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ÉTICA E NEGÓCIOS

LAÉRCIO ANTÔNIO PILZ

EDITORA UNISINOS

2012

APRESENTAÇÃO

Esta obra tem como objetivo servir de apoio a alunos que desenvolverão estudos

à distância na disciplina de Ética e Negócios. A UNISINOS (Universidade do Vale do Rio dos Sinos), como universidade associada e alinhada à AUSJAL (Associação das Universidades Jesuítas da América

Latina), assume como uma de suas prioridades acadêmicas a Formação Integral de seus estudantes, em relação à qual está aliada a proposta de Formação Humanística que propõe, atravessando todos os cursos e compondo alianças com as respectivas áreas,

o estudo e a reflexão sistemática a partir de três eixos temáticos:

o eixo de Formação Antropológica (que visa conceber o ser humano em sua totalidade, para não deixar-se enganar pelo reducionismo (que visa conceber o ser humano em sua totalidade, para não deixar-se enganar pelo reducionismo secularista nem por um tecnocratismo que desdenhe os delineamentos do humanismo integral);

o eixo de América Latina (que visa assumir o contexto em que vivemos a partir do conhecimento sócio-histórico da realidade (que visa assumir o contexto em que vivemos a partir do conhecimento sócio-histórico da realidade latino-americana e de cada país, sobretudo da realidade contemporânea);

o eixo de Formação Ética (que inclui fundamentos da moralidade humana e também a ética aplicada a cada profissão, de (que inclui fundamentos da moralidade humana e também a ética aplicada a cada profissão, de maneira que supere a ideia de uma neutralidade mal entendida em exercício profissional).

Diante de diferentes contextos e áreas de estudo e ação, cada um destes eixos

busca propor e fornecer elementos conceituais que desafiem estudantes e profissionais

a pensar em um projeto relativo às suas áreas de formação, no qual a dignidade das

pessoas, dos diferentes grupos humanos e da vida em geral, seja prioridade absoluta. Acredito que profissionais com uma formação humana e ética consistente, além de se tornarem sensíveis e eficientes em relação ao progresso moral da sociedade, estarão mais bem preparados para responder às demandas atuais e serão fundamentais para o sucesso das organizações e dos negócios. A estrutura desta obra contempla os seguintes temas (que correspondem aos módulos propostos na disciplina de mesmo nome): o significado dos conceitos moral e ética; o diálogo com diferentes pensadores e suas reflexões (teorias) sobre questões relativas às práticas morais e ao saber-fazer ética; algumas propostas éticas atuais, como a proposta de uma ética da compreensão de Edgar Morin; o debate sobre a ética pós-moralista e suas implicações nas práticas de gestão em tempos pós-industriais; a ética profissional e organizacional; a discussão sobre a importância da ética nos negócios; e, ao final, é proposta uma perspectiva de gestão a partir da alteridade.

Que esta obra, junto com os conteúdos e atividades que serão desenvolvidos a distância, possa provocar construtivamente nosso pensamento, potencializar e animar nossas práticas para o bem viver. Desejo uma boa leitura a todos.

INTRODUÇÃO

SUMÁRIO

CAPÍTULO 1 – ÉTICA E MORAL: ESCLARECENDO CONCEITOS

1.1 O uso indiscriminado dos conceitos

1.2 Diferença entre moral e ética

1.3 O fazer ética

CAPÍTULO 2 – OS PENSADORES E A ÉTICA

2.1 Crítica ao dogmatismo e ao relativismo

2.2 Dialogando com alguns pensadores

2.3 Ética e pensamento alargado

CAPÍTULO 3 – PROPOSTAS ÉTICAS PARA O NOSO TEMPO

3.1 A crise das éticas moralistas

3.2 Ética para a compreensão e para o diálogo

3.3 O dever-ser de toda prática

CAPÍTULO 4 – A ÉTICA PESOAL

4.1 O cuidado de si

4.2 O cuidado com as dores

4.3 O amor e a ética

CAPÍTULO 5 – ÉTICA PROFISIONAL (E ORGANIZACIONAL) E RESPONSABILIDADE SOCIAL

5.1 A crise das éticas moralizantes e o pós-moralismo

5.2 A ética dos profissionais e das organizações

5.3 Ética e sucesso

CAPÍTULO 6 – ÉTICA, ECONOMIA E NEGÓCIOS

6.1 Economia como fato moral

6.2 Ética da confiança

6.3 Ética e sucesso

CAPÍTULO 7 – ÉTICA E ALTERIDADE : A ECONOMIA COMO AFIRMAÇÃO DE RELAÇÕES COOPERATIVAS

7.2

A solidariedade

7.3 A generosidade profissional

CONCLUSÃO

REFERÊNCIAS

INTRODUÇÃO

Quando falamos em ética, nos condicionamos, muitas vezes, a pensar em um conjunto de normas e obrigações que devem ser seguidas para que as coisas e as sociedades funcionem bem. Uma perspectiva linear de ordem a ser seguida para que não aconteçam coisas erradas. Este pensamento, em geral, coloca em princípios estranhos a nós mesmos ou em morais pré-estabelecidas o que é ou não é ético, ou o que deve e o que não deve ser feito. Proponho que transcendamos esta concepção, ou seja, que além de nos relacionarmos reflexiva e criativamente com leis e princípios, assumamos fundamentalmente a ética como processo de alargamento de nossa compreensão sobre as coisas, pelo aprimoramento de nossa linguagem e, consequentemente, pela qualificação de nossas ações. A ética, nesse sentido, nos desafia a um convencimento interior para o bem, ao entendimento de que o bem viver, uma boa e bela vida, e sua potencialização em tudo e em todos, é o que justifica a existência humana. Em relação a isto, a resposta deve ser autônoma, mesmo que sempre negociada com os outros. O objetivo desta obra é desenvolver a compreensão do que é a ética e o que justifica o fazer ético. Ao mesmo tempo, busca confirmar que qualquer projeto econômico, antes de buscar lucros financeiros, deve estar fundamentado nos ganhos morais que agrega. As práticas administrativas, nesta perspectiva, devem comprometer-se com processos inovadores que promovam a dignidade das pessoas e que utilizem, coerente e criativamente, os recursos naturais. As organizações devem ser ambientes de afirmação da cidadania, ou seja, devem estar gerencialmente animadas pelo espírito democrático. O objetivo fundamental desta obra é confirmar que ser ético é um diferencial qualitativo para quem se dispõe a viver, pessoal e profissionalmente, uma bela vida.

CAPÍTULO 1

ÉTICA E MORAL: ESCLARECENDO CONCEITOS

Fala-se muito em ética atualmente. Afirma-se que certas pessoas não têm moral para darem conselhos ou lições de moral. Que falta caráter para muitos em relação a assumirem posturas responsáveis e não sucumbirem à inveja e comportamentos mesquinhos em relação ao modo de tratar as pessoas. Estamos a todo momento presenciando a abertura de comissões de ética para desenvolver julgamentos e cobranças morais. A ética está em alta ou é a falta de ética que faz com que seja proclamada como necessidade da hora? Penso que o mais importante não é tentar resolver esse paradoxo, mas aproveitar o momento para avançar no entendimento em relação ao que é ético e em relação às boas práticas. Nessa perspectiva, neste primeiro capítulo, busco questionar certas compreensões limitadas em relação aos conceitos de ética e moral, tentando esclarecer o que nos faz seres éticos capazes de, na prática, desenvolver boas ações. Com isso, também quero demonstrar como estamos, não raras vezes, presos a morais (moralismos), e que nos falta um distanciamento – uma visão plural e aberta – e uma consistência teórica ampliada e qualificada para poder avaliar melhor os comportamentos e pensar alternativas de ação.

1.1 O uso indiscriminado dos conceitos

O que nos faz seres morais? Por que dar importância à reflexão ética em relação ao desenvolvimento pessoal e social? O que faz com que pessoas e sociedades avancem em suas práticas morais na direção de uma ética na qual se afirma a dignidade da vida e das pessoas? Estas questões dão corpo à ética e ao seu estudo. A reflexão crítica sobre valores pessoais e sociais e sua contribuição para um projeto de vida com sentido é o que anima a reflexão. Percebemos o quanto, nos tempos atuais, relações superficiais e descartáveis estão presentes nas relações entre os indivíduos, enfraquecendo o comprometimento e a aprendizagem mútua. Na sociedade capitalista em que o mercado é endeusado, onde tudo se transforma em mercadoria, as relações entram como mais um produto de consumo. Compra-se um pacote de relação que, se não agrada ao consumidor, é trocado ou jogado fora. 1 O outro é aquele que mais se identifica com o modelo de minha referência. Como todos nós somos diferentes, logo nos frustramos por não encontrarmos nossos idênticos (nossa cara metade, dito popular que deve ser melhor pensado). Mas resolvemos temporariamente o problema indo para outra (trocando de

mercadoria). Ocorre, assim, o enfraquecimento da responsabilidade e do comprometimento com a construção de um projeto com o outro. Paradoxalmente, atualmente também se valoriza o fazer ético e o desenvolvimento de relações de confiança, do comprometimento e da responsabilidade como estratégia para salvar os negócios, salvar as relações, salvar a educação e ter sucesso. Vivemos um momento de transição em que os indivíduos querem se convencer da importância de fazer ética mais do que seguir padrões morais impostos. Promovemos a desconstrução moral, a crítica às morais tradicionais e convencionais. Abandonamos antigos padrões e nos dizemos livres para viver bem. Estamos num momento pós-moralista, como destaca Gilles Lipovetsky. 2 Queremos viver bem, ter uma vida bela, porém, estamos um pouco perdidos. Não sabendo como, muitos vão aos mercados e lojas em busca de satisfação e prazer. Buscamos receitas em livros de pensamento positivo, acreditando que eles podem conter a resposta e até receitar o caminho. Desejamos trabalhar menos por obrigação e mais no que gostamos. Desenvolvem-se e multiplicam-se práticas de lazer (o mercado de entretenimento está em alta), porém, muitas vezes de forma superficial e compensatória. É um sintoma moral: a vida é para ser bem vivida. Mas a reflexão crítica sobre o que faz bem, como saber viver, que prazer o ser humano pode experimentar numa relação positiva consigo, com o outro e com o planeta, ainda está para ser mais bem desenvolvida. Ainda compramos muitos pacotes prontos de lazer e de prazer. Acreditávamos que havia receita para isso, que o progresso tecnocientífico e econômico nos traria e apresentaria o final feliz. Está no ar este desejo pelo bem viver. Por que não apostar que esta é a hora da ética, de pensar e elaborar morais ascendentes e que qualifiquem a vida? Mas como afirmar a nossa consistência ética? Proponho, primeiramente, uma reflexão (interiorizada) sobre os quatro constituintes básicos apresentados por Marilena Chauí 3 para que nos tornemos sujeitos morais, ou seja, atores éticos;lembrando que sujeito moral é aquele que consegue relacionar-se consciente, reflexiva e criativamente com sua moral.

a. Consciência de si e dos outros – a capacidade de ser autor de si mesmo na relação com o outro, que é reconhecido como sujeito recíproco de aprendizagem. Ser criativo a partir do entendimento (processual) de si mesmo e do mundo e, consequentemente, desenvolver a capacidade de pensar e exercer uma intervenção autônoma no mundo.

b. Liberdade – não reduzir-se nem às suas representações e inclinações, nem a forças exteriores; ampliar seu mundo conceitual e sua linguagem para ter poder e ser capaz de intervir criativamente no tempo e no espaço.

que anima o comportamento humano.

d. Responsabilidade – assumir o que se faz na medida em que se é autor da ação. O conceito de responsabilidade não pode identificar-se com a obediência cega a regras externas, mas com a qualificação da própria ação. Aliás, a responsabilidade para com as normas se dá na medida em que refletimos e nos convencemos interiormente do valor das mesmas.

A autora, em um ponto de seu escrito, afirma que ser responsável é reconhecer- se como autor da ação. Muito já se falou sobre o quanto as pessoas não se comprometem com aquilo que parece que é pré-determinado a se fazer, sem que se entenda o sentido que pode fazer em suas vidas. Por exemplo: uma disciplina de Ética em que os alunos não percebem o sentido e o valor que pode ser agregado dificilmente compromete, logo, não nos tornamos responsáveis em relação à mesma. O questionamento é o primeiro passo para desenvolver o saber-fazer ética. Questionamentos sobre o que nos faz assim e até que ponto o que fazemos nos potencializa e aos outros. Nosso modo de viver promove a vida em nós e nos outros? Há pessoas que muito rapidamente se dizem moralmente esclarecidas e capazes de fazer ética. Há de se ter cuidado com estes senhores da lei. A ética deve ser leve na medida em que ela nos desafia a irmos além de nós mesmos. A moral pesada nos enquadra, nos fixa a certos padrões, e a pior das morais é aquela em que nos fixamos em nossos juízos restritos. Diálogo e convivência tornam-se difíceis diante desse tipo de indivíduo. Aqui importa destacar que indivíduos leves não são superficiais (como se não tencionassem os valores), mas pelo contrário, são consistentes; não porque impõem uma verdade pela retórica clássica da argumentação (abstracionismo), mas porque testemunham sua potência no diálogo com o outro que passa a ser radicalmente digno em seu aprender. Sua dignidade é diretamente proporcional à maneira aprendiz com que se colocam. Mesmo que sejam pessoas que trazem consigo mais conceitos, linguagens e experimentações do que o outro, não se apresentam (e representam) para ensinar e dar receitas, e sim para apresentar, testemunhar e aprender sobre como estes conceitos e linguagens podem ser aprendidas, atualizadas, (re)contextualizadas e experimentadas pelo outro e por ele mesmo no processo de relação. As éticas idealistas tiveram seu tempo. Futuristas e coladas em realidades abstratas perfeitas, estas perspectivas salvacionistas não convencem muitas pessoas e o mundo real e vivido as ultrapassa. Atualmente, o que pode convencer a maioria das pessoas a assumirem o saber-fazer ético são as possibilidades de convivência radical da liberdade cooperativa em processo continuamente retomado. Certas tradições morais, historicamente, fizeram com que as pessoas se comprometessem com um projeto: o coletivismo dos ditos primitivos fazia com que qualquer membro fosse responsável pelo projeto da tribo; a pólis grega, especialmente em Atenas, exigia comprometimento diante da arte de fazer política em favor da cidade; a tradição religiosa comprometia perante Deus e seus representantes; as nações modernas

desenvolveram constituições republicanas que, acreditava-se, iriam dar sustentabilidade ao progresso social pela justiça, logo, respeitavam-se as leis em favor do bem social que elas representavam. Todas estas tradições morais estão fragilizadas diante da sociedade de indivíduos, cada vez mais interessados em seu bem viver pessoal (falo nisso como característica de nossa época e não como algo negativo em si mesmo). Diante disso, penso que o maior desafio moral atual é convencer-se, e às pessoas, de que fazer ética vale a pena, pois avaliar como a vida pode ser melhor vivida a partir do comprometimento com a dignificação das relações pode fazer bem para a saúde pessoal. Proponho subverter o significado batido de individualismo para ressignificá-lo como sendo a maneira como a pessoa produz a si mesma no encontro com as coisas do mundo, em especial as outras pessoas. Indivíduo não como uma categoria restrita, atomizada, mas como autor de si mesmo, na relação consigo mesmo e com os outros. Todos somos bons e maus. A consciência e a vontade podem nos comprometer a buscarmos ser melhores e menos maus. Mas para que isso seja possível, precisamos experimentar a liberdade: questionar e desafiar a nós mesmos (para que não estejamos fixados e reduzidos aos nossos modelos ou impulsos morais), avaliar como podemos transcender certos padrões morais exteriores e, em especial, alargar nosso pensamento

e nossa linguagem para desenvolver uma ação esteticamente enriquecedora da vida.

Fazer ética para tornar a vida mais alegre e bela. Alegria ligada à experimentação aberta

e estendida no tempo (transbordamento de si) e beleza relacionada à qualidade estética das expressões (e percepções), ao desenvolvimento da linguagem.

1.2 Diferença entre moral e ética

Penso que didaticamente é interessante propormos uma distinção entre moral e ética, mesmo que esta diferenciação seja colocada em discussão por muitos autores e que a maioria das pessoas continue a confundir os dois conceitos, colando um no outro. Aliás, em geral, todos nós aprendemos a falar em moral e ética como se tivessem o mesmo sentido. Moral: os hábitos adquiridos quase que automaticamente no grupo em que nos criamos vão organizando nossa moral. O lugar da mulher e do homem, as tradições, o valor dado ao consumo, às leis etc. são elementos que podemos ligar à moral. Estamos cotidianamente agindo moralmente, a partir de certos condicionamentos comportamentais. São gestos e juízos praticamente mecânicos, automatizados, condicionados. Acostumamos-nos a ver o mundo assim e a julgar os fatos de certa maneira determinada (por isso se disseminaram preconceitos) e ignoramos a autocrítica construtiva. Ética: no momento em que tomamos distância e paramos para discutir e refletir

sobre a moral, sobre nossos hábitos, costumes e tradições, colocando em questão o valor dessas morais, estamos entrando no campo da ética, que seria melhor entendida como um saber crítico sobre o fazer. Tanto ou mais do que ser éticos, nos fazemos éticos pelo exercício da reflexão e da prática, que são complementares. Sair de si, estender sua compreensão e alargar seu campo de percepção para outras morais não é um exercício simples. Fazer ética significa desenvolver uma reflexão crítica em relação aos comportamentos e valores pessoais e sociais mediante um desenvolvimento conceitual e um alargamento cultural, ou seja: estudando mais conceitos e teorias que possam ampliar o nosso discernimento em relação à consistência (atualizada) de nossas ações diante da realidade – de diferentes contextos– e visitando outras morais além da nossa, para que, além de levar ao questionamento do valor da moral da gente a partir de uma comparação coerente com a moral do outro, nos reconheçamos como seres históricos e diversos, produtores de diferentes valores e escolhas morais. A ética, enquanto um saber-fazer que busca a potencialização da vida, está desafiada constantemente a validar seus conceitos nas experimentações práticas que se desenrolam nas relações entre pessoas e grupos. Quando os pais, por exemplo, reduzem a educação dos filhos a seus modelos mentais, eles de fato estão moralizando a criança. Não podemos ignorar a importância dessa identificação moral, ou seja, a criança não nasce num mundo qualquer, isto é, é importante que reconheçamos a moral e a cultura a que pertencemos (e os pais devem buscar, mesmo sabendo dos seus limites, esclarecer sobre essa moral), porém, ao aprender com os filhos maneiras alternativas de propor e desenvolver comprometimentos que não sejam pela obediência coercitiva e formal, estaremos transcendendo a moral, experimentando a ética e, consequentemente, dando consistência à própria moral. Não podemos existir, enquanto seres ativos, alheios a uma moral (tanto por vivermos num ambiente com regras mínimas de relação como por apostarmos nossas experiências em alguns valores). Porém, as belas morais se desenvolvem em territórios abertos e livres, onde a dúvida e o questionamento são alimentos da reflexão e qualificação das linguagens e pensamentos. Reduzidos a moralismos, nos tornamos ignorantes no fazer ética. Por exemplo: cada um de nós desenvolve certa convicção em relação às qualidades básicas da gestão e dos negócios (moral), mas estas passam a ganhar consistência pela avaliação que fazemos, a partir da extensão de nossa compreensão e de nossa experiência, de aspectos das áreas que podem qualificar a vida e a dignidade nas relações (ética). Bergson 4 fala em morais abertas, ou seja, culturas em que os comportamentos e os costumes são flexíveis e sujeitos à revisão histórica. Ao pensar radicalmente sobre os conceitos como os de tempo e de memória, Bergson concebe a memória como elemento flexível, cujo encontro com as lembranças são criativas e animadas mais pela intuição do que pela inteligência formal. O tempo em Bergson é movimento criativo, transbordando a lógica recalcada que reduz o tempo a registros rígidos. Da mesma maneira, propõe a moral aberta como característica básica

para a evolução ética das sociedades e da cultura humana.

O discernimento é algo complexo, ou seja, ele se desenvolve a partir da formação

integral da pessoa. Sensibilidades, percepções e compreensões que vamos desenvolvendo, comprometidamente, estendem e viabilizam nosso discernimento em relação às possibilidades (efeitos) de certas ações. A partir disso, podemos repetir que a ética está além das boas intenções. Normalmente, a intenção está condicionada pela moral (aqui podemos dar significado ao dito “de boas intenções o inferno está cheio” – os europeus justificavam a submissão de índios e negros afirmando que estavam oferecendo um mundo melhor para eles – o que se repete muitas vezes em diversas práticas). Muitas vezes justificamos os meios utilizados pelo fim que ajuizamos, sem abrir, a partir de então, espaço para avaliar os respectivos meios empregados. Resultados econômicos (financeiros) buscados como objetivos ou metas a serem alcançadas a qualquer custo, por exemplo, inviabilizam a ética porque justificam, geralmente, tratamentos que ignoram a dignidade das pessoas envolvidas e dos recursos naturais explorados.

1.3 O fazer ética

É imprescindível boa vontade e força para assumir consistentemente o que

fazemos. Porém, mesmo entendendo a boa vontade como força que tensiona para a qualificação do fazer ética, devemos ter cuidado:

a. Em pensar de forma abrangente, o que fazemos, cada vez mais, tem relação com vários outros aspectos, tanto do ponto de vista profissional como pessoal. Como diz o ditado: de que vale a pena ganhar o mundo, se perder a minha alma? Até que ponto vale a pena ter sucesso no trabalho, se me transformo em um trapo de gente? A integridade tem preço?

b. Pensar não estritamente em bom OU mau, mas em mais do bem E menos do mal, pois o bem E o mal em absoluto, do ponto de vista das relações humanas, são discutíveis. Bons E maus porque as contextualizações, em especial num tempo complexo e dinâmico como o atual, tornam-se tão ou mais importantes do que as convicções. Por exemplo: é importante reconhecer a dignidade da vida e das pessoas como valor primeiro (chamamos isso de ética deontológica, de convicção), mas ela se efetiva e se desenvolve diante e dentro de um certo contexto que é diferente e está em transformação (trata-se de ética teleológica e da responsabilidade) . Como pai, posso querer o bem de meu filho, mas posso estar usando métodos questionáveis no processo de relação para promover suas aprendizagens.

Responsabilizar-se eticamente é aprender a aprender em relação à prática. Por mais que possamos relacionar a ética com definições sofisticadas, belos princípios e palavras interessantes, os processos e seu desenrolar vão dar vida a esses pressupostos conceituais. Com isto, não reduzindo a ética a estudo de casos ou à ideia de que só aprendemos com a prática. Acredito e aposto que a prática pode se tornar superficial, se não houver um embasamento teórico, ou seja, se as pessoas envolvidas não tiverem desenvolvido um mínimo de aprendizado conceitual (ou entrada num estágio de discernimento mínimo, a partir da apropriação e entendimento de linguagens). Muitas empresas estabelecem códigos de ética que estão muito mais identificados com normatizações do que com uma reflexão permanente e participante por parte daqueles a quem o respectivo código diz respeito. Somente podemos chamar de código de ética um conjunto de proposições que tenham sido democraticamente construídas e que estejam sistematicamente sendo validadas pelo exercício autônomo, participativo e reflexivo dos envolvidos pelo mesmo. Do contrário, aquilo que chamamos de praticar a ética acaba mais perto do moralismo que da própria ética.

As pessoas se desenvolvem eticamente na medida em que percebem sentido no que fazem e se sentem (co)autoras nos processos – sensibilizam-se em relação ao que fazem. Proponho a ética como a arte de desenvolver o pensamento, as percepções e as linguagens para viver bem. Uma sutileza de reflexão sobre o que nos acontece e como aprendemos com o viver e nos sentimos mais fortes para viver bem. Lembro aqui reflexões que emergem a partir de leituras de Nietzsche: muitos parecem camelos que carregam o peso da moral e das obrigações em suas costas e, consequentemente, são pouco alegres. São aquelas pessoas que cumprem as leis e seguem as normas por obrigação, que têm a consciência pesada como se sempre estivessem sendo cobrados por uma força externa em relação aos seus deveres. Também podem ser indivíduos que acabam extenuados e cansados ao assumirem atividades altruístas, carregando a ajuda como fardo. Estamos falando de uma ética do cansaço. Nietzsche propunha a figura do Leão como aquela que se refere à resistência, que passa a tensionar e criticar o peso de uma moral da obrigação, da moral instituída por uma razão coercitiva, geralmente representada por instituições e senhores da lei. Porém, muitos ficam restritos a essa crítica e não avançam. Ou seja, conseguem perceber a moral de dependência e seu funcionamento, assim como o ser humano evoluiu e avançou na percepção da ordem das coisas da realidade física e social, porém, não conseguem ou não se animam para a invenção de novos e mais consistentes modos de vida –assim como faz com a ciência, o ser humano decifra muito da natureza das coisas, mas ainda precisa aprender a ser mais criativo na invenção de novas possibilidades de intervenção que potencializem e não enfraqueçam as redes vivas. A pessoa criativa, esteticamente inovadora e animada

pela arte, é comparada, por Nietzsche, com uma criança jogadora que, como um dançarino, produz movimentos vão sendo alterados em favor da beleza. Essa imagem revela uma ética que deseja a vida como experiência moral consistente, como uma obra de arte que não está condicionada a representar o mundo, mas a inventar possibilidades mais belas de existência nas maneiras de desenvolver os processos e experimentar as relações. De certa forma, a filosofia serve para lidar com aquilo que não tem resposta e que permanece sem resposta em relação à lógica formal, porém, que remete à possibilidade de produzir mundos. A moral traduz a ordem de convivência necessária, as leis que limitam a possibilidade de existência das pessoas. No entanto, a ética e a filosofia permanecem abertas em relação às experiências criativas que podem desenrolar-se, a partir da ação humana, para salvar a vida da banalidade, da repetição, do enquadramento, do legalismo e do moralismo. Filosofia e ética respiram liberdade. Para aquilo que está respondido formalmente, pela ciência, por exemplo, ou pela religião e seus dogmas, não há o que filosofar. É claro que quando questionamos como certo imaginário religioso atua sobre a vida e como certas descobertas científicas alteraram a maneira de pensar o mundo e a vida, estamos novamente filosofando e questionando o valor moral destes campos de ação humana. Nesse sentido, fazer ética é filosofar e exige liberdade radical. O que nos prende e nos condiciona, sem um mínimo de significado para a convivência social, não passa de moralismo e torna-se pesado. Uma religiosidade e uma ciência abertas ao diálogo tornam-se leves e alegres, comprometendo-se, a partir de sua tradição, crença e rituais, com o bem viver. A singularidade de cada um é fundamental para que se possa fazer ética no encontro com os outros. Devemos cuidar quando falamos que o conceito de ética é muito particular, é relativo, depende da opinião de cada um, pois podemos estar privatizando a ética, ou seja, alguém pode sair dizendo por aí que é assim que pensa e não aceita diálogo. Impossível pensar em ética sem diálogo. Novamente entra aqui a questão da liberdade. A pior escravidão é a daqueles que escravizam a si mesmos (tornam-se pesados – perdoem a redundância). Insisto: é fundamental a autonomia que diz respeito a cada um desenvolver suas compreensões éticas, mas a autonomia e a própria liberdade se desenvolvem e são experimentadas na abertura para o outro. Estamos falando a partir da proposição de uma ética pessoal aberta, aprendiz, em movimento e, consequentemente, muito viva. Em belos encontros com as possibilidades que outras formas de vida podem acrescentar à nossa. Proponho que devemos provocar os outros, testemunhar nosso comprometimento em ampliar cumplicidades a favor da ética, porém, nada nos assegura em relação ao grau de adesão que teremos e nem se o nosso entendimento ético dá conta sistematicamente de práticas mais coerentes (às vezes nos pegamos em comportamentos limitados). Devemos nos convencer a cada dia de que vale a pena viver e que continuamos a apostar em nossa habilidade em motivar os outros, enquanto nós mesmos nos implicamos com o contínuo aprendizado moral. O melhor

dos mundos não existe, como já dizia Edgar Morin, 5 mas o mundo pode ser melhor. Essa é a nossa batalha, na qual nossas experiências próximas e cotidianas, nossas lutas e enfrentamentos, podem revelar belas vitórias.

1 Alguns autores denominam de cultura fetichizada esta tendência, ou seja, as pessoas vão idealizando modelos que lhe agradam, ou por conta própria ou condicionadas pelas mídias, e reduzem seu desejo e prazer à possibilidade de terem satisfeitos estes fetiches, que vão desde objetos de consumo até práticas comportamentais e sexuais.

2 Gilles Lipovetsky (1944) é filósofo, professor de filosofia da Universidade de Grenoble e autor dos livros A Era do Vazio, O luxo eterno, O império do efêmero, entre outros. Em sua obra A Sociedade Pós-Moralista: o crepúsculo do dever, indicada ao final deste livro, o autor afirma que cada vez menos as pessoas vivem a ética por obrigação ou sacrificam-se por algum valor. Estamos na era dos indivíduos e as pessoas cada vez mais fazem suas escolhas e desenvolvem seus valores a partir de si mesmas.

3 Em Convite à Filosofia (2005, p. 337 e 338) Marilena Chauí desenvolve argumentação acerca dos constituintes do campo ético. É com base nesta leitura que os mesmos são propostos acima.

4 Henri Bergson (1859-1941), filósofo francês que teorizou sobre o pensamento intuitivo, cujas obras que destacaria são A evolução criadora e Matéria e Memória.

5 Edgar Morin (1921), pensador contemporâneo e teórico da complexidade, critica os discursos salvacionistas que reduzem a seus princípios o melhor dos mundos. Somos incompletos e o mundo pode ser melhor pela experiência criativa e solidária com os outros. A fraternidade terrestre, em que ninguém é dono da ética e da verdade, é o caminho para a paz e para um mundo melhor do que este que está aí.

CAPÍTULO 2

OS PENSADORES E A ÉTICA

Neste capítulo é desenvolvida a crítica a visões dogmáticas e relativistas que podem estar presentes na discussão sobre a moral e a ética e, em especial, desenvolve-se um diálogo com vários pensadores para alargar a perspectiva conceitual dos leitores e alunos em relação à teorização sobre a ética e diferentes possibilidades de interpretação e contextualização. Importa destacar que uma postura aberta, reflexiva e propositiva é base para o desenvolvimento da compreensão e, ao mesmo tempo, revela-se como processo de educação para o diálogo posterior. Esta competência para dialogar é pressuposto fundamental para o desenvolvimento e progresso moral, tanto do ponto de vista pessoal como do ponto de vista social. Nossas afinidades com alguns conceitos e teorias não pode fazer com que, aos poucos, nos fixemos demais em círculos, pois a pluralidade e a diversidade moral devem alimentar alternativas de crescimento pessoal e social através de bons encontros, como veremos logo mais em Espinoza. A cidadania de cada indivíduo é diretamente proporcional à sua capacidade de defender o direito à autonomia de todos os indivíduos ao mesmo tempo em que desafia cada um a colocar suas convicções em suspeita na relação com os outros para transcender o que só pensa a partir de si mesmo.

2.1 Crítica ao dogmatismo e ao relativismo

Duas tendências morais devem ser criticadas quando falamos em formação moral (ou em estudo de ética). Em primeiro lugar é o dogmatismo, ou seja, a ideia de que existe um modelo moral definitivo a ser imposto ou ser seguido para que se alcance o bem. Tal sintoma pode estar presente quando se acredita que alguma religião ou algum sistema jurídico contenha em si toda a verdade sobre como devemos nos comportar. Tanto as religiões como as constituições são obras humanas e históricas, além de serem desenvolvidas e experimentadas dentro de certo contexto social. A vida, a história, a cultura, os fenômenos sociais são dinâmicos e devemos reavaliar, sistematicamente, as morais na forma como respondem propositivamente ou não aos contextos. Aos dogmatistas e a quem arroga para si mesmo a verdade moral a ser seguida, cabe essa crítica. Num outro extremo temos os relativistas, que tendem a dizer que cada povo tem a sua moral ou que depende de cada um avaliar sua ação e escolher entre o bem e o mal. Este relativismo tem seu limite não somente na ordem social que depende de um

mínimo de ordem moral e jurídica para adequar as relações, mas, principalmente, porque a consistência moral não é alcançada a partir de si mesmo sem um diálogo com o de fora. Acredito que o estudo e a reflexão sobre as propostas morais de vários pensadores podem dar consistência à nossa reflexão ética e, consequentemente, ao nosso agir moral. Esta é a proposta do caminho que vamos desenvolver a seguir, dialogando com alguns pensadores e suas ideias sobre ética. Penso que cada um deve ser capaz de desenvolver sua reflexão e contextualização, mas acredito que podemos sair desta leitura e conversação mais animados para pensar a consistência do que fazemos e, em especial, nos desafiarmos a desenvolver melhores reflexões em relação às nossas práticas, tornando as nossas vidas mais interessantes. Reconhecemos que aprendemos na relação, porém, é a passagem por dentro de cada um de nós, pelo convencimento e pelo comprometimento com o bem, que move a força de nossa reflexão e, consequentemente, da nossa prática. A minha percepção, o de dentro (que aos poucos pode ser mais consistente) e a do outro, o de fora, se encontram (duplicidade) e, de alguma forma, a abertura pessoal e o outro, que se move dinamicamente e de forma cooperativa, abrem espaço para a ética. A experiência interior radical no encontro com o de fora, é o que dá saúde moral às pessoas. Vamos, a seguir, visitar alguns pensadores e suas propostas éticas. É uma visita ao de fora, ao outro, a diferentes conceitos que, se forem reconhecidos e atualizados, podem promover uma relativa potencialização moral e existencial. Como já destaquei anteriormente, a visita a mais conceitos e suas atualizações na relação com nossos contextos e experimentações nos potencializam e alargam as possibilidades de nosso viver bem.

2.2 Dialogando com alguns pensadores

Insisto que o rápido diálogo aqui desenvolvido com alguns pensadores e suas éticas não dá conta da consistência das ideias e conceitos abordados e desenvolvidos pelos mesmos. Inclusive, ao trazê-los para a discussão e escolher algumas de suas proposições, já estou fazendo certa escolha parcial e propondo, a partir do que os mesmos propuseram teoricamente, uma reflexão para além das reflexões propostas. Cada leitor-estudante é convidado a desenvolver seu senso crítico e avaliar de que forma certas propostas podem ser mais ou menos significativas em suas interpretações e contextualizações. O que se espera dos leitores é que se coloquem de maneira aprendiz diante destes encontros conceituais. Sócrates: muitos consideram que é a partir de Sócrates que temos o início da Filosofia Moral ou Ética, pois se inicia aí a discussão racional sobre o valor dos comportamentos humanos, para além de condicionamentos sociais (da tradição, do

hábito e do costume) ou outros determinismos. Apesar de Sócrates não haver escrito nada em sua vida, através de Platão, seu discípulo, tivemos acesso ao seu pensamento. Sócrates é o autor da conhecida afirmação filosófica e moral: Conhece-te a ti mesmo. Ele não se conformava com a forma alienada com que as pessoas seguiam os padrões

culturais, em especial os cidadãos atenienses, não tensionando o sentido dos costumes

e de seus próprios comportamentos, ignorando sua autonomia moral. Para Sócrates,

era importante que as pessoas fossem questionadas a tal ponto que se desmascarasse

a fragilidade de suas convicções em relação aos seus valores e comportamentos, ao

mesmo tempo em que cada um deveria ser autor de sua própria história e responsável pelo desenvolvimento de seu caráter. Tais processos ou métodos socráticos receberam os nomes de Ironia (levar o outro a reconhecer sua ignorância, de onde tem origem os ditos: sei que nada sei ou ainda, sábio é aquele que sabe que não sabe nada) e Maiêutica (comprometer a pessoa a desenvolver sua autonomia e criatividade – o conhece-te a ti mesmo citado acima). Em relação a este segundo método, destacamos que Sócrates lembrava sua mãe Fenareta em seu ofício de parteira. Afirmava ele que, assim como sua mãe retirava o recém-nascido de dentro do ventre de uma mulher, cada pessoa deveria ser capaz de produzir, a partir de dentro, de si mesmo e de sua interioridade, 1 seus valores morais e, consequentemente, sua autonomia. Aristóteles: para Aristóteles, o que nos diferencia dos animais é que somos seres de razão e que será a partir dela, de seu uso, que seremos capazes de nos tornar conscientes do valor e da consistência de nossas atitudes. Segundo Aristóteles, a razão bem utilizada nos conduz para a boa conduta, impede que vivamos na ignorância e nos leva para o caminho da felicidade, fim último do existir. Virtuoso, para ele, será aquele que souber avaliar a ação prática e seus resultados. De Aristóteles herdamos a aliança entre a teoria e a prática em nosso fazer. Segundo ele, a prudência é a mãe das virtudes, pois ela nos conduz para as melhores decisões em relação à vida, o que ele chama de sabedoria prática. Há uma diferença entre a proposta de Aristóteles e a de Platão que está na origem de duas maneiras de se pensar a ética, e que acompanham a reflexão moral no Ocidente até os nossos dias. 2 Enquanto para Platão a moral depende da ideia, de uma verdade ou princípio que rege a ação (Éticas Deontológicas ou da Convicção), para Aristóteles, a prática e seus efeitos é que fazem com que avaliemos a consistência de determinada ação moral (Éticas Teleológicas, Consequencialistas ou da Responsabilidade). Porém, tanto para Sócrates e Platão como para Aristóteles, o exercício racional era que qualificava nossa ação moral em relação ao compromisso com a pólis e com a harmonia cósmica. Tanto que as crianças eram reconhecidas como seres que não poderiam ser avaliadas moralmente (amorais), na medida em que não tinham alcançado um desenvolvimento racional que pudesse comprometê-las em relação à consciência de seus comportamentos (lembro aqui da discussão sobre cidadania e sobre o limite de idade para a responsabilização jurídica de crianças e adolescentes). Além disso, lembramos que mulheres e estrangeiros também ficavam à margem da cidadania, na Grécia Antiga, e seus valores morais eram negligenciados.

Apesar disso, ainda é importante destacar que, para Aristóteles, é imprescindível que se atenda a certas necessidades básicas para que se possa, a partir de então, passar a desenvolver o exercício racional que nos leva ao comprometimento com o bem e com o saber-fazer ético. Em relação a esta questão final, ficam alguns questionamentos para reflexão:

como exigir o desenvolvimento da racionalidade moral daqueles que vivem nos limites da sobrevivência? Como esperar de quem é explorado e violentado em sua condição existencial o senso de justiça? Como exigir dos empregados o comprometimento com a empresa sem que ela ofereça as condições básicas de trabalho?

Rousseau: para Rousseau, a bondade natural foi pervertida pela sociedade. Nascemos bons, inclinados para relações de troca e cooperação com os outros, mas interesses sociais, morais vinculadas a interesses particulares, a propriedade privada, entre outros, são alguns fatores que vão condicionando o humano para o mal. A sociedade perverte as pessoas. Não precisamos, segundo Rousseau, buscar em uma ideia ou teoria a orientação para o bem. Ele está dentro de nossa natureza. 3 A vida deixada livre no humano será capaz de inclinar-se naturalmente para o bem. Ele busca reconciliar o ser humano com a Terra, com a vida, e critica o processo civilizatório predador e movido por interesses particulares. Ele está chamando a atenção para a força viva que está em cada um de nós como desejo natural de viver. Em geral, os animais não desejam morrer e nem matar os outros, no máximo sobrevivem sob uma ordem natural (as pesquisas revelam que a vida é fundamentalmente produto das trocas e não da luta e da exploração, que são sintomas e sinais de morte). Gosto de pensar a proposição de Rousseau como um desafio a vivermos desejando a vida e não condicionando a mesma a representações fixas que devem ser seguidas (morte da ética). Kant: já para Kant, como seres naturais, não alcançamos o estado ético. Para ele,

a natureza é fraca e sucumbe ao mal. Como seres de natureza, somos facilmente influenciados e é imperativamente necessário que a razão instaure, a partir disto, o dever-ser ético. Como seres da natureza, estamos presos à lógica da necessidade, ou seja, ao movimento instintivo. Para Kant, somente pela razão prática podemos alterar

o curso das coisas. E este é o dever da razão. Mas não estamos falando de uma razão

que vai descobrir que devemos ser bons e definir o que é ser bom. É uma razão que estabelece como obrigação ética a boa vontade (a vontade do bem como finalidade da razão). Querer o bem como algo universal para todas as pessoas, segundo Kant, é um pressuposto básico para a ética. Na obra do filósofo, a ética da convicção radicaliza- se, ou seja, é imperativamente necessário que a dignidade da pessoa seja pensada como um fim em si mesmo. Qualquer gesto meu em relação ao outro, para ser bom, deve poder ser pensado como regra universal. Não existe em Kant a possibilidade de se pensar certos meios circunstanciais menos éticos para conseguir alcançar fins mais éticos. Não existe a possibilidade de sermos menos ou mais éticos. Qualquer gesto é ou não é ético quando entramos no âmbito das relações. Tanto os meios como os fins

devem ser éticos. Kant pensa o dever que temos, enquanto seres de razão, de administrar pela mesma os nossos impulsos naturais. Podemos questionar até que ponto tal ética dá conta de práticas em contextos dinâmicos, onde convivemos com pessoas de carne e osso, com seus limites e condicionamentos. Além disso, este dever-ser em relação ao corpo por muitos foi confundido com certa coerção, certa domesticação do corpo, em que uma racionalização da vida fragilizou afetos e sensibilidades. A natureza viva, presente no corpo humano, pede passagem como força dinâmica e não podemos mais reduzi-la ao controle da razão. Essas ressalvas não retiram da proposta kantiana certa atualidade, em especial diante da superficialidade e corrupção moral. A ética kantiana de alguma forma está inscrita na história do menino pobre que encontra uma bolsa (com dinheiro e objetos de valor) e decide entregá-la ao poder público para que ele encontre o dono e devolva a ele seus pertences. Esta postura de convicção em relação a gestos de boa vontade, este dever-ser bom inscrito na razão humana (que também dá sentido à sua existência enquanto ser de razão) pode ser pensado em relação ao desenvolvimento do caráter (aqui poderíamos voltar a Sócrates e seu desafio em relação ao comprometimento interior da pessoa com seus valores). Espinoza: a ética espinozista critica o peso da culpa e da obrigação que acompanha a moral. Espinoza não utiliza termos como bom e mal, certo e errado (culpa e ressentimento passam à margem da ética espinozista). Prefere falar em paixões alegres e paixões tristes. Em bons encontros e maus encontros. Em seres fortes e seres fracos, no que diz respeito à passionalidade, à relação com as forças exteriores. Para ele, devemos ser autônomos na relação com o outro e não resignados ou submissos. A nossa força moral é diretamente proporcional à capacidade ativa que desenvolvemos nas relações. Paixões alegres, ou seja, bons encontros, nos potencializam na medida em que saímos deles mais sensíveis à escuta e à percepção e, ao mesmo tempo, mais capazes de nos expressarmos. 4 Espinoza fala em relações de força entre as matérias na natureza, em afetação. As matérias que multiplicam suas possibilidades (energias) a partir das relações são exemplos de forças criativas. Esta ideia é pensada em relação à ética. Para radicalizar, trago o exemplo da relação com as dores: podemos sair fortalecidos ou enfraquecidos diante das dores da existência. Alguns se tornam fracos e não conseguem lidar bem com as dores, tornando-se vítimas das mesmas e infelizes existencialmente. Outros conseguem aprender a partir da relação com a dor e tornam-se mais fortes, e a vida amplia-se diante de seus olhos. Hegel: critica Kant e as éticas que vinham sendo pensadas até então porque não via nelas a discussão sobre a cultura e a história e sua influência e importância no desenvolvimento moral. Dizia que a discussão girava em torno da pessoa e não reconhecia a influência da realidade social sobre a vida das pessoas. Para ele, o grande debate ético deve acontecer em relação ao progresso moral que se desenvolve na relação entre a sociedade (ética objetiva) e o indivíduo (ética subjetiva). A grande evolução ética se daria através da experiência de um estado social que atenderia de

forma perfeita às aspirações dos indivíduos. Esta harmonia entre a sociedade (Estado)

e os cidadãos, para Hegel, é o fim último da ética. Por vezes, Hegel e outros

pensadores que se filiaram a esta dialética em que se chegaria à grande síntese em um

estado harmônico, enalteceram tanto o caráter histórico e a importância do estado (da sociedade e da cultura), que os indivíduos e sua autonomia acabaram enfraquecidos. Alguns pós-hegelianos chegaram a pensar que o desenvolvimento da Ética dependia desta submissão à vontade maior do Estado. Sabemos como certas revoluções levaram

à origem de estados que submeteram os indivíduos. Não podemos prescindir desta

relação dinâmica entre indivíduos e cultura (sociedade organizada), porém, a tendência em radicalizar para cada um dos dois lados é temerária. Gosto de pensar com Hegel que a ética tem muito a ver com aquilo que os antigos gregos afirmavam: somos seres políticos e é no debate sobre o que é bom para a sociedade como um todo e para os grupos e pessoas de forma particular que aprendemos a argumentar e refletir sobre a sociedade a que pertencemos e como somos corresponsáveis pelo seu desenvolvimento. Por exemplo: as empresas devem fazer internamente um exercício político radical de participação (liberdade, autonomia e comprometimento), a tal ponto que os empregados sintam-se corresponsáveis pelo desenvolvimento da empresa e vendam a ideia de comprometimento ético para os clientes. Marx: foi aluno de Hegel e, em boa parte, sua discussão traz um projeto moral que se revela hegeliano. Para Marx, era hipocrisia uma sociedade exigir que as pessoas fossem boas e corretas (éticas) se as estruturas sociais eram injustas e exploratórias. Soava à incoerência. E repetia que toda sociedade deveria dar condições necessárias para que seus membros pudessem participar da transformação social. A partir daí desenvolveu toda uma análise histórica (materialismo histórico) de como as sociedades e seus modos de produção até então eram exploratórios em relação às camadas marginalizadas. Aqui, Marx propõe a grande revolução ética contra o capitalismo e a burguesia (materialismo dialético). O estado perfeito, o fim último da

dialética seria a revolução socialista e o estabelecimento de uma sociedade sem classes.

A Revolução Socialista na Rússia do início do século XX (1917) baseou-se nas

propostas marxistas. Porém, esse idealismo não contava com a dinamicidade histórica

e, em especial, com a autonomia dos indivíduos. O estado ficou pesado e o tempo

ocupou-se do resto. Destacamos que Marx é atual enquanto nos remete à discussão em relação a um projeto que diminua as injustiças, que busque mais igualdade entre as pessoas, principalmente atendendo as condições básicas de todos para o pleno exercício da cidadania. O princípio de defesa dos explorados e marginalizados ainda é importante ser trazido para a discussão, não com teor demagógico, mas para nos desafiar a pensarmos alternativas de ação diante do quadro de extrema desigualdade ainda existente, em especial no Brasil. Estratégias morais coerentes, para que se avance neste sentido, são um desafio permanente de reflexão e atuação por parte de pessoas comprometidas com um mundo melhor.

Nietzsche: critica todas as éticas racionalistas na medida em que, para ele, elas

estão sempre preocupadas em moralizar o corpo e a vida. A vida deve ser libertada destes moralismos, das racionalidades que arrogam para si o ajuizamento dos corpos. Defende a ideia de que devemos dar prioridade ao instinto, ou seja, que devemos abandonar as representações racionais e desenvolver uma filosofia da vida. Não significa viver de qualquer jeito e sem compromisso, mas preocupar-se com a nobreza do viver a partir da liberação da vida e não de seu aprisionamento a representações

racionalistas. Nietzsche utiliza, como Espinoza, termos como fortes e fracos, ativos e reativos. Ativos são aqueles que abraçam e acolhem a vida (em Nietzsche temos de volta a valorização da natureza, como havia ocorrido em Rousseau), enquanto reativos

são aqueles que fogem da vida e desprezam (invejam) a força dos que estão

experimentando a vida e o corpo. Diz que os fracos não suportam a alegria dos fortes (dos que se entregam à vida e ao viver intensamente), pois estão reduzidos a seus moralismos e racionalismos (vidas simplificadas, reduzidas a padrões e modelos

rígidos, agenciadas moralmente). Esta crítica aos moralismos deu continuidade a toda

uma

corrente de pensadores existencialistas e pós-nietzscheanos que durante o século

XX

defenderam a radicalidade de um viver que não estivesse condicionado a padrões

morais, submetido a poderes exteriores. É claro que a força da crítica nietzscheana provocou interpretações equivocadas, como se ele quisesse defender um laisse-faire

(deixai fazer

sem reconhecimento dos outros. Penso que, moralmente, em especial em nosso

tempo, em que muitos indivíduos se fixam em seus pontos de vista superficiais e não aceitam questionamentos, reduzindo a justificativa ao argumento de que cada um tem o direito de viver e de escolher o que bem entende se não fizer mal ao outro, temos

que ter cuidado quando falamos em liberdade e direitos pessoais. Estão longe de serem

práticas éticas as opiniões e as ações superficiais. O próprio Nietzsche zombaria de

uma vida vivida sem consistência, pois acreditava que viver bem requer nobreza de

pensamento e ação. Quem ama a vida (amor fati) lhe oferece uma arte superior de (rel)ação. Fica em aberto em Nietzsche a questão de como o outro entra nesta experiência pessoal radical do viver por parte de cada um. Muitos criticam Nietzsche nessa direção, porém, penso a partir da ideia de vontade de poder que está presente na proposta filosófica dele, que é impossível conceber a experiência da força por parte de alguém pelo enfraquecimento do outro, ou seja, seria contraditório e iria contra a própria proposta nietzschiana que critica os reativos, ou seja, aqueles que submetem o outro ou colam no outro. A nobreza do comportamento está na força que ela agrega a todos que participam da animação da vida em diferentes áreas e processos.

um viver sem comprometimento, uma vida individualmente impulsiva

),

Freud: trago Freud para a discussão em especial por causa do embate entre o id, o ego e o superego, forças presentes em todas as nossas experiências e que atuam diretamente sobre nossas vidas. O id não representa um estado passivo a ser manipulado, mas é o inconsciente ativo, um desejo natural e intempestivo que transborda de nosso corpo e não pode ser represado (lembro aqui a desconstrução da razão absoluta). Como corpo em busca de prazer, cada um de nós tem seus sonhos e

suas inclinações pessoais e certas tendências naturais (id → impulsos naturais). Ao mesmo tempo, vivemos em uma cultura que agencia valores e padrões, formalmente ou informalmente (superego). Freud remete ao ego como a força (consciência), como

dimensão que deve equilibrar ou negociar entre o id e o superego social. Há aqui uma proposição ética, ou seja, na medida em que somos seres sociais e temos que aprender

a viver em sociedade, e ao mesmo tempo somos seres individuais com nossos desejos,

nosso ego deve desenvolver a capacidade consciente de organizar, de forma flexível, essa relação conflituosa. O cuidado para que nossa consciência não se transforme nem num superego em relação ao corpo e nem numa força de resistência insana em relação ao convívio em sociedade é o desafio moral e ético que daí se desprende. A boa consciência reconhece o equilíbrio movediço, os limites da harmonia entre o id e o superego. Ela negocia, propõe, experimenta, amplia a percepção, desafia e se compromete; não agencia e condiciona imperativamente. O bom negócio em ética sempre deve conseguir afirmar a vida da pessoa em sua totalidade, compondo alianças criativas com a vida em sociedade.

Ética contemporânea: nas reflexões e teorizações recentes sobre a ética, há uma

resistência às morais verticais, àquelas que tentam impor modelos de comportamento

a seguir (o que faz com que seja denominada de era pós-moralista). A autonomia e a

intervenção propositiva e criativa dos indivíduos nos processos são destacadas (sociedade de indivíduos ou individualista). Existencialistas (como Sartre) 5 falam em liberdade radical e experimentação e comprometimento (responsabilidade) com o que fazemos. Utilitaristas (como Stuart Mill) 6 querem chegar aos melhores resultados possíveis diante de certas circunstâncias, para que mais pessoas saiam ganhando, mas fica em aberto quais são as prioridades, como avaliar as circunstâncias e de que forma vamos estabelecer o que é melhor para um maior número de pessoas.

Diante do contexto e dos desafios atuais, a proposta que fica é a de que o alargamento de nossos valores, a partir do reconhecimento do outro, e a força de um diálogo propositivo podem fazer com que a humanidade caminhe para um estado em

que estejam mais presentes, do que atualmente, a fraternidade e a paz. A globalização aproximou geograficamente as nações e as diferentes culturas. Esse encontro vai ser positivo na relação direta em que os povos souberam ampliar redes de diálogo em que consigam transcender seus interesses para pensar a humanidade como um todo e cada um como responsável pela boa convivência. Muitos limites e possibilidades se fazem presentes. Como será o futuro? Nada nos assegura que ele será melhor ou pior, mas a nossa ação pode compor a narrativa de um mundo melhor, não somente porque acabamos obrigados diante de uma possível situação limite (crise ecológica ou terrorista), mas porque percebemos e assumimos a vida bem vivida na relação criativa

e afirmativa com os outros como fundamento do bem viver e da ética.

Trago tal proposta e conceito de Luc Ferry. 7 Cada uma das propostas éticas que estudamos, e outras que ainda poderíamos estudar, coloca em questão como podemos viver bem. Alguns pressupostos, como a convicção sobre a dignidade do outro, o uso de uma razão aberta, a aprendizagem diante dos processos, sem desconsiderar aprendizagens conceituais, devem acompanhar a nossa reflexão e aprendizado sobre o fazer ético. Assim como Luc Ferry, proponho que aprendemos porque nos afastamos de nós mesmos e depois voltamos de forma diferenciada e ampliada. Conseguimos ver o mundo e a nossa própria realidade além de nosso espelho. 8 A ética, ao mesmo tempo em que não pode prescindir de conceitos como a dignidade, a autonomia e a justiça, também reconhece que a pessoa se faz aprendiz nas contextualizações e nas dinâmicas das manifestações das linguagens desenvolvidas. Recentemente, em especial na segunda metade do século XX, diante da eminente globalização, passa a destacar-se a proposta de uma ética discursiva ou ética da teoria da comunicação de Jürgen Habermas. 9 O diálogo é a essência do fazer ético. Porém, para haver diálogo, deve haver não só uma educação formal que dê condições para as pessoas dialogarem em nível de igualdade, mas também que elas experimentem outras possibilidades de mundo, que alarguem seu universo de visão e possam pensar dinamicamente sua própria cultura e a relação dela com as outras. Em Itinerário de Antígona, Bárbara Freitag se alia à proposta de Habermas, acrescentando a proposta de uma educação e desenvolvimento de condições e oportunidades mínimas para que as pessoas e grupos possam participar deste diálogo.

A falta de integração social pode ser corrigida desde que se assegure a todo e qualquer integrante do sistema, independente de idade, raça, convicção e situação socioeconômica, as mesmas oportunidades para desenvolver plenamente suas competências linguísticas, cognitivas e morais, a fim de que possa participar (e se sinta motivado a fazê-lo) dos mais variados discursos, questionando e revalidando normas por via cooperativa, em busca de entendimento e justiça social. (FREITAG, 2005, p. 271.)

As negociações e diálogos internacionais, por exemplo, ainda estão muito marcados pelos interesses. O diálogo não se efetiva quando as partes sentam-se à mesa de negociação para conversar e deliberar presos em seus interesses particulares. Até será viável o diálogo dentro de ambientes menores, como empresas. Porém, não podemos prescindir do desafio atual de desenvolvermos uma ética planetária que demandará a fragilização de interesses particulares e a viabilização de um diálogo transcultural.

1 “ Na visão socrática, o ‘humano’ só tem sentido e explicação se referido a um princípio interior ou a uma dimensão de interioridade presente em cada homem, que ele designou justamente com o antigo termo de ‘alma’ (psyché), mas dando-lhe uma significação essencialmente nova e

É na ‘alma’, em suma, que tem lugar a opção profunda que orienta a

propriamente socrática [

]

antropológicas a ideia da personalidade moral sobre a qual irá assentar todo o edifício da Ética e do Direito em nossa civilização. Ele é considerado justamente o fundador da filosofia moral e, de alguma maneira, pode ser considerado igualmente o fundador da Antropologia filosófica.” (VAZ, 2008, p. 28 e 29.)

2 “ Na definição da práxis como objeto próprio do saber prático ou da Ética, duas concepções distintas, que se tornaram paradigmas para toda a história do pensamento ético, serão propostas por Platão e Aristóteles. Segundo Platão, a práxis verdadeira ou segundo a virtude é assumida inteiramente pela theoria que, como ciência das Ideias coroada pela ciência ou intuição da Ideia do

De acordo com a

perspectiva aristotélica, que predominou longamente na tradição do pensamento ético ocidental e readquire hoje uma surpreendente atualidade, o problema epistemológico fundamental de uma ciência da práxis formula-se justamente como problema de um saber no qual teoria e prática estejam intrinsecamente articulados na unidade do mesmo processo cognoscitivo” (VAZ, p. 71 e 72, 2008).

3 Lembro aqui que a teoria de Rousseau tem forte influência de seu tempo histórico, em que muitos índios e crianças em seu estado natural, de maior pureza, eram invadidos pela violenta ação de ajuizamento dos ‘ditos civilizados’ e dos adultos. A doutrinação da criança e a escravização do índio revelavam como o mal vinha de fora, da própria razão humana, de uma sociedade pervertida pelos interesses exploratórios do outro.

4 Considero interessante aqui denunciar os maus encontros, em especial, novamente, como em Rousseau, reconhecer o quanto historicamente os ‘ditos civilizados’ produziram paixões tristes pela forma de ocupação do continente americano e pela forma de relações levadas a efeito com grupos indígenas. Da mesma forma, toda vez que o mercado ignora o consumidor como sujeito moral e usa de todas as maneiras para produzir a sua dependência e alienação em relação a certos produtos, produz um mau encontro. Mesmo reconhecendo a venda como princípio básico do bom negócio, acredito que podemos refletir mais sobre a qualidade e o valor dos produtos e a maneira como o consumidor é valorizado na transação.

5 Jean Paul Sartre (1905-1980), filósofo francês que inspirou os movimentos de 1968 em Paris, afirmava que estamos condenados à liberdade e que a existência precede a essência.

6 Stuart Mill (18061873) afirmava que as ações praticadas devem trazer a máxima felicidade para o maior número possível de indivíduos.

7 FERRY, Luc. Aprender a Viver. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007.

8 Lembro aqui da obra de Lewis Caroll, Alice no país das maravilhas, na qual a personagem, ao ultrapassar o espelho, começa a experimentar o diálogo com os outros personagens da história que passam a ter vida própria. São os devires de Alice.

9 Jürgen Habermas, filósofo e sociólogo alemão nascido em Düsseldorf em 1929.

Bem, deve reger as ações humanas orientadas finalisticamente para o Bem. [

]

CAPÍTULO 3

PROPOSTAS ÉTICAS PARA O NOSSO TEMPO

Não se justificam mais morais da obrigação e de receitas comportamentais. As pessoas, na era da sociedade dos indivíduos, estão procurando, a partir de si mesmas, sentido no que fazem, apesar da superficialidade moral que ainda se percebe. Cada vez menos morais de rebanho, como dizia Nietzsche, se sustentam. Argumentativamente, também retomamos a autonomia e a proposta de desenvolvimento moral crítico e reflexivo como base para o saber-fazer ética, como já vimos. Estamos desafiados ao diálogo e à aprendizagem moral contínua. Nunca estaremos prontos, do ponto de vista do saber-fazer ética, porém, a complexidade do mundo atual desafia à responsabilidade com o que fazemos, na medida em que estes pequenos gestos se revelam para além de nossos muros, em especial numa sociedade em rede e que exerce pressão moral e ética a partir de linguagens cada vez mais interativas. A abertura ao outro, a compreensão da multiplicidade e a educação da boa vontade para desenvolver-se como sujeito moral deste tempo e em seus contextos (complexos e dinâmicos), emergem como características marcantes de uma proposta ética contemporânea.

3.1 A crise das éticas moralistas

Inicio este capítulo com a crítica a alguns moralismos. Chamo de moralismos práticas que limitam o comportamento humano que se torna facilmente agenciado e condicionado. Presenciamos em nossa cultura pessoas entregando seus desejos a agenciamentos exteriores, indiferente se por questões monetárias ou por fragilidade afetiva ou até conceitual. São indivíduos fracos, que vendem suas vidas. Outros, fixados em sua riqueza, desenvolvem o pressuposto de poder, de quem pode e deve impor e satisfazer seu desejo através da captura ou exploração do outro. Tornam-se escravos de uma soberba pela qual arrogam o direito de comprar ou vender para o outro aquilo que pré-determinam que precise. Os europeus acreditavam que deviam civilizar os índios, arrogando para si a bondade de quem traz para o outro aquilo que lhe falta. E passaram a acreditar nisso como verdade, assim como certos pais e professores, padres e pastores, políticos e governantes, médicos e advogados, arquitetos e engenheiros, administradores e vendedores, programadores, entre outros, podem passar a acreditar que sabem o que a outra pessoa precisa quando decidem, sem dialogar e contextualizar, sobre o ensinar, o pregar, o governar, o receitar e ajuizar,

o projetar e ornamentar, o gerenciar e sobre a necessidade da compra e do programa necessário. Que moral é esta em que decidimos, a priori, o que é bom para o outro? Ou aquela em que ajuizamos o outro como coitado ou a nós mesmos como vítimas? Atrás de práticas assistencialistas que enfraquecem o outro está uma herança moral que se estende por vários campos (política, ideologia, religião, empresas, academia). Muitos fazem questão de ser parasitas ou de transformar os outros em parasitas de sua pretensa bondade ou inteligência. É ignorância alguém que fala em regozijar-se com aqueles que se filiam ao seu discurso sem pensar radicalmente no que foi dito. Assim como com aqueles que batem palmas demais por escutarem exatamente o que queriam ouvir. Um tapa de consentimento nas costas de um amigo me parece que significa bem menos, do ponto de vista ético, do que um bom tensionamento entre as partes. As relações de poder (moral) ainda estão muito condicionadas à lógica de dependência (nas duas vias, tanto de quem se submete quanto de quem domina). O assistencialismo rola solto (mesmo que eu pense que em limites possa ser necessário, sempre deve ser tensionado). Não gosto do dito ensinar a pescar, pois ensinar alguém a fazer algo soa à reprodução. Reitero a expressão aprender fazendo com alguém. Devemos pensar em contextos interativos e que promovam e impliquem as pessoas com o exercício reflexivo, o desenvolvimento da linguagem e o comprometimento com a vida em sua dignidade. Como fazer isto na prática? Este é o desafio de nossa reflexão ética. Penso que agregando mais conceitos e nos sensibilizando com certas práticas podemos aprender a potencializar e não enfraquecer as partes naquilo que fazemos. No entanto, esta é uma aprendizagem fundamentalmente pessoal que experimentamos nas relações com nós mesmos e com os outros. Além do esforço em denunciar moralismos convencionais presentes em relações coercitivas de poder, em exploradores e agenciadores de subjetividades alheias, devemos atentar para a crítica ao forte moralismo que aparece em subjetividades agenciadas pela mídia em relação a um consumo inflacionado (e superficial) de objetos materiais. Octavio Paz, 1 poeta mexicano, dizia que desejava, ao mesmo tempo, o afrouxamento do fundamentalismo no oriente e o enfraquecimento da mercadorização financeira doentia no ocidente. É claro que junto a essas discussões e, talvez, anterior a elas, o que não significa que seja mais importante, está a necessidade em oferecer condições básicas de vida para as populações humanas. Sem condições mínimas de sobrevivência, podemos não chegar ao plano da ética que exige que desenvolvamos uma educação moral superior, com a qual passamos a pensar que é possível dialogar com as pessoas sobre valores estéticos. William James, filósofo americano, dizia no início do século XX que, na medida em que os Estados Unidos já haviam alcançado um nível econômico considerado, era hora de se tornar um país inteligente em reflexão (filosofia de um pensamento mais aberto e extenso) e em compromisso ético com o de fora (talvez este desafio não tenha ainda sido encarnado suficientemente pelo estado americano, mas

fica o registro). Sem acesso a escolas com estrutura e professores bem preparados, sem acesso a um mínimo de recursos para poder entrar na rede global, muitas pessoas lutam pela sobrevivência e ficam à margem disto que nós propomos como um fazer com sentido. Em geral, se submetem a trabalhar em condições sub-humanas porque estão à beira da miséria. Devemos desenvolver a compaixão e o compromisso com os que estão à margem e excluídos. Para muitas tribos do bem-estar, o outro mais do que marginalizado aparece como marginal. O discurso que desenvolvemos durante toda esta obra pode não significar nada se as pessoas não tiverem acesso a uma educação pessoal e social de qualidade. Este é um compromisso ético de toda a sociedade.

3.2 Ética para a compreensão e para o diálogo

A reflexão ética e a aprendizagem moral passam necessariamente pela ética da compreensão. Quem não consegue avaliar certos comportamentos, ao invés de julgá- los, tende a condenar antecipadamente o outro sem entender o contexto ou sem alargar a sua própria compreensão da construção do comportamento e das relações. Aprender na e com a relação tem como fundamento a ausência do juízo e a presença da compreensão avaliativa e propositiva. Avaliar e entender o contexto é o que pode nos auxiliar a compor intervenções mais coerentes. Nós mesmos, antes de nos julgarmos ou culparmos, deveríamos pensar que estamos aprendendo, sendo que conceitos como certo e errado ou erro e acerto, em ética, devem ser mais bem pensados, pois, quando relacionados a padrões morais e formais, viram técnicos demais e limitam a criatividade. Aprender, em questão de moral, desafia cada ser humano a desenvolver uma formação cada vez mais abrangente e plural, avançando para um diálogo transcultural e para uma solidariedade planetária. É tarefa desafiadora educar mais indivíduos para a interiorização desta solidariedade vivida. Na atual sociedade da informação, penso que esta solidariedade, mais do que um desafio à evolução humana como espécie, passa a ser o capital necessário para o sucesso de profissionais e de empresas. Alimentados por esse princípio, aposto que as possibilidades de sucesso serão bem maiores do que numa geografia de reserva, de exploração e de patenteamentos de interesse puramente mercantil. Em Pierre Lévy encontramos a proposta de uma competição cooperativa, ou seja, socializando ideias estamos desafiando o conjunto ao desenvolvimento. Ainda existem pessoas que se agarram a um emprego e torcem pelo fracasso do outro. É uma máxima moral terrível e de rapina que faz com que indivíduos medíocres se divirtam (geralmente para compensar sua fraqueza) com o fracasso alheio. Não é simples para

quem se encastela em seu ego ver os outros bem. Por exemplo: a cultura machista já negou, em outros tempos, o prazer sexual às mulheres, já que era reserva de mercado masculino. Para muitos, a alegria espontânea da criança não combina com as responsabilidades dos adultos carrancudos e pesados, e rapidamente afirmamos que devem aproveitar este tempo porque logo terão que assumir responsabilidades (ajuizando estas responsabilidades como fardos a carregar e, consequentemente, nunca mais poderão viver as alegrias da infância). Adultos recalcados se multiplicam e, ao invés de poetizarem sua existência em seus fazeres, geralmente desenvolvidos como obrigação, preferem pensar que a infância tem um tempo contado. Permito-me uma sugestão em relação a essa discussão marginal que se fez presente: a curiosidade e a alegria da infância, a energia e o questionamento da adolescência e da juventude, uma saudável prudência e comprometimento consciente (responsabilidade) dos adultos e a sabedoria e paciência de pessoas mais velhas são algumas das qualidades que deveriam animar uma educação moral permanente e o aprendizado ético. Perdoem-me se fui longe, mas volto à discussão em si: parece-me que somente mais desprendidos de referências pesadas poderemos aliviar a comparação mesquinha entre os humanos e apostar na solidariedade como algo natural entre seres inteligentes. É miserável demais falar em termos comparativos em pessoas mais e menos inteligentes sem questionar as referências para tal classificação, ou em pessoas que tiveram sucesso ou fracassaram tomando como referência dominante seus saldos de conta bancária. Coloco estes exemplos como forma provocativa de reflexão. Aliás, vivo refletindo eticamente sobre a importância da diminuição de barreiras e como podemos experimentar tal processo resistindo a toda forma de loteamento em benefício próprio. Imagino morais cada vez mais mestiças e baseadas na alegria criativa de pensar e fazer as coisas na relação com o outro. Muitas vezes podemos não ter uma resposta imediata por parte daquele que tratamos bem. Muitos se frustram e acabam enfraquecendo sua vontade por isso. Porém, gestos de hoje em dia vão conhecer seus efeitos de forma dinâmica mais adiante, a médio e longo prazo, porém, é esta responsabilidade pela vida (interiorizada pela convicção e experimentada na contextualização) que, ampliada, pode multiplicar o bem (a ética). O meu empenho, o de cada um, pode não ser medido na relação imediata, com efeitos sociais e culturais nas grandes estruturas, mas ao acreditar nisso e viver tais possibilidades em nossas pequenas experiências, somos como moléculas que podem fazer evoluir/transformar positivamente as estruturas (além da magia que é experimentar a alegria com o outro). A vida funciona assim, as máquinas inteligentes funcionam por pequenos circuitos que se conjugam (fluxos), logo, assumir e apostar nesse princípio diante da complexidade humana e responsabilizar-se, enquanto parte menor, com a explosão do bem e da vida bem vivida e com o enfraquecimento de morais fracas, que ignoram o outro, dá corpo a uma moral do comprometimento com uma vida que transcende os limites atuais da experiência humana.

3.3

O dever-ser de toda prática

Há uma discussão sobre os limites da ética altruísta atualmente. Assim como se critica o egoísmo, critica-se o altruísmo quando o outro não é desafiado a assumir a si mesmo como autor diante do jogo da vida. Um altruísmo que não comprometa e desafie o outro pode contribuir para a reprodução do sistema. Jogar significa, aqui, colocar comprometidamente todos na rede para que alcancem resultados individuais melhores e que são compartilhados abertamente. Transcende-se o jogo de xadrez, onde há a relação de um contra o outro para ver quem dá o xeque-mate dentro de regras já pré-estabelecidas (isto geralmente pode ser limitador). A vida é um jogo aberto e sem cartas marcadas e patenteadas, em que os participantes transcendem-se pelos desafios que emergem e são socializados com os avanços de cada um, pois são sempre socializados, e desafia o outro a comprometer-se com novas possibilidades de movimento. Jogo ético em sua essência. Neste jogo não devemos escolher somente aqueles que se identificam com as nossas regras, pois a regra primeira e básica permite e exige que todos participem. Estamos falando de um jogo universal, fraterno, aberto a toda a humanidade, assim como em sua origem foi proposto o Deus cristão e testemunhado em certo tempo por cristãos verdadeiros (falamos aqui propositivamente a partir do cristianismo, enquanto tradição religiosa predominante na história do ocidente, que transgride a lógica de deuses vinculados a certa nação ou sociedade para propor um Deus universal que acolhe a todos como criaturas iguais, reconhecendo os limites e desvios morais e éticos em sua história). Podemos ou não nos aliar ao cristianismo, mas a ideia de não julgar e pensar que devemos amar os inimigos desafia a compreensão (o que não desculpa desvios de compreensão que o cristianismo e outras religiões cometeram e cometem). No livro A Sabedoria dos Modernos, Luc Ferry e André Comte-Sponville falam em inteligência e sabedoria (esta última comparável a uma inteligência espiritual humana – diria humanística, pois radicaliza a dignidade da outra pessoa, independente de sua condição moral). O inteligente escolhe aqueles que serão capazes de crescer com ele, que já trazem consigo as qualidades necessárias e que sabe que agregarão valor de imediato ao processo. Os sábios vão além. Aceitam o desafio de amar os que parecem desviar-se, os próprios inimigos. Apostam numa dignidade radical da vida nas possibilidades que se abrem na relação com aqueles que desafiam seu entendimento. Penso que podemos fazer um exercício para sermos, mais vezes, sábios, mesmo que reconhecendo nossos limites; sem esta de pesos e obrigações, o que geralmente traz consigo a consciência pesada e o senso de culpa, sintomas que nada tem a ver com ética e muito mais com uma moral enfraquecida. Às vezes fazemos escolhas inteligentes diante de um quadro de sobrevivência, outras vezes podemos sensibilizar- -nos com certa sabedoria e avançar eticamente. Mudar a história em si, como um todo, talvez não nos caiba, mas ao pensarmos a guerra como um atestado da miséria humana, nos voltamos para o nosso cotidiano e

desejamos aprender sobre a paz. Aí é que mudamos a história, passamos a contá-la diferenciadamente, a partir de revoluções moleculares, ou seja, singularidades alternativas que experimentamos nos espaços próximos a nós mesmos e dos quais não podemos nos furtar em termos de responsabilidade. Como ao ler o conteúdo deste livro e comprometer-se com sua interpretação e contextualização. Na empresa, como profissional, na família, como parceiro de aprendizagem e de experimentação de paixões alegres. Por aí podemos avançar em nossa experimentação ética. Podemos alargar a autonomia dos indivíduos e desenvolver a ascensão moral (ética). Nada justifica que se desista porque um mundo perfeito é impossível de ser alcançado, mas, ao contrário, já que a vida é um mistério que vamos vivendo em sua possibilidade a cada dia, a falta de uma resposta definitiva é a porta aberta para vivermos possibilidades morais alternativas junto com o desenrolar da história dinâmica da cultura, das sociedades e de cada um de nós. “A compreensão entre sociedades supõe sociedades democráticas abertas, o que significa que o caminho da compreensão entre culturas, povos e nações passa pela generalização das sociedades democráticas abertas.” (MORIN, 1999, p. 104). Podemos falar em democracias fechadas? Eu gosto de pensar que existem, como afirma Luc Ferry, democracias fracas. Explico: cada vez que a democracia leva à defesa das particularidades de cada grupo, a uma tolerância à distância (eu respeito, mas ele lá e eu aqui), não deixamos de estar enfraquecendo o diálogo. Até certo ponto, a lei precisa afirmar esse direito. Porém, se nos reduzimos ao princípio de que cada um faz sua escolha e não se discute a consistência da mesma (ética), permanecemos reduzidos a valores limitados e superficiais (morais fracas). A bela democracia ou democracia forte, como propõe Edgar Morin, é aberta ao outro, quer aprender na relação com o outro. Aliás, isto é o que viabiliza o exercício ético do ponto de vista político.

1 Poeta mexicano agraciado com o Prêmio Nobel de literatura em 1990.

CAPÍTULO 4

A ÉTICA PESSOAL

Este capítulo quer estender uma conversa com o belo escrito de Pierre Lévy sobre a ética.

Trago, inicialmente, uma proposta de Flávio Gikovate 1 quando indagado sobre como uma pessoa pode ser feliz (em nosso tempo, em um programa televiso o qual assisti e agora não recordo o nome). Ele destaca que, além da educação pessoal para que tenhamos elementos para viver bem, a maneira como enfrentamos as dores e a cumplicidade que desenvolvemos com outras pessoas fazem a diferença, ou seja, tornam algumas pessoas mais felizes do que outras. O texto de Lévy de diferentes maneiras cruza com estas propostas de Gikovate, ou seja, ele propõe de maneira radical que devemos assumir nossa própria felicidade, não nos vitimizando, que devemos encarar as dores como aprendizagem, enfraquecendo-as, e que o amor está presente nas mesclas, nas misturas propositivas que conseguimos experimentar com outras pessoas, ideias, culturas. Quero aqui avançar nesta conversa dialogando sobre o cuidado de si, as estratégias para enfrentarmos as dores e, especialmente, como podemos amar mais e melhor.

4.1 O cuidado de si

Se não cuido de mim mesmo, como poderei cuidar dos outros? Com grande frequência, a vontade de ajudar e curar os outros nada mais é do que uma projeção de nossa própria necessidade de cura. Antes de pensar em transformar o mundo, entenda primeiro o que você deve melhorar em si mesmo. (LÉVY, 2000, p. 142)

Estão presentes em nossa tradição princípios como ‘amar o próximo como a si mesmo’, ‘não faças ao outro o que não queres que te façam’, ou ainda, ‘a minha liberdade termina onde começa a do outro’. Cada um destes princípios coloca em questão certas perguntas: o que significa amar a si mesmo? O que não gostamos que nos façam? O que significa usar a liberdade da gente reconhecendo a liberdade do outro? Proponho aqui uma conversa sobre cada uma destas questões para tentar chegar, ao final, a um melhor entendimento do que significa cuidar de si mesmo. Amar a si mesmo: até que ponto desenvolvemos a educação de nosso ser, o desenvolvimento de nossa linguagem, o encontro criativo com o que nos acontece? Muitas vezes, moralmente colados em representações e juízos deterministas, não nos

constituímos como seres em formação processual, contínua e dinâmica. Não sentimos

a vida como experimentação criativa. Ora condicionados a exterioridades em relação às quais nos alienamos, ora fixados em juízos que nós mesmos edificamos e endurecemos, acabamos presos em nossos círculos morais e não estendemos as

possibilidades de viver de outras maneiras. Como pode alguém desejar e amar o outro

se não está em movimento de transcendência de si, colocando em suspeição certas

convicções e imaginando outras maneiras de ser? Como pensar o diálogo com o outro

se

não estou em diálogo comigo mesmo e com minhas possibilidades outras? O perigo

de

quem se fixa em suas representações é exatamente não abrir espaço para o outro e

somente para os idênticos, ou seja, não ama o outro, mas busca nele uma identificação de si, um espelho, ou alguém a quem se submete na medida em que representa o que idealizou.

Não faças ao outro o que não queres que te façam: novamente apresenta-se um

dilema: como alguém fixado em um modelo comportamental, sem espírito de abertura

e aprendizagem, pode identificar em si e no outro o que não deve ser feito?

Poderíamos discutir a hipótese de que nenhuma ação que destitua o outro, assim como

a própria pessoa, da dignidade de desenvolver de maneira autônoma sua existência, é

justificável. No entanto, é impossível pensar nesta hipótese em relação a indivíduos reduzidos a seus territórios ou prepotentes em seus juízos sobre os outros. É imperativo que não devemos desejar a nós mesmos e aos outros aquilo que fere a

dignidade e a liberdade experimental; aqui, este outro a quem nos referimos transcende

o outro indivíduo ou uma outra cultura. Este outro é a alteridade absoluta que se

estende entre as experiências pessoais e interpessoais, ou seja, o princípio nasce da própria experiência primeira da alteridade, esta que não separa o eu e o tu, mas que

desde sempre nos faz múltiplos e outros. A partir desta experiência, o indivíduo passa

a conceber sua identidade multiplicada por uma história de várias pessoas e de várias

forças que compõem sua geografia existencial. Logo, o princípio não fazer ao outro o que não queremos que nos façam somente se sustenta a partir do pressuposto do desejo pelo outro em movimento, em construção, na relação criativa com os mundos que se encontram e se abrem para o bem. E o mal, em si mesmo, é uma ausência, uma frieza, um gosto pela destruição, uma prisão sem recurso nos labirintos do ego, uma autodestruição de quem quer arrebatar o mundo consigo (LÉVY, 2000, p. 151).

A minha liberdade termina onde começa a do outro: não me estenderei aqui na

discussão sobre o conceito de liberdade e o quanto ele foi e é vulgarizado pela cultura

d o laissez-faire ou da afirmação superficial de que gosto não se discute, como se

estética fosse uma expressão humana desvinculada de um mínimo de qualidade e consistência de linguagem, ao ponto de se chegar a um relativismo banal que se afirma no dito de que cada um pode fazer o que quiser se não prejudicar ou infringir a dignidade do outro. Ficam algumas questões: até que ponto esta proposta de que cada um deve ter esta pseudoliberdade não está diretamente vinculada a um liberalismo sem comprometimento ético? A banalização do cada um consuma o que quiser, sem

critérios de avaliação moral sobre o que consome, me parece muito interessante para um mercado sem escrúpulos, porém, a própria vida acaba consumida por esta lógica. Porém, a questão mais forte que quero propor aqui é o quanto o indivíduo, reduzido em seu espaço de escolha, sem dialogar com o de fora e tensionar a consistência do que pensa e experimenta, não cai na superficialidade individualista, na chamada estética pobre e vazia? Esta situação identifica-se com um individualismo medíocre, porque não foi tensionado pelo de fora. Mesmo que possamos afirmar que ninguém consegue viver sem estar sendo tocado por alguma coisa de fora, do outro, a questão que fica é de como se desenvolvem geografias de discussão, de validação do que pensamos, a partir do encontro com outras visões de mundo, com outras linguagens, com outras leituras? Proponho que a verdadeira liberdade, esta que se encontra no interstício do eu com o outro eu, do eu com o tu, de subjetividades com outras subjetividades, de subjetividades com valores sociais, históricos e culturais, só encontra (produz) seu sentido quando transcende seu mundo para invadir e ser invadido pelo mundo do outro. A minha liberdade começa a partir de outras liberdades, de outras realidades. O mundo da escravidão, de morte, da falta de ética é aquele em que as partes fixam fronteiras e não se tocam. Logo, é necessária uma subversão no dito convencional de que a minha liberdade termina onde começa a do outro, deslocando para a afirmação de que a minha liberdade começa onde começa a liberdade do outro. A experimentação do ser livre emerge em espaços povoados por singularidades móveis que se miscigenam criativamente.

4.2 O cuidado com as dores

Se você decide ser o ator e autor de seu próprio mundo, se aceita as dificuldades dos testes que certamente o farão crescer, então você resolveu se engajar no caminho da liberdade. Mas se tem a sensação de se resignar, de ser vítima, você acaba se tornando a própria vítima. É você quem produz, secreta, em seu íntimo, um mundo de vítima. Você escolhe ser vítima. (LÉVY, 2000, p. 145)

O que nos faz sofrer da dor de alma? As dores físicas, sentidas pelo corpo em sua estrutura fisiológica, podem levar a dores espirituais se nos enfraquecem a tal ponto que nos tornamos incapazes de transcendê-las. Porém, não faltam exemplos de que como, diante de dores físicas, pessoas não só foram capazes de retomar suas vidas normais, mas mesmo permanecendo com limitações, assumiram posturas de valorização da vida que ultrapassaram em muito a maneira superficial como percebiam seus fazeres cotidianos antes das perdas. Onde quero chegar? Penso que as dores, em relação às quais Lévy fala em seu texto e que quero trazer para a conversa, são as dores de alma, que podem ser a perda de entes queridos, mas também, muitas vezes, são as dificuldades que temos em lidar

com aquilo que não se identifica com o que idealizamos. Quem geralmente são as pessoas que têm dificuldade de aprender com a diferença, com o outro, com as perdas, com o que não se identifica com seu mundo? Pessoas que acomodaram seus mundos. Não estou aqui pressupondo que pessoas em movimento dinâmico, criativo e aberto não sintam dores e experimentem um enfraquecimento diante de certas circunstâncias. Porém, a vida como experiência construtiva e animada para novas possibilidades faz com que nossas memórias não fiquem pesadas e sufocadas pelas dores, perdas ou derrotas (conceitos aos quais resisto, pois penso que na vida nunca há derrota, somente uma maneira menos potente para sair de um acontecimento). Todo acontecimento, mesmo que em si seja produtor de circunstâncias empobrecedoras da vida, pode provocar uma ressignificação afirmativa e alternativa de nossas compreensões e perspectivas. Diante do nazismo, por exemplo, podemos pensar o quanto a vida perdeu com a prepotência, porém, a resistência e maneiras de refletir sobre a miséria humana de tal acontecimento podem fazer com que seja resgatado o valor da fraternidade, de maneira especial, aquele que aposta na multiplicidade.

4.3 O amor e a ética

Se na primeira parte deste capítulo já adiantava que só é possível alguém amar o

próximo na relação direta com o movimento que faz de transcendência de si, aqui destaco que só é possível amar no outro o seu movimento e não suas particularidades. Confundimos, muitas vezes, a ética e o amor com mundos idealizados que, normalmente, são concebidos absolutamente rígidos e prontos, como se não houvesse nada que faltasse. Mas como amar o que não nos falta, aquilo que já não precisamos construir? Como viver o que já está posto e idealizado? Aqui é que a ética e o amor se cruzam, pois tanto um como o outro se fazem em processo, em movimento. O amor entre duas partes e em relação a si mesmo só é possível pela passagem que conseguimos fazer, pelo cruzamento que fazemos entre forças que vivemos. A guerra está do lado das fronteiras e da separação, o amor, disseminado em todas as mesclas (LÉVY, 2000, p. 147).

O amor emerge do encontro de singularidades que se constroem pela mutualidade

aberta. Como amar o que está pronto? Como viver o sagrado sem o mistério? Deus está morto toda vez que racionalizamos o mundo sagrado. Da mesma forma, o amor está morto quando desaparece o tempo aberto e criativo entre os enamorados. É porque desejamos que o outro se movimente conosco diante das possibilidades da vida que existe e é necessária a ética. A ética é um grito de amor pela vida represada por condicionamentos e racionalizações. A vida é uma torrente que transborda o que está canalizado e condicionado a certos juízos. Amamos o que se estende, aquilo que nos convida para mais, para passar criativamente pelo tempo e viver a intensidade

propositiva do encontro. Por que ser ético? Porque a vida merece ser defendida, porque a vida é um campo de possibilidades em que a beleza pode ser cultivada e não deve ser reduzida por moralismos e juízos coercitivos. A ética não cabe no reino do controle e da previsibilidade, nem da eficácia e da eficiência; a ética pede acolhimento em terrenos férteis em que pode germinar um sem número de alternativas afirmativas da vida. Amar é produzir possibilidades que transcendem o encontro registrado. A ética apela para a liberdade comprometida com a potencialização da vida e com a dignidade da existência. Nesse sentido, Pierre Lévy afirma:

Não se distingue um vinho ruim de um vinho medíocre pelo raciocínio, pela lógica, por referências ou pela autoridade. Não, assim não. É preciso provar. Exercitar e desenvolver a sensibilidade. O mesmo vale para o bem e o mal. Nós os sentimos. Mas não com os sentidos habituais, e sim com uma espécie de sensibilidade da alma à própria alma. Uma sensibilidade a si, ao outro, à textura dos comportamentos, das atitudes, das propostas, da maneira. (LÉVY, 2000, p. 149)

1 Flávio Gikovate, médico psiquiatra, terapeuta e escritor, de quem destacaria as obras Uma nova visão do amor e Os sentidos da vida.

CAPÍTULO 5

ÉTICA PROFISSIONAL (E ORGANIZACIONAL) E RESPONSABILIDADE SOCIAL

O campo da ética nas organizações e da ética profissional atinge e envolve todos os trabalhadores e, consequentemente, as suas famílias. Herdamos vários pressupostos morais do industrialismo e do modo tradicional de se fazer empresa e negócios. Estruturas hierárquicas rígidas, burocratização e padrões funcionais de resposta, fragmentação dos fazeres (concepção taylorista) etc. tiveram influência sobre nossa moral, como já vimos na própria forma como tal metodologia se impôs nas escolas. Enquanto as estruturas tradicionais reduzem a autonomia moral, vivemos, atualmente, um tempo em que a flexibilização das organizações e o desafio à autonomia ativa e criativa dos profissionais em sua atuação nas empresas fizeram emergir a ética do comprometimento e da responsabilidade. É evidente que isto não decorre da redenção moral das empresas, que continuam pensando, predominantemente, em resultados. Porém, estes resultados passaram a depender da inteligência cooperativa e da flexibilização das relações. Corremos o risco de reduzir às pessoas o sucesso ou fracasso das empresas, mas também podemos apostar que estas novas relações e experiências podem disseminar-se em mais esferas sociais como uma educação moral alternativa. É o paradoxo que se faz presente na sociedade pós-industrial e pós-moderna. Vejamos.

5.1 A crise das éticas moralizantes e o pós-moralismo

Vivemos, há um tempo, o declínio da era industrial e de suas morais. Estamos presenciando a ascensão da era pós-industrial. Podemos afirmar que:

a. O industrialismo e seus conceitos de formação e produção em massa e em série não dão conta da realidade atual, cujo mercado e sistemas de trabalho tendem à autonomia e à singularidade no design dos produtos e na dinâmica dos processos cooperativos (pós-industrialismo);

b. A era moralista, na qual ideologias e doutrinas ditavam regras de comportamento, deu lugar à era do indivíduo, desafiado a assumir sua liberdade de forma pessoal e criativa (pós-moralismo); 1

se como potencializadoras do todo muito mais do que o todo, mecanicamente, determinar a função das partes. Alguns autores dizem que, de fato, é agora que chegamos à verdadeira modernidade que via na autonomia da pessoa a possibilidade de efetivarmos os princípios do Iluminismo, radicalizados no lema da Revolução Francesa: Liberdade, Igualdade e Fraternidade, pois, até agora, regimes de exceção queriam impor esses princípios, enquanto só numa democracia radical (ética) eles podem ser experimentados, pois dependem da autonomia (liberdade) comprometida das pessoas em suas singularidades (igualdade) a potencialização do todo (fraternidade).

No entanto, ainda estamos em fase de transição. O peso de estruturas de poder verticais e de sistemas moralizantes ainda está fortemente presente em nossa cultura. Retirar as pessoas de um lugar privilegiado de controle, fazer com que se desenvolvam princípios de confiança entre as pessoas, para que se comprometam com resultados positivos, ser coerente com o próprio aprendizado e as responsabilidades recíprocas, são alguns dos pressupostos que podem e devem dar sustentabilidade a organizações mais dinâmicas e a profissionais mais cooperativos.

A desconfiança entre as pessoas, a falta de transparência por parte daqueles que

ocupam cargos e funções privilegiadas e estratégicas, a ausência de significado para muitos dos trabalhadores, em relação ao seu trabalho e ao que produzem, entre outros, são alguns aspectos que ainda permanecem em aberto e que devem ser questionados e enfrentados.

O peso de relações excessivamente funcionais, nas quais as pessoas perdem sua

singularidade e transformam-se em funcionários-padrão, deve dar espaço a um exercício profissional mais leve e criativo, em que o tédio em relação ao trabalho é substituído por experiências desafiadoras e criativas. Reproduzir padrões, atender demandas de forma repetitiva acabam transformando os profissionais em fantoches do sistema. A sociedade pós-moralista apresenta indivíduos que buscam sentido no que fazem a partir de suas próprias convicções. Não é mais o crachá da empresa e a entrega incondicional ao trabalho como obrigação para a sobrevivência que motiva e dá origem a bons e criativos profissionais. O moralismo ainda está na boca de muitos discursos e numa forma convencional e pobre de comprometer profissionais e empregados. O poder econômico ainda abusa desta prática e não percebe a perda de qualidade e de resultados positivos a médio e longo prazo ao usar tais métodos coercitivos. Os profissionais criativos gostam do que fazem, buscam significado e possibilidades de crescimento pessoal no que fazem. Organizações verticais, profissionais de visão curta e sem sensibilidade para trocas propositivas ainda habitam as organizações e tentam tirar vantagem na forma como oferecem os seus serviços. Porém, cada vez mais, a confiança torna-se algo fundamental não só para o bom desenvolvimento das empresas, como para atrair

consumidores, em especial aqueles que começam a avaliar o comprometimento ético por parte dos profissionais e das empresas.

5.2 A ética dos profissionais e das organizações

Gosto de uma frase simples, mas eticamente interessante: o profissional ético é um bom profissional bom. Ou seja, é competente no que lhe cabe especificamente fazer e ao mesmo tempo atua com dignidade. Um médico, por exemplo, deve ser tecnicamente bom para realizar certa cirurgia, mas ao mesmo tempo deve ser bom para avaliar a necessidade da cirurgia, dialogando com o paciente sobre a decisão. Tanto ou mais importante eticamente do que fazer uma boa cirurgia é o comprometimento do médico com o diálogo com o paciente em questão. Da mesma forma, um bom administrador, além de questionar a eficiência técnica de certos métodos gerenciais, deve, eticamente, desenvolver a avaliação sobre a dignidade com que as pessoas e a natureza são tratadas em seus processos, pela dinâmica do modo de produção e pelo uso coerente dos recursos naturais e de sua transformação em produtos de qualidade. Atualmente, quanto mais vamos aprendendo a lidar bem nas relações de forma a potencializarmos a nós mesmos e aos outros no processo, temos dividendos éticos (capital moral agregado). Isto vale para todos os que assumem relações de confiança. A ética reclama esta ideia de encontros entre pessoas que se potencializam por afetos, sensibilidades, conceitos e linguagens alternativas, o que podemos chamar de inteligência cooperativa. Para um administrador ou alguém que ocupa cargo de gerência ou chefia numa empresa, a confiança torna-se fundamental para que possa motivar seu grupo. Um líder, por exemplo, exerce autoridade e não poder. Poder ainda tem muito a ver como conceito com a relação de controle, de fazer com que os outros te obedeçam, que sigam o que tu dizes em função de interesses, de hierarquia ou por necessidade de sobrevivência. São diferentes formas de dependência. Autoridade, como dizemos, é conquistada pela competência pessoal e interpessoal. Nesse sentido, penso que podemos estar avançando nas empresas para este perfil, ou seja, na medida em que passamos a ocupar menos o tempo do trabalho com produtos massificados e em série, liberou-se o tempo do trabalho para atividades criativas, para as quais passa a ser necessária uma inteligência plural e de intervenção nos processos e não mais de reprodução de modelos. Aqui o gerente se encontra com outras inteligências e deverá testemunhar suas habilidades de relação, de motivação e de intervenção no processo. Quanto mais ele conseguir com que seu grupo seja povoado por inteligentes cooperativos, melhores resultados serão alcançados e mais sua autoridade será reconhecida. As responsabilidades passam a ser compartilhadas. Normalmente, os conflitos em uma empresa aparecem quando cada um responde só pelo seu setor, pelo seu, e, se algo foge do padrão, geralmente se faz uma caça às

bruxas, em que cada um transfere o problema para o outro, ou para outro setor da empresa. Devemos concordar que as estruturas ainda respondem aos processos pela qualificação de cada setor, mas uma linguagem cooperativa e um mínimo de conhecimento da complexidade (da dinâmica que move o encontro e as interdependências dos setores) são fundamentais e são o que produz, cada vez mais, a inteligência da empresa (é o que se busca com o conceito de reengenharia). O interessante é que isso vale para a vida como um todo. Logo, é um aprendizado ético, na medida em que busco aprender como os comportamentos e as partes se relacionam e se potencializam (aliás, a espécie humana, como parte do sistema planetário, ainda tem muito que estudar e aprender nesse sentido e para além do discurso ecologizante, como vimos no conteúdo desenvolvido em Antropologia Filosófica e Economia). Gosto da ideia de reconhecimento do grupo em relação à liderança, contanto que estejamos falando de um grupo de pessoas autônomas e que desenvolvem a inteligência cooperativa. Tenho receio de grupos em que o líder é reconhecido porque fala o que todos querem ouvir ou porque simplesmente não instiga e provoca o comprometimento e a consistência (mas sem esta de cara carrancuda como arma de pressão). Confiança não se impõe. Nem é algo ligado a indivíduos cujos comportamentos fazem o que faz bem para a gente ou identificam-se com a gente e pronto. Confiança diz respeito a um ambiente em que a ética aparece pelo compromisso com a consistência do processo. Quem amolece demais não é de confiança e logo percebemos. Essa confiança pode ficar restrita ao ambiente da empresa na medida em que se buscam resultados pontuais somente para a mesma. Porém, quero apostar que podemos agregar o valor de confiança para a sociedade como um todo a partir das organizações. A empresa também educa, o que torna possível pensar que desenvolver confiança na empresa pode fazer com que desenvolvamos confiança para além dela. Adela Cortina, 2 autora espanhola, fala em ética dos mínimos e ética dos máximos. Trabalhar bem para a empresa porque há a valorização profissional estaria ligado à ética dos mínimos, na qual há uma reciprocidade em relação à dignidade de relação. Quando aparece o desafio e comprometimento de alcançarmos pelo nosso trabalho um resultado que agregue valor alternativo para a sociedade como um todo, ou seja, que potencialize moralmente as possibilidades dos outros pela qualidade moral que acompanha o produto e a forma como ele é produzido, comercializado e consumido de forma moralmente digna, temos um exemplo de ética dos máximos. Individualmente falando, quando cumprimos com os deveres constitucionais podemos dizer que estamos cumprindo com a ética dos mínimos, enquanto ao buscar ampliar nossos compromissos morais para além do que as leis e normas estabelecem, por convicção e sabedoria, estamos tentando viver a ética dos máximos. Acredito que isto faz viver bem e traz consigo o sentido da felicidade. O lucro move a maioria das empresas. Porém, há diferentes formas de obter lucro. Em parte, o mercado, paradoxalmente, vai eliminando empresas e contratantes

inescrupulosos que ainda identificam o lucro na exploração da fraqueza dos outros e no uso indiscriminado dos recursos naturais. Concordo que, inclusive do ponto de vista moral, a empresa que descuida com a lucratividade tende a não sustentar os próprios trabalhadores, o que além de incompetência também revela falta de comprometimento com os empregados e fraqueza ética. Assim como é compromisso ético do profissional ser bom no que faz (e quem se mete a desenvolver atividade específica sem qualificação está sendo antiético), a empresa tem o compromisso com os bons resultados para que todos se mantenham empregados. Talvez possamos generalizar afirmando que as pessoas que assumem um compromisso com uma experiência existencial consistente, esteticamente falando, são as que de fato fazem ética. Logo, lucro, em si, não pode ser isolado enquanto conceito e nem enquadrado na lógica matemática clássica, sem avaliar as variáveis. Adam Smith sofreria em seu túmulo se não pensássemos o lucro como conceito social (o lucro pensa no outro como parceiro na extensão e potencialização do mercado). Usando alternativamente os conceitos, podemos falar em lucro e dividendos morais. Há um conjunto de iniciativas que as empresas podem e devem desenvolver para que a ética e a responsabilidade social sejam elementos visíveis e presentes em sua estrutura e em suas práticas, em especial o investimento na formação dos trabalhadores diante da sociedade do conhecimento. 3

5.3 Ética e sucesso

Impossível imaginar uma organização com estruturas rígidas e autoritárias competindo com organizações flexíveis, que investem na autonomia e inteligência de seus empregados. Se o barco estiver afundando na empresa convencional, não adianta o dono da empresa apelar para que os empregados tragam um plano de sobrevivência, pois foram transformados em parasitas pela estrutura de controle e coerção. Já se o barco for de um dono que partilha preocupações e investe e desafia ao desenvolvimento particular, clamando por ideias inovadoras e que passam a ser aplicadas, reconhecendo o esforço da base, é provável que o barco, a partir do envolvimento dos tripulantes, empregados (ou colaboradores, termo preferido por diretores contemporâneos), desenvolva alternativas diante das turbulências, além de desbravar rotas novas e desconhecidas de forma responsável diante da crise. Uma organização de sucesso é um todo, não é fruto de uma pessoa ou ideia isolada, mas da habilidade e competência de práticas cooperativas. Há uma convicção moral (kantiana) de que a dignidade de todos os colaboradores e clientes é a moeda principal da empresa e que as práticas produtivas (sabedoria prática aristotélica) devem acompanhar os desafios do tempo reconhecendo, com prudência, as novas dinâmicas e as novas necessidades que culturalmente se impõem (visão hegeliana), visando o desenvolvimento de produtos que agreguem valor à vida (fim nietzscheano).

Um discurso superficial que esconde o verdadeiro ambiente da empresa não se

sustenta. A inteligência desenvolvida em uma organização é diretamente proporcional

às

relações de comprometimento que estão sendo propostas e assumidas pela diretoria

da

mesma. Quando falamos de um conceito, de imediato nos perguntamos sobre como

o experimentamos na prática. Em ética, isto é natural. Não precisamos desenvolver um

discurso sobre ética com exemplos estranhos à nossa experiência. Quando desenvolvemos um projeto visando resultados positivos em termos de valor agregado socialmente, nos perguntamos como nós mesmos nos apropriamos deste projeto. A empresa fala pelo estado de espírito dos empregados ou colaboradores. Estamos bem, nos sentindo dignificados em nossas atividades na empresa? Esta deve ser a questão

primeira para avaliar a consistência ética da empresa no sentido do comprometimento

e desenvolvimento interno. A alegria em se trabalhar numa organização é resposta

positiva à vida, sendo que o sucesso da empresa e do profissional se conjugam neste ambiente.

Talvez tenhamos que conviver com a ideia de que ética e capitalismo possam se

encontrar neste compromisso do capital para com a valorização das pessoas e com o investimento em sua formação, ao mesmo tempo em que vamos avaliando, eticamente,

o limite da produção que agride o meio ambiente e a possibilidade de desenvolver

produtos e tecnologias mais inteligentes. O sucesso da empresa e dos próprios profissionais vai passar também pela capacidade de desenvolver métodos alternativos para a saúde ambiental a partir da própria empresa e de suas inovações na área.

Se aliarmos a isso a ideia de uso e reaproveitamento de recursos de modo inteligente, teremos uma ética de produção ecossistêmica (otimizando custos). Ainda

estamos muito reféns das facilidades de usar e jogar fora. Aliás, moralmente, este jeito

de lidar com a natureza se estendeu naturalmente às relações humanas. O desafio é,

neste tempo em que o cuidado com a natureza está em alta, discutirmos mais a fundo, tentar ficar mais sábio a partir do que aprendemos com as dinâmicas dos sistemas naturais.

Não há receita, não há modelos pré-determinados para aplicar a ética nas

empresas e nas relações profissionais. Emerge um momento histórico singular em que

a preocupação com a dignidade da existência, a minha e a dos outros, chama para o

desenvolvimento de competências e atitudes mais coerentes. Educar-se para isto passa pela sensibilização interior (dever kantiano), reconhecendo a necessidade de desconstruir moralismos agenciados (Rousseau e Nietzsche) e desafiando-se a desenvolver o questionamento (Sócrates) e a virtude da prudência prática (Aristóteles). Neste exercício de convicção do dever para com um bem que desejamos,

e com o qual nos aprazemos (Epicuro), 4 vamos educando nossa percepção e

aprimorando nossa linguagem para sermos livres e fortes diante dos fatos (Espinoza), desejando que, como indivíduos participantes de uma rede maior, possamos instaurar

a ética coletiva (Hegel) através de um diálogo, da arte comunicativa (Habermas) como cúmplices da alegria do viver. Neste processo passaremos por crises, dores que se

estoicamente soubermos enfrentar (Sêneca), 5 levarão ao alargamento de nossa visão ética e de nossas habilidades morais. Nada é absoluto em si mesmo, pois existe e sobrevive dentro de algo maior. Podemos, de dentro do próprio capitalismo, perceber rachaduras, ou seja, formas cooperativas de produzir e alcançar maior rentabilidade do que empresas privadas. Com isto não quero falar bem da cooperativa e mal da empresa privada, pois como venho afirmando, o bem e o mal estão em cada um de nós e também nas estruturas. Acredito que dentro de empresas privadas possamos experimentar, mesmo que a lógica do capital exija resultados, outras formas de nos relacionarmos com a produção e o consumo.

1 “ Aí reside a mudança pós-moralista: ontem, era a moral que prescrevia regularidade e disciplina, hoje, ela é um instrumento de flexibilidade da empresa; ontem, era um sistema de autoridade, de imposição e de obrigação incondicional, hoje, significa menos hierarquia e disciplina, mais iniciativa, abertura à mudança e flexibilidade, com vista a uma maior competitividade. Motor da flexibilização das organizações, a ética na gestão significa tanto o renascer do ideal normativo dos valores como uma atenção acrescida em relação aos fatores psicológicos e relacionais na motivação para o trabalho. Não é a obrigação categórica que comanda o movimento da ética, é a cultura psy, a importância que passou a ser atribuída aos valores comunicacionais nos fenômenos de coesão de grupo e de implicação individual.” (Lipovetsky, 2005, p. 307-308)

2 CORTINA, Adela. Construir Confiança: Ética da empresa na sociedade da informação e das comunicações. São Paulo: Loyola, 2007.

ou a empresa se posiciona olhando para o próprio umbigo, em um isolamento olímpico que

3

só legitima as próprias conveniências, ou levanta a cabeça e desvela a paisagem maior, com suas interdependências e suas forças em confronto. Tal situação reproduz as tensões permanentes que existem entre os interesses privados e o bem-estar coletivo, a autossuficiência individual e a consciência social.” (SROUR, 2003, p. 405)

4 Epicuro, filósofo grego da ética hedonista, ou seja, que identificava o bem com o prazer. Porém, não qualquer prazer, mas um prazer superior, a saúde que advém da sabedoria.

5 Sêneca, filósofo romano da Escola Estóica, que trabalhava a arte (força) de lidar com o trágico (as dores) como educação para o bem.

“ [

]

CAPÍTULO 6

ÉTICA, ECONOMIA E NEGÓCIOS

A economia ocupa direta ou indiretamente boa parte da vida das pessoas. Muitas vidas acabam excessivamente reduzidas aos resultados quantitativos daquilo que se produz e se consome. Não podemos negar e nem fugir desta realidade. Mas podemos, por um lado, questionar o limite de tempo que vivemos em função do trabalho ou submetidos pela lógica do acúmulo financeiro (juntamente com aquilo que ele permite consumir, muitas vezes, histericamente); por outro lado, podemos avaliar como esse espaço do econômico pode promover alternativas experimentais, ou seja, de que forma podemos tornar a economia aliada da afirmação da dignidade humana. Este capítulo quer demonstrar, num primeiro momento, o quanto o fato econômico e tudo o que envolve os processos de produção e consumo revelam-se como fatos morais e que, eticamente, podem e devem ser avaliados em sua função de promover a qualidade de vida dos seres humanos e do planeta. Na medida em que reconhecemos que a economia produz uma moral que deve ser avaliada, apresentamos a virtude da confiança como valor que deve e pode ser promovido pelas empresas e pelas práticas negociais, tanto para que sejam alcançados melhores resultados, quanto para que a sociedade toda ganhe pela extensão de tal espírito para outros procedimentos sociais. Reconhecendo que os trabalhadores e profissionais em geral devem se educar para o espírito da confiança mútua, propomos como terceiro aspecto que a ética torna-se fundamento para os bons negócios e para a evolução alternativa e criativa dos processos produtivos, na medida em que as pessoas envolvidas sentem-se autoras e corresponsáveis pelos resultados. Multiplicam-se, desta maneira, dividendos financeiros na relação direta com a valorização de cada pessoa e de sua ação comprometida para com o todo.

6.1 Economia como fato moral

É possível que certo discurso ainda limite a relação entre a economia e a ética. A partir de uma perspectiva excessivamente quantitativa e fixada na lógica do capital e da lucratividade, muitas vezes ignoramos como a marginalização da reflexão ética pode transformar a economia excessivamente condicionada à lógica da produtividade e do ganho e com pouco comprometimento em relação aos aspectos morais que atravessam os modos de produção e distribuição das riquezas. Destaco aqui a fala de Edgar Morin no Programa Roda Viva:

A economia é baseada em cálculos e tudo que foge ao cálculo é eliminado do pensamento

econômico. Isto faz com que, infelizmente ou felizmente [

]

o que foge ao cálculo é a

emoção, a vida, o sentimento, a natureza humana. Então, temos um conhecimento abstrato. O conhecimento da sociedade não pode ser somente baseado no cálculo. Os problemas sociais não podem ser reduzidos a cálculos. Não podemos dizer que só o desenvolvimento da economia resolve todos os demais problemas humanos. E temos de reagir contra esta ideia

simplista e redutora. Acho que você teve razão de mostrar e apontar que tudo isso diz respeito

à definição do ser humano. Por muito tempo, acreditou-se que o ser humano era chamado o

Homo sapiens, isto é, o homem racional, e o Homo faber, o homem que fabrica ferramentas. Bem, de fato, somos Homo faber. Eu também sou, através da caneta ou do computador.

Homo sapiens, a racionalidade, é excelente. Só que é sabido que a racionalidade só abstrata deixa de ser racional. Você sabe que não há pensamento racional sem emoção. Até mesmo o

matemático tem paixão pela matemática, ou seja, não podemos pensar

unicamente os computadores. Eles é que têm a razão fria. Não têm sentimentos, nem vida. Se os deixássemos governar a humanidade, seria um perigo. Portanto, somos seres capazes de emoções e de loucuras também. E, no fundo, a dificuldade da vida é navegar, não é? Nunca perder a racionalidade, mas, também, nunca perder o sentimento, sobretudo o amor. Do mesmo modo, como você disse, somos homens de economia. É claro, temos interesses econômicos, mas somos Homo ludens [homem lúdico] também. Gostamos de jogo. Não são

só os jogos infantis. Os adultos adoram jogar. E não só jogar baralho ou ir ver uma partida de

futebol. O jogo faz parte da vida. Do mesmo modo, a prosa. De fato, ela faz parte da vida

porque são as coisas obrigatórias e necessárias que fazemos, mas que não nos interessam. Mas

o importante eu disse há pouco: a prosa serve para sobreviver. Mas a poesia é viver, é o

próprio desabrochar. É a comunicação, a comunhão. Se tivermos essa definição aberta do ser humano, levaremos em conta toda a dimensão humana. Mas se ela for fechada e econômica, a perderemos.

A razão fria são

Várias são as questões relacionadas à economia que remetem à ética. Trago aqui algumas delas para instigar a reflexão:

O trabalho dignifica ou fragiliza as pessoas? Saímos fortalecidos, potencializados e animados ou cansados e deprimidos de nossas atividades profissionais? Há espaço para o diálogo e a criatividade nas empresas? ética. Trago aqui algumas delas para instigar a reflexão: A maneira como o ser humano usa
ou cansados e deprimidos de nossas atividades profissionais? Há espaço para o diálogo e a criatividade

A maneira como o ser humano usa e transforma as matérias-primas e as fontes de energia amplia a saúde do planeta ou provoca a sua corrosão?

Como lidamos com o consumo? Até que ponto a histeria consumista e a cultura do descartável descomprometem as pessoas e fragilizam as relações? amplia a saúde do planeta ou provoca a sua corrosão? Como ampliar o nível de confiança
Até que ponto a histeria consumista e a cultura do descartável descomprometem as pessoas e fragilizam

Como ampliar o nível de confiança entre as organizações e seus colaboradores, entre as empresas e seus clientes, entre os serviços e a sociedade em geral? O quanto esta confiança é imprescindível para o sucesso nos negócios, tanto em termos de coerência profissional como de práticas de gestão?

Percebemos o quanto as escolhas e as estratégias que são desenvolvidas dentro da

esfera do econômico dizem respeito a valores morais. Desde o produto em sua estrutura e finalidade de uso, até a maneira como a sociedade concebe a produção e o consumo de bens, entram em questão decisões e ações humanas que podem e devem ser avaliadas em sua consistência e qualidade moral. Quando uma empresa não reconhece que em seu modo de produção, em sua maneira de relacionar-se com a rede de clientes e na forma como pensa ecologicamente seus processos, estão presentes escolhas fundamentais para o futuro da sociedade e um desenho de sua ação ética, esta empresa não se encontrou com o sentido de sua responsabilidade social e histórica em relação ao desenvolvimento da humanidade e do planeta. Nenhuma empresa pode ignorar que, tanto quanto o estado, ela é agente fundamental para a transformação propositiva da sociedade humana em geral. Os processos de educação que cercam sua ação são tão ou mais importantes do que processos, até porque a maioria das pessoas coloca no fator econômico uma parte importante de suas vidas e possibilidades. O quanto uma empresa que trata bem seus empregados e testemunha, através de seu quadro diretivo e de sua filosofia, não está colaborando para o efetivo alargamento da cidadania? Esta empresa cidadã, que se coloca e aos seus como sujeitos alternativos da história de seu país e do mundo incorpora o espírito da ética. A ética passa cada vez mais pelos processos econômicos e produtivos, espaços onde a grande maioria das pessoas exerce seu desejo de afirmação social, tanto na maneira como participa de ambientes interessantes, livres e criativos de produção como pela maneira como se torna um consumidor consciente em relação ao valor que agregam certos produtos. Sempre seremos consumidores também de produtos banais, mas a banalidade consumista não pode sobrepor o consumo inteligente e ético. Uma nova vida econômica, sem alienação do produtor nem do consumidor, porque a produção e o consumo estão de fato a serviço do homem, torna-se assim condição necessária – ainda que não suficiente – para uma moral superior, na qual o bem de cada um se combine com o bem da comunidade. (VAZQUEZ, 2008, p. 223,)

6.2 Ética da confiança

Só é possível falar de uma gestão ética da confiança a partir dos pressupostos de uma ética empresarial dialógica, orientada pela ideia de que produzir confiança significa criar as condições para poder confiar na empresa com boas razões. […] o que devemos mostrar é que a confiança tem um valor econômico porque tem um valor moral, e não vice-versa. (GARCÍA- MARZÁ, 2007, p. 81)

Não devemos transformar a ética em artigo de negócio. Ou seja, é verdadeira e importante a crítica a organizações que de maneira interesseira utilizam-se da ética

para vender seus produtos sem incorporar o espírito de uma moral avançada. Não é a convicção que transforma a empresa em um espaço de comprometimento moral, mas simplesmente a onda do mercado que exige e faz com que a empresa seja cobrada por forças exteriores. Sem assumir a ética como pressuposto de evolução moral humana, essas organizações reduzem seu compromisso com práticas éticas ao mercado, ou seja, somos éticos porque nos cobram e em relação àquilo que é visto e exigido pelo mercado. Sabemos como a onda do ecologismo e das ISOs pode fazer com que muitas empresas entrem no jogo somente para cumprir tabela, como se diz.

O valor moral da confiança pressupõe que a ética não é concebida como artigo e

variável qualquer nos processos de desenvolvimento de uma organização. Estamos falando de processos de formação e educação moral, ou seja, o corpo da empresa evolui para comportamentos que agregam valor moral, que desenvolvem ações e reflexões de comprometimento com práticas que fazem bem para as pessoas, para a empresa e para a sociedade em geral. A confiança não é um princípio vazio, de prateleira, que está registrado no código de ética da empresa. A ética e a confiança são qualidades inerentes aos parceiros da organização porque eles sentem-se participantes ativos da construção de processos que animam a empresa em seu desenvolvimento moral. Quando um funcionário sente que tem espaço para questionar, para sugerir, quando, nas relações internas da empresa, são criados mecanismos que permitem e desafiam os trabalhadores a participarem com ideias dos processos, teremos a animação para o compromisso. A responsabilidade partilhada para com a qualidade dos processos e para com a criatividade em relação à qualidade do que e como se produz faz com que cada um se transforme em sujeito moral e coparticipante do fazer ética da empresa.

Acredito e aposto que, em ambientes onde as pessoas dialogam e estendem suas dúvidas e proposições de maneira aberta e dinâmica, há uma possibilidade ampliada de que haja sucesso no empreendimento. Mas o sucesso é diretamente proporcional ao nível de consistência com que se desenvolvem os diálogos. Não podemos esquecer que dialogar é desenvolver a capacidade de estender-se mutuamente além.

A relação de confiança passa necessariamente por uma mudança de estrutura de

poder. Não mais um poder verticalizado em que as funções são concebidas de cima para baixo e as relações obedecendo a esta lógica, mas uma estrutura propositiva de poder. O poder não se faz pela imposição, mas pela habilidade cooperativa. Estamos falando de processos de descentralização. Não devemos alimentar o preconceito em relação aos desvios morais que podem estar presentes na ação das pessoas dentro das empresas. Devemos partir do voto de confiança. Não um voto de confiança ingênuo, a ponto de não imprimir responsabilidades no processo. O próprio voto de confiança coloca o sujeito em posição de responsabilidade em relação ao alcance de sua ação e ao valor que ela agrega à organização. O esforço para com o sucesso da organização passa a ser diretamente proporcional ao comprometimento que o trabalhador passa a ter para com os

resultados positivos de sua ação. E sua ação estende-se da competência adquirida e desenvolvida no campo da formação técnica e pelo comprometimento que desenvolve em relação à cooperação para com um ambiente que se organiza pelo acordo de certas morais de responsabilidade (normas acordadas) e pelo espírito de equipe que se fundamenta em trocas propositivas e na construção de um ambiente em que se multiplicam pessoas alegres e comprometidas com o bem-viver. Sentir-se membro corresponsável pelo grupo de trabalho do qual se participa pressupõe um espírito de cidadania fundamental para o crescimento coerente da empresa, porém, ao mesmo tempo, estende-se tal formação para a aprendizagem cívica, ou seja, grupos que desenvolvem o espírito solidário de equipe tendem a estender tal espírito e comprometimento para com a sociedade em geral. A valorização do outro e das atividades que realizamos tem seu fundamento em práticas grupais que experimentamos cotidianamente. O espaço do trabalho, em especial das empresas e seus grupos, devem ser locais de aprendizagem e experiência de cidadania. Impossível ignorar que somos seres sociais e que a nossa formação passa pela educação que desenvolvemos e adquirimos em atividades desses grupos. Assim como afirmamos que a família e a escola, por exemplo, são espaços de educação e formação da cidadania de cada indivíduo, também devemos assumir os grupos de trabalhos das empresas como experiências de ação coletiva. Além do mais, a empresa, além de ser ambiente de formação das responsabilidades que desenvolvemos pela capacidade que vamos adquirindo na relação produtiva inteligente com os outros e por acordos e transcendências morais que vamos elaborando, também estende a responsabilidade cidadã para ações que envolvem uma rede de pessoas que ultrapassam a empresa, como seus clientes, fornecedores. Estamos formando cidadãos responsáveis nas empresas? Que responsabilidade pessoal, social e ambiental está presente nas práticas que nossa empresa desenvolve? Estas questões devem nortear qualquer debate que se realize na empresa em relação ao seu compromisso para como uma sociedade melhor. A empresa não pode ser pensada como um ambiente pesado, para onde as pessoas vão porque precisam sobreviver. O peso da obrigação mina a qualidade de vida. Se os funcionários vão para o trabalho carregando o peso da obrigação, suas vidas estão sendo castigadas e a criatividade dos mesmos acaba despotencializada. Não podemos reduzir os indivíduos a números ou a um aglomerado de peças que não experimentam sentido nas relações.

A visão aristotélica começa com a ideia de que somos, antes de tudo, membros de comunidades, com histórias partilhadas e práticas que a tudo regem, desde a alimentação e o trabalho até a religião […]. Pensar na empresa como uma comunidade significa insistir que ela não pode ser – por mais incorreta que seja na política interna – uma mera reunião de indivíduos com interesses pessoais, relacionados apenas por contrato. Os que estimulam essa visão estão, com efeito, minando a própria vitalidade da empresa. (SALOMON, 2000, p. 80)

6.3

Ética e sucesso

Existe, em cada indivíduo, um profundo desejo de encontrar um sentido para a vida. As pessoas querem que suas vidas tenham sentido, e isso inclui sua vida empresarial ou sua vida de trabalho. Assim, pois, quando lhes é concedido poder de decisão e lhes são mostradas suas capacidades, consegue-se algo que é bom para eles e para a companhia. (CORTINA, 2007, p.

185-186)

Muito do comportamento dos indivíduos em nossa sociedade e nas culturas em geral está condicionado por valores e padrões externos. O que chamamos de alienação

está presente em muitas de nossas ações, ou seja, muitos de nossos desejos, de nossas representações são cópias de impulsos exteriores que agenciaram nossa vontade. A minha tese é que o esforço despendido para corresponder ao que exteriormente nos condiciona sempre será parcial e carecerá de potência na medida em que acaba ignorada

a criatividade pessoal que, necessariamente, depende de um desejo livre e autônomo.

Por exemplo: as empresas podem oferecer recompensas salariais, distribuição de dividendos, festas de confraternização, atividades de relaxamento físico e um não sei mais o que de atividades alternativas. No entanto, se o processo de produção continuar a obedecer à lógica da tarefa determinada, da submissão do trabalhador a burocracias enrijecidas e repetitivas, a lógica é que não se desenvolvam processos alternativos de ação e produção. A empresa começa a cansar e precisa substituir a peça cansada por uma peça nova, para que o processo repetitivo seja mantido num nível aceitável de execução. Porém, além de estarmos atualmente vivendo a era pós- industrial, na qual as atividades cada vez são menos repetitivas e mais criativas, não podemos ignorar o fato de que o sucesso nos negócios é diretamente proporcional às inteligências alternativas que as organizações promovem e passam a conhecer a partir de seus colaboradores. Se estou tentando entender o sentido do que faço, se busco dar valor ao desenvolvimento de minhas tarefas, é natural que, como profissional, eu me comprometa a desenvolver o que sou cobrado, mas porque é melhor para mim e para os outros, não porque sou cobrado e controlado, mas porque desejo interiormente que

o meu tempo, no caso, meu tempo profissional, seja bem vivido. É uma questão ética:

pelo que vale a pena viver se não for por algo que faça com que eu me sinta mais vivo, potencializado em minhas estruturas para o pensamento e a ação. Sentimos pessoalmente a nossa força crescer quando fazemos as coisas a partir de elementos que vamos agregando, linguagens e aptidões que vamos construindo, já não mais para satisfazer algo externo, mas para compor uma relação criativa, em que o sentido pessoal e social do que fazemos se atravessam, ou melhor, se complementam diante de certos contextos

O trabalho, que é realizado a partir da força pessoal autônoma do indivíduo, já é um ganho para ele e para os negócios da empresa. Porém, a questão seguinte é: o que a

sociedade ganha com a autonomia dos trabalhadores e o sucesso dos negócios de uma empresa? Poderíamos questionar se um sucesso restrito ao campo individual e de uma só empresa se sustenta. Teríamos vários exemplos e argumentos que atestariam que este sucesso é frágil e passageiro. Mas a proposta de discussão é outra: é possível pensar em autonomia sem levar em conta o outro, as outras pessoas, aquilo que se estende além de cada um de nós? É possível uma empresa que aposta na autonomia e na liberdade de seus colaboradores passar à margem de questões de responsabilidade social e ambiental mais abrangentes? A minha resposta tácita é não. A autonomia de uma pessoa é ampliada na relação direta com sua capacidade de compor redes de cooperação. É lógica a resposta, mesmo que os fluxos de cooperação sejam dinâmicos e não possam, e nem devem, ser restringidos por redes de controle de ações e funções. Cooperação significa, radicalizando o conceito, operar junto, em processo de potencialização mútua. Assim também é em relação à empresa: não é possível uma empresa desenvolver um sentido de permanência “no mercado” se não estiver desenvolvendo redes de afirmação tanto em relação aos clientes quanto aos fornecedores e recursos em geral. Há aqui uma conexão direta entre a ética e a sustentabilidade criativa dos negócios. Podemos continuar com dúvida em relação ao tempo de sobrevivência do planeta e da vida humana em relação ao tempo cósmico e seus fluxos energéticos, a partir da lógica da dissipação da energia (o Sol está se esfriando, logo, a Terra tem seu tempo de vida…). Porém, diante da vida e da lógica de seu tempo, que é retroalimentar e está diretamente ligada à ideia de redes criativas de potencialização, a empresa deve ser ética por uma questão de inteligência. Aqui, o sentido da empresa ultrapassa o resultado financeiro imediato e se concebe como uma força a favor da vida e da sociedade em geral pela forma como concebe e executa sua administração em relação às pessoas e aos recursos naturais. O verdadeiro valor do trabalho humano deve transcender a finalidade da simples subsistência ou de enquadramento mais significativo dentro da escala do status quo social. O trabalho deve agregar valor moral às pessoas que se envolvem com ele, tanto na perspectiva de experiências cooperativas de produção (educação moral) quanto do desenvolvimento da criatividade e do senso estético (educação ética).

A economia e os economistas, se verdadeiramente desejarem contribuir para o desenvolvimento das pessoas e para o bem comum da sociedade, não poderão ignorar a ética, mas deverão se servir das normas morais e éticas como norte e guia. A ética não é uma limitação para a economia, do mesmo modo que uma estrada não é uma imposição para os carros. Antes pelo contrário, sua função é facilitar que as pessoas cheguem a seu destino, mesmo que aparentemente seja uma limitação trafegar dentro da estrada e obedecer às leis de trânsito. (ARRUDA; WHITAKER; RAMOS, 2009, p. 142)

CAPÍTULO 7

ÉTICA E ALTERIDADE: A ECONOMIA COMO AFIRMAÇÃO DE RELAÇÕES COOPERATIVAS

Todo fato econômico demanda relações entre as partes. Produtores e consumidores, fornecedores e empresas, sociedade e sua percepção em relação à imagem das organizações, entre outros. A economia atual demanda e atesta cada vez mais a importância das atividades em redes flexíveis. As empresas que souberem, de maneira mais sutil e inteligente, escutar seus parceiros, por certo levarão vantagem em termos de produtividade e agilidade nos processos. O que está em questão não é somente o que uma empresa ganha economicamente com a escuta do outro, mas como toda a rede sai ganhando. O outro sendo reconhecido em seu valor na dinâmica do processo tende a participar mais comprometidamente nos mesmos. Vidas afirmadas pela simples razão de serem ouvidas e animadas para a ação cooperativa. O outro, em sua alteridade, demanda uma geografia de alianças criativas. Esta criatividade é muito mais decorrente da vitalidade animada pelos fluxos que as organizações desenvolvem, do que por uma iniciativa circunstancial de algum trabalhador ou colaborador. A ação que se faz presente por parte de algum dos colaboradores também é muito mais consequência do fluxo, na medida em que estes passam a estar interessados em atuar colaborativamente, do que em função da obrigação imposta pela empresa. Vejamos como podemos avançar na escuta do outro.

7.1 O outro

O outro é maior do que o eu, uma vez que o eu não dá conta de abarcá-lo. A razão não o totaliza em nenhum discurso por ela arranjado. A pessoa, ao aceitar essa realidade como um exercício existencial, tende a combater a arrogância e a pretensão totalitária das ações e valores atualmente arraigados e muitas vezes ocultos nos comportamentos funcionais e organizacionais. (SILVEIRA; SIQUEIRA)

Proponho duas extensões do conceito outro:

uma primeira identifica-se com a ideia de uma outra pessoa que é entendida e acolhida com toda sua história, mas especialmente em seu processo de subjetivação, ou seja, como um ser que experimentou e constrói de maneira singular sua relação com os acontecimentos; SIQUEIRA) Proponho duas extensões do conceito outro : uma segunda que aproxima a ideia do outro
subjetivação, ou seja, como um ser que experimentou e constrói de maneira singular sua relação com

uma segunda que aproxima a ideia do outro de conceitos como os de

transformação (podemos falar em transmutação, numa perspective nietzschiana), 1 de diferença e multiplicidade (aproximo aqui a proposta deleuziana) 2 e, por fim, de complexidade (Edgar Morin); 3 outro como deslocamento para um tempo criativo em que as visões lineares e racionalizantes (homogêneas) são ultrapassadas por uma perspectiva de transbordamento e diferenciação.

A primeira maneira de tramar a extensão do conceito nos leva ao encontro de outra vida, que não é a nossa, em que o sentido em relação ao que se vive não nos pertence e não podemos nos apropriar. O outro, a outra pessoa, nos escapa sempre, pois a radicalidade da vida vivida por alguém não pode ser transferida. Ninguém pode sentir pelo outro, por mais que possamos nos alegrar e sofrer com o outro. Esta condição única de pessoalidade é intransferível e remete a duas implicações que considero importantes do ponto de vista da implicação ética: a primeira implicação é o comprometimento que cada um tem de assumir a sua vida como tarefa pessoal, intransferível e desafiadora; a segunda implicação é que só podemos trocar com o outro, ou seja, a fraternidade é a única alternativa em relação à preservação da vida do outro. Reduzir o outro à nossa representação, ao nosso juízo, por exemplo, são práticas de morte. Aprisionar o outro em nossa razão de ser é ignorar que o outro e seu mistério nos ultrapassam, desafiando a ultrapassagem do ego que personalizamos a partir de identificações. O outro não é a outra metade que nos falta, mas é o outro tempo que nos atravessa e provoca o deslocamento de nossa geografia para um espaço de possibilidades outras. O argumento ético que proponho é que somente podemos estar potencializando a relação com o outro quando assumimos radicalmente a defesa da liberdade da vida experimentada pela outro (e por nós mesmos) e conseguimos viver a mistura dos corpos sem práticas de controle ou submissão. A segunda maneira de pensar o conceito outro se alia a conceitos que venho estudando e que penso que podemos identificar com a proposta da ética da alteridade. Alter, o outro, o outramento, tem tudo a ver com acolher a complexidade da vida e de todos os seres vivos e viventes (e seus fluxos em relação à afirmação da vida em sua diversidade) e, de forma especial, os outros humanos, assim como o outro presente em cada um de nós e suas (nossas) possibilidades. Multiplicar-se na relação com um universo aberto que a vida, a linguagem e o pensamento nos possibilitam. Diferenciar- se como produção de acontecimentos únicos em relação aos fatos com os quais nos relacionamos. Transmutação como amor fati, 4 como potência para transcender o que se vive, pela maneira de resistir aos recalques morais, desenvolvendo a capacidade de recriar sentido em relação ao que se experimenta. Essa experiência nos lança em direção da criatividade em vida. Ao mesmo tempo em que defendo uma visão aberta e multiplicada, cuja diversidade fluxional traz consigo a composição de alianças construtivas, critico o peso de discursos de simplificação do comportamento humano, que reduzem a moral à

repetição de certos princípios herméticos, inibindo a ética do viver. A vida como presa de uma moral ou de representações modelares, enclausurada em muros padronizados de comportamento, perde seu sentido e reivindica outra ética. O que potencializa a vida é a força para viver, o alimentar-se das forças e energias que nos afirmam como seres de percepção e de expressão.

7.2 A solidariedade

Retomo aqui os princípios do Iluminismo: liberdade, igualdade e fraternidade. Inseparáveis em sua natureza conceitual, os três conceitos têm sua base no conceito fraternidade, ou seja, somos iguais na diferença e singularidade pessoal e somos livres na medida em que desenvolvemos a autonomia em relação aos nossos pensamentos (reflexões) e comportamentos. No entanto, é necessária a experiência da fraternidade para que experimentemos o sentido da igualdade e da liberdade. Como conceber-se igual em nossa singularidade se não nos encontramos, de maneira estendida, com a singularidade do outro? O que faz com que a gente se descubra igual e não idêntico é a possibilidade que cada ser humano tem de multiplicar-se no encontro com o outro que também está em movimento, em devir. 5 Numa perspectiva similar, só nos sentimos livres em um mundo onde a liberdade se faz presente na relação com o outro. A luta contra a escravidão é uma luta contra o peso do mesmo e das correntes de identificação condicionadas ao juízo. Explico: se devo apresentar para o outro minha identidade como se ela se constituísse por um conjunto de características prontas, então não há oxigênio para respirar a liberdade. Tal abordagem retoma a discussão sobre conceitos como os de respeito e de tolerância. A interpretação do senso comum é ligar tais conceitos muito mais a aceitar que o outro se identifique com o que quiser e muito menos produzir a relação, a experiência com e do outro. O desafio maior e engrandecedor é promover este fluxo em que as pessoas produzam seu outramento pelo movimento de extensão de suas potencialidades no encontro com o outro.

“ Tolerância” é um termo da modernidade esclarecida, que deveria, hoje, no mundo contemporâneo, ser substituído pelo termo “ solidariedade”. Quem tolera faz uma concessão ao Outro; quem solidariza, compreende que não pode ser sem o Outro. Por isso, proponho a substituição do termo “ tolerância” por ”solidariedade”, sempre que se estiver fazendo referência a uma humanização da sociedade contemporânea. (SILVEIRA; SIQUEIRA, 2007.)

Estendo tal proposta para a área dos negócios, ou seja, a solidariedade competitiva não se vê como força que se impõe ao outro, mas compõe com o outro o desafio da transcendência. Essa proposta é criativa porque busca perceber como podemos ampliar as práticas produtivas em favor de um mercado menos destruidor do outro e mais aliado à ideia de compor alianças potencializadoras com o desenvolvimento de

produtos mais inteligentes. Retomo a concepção de que somos também produtores e consumidores de banalidades, porém, cada vez mais nos encontramos com produtos mais inteligentes e que abarcam o campo de atividades alternativas, muito mais ligadas ao ócio humano. Interessante este paradoxo linguístico, ou seja, estamos entrando em uma era em que o ócio passa a ser um campo a ser explorado pelo negócio. Estamos nos referindo ao ócio como atividade em que não estamos diretamente nos ocupando de atividades produtivas no sentido clássico, ou seja, produzindo objetos que serão usados pelos humanos em outras atividades ditas “produtivas”, mas estamos produzindo coisas para o tempo de lazer, para a arte, para o desenvolvimento estético do humano. O contexto produtivo atual, que vai saindo cada vez mais da produção em série e da vinculação a modelos (protótipos), exige inteligências cooperativas que serão o fundamento da criatividade. Administrar, de maneira particular, já está em muito relacionado com a capacidade de gerir e fomentar redes cooperativas. A necessidade de ser mais competitivo é, na maioria das vezes, mais bem definida como uma necessidade de ser mais cooperativo, de conquistar a lealdade, a confiança e a compreensão dos clientes, funcionários e investidores (SALOMON, 2000, p. 25).

7.3 A generosidade profissional

“ Atitudes de generosidade e cooperação no trabalho em equipe, mesmo quando a atividade é exercida solitariamente em uma sala, faz parte de um conjunto maior de atividades que dependem do bom desempenho desta.” (SILVEIRA; SIQUEIRA, 2007)

A ética da complexidade e da alteridade nos desafia a pensar que a responsabilidade de nossas ações não está somente ligada a um fato imediato e próximo, mas a uma rede complexa de possibilidades que se estendem. Um desenvolvedor de software, por exemplo, quando avança no sentido de produzir programas com extensão da autonomia dos usuários, que consegue criar sistemas que desafiam à cooperação entre usuários para que se avance em certas etapas da ação, que amplia a estética da multiplicidade no desenho, está desafiando e provocando a inteligência aberta, cooperativa e multiplicada das pessoas que, mesmo distantes e desconhecidas, usarão os seus recursos. Este profissional está comprometido com a ética enquanto possibilidade de potência da ação e experiência humana. Poderá, além de desenvolver esses programas, atuar em alguma atividade voluntária de inserção de populações mais pobres, acrescentando à sua atividade inteligente e provocativa a ação generosa em favor do outro. Numa perspectiva semelhante, um gestor, ao demonstrar na relação com seus colaboradores um interesse que não está reduzido aos resultados restritos da empresa, revela uma dedicação e atenção singular em relação às pessoas que participam dos

processos. O ambiente de uma organização se eleva na medida em que as pessoas se reconhecem como um mundo que transcende a empresa, e que podem não só trazer de fora novos insumos para dinamizar e alterar positivamente processos internos, mas ela própria, a empresa, pode, através de gestos administrativos que colocam as pessoas – colaboradores – como seres que se estendem para além da empresa suas vidas, estar colaborando com a evolução moral da sociedade. Como anteriormente já colocava, a empresa cidadã, cujo conceito de responsabilidade social transcende a rede restrita da empresa ou de alguns clientes e fornecedores, está produzindo uma sociedade alternativa a partir do modo como executa e desenvolve seus processos. Sem dúvida, os resultados positivos para a própria empresa serão visíveis, mas o sentimento de educação e ascensão moral deve fazer dos administradores/gestores pessoas que assumam sua condição de formadores de caráter e de extensão do espírito de atenção para com os outros. A generosidade não pressupõe resultados imediatos ligados à lógica de perda e ganho, mas propõe uma postura de elevação da ordem das coisas, de evolução da qualidade moral dos comportamentos e das relações, da preocupação com a saúde dos outros e, consequentemente, com a saúde do planeta. Aqui entramos novamente na questão da preocupação com a saúde planetária. Nações e grupos econômicos estão preocupados com a escassez de matérias-primas e recursos energéticos. Porém, o que deveria animar, antecipadamente, o desenvolvimento de energias alternativas e de consumo coerente de bens e matérias-primas é um sentimento de deixar para o outro, para os nossos filhos, um mundo mais belo. A beleza não está somente no futuro que se preserva, mas na própria generosidade, que se sente potencializada pela ação em favor da vida. O que desperta mais prazer em uma pessoa do que ela se sentir importante para a afirmação da vida de mais pessoas e seres vivos? Possuir bens, se capitalizar para poder consumir são prazeres muitos frágeis diante da satisfação em poder estar a favor da vida de mais pessoas. Podemos nos fechar em nossos guetos familiares ou em nossas empresas, mas podemos optar por sermos empresas do mundo, pessoas que se sentem parte de uma rede criativa e comprometida com a vida que se estende para além de registros e muros instituídos. Este pensamento que ascende nossas vidas para perto de todas as pessoas, de todos os seres e que nos coloca comungados com toda a vida do planeta faz, estranhamente, com que nos sintamos muito mais responsáveis por aquilo que está perto de nós, pois qualquer pessoa, ser ou coisa que compõe o planeta é importante e deve servir para agregar valor à vida. Uma ética cósmica, planetária e, consequentemente, divina enobrece o espírito e nos responsabiliza com o todo aberto, criativo e cheio de infinitas possibilidades. Somos infinitas possibilidades nas relações generosas e criativas com os outros. Somos possibilidades previsíveis, medíocres e superficiais, se estamos cegados por nós mesmos, por cercas que criamos, por padrões limitados que fixamos, em que o outro é capturado pela nossa prepotência. Nesta perspectiva a generosidade perde sentido e entra em cena uma moral de rapina,

que visa reduzir o outro ao nosso eu. Dá dó e machuca o coração ver tantas pessoas serem reduzidas a trapos de gente quando agenciadas e condicionadas a poderes que determinam e condicionam valores preconceituosamente. A vida dessas pessoas é represada e elas acabam plastificadas em rótulos estabelecidos. Sejamos generosos, assumamos a vida como uma bela jornada de evolução do espírito em sua relação com um corpo aprendiz e dialógico. O espírito da fraternidade não reduz seu mundo, mas acolhe a diferença e deseja a multiplicidade. Linguagens

multiplicadas, afetos estendidos e fortalecidos pela potencialização das partes, este é

o caminho da vida ética. Desafiar a si mesmo e ao outro à consistência, ao

desenvolvimento de linguagens mais belas e a relações criativas. O bem é o abraço da alma com um corpo potencializado por belas linguagens e belas relações. As empresas podem ser espaços do bem nesta perspectiva. Os gestores podem e devem ser ativos e afirmativos nesta empreitada. Não será uma ação imediata que nos mostrará que está

ao nosso alcance a vida mais bela dentro das empresas, mas várias entradas mais

generosas e alegres. A alegria é o sentimento de quem começa a perceber valor nas coisas que faz e se sente corresponsável pela extensão desses valores.

1 De Nietzsche trago o conceito de transmutação na perspectiva de uma mudança encarnada, ou seja, aquela que se faz de maneira tal que o corpo todo está envolvido. Não é somente uma mudança externa, mas é algo que altera toda a compreensão afetiva que temos para com as coisas.

2 Diferença como diferenciação, como deslocamento e extensão dos conceitos, como exercitação do pensar em relação ao que se vê e se lê. Deleuze critica o que se reduz a reprodução, afirmando que desde sempre somos múltiplos como forças de vida, atravessados e convivendo criativamente com o que nos afeta.

3 Teórico da complexidade, Edgar Morin critica a simplificação levada a efeito pela racionalização e por outras maneiras dogmáticas ou idealistas de explicação, interpretação ou definição dos processos. A complexidade dá conta daquilo que não é mensurável e que ao acontecer desafia à criação pura, ao exercício da intuição e do acolhimento do que não cabe em nossos registros, nos desafiando a ultrapassar os nossos muros conceituais e morais.

4 Conceito nietzscheano que reclama uma relação radical com o que se faz, a ponto de colocar em cada experiência existencial um desejo intenso e transbordante de viver.

5 Devir pode remeter a Heráclito e o sentido eterno do movimento e da mudança, ou seja, “ nunca apertaremos a mesma mão duas vezes” e “ nunca atravessaremos o mesmo rio duas vezes”. Porém, em relação à discussão da alteridade, quero destacar que se não acolho o devir do outro, da natureza física, das forças do planeta, dos outros seres vivos, das mulheres, das crianças etc., eu não vivo a possibilidade da partilha. Experimentando o devir do outro, não como alguém que cola no outro, mas como alguém que estende sua sensibilidade para estas outras naturezas que contigo partilham as geografias do mundo da vida e o existir, passamos a experimentar a multiplicidade e nos comprometer concretamente com a solidariedade planetária.

CONCLUSÃO

Chego ao final deste escrito me indagando sobre o quanto os conceitos que atravessaram esta obra podem animar e potencializar a vida de seus leitores. O meu desejo, ao escrever este livro, além da demanda específica, foi partilhar com vocês a minha alegria em estar pensando e experimentando conceitos que considero alternativos e fundamentais para uma vida bem vivida, princípio e fim da ética. Discutindo sobre ética como a reflexão em relação às nossas convicções e aos valores que nos movem, quis mostrar que ainda estamos muito presos a certas morais e que devemos aprender a criar formas mais vivas e afirmativas de fazer as coisas. Se é possível reconhecer que em nosso meio muitas pessoas e nós mesmos ainda estamos presos a certos padrões e preconceitos, devemos, de maneira criativa, viver as relações de forma desafiadora e propositiva. Aprender a conviver com o que nos desafia de maneira mais criativa, para que o outro veja em nós a alegria em viver o compromisso para com a ética. Não mais uma ética do sacrifício, da obrigação, do peso moral, mas uma ética leve e criativa. Como resistir ao mal (ou às ações de certas pessoas que revelam a maldade e a fraqueza de viver)? Testemunhando nossa alegria em tramar e compor comportamentos mais poéticos e fraternos. A vida bem vivida, que revela uma pessoa que busca qualidade em relação ao que experimenta, e a convivência criativa (amorosa) com o outro, sem juízos e preconceitos, vão fazer a diferença. Na perspectiva do mundo dos negócios, acredito e proponho que só temos a ganhar e agregar valor se formos comprometidos com a ética. Conviver com pessoas pra cima, coerentes e de confiança, que desejam cooperar e crescer propositivamente com o outro, faz bem para a saúde profissional e para a geografia da empresa. Desenvolver mecanismos pelos quais os trabalhadores sintam-se melhores e mais valorizados nos processos de produção dos quais participam faz a organização ser mais ética. Enfim, uma sociedade humana evoluída estará diretamente vinculada a um mundo dos negócios que fomenta relações cooperativas e criativas e que pensa, projeta e desenvolve o uso de recursos e a qualidade dos produtos cada vez mais ligada à saúde do planeta e das pessoas em geral. Espero que tenham tido uma boa leitura e que possamos partilhar da alegria de estarmos vivendo bem as nossas vidas, em favor da dignidade das pessoas e dos seres em geral. Que cada um de nós possa ser artífice de uma realidade econômica e social mais justa e criativa.

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Edição digital: dezembro 2013

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Sobre o autor

LAÉRCIO ANTÔNIO PILZ é doutor em Educação pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), 2002; mestre em Educação pela UNISINOS (1997); bacharel em Filosofia pela Faculdade de Filosofia Nossa Senhora da Imaculada Conceição (1981); professor de Ética e Antropologia Filosófica e coordenador dos Eixos de Formação Antropológica e Ética da Formação Humanística na UNISINOS.