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VIBrasil Sul de

Simpósio
Bovinocultura de Leite

Anais
08 a 10 de novembro de 2016
Chapecó | SC | Brasil
Associação Catarinense de Medicina Veterinária – Núcleo Oeste

ANAIS DO VI SIMPÓSIO
BRASIL SUL DE BOVINOCULTURA
DE LEITE E
1º BRASIL SUL MILK FAIR

Chapecó, SC
2016
Exemplares desta publicação podem ser adquiridos na:

Associação Catarinense de Medicina


Veterinária - Núcleo Oeste
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CEP 89.801-420
Chapecó, SC
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Associação Catarinense de Medicina
Veterinária - Núcleo Oeste*

1ª edição

Todos os direitos reservados.


A reprodução não autorizada desta publicação, no todo ou em parte, constitui violação dos
direitos autorais (Lei nº 9.610).

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

S612a Simpósio Brasil Sul de Bovinocultura de Leite (6.: 2016, Chapecó, SC).
Anais do Simpósio Brasil Sul de Bovinocultura de Leite - Chapecó, SC :
Associação Catarinense de Medicina Veterinária - Núcleo Oeste, 2016.
166 p.; 14,8 cm x 21 cm.

Inclui bibliografias

1. Bovino de leite - Congressos e convenções. 2. Leite - Produção -


Congressos e convenções. I. Título.

CDD 636.2142

*As palestras e os artigos foram formatados diretamente dos originais enviados eletronicamente pelos autores.

II
III
Relação de Patrocinadores

• Adisseo Brasil Nutrição Ltda


• Bayer
• Biomin do Brasil Nutrição Animal Ltda
• Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul - BRDE
• Cargill -Nutron
• Chapecó e Região Convention & Visitors Bureau
• Clarion Biociências Ltda
• Conselho Regional de Medicina Veterinária (CRMV-SC)
• Cooperativa Central Aurora Alimentos
• Evonik Degussa Brasil Ltda
• Gran Mestri
• Grasp Indústria e Comércio Ltda
• Ibersan do Brasil
• Isolar
• Jornal O Presente Rural
• Leigado Software para Gado Leiteiro
• MTS Comércio e Representações Ltda
• Multirural
• Nutrifarma Nutrição e Saúde Animal
• Nutrialfa
• Panty Assessoria
• Piracanjuba
• Prefeitura Municipal de Chapecó
• Revista DBO e Mundo do Leite
• Revista Feed & Food
• Soma Agribusiness
• Top Aurora – Alimentando resultados
• Tortuga - DSM
• Unochapecó
• Vertà – Instituto de Pesquisa e Laboratório Veterinário
• Yes
• Zinpro Performance Minerals

IV
Comissão Organizadora

Adriano Santos
Airton Vanderlinde
Aletéia Britto Balestrin
Antonio Carlos Ferreira Zanini
Beatriz de Felippe Peruzzo
Bruno Jirkowsky Canfield
Cristiano Todero
Diego Cucco
Elizângela de Mello
Emerson Pocai
Everton Poletto
Felipe Ceolin
Gersson Antonio Schmidt
Jair Alberto Detoni
Josenei Luiz Santos
Joao Batista Lancini
Lawrence Luvisa
Lissandro Trindade de Almeida
Luis Carlos Peruzzo
Luis Henrique Rangrab
Marcos Tulim
Nilson Sabino da Silva
Roberto Bolsanello
Rodrigo Santana Toledo
Rogério Francisco Balestrin
Selvino Giesel
Vagner Portes

Secretaria

Fillipe Pedro Mergen

V
Mensagem da Comissão Organizadora

Prezados colegas,
Bem vindos ao VI Simpósio Brasil Sul de Bovinocultura de Leite
que este ano tem como novidade a primeira feira de negócios Milk
Fair, um espaço para relacionamento com clientes e difusão de tec-
nologias para produção de leite. Um painel com representantes da in-
dústria e entidades vai discutir os Desafios para a Qualidade do Leite,
abrindo um diálogo com troca de experiências e case de sucesso em
agregação de valor ao leite e produtores.
O desafio da comissão científica foi trazer temas de interesse
e que contribuam para a tecnificação do setor, por isso buscamos
abordar temas como manejo eficiente de pastagens tropicais para
o Sul do Brasil e entender ainda da integração lavoura/pecuária e
seus efeitos na sustentabilidade da produção leiteira, assuntos para
se pensar dentro e fora das porteiras. Caminhando ao lado do cresci-
mento do setor e das exigências cada vez maiores do mercado as-
sumimos o compromisso de elaborar uma programação científica
qualificada, com o objetivo de atender às demandas dos profissionais
difusores das tecnologias, antecipando tendências.
Pensando na bovinocultura de leite do futuro propusemos te-
mas que falassem do impacto da nutrição de precisão na eficiência
e rentabilidade da propriedade leiteira. Com a mente aberta para no-
vas tecnologias e aditivos nutricionais ajustados com as tendências
globais, vamos falar de óleos essenciais na alimentação de bovinos
leiteiros e de estratégias para otimizar eficiência reprodutiva dos re-
banhos.
Desvendando mitos e atualizando conceitos trouxemos para
a pauta as instalações em Compost Barn e definimos pontos chave
para as discussões como estresse térmico e os impactos na produção
e estratégias de manejo e nutricão para minimizá-lo com o especialis-
ta Emilien Dupuis (CCPA Group/França).
Da Universidade do Illinois, EUA convidamos palestrante para
apresentar os impacto dos principais distúrbios metabólicos e estraté-
gias para maximizar a produção e saúde na fase de transição, obser-
vando os impactos a campo e prejuízos.

VI
O evento ganha uma nova forma, mais focada nas demandas
da indústria leiteira que cresce e se profissionaliza. Por isso definimos
que precisaríamos falar de genômica como ferramenta para melho-
ramento genético, como primordial para termos um rebanho compet-
itivo.
Também paramos e olhamos para dentro da produção e ob-
servamos que temas básicos como afecções de casco e o controle e
tratamento de mastites, ainda carecem de atualizações. Observando
a fisiologia animal olhamos para o principal órgão que distingue os
ruminantes dos monogástricos e fomos a fundo no tema sanidade
ruminal e sua influência na composição e qualidade do leite.
Com um pé dentro da propriedade e outro na indústria procur-
amos oferecer uma programação diversificada e moderna, que olha
para dentro da propriedade e para frente...um horizonte de altos
níveis de produtividade, quantidade de sólidos e sanidade de ponta.
Um futuro exigente onde não queremos chegar desprevenidos.
Bom simpósio à todos!!!

Luis Carlos Peruzzo


Presidente do Núcleo Oeste de Médicos Veterinários e Zootecnistas

VII
Programação Científica Prévia

08 de novembro de 2016

14:00 – 14:05 Abertura

14:05 – 14:50 Manejo Eficiente de Pastagens Tropicais para o Sul


do Brasil
Dr. Jean Mezzalira

14:50 – 15:35 Integração Lavoura/Pecuária e seus efeitos na


sustentabilidade da Produção Leiteira
Dr. Paulo Adami

15:35 – 16:20 Panorama do Mercado Lácteo


Dr. Thiago Francisco Rodrigues

16:20 – 16:50 Pausa para o Leite

16:50 – 18:25 Painel: Desafios para a qualidade do leite


Autoridades da Cadeia Produtiva do Leite

18:30 – 19:00 Abertura Oficial

19h 00min Coquetel de Abertura

VIII
09 de novembro de 2016

08h 00min Impacto da Nutrição de Precisão na Eficiência e


Rentabilidade da Propriedade Leiteira
Dr. Alexandre Pedroso

09h 00min Uso de Óleos Essenciais na alimentação de


Bovinos Leiteiros
Dr. Rafael Canonenco de Araújo

Intervalo Pausa para o Leite - 30 minutos

10h 30min Estratégias para otimizar eficiência reprodutiva dos


rebanhos leiteiros
Dr. Eduardo Sousa

11h 30min Instalações em Compost Barn – Desvendando


Mitos e Atualizando Conceitos
Dr. Adriano Seddon

Intervalo Almoço

14h 00min Estresse Térmico: Impactos na Produção e


Estratégias de Manejo e Nutricão para minimizá-lo
Dr. Emilien Dupuis

15h 00min Impacto dos principais distúrbios metabólicos e


estratégias para maximizar a produção e saúde na
fase de transição
Dr. Fábio Lima

16h 00mim Pausa para o Leite - 30 minutos

IX
10 de novembro de 2016

08h 00min Uso da Genômica como Ferramenta para


Melhoramento Genético
Dr. Ricardo Ventura

09h 00min Principais afecções de casco, seus impactos e


medidas de controle
Dr. Arturo Gomes

Intervalo Pausa para o Leite - 30 minutos

10h 30min Atualizações e Últimas tendências no controle e


tratamento de mastites
Dr. Marcos Veiga Santos

11h 30min Sanidade Ruminal e sua Influência na Composição


e Qualidade do Leite
Dr. Bolívar Faria

12h 30min Encerramento das atividades

X
Sumário

Manejo eficiente de pastagens tropicais para o sul do Brasil...........13


Dr. Jean Carlos Mezzalira

Integração lavoura-pecuária e seus efeitos na sustentabilidade da


produção leiteira................................................................................14
Dr. Paulo Fernando Adami

Panorama do mercado lácteo...........................................................32


Dr. Thiago Francisco Rodrigues

Nutrição de precisão para maximizar a eficiência econômica..........33


Dr. Alexandre Pedroso

Estratégias para otimizar eficiência reprodutiva


de rebanhos leiteiros.......................................................................103
Dr. Eduardo S. Ribeiro

Compost barn e stress térmico: melhorando


a eficiência do sistema....................................................................105
Dr. Adriano Seddon

Estresse térmico: impactos na produção e estratégias de manejo e


nutrição para minimizá-lo................................................................ 113
Dr. Emilien Dupuis

Impacto dos principais distúrbios metabólicos e estratégias para


maximizar a produção e saúde na fase de transição...................... 114
Dr. Fabio Lima

Uso da genômica como ferramenta para melhoramento genético.138


Dr. Ricardo Ventura

Principais afecções de cascos, Seus impactos e controle..............139


Dr. Arturo Gomez

XI
Atualizações e últimas tendências no controle e tratamento de
mastites...........................................................................................147
Dr. Marcos Veiga dos Santos e Dr. Tiago Tomazi

Sanidade ruminal e sua influência na composição e qualidade do


leite..................................................................................................166
Dr. Bolívar Faria

XII
VI Simpósio Brasil Sul de Bovinocultura de Leite
08, 09 e 10 de Novembro de 2016

MANEJO EFICIENTE DE PASTAGENS TROPICAIS


PARA O SUL DO BRASIL

Jean Carlos Mezzalira


Eng. Agr. Dr. em Zootecnia

Na palestra iremos tratar do manejo do pastoreio de espécies


de verão. A abordagem se dará a partir do PASTOREIO ROTATÍNUO.
“Pastoreio Rotatínuo” é um neologismo que define um novo
método de manejo de pastagens. Mescla de rotativo e contínuo. Na
prática esse é um método de manejo dos animais e não propriamente
manejo do pasto. Isso faz toda a diferença. Nesse novo método, os
animais continuam sendo agrupados em lotes que mudam de piquete
(como no rotativo), mas o principal critério para definição do tempo de
permanência dos animais na área se dá pelo animal e não pelo pasto
ou pelo nosso calendário. Esse momento é definido pelo comporta-
mento ingestivo dos animais.
Nesse método o manejador decide o local onde os animais irão
pastejar a partir de recomendações como a altura do pasto. Uma vez
que os animais estão na área, são eles que irão decidir a composição
de sua dieta e quais locais do piquete serão pastejados ou rejeitados
nesse dia de pastejo. Pensava-se que esses pontos de rejeição eram
perda de forragem e que os animais não pastejariam mais ou que
teríamos que roçar todas as vezes que os animais saíssem da área.
O que as pesquisas mostraram e também se confirmou nas
propriedades é que esses pontos de rejeição, em cada pastejo, com-
põem a massa de forragem para o próximo pastejo. E sempre que
atendemos as condições de altura pré- e pós-pastejo, os animas re-
tornam à área e consomem esses pontos.
O que fazemos, portanto, no Pastoreio Rotatínuo, é respeitar
o comportamento natural dos animais. Isso tem permitido aumentos
consideráveis na produção por área e por animal.
O pastoreio rotatínuo é uma ferramenta utilizada dentro do pro-
grama PISA que é aplicado pela empresa SIA em todo o sul do Brasil.
O Programa busca difundir práticas agropecuárias, econômicas e so-
ciais sustentáveis.

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VI Simpósio Brasil Sul de Bovinocultura de Leite
08, 09 e 10 de Novembro de 2016

INTEGRAÇÃO LAVOURA-PECUÁRIA E SEUS EFEITOS


NA SUSTENTABILIDADE DA PRODUÇÃO LEITEIRA

Paulo Fernando Adami1, Luryan Tairini Kagimura2,


Rosangela Correa De Lima2, Pablo Antonio Beltran Barriga2,
Paulo Ricardo Rickli2
1 Professor da disciplina de Integração Lavoura-pecuária do programa de
pós-graduação em produção vegetal da UTFPR – PB
2 Alunos da disciplina de Integração Lavoura-pecuária do programa de
pós-graduação em produção vegetal da UTFPR - PB

Introdução
A atividade leiteira é a principal fonte de renda de pequenos
produtores rurais da região sul do Brasil e sem dúvida desempenha
papel fundamental na manutenção e viabilidade destas propriedades,
que são basicamente desenvolvidas por mão de obra familiar.
O noroeste do Rio Grande do Sul, oeste de Santa Catarina
e sudoeste do Paraná se destacam como uma das maiores bacias
leiteiras do país. Estas três regiões tornaram a região sul, no ano de
2014, o maior produtor de leite do país. A produção chegou a 12,2
bilhões de litros de leite ano, representando 46% do total da pro-
dução nacional de leite. O elevado crescimento da produtividade se
deve principalmente ao aumento da produtividade por animal, onde a
média desses três estados foi de 2.907 litros/vaca/ano, muito superior
à média dos demais estados do Brasil, que fica em torno de 1.560
litros/vaca/ano.
Importante destacar também, que grande parte destes produ-
tores de leite trabalham em sistema de integração lavoura-pecuária
(ILP), permitindo assim a otimização do uso dos recursos naturais da
propriedade, a redução dos riscos de produção, ciclagem de nutri-
entes e maior produtividade por área com maior retorno econômico
em função das sinergias do sistema, onde todas as produções têm
influências e ganhos umas sobre as outras.
Além de ganhos sustentáveis ao utilizar a ILP, pode-se ter um
incremento na renda através das diversas atividades realizadas e
uma maior estabilidade financeira, todos obtidos através de vanta-

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VI Simpósio Brasil Sul de Bovinocultura de Leite
08, 09 e 10 de Novembro de 2016

gens econômicas e biológicas, aumento de rendimento e redução de


custos de produção. Este sistema se destaca pela diversificação da
propriedade e consequentemente pela redução dos riscos de pro-
dução. Enquanto nos sistemas singulares de produção é possível se
fazer 2 ou 3 colheitas por ano, na atividade leite se fazem duas ou três
colheitas por dia, otimizando o uso da mão-de-obra e reduzindo muito
o risco de frustrações econômicas na propriedade.
Dessa maneira, vale a pena salientar que a integração da
atividade leite com a atividade grãos representa um dos melhores
arranjos produtivos e pode em muito incrementar a sustentabilidade
dos sistemas produtivos. Porém, é preciso conhecer as condições
edafoclimáticas da região bem como melhorar o manejo da pastagem
(intensidade de pastejo) e do componente solo (correção química e
estruturação física do solo). Ainda, estes sistemas de produção são
mais complexos e demandam maior conhecimento do técnico, que
precisa entender da parte vegetal e animal para conseguir gerir o
sistema, sendo que cada propriedade possui suas características e
demandas por tecnologias específicas.

Contextualizando a ILP
No Brasil a diversidade de culturas e as grandes extensões de
áreas tornam as técnicas culturais um grande desafio. A ampla diversi-
dade de ecossistemas e situações socioeconômicas que caracterizam
a agricultura brasileira demanda um tratamento especial e diferenciado
para se conseguir usar a terra com sustentabilidade, com particulari-
dades que dependem da região onde se busca uma atuação, e do tipo
de sistema agrícola e ou pecuário a ser utilizado, sendo necessário
entender todas as características do local, como riscos de geadas,
período de veranico, tipo de solo, declividade, adequando cada espé-
cie no melhor período, sempre buscando adaptação geral para que a
interação seja sinérgica entre os componentes do sistema.
Os agroecossistemas a serem utilizados como meio de pro-
dução, devem ser capazes de, concomitantemente, elevar ao máxi-
mo a produção agropecuária, mantendo a qualidade e conservação
dos recursos do sistema, sendo economicamente viável e que atenda
as demandas e necessidade da população e tradições do local.

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VI Simpósio Brasil Sul de Bovinocultura de Leite
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O desenvolvimento agrícola depende da produção de sistemas


que contemplem os seguintes aspectos: mitigação da ação e redução
dos gases de efeito estufa (GEE); protegendo e conservando a biodi-
versidade; com a ação de serviços ambientais; reduzindo a poluição/
contaminação do ambiente e do homem; conservando e melhorando
a qualidade do solo e da água; se valendo de um bom manejo inte-
grado de pragas; a valorização dos sistemas tradicionais de manejo
dos recursos; redução da pressão antrópica na ocupação e uso de
ecossistemas e adequação às novas exigências do mercado.
A degradação das pastagens é um dos maiores problemas da
pecuária brasileira, por ser esta desenvolvida basicamente em pasto,
afetando diretamente a sustentabilidade do sistema produtivo. O uso de
uma forrageira adequada às condições de clima e solo, bem formada,
livre de invasoras, com manejo adequado, respeitando-se a capacidade
de suporte da forrageira em uso e as exigências nutricionais das mes-
mas tem como resultado um aumento da longevidade das pastagens,
com produtividade econômica. Alguma falha em algum desses tópicos,
pode acelerar o processo de degradação (Kichel & Miranda 2001).
Um dos objetivos principais da ILP é a mudança do sistema de
uso da terra, baseando-se principalmente na integração dos compo-
nentes do sistema produtivo, objetivando se chegar a níveis cada vez
mais elevados de qualidade do produto, com qualidade ambiental e
competitividade. A ILP apresenta-se como uma estratégia para elevar
os efeitos desejáveis de produção, fazendo com que o aumento da
produtividade e a conservação de recursos naturais estejam asso-
ciados no processo de intensificação de uso das áreas já em uso no
Brasil, pelo uso mais adequado de insumos, aumento na eficiência
no uso de máquinas, equipamentos e mão de obra, as quais são uti-
lizadas em diversas atividades possibilitando, assim, gerar emprego
e renda e assim melhorar o poder aquisitivo no meio rural por gerar
uma intensificação das atividades dentro da propriedade.
A ILP é uma das tecnologias que fazem parte de uma agenda
de compromissos assumidos pelo Brasil, que preveem a redução das
emissões de GEE projetadas para 2020, para atingir níveis aceitáveis
conforme determinado na COP-15 realizada em Copenhague, e que
assim foi denominada “Plano ABC (Agricultura de Baixa Emissão de
Carbono)”.

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Nesse plano estão contempladas várias ações que vão desde


treinamentos técnicos com transferência de informações no processo
de capacitação a incentivos econômicos para a implantação do siste-
ma, pela transferência e difusão de tecnologia para os produtores
por meio de eventos técnico-científicos, simpósios e dias de campo.
A agricultura sustentável faz parte de um plano de desenvolvimento
sustentável em conjunto com outros setores como desenvolvimento
industrial, urbano e rural.
O ILP é mais estável do que os sistemas tradicionais, pois bus-
ca a eficiência no uso dos recursos naturais, principalmente do solo e
da água, por meio do aumento da biodiversidade.
A integração lavoura-pecuária (ILP) pode ser definida como a
diversificação, rotação, consorciação e/ou sucessão das atividades
de agricultura e de pecuária dentro da propriedade rural, de forma
harmônica, constituindo um mesmo sistema, de tal maneira que haja
benefícios para ambas. Possibilita que o solo seja explorado eco-
nomicamente durante todo o ano, favorecendo o aumento na oferta
de grãos, de carne e de leite a um custo mais baixo, devido ao sin-
ergismo que se cria entre lavoura e pastagem (Alvarenga & Noce,
2005).
Segundo Kichel e Miranda (2001), as principais vantagens do
uso da ILP são: recuperação mais eficiente da fertilidade do solo; fac-
ilidade da aplicação de práticas de conservação do solo; recuperação
de pastagens com custos mais baixos; facilidade na renovação das
pastagens; melhoria nas propriedades físicas, químicas e biológicas
do solo; controle de pragas, doenças e plantas daninhas; aproveita-
mento do adubo residual; maior eficiência na utilização de máquinas,
equipamentos e mão-de-obra; diversificação do sistema produtivo; e,
aumento da produtividade do negócio agropecuário, tornando-o sus-
tentável em termos econômicos e agroecológicos.
O aumento de produtividade dos componentes lavoura e ani-
mal em sistemas de ILP é resultante da interação de vários fatores
e, muitas vezes, de difícil separação. Além da melhoria das pro-
priedades físicas, químicas e biológicas do solo, a quebra de ciclos
bióticos (pragas, doenças) contribui para aumentar a produtividade
do sistema. A redução do uso de agroquímicos em razão da quebra

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dos ciclos de pragas, doenças e plantas daninhas é outro benefício


potencial ao meio ambiente dos sistemas mistos, como a integração
lavoura-pecuária (Vilela et al., 2008).
Diante de tanta informação que é demandada nesse sistema,
o produtor necessita de muita orientação técnica e ajuda para que a
integração seja eficiente na sua totalidade, e para isso precisa contar
com técnicos que tenham conhecimentos agronômicos, zootécnicos
e veterinários, capazes de sanar dúvidas de manejo relacionadas ao:
solo, onde envolve desde o uso de corretivos, adubação adequada
para cada tipo de cultura; planta, cada qual plantada na sua época
mais adequada para uma maior resposta ao potencial de produção,
rotação de culturas que contemplem as necessidades da propriedade
na produção de pastagem ou grão que gerem lucro, fazendo o mane-
jo do pastoreio de forma mais adequada para cada espécie e os tra-
tos culturais necessários para o bom desenvolvimento das plantas,
como manejo integrado de pragas e doenças; e animal, no manejo de
parasitas, verminoses, moscas e carrapatos e doenças, assim como
o balanceamento de rações, que atenda as necessidades ou exigên-
cias para uma boa alimentação, tanto para a produção de carne como
a produção leiteira. Podendo, portanto, o grão ser utilizado na pro-
priedade, na produção de ração, agregando valor ao produto e assim
aumentando a receita da propriedade.

Benefícios da pecuária para a lavoura


1. Produção de palha resultante da sobra de pastagem para ser us-
ado no sistema plantio direto, como cobertura do solo promovendo o
controle da erosão;
2. Eliminação de plantas daninhas devido ao uso e manejo mais in-
tenso das culturas diversificando as culturas e, portanto os herbicidas
com modos de ação diferenciados, favorecendo o controle das pos-
síveis plantas com potencial de se tornarem resistentes;
3. Reciclagem de nutrientes (extraídos de camadas profundas graças
ao sistema radicular das pastagens), pela multiplicidade de plantas
utilizadas no sistema de plantio direto, pela sucessão ou rotação de
culturas, e ou pelo consórcio entre plantas;

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VI Simpósio Brasil Sul de Bovinocultura de Leite
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4. Retorno de matéria orgânica ao solo pela melhor e maior produção


de palhada, favorecendo uma melhor estruturação do solo, diminuin-
do a erosão pela maior infiltração da água no solo.

Benefícios da lavoura para a pecuária


1. Aproveitamento do resíduo das adubações da lavoura, que induz
a um maior crescimento das pastagens instaladas na sequência, re-
duzindo custos na adubação, como da aveia ou milheto após soja em
sobressemeadura;
2. Produção de forragem de melhor qualidade, devido ao melhor
desenvolvimento das plantas que foram fertilizadas pelo aproveita-
mento do excedente não aproveitado pelas culturas anteriores;
3. Recuperação da produtividade da pastagem pela melhoria da fert-
ilidade do solo, onde a adição de fertilizantes no sistema integrado e
rotativo se faz necessário e apresenta boas respostas econômicas;
4. Menor custo na implantação de uma nova pastagem, devido ao
menor uso de fertilizantes e defensivos;
5. Aumento da produtividade de carne e leite, em decorrência da
maior produção em quantidade e qualidade do pasto melhorando a
capacidade de alimentação, pelo maior crescimento e menor tempo
de rebrote;
6. Ganho de peso dos animais e maior produção de leite, mesmo
na época de inverno pela rotação com culturas invernais de maior
qualidade.

A ILP faz com que se associem cultivos de alto rendimento,


principalmente o leite que tem o maior potencial de receita numa mes-
ma área, se comparada com a soja. Com esse sistema, cria-se um
uso intensivo do solo e da propriedade, com a rotação e diversificação
de culturas, traz mais segurança, diminuindo os riscos do monocultivo
por qualquer agente causador de sinistro, seca, geada, ataque de
pragas, doenças, excesso de chuvas na colheita, gerando maior sus-
tentabilidade da propriedade, mas para ela ser eficiente ela deve ser

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08, 09 e 10 de Novembro de 2016

uma atividade familiar onde a responsabilidade, o comprometimento,


a aptidão e o empreendedorismo devem caminhar juntos, e o produ-
tor deve ser orientado para a abertura de sua mente para a aceitação
de uma nova forma de manejo, para que haja quebra de paradigmas,
algumas tradições e preconceitos, para um novo sistema de con-
dução da propriedade. Pois, num sistema convencional (soja sobre
soja) onde o monocultivo intensivo prevalece, ocorre o aumento da
incidência de pragas de maior dificuldade de controle, como o caso
do percevejo marrom em soja, o percevejo barriga verde no milho, as
lagartas, tanto em milho (lagarta do cartucho) como em soja (falsa
medideira e a mais nova praga polifaga Helicoverpa sp), e doenças –
aonde os fungicidas tem perdido sua eficiência sobre doenças como
a ferrugem asiática. É importante destacar que a monocultura au-
menta a pressão de seleção e acelera o processo de evolução da
resistência de pragas e doenças aos defensivos agrícolas, dificultan-
do seu controle e causando uma série de problemas aos produtores.
O objetivo desse sistema (ILP) é diversificar e estabilizar a ren-
da do produtor, fazendo com que ele permaneça na propriedade, de
forma digna, pelo aumento da renda, pela redução dos custos e au-
mento do ganho por área, buscando a estabilidade da produção diante
dos extremos climáticos e instabilidades e inseguranças econômicas
de commodities, além da melhoria dos indicadores socioeconômicos
e ambientais.
O sistema pode ainda ser integrado a algum sistema florestal
em consórcio tanto na agricultura como na floresta (ILPF), que tem
o potencial de trazer uma fonte de renda, com alguns benefícios
a mais como conforto térmico para os animais (Pires et al., 2007)‫‏‬,
conservação de solo e água (Sanchez, 2001)‫ ‏‬diminuição da evapo-
transpiração, pela menor quantidade de corrente de ar que a copada
promove, aumentando a disponibilidade de água, melhorando a qual-
idade da pastagem; Melhoria propriedades químicas do solo. (Castro
et al., 2007)‫‏‬, em virtude da ciclagem de nutrientes devido a deposição
de folhas e ramos eliminados na desrama programada ou natural;
Aumento da atividade microbiana do solo (Rangel, 2005), com alta
quantidade de material orgânico, a vida no solo se acelera; Melhoria
valor nutricional da forragem (Paciullo et al., 2007)‫ ‏‬advinda de um
melhor crescimento, pela melhor manutenção da água no solo; Maior

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retenção de carbono (Tsukamoto Filho et al., 2004)‫‏‬, devido ao maior


potencial de armazenar carbono na vegetação e no solo, integrado as
outras culturas, comparado aos sistemas isolados.

A ILP em regiões de clima Cfa e Cfb


A Integração Lavoura-Pecuária (ILP) na região Sul do Brasil é
desenvolvida com diversos enfoques, isso porque dentro da mesma
existem diferentes sistemas de produção, como também existem dif-
erenças significativas em relação ao clima (Cfa e Cfb). O clima Cfb,
por exemplo, apresenta-se com temperaturas mais amenas e maior
risco de geadas em relação ao clima Cfa, afetando diretamente a
escolha das espécies e os sistemas de rotações utilizados na ILP.
Dessa forma, abaixo serão apresentadas algumas alternativas de ex-
ploração relacionadas aos climas presentes na região, considerando
que cada clima tem suas vantagens e desvantagens
Em regiões de clima Cfb, às condições edafoclimáticas dificul-
tam o cultivo de duas safras de verão e aumentam os riscos de frus-
trações na cultura do trigo, que poderia ser amenizado com atraso
da época de semeadura mas geralmente não o é porque atrasa a
semeadura da safra de verão e consequentemente seu rendimento.
Nesses locais, a ILP otimiza o uso das janelas produtivas e permite
uma melhor exploração dos recursos naturais.
Assim, para estas regiões, uma das melhores alternativas de
exploração do recurso solo é a utilização de milho/soja no verão e
aveia/azevém para pastejo no período de inverno. Como na primave-
ra as temperaturas são mais amenas, espécies como o azevém apre-
sentam um maior potencial produtivo e o pastejo pode ser prolongado
até meados de novembro, otimizando o ganho animal e a produção
de leite, que após este período é direcionada para áreas de pasta-
gens perenes de verão. Importante destacar que nestas regiões de
altitude, espécies como Hemarthria se destacam pela tolerância ao
frio e apesar de apresentarem menor qualidade quando comparadas
a espécies do gênero Tifton, apresentam potencial de uso dentro do
sistema produtivo.
Assim, a integração nessas propriedades se dá via uso médio
de ⅔ das áreas por forrageiras de inverno (aveia, azevém, trevos) e

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soja e milho no verão e em torno de ⅓ da área é manejada com past-


agens perenes de verão, que podem ou não ser sobressemeadas no
inverno. Espécies como trevo branco se adaptam muito bem nessas
regiões, por outro lado, apresentam baixa persistência em clima Cfa.
Em regiões de clima Cfa, as possibilidades de arranjos são ain-
da maiores. Em sistemas ILP, a utilização da safra para a produção de
silagem de planta inteira ou de grão úmido possibilita a produção de
uma segunda safra de verão, geralmente soja ou feijão. O cultivo de
safrinha após milho grão também é comum nestas regiões, mas o po-
tencial de rendimento é bem inferior à situação de milho silagem/soja
safrinha. Percebe-se assim que propriedades que trabalham com ILP,
o uso de milho para silagem (colhido geralmente 20 a 30 dias an-
tes do milho grão) pode viabilizar o cultivo de uma segunda safra de
verão em boa parte da região sul do Brasil.
Este fator possibilita a rotação de culturas, a maior inclusão do
milho no sistema produtivo e reduz a pressão de seleção sobre pra-
gas e doenças, retardando assim o surgimento de casos de resistên-
cia, o que resulta em aumento nas doses dos defensivos e/ou mesmo
a sua substituição por produtos menos seletivos.
A opção do cultivo de milho safrinha para produção de grãos
após soja apresenta riscos, principalmente em clima Cfb, por conta
do clima mais frio e maior possibilidade de geada. No entanto, em lo-
cais com altitudes menores do que 600 metros têm apresentado bons
resultados. Além disso, um dos maiores problemas é que após a mat-
uração fisiológica do milho (32 a 35% de umidade), os grãos perdem
umidade por evaporação, ou seja, nessa época do ano as condições
climáticas não o favorecem (dias curtos, baixas temperaturas e alta
umidade relativa do ar) e o processo se estende por mais tempo.
Nesse caso, a possibilidade de utilizar o milho para silagem de planta
inteira ou silagem de grão úmido resolve o problema de secagem do
material e evita perdas por descontos no armazenamento ou por grão
ardido.
Ainda neste contexto, sistemas de ILP aumentam a possibil-
idade de se cultivar milho na safrinha ou até mesmo a utilização de
cultivo consorciado de milho com gramíneas tropicais (braquiárias,
por exemplo) na safra, permitindo uma produção de forragem em

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uma época do ano conhecida com vazio forrageiro de outono. Ade-


mais, existe também a possibilidade de consorciar a cultura de verão
com plantas de cobertura, principalmente leguminosas como o feijão
guandu e a crotalária, que além de agregarem N ao solo, também tem
papel fundamental contra o pousio zero.

O componente pastagem
O componente pastagem define tanto o sucesso como o fra-
casso do sistema ILP, dependendo principalmente no manejo da in-
tensidade de pastejo e nível de adubação praticado. Várias pesquisas
relatam os benefícios da pastagem sobre o componente solo devido
a sua capacidade de produção radicular, exsudação radicular e cicla-
gem de nutrientes, melhoria na estrutura, melhorias na taxa de infil-
tração e retenção de água, redução da erosão além de outros fatores
como supressão de plantas daninhas, alta capacidade de produção
animal e retorno econômico, etc.
Neste cenário, espécies perenes de verão tem se destacado
pela sua alta capacidade de suporte (5 a 6 UA/ha/ano), capacidade
produtiva (15 a 20 mil litros/leite/ha/ano), rebrota e pastejo antecipado
na primavera e produção adentro do outono em relação às espécies
anuais, maior tolerância ao pastejo e menores riscos de investimen-
tos. Portanto, enfatiza-se que a base alimentar das propriedades na
ILP deve vir de pastagens perenes, tendo as anuais de verão como
um suporte aos vazios forrageiros de primavera e outono.
Ainda, considerando que a alimentação animal pode represen-
tar de 60 a 70% dos custos de produção, é inerente que pra ser um
bom produtor de leite é preciso ser um bom produtor de pasto. Sem
dúvida, a produção de leite a base de pasto tem sido a forma mais
eficiente para redução dos custos, para a sustentabilidade do sistema
e para a manutenção dessas famílias no meio rural de forma compet-
itiva e com geração de renda.
No entanto, em muitos casos, devido ao mau manejo, a past-
agem representa um fator de degradação do solo, seja pelas altas
intensidades de pastejo impostas, seja pela falta de cobertura do
solo, falta de reposição nutricional, desestruturação e compactação

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do solo, que acabam por afetar outros componentes do sistema, prin-


cipalmente a componente grãos.
Um dos maiores dilemas enfrentados na produção animal a
pasto está no manejo da planta forrageira frente ao sustento dos an-
imais. É preciso compreender que de um lado, temos seres autotróf-
icos - as plantas - que necessitam de sua área foliar (preferencial-
mente as folhas) para a realização da fotossíntese e consequente
produção de biomassa e do outro lado, temos os animais, hetero-
tróficos, que necessitam das plantas como fonte básica de alimen-
to (preferencialmente as folhas) para seu desenvolvimento e repro-
dução. Assim, ambos necessitam que haja um manejo benéfico, que
aperfeiçoem ao mesmo tempo tanto a produção vegetal (pastagens,
grãos) como animal.
O índice de área foliar (IAF) é um dos critérios de manejo que
podem ser utilizados no manejo de pastagens. O IAF nada mais é do
que a relação entre a área foliar e a área de solo que essas folhas ocu-
pam (Marcelino et al., 2003). Essa variável é derivada da combinação
entre características estruturais do dossel em uma pastagem. Assim, o
tamanho das folhas, a densidade populacional de perfilhos e a quanti-
dade de folhas por perfilho definem esse índice (Chapman e Lemaire,
1993). Correlacionado com o IAF está à capacidade de interceptação
de luz e a quantidade de luz interceptada e absorvida pela planta, ca-
pacidade fotossintética e por fim, a produção de matéria seca (Fagun-
des et al., 2006). Por conta dessa inferências, o IAF também é fator
fundamental na rebrota das plantas forrageiras (Barbosa et al., 2002)
e pode ser correlacionado com a altura das plantas, fator facilmente
determinado a campo e de fácil observação pelos produtores.
Por exemplo, em casos em que o pasto apresenta baixos índi-
ces de área foliar remanescente pós pastejo, a capacidade de rebrota
é reduzida, diminuindo também o crescimento radicular e o desen-
volvimento das plantas (Carnevalli et al., 2001). Ou seja, quando a
intensidade de desfolha realizada pelos animais é muito alta, a sua
produção é afetada.
Muitos produtores pensam que para que haja maior aproveit-
amento das pastagens, há a necessidade de retirar a máxima quan-
tidade de forragem do campo, não havendo sobras. Por conta dis-

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so, associado à falta de planejamento alimentar, a realidade de altas


pressões de pastejo e os altos índices de degradação das áreas de
pastagens é facilmente encontrada. Por exemplo, para Neves et al.,
(2009), pastagens que apresentam altas lotações (alta eficiência de
colheita), exprimem a ideia de que há maior aproveitamento do pasto
por conta da baixa quantidade de massa remanescente. Porém, o
que está por trás disso é a diminuição da captura de radiação e queda
na taxa de acúmulo pela planta, resultando em menores produções.
Portanto, deve-se ter em mente que o conceito de eficiência
de colheita não preza pelo maior aproveitamento, mas sim pelo uso
de intensidades que sejam intermediárias. Nesse sentido, a utilização
de critérios de manejo que sejam adequados, ou que promovam o
manejo de altura do pasto ideal, ou seja, que respeitem o índice de
interceptação luminosa de 95% (Brougham,1956) para a entrada dos
animais e que também apresentem eficiência de colheita em torno
de 50 a 60% da forragem, seriam estratégias contra o processo de
degradação e a favor da intensificação da produção sustentável. Se-
gundo Carvalho (2013), as alturas de saída devem representar até
50% da altura de entrada, isso porque as taxas de ingestão pelo ani-
mal caem muito ao se amentar a eficiência de colheita acima de 50%
e também porque a planta precisa de uma área foliar residual para
apresentar uma rápida rebrota.
Além da relação existente entre o consumo e quantidade de
fibra presente nos alimentos, a disponibilidade e a qualidade de for-
ragem também estão extremamente relacionadas. Segundo Silva et
al. (2009), baixas quantidades de forragem disponíveis provocam a
queda na ingestão de matéria seca, por conta da redução do taman-
ho de bocados, mas também pelo aumento do tempo de pastejo dos
animais (Minson, 1990). Ainda, características como a altura, folha/
colmo e a densidade da pastagem também afetam o consumo. Tais
fatores atuam diretamente sobre o tamanho de bocado, a taxa de
bocado e também o tempo de pastejo (Stobbs, 1973).
Ademais, problemas relacionados ao bem estar animal po-
dem também influir sobre o consumo animal. Por exemplo, grande
variações na temperatura ambiente podem fazer com que a capaci-
dade de manter a temperatura corporal ideal, ou seja, a homeotermia,
pode ser desestabilizada, afetando além do consumo, a digestão, a

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absorção e o metabolismo (Nascimento et al., 2009). Assim, sistemas


produtivos sustentáveis devem buscar oferecer sobra e água a fim de
propiciar o bem estar aos animais.

Cultivo consorciado milho + forrageiras


O cultivo de duas espécies em uma mesma área trás muitas
vantagens para o solo, melhora a ecologia geral, possibilita o uso
mais eficiente do espaço, além de obter maior produtividade em uni-
dade de tempo, atendendo uma maior demanda de alimentos. Em
sistemas singulares de produção, o produtor acaba não estabelecen-
do o consórcio milho + Brachiaria porque tem como objetivo fazer
uma segunda safra, popularmente chamada de ‘‘safrinha’’, de soja ou
milho. Em sistemas de ILP, este consórcio se viabiliza mais facilmente
uma vez que após a silagem do milho e/ou colheita de grãos, esta
pastagem será utilizada para pastejo e produção animal.
Os cultivos consorciados tem se tornado uma alternativa inter-
essante perante o cultivo singular, pois garante melhor aproveitamen-
to da luminosidade (Matusso et al., 2012), melhora e incrementa fer-
tilidade do solo e possibilita um maior controle de plantas invasoras.
Porém há necessidade de conhecer quais as características morfofi-
siológicas de cada espécie para que o arranjo espacial das mesmas
favoreça o crescimento e desenvolvimento sem que haja competição
mútua de recursos, desse modo é possível obter sucesso no sistema
consorciado (Gurigbal, 2010).
Cultivos consorciados com a implantação da forrageira na en-
trelinha do milho tem se apresentado mais efetiva que a semeadura
a lanço em área total. Esta pode ser feita com o uso de semeadoras
múltiplas, colocando a semente da Brachiaria na caixa de semente
de trigo com mecanismo sulcador tipo disco duplo nas entrelinhas do
milho ou adaptada em semeadoras simples com a adaptação e/ou
uso de caixa de sementes miúdas. Ainda, a competição no consórcio
pode ser amenizada com o uso de meia dose de atrazina, que per-
mite ao mesmo tempo uma certa supressão da Brachiaria e controla
as plantas daninhas.
A utilização do consórcio apresenta diversos ganhos ao sistema,
como por exemplo, a maior produção de biomassa, maior supressão

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de plantas daninhas, plantas de raízes abundantes resultando em


maior estruturação do solo resultando em maior taxa de infiltração e
retenção de água, produção de forragem em quantidade e qualidade
em períodos de vazio forrageiro (Gonçalves e Franchini, 2007) sendo
que estes efeitos resultam em maior rendimento da cultura seguinte.
Em experimentos avaliados na UTFPR, campus Dois Vizinhos,
a Brachiaria cultivada em consórcio com milho apresentou uma pro-
dutividade próxima de 60 t de MV/ha e/ou 17 t/MS/ha no período de
fevereiro a maio. Esta biomassa pode suprir a demanda dos animais
nesta época do ano e resultas em bons ganhos animais por hectare,
superando até os ganhos com uma eventual safrinha de soja e/ou
feijão, que apresentam nesta época do ano, altos riscos de investi-
mento.
Uma grande possibilidade a ser utilizada é o consórcio mil-
ho-braquiária (Urochloa spp.), que é muito utilizada em Sistemas Inte-
grados de Produção (SILP). Tornou-se uma boa alternativa para esta-
belecimento de pastagens, visto que a produção de forragem é obtida
na entressafra, com a possibilidade de bom aporte de resíduos para
na próxima safra. Além do mais, com o estabelecimento do consórcio,
ao se realizar a colheita de grãos, a pastagem já está estabelecida e
pronta para pastejo. Portes et al., (2000), observaram que a produtivi-
dade do milho em consórcio com Urochloa brizantha não diferiram do
milho cultivado solteiro, utilizando híbridos de milho precoce com um
ciclo de produção de até 132 dias.
Ceccon et al., (2013) relata uma maior produção de massa seca
total nos consórcios milho + Urochloa brizantha e milho + Urochloa
ruziziensis, favorecendo uma melhor cobertura do solo e melhor esta-
belecimento da safra seguinte, além de aumentar a ciclagem de nutri-
entes. Uma vantagem deste consórcio é de que o milho é dominante,
esse fato faz com que diminua a competição interespecífica. Vale a
pena ressaltar também a possibilidade de implantação desse consór-
cio em locais de clima Cfa na Região Sul, de forma viável e produtiva.
Em estudo realizado por Almeida (2014), pode se observar que
a braquiária não prejudica a produtividade do milho no consórcio,
quando a planta forrageira é manejada como espécie subordinada, e
não há necessidade de aumentar a dose de N em sistema de consór-

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cio de milho com braquiária. Do mesmo modo, consegue-se produzir


grãos e forragem logo após a colheita do milho, para formação de
pastagem em ILP ou para suprir uma demanda em uma época do
ano crítica na oferta de forragem (março a maio), ou para formação
de resíduos ao cultivo em sistema plantio direto.
De forma geral, a pergunta que deve ser feita é: mesmo que
ocorra redução de produtividade do milho no consórcio, ainda assim,
é viável o cultivo em consórcio? Esses benefícios podem ser traduz-
idos em quantos reais por hectare ano? Não temos dúvidas que os
benefícios que a Brachiaria traz para o sistema superam no médio
prazo as possíveis perdas de rendimento do milho, o fato é que es-
tes parâmetros são difíceis de serem mensurados/quantificados em
reais por hectare e geralmente tem efeito no tempo em médio e longo
prazo, ou seja, pode ser que esses benefícios não se expressem ao
máximo na primeira safra de soja após o consórcio, mas ao longo do
tempo.
Outra possibilidade de consórcio é o cultivo de milho sobre
leguminosas perenes, como no exemplo milho + trevo branco. Em
casos de semeadura sobre a cultura do trevo já estabelecido, é
necessário que existam condições que favoreçam o desenvolvimen-
to inicial do milho. Nessa situação, é possível realizar a supressão
do crescimento do trevo através da aplicação de herbicidas, como
também a aplicação de nitrogênio no sistema para propiciar maior
crescimento do milho frente ao trevo (Zemenchik et al., 2000). De
acordo com Ziyomo et al., (2013), duas aplicações de herbicida, antes
e depois da semeadura do milho, podem suprimir o crescimento do
trevo, possibilitando melhor desenvolvimento da cultura e evitando
problemas e competição.
Além do aporte de biomassa condicionada pelo uso do tre-
vo, essa estratégia apresentasse como uma forma de uso eficiente
do solo. Nutman (1969) afirma que espécies de trevo são capazes
de fixar até 350 Kg ha-1 ano-1 de N, além de trazer diversos outros
benefícios como a redução na incidência de plantas daninhas, pela
manutenção da cobertura do solo, redução de perdas e maior cicla-
gem de nutrientes, aporte de matéria orgânica, melhorias na estrutura
do solo, e por fim, contribui para minimizar efeitos do processo ero-
sivo do solo.

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Em trabalhos conduzidos na UTFPR, produtos como imaze-


tapir na dose de 100 g i.a ha podem ser utilizados para controle de
plantas daninhas no trevo branco. Ainda, quando se busca o consór-
cio de milho sobre trevo branco estabelecido a um ano, o uso de
moléculas como glyphosate na dose de 800 a 900 g i.a ha é uma boa
opção para supressão do trevo branco, redução da competição com o
milho, permitindo ao mesmo tempo, a perenização do trevo nas áreas
produtivas. Ou seja, após a colheita do trevo em fevereiro/março, o
trevo está estabelecido e pronto para ser pastejado novamente. Dos-
séis de trevo estabelecidos há mais tempo (trevos já perenizados)
apresentam maior poder de competição com o milho e doses maiores
de glyphosate com aplicação sequencial são necessárias a fim de
reduzir a matocompetição e o potencial de redução na produtividade
do milho, o que acaba por comprometer o reestabelecimento do trevo
pós-colheita do milho.

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PANORAMA DO MERCADO LÁCTEO

Dr. Thiago Francisco Rodrigues


...

O material não foi recebido em tempo hábil para publicação


nos anais.

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NUTRIÇÃO DE PRECISÃO PARA MAXIMIZAR A


EFICIÊNCIA ECONÔMICA

Resumo Palestra Alexandre Pedroso


VI Simpósio Brasil Sul de Bovinocultura de Leite

Implantar um programa de nutrição de precisão, com manejo


alimentar eficiente, em fazendas leiteiras não é complicado e nem
implica necessariamente em aumento de custos. O fundamental é
sempre buscar a máxima eficiência nos processos, e entender que
para uma vaca nos dar o retorno econômico que buscamos, precis-
amos atender integralmente as suas necessidades nutricionais e de
bem-estar. O objetivo é aumentar a eficiência de uso dos nutrientes,
através de formulações mais precisas e mais cuidado e atenção nos
processos do manejo alimentar. Quando se consegue fazer isso, a
fazenda tem diversos benefícios, como melhor desempenho dos ani-
mais, menores custos de alimentação e obviamente, mais lucro.
O bem-estar das vacas, traduzido naquilo que entendemos
por conforto para os animais, tem um impacto muito grande sobre
o desempenho e eficiência do rebanho. A falta de conforto para as
vacas resulta em menor consumo de alimentos e menor produção de
leite, além de piores índices reprodutivos. Investir bem em oferecer
as melhores condições de conforto para as vacas via de regra gera
resultados muito positivos.
Com relação ao manejo da alimentação, muitos produtores e
técnicos focam apenas na formulação da dieta das vacas, mas temos
que nos preocupar com muitas outras coisas além disso. Para for-
mular adequadamente uma dieta é preciso conhecer a composição
dos alimentos, e no caso dos volumosos usados na fazenda é funda-
mental coletar boas amostras para enviar ao laboratório de análises.
Vemos muitos erros na hora de coletar amostras de alimentos, e isso
pode gerar informações erradas para o nutricionista usar no momento
de formular.
Outro ponto fundamental é manter boa qualidade e uniformi-
dade nas misturas dos alimentos. Mistura mal feita gera muita inefi-
ciência no processo de alimentação, e isso prejudica muito a rentab-

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VI Simpósio Brasil Sul de Bovinocultura de Leite
08, 09 e 10 de Novembro de 2016

ilidade da fazenda. O custo dos alimentos sempre é elevado, temos


que ter muita atenção para que sejam bem utilizados. Hoje dispo-
mos de muitas ferramentas que nos ajudam a avaliar a qualidade
e consistência das misturas nas fazendas, bem como ferramentas
que nos auxiliam a verificar o aproveitamento da dieta pelas vacas.
A análise das fezes dos animais, por exemplo, é um grande auxiliar
para a avaliação da eficiência de uso dos alimentos pelos animais. É
um processo simples de fazer, e pode muito bem ser adotado como
rotina nas fazendas.
Para alcançar elevada eficiência também é importante estar
atento para o que existe de novo em termos de nutrição e alimen-
tação de rebanhos leiteiros. Muitas vezes nos prendemos a conceitos
antigos que não fazem mais sentido. Como costumo dizer, temos que
quebrar paradigmas. Um destes conceitos ainda bastante arraigados
na cultura de muitos produtores de leite no Brasil é a questão da
Proteína Bruta das dietas como parâmetro de qualidade. Hoje sabe-
mos que isso é questionável, e em termos nutricionais é preciso fo-
car em atender adequadamente os requerimentos das vacas pelos
nutrientes que elas efetivamente utilizam, e nenhuma vaca tem re-
querimento por Proteína Bruta. O produtor de leite que quer melhorar
sua eficiência produtiva, tem que consultar um bom nutricionista que
possa auxiliá-lo a alimentar melhor as vacas, trabalhando dentro do
que chamamos de Nutrição de Precisão. Isso é um atalho para se
conseguir melhorar o desempenho animal, reduzir os custos de ali-
mentação e melhorar a lucratividade da fazenda.

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Este foi o primeiro artigo publicado a resgatar a ideia da pos-


sibilidade de se usar as propriedades antimicrobianas dos óleos es-
senciais na manipulação da fermentação ruminal de bovinos. Estava
no final de meu mestrado ao ler esse artigo. Foi sua leitura que me
despertou para a área, fazendo-me depois ir estudar junto ao Prof.
Sergio Calsamiglia na Espanha.

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Em tom de brincadeira, devemos lembrar que o assunto trat-


ado aqui em nada se assemelha com aquilo que presenciamos ao
ir a uma feira livre. Muito embora as aplicações dos OE tenham sido
desenvolvidas pelo empirismo (tentativa, observação, erro/acerto) de
populações tradicionais humanas, também não podemos confundir
o assunto dessa palestra com práticas tais quais o curandeirismo.
Como curiosidade, menciono aqui a existência de um ramo da ciên-
cia chamado etnofarmacologia, responsável por transferir ao método
científico conhecimentos gerados pelo empirismo de populações tradi-
cionais humanas. Assim, peço que se livrem de qualquer “pré-con-
ceito” inicial e que estejam com a mente aberta para os assuntos que
trataremos a seguir.

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Igualmente, não há espaço para bruxarias aqui nessa palestra.

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A ciência por trás dos OE está alicerçada no emprego do mét-


odo científico, na capacidade de gerar hipóteses, testa-las usando
métodos experimentais aprovados, coletando e interpretando os re-
sultados. Por fim, aceitando ou refutando a hipótese inicial.
Se digitarmos a palavra “essential oils” no site de busca científ-
ico Web of Science mais de 35000 trabalhos irão aparecer.
A título de curiosidade, ano passado 50% do Prêmio Nobel de
Medicina foi ofertado à pesquisadora chinesa Tu You You, fruto de
um trabalho de vida inteira dedicado à compreensão do combate à
malária via o uso da artemisinina.

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Ao falarmos dos efeitos biológicos dos OE, não podemos deix-


ar de mencionar em primeiro lugar a ação antimicrobiana de mui-
tos deles. Aqui, somente para exemplificar, apresentamos algumas
capas de artigos científicos sobre o tema, dando ênfase ao recente
interesse da área médica pela combinação de OE com antibióticos
convencionais a fim de se reduzir o desenvolvimento de resistência
bacteriana.

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Em segundo lugar, devemos mencionar as ações anti-in-


flamatórias e antioxidantes dos OE. Essa, uma das fronteiras do con-
hecimento em relação à aplicação dos OE na nutrição e saúde de
animais de criação (aves, suínos, bovinos, peixes etc).

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Transferindo para a prática, as respostas antioxidante, anti-in-


flamatória e imunoestimulante dos OE são benéficas, por exemplo,
na promoção da integridade intestinal. A mucosa intestinal é continu-
amente desafiada por lipopolissacarídeos (LPS; endotoxinas), mico-
toxinas, peróxidos, agentes químicos dos mais diversos, bactérias,
vírus e parasitas (coccidea etc), sendo a resposta imune essencial ao
correto funcionamento da mesma. Ao resultado da agressão causada
na parede intestinal por essas substâncias e agentes dá-se o nome
de “leaky gut”, ou intestino permeável em livre tradução.

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Efeito antinociceptivo: que anula ou reduz a percepção e trans-


missão de estímulos que causam dor. Os OE são também conhecidos
pelas suas propriedades analgésicas. Nos consultórios odontológicos
e na piscicultura faz-se uso de OE com essa finalidade.

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Sabe-se que na produção animal moderna, o estresse do


transporte “campo de produção-abatedouro” causado aos animais
recém-acabados é fonte de muitos prejuízos econômicos. Em muitas
situações, principalmente na avicultura, essa distância é importante
gargalo na decisão do raio de ação de uma unidade frigorífica. Em bo-
vinos, isso é menos preocupante, mas igualmente válido quando trat-
amos das distâncias cada vez maiores viajadas por animais criados
em pastagem que são destinados ao acabamento em confinamento.
Aqui, trabalho científico recém publicado que reporta efeitos
benéficos da alimentação prévia de OE também durante o transporte
ao abatedouro (suínos no caso).

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Efeitos respiratórios positivos dos OE são também muito bem


documentados pela pesquisa.

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Exemplos de remédios tarja vermelha destinados ao uso hu-


mano e que possuem como seus princípios ativos os OE.
Unguentos e pastas como vick vaporub e calminex também
possuem OE nas suas formulações.

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Vejam que OE estão amplamente distribuídos na cadeia de


produtos para uso humano, seja na área alimentícia, na de cosméti-
cos ou de saneantes domissanitários.

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Compostos secundários de plantas são um guarda-chuva bas-


tante amplo. Recebem esse nome pois são produzidos pelo chamado
metabolismo secundário das plantas, sendo este rotas metabólicas
que não possuem como finalidade a produção de compostos nutri-
cionais. Os OE são quimicamente chamados de terpenos e fenilpro-
panos.
O termo OE possui por origem o termo em latim “quinta es-
sentia”. Essência em português, algo fundamental/primordial ou a
natureza de um ser. Devemos lembrar que no mundo antigo, o con-
hecimento da época considerava a existência de quatro componentes
principais da vida: o fogo, o ar, a terra e a água.
Havia, por conseguinte, uma quinta essência, aquela que se-
ria uma substância volátil e etérea responsável por manter os astros
(estrelas e planetas) suspensos no firmamento. A palavra óleo essen-
cial foi cunhada justamente em alusão a esse termo. O termo óleo,
infelizmente permaneceu ao longos dos anos, pois ao tato e aos ol-
hos óleos essenciais se assemelham bastante com as gorduras e AG
(propriedades lipofílicas, não miscíveis em água).

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Os OE são obtidos usualmente por meio de extração a vapor


(arraste) ou utilizando solventes. Existem também métodos mais re-
finados como via uso de fluido supercrítico (CO2 em alta pressão) e
métodos tradicionais como o enfleurage.
Como curiosidade, a morfina, que vem da papoula, é um tipo de
alcalóide, dando origem à droga ópio. Outros exemplos de compostos
secundários, esses mais próximos a nós, são os taninos, flavonoides
e antocianinas. A lignina, compostos estrutural dos vegetais, muito
estudado por nós da nutrição de ruminantes, também é um composto
fenólico e classificada como um composto secundário.

Status GRAS pelo FDA dos EUA. Outros exemplos de ação


são as atividades antimicótica, antiviral, antihelmíntica, repelente
também.

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Vocês devem estar se perguntado: “Como OE são capazes de


gerar tantas respostas fisiológicas?” Uma das razões é a de que são
moléculas muito simples e de baixo peso molecular, capazes de afe-
tar diversas estruturas celulares. Isso ocorre como resultado do pro-
cesso de evolução e da seleção natural dos organismos vegetais ao
longo da evolução da vida na Terra. Óleos essenciais foram selecio-
nados devido justamente a sua diversidade de ação. Plantas ocupam
um nicho ecológico complexo, são desafiadas por fungos, bactérias,
vírus, nematoides, animais predadores, radiação solar, precisam se
comunicar com insetos e animais polinizadores etc. Logo, óleos es-
senciais foram selecionados em razão de sua ampla gama de ações.
A célula em questão na figura pode ser entendida tanto como
uma célula bacteriana ou animal. Igualmente, esse amplo e diverso
mecanismo de ação faz com que a célula microbiana seja atacada
simultaneamente por diversas frentes, o que reduz substancialmente
a chance de geração de resistência. Devemos lembrar e fazer a com-
paração com os antibióticos, que em sua grande maioria, possuem
mecanismos de ação únicos e muito bem definidos.

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Por fim, OE são também capazes de afetar o que chamamos


de “comunicação química entre bactérias”, do termo científico em in-
gês “quorum sensing”. Os OE, ao causarem ruído nesta comunicação
microbiana, não promovem pressão de seleção nas populações, logo
não resultariam em desenvolvimento de resistência. Por fim, impor-
tante comentar que quorum sensing é mecanismo microbiano essen-
cial para a formação de biofilme e para a invasão e colonização do
intestino animal por microrganismos.

Para comprovar esse amplo espectro de ação, aqui apresen-


tamos estudo com eugenol (OE do cravo) em Campylobacter (impor-
tante microrganismo causador de problemas entéricos em humanos,
é uma zoonose). Vejam que o uso de eugenol elevou a expressão
gênica da enzima catalase em 52 vezes. Essa enzima é necessária
para a degradação de peróxido de hidrogênio, evitando seu acúmu-
lo e consequentes danos ao funcionamento celular. Ao aumentar a
catalase, significa que eugenol está causando estressse ao micror-
ganismo. Igualmente, vejam que houve aumento na expressão de
chaperonas (agentes necessários à preservação do DNA celular) e
de cochaperoninas (proteínas necessárias ao correto enovelamen-

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to proteíco). Logo, ao “produzir” mais desses compostos pode-se


concluir que Campylobacter se encontrava sob estresse. Ao mesmo
tempo, vejam que houve downregulation (redução da expressão gêni-
ca) para epimerase e FlhB, fatores esses que estão relacionados à
virulência da bactéria. Logo, conclui-se que sobre estresse causado
pelo eugenol o Campylobacter tornou-se “menos agressivo/nocivo”.
Como último ponto, vejam que houve downregulation para proteínas
localizadas na membrana externa, sendo essas essenciais ao tran-
porte de macromoléculas do meio externo para o intracelular. Con-
clui-se aqui que o eugenol afetou o funcionamento da membrana ex-
terno do microrganismo.

Continuação do slide anterior. Figuras A e B são do Controle.


Figuras C e D são do Campylobacter exposto ao eugenol. Vejam que
em C e D as bactérias se encontram menos espiraladas ou mais es-
tendidas, morfologia não usual para Campylobacter (sinômino de es-
tresse fisiológico causado pelo eugenol).

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Ponto vital de nossa palestra este aqui. Os OE não são lipídios


ou ácidos graxos propriamente ditos (quero dizer lípídios de arma-
zenamento de energia como o ácido linoleico, aquele que se encontra
em maior proporção no óleo de soja). Novamente, OE são quimica-
mente classificados como terpenos e fenilpropanos. Possuem como
molécula estrutural um composto de 5 carbonos chamado isopreno.
Os OE podem apresentar diversas funções químicas, tais como hi-
drocarboneto, álcool, aldeído, fenol, ester, éter, cetona etc.
Vejam que as estruturas moleculares do carvacrol (OE ma-
joritário do orégano) e do cinamaldeído (OE principal da canela) são
profundamente diferentes ao compararmos com a estrutura dos AG.
Estes últimos possuem estrutura linear, altamente reduzida (rica em
H) e contendo o grupo carboxílico ao seu início.

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Exemplos de OE clássicos. Carvacrol e Timol – orégano; Ci-


namaldeído – canela; Eugenol – cravo; Timol – tomilho; Anetol –
anis; Zingibereno – gengibre; Cineol – alecrim e eucalipto; Vanilina
– orquídea. Capsaicina na verdade é um alcalóide e possui um rad-
ical AMIDA (contém N). Capsaicina é aqui apresentada, pois alguns
produtos comerciais à base de OE possuem capsaicina em conjunto.
Falaremos de capsaicina mais a diante.

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Comercialmente falando, muito importante também é não con-


fundir OE com óleos funcionais. No mercado, óleos funcionais são
uma terminologia normalmente utilizada para se referir ao ácido rici-
noléico e ao líquido da castanha de cajú (LCC). O ác. ricinoléico vem
da mamona e é um ácido graxo por natureza. O LCC é um subprodu-
to da exploração da castanha de cajú, possuindo o cardol, cardanol e
ácido anacárdico como seus compostos majoritários. Esses, por sua
vez, podemos denominá-los de “ácidos graxos fenólicos”. Possuem
um radical fenólico juntamente a uma cadeia de 15 carbonos que
possui diversos graus de insaturação (ilustrado na figura da direita
pela letra “R”).

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Aqui sumarizamos os principais efeitos fisiológicos dos OE em


ruminantes.

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Esses são os títulos dos primeiros trabalhos científicos que es-


tudaram os efeitos manipuladores dos OE na fermentação ruminal.
Datam dos anos 50 e 60, feitos por pesquisadores americanos de
Illinois, Califórnia e Colorado. Com o advento dos antibióticos promo-
tores de crescimento, o interesse por essa área de pesquisa perdeu
prioridade nessa época.

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Neste slide, evisões de literatura recentes sobre as ações dos


OE nos processos digestivos do rúmen. O interesse pelos OE na nu-
trição animal foi resgatado no início do ano 2000, época em que a
União Europeia iniciava seu processo de banimento de antibióticos
promotores de crescimento. Ressalta-se que revisões são artigos
científicos que reúnem o conhecimento sobre um determinado tema,
o que ilustra que o conhecimento sobre OE e rúmen já é bastante
grande. Ao mesmo tempo, é uma área que interessa ao mundo todo,
aqui ilustrada por revisões originadas de diversos países.

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Assim como para os ionóforos, bactérias gram + são mais


sensíveis e permeáveis aos OE do que bactérias gram -. Essa carac-
terística permite aos OE a manipulação da fermentação ruminal.

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Apresenta-se aqui um dos mecanismos propostos aos OE


(nesse caso carvacrol). Notem que é exatamente igual ao mecanismo
da monensina (ionóforo mais utilizado na nutrição de bovinos). Eles
funcionam como um carreador de H para dentro da célula (citoplasma
na figura), e ao saírem da mesma levam consigo um íon potássio.
Isso causa na célula em desbalanço interno de pH, o que torna o mi-
crorganismo menos apto a sobreviver.

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Efeito dose resposta clássico de blend de OE (carvacrol, ci-


namaldeído e extrato de pimenta) no rúmen de ovelhas. Redução
linear de acetato e aumento linear de propionato, com consequente
queda na relação acetato:propionato. Essas alterações são sinônimo
de um processo fermentativo mais eficiente, de uma menor produção
de metano, de uma melhor conversão da energia bruta do alimen-
to em compostos químicos passíveis de serem usados pelo bovino
como fonte de energia.

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Comparação de monensina e anetol (OE do anis) frente a


um grupo controle usando novilhas. Ácidos graxos de cadeia curta
(AGCC) são subprodutos da deaminação (quebra de aminoácidos
em amônia + esqueleto carbônico). Trataremos desse assunto mais
a seguir na seção sobre degradação proteica.
Novamente alterações nas proporções molares de acetato e
propionato, mostrando respostas semelhantes entre monensina e
anetol.

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THY = Thymus vulgaris, timol; CIN = Cinnamomum zeylanicum,


cinamaldeído. MON = 33 mg/ kg MS. Novamente respostas clássicas
de alteração de padrão fermentativo.

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Saímos da área energética relacionada ao rúmen e entramos


no assunto degradação proteica ruminal. Ilustração típica do proces-
so de degradação proteica no rúmen, a qual ocorre por etapas. Bac-
térias como a da família das hiper-produtoras de amônia são muito
sensíveis aos OE (possuem baixa concentração inibitória mínima).
Esses microrganismos vivem em concentrações muito baixas no
rúmen, porém possuem atividade de quebra de peptídeos e de ami-
noácidos até 1000 x maior do que as populações microbianas mais
importantes do rúmen. Atingir de maneira certeira essa população se
traduz em maior passagem de PNDR para o rúmen, algo bastante
benéfico às vacas leiteiras, principalmente aquelas de mais alta pro-
dução.

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Trabalho do Journal of Dairy Science mostrando queda na pop-


ulação de bactérias hiperprodutoras de amônia ao se alimentar ovel-
has com blend de OE (carvacrol, cinamaldeído e extrato de pimenta).

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Uma grande parcela das bactérias hiperprodutoras de amônia


é composta por Clostidium sp. Vejam nesse artigo de pesquisadores
da Ohio State University que, usando a técnica de microbiologia de
microarranjos, Clostridium foi sensível ao OE de orégano e de alho.
Prevotella, um grupo gram negativo, foi insensível aos OE.

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Zataria multiflora (ZEO; timol 21%, carvacrol 32%) e Mentha


spicata (SEO; carvone 55%). Trabalho australiano confirmando sen-
sibilidade de Clostridium isolado do rúmen aos OE. Doses crescentes
dos OE promoveram redução da produção de amônia. Lembrando
que Clostridium é microrganismo deaminativo.

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HAB – hyper ammonia producing bacteria, da sigla em inglês.


Gráfico mostrando a mesma sensibilidade de bactérias hiperproduto-
ras de amônia aos OE.

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Traduzindo para a prática, vejam que o uso de OE em novil-


has Holandesas reduziu a concentração de amônia no rúmen. Para
que isso possa ocorrer, houve concomitante aumento de AA e de
peptídeos de tamanho pequeno. Isso, via “by pass” pode então re-
sultar em maior aporte de proteína não degradável no rúmen (PNDR)
aos intestinos de nossa vaca leiteira.

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Por fim, o último assunto relacionado ao rúmen é em relação


aos protozoários. Aqui, gráfico mostrando efeito dose dependente
de OE diminuindo a concentração da contagem de protozoários no
rúmen.

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Aproximadamente 50% da massa microbiana ruminal é com-


posta pelos protozoários. Eles são microrganismos de grande ta-
manho. Ao compararmos com bactérias, em tamanho seria propor-
cionalmente como colocar um treminhão ao lado de uma pessoa.
Protozoários possuem uma ciclagem interna no rúmen bastante el-
evada, ou seja: crescem e morrem dentro do rúmen proporcional-
mente muito mais do que bactérias. Devemos lembrar que isso não é
interessante ao bovino, já que a vaca leiteira é, em sua essência, uma
coletora de microrganismos ruminais. Microrganismos que não che-
gam ao intestino não podem alimentar nossa vaca. Como conclusão,
defaunar parcialmente um rúmen significa aumentar a passagem de
N para o duodeno, aumentando a eficiência de síntese microbiana
(uma vez que crescimento bacteriano é mais eficiente que crescimen-
to de protozoa) e, por fim, a eficiência alimentar do animal como um
todo.

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Não é por acaso que as sensações de se comer uma pimenta


ou ficar exposto ao sol são bastante parecidas sob o ponto de vista
do aumento da produção de suor e da vasodilatação (caracterizada
pelo aumento da intensidade do vermelho na pele). Devemos lembrar
que os grupos humanos que vivem nas regiões mais quentes do glo-
bo são normalmente elevados consumidores de pimenta vermelha
(mexicanos, indianos, chineses, sudeste asiático, NE brasileiro etc).

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Capsaicina é uma carotenóide, um tipo específico de alcalóide.


Mais especificamente, capsaicina é um dos 5 capsaicinoides natu-
rais: os outros são a dihidrocapsaicina, nordihidrocapsaicina, homo-
capsaicina e homodihidrocapsaicina.
Transient receptor potential vanilloid subtype 1 = TRPV1

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Infográfico retirado do British Journal of Anaesthesiology. Cap-


saicina ativa o seu receptor celular chamado TPRV1. Este, por sua
vez, é responsável por alterar os padrões de entrada de Ca+ na célu-
la. Alterações na concentração de cálcio na célula resultam em alter-
ações orquestradas no funcionamento das organelas citoplasmáticas.

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Na prática: trabalhos brasileiros mostrando que produto à base


de pimenta aumenta a produção de suor de vacas leiteiras. Lembran-
do que sudorese é o principal mecanismo de perda de calor pela
vaca.
Sobre a ausência de resposta do dia 56 do primeiro trabalho:
vacas leiteiras Holandesas possuem um potencial biológico de suas
glândulas sudoríparas da ordem de 400 a 450 g/m2.h. Logo, o produ-
to não aumentou a produção de suor pois as vacas estariam fisiologi-
camente impossibilitadas de suar mais.

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Continuação do trabalho anterior. Vejam que essa maior su-


dorese pode ter ajudado na observação da resposta comportamental
aqui apresentada. Vacas recebendo o blend de OE comeram mais
(20% proporcionalmente) no período 07-13 h. Porém, tenderam
a comer menos no período noturno. Tudo indica que as vacas no
Controle não ingeriram tudo o que gostariam no período da manhã,
buscando, portanto, compensar com uma maior ingestão de alimento
durante a noite (horário mais fresco).

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ROS = reactive oxygen species; SOD – superoxide dismutase;


CGRP = calcitonin gene-related peptide; neurokinin 1 (NK1) receptor
Catalase é enzima responsável por degradar água oxigenada,
evitando sua ação oxidativa sobre a célula.
Aqui, mecanismo de ação proposto para capsaicina e vasodi-
latação. Figura retirada da revista científica Cardiovascular Research.

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TRPV1 WT – ratos wild type – c/ receptor TRPV1 funcional e


ativo. TRPV1 KO – ratos knock out – c/ receptor afuncional.
Vejam que apenas nos rator WT é que houve aumento de fluxo
sanguineo ao se infundir capsaicina no animal. Isso demonstra que o
mecanismo de ação da capsaicina é dependente do receptor TRPV1.
A imagem da direita mostra a orelha dos ratos WT e KO. Vejam
que a coloração vermelha (indicativa de fluxo sanguineo elevado) so-
mente foi verificada para os ratos com receptor ativo.

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AMG9810 é substância antagonista do TRPV1 (neutraliza os


seus efeitos). O receptor TRPV1 é ativado tonicamente e está en-
volvido na regulação da temperatura corporal dos animais superiores.
Ao se aplicar capsaicina em ratos, vejam o rápido abaixamento da
temperatura interna dos mesmos. Ao se aplicar o antagonista em
conjunto, não há queda na temperatura. À direita, vejam que o AMG
sozinho promoveu breve elevação de temperatura, explicando a mes-
ma resposta observada no gráfico da direita ao se aplicar a capsaici-
na em conjunto.

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Publicado no British Medical Journal. Pesquisa recém publica-


da que durou mais de 30 anos para ser concluída. Foi amplamente
divulgada pelas mídias. Lembro-me de estar jantando assistindo ao
Jornal Nacional quando escutei a notícia desse trabalho. Em resumo,
populações humanas chinesas que ingerem pimenta vermelha com
frequência possuem menor incidência de diversas doenças. Ao tratar-
mos de vacas leiteiras e da necessidade de torná-las mais longevas
nos sistemas produtivos, podemos aqui traçar um paralelo entre es-
ses dois campos.

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British Medical Journal. Este infográfico deve ser interpretado


olhando os desvios dos quadrados em relação às linhas verticais,
se os mesmos estão deslocados para a direita ou para a esquerda
da linha vertical. Deslocado à direita significa menor incidência das
doenças em questão.
Os resultados foram estratificados para homens, mulheres e
para a soma dos dois (total). Vejam que em sua grande maioria, os
quadrados encontram-se deslocados para a esquerda. Como con-
clusão, efeito protetor da ingestão frequente de pimenta vermelha.

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Outros efeitos inusitados para os OE. Neste experimento con-


duzido em Lavras pelo Prof. Marcos Neves, vemos que vacas ali-
mentadas com blend de OE tiveram as três variáveis relacionadas a
oxigenação de sangue aumentadas.

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Neste outro trabalho, agora possuindo monensina também


como tratamento, vemos os mesmos padrões de resposta para os
OE. Neste caso, monensina foi inócua.

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Este artigo fala sobre os efeitos do OE de hortelã-pimenta em


atletas (corredores). Vejam que a ingestão de OE via água aumentou
todos os indicadores relacionados à capacidade de oxigenação dos
atletas.

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Neste trabalho, vemos que OE diminuíram a microviscosidade


das células vermelhas do sangue (eritrócitos), o que pode ajudar a
explicar os efeitos de oxigenação vistos para as vacas leiteiras e para
os atletas.

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Agora, como assunto final, aquele mais interessa a todos nós.


Como todos esses efeitos biológicos podem ser revertidos em perfor-
mance.

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Blend de timol, eugenol, vanillina e limoneno. As respostas sig-


nificativas e biologicamente importantes são indicadas pelas setas.

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Delineamento: 14 dias de mensuração para uso como co-


variável + 56 dias experimentais; 30 vacas holandesas c/ DPP > 100
d alojadas em tie-stall; Blocos completos ao acaso em estrutura de
medidas repetidas no tempo; Tratamentos: CTL – Controle, sem nen-
huma inclusão de aditivo; BEO – blend de OE microencapsulados
(carvacrol, pimenta, cinamaldeído e eugenol).

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Mesmo experimento anterior. Curva de produção de leite e


consumo de matéria seca dia a dia ao longo do experimento.

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Mesmo experimento anterior. Curva de eficiência.

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Produto é uma mistura de cinamaldeido e eugenol. Respostas


indicadas pelas setas.

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Produto: mistura de timol, eugenol, vanilina e limoneno.

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Produto: mistura de timol, eugenol, vanilina e limoneno. Contin-


uação do slide anterior.

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Produto: mistura de timol, eugenol, vanilina e limoneno. Contin-


uação do slide anterior.
Vejam aumento da eficiência alimentar das vacas iniciando-se
após a semana 2 experimental.

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Produto é mistura de cinamaldeído e alho. Tendência de au-


mento de eficiência alimentar. A diferença em relação ao controle foi
de 9,8%, valor biologicamente bastante significativo.

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Testado blend de carvacrol, cinamaldeído e extrato de pimenta.


Vejam o efeito dose resposta do OE em ovelhas. Ao mesmo tempo,
notem que os efeitos positivos foram mantidos por longo período de
suplementação, aprox. 150 dias (21 semanas).

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Muitos perguntam se OE poderiam promover gosto ou odor


desagradável ao leite. Diversos estudos mostram exatamente o con-
trário. Por exemplo, muitas das características organolépticas espe-
cíficas de queijos e leites de microrregiões europeias (aquelas com
denominação D.O.C) são parcialmente oriundas da presença no leite
de quantidades traço de compostos secundários presentes nas plan-
tas forrageiras nativas ingeridas por esses animais (normalmente es-
ses animais pastejam em regiões montanhosas).
Neste trabalho aqui apresentado, vejam os resultados de um
teste de painel sensorial. O leite de vacas recebendo alcarávia ou
orégano possuíram em sua grande maioria notas mais elevadas para
aroma e sabor frescos. Ao mesmo tempo, menores notas para aro-
mas desagradáveis como aroma de milho, aroma de leite UHT e aro-
ma e sabor de leite armazenado/velho.

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D.O.C. = denominação de origem controlada. Pela ação anti-


oxidante dos OE, a presença de quantidades traço dos mesmos no
leite pode atuar na redução dos processos de oxidação da gordura
que acarretam na geração de compostos voláteis com aroma e sabor
característicos do ranço (aldeídos, certos alcoois etc).

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ESTRATÉGIAS PARA OTIMIZAR EFICIÊNCIA


REPRODUTIVA DE REBANHOS LEITEIROS

Eduardo S. Ribeiro
Department of Animal Biosciences, University of Guelph, Guelph, Canada

A reprodução continua sendo um componente crítico para uma


fazenda produtora de leite manter-se economicamente viável. Para
cada fazenda e para cada vaca existe um tempo ótimo para estabe-
lecimento de uma prenhez, que é influenciado principalmente pelo
nível de produção, persistência da lactação e paridade. No geral, a
medida que a produção total de leite ou a persistência de lactação
do rebanho diminuem, vacas devem ser inseminadas mais cedo
pós-parto para obter uma prenhez no início da lactação. O período
de espera voluntário é determinado com base no intervalo parição-pr-
enhez desejado e na taxa de prenhez da fazenda. A medida que a
taxa de prenhez aumenta, o período de espera voluntário pode ser
prolongado, particularmente quando a produção de leite é alta. A taxa
de prenhez em si é determinada pela taxa de submissão à insemi-
nação artificial (IA) e pela probabilidade de prenhez na IA. Estes dois
índices possuem tanto fatores de risco bem como estratégias para
otimização. A taxa de submissão é afetada pela proporção de vacas
anovulares após o final do período de espera voluntário e pela efi-
ciência de detecção de cio. A redução da prevalência de vacas an-
ovulares é feita através de manejo nutricional adequado, principal-
mente durante o período de transição, e redução da incidência de
doenças clínicas e subclínicas no pós-parto. O aumento da eficiência
de detecção de cio é obtido com a implementação de metodologias
sistemáticas e criteriosas, e com o uso de ferramentas auxiliares para
tal finalidade como o uso de cera, tinta, ou raspadinha na inserção
da cauda, e monitores de atividade. Além disso, programas de sin-
cronização do ciclo estral e ovulação continuam sendo ferrementas
importantes, pois maximizam a submissão à IA sem comprometer a
probabilidade de prenhez. No geral, avaliações econômicas de diver-
sos programas reprodutivos mostram que a associação de detecção
de cio e programas de sincronização é a estratégia mais rentável. A
probabilidade de prenhez na IA por sua vez é afetada pela sincronia

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entre ovulação e inseminação, pelo sucesso de fertilização do oócito,


e pelo sucesso de desenvolvimento e sobrevivência do embrião/feto.
O sucesso de fertilização médio em vacas de alta produção é 83%,
enquanto a prenhez 30 dias após a IA fica em torno de 40%. Estes
números por si demonstram o quanto a mortalidade embrionária ini-
cial é substancial em vacas leiteiras. Associada com perdas de pr-
enhez tardias, a mortalidade embrionária e fetal pode chegar a 60%,
e variam de acordo com a presença de fatores de risco. A maneira
mais eficiente de reduzir perdas de prenhezes, precoces e tardias, é
através da diminuição da incidência de doenças clínicas e controle de
processos inflamatórios no pós-parto. O manejo nutricional também é
fundamental, não somente para reduzir a incidência de doenças, mas
também para proporcionar condição corporal adequada no momento
da IA e suprir todos os micronutrientes necessários para desenvolvi-
mento embrionário inicial. A suplementação pontual de somatotropi-
na parece ser uma estratégia promisora para redução de perdas de
prenhezes, mas mais estudos são necessários. Além disso, todos os
índices citados acima são otimizados pelo resfriamento das vacas
em períodos de estresse calórico e pela seleção genética de indica-
dores reprodutivos, os quais devem ser uma constante no manejo de
vacas leiteiras. Por último, o uso de tecnologias de transferência de
embrião como programa de reprodução para vacas leiteiras lactantes
é economicamente viável apenas quando a diferença de fertilidade
das vacas ou a diferença de ganho genético das filhas relativa à IA é
muito grande. Além do mais, os mesmos fatores de risco que influen-
ciam a eficiência reprodutiva de um programa de IA, de uma maneira
geral, também afetam a eficiência reprodutiva de um programa de
transferência de embriões.

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COMPOST BARN E STRESS TÉRMICO:


MELHORANDO A EFICIÊNCIA DO SISTEMA.

Adriano Seddon
Alcance Rural Consultoria

Introdução:
O Compost Bedded Pack ou como ficou conhecido no Brasil,
Compost Barn, tem chamado a atenção de produtores e técnicos
como uma alternativa viável de confinamento de vacas leiteiras.
O primeiro sistema foi construído em 1986 nos EUA (Barberg et
al.,2007b),no Brasil o Compost foi introduzido em 2011. Hoje, apesar
de não haver dados oficiais no Brasil a estimativa é que mais de 300
propriedades usem o sistema.
A imensa maioria das fazendas que adotaram o sistema ti-
veram melhoras expressivas na produção e qualidade do leite. Mas o
stress térmico ainda é um grande desafio. O compost permite que a
vacas sejam resfriadas de maneira agressiva diversas vezes ao dia.
Vantagens de confinar os animais:
Conforto animal:
Fornecer aos animais condições ótimas de alojamento possibil-
itando toda expressão do potencial produtivo dos animais e ao mes-
mo tempo buscar a maior longevidade.
Por que buscar uma maior longevidade?
Na maioria das fazendas brasileiras a reposição é feita medi-
ante o descarte de um animal em péssimo estado, geralmente nos
defrontamos com um animal com graves problemas de casco, mastite
crônica ou problemas reprodutivos. Esse animal geralmente é vendi-
do para abate tendo um baixo valor residual.
Uma maior longevidade dos animais permite não só uma maior
rentabilidade sobre o investimento mas permite que as fazendas pos-
sam fazer um descarte voluntário mais adequado. Quando melhora-
mos a reprodução, diminuímos as lesões de casco e a incidência de

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mastite em nosso rebanho abrimos uma oportunidade de repor ani-


mais por problemas menores.
Os maiores questionamentos sobre o compost bedded pack
estão relacionados a incidência de mastite no rebanho visto que as
vacas estão alojadas sobre uma cama orgânica. Diversas pesquisas
mostraram que o sistema, quando bem manejado, oferece um ambi-
ente adequado aos animais não aumentando a incidência de mastite
no rebanho (Eckelkamp et al.2016).
Na região sul do Brasil a maior dificuldade dos sistemas de
compost barn é o manejo da cama durante o inverno, a combinação
de alta umidade e baixa temperatura levam a uma compostagem
mais lenta e consequentemente uma menor produção de calor (Janni
et al., 2007). A diminuição da temperatura leva a uma maior umidade
gerando camas de baixa qualidade refletindo na piora dos índices de
mastite na fazenda.
Algumas alternativas são aplicáveis nesse cenário;

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O uso intensivo de ventiladores é vital para o bom funciona-


mento da cama, ele aumenta a taxa de evaporação promovendo uma
superfície seca.

Adaptado Black et al 2011

O uso de cortinas laterais a fim de diminuir a entrada de chuvas


é uma boa opção durante o inverno.

Estress térmico
Apesar do grande numero de compost construídos no Brasil
um problema recorrente nas fazendas é a não instalação ou o uso
inadequado de sistemas de resfriamento.
O estresse térmico afeta o consumo, a produção de leite, di-
minui a resposta imune, piora a taxa de concepção e aumenta as
perdas embrionárias. Spain et al. (1998) demonstraram que vacas
em lactação expostas a estresse calórico reduziram o consumo em
6-16% em relação a condições de termo neutralidade. Outros estudos
relataram resultados semelhantes. Além da redução do consumo de
ração, ocorre também redução de 30 a 50% na eficiência da utilização
de energia para a produção de leite (McDowell et al. 1969). Pesquisas
que avaliaram os impactos ambientais sobre a reprodução indicaram

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que elevação da temperatura retal em 1°C (1,8°F) 12 horas após a


inseminação reduziu a taxa de prenhez de 61 para 45% (García et al.
2006). Além disso, aumento na temperatura uterina de 0,5°C (0,9°F)
no dia ou no dia seguinte à inseminação resultou em redução da taxa
de concepção em 13 e 7%, respectivamente (Gwazdauskas, C.J. et
al. 1974). O estress térmico afeta regiões de clima subtropical e trop-
ical, no Brasil todas regiões são afetadas causando enormes perdas
econômicas. O impacto do estresse calórico muitas vezes se prolon-
ga até o outono, como maior incidência de claudicação, baixo desem-
penho reprodutivo, redução do pico de produção e da produção diária
de leite.

Sistemas de Resfriamento:
Os sistemas de resfriamento consistem de aspersores e venti-
ladores que em ciclos alternados diminuem o stress térmico da vaca
através da evaporação da a água.
Para atingir um resultado significativo de queda de temperatura
devemos expor a vaca a este processo diversas vezes ao dia e du-
rante um período igual ou maior que 40 min por vez. Esse processo
deve ser realizado entre 5 e 8 vezes ao dia.

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Brouke et al.,2002

Efeito do resfriamento oito (*V) e cinco (5V) vezes ao dia sobre


o consumo alimentar, o desempenho e os parâmetros fisiológicos das
vacas.

Adaptado Flamenbou et al-2002

O primeiro local onde devemos resfriar a vaca é na sala de


espera, dessa maneira aproveitamos um tempo ocioso da vaca para
resfria-la. Além disso pela menor dimensão a sala de espera repre-
senta o melhor custo benefício.
A exposição ao estress térmico durante a fase final de gestação
provoca efeitos deletérios nas bezerras. Queda no peso ao nasci-
mento (39,1+-0,7 vc 44,8+-0,7) ,menor sobrevivência até a primeira
lactação 65,9 vs 85.4 % além disso as bezerras resfriadas produziram
uma maior quantidade de leite(26.8 ± 1.7 vs. 31.9 ± 1.7 kg/d ) (A P A
Monteiro et al,. 2016)

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Além dos efeitos sobre as bezerras o efeito do resfriamento du-


rante o pré parto tem efeitos benéficos sobre a produção e imunidade
na lactação seguinte.

Tao et al.,2011

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Adaptado Flamenbou et al-2007

Adaptado .Flamenbou et al-2007

Conclusão:
O compost Bedded pack é um sistema viável de confinamento
de vacas leiteiras mas como qualquer outro sistema de confinamento
ele necessita de um sistema de resfriamento.
O efeito do stress térmico afeta a imunidade, eficiência ali-
mentar, produção e reprodução além disso prejudica as próximas ger-
ações diminuindo a rentabilidade do negócio.
Resfriar a vaca de maneira efetiva é uma necessidade para
qualquer exploração leiteira se manter competitiva e sustentável.

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Bibliografia
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ESTRESSE TÉRMICO: IMPACTOS NA PRODUÇÃO


E ESTRATÉGIAS DE MANEJO E NUTRICÃO PARA
MINIMIZÁ-LO

Dr. Emilien Dupuis


(CCPA Group/França)

O material não foi recebido em tempo hábil para publicação


nos anais.

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IMPACTO DOS PRINCIPAIS DISTÚRBIOS


METABÓLICOS E ESTRATÉGIAS PARA MAXIMIZAR A
PRODUÇÃO E SAÚDE NA FASE DE TRANSIÇÃO

Fabio Lima
DVM, MS, PhD - Professor Assistente, Faculdade Medicina Veterinária,
Universidade de Illinois, Urbana-Champaign IL, EUA.

Período de transição e ocorrência de doenças metabólicas


em vacas leiteiras
O período de transição, definido como 3 semanas antecedendo
o parto e 3 semanas após a ocorrência do parto (Grummer, 1995)
representa o período de mais crítica importância para o sucesso do
ciclo produtivo de vacas leiteiras, porque além da produção de leite,
a fase de transição possui consequências diretas para à saúde e o
desempenho reprodutivo de rebanhos leiteiros. A adaptação para as
rigorosas demandas nutricionais, durante o momento que a ingestão
de matéria seca está diminuída consideravelmente, associado com
uma adaptação metabólica para promover o desenvolvimento fetal
final, síntese de colostro e suporte da lactação constitui um grande
desafio que predispõe a ocorrência de distúrbio metabólicos. Entre os
principais distúrbios metabólicos incluem-se hipocalcemia, hipomag-
nesemia e cetose, os quais serão o foco dessa revisão.

1. HIPOCALCEMIA
1.1. Definição, classificações e sintomatologia
Hipocalcemia é um distúrbio metabólico caracterizado pelo
declínio da concentração plasmática de cálcio para níveis abaixo
do necessário para manutenção de homeostases que é uma vaca
leiteira varia de 8,5 mg/dL à 10,0 mg/dL (2,1 a 2.5 mmol/L). Hipo-
calcemia pode ser classificada em: 1) hipocalcemia clínica, na qual
a sintomatologia clássica, descrita abaixo, está presente e os níveis
plasmático de cálcio são menores que 5,5 mg/dL (< 1.38 mmol/L); e
2) hipocalcemia subclínica, na qual as alterações são restritas a baixa

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concentração plasmática de cálcio (entre 5,5 e 8,0 mg/dL = 1,38 e


2,0 mmol/L). Outra denominação comumente usada para se referir a
hipocalcemia clínica é febre do leite. Oetzel (2011) dividiu a sintomato-
logia clássica de hipocalcemia em 3 fases: 1) Fase 1: ocorrência de
febre sem decúbito o que muitas vezes passa despercebido porque
os sinais são sutis e transitórios. Vacas acometidas aparentam estar
em estado excitável, nervosa ou fraca. Algumas vão alterar o eixo de
equilíbrio corporal frequentemente mudando o peso depositado nas
patas traseiras. 2) Fase 2: vacas estão em decúbito esternal. Eles
apresentam depressão moderada ou severa, paralisia parcial e tipi-
camente deitam-se com a cabeça virada em direção ao corpo. Fase
3: estão em decúbito lateral, completamente paralisada, frequente-
mente com timpanismo rumenal, e severa depressão (a ponto de
coma). Eles morrem dentro de algumas horas sem tratamento.

1.2. Incidência e implicações para outros distúrbios de saúde


Na prática, os animais que requerem tratamentos com infusão
de cálcio são considerados casos clínicos de hipocalcemia. O depar-
tamento de agricultura nos Estados Unidos (USDA, 2007) reporta uma
incidência de febre do leite de 4,9% entre todos os animais do reban-
ho, incluindo animais de primeira lactação. Supondo que uma fracção
insignificante dos casos acontece em animais de primeira lactação,
isso sugeriria uma incidência de 7,5% de febre do leite clínica em
vacas multíparas no rebanho Estados Unidos. Em uma revisão que
incluiu estudos na Australásia, Estados Unidos e Europa, DeGaris e
Lean (2008) relataram incidências de hipocalcemia clínica variando
entre 3,5% e 7.0%. Com relação a hipocalcemia subclínica, Reinhard
et al., (2008) relatou baseado no critério de cálcio plasmático inferior
a 8,0 mg/dL (2.0 mmol/L) de 25% de vacas de primeira lactação, 41%
das vacas de segunda lactação, e até 54% das vacas quinta lactação.
Em geral, essa incidência de 50% em vacas acima de duas lactações
diminui para taxas para de 15 à 25% nos rebanhos que tem uma dieta
pré-parto suplementada com sais aniônicos regularmente.
Os danos causados por hipocalcemia vão além do risco de
morte eminente em vacas com sintomatologia clínica e custos com
tratamento. Com ou sem sinais clínicos evidentes, hipocalcemia foi
associada a uma variedade de problemas secundários incluindo mas-

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tite, metrite, cetose, esteatose hepática, retenção de placenta, deslo-


camento de abomaso e prolapso uterino (Goff, 2008; DeGaris e Lean,
2008; Martinez et al., 2012). A hipocalcemia é também um fator de
risco para comprometimento do desempenho reprodutivo e taxa de
descarte (Erb et al, 1985; Stevenson e Call, 1988). Essas correlações
acontecem porque o cálcio no sangue é essencial para a função ner-
vosa e muscular, em particular as funções do músculo esquelético
e a motilidade gastrointestinal. Problemas em qualquer uma destas
áreas pode desencadear uma cascata de eventos negativos, os quais
lidam para redução da ingestão de matéria seca, aumento do risco de
desenvolvimento de doenças metabólicas, e diminuição da produção
de leite.
Vacas com hipocalcemia subclínica mobilizam mais gordu-
ra corporal resultando em concentrações mais elevadas de ácidos
graxos não esterificados no sangue, aumentando o risco para o
desenvolvimento de cetose e de deslocamento de abomaso (Goff,
2008). Hipocalcemia reduz motilidade abomasal e do rúmen, au-
mentando ainda mais o risco de deslocamento do abomaso. A hipo-
calcemia também reduz a contração do músculo do esfíncter do teto
responsável para o fechamento orifício após a ordenha aumentando
o risco para o desenvolvimento de mastite. Hipocalcemia é acompan-
hada por reduções das reservas intracelulares de cálcio no retículo
endoplasmático e nas mitocôndrias em células mononucleares do
sangue, o que compromete a resposta imune. Um trabalho desen-
volvido pelo nosso grupo de pesquisa na Flórida (Martinez et al.,
2012) revelou que hipocalcemia subclínica prejudica muitos aspectos
da função dos neutrófilos, e as vacas com hipocalcemia subclínica
apresentaram maiores concentrações beta hidroxibutirato sangue. O
estudo conduzido na Flórida (Martinez et al., 2012) também indicou
que o risco relativo de desenvolver metrite aumentou 22% para cada
1 mg/dL de diminuição no cálcio sérico inferior a 8,59 mg/dL.

1.3. Implicações para a cadeia produtiva


Apesar que o custo estimado por cada caso de hipocalcemia
clínica, aproximadamente U$ 300,00 dólares por caso (Guard, 1996),
ser superior ao custo estimado por cada caso de hipocalcemia sub-
clínica, aproximadamente U$ 125,00 dólares por caso (Guard, 1996),

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os prejuízos da doença subclínica podem ser muito maiores porque


afeta um número maior de vacas, em muitos casos 50% do rebanho,
enquanto a doença clínica se restringe a uma incidência de somente
5%, e com as devidas medidas de prevenção, discutidas abaixo, pode
ser ainda mais baixo e menos negativo do ponto de vista econômico.

1.4. Estratégias para tratamento hipocalcemia clínica


O tratamento da hipocalcemia clínica é considerado uma das
maiores urgências existentes em vacas de leite. O tratamento deve
ser executado o mais rápido possível, especialmente se decúbito
está presente. A pressão exercida pelo peso da vaca pode causar um
efeito de “síndrome do esmagamento” no lado de baixo apêndices em
apenas 4 horas de ocorrência. A síndrome do esmagamento lida is-
quemia dos músculos e nervos, o que e é seguido por necrose destes
tecidos resultando na síndrome vaca da vaca caída.

A maneira mais rápida para restaurar a concentração normal


de cálcio no plasma é através da administração de solução intraveno-
sa de boro gluconato de cálcio. Produtos comerciais tem em média
de 8,5 a 11,5 g de cálcio para 500 ml de solução para ser usada
como solução intravenosa. Muitos produtos comerciais contêm tam-
bém magnésio, fósforo (na forma de fosfito o que é geralmente inefi-
caz), e glicose. A dose mais eficaz de cálcio intravenoso é de cerca
de 2 g/100 kg de peso vivo. Uma boa regra para evitar problemas
de arritmia cardíaca causado por administração rápida de cálcio é
limitar a administração de cálcio para uma taxa de 1 g por minuto. Os
tratamentos intravenosos de cálcio vão eliminar a maioria dos sinais
clínicos rapidamente e elevarão os níveis de cálcio no sangue acima
do normal por cerca de 4 horas. Porém, muitas vacas apresentarão
recidiva dos baixos níveis de cálcio e sintomatologia entre 12 e 18
horas após tratamento inicial (Goff, 1999).

Para reduzir o risco de recidiva, vacas que respondem favorav-


elmente ao tratamento inicial necessitam de suplementação adicional
de cálcio por via oral uma vez que estiverem alerta e capaz de engolir,
seguido por um segundo suplemento oral aproximadamente 12 horas
depois (Oetzel, 2011).

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VI Simpósio Brasil Sul de Bovinocultura de Leite
08, 09 e 10 de Novembro de 2016

Os sais de cálcio (boro gluconato de cálcio) também pode ser


usado pela via subcutânea, mas a absorção é variável porque o fluxo
de sangue para a periferia é muitas vezes comprometido. A quanti-
dade de cálcio que pode ser injetada em um único local subcutâneo
deve ser limitada a 1-1,5 g (50-75 ml da maior parte dos produtos
comerciais). Produtos comerciais concebidos para administração in-
tramuscular também estão disponíveis (levulinato de cálcio ou lactato
de cálcio). A maioria destas preparações deve limitar-se 0,5-1,0 g por
local de injeção para evitar a necrose tissular. O problema com a ad-
ministração intramuscular é a necessidade de injetar cálcio de 6 a 10
locais diferente o que pode limitar significantemente e qualidade da
carne.
Suplementação de cálcio oral pode ser considerada a melhor
abordagem para vacas com hipocalcemia que ainda estão de pé,
tais como vacas descritas na fase 1 de hipocalcemia (Oetzel, 2011).
A formulação oral de cálcio é eficaz para elevar cálcio na corrente
sanguínea em aproximadamente 30 minutos de suplementação se
mantendo alto por cerca de 4 a 6 horas (Goff, 1999). Cálcio intra-
venoso não é recomendado para o tratamento de vacas que ainda
estão de pé porque pode causar um aumento exacerbado e rápido
dos níveis plasmático de cálcio, o qual pode elevar o risco de com-
plicações cardíacas fatais, e possivelmente um comprometimento da
capacidade natural de uma vaca mobilizar o cálcio necessário neste
momento crítico (Oetzel, 2011)

1.5. Estratégias para prevenção hipocalcemia clínica e subclínica


Existem inúmeras estratégias para prevenir a ocorrência de
hipocalcemia clínica e para minimizar baixos níveis de cálcio no
período de transição em vacas leiteiras incluindo alimentar uma die-
ta deficiente em cálcio, reduzir a diferença cátion-aniônica da dieta,
suplementar cálcio oral no período peri-parto, suplementar farelo de
arroz protegido de degradação no rúmen, incorporar zeólito na dieta,
e suplementar precursores de serotonina no pré-parto.
Dietas deficiente em cálcio: Quando as vacas são alimentadas
com uma dieta que fornece menos cálcio do que é exigido para ma-
nutenção de homeostases (~22 g em uma vaca alta produção com

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VI Simpósio Brasil Sul de Bovinocultura de Leite
08, 09 e 10 de Novembro de 2016

650 kg de peso vivo), seus os níveis plasmáticos de cálcio se tornam


negativo. Isto estimula uma secreção maior de paratormônio, que por
sua vez estimula reabsorção óssea através da ativação de osteoclas-
tos, e a produção renal de 1,25-di-hidroxivitamina D. No parto, os os-
teoclastos da vaca já estão ativos e o requerimento elevado de cálcio
causado pela lactação pode ser compensado com mais reabsorção
óssea e renal de cálcio. Se o teor de cálcio na ração de vacas em
lactação é elevado, a estimulação prévia de 1,25-di-hidroxivitamina D
nos enterócitos vai permitir a utilização eficiente de cálcio prevenindo
hipocalcemia (Green et al., 1981). Dietas deficiente em cálcio é uma
estratégia mais eficiente em vacas a pastos onde consumo de menos
de 20 g de cálcio por dia é atingível.
Diferença cátion-aniônica da dieta: Uma das razões principais
para vacas desenvolverem hipocalcemia é a alimentação de dietas
com alto teor de sódio e potássio, que tendem a manter o pH do
sangue alcalino. Quando o pH do sangue é ligeiramente alcalino, a
vaca é menos capaz de responder a mudanças abruptas nas con-
centrações de cálcio sanguíneos, tornando-as mais sensíveis à hipo-
calcemia no início da lactação. Por outro lado, ligeira acidificação do
sangue por meio de dieta melhora os mecanismos de reabsorção de
cálcio no osso, bem como a absorção intestinal, permitindo vacas
ajustaram-se mais rapidamente as alterações plasmáticas de cálcio.
Selecionar forragens e outros ingredientes alimentares com baixo teor
de potássio e de sódio, e rica em cloreto, e, em seguida, suplemen-
tar a dieta com sais acidogênicas, conhecidos como “sais aniônicos”,
tais como cloreto de cálcio, cloreto de magnésio, cloreto de amónio
ou produtos comerciais com elevado teor de cloreto continua a ser
o método mais prático e eficaz para minimizar o risco de hipocalce-
mia. Isso é muitas vezes referido como dietas “DCAD” (“Diferença
cátion-aniônica da dieta).
É importante ressaltar que esses programas alimentares não
devem ser baseados apenas na adição de sais acidogênicas, mas
sim no uso destes sais para complementar ingredientes alimentar-
es que já são pobres em potássio. Alimentação sais acidogênicas é
rotina hoje na maioria das fazendas, mas não se pode esquecer que
a hipocalcemia também pode ocorrer quando a dieta pré-parto é rica
em fósforo e pobre em magnésio. Certos alimentos proteicos e sub-

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08, 09 e 10 de Novembro de 2016

produtos, tais como farinha de peixe, farelo de canola, grãos de desti-


laria, glúten de milho, farelo de girassol, e farelo de algodão têm mais
de 1% de fósforo, e as dietas pré-parto que contenham mais de 0,35
a 0,40% de fósforo (base de matéria seca), podem atenuar os me-
canismos de reabsorção óssea e absorção intestinal de cálcio. Sim-
ilarmente, dietas com baixo teor em magnésio, geralmente < 0,35%,
particularmente quando fontes grosseiras de óxido de magnésio são
usadas, pode reduzir a capacidade da vaca para regular cálcio.
Quando está alimentando-se dietas pré-parto que contêm sais
acidogênicas torna-se realmente importante monitorar se eles estão
fazendo o que precisam fazer, que é para acidificar o sangue e reduzir
a incidência de hipocalcemia. Um método prático de monitorização
é, medindo o pH da urina de um grupo de vacas que estão na dieta
pré-parto por pelo menos 2 dias. Você pode estimular vacas de urinar
por massageando a área perineal, logo abaixo da vulva, com as cos-
tas de sua mão usando uma luva de palpação. Deixe um bom fluxo
de urina ser iniciado e recolha 10 ou 15 ml num frasco de plástico, tal
como um tubo de sangue ou de leite. Se a amostra é limpa, desprovi-
da de fezes, protegido da luz solar e temperatura ambiente o pH é
estável durante várias horas. Sugere-se que 8 a 10 vacas devem ser
sujeitos a amostragem e a maioria deles deve ter pH urinário entre
5,8 e 6,5. Se mais de 2 das 8 vacas têm pH urinário ≤ 5,5, então
você deve reduzir a quantidade de sais acidogênicas alimentados. Da
mesma forma, se mais de 2 vacas têm pH urinário > 6.8, você deve
considerar pequenos incrementos na quantidade de sais alimenta-
dos. Você sempre deve reavaliar a análise de forragem sempre que
ocorrem grandes mudanças na proporção de vacas com pH urinário
fora do intervalo desejado.
Suplementação de cálcio oral no período peri-parto: Oetzel
(2014) sugere suplementação de cálcio oral no período peri-parto in-
cluindo pelo menos duas doses, uma no momento do parto e uma se-
gunda dose no dia seguinte. O nadir das concentrações de cálcio no
sangue ocorre entre 12 e 24 horas após o parto. Uma única dose de
suplemento de cálcio por via oral no parto deixa as vacas sem suporte
quando as suas concentrações de cálcio no sangue são naturalmente
menores. Os protocolos originais para a suplementação de cálcio por
via oral incluíam 4 doses - umas aproximadamente 12 horas antes

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VI Simpósio Brasil Sul de Bovinocultura de Leite
08, 09 e 10 de Novembro de 2016

do parto, uma ao parto, umas 12 horas após o parto, e uma 24 horas


após o parto. É difícil prever o momento do parto para administrar
to tratamento 12 horas antes do parto e muitas vacas pariam sem
receber essa dose (Oetzel, 1996). A dose ao parto não é difícil de ad-
ministrar, e fornecendo uma dose em algum momento do dia após o
parto é suficiente para providenciar suporte durante o período crítico
de deficiência em grandes fazendas leiteiras, onde as vacas recém
paridas são trancadas apenas uma vez por dia para execução do
tratamento de doenças. Um estudo recente conduzido pelo grupo de
pesquisa de José Santos (Martinez et al., 2016) investigou se suple-
mentação oral com cloreto de cálcio (86 g no parto e um dia após
parto); ou sulfato de cálcio (86 g no parto e um pós-parto seguido de
43 g/d entre os dias 2 a 4 pós-parto) contribuiria para a prevemção de
hipocalcemia subclinica. Suplementação de sulfato de cálcio oral re-
duziu a incidência de hipocalcemia subclínica nos primeiros 4 dias do
experimento (controle = 69,3%; cloreto de cálcio = 57,5%; sulfato de
cálcio = 34,2%). A suplementação de ambos sais de cálcio diminuiu
a prevalência de hipocalcemia nos dias 0 (parto) e 1 pós-parto em
todas as vacas. Porém, após a parar o uso de cloreto de cálcio um
dia após o parto, houve a um rebote de hipocalcemia subclínica entre
os dias 2 e 4 pós-parto em vacas primíparas. Os autores concluíram
que doses elevadas de cálcio oral como sais de cloreto e sulfato nos
primeiros dias pós-parto deve ser evitado em vacas primíparas e usa-
dos apenas em vacas em risco de hipocalcemia clínica.

Suplementação de farelo de arroz protegido de degradação no


rúmen: O ácido fítico é um antagonista de absorção de cálcio muito
estudado em animais monogástricos. O farelo de arroz é o alimen-
to comum com o mais alto teor de ácido fítico. O ácido fítico é nor-
malmente degradado no rúmen (Morse et al., 1992), mas isto pode
ser evitado usando uma formulação que protege a degradação no
rúmen (Martin-Tereso et al. 2009). Um grupo de pesquisa da Holanda
e Alemanha (Martín-Tereso et al., 2016) testou os efeitos de alimentar
farelo de arroz protegido de degradação rumenal durante o perío-
do pré-parto (21 dias da date estimada para o parto). O farelo de
arroz protegido causou uma diminuição temporária da concentração
plasmática de cálcio. Farelo de arroz reduziu concentração plasmáti-
ca de fósforo e sua retirada reduziu magnésio. Concentrações de cál-

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08, 09 e 10 de Novembro de 2016

cio ao parto, nadir de cálcio e concentração plasmática de cálcio nos


3 dias depois parto foi maior em vacas paridas suplementadas com
farelo de arroz. Concentrações plasmática de fósforo diminuiu menos
e foram recuperadas mais rapidamente após o parto em vacas suple-
mentadas com farelo de arroz. Em suma, farelo de arroz protegido de
degradação no rúmen reduziu disponibilidade de cálcio proveniente
da dieta e induziu uma adaptação do metabolismo cálcio resultando
em melhoria da homeostase cálcio e fósforo ao parto.

Suplementação de zeólitos na dieta: Zeólito é um antagonista


de cálcio que foi proposto para diminuir a oferta de cálcio na dieta.
A primeira abordagem estudada foi a de argilas de zeólito, que mel-
horou os níveis de cálcio ao redor do parto (Thislsing-Hansen, 2002;
Grabherr et al., 2008 e 2009; Pallesen et al., 2009).

A desvantagem aparente de alimentação zeólito é o efeito so-


bre ingestão de matéria seca (Grabherr et al., 2008 e 2009), no entan-
to, em doses moderadas (23 g/kg de matéria seca) supressão de in-
gestão é controlada sem a eficácia de zeólito (Grabherr et al., 2009).
Além de reduzir a disponibilidade de cálcio antes do parto, porém
zeólito tem mostrado também efeitos negativos sobre a homeostase
de magnésio e fósforo. Esta última descoberta também pode estar
relacionada ao modo de ação dos zeólitos, porque suplementação
de fósforo para compensar os níveis reduzidos parece reduzir o valor
preventivo de hipocalcemia de zeólito. (Pallesen et al., 2008)

Suplementação de precursor serotonina no pré-parto: Durante


a lactação, a serotonina de origem não-neuronal atua como um reg-
ulador de homeostase da glândula mamária e modula a homeostase
do cálcio em modelos de roedores (Hernandez et al. 2012a, Laporta
et al. 2015) através de uma via que envolve uma molécula derivada
da glândula mamária relacionada com hormônio da paratireoide
proteína relacionado, o qual tem um papel definitivo na modulação
de cálcio durante a lactação (Wysolmerski et al., 1995; Wysolmer-
ski, 2010, Hernandez et al., 2012b). Pesquisadores da Universidade
Wisconsin (Weaver et al., 2016) investigaram se suplementação no
pré-parto (~7 dias abtes da data prevista para o parto) 5 hidroxi-L-trip-
tofano (5-HTP) sobre a regulamentação da homeostase do cálcio em
vacas leiteiras. Vacas infundidas com 5-HTP tiveram elevado níveis

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VI Simpósio Brasil Sul de Bovinocultura de Leite
08, 09 e 10 de Novembro de 2016

de serotonina na circulação durante o pré-parto. A infusão de 5-HTP


induziu hipocalcemia transitória em vacas Jersey no pré-parto, mas
não teve efeito em vacas holandesas.

2. HIPOMAGNESEMIA
2.1. Definição, classificações e sintomatologia
Hipomagnesemia é caracterizada por concentração de mag-
nésio menor que 1,70 mg/dL (0,7 mmol/L). Concentração plasmática
de magnésio reflete a diferença entre influxo e a depuração renal. A
depuração renal de magnésio é responsiva à ingestão de magné-
sio e também a paratormônio sendo concomitante com a regulação
cálcio, com maior reabsorção sob a influência de paratormônio. Sob
condições normais a absorção de magnésio é maior do que a dep-
uração, resultando em uma concentração de magnésio entre 1,95 e
2,92 mg/dL (0,8 e 1,2 mol/L). Porque hipomagnesemia não se correl-
aciona muito diretamente com sinais clínicos observáveis, Todd e co-
legas (1970) classificaram hipomagnesemia em níveis de diagnóstico
incerto (1,95 a 2,2 mg/dL) e de suspeita (1,70 a 1,95 mg/dL). Este
estado de escassez de magnésio resultando em hipomagnesemia
causa uma variedade de sintomas clínicos, tais como a diminuição da
ingestão de matéria seca, distúrbios neurológicos tais como ataxia,
e espasmos musculares tetânicos, popularmente referido como teta-
nia das pastagens. Hipomagnesemia nem sempre é associada com
convulsões e tetania. Meyer e Scholz (1972) e Allsop e Pauli (1975)
concluíram em seus estudos que a diminuição da concentração de
magnésio no fluído cefalorraquidiano é o principal fator que causa sin-
tomas clínicos pela ativação de contração não controlada do músculo
pelo sistema nervoso central.

2.2. Implicações para outros distúrbios de saúde


Hipomagnesemia é um dos mais importantes fatores de ris-
co o desenvolvimento de hipocalcemia e consequentemente todas
as doenças associadas com hipocalcemia (van Mosel et al., 1991;
DeGaris et al., 2008). Van Mosel e colegas (1991) também demon-
straram que a capacidade de absorver magnésio da dieta diminuiu
com a idade, aumentando o risco de desenvolver hipomagnesemia.

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VI Simpósio Brasil Sul de Bovinocultura de Leite
08, 09 e 10 de Novembro de 2016

Hipomagnesemia afeta o metabolismo de cálcio através de duas ma-


neiras principais.
A primeira envolve redução da sensibilidade dos tecidos à
paratormônio. A integridade da interação entre o paratormônio e o
seu receptor é vital para a homeostase do cálcio. A hipomagnesemia
também é capaz de interferir com a capacidade de paratormônio para
agir sobre os seus tecidos alvo. Períodos prolongados (dias) de hipo-
magnesemia provoca uma queda intracelular, bem como extracelular
da concentração de magnésio (Resnick et al., 1993). A enzima adenilil
ciclase tem um local de ligação para o magnésio, e a evidência de
estudos in vitro sugerem a ausência de magnésio não irá permitir a
adenilil ciclase converter ATP em AMP cíclico. No ser humano, é bem
reconhecido que a hipomagnesemia crônica pode causar hipocalce-
mia e que a terapia de magnésio sozinho restaura a concentração
sérica de cálcio ao normal. Concentrações de magnésio menores do
que 1,6 mg/dL em vaca durante o período peri-parto irão aumentar a
susceptibilidade das vacas à hipocalcemia (van de Braak et al., 1987).
A segunda forma que magnésio afeta cálcio é através do blo-
queio da secreção de paratormônio. Em bovinos, magnésio no plasma
deve ser inferior a 1,4 mg/dL durante um período de tempo para este
bloqueio da secreção de paratormônio ocorrer. Este requisito parece
ser um fator no desenvolvimento nas síndromes de tetania das past-
agens em gado de corte e leite. Um relatório sobre vacas de corte
propensas a tetania de pastagem demonstrou que as concentrações
plasmáticas de magnésio diminuem lentamente ao longo de várias
semanas, com concentrações de magnésio no plasma entre 0,8 e 1,4
mg/dL na maioria das vacas que permaneceram assintomáticos. No
entanto, naqueles animais que exibiram a doença clínica (tetania),
cálcio plasmático tinha também diminuído e era menos do que 5 mg/
dL. Em outras palavras, tétano só ocorreu quando ambos magnésio
e cálcio diminuíram.

2.3. Implicações para a cadeia produtiva


O impacto de tetania das pastagens é geralmente baixo em
rebanhos leiteiros alimentados com concentrado para produção de
leite. A importância de hipomagnesemia é totalmente relacionada ao

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VI Simpósio Brasil Sul de Bovinocultura de Leite
08, 09 e 10 de Novembro de 2016

seu papel de fator predisponente para desenvolvimento de hipocal-


cemia e ocorrência de morte súbita em animas apresentando tetania
quando não tratados rapidamente. Não existem boas estimativas e
modelos econômicos que definam um custo claro de hipomagnese-
mia que não seja conectado a hipocalcemia.

2.4. Tratamento hipomagnesemia


Tratamento de hipomagnesemia com infusão retal de sais de
magnésio corrigi os níveis de magnésio no sangue no prazo de 5
minutos, e no líquido cefalorraquidiano no prazo de 30 minutos, após
o qual os sinais clínicos são eliminados. Os sinais clínicos da hipo-
magnesemia são muito provavelmente causados por disfunções do
sistema nervoso central induzidos pelos baixos níveis de magnésio.
Nem sempre hipomagnesemia irá surgir de uma simples deficiência
de magnésio. Portanto, suplementos de magnésio retais são inefi-
cazes em alguns casos como único tratamento. Geralmente o uso
intravenoso de magnésio e cálcio seguido por tratamento subcutâneo
com magnésio é a estratégia recomendada. Geralmente, as soluções
de cálcio e magnésio estão disponíveis em embalagens de plástico
que podem ser aquecidas (~38 °C) em um balde de água quente. Isso
faz com que a solução seja mais fácil de administrar e a absorção de
cálcio e de magnésio é mais rápida. É recomendado administrar 60
g de óxido de magnésio diariamente após recuperação para garantir
que os requisitos de magnésio nos primeiros dias após o parto sejam
satisfeitos.

2.5. Estratégias para prevenção hipomagnesemia


Como mencionado acima, rebanhos leiteiros alimentados
com concentrado para suportar a alta produção de leite vão minimi-
zar imensamente a chance de ter problemas com hipomagnesemia.
Geralmente os concentrados são suplementados com minerais (mag-
nésio e sódio) e diluem o conteúdo de potássio da ração total. Ráp-
idas mudanças de dieta (nitrogênio e amônio) são raras. Um risco
significativo existe para vacas leiteiras em países com alimentação
de pastagem tradicional, como a Irlanda, Nova Zelândia, e Brasil. Se
os concentrados são oferecidos para aumentar a produção de leite,

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08, 09 e 10 de Novembro de 2016

magnésio e sódio deve ser incluído para satisfazer o requisito. Além


disso, uso de melaço é um método para suplementar vacas com mag-
nésio e sódio. O risco clássico de tetania das pastagens ainda existe
em bovinos de corte se eles são subitamente transferidos para past-
agens novas na primavera. A mudança súbita (nitrogênio e amônio),
o baixo teor de sódio e magnésio, e o alto teor de potássio da nova
pastagem são fatores de risco conhecidos que podem ser evitadas
por uma mudança gradual da dieta e disponibilidade de sódio e mag-
nésio em cochos ou baldes.

3. CETOSE

3.1. Definição, classificações e sintomatologia


Cetose ocorre quando as concentrações sanguíneas de corpos
cetônicos são elevadas a tal ponto que causa efeitos indesejáveis
de forma direta ou indireta. Os principais corpos cetônicos são β-hi-
droxibutirato (BHBA), aceto acetato, e acetona. Cetose clínica ref-
ere-se a uma condição com sinais clínicos e alterações estruturais e
de comportamento são evidentes como: diminuição da produção de
leite, diminuiu da ingestão de matéria seca, fezes ressecadas, perda
rápida de condição corporal, e em casos severos, sinais neurológi-
cos como inclinar-se ou andar de encontro a parede, lambedura,
ou mastigação excessiva. Cetose clínica pode ser primária (princi-
pal doença) ou secundária (concorrente com uma outra doença; por
exemplo, vacas com deslocamento de abomaso). Cetose subclínica
refere-se a uma condição sem sinais clínicos evidentes, nos quais
as concentrações de corpos cetônicos são acima do limite desejado
para evitar associações com o aumento probabilidade de resultados
indesejáveis. Dependendo das circunstâncias e fase da lactação, o
limiar para cetose é níveis plasmáticos de BHBA > 1,1-1,4 mmol/L
(Duffield, 2000). Cetose subclínica comumente precede o diagnóstico
de deslocamento de abomaso. As vacas com cetose clínica normal-
mente têm sangue BHBA > 2,5 mmol/L, mas isso é variável e não
existe um limiar claro em que as manifestações clínicas ocorrem. É
importante para perceber que cetose clínica na melhor das hipóteses
representa a “ponta do iceberg” da prevalência de cetose em um re-
banho. Uma correlação muito fraca entre a taxa real de cetose do re-

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08, 09 e 10 de Novembro de 2016

banho ou casos registrados de cetose clínica e a incidência de cetose


subclínica está presente nos rebanhos leitieiros.

3.2. Incidência e implicações para outros distúrbios de saúde


Estudos epidemiológicos avaliando corpos cetônicos uma ou
três vezes por semana revelaram que 41 a 43% das vacas têm BHBA
sangue > 1,2 mmol/L pelo menos uma vez durante as 2 ou 3 semanas
após o parto (McArt et al, 2012; Gordon, 2013).

A incidência média cumulativa entre 20 rebanhos variou de 15


a 78% (Gordon, 2013). No outro estudo, 40% dos rebanhos teve >
15% de vacas com cetose. Este limiar de 15% à nível de rebanho é
associado com risco aumentado de deslocamento de abomaso, di-
minuição de desempenho reprodutivo, e diminuição de produção de
leite durante a lactação (Ospina et al., 2010b). Com teste uma vez
por semana entre 3 e 24 dias em lactação (DEL), 50% dos casos de
cetose foram diagnosticados entre 3 e 5 DEL (Gordon, 2013), e com
o teste 3 vezes por semana 75% dos casos de cetose foram diag-
nosticados entre 3 e 7 DEL (McArt et al., 2012). Porque a duração
média de um caso não tratado de cetose é cerca de uma semana
(McArt et al., 2012), pico de prevalência da cetose subclínica foi de
aproximadamente 33% e ocorreu na segunda semana após o parto
(Duffield et al., 1998). Portanto, as duas primeiras semanas pós-parto
são o momento ideal para testar para cetose subclínica. A prevalência
média de cetose subclínica durante as duas primeiras semanas varia
de 15 a 20%. Cetose subclínica (BHBA > 1,2 a 1,4 mmol / L) durante
a primeira ou segunda semanas após o parto é associado com uma
variedade de riscos aumentados de distúrbios de saúde incluindo:
3 a 8 vezes maior chance de ter deslocamento de abomaso (LeB-
lanc et al., 2005; Duffield et al., 2009; Ospina et al., 2010a); 3 vezes
maior risco de metrite (Duffield et al., 2009); 4 a 6 vezes maior risco
de clínica cetose (Duffield et al., 2009); aumento da probabilidade de
endometrite subclínica (Hammon et al., 2006); aumento da duração
e severidade dos casos de mastite (Suriyasathaporn et al., 2000), 1,8
maior chance de ser descartada nos primeiros 60 pós-parto (Roberts
et al., 2012).

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VI Simpósio Brasil Sul de Bovinocultura de Leite
08, 09 e 10 de Novembro de 2016

3.3. Implicações para a cadeia produtiva


A produção de leite durante o início da lactação é reduzida
quando BHBA é > 1,2 mmol/L na primeira semana pós-parto ou > 1.4
mmol/L na segunda semana pós-parto. Produção diária no primeiro
mês é reduzida em 1,9 kg quando BHBA é > 1,4 mmol/L na primeira
semana e 3,3 kg quando BHBA é > 2,0 mmol/L nas duas primeiras
semanas. As vacas com BHBA > 1,8 mmol/L na primeira semana tem
> 300 kg menos de produção projetada para toda a lactação. Cetose
é associado também com desempenho reprodutivo reduzido, o que
estende seu impacto negativo na cadeia produtiva leiteira. Vacas com
cetose durante as duas primeiras semanas da lactação tem chance
de prenhes na primeira inseminação reduzida (Walsh et al., 2007).
Além disso, cetose subclínica durante o início da lactação está as-
sociada com: 3 vezes maiores chances de metrite (Hammon et al.,
2006; Duffield et al., 2009; 1,4 vezes maiores chances de endome-
trite subclínica aos 35 DEL (Dubuc et al., 2010); 1,5 vezes maiores
chances de estar anovular aos 63 DEL (Walsh et al., 2007; Dubuc et
al. 2012). Além disso, as vacas que tinham cetose em um ou ambas
das duas primeiras semanas de lactação tinham uma chance menor
de estarem prenhe aos165 DEL. O intervalo médio para a prenhes foi
de aproximadamente 108 dias em vacas sem cetose e 124 dias em
vacas com cetose na primeira ou segunda semana pós-parto (Walsh
et al., 2007).

3.4. Estratégias para tratamento cetose clínica e subclínica


Casos severos de cetose clínicos necessitam de tratamento intra-
venoso com 500 mL de dextrose 50% pelo menos uma vez ao dia com-
binado com 300 mL de propileno glicol até cessação dos sinais clínicos
(sinais neurológicos, depressão, anorexia, etc.). Outras medicações
comumente utilizadas conjuntamente com propileno glicol são glico-
corticoides. Os glicocorticoides diminuem as concentrações de corpos
cetônicos no sangue e aumenta as concentrações de glicose no sangue
de vacas com cetose clínica (Wierda et al., 1987; Shpigel et al., 1996)
e em vacas saudáveis (Baird e Heitzman, 1970.; Jorritsma et al., 2004;
Coffer et al., 2006). Era espiculado que a estimulação da degradação
muscular por glicocorticoides poderia aumentar o fluxo de aminoácidos
glicogênicos de músculos para o fígado para apoiar a gliconeogênese.
Porém a estudo conduzido recentemente por pesquisadores da Univer-

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08, 09 e 10 de Novembro de 2016

sidade de Utrecht na Holanda (van der Drift, 2015) revelou que a vacas
tratadas com glicocorticoides tem maiores concentrações de glicose e
insulina no plasma, porém concentrações de ácidos graxos não-esterifi-
cados, 3-metil-histidina e hormônio do crescimento não foram afetadas.
As concentrações de histidina 3-metil plasma foram semelhantes em
ambos os grupos, sugerindo que os glicocorticoides não aumentaram
a degradação do músculo e que a aumento da glicose plasmática em
vacas tratadas com glicocorticoides não deve ser devido ao aumento
da oferta de aminoácidos glicogênicos do músculo.
Com base nos dados atuais disponíveis (Nielsen e Ingvart-
sen, 2004ç McArt et al, 2012), solução oral de 300 ml de propileno
glicol uma vez por dia durante 5 dias é um tratamento eficaz para
vacas com BHBA ≥1.2 mmol/L. Em um estudo randomizado contro-
lado em quatro rebanhos em Nova York e Wisconsin, todas as vacas
recém-paridas foram testadas, 3 vezes por semana e aquelas com
BHBA > 1,2 mmol/L foram tratados com propileno glicol ou deixada
sem tratamento. Vacas tratadas tiveram um tempo mais curto para
a cura de cetose (5 vs. 7 dias), 1,5 vezes maior probabilidade de
cura, e, em média, 0,69 kg/vaca por dia maior produção de leite, 37%
menor risco de deslocamento de abomaso, e 68% menor risco de
abate durante o início da lactação (McArt et al, 2011 e 2012). Em dois
estudo clínicos randomizados com avaliação semanal para cetose,
vacas com BHBA > 1.2 mmol/L foram tratados com 300 g/dia de pro-
pileno glicol por 3 ou 5 dias, com ou sem tratamento durante 3 dias
com injeções de vitamina B12 e fósforo (Gordon, 2013). Baseado em
cura de cetose e produção, as conclusões foram: Se BHBA ≥ 1.2, mas
< 2,4 mmol/L, trata-se com propileno glicol durante 3 dias. Se BHBA
sangue > 2,4 mmol/L, tratar com propileno glicol durante 5 dias. Se
BHBA sangue > 1,2 mmol/L e glicose < 2.2 mmol / L, também incluem
o tratamento com vitamina B12 e de fósforo durante 3 dias para am-
bos das recomendações anteriores depropileno glicol.

3.5. Estratégias para prevenção e monitoramento de cetose clíni-


ca e subclínica
Práticas de gestão e intervenções existem para prevenir a ce-
tose. Em um grande estudo, apenas 11% da variação na incidência
de cetose foi explicado por fatores diretamente avaliados nas (pari-

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08, 09 e 10 de Novembro de 2016

dade, condição corporal, etc.; Duffield et al., 1998). Portanto, uma


grande parte variação do controlável situa-se ao nível da gestão do
rebanho incluindo: espaço disponível no cocho, disponibilidade de ali-
mentos, movimento e agrupamento de lotes, redução de estresse tér-
mico, qualidade da dieta, consistência da ração total, acesso à água,
uso de monensina, e colina protegida no rúmen.

Os princípios fundamentais são investigar e garantir que todas


as vacas têm acesso irrestrito a dieta no momento da entrega de
alimentação fresca, água limpa, e um local de descanso confortável.
Apesar de existir muito a ser aprendido sobre os determinantes da
saúde em bovinos leiteiros durante o período de transição, abaixo
estão listadas as práticas de gestão geralmente recomendadas para
vacas leiteiras no peri-parto para prevenir a ocorrência de cetose.
Alimentação diária que permita 3 a 5% de sobra; ≥ 75 cm de espaço
no cocho por vaca ou não mais de 4 vacas por 5 canzis; ≤ 85% de
densidade de lotação; maternidade com capacidade para 130 e 140%
da média número de partos mensais; assegurar camas ou lotes con-
fortáveis; alojar novilhas e vacas separada no peri-parto; minimizar
mudanças de grupo; minimizar estresse térmico; assegurar vacas
parindo com um escore de condição corporal entre 3,0 e 3,5; forneça,
mas não exceda exigência energética de 8 a 3 semanas pré-parto;
agua à vontade com 10 cm de espaço no bebedouro por vaca pelo
menos duas fontes de agua por curral.

Além de todos os aspectos de manejo mencionados acima, um


número de suplementos nutricionais pode ajudar a prevenir cetose e
afecções relacionadas como, pro exemple: 1000 UI de vitamina E/d;
0,3 ppm de selênio (idealmente aprox. 6 mg/d), 15 g de colina prote-
gida no rúmen no período de transição (21 antes do parto e 21 dias
depois do parto); e 300 mg de monensina e 12 a 24 mg/kg de matéria
seca da dieta durante o período pós-parto.

As concentrações circulantes de ácidos graxos não esterifica-


dos (AGNE) e BHBA indicam o sucesso de adaptação ao balanço en-
ergético negativo. As concentrações de AGNE refletem a magnitude
de mobilização de gordura de armazenamento. Em contraste, BHBA
reflete a integralidade da oxidação de gordura no fígado. Corpos
cetônicos são o resultado da oxidação incompleta dos ácidos graxos.

130
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08, 09 e 10 de Novembro de 2016

Como o fornecimento de AGNE para o fígado excede a capacidade


do fígado para oxidar completamente os ácidos graxos para fornecer
energia (acetil-CoA para ciclo do ácido cítrico), a quantidade de pro-
dução de corpos cetônicos aumenta. Os corpos cetônicos podem ser
usados pelos músculos como uma fonte alternativa de energia à gli-
cose, poupando glicose para a produção de leite. A produção de cor-
pos cetônicos, no entanto, não resulta em tanta liberação de energia
líquida quanto a oxidação completa de ácidos gordos. Além disso,
concentrações crescentes de corpos cetônicos diminuem a ingestão
de matéria seca. A glicose é o combustível metabólico principal, e é
absolutamente necessário para a função dos órgãos vitais, cresci-
mento fetal e produção de leite. Em vacas de leite, a demanda de
energia massiva para suportar a produção de leite é parcialmente sat-
isfeita através de gliconeogênese. As concentrações de glicose estão
sob controle homeostático restrito. Portanto, embora glicose tem um
papel central no metabolismo, não é um metabólito adequado para a
monitorização ou investigação problemas rebanho.
Cada um dos três principais corpos cetônicos (BHBA, acetona
e aceto acetato) está presente no sangue, leite e urina e pode ser
medido, mas aceto acetato é volátil e instável, e relativamente difícil
de medir, e, portanto, não é geralmente utilizado no campo para medir
cetose. Em contraste, BHBA é predominante no sangue, onde é es-
tável. Os corpos cetônicos são excretados na urina, o que resulta em
maiores concentrações na urina do que no sangue.
O monitoramento de metabólitos relacionado com a ocorrên-
cia de cetose inclui: 1) Cálcio total (> 2,15 mmol/L) no primeiro dia
pós-parto; 2) AGNE < 0,4 mmol/L na última semana pré-parto ou <
0,7 mmol/L na primeira semana pós-parto; 3) BHBA < 1,1 mmol/L
na primeira semana pós-parto ou BHBA < 1,2 mmol/L nas semanas
2-3 pós-parto. O número de amostras necessário para interpretação
à nível rebanho depende da prevalência de animais afetados que é
julgada importante para detectar a doença, a acurácia do teste para
detectar a doença, e o tamanho do grupo de interesse. Felizmente, o
último critério tem menos influência. O número mínimo de amostras é
5, e 10 a 12 amostras permitirá uma interpretação na maioria das situ-
ações. Tipicamente, 18 a 35% das vacas têm AGNE > 0,4 mmol/L du-
rante a última semana antes do parto (Oetzel, 2004; LeBlanc, 2005).

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08, 09 e 10 de Novembro de 2016

Relatórios publicados indicam uma prevalência típica de cetose sub-


clínica de aproximadamente 15% (Oetzel, 2004). É importante in-
terpretar tanto AGNE como testes de cetose como a proporção de
animais acima um limiar significativo porque este descreve melhor a
biologia da doença. É errado calcular a média de BHBA ou AGNE a
partir de um grupo de amostras e de forma semelhante a informação
é perdida se amostras de vários animais são reunidas em conjunto.

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VI Simpósio Brasil Sul de Bovinocultura de Leite
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USO DA GENÔMICA COMO FERRAMENTA PARA


MELHORAMENTO GENÉTICO

Dr. Ricardo Ventura


BIO, Universidade de Guelph, USP/FZEA

O material não foi recebido em tempo hábil para publicação


nos anais.

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VI Simpósio Brasil Sul de Bovinocultura de Leite
08, 09 e 10 de Novembro de 2016

PRINCIPAIS AFECÇÕES DE CASCOS,


SEUS IMPACTOS E CONTROLE

A Review of the lameness constraint on dairy


performance - important lesions and control

Arturo Gomez, DVM, PhD


Dairy Research Veterinarian – Europe,
Middle East and Africa, Zinpro Corporation
agomez@zinpro.com | +34687287496

Abstract
Lameness remains one of the leading causes of lost efficiency in
cattle production systems. Furthermore, losses attributed to decreased
reproductive and udder health performance are likely associated with
initial hoof health problems that are not usually considered. Hoof
care programs, involving interventions such as lameness detection,
preventive and therapeutic hoof trimming or nutritional strategies
are commonplace in well-developed dairy industries, but certainly
inconsistently applied around the globe.
The objective of this abstract is to review the current standard
hoof health programs, evaluate the background history that justifies
the basis for these programs and justify a more sophisticated approach
to maximize hoof health in dairy herds.
Current Hoof Health Programs. Lameness detection remains
one of the pending subjects in even well run dairies. Traditionally,
the prevalence of lameness has been evaluated based on visual
assessment of locomotion. Unfortunately, given its subjective nature
(Silva del Rio et al., ADSA-ASAS, 2015), the precision of lameness
detection remains conditioned to the experience of the observer
(Fabian et al, 2012) and the compliance with a systematic approach.
Lesion records have been also used to evaluate the hoof health
status in the herd, sometimes as a complementary piece of information
to locomotion assessment. Traditionally, lesion records have been

139
VI Simpósio Brasil Sul de Bovinocultura de Leite
08, 09 e 10 de Novembro de 2016

stored in paper, with obvious limitations for their use and analysis,
or in farm softwares that, although made their management easier,
lacked standardization within and between farms. The industry has
shown however this to be an actively developing area with the surge of
multiple digital platforms serving as data recording and management
tools, mainly used by professional hoof trimmers and less frequently
used to modify farm level hoof health programs.

In general, and strongly dependent on the different production


systems (pasture, freestalls, open lots, farm size…), cows have
been recommended to be functionally trimmed at dry-off and at mid
lactation (around 150 d). Variations in trimming schedules between
the rearing systems have been primarily based on differences in hoof
horn development, overall hoof health and the extent of the trimming
“culture” in a given country. As expected, a wide distribution of lameness
prevalence has been reported across production systems and regions.
In example, Cook et al. (2003) reported a lameness prevalence
of around 11% in the best 25th percentile of 30 farms surveyed in
Wisconsin, and Von Keyserlingk et al. (2012), reported large differences
between various regions in Canada and the US with alarming lameness
prevalence ranging from ~30% to >50% of the herd.

The reality is that about one half of the adult cows visiting the
trimming chute show some type of foot lesions in well-developed
dairy industries where the cows are mainly kept in confinement (The
Alberta Dairy Hoof Health Project, 2012). Specifically for the type of
lesions, digital dermatitis represents 50% of them. When dealing with
replacement heifers, the total percentage of animals with lesions is
certainly less (~15%), and digital dermatitis is by far the most common
lesion found (NAHMS, 2007).

History of hoof health management programs. The


understanding of lameness in cattle has fundamentally evolved over
the years. The initial systematic approach to foot problems was laid
out by Toussaint Raven (1985) from a biomechanics perspective.
The cow’s anatomy and the natural progression from heifer to milk
production defined the conditions that predisposed the animal to
suffer from imbalanced hoof growth and therefore for the occurrence
of lameness.

140
VI Simpósio Brasil Sul de Bovinocultura de Leite
08, 09 e 10 de Novembro de 2016

Years later, hand in hand with the improvements in nutrition and


subsequently in milk production, much of the attention was diverted to
the metabolic etiopathology of lameness problems. Subacute ruminal
acidosis and the consequent inflammation of the hoof laminae became
took the responsibility of how we understood lameness. However,
much of the ideas about “laminitis” were brought by robust research
developed in the horse hoof. Many of the trials trying to replicate
“laminitis” in cows through changes in rumen conditions failed to
reproduce the typical lameness observed in the field, and much of the
pattern in seasonal non-infectious lesions remained unexplained by
simply using the “metabolic perspective”.
During the last decade, much of the attention shifted then to
the study of the relationship between the cow and the environment as
a determinant of lameness problems. The distribution of the different
activities the cows do during the day, or so called timebudgets, and
the interaction with different walking and resting surfaces was the
subject of extensive research that really shed a lot of light on the
understanding of the problem. Specific lines of research looking at the
anatomy of the protective hoof fat pad and the relationship with body
condition score, the traumatic origin of lameness due to suboptimal
walking surfaces, the influence of social competition or the physiology
around parturition and aspects of bone and epithelial development
lead to recently concluding that lameness is likely a response to an
inflammatory state of multiple origin (Newsome et al., 2016).
Figure 1. Timebudget of dairy cows (Gomez and Cook, 2010).

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08, 09 e 10 de Novembro de 2016

Modern approach and solutions to modern hoof health


problems. Successfully managing hoof health requires the
consideration of the different perspectives indicated above. Prompt
detection of lameness, establishment of a correct trimming technique,
trimming schedules and the evaluation of trimming records, adequate
hygiene and use of well-designed footbaths, consideration of the
timebudgets, precise nutrition and properly built transit surfaces are
the factors to be managed in any hoof health program.
1. Lameness Detection: We acknowledge the benefits of
systematically evaluating the locomotion status of the herd. The
correct evaluation of the distribution of lameness severity across
lactations and days in milk, can be used to have an approximate
estimation of the losses in production performance, easily
translated to marginal lost revenue. However, from a practical
stand point, the goal in the farm should be, in my opinion, to
have a simple and sensitive method of detecting lameness
promptly. In example, if the 5-point locomotion scoring system
is used, ONLY the locomotion 3 would be the real focus of
an intervention or lameness detection, implying zero percent
allowance for score 5 and 4. As importantly, the allocation of
resources and compliance with the protocol aimed at finding
locomotion 3 cows can make a difference on the final success.
2. Correct Trimming Technique: Very well-known is the fact
that >90% of the lesions occur in the lateral toes of the rear
legs. Only in a few specific cases lameness problems are
more prevalent in the front legs. The gold standard trimming
method (“Dutch method”) was defined by Toussaint Raven
three decades ago and still used by most of the professional
trimmers. Other methods have been also described (Kansas
method, white line method,…) but their use is less extended.
Over time, trimmers and hoof specialists using the “Dutch
method” have been putting a lot of attention on the rear lateral
toe’s care due to the higher proportion of lesions found in this
toe but unfortunately, the recommendations on how to trim the
medial toe have been “relaxed” a little bit. Although it has been
originally described that the dimensions of the medial toe could
serve as a reference to trim the lateral toe (its growth and wear

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VI Simpósio Brasil Sul de Bovinocultura de Leite
08, 09 e 10 de Novembro de 2016

are most of the times correct), it is not uncommon to see many


professional trimmers removing more hoof horn than needed
from this toe. The conscious review and eventually correction
of the trimming technique is a fundamental part of a successful
hoof health program and as herds become larger the sensitivity
to over- or under-trimming becomes more important.
Figure 2. Correctly trimmed foot according to the Dutch method.

Pic A.Gomez

3. Trimming schedules: The common approach in many farms


with an organized trimming program is to trim cows at dry-off
and mid lactation (~150 DIM). This schedule meets the needs
of correcting any problem during the dry-off period as cows
would be “resting” until calving, and there is a good opportunity
to recover. The mid lactation trim at 150 DIM, however, might
not be the most recommended practice. For each farm a careful
study of the records/problems could help to establish the most
appropriate moment to perform a trimming during the lactation.
My recommendation would be to adapt the trimming, taking
into consideration changes in management or environmental
conditions overtime and, in general, perform a trimming during
the lactation about two months before the median time of the
main lesions occurrence.

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VI Simpósio Brasil Sul de Bovinocultura de Leite
08, 09 e 10 de Novembro de 2016

Figure 3. Distribution of time of lesion diagnosis by DIM in a 1000-cow


dairy in Wisconsin.

4. Adequate hygiene and appropriate use and designed


footbaths: Infectious problems are a function of infectious and
environmental pressure and skin quality. Digital dermatitis is the
most common hoof infectious lesion in cattle present in about
50% of the animals with an affected hoof. The control strategy
is summarized in figure 4 below.
Figure 4: Summary of FIGHTERS against Digital Dermatitis

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5. Timebudgets and transit surfaces. Lying time can be used as


a marker of cow comfort in confined dairy cattle. In relation
to lameness, the influence of milking time, defined by the
management practices and the design of the facilities, has been
correlated with changes in behavior in lame animals, primarily
modifying lying time. The relationship between lying behavior
and the lying surfaces has been as well strongly associated
with lameness events. Similarly, the transit surfaces have
been shown to be one of the more significant risk factors for
lameness.
The traditional approach to hoof health has been based on the
adaptation of the management to the facilities. Given the
importance of hoof health in the overall farm sustainability, new
facilities are today designed and built taking into consideration
the timebudgets to minimize, between others, hoof health
problems.
Figure 5. Differences in lying time (TL) between lame (LMS 3) and
healthy (LMS 1,2) cows by type of freestall base (Sand or Mattress)
and milking time (TM).

6. Nutrition. Nutrition has evolved considerably in the last decades


and so milk production. We have better mastered the science of
feeding cows to improve efficiency, minimizing digestive upsets.
However, the best producing cows remain still in higher risk
of lameness. We have also learnt that by using new feeding

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08, 09 e 10 de Novembro de 2016

technologies we can better meet the needs for milk production,


reproduction but also for hoof health growth, skin quality
and decreased local or systemic inflammation. A relevant
technology that has given good results when included in hoof
health programs has been the correct supply of trace mineral
nutrition. Organic compounds where the trace metals are linked
to a single amino acid have given an advantage to hoof health
and facilitated the implementation of successful hoof health
programs.
Figure 6. Effects of feeding aminoacid trace mineral complexes
in comparison with the traditional inorganic forms on hoof lesion
prevention (Nocek et al., 2000).

Farm profitability is certainly limited by suboptimal hoof health.


Additionally, lameness is likely the best marker of animal welfare
and one of the main arguments that the general public used to judge
modern farming. Lameness prevention is a must today and requires
of a sophisticated approach according to the extraordinary capacity of
our animals.

Let’s make happy cows!

References and questions: Available at agomez@zinpro.com

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08, 09 e 10 de Novembro de 2016

ATUALIZAÇÕES E ÚLTIMAS TENDÊNCIAS NO


CONTROLE E TRATAMENTO DE MASTITES

Marcos Veiga dos Santos


Professor Associado, Departamento de Nutrição e Produção Animal (VNP),
Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia, FMVZ-USP.

Tiago Tomazi
Pós-graduandos do VNP, FMVZ-USP.
Endereço para correspondência:
Prof. Dr. Marcos Veiga dos Santos (mveiga@usp.br)
Rua Duque de Caxias Norte, 225, Campus da USP
Pirassununga, SP – CEP 13635.900 - Telefone: 019 3554 4240

RESUMO

Uma das principais ferramentas para a eliminação de infecções


intramamárias é o tratamento com antimicrobianos, no entanto, ex-
iste limitado número de estudos científicos desenvolvidos com de-
lineamentos apropriados para avaliação de tratamento da mastite
bovina. A eficácia do tratamento da mastite é dependente de fatores
associados com: a) vaca (idade, estágio de lactação, status do siste-
ma imune, histórico de mastite clínica, contagem de células somáti-
cas-CCS e número de quartos afetados); b) patógeno (espécie, cepa,
patogenicidade, contagem de bactérias no leite, capacidade de for-
mação de biofilme e sensibilidade antimicrobiana); c) protocolo de
tratamento (espectro de atividade do antimicrobiano, via de adminis-
tração, concentração no local da infecção e duração do tratamento).
Para a definição de um protocolo adequado de tratamento, após o
diagnóstico inicial, recomenda-se a classificação do caso de mastite
com base na gravidade dos sintomas e a coleta de amostra para cul-
tura microbiológica. O protocolo de tratamento a ser utilizado deve
levar em conta a gravidade do caso, o tipo de agente predominante
no rebanho e o histórico clínico da vaca.

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VI Simpósio Brasil Sul de Bovinocultura de Leite
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Introdução

O controle da mastite bovina tem como princípios básicos a re-


dução de: a) novas infecções intramamárias (IIM); b) da duração dos
casos existentes. Contudo, mesmo com rigoroso controle, é inevitável
a ocorrência de novos casos de mastite. Sendo assim, a redução da
duração dos casos de mastite clínica pode ser ocorrer por meio da: a)
cura espontânea, b) descarte de vacas com mastite crônica, c) trata-
mento durante a lactação, d) tratamento de vaca seca.
Uma das principais ferramentas para a eliminação de infecções
intramamárias é o tratamento com antimicrobianos, os quais são fer-
ramentas essenciais para o controle de mastite. O tratamento de
mastite é a principal razão para uso de antimicrobianos em vacas
leiteiras (PEREYRA et al., 2015). Busca-se com o tratamento da mas-
tite atingir pelo menos um dos seguintes objetivos: a) curar os casos
de mastite clínica de maneira rápida e diminuir o desconforto do ani-
mal, b) reduzir as fontes de infecção de mastite contagiosa, c) retor-
nar a produção leiteira normal, d) evitar a morte da vaca, em casos
de mastite grave.
Em termos de prejuízos, os principais custos associados com a
ocorrência de mastite clínica incluem os custos de diagnóstico micro-
biológico, medicamentos, mão de obra, descarte de leite, redução da
produção de leite no restante da lactação, aumento do risco de des-
carte da vaca ou perda do quarto, e risco de transmissão da infecção
para outras vacas (PINZÓN-SÁNCHEZ et al., 2011).
A maioria dos casos de mastite clínica que necessitam de trat-
amento com antimicrobianos é diagnosticada e tratada pelos próprios
ordenhadores ou responsáveis pela ordenha, sem a presença do vet-
erinário. Nesta situação, os tratamentos são iniciados imediatamente
após o início dos sintomas, sem prévio conhecimento do agente cau-
sador, pelo uso de protocolos pré-definido com base na experiên-
cia prévia de cura clínica. Como consequência, nestas fazendas a
avalição da cura do caso de mastite é feita principalmente com base
no desaparecimento de sintomas clínicos (RUEGG, 2010).
Existe limitado número de estudos científicos desenvolvidos
com delineamentos apropriados para avaliação de tratamentos de

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08, 09 e 10 de Novembro de 2016

mastite clínica bovina. Isso ocorre em razão da dificuldade de ob-


tenção de número de casos suficientes para comparação entre trat-
amentos, das diferenças de critérios de definição de cura e protoco-
los de coleta de amostras, da dependência de ocorrência natural de
casos clínicos em fazendas leiteiras e da ausência de grupos controle
(sem tratamento) em fazendas comerciais (RUEGG, 2010). No en-
tanto, mesmo com a restrição do número de pesquisas sobre trata-
mento de mastite, os estudos existentes podem fornecer informações
úteis para os veterinários e proprietários na tomada de decisão sobre
aplicação de tratamentos visando otimizar a taxa de cura da mastite
bovina e o uso prudente de antibióticos em vacas leiteiras.
Uma das dificuldades para aplicação de informações sobre
tratamento de mastite com base estudos científicos está relaciona-
da com os requerimentos legais nos diferentes países para uso de
antimicrobianos em vacas leiteiras, principalmente quanto aos proto-
colos avaliados, dosagens e duração de tratamentos (MANSION-DE
VRIES et al., 2015)

Fatores que afetam o tratamento da mastite


A eficácia do tratamento da mastite é dependente de fatores
associados com: a) vaca (idade, estágio de lactação, status do siste-
ma imune, histórico de mastite clínica, contagem de células somáti-
cas-CCS e número de quartos afetados); b) patógeno (espécie, cepa,
patogenicidade, contagem de bactérias no leite, capacidade de for-
mação de biofilme e sensibilidade antimicrobiana); c) protocolo de
tratamento (espectro de atividade do antimicrobiano, via de adminis-
tração, concentração no local da infecção e duração do tratamento)
(ZIESCH et al., 2016). Entre os fatores associados ao sucesso da
terapia da mastite, podem ser destacados:

a) Vaca
O estágio de lactação, a idade e o histórico de ocorrência
de mastite clínica afetam a probabilidade de sucesso da terapia
(BARKEMA et al., 2006). Vacas mais velhas e no final de lactação

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08, 09 e 10 de Novembro de 2016

apresentam menor chance de cura que as vacas jovens e em início


de lactação (DELUYKER et al., 1999; MCDOUGALL et al., 2007b).
O estágio de lactação é um importante fator que determina a relação
custo:benefício do tratamento, pois mesmo em casos com alta proba-
bilidade de cura, vacas em final de lactação apresentam menor poten-
cial de retorno econômico que aquelas em início de lactação (SMITH,
2010). Em termos gerais, a probabilidade de cura bacteriológica é
máxima (80%) para primíparas, com até 60 dias em lactação, com <
200.000 células/ml e sem histórico de mastite clínica (STEENEVELD
et al., 2011). Sendo assim, a definição do protocolo de tratamento da
mastite deve levar em consideração a idade das vacas para a tomada
de decisão sobre o tratamento de mastite em vacas adultas.
Casos clínicos de longa duração (crônicos) apresentam menor
taxa de cura do que casos recentes, principalmente quando o agente
causador é Staphylococcus aureus (OWENS et al., 1997). Sendo as-
sim, a identificação precoce do caso clínico de mastite e tratamento
imediato aumentam a taxa de cura.

b) Tipo de patógeno causador:


A taxa de cura da mastite varia de acordo com os tipos de agen-
tes causadores. Por exemplo, a taxa de cura do tratamento de mas-
tites causadas por S. aureus é menor do que aquelas causadas por S.
agalactiae, as quais têm alta resposta ao tratamento com antibióticos.
As mastites causadas por patógenos ambientais apresentam taxas
de cura variáveis. MCDOUGALL et al., (2007a) descreveram taxas de
cura variando entre 89% (Streptococcus uberis), 69% (Streptococcus
dysgalactiae), 33% (Staphylococcus aureus) a 85% (estafilococos co-
agulase-negativa).
Protocolos de tratamento de mastite clínica baseados em cultu-
ras bacteriológicas na própria fazenda têm sido recomendados, pois
com base na identificação do agente causador (negativo, Gram-neg-
ativo ou Gram-positivo), é possível determinar a necessidade ou não
de uso de antimicrobianos para o tratamento (LAGO et al., 2011b;
a). Com da cultura na fazenda, o tratamento com antimicrobianos é
indicado para casos clínicos leves e moderados e com resultado de
cultura positivo para bactérias Gram-positivas. Resultados de isola-

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VI Simpósio Brasil Sul de Bovinocultura de Leite
08, 09 e 10 de Novembro de 2016

mento de bactérias Gram-negativas ou sem crescimento microbiano


(negativo) não são recomendados para o tratamento com antimicrobi-
anos. Desta forma, pode-se reduzir o uso inadequado de antibióticos
e diminuir os dias de descarte do leite com resíduos de antibióticos.
Streptococcus agalactiae é altamente sensível tratamento por
via intramamária, com taxas de cura que variam entre 80 a 100%
(WAGNER et al., 2006). Os princípios ativos de antimicrobianos mais
recomendados para tratamento de Streptococcus agalactiae são os
beta-lactâmicos, como penicilina, cefalosporina, cloxacilina e eritro-
micina. Em rebanhos com alta prevalência de S. agalactiae, o trata-
mento de mastite subclínica durante a lactação é recomendada, uti-
lizando-se a “blitz terapia” como ferramenta para erradicação desse
agente, no entanto, deve ser feita a avaliação do custo:benefício des-
ta medida para cada rebanho (WAGNER et al., 2006).
Por outro lado, a taxa de cura média do tratamento durante a
lactação de Staphylococcus aureus é de 25 a 30% (BARKEMA et al.,
2006). Dentre as possíveis razões para a menor chance de cura do
tratamento de IIM causadas por S. aureus estão a demora para o início
do tratamento, a escolha inadequada dos antibióticos, o curto período
de tratamento, a resistência do microrganismo ao antimicrobiano uti-
lizado, ocorrência de bactérias inativas ou metabolicamente inertes,
contato deficiente entre a bactéria e o antimicrobiano em decorrência
da formação de tecido cicatricial, a proteção dentro dos leucócitos, a
difusão pobre da droga e a inativação dos antibióticos por componen-
tes do leite e proteínas teciduais (BARKEMA et al., 2006).
Os testes de sensibilidade in vitro aos antimicrobianos são
recomendados para auxiliar na escolha do antimicrobiano para trat-
amento de doenças bacterianas (PYORALA, 2009). No entanto, os
resultados de estudos de avaliação de testes de susceptibilidade an-
timicrobiana in vitro (antibiograma) apresentam baixa correlação com
o sucesso do tratamento de mastite clínica e subclínica. Desta forma,
estes testes de susceptibilidade antimicrobiana são de valor limita-
do para a escolha de protocolos de tratamentos de mastite (SMITH,
2010). Um dos principais problemas de resistência antimicrobiana é a
ocorrência de S. aureus resistente a penicilina, uma vez que as taxas
de cura das cepas resistentes são menores que as das sensíveis
(PITKALA et al., 2004).

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VI Simpósio Brasil Sul de Bovinocultura de Leite
08, 09 e 10 de Novembro de 2016

c) Protocolo de tratamento de mastite clínica


Além dos fatores associados com a vaca e com o agente
causador de mastite, a eficácia do tratamento com antimicrobianos
depende da escolha do antimicrobiano e do protocolo utilizado. No
entanto, na grande maioria das fazendas, o início do tratamento da
mastite clínica ocorre sem o conhecimento prévio do agente causador.
De forma geral, quando não existem informações sobre o agen-
te causador da mastite, recomenda-se que o protocolo de tratamento
a ser utilizado deve levar em conta a gravidade do caso, os dados
históricos dos tipos de agentes causadores de mastite predominante
no rebanho e as características e histórico da vaca.
Para a definição de um protocolo de tratamento de mastite
clínica, após o diagnóstico inicial, recomenda-se a classificação do
caso de mastite com base na gravidade dos sintomas (escores 1, 2 e
3): 1) leve, somente alteração do leite (grumos, coágulos); 2) modera-
do, alterações do leite e de sintomas no quarto afetado (inchaço, dor);
3) grave, além dos sintomas dos escore 2, a vaca apresenta sintomas
sistêmicos (febre, desidratação, prostração) (PINZON-SANCHEZ et
al., 2011).
Para que a terapia com antibiótico tenha bons resultados, o
antimicrobiano deve atingir os locais da infecção no quarto afeta-
do e manter concentração mínima inibitória por um período mínimo
necessário para eliminar o microrganismo (SMITH, 2010). A via mais
comum para tratamento de casos de mastite clínica em vacas leiteira
é a intramamária (PYORALA, 2009), pois esta rota de administração
permite atingir altas concentrações do antimicrobiano no quarto in-
fundido. Os tratamentos dos casos clínicos leves podem ser feitos so-
mente com infusão intramamária de antibiótico de amplo espectro, em
bisnagas descartáveis, destinadas ao uso em vacas em lactação por
um período de pelo menos 3-4 dias (PYORALA, 2009; STEENEVELD
et al., 2011).
Os principais critérios para definir o sucesso do tratamento de
mastite são: a) cura clínica (eliminação dos sintomas de alteração
do leite); b) cura bacteriológica: eliminação do agente causador com
base em duas ou três amostras coletadas após o tratamento; c) re-

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VI Simpósio Brasil Sul de Bovinocultura de Leite
08, 09 e 10 de Novembro de 2016

dução da CCS (p.ex. < 200.000 células/ml após o tratamento). A


cura bacteriológica é o critério mais objetivo do que a cura clínica
e tem sido usado para a maioria dos estudos científicos, no entan-
to, em condições de campo este tipo de avaliação é pouco utilizada
(PINZÓN-SÁNCHEZ et al., 2011).
Para casos de mastite grave, quando ocorrem sintomas como
dor, edema e sinais sistêmicos (febre, redução da ingestão de alimen-
tos, dificuldade de locomoção, desidratação), o tratamento imediato
durante a lactação é necessário em função de risco da vaca morrer.
Nesses casos, a identificação precoce dos sintomas e o uso de tera-
pia de suporte são fundamentais para o sucesso do tratamento.

Protocolos para tratamento da mastite crônica


As baixas taxas de cura dos tratamentos convencionais du-
rante a lactação, em especial para tratamento de infecções crônicas
causadas por Staphylococcus aureus, estimularam a busca de no-
vas estratégias de tratamento, entre as quais destacam-se a tera-
pia combinada e a terapia estendida. Essas estratégias, mesmo com
maiores custos, podem ser viáveis em rebanhos que apresentam alta
prevalência de infecções crônicas. Para tanto, deve-se avaliar viabili-
dade de uso destes protocolos de tratamento considerando os fatores
ligados à vaca (idade, estágio de lactação, CCS antes do tratamento)
e ao tipo de agente causador.

Terapia combinada
Os antimicrobianos empregados para o tratamento de mastite
durante a lactação podem ser administrados por via sistêmica ou in-
tramamária. As principais vantagens do tratamento intramamário são
a elevada concentração da droga no leite após a infusão e o menor
uso de antimicrobiano em comparação com a administração sistêmi-
ca. No entanto, pela via intramamária, alguns antimicrobianos podem
não penetrar em regiões mais profundas do úbere (PYORALA, 2009).
Para a administração por via sistêmica, é necessário que o antimicro-
biano se difunda passivamente do sangue para a glândula mamária,
atue na presença de leite e de debris inflamatórios e mantenha con-

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VI Simpósio Brasil Sul de Bovinocultura de Leite
08, 09 e 10 de Novembro de 2016

centrações inibitórias mínimas. Dessa maneira, o objetivo da terapia


combinada é manter ou aumentar a concentração de antibióticos nos
locais onde somente a via intramamária não permite manter concen-
tração por um período suficiente para eliminar o agente causador.
Como desvantagens da via sistêmica de administração de antimicro-
bianos para tratamento de mastite destaca-se a dificuldade de man-
ter concentrações terapêuticas no leite, a necessidade de repetidas
injeções intramusculares de grandes volumes de antimicrobianos e
da formulação ser aprovada legalmente para uso em vacas leiteiras.

Para tratamentos intramamários, os princípios ativos que são


ácidos fracos (amoxicilina, cefapirina, penicilina) apresentam melhor
distribuição na glândula mamária do que as bases fracas (diidroestrep-
tomicina, eritromicina, pirlimicina), pois uma maior concentração da
droga está na forma não-ionizada no leite. Adicionalmente, antimi-
crobianos altamente lipofílicos como macrolídeos, fluoroquinolonas e
penetamato iodidrato, são boas opções para o tratamento parenteral.
Por outro lado, para administração sistêmica de antibióticos para trat-
amento de mastite, as bases fracas são preferidas, pois no plasma
uma maior concentração da droga está na forma não ionizada, o que
permite maior passagem do plasma para o leite (SMITH, 2010).

TAPONEN et al. (2003) avaliaram o efeito da terapia combinada


(parenteral + intramamária) de mastite clínica causada por S. aureus
em comparação com protocolo somente com tratamento parenteral
por 5 dias. Considerando os isolados de S. aureus sensíveis a penici-
lina, a taxa de cura foi maior (79,1%) para o protocolo de tratamento
combinado (penicilina G parenteral por 5 dias e penicilina+neomicina
intramamária por 4 dias) em comparação com o tratamento parenter-
al (56,1%) com penicilina G por 5 dias. Para os isolados de S. aureus
resistentes à penicilina, não houve efeito do protocolo de tratamen-
to combinado (taxa de cura média de 33,3%) com amoxicilina+ácido
clavulânico parenteral e intramamário em comparação com somente
o protocolo parenteral com espiramicina por 5 dias.

Para casos de mastite crônica, o uso combinado de terapia in-


tramamária e sistêmica de antibióticos aumenta as concentrações da
droga nos locais da infecção e, por consequência, aumenta as taxas
de cura. STEENEVELD et al., (2011) estimaram que a taxa de cura de

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mastite clínica causada por S. aureus aumenta de 40% (tratamento


intramamário, 3 dias de duração) para 60% (terapia combinada).

Terapia estendida

A duração do tratamento é uma das principais variáveis do pro-


tocolo de que afeta a chance de cura da mastite. Umas das princi-
pais razões para baixas taxas de cura dos tratamentos da mastite é a
curta duração dos tratamentos. Em recente revisão sobre estimativa
de cura bacteriológica da mastite clínica, em função do tipo de agen-
te causador e da duração do tratamento, (PINZÓN-SÁNCHEZ et al.,
2011) estimou taxas de cura em função da duração do tratamento, em
vacas adultas com mastite clínica causada por S. aureus de 10% (2
dias), 20% (5 dias) e 35% (8 dias). As vacas primíparas apresentam
maiores taxas de cura, em média 5 unidades percentuais, que vacas
adultas. Para estreptococos ambientais, as taxas de cura estimadas
foram: 25% (sem tratamento), 55% (2 dias), 65% (5 dias) e 75% (8
dias). Para o grupo dos estafilococos coagulase-negativa, as taxas
de cura estimadas foram: 55% (sem tratamento), 70% (2 dias), 75%
(5 dias) e 80% (8 dias). (STEENEVELD et al., 2011) estimou que as
taxas de cura para mastite causada por S. aureus aumentam em 25
unidades percentuais quando a duração do tratamento intramamários
passou e 3 para 5 dias. A terapia estendida consiste no aumento da
duração do tratamento intramamário (5 a 8 dias), em relação ao trat-
amento convencional de 3-4 dias de duração.

Entre os potenciais benefícios da terapia estendida, pode-se


citar a redução da contagem de células somáticas, a melhoria da
qualidade do leite e o aumento da produção leiteira. Esses benefícios
devem ser analisados, no entanto, em relação aos custos do antibióti-
co, descarte de leite com resíduos e riscos de infecção pelo uso de
infusões repetidas no mesmo quarto. O aumento da duração da tera-
pia aumenta a cura bacteriológica de mastite causada por S. aureus e
estreptococos ambientais, contudo o uso como rotina sem prévio con-
hecimento do agente causador pode não ser economicamente viável,
em razão do aumento do descarte do leite e do custo do antibiótico
(PINZÓN-SÁNCHEZ et al., 2011).

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VI Simpósio Brasil Sul de Bovinocultura de Leite
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Avaliação de protocolos para tratamento de mastite clínica

O uso de protocolos terapêuticos específicos contra os agentes


causadores de IIM aumenta as chances de eliminação do micro-or-
ganismo, e consequentemente, reduz o uso e os gastos com me-
dicamentos e com descarte de leite. Um estudo recente avaliou dois
avaliou dois antimicrobianos comercialmente disponíveis no Brasil,
quanto à eficiência de tratamento de mastite clínica (Cortinhas et
al., 2016). Um total de onze rebanhos distribuídos nas regiões Sul
e Sudeste do Brasil foram incluídos no estudo. Os rebanhos tinham
em média 534 vacas em lactação (variando de 130 a 2.100), todas
alojadas em sistema free-stall e com produção média de 29,5 ± 5,3
litros/dia. A média mensal de CCS dos rebanhos durante o período de
estudo variou de 190.000 a 700.000 células/mL.

Após o diagnóstico de mastite clínica, as vacas com mastite


leve e moderada foram aleatoriamente distribuídas em dois grupos de
tratamento, ambos com infusões intramamárias (uma vez ao dia du-
rante quatro dias) de um dos seguintes compostos antimicrobianos:
cloridrato de ceftiofur (125 mg; Spectramast LC, Zoetis); e (controle)
tetraciclina 200 mg + neomicina 250 mg + bacitracina 28 mg + pred-
nisolona 10 mg (Mastijet Forte, MSD Animal Health). Vacas tratadas
com ceftiofur que apresentaram mastite moderada receberam uma
aplicação intramuscular diária de flumetasona 5 mg (Flucortan, Zoe-
tis) durante os primeiros dois dias de tratamento, visto que este pro-
duto intramamário não possui anti-inflamatório em sua composição.
Os casos graves de mastite clínica, os quais apresentaram sintomas
sistêmicos foram tratados com os protocolos específicos de cada re-
banho.

A cura clínica foi determinada pela presença de características


normais do leite e úbere em avaliações realizadas após o término
do tratamento e até 21 dias pós-tratamento. A cura bacteriológica foi
determinada pela ausência da mesma espécie de micro-organismo
identificada no momento do diagnóstico em amostras coletadas aos
14 ±3 e 21 ±3 dias após o tratamento. Casos de nova IIM foram de-
terminados pela presença de qualquer espécie de micro-organismo
diferente daquela isolada na amostra coletada no momento do diag-
nóstico em qualquer das duas culturas realizadas após o tratamento.

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08, 09 e 10 de Novembro de 2016

A frequência de patógenos isolados nas amostras coletadas


no momento do diagnóstico foi similar entre os protocolos de trat-
amento (P>0.05). Em relação aos resultados de cultura, 132 casos
(50%) não apresentaram crescimento microbiológico em 48 horas
de incubação. Este resultado foi similar a outros estudos aval-
iando a distribuição de patógenos causadores de mastite clínica
(PINZON-SANCHEZ; RUEGG, 2011; VERBEKE et al., 2014). Cento
e cinco casos (39,8%) foram causados por bactérias Gram-positivas,
enquanto 27 (10,2%) foram causados por bactérias Gram-negativas.
Streptococcus agalactiae foi o principal patógeno Gram-positivo iso-
lado (n=24; 9,1%), seguido de Staphylococcus aureus (n=20; 7,6%)
e Staphylococcus coagulase negativa (n=20; 7,6%). Klebsiella spp.
(n=12; 4,5%) e Escherichia coli (n=11; 4,2%), foram os principais
patógenos Gram-negativos isolados dos casos de mastite clínica.

Um total de 130 casos foi avaliado no grupo tratado com ceft-


iofur, enquanto que 134 casos foram tratados com a terapia controle
(associação de tetraciclina, neomicina e bacitracina). Não houve dif-
erença estatística entre os grupos de tratamento em relação à taxa
de cura clínica (OR = 1,28; 95% CI = 0,711–2,303; P=0,409) cura
bacteriológica (OR = 1,222; 95% CI = 0,470–3,180; P=0,678), e ris-
co de novas IIM (OR = 0,774; 95% CI = 0,399 – 1,501; P = 0,446;
Figura 1). O risco de cura clínica foi de 0,79 (±0,06) para as vacas
tratadas com ceftiofur e de 0,74 (±0,06) para as vacas tratadas com
o produto controle. O risco de cura bacteriológica foi de 0,79 (±0,06)
para as vacas tratadas com ceftiofur e de 0,76 (±0,07) para as vacas
do grupo controle. Um total de 15% (n=36) das vacas apresentou
novas IIM. Para as vacas tratadas com ceftiofur o risco de novas IIM
foi de 0,10 (±0,04), enquanto que para as vacas tratadas com o pro-
duto com associação de antimicrobianos, o risco de novas IIM foi de
0,11 (±0,04). Não houve diferença entre os tratamentos quando os
grupos bacterianos (Gram-positivo vs. Gram-negativo) foram incluí-
dos no modelo estatístico para qualquer uma das variáveis resposta
avaliadas.

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Figura 1 – Risco de cura clínica e bacteriológica de casos de mastite


clínica, e de novas infecções intramamárias ocorridos em vacas leitei-
ras de acordo com os protocolos terapêuticos utilizados (cloridrato de
ceftiofur, 125 mg; controle: tetraciclina 200 mg + neomicina 250 mg +
bacitracina 28 mg + prednisolona 10 mg).
Ambas as formulações avaliadas neste estudo apresentaram
altas taxas de cura clínica e bacteriológica de casos não-graves de
mastite clínica. Estudos similares a este, em que produtos comer-
cialmente disponíveis são comparados entre si podem gerar resulta-
dos mais aplicáveis quanto à terapia da mastite clínica em rebanhos
leiteiros.

Protocolos de tratamento da mastite clínica com base em pro-


gramas de cultura na fazenda (PCF)
A mastite é a principal causa de uso de antimicrobianos em
fazendas leiteiras (POL; RUEGG, 2007; SAINI et al., 2012), e parte
dos tratamentos realizados pode não ser justificado quando a cultura
apresenta resultado negativo (ROBERSON, 2003). Além disso, em
mais de 50% dos casos de mastite clínica causados por bactérias
gram-negativas, pode ocorrer cura do processo infeccioso somente
por ação do sistema imune das vacas (RUEGG, 2012).

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08, 09 e 10 de Novembro de 2016

Mesmo que os sinais clínicos possam ser sugestivos de IIM


causadas por alguns patógenos, a detecção da mastite clínica é ba-
seada em sinais não-específicos de inflamação, o que torna impos-
sível diagnosticar a etiologia baseada somente na observação do
leite, glândula mamária ou vaca. Assim, a forma mais adequada de
identificar o patógeno causador de mastite é por meio da cultura mi-
crobiológica. No entanto, apesar dessa possibilidade existir em nível
laboratorial, poucas fazendas realizam cultura dos casos de mastite
clínica para tomar decisões de tratamento. Parte disso se deve ao
fato de que, mesmo com o envio de amostras para cultura dos casos
de mastite clínica à laboratórios especializados, dificilmente os resul-
tados estão disponíveis para tomada de decisão em tempo real.
Atualmente, é crescente o interesse de rebanhos de médio e
grande porte em PCF. Tais programas permitem aos produtores de
leite tomar decisões estratégicas de tratamento de MC, o que pode
resultar na redução do uso de antimicrobianos, mantendo a eficiência
da terapia e preservando o potencial produtivo da vaca (LAGO et al.,
2011). Outros benefícios poderiam incluir redução do custo total com
tratamento, redução dos riscos de resíduos de antimicrobianos, e re-
dução do risco de potencial seleção de cepas resistentes.
Os métodos laboratoriais usados em PCF normalmente não
são os mesmos realizados em laboratórios de microbiologia especial-
izados, e normalmente são realizados por colaboradores da fazenda,
os quais, em sua maioria, não são especialistas em microbiologia.
Os métodos de cultura na fazenda são baseados no uso de técnicas
laboratoriais simplificadas, as quais têm como objetivo fornecer um
resultado rápido do potencial agente causador ou do grupo ao qual o
micro-organismo pertence (gram-negativo ou positivo) e assim insti-
tuir a terapia (RUEGG, 2012).
O método mais básico de PCF é realizado com o uso de plac-
as bi-partidas (meios seletivos para bactérias gram-negativas e/ou
gram-positivas), tri-partidas (normalmente inclui um meio seletivo
para S. aureus) ou placas partidas em quatro (a qual além dos meios
anteriores, inclui um meio seletivo para Streptococcus). O resultado
de cultura é normalmente usado para diferenciar infecções causadas
por bactérias Gram-positivas, Gram-negativas, identificar ausência de
crescimento (cultura negativa), ou dependendo dos meios contidos

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na placa, para identificação de patógenos específicos. Após 24 horas


de incubação, as placas são avaliadas e o protocolo terapêutico é
realizado conforme os resultados de cultura. A interpretação após 24
horas de incubação apresentou precisão de 80% na diferenciação de
patógenos gram-positivos de gram-negativos em comparação com
metodologias realizadas em laboratórios microbiológicos (LAGO et
al., 2011).
Um estudo em andamento, desenvolvido pela equipe Qualile-
ite-FMVZ/USP (dados não publicados), está avaliando três rebanhos
com média de 209 (DP=94) vacas em lactação distribuídos nos esta-
dos de São Paulo (n=1) e Minas Gerais (n=2), Brasil. Os objetivos do
estudo foram avaliar um PCF em relação aos riscos de cura bacte-
riológica, persistência de infecção, novas infecções intramamárias e
taxa de recorrência de mastite clínica. Além disso, esse estudo teve
como objetivo avaliar economicamente o PCF em comparação ao
sistema de tratamento realizado imediatamente após o diagnóstico
da mastite clínica.
A cultura na fazenda foi realizada por meio da inoculação de
leite em placas bipartidas contendo os seguintes meios de cultura:
Agar MacConkey (meio seletivo para bactérias gram-negativas e coli-
formes) e Agar sangue (meio não-seletivo). Após incubação, as plac-
as foram examinadas de acordo com o crescimento microbiológico
nos meios de cultura das placas bipartidas: (1) gram-positivo, cresci-
mento somente em Agar sangue; (b) gram-negativo, crescimento no
Agar MacConkey e Agar Sangue, com mesmo aspecto de crescimen-
to; (c) negativo, ausência de crescimento em ambos os meios de cul-
tura. Além da amostra coletada no momento do diagnóstico, outras
duas amostras foram coletadas aos 14 e 21 dias após o diagnóstico
para avaliação de cura bacteriológica, persistência de infecção e risco
de novas IIM. As amostras coletadas foram congeladas e submetidas
ao laboratório para análises de cultura segundo recomendações do
NMC (1999).
A decisão de terapia com uso de antimicrobianos foi tomada
com base nos resultados finais da cultura microbiológica na fazenda:
(a) vacas com mastite clínica graves e/ou com culturas de bactérias
Gram-positivas ou mistas (dois ou mais agentes no estriamento de
inoculação) foram submetidas à terapia conforme protocolo adotado

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na fazenda; (b) casos de mastite clínica de grau leve ou moderado e


com crescimento de bactérias Gram-negativas ou sem crescimento
microbiano em cultura realizada na fazenda não receberam tratamen-
to antimicrobiano; (c) vacas com qualquer resultado de cultura que
não apresentaram melhora dos sintomas clínicos em 36 horas após
o diagnóstico da mastite foram submetidas à terapia conforme a sin-
tomatologia e protocolo da fazenda.
Até o momento, dois rebanhos finalizaram o período de moni-
toramento e um total de 539 casos de mastite clínica foram submeti-
dos ao PCF. Destes, 189 casos (35,1%) foram identificados como
Gram-positivos e 145 casos (26,9%) como Gram-negativos. Além
disso, 205 casos de mastite clínica (38%) não apresentaram cresci-
mento microbiológico após 48 horas de incubação.
Das amostras coletadas no momento do diagnóstico e sub-
metidas ao laboratório, 506 (94%) apresentaram resultado de cul-
tura. Destas, 131 (26%) foram bactérias Gram-positivas, 96 (19%)
Gram-negativas, 21 (4%) apresentaram identificação de Prototheca
(n=12) ou levedura (n=9), e 258 (51%) apresentaram resultado neg-
ativo (sem crescimento). O patógeno com maior frequência de isol-
amento foi Esherichia coli (n = 65; 26% das culturas com isolamento
microbiológico), seguido de Staphylococcus coagulase negativa (n =
43; 17%) e Streptococcus dysgalactiae (n=36; 15%).
As culturas realizadas na fazenda apresentaram 72% de equiv-
alência em comparação com os resultados obtidos no laboratório. Re-
sultados de um estudo realizado em rebanhos canadenses reportaram
uma precisão de 80% na diferenciação de patógenos Gram-positivos
de Gram-negativos em comparação com metodologias realizadas em
laboratórios microbiológicos (LAGO et al.; 2011). Em nosso estudo,
92 amostras apresentaram crescimento microbiano na cultura real-
izada na fazenda, porém, resultado negativo na cultura realizada no
laboratório. Esse fato pode estar atribuído à redução da viabilidade da
amostra (morte bacteriana) após o congelamento do leite.
Um total de 198 casos de mastite clínica apresentaram resul-
tados positivo nas amostras coletadas no momento do diagnóstico e
aos 14 e 21 dias após a primeira cultura. Deste total, 72% (n = 142)
dos casos apresentaram cura bacteriológica (resultado positivo na

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cultura realizada no momento do diagnóstico e ausência do mesmo


micro-organismo nas duas culturas subsequentes). Um total de 84%
dos casos com isolamento de bactérias Gram-negativas apresentou
cura bacteriológica, mesmo sem o uso de terapia antimicrobiana.
Para os casos com isolamento de bactéria Gram-positivas, em que
todos os casos receberam terapia antimicrobiana, a cura bacteriológi-
ca foi observada em 65% dos casos.
Em relação ao risco de novas IIM (presença de um micro-or-
ganismo diferente do isolado na cultura realizada no diagnóstico em
qualquer das culturas realizadas após o diagnóstico), 420 casos
foram avaliados e 29% (n = 122) apresentaram novas infecções IIM.
Não houve diferença entre os casos com isolamento de bactérias
Gram-positivas, Gram-negativas e culturas negativas.
Os resultados preliminares deste estudo demonstraram alta
prevalência de casos com resultado de cultura negativa e alta taxa
de cura bacteriológica para os casos de mastite clínica com isola-
mento de bactérias Gram-negativas. Com a implantação do PCF nos
dois rebanhos em que o período de avaliação a campo foi finalizado,
houve redução de 63% no uso de antimicrobianos.

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