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Verso e Reverso, XXIX(71):70-78, maio-agosto 2015

© 2015 by Unisinos – doi: 10.4013/ver.2015.29.71.03


ISSN 1806-6925

A interculturalidade na linguagem audiovisual:


estranhamento, duplicação, hibridização e acabamento

The interculturality in audiovisual language:


estrangement, duplication, hybridization and finishing

Júlio César David Ferreira


Universidade Federal do Paraná. Rua XV de Novembro, 1299, 80060-000,
Curitiba, PR, Brasil. ferreirajcd@gmail.com

Henrique Evaldo Janzen


Universidade Federal do Paraná. Rua XV de Novembro, 1299, 80060-000,
Curitiba, PR, Brasil. henrijan@uol.com.br

Resumo. Na perspectiva bakhtiniana de lingua- Abstract. In Bakhtin’s view of language and culture
gem e cultura o princípio da alteridade é medular, the principle of otherness is medullary, therefore,
portanto, nesta investigação, buscamos uma com- in this research we seek for an understanding of
preensão da interculturalidade na comunicação, the interculturality in communication, illustrated
ilustrada na linguagem fílmica, sob o prisma da in film language, through the prism of the theory
teoria de Mikhail Bakhtin, sobretudo nas ideias de of Mikhail Bakhtin, especially the ideas of exotopy/
exotopia/excedente de visão, constitutivas das relações vision surplus, components of intercultural relations.
interculturais. Assim, o presente artigo consiste Thus, this article is an analysis of some intercultur-
em uma análise de algumas relações interculturais al relations experienced by the characters Eugene
vivenciadas pelos personagens Eugene Martone e Martone and Willie Brown in the movie Crossroads.
Willie Brown, do filme A Encruzilhada. Consideran- Considering the complexity of film language, our
do a complexidade da linguagem cinematográfica, approach concentrated on the development of the
nosso enfoque incidiu sobre a evolução da relação intercultural relationship between the characters,
intercultural entre os personagens, o que deu con- which gave concreteness to the concepts of duplica-
cretude aos conceitos de duplicação, hibridização e tion, hybridization and finishing, central amalgam in
acabamento, amálgama central na perspectiva dia- the dialogical perspective on language and culture,
lógica de linguagem e cultura, tanto dentro quanto both inside and outside the artistic universe, at last,
fora do universo artístico, enfim, possível em todos possible in all fields of human activity.
os campos da atividade humana.

Palavras-chave: audiovisual, comunicação, inter- Keywords: audiovisual, communication, intercul-


culturalidade, linguagem, Mikhail Bakhtin. turality, language, Mikhail Bakhtin.

Introdução relações interculturais vivenciadas pelos per-


sonagens do filme A Encruzilhada (Hill, 1986)
A partir da consideração dos complexos como uma forma de dar concretude a alguns
processos subjetivos próprios da comunicação elementos teóricos da filosofia da linguagem
audiovisual, neste artigo, analisamos algumas do Círculo de Bakhtin. Orientam esta investi-

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reprodução, adaptação e distribuição desde que o autor e a fonte originais sejam creditados.
A interculturalidade na linguagem audiovisual: estranhamento, duplicação, hibridização e acabamento

gação os conceitos de duplicação, hibridização e da língua — palavras, combinações de palavras,


acabamento, firmados no princípio de alterida- orações; mesmo assim, nada impede que o enun-
de cultural, procedentes da teoria de Mikhail ciado seja constituído de uma única oração, ou de
uma única palavra [...] (Bakhtin, 1997, p. 297).
Bakhtin e amplamente referenciados no Brasil
(Janzen, 2005, 2012).
A Encruzilhada, escrito por John Fusco e di- A comunicação é intrinsecamente social, e a
rigido por Walter Hill, narra a história de um situação e o meio sociais são os fatores que de-
terminam a estrutura da enunciação, de forma
prodígio estudante de música clássica, Euge-
que, quando falamos, ocupamos uma posição
ne Martone. Contrariando seu professor, o jo-
social e ideológica, intrínseca da composição e
vem Martone, aficionado por Blues, decide ir à
do sentido de nossas enunciações, que são fra-
procura de uma música secreta supostamente
ções de uma corrente de comunicação verbal
composta por Robert Johnson, conceituado
ininterrupta (Ferreira, 2011).
violonista de Blues de gerações passadas. Com
O exercício social no qual a linguagem se
a intenção de iniciar uma prestigiada carreira
desenvolve evidencia marcas próprias de clas-
a partir da gravação da desconhecida obra-pri-
se social, apreciação de valores, posicionamen-
ma de Johnson, Eugene ajuda Willie Brown,
to político, ideologia, etc., podendo-se dizer
um antigo gaitista de Blues e amigo íntimo do
que, ao se comunicar, o sujeito “deixa pistas
compositor, a fugir de um asilo. É nesse con-
de si” em seu discurso, em seus enunciados.
texto que se dá a busca dos dois personagens
Bakhtin concebe a comunicação através do dia-
pela misteriosa “encruzilhada”.
logismo (entendido como propriedade funda-
Importam nesta análise os processos de
mental da linguagem), um processo que extra-
interculturalidade pelos quais passam os per-
pola o conceito de diálogo como uma simples
sonagens do filme ao se chocarem com eixos
troca de palavras ou orações e que leva em
de valores culturais diferentes dos seus. Na
consideração diversos aspectos verbais e não
perspectiva teórica adotada, consequente dos
verbais no ato da comunicação:
estudos literários de Mikhail Bakhtin, tais pro-
cessos ocorrem em três momentos distintos: O crédito concedido à palavra do outro, a acolhi-
estranhamento e duplicação; hibridização e acaba- da fervorosa dada à palavra sacra (de autoridade),
mento. Segundo Janzen (2012, p. 109), “existe a iniciação, a busca do sentido profundo, a con-
um diálogo entre o universo artístico e a vida cordância, com suas infinitas graduações e mati-
extraliterária, pois Bakhtin vai estabelecendo zes (sem restrições de ordem lógica ou reticências
analogias, diferenças e interdependências en- de ordem puramente factual), a estratificação de
tre esses campos no desenvolvimento episte- um sentido que se sobrepõe a outro sentido, de
uma voz que se sobrepõe a outra voz, o fortale-
mológico de sua obra”. Notamos uma sintonia
cimento pela fusão (mas não a identificação), a
do pensamento bakhtiniano no campo literá- compreensão que completa, que ultrapassa os li-
rio com outras esferas da comunicação. mites da coisa compreendida, etc. Estas relações
específicas não podem ser resumidas a uma re-
Gêneros do discurso lação puramente lógica, ou a uma relação pura-
mente factual (Bakhtin, 1997, p. 350).
Com a proposição de uma teoria unificado-
ra da linguagem, Bakhtin aborda e relaciona os Discursivamente, o sujeito ocupa um lugar
mais diversos aspectos antes separados por dis- social, histórico e ideológico, constituinte de
ciplinas próprias da linguística, enriquecendo o seus dizeres. “A fala só existe, na realidade, na
estudo da linguagem em seu caráter mais notá- forma concreta dos enunciados de um indiví-
vel, o da comunicação, o primado dos enuncia- duo: do sujeito de um discurso-fala. O discur-
dos. Os estudos bakhtinianos definem o enun- so se molda sempre à forma do enunciado que
ciado como unidade da comunicação verbal, pertence a um sujeito falante e não pode existir
sendo a oração definida como unidade da lín- fora dessa forma” (Bakhtin, 1997, p. 293). Para
gua: “Cada enunciado é um elo da cadeia mui- a composição comunicacional, é necessário o
to complexa de outros enunciados” (Bakhtin, emprego de um dos gêneros do discurso ou gê-
1997, p. 291). neros discursivos. “Qualquer enunciado consi-
derado isoladamente é, claro, individual, mas
As pessoas não trocam orações, assim como não cada esfera de utilização da língua elabora
trocam palavras (numa acepção rigorosamente seus tipos relativamente estáveis de enuncia-
linguística), ou combinações de palavras, trocam dos, sendo isso que denominamos gêneros do
enunciados constituídos com a ajuda de unidades discurso” (Bakhtin, 1997, p. 279).

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Júlio César David Ferreira, Henrique Evaldo Janzen

A riqueza e a variedade dos gêneros do discurso transformarem dentro do gênero secundário


são infinitas, pois a variedade virtual da ativi- (nesse caso, o fílmico), adquirem uma caracte-
dade humana é inesgotável, e cada esfera dessa rística particular (Janzen, 2005). Em A Encru-
atividade comporta um repertório de gêneros do zilhada, a materialidade fílmica é fortemente
discurso que vai diferenciando-se e ampliando-se
afetada pela musical, de modo que a supres-
à medida que a própria esfera se desenvolve e fica
mais complexa. Cumpre salientar de um modo são ou substituição de palavras por melodias
especial a heterogeneidade dos gêneros do dis- – recurso deliberadamente utilizado no filme
curso (orais e escritos), que incluem indiferente- – modifiquem os enunciados, garantindo, en-
mente: a curta réplica do diálogo cotidiano (com tretanto, sua significação (especialmente para
a diversidade que este pode apresentar conforme a proposta narrativa do filme).
os temas, as situações e a composição de seus pro- É a partir da esfera fílmica (materialida-
tagonistas), o relato familiar, a carta (com suas de audiovisual), em uma íntima relação com
variadas formas), a ordem militar padronizada, a significação musical, que propomos uma
em sua forma lacônica e em sua forma de ordem
reflexão sobre algumas noções da teoria de
circunstanciada, o repertório bastante diversifi-
cado dos documentos oficiais (em sua maioria pa-
Bakhtin, buscando dar concretude aos con-
dronizados), o universo das declarações públicas ceitos de duplicação, hibridização e acabamento,
[...] (Bakhtin, 1997, p. 279-280). amálgama central nessa perspectiva dialógica
de linguagem e cultura.
Os gêneros do discurso – tipos relativa-
mente estáveis de enunciados – podem ser Estranhamento e duplicação
classificados em primários e secundários. Os gê-
neros primários (simples) estão relacionados Antes de abordarmos os conceitos em
às condições da comunicação discursiva ime- questão, faz-se necessário um esclarecimento
diata, “[...] os tipos do diálogo oral: linguagem sobre o que entendemos por cultura e intercul-
das reuniões sociais, dos círculos, linguagem turalidade, assim como as correlações dessas
familiar, cotidiana, linguagem sociopolítica, noções com a ideia de alteridade na perspecti-
filosófica, etc.” (Bakhtin, 1997, p. 285). Os gê- va bakhtiniana. Os conceitos de estranhamento
neros secundários (complexos), por sua vez, e de duplicação ganham sentido quando duas
referem-se a um conjunto cultural mais espe- ou mais culturas são colocadas em contato, di-
cífico, predominantemente escrito e afetado reta ou indiretamente. Para Terry Eagleton:
discursivamente pelas esferas sociais (literária,
científica, jurídica, ideológica). A diversidade A cultura pode ser aproximadamente resumida
dos gêneros discursivos na comunicação hu- como o complexo de valores, costumes, crenças e
práticas que constituem o modo de vida de um
mana provém das muitas esferas sociais nas
grupo específico. [...] inclui conhecimento, cren-
quais estamos inseridos cotidianamente, ins- ça, arte, moral, lei, costume e quaisquer outras
critos historicamente como sujeitos do discur- capacidades e hábitos adquiridos pelo ser humano
so em uma sociedade marcada pelo trabalho como um membro da sociedade (Eagleton, 2011,
simbólico da linguagem (Ferreira, 2011). p. 54-55).
Para Bakhtin, “toda enunciação compreende,
antes de mais nada, uma orientação apreciativa” Eagleton alerta para a formulação “quais-
(Bakhtin, 2009, p. 140). Desse modo, a formula- quer outras capacidades e hábitos”, afirmando
ção axiológica de nossos enunciados – referente que, no momento, estamos presos entre uma
aos valores morais, éticos, estéticos e espirituais noção de cultura muito ampla (significado
predominantes em nossa sociedade – dá-se no antropológico e limitado) e outra demasiada-
contato com o outro. É pelo princípio da alte- mente rígida (significado estético e nebuloso);
ridade que a escolha dos recursos lexicais, gra- precisamos ir além de ambas. A cultura – “uma
maticais e composicionais associa-se à relação das duas ou três palavras mais complexas de
valorativa e à especificidade do gênero, isto é, o nossa língua” (Eagleton, 2011, p. 9) – mantém
sujeito ajusta seus dizeres (e o modo de dizer) uma imbricada relação com a linguagem e, por
projetando-se no outro, e isso se dá em determi- conseguinte, com o discurso e a ideologia. Cul-
nada esfera da enunciação, a qual determinará turalmente, os sujeitos interpretam e atribuem
qual gênero do discurso será empregado. sentidos à realidade por meio de uma rede de
Neste trabalho, interessa-nos a noção de símbolos, códigos, significantes e significados
gênero secundário, sobretudo na esfera artís- específicos.
tica. Os gêneros secundários absorvem e re- Neste trabalho, focalizamos as relações in-
configuram os gêneros primários. Estes, ao se terculturais experienciadas pelos personagens

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A interculturalidade na linguagem audiovisual: estranhamento, duplicação, hibridização e acabamento

do filme A Encruzilhada no contexto musical- A alteridade é constituinte de sujeitos e de


-cultural, aproximando-nos, com o respaldo discursos, desdobra-se por um princípio dia-
da teoria de Mikhail Bakhtin, do polo cultural lógico em que diferentes vozes e olhares sobre
estético ao qual se refere Eagleton. Em sintonia o mundo se encontram. A aceitação do outro é
com Bakhtin, Eagleton (2011) confere à noção imprescindível em quaisquer que sejam as inte-
de alteridade um estatuto definidor sobre a rações discursivas, inclusive no domínio inter-
ideia de cultura – “cultura, em resumo, são os cultural. Cumpre destacar que o nosso acesso
outros”. As relações interculturais seriam, nes- ao mundo exterior, social ou geograficamente,
se viés, processos potencializadores das deter- se dá pelos olhares e dizeres do outro e que as
minações da alteridade sobre si mesmas, isto determinações alteritárias transcendem o con-
é, “o outro a partir de outra cultura”. texto linguístico das interações entre sujeitos.
Para Bakhtin, a identidade do sujeito é um Na perspectiva bakhtiniana, os conceitos
movimento em direção ao outro, é um reco- de dialogismo e alteridade estão amalgama-
nhecimento de si a partir do outro, tanto social dos. A alteridade não se restringe à consciên-
como culturalmente. Nesse movimento, a lin- cia da existência do outro, tampouco se reduz
guagem é fundamental, é a ponte entre os sujei- ao diferente; no entanto, compreende as no-
tos. No limite do enunciado, a unidade de aná- ções de estranhamento e de pertencimento. É no
lise “palavra” seria esse elo entre interlocutores. outro que se dá a busca de sentido e de com-
pletude, já que a linguagem é terreno do dialo-
Na realidade, toda palavra comporta duas faces. gismo e dos sentidos incompletos, não fixos ou
Ela é determinada tanto pelo fato de que procede unívocos, mas que encontram ressonância em
de alguém, como pelo fato de que se dirige para múltiplas vozes. Nesse movimento de sujeitos
alguém. Ela constitui justamente o produto da e sentidos, apresenta-se a condição de inacaba-
interação do locutor e do ouvinte. Toda palavra
mento do sujeito, tanto na constituição de sua
serve de expressão a um em relação ao outro.
identidade quanto na sua prática discursiva e
Através da palavra, defino-me em relação ao ou-
tro, isto é, em última análise, em relação à coleti- cultural, ações simbólicas, devir da interven-
vidade. A palavra é uma espécie de ponte lançada ção humana no mundo (Bakhtin, 2010).
entre mim e os outros. Se ela se apóia sobre mim Propomos uma reflexão sobre esses pro-
numa extremidade, na outra apóia-se sobre o meu cessos pela perspectiva estética e opaca da
interlocutor. A palavra é o território comum do cultura, materializada audiovisualmente em
locutor e do interlocutor (Bakhtin, 2009, p. 117). A Encruzilhada. Cumpre ressaltar que a mate-
rialidade fílmica, audiovisual, é heterogenea-
Pelo enfoque discursivo, Bakhtin defende o mente composta por elementos da comunica-
primado da alteridade constitutiva da identi- ção verbal, visual, musical, etc., portanto, cada
dade do sujeito. As palavras, signos ideológi- uma dessas materialidades trabalha a incom-
cos por excelência, são direcionadas de um su- pletude na outra (Lagazzi, 2009).
jeito para o outro, sendo imensurável o quanto No filme, podemos observar processos de
essa dependência do outro afeta o nosso modo estranhamento e duplicação vivenciados, princi-
de dizer. palmente, pelos personagens Eugene Martone
Na interculturalidade, no contato entre e Willie Brown. Apesar de terem alguns interes-
culturas distintas, há sempre um imaginário ses em comum, os personagens não compreen-
latente sobre o outro – o outro é o “exótico”, dem os valores culturais alheios e julgam um
o “primitivo”, o “excêntrico”. Há aí um pro- ao outro de acordo com sua própria formação
cesso normatizador no qual a norma tende a cultural e ideológica. Nesse caso, o estranha-
ser nossa própria cultura. Esse é um dos pon- mento da cultura alheia se dá concomitante-
tos centrais da teorização crítica de Bakhtin no mente a uma duplicação, seja na realização de
que diz respeito à indissociável relação entre uma projeção da outra cultura (a imagem que
linguagem e cultura, cujas “normatizações” um tem do outro), seja na tomada da própria
realizadas pelo sujeito representam uma in- cultura como modelo (a imagem da própria
compreensão da cultura alheia, indicando in- cultura como uma norma que não é percebida
clusive uma falsa compreensão de sua própria necessariamente como uma cultura).
cultura, também outra. Somente desnatura- A duplicação fundamenta-se, na maioria
lizando as “evidências normativas” o sujeito das vezes, em generalizações, fragmentos e/ou
compreenderá efetivamente o outro e poderá estereótipos sobre culturas diferentes. Também
colocar-se em seu lugar, poderá deixar-se en- ocorre quando um sujeito fixa a sua própria cul-
xergar a partir desse lugar. tura como modelo para a análise das demais.

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Júlio César David Ferreira, Henrique Evaldo Janzen

Existe uma tendência em fazer um julgamento,


a partir das perspectivas e parâmetros da própria
cultura que pode produzir um estranhamento
com relação ao outro. É uma ideia homogenei-
zante, na qual há uma generalização por parte de
um grupo, que limita os valores da cultura alheia
(Storck, 2011, p. 47-48).

Em A Encruzilhada destacamos dois trechos


que expressam a duplicação. O primeiro deles
se refere ao momento em que Eugene Martone
apresenta-se a Willie Brown como um músico Figura 1. Reação de Willie Brown diante da
de Blues (bluesman). Tanto na afirmação de Eu- apresentação de Eugene Martone.
gene, um garoto branco de classe média, nas- Figure 1. Willie Brown’s reaction to the pre-
cido em Long Island (EUA), quanto na reação sentation of Eugene Martone.
irônica e debochada de Willie, um negro que Fonte: A Encruzilhada (Hill, 1986).
passou pelas mais diversas dificuldades no sul
dos EUA ao longo de sua carreira, a duplica-
ção pode ser observada: A excelência da música primitiva é cultural.
Você tem que nascer com ela.
— Eu sou um músico de Blues. Já que você teve a permissão para abandonar a
— Um músico de Blues! Você? E de onde você escola secundária e seguir os seus estudos de
veio? música clássica, eu sugiro que reexamine suas
— Eu nasci em Long Island. Por quê? prioridades.
— Long Island? Isso é demais! Long Island, a
famosa terra dos “músicos de Blues”! Nessa fala, o personagem tenta alertar seu
aluno sobre os riscos que este corre ao deixar-
No diálogo transcrito – traduzido do ori- -se influenciar por estilos musicais diferentes
ginal em inglês, assim como os demais tre- do erudito. Assim, o professor age duplican-
chos citados neste trabalho – os personagens do a cultura em questão, o Blues, por meio de
emitem diferentes juízos de valores sobre “o um estereótipo. Nesse contexto, o Blues figura
que define um bluesman”, fundamentados em como um gênero musical “primitivo”. Nas pa-
suas experiências pessoais ou em projeções. lavras de Eagleton (2011, p. 71): “são as outras
Para Martone, o seu apreço pelo referido gê- culturas que são diferentes, ao passo que a nos-
nero e o seu talento musical são suficientes sa própria forma de vida é a norma e, portan-
para caracterizá-lo como um bluesman, ou to, não é absolutamente uma ‘cultura’”. Nessa
seja, o personagem faz uma projeção do que duplicação, o professor de Eugene atribui a
é “ser um bluesman”. Por outro lado, Brown conotação “cultural” ao Blues, diferentemente
rechaça a autodefinição de Martone, susten- da música clássica tratada como universal, ou
tando-se em experiências vividas, o que não seja, a norma.
ocorre somente nas interações verbais do Como decorrência do estranhamento pelo
filme, mas na conjuntura desta e de outras qual passam os personagens, a duplicação é
cenas: o estranhamento retratado no plano praticada frequentemente ao longo do filme,
humorístico, a complementação musical da principalmente quando Martone começa a
composição audiovisual, o desconforto de adentrar o universo dos músicos de Blues, não
Eugene em contato com o diferente, as ale- aquele dos discos e dos livros, mas o da expe-
gorias acerca da segregação racial nos EUA, riência vivida. Os personagens, principalmen-
entre outras nuances da materialidade cine- te Eugene Martone, começam então a passar
matográfica (Figura 1). por um processo de hibridização em que dife-
O filme, por tratar de dois gêneros musi- rentes eixos de valores se cruzam.
cais considerados antagônicos, o Blues (origem Para Bakhtin, o processo de duplicação
do jazz) e a música clássica, ilustra diversos está intimamente relacionado à ideia de empa-
pontos de duplicação cultural, isto é, o enredo tia, um exercício de compreensão sobre outra
comporta dois grandes eixos axiológicos com cultura. Contudo, “se apenas nos transpuser-
os quais o autor dialoga. Representante do mos para a outra cultura para a compreensão
centro de valores da música clássica, o profes- desta (empatia) e não retornarmos para elabo-
sor de Eugene diz: ração de uma síntese, poderemos estar apenas

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A interculturalidade na linguagem audiovisual: estranhamento, duplicação, hibridização e acabamento

produzindo uma duplicação desta cultura” Boy, agora nas estradas, pousadas e bares do
(Janzen, 2005, p. 55). A empatia por determi- sul estadunidense, vive o Blues. Essa dualida-
nada cultura não significa uma compreensão de – Eugene Martone - Lighting Boy – é condição
da mesma – na maioria das vezes, trata-se de decisiva para o processo de hibridização vivi-
uma compreensão distorcida, pautada por ge- do pelo personagem, ou seja, diferentes vozes
neralizações e estereótipos. Em A Encruzilha- discursivas e eixos axiológicos se encontram.
da, a duplicação realizada pelos personagens
deriva de recorrentes processos de empatia, O processo pelo qual duas vozes percorrem em
mas, principalmente, de uma incompreensão um discurso é denominado por Bakhtin como
da cultura alheia. construções híbridas. Sob esta perspectiva, há
duas vozes que se entrecruzam dialogicamente,
mas que não se misturam uma com a outra. [...]
Hibridização O que determina as construções híbridas como as-
sociadas à relação intercultural é a noção de que,
A partir das concepções bakhtinianas da natureza pelo encontro com o outro, podemos entrecruzar
dialógica do enunciado, pode-se dizer que cons- diferentes sistemas axiológicos, que podem gerar
truções híbridas ocorrem quando um enunciado é uma visão ambígua, se considerados os valores
construído a partir de outros enunciados que, por do outro perante os meus próprios (Storck, 2011,
sua vez, possuem diferentes sistemas axiológicos, p. 50-52).
gerando então um novo enunciado com diferentes
eixos de valores (Storck, 2011, p. 51). Os conflitos vividos pelo personagem re-
forçam a afirmação acima. Martone continua
Na perspectiva aqui adotada, a ideia de passando por processos de estranhamento em
construção híbrida deriva da natureza dialó- que sua identidade Lighting Boy representa o
gica da concepção bakhtiniana de linguagem, contato com “o outro”, com “a outra cultura”.
ou seja, um enunciado está sempre conecta- Essa tensão identitária é constitutiva do sujei-
do a outros enunciados e o movimento entre to na perspectiva bakhtiniana, isto é, o sujei-
seus diferentes eixos axiológicos se dá pelo to não é transparente e não coincide consigo
dialogismo, pela polifonia (diversas vozes mesmo. Não sendo fixo nem absoluto em sua
discursivas plenivalentes). Em A Encruzilha- constituição, Martone é a expressão de vozes
da, esse movimento axiológico se expressa por plenivalentes, ou seja, “consciências e vozes que
gêneros secundários do discurso próprios da participam do diálogo com as outras vozes em
heterogeneidade fílmica, a qual se constitui pé de absoluta igualdade; não se objetificam,
transmutando gêneros primários à medida isto é, não perdem o seu SER enquanto vozes e
que contrapõe diversas vozes e materialidades consciências autônomas” (Bakhtin, 1981, p. 8).
significantes. A partir da concepção bakhtiniana de poli-
Como, para Bakhtin, “existe um diálogo en- fonia – das vozes plenivalentes ou equipolen-
tre o universo artístico e a vida extraliterária” tes –, “as personagens têm o poder de significar
(Janzen, 2012, p. 109), as construções híbridas diretamente, têm a possibilidade de ser sujei-
extrapolam a relação entre o autor e o herói/ tos do próprio discurso, não se constituindo,
personagem. Podemos, nesse viés, pensar na dessa forma, apenas como objetos do discurso
hibridização pela qual passam todas as pessoas autoral” (Janzen, 2012, p. 111), o que repre-
em relações interculturais, inclusive os perso- senta uma nova percepção do evento estéti-
nagens desta análise. O cruzamento efetivo de co, seja na literatura, no cinema ou em outras
diferentes sistemas axiológicos, independen- esferas artísticas. Sendo considerada também
temente do plano da análise (autor e persona- um fenômeno estético, multifacetado, a língua
gem; personagem A e personagem B; autor e é “um devir permanente e um acontecimento
interlocutor, etc.), deixará marcas tangíveis. vivo”. Não pode ser vista como “um instru-
Na segunda metade do filme, Eugene Mar- mento que serve para atingir fins exteriores a
tone passa a ser reconhecido por Willie Bro- ele, mas [...] um organismo vivo, funcionando
wn como um bluesman. O apelido Lighting em si e para si” (Bakhtin, 2009, p. 190). Essa
Boy é atribuído por Brown (Blind Dog Fulton) percepção estética da língua é central no uni-
a Martone, o que representa, na linguagem verso literário, mas incide também nos proces-
cinematográfica, amplas possibilidades de hi- sos enunciativos do campo extraliterário, isto
bridização. No contexto do filme, Lighting Boy é, ao falar nos percebemos enquanto sujeitos,
não representa aquele garoto de classe média nos identificamos e nos lançamos em uma
que estudava Blues por discos e livros. Lighting orientação apreciativa, estética. Decorrentes

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Júlio César David Ferreira, Henrique Evaldo Janzen

da interculturalidade, os processos de hibridi- da linguagem possibilita deslocamentos de


zação colocam em coexistência duas ou mais centros de valores. A alteridade é imprescindí-
orientações estéticas – e axiológicas –, não ha- vel nessa perspectiva dialógica da linguagem.
vendo, necessariamente, uma reconfiguração Essa “incompletude a priori” sustentada pela
identitária. É a compreensão ainda latente so- “falta substancial, com relação ao tempo, ao
bre o outro. espaço e aos significados, só pode ser comple-
tada pelo olhar do outro” (Tezza, 2003, in Jan-
Acabamento zen, 2012, p. 110).
Com respeito à concepção bakhtiniana de
Nesta análise, focalizamos o processo de literatura, “o acabamento é garantido pela dis-
acabamento experienciado pelos personagens tância entre o autor e o herói” (Janzen, 2012, p.
do filme, principalmente por Eugene Martone. 110), ou seja, o evento estético advém da capa-
As experiências vividas possibilitam ao perso- cidade do autor de distanciamento entre o seu
nagem uma nova visão de mundo – do alemão próprio centro de valores e o do personagem.
Weltanschauung (determinados valores funda- Nesse viés e no que diz respeito às relações ex-
mentais, filosóficos, existenciais e normativos, traliterárias, Janzen (2005, p. 54) afirma:
postulados, temas, emoções e ética). Segundo
Janzen (2012): Se por um lado não se pode fazer uma transposi-
ção automática da relação entre o outro na vida
extraliterária e a alteridade no universo cultural
A percepção, o foco avaliativo, o ponto de obser-
(literário), por outro existem elementos em co-
vação valorativo-emotivo do outro impregnam a
mum, com destaque para a exotopia (e o distan-
nossa visão de mundo nas primeiras experiências
ciamento valorativo).
que temos na vida e nos oferecem parâmetros para a
construção da nossa Weltanschauung. Se na vida o
acabamento que damos ao outro é fragmentado, na Nas relações interculturais, o acabamento
obra de arte — no evento estético — o acabamento é também se dá nessa perspectiva exotópica da
uma reação ao todo (Janzen, 2012, p. 110). vida: os sujeitos afastam-se de seus próprios
sistemas axiológicos para realizarem o acaba-
As experiências vividas por Martone possi- mento, mesmo que de forma fragmentada, de
bilitam, sobretudo, o funcionamento da exoto- outra cultura. É assim que compreendemos a
pia: “‘o estar do lado de fora’, o não coincidir trajetória do personagem Eugene Martone no
com o outro, constitui uma questão funda- filme analisado.
mental na reflexão que envolve a alteridade Temos, como exemplo, um trecho em que
cultural” (Janzen, 2005, p. 51). Eugene vive uma desilusão amorosa e é conso-
Na concepção bakhtiniana de linguagem/ lado por Brown. Diz o experiente Willie Brown:
literatura, as ideias de exotopia/excedente de vi-
são são fundamentais para a compreensão do Um cara com muita experiência disse: “Blues é
nada além de um homem se sentindo mal, pen-
funcionamento da linguagem, seja qual for o
sando na mulher que um dia teve”.
meio de comunicação, verbal ou não verbal:

Quando contemplo um homem situado fora de


Enquanto Eugene expressa seus sentimen-
mim e à minha frente, nossos horizontes concre- tos em uma triste melodia, Willie prossegue:
tos, tais como são efetivamente vividos por nós
dois, não coincidem. Por mais perto de mim que Muitas cidades... Muitas músicas... Muitas mu-
possa estar esse outro, sempre verei e saberei algo lheres...
que ele próprio, na posição que ocupa, e que o si- Bons tempos, maus tempos...
tua fora de mim e à minha frente, não pode ver A única coisa que quero que digam é: “Ele sabia
[...] o mundo ao qual ele dá as costas, toda uma tocar, ele era bom!”.
série de objetos e de relações que, em função da
respectiva relação em que podemos situar-nos, Não podemos limitar a análise à transcri-
são acessíveis a mim e inacessíveis a ele. Quan- ção verbal da cena. Em uma concepção bakhti-
do estamos nos olhando, dois mundos diferentes niana de linguagem, a interlocução se dá por
se refletem na pupila dos nossos olhos (Bakhtin, elementos verbais e não verbais que consti-
1997, p. 43). tuem o tema da enunciação:

No âmbito das relações interpessoais e in- [...] o tema da enunciação é determinado não só
terculturais, tanto no universo artístico quanto pelas formas linguísticas que entram na composi-
na vida extraliterária, esse caráter exotópico ção (as palavras, as formas morfológicas ou sintá-

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A interculturalidade na linguagem audiovisual: estranhamento, duplicação, hibridização e acabamento

ticas, os sons, as entoações), mas igualmente pelos estranhamento ou a uma recíproca duplica-
elementos não verbais da situação. Se perdermos ção/projeção. Eugene Martone (Lighting Boy)
de vista os elementos da situação, estaremos tam- e Willie Brown (Blind Dog Fulton), afastados
pouco aptos a compreender a enunciação como se de seus eixos axiológicos, interagem na pers-
perdêssemos suas palavras mais importantes. O
pectiva exotópica preconizada por Bakhtin.
tema da enunciação é concreto, tão concreto como
o instante histórico ao qual ela pertence. Somente a Nas palavras de Castro (2007, p. 94):
enunciação tomada em toda a sua amplitude con-
creta, como fenômeno histórico, possui um tema Estudar as coisas do mundo humano é, na ver-
(Bakhtin, 2009, p. 133-134). dade, se debruçar sobre o pensamento do outro,
sobre o texto do outro, sobre os valores do outro.
Nesse sentido, minha exotopia, meu excedente
Na linguagem cinematográfica não é dife-
de visão tem necessariamente que desenvolver o
rente; o cinema transcende a linguagem ver- contínuo exercício de captar das palavras do ou-
bal. Na cena da transcrição acima, representa- tro a sua essência epistemológica; seu ponto de
da pelo recorte da Figura 2, além do conteúdo observação valorativo do mundo, seu mirante.
e da entoação das palavras ditas e das suas
formas morfológicas ou sintáticas, são igual- Em sintonia com Castro (2007), a relação in-
mente responsáveis pela composição do tema tercultural vivida entre os personagens do fil-
os elementos não verbais. A relação dialógica me pode ser compreendida nessa perspectiva
entre as palavras de Willie Brown e as tristes exotópica da vida, já que a alteridade aqui se
notas musicais emitidas pela guitarra de Euge- deu no plano fílmico e o cinema também cons-
ne Martone tem caráter exotópico, nos termos titui o universo das “coisas do mundo huma-
bakhtinianos. Analisada em sua totalidade, a no”. Para Bakhtin (1997, p. 368), “na cultura,
cena é composta por inúmeros elementos não a exotopia é o instrumento mais poderoso da
verbais, sobretudo na representação verbal- compreensão. A cultura alheia só se revela em
-musical de Eugene, que agora toca sua guitar- sua completitude e em sua profundidade aos
ra e sente o Blues; não se trata mais da música olhos de outra cultura”.
pela música, mas sim da expressão de senti-
mentos sinceros e de experiências vividas em Considerações finais
sua plenitude no universo dos bluesmen.
Estabelecida uma franca relação de com- Neste artigo, apresentamos um exercício
panheirismo entre os personagens, o acaba- de análise alicerçada no princípio da alterida-
mento também é praticado por Willie Brown. de da perspectiva bakhtiniana de linguagem
A indiferença de Brown às aspirações de e cultura. As relações interculturais dos per-
Martone dá lugar a uma amizade sincera sonagens do filme analisado nos forneceram
e independente de quaisquer que sejam as inúmeros elementos para um diálogo entre
diferenças culturais, raciais ou socioeconô- o universo literário e o campo das relações
micas entre os dois. A relação intercultural interculturais intrínsecas da vida social nas
entre eles não se limita mais a um constante várias esferas da enunciação em que estamos
imersos. A concepção exotópica da vida pre-
sente no pensamento bakhtiniano é medular
no enfoque aqui adotado, sendo a alteridade
sua condição fundamental.
Em sintonia com Bakhtin, entendemos que
a orientação axiológica do outro nos acompa-
nha por toda a vida. “O outro vai imprimin-
do uma orientação axiológica nas palavras
e atitudes e vai-nos completando [...] já nas
primeiras experiências” (Janzen, 2005, p. 52).
As trajetórias de dois personagens do filme,
Eugene Martone e Willie Brown, ilustram
seus respectivos afastamentos valorativos,
Figura 2. Eugene Martone chora ao tocar sua
isto é, ambos têm uma orientação axiológica
guitarra.
influenciada pelo outro, reciprocamente. Para
Figure 2. Eugene Martone cries while playing
tal interpretação, o nosso enfoque incidiu so-
his guitar.
bre a evolução da relação intercultural entre os
Fonte: A Encruzilhada (Hill, 1986). personagens sob o prisma teórico bakhtiniano,

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Júlio César David Ferreira, Henrique Evaldo Janzen

sobretudo com as ideias de duplicação, hibridi- Referências


zação e acabamento.
O cinema, forma de arte coletiva, é comu- BAKHTIN, M.M. 1981. Problemas da poética de Dostoiévs-
nicação que se dá por um processo de hibri- ki. Rio de Janeiro, Forense-Universitária, 366 p.
BAKHTIN, M.M. 1997. Estética da criação verbal. 2ª
dização de diferentes linguagens, o que pode
ed., São Paulo, Martins Fontes, 512 p.
dilatar a subjetividade na produção e recep- BAKHTIN, M.M. 2009. Marxismo e Filosofia da Lingua-
ção das obras. Reside aí a necessidade de cau- gem. 13ª ed., São Paulo, Hucitec, 203 p.
tela na abordagem discursiva desse comple- BAKHTIN, M.M. 2010. Para uma filosofia do ato respon-
xo campo. Considerada a complexidade e a sável. São Carlos, Pedro & João Editores, 160 p.
CASTRO, G. 2007. Os apontamentos de Bakhtin:
amplitude da linguagem cinematográfica, a
uma profusão temática. In: C.A. FARACO; C. TE-
presente análise é apenas um recorte sobre as ZZA; G. CASTRO (orgs.), Diálogos com Bakhtin.
relações aqui apresentadas. Mesmo neste re- Curitiba, Editora UFPR, p. 81-96.
corte, o filme deve ser compreendido em sua EAGLETON, T. 2011. A ideia de cultura. 2ª ed., São
totalidade, em seu contexto mais amplo. A es- Paulo, Editora UNESP, 208 p.
FERREIRA, J.C.D. 2011. Aproximações entre a obra de
colha da relação intercultural a ser analisada,
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por exemplo, é decorrente de um cenário de te, SP. Dissertação de Mestrado. Universidade
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e Willie não são dois amigos que resolvem diálogo intercultural possível. São Paulo, SP. Tese de
Doutorado. Universidade de São Paulo, 170 p.
fazer uma viagem de férias juntos; eles per-
JANZEN, H.E. 2012. Concepção bakhtiniana de li-
tencem a realidades muito diferentes, compo- teratura e a análise de personagens nos livros
nentes da linha narrativa crítica da obra. Isso didáticos de LEM. Bakhtiniana, 7(1):107-124.
é condição fundamental para uma complexa http://dx.doi.org/10.1590/S2176-45732012000100007
relação intercultural ficcional, mas que pode- HILL, W. (dir.). 1986. A Encruzilhada (Crossroads).
Produção: J. FUSCO. Columbia Pictures Corpo-
ria ocorrer fora do universo fílmico, conforme
ration, EUA. 1 DVD (99 min.).
Janzen (2005). LAGAZZI, S.M. 2009. Recorte significante na me-
Concluindo, vemos em A Encruzilhada a mória. In: F. INDURSKY; M.C. LEANDRO FER-
materialização de elementos do pensamento REIRA; S. MITTMANN (orgs.), O discurso na
bakhtiniano, sobretudo na alteridade constitu- contemporaneidade: materialidades e fronteiras. São
tiva das relações comunicacionais e intercultu- Carlos, Claraluz, p. 67-78.
STORCK, D.F. 2011. Autoria, autonomia e algumas in-
rais. Também é notável a concretude dos con- tervenções: uma análise intercultural do livro didático
ceitos de duplicação, hibridização e acabamento, “Keep in mind” a partir das concepções bakhtinianas
amálgama central nessa perspectiva dialógica de linguagem. Curitiba, PR. Dissertação de Mes-
de linguagem e cultura, tanto dentro quanto trado. Universidade Federal do Paraná, 115 p.
fora do universo artístico, enfim, possível em TEZZA, C. 2003. Entre a prosa e a poesia: Bakhtin e
o formalismo russo. Rio de Janeiro, Rocco, 221 p.
todos os campos da atividade humana, sobre-
tudo na comunicação, ação simbólica do ho- Submetido: 27/05/2015
mem sobre o mundo. Aceito: 01/07/2015

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