa precisa estudar as atuais estratégias de prática (p. ex., o uso de princípios sensoriais na sala de aula,
o  melhor  uso  das  habilidades  e  da  experiência  de  um  terapeuta  ocupacional  para  abordar  a  escrita),  bem
como as atuais premissas de prestação de serviços de terapia ocupacional na escola (p. ex., terapia em um
setor  de  terapia  versus  na  sala  de  aula,  a  eficácia  do  fornecimento  de  serviços  associados).  Deve  ser
salientado que vários estudos sustentam a ideia de que o tratamento em contextos naturais é efetivo (Dunn,
1991;  Palisano,  1989;  Friend  &  Cook,  2003;  Snell  &  Janney,  2005;  Walther­Thomas,  Korinek,  McLaughlin  &
Williams,  2002;  Thousand  &  Villa,  2000).  Contudo,  muitos  sistemas  e  terapeutas  escolares  continuam  a
enfrentar  como  e  quando  deixar  o  atendimento  direto  em  um  ambiente  isolado.  É  necessária  pesquisa  para
ajudar  a  informar  os  profissionais  da  terapia  ocupacional  e  outros  profissionais  sobre  como  o  atendimento
direto  pode  ser  prestado  de  maneira  efetiva  nos  contextos  naturais,  bem  como  outras  abordagens  para  a
prestação  de  serviço  (como  equipe  de  suporte  ou  sistema  de  suporte)  podem  ser  fornecidas  de  maneira
eficiente e efetiva para melhorar os resultados do estudante. Por fim, são necessários estudos experimentais e
quase experimentais de alto nível que abordem a eficácia de práticas específicas de terapia ocupacional para
o acesso, a participação e o desempenho educacional dos estudantes (medidas de resultado).
Estão disponíveis revisões de evidência relacionadas à prática na escola fornecidas pela AOTA; uma revisão
aborda as necessidades psicossociais das crianças nas escolas e uma revisão lida com a prática baseada na
escola (Jackson & Arbesman, 2005; AOTA, 2002b). Embora essas duas revisões não sejam específicas para
serviços  de  terapia  ocupacional  de  acordo  com  a  IDEA  2004,  alguns  dos  sumários  e  dados  contidos  nas
revisões podem ajudar a orientar os serviços de terapia ocupacional nas escolas.
Os  profissionais  de  terapia  ocupacional  que  atuam  em  escolas  precisam  equilibrar  o  estado  atual  da
pesquisa  com  a  necessidade  de  tomar  as  melhores  decisões  possíveis  para  fundamentar  os  resultados  do
estudante.  Ilott  (2004)  observou  que  a  terapia  ocupacional  é  uma  profissão  de  “pesquisa  emergente”.  Por
vezes, a profissão, que inclui profissionais que atuam em escolas, carece de uma base de evidência suficiente
para  determinar  por  completo  as  práticas  e  tratamentos  mais  efetivos.  “Em  consequência,  o  terapeuta
ocupacional  escolar  competente  deve  pensar  sobre  a  ‘prática  efetiva’  e  engajar­se  na  coleta  sistemática  de
dados relacionada aos resultados desejados do estudante. Em todos os momentos, o terapeuta precisa utilizar
a avaliação do estudante/cliente e as atividades de tratamento para coletar e documentar o desempenho do
estudante (resultados) que justifiquem decisões continuadas de (relacionadas a) manutenção, modificação ou
interrupção  dos  serviços”  (Swinth  et  al.,  2007,  p.  35).  A  tabela  a  seguir  fornece  um  exemplo  de  como  os
terapeutas  escolares  podem  utilizar  a  evidência  baseada  em  pesquisa  para  apoiar  seu  raciocínio  sobre  o
tratamento.
Pergunta de Tratamento Evidência
Revisada Implicações para os Resultados do Tratamento
Os terapeutas ocupacionais escolares devem Case­ Os profissionais de terapia ocupacional precisam
prestar atendimento direto em um ambiente Smith considerar o seguinte quando determinam o(s)
isolado para a abordagem das necessidades (2000) tipo(s) de tratamento a ser(em) fornecido(s) para dar
de caligrafia dos estudantes? Case­ suporte ao desempenho do estudante em caligrafia:
Smith Embora  a  pesquisa  dê  suporte  ao  tratamento  direto  para
(2002) melhorar a caligrafia, este pode não representar o melhor
Denton, uso  das  habilidades  e  da  experiência  de  um  terapeuta
Cope  & ocupacional para abordar essa necessidade
Moser A aplicação de um aspecto sensorimotor para o ensino da
(2006) caligrafia  pode  não  ser  tão  efetiva  quanto  a  prática
Cooley terapêutica
(2004) O  uso  de  brincadeiras  com  crianças  mais  jovens  pode
dar suporte à melhora das habilidades motoras finas
A  terapia  ocupacional  pode  ajudar  a  melhorar  a
legibilidade  da  letra,  porém  pode  não  afetar  a  velocidade
ou a legibilidade numérica
A pinça tríplice não é a única pinça funcional para o lápis
utilizada em atividades de caligrafia
Conclusão: Com base na revisão da evidência, o terapeuta ocupacional determinou que uma maior ênfase sobre o suporte da equipe e
do sistema poderia apoiar melhor as necessidades de caligrafia dos estudantes em seu distrito. O terapeuta considerou que o tratamento
para cada estudante que é encaminhado para a terapia ocupacional pode ser mais bem desenvolvido com a colaboração dos professores
para desenvolver clubes de caligrafia, executar adaptações na sala de aula (p. ex., pinça para o lápis, modelos de escrita, dispositivos de
assistência), promover a prática e as atividades motoras finas no contexto natural da sala de aula e inserir uma disciplina abrangente de
caligrafia em todo o distrito. Os serviços diretos de terapia ocupacional por meio do atendimento um para um seriam prestados apenas
se fosse determinado, por meio de uma avaliação de terapia ocupacional, que um estudante apresenta fatores do cliente subjacentes (p.
ex.,  biomecânicos,  visuais­motores,  motores  finos)  que  afetem  o  desempenho  da  caligrafia  e  que  possam  ser  melhorados  com  o
atendimento. O terapeuta sugeriu a hipótese de que, ao fornecer os serviços por meio de uma abordagem de suporte à equipe ou ao
sistema, mais crianças se beneficiariam da terapia ocupacional, embora de maneira indireta, e que o número de encaminhamentos para
a  terapia  ocupacional  diminuiria  de  tal  modo  que  o  terapeuta  avaliaria  apenas  as  crianças  com  problemas  de  caligrafia  que
apresentassem fatores subjacentes do cliente.

Diferentes  ambientes  apresentam  diferentes  exigências  sobre  como  são  escritos  as  metas  e  os  objetivos.  De
acordo com a IDEA 2004, o ideal é que as metas e os objetivos sejam desenvolvidos em equipe. Dessa maneira,
pode  não  existir  uma  “página  de  meta  da  terapia  ocupacional”.  Isso  é  particularmente  comum  em  algumas
instituições  de  intervenção  precoce  e  está  se  tornando  cada  vez  mais  frequente  em  todas  as  instituições.  Em
geral, espera­se que as metas e os objetivos venham a identificar um resultado funcional (Fig. 50.5), venham a
declarar  o  que  o  estudante  fará  e  sob  quais  condições  a  habilidade  ou  o  comportamento  será  realizada(o),  e
incluirá prazo para o término (Borcherding, 2005).
Como discutido anteriormente, colaborar com a equipe é um aspecto importante da prestação do serviço de
terapia ocupacional nas escolas. Essa colaboração define o cenário para abordagem das estratégias de tratamento
para  os  resultados  específicos  do  estudante.  Como  os  pais  (e  estudantes  mais  velhos)  estão  envolvidos  no
planejamento e no processo de tomada de decisão da equipe, suas perspectivas são bem representadas no perfil
ocupacional  desenvolvido  pelo  terapeuta  ocupacional.  Durante  todo  o  processo  colaborativo,  o  terapeuta
ocupacional identifica onde é capaz de apoiar o desempenho ocupacional do estudante no ambiente educacional.
O estudo de caso a seguir fornece um exemplo de documentação do estabelecimento de meta para Shanna, uma
estudante do sexto ano com espinha bífida.
Uma  vez  que  as  metas  e  os  objetivos  tenham  sido  desenvolvidos,  a  equipe  discute  qual(is)  profissional(is)
deve(m)  abordar  determinadas  metas  (p.  ex.,  o  professor  e  o  terapeuta  ocupacional  ou  talvez  o  terapeuta
ocupacional e o fonoaudiólogo), quando elas serão abordadas (p. ex., durante a educação física, durante as aulas
de arte, quando caminhar no corredor) e onde elas serão abordadas (p. ex., na sala de aula de educação geral, na
lanchonete,  no  pátio).  Cada  uma  dessas  decisões  é  tomada  com  base  na  necessidade  do  estudante,  não  nas
preferências pessoais dos profissionais. Assim, quando necessário, o terapeuta ocupacional constrói o programa
de tratamento da TO com base nos resultados identificados por toda a equipe educacional.
Fig. 50.5 Um resultado funcional para uma criança no ambiente pré­escolar é a participação junto aos colegas de
turma em um passeio no campo para colher abóboras.

O Programa de Tratamento de Terapia Ocupacional
Após  a  equipe  desenvolver  o  programa  e  determinar  que  um  estudante  se  beneficiaria  ao  receber  a  terapia
ocupacional  como  um  serviço  associado  para  alcançar  os  resultados  previstos,  o  terapeuta  ocupacional
desenvolve  um  programa  de  tratamento  de  TO  específico.  O  programa  de  tratamento  aborda  as  áreas  de
desempenho  ocupacional,  bem  como  a  habilidade  de  desempenho  ou  o  fator  do  estudante  que  afeta  sua
capacidade de participar integralmente do ambiente educacional.
Como  em  outros  ambientes,  o  profissional  da  terapia  ocupacional  considera  os  fatores  do  estudante,  como
habilidades  motoras,  habilidades  de  processamento  e  habilidades  de  comunicação/interação,  ao  determinar  as
necessidades do estudante. Além disso, o profissional considera os padrões de desempenho, como os hábitos e as
rotinas, as demandas das atividades do ambiente escolar e todo o contexto escolar ao determinar as necessidades
do  estudante.  Com  o  desempenho  ocupacional  como  um  núcleo,  várias  estruturas  conceituais  para  a  prática  e
protocolos orientam os tratamentos de terapia ocupacional nos ambientes educacionais. As perspectivas iniciais
podem  incluir  o  comportamento  ocupacional  e  as  perspectivas  de  desenvolvimento,  neurodesenvolvimento,
aprendizagem, biomecânica, integração sensorial e adaptação (Kramer & Hinojosa, 1999). No entanto, existem
limitados  ensaios  controlados  randomizados  que  sustentam  ou  refutam  os  tratamentos  de  terapia  ocupacional.
Por  conseguinte,  os  tratamentos  precisam  relacionar­se  o  máximo  possível  com  a  resposta  do  estudante  ao
tratamento com base nos dados da terapeuta ocupacional e do professor. Durante todo o tratamento, o terapeuta
ocupacional  utiliza  a  coleta  sistemática  de  dados  para  fundamentar  as  decisões  de  tratamento,  assegurar  a
eficácia  do  tratamento  para  o  estudante  específico  e  ajudar  a  dar  suporte  aos  melhores  resultados  para  o
estudante.

PRESTAÇÃO DO SERVIÇO

Planejando o Tratamento
Quando planejam a execução do tratamento, os terapeutas ocupacionais precisam considerar a exigência de um
ambiente menos restritivo da IDEA 2004: “até o máximo de adequação, as crianças com incapacidades precisam
estudar  com  crianças  que  não  sejam  incapacitadas...  a  retirada  dessas  crianças  do  ambiente  educacional
tradicional deve ocorrer apenas quando a natureza e a severidade da incapacidade são tais que o aprendizado em
turmas  regulares  com  o  uso  de  dispositivos  e  serviços  suplementares  não  pode  ser  alcançado  de  maneira
satisfatória  (Ambiente  Menos  Restritivo)”  (Seção  300,  114(a)(2)(i)).  Dessa  maneira,  a  terapia  ocupacional  é
fornecida no ambiente típico do estudante até o máximo possível. Esses ambientes podem incluir a sala de aula,
o refeitório, o banheiro ou o pátio.

ESTUDO DE CASO: Documentação do Estabelecimento de Meta para Shanna
Shanna está no sexto ano da Norwood Middle School. Ela tem espinha bífida e alguns atrasos cognitivos. A
psicóloga  da  escola,  a  professora  de  Shanna,  a  terapeuta  ocupacional,  o  fisioterapeuta  e  a  fonoaudióloga
realizaram, cada um, uma avaliação individual. A avaliação da terapia ocupacional incluiu o perfil ocupacional
e  a  análise  do  desempenho  ocupacional  de  Shanna  em  seu  ambiente  escolar.  Como  resultado  das
avaliações  individuais,  foi  construído  um  relatório  de  avaliação,  e  algumas  das  forças  e  preocupações
identificadas incluem as seguintes:

Forças
Capaz de se mover de maneira independente na escola em sua cadeira de rodas
Habilidades sociais com os colegas
Linguagem expressiva verbal
Criatividade

Preocupações
Facilmente distraída na sala de aula
Não consegue fazer transferências independentes da e para a cadeira de rodas
Linguagem receptiva
Linguagem escrita
Habilidades motoras finas e grosseiras
    (Esta não é uma lista inclusiva das forças e preocupações.)

Extratos dos Níveis Atuais de Realização Acadêmica e Desempenho Funcional de Shanna
(Nota:  Estes  resumos  e  exemplos  de  meta  foram  desenvolvidos  e  escritos  em  equipe,  não  apenas  pela
terapeuta ocupacional.)
Atualmente,  Shanna  atua  na  sala  de  aula  de  educação  tradicional  durante  todo  o  dia.  Suas  tarefas  são
modificadas  de  modo  que  ela  possa  completá­las  no  mesmo  tempo  que  seus  colegas.  Os  ruídos  e  os
estímulos  visuais  podem  facilmente  distrair  Shanna  no  ambiente  de  sala  de  aula.  Ela  vai  para  a  sala  de
reforço para receber assistência em matemática e em expressão escrita quando não consegue completar a
tarefa de maneira independente na sala de aula.
Shanna  pode  movimentar­se  em  seu  ambiente  escolar  sem  assistência,  utilizando  sua  cadeira  de  rodas
manual.  Na  sala  de  aula,  ela  necessita  de  assistência  física  para  a  transferência  de  sua  cadeira  de  rodas
para  a  carteira  escolar  e  de  volta  para  a  cadeira  de  rodas.  Ela  tem  dificuldade  com  habilidades  motoras
finas.  Ela  é  incapaz  de  controlar  um  dispositivo  de  escrita  por  um  período  prolongado  (mais  de  cinco
minutos). Sua dificuldade com a escrita afeta sua capacidade de realizar as tarefas escritas e os projetos de
arte com seus colegas. Seu atraso nas habilidades motoras grosseiras afeta sua capacidade de participar da
educação física e das atividades do recreio.
Shanna  demonstra  boas  habilidades  de  adaptação  durante  as  interações  sociais  com  seus  colegas.  No
entanto, ela está cada vez mais consciente de sua capacidade e suas limitações. Esta consciência provocou
alguns episódios de depressão e resultou em ausências prolongadas da escola. Shanna também demonstra
habilidades emergentes de autodeterminação em outras áreas. Ela consegue descrever as acomodações e
adaptações  potenciais  que  gostaria  para  seus  pais  e  outros  familiares  adultos,  mas  não  as  solicita  para  si
durante a escola.

Exemplos de Metas
Para abordar as habilidades psicossociais: Shanna demonstrará maior autodeterminação e
autodefesa ao colaborar com sua terapeuta e seus professores para identificar e executar quaisquer
modificações e adaptações necessárias em seu programa educacional de menos de 50% das
ocasiões para 90% das ocasiões conforme mensurado por dados da terapeuta e da professora em
junho.
Abordar a linguagem escrita: Shanna utilizará acomodações/adaptações e/ou tecnologia de
assistência (p. ex., processador de texto, verificador de fala, dispositivo adaptado para escrita) a fim
de realizar suas tarefas de sala de aula no ambiente da educação tradicional no mesmo tempo que
seus colegas de 75% das ocasiões para 100% das ocasiões conforme mensurado por dados da
terapeuta e da professora em junho

Esboço do Programa de Tratamento de Terapia Ocupacional (TO)
Utilizando  as  metas  e  os  objetivos  identificados  pela  equipe  para  orientação,  a  terapeuta  ocupacional  de
Shanna  desenvolveu  um  programa  de  tratamento.  Este  programa  incluiu  algum  atendimento  direto  para
identificar e ensinar Shanna a construir quaisquer acomodações ou adaptações necessárias e como utilizar
qualquer  dispositivo  de  assistência.  A  terapeuta  ocupacional  também  trabalhou  com  Shanna  para  explicar
aos outros profissionais do distrito escolar suas acomodações, adaptações e dispositivos de assistência. A
consultoria e o monitoramento contínuos foram incluídos para assegurar que Shanna fosse capaz de atuar
em  seu  ambiente  ocupacional.  Por  fim,  como  Shanna  também  recebia  atendimento  de  uma  terapeuta
ocupacional da comunidade, a terapeuta escolar contatava a terapeuta da comunidade pelo menos a cada
seis meses para discutir o programa de Shanna. A terapeuta não abordou diretamente a linguagem escrita
ou  o  trabalho  para  melhora  da  caligrafia.  Isso  era  parte  do  programa  de  aula  da  professora.  A  terapeuta
ocupacional  colaborou  com  a  professora  para  abordar  as  preocupações  subjacentes  que  afetavam  o
desempenho na escrita, incluindo a implementação de acomodações e adaptações.

Modelos de Prestação de Serviço
Diferentes modelos de prestação de serviço são utilizados no ambiente educacional. A IDEA 2004 define quatro
categorias diferentes para a prestação de serviço:
Ensino construído de maneira especial
Serviços associados
Dispositivos e serviços suplementares
Serviços em favor da criança

Na  maioria  dos  ambientes  educacionais,  os  terapeutas  ocupacionais  fornecem  serviços  associados,
dispositivos e serviços suplementares e serviços em favor da criança. Dependendo das regras e da legislação em
determinado estado, um terapeuta ocupacional pode fornecer ensino construído de maneira especial. Em geral,
seria raro que um terapeuta ocupacional fosse o único profissional a prestar serviço de educação especial a um
estudante  com  incapacidade.  No  entanto,  um  estudante  com  cognição  normal,  mas  com  atrasos  motores
significativos (p. ex., distrofia muscular, espinha bífida, paralisia cerebral), pode necessitar de mais suporte do
que apenas acomodações ou adaptações a fim de participar de seu ambiente educacional.
Os  terapeutas  ocupacionais  podem  optar  por  utilizar  diferentes  modelos  de  serviço  especificados  na  IDEA
2004.  No  entanto,  a  necessidade  do  estudante  é  o  fator  direcionador  para  a  decisão  sobre  como  devem  ser
prestados  os  serviços.  Os  três  modelos  mais  comumente  descritos  na  literatura  de  terapia  ocupacional  são
atendimento direto, consultoria e monitoramento (Case­Smith et al., 2001; Dunn, 1988; Hanft & Place, 1996). O
atendimento direto, o modelo mais comum, ocorre quando o profissional se reúne pessoalmente com o estudante
ou  o  grupo  de  estudantes  com  regularidade.  O  monitoramento  ocorre  quando  o  profissional  identifica  as
necessidades  do  estudante  e  constrói  o  programa  de  tratamento  apropriado,  mas  outra  pessoa  executa  o
programa. O profissional se encontra regularmente com o estudante para monitorar o progresso. A consultoria
utiliza a experiência especializada do profissional para melhorar o ambiente educacional e treinar o professor e
os  pais  para  executar  o  programa  do  estudante.  O  profissional  não  trabalha  diretamente  com  o  estudante.  O
modelo de terapia consultiva vem aumentando em popularidade à medida que profissionais, pais e professores
têm  mais  conhecimento  e  reconhecem  a  importância  da  comunicação  entre  todos  os  membros  da  equipe  na
obtenção dos resultados desejados (Sandler, 1997). No entanto, o termo colaboração, em lugar de consultoria,
reflete  a  comunicação  interativa  entre  os  membros  da  equipe  (Friend  &  Cook,  2003;  Snell  &  Janney,  2005;
Thousand  &  Villa,  2000;  Villa,  Thousand,  Nevin  &  Malgeri,  1996;  Walther­Thomas,  Korinek,  McLaughlin  &
Williams,  2002).  Termos  como  colaboração  podem  descrever  melhor  o  continuum  dos  serviços  de  terapia
ocupacional e podem ser mais bem compreendidos por todos os membros. Por fim, publicações mais recentes
(Hanft & Shepherd, no prelo) utilizam termos como atendimento direto (inclui serviços de um para um, serviços
para pequenos grupos e o semelhante em contextos naturais ou de simulação), suportes de equipe e suportes de
sistema para descrever os serviços nas escolas. Os termos para descrever os serviços nas escolas continuam a ser
refinados  e  podem  ser  um  pouco  diferentes,  dependendo  da  instituição,  do  estado  ou  do  sistema  em  que  o
terapeuta trabalha.
Independente  dos  termos  utilizados  para  descrever  os  serviços,  não  é  raro  que  os  modelos  de  prestação  de
serviço  sejam  apresentados  como  um  continuum  e  de  modo  linear.  Como  resultado,  supõe­se  que  os
atendimentos em colaboração sejam menos restritivos que os atendimentos diretos e, assim, a meta é adotar um
modelo  consultivo  ou  de  monitoramento  para  a  prestação  do  serviço.  No  entanto,  para  alguns  estudantes,  o
oposto pode ser verdadeiro. Desse modo, poderia ser mais apropriado considerar todos os modelos de prestação
de  serviço  como  aspectos  integrados  de  uma  abordagem  completa  de  prestação  de  serviço.  Cada  modelo  de
fornecimento de serviço é importante e valioso. Para atenderem à necessidade identificada de um estudante, os
terapeutas  que  trabalham  em  escolas  podem  utilizar  diferentes  modelos  de  prestação  de  serviços
simultaneamente  (p.  ex.,  alguns  serviços  diretos,  alguns  serviços  em  pequenos  grupos  e  alguns  serviços  em
colaboração) (Fig. 50.6).
Além de prestarem serviços em favor de um estudante específico, alguns profissionais de terapia ocupacional
também prestam serviços  para  a  equipe  educacional,  pais  e/ou  o  sistema  educacional. Quando os serviços são
fornecidos em favor de um estudante específico, eles são documentados no IEP deste estudante. Contudo, se os
terapeutas ocupacionais prestam serviços globais, então aquele que recebe os serviços (ou “cliente”) pode ser, na
realidade,  a  equipe  educacional/os  pais  ou  o  sistema.  A  Tabela  50.6  fornece  exemplos  da  variedade  de
tratamentos aplicados por um terapeuta ocupacional no ambiente escolar.

Fig. 50.6 Crianças em idade escolar compartilham materiais em um grupo de terapia ocupacional.
TABELA 50.6 INTERVENÇÕES DE TERAPIA OCUPACIONAL NOS AMBIENTES ESCOLARES*
Habilidade de Intervenções para o Intervenções para a Equipe Intervenções para
Desempenho Estudante Educacional os Sistemas
Habilidades de Aprender  sobre Ensina  à  equipe  como  utilizar Participa de comitês
processamento autorregulação/níveis as técnicas de processamento de currículo
Energia de vigília e atenção sensorial na sala de aula Orienta  o  sistema
Conhecimento Uso  de  mídias Presta  serviços  em sobre  fatores
Orientação temporal sensoriais  durante  o programas  como  Alert ambientais
Organização  do  espaço tratamento Program  (Williams  & específicos  que  dão
e dos objetos Técnicas  sensoriais Shellenberger,  1994)  para suporte  à
Adaptação integradas ajudar  os  estudantes  a autorregulação  e  à
Inicia  as  atividades  e aprenderem  a  reconhecer vigília na escola
mantém  a  atenção como alertar sobre o que eles Modificações
para completá­las estão  sentindo  e  para ambientais
Organização  da identificar  as  experiências
carteira  e  de  outras sensorimotoras  que  podem
áreas de trabalho ser utilizadas para modificar o
Acomoda­se/adapta­ nível de alerta
se  às  alterações  na Treina  e  coopera  com  o
rotina desenvolvimento do programa
Trabalha  nas
habilidades  de
percepção visual
Orientação  de  tempo
e espaço
Resolução  de
problemas
Autodeterminação
Controle  de
comportamento
Habilidades motoras Participação  na Treinar o uso do equipamento Trabalhar  com  o
Postura educação  física  e de  assistência  e  as sistema escolar para
Mobilidade atividades do recreio acomodações e modificações a  adoção  de  uma
Coordenação Participação  nas Treinar  posicionamento, disciplina  de
Força e esforço atividades de sala de levantamento  de  peso  e caligrafia
Energia aula como o trabalho transferência Aplicação  do
escrito modelo  universal
Postura/alinhamento para  o  ambiente
corporal  durante  as físico e a disciplina
atividades escolares Prescrever  o
Mobilidade  no equipamento  de
ambiente escolar adaptação
Acesso  aos adequado  (p.  ex.,
dispositivos  de elevadores)  para  a
assistência segurança  da
Ensinar  as  técnicas equipe
de  conservação  de Campanha  para  o
energia uso  adequado  de
mochilas
Equipamento
adaptado  (p.  ex.,
máquinas  de
treinamento  de
peso)
Habilidades de Desenvolvimento Treinar e colaborar com o Atividades  de
comunicação/interação da  habilidade desenvolvimento  do desenvolvimento
Comunicação  não social programa da equipe
verbal Desenvolvimento  da Participação  em
Troca de informações habilidade comitês de currículo
Relações psicossocial
Interações  com  os
colegas
Desenvolvimento  das
habilidades  de
autodeterminação
*Esta  não  é  uma  lista  inclusiva  de  intervenções;  em  vez  disso,  é  um  esboço  de  algumas  possibilidades.  As
necessidades específicas do estudante, da equipe e do sistema ajudam a definir as técnicas específicas a serem
utilizadas.

Colaboração Interagências
Outro  importante  aspecto  da  prestação  do  serviço  de  terapia  ocupacional  nos  ambientes  escolares  inclui  a
colaboração entre os profissionais da escola e a equipe da clínica em que a criança esteja sendo atendida, assim
como a colaboração com outras agências. A colaboração entre agências é particularmente necessária quando o
terapeuta  ocupacional  presta  serviços  para  estudantes  que  utilizam  dispositivos  de  assistência  ou  durante  o
planejamento  da  transição  para  os  estudantes  mais  velhos.  A  colaboração  entre  agências  é  importante  em
qualquer ambiente educacional. Por exemplo, quando um estudante universitário com incapacidade necessita de
equipamento  especializado  de  adaptação  a  fim  de  participar  plenamente  no  ambiente,  o  Departamento  de
Reabilitação Profissional pode ajudar na busca por este aparelho. Ou quando um terapeuta ocupacional ministra
um curso de educação continuada e um dos alunos é surdo, pode ser necessário um intérprete da linguagem de
sinais.

Revisão Periódica
A documentação dos serviços é inerente à prestação de serviço em qualquer ambiente. A documentação serve
como  instrumento  de  comunicação  para  os  estudantes  e  as  famílias  em  relação  ao  programa  individualizado.
Além disso, toda a tomada de decisão sobre o tratamento de terapia ocupacional nas escolas deve basear­se em
dados, incluindo a pesquisa, o mais possível. A IDEA 2004 exige que o IFSP ou o IEP seja revisado pelo menos
anualmente, com atualizações  regulares  para  a  família  com  relação  ao  progresso do estudante. (A IDEA 2004
exige  que  as  atualizações  relativas  ao  progresso  do  estudante  nos  IEP  ocorram  pelo  menos  nos  mesmos
intervalos  que  os  boletins  escolares  da  educação  tradicional).  No  entanto,  o  terapeuta  ocupacional  precisa
reavaliar o programa de tratamento de maneira consistente (com maior frequência que a cada três meses) para
garantir  que  o  estudante  esteja  progredindo  para  obtenção  dos  resultados  planejados.  Quando  necessário,  o
programa  de  tratamento  de  terapia  ocupacional  ou  mesmo  o  IFSP  ou  o  IEP  podem  ser  modificados  antes  da
revisão anual.

RESULTADOS
Os  resultados  em  qualquer  ambiente  educacional  são  determinados  pelo  aumento  da  capacidade  do  cliente
(criança, estudante, outros profissionais, família etc.) em participar (ou apoiar a participação) das ocupações de
estudante. Com a ênfase dos atuais ambientes educacionais nas práticas baseadas em evidência, é importante que
os  terapeutas  ocupacionais  que  trabalham  nesses  ambientes  utilizem  estratégias  e  técnicas  sustentadas  pela
pesquisa ou por práticas efetivas ou promissoras (Swinth et al., 2007). O desafio para muitos terapeutas nesses
ambientes  é  que  a  pesquisa  existente  é  limitada  e  tende  a  ser  descritiva.  No  entanto,  nas  escolas  públicas,  o
governo  federal  reconheceu  essa  carência  de  pesquisa  e,  por  conseguinte,  apoia  as  práticas  promissoras.  Os
terapeutas ocupacionais que atuam em ambientes escolares podem responder a esse desafio por meio da coleta
sistemática  de  dados  quando  trabalham  com  seus  clientes  e,  em  seguida,  da  utilização  desses  dados  para
fundamentar  ou  modificar  o  tratamento.  É  importante  que  os  terapeutas  ocupacionais  utilizem  o  raciocínio
baseado  em  pesquisa  para  fundamentar  sua  atuação,  mas  que  eles  não  permitam  que  a  falta  de  mais  pesquisa
experimental limite o escopo de sua atuação nos ambientes educacionais.

RESUMO
O  tratamento  de  terapia  ocupacional  na  escola  é  norteado  pela  IDEA  2004.  Os  profissionais  que  atuam  em
escolas  colaboram  com  a  equipe  do  IEP  para  determinar  as  necessidades  e  os  resultados  desejados  para  o
estudante. Uma vez definidos as necessidades e os resultados no IEP, e uma vez que a equipe estabeleça que há
necessidade  dos  serviços  de  terapia  ocupacional,  então  o  terapeuta  ocupacional  constrói  um  programa  de
tratamento  de  terapia  ocupacional  específico.  O  tratamento  de  terapia  ocupacional  nas  escolas  tem  foco  no
desempenho  ocupacional  do  estudante  no  ambiente  educacional.  Os  profissionais  também  podem  prestar
serviços direcionados às necessidades da equipe educacional, dos pais ou do sistema. Abordagens e estratégias
de  tratamento  específicas  devem  basear­se  o  máximo  possível  na  pesquisa.  Quando  a  pesquisa  não  está
disponível, porém dados preliminares indicam que um determinado tratamento ou prestação de serviço podem
ser efetivos (promissores), então o terapeuta ocupacional precisa utilizar a tomada de decisão baseada em dados
sistemáticos para fundamentar as decisões a respeito do tratamento para cada estudante.

QUESTÕES INSTIGANTES
1. Um administrador de distrito escolar solicitou­lhe a construção de uma sala de terapia especializada para as
escolas  elementares.  Com  base  na  evidência  atual,  na  legislação  e  no  que  você  conhece  sobre  a  prática
baseada na escola, o que você faria?
2. A  professora  de  ensino  fundamental  chama  a  terapeuta  ocupacional  de  “professora  de  caligrafia”.  O  que
você pode fazer para ampliar a perspectiva da professora sobre o papel da terapia ocupacional nas escolas?

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Trabalho
PHYLLIS M. KING E DARCIE L. OLSON

Sumário
Definição de Trabalho
Papel do Trabalho
Papel da Terapia Ocupacional
Contexto Histórico
Protocolo e Teoria da Terapia Ocupacional
Populações
Programas nas Escolas
Trabalho como um Foco para a População Idosa
Condições
Serviços
Bem­estar, Promoção da Saúde e Prevenção da Lesão
Ergonomia
Análise do Trabalho
Avaliação da Capacidade Funcional
Avaliação Pré­admissional
Programas de Fortalecimento para o Trabalho e Condicionamento para o Trabalho
Gerenciamento de Caso
Ambientes
Reabilitação e Tratamento da Lesão no Local de Trabalho
Clínica do Trabalho
Clínica Independente e Baseada em Hospital
Estudo de Caso: Um Laminador de Metal Lesionado
Programas de Trabalho na Comunidade
Oficinas Protegidas
Trabalho Supervisionado
Questões Legais e de Financiamento
Benefícios para os Trabalhadores
Americans with Disability Act (Lei dos Norte­americanos com Incapacidades)
Lei da Reabilitação (Rehabilitation Act) de 1973
Incapacidade na Seguridade Social
Resumo

Objetivos de Aprendizagem
Após a leitura deste capítulo, você será capaz de:
1. Explicar  as  definições  e  os  significados  dos  termos  trabalho  e  ocupação  na  prática  da  terapia
ocupacional.
2. Compreender  a  prática  do  trabalho  na  terapia  ocupacional  à  medida  que  ela  se  aplica  às
populações descritas ao longo da vida e por condições físicas, mentais e sociais.
3. Identificar os serviços oferecidos pela terapia ocupacional na prática do trabalho.
4. Compreender  os  vários  tipos  de  ambientes  de  prática  em  que  a  terapia  ocupacional  promove
avaliação e tratamento no trabalho.

O
s  terapeutas  ocupacionais  empenham­se  para  promover  o  nível  ótimo  de  desempenho  no  trabalho  para
todos os indivíduos de modo a proporcionar uma sensação de bem­estar. A profissão de terapia ocupacional
sustenta o uso do trabalho como um meio de avaliação e tratamento, essencial para propiciar uma sensação de
significado e produtividade que é vital para a saúde.

DEFINIÇÃO DE TRABALHO
O  trabalho  e  os  tratamentos  relacionados  ao  trabalho  sempre  estiveram  no  cerne  da  terapia  ocupacional.  O
Webster’s Universal College Dictionary (1997) define trabalho como “o empenho ou esforço direcionado para
produção ou realização de alguma coisa” (p. 906). Na terapia ocupacional, o foco é dirigido mais para o valor
intrínseco  do  trabalho  como  “ocupação  significativa”.  A  profissão  define  ocupação  como  uma  atividade
significativa  e  objetiva  (Primeau,  1996).  Em  outras  palavras,  a  terapia  ocupacional  considera  o  trabalho  uma
ocupação. O trabalho é “qualquer atividade que contribua para os bens e serviços da sociedade, quer pago, quer
não  pago”  (p.  57).  É  uma  das  principais  áreas  de  desempenho  humano  que  engloba  os  pa  péis  da  vida,  como
assalariado, dona de casa, voluntário e estudante.

PAPEL DO TRABALHO
O trabalho desempenha um papel importante na vida de uma pessoa, contribuindo para o desenvolvimento da
autoestima, da motivação, da sensação de pertencimento e da sensação de competência (Westmorland, Williams,
Strong  &  Arnold,  2002).  “O  trabalho  pode  oferecer  uma  sensação  de  domínio  em  relação  ao  ambiente,  bem
como uma sensação de realização e competência, levando a uma melhor qualidade de vida” (Siporin, 1999, p.
23).  Ele  estrutura  a  vida  de  uma  pessoa,  preenche  a  ética  do  trabalho  e  melhora  a  moral,  a  disciplina,  a
autovalorização  e  a  dignidade  de  uma  pessoa  (Harvey­Krefting,  1985).  Sabe­se  que  o  engajamento  em
ocupações significativas, inclusive o trabalho, promove a boa saúde e o equilíbrio ocupacional (Wilcox, 1998).
Para  muitas  pessoas,  uma  interrupção  no  trabalho  pode  romper  esse  equilíbrio  e  ter  um  impacto  significativo
sobre a saúde.

PAPEL DA TERAPIA OCUPACIONAL
O  desempenho  no  trabalho  pode  ser  influenciado  por  fatores  físicos,  cognitivos,  perceptuais,  psicológicos,
sociais e/ou do desenvolvimento. Os terapeutas ocupacionais recebem uma formação abrangente em todas essas
áreas,  uma  vez  que  elas  estão  relacionadas  com  a  avaliação,  o  tratamento  e  os  programas  de  prevenção.  O
desempenho no trabalho é apenas uma das muitas áreas a considerar. O terapeuta ocupacional colabora com a
pessoa,  com  os  outros  membros  da  equipe  (p.  ex.,  empregadores,  gerentes  de  caso)  ou  instituições  (p.  ex.,
educacionais, municipais/estaduais de saúde mental, de reabilitação profissional) para desenvolver as estratégias
de  tratamento.  Essas  estratégias  baseiam­se  nos  interesses  e  nas  capacidades  e  necessidades  da  pessoa,  sendo
construídas para explorar e ampliar as opções de trabalho, aumentar ou desenvolver capacidades relacionadas ao
trabalho e obter ou manter o emprego (Commission on Practice, 1999).

CONTEXTO HISTÓRICO
Os precursores da terapia ocupacional e dos programas de trabalho datam dos anos 1800, quando “programas de
trabalho”  eram  utilizados  para  promover  a  sanidade  e  a  boa  moral  das  pessoas  com  doença  mental  (Paterson,
1997).  Pouco  depois,  a  terapia  relacionada  ao  trabalho  também  foi  utilizada  em  pessoas  com  incapacidades
físicas para promover a boa saúde. Adolph Meyer (1977), um dos fundadores da terapia ocupacional, forneceu a
primeira filosofia da profissão quando escreveu que viver de modo saudável envolvia uma “mistura de trabalho e
prazer” (p. 640). O uso da ocupação logo ganhou uma reputação de ser terapêutico. No início dos anos 1900, a
“cura pelo trabalho” foi incorporada a treinamentos em que os clientes recebiam remuneração por produzir bens
comercializáveis. As ocupações terapêuticas, o treinamento do hábito, as ocupações de trabalhos manuais e as
lojas pré­industriais como trabalho curativo tornaram­se mais comuns (Jacobs & Baker, 2000).
Atualmente, a terapia ocupacional se mantém comprometida com o trabalho e com as atividades relacionadas
ao trabalho, com foco e abrangência maior sobre os serviços de prevenção de lesão (p. ex., ergonomia, exame
pré­admissional,  orientação  para  proteção  articular  e  consciência  postural)  e  o  engajamento  em  parcerias  para
atendimento  a  empresas.  Os  terapeutas  atuam  cada  vez  mais  fora  de  instituições  médicas  e  mais  em  locais  de
trabalho, atuando junto a empregados e empregadores.

PROTOCOLO E TEORIA DA TERAPIA OCUPACIONAL
A teoria, a prática e a pesquisa em terapia ocupacional sempre abordaram o desempenho sob uma perspectiva
holística.  Um  modelo,  o  Modelo  de  Pessoa­Ambiente­Ocupação,  enfatiza  as  relações  complexas  e  dinâmicas
entre  a  pessoa,  o  ambiente  e  a  ocupação.  Este  descreve  o  desempenho  ocupacional  como  o  resultado  de  uma
relação dinâmica existente entre as pessoas, seus pa péis e ocupações e os ambientes em que vivem, trabalham e
interagem.  De  acordo  com  esse  modelo,  o  tratamento  de  terapia  ocupacional  busca  capacitar  o  desempenho
ótimo  nas  ocupações  que  o  cliente  define  como  importantes  (Kornblau,  Lou,  Weeder  &  Werner,  2002).  Por
exemplo, Lori, uma terapeuta ocupacional que assiste Jim, um marido de 42 anos e pai de dois filhos que busca
retomar seu emprego como gerente de escritório após uma lesão raquimedular em T12­L1, precisa considerar as
forças  e  as  limitações  pessoais  de  Jim  no  desempenho  do  autocuidado,  seu  ajuste  psicológico  e  social  a  sua
incapacidade  e  as  habilidades  de  mobilidade  na  preparação  para  o  retorno  ao  trabalho.  As  variáveis  nos
ambientes domiciliar e do escritório precisam ser examinadas e modificadas para otimizar a independência na
função. O vão das portas precisam ser alargados, e pode ser necessária a instalação de uma rampa para entrada e
saída em ambos os ambientes. As questões de transporte precisarão ser abordadas com a adaptação do automóvel
de Jim para incorporar controles manuais. Uma análise de seu trabalho no escritório precisará ser realizada para
identificar  as  adaptações  do  trabalho  que  o  capacitarão  a  executar  seu  trabalho  de  modo  independente.  Tais
adaptações  podem  incluir  um  espaço  maior  no  escritório,  uma  mesa  que  acomode  a  cadeira  de  rodas  e  a
reorganização do equipamento do escritório para facilitar o alcance.
A  adaptação  ocupacional  sugere  a  competência  na  resposta  ocupacional  de  uma  pessoa.  Para  obter  a
competência, a pessoa precisa interagir com os desafios ocupacionais no contexto ambiental. O desempenho de
uma pessoa depende muito do desejo de domínio, da demanda do ambiente pelo domínio e da pressão resultante
para  o  domínio  (Schkade  &  Schultz,  1992).  O  modo  pelo  qual  uma  pessoa  responde  de  maneira  adaptativa
determina se ela alcançará um domínio relativo em suas ocupações. A força desse desejo influencia a aquisição
do domínio. O ambiente ocupacional apresenta desafios para o desempenho de uma pessoa. Os aspectos físicos,
sociais e culturais do ambiente podem facilitar ou impedir o desempenho com base nas atitudes e capacidades de
adaptação  das  pessoas.  Os  terapeutas  ocupacionais  podem  agir  como  facilitadores  do  ambiente.  Eles  podem
abordar tanto os déficits da pessoa­sistema como as demandas ambientais para facilitar o domínio de uma pessoa
em sua ocupação preferida de trabalho (Kornblau et al., 2002).
De acordo com o protocolo de adaptação ocupacional, Lori precisará considerar o nível de motivação de Jim
para o retorno ao trabalho e as tarefas que seu trabalho exige. Ele pode precisar retomar o trabalho para sustentar
financeiramente  sua  família.  Neste  caso,  o  desejo  de  domínio  de  Jim  será  provavelmente  alto.  O  ambiente  do
escritório pode apresentar desafios físicos para ele, com limitações de espaço no escritório e no banheiro para
acomodar  uma  cadeira  de  rodas.  A  adaptação  e  a  reorganização  dos  equipamentos  do  escritório,  como
computador, telefone, mesa e armários de arquivos, precisarão ser consideradas para otimizar sua capacidade de
realizar esse trabalho.

POPULAÇÕES
“Terapeutas  ocupacionais  prestam  serviços  para  pessoas  ou  populações  com  déficits  ou  problemas  na  área  de
desempenho do trabalho” (American Occupational Therapy Association, 2005, p. 676). Os serviços relacionados
ao  trabalho  podem  ser  prestados  a  pessoas  de  todas  as  idades.  Ao  longo  da  vida,  a  participação  no  trabalho
fornece  benefícios  sociais,  de  desenvolvimento  e  econômicos.  E.  A.  Larson  (2004)  sugeriu  que  as  crianças
beneficiam­se de pa péis de trabalho culturalmente aceitáveis, como fazer sua higiene ou participar nos afazeres
domésticos. A exposição precoce ao autocuidado e aos afazeres domésticos pode afetar as relações da criança
com  os  familiares  e  servir  de  base  para  outras  habilidades  de  trabalho  no  futuro.  Estudos  sobre  adultos  com
incapacidades  mostraram  que  a  qualidade  de  vida  melhora  com  a  participação  em  ocupações  significativas  e
empregos  competitivos  (Bond,  2004;  Dickie,  2003).  Trabalhar  com  idosos  para  promover  a  participação  no
trabalho é uma área de atuação emergente para os terapeutas ocupacionais. À medida que aumentar a proporção
de  idosos  na  população,  o  papel  do  terapeuta  ocupacional  será  ampliado  para  acomodar  as  necessidades  do
trabalhador idoso. Os serviços de terapia ocupacional não estão limitados a indivíduos com incapacidades físicas
e  de  desenvolvimento.  A  participação  no  trabalho  é  parte  de  programas  de  terapia  ocupacional  para  todos  os
indivíduos, incluindo aqueles com incapacidades mentais e comportamentais.

Programas nas Escolas
Em  1997,  a  Individuals  with  Disabilities  Education  Act  (Lei  da  Educação  para  Pessoas  com  Incapacidades)
(IDEA, 1997, P. L. 105­17) exigiu que, juntamente com o Plano de Educação Individualizado, cada adolescente
que  participe  em  educação  especial  tenha  um  Plano  Individualizado  de  Transição  antes  de  atingir  14  anos  de
idade. A transição é o processo em que os membros da equipe de educação e reabilitação preparam o estudante
para  deixar  o  ambiente  escolar  e  entrar  na  vida  do  trabalho  e  da  comunidade  (Kardos  &  White,  2005).  O
planejamento  da  transição  inclui  quatro  áreas  primárias:  educação  pós­secundária,  participação  na
comunidade, necessidades pós­secundárias de emprego e resultados de moradia (K. C. Spencer, 2000).
Os terapeutas ocupacionais exercem um papel único no processo de transição ao promover o movimento da
escola para as atividades pós­escolares por meio de avaliação e tratamentos baseados na ocupação (J. E. Spencer,
Emery & Schneck, 2003). Questionários sobre o interesse na carreira e opções de emprego podem ser aplicados.
Tratamentos como o uso de equipamento de adaptação ou de dispositivos de assistência podem ser considerados
para  maximizar  a  função  nas  atividades  pós­escolares  escolhidas.  Os  terapeutas  ocupacionais  incorporam
habilidades  de  vida  diária,  motivação  para  o  trabalho  e  envolvimento  da  comunidade  com  os  programas  de
terapia dos estudantes para prepará­los para um futuro emprego e a vida na comunidade.
Os terapeutas ocupacionais participam da aquisição dos resultados de transição para cada estudante por meio
da  abordagem  de  suas  necessidades  específicas.  Trabalhar  com  o  estudante  assegura  que  suas  preferências  e
interesses  sirvam  de  base  para  o  planejamento  da  transição.  Juntamente  com  os  estudantes,  suas  famílias  e  a
equipe  de  transição,  o  terapeuta  ocupacional  pode  desenvolver  e  fornecer  programas  pré­profissionalizantes,
facilitar  o  desenvolvimento  das  habilidades  de  vida  funcional,  modificar  ambientes,  facilitar  a  inclusão  em
experiências comunitárias e fornecer orientação aos pais e a outros membros da equipe. A terapia ocupacional no
planejamento da transição utiliza as tarefas funcionais da vida real e a análise da tarefa para ajudar os estudantes
a desenvolverem habilidades funcionais de vida.

Trabalho como um Foco para a População Idosa
Ter uma identidade de trabalho é central para ser um adulto nos Estados Unidos. “Na sociedade norte­americana
contemporânea,  a  sensação  de  ser  alguém  (no  mínimo,  ser  uma  pessoa  produtiva)  parece  fundamental  para  as
percepções  de  pertencimento  e  condição  social,  bem  como  para  a  própria  sensação  de  valor  pessoal”  (Dickie,
2003, p. 251). De acordo com o Bureau de Estatística do Trabalho (1999), a idade mediana da força de trabalho
norte­americana  está  aumentando  rapidamente  e  se  espera  que  continue  a  aumentar  até  2015,  à  medida  que  a
geração do pós­guerra (indivíduos nascidos entre 1946 e 1964) se aproxima da idade da aposentadoria. Projeta­
se que o trabalhador norte­americano médio tenha 40 anos de idade em 2012, constituindo mais de 40 por cento
da força de trabalho. A idade avançada do trabalhador norte­americano é afetada tanto pelo envelhecimento da
geração do pós­guerra como pelas maiores taxas de participação dos trabalhadores com mais de 55 anos de idade
(BLS,  1999).  À  medida  que  a  força  de  trabalho  continua  a  envelhecer,  desafios  significativos  são  enfrentados
pelos  empregadores  e  pelos  profissionais  de  reabilitação.  As  alterações  neurológicas,  cognitivas,  físicas  e
psicológicas relacionadas à idade precisam ser consideradas ao se trabalhar com idosos (Gupta & Stoffel, 2001).
Os trabalhadores idosos mostraram precisar de mais dias de afastamento do trabalho para se recuperar de lesões
do  que  suas  contrapartes  mais  jovens  (BLS,  2005).  Sugeriu­se  que  isso  se  deve  à  recuperação  mais  lenta  e  às
condições mórbidas concomitantes.
Kornblau (2000) considerou a mudança na força de trabalho uma tendência a ser incorporada pelos terapeutas
ocupacionais. “Os terapeutas ocupacionais podem desempenhar um importante papel na organização e adaptação
do local de trabalho para a força de trabalho em mutação” (p. 1). Os terapeutas ocupacionais prestam serviços
que facilitam o envelhecimento bem­sucedido no local de trabalho. Eles ajudam os trabalhadores idosos e seus
empregadores  a  compreenderem  as  questões  e  as  estratégias  de  desempenho  ocupacional  que  são  específicas
para funcionários idosos (Gupta & Stoffel, 2001). Os terapeutas ocupacionais ajudam os trabalhadores idosos e
seus empregadores a otimizarem a adequação entre as capacidades de uma pessoa e as demandas impostas pela
ocupação e pelo ambiente (Sterns & Miklos, 1995).

CONDIÇÕES
Problemas no desempenho do trabalho podem surgir por envelhecimento, lesão ou doença física ou mental, e/ou
por comprometimentos do desenvolvimento ou comportamentais. Os terapeutas ocupacionais prestam serviço a
pessoas  com  ampla  variedade  de  condições  que  apresentam  a  meta  específica  de  aumentar  a  participação  no
trabalho. Com frequência, mas nem sempre, os locais de trabalho definem a idade e as condições da população
que  é  atendida.  Os  sistemas  escolares  atendem  os  jovens  com  incapacidades  de  aprendizagem  e  de
desenvolvimento  quando  eles  fazem  a  transição  para  a  vida  adulta  e  para  as  oportunidades  de  emprego.  As
pessoas  com  doença  mental  ou  comportamental  são  atendidas  em  diferentes  instituições,  inclusive  hospitais,
clínicas  comunitárias  e  abrigos.  Os  tratamentos  com  foco  no  trabalho  para  pessoas  nessas  condições  incluem
avaliação, orientação e treinamento nas principais áreas para aumento da integração bem­sucedida no emprego
competitivo. Os terapeutas ocupacionais que trabalham em hospitais, clínicas e em ambientes industriais prestam
serviços para adultos com diferentes condições clínicas. As lesões físicas e as doenças relacionadas ao trabalho,
como os transtornos musculoesqueléticos e as lesões laborais traumáticas, beneficiam­se dos serviços integrados
que envolvem o trabalhador, o empregador, os profissionais de saúde e outros envolvidos no planejamento do
retorno  seguro  ao  trabalho.  Condições  médicas  não  relacionadas  ao  trabalho,  como  as  lesões  traumáticas  ou
doenças, também exigem o planejamento integrado para estimular as oportunidades de participação no trabalho.
As  pessoas  com  incapacidades  beneficiam­se  da  orientação  que  os  terapeutas  ocupacionais  fornecem  com
relação  aos  serviços  e  programas  que  promovem  o  emprego  seguro.  A  legislação  e  as  agências  federais  e
comunitárias  fornecem  incentivos  para  o  trabalho,  embora  muitos  indivíduos  desconheçam  os  programas  ou
fiquem  temerosos  de  que  o  trabalho  venha  a  afetar  os  benefícios  obtidos  do  Medicare  e  as  compensações
trabalhistas  ou  o  seguro  por  incapacidade  e  desemprego  (Fiedler,  Indermuehle,  Drobac  &  Laud,  2002).
Avaliações, orientação e tratamento focados no trabalho e a integração dos serviços ficam evidentes em todas as
áreas de atuação da terapia ocupacional para pessoas de todas as idades e condições.

SERVIÇOS

Bem­estar, Promoção da Saúde e Prevenção da Lesão
Bem­estar integra aptidão física, nutrição, relacionamentos saudáveis, autoimagem positiva e a capacidade de
assumir a responsabilidade pessoal pelo autocuidado; é o processo de assumir a responsabilidade de realizar o
potencial máximo de saúde da pessoa (Rothman, 1998). Promoção da saúde é o movimento no sentido da saúde
ótima e do bem­estar em alto nível. Estes conceitos são os dogmas básicos da terapia ocupacional. Comumente,
os  programas  de  reabilitação  incluem  estratégias  que  possibilitam  ao  cliente  ganhar  ou  recuperar  a
responsabilidade pela saúde e função ótimas. Os programas comunitários de orientação, incluindo temas como a
conservação  de  energia  e  a  simplificação  do  trabalho,  têm  feito  parte,  há  muito  tempo,  de  campanhas  de
promoção de saúde da terapia ocupacional. Mais recentemente, os terapeutas realizaram programas educacionais
em ambientes industriais visando incentivar a responsabilidade pessoal pelo bem­estar por meio de programas de
prevenção  (Mungai,  1985).  Esses  programas  de  prevenção  incluem  alongamento,  condicionamento  físico,
práticas seguras do trabalho e o reconhecimento, relato e tratamento precoces dos problemas físicos associados
ao  trabalho  (Olson,  1999).  A  prevenção,  uma  importante  dimensão  do  bem­estar,  é  definida  como
empreendimento de etapas para evitar o desenvolvimento de doença ou disfunção (Rothman, 1998).
Programas de bem­estar e prevenção influenciam positivamente a saúde e previnem a lesão (Massy­Westropp
& Rose, 2004; Yassi, Gilbert & Cvitkovich, 2005). Dois fatores principais que motivam as empresas a iniciarem
programas  de  bem­estar  são  a  resultante  redução  de  lesões  relacionadas  ao  trabalho  e  a  economia  de  recursos
associada  a  uma  força  de  trabalho  mais  saudável  (Melnik,  2000;  Naso,  2003;  Rothman,  1998).  Os  terapeutas
ocupacionais  podem  realizar  a  promoção  do  bem­estar  e  da  saúde  em  qualquer  ambiente  de  prática.  Siporin
(1999) enfatizou a importância de programas de treinamento para pessoas que apresentam incapacidades mentais
ou  comportamentais  em  áreas  como  as  de  habilidades  sociais,  higiene  adequada  e  vestir­se  para  o  trabalho.
Nesse contexto, a promoção da saúde envolve o treinamento em áreas que preparem para a integração mais bem­
sucedida  nos  ambientes  comunitários.  Os  programas  de  promoção  da  saúde  podem  incluir  a  avaliação  dos
fatores de risco para a saúde, como avaliações de problemas, pesquisa de sintomas na força de trabalho ou listas
de  verificação  de  riscos,  orientação  e  treinamento  para  melhoria  no  estilo  de  vida,  precauções  de  segurança,
técnicas  seguras  de  trabalho  e  programas  de  condicionamento  físico  (Olson,  1999;  Rothman,  1998).  Na
indústria, os programas de bem­estar no local de trabalho resultam em redução do absenteísmo, dos custos com
cuidados  de  saúde,  maior  proteção  contra  problemas  lombares  e  lesões  musculoesqueléticas  e  maior
produtividade (Carrivick, Lee, Yau & Stevenson, 2005; Melnik, 2000; Naso, 2003; Rothman, 1998).

Ergonomia
A ergonomia é uma profissão relativamente nova que tem foco na utilização da abordagem de sistemas  para
melhorar a segurança e a produtividade por meio da construção de ambientes e sistemas de trabalho. A prática da
ergonomia foi apresentada por meio de documentos que datam dos anos 1800; no entanto, o termo ergonomia
não  foi  criado  até  1949  (Dahl,  2000;  Vitalis,  Walker  &  Legg,  2001).  A  mais  recente  definição  do  termo  foi
estabelecida  em  2000,  pela  International  Ergonomics  Association  (IEA,  2005),  como  “a  disciplina  científica
relacionada à compreensão das interações entre seres humanos e outros elementos de um sistema e a profissão
que  aplica  a  teoria,  os  princípios,  os  dados  e  os  métodos  ao  modelo  para  otimizar  o  bem­estar  humano  e  o
desempenho  do  sistema  como  um  todo”  (Marshall,  2000,  p.  1).  Em  síntese,  a  ergonomia  foi  definida  como  a
consideração de todo o sistema no processo de “adequação do trabalho ao homem” (Vitalis et al., 1295).
Uma  abordagem  de  sistema  compreende  as  propriedades  do  todo,  ou  do  sistema,  como  originárias  de
interações e relações entre as partes. Nessa estrutura, o profissional integra os fatores biológico, psicológico e
social  do  desempenho  humano  no  contexto  do  ambiente  (Dahl,  2000).  Os  terapeutas  ocupacionais  prestam
serviços  ergonômicos  a  pessoas  e  populações  em  vários  sistemas  e  ambientes.  Eles  utilizam  os  princípios  da
ergonomia  para  construir  ambientes  de  vida,  locais  de  trabalho  e  produtos  seguros  e  eficientes.  O  papel  do
terapeuta ocupacional na ergonomia se baseia no conhecimento sobre o desempenho e o potencial humanos e na
legislação que exige locais de trabalho acessíveis seguros.
Os  ambientes  ou  sistemas  de  trabalho  incluem  a  estrutura  organizacional,  os  fatores  ambientais,  os
instrumentos  e  equipamentos,  as  tarefas  do  emprego  e  os  trabalhadores  (Dahl,  2000).  Todos  os  aspectos  do
sistema  são  considerados  na  ergonomia.  O  terapeuta  ocupacional  avalia  e  analisa  o  sistema  para  identificar  a
presença de fatores ergonômicos de risco. Pesquisas nos locais de trabalho, avaliações de riscos e análises das
tarefas do emprego são ferramentas disponíveis para o profissional. A colaboração com outros dentro do sistema
é  necessária  para  avaliação  e  intervenção  exatas  e  completas.  Os  outros  membros  do  sistema  incluem  os
trabalhadores, os supervisores, os engenheiros e a administração. O terapeuta ocupacional se beneficia de boas
habilidades de comunicação, bem como do conhecimento abrangente no campo da ergonomia.
Em  geral,  a  intervenção  ergonômica  se  encaixa  dentro  de  três  categorias  principais:  administrativa,  de
engenharia e individual. As intervenções ou controles administrativos incluem as modificações na natureza do
trabalho,  como  horários,  rodízio  do  trabalhador,  ou  na  designação  das  tarefas  de  trabalho.  Os  controles  de
engenharia  incluem  o  equipamento  e  as  metodologias  ou  mudanças  no  local  de  trabalho  que  reduzem  os
esforços  humanos  necessários.  Os  controles  individuais  incluem  as  habilidades  físicas,  cognitivas  e  sociais,
bem como o desempenho dos trabalhadores. O modelo de emprego seguro e eficiente depende da coordenação
de todos os aspectos do sistema. Matoushek (2005) utilizou o termo programas de integração do trabalho para
descrever  a  incorporação  dos  aspectos  clínicos  do  trabalhador  lesionado  nos  aspectos  organizacional  e
ergonômico  do  sistema.  Os  terapeutas  ocupacionais  abordam  tanto  a  acessibilidade  do  local  de  trabalho  para
todos  os  trabalhadores  como  a  alocação  razoável  de  pessoas  com  problemas  físicos,  psicológicos  ou
comportamentais. A conscientização sobre os princípios ergonômicos serve de base para a integração segura dos
trabalhadores ao trabalho.

Análise do Trabalho
“O desempenho do trabalho dá suporte à participação e à produtividade, essenciais para a saúde e o bem­estar de
cada indivíduo” (AOTA, 2005, p. 676). O papel do terapeuta ocupacional no sentido de aumentar a participação
na ocupação pode incluir a análise dos ambientes de trabalho. Uma análise do trabalho serve como referência
objetiva para contratar, avaliar, treinar, acomodar e supervisionar pessoas com incapacidades (U.S. Department
of Labor, 1994). Independente do ambiente de prática, os princípios da análise do trabalho são instrumentos úteis
para  o  terapeuta  ocupacional.  Os  terapeutas  ocupacionais  utilizam  esses  instrumentos  quando  planejam  a
transição da escola para o trabalho para estudantes em idade escolar e a participação em emprego supervisionado
ou  oficinas  protegidas  para  pessoas  com  incapacidades  físicas  e/ou  mentais.  Uma  análise  do  trabalho  também
beneficia os clientes que estão se preparando para sua primeira experiência em um emprego competitivo ou que
estão  voltando  ao  trabalho  após  uma  doença  ou  lesão.  Além  disso,  os  terapeutas  que  atuam  em  programas
industriais  podem  ser  solicitados  a  ajudar  os  empregadores  na  descrição  do  trabalho  e/ou  na  determinação  da
segurança no local de trabalho. O terapeuta ocupacional pode participar da avaliação do local de trabalho com
uma  investigação  completa  de  todos  os  aspectos  do  ambiente  de  trabalho  ou,  talvez,  apenas  para  conhecer
componentes isolados do trabalho. “Abordagens e técnicas destinam­se a fornecer fundamento para análise que
pode ser aplicada para reduzir a probabilidade de lesão, interromper ou minimizar a progressão de uma doença
ou reduzir a incapacidade resultante em um trabalhador lesionado” (Bohr, 1998, p. 229). A análise do trabalho é
um  processo  dinâmico  que  é  adequado  para  todos  os  ambientes  de  prática  que  considerem  o  trabalhador,  o
ambiente de trabalho e as demandas do trabalho.

Descrição do Trabalho
Uma descrição do trabalho  define  as  funções  essenciais  do  trabalho  e  como  ele  se  relaciona  com  os  demais
trabalhos e com o local de trabalho (Bohr, 1998; Ellexson, 2000). Uma descrição exata e funcional do trabalho
precisa definir as tarefas essenciais do trabalho, as exigências físicas e mentais do trabalhador, os instrumentos e
equipamentos necessários e uma descrição do espaço de trabalho e das condições do ambiente de trabalho.
As tarefas essenciais são as obrigações básicas do trabalho que todos os trabalhadores precisam ser capazes
de  realizar  com  ou  sem  acomodação  razoável  (Ellexson,  2000).  A  Americans  with  Disabilities  Act  (Lei  dos
Norte­americanos  com  Incapacidades)  (1990)  obrigou  que  as  descrições  de  emprego  incluíssem  as  funções
essenciais do trabalho. As obrigações essenciais são o motivo pelo qual o trabalho existe e o grau de experiência
ou  habilidade  que  é  necessário  para  realizar  a  tarefa.  A  descrição  do  trabalho  também  inclui  as  funções
marginais de um emprego. Estas são tarefas que não são essenciais para o trabalho específico e que poderiam,
quando necessário, ser realizadas por outro trabalhador. A identificação das tarefas marginais ajuda o terapeuta a
determinar a colocação no emprego e fornece as diretrizes para treinar o trabalhador para o trabalho.

Análise da Tarefa
Os termos análise da tarefa e análise da tarefa do emprego referem­se a uma avaliação completa das demandas
físicas, cognitivas e psicológicas do trabalho. A análise do trabalho inclui uma metodologia formal que detalha
a interação entre o trabalhador e o equipamento de um sistema. Ela define as necessidades de desempenho do
trabalhador  por  meio  de  uma  descrição  detalhada  das  demandas  da  tarefa  humana.  A  análise  da  tarefa  do
trabalho é a avaliação específica de um determinado procedimento ou tarefa. Uma análise de trabalho completa
inclui entrevistas com o empregador e com o trabalhador; observação de vários trabalhadores realizando a tarefa
(se  possível);  mensuração  de  forças,  frequências  e  duração  das  tarefas  do  trabalho;  demandas  posturais,  como
alcançar e curvar­se para diante; e as condições ambientais e psicossociais presentes no local de trabalho.

Métodos
Antes  de  ser  realizada  uma  análise  do  trabalho,  é  primordial  discutir  com  o  gerente  ou  supervisor  diferentes
questões relacionadas com o processo de avaliação. O empregador será capaz de fornecer informações sobre os
métodos menos perturbadores para efetuar a avaliação e as precauções de segurança necessárias para o avaliador.
Equipamento de proteção pessoal, como óculos de segurança, calçados com ante pé reforçado por aço, proteção
auditiva ou roupas especiais podem ser necessários enquanto no local de trabalho. Podem existir restrições sobre
a entrevista de trabalhadores durante a realização do trabalho. Pode ser necessário que as entrevistas sejam feitas
no  horário  de  almoço  ou  nos  períodos  de  descanso  do  trabalhador.  Além  disso,  o  terapeuta  precisa  discutir  e
obter a permissão antecipada para uso de qualquer equipamento de áudio, fotografia ou vídeo.
O registro organizado  e  detalhado das  informações  obtidas  na  análise  do  trabalho será bastante útil. Muitos
formulários ou listas de verificação estão disponíveis para uso como um ponto de partida, possibilitando que o
terapeuta  aborde  áreas  específicas  para  uma  análise  mais  completa  (Occupational  Safety  and  Health
Administration, 2002; Washington State Department of Labor and Industries, 2005). Também é valioso utilizar
fitas de áudio, equipamento fotográfico ou de vídeo para registrar o trabalhador ou os trabalhadores realizando o
trabalho, o que possibilita uma análise mais completa em um momento posterior. Outros suprimentos comuns
valiosos  na  análise  do  trabalho  são  uma  fita  métrica,  um  medidor  de  força  e  pressão,  um  cronômetro  e  um
goniômetro.  Além  destes,  instrumentos  específicos  podem  ser  investigados  para  medir  o  ruído,  o  calor  e  a
vibração, conforme demonstrado nas Figs. 51.1 e 51.2.
Fig. 51.1 Instrumentos para mensuração dos níveis de ruído. (Fotografia fornecida por Quest Technologies.)

Fig. 51.2 Instrumentos para mensurar a vibração. (Fotografia fornecida por Quest Technologies.)

REFERÊNCIAS E RECURSOS PARA REALIZAR UMA ANÁLISE DO
TRABALHO

Avaliações Gerais
http://www.osha.gov/SLTC/ergonomics/analysis_tools.html
http://www.lni.wa.gov/

Avaliação Corporal Total Rápida (Rapid Entire Body Assessment – REBA)
Hignett & McAtamney, L. (2000) Applied Ergonomics, 31, 201­205.

Avaliação de Membro Superior Rápida (Rapid Upper Limb Assessment – RULA)
McAtamney, L. & Corlett, N. E. (1993). RULA: A survey method for the investigation of work­related upper
limb disorders. Applied Ergonomics, 24(2), 91–99.
http://ergo.human.cornell.edu/ahRULA.html

Avaliações de Levantamento de Peso
Waters, T.R., Putz­Anderson, V., Garg, A., & Fine, L. (1993). Revised NIOSH equation for the design and
evaluation of manual lifting tasks. Ergonomics, 36 (7), 749–776.
http://www.cdc.gov/niosh/94­110.html
http://www.lni.wa.gov/Safety/Topics/Ergonomics/ServicesResources/Tools/default.asp

Medição de Força
Chatillon Force Pressure Gauge
http://www.chatillon.com/Contact%20Us/contactus.html

Vibração
http://www.lni.wa.gov/
American Conference of Governmental Industrial Hygienists, ACGIF: www.acgif.org
Whole­Body Vibration: TLV® Physical Agents 7th Edition Documentation, ACGIH® Publication #7DOC­648
(Copyright © 2001)
Hand­Arm Vibration: TLV® Physical Agents 7th Edition Documentation, ACGIH®

Iluminação
Recommended  lighting  levels  by  the  Illuminating  Engineering  Society  of  North  America,
http://www.iesna.org/

Ruído
OSHA Noise standard, 29, DFR 1910.95(a) and (b)

Repetição
www.acgih.org:  Hand  Activity  Level  (HAL):  Threshold  Limit  Value  (TLV®)  Physical  Agents  7th  Edition
Documentation, ACGIH®, Publication #7DOC­646 (Copyright © 2001)

As entrevistas com o supervisor e com o trabalhador fornecem ideias inestimáveis sobre todos os aspectos do
trabalho. De acordo com a OSHA (2002), “o envolvimento dos trabalhadores ajudará a minimizar os equívocos
e a garantir uma análise de qualidade” (p. 9). As entrevistas podem constituir­se em um método de aprendizagem
sobre  tarefas  rotineiras  e  infrequentes,  bem  como  sobre  padrões  de  fluxo  e  sequência  e  para  a  obtenção  das
perspectivas dos estresses físico e mental do trabalho dos trabalhadores (Bohr, 1998; OSHA, 2002).

Medidas Formais
A  análise  do  trabalho  envolve  a  medida  de  muitos  dos  aspectos  do  trabalho  (Ellexson,  2000).  Ela  inclui  as
dimensões  do  local  de  trabalho  e  os  materiais  manuseados.  Mensurar  o  local  de  trabalho  inclui  medir  as
dimensões de alcance necessárias para as diversas tarefas, as distâncias exigidas para transporte de objetos e a
altura das superfícies de trabalho. O peso dos objetos levantados ou abaixados é registrado, da mesma maneira
que  a  frequência,  a  duração,  a  distância  e  a  qualidade  da  tarefa,  como  pegadores,  ou  a  estabilidade  da  carga.
Outras forças que o trabalhador encontra também são mensuradas, como empurrar e puxar, e é avaliado o uso de
instrumentos,  luvas  e  outros  equipamentos  de  proteção  pessoal.  A  posição  do  corpo  do  trabalhador,  como
inclinar­se, esticar­se ou outras posturas, precisa ser mensurada ou estimada, e a duração e a frequência devem
ser registradas. Pode ser possível registrar apenas as posturas inicial e terminal nos movimentos. Os registros em
vídeo  ou  com  equipamento  fotográfico  ajudam  na  avaliação  das  posturas  corporais  por  possibilitarem  que  o
avaliador examine, mais tarde, ângulos, frequência, duração ou outras variáveis (Bohr, 1998). Por fim, também
são registradas e mensuradas as condições do local de trabalho e as considerações ambientais, como temperatura
do ambiente, temperaturas de superfície, umidade, nível de ruído, iluminação e vibração. Para ajudar o terapeuta
a  identificar  os  níveis  seguros  de  trabalho,  estão  disponíveis  bases  de  dados  sobre  as  condições  aceitáveis  de
trabalho. Estas se baseiam em abordagens epidemiológicas, biomecânicas, psicofísicas e fisiológicas (Eastman
Kodak  Company,  1983;  Snook  &  Cirello,  1991;  Washington  State  Department  of  Labor  and  Industries,  2005;
Waters, Putz­Anderson, Garg & Fine, 1993).
A análise do trabalho é finalizada com o preparo de um resumo que é especificamente desenvolvido para o
consumidor.  Em  geral,  o  relatório  incluirá  uma  revisão  dos  dados  coletados,  os  problemas  identificados  e  as
recomendações  para  a  abordagem  dos  problemas.  “Com  frequência,  é  uma  boa  ideia  oferecer  soluções
estagiadas para a abordagem dos problemas” (Bohr, 1998, p. 244). O terapeuta deve priorizar as soluções que
serão as mais efetivas no curto prazo para ajudar o empregador a analisar a relação custo­benefício. A ênfase do
relatório irá variar de acordo com o contratante. Quando os contratantes estão preocupados com a colocação no
emprego para um cliente, o foco do relatório será a pessoa. O relatório destacará as demandas físicas exigidas e
as necessidades de reabilitação, como fortalecimento, resistência e/ou flexibilidade. Quando o foco é a segurança
no  local  de  trabalho,  o  relatório  destacará  as  condições  perigosas,  com  recomendações  quanto  a  segurança,
eficiência e produtividade. Independente da finalidade da avaliação, a análise do trabalho identificará os fatores
que  aumentarão  ou  restringirão  a  participação  na  ocupação  do  trabalho,  com  recomendações  para  o  cliente,  a
equipe de reabilitação e/ou o empregador. “Por meio de observação, demonstração, participação, documentação
e  análise,  o  terapeuta  ocupacional  habilitado  pode  desenvolver  um  quadro  claro  e  conciso  de  um  trabalho
específico” (Ellexson, 2000, p. 6). O Boxe 51.1 lista alguns recursos relacionados com a análise do trabalho.
Avaliação da Capacidade Funcional
A avaliação da capacidade funcional (Functional Capacity Evaluation – FCE) é um instrumento de avaliação
integral  utilizado  para  a  prevenção  de  lesão  do  trabalho  e  na  reabilitação.  As  FCE  definem  as  capacidades
funcionais e/ou limitações de um indivíduo no contexto de tarefas de trabalho seguras e produtivas. A própria
avaliação  da  capacidade  funcional  envolve  um  processo  sistemático  para  reunir  e  testar  as  informações  e
elaborar  e  testar  hipóteses  sobre  o  desempenho,  muitas  vezes  com  relação  a  uma  ocupação  no  contexto.  O
terapeuta começa por revisar a informação de referência relacionada com a história de trabalho e clínica de um
cliente. Então, administra­se uma série de atividades de testagem para avaliar se a pessoa é capaz de atender às
demandas  de  emprego  necessárias,  determinar  o  nível  de  incapacidade  ou  demonstrar  a  necessidade  de  ou  o
progresso  na  reabilitação  (Harwood,  2004).  Médicos,  empregadores,  seguradores  e  concessores  de  benefícios
frequentemente se fundamentam em avaliações da capacidade funcional para fornecer respostas definitivas em
várias situações que envolvem o trabalho. Os resultados dessas avaliações têm implicações significativas para os
esforços adicionais de reabilitação, emprego, determinação de indenizações e pagamento de benefícios.
As FCE incluem uma ampla gama de atividades de avaliação. As avaliações mais simples envolvem uma série
de tarefas padronizadas por meio da mensuração de pesos e distâncias e de um observador treinado; estas estão
disponíveis  para  o  membro  superior,  bem  como  para  as  atividades  das  costas  e  do  membro  inferior.  Outras
abordagens utilizam dispositivos para mensurar as forças, as velocidades e as amplitudes de movimento média e
máxima  em  diferentes  planos.  Nessas  situações,  os  trabalhadores  geralmente  são  solicitados  a  realizar  um
esforço máximo. A simulação do trabalho, utilizando tarefas e equipamentos específicos para um determinado
trabalho, tornou­se recentemente mais popular, em parte por causa da exigência da Americans with Disabilities
Act (ADA) de que a testagem válida precisa ser específica para o trabalho e fundamentar­se na comparação da
capacidade com as demandas reais do trabalho (Lechner, 1998).
O  conceito  de  compatibilização  das  demandas  do  trabalho  ou  do  local  de  trabalho  com  as  capacidades  e
limitações  de  um  trabalhador  é  uma  premissa  fundamental  à  aplicação  da  FCE.  Um  dos  aspectos  mais
importantes da FCE é que a mensuração da capacidade seja específica para as demandas que o trabalho gera. As
estimativas das demandas do trabalho são generalizações inexatas que não têm validade científica. Uma análise
formal  do  trabalho  é  desejável  para  as  FCE  que  se  destinam  a  mensurar  a  capacidade  de  trabalhar  em  um
emprego  específico.  As  discussões  com  os  empregados  e  as  descrições  por  escrito  do  trabalho  na  empresa
também são valiosas para a obtenção de avaliações exatas das demandas de emprego.
As FCE são usualmente realizadas na clínica e podem variar de duas a quatro horas de duração em um período
de  dois  dias.  Os  protocolos  são  retirados  de  tarefas  estereotipadas  ou  realizadas  em  níveis  quase  máximos
durante curto intervalo de tempo para predizer a capacidade de suportar as atividades do trabalho durante todo o
dia de trabalho e durante a semana de trabalho. O desempenho nas tarefas da FCE é frequentemente comparado
aos valores normais da população ou de colaboradores, pois as necessidades de força do emprego real não são
frequentemente  estimadas  durante  esse  processo.  É  importante  que  os  terapeutas  utilizem  boas  habilidades  de
observação durante toda a avaliação para garantir um desempenho seguro do cliente (King, 2004).
As  FCE  são  comumente  classificadas  em  duas  categorias  gerais:  abrangente  e  específica  para  o  trabalho
(Frings­Dresen  &  Sluiter,  2003;  King,  Tuckwell  &  Barrett,  1998).  Quando  administram  a  avaliação  da
capacidade funcional abrangente, muitos avaliadores utilizam uma bateria completa de tarefas que abrange todas
as 20 demandas físicas listadas no Dictionary of Occupational Titles (U.S. Department of Labor, 1977).
Nos testes específicos para o trabalho, o avaliador testa apenas as tarefas diretamente relacionadas ao trabalho.
A testagem específica para o trabalho apresenta maior custo­eficácia e, muitas vezes, é utilizada para determinar
a incapacidade. Se o cliente não pode retornar ao emprego anterior, podem ser necessários testes adicionais.
Os  formulários  de  relatório  da  FCE  variam  em  extensão,  desde  uma  página  até  35  páginas  ou  mais.  O
principal objetivo é descrever o nível seguro de esforço total do cliente, variando desde o sedentário até o muito
intenso. Uma página de rosto com o resumo é muitas vezes fixada aos formulários de coleta de dados da FCE,
quando as informações da FCE são submetidas a fontes de encaminhamento.
Nestes tempos de custos de indenização de trabalhadores e custos de incapacidade sem precedentes, existe a
necessidade premente de fazer com que os trabalhadores voltem à atividade remunerada, quando possível, e de
tomar as decisões apropriadas sobre a incapacidade para aqueles que são incapazes de trabalhar. Uma FCE bem­
conduzida pode fornecer informações objetivas sobre uma ampla gama de atividades funcionais para a tomada
de  decisão  clínica  (Isernhagen,  1988;  Lechner,  Jackson,  Roth  &  Straaton,  1994;  Lechner,  Roth  &  Straaton,
1991).
Avaliação Pré­admissional
As  avaliações  pré­admissionais  (preplacement  assessments  –  PPA)  são  utilizadas  pelos  empregadores  para
determinar se a pessoa é capaz de realizar o trabalho. Os resultados desses exames ajudam os empregadores a
tomar  decisões  adequadas  com  relação  à  contratação  das  pessoas  para  os  empregos  sem  riscos  para  sua
segurança  ou  de  outros.  As  PPA  adequadas  podem  reduzir  o  número  e  os  custos  das  lesões  de  trabalho,  bem
como o absenteísmo atribuído à saúde deficiente (Nachreiner et al., 1999).
Antes  da  promulgação  da  ADA,  em  1990,  exame  pré­admissional  era  realizado  para  excluir  do  emprego
pessoas que apresentavam alto risco para qualquer tipo de doença ou lesão (Andstadt, 1990). Esses exames agora
são ilegais; as PPA assumiram seu lugar. Atualmente, os candidatos precisam receber uma oferta condicional de
contratação  dependente  da  realização  bem­sucedida  da  PPA.  A  avaliação  pré­admissional  é  vista  como  uma
estratégia de prevenção de lesão, não como um meio de descartar os candidatos. A decisão do empregador de
retirar uma oferta de emprego precisa estar fundamentada na incapacidade do candidato em realizar as funções
essenciais do trabalho com ou sem acomodações. Pode­se negar o emprego a um futuro empregado somente se
ele  ou  ela  estiver  sob  risco  evidente  de  lesão  ou  doença  específica  enquanto  realiza  as  funções  essenciais  do
trabalho.  Os  empregadores  são  solicitados  a  fornecer  acomodação  razoável  para  minimizar  esses  riscos  o
máximo possível (Nachreiner et al., 1999).
Os terapeutas ocupacionais organizam e administram as avaliações pré­admissionais. A avaliação ocorre após
a  oferta  condicional  de  contratação  e  precisa  ser  aplicada  a  todos  os  candidatos  para  a  vaga  de  um  emprego
específico.  Em  primeiro  lugar,  o  terapeuta  solicita  uma  descrição  do  trabalho  para  determinar  as  funções
essenciais  do  emprego.  Quando  a  descrição  do  trabalho  não  está  disponível,  o  terapeuta  precisa  realizar  uma
análise do trabalho para determinar suas demandas físicas. Isto inclui observar as tarefas do trabalho, filmar os
trabalhadores  realizando  o  trabalho  e  mensurar  o  posto  de  trabalho  para  obter  informações  exatas  de  modo  a
planejar a avaliação pré­admissional adequada. Uma vez feita a descrição do emprego, o terapeuta desenvolve
um teste padronizado para as demandas físicas do emprego. Para verificar se a avaliação pré­admissional testa o
que  se  destina  a  examinar,  uma  amostra  dos  atuais  funcionários  que  realizam  o  trabalho  em  questão  é
selecionada  para  validar  a  descrição  do  emprego  e  orientar  o  teste.  O  terapeuta  quantifica  o  desempenho  da
pessoa  de  acordo  com  as  demandas  físicas  validadas  para  o  emprego.  O  candidato  recebe  informação  sobre  a
pontuação. O avaliador não faz interpretações quanto à contratação. A decisão final sobre a contratação está nas
mãos do empregador.

Programas de Fortalecimento para o Trabalho e Condicionamento para o Trabalho
O  termo  fortalecimento  para  o  trabalho  começou  a  surgir  no  final  dos  anos  1970,  quando  os  profissionais
utilizavam  o  trabalho  como  uma  modalidade  de  tratamento  ou  de  avaliação.  Outros  termos  empregados  como
sinônimos  são  condicionamento  para  o  trabalho,  prontidão  para  o  trabalho  e  capacidades  de  trabalho
(Isernhagen,  1988).  Em  1988,  A  Commission  on  Accreditation  of  Rehabilitation  Facilities  (CARF)  definiu
oficialmente  o  fortalecimento  para  o  trabalho  como  “um  programa  de  tratamento  individualizado,  bem­
estruturado e orientado para meta destinado a maximizar a capacidade do indivíduo para retornar ao trabalho”
(CARF,  1988,  p.  69).  As  orientações  recomendam  que  os  programas  de  fortalecimento  para  o  trabalho  sejam
interdisciplinares  e  capazes  de  abordar  as  necessidades  funcionais,  físicas,  comportamentais  e  vocacionais  da
pessoa atendida. A CARF sugeriu o uso de atividades do trabalho reais ou simuladas juntamente com atividades
de  condicionamento  para  melhorar  o  funcionamento  biomecânico,  neuromuscular,  cardiovascular,  metabólico,
comportamental  e  profissional  (King,  1998).  Comumente,  os  programas  de  fortalecimento  para  o  trabalho
utilizam equipamento para exercício, uma área de simulação do trabalho e uma área privativa e tranquila para
testes e avaliações.
Os programas de condicionamento para o trabalho enfatizam o condicionamento físico, o qual se refere a
aspectos  de  força,  resistência,  flexibilidade,  controle  motor  e  função  cardiopulmonar  (Helm­Williams,  1993).
Estes  têm  duração  mais  curta  que  os  programas  de  fortalecimento  para  o  trabalho;  utilizam  exercício,
condicionamento  aeróbico,  orientação  e  simulação  de  tarefas  de  trabalho  limitadas;  e  exigem  menos  espaço
físico do que os programas de fortalecimento para o trabalho. Em geral, os programas de condicionamento para
o  trabalho  envolvem  apenas  uma  ou  duas  disciplinas  e,  comumente,  são  programas  de  tempo  parcial.  Os
programas  de  fortalecimento  e  de  condicionamento  para  o  trabalho  estão  sendo  cada  vez  mais  oferecidos  em
ambientes não médicos, como no local de trabalho, em parques industriais, centros de compras e complexos de
escritórios. Os programas realizados no local de trabalho proporcionam um ambiente mais realista e devolvem o
empregado ao trabalho, além de estar em comunicação direta com o empregador.
A  avaliação  e  o  processo  de  tratamento  de  fortalecimento  e  de  condicionamento  para  o  trabalho  incluem
critérios de entrada pelos quais os clientes são considerados inaptos para retornar ao trabalho em função de dor
ou disfunção após uma lesão e concordam em participar do programa. Os clientes também precisam apresentar
um  bom  prognóstico  de  melhora  da  capacidade  laboral  e  uma  meta  orientada  para  o  trabalho  (King,  1998).
Inicialmente,  o  terapeuta  ocupacional  entrevista  o  cliente  para  obter  informações  valiosas  a  respeito  de  sua
história clínica e de trabalho. Pode ser conhecido o que funcionou e o que não funcionou no passado, bem como
as crenças ou percepções equivocadas do cliente sobre sua condição. A história de trabalho, antes e depois da
lesão, e quanto tempo o cliente ficou afastado do trabalho ou em atividades leves são informações importantes
para construção de um programa de reabilitação para o trabalho. Uma avaliação das capacidades funcionais de
um cliente é realizada antes de se praticar qualquer atividade de condicionamento e/ou relacionada ao trabalho.
A  finalidade  dessa  avaliação  é  familiarizar­se  com  a  real  capacidade  funcional  do  cliente,  os  comportamentos
associados à atividade de trabalho, as respostas de sintomas latentes potenciais após a atividade e as técnicas de
mecânica  corporal.  Essa  informação  é  comparada  às  demandas  de  trabalho  do  cliente  e  às  metas  para  sua
evolução.
A duração dos programas de fortalecimento e de condicionamento para o trabalho do cliente depende de suas
necessidades  individuais  de  tratamento  e  dos  protocolos  de  tratamento  determinados  pelo  programa.
Comumente, os clientes iniciam os programas com duas horas por dia, progredindo mais tarde para quatro horas
por  dia,  conforme  o  tolerado.  Isso  exige  programas  de  tratamento  bastante  focais  e  bem­gerenciados.  Muitos
programas começam com exercícios de fortalecimento e atividades de simulação do trabalho. A orientação sobre
os fatores de risco para a lesão e sobre a prevenção das lesões com o uso da mecânica corporal e métodos de
trabalho  adequados  é  inserida  no  programa.  Os  clientes  recebem  alta  quando  (1)  alcançam  suas  metas,  (2)  a
evolução  cessa  ou  lentifica  até  um  nível  imperceptível,  (3)  o  cliente  apresenta  complicações  médicas  ou  (4)  o
cliente não adere ao programa.

Gerenciamento de Caso
Um número crescente de terapeutas ocupacionais está assumindo pa péis de gerenciamento de caso. A gestão de
caso não é uma profissão; é uma área de atuação dentro da profissão. Terapeutas, enfermeiros, assistentes sociais
e consultores de reabilitação podem atuar, sem exceção, como gestores de caso. Sua meta consiste em atingir um
método de sucesso e boa relação custo­benefício para o retorno dos clientes ao trabalho.
A organização filantrópica Case Management Society of America (CMSA) foi criada em 1989. Seu Standards
of Practice for Case Management define a gestão de caso como “um processo colaborativo que avalia, planeja,
executa, coordena, monitora e avalia as opções e serviços para atendimento das necessidades de saúde de uma
pessoa  por  meio  da  comunicação  e  dos  recursos  disponíveis  para  promoção  de  resultados  de  qualidade  e  com
bom  custo­benefício”  (CMSA,  1995,  p.  8).  Um  processo  de  certificação  foi  estabelecido  para  monitorar  a
conduta  profissional  e  fornecer  padrões  de  prática  para  aqueles  que  atuam  em  funções  de  gestão  de  caso.
Certificado  ou  não,  um  gestor  de  caso  bem­sucedido  precisa  ter  habilidade  de  comunicação,  diplomacia  e
construção de relacionamentos. Ele precisa demonstrar habilidade para identificar recursos com custo­benefício
e fazer encaminhamentos adequados para promover a solução do caso.
Em um caso de lesão no trabalho, que envolva indenização de trabalhadores, o gerente de caso comumente irá
interagir com diferentes interessados: o empregado lesionado, o empregador, a companhia de seguro e o médico.
Cada  interessado  tem  uma  perspectiva  diferente  sobre  a  lesão.  Contudo,  os  serviços  de  gestão  de  caso  não  se
restringem à indenização dos trabalhadores. Os serviços de gestão de caso são tão importantes em outras áreas
da  reabilitação  para  o  trabalho  como  naquelas  que  envolvem  pessoas  com  doença  mental  e  incapacidades  do
desenvolvimento. A principal diferença na prática da gestão de casos com diferentes populações está no grupo
de interessados e nos recursos que são investigados para facilitar um resultado bem­sucedido. Independente da
população que está sendo atendida, a gestão do caso requer a capacidade de coordenar uma mistura complexa de
recursos e serviços. Estas habilidades são dependentes, pelo menos em parte, da experiência clínica.

AMBIENTES
Os programas de trabalho em terapia ocupacional se destacam em ambientes distintos. Os ambientes tradicionais
incluem hospitais, clínicas, escolas. Os ambientes não tradicionais de terapia ocupacional incluem os programas
em  empresas,  centros  de  condicionamento  físico  e  programas  comunitários  de  reabilitação.  Independente  do
ambiente, o foco sobre o valor terapêutico do trabalho é um aspecto primordial da terapia ocupacional.
Reabilitação e Tratamento da Lesão no Local de Trabalho
O  movimento  de  reabilitação  profissional  nos  anos  1980  estimulou  o  desenvolvimento  de  programas  de
reabilitação  na  indústria.  Embora  os  terapeutas  que  trabalhem  na  indústria  representem  apenas  uma  fração
daqueles  envolvidos  na  reabilitação  ocupacional,  os  muitos  benefícios  desses  programas  fomentam  seu
crescimento  contínuo  (Jundt  &  King,  1999;  Tramposh,  1998).  Os  terapeutas  ocupacionais  que  trabalham  ou
prestam consultoria na indústria exercem diferentes pa péis, que incluem prevenção, avaliação e programação da
reabilitação. Os benefícios da programação no local de trabalho são a redução dos custos totais e a melhora da
qualidade do cuidado (B. A. Larson, 2000; Melnik, 2000). Os terapeutas que trabalham na indústria desfrutam de
melhor  comunicação  com  o  empregador,  maior  autonomia,  e  da  capacidade  de  avaliar  e  tratar  a  partir  da
perspectiva informada, compatível com a filosofia holística da terapia ocupacional. Os clientes se beneficiam de
programas no local de trabalho de diversas maneiras. Os programas no local de trabalho podem reduzir o tempo
de espera para as  consultas,  acelerando  a  recuperação  pelo  atendimento  imediato. A integração do terapeuta à
cultura do ambiente industrial pode evoluir a contratação com razoável restrição de deveres a uma contratação
com  deveres  plenos.  Conhecer  as  demandas  do  trabalho  e  a  capacidade  física  do  trabalhador  pode  evitar  a
recidiva  da  lesão,  ao  mesmo  tempo  que  permite  que  o  trabalhador  mantenha  um  trabalho  produtivo  com
segurança.
O  empregador  também  se  beneficia  do  programa  no  local  de  trabalho.  Os  programas  bem­sucedidos
possibilitam  que  o  empregador  supervisione  a  trajetória  de  um  trabalhador  durante  a  reabilitação.  A
comunicação  é  melhorada  pelas  interações  entre  o  trabalhador,  o  supervisor  e  o  profissional.  A  comunicação
melhorada  acelera  o  processo  de  reabilitação,  reduzindo  os  custos  gerais  de  indenização  de  trabalhadores
(Tramposh, 1998). Os custos associados ao deslocamento de ir e vir a clínicas externas também são reduzidos
com a manutenção dos trabalhadores no local de trabalho durante o atendimento de terapia.
Os  terapeutas  que  atuam  no  local  de  trabalho  fazem  uma  imersão  na  cultura  da  empresa,  melhorando  sua
programação  realista  para  o  cliente,  e  acrescentam  os  benefícios  da  reabilitação  precoce.  Os  terapeutas  que
atuam no local do trabalho frequentemente trabalham de maneira autônoma e necessitam de compreensão plena
da avaliação, reabilitação, prevenção da lesão no trabalho e dos aspectos psicossociais da incapacidade (B. A.
Larson, 2000; Tramposh, 1998). Além disso, o conhecimento acerca do sistema de reabilitação, a capacidade de
analisar  as  tarefas  e  a  capacidade  de  adaptar­se  de  maneira  criativa  ao  ambiente  físico  são,  sem  dúvida,
habilidades  importantes.  O  ambiente  exige  habilidades  para  a  tomada  de  decisão  e  para  lidar  com  pessoas  de
diferentes origens socioeconômicas e culturais. O papel do terapeuta é, com frequência, o de um intermediário
entre o trabalhador lesionado, o empregador e as fontes de pagamento de benefícios ao trabalhador, cada qual
com suas próprias questões e perspectivas.
Os  programas  de  prevenção  no  local  de  trabalho  incluem  ofertas  educacionais,  como  a  volta  à  escola,
programas  de  alongamento,  programas  de  condicionamento  físico  e  outras  atividades  de  bem­estar  ou  de
promoção  da  saúde  (Melnik,  2000).  A  prevenção  também  pode  incluir  questionários  sobre  sintomas  do
trabalhador, descrições por escrito do trabalho, avaliações de riscos, avaliações ergonômicas e a participação em
comitês  e  equipes  de  segurança  (Rothman,  1998).  Os  programas  de  prevenção  precisam  ser  continuamente
adaptados para o ambiente industrial em constante mutação. Os programas bem­sucedidos necessitam de suporte
do gestor, supervisor da continuidade participação do trabalhador, e reforço e suporte contínuos (Melnik, 2000).
A  avaliação  e  a  reabilitação  de  trabalhadores  lesionados  em  clínicas  no  local  de  trabalho  incluem  uma
variedade  de  serviços.  As  avaliações  de  intervenção  precoce  podem  incluir  exame,  orientação  e  atividades  de
prevenção  para  trabalhadores  que  sofrem  desconforto  ou  sintomas  brandos  (Olson,  1999).  As  avaliações
abrangentes incluem as avaliações do trabalhador com lesões específicas, bem como as avaliações da capacidade
funcional. A programação de reabilitação pode incluir o tratamento de uma lesão específica, como a síndrome do
túnel do carpo, ou programas intensivos de fortalecimento e condicionamento para o trabalho. Os terapeutas que
atuam no local do trabalho têm a vantagem de integrar os serviços ao contexto das demandas físicas de trabalho
do  trabalhador.  Eles  também  podem  participar  da  análise  do  trabalho,  da  análise  ergonômica,  da  alocação  no
emprego  e  da  construção  de  programas  com  restrições  de  responsabilidades  (veja  a  Fig.  51.3).  O  papel  do
terapeuta  ocupacional  que  atua  na  indústria  consiste  em  prestar  serviços  de  prevenção,  avaliação  e  tratamento
para estimular um ambiente de trabalho produtivo, eficiente e seguro para o trabalhador e para o empregador.

Clínica do Trabalho
Ao  longo  da  história  da  terapia  ocupacional,  a  participação  em  ocupações  valorizadas,  incluindo  o  trabalho,
serviu de base para a reabilitação (Lysaght & Wright, 2005). No final dos anos 1970 e nos anos 1980, surgiram
muitas  clínicas  de  reabilitação  profissional  que  prestavam  serviços  focados  no  retorno  ao  trabalho  como
resultado  de  programas  intensivos  de  reabilitação  (Jacobs  &  Baker,  2000;  Tramposh,  1998).  Os  programas
individuais de terapia incluíam avaliações da capacidade funcional e o fortalecimento progressivo, com base na
simulação dos aspectos críticos do trabalho do cliente. A reabilitação incluía a criação de postos de trabalho que
representavam tarefas reais de trabalho do cliente. Foram organizados serviços integrados para identificar com
segurança  a  tolerância  de  um  cliente  às  tarefas  do  trabalho  e  a  evolução  para  o  retorno  do  cliente  ao  trabalho
produtivo.  Embora  o  foco  primário  do  trabalho  tenha  ficado  evidente  nesses  “programas  para  fins  de
reabilitação”, ele não ficou menos evidente em outros ambientes de reabilitação. O retorno produtivo e seguro ao
trabalho foi incluído, até certo ponto, em todos os contextos da terapia ocupacional.

Clínica Independente e Baseada em Hospital
Os  programas  de  terapia  ocupacional  tradicionais  existem  em  hospitais  e  em  clínicas,  prestando  serviços  a
pacientes  internados  e  ambulatoriais  com  doenças  ou  lesões.  O  trabalho,  como  foco  na  reabilitação,  pode  ser
incentivado  pelo  terapeuta  ocupacional  que  analisa  as  questões  multidimensionais  enfrentadas  por  esses
indivíduos. Estão disponíveis instrumentos padronizados de avaliação de reabilitação que podem ser modelados
sob medida para avaliar as capacidades física, cognitiva e comportamental do indivíduo em relação às demandas
do local de trabalho. Essas habilidades são mensuradas em termos de produtividade, habilidades interpessoais e
segurança (Chappell, Higham & McLean, 2003; Jackson, Harkess & Ellis, 2004). Os programas de tratamento
abordam áreas identificadas de déficit de desempenho e simulam a natureza imprevisível das demandas reais do
local  de  trabalho.  Estudos  demonstraram  que  o  uso  de  um  instrumento  formal  para  abordar  as  atividades  de
trabalho melhorou a capacidade de decisão e facilitou as recomendações por parte do terapeuta, além de fornecer
um padrão claro para formatar os relatórios, e os clientes expressaram satisfação por serem sugeridas opções que
incluíram  um  trabalho  alternativo,  a  orientação  adicional  e  as  opções  de  trabalho  voluntário  (Jackson  et  al.,
2004). Da mesma maneira, o uso de uma avaliação padronizada resultou em maior participação do cliente em
passatempos e na busca pelo lazer.

Fig. 51.3 Uma terapeuta realizando a análise do trabalho no local de trabalho.

ESTUDO DE CASO: Um Laminador de Metal Lesionado

Thomas  tem  42  anos  de  idade  e  trabalha  como  laminador  de  metal.  Ele  é  casado  e  tem  dois  filhos,  e
representa a principal fonte de renda de sua família. Dois meses atrás, uma máquina apresentou defeito e
esmagou sua mão direita. Ele sofreu múltiplas cirurgias para restaurar a estrutura da mão. Ele continua a ter
problemas de sensibilidade, força muscular e coordenação em sua mão. A previdência social fornece a ele
assistência financeira na forma de salário e cobertura das despesas médicas, mas ele está preocupado com
seu emprego e sobre quando, e se, ele será capaz de voltar a trabalhar. Seu médico o encaminhou a um
programa de reabilitação profissional. Sua terapeuta ocupacional, Sandy, aborda as diversas dimensões que
afetam sua reabilitação.

Perguntas
1. Qual é o processo de terapia ocupacional para a reabilitação de Thomas?
2. Como Sandy determina as capacidades funcionais de Thomas para o retorno ao trabalho?

Discussão
Sandy precisa rever as histórias de trabalho, social e médica de Thomas. As informações da entrevista inicial
de Sandy provavelmente revelarão o desejo de Thomas de retornar a seu antigo emprego. Deve ser obtida
uma  descrição  do  emprego  junto  ao  empregador,  e  Sandy  precisa  pedir  a  Thomas  que  descreva  suas
responsabilidades habituais de trabalho em uma conversa sobre um dia comum de trabalho. Se necessário,
uma  análise  de  emprego  ou  de  tarefas  do  trabalho  fornecerá  informações  objetivas  sobre  as
responsabilidades  essenciais  que  Thomas  precisará  realizar  para  retomar  seu  antigo  emprego.  Sandy
precisará realizar um exame musculoesquelético inicial para determinar a extensão dos comprometimentos
de Thomas. Em seguida, Sandy pode estabelecer um programa de reabilitação profissional para abordar os
comprometimentos identificados. Este programa deve incluir tarefas de simulação de trabalho para abordar
as capacidades funcionais necessárias para a realização do trabalho. Sandy precisará comunicar­se com o
empregador  e/ou  gerente  do  caso  para  promover  um  plano  inicial  de  retorno  ao  trabalho.  O  empregador
pode  estar  ansioso  para  aceitar.  Thomas  logo  estará  de  volta  se  o  empregador  compreender  as
capacidades de Thomas e caso Sandy estabeleça as medidas de acomodação do trabalho.

Os  terapeutas  ocupacionais  precisam  considerar  as  barreiras  ao  trabalho  quando  constroem  programas  de
reabilitação.  O  conhecimento  sobre  as  áreas  problemáticas  pode  nortear  a  avaliação,  o  treinamento  e  o
tratamento.  A  falta  de  transporte,  as  preocupações  a  respeito  da  perda  dos  benefícios  financeiros  e  a  falta  de
conhecimento acerca de programas sociais e federais foram citados como barreiras para o emprego entre pessoas
com necessidades especiais (Fiedler et al., 2002). O tratamento de terapia ocupacional tem foco na superação de
barreiras por meio de orientação e programas de reabilitação especificamente construídos que são apresentados
no momento adequado. Em um estudo com pessoas com lesão de medula espinhal que receberam alta de uma
unidade  de  reabilitação  em  regime  de  internação,  Fiedler  e  colaboradores  (2002)  descobriram  que  as
informações  sobre  serviços  profissionais  foram  apresentadas  muito  precocemente  no  processo  de  reabilitação,
limitando  a  retenção  e  a  utilidade.  Embora  o  fornecimento  das  informações  profissionais  fosse  um  aspecto
padronizado  do  cuidado,  a  maioria  dos  participantes  do  estudo  não  estava  ciente  dos  programas  federais  de
reabilitação profissional disponíveis para eles.
A  fase  de  reabilitação  proporciona  múltiplas  oportunidades  para  que  os  terapeutas  ocupacionais  conheçam
questões  e  barreiras  à  participação  nas  atividades  de  trabalho.  O  programa  de  terapia  ocupacional  abrangente
para  indivíduos  que  recebem  atendimento  em  ambientes  hospitalares  ou  em  clínicas  precisa  incluir  uma
avaliação padronizada focada no trabalho, um tratamento orientado pela avaliação e orientação e treinamento em
áreas identificadas pelo conhecimento sobre as barreiras ao trabalho.

Programas de Trabalho na Comunidade
Os  profissionais  da  terapia  ocupacional  desempenham  importantes  pa  péis  no  uso  e  desenvolvimento  do
contexto social para a investigação da opção profissional e a alocação de pessoas com doença mental e atraso do
desenvolvimento.  Os  terapeutas  são  instrumentos  no  desenvolvimento  de  programas  comunitários  construídos
sobre fortes redes de suporte e relacionamentos com empregadores e outras agências de serviços de emprego e
profissionais  de  saúde  na  comunidade.  Para  influenciar  o  contexto  social,  os  profissionais  utilizam  várias
habilidades de gestão: avaliação das necessidades, desenvolvimento do programa, desenvolvimento do local de
trabalho,  avaliação  e  monitoramento  dos  trabalhadores  e  defesa  no  nível  da  comunidade  (Ramsey,  Starnes  &
Robertson, 2000).
Os profissionais de terapia ocupacional que atuam em programas de profissionalização precisam conhecer as
questões de incentivo ao trabalho que ajudam as pessoas a fazerem a transição para o trabalho. O Supplemental
Security Income, o Social Security Disability Insurance, os incentivos Welfare­to­Work e outros programas de
assistência  pública  precisam  ser  bem­compreendidos,  no  sentido  da  adesão  às  políticas  que  qualificam  os
clientes a continuarem a receber os benefícios enquanto fazem a transição para o trabalho remunerado.
Existem  muitos  modelos  de  programa  para  a  abordagem  das  necessidades  de  profissionalização  de  pessoas
com  doença  mental  e  atraso  do  desenvolvimento  graves.  No  geral,  os  modelos  de  programa  existem  em  duas
categorias: programas que treinam e programas que treinam e empregam.
Programas de Treinamento
Os  ambientes  de  trabalho,  tanto  simulados  como  reais,  são  utilizados  nos  programas  de  treinamento  que  se
destinam a treinar o cliente em hábitos gerais de trabalho e habilidades específicas de trabalho. Esses programas
incentivam os clientes a obterem um trabalho que pague pelo menos o salário mínimo. Os ambientes integrados
fornecem  oportunidades  de  aprendizagem  adicionais  com  pessoas  sem  doença  mental  ou  incapacidades  do
desenvolvimento.

Programas de Treinamento e Emprego
Os programas de treinamento e emprego colocam os clientes em ambientes reais de trabalho, o que exige que
eles aprendam a solucionar problemas e se adaptem aos estilos de trabalho em um ambiente real de trabalho. A
princípio,  o  terapeuta  ocupacional  irá  avaliar  o  potencial  profissionalizante  do  cliente  ao  avaliar  a  história
médica e de trabalho, as habilidades de trabalho, as habilidades sociais, os estresses específicos do trabalho, as
necessidades  de  transporte,  e  assim  por  diante,  para  determinar  uma  colocação  de  emprego  apropriada.  Não
existe a melhor maneira para construir programas de trabalho que atendam às necessidades de todos os clientes.
Em vez disso, os programas de terapia ocupacional que oferecem uma gama de serviços respondem melhor às
necessidades do cliente e do empregador.
Os  programas  de  profissionalização  requerem  um  continuum  de  serviços.  Aquele  que  desenvolve  esses
programas  precisa  ajudar  os  clientes  a  construírem  hábitos  e  habilidades  de  trabalho  em  um  extremo  do
continuum e a localizarem o trabalho remunerado independente, em horário parcial ou integral, no outro extremo
do continuum.

Oficinas Protegidas
As oficinas protegidas são ambientes não competitivos de trabalho destinados a fornecer os benefícios positivos
da  atmosfera  de  trabalho  para  pessoas  com  incapacidades.  Como  um  modelo  tradicional  da  reabilitação
profissional,  as  oficinas  protegidas  se  empenham  para  fornecer  um  ambiente  de  trabalho  sem  competição,
enquanto  desenvolvem  a  competência  profissional  e  promovem  tratamentos  comportamentais,  quando
necessário (Siporin, 1999). Algumas pessoas com incapacidades físicas ou mentais enfrentam muitos problemas
nos  ambientes  competitivos  de  trabalho,  como  as  habilidades  sociais,  a  higiene  pessoal  e  a  aparência.  As
dificuldades nessas áreas podem isolar ainda mais as pessoas, em vez de estimular a inclusão (Krupa, Lagarde &
Carmichael, 2003). Siporin sugeriu que o terapeuta ocupacional está capacitado de maneira ideal para trabalhar
no  ambiente  da  oficina  protegida  ao  ajudar  os  clientes  a  progredirem  em  relação  às  habilidades  existentes  ou
treinarem  novas  habilidades  voltadas  para  o  emprego  bem­sucedido.  O  papel  dos  terapeutas  ocupacionais  nos
ambientes  de  oficina  protegida  inclui  avaliação  e  treinamento  em  atividades  da  vida  diária,  habilidades
sensorimotoras,  capacidades  cognitivas  e  habilidades  sociais.  Embora  o  ambiente  da  oficina  protegida
permaneça como uma opção bem­sucedida para algumas pessoas com necessidades especiais, estudos indicaram
que o trabalho supervisionado mostrou ser uma opção melhor para muitas pessoas por aumentar a qualidade de
vida, ao mesmo tempo que possibilita que os clientes ganhem salários competitivos na comunidade (Bond, 2004;
Siporin & Lysack, 2004).

Trabalho Supervisionado
O trabalho supervisionado  consiste  no  trabalho  competitivo  em  um  ambiente  integrado  de  trabalho  que  seja
compatível  com  as  forças,  os  recursos,  as  prioridades,  as  preocupações,  as  capacidades,  as  habilidades,  os
interesses  e  a  escolha  informada  da  pessoa  (Rehabilitation  Act  Amendments,  1998).  As  Emendas  da  Lei  de
Reabilitação, de 1986, forneceram o estímulo inicial para a transição das oficinas protegidas para os programas
de trabalho supervisionado. Essas emendas destinaram­se a estimular a inclusão e a integração das pessoas com
necessidades  especiais  no  fluxo  econômico,  político,  social,  cultural  e  educacional  da  sociedade  norte­
americana. Elas se basearam na premissa de que o trabalho é uma atividade valorizada por todos, inclusive as
pessoas com necessidades especiais. As emendas estabelecem que o trabalho atende à necessidade da pessoa de
ser produtiva, promove a independência, aumenta a autoestima e permite a participação no turbilhão da vida nos
Estados  Unidos,  o  que  inclui  receber  salários  competitivos.  As  três  características  essenciais  do  emprego
supervisionado  são  o  trabalho  remunerado,  o  emprego  em  um  ambiente  integrado  de  trabalho  e  os  serviços
contínuos  de  supervisão  disponíveis  para  atender  às  necessidades  de  treinamento  contínuo  ou  periódico.  Os
serviços contínuos podem incluir um orientador do trabalho, um treinador para o trabalho, um coordenador de
estudo  do  trabalho  e/ou  um  conselheiro  do  trabalho.  Estudos  mostraram  que  a  participação  no  trabalho
supervisionado  melhorou  a  qualidade  de  vida  de  pessoas  com  incapacidades  (Bond,  2004;  Siporin  &  Lysack,
2004).  Os  maiores  benefícios  foram  obtidos  por  clientes  que  mantiveram  seus  empregos  competitivos  durante
períodos de trabalho supervisionado quando trabalhavam em empregos que refletiam suas escolhas e quando os
clientes eram colocados diretamente no ambiente de trabalho em vez de se submeterem ao treinamento antes da
colocação. Forte evidência sustenta a integração dos serviços de reabilitação e profissionalização (Bond, 2004).
O  terapeuta  ocupacional,  em  diferentes  ambientes  de  atuação,  pode  desempenhar  um  papel  fundamental  na
preparação  de  um  cliente  para  o  trabalho  supervisionado,  como  o  cliente  mostrado  na  Fig.  51.4.  Os  sistemas
escolares, os ambientes de saúde mental e as unidades de reabilitação promovem, sem exceção, o trabalho como
um  resultado  valorizado  do  tratamento  de  terapia  ocupacional.  O  terapeuta  ocupacional  está  capacitado  de
maneira  ideal  para  incluir  a  função  das  habilidades  motoras,  a  função  cognitiva,  as  habilidades  sociais,  as
atividades da vida diária e o equipamento de adaptação como parte do programa abrangente de tratamento. “Os
terapeutas  ocupacionais  podem  contribuir  para  fechar  o  hiato  entre  os  comprometimentos  das  pessoas  com
incapacidades de desenvolvimento e as demandas complexas do trabalho supervisionado e, até mesmo, do local
de trabalho competitivo” (Siporin & Lysack, 2004, p. 463).

Fig. 51.4 O emprego supervisionado de Courtney começou com várias horas por semana com um supervisor de
trabalho fornecido pela escola local. Courtney progrediu de modo a precisar de menos de uma hora por semana
com o supervisor. Courtney planeja trabalhar em horário integral depois da faculdade e, mais tarde, viver de
maneira independente na comunidade.

DILEMAS DA PRÁTICA

QUESTÕES NA PRÁTICA DO TRABALHO

Imagine que você é um terapeuta ocupacional nos ambientes de atuação a seguir e descreva as avaliações e
os tratamentos que você aplicaria a seus clientes.

Você  é  um  terapeuta  escolar  que  trabalha  com  um  menino  de  16  anos  de  idade  com  espasticidade  dos
membros superiores em função de paralisia cerebral.
A fábrica onde você presta atendimento emprega muitos trabalhadores com mais de 50 anos de idade.
Você está trabalhando em um abrigo para sem­tetos com uma mulher de 27 anos, solteira, que tem dois
filhos pequenos e escolaridade até a oitava série.
A  unidade  de  reabilitação  em  regime  de  internação  é  bem  conhecida  pelo  tratamento  de  pessoas  com
lesões de medula espinhal. Seus casos incluem pessoas entre 16 e 35 anos de idade.

QUESTÕES LEGAIS E DE FINANCIAMENTO
Existem leis específicas que regulam e influenciam a prática em programas para o trabalho. Os terapeutas devem
familiarizar­se com essa legislação e como ela afeta a prática e as diversas populações atendidas.
Benefícios para os Trabalhadores
A lei de benefícios para os trabalhadores é, na realidade, um sistema de leis estaduais individuais de benefícios
para  os  trabalhadores.  Estas  leis  foram  idealizadas  para  (1)  cobrir  os  gastos  médicos  e  a  perda  da  renda  de
trabalhadores  lesionados  ou  que  desenvolvem  doenças  do  trabalho  e  (2)  proteger  os  trabalhadores  das
dispendiosas  ações  legais  por  negligência.  Muitos  estados  exigem  que  os  empregadores  façam  seguro  para
indenização dos trabalhadores. Os estados diferem com relação às questões do seguro dos empregadores e dos
benefícios  concedidos  aos  funcionários.  No  entanto,  muitos  estados  financiam  os  gastos  médicos  (incluindo
reabilitação), incapacidades (parcial, total, temporária, permanente) e os benefícios dos sobreviventes (Business
and Legal Reports, 1997).
Quase todos os sistemas de compensação de trabalhadores são, fundamentalmente, um mecanismo automático
pelo qual os trabalhadores que sofrem lesões e doenças relacionadas ao trabalho são indenizados com benefícios
financeiros  e  médicos  (Boxe 51.2).  A  negligência  potencial  de  uma  das  partes  não  costuma  ser  um  problema,
contanto  que  haja  uma  relação  empregador­empregado.  Os  trabalhadores  têm  assegurado  um  percentual  do
salário  (usualmente  dois  terços)  e  o  pagamento  integral  de  suas  despesas  médicas  quando  sofrem  lesão  no
trabalho. Os empregadores têm a garantia de um custo financeiro reduzido dessas lesões ou doenças e recebem a
proteção contra futuras ações legais ou adicionais por parte do trabalhador por causa da lesão.

ASPECTOS DOS SISTEMAS DE BENEFÍCIOS PARA OS TRABALHADORES

A cobertura do benefício para os trabalhadores é limitada àqueles que são lesionados no emprego.
O benefício dos trabalhadores é automático.
Lesões  e  doenças  dos  trabalhadores  que  ocorrem  em  função  do  trabalho  são  usualmente  consideradas
indenizáveis.
A maioria dos sistemas de benefícios para os trabalhadores inclui seguro­desemprego com valor estimado
entre metade e três quartos do salário.
Muitos  sistemas  de  benefícios  para  trabalhadores  fazem  o  pagamento  de  todas  as  despesas  médicas,
incluindo certos gastos como hospital, reabilitação e custo de próteses.
A  liberação  dos  benefícios  aos  trabalhadores  é  usualmente  determinada  por  uma  comissão  ou  um
conselho em cada estado.
Ao aceitar os benefícios, os trabalhadores lesionados perdem o direito de promover qualquer ação legal
contra o empregador.
Quando  uma  lesão  é  de  natureza  permanente,  atribui­se  um  valor  para  o  percentual  de  perda  para  o
trabalhador  lesionado,  conhecido  como  incapacidade  parcial  permanente  ou  incapacidade  total
permanente.
Em muitos estados, empregadores com um ou mais empregados são normalmente solicitados a possuir
um seguro para os trabalhadores.
Os  benefícios  do  seguro  para  os  trabalhadores  são,  em  geral,  separados  da  condição  de  trabalho  do
empregado lesionado.
A  comissão  ou  conselho  de  concessão  de  benefícios  aos  trabalhadores  em  cada  estado  normalmente
desenvolve  as  regras  e  regulamentos  administrativos  para  os  procedimentos  de  concessão  e  audiência
(Schneid & Schumann, 1997).

Americans with Disabilities Act (Lei dos Norte­americanos com Incapacidades)
A ADA foi promulgada em 1990 para proibir a discriminação contra indivíduos qualificados com incapacidades
físicas  ou  mentais  em  todos  os  ambientes  de  trabalho.  A  ADA  é  dividida  em  cinco  títulos.  A  Tabela  51.1
apresenta um esboço das áreas de cobertura.

Lei de Reabilitação (Rehabilitation Act) de 1973
Muitos dos conceitos existentes na ADA têm sua origem na Lei de Reabilitação de 1973. Por seus termos, a Lei
de  Reabilitação  de  1973  teve  alcance  limitado.  É  proibida  a  discriminação  apenas  por  instituições  federais,
entidades que tenham contratos com o governo federal e aqueles que recebem assistência financeira federal. Três
classes  principais  de  receptores  de  fundos  federais  são  os  sistemas  de  escolas  públicas;  faculdades  e  outras
instituições de ensino superior; e prestadores de serviços de saúde, bem­estar e serviço social (Domer, 1998).
Em 1992, a Lei de Reabilitação de 1973 sofreu emenda, de modo a adequar seus termos àqueles estabelecidos
na  ADA.  Planos  estaduais  foram  desenvolvidos  para  permitir  que  cada  estado  submetesse  um  plano  de
reabilitação  profissional  ao  comissário  da  Administração  de  Serviços  de  Reabilitação  e  designasse  uma
instituição  estadual  para  administrar  ou  supervisionar  o  plano.  As  emendas  de  1992  à  lei  enfatizaram  os
programas  de  reabilitação  individuais  que  fossem  idealizados  para  atingir  um  objetivo  de  trabalho  compatível
com  as  forças,  os  recursos,  as  prioridades,  as  preocupações,  as  capacidades  e  as  habilidades  próprias  do
indivíduo  e  incluíssem  uma  declaração  das  metas  de  reabilitação  de  longo  prazo.  O  termo  incapacidade  foi
substituído por deficiência no estatuto.
A lei prevê programas comunitários de reabilitação e treinamento. Ela autoriza subvenções e contratações para
garantir que pessoas habilitadas possam prestar serviços de reabilitação às pessoas com incapacidade por meio
de  programas  de  reabilitação  profissional,  clínica,  social  e  psicológica  e  por  meio  de  programas  de  emprego
supervisionado,  programas  de  serviços  de  vida  independente  e  programas  de  assistência  ao  cliente  (Domer,
1998).  As  subvenções  e  as  contratações  existem  para  fornecer  treinamento  e  informações  às  pessoas  com
necessidades especiais e a seus pais, suas famílias, seus tutores, defensores e representantes autorizados.

Incapacidade na Seguridade Social
Na metade dos anos 1950, a Lei da Seguridade Social (Social Security Act – SSA) estabeleceu um programa de
seguro  social  idealizado  para  assegurar  uma  renda  para  pessoas  com  necessidades  especiais  quando  elas  são
consideradas incapazes de manter um emprego remunerado. Sua finalidade é fornecer suporte financeiro básico
para  pessoas  que  não  conseguem  se  sustentar  em  virtude  da  incapacidade.  A  SSA  promove  programas  de
benefícios por incapacidade, incluindo os programas de Seguro por Incapacidade da Seguridade Social (Social
Security  Disability  Insurance  –  SSDI)  e  de  Seguro  de  Renda  Suplementar  (Supplemental  Security  Income  –
SSI). O programa SSDI fornece os benefícios para trabalhadores incapacitados, dependentes e viúvas e viúvos
quando  o  trabalhador  está  segurado  de  acordo  com  as  condições  do  programa.  O  programa  SSI  fornece
benefícios  para  indivíduos  incapacitados  cujos  rendimentos  e  posses  se  situam  abaixo  de  um  nível  específico
(Domer, 1998).

TABELA 51.1 OS CINCO TÍTULOS DA AMERICANS WITH DISABILITIES ACT (LEI DOS NORTE­
AMERICANOS COM INCAPACIDADES)
Título Área Descrição
I Proteção ao Protege os trabalhadores com necessidades especiais contra a discriminação
trabalhador em relação às entrevistas de emprego, contratação, promoção, alta,
indenização, treinamento e outros termos, condições e privilégios do
emprego.
II Serviços públicos Proíbe a discriminação contra pessoas com incapacidades por instituições
públicas. Isto inclui todos os programas governamentais, serviços, atividades
e empregos, mas não o setor privado. Exige que as empresas de transporte
público façam um esforço real para obter ou tornar veículos acessíveis às
pessoas com necessidades especiais.
III Acomodações Estende as exigências do Título II das instalações públicas ao setor privado.
públicas Exige que todos os bens, serviços, privilégios, vantagens ou instalações em
qualquer local público sejam oferecidos a pessoas com necessidades
especiais.
IV Telecomunicações Exige que os serviços de telecomunicação forneçam às pessoas com
incapacidades da fala a capacidade de se comunicar com os indivíduos
ouvintes com uso de aparelhos de telecomunicação para surdos.
V Provisões mistas Aborda questões relacionadas ao seguro, como permitir que as seguradoras
continuem a utilizar a cláusula de condição preexistente, mas proíbe
negação de cobertura de seguro de saúde com base na incapacidade da
pessoa. Não limita ou invalida outras leis federais ou estaduais que
forneçam uma proteção igual ou maior para pessoas com necessidades
especiais.

RESUMO
Os terapeutas ocupacionais abordam questões de trabalho com clientes desde os 14 anos de idade em programas
de transição baseados na escola e durante a vida até os idosos que continuam a se beneficiar das atividades de
trabalho.  Os  ambientes  de  atuação  são  variados,  incluindo  tanto  ambientes  tradicionais  como  não  tradicionais.
Avaliações  e  tratamentos  relacionados  ao  trabalho  exigem  que  o  terapeuta  ocupacional  integre  as  dimensões
médica,  psicológica,  comportamental  e  filosófica  para  abordar  as  necessidades  específicas  do  cliente,  da
população,  do  ambiente  e  do  sistema.  A  comunicação  e  a  colaboração  com  os  clientes,  suas  famílias  e  os
membros da equipe aumentam o sucesso dos programas de trabalho em todos os ambientes. A premissa básica
do  trabalho  como  uma  ocupação  significativa  serve  de  base  para  a  terapia  ocupacional  nos  programas  de
trabalho.

QUESTÕES INSTIGANTES
1. Quais  atividades  de  avaliação  e  tratamento  você  estabeleceria  para  um  homem  de  23  anos  de  idade
considerado  com  retardo  mental  moderado  a  severo  que  vive  em  uma  residência  comunitária  e  deseja
trabalhar?
2. Se  você  fosse  contratado  como  terapeuta  para  atuar  em  uma  fábrica  e  soubesse  que  a  maioria  dos
trabalhadores da fábrica tem mais de 45 anos de idade, quais serviços você poderia prestar com benefício
para o empregador e para os empregados?

REFERÊNCIAS
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Brincadeira e Lazer
LOREE A. PRIMEAU

Sumário
O que São Brincadeira e Lazer?
Brincadeira e Lazer como Tempo
Brincadeira e Lazer como Contexto
Brincadeira e Lazer como Atividade
Brincadeira e Lazer como Experiência
Avaliação da Brincadeira e do Lazer
Diretrizes para a Avaliação da Brincadeira e do Lazer
Parâmetros para a Avaliação da Brincadeira e do Lazer
Resumo da Avaliação da Brincadeira e do Lazer
Tratamento por Brincadeira e Lazer
Brincadeira e Lazer como Atrativos ou Recompensas
Brincadeira e Lazer como um Meio
Brincadeira e Lazer como um Fim
Resumo do Tratamento por Brincadeira e Lazer
Estudo de Caso: Juntando Tudo; Avaliação e Construção do Tratamento para a Participação
de uma Criança na Brincadeira

Objetivos de Aprendizagem
Após a leitura deste capítulo, você será capaz de:

1. Descrever quatro definições de brincadeira e lazer.
2. Descrever as diretrizes e os parâmetros para a avaliação da brincadeira e do lazer.
3. Identificar  as  avaliações  selecionadas  a  serem  utilizadas  para  o  desenvolvimento  do  perfil
ocupacional e a avaliação da brincadeira e do lazer.
4. Descrever três finalidades da brincadeira e do lazer no tratamento.
5. Definir a brincadeira e o lazer como atrativos ou recompensas, como meio e como fim.
6. Explicar como a brincadeira e o lazer podem ser utilizados como meios para tratamento.
7. Descrever os três tipos de tratamento de terapia ocupacional para facilitar a brincadeira e o lazer
como um fim.

O QUE SÃO BRINCADEIRA E LAZER?
Os profissionais da terapia ocupacional têm uma longa tradição em considerar a brincadeira e o lazer nas vidas
das pessoas com quem trabalham (Parham & Primeau, 1997). Nos primeiros anos da profissão, o “espírito da
brincadeira”  foi  observado  como  essencial  para  se  viver  uma  vida  valorizada  (E.  B.  Saunders,  1922;  Slagle,
1922; Ziegler, 1924). Com o passar do tempo, à medida que os profissionais da terapia ocupacional se tornaram
cada  vez  mais  preocupados  com  aspectos  científicos  e  técnicos  do  tratamento,  a  brincadeira  e  o  lazer  foram
considerados não científicos e inadequados para uso na prática. No final do século 20, os acadêmicos da terapia
ocupacional e da ciência ocupacional recuperaram a brincadeira e o lazer (Bundy, 1993; Canadian Association of
Occupational  Therapists  [CAOT],  1996;  Parham,  1996;  Parham  &  Fazio,  1997;  Primeau,  1996;  Reilly,  1974;
Suto, 1998).
Embora múltiplas definições de brincadeira e lazer tenham sido propostas na literatura, não há um consenso
sobre como definir estes termos. A falta de clareza na definição desses termos, no entanto, não deve impedir a
consideração dos terapeutas profissionais quanto ao desempenho de seus clientes nestas áreas de ocupação. Do
ponto  de  vista  pragmático,  a  brincadeira  e  o  lazer  são  instrumentos  poderosos  para  a  prática,  mas  definições
simples, exatas e para todos os propósitos, que respondam às necessidades de toda a profissão, podem não ser
desejadas  ou  necessárias,  mesmo  quando  são  possíveis  (Parham  &  Primeau,  1997).  Contudo,  as  definições  de
brincadeira  e  lazer  na  literatura  tendem  a  convergir  para  quatro  categorias:  (1)  a  brincadeira  e  o  lazer  como
tempo  sem  limitações,  (2)  brincadeira  e  lazer  como  contexto,  (3)  brincadeira  e  lazer  como  atividade  ou
comportamento  observável,  e  (4)  brincadeira  e  lazer  como  atitude  ou  experiência  (Gunter  &  Stanley,  1985;
Rubin, Fein & Vandenberg, 1983).

Brincadeira e Lazer como Tempo
A categoria de brincadeira e lazer como tempo sem limitações os considera como um tempo residual ou restante
após terem sido completadas as atividades obrigatórias, como o trabalho remunerado ou gratuito e as tarefas de
automanutenção (Gunter & Stanley, 1985; Tinsley & Tinsley, 1982). A brincadeira e o lazer são definidos pelo
que  não  são:  eles  não  são  atividades  de  trabalho  ou  escolares;  não  são  atividades  de  vida  diária  ou  atividades
instrumentais de vida diária. Por definição, a brincadeira e o lazer são quantificados como o tempo gasto pelo
indivíduo que está engajado neles. Esta visão de brincadeira e lazer presta­se facilmente à mensuração e, com
frequência, é o foco da avaliação em terapia ocupacional com o uso das configurações da atividade como um
instrumento de avaliação (Suto, 1998). Embora os profissionais precisem saber a respeito do uso do tempo por
seus  clientes  e  sua  relação  com  sua  saúde  e  bem­estar,  os  contextos  em  que  eles  acontecem,  as  atividades  do
cliente  e  suas  experiências  nessas  atividades  são  igualmente  importantes  para  a  avaliação  da  brincadeira  e  do
lazer.

Brincadeira e Lazer como Contexto
A  categoria  de  brincadeira  e  lazer  como  contexto  os  identifica  e  descreve  com  relação  às  condições  em  que
acontecem. Contextos amistosos, seguros e confortáveis com diferentes materiais, objetos, pessoas e atividades,
e que também denotem as limitações culturais para a brincadeira e o lazer, são mais prováveis de incitá­los (Fig.
52.1). A liberdade de escolha para participar ou não da brincadeira e do lazer e a independência da fome, fadiga,
doença ou de outros estressores também são identificados como condições propícias para a brincadeira e o lazer
(Rubin  et  al.,  1983).  As  crenças  das  pessoas  de  uma  determinada  cultura  estabelecem  o  que  é  e  o  que  não  é
considerado  brincadeira  e  lazer  e  as  condições  em  que  eles  acontecerão.  Com  frequência,  os  profissionais
recorrem a essa categoria quando avaliam os suportes e barreiras dos contextos de seus clientes que facilitam ou
dificultam seu engajamento na brincadeira e no lazer. Um problema com a visão da brincadeira e do lazer como
um contexto é que, embora as condições anteriormente descritas sejam necessárias para a brincadeira e o lazer,
elas  não  são  suficientes,  o  que  significa  que  produzir  tal  contexto  não  garante  que  a  brincadeira  e  o  lazer
ocorrerão  nele  (Rubin  et  al.,  1983).  Como  a  brincadeira  e  o  lazer  são  negociações  entre  os  clientes  e  seus
contextos (Bundy, 2001b), as atividades de brincadeira e de lazer dos clientes e suas experiências também devem
ser consideradas.
Fig. 52.1 A definição da brincadeira como contexto pode ser observada na satisfação deste menino em
condições que sustentam seu engajamento na brincadeira.

Brincadeira e Lazer como Atividade
A  categoria  de  brincadeira  e  lazer  como  atividade  os  compreende  como  comportamentos  ou  atividades  que
podem  ser  observados  e  identificados.  Taxonomias  são  utilizadas  para  identificar  e  descrever  os  tipos  de
atividade de brincadeira e lazer. Por exemplo, Primeau e Ferguson (1999) identificaram a brincadeira de crianças
utilizando  a  seguinte  taxonomia:  brincadeira  sensorimotora,  brincadeira  com  objetos,  brincadeira  social,
brincadeira  motora,  brincadeira  criativa  e  brincadeira  de  jogo.  Estas  taxonomias  são  úteis  porque  fornecem
critérios descritivos para observação e avaliação dos comportamentos de brincadeira e lazer dos clientes (Rubin
et  al.,  1983),  incluindo  seus  interesses  (Primeau,  1996).  Essa  visão  da  brincadeira  e  do  lazer  como  atividade
também é facilmente quantificada e mensurável. É familiar aos profissionais na forma de diferentes avaliações,
incluindo listas de verificação utilizadas para identificar interesses, bem como áreas de forças e de problemas no
desempenho  das  atividades  de  brincadeira  e  lazer  (Suto,  1998).  Uma  desvantagem  para  a  compreensão  da
brincadeira e do lazer como atividade está em não levar em consideração a experiência das próprias atividades
(Primeau, 1996; Suto, 1998).

Brincadeira e Lazer como Experiência
A  categoria  de  brincadeira  e  lazer  como  experiência  os  compreende  como  uma  experiência  integral  de
engajamento de um cliente na brincadeira e no lazer. A disposição, a atitude ou o estado de espírito enquanto
participando da brincadeira e do lazer têm importância fundamental (Iso­Ahola, 1979; Tinsley & Tinsley, 1982).
Os  significados  pessoais  da  brincadeira  e  do  lazer  surgem  dessas  experiências  objetivas  (Primeau,  1996).
Diversas  qualidades  da  brincadeira  e  do  lazer  como  experiência  foram  identificadas  na  literatura,  incluindo
liberação  de  obrigações  ou  restrições,  liberdade  de  escolha,  alegria,  divertimento,  motivação  intrínseca,  pouca
relação  com  o  trabalho,  relaxamento,  loco  de  controle  interno  e  suspensão  da  realidade  (Bundy,  1997;
Csikszentmihalyi,  1975;  Iso­Ahola,  1979;  Rubin  et  al.,  1983;  Samdahl,  1988;  Shaw,  1985;  Tinsley,  Hinson,
Tinsley  &  Holt,  1993).  De  todas  essas  qualidades,  a  liberação  de  restrições  e  a  liberdade  de  escolha  são  mais
comumente  identificadas  como  as  características  de  definição  da  brincadeira  e  do  lazer  como  experiência
(Henderson, Bialeschki, Shaw & Freysinger, 1996). Os profissionais reconhecem a importância da avaliação da
brincadeira  e  do  lazer  como  experiência  ao  coletar  dados  sobre  as  experiências  dos  clientes  por  meio  de
entrevistas, observações do participante e avaliações formais específicas.
A  visão  da  brincadeira  e  do  lazer  como  experiência  mostra­se  como  a  mais  promissora  para  a  prática  da
terapia ocupacional (Bundy, 1993; Primeau, 1996; Suto, 1998). Embora as avaliações da brincadeira e do lazer
como tempo, contexto e atividade sejam necessárias, elas não são suficientes para a compreensão da participação
dos  clientes  na  brincadeira  e  no  lazer.  A  melhor  prática  diz  que  a  avaliação  da  brincadeira  e  do  lazer  como
experiência também precisa ser realizada para a obtenção do quadro mais nítido de engajamento do cliente na
brincadeira e no lazer.

AVALIAÇÃO DA BRINCADEIRA E DO LAZER

Diretrizes para a Avaliação da Brincadeira e do Lazer
A  avaliação  da  brincadeira  e  do  lazer  precisa  estar  centrada  no  cliente  e  deve  seguir  uma  abordagem  de  cima
para baixo. A avaliação centrada no cliente é um processo colaborativo que combina as perspectivas, a perícia e
as experiências dos clientes e dos profissionais para determinar o que é avaliado, como é avaliado e qual será o
foco do tratamento. Para estar realmente centrada no cliente, a avaliação da brincadeira e do lazer deve sempre
que possível ocorrer em ambientes naturais aos clientes (casa, escola, trabalho e comunidade) (Townsend, 1997).
Para os profissionais que trabalham com crianças, os clientes podem “incluir a criança, os pais, os irmãos, outros
familiares,  colegas,  professores  e  outros  adultos  que  sejam  responsáveis  pela  criança”  (Primeau  &  Ferguson,
1999, p. 470). À medida que o profissional considera a criança em cada ambiente, um novo grupo de indivíduos
pode tornar­se fundamental para o processo colaborativo.
Uma abordagem de cima para baixo para avaliação começa com o perfil ocupacional do cliente, incluindo a
participação  do  cliente  na  brincadeira  e  no  lazer  nos  ambientes  de  casa,  escola,  trabalho  e  comunidade
(American  Occupational  Therapy  Association  [AOTA],  2002;  Trombly,  1993).  O  cliente  e  o  profissional
identificam em colaboração o que o cliente quer fazer, precisa fazer ou o que se espera que ele faça (Law et al.,
1990) e o quanto o cliente é capaz de se engajar na brincadeira e no lazer nesses ambientes (Coster, 1998). A
análise do desempenho ocupacional do cliente prossegue, com um foco específico sobre o desempenho nas áreas
de ocupação identificadas no perfil ocupacional (AOTA, 2002). A avaliação da brincadeira e do lazer aborda as
seguintes questões: (1) como os contextos do cliente facilitam ou inibem seu engajamento na brincadeira e no
lazer, (2) como o desempenho do cliente nas áreas de ocupação de brincadeira e lazer é estimulado ou limitado
pelos tipos de atividade de brincadeira e lazer em que ele se engaja e por sua experiência nessas atividades, e (3)
como  as  limitações  ou  comprometimentos  das  habilidades  de  desempenho  e  fatores  do  cliente  afetam  sua
capacidade de se engajar nas atividades de brincadeira e lazer.

Parâmetros para Avaliação da Brincadeira e do Lazer
As abordagens centradas no cliente e de cima para baixo para avaliação norteiam os profissionais no processo de
avaliação ou de como avaliar a brincadeira e o lazer. O padrão global de participação do cliente na brincadeira e
no  lazer  nos  ambientes  doméstico,  escolar,  profissional  e  comunitário  é  o  conteúdo,  ou  o  que  precisa  ser
avaliado. As quatro definições de brincadeira e lazer anteriormente descritas fornecem parâmetros para avaliação
que estão alinhados às duas subetapas do processo de avaliação: o perfil ocupacional e a análise do desempenho
ocupacional  (AOTA,  2002).  A  brincadeira  e  o  lazer  como  tempo  alinham­se  com  a  subetapa  do  perfil
ocupacional, enquanto a brincadeira e o lazer como contexto, atividade e experiência são abordados na subetapa
da análise do desempenho ocupacional. De maneira específica, a brincadeira e o lazer como contexto alinham­se
com a área de domínio dos contextos, e a brincadeira e o lazer como atividade e experiência alinham­se com a
área de domínio do desempenho nas áreas de ocupação (AOTA, 2002). Também são avaliados, durante a análise
do  desempenho  ocupacional,  as  áreas  de  domínio  das  habilidades  de  desempenho  e  os  fatores  do  cliente;  no
entanto,  os  parâmetros  para  avaliação  dessas  áreas  são  obtidos  a  partir  das  avaliações  gerais  da  terapia
ocupacional  utilizadas  para  examinar  clientes  nessas  áreas  e  não  são  necessariamente  específicos  para  as
avaliações de brincadeira e lazer. A Tabela 52.1 lista as avaliações que podem ser utilizadas para desenvolver o
perfil ocupacional do cliente e para avaliar a brincadeira e o lazer nas áreas de contextos, desempenho nas áreas
de ocupação, habilidades de desempenho e fatores do cliente.

Perfil Ocupacional: Brincadeira e Lazer
Ao desenvolverem um perfil ocupacional, os profissionais da terapia ocupacional coletam informações sobre a
participação  pregressa  e  atual  na  brincadeira  e  no  lazer  (AOTA,  2002).  A  participação  na  brincadeira  e  no
lazer  é  definida  como  o  engajamento  do  cliente  em  ocupações  de  brincadeira  e  lazer  que  são  tipicamente
esperadas e que estão disponíveis para uma pessoa das mesmas idade e cultura nos ambientes de casa, escola,
trabalho  e  comunidade  (Coster,  1998;  Primeau  &  Ferguson,  1999).  Este  perfil  é  utilizado  para  determinar  as
características  de  participação  na  brincadeira  e  no  lazer  dos  clientes  (natureza,  qualidade,  frequência  e
duração) nesses ambientes.
A participação na brincadeira e no lazer pode ser restrita em natureza, qualidade, frequência ou duração. As
restrições são relativas à participação típica em cada ambiente. Os profissionais comparam a participação de seus
clientes  àquela  de  indivíduos  sem  restrições  de  participação  para  determinar  o  grau  de  participação  ou  de
restrição  da  participação  dos  clientes  (World  Health  Organization,  2001).  Eles  recorrem  a  seu  conhecimento
sobre  brincadeira  e  lazer  conforme  estes  ocorrem  naturalmente  nos  ambientes  domésticos,  escolares,
profissionais e comunitários e às suas observações de uma pessoa típica engajada na brincadeira e no lazer em
determinado  ambiente  para  compreender  a  brincadeira  e  o  lazer  das  pessoas  sem  restrições  naquele  ambiente
(Dunn,  1998).  Então,  eles  podem  entrevistar  seus  clientes  e/ou  observá­los  para  coletar  dados  sobre  suas
participações na brincadeira e no lazer, incluindo suas preferências pessoais, e comparar essas informações com
aquelas de uma pessoa sem restrições de participação.

TABELA 52.1 AVALIAÇÕES DE BRINCADEIRA E LAZER
Perfil  
Ocupacional Análise do Desempenho Ocupacional
Características Contextos Desempenho nas Áreas de Ocupação Habilidades Fatores
de do
Desempenho Cliente
ASPECTOS ATIVIDADE EXPERIÊNCIA
CONTEXTUAIS Atividades Opções Experiência Significado Satisfação
Avaliação de de Subjetiva Pessoal
Interesse Atividade
Activity Card Sort (Seleção de Cartão de
Atividade)
Activity Index & Meaningfulness of
Activity Scale (Índice de Atividade e
Expressividade da Escala de
Atividade)
Adult Playfulness Scale (Escala de
Diversão do Adulto)
Assesment of Ludic Behaviors (ALB)
(Avaliação de Comportamentos
Lúdicos)
CAPE/PAC
Child Behaviors Inventory of Playfulness
(Inventário de Comportamentos de
Diversão da Criança)
Interest Checklist (Lista de Verificação
de Interesse)
Knox Preschool Play Scale (Escala de
Brincadeira do Pré­Escolar de Knox)
Leisure Boredom Scale (Escala de
Tédio no Lazer)
Leisure Competence Measure (Medida
de Competência no Lazer)
Leisure Diagnostic Battery (Bateria
Diagnóstica do Lazer)
Leisure Interest Profile for Adults (Perfil
de Interesse no Lazer para Adultos)
Leisure Interest Profile for Seniors (Perfil
de Interesse no Lazer para Idosos)
Leisure Satisfaction Scale (Escala de
Satisfação no Lazer)
Pediatric Interest Profile (Perfis de
Interesse Pediátrico)
Playform (Formulário de Brincadeira)
Play History (História de Brincadeiras)
Qualitative Methods (Métodos
Qualitativos) a (Entrevista,
Observação)
Self Directed Search – The Leisure
Activities Finder (Pesquisa
Autodirecionada – Demonstrativo de
Atividades de Lazer)
Test of Environmental Supportiveness
(TOES) Teste de Suporte Ambiental)
Test of Playfulness (ToP) (Teste de
Diversão)
The Experience of Leisure Scale (TELS)
(A Escala da Experiência de Lazer)

aConsulte  Bundy  (1993,  p.  220),  Burke  &  Scaaf  (1997,  pp.  75­77)  e  Florey  &  Greene  (1997,  p.  137)  para
amostras de orientação de entrevista e observação.
O foco da avaliação se dirige para a natureza, a qualidade, a frequência e a duração da participação do cliente
na brincadeira e no lazer. A natureza e a qualidade da participação podem ser abordadas por meio ds respostas às
seguintes perguntas (Coster, 1998): a participação do cliente na brincadeira e no lazer é positiva? Ela sustenta o
crescimento  físico,  cognitivo  e  psicossocial  do  cliente?  É  pessoalmente  satisfatória?  O  cliente  tem  acesso  às
mesmas oportunidades para brincadeira e lazer que outros de mesmas idade e cultura? A participação do cliente
na brincadeira e no lazer é aceitável para outros em seus ambientes? A frequência e a duração da participação
estão relacionadas às definições de brincadeira e lazer como tempo. O cliente participa da brincadeira e do lazer
na  mesma  extensão  que  os  outros  naquele  ambiente?  Um  estudo  que  formulou  esta  pergunta  descobriu  que
meninos com dispraxia de desenvolvimento participaram de jogos nos pátios escolares com menor frequência e
por menos tempo do  que  os  meninos  sem  dispraxia  do  desenvolvimento  (Primeau, 1989), indicando um hiato
entre  a  participação  típica  e  aquela  de  crianças  com  dispraxia  do  desenvolvimento.  Quando  são  encontrados
hiatos  na  natureza,  qualidade,  frequência  ou  duração  da  participação,  os  profissionais  precisam  avaliar  os
contextos de brincadeira e lazer do cliente para identificar os meios para superar esses hiatos (Dunn, 1998).

Análise do Desempenho Ocupacional: Brincadeira e Lazer

AVALIAÇÃO DOS CONTEXTOS DE BRINCADEIRA E LAZER. A avaliação dos contextos de brincadeira e lazer
relaciona­se  às  definições  de  brincadeira  e  lazer  como  contexto.  Os  contextos  podem  ser  culturais  (hábitos,
crenças, valores), físicos (ambientes construídos e naturais, objetos), sociais (indivíduos, grupos, organizações,
sistemas), pessoais (idade, sexo, estado socioeconômico), espirituais (finalidade maior ou superior, significado),
temporais (horário do dia/ano, fase da vida) e virtuais (salas de bate­papo, ambientes simulados) (AOTA, 2002).
Os profissionais identificam os aspectos contextuais dos ambientes de interesse de seus clientes e, em seguida,
determinam se esses aspectos facilitam ou prejudicam a participação na brincadeira e no lazer nesses ambientes.
A  coleta  de  dados  objetivos  sobre  aspectos  contextuais  não  é  suficiente;  os  profissionais  precisam  avaliar  o
impacto desses aspectos sobre o engajamento de seus clientes na brincadeira e no lazer (Dunn, 1998). Entrevistar
e  observar  os  clientes  em  ambientes  naturais  constituem  métodos  ótimos  para  fazer  isso.  Por  exemplo,  a
acessibilidade física a um restaurante não garante que um cliente com incapacidades físicas severas venha jantar
com  os  amigos.  Aspectos  culturais  e  sociais  podem  afetar  o  nível  de  conforto  do  cliente  nesse  ambiente,
restringindo  assim  sua  participação.  O  profissional  precisaria  fazer  perguntas  para  descobrir  a  origem  da
restrição do cliente.

AVALIAÇÃO  DO  DESEMPENHO  EM  ÁREAS  DE  OCUPAÇÃO:  BRINCADEIRA  E  LAZER.  As  definições  de
brincadeira e lazer como atividade e como experiência são fundamentais para avaliação do desempenho nessas
áreas de ocupação. A avaliação foca­se no desempenho de brincadeira e lazer dos clientes (o que eles realmente
fazem  e  suas  experiências  enquanto  fazem  isso).  Os  profissionais  avaliam  as  atividades  de  lazer  e  brincadeira
dos  clientes  e  suas  experiências  enquanto  engajados  nessas  atividades  para  identificar  as  limitações  de
desempenho  e  determinar  como  aumentar  o  desempenho.  A  avaliação  da  atividade  de  brincadeira  e  lazer
considera  as  atividades  de  interesse  e  as  escolhas  de  atividade,  enquanto  a  avaliação  da  experiência  de
brincadeira e lazer explora a experiência subjetiva, o significado pessoal e a satisfação com a experiência.

AVALIAÇÃO DA ATIVIDADE DE BRINCADEIRA E LAZER.
Atividades de interesse. Os interesses são definidos como “disposições para encontrar prazer e satisfação
nas  ocupações  e  o  autoconhecimento  do  prazer  nas  ocupações”  (Kielhofner,  Borell,  Burke,  Helfrich  &
Nygard, 1995, p. 47). Quando essa definição de interesses é aplicada às atividades de brincadeira e lazer,
ela aborda as respostas afetivas dos clientes às atividades de brincadeira e lazer (frequentemente expressas
como  preferências  ou  gostos,  desgostos  e  indiferenças)  e  suas  percepções  e  a  consciência  de  si  próprio  e
seus  ambientes  (Matsutsuyu,  1969).  As  avaliações  das  atividades  de  interesse  de  brincadeira  e  lazer
fornecem informações em duas áreas: preferências e autoconhecimento à medida que elas se relacionam às
atividades de brincadeira e lazer. Os clientes podem ser solicitados a identificar suas preferências por várias
atividades  de  brincadeira  e  lazer.  Com  base  em  suas  respostas,  os  profissionais  podem  determinar  a
extensão  e  a  qualidade  do  autoconhecimento  e  a  consciência  dos  clientes  sobre  esses  interesses.  Por
exemplo, um cliente que vive em uma região fria e sem acesso ao mar, e que identifica o mergulho com
equipamento,  o  surfe  e  mergulho  sem  equipamento  como  interesses  de  lazer,  demonstra  preferências
limitadas  (ele  identificou  apenas  três)  e  uma  falta  de  consciência  sobre  as  atividades  de  lazer  que  seu
ambiente  oferece,  indicando  que  ele  encontrará,  mais  provavelmente,  limitações  em  seu  desempenho  das
atividades de lazer.
Opções de atividade. As opções de atividade consistem nas atividades em que o cliente se engaja durante a
brincadeira e o lazer. As avaliações nessa área examinam o que os clientes fazem, com quem e com qual
frequência.  As  atividades  de  brincadeira  e  lazer  são  caracterizadas  como  categorias  gerais  (p.  ex.,
brincadeira  com  objeto,  jogos,  passatempos,  esportes)  ou  atividades  específicas  (p.  ex.,  brincadeiras  com
blocos, jogos de tabuleiro, trabalho com madeira, futebol). Outras áreas a explorar incluem se a atividade é
realizada à sós ou com outras pessoas, incluindo amigos, família ou colaboradores, e com que frequência se
realiza uma determinada atividade de brincadeira e lazer. Este indicador de frequência difere daquele que se
avalia no perfil ocupacional porque os profissionais se preocupam aqui com o desempenho individual do
cliente em uma atividade de brincadeira e lazer específica, independente do ambiente em que ela acontece,
como um indicador da história e familiaridade do cliente com ela. Lembre do exemplo dos meninos com
dispraxia do desenvolvimento que apresentaram menor frequência e duração de participação em jogos no
pátio  da  escola.  A  avaliação  de  suas  escolhas  de  atividade  focaria  em  suas  histórias  e  familiaridade  com
jogos (se eles jogaram os jogos antes e, em caso positivo, quais tipos, com quem e com que frequência) em
vez de em suas participações gerais na brincadeira no pátio da escola.

AVALIAÇÃO DA EXPERIÊNCIA DE BRINCADEIRA E LAZER.
Experiência subjetiva. A experiência subjetiva refere­se a dois aspectos do engajamento em atividades de
brincadeira e lazer: o estado de espírito com o qual essas atividades são abordadas e a experiência afetiva
do  engajamento  nelas.  O  estado  de  espírito,  frequentemente  denominado  divertimento,  caracteriza­se  por
liberdade das restrições, liberdade de escolha, motivação intrínseca, controle interno, engajamento ativo e
liberdade  para  suspensão  da  realidade  (Bundy,  1997;  Henderson  et  al.,  1996).  A  experiência  afetiva  de
engajamento  na  brincadeira  e  no  lazer  é  uma  experiência  positiva,  marcada  por  sentimentos  de  diversão,
alegria,  felicidade,  satisfação  e  prazer  (Csikszentmihalyi,  1988).  As  avaliações  da  experiência  subjetiva
exploram essas duas áreas: o estado de espírito e a experiência afetiva. Os profissionais devem lembrar­se
que a experiência subjetiva de brincadeira e lazer transcende as definições culturais de brincadeira, lazer,
trabalho e atividades de vida diária (Primeau, 1996). Por exemplo, a mãe que descreve sua experiência de
brincar  com  seus  filhos  enquanto  realiza  os  afazeres  domésticos  como  “brincar­trabalhar”  diz:  “É  como
trabalhar com uma atitude. É meu jeito de fazer as coisas de maneira divertida... Não, não é exatamente o
que quero fazer agora,... mas vou fazendo as coisas e nós todos nos divertimos ao mesmo tempo.” (Primeau,
1995.) Embora ela reconheça que está restrita em sua escolha de atividade, seu uso das palavras “atitude” e
“maneira divertida” demonstra uma abordagem alegre, e a frase “nós todos nos divertimos” refere­se a uma
experiência afetiva positiva, sugerindo que sua experiência subjetiva é a de brincadeira e lazer.
Significado pessoal. O significado pessoal deriva da experiência subjetiva do desempenho da brincadeira e
do  lazer.  O  atendimento  das  necessidades  e  os  benefícios  conscientes  e  inconscientes  atribuídos  a  essa
experiência criam significados pessoais que, com frequência, se transformam em motivação para o futuro
engajamento  dos  clientes  em  atividades  de  brincadeira  e  lazer.  Os  significados  pessoais  podem  ser
categorizados  como  fisiológicos  (p.  ex.,  aptidão  física,  redução  do  estresse  e  recuperação),
educacionais/cognitivos  (p.  ex.,  aprendizagem,  estimulação  intelectual),  sociais  (p.  ex.,  interação  social,
companheirismo),  psicológicos  (p.  ex.,  autoidentidade,  autoexpressão),  estéticos  (p.  ex.,  apreciação  da
beleza,  das  artes  e  dos  sistemas  simbólicos  de  significado)  e  espirituais  (p.  ex.,  maior  conscientização,
experiências  transcendentais)  (Beard  &  Ragheb,  1980;  Driver,  Brown  &  Peterson,  1991).  A  avaliação  do
significado  pessoal  torna­se  particularmente  importante  quando  os  profissionais  desejam  aumentar  o
repertório de atividades de brincadeira e lazer de seus clientes (Bundy, 2001b) ou substituir aquela que não
é  mais  viável  por  uma  nova  atividade  (Bundy,  1993).  Os  significados  pessoais  identificados  dos  clientes
podem  ser  compatibilizados  com  as  atividades  de  brincadeira  e  lazer  que  fornecem  esses  significados  na
forma de benefícios, oferecendo novas opções de brincadeira e lazer. Por exemplo, um estudo demonstrou
que  bingo,  boliche,  aulas  de  cerâmica,  dança  e  atividades  voluntárias  foram  classificadas  como
fornecedoras  de  altos  níveis  do  benefício  do  companheirismo  para  idosos  que  vivem  na  comunidade
(Driver,  Tinsley  &  Manfredo,  1991).  Os  profissionais  podem  sugerir  essas  atividades  ou  outras  que
propiciem um benefício similar para clientes idosos que expressaram desejo por companhia.
Satisfação com a experiência. A satisfação com a experiência refere­se aos sentimentos e às percepções
globais do cliente em relação às suas experiências de brincadeira e lazer. Os sentimentos e as percepções
podem  ser  positivos  (contentamento  e  satisfação)  (Beard  &  Ragheb,  1980)  ou  negativos  (tédio  e
insatisfação) (Iso­Ahola & Weissinger, 1990). Acredita­se que a satisfação com a experiência de brincadeira
e  lazer  tem  consequências  poderosas  para  a  saúde  física,  a  saúde  mental,  a  satisfação  de  vida  e  o
crescimento pessoal dos clientes (Driver, Tinsley & Manfredo, 1991). A avaliação precisa abranger a gama
de sentimentos dos clientes em todas as atividades e em todos os ambientes em que eles atuam (Fig. 52.2).
Por exemplo, a redução da participação e do acesso de clientes idosos às atividades de lazer não se traduziu
em insatisfação com sua experiência de lazer, sugerindo que, embora sua gama de opções de atividade fosse
restrita, mesmo a participação pouco frequente nas atividades valorizadas adicionou significado e satisfação
às suas vidas (Griffin & McKenna, 1998).

Fig. 52.2 A participação nas atividades de lazer valorizadas, mesmo quando ela é pouco frequente, acrescenta
significado e satisfação à vida das pessoas.

AVALIAÇÃO  DAS  HABILIDADES  DE  DESEMPENHO  E  DOS  FATORES  DO  CLIENTE.  Os  profissionais  podem
escolher entre muitas avaliações gerais de terapia ocupacional e algumas avaliações específicas de brincadeira e
lazer que foram construídas para examinar as habilidades de desempenho e os fatores do cliente. Os profissionais
também podem fazer observações informais durante o engajamento dos clientes nas atividades de brincadeira e
lazer. As avaliações e observações específicas garantem que os profissionais estão examinando as habilidades de
desempenho dos clientes, bem como as funções e estruturas orgânicas que estão sendo realmente utilizadas nas
atividades  de  brincadeira  e  lazer  (Bundy,  2001b),  aumentando  assim  a  probabilidade  de  que  seus  tratamentos
tenham foco nos resultados relacionados à participação dos clientes na brincadeira e no lazer. Por exemplo, os
profissionais  comumente  observam  as  crianças  brincando  com  seus  colegas  para  avaliar  como  as  habilidades
motoras, de processo e de comunicação/interação das crianças e suas capacidades física, cognitiva e psicossocial
afetam suas brincadeiras com os outros.

Resumo da Avaliação da Brincadeira e Lazer
A  avaliação  da  brincadeira  e  do  lazer  é  orientada  por  abordagens  centradas  no  cliente  e  de  cima  para  baixo,
estando  focada  nos  padrões  gerais  de  participação  dos  clientes  na  brincadeira  e  no  lazer  nos  ambientes
domésticos,  escolares,  profissionais  e  comunitários.  O  perfil  ocupacional  inclui  informações  relacionadas  à
participação  dos  clientes  na  brincadeira  e  no  lazer,  especificamente  as  características  de  suas  participações
(natureza, qualidade, frequência e duração). A análise do desempenho ocupacional da brincadeira e do lazer dos
clientes  consiste  na  avaliação  de  seus  contextos  de  brincadeira  e  lazer  e  de  seus  desempenhos  nas  áreas  de
ocupação de brincadeira e lazer, incluindo a atividade de brincadeira e lazer (interesses na atividade, opções de
atividade)  e  a  experiência  de  brincadeira  e  lazer  (experiência  subjetiva,  significado  pessoal,  satisfação  com  a
experiência). A avaliação das habilidades de desempenho e dos fatores do cliente relacionados à brincadeira e ao
lazer é realizada com o uso de avaliações gerais da terapia ocupacional, avaliações específicas da brincadeira e
lazer e o da observação. Os profissionais que utilizam esse protocolo para avaliar a brincadeira e o lazer serão
capazes de construir e aplicar tratamentos que estejam diretamente relacionados à participação de seus clientes
na brincadeira e no lazer nos ambientes domésticos, escolares, profissionais e comunitários.
TRATAMENTO POR BRINCADEIRA E LAZER
Para  compreender  a  brincadeira  e  o  lazer  no  tratamento,  é  apresentado  um  protocolo  baseado  no  trabalho  de
Blanche (1997) e Pierce (1997). Os tratamentos por brincadeira e lazer podem ser (1) atrativos ou recompensas,
(2) meios de atingir as metas de tratamento e (3) resultados finais ou de tratamento. Este protocolo orienta como
os profissionais de terapia ocupacional utilizam a brincadeira e o lazer no tratamento. As abordagens de terapia
ocupacional  (criar/promover,  estabelecer/restaurar,  manter,  modificar  e  prevenir)  do  Protocolo  de  Prática  da
Terapia Ocupacional  (AOTA,  2002)  direcionam  o  uso  da  brincadeira  e  do  lazer para resultados específicos de
tratamento. Os exemplos adiante destacam suas aplicações.

Brincadeira e Lazer como Atrativos ou Recompensas
Os profissionais utilizam a brincadeira e o lazer como atrativos ou recompensas para motivar os clientes a
participar das atividades terapêuticas ou para recompensá­los por sua participação no tratamento (Blanche, 1997;
Pierce,  1997).  O  uso  da  brincadeira  e  do  lazer  dessa  maneira  corresponde  ao  uso  terapêutico  de  si  próprio
(personalidade,  atitude,  tom  de  voz,  linguagem  corporal)  como  um  tipo  de  tratamento  de  terapia  ocupacional
(AOTA,  2002).  Um  estudo  com  222  terapeutas  ocupacionais  que  trabalhavam  com  crianças  pré­escolares
indicou que todos aqueles que responderam consideravam a brincadeira importante para motivar as crianças a
participarem do tratamento;  91%  relataram  que  ela  é  muito  importante  (Couch, Deitz & Kanny, 1998). Pierce
(1997) descreve o uso de um brinquedo como atrativo para a terapia quando este é apresentado fora do alcance
da criança. Em seguida, a criança é incentivada a se deslocar até o brinquedo e, quando obtém sucesso, permite­
se  que  ela  brinque  com  ele.  Outro  exemplo  de  brincadeira  e  lazer  como  atrativo  consiste  no  uso  frequente  de
uma  atitude  divertida  por  parte  profissionais  em  suas  interações  com  os  clientes,  a  fim  de  atraí­los  para  as
atividades de tratamento. Historicamente, os profissionais têm contribuído com esse aspecto afetivo da terapia ao
criar  ambientes  de  tratamento  repletos  de  sentimentos  de  contentamento,  um  espírito  corporativo  e  esperança
(Kielhofner  &  Burke,  1983).  Dos  77  terapeutas  ocupacionais  que  relataram  o  uso  de  avaliações  de  lazer  para
planejar  seus  tratamentos,  32%  relataram  utilizar  a  atividade  de  lazer  para  motivar  seus  clientes  e  facilitar  o
interesse e a participação deles no tratamento (Turner, Chapman, McSherry, Krishnagiri & Watts, 2000).
A  brincadeira  e  o  lazer  também  são  frequentemente  utilizados  no  tratamento  como  recompensas.  Dos  203
terapeutas ocupacionais que trabalhavam com crianças em idade pré­escolar, 99% relataram o uso da brincadeira
como reforço; 40% indicaram seu uso em mais de 50% de seus casos (Couch et al., 1998). A brincadeira como
reforço  é  tipicamente  utilizada  quando  os  profissionais  fornecem  uma  oportunidade  para  que  as  crianças  se
engajem  em  atividades  livres  durante  ou  ao  término  de  uma  sessão  de  tratamento.  Blanche  (1997)  incentiva
aqueles  que  utilizam  a  brincadeira  para  reforçar  ações  específicas  de  crianças  a  concederem  um  tempo  para
brincadeira de maneira consistente durante o atendimento, em vez de bani­la para o término de uma sessão. A
prática comum de controle  das oportunidades  para  brincadeiras  livres  ao  término  de  um  atendimento  faz  com
que  ela  seja  interrompida  ou  adiada,  sugerindo  que  é  menos  importante  que  outras  atividades  de  tratamento  e
desconsiderando a visão da brincadeira pelas crianças como de importância primária (Blanche, 1997). O lazer é
utilizado como um reforço, principalmente quando a participação em atividades específicas de lazer constitui o
clímax das sessões de tratamento em que os clientes planejaram e organizaram essas atividades.

Brincadeira e Lazer como um Meio
A  brincadeira  e  o  lazer  como  um  meio  refere­se  a  sua  utilização  como  um  tipo  de  tratamento  de  terapia
ocupacional (uso terapêutico das ocupações e atividades) para atingir metas específicas de tratamento (AOTA,
2002). O engajamento dos clientes na brincadeira e no lazer é o método ou processo pelo qual ocorre a mudança
(Gray,  1998;  Trombly,  1995).  Os  profissionais  utilizam  a  brincadeira  e  o  lazer  como  meios  para  produzir  a
mudança nos fatores e nas habilidades de desempenho do cliente (subjacentes a todas as áreas de ocupação) e no
desempenho em duas áreas específicas de ocupação (brincadeira e lazer).
Brincadeira e Lazer na Avaliação e no Tratamento

A literatura  da  terapia  ocupacional  fornece  inúmeras  justificativas  para  o  uso  da  brincadeira  e  do  lazer  na
avaliação  e  no  tratamento  na  prática  da  terapia  ocupacional;  no  entanto,  existem  poucos  estudos  que
forneçam evidência direta sobre sua utilização e eficácia na prática. As justificativas para o uso da brincadeira
e do lazer na terapia ocupacional incluem descrições de sua utilização geral na prática (Bundy, 1993; CAOT,
1996; Di Bona, 2000; Parham & Primeau, 1997; Primeau, 1996; Read, 1996; Rigby & Huggins, 2003; Stagnitti,
2004;  Stagnitti  &  Unsworth,  2000;  Sturgess,  1997;  Suto,  1998),  bem  como  seu  uso  com  populações
específicas, como crianças com transtorno do espectro autista (Desha, Ziviani & Rodger, 2003; Ziviani, Boyle &
Rodger,  2001),  artrite  idiopática  juvenil  (Hackett,  2003)  e  outras  necessidades  especiais  (Segal,  Mandich,
Polatjko  &  Cook,  2002);  adolescentes  (Passmore  &  French,  2003);  adultos  com  doença  mental  (Ivarsson,
Carlsson  &  Sidenvall,  2004;  Pieris  &  Craik,  2004),  diagnósticos  dúbios  (Hodgson,  Lloyd  &  Schmid,  2001)  e
incapacidades físicas (Sandqvist, Akesson & Eklund, 2005; Specht, King, Brown & Foris, 2002) e aquelas em
ambientes forenses (Gooch & Living, 2004); e idosos que vivem em instituições de cuidado estendido (Atwal,
Owen & Davies, 2003). A maioria desses artigos consiste em artigos de revisão (Gooch & Living, 2004; Segal
et  al.,  2002;  Ziviani  et  al.,  2001)  ou  estudos  qualitativos  (Atwal  et  al.,  2003;  Hackett,  2003;  Hodgson  et  al.,
2001; Passmore & French, 2003; Pieris & Craik, 2004; Specht et al., 2002) que descrevem a participação na
brincadeira e no lazer de grupos populacionais específicos (em alguns casos, incluindo facilitadores e barreiras
ambientais) e fazem recomendações para uso da brincadeira e lazer na prática da terapia ocupacional. Os três
estudos  restantes  utilizam  uma  combinação  de  entrevistas,  observações,  questionários  e  avaliações  formais
para  descrever  preferências  e  comportamentos  de  brincadeira  específicos  para  a  população  (Desha  et  al.,
2003) ou níveis baixos de satisfação com o desempenho do lazer e/ou participação no lazer (Ivarsson et al.,
2004; Sandqvist et al., 2005), levando a recomendações para a prática da terapia ocupacional.
Estudos  que  fornecem  evidência  direta  sobre  o  uso  e  a  eficácia  da  brincadeira  e  do  lazer  na  prática  da
terapia ocupacional podem ser organizados de acordo com seu foco: (1) avaliação da brincadeira e lazer em
populações  específicas  e  (2)  suporte  para  uso  da  brincadeira  e  lazer  como  meios  ou  fins  no  tratamento.
Quatro estudos encontrados na literatura avaliaram os comportamentos de brincadeira em crianças com uso
de avaliações específicas de brincadeira, incluindo o Teste de Divertimento (Leipold & Bundy, 2000; Okimoto,
Bundy & Hanzlik, 2000) e a Avaliação da Brincadeira Pretendida Iniciada pela Criança (Stagnitti, Unsworth &
Rodger,  2000)  ou  outras  observações  formais  estruturadas  da  brincadeira  realizadas  em  ambientes  clínicos
(Ziviani, Rodger & Peters, 2005). Cada estudo contou com amostras de tamanho pequeno (n ≤ 82), usou um
grupo  de  controle  de  crianças  em  desenvolvimento  típico  e  encontrou  diferenças  nos  comportamentos  de
brincadeira  entre  os  grupos  de  controle  e  crianças  com  transtorno  do  espectro  autista  (Ziviani  et al.,  2005),
crianças com transtorno de déficit de atenção/hiperatividade (Leipold & Bundy, 2000), crianças com paralisia
cerebral e atraso do desenvolvimento (Okimoto et al., 2000) e crianças com problemas pré­escolares (Stagnitti
et  al.,  2000).  Em  todos  os  casos,  as  crianças  com  incapacidades  exibiram  comportamentos  de  brincadeira
problemáticos quando comparadas às dos grupos de controle.
Foram  encontrados  sete  estudos  na  literatura  sustentando  o  uso  da  brincadeira  como  meio  para  abordar
fatores do cliente e habilidades de desempenho. Quatro estudos examinaram o uso de jogos para aumentar a
extensão  em  decúbito  ventral  (Sakemiller  &  Nelson,  1998),  promover  o  alongamento  do  braço  (Sietsema,
Nelson, Mulder, Mervau­Scheidel & White, 1993), aumentar a tolerância à posição ortostática (Hoppes, 1997)
e  aumentar  a  motivação  (Harris  &  Reid,  2005).  Embora  o  tamanho  das  amostras  fosse  pequeno  (n  ≤  20),
esses  estudos  indicaram  que  a  brincadeira  na  forma  de  jogos  teve  efeitos  positivos  sobre  esses  fatores  do
cliente.  Além  disso,  uma  revisão  sistemática  de  oito  estudos  que  investigaram  o  efeito  da  atividade  de  lazer
sobre a depressão ou a autoestima nos idosos sugeriu que a atividade de lazer tem um efeito positivo sobre a
depressão  e  a  autoestima  (Fine,  2000).  Por  fim,  dois  estudos  de  correlação  encontraram  relações
significativas  entre  o  divertimento  e  as  habilidades  de  enfrentamento  em  crianças  pré­escolares  e
adolescentes, sugerindo que o uso da brincadeira como meio pode afetar de maneira positiva as habilidades
de enfrentamento nesses grupos (Hess & Bundy, 2003; I. Saunders, Sayer & Goodale, 1999).
Foram demonstrados apenas dois estudos na literatura que investigaram a brincadeira e o lazer como fins
na  terapia  ocupacional  (O’Brien  et al.,  2000;  Okimoto  et al.,  2000).  Um  estudo  (n  =  8)  utilizou  a  brincadeira
como  meio  para  examinar  os  efeitos  do  tratamento  sobre  a  diversão  em  crianças  com  transtornos  de
desenvolvimento;  nenhuma  diferença  foi  encontrada  entre  o  grupo  da  brincadeira  como  meio  e  o  grupo  de
controle  que  recebeu  um  programa  domiciliar  para  promover  a  diversão  (O’Brien  et  al.,  2000).  O  segundo
grupo (n = 38) comparou os efeitos do processo de consulta para melhorar as interações mãe­filho com uma
sessão de tratamento de neurodesenvolvimento (neurodevelopmental treatment – NDT) sobre divertimento de
crianças com paralisia cerebral e retardos do desenvolvimento (Okimoto et al., 2000). Embora os escores mais
elevados  das  crianças  cujas  mães  receberam  a  consulta  fossem  mais  altos  depois  do  tratamento  que  antes
dele, eles não foram muito mais elevados do que aqueles de crianças que receberam o NDT direto.
O estado de evidência na literatura para o uso da brincadeira e do lazer na prática da terapia ocupacional é
problemático.  Embora  inúmeras  justificativas  sejam  fornecidas  para  sua  utilização,  a  evidência  direta  de  seu
uso e sua eficácia está ausente, porque poucos estudos foram relatados na literatura e aqueles que o foram
são limitados pela fraqueza metodológica e pelo reduzido tamanho da amostra. A evidência indica a urgente
necessidade de estudos sistemáticos e com rigor metodológico que examinem o uso da brincadeira e do lazer
na avaliação e no tratamento em terapia ocupacional.

Meios para Abordar os Fatores do Cliente e as Habilidades de Desempenho
A brincadeira e o lazer como meios são frequentemente utilizados para abordar comprometimentos em estruturas
e funções orgânicas dos clientes e as limitações em suas habilidades de desempenho. Utilizando a abordagem de
tratamento  estabelecer/restaurar  (AOTA,  2002),  os  profissionais  engajam  seus  clientes  nas  atividades  de
brincadeira  e  lazer  que  se  destinam  a  facilitar  a  aquisição  de  suas  metas  de  tratamento  relacionadas  a  esses
comprometimentos  e  limitações.  Os  resultados  dos  questionários  indicaram  que  100%  dos  212  terapeutas
ocupacionais que trabalham com crianças pré­escolares utilizam a brincadeira como uma modalidade terapêutica
para aumentar os resultados motores, sensoriais ou psicossociais; 92% indicaram este uso em mais de 50% de
seus casos (Couch et al., 1998). Esses resultados estão de acordo com a literatura de terapia ocupacional na qual
a  brincadeira  é  tipicamente  descrita  como  meio  para  facilitar  o  desenvolvimento  de  capacidades  físicas,
cognitivas e psicossociais e a aquisição das habilidades motoras, processuais, de comunicação e de interação em
crianças (Blanche, 1997; CAOT, 1996; Morrison & Metzger, 2001; Parham & Primeau, 1997; Pierce, 1997).
Embora as descrições do lazer como meio na literatura da terapia ocupacional sejam limitadas (Bundy, 1993;
Suto, 1998), outra literatura indica que ele é utilizado para alcançar benefícios físicos, cognitivos, psicológicos,
sociais e espirituais (Driver, Brown & Peterson, 1991). Com frequência, os profissionais de terapia ocupacional
utilizam as atividades de lazer, como jogos ou trabalhos manuais, como meios para melhorar a destreza manual
de  seus  clientes,  aumentar  sua  atenção  para  a  tarefa,  desenvolver  suas  habilidades  sociais  ou  aumentar  seus
sentimentos  de  autoeficácia  e  autoestima.  Dos  77  terapeutas  ocupacionais  que  relataram  utilizar  avaliações  de
lazer  para  orientar  seus  tratamentos,  38%  disseram  que  utilizavam  o  interesse  de  seus  clientes  no  lazer  para
abordar o desenvolvimento das habilidades desses clientes (Turner et al., 2000).

Meios para Aumentar o Desempenho nas Áreas de Ocupação: Brincadeira e Lazer
A brincadeira e o lazer como meios podem direcionar a mudança no desempenho em duas áreas de ocupação
específicas: brincadeira e lazer. Eles são utilizados para abordar as limitações no desempenho da brincadeira e
lazer  dos  clientes  (o  que  eles  realmente  fazem  e  suas  experiências  enquanto  as  realizam).  Os  profissionais
engajam  seus  clientes  em  atividades  de  brincadeira  e  lazer  para  atingir  as  metas  de  tratamento  relacionadas  à
competência  e  à  experiência  deles  nessas  atividades.  O  tratamento  proporciona  oportunidades  para  que  os
clientes  pratiquem  atividades  específicas  de  brincadeira  e  lazer,  explorem  novas  atividades  ou  aumentem  sua
experiência enquanto engajados nelas (Bundy 2001a; Gray, 1998; Morrison & Metzger, 2001). Por exemplo, um
grupo  nas  manhãs  de  sábado  chamado  Kids’  Club,  uma  intervenção  de  terapia  ocupacional  com  foco  na
brincadeira e na participação social, utiliza a brincadeira como meio na forma de jogos com regras de modo a
promover oportunidades para que crianças com transtornos de desenvolvimento pratiquem jogos familiares com
seus  colegas,  explorem  jogos  que  sejam  novidades  para  elas  e  experimentem  alegria  e  diversão  durante  a
participação nesses jogos (Boxe 52.1).
Quando  os  clientes  demonstram  problemas  com  a  competência  nas  atividades  de  brincadeira  e  lazer
escolhidas,  os  profissionais  podem  fornecer  as  oportunidades  para  que  eles  pratiquem  as  atividades  de
brincadeira e lazer em um ambiente positivo e seguro ou explorem atividades de brincadeira e lazer alternativas,
em  que  eles  possam  experimentar  níveis  de  competência  mais  elevados.  Por  exemplo,  o  tratamento  para  um
menino com dispraxia do desenvolvimento que apresenta dificuldade para jogar futebol com seus colegas pode
incluir sessões de terapia em que ele e o profissional de terapia ocupacional realmente joguem futebol, de modo
que ele possa praticar as habilidades e as tarefas necessárias para o sucesso em um ambiente seguro e positivo,
sem  consequências  graves  decorrentes  do  fracasso  (Morrison  &  Metzger,  2001).  Além  disso,  com  base  na
avaliação  dos  interesses  de  atividade  e  opções  de  atividade  desse  menino,  o  profissional  pode  abordar  o
desequilíbrio entre seu interesse e a escolha do futebol e sua competência limitada neste ao engajá­lo em outras
atividades esportivas que possam proporcionar maior compatibilidade. Aqui, o profissional utiliza a abordagem
de  tratamento  prevenir  para  mitigar  os  efeitos  dos  sentimentos  de  incompetência  do  menino  no  futebol,
aumentando assim seu desempenho nas atividades esportivas e reduzindo seu risco de participação restrita em
atividades de brincadeira e lazer.
Quando  os  clientes  relatam  problemas  com  sua  experiência  de  brincadeira  e  lazer,  os  profissionais  podem
idealizar  e  adaptar  as  atividades  de  brincadeira  e  lazer  e  os  ambientes  em  que  elas  ocorrem  (Bundy  2001a;
Morrison & Metzger, 2001) para facilitar a experiência de seus clientes de diversão, afeto positivo, significado
pessoal e satisfação geral com suas experiências de lazer e brincadeira. Por exemplo, uma mulher idosa relatou
que  a  experiência  de  lazer  que  ela  havia  obtido  anteriormente  ao  cozinhar  não  era  mais  satisfatória  e
pessoalmente  significativa  por  causa  de  seus  comprometimentos  físicos  causados  por  um  acidente  vascular
cerebral (Bundy, 2001a). Utilizando a abordagem de tratamento modificar, o profissional adaptou a atividade de
lazer cozinhar para facilitar o desempenho da cliente de modo que aumentasse sua experiência de lazer durante o
ato  de  cozinhar.  De  maneira  específica,  o  profissional  demonstrou  e  ensinou  à  cliente  os  procedimentos
adaptados  que  ela  poderia  utilizar  para  compensar  a  fraqueza  leve  e  o  tônus  muscular  anormal  em  seu  braço
afetado, como deslizar as panelas para cima e para longe do balcão em vez de levantá­las e carregá­las. Em vez
de focar o tratamento em suas estruturas e funções orgânicas e nas habilidades de desempenho no contexto da
remodelação do controle motor, o profissional utilizou a atividade de lazer da cliente como meio para capacitá­la
a recuperar a experiência do lazer.

CRAIG E THOMAS

O terapeuta ocupacional utiliza a brincadeira como meio na forma de um jogo com regras em uma sessão de
tratamento  com  Craig  e  Thomas  (Fig. 52.3).  Os  fatores  do  cliente  (p.  ex.,  orientação,  atenção,  motivação  e
força muscular) e as habilidades motoras, processuais e de comunicação/interação (p. ex., estabiliza, alinha,
coordena,  calibra,  segura,  frequenta,  manuseia,  observa,  olha,  orienta,  compartilha,  sustenta,  focaliza  e
responde)  são  todas  abordadas  por  meio  de  seu  engajamento  neste  jogo.  Além  disso,  o  desempenho  dos
meninos  na  área  de  ocupação  da  brincadeira  é  aumentado  pela  oportunidade  de  brincar  neste  jogo  em  um
ambiente seguro e por sua experiência positiva e agradável.

Fig. 52.3 A brincadeira como meio é utilizada para abordar os fatores do cliente e as habilidades de desempenho destes
meninos e para aumentar seu desempenho na área da ocupação da brincadeira.

Brincadeira e Lazer como um Fim
Brincadeira e lazer como um fim refere­se à participação dos clientes na brincadeira e no lazer como a meta ou
o resultado do tratamento (Gray, 1998; Trombly, 1995). O tratamento tem foco em sua capacidade de se engajar
em  ocupações  de  brincadeira  e  lazer  que  são  comumente  esperadas  e  que  estão  disponíveis  para  pessoas  de
mesmas idade e cultura nos ambientes domésticos, escolares, profissionais e comunitários (Boxe 52.2)  (Coster,
1998; Primeau & Ferguson, 1999). Os profissionais que abordam a brincadeira e o lazer dos clientes como fim
promovem  a  participação  dos  clientes  na  brincadeira  e  no  lazer  para  seu  bem­estar,  não  como  um  meio  para
alguma outra finalidade (Blanche, 1997; Bundy, 1993; Parham & Primeau, 1997).
KIDS’ CLUB

Um terapeuta ocupacional na prática privada oferece um programa na manhã de sábado chamado Kids’ Club,
um  tratamento  em  grupo  para  crianças  com  transtornos  de  desenvolvimento  que  tem  foco  na  brincadeira
como  fim,  isto  é,  o  engajamento  das  crianças  na  brincadeira  e  na  participação  social  como  o  resultado  do
tratamento.  Ele  utiliza  a  brincadeira  como  meio,  na  forma  de  jogos  com  regras,  para  abordar  os  fatores  do
cliente,  as  habilidades  de  desempenho,  o  desempenho  na  área  de  ocupação  da  brincadeira  e  a  brincadeira
como  fim.  O  poder  do  uso  da  ocupação  da  brincadeira  como  meio  para  facilitar  a  brincadeira  como  fim  é
demonstrado pelas histórias de duas crianças contadas por suas mães.
Fredrick,  um  menino  de  6  anos  de  idade  que  foi  adotado  em  um  país  do  Leste  Europeu,  não  fala  e
demonstra  atraso  físico  e  social.  Ele  tem  vindo  ao  Kids’  Club  há  algumas  semanas.  Sua  mãe  ligou  para  o
terapeuta  uma  noite  durante  a  semana  para  lhe  dizer  que  estava  muito  excitada  com  o  comportamento  de
Fredrick naquela noite na sala de espera, fora da sala de karatê de sua irmã. Ela disse que, pela primeira vez
na vida, Fredrick havia se aproximado de um colega (que também estava esperando por um irmão) e pegou
sua  mão  para  levá­lo  até  a  área  onde  Fredrick  havia  brincado.  Sua  mãe  estava  muito  feliz  ao  ver  Fredrick
iniciar  a  brincadeira  com  um  colega  neste  ambiente  cotidiano,  o  que  ela  atribuía  diretamente  à  sua
participação no Kids’ Club.
Daryll, um menino de 6 anos de idade diagnosticado com transtorno pervasivo do desenvolvimento (SOE),
vinha frequentando o Kids’ Club por aproximadamente seis meses quando sua mãe disse ao terapeuta que ela
e o marido levantaram naquela manhã de sábado para descobrir que Daryll estava fora da cama e totalmente
vestido. Ele também já havia tomado seu café da manhã de cereal e leite frio. Ele estava pronto para sair para
o  Kids’  Club  e  estava  esperando  que  eles  acordassem  para  levá­lo.  Ela  disse  que  ele  nunca  antes  havia
demonstrado este tipo de motivação para ir a algum lugar. Logicamente, a experiência de Daryll no Kids’ Club
era mais do que um meio para um fim. Seu comportamento sugeriu que ele gostava de sua participação no
Kids’ Club como um fim e para seu próprio bem.

Embora a terapia ocupacional defenda a valorização da brincadeira e do lazer como um fim, a literatura não
sustenta  esta  alegação.  Os  profissionais  que  abordam  a  brincadeira  e  o  lazer  como  um  fim  são  raros  (Pierce,
1997),  conforme  indicado  por  um  estudo  que  mostrou  que  apenas  2%  de  205  terapeutas  ocupacionais
concentravam­se  na  participação  de  crianças  pré­escolares  na  brincadeira  como  um  resultado  de  tratamento
(Couch  et  al.,  1998).  De  modo  adicional,  uma  pesquisa  em  dois  importantes  periódicos  norte­americanos  de
terapia ocupacional, nos anos 1980 e 1990, identificou menos de oito artigos relacionados ao lazer (Suto, 1998).
Uma  pesquisa  similar  nesses  periódicos  nos  últimos  oito  anos  (1999­2006)  não  revelou  artigos  novos
relacionados ao uso do lazer na terapia ocupacional. A literatura além da terapia ocupacional, retrocedendo até
os anos 1970, demonstra uma forte correlação entre a satisfação no lazer e a satisfação na vida em geral (Parker,
Gladman  &  Drummond,  1997).  Ainda  que  as  questões  de  causalidade  nesses  estudos  sejam  inconclusivas
(Headey,  Veenhoven  &  Wearing,  1991),  elas  indicam  que  a  participação  no  lazer  pode  ter  repercussões
significativas sobre a satisfação geral com a vida e sobre a qualidade de vida (Brown & Frankel, 1993; Lloyd,
1996; Marans & Mohai, 1991), levando alguns autores a sugerir que a participação na brincadeira e no lazer tem
um papel direto na prevenção, na promoção da saúde e nas iniciativas de saúde da população (Caldwell & Smith,
1988; Coleman & Iso­Ahola, 1993). Os profissionais promovem o lazer e a brincadeira dos clientes como um
fim  com  o  uso  dos  seguintes  tipos  de  tratamento  de  terapia  ocupacional:  o  uso  terapêutico  de  ocupações  e
atividades, o processo de educação e o processo de consultoria (AOTA, 2002).

Uso Terapêutico de Ocupações e Atividades
O uso terapêutico das ocupações e atividades (brincadeira e lazer como meio) pode ser empregado para facilitar
a brincadeira e o lazer como fins para os clientes. Conforme descrito anteriormente, estes são meios para abordar
os comprometimentos e as limitações dos clientes em estruturas e funções orgânicas, habilidades de desempenho
e  desempenho  nas  áreas  de  ocupação  da  brincadeira  e  do  lazer.  Um  questionário  indicou  que  35%  de  77
terapeutas ocupacionais relataram utilizar a atividade de lazer como meio no tratamento para promover a futura
participação  de  seus  clientes  no  lazer  como  fim  (Turner  et  al.,  2000).  O  desempenho  em  outras  áreas  de
ocupação  também  são  meios  para  estimular  a  brincadeira  e  o  lazer  como  fins.  Por  exemplo,  os  profissionais
podem  engajar  seus  clientes  em  atividades  da  vida  diária,  como  vestir­se  ou  usar  o  vaso  sanitário,  ou  em
atividades instrumentais da vida diária, como dirigir ou controlar as finanças, para melhorar suas capacidades de
participação  na  brincadeira  e  no  lazer  nos  ambientes  domésticos,  escolares,  profissionais  e  comunitários.  De
fato, a capacidade dos idosos de viver vidas ativas e saudáveis, incluindo a participação na área de ocupação do
lazer,  pode  ser  afetada  negativamente  por  limitações  em  sua  mobilidade  na  comunidade  (Iwarsson,  Stahl  &
Carlsson, 2003). Os profissionais da terapia ocupacional que trabalham com seus clientes idosos para facilitar
sua  mobilidade  na  comunidade  também  podem  aumentar  sua  capacidade  de  participar  no  lazer  em  ambientes
comunitários.

Processo de Educação
O processo da educação é um tipo de tratamento de terapia ocupacional (AOTA, 2002) utilizado com clientes,
membros  da  família,  amigos,  professores,  colaboradores  ou  outras  pessoas  significativas  para  os  clientes.  Os
profissionais utilizam diferentes estratégias para promover a aquisição da habilidade e estruturar a situação de
ensino­aprendizado (Poole, 1995). Eles ensinam a seus clientes as habilidades necessárias para a participação na
brincadeira e no lazer, como o modo de arremessar e pegar uma bola ou o modo de acessar as oportunidades de
lazer na comunidade. Eles ensinam a outras pessoas (pais, outros membros da família, professores e colegas) o
modo  de  facilitar  a  participação  dos  clientes  na  brincadeira  e  no  lazer  ao  modelar  as  interações  divertidas
(CAOT,  1996).  Os  profissionais  também  ensinam  aos  clientes  e  a  outros  como  utilizar  o  equipamento  de
adaptação  na  brincadeira  e  no  lazer,  como  jogos  de  computador,  brinquedos  com  botões  e  equipamentos
esportivos adaptados (Deitz & Swinth, 1997). Os programas de educação de lazer orientam os clientes sobre o
lazer, seus benefícios potenciais, os recursos pessoais e comunitários para o lazer e suas barreiras, além de como
acessá­las ou superá­las (Bundy, 2001a). Esses programas exemplificam a abordagem de tratamento da terapia
ocupacional de manter por meio da sustentação da participação continuada no lazer pelos clientes em ambientes
comunitários.

Processo de Consultoria
O  processo  de  consultoria  é  um  tipo  de  tratamento  de  terapia  ocupacional  (AOTA,  2002)  pelo  qual  os
profissionais  colaboram  com  os  clientes  e  com  os  outros  nos  ambientes  de  suas  casas,  escolas,  trabalho  e
comunidade, para identificar as questões que afetam o sucesso de sua participação na brincadeira e no lazer e,
em  seguida,  planejar  as  soluções  que  abordem  tais  questões  (Barris,  Kielhofner  &  Watts,  1988).  O  foco  recai
sobre  a  participação  dos  clientes  na  brincadeira  e  no  lazer,  fora  da  terapia,  no  contexto  de  suas  vidas  diárias
(Kielhofner, 1997). O aconselhamento sobre o lazer é um modo específico de consultoria que ajuda os clientes a
identificarem e esclarecerem valores, interesses e atitudes de lazer; determinarem suas capacidades e habilidades
para  a  participação  no  lazer;  melhorarem  ou  refinarem  suas  habilidades,  quando  necessário;  e  localizarem  e
acessarem os recursos da comunidade para o lazer (Barris et al., 1988; Caldwell & Smith, 1988).
Os profissionais também utilizam o processo de consultoria para abordar os aspectos contextuais que facilitam
ou  dificultam  o  sucesso  da  participação  dos  clientes  na  brincadeira  e  no  lazer  nos  ambientes  domésticos,
escolares,  profissionais  e  comunitários.  Como  consultores  e  defensores  da  mudança  (Law,  Stewart  &  Strong,
1995), os profissionais aconselham, coordenam, orientam e colaboram com os clientes e outros para a remoção
das  barreiras  e  a  modelagem  dos  ambientes  de  suporte  que  facilitem  o  acesso  e  a  inclusão  dos  clientes  nas
oportunidades  de  brincadeira  e  lazer  (CAOT,  1996;  Rigby  &  Huggins,  2003).  Por  exemplo,  utilizando  a
abordagem  de  tratamento  criar/promover,  os  profissionais  defendem  a  criação  de  pátios  de  brincadeira
comunitários acessíveis e colaboram com pais, professores e outros adultos para facilitar a inclusão das crianças
na  brincadeira  com  colegas  e  garantir  o  tempo  de  brincadeira  protegida  (Blanche,  1997).  Além  disso,  os
profissionais  utilizam  a  abordagem  de  tratamento  prevenir  para  alertar  os  empregadores  sobre  a  exigência  do
Americans  with  Disabilities  Act  de  1990  para  incluir  os  clientes  com  incapacidades  em  todas  as  atividades
relacionadas  ao  emprego,  incluindo  as  festas  de  feriados,  eventos  esportivos  e  viagens  de  negócio  (Fig.  52.4)
(Crist & Stoffel, 1992).

Resumo do Tratamento por Brincadeira e Lazer
A brincadeira e o lazer no tratamento podem ser atrativos ou recompensas, meios ou fins. Como atrativos, eles
motivam os clientes a se engajarem em atividades terapêuticas; como recompensas, eles reforçam a participação
deles  no  tratamento.  Eles  são  meios  terapêuticos  para  atingir  as  metas  de  tratamento  relacionadas  aos
comprometimentos e às limitações dos clientes em estruturas e funções orgânicas, habilidades de desempenho e
desempenho na brincadeira e no lazer. A brincadeira e o lazer como fins consistem nas metas ou resultados de
tratamento  quando  os  profissionais  promovem  a  participação  na  brincadeira  e  no  lazer  dos  clientes  como
benefício, não como meio para algum outro objetivo. O uso terapêutico das ocupações e atividades, o processo
de educação e o processo de consultoria constituem tipos de tratamento da terapia ocupacional que facilitam a
brincadeira e o lazer dos clientes como fins. Os profissionais escolhem entre essas finalidades da brincadeira e
do  lazer  como  atrativos  ou  recompensas,  meios  ou  fins  de  modo  a  construir  tratamentos  que  conduzam  a
resultados  diretamente  relacionados  à  participação  e  ao  engajamento  ocupacional  dos  clientes  nos  ambientes
domiciliar, escolar, profissional e comunitário.

DILEMAS DA PRÁTICA

PROGRAMA DE ACONSELHAMENTO DE LAZER
Você é um terapeuta ocupacional que trabalha em uma unidade de saúde mental para adultos com transtornos
psiquiátricos.  Você  é  solicitado  a  desenvolver  um  programa  de  aconselhamento  de  lazer,  focando­se  na
exploração  do  lazer  e  na  participação  no  lazer  (AOTA,  2002)  para  um  grupo  de  adultos  com  os  seguintes
diagnósticos:

Uma mulher de 23 anos com transtorno por estresse pós­traumático
Um homem de 35 anos com transtorno relacionado ao álcool
Uma mulher de 28 anos com depressão maior
Uma mulher de 19 anos com anorexia nervosa
Um homem de 30 anos com transtorno do pânico

Desenvolva um plano de sessão de tratamento para este grupo. Descreva as atividades que você utilizaria e
como você as apresentaria para o grupo.

ESTUDO DE CASO: Juntando Tudo: Avaliação e Construção do Tratamento para a
Participação de uma Criança na Brincadeira

Alvin é um menino de 4 anos e 6 meses com diagnóstico de autismo. Ele tem um irmão gêmeo que não tem
autismo.  Durante  a  avaliação  da  terapia  ocupacional,  o  terapeuta  ocupacional  pergunta  aos  pais  de  Alvin
sobre seus comportamentos na brincadeira. Eles relatam que ele praticamente ignora as outras crianças e
raramente  se  engaja  na  brincadeira  com  elas.  Ele  prefere  brincar  sozinho,  escolhendo  brinquedos  como
jogos de computador ou miniaturas de animais. Quando ele está próximo de outras crianças, é provável que
ele interaja com aquelas que sejam mais jovens do que ele e fique mais confortável interagindo com outros
em  situações  de  brincadeira  estruturada,  como  nas  atividades  pré­escolares,  e  em  atividades  ao  ar  livre,
como pega­pega, esconde­esconde e saltar na cama elástica no jardim. Eles também relatam que Alvin não
tem qualquer amigo fora das situações de brincadeira estruturada que acontecem em sua pré­escola ou que
foram montadas para ele em casa. Embora eles digam que ele demonstra alegria, ele raramente se engaja
nos comportamentos de brincadeira que eles observam nas interações do irmão gêmeo com seus colegas.
Eles relatam que Alvin é incapaz de fazer ou manter amigos, embora isso seja o que eles desejam para ele:
ter amigos fora das atividades estruturadas em que eles o envolvem.

Questões e Exercícios
1. O que você sabe sobre as características de participação na brincadeira de Alvin, seus contextos de
brincadeira e suas experiências e atividades de brincadeira? Organize essas informações de acordo
com os parâmetros para a avaliação da brincadeira e do lazer fornecida neste capítulo.
2. O  que  você  precisa  saber  para  desenvolver  e  aplicar  um  programa  de  tratamento  para  abordar  o
desempenho  de  Alvin  na  brincadeira  e  como  você  obterá  esta  informação?  Consulte  a  Tabela 52.1
para as avaliações específicas que você poderia utilizar.
3. Como  você  utilizaria  a  brincadeira  em  seu  tratamento  para  Alvin  e  quais  tipos  de  tratamento  você
utilizaria?
Fig. 52.4 A brincadeira e o lazer no trabalho, como a participação em festas e eventos especiais, é um aspecto
significativo da participação dos adultos na brincadeira e no lazer.

AGRADECIMENTO
Agradeço a Janice M. Ferguson, MS, OT(C), por suas contribuições para nosso conceito anterior de ocupação
como fim, que é a base para esta discussão da brincadeira e do lazer como fim.

QUESTÃO INSTIGANTE
1. Os  profissionais  da  terapia  ocupacional  trabalham  em  diferentes  ambientes  de  prática  com  diferentes
sistemas de pagamento para os serviços de terapia ocupacional. Como os profissionais podem abordar os
problemas  de  seus  clientes  na  participação  na  brincadeira  e  no  lazer  dentro  dos  parâmetros  de  custeio  de
cada  ambiente?  Descreva  como  isso  poderia  acontecer  para  os  seguintes  ambientes  e  sistemas  de
pagamento:
a. Instituição de enfermagem especializada custeada pelo Medicare
b. Centro comunitário privado para crianças e financiado por planos individuais de seguro de saúde
c. Programa de cuidado­dia para adultos custeado por empresas com fins lucrativos
d. Residências comunitárias para adultos com incapacidades do desenvolvimento

REFERÊNCIAS
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Visão Geral dos Fatores Pessoais que Afetam o Desempenho
BARBARA A. BOYT SCHELL,
ELLEN S. COHN E
ELIZABETH BLESEDELL CREPEAU

Sumário
Introdução
O Todo é Maior que a Soma das Partes
Raciocínio Sobre os Fatores Pessoais: Terapia Ocupacional como uma Ponte
Complexidade: Um Recurso e um Desafio
Interligando Conhecimento e Teorias
Fatores Pessoais Comumente Considerados
Conclusão

Objetivos de Aprendizagem
Após a leitura deste capítulo, você será capaz de:
1. Discutir como os fatores pessoais estão relacionados com as ocupações.
2. Discutir como o conhecimento e as teorias sobre os fatores pessoais são utilizados na avaliação e no tratamento em terapia ocupacional.
3. Identificar exemplos de funções e estruturas corporais que são consideradas no processo de terapia ocupacional.

INTRODUÇÃO
Nesta unidade, os capítulos discutem os diferentes fatores pessoais que afetam o desempenho ocupacional. O termo fatores pessoais é um termo abrangente utilizado
aqui para englobar diversos aspectos da condição humana. Em parte, os fatores pessoais incluem nossas estruturas corporais, que são as partes anatômicas de nossos
corpos, como os ossos e órgãos (World Health Organization, 2001). Em parte, os fatores pessoais incluem nossas funções corporais, que são os processos fisiológicos
do corpo (WHO, 2001). Os capítulos nesta unidade abordam as funções e estruturas corporais e como esses dois conjuntos de fatores pessoais nos influenciam à medida
que nos engajamos nas ocupações. Nossas estruturas e funções corporais desempenham um importante papel na maneira como conduzimos nossas vidas diárias. Isso se
torna evidente quando nossos corpos e as habilidades associadas são diferentes daqueles de nossos pares, são comprometidos ou são diferentes do que esperamos. É
importante compreender as funções e as estruturas corporais para poder utilizar a ocupação como terapia.
Nós também utilizamos o termo fatores pessoais para nos referirmos às características do contexto social e cultural que cada indivíduo absorve em sua identidade
como  pessoa.  Uma  vez  que  muitos  dos  capítulos  da  Unidade  I  abordaram  como  os  contextos  social  e  cultural  afetam  as  pessoas,  esses  fatores  serão  resumidamente
apresentados aqui como um lembrete antes de discutirmos as funções e as estruturas corporais.

O TODO É MAIOR QUE A SOMA DAS PARTES
Os fatores pessoais não operam isoladamente. Raramente as pessoas levam seus braços e pernas a qualquer lugar sem que seu cérebro, olhos e ouvidos também sigam
junto! Qualquer um que tentou se movimentar no escuro em um espaço não familiar (como o banheiro escuro de um quarto de hotel no meio da noite) pode atestar a
importância da visão para o movimento. Todos os fatores corporais trabalham de maneira sinérgica, e por isso é difícil elaborar uma lista definitiva de fatores para uso
dos  profissionais.  É  isso  o  que  acontece  neste  capítulo,  e  as  listas  selecionadas  de  fatores  e  descrições  são  apresentadas  para  fazer  você  pensar.  As  classificações
apresentadas aqui não são – nem podem ser – uma lista completa de todos os fatores que afetam o comportamento humano. Na melhor das hipóteses, elas são sugestões
sobre os fatores a serem considerados na análise do desempenho ocupacional.
Os  profissionais  podem  considerar  todos  esses  fatores  do  ponto  de  vista  objetivo  ou  como  subjetivamente  experimentados  pelo  cliente.  Quando  consideram
objetivamente os fatores pessoais, os profissionais devem observar ou avaliar as funções e as estruturas corporais de maneira que outros observadores possam repetir. (A
Unidade  IX  aborda  a  importância  do  uso  de  medidas  confiáveis  e  válidas.)  Embora  as  abordagens  objetivas  sejam  inegavelmente  úteis  para  informar  o  raciocínio
profissional, a experiência subjetiva do paciente também é importante. Os profissionais experientes consideram ambos. O Boxe 53.1 oferece alguns exemplos de relatos
objetivos e subjetivos relacionados com as funções e as estruturas corporais.
Nosso  trabalho  como  terapeutas  ocupacionais  é  duplo.  Primeiramente,  nós  devemos  compreender  como  as  estruturas  e  funções  corporais  dão  suporte  aos  seres
humanos  quando  eles  se  engajam  em  ocupações  e,  simultaneamente,  como  o  engajamento  ocupacional  pode  ser  prejudicado  em  consequência  de  incapacidades.  Em
segundo  lugar,  nós  devemos  ir  além  do  rótulo  genérico  e  da  compreensão  das  condições  diagnósticas  até  a  compreensão  mais  profunda  e  mais  pessoal  de  como  os
pacientes se sentem em situações específicas. Como uma conhecida comentou certa vez com a primeira autora, ao descrever sua experiência com terapia ocupacional: “A
terapia ocupacional é como uma profissão de intimidade. Minha TO realmente compreende como tudo isto me afeta.”

RELATOS OBJETIVOS E SUBJETIVOS DAS FUNÇÕES E ESTRUTURAS CORPORAIS

“Eu Não Tinha Ideia”
Em um estudo que buscava compreender a experiência subjetiva de reaquisição das habilidades de autocuidado após acidente vascular cerebral ou lesão da medula
espinhal,  Guidetti,  Asaba  e  Tham  (2007)  relataram  vários  exemplos  de  como  os  participantes  do  estudo  se  sentiam  ao  tentar  realizar  tarefas  familiares  como
portadores de diferentes comprometimentos. Por exemplo, uma participante que estava se recuperando de um acidente vascular cerebral parecia apresentar o que
objetivamente  poderia  ser  registrado  como  perda  sensorial,  juntamente  com  negligência  do  membro  superior  afetado  (como  comprometimento  da  percepção).  Ela
descreveu  sua  experiência  dessa  maneira:  “Eu  não  tinha  ideia  de  onde  ela  estava  [sua  mão],  ela  estava  nas  minhas  costas  e,  desse  modo,  na  primeira  noite,  ela
poderia ser a mão de qualquer pessoa” (Guidetti et al., 2007, p. 3).
“Quando Você Está Sentada ali Sozinha, Você Está apenas Comendo”
Em um estudo que examinou a socialização de pessoas com doença mental, Davidson e colegas (2004) declararam que as pessoas com doença mental crônica ficam
sozinhas e isoladas não por escolha própria (ou comprometimentos objetivos), mas devido à falta de oportunidade e de incentivo. Quando vistas unicamente sob a
perspectiva  objetiva,  as  pessoas  com  doença  mental  crônica  foram  descritas  como  portadoras  de  comprometimento  de  vontade,  autopercepção,  ou  enfrentamento
(comprometimentos  afetivos  e  cognitivos)  e  parecem  não  desejar  conexão  humana,  preferindo  permanecer  a  sós.  Em  um  estudo  controlado  randomizado  de
tratamento com suporte de socialização, Davidson e colegas verificaram que as pessoas com doença mental desejam amizade. Uma participante do estudo comentou
que comer com sua amiga era melhor do que comer sozinha no Burger King: “Quando estou sozinha, eu me sento à mesa e como um hambúrguer. Mas quando eu
faço isso com mais alguém, e me sento ali à mesa e como o hambúrguer, ela dirá ‘O seu hambúrguer está bom?’ Assim, o hambúrguer é percebido e então sua mente
começa a pensar sobre o sabor. Mas quando você está sentada sozinha, você está apenas comendo” (Davidson et al., 2001, p. 380).
A descrição dessa mulher de comer com uma amiga ilustra a importância de considerar a experiência subjetiva dos pacientes. Sem a consideração da experiência
subjetiva, o tratamento correria o risco de negar o que é significativo para essa mulher.

RACIOCÍNIO SOBRE OS FATORES PESSOAIS: TERAPIA OCUPACIONAL COMO UMA PONTE
Os  terapeutas  ocupacionais  gostam  de  dizer  que  eles  tratam  a  “pessoa  como  um  todo”.  Enquanto  outras  profissões  (como  a  enfermagem)  fazem  legitimamente  uma
alegação semelhante, a terapia ocupacional é única com seu foco sobre as ocupações diárias como produtos sinérgicos de fatores pessoais do indivíduo e fatores externos
à pessoa em um contexto maior.
Outra maneira de pensarmos sobre a terapia ocupacional e como nós consideramos os fatores sob discussão consiste na comparação da terapia ocupacional com outras
profissões.  Pensar  na  terapia  ocupacional  como  uma  ponte  entre  o  mundo  médico  e  o  mundo  da  vida.  No  mundo  médico,  existem  muitas  profissões  que  enfocam
conjuntos  particulares  de  estruturas  e  funções  corporais.  O  campo  da  medicina  tem  exemplos  evidentes,  com  especialidades  em  dermatologia,  endocrinologia,
ginecologia  e  assim  por  diante.  Mas  outras  profissões  também  podem  servir  de  exemplos;  assim,  como  os  oftalmologistas  concentram­se  no  sistema  visual,  os
fisioterapeutas concentram­se nos sistemas neuromuscular e musculoesquelético, os nutricionistas concentram­se no sistema digestório e os fonoaudiólogos concentram­
se,  principalmente,  nos  sistemas  cognitivo  e  oromotor,  que  se  relacionam  com  a  comunicação.  Embora  todos  esses  profissionais  estejam  interessados  em  melhorar  a
função do indivíduo, sua contribuição é muito específica e seu conhecimento acerca de funções e estruturas corporais em sua área de atuação é, em geral, extenso. Muitas
vezes, os profissionais da saúde enfocam, primeiramente, a doença e a perda causada pelo comprometimento (Fleming, 1991) e, secundariamente, o uso de dispositivos
ou técnicas para compensação dos comprometimentos relacionados à área de atuação escolhida.
Em  contraste,  outros  profissionais  se  organizam  em  torno  de  pa  péis  ou  tarefas  importantes  da  vida.  Por  exemplo,  os  orientadores  vocacionais  e  reabilitadores
concentram­se  em  preocupações  relacionadas  ao  trabalho,  os  educadores  concentram­se  em  ajudar  as  pessoas  a  aprenderem  a  se  tornar  cidadãos  produtivos,  os
recreadores concentram­se em atividades de lazer e os assistentes sociais concentram­se na família e na vida comunitária. Esses profissionais podem abordar o impacto
dos fatores pessoais. Os educadores especiais, por exemplo, estão particularmente atentos ao impacto das capacidades e limitações cognitivas de estudantes em sala de
aula. Entretanto, em sua maioria, esses profissionais são muito diferentes daqueles das áreas médicas, uma vez que têm pouca ou nenhuma base com relação à anatomia,
à fisiologia e ao impacto específico de diferentes condições de saúde sobre o desempenho. Em vez disso, eles têm um amplo conhecimento prático acerca das habilidades
e demandas sociais necessárias em sua área de interesse. Assim, por exemplo, os profissionais com um foco no trabalho conhecem muito sobre demandas do trabalho,
exigências  dos  empregadores  e  padrões  governamentais  relacionados  ao  trabalho.  Do  mesmo  modo,  os  recreadores  conhecem  muito  sobre  os  espaços  e  os  locais  de
recreação, o valor do lazer para a vida e os tipos de equipamentos que as pessoas poderiam utilizar para alcançar seus interesses de lazer.

Complexidade: Um Recurso e um Desafio
A terapia ocupacional é única como profissão em sua preocupação em considerar todos os fatores pessoais juntamente com todos os fatores contextuais, à medida que
eles modelam o engajamento nas atividades diárias e nas rotinas da vida. É esta apreciação da natureza de negociação do desempenho ocupacional que torna a terapia
ocupacional tão individualizada e efetiva para ajudar a solucionar os problemas complexos da vida diária. Essa natureza única é um recurso fundamental. Entretanto,
para os novos profissionais, e até mesmo para alguns experientes, pode ser desafiador não se deixar absorver por um único aspecto e, portanto, deixar de enxergar o
cenário maior. É tentador porque existe muito a ser conhecido. Quando isso acontece, você percebe que o profissional se refere a ele próprio como direcionado para
apenas um aspecto em particular — por exemplo, terapia da mão, terapia cognitiva ou terapia da visão. O reconhecimento da profundidade do conhecimento acerca de
fatores pessoais é muito importante para a prática do especialista; nós defendemos que nossos clientes são mais bem atendidos quando nós consideramos esses fatores
com relação ao uso da ocupação como forma de tratamento. Exemplos desse raciocínio são fornecidos por meio das narrativas dos profissionais na Unidade XIII. Todos
esses profissionais indicam uma profunda compreensão das funções e estruturas corporais relevantes para seus pacientes, porém consideram esses fatores pessoais com
relação ao desempenho. Ademais, os terapeutas graduam o uso de suas técnicas cuidadosamente com relação ao desenvolvimento da pessoa, aos comprometimentos, ao
potencial  de  recuperação  e/ou  à  necessidade  de  abordagens  de  adaptação.  Os  profissionais  também  observam  a  maneira  pela  qual  os  contextos  social  e  cultural
influenciam  a  vida  de  seus  pacientes.  Portanto,  os  terapeutas  ocupacionais  não  se  especializam  em  partes  ou  funções  corporais,  mas  sim  em  dar  suporte  à  saúde  e  à
participação na vida por meio do engajamento em uma ocupação.

Interligando Conhecimento e Teorias
Para  os  terapeutas  ocupacionais  trabalharem  efetivamente  com  pessoas  que  apresentam  comprometimentos  ou  condições  de  desenvolvimento  que  afetam  seu
desempenho, os profissionais devem mesclar conhecimento sobre ocupação com conhecimento sobre os problemas de saúde particulares do paciente. Portanto, a citação
de William Perry na abertura desta unidade, afirmando que você “deve ter pelo menos três boas teorias” para compreender qualquer coisa, parece ter sido escrita para a
prática da terapia ocupacional. As narrativas dos terapeutas na Unidade XIII fornecem exemplos do uso de diferentes teorias para orientar a prática. Os leitores podem
buscar nesses capítulos exemplos de como integrar teorias sobre funções e estruturas corporais a um tratamento de terapia ocupacional. Por exemplo, Mary Muhlenhaupt
(Capítulo 63) primeiramente obteve informações sobre Davey, um estudante do terceiro ano (ocupação), de seus professores e pais e de suas próprias observações diretas
do  paciente  (desempenho  ocupacional)  em  várias  situações  escolares  (contextos  físico  e  social).  Com  base  em  suas  capacidades  ocupacionais  e  problemas  de
desempenho, ela suspeitou de que um problema no processamento sensorial (sistema neurológico) estava afetando seu desempenho. Winifred Schultz­Krohn (Capítulo
64) demonstra uma compreensão de como muitos fatores, tanto pessoais como contextuais, contribuem para a vida estressante de pessoas em abrigos para sem­tetos e
utiliza sua compreensão como base para a programação do grupo. Karen Garren (Capítulo 65) ajudou Dan a se recuperar de uma lesão devastadora na mão (estrutura
corporal) a fim de readquirir o uso coordenado (função musculoesquelética) de sua mão para poder voltar a exercer o cargo de carpinteiro­chefe (ocupação). Coralie
Glantz (Capítulo 66) recebeu informações do membro de uma família (contexto social) que estava preocupado com a memória da mãe (função cognitiva). Como ela
pôde verificar, a paciente tinha a doença de Alzheimer (comprometimento neurológico). O conhecimento de Coralie sobre o curso típico dessa doença ajudou­a a prever
e  a  lidar  com  os  problemas  de  desempenho  ocupacional  da  paciente.  Os  processos  de  raciocínio  profissional  que  esses  quatro  terapeutas  descreveram  demonstram  a
complexidade e a riqueza do processo de terapia ocupacional.

FATORES PESSOAIS COMUMENTE CONSIDERADOS
Nesta seção, nós fornecemos várias tabelas que os leitores podem considerar úteis para a análise de um ou mais fatores pessoais (veja Tabelas 53.1, 53.2  e  53.3).  Os
leitores provavelmente irão considerar útil a linguagem para a comunicação sobre fatores pessoais. Como discutido anteriormente, não há maneira prática de elaborar
uma lista global, de modo que não consideramos essas tabelas definitivas. As informações dessas tabelas foram retiradas, principalmente, da Classificação Internacional
de Função – CIF (WHO, 2001), da Occupational Therapy Practice Framework (da Associação Americana de Terapia Ocupacional, no prelo) e de algumas áreas que são
abordadas  nesta  unidade,  bem  como  em  capítulos  da  Unidade  I.  Os  fatores  listados  nas  tabelas  servem  de  ponto  de  partida.  A  prática  da  terapia  ocupacional,  por
natureza, exige a pesquisa contínua para aquisição do conhecimento necessário para responder aos desafios da prática.
TABELA 53.1 EXEMPLOS DE FATORES PESSOAIS (EXCLUINDO FUNÇÕES E ESTRUTURAS CORPORAIS) QUE SÃO CONSIDERADOS EM TERAPIA
OCUPACIONAL
Fator Categorias ou Descritores Comuns
Idade Coorte histórica (p. ex., pessoas que viveram durante a Depressão e como sua experiência afeta sua visão de mundo)
Internalização das expectativas sociais com relação ao desenvolvimento e à aquisição de um marco de desenvolvimento em
determinado momento ao longo da vida
Expectativas sociais sobre comportamento relacionado com à idade
Gênero Normas sociais/culturais pessoalmente adotadas em relação ao sexo
Valores Significados associados aos espaços físicos e sociais
Importância da família
Padrões de conduta
Crenças Conhecimento de que aquilo em que se acredita é verdade
Crenças sobre causas e tratamentos com relação à doença
Lócus de controle percebido
Espiritualidade Crença sobre o significado da vida
Crenças religiosas e sagradas
Família e outras pessoas Experiências familiares internalizadas que modelam a visão de mundo
significativas Expectativas internalizadas acerca dos relacionamentos
Estado socioeconômico Condição financeira
Condição de emprego
Nível de escolaridade atingido
Etnia Crenças internas quanto a se tornar membro de grupos de descendência comum; podem incluir raça, cultura, linguagem, religião e
política
Orientação sexual Sexualidade dos indivíduos, geralmente relacionada ao gênero da pessoa que o indivíduo considera sexualmente atraente

TABELA 53.2 EXEMPLOS DE ESTRUTURAS CORPORAIS CONSIDERADAS EM TERAPIA OCUPACIONAL
Estrutura Categorias ou Descritores Comuns Abordados no Processo de TO
Sistema nervoso Central (encéfalo, medula espinal)
Periférico
Autônomo (simpático, parassimpático)
Olho, ouvido, nariz, garganta Olho (retina, córnea, cristalino)
Orelha (interna, média, externa)
Boca (lábios, bochecha, língua, dentes)
Nariz
Faringe, esôfago
Laringe
Cardiovascular, imunológica, respiratória Coração
Veias
Artérias
Pulmões
Traqueia
Brônquios
Sistema linfático
Digestória, metabólica, endócrina Esôfago
Estômago
Intestino
Glândulas diversas
Geniturinária, reprodutora Bexiga, ureteres, uretra
Estruturas reprodutoras, incluindo gônadas
Estruturas relacionadas ao movimento Ossos
Articulações
Músculos
Tendões
Ligamentos
Fáscias
Pele e estruturas correlatas Camadas da pele
Glândulas da pele
Cabelo
Órgãos do sentido na pele
Fonte: AOTA (no prelo), WHO (2001), Sloan, E. (1994).
TABELA 53.3 EXEMPLOS DE FUNÇÕES CORPORAIS ABORDADAS POR TERAPEUTAS OCUPACIONAIS
Categoria da CIF Exemplos
Mental (afetiva, cognitiva, perceptiva) Consciência Nível de alerta
Orientação Pessoa
Lugar
Tempo
“Eu”
Outros
Passado
Presente
Excitação e inibição Equilíbrio entre
Controle centrífugo Supressão
Divergência
Convergência
Atenção Alerta
Seletividade
Sustentabilidade
Desvio
Acompanhamento
Memória De curto prazo
De longo prazo
De trabalho
Percepção Discriminação
Memória sensorial
Relações espaciais
Relações temporais
Constância
Figura­fundo
Fechamento
Processamento sensorial Recepção
Organização
Assimilação
Integração
Pensamento Praxia (ideação e planejamento)
Função executiva/nível superior Vontade
Planejamento
Ação propositada
Autocuidado
Automonitoramento
Tomada de decisão
Solução de problemas
Emocional Enfrentamento
Regulação comportamental
Sensação e dor Paladar Qualidade
Intensidade
Olfato Qualidade
Intensidade
Tato Leve
Pressão profunda
Temperatura Quente
Frio
Dor Aguda
Em pontada
Latejante
Queimação
Propriocepção Rápida
Sustentada
Vestibular Linear
Angular
Visual Acuidade
Intensidade
Contraste
Auditiva Acuidade
Intensidade
Contraste
Ritmo
Neuromuscular e movimento Mobilidade articular Amplitude do movimento passivo
Amplitude do movimento ativo
Força muscular Pinça
Garra
Força
Tônus muscular Qualidade
Controle motor voluntário Coordenação (destreza, motora grosseira, integração bilateral)
Execução motora (mobilidade)
Controle motor involuntário Reflexo
Movimento inconsciente
Postura Alinhamento
Orientação
Estabilidade
Controle
Equilíbrio
Adaptação
Tempo de reação
Cardiovascular, imunológica, respiratória Frequência cardíaca
Pressão arterial Tensão
Respiração Frequência
Ritmo
Profundidade

Fonte: Baseada na AOTA (in press), Dunn (2000), WHO (2001), capítulos neste texto (J. Poole, Cap. 54; C. Guiffrida & M. Rice, Cap. 55; B. White, Cap. 56; J. Toglia, K.
Golisz & Y. Goverover, Cap. 57; W. Dunn, Cap. 58; S. Smith Roley & E. Jacobs, Cap. 59).
Indícios de fatores pessoais que poderiam afetar o desempenho são obtidos de pelo menos três fontes:
Motivo  para  referenciar  o  encaminhamento.  A  informação  de  encaminhamento  pode  conter  um  diagnóstico  médico,  psicológico  ou  educacional  e,  algumas
vezes,  precauções  a  serem  consideradas  durante  o  tratamento.  Mesmo  quando  as  precauções,  os  sintomas  ou  outros  descritores  não  estiverem  incluídos,  o
conhecimento  acerca  das  estruturas  e  funções  corporais  típicas  que  são  afetadas  pela  condição  pode  orientar  os  profissionais  acerca  dos  fatores  a  serem
considerados.
Autorrelato do paciente.  Os  próprios  pacientes,  suas  famílias  e  outras  pessoas­chave  de  seus  ambientes  sociais  (p.  ex.,  professores,  empregadores,  cuidadores)
frequentemente fornecem aos profissionais informações sobre os fatores que eles acreditam estar afetando o desempenho do paciente.
Observação do paciente. Frequentemente, as observações do engajamento do paciente em ocupações capacitam os profissionais a considerar um ou mais fatores
que afetam o desempenho.

O  tratamento  habilidoso  exige  que  os  profissionais  respondam  a  esses  indícios  e,  em  seguida,  utilizem  recursos  válidos  para  obter  as  informações  objetivas
necessárias.  Estas  informações,  combinadas  com  dados  subjetivos  fornecidos  pelo  paciente,  são  então  sintetizadas  para  o  desenvolvimento  de  tratamentos  que
possibilitem o desempenho ocupacional dos pacientes.

CONCLUSÃO
Os terapeutas ocupacionais rotineiramente consideram as funções, estruturas corporais e outros fatores pessoais durante o tratamento. Integrando conhecimento e teoria
sobre esses fatores com teorias relacionadas com a ocupação e os contextos ocupacionais, os profissionais fornecem uma contribuição única à sociedade e aos clientes
que eles atendem.

REFERÊNCIAS
American Occupational Therapy Association. (in press). Occupational therapy practice framework: Domain and process (2nd ed.). American Journal of Occupational
Therapy.
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Fatores Musculoesqueléticos
JANET L. POOLE

Sumário
Teorias
Avaliação
Amplitude de Movimento
Força Muscular
Destreza
Resistência
Tratamento
Talas e Órteses
Exercícios para Amplitude de Movimento e Força
Fortalecimento e Resistência
Destreza
Atividades de Vida Diária
Estudo de Caso: Marita: Uma Cliente Submetida à Artroplastia Total de Quadril
Estudo de Caso: Joy: Uma Cliente com Amputação de Membro Inferior
Estudo de Caso: Joe: Um Cliente com Lesão na Mão
Estudo de Caso: Lee Ann: Uma Cliente com Artrite
Estudo de Caso: Michelle: Uma Cliente com Tendinite do Abdutor Longo do Polegar e do
Extensor Curto do Polegar (DeQuervain)
Conclusão

Objetivos de Aprendizagem
Após a leitura deste capítulo, você será capaz de:
1. Identificar avaliações para pessoas com comprometimentos musculoesqueléticos.
2. Recomendar  abordagens  de  tratamento  para  pessoas  com  comprometimentos
musculoesqueléticos.
3. Avaliar as evidências de tratamento para pessoas com comprometimentos musculoesqueléticos.

O
s  comprometimentos  musculoesqueléticos  podem  estar  presentes  em  pessoas  de  todas  as  idades  como
resultado de uma lesão ou doença, ou durante o estágio de recuperação pós­operatória (p. ex., precauções
com  o  quadril  após  substituição  total  de  quadril)  ou  imobilização  (p.  ex.,  fratura).  Esses  comprometimentos
podem incluir uma lesão ou amputação de membro ou membros superiores, amputação de membro ou membros
inferiores,  artrite,  fraturas,  cirurgia  articular  ou  distúrbios  por  movimento  repetitivo.  Os  comprometimentos
musculoesqueléticos  podem  limitar  o  desempenho  das  atividades  básicas  de  vida  diária,  produtividade  e/ou
atividades de lazer.
TEORIAS
As abordagens tradicionais para avaliação e tratamento de pessoas com problemas musculoesqueléticos incluem
protocolos biomecânicos e de reabilitação. Um protocolo biomecânico é utilizado para avaliar e tratar pessoas
com limitações da atividade por causa de comprometimentos musculoesqueléticos, como limitação da amplitude
do movimento e da força e redução da destreza e da resistência (James, 2003). O princípio mais importante desse
protocolo é que o desempenho ocupacional pode ser readquirido por meio do tratamento dos comprometimentos
subjacentes  que  limitam  o  desempenho  das  atividades  diárias  (Hagedorn,  1997;  James,  2003;  Trombly,  1995).
Portanto,  a  avaliação  deveria  se  concentrar  nos  comprometimentos  que  parecem  ser  as  causas  dos  déficits  no
desempenho  ocupacional  e  no  tratamento  que  objetiva  reduzir  esses  comprometimentos.  Por  exemplo,  se  for
observada  uma  diminuição  da  amplitude  de  movimento  no  membro  superior  e  ficar  determinado  que  esta  é  a
razão pela qual a pessoa com artrite está tendo dificuldades para tomar banho, então o tratamento incluiria vários
exercícios  de  alongamento  e  de  amplitude  de  movimento  e  exercícios  para  aumentar  a  mobilidade  articular.
Outras abordagens que utilizam um protocolo biomecânico incluem talas e órteses, exercícios de fortalecimento
e  resistência,  alongamento,  modalidades  como  uso  de  agentes  físicos  e  técnicas  de  redução  de  edema.
Entretanto, o que não está claro é se a redução de um comprometimento biomecânico corresponde à melhora no
desempenho ocupacional.
Para  pessoas  que  apresentam  comprometimento  musculoesquelético,  o  protocolo  de  reabilitação  objetiva
alcançar a função máxima no desempenho das tarefas diárias. Por meio da avaliação, os objetivos do cliente são
identificados  e  o  tratamento  se  concentra  em  métodos  de  compensação,  dispositivos  de  assistência  e
modificações ambientais (Seidel, 2003). Consequentemente, para a pessoa com artrite que apresenta dificuldades
para  tomar  banho  em  função  das  limitações  do  movimento  articular,  o  terapeuta  ocupacional  que  utiliza  um
protocolo de reabilitação poderia providenciar uma esponja de cabo longo e uma luva de banho para eliminar a
necessidade  de  segurar  uma  esponja  e  sugerir  uma  ducha  de  mão.  Um  protocolo  de  reabilitação  poderia  ser
apropriado  quando  o  comprometimento  subjacente  não  pode  ser  reduzido.  Além  disso,  a  introdução  de
potenciais  estratégias,  técnicas  e/ou  equipamentos  novos  envolve  o  processo  de  ensino­aprendizado.  O  Boxe
54.1  apresenta  estratégias  que  os  terapeutas  podem  utilizar  para  facilitar  o  aprendizado  de  novas  habilidades
(Poole, 1991, 1995).
Essas estratégias também podem ser úteis para ensinar aos clientes tratamentos biomecânicos como programas
de exercícios domiciliares. A seguir, encontram­se alguns exemplos de estratégias atualmente em uso:
Certificar­se  de  que  o  cliente  compreende  o  objetivo  e  os  aspectos  fundamentais  da  ocupação.  Por
exemplo, ao ensinar uma pessoa com artroplastia total de quadril a vestir as calças utilizando um pegador,
os aspectos fundamentais são aderir às precauções com o quadril e certificar­se de que o pegador faz boa
preensão das calças. Ao ensinar uma pessoa a utilizar uma prótese de membro superior para manuseio de
talheres, os aspectos fundamentais da ocupação consistem em procurar uma superfície plana no talher antes
de decidir como pré­posicionar  o dispositivo terminal.  Ao  ensinar  ao  cliente  as  técnicas  de  mudança  de
comportamento,  como  proteção  das  articulações,  conservação  de  energia,  precauções  totais  com  o
quadril ou mecânica corporal, certifique­se de que o cliente compreende por que esses itens são importantes
para ele.
Fornecer retroalimentação. Quando um cliente aprende pela primeira vez uma nova técnica ou o uso de
um equipamento de adaptação ou um novo programa de exercício, é preciso fornecer retroalimentação com
mais  frequência,  de  modo  que  o  aprendiz  compreenda  o  desempenho  correto.  Entretanto,  aguarde  alguns
minutos após a tarefa ter sido completada para que a pessoa possa processar sua retroalimentação interna. À
medida que o cliente se torna mais eficiente, a retroalimentação deve ser retirada de modo que ele não se
torne dependente da retroalimentação.

ESTRATÉGIAS PARA ENSINAR UMA OCUPAÇÃO COM BASE NOS PRINCÍPIOS
DO APRENDIZADO MOTOR

1. Certificar­se de que o cliente compreende a meta e os aspectos críticos da ocupação.
2. Fornecer a retroalimentação.
3. Organizar  a  prática  de  uma  ocupação,  estratégias,  técnicas  e/ou  equipamento  de  modo  que  os  clientes
retenham e generalizem a informação para outras ocupações ou novos ambientes.
4. Avaliar se o material ou as técnicas foram aprendidos corretamente.

Organizar  a  prática  de  ocupação,  estratégias,  técnicas  e/ou  uso  de  equipamentos  de  modo  que  os
clientes  retenham  a  informação  e  sejam  capazes  de  generalizar  para  outras  ocupações  ou  novos
ambientes. Por exemplo, um cliente que faz transferências cadeira de rodas­vaso sanitário­cadeira de rodas
várias  vezes  ao  dia.  Isso  é  denominado  prática  em  blocos,  na  qual  a  mesma  ocupação  é  praticada
continuamente. Outro exemplo é o do cliente que se transfere da cadeira de rodas para o vaso sanitário, o
banco de banho, a cadeira e para a cama, em sequência. Esse tipo de prática, denominada prática aleatória,
inclui  a  prática  de  variações  de  uma  ocupação.  Estudos  mostraram  que  a  prática  em  blocos  pode  ser  útil
quando  alguém  está  aprendendo  algo  novo,  mas  que  a  prática  aleatória  resulta  em  melhores  retenção  e
generalização (Hanlon, 1996; Lee & Magill, 1983; Shea & Morgan, 1979).
        Quando  estratégias  específicas  de  mudança  comportamental  são  ensinadas,  a  prática  também  é
necessária.  Algumas  vezes,  os  clientes  recebem  apenas  instruções  verbais  ou  escritas  sobre  mecânica
corporal,  proteção  das  articulações  e  conservação  de  energia,  por  exemplo.  Os  clientes  precisam  apanhar
objetos para utilizar a mecânica corporal apropriada e praticar os princípios da proteção das articulações no
mundo  real.  Hammond  e  Freeman  (2001)  mostraram  que  a  prática  supervisionada  dos  princípios  de
proteção das articulações, além da instrução verbal e visual, resulta na incorporação real desses princípios
durante  as  tarefas  diárias.  Além  disso,  os  princípios  do  aprendizado  motor  podem  ser  utilizados  para
orientar  as  famílias  e/ou  os  cuidadores  dos  clientes.  O  terapeuta  deve  orientar  as  famílias  a  praticarem  o
tratamento  que  está  sendo  ensinado,  como  transferência,  subir  um  meio­fio  com  a  cadeira  de  rodas  ou
colocar uma tala, com o terapeuta presente e fornecendo retroalimentação.
Avaliar se o material ou as técnicas foram aprendidos corretamente. O terapeuta deve pedir ao cliente, à
família e/ou ao cuidador para demonstrar o que eles aprenderam, de modo que o terapeuta possa determinar
se eles são capazes de aplicar esta nova técnica a outras situações.

O Capítulo 55 oferece mais informações acerca do controle motor e das teorias do aprendizado motor.

AVALIAÇÃO
Como  discutido  nas  Unidades  IX  e  X,  a  avaliação  em  terapia  ocupacional  é  orientada  pela  atenção  àquelas
atividades que a pessoa  deseja  ou  necessita  realizar.  Além  disso,  ao  lidar  com pessoas com comprometimento
musculoesquelético,  é  fundamental  que  o  terapeuta  ocupacional  siga  as  precauções  apropriadas.  Por  exemplo,
pessoas submetidas recentemente à artroplastia podem precisar evitar atividades de resistência ou de sustentação
de  carga  durante  certo  período.  Além  disso,  como  parte  da  avaliação,  o  terapeuta  provavelmente  necessitaria
determinar  se  e  como  os  fatores  musculoesqueléticos  inibem  o  desempenho.  Fatores  musculoesqueléticos
importantes  a  serem  considerados  incluem  mobilidade  articular,  força  muscular,  destreza  e  resistência.
Finalmente,  ao  decidir  qual  avaliação  utilizar  com  pessoas  com  distúrbios  musculoesqueléticos,  considere  a
capacidade  de  avaliação  para  detectar  mudanças  que  tenham  ocorrido.  As  medidas  de  resultado  do  nível  de
atividade ou ocupação mostraram­se mais sensíveis às alterações de curto prazo do que as avaliações do nível de
comprometimento (isto é, fator pessoal), como a amplitude de movimento e a força (Amadio, Silverstein, Ilstrup,
Schleck & Jensen, 1996).

Amplitude de Movimento
A amplitude de movimento  de  uma  articulação  é  o  arco  de  movimento  ao  longo  do  qual  uma  articulação  se
move.  O  movimento  em  uma  articulação  é  determinado  pela  estrutura  da  articulação  e  pela  integridade  da
cápsula circundante (Flinn, Trombly Latham & Podolski, 2007; Killingsworth & Pedretti, 2006a). Existem dois
tipos  de  amplitude  de  movimento:  amplitude  de  movimento  passivo  (ADMP)  e  amplitude  de  movimento
ativo (ADMA). A ADMP é o movimento disponível em uma articulação quando ela é movida por uma força
externa. A ADMP fornece informações sobre a extensibilidade da cápsula articular, dos ligamentos associados e
dos  músculos  (Norkin  &  White,  1995).  A  ADMA  é  a  amplitude  em  que  um  cliente  consegue  mover  uma
articulação utilizando sua própria força muscular; esta fornece informações adicionais sobre a força muscular e a
capacidade funcional. A amplitude de movimento é mensurada por um goniômetro. Instruções detalhadas para a
colocação  do  goniômetro  de  modo  a  mensurar  cada  articulação  e  os  valores  normais  para  a  amplitude  de
movimento  podem  ser  encontrados  em  várias  fontes  (Flinn  et  al.,  2007;  Kohlmeyer,  2003;  Norkin  &  White,
2005; Killingsworth & Pedretti, 2006a).
A  amplitude  de  movimento  é  avaliada  para  determinar  limitações  que  afetam  a  função  e  a  necessidade  de
movimento  adicional;  para  determinar  a  necessidade  de  talas,  dispositivos  de  assistência,  ou  ambos;  para
determinar  as  limitações  que  poderiam  produzir  deformidades;  e  para  documentar  o  progresso  (Kohlmeyer,
2003).  A  ADMA  pode  ser  observada  durante  atividades  da  vida  diária  ou  a  realização  de  uma  avaliação
funcional  da  amplitude  do  movimento  na  qual  um  cliente  se  move  em  várias  posições  (Killingsworth,  2006).
Todas as articulações podem ser mobilizadas ao longo de seu movimento para breve avaliação da ADMP.
Nem  todo  cliente  necessita  de  uma  avaliação  formal  do  movimento  da  articulação.  Entretanto,  certos
diagnósticos  podem  resultar  em  déficits  na  amplitude  de  movimento,  como  artrite,  fraturas,  acidente  vascular
cerebral e lesão na medula espinal, e uma avaliação formal deve ser realizada. Quando as medidas de amplitude
de movimento estão abaixo dos valores normais e interferem com o desempenho das atividades de vida diária e
de outras ocupações, o terapeuta deve determinar a causa da diminuição da amplitude. As causas podem incluir
dor, edema, fraqueza muscular, aderências cutâneas, espasticidade, bloqueio ou destruição óssea ou contraturas
de  tecidos  moles  (Kohlmeyer,  2003).  Se  a  causa  for  passível  de  modificação,  o  terapeuta  pode  ser  capaz  de
aumentar o movimento ativo ou prevenir maior perda do movimento com o uso de alongamento, fortalecimento,
órteses,  talas  ou  modalidades  de  agentes  físicos,  como  o  calor  ou  a  eletroestimulação  neuromuscular.  Se  ficar
determinado que não será possível aumentar o movimento articular, os terapeutas podem considerar técnicas de
adaptação ou equipamentos para realização das tarefas diárias (Flinn et al., 2007).

Força Muscular
A  força  muscular,  ou  a  força  para  um  músculo  resistir  ao  movimento,  é  avaliada  por  resistência  manual,
exercícios isocinéticos, dinamômetros de pinça e outros dinamômetros. A resistência pode ser fornecida pelo
terapeuta que pontua a força de um músculo com base na quantidade de resistência e se o movimento é contra ou
a favor da gravidade (Daniels & Worthington, 1986; Flinn et al., 2007; Kendall, McCreary & Provance, 1993;
Killingsworth & Pedretti, 2006b). A força da mão também pode ser avaliada utilizando­se um dinamômetro com
cabo ajustável, e a força de pinça pode ser mensurada por um dinamômetro de pinça. Geralmente, três tipos de
pinças são testados: polegar com o dedo indicador (pinça ventral), polegar com a face lateral do dedo indicador
(pinça  lateral)  e  polegar  com  as  extremidades  dos  dedos  indicador  e  médio  (pinça  tripoide).  Procedimentos
padronizados  para  o  uso  de  um  dinamômetro  comum  e  um  dinamômetro  de  pinça  e  dados  normativos  são
fornecidos  na  literatura  sobre  terapia  ocupacional  (Flinn  et  al.,  2007;  Killingsworth  &  Pedretti,  2001b;
Mathiowetz, Kashman, Volland, Weber, Dowe & Rogers, 1985).
A força muscular é avaliada para se obter o seguinte:
Facilitar  o  diagnóstico  em  alguns  distúrbios  neuromusculares  (p.  ex.,  lesão  da  medula  espinal,  lesão  dos
nervos periféricos)
Estabelecer um valor de referência e avaliar a efetividade do tratamento
Determinar se a fraqueza limita o desempenho
Determinar  a  necessidade  temporária  ou  permanente  de  medidas  compensatórias  ou  dispositivos  de
assistência
Identificar, se possível, desequilíbrios musculares que poderiam necessitar de fortalecimento
Determinar tratamento ortótico apropriado para prevenir deformidade (Kohlmeyer, 2002).

Frequentemente,  a  fraqueza  muscular  é  encontrada  em  pessoas  com  distúrbios  de  neurônios  motores
inferiores,  principalmente  doenças  musculares  primárias,  doenças  neurológicas  e  condições  que  resultam  em
fraqueza muscular por causa de desuso ou imobilização, como queimaduras, artrite e amputações (Flinn et al.,
2007; Pedretti, 2001b).

Destreza
Vários  testes  estão  disponíveis  para  avaliar  a  destreza  ou  a  coordenação  motora  fina  (Tabela 54.1).  A  maioria
desses  testes  é  cronometrada  e  inclui  manipulação  de  objetos,  preensão  e  liberação,  padrões  de  preensão  e
postura da mão. Muitos são padronizados e têm normas. Entretanto, a maioria deles não avalia a função motora
fina  que  ocorre  nas  tarefas  diárias.  O  Teste  da  Função  Manual  na  Artrite  (Arthritis  Hand  Function  Test)
(Backman,  Mackie  &  Harris,  1991)  e  o  Teste  de  Avaliação  dos  Membros  Superiores  em  Pessoas  Idosas  (Test
d’Évaluation  des  Membres  Supérieurs  des  Personnes  Agées  (TEMPA),  (Desrosiers,  Hébert,  Dutil  &  Bravo,
1993)  são  os  dois  testes  mais  recentemente  desenvolvidos  que  utilizam  tarefas  de  vida  diária,  mas  não  estão
comercialmente disponíveis e necessitam de fabricação e montagem para simular as tarefas da vida diária.

TABELA 54.1 TESTES PARA COORDENAÇÃO MOTORA FINA
Avaliação da Destreza Descrição e Características
Teste de Destreza de Avalia  a  coordenação  olho­mão  e  a  manipulação  de  pequenas  ferramentas
Crawford com Pequenos manuais
Objetos (Crawford Small Desenhado para adolescentes e adultos
Utiliza pinos, arruelas, parafusos, pinças, chave de fenda
Parts Dexterity Test)
O cliente tem tempo para desenvolver tarefas como inserir uma caneta num orifício
em uma placa metal com pinças, cobrir com uma arruela, apertar parafusos
Avaliação de Avalia componentes e habilidades de desenvolvimento da função das mãos
Desenvolvimento da Desenhada para crianças de 0 a 6 anos
Preensão de Erhardt Utiliza  uma  variedade  de  objetos  (p.  ex.,  pequena  maleta,  balde  plástico,  martelo
de  brinquedo,  chaves,  contas,  lata  de  alumínio,  bola  de  borracha,  anéis  de
(Erhardt Developmental
empilhar) para mensurar as habilidades de preensão, reflexo e manipulação
Prehension Assessment)
Teste de Destreza Fina Avalia os movimentos finos dos dedos de adultos
(Fine Dexterity Test)
Teste da Prancha de Pinos Mensura a coordenação olho­mão e a destreza dos dedos
Sulcados (Grooved Peg O  paciente  coloca  pinos  sulcados  em  uma  tábua  de  pinos  de  25  orifícios  em
Board Test) diferentes posições aleatórias
Mensura  a  velocidade  da  coordenação  olho­mão  e  a  combinação  de  cores  para
todos os grupos etários
Teste da Prancha de Pinos Mensura  os  movimentos  de  braços,  mãos  e  dedos  e  a  destreza  das  pontas  dos
de Purdue (Purdue Peg dedos
Board Test) Valores de referência para adultos e crianças entre 5 e 15 anos e 11 meses
O cliente coloca pinos em uma prancha de pinos; monta pinos, arruelas e colares
Teste de Caixas de Blocos Testa a destreza manual
(Box and Block Test) Valores  de  referência  para  crianças  entre  7  e  9  anos,  adultos  e  adultos  com
comprometimento neuromuscular
O cliente levanta um bloco de cada vez e o coloca em um compartimento fixado
Teste dos Nove Pinos no Mensura a destreza fina
Buraco para Valores de referência para adultos com mais de 20 anos
Coordenação Fina (Nine Pontuação  pelo  tempo  para  colocar  nove  pinos  de  3cm  em  uma  tábua  de  12,5  ×
12,5cm e removê­los
Hole Peg Test of Fine
Motor Coordination)
Teste da Função Manual de Avalia as capacidades funcionais
Jebsen­Taylor (Jebsen­ Subtestes  incluem  escrita,  virada  de  cartões,  levantamento  de  pequenos  objetos,
Taylor Hand Function simulação de alimentação, peças de jogo de damas empilháveis e levantamento de
objetos leves e pesados
Test)
Teste de Minnesota de Mensura a destreza
Manipulação (Minnesota Avalia  colocação,  giro,  retirada,  giro  e  colocação  com  uma  única  mão  e  giro  e
Rate of Manipulation Test) colocação de blocos redondos com duas mãos

Teste da Função Manual na Capacidades funcionais mais força de preensão e pinça
Artrite (Arthritis Hand Itens:  destreza  na  prancha  de  pinos,  modelar  argila,  dar  laço  e  amarrar  sapato,
Function Test) utilizar moedas, despejar água, levantar um pacote de latas, abrir e fechar alfinetes
de fraldas, abotoar e desabotoar botões
TEMPA Avalia as rotinas de tarefas diárias
Tarefas:  levantar  e  mover  um  pote,  abrir  o  pote  e  retirar  uma  colher  de  café,
despejar  água  de  uma  jarra,  abrir,  fechar  e  retirar  a  tampa  de  um  frasco  de
comprimidos,  escrever  e  colar  selo,  colocar  um  cachecol  ao  redor  do  pescoço,
embaralhar e dar cartas, utilizar moedas, levantar e mover pequenos objetos

Fonte: Reimpresso e adaptado de Kohlmeyer, K. (2003). Sensory and neuromuscular function. In E. B. Crepeau,
E.  S.  Cohn  &  B.  A.  B.  Schell  (Eds.),  Willard  &  Spackman’s  occupational  therapy  (10th  ed.,  pp.  365­426).
Baltimore: Lippincott Williams & Wilkins. Veja Apêndice A para autora, fonte e descrições das avaliações.

Resistência
A  resistência  é  a  capacidade  de  manter  uma  determinada  atividade  ao  longo  do  tempo.  Ela  pode  ser
comprometida por inatividade, imobilização, descondicionamentos cardiorrespiratório e muscular e diminuição
da  flexibilidade  (Kohlmeyer,  2003).  A  Tabela  54.2  fornece  um  resumo  de  valores  da  resistência
cardiorrespiratória,  capacidade  de  equivalentes  metabólicos  e  resistências  biomecânica  e  neuromuscular
(Kohlmeyer, 2003). Para os terapeutas ocupacionais, a observação da resistência ou do tempo em que os clientes
conseguem  participar  das  atividades  diárias  é  provavelmente  a  avaliação  clínica  mais  pertinente  (Kohlmeyer,
2003).

TABELA 54.2 VALORES MET PARA ALGUMAS ÁREAS DE DESEMPENHO OCUPACIONAL
MET Oxigênio Nível de Atividades de Atividades Brincadeiras e
Consumido Atividade Autocuidado Instrumentais da Atividades de
(mL/kg/min) Vida Diária e Lazer
Atividades Laborais
1,5­ 4­7 Muito Comer, tomar banho, Trabalhar em Jogar cartas,
2,0 leve, arrumar­se, deitar escrivaninha, costurar, tricotar
mínima e levantar da digitar e escrever
cama, vestir­se,
despir­se, ficar de
pé, caminhar
1km/h
2­3 7­11 Leve Tomar banho de Passar roupa, Andar 8km/h de
chuveiro com água trabalho leve com bicicleta, jogar
morna, caminhar madeira, utilizar bilhar, boliche,
2km/h cortador de grama golfe com
de empurrar carrinho
3­4 11­14 Moderado Caminhar 5km/h Limpar janelas, Andar 10km/h de
arrumar as camas, bicicleta, pescar
esfregar assoalho, em pé com
aspirar pó, serviços galochas,
de pedreiro, arremesso de
montagem de ferraduras
máquinas
4­5 14­18 Pesado Tomar banho de Esfregar o chão, Andar 13km/h de
chuveiro com água cavar com enxada, bicicleta, tênis de
quente, caminhar retirar as folhas mesa, tênis em
5,5km/h com ancinho, dupla
realizar serviços
leves de carpintaria
5­6 18­21 Pesado Caminhar 6,5km/h Cavar o jardim, retirar Andar 16km/h de
terra fofa com pá bicicleta, 6,5km/h
de canoagem,
15km/h de
patinação no gelo
ou patinação
comum
6­7 21­25 Muito Caminhar 8km/h Tirar a neve com pá, Andar 17,5km/h de
pesado cortar lenha bicicleta, esqui
em declive
suave, 4km/h de
esqui com trilhas

mL/kg/min = mililitros por quilograma de peso corporal por minuto; km/h = quilômetros por hora.
Fonte: Dados de Ainsworth et al., 1998; Wilmore & Costill, 1999. Reimpresso de Kohlmeyer, K. (2003). Sensory
and  neuromuscular  function.  In  E.  B.  Crepeau,  E.  S.  Cohn  &  B.  A.  B.  Schell  (Eds.),  Willard  &  Spackman’s
occupational therapy (10th ed., p. 390). Baltimore: Lippincott Williams & Wilkins.

TRATAMENTO
Muito semelhante à avaliação, o processo de tratamento é o que mescla a atenção ao desempenho ocupacional
do  cliente  e  os  fatores  musculoesqueléticos  que  afetam  o  desempenho.  O  tempo  e  a  ordenação  desses
tratamentos  estão  relacionados  com  a  agudização  ou  cronicidade  do  comprometimento,  bem  como  com  as
prioridades do cliente.

Talas e Órteses
Talas  e  órteses  são  dispositivos  externos  aplicados  ao  corpo  para  imobilizar,  limitar  ou  dar  suporte  a  tecidos
lesionados;  alinhar  ou  corrigir  deformidades;  e  melhorar  a  função  (Anderson,  Anderson  &  Glanze,  1998;
O’Toole, 1997). Em relação às condições musculoesqueléticas, as talas e as órteses podem ser utilizadas para dar
suporte à cicatrização. Considerações anatômicas e biomecânicas básicas para adequação e fabricação das talas
são fornecidas no Boxe 54.2.
Em alguns distúrbios musculoesqueléticos, como a artrite e os traumatismos cumulativos, as talas podem ser
utilizadas para reduzir o estresse sobre as articulações, como as talas de sustentação do punho em caso de dor da
síndrome do túnel do carpo e da artrite. As talas de polegar podem estar indicadas para artrite das articulações
carpometacarpianas  ou  tendinite  de  Quervain.  As  talas  também  podem  ser  utilizadas  para  alinhar  ou  corrigir
deformidades;  por  exemplo,  talas  para  desvio  ulnar  podem  ser  utilizadas  por  clientes  com  artrite  reumatoide
(Figura 54.1).

CONSIDERAÇÕES ANATÔMICAS E BIOMECÂNICAS BÁSICAS PARA
CONSTRUÇÃO DE UMA ÓRTESE

Preservar os arcos palmares.
Utilizar as pregas da mão como marcos de referência para o desenho e a modelagem da órtese.
Manter a posição antideformidade.
Posicionar apropriadamente e apertar as tiras de modo a permitir o fluxo sanguíneo ou retorno venoso.
Dar contorno apropriado às órteses.
Evitar ou minimizar pressão sobre qualquer proeminência óssea.
Permitir o movimento além da órtese, quando possível.

Reimpresso de Emerson, S., & Shafer, A. (2003). Splinting and orthotics. In E. B. Crepeau, E. S. Cohn, & B. A. B. Schell
(Eds). Willard & Spackman’s Occupational Therapy (10th ed. p. 677). Baltimore: Lippincott Williams & Wilkins.

Exercícios para Amplitude de Movimento e Força
Embora seja agradável pensar que a realização das ocupações cotidianas mantenha o movimento das articulações
dos  membros,  geralmente,  a  amplitude  completa  não  é  alcançada  durante  as  tarefas  cotidianas.
Consequentemente,  pessoas  que  apresentam  déficits  de  movimento  articular  podem  necessitar  de  exercícios
passivos, ativos assistidos ou ativos de amplitude de movimento. Para melhorar a amplitude de movimento, as
atividades devem ser graduadas pelo posicionamento de materiais e equipamentos para demandar maior alcance.
Entretanto, a adesão aos programas de exercícios também precisa ser considerada. A autoeficácia ou a crença de
que alguém possa realizar os exercícios e a conveniência de adequar um programa de exercícios à rotina diária
de  uma  pessoa  são  fatores  importantes  a  serem  considerados  (Chen,  Neufield,  Feeley  &  Skinner,  1999).  Por
exemplo,  no  caso  de  uma  mãe  com  duas  crianças  pequenas,  poderia  ser  mais  fácil  realizar  seus  exercícios  de
ombro pela manhã, durante o banho de chuveiro, em que ela poderia “caminhar” com as pontas de seus dedos
pela parede de azulejos, para cima, até o ponto mais alto possível, antes que seus filhos acordem. Por outro lado,
uma pessoa que está aposentada pode preferir realizar seus exercícios no meio da manhã, após um tranquilo café
da  manhã.  O  suporte  da  família  e  dos  amigos  também  pode  facilitar  a  adesão.  Por  conseguinte,  os  terapeutas
devem  assegurar  que  os  clientes  e  suas  famílias  ou  seus  cuidadores  compreendem  os  exercícios  e  devem
providenciar instruções por escrito ou ilustradas. O estabelecimento de metas semanais realísticas e sua revisão
regular demostraram ser fatores importantes na adesão aos programas de exercícios (Chen et al., 1999).
Para alguns clientes, se as causas da diminuição do movimento são tecido cicatricial ou dor, o uso de agentes
físicos, como ultrassom ou calor (p. ex., banho de parafina), também pode estar indicado (veja Tabela 54.3). Os
agentes físicos devem ser utilizados como uma terapia coadjuvante, e os terapeutas são encorajados a procurar
treinamento profissional, incluindo o uso supervisionado dessas modalidades fisioterapêuticas, antes de utilizá­
las (American Occupational Therapy Association, 2003).
Uma abordagem de reabilitação consistiria em fornecer à pessoa dispositivos de assistência com cabo longo,
como pegadores, ou cabos mais largos em ferramentas para compensar os déficits de amplitude de movimento.
Inúmeros  dispositivos  de  assistência  estão  disponíveis  para  compensar  a  diminuição  da  amplitude  do
movimento,  como  talheres  de  cabos  longos,  calçadeiras,  pentes  e  escovas,  bastão  para  se  vestir,  pegadores,
bastão para calçar meias e esponjas com cabo longo. O uso desses objetos e outras estratégias são discutidos no
Capítulo 49.
Entretanto, para determinação do protocolo a ser utilizado, os terapeutas devem considerar a razão para e a
duração da limitação das articulações e os objetivos. Poderia não ser possível aumentar o movimento articular
em  uma  pessoa  portadora  de  artrite  reumatoide  de  longa  data  e  que  apresenta  destruição  articular;  para  esta
pessoa,  os  objetivos  poderiam  ser  evitar  maior  deformidade  e  limitação  funcional  e  usar  métodos
compensatórios.  De  modo  semelhante,  para  um  adolescente  que  recentemente  foi  diagnosticado  com  artrite
reumatoide, o objetivo seria prevenir as limitações e a destruição articulares. Por outro lado, para uma pessoa
submetida a cirurgia recente ou que está engessada devido a uma fratura, a diminuição no movimento articular se
deve  à  imobilização  temporária  e,  provavelmente,  é  passível  de  modificação.  Para  essa  pessoa,  a  terapia  mais
agressiva, utilizando um método fisioterapêutico (p. ex., uma bolsa de água quente), juntamente com atividades
ou exercícios, seria indicada para melhorar o movimento. Shiraishi, Fujii e Kobayashi (2002) verificaram que,
apesar  de  tratamento  intensivo  de  terapia  ocupacional  para  melhorar  a  força  e  o  movimento  após  cirurgia
reconstrutora  da  articulação  do  ombro,  um  protocolo  de  reabilitação  era  necessário  para  ajudar  os  clientes  a
maximizarem  o  uso  do  membro  superior  contralateral  intacto,  assim  como  a  educação  em  relação  ao  uso  de
dispositivos assistivos.

Fig. 54.1 Órteses estáticas comuns associadas às condições diagnósticas. (As fotos são cortesia da Divisão de
Reabilitação da Smith & Nephew, Germantown, WI.)
TABELA 54.3 MODALIDADES FISIOTERAPÊUTICAS
Modalidade Indicações Contraindicações/Precauções Evidências de Efetividade da
Modalidade
Calor Antes de Déficit de circulação Evidências limitadas para
superficial exercício Déficit de sensibilidade fluidoterapia
Compressas ativo, Condição cardiorrespiratória Alguma evidência de que o calor
de água alongamento alterada superficial e a parafina reduzem a
quente, passivo e Feridas abertas ou queimaduras dor e aumentam a mobilização
almofadas mobilização recentemente cicatrizadas em pessoas com artrite (Minor &
térmicas articular (parafina) Sanford, 1993; Steultjens et al.,
Parafina Antes de tração Áreas significativas de edema 2002)
Fluidoterapia e mobilização Sobre o tecido durante
Turbilhão de tecidos inflamação aguda
moles
Reduzem a dor
e os
espasmos
musculares
Após
inflamação
aguda, para
aumentar a
cicatrização
tecidual
Calor profundo Enrijecimento Não utilizar sobre ou próximo a Revisão realizada por Robertson e
Ultrassom de tecidos orelhas, olhos, coração, útero Baker (2001) encontrou oito
moles gravídico, testículos, tumor artigos que mostraram que o
Inflamação maligno conhecido ou ultrassom não é mais efetivo que
subaguda e suspeito, marca­passo, o placebo na promoção de
crônica (p. próteses articulares ou cicatrização tecidual e redução da
ex., tendinite) implantes metálicos ou áreas dor, e dois estudos mostraram
Fratura com déficit de sensibilidade que o ultrassom é benéfico
Cicatrização de Para pessoas com artrite
feridas reumatoide, o ultrassom em
ambas as superfícies da mão
aumentou a força de preensão
(Casimiro et al., 2002).
Frio Minimizam Déficits de sensibilidade à Evidências inconclusivas. Várias
terapêutico inflamação temperatura revisões sistemáticas (Bleakley,
Compressa de aguda Déficits circulatórios McDonough & MacAuley, 2004;
gelo e associada ao Condição cardiorrespiratória Hubbard, Aronson & Denegar,
banhos frios tratamento alterada 2004; Hubbard & Denegar, 2004)
Massagem Reduzem Hipersensibilidade ao frio, como relatam algumas evidências de
com gelo edema e fenômeno de Raynaud respostas fisiológicas ao frio
hemorragia sobre o fluxo sanguíneo, a
Reduzem a temperatura tecidual e o edema,
espasticidade porém poucos estudos
documentam o retorno à
participação nas ocupações
avaliadas. Os estudos variam
quanto à duração, à intensidade e
ao modo de aplicação, o que
limita as conclusões que possam
ser tiradas.
Banhos de Promovem a Problemas cardiovasculares, Evidências inconclusivas
contraste cicatrização como flutuações da frequência
tecidual de pulso e da pressão arterial,
podem ocorrer
Doenças vasculares periféricas
Perda da sensibilidade
Gravidez
Hipersensibilidade ao frio, como
fenômeno de Raynaud
Eletroterapia Modulam a dor Não utilizar sobre ou próximo a Poucos estudos disponíveis
Iontoforese Reduzem a olhos, orelhas, tórax, na
inflamação pessoa com doença cardíaca,
(p. ex., útero gravídico, feridas ou
bursite, alterações cutâneas, tumor
tendinite) maligno conhecido ou
Reduzem suspeitado, marca­passo,
edema vasos sanguíneos suscetíveis
à hemorragia, trombose ou
embolia ou áreas de alteração
de sensibilidade

DILEMAS DA ÉTICA
Quanto Conhecimento é Necessário para o Uso de Métodos Fisioterapêuticos?

V ocê  é  um  acadêmico  de  terapia  ocupacional  em  um  centro  de  reabilitação  de  mão.  No  momento,  sua
supervisora está em uma reunião e você está prestes a atender sua cliente. Ela já chegou, e a primeira
técnica  consiste  na  aplicação  de  ultrassom  no  tecido  cicatricial  da  mão  da  cliente.  Você  teve  uma  aula  na
faculdade  sobre  ultrassom  e  tentou  usá­lo  em  um  de  seus  colegas  de  classe.  O  técnico  da  sala  diz  que  já
atendeu várias vezes aquela cliente com o uso do ultrassom e pode ajudar você a começar. O que você faz?

Fortalecimento e Resistência
Ao  estabelecer  um  programa  de  tratamento  para  uma  pessoa  que  necessita  de  fortalecimento,  o  terapeuta
ocupacional deve considerar o papel da resistência, o efeito da gravidade e o tipo e a velocidade das contrações
musculares.  Frequentemente,  a  resistência  é  utilizada  para  estimular  as  contrações  musculares  e  aumentar  o
disparo de unidades motoras adicionais para aumentar a força. Além disso, os músculos precisam realizar mais
esforço  para  mover  uma  parte  do  corpo  contra  a  gravidade  do  que  para  movê­la  sem  a  ação  gravidade  ou  no
plano horizontal (O’Mahony, 2003). A maioria das ocupações exige uma combinação de contrações isométricas
(contrações de sustentação) e concêntricas (encurtamento) contra uma determinada força. Portanto, o terapeuta
ocupacional  deve  considerar  a  força  do  músculo  ou  dos  músculos,  as  precauções  para  o  movimento,  o
prognóstico e as demandas ocupacionais (O’Mahony, 2003). A Tabela 54.4 apresenta descrições específicas de
programas de exercícios, incluindo exercícios passivos, exercícios ativo­assistidos isotônicos, exercícios ativos
isotônicos, exercícios resistidos isotônicos e exercícios isométricos. O terapeuta ocupacional pode estruturar o
programa de exercício utilizando o movimento pela adição de resistência, quando indicado. A resistência pode
ser feita com pesos, faixas elásticas, tubos elásticos, argila ou molas. O terapeuta também pode estruturar uma
ocupação para graduar o tipo de contrações musculares ou a quantidade de resistência, como limpar uma mesa
em um plano sem gravidade (exercício ativo isotônico), retirar latas de comida de uma prateleira que está acima
da altura de seus ombros (exercício resistivo isotônico) ou limpar um espelho acima da altura de seus ombros
(mantendo o ombro em flexão e limpando da direita para a esquerda seria um exercício resistivo isométrico para
o  músculo  deltoide).  A  resistência  pode  ser  feita  com  peso,  molas,  tubos  elásticos  ou  argila,  ou  simplesmente
com o peso do membro.  Os  terapeutas  também  podem  aumentar  a  resistência utilizando ferramentas de pesos
diferentes (p. ex., um martelo leve versus pesado, sacos de areia de diferentes pesos ou diferentes espessuras de
lixa) ou ainda variar a resistência de um material (biscoito duro versus macio ou massa de pão ou argila).
Em abordagens baseadas na ocupação, as atividades relevantes podem ser graduadas para aumentar a força, ou
dispositivos  de  assistência  podem  ser  fornecidos  para  compensar  os  déficits  de  força  ou  resistência.  A  pessoa
pode tirar a poeira de um ambiente com um aspirador pesado ou leve ou usar eletrodomésticos para abrir latas e
potes. Entretanto, a resistência oferecida pela ocupação frequentemente não é suficiente para aumentar a força
em músculos maiores ou mais fortes. Por exemplo, um homem jovem com lesão de medula espinal C6 precisa
ter  força  suficiente  nos  músculos  dos  ombros,  bíceps  e  extensores  dos  punhos  para  ser  capaz  de  se  mover  e
levantar  seu  corpo  e  pernas  para  se  vestir  e  transferir  seu  corpo  para  diferentes  superfícies.  Embora  ele  possa
praticar essas ocupações repetidamente, o que levará ao aumento de força, exercícios formais de fortalecimento
melhorarão  sua  força  mais  rapidamente  e  promoverão  com  maior  rapidez  sua  independência  e  a  preservação
desta  independência  (Nyland  et  al.,  2000).  Portanto,  nessas  situações,  o  tratamento  ideal  envolve  tanto  o
exercício como o engajamento na atividade ocupacional desejada.
TABELA 54.4 PROGRAMAS DE EXERCÍCIOS
Tipo Definição Resistência Graus Precauções
Musculares
Exercício Envolve amplitude de Nenhuma Zero Inflamação
passivo movimento passivo e O alongamento pode ser Traço Sensibilidade à
alongamento passivo, mantido por 15­30 dor limitada
geralmente realizado pelo segundos Imobilização
profissional prolongada
Exercício O cliente move a articulação Nenhuma Traço Nenhum
ativo­ o mais possível, em +
assistido seguida uma força externa ++
isotônico com o profissional ou
equipamento assiste o
movimento pelo restante
da amplitude articular
Exercício O cliente move a articulação Nenhuma + Músculo fraco:
ativo por toda a amplitude de ++ Move no
isotônico movimento disponível sem plano sem
qualquer ajuda. O músculo gravidade
encurta e alonga Músculo
regular:
Move em um
plano contra
a gravidade
Isométrico Paciente contrai o músculo, Nenhuma Traço Pacientes com
sem aumentando a tensão, e + distúrbios
resistência mantém a posição por 5 ++ cardíacos e
segundos. Utilizado Bom hipertensão
quando está proibida a arterial
mobilização da articulação
Exercício Contração isotônica contra a A resistência é fornecida +++ Inflamação
resistido resistência por manguitos nos Bom Articulação
isotônico punhos, halteres, faixas instável
elásticas, molas, pesos Fratura recente
ou não
consolidada
Utilizar com
cautela nos
distúrbios
exacerbados
por fadiga
Exercício Contração isométrica contra A resistência pode ser +++ Clientes com
resistido carga uma superfície fixa (p. Bom distúrbios
isométrico ex., empurrar a palma cardíacos e
da mão contra a hipertensão
parede) arterial
Exercício Exercícios que utilizam um Resistência controlada +++ Inflamação
isocinético equipamento que controla por equipamento e Bom Articulação
a velocidade da contração variável de acordo com instável
em uma dada amplitude a mudança do Fratura recente
de movimento comprimento do ou não
músculo ao longo da consolidada
amplitude do Utilizar com
movimento cautela em
distúrbios
exacerbados
por fadiga
Outras abordagens compensatórias para tratar os comprometimentos de força e de resistência podem incluir o
uso de ferramentas mais leves, o uso de dispositivos elétricos e a orientação do cliente com relação à proteção da
articulação, à conservação de energia e à simplificação do trabalho (Tabelas 54.5 e 54.6).

TABELA 54.5 PRINCÍPIOS DA PROTEÇÃO ARTICULAR
Princípios Exemplos
1. Respeitar a dor. Se a dor persistir por mais de 2 horas após a realização de uma atividade,
modificar a atividade, dedicando menos tempo a ela, utilizando equipamento
de adaptação ou repousando durante a atividade.
2. Utilizar mecânica Inclinar­se para frente para descarregar peso sobre os pés e utilizar os braços
corporal apropriada e as das cadeiras para ficar de pé.
articulações em bom
alinhamento. Utilizar as palmas das mãos nos braços das cadeiras para “empurrar quando for
levantar”.
Empurrar ou puxar objetos em vez de levantar.
Evitar se curvar, esticar e girar.
3. Evitar manter a mesma Alternar a posição sentada com a de pé durante uma atividade ou alternar o
posição por período apoio de um pé para o outro.
prolongado e evitar
movimentos repetitivos Relaxar e alongar as mãos a cada 5 minutos quando realizar uma atividade que
exija segurar objetos ou ferramentas, como garfos, lápis, telefone, agulhas de
tricô ou crochê, ferramentas de jardinagem, utensílios domésticos ou
ferramentas manuais.
Evitar ajoelhar­se para esfregar o chão ou no jardim; em vez disso, sentar em
um banco e utilizar ferramentas de cabos longos.
4. Evitar posições e Evitar pressões ao longo da face lateral (polegar) dos dedos que encorajem o
estresse que causem desvio ulnar, como girar chaves, maçanetas e chaves de fenda.
deformidades.
Evitar pressão contra a região dorsal dos dedos e punhos, como apoiar o queixo
no dorso da mão.
Evitar pressão excessiva e constante contra a polpa do polegar.
Evitar posições de desvio ulnar do punho, como cortar com tesouras ou facas.
5. Utilizar articulações e Carregar uma maleta ou bolsa sobre um ou ambos os ombros em vez de
músculos maiores e mais segurá­la com os dedos.
fortes.
Utilizar as palmas das mãos para levantar potes e panelas.
Levantar objetos utilizando os músculos da perna em vez dos músculos
toracolombares.
6. Equilibrar  repouso  e Exercício e atividade são importantes para mobilidade e força articulares, porém
atividade. o lazer e o trabalho devem ser equilibrados com períodos de repouso.
7. Nunca iniciar uma Planejar antecipadamente e compassar as atividades.
atividade que não possa
ser interrompida Tentar deslizar, empurrar ou puxar objetos em vez de levantá­los.
imediatamente, se
necessário. Também consultar princípios de conservação de energia.

Destreza
Ao estabelecer um programa de tratamento para melhorar a destreza, fatores­chave são a prática e a repetição.
Além  disso,  durante  a  prática,  o  terapeuta  ocupacional  pode  desejar  considerar  a  modificação  do  nível  de
dificuldade ou complexidade da ocupação ou atividade. O retreinamento da capacidade do cliente com o teclado
pode demandar a prática de uso de apenas alguns dedos de cada vez para reaprender a posição dos dedos. No
começo, o cliente poderia digitar apenas letras separadas ou palavras de três a quatro letras, e então progredir
para  palavras  mais  longas,  frases  e  parágrafos.  Nesta  atividade  específica,  a  velocidade  poderia  ser  um  fator
importante a ser considerado, de modo que outra maneira de graduar a atividade seria aumentar as demandas de
velocidade no uso do teclado. Para outros clientes, o tamanho, a forma ou mesmo a textura dos objetos também
podem ser alterados. Por exemplo, no treinamento de uma pessoa para uso de uma prótese, o terapeuta poderá
começar solicitando ao cliente para pegar cubos de mais ou menos 3cm e progredir para objetos arredondados,
como pinos e, então, para objetos planos, como peças do jogo de damas. O tamanho de cada um desses objetos
poderia ser reduzido e a textura poderia ser alterada com o uso de um cubo de queijo, um copo descartável ou
um biscoito.

TABELA 54.6 PRINCÍPIOS E EXEMPLOS DE CONSERVAÇÃO DE ENERGIA
Princípios Exemplos
1. Planeje antes. Reuna todos os objetos necessários antes de uma atividade.
Distribua tarefas pesadas e leves ao longo do dia e da semana.
2. Controle  seu Realize tarefas que demandem energia no início do dia.
ritmo.
Planeje o dia para equilibrar repouso e atividade.
Divida as atividades em etapas menores que possam ser realizadas ao longo de um
número de dias.
Controle seu ritmo de atividade e não se apresse.
Faça pausas frequentes para repouso.
3. Priorize. Decida que atividades são import antes para serem realizadas e que atividades podem
ser realizadas mais tarde ou eliminadas
Delegue tarefas a outros membros da família.
4. Sente­se  quando Utilize um banco no boxe.
possível.
Sente­se na cama ou em uma cadeira para se vestir.
Considere o uso de um banco alto.
5. Utilize técnicas Elimine tarefas desnecessárias (p. ex., comprar roupas que não precisam ser
de simplificação passadas, vegetais pré­cortados).
do trabalho.
Trabalhae num ambiente bem­iluminado e bem­ventilado.
6. Mantenha uma Evite postura encurvada prolongadamente.
boa postura.
Evite se esticar e se curvar excessivamente, arrumando previamente as áreas de
trabalho de modo que tenham altura apropriada e mantendo os objetos utilizados em
alturas confortáveis.

As  abordagens  compensatórias  para  os  comprometimentos  da  destreza  poderiam  incluir  o  uso  de
equipamentos de adaptação, como ganchos de botão, fechador de zíperes e laços de elástico para ajudar a fechar
uma  roupa  ao  se  vestir.  O  terapeuta  poderia  também  sugerir  que  os  clientes  eliminassem  fechos  utilizando
camisas tipo polo, calças com elástico na cintura e/ou sapatos sem cadarço. Outras sugestões poderiam incluir
cabos longos em utensílios ou pegadores universais, utensílios pesados, se houver necessidade de estabilidade,
protetores  de  pratos,  estabilizadores  para  pratos  e  copos,  luvas  de  banho,  barbeadores  elétricos  em  vez  de
aparelhos  de  barbear  com  lâminas  e  sistemas  de  computador  operados  por  voz.  Consulte  o  Capítulo  48  para
obter mais ideias sobre compensação.

Atividades de Vida Diária
O  objetivo  primário  dos  terapeutas  ocupacionais  que  trabalham  com  pessoas  com  comprometimento
musculoesquelético  é  ajudar  essas  pessoas  a  melhorarem  o  desempenho  ocupacional  ou  reassumirem  suas
ocupações (ver Estudos  de  Caso  mais  adiante).  Somadas  às  sugestões  oferecidas no Capítulo 48, as sugestões
seguintes devem ser consideradas quando se trabalha com pessoas com comprometimento musculoesquelético:
Aplicação e remoção de talas, órteses e/ou próteses
Uso de órteses e próteses permanentes
Realização de tarefas com dispositivos de adaptação
Desenvolvimento de técnicas de adaptação para uso temporário após uma lesão recuperável
Compreensão das precauções relevantes ao comprometimento, bem como encorajamento do cliente para o
uso de todas as precauções para o quadril
Procedimentos de conservação de energia e simplificação do trabalho para pessoas com artrite ou quando a
resistência é um problema, como nos idosos
Princípios  de  aprendizado  motor,  especialmente  no  treinamento  e  nas  atividades  de  treinamento  ou
retreinamento de vida diária (veja Boxe 54.1).
A Tabela 54.7 apresenta distúrbios musculoesqueléticos dos membros inferiores, da região toracolombar e da
pelve que são comumente tratados por terapeutas ocupacionais e descreve considerações de tratamento e uso de
equipamentos. Dohli e colegas (2003) estabeleceram áreas de ocupação que deveriam ser abordadas para essas
condições,  as  quais  incluem  mobilidade  no  leito,  no  banho  e  para  vestir  a  porção  inferior  do  corpo,
transferências,  manutenção  da  casa,  cuidado  de  outras  pessoas  ou  animais  de  estimação,  tutoria  de  crianças,
mobilidade  na  comunidade,  preparo  de  refeições  e  limpeza,  procedimentos  de  segurança  e  resposta  a
emergências, atividade sexual, compras, trabalho ou escola, brincadeiras, lazer e participação social.

ESTUDO DE CASO: Marita: Uma Cliente Submetida à Artroplastia Total de Quadril

Encaminhamento para terapia ocupacional: Para consulta com terapeuta ocupacional “pós­artroplastia
total de quadril esquerdo em consequência de doença articular degenerativa”.
Perfil ocupacional: Marita é uma mulher divorciada de 63 anos de idade que mora sozinha em uma casa
de dois andares. Antes da doença, ela realizava todas as tarefas domésticas com indepedência, inclusive
cozinhar, limpar e fazer compras. Ela frequentava semanalmente atividades em grupo no centro da
terceira idade e estava engajada em atividades na igreja.
Ambiente de tratamento: Reabilitação hospitalar para cliente internado.
Ambiente à disposição: Residência.
Objetivos da terapia ocupacional: Enquanto observa as precauções com o quadril e a sustentação de
carga, quando tolerada, Marita em 1 semana será capaz de:
Preparar  uma  refeição  de  comida  congelada  no  micro­ondas  com  ajuda  mínima,  enquanto
deambula utilizando um andador padrão e um andador com cesta.
Calçar  e  descalçar,  com  independência,  sapatos  e  meias  utilizando  equipamento  de  adaptação
enquanto sentada em uma poltrona.
Desenvolver  um  programa  de  assistência  mínima  para  assegurar  ajuda  temporária  de  outros  na
aquisição de verduras, frutas e correspondência.

Fonte: Reimpresso de Dohli, C., Leibold, M. L., & Schreiber, J. (2003). Adult orthopedic dysfunction. In E. B. Crepeau,
E. S. Cohn, & B. A. B. Schell (Eds.), Willard & Spackman’s occupational therapy (10th ed., p. 791). Baltimore: Lippincott
Williams & Wilkins.

ESTUDO DE CASO: Joe: Um Cliente com Lesão na Mão

Encaminhamento para terapia ocupacional: Para consulta com terapeuta ocupacional “após amputação
da perna esquerda abaixo do joelho devido ao diabetes”. A cliente está na fase de treinamento de prótese.
Perfil ocupacional: Joy é uma viúva de 78 anos de idade que vive sozinha em um apartamento no terceiro
andar; ela recebe refeições prontas em casa. Ela é professora universitária aposentada que aprecia
programas de jogos na TV e lê a Bíblia. Suas duas filhas adultas residem fora do estado.
Ambiente de tratamento: Estrutura com enfermagem treinada (enquanto a resistência for pouca).
Ambiente à disposição: Centro de reabilitação para pacientes internados (quando ela for capaz de tolerar
3 horas de tratamento por dia).
Objetivos da terapia ocupacional: Joy, em 1 semana, utilizando a prótese, será capaz de:
Realizar  as  ativida  des  de  se  arrumar  pela  manhã,  de  pé,  em  frente  à  pia  do  banheiro,  com
assistência moderada para manutenção do equilíbrio na posição ortostática.
Vestir completamente a parte inferior do corpo enquanto estiver sentada em uma poltrona à beira da
cama com assistência moderada, utilizando métodos de adaptação.
Inspecionar seu membro inferior residual esquerdo com o espelho e identificar corretamente áreas
de comprometimento cutâneo potencial para o terapeuta com assistência mínima.

Fonte: Reimpresso de Dohli, C., Leibold, M. L., & Schreiber, J. (2003). Adult orthopedic dysfunction. In E. B. Crepeau,
E. S. Cohn, & B. A. B. Schell (Eds.), Willard & Spackman’s occupational therapy (10th ed., p. 792). Baltimore: Lippincott
Williams & Wilkins.

ESTUDO DE CASO: Joy: Uma Cliente com Amputação de Membro Inferior
Encaminhamento para terapia ocupacional: A consulta com terapeuta ocupacional é “devida a uma tala
da mão direita para aumentar a flexão de quarto e quinto metacarpos fraturados por um acidente de
trabalho”. O gesso de sua mão direita foi removido.
Perfil ocupacional: Joe é um homem solteiro de 25 anos de idade que trabalha na construção civil. Ele vive
sozinho e gosta de ver TV e jogar videogames.
Ambiente de tratamento: Clínica de clientes ambulatoriais
Ambiente à disposição: Residência
Objetivos da terapia ocupacional: Joe, em 1 semana, será capaz de:
Colocar e retirar a tala da mão com independência.
Arrumar­se  e  realizar  atividades  matinais  de  autocuidado  e  utilizar  a  mão  direita  para  segurar
ferramentas com independência.
Demonstrar um aumento de 2,3kg na força de preensão para segurar um alicate.

ESTUDO DE CASO: Lee Ann: Uma Cliente com Artrite

Encaminhamento para terapia ocupacional: A consulta com terapeuta ocupacional é consequência de
“dor e edema dos tendões do abdutor longo do polegar e do extensor curto do polegar”.
Perfil ocupacional: Michelle é uma mulher casada de 37 anos. Ela trabalha em um salão de beleza 20 a 25
horas por semanas. Nas últimas semanas, ela agendou todos os seus atendimentos em três dias porque
começou em outro emprego de tempo parcial em uma loja de móveis e acessórios domésticos. O segundo
trabalho é “apenas para divertimento”, uma vez que ela realmente gosta de trabalhar como cabeleireira. A
dor nos polegares é tão intensa que ela mal consegue cortar cabelos.
Ambiente de tratamento: Unidades de clientes ambulatoriais
Ambiente à disposição: Residência
Objetivos da terapia ocupacional: Michelle, em 1 semana, será capaz de:
Utilizar  a  tala  de  polegar­antebraço  quando  realiza  sua  segunda  atividade  profissional  e  durante  à
noite.
Aplicar  gelo  5­10  minutos  antes  dos  atendimentos  como  cabeleireira,  se  possível,  e  repousar  o
polegar.
Identificar dois tipos de tesouras ergonômicas a fim de cortar cabelos sem dor.
Melhorar seu agendamento para distribuir o tempo gasto em ambos os trabalhos de maneira mais
uniforme ao longo da semana.

ESTUDO DE CASO: Michelle: Uma Cliente com Tendinite do Abdutor Longo do Polegar e
do Extensor Curto do Polegar (DeQuervain)

Encaminhamento para terapia ocupacional: A consulta com terapeuta ocupacional se deve ao
“diagnóstico de artrite reumatoide”.
Perfil ocupacional: Lee Ann é uma mulher de 41 anos de idade, casada e com dois filhos, de 11 e 13 anos
de idade. Ela vive em uma casa térrea de três quartos e trabalha em tempo parcial como auxiliar de
educação na escola de seus filhos. Ela gosta muito de cozinhar. As dores nas mãos causam dificuldades
para escrever e utilizar uma tesoura, tarefas que ela precisa para seu trabalho. Ela se cansa facilmente.
Ambiente de tratamento: Unidade de reabilitação de clientes internados
Ambiente à disposição: Residência
Objetivos da terapia ocupacional: Lee Ann, em 1 semana, será capaz de:
Utilizar técnicas de proteção articular 80% do tempo enquanto realiza as tarefas de cozinhar.
Identificar dois tipos de ferramenta para escrita e tesouras adaptadas a fim de escrever e cortar sem
dor.
Utilizar técnicas de conservação de energia 80% do tempo durante as atividades de vida diária.

A  Tabela  54.8  apresenta  distúrbios  musculoesqueléticos  dos  membros  superiores  e  considerações  de


tratamento  e  equipamentos.  Uma  vez  que  o  uso  dos  membros  superiores,  e  particularmente  da  mão,  é
fundamental para o desempenho de ocupações, as limitações ou perdas da independência serão a preocupação
principal. As pessoas podem experimentar uma alteração temporária ou permanente na dominância da mão e a
necessidade de compensá­la com o membro menos afetado. As capacidades bilaterais ficam comprometidas, e a
segurança  e  a  velocidade  do  desempenho  são  consequentemente  afetadas.  O  trabalho  e  a  participação  social
podem  ser  comprometidos,  levando  à  ansiedade  e  à  depressão.  Dependendo  do  distúrbio,  deformidades,
amputações ou cicatrizes graves podem resultar em modificações na aparência.
TABELA 54.7 CONSIDERAÇÕES DA TERAPIA OCUPACIONAL PARA PACIENTES COM DISTÚRBIOS
ORTOPÉDICOS DA REGIÃO TORACOLOMBAR E DOS MEMBROS INFERIORES
Distúrbio Descrição Precauções Considerações Intervencionistas e
Equipamento
Fratura do Fratura em Sustentação de Comer,  arrumar­se  e  vestir  a  parte  superior  do
quadril com qualquer carga corpo  tipicamente  exige  ajuda  de  outra  pessoa
redução porção do estabelecida para  reunir,  arrumar  e  organizar  os  suprimentos
necessários;  o  cliente  pode  então  completar  as
fechada fêmur que pode pelo médico;
tarefas  sentado  com  as  pernas  esticadas  na
ser levada a precauções para cama  com  uma  mesinha  auxiliar  ou  sentado  na
sua posição o quadril beira da cama, sentado em uma cadeira de roda
natural sem ou sentado numa poltrona próximo à mesa ou à
cirurgia de pia.
grande porte
Substituição Remoção Vestir  a  parte  inferior  do  corpo  pode  ser
total de cirúrgica da realizado  com  equipamentos  ou  adaptações,
quadril ou articulação do quando necessário (p. ex., pegador, bastão para
se vestir, bastão para calçar meias, calçadeira de
artroplastia quadril
cabo longo, cadarços elásticos e/ou sapatos com
total de adoentada ou fecho  de  velcro);  roupas  de  tamanho  maior
quadril lesada, que é podem ser mais fáceis de vestir; ficar de pé deve
substituída por ser  encorajado  durante  o  ato  de  se  vestir  (o
uma prótese cliente  pode  alternar  as  posições  sentada  e  em
pé durante as atividades).
O  vaso  sanitário  deve  possibilitar  ao  cliente
manter  as  precauções  com  o  quadril;  opções
incluem  um  assento  sanitário  elevado  (ou
modelo  próprio  para  lesões  no  quadril)  com
suportes  bilaterais  para  braço  ou  cadeira
higiênica com pernas ajustáveis para uso isolado
ou posicionada sobre o vaso sanitário.
O  banho  pode  ser  realizado  com  uso  de  um
banco  de  transferência  na  banheira,  ducha
manual,  capacho  antiderrapante  e  esponja  de
cabo  longo;  em  vez  disso,  o  cliente  pode
escolher um banho de esponja na pia ou à beira
do leito.
Uma  cunha  de  abdução  pode  ser  utilizada  para
evitar  a  rotação  medial  do  quadril  afetado
enquanto  o  paciente  estiver  na  cama  ou
sentado.
Andador  com  bolsa  ou  cesta  e/ou  carrinho
podem  ser  utilizados  para  coletar  e  transportar
objetos com segurança.
Fratura de Procedimento Sustentação de Os  clientes  frequentemente  não  demandam
quadril com cirúrgico que carga precauções  estritas  do  quadril;  considerações
redução utiliza fios, estabelecida terapêuticas,  como  as  descritas  anteriormente,
podem  ser  aplicadas  para  melhorar  o
aberta e parafusos ou pelo médico
desempenho  e  minimizar  a  dor;  isso  pode  ser
fixação pinos aplicados especialmente  benéfico  imediatamente  após  a
interna diretamente ao cirurgia,  e  o  equipamento  pode  ser  emprestado
segmento do ao cliente.
osso fraturado
para mantê­lo
em posição
Artroplastia de Implante de Sustentação de Tipicamente,  movimento  ativo  do  joelho
joelho dispositivo para carga encorajado  durante  todas  as  atividades;  a
substituição das estabelecida capacidade  ou  o  desejo  do  cliente  de  flexionar
os  joelhos  podem  inicialmente  estar  limitados
superfícies pelo médico
devido ao medo ou à dor; movimentos de torção
articulares que  poderiam  impor  estresse  excessivo  sobre  a
lesionadas articulação devem ser evitados.
Todas  as  atividades  de  vida  diária  (AVD)  e
atividades  instrumentais  de  vida  diária  (AIVD)
podem  ser  realizadas  de  modo  seletivo  pelo
cliente,  uma  vez  que  a  segurança  tenha  sido
demonstrada  e  a  flexão  do  joelho  tenha  sido
promovida. A complementação sem ou com uso
de equipamento de adaptação é encorajada para
promover  o  movimento  normal;  entretanto,  este
pode  ser  utilizado  inicialmente  em  algumas
situações  para  estimular  o  desempenho,
encorajar a participação e minimizar a dor.
Andador  com  bolsa  ou  cesta  e/ou  carrinho
podem  ser  utilizados  para  coletar  e  transportar
objetos  com  segurança,  enquanto  o  cliente  faz
uso de um dispositivo para marcha.
Se necessário, o equipamento pode ser utilizado
por longo prazo para se obter independência.
Fratura Fratura do corpo Rolagem na cama Comer,  arrumar­se  e  vestir  a  parte  superior  do
vertebral por vertebral, restrita à técnica corpo  tipicamente  exige  ajuda  de  outra  pessoa
compressão frequentemente de rolar em para  reunir,  arrumar  e  descartar  os  suprimentos
necessários; o cliente pode, então, completar as
(sem associada à bloco. Uma
tarefas  sentado  com  as  pernas  esticadas  na
envolvimento osteoporose órtese pode ser cama  com  uma  mesinha  auxiliar  ou  sentado  na
do SNC) utilizada para beira da cama, em uma cadeira de rodas ou em
restringir a uma poltrona próximo à mesa ou à pia.
mobilidade Se  uma  órtese  for  utilizada  apenas  quando
vertebral (p. ex., estiver  fora  da  cama,  a  seguinte  sequência  é
tipo colete ou recomendada: o cliente deita­se na cama sem o
cinta rígida); dispositivo,  lava  a  parte  superior  do  corpo
enquanto  estiver  semirreclinado;  veste  uma
utilizar conforme
camisa  de  malha  fina;  reassume  a  posição  de
determinado decúbito,  rola  e  veste  a  órtese;  retorna  ao
pelo médico decúbito  e  fecha  a  órtese;  o  cliente  agora  está
pronto  para  assumir  a  posição  sentada  na  beira
da cama.
Vestir  a  parte  inferior  do  corpo  pode  ser
realizado  com  equipamento  ou  adaptações,
quando  necessário  (p.  ex.,  um  pegador  de  cabo
longo,  bastão  para  vestir,  bastão  para  calçar
meias,  calçadeira  de  cabo  longo,  cadarços
elásticos  e/ou  fechos  de  sapato  tipo  velcro);
roupas  de  tamanho  maior  podem  ajudar  a
acomodar uma órtese.
Ficar  de  pé  deve  ser  encorajado  durante  o  ato
de  se  vestir;  o  cliente  pode  alternar  as  posições
sentada e em pé durante as atividades.
Utilizar  um  assento  elevado  e  suporte  bilateral
para os braços para o uso do vaso sanitário pode
melhorar  o  desempenho  por  aumentar  a
segurança,  diminuir  a  ansiedade  e  aumentar  a
confiança.
O  banho  é  restrito  à  posição  sentada  com  a
perna esticada na cama sem suporte ou sentada
em uma cadeira com a órtese colocada.
Um  andador  com  bolsa  ou  cesto  e/ou  carrinho
podem  ser  utilizados  para  coletar  e  transportar
objetos com segurança.
Fratura de Fratura em Flexão do quadril Comer,  arrumar­se  e  vestir  a  parte  superior  do
pelve qualquer parte limitada a 60 corpo  tipicamente  exige  ajuda  de  outra  pessoa
do anel pélvico graus; não pode para  reunir,  arrumar  e  descartar  os  suprimentos
necessários;  o  cliente  pode,  então,  realizar  as
ou acetábulo sustentar carga
tarefas sentado com as pernas esticadas sobre a
sobre os cama  com  a  cama  inclinada  a  60  graus  para
membros aderir às precauções.
inferiores Vestir  a  parte  inferior  do  corpo  e  tomar  banho
podem  ser  realizados  sentando­se  com  as
pernas esticadas na cama inclinada a 60 graus e
com  equipamento  e  adaptações,  quando
necessário  (p.  ex.,  um  pegador  de  cabo  longo,
bastão  para  se  vestir,  bastão  para  calçar  meias,
calçadeira  de  cabo  longo,  cadarços  elásticos
e/ou  fechos  de  sapato  tipo  velcro  e  esponja  de
cabo  longo);  tipicamente,  o  cliente  necessita  de
ajuda  e  equipamento  de  cabo  longo  para  vestir
os membros inferiores e tomar banho.
As  eliminações  são  realizadas  no  leito  com  uso
de  comadre  ou  de  uma  cadeira  higiênica  com
braços  e  encosto  que  permita  ao  cliente  manter
a flexão do quadril em 60 graus.
A  mobilidade  no  leito  pode  ser  estimulada  com
o uso de barra de trapézio colocada em um leito
hospitalar.
Uma  cadeira  de  rodas  reclinável  é  necessária
para mobilidade e para adesão às precauções; a
escolha  de  uma  almofada  apropriada  para  a
cadeira  de  rodas  é  necessária  para  manter  a
integridade  da  pele  devido  à  impossibilidade  de
sustentação de carga.
A  realização  de  transferências  funcionais
geralmente  exige  a  presença  de  outra  pessoa
para  ajudar  com  os  membros  inferiores  durante
a  transferência;  uma  tábua  para  deslizar
também  pode  ser  necessária  para  assegurar  a
transferência segura e confiável.
Amputação do Perda de Equilibrar as A  adição  de  barras  antiderrapantes  e/ou
membro qualquer parte precauções em contrapeso para cadeira de roda, para evitar que
inferior: fase das pernas ou função da a  cadeira  vire,  deve  ser  considerada  para
acomodar a mudança no centro de gravidade.
de do pé (antes da mudança no
Todas  as  AVD  e  AIVD  podem  ser  realizadas  da
treinamento substituição por centro de maneira selecionada pelo cliente, uma vez que a
pré­ membro gravidade; risco segurança  tenha  sido  demonstrada;  o  cliente  as
protetização artificial) de queda devido realiza  utilizando  uma  cadeira  de  rodas  ou
à sensação de deambulando,  dependendo  de  vários  fatores  (p.
membro ex.,  condição  clínica,  equilíbrio,  tolerância  à
fantasma e atividade,  cognição  e  acessibilidade  do
déficits de ambiente).
equilíbrio
O  uso  de  um  assento  elevado  e  suportes
bilaterais  para  braços  no  vaso  sanitário  pode
aumentar  o  desempenho  por  aumentar  a
segurança,  diminuir  a  ansiedade  e  aumentar  a
confiança.
O banho pode ser completado com o uso de um
banco  de  transferência  para  banheira,  banco  de
banheira ou banho com esponja.
Amputação do Período no qual o Precauções pré­ Todas  as  AVD  e  AIVD  podem  ser  realizadas  da
membro cliente aprende protetização, maneira selecionada pelo cliente, uma vez que a
inferior: fase a utilizar a quando segurança  tenha  sido  demonstrada;  o  cliente
completa as tarefas em uma cadeira de rodas ou
de prótese de necessárias;
deambulando,  dependendo  de  vários  fatores  (p.
treinamento membro inferior manutenção da ex.,  condição  clínica,  equilíbrio,  tolerância  à
de prótese integridade atividade,  cognição  e  acessibilidade  do
cutânea, ambiente).
especialmente São  recomendados  os  seguintes  procedimentos
durante o uso da para se vestir: o cliente com uma prótese senta­
prótese se na beira da cama ou em uma poltrona, coloca
primeiramente a prótese e, em seguida, veste o
dispositivo  e  a  outra  perna;  o  cliente  com
próteses bilaterais senta­se em uma poltrona ou
na  cama,  coloca  ambas  as  próteses  e,  em
seguida,  as  veste;  meias  e  sapatos  em  uma
prótese  devem  ser  inspecionados,  limpos  e
trocados quando necessário.
O  uso  de  assento  elevado  e  suportes  bilaterais
para os braços no vaso sanitário pode aumentar
o  desempenho  por  aumentar  a  segurança,
diminuir a ansiedade e aumentar a confiança.
O  banho  pode  ser  realizado  com  o  uso  de  um
banco  de  transferência  para  banheira,  banco  de
banheira  ou  banho  de  esponja;  a  limpeza  da
prótese é feita regularmente conforme instruções
do  protético;  o  membro  residual  deve  ser
mantido  seco  para  conservar  a  integridade
cutânea  e  evitar  a  degradação  da  pele;  o
esquema  de  banho  do  cliente  deve  ser
organizado  de  modo  a  permitir  o  maior  tempo
possível para que o membro residual e a prótese
possam ser bem secos.

Fonte:  Reimpresso  de  Dohli,  C.,  Leibold,  M.  L.,  &  Schreiber,  J.  (2003).  Adult  orthopedic  dysfunction.  In  E.  B.
Crepeau,  E.  S.  Cohn,  &  B.  A.  B.  Schell  (Eds.),  Willard  &  Spackman’s  occupational  therapy  (10th  ed.,  pp.  793­
795). Baltimore: Lippincott Williams & Wilkins.
TABELA 54.8 CONSIDERAÇÕES DA TERAPIA OCUPACIONAL PARA CLIENTES COM DETERMINADOS
DISTÚRBIOS ORTOPÉDICOS DOS MEMBROS SUPERIORES
Distúrbio Descrição Precauções Considerações para Tratamento e
Equipamento
Ombro: Reparo Imobilizado em tipoia Pode ocorrer uma mudança temporária na
reparo do cirúrgico de de PROM; dominância da mão. Compensação com o
manguito lesão em um progressão para membro menos afetado. Capacidades
rotador dos exercício ativo­ bilaterais afetadas. Tipoia e cunha de
músculos do assistido e abdução à noite. Pode necessitar vestir
manguito isométrico/isotônico camisas de tamanho maior que abotoem na
rotador frente, porque são mais fáceis de vestir e
ajustar a tipoia, se necessário. Eliminar meias
e calçar sapatos sem cadarço será mais fácil
inicialmente. Calçadeiras de cabo longo
podem ajudar. Calças com elástico na cintura
podem ser mais fáceis de vestir e tirar,
embora geralmente a mão do lado operado
não seja envolvida pela tipoia. O banho
poderia necessitar de uma esponja de cabo
longo.
Mão: Traumatismo Falta de sensibilidade Pode haver mudança temporária ou
laceração, direto Questão de permanente na dominância da mão.
penetração, segurança Compensação com o membro menos
compressão Dor afetado. Capacidades bilaterais afetadas, de
Integridade da pele modo que equipamento adaptado pode ser
Edema necessário para estabilizar ou compensar,
Imobilidade como cadarços elásticos, esponja/escova de
aspiração, faca curva, abridor de latas
elétrico, passadores de fio dental plásticos
descartáveis. O cliente e/ou a família podem
ser capazes de remover e aplicar uma tala ou
uma órtese.
Uso repetitivo Inflamação de Inflamação Avaliação ergonômica e modificação do posto
do(s) tendão pelo Dor de trabalho, do local de trabalho, das
membro(s) efeito Edema ferramentas e das posições da mão podem
superior(es) cumulativo Comprometimento ser indicadas. Órteses podem ser necessárias
do estresse sensorial na fase aguda. Deve ser realizada avaliação
repetido Comprometimento das atividades cotidianas para determinar
sobre tecido motor padrões repetitivos.
Artrite Inflamação nas Comprometimentos Os clientes precisam ser instruídos no uso de
articulações sensoriais princípios de proteção articular e conservação
Dor de energia em todas as ocupações diárias.
Edema Equipamento adaptado deve ser utilizado
Deformidades apenas para proteger as articulações ou
melhorar a função. Um banho morno pela
manhã pode ajudar a liberar as articulações,
mas o paciente pode necessitar de uma
esponja de cabo longo. Vestir­se pode ser
mais fácil com camisas tipo polo, calças com
elástico na cintura, sapatos sem cadarço;
entretanto, dispositivos de assistência, como
gancho de botão, calçadeiras de cabo longo e
bastão para vestir, podem ser utilizados. O
cliente e/ou a família podem ser capazes de
remover e aplicar a órtese. O envolvimento
dos membros inferiores pode tornar
necessário um assento elevado de vaso
sanitário e/ou barras de segurança. Em
virtude da natureza crônica da doença, o
ajuste psicológico à incapacidade progressiva
e alterações no estilo de vida podem ocorrer.
Amputação de Perda de Perda de A perda de qualquer parte do membro pode
membro qualquer sensibilidade resultar em alterações na imagem corporal.
superior parte do Dor Pode ocorrer uma alteração permanente na
braço ou da Integridade da pele dominância da mão. Compensação com o
mão Alterações posturais membro não afetado. As capacidades
bilaterais são afetadas quando a prótese não
é utilizada, de modo que o equipamento de
adaptação pode ser necessário para
estabilizar ou compensar, como cadarços
elásticos, esponja/escova com ventosa, faca
curva, abridor de latas elétrico, passadores de
fio dental plásticos descartáveis. O cliente
e/ou o cuidador podem ser capazes de
remover e aplicar a prótese. O cliente deve
determinar as ocupações que podem ser
realizadas com e sem a prótese.

Tratamentos para Clientes com Comprometimentos Musculoesqueléticos

E mbora  a  efetividade  dos  tratamentos  para  comprometimentos  musculoesqueléticos  seja  escassa  na


literatura  da  terapia  ocupacional,  existem  inúmeros  estudos  na  literatura  da  terapia  da  mão  e  de
reumatologia  que  examinam  a  efetividade  de  programas  de  amplitude  de  movimento,  fortalecimento  e
resistência. Banhos de parafina com e sem um programa de exercícios combinado para as mãos mostraram
ser  efetivos  em  aumentar  o  movimento  articular,  a  força  e  a  função  das  mãos  em  pessoas  com  artrite
reumatoide (Buljina, Taljanovic, Avdic & Hunter, 2001; Dellhag, Wollersjo & Bjelle, 1992), osteoartrite (Stamm,
2002) e esclerodermia (Sandqvist, Akesson & Eklund, 2004).
Em  uma  revisão  sistemática  sobre  exercícios  para  a  mão  em  pessoas  com  artrite  reumatoide,  Wessel
(2004) relatou que, em nove estudos que atendiam a seus critérios de revisão, houve melhoras de movimento
articular,  força  e  destreza  da  mão.  Entretanto,  muitos  resultados  diferentes  foram  estudados,  períodos  de
acompanhamento variaram, viés do terapeuta foi relatado, análise da força não foi realizada e o impacto sobre
as  atividades  cotidianas  não  foi  estudado.  Michlovitz,  Harris  e  Watkins  (2004)  investigaram  a  efetividade  de
várias  técnicas  para  aumentar  a  amplitude  de  movimento  articular  em  pessoas  com  diferentes  tipos  de
diagnósticos  (fratura,  fratura/luxação,  lesão  articular  ou  lesões  de  tecidos  moles).  Os  seguintes  tratamentos
foram  revisados  para  os  diagnósticos  anteriormente  mencionados:  órteses,  mobilização  articular,  movimento
passivo  contínuo,  injeção  versus  outra  técnica  e  exercícios  na  clínica  versus  domiciliar.  Eles  relataram  um
suporte moderado para órteses e exercício passivo e evidências insuficientes para apoiar o movimento passivo
contínuo. Eles não encontraram estudos que avaliaram o uso de calor sob a forma de compressas de água
quente,  parafina,  hidroterapia,  ultrassom  ou  alongamento  para  os  diagnósticos  estudados.  Outros  estudos
compararam  a  efetividade  do  programa  de  exercícios  versus  atividades  ou  jogos  e  jogos  do  computador  na
melhora  do  movimento  e  da  força  (Jaris,  Shavit  &  Ratzon,  2000).  Edema,  movimento  e  força  de  preensão
apresentaram melhora após um tratamento de cinco semanas para os movimentos do punho, independente
do tratamento utilizado.
A  efetividade  do  tratamento  de  terapia  ocupacional  centrado  no  cliente  para  pessoas  com  lesão  de  mão
resultou  em  melhora  nas  medidas  funcionais  após  seis  a  oito  semanas  de  terapia  (Case­Smith,  2003).  A
Medida Canadense de Desempenho Ocupacional (Canadian Occupational Performance Measure) foi utilizada
como medida de resultado e para identificar objetivos funcionais e pessoais. Os tratamentos incluíram órteses,
exercícios  e  atividades  terapêuticas,  massoterapia,  atividade  de  vida  diária  e  métodos  fisioterapêuticos,
principalmente  ultrassom.  Ao  final  de  seis  a  oito  semanas,  as  pessoas  apresentaram  melhoras  significativas
nas atividades funcionais e 80% delas retornaram ao trabalho (Case­Smith, 2003).
Steultjens, Dekker, Bouter, Van Schaardenburg, Van Kuyk e Van Den Ende (2002) conduziram uma revisão
sistemática  de  estudos  clínicos  controlados  e  randomizados  de  tratamento  de  terapia  ocupacional  para
pessoas com artrite reumatoide. Os estudos foram classificados por assunto: terapia ocupacional abrangente,
treinamento  da  função  motora  por  meio  de  exercício,  orientação  para  proteção  articular  e  conservação  de
energia, dispositivos de assistência e órteses. Eles relataram evidências limitadas para efetividade da terapia
ocupacional  abrangente  sobre  a  habilidade  funcional,  nenhuma  evidência  quanto  aos  efeitos  dos  exercícios
sobre  a  dor  e  a  capacidade  funcional,  evidências  limitadas  de  que  a  proteção  articular  leva  à  melhora  na
realização das ocupações e dados insuficientes sobre o uso de dispositivos de assistência. Foram encontradas
evidências de que as órteses reduzem a dor e aumentam a força de preensão, porém reduzem a destreza.
Entretanto, Steultjens e colegas (2002) classificaram como fraca a qualidade metodológica geral dos estudos.

CONCLUSÃO
Frequentemente,  os  terapeutas  ocupacionais  cuidam  de  pessoas  com  comprometimentos  musculoesqueléticos
que  limitam  o  desempenho  das  atividades  diárias.  Um  importante  fator  a  ser  considerado  no  trabalho  com
pessoas que apresentam esses comprometimentos é assegurar que as precauções apropriadas sejam obedecidas,
especialmente após cirurgia. Independente da estrutura teórica utilizada para avaliar e tratar as pessoas com esses
comprometimentos,  o  objetivo  é  melhorar  o  desempenho  nas  ocupações  desejadas  dentro  dos  limites  das
precauções e dos próprios comprometimentos musculoesqueléticos.

AGRADECIMENTOS
A autora agradece as contribuições de Cathy Dolhi, Karen Kolhmeyer, Mary Lou Leibold e Jody Schreiber por
seu trabalho na Décima Edição de Willard and Spackman. Os pontos de vista de seus trabalhos foram inseridos
neste capítulo.

QUESTÕES INSTIGANTES
1. Compare e diferencie os protocolos de tratamento para uma pessoa com artrite reumatoide que tem a doença
há 15 anos e apresenta limitações articulares e deformidades leves das mãos versus uma pessoa que tem a
doença há 1 ano e apresenta limitações e deformidades semelhantes nas mãos.
2. Discuta  como  você  poderia  utilizar  os  princípios  do  aprendizado  motor  para  ensinar  transferências  a  um
cliente que foi submetido recentemente à artroplastia do quadril com abordagem posterior.

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Habilidades Motoras e Desempenho
Ocupacional: Avaliação e Tratamento
CLARE G. GIUFFRIDA
E MARTIN S. RICE

Sumário
O Aparecimento das Habilidades Motoras
Reflexos, Mielinização e Processos de Maturação no Desenvolvimento Motor
Como os Sistemas Corporais se Modificam com o Desenvolvimento Motor
A Interação Entre as Tarefas Motoras, o Ambiente e a Pessoa
Controle Motor e Restrições Individuais ao Movimento
Restrições Impostas ao Movimento pelas Tarefas e pelo Ambiente
A Pessoa, a Tarefa e o Ambiente
Definindo e Avaliando as Habilidades Motoras e os Problemas do Desempenho Motor
Herança Intelectual e Referências Teóricas em Terapia Ocupacional que Orientam as
Abordagens Neuromotoras
Modelos de Distribuição e Sistemas do Controle Motor
Descrição Geral dos Modelos de Distribuição do Controle Motor
Teoria do Processamento Distribuído em Paralelo
Teoria Ecológica
Teoria Orientada para a Tarefa
Espaço de Trabalho Perceptivo­Motor
Abordagens de Controle Motor Propostas para a Interação Terapêutica
Modelo Orientado para a Tarefa
Programa de Reaprendizado Motor
Estudo de Caso: Emily: Uma Criança com Problemas para Andar
Abordagem Contemporânea Orientada para a Tarefa
Terapia por Restrição Induzida do Movimento
Estudo de Caso: Aetos: Um Homem com Ferimento na Cabeça por Projétil de Arma de Fogo
Abordagens Ortóticas
Treinamento Motor Assistido por Robô
Conclusão

Objetivos de Aprendizagem
Após a leitura deste capítulo, você será capaz de:
1. Discutir  o  aparecimento,  o  controle  e  o  aprendizado  das  habilidades  motoras  a  partir  da
perspectiva sistêmica.
2. Identificar os diferentes termos que são utilizados para descrever a organização do movimento e
os comportamentos motores que contribuem para o desempenho habilidoso.
3. Identificar  o  papel  do  terapeuta  ocupacional  na  avaliação  e  no  tratamento  de  pessoas  com
déficits  de  desempenho  em  habilidades  cotidianas  e  rotinas  em  consequência  de
comprometimentos motores.
4. Descrever  os  vários  tipos  de  alteração  motora  encontrados  em  pessoas  com  disfunção  do
sistema nervoso central e distúrbio de desenvolvimento.
5. Identificar as diferentes estratégias e os instrumentos de medida utilizados para avaliar pacientes
com déficits no desempenho habilidoso.
6. Discutir a influência dos achados neurocientíficos e científicos do movimento, bem como práticas
baseadas em evidência, sobre a avaliação e o tratamento em terapia ocupacional com foco na
recuperação e no aprendizado de habilidades cotidianas.
7. Discutir  as  estratégias  que  são  usadas  pelas  condutas  de  sistemas  neurofisiológicas  e
relacionadas com as tarefas para intervenção e a recuperação da habilidade cotidiana.

O
s terapeutas ocupacionais avaliam e tratam pacientes com diferentes comprometimentos neuromotores que
interferem no controle e na organização do movimento. Esses déficits são demonstrados tanto por crianças
como  por  adultos  com  dificuldades  específicas,  como  variação  de  tônus,  perda  do  controle  postural  e/ou  dos
membros, problemas de planejamento motor e déficits de coordenação motora, bem como por crianças e adultos
com  atraso  do  desenvolvimento  sensorimotor.  Sob  a  perspectiva  da  terapia  ocupacional,  os  problemas  do
movimento podem interferir no desempenho do indivíduo nas tarefas cotidianas e na organização de atividades
propositadas e significativas das ocupações diárias.
Este capítulo enfoca a identificação de elementos comuns do controle e da organização do movimento que são
essenciais ao desenvolvimento do indivíduo e à aquisição das habilidades motoras fundamentais, bem como das
habilidades de vida.

O APARECIMENTO DAS HABILIDADES MOTORAS
Conceitualmente, o desenvolvimento das habilidades motoras, independente da idade da pessoa, é essencial para
o  sucesso  em  qualquer  tipo  de  ocupação  que  requeira  um  componente  motor.  Esta  afirmação  se  refere  ao
fundamento em que se baseiam muitos tratamentos em terapia ocupacional. Inúmeros fatores contribuem para o
sucesso nas habilidades motoras, entre os quais um sistema nervoso central (SNC) intacto. À medida que o SNC
se desenvolve desde a fase de lactação até o início da vida adulta, ocorrem aumentos associados nas habilidades
motoras.  Embora  as  habilidades  motoras  não  se  desenvolvam  automaticamente  por  si  próprias,  seu
aparecimento  apropriado  para  a  idade  é  limitado  pelo  nível  de  maturação  dos  diferentes  sistemas  do  corpo,
inclusive  o  SNC.  A  integridade  do  SNC  é  o  fator  limitante  primordial  na  determinação  de  qualquer  sucesso
potencial  na  aquisição  das  habilidades  motoras.  Foi  proposto  que  as  habilidades  motoras  não  são  de  fato
verdadeiramente  desenvolvidas;  em  vez  disso,  elas  são  adquiridas.  Por  exemplo,  uma  criança  que  está
começando a aprender a andar fará muitas tentativas para dar seu primeiro passo antes de ser verdadeiramente
bem­sucedida. No processo dessas tentativas, a criança está aprendendo consciente e subconscientemente sobre
os limites de sua estabilidade, controle postural e equilíbrio. Assim que esses (e vários outros fatores) tiverem
sido  pelo  menos  parcialmente  alcançados,  a  criança  será  bem­sucedida  em  adquirir  a  habilidade  de
verdadeiramente dar o primeiro passo.
Entretanto, o desenvolvimento das habilidades motoras é baseado em mais do que simplesmente a maturação
do SNC. Muitos sistemas se desenvolvem e se modificam simultaneamente, juntamente com o SNC, incluindo –
mas não se limitando aos – sistemas muscular, esquelético e endócrino. Cada sistema do corpo se desenvolve em
seu  próprio  ritmo  e  apresenta  períodos  de  graus  variados  de  modificação  ao  longo  do  tempo.  Para  qualquer
habilidade motora, o sucesso na aquisição está na maturação crítica de qualquer número de sistemas subjacentes
(p.  ex.,  tamanho  do  esqueleto,  força  muscular  e  estabilidade  postural).  Quando  cada  um  dos  sistemas  tiver
alcançado  um  nível  de  desenvolvimento  que  dê  suporte  à  aquisição  de  uma  nova  habilidade,  a  criança  terá,
então, a capacidade de adquirir essa nova habilidade (Thelen, 1995). Grande parte do aprendizado exige que a
criança aprenda o que seu corpo pode e não pode fazer, diante das restrições do ambiente e da tarefa a realizar.
Quando  os  sistemas  da  criança  alcançarem  a  maturidade  de  desenvolvimento  que  permite  a  capacidade  de
aprender  uma  nova  habilidade  e  a  criança  experimentar  as  restrições  ambientais  (restrições  físicas,  restrições
sociais e restrições das tarefas), então todos os ingredientes para o aprendizado bem­sucedido estarão reunidos.
Ou  seja,  uma  vez  que  a  experiência  ocorra,  a  criança  aprenderá  como  ter  sucesso,  dadas  a  maturação  de  seu
desenvolvimento e as restrições ambientais.

Reflexos, Mielinização e Processos de Maturação do Desenvolvimento Motor
É  interessante  notar  que,  no  caso  de  uma  criança  recém­nascida,  o  número  de  neurônios  no  SNC  é  de
aproximadamente  100  bilhões  (Nolte,  2002).  Após  o  nascimento,  acredita­se  que  esses  neurônios  não  sejam
capazes de se dividir e reproduzir. Além disso, à medida que a pessoa envelhece, a partir da segunda década de
vida, o SNC tende a perder neurônios. Isto é considerado parte do processo normal de envelhecimento do SNC.
O  ponto  aqui  é  que,  quando  o  bebê  nasce,  ele  apresenta  todos  os  seus  neurônios  no  primeiro  dia  de  vida.  A
questão  então  é:  se  o  lactente  tem  todos  os  seus  neurônios,  então  por  que  a  criança  precisa  aprender?
Evidentemente,  existem  muitos  processos  envolvidos  no  desenvolvimento  da  criança.  Isto  é  particularmente
verdadeiro no desenvolvimento motor da criança.
Alguns  dos  padrões  mais  precoces  de  movimento  ou  de  posicionamento  existem  sob  a  forma  de  reflexos
primários.  Muitas  vezes,  esses  reflexos  primários  são  evidentes  quando  se  observa  o  posicionamento  de  uma
criança com menos de 6 meses de vida. Dois reflexos primitivos comuns são conhecidos como reflexo tônico
cervical  assimétrico  e  reflexo  tônico  cervical  simétrico.  Estes  dois  reflexos  afetam  a  posição  dos  membros
superiores  e  inferiores  e  são  desencadeados  ou  determinados  pela  posição  da  cabeça.  Embora  esses  reflexos
permaneçam  conosco  durante  toda  a  nossa  vida,  sua  influência  sobre  o  posicionamento  do  corpo  não  é  tão
evidente após os 6 meses de idade. Algumas vezes, esses reflexos podem aparecer em crianças mais velhas ou
em adultos após a ocorrência de uma lesão cerebral.
Existem diversas teorias sobre por que esses reflexos primitivos se tornam integrados. Uma das teorias mais
prevalentes tem a ver com a rápida mielinização do cérebro durante os primeiros anos de vida. A massa média
do encéfalo humano ao nascimento é de cerca de 400 gramas e, ao final do terceiro ano, a massa aumenta para
aproximadamente  1.200  gramas  (Nolte,  2002).  Acredita­se  que  a  maior  parte  desse  aumento  provenha  da
mielinização  dos  neurônios  do  SNC  e  que  a  mielinização  continue  pelo  menos  até  a  segunda  década  de  vida.
Posteriormente, postula­se que, à medida que o indivíduo envelhece, a velocidade da mielinização diminui. Por
que  a  mielinização  é  tão  importante?  Uma  vez  que  a  mielina  é  estabelecida,  a  facilidade  da  despolarização
neuronal  e  a  velocidade  da  transmissão  neuronal  aumentam  drasticamente.  Isto  resulta  em  uma  forma  mais
eficiente de comunicação entre os neurônios. Simultaneamente, o estabelecimento e a proliferação dos dendritos
ocorrem  em  uma  velocidade  relativamente  intensa  durante  os  primeiros  anos  de  vida.  Quanto  mais  dendritos
existirem,  mais  conexões  serão  feitas  entre  os  neurônios.  Enquanto  a  mielina  aumenta  a  velocidade  na  qual  a
despolarização  “viaja”  pelo  axônio,  os  dendritos  atuam  como  conexões  entre  outros  neurônios.  O  aumento  da
mielina  e  dos  dendritos  resulta  em  uma  comunicação  mais  eficiente  com  mais  neurônios,  o  que,  por  sua  vez,
significa que o cérebro pode processar mais informações de maneira mais eficiente. Falando pragmaticamente,
isso  resulta  na  capacidade  de  processar  mais  informações,  promove  melhor  coordenação  de  movimento  e
aumenta a capacidade de aprendizado de novas habilidades em maior velocidade.
Fig. 55.1 Gráfico do crescimento do percentil peso­idade dos Centers for Disease Control para meninos de 0 a 36
meses de vida.

Do  mesmo  modo  que  essas  alterações  neuronais  ocorrem  rapidamente  em  crianças  com  desenvolvimento
típico, os gráficos de crescimento fornecem algum esclarecimento sobre o desenvolvimento físico em termos de
altura  e  peso.  Do  nascimento  até  aproximadamente  20  anos  de  idade,  existem  dois  grandes  estirões  de
crescimento, os quais podem ser facilmente observados nas Figs. 55.1 e 55.2. Especificamente, a velocidade do
aumento de peso é maior do nascimento até aproximadamente 18 meses, quando inicia um platô. O peso tende a
permanecer relativamente estável até aproximadamente os 10 ou 11 anos, ou seja, o aumento no peso não é tão
dramático como nos primeiros meses de vida (Fig. 55.2). A criança continua a se desenvolver entre as idades de
aproximadamente 18 meses e 11 anos, e então um segundo aumento dramático de peso ocorre durante a fase da
puberdade. A maior parte desse ganho de peso se deve ao rápido aumento da massa muscular e ao crescimento
do esqueleto. Esse ganho de peso durante a puberdade é acompanhado de alterações fundamentais de maturação
do sistema endócrino.
Fig. 55.2 Gráfico do crescimento do percentil peso­idade dos Centers for Disease Control para meninos de 2 a 20
anos.

Como os Sistemas Corporais se Modificam com o Desenvolvimento Motor
Uma vez que a pessoa tenha terminado com sucesso a puberdade e entrado na segunda década de vida, muitos
dos  sistemas  do  corpo  (isto  é,  massa  muscular,  tamanho  do  esqueleto,  mielinização  do  SNC)  permanecem
relativamente  estáveis  pelas  décadas  seguintes.  Entretanto,  alterações  deletérias  na  massa  muscular  podem  ser
encontradas já na terceira década, quando inicia a perda de fibras musculares, continuando essa diminuição pelo
menos  até  os  75  anos  de  idade  (Abrams,  Beers,  Berkow,  Fletcher  &  Besdine,  1995).  A  massa  óssea  é  outro
aspecto  que  se  modifica,  especialmente  nas  mulheres  na  menopausa,  porém  ambos  os  sexos  habitualmente
experimentam  perda  lenta  progressiva  da  massa  óssea,  que  se  inicia  por  volta  dos  50  anos  de  idade.  A  massa
cerebral tende a diminuir em cerca de 10% entre as idades de 25 e 90 anos (Abrams et al., 1995). Esta redução
na  massa  do  cérebro  não  está  necessariamente  associada  à  diminuição  da  função  cognitiva,  embora  algumas
alterações cognitivas ocorram de fato com o processo normal do envelhecimento. Como exemplo, pessoas com
ventrículos aumentados ainda podem apresentar funções normais, enquanto aquelas com ventrículos de tamanho
“normal” apresentam demência severa. Consequentemente, a perda de massa cerebral relacionada com a idade
não significa necessariamente perda da função cognitiva.
Embora  tenhamos  discutido  apenas  três  sistemas  que  se  modificam  ao  longo  da  vida  (massa  óssea,  massa
muscular e massa cerebral), ocorrem alterações em todos os órgãos e sistemas ao longo da vida inclusive – mas
não limitadas aos – sistema cardiovascular, rins, sistema gastrointestinal, pele e sistema imunológico. Da mesma
maneira que o desenvolvimento dos subsistemas da criança fornece potencial para que ela adquira habilidades, o
oposto  pode  ser  verdadeiro,  à  medida  que  a  pessoa  atinge  a  quinta  e  a  sexta  décadas  de  vida  (e  além).  Por
exemplo, à medida que a pessoa envelhece e experimenta alterações em órgãos e sistemas relacionadas com a
idade,  o  potencial  para  aprendizado  de  novas  habilidades  ou  manutenção  da  capacidade  de  realizar  as
habilidades aprendidas em momentos anteriores da vida pode declinar. Após termos discutido algumas questões
sobre o desenvolvimento, o crescimento e a maturação que ocorrem ao longo da vida, passaremos para a seção
seguinte,  abordando  os  conceitos  do  controle  motor  que  são  específicos  ao  movimento  e  às  habilidades
funcionais.

A INTERAÇÃO ENTRE AS TAREFAS MOTORAS, O AMBIENTE E A PESSOA
O movimento, com todas as suas surpreendentes manifestações, é essencial para o desempenho da atividade e
das habilidades cotidianas. As atividades ocupacionais, como escrever e digitar, exigem o desenvolvimento e a
organização  de  movimentos  ou  ações  que  se  adaptem  às  demandas  das  tarefas.  Por  exemplo,  escrever  em  um
pedaço de papel exige a organização de várias ações: (1) pegar uma caneta, (2) orientação, (3) preensão e (4)
segurar  a  caneta  para  escrever  sobre  a  superfície  do  pedaço  de  papel,  (5)  produzir  pensamentos  para  escrever
com a caneta sobre o papel, (6) formar e iniciar o planejamento para escrever, (7) executar o plano de ação para
escrever, (8) realizar e encerrar a escrita. Para o pensamento científico atual, o movimento emerge da interação
do indivíduo com a tarefa e com o ambiente (Shumway­Cook & Woollacott, 1995). A maneira como escrevemos
dependerá  da  ferramenta  que  utilizamos,  da  superfície  sobre  a  qual  escrevemos,  da  mensagem  que  desejamos
transmitir e do que sabemos sobre o ato de escrever. A organização de cada movimento que executamos varia de
acordo com a pessoa e com a tarefa e reflete as múltiplas influências dos ambientes físico, social e cultural sobre
a pessoa e a tarefa. Os movimentos são específicos para a tarefa, dependentes do contexto e restritos por fatores
inerentes à situação. Por exemplo, o ato de alcançar depende da postura, da posição, da localização e do tamanho
da pessoa que tenta alcançar, bem como do tamanho e da localização do objeto que está sendo alcançado e de
sua posição em relação à pessoa que o deseja alcançar. Se uma pessoa apresenta uma incapacidade que interfere
ou  impede  a  habilidade  de  movimento,  o  início  e/ou  o  desempenho  da  tarefa  são  afetados.  Todas  as  pessoas
produzem  movimentos  adequados  às  demandas  das  tarefas,  e  a  capacidade  de  cada  uma  delas  em  se  adaptar
diariamente  às  mudanças  de  demandas  das  tarefas  reflete  suas  capacidades  e  limitações  funcionais.  O
pensamento atual destaca a expressão do movimento como uma função da integridade da pessoa, da tarefa e do
ambiente,  e  não  somente  como  expressão  dos  processos  neuromotores  e  musculoesqueléticos  da  pessoa.  O
pensamento científico que orientou a prática terapêutica dos anos 1950 até os anos 1980 baseou­se fortemente na
compreensão  do  movimento  como  um  produto  tanto  neuromotor  como  musculoesquelético.  Entretanto,  o
pensamento  contemporâneo  destaca  a  abordagem  multidimensional  dos  sistemas  para  o  desenvolvimento  e  o
controle motor. A Fig. 55.3 ilustra este pensamento fundamental sobre a abordagem multifatorial e de sistemas
para a organização do movimento e os fatores que controlam o movimento.

Controle Motor e Restrições Individuais ao Movimento
O controle motor  envolve  tanto  o  estudo  como  a  compreensão  da  natureza  e  da  regulação  do  movimento.  O
controle  motor  é  observado  como  o  produto  final  de  uma  interação  dinâmica  entre  os  sistemas  de  cognição­
percepção­ação  da  pessoa,  a  tarefa  a  ser  realizada  e  o  ambiente  (Heriza  1991;  Shumway­Cook  &  Woollacott,
2001).  Uma  visão  global  dos  diferentes  sistemas  corporais  que  contribuem  para  o  movimento  é  oferecida  a
seguir.

Fig. 55.3 Interação entre o indivíduo, a tarefa e o ambiente. (I = indivíduo, T = tarefa, A = ambiente).

Movimento e Sensibilidade/Percepção
A  maioria  das  teorias  sobre  o  controle  motor  propõe  diferentes  pa  péis  para  o  estímulo  sensorial  e  a
retroalimentação na regulação dos movimentos. As vias sensoriais fornecem informações sobre o ambiente e o
corpo que são úteis para iniciar e manter o movimento. O estímulo sensorial não tem apenas o papel de iniciar o
movimento, mas também de retroalimentação sensorial para controle do movimento à medida que este ocorre.
A  percepção  consiste  na  integração  das  impressões  sensoriais  de  diferentes  fontes  na  informação
psicologicamente  significativa.  Tanto  os  sistemas  de  percepção  como  os  sistemas  sensoriais  fornecem
informações  acerca  da  condição  do  corpo  e  das  características  do  ambiente  que  influenciam  o  controle  do
movimento.  A  sensibilidade  e  as  informações  percebidas  são  importantes  para  a  ação,  assim  como  a  ação  é
essencial  para  a  informação  percebida  (Rosenbaum,  1991).  Nós  atuamos  sobre  o  que  percebemos,  e  nós
percebemos e agimos a partir de nossas percepções. Consequentemente, a compreensão do movimento exige a
compreensão  dos  sistemas  que  controlam  a  sensibilidade  e  a  percepção  e  como  esses  sistemas  influenciam  e
modelam a ação.

Movimento e Ação
Os movimentos são parte de diferentes ações e, para o terapeuta ocupacional, o foco no controle do movimento
se destina a compreender como o indivíduo transforma movimentos em ações, atividades e rotinas significativas
e propositadas de diferentes ocupações. Além disso, os movimentos são descritos e mais bem compreendidos no
contexto da execução de ações direcionadas às metas. O controle do movimento é estudado no contexto de uma
ação,  como  alcançar  um  objeto,  com  o  pressuposto  de  que  os  processos  de  controle  envolvidos  nessa  função
esclarecerão os princípios relacionados com a maneira pela qual movimentos semelhantes são controlados.
A  compreensão  sobre  o  controle  da  ação  implica  a  compreensão  de  como  a  resposta  motora  se  baseia  em
componentes  musculoesqueléticos  e  neuromusculares,  incluindo  sinergias  de  movimento  e  os  sistemas  de
programação  motora.  O  sistema  musculoesquelético  inclui  propriedades  articulares  e  musculares,  como  a
flexibilidade  para  alongamento  articular  e  muscular,  contribuindo  para  a  organização  do  movimento.  Existem
muitas  articulações  e  muitos  músculos  no  corpo,  e  estes  devem  ser  controlados  durante  a  execução  do
movimento  coordenado  e  funcional.  O  problema  para  coordenar  muitos  músculos  e  articulações  em  uma
estrutura coordenada, denominado o problema dos graus de liberdade,  é  o  principal  tema  de  pesquisa  para
pesquisadores do controle motor.
Outra  estrutura  motora  relevante  para  a  ação  é  a  sinergia,  que  consiste  em  categorias  de  movimento  que
exigem a ação de mais de um músculo. Como definido por Shumway­Cook e Woollacott (2007), as sinergias são
associações  funcionais  de  grupos  de  músculos  específicos  à  ação,  como  uma  unidade,  e  refletem  estratégias
preferidas  para  o  movimento.  Exemplos  incluem  a  preensão  de  um  objeto  e  o  arremesso  de  uma  bola.  As
sinergias  são  caracterizadas  por  aspectos  espaciais  e  temporais  que  promovem  tanto  a  estabilidade  como  a
flexibilidade  no  movimento.  A  flexibilidade  dos  padrões  sinérgicos  possibilita  que  a  estrutura  coordenada  se
adapte  às  demandas  ambientais,  enquanto  a  estabilidade  é  evidenciada  pela  confiabilidade  dos  ordenamentos
espacial  e  temporal  de  movimentos  específicos.  Quando  a  pessoa  está  em  pé,  a  estabilidade  dos  membros
inferiores  é  fornecida  pela  ativação  da  sequência  distal­proximal  dos  músculos,  enquanto  a  flexibilidade
possibilita a deambulação sobre uma superfície irregular (Shumway­Cook & Woollacott, 2007). Na literatura da
terapia ocupacional, frequentemente são descritas sinergias atípicas associadas ao comprometimento do controle
do movimento, especialmente em populações com acidente vascular cerebral e paralisia cerebral. Essas sinergias
atípicas  dominadas  em  flexão  e  extensão  são  grupos  de  músculos  que  atuam  com  padrões  de  movimento  em
massa e refletem a resposta do indivíduo à reorganização do controle do movimento após uma lesão cerebral.
Essas  sinergias  são  marcadas  pela  falta  de  flexibilidade  e  estabilidade  e  podem  resultar  em  encurtamento
muscular e em deformidade musculoesquelética, uma vez que surgem novas posturas e movimentos e sequências
recíprocas normais não ocorrem como parte do controle do movimento.

Programa e Planejamento Motor
Os programas e planejamentos motores também são parte do sistema de ação que supostamente tem influência
sobre  o  controle  do  movimento.  Várias  definições  de  programas  motores  são  apresentadas  na  literatura.  De
acordo  com  Brooks  (1986),  programas  motores  são  definidos  como  “mensagens  dentro  do  sistema  nervoso
central com base em experiências anteriores e podem produzir ajustes posturais e movimentos planejados” (p. 7).
De  modo  alternativo,  na  literatura  sobre  controle  motor,  os  programas  motores  são  definidos  como
representações  abstratas  que,  quando  estimuladas,  resultam  na  produção  de  uma  sequência  coordenada  de
movimentos  (Keele,  Cohen  &  Ivry,  1990;  Schmidt  &  Lee,  2005).  A  maior  parte  da  pesquisa  sobre o controle
motor dedica­se a examinar as características permanentes hipotéticas dos programas motores e de seus pa péis
no planejamento e no controle do movimento. As características permanentes dos programas motores incluem o
ritmo  relativo,  a  ordenação  e  a  força  relativa  de  uma  ação.  Estes  elementos  caracterizam  categorias  de
movimentos, como o de arremessar. Arremessar é a ação de programação motora, e esta ação é generalizada, de
modo  que  “arremessar”  pode  incluir  lançar  uma  bola  de  futebol,  jogar  uma  roupa  suja  no  cesto  ou  atirar  uma
bola  de  neve  em  um  amigo.  Vários  estudiosos  do  controle  motor  questionam  a  utilidade  do  constructo
programação ou das representações abstratas dos movimentos. Entretanto, o conceito de programa motor ou de
representação  armazenada  do  movimento  é  fundamental  nas  abordagens  cognitivas  para  o  planejamento  e  o
controle  do  movimento.  Acredita­se  que  a  pessoa  utiliza  os  programas  motores  existentes  para  organizar  o
comportamento  motor  quando  se  depara  com  novas  ações  e  tarefas  no  ambiente.  Embora  exista  evidência
neurocomportamental  que  apoie  a  ação  dos  programas  motores  no  indivíduo,  ainda  há  controvérsias  sobre  a
maneira  como  os  programas  motores  são  desenvolvidos  e  onde  estão  armazenados  na  pessoa  (Shea  &  Wulf,
2005). Juntamente com planejamentos e programas de movimento, o conhecimento sobre postura, estabilidade e
controle postural informa a nossa compreensão de movimento.
O  controle  postural  envolve  o  controle  da  posição  do  corpo  no  espaço  para  manter  a  estabilidade  e  a
orientação.  Horak  e  Macpherson  (1996)  definiram  orientação  postural  como  a  capacidade  de  manter  uma
relação  apropriada  entre  os  segmentos  corporais  e  entre  o  corpo  e  o  ambiente  para  uma  tarefa.  A  estabilidade
postural ou equilíbrio é a capacidade de manter o corpo em equilíbrio. A manutenção do controle postural exige
dois processos sensorimotores separados: o processo de organização sensorial e o processo de ajuste motor. O
processo  de  organização  sensorial  envolve  a  interação  entre  um  ou  mais  sentidos  de  orientação  (visão,
somatossensorial e vestibular), sua integração no SNC e suas contribuições ao controle postural. O processo de
ajuste  motor  envolve  a  capacidade  de  executar  respostas  musculoesqueléticas  coordenadas  e  adequadamente
controladas.  As  respostas  motoras  são  processos  automáticos  que  se  desenvolvem  precocemente  na  infância,
enquanto os processos sensoriais se desenvolvem com o passar do tempo na criança e não estão completamente
desenvolvidos até que ela atinja 14 ou 15 anos de idade. Tanto o processo sensorial como o motor são essenciais
para  o  desenvolvimento  e  a  manutenção  do  controle  postural.  As  perdas  nesse  sistema  sensorial  ou  motor
causadas por lesão, doença ou atraso resultarão em estratégias inadequadas do controle postural.
O termo postura é mais utilizado para descrever tanto o alinhamento biomecânico do corpo como a orientação
do corpo em relação ao ambiente. Por exemplo, o terapeuta ocupacional poderia descrever a postura do cliente
como  sentada,  em  pé  ou  deitada.  Ao  trabalhar  com  o  cliente,  o  terapeuta  ocupacional  poderia  abordar  o
desenvolvimento do controle postural e dos movimentos coordenados como parte da necessidade da pessoa de
desenvolver  programas  e  planejamentos  motores.  O  profissional  considera  o  processo  de  postura,  ação  e
organização do movimento em relação ao desempenho de uma tarefa pela pessoa e não se concentra na execução
de um único movimento ou de uma única postura. O que é essencial é o suporte do terapeuta para a organização
do movimento do cliente em relação à tarefa e às demandas da atividade associadas a diferentes tarefas.

Cognição e Ação
As ações podem ocorrer como resultado de impulsos externos, como ver uma escova de dentes e alcançá­la, ou
reflexamente,  em  resposta  a  um  estímulo  externo,  ou  como  resultado  de  uma  intenção  ou  motivação  interna,
como desejar escovar os dentes pela manhã e procurar e alcançar a escova de dentes. Os processos cognitivos
importantes  para  a  ação  incluem  atenção,  memória,  motivação  e  os  aspectos  emocionais  do  controle  motor
subjacentes ao estabelecimento da intenção ou dos objetivos da pessoa (Shumway­Cook & Woollacott, 2001).
Além  disso,  a  capacidade  de  compreender  pistas  relevantes  de  uma  tarefa  e  do  ambiente  do  desempenho  e  a
capacidade  de  fazer  comparações  entre  tarefas  para  avaliar  o  próprio  desempenho  e  identificar  erros  do
planejamento do movimento são estratégias cognitivas úteis no aprendizado e reaprendizado da habilidade.

Tempo de Reação
Um  exemplo  de  cognição  e  ação  que  tem  sido  relativamente  bastante  pesquisado  como  medida  do
processamento cognitivo é o tempo de reação. O tempo de reação é considerado uma medida da eficiência do
trabalho do SNC. O tempo de reação é definido como o tempo entre a aplicação de um estímulo e o momento
em  que  o  movimento  se  inicia  em  reação  a  este  estímulo.  Existem  diferentes  tipos  de  tempo  de  reação.  Por
exemplo, tempo de reação simples é o tempo de reação em que um único estímulo é associado a uma resposta
específica  isolada.  Por  exemplo,  suponha  que  uma  pessoa  precise  dar  um  passo  à  frente  no  momento  em  que
veja uma luz acender; neste caso, existe uma relação um­para­um entre estímulo e resposta. O tempo de reação
de  escolha  é  um  pouco  mais  complexo,  ocorrendo  quando  inúmeros  estímulos  potenciais  estão  presentes  e  a
resposta motora é única para cada estímulo diferente. Por exemplo, poderia haver três estímulos potenciais dados
por uma luz vermelha, uma luz verde e uma luz azul. As instruções poderiam ser para que a pessoa erguesse seu
braço em extensão ao ver a luz vermelha, movesse seu braço para a esquerda ao ver a luz verde e movesse sua
mão para a direita ao ver a luz azul. Foi demonstrado que o desempenho do tempo de reação de escolha de uma
pessoa é tipicamente mais longo que o desempenho do tempo de reação simples. Também foi demonstrado que
os melhores tempos de reação ocorrem ao final da adolescência e no início da segunda década de vida, porque o
tempo de reação aumenta a cada década daí em diante. Os homens tendem a ter tempo de reação mais rápido do
que as mulheres. Também parece que, quanto maior o grau de escolaridade da pessoa, melhor será seu tempo de
reação  (Fozard,  Vercryssen,  Reynolds,  Hancock  &  Quilter,  1994;  Houx  &  Jolles,  1993).  Cada  movimento  da
pessoa é o produto de muitos sistemas que precisam ser examinados uma vez que interagem e contribuem para a
organização  e  o  controle  do  movimento.  Os  déficits  em  um  sistema  afetam  a  função  de  outros  sistemas.  Para
compreender o controle e a organização do movimento, os componentes de percepção, cognição e de ação do
controle motor devem  ser  considerados  e  sintetizados  como  parte  do  quadro  integral do controle motor. Além
dos  fatores  corporais  individuais  que  afetam  o  controle,  diferentes  tarefas,  bem  como  ambientes,  impõem
restrições ao controle motor (veja Fig. 55.3).

Restrições Impostas ao Movimento pelas Tarefas e pelo Ambiente
A natureza da tarefa e as necessidades para a realização da tarefa são essenciais ao controle do movimento. Em
terapia ocupacional, o papel do profissional é ajudar o cliente a ter êxito em tarefas que são importantes para as
ocupações do cliente, desde as atividades básicas de vida diária até trabalhos complexos ou rotinas de lazer. Por
exemplo, um terapeuta pode solicitar a uma criança que pegue a bola enquanto estiver parada ou que pegue a
bola enquanto estiver correndo.
Em pesquisas sobre o comportamento motor, as tarefas são classificadas de acordo com suas características e
as demandas da atividade. Essas categorias são baseadas em atributos da tarefa que afetam o controle da postura
e do movimento e o aprendizado. Além disso, a pesquisa sobre o aprendizado motor tem se concentrado em
examinar  ambientes  ideais  para  a  prática  e  condições  de  retroalimentação  para  a  aprendizagem  de  diversas
tarefas  de  acordo  com  seus  atributos.  Essa  estrutura  de  trabalho  é  útil  para  compreender  o  controle  do
movimento;  entretanto,  a  pesquisa  realizada  nessa  área  com  populações  de  pacientes  enquanto  desempenham
atividades de vida diária e tarefas funcionais é limitada.

Tarefas Definidas, Seriadas e de Movimento Contínuo
As tarefas definidas são aquelas com início e fim reconhecíveis. Por exemplo, sair da posição sentada para a
posição em pé, deitar na cama e girar a chave de ignição são exemplos de movimentos definidos. Uma série de
movimentos definidos realizados em conjunto é denominada tarefas seriadas. Um exemplo é a sequência para
colocação de lentes de contato; as etapas envolvidas poderiam incluir a retirada da lente de contato de sua caixa,
a lavagem das lentes com a solução, a colocação das lentes de contato sobre o dedo e, finalmente, a aplicação
das lentes na córnea. De acordo com Schmidt e Lee (2005), as tarefas seriadas são compostas de um conjunto
ordenado de movimentos definidos. A maioria das ações nas atividades básicas e instrumentais de vida diária,
como a higiene e o ato de vestir­se, são de natureza seriada. Tarefas contínuas são aquelas que não têm início
nem  fim  reconhecível;  estas  incluem  caminhar,  correr,  andar  de  bicicleta  e,  em  termos  de  higiene,  escovar  ou
pentear o cabelo. Nesses casos, o início e o fim da tarefa são determinados por quem a está desempenhando. Em
todas  as  tarefas,  a  natureza  da  tarefa  define  a  ação  necessária  e  a  organização  da  ação.  A  maneira  como  um
indivíduo aprende ou reaprende as tarefas também é afetada pelo tipo de tarefa.

Tarefas ou Habilidades Abertas Versus Fechadas
Outro  sistema  de  classificação  de  tarefas  utilizado  em  pesquisa  sobre  o  comportamento  motor  é  baseado  na
interação tarefa­ambiente definida por Schmidt e Lee (2005) e, mais tarde, elaborada por Gentile (1992). Nesse
sistema  de  classificação,  as  tarefas  de  movimento  fechado  são  caracterizadas  por  padrões  habituais  fixos  de
movimentos  que  são  realizados  em  ambientes  relativamente  constantes.  Habilidades  fechadas  são  um  tanto
estereotipadas,  mostram  pouca  variabilidade  de  experiência,  apresentam  pouca  demanda  de  informação­
processamento  e  exigem  menos  atenção  cognitiva  do  que  as  habilidades  abertas.  Habilidades  abertas  são
aquelas realizadas em um ambiente em constante modificação, exigindo que o indivíduo que as realiza adapte
seu  comportamento  a  um  ambiente  em  constante  mudança,  apresentam  alta  demanda  de  informação­
processamento e são tarefas que exigem atenção. A maioria das atividades básicas de vida diária, como abrir a
torneira para lavar o rosto, consiste em habilidades fechadas, enquanto atividades instrumentais, como dirigir ou
manobrar  um  carrinho  de  compras  em  um  supermercado  repleto  de  gente,  são  habilidades  abertas.  Para  obter
sucesso  nas  habilidades  abertas,  o  cliente  deve  desenvolver  um  repertório  de  movimentos  que  permitam  sua
adaptação às condições ambientais em transformação, como rebater uma bola com um bastão (Fig. 55.4).
Fig. 55.4 Habilidade aberta de rebater uma bola.

Tarefas de Estabilidade Versus Tarefas de Mobilidade e Demandas de Manipulação
Na  classificação  de  tarefas  e  demandas  do  movimento,  Gentile  (1992)  também  apresentou  uma  dimensão  da
tarefa  que  considera  se  a  base  de  sustentação  do  indivíduo  está  estática  ou  em  movimento.  As  tarefas  de
estabilidade, como sentar ou ficar de pé, são realizadas com a base de sustentação estática. Entretanto, as tarefas
de mobilidade, como caminhar ou correr, apresentam a base de sustentação em movimento. Além disso, Gentile
(1992)  levou  em  consideração  a  quantidade  de  manipulação  pelo  membro  superior  envolvida  em  uma  tarefa,
bem como o grau de precisão e a velocidade necessários para o desempenho funcional das tarefas. Tarefas de
manipulação que exigem rapidez e precisão, como utilizar um teclado, aumentam as demandas sobre o sistema
postural, já que a estabilização corporal é fundamental para o desempenho da tarefa.

Restrições Ambientais Regulatórias e Não Regulatórias
À medida que as tarefas são realizadas, as restrições ambientais podem influenciar o desempenho da pessoa de
várias maneiras. Algumas dessas restrições regulam diretamente o movimento, enquanto outras podem afetar o
desempenho de modo mais indireto. Por exemplo, alcançar um objeto fica restrito por tamanho, forma e peso,
por exemplo, de um copo que está sendo utilizado para beber. As características do copo regulam o movimento.
Se  o  ambiente  for  ruidoso,  entretanto,  a  tarefa  de  alcançar  o  copo  poderia  não  ser  diretamente  afetada;  neste
caso,  o  ruído  é  um  aspecto  não  regulatório  do  ambiente.  Para  planejar  tratamentos  efetivos,  é  necessário
compreender o ambiente e sua contribuição para o movimento e preparar os pacientes para se movimentar em
uma variedade de ambientes.

A Pessoa, a Tarefa e o Ambiente
A  aquisição  da  habilidade  depende  de  vários  fatores.  Os  profissionais  ajudam  os  pacientes  a  aprender
habilidades, e estas habilidades apresentam diferentes dimensões que influenciam a reaquisição. Compreender os
tipos e as exigências das tarefas, bem como as características regulatórias do ambiente que afetam o desempenho
destas  tarefas,  permite  ao  profissional  planejar  com  o  paciente  o  ambiente  ótimo  para  o  aprendizado  da
habilidade. Além disso, a compreensão de como o controle do movimento está afetado no cliente com distúrbio
neurológico  e  dos  sistemas  corporais  que  têm  sido  afetados  ajuda  o  profissional  a  planejar  tratamentos
multissistêmicos para o aprendizado da habilidade.
Juntamente  com  o  uso  da  análise  de  tarefa,  a  taxonomia  da  tarefa  pode  ser  útil  para  retreinar  movimentos
funcionais do paciente com distúrbio neurológico. A utilização dos três contínuos das habilidades fechadas para
as abertas, da estabilidade para a mobilidade e da não manipulação versus manipulação permitiria ao profissional
avaliar a capacidade e o nível de habilidade do cliente por meio de diferentes atividades básicas e instrumentais
de vida diária. Variando sistematicamente as características regulatórias da tarefa e do ambiente, o profissional
pode  ajudar  o  paciente  a  desenvolver  os  programas  e  planejamentos  motores  que  são  necessários  para
reconstrução  das  rotinas  das  tarefas.  Agora  que  revisamos  alguns  aspectos  fundamentais  do  aprendizado  e  do
controle  motor  e  seu  desenvolvimento  sob  uma  perspectiva  teórica,  a  seção  seguinte  trata  da  definição  e  da
avaliação das habilidades motoras e do desempenho motor.

DEFININDO E AVALIANDO AS HABILIDADES MOTORAS E OS PROBLEMAS DO
DESEMPENHO MOTOR
Esta seção apresenta conceitos da Classificação Internacional de Função (CIF) para oferecer uma orientação
para compreensão das habilidades motoras e como comprometimentos neuromotores que afetam as habilidades
motoras são definidos e avaliados. A CIF faz parte dos modelos médico e social de incapacidade por especificar
a  natureza  e  comparar  a  capacidade  e  a  incapacidade  funcional,  bem  como  o  impacto  de  fatores  sociais  e
ambientais  sobre  o  desempenho.  De  acordo  com  a  CIF,  a  função  reflete  o  con­junto  de  funcionalidades
corporais,  atividade  e  participação  de  uma  pessoa,  enquanto  a  incapacidade  reflete  comprometimentos,
limitações  de  atividade  e  função  e  restrições  da  atividade  (Fig.  55.5).  Na  CIF,  a  aquisição  de  um  nível  de
funcionalidade pela pessoa que visa à independência e à qualidade de vida é determinante para o resultado bem­
sucedido da reabilitação. O foco da CIF sobre a saúde e a qualidade de vida repercute no foco da profissão de
terapia ocupacional sobre a saúde e o bem­estar, bem como se concentra nos aspectos multifacetados da função e
do desempenho ocupacional.
Para  avaliar,  tratar  e  estabelecer  os  resultados  do  cliente,  o  profissional  se  concentra  em  compreender  os
fatores do cliente, as demandas da atividade ocupacional do cliente, os contextos do desempenho ocupacional do
cliente, os padrões de desempenho ocupacional do cliente, as habilidades do desempenho ocupacional do cliente
e o desempenho real do cliente e sua participação em tarefas pessoais e ocupações significativas. Além disso, ao
avaliar e tratar o cliente, o profissional observa aquilo que o cliente pode e não pode fazer e o que facilita ou
interfere no desempenho do cliente em suas ocupações. Para compreensão e organização do controle motor, isto
significa que o profissional integra seu entendimento sobre o indivíduo, a tarefa e o ambiente e o relaciona ao
controle do movimento e às habilidades motoras para abordar as questões motoras do cliente que interferem com
a  capacidade  de  participação  na  ocupação.  É  essa  integração  que  define  de  maneira  única  a  arte  da  terapia
ocupacional como profissão.
Esta  seção  relaciona  os  principais  termos  utilizados  para  explicar  as  habilidades  motoras.  Além  disso,  são
definidos  os  fatores  do  cliente,  incluindo  estruturas,  funções  e  comprometimentos  corporais  que  interferem  na
aquisição e no desempenho das habilidades motoras. Isso é necessário para que o leitor tenha uma compreensão
tanto  das  habilidades  como  dos  comprometimentos  motores  típicos  que  interferem  no  desempenho  motor  e
resultam em movimentos ineficientes.
Fig. 55.5 Classificação Internacional de Função (CIF).

Da  perspectiva  do  profissional,  as  habilidades  motoras  são  habilidades  do  cliente  para  se  movimentar  e
interagir  com  tarefas,  objetos  e  ambientes  específicos  ao  seu  engajamento  em  ocupações  significativas  e
necessárias  aos  pa  péis  de  vida  diária  e  à  participação  e  satisfação  com  sua  vida.  Além  disso,  o  desempenho
habilidoso  dos  clientes  em  suas  ocupações  dependerá  da  integridade  de  seus  diferentes  sistemas  corporais
(fatores  do  cliente),  do  conjunto  de  demandas  de  atividade  das  suas  ocupações  e  de  sua  influência  e  dos
contextos nos quais eles funcionam.
Habilidade  motora  é  definida  como  um  movimento  voluntário  relacionado  a  um  objetivo  que  exige  tanto
estímulo motor quanto sensorial para que se obtenha sucesso. As habilidades motoras são aprendidas e podem
aumentar  e  diminuir,  dependendo  da  prática  e  da  experiência.  Vários  fatores  do  cliente  podem  interferir  no
desempenho das habilidades motoras, uma vez que o controle motor e a organização motora estão integralmente
envolvidos com os sistemas corporais e as funções mentais que contribuem para o desempenho da tarefa. Entre
estes estão fatores e comprometimentos neuromotores nos níveis neuromuscular e postural que podem interferir
na  habilidade  motora.  Por  exemplo,  além  de  problemas  com  o  planejamento  motor  (p.  ex.,  problema  com  a
praxia), a perda do desempenho habilidoso pode resultar de instabilidade e mau alinhamento postural, limitação
da  mobilidade  funcional  de  tronco  e  membros,  incoordenação  dos  membros  superiores,  problemas  com  a
manipulação com as mãos, fraqueza de membros e corpo, incapacidade de controlar e manter a coativação e a
força muscular e da incapacidade de sequenciar a atividade muscular. A discussão a seguir define os termos e
comprometimentos  que  ajudam  o  profissional  a  compreender  os  componentes  da  postura,  do  movimento  e  da
habilidade,  assim  como  a  maneira  pela  qual  os  comprometimentos  neuromusculares  podem  interferir  no
movimento eficiente e habilidoso. Os componentes típicos do controle postural incluem postura, alinhamento e
adaptação.
A postura é um conjunto de posições de todas as articulações do corpo em dado momento. É a posição estática
assumida  por  qualquer  parte  do  corpo  a  qualquer  momento.  Os  terapeutas  devem  avaliar  o  alinhamento  e  as
curvaturas da coluna vertebral e a postura de pelve, tronco, cabeça, pescoço e membros superiores isoladamente
e  entre  si  nas  posições  em  pé,  sentada  e  deitada  e  no  contexto  do  desempenho  ocupacional.  Um  bom
alinhamento postural e corporal ocorre quando o centro de gravidade de cada segmento do corpo está sobre a
base  de  sustentação  do  corpo.  No  caso  da  criança  com  paralisia  cerebral,  o  alinhamento  postural  pode  estar
limitado pela interferência de reflexos, como o reflexo tônico cervical assimétrico, que faz com que o corpo da
criança seja dominado, em sua maior parte, pelo tônus extensor no lado do corpo para o qual a cabeça está girada
e pelo tônus flexor no lado oposto do corpo (Preston, 2006). Em uma pessoa que sofreu um acidente vascular
cerebral,  sinergias  musculares  atípicas  podem  resultar  em  aumento  atípico  sustentado  do  tônus  flexor  e/ou
extensor nos diferentes grupos musculares, levando às assimetrias posturais quando o cliente está sentado ou em
pé.
Adaptação postural se refere à capacidade do corpo em manter automaticamente o equilíbrio e permanecer
na posição ortostática durante mudanças de posição e desafios à estabilidade. O controle e a adaptação normais
envolvem  a  capacidade  de  produzir  movimentos  em  amplitudes  adequadas  e  de  controlar  os  movimentos  ao
longo das amplitudes. Além disso, envolvem a capacidade de diferenciar e controlar seletivamente várias partes
do corpo; de iniciar, interromper e manter um membro em movimento e de apresentar tônus normal no corpo
para estabilizá­lo e dar suporte aos movimentos do membro enquanto o corpo está parado ou se movimentando.
Como definido por Howle (2002), o controle postural consiste em (1) reações pró­ativas ou orientação postural
que  ajudam  a  prever  a  relação  apropriada  entre  segmentos  corporais  específicos  à  tarefa;  (2)  estabilidade
postural, que é a capacidade de manter o centro de massa dentro dos limites da base de estabilidade; e (3) ajustes
posturais  reativos,  que  são  respostas  flexíveis  e  variadas  às  perturbações  do  ambiente,  aos  movimentos
autoiniciados ou a uma superfície em movimento.
Quando  avalia  o  cliente,  o  profissional  precisa  observar  a  postura  do  cliente  no  contexto  de  suas  ações
cotidianas, como sentar diante de um computador, ficar em pé, empurrar um carrinho de compras ou deitar na
cama.  Durante  essas  observações,  o  profissional  registra  o  que  está  ocorrendo  com  o  corpo  do  cliente,  se  o
cliente é capaz de se mover com eficiência e facilidade enquanto também atinge um objetivo, como levantar­se
da cama ou digitar enquanto sentado. Nesse contexto, as observações feitas se referem ao alinhamento postural
do cliente, à iniciação do movimento, ao controle seletivo e independente de seus membros e à capacidade de
interromper  as  ações.  Os  profissionais  devem  observar  a  postura,  o  alinhamento  e  o  equilíbrio  do  cliente  em
superfícies estáveis e rígidas e em uma superfície instável ou escorregadia. A dificuldade para determinação de
déficits  de  equilíbrio  está  no  fato  de  o  equilíbrio  apresentar  componentes  sensoriais  e  motores.  O  controle
postural apropriado depende dos estímulos de receptores visuais e somatossensoriais e do sistema vestibular e da
capacidade  do  SNC  de  interpretar  a  importância  relativa  de  cada  um  deles.  Para  avaliar  completamente  o
equilíbrio,  o  profissional  precisa  avaliar  todas  as  contribuições  para  o  equilíbrio,  incluindo  as  perturbações  do
equilíbrio e as influências sensoriais e motoras sobre o controle postural. A capacidade do cliente de se curvar e
amarrar os sapatos e de entrar e sair de uma banheira também deve ser avaliada como parte da observação da
natureza  dinâmica  do  controle  postural.  A  Tabela  55.1  descreve  várias  ferramentas  de  avaliação  clínica  que
mensuram o controle postural.
TABELA 55.1 AVALIAÇÕES DO CONTROLE POSTURAL
Avaliação Faixa Descrição
Etária
Teste da Organização Adultos Define  seis  condições  ou  ambientes  sensoriais  diferentes  para  mensurar  a
Sensorial (TOS) oscilação postural
Avalia  a  influência  da  visão  e  das  informações  somáticas,  vestibulares  e
sensoriais
Teste Clínico de Todas Uma superfície de espuma é utilizada para perturbar a sensibilidade somática
Integração Teste de conflito visual é realizado com pontos e linhas para perturbar a visão
Sensorial e
Equilíbrio (TCISE) Mensura a capacidade do cliente de manter o equilíbrio sob seis condições

Alcance Funcional Adultos Mensura a distância que pode ser alcançada com a pessoa de pé, inclinando­


se para diante. Indica a distância na qual o centro da massa corporal pode ser
movido até o limite da estabilidade
Teste “Levantar e Ir” Adultos Mensura  o  tempo  gasto  pela  pessoa  para  levantar  da  posição  sentada,
com Tempo caminhar e se sentar novamente. Indica a capacidade de equilíbrio durante a
Determinado transição  do  corpo  de  um  lugar  para  outro,  a  capacidade  do  equilíbrio  sendo
interpretada como o tempo gasto para realizar toda a sequência
(Timed “Up and Go”
Test – TUG)
Avaliação da Marcha Adulto O  cliente  é  solicitado  a  realizar  várias  tarefas  (p.  ex.,  mover­se  da  posição
e do Equilíbrio de sentada para a de pé e deambular)
Tinetti Tem alta validade preditiva para idosos frágeis sob risco de quedas
Escala de Equilíbrio Adultos O cliente é solicitado a realizar 14 tarefas diferentes; cada tarefa é pontuada
de Berg com o uso de uma escala de quatro pontos

Teste de Limites de Adulto O  cliente  fica  em  pé  e  é  calculado  o  centro  de  gravidade  na  plataforma  de
Estabilidade força computadorizada
O cliente voluntariamente desloca o peso na direção de uma série de alvos
Monitora  o  movimento  quanto  à  suavidade  e  à  precisão  dos  movimentos
posturais
Avaliação Adultos Subteste  de  equilíbrio  mensura  a  quantidade  de  resistência  e  o  tempo
Sensorimotora de tolerado durante reações de equilíbrio estático em pé e reações de inclinação
Fugl­Meyer

O  tônus  pode  ser  definido  de  várias  maneiras;  varia  de  pessoa  para  pessoa  e  depende  de  idade,  sexo  e
ocupação. O tônus muscular é caracterizado pela rigidez ou tensão com que o músculo resiste ao ser alongado.
Mecanismos  tanto  neurais  como  não  neurais  contribuem  para  o  tônus  muscular  (Lin,  Brown  &  Brotherstone,
1994).  O  tônus  normal  é  caracterizado  pela  capacidade  de  se  mover  contra  a  ação  da  gravidade,  passar  da
estabilidade  para  a  mobilidade,  utilizar  músculos  em  grupos  ou  isoladamente  e  equilibrar  o  tônus  agonista  e
antagonista  (Preston,  2006).  O  tônus  de  um  músculo  pode  ser  afetado  por  dano  ao  sistema  nervoso  e  pode
aumentar e diminuir ou variar durante diferentes tarefas e condições ambientais (Fig. 55.6).
A  hipotonia  apresentada  por  clientes  com  tônus  reduzido  consiste  em  uma  diminuição  da  sensibilidade  à
resistência de um músculo ao alongamento, bem como da articulação que é movida ao longo da amplitude de
movimento e da incapacidade do cliente de recrutar força adequada para mover­se contra a ação da gravidade.
Clinicamente,  os  músculos  parecem  flácidos,  as  articulações  são  lássidas,  já  que  a  cocontração  ao  redor  das
articulações é menos que ótima devido à produção inadequada de força, e os reflexos tendinosos profundos estão
ausentes  ou  diminuídos.  A  hipotonia  é  observada  em  lesões  dos  tratos  cerebelares,  doenças  musculares
primárias, distúrbios de neurônios motores inferiores e nas fases agudas do acidente vascular cerebral e da lesão
de medula espinal. A hipotonia também pode ser observada como uma fase transitória em bebês com paralisia
cerebral.
A  hipertonia,  ao  contrário  da  hipotonia,  é  caracterizada  por  aumento  da  resistência  ao  alongamento,  uma
sensação  de  rigidez  e  limitação  da  amplitude  e  da  variedade  do  movimento.  A  espasticidade  é  um  distúrbio
motor caracterizado por um aumento velocidade­dependente dos reflexos tônicos de estiramento com as reações
tendinosas,  resultando  de  uma  hiperexcitabilidade  do  reflexo  de  estiramento.  Clinicamente,  a  espasticidade  é
caracterizada por músculos hipertônicos, reflexos tendinosos profundos hiperativos, clônus, reflexos medulares
anormais, maior resistência ao movimento passivo e diminuição da coordenação. A espasticidade é influenciada
pela condição postural do cliente e por fatores extrínsecos, como ansiedade, dor e extremos de temperatura. Ela
pode ser leve, moderada ou severa.

Fig. 55.6 Continuum do tônus.

A rigidez é definida como o aumento simultâneo do tônus muscular nos músculos agonistas e antagonistas, o
que resulta em diminuição da resistência ao movimento passivo em qualquer sentido. A rigidez ocorre em lesões
do sistema extrapiramidal, como na doença de Parkinson, na encefalite e nos tumores. Quando a rigidez é uma
sensação  constante  em  toda  a  amplitude,  é  denominada  rigidez  em  cano  de  chumbo;  quando  a  rigidez  é
caracterizada  por  contração  e  relaxamento  alternados,  denomina­se  rigidez  em  roda  dentada.  Existem  muitos
desafios  para  avaliar  o  tônus  muscular,  uma  vez  que  ele  pode  variar  e  depende  de  fatores  intrínsecos  e
extrínsecos.
O tônus pode ser avaliado diretamente utilizando­se a Escala de Espasticidade de Ashworth (Ashworth, 1964)
e a Escala Modificada de Espasticidade de Ashworth (Bohannon & Smith, 1987). Essas escalas oferecem uma
maneira  de  quantificar  de  modo  abrangente  o  nível  de  espasticidade  no  músculo.  A  Escala  Modificada  de
Espasticidade de Ashworth é muito comumente citada na literatura e é bastante direta em termos de aplicação e
interpretação (Tabela 55.2).
Outra escala para avaliação da espasticidade é a escala de Tardieu (Tardieu, Shentoub & Delarue, 1954), mais
tarde adaptada por Held e Pierrot­Deseilligney (1969). Essa escala envolve um teste de espasticidade utilizando
três velocidades distintas (V1: o mais lento possível, V2: velocidade do membro como se estivesse caindo pela
ação  da  gravidade,  e  V3:  velocidade  máxima  possível  do  membro,  isto  é,  mais  rápido  que  os  efeitos  da
gravidade). Sob essas diferentes velocidades, são registrados tanto a qualidade de reação muscular (“X”) como o
ângulo da reação muscular (“Y”). A qualidade da reação muscular utiliza uma escala de cinco pontos, de zero a
quatro.  Zero  se  refere  a  “nenhuma  resistência  ao  longo  do  movimento  passivo”.  O  escore  um  se  refere  a
“discreta resistência ao longo do movimento passivo, sem uma ‘freada’ evidente em um ângulo específico”. O
escore  dois  se  refere  a  uma  “freada  evidente  em  um  ângulo  específico,  interrompendo  o  movimento  passivo,
seguido por uma liberação”. O escore três se refere a um “clônus fatigável (<10 segundos, quando a pressão é
mantida)  que  ocorre  em  um  ângulo  específico”.  O  escore  quatro  se  refere  a  “clônus  não  fatigáveis  (>  10
segundos, quando a pressão é mantida) que ocorrem em um ângulo específico” (Gracies et al., 2000, p. 1.555). O
ângulo  de  reação  muscular  é  “mensurado  em  relação  à  posição  de  estiramento  mínimo  do  músculo
(correspondendo  ao  ângulo  0)  para  todas  as  articulações,  exceto  o  quadril,  em  que  corresponde  à  posição
anatômica  de  repouso”  (Gracies  et  al.,  2000,  p.  1.555).  Coordenação  grosseira  é  a  atividade  combinada  de
diferentes  músculos  em  padrões  e  sequências  de  movimentos  suaves  e  é  descrita  como  ações  suaves,
direcionadas  e  fluidas  que  dão  suporte  às  atividades  cotidianas.  Além  disso,  o  movimento  coordenado  é
caracterizado por ritmo, tensão muscular adequada, tônus postural adequado e refinamento a um número mínimo
de grupos musculares necessários para a produção dos movimentos e do equilíbrio desejados. Coordenação é
uma resposta automática monitorada, principalmente, por meio de retroalimentação sensorial proprioceptiva. A
retroalimentação visual e tátil, o esquema corporal e a capacidade de julgar e movimentar o corpo em um espaço
também afetam a coordenação global. Incoordenação é um termo abrangente aplicado a movimentos anormais,
irregulares  ou  imprecisos.  Comprometimentos  neurológicos  e  traumatismos  como  miopatias  e  neuropatias
periféricas  e  lesões  de  cerebelo,  medula  espinal  e  córtex  frontal  e  pós­central  podem  causar  distúrbios
específicos  na  coordenação.  Consulte  a  Tabela  55.3  para  exemplos  de  distúrbios  neurológicos  e  seus  padrões
estereotipados de coordenação.
TABELA 55.2 ESCALA DE ESPASTICIDADE DE ASHWORTH E ESCALA DE ESPASTICIDADE DE
ASHWORTH MODIFICADA
Escala de Descrição Escala de
Espasticidade Espasticidade de
de Ashworth Ashworth Modificada
(Ashworth, (Bohannon & Smith,
1964) 1987)
1 “Aumento discreto do tônus muscular durante a preensão 0
quando o membro é movido”
“Aumento discreto do tônus muscular manifestado por 1
resistência mínima no final da amplitude de movimento
quando o(s) segmento(s) afetado(s) é(são) movido(s) em
flexão ou extensão”
“Aumento leve do tônus muscular, manifestado por uma +1
preensão seguida de uma resistência mínima durante o
restante (menos da metade) da amplitude de movimento”
2 “Aumento acentuado do tônus muscular, porém o membro 2
é facilmente flexionado”
3 “Aumento considerável do tônus muscular” 3
4 “Rígido em flexão ou extensão” 4

Além da observação direta dos movimentos suaves e fluidos do cliente durante as atividades de vida diária e
de  qualquer  alteração  importante,  como  tremor  de  repouso,  balismo  e  dismetria,  existem  diversos  testes
padronizados que utilizam a velocidade e a precisão nas tarefas funcionais para determinar o desempenho, como
demonstrado na Tabela 55.4.
TABELA 55.3 DISTÚRBIOS NEUROLÓGICOS E SEUS PADRÕES ESTEREOTIPADOS DE
COORDENAÇÃO
Categoria Descrição Teste
DISFUNÇÃO CEREBELAR
Tremor Ocorre  durante  movimento  voluntário,  menos Teste dedo­dedo, teste dedo­nariz.
intencional aparente  ou  ausente  durante  o  repouso  e  se Pode haver problemas na realização
intensifica ao final do movimento. de  tarefas  que  exigem  acurácia  e
Evidente na esclerose múltipla. precisão  do  posicionamento  do
membro  (p.  ex.,  beber  em  uma
xícara  ou  inserir  uma  chave  na
fechadura).
Tremor essencial Herdado  como  traço  autossômico  dominante, Pedir  à  pessoa  que  alcance  um
familiar visível  durante  a  realização  de  uma  tarefa  de objeto.  É  positivo  se  tremores
precisão e acurácia. estiverem  presentes  durante  o
deslocamento  para  alcançar  o
objeto.
Adiadococinesia Incapacidade  de  realizar  movimentos  alternantes Testar  contando  quantos  ciclos  de
rápidos,  por  exemplo,  pronação/supinação, movimentos  alternados  num  tempo
flexão/extensão do cotovelo. de  10  segundos.  Melhor  testar  o
lado  não  afetado/menos  afetado
primeiro  e,  em  seguida,  comparar
com o desempenho do lado afetado.
Disdiadococinesia Diminuição  da  capacidade  de  realizar  movimentos Supinar/pronar,  flexionar/estender  o
alternados rápidos suavemente. cotovelo, fechar/abrir a mão, tarefas
bilaterais  alternadas.  São
observados  o  número  de
alternâncias  no  período  de  tempo  e
as diferenças entre os membros.
Dismetria Incapacidade de controlar o comprimento muscular Testes dedo­dedo ou dedo­nariz.
resulta  em  deslocamento  em  excesso  quando  vai
em direção ao objeto­alvo.
Incapacidade  de  estimar  a  amplitude  de
movimento necessária para alcançar um alvo. Dois
tipos  incluem  hipermetria  (superestimativa)  e
hipometria (subestimativa).
Dissinergia Movimentos são fracionados em etapas e parecem Testes  dos  movimentos  alternados,
contrações.  As  contrações  são  causadas  pela dedo­nariz, dedo­dedo.
ausência de sinergia entre agonista/antagonista.
Pode  causar  problemas  na  articulação  e  na
fonação.
Ataxia Início tardio das respostas de movimento, erros na Quando  tenta  alcançar  objetos,  a
amplitude  e  na  força  do  movimento,  erros  na distância mais curta entre o cliente e
velocidade  e  na  regularidade  do  movimento.  Má o objeto não é uma linha reta.
coordenação  agonista/antagonista  resulta  em
contrações,  movimentos  mal­controlados,  má
estabilidade postural
Marcha atáxica Marcha  com  alargamento  da  base  de  sustentação Observação  da  marcha,  giro  rápido,
e instabilidade com tendência a guinada ou queda andar  pisando  dos  dedos  para  o
na direção do lado da lesão. calcanhar  ao  longo  de  uma  linha
Marcha  cambaleante  com  base  de  sustentação reta.
alargada  e  com  redução  ou  ausência  do  balanço
dos  braços,  irregularidade  do  comprimento  dos
passos e tendência à queda.
Fenômeno de Ausência de reflexo de parada brusca. O  terapeuta  libera  a  resistência  da
rebote de Incapacidade  de  interromper  o  movimento flexão  do  cotovelo  do  cliente
Holmes rapidamente para evitar bater em algo. inesperadamente,  a  mão  do  cliente
bate  em  seu  próprio  tórax,  se  não
for  capaz  de  interromper  o
movimento.
Hipotonia Diminuição  do  tônus  muscular,  diminuição  da Pode  ser  observado  clinicamente  e
resistência ao movimento passivo. realizado um estiramento rápido.
Nistagmo Movimento  involuntário  (oscilante)  dos  olhos. Pode  ser  observado  ao  solicitar  que
Interfere  no  controle  da  cabeça  e  no  equilíbrio. a  pessoa  olhe  para  um  objeto  fixo.
Pode ocorrer como resultado de lesões do sistema É  positivo  se  os  olhos  fizerem
vestibular, tronco encefálico ou cerebelo. rápidas  e  pequenas  oscilações
(movimentos  semelhantes  a
tremores).
Disartria Fala  explosiva  ou  arrastada,  causada  por Pode  ser  observado  se  a
incoordenação do mecanismo da fala. capacidade  de  articular  as  palavras
O  tom  de  voz  pode  variar  e  parecer  anasalado  ou por  problemas  oromotores  e/ou  da
trêmulo. musculatura  da  laringe.  Este  é  um
problema motor e não decorrente da
afasia.
DISFUNÇÃO DA PARTE POSTERIOR DA COLUNA
Ataxia Marcha  com  base  de  sustentação  alargada  resulta Pode  ser  observada  em  qualquer
em  perda  da  propriocepção,  porém  o  cliente parte  do  corpo.  É  caracterizada  por
consegue  se  autocorrigir  utilizando  a  visão  para “grandes” tremores.
observar  seus  pés  (comparar  com  a  disfunção
cerebelar).
Sinal de Romberg Incapacidade de manter o equilíbrio quando em pé O teste é o mesmo que a definição.
com os pés juntos e os olhos fechados.
DISFUNÇÃO DOS NÚCLEOS DA BASE
Movimentos Movimentos  contínuos,  lentos,  arrítmicos, O  terapeuta  deve  observar  o
atetoides vermiformes que afetam principalmente as porções comprometimento proximal ou distal
distais  dos  membros.  Ocorrem  em  padrões dos membros afetados, o padrão de
idênticos  em  um  mesmo  indivíduo;  não  estão movimento  e  que  estímulos
presentes  durante  o  sono.  Podem  ocorrer  em aumentam/diminuem  os
conjunto com a coreia = coreoatetose. movimentos  anormais.  Sua
ocorrência  pode  ser  documentada
por meio de observação.
Distonia Uma  forma  de  atetose  que  provoca  movimentos Sua  ocorrência  pode  ser
de  torção  do  membro  e  dos  músculos  proximais documentada  por  meio  de
dos membros, posturas distorcidas e espasmos de observação.
torção.
Postura  persistente  dos  membros  (p.  ex.,
hiperextensão  ou  hiperflexão  do  punho  e  dos
dedos)  frequentemente  com  torção  concomitante
da  coluna  vertebral  e  do  tronco.  Os  movimentos
frequentemente  são  contínuos  e  observados  em
conjunto  com  espasticidade.  Os  subtipos  incluem
segmentar, generalizada, focal e multifocal.
Coreia Movimentos  irregulares,  despropositados, Sua  ocorrência  pode  ser
involuntários,  grosseiros,  rápidos,  em  contração  e documentada  por  meio  de
disrítmicos, de distribuição variável. Podem ocorrer observação.
no sono.
Balismo Um  sintoma  raro  produzido  por  contração  abrupta Sua  ocorrência  pode  ser
contínua  da  musculatura  axial  e  proximal  do documentada  por  meio  de
membro.  Faz  com  que  o  membro  “voe” observação.
subitamente.  Ocorre  em  um  dos  lados
(hemibalismo)  e  é  causado  por  lesões  do  núcleo
subtalâmico oposto.
Tremores de Interrompidos  no  início  do  movimento  voluntário, Solicitar  à  pessoa  que  alcance  um
repouso são reassumidos durante a fase de sustentação de objeto.  É  positivo  se  os  tremores
uma tarefa motora (p. ex., o tremor tipo “enrolando estiverem  presentes  antes  do  início
pílula” do parkinsonismo). da  tarefa,  porém  interrompem­se
Ocorrem  em  repouso  e  regridem  quando  o quando o paciente alcança o objeto.
movimento  voluntário  é  realizado.  Observados  na
doença de Parkinson.
Bradicinesia O  movimento  é  muito  lento,  ou  até  mesmo Solicitar  à  pessoa  que  se  mova;  na
inexistente, com rigidez associada. tentativa  de  se  mover,  os
movimentos  da  pessoa  são
extremamente  lentos,  se  houver.  O
tônus parece ser alto.
TABELA 55.4 TESTES PADRONIZADOS DE CONTROLE E HABILIDADE MOTORES
Avaliação Faixa Etária Descrição
Teste de Proficiência 4,6­14,5 anos Avalia coordenações grosseira e fina, destreza,  velocidade  do  membro
Motora de superior, controle visuomotor, força muscular, equilíbrio.
Bruininks­
Oseretsky
BOT­2: Teste de 4­21 Cobre  uma  ampla  gama  de  habilidades  motoras  finas  e  grosseiras,
Proficiência proporcionando  escores  compostos  em  quatro  áreas  motoras  e  uma
Motora de medida  abrangente  da  proficiência  motora  global.  Estes  compostos
são  o  Controle  Manual  Fino,  a  Coordenação  Manual,  a  Coordenação
Bruininks­
Corporal, Força e Agilidade e um Composto Motor Total.
Oseretsky,
Segunda Edição
ABC do Movimento 4­12 Identifica e avalia os problemas do movimento que podem determinar
a  participação  e  o  ajuste  social  de  uma  criança  na  escola  e  planeja
programas  para  remediação  e  controle.  Fornece  uma  avaliação
abrangente  para  aqueles  indivíduos  identificados  como  em  risco,
produzindo  tanto  medidas  normativas  como  qualitativas  de
competência  do  movimento,  destreza  manual,  habilidades  com  a  bola
e equilíbrio estático e dinâmico.
Avaliação de Pré­ Pré­escolares Avalia 27 itens (p. ex., caminhar sobre uma linha, dar passos no lugar,
Escolares de teste mão­nariz) e avaliação motora grosseira.
Miller
Teste Rápido de 5 anos­adulto Avalia  a  integração  neurológica  (atenção,  equilíbrio,  organização
Avaliação espacial,  velocidade  e  ritmo  do  movimento,  planejamento  motor,
Neurológica coordenação).

Avaliação das Adultos, Mensura  tanto  as  habilidades  de  processo  como  as  motoras  em
Habilidades adolescentes relação  ao  desempenho  da  tarefa,  fornece  informações  sobre  como  a
Motoras e de e crianças pessoa  realiza  a  tarefa  em  determinado  contexto  e  é  utilizada  para
predizer o desempenho em atividades da vida diária.
Processo mais velhas;
também
existe uma
versão
escolar.
Teste do 5­14 anos Avalia  déficits  motores  (equilíbrio  estático  e  dinâmico,  destreza
Comprometimento manual, velocidade do movimento, coordenação mão­olho, capacidade
Motor de solucionar problemas).

A  coordenação  fina  é  definida  como  a  ação  suave  e  harmoniosa  de  grupos  musculares  que  atuam  em
conjunto  para  produzir  o  movimento  desejado,  enquanto  a  destreza  é  definida  como  um  tipo  de  coordenação
fina  que  é  principalmente  demonstrada  com  o  uso  dos  membros  superiores.  Os  problemas  de  coordenação
podem se manifestar por irregularidade da velocidade de movimento, força excessiva, sequenciamento incorreto
e  movimentos  súbitos.  Os  profissionais  utilizam  diferentes  testes  padronizados  para  avaliar  a  velocidade  de
manipulação, preensão e liberação de objetos, a precisão do movimento, os padrões de preensão, as habilidades
de escrita e a postura das mãos, como apresentado na Tabela 55.5.
Além  dos  testes  padronizados  baseados  no  desempenho,  é  importante  observar  como  o  cliente  utiliza  os
membros  superiores  em  tarefas  de  autoajuda,  como  abotoar,  digitar,  mudança  de  manipulação  e  escrever.  A
Avaliação  de  Habilidades  Motoras  e  Processos,  um  teste  padronizado  baseado  na  tarefa  que  o  cliente  prefere
realizar, é uma ferramenta desenvolvida por uma terapeuta ocupacional, a Dra. Anne Fisher. O terapeuta gradua
o  desempenho  do  cliente  por  meio  de  tarefas  de  acordo  com  as  habilidades  de  processamento,  motoras  e  de
comunicação. Isto divide o desempenho das tarefas em dimensões de postura, coordenação do movimento, força
e energia. Entretanto, para a aplicação desse teste, é necessário um treinamento especial, que limita a aplicação
dessa ferramenta entre populações.
Algumas  avaliações  são  mais  abrangentes  ao  abordar  algumas  questões  citadas  anteriormente,  enquanto
muitas avaliações são facilmente classificadas por problemas específicos para função motora, comprometimento
motor, coordenação motora e controle motor.
TABELA 55.5 TESTES PADRONIZADOS DE FUNÇÃO DO MEMBRO SUPERIOR E COORDENAÇÃO
MOTORA FINA
Avaliação de Destreza Faixa Descrição e Aspectos
Etária
Teste de Destreza de Adultos Mensura  a  coordenação  olho­mão  e  a  manipulação  de  pequenas
Pequenos Objetos de ferramentas manuais.
Crawford Desenhado para adolescentes e adultos.
Utiliza pinos, arruelas, parafusos, pinças, chaves de fenda.
O  cliente  tem  um  tempo  determinado  para  realizar  tarefas  como
inserir  um  pino  em  um  orifício  em  placa  de  metal  com  uso  de
pinças, colocar arruelas, apertar parafusos.
Avaliação do 0­6 anos Mensura  componentes  e  habilidades  do  desenvolvimento  da  função
Desenvolvimento da manual.
Preensão de Erhardt Utilizado de 0­6 anos.
Utiliza  uma  variedade  de  objetos  (p.  ex.,  mala  pequena,  balde  de
plástico, martelo de brinquedo, chave, contas, lata de alumínio, bola
de borracha, argolas para empilhar) para avaliar preensão, reflexo e
habilidades de manipulação.
Avaliação Unilateral da 5­15 Mensura  a  qualidade  do  movimento  unilateral  de  membro  superior
Função do Membro anos em  crianças  de  5­15  anos  de  idade.  É  útil  para  crianças  que
Superior de Melbourne apresentam qualquer disfunção neurológica.

Inventário Pediátrico de Medida  de  resultado  que  quantifica  o  nível  da  capacidade  e


Avaliação da Incapacidade dependência de uma criança em diferentes atividades funcionais da
(Pediatric Evaluation of vida  diária.  O  PEDI  avalia  o  desempenho  das  tarefas  nas  áreas  de
autocuidado, mobilidade e função social.
Disability Inventory –
PEDI)
Teste de Habilidade Motora Adulto Mensura  a  capacidade  de  realizar  13  atividades  da  vida  diária
do Braço (Arm Motor compostas  de  1  a  3  partes.  O  tempo  gasto  para  completar  cada
Ability Test – AMAT) tarefa  é  mensurado  com  um  cronômetro  e  as  ações  são  gravadas
em vídeo e classificadas em uma escala de 1 a 6.
Teste Quantidade Real de Adultos Mensura  o  uso  real  do  membro  em  21  itens,  utilizando  uma  escala
Uso (Actual Amount of de 3 pontos. Os pacientes são gravados em vídeo.
Use Test – AAUT)
Log de Atividade Motora: Adulto Fornece  informação  sobre  o  uso  real  do  membro  em  situações  da
Escala da Quantidade de vida cotidiana. O paciente relata em uma entrevista semiestruturada
Uso (Amount of Use Scale como está passando em uma escala de 6 pontos (0­5), 14 atividades
da vida diária são realizadas durante um período determinado.
– AOU)
Teste de Pesquisa da Ação 1 Três subtestes (preensão, garra e pinça) mensuram a capacidade de
do Braço (Action Reserch segurar,  mover  e  liberar  objetos  de  tamanhos,  pesos  e  formatos
Arm Test – ARA) diferentes. A escala tem 4 pontos (0­3).

Teste do Quadro de Pinos 5­adulto Mensura a coordenação olho­mão e a destreza com os dedos.


O  cliente  encaixa  pinos  em  um  quadro  com  25  orifícios  em  várias
posições aleatórias.
Teste do Quadro de Pinos + 5 anos Mensura os movimentos dos braços, mãos e dedos e a destreza das
de Purdue extremidades dos dedos.
Normatizado para adultos e crianças entre 5 e 15 anos e 11 meses.
O  cliente  encaixa  pinos  em  um  quadro,  junta  pinos,  arruelas  e
colares.
Teste de Bloco e Caixa 7­9 anos Testa a destreza manual.
e Normatizado  para  crianças  de  7­9  anos,  adultos  e  adultos  com
adultos envolvimento neuromuscular.
O  cliente  segura  um  bloco  de  cada  vez  e  o  coloca  em  um
compartimento fechado.
Teste de Coordenação Adulto Mensura a destreza fina.
Motora Fina com Nove Normatizado para adultos >20 anos.
Orifícios de Cavilha Escore  com  tempo  limitado  para  colocação  de  9  pinos  de  3  cm  em
um quadro de 12,5 por 12,5cm e retirá­los.
Teste de Função Manual de + 5 anos Avalia a capacidade funcional.
Jebsen­Taylor Subtestes  incluem  escrever,  virar  cartas,  pegar  pequenos  objetos,
simulação  de  alimentação,  colocação  de  pinos,  pegar  objetos  leves
e pesados.
Teste da Taxa de + 13 Mensura a destreza.
Manipulação de Minnesota anos Avalia  o  paciente  durante  os  atos  de  colocar,  virar,  deslocar,  virar  e
posicionar  com  uma  das  mãos  e  virar  e  posicionar  com  as  duas
mãos blocos arredondados.

HERANÇA INTELECTUAL E REFERÊNCIAS TEÓRICAS EM TERAPIA
OCUPACIONAL QUE ORIENTAM AS ABORDAGENS NEUROMOTORAS
O estudo do controle motor abrange diferentes disciplinas e representa as atividades acadêmicas e de pesquisa de
cientistas interessados no comportamento motor. Os achados de pesquisa e as teorias sobre o controle motor e a
recuperação  da  função  têm  exercido  influência  contínua  sobre  a  prática  da  terapia  ocupacional  centrada  em
adultos  e  crianças  com  distúrbios  do  controle  motor.  Nos  anos  seguintes  à  II  Guerra  Mundial,  a  abordagem
terapêutica dominante aplicada às incapacidades físicas era a reeducação muscular. Esta abordagem, embora útil
para a poliomielite, não era apropriada para tratar as pessoas com alterações do SNC que resultavam em paresia.
Por causa da inadequação da aplicação dos princípios da reeducação muscular aos transtornos do SNC, alguns
terapeutas  ocupacionais  e  fisioterapeutas  (p.  ex.,  Ayers,  1972;  Bobath,  1965;  Brunnstrom,  1970;  Knott,  1956;
Rood,  1952;  Voss,  Ionata  &  Myers,  1965)  começaram  a  estudar  e  a  sugerir  hipóteses  sobre  como  o  sistema
nervoso controla o movimento e aplicaram esses princípios à prática clínica. Como resultado de seus esforços, o
desenvolvimento  de  abordagens  e  técnicas  organizadas  para  a  restauração  da  função  do  SNC  se  iniciou  em
diferentes  áreas  de  terapia.  O  período  entre  meados  dos  anos  1950  até  os  anos  1980  foi  marcado  pelo
desenvolvimento  e  ensino  de  abordagens  neuroterapêuticas  especializadas,  como  a  facilitação  neuromuscular
proprioceptiva, a terapia do neurodesenvolvimento e a terapia de Brunnstrom. Estas abordagens se baseavam no
conhecimento  da  época,  focadas  em  técnicas  sensorimotoras  específicas,  e  em  hipóteses  sobre  o  SNC  e  a
organização do comportamento motor. Mais recentemente, essas abordagens perderam importância, uma vez que
abordagens teóricas mais atuais apresentaram melhores evidências de pesquisa que apoiam seu uso.
O estudo do controle e do aprendizado motor tenta explicar tanto a regulação como o controle de movimentos
normais,  bem  como  os  fatores  e  processos  envolvidos  no  aprendizado  motor  normal.  O  aprendizado  motor  é
comumente  definido  como  um  processo  associado  a  modificações  permanentes  no  comportamento  motor  que
resultam da prática e da experiência. O leitor é orientado a examinar textos que oferecem explicações detalhadas
sobre o processo de aprendizado motor e pesquisas que apoiam o aprendizado utilizando diferentes condições de
prática e fatores importantes, como a retroalimentação, que afetam o aprendizado motor (p. ex., Brooks, 1986;
Schmidt & Lee, 2005).
As  abordagens  de  controle  motor  utilizadas  em  terapia  ocupacional  descrevem  a  interação  entre  ideias  que
explicam a natureza e a regulação do movimento. Não há uma teoria única sobre o controle motor em terapia
ocupacional;  pelo  contrário,  existem  diversas  abordagens  e  modelos  aplicados  ao  aprendizado  e  ao  controle
motor.  Essas  abordagens  são  apoiadas  pela  pesquisa  sobre  aprendizado  e  controle  motor  oriunda  das  ciências
terapêuticas  e  do  movimento  e  que  fornece  evidências  que  apoiam  diferentes  tratamentos  em  terapia
ocupacional.
Compreender  o  controle  motor  implica  conhecimento  sobre  o  que  é  controlado  e  como  os  processos  de
controle  são  organizados  (Horak,  1991).  O  controle  motor  envolve  a  capacidade  de  regular  ou  direcionar  os
mecanismos que são essenciais ao movimento. Rosenbaum (1991) propôs que os aspectos centrais do controle
motor  envolvem  os  múltiplos  fatores  que  determinam  a  seleção  e  o  sequenciamento  do  movimento  e  a
coordenação de percepção e ação em atividades orientadas para a meta. Por exemplo, uma questão fundamental
para os teóricos do controle motor é como manter e controlar a estabilidade enquanto o indivíduo atua no e sobre
o  ambiente.  No  contexto  do  desempenho  ocupacional,  essa  questão  pode  ser  formulada  da  seguinte  maneira:
“Como a estabilidade postural e o movimento são regulados e controlados em um indivíduo engajado em uma
atividade cotidiana, como vestir­se, estando sentado em uma superfície estável ou instável, como uma cadeira
firme ou um sofá macio?”
O aprendizado motor é direcionado para a compreensão de como os movimentos são adquiridos e modificados
com a prática. Schmidt (1988) definiu o aprendizado motor como um conjunto de processos associados à prática
ou à experiência que leva a modificações permanentes na capacidade para atos habilidosos. Shumway­Cook e
Woollacott  (2001)  propuseram  que  o  aprendizado  motor  se  desenvolve  a  partir  de  um  conjunto  complexo  de
processos perceptuais, cognitivos e de ações desenvolvidos em resposta a interações pessoa­tarefa­ambiente.
O  estudo  do  controle  do  aprendizado  motor  continua  a  fornecer  novas  ideias  à  terapia  ocupacional  para
compreensão da natureza, da causa, da aquisição e da modificação do movimento, dando suporte ao desempenho
ocupacional  ótimo.  A  seção  a  seguir  oferece  um  resumo  das  teorias  prevalentes  sobre  aprendizado  e  controle
motor e suas implicações no tratamento em terapia ocupacional. As teorias estão organizadas de acordo com o
âmbito  em  que  o  controle  está  sendo  exercido:  limitado  ao  SNC  ou  disperso  por  todo  o  SNC  e/ou  outros
sistemas.
O  desenvolvimento  motor  é  o  produto  final  de  inúmeros  subsistemas  subjacentes.  Estes  subsistemas
subjacentes se desenvolvem e amadurecem em seu próprio ritmo em relação aos outros subsistemas. Exemplos
desses subsistemas incluem, mas sem se limitar, o sistema esquelético, o sistema muscular, os sistemas nervoso
central e periférico, o sistema endócrino e os sistemas sensoriais (sistemas visual, auditivo, gustatório, olfatório,
tátil, proprioceptivo e vestibular).
Historicamente,  o  desenvolvimento  motor  parecia  ocorrer  em  estágios  específicos  e  delimitados.  Gessell
(1928) e outros (Gessell & Ames, 1947; McGraw, 1935) desenvolveram estágios ontogênicos que representam
os marcos de desenvolvimento para crianças de aproximadamente 6 meses a 6 anos de idade. Esses marcos do
desenvolvimento incluem as capacidades posturais e motoras que parecem ser estereótipos de diferentes estágios
do  desenvolvimento.  O  desenvolvimento  típico  segue  certos  padrões,  especialmente  cefalocaudal  (da  cabeça
para  a  “cauda”)  e  proximal­distal  (de  axial  para  os  membros).  Em  outras  palavras,  em  termos  de
desenvolvimento, uma criança adquire controle da cabeça antes de adquirir controle dos membros inferiores (p.
ex.,  a  capacidade  de  andar).  De  modo  semelhante,  os  marcos  de  desenvolvimento  mostram  que  a  estabilidade
proximal  é  necessária  antes  de  se  obter  a  mobilidade  distal.  Se  o  tronco  não  estiver  estável,  a  capacidade  de
alcançar  um  objeto  com  sucesso  estará  diminuída.  Esses  constructos  dependentes  de  direção  exigem  que  a
organização do SNC seja em grande parte hierárquica por natureza. Isto é, as regiões cerebrais mais altas e mais
complexas controlam  ou  têm  domínio  sobre  os  centros  inferiores  do  cérebro. Os reflexos mais primitivos têm
sua origem neuroanatômica no mesencéfalo, no cerebelo e no bulbo. Como afirmamos anteriormente, se ocorrer
dano a uma área superior do cérebro (p. ex., córtex cerebral), então o ressurgimento dos reflexos primitivos não
será  incomum.  Isto  ofereceu  evidências  empíricas  de  que  alcançar  os  marcos  de  desenvolvimento  no  tempo
“normal” seria uma boa indicação do desenvolvimento global da criança. Além disso, acreditava­se que o exame
e  a  avaliação  dos  reflexos  primitivos  e  dos  marcos  de  desenvolvimento  seriam  um  método  confiável  para
avaliação do potencial de sucesso em ocupações adequadas à idade (Capute et al., 1982).
Recentemente, porém, tem sido questionada a veracidade dessa hipótese (Bartlett, 1997). Bartlett avaliou 156
bebês  que  pareciam  estar  se  desenvolvendo  normalmente  de  acordo  com  o  Perfil  dos  Reflexos  Primitivos
(Primitive Reflex Profile) e a Escala Motora do Lactente de Alberta (Alberta Infant Motor Scale). As avaliações
ocorreram às 6 semanas e aos 3 e 5 meses. Bartlett não encontrou correlação estatística entre os escores da escala
de desenvolvimento e os escores dos reflexos primitivos. Portanto, Bartlett concluiu que não havia relação entre
o desenvolvimento motor e a presença de reflexos primitivos. Seguindo a mesma linha, Thelen (1986) verificou
que,  quando  um  bebê  de  6  a  7  meses  de  vida  era  apoiado  sobre  uma  esteira  ergométrica,  ele  demonstrava
movimentos de passos bipodálicos relativamente maduros. Isso é particularmente interessante, pois a ontogenia
tradicional dos marcos de desenvolvimento afirma que o movimento do passo aparece normalmente na fase de
recém­nascido,  porém  desaparece  em  torno  dos  2  meses  para  reaparecer  aos  12  meses  de  idade,
aproximadamente (Strauss, 1982). O que Thelen demonstrou foi que, quando o ambiente era manipulado (p. ex.,
pelo apoio do peso corporal da criança, reduzindo com isso os efeitos da gravidade), a criança espontaneamente
demonstrava  movimento  precoce  de  passos  bipodálicos.  Como  não  é  lógico  pensar  que  o  SNC  amadurecia
apenas enquanto a criança estava apoiada, fica claro que a organização hierárquica presumida do SNC não é um
fator ou mecanismo de controle exclusivo no desenvolvimento motor.
Outra linha de evidência em relação ao tipo de preensão questiona uma crença tradicionalmente aceita de que
existe uma sequência estereotipada de tipos de preensão manual (J.S. Connolly & Elliott, 1972; K. J. Connolly,
1973; Gessell, 1928). Esta sequência envolve o uso inicial de uma configuração de uma preensão grosseira/tipo
garra  e  termina  com  a  configuração  de  oposição  dedo­polegar  madura.  Um  grupo  de  pesquisadores  (Newell,
Scully, Tenenbaum & Hardiman, 1989) desenvolveu um experimento interessante em que os participantes eram
solicitados a segurar blocos de tamanhos que variavam de 0,8cm a 24,2cm de largura. Os participantes incluíam
26  pré­escolares  de  3  anos  e  3  meses  a  5  anos  e  4  meses  e  22  adultos  entre  18  e  46  anos  de  idade.  Esses
pesquisadores verificaram que, quando a relação da largura do bloco com o tamanho da mão era a mesma, tipos
semelhantes de preensão eram desencadeados independente da idade do participante. Esses resultados revelaram
que,  se  as  restrições  ambientais  da  criança  forem  manipuladas  para  se  igualarem  às  restrições  que  um  adulto
enfrentaria,  a  criança  demonstrará  tipos  de  preensão  similares  àqueles  que  o  adulto  emprega.  Estudos
subsequentes demonstraram resultados semelhantes (Cesari & Newell, 2000; Newell, McDonald & Baillargeon,
1993; Newell, Scully, McDonald & Baillargeon, 1989).
Conceitualmente,  os  estudos  de  Thelen,  Newell  e  outros  discordam  da  crença  de  que  o  desenvolvimento  é
baseado na organização hierárquica do SNC. Com base no estudo teórico de Bernstein (1967), os teóricos mais
contemporâneos  acreditam  que  o  “sistema”  (significando  os  vários  órgãos,  tecidos  e  sistemas  corporais)  é
organizado  de  modo  heterárquico.  Isso  significa  que  o  método  pelo  qual  uma  pessoa  planeja  e  executa  com
sucesso um movimento exige informação de muitos subsistemas (p. ex., grupos musculares, sistemas nervosos),
cada  um  contribuindo  para  a  solução  de  movimento  que  a  tarefa  exige.  Os  subsistemas  não  estão
necessariamente sob controle direto do córtex cerebral; isto é, o córtex cerebral ou a consciência, independente
do plano motor, não estabelece detalhes específicos do que cada subsistema precisa fazer para o sucesso de uma
ação motora. Bernstein (1967) argumentou que, embora a “função executiva” conheça o objetivo geral da tarefa
a ser realizada, ela não tem a capacidade de conhecer a miríade precisa de detalhes necessários a cada um dos
subsistemas. A função executiva conhece o objetivo da tarefa e pode direcioná­la de maneira muito geral, porém
o  subsistema  é  que  lida  com  os  pequenos  detalhes,  como  a  amplitude  de  movimento  necessária  em  cada
articulação,  a  quantidade  de  força  necessária  em  cada  músculo  e  a  quantidade  de  neurônios  motores  a  serem
recrutados, a sequência rítmica dos músculos agonistas e antagonistas.
Bernstein (1967) argumenta ainda que os subsistemas tendem a trabalhar em padrões sinérgicos. Por exemplo,
suponha que uma pessoa esteja sentada em um sofá e alcance um controle remoto da televisão que está 70cm à
sua  frente  sobre  uma  mesinha  de  café.  Determinados  grupos  musculares  são  recrutados,  como  os  deltoides
anteriores  e  o  tríceps,  como  músculos  primários  para  impulsão  do  braço  para  frente  na  direção  do  controle.
Agora  suponha  que  a  pessoa  esteja  deitada  de  lado  em  um  sofá,  em  vez  de  estar  sentada.  A  pessoa  alcança  o
controle remoto como no exemplo anterior, porém, como a posição do braço em relação ao controle remoto e a
ação  da  gravidade  são  diferentes,  um  conjunto  diferente  de  músculos  primários  é  recrutado  (principalmente  o
deltoide medial para contrarresistir à ação direta da gravidade, juntamente com o deltoide anterior e o tríceps)
para  mover  o  braço  na  direção  do  controle  remoto.  Se  tivermos  que  comparar  a  atividade  elétrica  do  deltoide
anterior  e  do  tríceps  nas  duas  condições,  a  eletroneuromiografia  seria  completamente  diferente.  Uma  coisa
importante a lembrar nesse exemplo é que, embora o objetivo seja o mesmo em ambas as situações (i.e., pegar o
controle  remoto),  subsistemas  diferentes  foram  recrutados,  dependendo  do  que  exige  a  situação.  A  seção
seguinte  fornece  mais  informações  sobre  alguns  modelos  específicos  do  controle  motor  que  levam  em  conta
esses conceitos.

MODELOS DE DISTRIBUIÇÃO E SISTEMAS DO CONTROLE MOTOR

Descrição Geral dos Modelos de Distribuição do Controle Motor
Neste modelo, o controle do movimento não é conceitualizado como sendo periférico ou central. Uma vez que
os  cientistas  examinaram  diferentes  comportamentos  motores  juntamente  com  as  restrições  de  tarefas  e
ambientes,  surgiu  um  conceito  de  controle  distribuído  do  movimento;  isto  é,  as  forças  internas  e  externas  que
atuam  sobre  esse  sistema  foram  consideradas  (Keshner,  1991).  Os  modelos  de  distribuição  do  controle  motor
não são unidirecionais. Pelo contrário, eles permitem que a comunicação ocorra dentro do sistema nervoso em
sentidos  ascendente,  descendente  e  lateral.  A  hierarquia  do  controle  é  percebida  não  como  uma  cadeia
descendente de comando, mas como uma rede circular sobreposta em que cada nível influencia aqueles acima e
abaixo  dele.  Diferentes  regiões  por  todo  o  sistema  fazem  parte  do  processo  subjacente  e  de  controle  do
movimento.  Alguns  modelos  de  controle  distribuído,  entretanto,  minimizam  a  relevância  do  sistema  nervoso.
Outros, como os modelos de redes neurais, continuam a confiar fortemente nas unidades de processamento que
se  constituem  dos  neurônios  e  de  seu  extenso  sistema  de  dendritos  interligados  (Bate,  1997).  O  controle  do
movimento  nesses  modelos  é  visto  como  distribuído  por  muitos  sistemas  de  trabalho,  os  quais  podem  incluir
fatores  mecânicos  e  ambientais,  bem  como  fatores  do  sistema  nervoso.  As  subseções  seguintes  contêm  uma
breve descrição de algumas das muitas teorias que envolvem o controle distribuído do movimento.

Descrição Geral da Teoria dos Sistemas
Bernstein, um cientista russo, foi o primeiro a observar as forças internas e externas que atuam sobre o corpo
para  compreender  as  características  do  sistema  em  movimento.  O  corpo  é  considerado  um  sistema  mecânico
com  massa  e  sujeito  a  forças  externas,  como  a  gravidade,  bem  como  a  forças  inerciais  e  movimento­
dependentes.  Bernstein  também  questionou:  (1)  a  função  do  sistema  em  um  ambiente  em  contínua
transformação,  (2)  as  propriedades  das  condições  iniciais  que  afetam  o  movimento,  e  (3)  o  corpo  como  um
sistema mecânico que influencia o processo de controle (Shumway­Cook & Woollacott, 2001).
Bernstein  (1967)  também  foi  responsável  por  identificar  o  que  é  conhecido  como  o  problema  dos  graus  de
liberdade. Ao descrever a mecânica do sistema, Bernstein observou que muitos graus de liberdade precisam ser
controlados  para  que  movimentos  coordenados  aconteçam.  Por  exemplo,  muitas  articulações  podem  flexionar,
estender  e/ou  rodar,  e  essas  múltiplas  opções  complicam  o  controle  do  movimento.  Consequentemente,  o
controle envolve a conversão do corpo em um sistema “controlável” (Schmidt, 1988).
A solução de Bernstein para esse problema foi propor a existência de um controle hierárquico para simplificar
os múltiplos graus de liberdade do corpo. Ele propôs que (1) os grupos de músculos são controlados para atuar
como uma unidade e (2) essas unidades são ativadas em níveis mais inferiores do sistema.

Descrição da Teoria do Padrão Dinâmico
Esta é uma abordagem operacional para estudar o movimento coordenado (Keshner, 1991) da maneira utilizada
nas  ciências  do  movimento.  O  impacto  dessa  teoria  é  observado  em  várias  áreas  de  pesquisa,  inclusive  de
desenvolvimento  (Thelen  &  Smith,  1994),  envelhecimento  (L.  S.  Greene  &  Williams,  1996),  reabilitação
(Scholz, 1990) e coordenação (Lee, 1998; Sternad, 1998; Walter, 1998). A teoria do padrão dinâmico incorpora
aspectos  da  teoria  dos  sistemas  de  Bernstein  e  o  estudo  da  dinâmica  e  da  sinergia.  É  uma  tentativa  de  definir
termos  e  fornecer  predições  comportamentais  e  matemáticas  para  padrões  de  movimentos  coordenados.  Os
seguintes  conceitos  básicos  são  fundamentais  para  muitas  abordagens  de  sistemas  dinâmicos  e  pesquisa  do
controle motor.

1. O sistema humano exibe comportamento auto­organizador.
2. O  sistema  humano  é  um  sistema  de  muitos  elementos  que  podem  ser  descritos  por  poucos  elementos,
denominados  variáveis  coletivas.  As  variáveis  coletivas  são  o  menor  número  de  variáveis  que  descreve
completamente  o  comportamento.  Por  exemplo,  Heriza  (1991)  propõe  que,  para  os  seres  humanos,
caminhar é um comportamento altamente complexo, caracterizado por um padrão de movimento específico.
O  aprendiz  de  marcha  comprime  os  muitos  graus  de  liberdade  disponíveis  dos  músculos,  ossos,
articulações,  tendões,  neurônios  e  unidades  motoras  para  relativamente  poucos  graus  de  liberdade  que
podem ser observados na marcha. Neste exemplo, um comportamento complexo — caminhar — torna­se
caracterizado por uma descrição do comportamento: o padrão de movimento específico.
3. As  variáveis  coletivas  caracterizam  padrões  de  movimento  e  capturam  os  sistemas  que  cooperam  para
produzir o movimento, uma vez que o movimento é mais do que apenas músculos e neurônios motores. Por
exemplo, chutar, andar e arremessar uma bola são exemplos de padrões de movimento coordenado. Mais
uma  vez,  um  exemplo  dado  por  Heriza  (1991)  ajuda  a  esclarecer  isto.  Na  coordenação  intramembro,
observada no membro durante o chute ou ao subir degraus, as variáveis coletivas identificadas são o ritmo
de fases de cada movimento, como a flexão e a extensão, a duração de fase, definida como o tempo entre o
início  do  movimento  de  uma  articulação  e  o  de  outra  articulação,  e  a  relação  de  cada  articulação  com  as
demais.
4. A identificação das transições entre fases é básica para compreensão do comportamento. Os parâmetros de
controle  são  variáveis  que  modificam  o  movimento  de  uma  forma  para  outra.  Os  parâmetros  de  controle
atuam para reorganizar o sistema. No exemplo da coordenação intramembro, bem como no da coordenação
intermembros,  os  comportamentos  podem  comandar  o  sistema.  Por  exemplo,  quando  um  bebê  está
dormindo  ou  sonolento,  observa­se  que  ele  chuta  pouco.  Se  o  bebê  estiver  acordado,  o  padrão  espacial  e
temporal  do  chute  é  observado.  Quando  o  bebê  chora,  surge  um  novo  padrão  que  é  descrito  como  uma
coativação  rígida  de  todos  os  músculos  em  mobilidade  enrijecida.  Consequentemente,  os  parâmetros  de
controle podem ser definidos como componentes essenciais, porém inespecíficos para o comportamento do
movimento.  Neste  exemplo,  os  parâmetros  de  controle  podem  residir  no  indivíduo,  como  o  estado
comportamental; no ambiente, como a gravidade; no ambiente social, como o cuidador; ou no objetivo ou
na tarefa. Novos padrões coordenados surgem quando os padrões antigos se tornam instáveis e o sistema é
levado  a  uma  nova  condição.  As  modificações  nos  parâmetros  de  controle  levam  o  sistema  a  uma  nova
condição. Durante as mudanças de fase ou transições de fase, o padrão de movimento prevalente torna­se
menos estável e mais facilmente perturbado pelo parâmetro de controle (Heriza, 1991).
5. O estudo da estabilidade ou da instabilidade do comportamento durante os períodos de transição é essencial
para compreensão da mudança de padrão em sistemas complexos. Nessa abordagem, o comportamento e o
controle  do  movimento  podem  ser  adequadamente  descritos  como  um  conjunto  de  variáveis  coletivas  e
variáveis de controle associadas à transição entre fases (Haugen & Mathiowetz, 1995).

IMPLICAÇÕES. Os sistemas dinâmicos são sistemas em que o comportamento evolui ao longo do tempo e são
marcados  por  sua  capacidade  de  mudar  de  condição.  Teorias  sistêmicas  consideram  outros  fatores  além  do
sistema nervoso para a regulação do movimento, como, por exemplo, as características físicas, como a massa do
sistema  que  está  sendo  mobilizado.  Essas  teorias  têm  aumentado  a  compreensão  sobre  os  múltiplos  fatores
responsáveis  pelo  movimento  controlado.  A  pessoa  é  vista  como  ativa  em  um  ambiente  e  o  movimento  surge
como  o  produto  de  diferentes  sistemas.  Essas  teorias  podem  ser  úteis  ao  se  considerarem  os  componentes
passivos  da  biomecânica  de  um  paciente  e  ao  se  decomporem  esses  componentes  em  explicações  para
estabilidade e instabilidade do movimento (Bate, 1997).

LIMITAÇÕES.  O  papel  do  sistema  nervoso  é  minimizado  nessas  teorias.  As  transições  nos  padrões  de
movimentos são explicadas em termos de causa física, funções matemáticas e variáveis. Essas teorias buscam
principalmente  explicações  físicas  que  contribuam  para  as  características  do  movimento  e,  portanto,  parecem
mais  alinhadas  com  as  interpretações  biomecânicas  do  movimento.  Entretanto,  várias  revisões  recentes  das
teorias  do  controle  motor  sugerem  que  as  visões  do  controle  motor  dinâmico  e  as  visões  alternativas  de
informação­processamento não são necessariamente mutuamente exclusivas (Walter, 1998). Além disso, Walter
discute  que  o  papel  relativo,  bem  como  as  forças  e  fraquezas  de  cada  teoria,  influencia  as  necessidades  de
controle motor a serem determinadas.

Teoria do Processamento Distribuído em Paralelo
A análise e simulações computadorizadas também fornecem modelos e teorias para o controle motor. Estes têm
sido esforços recentes para o desenvolvimento de modelos de processos de nível mais elevado que são baseados
na compreensão sobre  o  processamento  neural  e  nos  padrões  de  atividade  neural fornecidos pelos exames por
imagem.  Essas  tentativas  começam  por  perguntar  como  o  cérebro  poderia  alcançar  o  processamento  de  nível
superior, em vez de perguntar como o cérebro realmente consegue esse processamento. O modelo inicia com a
compreensão básica de como os neurônios funcionam e pergunta: Como poderia uma função de nível superior
ser alcançada pela conexão de elementos básicos como conjuntos de neurônios (Anderson, 1995)?
A  teoria  do  processamento  distribuído  em  paralelo  (PDP)  para  o  controle  motor  descreve  como  o  sistema
nervoso,  semelhante  a  uma  rede,  processa  a  informação  para  a  ação.  Ela  utiliza  o  conhecimento  atual  da
neurociência sobre o processamento seriado e paralelo do sistema nervoso. O processamento seriado consiste no
processamento  simultâneo  da  informação  por  meio  de  uma  única  via,  enquanto  o  processamento  em  paralelo
caracteriza  o  processamento  da  informação  por  meio  de  muitas  vias  (Kandel,  Schwartz  &  Jessel,  2000).  O
processamento distribuído em paralelo é único em sua ênfase para explicar os mecanismos neurais associados ao
controle  motor.  A  modelagem  neural,  isto  é,  a  simulação  computadorizada  de  funcionamento  do  sistema
nervoso, previu corretamente aspectos do processamento tanto nos sistemas de percepção como nos de ação. À
medida  que  a  modelagem  neural  se  desenvolver,  poderá  oferecer  mais  conhecimento  sobre  como  o  sistema
nervoso resolve problemas específicos.

Implicações
A  modelagem  da  função  e  da  disfunção  pode  ser  integrada  na  prática  clínica.  Shumway­Cook  e  Woollacott
(1995) propuseram que o modelo PDP poderia ser utilizado para predizer como as alterações do sistema nervoso
afetam a função. Como exemplo, a teoria prediz que existem vias redundantes em paralelo no sistema, e que a
perda de alguns elementos não afetará necessariamente a função. Entretanto, a perda de elementos adicionais, ou
a  perda  além  de  determinado  limite,  poderá  afetar  a  capacidade  funcional  do  sistema.  Esta  ideia  —  limiar  de
disfunção — é demonstrada em muitas condições patológicas, como na doença de Parkinson.

Limitações
A teoria PDP é uma ferramenta para pensar sobre o modo de funcionamento do sistema nervoso. Algumas das
funções propostas não são replicadas no processamento do sistema nervoso, e a modelagem não pode representar
completamente o conhecimento sobre o processamento do sistema nervoso.
Teoria Ecológica
A teoria ecológica, desenvolvida por James Gibson (1966), explora a interação entre o sistema motor (ação) e o
comportamento orientado para a meta. A pesquisa de Gibson concentrou­se em como detectamos a informação
ambiental e como a utilizamos para controlar nossos movimentos. A informação ambiental foi observada como
relevante para ação no ambiente. A percepção, mais do que a sensibilidade, é importante para que a pessoa atue
sobre o ambiente. A partir dessa perspectiva, é importante determinar como a pessoa detecta a informação no
ambiente,  o  tipo  de  informação  ambiental  e  como  esta  informação  é  utilizada  para  modificar  e  controlar  o
movimento.  Na  teoria  ecológica,  a  organização  do  movimento  depende  da  exploração  ativa  de  tarefas,  do
ambiente e das diferentes maneiras de a pessoa realizar uma tarefa. A percepção orienta a ação e a ação orienta a
percepção.  Consequentemente,  as  alterações  de  movimento  não  são  apenas  consequências  de  alterações
estruturais,  mas  também  podem  ser  compreendidas  como  uma  organização  temporoespacial  atípica  da
associação percepção­ação e da coordenação do movimento (Wagennar & van Emmerik, 1996). Essa abordagem
ampliou nossa compreensão sobre a dependência entre o controle sensorimotor e a função do sistema nervoso
central para formar um sistema de percepção­ação mais global que explora ativamente o ambiente para atender
seus  objetivos.  Da  mesma  maneira,  o  controle  motor  desordenado  representa  uma  ruptura  no  sistema  de
percepção­ação e não no SNC.

Implicações
Uma  importante  contribuição  dessa  perspectiva  é  ver  a  pessoa  como  ativa  no  ambiente  e  o  ambiente  como
fundamental  na  determinação  dos  movimentos.  A  exploração  ativa  do  ambiente  permite  à  pessoa  desenvolver
várias maneiras de realizar uma tarefa.

Limitações
Essa abordagem aumentou a compreensão da interação entre o organismo e o ambiente. A pesquisa está no nível
da  interface  organismo­ambiente.  Isso  contribuiu  menos  para  o  conhecimento  da  organização  e  função  do
sistema nervoso, que é uma preocupação primária dos terapeutas que atuam em programas do controle motor,
com base nas abordagens neuroterapêuticas tradicionais.

Teoria Orientada para a Tarefa
Na teoria orientada para a tarefa, o controle motor é compreendido por meio da identificação de que problemas o
SNC precisa resolver a fim de realizar uma tarefa motora. O termo tarefa, para P. H. Greene (1972), se refere a
problemas  básicos,  como  o  problema  dos  graus  de  liberdade  descrito  por  Bernstein,  que  o  SNC  precisa
solucionar  a  fim  de  conseguir  realizar  uma  tarefa  motora.  Peter  Greene  (1972)  propôs  que  essa  abordagem
forneceria a base para um quadro mais coerente do sistema motor.

Implicações
Essa perspectiva sugere a prática de tarefas funcionais para retreinamento em terapia. Ela reconhece o papel dos
sistemas  perceptivo,  cognitivo  e  de  ação  para  a  realização  das  tarefas  (P.  H.  Greene,  1972).  Ela  exige  a
compreensão de estratégias motoras que sejam utilizadas para realizar uma tarefa, bem como a compreensão da
base perceptiva para a ação e as contribuições cognitivas para as ações.

Limitações
Não  há  consenso  sobre  as  tarefas  fundamentais  do  SNC.  Também  não  há  concordância  sobre  os  elementos
essenciais que são controlados em uma tarefa. Por exemplo, ao estudarem o controle postural, alguns cientistas
consideram que o objetivo essencial do sistema postural é controlar a posição da cabeça. Outros cientistas que
estudam o controle postural acreditam que controlar a posição do centro de massa para alcançar a estabilidade
corporal é o objetivo essencial do controle postural (Shumway­Cook & Woollacott, 1995).

Espaço de Trabalho Perceptivo­Motor
Como o corpo sabe a maneira de fazer alguma coisa? Em outras palavras, como o corpo sabe quais subsistemas
precisam ser recrutados em determinada situação? Um modelo proposto por Turvey, Kugler, McDonald e Newell
(Kugler & Turvey, 1987; Newell & McDonald, 1994; Turvey & Kugler, 1984), denominado espaço de trabalho
perceptivo­motor, tem sua base na teoria dos sistemas dinâmicos (Gleick, 1987), bem como na teoria ecológica
da  percepção  e  ação  (Gibson,  1979,  1982).  Simplificando,  o  modelo  do  espaço  de  trabalho  perceptivo­motor
estabelece que a solução de movimento que é utilizada para uma determinada tarefa é resultado direto de como a
pessoa percebe (tanto consciente quanto inconscientemente) as restrições da tarefa, os ambientes e as restrições
dentro de si própria. Newell (1986) definiu restrições como sendo informações que impõem limites. Além disso,
Newell  afirma  que  as  restrições  também  fornecem  oportunidades.  As  restrições  fornecem  informações  que
permitem  a  uma  pessoa  dimensionar  a  situação;  isto  é,  as  restrições  despertam  a  atenção  em  relação  às
características  únicas  do  objeto  ou  da  situação.  Uma  vez  que  a  pessoa  perceba  essas  restrições,  o  “sistema”
nebuloso  da  pessoa  então  ativa  subsistemas  específicos  (p.  ex.,  porções  do  SNC  e  grupos  musculares)  que
interagem entre si, num processo que culmina em uma solução que está sintonizada, de maneira única, com a
tarefa e o ambiente específicos.

Implicações
Parte  desse  modelo  exige  que  a  pessoa  perceba  com  precisão  as  restrições  no  ambiente.  Se  a  pessoa  perceber
equivocadamente a restrição, como a localização do controle remoto, ela excederá o alvo, ficará aquém dele ou,
por outro lado, deixará escapar o controle remoto. Em outra experiência comum, se uma pessoa tentar levantar
uma lata de tinta, acreditando que ela está cheia, quando na realidade está vazia, a pessoa levantará a lata com
mais força do que o necessário, resultando na aceleração da lata de maneira não prevista. Do mesmo modo, se
uma criança não tem bom conhecimento da posição de seu corpo no espaço, então ela poderá ser considerada
desajeitada. Uma vez que a criança tenha possibilidade de explorar os limites de seu corpo, é possível que ela
desenvolva maior consciência da posição de seu corpo em relação ao ambiente. A mudança resultará em menos
movimentos  incoordenados.  A  ideia  de  má  percepção  do  ambiente  não  é  incomum.  Um  dos  autores  deste
capítulo  lembra  uma  ocasião  durante  um  acampamento  de  verão  em  um  parque  estadual  envolvendo  uma
sobrinha  que  o  acompanhava,  que  era  de  uma  grande  área  metropolitana  e  que  tinha  pouca  experiência  em
acampamentos. Quando ela chegou pela primeira vez no acampamento, viu uma grelha de churrasqueira, mas
não  a  reconheceu  como  tal.  Ela  percebeu  que  a  altura  da  grelha  lhe  permitia  um  bom  assento,  no  qual  ela  se
sentou  usando  seu  short  branco  (não  se  preocupe  —  o  fogo  não  estava  aceso).  A  consequência  é  que  ela  se
sentou  em  uma  altura  apropriada  mas,  infelizmente  para  ela,  a  parte  de  trás  de  seu  short  deu  a  ilusão  de  um
padrão de zebra. Aqui a percepção ambiental da altura da grelha foi precisa, a percepção da tarefa de sentar foi
precisa (ela se sentou com sucesso), porém ela aparentemente não tinha experiência prévia com grelhas — e o
“erro”  foi  cometido.  O  autor  informou  que  este  erro  não  ocorreu  novamente.  Isso  demonstra  um  ponto
importante: ter memórias em que se basear é uma restrição importante da pessoa quando se mapeia a percepção
para ação.

Limitações
Não  existe  evidência  que  sustente  esse  modelo  do  ponto  de  vista  da  reabilitação  ou  da  clínica.
Consequentemente,  na  atualidade,  esse  modelo  tem  aplicabilidade  limitada  à  reabilitação  e  a  outros  tipos  de
situações clínicas.

ABORDAGENS DE CONTROLE MOTOR PROPOSTAS PARA A INTERAÇÃO
TERAPÊUTICA
Surgiram  novas  abordagens  para  tratamento  de  déficits  do  desempenho  motor  que  afetam  os  desempenhos
ocupacionais.  Essas  abordagens  terapêuticas  são  baseadas  tanto  no  princípio  motor  como  no  princípio  do
aprendizado  e  em  modelos  e  pesquisas  mais  contemporâneos  sobre  o  controle  dos  movimentos  tanto  em
populações típicas como em populações com distúrbios do movimento.

Modelo Orientado para a Tarefa
O modelo orientado para a tarefa (Gordon, 1987; Horak, 1991; Shumway­Cook & Woollacott, 2001) tem como
objetivo tanto os sistemas de controle periférico como central. Alinhado aos modelos dos sistemas do controle
motor,  o  modelo  orientado  para  a  tarefa  presume  que  o  controle  do  movimento  seja  organizado  em  torno  de
tarefas  funcionais  direcionadas  a  uma  meta.  Os  clientes  aprendem  a  atingir  metas  para  tarefas  funcionais.  Ao
praticar  uma  ampla  variedade  de  movimentos,  o  cliente  soluciona  diferentes  tipos  de  problemas  motores.  As
hipóteses apresentadas na Tabela 55.6 orientam o tratamento.
Além dessas hipóteses e orientações, Horak (1991) sugere a organização de perguntas a respeito de diferentes
áreas  durante  o  tratamento  de  clientes  com  déficits  de  desempenho  motor.  Essas  áreas  são  metas
comportamentais  do  cliente,  estratégias  de  movimento,  restrições  musculoesqueléticas,  estratégias
compensatórias  e  necessidade  de  adaptações.  Exemplos  de  perguntas  sobre  essas  três  áreas  poderiam  ser  os
seguintes:
1. Metas  de  comportamento:  As  metas  do  terapeuta  e  do  cliente  são  as  mesmas?  Isso  pode  levar  o
profissional a incorporar o uso da Medida Canadense de Desempenho Ocupacional (Canadian Occupational
Performance  Measure,  COPM)  e  da  Avaliação  das  Habilidades  Motoras  e  de  Processo  (Assessment  of
Motor  and  Process  Skills).  Ao  utilizar  ambas  as  ferramentas,  o  profissional  pode  determinar  o  que  é
importante  para  o  cliente  e  quais  são  as  forças  e  as  fraquezas  nas  habilidades  motoras  e  de  processo  do
cliente.
2. Estratégia de movimento: Quais são os princípios organizadores de uma estratégia de movimento normal?
3. Restrições  musculoesqueléticas:  Quanto  do  déficit  motor  em  um  cliente  com  comprometimento
neurológico se deve a um déficit no sistema muscular e não aos componentes neurais?
4. Estratégias compensatórias: O cliente encontrou a estratégia mais efetiva?
5. Adaptação: Como uma estratégia de movimento deve ser adaptada para a realização da tarefa em um novo
contexto ambiental?

Programa de Reaprendizado Motor
O Programa de Reaprendizado Motor (Motor Re­Learning Program – Carr & Shepherd, 1987) é uma síntese dos
modelos contemporâneos prevalentes de controle motor e do processo de aprendizado motor (Sabari, 1995). Ele
é  específico  para  reabilitação  de  pacientes  após  acidente  vascular  cerebral.  O  programa  é  baseado  em  quatro
fatores  que  parecem  ser  essenciais  ao  aprendizado  da  habilidade  motora  e  considerados  essenciais  para  o
reaprendizado do controle motor: (1) eliminação de atividade muscular desnecessária, (2) retroalimentação, (3)
prática e (4) inter­relação entre ajuste postural e movimento. Nesse programa, o tratamento é direcionado mais
para o reaprendizado do controle do que para as atividades que incorporam o exercício ou para as técnicas de
facilitação ou inibição.
O tratamento é direcionado para o aumento do desempenho motor, e a ênfase está sobre a prática de tarefas
específicas, o treinamento de ação muscular controlável e o controle sobre os componentes do movimento dessas
tarefas.  As  principais  hipóteses  sobre  o  controle  motor  relacionadas  a  essa  abordagem  estão  listadas  no  Boxe
55.1.

TABELA 55.6 HIPÓTESES QUE DIRECIONAM A ABORDAGEM ORIENTADA PARA A TAREFA
Hipóteses Princípios de Tratamento
O movimento é controlado pelas metas da pessoa. A meta do tratamento é ensinar os clientes a atingirem os
Uma  ampla  variedade  de  padrões  de  movimento objetivos para as tarefas funcionais.
pode ser realizada em uma tarefa. Os  terapeutas  não  tratam  ou  limitam  o  tratamento  a  um
A  facilitação  dos  movimentos  normais  não  é padrão de movimento normal.
necessária. Os  terapeutas  tentam  ensinar  ao  sistema  nervoso  como
O  sistema  nervoso  adapta­se  continuamente  a  seu solucionar os diferentes problemas por meio da prática de
ambiente e a restrições musculoesqueléticas. uma ampla variedade de situações.
O  sistema  nervoso  não  é  um  receptor  passivo  de O  terapeuta  procura  manipular  os  sistemas  ambientais  e
estímulos  sensoriais,  mas  procura  ativamente musculoesqueléticos  para  permitir  o  comportamento
controlar suas próprias percepções e ações. propositado eficiente.
Os sistemas de controle voluntário e autônomo estão O  cliente  precisa  praticar  os  comportamentos  motores
inter­relacionados. motivado pelo objetivo de realizar a tarefa.
O  envolvimento  de  múltiplos  sistemas  resulta  no Os  clientes  são  estimulados  a  tentar  realizar
movimento. voluntariamente  um  comportamento  motor  com  o
O  sistema  nervoso  é  exposto  a  seu  ambiente encorajamento do terapeuta.
específico. O terapeuta e o ambiente fornecem retroalimentação.
O sistema nervoso procura alcançar as metas com os O  terapeuta  precisa  estabelecer  tratamentos  em  que  a
sistemas remanescentes após a lesão. prática  de  movimentos  controlados  ocorra  em  sessões
estruturadas externamente.
O  terapeuta  ajuda  o  cliente  a  identificar  e  a  utilizar
estratégias compensatórias.

Fonte: Horak, 1991, Gordon, 1987.
HIPÓTESES SUBJACENTES À ABORDAGEM DE REAPRENDIZADO MOTOR COM
ORIENTAÇÕES DE EXERCÍCIO E TREINAMENTO PARA OTIMIZAÇÃO DA
HABILIDADE MOTORA

Para  readquirir  o  controle  motor,  é  necessário  aprendizado.  Este  aprendizado  segue  os  mesmos
princípios e fatores utilizados no aprendizado normal. Consequentemente, a prática, a retroalimentação e
a compreensão da meta são essenciais ao tratamento.
O controle motor é exercitado nas modalidades antecipada e contínua.
O estímulo sensorial está relacionado à informação e ajuda a modular a ação.
O  controle  de  uma  tarefa  específica  pode  ser  efetivamente  recuperado  pela  prática  desta  tarefa  motora
específica em vários contextos.
A prática consciente das tarefas aumenta a conscientização sobre a capacidade de iniciar a atividade de
controle motor.
A progressão da prática se faz a partir da conscientização para a prática em um nível mais automático a
fim de assegurar que a habilidade foi aprendida.
A  função  cognitiva  é  enfatizada.  Se  o  cliente  tiver  que  aprender,  então  o  ambiente  deve  encorajar  o
processo de aprendizado.
Quando os clientes conseguem desempenhar uma tarefa com efetividade e eficiência sem pensar sobre
ela em vários contextos, ocorreu o aprendizado.
As  teorias  contemporâneas  sobre  o  controle  motor  enfatizam  o  controle  distribuído  em  vez  de  uma
abordagem  de  cima  para  baixo  ou  de  baixo  para  cima.  Consequentemente,  no  Programa  de
Reaprendizado Motor (Motor Re­Learning Program), a recuperação é direcionada para o reaprendizado
do controle por meio de muitos sistemas.
O cliente é definido como um participante ativo no processo terapêutico. A principal meta da reabilitação é
reaprender estratégias efetivas para realização de atividades funcionais.
O papel do terapeuta é evitar o uso de estratégias ineficientes pelo cliente.
O programa aborda sete categorias de atividades diárias funcionais: função do membro superior, função
orofacial, sentar à beira do leito, sentar equilibrado, sentar e levantar, ficar em pé equilibrado e caminhar.

Fonte: Carr & Shepherd (1987, 2003).

ESTUDO DE CASO: Emily: Uma Criança com Problemas para Andar

Emily, uma menina de 2 anos e 1 mês de idade com diagnóstico recente de paralisia cerebral atetoide, foi
encaminhada a um centro clínico pediátrico para investigação diagnóstica por uma equipe de tratamento que
incluiu  uma  terapeuta  ocupacional.  Os  pais  da  criança  estavam  preocupados  com  o  fato  de  Emily  não  ser
capaz de andar, embora ela parecesse bem nas outras áreas de desenvolvimento. Ela parecia brincalhona e
responsiva  e  gostava  de  brincar  pelo  pátio  dos  brinquedos.  Embora  ela  não  estivesse  se  apoiando  para
levantar e, obviamente, apresentasse um atraso na capacidade de andar, sua linguagem, capacidade de se
alimentar e seus padrões de brincadeira pareciam próximos aos de sua faixa etária.

Avaliação da Equipe
A  equipe  de  diagnóstico  que  se  reuniu  para  avaliar  Emily  decidiu  utilizar  várias  ferramentas  que
proporcionariam uma visão global de seu funcionamento cognitivo, sensorimotor, adaptativo, socioemocional
e  comportamento  lúdico.  Como  Emily  parecia  típica  em  suas  respostas  comportamentais  e  nos  interesses
por brincadeiras, a equipe não solicitou aos pais o preenchimento de um perfil sensorial de Emily, uma vez
que ela não parecia excessivamente responsiva ou pouco responsiva aos estímulos sensoriais e parecia não
ter problemas de regulação. Basicamente, ela parecia ser uma criança típica com um atraso significativo em
sua  capacidade  de  andar.  Entretanto,  era  capaz  de  ficar  na  posição  sentada  com  independência  e
ultrapassava obstáculos no ambiente, rolando ou em quatro apoios e, em seguida, caía, porém movendo­se
para frente. Ela era capaz de se sustentar nos quatro membros quando na posição de quatro apoios, porém
não  era  capaz  de  manter  essa  posição  por  mais  de  alguns  segundos  ou  de  engatinhar.  A  equipe  decidiu
utilizar as Escalas de Desenvolvimento de Lactentes de Bayley (Bayley Scales of Infant Development, BSID)
para avaliar o desenvolvimento de Emily em todas as áreas e também decidiu observá­la em um ambiente
de brincadeiras naturais com os pais presentes. A equipe aplicou as BSID com diversos membros da equipe
presentes.  Além  disso,  o  fonoaudiólogo  e  a  terapeuta  ocupacional  observaram  Emily  lanchando  para
determinar  se  havia  algum  problema  com  a  tarefa  comer.  O  desempenho  de  Emily  em  todas  as  áreas  foi
notável, uma vez que ela completou todas as tarefas compatíveis com seu nível de idade e outras além das
tarefas de movimento que pareciam preceder a deambulação ou ficar de pé. Emily foi capaz de comer com
as  mãos  e  beber  de  uma  caneca.  Foi  observado  que  a  fraqueza  e  os  movimentos  atetoides  estavam
interferindo mais com o uso dos membros inferiores e apenas em sua capacidade de engatinhar, ficar de pé
ou  caminhar.  Ela  respondia  bem  ao  ser  solicitada  a  ficar  em  quatro  apoios  ou  em  pé  quando  apoiada
manualmente ou direcionada por meio de atividades lúdicas apropriadas para sua idade, porém apresentava
limitações  para  autoiniciar  ou  manter  essas  posições  com  independência.  Entretanto,  quando  um  grande
colchão  retangular  foi  colocado  diante  dela,  Emily  pulou  sobre  uma  perna  de  cada  vez  e  brincou  vários
minutos com a caixa de atividades da Fisher­Price que estava no colchão.

O Raciocínio da Terapeuta Ocupacional
Após avaliar esta criança, a terapeuta ocupacional tinha várias decisões a tomar:

1. Emily era uma candidata apropriada para os serviços?
2. Seria  necessário  que  a  terapeuta  ocupacional  visse  Emily  duas  vezes  por  semana,  uma  vez  por
semana ou não era necessário?
3. A  terapeuta  ocupacional  poderia  funcionar  mais  como  uma  colaboradora/consultora  para  a  família
e/ou outros membros da equipe?

Apesar de os pais terem expressado preocupações apenas sobre o fato de Emily não andar, a terapeuta
ocupacional  ficou  imaginando  se  os  familiares  teriam  outras  preocupações  e  decidiu  aplicar  a  COPM  para
que eles pudessem ter alguma ideia adicional em relação ao desempenho de Emily em diferentes domínios.
Emily apresentava mobilidade limitada, porém, de maneira global, estava no nível de sua idade em outras
áreas,  e  a  terapeuta  ocupacional  considerou  que  ela  própria  poderia  colaborar  mais  efetivamente  com  a
equipe e com a família em tarefas e desafios ambientais que poderiam acelerar a capacidade de Emily de
ficar na posição de quatro apoios e de pé.

Tratamento de Terapia Ocupacional: Orientação à Família
A  terapeuta  ocupacional  decidiu  conversar  mais  com  os  pais.  Ela  enfatizou  que  Emily  tinha  muitos  pontos
fortes e que seus movimentos pareciam estar limitados pela fraqueza e instabilidade nos membros inferiores.
Todavia, a terapeuta ocupacional também sugeriu que o uso dos membros inferiores de Emily poderia ser
estimulado no ambiente doméstico natural e com oportunidades de brincadeiras que estimulassem o uso de
seus membros inferiores. Ela revisou com os pais como estruturar o ambiente doméstico de modo que Emily
tivesse que se mover em um ambiente que lhe desse oportunidades de ficar ajoelhada, tomar impulso para
levantar  e  “caminhar”  com  segurança.  Além  disso,  a  terapeuta  ocupacional  enfatizou  que  muitos  fatores
contribuíam  para  a  dificuldade  de  Emily  de  engatinhar  e  ficar  de  pé  e  que,  se  fosse  dada  a  ela  a
oportunidade  de  se  mover  e  utilizar  seu  corpo  enquanto  estivesse  envolvida  na  brincadeira,  isto  ajudaria
Emily  a  crescer  e  desenvolver­se  em  seu  contexto  natural.  A  terapeuta  também  conversou  com  a  família
sobre a pesquisa mais recente que sugere que o aprendizado motor ocorre com a prática e que Emily devia
“praticar”  e  experimentar  movimentos  diferentes  enquanto  estivesse  engajada  em  brincadeiras,  pois  isso
seria muito útil para seu desenvolvimento.

O Programa de Seis Meses
A  terapeuta  ocupacional,  juntamente  com  a  equipe,  recomendou  que  Emily  fosse  avaliada  em  seis  meses
para  determinar  se  seu  nível  de  brincadeiras  e  de  desenvolvimento  continuava  em  curso  e  se  ela  havia
alcançado  metas  mensuráveis  quanto  a  ser  capaz  de  engatinhar  e  ficar  de  pé  com  independência.  Para
monitorizar o progresso, a equipe decidiu que o fisioterapeuta visitaria Emily em casa uma vez por semana e
ofereceria  a  ela  oportunidades  de  movimento,  bem  como  exemplos  para  os  pais  sobre  maneiras  de
estimular  Emily  para  que  ela  pudesse  aprender  a  se  mover  de  maneira  orientada  para  uma  meta.  A
terapeuta  ocupacional  planejou  encontrar  a  família  quando  Emily  estivesse  agendada  para  a  avaliação  de
acompanhamento e, naquele momento, aplicar a COPM para determinar se havia outras preocupações da
família  quanto  ao  desempenho  de  Emily.  Além  disso,  a  terapeuta  ocupacional  conversaria  periodicamente
com  o  fisioterapeuta  para  discutir  o  progresso  de  Emily  e  oferecer  sugestões  em  relação  a  brincadeiras  e
estímulos a serem incorporados no ambiente.
Para fornecer esse programa, foi obedecida uma sequência de quatro etapas para a aquisição da habilidade. A
Etapa  1  consiste  em  uma  análise  da  tarefa,  incluindo  a  observação.  A  Etapa  2  refere­se  à  prática  dos
componentes  perdidos,  incluindo  identificação  de  metas,  orientação,  prática  e  retroalimentação  com  alguma
orientação manual. A Etapa 3 é a prática da tarefa com adição da reavaliação e de encorajamento à flexibilidade
da tarefa. A Etapa 4 visa à transferência do treinamento (Carr & Shepherd, 1987).

Abordagem Contemporânea Orientada para a Tarefa

Descrição
Haugen  e  Mathiowetz  (1995)  propuseram  uma  abordagem  orientada  para  a  tarefa,  baseada  em  um  modelo  de
sistemas  de  controle  motor  e  influenciada  por  teorias  do  desenvolvimento  e  do  aprendizado  motor
contemporâneos.  Esse  modelo  considera  a  interação  entre  as  características  pessoais  ou  sistemas  da  pessoa,
como o sistema sensorimotor, e o contexto de desempenho. O desempenho ocupacional surge da interação entre
as características pessoais e os contextos de desempenho, como observado na Tabela 55.7.
A Abordagem Orientada para a Tarefa (Mathiowetz, 2004) considera o desempenho do papel da pessoa, bem
como o desempenho nas áreas de ocupação. Além disso, esse modelo defende que a análise de uma tarefa seja
realizada  para  determinar  os  fatores  (da  pessoa,  do  contexto  ambiental  e  da  própria  tarefa  —  os  mesmos  três
fatores  que  estão  no  espaço  de  trabalho  perceptivo­motor)  que  facilitam  ou  restringem  o  desempenho.  O  foco
terapêutico dessa abordagem considera qualquer um ou a combinação dos seguintes itens:

Modificação ambiental
Manipulação ou gradação da tarefa
Habilidades de remediação que são particularmente limitantes para a pessoa

Implicações
Estratégias  específicas  são  defendidas  para  a  remediação  de  fatores  limitantes  da  pessoa.  Muitas  dessas
estratégias  são  fundamentadas  no  conhecimento  sobre  o  aprendizado  motor.  Algumas  dessas  estratégias
consideram como a retroalimentação é fornecida. Por exemplo, foi demonstrado (especialmente em populações
não  incapacitadas)  que  a  redução  da  retroalimentação  resulta  em  melhores  retenção  e  transferência  das
habilidades  motoras  que  estão  sendo  aprendidas  (Rice,  2003;  Rice  &  Hernandez,  2006;  Winstein  &  Schmidt,
1990;  Wulf,  Schmidt  &  Deubel,  1993).  Consulte  Shea  e  Wulf  (2005)  para  uma  revisão.  Outra  estratégia  de
aprendizado motor envolve a apresentação das tarefas a serem aprendidas ou praticadas de maneira aleatória (p.
ex.,  mudar  de  uma  tarefa  para  outra  sem  oferecer  repetidas  tentativas  de  uma  determinada  tarefa),  em  vez  de
propiciar múltiplas tentativas da mesma tarefa antes de passar para outra.
TABELA 55.7 PRESSUPOSTOS QUE DIRECIONAM A ABORDAGEM CONTEMPORÂNEA ORIENTADA
PARA A TAREFA
Pressupostos Princípios do Tratamento
Tarefas  funcionais  ajudam  a  organizar Como  o  objetivo  primário  do  comportamento  motor  é  alcançar  metas
o  comportamento.  Pesquisa  recente funcionais, os terapeutas começam e terminam o tratamento enfocando
sugere  que  parâmetros  do o  desempenho  ocupacional.  A  ênfase  no  desempenho  da  tarefa  e  na
comportamento  motor  não  são avaliação  se  dá,  principalmente,  no  nível  da  incapacidade,  utilizando  o
componentes do desempenho mas, na Modelo de Incapacidade da Organização Mundial da Saúde (1980).
verdade,  objetivos  funcionais  (Burton O terapeuta avalia todos os sistemas que contribuem para os problemas
&  Davis,  1992;  Gentile,  1992;  Heriza, de  desempenho  funcional  ou  dá  suporte  ao  desempenho  ideal,  tendo
1991; Thelen, 1989). em  mente  as  tarefas  que  a  pessoa  atualmente  realiza  ou  realizará  no
O  desempenho  ocupacional  surge  da futuro.  Como  o  cliente  traz  para  a  situação  uma  constelação  única  de
interação  de  múltiplos  sistemas  que características, o terapeuta utiliza a perspectiva do cliente como foco da
representam  características avaliação.  O  cliente  determina  os  objetivos  e  os  pa  péis  importantes
particulares  da  pessoa  e  do  contexto necessários para o desempenho ocupacional.
do desempenho. Os  padrões  de  movimentos  utilizados  para  compensação  e  para  atingir
Após  lesão  do  SNC  ou  outras as  metas  funcionais  devem  ser  compreendidos  completamente.  A
alterações  nos  sistemas  pessoais  ou avaliação do desempenho ocupacional deve incluir o exame do processo
ambientais,  alterações  no (padrões  de  movimento  verdadeiros),  o  resultado  e  a  estabilidade  ou
comportamento  do  cliente  refletem instabilidade do comportamento motor observado.
suas tentativas de compensar e atingir As  estratégias  de  avaliação  consideram  todos  os  sistemas  pessoais  e
as metas funcionais. ambientais. Aqueles que interferem mais no desempenho são avaliados
Os  sistemas  pessoais  e  ambientais primeiro.
são  organizados  diferentemente.  Não Como  parte  do  tratamento,  os  pacientes  praticam,  experimentam  e
há ordenamento inerente aos sistemas solucionam  problemas  a  fim  de  alcançar  as  metas  funcionais.  O
pessoal e ambiental em termos de sua planejamento terapêutico deve desenvolver e fornecer oportunidades de
influência  sobre  o  comportamento aprendizado  para  clientes  com  capacidade  de  solucionar  problemas.
motor.  Também  não  há  ordenamento Quando  os  clientes  não  são  capazes  de  solucionar  problemas,  o
inerente ao sistema, mesmo no SNC. terapeuta pode precisar treiná­los para uso de rotinas determinadas.
A  pessoa  precisa  praticar  e
experimentar  várias  estratégias  para
descobrir  soluções  ótimas  para
problemas  motores  e  aprimorar  o
desempenho.

Fonte: Haugen & Mathiowetz (1995).

Limitações
Grande parte da pesquisa sobre o aprendizado motor tem sido realizada com universitários saudáveis, e as tarefas
geralmente envolvem habilidades motoras simples que não representam as atividades normais orientadas para a
ocupação.  Consequentemente,  a  generalização  dessas  estratégias  para  populações  especiais  deve  ser  feita  com
cautela até que mais evidências deem suporte ao uso em populações especiais.

Terapia por Restrição Induzida do Movimento

Descrição
A terapia por restrição induzida do movimento (Constraint­induced movement therapy – CIMT) é um modelo de
prática  relativamente  novo  que  enfoca  a  recuperação  do  membro  afetado  em  pessoas  que  sofreram  acidente
vascular  cerebral  ou  lesão  cerebral  unilateral.  Tradicionalmente,  muitas  técnicas  empregam  estratégias
compensatórias  para  ajudar  uma  pessoa  a  adquirir  a  função,  por  exemplo,  ensinar  técnicas  executadas  apenas
com  a  mão  do  membro  não  afetado  para  realização  de  tarefas  funcionais.  A  CIMT  trata  a  função  do  membro
afetado  ou  paralisado.  A  ideia  básica  é  restringir  (especificamente  aplicar  tala,  tipoia  ou  outro  método  de
imobilização) o membro não afetado por um período, enquanto o membro afetado fica livre para participar de
atividades,  tarefas  e  ocupações  unilateralmente.  Embora  essa  ideia  seja  radicalmente  diferente  das  abordagens
tradicionais  de  neurorreabilitação,  sua  eficácia  começa  a  ser  estabelecida  na  literatura  (Broeks,  Lankhorst,
Rumping & Prevo, 1999; Taub, Crago & Uswatte, 1998; Taub, Miller et al., 1993; Taub & Morris, 2001; Taub,
Uswatte & Pidikiti, 1999; Taub & Wolf, 1997; Wolff, LeCraw & Barton, 1989; Wolf, Thompson et al., 2005). O
procedimento geral consiste em um período de restrição de duas semanas do membro não afetado durante todas
as  horas  em  que  o  paciente  está  acordado.  Durante  esse  período,  os  pacientes  participam  das  denominadas
técnicas de modelagem (shaping) com o membro afetado por até seis horas por dia, cinco dias por semana. A
modelagem consiste em uma seleção de tarefas e habilidades motoras em uma área em que o terapeuta considere
que  o  paciente  necessita  de  melhora  funcional  e  motora.  Os  critérios  comuns  de  inclusão  para  os  estudos
previamente mencionados exigem que a pessoa tenha pelo menos 10 graus de extensão ativa dos metacarpos e
pelo menos 20 graus de extensão do punho. Os participantes desses estudos têm, em sua maioria, demonstrado
melhora  notável  da  função  motora  do  membro  afetado  após  o  período  de  duas  semanas.  Além  disso,  alguns
desses  estudos  têm  demonstrado  recuperação  da  função  motora  em  dois  anos  após  o  tratamento  com  CIMT
(Taub, Miller et al., 1993). Existem diversas teorias sobre o sucesso na melhora da função do membro afetado.
Essas  teorias  são  baseadas  no  conceito  de  desuso  aprendido  (Morris,  Crago,  DeLuca,  Pidikiti  &  Taub,  1997;
Taub, 1994) e na reorganização cortical (isto é, plasticidade cortical) (Liepert, 2006; Liepert, Bauder et al., 2000;
Liepert, Miltner et al., 1998).

ESTUDO DE CASO: Aetos: Um Homem com Ferimento na Cabeça por Projétil de Arma de
Fogo

Aetos é um homem de 22 anos que imigrou para os Estados Unidos proveniente de Chipre. Ele trabalhava
em uma loja de conveniências, onde foi atingido por um projétil de arma de fogo na cabeça quando a loja foi
roubada durante seu plantão. Ele foi levado a um hospital de traumatologia local e estabilizado. Permaneceu
em  coma  por  três  semanas,  após  as  quais  se  tornou  responsivo  cognitivamente.  Atualmente,  ele  está  no
nível  6  da  escala  cognitiva  Ranchos­Los­Amigos  (Confuso­Apropriado).  Ele  apresenta  hemiparesia  do
membro  superior  esquerdo.  Embora  possua  habilidades  de  preensão  grosseiras  na  mão  esquerda,  seu
controle motor fino é limitado. Ele necessita de assistência mínima para o vestir e o autocuidado. Antes da
lesão,  Aetos  mantinha  seu  próprio  apartamento  e  gostava  de  dar  festas  para  os  amigos.  Ele  apreciava
particularmente planejar e preparar a comida dessas festas.
Duas  abordagens  possíveis  para  tratar  este  caso  com  terapia  ocupacional  são  o  foco  no
comprometimento do cliente ou o uso de uma abordagem centrada no cliente e sensível ao contexto.

Abordagem Focada no Comprometimento
A  abordagem  focada  no  comprometimento  pode  incluir  a  avaliação  de  fatores  específicos  do  corpo  e  do
cliente,  como  amplitude  de  movimento,  força,  habilidade  motora  fina,  sensibilidade,  percepção  visual  e
função  cognitiva  (especialmente  memória,  atenção  e  capacidade  de  concentração).  Com  base  nessas
avaliações, o tratamento é direcionado para melhorar o desempenho do paciente nessas áreas específicas
na  esperança  de  que  essas  melhoras  se  traduzam  em  melhoras  funcionais.  O  jogo  terapêutico  envolve  a
gradação  das  tarefas  com  base  no  uso  do  “desafio  adequado”  percebido  para  o  paciente  nessas  áreas
terapêuticas  isoladas.  Durante  toda  a  sessão,  o  terapeuta  fornece  retroalimentação  para  encorajar  a
participação nessas várias áreas de tratamento domínio­específicas. A maioria dos tratamentos em terapia
ocupacional  ocorre  no  ginásio  de  reabilitação  com  uso  de  equipamento  e  suprimentos  de  reabilitação
específicos para o domínio. Além disso, uma órtese foi solicitada e as sessões de prática utilizaram as bolas
e  os  cestos  fornecidos.  A  alta  da  terapia  ocupacional  será  baseada  na  obtenção  de  metas  mensuráveis
nessas  áreas  de  tratamento  (força,  coordenação,  memória  etc.),  bem  como  nas  metas  de  medida  da
independência funcional predeterminadas.

Abordagem Centrada no Cliente
A  abordagem  centrada  no  cliente  e  sensível  ao  contexto  é  organizada  de  acordo  com  as  metas
estabelecidas pelo cliente. Neste caso, poderia ser uma meta relacionada ao preparo da comida para uma
festa.  O  terapeuta  e  o  cliente  planejam  várias  sessões  terapêuticas  especificamente  organizadas  para  o
preparo  de  verduras  e  legumes  para  a  guarnição  de  hambúrgueres.  A  maioria  das  sessões  de  terapia
ocupacional consequentemente ocorrerá na cozinha terapêutica da clínica de reabilitação. Uma das tarefas
ocupacionais escolhidas é cortar tomates em rodelas. O terapeuta gradua a tarefa, escolhendo um tomate
razoavelmente  grande,  de  modo  que  o  cliente  possa  segurá­lo  com  segurança  com  o  membro  afetado
enquanto corta o tomate com o membro não afetado. A gradação dessa tarefa pode ser obtida com o uso de
tomates  de  vários  tamanhos  e  consistências.  Adicionalmente,  o  estilo  e  o  tamanho  da  faca  podem  ser
modificados  para  proporcionar  o  “estímulo  adequado”.  A  segurança  e  a  cognição  também  podem  ser
abordadas,  assim  como  a  sequência  de  tarefas.  A  repetição  pode  tomar  como  base  o  número  de
hambúrgueres  planejados,  e  a  variação  pode  ser  representada  pelo  uso  de  diferentes  tomates  e  com  a
inclusão  de  outros  tipos  de  vegetais.  A  alta  da  terapia  ocupacional  será  baseada  na  aquisição  de  metas
mensuráveis  em  relação  às  tarefas  de  preparo  bem­sucedido  e  seguro  da  comida,  bem  como  nas  metas
predeterminadas de medida da independência funcional.

Implicações
A  CIMT  é  um  excelente  exemplo  de  um  modelo  de  prática  baseado  em  evidências.  Essa  abordagem  tem  se
orientado  exclusivamente  por  achados  de  pesquisa  em  estudos  controlados.  Para  os  participantes  que  se
enquadraram  nos  critérios  de  inclusão,  existem  fortes  evidências  de  que  essa  abordagem  terapêutica  é  efetiva
para a facilitação do retorno funcional de membros hemiparéticos.

Limitações
Os  critérios  de  inclusão  das  pesquisas  mencionadas  anteriormente  são  relativamente  restritos.  Isto  é,  essa
abordagem  foi  documentada  como  efetiva  apenas  para  participantes  que  apresentam  um  mínimo  de  10  a  20
graus de extensão em seus metacarpos e punho, respectivamente. Alguns críticos questionaram que pessoas com
esse  tipo  de  ganho  já  estão  em  recuperação  espontânea  de  qualquer  maneira.  Além  disso,  essa  abordagem
terapêutica exige um alto nível de motivação do paciente para tolerar a experiência reconhecidamente frustrante
de restrição do membro não­afetado durante todas as horas em que está acordado.

Abordagens Ortóticas

Descrição
Algumas das abordagens mais recentes para controle e aprendizado de habilidade para o membro superior são
baseadas  no  uso  da  repetição  com  a  prática  funcional  e  no  princípio  da  plasticidade  atividade­dependente.
Protocolos específicos, como o Functional Tone Management Arm (F.T.M.) Training Program, incorporam o uso
de  uma  órtese  dinâmica  com  uma  prática  repetitiva  específica  (Hoffman  &  Farrell,  2005).  A  órtese  dinâmica
personalizada para repouso da mão representa um sistema de extensão dos dedos por mola (Fig. 55.7). O sistema
de  molas  extensoras  auxilia  a  abertura  dos  dedos  após  preensão  funcional.  Com  o  uso  dessa  órtese,  o  cliente
segura  um  objeto  utilizando  o  controle  flexor  voluntário,  coloca  o  objeto  em  um  local  especificado  e,  em
seguida,  relaxa  o  tônus  flexor  suficientemente  para  permitir  que  as  molas  extensoras  auxiliem  a  extensão  dos
dedos.

Fig. 55.7 Órtese dinâmica.
Assim  como  o  protocolo  da  CIMT,  o  protocolo  do  F.T.M.  foi  desenhado  para  reduzir  o  desuso  aprendido,
aumentar  o  uso  aprendido,  reduzir  a  espasticidade,  aumentar  a  amplitude,  a  força  e  o  controle  do  movimento,
melhorar o uso funcional do braço e melhorar a qualidade de vida de pessoas com alguma função no ombro e no
cotovelo, porém um mínimo de movimento da mão. Para que a pessoa atenda aos requisitos desse protocolo é
preciso  apresentar  15  graus  de  elevação  ativa  do  ombro,  10  graus  de  abdução  ativa  do  ombro  e  15  graus  de
flexão ativa do cotovelo com amplitude completa do movimento passivo em flexão do cotovelo e ser capaz de
flexionar seus dedos pelo menos a um quarto da amplitude para a posição de punho fechado (Hoffman & Farrell,
2005).  Além  disso,  é  necessário  um  mínimo  de  15  graus  de  extensão  do  punho  com  os  dedos  completamente
estendidos  para  o  treinamento  F.T.M.  O  protocolo  de  treinamento  incorpora  a  avaliação  do  uso  da  mão  pelo
paciente sem a órtese, a adaptação do indivíduo à órtese e, em seguida, a adequação do cliente com a órtese a um
dos quatro níveis de atividade de encaixe, em que o cliente segura e libera repetitivamente objetos específicos. O
programa  enfoca  a  realização  de  exercícios  de  fortalecimento  de  alta  repetição  para  grupos  musculares
enfraquecidos.  Os  itens  motores  grosseiros  utilizados  no  protocolo  são  considerados  um  estímulo  efetivo  para
que a pessoa adquira a função motora essencial para completar a tarefa. Espera­se que realização dessas tarefas
se  traduza  em  melhor  uso  funcional  do  membro  superior  da  pessoa.  Equipamentos  coloridos  para  estudo
utilizados  com  o  protocolo  incluem  o  Height  Adjustable  Targe  (H.A.T.),  o  Multi­Purpose  Exercise  Device,  o
Four Tier Ball Activity e o Five Ball Peg Activity (Fig. 55.8).

Implicações
O F.T.M. é um exemplo do uso de uma órtese com um programa orientado para uma atividade específica que
facilita a repetição e a prática constante de preensão, posicionamento e liberação. É proposto como um protocolo
a  ser  utilizado  com  clientes  que  apresentam  função  limitada  do  braço  e  da  mão  secundária  a  um  acidente
vascular cerebral ou lesão cerebral traumática. A abordagem, desenvolvida por dois terapeutas ocupacionais, é
fundamentada no raciocínio baseado em evidências de pesquisas sobre a eficácia de técnicas de treinamento que
promovem  a  ativação  muscular  seletiva  repetitiva,  o  recrutamento  da  atividade  muscular  versus  inibição  e  o
fortalecimento do braço (Fowler, Ho, Nwigwe & Dorey, 2001). Ela pode ser benéfica para clientes que dispõem
de algum uso do braço e estão motivados a utilizar sua mão com a assistência de órtese tanto na clínica como em
casa.

Limitações
Embora essa abordagem esteja baseada em evidência sobre o impacto da repetição e do fortalecimento sobre o
uso funcional do membro superior, a base de evidência para o protocolo específico é limitada. A pesquisa que
utiliza  esse  protocolo  tem  sido  classificada  como  de  evidência  de  nível  inferior  pelo  uso  de  estudos  de  caso  e
desenhos  de  único­paciente.  Entretanto,  essa  abordagem  é  uma  das  maneiras  mais  recentes  de  tratar  e,
provavelmente,  será  submetida  a  pesquisa  mais  rigorosa  à  medida  que  evoluir  e  estudos  controlados
randomizados puderem ser realizados.
Fig. 55.8 O protocolo Saebo.

Treinamento Motor Assistido por Robô
Outro  acréscimo  recente  às  técnicas  utilizadas  para  acelerar  o  retorno  da  habilidade  consiste  no  uso  de
manipuladores robóticos para oferecer treinamento dos movimentos do braço. Os manipuladores robóticos são
utilizados, principalmente, em paradigmas experimentais que tentam examinar os mecanismos que estão por trás
do  controle  do  aprendizado  motor  normal,  bem  como  examinar  os  mecanismos  subjacentes  às  alterações  do
movimento  do  membro  superior  em  pacientes  com  distúrbios  do  movimento.  Desde  o  estudo  pioneiro  do
manipulador robótico MIT­Manus no Massachusetts Institute of Technology, em 1997, o número de grupos de
pesquisa  nessa  área  com  populações  de  pacientes  aumentou  substancialmente.  Além  disso,  mais  dispositivos
foram  desenvolvidos  para  o  treinamento  automatizado  dos  movimentos  do  braço  e  do  punho  após  acidente
vascular  cerebral.  A  gama  de  possibilidades  robóticas  é  promissora,  uma  vez  que  os  robôs  são  precisos  e
incansáveis  e  podem  facilmente  simular  aquilo  que  o  terapeuta  pode  fazer  para  assistir  o  movimento  (Patton,
Kovic & Mussa­Ivaldi, 2006). Além disso, pesquisas nessa área demonstraram que o treinamento do movimento
assistido por robô melhora a capacidade de movimento após acidente vascular cerebral agudo e crônico (Kahn,
Lum,  Rymer  &  Reinkensmeyer,  2006).  Presume­se  que  o  treinamento  siga  dois  processos  interatuantes:  o
paciente  tenta  mover  o  segmento  e  o  robô  aplica  a  força.  Um  princípio  fundamental  do  aprendizado  motor
envolvido  no  movimento  assistido  por  robô  é  que  a  prática  do  movimento  melhora  a  função  motora.  As
evidências  até  o  presente  em  relação  a  essa  terapia  sugerem  que  a  participação  ativa  é  necessária  e  que  o
treinamento  progressivo  assistido  por  robô  e  baseado  em  medidas  da  coordenação  do  movimento  produz
resultados  substancialmente  melhores.  Pesquisa  recente  sugere  que  o  foco  mais  apropriado  da  terapia  robótica
estaria mais voltado para a coordenação do movimento do que para a ativação muscular (Hogan et al., 2006).

Implicações
Existem evidências limitadas de que o movimento assistido por robô afeta a modificação nos estágios agudo e
crônico da recuperação do acidente vascular cerebral. Além disso, o uso dessa tecnologia é útil para examinar os
processos envolvidos no aprendizado e na recuperação do movimento.
Condutas Terapêuticas para Melhorar o Controle Motor na Vida Diária

O s  profissionais  frequentemente  aplicam  princípios  e  pensamentos  científicos  à  prática.  Como  parte  do


processo de avaliação e investigação, o profissional que utiliza a abordagem centrada no cliente organiza
os  problemas  de  desempenho  junto  com  o  paciente  em  terapia  ocupacional  e  considera  as  estratégias
alternativas de tratamento que possam ser úteis. Da mesma maneira, os profissionais se dedicam a levantar
hipóteses  sobre  como  podem  ajudar,  de  modo  mais  efetivo,  o  cliente  a  aprender  ou  recuperar  hábitos  e
habilidades que deem apoio a sua participação integral nas atividades cotidianas da vida.
Desse  modo,  nos  últimos  20  anos,  a  evolução  das  ciências  do  movimento  e  da  neurociência  desafiou  a
compreensão do profissional sobre o aprendizado e o controle do movimento e de como este pode aplicar o
pensamento científico atual ao aprendizado das habilidades (Bate, 1997; Shumway­Cook & Woollacott, 2007).
Nossa  compreensão  básica  dos  princípios  que  orientam  a  organização  e  a  recuperação  do  movimento  se
modificou, e esta mudança influenciou a pesquisa e as abordagens de tratamento mais atuais que estão sendo
propostas  para  o  aprendizado  e  a  recuperação  das  habilidades  com  base  na  ocupação.  Além  disso,  as
evidências que apoiam a influência de técnicas neuromotoras para orientação da prática e a recuperação da
função com base na ocupação são limitadas, enquanto se acumulam evidências que apoiam a importância da
utilização  do  contexto,  da  repetição  e  da  variedade  no  contexto  prático  para  promover  o  aprendizado  e  o
controle das habilidades (Giuffrida, Shea & Fairbrother, 2002; Wolf et al., 2005). Nesta seção, nós ressaltamos
a influência surpreendente e contínua das técnicas de neurofacilitação na prática da terapia e o aumento das
evidências sobre estratégias e abordagens atuais que promovem o aprendizado e o controle das habilidades.
Embora  no  início  dos  anos  1960  a  terapia  ocupacional  ainda  fosse  uma  disciplina  jovem,  as  abordagens
terapêuticas  de  neurofacilitação  e  do  neurodesenvolvimento  foram  desenvolvidas  com  base  na  ciência  do
movimento da época (Mathiowetz, 1995; Woollacott & Shumway­Cook, 2007). Essas abordagens resultaram
em  uma  mudança  drástica  nos  tratamentos  clínicos  que  visavam  àqueles  pacientes  com  comprometimentos
neurológicos. Antes do desenvolvimento das abordagens de neurofacilitação, o tratamento para pessoas com
comprometimentos neurológicos era direcionado para a mudança de função no nível do músculo. Abordagens
mais  modernas  basearam­se  na  reeducação  muscular,  adequando­se  mais  ao  paciente  com  distúrbios  do
movimento  resultantes  da  poliomielite  e  tiveram  menos  impacto  na  alteração  de  padrões  de  movimento  em
pessoas  com  lesões  de  neurônio  motor  superior,  como  o  acidente  vascular  cerebral  ou  a  paralisia  cerebral
(Horak,  1991).  As  técnicas  de  neurofacilitação  desenvolveram­se  em  resposta  a  uma  insatisfação  dos
profissionais  com  técnicas  de  reeducação  muscular  aparentemente  não  efetivas  e  com  um  desejo  de
desenvolver abordagens que fossem mais úteis para as pessoas com problemas do movimento secundários a
uma disfunção neurológica.
As abordagens de neurofacilitação incluem a abordagem de Bobath, desenvolvida por Karl e Berta Bobath
(1965),  a  abordagem  de  Rood,  desenvolvida  por  Margaret  Rood  (Stockmeyer,  1967),  a  abordagem  de
Brunnstrom,  desenvolvida  por  Signe  Brunnstrom  (1966),  a  facilitação  neuromuscular  proprioceptiva
(proprioceptive  neuromuscular  facilitation  –  PNF),  desenvolvida  por  Voss  (Voss  et  al.,  1985),  e  a  teoria  da
integração sensorial, desenvolvida por Jean Ayres (1972). Essas abordagens foram fortemente baseadas em
hipóteses retiradas das teorias então prevalentes sobre o controle motor, o reflexo e os modelos hierárquicos
do controle motor.
Essas abordagens concentraram­se na retenção do controle motor e na modificação do SNC por meio de
técnicas  desenhadas  para  facilitar  ou  inibir  padrões  de  movimento.  Quando  essas  abordagens  foram
associadas  à  teoria  do  reflexo  e  às  teorias  hierárquicas  do  controle  motor,  as  práticas  clínicas  se
desenvolveram  com  base  na  importância  dos  reflexos  e  do  controle  hierárquico  no  controle  motor  normal  e
anormal e na recuperação da função (Mathiowetz, 1995; Montgomery, 1991). Nessas abordagens, diferentes
pressupostos­chave  prevaleceram:  (1)  as  habilidades  funcionais  retornarão  se  os  padrões  de  movimento
anormais forem inibidos e os padrões de movimentos normais forem facilitados; (2) a repetição do padrão de
movimento normal resultará na transferência para habilidades funcionais (Shumway­Cook & Woollacott, 2007).
Juntamente  com  esses  pressupostos,  a  prática  foi  orientada  pelos  pensamentos  prevalentes  quanto  à
importância  dos  reflexos  e  do  controle  hierárquico  sobre  o  controle  do  movimento  (Bartlett,  1997;  Easton,
1972;  Gordon,  1987).  Consequentemente,  nessas  abordagens,  o  foco  está  na  identificação  da  presença  ou
ausência  de  reflexos  normais  e  anormais  no  controle  dos  movimentos.  O  tratamento  é  direcionado  para
modificação  dos  reflexos  que  controlam  o  movimento  e  o  estímulo  sensorial  é  utilizado  para  direcionar  e
influenciar a informação motora. O uso de uma teoria hierárquica sugere que o objetivo da terapia é readquirir
o controle do movimento por parte dos centros superiores do SNC. Portanto, o paciente adquire controle do
movimento e também o recupera funcionalmente, uma vez que os padrões de movimento são básicos para a
função e o desenvolvimento.
Embora as evidências que apoiem as abordagens hierárquica e reflexa do controle motor para tratamento
sejam limitadas, estas abordagens ainda influenciam a maneira pela qual os profissionais avaliam e tratam os
pacientes  com  problemas  neuromotores  (Shumway­Coook  &  Woollacott,  2007).  Entretanto,  muitas
abordagens sofreram modificações na prática para incorporar o pensamento científico contemporâneo sobre a
natureza e a causa do movimento. Atualmente, entre as abordagens de neurofacilitação, existe maior ênfase
sobre o tratamento de recuperação funcional e menor ênfase sobre a inibição dos reflexos e a facilitação dos
padrões  normais  do  movimento  (Howle,  2002).  Além  disso,  ocorre  maior  incorporação  dos  princípios  do
aprendizado  motor  nas  técnicas  terapêuticas.  As  explicações  e  os  pressupostos  que  orientam  o  uso  dessas
abordagens neuromotoras sofreram modificações para incorporar grande parte da compreensão atual sobre
controle,  organização  e  aprendizado  motor.  Entretanto,  evidências  científicas  rigorosas  que  apoiem  o  uso
desses  tratamentos  são  limitadas,  enquanto  um  corpo  de  evidência  crescente  apoia  os  tratamentos  CIMT
concentrados  na  intensidade  e  na  duração  dos  tratamentos  funcionais,  na  repetição  na  prática,  como
demonstrado no treinamento robótico e no protocolo de órteses, e na importância da interação pessoa, tarefa
e  ambiente,  como  fica  evidente  nas  abordagens  orientadas  para  a  tarefa  e  de  sistemas  (Hoffman  &  Farrell,
2005;  Morris  et  al.,  1997;  Sabari,  1995;  Taub,  Uswatte  &  Pidikiti,  1999).  Estudos  mais  recentes,
fundamentados  na  ciência  do  controle  e  aprendizado  motor,  apoiam  os  princípios  da  prática  baseada  na
ocupação e nas influências múltiplas, recíprocas e distribuídas da pessoa, da tarefa e do ambiente que apoiam
a  recuperação  funcional  da  pessoa,  possibilitando  uma  participação  mais  integral  em  todos  os  aspectos  da
vida. Esta evidência, bem como a mudança de paradigma no pensamento científico em relação ao controle e
aprendizado  do  movimento,  demonstra  ao  profissional  a  importância  de  estar  atualizado  com  o  pensamento
científico  da  época  à  medida  que  a  ciência  e  as  evidências  continuarem  a  nortear  a  prática  da  terapia
ocupacional.

Limitações
Se a prática do movimento é o estímulo principal para sua recuperação, os dispositivos robóticos que incluem a
prática e a aplicação de força poderiam ser tanto desnecessários como dispendiosos. De fato, a tecnologia não
robótica, incluindo bicicletas manuais, dispositivos de baixo custo para monitoramento do movimento, sistemas
de  realidade  virtual  e  dispositivos  passivos  antigravitários,  como  os  suportes  móveis  tradicionais  para  braço  e
tipoias com alças, poderiam proporcionar as vantagens da prática do movimento a um custo muito menor do que
a tecnologia robótica.

CONCLUSÃO
Para  estimular  as  habilidades  motoras  dos  clientes,  o  profissional  deve  compreender  a  interação  entre
desenvolvimento,  controle  e  aprendizado  motor  e  os  fatores  contextuais  que  influenciam  a  aquisição  e  a
reaquisição  das  habilidades.  A  ciência  do  movimento  e  a  pesquisa  em  neuroplasticidade,  ambas  em  evolução,
alteraram  dramaticamente  nossa  compreensão  sobre  a  organização,  o  controle  do  aprendizado  e  como  nós
profissionais podemos acelerar a recuperação das habilidades. Os terapeutas ocupacionais precisam estar cientes
de  que,  à  medida  que  o  conhecimento  científico  sobre  o  movimento  evolui,  novos  modelos  de  prática  podem
surgir. Os profissionais precisam manter­se atualizados sobre a pesquisa a respeito do controle e do aprendizado
motor, de modo que possam fornecer aos clientes o tratamento mais efetivo possível para os déficits motores. Da
mesma maneira, os profissionais precisam manter­se atualizados sobre a quantidade e a qualidade dos níveis de
evidências de pesquisas que apoiam todos os tratamentos motores. Com a ajuda do cliente, os terapeutas podem
selecionar  abordagens  baseadas  em  evidências  ou  uma  combinação  de  abordagens  que  sejam  adequadas  para
ajudar o cliente a manter e/ou recuperar as rotinas e habilidades cotidianas.

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Fatores Psicobiológicos
BARBARA PRUDHOMME WHITE

Sumário
Introdução
Regulação dos Sistemas Corporais e do Comportamento
Autorregulação e Sistemas Psicobiológicos
Estresse
Possíveis Fatores Psicobiológicos que Preocupam os Terapeutas Ocupacionais
Fatores Psicobiológicos Clinicamente Relevantes
Respostas de Tratamento aos Fatores Psicobiológicos
Fatores Psicobiológicos Relevantes para Pesquisa: Biomarcadores
Resposta Eletrodérmica
ECG e Tônus Vagal
Cortisol
α­Amilase Salivar
RM Funcional
Eletroencefalografia, Magnetoencefalografia e Potencial Evento­relacionado
Ocitocina
Resumo

Objetivos de Aprendizagem
Após a leitura deste capítulo, você será capaz de:
1. Descrever  diferentes  fatores  psicobiológicos  que  se  originam  do  sistema  nervoso  autônomo
(SNA), incluindo sinais evidentes de estresse.
2. Descrever  algumas  das  relações  entre  os  processos  do  SNA  e  do  sistema  nervoso  central
(SNC).
3. Descrever algumas das razões físicas e psicológicas de alteração do SNA.
4. Descrever estratégias que os terapeutas podem utilizar para dar suporte à estabilidade do SNA
durante o tratamento.
5. Definir e descrever diversos exemplos de biomarcadores humanos que são de interesse para a
ciência ocupacional e para a pesquisa terapêutica.

INTRODUÇÃO
Imagine  um  dia  típico  na  sua  vida.  Você  teve  que  correr  para  chegar  a  tempo  na  aula?  Você  dormiu  por  um
período suficiente para se sentir descansado? Você teve que fazer um trabalho de casa ou uma prova? Você está
preocupado  com  alguém?  Você  pensou  em  alguém  especial?  Você  está  com  raiva  de  algum  amigo?  Você  está
excitado para sair de férias? Cada uma dessas perguntas deve evocar algum tipo de resposta de sua parte — seja
uma resposta neutra, como “Não, eu não me preocupo com isso”, seja um aumento da frequência cardíaca, da
respiração  e  da  tensão  quando  você  identificou  alguma  coisa  relevante  sobre  a  qual  esteja  preocupado.
Possivelmente, uma dessas perguntas fez com que você sentisse uma sensação de amor, um calor interior e um
aumento da frequência cardíaca. Este capítulo aborda as respostas internas que os seres humanos produzem em
relação  aos  eventos  do  mundo  real,  às  lembranças  ou  a  possibilidades  imaginadas.  O  corpo  humano  está  em
contínuo  diálogo  tanto  com  o  ambiente  externo  como  com  o  interno.  Como  nós  respondemos  é  determinado
tanto  pelo  que  nós  construímos  no  útero  de  nossas  mães,  incluindo  nossos  potenciais  genéticos  herdados  de
nossos pais e nossas experiências fetais e nutrição, e como nós somos, a cada momento, influenciados por nossas
experiências  desde  o  nascimento.  Os  diálogos  que  ocorrem  em  nossos  corpos  durante  as  negociações  com  o
ambiente  estão  intimamente  relacionados  entre  si  e  não  se  separam  facilmente.  Entretanto,  como  terapeutas
ocupacionais, nós temos um interesse nesse diálogo entre o corpo e os ambientes interno e externo porque ele
influencia a maneira pela qual as pessoas fazem o que fazem (participam de atividades e ocupações) e seu nível
de sucesso.
Os fatores psicobiológicos se referem ao nível de função corporal do Protocolo de Prática de TO (American
Occupational Therapy Association, 2007) e resultam das interconexões anatômicas e fisiológicas entre o cérebro
e  as  estruturas  corporais  à  medida  que  eles  negociam  com  o  ambiente.  Os  ambientes  são  definidos  como
externos  (o  mundo)  e  internos  (o  que  nós  percebemos,  pensamos  ou  sentimos).  Os  fatores  psicobiológicos  de
uma  pessoa  descrevem  as  respostas  físicas  à  medida  que  nossos  corpos  interagem  com  ambos  os  ambientes,
interno e externo, e podem ser decompostos em componentes biológicos e psicológicos. As funções corporais no
Protocolo  de  Prática  de  TO  incluem  funções  sensoriais,  cardiovasculares,  respiratórias,  dolorosas,  visuais,
auditivas, vestibulares, olfativas, orais, cognitivas e endócrinas (p. ex., hormônios).
As respostas biológicas (p. ex., nossa biofisiologia interna) originam­se da interação do corpo com o ambiente
externo,  a  cada  momento,  em  termos  de  ativação  do  sistema  nervoso,  engajamento,  resposta  cerebral,
neurotransmissores  e  respostas  hormonais,  e  assim  por  diante.  Por  exemplo,  uma  pessoa  que  se  exercita
regularmente  aumenta  as  demandas  sobre  o  músculo  cardíaco  e  o  sistema  vascular,  de  modo  que  o  corpo  se
fortalece e se habitua a essa demanda. Essas alterações são tanto imediatas (aumento na frequência cardíaca para
fazer  frente  aos  exercícios)  como  de  longo  prazo  (o  exercício  repetido  influencia  a  resposta  do  sistema
cardiovascular com o passar do tempo, aumentando o tamanho e a quantidade de células musculares cardíacas e
nas pernas, bem como a eficiência do bombeamento sanguíneo). Entretanto, o sistema permanece adaptável; p.
ex.,  se  a  pessoa  viaja  para  maior  altitude,  o  sistema  cardiovascular  precisa  se  adaptar  novamente;  o  menor
volume de oxigênio nas grandes altitudes significa que o coração precisa bombear mais rápido. Além disso, a
pessoa  experimenta  acomodações  na  bioquímica  sanguínea  de  modo  que  haja  maior  disponibilidade  de
hemoglobina  carreadora  de  oxigênio.  Portanto,  as  demandas  contextuais  induzem  a  adaptação  física  da
frequência  cardíaca  e  da  bioquímica  do  sangue  de  modo  que  a  pessoa  possa  funcionar  efetivamente  em
diferentes ambientes.
As influências psicológicas às respostas biológicas são aquelas relacionadas com a cognição, a percepção e a
emoção em vez de ou além das demandas ambientais. O termo implica certo grau de “pensamento” de ordem
superior  e  sua  reação  subsequente  por  todo  o  corpo,  porém  isso  não  é  necessariamente  assim.  Por  exemplo,
algumas vezes, nós produzimos reações emocionais a sensações olfativas e táteis sobre as quais nós nem sempre
estamos  conscientes.  De  fato,  existem  conexões  neuroanatômicas  entre  estruturas  do  cérebro  que  processam  a
emoção,  sugerindo  que  estar  atento  ao  ambiente  nem  sempre  é  necessário  para  estabelecer  uma  resposta
emocional.  Além  disso,  frequentemente,  as  relações  com  outros  seres  humanos  desencadeiam  respostas
emocionais que influenciam nossos corpos. O amor ou os sentimentos de afinidade estão associados a grandes
quantidades de hormônio ocitocina na porção límbica do cérebro, o que causa reações físicas em nosso corpo,
incluindo  o  aumento  da  frequência  cardíaca  e  o  rubor  facial.  Algumas  vezes,  nossas  percepções  influenciam
nossas  respostas.  Por  exemplo,  quando  vemos  um  gato,  nossas  respostas  físicas  (p.  ex.,  frequência  cardíaca,
liberação  de  adrenalina)  são  mediadas  pelo  que  nós  aprendemos  sobre  temê­los  ou  amá­los.  Algumas  vezes,
podemos aumentar nossas reações físicas no meio da noite, quando não há razão ambiental externa para ter uma
aceleração  da  frequência  cardíaca,  ao  simplesmente  pensar  em  uma  tarefa  (uma  prova  de  meio  de  ano!)  que
tenhamos de realizar.

REGULAÇÃO DOS SISTEMAS CORPORAIS E DO COMPORTAMENTO
De  maneira  simples,  a  regulação  refere­se  a  um  equilíbrio  dinâmico  entre  os  sistemas  que  estão  “ligados”  e
aqueles que estão “desligados” (Fig. 56.1). Por exemplo, quando um indivíduo é exposto a bactérias, o sistema
imunológico  precisa  estar  “ligado”  para  capturar  e  destruir  as  células  invasoras.  Uma  vez  que  a  ameaça  tenha
cessado, o sistema imunológico precisa se reabastecer e “desligar”, à espera do próximo ataque. Esses estados
são  definidos  clinicamente  como  alostase  (“ligar”)  e  homeostase  (“desligar”),  cujo  equilíbrio,  em  geral,  é
gerenciado  inconscientemente  por  meio  do  sistema  nervoso  autônomo  (SNA).  Esta  é  uma  coisa  boa;  caso
contrário, além de nos lembrarmos de nossa roupa suja e de estudarmos para uma prova próxima, nós teríamos
que acrescentar a milhares de outras tarefas de um dia já ocupado: “monitorar a temperatura corporal”, “reparar
uma  fissura  no  osso  rádio”,  “produzir  mais  leucócitos  do  tipo  células  T”  e  “verificar  os  níveis  de  cortisol  na
corrente sanguínea”.
O  SNA  apresenta  duas  divisões  principais  que  se  corregulam  por  meio  de  processos  homeostáticos  e
alostáticos:  a  divisão  simpática  (SNS)  (também  denominado  sistema  simpático­adrenomedular  [SAM])  e  a
divisão  parassimpática  (SNP)  (Kandel,  Schwartz  &  Jessell,  2000).  Cada  sistema  serve  a  propósitos  que  são
antagonistas  (ou  opostos)  entre  si;  consequentemente,  a  qualquer  momento,  um  sistema  assume  a  precedência
em  relação  ao  outro.  Todavia,  ao  mesmo  tempo,  os  ramos  do  SNS  e  do  SNP  trabalham  em  conjunto  para  dar
suporte  ao  funcionamento  fisiológico,  emocional  e  comportamental.  De  modo  sinérgico,  ambos  os  sistemas
ajustam e promovem uma sintonia fina do que acontece em nossos corpos enquanto estamos acordados e quando
dormimos  para  assegurar  nossa  capacidade  de  nos  adaptarmos  e  de  sobrevivermos  em  nosso  ambiente  (Fig.
56.2). O SNS aciona as respostas de medo, fuga ou luta com aumento da respiração, da atividade cardíaca e da
atividade metabólica, entre outras. As conexões entre o SNS e as glândulas suprarrenais produzem os principais
hormônios  do  estresse,  a  epinefrina  e  a  norepinefrina.  Contrariamente,  os  ramos  do  SNP  dedicam­se  à
homeostase generalizada, ou o estado no qual os objetivos primários são a conservação e restauração da energia,
a  digestão  e  absorção  de  nutrientes,  o  reparo  e  a  cicatrização  corporal,  a  reprodução  sexual  e  a  excreção  de
dejetos. Frequentemente, o sistema límbico é incluído na descrição das estruturas que dão suporte às respostas ao
estresse (veja Fig. 56.3). O sistema límbico é compreendido por inúmeras estruturas cerebrais responsáveis pela
produção  da  emoção  e  pelo  comportamento  emocional,  bem  como  pelo  processo  complexo  do  pensamento
cognitivo (p. ex., memória). O sistema límbico se estende pelo tronco encefálico e pelo córtex cerebral. Regiões
do sistema límbico incluem o giro cingulado, o giro hipocampal, o giro denteado, o hipocampo e a amígdala. As
regiões do sistema límbico estão fortemente conectadas a outras estruturas cerebrais, incluindo o córtex cerebral,
o hipotálamo, o tálamo e os núcleos da base (Kandel, Schwartz & Jessell, 2000).

Fig. 56.1 Sistema nervoso autônomo com as divisões simpática (“ligar”) e parassimpática (“desligar/acalmar”).
Fig. 56.2 O sistema nervoso autônomo e suas funções principais.

Fig. 56.3 O sistema límbico.
A maioria das atividades reguladoras de alostase e homeostase por meio do SNA está fora de nosso controle;
entretanto, a regulação fica confusa quando consideramos as interconexões com a consciência ou a atividade do
SNC.  Com  frequência,  nos  referimos  à  regulação  das  emoções  e  dos  comportamentos  como  autorregulação.
Entretanto,  existem  componentes  do  comportamento  emocional  e  físico  que  são  tanto  controláveis  como  não
necessariamente  controláveis.  Por  exemplo,  quando  estamos  com  raiva,  podemos  controlar  se  gritamos  ou
saímos batendo a porta de uma sala, porém não somos capazes de controlar nossa taquicardia nem nosso rubor
facial. Para a maioria das pessoas, o controle das respostas do SNA, como a temperatura corporal e a frequência
cardíaca, não é uma habilidade comum; entretanto, algumas pessoas podem fazê­lo naturalmente e muitas outras
podem  aprender  como  fazê­lo.  De  fato,  o  controle  de  alguns  aspectos  do  SNA  é  o  que  fundamenta  a
retroalimentação  como  uma  técnica  para  aquisição  de  certo  grau  de  controle  sobre  os  sistemas  corporais.  A
biorretroalimentação  é  utilizada  com  sucesso  em  vários  comportamentos  reguladores,  incluindo  o  controle  do
estresse (via regulação da temperatura corporal e da frequência cardíaca), do medo e da ansiedade (via avaliação
cognitiva e regulação do sistema de resposta ao estresse) e do comportamento de atenção (por meio da regulação
dos estados das ondas cerebrais que promovem a atenção seletiva).

Autorregulação e Sistemas Psicobiológicos
A maioria dos fatores psicobiológicos interfere em sistemas que dão suporte à autorregulação a cada contexto
ambiental em que o indivíduo se encontra. A autorregulação é fundamental para dar suporte aos comportamentos
funcionais  e  de  adaptação  em  ocupações  e  tarefas  ocupacionais.  Portanto,  a  maior  compreensão  sobre  as
estruturas e a fisiologia corporal que dão suporte à autorregulação é de interesse da ciência ocupacional e dos
terapeutas  ocupacionais.  A  autorregulação  é  definida  neste  capítulo  em  três  domínios  primários,  embora  na
realidade  esses  domínios  funcionem  em  sinergia  (Barkley,  1998;  Rothbart,  1981;  Rubia  et  al.,  2001).
Autorregulação do comportamento é a capacidade de ajustar o nível de atividade de uma pessoa às demandas
contextuais do ambiente. Sentar­se relativamente imóvel e quieto enquanto o professor dá aula é um exemplo de
autorregulação adaptada do comportamento em uma sala de aula. A criança que se levanta e anda pela sala ou se
mexe  tanto  que  chega  a  cair  da  cadeira  representa  uma  regulação  comportamental  menos  adaptada.
Autorregulação  cognitiva  é  a  capacidade  de  produzir  ou  manter  as  habilidades  de  atenção  que  atendam  às
necessidades  do  ambiente,  como,  p.  ex.,  manter  um  nível  suficiente  de  atenção  ao  professor  que  está  dando  a
aula de modo que a pessoa ouça e retenha o conteúdo ministrado. Autorregulação emocional envolve a produção
e manutenção de afeto ou expressão emocional adequada que seja apropriada às demandas do ambiente social. O
exemplo disso é a capacidade de saber quando, onde e em que intensidade mostrar alegria ou tristeza. Em sala de
aula, não é adequado ou socialmente adaptado dar risada porque alguém tropeçou e se machucou. As estruturas e
os  sistemas  que  dão  suporte  às  habilidades  de  autorregulação  frequentemente  são  alvos  de  medidas
psicobiológicas. As habilidades de autorregulação que mesclam influências físicas, cognitivas e emocionais dão
suporte ao engajamento ocupacional bem­sucedido nos contextos ambientais (ver Boxe 56.1).

Estresse
O  conceito  de  estresse  é  complexo.  Uma  descrição  simples  de  estresse  consiste  em  uma  condição  na  qual  os
sistemas reguladores ou as capacidades autorreguladoras, ou ambos, estão em desequilíbrio. A maioria de nós
utiliza a palavra estresse para denotar um estado negativo, como em “Eu estou tão estressado que não consigo
pensar direito”. Entretanto, em sua definição correta, o estresse surge de todas as formas, muitas das quais são
positivas. Quando você se apaixona, p. ex., você vivencia uma forma de estresse. O exercício também é uma boa
forma  de  estresse;  o  exercício  inicialmente  causa  um  ônus  ao  corpo,  porém,  após  o  exercício,  nós
experimentamos  um  efeito­rebote  no  SNP  que  é  responsável  pela  homeostase.  Em  outras  palavras,  após  nos
exercitarmos, nossos corpos estão repletos de todos os tipos de benefícios hormonais que nos fazem sentir bem
(p.  ex.,  endorfinas),  assim  como  fortalecem  e  reparam  as  estruturas  corporais  e  restauram  a  glicose  e  outros
nutrientes necessários em nosso sangue e nossas células. Além disso, os exercícios têm o benefício adicional de
nos  ajudar  a  utilizar  as  reservas  desnecessárias  de  gordura.  As  respostas  ao  estresse  dão  suporte  à  ação  e,  na
quantidade  certa,  nos  tornam  efetivamente  produtivos.  Entretanto,  uma  quantidade  muito  grande  de  estresse
onera o desempenho funcional e pode degradar o corpo em função do uso e desgaste excessivos. Existem dois
sistemas  de  respostas  ao  estresse  que  são  ativados  quando  encontramos  um  estressor.  O  principal  é  a  divisão
simpático­adrenomedular do SNA (o eixo SAM), descrito anteriormente, que produz epinefrina e norepinefrina.
Essa  resposta  é  desencadeada  para  ser  um  rápido  mobilizador  do  corpo  para  medo,  luta,  fuga  e  sexo  —
conhecido  com  carinho  como  o  sistema  4Fs  do  estresse  (do  inglês,  fright,  fight,  flight  e  sex).  O  eixo  SAM  é
desenhado para desencadear resposta breve mais intensa. Outro sistema, o eixo hipotálamo­hipófise­suprarrenal
(HHS) (Fig. 56.4), é desenhado para uma mobilização corporal mais sustentada e entra em ação alguns minutos
ou muito tempo após um fator estressante ter sido encontrado ou imaginado, principalmente pela liberação de
cortisol, o principal corticosteroide no corpo humano. O cortisol eleva a glicose sanguínea por meio da liberação
de  gorduras  armazenadas,  bem  como  pela  degradação  de  proteínas  teciduais  corporais  armazenadas  e  o
acionamento  do  fígado  para  convertê­la  em  glicose  sanguínea.  O  cortisol  também  suprime  o  sistema
imunológico e coloca a maioria das funções homeostáticas em prontidão, incluindo a digestão, a reposição e o
reparo  celular.  Os  efeitos  do  cortisol  sobre  o  cérebro  e  o  restante  do  corpo  são  extensos  e,  quando  de  longa
duração, acabam causando uso excessivo e desgaste na maioria das estruturas e sistemas corporais.

AUTORREGULAÇÃO

Muitas crianças têm dificuldade para controlar seu comportamento, suas emoções e seu estado cognitivo em
diferentes contextos. A autorregulação surge ao longo do tempo, de acordo com o desenvolvimento de áreas
frontais  no  cérebro;  crianças  mais  novas  não  apresentam  um  bom  nível  de  autorregulação,  enquanto  as
crianças  mais  velhas  e  os  adultos  apresentam,  em  sua  maioria,  uma  boa  habilidade  de  autorregulação.
Algumas  vezes,  crianças  que  apresentam  um  desenvolvimento  típico  em  outras  áreas  têm  problemas  em
regular as emoções, a atenção e o comportamento, levando muitos pais e profissionais a descrevê­las como
tendo  um  distúrbio  de  atenção.  Na  realidade,  um  distúrbio  de  atenção  reflete  problemas  na  regulação  de
outras funções além de apenas a atenção; o comportamento, as emoções e os estados de ativação cognitiva
são  frequentemente  agrupados  e  observados  como  comprometimentos  das  habilidades  de  autorregulação.
Essas habilidades podem ser desenvolvidas e/ou melhoradas por meio de tratamento; de fato, a capacidade
de  adaptar  essas  habilidades  fornece  a  justificativa  de  uma  estratégia  de  tratamento  desenvolvida  pelos
terapeutas  ocupacionais  e  denominada  “como  o  seu  motor  funciona?”  Esta  abordagem  de  tratamento,
desenvolvida  para  crianças,  fornece  um  protocolo  abrangente  para  ajudar  os  clientes  a  reconhecerem  seus
estados de ativação internos e aprenderem a gerenciá­los de maneira mais efetiva em ambientes específicos.
(Shellenberger & Williams, 2007).

Imagine  o  estresse  crônico,  ou  carga  alostática,  como  uma  ativação  prolongada  do  sistema  de  resposta  ao
estresse  de  longa  duração,  um  estado  “ligado”  em  que  pouco  —  se  algum  —  tempo  é  gasto  em  recuperação,
crescimento e reparação. Em virtude de suas muitas funções, é fácil perceber por que o estresse crônico exerce
efeito sistêmico sobre o corpo. Entretanto, como observado anteriormente, certos níveis de estresse são positivos
e normais. O estresse ótimo é descrito como uma curva em forma de U, como na descrição de quanta força de
um estímulo é necessária para que o aprendizado ocorra. Denominada princípio de Yerkes­Dodson (Fig. 56.5),
ela  também  se  aplica  às  características  do  estresse,  como  aquela  em  que  o  aumento  dos  níveis  de  estresse  dá
suporte  e  estimula  o  comportamento  funcional  até  que  ele  atinja  um  pico.  Após  o  pico,  os  níveis  elevados  de
estresse e os hormônios do estresse começam a degradar o desempenho e a função, levando a desequilíbrios na
fisiologia  que  também  afetam  a  saúde.  Aumentos  crônicos  nos  níveis  de  estresse  e  no  cortisol,  p.  ex.,  estão
relacionados  com  disfunção  do  sistema  imunológico,  doença  cardíaca,  síndromes  metabólicas,  incluindo
diabetes e câncer, e distúrbios autoimunes (McEwen, 2002; Sapolsky, 2004).
Fig. 56.4 O eixo hipotálamo­hipófise­suprarrenal (HHS).

Fig. 56.5 O princípio de Yerkes­Dodson da estimulação ótima está relacionado ao desempenho e à saúde.
(Fonte: Adaptado de Yerkes, R.M., & Dodson, J. D. (1908). The relation of strength of stimulus to rapidity of habit­
formation. Journal of Comparative Neurology and Psychology, 18, 459­482.)
Fig. 56.6 Fatores físicos, emocionais e cognitivos relacionados ao estresse.

O estresse também é uma função do equilíbrio entre o tipo de estressor e o ambiente, dependente dos recursos
de adaptação da pessoa, suas atitudes e humor (Fig. 56.6). Portanto, quando enfrenta uma situação, a pessoa pesa
a  informação  ambiental,  a  natureza  do  estressor  e  suas  próprias  capacidades  a  fim  de  se  comportar  de  modo
adaptado.  Frequentemente,  esse  processo  de  avaliação  ocorre  em  nível  inconsciente.  Existem  pessoas  que
prosperam  em  atividades  com  alto  nível  de  estresse;  o  que  pode  ser  estressante  para  certas  pessoas,  pode  ser
prazeroso para outras. Inversamente, o que pode oprimir um indivíduo poderia parecer um mero irritante ou nem
mesmo  ser  percebido  por  outro.  Grande  parte  dessa  complexidade  provém  das  capacidades  e  atitudes  com  as
quais nos engajamos no mundo que nos cerca.
Imagine este cenário: você frequenta um curso de neurologia; você se sente completamente confortável com
sua maneira de estudar, investiu tempo necessário para realizar todas as leituras e frequentou todas as aulas; você
se sente respeitado pelo professor; você se alimenta e dorme bem; e você tem ideia do que é esperado de você na
próxima prova. Você parece ter os recursos “certos” para se sair bem e, nesta situação, você provavelmente se
sente energizado por fazer a prova da disciplina. Entretanto, qualquer variação neste cenário poderia colocá­lo
em  uma  situação  menos  preparada  e,  como  resultado,  você  poderia  sentir  aumento  do  estresse  diante  da
perspectiva de realizar uma prova.
As capacidades e os recursos pessoais variam desde as habilidades intelectuais e sociais até as características
do ambiente. Essencialmente, qualquer coisa que contribua de maneira positiva para a capacidade da pessoa de
se adaptar às demandas ambientais pode ser pensada como um recurso e pode promover a resistência diante de
ameaças ou desafios. Inversamente, as características de uma pessoa ou de um ambiente que oprimem a pessoa
podem  representar  riscos  ou  ameaças.  O  equilíbrio  entre  recursos  pessoais  e  desafios  “adequados”  leva  ao
engajamento efetivo e significativo em atividades e ocupações. A consciência a respeito das capacidades mais
fracas  pode  levar  ao  desenvolvimento  de  habilidades  direcionadas,  à  melhora  da  autorregulação  e  às
acomodações que possam reduzir a possibilidade de experiências de estresse crônico.
Os terapeutas ocupacionais preocupam­se principalmente com o engajamento ocupacional ou em “executar”
as  ocupações  em  contextos  reais.  Nos  interessamos  pela  dinâmica  entre  as  pessoas,  pela  motivação  para
participar, pelo comportamento funcional adaptado e pelo ambiente. Portanto, as tecnologias que nos permitem
avaliar  questões  que  abordam  a  participação  em  tempo  real  e  o  engajamento  em  ocupações  relevantes  são  as
mais  atraentes  para  nossa  prática  clínica  e  de  pesquisa.  Em  termos  práticos,  os  terapeutas  ocupacionais,  bem
como  os  cientistas  ocupacionais,  são  observadores  entusiasmados  do  comportamento  humano  propositado.
Entretanto,  este  capítulo  apresenta  informações  sobre  processos  “internos”  e,  algumas  vezes,  “ocultos”,  que
também dão suporte ao comportamento funcional. Essas condições internas de funcionamento são gerenciadas
pelo  SNA  ou  pelo  SNC  e  SNA  em  conjunto,  e  são  pistas  importantes  sobre  como  o  corpo,  as  emoções  e  o
comportamento de uma pessoa são tanto regulados como autorregulados em relação ao contexto e às demandas
das  tarefas  a  executar.  O  quanto  um  terapeuta  ocupacional  está  atento  e  consegue  adaptar  essas  condições
internas de trabalho pode determinar o êxito de cada cliente em se engajar nas atividades e ocupações. A seção a
seguir apresenta sinais e sintomas comuns de desajuste do SNA e do SNC na clínica ou no domicílio e oferece
uma  variedade  de  opções  de  respostas  apropriadas  que  podem  dar  suporte  ao  engajamento  da  pessoa  no
tratamento.

POSSÍVEIS FATORES PSICOBIOLÓGICOS QUE PREOCUPAM OS TERAPEUTAS
OCUPACIONAIS
Esta  seção  descreve  dois  conjuntos  de  fatores  psicobiológicos  que  influenciam  o  comportamento  ocupacional.
Esta  lista  não  pretende  ser  completa,  e  os  fatores  descritos  são  aqueles  mais  comumente  identificados  pelos
profissionais  e  pesquisadores.  Os  terapeutas  ocupacionais  devem  observar  que  qualquer  fator  psicobiológico
pode  ser  influenciado  por  medicação.  Consequentemente,  uma  avaliação  dos  medicamentos  e  suas  possíveis
influências sobre a frequência cardíaca, a respiração, a temperatura, a sudorese e a expressão emocional, entre
outros,  é  uma  parte  fundamental  da  compreensão  sobre  os  fatores  psicobiológicos.  Os  fatores  psicobiológicos
clinicamente relevantes  são  os  fatores  que  podem  ser  observados  no  ambiente  clínico  ou  na  comunidade  sem
equipamento especial; é fundamental que os profissionais estejam atentos a esses fatores quando trabalham com
os  clientes.  Um  segundo  conjunto  de  fatores  psicobiológicos  relevantes  para  pesquisa,  também  denominados
biomarcadores,  são  aqueles  frequentemente  utilizados  na  pesquisa  médica  e  psicológica,  incluindo  a  ciência
ocupacional  e  a  pesquisa  terapêutica,  para  aprendermos  como  os  sistemas  corporais  funcionam  e  se  adaptam
significativamente  em  resposta  às  demandas  contextuais.  Esses  biomarcadores  também  podem  ser  utilizados
para modelar práticas de tratamento por meio de pesquisa que sugira como e por que estratégias diferentes de
tratamento são efetivas na produção de comportamento significativo e funcional.

Fatores Psicobiológicos Clinicamente Relevantes

Frequência Cardíaca e Pressão Arterial
A maioria de nós está atenta à nossa frequência cardíaca de repouso e pode detectar alterações à medida que nos
movimentamos, nos exercitamos ou subitamente temos um rompante emocional por alguém de quem gostamos
ou  com  quem  tivemos  uma  discussão.  A  frequência  cardíaca  é  adaptável  e  se  modifica  continuamente  em
resposta  às  demandas  internas  ou  ambientais.  Um  cardiologista  está  interessado  na  frequência  cardíaca  e  na
pressão arterial quando uma pessoa aumenta sua demanda sobre o sistema cardiovascular. Por exemplo, quanto
esforço o coração precisa fazer para bombear sangue quando esta pessoa sobe um lance de escadas. Este é um
exemplo  básico  em  que  o  ambiente  externo  (escadas)  influencia  o  corpo  (frequência  cardíaca  aumentada).  A
tecnologia disponível para mensurar o que acontece no coração inclui a eletrocardiografia (abreviada, ECG), a
aferição da pressão arterial e a ecocardiografia.  Entretanto,  poderíamos  também  pensar  em  outra  maneira  pela
qual  o  coração  é  influenciado:  se  a  pessoa  estiver  com  raiva  ou  com  medo  —  uma  influência  psicológica.
Portanto, alterações na frequência cardíaca podem ser desencadeadas por um evento externo (subir escadas), por
um evento interno (ter medo de aranhas ou pensar nelas ou vê­las), ou ambos (subir as escadas para escapar das
aranhas).  O  ECG,  a  pressão  arterial  ou  o  ecocardiograma  não  mensuram  com  facilidade  apenas  as  influências
psicológicas; em vez disso, como descrito anteriormente, essas medidas são baseadas na detecção de alterações
funcionais  causadas  por  influências  psicológicas  ou  demandas  ambientais.  Como  poderíamos  mensurar  as
influências psicológicas sobre o coração e mergulhar na percepção de um indivíduo quanto ao significado e ao
contexto? Mais adiante, neste capítulo, será descrito um método sofisticado (i.e., tônus vagal ou arritmia do seio
respiratório [ASR]) que mensura a contribuição relativa de processos psicológicos para a variação da frequência
cardíaca.  Como  esse  conhecimento  poderia  fundamentar  o  que  o  profissional  observa  nos  clientes  em  um
contexto  comunitário  ou  terapêutico?  Os  terapeutas  podem  verificar  que  as  alterações  da  frequência  cardíaca
recebem influências psicológicas e físicas. Por exemplo, se uma pessoa que está sendo submetida à reabilitação
cardíaca após cirurgia de revascularização começar a ter sintomas de taquicardia, isso poderia ser causado por
nervosismo  ou  medo  diante  de  um  desafio  imposto  ao  seu  frágil  coração,  bem  como  às  condições  físicas  do
coração. Um bom exemplo desse fenômeno é demonstrado no filme Alguém Tem que Ceder (Something’s Got to
Give), no qual Jack Nicholson faz o papel de um homem idoso que se recupera de um ataque cardíaco e que se
apaixona  pela  primeira  vez  por  uma  mulher  de  sua  própria  idade,  representada  por  Diane  Keaton.  Durante  o
período em que eles estão brigados, ele apresenta múltiplos “eventos” cardíacos que percebe como sendo outros
ataques cardíacos, mas que, na realidade, não são. Na verdade, ele está apaixonado e reage às suas emoções com
taquicardia e sudorese nas mãos quando ele encontra a mulher.
Entretanto,  aumentos  ou  diminuições  na  frequência  cardíaca  podem  ser  sinais  de  desajuste  do  SNA  e  de
estresse  físico.  Por  exemplo,  em  pessoas  com  lesão  de  medula  espinhal,  a  diminuição  da  frequência  cardíaca
pode ser um sinal de disreflexia autonômica (DA), também conhecida como hiper­reflexia, uma condição que é
característica de pessoas com lesão de medula espinhal em nível de C5­C6 ou acima. A DA é uma condição que
representa risco à vida do paciente, na qual o SNA responde a um estressor físico, muitas vezes a sonda urinária
entupida,  uma  lesão  cutânea  ou  temperatura  ambiente  extremamente  baixa  ou  alta.  Outros  sintomas  de  DA
incluem palidez cutânea abaixo do nível da lesão medular e rubor cutâneo acima, desorientação e/ou desmaio,
cefaleia, elevação da pressão arterial e sudorese acima do nível da lesão. Essa condição de estresse físico é grave
e exige atendimento médico imediato.
Observa­se  que  um  aumento  da  frequência  cardíaca  ou  da  pressão  arterial  é  acompanhado  por  aumento  da
frequên­cia respiratória, aparecimento de vermelhidão na pele, vocalizações não verbais ou grunhidos, alterações
da  temperatura  da  pele,  sudorese  e  queixas  de  taquicardia  e/ou  cefaleia  pulsada.  Os  terapeutas  devem
rapidamente  determinar  se  a  vida  do  indivíduo  está  ameaçada,  contatando  a  equipe  médica  e  os  serviços  de
emergência apropriados. Uma vez que a pessoa seja liberada pela equipe médica, o que significa que os sintomas
não  são  resultantes  de  uma  causa  física  que  traga  risco  à  vida  (p.  ex.,  ataque  cardíaco,  hipertensão  arterial
extrema), então uma avaliação cuidadosa deve ser realizada para reunir informações sobre quaisquer influências
psicológicas  possíveis.  Com  a  colaboração  do  cliente  e  de  outros  profissionais,  o  terapeuta  ocupacional  deve
monitorar  o  sintoma  clínico  por  meio  de  comunicação  estreita,  construindo  o  caminho  para  que  o  tratamento
ocorra  de  maneira  efetiva.  Consulte  as  Tabelas  56.1  e  56.2  para  informações  sobre  como  monitorar  a  função
cardíaca.
TABELA 56.1 INDICADORES CARDÍACOS
Como Mensurar a Frequência Frequência Cardíaca Frequência Cardíaca­ Pressão
Frequência Cardíaca Máxima alvo Arterial (≥
Cardíaca pelo Normal de 18 anos
Pulso Acordo de idade)
com a
Idade
Pulso carotídeo Recém­ Frequência cardíaca A frequência cardíaca­ Pressão
(pescoço): nascido: máxima (FCM) é a maior alvo (FCA) é um sistólica
Posicione os 120­160 frequência que uma percentual da <120
dedos indicador 0­5 meses: pessoa deve alcançar frequência cardíaca Pressão
e médio 90­140 durante o esforço físico. máxima da pessoa. diastólica
horizontalmente 6­12 meses: Está relacionada tanto à Ela é utilizada para <80
abaixo do 80­140 idade como ao treinamento de
queixo, próximo 1­3 anos: condicionamento físico. condicionamento
da orelha. 80­130 Uma estimativa grosseira físico. Dependendo
3­5 anos: da frequência cardíaca da idade da pessoa e
Pulso radial 80­120 máxima é subtrair a idade do nível basal de
(punho): 6­10 anos: do indivíduo de 220. condicionamento
Posicione os 70­110 Entretanto, outros fatores, geral, a FCA estará
dedos indicador 11­14 anos: incluindo peso e situada entre 50­85%
e médio 60­105 condicionamento, também da frequência
transversalmente ≥ 14 anos: precisam ser cardíaca máxima.
ao punho, com 60­100 considerados.
as pontas dos Consulte a Tabela 56.2
dedos voltadas 220 – idade = FCM para frequência
para o polegar. cardíaca­alvo para a
Consulte a Tabela 56.2 para idade.
Conte os frequência cardíaca
batimentos por máxima para a idade.
10 segundos e
multiplique por 6
para saber os
batimentos por
minuto.
TABELA 56.2 FREQUÊNCIA CARDÍACA­ALVO E FREQUÊNCIA CARDÍACA MÉDIA POR FAIXA ETÁRIA
Idade Frequência Cardíaca Máxima Zona Aproximada da Frequência Cardíaca­alvo (50­
(100%) 85%)
20 200 batimentos por minuto 100–170 batimentos por minuto
anos
25 195 batimentos por minuto 98–166 batimentos por minuto
anos
30 190 batimentos por minuto 95–162 batimentos por minuto
anos
35 185 batimentos por minuto 93–157 batimentos por minuto
anos
40 180 batimentos por minuto 90–153 batimentos por minuto
anos
45 175 batimentos por minuto 88–149 batimentos por minuto
anos
50 170 batimentos por minuto 85–145 batimentos por minuto
anos
55 165 batimentos por minuto 83–140 batimentos por minuto
anos
60 160 batimentos por minuto 80–136 batimentos por minuto
anos
65 155 batimentos por minuto 78–132 batimentos por minuto
anos
70 150 batimentos por minuto 75–128 batimentos por minuto
anos

Fonte:  Adaptada  de  American  Heart  Association.  Retirada  em  8/10/2007  de


http://www.americanheart.org/presenter.jhtml?identifier=4736

Sudorese
Apenas  a  divisão  simpática  do  SNA  inerva  as  glândulas  sudoríparas  da  pele  humana.  Isso  significa  que  nós
suamos  apenas  sob  “estresse”.  Entretanto,  o  estresse  para  o  corpo  assume  diferentes  formas,  e  nem  todas  são
psicológicas. A temperatura corporal fora dos limites ideais (p. ex., temperatura central de 37oC) é uma forma de
estresse.  Consequentemente,  em  ambientes  superaquecidos,  o  corpo  sua  para  regular  a  temperatura  corporal
porque faz o suor evaporar e isso faz a pele e o corpo resfriarem. Doença é um estado de estresse físico para o
corpo, assim como uma resposta do sistema imunológico a qualquer patógeno que nos faça adoecer. Quando o
sistema  imunológico  produz  febre  para  eliminar  os  patógenos  invasores,  o  corpo  responde  com  sudorese  para
controlar o aumento da temperatura corporal. O mesmo mecanismo é acionado quando o corpo é aquecido em
virtude do exercício. O exercício também é uma forma de estresse físico, apesar de ser bom. A pesquisa mostra
que  pessoas  que  estejam  em  boas  condições  físicas  tipicamente  apresentam  capacidade  de  sudorese  altamente
responsiva,  fazendo  com  que  elas  mais  provavelmente  suem  durante  o  exercício.  Entretanto,  também  é
verdadeiro que existe uma grande variação do quanto as pessoas suam durante o exercício.

ESTUDO DE CASO: Callie: Exercícios e Atividade Após Substituição Bilateral de Joelho

Callie,  de  62  anos  de  idade,  foi  diagnosticada  com  osteoartrite  severa  em  ambos  os  joelhos,  o  que  lhe
acarretava  muita  dor  e  comprometia  significativamente  sua  mobilidade.  Callie  foi  encaminhada  para
substituição bilateral de joelho, à qual foi submetida sem complicações e com rápida recuperação, passando
a ser atendida no ambulatório de reabilitação uma semana após a cirurgia. No ambulatório, Callie recebeu
atendimento  de  fisioterapia  e  terapia  ocupacional,  com  foco  nas  atividades  da  vida  diária  (AVD)  e  na
mobilidade funcional em casa. O médico de Callie determinou que ela estava suficientemente estável para
participar de exercícios vigorosos e se engajar em atividades ocupacionais quatro vezes por semana. Callie
frequentava  a  clínica  de  reabilitação  local  e  durante  30  minutos  pedalava  e  fazia  musculação  para  os
membros superiores, bem como caminhava sob supervisão por 30 minutos, seguidos de uma atividade de
jardinagem na qual ela retirava as ervas daninhas da horta e do jardim da clínica. Durante a jardinagem, sua
terapeuta  ocupacional  percebeu  que  Collie  começou  a  suar  visivelmente,  enrubesceu  e  aumentou  sua
frequência  respiratória.  Apesar  de  Callie  ter  dito  “estou  me  sentindo  bem,  obrigada”,  quando  perguntada,
sua  terapeuta  ocupacional  ficou  preocupada,  observando  Callie  cuidadosamente.  Quais  poderiam  ser  as
possíveis  razões  do  aparente  desconforto  de  Callie?  É  possível  que  o  nível  de  atividade  de  Callie  esteja
sendo excessivo para ela neste momento? Que passos você daria a seguir, presumindo­se que a coloração
da pele de Callie não era típica e sua frequência respiratória continuava muito acelerada?

As pessoas suam durante estresse fisiológico também. Pense sobre o que acontece à maioria de nós quando
temos que ficar de pé em frente a um grupo de pessoas e falar. As pessoas também podem suar quando estão
ansiosas sobre seu desempenho em atividades ou ocupações, especialmente durante avaliações. Por razões não
completamente  compreendidas,  as  mulheres  durante  a  menopausa  também  tendem  a  sofrer  um
superaquecimento periódico e podem sofrer aumento da quantidade de suor durante as ondas de calor.
A sudorese é, na maioria das vezes, a resposta natural ao ambiente quente, ao exercício físico, a enfermidades
ou  a  algum  grau  de  estresse  psicológico.  Entretanto,  é  importante  reconhecer  que  o  suor  também  é  um  sinal
facilmente  observado  de  estresse  e  ansiedade  devido  a  distúrbio  psicológico  inesperado.  Se  a  pessoa  sua  na
presença de um terapeuta ocupacional, o profissional deve determinar as razões para a sudorese. Se a sudorese
não  parecer  ser  devida  ao  calor,  ao  esforço,  à  menopausa  ou  a  qualquer  outra  causa  identificável,  então  o
terapeuta  poderia  considerá­la  como  sendo  possivelmente  decorrente  de  estresse  psicológico.  Exemplos
observados de sudorese e ansiedade generalizada em virtude do nervosismo por estar em um hospital ou em uma
clínica  são  muito  comuns  entre  idosos,  pessoas  que  são  provenientes  de  áreas  rurais  e  aquelas  que  são
provenientes de populações pobres. Mesmo as pessoas que estão familiarizadas com as modernas instituições de
assistência à saúde e com os profissionais de saúde podem ter motivos pessoais de ansiedade nesses lugares. É
fácil  ficar  confortável  em  uma  unidade  de  saúde  quando  você  trabalha  lá  e  conhece  as  pessoas  e  a  cultura.
Entretanto,  para  muitas  pessoas,  hospitais,  centros  de  reabilitação  e  ambulatórios  são  fontes  de  expectativas
desconhecidas e perda de controle. Um profissional habilidoso nunca perde a perspectiva de que os clientes e
pacientes poderiam ficar bastante estressados e ansiosos por estarem em uma unidade de saúde e irá considerar
isso em sua avaliação e nas abordagens de tratamento para o cliente e sua família.

Coloração da Pele: Pálida ou Ruborizada
A cor da pele se deve à quantidade de pigmento presente na derme, ou camada superior da pele. Entretanto, a cor
da pele pode ser percebida como avermelhada ou pálida por causa de alterações do fluxo sanguíneo da pele em
resposta ao estresse físico ou às emoções. Embora possa ser mais fácil detectar as alterações em pessoas com
pele  de  pigmentação  mais  clara  (p.  ex.,  asiáticos  ou  caucasianos),  todas  as  pessoas  sofrem  alterações  sutis  da
coloração da pele, especialmente na face, que são visíveis à observação cuidadosa. Algumas condições — como
a síndrome de Raynaud, p. ex. — podem causar alterações da coloração da pele que são tipicamente observadas
como  branqueamento  das  mãos  e  dos  pés,  especialmente  em  ambientes  mais  frios.  Pessoas  com  síndrome  de
Raynaud algumas vezes respondem ao tratamento com biofeedback, em que aprendem a exercer algum grau de
controle  sobre  seu  SNA  por  meio  de  influências  do  SNP  para  relaxamento  dos  capilares  nos  membros.  As
alterações na coloração e na textura da pele também são comuns em pessoas com a síndrome de  dor  regional
complexa, uma condição pouco compreendida que afeta principalmente as mulheres de meia­idade e idosas. Na
ausência de uma condição clínica conhecida que justifique as alterações atípicas da coloração da pele, pode­se
presumir que a maioria das alterações seja resultante de estimulação do SNA. Geralmente, os vasos sanguíneos
da pele se contraem quando o SNS é ativado para levar sangue aos grandes músculos e órgãos do corpo. Isso
efetivamente  supre  de  sangue  estruturas  em  que  este  é  mais  necessário  para  a  ação  física.  Contrariamente,  os
vasos sanguíneos se relaxam e dilatam sob controle parassimpático, promovendo a nutrição de todas as células e
estruturas do corpo. Entretanto, estressores físicos, como o exercício e a febre, podem causar vermelhidão facial,
bem  como  distúrbios  das  atividades  cardíaca  e  respiratória.  A  palidez  súbita  também  pode  ser  um  sinal  de
estresse  físico  interno,  como  a  dor  aguda  ou  severa.  Certas  emoções,  como  o  amor  e  a  raiva,  podem  causar
vermelhidão súbita da pele ou rubor. Ao mesmo tempo, emoções como medo ou ansiedade podem empalidecer a
pele.  É  importante  que  os  terapeutas  ocupacionais  prestem  atenção  às  alterações  da  coloração  da  pele  para
determinar  as  razões  dessas  alterações.  A  alteração  da  coloração  pode  ser  o  primeiro  indicador,  p.  ex.,  de  que
uma pessoa tem dor ao movimento ou à atividade. Além disso, é possível que uma pessoa esteja com raiva ou
envergonhada e não expresse suas emoções. Por outro lado, algumas pessoas podem ignorar os sintomas físicos
de estresse cardíaco ou respiratório e tentam menosprezar os sinais de alerta. Um profissional atento à coloração
da pele, bem como a outros fatores psicológicos discutidos neste capítulo, pode ser capaz de identificar barreiras
subjacentes ao desempenho ocupacional de sucesso.

ESTUDO DE CASO: Estabilidade do SNA em um Bebê Prematuro

Sam é um bebê que nasceu prematuramente com 28 semanas de idade gestacional. Agora, duas semanas
após  o  parto,  Sam  pode  ser  retirado  da  incubadora  para  receber  o  carinho  de  seus  pais.  Sam  está
começando  a  mostrar  sinais  do  reflexo  de  procura  e  a  sugar  a  chupeta,  e  sua  mãe  expressa  o  desejo  de
começar a amamentá­lo tão logo seja possível. A terapeuta ocupacional e a enfermeira assistente de Sam
observam  sua  reação  aos  estímulos  ambientais  e  sociais  para  avaliar  se  ele  seria  capaz  de  regular  suas
funções corporais, como respiração,  manutenção  da  coloração  da  pele  e  do  tônus  muscular,  bem  como  a
manutenção  do  estado  de  vigília,  alerta,  por  curtos  períodos.  Até  o  momento,  Sam  está  indo  bem  na
manutenção  da  estabilidade  de  seu  SNA  enquanto  está  na  incubadora,  e  ele  mostra  sinais  de  interação
objetiva com seus cuidadores (p. ex., atenção visual, reflexo de procura na direção do mamilo). Entretanto,
recentemente, durante um período de aconchego com seus pais fora da incubadora, a frequência cardíaca
de  Sam  baixou  significativamente  e  sua  pele  empalideceu.  Por  que  é  importante  prestar  atenção  à
estabilidade  do  SNA  de  Sam  antes  de  proceder  às  interações  que  exigem  maiores  demandas?  Que
métodos  você  poderia  empregar  para  assegurar  que  Sam  pode  ser  introduzido  às  interações  sociais  com
sucesso?

Respiração
A  frequência  respiratória  está  relacionada  com  as  condições  ambientais  e  os  níveis  de  oxigênio,
condicionamento físico, força e condição cardíacas, condições de saúde dos pulmões e a quantidade de hemácias
e  ferro  disponível,  bem  como  com  outros  fatores  de  saúde  e  do  ambiente.  Por  exemplo,  problemas  com  a
respiração podem ser indicativos de doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), que é o termo aplicado para
bronquite  crônica  e  enfisema  crônico.  A  DPOC  é  causada  por  obstrução  ao  fluxo  aéreo  que  interfere  na
respiração normal. A asma, outra doença obstrutiva de fluxo aéreo, também pode afetar a frequência respiratória
e é comum em crianças e em muitos adultos.
A  frequência  respiratória  também  pode  ser  afetada  por  estresse  e  ansiedade;  associação  com  alterações
cardíacas torna isso inevitável. Entretanto, a respiração também é afetada por conexões diretas tanto da divisão
simpática como da parassimpática do SNA. O SNS inerva o pulmão para abrir as vias aéreas para a respiração
profunda, antecipando o esforço intenso sob a forma de exercício e mesmo de luta ou fuga diante de uma ameaça
presente.  Em  contraste,  o  SNP  constringe  as  vias  aéreas  para  uma  respiração  com  menor  gasto  energético
associado a condições mais tranquilas. Pessoas submetidas a estresse psicológico e ansiedade apresentam uma
resposta similar ao estresse físico, como se estivessem se exercitando; elas experimentam respiração mais rápida
e mais profunda para acompanhar o aumento da frequência cardíaca em resposta aos estímulos simpáticos. Os
terapeutas ocupacionais devem verificar a causa do aumento da frequência respiratória e desenvolver o mesmo
raciocínio  clínico  descrito  para  os  sinais  e  sintomas  cardíacos.  Uma  vez  que  as  ameaças  físicas  à  estabilidade
respiratória tenham sido descartadas, o sintoma pode ser determinado como de natureza fisiológica e indicativo
de  uma  resposta  emocional  (p.  ex.,  raiva,  medo,  estresse  ou  ansiedade).  A  frequência  respiratória  é  ainda
utilizada  em  pesquisa,  juntamente  com  a  condutância  da  pele  e  a  frequência  cardíaca,  como  parte  do  que  é
comumente  conhecido  como  teste  de  detecção  de  mentira.  A  frequência  respiratória  raramente  é  utilizada
isoladamente; seu significado é mais bem compreendido no contexto de alterações cardíacas, coloração da pele e
mudanças da resistência da pele.

ESTUDO DE CASO: Ansiedade em uma Mulher com Distúrbio Alimentar
Maggie é uma mulher de 20 anos de idade com distúrbio alimentar do tipo anorexia. Recentemente, ela foi
hospitalizada  em  função  da  perda  severa  de  peso  e  tem  se  mantido  silenciosa  em  relação  a  seus
sentimentos  sobre  seu  distúrbio  alimentar.  No  hospital,  Maggie  frequenta  regularmente  a  terapia
ocupacional. Um de seus objetivos é desenvolver suas habilidades de pintura e ela e sua terapeuta, Janna,
recentemente  foram  comprar  suprimentos  e  almoçaram  em  uma  galeria  de  arte  local.  Outro  terapeuta
ocupacional, Michael, também começou a trabalhar com Maggie. Primeiramente, Maggie parecia trabalhar
entusiasticamente com Michael. Entretanto, Michael percebeu que, cada vez que ele entrava na sala onde
Maggie estava, seu comportamento se modificava. Ele observou que Maggie parecia agitada e que sua pele
enrubescia  quando  ele  estava  perto  dela.  Quando  perguntada  sobre  isso,  Maggie  admitiu  que  se  sentia
engraçada  e  sentia  também  batimentos  cardíacos  acelerados,  não  conseguia  respirar  bem  e  sentia  frio  e
sudorese  quando  Michael  chegava  perto  dela.  Ele  encorajou  Maggie  a  discutir  suas  reações  com  seu
psicólogo e, como resultado, Maggie foi capaz de relatar uma história de abuso sexual por um homem de
sua  família  que  ela  não  havia  contado  previamente  aos  seus  cuidadores.  Maggie  disse  que  se  sentia
envergonhada de conversar sobre isso e pensou inicialmente que este fato não tinha nenhuma relação com
seu distúrbio alimentar.
Apesar  de  Maggie  ter  insistido,  na  primeira  vez,  em  que  nada  estava  errado  quando  Michael  estava
presente, a atenção cuidadosa aos seus sinais de estresse revelou que ela estava mais desconfortável do
que  havia  revelado;  seu  corpo  não  foi  capaz  de  esconder  seus  sentimentos  e  um  terapeuta  ocupacional
observador  foi  capaz  de  descobrir  informações­chave  que  foram  fundamentais  para  a  recuperação  de
Maggie. Você pode pensar em outras situações nas quais sinais sutis de distúrbio em outra pessoa traíram
seus sentimentos e emoções que não eram de outra forma conhecidos? Quais são alguns dos sinais típicos
que você poderia procurar em uma pessoa que refletissem raiva ou medo?
Uma  abordagem  de  tratamento  que  Michael  sugeriu  a  Maggie  foi  o  treinamento  com  retroalimentação.
Michael instruiu Maggie a realizar exercícios de respiração profunda e meditação para ajudar a controlar sua
frequência  cardíaca  e  sua  respiração  superficial.  Ele  fixou  um  termômetro  de  biofeedback  ao  seu  dedo
indicador e pediu a ela para aumentar conscientemente a temperatura de seus dedos. Uma vez que mãos
quentes estão associadas ao aumento da influência do SNP e ao aumento do fluxo sanguíneo, um aumento
na temperatura das extremidades distais de seus dedos seria um bom indicador de que Maggie era capaz
de  influenciar  seu  corpo  para  uma  resposta  de  relaxamento.  O  uso  de  um  termômetro  de  biofeedback
possibilitou que Maggie acompanhasse seu sucesso para elevação da temperatura de seus dedos por meio
do pensamento propositado. Após dominar a técnica, Maggie foi capaz de utilizá­la em outras situações em
que se sentia ansiosa, o que dava a ela certo controle sobre sua reação emocional.

Temperatura da Pele: Quente ou Fria, Úmida/Pegajosa ou Seca
A  temperatura  corporal  e  da  pele  é  regulada  por  neurônios  do  tronco  encefálico  e  do  hipotálamo,  que  fazem
conexões com outras estruturas do SNA. A regulação da temperatura acontece por ação conjunta dos sistemas
autônomo,  endócrino  e  motor.  Os  sensores  de  retroalimentação  da  temperatura  estão  localizados  por  todo  o
corpo, estando muitos deles na pele e no hipotálamo. Portanto, existe uma retroalimentação constante do corpo
para  o  cérebro  em  relação  à  temperatura,  e  os  ajustes  são  feitos  de  acordo  com  esta  informação.  Esta
retroalimentação  acontece  por  mecanismos  neuroquímicos,  bem  como  por  meio  de  conexões  nervosas  diretas.
Por  exemplo,  baixas  temperaturas  fazem  com  que  o  hipotálamo  libere  tiroxina,  um  hormônio  tireoidiano  que
aumenta  as  taxas  metabólicas.  Outros  hormônios  também  afetam  a  temperatura  do  corpo  e  da  pele;  como
resultado,  as  temperaturas  corporais,  incluindo  a  sudorese  subsequente,  podem  variar  em  mulheres  durante  o
ciclo menstrual e também durante o climatério. Os calafrios são uma resposta involuntária comandada pelo SNA
para que os músculos aumentem a temperatura corporal, embora os calafrios também possam ser causados por
distúrbios  generalizados  da  temperatura  corporal,  como  no  caso  de  calafrios  induzidos  por  febre.  O  sistema
imunológico também influencia a temperatura corporal e cutânea, produzindo substâncias que causam febre. A
febre  é  indicada  por  pele  quente,  seca  e  sensações  de  mal­estar  quando  o  corpo  tenta  eliminar  os  patógenos
invasores  pelo  aumento  da  temperatura  corporal.  A  temperatura  basal  típica  para  seres  humanos  é  de  37°C,
embora a temperatura corporal caia abaixo deste valor naturalmente durante o sono.
Mãos  e  pés  frios  acontecem  por  várias  razões,  incluindo  variação  pessoal  da  temperatura  basal  e  condições
como  a  síndrome  de  Raynaud.  Outras  condições  clínicas  que  afetam  a  perfusão  sanguínea  nos  membros,
incluindo o diabetes, também podem afetar a temperatura cutânea nos membros. Entretanto, a ativação do SNS
durante  estresse  ou  ansiedade  também  pode  causar  mãos  e  pés  frios.  De  fato,  o  estresse  agudo  pode  ser
acompanhado  por  sensação  de  frio  em  todo  o  corpo.  O  SNS  contrai  os  vasos  sanguíneos,  especialmente  nos
membros, em resposta ao estresse. Se o cliente se queixa de sentir frio, especialmente nas mãos e nos pés, ou se
forem  observados  calafrios,  o  terapeuta  ocupacional  precisa  determinar  qual  poderia  ser  a  causa  física.  Por
exemplo, a pessoa é magra e suscetível ao frio? A pessoa está doente e febril? Uma vez que as causas físicas
tenham sido eliminadas, o profissional pode considerar as extremidades frias como indicativas de uma reação ao
estresse.

Lágrimas, Salivação e Digestão
Apenas a divisão parassimpática do SNA produz lágrimas e saliva. Como você se lembra, o SNP e o SNS se
anulam, de modo que apenas um sistema possa estar “no controle” de cada vez. Portanto, o choro não acontece
durante o estresse intenso. O mesmo é verdadeiro para salivação e digestão; de fato, o SNS inibe a salivação, o
fluxo sanguíneo para o estômago e a produção de ácido gástrico, com isso inibindo a digestão durante estresse
agudo. Isso explica por que frequentemente nós experimentamos a boca seca e indigestão quando nos sentimos
muito  estressados.  Apenas  após  o  estresse  agudo,  quando  o  estímulo  parassimpático  é  restaurado,  nós
recomeçamos a digestão e a eliminação normal e conseguimos chorar. Entretanto, o leitor astuto poderia lembrar
que a pessoa chora durante o estresse crônico e a depressão. Isto é verdade e levanta um bom ponto de discussão
sobre as diferenças entre estresse crônico e agudo. O sistema de resposta ao estresse agudo por meio do SNS é
destinado  apenas  à  ativação  de  curta  duração.  A  resposta  ao  estresse  de  mais  longa  duração  é  mediada  pelo
sistema HHS (veja Fig. 56.4) destinado para ativação duradoura. Entretanto, possivelmente, ele não pode estar
“ligado” por todo o tempo que uma pessoa percebe o estresse. Os seres humanos literalmente queimariam pela
depleção de todos os nutrientes e pelo funcionamento dos sistemas corporais a todo vapor. Consequentemente, o
estresse  crônico  é  solucionado  periodicamente  por  eventos  parassimpáticos  que  promovem  algum  grau  de
restauração  para  permitir  a  sobrevivência.  É  provavelmente  durante  esses  períodos  intermitentes  que  a  pessoa
com estresse crônico chora. De fato, alguns pesquisadores  sugerem  que  o  choro  é  a  maneira  pela  qual  o  SNP
promove o retorno à homeostase; em outras palavras, o choro é uma ação autorreguladora que produz hormônios
que nos fazem sentir menos desconfortáveis após uma situação estressante. Isso faz sentido à luz de um antigo
ditado: “Você se sente melhor depois de um bom choro”. De fato, a maioria das vezes é o que acontece conosco.

ESTUDO DE CASO: Uma Resposta Saudável ao Estresse

Torrance é um veterano da guerra do Iraque com 35 anos de idade que, atualmente, está em reabilitação
ambulatorial  para  aprender  a  utilizar  suas  novas  próteses  de  membros  superiores.  Um  dos  objetivos  de
Torrance  é  restabelecer  um  estilo  de  vida  de  atividades  com  seus  filhos,  incluindo  sua  ocupação  de  lazer
favorita: esquiar. Sua terapeuta ocupacional, Selena, juntamente com a família de Torrance, planejou uma
viagem  a  um  hotel  de  esqui  na  montanha  local  que  é  especializado  em  esportes  adaptados.  No  alto  da
montanha,  antes  de  sua  primeira  descida,  Torrance  começou  inexplicavelmente  a  chorar,  a  suar  e  a  se
queixar  de  que  seu  coração  estava  disparado.  Selena  observou  que  isso  era  uma  reação  esperada  e
começou a conversar com Torrance sobre o desafio que lhe estava sendo imposto. Além disso, ela ensinou­
lhe um exercício de respiração profunda e solicitou que ele se concentrasse em suas habilidades prévias no
esqui. Quando Torrance parecia estar relativamente no controle, Selena solicitou­lhe que se posicionasse na
linha de partida. De alguma maneira, a vida de Torrance estava em risco, ou ele estava tendo uma resposta
saudável  ao  estresse?  Ao  ressaltar  a  capacidade  de  Torrance  e  a  experiência  de  alto  nível  ao  esquiar
anterior  à  lesão,  o  que  Selena  estava  tentando  fazer?  Por  que  ela  explicou  a  Torrance  que  suas  reações
eram normais e esperadas? Como você pode se preparar para situações como esta?

Os  seres  humanos  são  os  únicos  animais  que  produzem  lágrimas  quando  choram.  Obviamente,  chorar  tem
relação com as experiências emocionais. Algumas vezes nós choramos porque estamos felizes e frequentemente
choramos  quando  estamos  tristes,  mas  existe  sempre  uma  forte  experiência  emocional.  Os  pesquisadores
observaram que a constituição química das lágrimas modifica­se na dependência das razões do choro, sendo as
lágrimas  de  felicidade  diferentes  das  lágrimas  de  tristeza,  e  que  também  são  diferentes  das  lágrimas  que
produzimos  quando  cortamos  uma  cebola.  Apesar  de  a  razão  para  as  lágrimas  ter  causado  perplexidade  aos
pesquisadores, e inúmeras teorias terem sido formuladas, a maioria dos pesquisadores concorda que as lágrimas
servem como um sinal para a comunicação com outras pessoas. Os pesquisadores interessados em por que os
comportamentos  se  desenvolvem  a  partir  de  uma  perspectiva  evolutiva  acreditam  que  as  lágrimas  são  sinais
sociais  para  outras  pessoas  que  enviam  uma  mensagem  sobre  a  real  expressão  emocional.  De  fato,  chorar  é
difícil,  senão  impossível  de  fingir,  a  menos  que  você  “provoque”  memórias  emocionais  para  que  você  se
entristeça. Consequentemente, nós presumimos que as pessoas que choram estão expressando suas emoções de
maneira honesta, e nós somos compelidos a atuar oferecendo­lhes apoio.
Conhecer  esta  informação  sobre  lágrimas,  salivação  e  digestão  deve  tornar  o  terapeuta  ocupacional  mais
consciente dos comportamentos sutis que podem ser observados na clínica ou na comunidade. Por exemplo, a
boca  seca  acompanhada  de  má  digestão  pode  ser  causada  por  inúmeros  fatores;  p.  ex.,  medicamentos
frequentemente apresentam esses sintomas como efeitos colaterais. Entretanto, também poderia ser um sinal de
que a pessoa está submetida a níveis elevados de estresse e não está expressando esse estresse verbalmente ou
por  outras  manifestações  comportamentais.  De  modo  semelhante,  o  choro  pode  ser  um  sinal  de  alteração
emocional ou pode ser produto da labilidade emocional resultante de dano às estruturas do sistema límbico e/ou
ao hemisfério direito do cérebro (p. ex., as principais áreas de regulação emocional). Os terapeutas ocupacionais
precisam estar atentos às razões para a expressão emocional e atuar de acordo com elas.

Visão
Inúmeros  fatores,  incluindo  idade,  medicamentos  e  doença,  podem  causar  alterações  da  acuidade  visual.
Todavia, existem algumas implicações visuais relacionadas ao humor e ao estresse. O SNS dilata a pupila para
permitir a visão a longa distância e o comportamento vigilante. Isso faz sentido porque, em situações de desafio
ou estresse, a pessoa precisa estar “em alerta” para o que acontece no ambiente. Além da visão, todos os sentidos
são aguçados de modo que a pessoa esteja pronta para reagir. Como resultado, a pessoa muito estressada pode
ser  menos  capaz  de  focalizar  visualmente  objetos  próximos  e  pode  não  ser  capaz  de  realizar  bem  ou  de  se
concentrar  de  modo  adaptado  às  demandas  das  tarefas.  De  fato,  a  pessoa  pode  parecer  agitada  e  distraída.
Inversamente,  o  SNP  contrai  a  pupila  e  promove  uma  visão  mais  focada,  dando  suporte  à  visão  em  curta
distância  para  uma  tarefa  e  à  interação  social.  Uma  pessoa  calma  também  é  capaz  de  observação  visual  por
longos períodos.

Dor: Careta e Outras Expressões Não Verbais (ou Verbais) de Dor
O relatório da Joint Commission on Accreditation of Health Care Organizations de 2001 recomendou que a dor
seja considerada no exame físico dos pacientes um quinto sinal vital juntamente com pulso, respiração, pressão
arterial  e  temperatura.  A  dor  é  comumente  definida  como  uma  experiência  sensorial  e/ou  emocional
desagradável  que,  frequentemente,  está  associada  a  dano  aos  tecidos  corporais  (Fig.  56.7).  Entretanto,  muitas
definições  diferenciam  a  sensação  de  dor  da  percepção  da  dor  porque  a  dor  é  uma  experiência  aberta  à
interpretação  por  outras  sensações,  outros  sentimentos  e  pensamentos  que  coincidem  com  a  dor.  Em  outras
palavras, a percepção da dor se modifica de acordo com o contexto ambiental, o humor e os níveis de estresse,
entre outros fatores.
Por exemplo, imagine este cenário: Você machuca o hálux à caminho da escola e experimenta uma dor súbita
intensa. Entretanto, você está atrasado e ignora a sensação de dor para correr e chegar a tempo na aula. De fato,
você pouco sente seu pé machucado durante os 30 minutos seguintes enquanto corre para a aula. Após você ter
se  acomodado  na  carteira,  cumprimentado  seus  colegas,  reunido  seu  material  e  prestado  atenção  ao  professor,
seu corpo começa a se aquietar. Lentamente, ou talvez bruscamente, você passa a ter consciência da dor latejante
em seu dedo. O que mudou? Os impulsos nervosos que transmitem a sensação de dor de seu dedo não mudaram
desde que você o machucou; os nervos continuaram a responder ao edema leve e desenvolveram uma equimose,
indicando  uma  lesão  discreta  nos  tecidos  do  dedo.  O  que  mudou  foi  sua  percepção  da  dor  no  contexto  mais
tranquilo da sala de aula com menos percepções sensoriais competindo, juntamente com o estado mais tranquilo
do corpo e da mente em que você está mais receptivo à sensação de dor. De fato, frequentemente não tomamos
consciência de pequenas pancadas, equimoses e cortes até que nos deitemos à noite, quando o ambiente quieto e
a imobilidade de nossos corpos permitem que a sensação de dor salte para o primeiro plano de nossa atenção. As
características da dor que a tornam adaptável ao humor e ao contexto juntamente com as interpretações pessoais
da percepção tornam a dor, especialmente a dor crônica, difícil de tratar, compreender e controlar.
Fig. 56.7 Escala de Classificação da Dor FACES de Wong­Baker. Muitos profissionais de saúde avaliam a dor
por meio de escalas, especialmente porque a dor é difícil de descrever e explicar em termos de intensidade.
Algumas escalas utilizam o sistema numérico (0 = sem dor a 10 = dor intolerável); outros utilizam palavras
(discreta a insuportável). Este exemplo fornece uma escala visual para avaliação da dor que é utilizada com
eficiência para clientes dos 3 anos de idade até adultos. (Fonte: Hockenberry M.J., Wilson, D. & Winkelstein, M.L.
(2005). Wong’s Essentials of Pediatric Nursing, ed. 7, p. 1259. Copyright, Mosby: St. Louis, utilizado com
permissão.)

A dor aguda é de curta duração (p. ex., minutos, horas, dias) e está tipicamente relacionada com lesão, doença
ou  cirurgia.  A  dor  aguda  funciona  como  um  sinal  para  interromper  o  que  quer  que  estejamos  fazendo  e  dar
repouso à área lesionada de modo que ela possa cicatrizar (Britt, 2006). Dessa maneira, a dor é um mensageiro
útil. Entretanto, a dor crônica representa mais que um desafio. Por definição, a dor crônica permanece além da
lesão e do reparo corporal. Além disso, ela frequentemente está associada a distúrbios psicossociais e pode não
estar relacionada a um evento fisiológico real (Britt, 2006). A dor de membro fantasma, p. ex., perdura por muito
tempo  após  a  ferida  da  amputação  ter  cicatrizado.  A  identificação  da  origem  ou  da  razão  da  lombalgia
frequentemente é um mistério para os profissionais de saúde. Entretanto, é evidente que o estresse psicológico, a
depressão, a ansiedade e o humor negativo afetam a percepção da dor. Os terapeutas ocupacionais precisam estar
atentos  ao  humor  geral  e  ao  nível  de  estresse  percebido  por  uma  pessoa  a  fim  de  compreender  a  natureza  e  a
amplitude da dor dessa pessoa. Para ajudar as pessoas a controlarem a dor, especialmente durante as atividades
de vida diária e outras ocupações cotidianas, os profissionais precisam estar atentos para abordar o estresse e o
nível de ansiedade, o direcionamento do humor e a rede social do indivíduo (incluindo apoio e não apoio), além
dos aspectos físicos do controle da dor.
O estresse físico de curta duração, incluindo exercício, “embota” a percepção da dor por meio da liberação de
betaendorfinas.  Estas  substâncias,  liberadas  pela  hipófise  e  para  todo  o  corpo,  são  “aliviadores  da  dor”
produzidos internamente, também conhecidos como opioides endógenos. Portanto, durante períodos de estresse
agudo, as betaendorfinas oferecem um grau de alívio da dor de curta duração. Por outro lado, o estresse crônico
está associado a níveis mais altos de cortisol no corpo, os quais parecem tornar muitas pessoas hipersensíveis à
percepção  dolorosa.  Como  resultado,  os  limiares  dolorosos  ou  a  quantidade  de  dor  tolerável  que  uma  pessoa
pode suportar sem comprometimento funcional são mais baixos na presença de estresse crônico.

Respostas de Tratamento aos Fatores Psicobiológicos
Controle do estresse, relaxamento e intervenções autorreguladoras devem sempre ser orientados pela escolha do
cliente.

Alterações Psicobiológicas Relacionadas ao Estresse Físico
Exemplos  de  alterações  psicológicas  relacionadas  ao  estresse  físico  incluem  alterações  na  respiração  (muito
rápida ou muito lenta), alterações cardíacas (frequência cardíaca muito rápida ou muito lenta), pressão arterial
muito alta ou muito baixa, temperatura, sudorese, alterações da coloração da pele, alterações visuais, labilidade
emocional, má digestão e queixas de dor.

Sugestões de Tratamento
Averiguar se o cliente está em risco imediato de morrer. Se estiver, buscar ajuda médica.

ESTUDO DE CASO: Dor em uma Mulher com Síndrome do Túnel do Carpo
Truth foi encaminhada a sua clínica para avaliação e possível tratamento por causa de síndrome do túnel do
carpo bilateral. Truth é uma mulher de 40 anos de idade que trabalha como assistente administrativa para
vários  advogados  em  um  escritório  de  advocacia  muito  procurado.  Ela  ocupa  esse  cargo  há  12  anos  e
afirma  que  ama  seu  trabalho;  todavia,  ela  estava  preocupada  se  seria  capaz  de  continuar  nesse  cargo  se
sua  alteração  progredisse.  Ela  confessou  que  estava  bastante  ansiosa  quanto  à  segurança  futura  de  seu
emprego.  Truth  também  se  divorciou  recentemente  e  está  compartilhando  a  custódia  de  dois  filhos
pequenos com seu marido. Ela era a provedora do plano de saúde das crianças. Truth realiza os exercícios
e faz uso rotineiro da órtese e, como resultado, começou a apresentar discreta melhora na dor do punho.
Entretanto,  ela  relatou  que  não  fazia  nada  além  de  trabalhar,  praticar  sua  rotina  normal  de  exercícios,
cozinhar para sua família, porque tinha medo de que, se usasse seus punhos e mãos excessivamente, a dor
poderia aumentar e ela não ser capaz de trabalhar. Como resultado, Truth parecia preocupada a maior parte
do tempo. Durante as sessões, seu terapeuta ocupacional observou que Truth apresentava boca seca e era
incapaz de pronunciar as palavras claramente, e pedia água. Truth também não era capaz de se sentar e
permanecer quieta, parecia distraída durante o tratamento e parecia nervosa, agitada. Em dado momento,
durante a sessão de tratamento, Truth afirmou que tinha a sensação de desmaio e que seu coração estava
disparado.
O  que  poderia  estar  acontecendo?  Como  a  condição  psicológica  de  Truth  poderia  estar  afetando  sua
recuperação?  Quais  são  algumas  estratégias  que  seu  terapeuta  ocupacional  poderia  empregar  com  Truth
para  tratar  sua  ansiedade?  Quais  são  as  possíveis  implicações  físicas  para  a  cura  se  Truth  permanecer
ansiosa e possivelmente deprimida?

Orientar a pessoa sobre como automonitorar seu nível de atividade, mantendo­o nos limites especificados
por seus médicos (p. ex., conhecer e mensurar a frequência cardíaca­alvo).
Instruir o cliente sobre técnicas de conservação de energia para as AVD básicas e instrumentais.
Orientar  o  cliente  quanto  às  várias  técnicas  para  controle  do  estresse,  incluindo  exercícios  respiratórios,
treinamento de resposta de relaxamento e treinamento de biofeedback quando apropriado.
Instruir  o  cliente  quanto  ao  gerenciamento  do  tempo  para  assegurar  que  ele  gaste  o  tempo  adequado  em
ocupações de lazer e em atividades sociais.
Sugerir a companhia de um animal de estimação ou outra companhia social.
Ensinar  ao  cliente  técnicas  cognitivo­comportamentais  para  promover  condições  otimistas  de  humor  e
atitudes pró­sociais.
Orientar o cliente sobre as técnicas de reestruturação para desenvolvimento de melhor autocontrole.
Instruir o cliente sobre a importância do sono, da nutrição e dos exercícios.
Ajudar o cliente a incorporar as sugestões de outros profissionais (p. ex., nutricionista, enfermeiro, médico,
assistente social, fisioterapeuta, psicólogo) às rotinas, atividades e ocupações diárias.
Explorar o possível uso de abordagens médicas complementares, como a acupuntura e a massagem.

Alterações Psicobiológicas Relacionadas ao Estresse Psicológico ou aos Problemas de Autorregulação
Exemplos de alterações psicobiológicas relacionadas ao estresse psicológico ou aos problemas de autorregulação
incluem alterações na respiração (muito rápida ou muito lenta), alterações cardíacas (frequência cardíaca muito
rápida  ou  muito  lenta),  pressão  arterial  (muito  alta  ou  muito  baixa),  temperatura,  sudorese,  alterações  na
coloração da pele, alterações visuais, queixas de dor, alterações do humor, labilidade emocional, choro, distração
e hiperatividade.
Sugestões de Tratamento
Instruir o cliente a automonitorar os estados físicos e psicológicos internos.
Ensinar  para  o  cliente  técnicas  para  modificação  dos  estados  internos  quando  apropriado  aos  contextos
ambientais.
Orientar  o  cliente  sobre  as  diferentes  técnicas  de  controle  do  estresse,  incluindo  exercícios  respiratórios,
treinamento de resposta de relaxamento e treinamento de biofeedback quando apropriado.
Instruir o cliente quanto ao gerenciamento do tempo para assegurar que ele despenda tempo adequado em
ocupações de lazer e atividades sociais.
Orientar o cliente sobre a importância do sono, da nutrição e dos exercícios.
Ajudar o cliente a incorporar as sugestões de outros profissionais (p. ex., nutricionista, enfermeiro, médico,
assistente social, fisioterapeuta, psicólogo) às rotinas, atividades e ocupações diárias.
Sugerir a companhia de um animal de estimação ou outra companhia social.
Explorar o possível uso de técnicas de medicina complementar, como acupuntura e massagem.
Orientar  o  cliente  quanto  às  técnicas  cognitivo­comportamentais  para  promover  condições  otimistas  de
humor e atitudes pró­sociais.
Orientar o cliente sobre as técnicas de reestruturação para desenvolvimento de melhor autocontrole.
Ajudar o cliente a ampliar suas atividades e seu repertório ocupacional.
Ajudar  o  cliente  a  controlar  o  uso  abusivo  de  drogas  e  álcool,  ajudando­o  a  incorporar  as  modificações
necessárias ao estilo de vida em termos de suas rotinas diárias e hábitos saudáveis.

FATORES PSICOBIOLÓGICOS RELEVANTES PARA PESQUISA: BIOMARCADORES
Do  ponto  de  vista  psicobiológico,  a  ciência  ocupacional  e  a  pesquisa  em  terapia  ocupacional  preocupam­se
principalmente com estruturas e processos que dão suporte ao comportamento ocupacional. Essencialmente, as
questões que orientam as pesquisas são aquelas sobre o que acontece no corpo ou no cérebro de uma pessoa que
dá suporte ou orienta os comportamentos que observamos. Os avanços tecnológicos nos fornecem conhecimento
acerca das estruturas corporais, porém nós ainda somos limitados para mensurar processos internos enquanto as
pessoas  fazem  alguma  coisa.  Como  resultado,  algumas  medidas  com  base  psicobiológica  se  prestam  mais
facilmente  para  abordar  este  interesse  na  compreensão  do  fazer  do  que  outras.  Algumas  medidas  são
tecnicamente difíceis de obter ou mensuram coisas que podem não ser especialmente relevantes para a terapia
ocupacional.  Por  exemplo,  a  tomografia  computadorizada  (TC)  fornece  a  imagem  detalhada  de  estruturas
corporais  que  são  essenciais  para  identificar  o  crescimento  e  o  desenvolvimento  normais  versus  atípicos.
Entretanto, a TC não fornece informações sobre como as estruturas corporais funcionam em um contexto (uma
questão relevante à terapia ocupacional). De modo semelhante, a ressonância magnética funcional (RMf) avalia
as estruturas e funções corporais, porém não demonstra o desempenho funcional contextualizado de acordo com
o  que  a  terapia  ocupacional  define  como  função.  Embora  seja  uma  grande  ferramenta  para  investigar  as
habilidades  funcionais  que  podem  ser  realizadas  em  um  equipamento  de  RM,  como  o  movimento  de  apontar
apenas  com  um  dedo,  a  RMf  limita  o  tipo  de  pergunta  que  pode  ser  feita  às  pessoas  que  realizam  tarefas
significativas nos ambientes típicos. Você pode se imaginar tentando mensurar a função cerebral de uma pessoa
com um equipamento de RMf quanto à demanda da tarefa de fazer um sanduíche de manteiga de amendoim?
Algumas  medidas  são  muito  invasivas  para  os  terapeutas  ocupacionais  utilizarem  com  frequência.  Por
exemplo, a menos que o terapeuta ocupacional ou o pesquisador trabalhe em uma unidade de terapia intensiva e
tenha acesso direto às amostras de sangue e urina, essas medidas não seriam possíveis de coletar. Por outro lado,
amostras de saliva, bem como medidas cardíacas, são mais provavelmente utilizadas como medidas na pesquisa
de terapia ocupacional. Portanto, até que ponto os cientistas e terapeutas ocupacionais conseguem mensurar os
fatores  psicobiológicos  é  influenciado  pela  tecnologia  disponível,  bem  como  pelo  interesse  em  certos
comportamentos.  A  seção  a  seguir  descreve  uma  seleção  de  medidas  psicobiológicas  que  nos  podem  fornecer
uma janela para os processos internos. Quando as medidas são baseadas em processos psicobiológicos, nós as
denominamos biomarcadores. Alguns biomarcadores são diretos e “próximos” do alvo da medida. Por exemplo,
um teste de número e tipo de células sanguíneas no corpo (ou hemograma completo, HC) conta as hemácias e os
leucócitos  em  uma  amostra  de  sangue;  isto  é  o  mais  direto  que  os  biomarcadores  podem  ser.  Por  outro  lado,
alguns biomarcadores são de natureza mais “distal”, significando que eles mensuram algo que está a um ou mais
passos  de  distância  do  processo  real  de  interesse.  O  cortisol  é  um  exemplo  de  biomarcador  distal.
Frequentemente mensurado na saliva como um biomarcador não invasivo, o cortisol salivar é uma estimativa do
cortisol  sanguíneo  relacionada  à  quantidade  de  seu  hormônio  precursor,  o  hormônio  adrenocorticotropina  (no
corpo).  A  ACTH  é  enviada  às  glândulas  suprarrenais  pela  hipófise  de  acordo  com  a  quantidade  de  hormônio
precursor liberador de corticotropina (CRH) que é enviada pelo hipotálamo. O CRH é liberado de acordo com as
mensagens enviadas ao hipotálamo pelo SNA para manutenção do estado de estresse elevado. Isso pode parecer
complicado,  mas  não  é.  Em  uma  situação  ideal,  seria  melhor  avaliar  a  quantidade  de  CRH  que  é  enviada  do
hipotálamo  para  a  hipófise  em  resposta  a  um  estressor,  porque  esta  seria  a  medida  mais  direta  da  resposta  ao
estresse. Entretanto, nós não podemos, por questões éticas, puncionar o cérebro das pessoas para mensurar esses
processos  em  adultos  saudáveis.  Consequentemente,  nós  precisamos  confiar  nos  biomarcadores  distais.  Os
biomarcadores distais são relevantes, porém podem ser difíceis de compreender, pois não são a medida imediata
de uma resposta, mas sim uma medida de algo que aconteceu alguns passos atrás. Entretanto, a ética na pesquisa
impede o tipo de pesquisa que poderia mensurar os biomarcadores nas estruturas cerebrais e em outros órgãos;
esta é uma das razões pelas quais as pesquisas em animais podem ser tão valiosas.
As seções a seguir discutem alguns exemplos de medidas psicobiológicas que são utilizadas em pesquisa.

Resposta Eletrodérmica
Como as glândulas sudoríparas são inervadas pelo SNS (o sistema “ligado”) e, portanto, afetam a tensão da pele,
muitos  pesquisadores  estão  interessados  em  utilizar  a  resistência  da  pele  via  glândulas  sudoríparas  como  um
biomarcador  da  resposta  ao  estresse.  A  resposta  eletrodérmica  (electrodermal  response  –  EDR),  também
conhecida como resposta cutânea galvânica (galvanic skin response – GSR), refere­se à medida da condutância
elétrica  da  pele,  especificamente  relacionada  com  as  glândulas  sudoríparas.  O  termo  preferível  é  EDR  ou
atividade  eletrodérmica.  As  glândulas  sudoríparas  respondem  à  atividade  do  SNA  por  variações  nas
concentrações de sódio e água que deixam a pele sudoreica ou seca. O conceito que fundamenta a EDR é de que
a reação emocional e a ação subsequente do SNA por meio do SNS causam alterações na condutância da pele.
Algumas evidências sugerem que um circuito cerebral originado no córtex pré­frontal e em estruturas límbicas
medeie  a  resposta  eletrodérmica  por  meio  do  SNS  (Critchley,  2002).  Quanto  mais  intensa  é  a  estimulação  do
SNS  (p.  ex.,  excitação  ou  estresse)  associada  à  sudorese  cutânea,  menor  é  a  resistência  elétrica  da  pele  e,
consequentemente, maior a condutância elétrica. Um estado de relaxamento ou de SNP mais ativo está associado
à  pele  mais  seca  e  à  maior  resistência  elétrica  da  pele,  resultando  em  diminuição  de  sua  condutância  elétrica.
Infelizmente,  inúmeras  emoções  (p.  ex.,  desejo  sexual,  raiva,  medo)  produzem  a  mesma  resposta  (p.  ex.,
ativação do SNC), tornando difícil a interpretação dos resultados. Por exemplo, a resposta de uma pessoa poderia
estar baseada no medo, na felicidade ou na necessidade de ir ao banheiro, que são eventos ativadores do SNS,
porém por razões diferentes. A aplicação mais comum da EDR é como parte de uma avaliação com o polígrafo,
ou  teste  do  detector  de  mentira.  O  polígrafo  utiliza  informações  cardíacas  e  respiratórias,  bem  como  a  EDR.
Entretanto,  o  polígrafo  é  considerado  uma  avaliação  controvertida  para  uso  legal  por  não  ser  confiável  para
discernir  a  fonte  da  resposta  de  um  indivíduo.  Em  uma  nova  aplicação  desse  biomarcador,  um  recente  estudo
(Marci & Riess, 2005) utilizou a EDR para mensurar objetivamente o grau de conectividade no desenvolvimento
de empatia terapêutica entre o terapeuta e o cliente.

ECG e Tônus Vagal
Anteriormente,  perguntamos  “Como  os  terapeutas  poderiam  mensurar  as  influências  psicológicas  sobre  o
coração  que  afetam  a  percepção  da  pessoa  sobre  o  significado  e  o  contexto?”.  Esta  pergunta  fez  com  que
inúmeros pesquisadores e alguns terapeutas ocupacionais aprendessem a mensurar estratégias que avaliassem a
contribuição  única  da  avaliação  cognitiva  e  emocional  para  a  variação  da  frequência  cardíaca.  Esta  medida
psicobiológica, denominada tônus vagal, é uma estimativa derivada da variabilidade da frequência cardíaca não
de causas físicas, mas de causas psicológicas. Portanto, o tônus vagal é um exemplo de biomarcador que estima
influências psicológicas (p. ex., cognição e emoções) sobre um sistema corporal (p. ex., frequência cardíaca).
O ECG não mensura diretamente as influências psicológicas sobre a frequência cardíaca; em vez disso, como
descrito anteriormente, ele realiza a mensuração de alterações funcionais na frequência cardíaca em resposta às
demandas ambientais imediatas (p. ex., níveis sanguíneos de oxigênio, subir escadas). O nervo vago (décimo par
craniano)  fornece  uma  conexão  direta  entre  o  sistema  nervoso  central  e  o  coração  e  é  principalmente
influenciado  pelo  SNP.  Como  ambas  as  divisões  do  SNA  influenciam  o  coração,  as  contribuições  do  SNS
aumentam a frequência cardíaca e a pressão arterial, enquanto o SNP reduz a atividade do coração e, portanto,
influencia  a  frequência  cardíaca  de  repouso.  A  variação  da  frequência  cardíaca  é  mensurada  em  períodos
denominados  intervalos  R­R  ou  intervalos  interbatimentos.  Em  um  exemplo  simples,  se  uma  pessoa  enfrenta
uma  ameaça  ambiental,  o  SNS  assume  e  aumenta  a  frequência  cardíaca;  ao  contrário,  quando  a  pessoa  está
relaxada, o SNP predomina e reduz a frequência cardíaca.
Porges  (1992),  bem  como  outros  pesquisadores,  desenvolveu  algoritmos  que  calculam  a  medida  da  ASR
(arritmia do seio respiratório) ou tônus vagal. Estes requerem leituras do ECG, as quais são então analisadas para
excluir as contribuições da variação da frequência cardíaca atribuídas à estimulação do nervo vago. Uma medida
geral da ASR é então calculada. Em geral, valores menores da variação da frequência cardíaca estão associados a
comportamentos menos adaptáveis e a capacidades insuficientes de desenvolvimento. Reações parassimpáticas
competentes  parecem  ser  mais  rápidas  e  mais  flexíveis  e,  portanto,  se  refletem  em  valores  mais  elevados  de
variação da frequência cardíaca. Outra técnica para quantificar a variação da frequência cardíaca utiliza a análise
espectral  das  frequências  elétricas  cardíacas  (Zhuravlev,  Rassi,  Mishin  &  Emery,  2002).  As  divisões
parassimpáticas  e  simpáticas  do  SNA  oscilam  em  diferentes  frequências  e  podem  ser  capturadas  pelo  uso  de
monitores  de  frequência  cardíaca  por  ECG  e  análise  computadorizada.  Os  resultados  são  apresentados  como
espectros  de  força  das  faixas  de  baixa  e  alta  frequência  que  desdobram  os  componentes  simpático  e
parassimpático. Embora esse marcador seja útil para fins de pesquisa, ele não pode ser utilizado para propósitos
clínicos porque exige computadores especializados, conexões de ECG e especialização técnica.

Cortisol
O  cortisol  é  um  hormônio  glicocorticoide  (ou  seja,  esteroide)  liberado  pelas  glândulas  suprarrenais  situadas
acima de cada rim. O hormônio é liberado como parte de um sistema complexo denominado eixo hipotálamo­
hipofisário­suprarrenal  (HHS)  (ver  Fig.  56.4).  A  finalidade  deste  hormônio  é  manter  a  atividade  metabólica,
aumentar a vigília e aumentar a pressão arterial, entre outras coisas, de modo que a pessoa possa lidar com os
estímulos  ambientais.  O  cortisol  é  liberado  em  pulsos  ou  salvas  durante  o  dia  e  a  noite  como  parte  do  ciclo
circadiano  e  como  parte  da  resposta  a  eventos  internos  e  externos,  como  as  sensações  de  excitação  ou
preocupação ou a sirene e as luzes de polícia acesas atrás de você na via expressa.

ESTUDO DE CASO: Depressão em Pessoas com Lesão Cerebral Adquirida

Liz trabalha como terapeuta ocupacional em um centro de reabilitação. Sua principal área de atuação está
direcionada  para  pessoas  com  lesão  cerebral  adquirida,  seja  em  consequência  de  traumatismo,  seja  de
acidente  vascular  cerebral.  Nesse  cenário,  sua  equipe  tem  observado  alto  índice  de  depressão  pós­lesão
nas pessoas afetadas e suspeita de que não se trata apenas de depressão, uma vez que houve mudanças
no nível de capacidade e no estilo de vida. A equipe de reabilitação tem acompanhado recentes pesquisas
em  relação  à  depressão  e  suas  relações  com  a  desregulação  do  sistema  de  resposta  ao  estresse.  Eles
gostariam  de  incluir  uma  medida  psicobiológica,  ou  biomarcador,  em  um  estudo  de  pesquisa,  e  a
universidade  local  deseja  ajudá­los.  Quais  são  as  possíveis  medidas  psicobiológicas  que  abordariam  a
fisiologia  do  estresse  e  possivelmente  a  depressão?  Quais  as  medidas  mais  factíveis  de  serem  utilizadas
com base nas necessidades de Liz de que elas sejam minimamente invasivas? Que outras medidas seriam
apropriadas para inclusão?

Exemplos de Pesquisa Relevante com Uso de ASR (Tônus Vagal)

S chuetze  (2006)  mensurou  a  ASR  em  bebês  jovens  (4­8  semanas)  com  e  sem  exposição  pré­natal  à
cocaína  e  verificou  que  existiam  diferenças  na  ASR  entre  os  grupos,  dependendo  da  extensão  da
exposição à cocaína. Em geral, bebês com maior exposição à cocaína apresentam menor variação da ASR,
quando comparados a crianças típicas e àquelas com menor exposição à cocaína (Schuetze & Eiden, 2006).
Os mesmos pesquisadores também verificaram que bebês de 2 a 4 semanas de vida que foram expostos ao
tabagismo  materno  pré­natal,  bem  como  à  fumaça  ambiental  do  cigarro  após  o  nascimento,  apresentavam
valores menores de ASR, quando comparados a bebês não expostos. Além disso, embora ambos os sexos
parecessem afetados pela exposição à fumaça, maior efeito foi verificado sobre os meninos, sugerindo maior
vulnerabilidade.  Smith  (2003)  observou  que  bebês  prematuros  com  peso  muito  baixo  ao  nascer  também
apresentavam tônus vagal mais baixo, sugerindo riscos potenciais para os resultados de desenvolvimento.
Em  um  estudo  de  crianças  típicas  de  2  anos  de  idade,  pesquisadores  verificaram  que  o  tônus  vagal
apresentou resultados diferentes de acordo com o tipo de interação materna (Calkins, Smith, Gill & Johnson,
1998).  A  regulação  comportamental  e  emocional  das  crianças  foi  relacionada  ao  tônus  vagal  mais  baixo  em
crianças  cujas  mães  eram  negativas  em  suas  interações.  Esse  estudo  destaca  uma  variável  potencialmente
importante  do  estilo  dos  pais  sobre  o  desenvolvimento  de  habilidades  de  autorregulação  e  discute  se
capacidades  como  a  autorregulação  seriam  adaptáveis  às  influências  ambientais.  Outros  pesquisadores
observaram  a  influência  dos  pais  e  dos  ambientes  sociais  no  desenvolvimento  das  capacidades  de
autorregulação, especialmente em relação à atenção e à regulação do comportamento (Quas, Bauer & Boyce,
2004).
DeGangi, Porges, Sickel e Greenspan (1993) utilizaram uma medida do tônus vagal em bebês com algum
grau  de  alteração  da  regulação  aos  8­11  meses.  Os  problemas  da  regulação  incluíam  distúrbios  do  sono,
autotranquilização e controle da transição do estado de sono/vigília, bem como sinais precoces de problemas
de processamento sensorial. Os bebês não foram tratados e foram avaliados novamente aos 4 anos de idade
e  comparados  com  seus  pares  típicos.  Seus  resultados  sugerem  que  o  tônus  vagal  baixo  identificado
precocemente  na  infância  está  associado  a  piores  resultados  do  desenvolvimento  e  das  habilidades  de
regulação  do  comportamento  aos  4  anos  de  idade  em  comparação  com  crianças  típicas.  Esses  dados,
embora baseados em uma pequena amostra, sugerem que o tônus vagal pode ser um biomarcador razoável
para possíveis dificuldades de desenvolvimento, como aquelas relacionadas à regulação do comportamento.
Schaaf, Miller, Seawell e O’Keefe (2003) utilizaram as medidas de tônus vagal em crianças com problemas no
processamento sensorial. Embora esse tenha sido um pequeno estudo piloto, eles também identificaram tônus
vagal  mais  baixo  em  crianças  com  problemas  do  processamento  sensorial,  quando  comparadas  a  crianças
sem problemas, e documentaram a necessidade de maiores pesquisas nessa área.

α­Amilase Salivar
A α­amilase salivar foi recentemente estudada como um marcador da ativação do SNS ou do sistema de resposta
ao  estresse.  Geralmente,  as  catecolaminas  servem  como  um  marcador  confiável  da  atividade  do  SNS  em
pesquisas  por  dosagem  de  epinefrina  e  norepinefrina  na  urina  ou  no  sangue.  Entretanto,  a  coleta  de  sangue  e
urina  ou  é  muito  invasiva  ou  é  impraticável  para  muitas  atividades  da  pesquisa  humana.  A  α­amilase  é  uma
enzima digestiva com base proteica produzida pelas glândulas salivares (p. ex., glândulas parótidas) em resposta
à  atividade  do  SNS,  aumentando  com  isso  a  quantidade  de  α­amilase  na  saliva  com  a  finalidade  de  degradar
açúcares  nas  vias  digestórias,  de  modo  que  energia  seja  liberada  para  dar  suporte  ao  comportamento  “luta  ou
fuga”.  Inversamente,  a  ativação  parassimpática  das  glândulas  salivares  aumenta  a  taxa  de  fluxo  de  saliva  e,
portanto, reduz a quantidade de α­amilase na saliva (Rohleder, Nader, Wolf, Ehlert & Kirschbaum, 2004). A α­
amilase  salivar  parece  sensível  tanto  aos  estressores  físicos  (p.  ex.,  exercício)  como  sociais  de  acordo  com
estudos  em  pessoas  típicas  (Granger  et al.,  2006;  Rohleder  et  al.,  2004;  Wetherell  et  al.,  2006).  As  secreções
normais  de  α­amilase  parecem  seguir  um  padrão  de  liberação  diária  confiável  em  indivíduos  adultos  típicos
(Granger  et  al.,  2006).  Este  padrão  parece  caminhar  em  sentido  inverso  ao  do  cortisol  salivar;  enquanto  o
cortisol  atinge  seu  nível  máximo  pela  manhã  e  gradativamente  declina  ao  longo  do  dia,  padrões  de  α­amilase
típicos  demonstram  níveis  mais  baixos  pela  manhã  e  níveis  mais  elevados  à  tarde  e  à  noite  (Rohleder  et  al.,
2004).  No  momento,  estudos  que  utilizam  os  níveis  de  α­amilase  em  crianças  típicas  estão  apenas  iniciando
(Granger  et  al.,  2006),  sem  que  nenhuma  nova  informação  tenha  sido  publicada  sobre  crianças  com
desenvolvimento atípico. Também existe pesquisa preliminar utilizando α­amilase salivar em mulheres grávidas.
O uso de α­amilase como um biomarcador parece promissor, porém existem necessidades evidentes de maiores
pesquisas em várias amostras durante o curso da vida.

Pesquisa Relevante Utilizando o Cortisol Salivar

E xistem  evidências  convergentes  de  vários  esforços  de  pesquisa  bem  conduzidos  que  sugerem  que  a
desregulação  do  eixo  HHS  é  real  em  pessoas  com  condições  relacionadas  ao  estresse  ou  outras
condições  de  saúde  e  guarda  um  bom  paralelo  com  o  que  se  sabe  de  pesquisas  em  animais  (Gunnar  &
Vazquez,  2006;  Schneider,  Moore,  Kraemer,  Roberts  &  DeJesus,  2002).  Assim,  nós  podemos  utilizar  essa
pesquisa para ajudar a organizar tratamentos. Por exemplo, em pessoas que estão se recuperando de câncer,
a  depressão  está  relacionada  com  as  taxas  de  recuperação  e  sobrevida  (Jehn  et  al.,  2006).  Um  dos
biomarcadores  emergentes  da  depressão  em  pacientes  com  câncer  é  o  cortisol,  juntamente  com  um
biomarcador do sistema imunológico, a interleucina­6 (Jehn et al., 2006). Os pesquisadores propuseram que
esses  biomarcadores  podem  ser  utilizados  para  identificar  pessoas  com  câncer  que  estão  sob  risco  de
depressão e, em seguida, intervir de maneira proativa. Embora sejam necessárias mais pesquisas para definir
melhor  se  a  desregulação  do  eixo  HHS  é  causa  ou  sintoma  de  alterações  da  saúde,  os  pesquisadores
parecem concordar que ela seja uma mistura de ambos.
Outro uso relevante do cortisol em pesquisa poderia ser seu uso como medida psicobiológica para marcar,
entre  os  muitos  tratamentos  de  terapia  ocupacional,  os  efeitos  potenciais  da  participação  social  e  do
engajamento  ocupacional.  A  reatividade  do  eixo  HHS  parece  ser  sensível  às  influências  e  intervenções
ambientais.  Gitau,  Modi,  Gianakoulopoulos,  Bond  e  Glover  (2002)  demonstraram  que  os  níveis  de  cortisol
eram  modificáveis  em  bebês  prematuros  por  meio  do  contato  pele  a  pele  com  as  mães.  Em  crianças,  o
ambiente  social  parece  influenciar  as  respostas  ao  estresse  (Braarud  &  Stormark,  2006;  Nachmias,  Gunnar,
Mangelsdorf, Parritz & Buss, 1996; Young, Vazquez, Jiang e Pfeiffer, 2006) por meio de padrões de cuidados
de suporte (p. ex., sensível) ou a ausência destes (p. ex., depressão parental). Em adultos, o eixo HHS parece
ser  sensível  também  aos  mediadores  sociais,  na  forma  do  suporte  de  amizades  (Heinrichs,  Baumgartner,
Kirschbaum  &  Ehlert,  2003).  Em  outras  palavras,  na  presença  de  relações  de  suporte  social,  as  pessoas
parecem ser capazes de reduzir seu estado de estresse global, pelo menos como medido por seus hormônios
relacionados com o estresse.

ESTUDO DE CASO: Distúrbios da Modulação Sensorial em uma Menina de 5 Anos de
Idade

Gillian é uma menina de 5 anos de idade com alguns comportamentos peculiares. Seus pais não estão bem
certos  de  como  compreendê­la  e  pensam  que,  às  vezes,  ela  age  estranhamente  em  busca  de  atenção.
Entretanto, recentemente, eles foram indagados sobre a possibilidade de Gillian apresentar um distúrbio de
modulação sensorial. À medida que eles descrevem o comportamento da menina ao pediatra, fica claro que
o  comportamento  de  Gillian  aponta  para  um  comprometimento  funcional.  Por  exemplo,  Gillian  recusa­se  a
vestir quaisquer roupas que não sejam dois tamanhos maiores e ela prefere que elas não sejam lavadas. Ela
recusa todas as meias que são calçadas, afirmando que elas “machucam”. Ela protesta se sua mãe tenta
lavar seus lençóis e não pode tolerar qualquer janela aberta na casa. Além disso, certas luzes “machucam
seus ouvidos”, especialmente em mercearias, e ela tem medo de locais públicos e outros lugares onde haja
a possibilidade de barulho alto. Para consternação de seus pais, ela não gosta de ser abraçada ou afagada,
e sua dieta é restrita a alimentos sólidos e firmes, como maçã, pão e queijo. Seus pais também observaram
que ela parece estar desenvolvendo ansiedade para deixar a casa. Por exemplo, agora ela tem se queixado
de cefaleia e dores no estômago e parece se tornar ansiosa e nervosa sem razão aparente.
Que indicadores psicobiológicos estariam possivelmente associados ao comportamento de Gillian? Como
você determinaria se ela está apresentando respostas ao estresse relacionadas a coisas que normalmente
não  seriam  ameaçadoras  no  seu  ambiente?  Como  você  poderia  incorporar  tratamento  para  controle  do
estresse que a ajudasse com seus distúrbios sensoriais? Você pode pensar em maneiras de utilizar fatores
psicobiológicos como indicadores de possível efetividade do tratamento de integração sensorial?

ESTUDO DE CASO: Perda de Peso e Prevenção da Obesidade

Jay  é  um  terapeuta  ocupacional  que  trabalha  em  um  programa  comunitário  para  pessoas  de  baixa  renda.
Jay  está  interessado  em  aplicar  inúmeras  medidas  de  resultado  que  demonstrariam  a  efetividade  de  um
programa de tratamento que ele administra juntamente com um nutricionista, um enfermeiro e um assistente
social. Os propósitos­chave do programa são promover a perda de peso em mães solteiras de baixa renda,
prevenir a obesidade em crianças por meio da participação em exercícios inseridos nas suas rotinas diárias
e o aprendizado de hábitos alimentares mais saudáveis. Por exemplo, os participantes aprendem a utilizar
as escadas sempre que possível e a evitar elevadores, a menos que precisem subir mais de cinco andares
em  um  edifício.  Além  disso,  Jay  ensina  aos  participantes  como  comprar  alimentos  saudáveis  que  se
adequem  ao  seu  orçamento,  assim  como  preparar  refeições  com  pouca  gordura.  O  grupo  de  tratamento
também  trabalha  com  as  mães  as  habilidades  de  gestão  do  tempo  e  outras  formas  de  exercícios.  Muitas
mulheres e crianças no programa relatam altos níveis de estresse e ansiedade que as afetam diariamente. A
equipe, após consulta com os médicos da comunidade e pesquisadores da universidade, gostaria de incluir
medidas  psicobiológicas  como  parte  da  pesquisa,  além  de  inúmeras  outras  medidas,  incluindo  a  perda  de
peso.  Muitas  das  mães  elevaram  os  níveis  de  lipídios  sanguíneos  e  estão  mostrando  sinais  de
desenvolvimento de diabetes tipo 2.
Que  perguntas  você  faria  sobre  os  fatores  psicobiológicos  nessas  mulheres  e  crianças  que  estejam
relacionados de alguma maneira com suas ocupações e atividades?
O que você esperaria mudar se esse programa for efetivo?
Alguma medida psicobiológica apresentada aqui poderia responder suas perguntas?
Onde você poderia procurar maiores informações sobre fatores psicobiológicos e obesidade?
Como os terapeutas ocupacionais complementam a pesquisa que está sendo realizada em outras áreas
da ciência?

RM Funcional
A  RM  funcional  (RMf)  mensura  o  uso  de  oxigênio  e  o  fluxo  sanguíneo  em  diferentes  partes  do  cérebro  sob
condições  de  resposta  a  um  estímulo.  Esse  aumento  do  fluxo  sanguíneo  que  dá  suporte  à  atividade  neural  é
acompanhado  por  diminuição  característica  de  uma  substância  denominada  desoxiemoglobina,  um  subproduto
normal que é liberado quando as células extraem oxigênio da hemoglobina do sangue. A desoxiemoglobina tem
propriedades  magnéticas  fracas  que  fornecem  a  fonte  do  sinal  para  a  RMf.  O  processo  é  diferente  da  RM
comum, uma vez que nenhum radioisótopo é injetado na circulação sanguínea. Para coletar os dados da RMf, a
pessoa  é  posicionada  em  um  equipamento  de  RM  (Fig.  56.8).  Vários  estímulos  auditivos,  visuais  e  táteis
(dependendo  do  propósito  da  RMf)  são  apresentados  enquanto  a  pessoa  permanece  deitada  no  interior  do
aparelho.  A  pessoa  então  produz  uma  resposta  ao  movimentar  seus  dedos  (p.  ex.,  acionando  um  botão  para
responder “sim” a uma pergunta) ou dizer alguma coisa em voz alta (Fig. 56.9).

Eletroencefalografia, Magnetoencefalografia e Potencial Evento­relacionado
Um  eletroencefalógrafo  (EEG)  proporciona  um  método  não  invasivo  de  observação  da  atividade  cerebral.  O
EEG registra a atividade elétrica natural do cérebro por meio de eletrodos que são estrategicamente colocados
sobre o couro cabeludo do indivíduo. Pesquisa sobre EEG documentou sinais ou padrões elétricos característicos
para  vários  estados,  como  o  estado  de  alerta  e  de  sono,  de  modo  que  sinais  de  EEG  individuais  possam  ser
comparados  com  expectativas  típicas.  O  EEG  é  útil  para  demonstrar  o  tempo  gasto  e,  de  modo  geral,  quais
regiões são importantes para o processamento de diferentes tipos de informação. Entretanto, o EEG não aponta
estruturas específicas ou quais regiões específicas do cérebro realizam determinadas tarefas.

Fig. 56.8 Aparelho de ressonância magnética (RM).
Fig. 56.9 Imagem por RM de um cérebro humano.

A magnetoencefalografia (MEG) é uma nova tecnologia que mensura os sinais magnéticos naturais emitidos
pela  atividade  cerebral.  Embora  a  MEG  produza  um  registro  bastante  acurado  da  atividade  celular  cerebral,
apenas alguns aparelhos estão disponíveis em todo o mundo devido ao custo (milhões de dólares), ao tamanho
(oito toneladas ou mais) e à tecnologia avançada (é necessário um dispositivo especializado de física quântica).
Assim como outros equipamentos que mensuram a atividade cerebral, a MEG é inviável para investigar a função
cerebral  sob  demandas  contextuais,  como  o  preparo  de  refeições,  as  atividades  de  autocuidado  e  outras
ocupações.  Entretanto,  ela  pode  ter  utilidade  para  alguns  aspectos  limitados  do  desempenho  funcional
semelhante àqueles impostos à RMf.

Pesquisa Relevante Utilizando RM ou RMf

A RM funcional (RMf) tem sido utilizada em diferentes pesquisas relacionadas ao comportamento humano.
Recentemente,  Aron,  Gluck  e  Poldrack  (2005)  observaram  que  a  RMf  pode  ser  uma  medida  estável  do
indivíduo  ao  longo  do  tempo,  sugerindo  que  ela  possa  ser  um  marcador  confiável  do  desenvolvimento
cerebral, bem como da evolução da neurodegeneração. Assim, a RMf poderia ser um biomarcador adequado
para  pesquisa  de  resultados  sobre  a  eficácia  de  tratamentos  em  terapia  ocupacional.  Por  exemplo,  Talati,
Valero­Cuevas  e  Hirsch  (2005)  investigaram  a  função  cerebral  em  indivíduos  normais  que  realizam  a
manipulação de uma mola que exige calibração da força e precisão motora. Os pesquisadores modificavam as
tentativas  de  modo  que  os  participantes  realizassem  as  tarefas  algumas  vezes  com  orientação  visual  e
algumas vezes somente com orientações táteis. Os achados apontam que as redes neurais para a produção
do  desempenho  motor  fino  necessitavam  de  um  complexo  neural  bastante  amplo  e  integrado  que  incluía
múltiplas estruturas no cérebro, as quais algumas vezes diferiam, dependendo se os participantes utilizavam a
visão para orientar suas ações. Isso sugere que a destreza manual fina é dependente do estímulo sensorial e
que  o  processamento  da  informação  sensorial  ocorre  em  diferentes  áreas.  Do  ponto  de  vista  terapêutico,
poderíamos  utilizar  essa  informação  para  dar  suporte  ao  uso  de  experiências  sensoriais  ricas  quando
ajudamos  outras  pessoas  a  adquirir  ou  reaprender  habilidades  motoras  finas.  Erickson  e  colegas
demonstraram, com o uso da RMf como uma medida psicobiológica, que o treinamento de habilidades para
idosos reduzia o declínio cognitivo muitas vezes associado ao envelhecimento (Erickson, Colcombe, Elavsky et
al.,  2007;  Kramer,  Colcombe,  McAuley,  Scalf  &  Erickson,  2005).  Os  resultados  sugerem  que  a  RMf  poderia
detectar  alterações  benéficas  nas  áreas  pré­frontais  do  cérebro  como  resultado  do  treinamento,  bem  como
demonstrar que o cérebro em envelhecimento ainda é capaz de plasticidade ou de alterações de adaptação
em resposta ao ambiente (Erickson, Colcombe, Wadhwa et al., 2007).
Pesquisadores que investigaram regiões específicas do cérebro associadas às interações sociais (Walter et
al., 2004) forneceram outro exemplo interessante do uso da RMf em estudos comportamentais. Seus achados
sugerem  que  a  avaliação  da  interação  social  (p.  ex.,  compreender  as  intenções  de  outras  pessoas  nas
interações sociais) é sustentada por regiões específicas do cérebro no córtex pré­frontal (p. ex., a área do giro
paracingulado). A compreensão da intenção social é importante para a teoria da mente (p. ex., a compreensão
de que o que os outros podem estar pensando pode ser diferente de seus próprios pensamentos) e é um dos
déficits significativos identificados em pessoas com distúrbios do tipo autismo. Um maior conhecimento sobre
as  áreas  cerebrais  que  podem  estar  comprometidas  em  distúrbios  como  o  autismo  ajudará  o  diagnóstico  e
contribuirá para novos tratamentos e técnicas.

ESTUDO DE CASO: Técnicas de Restrição Induzida

Tim trabalha com pacientes adultos com sequela de acidente vascular cerebral em um centro de reabilitação
ambulatorial.  Recentemente,  ele  aprendeu  a  utilizar  técnicas  de  restrição  induzida  com  seus  pacientes  e
acredita estar observando melhora da função. Entretanto, há poucas informações na literatura de pesquisa
que  relacionam  essa  abordagem  de  tratamento  a  mudanças  comportamentais,  bem  como  possíveis
mudanças  por  neuroplasticidade  que  justificariam  a  melhora  do  comportamento  motor.  Tim  entrou  em
contato com Rowan, um pesquisador local que está interessado em questões semelhantes e eles decidiram
trabalhar  em  equipe.  Rowan  e  Tim  decidiram  elaborar  uma  proposta  para  um  financiamento  e
desenvolveram  um  projeto  de  pesquisa.  Que  perguntas  específicas  você  pode  desenvolver  para  seus
tópicos  de  pesquisa  que  poderiam  utilizar  uma  medida  psicobiológica?  Como  você  utilizaria  esta(s)
medida(s)? Quais destas medidas comportamentais você utilizaria além de seus biomarcadores?

O potencial evento­relacionado (PER) é similar ao EEG uma vez que mensura a atividade elétrica do cérebro.
Entretanto, o PER é um sinal neural que reflete o padrão coordenado da atividade em grupos de neurônio quando
eles  respondem  a  um  evento  significativo.  Os  eventos  significativos  para  as  análises  do  PER  geralmente  são
ruídos ou estímulos visuais, porém eles também podem refletir estados emocionais ou outros “eventos” gerados
internamente. Um tipo de PER é o potencial auditivo evocado, que mensura especificamente a atividade cerebral
em resposta aos sons. Esta é uma ferramenta poderosa para determinar o potencial de audição em pessoas que de
outro modo não poderiam declarar se conseguem ouvir (p. ex., bebês, adultos não verbais). Um ponto a favor do
PER é a capacidade de “visualizar” redes corticais à medida que elas se ativam ou desativam, dependendo dos
eventos ou tarefas que a pessoa esteja realizando. Entretanto, durante a avaliação, a pessoa fica conectada a um
“capuz”  com  eletrodos  estrategicamente  colocados,  limitando  as  questões  que  poderiam  ser  abordadas  em
relação à função cerebral enquanto a pessoa está engajada em “realizar” a ocupação.

Ocitocina
A  ocitocina  é  um  peptídio  de  mamífero  composto  de  aminoácidos  produzidos  pela  hipófise.  É  um  hormônio
potente  para  o  corpo  e  um  neuro­hormônio  para  o  cérebro,  sendo  responsável  pelo  comportamento  de
reprodução sexual e de provedor de cuidado, incluindo a estimulação da produção de leite para a amamentação.
Tanto em homens como em mulheres, o orgasmo libera grandes quantidades de ocitocina. Além disso, se você
alguma  vez  já  experimentou  o  sentimento  de  “amor”,  você  experimentou  um  “jato”  de  ocitocina  nos  centros
emocionais  de  seu  cérebro.  A  ocitocina  é  semelhante  à  vasopressina,  outro  hormônio/neuro­hormônio
hipofisário  responsável  pela  regulação  de  sódio  e  líquido  no  corpo  e  da  pressão  arterial.  Um  dos  efeitos  da
ocitocina  no  cérebro  é  inibir  o  eixo  HHS,  com  isso  reduzindo  os  níveis  de  cortisol  (Detillion,  Craft,  Glasper,
Prendergast  &  De  Vries,  2004;  Heinrichs  et  al.,  2003),  bem  como  a  pressão  arterial.  Como  a  ocitocina  está
associada  ao  comportamento  social,  ela  é  uma  medida  psicobiológica  atraente  para  estudar  o  comportamento
humano  em  contextos  sociais.  A  pesquisa  é  limitada  atualmente  apenas  porque  não  é  uma  medida  fácil  de
verificar. Entretanto, por conceito, a ocitocina seria um excelente biomarcador para estudos que investiguem os
efeitos  da  participação  social  e  do  engajamento  ocupacional  em  pessoas  com  diferentes  distúrbios  que
influenciam especialmente as capacidades sociais, incluindo os distúrbios do tipo autismo, distúrbio obsessivo­
compulsivo  e  esquizofrenia.  Além  disso,  ela  seria  um  biomarcador  efetivo  para  documentar  os  efeitos  dos
tratamentos de controle do estresse, uma vez que os estudos documentam que a ocitocina age como um tampão
para  o  hormônio  do  estresse,  o  cortisol  (Heinrichs  et  al.,  2003;  Kiecolt­Glaser  et  al.,  2005),  especialmente
quando as pessoas têm companhia.
Atualmente, a ocitocina somente pode ser mensurada no sangue ou no líquido espinal cerebral, e os níveis de
ocitocina  parecem  se  alterar  em  poucos  segundos  e/ou  poucos  minutos  em  resposta  ao  estímulo  ambiental,
tornando seu uso como medida psicobiológica um tanto limitado em estudos com humanos.

RESUMO
Conexões mente­corpo sofisticadas e de adaptação em seres humanos permitem os comportamentos mais ricos e
mais complexos do planeta. De fato, nós somos pensadores e “fazedores” tão elaborados que corremos o risco de
subavaliar  e,  talvez,  até  mesmo  negligenciar  os  aspectos  mais  sutis  de  nosso  comportamento.  Além  disso,
algumas  vezes  nós  utilizamos  nossas  habilidades  de  linguagem  para  encobrir  nossos  reais  sentimentos  em
determinadas  situações.  Este  capítulo  apresentou  informações  sobre  os  sinais  sutis  e  indicativos  “ocultos”
relacionados ao comportamento humano que nos oferecem um conhecimento sobre como os processos corporais
internos dão suporte ao interesse, à motivação e ao engajamento em atividades e ocupações. Algumas vezes, as
pessoas não estão atentas às influências que, p. ex., uma condição de saúde pode exercer sobre seu desempenho.
Algumas  pessoas  poderiam  não  estar  atentas  às  razões  psicológicas  que  podem  influenciar  a  participação  e  a
realização.  Outras  poderiam  mascarar  seus  verdadeiros  sentimentos  por  várias  razões  e,  a  menos  que
vocalizados,  esses  sentimentos  podem  impedir  o  funcionamento  diário.  Ademais,  algumas  pessoas  certamente
tentam  ignorar  ou  esconder  estresse,  ansiedade,  preocupação  ou  dor  não  controlada  abusando  de  drogas,
comendo em excesso ou ficando sem comer, ou participando de atividades de risco que podem comprometer sua
saúde  e  seu  bem­estar.  Nós  poderíamos  não  cuidar  muito  desses  fatores  psicobiológicos  sutis  se  eles  não
tivessem  tanta  influência  em  nossa  participação  nas  atividades  e  ocupações  da  vida  diária  e  em  nossa  saúde
geral.  De  fato,  muitos  desses  fatores  psicobiológicos,  como  discutimos  neste  capítulo,  estão  relacionados  ao
estresse físico ou psicológico, o que pode afetar nossa saúde e bem­estar. O quanto os terapeutas ocupacionais
estão atentos aos fatores psicobiológicos sutis influenciará e orientará sua prática. É importante que os terapeutas
conheçam  as  maneiras  pelas  quais  os  fatores  psicobiológicos  podem  ser  observados  e  compreendam  as
mensagens potenciais que eles podem impor ao bem­estar, à saúde e à participação dos clientes em atividades e
ocupações  da  vida.  Além  disso,  os  terapeutas  devem  conhecer  uma  variedade  de  técnicas  para  o  controle  do
estresse e precisam estar preparados para utilizá­las com outras habilidades práticas em qualquer área da terapia
ocupacional. Finalmente, uma melhor avaliação dos fatores psicobiológicos e de seu potencial para a pesquisa
ajudará  a  definir  a  próxima  geração  de  acadêmicos  da  ciência  ocupacional  e  de  terapeutas  ocupacionais  ao
fornecer melhor compreensão sobre as relações mente­corpo para o desempenho funcional humano e melhorar a
documentação sobre a efetividade do tratamento da terapia ocupacional.

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Avaliação e Tratamento para
Comprometimentos Cognitivo­perceptuais
JOAN PASCALE TOGLIA,
KATHLEEN M. GOLISZ E YAEL GOVEROVER

Sumário
O Papel da Terapia Ocupacional na Equipe Multidisciplinar
O Processo de Reabilitação Cognitiva
Avaliação
Abordagens para Avaliação dos Comprometimentos Cognitivos
Escolhendo o Tipo de Avaliação Mais Apropriado
Visão Geral das Abordagens de Tratamento
Aumentando os Recursos: A Abordagem Funcional
Tratando o Comprometimento Cognitivo­perceptual
Seleção das Abordagens de Tratamento
Comprometimentos Cognitivos: Definição, Avaliação e Tratamento
Autoconscientização
Orientação
Atenção
Negligência Unilateral
Processamento Visual
Habilidades Motoras Visuais
Planejamento Motor
Memória
Funções Executivas, Organização e Solução de Problemas
Tratamento em Grupo
Resumo

Objetivos de Aprendizagem
Após a leitura deste capítulo, você será capaz de:
1. Definir cognição e descrever sua associação com limitação da atividade e da participação.
2. Discutir o papel dos terapeutas ocupacionais na reabilitação cognitiva.
3. Descrever as características­chave das três abordagens de avaliação que podem ser utilizadas na
reabilitação cognitiva.
4. Discutir  a  diferença  entre  as  três  principais  abordagens  de  tratamento:  corretiva,  funcional  e
multicontextual.
5. Discutir  os  fatores  que  precisam  ser  considerados  quando  se  selecionam  as  abordagens  de
avaliação e tratamento.
6. Definir  habilidades  cognitivas  e  perceptuais  específicas,  identificar  possíveis  instrumentos  para
avaliação dessas habilidades e discutir as diferentes abordagens terapêuticas descritas para cada
habilidade cognitiva e perceptual.

P
ensar, lembrar, raciocinar e compreender o mundo ao nosso redor são fundamentais para realizar as atividades
da vida cotidiana” (Unsworth, 1999, p. 3). A cognição consiste em processos inter­relacionados que incluem a
capacidade de perceber, organizar, assimilar e manipular informações que possibilitam que a pessoa processe as
informações, aprenda e generalize (Abreu & Toglia, 1987). Como a maior parte da reabilitação em geral demanda
aprendizado e generalização, os princípios de tratamento discutidos neste capítulo são importantes para considerar
num  amplo  espectro  de  clientes  e  não  se  limitam  àqueles  tipicamente  identificados  com  déficits  cognitivos.  Os
comprometimentos  cognitivos  podem  ser  encontrados  como  resultado  de  problemas  de  desenvolvimento  ou  de
aprendizado, lesão ou doença cerebral, disfunção psiquiátrica ou condições socioculturais (American Occupational
Therapy  Association,  1999).  Os  comprometimentos  cognitivos  podem  resultar  em  limitações  significativas  das
atividades e restrições na participação em todos os aspectos da vida do cliente, comprometendo potencialmente a
segurança,  a  saúde  e  o  bem­estar.  Por  exemplo,  a  diminuição  da  capacidade  de  reconhecer  perigos  potenciais,
prever  consequências  de  ações  e  comportamentos,  seguir  precauções  de  segurança  e  responder  às  emergências
frequentemente são fatores importantes que interferem na independência. As limitações cognitivas também podem
diminuir  o  senso  de  competência,  autoeficácia  e  autoestima  de  uma  pessoa,  criando  maiores  dificuldades  para
adaptação às demandas da vida cotidiana. A influência dos sintomas cognitivos pode ser observada em todos os
aspectos do domínio  de  prática  da  terapia  ocupacional.  Os  objetivos  do  tratamento em terapia ocupacional para
pessoas  com  comprometimentos  cognitivo­perceptuais  são  reduzir  as  limitações  das  atividades,  estimular  a
participação  em  atividades  cotidianas  e  ajudar  pessoas  a  adquirirem  as  capacidades  de  que  necessitam  para
controlarem suas vidas e desenvolverem maneiras saudáveis e satisfatórias de viver. Embora o objetivo final do
tratamento para essa população seja evidente, existem diferentes perspectivas e abordagens de reabilitação para se
atingir o objetivo. Essas abordagens são discutidas em detalhes neste capítulo.

O PAPEL DA TERAPIA OCUPACIONAL NA EQUIPE MULTIDISCIPLINAR
Atualmente,  não  há  uma  disciplina  única  que  seja  responsável  pela  avaliação  e  pelo  tratamento  dos
comprometimentos cognitivo­perceptuais. Vários membros de uma equipe têm potencial para fazer contribuições
valiosas  para  a  compreensão  do  cliente  que  apresenta  comprometimento  cognitivo­perceptual.  Uma  forte
abordagem interdisciplinar é necessária para tratar o complexo de questões que surgem dos problemas cognitivo­
perceptuais. Os objetivos da equipe devem ser identificados, assim como os objetivos específicos de cada área da
equipe. A família e o cliente também são membros da equipe e precisam estar envolvidos nas discussões do grupo
e fornecer informação para o programa geral de tratamento.
Os  terapeutas  ocupacionais  oferecem  contribuição  única  para  avaliação  e  reabilitação  das  habilidades  do
processo cognitivo­perceptual por sua bagagem educacional, seu conhecimento sobre a ocupação, seu treinamento
em  análise  das  atividades  e  a  capacidade  de  analisar  como  os  sintomas  cognitivo­perceptuais  são  afetados  por
mudanças nas demandas e no contexto das atividades. O papel do terapeuta ocupacional na avaliação da cognição
e da percepção consiste em fornecer informações claras e compreensíveis sobre o efeito dos comprometimentos
cognitivo­perceptuais sobre as atividades de vida diária (AVD) e atividades instrumentais de vida diária (AIVD),
educação, trabalho, brincadeiras, lazer e participação social. O ambiente de trabalho no qual o terapeuta exerce sua
prática pode determinar a profundidade de seu envolvimento de acordo com a natureza do ambiente onde a prática
é aplicada e do tempo de permanência do cliente.
Um programa interdisciplinar de tratamento deve enfatizar os mesmos objetivos principais durante o tratamento
em vez de trabalhar habilidades separadas. Por exemplo, o fonoaudiólogo poderia tratar problemas de atenção no
contexto  do  material  de  linguagem,  como  ouvir  fitas  gravadas  ou  conversas;  o  neuropsicólogo  poderia  utilizar
exercícios  corretivos  de  atenção;  o  fisioterapeuta  poderia  reforçar  a  atenção  por  meio  de  tarefas  motoras;  e  o
terapeuta  ocupacional  poderia  abordar  estratégias  de  atenção  no  contexto  de  autocuidado,  lazer,  comunidade  ou
atividades  laborais.  Uma  abordagem  integrada  que  ajude  a  pessoa  a  identificar  padrões  de  comportamento  por
meio de diferentes atividades é fortemente defendida, em vez daquela que reforça a fragmentação que o cliente já
percebe.
O  terapeuta  ocupacional  trabalha  para  contribuir  com  o  processo  de  avaliação  e  execução  de  aspectos  do
programa de tratamento na terapia ocupacional (AOTA, 1999). Se a legislação local permitir e a competência na
tarefa  tiver  sido  demonstrada,  um  estagiário  de  terapia  ocupacional  pode  aplicar  algumas  partes  das  avaliações
cognitivas  orientadas  pelo  terapeuta  ocupacional,  fazer  observações  clínicas  e  completar  listas  de  verificação
comportamental.  Uma  vez  os  comportamentos­alvo  para  tratamento  tenham  sido  claramente  identificados,  o
estagiário de terapia ocupacional e o terapeuta ocupacional colaboram para escolher uma variedade de atividades
que possam ser utilizadas para reforçar os comportamentos desejados.

O PROCESSO DE REABILITAÇÃO COGNITIVA

Avaliação
Esta  seção  fornece  informações  detalhadas  sobre  aspectos  da  avaliação  cognitiva  que  os  profissionais  precisam
compreender  antes  de  escolher  e  aplicar  avaliações  e  medidas  apropriadas.  Nós  apresentamos  a  importância  do
processo de avaliação, seus objetivos e considerações importantes na escolha de um instrumento de medida.
O  processo  de  avaliação  começa  com  um  perfil  ocupacional  que  considera  as  rotinas  e  ocupações  típicas  do
cliente  (AOTA,  2002).  Geralmente,  o  cliente  é  solicitado  a  identificar  as  atividades  cotidianas  que  mais  o
preocupam  e  que  gostaria  de  ser  capaz  de  realizar  com  maior  facilidade.  Entretanto,  as  pessoas  com
comprometimentos  cognitivos  frequentemente  são  pouco  conscientes  de  seus  comprometimentos  e  têm
compreensão  limitada  das  implicações  destes  comprometimentos  (Goverover,  Chiaravalloti  &  DeLuca,  2005);
consequentemente, um parente próximo ou amigo deve participar da identificação das preocupações e prioridades
para tratamento. Deve­se ter em mente que, no caso das interações, os clientes e seus parentes podem não estar
conscientes  da  presença  de  comprometimentos  cognitivos  leves.  Sintomas  cognitivos  sutis  tendem  a  aparecer
apenas  em  atividades  de  níveis  mais  altos,  como  dirigir,  participar  da  vida  social,  fazer  compras  ou  utilizar  o
transporte  público.  Um  cliente  internado  na  fase  aguda  ou  para  reabilitação  ainda  não  teve  a  oportunidade  de
retomar essas atividades de níveis mais altos.
Avaliações cognitivas abrangentes são necessárias por duas razões principais. Primeiro, as avaliações fornecem
evidências e informações sobre os comprometimentos e as competências. Essas informações podem ser utilizadas
para estabelecer pontos de partida para planejamento da alta e para mensurar a efetividade do tratamento (p. ex.,
resultados da reabilitação). Segundo, as avaliações são necessárias para coletar informações para o planejamento
do  tratamento.  Modelos  de  tratamento  cognitivo  em  terapia  ocupacional  frequentemente  orientam  o  foco  da
avaliação.  Por  exemplo,  o  modelo  da  incapacidade  cognitiva  (Allen,  1985)  e  o  modelo  neurofuncional  (Giles,
2005) enfocam o desempenho ocupacional e não estão preocupados em identificar comprometimentos cognitivos
específicos.  A  abordagem  da  incapacidade  cognitiva  (Allen,  1985)  descreve  níveis  hierárquicos  de  função
cognitiva.  A  avaliação  tem  foco  na  identificação  do  nível  cognitivo  em  que  a  pessoa  funciona.  A  abordagem
neurofuncional  (Giles,  2005)  enfatiza  o  treinamento  das  habilidades  funcionais  e  dos  hábitos  em  ambientes
naturais;  consequentemente,  a  avaliação  enfatiza  a  observação  do  funcionamento  da  vida  real.  A  abordagem
quadrofônica  (Abreu  &  Peloquin,  2005)  e  o  modelo  de  retreinamento  cognitivo  (Averbuch  &  Katz,  2005)
preocupam­se  com  a  identificação  e  a  compreensão  dos  comprometimentos  cognitivos  que  influenciam  o
desempenho ocupacional. Medidas do comprometimento cognitivo são examinadas em combinação com medidas
mais amplas da ocupação para orientar o tratamento. A abordagem multicontextual (Toglia, 2005) preocupa­se em
facilitar  a  transferência  do  aprendizado,  de  modo  que  a  avaliação  enfatiza  o  potencial  de  aprendizado  ou  a
avaliação dinâmica. Cada uma dessas perspectivas é descrita com maiores detalhes posteriormente neste capítulo.

Abordagens para Avaliação dos Comprometimentos Cognitivos

Abordagens Tradicionais para o Processo de Avaliação
Avaliações cognitivas padronizadas apresentam orientações específicas para aplicação e comparam o desempenho
do  cliente  a  dados  normativos.  Sua  natureza  é  estática,  avaliando  o  desempenho  “aqui  e  agora”.  As  avaliações
padronizadas  podem  ajudar  o  terapeuta  ocupacional  a  determinar  se  existe  um  comprometimento  cognitivo  e  a
quantificar  a  severidade  desses  comprometimentos.  Os  tipos  de  avaliações  também  são  úteis  como  pontos  de
partida  pelos  quais  as  mudanças  na  condição  ou  na  capacidade  podem  ser  mensuradas  ao  longo  do  tempo.
Exemplos de instrumentos padronizados de avaliação estão resumidos na Tabela 57.1.
Medidas de investigação cognitiva são um tipo de instrumento de medida desenhado para identificar problemas
que  precisam  de  atenção  especial  ou  de  maior  atenção.  Tipicamente,  elas  compreendem  subtestes  divididos  em
sub­habilidades  cognitivas  específicas,  como  atenção,  processamento  visual,  memória  e  funções  executivas.
Essas  avaliações  são  gerais  por  natureza,  abordando  todas  as  sub­habilidades  cognitivas,  como  a  Avaliação
Cognitiva  em  Terapia  Ocupacional  de  Lowenstein,  (Lowenstein  Occupational  Therapy  Cognitive  Assessment)
(Katz, Itzkovich, Averbuch & Elazar, 1990), ou avaliações mais concentradas em uma sub­habilidade específica,
como  o  Teste  de  Percepção  Visual  Motora  Livre  (Motor  Free  Visual  Perception  Test)  (Colarusso  &  Hammill,
2002). O desempenho comprometido em uma determinada tarefa ou subteste é tipicamente utilizado para definir o
comprometimento. Por exemplo, a dificuldade em diferenciar objetos ou figuras em primeiro plano dos objetos no
plano de fundo (p. ex., pegar uma meia branca que está colocada sobre um lençol branco) seria identificada como
um comprometimento figura­solo (Zoltan, 1996).
Muitas medidas de investigação cognitiva foram desenhadas para utilização em populações específicas, como
clientes com acidente vascular cerebral (Hajek, Rutman & Scher, 1989), esclerose múltipla (Rao, Leo, Bernardin
&  Unverzagt,  1991),  demência  (Mattis,  1976),  traumatismo  craniano  (Ansell  &  Keenan,  1989)  ou  idosos
(Golding,  1989).  As  avaliações  apresentam  subtestes  que  se  concentram  em  áreas  de  comprometimento
tipicamente encontradas na população diagnóstica.
Os  exames  do  estado  mental,  como  o  popular  Miniexame  do  Estado  Mental  (Mini­Mental  State  Exam)
(Folstein, Folstein & McHugh, 1975), e as medidas de investigação cognitiva apresentam algumas desvantagens,
uma  vez  que  se  baseiam  fortemente  nas  habilidades  verbais,  podem  sofrer  distorções  culturais  (devido  à
comparação  com  populações  normativas)  e  apresentam  substanciais  taxas  de  falso­negativo  (i.e.,  possível  não
identificação de comprometimentos cognitivos). Os déficits dos clientes com lesões focais, particularmente lesões
no hemisfério direito ou distúrbios cognitivos difusos leves, frequentemente não são identificados (Nelson, Fogel
& Faust, 1986). As medidas de investigação cognitiva muitas vezes não identificam os comprometimentos mais
sutis  apresentados  por  clientes  de  níveis  mais  altos,  uma  vez  que  a  amplitude  e  a  profundidade  do  conteúdo  do
item são limitadas (Doninger, Bode, Heinemann & Ambrose, 2000).

Observação Direta da Função
A  observação  direta  da  função  é  um  método  alternativo  utilizado  para  identificar  comprometimentos  cognitivo­
perceptuais. Uma variedade de medidas funcionais padronizadas (apresentadas na Tabela 57.1) utiliza uma escala
numérica  ou  descritiva  para  classificar  o  desempenho  e  a  quantidade  de  pistas  cognitivas  e/ou  ajuda  física
necessárias  para  a  realização  de  uma  tarefa  específica.  Algumas  medidas  funcionais  são  desenhadas  para
identificar comprometimentos cognitivos e perceptuais que interferem no sucesso do desempenho dessas tarefas.
Por exemplo, na Avaliação Neurocomportamental das Atividades da Vida Diária­Terapia Ocupacional (OT­ADL
Neurobehavioral  Evaluation  [A­ONE])  (Arnadottir,  1990),  um  cliente  é  observado  realizando  uma  atividade
básica  de  vida  diária  (p.  ex.,  vestir  uma  camisa)  quanto  a  possíveis  comprometimentos  cognitivos,  como
dificuldade  na  relação  espacial,  negligência  unilateral  espacial  ou  corporal,  e  assim  por  diante.  O  Teste  de
Desempenho  das  Funções  Executivas  (Executive  Function  Performance  Test)  (Blaum,  Edwards,  Morrison  &
Hahn,  2003;  Goverover  et  al.,  2005)  é  outro  teste  de  desempenho  funcional  que  analisa  os  comprometimentos
cognitivos,  como  início,  organização  e  segurança  por  meio  da  observação  do  cliente  durante  a  realização  de
atividades instrumentais de vida diária, como fazer uma ligação telefônica.
TABELA 57.1 AVALIAÇÕES COGNITIVO­PERCEPTUAIS
INSTRUMENTOS PADRONIZADOS DE PESQUISA COGNITIVA
Escala de Classificação de Demência de Blessed (Blessed Dementia Rating Scale) (Blessed, Tomlinson & Roth,
1968)
Teste Resumido de Traumatismo Craniano (Brief Test of Head Injury [BTHI]) (Helm­Estabrooks & Hotz, 1991)
Avaliação Cognitiva de Minnesota (Cognitive Assessment of Minnesota [CAM]) (Rustad et al., 1993)
Teste de Competência Cognitiva (Cognitive Competency Test [CCT]) (Wang, Ennis & Copland, 1992)
Teste de Orientação e Amnésia de Galveston (Galveston Orientation and Amnesia Test [GOAT]) (Levin,
O’Donnell & Grossman, 1979)
Avaliação Cognitiva em Terapia Ocupacional de Lowenstein (Lowenstein Occupational Therapy Cognitive
Assessment [LOTCA]) (Katz et al., 1990)
Avaliação do Estado Mental do Idoso de Middlesex (Middlesex Elderly Assessment of Mental State [MEAMS])
(Golding, 1989)
Miniexame do Estado Mental (Mini Mental State Exam [MMSE]) (Folstein, Folstein & McHugh, 1975)
Miniexame do Estado Mental Modificado (Modified Mini­Mental Examination [3MS]) (Teng & Chui, 1987)
COGNISTAT (Neurobehavioral Cognitive Status Screening Examination [Exame Neurocomportamental do
Estado Cognitivo]) (Kiernan, Mueller & Langston, 1983)
Bateria Padronizada para Avaliação do Estado Neuropsicológico (Repeatable Battery for the Assessment of
Neuropsychological Status [RBANSTM]) (Randolph, 1998)
INSTRUMENTOS PADRONIZADOS DE PESQUISA COGNITIVA BASEADOS NA FUNÇÃO
Teste do Nível Cognitivo de Allen (Allen Cognitive Level Test [ACL]) (Allen, Earhart & Blue, 1992)
Avaliação das Habilidades Motoras e Processuais (Assessment of Motor and Process Skills [AMPS]) (Fisher,
1993a, 1993b)
Teste do Desempenho Cognitivo (Cognitive Performance Test [CPT]) (Allen, Earhart & Blue, 1992)
Teste do Desempenho das Funções Executivas (Executive Function Performance Test [EFPT]) (Baum,
Edwards, Morrison & Hahn, 2003)
Escalas da Vida Independente (Independent Living Scales [ILS]) (Loeb, 1996)
Avaliação de Tarefas de Cozinha (Kitchen Task Assessment [KTA]) (Baum & Edwards, 1993)
Avaliação Neurocomportamental das Atividades de Vida Diária – Terapia Ocupacional (OT­ADL
Neurobehavioral Evaluation [A­ONE]) (Arnadottir, 1990)
Avaliação de Tarefas de Cozinha de Rabideau (Rabideau Kitchen Evaluation [RKE­R]) (Neistadt, 1992b)
AVALIAÇÕES PADRONIZADAS PARA COMPROMETIMENTOS COGNITIVOS ESPECÍFICOS
Avaliações de Orientação
Registro de Orientação (Orientation Log [O­Log]) (Jackson, Novack & Dowler, 1998)
Teste de Orientação para Pacientes de Reabilitação (Test of Orientation for Rehabilitation Patients [TORP])
(Deitz, Beeman & Thorn, 1993)
Avaliações da Atenção
Teste das Trilhas (Comprehensive Trail–Making Test [CTMT]) (Reynolds, 2002)
Teste Auditivo Compassado de Adição Seriada (Paced Auditory Serial Addition Test [PASAT]) (Gronwall, 1977)
Teste da Atenção Cotidiana (Test of Everyday Attention [TEA]) (Robertson, Ward, Ridgeway & Nimmo­Smith,
1994)
Avaliações da Desatenção Unilateral
Teste da Assadeira (The Baking Tray Test) (Tham & Tegner, 1996)
Teste dos Balões (The Balloons Test) (Edgeworth, Robertson & McMillan, 1998)
Teste da Desatenção Comportamental (Behavioral Inattention Test) [BIT]) (Wilson, Cockburn & Baddley, 1987)
Teste dos Sinos (The Bells Test) (Gauthier, Dehaut & Joanette, 1989)
Teste do Parágrafo Recuado (Indented Paragraph Test) (Caplan, 1987)
Teste de Combinação de Linhas (Line Cancellation) (Albert, 1973)
Tarefas Verbais e Não Verbais de Combinação (Verbal and Nonverbal Cancellation Tasks) (Mesulam, 2000)
Avaliações da Memória
Teste da Memória Contextual (Contextual Memory Test [CMT]) (Toglia, 1993b)
Teste de Aprendizado Verbal de Hopkins – Revisado (Hopkins Verbal Learning Test – Revised [HVLT­R])
(Brandt & Benedict, 2001)
Pesquisa da Memória Prospectiva (Prospective Memory Screening [PROMS]) (Sohlberg & Mateer, 1989b)
Teste da Memória Comportamental de Rivermead – Versão Estendida (Rivermead Behavioral Memory Test –
Extended Version [RBMT­E]) (Wilson, Clare, Baddeley, Watson & Tate, 1998)
Avaliações da Percepção Visual
Bateria de Avaliação Visual de Lesão Cerebral para Adultos (Brain Injury Visual Assessment Battery for Adults
[biVABA]) (Warren, 1998)
Teste de Percepção Visual Motora Livre (Motor Free Visual Perception Test [MVPT­3]) (Colarusso & Hammill,
2002)
Avaliações da Função Executiva
Avaliação Comportamental da Síndrome Disexecutiva (Behavioral Assessment of Dysexecutive Syndrome
[BADS]) (Wilson et al., 1996)
Inventário da Classificação Comportamental da Função Executiva – Versão Adulto (Behavior Rating Inventory
of Executive Function – Adult Version [Brief­A]) (Roth, Isquith & Gioia, 2005)
Tarefa de Função Executiva para Encontrar o Caminho (Executive Function Route Finding Task [EFRT]) (Boyd
& Sautter, 1993)
Teste de Incumbências Múltiplas (Multiple Errands Test [MET]) (Shallice & Burgess, 1991)
Perfil do Sistema de Controle Executivo (Profile of Executive Control System [PRO­EX]) (Branswell et al., 1992)
Tarefas Observadas de Vida Diária Revisadas (Revised Observed Tasks of Daily Living [OTDL­R]) (Diehl, Willis
& Schaie, 1995)
Avaliação de Categoria de Toglia (Toglia Category Assessment [TCA]) (Toglia, 1994)
Avaliações da Consciência
Avaliação da Consciência da Incapacidade (Assessment of Awareness of Disability [ADD]) (Tham, Bernspang &
Fisher, 1999)
Questionário de Avaliação da Conscientização (Awareness Questionnaire [AQ]) (Sherer, Bergloff, Boake, High
& Levin, 1998)
Escala de Classificação da Competência do Paciente (Patient Competency Rating Scale [PCRS]) (Prigatano,
1986)
Entrevista sobre Conscientização de Déficits (Self–Awareness of Deficits Interview [SADI]) (Fleming, Strong &
Ashton, 1996)
Avaliações do Planejamento Motor
Teste da Praxia Construcional de Benton (Benton Constructional Praxis Test) (Benton, Hamsher, Varney &
Spreen, 1983)
Teste da Apraxia Oral e dos Membros (Test of Oral and Limb Apraxia [TOLA]) (Helm­Estabrooks, 1992)

As tarefas funcionais exigem a integração de várias habilidades, de modo que pode ser difícil isolar problemas
cognitivos  específicos  que  estejam  interferindo  no  desempenho.  Algumas  medidas  funcionais  tentam  identificar
áreas abrangentes de forças e fraquezas cognitivas e perceptuais pela identificação dos processos que contribuam
para a dificuldade na realização de tarefas funcionais. Consequentemente, os comprometimentos cognitivos sutis
podem não estar evidentes em atividades familiares. As avaliações funcionais que simulam o desempenho em um
local de tratamento  podem  não  ser  preditivas  do  desempenho  em contextos  naturais  nos  quais  a  pessoa  precisa
estabelecer objetivos, planejar, iniciar, solucionar problemas e lidar com pistas ambientais sutis e complexas.
As  situações  que  exigem  habilidades  cognitivo­perceptuais  de  níveis  mais  altos  são  difíceis  de  simular  em
ambientes  terapêuticos  estruturados.  Além  disso,  fatores  contextuais  podem  aumentar  ou  diminuir  as  demandas
cognitivas  do  desempenho,  de  modo  que  é  importante  considerar  o  contexto  no  qual  a  atividade  é  realizada.
Hamera  e  Brown  (2000)  desenvolveram  o  Teste  de  Habilidades  em  Compras  no  Mercado  (Test  of  Grocery
Shopping Skills) como uma medida do mundo real da função comunitária de pessoas com esquizofrenia crônica.
Os clientes são solicitados a fazer compras no mercado seguindo uma lista de 10 itens em um contexto natural.
Em  ambientes  hospitalares  de  tratamento,  o  terapeuta  ocupacional  poderia  não  ser  capaz  de  criar  uma
aproximação suficiente ao ambiente do mundo real. A influência contextual do desempenho precisa estar sempre
em mente e, se possível, o desempenho deve ser observado em contextos do mundo real.
Outras medidas que envolvem a observação direta do desempenho foram desenvolvidas para mensurar os níveis
cognitivos associados ao modelo de incapacidade cognitiva. Por exemplo, a Pesquisa do Nível Cognitivo de Allen
(Allen  Cognitive  Level  Screen  [ACLS])  (Allen,  1985)  utiliza  a  tarefa  de  fazer  tranças  com  couro  para  fornecer
uma rápida medida do aprendizado e uma estimativa inicial da função cognitiva. O ACLS é em seguida validado
por melhores observações do desempenho em atividades de artesanato ou AVD/AIVD, utilizando outras medidas,
como  o  Inventário  de  Tarefas  de  Rotina  (Routine  Task  Inventory  [RTI]),  os  projetos  de  artesanato  do  Módulo
Diagnóstico  de  Allen  ou  o  Teste  de  Desempenho  Cognitivo  (Cognitive  Performance  Test)  (Allen,  1993;  Allen,
Earhart & Blue, 1992).
Essas medidas são interpretadas de acordo com o protocolo de Allen e enfocam a identificação abrangente do
nível cognitivo do indivíduo  ou  de  suas  capacidades  gerais  de  processamento  de informações. Ao contrário das
medidas funcionais que se preocupam em classificar habilidades cognitivas específicas ou o grau de assistência
necessário  para  que  a  pessoa  realize  tarefas  funcionais  específicas,  a  avaliação  do  nível  cognitivo  da  pessoa
envolve  capacidades  funcionais  globais  e  pretende  explicar  e  predizer  a  capacidade  de  funcionar  em  diferentes
atividades e contextos (Levy & Burns, 2005).
Consulte a Tabela 57.1 para informações detalhadas sobre avaliações das AVD com base no desempenho.

Avaliação Dinâmica
A  avaliação  dinâmica  é  uma  abordagem  não  tradicional  de  avaliação  que  utiliza  pistas,  mediação,
retroalimentação  ou  modificações  das  demandas  da  atividade  durante  a  avaliação  para  examinar  mudanças  no
desempenho.  Ao  contrário  dos  instrumentos  padronizados  de  medida,  o  foco  não  está  no  resultado  do
desempenho,  mas  nos  processos  de  aprendizado  e  mudanças.  A  avaliação  dinâmica  também  é  vista  como  uma
avaliação do potencial de aprendizado ou da plasticidade cerebral.
A  avaliação  dinâmica  investiga  a  capacidade  de  uma  pessoa  aprender  certas  tarefas  e  identifica  as  condições
que  facilitam  esse  aprendizado.  O  objetivo  é  descobrir  o  que  a  pessoa  é  capaz  de  fazer  com  assistência  ou  sob
condições favoráveis para determinar a completa amplitude do potencial de desempenho. Uma vez que a avaliação
dinâmica se interessa por como o desempenho pode ser facilitado, ela está naturalmente vinculada ao tratamento.
Durante  a  avaliação,  o  terapeuta  atua  para  mudar,  orientar  ou  melhorar  o  desempenho  da  pessoa  por  meio  de
demonstração de estratégias, fornecimento de pistas ou modificação da atividade (Tzuriel, 2000). Essa informação
está  diretamente  relacionada  com  o  planejamento  do  tratamento.  Por  exemplo,  se  o  desempenho  não  pode  ser
modificado por meio de procedimentos dinâmicos, então uma abordagem intervencionista que procura modificar o
ambiente ou treinar os cuidadores pode ser mais apropriada do que uma abordagem que se concentra em modificar
as capacidades ou os comportamentos de uma pessoa. Os métodos dinâmicos de avaliação têm sido aplicados a
diferentes  faixas  etárias  e  pessoas  com  incapacidades  cognitivas,  incluindo  aquelas  com  incapacidades  do
desenvolvimento  (Hessels­Schlatter,  2002),  esquizofrenia  (Rempfer,  Hamera,  Brown  &  Bothwell,  2006;  Wiedl,
2003),  acidente  vascular  cerebral  e  traumatismo  craniano  (Haywood  &  Miller  2003;  Toglia,  2005)  e  doença  de
Alzheimer (Fernandez­Ballesteros, Zamarron & Tarraga, 2005). Todavia, as pesquisas aplicadas e os instrumentos
específicos  são  limitados.  Toglia  (2005)  descreve  o  uso  de  uma  abordagem  dinâmica  de  avaliação  para  pessoas
com  traumatismo  craniano  de  acordo  com  um  modelo  dinâmico  de  cognição.  A  avaliação  e  o  tratamento
dinâmicos  nesse  modelo  envolvem  a  investigação  da  autopercepção  das  capacidades  antes  e  depois  de
experiências  de  atividade,  facilitando  modificações  no  desempenho  se  uma  pessoa  tem  dificuldade,  e  a
investigação e a análise do uso de estratégia. O Teste de Memória Contextual (Contextual Memory Test) (Toglia,
1993b) e a Avaliação de Categoria de Toglia (Toglia Category Assessment) (Toglia, 1994) são dois exemplos de
avaliações  dinâmicas  (Tabela  57.1).  Outros  recursos  elaborados  por  Toglia  (2005)  fornecem  informações  sobre
como aplicar o processo de avaliação dinâmica na prática.
Os  proponentes  da  avaliação  dinâmica  alegam  que  as  medidas  estáticas  convencionais  são  insuficientes  para
descrever  a  amplitude  do  potencial  de  desempenho.  Existe  uma  diferença  considerável  entre  identificar  e
quantificar déficits e fazer recomendações específicas para tratamento. Uma visão mais abrangente da capacidade
da pessoa, incluindo responsividade às situações de aprendizado, é necessária para proporcionar orientações para o
tratamento  (Kolakowsky,  1998;  Lidz,  1991;  Tzuriel,  2001).  Consequentemente,  as  avaliações  dinâmicas  não
substituem os testes padronizados, porém complementam as informações obtidas e proporcionam orientação direta
para o planejamento do tratamento.

Escolhendo o Tipo de Avaliação Mais Apropriado
Na  seleção  do  tipo  de  avaliação  mais  apropriado,  o  terapeuta  ocupacional  precisa  decidir  quais  questões  serão
respondidas. O terapeuta pode então selecionar a avaliação que mais efetivamente abordará essas questões. Alguns
fatores a serem considerados antes da escolha de uma avaliação incluem as seguintes questões:
1. O  terapeuta  precisa  esclarecer  a  existência  de  comprometimentos  cognitivos?  Para  responder  esse  tipo  de
pergunta, uma abordagem tradicional de avaliação pode propiciar ao terapeuta uma comparação normativa. O
quanto os escores da pessoa diferem do desempenho esperado da faixa etária da pessoa identifica a presença
e a severidade do comprometimento cognitivo.
2. O terapeuta precisa compreender o efeito dos comprometimentos cognitivo­perceptuais sobre o desempenho
ocupacional (i.e., a limitação das atividades e as restrições de participação da Classificação Internacional
de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (CIF) (Wored Health Organization, 2001)? Esta pergunta pode ser
respondida  por  meio  de  observação  direta  da  função.  Esta  abordagem  de  avaliação  de  cima  para  baixo
possibilita que o avaliador determine como o comprometimento cognitivo afeta o desempenho funcional ou a
participação em atividades (Goverover, 2004; Goverover et al., 2005).
3. O  terapeuta  precisa  de  informação  para  orientar  o  tratamento?  O  modelo  de  tratamento  cognitivo  que  o
terapeuta utiliza muitas vezes orienta a seleção das medidas de avaliação. As avaliações dinâmicas enfatizam
os processos envolvidos no aprendizado e nas mudanças (Grigorenko & Sternberg, 1998) e podem fornecer
informações  necessárias  para  planejar  e  orientar  o  tratamento  que  tenha  foco  em  habilidades  ou
comportamentos de mudança.
4. O  terapeuta  precisa  estabelecer  um  valor  inicial,  bem  como  uma  medida  da  mudança  ou  de  resultado  do
tratamento? Para responder esta pergunta, o terapeuta precisa considerar os objetivos do tratamento a curto e
longo prazos. No registro dos resultados, é importante considerar os três níveis de incapacidade descritos pela
CIF: comprometimento, limitação da atividade e restrição da participação. Consequentemente, uma avaliação
cognitivo­perceptual que inclua esses três componentes fornecerá uma visão mais global do funcionamento
do indivíduo.

VISÃO GERAL DAS ABORDAGENS DE TRATAMENTO
O tratamento para pessoas com disfunção cognitiva difere de acordo com as áreas que são alvo de tratamento e as
premissas sobre as capacidades das pessoas de aprenderem e generalizarem as informações. As características e
premissas das diferentes abordagens intervencionistas são exploradas nesta seção. Os fatores fundamentais para a
seleção  dessas  abordagens  de  tratamento,  bem  como  os  métodos  para  integrá­las  sistematicamente,  também  são
discutidos. À medida que você ler esta seção, apreciará a revisão do estudo de caso sobre cognição e contexto de
desempenho.

Aumentando os Recursos: A Abordagem Funcional
A abordagem funcional aumenta os recursos da pessoa para melhorar o desempenho ocupacional. A ênfase está
em reduzir as limitações das atividades e restrições na participação em vez de remediar ou restaurar as habilidades
comprometidas  (Fig.  57.1).  A  abordagem  funcional  pode  ser  subdividida  em  três  técnicas  de  tratamento:
adaptação  da  atividade  ou  do  contexto,  treinamento  das  tarefas  funcionais  e  compensação.  O  Modelo  de
Incapacidade  Cognitiva  (Cognitive  Disability  Model)  (Allen,  1985)  enfatiza  o  uso  da  adaptação,  enquanto  a
Abordagem Neurofuncional (Neurofunctional Approach) (Giles, 2005) enfoca o treinamento da tarefa funcional.

ESTUDO DE CASO: Cognição e Contextos de Desempenho

Cenário 1
O  sr.  James  é  um  homem  de  24  anos  com  uma  história  de  problemas  de  atenção  e  memória  há  10  anos
relacionados a um traumatismo craniano sofrido aos 14 anos de idade. Ele tem dificuldade em lembrar­se de
conversas  e  eventos  que  ocorreram  algumas  horas  antes.  Durante  o  desempenho  de  uma  tarefa,  ele
facilmente perde a sequência das etapas e repete algumas delas duas vezes, enquanto omite outras etapas.
O  sr.  James  nega  qualquer  dificuldade  de  concentração  ou  memória  e  gostaria  de  voltar  a  estudar.
Atualmente, ele vive com os pais, que cuidam dele.

Cenário 2
O sr. Cornwall é um homem de 64 anos de idade com problemas de atenção e memória relacionados a um
traumatismo craniano sofrido três semanas atrás. Ele tem dificuldade em lembrar­se de conversas e eventos
que  ocorreram  há  apenas  algumas  horas.  Durante  o  desempenho  de  uma  tarefa,  ele  facilmente  perde  a
sequência  das  etapas  e  repete  algumas  delas  duas  vezes,  enquanto  omite  outras.  O  sr.  Cornwall  está  bem
consciente de suas dificuldades e fica deprimido por causa disso. Por exemplo, ele declara: “Eu não consigo
lembrar  nem  o  que  comi  no  café.  Se  eu  deixar  de  trabalhar,  minha  vida  acabou.”  O  sr.  Cornwall  ficou  viúvo
recentemente e vivia sozinho antes do acidente.

Perguntas
Os  dois  cenários  descrevem  os  mesmos  sintomas  clínicos,  porém  os  contextos  de  desempenhos  são
diferentes.
1. Como as diferenças no contexto influenciam a ênfase de tratamento que você usaria?
2. O que influenciou sua escolha?

Discussão
Não  há  respostas  certas  ou  erradas  absolutas  a  essas  perguntas.  No  cenário  1,  o  sr.  James  sofre  de  uma
lesão  há  10  anos  de  modo  que  o  potencial  de  mudança  nas  habilidades  cognitivas  subjacentes
pressupostamente  é  mínimo.  Uma  abordagem  corretiva  que  se  concentre  na  melhora  das  habilidades  de
memória e atenção não seria justificada, a menos que houvesse alguma evidência de potencial de melhora.
Estratégias compensatórias, como o uso de um caderno de anotações ou uma lista de verificação, poderiam
ser  consideradas.  Entretanto,  o  sr.  James  nega  qualquer  dificuldade  de  memória  e  atenção.  Esta  falta  de
conscientização  representará  um  obstáculo  importante  ao  início  e  ao  uso  independente  de  estratégias
compensatórias.
O treinamento dos cuidadores, a adaptação das tarefas e do ambiente e a possibilidade de treinamento da
habilidade  funcional  para  aumentar  o  desempenho  em  uma  tarefa  específica  parecem  ser  as  áreas  mais
apropriadas  de  intervenção.  Técnicas  para  aumentar  a  conscientização  podem  ser  tentadas  como  um  pré­
requisito  ao  uso  de  auxílios  compensatórios.  Dispositivos  externos  para  ajudar  na  memória,  como  o
treinamento com uso de uma agenda, podem ser introduzidos com métodos específicos de treinamento para
tarefa  em  combinação  com  estímulos  máximos  e  pistas  externas  para  seu  uso;  entretanto,  o  sucesso
provavelmente depende da capacidade do sr. James de adquirir alguma conscientização e aceitação de sua
incapacidade.
No  cenário  2,  o  sr.  Cornwall  sofreu  a  lesão  há  apenas  três  semanas,  de  modo  que  o  potencial  para
mudança  nas  habilidades  subjacentes  presumivelmente  está  presente.  Além  disso,  o  sr.  Cornwall  está  bem
consciente  de  seus  problemas.  Isto  poderia  torná­lo  um  candidato  primário  para  técnicas  corretivas.
Entretanto,  ele  também  está  deprimido  por  causa  de  suas  dificuldades.  Ele  poderia  não  ser  capaz  de  lidar
emocionalmente com uma abordagem que enfocasse os fatores do cliente.
Uma  abordagem  que  proporcione  maiores  oportunidades  para  o  sucesso  e  o  controle  de  seu  ambiente
poderia  ser  a  ênfase  inicial  do  tratamento.  Por  exemplo,  técnicas  de  adaptação  em  que  o  cuidador  ou  o
profissional  apresenta  as  orientações  para  uma  etapa  de  cada  vez  poderiam  tornar  mais  fácil  para  o  sr.
Cornwall seguir as instruções das tarefas. O treinamento no uso de estratégias compensatórias, como o uso
de um caderno de notas para memória para acompanhar os eventos e as conversas diariamente e o uso de
uma lista de verificação para ajudar a conferir as etapas da tarefa que já foram completadas, poderia melhorar
o  desempenho  das  tarefas.  À  medida  que  o  sr.  Cornwall  adquire  autoconfiança  e  controle,  as  tarefas
corretivas que se concentram na melhora da atenção podem ser gradualmente introduzidas, se ele for capaz
de tolerá­las.

Fig. 57.1 Uma caixa organizadora de comprimidos pode ser uma pista contextual importante para ajudar os
clientes com comprometimentos da memória a autoadministrarem medicamentos com segurança.

Adaptação da Atividade ou do Contexto
A  adaptação  envolve  mudança,  alteração  ou  estruturação  das  demandas  da  atividade  ou  do  contexto  para  evitar
comportamentos  desordenados  ou  acidentes,  minimizar  as  demandas  cognitivas  ou  perceptuais  de  uma  tarefa,
minimizar o ônus sobre o cuidador e manter o nível de funcionamento do cliente (Erikson, Karlsson, Soderstrom
& Tham, 2004; Radomski, Dougherty, Fine & Baum, 1993). Mais do que fornecer tratamento direto ao cliente, o
foco está em fornecer suporte, orientação e treinamento ao cuidador, à família ou ao empregador (Sohlberg, Glang
&  Todis,  1998).  As  adaptações  devem  abordar  diretamente  os  problemas  e  as  necessidades  identificados  pelo
cliente  ou  por  outras  pessoas  significativas  de  suas  relações  e  devem  ser  escolhidas  em  colaboração  com  elas
(Campbell,  Duffy  &  Salloway,  1994).  As  adaptações  podem  ser  fixas  (p.  ex.,  instalação  de  um  alarme  em  uma
porta para evitar que o paciente perambule), ou podem demandar execução e monitoramento contínuos (p. ex., a
pré­escolha diária de roupas no armário). No segundo caso, a execução depende da capacidade, da consistência e
da confiabilidade de outra pessoa.
Em alguns casos, outra pessoa importante das relações do cliente pode ser treinada para alterar ou estruturar as
demandas da atividade ou do contexto de modo a manter as capacidades de desempenho da pessoa. Por exemplo,
a  pessoa  pode  não  ser  capaz  de  executar  a  tarefa  de  preparar  uma  refeição,  mas  pode  ser  capaz  de  realizar
componentes  isolados,  como  misturar  a  salada  ou  dobrar  guardanapos  ao  meio  para  colocá­los  na  mesa.  O
engajamento  nesses  componentes  significativos  das  atividades  pode  ajudar  a  manter  as  capacidades  do
desempenho  do  cliente  e  evitar  comportamentos  inadequados  (Levy  &  Burns,  2005).  Embora  as  adaptações
possam produzir rápidas mudanças na função, os efeitos são limitados à atividade ou ao ambiente adaptado, e o
sucesso  frequentemente  depende  de  o  quanto  as  outras  pessoas  são  capazes  de  manter  consistentemente  a
utilização dessas adaptações.

Adaptação: A Abordagem da Incapacidade Cognitiva
Allen  (1985,  1993)  estabeleceu  uma  abordagem  da  incapacidade  cognitiva  que  fornece  orientações  para
compatibilizar e adaptar o nível cognitivo da pessoa às demandas da atividade. Essa abordagem para avaliação e
tratamento  foi  desenhada  inicialmente  para  pessoas  com  distúrbios  psiquiátricos  e  incapacidades  cognitivas
crônicas  (p.  ex.,  demência)  e,  posteriormente,  foi  estendida  para  pessoas  com  diferentes  problemas  do  sistema
nervoso central que resultam em comprometimentos cognitivos (p. ex., acidente vascular cerebral).
Nesse modelo, a função é organizada em seis níveis numéricos de função global, variando de normal (nível 6) a
severamente incapacitado (nível 1). Os modos de desempenho em cada nível qualificam melhor as variações de
comportamento  e  promovem  uma  medida  mais  sensível  da  capacidade  da  pessoa.  Para  se  obter  uma  descrição
elaborada  do  Nível  Cognitivo  de  Allen,  consulte  Allen  (1985)  e  Levy  e  Burns  (2005).  Cada  nível  cognitivo  de
Allen apresenta três componentes: atenção, controle motor e desempenho verbal. O progresso cognitivo da pessoa
pode  ser  observado  como  um  continuum  ao  longo  de  duas  dimensões,  desempenhos  motor  e  verbal,  que  estão
ligadas pela atenção.
Os  seis  níveis  cognitivos  são  utilizados  para  descrever  os  perfis  funcionais  de  capacidades  e  limitações  que
ajudam a esclarecer e direcionar tratamentos e cuidados. O modelo de Allen fornece aos profissionais orientações
de  tratamento  para  diferentes  níveis  de  função  cognitiva.  Por  exemplo,  os  níveis  cognitivos  identificam  a
assistência  necessária,  bem  como  o  que  a  pessoa  ainda  é  capaz  de  fazer  com  segurança.  Essas  informações  são
utilizadas  para  treinar  e  orientar  os  cuidadores  e  para  traçar  recomendações  para  assistência  e  adaptações
ambientais  que  otimizem  a  função  e  a  segurança.  Além  disso,  também  são  utilizadas  para  selecionar  atividades
adequadas  ao  nível  cognitivo  da  pessoa  e  que  maximizem  sua  participação  em  ocupações  significativas  (Allen,
1985; Allen et al., 1992; Levy & Burns, 2005).

Treinamento Funcional da Tarefa: A Abordagem Neurofuncional
Giles (2005) descreve uma abordagem neurofuncional que enfatiza o uso de treinamento específico para a tarefa
ou  repetição  de  uma  tarefa  ou  rotina  específica  em  contextos  naturais  para  o  desenvolvimento  de  hábitos  ou
rotinas  comportamentais  funcionais.  A  ênfase  está  sobre  o  domínio  do  desenvolvimento  funcional  da  tarefa  por
meio  da  prática,  e  não  sobre  as  habilidades  necessárias  para  a  realização  da  tarefa.  Giles  (2006)  afirma  que  o
desenvolvimento de novos hábitos e rotinas funcionais pode ocorrer em clientes que tenham déficits de tomada de
decisão e apenas consciência mínima de seus comprometimentos. Técnicas comportamentais, incluindo reforço e
sequenciamento,  são  incorporadas  às  sessões  de  prática.  O  tratamento  envolve  o  fracionamento  de  uma  tarefa
funcional  em  pequenos  subcomponentes  (Giles,  2005;  Glisky,  Schacter  &  Butters,  1994).  Técnicas  como  o
aprendizado  sem  erros  ou  o  método  das  pistas  decrescentes  podem  ser  utilizadas.  No  aprendizado  sem  erros,  a
pessoa é impedida de dar respostas incorretas ou inadequadas durante o processo de aprendizado. O método das
pistas  decrescentes  envolve  a  redução  ou  o  apagamento  sistemático  das  pistas  necessárias  para  a  realização  da
tarefa.  Existem  evidências  de  que  as  técnicas  do  aprendizado  sem  erros  são  mais  efetivas  do  que  o  método  das
pistas  decrescentes  em  pessoas  com  comprometimento  severo  da  memória  (Evans,  Levine  &  Bateman,  2004;
Kessels & de Haan, 2003; Page, Wilson, Sheil, Carter & Norris, 2006).
O  treinamento  funcional  da  tarefa  estimula  a  memória  de  procedimento  ou  implícita.  Estudos  de  casos
demonstraram que o treinamento funcional da tarefa pode produzir mudanças significativas nas atividades de vida
diária e nas tarefas laborais em pessoas com comprometimentos severos (Giles, 2005; Giles, Rideley, Dill & Frye,
1997;  Giles  &  Shore,  1989;  Glisky  et  al.,  1994;  Hallgren  &  Kottorp,  2005;  Kottorp,  Hallgren,  Bernspang  &
Fisher,  2003).  Entretanto,  o  tratamento  aborda  apenas  uma  tarefa  ou  uma  rotina  de  cada  vez,  e  podem  ser
necessários  treinamento,  tempo  e  esforço  intensivos  para  se  alcançar  o  sucesso  em  uma  sequência  de  tarefas  e
ambientes.  A  pessoa  pode  ter  dificuldade  em  lidar  com  mudanças  mínimas  nos  estímulos  para  a  tarefa  ou  do
ambiente.  Os  autores  desse  método  argumentam  que  as  pessoas  com  comprometimento  cognitivo  precisam  ser
tratadas  no  contexto  natural  em  que  elas  funcionam,  porque  as  pessoas  com  lesão  cerebral  têm  dificuldade  em
generalizar o aprendizado (Giles, 2005; Glisky et al., 1994).

Compensação
A  compensação  ensina  a  pessoa  a  superar  ou  minimizar  os  efeitos  do  comprometimento  pela  modificação  do
método utilizado para realizar uma atividade. Espera­se que o cliente inicie e execute o uso de assistência externa
ou estratégia para melhorar o desempenho ocupacional em diferentes situações (AOTA, 1999). A complexidade da
tarefa  e  a  estratégia  compensatória  podem  exigir  conscientização  e  aceitação  para  ser  generalizada  e
independentemente  aplicada  a  uma  variedade  de  situações  (Birnboim  &  Miller,  2004;  Toglia,  1993a).  Por
exemplo, um caderno de anotações pode ser utilizado para compensar a perda de memória. O uso independente
exige  que  a  pessoa  reconheça  que  tem  dificuldades  com  sua  memória  e  perceba  a  necessidade  de  escrever  as
coisas para ajudá­la a lembrar­se. Isto também exige o início do uso do caderno em várias situações. Os clientes
com comprometimentos cognitivos severos podem ser treinados por meio de repetição ou aprendizado sem erros a
utilizar estratégias compensatórias simples e modificações com conscientização mínima sobre por que a estratégia
é  necessária  (Giles,  2006;  Hallgren  &  Kottorp,  2005;  Kottorp  et  al.,  2003).  Para  esses  clientes,  a  estratégia
compensatória torna­se automática e integrada aos hábitos e rotinas funcionais.

Tratando o Comprometimento Cognitivo­perceptual

A Abordagem de Remediação
As  abordagens  de  remediação  enfatizam  a  restauração  das  habilidades  cognitivo­perceptuais  comprometidas
(Unsworth, 2007). A ênfase está sobre a modificação das habilidades subjacentes da pessoa, e não na manipulação
das demandas da atividade ou do contexto (Neistadt, 1990; Zoltan, 1996).
Nas  abordagens  cognitivo­perceptuais  tradicionais  de  remediação,  as  habilidades  cognitivas  são  definidas  em
termos  de  habilidades  corticais  superiores,  organizadas  em  uma  hierarquia  de  sub­habilidades  definidas  como
atenção,  discriminação,  memória,  sequenciamento,  classificação,  formação  de  conceito  e  solução  de  problemas.
As  habilidades  de  nível  inferior  servem  de  base  para  habilidades  e  comportamentos  mais  complexos  (Toglia,
1998).  Por  exemplo,  as  habilidades  de  atenção  são  tratadas  antes  das  habilidades  cognitivas  superiores,  como  a
solução  de  problemas.  O  tratamento  enfatiza  a  prática  de  habilidades  cognitivas  ou  perceptuais  específicas
deficientes,  utilizando  planilhas,  exercícios  no  computador  e  dispositivos  de  escaneamento  eletrônico.  Um
exemplo de um programa de treinamento de remediação é o Programa de  Treinamento  do Processo  de Atenção
(Attention Process Training Program) (Sohlberg & Mateer, 1989a, 2001). Este programa inclui planilhas e fitas de
áudio que são sistematicamente graduadas para impor demandas crescentes em diferentes aspectos da atenção.
Presume­se que a melhora nas habilidades cognitivas ou perceptuais subjacentes terá maior influência sobre o
comportamento  do  que  o  treinamento  funcional  direto  da  tarefa  porque  o  aprendizado  será  espontaneamente
generalizado  para  uma  gama  mais  abrangente  de  atividades.  Por  exemplo,  se  a  construção  de  um  modelo  em
blocos  melhorar  durante  o  tratamento  de  remediação,  presume­se  que  também  haverá  melhora  em  várias  outras
tarefas  que  envolvam  habilidades  de  construção,  como  vestir­se  ou  fazer  um  sanduíche.  O  tratamento  de
remediação também é denominado abordagem de treinamento de transferência (Toglia, 1998).
A melhora dos déficits cognitivos ou perceptuais subjacentes parece promover a recuperação e a reorganização
da  habilidade  comprometida.  As  informações  sobre  reorganização  funcional  e  a  plasticidade  do  cérebro  dos
adultos  apoiam  essa  visão.  Por  exemplo,  postulou­se  que  algumas  partes  do  cérebro  poderiam  assumir  novas
funções ou trabalhar em conjunto de diferentes maneiras como resultado de experiências ambientais (Luria, 1973).
Imagens  de  ressonância  magnética  funcional  que  mostram  alterações  após  reabilitação  cognitiva  apoiam
preliminarmente essa premissa (Laatsch, Little & Thulborn, 2004; Laatsch, Thulborn, Krisky, Shobat & Sweeney,
2004; Wykes et al., 2002). Entretanto, Neisdadt (1994) observou que “uma vez que as abordagens de tratamento
de  remediação  e  de  adaptação  estimulam  os  clientes  a  aprender  novos  comportamentos,  nenhuma  delas  pode
alegar  tirar  melhor  proveito  da  plasticidade  do  cérebro  adulto  do  que  a  outra”  (p.  426).  Dirette,  Hinojosa  e
Carnevale  (1999)  compararam  o  treinamento  de  remediação  e  o  de  compensação  e  verificaram  que  não  havia
diferença  significativa  entre  as  duas  abordagens.  Foi  observado  que  os  participantes  do  grupo  de  remediação
começaram  a  utilizar  estratégias  compensatórias,  confundindo,  portanto,  os  resultados.  As  atividades  de
remediação  concentram­se  na  área  de  comprometimento  e  oferecem  tarefas  estruturadas  que  acentuam  as  áreas
problemáticas;  consequentemente,  a  conscientização  e  a  compreensão  dos  comprometimentos  da  pessoa  podem
melhorar como um efeito secundário. O aparecimento da conscientização poderia permitir que algumas pessoas
iniciassem o uso de estratégias compensatórias.
Existem algumas evidências que apoiam a efetividade do tratamento de remediação para habilidades cognitivas
específicas,  como  a  atenção  e  a  busca  visual.  Entretanto,  o  tratamento  foi  considerado  mais  efetivo  quando
incorporava  o  uso  de  técnicas  de  automonitoramento  e  treinamento  de  estratégias  por  meio  de  diferentes
atividades (Cicerone et al., 2005). Estudos não dão suporte ao uso isolado de exercícios de memória controlados
repetitivos, jogos de memória computadorizados, jogos de lógica ou outras atividades cognitivas de remediação.
Recentemente,  os  terapeutas  ocupacionais  descreveram  diversos  modelos  que  utilizam  uma  combinação  de
abordagens.  Estes  incluem  o  modelo  de  retreinamento  cognitivo,  a  abordagem  quadrafônica  e  a  abordagem
multicontextual.

O Modelo de Retreinamento Cognitivo
Averbuch  e  Katz  (2005)  descrevem  um  modelo  de  retreinamento  cognitivo  abrangente  em  terapia  ocupacional
para adolescentes e adultos com incapacidades neurológicas que integram o treinamento cognitivo de remediação
com o uso de estratégias e conscientização de habilidades para aumentar a capacidade de aprendizado. O modelo
baseia­se  em  teorias  neurofisiológicas,  neurobiológicas  e  neuropsicológicas  para  fundamentar  um  protocolo  de
aprendizado cognitivo. O treinamento é direcionado para melhorar inicialmente a função cognitiva comprometida
e  pode  envolver  treinamento  sistemático  estruturado  para  busca  visual,  categorização  ou  classificação,
sequenciamento,  planejamento  ou  operações  de  raciocínio.  O  treinamento  cognitivo  gradativamente  aumenta  a
quantidade  e  a  complexidade  das  informações  apresentadas,  porém,  ao  mesmo  tempo,  ensina  novas  estratégias
para  melhorar  a  função  comprometida.  Uma  vez  que  os  clientes  aprendam  a  utilizar  estratégias  em  diferentes
atividades  na  clínica,  eles  praticam  essas  estratégias  em  situações  da  vida  real.  Os  autores  utilizam  uma
combinação de exercícios com lápis e papel, atividades na bancada e no computador e atividades funcionais. Se o
cliente  é  incapaz  de  utilizar  estratégias  específicas  de  remediação,  estratégias  de  procedimentos  que  enfocam  o
treinamento das partes componentes de uma tarefa são utilizadas para promover a capacidade de desempenho em
atividades de vida diária (Katz & Hartman­Maeir, 2005).

A Abordagem Quadrafônica
A  abordagem  quadrafônica  incorpora  uma  microperspectiva  que  fornece  orientações  para  tratar  os
comprometimentos  cognitivos,  bem  como  uma  macroperspectiva  que  fornece  uma  visão  holística.  A
microperspectiva  integra  informações  das  teorias  de  informação­processamento,  ensino­aprendizado,  do
neurodesenvolvimento e da biomecânica para fornecer orientações para avaliação e tratamento das disfunções das
habilidades  cognitivas­perceptuais  (p.  ex.,  atenção,  memória,  solução  de  problemas  e  planejamento  motor)  e  do
controle postural. A macroperspectiva engloba um modelo de terapia individualizada centrada no cliente/aprendiz
em  uma  estrutura  ocupacional  holística.  Existe  um  foco  sobre  a  relação  cliente/terapeuta,  o  engajamento
ocupacional e a adaptação da saúde ou do bem­estar. A macroperspectiva examina a satisfação da pessoa, o bem­
estar subjetivo, as ocupações significativas e o estilo de vida pelo uso de entrevistas, narração de histórias, redação
de  histórias  e  análise  de  narrativa.  O  modelo  conceitua  o  movimento  dinâmico,  fluido,  intercambiável  entre  a
micro e a macroperspectiva e defende que as habilidades de desempenho do engajamento da pessoa como um todo
na ocupação precisam ser consideradas em conjunto (Abreu & Peloquin, 2005).

A Abordagem Multicontextual
A abordagem multicontextual é baseada no modelo interativo dinâmico da cognição (Toglia, 2005). Esse modelo
baseia­se fortemente na psicologia cognitiva e educacional. Ele enfatiza a natureza dinâmica da cognição e explica
como os sintomas cognitivos e a mudança no desempenho ocupacional dependem de uma combinação de fatores
da pessoa (características únicas da pessoa, como estilo de vida, personalidade, crenças e valores; capacidade de
processamento  de  informações,  compreensão  e  uso  de  estratégias),  bem  como  as  demandas  das  atividades  e  os
fatores ambientais. O tratamento fundamentado nesse modelo pode enfatizar a pessoa, a tarefa ou o ambiente, ou
ainda  uma  combinação  dos  três.  A  abordagem  multicontextual  é  baseada  nesse  modelo,  porém  seu  foco  é  mais
estreito  e  fornece  orientações  específicas  para  facilitar  a  conscientização  e  o  uso  de  estratégias  dentro  de
atividades ou ambientes que poderiam necessitar de modificação de modo a se tornarem um nível de desafio “na
medida  certa”  (i.e.,  atividades  que  não  sejam  muito  difíceis,  mas  que  também  não  sejam  muito  fáceis)  para  o
cliente. Essa conduta enfatiza a facilitação da transferência do aprendizado.
Por exemplo, na abordagem multicontextual, a pessoa pratica a aplicação da estratégia desejada, como o uso de
uma  lista  de  verificação,  um  ensaio  mental  ou  pistas  pessoais  por  meio  de  atividades  objetivas  e  com  base  em
ocupações que sistematicamente diferem quanto à aparência, ainda que se assemelhem em dificuldade. Isso impõe
demandas  graduais  sobre  a  capacidade  de  transferir  o  aprendizado  porque,  quanto  mais  duas  situações  ou
atividades forem fisicamente semelhantes, mais fácil é a transferência das estratégias aprendidas de uma situação
para  outra  (Davidson  &  Sternberg,  1998;  Toglia,  1991b).  A  Tabela  57.2  mostra  um  exemplo  de  atividades  de
tratamento apresentadas ao longo do continuum de transferência. As demandas das atividades não são graduadas
em  termos  de  dificuldade  até  que  sejam  observadas  evidências  do  uso  espontâneo  de  estratégias  durante  todo  o
continuum  de  transferência.  O  uso  de  técnicas  de  treinamento  de  conscientização  para  facilitar  habilidades  de
automonitoramento e autoavaliação está profundamente inserido em todo o tratamento.
A abordagem multicontextual é utilizada em adultos com lesão cerebral (Toglia, 2005) e esquizofrenia (Josman,
2005), assim como em crianças e adolescentes (Cermak, 2005; Josman, 2005). Também é utilizada para orientar
programas de tratamento individual ou em grupos (Harrison et al., 2005; Landa­Gonzalez, 2001; Toglia, 2005).

SELEÇÃO DAS ABORDAGENS DE TRATAMENTO
Ao planejar o tratamento, o profissional considera as seguintes questões: quanta mudança é esperada da pessoa?
Quanto de aprendizado e generalização é esperado? Quanto das demandas ou do contexto da atividade precisa ser
alterado ou modificado para se adequar às capacidades da pessoa? A pessoa é responsiva a pistas? A pessoa tem
consciência de suas dificuldades? Se a pessoa não estiver completamente consciente de suas dificuldades, não for
responsiva a pistas ou não mostrar potencial para mudanças durante o período de tratamento, uma abordagem de
tratamento  que  objetive  mudança  no  uso  da  estratégia,  como  a  abordagem  multicontextual  ou  a  abordagem  de
retreinamento cognitivo, pode não ser adequada. Pode ser mais apropriado o uso de um modelo de incapacidade
cognitiva  ou  uma  abordagem  que  modifique  o  ambiente  ou  a  atividade  em  vez  de  modificar  a  pessoa.  A
abordagem neurofuncional, que utiliza a prática repetida para modificar o desempenho em uma tarefa específica,
também pode estar indicada. Hipóteses em relação à conscientização e ao aprendizado nos modelos de tratamento
precisam ser cuidadosamente consideradas no planejamento do tratamento (Toglia, 2005). Isso é demonstrado no
Estudo de Caso Cenário 1.

TABELA 57.2 O CONTINUUM DE TRANSFERÊNCIA
Estratégia enfatizada em todas as atividades: Usar uma lista de verificação para reunir e acompanhar os itens
para:

Muito Similar Um Pouco Similar Diferente Muito Diferente


Fazer Fazer Colocar a Embalar 6­8 Embalar Colocar uma Utilizar uma Utilizar
uma uma mesa itens em 6­8 itens lista de 6­ lista para uma
salada salada para o uma em uma 8 preencher lista
de de jantar merendeira bolsa anotações 6­8 para
vegetais frutas (Para 6­ para um em um convites anotar
(6­8 (6­8 8 pernoite calendário para festa 6­8
itens) itens) pessoas) recados

COMPROMETIMENTOS COGNITIVOS: DEFINIÇÃO, AVALIAÇÃO E TRATAMENTO
Nesta  seção,  os  principais  construtos  envolvidos  na  cognição  serão  discutidos  em  termos  de  suas  definições,
avaliação  e  tratamento.  A  autoconscientização  será  discutida  primeiramente  porque  a  falta  de  conscientização
pode afetar a motivação, o esforço e a participação contínua que são necessários para o tratamento.
Após  a  discussão  da  autoconscientização,  as  áreas  de  orientação,  atenção,  memória,  funções  executivas,
planejamento  motor,  negligência  unilateral  e  processamento  visual  serão  revistas.  Alguns  desses  conceitos
também são descritos e resumidos na Tabela 57.3. Embora essas áreas sejam discutidas separadamente para fins
de  descrição,  deve­se  ter  em  mente  que  os  problemas  cognitivos  estão  inter­relacionados  e  raramente  ocorrem
isoladamente.
As revisões baseadas em evidências em reabilitação cognitiva concluíram que o treinamento para estratégias e
as  habilidades  de  automonitorização  e  autorregulação  são  características­chave  dos  estudos  que  demonstram  a
efetividade  da  reabilitação  cognitiva  (Cicerone  et  al.,  2000,  2005).  Consequentemente,  esses  tratamentos  serão
enfatizados. Deve­se ter em mente que o contexto de vida da pessoa precisa ser considerado no planejamento e na
escolha das atividades de tratamento (Johnston, Goverover & Dijkers, 2005). Ele inclui ocupação, personalidade,
interesses,  nível  pré­mórbido  de  funcionamento,  cultura,  valores,  suportes  externos  e  recursos  do  indivíduo.
Tratamentos  que  abordam  os  comprometimentos  cognitivos  precisam  ser  mesclados  àqueles  que  tratam  de
habilidades interpessoais, participação social e atividades, rotinas e pa péis cotidianos (Abreu & Peloquin, 2005).

Autoconscientização
O comprometimento da autoconscientização associado à disfunção neurológica inclui a falta de conhecimento da
pessoa sobre seus próprios comprometimentos físicos ou cognitivo­perceptuais e/ou suas implicações funcionais,
bem como a incapacidade de prever dificuldades, reconhecer erros ou monitorar desempenhos no contexto de uma
atividade (Toglia & Kirk, 2000). O comprometimento da autoconscientização representa obstáculos ao ajuste, ao
estabelecimento  colaborativo  de  metas  e  à  participação  ativa  no  tratamento.  A  diminuição  da  conscientização
resulta  em  baixas  motivação  e  adesão,  ausência  de  esforço  contínuo,  expectativas  não  realistas,  incongruência
entre os objetivos do cliente e os da família, comprometimento do julgamento e da segurança e incapacidade de
adotar o uso de estratégias compensatórias (Hartman­Maeir, Soroker, Oman & Katz, 2003; Sherer, Oden, Bergloff,
Levin  &  High,  1998;  Toglia  &  Kirk,  2000).  Inúmeros  estudos  apoiam  a  associação  entre  a  conscientização  e  o
resultado funcional (Fischer, Gauggel & Trexler, 2004; Goverover, 2004; Hoofien, Gilboa, Vakil & Barak, 2004;
Noe  et  al.,  2005;  Tham,  Ginsberg,  Fisher  &  Tegner,  2001).  A  falta  de  conscientização  pode  ter  origens
psicológicas ou neurológicas. A negação é um mecanismo de defesa psicológica que está relacionado com traços
de  personalidade  pré­mórbidos  e  é  caracterizada  por  super­racionalização,  hostilidade  e  resistência  à
retroalimentação  e  pelo  desejo  de  não  enfrentar  os  problemas  (Prigatano,  1999).  Uma  pessoa  com  história  de
negação  de  suas  inadequações  e  resistência  à  ajuda  de  outros  e  com  forte  desejo  de  estar  “no  controle”
provavelmente  utiliza  a  negação  como  uma  estratégia  de  enfrentamento.  O  comprometimento  da
autoconscientização resultante de lesões neurológicas representa uma falta de acesso à informação a respeito da
condição  cognitiva  da  pessoa  e  é  caracterizado  por  surpresa,  indiferença  e  perplexidade  em  resposta  à
retroalimentação  (Prigatano,  1999).  Em  muitos  casos,  as  origens  neurológicas  e  psicológicas  da  não
conscientização coexistem e não podem ser facilmente diferenciadas. Se a negação é a fonte predominante da não
conscientização, métodos de treinamento de conscientização podem não ser eficazes (Lucas & Fleming, 2005).
Crosson e coautores (1989) descreveram um modelo hierárquico em pirâmide da conscientização que distingue
três aspectos importantes da conscientização a serem considerados na avaliação e no tratamento: a conscientização
intelectual,  a  conscientização  emergente  e  a  conscientização  antecipatória.  A  conscientização  intelectual  é  o
conhecimento  de  que  uma  função  específica  está  comprometida.  Ela  se  reflete  na  capacidade  de  descrever
verbalmente  as  limitações  no  funcionamento.  A  conscientização  intelectual  é  a  base  para  a  conscientização
emergente  e  antecipatória.  A  conscientização  emergente  é  a  capacidade  de  reconhecer  um  problema  apenas
quando  ele  acontece.  Acredita­se  que  o  nível  mínimo  de  conscientização  emergente  precise  existir  para  que  a
pessoa  possa  ser  capaz  de  reconhecer  a  necessidade  de  estratégias  compensatórias  (Bruce,  1993).  A
conscientização antecipatória é a capacidade de prever que o problema provavelmente ocorrerá como resultado de
um  comprometimento  antes  da  realização  de  uma  determinada  atividade  (Crosson  et  al.,  1989).  Ela  envolve  a
capacidade de julgar a dificuldade da tarefa em relação à capacidade do indivíduo. A natureza hierárquica desse
modelo  não  foi  empiricamente  demonstrada,  e  existem  algumas  indicações  de  que  a  inter­relação  entre  esses
conceitos é complexa e não hierárquica (Abreu et al., 2001).
TABELA 57.3 COGNIÇÃO: SINAIS CLÍNICOS E OBSERVAÇÕES FUNCIONAIS
Área do Sinais Clínicos/Observações Exemplos de Exemplos de
Comprometimento Estratégias Adaptações
Cognitivo
Orientação: a O cliente pode pensar que está em Ensinar a pessoa a Relógio falante ou
capacidade de casa e não em um hospital. Pode procurar pistas­ despertador que
compreender a si confundir a equipe do hospital com chave no anuncia
próprio e a relação os parentes e acreditar que cada ambiente quando automaticamente
entre si e o ambiente vez que desperta de uma soneca ela se sentir a data e a hora,
passado e presente. está acordando para um novo dia. confusa ou tiver de hora em hora;
O cliente pode não iniciar as AVD dificuldade de um grande cartaz
básicas devido à confusão em lembrar de colorido brilhante
relação ao tempo. informações. com o dia e a
data pode ser
colocado em um
local­chave;
relógio grande.
Quadro de
orientação com a
relação de dados
pessoais
essenciais (p.
ex., fotos de
membros da
família, amigos).
Atenção: capacidade Perseveração ou dificuldade de Fazer pausas em Reduzir o número
multidimensional que mudar de tarefas durante uma tarefa de itens ou
envolve vários atividades de se arrumar, como quando a opções
componentes: alerta mudar da escovação dos dentes concentração apresentadas ao
(detecção e reação), para lavagem do rosto. Dificuldade começa a diminuir. cliente a uma de
atenção seletiva, de prestar atenção de modo Lembrar de cada vez. Pré­
atenção sustentada, seletivo e de manter a atenção em compreender toda selecionar
desvio da atenção e uma tarefa como uma atividade a situação antes objetos
acompanhamento laboral enquanto ignora a música de prestar atenção relevantes
mental. que está tocando ou uma pessoa às partes. Dizer necessários para
que está falando. Realiza cada etapa de as tarefas e
simultaneamente duas tarefas e uma tarefa em voz fracionar a tarefa
acompanha mentalmente o alta para ou apresentar
desempenho em ambas (p. ex., concentrar a apenas um
manter uma conversa enquanto atenção na tarefa componente ou
dirige e olha para as placas de e inibir as etapa de uma
trânsito). distrações. tarefa por vez.
Negligência: falha em Os clientes podem exibir assimetria Ensinar o cliente a Colocar um alarme
se orientar, nas atividades funcionais, como encontrar as vibratório ou
responder ou relatar dificuldade de localizar itens do bordas de uma sonoro no lado
estímulos lado esquerdo em uma bandeja de página ou a esquerdo (Seron,
apresentados no comida. Barbear apenas o lado periferia dos Deloche &
lado contralateral à direito do rosto e pentear apenas o estímulos antes de Coyette, 1989).
lesão cerebral em lado direito da cabeça. Pode começar uma Utilizar uma fita
clientes que não apresentar dificuldade de busca da tarefa; marcá­la adesiva colorida
tenham esquerda para a direita quando com uma âncora larga nas bordas
comprometimentos olha as prateleiras de compras do com uma fita das mesas, nos
sensorimotores supermercado; precisa voltar ao adesiva colorida, cantos (Lennon,
primários final da fileira do supermercado e um marcador 1994).
pesquisar itens previamente à colorido, um
esquerda (agora à direita). objeto brilhante ou
colocar o braço do
cliente.
Memória: Fornece a O cliente pode exibir um rápido Reunir ou agrupar Cartões com pistas
capacidade de nos esquecimento de conversas, itens similares; o ou sinais em
basearmos em informação lida, shows assistidos método de história locais­chave,
experiências na TV ou pessoas recentemente ou ligação de uma dispositivos com
passadas e encontradas. Pode confabular a série de fatos ou alarmes pré­
aprendermos novas informação. Pode ter dificuldade eventos em uma programados ou
informações. em aprender novas informações e história; ensaiar mensagens de
para lembrar de tomar ou repetir alerta,
medicamentos, comparecer a informações várias dispositivos
compromissos agendados, onde vezes para si eletrônicos, como
estão os objetos ou como chegar a próprio; rimar ou processadores
locais específicos. lembrar­se de um de texto,
fato rimando, e celulares,
imagens. computadores de
bolso,
computadores,
caixas
organizadoras de
comprimidos,
listas, agendas e
caderno de
notas.
Processamento Dificuldade em localizar objetos na Compreender o todo Fita adesiva
visual: envolve a pia do banheiro apesar de ser antes de olhar as colorida em
recepção, a capaz de dar nome aos itens que já partes, ensinar a botões para
organização e a está vendo. Dificuldade em pessoa a fracionar operar
assimilação da detectar diferenças grosseiras no o espaço antes de eletrodomésticos;
informação visual. tamanho, na posição, no sentido, localizar os pistas coloridas
nos ângulos e nas rotações. detalhes; utilizar o salientes em
Dificuldade em encontrar itens em dedo da pessoa objetos para
uma prateleira repleta do para acompanhar tornar mais fácil
refrigerador, armário ou prateleira estímulos visuais; localizá­los e
do supermercado. Dificuldade em cobrir ou bloquear identificá­los (p.
identificar objetos parcialmente estímulos visuais ex., fita adesiva
ocultos ou sobrepostos em um quando houver rosa brilhante em
balcão ou em uma gaveta. muita informação um frasco de
de uma só vez; medicamento);
verbalizar maiores espaços
características entre as linhas;
visuais salientes uso de uma
ou diferenças sutis caneta de ponta
e visualizar porosa em vez
mentalmente um de um lápis para
item específico oferecer maior
antes de procurar contraste.
por ele. Estímulos visuais
distribuídos de
maneira
organizada com
grandes espaços
entre os itens são
mais fáceis de
perceber.
Função executiva: Dificuldade em planejar e iniciar Mediação verbal, Pré­organizar uma
ampla faixa de atividades de que o cliente precisa autoinstrução. atividade ou os
habilidades de ou que deseja completar. materiais da
desempenho que Dificuldade em prever atividade;
permitam que uma consequências, ponderar e fazer instruções em fita
pessoa se engaje escolhas, conceber alternativas, de áudio que dão
em comportamento manter a atenção e sequenciar a pistas à pessoa
independente, atividade. Pode parecer muito para iniciar uma
propositado, passivo, raramente pode iniciar atividade e
autodirecionado (isto conversa, pode parecer perder o realizar uma
é, vontade, senso de humor, é desorganizado etapa por vez na
planejamento, ação e incapaz de fazer coisas quando sequência
proposital, as pistas são oferecidas para iniciar apropriada; rotina
autoconscientização as tarefas. diária previsível e
e estruturada.
automonitoramento).
Planejamento motor: Pode posicionar um membro Estratégia de prática Fita adesiva
capacidade de desajeitadamente em relação ao mental: antes de colorida no
compreender como objeto (p. ex., alcançar com a mão executar uma puxador de uma
fazer com que o direita o lado esquerdo do copo) ou atividade, o cliente gaveta, no cabo
corpo execute o que insistir em um movimento (erros de se imagina de um utensílio
se deseja fazer. produção). Pode utilizar uma parte realizando a ou na torneira ou
do corpo como objeto (p. ex., atividade de uma outra
utilizar o dedo como uma escova maneira característica
de dente) quando solicitado a coordenada, evidente de um
realizar simulações. Mostra erros suave e precisa ou objeto.
espaço­temporais durante o imagina como sua Adaptações
sequenciamento de uma série de mão prenderá o como calças com
ações (p. ex., colocar café em uma objeto. Associa cintura de
xícara, adicionar açúcar e leite, um padrão de elástico, botões
mexer e beber). Pode exibir erros movimento a uma elásticos, fechos
conceituais quando utiliza objetos rima, ritmo ou som de velcro, luvas
(uso da faca como colher), ter musical, imagem para lavar,
dificuldade de correspondência ou palavra. sapatos tipo
para demonstrar uma figura ou Orienta o sandálias ou
objeto em gestos, ou tarefas movimento com cadarços
funcionais com erros de sequência, autoverbalizações. elásticos que
como escovar os dentes, vestir as simplifiquem a
roupas, barbear­se ou aplicar tarefa.
maquiagem.
Conscientização: o Clientes com baixa conscientização Autopredição do Uma lista de
grau de poderiam tentar se transferir desempenho perguntas de
compreensão de sozinhos para o vaso sanitário antes e após autoavaliação (p.
uma pessoa em apesar da hemiplegia severa e da tarefas ex., Eu fiquei
relação a seus necessidade de ajuda física de um específicas. atento a todas as
próprios profissional de saúde. Autoclassificação informações
comprometimentos do desempenho necessárias? Eu
físicos ou cognitivo­ para tarefas conferi meu
perceptuais. específicas. próprio
Autorreflexão do trabalho?)
desempenho
gravado em
videoteipe.
Os clientes poderiam não iniciar o
uso de estratégias compensatórias
durante atividades domésticas e
comunitárias, levando assim a
riscos com a segurança.

Toglia e Kirk (2000) propuseram um modelo dinâmico de conscientização que inclui o autoconhecimento ou as
crenças sobre o conhecimento e as habilidades existentes antes de uma atividade (i.e., conscientização intelectual)
e a conscientização “ativa”, que inclui os processos de automonitorização e autorregulação ativados no contexto
de  uma  atividade.  Essa  visão  da  conscientização  não  é  hierárquica  e  propõe  que  os  níveis  de  conscientização
variam  entre  diferentes  tarefas  e  contextos  no  mesmo  domínio.  Isso  implica  que  a  conscientização  precisa  ser
avaliada tanto fora como dentro do contexto de uma atividade (Toglia & Kirk, 2000).
A  entrevista  e  as  escalas  de  classificação  da  conscientização  (veja  Tabela  57.1)  geralmente  avaliam  a
conscientização quanto às limitações e às forças, a capacidade de generalizar o impacto das limitações sobre as
tarefas  funcionais  e  as  preocupações  com  relação  à  incapacidade  de  julgamento  (conscientização  intelectual).
Tipicamente,  as  autoclassificações  da  pessoa  são  comparadas  àquelas  de  um  parente  ou  profissional  (Bogod,
Mateer & MacDonald, 2003). Por exemplo, um cliente poderia ser solicitado a classificar o nível de um problema
que ele enfrenta ao preparar refeições, lavar a roupa ou lembrar nomes. A discrepância entre a autoclassificação
feita  pelo  cliente  e  a  classificação  feita  por  outros  é  considerada  um  indicador  do  déficit  de  conscientização,  as
maiores discrepâncias indicando déficits de conscientização mais severos. Por outro lado, algumas escalas, como a
Entrevista  sobre  Déficits  de  Conscientização  (Self  Awareness  Deficits  Interview)  (Fleming,  Strong  &  Ashton,
1996),  utilizam  uma  entrevista  semiestruturada  em  que  o  profissional  classifica  diretamente  o  nível  de
conscientização  da  pessoa,  de  acordo  com  a  resposta  às  perguntas.  Ambos  os  métodos  de  avaliação  da
conscientização examinam a conscientização intelectual fora do contexto de uma atividade.
Embora  as  entrevistas  e  as  escalas  de  classificação  sejam  os  métodos  mais  comuns  para  avaliar  a
conscientização, esta também pode ser avaliada no contexto de uma atividade, solicitando ao cliente que estime
seu desempenho antes (i.e., conscientização antecipatória) e imediatamente após (i.e., conscientização emergente)
a realização de uma tarefa. As diferenças entre o desempenho estimado e o desempenho real são comparadas. A
estimativa  da  tarefa,  incluindo  comparação  normativa,  é  utilizada  no  Teste  da  Memória  Contextual  (Contextual
Memory Test) (Toglia, 1993b) e na Avaliação da Conscientização da Incapacidade (Assessment of Awareness of
Disability)  (Tham,  Bernspang  &  Fisher,  1999).  Mudanças  que  possam  ocorrer  na  conscientização  durante  a
experiência  de  uma  atividade  podem  ser  examinadas  pela  comparação  das  respostas  às  perguntas  sobre
conscientização antes, durante e imediatamente após o desempenho.
Uma  avaliação  abrangente  da  conscientização  é  fundamental  para  orientar  e  selecionar  os  métodos  de
tratamento.  Em  alguns  casos,  o  potencial  para  mudanças  na  conscientização  pode  ser  limitado,  particularmente
durante  o  período  de  tratamento.  Nessas  situações,  os  métodos  de  tratamento  que  não  necessitam  de
conscientização,  como  treinamento  funcional  da  habilidade,  aprendizado  sem  erros  ou  adaptação  do  ambiente,
poderiam ser mais apropriados para facilitar o desempenho ocupacional. Se a ausência de compreensão de suas
forças e limitações impede a pessoa de escolher objetivos realistas e atingíveis, o terapeuta precisa ajudar o cliente
a se concentrar em habilidades ou tarefas que sejam necessárias para o “aqui e agora”.
O  treinamento  da  conscientização  inclui  ajudar  uma  pessoa  com  comprometimento  neurológico  a  aprender
sobre  as  mudanças  ocorridas.  Ele  envolve  ajudar  os  clientes  a  se  conhecerem  novamente.  O  tratamento  precisa
estar direcionado para ajudar as pessoas com déficits cognitivo­perceptuais a descobrirem seus próprios erros. Isso
tem maior probabilidade de ocorrer em tarefas que sejam familiares, de modo que a pessoa tenha uma base para a
comparação do desempenho (Tham et al., 2001; Toglia & Kirk, 2000). Além disso, o terapeuta precisa escolher
atividades com o “estímulo da medida certa” para que a pessoa seja capaz de integrar e assimilar a experiência. À
medida  que  a  conscientização  ocorre,  o  cliente  gradativamente  assume  maior  responsabilidade  no  processo  de
estabelecer metas e planejar o tratamento.
Apontar diretamente os erros ou dizer aos clientes que eles têm problemas é menos efetivo para o aumento da
conscientização. O enfrentamento direto tende a desencadear reações defensivas (Toglia & Kirk, 2000). Algumas
vezes,  a  pessoa  racionaliza  seus  erros  e  é  difícil  aderir  ao  tratamento.  Os  comprometimentos  devem  ser
apresentados lenta e indiretamente em experiências estruturadas, ao mesmo tempo que são enfatizadas estratégias
para controlar e monitorar o aparecimento de sintomas cognitivos.
A  investigação  sistemática  da  efetividade  do  treinamento  de  conscientização  é  limitada.  Estudos  iniciais
indicam que o tratamento direto para a conscientização pode ser efetivo em alguns grupos de clientes (Cicerone &
Giacino, 1992; Fleming, Lucas & Lightbody, 2006; Fleming, Shum, Strong & Lightbody, 2005; Schlund, 1999;
Tham & Tegner, 1997; Tham et al., 2001). A seguir, descreveremos algumas técnicas que podem ser utilizadas em
uma ampla variedade de atividades para aumentar a conscientização. Essas técnicas frequentemente são utilizadas
de forma combinada.

Autopredição
A  autopredição  envolve  solicitar  à  pessoa  que  antecipe  as  dificuldades  ou  prediga  seu  desempenho  em  uma
atividade. O cliente pode ser solicitado a indicar em uma escala de classificação se a atividade será fácil ou difícil
ou predizer parâmetros específicos de desempenho. Por exemplo, a acurácia do desempenho, o tempo necessário
para completar a tarefa, o número de pistas verbais necessárias ou o tipo de dificuldade que poderia ser encontrado
podem ser estimados e discutidos antes da realização efetiva de uma atividade.
Imediatamente  após  o  desempenho,  os  resultados  reais  são  comparados  aos  resultados  preditos  e  quaisquer
discrepâncias são discutidas (Toglia, 1991a, 2005). Estudos de caso utilizando a autopredição foram relatados para
pessoas  com  disfunção  executiva,  déficits  de  memória  e  negligência  unilateral  (Cicerone  &  Giacino,  1992;
Rebmann & Hannon, 1995; Schlund, 1999; Sohlberg & Mateer, 2001; Tham et al., 2001).

Classificação de Metas Específicas
Autoclassificações  diárias  ou  semanais  de  comportamentos  ou  estratégias­alvo  claramente  definidos  podem  ser
utilizadas para ajudar uma pessoa a se concentrar no que ela pode fazer no presente. Escalas de aquisição de metas
oferecem um foco individualizado e concreto que pode aumentar a autoconscientização e a orientação realista das
metas  (Malec,  Smigielski,  DePompoplo,  1991;  Rockwood,  Joyce  &  Stolee,  1997).  A  autoclassificação  da
aquisição de metas pelo cliente pode ser comparada com a classificação do terapeuta ou de um parente próximo, e
qualquer  discrepância  pode  ser  discutida.  Por  exemplo,  suponha  que  um  cliente  com  déficits  moderados  de
memória  continuamente  dependa  de  outras  pessoas  para  lembrar­se  de  eventos  e  não  utiliza  o  caderno  de
anotações.  Se  o  comportamento­alvo  é  confiar  menos  em  outros  para  obter  informações,  o  cliente  poderia
classificar  a  si  próprio  semanalmente  em  uma  escala  de  1  (confia  em  outros  a  todo  momento  ou  não  usa  o
caderno)  a  5  (não  confia  em  outros  para  informações  e  utiliza  consistentemente  o  caderno).  A  classificação  do
cliente  pode  ser  comparada  à  classificação  de  um  parente  ou  amigo,  e  quaisquer  discrepâncias  podem  ser
discutidas.  As  autoclassificações  podem  ser  lançadas  em  um  gráfico  ao  longo  do  tempo  e  acompanhadas  para
avaliação do aumento da conscientização (Sohlberg & Mateer, 2001).

Retroalimentação por Videoteipe
A exibição de uma fita de vídeo que exiba problemas de desempenho e atividade de um cliente pode ser utilizada
para  aumentar  a  conscientização.  A  retroalimentação  com  videoteipe  é  concreta  e  permite  que  os  clientes
reexperimentem  seu  desempenho  e  avaliem  suas  dificuldades  no  momento  em  que  elas  ocorrem,  em  vez  de
simplesmente  discuti­las  após  o  fato.  A  retroalimentação  por  videoteipe  é  utilizada  com  sucesso  para  tratar
pessoas  com  acidente  vascular  cerebral  ou  lesões  cerebrais  (Liu,  Chan,  Lee,  Li  &  Hui­Chan,  2002;  Tham  &
Tegner, 1997).

Autoavaliação
O  profissional  fornece  um  sistema  estruturado  com  um  conjunto  de  perguntas,  uma  lista  de  conferência  ou  um
sistema de classificação que o cliente utiliza como um guia para avaliar seu próprio desempenho (Toglia, 1991a,
1998). Exemplos de perguntas de autoavaliação poderiam incluir “Eu forneci todas as informações necessárias?” e
“Eu verifiquei o meu trabalho?”.

Autoquestionamento
Perguntas  desenhadas  para  dar  pistas  ao  cliente  para  monitorar  seu  comportamento  podem  ser  escritas  em  um
cartão­indicador  ou  memorizadas.  Em  intervalos  específicos  durante  a  tarefa,  espera­se  que  o  cliente  pare  e
responda as mesmas duas ou três perguntas, tais como “Eu estou certo de estar olhando para a esquerda?”, “Estou
prestando atenção aos detalhes?” e “Eu estou indo muito rápido?” (Fertherlin & Kurland, 1989).

Diário
O cliente mantém um diário no qual registra as experiências da atividade e os resultados do desempenho. O cliente
é encorajado a refletir e interpretar as experiências da atividade, pensar sobre o que aprendeu sobre si próprio e
resumir as forças e fraquezas (Tham et al., 2001; Ylvisaker & Feeney, 1998).
Técnicas  de  treinamento  da  conscientização  podem  ser  mescladas  com  treinamento  de  estratégias  e
incorporadas  a  todas  as  sessões  terapêuticas.  A  conduta  multicontextual  fornece  outras  orientações  para  tratar
simultaneamente a conscientização e o uso de estratégias (Toglia, 2005).

Orientação
A  orientação  é  a  capacidade  de  compreender  o  “eu”  e  a  relação  entre  o  eu  e  o  ambiente  passado  e  futuro.  A
orientação depende da integração de diferentes atividades mentais representadas em diferentes áreas do cérebro. A
desorientação  é  indicativa  de  comprometimentos  significativos  na  atenção  e  na  memória  (Lezak,  Howieson  &
Loring,  2004).  Por  exemplo,  os  clientes  desorientados  poderiam  pensar  que  estão  em  casa  e  não  no  hospital,
poderiam confundir a equipe do hospital com parentes ou poderiam acreditar que é um novo dia a cada vez que
despertam de uma soneca.

Avaliação
A avaliação da orientação tradicionalmente inclui a orientação do cliente quanto à pessoa, ao lugar e ao tempo. A
orientação quanto à pessoa envolve tanto a si próprio como a outros. O cliente é capaz de relatar fatos e eventos
pessoais  que  descrevam  seu  estilo  de  vida  prévio?  O  cliente  reconhece  pessoas  e  as  associa  a  seus  pa  péis  e
nomes?  A  orientação  quanto  ao  local  (orientação  espacial)  é  demonstrada  pela  capacidade  do  cliente  de
compreender o tipo de local onde ele está (p. ex., no hospital), de dizer o nome e o local onde ele está e de avaliar
distância e direção. A orientação temporal exige a capacidade de identificar o momento atual no tempo (p. ex., dia,
mês  e  ano)  e  demonstrar  compreensão  da  continuidade  e  da  sequência  do  tempo  (i.e.,  estimativa)  e  associar
eventos ao tempo.
A orientação topográfica, frequentemente considerada um componente da orientação espacial, é a capacidade de
seguir  uma  rota  familiar  ou  uma  nova  rota  quando  é  dada  a  oportunidade  de  se  familiarizar  com  ela.
Funcionalmente, a pessoa poderia não ser capaz de encontrar o caminho do local de tratamento até sua casa ou
descrever e desenhar um esboço de um ambiente ou caminho que lhe é familiar (Unsworth, 2007). Dificuldades
com aspectos visuoespaciais e de memória de orientação topográfica precisam ser distinguidos durante a avaliação
(Brunsdon, Nickels & Coltheart, 2007; Unsworth, 2007).
Tradicionalmente,  as  avaliações  da  orientação  estão  incluídas  nos  exames  de  estado  mental.  A  Tabela  57.1
fornece  uma  lista  de  ferramentas  de  pesquisa  para  orientação.  Entretanto,  frequentemente,  os  terapeutas
ocupacionais utilizam medidas de orientação não padronizadas, como entrevistas com questões abertas conduzidas
durante  uma  conversa  ou  de  maneira  informal.  A  maioria  dos  profissionais  utiliza  pistas  para  determinar  a
severidade  da  desorientação.  Se  o  cliente  não  for  capaz  de  responder  as  perguntas  de  modo  independente,  o
profissional pode oferecer uma gama de opções ou pistas verbais. Geralmente, as pistas vão de gerais ou abstratas
até mais concretas, de acordo com a severidade da desorientação (p. ex., “Hoje é o começo da semana de trabalho”
versus “Hoje é o dia depois do domingo”). O número e o tipo de pistas servem como um método para pontuar e
monitorar o progresso. As flutuações na orientação ao longo do dia devem ser observadas, uma vez que os clientes
poderiam experimentar confusão noturna por causa da fadiga.

Tratamento

TREINAMENTO  DE  ESTRATÉGIA  E/OU  ADAPTAÇÕES  DA  TAREFA  E  DO  AMBIENTE.  O  treinamento  de
estratégias para a desorientação consiste em ensinar a pessoa a procurar pistas externas quando estiver confusa ou
sentir  dificuldades  em  lembrar  as  informações  de  orientação.  Por  exemplo,  um  quadro  de  informação  que
contenha pontos de orientação pode ser colocado na parede, no closet ou até mesmo no caderno de notas. Quando
se solicita ao cliente informação sobre orientação, espera­se que ele localize o quadro de informação para buscar
as  respostas  ou  para  encontrar  as  respostas  corretas.  O  caderno  de  notas,  contendo  figuras  e  nomes  de  pessoas
conhecidas  ou  eventos  importantes  da  vida,  também  pode  ser  colocado  em  um  local­chave  dentro  do  quarto.
Como  alternativa,  uma  fita  de  áudio  ou  vídeo  pode  ser  criada  por  um  membro  da  família  para  revisar  as
informações de orientação em horários determinados do dia ou ser utilizada sempre que a pessoa se sinta confusa.
Um  alarme  programado  para  disparar  várias  vezes  por  dia  pode  ser  utilizado  como  pista  para  que  a  pessoa  leia
suas anotações sobre orientação no caderno ou escute a fita de áudio. As perguntas sobre orientação com o uso de
estratégias de pistas também podem ser incorporadas a um jogo de bingo, um jogo de tabuleiro ou um jogo em
grupo (Toglia & Golisz, 1990).
Um calendário colocado na parede ou no closet pode ser útil para orientar a pessoa no tempo. Se o cliente tem
uma atenção seletiva ruim, pode ser necessário um único pedaço de papel com o dia e a data escritos diariamente,
em vez de calendário mensal.
Para  ajudar  o  cliente  a  encontrar  seu  quarto,  setas  de  orientação  podem  ser  colocadas  no  corredor  e  uma  fita
indicando o caminho para o quarto pode ser colocada no chão. Pontos­chave de referência podem ser identificados
e destacados com setas ou fita adesiva colorida.
O terapeuta precisa reforçar, de imediato, o início ou o uso de qualquer dessas pistas externas com elogios ao
cliente (ou pontos de recompensa), e cada vez que o cliente inicia o uso de uma pista externa, o terapeuta deve
acompanhar por meio de um registro em um gráfico ou mapa. O uso de pistas externas deve ser gradativamente
descontinuado até que a informação de orientação seja internalizada. Além disso, a pessoa deve ser treinada para
procurar  pistas  de  orientação  (p.  ex.,  relógios,  calendários)  em  diferentes  ambientes.  Técnicas  de  recuperação
espaçada podem ser utilizadas para treinar o uso de estratégias e auxílios externos, como o uso de um calendário
diário.  A  recuperação  espaçada  envolve  o  prolongamento  sistemático  do  período  de  retenção  e  recordação.
Existem  evidências  de  que  essa  técnica  é  mais  efetiva  do  que  a  hierarquia  de  pistas  para  tratar  pessoas  com
demência (Bourgeois et al., 2003).

Atenção
A atenção é uma capacidade multidimensional que envolve vários componentes:
1. Detectar/reagir:  a  capacidade  de  detectar  e  reagir  às  alterações  gerais  do  ambiente,  como  um  toque  do
telefone, um nome chamado ou uma bola arremessada.
2. Atenção contínua: a capacidade de participar consistentemente de uma atividade ao longo do tempo, como ler
por 15 minutos sem perder a concentração. Atividades repetitivas e previsíveis, como preencher envelopes ou
dobrar cartas, impõem menos demandas sobre a atenção contínua.
3. Atenção seletiva: a capacidade de estar atento a estímulos relevantes ao mesmo tempo que ignora distrações
ou  informações  irrelevantes.  Exemplos  incluem  selecionar  locais  específicos  em  um  mapa,  encontrar  itens
com  certa  variação  de  preço  em  um  cardápio,  escolher  todas  as  cartas  vermelhas  ou  ímpares  do  baralho  e
encontrar  ingredientes  específicos  em  um  armário.  As  demandas  para  atenção  seletiva  são  aumentadas
quando  se  aumenta  o  número  de  objetos  apresentados  simultaneamente  e  quando  a  predominância  dos
estímulos­alvo é reduzida.
4. Desvio  da  atenção:  a  capacidade  de  desviar  ou  alternar  a  atenção  entre  tarefas  com  diferentes  demandas
cognitivas  e/ou  motoras.  Exemplos  incluem  a  capacidade  de  desviar  a  atenção  entre  adicionar  e  subtrair
enquanto faz o controle do talão de cheques, atender o telefone e digitar, e fazer uma salada enquanto prepara
alguma coisa no fogão.
5. Acompanhamento  mental:  a  capacidade  de  simultaneamente  acompanhar  dois  ou  mais  estímulos  durante
atividade contínua. Os exemplos incluem acompanhar o que realmente foi feito em uma tarefa culinária de
múltiplas etapas e ouvir o rádio enquanto prepara uma refeição.

Durante  a  avaliação  (veja  Tabela  57.1)  e  o  tratamento,  é  importante  ter  em  mente  esses  diferentes  aspectos  da
atenção.
Os sintomas da atenção variam com a ansiedade e a fadiga, bem como com a tarefa e o contexto. Os sintomas
que  refletem  comprometimentos  da  atenção  incluem  a  distração,  a  impulsividade,  os  lapsos  de  atenção  e  uma
tendência a desviar­se da tarefa, superconcentrar­se em partes de uma tarefa, omitir detalhes e esquecer de alguma
coisa  que  acabou  de  fazer.  Em  geral,  as  atividades  repetitivas  e  de  rotina  exercem  menores  demandas  sobre  a
capacidade  de  atenção  do  que  as  atividades  que  não  são  familiares  ou  não  são  previsíveis.  Por  exemplo,  os
sintomas  da  atenção  podem  não  ser  observados  em  atividades  básicas  de  autocuidado,  porém  o  mesmo  cliente
pode exibir sintomas da atenção durante uma atividade de nível mais alto, como buscar informações na Internet.

Avaliação
Como a atenção é uma habilidade multidimensional, os terapeutas devem assegurar que sejam avaliados todos os
componentes  de  possíveis  comprometimentos.  Os  comprometimentos  mais  severos  em  componentes  como  a
atenção  contínua  podem  ser  facilmente  observados  no  desempenho  funcional;  entretanto,  déficits  mais  sutis
poderiam  ser  negligenciados.  Avaliações  como  o  Teste  da  Atenção  Cotidiana  (Test  of  Everyday  Attention)
(Robertson, Ward, Ridgeway & Nimmo­Smith, 1994) avaliam múltiplos componentes da atenção.

Tratamento

TREINAMENTO  DE  ESTRATÉGIAS  PARA  ATENÇÃO.  O  treinamento  de  estratégias  para  a  atenção  consiste  em
ajudar  a  pessoa  a  aprender  a  controlar,  monitorar  ou  prevenir  o  aparecimento  de  sintomas  da  atenção.  Por
exemplo,  técnicas  de  treinamento  de  conscientização  descritas  anteriormente,  incluindo  a  autopredição,  o
autoquestionamento,  o  estabelecimento  de  metas  específicas  e  a  autoavaliação,  podem  ser  inseridas  no
treinamento  de  estratégias  para  ajudar  o  cliente  a  monitorar  e  regular  os  lapsos  de  atenção.  O  treinamento  de
estratégias  pode  ser  integrado  em  uma  variedade  de  atividades  simuladas  ou  baseadas  na  ocupação,  durante  as
quais o profissional ajuda o cliente a monitorar e registrar a frequência com que a estratégia ou o comportamento­
alvo é iniciada e utilizada. Exemplos de atividades funcionais simuladas incluem procurar em uma pilha de cartões
de  mensagens  um  cartão  de  uma  ocasião  específica;  procurar  em  uma  pilha  de  cartões  de  receitas  receitas  que
combinem  os  ingredientes  de  uma  lista  e  buscar  informação  em  uma  lista  telefônica,  calendário  ou  guia  de  TV
enquanto acompanha simultaneamente os itens encontrados ou ouve o rádio.
Estratégias que podem ser enfatizadas incluem as seguintes:
Descansar de uma tarefa quando a concentração começa a diminuir
Lembrar de compreender toda a situação antes de atentar para as partes
Monitorar a tendência à distração por pensamentos ou estímulos externos
Monitorar a capacidade de manter atenção na tarefa
Lembrar de consultar todas as informações e procurar ativamente informações adicionais antes de responder
Autoinstrução ou recitar as pistas pessoais ou cada etapa de uma tarefa (em voz alta e, em seguida, para si)
Técnicas de gerenciamento da pressão de tempo (Fasotti, Kovacs, Eling & Brouwer, 2000)

Evidências  apoiam  a  efetividade  do  treinamento  da  atenção  para  pessoas  com  traumatismo  craniano,  na  fase
pós­aguda  da  reabilitação.  Tratamentos  bem­sucedidos  incluíram  treinamento  de  estratégias,  técnicas  de
conscientização como o treinamento dos participantes para reconhecer a sobrecarga de informação ou quando se
desviam das tarefas (Cicerone et al.,  2005).  De  modo  similar,  Silverstein  e  colegas  (2005)  demonstraram  que  o
treinamento  da  atenção  para  pessoas  com  esquizofrenia  combinado  a  técnicas  de  modelagem,  incluindo
estabelecimento  de  metas  específicas  e  retroalimentação  em  relação  aos  comportamentos  da  tarefa,  foi  mais
efetivo que os exercícios de atenção isolados.

ADAPTAÇÕES DA TAREFA OU DO AMBIENTE. As adaptações podem ser utilizadas para minimizar as demandas
da atenção nas atividades cotidianas. Técnicas que incluem aumentar a evidência de objetos que exigem atenção e
reduzir  ou  limitar  a  quantidade  de  informação  apresentada  ao  cliente,  de  uma  só  vez,  podem  ser  utilizadas.  Os
exemplos incluem os seguintes (Toglia, 1993a):
Modificação do ambiente para reduzir a confusão visual, as interrupções e as distrações auditivas
Simplificação das instruções das tarefas de modo que uma etapa seja apresentada por vez
Redução do número de objetos ou opções apresentados ao cliente por vez
Pré­seleção de objetos relevantes necessários para as tarefas
Segmentação da tarefa (p. ex., apresentar apenas um componente de uma tarefa por vez) (Moulton, Taira &
Grover, 1995; Toglia, 1993a)
Colar fita adesiva colorida nas chaves da casa ou em botões de operação de eletrodomésticos

O  realce  de  pistas  evidentes  no  ambiente  pode  ser  utilizado  para  promover  os  comportamentos  desejados.  Na
tarefa de escovar os dentes, por exemplo, itens desnecessários devem ser removidos da pia e os itens necessários
para uso devem ser destacados com cores contrastantes. As cores contrastantes da escova de dente, da pasta de
dente e do copo fornecem uma pista para ajudar o cliente a utilizar os diferentes objetos.

Negligência Unilateral
A  negligência  unilateral  é  uma  falha  para  orientar,  responder  ou  descrever  estímulos  aplicados  ao  lado
contralateral à lesão cerebral em clientes que não apresentam comprometimentos sensoriais ou motores primários
(Heilman,  Watson  &  Valenstein,  2003).  O  termo  negligência  conota  um  componente  voluntário  do  distúrbio,
porém  é  uma  denominação  equivocada.  O  cliente  com  negligência  unilateral  não  tem  consciência  de  como  são
incompletas sua percepção do ambiente e as respostas a este ambiente. Frequentemente, ele se comporta como se
metade  do  mundo  não  existisse  (Corben  &  Unsworth,  1999).  Por  exemplo,  após  acidente  vascular  que  afeta  o
hemisfério direito, os clientes frequentemente começam buscas pelo lado direito e esquecem ou não exploram a
maioria  dos  estímulos  do  lado  esquerdo.  A  assimetria  pode  ser  observada  em  atividades  funcionais  e  tarefas  de
desenhos, leitura ou escrita. Em vários casos, os clientes podem comer os alimentos de um lado do prato, barbear a
metade  do  rosto  ou  vestir  a  metade  do  corpo  sem  reconhecer  que  qualquer  coisa  esteja  errada.  Em  casos  mais
leves, eles podem ler errado a primeira letra de uma palavra específica ou não compreender a informação quando
atravessam a rua, fazem compras ou dirigem (veja Dilemas da Ética). Muitos clientes com negligência unilateral
também exibem ansiedade ou achatamento emocional.
DILEMAS DA ÉTICA
Como um Profissional Pode Equilibrar Obrigações Éticas Conflitantes

O sr. Grahm, que sofreu um acidente vascular cerebral que resultou em hemiparesia esquerda e negligência
unilateral  esquerda,  está  recebendo  atendimento  ambulatorial  em  terapia  ocupacional.  Ele  é  trazido  à
terapia  por  uma  filha  que  mora  perto  dele,  porém  o  sr.  Grahm  mora  sozinho.  O  sr.  Grahm  nos  conta  que,
embora sua filha pegue a chave do carro, ele tem outra cópia que ela não sabe e planeja dirigir para visitar um
amigo neste fim de semana. O terapeuta ocupacional sabe que a avaliação para dirigir, realizada quando o sr.
Grahm estava internado, aconselhava­o a não fazê­lo, devido a sua negligência esquerda.

Perguntas
1. O terapeuta ocupacional tem obrigações e deveres com diferentes pessoas e grupos. Identifique­os. Que
grupo ou pessoa deve receber maior prioridade? Por quê?
2. Quais são os princípios éticos que estão em conflito nesta situação?
3. Quais as obrigações legais que o terapeuta poderia ter além das obrigações éticas?

A negligência unilateral também foi identificada como o principal fator que impede a recuperação funcional de
clientes que sofreram um acidente vascular (Chen Sea, Henderson & Cermack, 1993; Cherney, Halper, Kwasnica,
Harvey  &  Zhang,  2001).  Os  pacientes  com  negligência  unilateral  têm  mais  dificuldade  para  reassumir  as
atividades de vida diária, permanecem mais tempo hospitalizados (Gillen, Tennen, & McGee, 2005; Katz et al.,
1999) e estão sujeitos a maior risco de acidentes (Webster et al., 1995).
A  negligência  unilateral  foi  descrita  como  um  distúrbio  heterogêneo  que  inclui  diferentes  subtipos  clínicos  e
componentes  comportamentais  (Mesulam,  1994;  Pierce  &  Buxbaum,  2002;  Stone,  Halligan,  Marshall  &
Greenwood, 1998). A negligência unilateral pode envolver uma ou mais modalidades, pode variar de acordo com
a natureza dos estímulos (p. ex., verbal versus não verbal) e pode englobar objetos únicos ou diferentes estruturas
espaciais:  extrapessoal  ou  grande  espaço,  peripessoal  ou  espaço  ao  alcance  e  pessoal  ou  espaço  corporal
(Mesulam,  2000;  Plummer,  Morris  &  Dunai,  2003).  Por  exemplo,  alguns  clientes  demonstram  sintomas  de
negligência em grandes espaços, como uma sala (negligência extrapessoal), mas isso não é observado em relação
a seu corpo (negligência pessoal) ou à dificuldade em tarefas com lápis e papel (negligência peripessoal). Subtipos
de  negligência  também  têm  sido  propostos  envolvendo  imagens  mentais  (negligência  de  representação),
diminuição do movimento para dentro ou na direção do espaço contralesional (negligência motora) ou diminuição
da  capacidade  de  percepção  de  estímulos  sensoriais  no  espaço  contralesional  (negligência  sensorial)  (Mesulam,
1994).

Avaliação
Os  terapeutas  ocupacionais  que  avaliam  clientes  com  negligência  unilateral  precisam  primeiramente  distinguir
entre hemianopsia e negligência unilateral. Cortes no campo visual (hemianopsia) são hemirretianos, enquanto a
negligência é hemiespacial. Os clientes com cortes do campo visual tipicamente têm consciência de sua perda de
campo visual e fazem movimentos e giros compensatórios da cabeça. A negligência unilateral pode existir com ou
sem hemianopsia, e uma síndrome não causa a outra. A avaliação da negligência unilateral envolve tipicamente a
combinação  de  tarefas  que  exigem  detecção  de  estímulos­alvo  distribuídos  em  ambos  os  lados  do  espaço  (veja
Tabela 57.1). Tipicamente, a maioria dos alvos no lado contralesional do espaço é perdida. A complexidade dos
sintomas de negligência unilateral não é completamente abordada pelos testes tradicionais de negligência. Assim,
é  importante  não  confiar  completamente  nos  instrumentos  de  medida  para  a  identificação  da  negligência
unilateral.  As  manifestações  comportamentais  diferentes  e  os  subtipos  de  negligência  precisam  estar  em  mente
durante a observação do desempenho (Appelros, Nydevik, Karlsson, Thorwalls & Seiger, 2003; Plummer et al.,
2003).
A  avaliação  dinâmica  da  negligência  unilateral  fornece  informação  acerca  das  condições  da  tarefa  que
aumentam ou diminuem os sintomas de negligência unilateral, bem como a capacidade da pessoa de responder a
diferentes tipos de pistas ou aplicar e manter estratégias aprendidas a diferentes situações. Toglia (2005) descreveu
uma tarefa dinâmica de busca de objeto que analisa a capacidade de aprender e aplicar uma estratégia por meio de
uma série de tarefas de busca para pessoas com negligência unilateral.

Tratamento
O treinamento de habilidades específicas é enfatizado nesta seção porque existem evidências que apoiam o uso de
treinamento de busca visual para remediar distúrbios de negligência unilateral.
Na  negligência  unilateral,  os  clientes  demonstram  diminuição  dos  movimentos  oculares  para  o  lado  afetado.
Esta  diminuição  dos  movimentos  oculares  reflete  uma  diminuição  da  atenção  para  um  dos  lados  do  ambiente
(Antonucci  et  al.,  1995;  Toglia,  1991b).  Uma  revisão  na  literatura  científica  realizada  por  Cicerone  e  colegas
(2000, 2005) concluiu que existe evidência de nível 1 que apoia o uso de tratamentos visuoespaciais que incluem a
prática da busca visual, uma vez que esta melhora a compensação da negligência unilateral e é generalizada para
as atividades cotidianas. Consequentemente, eles recomendam a reabilitação visuoespacial com busca visual como
uma  prática  padrão  para  clientes  com  negligência  visual  após  acidente  vascular  no  hemisfério  direito.  A
combinação  de  ativação  forçada  dos  membros  ou  movimentos  do  braço  esquerdo  ou  da  mão  esquerda  no  lado
esquerdo do espaço em conjunto com a busca visual também mostra resultados positivos (Cicerone et al.,  2005;
Robertson,  Hogg  &  McMillan,  1998).  O  tratamento  parece  ser  mais  efetivo  quando  uma  ampla  combinação  de
atividades  de  tratamento,  incluindo  as  tarefas  cotidianas,  é  utilizada  (Antonucci  et al.,  1995;  Pizzamiglio  et  al.,
1992). Programas com níveis maiores de intensidade, em geral, produziram resultados mais positivos. Entretanto,
mesmo  com  treinamento  intensivo,  ficou  demonstrado  que  pessoas  com  negligência  unilateral  têm  resultados
funcionais  piores  do  que  outras  pessoas  com  acidente  vascular  (Paolucci,  Antonucci,  Grasso  &  Pizzamiglio,
2001).
Weinberg  e  colegas  (1977)  estabeleceram  técnicas  sistemáticas  de  treinamento  que  incorporam  uma
combinação de planilhas de remediação e técnicas de treinamento de estratégias durante tarefas de leitura e busca.
Por  exemplo,  eles  utilizaram  ancoragem  controlada,  graduação  da  velocidade  de  busca,  retroalimentação  e
redução da densidade do estímulo. A ancoragem ou o ato de ensinar a pessoa a utilizar um ponto de referência
espacial, como uma linha colorida no lado esquerdo, é uma estratégia comum para treinamento de busca visual.
Atividades  motoras  grosseiras  envolvendo  estímulos  vestibulares  e  movimento  integral  do  corpo  no  espaço
aumentam  a  consciência  geral  e  o  alerta  e  são  usadas  em  combinação  com  atividades  de  busca  visual  para
aumentar o olhar fixo e a atenção para o lado afetado (Cappa, Sterzi, Vallar & Bisiach, 1987). Atividades como
voleibol com balões, com o cliente tocando o balão com as mãos encaixadas uma na outra, são um exemplo de
uma dessas atividades.
Outras técnicas de tratamento recomendadas para clientes com negligência unilateral incluem o uso de prismas
e técnicas de oclusão visual (Pierce & Buxbaum, 2002). Os prismas causam um desvio óptico do campo visual
para  a  direita  de  modo  que  os  objetos  parecem  estar  se  movendo  mais  para  a  direita  do  que  na  verdade  estão
(Redding & Wallace, 2006). Os métodos de oclusão visual parcial tentam forçar a pessoa a utilizar o campo visual
do lado da negligência pela oclusão do olho ipsilateral à lesão, ocluindo a metade dos óculos do lado contrário ao
da negligência (Beis, Andre, Baumgarten & Challier, 1999) ou escurecendo a metade dos óculos do lado contrário
ao da negligência (óculos de sol hemiespacial) (Arai, Ohi, Sasaki, Nobuto & Tanaka, 1997).
Recentemente, foram descritos programas de treinamento assistidos por computador para atravessar a rua e para
navegação da cadeira de rodas. As pessoas com negligência unilateral treinadas realizaram melhor as tarefas de
vida diária após treinamento com realidade virtual do que os indivíduos de controle. O uso de tecnologia baseada
na  realidade  virtual  parece  demonstrar  potencial  para  clientes  com  negligência  unilateral  (Katz  et  al.,  2005;
Webster et al., 2001).

TREINAMENTO  DE  ESTRATÉGIAS.  As  estratégias  para  negligência  unilateral  podem  ser  praticadas  durante  as
tarefas  cotidianas,  como  colocar  a  mesa  para  várias  pessoas,  dar  cartas  de  baralho  para  seis  pessoas,  identificar
anotações em um calendário de parede, ler jornal, endereçar envelopes de diferentes tamanhos ou identificar todos
os quadros ou cadeiras do ambiente. Como os sintomas de negligência unilateral variam de acordo com o tamanho
do espaço, a organização do espaço, a quantidade e a densidade de informação apresentada, estes parâmetros de
atividade precisam ser compatíveis com os sintomas de negligência e sistematicamente variados e graduados no
tratamento. Em alguns casos, as atividades terapêuticas devem enfatizar atividades em grandes espaços; em outras
situações,  as  atividades  devem  se  concentrar  em  tarefas  de  bancada  que  envolvam  detalhes  visuais.  Em  geral,
atividades imprevisíveis ou que envolvam estímulos dispersos aleatoriamente em uma mesa ou página são mais
sensíveis  aos  sintomas  da  negligência  unilateral  do  que  atividades  organizadas  de  uma  maneira  previsível  e
estruturada ou horizontal (Ferber & Karnath, 2001). O tratamento deve incluir a identificação de situações em que
os  sintomas  de  negligência  tenham  maior  probabilidade  de  ocorrer,  como  encher  várias  travessas  de  salada,
colocar biscoitos em uma assadeira ou arrumar fotografias em um álbum.
As  pessoas  com  negligência  unilateral  nem  sempre  sabem  quando  prestam  atenção  ao  lado  esquerdo.  O
tratamento precisa ajudar os clientes a encontrarem pistas externas que fornecerão retroalimentação sobre quando
que  eles  de  fato  prestam  atenção  ao  lado  esquerdo.  Uma  ênfase  no  tratamento  deve  ser  ensinar  o  cliente  a
encontrar  as  bordas  de  uma  página  ou  de  uma  mesa  ou  a  periferia  de  estímulos  antes  de  iniciar  uma  tarefa  e  a
marcá­la  com  ponto  de  referência  espacial,  como  uma  fita  adesiva  colorida,  um  marcador  colorido,  um  objeto
brilhante ou a colocação de seu braço na borda esquerda. As pistas auditivas, utilizando um dispositivo sonoro ou
de  alarme,  podem  ser  combinadas  ao  treinamento  de  estratégias  para  que  a  pessoa  se  lembre  de  usar  uma
estratégia ou pista visual. O alarme pode exigir que o cliente investigue o espaço e se vire para o lado esquerdo
para desligar o som (Seron, Deloche & Coyette, 1989).
Outras  estratégias  de  tratamento  para  negligência  unilateral  incluem  busca  tátil,  uso  de  imagens  mentais  e
técnicas gerais de alerta.  A  busca  tátil  inclui  ensinar  o  cliente  a  sentir  o  lado  esquerdo do espaço com os olhos
fechados  ou  sentir  a  borda  esquerda  dos  objetos  antes  da  busca  visual.  A  técnica  de  imagens  visuais  ensina  a
imaginar e descrever cenas ou caminhos familiares e utilizar imagens mentais durante movimentos dos membros
ou de busca visual (Niemeier, 1998; Smania, Bazoli, Piva & Guidetti, 1997). Por exemplo, a redução dos sintomas
de negligência e o aumento do desempenho nas tarefas funcionais foram relatados após um programa de imagens
mentais que envolve ensinar às pessoas com negligência a imaginarem seus olhos como feixes de varredura de um
farol da esquerda para a direita por todo o campo visual. Os clientes receberam pistas para utilizar essa imagem
mental  durante  as  tarefas  de  treinamento  funcional  e  terapêutico  (Niemeier,  1998;  Niemeier,  Cifu  &  Kishore,
2001).  Além  das  estratégias  destinadas  especificamente  à  facilitação  da  atenção  para  o  lado  esquerdo,  as
estratégias com foco na capacidade geral de manter a atenção também mostraram reduzir a negligência unilateral.
Por exemplo, Robertson, Tegner, Tham, Lo e Smith (1995) ensinaram clientes com negligência unilateral crônica
a dizer mentalmente para si próprios para “prestar atenção” e dar um tapa forte na mesa.
Tem  sido  observado  que  a  resposta  ao  treinamento  de  estratégias  depende  de  a  pessoa  com  negligência
unilateral  apresentar  melhora  em  sua  conscientização  (Tham  et  al.,  2001;  Robertson  &  Halligan,  1999).  Isto
destaca  a  importância  das  técnicas  de  treinamento  baseadas  fortemente  na  atenção,  como  aquelas  descritas
anteriormente em todas as atividades de tratamento.

ADAPTAÇÕES  DA  TAREFA  OU  DO  AMBIENTE.  Para  minimizar  a  necessidade  de  prestar  atenção  ao  lado
esquerdo, foi sugerido que o ambiente seja reorganizado de modo que objetos­chave (p. ex., telefone, botão para
chamar a enfermeira) estejam no lado não afetado. Entretanto, um estudo conduzido por Kelly e Ostreicher (1985)
não  encontrou  diferença  significativa  no  resultado  funcional  em  clientes  cujos  quartos  hospitalares  foram
reorganizados  dessa  maneira.  Lennon  (1994)  descreveu  o  uso  exitoso  de  grandes  marcas  de  papel  colorido  nas
bordas das mesas, quinas e em qualquer outro lugar para evitar colisão dos clientes com negligência unilateral. O
cliente foi treinado a procurar esses marcadores. Os marcadores foram gradativamente retirados. O desempenho
melhorou  e  foi  mantido  com  a  remoção  dos  marcadores,  porém  os  efeitos  não  se  generalizaram  para  outros
ambientes.  Calvanio,  Levine  e  Petrone  (1993)  descreveram  o  uso  de  um  prato  adaptado  para  aumentar  as
habilidades de alimentação de um cliente com caso severo de negligência esquerda e hemianopsia esquerda densa.
O  prato  foi  montado  sobre  uma  bandeja  giratória  de  modo  que  ele  pudesse  ser  girado.  À  medida  que  o  cliente
puxava  a  comida  com  o  garfo,  o  prato  rodava  e  toda  a  comida  acabava  entrando  no  campo  de  visão,  com  isso
eliminando a necessidade de busca para a esquerda. Outras adaptações ambientais incluem a colocação de uma fita
vermelha  nos  freios  da  cadeira  de  rodas  do  cliente  ou  a  colocação  de  objetos  coloridos  brilhantes  como
guardanapo ou xícara do lado esquerdo (Golisz, 1998).

Processamento Visual
A  percepção  visual  é  considerada  um  continuum  do  processamento  de  informações  que  envolve  a  recepção,  a
organização e a assimilação da informação visual. Em um lado do continuum, a  tarefa de  processamento visual
simples,  como  combinar  formas  ou  objetos,  ocorre  rápida  e  automaticamente,  com  esforço  mínimo.  No  lado
oposto  do  continuum,  as  tarefas  visuais  complexas,  que  incluem  estímulos  não  familiares  ou  diferenças  sutis
dentro  de  conjuntos  visualmente  confusos,  exigem  o  processamento  mais  lento  e  com  maior  esforço.  Nessa
condição,  a  disfunção  do  processamento  visual  é  definida  como  uma  diminuição  da  quantidade  que  o  sistema
visual  é  capaz  de  assimilar  de  uma  só  vez  (Toglia,  1989).  Para  compreendermos  as  habilidades  de  percepção
visual do cliente e os efeitos dos comprometimentos sobre a função, precisamos analisar as condições da atividade
(complexidade,  volume,  familiaridade  e  previsibilidade)  em  vez  do  tipo  de  atividade  (visual,  espacial,
discriminação visual, motor visual ou comportamento visual).
Problemas  no  processamento  visual  simples  incluem  dificuldade  de  discriminação  entre  objetos,  figuras  de
objetos e formas básicas; dificuldade para detectar diferenças grosseiras de tamanho, posição, direção, ângulos e
rotações;  menor  capacidade  de  localizar  visualmente  alvos  visuais  únicos  no  espaço  ou  calcular  a  distância
aproximada entre dois objetos; e menor capacidade de detectar relações simples entre as partes e o todo de objetos
ou  formas  básicas.  A  pessoa  pode  ter  dificuldades  em  atividades  familiares  e  rotineiras  e  pode  facilmente
interpretar  de  maneira  errada  ou  identificar  erroneamente  os  objetos.  A  falha  em  reconhecer  um  objeto  é
denominada agnosia visual. Toglia (1989) propôs que rótulos como agnosia visual são muito amplos para fins de
tratamento  porque  existem  muitas  razões  diferentes  para  as  dificuldades  de  reconhecimento  de  objetos.  Por
exemplo, uma pessoa poderia não compreender uma característica fundamental de um objeto ou a parte do objeto
que demonstra o que ele é (p. ex., pontas de um garfo). A atenção poderia ser captada por aspectos destacados,
porém irrelevantes do objeto (p. ex., o cabo decorado de um talher). Poderia haver uma incapacidade de processar
a forma geral e os detalhes simultaneamente, de modo que a pessoa poderia não perceber detalhes importantes.
Habilidades  de  processamento  visual  complexo  são  necessárias  em  ambientes  visualmente  confusos;  quando
existem informações visuais abstratas, não familiares ou detalhadas, ou em condições sob as quais características
visuais distintas estão parcialmente obscurecidas (p. ex., o objeto está rodado e parcialmente escondido em uma
bancada  repleta  de  coisas).  A  disfunção  das  habilidades  complexas  de  percepção  visual  pode  incluir  a  menor
capacidade de detectar diferenças sutis em formas abstratas e objetos ou ângulos, tamanho, distância e posição. O
cliente  pode  ter  dificuldade  para  compreender  estímulos  visuais  ambíguos,  incompletos,  fragmentados  ou
distorcidos.  O  cliente  poderia  interpretar  de  maneira  errada  um  objeto  caso  este  estivesse  em  uma  posição  não
habitual  ou  parcialmente  oculto.  A  pessoa  poderia  experimentar  maior  dificuldade  em  ambientes  visualmente
confusos ou repletos de objetos. Tarefas funcionais como encontrar objetos em um armário, gaveta, escrivaninha
ou  prateleira  de  supermercado  repleta  e  localizar  informações­chave  em  uma  conta,  mapa  ou  agenda  poderiam
representar dificuldades. Nessas tarefas, a pessoa poderia interpretar mal as informações, perder detalhes visuais
essenciais ou ser desviada por estímulos visuais irrelevantes.

Habilidades Motoras Visuais
As habilidades motoras visuais incluem as tarefas de desenho (p. ex., desenhar um mapa, copiar um desenho) ou a
construção de figuras tridimensionais (p. ex., montar a cafeteira). Os clientes podem demonstrar dificuldade nas
tarefas motoras visuais por muitas razões. Por exemplo, o cliente pode ter dificuldade para construir um modelo
com  blocos  por  causa  da  pouca  capacidade  de  examinar  o  modelo  completo,  das  poucas  habilidades  de
planejamento  e  organização,  da  negligência  unilateral  ou  do  comprometimento  da  discriminação  de  tamanho,
ângulos  e  rotações.  O  termo  apraxia  construcional  é  utilizado  para  descrever  a  dificuldade  com  desenhos  ou
tarefas  de  montagem  que  não  possa  ser  atribuída  a  comprometimento  motor  ou  sensorial  primário,  apraxia
ideomotora  ou  comprometimentos  cognitivos  gerais  (Farah,  2003).  As  habilidades  construcionais  estão
intimamente  relacionadas  ao  desempenho  das  AVD  (Neistadt,  1992a;  Warren,  1981).  Os  clientes  podem  ter
dificuldade  para  se  vestir  (apraxia  do  vestir),  colocar  as  roupas  corretamente  em  um  cabide  ou  montar  um
sanduíche ou a cafeteira. Pessoas com lesões parietais no hemisfério esquerdo tendem a omitir peças individuais
ou  detalhes  nas  tarefas  construcionais,  enquanto  aquelas  com  lesões  no  hemisfério  direito  demonstram
desorganização  espacial  das  peças  e  perdem  o  conjunto  geral  (Kramer,  Kaplan  &  Blusewicz,  1991).  A  apraxia
construcional  não  é  uma  síndrome  isolada.  Os  comprometimentos  em  diferentes  tipos  de  processamento
perceptual ou de relações espaciais parecem ser subjacentes à apraxia construcional tanto em lesões do hemisfério
direito como do esquerdo (Laeng, 2006).

Avaliação
A  avaliação  de  pessoas  com  comprometimentos  da  percepção  visual  necessita  examinar  habilidades  visuais
básicas,  capacidades  visuais  sem  uma  resposta  motora  e  habilidades  motoras  visuais.  As  habilidades  visuais
básicas, incluindo acuidade visual, habilidades oculomotoras e campos visuais, devem ser avaliadas antes de uma
avaliação  do  processamento  visual  para  pesquisa  de  problemas  visuais  que  interferiram  na  precisão  do  teste  de
percepção  (Cate  &  Richards,  2000).  Várias  observações  clínicas  durante  tarefas  funcionais  podem  alertar  os
terapeutas  ocupacionais  para  a  necessidade  de  uma  avaliação  visual  formal:  movimentos  compensatórios  e
inclinação da cabeça, estrabismo, fechamento de um dos olhos ou tendência à perda da linha durante a leitura. Um
exame  básico  pode  ser  realizado  pelo  terapeuta  ocupacional  (i.e., acuidade visual, amplitude de movimento dos
olhos,  alinhamento  ocular,  percepção  visual  ou  acompanhamento  suave  de  objetos  em  movimento,  movimentos
sacádicos ou oculares rápidos para colocar um objeto de interesse no campo de visão e funções de busca visual).
Qualquer  alteração  dessas  habilidades  fundamentais  afetará  a  interpretação  das  avaliações  do  processamento
visual de nível mais alto (Warren, 1993).
Avaliações não motoras padronizadas da percepção visual (veja Quadro 57.1) classificam a percepção visual em
habilidades  específicas,  como  figura­solo,  posição  no  espaço,  constância  da  forma,  relações  espaciais  e
reconhecimento visual. Adultos com lesões neurológicas podem ter dificuldade em realizar vários tipos de tarefas
de  processamento  visual  por  razões  semelhantes  (p.  ex.,  tendência  a  superfocalizar  partes,  tendência  a  perder
detalhes  visuais,  falha  em  prestar  atenção  simultaneamente  aos  detalhes  e  ao  todo).  Consequentemente,  Toglia
(1989)  recomenda  uma  abordagem  que  conceitue  o  processamento  visual  em  um  continuum  e  avalie  tanto  os
objetos  convencionais  como  os  não  convencionais  sob  uma  variedade  de  condições  de  atividade.  Em  uma
abordagem  dinâmica  da  percepção  visual,  o  terapeuta  sistematicamente  manipula  os  parâmetros  da  atividade  e
analisa as respostas às pistas para compreender por que um cliente tem dificuldade em discriminar com precisão
objetos ou estímulos visuais (Kline, 2000; Toglia, 1989; Toglia & Finkelstein, 1991). A avaliação da percepção
visual precisa examinar a resposta às atividades com e sem uma resposta motora para conhecer as diferenças de
desempenho. As habilidades motoras visuais são tipicamente avaliadas com modelos em blocos, quebra­cabeças
ou cópia de desenhos. O terapeuta precisa observar como a pessoa inicia e como ela prossegue. Por exemplo, o
cliente começa desenhando os detalhes em vez de atentar para a forma global da figura? Observações informais de
tarefas como copiar um trajeto no mapa, montar uma cafeteira ou um objeto de madeira, embrulhar um pacote,
embalar o lanche e colocá­lo em uma merendeira ou dobrar roupas podem fornecer informações adicionais sobre
as capacidades motoras visuais (Fig. 57.2). Os sintomas podem incluir desvios angulares; inadequação de posição,
localização, afastamento ou alinhamento de partes; e distorções espaciais. A capacidade do cliente de reconhecer e
corrigir erros no alinhamento ou na posição deve ser investigada. Por exemplo, alguns clientes não reconhecem
erros espaciais visuais mesmo quando a atenção é direcionada para a área do problema, enquanto outros clientes
reconhecem os erros, mas não são capazes de corrigi­los.

Fig. 57.2 A organização das peças de um conjunto de chaves de encaixe exige a percepção de tamanho e forma,
bem como habilidades organizacionais.

Tratamento
As técnicas podem tratar as habilidades visuais básicas ou habilidades de processamento visual com ou sem uma
resposta motora.

HABILIDADES  VISUAIS  BÁSICAS.  O  tratamento  das  habilidades  visuais  básicas,  como  acuidade  visual  e
sensibilidade ao contraste, habilidades oculomotoras e campos visuais, geralmente envolve adaptações, como uso
de materiais de leitura com letras grandes, lentes de aumento, dispositivos para conversação, aumento do contraste
de  margens,  bordas  ou  fundo  e  modificações  na  iluminação.  Entretanto,  exercícios  de  remediação  podem  estar
recomendados para pessoas com déficits oculomotores ou de campo visual. Por exemplo, exercícios oculares de
amplitude do movimento para o músculo afetado foram defendidos para indivíduos com paresia da musculatura
ocular.  A  oclusão  do  campo  visual  intacto  com  uma  venda  é  utilizada  para  forçar  o  uso  do  campo  visual
comprometido (Warren, 1993).
TREINAMENTO  DE  ESTRATÉGIAS.  As  estratégias  que  maximizam  a  habilidade  do  cliente  em  processar  a
informação visual podem ser treinadas durante as atividades cotidianas que envolvem a escolha entre objetos com
forma  e  tamanho  similares  (p.  ex.,  combinar  meias,  separar  colheres  de  chá  e  colheres  de  sopa);  localizar
informações  em  prospectos  de  supermercado,  calendários,  mapas  ou  agendas;  obter  informações  em  grades  ou
planilhas; copiar padrões em atividades artísticas e artesanais; ou encontrar informações em desenhos, prateleiras,
mesas ou quadros de aviso repletos de objetos.
As estratégias podem incluir a compreensão do todo antes de olhar para as partes; ensinar a pessoa a fracionar o
espaço  antes  de  localizar  detalhes;  utilizar  o  dedo  da  pessoa  para  examinar  e  acompanhar  estímulos  visuais  ou
focar detalhes; cobrir ou bloquear os estímulos visuais quando houver muita informação de uma só vez; verbalizar
características  visuais  em  destaque  ou  diferenças  sutis;  e  visualizar  mentalmente  um  objeto  específico  antes  de
procurar  por  ele  (Toglia,  1989,  1998).  O  tratamento  envolve  a  manipulação  cuidadosa  dos  parâmetros  da
atividade.  Atividades  que  envolvam  objetos  ou  contextos  familiares,  alto  contraste  (p.  ex.,  meias  vermelhas  e
meias  brancas),  características  distintas,  pequenos  detalhes  e  cores  sólidas  ou  fundos  exigem  menos  atenção,
esforço e análise visual do que as atividades que envolvem a escolha entre objetos que tenham baixo contraste (p.
ex., meias bege­claro e meias brancas), estejam em posição não habitual, inseridos em fundos visuais confusos ou
que  gerem  distração  ou  estejam  parcialmente  obscurecidos.  As  modificações  na  familiaridade,  no  número  de
objetos e na quantidade de detalhes podem impor maiores demandas sobre o processamento visual. Além disso, a
mediação verbal, incluindo a repetição de uma lista de instruções passo a passo durante uma atividade funcional
como vestir­se, aumenta as forças da capacidade verbal e pode ser efetiva para facilitar o desempenho funcional
(Sunderland, Walker & Walker, 2006).

ADAPTAÇÃO DA TAREFA OU DO AMBIENTE. A principal orientação para minimizar os efeitos das dificuldades
de percepção visual é destacar as características típicas dos objetos com o uso de pistas coloridas. Um exemplo é a
colocação de fita adesiva colorida em botões para ligar eletrodomésticos ou utilizar pistas coloridas evidentes em
objetos  para  facilitar  sua  localização  e  identificação  (p.  ex.,  fita  adesiva  rosa  brilhante  em  um  frasco  de
medicamento). Pistas como marcas coloridas ou fitas adesivas coloridas em pontos de referência espacial (p. ex.,
gravador, suporte para os pés na cadeira de rodas ou etiqueta de uma camisa) reduzem as demandas espaciais e
tornam  mais  fácil  orientar  e  alinhar  as  partes  de  um  item.  Estímulos  visuais  como  os  objetos  grandes  em  uma
prateleira  ou  frases  em  uma  página  que  estejam  organizados  e  com  grandes  espaços  entre  si  são  mais  fáceis  de
perceber.  Locais  consistentes  para  os  objetos  no  refrigerador,  no  armário  ou  na  gaveta  ou  em  uma  bancada
aumentam a previsibilidade e fornecem pistas contextuais para o reconhecimento. Familiares e amigos devem ser
instruídos  a  diminuir  as  distrações  visuais  do  ambiente  ou  em  uma  tarefa,  limitando  desenhos  e  padrões  e
utilizando cores sólidas com alto contraste. Padrões, desenhos e artigos de decoração tornam difícil selecionar e
reconhecer  características  fundamentais  de  um  objeto.  Os  familiares  também  devem  ser  treinados  para  fornecer
apenas uma pequena quantidade de informação visual por vez.

Planejamento Motor
O planejamento motor, ou praxia, é a capacidade de executar atividades aprendidas e propositadas. A apraxia é
definida  como  um  distúrbio  do  movimento  habilidoso  que  não  pode  ser  adequadamente  explicado  por
comprometimentos motores ou sensoriais primários, problemas espaciais visuais, dificuldades de compreensão da
linguagem  ou  problemas  cognitivos  isoladamente  (Heilman  &  Rothi,  2003).  Lesão  em  áreas  de  associação  do
cérebro  (que  afetam  aspectos  cognitivos  do  controle  motor)  parece  ser  a  causa  da  apraxia  (Kertesz,  1982).  A
apraxia  pode  ser  observada  após  acidentes  vasculares  em  qualquer  um  dos  hemisférios,  embora  ela  seja  mais
comumente  encontrada  em  clientes  que  sofreram  lesão  no  hemisfério  esquerdo.  A  afasia  está  frequentemente
associada à apraxia, uma vez que o hemisfério esquerdo também é dominante para a linguagem (Heilman & Rothi,
2003). Pessoas com apraxia podem melhorar o desempenho do movimento habilidoso ao longo do tempo (Basso,
Burgio,  Paulin  &  Prandoni,  2000);  entretanto,  muitas  vezes,  elas  continuam  a  ter  limitações  funcionais
significativas tanto no aprendizado de novas tarefas motoras do tipo amarrar o sapato com uma só mão (Poole,
1998) como no desempenho de atos motores para comando ou demonstração verbal (Poole, 2000).
Roy  (1978)  identifica  dois  subsistemas  principais  na  apraxia:  o  subsistema  conceitual  e  o  de  produção.  Os
sintomas  da  apraxia  podem  refletir  distúrbios  em  um  ou  ambos  os  subsistemas.  O  aspecto  produção  do
planejamento  motor,  tradicionalmente  denominado  apraxia  ideomotora,  envolve  formulação  do  plano  de  ação,
sequenciamento e organização dos elementos apropriados e a ativação do plano (p. ex., alcançar um copo d’água
para beber). A maior dificuldade é observada quando o cliente é solicitado a fingir que utiliza a ferramenta ou o
objeto ou a realizar gestos com o membro. Alguma melhora pode ser observada quando o cliente é solicitado a
imitar  o  movimento  ou  realizar  o  movimento  com  o  objeto  real,  porém  o  movimento  ainda  é  impreciso.  Os
clientes  sabem  o  que  eles  querem  fazer,  porém  as  ações  são  realizadas  de  uma  maneira  estranha,  ineficiente  ou
desajeitada. Erros de preservação, sequenciamento ou omissões podem ser observados.
O  aspecto  conceitual  do  planejamento  motor  (Roy,  1978)  inclui  o  conhecimento  sobre  as  propriedades
funcionais de um objeto, a ação do objeto e a sequência de ação. Erros conceituais, tradicionalmente denominados
apraxia ideacional,  envolvem  a  função  do  objeto,  o  conhecimento  da  ação  e  o  conhecimento  da  sequência.  Os
clientes podem ser capazes de identificar e combinar corretamente os objetos, porém o uso inapropriado de objetos
é  frequentemente  observado.  Por  exemplo,  o  cliente  poderia  tentar  escovar  o  cabelo  com  uma  escova  de  dente.
Embora o reconhecimento do objeto possa estar intacto, a pessoa pode não ser capaz de associar o objeto ao plano
de ação correto.
A apraxia para vestir e a apraxia construcional são outros subtipos de apraxia, previamente descritos na seção
sobre processamento visual. Os rótulos tradicionais de apraxia têm pouca abrangência e não representam a ampla
variedade de habilidades que está por trás do planejamento motor e das capacidades de construção.

Avaliação
A definição clássica de apraxia inclui problemas de planejamento motor que não podem ser creditados à fraqueza,
ao  aumento  do  tônus  muscular,  à  incoordenação,  à  perda  sensorial  ou  a  outros  comprometimentos  cognitivo­
perceptuais. O profissional precisa analisar as razões subjacentes para as dificuldades de desempenho em vez de
tentar  classificar  os  clientes  nas  categorias  tradicionais.  Na  prática  clínica,  a  maioria  dos  clientes  apresenta
dificuldades  associadas  que  contribuem  para  a  dificuldade  no  planejamento  motor.  Informações  sobre  as
habilidades  de  linguagem  do  cliente  precisam  ser  obtidas  com  o  fonoaudiólogo  ou  investigadas  com  o  teste  da
compreensão  “sim”  ou  “não”  e  a  capacidade  de  obedecer  a  comandos  de  única  etapa,  já  que  apraxia  e  afasia
frequentemente coexistem.
Na  avaliação  da  apraxia,  tipicamente,  o  profissional  observa  o  desempenho  do  cliente  em  diferentes  tipos  de
movimentos,  verificando  o  método  de  evocação  (p.  ex.,  comando,  imitação  ou  uso  do  objeto)  e  o  tipo  de  erro
cometido (Haaland, 1993). As avaliações para apraxia são apresentadas na Tabela 57.1. O método observacional
para  avaliar  a  apraxia  nas  atividades  de  vida  diária,  adaptado  da  Avaliação  Neurocomportamental  em  TO  de
Arnadottir (OT Neurobehavioral Evaluation) — (A­ONE), foi validado para pessoas com acidente vascular (van
Heugten et al., 2000).
Uma abordagem dinâmica de avaliação tenta identificar as condições da atividade em que surgem os sintomas
de  apraxia  do  membro,  a  resposta  do  cliente  às  pistas  e  a  conscientização  do  cliente  sobre  seu  desempenho  na
atividade (Toglia, 1998).

Tratamento
Os tratamentos para controle dos déficits de planejamento motor podem enfatizar o aspecto produção ou o aspecto
conceitual do planejamento motor (Roy, 1985). Técnicas que abordam a orientação de um objeto ou membro no
espaço ou o tempo, a sequência e a organização dos elementos motores visam estimular o aspecto produção do
planejamento  motor.  Por  exemplo,  o  profissional  poderia  fornecer  contato  físico  (i.e.,  ajuda  mão­sobre­mão  ou
toque  leve)  para  limitar  movimentos  inadequados  ou  estranhos  enquanto  simultaneamente  utiliza  métodos  de
orientação para facilitar um padrão motor suave ou para orientar a manipulação de objetos. Por meio da prática
repetida em diferentes tarefas, o cliente começa a aprender os padrões de movimento considerados “corretos”, e o
profissional gradativamente retira a ajuda. O estímulo proprioceptivo e o contato profundos têm um efeito inibidor
sobre as pessoas normais, enquanto o toque suave tende a ter um efeito facilitador (Farber, 1993).
As  tarefas  familiares  realizadas  no  contexto  são  mais  fáceis  para  as  pessoas  com  distúrbios  do  planejamento
motor porque o contexto fornece pistas que facilitam a ação desejada (Ferguson & Trombly, 1997). Os tratamentos
podem  ser  graduados  pela  introdução  paulatina  de  atividades  e  ambientes  com  menos  estabilidade  e
previsibilidade, como desviar de obstáculos em uma loja cheia.
O tratamento que aborda o aspecto conceitual do planejamento motor facilita a compreensão do cliente sobre
como  o  objeto  é  utilizado  e  como  um  gesto  é  realizado  (Helm­Estabrooks,  1982;  Pilgrim  &  Humphreys,  1994;
Smania, Girardi, Domenicalli, Lora & Aglioti, 2000).

TREINAMENTO  DE  ESTRATÉGIAS.  Os  clientes  podem  aprender  a  utilizar  pistas  verbais,  visuais  ou  táteis  para
melhorar o movimento. Por exemplo, antes de realizar uma atividade, o cliente poderia mentalmente praticar ou
imaginar o desempenho da tarefa ou poderia imaginar como o objeto pareceria em sua mão mesmo antes de pegá­
lo. Padrões incorretos de movimento, como segurar um objeto da maneira errada, também podem ser visualizados,
enfatizando­se  que  o  cliente  pratique  mentalmente  a  correção  do  movimento.  Orientar  o  cliente  com  uma
sequência  de  ações  ou  utilizar  listas  de  verificação  passo  a  passo  ou  ilustrações  pode  ser  útil  para  facilitar  o
desempenho  funcional  em  tarefas  como  beber  em  uma  xícara  (Butler,  1999).  A  pessoa  pode  aprender  a  ensaiar
verbalmente  a  sequência  de  ação  ou  associar  o  movimento  a  uma  rima,  um  ritmo  ou  um  som  musical  com
descontinuação gradativa da verbalização. Estratégias de automonitoramento podem ser utilizadas para ensinar o
cliente  a  monitorar  uma  cocontração  desnecessária,  ações  incompletas  ou  dificuldade  para  mudar  a  direção  dos
movimentos.  Estudos  preliminares  indicam  que  o  treinamento  de  estratégias  é  efetivo  para  melhorar  a  função
cotidiana (Donkervoort, Dekker, Stehmann­Saris & Deelman, 2001; Geusgens et al., 2006). Por exemplo, em um
estudo randomizado, mudanças nas atividades de vida diária não treinadas foram maiores em um grupo de pessoas
com  acidente  vascular  que  receberam  treinamento  de  estratégias  em  comparação  com  aqueles  que  receberam
terapia  ocupacional  tradicional.  Isso  sugere  que  as  estratégias  generalizaram­se  para  as  atividades  cotidianas
(Geusgens et al., 2006).

ADAPTAÇÃO DA TAREFA OU DO AMBIENTE. As adaptações simples para objetos que desviam a atenção para as
características críticas do objeto ou da atividade podem facilitar a ação e o planejamento motor (p. ex., fita adesiva
colorida  no  cabo  da  faca  ou  da  escova  de  dente).  Padrões  e  desenhos  em  utensílios  e  roupas  podem  desviar  a
atenção para o detalhe errado e resultar em uma resposta motora inadequada.
O uso de ferramentas deve ser minimizado (Poole, 2000), e equipamento adaptado deve ser selecionado com
cautela  para  o  cliente  apráxico.  Por  exemplo,  algumas  adaptações,  como  ganchos  para  fechar  roupas,  amarrar
sapato com uma só mão ou uma cadeira de rodas para dirigir com um só braço, poderiam confundir o cliente com
apraxia e impor maiores demandas sobre as capacidades de planejamento motor. Outras adaptações, como fechos
adaptados de roupas, podem simplificar a tarefa ou o padrão motor necessário para manipular ou segurar objetos,
reduzir o número de etapas e facilitar a função no cliente com apraxia.
Outras  adaptações  incluem  treinamento  do  cuidador  para  modificar  instruções  de  modo  que  a  atividade  seja
fracionada em um comando de cada vez (Unsworth, 2007). Comandos simples (p. ex., “Levante”) podem colocar
a atividade em um nível automático e efetivamente estimular o planejamento motor (Zoltan, 1996).

Memória
A memória nos dá  a  capacidade  de  nos  basearmos  em  experiências  passadas  e aprendermos novas informações
(Toglia, 1993a). Isto nos dá um sentido de continuidade no ambiente e nos liberta da dependência em situações de
momento. A memória é conceituada como um processo de múltiplas etapas que envolve codificação (i.e., entrada
de informações), armazenamento (i.e., guarda de informações) e recuperação (i.e., obtenção de informação) (Levy,
2005b). Existem diferentes tipos de memória. A memória de trabalho consiste no armazenamento temporário da
informação  enquanto  o  indivíduo  está  trabalhando  ou  atento  a  ela.  Esta  inclui  a  capacidade  de  recuperar
informações  imediatamente  após  a  exposição.  Ela  permite  que  a  pessoa  concentre  a  atenção  consciente  e
acompanhe  a  informação  conforme  realiza  uma  atividade.  A  memória  declarativa  é  um  aspecto  da  memória  de
longo prazo e inclui a memória consciente para eventos, conhecimento ou fatos. A memória de procedimento (não
declarativa)  envolve  a  capacidade  de  realizar  uma  atividade  ou  um  procedimento  sem  a  atenção  consciente.  A
memória prospectiva envolve a capacidade de lembrar de intenções ou atividades que serão necessárias no futuro
(Levy, 2005b).

Avaliação
É  importante  distinguir  se  os  problemas  cotidianos  de  memória  são  devidos  a  falhas  em  lembrar  de  eventos  ou
conversas passadas ou em realizar atividades futuras (p. ex., memória prospectiva). Uma avaliação abrangente da
memória,  seja  estática  ou  dinâmica,  precisa  abordar  os  diferentes  tipos  de  memória  e  métodos  de  recuperação
(Tabela  57.1).  As  avaliações  precisam  considerar  fatores  como  o  modo  pelo  qual  a  informação  é  apresentada
(auditiva  ou  visual),  o  tipo  de  instrução  (geral  ou  específica),  a  quantidade  de  estímulo  apresentado,  a
familiaridade e o significado da informação, a presença de pistas contextuais durante as fases de lembrança, o tipo
de informação a ser lembrada (factual ou relacionada à habilidade) e a duração da retenção. A avaliação dinâmica
da memória, como o Teste da Memória Contextual de Toglia (1993b), avalia a consciência quanto às capacidades
da memória e o uso das estratégias.

Tratamento
Os  comprometimentos  da  memória  podem  estar  intimamente  relacionados  com  outros  comprometimentos
cognitivos, particularmente da atenção. Alguns pesquisadores sugeriram que uma abordagem indireta que trate de
outras  habilidades  cognitivas,  como  a  atenção  ou  a  organização,  em  vez  da  memória,  pode  ser  efetiva.  Por
exemplo,  Sohlberg  e  Mateer  (1989a)  relataram  melhora  na  função  da  memória  após  treinamento  da  atenção.
Tratamentos para os comprometimentos da memória incluem o treinamento de estratégias para memória, auxílios
e  dispositivos  externos  e  adaptações,  bem  como  as  técnicas  de  aprendizado  sem  erros,  pistas  decrescentes  e
recuperação espaçada que foram discutidas anteriormente neste capítulo.

TREINAMENTO DE ESTRATÉGIAS.  O  treinamento  de  estratégias  internas  para  memória  é  mais  apropriado  para
pessoas com déficits leves de memória ou para aquelas em que outras áreas da cognição estão intactas (Cicerone
et al., 2000, 2005). O cliente pratica uma ou duas estratégias de memória desejadas em diferentes tarefas, como
lembrar de números de telefone, manchetes de jornais, uma sequência aleatória de números, itens que precisam ser
comprados  em  uma  loja  ou  instruções  para  uma  atividade.  Durante  a  prática  de  diferentes  tarefas  de  memória,
várias técnicas de treinamento da conscientização também podem ser utilizadas. As estratégias de memória podem
ser  direcionadas  principalmente  para  operações  de  codificação  (i.e.,  obter  informações)  ou  para  a  fase  de
recuperação  da  memória  (i.e.,  buscar  a  informação  na  memória).  As  estratégias  de  codificação  incluem  as
seguintes:
Reunir ou agrupar itens similares
O método da história ou relacionar uma série de fatos ou eventos em uma história
Ensaiar ou repetir informação várias vezes silenciosamente
Rimar ou se lembrar de um fato fazendo uma rima com ele
Imagens visuais

As estratégias de recuperação incluem as seguintes:
Busca alfabética ou ir letra a letra para encontrar a primeira letra do item esquecido
Repetir seus passos para encontrar um objeto perdido ou se lembrar de um evento
Pensar na informação associada como pista de lembrança de um novo fato ou evento
Autogeração  de  palavras,  conceitos  ou  itens  para  melhorar  o  aprendizado  e  a  memória  (Chiaravalloti  &
DeLuca, 2002)

ESTRATÉGIAS  E  AUXÍLIOS  EXTERNOS  PARA  MEMÓRIA.  Os  auxílios  externos,  como  caderno  de  notas,
gravadores e computadores, armazenam as informações que a pessoa poderia ter dificuldades em lembrar. Outros
dispositivos,  como  processadores  de  texto  ou  alarmes,  servem  para  lembrar  uma  pessoa  de  realizar  uma  ação
(memória prospectiva) (Toglia, 1993a). O sucesso de um programa de tratamento que utilizou uma combinação de
auxílios  e  estratégias  externas  com  treinamento  da  conscientização  para  melhorar  a  memória  prospectiva  foi
recentemente descrito por Fleming, Shum, Strong e Lightbody (2005). Os auxílios externos para memória incluem
os seguintes: alarmes, gravadores, dispositivos com alarmes pré­programados ou mensagens de alerta, dispositivos
eletrônicos  como  processadores  de  texto,  telefones  celulares,  minicomputadores,  computadores  portáteis,  caixas
organizadoras de comprimidos, listas, agendas e cadernos de notas (Fig. 57.3). Os estudos de caso documentaram
a efetividade dos auxílios externos (McKerracher, Powell & Oyebode, 2005; Wade & Troy, 2001; Wilson, Emslie,
Quirk & Evans, 2001). O tratamento é mais efetivo quando o cliente está motivado, envolvido na identificação do
problema de memória e bastante independente na função cotidiana (Cicerone et al., 2000, 2005).
Evidências obtidas de estudos de caso apoiam o uso de cadernos de anotações ou outros auxílios externos para a
memória na redução das falhas cotidianas da memória para pessoas com comprometimentos moderados a severos
da  memória  (Cicerone  et al.,  2000,  2005;  McKerracher  et al.,  2005;  Wade  &  Troy,  2001;  Wilson  et  al.,  2001).
Entretanto,  o  uso  exitoso  de  um  auxílio  externo  para  a  memória  pode  necessitar  de  treinamento  prolongado.  O
cliente pode precisar praticar o início e o uso do dispositivo em diferentes situações.
Fig. 57.3 Uso de uma lista de roupas e outros itens para ajudar o cliente com comprometimentos de memória e de
funções executivas a arrumar a mala.

O uso de auxílios externos pode necessitar ser gradativo. Nos estágios iniciais, espera­se que o cliente utilize a
ajuda apenas quando ela é iniciada por outra pessoa. Gradativamente, o cliente pode ser treinado para iniciar o uso
do auxílio de modo independente. O aprendizado sem erros, a recuperação espaçada e outros métodos específicos
de  treinamentos  da  tarefa  que  estimulam  a  memória  de  procedimento  podem  ser  utilizados  no  treinamento  de
clientes com comprometimentos de memória moderados ou severos para o uso de um auxílio externo.
A  estratégia  externa  de  memória  mais  comumente  utilizada  é  o  caderno  de  notas.  O  caderno  de  notas  para
memória precisa ser organizado tendo­se as necessidades e o estilo de vida da pessoa em mente (McKerracher et
al., 2005). Exemplos de seções de um caderno de notas de memória são: fatos pessoais, nomes de pessoas para
lembrar,  calendário  e  agenda,  coisas  a  fazer/eventos  importantes  (diariamente,  na  próxima  semana),  relatório
diário de eventos importantes, conversas, resumo de leituras (artigos, jornal), esquema de medicação e caminhos
para lugares que a pessoa vá com frequência. Inicialmente, o caderno de notas deve começar com uma ou duas
seções e gradativamente aumentar.
O  treinamento  do  caderno  de  notas  para  memória  precisa  ocorrer  no  contexto  de  diferentes  atividades
cotidianas. As sessões terapêuticas devem incluir o desempenho em pa péis e a prática no uso do caderno de notas.
Além  disso,  o  cliente  pode  ser  perguntado  sobre  o  que  envolve  a  revisão  e  a  releitura  do  caderno  de  notas  de
memória.  Os  protocolos  específicos  de  treinamentos  para  o  caderno  de  notas  de  memória  estão  descritos  na
literatura (Donaghy & Williams 1998; Sohlberg & Mateer, 2001).

ADAPTAÇÕES DA TAREFA OU DO AMBIENTE. As tarefas e os ambientes podem ser reorganizados de modo que
imponham menos demandas sobre a memória:
Cartões com pistas ou sinais em locais­chave (p. ex., um sinal na porta que possa ser lido antes de sair: “Leve
as chaves e...”)
Rotular a parte externa das gavetas ou armários para minimizar a necessidade de lembrar o local dos objetos
Providenciar orientações passo a passo para reduzir as demandas de memória
Providenciar listas de verificação para ajudar a acompanhar as etapas da tarefa

Os familiares podem ser treinados para utilizar métodos que aumentem a probabilidade de o cliente se lembrar
do  material,  como  pedir  a  ele  que  repita  quaisquer  instruções  ou  informações  importantes  com  suas  próprias
palavras; encorajar o cliente a fazer perguntas; e apresentar o material em pequenos grupos ou categorias (Levy,
2005a).

Funções Executivas, Organização e Solução de Problemas
As funções executivas são uma faixa ampla de habilidades de desempenho que permitem que uma pessoa assuma
um  comportamento  independente,  propositado  e  autodirecionado.  Habilidades  cognitivas  de  níveis  mais  altos,
incluindo o planejamento, a flexibilidade cognitiva, a organização, a solução de problemas e a autorregulação, são
componentes  fundamentais  da  função  executiva  (Katz  &  Hartman­Maeir,  2005).  Lezak  e  colegas  (2004)
identificam  quatro  componentes  primários  das  funções  executivas:  vontade,  planejamento,  ação  propositada  e
conscientização  e  automonitoramento.  Os  comprometimentos  estão  associados  à  lesão  pré­frontal  e  podem  ser
observados  em  todos  esses  componentes,  com  uma  ou  duas  áreas  de  comprometimento  especialmente
proeminentes (Lezak et al., 2004). Vontade é a capacidade de formular uma intenção ou um objetivo e de iniciar
uma  ação.  O  planejamento  envolve  a  capacidade  de  organizar  eficientemente  as  etapas  ou  os  elementos  de  um
comportamento ou uma atividade e inclui a capacidade de olhar à frente, prever consequências, ponderar e fazer
escolhas, conceber alternativas, manter a atenção e sequenciar a atividade. A ação propositada é a tradução de uma
intenção em atividade, necessitando da capacidade de iniciar, trocar e interromper sequências (flexibilidade), bem
como  da  autorregulação.  A  autorregulação  envolve  a  capacidade  de  monitorar,  autocorrigir  e  avaliar  o
desempenho.
Os  comprometimentos  das  funções  executivas  influenciam  significativamente  a  participação  social,  as
atividades diárias e os resultados funcionais (Goverover, 2002, 2004; Reeder, Newton, Frangou & Wykes, 2004).
Clientes  que  exibem  disfunção  executiva  podem  ser  capazes  de  verbalizar  planos,  porém  têm  dificuldade  em
realizá­los. Frequentemente, ocorre uma dissociação entre intenções manifestadas e ações. Isso cria hiatos entre o
que  uma  pessoa  precisa  fazer  ou  quer  fazer  e  o  que  a  pessoa  realmente  faz  (Eriksson,  Tham  &  Borg,  2006).  A
diminuição  de  início,  flexibilidade,  impulsividade  ou  perseveração  pode  ser  observada  durante  o  desempenho.
Frequentemente, a abordagem do cliente é aleatória ou consiste em tentativa e erro, e existe menor capacidade de
manter ações direcionadas para o objetivo e de monitorar ou modificar comportamentos. Por exemplo, quando faz
compras  no  mercado,  o  cliente  poderia  proceder  de  uma  maneira  desorganizada,  não  utilizando  uma  lista  ou  as
placas das fileiras de prateleiras e voltar à mesma fileira várias vezes. O cliente pode ter dificuldade em decidir
sobre  itens  alternativos  apropriados,  comprar  itens  que  não  sejam  necessários  e  esquecer  itens  necessários
(Sohlberg & Mateer, 2001). Rempfer, Hamera, Brown e Cromwell (2003) verificaram que a precisão e a eficiência
em  fazer  compras  no  mercado  estavam  significativamente  associadas  às  medidas  das  funções  executivas  em
pessoas  com  esquizofrenia  crônica.  Além  disso,  as  limitações  na  capacidade  de  visualizar  informações  de
diferentes perspectivas, gerar soluções alternativas e responder de maneira flexível podem reduzir a capacidade de
enfrentamento, de adaptar­se às demandas cotidianas e de se relacionar com os outros.
Os comprometimentos das funções executivas representam um desafio distinto porque podem ser mascarados
com AVD ou rotinas familiares, porém são mais aparentes quando o cliente necessita realizar alguma função em
situações  menos  estruturadas,  que  exigem  a  execução  de  múltiplas  tarefas  ou  que  o  cliente  lide  com  situações
novas e inesperadas (Burgess et al., 2006; Katz & Hartman­Maeir, 2005). Exemplos de atividades que poderiam
representar dificuldades incluem seguir as instruções para um novo local, escolher e solicitar um presente de um
catálogo, organizar as atividades do dia, planejar um cardápio, almoçar, fazer piquenique, tirar férias ou frequentar
reuniões sociais; pesquisar e comparar preços para entrega de flores, despachar um pacote pelo correio ou comprar
um dispositivo eletrônico.

Avaliação
A maioria das medidas cognitivas padronizadas é estruturada e não examina adequadamente a área das funções
executivas  (Sohlberg  &  Mateer,  2001)  (veja  Tabela  57.1).  Diferentes  medidas  das  funções  executivas  foram
recentemente  desenvolvidas  (Bamdad,  Ryan  &  Warden,  2003;  Birnboim  &  Miller,  2004;  Wilson,  Alderman,
Burgess, Emslie & Evans, 1996). Embora essas avaliações pareçam mais “ecologicamente válidas” (i.e., capazes
de predizer o comportamento em situações cotidianas) do que as avaliações anteriores, são necessários mais dados
de pesquisa sobre confiabilidade e validade dessas ferramentas de medida.

Tratamento

TREINAMENTO DE ESTRATÉGIAS.  As  estratégias  que  maximizam  as  funções  executivas  podem  ser  praticadas
em uma variedade de tarefas estruturadas que exijam início, planejamento, organização e tomada de decisão, como
a organização da medicação de acordo com a prescrição, o planejamento de uma viagem à noite e a arrumação das
malas,  a  obtenção  e  organização  de  uma  lista  de  números  telefônicos  comerciais  locais  e  a  organização  de
ferramentas (Fig. 57.4).  A  mediação  verbal  foi  relatada  como  uma  estratégia  efetiva  em  melhorar  os  déficits  da
função executiva e da autorregulação. Por exemplo, Cicerone e Wood (1987) relataram o uso bem­sucedido de um
procedimento  de  autoinstrução  em  um  cliente  com  comprometimento  da  capacidade  de  planejamento  e  pouco
autocontrole secundário a uma lesão cerebral. O tratamento envolveu a solicitação para que o cliente verbalizasse
um plano de ação antes e durante a execução de uma tarefa. Gradativamente, o cliente foi instruído a sussurrar em
vez de falar alto. A generalização para situações da vida real foi observada após um longo período de tempo que
incluiu treinamento em automonitoramento.
Fig. 57.4 Uma lista de verificação ajuda este jovem cliente a assegurar que ele obtenha todas as informações
necessárias quando faz as ligações telefônicas.

O  treinamento  nas  estratégias  de  solução  de  problemas  envolve  ensinar  a  pessoa  a  fragmentar  atividades
complexas  em  etapas  menores  e  mais  gerenciáveis.  As  estratégias  também  podem  objetivar  ajudar  a  pessoa  a
manter  o  foco  em  objetivos  e  intenções  (Katz  &  Martman­Maeir,  2005).  Uma  revisão  baseada  em  evidência
(Cicerone et al., 2000, 2005) concluiu que existem evidências que apoiam o uso de treinamento formal de solução
de  problemas  com  aplicação  nas  atividades  cotidianas.  Os  autores  recomendaram  esse  treinamento  como  uma
orientação prática para pessoas com acidente vascular ou lesão cerebral durante reabilitação pós­aguda. O objetivo
do tratamento é substituir uma abordagem impulsiva e desorganizada por uma abordagem sistemática e controlada
para planejar atividade, manter intenções e objetivos e solucionar problemas. As etapas do processo de solução de
problemas  são  reforçadas  com  o  uso  de  técnicas  de  autoquestionamento.  Por  exemplo,  cartões  com  pistas  de
autoquestionamento  com  os  seguintes  tipos  de  perguntas  podem  ser  utilizados  durante  tarefas  de  solução  de
problemas: O que eu preciso fazer? Eu preciso de mais informações? O que eu devo fazer a seguir? Eu identifiquei
todas  as  informações  importantes?  Eu  compreendo  o  problema?  Quais  são  as  possíveis  soluções?  Eu  escolhi  a
melhor?
Listas amplas de verificação ou sistemas de orientação de tarefa são comumente utilizadas para ajudar o cliente
a iniciar, planejar e executar uma atividade sistematicamente. As listas de verificação podem ser específicas para
uma atividade particular (p. ex., seguir etapas para operar um programa de computador) ou podem ser abrangentes
de  modo  a  serem  utilizadas  em  várias  atividades  similares  (p.  ex.,  uma  lista  de  conferência  para  o  preparo  de
comida ou atividades culinárias).
Os tratamentos devem incorporar a prática de identificação de situações ou atividades em que o uso de uma lista
de verificação pode ser útil. O cliente pode ter a oportunidade de praticar a mesma atividade com e sem o uso de
uma lista de verificação para aumentar a conscientização. Inicialmente, o objetivo poderia ser o cliente seguir uma
lista  de  verificação  estabelecida  pelo  profissional  ou  familiar.  Por  fim,  o  cliente  poderia  receber  listas  de
verificação  em  que  faltam  etapas  e  ser  solicitado  a  revisar  as  listas  para  identificar  os  componentes  que  estão
faltando.  Finalmente,  o  cliente  poderia  ser  solicitado  a  criar  uma  lista  de  verificação  de  modo  independente.
Burke,  Zencius,  Wesolowskis  e  Doubleday  (1991)  descrevem  quatro  casos  de  pessoas  com  disfunção  executiva
com quem as listas de verificação foram utilizadas com sucesso para melhorar a capacidade de executar tarefas
profissionais rotineiras.
A  iniciação  diminuída,  uma  das  características  fundamentais  da  disfunção  cognitiva,  pode  interferir
significativamente  na  capacidade  de  utilizar  e  aplicar  uma  estratégia  aprendida.  Por  exemplo,  uma  pessoa  com
déficit nas funções executivas poderia utilizar efetivamente uma estratégia quando recebesse pistas, mas não usar
a estratégia espontaneamente pelo fato de não conseguir iniciar seu uso. Pistas externas, como sinais de alarme,
podem ser utilizadas para estimular o cliente a iniciar a tarefa, mudar para um componente diferente da tarefa ou
utilizar  uma  estratégia  específica  em  uma  atividade  (Evans,  Emslie  &  Wilson,  1998;  Manly,  Hawkins,  Evans,
Wodlt & Robertson, 2002).

ADAPTAÇÕES  DA  TAREFA  OU  DO  AMBIENTE.  As  adaptações  que  minimizem  as  demandas  sobre  as  funções
executivas incluem o treinamento de um familiar para pré­organizar uma atividade ou os materiais da atividade.
Por  exemplo,  todos  os  itens  necessários  para  que  a  pessoa  se  arrume  podem  ser  pré­organizados  sobre  a  pia  na
sequência  em  que  serão  utilizados.  Como  alternativa,  uma  etapa  da  tarefa  pode  ser  apresentada  por  vez.  Essas
adaptações limitam a necessidade de planejamento e organização (Sohlberg & Mateer, 2001).
Pessoas  que  têm  dificuldade  com  iniciação,  organização  e  tomada  de  decisão  exigem  estrutura.  Perguntas
abertas, como “O que eu quero comer”, precisam ser evitadas. Os clientes com dificuldade de iniciação terão uma
grande dificuldade em responder perguntas abertas. As perguntas devem fornecer um número limitado de opções,
sempre que possível.
Uma  rotina  diária  previsível  e  estruturada  aumenta  a  capacidade  do  cliente  de  iniciar  tarefas  e  deve  ser
estabelecida e monitorada por um familiar. Instruções com fita de áudio que dão pistas ao cliente para iniciar uma
atividade e realizar uma etapa de cada vez em sua sequência apropriada foram relatadas com sucesso no contexto
das rotinas diárias (Schwartz, 1995).

Literatura de Evidências e em Expansão sobre Comprometimentos da Função Executiva, de
Conscientização e Cognitivos Sutis

A o longo deste capítulo nós citamos revisões baseadas em evidências (Cappa et al., 1987, 2005; Cicerone et
al.,  2000,  2005)  e  estudos  que  apoiam  a  efetividade  de  tratamentos  destinados  a  abordar  diferentes
sintomas cognitivo­perceptuais. Nesta seção, nós destacamos as evidências em relação às funções executivas e
à conscientização. Nós também discutimos a literatura em expansão sobre comprometimentos cognitivos entre
diferentes populações e suas implicações.
Os  comprometimentos  das  funções  executivas  mostraram  predizer  consistentemente  a  função  (Boyle,  Paul,
Moser  &  Cohen,  2004;  Goverover,  2004;  Laes  &  Sponheim,  2006;  Royall,  Palmer,  Chiodo  &  Polk,  2004).
Relações  significativas  entre  a  função  executiva  e  a  participação  social  (Laes  &  Sponheim,  2006;  Ucok  et  al.,
2006; Yeates et al., 2004), acadêmicas (Biederman et al., 2004), AIVD (Jefferson, Paul, Ozonoff & Cohen, 2006;
Rempfer et al., 2003), emprego (DeBattista, 2005; Eriksson et al., 2006) e qualidade de vida (Sherman, Slick &
Eyrl,  2006)  foram  documentadas.  A  forte  associação  entre  comprometimentos  executivos  e  função  que  foi
documentada  entre  diferentes  faixas  etárias  e  populações  realça  a  necessidade  crítica  para  os  terapeutas
ocupacionais de incluir a função executiva no planejamento de avaliação e tratamento.
A maioria dos instrumentos padronizados de medida de AVD é estruturada e não é sensível aos efeitos dos
problemas  das  funções  executivas.  Os  terapeutas  ocupacionais  são  encorajados  a  enfrentar  o  desafio  de
investigar tarefas que captem adequadamente as demandas cognitivas de atividades da vida real de níveis mais
altos. O uso de problema ecologicamente relevante e simulações situacionais para examinar as demandas do
funcionamento cotidiano de nível superior é um caminho importante e promissor para a pesquisa futura.
A conscientização está relacionada com o funcionamento diário, o envolvimento em atividades produtivas e os
resultados  (Hoofien  et al.,  2004;  Petrella,  McColl,  Krupa  &  Johnston,  2005).  Recentemente,  diversos  estudos­
piloto (Fleming et al., 2006; Goverover, Johnston, Toglia & DeLuca, 2007; Ownsworth, Fleming, Desbois, Strong
& Kuipers, 2006; Tham et al., 2001) pesquisaram o uso do tratamento baseado na ocupação para estimular a
conscientização e o desempenho ocupacional.
Estudos sobre a conscientização baseados na ocupação apoiam a premissa de que a conscientização surge
gradativamente  em  atividades  que  sejam  familiares  porque  os  clientes  têm  um  ponto  de  referência  de
comparação  para  autoavaliação  (Ownsworth  et  al.,  2006;  Tham  et  al.,  2001).  Isso  é  importante  para  os
terapeutas ocupacionais porque o tratamento de conscientização baseado na ocupação parece ter o potencial
de melhorar o resultado funcional. Entretanto, é importante observar que mais pesquisas são necessárias para
aumentar  o  tamanho  da  amostra  e  empregar  uma  metodologia  mais  rigorosa  para  melhorar  o  nível  das
evidências.
Embora a pesquisa inicial em reabilitação cognitiva seja na área de traumatismo craniano e acidente vascular,
os princípios da reabilitação cognitiva estão sendo agora aplicados a outras populações, como os portadores de
esquizofrenia (Penades et al., 2006), esclerose múltipla (Chiaravalloti, DeLuca, Moore & Ricker, 2005), doença
de  Parkinson  (Sinforiani,  Banchieri,  Zucchella,  Pacchetti  &  Sandrini,  2004),  lúpus  (Harrison  et  al.,  2005),
dificuldades  de  aprendizado  (Cermak,  2005),  comprometimento  cognitivo  leve  e  doença  de  Alzheimer  (Bier,
Desrosiers & Gagnon, 2006) e em populações idosas em bom estado de saúde (Willis et al., 2006; Winocur et
al., 2007).
Recentemente,  comprometimentos  cognitivos  sutis  que  afetam  a  capacidade  de  aprender  e  integrar  novas
informações  foram  identificados  em  pessoas  com  lesão  cerebral,  incluindo  condições  como  artrite  reumatoide
(Appenzeller,  Bertolo  &  Costallat,  2004),  síndrome  da  fadiga  crônica  (Capuron  et al.,  2006),  doença  de  Lyme
(Fallon, Keilp, Prohovnik, Heertum & Mann, 2003), insuficiência cardíaca (Vogels, Scheltens, Schroeder­Tanka
& Weinstein, 2006), distrofia muscular (D’Angelo & Bresolin, 2006), esclerose lateral amiotrófica (Ringholz et al.,
2005), diabetes (Munshi et al., 2005), enfermidade severa (Hopkins & Brett, 2005), doença pulmonar obstrutiva
crônica (Orth et al., 2006) e fibromialgia (Katz, Heard, Mills & Leavitt, 2004). Além disso, alterações cognitivas
sutis estão associadas a tratamentos quimioterápicos (Bender et al., 2006; Jansen, Miaskowski, Dodd, Dowling
& Kramer, 2005), radioterapia (Spiegler, Bouffet, Greenberg, Rutka & Mabbott, 2004) e hemodiálise (Murray et
al., 2006). Embora os comprometimentos cognitivos tenham sido reconhecidos como uma característica central
da esquizofrenia, os comprometimentos cognitivos também são agora identificados em uma gama mais ampla
de  distúrbios  mentais,  incluindo  depressão  (Kiosses,  Klimstra,  Murphy  &  Alexopoulos,  2001),  doença  bipolar
(Martinez­Aran et al., 2004) e distúrbio obsessivo­compulsivo (Boldrini et al., 2005), bem como em pessoas com
história pregressa de uso abusivo de drogas (Davies et al., 2005).

TRATAMENTO EM GRUPO
Os  princípios  e  as  estratégias  da  reabilitação  cognitiva  podem  ser  incorporados  a  programas  em  grupo  e
combinados a programas psicossociais ou psicopedagógicos. O formato de grupo pode ser utilizado para atingir
habilidades  cognitivas  específicas  ou  para  ensinar  estratégias  compensatórias  (Revheim  &  Marcopulos,  2006;
Schwarztberg, 1999; Stuss et al.,  2007).  As  atividades  em  grupo  podem  enfatizar  habilidades  interpessoais  com
tarefas cooperativas, como planejar a venda de doces ou publicar um jornal ou cenários com desempenho de pa
péis envolvendo entrevistas, conflitos ou solução de problemas pontuais. Estratégias que incluem monitoramento
da  tendência  para  responder  impulsivamente,  insistir  em  um  ponto  de  vista  ou  perder­se  da  tarefa  podem  ser
praticadas em contextos sociais (Toglia, 2005). Programas em grupo centrados no ensino de técnicas e estratégias
de automonitoramento para prestar atenção, lembrar, organizar ou solucionar problemas podem ser aplicados a um
amplo espectro de clientes. Atividades como lembrar de nomes e fatos a respeito dos membros do grupo, lembrar
das  orientações  para  operar  um  novo  dispositivo  eletrônico  ou  criar  uma  lista  de  verificação  para  uma  tarefa
complexa  podem  fornecer  oportunidade  para  a  prática  de  estratégias  diferentes  e  compartilhamento  de
experiências no contexto do grupo. Os membros do grupo podem ser encorajados a refletir sobre o desempenho e
identificar  estratégias  que  seriam  úteis  em  suas  atividades  cotidianas.  Os  tratamentos  em  grupo  que  abordam
simultaneamente  dificuldades  cognitivas  sutis  e  questões  emocionais  demonstraram­se  valiosos  em  melhorar  a
conscientização, a autoeficácia, as habilidades de enfrentamento, as habilidades psicossociais e o funcionamento
diário percebido (Harrison et al., 2005; Rath, Smon, Langenbahn, Sherr & Diller, 2003; Toglia, 2005).

RESUMO
Recentemente,  houve  um  relativo  abandono  de  programas  de  tratamento  que  se  focam  exclusivamente  na
remediação  dos  comprometimentos  cognitivos.  Existem  evidências  crescentes  que  apoiam  o  uso  de  programas
holísticos  abrangentes  de  reabilitação  cognitiva  e  que  abordam  uma  combinação  de  habilidades  cognitivas,
emocionais, funcionais e de participação social em pessoas com lesão cerebral (Cappa et al., 2005; Cicerone et al.,
2005;  Cicerone,  Mott,  Azulay  &  Friel,  2004;  Sarajuuri  et  al.,  2005;  Tiersky  et  al.,  2005).  A  necessidade  de
mesclar  tratamentos  cognitivos  com  aqueles  que  tratam  do  funcionamento  interpessoal  no  mundo  real  foi
enfatizada  na  literatura  recente;  entretanto,  os  resultados  da  reabilitação  cognitiva  são  mais  comumente
mensurados em termos de comprometimento. À medida que os terapeutas ocupacionais retomam tratamentos mais
centrados  na  comunidade,  nós  precisamos  ampliar  nossa  perspectiva  sobre  a  influência  que  os  comportamentos
cognitivo­perceptuais exercem sobre a capacidade de nossos clientes se engajarem em ocupações que precisam ou
que desejam realizar nos contextos de suas vidas. Nós precisamos explorar o efeito da reabilitação cognitiva no
engajamento  ocupacional  e  na  participação  social  mesmo  para  os  comprometimentos  cognitivos  mais  sutis  que
podem  diminuir  a  satisfação,  a  participação  e  a  qualidade  de  vida,  impedindo  que  nossos  clientes  levem  vidas
enriquecedoras (McDowd, Filion, Pohl, Richards & Stiers, 2003).
O  resultado  ou  o  benefício  da  reabilitação  cognitiva  precisa  ser  examinado  amplamente  entre  diferentes
populações, incluindo os efeitos das mudanças em hábitos existentes; rotinas ou melhora dos padrões de atividade
produtiva;  aumento  da  frequência  e  da  qualidade  da  participação  social;  diminuição  da  assistência  do  cuidador,
estresse ou ônus do cuidador; melhora do bem­estar subjetivo, incluindo a autoeficácia, a autoestima, a satisfação
e a qualidade de vida; e evitar o declínio funcional.
QUESTÕES INSTIGANTES
1. O neuropsicólogo relata que o cliente realizou um teste padronizado de função executiva dentro dos limites
normais.  Sua  avaliação  em  terapia  ocupacional  incluiu  a  observação  das  atividades  da  vida  real  durante  as
quais o cliente mostrou dificuldades em iniciar, planejar e organizar. Como você explicaria essa discrepância
aos  membros  da  equipe?  Explique  como  as  habilidades  executivas  estão  relacionadas  com  as  áreas  de
desempenho,  citando  exemplos.  Descreva  como  essas  habilidades  podem  ser  avaliadas  e  tratadas  em  um
programa de tratamento centrado no cliente em uma clínica para pacientes internados e ambulatoriais.
2. Seu cliente, que sofreu um traumatismo craniano e apresenta hemiplegia e limitações cognitivas, relata que
deseja  trabalhar  apenas  para  melhorar  o  movimento  de  seu  braço.  Ele  não  parece  estar  consciente  de  suas
limitações  cognitivas  e  se  recusa  a  trabalhar  em  qualquer  atividade  que  envolva  memória  ou  solução  de
problemas  porque  isto  “não  é  necessário”.  A  família  do  cliente  está  preocupada  com  suas  limitações
cognitivas e sua capacidade de retornar ao emprego anterior, dirigir na comunidade e ficar sozinho em casa.
Como  você  respeitaria  o  direito  do  cliente  à  autonomia  enquanto  trata  os  seus  comprometimentos?  Quais
seriam as metas do tratamento? Como poderia ser o programa de tratamento para esse cliente?

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Sensibilidade e Processamento Sensorial
WINNIE DUNN

Sumário
Sensibilidade e Processamento Sensorial São Aspectos Fundamentais do Desempenho
Princípios Básicos das Funções dos Sistemas Sensoriais
Controle Centrífugo
Equilíbrio entre Excitação e Inibição
Características Básicas dos Sistemas Sensoriais no Sistema Nervoso
Características Particulares de Sistemas Sensoriais Específicos
Mecanismos de Informação Sensorial
Os Sentidos Químicos
Os Sentidos Corporais
Os Sentidos Ambientais
Resumo dos Mecanismos de Informação Sensorial
Um Modelo de Processamento Sensorial
Conceitos Subjacentes aos Padrões de Processamento Sensorial
Padrões do Processamento Sensorial do Modelo de Dunn
Estudo de Caso: Danielle, Por Favor, Venha Jantar Conosco!

Objetivos de Aprendizagem
Após a leitura deste capítulo, você será capaz de:
1. Identificar as características principais dos sistemas sensoriais.
2. Explicar os aspectos de alerta e de discriminação de cada sistema sensorial.
3. Descrever os mecanismos de recepção, organização e utilização do estímulo sensorial.
4. Classificar padrões de processamento sensorial com base em evidências.
5. Vincular padrões de processamento sensorial a comportamentos da vida cotidiana.
6. Apreciar  a  contribuição  significativa  da  sensibilidade  e  do  processamento  sensorial  para  a
capacidade funcional da pessoa durante o desempenho ocupacional.

SENSIBILIDADE E PROCESSAMENTO SENSORIAL SÃO ASPECTOS
FUNDAMENTAIS DO DESEMPENHO
Existem  muitas  maneiras  de  caracterizar  a  experiência  humana.  Nós  podemos  considerar  os  aspectos
psicológicos,  físicos  e  cognitivos  de  ser  humano.  Independente  da  perspectiva  que  utilizamos,  a  sensação  é  o
combustível que alimenta todas as nossas experiências. Nós adquirimos informações sobre nossas experiências
psicológicas,  físicas  e  cognitivas  a  partir  de  nossos  sentidos.  Por  isso,  os  terapeutas  ocupacionais  precisam
compreender como o sistema sensorial funciona. Nós não conseguimos compreender as experiências das pessoas
em  suas  vidas  sem  entender  como  seu  sistema  nervoso  recebe,  processa  e  dá  significado  às  informações
sensoriais que lhes são apresentadas. A sensibilidade e o processamento sensorial fornecem a infraestrutura para
nossas experiências e, consequentemente, também fornecem ferramentas fundamentais para a prática da terapia
ocupacional.

PRINCÍPIOS BÁSICOS DAS FUNÇÕES DOS SISTEMAS SENSORIAIS
Os sistemas sensoriais são os mecanismos de informação para o sistema nervoso. O sistema nervoso apresenta
diversas  funções  que  determinam  como  o  sistema  sensorial  deve  operar,  incluindo  o  controle  centrífugo  e  o
equilíbrio  entre  excitação  e  inibição.  Quando  entendemos  essas  ações  neurológicas,  podemos  também
compreender como planejar atividades que tirarão vantagens da maneira pela qual o cérebro funciona, criando
assim um mecanismo interno de suporte ao desempenho da pessoa.

Controle Centrífugo
O  controle  centrífugo  é  a  função  mais  básica  do  sistema  nervoso  central  (SNC)  e  representa  a  capacidade  do
cérebro  de  regular  sua  estimulação.  O  cérebro  exerce  o  controle  centrífugo  por  supressão,  divergência  e
convergência (Noback & Demarest, 1981).
Supressão  é  a  capacidade  do  SNC  de  atenuar  alguns  estímulos  de  modo  que  outros  sejam  mais  fáceis  de
detectar.  As  pessoas  recebem  estímulos  sensoriais  contínuos  e  variáveis;  com  a  supressão,  nós  conseguimos
filtrar  todos  os  estímulos  que  vão  para  o  cérebro,  o  qual  determina  quais  estímulos  merecem  atenção  e  quais
podem  ser  ignorados  com  segurança.  A  distração  está  relacionada  com  a  má  supressão.  A  dificuldade  de
permanecer  em  uma  tarefa  ocorre  porque  a  atenção  é  distribuída  para  todos  os  estímulos  disponíveis  no
ambiente.
Divergência é a capacidade do cérebro de transmitir estímulo sensorial a muitas partes do próprio cérebro de
modo  que  o  estímulo  possa  afetar  vários  locais  ao  mesmo  tempo.  Quando  uma  pessoa  está  em  perigo,  um
pequeno  estímulo  (p.  ex.,  um  cheiro  suave  de  fumaça)  precisa  recrutar  muitas  atividades;  nós  nos  referimos  a
esses níveis de alta atividade como uma resposta luta­ou­fuga. A divergência também permite que um músculo
inteiro trabalhe em vez de uma única fibra muscular.
Convergência  é  o  fenômeno  de  reunir  informações  de  muitas  fontes.  É  como  se  o  cérebro  buscasse
confirmação pela aquisição de informações de diversos sistemas sensoriais e fosse cuidadoso para agir apenas
quando  houvesse  informação  suficiente  para  esclarecer  o  assunto.  A  convergência  nos  impede  de  reagir
inadequadamente  quando  apenas  informações  parciais  estão  disponíveis  e  nos  impede  de  reagir  a  todos  os
estímulos  que  nos  chegam.  Nos  sistemas  sensoriais,  os  estímulos  provenientes  de  múltiplas  fontes  sensoriais
convergem de modo que o cérebro possa criar uma resposta mais organizada.

Equilíbrio entre Excitação e Inibição
O cérebro depende do equilíbrio entre a excitação e a inibição para mediar o estímulo e a resposta. Com excesso
de  excitação,  nós  exageramos;  e  com  excesso  de  inibição,  nós  não  conseguiremos  observar  nem  responder  ao
mundo ao nosso redor. Em cada sinapse e em cada sistema neuronal, existe uma negociação contínua entre as
mensagens de excitação e de inibição disponíveis. É necessário que haja um nível suficiente de excitação para
vencer a inibição para que o organismo entre em ação.
Quando consideramos esse equilíbrio no nível dos sistemas, também observamos um equilíbrio de forças nas
funções complementares do cérebro como um todo. Algumas partes do cérebro são responsáveis por aumentar
nossa  atenção,  enquanto  outras  são  responsáveis  por  examinar  o  ambiente.  Esses  sistemas  permanecem
equilibrados devido aos padrões de excitação e inibição entre essas partes do cérebro. Quando a lesão cerebral
altera a função típica, a pessoa experimenta um fenômeno de liberação. Isso significa que uma função é deixada
livre  dos  controles  excitatórios  e  inibitórios  dessas  partes  complementares  do  cérebro.  Reações  exageradas  ou
diminuídas ocorrem quando existe um fenômeno de liberação.
Outra maneira de equilibrar excitação e inibição é por meio de mecanismos de ativação e retroalimentação. O
cérebro  tem  conexões  que  lhe  possibilitam  “escutar”  o  estímulo  e  suas  reações.  Isso  permite  ao  cérebro
monitorar  a  si  próprio  e  fazer  ajustes  nos  planos  de  ação.  Os  circuitos  de  ativação  enviam  uma  mensagem  à
frente  da  mensagem  sensorial  primária,  seja  para  alertar  os  centros  superiores  sobre  o  estímulo  que  está
chegando  (i.e.,  “preste  atenção”),  seja  para  criar  uma  via  inibidora  de  modo  que  a  mensagem  sensorial  fique
mais forte (i.e., “observe apenas ISTO”). Os circuitos de retroalimentação enviam de volta uma mensagem para
modular  a  força  de  uma  resposta  (Dunn,  2000).  Por  exemplo,  a  retroalimentação  ocorre  após  você  ter
completado o movimento e permite ao cérebro avaliar quão efetivo o movimento foi para atingir seu objetivo.
Com base na retroalimentação, o sistema fará ajustes na maneira como a mensagem será enviada da próxima vez
(p. ex., “um pouco mais daqueles músculos, um pouco menos desses músculos”).

CARACTERÍSTICAS BÁSICAS DOS SISTEMAS SENSORIAIS NO SISTEMA NERVOSO
Apesar de cada sistema sensorial ter funções únicas, eles compartilham de funções básicas. Todos dispõem de
uma  estrutura  de  informação  que  transmite  estímulos  para  o  sistema  nervoso  e  cada  sistema  sensorial  produz
diferentes  tipos  de  estímulos  para  transmissão.  Eles  também  atingem  diversos  níveis  no  cérebro  para
processamento  do  estímulo.  Todo  o  sistema  sensorial  opera  para  fazer  com  que  o  cérebro  esteja  atento  ao
estímulo  disponível  no  ambiente  (i.e.,  função  de  ativação/alerta)  para  construção  de  mapas  do  corpo  e  do
ambiente (i.e., a função de discriminação e mapeamento). Com esta informação e os mapas criados, uma pessoa
pode elaborar respostas efetivas às demandas da vida.
Sob  circunstâncias  típicas,  as  funções  ativação/alerta  e  discriminação/mapeamento  se  complementam,
formando  um  equilíbrio  de  força.  As  pessoas  utilizam  esses  mapas  sensoriais  para  deduzir  o  que  está
acontecendo  e  como  reagir  apropriadamente.  A  função  discriminação/mapeamento  orienta  o  comportamento
durante  as  atividades  cotidianas.  A  função  ativação/alerta  permite  que  as  pessoas  fiquem  atentas  a  um  novo
estímulo  não  familiar  ou  potencialmente  prejudicial,  de  modo  que  possam  estar  mais  conscientes  e,
possivelmente,  criar  respostas  alternativas  (p.  ex.,  respostas  de  luta­ou­fuga).  Os  estímulos  de  ativação/alerta
geram  comportamentos  de  “observação”,  isto  é,  a  atenção  é  voltada  para  o  estímulo,  o  que  pode  modificar  o
comportamento  em  prática.  Os  estímulos  de  ativação/alerta  permitem  que  o  cérebro  se  direcione  para  os
estímulos caso uma resposta protetora seja necessária.
Os  estímulos  de  discriminação/mapeamento  tornam  possível  reunir  dados  que  darão  suporte  e  irão  elaborar
comportamentos funcionais. As informações se combinam para criar mapas do corpo e do ambiente que podem
ser  utilizados  para  criar  o  movimento  propositado.  As  informações  de  discriminação  e  mapeamento  são  mais
organizadoras para o cérebro.
A Tabela 58.1 apresenta um resumo dos componentes de ativação/alerta e discriminação/mapeamento de cada
sistema  sensorial  com  definição  e  exemplos  simples  de  cada  um  deles.  A  Tabela  58.2,  no  mesmo  formato,
fornece  informações  sobre  quando  utilizar  cada  componente  sensorial  de  modo  terapêutico.  Lembre­se  de  que
cada estímulo sensorial pode ser útil ou prejudicial. Quando compreendemos as características de cada estímulo
sensorial,  podemos  atrelar  esse  estímulo  positivamente  a  fins  terapêuticos,  isto  é,  para  dar  suporte  ao
desempenho ocupacional.
TABELA 58.1 DESCRITORES DE ATIVAÇÃO/ALERTA E DISCRIMINAÇÃO/MAPEAMENTO DOS
SISTEMAS SENSORIAIS
Sistema Sensorial Descritores de Ativação/Alerta* Descritores de
Discriminação/Mapeamento†
Para todos os Imprevisível: A tarefa não é familiar; a Previsível: O padrão sensorial na
sistemas criança não pode prever as experiências tarefa é rotina para a criança,
sensoriais que ocorrerão na tarefa. como a troca de fraldas — a
criança sabe o que está
ocorrendo e o que virá em
seguida.
Somatossensorial Toque leve: Toque gentil na pele; cócegas (p. Pressão: Contato firme com a pele
ex., roupas frouxas fazendo contato com a (p. ex., abraçar, acariciar,
pele). agarrar). Ocorre quando se tocam
Dor: Beliscão forte; contato com objetos objetos ou pessoas e quando se é
pontiagudos; pele pressionada em tocado por elas.
pequena superfície (p. ex., quando a pele Estímulos de longa duração:
fica presa entre o braço da cadeira e o Segurar, agarrar (p. ex., carregar
assento). uma criança no colo).
Temperatura: Estímulo quente ou frio (p. ex., Contato com grande superfície
bebidas geladas, comidas quentes, mãos corporal: Grandes superfícies
frias, cadeiras de metal frias). corporais incluem segurar,
Variável: Mudar características durante a abraçar; também inclui segurar
tarefa (p. ex., colocar roupas que exigem uma xícara com toda a superfície
uma combinação de experiências táteis). palmar.
Estímulos de curta duração: Tamborilar, tocar
rapidamente (p. ex., espalhar água).
Contato com pequena superfície corporal:
Pequenas superfícies corporais, quando se
utilizam apenas as pontas dos dedos para
tocar algo.
Vestibular Mudança de posição da cabeça: A Movimento linear da cabeça:
orientação da cabeça da criança é alterada Cabeça se move em linha reta (p.
(p. ex., mudar a criança da posição deitada ex., balançar para cima e para
em decúbito dorsal para a posição baixo, andar no corredor em uma
sentada). cadeira de rodas).
Mudança de velocidade: Movimentos que Movimentos repetitivos de cabeça:
mudam de velocidade (p. ex., professor faz Movimentos que se repetem em
uma parada para conversar com outro uma sequência simples (p. ex.,
professor quando empurra a criança na balançar em uma cadeira de
cadeira de rodas para o banheiro). balanço).
Mudança de direção: Movimentos com
mudança de planos, como se curvar para
pegar algo enquanto leva a criança pelo
corredor.
Movimento rotatório da cabeça: Mover a
cabeça em um arco (p. ex., girar, virar a
cabeça de um lado para o outro).
Propriocepção Alongamento rápido: Movimentos que fazem Tensão sustentada: Ação constante
pressão sobre os músculos (p. ex., toque e estável sobre os músculos
brusco sobre o ventre muscular) pressionando ou contraindo o
músculo (p. ex., utilizar objetos
pesados em brincadeiras).
Mudança da tensão muscular:
Atividades que demandam
mudança constante de músculos
(p. ex., caminhar, levantar, mover
objetos).
Visual
Alta intensidade: O estímulo visual é brilhante Baixa intensidade: O estímulo visual
(p. ex., olhar por uma janela em um dia é menos intenso (p. ex., encontrar
muito claro). objetos em um armário escuro).
Alto contraste: Uma diferença entre o Grande semelhança: Pequenas
estímulo visual e o ambiente a seu redor diferenças entre o estímulo visual
(p. ex., suco de uva em uma xícara e o ambiente ao redor (p. ex.,
branca). aveia em uma tigela bege).
Variável: Mudar as características durante a Competitivo: O fundo é interessante
tarefa (p. ex., um programa de TV é um ou confuso (por exemplo, a
estímulo visual variável). gaveta cheia de objetos ou um
quadro de avisos cheio).
Auditivo Variável: Mudar as características durante Rítmico: Os sons se repetem em
uma tarefa (p. ex., a entonação da voz de uma sequência/ritmo simples (p.
uma pessoa). ex., resmungar; cantar cantigas
Alta intensidade: O estímulo auditivo é de ninar).
intenso (p. ex., sirene, volume do rádio Constante: O estímulo está sempre
alto). presente (p. ex., um ventilador
Competitivo: O ambiente tem uma variedade ruidoso).
de sons recorrentes (p. ex., sala de aula, Não competitivo: O ambiente é
festa). tranquilo (p. ex., o quarto quando
se está pronto para dormir).
Baixa intensidade: O estímulo
auditivo é menos intenso (p. ex.,
sussurro).
Olfatório/gustatório Intensidade forte: O paladar/cheiro tem Suavidade: o paladar/odor tem
qualidades distintas (p. ex., espinafre). qualidades indistintas ou
familiares (p. ex., mingau de
trigo).

Nota:*Os estímulos de ativação/alerta tendem a gerar comportamentos de observação. A atenção do indivíduo é,
pelo  menos,  momentaneamente  voltada  para  o  estímulo  (comumente  a  interrupção  de  um  comportamento  em
andamento). Esses estímulos possibilitam ao sistema nervoso se orientar para o estímulo que pode necessitar de
uma  resposta  protetora.  Em  algumas  situações,  o  estímulo  de  ativação  pode  se  tornar  parte  de  um
comportamento  funcional  (p.  ex.,  quando  o  estímulo  somatossensorial  ativador  de  colocar  a  camisa  torna­se
previsível, uma característica de discriminação/mapeamento).
† Estímulos  de  discriminação/mapeamento  são  aqueles  que  permitem  que  a  pessoa  colete  informações  que
podem  ser  utilizadas  para  dar  suporte  e  gerar  comportamentos  funcionais.  A  informação  produz  qualidades
espaciais  e  temporais  do  corpo  e  do  ambiente  (o  conteúdo  dos  mapas)  que  podem  ser  usadas  para  criar
movimentos propositados. Esses estímulos são mais organizadores para o sistema nervoso.
Fonte:  Dunn,  W.  (1991).  The  sensorimotor  systems:  A  framework  for  assessment  and  intervention.  In  F.  P.
Orelove & D. Sobsey (Eds.), Educating children with multiple disabilities: A transdisciplinary approach (2nd ed.).
Baltimore: Paul H. Brookes. Reimpresso com permissão.
TABELA 58.2 RAZÕES PARA INCORPORAR VÁRIAS QUALIDADES SENSORIAIS NOS PROGRAMAS
DE INTERVENÇÃO INTEGRADA*
Sistema Sensorial Descritores de Ativação/Alerta Descritores de Discriminação/Mapeamento
Para todos os Imprevisível: Desenvolver um Previsível: Estabelecer a capacidade da
sistemas nível crescente de atenção para criança de prever uma sequência de
manter a criança interessada programação ou uma pista evidente; diminuir
na tarefa/atividade (p. ex., a possibilidade de distração em uma
mudar a posição dos objetos na sequência de tarefa funcional (p. ex., utilizar
bandeja da criança durante a a mesma rotina para troca de fraldas todas
tarefa). as vezes).
Somatossensorial Toque leve: Aumentar o alerta em Pressão: Estabelecer e manter atenção sobre
uma criança letárgica (p. ex., as partes do corpo e a posição corporal;
cobrir e descobrir o rosto da acalmar uma criança que foi superestimulada
criança durante a brincadeira (p. ex., dar um abraço forte de urso).
de esconde­esconde). Longa duração: Permitir que criança se
Dor: Ativar a consciência; familiarize e se sinta confortável com o
determinar a capacidade de estímulo; incorporar o estímulo à habilidade
responder a estímulos nocivos funcional (p. ex., pegar o recipiente, levantá­
quando não consciente (p. ex., lo e espalhar seu conteúdo).
estímulo brusco na palma da Contato com grande superfície corporal:
mão ou na planta do pé). Estabelecer e manter a consciência das
Temperatura: Estabelecer a partes do corpo e a posição do corpo;
consciência do estímulo; acalmar uma criança que foi superestimulada
manter a atenção na tarefa (p. (p. ex., envolver a criança firmemente com
ex., utilizar alimentos quentes um cobertor).
para comer com colher e
bebidas frias para sugar com
um canudo).
Variável: Manter a atenção ou o
interesse na tarefa (p. ex.,
colocar uma nova textura na
superfície da xícara a cada dia
para que a criança note a
xícara).
Curta duração: Aumentar a
excitação para o desempenho
da tarefa (p. ex., dar um toque
no peito da criança antes de
dar as orientações).
Contato com pequena superfície
corporal: Gerar e concentrar a
atenção em uma parte
específica do corpo (p. ex.,
tocar em volta dos lábios com
as pontas dos dedos antes da
tarefa de comer).
Vestibular Mudança de posição da cabeça: Movimento linear da cabeça: Dar suporte ao
Aumentar a excitação para uma estabelecimento da consciência corporal no
atividade (p. ex., a posição da espaço (p. ex., carregar a criança pela sala
criança em decúbito ventral em uma posição fixa para explorar suas
sobre uma cunha). características).
Mudança de velocidade: Para Movimento repetitivo de cabeça: Fornecer
manter um alerta adequado informação previsível e organizadora;
para a tarefa funcional (p. ex., acalmar uma criança que foi superestimulada
avaliar a velocidade dos passos (p. ex., embalar a criança nos braços).
enquanto carrega a criança
para uma nova tarefa).
Mudança de direção: Aumentar o
nível de alerta para uma tarefa
funcional (p. ex., balançar a
criança para frente e para trás
nos braços antes de posicioná­
la na mesa para uma tarefa).
Propriocepção Alongamento rápido: Gerar Tensão sustentada: Permitir que o músculo
tensão muscular adicional para relaxe e alongue para que a parte do corpo
dar suporte às tarefas possa estar em uma posição mais ideal para
funcionais (p. ex., tocar o ventre funcionamento (p. ex., pressionar firmemente
do músculo hipotônico o ventre muscular enquanto os objetos são
enquanto fornece orientação manipulados).
física para preensão). Mudança da tensão muscular: Estabelecer
movimentos funcionais que contenham
estabilidade e mobilidade (p. ex., apoiar e
alcançar em cima; alcançar, encher e levar
uma colher à boca).
Visual Alta intensidade: Aumentar a Baixa intensidade: Permitir que a estimulação
oportunidade para notar o visual seja mesclada a outras características
objeto; gerar excitação para a evidentes; gerar comportamentos de busca,
tarefa (p. ex., cobrir blocos com uma vez que as características são menos
papel alumínio para tarefa de óbvias (p. ex., encontrar seu próprio cantinho
manipulação). no quarto).
Alto contraste: Aumentar a Grande semelhança: Estabelecer habilidades
possibilidade de localização de mais discernentes; desenvolver habilidades
objeto e manter a atenção nele para tarefas de ocorrência natural (p. ex.,
(p. ex., colocar passas em um pegar com a concha molho de maçã de uma
pedaço de papel branco para a vasilha bege).
atividade de preensão). Competitivo: Facilitar a busca; aumentar a
Variável: Manter atenção ou tolerância para situações naturais da vida (p.
interesse na tarefa (p. ex., ex., obter ferramentas corretas da caixa de
brincar de rolar uma bola equipamentos).
transparente com peças móveis
em seu interior).
Auditivo Variável: Manter atenção ou Rítmico: Fornecer informação
interesse na tarefa (p. ex., fazer previsível/organizadora para orientação
o rádio funcionar após a ambiental (p. ex., cantar uma música de
ativação de um botão). ninar enquanto orienta fisicamente os
Alta intensidade: Para estimular a movimentos).
percepção da presença de Constante: Fornecer estímulo fundamental
pessoa ou objeto, criar alerta para orientação ambiental, especialmente
apropriado para o desempenho importante quando outros sistemas
da tarefa (p. ex., tocar um sino sensoriais (p. ex., visão, vestibular) não
para encorajar a criança a fornecem orientação (p. ex., a criança
localizar o estímulo). reconhece sua própria sala de aula pelo
barulho do ventilador e se acalma).
Competitivo: Facilitar a diferenciação dos
estímulos evidentes; aumentar a tolerância a
circunstâncias naturais da vida (p. ex., após a
criança aprender a olhar quando seu nome
for chamado, realizar a atividade em uma
sala de aula cheia).
Olfatório/gustatório Intensidade forte: Para estimular Não competitivo: Facilitar a concentração da
a excitação para a tarefa (p. atenção para aquisição de uma habilidade
ex., a criança sente o cheiro de nova e difícil; acalmar uma criança que foi
molho de espaguete no superestimulada (p. ex., levar a criança para
almoço). um ambiente tranquilo para estabelecer
vocalizações).
Baixa intensidade: Permitir que os estímulos
auditivos se mesclem a outras características
evidentes; gerar comportamentos de busca,
uma vez que as características são menos
óbvias (p. ex., dar à criança uma orientação
em um volume normal).
Suavidade: Facilitar comportamentos
exploratórios; estimular atividades naturais
(p. ex., o cheiro do lanche é menos distinto,
de modo que a criança é encorajada a notar
a textura e a cor).

Fonte: Adaptada de Dunn, W. (1991). The sensorimotor systems: A framework for assessment and intervention.
In F. P. Orelove & D. Sobsey (Eds.), Educating children with multiple disabilities: A transdisciplinary approach (2nd
ed.). Baltimore: Paul H. Brookes, Reimpressa com permissão.

CARACTERÍSTICAS PARTICULARES DE SISTEMAS SENSORIAIS ESPECÍFICOS
Cada sistema sensorial tem funções específicas. Os neurônios sensoriais transmitem informações para o sistema
nervoso  e  esta  informação  alcança  os  centros  cerebrais  superiores.  Entretanto,  nós  devemos  lembrar  que  o
processamento sensorial é diferente do próprio estímulo sensorial. A sensibilidade envolve a transmissão das
propriedades  físicas  de  um  estímulo  para  o  cérebro.  Uma  vez  no  cérebro,  os  estímulos  são  modificados  (por
meio  da  excitação  e  da  inibição),  organizados  e  comparados  com  experiências  pregressas  para  determinar  o
significado do estímulo sensorial. Esta é a parte do processamento sensorial dos movimentos e é o aspecto que
nós consideramos quando observamos o comportamento.

MECANISMOS DE INFORMAÇÃO SENSORIAL
Os  sistemas  sensoriais  são  elaborados  para  transmitir  um  tipo  exato  de  informação.  Os  sentidos  químicos
transmitem  informações  sobre  paladar  e  olfato.  Os  sentidos  corporais  informam  ao  cérebro  sobre  a  pele,  os
músculos e o posicionamento do corpo. Os sentidos ambientais fornecem informações sobre o ambiente.

Os Sentidos Químicos
Os sentidos químicos separaram­se em paladar (gustatório) e olfato (olfatório) quando os organismos passaram
do mar para a terra ao longo da evolução. O sistema do paladar é o ponto de verificação final dos alimentos que
entram no corpo, enquanto o sistema olfatório serve para identificar a localização e a direção da comida ou dos
predadores (Coren, Porac & Ward, 1984).

O Sistema Gustatório
Nós  identificamos  sabores  de  acordo  com  a  maneira  pela  qual  as  substâncias  químicas  são  classificadas  em
nossos  sistemas  nas  categorias  de  doce,  salgado,  azedo  e  amargo  (Coren  et  al.,  1984).  As  papilas  gustatórias
recebem as substâncias químicas; 10.000 papilas gustatórias estão disponíveis nas pessoas jovens, e o número
diminui com a idade. O paladar vai das papilas gustatórias até o tronco encefálico e, em seguida, ao tálamo e ao
homúnculo  sensorial  no  lobo  parietal  (Heimer,  1983).  O  paladar  é  afetado  quando  ocorrem  traumatismo  no
tronco encefálico e doenças degenerativas que afetam as regiões talâmica e cortical que processam o paladar.
O paladar na língua é mapeado muitas vezes, porém, funcionalmente, o alimento é atraente para nós devido à
experiência  global  que  nós  temos  com  a  comida,  incluindo  não  apenas  o  paladar,  mas  também  textura,
temperatura e cheiro (i.e., integração intersensorial de outros sentidos ao paladar). As pessoas não têm reações
universais aos sabores; p. ex., pesquisadores relataram que algumas pessoas sentem o gosto da cafeína e outras
não  (Blakeslee  &  Salmon,  1935;  Coren  et al.,  1984;  Hall,  Bartoshuk,  Cain  &  Stevens,  1975).  Adultos  idosos
frequentemente  se  queixam  de  que  as  comidas  estão  sem  gosto;  isso  se  deve  à  redução  da  viabilidade  dos
receptores  do  paladar.  Como  os  receptores  do  paladar  se  recuperam  em  cerca  de  10  segundos,  a  mudança  de
sabores  em  nossa  boca  durante  a  refeição  (p.  ex.,  salgado  e,  em  seguida,  doce)  pode  manter  a  comida
interessante.

Sentido Olfatório
Nós  identificamos  os  odores  do  ambiente  por  meio  de  uma  reação  química  nas  células  no  ápice  da  cavidade
nasal. Estas células projetam­se diretamente para os centros cerebrais superiores, desviando­se do tálamo; este é
o  único  sistema  sensorial  que  não  passa  pelo  tálamo  em  seu  caminho  para  o  córtex  (Coren  et  al.,  1984).  A
olfação é o sistema mais sensível, porém pesquisadores ainda não foram capazes de classificar a maneira pela
qual as pessoas sentem os odores. Nós tendemos a considerar a sensibilidade olfatória corriqueira, mas o odor é
fundamental para muitas funções humanas. Com a conexão do sistema olfatório ao sistema límbico, os odores
associam­se às nossas emoções e às nossas memórias. Um odor pode trazer de volta imagens muito nítidas de
eventos passados. O sistema olfatório está também diretamente conectado aos mecanismos de excitação, motivo
pelo qual ele pode ser útil para se obter uma resposta em pessoas comatosas.
É  essa  influência  poderosa  sobre  nossas  emoções  e  memórias  que  devemos  ter  em  mente  na  prática.  Os
clientes podem reagir fortemente a odores para os quais nem sequer estamos atentos, incluindo os produtos de
higiene  pessoal  que  utilizamos.  Uma  pessoa  severamente  enferma  ou  uma  pessoa  com  incapacidade  poderia
reconhecer  pessoas  também  pelos  seus  odores,  fornecendo  proteção  e  conforto  em  um  mundo  confuso.  Nós
também  precisamos  estar  atentos  aos  odores  não  familiares  de  um  ambiente  estéril  e  ao  conforto  de  odores
familiares, mesmo se esses odores não forem agradáveis para nós. Ao entrar na casa de uma família, o terapeuta
pode ficar exposto a muitos odores não familiares; nós podemos precisar deixar nosso desconforto de lado para
considerar como esse ambiente olfatório afeta os membros da família.

Os Sentidos Corporais
Os  sentidos  corporais  dizem  ao  cérebro  onde  as  partes  de  nosso  corpo  estão  e  o  que  elas  estão  fazendo.  O
sistema  somatossensorial  ou  tátil  aponta  onde  você  termina  e  onde  o  mundo  começa  por  meio  de  receptores
localizados  em  sua  pele.  O  sistema  proprioceptivo  aponta  onde  nossos  músculos  e  articulações  estão,
contribuindo com informações adicionais sobre a posição do corpo no espaço. O sistema vestibular aponta onde
você está em relação à gravidade; isso acrescenta uma dimensão dinâmica ao mapa corporal.

O Sistema Somatossensorial
Existem  muitos  tipos  de  receptores  de  tato,  e  esta  variedade  permite  ao  cérebro  saber  exatamente  o  que  está
acontecendo com a pele. Existe um sistema elaborado de campos receptores na pele cujo trabalho é localizar as
experiências táteis. Um campo receptivo é a área de superfície da pele inervada por um neurônio sensorial. Em
algumas áreas da pele, os campos receptivos se sobrepõem bastante (i.e., boca, face, mãos, genitais); em outros
locais, eles quase não se sobrepõem (p. ex., na região dorsal). O cérebro compara os campos receptivos de todos
os  neurônios  ativos  para  detectar  a  localização  do  toque;  assim,  quando  eles  se  sobrepõem  bastante,  sabemos
exatamente  onde  o  toque  ocorre,  e  quando  eles  quase  não  se  sobrepõem,  podemos  apontar  apenas  a  área  do
toque. Quando sentimos um prurido em uma área de alta densidade, podemos ir diretamente ao ponto para coçar,
mas  quando  sentimos  um  prurido  em  nossas  costas,  temos  que  ampliar  a  área  onde  coçamos  para  encontrar  o
ponto certo. Isso acontece por causa dos campos receptivos.
Como  os  receptores  de  tato  estão  por  toda  a  superfície  corporal,  esses  neurônios  sensoriais  transmitem
informações para a medula espinhal e acima. A informação viaja para o tronco cerebral, o tálamo e, em seguida,
para o córtex sensorimotor, especificamente para o lobo parietal. Tradicionalmente, os neurocientistas dividiram
esse  sistema  em  sistemas  posterior  e  anterolateral,  sendo  a  porção  posterior  responsável  pela  sensibilidade  à
pressão e pela propriocepção (ver seção seguinte) e a porção anterolateral responsável pela recepção do toque
leve,  dor  e  temperatura.  Agora  compreendemos  que  essas  divisões  fornecem  orientação  geral  e  reconhecemos
que as experiências individuais são únicas.
Geralmente, o sistema da coluna dorsal fornece informações específicas sobre a superfície da pele e sobre os
músculos  e  as  articulações  (veja  a  seção  sobre  propriocepção).  Em  referência  às  Tabelas  58.1  e  58.2,  esse
sistema transmite a informação de discriminação e mapeamento. O estímulo que viaja ao longo da coluna dorsal
vai  diretamente  para  o  tálamo  e  para  o  lobo  parietal  em  um  padrão  muito  específico,  criando  o  homúnculo
sensorial (um mapa do corpo do ponto de vista sensorial).
O sistema anterolateral transmite informações para ativar e alertar o cérebro (veja exemplos nas Tabelas 58.1 e
58.2).  Esse  estímulo  trafega  pela  medula  espinhal  e  daí  para  a  formação  reticular  do  tronco  encefálico.  A
formação reticular é responsável pela excitação generalizada do cérebro, de modo que essas conexões são menos
específicas e mais difusas. O estímulo anterolateral é importante quando as pessoas precisam de maior excitação
para  participação  e  é  o  estímulo  a  ser  evitado  quando  as  pessoas  já  estão  agitadas  ou  apresentam  alta
responsividade.
O Sistema Proprioceptivo
Dentro de músculos, tendões e articulações estão receptores sensoriais que registram o que ocorre com as partes
do nosso corpo. Eles detectam o comprimento de um músculo, a velocidade em que ele se contrai e a direção em
que  o  membro  se  move,  o  que  torna  possível  saber  onde  as  partes  do  corpo  (particularmente  os  membros)
encontram­se  no  espaço.  Nós  sempre  pensamos  sobre  os  músculos  e  articulações  como  parte  do  sistema
musculoesquelético, porém a parte sensorial deste sistema nos possibilita saber onde e como nossos corpos se
movem.  Nós  não  apenas  nos  movemos;  nós  temos  consciência  de  nossos  movimentos  a  partir  dos  receptores
sensoriais proprioceptivos.
Os fusos musculares detectam alterações no comprimento do músculo. Os fusos musculares são o componente
sensorial do arco reflexo que dá suporte ao tônus muscular. Os centros motores do cérebro controlam as ações do
músculo ao atenuarem a atividade do arco reflexo. Quando os centros motores do cérebro são danificados, o arco
reflexo continua a ser ativado sem controle inibitório; este mecanismo cria espasticidade (Crutchfield & Barnes,
1984).
Os órgãos tendinosos de Golgi (OTG) são receptores sensoriais em tendões ao redor das articulações. Os OTG
detectam  alterações  na  tensão  da  contração  muscular  sobre  os  tendões.  Esta  ação  é  importante  no  alívio  de
câimbras.  Durante  as  câimbras,  o  músculo  apresenta  um  alto  grau  de  tensão.  Quando  você  alonga  lenta  e
consistentemente  o  músculo  com  câimbra,  você  “traciona”  o  tendão,  que  ativa  os  OTG.  Essa  mensagem
sensorial  aumenta  a  inibição  para  o  músculo,  possibilitando  que  o  músculo  relaxe.  Esse  é  o  mecanismo  que
estamos  ativando  quando  utilizamos  alongamento  prolongado  em  pessoas  que  apresentam  espasticidade
(Crutchfield & Barnes, 1984).
O  cerebelo  é  importante  no  processamento  das  informações  proprioceptivas.  O  cerebelo  recebe  estímulo
sensorial  antes  de  o  estímulo  ser  processado  nos  centros  cerebrais  superiores.  Esse  estímulo  sensorial  “cru”
possibilita que o cerebelo seja muito preciso na maneira pela qual organiza as ações. O cerebelo faz ajustes com
base  no  que  realmente  está  acontecendo  (como  informado  pelo  estímulo  sensorial),  motivo  pelo  qual  nosso
planejamento motor pode ser tão preciso. O cerebelo também obtém informações do cérebro sobre os planos de
movimento propostos e compara o plano e a informação sensorial para determinar se precisa ocorrer alteração
(Dunn,  2000).  Nós  damos  um  passo  na  medida  certa  porque  o  cerebelo  faz  o  ajuste  fino  do  plano  antes  de
precisarmos agir.

O Sistema Vestibular
O sistema vestibular é responsável por nossa orientação no espaço. Por detectar nossa relação com a gravidade, o
sistema vestibular acompanha os movimentos do corpo. O órgão vestibular, localizado na orelha interna, contém
uma  estrutura  (os  canais  semicirculares)  que  responde  ao  movimento  angular,  como  balançar,  girar  e  rolar,  e
outra estrutura (as câmaras) que responde ao movimento linear, como pular e correr. Em conjunto, elas registram
a  direção,  o  ângulo  e  a  velocidade  do  movimento  com  particular  atenção  à  posição  da  cabeça  (Goldberg  &
Fernandez, 1984; Heimer, 1983; Kornhuber, 1974).
Assim como o sistema proprioceptivo, o órgão vestibular envia estímulo sensorial ao tronco encefálico e ao
córtex,  bem  como  ao  cerebelo.  As  conexões  com  o  cerebelo  contribuem  para  o  controle  postural  pelo
processamento  contínuo  do  estímulo  sensorial  (i.e.,  onde  os  músculos  e  as  articulações  estão,  onde  a  cabeça
está). O controle postural é um bloco básico para construção do comportamento humano; apesar de tendermos a
pensar  no  controle  postural  como  uma  operação  motora,  é  importante  lembrarmos  que  o  controle  postural  é
construído  por  estímulo  sensorial  preciso.  Algumas  vezes,  a  má  estabilidade  postural  se  deve  à  fraqueza  dos
músculos  ou  ao  mau  posicionamento  biomecânico,  porém  é  igualmente  provável  a  possibilidade  de  que  o
estímulo  sensorial  impreciso  ou  não  confiável  torne  impossível  criar  o  controle  postural.  Quando  o
processamento  sensorial  é  a  fonte  do  problema,  nossos  tratamentos  precisam  envolver  estratégias  com  base
sensorial  a  fim  de  melhorar  o  controle  postural.  Sem  o  controle  postural,  todas  as  outras  ações  serão  mal
orquestradas,  já  que  não  haverá  estabilidade  sobre  a  qual  se  possam  construir  os  movimentos.  Os  sistemas
sensoriais são os parceiros silenciosos durante o desempenho ocupacional, criando a base para a construção do
movimento propositado (Kornhuber, 1974).
Outra função importante do sistema vestibular é coordenar­se com o sistema visual. A posição da cabeça e dos
olhos deve estar em harmonia entre si para estarmos orientados no espaço. Além de conectar­se ao cerebelo, o
estímulo  vestibular  conecta­se  aos  nervos  cranianos  que  inervam  os  músculos  oculares  (especificamente  os
nervos  cranianos  III,  IV  e  VI).  Essas  conexões  nos  permitem  determinar  se  são  nossos  olhos  que  se  movem,
nossa cabeça que se move ou se é o mundo que se move. As pessoas que sofrem de vertigem de movimento têm
mais dificuldade em resolver este conflito potencial.

Fig. 58.1 Lesões neurais dos déficits de campo visual. Fonte: Reimpressa com permissão de Dunn W.
Implementing neuroscience principles to support habilitation and recovery. In: Christiansen C, Baum C, eds.
Occupational Therapy: Enabling Function and Well­Being. 2nd ed. Thorofare, NJ: Slack, 1997.

Os Sentidos Ambientais
Os  sentidos  ambientais  são  responsáveis  pelo  fornecimento  de  informações  sobre  o  mundo  que  nos  cerca.
Tecnicamente, poderíamos dizer que toda sensibilidade vem do ambiente, porém a função dos sentidos químico
e corporal acaba se relacionando com o corpo (p. ex., determinando como obter comida como combustível, se
alguma  coisa  é  comestível,  onde  nosso  corpo  está).  Os  sentidos  ambientais  mapeiam  o  mundo  para  nós.  O
sistema visual nos informa sobre objetos e pessoas ao nosso redor em um contexto espacial e o sistema auditivo
nos informa sobre o mundo de uma maneira temporal. O sistema visual lida com o tamanho, o formato, a cor e a
localização. O sistema auditivo lida com distância, intensidade e alcance. Esses sentidos trabalham em conjunto
com  os  sentidos  químico  e  corporal  para  fornecer  mapas  sobre  onde  estamos  de  modo  que  possamos
compreender o que nossos corpos podem precisar fazer em resposta às demandas ambientais.

O Sistema Visual
O  sistema  visual  é  responsável  pelo  mapeamento  das  relações  espaciais  do  mundo  para  nós.  O  sistema  visual
tem  três  características  que  o  tornam  único  entre  os  sistemas  sensoriais.  Em  primeiro  lugar,  por  ter  mais
neurônios  sensoriais  do  que  todos  os  outros  sistemas  sensoriais,  o  sistema  visual  é  muito  proeminente  e
importante para a função humana. Em segundo lugar, as vias visuais seguem da porção anterior para a porção
posterior  do  cérebro,  tornando­se  um  excelente  marcador  do  local  de  lesões  no  cérebro  (Kandel,  Schwartz  &
Jessell, 2000). Em terceiro lugar, as células da retina, que são os receptores do estímulo para o sistema visual,
podem ser visualizadas por meio do exame do globo ocular, tornando este o único lugar em que nós podemos
observar  diretamente  o  sistema  nervoso  central.  Em  função  dessa  acessibilidade,  os  médicos  utilizam  a  retina
para determinar o que pode estar acontecendo sistemicamente no cérebro.
As vias visuais incluem o nervo óptico, que transporta a informação de cada globo ocular separadamente; o
quiasma  óptico,  que  contém  as  fibras  combinadas  de  ambos  os  globos  oculares  à  medida  que  os  tratos
convergem; e o trato óptico, que contém uma nova combinação de fibras de cada globo ocular. Os tratos ópticos
contêm fibras de ambos os olhos; as fibras do trato óptico esquerdo transmitem informações do mundo visual
direito  e  as  fibras  do  trato  óptico  direito  transmitem  informações  do  mundo  visual  esquerdo.  Este  padrão  de
convergência  e  reorganização  de  fibras  leva  a  perdas  visuais  específicas  com  o  dano  cerebral;  os  terapeutas
ocupacionais precisam compreender esses padrões de modo que possam formular hipóteses sobre quais desafios
funcionais o indivíduo poderia enfrentar com perdas específicas das funções cerebrais. Por exemplo, sem o uso
do olho esquerdo (feche seu olho esquerdo para ver o que acontece), a pessoa não consegue enxergar à esquerda.
O campo visual do olho direito cobre parte do espaço em frente ao olho esquerdo, de modo que a pessoa não
perde toda a visão do lado esquerdo. Os livros de neurociência têm diagramas que associam as perdas das vias
visuais e as perdas visuais correspondentes (p. ex., Kandel et al., 2000). A Fig. 58.1 ilustra as lesões clássicas e
os padrões de déficit visual.
O  sistema  visual  foi  desenhado  para  reconhecer  contrastes  (Dunn,  1997;  Kandel  et  al.,  2000).  As  células
procuram  constantemente  por  áreas  mais  contrastantes,  como  uma  câmara  digital  procura  por  contraste  para
focar.  O  globo  ocular  se  move  continuamente  de  modo  que  novas  células  retinianas  podem  ser  ativadas,
mantendo  um  fluxo  constante  de  estímulos  para  o  cérebro  acerca  do  mundo  visual.  O  sistema  visual  é  mais
desafiado pela ausência de contraste (p. ex., ambientes enevoados, homogêneos) e também por ambientes muito
confusos  visualmente  (p.  ex.,  os  conteúdos  de  uma  gaveta  repleta  de  objetos).  Sabendo  disso,  os  terapeutas
podem  atentar  para  os  contrastes  no  ambiente  visual  para  aumentar  as  chances  de  a  pessoa  conseguir  detectar
pistas importantes. Por exemplo, podemos colocar uma toalha escura na mesa de trabalho para realçar o papel
branco  e  os  objetos  de  escrita.  Nós  também  podemos  oferecer  estratégias  organizadoras  (p.  ex.,  dividir  as
gavetas) para aumentar as chances de encontrar os objetos necessários.

O Sistema Auditivo
O  sistema  auditivo  processa  sons  pela  detecção  da  distância,  da  direção  e  da  qualidade  do  som;  isto  nos
possibilita  a  orientação  no  ambiente  (Kiang,  1984).  O  sistema  auditivo  transforma  ondas  de  ar  em  ondas  de
pressão dentro dos receptores auditivos da orelha interna. A cóclea tem a forma de um caracol, e as diferentes
partes estão situadas de modo que possamos detectar todos os diferentes tons.
A  característica  única  do  sistema  auditivo  é  a  conexão  bilateral  no  sistema  nervoso.  Outros  estímulos  do
sistema nervoso cruzam para o lado oposto do cérebro quando viajam para o córtex. Quando o estímulo auditivo
alcança  o  tronco  encefálico,  a  informação  viaja  bilateralmente  para  o  córtex.  Isso  é  importante  porque  as
conexões bilaterais criam uma salvaguarda para o estímulo auditivo; ambos os lados do cérebro recebem sons de
ambos os lados do mundo. Quando algum estímulo auditivo é perdido, perdemos a capacidade de localizar sons,
porém o cérebro continua a receber estímulo bilateralmente. O sistema auditivo também apresenta uma alça de
retroalimentação que envia informações de volta para a cóclea; esta alça de retroalimentação atenua as ações de
alguns  ruídos  para  que  outros  sons  possam  ser  processados  mais  claramente.  Este  processo,  denominado
percepção figura­solo auditiva, permite que as pessoas se concentrem em sons importantes (p. ex., o músico) e
ignorem os sons potencialmente interferentes (p. ex., a pessoa sussurrando próximo a você).
Outros  profissionais  atuam  como  especialistas  sobre  como  o  sistema  auditivo  funciona.  Os  terapeutas
ocupacionais consideram o uso funcional do estímulo auditivo. Nós poderíamos escolher um ambiente auditivo
mais calmo se o cliente se distrai com os sons. Poderíamos também trabalhar em um ambiente natural com ruído
de fundo aleatório para aumentar a capacidade de controle de uma pessoa em uma sala de aula, local de trabalho
ou  situação  social.  Ao  considerarmos  a  contribuição  ou  a  interferência  da  informação  auditiva,  aumentamos  a
capacidade de sucesso de nosso tratamento. Por exemplo, poderíamos sugerir que um trabalhador ouça música
com  fones  de  ouvido  durante  sua  jornada  de  trabalho  para  aumentar  o  foco  em  seu  trabalho  e  diminuir  a
distração  proveniente  de  outros  sons  ambientais  (pelo  fato  de  a  música  estar  em  um  volume  mais  alto  nos
ouvidos). Nós poderíamos sugerir que um professor dê ao aluno um trabalho mais fácil quando está em sala de
aula  e  um  trabalho  mais  desafiador  para  ser  feito  na  biblioteca.  Portanto,  podemos  manipular  o  ambiente
auditivo de muitas maneiras para dar suporte ao desempenho.

Resumo dos Mecanismos de Informação Sensorial
Cada sistema sensorial processa certo tipo de estímulo para informar o cérebro sobre nossos corpos e o mundo
que nos cerca. Os terapeutas ocupacionais precisam compreender esses mecanismos de informação porque eles
fornecem ao cérebro todo o material necessário para elaborar as respostas adaptativas que nos possibilitam atuar
com  sucesso  em  nossas  vidas.  Quando  a  informação  sensorial  está  comprometida,  o  cérebro  recebe  estímulos
imprecisos  ou  não  confiáveis,  e  isso  pode  levar  a  comportamentos  mal  adaptados.  Quando  os  terapeutas
ocupacionais compreendem os sistemas sensoriais, eles podem elaborar e adaptar atividades em ambientes que
deem suporte à participação bem­sucedida.

UM MODELO DE PROCESSAMENTO SENSORIAL
Uma  vez  compreendidos  os  mecanismos  da  informação  sensorial,  a  próxima  etapa  é  compreender  como  o
cérebro gerencia esta informação. O processamento sensorial é um mecanismo para organizar, dar significado e
responder  às  experiências  sensoriais.  Os  sistemas  sensoriais  são  importantes  por  si,  porque  as  pessoas  têm
reações específicas ao toque, aos sons e a outros estímulos. Entretanto, também aprendemos que o cérebro tem
maneiras de responder que são diferentes daquelas dos sistemas sensoriais; essas maneiras de responder refletem
como o cérebro detecta o estímulo e como o cérebro regula o estímulo para responder.
Em estudos com recém­nascidos, bebês, outras crianças e adultos, Dunn e colegas (Brown et al., 2001; Dunn
1997, 1999, 2001, 2002; Dunn & Bennett, 2002; Dunn & Brown, 1997; Dunn, Myles et al., 2002; Dunn, Saiter
et al., 2002; Ermer & Dunn, 1998; Kientz & Dunn, 1997; McIntosh et al., 1999; Myles, Hagiwara et al. 2004;
Pohl, Dunn et al., 2001) identificaram quatro maneiras pelas quais as pessoas processam a informação sensorial.
Os quatro padrões refletem uma combinação de limiares do sistema nervoso e estratégias de autorregulação.

Conceitos Subjacentes aos Padrões de Processamento Sensorial
Os  padrões  de  processamento  sensorial  são  baseados  em  como  o  sistema  nervoso  reage  ao  estímulo  (i.e.,  os
limiares neuronais) e como a pessoa responde ao estímulo (i.e., as estratégias de autorregulação).

Limiares do Sistema Nervoso
Cada  neurônio,  cada  grupo  de  neurônios  e  cada  sistema  dentro  do  cérebro  apresentam  limiares  para  resposta.
Isso  significa  que  é  necessário  certo  volume  de  estímulo  excitatório  para  ativar  os  neurônios.  Para  algumas
pessoas, há necessidade de uma quantidade muito pequena de estímulos para ativar os neurônios, de modo que
podemos dizer que elas apresentam limiares baixos. Para outras pessoas, é necessária uma grande quantidade de
estímulos para ativar os neurônios, de modo que dizemos que elas apresentam limiares altos. Os limiares para
resposta ocorrem ao longo de um continuum em vez de extremos, e uma pessoa pode apresentar limiares mais
baixos  para  alguns  estímulos  e  mais  altos  para  outros.  Por  exemplo,  uma  pessoa  poderia  ser  mais  sensível  à
informação do tato, ainda que não consiga notar sons tão facilmente.

Estratégias de Autorregulação
Além dos limiares, atuamos com base em estratégias de autorregulação. Algumas pessoas controlam ativamente
a quantidade de estímulo sensorial que recebem; outras pessoas são passivas, deixando as coisas acontecerem e,
em seguida, respondendo. A autorregulação também ocorre ao longo de um continuum e não como uma resposta
apenas passiva ou ativa. Por exemplo, uma pessoa poderia sair da sala para limitar ativamente a quantidade de
estímulo auditivo que está recebendo, enquanto outra pessoa poderia ficar irritada pelo excesso de som.

Padrões do Processamento Sensorial do Modelo de Dunn
No ponto em que o continuum dos limiares neuronais e o continuum da autorregulação fazem interseção, existem
quatro  padrões  básicos  de  processamento  sensorial.  A  busca  de  sensação  representa  limiares  altos  e  uma
estratégia  de  autorregulação  ativa.  A  prevenção  da  sensação  representa  limiares  baixos  e  uma  estratégia  de
autorregulação  ativa.  A  sensibilidade sensorial  representa  limiares  baixos  e  uma  estratégia  de  autorregulação
passiva.  O  baixo  registro  representa  limiares  altos  e  uma  estratégia  de  autorregulação  passiva.  Esses  quatro
padrões existem em pessoas sem incapacidades ao longo da vida, de modo que não podemos pensar neles como
disfunção ou característica de incapacidade. Embora seja verdade que as pessoas com incapacidades específicas
(p.  ex.,  autismo,  síndrome  de  Asperger,  esquizofrenia)  em  geral  apresentam  padrões  mais  intensos  de
processamento  sensorial,  precisamos  lembrar  que  os  próprios  padrões  refletem  a  experiência  humana  geral.
Nossos padrões pessoais de processamento sensorial podem contribuir para ou interferir em nossa capacidade de
atuarmos em nossas vidas diárias. Vamos discutir cada padrão por vez. A Fig. 58.2 ilustra o modelo de Dunn do
processamento sensorial.
Fig. 58.2 Modelo de Dunn do processamento sensorial. Fonte: Reimpresso com permissão de Dunn, W. (1997).
The impact of sensory processing abilities on the daily lives of young children and families: A conceptual model.
Infants and Young Children, 9(4), 23­35.

Relacionando a Neurociência à Vida Cotidiana com Conhecimento do Processamento
Sensorial

A literatura  especializada  em  neurociência  fornece  uma  vasta  gama  de  conhecimentos  sobre  como  o
cérebro  e  o  sistema  nervoso  trabalham  para  dar  suporte  à  experiência  humana.  Um  dos  textos
fundamentais para se utilizar como referência é Princípios da Ciência Neural, de Kandel, Schwartz e Jessell
(2000); esse texto fornece explicações claras sobre a anatomia e a função cerebral que resumem os estudos
que  demonstraram  os  fenômenos  em  discussão.  Como  terapeutas  ocupacionais,  nos  baseamos  nas
evidências fornecidas pelos neurocientistas sobre como o sistema nervoso opera.
Quando tomamos conhecimento da neurociência e começamos a aplicá­la à condição humana, passamos a
criar e a testar nossas hipóteses. Estudos que utilizaram as medidas do Perfil Sensorial forneceram evidências
de que parecem existir padrões específicos de processamento sensorial e que esses padrões estão presentes
em pessoas de todas as idades, desde lactentes a idosos que não apresentam incapacidades (Dunn & Brown,
1997; Dunn, 1999; McIntosh, Miller et al.  1999;  Dunn,  2001;  Dunn  &  Daniels,  2001;  Pohl,  Dunn  et al.,  2001;
Brown  &  Dunn,  2002;  Dunn,  2002).  Estudos  também  demonstraram  que  pessoas  com  incapacidades
específicas  apresentam  alguns  dos  mesmos  padrões  de  processamento  sensorial,  porém  têm  maior
probabilidade de experimentar versões extremas desses padrões (Kientz & Dunn, 1997; Ermer & Dunn, 1998;
Brown, Tollefson et al., 2001; Dunn, Myles et al., 2002; Myles, Hagiwara et al., 2004). Alguns autores testaram
a  validade  dos  padrões  de  processamento  sensorial  do  modelo  de  Dunn  e  encontraram  relações  entre
padrões  específicos  de  atividade  cerebral  (usando  medidas  da  condutância  cutânea)  e  escores  do  Perfil
Sensorial (Brett­Green, Schoen et al., 2004; Brown, Tollefson et al., 2001; McIntosh, Miller et al., 1999; Schaaf,
Miller  et  al.,  2003).  Esses  achados  sugerem  que  os  questionários  de  Perfil  Sensorial  registram  respostas
comportamentais  que  são  consistentes  com  a  atividade  cerebral  diferenciada.  Mais  estudos  com  tecnologia
mais avançada fornecerão evidências adicionais dessa validade.
Nós  também  podemos  aplicar  o  conhecimento  da  neurociência  à  prática.  Vários  estudos  recentes
forneceram  suporte  preliminar  para  o  uso  de  nosso  conhecimento  sobre  processamento  sensorial  em
ambientes  naturais.  Em  dois  estudos,  pesquisadores  mostraram  que  a  utilização  de  roupas  com  pesos  em
contextos  escolares  contribuiu  para  aumentar  a  atenção  no  comportamento  das  tarefas  e  para  diminuir  a
autoestimulação  (Fertel  Daly,  Bedell  et  al.,  2001;  VandenBerg,  2001).  Ambos  esses  estudos  também
apresentam uma razão para relacionar as sensações causadas pelas roupas à organização das respostas do
sistema nervoso. Em um estudo preliminar com adultos com alterações sensoriais, os pesquisadores relatam
que a aplicação de pressão profunda sob a forma de cobertor pesado desencadeia respostas de condutância
cutânea  aos  níveis  normais  (Smith,  2005).  Pesquisadores  também  demonstraram  que  a  utilização  de  bolas
terapêuticas para sentar­se como em cadeiras provocou melhora do comportamento nas tarefas escolares em
crianças  com  e  sem  incapacidades  (Schilling,  Washington  et  al.,  2003).  Esses  autores  sugeriram  hipóteses
sobre a relação entre ativação sensorial e o comportamento das crianças. Reunidos, esses estudos fornecem
algumas evidências de que a aplicação do conhecimento da neurociência ao contexto natural pode ser uma
maneira efetiva de dar suporte à participação.

Busca de Sensações
Pessoas  com  padrão  de  busca  de  sensações  de  processamento  sensorial  selecionam  o  comportamento  para
aumentar  a  quantidade  e  a  intensidade  das  experiências  sensoriais  em  suas  rotinas  diárias.  Elas  podem
acrescentar movimento, som, estímulo tátil ou estímulo visual a uma experiência como resmungar e esfregar a
parede  do  corredor  ou  mascar  um  lápis  ou  brincar  com  os  objetos  durante  o  trabalho.  Elas  realizam  esses
comportamentos  para  aumentar  suas  experiências  sensoriais  durante  suas  rotinas  de  vida  e  obtêm  prazer  da
estimulação sensorial adicional.
Por apresentarem limiares sensoriais mais altos, a maior quantidade de informação sensorial permite que as
pessoas com padrão de busca de sensações atinjam esses limiares mais altos e, consequentemente, sejam mais
responsivas  em  suas  atividades  diárias.  Para  essas  pessoas  é  mais  confortável  receber  maior  estimulação
sensorial. Pessoas com padrões de busca de sensações podem tocar música enquanto cozinham ou arrumam suas
roupas para receber mais informações da pele durante o dia.
Algumas vezes, as pessoas não têm consciência de suas necessidades pela busca de sensações. Elas podem se
distrair  de  suas  atividades  de  vida  diária  quando  buscam  estímulos  sensoriais.  Por  exemplo,  uma  pessoa  que
busca  movimento  e  informação  sobre  a  posição  corporal  pode  se  distrair  de  suas  tarefas  na  mesa  de  trabalho
porque  se  sentar  ao  computador  não  fornece  estímulo  suficiente.  Essa  pessoa  pode  se  levantar  muitas  vezes
durante o dia para receber maiores estímulos vestibulares e proprioceptivos; se a pessoa trabalha em uma mesa,
essas  quebras  frequentes  podem  afetar  a  produtividade.  Um  terapeuta  ocupacional  poderia  sugerir  que  essa
pessoa se sentasse em uma almofada flexível ou uma cadeira de balanço para fornecer a estimulação sensorial
necessária  enquanto  trabalha.  Nós  poderíamos  sugerir  também  que  a  pessoa  trabalhe  em  pé  em  uma  bancada
para  aumentar  o  estímulo  corporal  durante  a  realização  das  tarefas.  Nós  damos  suporte  à  participação  quando
encontramos maneiras de fornecer a estimulação sensorial necessária durante as atividades diárias de modo que
aqueles  que  buscam  sensações  possam  continuar  a  atuar  enquanto  obtêm  as  experiências  sensoriais  de  que
necessitam.

DILEMAS DA PRÁTICA

LEVANDO AS EVIDÊNCIAS PARA A PRÁTICA COTIDIANA
Uma família leu na Internet sobre uma técnica sensorial. Ao conversar com você, ela manifestou o desejo de
experimentá­la, solicitando a você a aplicação dessa técnica, muito embora você saiba que não há evidências
que a apoiem. Discuta como você lidará com essa situação ou como você conversará sobre a técnica com a
família e que outras informações e alternativas você poderia oferecer.

Baixo Registro
Pessoas  com  padrão  de  baixo  registro  de  processamento  sensorial  não  conseguem  detectar  experiências
sensoriais a seu redor  e  seus  comportamentos  podem  parecer  incompatíveis com as situações. Elas podem ser
calmas em situações que seriam desconcertantes para outras pessoas. Também pode parecer que as pessoas com
baixo  registro  são  desinteressadas,  quando  de  fato  elas  não  notam  as  coisas  que  as  outras  pessoas  notam
rapidamente. Por exemplo, uma pessoa com baixo registro teria maior lentidão para intervir na briga de crianças,
o que poderia dar tempo para que as crianças sozinhas resolvam o problema.
Pessoas  com  baixo  registro  estarão  confortáveis  em  mais  situações  do  que  as  outras.  Em  função  da
necessidade de uma maior quantidade de estímulos sensoriais para que elas percebam, essas pessoas apresentam
maior  faixa  de  tolerância.  Os  comportamentos  que  poderiam  ser  notados  ou  irritantes  para  outros  passarão
despercebidos, de modo que algumas situações não serão cobradas por uma pessoa que tem baixo registro. Um
membro  da  família  poderia  assistir  TV  enquanto  o  outro  está  escutando  rádio  em  uma  sala  contígua.  Nessa
situação,  o  membro  da  família  com  baixo  registro  para  sons  estaria  bem  confortável  para  continuar  a  pagar
contas ou escrever uma carta.
Pessoas  com  baixo  registro  não  obtêm  ativação  suficiente  para  atingir  seus  limiares  sensoriais,  e  com  uma
estratégia  de  autorregulação  passiva,  elas  têm  menor  probabilidade  de  buscar  estímulo  sensorial  adicional.  A
perda  de  pistas  ao  redor  poderia  interferir  em  suas  rotinas  diárias.  Por  exemplo,  uma  pessoa  poderia  queimar
parte do jantar, não perceber a água do cozimento secando na panela ou que o alarme do fogão tocou. Quando o
baixo  registro  interfere  na  participação  de  vida  diária  da  pessoa,  os  terapeutas  ocupacionais  podem  oferecer
suporte, criando maneiras de intensificar o ambiente sensorial para facilitar a percepção do que está acontecendo.
Na cozinha, por exemplo, poderíamos trocar o alarme do fogão por um que tenha um som irregular (em vez de
sons uniformes de bip) e fazê­lo soar mais alto. Nós poderíamos acrescentar um alarme programável de voz para
indicar  quando  está  na  hora  de  verificar  a  comida.  Adicionar  música  também  poderia  aumentar  a  intensidade
sensorial, tornando mais fácil para a pessoa notar o que está acontecendo na cozinha. Assim como ocorre com os
buscadores de sensações, desejamos tornar possível para a pessoa com baixo registro continuar a participar ao
mesmo tempo que obtém a maior intensidade de que necessita.

Prevenção de Sensações
Pessoas com padrão de prevenção de sensações do processamento sensorial selecionam um comportamento para
minimizar as chances de experiências sensoriais novas ou inesperadas. Pessoas que evitam sensações fogem das
situações para reduzir o estímulo sensorial. Quando a fuga não é possível, elas podem se tornar agressivas para
obter a ajuda de outros para removê­las da situação que as oprime. Para uma pessoa com padrões de prevenção
de sensações, basta apenas o estímulo sensorial previsível e familiar para fazê­la sentir­se mais confortável.
Como elas apresentam baixos limiares sensoriais, uma quantidade menor de estímulo sensorial possibilita que
a  pessoa  com  padrões  de  prevenção  de  sensações  seja  mais  responsiva  em  suas  atividades  diárias.  Para  essas
pessoas, realizar coisas da mesma maneira todas as vezes é confortável; as experiências sensoriais de se vestir
com a mesma roupa seria desejável. Roupas novas representariam estímulos táteis novos e não familiares.
A prevenção da sensação pode interferir nas rotinas diárias porque é difícil fazer com que tudo seja igual dia
após dia. Se a pessoa sente a necessidade de se retirar ao primeiro sinal de estímulo sensorial não familiar, pode
ser  difícil  para  ela  realizar  qualquer  tarefa.  Os  terapeutas  ocupacionais  podem  oferecer  diferentes  tipos  de
suporte  para  a  participação.  Primeiramente,  podemos  ajudar  a  pessoa  a  identificar  maneiras  de  se  retirar  de
ambientes  sensoriais  intensos  durante  o  dia  (p.  ex.,  um  espaço  de  “fuga”  em  casa,  um  local  para  dar  uma
caminhada).  Em  segundo  lugar,  podemos  aprender  que  sensações  são  aceitáveis  para  a  pessoa  e  trabalhar  em
conjunto para encontrar maneiras de aumentar essas sensações durante as rotinas diárias. Por exemplo, se uma
pessoa se sente oprimida ao ter a pele tocada de leve, nós podemos trabalhar para desenvolver um guarda­roupa
que  aplique  estímulos  táteis  de  pressão  firme  e  uniforme  sobre  a  pele.  (Lembre­se  de  que  o  toque  leve  ativa
mecanismos excitatórios e, consequentemente, pode se tornar opressor muito rapidamente, enquanto a pressão
fornece  um  estímulo  mais  organizado  ao  esquema  corporal  sem  fornecer  excitação  adicional.)  Nós  podemos
sugerir roupas íntimas de Lycra ou elásticas, camisas e calças de malha; outro benefício dessas sugestões é que o
estímulo da pressão torna mais difícil receber o estímulo de excitação, que é incômodo. Portanto, damos suporte
à  participação  de  pessoas  que  evitam  sensações  quando  encontramos  maneiras  de  fornecer  estímulo  sensorial
aceitável ao mesmo tempo que reduzimos as chances de estimulação sensorial difícil durante as rotinas diárias.

ESTUDO DE CASO: Danielle, Por Favor, Venha Jantar Conosco!

Danielle é uma menina de 5 anos de idade que vive com sua irmã mais velha e seus pais. Sua mãe, Sandy,
quer ideias para fazer com que Danielle se junte à família na hora do jantar. Este é o único momento em que
todos os membros da família estão reunidos e podem conversar sobre seu dia.
Em uma conversa telefônica inicial, Sandy conta a Mona, a terapeuta ocupacional, o que acontece quando
ela chega em casa. Tipicamente, a irmã mais velha está em seu quarto no computador, ouvindo música ou
falando ao telefone. Danielle chega em casa com Sandy e, embora elas conversem no carro, Danielle torna­
se menos interativa assim que chegam em casa. Sandy fica ocupada, trabalhando ou preparando o jantar, e
Danielle assiste TV. O pai ainda não chegou em casa após o trabalho.
Eles se sentam para jantar e Danielle tem que ser chamada várias vezes para sentar­se à mesa. Assim
que Danielle chega à mesa, ela se senta na cadeira e deita sua cabeça na mesa e seus pais continuam a se
esforçar para ter sua atenção.
Mona  vai  até  a  casa  de  Danielle  para  uma  visita  durante  o  jantar  de  modo  que  ela  possa  observar  as
rotinas da família e coletar mais informações. Ela também envia aos pais um perfil sensorial para que eles
preencham com dados sobre Danielle, porque ela imagina que talvez um baixo registro possa estar tornando
difícil para Danielle engajar­se em seus contextos. Mona observa que Danielle está conversando com Sandy
quando elas se aproximam da porta, porém em seguida Danielle fica mais calada quando se deita diante da
TV.  Quando  Mona  pede  a  Danielle  para  se  sentar  em  uma  almofada,  isso  parece  ajudar  um  pouco,  e
quando  ambas  começam  a  conversar  sobre  o  programa  da  TV  para  responder  as  perguntas  que  o
programa  faz  para  a  plateia,  Danielle  se  torna  um  pouco  mais  animada.  Mona  sabe  que  o  fato  de  ela  ser
uma pessoa nova na casa também contribui para o maior engajamento de Danielle.
A hipótese de Mona sobre o baixo registro mostra­se correta; os escores do perfil sensorial, as descrições
dos pais e as observações de Mona convergem para estabelecer um quadro consistente de uma criança que
necessita  de  estímulo  sensorial  mais  intenso  para  permanecer  engajada.  Como  Danielle  responde  à
estimulação  de  outros  (p.  ex.,  sentar­se,  conversar)  e  se  torna  mais  engajada,  isso  deu  a  Mona  algumas
ideias sobre como ajudar essa família.
Quando  Mona  e  Sandy  se  encontram,  elas  discutem  a  necessidade  de  Danielle  ter  mais  estímulo
sensorial. Mona explica que, quando elas estão no carro, Sandy está conversando, apontando coisas para
que  ela  olhe  e  tocando  o  rádio,  e  todas  essas  coisas  ajudam  a  manter  Danielle  ativa  e  engajada.  Quando
elas chegam em casa e Danielle é deixada sozinha, ela não busca estímulo extra para si, e por isso se torna
menos engajada e não percebe as coisas que estão acontecendo a seu redor. Esta não é uma boa situação
para motivá­la a participar do jantar porque Danielle não obtém estimulação sensorial suficiente apenas em ir
para a sala de jantar.
Mona faz algumas sugestões para aumentar as experiências sensoriais de Danielle ao se deslocar para a
sala  de  jantar,  as  quais  poderiam  facilitar  sua  interação  durante  a  refeição.  Elas  conversam  sobre  as
maneiras  de  Danielle  ajudar  no  jantar,  como  mexer  as  panelas,  pegar  talheres  e  levar  os  pratos  para  a
mesa,  de  modo  que  o  sistema  sensorial  de  Danielle  possa  receber  estimulação  sensorial  contínua  ao
caminhar, carregar, conversar e sentir os objetos à medida que trabalha. Mona também explica que o uso de
jogos  americanos  e  pratos  que  façam  contraste  com  a  comida  tornará  a  mesa  mais  visualmente
interessante.  Sandy  realmente  responde  ao  plano  e  até  mesmo  começa  a  acrescentar  novas  ideias.  Ela
coloca  guloseimas  coloridas  no  leite  de  Danielle  para  surpreendê­la  na  mesa  e  a  família  começa  a  jogar
jogos  de  adivinhação  sobre  que  comidas  estão  nos  pratos.  Todas  essas  atividades  mantêm  Danielle
engajada  porque  ela  obtém  uma  quantidade  contínua  e  intensa  de  informação  sensorial  enquanto  eles
preparam e consomem a refeição. Isso permite que Danielle permaneça alerta durante o jantar e converse
mais ativamente com sua família.

Perguntas
1. Você  tem  outras  ideias  sobre  o  que  os  pais  de  Danielle  poderiam  experimentar  para  aumentar  a
estimulação sensorial de Danielle antes e durante o jantar?
2. Mona  precisaria  de  ajuda  dos  pais  para  saber  também  como  detectar  uma  superestimulação.  Quais
seriam  os  comportamentos  que  indicariam  sinais  de  alerta  para  os  pais  de  Danielle  de  que  ela  está
sendo superestimulada?

Sensibilidade Sensorial
Pessoas  com  padrão  de  sensibilidade  sensorial  reagem  às  experiências  sensoriais  a  seu  redor.  Elas  percebem
sensações muito rapidamente, de modo que podem parecer distraídas ou entediadas na maior parte do tempo. As
pessoas  com  sensibilidade  comentarão  sobre  coisas  que  estão  acontecendo  ao  redor  delas  porque  estão  muito
atentas  às  sensações.  Por  exemplo,  em  um  concerto,  a  pessoa  perceberá  outras  pessoas  utilizando  lenços  de
papel, mexendo os pés, folheando o programa e se acomodando nos assentos. Algumas vezes, a sensibilidade a
todas essas ações combinadas pode fazer com que a pessoa não seja capaz de ouvir e apreciar o concerto.
As pessoas com sensibilidade sensorial saem­se melhor em situações precisas. Elas têm menos probabilidade
de  se  retirar  dos  lugares,  como  as  que  evitam  sensações,  embora  ainda  desejem  manter  suas  experiências
sensoriais dentro de limites que possam controlar. Para pessoas com sensibilidade sensorial, é mais confortável
quando  elas  conhecem  seus  próprios  limites  e  podem  controlar  a  quantidade  de  estímulo  sensorial  que  seja
confortável em cada situação de vida. Por exemplo, elas planejarão uma saída com a família em grandes detalhes
para ter certeza de que tudo sairá adequado para elas (Uma pessoa que evita sensações não sairá em grupo.)
Quando  uma  pessoa  apresenta  sensibilidade,  a  precisão  na  vida  cotidiana  torna­se  importante.  Seriam
necessárias  várias  opções  de  duchas,  toalhas,  sabonetes  e  outros  produtos  de  higiene  antes  que  a  pessoa
encontrasse  aquelas  consideradas  “que  servem”.  Essas  pessoas  também  podem  se  sentir  infelizes  quando  as
companhias  mudam  a  linha  de  seus  produtos,  o  que  significa  encontrar  outro  produto  aceitável.  O  terapeuta
ocupacional  pode  dar  suporte  às  pessoas  com  sensibilidade  ao  ajudá­las  a  caracterizar  os  detalhes  de  suas
necessidades  sensoriais  e  encontrar  outros  produtos,  móveis,  suprimentos  e  situações  que  forneçam  a
estimulação sensorial necessária, sem excessos, ou estimulação sensorial indesejável. Por exemplo, poderíamos
verificar todos os produtos de higiene pessoal da pessoa para identificar semelhanças entre eles e, em seguida,
colaborar para identificar outros produtos, alimentos e suprimentos que tenham essas características. Se todos os
itens  forem  inodoros  e  cremosos,  nós  podemos  utilizar  esta  informação  em  outras  situações.  Conhecer  as
características sensoriais é uma poderosa ferramenta para pessoas com sensibilidade.

QUESTÕES INSTIGANTES
1. Pense sobre sua rotina diária como uma experiência de processamento sensorial contínua. O que lhe atrai?
Do  que  você  se  afastaria?  Quais  estratégias  de  processamento  sensorial  estão  inseridas  em  suas  rotinas
diárias? Quais experiências sensoriais poderiam interromper algo que você estivesse fazendo?
2. Pense sobre uma situação que você considera difícil de lidar? Utilizando o ponto de vista do processamento
sensorial, como você poderia modificar essa situação para torná­la mais controlável para você?
3. Que evidências na literatura apoiam as mudanças que você poderia fazer em sua vida para tornar a situação
mais controlável para você?

REFERÊNCIAS
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Integração Sensorial
SUSANNE SMITH ROLEY
E S. ESSIE JACOBS

Sumário
Introdução
A. Jean Ayres
Teoria da Integração Sensorial
Neuroplasticidade
Organização do Cérebro
Progressão do Desenvolvimento
Resposta Adaptativa
Pulsão Interna
Integração Sensorial e Ocupação
Terapia Ocupacional com Uso dos Princípios de Integração Sensorial
Identificação de Disfunção da Integração Sensorial
Modulação Sensorial
Discriminação Sensorial
Praxia
Avaliação
Planejamento do Tratamento
Tratamento
Características Fundamentais do Tratamento com Uso da Integração Sensorial
Princípios que Orientam o Tratamento Real
Princípios Básicos de Integração Sensorial
Objetivos da Terapia Ocupacional com Uso de Estratégias de Integração Sensorial
Preparação do Relatório

Objetivos de Aprendizagem
Após a leitura deste capítulo, você será capaz de:
1. Descrever o significado do processamento sensorial para o aprendizado e o comportamento.
2. Identificar conceitos fundamentais à teoria da integração sensorial.
3. Citar maneiras de avaliar a disfunção da integração sensorial.
4. Caracterizar  o  tratamento  com  uso  dos  princípios  da  integração  sensorial  em  relação  aos  que  utilizam  outros
protocolos.
5. Reconhecer as evidências que dão suporte e orientam o uso da teoria e dos princípios de integração sensorial
na prática da terapia ocupacional.

INTRODUÇÃO
A  teoria  da  integração  sensorial  (IS)  é  uma  teoria  dinâmica  e  ecológica  que  especifica  a  influência  fundamental  do
processamento sensorial no desenvolvimento e na função humanos. Esta teoria enfatiza a capacidade da pessoa de processar as
informações sensoriais do corpo e integrá­las às informações sobre o que está acontecendo ao seu redor para que a pessoa possa
efetivamente  atuar  no  ambiente.  Ela  contribui  para  nossa  compreensão  sobre  como  a  sensibilidade  afeta  o  aprendizado,  o
desenvolvimento  socioemocional  e  os  processos  neurofisiológicos,  como  o  desempenho  motor,  a  atenção  e  a  ativação.
Comumente, na prática, os terapeutas ocupacionais utilizam a teoria da integração sensorial como um protocolo que pode ser útil
tanto para avaliar como para tratar pessoas que apresentam disfunção da integração sensorial ou do processamento sensorial, o
que  afeta  adversamente  a  função  (Parham  &  Mailloux,  2005).  É  importante  esclarecer  o  que  se  quer  dizer  com  o  termo
integração sensorial, uma vez que este termo é utilizado como referência a uma teoria, um processo neurológico, um distúrbio e
uma abordagem de tratamento (Bundy, 2002; Mulligan, 2003).
Os princípios teóricos que dão suporte ao uso desse protocolo baseiam­se em evidências da neurociência em que a Dra. Ayres
identificou que o comportamento e as emoções são regulados por mecanismos cerebrais. Avanços na neurociência continuam a
ocorrer e a dar suporte às hipóteses originais da Dra. Ayres, contribuindo para a prática baseada em evidências (Bauman, 2005;
Schneider,  2005).  As  teorias  dos  sistemas  dinâmicos  surgiram  para  promover  a  compreensão  da  complexidade  do
desenvolvimento  (Thelen  &  Smith,  1994)  e  ajudam  a  explicar  a  complexidade  do  modo  pelo  qual  esse  tratamento  provoca
mudanças nas crianças (Spitzer, 1999). Atualmente, a IS é aplicada na área educacional em crianças que apresentam distúrbios de
aprendizado e de comportamento (American Occupational Therapy Association, 2003), bem como na área pessoal.
Enquanto  o  ensino  da  teoria  da  integração  sensorial  e  dos  princípios  de  tratamento  faz  parte  dos  currículos  iniciais  dos
terapeutas ocupacionais, o treinamento de pós­graduação é recomendado para aqueles que se especializam no uso de técnicas de
IS na prática clínica. Os terapeutas ocupacionais com certificação e experiência profissional em integração sensorial são os mais
bem preparados para avaliar e aplicar o tratamento por IS. Os estagiários de terapia ocupacional podem praticar o tratamento com
princípios da IS sob a supervisão apropriada de um terapeuta ocupacional (Miller­Kuhaneck & Smith Roley, 2005).

A. JEAN AYRES
Nos  anos  1960,  a  Dra.  Jean  Ayres  (1920­1988),  uma  terapeuta  ocupacional  e  psicóloga  educacional,  identificou  e  descreveu
incapacidades ocultas, denominando­as disfunção em processos de integração sensorial (Ayres,  1963, 1968)  e, posteriormente,
disfunção  da  integração  sensorial  (Ayres,  2005).  Suas  ideias  e  o  posterior  desenvolvimento  da  teoria  foram  adquiridos  pela
observação perspicaz do comportamento; a revisão de fundamentos neurofisiológicos do comportamento; a síntese da literatura
de  neurologia,  psicologia,  neurofisiologia  e  educação;  a  pesquisa  sobre  a  avaliação;  e  análises  estatísticas  dos  padrões  de
disfunção (Ayres, 1972, 1974) (Fig. 59.1).
Em 1979, a Dra. Ayres publicou o Sensory Integration and the Child, um livro “para ajudar os pais a identificarem problemas
de integração sensorial em seus filhos, compreenderem o que acontece e fazerem algo para ajudá­los” (2005, p. 12). A Dra. Ayres
previu que, à medida que a nossa compreensão sobre o sistema nervoso central avançasse, refinaríamos nossa compreensão sobre
a  base  neurológica  da  teoria  da  integração  sensorial,  da  avaliação  e  do  tratamento.  As  premissas  básicas  de  seu  trabalho
permanecem  até  hoje.  Na  edição  de  25o  aniversário  do  Sensory  Integration  and  the  Child:  Understanding  Hidden  Sensory
Challenges (2005), a Dra. Ayres é descrita como uma “teórica do desenvolvimento” (Knox, 2005), uma “pioneira na neurociência
afetiva” (Schneider, 2005), uma “pioneira na nossa compreensão sobre a dispraxia do desenvolvimento” (Cermak, 2005), “uma
das teóricas originais da área da percepção e das áreas da percepção motora” (Smith Roley, 2005) e uma observadora astuta do
comportamento e do desenvolvimento neurológico humano (Bauman, 2005). Seu trabalho fez importantes discussões sobre nossa
compreensão  da  neurociência  clínica,  da  importância  da  experiência  do  desenvolvimento  cerebral,  do  papel  dos  distúrbios  da
defensibilidade  tátil  e  da  modulação  sensorial  como  contribuintes  para  os  distúrbios  do  comportamento  e  do  impacto  do
registro sensorial no autismo, entre outros.

Fig. 59.1 A Dra. Ayres aplicou suas teorias por meio de avaliação precisa que orientou o tratamento caracterizado por
engajamento motor divertido automotivado em atividades sensoriais.

TEORIA DA INTEGRAÇÃO SENSORIAL
A Dra. Ayres desenvolveu uma teoria da integração sensorial para explicar a conexão entre o sistema nervoso e o comportamento.
Cinco pressupostos básicos formaram a base teórica para o pensamento da Dra. Ayres:
1. O notável potencial de transformação do cérebro em desenvolvimento, ou neuroplasticidade, o que recentemente também se
mostrou  verdadeiro  para  o  cérebro  do  adulto  (para  revisões,  veja  Buonomano  &  Merzenich,  1998;  Cruikshank  &
Weinberger, 1996; Gross, 2000)
2. As  interações  entre  as  áreas  de  “centros  superiores”  (corticais)  do  cérebro  e  aquelas  das  áreas  “inferiores”  (subcorticais)
como fundamentais para integração sensorial adequada
3. O desenvolvimento neurofisiológico das funções de integração sensorial que ocorrem em uma ordem natural e seguem uma
sequência básica
4. Uma resposta adaptativa, que é “a capacidade de ajuste de ação de uma pessoa em relação às demandas ambientais” (Ayres,
1972,  p.  8)  e  de  promoção  de  um  nível  mais  alto  de  integração  como  consequência  da  retroalimentação  para  o  sistema
nervoso central
5. Presença  de  uma  pulsão  interna  para  atender  e  controlar  um  desafio,  o  que  promove  o  desenvolvimento  da  integração
sensorial

Neuroplasticidade
Ainda hoje, a análise da Dra. Ayres sobre a importância da experiência como um determinante importante da organização cortical
e da função resultante continua sendo um princípio inquestionável no campo da neurociência. Esta “plasticidade dependente da
experiência no córtex cerebral reflete a importância do aprendizado em nossa vida mental e em nossos comportamentos” (E. K.
Miller, 2000, p. 1067). Durante o período em que a Dra. Ayres estudou a neuroplasticidade, os pesquisadores acreditavam que a
capacidade de modificação do cérebro era forte durante a infância, porém, após um período crítico de desenvolvimento, tornava­
se muito limitada. Atualmente, sabemos que o cérebro mantém a capacidade de modificação durante toda a vida (Bear, Connors
& Paradiso, 2006: Gilbert & Wiesel, 1992).

Organização do Cérebro
Embora  nosso  sistema  nervoso  esteja  quase  constantemente  sendo  bombardeado  por  sensações,  nem  todas  essas  sensações
alcançam  o  córtex.  Se  o  córtex  tivesse  que  processar  todas  as  sensações  que  uma  pessoa  experimenta,  ele  não  seria  capaz  de
realizar tarefas mais sofisticadas, como o pensamento e a ação. Os neurocientistas estudaram muito a organização hierárquica do
cérebro. A Dra. Ayres compreendeu que os níveis cerebrais superiores, à medida que se desenvolvem, permanecem dependentes
dos níveis cerebrais inferiores (Ayres, 1972, 2004, 2005). Antes que muitas mensagens sensoriais aferentes ascendam ou atinjam
algum  ponto  ao  longo  de  sua  “subida”  em  direção  ao  tálamo,  e  em  seguida  ao  córtex,  outros  neurônios  atuam  sobre  elas  para
reduzir sua atividade (inibição) ou, em alguns casos, estimular sua atividade (facilitação). A Dra. Ayres descreveu esse processo
de inibição e facilitação como um processo de auto­organização do sistema nervoso central (2005). Dessa maneira, as estruturas
subcorticais são direcionadores importantes da informação que os níveis corticais superiores precisam processar.
Com base em sua compreensão de que a percepção de qualquer estímulo sensorial exije a facilitação de algum estímulo e a
inibição de outro, a Dra. Ayres desenhou um tratamento que incorporaria esses mecanismos e, consequentemente, promoveria um
funcionamento integrado do cérebro como um todo. O uso de estímulos com efeito inibidor e o de uma tarefa na qual a criança
pode se concentrar e que desencadeia uma resposta adaptativa  foram  propostos  pela  Dra.  Ayres  como  princípios  terapêuticos
iniciais  para  estimular  a  organização  do  sistema  nervoso  central.  Atualmente,  esses  princípios  continuam  sendo  elementos
centrais da terapia ocupacional que se utiliza de uma abordagem de integração sensorial.
Até  o  presente,  não  houve  mudanças  em  nosso  conhecimento  sobre  o  papel  fundamental  das  estruturas  subcorticais  para  o
funcionamento  eficiente.  Entretanto,  atualmente  é  maior  o  foco  sobre  a  interdependência  recíproca  entre  os  níveis  cerebrais
superiores e inferiores (Middleton & Strick, 2000; Wall, Xu & Wang, 2002). Essa interação de atividade entre o nível cortical
superior  e  as  estruturas  subcorticais  (em  especial,  o  tálamo)  contribui  ainda  mais  para  os  processos  de  auto­organização  do
cérebro.  Dessa  maneira,  o  cérebro  é  capaz  de  desenvolver  representações  que  impõem  um  significado  mais  profundo  do  que
aquele fornecido pela informação multissensorial isoladamente. Por exemplo, suponha que nós tenhamos um objeto de cor laranja
e redondo (visão), de odor cítrico (olfato) e de uma aspereza discreta em sua superfície (tátil); a interação no cérebro contribui
para a nossa associação destas qualidades com uma laranja.
A Dra. Ayres acreditava que o uso terapêutico de atividades multissensoriais adequadas poderia ser a maneira mais eficaz de
promover a integração sensorial. A pesquisa que orientou seu pensamento sugeria que haveria locais comuns de integração no
sistema nervoso central onde as informações de diferentes fontes sensoriais convergeriam para os neurônios com potencial para
responder  aos  estímulos  de  múltiplas  fontes  sensoriais.  Estes  foram  denominados  “neurônios  convergentes”  ou  neurônios
“polissensoriais” e foram considerados locais importantes para a coordenação de diferentes tipos de informação (Ayres, 1972).
Nos  últimos  25  anos,  tem  havido  extensa  pesquisa  sobre  a  modalidade  cruzada  ou  convergência  multissensorial  e  os  achados
demonstram que este processo ocorre em locais no mesencéfalo, no tálamo e no córtex (para uma revisão, veja Stein e Meredith,
1993). Nesses locais existe a oportunidade para a integração multissensorial ou cruzada.
Um dos grupos de neurônios multissensoriais mais bem estudados está no colículo superior (CS) (Sparks & Groh, 1995; Stein,
1984;  Wallace,  Meredith  &  Stein,  1993).  Classicamente,  essa  estrutura  mesencefálica  é  dividida  em  camadas  superficiais  que
contêm,  predominantemente,  neurônios  visuais  e  em  camadas  profundas  que  contêm  neurônios  multissensoriais  (visuais,
somatossensoriais  e/ou  auditivos)  e  pré­motores.  A  investigação  no  CS  demonstrou  como  os  sinais  de  diferentes  sentidos  são
combinados  e  utilizados  para  orientar  respostas  motoras  adaptativas,  como  ouvir  um  som  e  virar  a  cabeça  para  localizar
visualmente  a  fonte  (King  &  Palmer,  1985;  Meredith  &  Stein,  1986;  Stein,  Meredith,  Huneycutt  &  McDade,  1989;  Stein,
Huneycutt & Meredith, 1988; Wallace et al., 1993). Neste exemplo de resposta orientada, quando os estímulos auditivos e visuais
ocorrem  em  íntima  relação  no  espaço  e  no  tempo,  sua  combinação  aumenta  a  capacidade  de  detectar  e  identificar  estímulos
externos.  Contrariamente,  exemplos  de  modalidade  cruzada  que  sejam  significativamente  discordantes  (p.  ex.,  díspares
espacialmente) podem ter um efeito oposto e deprimir as respostas (Stein et al., 1989). Se a resposta é aumentada ou deprimida,
uma consequência comportamental importante da síntese (ou discordância) da informação sensorial está intimamente relacionada
a mudanças na atenção (Stein et al., 1989).
Estudos  recentes  conduzidos  por  Stein  (2005)  sobre  a  integração  multissensorial  demonstram  que  o  córtex  desempenha  um
papel  importante  na  mediação  da  convergência  dos  estímulos  sensoriais  no  nível  do  colículo  superior.  Mediante  a  desativação
temporária  do  fluxo  de  informação  do  córtex  para  os  neurônios  do  CS,  o  aumento  da  resposta  fica  comprometido.  Como
consequência, a capacidade de utilizar estímulos de modo cruzado para aumentar o desempenho comportamental mediado pelo
CS  também  é  comprometida.  Como  a  Dra.  Ayres  suspeitava  e  a  pesquisa  tem  confirmado,  o  processo  de  integração
multissensorial é altamente adaptativo, “mesclando informações de diferentes canais sensoriais para detectar, identificar e reagir
melhor aos eventos ambientais... A integração sensorial é fundamental para a percepção e o comportamento” (Stein et al., 1989,
p. 12).
Nós  reconhecemos  que  as  principais  vias  sensoriais,  em  vez  de  simplesmente  transmitirem  a  informação  de  uma  maneira
inflexível,  enviam  impulsos  que  estão  sendo  constantemente  ajustados  em  relação  à  atenção,  à  ativação  e  à  antecipação,  bem
como  ao  pensamento  e  ao  planejamento.  Eide  observa  que  “quando  o  sistema  sensorial  está  trabalhando  efetivamente,  a
modalidade cruzada melhora nossa responsividade e interação com o ambiente. Entretanto, quando os sistemas sensoriais estão
menos ativos ou superativados (defensividade sensorial), a atenção fica inadequadamente direcionada ou desviada” (2003, pp. 1­
2). Eide propõe que as abordagens terapêuticas focadas em adaptações ambientais e em estratégias sensoriais apropriadas “são
frequentemente  a  melhor  oportunidade  para  que  as  crianças  reduzam  as  ‘distrações’  corporais  de  modo  que  elas  possam  se
concentrar no aprendizado e na socialização” (2003, p. 2).
Nas  últimas  duas  décadas,  achados  de  pesquisa  de  neurociência  indicam  que  a  informação  sensorial  (como  aquela  que  nos
permite  perceber  o  objeto  como  uma  laranja)  é  distribuída  como  fluxos  de  informação  seriados  e  paralelos  (Felleman  &  Van
Essen, 1991; Pons et al.,  1987;  para  uma  revisão,  veja  Mesulam,  1998).  Embora  este  modelo  de  processamento  distribuído  da
estrutura e função cerebrais não tenha sido especificado naquela época, em 1972, a Dra. Ayres escreveu: “A organização deve
ocorrer, e de fato ocorre, verticalmente entre os níveis do cérebro, bem como horizontalmente entre duas estruturas no mesmo
nível”  (p.  27),  demonstrando  compreensão  sobre  a  complexidade  integrativa  e  recíproca  do  cérebro.  Bundy  e  Murray  (2002)
comentam  que  uma  abordagem  de  sistemas  para  organização  do  sistema  nervoso,  na  qual  “os  sistemas  interagem  e  tanto  as
estruturas corticais como subcorticais contribuem para a integração sensorial” (p. 11), é consistente com a teoria da Dra. Ayres.

Progressão do Desenvolvimento
Ao considerar o desenvolvimento como um processo pelo qual o cérebro passa, a Dra. Ayres observou que “o cérebro de cada
criança  é  desenhado  para  seguir  uma  sequência  ordenada,  previsível  e  inter­relacionada  de  desenvolvimento  que  resulta  na
capacidade de aprendizado” (1972, p. 4). Dado um rico ambiente de suporte, as crianças crescerão e desenvolverão as memórias
sensoriais  e  motoras  que  as  ajudarão  a  adaptar  seu  crescimento  e  interesses  ao  contexto  de  um  ambiente  em  contínua
transformação. Enquanto a Dra. Ayres enfocou os primeiros sete dias de vida como o período em que isso ocorria, sabemos agora
que o cérebro continua a se desenvolver durante toda a vida da pessoa (Bear et al.,  2006;  Gilbert  &  Wiesel,  1992).  O  aspecto
fundamental desse processo é que a criança experimenta sensações que impõem uma demanda sobre o cérebro para organizar os
estímulos  aferentes  em  percepções.  Dependendo  do  contexto  em  que  os  estímulos  são  experimentados,  a  criança  pode  se
concentrar e responder a um estímulo (detecção sensorial como um processo do sistema nervoso central; registro sensorial como
inferido  a  partir  do  comportamento  da  criança)  ou,  se  eles  não  são  relevantes,  os  estímulos  podem  ser  ignorados  (inibição  por
mecanismo central, modulação sensorial por mecanismo comportamental) (Lane, Miller & Hanft, 2000; Miller & Lane, 2000).
Por  exemplo,  uma  criança  que  está  guiando  uma  bicicleta  tipicamente  responde  aos  estímulos  visuais  e  auditivos  durante  seu
passeio  (registro  sensorial)  enquanto  ignora  a  sensação  de  sua  camisa  sendo  balançada  pelo  vento  (inibição).  Se  o  cérebro  da
criança não é capaz de organizar eficientemente os estímulos aferentes, esses processos de “filtragem” e “resposta” poderiam ser
inadequados. Nesse exemplo, a criança que não é capaz de tolerar o estímulo tátil do movimento da sua camisa contra o corpo
terá  dificuldade  em  responder  às  informações  visuais  e  auditivas  importantes  do  ambiente  que  são  necessárias  tanto  para  a
segurança  como  para  a  habilidade.  Até  que  a  sensação  tátil  seja  discriminada  como  “segura”,  considera­se  que  a  criança
permanece na condição “luta ou fuga” mais primitiva. Em geral, essa condição primitiva enfraquece tanto o desenvolvimento das
habilidades como o das emoções, uma vez que é por meio da capacidade do cérebro de organizar as sensações que “a criança
adquire controle sobre suas emoções” (Ayres, 2005, p. 14).

Resposta Adaptativa
Nossa capacidade de elaborar respostas adaptativas a demandas e desafios ambientais em constante transformação nos permite
aprender alguma coisa nova e, por sua vez, modificar o ambiente (Ayres, 1972, 1979, 2005). Spitzer (1999) discute a congruência
entre o conceito de auto­organização da teoria dos sistemas dinâmicos e o conceito da Dra. Ayres de resposta adaptativa da teoria
de integração sensorial. Em ambas as teorias, a retroalimentação dos ajustes ativos e espontâneos do indivíduo contribui para a
auto­organização do cérebro (Smith & Thelen, 1993; Ayres, 1979, 2005). A Dra. Ayres enfatizou a importância da “organização
das respostas adaptativas para aumentar a complexidade” (1972, p. 128) como um componente essencial do tratamento. Ela se
baseou em pesquisa da neurociência que sugeria que a ineficiência na atividade sináptica nas vias anatômicas poderia contribuir
para a integração da informação sensorial insuficiente e propôs que o enfoque sobre o desencadeamento de uma resposta ainda
não  bem  desenvolvida  poderia  estimular  a  função sináptica  (Ayres,  1972;  Katz  &  Shatz,  1996;  Schlaug,  2001).  Embora  uma
resposta  adaptativa  ocorra  mais  tipicamente  durante  uma  tarefa  motora,  ela  também  ocorre  por  demandas  que  se  originam  em
outros domínios (p. ex., regulação emocional, interação cognitiva e social).
“A terapia que usa uma abordagem de integração social é um processo natural” (Ayres, 2005, p. 140). A Dra. Ayres afirmava
que se a criança não é capaz de integrar seu sistema nervoso com sucesso em ambientes típicos, “ela necessita de um ambiente
altamente especializado, sob medida para seu sistema nervoso” (Ayres, 2005, p. 141). Esse estilo de terapia exige que o terapeuta
ocupacional ou seu estagiário estabeleça um conjunto rico de atividades com base sensorial que facilite a auto­organização e o
engajamento físico da criança no ambiente. Embora o tratamento clássico com base na integração sensorial seja fornecido em um
ambiente  clínico  cuidadosamente  construído  (Parham  &  Mailloux,  2005),  os  princípios  da  integração  social  e  as  atividades
podem ser adaptados para utilização em diferentes atividades com base sensorial em ambientes naturais, como a casa ou a escola
(Pediatric Therapy Network, 2004). Entretanto, é difícil aplicar tratamentos com IS se a criança não tiver um ambiente para se
mover, pular ou cair com segurança, ou se não for possível reorganizar os objetos para interagir de novas maneiras.

Pulsão Interna
Uma criança não pode ser forçada a se auto­organizar ou produzir uma resposta adaptativa. Em vez disso, é a pulsão pelo controle
ou a motivação para explorar que desencadeia na pessoa o desejo de participar. “Organizar e executar uma resposta adaptativa
que  seja  mais  madura  e  complexa  do  que  qualquer  outra  resposta  anterior  exige  esforço  —  o  tipo  de  esforço  que  uma  criança
percebe com satisfação quando está emocionalmente envolvida na tarefa e acredita que pode lidar com ela” (Ayres, 1972, p. 127).
Inseridos nesta afirmativa estão dois conceitos importantes de tratamento. Um é o conceito do “desafio na medida certa”,  no
qual  a  tarefa  está  além  do  que  a  criança  já  é  capaz  de  alcançar  impondo  demandas  máximas  para  promover  a  integração  do
sistema nervoso central. O outro conceito é o da natureza condutora da criança do tratamento baseado na IS, durante o qual o
terapeuta  dá  à  criança  a  liberdade  de  escolher  e  participar  de  atividades  contanto  que  sejam  suficientemente  desafiadoras,
promovam  comportamentos  adaptativos  cada  vez  mais  complexos  e,  em  geral,  favoreçam  o  desenvolvimento  da  integração
sensorial (Stein & Meredith, 1993; Stein, 1998).

INTEGRAÇÃO SENSORIAL E OCUPAÇÃO
A  integração  sensorial  é  fundamental  para  a  interpretação  das  informações  do  ambiente  e  para  o  aprendizado.  A  Dra.  Ayres
definiu integração sensorial como “o processo neurológico que organiza as sensações do corpo de uma pessoa e do ambiente e
torna possível, efetivamente, a utilização do corpo no ambiente” (2004, p. 9). A sensação é utilizada para orientar o engajamento
do indivíduo com pessoas e objetos no ambiente; em outras palavras, para engajar­se em ocupações necessárias e desejadas (Figs.
59.2 e 59.3). A Tabela 59.1 relaciona as funções dos diferentes sistemas sensoriais.

TERAPIA OCUPACIONAL COM USO DOS PRINCÍPIOS DE INTEGRAÇÃO SENSORIAL
O protocolo da integração sensorial consiste em três componentes inter­relacionados da prática da terapia ocupacional:
1. Aplicação dos conceitos teóricos que dão suporte à prática baseada em evidências
2. Instrumentos de medida das funções sensoriais integrativas dos indivíduos, como:
Testes de Integração Sensorial e Praxia (The Sensory Integration and Praxis Tests [SIPT]) (Ayres, 1989), uma série de 17
testes  padronizados  destinados  a  avaliar  a  discriminação  sensorial  e  a  praxia,  incluindo  percepção  visual,  habilidades
motoras visuais, funções vestibulares, propriocepção, discriminação tátil, habilidades motoras finais e globais e praxia
Medidas  do  processamento  sensorial,  particularmente  modulação,  como  o  Perfil  Sensorial  (Sensory  Profile)  (Brown  &
Dunn,  2002;  Dunn,  1999,  2002a,  2002b),  Medida  do  Processamento  Sensorial  (Sensory  Processing  Measure  [SPM])  —
Edição Domiciliar (Parham & Johnson­Ecker, 2007), SPM – Edições Escolares (Miller­Kuhaneck, Henry & Glennon, 2007)
[partes previamente publicadas como Avaliação do Processamento Sensorial (Evaluation of Sensory Processing) (Johnson­
Ecker  &  Parham,  2000)]  e  questionários  preenchidos  pelos  cuidadores  que  indicam  a  sensibilidade  e  a  responsividade  da
criança a várias sensações e situações sensoriais
Observações  clínicas  das  funções  neuromotoras,  da  praxia  e  das  brincadeiras  (Blanche,  2002;  Windsor,  Smith  Roley  &
Szklut,  2001),  uma  série  de  observações  estruturadas  e  não  estruturadas  que  incluem  capacidades  neuromotoras  clássicas,
responsividade sensorial e capacidades de planejamento motor
3. Estratégias de tratamento (Bundy, Lane & Murray, 2002; Koomar & Bundy, 2002; Smith Roley, Blanche & Schaaf, 2001)
Fig. 59.2 As crianças precisam de diferentes experiências para aprender novas maneiras de utilizar seus corpos; equilibrar, ajustar
e coordenar suas ações de acordo com a maneira com que as coisas se apresentam e construir novas maneiras de interagir com
o ambiente. A interação cooperativa com outras pessoas pode necessitar de respostas mais adaptadas para todas estas
habilidades.

Fig. 59.3 Fluxograma da Dra. Ayres. The Senses, Integration of Their Inputs, End Products copyright (c) 1979 por Western
Psychological Services. Reimpresso com permissão do editor WPS, 12031 Wilshire Boulevard, Los Angeles, CA 90025,
www.wpspublish.com. Nenhuma reimpressão adicional sem prévia autorização por escrito de WPS. Todos os direitos reservados.
TABELA 59.1 FUNÇÕES DE SISTEMAS SENSORIAIS ESPECÍFICOS FUNÇÕES DO:
Sistema Vestibular Sistema Sistema Tátil Sistema Sistema Auditivo Sistemas
Proprioceptivo Visual Olfatório e
Gustatório
Detecta ação da Fornece Desenvolvimento Relacionamento Desenvolvimento Relacionamento
gravidade informações emocional Orientação da linguagem cuidador­
Detecta posição e para o Esquema corporal espacial Modulação do som lactente
movimento da esquema Habilidades Movimento no Orientação Proteção contra
cabeça corporal, associadas espaço espacial substâncias
Modula o tônus conceito à(ao): Habilidades nocivas
postural corporal Percepção tátil sociais Atração por
Controle da Essencial para o Planejamento Comunicação substâncias
cabeça/pescoço/olho movimento de motor potencialmente
Reações de precisão Sequenciamento nutritivas
endireitamento e Interage com o Organização
equilíbrio sistema Percepção visual
Conexões auditivas vestibular
para orientação para o
espacial controle
Regulação da ativação postural
Interage com o
sistema tátil
para o
controle fino
dos
movimentos

IDENTIFICAÇÃO DE DISFUNÇÃO DA INTEGRAÇÃO SENSORIAL
A  Dra.  Ayres  analisou  escalas  de  testes  e  observações  clínicas  de  crianças  com  incapacidades  de  aprendizado  para  identificar
empiricamente padrões de disfunção (Ayres, 1974, 1989). Posteriormente, Mulligan (1998a, 1998b, 2000) conduziu as análises
fatorial  confirmatória  e  de  grupo  que  deram  suporte  aos  padrões  de  disfunção  originais  da  Dra.  Ayres.  Consequentemente,  a
pesquisa  mais  forte  na  integração  sensorial  está  na  identificação  dos  tipos  e  padrões  de  disfunção  da  integração  sensorial
utilizando  os  Testes  de  Integração  Sensorial  e  Praxia  (SIPT)  (Ayres,  1989;  Mulligan,  1998a,  1998b,  2000).  Diferentes  tipos  e
padrões  de  disfunção  do  processamento  sensorial  continuam  a  ser  examinados  (Ayres  &  Tickle,  1980;  Brown  &  Dunn,  2002;
Dunn, 1999, 2002a, 2002b; Miller, McIntosh, McGrath, Shyu, Lampe & Taylor, 1999; Miller & Summers, 2001). Esses estudos
sugerem que a disfunção da integração sensorial não é um distúrbio único, mas um espectro de distúrbios (Parham & Mailloux,
2005) relacionados com os seguintes processos.

Modulação Sensorial
A  Dra.  Ayres  (1979,  2005)  propôs  que  “a  combinação  de  mensagens  facilitadoras  e  inibidoras  produz  modulação,  que  é  o
processo de auto­organização do sistema nervoso” (2005, p. 36). O distúrbio da modulação sensorial é um tipo de disfunção da IS
caracterizado  por  flutuações  ou  extremos  na  responsividade  à  intensidade  de  uma  ou  mais  sensações.  Frequentemente,  são
observadas dificuldades com a modulação sensorial durante atividades cotidianas, como se arrumar, eventos sociais ou transições.
Comportamentos  específicos  podem  incluir  hipersensibilidade  auditiva  ou  defensividade  tátil,  insegurança  gravitacional,
aversão ao movimento,  ou  sentir­se  oprimido  em  ambientes  ricos  em  estímulos,  como  em  shoppings­centers  (Koomar,  1995;
Weisberg, 1984). Os distúrbios da modulação sensorial são encontrados em conjunto com aspectos de ativação, regulação externa
ou  autorregulação,  incluindo  cólicas,  respiração  rítmica,  digestão  e  eliminação  ruins;  déficits  de  ativação  e  atenção;
hiperatividade, ansiedade e outros sinais de instabilidade emocional e problemas sociais (DeGangi, 2000; DeGangi & Greenspan,
1988; Schaaf & Anzalone, 2001; Schaaf, Miller, Seewal & O’Keefe, 2003; Williamson & Anzalone, 2001; veja também Capítulo
59).

Discriminação Sensorial
A discriminação sensorial é a interpretação da informação sensorial que nos permite saber eficiente e precisamente onde nosso
corpo  está,  onde  as  outras  pessoas  estão  e  detalhes  sobre  o  ambiente  a  partir  de  múltiplos  canais  sensoriais.  Os  distúrbios  da
discriminação sensorial são resultantes do processamento lento e impreciso de um ou mais tipos de informação sensorial, menor
responsividade à sensação, formação inadequada da percepção e associações sensoriais insuficientes. Os padrões de disfunção
identificados  por  meio  de  análise  fatorial  e  de  grupos  indicam  que  o  processamento  proprioceptivo  vestibular  insuficiente  está
frequentemente  associado  a  controle  postural  antecipatório  e  reativo  insuficiente  e  a  integração  bilateral  e  sequenciamento
inadequados.  Os  déficits  da  discriminação  tátil  frequentemente  estão  associados  a  habilidades  motoras  finas  e  praxia  ruins.  É
como se a criança tentasse realizar um trabalho de precisão com as mãos utilizando luvas de lã. Os déficits de percepção visual
estão associados a capacidade de construção visual e habilidades motoras visuais insuficientes. Frequentemente, os déficits de
percepção auditiva contribuem para habilidades de linguagem auditiva inadequadas.
Praxia
A praxia  é  a  capacidade  de  conceituar,  planejar  e  executar  tarefas  com  habilidade.  Ela  serve  de  base  para  o  engajamento  em
atividades propositadas. Qualquer tarefa motora não habitual, em que a criança precise pensar, exige praxia. A criança que está
aprendendo a mergulhar precisa ficar de pé na beira d’água, levantar os braços acima da cabeça, deslocar seu peso para frente,
encostar o máximo possível seu queixo no tórax e, em seguida, manter essa posição à medida que sua cabeça entra primeiro na
água.  Tudo  isso  exige  esforço  cognitivo  e  coordenação  física.  A  Dra.  Ayres  (1972)  sugeriu  a  hipótese  de  que  a  discriminação
sensorial,  particularmente  das  sensações  táteis,  vestibulares  e  proprioceptivas,  juntamente  com  o  estímulo  visual,  seria  o
fundamento da práxis. A sensação resultante da atividade é processada pelo cérebro e este informa a pessoa sobre seu corpo, bem
como  com  relação  às  outras  pessoas  e  aos  objetos  no  ambiente  (Ayres,  1989,  2004).  Posteriormente,  por  meio  de  análises
fatoriais, ela verificou uma relação consistente, particularmente entre o sistema tátil e a praxia.
Existem diferentes tipos de distúrbios da praxia, incluindo a má idealização de atividades criativas ou novas (p. ex., a criança
na caixa de areia que cava areia e a coloca em um balde e depois na peneira e repete o processo, mas não tem a ideia de que ela
pode “fazer um bolo” enchendo o balde com areia e, em seguida, virando­o de cabeça pra baixo para formar um monte que ela
pode  decorar);  a  somatodispraxia,  ou  o  mau  uso  do  corpo  durante  sequências  de  ação  nos  planos  motores;  o  mau  uso  da
linguagem para sequenciamento e planejamento; a pouca capacidade de modificar uma ação durante o movimento para aumentar
a habilidade e a precisão; a má construção visual (p. ex., dificuldade em copiar um modelo de blocos); e a pouca capacidade de
organizar  o  comportamento  no  tempo  e  no  espaço  futuros.  A  concepção  de  uma  ação,  ou  a  formação  da  ideia  sobre  o  que  o
indivíduo  quer  fazer,  é  um  aspecto  fundamental  da  praxia.  Isso  é  idealização,  e  é  uma  função  cognitiva  (May­Benson,  2001).
Planejar como o indivíduo pretende se engajar na tarefa também é cognitivo. Uma criança observando um pátio de brinquedos
construído recentemente, com balanços, escorregas, casa na árvore, pilares e areia terá 101 ideias sobre o que fazer e desejará
executar todas elas. A execução real da atividade é a parte da praxia que nós podemos observar, e isso faz parte da avaliação para
determinar  a  habilidade  da  criança  para  tarefas  motoras.  A  criança  então  transforma  essas  ideias  em  atividades  de  balançar,
escorregar e cavar e modifica a sequência ou o desafio de modo que seja mais divertido e de maior sucesso.

ESTUDO DE CASO: Larissa: Uma Menina de 3 Anos de Idade que não Estava Interessada em Brincar
com Outras Crianças

Encaminhamento
Larissa é uma menina de 3 anos de idade cheia de energia que adora brincar, mas não procura brincar com outras crianças.
Ela não parece se importar com elas, e fica feliz em brincar sozinha ou perto de outros. Ela tem uma boa relação com a mãe
e  confia  nela  para  orientação  e  proteção,  o  que  a  mãe  pronta  e  efetivamente  fornece.  Larissa  estaria  mais  feliz  se  ficasse
perto da mãe dia e noite. As rotinas domésticas são difíceis para a família. Larissa gosta de tomar banho e, com frequência,
não gosta de sair dele. Larissa não gosta de parar de brincar para realizar as tarefas gerais de higiene, tornando difíceis as
atividades  de  rotina,  como  escovar  os  dentes.  Passeios,  compras  ou  saídas  espontâneas  são  problemáticos,  uma  vez  que
Larissa  é  excessivamente  ativa  e  se  cansa  facilmente  quando  tem  que  ficar  em  uma  fila  ou  esperar.  A  mãe  de  Larissa
aprendeu a distribuir o tempo entre os três filhos para preparar as transições; caso contrário, Larissa ou um de seus irmãos
mais velhos, com idades de 5 e 8, poderiam ter um ataque de raiva.
A  mãe  de  Larissa  solicitou  a  avaliação  por  um  terapeuta  ocupacional  para  determinar  quais  dos  serviços  disponíveis
poderiam  ajudar  os  pais  e  dar  suporte  ao  desenvolvimento  de  sua  filha.  Ela  relatou  que  sua  vida  estava  muito  difícil.  Ela
sempre teve dificuldades para se organizar, porém agora, com três filhos e um marido, ela às vezes sente que sua vida não
tem  controle.  Ela  decidiu  se  concentrar  primeiramente  no  atendimento  à  criança  mais  nova,  porém  sente  que  seus  outros
filhos e ela própria precisavam de assistência em graus variados.

Perfil Ocupacional:
Quando perguntada sobre o que Larissa gostava de fazer durante o dia, sua mãe respondeu:

“Se eu não estiver no quarto quando ela acordar, ela chorará ou gritará ‘mamãe’ até que eu venha. Ela então quer que eu
a  acalente  até  que  esteja  completamente  acordada.  Geralmente,  eu  a  carrego  para  o  andar  de  baixo  e  ela  começa  a
brincar com brinquedos pequenos. Ela resiste um pouco a parar de brincar, mas geralmente se senta na cadeira e toma o
café da manhã e come sem problemas. Quando ela acaba, algumas vezes coloca as mãos no cereal e lambuza a mesa, a
cabeça... e se diverte com isso. Ela gosta de tocar em tudo aonde quer que a gente vá. Ela adora brincar com água, terra e
lama.  Geralmente,  ela  se  molha  com  a  mangueira  e  troca  várias  vezes  de  roupa  por  dia.  Ela  gosta  de  brincar  na  areia,
deita com o rosto na areia e come a areia. Ela gosta de tomar banho, mas geralmente eu tenho que tirá­la rapidamente,
pois ela bate em seus irmãos ou derrama a água da banheira. Em seguida, ela grita, chora e tenta voltar para banheira e,
por fim, se acalma e deita ou pula na cama. Ela nunca quer vestir as roupas, mas quando ela está cansada, ela veste.”

O  terapeuta  determinou  que  o  nível  elevado  de  atividade,  a  ansiedade  e  o  comportamento  de  busca  de  sensações  de
Larissa  estão  interferindo  em  sua  capacidade  de  lidar  e  se  engajar  em  ocupações  diárias  típicas.  Além  disso,  seus
comportamentos  criam  situações  em  que  a  mãe  não  é  capaz  de  realizar  suas  próprias  atividades  diárias  sem  desconforto,
contribuindo para o estresse da família. O terapeuta recomendou tratamento e solicitou que uma avaliação padronizada com
uso dos Testes de Integração Sensorial e Práxis fosse realizada em aproximadamente um ano, quando Larissa teria idade
suficiente para a avaliação das medidas padronizadas de suas capacidades. Sua pontuação indica um problema leve, porém
significativo na integração sensorial (Fig. 59.4).

Análise do Desempenho Ocupacional
Larissa  é  uma  criança  inteligente  que  apresenta  dificuldades  discretas  no  processamento  vestibular­proprioceptivo,  o  que
afeta o desenvolvimento de habilidades motoras finas e da coordenação motora bilateral, brincadeiras sociais adequadas à
idade,  a  auto­organização  e  a  autorregulação.  Isto  pode  ser  evidenciado  quando  se  espera  que  ela  funcione  com
independência, preste atenção e se engaje em tarefas de habilidade em ambientes sociais com estímulos intensos.

AVALIAÇÃO
O  processo  de  integração  sensorial  não  pode  ser  observado  diretamente,  motivo  pelo  qual  a  Dra.  Ayres  utilizou  o  termo
“incapacidades  ocultas”  quando  se  referia  à  disfunção  da  IS  (Ayres,  2005).  O  terapeuta  precisa  confiar  nas  informações  de
entrevistas,  observações  diretas  e  avaliações  estruturadas  e  não  estruturadas  das  habilidades  e  capacidades  relacionadas  ao
desempenho ocupacional a fim de compreender de que modo a pessoa processa a informação (Windsor et al., 2001).

Fig. 59.4 Escores SIPT de Larissa aos 5 anos de idade.
PLANEJAMENTO DO TRATAMENTO
A  terapia  ocupacional  que  utiliza  a  abordagem  de  integração  sensorial  é  orientada  pelos  dados  da  avaliação.  Com  base  na
informação do perfil ocupacional, o terapeuta considera os resultados ocupacionais identificados como importantes para o cliente,
a  família  e  a  fonte  pagadora.  A  análise  do  desempenho  fornece  informações  detalhadas  sobre  fatores  do  cliente,  padrões  e
habilidades  de  desempenho  que  contribuem  para  o  desenvolvimento  do  tratamento  do  cliente,  atividades  terapêuticas  e
modificações  ambientais.  Além  disso,  orientação  e  consultoria  são  necessárias  para  que  a  equipe  compreenda  a  relação  das
funções integrativas sensoriais da criança para a participação em atividades da vida diária.
As atividades terapêuticas para abordagem dos déficits identificados são estabelecidas com atenção específica à contribuição
das sensações táteis, proprioceptivas e vestibulares para a função (Figs. 59.5, 59.6 e 59.7).
Especial consideração é dada à inclusão da propriocepção na forma de movimento ativo e atividades de trabalho pesado. A
propriocepção exerce uma influência reguladora sobre as outras sensações (Blanche & Schaaf, 2001).
Fig. 59.5 A escalada em rocha é uma atividade proprioceptiva que exige esforço muscular, atenção corporal e resistência para
subir contra a gravidade e ajuda o alpinista a permanecer organizado e alerta enquanto se concentra na colocação dos pés e das
mãos.

Fig. 59.6 Balanços oferecem oportunidades de brincadeiras multissensoriais que tanto relaxam como estimulam, proporcionando
pressão profunda, sensações vestibulares e a oportunidade de maior conscientização proprioceptiva.

Fig. 59.7 Brincar em uma piscina de bolas oferece sensações táteis de pressão profunda e resistência ao movimento,
aumentando a conscientização corporal da criança.

As atividades vestibulares são especialmente importantes de modo que a criança possa desenvolver a capacidade de manter o
corpo  de  pé  contra  a  ação  da  gravidade  quando  parada  e  em  movimento  (Ayres,  1972).  O  processamento  da  informação
vestibular é importante para o desenvolvimento do sentido de espaço e navegação (Berthoz, 2000).
A  informação  tátil  é  essencial  para  as  interações  refinadas  com  o  ambiente  físico  e  social  externo  (Ayres,  1972,  2005;
Montegue, 1986).
As Tabelas 59.2, 59.3 e 59.4  fornecem  informações  sobre  as  diferentes  considerações  para  gradação  de  atividades  com  base
sensorial.
TABELA 59.2 VARIÁVEIS RELACIONADAS ÀS INFORMAÇÕES VESTIBULARES
Fatores do Cliente Tipos de Informação Vestibular Condição Ambiental
Posição da Cabeça Campo Visual
Pronação Linear (vertical e horizontal) Estável
Supinação Rotatória (em círculos) Em movimento
Posição Ortostática de Pé Axial (ao redor do eixo do corpo)
Em quatro apoios Orbital (em um eixo fora do corpo)
Cabeça inclinada Arco
Decúbito lateral Coreolis (três tipos de uma só vez)
Invertida
Movimento da Cabeça
Estático
Breve
Contínuo
Condição do Corpo Ambiente Físico
Estático Velocidade, intensidade Estável
Em movimento Duração, ritmo Em movimento
Passivo Parar e começar
Ativo Mudanças de direção

TABELA 59.3 VARIÁVEIS RELACIONADAS ÀS INFORMAÇÕES PROPRIOCEPTIVAS
Fatores do Cliente Tipos de Informação Proprioceptiva Condição Ambiental
Músculos Alongamento Distância/tamanho/dimensão
Tendões Tração — puxar A favor ou contra ação da gravidade
Articulações Compressão — empurrar Tempo
Em repouso Coativação — cocontração Ambiente físico
Transitório Isométrica/isotônica Estável
Contínuo Velocidade, intensidade Em movimento
Estático/dinâmico Duração/velocidade/ritmo
Ativo/passivo Direção
Esforço exercido Resistência
Motivação ou propósito Tensão/sustentação de carga

TABELA 59.4 VARIÁVEIS RELACIONADAS ÀS INFORMAÇÕES TÁTEIS
Fatores do Cliente Tipos de Sensações Condição Ambiental
Táteis
Cabeça Toque leve Objeto familiar versus não
familiar
Face, incluindo bochechas, boca, língua e orelhas Pressão profunda Pessoa familiar versus pessoa
Textura não familiar
Intensidade de outros
estímulos no ambiente
Mãos Temperatura Demandas da tarefa
Pés Aguda/difusa/dor/dormência Intenção de toque pessoal
Membros Um e dois pontos Hora do dia
Fronte Normas culturais
Dorso
*Evitar linha média ventral
Enquanto estressado ou relaxado (nível de alerta/ Transitório
excitabilidade existente)
Extensão da área de superfície Sustentado
Previsto versus esperado Intermitente
Não previsto versus inesperado Duração
Próprio versus iniciado por outros Ritmo
Experiências prévias Frequência
TRATAMENTO
Fundamental  para  o  tratamento  que  utiliza  os  princípios  da  integração  sensorial  é  a  filosofia  única  que  reflete  o  senso  de
confiança,  compaixão  e  respeito  pela  criança  da  Dra.  Ayres  (Spitzer  &  Smith  Roley,  2001).  Ela  propôs  que  o  tratamento
administrado em estilo divertido para a criança poderia desencadear nesta uma “pulsão interna” para aprender e se desenvolver.
Dessa  maneira,  nós  facilitamos  maiores  crescimento  e  desenvolvimento  neuronais  que  levam  a  maiores  habilidade  e
independência nas atividades da vida diária (Ayres, 1972). O ambiente terapêutico desenhado pela Dra. Ayres foi único em sua
capacidade  de  fornecer,  com  segurança,  oportunidades  para  sensações  vestibulares,  proprioceptivas  e  táteis  e  para  as  respostas
motoras  adaptadas.  Ela  utilizou  objetos  simples  e  facilmente  disponíveis,  como  pneus,  cordas,  madeiras,  bambolês  e  tábua  de
equilíbrio,  e  criou  com  eles  circuitos  com  obstáculos  e  jogos  não  habituais.  Ela  utilizou  traves  no  teto  ou  dispositivos  para
pendurar equipamentos que permitissem à criança se balançar com segurança no espaço. Ela inventou esse equipamento à medida
que surgia a necessidade individual de cada cliente.
Embora uma clínica repleta de ganchos pendurados no teto, balanços, tatames, rolos acarpetados, pista para velocípede, rampas
e almofadas seja comumente associada à terapia ocupacional pediátrica com uso de métodos “clássicos” de tratamento por IS, o
ambiente por si só não é suficiente para definir o tratamento que utiliza a teoria da integração social. A Dra. Ayres não descreveu
apenas o ambiente, mas também o que poderia ser considerado uma aliança terapêutica. Parham e seus colegas (2007) relatam
que  o  tratamento  com  uso  dos  princípios  da  integração  sensorial  deve  ser  fiel  aos  princípios  considerados  essenciais  e
diferenciadores desse método terapêutico específico. Os autores examinaram a literatura e reuniram as opiniões de especialistas
para especificar métodos e princípios essenciais e diferenciados da integração sensorial. Utilizando esses princípios, o terapeuta
demonstra fidelidade ao tratamento. O tratamento clássico por IS compreende tanto os processos estruturais (p. ex., duração da
sessão,  treinamento  do  terapeuta,  equipamento  utilizado)  como  os  processos  terapêuticos  (p.  ex.,  o  terapeuta  cria  um  ambiente
que  convida  a  brincar  e  garante  segurança,  estimula  uma  aliança  terapêutica).  A  fidelidade  ajuda  a  identificar  claramente  as
qualidades  que  precisam  ser  apresentadas  para  definir  o  tratamento  como  integração  sensorial  e,  para  o  profissional,  ela
claramente articula estratégias e processos específicos relacionados à fundamentação teórica e às evidências de suporte.

Características Fundamentais do Tratamento com Uso da Integração Sensorial
O tratamento que utiliza a IS deve incluir o seguinte:

Um  terapeuta  qualificado  com  conhecimento  sobre  os  princípios  neurobiológicos  da  teoria  da  integração  social  e  de  seus
métodos.  O  certificado  de  pós­graduação  em  integração  sensorial  está  disponível  apenas  para  terapeutas  ocupacionais,
fonoaudiólogos e fisioterapeutas.
O uso de oportunidades sensoriais que caracterizam sensações vestibulares, táteis e proprioceptivas variadas e apropriadas,
incluindo  tapetes  grossos,  almofadas  grandes  e  supermacias,  balanços,  rampas,  escadas,  cordas,  alvos,  objetos  para
manipulação, bolas, brinquedos vibratórios, texturas variadas, como tecidos elásticos macios ou com pelos, escovas, pelúcia
e objetos utilizados na rotina diária.
Oportunidades para se movimentar no espaço de modo que a criança possa obter respostas adaptativas somatomotoras cada
vez mais complexas.
Suporte do terapeuta para o sucesso emocional, físico, cognitivo e social.
Facilitação do desafio adequado: O terapeuta colabora com a criança na escolha e na sequência de atividades e equipamentos
e ajusta o tratamento para assegurar o sucesso.
Fornecimento  de  facilidades  ambientais  (as  oportunidades  e  qualidades  de  um  ambiente  que  permitem  que  as  crianças
realizem coisas) que convidem à interação com o ambiente, incluindo espaço para se movimentar, pular e cair e objetos que
estimulem a criatividade e o engajamento.
Ajuda  na  organização  do  comportamento  em  relação  à  interação  física  com  objetos  e  pessoas  no  tempo  e  no  espaço,
incluindo a oportunidade de reorganizar o ambiente e o modo como ele é utilizado (Parham et al., 2007).

Princípios que Orientam o Tratamento Real
O  tratamento  baseado  na  teoria  da  integração  social  é  direcionado  para  a  criança.  Muitas  vezes,  esse  conceito  é  mal
compreendido. Isso não significa que não haja uma estrutura, mas sim que o terapeuta deve observar cuidadosamente a criança
para compreender suas capacidades atuais, estruturar as atividades em torno dos seus interesses e capacidades e engajar a criança
ao  despertar  sua  motivação  intrínseca  para  brincar.  Os  métodos  de  integração  sensorial  são  aplicados  no  contexto  das
brincadeiras,  e  o  terapeuta,  que  está  convidando  a  participação  ativa  da  criança,  se  concentra  no  resultado  desejado  de  uma
resposta de adaptação. “Quando o terapeuta realiza seu trabalho com efetividade e a criança organiza seu sistema nervoso, parece
que a criança está simplesmente brincando” (Ayres, 2005, p. 142).

Princípios Básicos da Integração Sensorial
Os princípios clássicos do tratamento com uso de uma abordagem de integração sensorial são os seguintes:
A informação integrada é “alimento para o cérebro” (Ayres, 1979).
As  respostas  de  adaptação  são  necessárias  para  enfrentar  com  sucesso  os  desafios  essenciais  ao  crescimento  e
desenvolvimento (Ayres, 1972). A resposta de adaptação é essencial à maior integração sensorial.
A pulsão interna do ser humano convida para a experiência da vida. É esta motivação para apreciar a vida que a Dra. Ayres
desejava estimular durante o tratamento.
A participação ativa promove a organização.
A vigilância engenhosa é essencial por parte do terapeuta para facilitar o desafio na medida certa.

Quando  utiliza  as  estratégias  de  tratamento  da  integração  social,  o  profissional  promove  um  equilíbrio  entre  estrutura  e
liberdade,  de  modo  que  a  criança  tenha  oportunidade  de  solucionar  problemas  e  de  fazer  algumas  escolhas.  Algumas
características  essenciais  que  diferenciam  os  métodos  de  integração  sensorial  de  outros  protocolos  são  a  liberdade  em  um
ambiente sensorial rico, a capacidade de se mover fisicamente no espaço e mover objetos no espaço e a ajuda do profissional para
que a criança possa aprender a utilizar seu corpo de maneiras novas, fazendo surgir possibilidades cada vez mais complexas para
o  engajamento  físico.  Integração  sensorial  não  é  estimulação  sensorial,  devido  ao  imperativo  da  resposta  adaptada  e  da
modificação da atividade baseada na reação da criança (Anzalone & Murray, 2002). Não é planejada e desenhada para adultos;
em vez disso, o adulto elabora a estrutura e as possibilidades nas quais os interesses e a capacidade da criança de lidar com as
demandas  sensoriais,  motoras  e  organizacionais  ditam  o  nível  de  desafio  e  a  intensidade  das  atividades.  Consequentemente,  o
equipamento não permanece sempre no mesmo lugar, e o terapeuta não segue uma sequência ordenada e previsível, de modo que
cada sessão é um pouco diferente da outra. O tratamento não é aplicado com a expectativa de uma recompensa subsequente. As
atividades pretendem ser divertidas e convidativas e, consequentemente, recompensam por si próprias. A brincadeira é uma das
partes mais importantes e poderosas do processo de tratamento pelo uso de estratégias de integração sensorial e uma parte que
facilita a recompensa intrínseca a esse tipo de engajamento ocupacional (Bundy, 2002).
A  disfunção  da  integração  sensorial  comumente  ocorre  em  crianças  com  diagnóstico  de  autismo,  síndrome  do  X  frágil  e
paralisia  cerebral.  Essas  crianças  se  beneficiarão  de  várias  outras  abordagens,  além  dos  métodos  de  integração  sensorial
(Mailloux, 2001; Mailloux & Smith Roley, 2004; Schaaf & Smith Roley, 2006; Smith Roley et al., 2001). Durante uma sessão
típica  de  terapia  ocupacional,  os  métodos  de  integração  sensorial  frequentemente  são  combinados  a  métodos  complementares,
como tratamento do neurodesenvolvimento (Blanche, Botticelli & Hallway, 1995), abordagens baseadas em brincadeiras (Burke
&  Malloux,  1997;  Knox  &  Mailloux,  1997),  abordagens  de  desenvolvimento  e  comportamento  (Anzalone  &  Murray,  2002)  e
abordagens  cognitivas,  como  o  Alert  Program  for  Self­Regulation  (Williams  &  Shellenberger,  1996).  Isso  é  especialmente
verdadeiro para crianças com múltiplos comprometimentos.

OBJETIVOS DA TERAPIA OCUPACIONAL COM USO DE ESTRATÉGIAS DE INTEGRAÇÃO
SENSORIAL
Os princípios da integração sensorial aplicados à prática da terapia ocupacional resultam em melhores engajamento ocupacional e
participação social (Fig. 59.8).
Para alcançar os objetivos abrangentes da terapia ocupacional, as estratégias de integração sensorial são utilizadas para facilitar
as respostas de adaptação em diferentes domínios. Além da resposta somatomotora de adaptação descrita pela Dra. Ayres (1972),
Parham & Mailloux (2005, p. 393) identificaram as seguintes metas esperadas como resultado do tratamento com uso da IS que
poderiam ser utilizadas como medidas de resultado:

Fig. 59.8 Após uma brincadeira vigorosa, esta criança engaja­se mais facilmente nesta atividade com sua mãe que envolve
informações táteis, organização espacial e controle motor visual.

Aumento da frequência ou da duração das respostas de adaptação
Habilidades cognitivas, de linguagem e acadêmicas
Habilidades motoras grosseiras e finas
Autoconfiança e autoestima
Maiores desempenho ocupacional e participação social
Maior vida familiar

A diversa gama de possibilidades torna difícil predizer exatamente as áreas da vida que podem ser modificadas como resultado
do  tratamento  com  o  uso  de  estratégias  de  integração  sensorial  (Mailloux  et  al.,  2007).  Tradicionalmente,  as  avaliações  da
efetividade do tratamento em terapia ocupacional pediátrica se concentravam em habilidades de desempenho como a escrita e a
melhora do equilíbrio ou de habilidades com bola. Essas medidas não são suficientes para registrar a transformação potencial na
qualidade de vida do indivíduo. Relatos dos pais incluem comentários como os seguintes:
“Minha vida é mais fácil.”
“Meu filho agora tem amigos.”
“Eu posso realmente fazer o jantar sem interrupções.”
“Meus filhos brincam juntos por mais tempo sem necessitar da minha intervenção.”
“Eu me sinto suficientemente corajosa para tentar férias em família”.
“A terapia ocupacional é o primeiro lugar onde estive e sinto que eles compreendem o que está acontecendo.”
“É bonito ver alguém brincando com meu filho, e isso me mostra outra maneira de ver meu filho com um foco mais positivo.”
Cohn,  Miller  &  Tickle­Degnen  (2000)  verificaram  que  os  resultados  identificados  pelos  pais  de  crianças  que  receberam
atendimento incluíram aqueles que apoiam a participação da criança em contextos típicos e a maneira pela qual a criança afeta os
pais  e  a  vida  familiar.  Nesse  estudo,  os  pais  relataram  que  desejavam  estratégias  que  apoiassem  e  validassem  suas  habilidades
parentais,  além  de  ajudar  seus  filhos  a  alcançar  maiores  participação  social,  autorregulação  e  competência.  Em  um  estudo
subsequente, Cohn (2001a, 2001b) concluiu que os pais valorizam o maior conhecimento sobre o comportamento de seus filhos,
assim  como  a  validação  de  seus  esforços,  e  são  capazes  de  defender  serviços  para  seus  filhos.  Ela  identificou  que  o  ritual  de
esperar os filhos na sala de espera da clínica deu aos pais a oportunidade de compartilhar recursos, validar suas experiências e
estabelecer um diálogo social com outros. De fato, essa experiência ajudou a reestruturar sua compreensão sobre seus filhos. Esse
trabalho amplia os resultados potenciais relacionados à terapia ocupacional com uso de uma abordagem de integração sensorial.

ESTUDO DE CASO: Todd: Um Menino de 6 Anos de Idade Encaminhado para Avaliação do
Desenvolvimento

Encaminhamento
Todd é um menino de 6 anos de idade que foi encaminhado para uma avaliação do desenvolvimento devido a dificuldades de
comportamento e atenção na escola.

Perfil Ocupacional
A  mãe  de  Todd  relatou  que,  quando  era  bebê,  Todd  gostava  de  ficar  no  colo.  Quando  ele  acordava  à  noite,  ela  tinha  que
caminhar  pela  casa  porque  ele  não  se  acalmava  com  facilidade  simplesmente  com  alguém  deitado  a  seu  lado.  Suas
habilidades motoras eram típicas, embora ele costumasse esbarrar nas coisas e se machucar muito, especialmente quando
sua cabeça estava na mesma altura da maçaneta da porta. Ela o descreve como uma criança quieta e feliz que se frustra
facilmente  e  resiste  a  mudanças.  Ele  gosta  de  fazer  as  coisas  lenta  e  cuidadosamente.  Ele  gosta  de  brincar  com  outras
crianças  assim  que  as  conhece.  Quando  está  de  mau  humor,  é  difícil  fazê­lo  se  recuperar.  Quando  se  frustra,  ele  perde  o
controle e, algumas vezes, bate ou crava as unhas em alguém.
Quando perguntada sobre um dia típico na vida de Todd, a mãe forneceu a seguinte narrativa:

“Ele levanta entre 6 e 7 horas da manhã e começa a brincar com seu irmão mais velho. Algumas vezes, urina na cama, ou então
urina na cama quando está brincando. Eu tento evitar que ele faça isso levando­o ao banheiro, mas ele fala sem parar e eu tenho
que me esforçar para que ele me escute. Ele ganha uma recompensa por ir ao banheiro. Eu pego os chinelos antes de ele descer,
mas ele está muito ocupado brincando para lembrar ou me escutar. Eu geralmente desço com ele no colo para o andar térreo da
casa e tento mantê­lo sentado em uma cadeira. Ele quer macarrão com queijo todo dia no café da manhã. Ele usa os dedos em
vez de seu garfo para comer, mas quando eu o lembro, ele o usa um pouco. Ele espalha muita comida na mesa, não fica quieto e
cai da cadeira. Eu abro o livro em frente a ele na mesa e ele começa a ler, e para de se mexer tanto. Ele ainda faz bagunça
quando come. Ele fica feliz em brincar sozinho. As crianças já dormem de uniforme para não precisar se vestir pela manhã. Após
brincar no quintal e puxar as plantas, eu finalmente o coloco no carro e dirijo por 5 minutos até chegar na escola. Ele diz que está
cansado, com frio, entediado e não quer sair do meu lado. Fica vagando um pouco, observando outras crianças, mas não se junta
a elas, nem conversa com nenhuma delas, exceto talvez adultos ou crianças pequenas. Ele não parece escutar quando alguém
chama o seu nome. Geralmente, ele é a última criança a deixar a sala quando a aula acaba. Frequentemente, sou chamada à
escola porque ele se queixa de dor no estômago e, após a escola, fica tão triste que a única coisa que deseja é ir para casa. Em
geral, ele não almoça, mas janta. Após levá­lo para o andar de cima e aprontá­lo para dormir, às vezes ele fica bravo. Eu deito
com ele e ele começa a ficar inquieto, e eu acabo deixando que se levante novamente.”

Todd foi encaminhado à terapia ocupacional para avaliar seu desenvolvimento e determinar a necessidade de atendimento
nesta área da saúde. Sua mãe o descreveu como uma criança adorável que parece apenas não saber o que fazer com si
própria. Constantemente, ele pergunta como fazer algo e quer que sua mãe lhe mostre. Ele obedece aos outros e tende a
brincar melhor com crianças mais novas (Fig. 59.9).

Análise do Desempenho Ocupacional
Todd  é  um  garoto  brilhante,  ativo  e  engajado  que  tem  forças  na  percepção  visual,  habilidade  motoras  fundamentais,
linguagem  e  cognição.  Especificamente,  ele  demonstra  dificuldade  em  discriminar  informação  vestibuloproprioceptiva  e  em
utilizar essa informação rápida, eficiente e corretamente; isto compromete sua capacidade de identificar tudo o que ocorre a
seu  redor  e  raciocinar  sobre  como  responder  rapidamente.  As  dificuldades  de  Todd  com  o  processamento
vestibuloproprioceptivo  interferem  nas  habilidades  oculomotoras,  no  foco  (especialmente  nos  ambientes  agitados),  no
equilíbrio,  quando  uma  atividade  exige  previsão  de  um  ajuste  postural  para  manter  o  equilíbrio  ou  reagir  a  uma  alteração
postural  inesperada,  e  na  organização  de  ações,  especialmente  durante  transições  e  situações  sociais.  Ele  apresenta
dificuldade  no  planejamento  motor  e  na  organização  de  seus  materiais.  Embora  seus  problemas  de  integração  sensorial
afetem  significativamente  seu  desenvolvimento,  eles  não  são  suficientes  para  explicar  todas  as  suas  dificuldades  em
interações sociais e autorregulação.

Planejamento do Tratamento
Terapia ocupacional utilizando a integração sensorial foi recomendada em duas sessões de 60 minutos por semana, na casa
ou na comunidade da criança. Atividades específicas foram estabelecidas para que Todd participasse de atividades cotidianas
que incluíssem atividades táteis combinadas a atividades vestibulares e proprioceptivas para melhorar a praxia e a atenção
espacial. Outros métodos foram incorporados para aumentar sua capacidade de participar mais facilmente das rotinas diárias
sem se sentir triste ou isolado.

Tratamento
A  terapeuta  ocupacional  agendou  as  consultas  com  os  pais  e  com  a  equipe  pedagógica.  Em  resposta  aos  resultados  da
avaliação e das consultas, dois programas foram desenvolvidos separadamente: modificações com base sensorial para uso
domiciliar  e  um  cardápio  sensorial  para  a  sala  de  aula.  A  terapeuta  monitorou  as  reações  de  Todd  ao  programa  para
assegurar  que  ele  estava  mais  organizado  e  desempenhava  melhor  suas  atividades.  A  terapeuta  ocupacional  aplicou
tratamento direto com consultas regulares e agendou uma reavaliação ao final de 6 meses para se assegurar de que Todd
estava progredindo e para determinar a necessidade de continuação do atendimento.
Para casa, a terapeuta trabalhou com Todd para criar esquemas com figuras e palavras das rotinas diárias que incluíam
vestir­se,  preparar  as  refeições  e  rituais  de  higiene  e  para  dormir.  Todd  os  colocou  nos  ambientes  apropriados  e  negociou
com seus pais as horas em que eles tinham que ser realizados. Ele fez um livro com figuras de estratégias autorreguladoras
que  incluíam  atividades  físicas  de  alta  intensidade,  brincadeiras  táteis,  balançar,  pular  e  construções  com  travesseiros,
cobertores e almofadas. Ele também incluiu atividades como beber um copo de leite morno, dar um passeio, ler um livro e
pediu a seu pai para brincar de luta romana, de cavalinho ou massagem nos pés. Seus pais fracionaram as atividades que
necessitavam  de  sequenciamento,  como  amarrar  o  sapato,  para  que  ele  pudesse  aprender  as  etapas;  em  seguida,  eles
providenciaram outras oportunidades para amarrar cadarços de modo que ele pudesse generalizar a habilidade. Os recursos
para informações adicionais foram providenciados (Ayres, 2005; Ayres, Erwin & Mailloux, 2004; Coleman, Mailloux & Smith
Roley, 2005; Williams & Shellenberger, 2001).
O ambiente doméstico foi modificado da seguinte maneira: a mãe de Todd preparou uma rede de LycraTM de modo que ele
pudesse  dormir  dentro  dela  à  noite.  Ela  também  providenciou  lençóis  de  flanela  e  um  edredom  pesado  com  travesseiros
grandes para a cama. Ela colocou um colchão velho no quarto para ele pular. O balanço foi fixado a uma viga de madeira
para ele se balançar antes da escola, antes das refeições e uma hora antes de dormir. Sua mãe separou esponja de banho e
várias escovas e brinquedos texturizados para brincar com ele durante o banho, incluindo copos e bastões de sabão. Ela lhe
deu uma escova de dente elétrica. Seus pais aprenderam estratégias para acalmá­lo e estimulá­lo e determinaram as horas
do dia em que ele iria realizar mais atividades físicas e brincadeiras ativas e quanto tempo seria necessário depois disso com
as  atividades  inibidoras  para  que  ele  se  acalmasse  e  prestasse  atenção  ou  dormisse.  Para  ajudá­lo  a  melhorar  a
discriminação tátil, vários jogos táteis foram criados, como uma caixa de memória em que ele tinha que colocar a mão e, sem
olhar, encontrar objetos familiares que estavam soterrados em arroz e feijões secos.
Para a sala de aula, a professora, os pais de outras crianças da turma e a professora assistente receberam treinamento de
curta duração que abordou as expectativas apropriadas ao planejamento e à organização para as crianças no início da vida
escolar,  inclusive  informações  sobre  como  determinar  se  havia  problemas  de  integração  sensorial,  como  dispraxia  do
desenvolvimento. Estratégias para ajudar as crianças a desenvolverem e seguirem rotinas cotidianas típicas foram incluídas
de modo que pudessem ser aplicadas a todas as crianças na sala de aula, inclusive começar o uso de estratégias de controle
do  tempo.  Também  foram  incluídos  os  conceitos  relacionados  ao  processamento  da  informação  e  ao  desenvolvimento
sensorimotor que contribuem para o desenvolvimento das habilidades da praxia. Foi enfatizada a necessidade de equilíbrio
entre as atividades sedentárias e ativas. Foi incluída discussão a respeito da pesquisa sobre os benefícios de pausas (Jarret,
2002; Pellegrini, 1993).
A  sala  de  aula  era  um  jardim  de  infância  criativo  com  várias  atividades  simultâneas  e  crianças  se  movendo  pela  sala
durante todo o dia. A professora de Todd criou uma agenda com figuras e reservou para ele uma área quieta com almofadas
na qual ele poderia se recuperar se estivesse sobrecarregado ou se necessitasse completar seu trabalho. Ele recebeu uma
bola feijão (peanut ball) e uma almofada inflável para se sentar, se preferisse. Ele tinha uma caixa sensorial que incluía uma
variedade  de  atividades  táteis  e  proprioceptivas  que  poderia  utilizar  contanto  que  não  estivesse  confuso.  Foi­lhe  permitido
fazer  pausas  na  área  externa,  onde  ele  podia  correr  para  a  fonte  de  água  e  voltar,  pular  25  vezes  ou  brincar  no  carrossel
localizado em frente à sala de aula, contanto que retornasse em 5 minutos para seu trabalho de aula.
A professora logo verificou que essas estratégias eram benéficas para muitas crianças da turma e que algumas crianças
precisavam  delas  mais  que  outras.  Juntamente  com  outras  informações  valiosas  sobre  a  integração  sensorial,  a  terapeuta
forneceu à professora um artigo sobre o uso de dispositivos móveis para sentar para as crianças com problemas de atenção
(Schilling, Washington, Billingsley & Deitz, 2003). A professora adaptou sua sala de aula de modo que as crianças pudessem
ter essas escolhas e relatou à terapeuta ocupacional que isso reduziu drasticamente o tempo que ela gastava para corrigir o
comportamento (Bissell, Fisher, Owens & Polcyn, 1998; Coleman, Mailloux & Smith Roley, 2006; Pediatric Therapy Network,
2004; Williams & Shellenberger, 1996).
O tratamento direto consistiu predominantemente em engajamento em várias atividades somatossensoriais e vestibulares
que  deram  a  Todd  a  retroalimentação  sensorial  de  que  ele  necessitava  a  respeito  de  seu  corpo  e  seu  ambiente.  Durante
essas  atividades,  frequentemente  Todd  alinhava  e  empilhava  objetos  grandes  e  rastejava,  pulava  e  se  balançava  no  seu
trajeto pelo circuito de obstáculos sequencialmente no espaço tridimensional. Por exemplo, com a incorporação do conceito
de “1­2­3­e já!” a terapeuta ajudou Todd a planejar com antecedência e, em seguida, a cronometrar suas ações. Assim que
tivesse terminado o circuito, Todd e a estagiária de terapia ocupacional discutiam onde ele havia se saído bem e onde ele não
havia ido tão bem, a necessidade de modificações, e em seguida voltavam ao circuito novamente. No final da sessão, Todd e
a estagiária de terapia ocupacional reuniram uma sequência de gravuras das atividades e planejaram o que eles poderiam
fazer na sessão seguinte. Ela também o ajudou a pensar em maneiras de utilizar as novas habilidades em casa, perguntando
a ele: “O que você tem em casa que pode utilizar para fazer esta atividade divertida que acabou de fazer? Deixe­me ver se é
possível.”
Nos primeiros três meses, Todd gastou a maior parte de seu tempo de atendimento na clínica, indo de atividades táteis até
atividades vestibulares, sem aceitar desafios motores ou de planejamento motor. Ele se frustrava facilmente e estava sempre
atento às suas limitações. Se a terapeuta o encorajava a se esforçar muito nessas áreas, ele desistia e queria ir para casa.
Ele  preferia  se  sentar  e  observar  a  terapeuta  realizando  a  atividade  e,  em  seguida,  passivamente  desfrutar  da  brincadeira
sensorial.  Ele  demonstrou  grande  imaginação  e  a  terapeuta  descobriu  que  ele  tinha  um  grande  conhecimento  sobre  um
super­herói específico. Ela pediu a ele para ensiná­la e mostrar o que este super­herói fazia. Desse modo, eles começaram a
construir, em conjunto, atividades mais complexas, que incluíam balançar no trapézio e mergulhar na piscina de bolas, onde
Todd  tinha  que  se  mover  entre  pequenos  objetos  e  descobrir  maneiras  de  reunir  os  objetos  de  modo  que  valorizasse  os
talentos especiais do super­herói. Quando alguma coisa dava errado, isto se devia ao fato de que alguns inimigos estavam
enfraquecendo seus poderes. Por fim, ele estava tão excitado sobre essas construções que começou a desenhá­las em casa,
preparando­se para a próxima sessão de terapia. Ele queria que sua mãe e seu irmão fossem ver uma das construções uma
vez que estava se aproximando o final da sessão. Sua autoestima melhorou muito, assim como o tônus muscular, o equilíbrio,
a  coordenação  bilateral,  a  construção  e  as  habilidades  de  imitação.  Ele  começou  a  pensar  em  modos  de  utilização  dos
objetos como ferramentas para fazer mais do que com suas mãos apenas.

Resultados
A  mãe  de  Todd  relatou  que,  após  três  meses  de  terapia  ocupacional,  Todd  dormia  melhor,  permanecia  seco,  sentava­se
quieto  e  ouvia,  fazia  melhor  as  transições,  ficou  mais  organizado  e  mais  seguro,  menos  dependente,  melhorou  suas
habilidades nas brincadeiras, aumentou o engajamento familiar em atividades físicas ativas, aumentou a tolerância ao contato
físico  calmo,  aumentou  a  consciência  das  condições  sensoriais  e  de  seus  efeitos  sobre  o  comportamento  e  aumentou  a
adaptação  ao  ambiente  sensorial  para  o  aprendizado  e  o  engajamento  ideal.  Além  disso,  sua  mãe  relatou  menos
reclamações  nas  tarefas  domésticas  porque  Todd  escutava  melhor  e  brincava  mais  vezes  por  causa  das  transições  mais
suaves. O trabalho doméstico está mais organizado porque o progresso de Todd fez com que seus pais tivessem mais tempo
e eles se sentissem mais seguros sobre seu filho, que está menos dependente. A melhora em suas habilidades para brincar
trouxe esperança de que ele será capaz de fazer e conservar amigos, inclusive os amigos da família.
A professora de Todd relatou que, duas semanas após o início da terapia ocupacional, ela observou uma criança mais feliz.
Ele  continuava  a  apresentar  baixa  tolerância  à  frustração,  porém  se  recuperava  mais  rapidamente  e,  na  verdade,  parecia
gostar da escola. Ele continuou a precisar da orientação dos adultos para iniciar e completar seu trabalho, porém fazia isso
em menos tempo. Ele observava outras crianças no playground e expressava o desejo de participar de alguns jogos no pátio,
como o handebol. Como as crianças sabiam que Todd era a razão para que novas coisas surgissem na sala de aula, como as
bolas terapêuticas, eles demonstravam um pouco de admiração. Sua professora passou­lhe a responsabilidade de verificar o
equipamento. Ela percebeu que, às vezes, ele sugeria a outra criança que eles poderiam escutar melhor se colocassem uma
almofada na cadeira para se sentar.

Fig. 59.9 Escores SIPT de Todd aos 6 anos de idade.

Enquanto  observações  estruturadas  e  não  estruturadas  do  desempenho  ocupacional  continuam  sendo  maneiras  válidas  de
mensurar  o  progresso,  para  certas  crianças,  como  aquelas  com  autismo,  o  progresso  nunca  se  aproximará  do  desenvolvimento
normal. Mailloux e colegas (2007) propuseram que o método da Escala de Aquisição de Metas (Goal Attainment Scaling [GAS])
poderia servir como método útil para mensurar os objetivos alcançados. A GAS é um método de ajuste das metas alcançadas, em
conjunto com a família, que pode ser útil para registrar transformações significativas como resultado do tratamento.
PREPARAÇÃO DO RELATÓRIO
O formulário a seguir ajudará o leitor a organizar informações para preparar o relatório.
Integração Sensorial

A Dra.  Ayres  forneceu  um  modelo  de  prática  baseada  em  evidência,  uma  vez  que  ela  fundamentou  seu  trabalho  tanto  na
ciência  básica  como  na  ciência  aplicada  e  investigou  sua  teoria  com  métodos  rigorosos  de  avaliação  e  tratamento
(Henderson,  Llorens,  Gilfoyle,  Myers  &  Prevel,  1974).  Consequentemente,  a  teoria  da  integração  sensorial  é  a  área  mais
amplamente pesquisada da terapia ocupacional (Mulligan, 2002, 2003; Parham & Mailloux, 2005).
Apesar do volume de pesquisa sobre a integração sensorial (Mulligan, 2002, 2003; Parham & Mailloux, 2005), “evidências
sobre a efetividade desta abordagem permanecem inconclusivas” (Parham et al., 2007). Miller (2003) relatou que mais de 80
estudos abordaram a efetividade de métodos de tratamento que utilizam a integração sensorial. A maioria deles apresenta uma
ou  mais  das  deficiências  a  seguir:  (1)  falta  de  amostra  homogênea,  (2)  ausência  de  método  de  tratamento  replicável  que
obedeça aos princípios da integração sensorial, (3) medidas de resultados inadequadas e (4) limitações metodológicas (p. ex.,
baixa força, ausência de randomização, ausência de grupos de controle). Mulligan (2003) analisou estudos de efetividade ou
revisões de estudos e apontou que esses estudos tinham resultados mistos.
Uma revisão da evidência sobre tratamentos que utilizam métodos de integração sensorial indica que crianças com autismo
apresentam menos comportamento de não participação e mais linguagem e comportamento de brincadeiras paralelas com a
diminuição  da  autoestimulação  após  o  tratamento  (Ayres  &  Tickle,  1980;  Case­Smith  &  Bryan,  1999);  crianças  com  atraso
mental mostraram ganhos nas habilidades motoras grosseiras e finas, bem como no controle e na estabilidade posturais (em
combinação  com  tratamento  do  neurodesenvolvimento);  e  adultos  com  atraso  mental  mostraram  melhores  contato  visual,
vocalização e controle postural (Clark, Miller, Thomas, Kucherawy & Azen, 1978; Montgomery & Richter, 1977; Norton, 1975).
Schaaf, Merrill e Kinsella (1987) apresentaram um único estudo de caso de uma criança com um distúrbio de aprendizado que
sugere  que  as  abordagens  de  integração  sensorial  melhoraram  a  brincadeira,  as  interações  com  outras  pessoas  e  com
brinquedos  e  outros  objetos,  além  da  tolerância  para  as  sensações  vestibulares  e  proprioceptivas,  e  levaram  à  maior
exploração sensorial do ambiente.
Inversamente,  Polatajko,  Law,  Miller,  Schaffer  e  Macnab  (1991)  não  encontraram  diferença  nos  ganhos  e  nas  habilidades
acadêmicas  ou  motoras  entre  crianças  que  receberam  tratamento  com  integração  sensorial  versus  tratamento  perceptivo­
motor, e Wilson, Kaplan, Fellowes, Gruchy e Faris (1992) não encontraram diferenças nas habilidades acadêmicas e motoras
entre a integração sensorial e a tutoria em um estudo randomizado. Embora o grupo da interação sensorial não tenha obtido
maiores  ganhos  no  estudo  inicial,  posteriormente,  em  um  estudo  de  acompanhamento  dois  anos  depois,  Wilson  e  colegas
(1992)  verificaram  que  apenas  o  grupo  da  integração  sensorial  manteve  suas  habilidades  motoras  grosseiras.  Embora  uma
metanálise  inicial  da  pesquisa  sobre  o  tratamento  com  integração  social  tivesse  mostrado  resultados  positivos  (Ottenbacher,
1982), uma metanálise posterior, que incluiu estudos como os mencionados previamente, demonstrou pouco ou nenhum efeito
(Vargas & Camilli, 1999).
Estudos recentes documentaram melhor o comportamento adaptativo e o desempenho ocupacional (Roberts, King­Thomas
& Boccia, 2007) e a melhora nas medidas cognitivas, comportamentais e fisiológicas (Miller, Coll & Schoen, 2007) após terapia
ocupacional  com  uso  da  abordagem  de  integração  sensorial.  Schilling  e  colegas  (2003)  documentaram  a  capacidade  de  se
sentar com apoio e a melhor legibilidade da escrita em estudantes com transtorno de déficit de atenção/hiperatividade (TDAH)
quando eles se sentavam em bolas terapêuticas que ofereciam maior estimulação proprioceptiva. Benefícios semelhantes na
atenção e no engajamento foram encontrados em crianças com distúrbios do espectro do autismo (Schilling & Schwartz, 2004).
Smith, Press, Koenig & Kinnealey (2005) demonstraram comportamentos de autoestimulação significativamente reduzidos em
crianças  e  jovens  com  atraso  de  desenvolvimento  persistente  quando  a  terapia  ocupacional  utilizava  a  abordagem  de
integração social comparada ao tratamento de controle de atividades de bancada. Os autores sugerem que a abordagem de
integração sensorial é efetiva para reduzir comportamentos de autoestimulação que interferem na capacidade de participação
em atividades mais funcionais.
Consistente com todas as áreas da prática da terapia ocupacional, o tratamento por integração sensorial exige maior exame.
Para  que  o  campo  avance,  devem  ser  desenvolvidos  modelos  colaborativos  de  pesquisa  que  capitalizem  as  forças  dos
pesquisadores (Smith Roley et al.,  2005).  Parham  e  Mailloux  (2005)  sugerem  que  mais  pesquisa  é  necessária  para  predizer
quais clientes responderão melhor aos métodos de integração sensorial, determinar resultados mais refinados que possam ser
esperados  e  elucidar  os  tipos  de  ganhos  potenciais  de  longo  prazo,  especialmente  aqueles  que  sejam  significativos  para  os
familiares.

QUESTÕES INSTIGANTES
1. Como você poderia transmitir seu entendimento sobre as evidências aos pais que buscam tratamento de terapia ocupacional
que utiliza uma abordagem de integração sensorial?
2. Um comportamento característico observado em crianças com autismo é o comportamento de autoestimulação, como a mão
tremendo ou o balançar repetitivo do corpo. Como você saberia que isso é resultado de inibição neural inadequada? E se
fosse o inverso: se isso fosse resultado de facilitação neural inadequada?
3. Quais  são  os  benefícios  de  deixar  que  a  criança  escolha  uma  atividade  versus  orientar  a  criança  para  uma  atividade
apropriada?

AGRADECIMENTOS
Nós gostaríamos de agradecer a nossas mentoras, Dra. A. Jean Ayres e Ginny Scardina, juntamente com os muitos colegas que
conosco colaboraram.

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Therapy Skill Builders.
Ambientes Físicos
PATTY RIGBY, SUSAN STARK,
LORI LETTS E LAURIE RINGAERT

Sumário
Introdução: O Papel do Ambiente Físico na Atividade Ocupacional
Direitos Legais a um Ambiente Acessível
Modelo Universal
Processo para Avaliação e Intervenções Direcionadas ao Ambiente Físico
Avaliação dos Ambientes Físicos
Avaliação do Ambiente Domiciliar
Avaliação do Ambiente Escolar
Avaliação do Ambiente de Trabalho
Avaliação da Comunidade
Intervenções
Intervenções no Ambiente Pessoal: A Importância do Domicílio
Visitabilidade como um Conceito de Modelo Universal
Como Tornar Possível a Ida à Escola
Terapia Ocupacional nas Escolas com Alunos
Acessibilidade em Faculdades e Universidades
Intervenções no Local de Trabalho
A Esfera Pública da Atividade Ocupacional: Intervenções na Comunidade
Conclusões e Considerações Futuras

Objetivos de Aprendizagem
Após a leitura deste capítulo, você será capaz de:
1. Descrever por que o ambiente tem importância fundamental para a atividade ocupacional.
2. Identificar medidas úteis para avaliação do ambiente físico nos contextos do lar, da escola, da comunidade e do local de trabalho.
3. Descrever o processo para abordagem do ambiente físico durante o planejamento e a execução do tratamento.
4. Descrever as intervenções que podem ser aplicadas em diversos contextos em todo o tempo de vida (domicílio, escola, trabalho,
comunidade).
5. Descrever as evidências que apoiam abordagens específicas de intervenção.

INTRODUÇÃO: O PAPEL DO AMBIENTE FÍSICO NA ATIVIDADE OCUPACIONAL
Os  terapeutas  ocupacionais  reconhecem  que  o  desempenho  ocupacional  é  uma  função  da  capacidade  do  indivíduo,  das  atividades  que  estão  sendo
executadas e do ambiente em que ocorre o desempenho (American Occupational Therapy Association, 2002; Canadian Association of Occupational
Therapists, 1997; Law et al., 1996). O ambiente é complexo e multifacetado e pode ameaçar ou sustentar as competências e o desempenho da pessoa
na vida diária. Por exemplo, superfícies planas para acesso ao andar térreo de um edifício podem facilitar o desempenho de alguém que utiliza um
dispositivo para mobilidade, como uma cadeira de rodas. Em contraste, o ambiente pode representar uma barreira ao desempenho, como no caso de
idosos  com  visão  deficiente  que  sentem  dificuldade  em  encontrar  o  caminho  e  ler  o  cardápio  em  um  restaurante  fracamente  iluminado.  Conforme
descrito  no  International  Classification  System  for  Functioning,  Disability  and  Health  (ICF)  (Sistema  Internacional  para  a  Classificação  de
Funcionalidade,  Incapacidade  e  Saúde  [CIF])  (World  Health  Organization,  2001),  os  ambientes  podem  incluir  elementos  físicos  (ambientes
construídos pelo homem, ambientes naturais, equipamentos e tecnologias), elementos sociais (suporte social e atitudes sociais) e elementos culturais,
institucionais e econômicos.
Embora  na  prática  o  ambiente  seja  considerado  como  um  todo,  o  foco  deste  capítulo  está  no  ambiente  físico.  Consulte  o  Capítulo  63  para
discussões  sobre  os  ambientes  social  e  político.  Embora  faça  parte  do  ambiente  físico,  a  tecnologia  de  assistência  é  abordada  no  Capítulo  62.  Nós
descrevemos o processo de avaliação, assim como o papel dos terapeutas ocupacionais na realização de modificações do ambiente para manter e/ou
melhorar o desempenho ocupacional de seus clientes.
Nem todos os profissionais de saúde reconhecem a influência do ambiente sobre a atividade. Os modelos médicos de saúde atribuem a deficiência
(ou a incapacidade dos indivíduos de execução das atividades diárias) às limitações funcionais causadas pelas alterações. Por exemplo, uma pessoa
cega está “incapacitada” devido à perda da visão. Em contraste, os modelos sociais de incapacidade sugerem que a deficiência é um construto imposto
pelas circunstâncias e, por conseguinte, o ambiente contribui para o desempenho (Stewart, 2003). Num modelo social, a incapacidade ocorre quando
os  atributos  da  pessoa  interagem  com  um  ambiente  que  não  é  compatível  com  a  limitação  ou  as  limitações  funcionais  da  pessoa.  No  caso  de  um
indivíduo cego, a ausência de sinalização em braile ou de indicações sonoras no elevador resulta em incapacidade. Com suporte ambiental adequado,
essa  pessoa  é  tão  “capaz”  quanto  seus  correspondentes  não  cegos.  Em  outras  palavras,  as  pessoas  que  utilizam  cadeiras  de  rodas  não  se  mostram
“deficientes” em vias desobstruídas e planas. Elas se tornam incapacitadas ao encontrar um lance de escadas.
Do  ponto  de  vista  conceitual,  a  incapacidade  pode  ser  compreendida  como  a  ausência  de  ajustamento  entre  a  pessoa  (P),  o  ambiente  (A)  e  as
ocupações diárias (O) da pessoa. Nessa abordagem, a modificação do ambiente torna­se uma estratégia de tratamento importante para ajudar a lidar
com  as  condições  crônicas  de  saúde,  manter  ou  melhorar  o  funcionamento  na  vida  diária  e  aumentar  a  independência.  O  ajuste pessoa­ambiente­
ocupação (PAO) ótimo se dá quando as capacidades do indivíduo estão de acordo com as exigências e as oportunidades da ocupação de interesse e do
ambiente  (Law  et  al.,  1996).  Do  mesmo  modo,  quando  as  exigências  do  ambiente  superam  as  capacidades  de  um  indivíduo,  há  uma  falta  de
congruência, ou falta de ajuste PAO.
A maneira pela qual o ambiente influencia a capacidade de um indivíduo executar uma atividade foi definida inicialmente pelos psicólogos como
pressão  ambiental  (Lawton  &  Nahemow,  1973).  O  modelo  de  pressão  ambiental  define  o  comportamento  e  o  desempenho  como  funções  da
competência de um indivíduo e da pressão ambiental. Para se obter um desempenho ótimo, portanto, as exigências ambientais devem corresponder às
capacidades do indivíduo. Quando as exigências são maiores ou menores que o nível de habilidade de um indivíduo, ocorrem resultados negativos ou
comportamentos  não  adaptados,  ocasionando  interações  ambientais  que  reduzem  a  um  mínimo  o  desempenho.  Por  exemplo,  quando  uma  barra  de
apoio num banheiro público está localizada (exigência ambiental) fora do alcance de uma idosa pequena e fraca (competência pessoal), ela pode perder
o  equilíbrio  e  cair  ou  sentir  medo  de  cair.  Em  consequência  disso,  a  pessoa  pode  precisar  de  ajuda  para  usar  o  toalete  ou  pode  evitar  totalmente  o
banheiro ou esse local público (comportamento não adaptado) (Lawton & Nahemow, 1973).

DIREITOS LEGAIS A UM AMBIENTE ACESSÍVEL
Os  direitos  das  pessoas  portadoras  de  deficiências  são  tipicamente  protegidos  nos  países  desenvolvidos  por  leis  de  direitos  civis  ou  humanos.  Por
exemplo, o Americans with Disabilities Act (ADA, 1990) visava criar oportunidades iguais e acesso igual a ambientes públicos, serviços, emprego,
moradia, telecomunicações e transportes em todos os EUA. O foco dessa lei, e de leis semelhantes em muitos países, está em permitir que pessoas
portadoras de deficiência alcancem a integração e a vida independente.
As seções II e III do ADA descrevem como serviços, programas e instituições tanto públicos como privados devem obedecer ao ADA e aplicá­lo.
As Accessibility Guidelines (Orientações de Acessibilidade) do ADA/ABA (Architectural Board Act) apresentam exigências de acessibilidade para
instituições públicas e privadas identificadas pelas seções II e III (U.S. Access Board, 2004). Também foram elaboradas orientações de acessibilidade
para  áreas  de  lazer,  direitos  preferenciais  de  passagem  em  locais  públicos  e  áreas  de  recreação  ao  ar  livre  (U.S.  Architectural  and  Transportation
Barriers and Compliance Board, 2000).
No  Canadá,  o  National  Building  Code  contém  as  exigências  de  acessibilidade  e  todas  as  organizações  do  governo  federal  e  todos  os  espaços
próprios  ou  alugados  devem  obedecer  ao  padrão  canadense  de  acessibilidade,  “Accessible  Design  for  the  Built  Environment”  (Canadian  Standards
Association, 2004). Em muitas províncias e cidades canadenses, as exigências de acessibilidade vão além dos requisitos federais.
Códigos de edificação, orientações e padrões proporcionam níveis mínimos de acessibilidade. No entanto, eles não atendem a todas as pessoas. Por
exemplo,  muitas  das  exigências  de  acessibilidade  para  pessoas  com  problemas  de  mobilidade  se  baseiam  nas  necessidades  de  jovens  do  sexo
masculino portadores de paraplegia. É por isso que se vê uma barra de apoio junto aos vasos sanitários em edifícios públicos e não duas barras de
apoio,  que  seriam  melhores  para  muitos  idosos  que  as  utilizariam  para  se  levantar  do  vaso  sanitário.  Assim,  também  as  exigências  de  espaço  em
padrões  e  códigos  de  construção  se  baseiam  nas  necessidades  dos  usuários  de  uma  cadeira  de  rodas  manual  e  não  de  usuários  de  uma  cadeira
motorizada ou de um triciclo (Ringaert, Rapson, Qiu, Cooper & Shwedyk, 2001). Essas questões são importantes para o terapeuta ocupacional que
esteja  tentando  compreender  a  acessibilidade  no  ambiente  construído.  Os  terapeutas  ocupacionais  devem  se  familiarizar  com  a  legislação  local  que
promove e dá suporte à acessibilidade e à inclusão de pessoas portadoras de deficiências em todos os aspectos da sociedade, pois essas leis afetam as
expectativas dos clientes em relação aos serviços de terapia ocupacional e à maneira pela qual exercemos nossa prática.

MODELO UNIVERSAL
Modelo  universal  é  uma  maneira  de  criar  produtos  e  ambientes  que  sejam  utilizados  por  todas  as  pessoas,  independentemente  da  idade  ou  da
capacidade (Mace, 1985). O modelo universal consiste em toda a gama de capacidades humanas antes de o ambiente ser construído. Hoje, o modelo
universal  é  considerado  em  muitos  ambientes,  incluindo  moradias,  edifícios  de  escritórios,  aeroportos,  restaurantes,  parques,  jardins  públicos,
planejamento urbano e museus. Ele reconhece as diferenças humanas em termos de forma, tamanho, idade, capacidade e cultura e promove a inclusão
e um modelo ergonômico para todas as pessoas.
Sete princípios do modelo universal (Center for Universal Design, 1997) ajudam na elaboração de novos produtos e ambientes acessíveis a todas as
pessoas (Fig. 60.1). Esses princípios proporcionam aos terapeutas ocupacionais orientações úteis a serem utilizadas na elaboração de intervenções para
clientes ou organizações que procuram melhorar a receptividade do ambiente.
Termos como modelo acessível, modelo adaptável e modelo sem barreiras tendem a se referir a populações especializadas e em alguns casos são
utilizados  para  acrescentar  características  a  um  edifício  (p.  ex.,  uma  rampa  acrescentada  após  o  edifício  ter  sido  construído).  O  modelo  universal
compreende, então, modelos que proporcionam a inclusão de todas as pessoas durante o processo de elaboração. Por exemplo, a entrada plana e as
portas de correr providas de sensores na entrada de um supermercado tornam a loja acessível a todas as pessoas. Nesse caso, o modelo de entrada se
ajusta às pessoas que estão empurrando os carrinhos de compras, àquelas que estão empurrando carrinhos de bebê ou àquelas que transportam objetos
grandes num carrinho, assim como àquelas que utilizam cadeiras de rodas ou dispositivos de mobilidade. A presença de características favoráveis para
indicação de trajetos, como vias desobstruídas, indicações de cores e sinalização clara, é útil para todos, especialmente para visitantes em um local
novo que não consigam ler a língua local.
Fig. 60.1 Os Princípios do Modelo Universal: Versão 2.0. [Fonte: Center for Universal Design (1997).]

Os  terapeutas  ocupacionais  possuem  as  habilidades  necessárias  para  ajudar  na  elaboração  e  nas  avaliações  pós­ocupação  de  locais  públicos  e
também de ambientes domésticos (Ringaert, 2003). Os terapeutas ocupacionais precisam pensar num nível social e não apenas no nível da pessoa, para
assegurar que todos os seus clientes possam participar integralmente da sociedade.

PROCESSO PARA AVALIAÇÃO E INTERVENÇÕES DIRECIONADAS AO AMBIENTE FÍSICO
Compreender e descrever a gama de fatores ambientais que afetam o desempenho dos indivíduos é difícil, dadas as inúmeras combinações potenciais
de ambientes em que os clientes vão atuar. As ocupações ocorrem num contexto que é peculiar à circunstância ou às circunstâncias de cada indivíduo.
Cada ser humano vive num espaço vital que é construído sobre um sistema de ambientes. Os ambientes incluem uma mistura de elementos físicos e
sociais. Os elementos físicos podem incluir o ambiente construído, os objetos no ambiente e as características geográficas e climáticas do ambiente
natural.  Os  elementos  sociais  consistem  em  pessoas,  incluindo  suas  atitudes  e  seus  valores  sociais,  assim  como  o  suporte  social  proporcionado  por
essas pessoas. Orientações e serviços também são elementos sociais e políticos do ambiente.
Os terapeutas ocupacionais podem intervir no ambiente em vários níveis diferentes. De que maneira nós organizamos e consideramos os fatores que
determinam como as alterações serão feitas? Uma estratégia a ser utilizada na consideração de questões do ambiente é aplicar o continuum hierárquico
do  ambiente  (Stark,  2004).  Esse  esquema  organizador,  baseado  no  trabalho  de  terapeutas  ocupacionais  (Hagedorn,  2000;  McColl,  1997)  e  de
psicólogos  (Bronfenbrenner,  1977;  Lawton,  1980),  organiza  o  ambiente  de  proximal  para  distal,  com  os  ambientes  mais  proximais  consistindo  em
locais pessoais que são utilizados frequentemente e os distais sendo a parte mais ampla e mais externa do ambiente, que inclui a comunidade.
Embora  cada  uma  dessas  camadas  do  ambiente  contenha  atributos  físicos  e  sociais,  os  atributos  do  ambiente  físico  são  o  foco  deste  capítulo.  A
camada mais proximal inclui espaços pessoais como o quarto ou o banheiro privativo numa casa ou o carro pessoal. Esses espaços podem exercer a
principal influência sobre a atividade do indivíduo e têm maior probabilidade de serem influenciados pelo indivíduo. O ambiente pessoal é facilmente
controlado e manipulado por um indivíduo e pode ser personalizado de acordo com as necessidades de um indivíduo. A segunda camada do ambiente
inclui os contextos semipessoais. Os ambientes semipessoais são os lugares pelos quais os indivíduos se movem frequentemente durante suas rotinas
diárias.  Esses  espaços  podem  incluir  locais  de  trabalho,  lojas  que  são  visitadas  com  frequência  ou  uma  instituição  religiosa.  Os  indivíduos  são
provavelmente  conhecidos  nesses  ambientes.  Em  geral,  esses  espaços  proporcionam  menor  acomodação  que  os  espaços  pessoais,  mas  são  com
frequência criticamente importantes para que sejam atingidas com êxito as metas ocupacionais.
A terceira camada, a esfera pública de desempenho, contém espaços que um indivíduo percorre com menos frequência do que aqueles da segunda
camada. Esses são os espaços comunitários utilizados tipicamente por muitos indivíduos da comunidade, como instituições governamentais, arenas ou
outras áreas de interesse público. São esses os locais que têm a menor probabilidade de serem personalizados de modo a atender às necessidades de um
indivíduo e a maior probabilidade de atenderem a orientações antropométricas gerais.
Para compreensão de como o ambiente físico pode afetar o desempenho ocupacional de cada indivíduo, é importante considerar cada elemento do
ambiente  no  contexto  que  é  relevante  para  essa  pessoa.  Embora  cada  um  dos  elementos  possa  ser  avaliado  e  modificado,  eles  se  modificam
continuamente e se influenciam uns aos outros. Tanto as pessoas como os ambientes estão constantemente mudando. A mudança é em parte decorrente
da influência que cada camada do ambiente exerce sobre as outras.

AVALIAÇÃO DOS AMBIENTES FÍSICOS
A  avaliação  em  terapia  ocupacional  segue  um  processo  sistemático,  começando  pela  identificação  do  desempenho  ocupacional  do  cliente  em
atividades valorizadas (AOTA, 2002; Fearing & Clark, 2000). A etapa seguinte envolve a análise do desempenho ocupacional do cliente, em que é
examinado  o  nível  de  ajustamento  PAO.  A  avaliação  do  ambiente  tipicamente  se  inicia  aí.  Nós  organizamos  avaliações  de  ambientes  físicos  em
contextos domésticos, escolares, do local de trabalho e da comunidade e entre as camadas desde os espaços pessoais até os espaços públicos.
A Tabela 60.1 relaciona os instrumentos padronizados que têm sido modelados para avaliar as características físicas e os aspectos do ambiente no
lar,  na  escola,  no  local  de  trabalho  e  na  comunidade  e  indica  o  propósito  e  o  foco  de  cada  instrumento,  a  população  e  o  grupo  etário  visados  e  os
métodos para aplicação. Alguns instrumentos objetivam a medida de elementos discretos do ambiente físico, como aqueles que afetam a acessibilidade
ou a segurança, enquanto outros avaliam as necessidades funcionais e as capacidades do cliente em relação aos fatores ambientais para um exame do
ajustamento PAO. A avaliação do ambiente físico pode utilizar diversas abordagens, por vezes em combinação. Essas abordagens incluem entrevistas
com  o  cliente  e/ou  pessoas  específicas  que  conheçam  bem  o  cliente  e/ou  o  contexto  ambiental;  observação  do  cliente  executando  uma  atividade
ocupacional nesse contexto com a observação das influências ambientais; e a avaliação de aspectos específicos do contexto com base num conjunto ou
numa  lista  de  critérios  (p.  ex.,  padrões).  Enquanto  muitas  dessas  avaliações  foram  desenvolvidas  para  a  prática  da  terapia  ocupacional,  alguns
instrumentos  têm  aplicações  mais  amplas  (p.  ex.,  o  Multiphasic  Environmental  Assessment  Procedure  é  tipicamente  utilizado  pela  equipe
multidisciplinar para avaliar um contexto residencial assistido e o inventário ADA é bastante utilizado por diversos grupos para avaliar o acesso do
público a edifícios na comunidade). A utilidade clínica dessas avaliações é discutida nas seções que se seguem. Consulte Cooper, Letts, Rigby, Stewart
e Strong (2005) para uma crítica detalhada a essas e outras avaliações ambientais.
TABELA 60.1 AVALIAÇÕES AMBIENTAIS
Propósito/Foco População Administração
Ajuste Acessibilidade Riscos Soluções/Intervenções/Recomendações Todas — Múltiplos Alteração Idade Entrevista Autorrelato Observação Desempenho Cuidador ou Tempo para a
Avaliação Fonte P­A Domiciliares/Segurança Não Diagnósticos da no Local Representante Administração
do Cliente Específica Mobilidade
DOMICÍLIO
Ease 3.2 Christenson, 2005; http://www.lifease.com/lifease­home.html ✓ ✓ ✓ AI ✓ ✓ ✓
Basic/Deluxe
Home­Fast Mackenzie, Byles, Higginbotham, 2000 & Mackenzie, Byles, ✓ ✓ AI ✓ 20 min
Higginbotham 2002
Home Caldwell & Bradley, 1984; http://www.ualr.edu/~crtldept/home4.html ✓ ✓ C ✓ ✓ 90­120 min
Observation
for
Measurement
of the
Environment
(HOME)
Housing Enabler Slaug & Iwarsson, 2001; http://www.enabler.nu/index.html ✓ ✓ ✓ ✓ 1­2 h
The Multiphasic Moos & Lemke, 1996 ✓ ✓ ✓ AI ✓
Environmental
Assessment
Procedure —
Architectural
Features
Checklist
Maintaining Canadian Mortgage and Housing Corporation, 2003; http://www.cmhc.ca ✓ ✓ ✓ AI ✓ ✓
Seniors’
Independence
Through Home
Adaptation: A
self­
assessment
guide
Safety Chui, Oliver, Marshall & Letts, 2001; http://cotahealth.ca ✓ ✓ ✓ ✓ ✓ A­AI ✓ ✓ ✓ 45­90 min
Assessment
of Function
and the
Environment
for
Rehabilitation
(SAFER Tool)
and SAFER­
HOME
Westmead Clemson et al., 1999; http://www.therapybookshop.com/coordinates.html ✓ ✓ A­AI ✓ ✓ ✓ 1 h
Home Safety
Assessment
COMUNIDADE
ADA Checklist Adaptive Environments, 1995; ✓ ✓ Todas ✓ Variável
for Existing http://www.usdoj.gov/crt/ada/checkweb.htm
Facilities,
version 2.1
Craig Hospital Craig Hospital Research Department, 2005; ✓ A­AI ✓ ✓ 10­15 min
Inventory of http://www.craighospital.org/Research/Disability/CHIEF%20Manual.pdf
Environmental
Factors
(CHIEF and
CHIEF Short
Form)
Measure of Fougeyrollas, Noreau, St. Michel & Boschen, 1999 ✓ ✓ A­AI ✓ < 30 min
Quality of the
Environment
(MQE)
Home and Keysor, Jette & Haley, 2005 ✓ ✓ A­AI ✓ ✓
Community
Environment
Instrument
(HACE)
ESCOLA
School Setting Hemmingsson, Egilson, Hoffman & Kielhofner, 2005. Disponível em ✓ ✓ ✓ C ✓ 40 min
Interview MOHO Clearinghouse
(SSI), Version
3.0
LOCAL DE TRABALHO
ADA Worksite Jacobs, 1999 ✓ ✓ ✓ ✓ A ✓
Assessment
Work Roessler & Gottcent, 1994; Roessler, 1996. Disponível em The National ✓ ✓ A ✓ 30­60 min
Experience Clearinghouse of Rehabilitation Training Materials
Survey http://shopping.netsuite.com/s.nl/c.392723/sc.1/.f
Work Kielhofner et al., 1998; MOHO Clearinghouse, UIC. ✓ ✓ A ✓ 30 min
Environment http://www.moho.uic.edu/assess/weis.html
Impact Scale
(WEIS)

Legenda: C = criança A = adulto AI = adulto idoso
Em muitas circunstâncias, os terapeutas ocupacionais devem utilizar instrumentos padronizados para avaliar o ambiente físico de modo a assegurar
que  a  avaliação  tenha  sido  abrangente,  válida  e  confiável.  No  entanto,  nem  sempre  instrumentos  bem­elaborados  e  adequados  estão  disponíveis,  e
restrições de tempo podem limitar o que o terapeuta pode obter durante a avaliação. Uma abordagem sistemática à análise da atividade ocupacional
ajuda a assegurar que os fatores ambientais que estejam influenciando o desempenho de um cliente sejam cuidadosamente examinados.

Avaliação do Ambiente Domiciliar
Os terapeutas ocupacionais avaliam o ambiente domiciliar dos clientes para assegurar que o ambiente domiciliar seja seguro e esteja pronto para o
cliente  no  momento  da  alta  de  um  contexto  institucional,  para  avaliar  e  fazer  recomendações  quanto  a  modificações  no  domicílio  e  para  avaliar  o
ambiente domiciliar em termos da capacidade do cliente em permanecer em sua casa. No caso do planejamento da alta, o propósito da avaliação é
determinar se o cliente será capaz de executar atividades funcionais no ambiente domiciliar e/ou para determinar se esse ambiente é adequado como
local de destino após a alta do cliente. Isso pode incluir a avaliação da casa de um cliente antes da admissão ou a avaliação de uma instituição de vida
assistida que o cliente e sua família considerem como moradia após a alta. Pode incluir também a determinação da necessidade ou não de modificações
(maiores ou menores) no domicílio, de modo a assegurar que o cliente conseguirá levar sua vida após a alta.
Outra avaliação domiciliar comum ocorre quando os clientes estão vivendo em suas próprias casas, mas há alguma dúvida quanto à abordagem de
problemas  de  segurança  ou  de  acessibilidade.  Em  muitas  situações,  a  segurança  do  domicílio  e  a  prevenção  de  quedas  constituem  considerações
fundamentais do terapeuta ocupacional.
Em muitas avaliações domiciliares há, com frequência, a superposição de avaliações das atividades de vida diária (AVD), atividades instrumentais
de  vida  diária  (AIVD)  e  a  avaliação  do  ambiente  domiciliar.  Essa  superposição  existe  porque  os  terapeutas  ocupacionais  focam  suas  avaliações
domiciliares nas capacidades funcionais do cliente no ambiente domiciliar. AVD, AIVD e atividades domiciliares de lazer ou produtivas se tornam um
foco para ajudar o terapeuta a compreender como é utilizado o ambiente físico, quais são as exigências do ambiente, dependendo das atividades e das
preferências do cliente, e qual é o significado do domicílio e seus componentes para o cliente. Essa exploração do perfil ocupacional e a análise da
atividade ocupacional do cliente fornecem informações que o terapeuta ocupacional pode utilizar então para considerar a necessidade de modificações
no domicílio (Siebert, 2005).
A avaliação domiciliar começa frequentemente por um foco na localização do domicílio no contexto comunitário. Por exemplo, o domicílio está
localizado num contexto urbano, suburbano ou rural? O cliente é capaz de acessar os recursos comunitários de que necessita? Quão próximos são os
locais de compras e os consultórios médicos? Especificamente em relação ao domicílio propriamente dito, alguns componentes do ambiente domiciliar
são comumente avaliados. Estes incluem a entrada e a saída do domicílio, abrangendo considerações quanto às saídas de emergência, à circulação no
interior  do  domicílio  e  ao  acesso  a  áreas  específicas  do  domicílio,  como  banheiro,  cozinha,  dormitórios,  lavanderia  e  espaços  comuns.  Embora  os
profissionais divirjam quanto à ordem em que realizam as avaliações, uma avaliação é conduzida tipicamente das áreas mais públicas (entradas, sala de
estar, cozinha) para os espaços mais íntimos (banheiro e quarto de dormir).
Existem alguns instrumentos padronizados para orientar as avaliações domiciliares (ver Tabela 60.1). Por exemplo, se a segurança domiciliar for o
foco da avaliação, pode­se escolher um instrumento como o SAFER (Chui, Oliver, Marshall & Letts, 2001), o HOME­FAST (Mackenzie, Byles &
Higginbotham, 2000) ou o Westmead (Clemson, Fitzgerald & Heard, 1999). Pode­se dar preferência ao Housing Enabler (Iwarsson & Slaug, 2001) ou
o  Ease  3.2  (Christenson,  2005),  se  a  acessibilidade  for  o  problema.  Caso  esteja  sendo  avaliada  uma  instituição  de  vida  assistida,  a  Physical  and
Architectural  Features  Checklist  do  MEAP  (Moos  &  Lemke,  1996)  pode  fornecer  informações  úteis.  Podem  ser  utilizadas  avaliações  domiciliares
padronizadas  para  a  documentação  da  situação  momentânea  no  domicílio.  Fotografias  podem  ser  particularmente  úteis  quando  modificações  ou
reformas do domicílio estiverem sendo consideradas como parte da intervenção. O terapeuta pode utilizá­las como um meio para lembrar a disposição
exata  de  um  espaço  e  para  justificar  as  recomendações  dadas  ao  cliente  junto  às  fontes  pagadoras  e  aos  profissionais  contratados  com  informações
específicas sobre o que precisa ser modificado.
Embora nem sempre sejam utilizadas na prática clínica, as avaliações domiciliares padronizadas têm uma vantagem significativa por assegurar que
tenha sido realizada uma avaliação abrangente do domicílio, fornecendo documentação para a avaliação, fornecendo informações úteis para justificar a
necessidade de modificações no domicílio e criando oportunidades para a avaliação dos resultados finais.

Avaliação do Ambiente Escolar
Os terapeutas ocupacionais cumprem um papel importante para possibilitar que estudantes portadores de deficiências tenham êxito no ambiente escolar
e  participem  de  atividades  na  sala  de  aula,  no  pátio  e  do  tipo  extracurricular  (Mu  &  Royeen,  2004).  A  equipe  da  escola  estabelece  tipicamente  as
necessidades e as metas educacionais do estudante e o terapeuta ocupacional contribui para a análise das necessidades e do desempenho escolar do
estudante, examinando as influências ambientais sobre a experiência do estudante na escola.
Em muitas jurisdições, a legislação exige que as escolas sejam acessíveis e passíveis de serem frequentadas por pessoas portadoras de deficiências.
A Americans with Disabilities Act Checklist for Readily Achievable Barrier Removal (Adaptive Environments Center, 1995) é um instrumento útil
para  a  avaliação  da  acessibilidade  de  edifícios  públicos,  tais  como  as  escolas,  e  apresenta  uma  lista  de  soluções  possíveis  para  aumentar  a
acessibilidade de um edifício.
Há  poucos  instrumentos  disponíveis  ao  terapeuta  ocupacional  que  precisa  avaliar  o  ambiente  para  um  estudante.  A  School  Setting  Interview  foi
elaborada para explorar o ajustamento ambiente escolar­estudante para estudantes portadores de deficiências físicas com idades variando de 10 a 18
anos  (Hemmingsson,  Kottorp  &  Bernspang,  2004).  Esta  utiliza  uma  entrevista  semiestruturada  que  abrange  as  necessidades  de  acomodação  de
estudantes  em  11  áreas  do  desempenho  escolar  (p.  ex.,  escrita,  leitura,  provas  e  dever  de  casa).  As  propriedades  psicométricas,  em  termos  da
confiabilidade entre avaliadores e da validade de conteúdo, são boas. A School Function Assessment (Coster, Deeney, Haltiwanger & Haley, 1998)
aborda os comportamentos funcionais em ambientes da escola elementar, incluindo a sala de aula, o banheiro e o pátio dos brinquedos. Embora esta
não seja uma avaliação do ambiente escolar, os escores refletem a participação da criança nas atividades escolares e a necessidade de adaptações ao
ambiente escolar.

Avaliação do Ambiente de Trabalho
Um terapeuta ocupacional pode ser solicitado a avaliar as características físicas ambientais do local de trabalho para um cliente que planeja trabalhar
ou voltar ao trabalho nesse contexto ou para fins de exame de acessibilidade, segurança e fatores ergonômicos de modo abrangente para um programa
de prevenção de lesões no local de trabalho. Com relação à pessoa do cliente, o terapeuta ocupacional faz uma análise no local de trabalho quanto aos
fatores do ambiente físico que favorecem ou prejudicam o desempenho dessa pessoa no trabalho. O Work Experience Survey (Roessler, 1996; Roessler
&  Gottcent,  1994)  pode  ser  utilizado  para  avaliar  a  acessibilidade  ao  local  de  trabalho  e  as  necessidades  de  adaptação  ao  emprego.  A  Workplace
Environment Impact Scale (Kielhofner et al., 1998) facilita o diálogo em relação às experiências e percepções do indivíduo quanto ao ambiente de
trabalho, o que é particularmente útil quando se examinam questões relacionadas ao retorno ao trabalho. A Americans with Disabilities Act Checklist
for  Readily  Achievable  Barrier  Removal  (Adaptive  Environments  Center,  1995)  e  a  ADA  Work­Site  Assessment  (Jacobs,  1999)  também  são
recomendadas para o exame da acessibilidade ao local de trabalho.
Em um contexto mais amplo, os terapeutas ocupacionais são consultados por indústrias para avaliar o ambiente físico do local de trabalho para os
fins de prevenção de lesões. O terapeuta ocupacional pode ser convidado a fazer uma análise do local de trabalho para identificar a acessibilidade ao
local de trabalho, os riscos físicos e o desenho dos postos de trabalho, entre outros fatores, como a ergonomia e as demandas psicológicas do ambiente
de trabalho. Os terapeutas que assumem esse papel devem se familiarizar com padrões e orientações existentes, visando à prevenção de lesões no local
de trabalho em sua comunidade, como aqueles publicados pelo National Institute of Occupational Safety and Health, que estão disponíveis no site da
organização na Internet: http://www.cdc.gov/niosh/homepage.html. Consulte o Capítulo 52 para maiores detalhes a respeito do papel dos terapeutas
ocupacionais no local de trabalho.

Avaliação da Comunidade
Existe uma variedade de razões para os terapeutas ocupacionais avaliarem ambientes comunitários. Parte dessa variação está relacionada ao fato de o
terapeuta estar trabalhando com um cliente específico ou se o sítio comunitário é o “cliente”. Na prática comunitária com um único cliente, a avaliação
da  comunidade  pode  ser  necessária  como  parte  do  processo  de  compreensão  das  capacidades  e  limitações  do  cliente  em  contextos  diferentes.  Por
exemplo, pode ser útil observar um cliente enquanto faz compras no mercado para compreender melhor as restrições e os facilitadores ambientais que
o cliente experimenta no mercado que utiliza mais comumente. O terapeuta ocupacional pode então fazer recomendações para modificar a abordagem
do cliente à tarefa, as capacidades do cliente ou o próprio ambiente.
As avaliações da comunidade também podem abordar as experiências do cliente no domicílio e na comunidade. Avaliações como o Craig Hospital
Inventory of Environmental Factors (Craig Hospital Research Department, 2001; Whiteneck, Harrison­Felix et al., 2004) e a Home and Community
Environment Assessment (Keysor, Jette & Haley, 2005) constituem meios para os clientes relatarem suas experiências nesses ambientes. Esses tipos de
resultado  de  avaliação  podem  ajudar  os  terapeutas  ocupacionais  a  compreenderem  melhor  as  experiências  do  cliente  e  a  estabelecerem  prioridades
junto ao cliente de modo a melhorar sua participação em atividades ocupacionais em diversos contextos.
Como alternativa, o local ou contexto comunitário pode ser o cliente, caso em que podem ser consideradas as necessidades de muitas pessoas com
diferentes  tipos  e  graus  de  deficiência.  Embora  possa  ser  mais  complicado,  por  não  haver  um  cliente  único  cujas  necessidades  individuais  estejam
sendo  consideradas,  esse  tipo  de  avaliação  proporciona  uma  oportunidade  para  a  sugestão  de  modificações  no  ambiente  que  possam  atender  às
necessidades de um grupo maior de usuários do ambiente.
Existem  algumas  avaliações  que  abordam  a  acessibilidade  de  contextos  comunitários.  Por  exemplo,  a  AIMFREE  (Rimmer  et  al.,  2004)  foi
elaborada  para  mensurar  a  acessibilidade  em  instituições  de  cultura  física  e  recreação  e  foi  padronizada  com  o  teste  inicial  de  suas  propriedades
psicométricas. A ADAAG Checklist fornece ao avaliador os requisitos técnicos das ADA­ABA Accessibility Guidelines para a realização da avaliação
(U.S.  Access  Board,  2004).  O  Access  Guide  Canada  apresenta  alguns  formulários  para  a  avaliação  de  contextos  comunitários,  como  restaurantes,
bancos,  locais  de  diversão,  parques  e  instituições  religiosas.  Esses  formulários  podem  ser  obtidos  em  http://enablelink.org/agc/index.php.  O  Access
Guide  Canada  Website  e  o  projeto  são  recursos  valiosos  e  modelos  de  como  as  informações  sobre  a  acessibilidade  podem  ser  prontamente
compartilhadas com outras pessoas que utilizam a Internet. Os usuários podem fazer a pesquisa por província e por comunidade e podem consultar as
informações fornecidas por voluntários sobre a acessibilidade básica de locais na comunidade. O projeto dá às pessoas portadoras de deficiências a
oportunidade de promover os espaços acessíveis em sua comunidade e de participar mais integralmente nas comunidades em que vivem e que visitam.
Os contextos comunitários também incluem áreas de lazer. Um pátio de brinquedos acessível proporciona oportunidades de lazer para crianças de
capacidades  variadas  e  pode  facilitar  a  integração  social  (veja  Fig.  60.2).  Os  terapeutas  ocupacionais  que  trabalham  com  crianças  portadoras  de
deficiência vão encontrar no Guide to ADA Accessibility for Play Areas (U.S. Architectural and Transportation Barriers and Compliance Board, 2001)
um recurso excelente para trabalhar num contexto comunitário no sentido de criar áreas de lazer acessíveis. Os componentes acessíveis do pátio de
brinquedos incluem vias acessíveis em toda a área de lazer, estruturas para brincar tanto no solo como elevadas e o uso de superfícies acessíveis, como
rampas de madeira e pisos emborrachados. Mesas para brincar com areia e água e painéis montados verticalmente para atividades fáceis de alcançar e
manipular  proporcionam  acesso  a  crianças  que  utilizam  cadeiras  de  rodas  e  andadores.  O  pátio  de  brinquedos  também  deve  ser  acessível  a  adultos
portadores de deficiências. Pode haver professores, pais ou outros cuidadores na área de brincar que tenham deficiências e precisem acessar elementos
diferentes da área de lazer quando crianças que utilizam o equipamento necessitam apoio, supervisão ou ajuda.

Fig. 60.2 Num pátio de brinquedos adaptado, as rampas e o piso de tábuas proporcionam acesso a todas as crianças.

INTERVENÇÕES
Quando termina o processo de avaliação, devem ser elaboradas intervenções direcionadas para os resultados desejados de desempenho ocupacional
identificados  pelo  cliente,  utilizando­se  uma  abordagem  sistemática,  como  o  Occupational  Therapy  Practice  Framework  (AOTA,  2002)  ou  o
Occupational  Performance  Process  Model  (Fearing  &  Clark,  2000).  O  objetivo  de  melhorar  o  ajuste  PAO  no  que  diz  respeito  ao  engajamento
ocupacional orienta a elaboração do programa de intervenção. As metas devem ser redigidas de modo a refletir o resultado de desempenho ocupacional
desejado (p. ex., o cliente será capaz de se transferir utilizando barras de apoio) e não a intervenção (p. ex., instalar barras de apoio).
O  cliente  ou  a  pessoa  que  representa  o  grupo  usuário  final  tem  um  papel  fundamental  no  planejamento  da  intervenção  e  na  tomada  de  decisões
(Ringaert,  2003).  Ao  abordar  macrocontextos  na  esfera  pública,  o  terapeuta  ocupacional  e  outros  responsáveis  pelo  planejamento  e  pelo  modelo
consultam todos os grupos de usuários finais para auxiliar a preparação de um ambiente acessível e disponível para todos.
Nesta seção nós apresentamos diversas estratégias de intervenção para o domicílio,  a  escola  e  o  local  de  trabalho  e  para  contextos  comunitários.
Embora os terapeutas ocupacionais recomendem intervenções relacionadas ao contexto do domicílio de uma pessoa, existem vários outros contextos
importantes para intervenções no ambiente. Algumas intervenções podem ser aplicadas no nível pessoal ou semipessoal dos clientes e outras podem
ser aplicadas no nível público mais amplo com comunidades ou no nível da sociedade.
Intervenções no Ambiente Pessoal: A Importância do Domicílio
O  domicílio  é  o  contexto  de  uma  ampla  gama  de  ocupações.  Essas  ocupações  podem  ser  básicas  e  comuns,  como  se  vestir  e  cuidar  da  aparência
pessoal, ou complexas, como planejar e executar reuniões e celebrações familiares, controlar o dinheiro e manter relações sexuais. É no domicílio que
nós  guardamos  e  exibimos  bens  valorizados  e  procuramos  proteção  contra  os  estressores  da  comunidade  (Rowles,  2003).  O  domicílio  é,  com
frequência, um dos ambientes mais apreciados na vida das pessoas e foi associado à identidade e aos valores pessoais (Dovey, 1985). Com frequência,
o objetivo principal de muitos indivíduos num contexto hospitalar é ir para casa; a meta dos adultos idosos com condições crônicas é poder permanecer
em  casa  (American  Association  of  Retired  Persons,  2000).  Entretanto,  devido  ao  custo  das  visitas  domiciliares  de  um  terapeuta,  o  domicílio  é
frequentemente negligenciado como um foco de intervenção. Apesar dos relatos clínicos sobre o valor das modificações do domicílio (Siebert, 2005) e
das  evidências  da  influência  positiva  sobre  o  desempenho  ocupacional  após  programas  de  tratamento  domiciliar  (p.  ex.,  Gitlin,  Corcoran,  Winter,
Boyce & Hauck, 2001; Mann, Ottenbacher, Fraas, Tomita & Granger, 1999), os terapeutas muitas vezes se baseiam em relatos verbais dos cuidadores
ou  dos  clientes  para  conhecer  as  complicadas  influências  ambientais  que  enfrenta  um  cliente  que  volta  para  casa.  Não  é  recomendado  solicitar  um
equipamento  ou  fazer  recomendações  para  modificar  a  arquitetura  sem  observar  os  clientes  no  contexto,  pois  essa  prática  acarreta  frequentemente
resultados  finais  desfavoráveis  para  os  clientes.  Muitos  indivíduos  com  incapacidades  recentes  não  são  capazes  de  considerar  a  gama  de  possíveis
barreiras que irão enfrentar no domicílio. Em consequência disso, muitas oportunidades para modificações úteis são perdidas.

Tipos de Moradia
A variedade de opções de moradia é considerável. Os indivíduos podem viver em casas convencionais, casas motorizadas (traillers), casas geminadas,
apartamentos e condomínios. Os domicílios podem ser unifamiliares ou multifamiliares; podem incluir espaços modificados em grandes cidades ou
grandes  residências  para  uma  única  família  em  comunidades  rurais.  Os  domicílios  também  podem  ser  instituições  de  vida  comunitária,  como
instituições de vida assistida, abrigos para sem­teto, alojamentos e domicílios de grupo. Infelizmente, muitas moradias não apresentam características
que forneçam suporte ao desempenho de pessoas com incapacidades. Menos de 10% dos 100 milhões de domicílios privados existentes nos Estados
Unidos dispõem dessas modificações (Center for Universal Design, 1997), tornando a modificação domiciliar uma prioridade para qualquer cliente que
viva com limitações funcionais por causa de uma deficiência.
É  fundamental  que  o  terapeuta  ocupacional  conheça  a  orientação  e  as  ramificações  legais  de  se  fazerem  modificações  domiciliares  em  diversas
situações  de  moradia.  Por  exemplo,  nos  Estados  Unidos,  num  edifício  com  acesso  por  escadas,  uma  pessoa  com  uma  lesão  medular  recente  tem  o
direito, segundo as Fair Housing Laws (U.S. Department of Housing and Urban Development, 2001), de instalar uma rampa para chegar à porta da
frente do edifício em que mora, à sua custa. Segundo a mesma lei, um indivíduo com esclerose múltipla que utilize um cão de serviço não pode ter a
moradia negada, mesmo que haja uma orientação de “não ter animais de estimação” num grande complexo de apartamentos. As leis podem variar,
dependendo da situação de moradia. Por exemplo, alojamentos e abrigos para sem­teto podem estar sujeitos ao ADA (1990). As moradias privadas
podem estar sujeitas aos códigos locais de edificação. É importante conhecer os direitos individuais relacionados com a moradia acessível. Se uma lei
exige a presença de características de moradia acessível, mas elas não estão presentes, o terapeuta pode ter o papel de ajudar o cliente na solicitação
das características de acessibilidade.
Os terapeutas ocupacionais devem considerar também os outros residentes do domicílio que podem ser influenciados por modificações no ambiente
ou que irão influenciar essas modificações. As pessoas que moram em lares unifamiliares vão ter provavelmente membros da família que coabitam
com  elas  ou  as  visitam  com  frequência,  moradores  de  apartamentos  vão  compartilhar  espaços  comuns  com  outros  residentes  e  estudantes  podem
compartilhar instalações sanitárias e de banho.

Inadequação Pessoa­Ambiente­Ocupação no Domicílio
A meta de capacitar clientes com deficiências para viver no domicílio fica ameaçada quando a capacidade funcional do cliente não corresponde às
exigências do ambiente. Com frequência, o risco de disfunção ocupacional pode ser atribuído a uma ausência de suporte ambiental (Connell, Sanford,
Long, Archea & Turner, 1993; Mann, Hurren, Tomita, Bengali & Steinfeld, 1994). Em alguns casos, ocupações valorizadas são abandonadas devido às
barreiras ambientais. Por exemplo, uma mulher que apresenta complicações da doença de Parkinson pode não ser mais capaz de lavar a roupa com
independência porque sua lavanderia se localiza no porão. Em outros casos, os clientes podem fazer um grande esforço para continuar executando as
atividades vitais da vida diária, como no exemplo da mulher idosa que não consegue mais entrar com segurança em sua grande banheira e caminha até
uma academia de ginástica para utilizar com segurança um chuveiro em que fica em pé. Esses são exemplos de um ajustamento PAO inadequado. A
ocupação desejada é difícil ou impossível, diante das limitações funcionais do cliente e das demandas do ambiente. Como é demonstrado na Tabela
60.2, muitas características ambientais corriqueiras se tornam barreiras quando enfrentadas por pessoas com limitações funcionais.

Como Modificar o Domicílio
As modificações no domicílio podem incluir alterações do ambiente físico (tanto dos espaços como dos objetos do ambiente), instruções a respeito do
ambiente físico e de como utilizá­lo de maneira eficiente ou segura, ou alterações do suporte social no ambiente para compensar barreiras do ambiente
físico.  Muitas  vezes,  utiliza­se  uma  mistura  de  todas  as  três  abordagens  nas  intervenções  bem­sucedidas.  As  intervenções  devem  ser  planejadas
levando­se  em  consideração  o  contexto  cultural,  econômico,  institucional,  político  e  social  do  cliente  e  da  família  em  relação  às  alterações  e  às
limitações funcionais associadas à condição aguda ou crônica do indivíduo.
Os  terapeutas  ocupacionais  podem  utilizar  diversas  abordagens  para  modificar  o  ambiente  físico  de  modo  a  reduzir  as  demandas.  Eles  podem
acrescentar características a um ambiente (p. ex., acrescentar um banquinho para o banho), remover características de um ambiente (p. ex., remover
tapetes  soltos  de  um  corredor)  ou  modificar  características  existentes  (p.  ex.,  pintar  o  alisar  da  porta  com  uma  cor  contrastante).  Características  do
ambiente que representam barreiras para um indivíduo podem servir de suporte para outro. Por exemplo, um indivíduo com dores nas costas pode se
beneficiar  do  suporte  que  um  vaso  sanitário  de  48cm  (mais  alto  que  o  vaso  sanitário  padrão)  proporciona.  O  mesmo  vaso  sanitário  de  48cm  (19
polegadas) pode ser uma barreira para um indivíduo que tenha baixa estatura e que iria precisar de um banquinho para os pés para chegar à posição
sentada. O objetivo do processo de intervenção é determinar as modificações ambientais ótimas que irão assistir as pessoas com deficiências para que
atinjam suas metas ocupacionais.
TABELA 60.2 EXEMPLOS DE BARREIRAS NO DOMICÍLIO
ENTRADAS E VÃOS DE PORTA NA CASA
Degraus nas entradas
Escadas sem corrimãos ou com corrimãos inadequados
Vãos de porta estreitos
Portas pesadas
Equipamentos da porta e fechaduras de difícil manipulação
Soleiras de mais de 1,5cm de altura
CIRCULAÇÃO GERAL PELA CASA
Pisos escorregadios
Piso com superfície irregular, múltiplos níveis
Carpete solto
Tapetes espalhados
Áreas mal iluminadas (p. ex., corredor/escada)
Ausência de contraste entre cores nas bordas de bancadas, soleiras de portas etc.
Desordem em pisos ou escadas
BANHEIROS
Altura da banheira
Ausência de barras de apoio junto à banheira ou ao vaso sanitário
Altura do vaso sanitário
Ausência de espaço no banheiro para cadeira de rodas, andadores, assistente
Ausência de piso antiderrapante na banheira/boxe
COZINHAS
Bancadas altas demais ou baixas demais
Ausência de espaço para cadeira de rodas, andadores
Altura e profundidade de armários, prateleiras
Dispositivos de uso difícil (p. ex., torneiras/controles)
GERAL
Fios soltos (p. ex., extensões, cabos)
Telefone/campainha da porta de baixo volume
Telefone com botões pequenos
Altura dos móveis, incluindo cadeiras e sofás
Letras pequenas nos objetos (p. ex., produtos de limpeza/medicamentos)
Cantos pontiagudos em móveis e acessórios
O equipamento de adaptação, como um banquinho para o banho e uma ducha manual para uma pessoa que não consiga entrar no boxe e ficar de pé
ali,  é  uma  modificação  comum  efetuada  pelos  terapeutas  ocupacionais.  O  equipamento  de  adaptação  pode  incluir  um  equipamento  médico
especializado,  como  um  assento  de  privada  elevado,  equipamento  especialmente  elaborado,  como  um  pegador  de  cabo  longo  para  alguém  que  não
consiga  inclinar  o  corpo  ou  tocar  o  solo,  ou  produtos  especiais,  como  um  aspirador  de  pó  ultraleve  para  uma  pessoa  com  artrite.  As  modificações
arquitetônicas variam de modificações simples, como acrescentar corrimãos em escadas, a modificações complicadas, como a instalação de rampas na
entrada da casa ou a remodelagem em grande escala do domicílio. As modificações da moradia podem incluir a substituição de uma banheira por boxe
com  chuveiro,  acrescentar  um  elevador  ou  construir  uma  expansão  acessível  que  inclua  um  quarto  com  banheiro  para  um  membro  da  família  que
apresente alguma deficiência.
Os  terapeutas  ocupacionais  também  podem  modificar  a  maneira  pela  qual  as  pessoas  utilizam  o  ambiente,  instruindo­as  sobre  a  segurança  no
domicílio. Eles podem, por exemplo, ensinar as pessoas a fazerem uso das características existentes em seu ambiente que tornam mais segura ou mais
fácil  a  execução  das  atividades  diárias.  A  base  conceitual  para  a  realização  de  modificações  no  domicílio  elaborada  por  Sanford  e  Jones  (2001)
proporciona  um  esquema  organizador  para  a  análise  sistemática  das  características  de  um  ambiente.  Como  é  mostrado  na  Tabela  60.3,  essa  base
conceitual organiza hierarquicamente as características arquitetônicas de um aposento em categorias de espaços, produtos, controles e equipamentos.

Como Decidir Qual é a Melhor Intervenção
Após  identificar  potenciais  opções  de  intervenção  com  maior  probabilidade  de  dar  suporte  ao  desempenho,  o  terapeuta  revisa  essas  opções  com  o
cliente  e  apresenta  as  intervenções  preferidas  às  potenciais  fontes  pagadoras.  Com  frequência,  existem  múltiplas  soluções  para  os  problemas  de
desempenho ocupacional enfrentados pelo cliente. Considere este contexto: uma mulher jovem com esclerose múltipla tem dois importantes problemas
de  desempenho  ocupacional.  Ela  não  consegue  tomar  banho  com  independência  e  faz  um  grande  esforço  para  preparar  refeições  simples.  Ela  tem
dificuldade  para  caminhar  e  faz  uso  de  uma  cadeira  de  rodas  para  mover­se.  Devido  ao  primeiro  problema,  ela  é  incapaz  de  se  transferir  para  sua
banheira de estilo tradicional e recorre atualmente a uma atendente para colocá­la na banheira e dar banho nela. Ela considera a situação assustadora e
embaraçosa  e  gostaria  de  ser  capaz  de  tomar  banho  com  independência.  A  terapeuta  ocupacional  se  encontrou  com  essa  jovem  e  identificou  duas
modificações ambientais que poderiam facilitar sua meta de desempenho ocupacional. A primeira opção foi uma grande reforma arquitetônica, que
envolveu a remoção da banheira existente e a construção de um boxe com um banco deslizante integrado e uma ducha manual ajustável. Sua segunda
opção  foi  um  banco  para  transferência  com  uma  ducha  portátil  manual  (Fig.  60.3).  Ambas  as  opções  a  ajudariam  a  tomar  banho  de  maneira
independente.  Esse  contexto  identifica  numerosas  possibilidades,  mas  restrições  ambientais,  como  barreiras  econômicas,  arquitetônicas  e  sociais,
podem influenciar as opções.
TABELA 60.3 CARACTERÍSTICAS ARQUITETÔNICAS DE UM APOSENTO
Espaços Descritos em termos de:
­Disposição
­Dimensões
­Iluminação
­Condições ambientais (p. ex., calor, luz)
­Decoração (carpete/papel de parede)
­Dimensões da entrada de um cômodo ou uma área
Exemplos:
­Quartos
­Pátio de brinquedos
­Garagem
Produtos Contidos nos espaços e incluindo:
­Acessórios
­Utensílios
­Itens especiais
Descritos em termos de:
­Tipo
­Tamanho
­Força necessária para a operação
­Sinais sonoros ou visuais
­Textura
Exemplos:
­Vaso sanitário
­Geladeira
Controles e equipamentos Aspectos do ambiente em que o ser humano faz interface com o ambiente físico
Analisados em termos de:
­Tipo
­Habilidades motoras finas (uma versus duas mãos, pinça, força de preensão)
­Acesso ao objeto (altura do armário)
­Localização dos controles
­Tamanho
­Força para operar
­Características operacionais (calibração/tipo de retroalimentação sensorial)
Exemplos:
­Maçanetas
­Interruptores de luz

Fig. 60.3 Dispositivos de assistência no banheiro: banco para transferência e ducha manual.

Os  recursos  financeiros  são,  com  frequência,  o  obstáculo  mais  desafiador  para  pessoas  com  incapacidades  que  tentam  fazer  modificações  no
domicílio. Reformas no domicílio são caras e não se dispõe atualmente de financiamento de muitas companhias de seguro para as modificações no
domicílio.  As  pessoas  recorrem  frequentemente  a  recursos  pessoais  ou  a  agências  de  serviço  social  para  financiar  as  modificações.  Os  terapeutas
ocupacionais devem se familiarizar com as agências locais de serviço social que tenham verba para essas modificações.
A decisão de realizar modificações arquitetônicas no domicílio é geralmente dispendiosa. Por esta razão, é importante planejar modificações que
continuem a atender às necessidades do cliente (e dos membros de sua família) com o transcorrer do tempo. Os terapeutas devem considerar a possível
evolução de uma doença crônica ou como uma pessoa com incapacidade pode envelhecer e recomendar as modificações de acordo com isso.
As  grandes  diferenças  nos  métodos  de  construção  das  casas  também  podem  impor  desafios.  Embora  a  supervisão  de  grandes  modificações  por
terapeutas não seja frequente, eles podem aconselhar seus clientes a consultarem profissionais da construção civil para determinar se o domicílio pode
suportar as alterações necessárias antes que os clientes procedam à execução das recomendações. Questões como modificação do encanamento ou se
uma estrutura vai suportar uma barra de apoio são problemas importantes de segurança e precisam ser resolvidos por profissionais.
A decisão de se fazerem modificações no próprio domicílio pode por vezes ser difícil para os donos de uma moradia que não desejem torná­la pouco
atraente. O domicílio é, com frequência, uma expressão da própria pessoa; pode ser indesejável mostrar um equipamento médico ou barras de aço para
apoio de aparência institucional. Quando os terapeutas apresentam opções de modificações, a aparência é uma consideração importante. Apresentar
aos clientes uma variedade de opções permite que eles avaliem os custos em relação às necessidades, prioridades, valores estéticos, metas familiares e
valores. Os clientes devem ter toda a informação para ajudá­los em sua decisão quanto às modificações em seu ambiente domiciliar.

Visitabilidade como um Conceito do Modelo Universal
Muitos domicílios têm degraus em todas as entradas, portas internas que são estreitas demais para dar passagem a alguém que utiliza uma cadeira de
rodas  e  não  dispõem  de  um  banheiro  no  andar  térreo.  Essas  três  barreiras  são  os  principais  vícios  de  projeto  que  fazem  com  que  pessoas  com
deficiência fiquem isoladas de seus vizinhos e de seus parentes e fazem com que pessoas que sofrem alterações da mobilidade se tornem incapazes de
residir  com  segurança  em  suas  próprias  casas.  Sem  a  intenção  de  fazer  isso,  os  projetos  de  construção  de  residências  frequentemente  obrigam  as
pessoas  com  deficiências  e  as  pessoas  idosas  a  se  isolarem  e  deixarem  de  ser  membros  de  sua  comunidade.  Do  ponto  de  vista  fiscal,  o  custo  das
modificações dos domicílios e da remoção das barreiras arquitetônicas em domicílios não acessíveis é muito maior do que o daquelas que incorporam
características básicas de acesso às novas construções.

Fig. 60.4 Padrão de visitabilidade: entrada com “zero degrau” no novo domicílio.

A visitabilidade é uma estratégia de custo acessível e manutenção possível que visa aumentar o número de residências unifamiliares e bairros que
disponham de condições mínimas de acesso. Os dois objetivos da visitabilidade são assegurar o acesso de pessoas com alterações da mobilidade às
casas de vizinhos e familiares e proporcionar um “lote” básico de acesso para permitir que as pessoas permaneçam em seus próprios domicílios no
caso  de  adquirirem  uma  incapacidade.  A  visitabilidade  não  proporciona  acesso  total,  mas  permite  efetivamente  que  as  pessoas  com  deficiências
tenham acesso ao andar térreo de uma residência sem que precisem ser carregadas até lá e facilita o acesso aos quartos e banheiros no primeiro andar
(Smith, 2003).
Muitas comunidades em todo o mundo incorporaram padrões de visitabilidade que resultaram em um número significativo de novas residências com
as  características  de  acessibilidade  (http://www.concretechange.org).  Tipicamente,  a  visitabilidade  inclui  pelo  menos  uma  entrada  acessível  (ou  de
“zero degrau”) ao domicílio (como é mostrado na Fig. 60.4), portas de 80cm de largura no andar térreo e pelo menos um lavabo neste andar (Claar &
Boan,  2005).  Os  terapeutas  ocupacionais  têm  muitas  oportunidades  de  colaborar  para  o  desenvolvimento,  a  orientação  e  a  defesa  da  comunidade,
utilizando os princípios do modelo universal e, mais especificamente, da visitabilidade (Ringaert, 2003).

DILEMAS DA ÉTICA
Deve um Terapeuta Ocupacional Recomendar Modificações Dispendiosas do Ambiente?

D arrell é um homem de 72 anos com síndrome pós­pólio. Ele mora com sua esposa, Edith. Eles estão casados há 50 anos. Ele usa um triciclo
para  mobilidade.  Ele  apresenta  fraqueza  e  limitação  da  amplitude  de  movimento  nos  membros  superiores,  provavelmente  decorrentes  da
obesidade e da inatividade, assim como dos efeitos tardios da pólio. Darrell apresentou alterações em sua condição cognitiva e apresentou novos
comportamentos que não são típicos de suas capacidades (perder chaves, não conseguir utilizar o controle remoto da TV). Edith tem sido a principal
cuidadora de Darrell nos últimos 20 anos. Ela o levanta, dá banho, ajuda­o a se vestir, prepara as refeições e cuida da roupa suja, de seus animais
de  estimação  e  da  casa.  Edith  começou  a  apresentar  dor  e  disfunção  significativas  em  consequência  de  sua  artrite  reumatoide.  Ela  tem  tido  dor,
tumefação e rigidez nas articulações. Recentemente, ela sofreu uma lesão nas costas ao transferir Darrell da banheira.
Arven, um terapeuta ocupacional, recebeu o encaminhamento do médico de Darrell para avaliar sua condição. O médico de Darrell gostaria de
considerar sua internação num asilo para aliviar o estresse que Edith tem enfrentado. O médico também tem medo que Darrell se perca, depois de
Edith tê­lo encontrado recentemente vagando em seu triciclo num parque vizinho, olhando os patos num lago.
Ao avaliar Darrell, Edith e a casa, Arven descobre que poderiam ser feitas muitas alterações na casa, as quais iriam aliviar a tensão física sobre
Edith.  Arven  discute  um  projeto  para  modificar  o  banheiro,  que  é  bastante  amplo,  colocando  um  sistema  de  içamento  para  transferir  Darrell  em
segurança até a privada e a banheira. Arven descreve também um novo sistema de alarme que alertaria Edith no caso de Darrell sair de casa. Eles
discutem a possibilidade de uma cama nova, algumas modificações na cozinha que proporcionariam a Darrell maior independência no preparo das
refeições e uma nova máquina de lavar que Darrell poderia acionar na posição sentada. Todas essas alterações vão aliviar Edith de tarefas e manter
Darrell ocupado em sua vida diária. Edith diz a Arven que vê finalmente um fio de esperança em sua vida e que está animada com a possibilidade de
algum tempo de qualidade com seu marido. O projeto é revisto e tanto Darrell como Edith concordam que as modificações vão produzir alterações
importantes  e  significativas  em  suas  vidas.  Arven  envia  um  relatório  ao  médico,  indicando  que  a  instituição  asilar  não  é  uma  opção  obrigatória  e
apresenta  seu  projeto  de  modificação  do  ambiente.  Arven  fica  chocado  ao  receber  um  chamado  de  seu  supervisor,  exigindo  um  encontro  para
discutir seu comportamento antiético.
Arven se reúne com seu supervisor e é informado que o médico que fez o encaminhamento não vai mais encaminhar pacientes para a instituição.
O médico ficou furioso por Arven ter dado esperança à família de permanecer em casa e queria saber como Arven poderia garantir a segurança de
Darrell, dadas as suas limitações funcionais e suas prováveis alterações cognitivas. O médico também ficou com raiva porque o paciente ligou para
ele perguntando sobre a disponibilidade de recursos financeiros para fazer essas alterações, pois a família tem renda limitada e mal pode arcar com
os altos custos da medicação que poderia fazer uma pequena diferença na evolução da demência de Darrell. A família perguntou ao médico em que
eles deveriam gastar seus recursos limitados: na medicação ou nas modificações. O supervisor de Arven também entregou­lhe uma mensagem de
Edith, perguntando se ele tem conhecimento de algum recurso disponível para ajudar a pagar as modificações. Arven explicou ao supervisor que
tem algumas ideias quanto aos recursos para o projeto. Ele admite que se comprometeu a fazer contato com a Alzheimer’s Association, a igreja de
Darrell e algumas outras organizações filantrópicas locais em nome de Edith. O supervisor de Arven diz­lhe que ele já gastou tempo demais no caso
e  informa­lhe  que  procurar  recursos  financeiros  não  é  uma  atividade  passível  de  reembolso.  Arven  é  informado  de  que  não  vai  ter  permissão  de
buscar recursos financeiros para esses clientes.

Perguntas
1. Deveria Arven ter discutido a possibilidade de modificações dispendiosas quando a família não podia arcar com essas alterações?
2. Deveria  Arven  ter  seguido  o  encaminhamento  do  médico  e  ter  focalizado  sua  atenção  em  tornar  o  mais  suave  possível  a  transição  para  um
asilo, ainda que sua opinião profissional fosse de que Darrell não precisaria ir para lá?
3. Arven (e seu serviço de terapia) tem a obrigação de encontrar recursos financeiros para essas modificações?
4. Como Arven pode defender a estratégia por ele proposta para este cliente?

Como Tornar Possível a Ida à Escola
Em  muitas  sociedades  do  Ocidente,  os  estudantes  com  incapacidades  têm  direito  à  educação  pública  em  um  ambiente  menos  restritivo  (p.  ex.,
Individuals with Disabilities Education Act [IDEA] de 1990 e as emendas a esta lei de 1997 [P.L. 105­17], Seção 504 do Rehabilitation Act de 1973
[P.L. 93­112] e o Ontarians with Disabilities Act [ODA; Government of Ontario, 2001]). A acessibilidade física das escolas e áreas de lazer escolares e
o  acesso  aos  transportes  sem  barreiras  até  a  escola  e  a  partir  desta  são  medidas  importantes  para  se  obter  a  integração  dos  estudantes  com
incapacidades. Além disso, o ADA exige que os distritos escolares ofereçam programas e serviços que sejam facilmente utilizados por pessoas com
incapacidade  (Abend,  2001),  possibilitando  assim  o  acesso  de  estudantes,  pais,  professores  e  outras  pessoas  com  incapacidades  às  escolas.  As
diretrizes  de  acessibilidade  ADA­ABA  (U.S.  Access  Board,  2004)  se  baseiam  em  dimensões  e  dados  antropométricos  tanto  de  adultos  como  de
crianças  e  devem  ser  aplicadas  na  reforma  ou  na  construção  de  novas  escolas.  Os  terapeutas  ocupacionais  podem  dar  consultoria  e  justificar  a
acessibilidade  arquitetônica  e  o  uso  de  princípios  do  modelo  universal  nas  escolas.  Em  Ontário,  Canadá,  por  exemplo,  os  terapeutas  ocupacionais
podem dar consultoria aos conselhos escolares para a preparação de programas anuais de acessibilidade, tornados obrigatórios pelo ODA (Government
of  Ontario,  2001)  ou  ajudar  na  elaboração  e  no  planejamento  de  novas  escolas  e  no  planejamento  de  grandes  reformas  para  tornar  as  escolas  mais
acessíveis.
O  guia  de  Abend  (2001),  Planning  and  Designing  for  Students  with  Disabilities,  apresenta  princípios  de  projetos  úteis  que  são  aplicáveis  a
estudantes  com  diversas  condições  incapacitantes,  incluindo  alterações  físicas,  sensoriais,  de  atenção  e/ou  de  aprendizado  e  princípios  do  modelo
universal. Abend sugeriu, por exemplo, que espaços versáteis na sala de aula com um pequeno recuo se abrindo para a grande área comum da sala de
aula podem ajudar a controlar os ruídos e as distrações visuais de estudantes com déficits de atenção. Móveis modulados podem ser combinados ou
separados  para  apoiar  diversas  atividades,  como  trabalhos  individuais  e  em  grupo,  e  podem  incluir  mesas  acessíveis  e  locais  de  trabalho  em
computadores  para  acomodar  estudantes  que  fazem  uso  de  cadeiras  de  rodas  ou  que  necessitam  de  dispositivos  de  assistência  para  a  escrita,  como
computadores portáteis.
Algumas barreiras físicas consistentemente identificadas por estudantes com deficiências incluem rampas muito inclinadas, portas pesadas e soleiras
elevadas  nas  portas  de  entrada  em  escolas,  ausência  de  elevadores  para  um  segundo  andar  e  acessibilidade  inadequada  ao  pátio  da  escola
(Hemmingsson  &  Borell,  2000;  Pivik,  McComas  &  LaFamme,  2002).  As  lanchonetes  das  escolas  devem  ter  balcões  de  alimentos  acessíveis  às
cadeiras de rodas, alimentos colocados ao alcance de pessoas que utilizam uma cadeira de rodas e locais acessíveis para sentar­se. Encontrar o caminho
numa  escola  pode  ocasionar  problemas  para  muitos  estudantes,  incluindo  aqueles  que  apresentam  alterações  visuais,  cognitivas  e  perceptivas.
Sinalização de fácil compreensão em corredores que dê orientações para a circulação pela escola e códigos de cores bem nítidos em seções do edifício
podem ajudar os estudantes e outras pessoas a encontrarem o caminho dentro da escola.

Terapia Ocupacional nas Escolas com Alunos
Os terapeutas ocupacionais têm um papel importante para permitir que estudantes com deficiências tenham êxito no ambiente escolar e participem de
atividades na sala de aula e no pátio e de atividades extracurriculares (Mu & Royeen, 2004). Alguns exemplos dados mais adiante demonstram como é
possível alcançar um bom ajustamento com a modificação do ambiente. Mais informações sobre a prática na escola são fornecidas nos Capítulos 51 e
64.
A acessibilidade à escola é fundamental para estudantes que fazem uso de cadeiras de rodas. Para facilitar a acessibilidade ao banheiro, podem ser
necessárias modificações como uma porta de abertura automática, a instalação de barras de apoio e de vaso sanitário de assento elevado e a redução da
altura da pia e a instalação de torneiras do tipo alavanca. Para facilitar o trabalho em grupo com os colegas, o terapeuta pode recomendar uma mesa
redonda  ou  retangular  para  reunir  o  grupo  numa  superfície  de  trabalho  plana.  Os  materiais  de  sala  de  aula  devem  ser  colocados  ao  alcance  dos
estudantes.
As salas de aula podem apresentar altos níveis de estímulos sensoriais em termos de ruídos, poluição visual e atividade física em sala de aula repleta
de alunos, o que pode ter um efeito desorganizador para crianças com problemas de processamento sensorial. Os terapeutas ocupacionais avaliam o
ambiente da sala de aula para identificar as características sensoriais que facilitam ou prejudicam a capacidade dos estudantes de realizarem as tarefas
escolares e para recomendar as alterações do ambiente físico de modo a atender melhor às necessidades de processamento sensorial dos estudantes. Por
exemplo,  divisórias  que  absorvam  sons  e  iluminação  mais  difusa  podem  permitir  que  alguns  estudantes  foquem  a  atenção  enquanto  trabalham  em
tarefas individuais. O terapeuta pode recomendar a criação de um espaço tranquilo na sala de aula em que um estudante com autismo possa utilizar
uma cadeira de balanço para obter estímulos sensoriais calmantes e colocar um fone de ouvido para ouvir música ou uma história em fita.
O  terapeuta  ocupacional  deve  se  familiarizar  com  as  condições  e  os  termos  para  financiamento  das  modificações  do  ambiente  e  de  móveis  ou
equipamentos especiais ou adaptados para escolas. Algumas modificações ambientais podem ser feitas a um custo baixo, enquanto outras vão envolver
solicitações de recursos especiais ao conselho escolar ou a uma agência governamental.

Acessibilidade em Faculdades e Universidades
Muitas  faculdades  e  universidades  dispõem  de  programas  de  acessibilidade  e  de  serviços  especiais  para  alunos,  docentes  e  funcionários  com
incapacidades. Por exemplo, uma faculdade pode ter opções de moradia para alunos e serviços especiais nas bibliotecas para ajudar o acesso aos livros
e a outros materiais didáticos. Tipicamente, os terapeutas ocupacionais trabalham para a faculdade ou a universidade com a incumbência de prestar
serviços específicos aos alunos ou funcionários ou trabalham para um prestador de serviço de saúde e têm como cliente um aluno ou um funcionário da
instituição. Os terapeutas ocupacionais também podem dar consultoria com relação ao desenvolvimento de programas de acessibilidade e de serviços
específicos, principalmente no caso de espaços comunitários como bibliotecas, lanchonetes, livrarias e lugares de descanso para alunos. Por exemplo, o
terapeuta  pode  não  apenas  aconselhar  a  criação  de  espaços  acessíveis,  como  também  recomendar  tecnologias  de  assistência,  como  televisões  em
circuito fechado ou quadros de aviso em relevo para bibliotecas escolares para dar suporte aos alunos e docentes com visão reduzida.
Ao trabalharem com alunos ou funcionários de faculdades, os terapeutas ocupacionais podem examinar os desafios ao desempenho ocupacional de
seus clientes quanto a seu papel no campus e ajudar os clientes a acessarem serviços específicos. Os terapeutas podem utilizar as estratégias descritas
neste capítulo para abordar o acesso ao domicílio (o que se aplicaria aos alojamentos dos estudantes e a outras moradias para estudantes), o acesso às
salas  de  aula  e  bibliotecas  e  à  participação  na  vida  do  campus  em  geral.  Assim  como  outros  espaços  públicos,  faculdades  e  universidades  estão
tipicamente sujeitas às orientações de acessibilidade que são obrigatórias em sua jurisdição, como as ADA­ABA Accessibility Guidelines (U.S. Access
Board, 2004).
O transporte até o campus e dentro dele pode representar desafios para pessoas com incapacidades físicas. Os terapeutas ocupacionais podem ajudar
seus clientes a elaborarem um programa de transporte que pode envolver estratégias como o fornecimento de transporte acessível até o campus e a
obtenção de uma permissão para estacionar que permita ao aluno estacionar próximo a uma entrada acessível de um edifício em que tenha aulas.

Intervenções no Local de Trabalho
Para  muitas  pessoas  com  incapacidades,  a  capacidade  de  trabalhar  é  uma  meta  básica  de  desempenho  ocupacional.  No  entanto,  a  oportunidade  de
trabalhar é negada a muitos indivíduos com incapacidades; a taxa de desemprego é significativamente mais alta entre pessoas com deficiências do que
entre seus pares que não tenham deficiências (U.S. Department of Labor, 2001). A presença de barreiras ambientais no local de trabalho influencia a
capacidade de uma pessoa executar as funções essenciais de seu emprego. Por exemplo, degraus na entrada de um edifício de escritórios funcionam
como uma barreira para a pessoa que faz uso de uma cadeira de rodas manual para mobilidade. Uma pessoa com a visão reduzida pode ter dificuldade
em ler as letras pequenas do quadro de escritórios. Com a modificação ambiental, essas barreiras podem ser removidas, fazendo com que as pessoas
com incapacidades sejam capazes de executar suas tarefas com êxito. A remoção de barreiras pelo fornecimento de equipamentos de adaptação ou a
modificação do ambiente físico é fácil e muitas vezes de baixo custo (Gray, Hollingsworth & Morgan, 2001). A Tabela 60.4 apresenta alguns exemplos
típicos de modificações do local de trabalho.

TABELA 60.4 EXEMPLOS DE MODIFICAÇÕES DO AMBIENTE NO LOCAL DE TRABALHO PARA COMPROMETIMENTOS FUNCIONAIS
Comprometimento Modificações do Ambiente no Local de Trabalho
Comprometimento cognitivo: Minimizar as distrações em um espaço tranquilo e privativo.
Utilizar a configuração do espaço para proporcionar suporte ao dia de trabalho.
Fornecer fotografias além de palavras em cartazes ou placas com o nome do titular do escritório.
Fadiga/fraqueza: Utilizar a configuração do espaço para realizar as tarefas de modo eficiente.
Permitir estacionamento próximo ao local de trabalho.
Comprometimento motor fino: Utilização de um modelo ergonômico de posto de trabalho.
Fornecer grandes botões ou controles com cabos tipo alavanca e necessidade de pouca força para operação.
Comprometimento motor grosseiro: Fornecer entrada acessível (p. ex., acrescentar rampa).
Fornecer estacionamento acessível ou uma via de chegada acessível.
Fornecer porta com abertura automática.
Fornecer sala de repouso e sala para descanso acessíveis.
Comprometimento auditivo: Fornecer um teletipo (TLT) com sistema de alerta visual.
Instalar um sistema de alerta de emergência com sinal visual ou tátil.
Encorajar  o  uso  integral  de  dispositivos  visuais,  incluindo  filmes,  projetores  suspensos,  diagramas  e  quadros­
negros.
Comprometimento visual: Instalar iluminação apropriada no escritório.
Utilizar cores contrastantes na soleira das portas.
Fornecer grandes cartazes com cores contrastantes.

O ADA e as leis semelhantes sobre direitos humanos em muitos países defendem o direito da pessoa ao trabalho, proibindo a discriminação em
relação às pessoas com incapacidades. Nos Estados Unidos, pessoas com incapacidades que possam executar as funções essenciais de um emprego
com alguns ajustes têm permissão para concorrer a um emprego e mantê­lo. Segundo o ADA, o empregador é responsável por realizar os arranjos
necessários para que uma pessoa qualificada execute as tarefas do emprego.
Quando  são  necessários  ajustes  num  emprego,  o  terapeuta  ocupacional  pode  ser  convidado  a  liderar  uma  equipe  para  identificar  as  barreiras
ambientais que influenciam a capacidade de trabalho de um funcionário e ajudar na remoção dessas barreiras. Os membros da equipe podem incluir o
terapeuta ocupacional, o empregador, empregados­chave e o grupo responsável pela aplicação das alterações ao ambiente. O processo de ajustamento
do local de trabalho é semelhante àquele de modificação do domicílio. É realizada uma análise da atividade ocupacional, são identificadas as barreiras
e são propostas as soluções.
Há  algumas  estratégias  úteis  para  modificações  do  local  de  trabalho.  É  possível  considerar  o  uso  de  equipamentos  de  adaptação,  como  fones  de
ouvido  num  telefone  para  uma  pessoa  com  limitações  da  função  de  membros  superiores  (veja  também  Capítulo  62),  ou  modificar  as  funções  do
emprego,  eliminando  tarefas  auxiliares  cuja  execução  pelo  indivíduo  não  seja  possível.  A  tarefa  existente  também  pode  ser  reestruturada,  como  no
caso de uma pessoa com alterações cognitivas que tem seu posto de trabalho transferido para um ambiente fechado para reduzir as interrupções ao
mínimo.  O  ambiente  físico  também  pode  ser  modificado  para  corresponder  às  limitações  funcionais  apresentadas  por  um  funcionário,  como  a
instalação de portas automáticas para um funcionário que utilize uma cadeira de rodas motorizada. O site na Internet da Job Accomodation Network
(veja http://www.jan.wvu.edu) constitui um excelente recurso para terapeutas, empregadores e empregados com deficiências.
O terapeuta ocupacional deve considerar todos os aspectos da experiência profissional ao elaborar um programa de ajustamento. O terapeuta deve
considerar  não  apenas  as  tarefas  diárias  do  emprego  da  pessoa,  mas  também  as  funções  administrativas  e  práticas.  O  terapeuta  precisa  avaliar  a
capacidade do empregado de estacionar ou chegar ao local de trabalho utilizando o transporte público, almoçar, fazer pausas, ir ao departamento de
recursos humanos e receber comunicações a respeito de questões de trabalho relevantes. Devem ser avaliados o posto de trabalho e o local de trabalho.
Deve  ser  revisto  o  plano  de  evacuação  em  emergências  para  assegurar  que  o  funcionário  possa  ser  evacuado  com  segurança  no  caso  de  uma
emergência.
Alterar  o  ambiente  físico  é  uma  perspectiva  dispendiosa,  e  o  plano  elaborado  pelo  terapeuta  ocupacional  deve  levar  em  conta  se  a  condição  do
empregado é progressiva ou estável. No caso de uma condição de saúde estável, as modificações realizadas devem atender às necessidades da pessoa.
No caso de condições progressivas, muitas vezes é importante considerar um ajuste flexível, que possa ser modificado com o tempo, de acordo com a
evolução da condição.
Antes de iniciar o processo de ajuste do emprego, o terapeuta ocupacional deve ter bom conhecimento sobre a legislação pertinente, sobre como
aplicá­la  e  as  limitações  da  legislação.  Segundo  o  ADA,  por  exemplo,  são  permitidos  aos  trabalhadores  “ajustes  razoáveis,”  desde  que  estes  não
causem “dificuldades extraordinárias” ao empregador. Uma pequena empresa que tenha uma margem de lucro muito pequena pode não precisar pagar
por um elevador se isso vai levar a companhia à falência, mas pode ser obrigada a passar o escritório de um empregado com alteração da mobilidade
para  o  primeiro  andar,  se  houver  espaço  disponível  para  isso.  Recursos  excelentes  podem  ser  obtidos  junto  à  Equal  Employment  Opportunity
Commission  (2005)  a  respeito  do  ADA,  nos  Estados  Unidos,  e  ao  Canadian  Employment  Programming  for  Persons  with  Disabilities  (Human
Resources and Skills Development Canada, 2005).
É  igualmente  importante  que  os  ajustes  do  emprego  deixem  a  instituição  em  acordo  com  a  regulamentação  que  trata  da  acessibilidade  e  da
segurança.  Um  projeto  de  modificação  deve  ser  revisado  e  aprovado  por  um  profissional  que  conheça  as  regulamentações  a  que  a  instituição  deva
aderir.  O  resultado  do  ajustamento  do  emprego  deve  ser  avaliado  e  o  sucesso  continuado  dos  ajustes  deve  ser  monitorado  ao  longo  do  tempo  para
assegurar o melhor ajustamento trabalhador­emprego.

A Esfera Pública da Atividade Ocupacional: Intervenções na Comunidade
A esfera pública de atividade inclui espaços que as pessoas visitam com menos frequência do que o ambiente de trabalho ou o ambiente domiciliar.
Exemplos de locais incluídos nessa esfera de atividade são agências governamentais, eventos culturais, complexos para compras e mercados. Embora
as pessoas frequentemente passem menos tempo em espaços comunitários, estes são ambientes importantes que servem de ligação entre espaços mais
privados,  como  o  trabalho  e  o  domicílio,  e  incluem  igualmente  bens  e  serviços  importantes  e  necessários  para  uma  participação  de  êxito  na  vida
comunitária.  As  esferas  comunitárias  são  importantes  para  a  socialização,  a  recreação  e  a  participação  cívica  e  social.  Ambientes  com  pouca
acessibilidade podem afetar negativamente a participação de pessoas com incapacidades na comunidade.
Os lugares públicos não são personalizados para atender às necessidades individuais. Ao contrário, os espaços públicos são planejados tipicamente
para atender às necessidades de indivíduos médios e se baseiam em orientações gerais, como as diretrizes de acessibilidade ADA­ABA (U.S. Access
Board,  2004)  e  os  códigos  de  edificação,  no  Canadá.  Todavia,  ainda  há  muitos  desafios  para  a  construção  de  comunidades  acessíveis,  conforme
demonstrado  em  vários  artigos  que  descrevem  barreiras  arquitetônicas  em  supermercados  (McClain  &  Todd,  1990),  restaurantes  (McClain,  Cram,
Wood & Taylor, 1993), consultórios médicos (Grabois, Nosek & Rossi, 1999) e instituições religiosas (Harris Interactive, Inc., 2004). Nós podemos
obter  maior  acessibilidade  trabalhando  diretamente  com  os  clientes,  trabalhando  com  donos  de  propriedades  ou  consultores  na  comunidade  e
trabalhando como defensores na comunidade.
O transporte é uma forma de mobilidade funcional e constitui uma importante área de atividade ocupacional. As pessoas que apresentam alterações
funcionais podem enfrentar desafios ao utilizar o sistema de transporte público. Iwarsson, Stahl e Carlsson (2003) descreveram trabalhos colaborativos
entre terapeutas ocupacionais, planejadores de tráfego e engenheiros numa tentativa de compreender a acessibilidade aos sistemas de transportes. Eles
utilizaram a perspectiva de uma série de viagens, o que envolve a consideração de todas as etapas no processo de ir do ponto de origem ao destino. Os
terapeutas  ocupacionais  também  utilizaram  análises  ocupacionais  para  examinar  as  etapas  envolvidas  no  uso  de  transportes  públicos  em  relação  às
limitações  funcionais  apresentadas  por  pessoas  com  incapacidades  com  o  objetivo  de  otimizar  a  acessibilidade  e  a  capacidade  de  utilização  desse
sistema.
Outro contexto comunitário em que os terapeutas ocupacionais podem dar contribuições são as instituições de vida assistida ou de cuidados crônicos
para  idosos.  Cooper  e  Day  (2003)  descreveram  um  processo  de  avaliação  pós­ocupação  envolvendo  avaliação  e  recomendações  para  atender  às
necessidades de pessoas com demência e seus cuidadores de folgas por curtos períodos. Suas recomendações enfocavam a promoção de segurança,
autocuidado, orientação no espaço e a qualidade de vida por meio de estratégias como sinalização fácil, controle da temperatura da água para evitar
queimaduras, produtos e dispositivos específicos no banheiro para aumentar a independência e o fornecimento de um roteiro e um jardim terapêutico
para passeios.
Os terapeutas ocupacionais que reconhecem a importância da esfera comunitária na participação de seus clientes com incapacidades também podem
atuar como defensores, promovendo comunidades acessíveis e boas para viver. Os terapeutas ocupacionais podem trazer seus conhecimentos sobre os
padrões  e  a  teoria  da  acessibilidade  a  agências  ou  organizações  comunitárias.  Os  exemplos  de  defensoria  incluem  assegurar  que  locais  de  votação
sejam acessíveis a pessoas com incapacidades e preparar um guia de acessibilidade para os restaurantes da comunidade. Embora com frequência seja
voluntário, o papel de defensor é um serviço importante para a comunidade e para os cidadãos com incapacidades e é muitas vezes uma extensão dos
papéis de atendimento direto.
A remoção de barreiras pode nem sempre ser possível ao se trabalhar diretamente com clientes. Em alguns casos, se o suporte ambiental não fizer
parte da orientação obrigatória de acessibilidade, pode não ser possível fazer as alterações. Por exemplo, a dispensa de elevadores no ADA permite aos
donos de pequenos negócios que funcionem no segundo andar sem nenhum acesso por elevador, tornando impossível a participação de uma pessoa
com alteração da mobilidade. É papel do terapeuta ocupacional conhecer a legislação e os padrões mínimos vigentes e ajudar o cliente a solicitar as
mudanças. Também é possível identificar barreiras pelo processo de avaliação, para ajudar os clientes a tomarem decisões sobre as maneiras como
podem acessar e utilizar os espaços. Nesse caso, a meta é compreender o ambiente, mesmo que não seja possível a modificação deste.

ESTUDO DE CASO: Terapeuta Ocupacional que Trabalha com um Cliente que Volta para Casa

Gary  Lau  é  um  homem  de  30  anos  que  sofreu  um  traumatismo  cranioencefálico  fechado  em  consequência  de  um  acidente  com  um  veículo  a
motor. Antes de sua lesão cerebral, Gary trabalhava em tempo integral como engenheiro mecânico. Ele é casado e vive com a esposa; eles não
têm filhos. No passado, ele gostava de participar de atividades sociais com parentes e amigos, de praticar esportes, de trabalhar em marcenaria e
de  executar  muitas  atividades  ao  ar  livre.  Gary  se  considera  muito  independente,  uma  pessoa  que  gosta  de  correr  riscos  e  que  por  vezes  é
teimosa.
A lesão cerebral resultou em alterações físicas e cognitivas. Depois de cinco meses de terapia intensiva, Gary recebeu alta para ir para casa.
Gary ficou com algumas alterações que afetam negativamente sua capacidade de ser independente em suas AVD. A mais limitante é a hemiplegia
esquerda de Gary. Ele apresenta diminuição do equilíbrio e marcha instável e utiliza uma bengala quadrada (uma bengala de quatro apoios) para
caminhar. Ele não tem movimentos voluntários espontâneos na mão esquerda e não consegue segurar objetos com esta mão. Além da memória
imediata  deficiente,  ele  tem  limitações  da  função  executiva,  incluindo  dificuldade  para  iniciar  tarefas,  organização  deficiente,  dificuldade  de
sequenciamento  e  juízo  crítico  e  de  segurança  deficientes.  Ele  apresenta  atualmente  raciocínio  diminuído;  ele  tem  consciência  de  seus  déficits,
mas não tem uma boa percepção de como seus déficits afetam seu desempenho ocupacional.
Atualmente, Gary necessita de assistência em suas AVD e suas AIVD. Ele é independente em muitas tarefas de autocuidado, incluindo vestir­se,
utilizar o vaso sanitário e cuidar da aparência (na posição sentada). No entanto, ele tem dificuldade nas transferências para a banheira e precisa de
ajuda para lavar as pernas, os pés e as costas. Ele precisa de ajuda em todas as AIVD, incluindo tarefas de lavanderia, preparo de refeições e
limpeza da casa.
Katya,  que  trabalha  como  terapeuta  ocupacional  em  atendimento  domiciliar,  encontrou­se  com  Gary  e  sua  esposa  em  sua  casa  de  1  e  ½
pavimento  para  avaliar  o  ambiente  domiciliar  e  fazer  recomendações  de  modo  a  maximizar  a  independência  funcional  de  Gary  em  casa.  Katya
entrevistou os Lau utilizando a Canadian Occupational Performance Measure (Medida Canadense de Desempenho Ocupacional) (Law et al., 1996)
e, com base em seus resultados, os Lau identificaram as seguintes metas de desempenho ocupacional para Gary: (1) tornar­se independente no
banho e (2) conseguir preparar um almoço simples para si durante a semana até sua esposa voltar do trabalho.
Katya escolheu o Housing Enabler 1.0, um questionário de 188 itens que promove uma avaliação confiável e válida da acessibilidade (Iwarsson,
2005; Iwarsson & Slaug, 2001) para avaliar as capacidades funcionais de Gary em relação aos aspectos físicos do ambiente domiciliar dos Lau.
Katya preencheu primeiro o formulário “Analysis of Personal Component of Accessibility,” para identificar as alterações de Gary antes de examiná­
las  em  relação  às  barreiras  ambientais  em  seu  domicílio  e  sua  vizinhança  mais  próxima  (veja  Fig.  60.5).  Katya  passou  então  a  preencher  o
formulário  “Environmental  Component  of  Accessibility”  (http://www.enabler.nu/;  itens  selecionados  são  mostrados  na  figura  no  site  da  Internet
W&S).  Ela  analisou  os  achados  da  avaliação  considerando  o  perfil  de  limitações  funcionais  de  Gary  em  relação  às  barreiras  ambientais  no
domicílio; uma avaliação do ajustamento pessoa­ambiente. Isso permitiu a ela gerar uma lista dos principais problemas de acessibilidade de Gary.
Por exemplo, o piso acarpetado em toda a casa e os corredores e portas muito estreitos tornavam difícil para Gary manobrar sua bengala por toda
a casa. Além disso, a iluminação da escada era fraca e a casa estava desorganizada, com muitos móveis, tapetes e fios elétricos soltos. Katya
recomendou  melhorar  a  iluminação  nas  escadas,  deslocar  móveis  que  estavam  criando  obstáculos,  remover  os  tapetes  soltos  e  fixar  os  fios
elétricos ao assoalho ou às paredes com fita adesiva para criar um ambiente mais seguro e mais acessível.
A avaliação do banheiro e da cozinha revelou diversas barreiras. No banheiro, o vaso sanitário tinha altura padrão; não havia nenhum lugar para
sentar no boxe/banheira; não havia barras de apoio no boxe/banheira ou junto ao vaso sanitário; as torneiras para o controle da temperatura da
água exigiam muita força e eram extremamente difíceis de segurar; não havia um tapete antiderrapante na banheira; um tapete acarpetado muito
grosso  ficava  no  piso  fora  da  banheira;  o  banheiro  tinha  uma  pia  arredondada  muito  baixa  e  pequena,  sem  nenhum  espaço  para  apoio;  e  o
espelho estava localizado numa altura que só era útil a alguém que ficasse em pé. Katya analisou então a acessibilidade do banheiro em relação
às necessidades de desempenho ocupacional de Gary, que são descritas mais adiante. Essa análise levou­a a identificar algumas estratégias de
intervenção.

Desempenho Ocupacional Recomendações/Intervenções para Possibilitar Justificativa para a Intervenção


Segurança e Independência
Banho
Dificuldade  nas  transferências  para  entrar  e  sair  da Instalar um banco com encosto para a As pernas do banco passam por sobre
banheira. transferência para a banheira. a lateral da banheira, o que possibilita
    Gary estava utilizando um armário de toalhas muito Instalar uma barra de apoio na lateral da a Gary jogar as pernas sobre esta e
instável para ajudá­lo a se transferir para dentro e para banheira e uma barra de apoio vertical na entrar na banheira sentado, sem ter
fora da banheira. parede ao lado da banheira. de fazer isso de pé.
Colocar um tapete antiderrapante no banheiro Permite a Gary sentar­se e tomar um
ou um tapete de borracha com ventosas no banho de chuveiro, o que ajuda a
fundo da banheira. compensar seu equilíbrio alterado.
Acrescentar uma ducha manual. Sentar­se num banco no boxe é muito
mais seguro que ficar de pé, o que
ajuda a conservar energia e aumentar
a independência de Gary.
Fácil de utilizar, portátil e torna mais
fácil e mais segura a transferência
para dentro e para fora da banheira.
Muito mais seguro e reduz a chance
de Gary escorregar e cair na banheira
molhada.
Permite que Gary tenha controle
sobre onde vai a água, funciona bem
com o uso de um banco no banho
porque permite se lavar e se enxaguar
com independência.
Preparação das Refeições
Mobilidade: Gary anda pela cozinha com uma bengala Recomendar que Gary utilize um andador de Possibilitar que ele transfira de
de quatro pontas e tem a função da mão esquerda quatro rodas com bandeja/cesta ou um maneira independente e segura itens
alterada; por esta razão, ele tem dificuldade em carrinho de chá. do balcão, do fogão e do refrigerador
transferir itens mais pesados, como alimentos e Considerar a aquisição de potes, panelas e para a mesa e vice­versa.
travessas. pratos leves. Possibilitar que ele erga e utilize com
segurança esses utensílios, ao mesmo
tempo que conserva energia.
A altura de instalação dos armários de louça é muito Reduzir a altura dos armários de louça. Permite que Gary tenha fácil acesso e
grande, os utensílios (pratos, copos) são guardados Redistribuir os objetos nos armários para que promove segurança ao pegar objetos.
nas prateleiras superiores. A capacidade de Gary de os itens mais frequentemente utilizados Evita inclinação e extensão
estender os braços acima da cabeça é limitada em estejam em locais de fácil alcance. desnecessárias do corpo.
virtude da diminuição do equilíbrio, marcha instável e Um pegador de cabo longo pode ser utilizado Reduz o risco de quedas ao esticar
diminuição das habilidades motoras finas e grosseiras para pegar itens leves acima da cabeça. excessivamente o corpo (perda do
nos superiores. equilíbrio).
Déficits de memória imediata e da função executiva. Colocar cartaz escrito sobre o fogão dizendo Utilizar estratégias compensatórias
Gary por vezes se esquece das coisas e precisa ser “DESLIGAR O FOGÃO”. para aumentar a independência e a
lembrado de desligar o fogão. Utilizar um despertador como lembrete; segurança.
quando o despertador tocar, isso serve como
pista para desligar o fogão.
Desempenho Ocupacional Recomendações/Intervenções para Possibilitar Justificativa para a Intervenção
Segurança e Independência
Ao preparar uma refeição quando estiver
sozinho em casa, tentar preparar alguma
coisa leve que não exija o uso do fogão (p.
ex., um sanduíche).
Déficits da função executiva Arrumar os ingredientes e colocar os objetos e Compensa os déficits de memória
os itens que Gary utiliza com maior frequência imediata e aumenta a independência.
em uma única área (no armário, na geladeira).
Marcar as gavetas e os armários com
etiquetas para que Gary saiba exatamente
onde olhar para pegar os utensílios de cozinha
e ingredientes de que necessita.
Gary e sua esposa poderiam redigir instruções
passo a passo para os itens comumente
preparados e colocar essas instruções em
sacos plásticos transparentes, de modo que
Gary possa utilizar um marcador que possa
ser apagado para riscar as etapas à medida
que elas são completadas.

Gary apresenta diminuição da segurança e da independência no preparo de refeições por causa dos déficits cognitivos e físicos. Ao avaliar o
ambiente da cozinha, Katya pôde observar que algumas características físicas não se ajustavam bem a Gary por causa de suas atuais limitações
funcionais. A cozinha na casa de Gary é muito pequena e desorganizada e tem um espaço de bancada muito limitado.
Katya discutiu com Gary e sua esposa suas recomendações quanto às modificações do ambiente. Embora a condição de Gary possa melhorar,
algumas  das  modificações  foram  consideradas  essenciais  para  a  segurança.  Gary  e  sua  esposa  realizaram  as  modificações  ambientais
recomendadas.  Katya  encontrou­se  com  Gary  e  sua  esposa  e  treinou  ambos  no  uso  seguro  de  todas  as  modificações  do  domicílio.  Em
consequência  dessa  intervenção  no  ambiente,  Gary  fez  alguns  avanços  em  seu  desempenho  ocupacional.  Gary  aumentou  a  independência  e
melhorou  a  segurança  nas  atividades  de  banho  e  consegue  preparar  uma  refeição  simples  com  independência.  Ele  depende  menos  de  sua
esposa para ajudá­lo nessas atividades. Gary apresenta melhores escores de satisfação e desempenho na Medida Canadense de Desempenho
Ocupacional,  ainda  que  suas  capacidades  pessoais  (cognição,  força  e  amplitude  de  movimento)  não  tenham  se  alterado  ao  longo  desta
intervenção. Gary e sua esposa estão satisfeitos com sua maior independência e expressaram sua satisfação com o tempo extra de que dispõem
agora para atividades familiares em vez das atividades de autocuidado.
Fig. 60.5 Housing enabler: Análise do componente pessoal da acessibilidade (ou ajustamento pessoa­ambiente) (de Iwarsson & Slaug, 2001. Impresso
com permissão).

ESTUDO DE CASO: Consultoria de Terapia Ocupacional a um Centro Comunitário
A Eficácia das Modificações do Ambiente Físico
Um centro comunitário de uma pequena comunidade urbana solicitou que um terapeuta ocupacional se unisse à equipe de projeto para a reforma
que vai ocorrer no centro. O centro atende pessoas idosas, pessoas com incapacidades, pais solteiros, famílias de baixa renda, imigrantes recém­
chegados  e  o  público  em  geral.  Os  programas  e  as  atividades  incluem  um  programa  comunitário  de  alimentação,  aulas  de  preparação  para  o
emprego, programas de artes e atividades manuais, cinema noturno e programas de dança, grupos de exercício, palestras sobre vida saudável e
aconselhamento.
A construção atual é um velho edifício de dois andares em que uma rampa muito inclinada foi acrescentada ao edifício, um banheiro “acessível”
que  não  é  totalmente  acessível,  corredores  com  80cm  de  largura,  poucas  janelas  e  muitos  outros  problemas.  O  centro  recebeu  uma  grande
doação  financeira  de  uma  fundação  para  a  construção  de  um  novo  edifício.  A  equipe  de  projeto  vai  ter  a  oportunidade  de  decidir  a  melhor
localização para o novo prédio e as melhores características de projeto. Os recursos foram fornecidos condicionalmente, dado que essa instalação
vai ser uma vitrine para o modelo universal.
A equipe de projeto fornece o conhecimento especializado sobre projetos, ao passo que os usuários do centro fornecem um conhecimento real
de  suas  necessidades  e  de  seus  desejos  para  o  melhor  projeto  funcional.  Muitos  arquitetos  não  compreendem  plenamente  as  necessidades
funcionais de pessoas com incapacidades e valorizam o conhecimento e as habilidades dos terapeutas ocupacionais nessa área.
Por  esse  ser  um  edifício  público,  a  terapeuta  ocupacional  fará  inicialmente  uma  análise  conceitual  dos  clientes  que  vão  utilizar  o  edifício,
incluindo sua faixa etária, suas capacidades gerais e seus desafios funcionais e como eles utilizarão o edifício. A terapeuta ocupacional vai utilizar
sua  habilidade  em  entrevista  e  pesquisa  para  estabelecer  grupos  de  estudo  com  os  clientes  da  construção  existente  (os  especialistas­usuários)
para  determinar  suas  necessidades  e  seus  desejos  em  relação  ao  novo  prédio.  Os  membros  da  equipe  de  projeto  vão  frequentar  o  grupo  de
estudo  para  ouvir  diretamente  os  especialistas­usuários.  A  terapeuta  ocupacional  vai  combinar  as  informações  dos  especialistas­usuários  a  seu
conhecimento  sobre  capacidades  e  incapacidades  e  sobre  os  problemas  de  acesso,  e  vai  compartilhar  a  síntese  com  a  equipe  de  projeto.  A
terapeuta ocupacional vai trabalhar com a equipe de projeto ao longo de todo o processo e vai ajudar na escolha do local, na disposição do edifício
e  nas  escolhas  de  espaço,  materiais  e  cores.  A  escolha  do  local,  por  exemplo,  deve  considerar  se  o  transporte  pode  ser  acessado  com  maior
facilidade.  A  terapeuta  ocupacional  pode  ajudar  a  identificar  as  melhores  características  dimensionais  para  os  grupos  de  usuários  e  auxiliar  a
seleção específica de tecnologias de assistência.

Perguntas
1. Descreva papéis e áreas de especialização da terapia ocupacional para esse estudo de caso.
2. Quais são as questões específicas que a terapeuta ocupacional vai querer assegurar que sejam abordadas?

A pesar  das  constantes  solicitações  de  terapeutas  ocupacionais  e  outros  profissionais  para  as  modificações  ambientais  que  promovem  a
independência  e  o  desempenho  ocupacional  em  domicílios,  escolas,  locais  de  trabalho  e  na  comunidade  em  geral,  as  evidências  que
demonstrem  a  eficácia  dessas  modificações  ainda  estão  evoluindo.  As  evidências  disponíveis  tratam  de  modificações  domiciliares  relacionadas  a
resultados  de  prevenção  de  quedas,  redução  da  carga  sobre  os  cuidadores  e  a  otimização  da  produtividade  e  da  participação,  principalmente  no
ambiente domiciliar.

Prevenção de Quedas e Lesões
Duas  revisões  tratam  de  intervenções  para  a  prevenção  de  quedas  de  idosos  (Gillespie  et al.,  2003;  McClure  et al.,  2003)  e  uma  revisão  aborda
modificações domiciliares visando à prevenção de lesões em crianças, na população em geral e em adultos idosos (Lyons et al., 2003). Todas essas
revisões  sistemáticas  sugerem  que  a  redução  dos  riscos  domiciliares  pode  ser  mais  eficaz  para  idosos  com  histórico  de  quedas.  Ainda  não  há
evidências suficientes para confirmar a redução de riscos domiciliares na prevenção de lesões. Os riscos domiciliares podem ser um foco único da
intervenção de prevenção de quedas ou, mais comumente, podem fazer parte de uma intervenção multifatorial maior.

Redução da Carga dos Cuidadores
Grande parte da literatura relativa à eficácia das modificações ambientais para reduzir a carga dos cuidadores estuda os cuidadores de pessoas com
demência.  O  Environmental  Skill­Building  Program  (ESP),  descrito  por  Gitlin  e  Corcoran  (2005),  é  uma  intervenção  estruturada  que  envolve  o
trabalho  em  colaboração  com  os  cuidadores  de  pessoas  com  demência  que  moram  em  suas  próprias  casas.  A  intervenção  inclui  instruções,
modificações  ambientais  e  treinamento  de  habilidades  dos  cuidadores.  O  foco  ambiental  inclui  uma  avaliação  dos  riscos  domiciliares  e  as
recomendações  quanto  ao  uso  de  equipamentos  como  dispositivos  para  o  banheiro,  modificações  na  iluminação  e  instalação  de  sistemas  de
interfone e de comunicação. De modo geral, o programa ESP resultou em melhorias tanto para os pacientes como para os cuidadores. Por exemplo,
a intervenção por três meses ocasionou a redução do declínio das AIVD nos pacientes, ao mesmo tempo que cuidadores experimentaram menos
aborrecimentos e as cuidadoras relataram níveis mais altos de eficácia pessoal (Gitlin et al., 2001). O estudo de seis meses observou redução do
estresse e da carga subjetiva sobre os cuidadores e a redução de comportamentos de aborrecimento (Gitlin et al., 2003). Um acompanhamento por
doze  meses  demonstrou  melhora  da  afetividade  nos  cuidadores,  tendências  para  a  manutenção  das  habilidades  e  menos  problemas  de
comportamento nos participantes do grupo de trabalho (Gitlin, Hauck, Dennis & Winter, 2005).

Otimizando a Participação e a Produtividade
Crescem  as  evidências  em  apoio  à  relação  entre  ambientes  físicos  e  a  participação  nos  ambientes  domiciliares,  comunitários  e  de  trabalho  para
pessoas que sofreram lesões medulares e lesões cerebrais traumáticas (Richards et al., 1999; Whiteneck, Gerhardt et al., 2004; Whiteneck, Meade
et al., 2004). Embora os ambientes físicos não sejam os únicos fatores ambientais que influenciam a participação, fatores como transporte e acesso
aos edifícios públicos influenciam claramente a participação e a produtividade.
Aumentam as evidências quanto à eficácia das modificações domiciliares para a promoção do desempenho ocupacional. Por exemplo, Gitlin, Miller
e Boyce (1999) verificaram que reformas no banheiro ocasionaram melhoras significativas no banho, na execução das AVD e nas transferências.
Stark  (2004)  verificou  que  os  escores  de  desempenho  ocupacional  autorrelatados  melhoraram  após  uma  intervenção  que  envolveu  modificações
domiciliares para abordar barreiras ambientais no domicílio de idosos. Fänge e Iwarsson (2005) verificaram que, embora a dependência geral nas
AVD não se modificasse em consequência das modificações domiciliares, a dependência no banho melhorou efetivamente, assim como a percepção
dos participantes quanto à facilidade de uso do ambiente domiciliar.
Também  foram  identificadas  barreiras  à  realização  das  modificações  domiciliares.  Mais  especificamente,  os  custos  associados  às  modificações
domiciliares  podem  ser  proibitivos  para  alguns  participantes  (Pynoos  &  Nishita,  2003).  Lysack  e  Neufeld  (2003)  identificaram  que  pessoas  que
recebem benefícios previdenciários tiveram menos recomendações quanto às modificações domiciliares e aos dispositivos de assistência do que as
pessoas que recebem benefícios privados. Os terapeutas precisam estar atentos a essas barreiras e às estratégias que podem ser utilizadas para
abordá­las.  Stearns  e  colaboradores  (2000),  por  exemplo,  sugeriram  que  modificações  domiciliares  resultaram  em  redução  dos  gastos  com  o
Medicare.
Apesar de alguns esforços para avaliar a aplicação das recomendações para modificações nos locais de trabalho (p. ex., Goodman et al., 2005),
as  evidências  disponíveis  são  limitadas  para  demonstrar  a  eficácia  de  modificações  do  local  de  trabalho  para  o  aumento  da  produtividade  ou  do
desempenho no trabalho.
Parece haver menos evidência disponível para demonstrar a eficácia de tornar os locais comunitários acessíveis a pessoas com diferentes graus
de capacidades. Por exemplo, embora tenham sido descritos os princípios do modelo universal, existem menos publicações demonstrando a eficácia
de  resultados  do  modelo  universal  na  participação  social,  no  lazer  ou  na  comunidade.  Acumulam­se  agora  algumas  evidências  a  respeito  da
acessibilidade em espaços públicos e estão surgindo estratégias quanto à melhor maneira de avaliar a acessibilidade (Meyers et al., 2002; Thapar et
al., 2004). A perspectiva dos usuários (centrada no cliente) e o uso de modelos teóricos que incluem fatores de participação (como o ICF), e não o
levantamento de características ambientais, fornecem informações mais significativas e são recomendados. Como o modelo universal e o ADA são
iniciativas relativamente recentes, devem ser feitas pesquisas para avaliar o valor da melhoria do acesso para todos os domicílios, locais de trabalho
e a comunidade em geral.

Orientações para Pesquisas Futuras
No caso de terapeutas ocupacionais que estejam interessados em produzir novas evidências relacionadas à eficácia das modificações do ambiente
físico, muitas áreas necessitam de pesquisas adicionais. Em primeiro lugar, nós precisamos saber se as modificações ambientais fazem diferença em
áreas  de  desempenho  que  sejam  importantes  para  nossos  clientes.  Além  disso,  enquanto  se  acumulam  as  evidências  relativas  às  modificações
domiciliares, dispõe­se de menos evidências de suporte às modificações ambientais em locais de trabalho, escolas e ambientes comunitários. Com a
implantação dos princípios do modelo universal, surgirá a oportunidade de exploração dos efeitos do modelo sobre o desempenho ocupacional e a
participação.

CONCLUSÕES E CONSIDERAÇÕES FUTURAS
Os  ambientes  físicos  podem  criar  barreiras  ou  proporcionar  suporte  necessário  para  possibilitar  um  desempenho  ocupacional  ótimo.  Os  terapeutas
ocupacionais  têm  considerável  experiência  e  êxito  com  intervenções  que  tornam  os  domicílios  mais  acessíveis  e  apoiam  o  melhor  desempenho
ocupacional dos clientes. Como profissão, nós demonstramos liderança na abordagem de fatores ambientais que influenciam a participação de pessoas
com incapacidade em suas atividades diárias por meio dos serviços que nós prestamos em escolas, comunidades e ambientes de locais de trabalho.
Atualmente, mais pessoas com incapacidades conseguem ir para a escola, retornar ao trabalho e participar de sua comunidade mediante os esforços
feitos por terapeutas ocupacionais para reduzir as barreiras ambientais e obter recursos ambientais. Para alcançar essa liderança, é fundamental que os
terapeutas  ocupacionais  mantenham  um  sólido  conhecimento  operacional  a  respeito  da  legislação  básica  sobre  os  direitos  de  pessoas  com
incapacidades, códigos de edificação, iniciativas de modelo universal e orientações sobre acessibilidade que possam melhorar a participação integral e
a capacitação de pessoas com incapacidades.

QUESTÕES INSTIGANTES
1. Muitos  terapeutas  ocupacionais  passam  muito  tempo  envolvidos  em  modificações  domiciliares  e  as  muitas  frustrações  que  as  acompanham,
incluindo a falta de recursos financeiros. Talvez o terapeuta ocupacional pudesse defender também moradias visitáveis na região, de modo que
houvesse menos necessidade de tantas modificações domiciliares. É este um papel dos terapeutas ocupacionais?
2. Embora  os  terapeutas  ocupacionais  possam  ser  capazes  de  identificar  modificações  domiciliares  que  promoveriam  o  desempenho  ocupacional
para um cliente, as limitações de recursos financeiros podem constituir barreiras significativas. Como podem os terapeutas ocupacionais assegurar
que  não  sejam  impedidos  de  fornecer  as  melhores  recomendações  para  os  clientes  devido  às  limitações  percebidas  ou  reais  de  recursos
financeiros?
3. Os  princípios  do  modelo  universal  foram  descritos  na  literatura  e  os  terapeutas  ocupacionais  podem  dar  orientações  para  sua  implantação  em
edifícios e espaços públicos. Como podemos avaliar a eficácia desse tipo de serviço para justificar nosso envolvimento?
4. Pense no continuum hierárquico de seu próprio ambiente pessoal. Quais são alguns de seus ambientes próximos e distantes? Se você subitamente
se visse incapaz de acessar esses ambientes com independência, como isso afetaria sua vida?
5. Pense em seu ambiente domiciliar atual. Se você fizesse uso de uma cadeira de rodas manual, você ainda seria capaz de morar em seu domicílio
atual? Que novas limitações você enfrentaria? E se você utilizasse uma cadeira motorizada ou um triciclo? Que adaptações precisariam ser feitas?
Você seria capaz de continuar a executar com independência suas ocupações significativas?

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Tecnologia Assistencial e Mobilidade na
Cadeira de Rodas
MARY ELLEN BUNING

Sumário
Tecnologia de Assistência: Tecnologia para Possibilitar a Atividade e a Participação
O Modelo HAAT
Tratamento Centrado no Cliente
Equipes Multidisciplinares
A Avaliação da Tecnologia de Assistência (TA)
Soluções da Tecnologia de Assistência
Postura
Mobilidade
Comunicação
Manipulação
Sensibilidade
Cognição
Personalização e Integração das Soluções de TA
Pagando por Soluções de TA
Estudo de Caso: Fazendo um Computador Trabalhar para Ted
Conclusão

Objetivos de Aprendizagem
Após a leitura deste capítulo, você será capaz de:
1. Explicar como as metas do cliente estimulam a seleção da tecnologia de assistência e seu uso
para possibilitar a ocupação e a participação.
2. Descrever os dispositivos de tecnologia de assistência com base em sua capacidade de ajudar
as pessoas a compensarem os desafios ao desempenho ocupacional.
3. Descrever  como  o  conhecimento  do  desempenho  ocupacional  ajuda  a  identificar  e  otimizar  a
interface ser humano­tecnologia.

TECNOLOGIA DE ASSISTÊNCIA: TECNOLOGIA PARA POSSIBILITAR A ATIVIDADE
E A PARTICIPAÇÃO
A  tecnologia  de  assistência  (TA)  é  uma  abordagem  multidisciplinar  que  ajuda  as  pessoas  a  desenvolverem
técnicas compensatórias para se dedicarem às atividades importantes para elas. Os terapeutas ocupacionais que
se especializam em tecnologia de assistência utilizam o conhecimento sobre a ocupação humana, a cinesiologia e
biomecânica, a percepção e a teoria do aprendizado e as habilidades de análise de atividades e conservação de
energia  para  ajudar  as  pessoas  a  fazerem  o  que  elas  desejam  fazer.  Os  terapeutas  ocupacionais  orientam  os
clientes quanto à seleção de soluções de TA e em sua integração à vida cotidiana. Eles enfatizam a atividade e a
participação, e não apenas a tecnologia. Um conhecimento abrangente sobre a ocupação humana é um recurso
valioso numa equipe de TA.
Embora  a  TA  seja  uma  área  relativamente  nova  da  prática  da  terapia  ocupacional,  tecnologias  baseadas  em
microprocessadores  já  são  componentes  familiares  e  úteis  nas  rotinas  diárias  e  na  produtividade  pessoal.
Conceitos como armazenamento e envio de dados pela Internet, sinalização de portas de garagem por frequência
de rádio e envio de dados com feixes infravermelhos em um dispositivo pessoal digital (personal digital assistant
– PDA) são comuns hoje em dia. As tecnologias são uma parte essencial da vida cotidiana e podem ser utilizadas
para  ajudar  as  pessoas  com  deficiências.  Mesmo  quando  não  apresentam  habilidades  de  TA,  os  terapeutas
ocupacionais  devem  reconhecer  quando  um  cliente  pode  se  beneficiar  da  TA  e  efetuar  o  encaminhamento
apropriado.

O Modelo HAAT
Um engenheiro e um terapeuta ocupacional criaram o modelo Tecnologia de Assistência e Atividade Humana
(Human Activity and Assistive Technology – HAAT) para explicar e orientar a avaliação e o fornecimento de
serviços  de  TA  (Cook  &  Polgar,  2008)  (Fig.  61.1).  Fundamentado  na  teoria  geral  dos  sistemas,  na  qual  a
alteração de um elemento acarreta consequências em outro elemento, o modelo HAAT representa o desempenho
como  uma  interação  entre  a  pessoa,  suas  capacidades,  a  TA  e  o  ambiente  (American  Occupational  Therapy
Association, 2002; Cook & Polgar, 2008).
O desejo do cliente ao se dedicar às ocupações é, com frequência, o ponto de partida para uma avaliação de
TA. O contexto inclui os atributos físicos do ambiente, como temperatura e umidade (que afetam o desempenho
da tecnologia), e os atributos sociais e culturais, que são tanto externos como internos à pessoa (que afetam as
expectativas e a tolerância em relação à tecnologia). No contexto escolar, por exemplo, os estudantes precisam
responder  perguntas  e  trabalhar  com  outros  estudantes  na  sala  de  aula  e  desejam  conversar  com  amigos  na
lanchonete  e  depois  das  aulas.  Contextos  diferentes  exigem  diferentes  tipos  de  comunicação  e  podem  tornar
necessários  produtos  de  características  específicas  para  atender  aos  desejos  de  participação  e  aceitação  do
cliente. Para identificar as características necessárias em um dispositivo TA é importante conhecer os contextos,
as ocupações e os pontos fortes da pessoa (capacitadores intrínsecos) e as falhas no desempenho. Ao dar suporte
ao desempenho, o dispositivo de TA serve como um “capacitador extrínseco”. Por exemplo, um sintetizador de
texto  para  a  fala,  quando  adicionado  a  um  computador,  possibilita  o  uso  do  computador  por  um  cliente  com
deficiência visual ou transtorno de aprendizado. Habilidades e capacidades de desempenho sem alterações (ouvir
e recordar) são recrutadas e utilizadas em combinação ao computador adaptado.
O modelo HAAT descreve a interação entre os quatro componentes de um dispositivo de TA. A interface ser
humano­tecnologia  é  o  meio  pelo  qual  o  cliente  interage  com  o  dispositivo  –  para  fornecer  ou  receber
informações, ou ambos. Um teclado e um monitor de computador são exemplos de interfaces comuns entre seres
humanos e a tecnologia. O processador utiliza o estímulo do usuário (p. ex., pressionar um controle de alavanca)
e segue as instruções ou o programa (p. ex., o computador da cadeira de rodas) para produzir uma atividade­fim
(p. ex., o movimento impulsionado pelo motor na direção em que a alavanca é pressionada). A atividade­fim dos
dispositivos  TA  vai  desde  dizer  palavras  selecionadas  por  fala  digitalizada  até  tocar  uma  música  num  CD  em
resposta  à  ativação  de  um  botão  no  controle  remoto.  Alguns  dispositivos  TA  apresentam  uma  interface
ambiental. Este fator detecta informações externas, as interpreta e as envia de volta ao ser humano pela interface
deste  com  a  tecnologia.  Um  escaneador  de  páginas  que  converte  um  texto  impresso  em  papel  em  texto  de
computador para ser ouvido por meio do sintetizador de fala e uma bengala ultrassônica que detecta obstáculos
para uma pessoa sem visão constituem exemplos de interfaces ambientais.
Fig. 61.1 O modelo HAAT representa todos os fatores do sistema que precisam ser considerados para uma
intervenção de tecnologia de assistência bem­sucedida.

Tratamento Centrado no Cliente
O desejo de uma ocupação dotada de significado facilita a motivação e o potencial de uso bem­sucedido de um
dispositivo  de  TA.  A  experiência  positiva  de  uso  da  TA  para  execução  de  ocupações  valorizadas  abre,  muitas
vezes,  caminho  para  a  consideração  de  outras  formas  de  TA.  Por  exemplo,  o  estímulo  para  comparecer  a  um
jogo de beisebol na nova cadeira de rodas motorizada pode levar naturalmente ao desejo de conversar a respeito
de times ou de estatísticas de jogos. Essa experiência pode levar a pessoa que não fala a buscar um dispositivo de
comunicação aumentada ou alternativa (CAA) para aumentar sua capacidade de participação. O investimento de
tempo e esforço no uso de um dispositivo de TA dá retorno quando o cliente se torna ainda mais motivado para a
atividade e a participação.

Equipes Multidisciplinares
Por  terem  grande  experiência  na  análise  do  desempenho  e  da  atividade  dos  seres  humanos,  os  terapeutas
ocupacionais  se  envolvem  em  muitos  aspectos  da  prática  da  TA.  Todavia,  os  terapeutas  ocupacionais  não  são
especialistas  nas  áreas  de  audição,  fala  e  linguagem,  educação  especial  ou  engenharia.  Equipes
multidisciplinares com especialização abrangente levam os clientes ao sucesso. Por exemplo, um fonoaudiólogo
está mais bem preparado para dar apoio a uma pessoa que esteja aprendendo a se comunicar com um dispositivo
CAA  ao  trabalhar  com  um  terapeuta  ocupacional  que  ajuda  a  identificar  o  melhor  método  de  seleção  e  o
posicionamento ótimo do dispositivo. As habilidades técnicas dos engenheiros são úteis para a personalização ou
a integração de uma ou mais soluções tecnológicas. Uma equipe multidisciplinar dispõe de mais habilidades para
a  resolução  de  problemas  ao  atender  às  necessidades  do  cliente.  Dependendo  da  idade  e  das  necessidades  de
atividade  e  participação  do  cliente,  a  equipe  pode  incluir  o  fisioterapeuta,  o  fonoaudiólogo,  o  professor  de
educação especial, o fornecedor de tecnologia de reabilitação, o engenheiro de reabilitação e/ou o consultor de
reabilitação profissional.

A Avaliação TA
A avaliação do terapeuta ocupacional aborda a interface pessoa­tecnologia e a informação sobre a atividade para
apoiar o engajamento nas ocupações desejadas. A avaliação do terapeuta ocupacional identifica as habilidades e
os  padrões  de  desempenho  necessários  para  o  controle  eficiente  do  dispositivo  TA  e/ou  a  individualização  da
informação sobre sua atividade.
Como  os  clientes  utilizam  a  TA  em  diversos  ambientes,  como  escola,  ambiente  de  trabalho,  domicílio  ou
comunidade, os processos de avaliação variam. Em geral, um dos membros da equipe orienta o cliente durante o
processo  e  a  entrevista  acerca  de  suas  metas  de  atividade,  dos  ambientes  em  que  ele  vai  funcionar  e  de  seus
desafios físicos, sensoriais ou de aprendizado. Esse papel de liderança no processo de avaliação é ideal para o
terapeuta  ocupacional.  No  caso  de  uma  criança  ou  de  um  adulto  que  não  fale,  membros  ou  representantes  da
família participam ativamente da avaliação. O terapeuta revisa os relatórios dos especialistas responsáveis pelo
encaminhamento, caso estejam disponíveis, em busca de dados da história e do prognóstico ou de precauções ou
resumos  dos  pontos  fortes  e  das  capacidades  do  cliente  e  determina  então  se  há  necessidade  de  informações
adicionais. O terapeuta identifica os outros membros da equipe que o cliente precisa conhecer. Em colaboração
com o cliente, o terapeuta resume as necessidades identificadas e esboça um programa de uso da TA para atender
a essas necessidades.
O terapeuta elabora então um processo para avaliação mais detalhada das necessidades do cliente e começa a
identificar  categorias  de  soluções  de  TA.  Por  exemplo,  se  o  cliente  for  um  aluno  da  quinta  série  que  está  se
esforçando para desenvolver habilidades da linguagem escrita, o terapeuta pode pensar em um teclado, sabendo
que  este  será  uma  estratégia  importante  para  a  comunicação  escrita  por  toda  a  vida.  As  opções  a  serem
consideradas podem variar de um computador de mesa a um processador de palavras portátil e de baixo custo
(Fig.  61.2).  Um  cliente  com  esclerose  lateral  amiotrófica  também  pode  ter  dificuldades  com  a  escrita.  Nesse
caso,  o  conhecimento  sobre  a  doença  e  sua  evolução  rápida  por  parte  do  terapeuta  o  leva  a  considerar  um
dispositivo com mais características. O cliente com esclerose lateral amiotrófica poderá inicialmente utilizar um
teclado, mas logo vai precisar de outra interface tecnológica, como um aparelho de interruptor único para gerar o
texto, e finalmente de um meio de converter esse texto em informação de voz.
Ao se considerar a variedade de opções de TA, é útil o princípio designado como hierarquia de acesso,  que
aconselha  o  uso  mínimo  de  tecnologia  necessário  para  a  execução  da  tarefa  (Schmitt,  1992).  Soluções  mais
simples  são  aprendidas  mais  facilmente,  custam  menos  e  têm  menos  elementos  que  possam  funcionar  mal,  e
ainda assim resultam na atividade desejada pelo cliente.

Fig. 61.2 Um AlphaSmartTM é um exemplo de processador de palavras portátil barato com características de
adaptação. Ele envia texto a um computador para ser impresso e salvo.

A Interface Pessoa­Tecnologia
Como  adultos  no  mundo  tecnologicamente  sofisticado,  nós  conhecemos  muitas  das  maneiras  pelas  quais  as
pessoas  controlam  dispositivos:  teclados,  botões,  mouses  de  dois  ou  três  botões,  barras  deslizantes,  botões  de
apertar,  interruptores  de  pino,  comandos  de  voz,  telas  de  toque  e  outros  mais.  Quando  bem  desenhados,  esses
controles  se  ajustam  à  mão  ou  ao  dedo,  fornecem  uma  resistência  suficiente  para  aumentar  o  controle  e
proporcionam retroalimentação que permite ao usuário conhecer os resultados. Nós reconhecemos um produto
bem­elaborado porque ele exige um mínimo de esforço para o uso bem­sucedido. A fabricação de produtos para
uso  fácil  e  eficaz  pelo  maior  segmento  possível  da  população  é  denominada  modelo  universal  (Center  for
Universal Design, 1997). Por exemplo, um telefone celular de modelo universal teria teclas maiores e um visor
maior, o que o tornaria utilizável por pessoas mais idosas e por aquelas com alguma deficiência na visão ou no
controle motor, assim como pelo usuário típico.
A interface pessoa­tecnologia, designada frequentemente como interface de usuário (IU), é fundamental para
o processo de TA e constitui uma maneira valiosa de categorização das soluções de TA (Cook & Hussey, 2002).
A IU inclui os meios de informação e também o tipo de retroalimentação ou resposta ao usuário.

MODIFICAÇÕES DO SISTEMA DE INFORMAÇÃO: SELEÇÃO DIRETA E INDIRETA. Um usuário que tenha um
bom controle motor pode escolher entre as opções disponíveis e não há necessidade de qualquer modificação.
Isso é descrito como seleção direta. Quando os requisitos da seleção direta estão comprometidos, todo o esforço
possível é feito para permitir a seleção direta pelo uso de intensificadores de controle ou de desempenho (Cook
& Hussey, 2002). Estes são dispositivos de baixa tecnologia ou de posicionamento que aumentam ou ampliam o
controle motor. A seleção indireta é utilizada somente como último recurso, em função da ineficiência da espera
pelo  exame  e  do  alto  custo  cognitivo.  A  Tabela 61.1  fornece  mais  informações  a  respeito  desses  três  tipos  de
interfaces de usuário.
Selecionar a partir de uma lista de opções exige menor controle motor, mas requer maior demanda cognitiva.
Utilizar a lista de opções envolve prever a apresentação de uma opção e a ativação da tecla no momento exato de
sua seleção, juntamente com a capacidade intelectual de se construir sistematicamente uma palavra ou frase ou
escolher  o  caminho  a  ser  percorrido.  Quando  é  necessária  uma  seleção,  os  terapeutas  ocupacionais  devem
explorar métodos para aumentar a eficiência, como apresentar as opções pela ordem de frequência de uso ou o
uso de predição para poupar toques no teclado (Angelo, 1996, 2000). Uma única tecla é colocada num local em
que o cliente possa ativá­la com uma das mãos ou dos membros superiores, o queixo, o pé, o joelho ou o piscar
de um olho. O terapeuta ocupacional identifica o sítio de controle ideal no corpo, escolhe o tipo de mecanismo
ativador que o complementa e fixa o mecanismo para otimizar a ativação. Os mecanismos de ativação variam
em  muitos  parâmetros.  Por  exemplo,  um  interruptor  pequeno  e  sensível  é  selecionado  para  ativação  por  um
único dedo de uma pessoa com esclerose múltipla em estágio terminal e um interruptor resistente e brilhante é
escolhido para ativação pela mão ou pelo pé de um pré­escolar com movimentos atetoides bruscos.
TABELA 61.1 MÉTODOS PARA O CONTROLE DE DISPOSITIVOS DE TECNOLOGIA DE ASSISTÊNCIA
Interface com o Descrição Exemplos Exige
Usuário
Escolha direta O usuário escolhe as opções desejadas em Teclado  de Estabilidade,
uma lista com todas as opções (o conjunto computador alcance, controle,
de seleção) possíveis. Agenda força, controle de
telefônica um dedo ou de
Apertar  o um segmento do
número  do corpo para uma
canal de TV escolha precisa
Intensificadores Um item que facilita o uso de uma parte do Posicionar  um Observação de que
do controle corpo que poderia fazer uma escolha teclado  sobre um segmento do
direta caso capacitada. um  cavalete corpo apresenta
ou  uma
algumas das
plataforma
habilidades
Suporte
necessárias para
móvel  para
antebraço  ou a escolha direta,
braço porém não todas
Bastão  para  a elas
boca/digitação
Escolha indireta O usuário recebe subconjuntos de todo o Apertar Uma  parte  do
conjunto para escolha. Os subconjuntos repetidamente corpo  com
são apresentados em sequência. O o  botão  de movimento
“avançar  o confiável  e
usuário espera até que seja apresentada a
canal”  até passível  de
opção desejada e então a escolhe, chegar  ao repetição
acionando uma tecla; também denominado canal
busca. desejado
Alfabeto Colocação  de  uma
oferecido  em tecla  única  que
subgrupos  de facilite a precisão
cinco  letras A  capacidade
com  opções cognitiva de prever
para  números e  acionar  e
e pontuação planejar  uma
sequência  de
etapas

MODIFICAÇÕES DO SISTEMA DE INFORMAÇÃO: PROPORCIONAL E DIGITAL. Outra característica em que as
interfaces pessoa­tecnologia variam refere­se à tecnologia de sinalização ou de controle que a interface utiliza.
Pessoas com bom controle motor têm sucesso no uso de controles proporcionais. A alavanca de acionamento
da cadeira de rodas típica é proporcional, com a velocidade e a direção interligadas, de modo que, quanto mais a
alavanca é empurrada, mais rápido a cadeira se move. A redução da pressão torna o movimento mais lento. Para
pessoas  sem  controle  motor  preciso,  usa­se  um  controlador  digital  ou  por  microprocessador.  A  velocidade  é
preestabelecida e o usuário escolhe somente a direção.

MODIFICAÇÕES  DO  SISTEMA  DE  RESPOSTA:  USO  DE  SENSORES  ALTERNATIVOS.  Quando  os  clientes
apresentam limitações sensoriais, torna­se necessário modificar a resposta do sistema. Assim como dispositivos
vibratórios ou luminosos podem substituir o som de campainhas, despertadores e alarmes de incêndio, também
visores de texto para fala ou em braile podem substituir a leitura de um texto num monitor de computador. A TA
é um recurso poderoso para inclusão, emprego e orientação de pessoas com alterações sensoriais, como no caso
de  telefones  de  texto  combinados  a  operadores  retransmissores  que  possibilitam  aos  clientes  desprovidos  de
audição telefonar para qualquer pessoa.

A Resposta de Atividade
Os terapeutas ocupacionais têm afinidade com a TA porque a resposta de atividade do dispositivo possibilita que
as pessoas se dediquem às ocupações. Como ilustração, considere o valor do acesso alternativo a computadores
que  dispense  o  teclado  e  o  mouse  para  uma  pessoa  com  tetraplegia  C­4.  A  solução  de  TA  poderia  ser  o
reconhecimento de voz ou o código Morse enviado por uma tecla acionada pelos atos de sugar e soprar ou um
mouse direcionado pela cabeça em combinação com um teclado na tela. Qualquer que seja a solução escolhida, a
TA restaura a comunicação escrita para qualquer finalidade em ambientes ocupacionais. O uso do computador
possibilita  o  envio  de  e­mails  a  amigos  e  familiares,  escrever  sobre  a  vida  num  blog  ou  redigir  material  de
propaganda e participar  pela  rede  interna  de  projetos  de  trabalho  no  escritório. A restauração da comunicação
escrita dá suporte ao cliente nos papéis de amigo, membro da família e funcionário.

SOLUÇÕES DA TECNOLOGIA DE ASSISTÊNCIA
Há muitas soluções de TA, e produtos novos ou atualizados surgem continuamente. Por serem modificadas com
frequência, as soluções de TA são discutidas aqui por categorias, juntamente com as orientações gerais para seu
uso.

Postura
O  corpo  efetua  continuamente  a  contração  de  músculos  para  manter  a  postura  e  possibilitar  a  atividade
ocupacional.  Além  disso,  uma  pessoa  modifica  automaticamente  a  postura  corporal  para  aliviar  a  pressão,  se
reequilibrar  e  se  estabilizar,  assumir  uma  posição  de  maior  conforto  e  melhorar  a  função.  Muitas  ocupações
ocorrem na posição sentada, e ficar sentado é a única opção para pessoas que se utilizam de cadeiras de rodas.

Avaliando as Necessidades de Sentar
Muitos profissionais acreditam equivocadamente que um cliente com boa postura sentada o faz com o tronco na
vertical e 90o de flexão nos quadris, joelhos e tornozelos. Esta é uma postura que muitas pessoas não toleram –
ou não toleram por muito tempo. Um cliente forçado pelo modelo de uma cadeira de rodas ou sistema de sentar a
permanecer  continuamente  numa  só  posição  vai  se  sentir  desconfortável  e  incapaz  de  se  reposicionar  para
tarefas.
Uma avaliação física motora torna possível a observação ou a verificação do seguinte:
Capacidade de transferência e equilíbrio sentado
Simetria e amplitude de movimentos bilaterais na coluna e na pelve:
 É preciso se adaptar a uma assimetria ou deformidade fixa, enquanto uma assimetria flexível deve ser
corrigida para evitar seu agravamento.
Sinais de pressão ou lesão sobre proeminências ósseas da pelve
Tônus muscular, presença de reflexos primitivos e outros fatores que afetam o sentar:
 A diminuição da amplitude de movimento nos quadris afeta o ângulo do assento para as costas.
 Músculos isquiotibiais encurtados afetam diretamente o ângulo do dispositivo de descanso do pé.

A Tabela 61.2 apresenta alguns exemplos de metas para sentar­se.

Sentando­se para o Tratamento dos Tecidos Moles
Pessoas  com  perda  da  sensibilidade  ou  sem  capacidade  de  se  reposicionar  estão  em  alto  risco  de  úlceras  de
pressão. Além da isquemia, as causas das úlceras de pressão incluem as forças de  cisalhamento  criadas  pelo
deslizar, por calor e umidade, má nutrição e alterações de tecidos moles relacionadas à idade. A prevenção das
úlceras de pressão é muito mais barata do que seu tratamento; o tempo perdido até a cicatrização também é uma
consideração  (Allman,  Goode,  Burst,  Bartolucci  &  Thomas,  1999).  Almofadas  redutoras  de  pressão
adequadamente  selecionadas  (em  vez  de  uma  espuma  de  baixo  custo)  reduzem  a  incidência  das  úlceras  de
pressão (Brienza, Karg, Geyer, Kelsey & Trefler, 2001; Conine, Herschler, Daechsel, Peel & Pearson, 1994). As
características da almofada devem ser comparadas aos fatores de risco de um cliente. O ajuste do apoio para os
pés, dos apoios para os braços e do ângulo do assento também redistribuem a pressão.
TABELA 61.2 EXEMPLOS DE METAS PARA SENTAR­SE
Estrutura Função Atividade e Participação
Reduzir o potencial de deformidade ou Aumentar a tolerância a ficar Promover maior participação
retardar sua evolução sentado para as atividades na comunidade
Prevenir úlceras de pressão por meio Diminuir a dor, possibilitar o uso Apoiar a produtividade pessoal
da distribuição da pressão máxima da postura sentada, nos estudos ou no emprego
sobre áreas maiores de tecido mole aumentar o conforto e o bem­
estar
Manter a função dos órgãos vitais Orientar a cabeça para obter Aumentar ao máximo a
informação visual independência nas
atividades de transferência e
autocuidado

O mapeamento da pressão é uma tecnologia que visa estimar a pressão na interface criada pela gravidade. Um
cobertor  fino  com  sensores  de  pressão  ligados  a  um  computador  é  colocado  entre  o  cliente  e  a  superfície  do
assento. O computador mostra os dados de pressão e o profissional utiliza esses dados para estimar o risco de
úlceras de pressão (Brienza et al., 2001; Conine et al., 1994). O mapeamento dos dados promove a comparação
entre as almofadas para um cliente específico. Um mapa de pressão não mensura as forças de cisalhamento, o
calor, a umidade ou a estabilidade postural, e esses fatores também precisam ser considerados.

Sentando­se para Dar Apoio à Pelve
Para  alguns  clientes  a  estabilização  da  pelve  em  alinhamento  ótimo  é  essencial  para  o  funcionamento.  As
almofadas  proporcionam  um  apoio  externo  para  compensar  a  fraqueza  ou  ajudar  a  contrabalançar  a  força  da
espasticidade  ou  do  tônus  flutuante.  A  pelve  neutra  dá  suporte  às  curvaturas  naturais  da  coluna  vertebral  e
contribui  para  a  função  dos  membros  superiores.  Cintos  de  posicionamento  podem  auxiliar  a  manutenção  da
posição  da  pelve.  Inclinar  o  assento  para  trás  aumenta  o  controle  pélvico  e  diminui  o  tônus  extensor.  A  única
opção para deformidades fixas da pelve e da coluna vertebral pode ser um sistema moldado personalizado que se
ajuste à forma do tronco, distribua as pressões e permita a orientação ótima no espaço.

Fazendo a Correspondência do Assento às Necessidades do Cliente
Além das propriedades do material e do formato das almofadas, as metas para sentar­se são a base da seleção de
almofadas  e  encostos  para  o  assento  da  cadeira  de  rodas.  Um  estofamento  tipo  fundo,  o  tipo  mais  comum  de
assento, é popular por afundar com o peso da pessoa. Na realidade, esse tipo de estofamento constitui uma base
tão ruim para a pelve, com o tempo, que acarreta uma deformidade postural (Trefler, Hobson, Taylor, Monahan
& Shaw, 1993).
Atualmente, utilizam­se um assento e uma almofada. As almofadas incluem espumas planas ou arredondadas,
sacos  de  ar,  líquidos  viscosos,  favos  arredondados  de  espuma  com  contornos  personalizados  e  sistemas  de
alternância  de  pressão.  Elas  variam  em  sua  capacidade  de  distribuir  a  pressão,  estabilizar  a  pressão,  isolar  ou
conduzir calor e funcionar ao longo do tempo. Os encostos de assento variam quanto à altura, ao apoio lateral, à
acomodação às curvaturas da coluna vertebral e à orientação em relação ao assento. O fornecedor de tecnologia
de  reabilitação  certificado  (certified  rehabilitation  technology  supplier  –  CRTS)  é  um  parceiro  essencial  do
terapeuta  ocupacional.  O  CRTS  se  especializa  em  conhecer  os  produtos  disponíveis  e  suas  características.
Quando um terapeuta ocupacional trabalha em parceria com um CRTS, é possível adequar um cliente ativo com
paraplegia  a  uma  cadeira  de  rodas  com  encosto  mais  baixo,  que  promove  a  mobilidade  integral  do  braço,  a
rotação  do  tronco  e  a  inclinação  da  parte  superior  do  corpo,  e  a  uma  almofada  que  alivie  a  pressão.  Como
alternativa,  faz­se  a  correspondência  entre  um  cliente  com  fraqueza  significativa  do  tronco  e  o  suporte  de  um
encosto mais alto e curvo.

Reclinação e Inclinação no Espaço
O assento também pode ser modificado em uma cadeira de rodas que permita recliná­lo ou incliná­lo, aliviar a
pressão, controlar a postura, aumentar o conforto e facilitar as atividades de cuidado pessoal. Reclinar altera o
ângulo entre o assento e o encosto e, em cadeiras de rodas motorizadas, isso é controlado pelo usuário. Reclinar
o  encosto  cria  forças  de  cisalhamento,  de  modo  que  devem  ser  utilizados  mecanismos  anticisalhamento.  O
encosto  reclinado  ajuda  a  alongar  os  flexores  do  quadril  e  possibilita  o  cuidado  de  cateteres  e  curativos.  A
inclinação mantém constantes os ângulos do quadril e do joelho, ao mesmo tempo que inclina todo o corpo. A
redução da gravidade torna mais fáceis os reposicionamentos. Uma inclinação de 35o ou mais alivia o peso sobre
as tuberosidades isquiáticas e facilita a extensão da coluna, do pescoço e dos ombros (Sprigle & Sposato, 1997).
As pessoas com falta de sensibilidade que são incapazes de transferir carga ou mudar de posição necessitam da
inclinação para proporcionar conforto ao longo do dia. Pessoas que apresentam lesões altas de medula espinhal,
esclerose lateral amiotrófica ou esclerose múltipla severa utilizam a inclinação para controlar o edema das partes
pendentes  do  membro.  Além  de  um  suporte  para  a  cabeça,  uma  cadeira  de  rodas  com  inclinação  leva
habitualmente à necessidade de um suporte maior para braços e pernas.

Mobilidade
Muitos clientes necessitam de suporte para aceitar e integrar a mobilidade em cadeira de rodas à sua vida diária
quando  a  deambulação  não  é  mais  segura  e  eficiente.  As  cadeiras  de  rodas  possibilitam  que  muitas  pessoas
alcancem competência ocupacional apesar da perda da deambulação (Iezzoni, 1996). Há muitos fatores a serem
considerados  na  escolha  entre  a  mobilidade  manual  e  a  motorizada,  e  esta  é  muitas  vezes  uma  decisão  difícil
(Buning,  Angelo  &  Schmeler,  2001).  Os  usuários  hábeis  de  cadeiras  de  rodas  manuais  podem  manobrar  em
espaços  apertados  e  puxar  sua  cadeira  para  dentro  de  um  carro.  As  pesadas  cadeiras  motorizadas  tornam
necessários  ambientes  acessíveis,  mas  percorrem  com  facilidade  subidas,  descidas  e  grandes  distâncias  (Fig.
61.3). O usuário pode se dedicar a outras atividades e interações que não a sua movimentação.
Os  terapeutas  não  devem  insistir  na  propulsão  manual  somente  porque  o  cliente  é  capaz  de  fazer  força.  A
propulsão manual por um período longo parece estar associada a lesões por esforço repetitivo (LER) e lesão do
manguito rotador. Essas lesões fazem cessar abruptamente a autopropulsão, assim como as transferências, o ato
de levantar o corpo e o de estender as mãos para pegar objetos (Boninger, Baldwin, Cooper, Koontz & Chan,
2000).

A Interface Pessoa­Tecnologia: Controles
Uma diferença básica nas cadeiras de rodas é o meio de controle. Nas cadeiras de rodas manuais, este consiste
em  um  sistema  passivo  em  que  outra  pessoa  empurra  a  cadeira  ou  em  um  sistema  ativo  em  que  o  indivíduo
utiliza  as  mãos  ou  uma  combinação  das  mãos  e  dos  pés  para  a  autopropulsão.  Numa  cadeira  de  rodas
motorizada, os motores são dirigidos por um controle, que recebe e traduz os estímulos do usuário. O controle
típico  é  uma  alavanca,  mas  estão  disponíveis  alternativas  como  o  movimento  da  cabeça  ou  um  interruptor  de
sugar e soprar.

Fig. 61.3 Uma cadeira de rodas motorizada possibilita que se realizem muitas ocupações valorizadas e dá apoio
à autoconfiança, mas exige um ambiente adequado com rampas, elevadores e portas mais largas.

A Tabela 61.3 apresenta os tipos de cadeira de rodas, suas características, utilidade e requisitos ambientais.

CADEIRAS  DE  RODAS  MANUAIS.  Os  Centros  de  Atendimento  do  Medicare  e  Medicaid  (CMS)  dos  EUA
atribuem  códigos  de  produto  a  todas  as  cadeiras  de  rodas  de  acordo  com  suas  características  (Health  Care
Finance  Administration  &  United  Healthcare,  1998).  Todas  as  seguradoras  utilizam  atualmente  esses  códigos
para  categorizar  as  características  das  cadeiras  de  rodas.  As  decisões  quanto  à  codificação  com  frequência
suscitam  controvérsia,  por  limitarem  o  acesso  a  tipos  de  cadeiras  de  rodas  com  base  na  capacidade  de
transferência ou em outras habilidades funcionais que podem impedir a mobilidade independente. Por exemplo,
uma cadeira de rodas padrão, com rodas traseiras grandes, parece adequada para a autopropulsão. Entretanto, seu
peso,  suas  limitadas  opções  de  tamanho,  seu  estofamento  e  a  posição  não  ajustável  do  eixo  fazem  dela  uma
opção ruim para a autopropulsão.
A  capacidade  de  ajuste  do  eixo  é  uma  característica  valiosa.  O  alinhamento  do  eixo  traseiro  diretamente
abaixo  do  ombro  melhora  o  acesso  aos  aros  de  propulsão  em  toda  a  amplitude  de  movimento  e  equilibra  os
grupos  musculares  que  são  utilizados  na  propulsão  (Boninger  et al.,  2000).  Esse  aumento  de  eficiência  impõe
menos  movimentos  por  distância  percorrida,  o  que  reduz  a  probabilidade  de  LER.  Quando  o  eixo  está  nessa
posição,  é  mais  fácil  fazer  curvas  com  a  cadeira,  e  o  mesmo  se  dá  para  incliná­la  para  trás.  O  terapeuta  deve
proporcionar treinamento em habilidades e fornecer bloqueadores anti­inclinação para a parte traseira até que o
cliente  se  mostre  hábil.  A  capacidade  de  ajuste  do  eixo  é  essencial  para  usuários  de  longo  prazo,  mas  poucos
clientes se qualificam a ele atualmente devido às restrições de codificação do CMS.
O conjunto de evidências científicas favoráveis às cadeiras de rodas manuais leves e com o eixo ajustável está
aumentando. Os usuários de cadeiras de rodas manuais apresentam uma incidência de 49% a 73% de síndrome
do túnel do carpo (Boninger et al., 2000; Boninger, Cooper, Baldwin, Shimada & Koontz, 1999). Essas pessoas
dependem de seus membros superiores para propulsão, transferências e AVD. A síndrome do túnel do carpo em
usuários de cadeiras de rodas resulta em cirurgias caras, perda de produtividade e, geralmente, na passagem à
mobilidade motorizada e em consequentes alterações nos ambientes cotidianos e no estilo de vida (Buning et al.,
2001).
Boninger  e  colaboradores  (2000)  verificaram  que  a  posição  do  eixo  em  relação  à  posição  do  ombro  se
correlacionava  com  lesões  do  nervo  mediano.  O  estudo  mostrou  também  que  a  posição  apropriada  do  eixo
traseiro  melhorava  a  biomecânica  da  propulsão.  Num  percurso  determinado,  os  usuários  de  cadeiras  de  rodas
ultraleves  relataram  uma  diferença  significativamente  positiva  no  conforto  percebido  em  comparação  aos
usuários de cadeiras de rodas padronizadas (DiGiovine et al., 2000). Quando ambos os tipos de cadeiras de rodas
foram submetidos a esforço para simular cinco anos de uso típico, as cadeiras ultraleves se mostraram bem mais
duráveis e econômicas (Cooper et al., 1997).
TABELA 61.3 TIPOS DE CADEIRAS DE RODAS: CARACTERÍSTICAS, USOS E AMBIENTES
ADEQUADOS
Tipo de CR e Características Usos Adequados Ambientes Adequados
Exemplos
Mobilidade Rodas  de  15– Transporte temporário Corredores de hospital
Dependente 20cm Pessoa  doente  ou  fisicamente Consultório médico
Cadeira de Assento em alça incapaz de autopropulsão Aeroporto
rodas para Mais leve que a Crianças pequenas Viagens
transporte cadeira padrão Pessoa  com  comprometimento Centros de compras
Passeio Dobrável cognitivo Não utilizar como assento
adaptado Pode ou não ter de veículo, a não ser que
suporte postural seja testada quanto a
acidentes
Mobilidade Roda  traseira  de Uso por um período curto Corredores de hospital
Dependente 60–65cm Capaz de se transferir Consultório médico
Cadeira de Peso (>15kg) Capaz de se reposicionar sozinho Aeroporto
rodas padrão Poucos Para  meia­altura,  uso  do  braço  e  da Domicílio
Cadeira tamanhos perna do mesmo lado Passeios  pela  comunidade
Depot Ajuste com  uma  pessoa
Cadeira de inexistente  ou empurrando
rodas em mínimo Não utilizar como assento
meia­altura Opção de um de veículo, a não ser que
assento mais seja testada quanto a
baixo para acidentes
propulsão com
os pés
Dobrável
Assento em alça
Mobilidade Roda traseira de Uso por um período longo Domicílio
Dependente 60–65cm ou de Necessidade  de  suporte  postural Escola
Inclinação do 25–30cm elevado Passeios  pela  comunidade
assento Base da roda Dependente de controle da pressão com  uma  pessoa
(inclinação Peso (18–25kg) Incapaz  de  se  transferir  ou  de  se empurrando
de 55°) Poucos reposicionar sozinho Não  utilizar  como  assento
Reclinável tamanhos de  veículo,  a  não  ser  que
(encosto Assento seja  testada  quanto  a
abaixa até especializado acidentes
180°) Não dobrável

Mobilidade Roda  traseira  de Uso por um período longo Dentro de casa


Dependente 60–65cm Propulsão  difícil  com  os  braços, Dentro do consultório
De carga Peso (>21kg) sendo  frequentemente  utilizada  com Superfícies firmes e planas
(para clientes Largura:  60– propulsão pelos pés Torna­se de mobilidade
pesando 75cm Capacidade de transferência variável dependente em muitos
100–250kg) Profundidade: trajetos na comunidade
45–55cm Não  utilizar  como  assento
Barras  cruzadas de  veículo,  a  não  ser  que
duplas seja  testada  quanto  a
Barra acidentes
estabilizadora
entre suportes
do assento
Tubos pesados
Mobilidade Roda  traseira  de Uso  por  um  período  longo  em Dentro de casa
Independente 60–65cm ambientes limitados Dentro do consultório
Cadeira de Peso (10–17kg) Capaz de se transferir Sobre  superfícies  duras  ou
rodas leve Duas opções de Capaz de se reposicionar sozinho lisas
altura: regular e Reverte  à  mobilidade
meia­altura dependente  em  muitos
Duas opções de percursos na comunidade
profundidade do Não  utilizar  como  assento
assento de  veículo,  a  não  ser  que
Nenhum  ajuste seja  testada  quanto  a
do eixo acidentes
Aceita
assento/encosto
removível
Mobilidade Roda traseira de Com um ajuste apropriado do eixo, Com capacidade de
Independente 60–65cm; pode adequada para uso por um período empinar, todos os
Estrutura ter calotas de prolongado em todos os ambientes da ambientes fechados e na
dobrável liberação rápida comunidade maior parte da comunidade
ultraleve Leve  (<12kg, Com  pneus  sulcados,  pode
Estrutura algumas <8kg) ser  utilizada  em  piso  sem
rígida Tamanhos calçamento e na neve
ultraleve personalizados Não  utilizar  como  assento
para de  veículo,  a  não  ser  que
profundidade e seja  testada  quanto  a
largura acidentes
Posição do eixo
pode ser
ajustada à
posição do
ombro
Aceita
assento/encosto
removível

CADEIRAS DE RODAS MOTORIZADAS. Motores foram adicionados às cadeiras de rodas, pela primeira vez, na
década  de  1950,  e  desde  então  eles  foram  continuamente  aperfeiçoados  em  seu  desempenho  e  suas
características  (Cooper,  1998).  As  pessoas  que  utilizam  a  mobilidade  motorizada  apresentam  limitações  de
moderadas  a  severas  dos  membros  superiores.  Mesmo  quando  ainda  apresentam  alguma  capacidade  de
propulsão por curtas distâncias dentro de casa, os clientes raramente têm força e coordenação suficientes para
contrabalançar o risco de LER ou para manter a mobilidade independente ao longo do tempo.
Os  CMS  lançaram  recentemente  novos  códigos  para  cadeiras  de  rodas  motorizadas  para  beneficiários  do
Medicare,  com  requisitos  específicos  para  o  funcionamento  do  cliente,  como  capacidade  de  transferência,
necessidade de apoio postural ou funções motorizadas do assento (Centers for Medicare and Medicaid Services,
2006).  O  reembolso  pelo  Medicare  é  justificado  pelo  patrocínio  das  atividades  de  vida  diária  relacionadas  à
mobilidade (AVDRM) e se restringe ao uso dentro do domicílio. Os códigos exigem agora uma consulta com um
médico (que pode encaminhar o paciente a um terapeuta ocupacional) e visitas domiciliares para determinação
da acessibilidade do domicílio. A Tabela 61.4 resume as informações atuais sobre triciclos e cadeiras de rodas
motorizadas, mas podem ocorrer alterações.
Uma base motorizada com volante em arco é bastante manobrável e gira sobre sua própria base, o que a torna
ideal  para  espaços  pequenos.  Isso  é  importante  porque  o  pagamento  por  uma  cadeira  de  rodas  motorizada  se
baseia em sua necessidade para AVDRM. Se a pessoa também irá utilizar a cadeira motorizada na comunidade, é
preciso  considerar  as  vantagens  da  tração  nas  rodas  dianteiras  ou  traseiras.  Os  usuários  de  cadeiras  de  rodas
apresentam diferentes demandas significativas quanto às baterias, aos motores e ao torque proporcionado pelo
motor, de modo que é importante o conhecimento dos contextos e das ocupações.
A  necessidade  de  suporte  postural,  controle  de  pressão  e  conforto  da  pessoa  também  vai  determinar  o  tipo
necessário de cadeira de rodas. Uma variedade de produtos adicionais pode personalizar a posição da pelve; o
apoio da cabeça, das costas e dos braços; a posição da coxa; e o apoio do pé. Devem ser também consideradas as
opções motorizadas para inclinação, reclinação, elevação do assento e transferência da posição sentada para a de
pé. A opção de cadeira de rodas motorizada mais comumente utilizada é aquela com inclinação do assento, por
redistribuir a pressão em pessoas incapazes de transferir ou deslocar carga.
Uma  alavanca  é  a  interface  de  controle  típica  de  uma  cadeira  de  rodas  motorizada  e  utiliza  um  controle
proporcional.  No  caso  de  um  cliente  que  não  consiga  usar  a  alavanca,  o  terapeuta,  utilizando  os  conceitos
apresentados anteriormente, colabora com o cliente e o CRTS para determinar opções alternativas de controle.
Interfaces  como  um  canudo  para  sugar  e  soprar  ou  interruptores  direcionais  fixados  a  um  suporte  de  cabeça
possibilitam ao cliente controlar a direção e se mover a velocidades preestabelecidas. Os usuários de cadeiras de
rodas motorizadas também utilizam interfaces de busca, em que escolhem uma das quatro direções oferecidas
em sequência.

A Interface Humana para a Mobilidade
Um  cliente  não  terá  êxito  integral  ao  utilizar  a  mobilidade  manual  ou  motorizada  se  não  estiver  confiante  em
conseguir  controlar  a  atividade  produzida.  O  terapeuta  precisa  ensinar  habilidades  relativas  à  mobilidade.  Os
usuários  ativos  de  cadeiras  de  rodas  manuais  precisam  aprender a  empinar a cadeira  para  sentir­se seguros ao
descer  rampas,  descer  um  meio­fio  ou  andar  sobre  terreno  pouco  firme  (Kirby,  2005).  Em  sistemas  de
mobilidade dependente, o terapeuta orienta a pessoa a empurrar a cadeira e a lidar com essas mesmas barreiras.
O equivalente em uma cadeira de rodas motorizada é programar o controle de acordo com a capacidade e os
ambientes  do  usuário.  Usuários  iniciantes  têm  os  parâmetros  de  controle  ajustados  de  maneira  conservadora  e
reajustados de acordo com a melhora das habilidades. Clientes que percorrem áreas de aclive e declive precisam
ter os controles de torque ajustados para um melhor desempenho na subida. Aqueles com condições progressivas
devem ter os controles ajustados periodicamente para compensar a fraqueza, a perda da amplitude de movimento
ou os tremores. Essas modificações mostram o benefício da inclusão de um processador inteligente como parte
da solução de TA. O processador modifica a informação ou a resposta de força de acordo com as modificações
nas habilidades ou no ambiente.
No caso de cadeiras de rodas motorizadas que tenham interfaces de controle mais complexas, é fundamental
uma  parceria  entre  o  terapeuta  e  o  CRTS.  O  terapeuta  comunica  ao  CRTS  as  necessidades  e  as  demandas  do
cliente quanto à produção de força, e o CRTS pode recomendar produtos com as características e os atributos de
desempenho necessários. O conhecimento e a ética de um CRTS são valiosos na solicitação da cadeira de rodas,
na negociação do pagamento e na garantia e reparo posterior ao manejo do produto.
Um contexto importante para as cadeiras de rodas é o transporte. Caminhonetes pessoais com elevadores são
ideais, mas caras. Outros tipos de transporte incluem ônibus públicos, metrô e ônibus escolares. No mínimo, o
terapeuta  deve  estar  ciente  de  que  cadeiras  de  rodas  para  serem  utilizadas  como  assentos  em  veículos
motorizados  devem  atender  aos  padrões  de  segurança  de  transporte,  com  as  estruturas  testadas  em  relação  às
colisões e aos pontos de fixação (RERC on Wheelchair Transportation Safety, 2000) (Fig. 61.4).
TABELA 61.4 TRICICLOS E CADEIRAS DE RODAS MOTORIZADAS: CARACTERÍSTICAS, USOS E
AMBIENTES ADEQUADOS
Tipo de CR e Características Usos Adequados Ambientes Adequados
Exemplos
Triciclos ou Tração na roda Necessário  para  AVDRM  “em Somente ambientes
Veículos dianteira ou casa” acessíveis e providos de
Operados a traseira Incapaz  de  percorrer  longas rampas
Dirigidos  por  um distâncias  por  dor,  baixa Triciclos: uso em superfícies
Motor
eixo resistência etc. planas e lisas
Triciclos
Grande raio de Capaz  de  se  transferir  com Quatro rodas: uso em
Veículos  de
curva ou curvas segurança superfícies irregulares ou
quatro rodas
em três pontos Capaz  de  manter  a não pavimentadas; não
devido à base estabilidade postural utilizar em ambientes
longa da roda O  domicílio  precisa  de  um fechados
Desmontáveis projeto para piso livre Ao ar livre: centros de
para transporte compras, calçadas etc.
Nenhuma  opção Não  utilizar  como  assento
de  suporte de veículo; o cliente deve se
postural transferir
O Medicare não reembolsa
o uso de veículo de quatro
rodas
Grupo I: Carga Tamanho  da Necessário  para  AVDRM Somente ambientes
Limitada ou cadeira  de  rodas: “dentro de casa” acessíveis providos de
Mobilidade <60cm × 100cm Incapaz  de  propelir  cadeira  de rampas
Pode ser dobrada rodas manual Superfícies duras e lisas;
Motorizada
ou desmontada É  necessário  para  uso  muito sobe apenas a soleira da
Portátil Nenhuma  parte leve porta
>22kg Autonomia  mínima:  8km  por Não utilizar como assento
Somente com carga da bateria de veículo, a não ser
controle por Rampas: 6° quando testada quanto a
alavanca acidentes
Eletrônica não
pode ser
melhorada
Somente
assentos
“padronizados”
Obstáculo  à
subida: 20mm
Velocidade
máxima 5km/h
Grupo II: Carga Tamanho da Necessária  para  AVDRM  “em Somente  ambientes
Limitada ou cadeira de rodas casa” acessíveis  e  providos  de
Mobilidade <85cm × 120cm Uso  leve,  porém  com  assento rampas
Pode ser dobrada especial Superfícies duras e lisas
Motorizada
ou desmontada Autonomia  mínima:  11km  por Dentro de casa
Portátil Nenhuma  parte carga da bateria Não utilizar como assento
Tração dianteira >22kg em veículo, a não ser
Rampas: 6o
Tração média Somente com quando testada quanto a
Tração traseira controle por acidentes
alavanca
Eletrônica não
pode ser
melhorada
Eletrônica
expansível
somente quando
já de fábrica
Almofadas para
proteção da pele
e posicionamento
em assentos de
alça ou firmes
Obstáculo  para
subida: 40mm
Velocidade
máxima mínima
(min top speed):
5km/h
Grupo III: Tamanho da CR Necessário  para  AVDRM  “em Somente ambientes com
Mobilidade <85 cm × 120cm casa” rampas e acesso adequado
Motorizada com Suspensão que Pessoas com transtornos Uso domiciliar e em
amortece neurológicos e miopatias que determinados locais da
Carga Média
vibrações não conseguem ficar de pé comunidade sobre
Tração dianteira
Controle por e/ou apresentar dinâmica de superfícies duras e alguns
Tração média
alavanca transferência tipos de superfície irregular
Tração traseira
proporcional ou Necessita de suporte postural Não usar como assento no
acionamento e/ou alívio de compressão trânsito, a menos que sejam
alternativo Alcance mínimo: 19,4km feitos testes
Pode ser Acomoda um respirador
atualizada para Autonomia  mínima:  25km  por
melhoria da carga da bateria
eletrônica Rampas < 7,5°
Controle
expansível já de
fábrica
Assento
personalizado
possível
Pode incluir
funções de
mobilidade
sentada: inclinável
e reclinável
Obstáculo  à
subida: 60mm
Velocidade
máxima mínima:
7km/h
Visita e avaliação
domiciliar por
TO/FT/MD/ER
Grupo IV: Necessidade de Necessário  para  AVDRM  “em Somente  ambientes
Mobilidade suspensão para casa”  e  para  uso  na acessíveis e rampas
Motorizada para tração na roda comunidade Uso em ambientes fechados
Controle por Necessidade  de  suspensão  da e na comunidade em
Carga Pesada
alavanca roda diferentes superfícies
Tração dianteira
proporcional ou Incapaz de se transferir Disponível para uso como
Tração média
estímulo Necessidade  de  suporte assento de veículo, pois
Tração traseira
alternativo postural e/ou alívio da pressão essa categoria tem de
Inclui também Eletrônica  pode Acomoda um respirador passar em testes de colisão
rodas com ser melhorada Alcance mínimo: 26km O  Medicare  não  reembolsa
assistência Assento Rampas ≥9o essa categoria de cadeira de
motora ativadas personalizado e rodas
pelo aro de funções de
propulsão mobilidade
sentada
Obstáculo  à
subida: 75mm
Velocidade
máxima mínima:
10km/h
Avaliação em
visita domiciliar
por
TO/FT/MD/ER
DILEMAS DA PRÁTICA

QUANDO NÃO SIGNIFICA ALGO DIFERENTE DE NÃO!
Debra, uma mulher de 58 anos, apresenta sintomas, porém não tem um diagnóstico claro. Seu neurologista
continua a fazer testes para descartar um diagnóstico após o outro, e enquanto isso encaminhou Debra a uma
clínica para trabalho de sentar­se e de mobilidade. Debra chegou utilizando uma cadeira de rodas manual que
não está ajustada para ela. Ela apresenta tremores nos membros superiores, fraqueza significativa nas pernas
e parestesias nos pés e consegue percorrer apenas uma distância curta. Os tremores tornam difíceis o contato
de  suas  mãos  com  as  superfícies  propulsoras  da  cadeira  manual  e  a  coordenação  dos  movimentos  para  a
autopropulsão.
O terapeuta ocupacional entrevista Debra e anota suas ocupações como dona de casa, esposa e avó. Após
uma avaliação completa, Debra, o terapeuta ocupacional e o CRTS discutem as diversas opções de cadeiras
de rodas. Após um teste de uso, eles concordam que uma cadeira de rodas motorizada pequena com volante
em arco seria manobrável nas dimensões da casa de Debra e também teria potência para levá­la ao quintal
nos fundos da casa, onde ela poderia olhar os netos brincando. O terapeuta ocupacional resume os resultados
da avaliação e inclui o relatório do CRTS sobre a visita domiciliar com uma cadeira de demonstração, a carta
de justificativa e as especificações da cadeira de rodas que atende às necessidades de Debra.
Quatro  semanas  depois,  Debra  telefonou  dizendo  que  recebeu  uma  carta  do  plano  de  saúde  negando  a
concessão  da  cadeira.  O  terapeuta  ocupacional  fica  perplexo.  Com  certeza  um  telefonema  de
acompanhamento  vai  esclarecer  a  necessidade  de  uma  cadeira  de  rodas  motorizada  para  Debra.  O
representante  do  plano  de  saúde  cita  a  ausência  de  diagnóstico  para  Debra  e  sua  capacidade  de  caminhar
distâncias curtas como razões para a negativa da cadeira motorizada. O representante esclarece o processo
de apelação e o terapeuta ocupacional faz imediatamente uma carta de apelação ao plano de saúde, com uma
cópia para o neurologista de Debra.
Cinco dias depois, Debra liga com mais notícias ruins. Ela caiu ao tentar tirar roupas do armário. Ela ficou no
chão por várias horas e só foi descoberta quando sua filha passou pela casa. Debra teve contusões no braço
direito, fraturou uma costela e ficou com o olho direito roxo. Ela passou uma noite no hospital e ficou bastante
aborrecida.

Questões
1. Que princípio ético deveria orientar o comportamento do terapeuta ocupacional nessa situação?
2. Como  os  achados  clínicos  podem  ser  utilizados  para  fazer  o  plano  de  saúde  reconhecer  sua
responsabilidade?
3. Como o terapeuta ocupacional vai ser reembolsado pelo tempo exigido por essa apelação?
Fig. 61.4 O uso das melhores práticas para fixação da cadeira de rodas e contenção do ocupante ocasiona uma
segurança equivalente para pessoas que não conseguem se transferir para o assento de um veículo motorizado.
Atualmente, as cadeiras de rodas já estão disponíveis com a opção para uso no trânsito.

Comunicação
A comunicação é essencial para expressão das necessidades, seleção de opções, estabelecimento e manutenção
de  relacionamentos  e  participação  em  educação,  emprego  e  vida  na  comunidade.  A  comunicação  se  dá  pela
expressão  facial  e  por  gestos,  bem  como  pela  fala  e  a  escrita  (Beukelman  &  Mirenda,  1998).  Fonoaudiólogos
especializados em CAA são os líderes de uma equipe de tratamento por CAA. Eles avaliam o potencial de um
cliente  para  o  uso  de  um  dispositivo  de  CAA  com  variação  desde  esboços  simples  que  representam  as
necessidades  humanas  básicas  até  dispositivos  computadorizados  que  armazenam  e  recuperam  a  linguagem
(U.S. Society for Augmentative and Alternative Communication, 2005).

A Interface Pessoa­Tecnologia: Métodos de Escolha
A interface ideal entre os seres humanos e a tecnologia no caso de um dispositivo de CAA é a escolha direta.
Clientes com pouca precisão para apontar ou limitada amplitude de movimento da mão vão precisar de controles
de tamanho e localização correspondentes à sua capacidade. Intensificadores de desempenho, como bastões para
uso com a boca, instrumentos para apontar com a cabeça ou suportes móveis para os braços, podem aumentar
capacidades residuais (Fig. 61.5). Alguns dispositivos de alto rendimento tornam possível o uso de instrumentos
eletrônicos para apontar com a cabeça, em que sensores do dispositivo CAA detectam a luz de um ponto refletor
utilizado na fronte. Essa estimulação equivale a apertar um botão. Telas de toque possibilitam a personalização
do tamanho e da localização dos controles, de modo que controles frequentemente utilizados sejam colocados
num ponto em que a precisão e o alcance são maiores.
Fig. 61.5 Um suporte para o antebraço associado a uma proteção de policarbonato no teclado funciona como um
intensificador de desempenho para reduzir o esforço e melhorar a precisão.

Métodos de seleção indireta ou de busca são utilizados quando um cliente não consegue utilizar métodos de
escolha direta. Os usuários de dispositivos CAA já falam muito devagar e a busca torna o processo ainda mais
lento. Estratégias de busca como por linha/coluna possibilitam ao usuário escolher primeiro a linha com o ícone
desejado e passar então para as colunas até chegar ao ícone desejado. A busca por linhas/colunas é apenas um
dos tipos de organização de busca, e usuários com maior habilidade podem utilizar outros estilos para aumentar
sua  eficiência.  Usuários  de  CAA  que  se  baseiam  na  busca  utilizam  a  predição  por  palavras  e  por  ícones  para
diminuir  a  ativação  de  teclas.  Um  cliente  com  alterações  visuais  pode  utilizar  um  método  denominado  busca
auditiva.  O  nome  do  ícone  ou  mensagem  é  anunciado  para  o  usuário  do  dispositivo,  que  ativa  então  um
interruptor para sua seleção, o que faz o dispositivo CAA falar em voz alta.
As habilidades de percepção visual devem ser consideradas ao se estabelecerem centrais de comunicação ou
ao  se  escolher  o  conjunto  de  símbolos  para  representar  palavras  ou  frases  armazenadas.  Clientes  com  boa
percepção  tátil  ou  espacial  conseguem  memorizar  logo  a  localização  dos  ícones  em  dispositivos  CAA  com
monitores fixos.

A Interface Pessoa­Tecnologia: Construção Visando ao Acesso e à Função
Muitos usuários de CAA utilizam cadeiras de rodas, de modo que os dispositivos são fixados em sua estrutura.
Os terapeutas indicam onde devem ser fixados os dispositivos CAA de modo que eles sejam posicionados para
acesso  visual  e  motor  ótimo.  A  montagem  do  dispositivo  CAA  não  deve  obstruir  o  controle  da  cadeira,  a
passagem pelas portas, a realização de transferências ou as funções da cadeira de rodas, como a inclinação. O
horário  das  refeições  é  um  contexto  natural  para  a  comunicação,  e  por  isso  o  sistema  montado  deve  tornar
possível tanto comer como conversar.

O Processador e as Atividades Resultantes
É importante lembrar que dispositivos CAA dispendiosos são desperdiçados se os clientes não têm expectativa
ou  oportunidade  para  se  comunicar.  Os  parceiros  de  comunicação  dos  usuários  da  CAA  precisam  aprender  a
respeitar seu ritmo de fala e evitar interromper, tentar adivinhar ou ignorar o que eles estão dizendo ou espiar o
visor  do  dispositivo  de  um  usuário.  Ajudar  membros  da  família,  professores  e  cuidadores  a  incluírem  a
comunicação  nas  ocupações  é  outro  papel  importante  dos  terapeutas  ocupacionais.  Todos  precisam  aderir  ao
esforço de aprender a utilizar o dispositivo CAA.

Manipulação
Outra  área  importante  da  intervenção  por  TA  consiste  em  ajudar  as  pessoas  a  compensarem  limitações  em
habilidades  manuais  como  paralisia,  fraqueza,  tremor,  incoordenação  e  limitação  da  amplitude  de  movimento.
Essas limitações tornam difícil ou impossível escrever uma mensagem, ler um livro, fazer as contas num talão de
cheques  ou  ligar  a  TV.  Dispositivos  de  TA  denominados  assistentes  eletrônicos  da  vida  diária  (AEVD)  e
métodos alternativos para o acesso a computadores ajudam pessoas com habilidades manuais limitadas.

A Interface Pessoa­Tecnologia: Métodos de Escolha
Os métodos de seleção dos AEVD se assemelham àqueles que já foram discutidos: uma variedade de métodos de
escolha  direta  e,  caso  estes  não  sejam  possíveis,  de  escolha  indireta.  O  reconhecimento  de  voz  é  por  vezes
utilizado  nos  casos  em  que  as  limitações  físicas  impedem  o  controle  de  itens  do  ambiente.  Após  configurar  a
interface, aprender os comandos e treinar o uso do dispositivo, o usuário diz comandos como “Ligar para Jack”
ou “Ligar TV” para obter resultados. Usuários que não falam são frequentemente limitados a métodos de escolha
indireta. Os arranjos para busca podem precisar apresentar figuras para os clientes incapazes de ler.

Assistentes Eletrônicos da Vida Diária
Utilizar o telefone, controlar a TV e a música e regular a iluminação e a temperatura trazem segurança e conforto
ao  domicílio.  Como  os  sistemas  domiciliares  automatizados  promovem  o  controle  remoto  desses  dispositivos
eletrônicos,  os  terapeutas  simplesmente  adaptam  a  interface  ao  usuário  de  modo  a  possibilitar  o  controle  por
pessoas  com  limitações  físicas.  Inicialmente,  os  dispositivos  AEVD  eram  denominados  unidades  de  controle
ambiental. A modificação do nome destaca sua função: utilizar a eletrônica para executar AVD importantes.
A avaliação para os AEVD inicia por uma revisão dos ambientes cotidianos da pessoa e as atividades e rotinas
que  ocorrem  nesses  contextos.  Essas  informações  ajudam  a  identificar  os  tipos  de  dispositivos  a  serem
controlados e se há necessidade de um sistema fixo ou portátil. A avaliação da capacidade motora e cognitiva da
pessoa  ajuda  a  identificar  as  necessidades  da  interface  do  usuário.  Como  as  pessoas  que  utilizam  os  AEVD
apresentam  com  frequência  limitações  físicas  significativas,  pode  ser  importante  integrar  o  AEVD  a  outro
equipamento  para  tirar  proveito  de  movimentos  limitados.  Flexibilidade  e  possibilidade  de  expansão  são
considerações importantes num sistema AEVD. Dispositivos de alta tecnologia são caros, de modo que pensar
no  futuro  é  importante  quando  alguém  está  aprendendo  a  utilizar  um  dispositivo  desse  tipo  ou  enfrenta  um
diagnóstico progressivo (Bain & Leger, 1997; Cook & Hussey, 2002).
Como se observa na Tabela 61.5, os AEVD utilizam diversos meios para transmissão de sinal.
A  Fig.  61.6  apresenta  dois  tipos  de  AEVD.  Os  AEVD  simples  utilizam  tecnologia  de  sinalização  para  o
controle de um tipo de dispositivo – a TV, uma lâmpada, um brinquedo ou um telefone. Eles têm sucesso quando
as necessidades são limitadas ou quando os clientes são jovens e estão aprendendo. Um exemplo é um telefone
com  busca,  que  possibilita  o  uso  de  uma  tecla  para  atender  o  telefone  ou  procurar  números  previamente
armazenados para discagem e fazer ligações pelo fone de ouvido.
Os  AEVD  complexos  controlam  múltiplos  dispositivos  fazendo  uso  de  duas  ou  mais  tecnologias  de
sinalização.  Eles  utilizam  uma  central  de  controle  para  acionar  diferentes  sistemas:  enviam  corrente  elétrica  a
módulos X­10 ou enviam sinais infravermelho (IV) a dispositivos de entretenimento domiciliar ou a um telefone
IV. AEVD complexos fixados em cadeiras de rodas utilizam muitas vezes uma frequência de rádio, de modo que
os usuários consigam destrancar e abrir portas com independência. Os AEVD reduzem o cuidado por atendentes
e possibilitam a satisfação de passar um tempo sozinho com segurança. Com o uso de AEVD, os clientes podem
pedir ajuda ou sair da casa numa emergência, assim como executar com independência as atividades cotidianas.
Os  AEVD  também  podem  ser  controlados  por  dispositivos  de  CAA,  computadores  e  cadeiras  de  rodas.  Os
dispositivos  de  CAA  de  alta  tecnologia  têm  capacidade  de  emitir  IV  e  podem  ser  utilizados  para  controlar
diretamente qualquer dispositivo com um receptor IV. A interface do usuário num dispositivo CAA é ideal, pois
símbolos  e  figuras  são  utilizados  para  representar  a  função  realizada  (p.  ex.,  luzes  acesas,  música  ligada).  De
maneira  semelhante,  programas  de  computador  com  interface  gráfica  para  o  usuário  podem  ativar  um
equipamento que faz  a  transmissão  de  sinais  por  diversas  tecnologias.  Vários  fabricantes de cadeiras de rodas
motorizadas de alta tecnologia passaram recentemente a incluir esse tipo de tecnologia nos controles da cadeira
de rodas.

Computadores para Ocupação
Para pessoas com incapacidades, o uso do computador pode ser adaptado para a execução de tarefas, ao mesmo
tempo  que  aumenta  o  acesso  à  comunidade  e  a  seus  recursos.  Os  computadores  podem  aumentar
significativamente a autoconfiança e a qualidade de vida de pessoas com incapacidades.
Como  os  clientes  que  podem  se  beneficiar  do  acesso  alternativo  aos  computadores  podem  apresentar
capacidades e interesses variáveis, a primeira etapa consiste na avaliação para identificação de metas e opções.
Uma  criança  pequena  com  limitações  cognitivas  pode  aprender  a  relação  causa  e  efeito  com  a  ajuda  de  um
programa de computador ou construir conceitos numéricos a partir de um programa de aprendizado básico. Um
aluno  hemiplégico  do  ensino  médio  pode  precisar  apenas  de  um  dispositivo  para  uma  das  mãos  para  usar  o
teclado.  Um  adulto  com  lesão  medular  que  esteja  se  preparando  para  trabalhar  como  autônomo  pode  desejar
utilizar  um  programa  para  edição  de  texto,  uma  planilha  eletrônica  para  controlar  as  finanças  e  o  serviço  de
discagem assistido por computador. Cada uma dessas metas de atividade e muitas outras podem ser alcançadas
com  o  conhecimento  de  métodos  alternativos  de  acesso  aos  computadores.  A  etapa  seguinte  consiste  na
avaliação  das  habilidades  de  desempenho  do  cliente  para  determinar  os  tipos  de  adaptações  que  possam  ser
necessários.

TABELA 61.5 ASSISTENTES ELETRÔNICOS À VIDA DIÁRIA: TIPOS DE SINALIZAÇÃO
Tipo de Descrição Usada Tipicamente Requisitos
Sinalização para Controlar
Infravermelho (IV) Um feixe de luz da TV, estéreo, tocador de Linha de visão livre
parte invisível do CD ou DVD Descargas luminosas codificadas
espectro específicas que são
combinadas à função do
dispositivo
Radiofrequência Um sinal Controles de abertura Transmissão por meio de
(RF) eletromagnético de garagem e porta materiais sólidos
enviado de uma de entrada, sistemas O sinal percorre distâncias de
antena a um receptor de alarme, porteiro acordo com a potência do
utilizando uma onda eletrônico para o transmissor
de radiofrequência carro etc.
muito alta
X­10 Uma descarga RF Dispositivos conectados Abajures etc. conectados a
curta de informação a tomadas de parede, módulos que são ligados a
digital segue pela como ventilador, rádio tomadas de parede. Utilizados
fiação da casa até de mesa ou abajur. para o controle de dispositivos
encontrar o módulo Também unidades X­ liga/desliga; módulos especiais
codificado ou 10 como uma reduzem a iluminação e
receptor campainha de alerta. ajustam o termostato.
correspondente ao
sinal
Fig. 61.6 AEVD simples e complexos.

MODIFICAÇÕES  DA  ENTRADA  DE  INFORMAÇÃO.  As  modificações  da  entrada  de  informação  aos
computadores  podem  ser  classificadas  como  substitutos  para  o  teclado  ou  para  o  mouse.  Tendo  em  mente  a
hierarquia de acesso, é importante começar pelo mais simples. O painel de controle do sistema operacional (SO)
do computador oferece opções que podem compensar pequenas limitações. Por exemplo, a opção de teclas de
ajuda facilita para o usuário de computador que esteja digitando com uma das mãos ou com um bastão operado
com  a  boca.  A  opção  de  teclas  de  ajuda  possibilita  ao  usuário  substituir  o  acionamento  simultâneo  de  várias
teclas  (p.  ex.,  control  +  alt  +  delete)  pelas  mesmas  teclas  acionadas  em  sequência.  Todas  as  opções  de
acessibilidade estão integralmente descritas nos websites das empresas na Internet (Apple Computer Inc., 2005;
Microsoft  Corporation,  2005).  Utilizar  um  dispositivo  para  aumentar  o  controle  como  um  cavalete  para
reposicionar o teclado e/ou um dispositivo para aumentar o controle sobre o mouse são outras soluções simples.
As  alternativas  ao  teclado  padrão  incluem  teclados  em  miniatura,  que  exigem  menor  amplitude  de  alcance,
teclados  grandes,  que  aumentam  o  tamanho  das  teclas  e  ajustam  a  sensibilidade  para  melhorar  a  precisão,  e
teclados que tornam mais eficiente a digitação com uma única mão. Quando o uso do teclado não traz sucesso,
outros  métodos  para  a  criação  de  textos,  como  reconhecimento  de  voz,  envio  por  código  Morse,  bastão
apontador para um teclado na tela e apontar com os olhos, devem ser considerados.
A capacidade de controlar o movimento do cursor é importante em aplicativos gráficos e de desenho, ou pode
ser preferida para se mover entre os programas do computador. Métodos alternativos de controle do mouse ou de
um  cursor  incluem  teclas  de  mouse  (uma  opção  do  painel  de  controle),  alavancas  e  diversas  tecnologias
controladas  com  a  cabeça  que  utilizam  reflexão  de  luz  ou  ultrassom.  Em  geral,  os  mouses  controlados  com  a
cabeça estão associados a um teclado em tela, o que permite a criação de textos e a execução de movimentos
suaves do mouse. Os atalhos do teclado contornam a necessidade do mouse para muitas tarefas comuns.
Essas opções são exemplos de escolha direta. Os usuários incapazes de utilizar esses métodos precisam aderir
à escolha indireta. É possível que um cliente utilize um programa de busca que interpreta a ativação de botões
para  controlar  cada  aspecto  do  uso  do  computador  ou,  no  caso  de  metas  mais  limitadas,  trabalhar  com  um
aplicativo ou realizar uma tarefa significativa.
O  PROCESSADOR:  A  UNIDADE  CENTRAL  DE  PROCESSAMENTO  DO  COMPUTADOR.  A  potência  e  a
velocidade dos microprocessadores continuam a aumentar e dispositivos como um modem, tocadores de CD e
placas  para  uso  sem  fios  são  atualmente  equipamentos­padrão  em  computadores  e  dão  muitas  opções  aos
usuários. Muitas alternativas ao teclado ou ao mouse são soluções de equipamento associadas a um programa de
computador  para  a  modificação  de  controles  ou  opções.  Alternativas  como  o  teclado  em  tela  se  baseiam
unicamente num programa de computador. De qualquer maneira, as alternativas precisam ser compatíveis com o
SO do computador e o equipamento disponível.

A  ATIVIDADE  PRODUZIDA:  INTEGRANDO  COMPUTADORES  À  VIDA  DIÁRIA.  Os  terapeutas  ocupacionais


ajudam  os  clientes  a  executar  atividades.  Para  ilustrar,  um  estudante  com  deficiências  motoras  significativas
pode utilizar um método de busca no computador da escola. Esse estudante vai precisar de ajuda para lidar com
uma  lista  em  ordem  alfabética  e  em  seguida  para  ir  além  da  escrita  pura  e  simples.  Aprender  um  método  de
busca que controle o ambiente do computador vai permitir alternar entre aplicativos e funções, como pesquisar
na  Internet  uma  tarefa  de  geografia  num  momento  e  depois  receber  e  imprimir  um  texto  para  soletração  no
momento seguinte. Esse papel de professor se presta bem a um terapeuta ocupacional focado na integração da
TA em ocupações escolares e possibilita o sucesso acadêmico do estudante.

Sensibilidade
As  pessoas  que  apresentam  comprometimentos  visuais  e  auditivos  necessitam  de  modificações  para  o
funcionamento  do  computador.  Os  profissionais  de  desenvolvimento  de  TA  criaram  soluções  excelentes  nesta
área.  O  problema  tem  sido  levar  informações  e  obter  recursos  financeiros  para  clientes  que  poderiam  se
beneficiar de seu uso.

A Interface Pessoa­Tecnologia: Produção do Sistema
Ao  utilizar  computadores,  as  pessoas  com  visão  reduzida  precisam  de  letras  maiores  no  monitor  ou  no  texto
impresso.  O  aumento  da  letra  dá  acesso  a  qualquer  informação  que  possa  ser  adquirida  pelo  computador.  As
opções de acessibilidade no painel de controle do SO permitem a ampliação da tela básica para uma pessoa que
seja  um  usuário  ocasional  ou  que  apresente  uma  perda  mínima  de  visão.  Os  aplicativos  de  ampliação  da  tela
acrescentam  muitas  características  que  aumentam  a  capacidade  de  utilização  por  indivíduos  com  necessidades
maiores.
As  pessoas  cegas  precisam  de  substitutos  para  lidar  com  computadores,  ícones  e  menus.  Quando  você  não
enxerga,  apontar  com  um  mouse  é  irrelevante.  Programas  notáveis  promovem  a  navegação  em  documentos  e
entre  documentos  e  o  controle  de  funções,  como  salvar  ou  imprimir,  pelo  uso  de  teclas  da  calculadora.  Esse
programa dá acesso ao texto em documentos ou e­mails sonoros processados por um sintetizador de voz ou um
visualizador  auxiliar  em  braile.  Os  textos  podem  ser  enviados  para  uma  impressora  em  braile  se  houver
necessidade de uma cópia impressa. A tecnologia também é capaz de escanear uma página de texto impresso em
papel,  reconhecer  a  imagem  como  letras  e  números  e  converter  a  imagem  em  texto  digital,  utilizando  um
processo denominado reconhecimento de caracteres ópticos (RCO). Uma vez em formato digital, o texto pode
ser salvo em letras grandes, ouvido pelo sintetizador de voz do computador ou convertido em braile. O RCO dá
acesso  a  materiais  impressos  a  qualquer  momento  que  a  pessoa  deseje  e  não  apenas  quando  se  dispõe  de  um
leitor provido de visão.
Usuários de computador com deficiências auditivas precisam de legendas em programas multimídia e alertas
visuais,  como  uma  barra  de  título  piscando  em  vez  de  sinais  sonoros  como  um  bip.  A  capacidade  de  se
comunicar com amigos e colegas dotados de audição por meio de e­mail ou telefones celulares com mensagens
de texto ou serviços de mensagens curtas abre novas possibilidades de interação. Videofones que possibilitam a
comunicação  direta  em  linguagem  de  sinais  com  outros  sinalizadores  ou  operadores  de  retransmissão  estão
modificando rapidamente as modalidades de telecomunicação para pessoas surdas.

A Interface Pessoa­Tecnologia: Atividades Produzidas
A  tecnologia  da  televisão  em  circuito  fechado  amplia  qualquer  item  para  indivíduos  com  visão  reduzida.  Os
sistemas utilizam uma câmera e um monitor com tela plana para ampliar o que quer que esteja sob a câmera –
um cartão de visita, uma conta doméstica ou uma agulha de crochê. Sistemas de ampliação somente podem ser
utilizados  em  um  computador  de  mesa,  mas  pequenos  modelos  portáteis  são  facilmente  levados  até  a
comunidade para fazer compras.
Muitos  produtos  disponíveis  comercialmente  dão  suporte  à  vida  independente.  Eles  variam  de  relógios  de
cozinha, despertadores e telefones com números grandes para pessoas com visão reduzida até alertas vibratórios
ou  luminosos  para  despertadores,  campainhas  e  alarmes  de  incêndio  para  pessoas  com  comprometimento
auditivo. É fácil obter informações sobre esses itens e adquiri­los pela Internet.

Cognição
A TA pode ser muito útil para comprometimentos cognitivos, porque o processador da TA executa a habilidade
faltante.  Muitos  dos  problemas  que  afetam  a  interface  do  usuário  são  relevantes  para  essa  área  da  TA.  Por
exemplo, quando a interface pessoa­tecnologia é modificada por ícones e menus sonoros, o mesmo processo que
possibilita a uma pessoa cega ouvir um texto também ajuda uma pessoa com transtorno de aprendizado severo.
Tecnologias de ponta, como computadores de bolso, sistema de mensagem, sistema de posicionamento global
(GPS), telefone celular e gravador de voz digital, estão sendo modificadas e incorporadas a dispositivos de TA
para uso por pessoas com comprometimento cognitivo (RERC on Cognitive Assistive Technology, 2006). Por
exemplo,  programas  criados  para  um  computador  de  bolso  promovem  a  personalização  de  fotos  e  voz
digitalizada para apresentar as etapas de uma rotina matinal para o cuidado matinal com a aparência pessoal ou
para  pegar  um  ônibus  (Fig.  61.7).  Lembretes  repetidos  podem  avisar  a  uma  pessoa  que  é  hora  de  tomar  a
medicação. Um telefone celular com comandos de voz como “ligar para casa” torna mais fácil utilizar o telefone
e dispor de uma comunicação em ambos os sentidos com familiares ou supervisores do trabalho. As câmeras de
telefones celulares podem ajudar a memória e gravadores de voz digitais podem substituir a anotação de recados.
O uso dessas tecnologias de ponta pode promover novas opções de segurança, uma ajuda discreta à memória e
um meio de supervisão remota.

Fig. 61.7 O PocketCompassTM possibilita armazenamento de figuras e de voz como suportes cognitivos para o
sequenciamento de atividades. Os PDA também podem emitir lembretes, relatar a localização e apoiar decisões.

PERSONALIZAÇÃO E INTEGRAÇÃO DAS SOLUÇÕES DE TA
A prática da terapia ocupacional utiliza o ensino e a compreensão sobre o processo de aprendizado para ajudar
os  clientes  a  fazerem  modificações.  Esse  conhecimento  ajuda  os  terapeutas  no  acompanhamento  dos  clientes
enquanto eles aprendem a utilizar e integrar um dispositivo de TA às suas rotinas e atividades significativas. O
reconhecimento da interação entre o indivíduo e o dispositivo e entre um indivíduo e o ambiente ou o contexto
possibilita  ao  terapeuta  ocupacional  modificar  aspectos  dos  dispositivos  de  TA.  Essa  capacidade  de  perceber
mudanças nos contextos sociais e físicos em que os dispositivos de TA são utilizados contribui para consolidar
seu uso e sua utilidade.
No  caso  de  clientes  que  apresentam  níveis  significativos  de  comprometimento  frequentemente  é  necessário
combinar  soluções  de  TA,  como  uma  pessoa  que  apresenta  comprometimentos  visuais  e  motores  que  deseja
utilizar um computador. É muito comum que a mesma pessoa que utiliza a cadeira de rodas motorizada também
necessite de um dispositivo CAA e deseje controlar dispositivos de entretenimento ou portas em seu ambiente.
É cada vez mais comum que os dispositivos de TA funcionem bem combinados a outros por causa da melhora
dos padrões de desenho do SO e da eletrônica de controle. O suporte técnico de fabricantes ou de fornecedores
de tecnologia de reabilitação é útil quando surgem conflitos. O processo interativo entre o projeto do produto e a
retroalimentação de usuários informados e terapeutas ajuda a aperfeiçoar os dispositivos de TA. Na realidade, os
dispositivos de TA têm um mercado muito pequeno, e a economia aplicada a produtos do mercado de massa não
se aplica aqui. Por esta razão, esse ciclo de melhora é com frequência mais lento do que o desejado.

PAGANDO POR SOLUÇÕES DE TA
O pagamento da TA por terceiros é essencial, pois a maioria dos indivíduos com comprometimentos sobrevive
com uma renda pequena e os dispositivos de TA tendem a ser bastante caros. Embora os sistemas de provisão de
recursos  financeiros  tenham  se  tornado  mais  sensíveis,  há  uma  resistência  continuada  ao  pagamento  de
dispositivos de TA. Há necessidade de maiores estudos para demonstrar à sociedade os resultados finais ou os
benefícios  econômicos  de  longo  prazo  que  são  alcançados  quando  os  dispositivos  de  TA  promovem  uma
educação melhor, aperfeiçoam ou criam habilidades para emprego e reduzem os custos do cuidado dependente.
Há  também  os  benefícios  pessoais  da  participação,  da  ampliação  das  redes  sociais  e  da  melhora  da  saúde
emocional e mental.
Os  terapeutas  ocupacionais  vão  ter  sempre  um  papel  importante  na  documentação  da  necessidade  dos
dispositivos  de  TA.  Seu  conjunto  de  habilidades  possibilita  que  eles  façam  uma  correlação  entre  déficits  de
desempenho  ocupacional  e  as  características  dos  dispositivos  de  TA  que  tornam  possíveis  a  ocupação  e  a
participação.  A  capacidade  de  utilizar  essa  lógica  em  cartas  de  justificativa  é  eficaz  na  geração  de  recursos
financeiros  para  os  dispositivos  de  TA.  Fotos  e  vídeos  de  clientes  atingindo  suas  metas  durante  o  uso
experimental reforçam com frequência esses documentos.

ESTUDO DE CASO: Fazendo um Computador Trabalhar para Ted

Ted, um homem de 25 anos, utiliza um computador para enviar e­mails e navegar pela Internet. Problemas
significativos  de  saúde  (artrite  reumatoide,  doença  hepática  e  glaucoma)  o  mantiveram  em  casa  quando
seus colegas do curso secundário passavam para o ensino médio. A saúde dele está estável e ele deseja
aprimorar seu interesse pela arte por meio de um curso online sobre a teoria da arte. A acuidade visual dele
é baixa e ele tem de se aproximar do monitor para enxergar. Seu conselheiro de reabilitação profissional o
encaminhou para uma avaliação.
Após uma entrevista inicial, a terapeuta ocupacional mostrou a Ted como reduzir a resolução do monitor, o
que tem como efeito a ampliação de tudo na tela. Ela também mostrou a ele a opção de ampliação entre as
opções de acessibilidade do SO. Utilizando esses recursos combinados, Ted consegue ver mais detalhes da
localização  do  mouse  ou  do  cursor  de  texto.  Há  aplicativos  de  ampliação  da  tela  que  fornecem
características como acompanhamento de textos e texto para fala, mas Ted diz não estar interessado nisso.
Ele diz que vai adotar soluções mais potentes se a visão dele piorar.

1. Como a abordagem da terapeuta demonstra a hierarquia de acesso?
2. Você concorda com a abordagem da terapeuta?

Ao tentar identificar uma fonte de recursos financeiros para dispositivos e serviços de TA, considere a idade
ou  as  ocupações  do  cliente  e  os  programas  e  recursos  associados.  Por  exemplo,  uma  criança  que  começa  a
engatinhar pode esperar assistência financeira como parte de um programa de intervenção precoce, enquanto um
adulto que procura emprego deve buscar a reabilitação profissional. É importante lembrar as metas da potencial
fonte  pagadora  em  documentos  de  justificativa.  As  escolas  desejam  saber  sobre  os  benefícios  educacionais  de
um dispositivo de TA e o programa Medicaid deseja saber sobre sua necessidade médica. Lembre­se de que uma
negação de recursos não significa um não; significa, isso sim, que você tem de reforçar os argumentos ou apelar
para um nível superior de revisão.

CONCLUSÃO
Este  capítulo  apresenta  uma  introdução  ao  uso  da  tecnologia  de  assistência.  Até  mesmo  especialistas  têm  de
atualizar constantemente suas habilidades por educação continuada, conferências orientadas para TA e instrução
avançada.  Com  frequência,  o  encontro  com  um  cliente  que  poderia  se  beneficiar  efetivamente  de  uma
intervenção de TA é uma motivação poderosa para se aprender mais a respeito dela. Encaminhe seu cliente a um
especialista em TA ou trabalhe em colaboração com seu cliente para obter informações e conhecer mais. Com o
uso de conceitos de TO, a base que você adquiriu neste capítulo, a persistência e a sua própria experiência com a
tecnologia do século XXI vão lhe ajudar a incorporar a TA à sua prática.

REFERÊNCIAS
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