Sei sulla pagina 1di 1237

Melodia

Lisa Bee

De frente para a faculdade de música da Federal do Rio


de Janeiro, um prédio suntuoso e antigo, Marina
pensava se havia feito a escolha certa. Achava que sim.
Sua primeira aula seria em meia hora e aguardava
somente sua amiga chegar. Quando pensava que ela
iria atrasar, eis que alguém lhe toca os ombros.

- Cheguei!
- Ai Monica que susto!
- Calma Marina. Parece bicho do mato.
- Não ué, estou aqui distraída e você aparece do nada.
- E aí, o que achou da faculdade?
- Nem entrei ainda, mas o prédio é lindíssimo.
- Então vamos entrar que lá dentro é mais bonito ainda
e tem uma lanchonete que faz um sanduíche de queijo
maravilhoso.
- Nossa! Só pensa em comer meu Deus!

Entraram na faculdade, na verdade na escola de música


e passaram na lanchonete para Monica comer o tal
sanduíche, dali foram pra aula. Era de harmonia e
percepção. Sentaram não muito na frente, não queriam
chamar a atenção, mas isso era praticamente
inevitável. Monica era uma peça rara, tinha cabelos
cacheados, olhos cor de mel, era muito branca e
magra, tinha o rosto marcante, por onde passava,
todos olhavam. Com Marina não era diferente. Não
tinha quem não olhasse para aqueles olhos verdes.
Seus cabelos eram loiros até o meio das costas, tinha
uma franjinha simpática que deixava seu rosto jovial,
pele clara, nariz arrebitado, não era alta, seu rosto
parecia ter sido esculpido a mão, por ser um pouco
bochechuda, parecia um anjo barroco. A aula começou
e as duas se concentraram. Quando a aula acabou elas
se levantaram e já iam saindo quando a professora
chamou.

- Meninas... preciso falar com vocês. São novatas, sim?


- Sim. – Monica respondeu.
- Preciso anotar o nome de vocês para o diário.
- Monica Avilar.
- Marina Calleguer Sfalcin.
- Nossa! Como se escreve isso? Pode dar só um que
não tem problema.
- Marina Calleguer.
- Nomes de artista. – a professora brincou. – Vocês são
irmãs?
- Não. – Marina estranhou a pergunta.
- É porque os nomes têm a mesma inicial. – A
professora sorriu. - Prontinho. Estão liberadas.
- Sabe onde fica a secretaria? Preciso saber quem é
meu professor particular. – Marina perguntou.
- Qual instrumento?
- Piano.
- Primeiro ano?
- Sim.
- Deve ser com o Marconi. Procure no segundo andar,
primeira porta a esquerda.
- Obrigada.

Saíram da sala a procura da secretaria. Monica já sabia


qual era seu professor, pois fora à escola um dia antes.
Realmente a professora tinha razão, Marina teria aulas
com Marconi. Foram até a sala dele e a loirinha se
apresentou.

- Bom dia professor. Sou Marina Calleguer, terei aulas


de piano com o senhor.
- Bom dia menina. Não me chame de senhor, por favor.
– Ele sorriu.
- Tudo bem. – Marina sorriu também.

Marconi era moreno, meio gordinho e de estatura


mediana.

- Estou olhando aqui Marina, sua aula é amanhã às três


da tarde. Tem alguma coisa pronta que possa me
apresentar?
- Sim, duas músicas brasileiras.
- Ótimos, vamos nos dar bem, adoro brasileiras. E
você? Também terá aulas comigo?
- Não eu sou da transversa. – Monica falou com tanto
orgulho que parecia tocar um instrumento sagrado.
- Ah sim.

As duas saíram da sala e voltaram pra casa. Dividiriam


um apartamento na Tijuca, era modesto e cabia no
orçamento. Monica tinha uma vantagem sobre Marina,
seu pai ajudaria nas despesas por uns tempos, já a
loirinha teria que arrumar alguma coisa pra se
sustentar, pois seu pai não tinha muitas condições e o
pouco dinheiro que mandava, ela sabia que faria falta
em casa. As duas vinham de uma cidade do interior de
São Paulo, sabiam muito bem o esforço que as famílias
tinham feito para que elas estivessem ali.

- Preciso arrumar algum emprego, mas com aula às dez


da manhã e às três da tarde fica difícil hein.
- Logo você arruma alguma coisa, eu acho mais fácil à
noite. Você podia tocar em algum lugar. Na escola eu vi
uns avisos de gente procurando músico.
- Sim eu vi também, mas pianistas geralmente já têm,
o que eles procuram é sempre um baixista, cantor,
flautista. – falou apontando para Monica.
- Vamos procurar né?

E foi como Marina disse; os anúncios só procuravam


outros músicos. Em poucas semanas Monica já tinha
arrumado um conjunto para tocar. Era um grupo que
tocava em casamentos. Já Marina cada dia ficava mais
preocupada. Os meses iam passando e o dinheiro só
diminuindo. Um dia na aula, Marconi notou que ela
estava relapsa e perguntou.

- Que foi Marina, algum problema? To achando você


muito distraída. Está tocando como se tivesse deixado
a alma em algum lugar e só o corpo estivesse aqui,
você não é assim.
- Preciso de emprego, não posso ficar no Rio sem
trabalhar. Meus pais não têm condições de me manter
aqui.

Marconi pensou um pouco, achava que podia ajudar


Marina, mas não queria fazer falsas promessas.

- Posso perguntar a alguns de meus alunos se estão


precisando de pianistas, tenho amigos que tocam na
noite, você topa se aparecer algo?
- Claro, na minha cidade eu tocava em casamentos.
- Ótimo. Se souber de alguma coisa, te falo, mas
procure se concentrar e não ficar preocupada; vai
aparecer alguma coisa.

Depois da conversa Marina se sentiu mais confiante,


quanto mais gente soubesse que estava procurando
emprego, seria melhor. Os dias foram passando e nada
de emprego, estava quase topando um trabalho em
uma lanchonete, se caso isso acontecesse, teria que
mudar o horário da aula de piano e teria de trocar de
professor, não queria, mas seria o jeito. Rezava todas
as noites pedindo ajuda. O dinheiro andava curto e ela
economizava até na comida.
Numa sexta à noite, estava em casa estudando para
uma prova de harmonia quando Monica chegou
animada do mercado.
- Vamos sair!
- Vamos não, estou estudando.
- Vamos sim e você vai gostar. Os meninos do grupo
me chamaram para ir num barzinho lá no Leblon, só
toca MPB, você vai adorar.
- Hoje não, outro dia.
- Sai dessa fossa, você precisa sair.
- To sem grana. – falou meio chateada.
- Vamos entrar de graça.
- To sem roupa.
- Te empresto uma.
- To sem animo.
- Bom... aí terei de levar você à força. Anda levanta.

Monica insistiu tanto que Marina acabou indo.

Chegando ao tal barzinho, sentaram numa mesa mais


ou menos próxima ao palco. Em seguida chegaram os
amigos de Monica.

- Oi meninas, tudo bom? – um deles perguntou.


- Ótimo. Quando começam?
- Daqui a pouco, só falta o tecladista.

Os três sentaram com elas e ficaram de conversa. Hugo


era o baixista, Pedro o baterista e Eduardo o vocalista e
violonista. A banda se chamava Acorde. Os três
também estudavam música, só que Hugo e Pedro eram
da Unirio. Hugo era de Parati e Pedro do Rio mesmo,
assim como Eduardo, porém ao contrário dos outros ele
morava sozinho.

- Gente, ta quase na hora e o André não chega. –


Eduardo se manifestou.
- Ele sempre faz isso e eu já falei pra trocar de
tecladista, mas vocês nunca me ouvem. – Hugo
protestou já falando enfezado.
Esperaram mais um tempo, as pessoas já chegavam
em maior número, enchendo o bar. Então o dono veio
cobrar a apresentação deles.

- Gente, atraso toda vez não dá. Vamos começar.


- Já estamos indo. – Eduardo falou já pegando o celular
e tentando ligar para o tecladista. – O telefone não
atende. E aí?
- E aí que estamos ferrados! – Pedro concluiu.
- Vamos sem ele. Vai ficar esquisito, a gente pula umas
músicas e faz sem ele.
- Qual é o repertório de vocês? – Monica perguntou
tendo uma ideia.

Pedro pegou a folha e mostrou pra ela, que analisou


com cautela e depois olhou sorrindo para eles.

- Marina toca isso tranquilo, ela é pianista.


- Mas você não é piano clássico?
- Sou. – Marina estava meio sem jeito.
- Mas ela toca.
- Sério? – Eduardo estava animado.
- Claro. – Monica insistiu.
- Sim, eu sempre gostei de MPB, então essas músicas
me são familiares. – falou sorrindo. – Toco lendo cifras
também.

Monica sorriu ao ver a empolgação da amiga.

- Então vamos, antes que o dono nos dispense.

Em poucos minutos já subiam ao palco, era um


pequeno tablado, mas cabiam todos. Ajeitaram os
instrumentos e começaram. Marina não sabia dizer o
quanto estava animada. O show começou e parecia que
haviam ensaiado há meses, tamanho o entrosamento.
Num dado momento Marina viu entrar uma mulher
morena, alta, cabelos lisos pretos, rosto marcante e
tinha um sorriso quase sarcástico. Estava acompanhada
de uma mulher ruiva e de outro casal. Sentaram num
canto onde dava pra ver perfeitamente o palco.
Estavam tocando samba de uma nota só, quando Lívia
falou:
- Ainda bem que é sexta, vou passar o final de semana
dormindo.
- Que isso linda, tem de aproveitar pra fazer outras
coisas que não dá tempo durante a semana. – Bianca
falou acariciando a mão de Lívia debaixo da mesa.
- Pois então, vou dormir. – Lívia retirou a mão.

Bianca não era propriamente sua namorada, era uma


distração. Era uma ruiva de cabelos volumosos, não
passava despercebida nos lugares, tinha os olhos
castanhos e mais ou menos um metro e setenta e
cinco. Quase da altura de Lívia, que tinha pra lá de um
e oitenta.

Fizeram os pedidos e só aí Lívia reparou que no grupo


que estava tocando havia agora uma menina. Ia
sempre naquele bar ver a banda, pois era amiga dos
músicos.

- Ué, venho sempre aqui e nunca vi aquela menina ali


tocando.
- Deve ser outro conjunto. – Carlos, que estava junto
comentou.
- Não é. Os meninos são os mesmos, eu conheço o
vocalista, ele é namorado do meu primo, aquele que
trabalha comigo no escritório. É um cara muito legal.
- Quem você não conhece Lívia? – Larissa brincou com
a morena.
- Conhece meio mundo e a outra metade quer conhecê-
la. – Bianca falava orgulhosa, como se Lívia fosse uma
artista de Hollywood.
Lívia ficou admirada ao ver a loirinha, se distraiu levada
pelo som da música que tocava na hora, olhava pra ela
e sentia como se a conhecesse. Ficou totalmente alheia
aos outros da mesa. Sempre ia naquele bar porque
gostava das músicas que o grupo tocava, mas naquele
dia parecia ter algo especial. Ficou reparando na
menina que tocava teclado, estava concentrada, séria,
mas ao mesmo tempo tinha um semblante triste ou
talvez preocupado.

Quando o show acabou os garotos levantaram pra


agradecer e Marina permaneceu sentada. Então
Eduardo falou ao microfone:
- Queria agradecer imensamente uma pessoa muito
especial que salvou nossa noite hoje. Marina, por favor,
levante-se.

Então Marina levantou e foi aí que seus olhos se


cruzaram com os de Lívia que a olhava intensamente;
era como se estivesse vendo alguém que conhecia há
muito tempo. Nem ouviu direito as palmas direcionadas
a ela. Sentiu uma coisa esquisita, não soube explicar,
mas parecia que dali para frente sua vida não seria
mais a mesma.

Desceram do pequeno palco e juntaram-se a Monica,


que tinha acompanhado o show, animada.

- Gente! Adorei! Marina, você estava ótima.


- Que é isso Monica. – a loirinha estava visivelmente
sem graça.
- Nossa! Você salvou a nossa noite. Quero muito te
agradecer. – disse Eduardo animado.

O dono do bar chamou o rapaz, pagou o cachê da noite


e combinou para o dia seguinte. Gostou tanto que
resolveu chamá-los novamente. Eduardo voltou
contente e falando:
- Que tem pra fazer amanhã à noite? – perguntou a
Marina.
- Nada, por quê?
- Porque nós temos outra apresentação, o dono
chamou mais uma vez. Normalmente ele só chama
uma vez na semana, mas achou tão boa a
apresentação que vai ter bis.
- Nossa que ótimo! – Monica estava empolgada, sabia
que aquilo seria a salvação da amiga.
- Bom, nem combinamos o seu cachê. Mas quanto você
cobra para tocar com a gente? – Eduardo parecia sem
graça.
- Normalmente vocês dividem o cachê?
- Sim.
- Está ótimo, nós dividimos ué.
- Sério?
- Claro.
- Mas você tocou de improviso, foi chamada de última
hora. Geralmente o povo daqui não cobraria barato.
- Olha, eu não vou me aproveitar do problema de vocês
pra dar um preço abusivo. Nós dividimos.
- Essa menina caiu do céu! – Pedro falou fazendo
gestos como se estivesse rezando.
- Então ta combinado pra amanhã?
- Claro, podem contar comigo.

Pediram algo para comer e beber, era por conta da


casa. Eduardo estava combinando o repertório do dia
seguinte com Marina e quando olhou para o lado viu
Lívia e foi até a mesa dela.

- Licença gente, já volto.

Chegou até a mesa para cumprimentá-la.

- Boa noite, tudo bom gente?


- Eduardo! O show foi ótimo. – Lívia falou elogiando-o.
– Sente-se um pouco.
- Nossa! Vocês nem imaginam o sufoco que passei
hoje. Nosso tecladista não apareceu e nem deu
satisfação. Quem nos salvou foi Marina.
- Ah sim, a mocinha que estava tocando. – Bianca falou
olhando para Marina na mesa mais distante.
- Ela mesma. Caiu do céu e na hora certa.
- Parece mesmo um anjo. – Lívia nem entendeu porque
falou aquilo. “Que coisa idiota Lívia!”
- E amanhã estamos de volta, o dono chamou pra outro
show.
- E o tecladista?
- Já era! Por motivos de força maior, Marina tomou o
lugar dele. – riu.
- É o mercado ta concorrido, senão andar na linha
acaba rodando.
– Bom, vocês me dão licença, preciso voltar pra minha
mesa.

Os garotos e as meninas saíram do bar deixando tudo


combinado para o dia seguinte. Quando estavam saindo
passaram pela mesa onde Lívia estava. Marina não
pode deixar de olhar, a morena chamava mesmo a
atenção. Olhou de canto de olho e nem soube por que
sorriu timidamente. Lívia, que também a viu, ficou
encantada com aquele gesto, sem também entender
por que.

Quando Marina chegou em casa estava radiante.

- Viu amiga, agora já tem um emprego. – Monica se


animava.
- Nossa! Essa foi a coincidência do ano. Ainda bem que
você me convidou pra sair.
- Eu sabia que ia render alguma coisa, meu sexto
sentido me avisou. – brincou.
- Sua boba.

Aquela noite Marina dormiu feliz, acordou no dia


seguinte animada. Pegou a lista de músicas que os
garotos lhe deram e repassou o repertório para a noite.
Monica que acordou pouco depois a viu repassando as
músicas.

- Ih, esse repertório vai gastar de tanto que você olha


pra ele.
- Estou repassando as músicas, algumas aqui eu não
sei tocar, vou ver se pego a partitura.
- Se tivéssemos um computador seria fácil.
- É verdade, mas isso é um acessório ainda distante da
nossa realidade.
- Quem sabe se formos juntando né?
- É, quem sabe...

A loirinha levantou da cama e se vestiu, foi até a rua


ligar para os pais e contar a novidade. Sua mãe a
princípio ficou preocupada dela tocando a noite e ainda
mais no Rio de Janeiro, mas quando disse que Monica
sempre a acompanharia, ficou mais tranquila. Disse ao
pai que não precisava mandar dinheiro por enquanto,
que se precisasse falaria. Depois foi até uma lan house
e pegou as partituras que precisava.

Monica passou o dia estudando umas músicas para a


próxima aula e Marina repassando, sem tocar, as
músicas. Apenas analisava as cifras e ajeitava tudo em
sua pasta. À tarde Eduardo passou no apartamento
delas e combinou um horário de buscá-las.

Lívia acordou cedo e deu uma geral no apartamento, a


faxineira havia faltado. Olhou no celular e viu que
Bianca havia ligado várias vezes, não quis atender e
resolveu desligá-lo. Queria sossego nesse final de
semana. Quando terminou a faxina foi assistir TV,
passava um filme antigo e isso lhe deu sono. Acabou
sonhando com uma loirinha pianista e quando acordou
tinha um sorriso nos lábios.
“Mas o que é isso!? Lívia deixa de ser ridícula, uma
mulher velha sonhando com crianças!”

Mesmo se distraindo, vez ou outra se lembrava daquela


garota e daquele sorriso tímido no final da noite.
Lembrou que no dia anterior Bianca fez de tudo para ir
até seu apartamento, mas ela não quis, não estava
afim e isso era raro acontecer. Lívia nunca negava um
pedido daqueles, mas por algum motivo havia perdido
à vontade. Não entendia porque ainda estava com
Bianca, sabia que não gostava dela. Já estava na hora
de trocar de parceira. Esse era o problema de Lívia,
nunca se prendia a ninguém, era apenas enquanto
durava a curiosidade e a paixão, em seguida trocava e
tudo começava de novo. Ficou analisando sua vida, não
sabia se estava no caminho certo, mas até então tudo
estava funcionando bem.

Lívia era promotora pública, havia estudado na Federal


do Rio e prestado concurso pouco depois que se
formou. Sempre foi uma excelente aluna e seu esforço
valera à pena. Saiu da periferia do Rio e mora hoje
numa cobertura duplex na Barra e tinha orgulho da sua
trajetória. Ajudava a família que morava no interior do
Rio, sua mãe e sua tia. Insistia para que a mãe fosse
morar com ela, mas nunca teve sucesso, então sempre
ia visitá-la. Estava quase anoitecendo quando decidiu
que não ficaria em casa. Saiu para dar uma volta e no
meio do caminho ligou para seu primo Fabrício.

- Fá, que vai fazer hoje?


- Vou a um barzinho...

- Você vai com essa roupa? – Monica estava incrédula


olhando para Marina,
- Que tem a minha roupa?
- Poxa amiga, você é a estrela da noite.

Marina achou graça.


- To falando sério. Tira isso, coloca uma roupa melhor.

Marina usava uma calça jeans, uma blusa branca e


sapatos baixos. Monica tanto perturbou que a loirinha
acabou colocando um vestido branco com detalhes em
rosa e uma rasteirinha combinando. Saíram, pois
Eduardo já estava esperando.

Sentados numa mesa próxima ao palco e conversando


animados, Eduardo falava empolgado, havia gostado de
Marina logo de cara.

- Sabe que gostei de você. Vamos nos dar bem.


- Espero que sim, ontem não pude agradecer, mas
vocês terem me chamado pra tocar, foi uma ajuda e
tanto. Estou precisando trabalhar.
- Agradecer? Marina, quem tem que agradecer sou eu.
Não é a primeira vez que nosso tecladista some, ele já
nos deixou na mão várias vezes.
- Não entendo isso. Sempre fui tão certa com minhas
coisas que não consigo imaginar. Já toquei até com um
dedo quebrado.
- Jura?
- Já e era o indicador, você sabe que isso para um
pianista é o fim da picada. – ela sorriu,
- Eu sei.
- Sempre lidei com músicos muito responsáveis, tive
essa sorte. Por isso não entendo.
- E acho que é por esse motivo que vamos nos dar
bem, você é tudo que precisávamos.
- Acho que rolou um clima ali. – Monica apontava para
Eduardo e Marina.

Hugo começou a rir.


- Claro, clima de que? Amizade não é?
- Não ué.
- Tem que ser, porque Eduardo é compromissado. E
olha o compromisso dele chegando ali.

Monica não entendeu. Nesse instante chegava Fabrício


acompanhado de Lívia. Marina até parou de respirar.
Ela estava lindíssima. Usava calça preta e uma blusa
sem mangas também preta, os cabelos soltos e a franja
penteada certinha, seus olhos realçavam por conta da
maquiagem.

- Boa noite. – Fabrício falou.


- Hei! Fá, quero te apresentar Marina, a tecladista que
te falei ontem.
- Menina, você está famosa. Eduardo falou tanto de
você ontem que minha curiosidade me fez vir aqui
hoje. – falou já puxando uma cadeira para se sentar e
outra para Lívia.
- Oi, prazer. Espero que tenha falado bem.
- Nossa, muitíssimo bem. Antes que ela me chame de
mal educado, gente, essa é Lívia, minha prima.
- Muito prazer. – ela falou séria.

A voz dela era rouca e incisiva, Marina achou mais


fascinante. Sua sorte era que discrição era sua maior
qualidade e pode se controlar e não olhar tanto para a
morena.

De cara Marina viu que Fabrício e Eduardo eram


namorados, só Monica que não tinha entendido ainda.

- Amiga, achei que rolou um clima.


- Que clima Monica?
- Entre você e Dudu.
- Dudu? Que intimidade é essa?
- Ele bonitinho amiga.
- Monica, ele é gay.
- Que?
- Gay Monica. Pessoa que gosta de outra do mesmo
sexo.
- Eu sei o que é, mas não percebi.
- Porque você é sonsa demais. Eles formam um casal
bonito.
- Só você pra falar uma coisa dessas.
- Ué, é o que eu acho.
- Ta eu não tenho nada contra, mas daí a achar bonito,
também não acho.

Marina sabia que Monica tolerava bem a


homossexualidade, mas somente à distância. Por isso
mesmo nunca havia falado de suas preferências
sexuais, pois nem ela mesma sabia direito qual era.
Marina sempre entendeu o fato de que há amigos e
amigos, uns pra desabafar, outros pra agitação, outros
para profissão e Monica era a amiga animada e que
tinha os mesmos ideais, mas de confidência amorosa
ela não era a pessoa certa, não para Marina. Estava
pensativa quando uma voz a chamou de volta.

- Você toca faz muito tempo? – era Lívia.


- Oi, é... sim, me formei em piano clássico, estudei
doze anos. Depois decidi seguir carreira e estou
fazendo faculdade.
- Está estudando onde?
- Na federal.
- Ah sim, estudei lá também.
- Você é musicista? – Marina perguntou um tanto
espantada.
- Não. – Lívia sorriu. – Estudei direito.
- Ah...
- Você é de onde Marina?
- Eu sou de... como sabe meu nome?!
- Eu estava aqui ontem quando tocou com os meninos,
Eduardo apresentou você.
- Ah é verdade.
- Você não se lembra de mim? Me viu quando estava
saindo. Até sorriu. – Lívia foi incisiva.
- É... eu... é verdade.
- Esqueceu...
- Não. Eu apenas... ah deixa. – Marina estava vermelha
e suas bochechas pareciam pegar fogo.

Pra sua sorte Eduardo chamou.


- Vamos, o dono fez sinal ali que pode começar.
- Licença. – Marina falou com Lívia.

Num impulso a morena segurou a mão da loirinha,


sentiram um arrepio tão forte que Marina se virou
assustada e Lívia quase gaguejou ao falar.

- Toca... Você pode tocar uma música pra mim?


- Toco. – Marina sorriu.
- Qual?
- Você vai saber.

Subiram e o show começou. Nessa noite fariam em


duas partes, tocariam por uma hora e meia, dariam um
intervalo e depois mais uma hora. Faltando pouco pra
terminar a primeira parte começaram a tocar Wave.
Marina olhou para Lívia e sorriu. Imediatamente a
morena soube o motivo. Timidamente a loirinha olhava,
mas não perdia a concentração no que fazia. Minutos
depois a banda deu a pausa para o intervalo. Voltaram
à mesa e a primeira a falar foi Monica:
- Adorei! Má, Wave ficou linda, e olha que você pegou
ela hoje.
- Nunca tinha tocado? – Hugo perguntou.
- Não, eu sempre a escuto, mas nunca tive a
oportunidade de tocar, hoje de tarde peguei a partitura,
mas tocar mesmo, aqui foi a primeira vez.
- Ficou ótima.
- Qual é seu forte, Marina? – Pedro perguntou.
- Sabe que não sei ainda. Sempre pendi mais para o
erudito, mas confesso que gosto da música popular
brasileira. Ainda não defini.
- Está tendo aulas com quem?
- Marconi.
- Nossa, ele vai te engolir. – Eduardo brincou.
- Por quê?
- Ele é exigente, mas é um dos melhores. Antes dele só
a Vera, mas ela só pega veterano do terceiro ano em
diante.
- Eu tenho me esforçado para ser boa aluna.
- Você tem piano em casa?
- Aqui não. Em São Paulo sim.
- Onde você estuda aqui?
- Na faculdade mesmo, eu marco horário.
- Em casa é melhor, estuda a hora que quer.
- Eu sei, mas ainda não tenho condições de ter um
piano em casa.
- Por isso eu toco transversa, posso carregar pra todo
lado. – Monica brincou.
- Estou no mesmo barco que Marina, andar com uma
bateria nas costas é bem complicado. – Pedro sorriu.
- Adorei a música. – Lívia falou tocando o braço de
Marina.
- Achou que eu ia esquecer? Lembrei do seu pedido no
último minuto.
- Sim, ficou linda.
- Eu adoro Wave, é uma das minhas favoritas.
- Não estava me referindo só à música.

Marina quase desmaiou. O olhar de Lívia era


indescritível.

- Vamos voltar?
- Já? – Lívia estava quase indignada.
- Sim, o dono daqui não gosta de intervalos longos.

Voltaram e recomeçaram com um clássico de Tom


Jobim, Luisa. Marina estava tão contente de poder
tocar que se animava improvisando nas músicas,
deixando os garotos felizes.

- Você tem certeza que vai pegar essa garota? –


Fabrício falou com Lívia.
- Do que você está falando?
- Eu não nasci ontem e sei bem o que você quer com
ela. Não acha uma judiação isso? Ela é nova Lívia, não
é da cidade, mora há pouco tempo aqui. Nem sabe
direito das coisas.
- Ela é linda.
- Mas não é nem o seu tipo. Tem cara de criança ainda,
e você gosta do tipo mulher fatal.
- Talvez queira diversificar.
- Ta de sacanagem né?
- Ela parece legal, gostei mesmo dela.
- Ahan. Olha lá o que vai fazer. Marina parece ser super
gente boa.
- Ok.

Lívia não quis discutir, se limitou a apreciar Marina


tocando, parecia um predador observando a caça.

Quando o show acabou o dono veio para pagar o cachê


e combinou de voltarem toda semana na sexta e no
sábado por um mês.

- Marina você nos deu sorte. – Eduardo falou


entusiasmado.
- Que isso gente. Todo bom trabalho é reconhecido.
- Bom, nem preciso falar que você já é da banda.
- Sim, um acorde novo! – Hugo brincou.

Na hora de ir embora, Eduardo voltou com Fabrício.


Hugo e Pedro estavam de carro, mas por conta dos
instrumentos só cabia mais um e Monica ia com eles.
Pra desespero de Marina, a única pessoa disponível
para levá-la era Lívia.
- Eu posso ir de ônibus, não tem problema. Monica vai
comigo.
- Que isso ficou doida. Se tem carona vamos
aproveitar. Ônibus há essa hora é perigoso. E não
moramos perto.
- Ela tem razão, isso não é hora de andar por aí em
ônibus. Ainda mais você com essa carinha de anjo. –
Lívia falou em tom sério.

Saíram do bar e foram pra casa. Marina entrou no carro


de Lívia um pouco acanhada. Era um Audi A8, preto.
Nunca vira um daqueles.

- Você mora aonde?


- Na Tijuca.
- Ok. – Lívia ligou o carro e saíram. – Então agora vou
te ver todas as sextas e sábados.
- Oi?
- Vocês vão tocar toda sexta e sábado. Vou lá te ver.
- Só me ver?
- Eu gosto dos garotos também.
- Ah bom.
- Mas você deu um gostinho todo especial à banda.
- Imagina.
- Falo sério.
- Obrigada então. Eu gostei muito de tocar com eles e
preciso tocar também para me manter aqui no Rio.
- Morar no Rio de Janeiro é ótimo, mas o custo de vida
aqui realmente é muito caro.
- Eu que o diga, sair do interior e vir pra cá é uma
mudança e tanto.
- Você deve ter deixado muita coisa pra trás... família,
namorado, amigos.
- Sim, família, amigos, mas namorado não.
- Está solteira então?
- Sim, estudo e namoro são coisas que não combinam
na minha cabeça.
- Já namorou antes?
- Já.
- Que pergunta idiota, com esse rostinho lindo, com
certeza deve ter namorado e muito.
- Nem tanto quanto imagina, eu sempre fui de namorar
e não de ficar. Meus namoros duraram muito, daí tive
poucos.
- Entendo.

Foram chegando perto do apartamento de Marina.

- Vou deixar meu cartão com telefone, me ligue e


vamos combinar de sair ou ir à minha casa. Você e sua
amiga.
- Obrigada. E agradeço a carona também.
- Foi um prazer vir conversando com você.

Lívia a olhava tão de perto que Marina quase tropeçou


pra sair do carro. Rapidamente fechou a porta e entrou
no prédio. Quando entrou no apartamento Monica
estava saindo da cozinha.

- Que demora! Saíram junto com a gente.


- Ela dirige devagar.
- Também com aquele carrão! Se fosse meu andava a
vinte por hora.
- Boba. – Marina sorriu. – O carro é bonitão mesmo,
cheio de botões.
- Ela é muito rica, diz Hugo que ela é promotora.
- Sim, ela disse que estudou direito.
- Cheia da grana, não está como nós que escolhemos o
caminho da música. Seremos pobres a vida toda. –
Monica fez um falso drama.
- E você está reclamando?!
- Que nada, eu adoro essa minha vida.
- Também gosto dessa vidinha mais ou menos, mesmo
que eu não ganhe muito dinheiro. Tendo pra viver, ta
bom.
As duas foram dormir. Marina sonhou a noite toda com
Lívia, acordou até confusa. Foi ao banheiro e tomou um
banho frio para espairecer. As duas passaram o
domingo em casa descansando e estudando pra uma
prova que teriam no meio da semana.

Logo na segunda cedo Eduardo foi até a faculdade falar


com Marina.

- Hei menina, precisamos conversar. – ele estava sério.


- Sim, o que foi?
- Bom, temos show na sexta e precisamos ensaiar
umas músicas.
- Tudo bem, mas pela sua cara não é só isso.
- Temos um problema. Como você sabe, dispensamos
nosso tecladista.
- Sim.
- Ele é dono do teclado. Aquele que você usou nas duas
apresentações.
- Entendo, e ele o quer de volta não é?
- É. Precisamos de outro e eu não sei com quem pegar.
Quase ninguém gosta de emprestar.
- Bom, eu não conheço muita gente ainda, mas posso
perguntar ao Marconi.
- Já falei com ele, mas não tive sucesso. Ficaria muito
difícil você comprar um teclado, mesmo que simples?
- Nossa. Bom eu não sei, porque estou aqui faz pouco
tempo e o dinheiro que ganhei das duas apresentações
eu estou usando para despesas. – Marina explicou toda
sua situação e de sua família.
- Como vamos fazer? – Eduardo parecia aflito.
- Calma, vou conversar com Monica, ela conhece
bastante gente.
- Me liga então amanhã.

Em casa, mais a noite, as duas conversaram.

- Eu te empresto, falo com meu pai e você vai me


pagando devagar. Não precisa comprar um top de
linha, pode comprar até usado. Já vi até anúncios de
venda de teclados na faculdade.
- Será que isso vai dar certo?
- Claro que vai amiga.

No dia seguinte as duas olharam os anúncios e


pegaram os endereços e telefones. Foram a alguns
lugares e os teclados melhores estavam muito caros e
os mais em conta não estavam bons.

- Achei aquele penúltimo o melhorzinho. – Marina falou


meio desanimada.
- É, o cara disse que divide.
- Vou falar com Eduardo.

Marina ligou para o rapaz e falou sobre a compra. No


dia seguinte os dois foram até o local para que ele
olhasse também o instrumento.

- Não é lá grande coisa, mas acho que quebra o galho.

Compraram e levaram para o ensaio. Funcionou muito


bem, Marina conseguiu com Marconi um pedal de
volume e sustain para dar mais expressão às músicas.

- Acho que vou perder minha aluna para o popular. –


Falou o professor desolado.
- Que isso Marconi. Estou feliz porque to trabalhando.
- Eu sei minha querida, mas quem entra nesse mundo
dificilmente sai ileso.
- Seu bobo. Com o teclado, poderei treinar mais
exercícios de mecanismo em casa. Ficarei mais rápida.
- Se seus dedos ficarem mais rápidos, as teclas vão
correr de você. – brincou.

Na sexta-feira estavam todos prontos para começar,


menos Marina, pois seu teclado não queria ligar.
- Acho que o problema está no plug.
- Vamos olhar. – Eduardo examinou e viu que tinha um
mau contato. Passaram uma fita e voltou a funcionar.

Aquilo deixou a loirinha insegura, pois se balançasse


muito, poderia soltar novamente. Passou o show tensa
e quando acabou a primeira coisa que falou.

- O moço me enganou, disse que o teclado estava em


perfeitas condições.
- Eles sempre falam isso.
- Calma amiga, daqui a algum tempo você terá um
novinho.

Lívia que desta vez estava em uma mesa ao lado, não


quis se juntar aos músicos para não dar bandeira.
Escutou mais ou menos a conversa e perguntou a
Fabrício o que era.

- Parece que Marina teve que comprar um teclado às


pressas e o dinheiro só deu praquele ali.
- Sei...
- Que cara é essa?
- Nada. Fabrício quer parar com isso! Não fiz nada!
- Ainda né.

Quando o show acabou Lívia já tinha saído. Marina


quase não conseguiu esconder a decepção. Voltou para
casa pensativa.

No dia seguinte a loirinha acordou cedo para olhar o


problema no teclado. Mexeu, fuçou, mas não quis
insistir com medo de piorar ainda mais. À noite quando
chegou ao bar estavam todos esperando com umas
caras animadas.

- Que caras! Alguém ganhou na loteria?


- Não! Você ganhou! – Eduardo sorria.
- Eu? Por quê?

Eduardo se afastou mostrando a Marina o teclado novo


já colocado no palco.

- Que é isso?
- Ué, achei que soubesse o que era.
- Besta! Eu digo, porque tem um teclado novo ali?
- Não sabemos, diz o dono do bar que fizeram essa
entrega hoje à tarde em seu nome. Marina Calleguer é
você, não é?
- Sim. Mas...
- Graças a Deus, eu estava com medo daquele outro
teclado.

Marina não entendeu nada. Queria saber se Monica


tinha algo a ver com aquilo, mas ela não tinha
chegado. Estava tocando em um casamento e de lá iria
para o bar. Meio desconfiada, subiu ao palco para olhar
o instrumento e o ligou. Testou os sons, os pedais,
também novos e sorriu. Não sabia por qual motivo
aquele teclado estava ali, mas aproveitou pra usufruir,
afinal era novinho.

Ao telefone Fabrício, do lado de fora do bar, falava com


sua prima:
- Até onde você está metida nisso?
- Do que se trata?
- Não se faz de boba. Você está apelando.
- Não sei do que você fala.
- Lívia, você está na profissão certa, pois nunca vi
ninguém mentir com tanta facilidade.
- Não estou mentindo, só não sei do que você está
falando.
- Desse teclado novinho que deu de presente pra
Marina.
A morena se limitou a rir ao telefone e desligou.

O show começou e notava-se à distância a felicidade de


Marina. Estava contente pelo instrumento novo, mesmo
não sabendo de onde viera. No intervalo Fabrício
chamou Eduardo para conversar.

- Já sei de onde veio esse teclado.


- De onde?
- Lívia.
- Por que será que não estou surpreso? Eu a vi
conversando com Marina na semana passada, senti que
estava interessada.
- Era bom avisar a menina, você sabe como Lívia é.
Marina vem do interior, não sabemos o que se passa
naquela cabecinha. Podia falar sobre nós, depois fale
sobre Lívia.
- No intervalo vou ver se consigo conversar com ela.
- É melhor.

Nesse instante Lívia apareceu. Estava lindíssima e


chegando do trabalho, vestida impecavelmente.

- Um suco de limão, por favor.


- Não prefere algo mais doce? – Marina se aproximou
sorrindo.
- Claro que prefiro. – olhou a loirinha de cima a baixo. -
Mas limão acalma e refresca minha cabeça. Não vi a
primeira parte do show, mas cheguei a tempo para a
segunda.
- Que bom, daqui a pouco voltamos.
- Sente-se. Está com um brilho nos olhos, o que
aconteceu?
- Bom, eu estou feliz mesmo. Parece que as coisas
estão dando certo pra mim.
- Fico feliz.

O papo engatou e rendeu. Marina falou das músicas


que gostava e Lívia também.

- Marina, preciso falar com você. – Eduardo se


aproximou. – Oi Lívia. – saiu puxando a loirinha com
ele.
- Que foi? Ta com pressa?
- Senta aqui, vamos conversar.
- Aconteceu alguma coisa?
- Ainda não, mas vai. Marina, preste bem atenção no
que vou te falar. Você sabe que em cidade grande se
vê de tudo, não é?
- Sim.
- Então, há relacionamentos um pouco diferentes,
como...
- Relacionamentos gays?
- Isso, boa menina.
- E daí?
- E daí que eu queria falar sobre Fabrício e...
- E você. Que são namorados.
- Como é que você sabe?
- Eduardo, só um cego não vê. Aliás, só Monica que não
viu, porque é sonsa demais. Eu notei no dia que
conheci Fabrício.
- Nossa, achei que essa conversa ia ser mais difícil.
- Era sobre isso que queria conversar?
- Também, a outra coisa é sobre Lívia. Eu a conheço
desde que comecei a namorar Fabrício e isso tem certo
tempo. Ela é uma excelente pessoa, mas não esquenta
cadeira. Você me entende?
- Não. – a loirinha parecia confusa.
- Ela não mantém um relacionamento por muito tempo.
Sempre está com uma pessoa diferente, Lívia não se
envolve. O que vale pra ela é apenas a conquista,
depois disso ela descarta.

Marina o olhava de olhos arregalados.

- Não te conheço ainda, nem sei das suas preferências


sexuais, mas sei que Lívia joga pesado quando quer
conquistar alguém. E não sei por qual motivo, você caiu
nas graças dela.
- Mas eu não... – Marina estava confusa.
- Só estou avisando para tomar cuidado com ela. Lívia
come pelas beiradas e quando a pessoa vê já se
envolveu. Quem você acha que colocou aquele teclado
novinho ali?
- Foi ela?
- Foi e isso é um jogo para te conquistar.
- Então vou devolver. Ninguém me conquista com
presentes. De fato estou precisando, mas não é bem
assim que as coisas funcionam comigo.

Quando Marina ia falar com Lívia, Hugo apareceu


dizendo que era pra voltar a tocar. Então ela ponderou
e deixou a conversa para depois.

Estavam pelo meio da apresentação quando Monica


chegou e procurou uma mesa para sentar, não achou,
foi então que avistou Fabrício a chamando e sentou-se
à mesa com ele e a morena.

- Quase não chego. O casamento atrasou, ô noiva


folgada.

Os dois acharam graça da menina.

- Você conhece Marina desde quando? – Lívia


perguntou curiosa.
- Desde que começamos a estudar música, com sete
anos.
- Nossa, desde a infância juntas.
- Sim. Marina é minha companheira de todas as notas.
– Monica brincou.
- Ela parece ser muito legal. – Fabrício falou olhando
intencionalmente para Lívia.
- É sim. Marina é uma pessoa muito boa, ingênua às
vezes. Tem um coração de ouro, toda a família dela é
assim. O pai dela é uma das melhores pessoas que
conheço.
- Ele faz o que?
- Eles têm sítio, mas Marina mora na cidade com a mãe
e o irmão mais velho.

Lívia ouvia a história e ficava mais encantada.

- É impressão minha ou aquele teclado é outro?


- Não é impressão, é outro mesmo. – Fabrício falou
olhando feio dessa vez para Lívia.
- Ué, não entendi.
- Fabrício me falou sobre o problema com o outro
teclado e resolvi ajudar. Foi um presente para a banda.
– Lívia inventou essa de última hora.
- Nossa que maravilha. Marina deve estar radiante, ela
sempre quis ter um teclado, mas são caros e nunca
dava pra comprar. No seu último aniversário, seu pai
lhe prometeu um de presente, mas tiveram problemas
com o irmão mais velho e o dinheiro que era para o
instrumento, teve que ser usado para pagar contas
atrasadas do irmão.
- Nossa que chato.
- Ah, ela aceitou na boa.

Lívia se comoveu, percebeu então que tinha feito a


coisa certa.

Quando o show acabou Monica subiu ao palco para ver


o teclado novo.

- Ma, é fantástico. Deve ter sido caríssimo.


- Provavelmente. – A loirinha estava séria.
- Lívia disse que foi uma ajuda para a banda, que gosta
muito de Eduardo e quis dar uma força. Belo presente.

Aquilo desconsertou Marina. Ficou mais confusa ainda.


Seria presente para a banda ou para ela? Quando
desceu do pequeno tablado viu que Lívia tinha ido ao
banheiro e foi atrás. A esperou sair e quando ela
apareceu na porta a chamou.

- Podemos conversar?
- Claro meu anjo.
- Por que essa de dar o teclado para a banda?
- Vocês estavam precisando, não estavam? Só quis
ajudar um amigo. Gosto muito de Eduardo.

Marina achou que ela fosse falar que o presente era pra
ela.

- Agradeço a força então, realmente está ajudando


muito.
- Imagine, faria novamente se precisasse. E você
estava linda tocando hoje.

A loirinha sentiu o sangue invadir suas bochechas.

- Obrigada. – baixou a cabeça envergonhada.


- Tímida fica mais linda ainda. – Lívia atreveu um
carinho no rosto dela.
- Preciso voltar pra mesa dos meninos.

Quando chegou lá, ouviu o dono do bar conversando


animado.

- Tem um pessoal ali numa mesa pedindo pra tocar


chorinho, vocês tocam?
- Infelizmente não. Podemos tentar para uma próxima
apresentação.
- Eu toco com Marina, fazíamos dupla na escola em São
Paulo.
- Isso, vamos relembrar os velhos tempos.

As duas voltaram ao palco e arrasaram. Tocaram


Chiquinha Gonzaga, Waldir Azevedo, Pixinguinha,
Ernesto Nazaré e terminaram com Patápio Silva. Foram
aplaudidas de pé. Até quem não conhecia o gênero da
música gostou. Quando desceram do palco os garotos
estavam eufóricos.

- Monica, vamos te contratar hein. – Hugo se animou.


- Estou à disposição. – a menina sorriu.

Quando Marina sentou a primeira coisa que ouviu atrás


de si foi Lívia falando com voz quase sensual.

- Como pode ficar mais linda?

Marina somente olhou de soslaio e se virou, estava


confusa e não gostava de se sentir assim. Inventou
uma desculpa e foi embora mais cedo. Pediu a Eduardo
que levasse o teclado para a casa dele e ela levou o seu
velho para casa. Monica quis ficar porque estava de
papo com Hugo.

No domingo cedo Marina levantou e não viu Monica em


casa. Achou aquilo esquisito, como não tinha telefone
em casa nem celular... Mudou a roupa e saiu pra ligar
para Eduardo de um orelhão.

- Eduardo, você sabe da Monica?


- Sei, saiu com Hugo ontem.
- Ah, nem precisa falar mais nada. – Marina riu,
fazendo Eduardo rir também.
- Ela ta bem, pode ficar tranquila, Hugo é um cara
legal.

Quando voltava pra casa encontrou a amiga na porta


do prédio.

- Ê mulher! A noite rendeu?


- Amiga, nem te conto. Aliás, conto. – Monica contou
que tinham saído pra andar na praia, conversa vai
conversa vem acabaram ficando. A coisa esquentou e
ela foi pra casa dele. Hugo morava sozinho.
- E aí?
- Menina, e aí que nada aconteceu. Acho que ele
percebeu que eu fiquei constrangida, afinal, no primeiro
encontro já avançar o sinal...
- Nossa, esse cara é uma raridade. Já não se fazem
homens assim.
- Ele é tão romântico. – Monica estava maravilhada. –
Vim só tomar um banho e vou voltar pra almoçar com
ele, você não quer vir?
- Não, vou ficar em casa e mexer naquele outro
teclado. Se der eu vou usá-lo para treinar em casa.
- Por que não trouxe o novo?
- Ah não, é da banda e eu não quero mexer. Esse me
atende.
- Ai, ai... – Monica revirou os olhos.

Marina estava estudando quando o interfone tocou.


Pensou que seria Monica voltando do encontro, mas se
enganou.

- Oi Marina, sou eu Lívia.

Marina estranhou ao mesmo tempo em que ficou feliz.

- Oi, pode subir.

O prédio não era grande, tinha apenas quatro andares


e não tinha elevador. Marina morava no quarto andar.

- Nossa, preciso fazer mais exercícios. – Lívia chegou


um tanto ofegante. – Estou fora de forma.
- Que nada, você está ótima. Entra, fique à vontade.

Lívia usava uma calça jeans e uma blusa preta, os


cabelos estavam soltos e lhe caíam até o meio das
costas. Usava tênis e isso lhe deu um aspecto mais
jovial. Ficou reparando no apartamento, mas
discretamente. O lugar era simples. Tinha uma cozinha
americana, a sala não era muito grande, mas era
aconchegante.

- Gostei do “apê”.
- É pequeno, mas dá pra nós duas. Monica fica naquele
quarto e eu nesse. – Marina apontou.
- Posso ver seu quarto? – a morena perguntou
sorrindo.
- Pode.

Entraram e Lívia pode ver que Marina era uma pessoa


realmente simples. A cama estava encostada na parede
e com as almofadas, mais parecia um sofá. Tinha uma
pequena mesa no canto e um guarda roupa com três
portas. O teclado estava num outro canto ligado.

- Estava tocando? Cadê o novo? – Lívia se referiu ao


outro instrumento que havia comprado.
- Deixei com Eduardo e sim, estava estudando. Não
para a banda, mas lendo uma partitura para a próxima
aula.
- Posso ouvir?
- Ainda estou lendo, não é nada bonito de se ouvir.
- Ah, me deixa ouvir, gosto de ver você tocando.

Marina estava acanhada, mas atendeu ao pedido. O


que lia era uma Fuga de Bach a quatro vozes. Lívia
ouvia atenta e parecia querer devorar a loirinha com os
olhos. Quando Marina parou a morena sorriu.

- Está bonito, eu gosto de Bach.


- Como sabe que é Bach?
- Ei, eu também escuto música erudita. Já ouvi Eduardo
tocando no violão.
- Olha, não sabia que ele gostava de Bach.
- Ele gosta, mas sua paixão é MPB.
- Eu também. Por isso me dei bem com ele.
- Esse banco que você está não é ruim? – Lívia se
referia a um tamborete em que Marina estava sentada.
- Não é lá muito bom, mas quebra o galho. Ta bom
demais, antes pra estudar era só na faculdade. Agora
eu estudo também em casa e é bem mais cômodo.
Posso estudar até mais a noite se quiser, coloco o fone
e toco sem incomodar ninguém.
- Isso é bom.
- Não é o mesmo que piano, pois as teclas são
diferentes. Essas são mais leves, mas já está bom
demais. – a loirinha falou sorrindo.

Lívia a achou linda. Tinha uma expressão tranquila e


delicada.

- Olha, estou com uma música aqui para tocar, os


meninos pediram uma seleção de Djavan. Você gosta?
- Adoro!
- Então, estou olhando aqui, alguns acordes são
difíceis, confesso que sou péssima com os diminutos,
mas Djavan compensa.
- O que vai tocar?
- Pensei em Lilás, Linha do Equador, Flor de Lis e claro,
Oceano.
- Já sabe tocar alguma?
- Estava olhando Oceano, mas ainda não está toda
pronta.
- Toque o que já sabe, deixa ver como está.

Marina então tocou o refrão, como eram só cifras, para


dar uma noção melhor, arriscou cantar baixinho.

Amar é um deserto
E seus temores
Vida que vai na sela
Dessas dores
Não sabe voltar
Me dá teu calor...
Vem me fazer feliz
Porque eu te amo
Você deságua em mim
E eu oceano
E esqueço que amar
É quase uma dor...”

- Bom, é por aí, ainda falta muito pra acertar.

Lívia estava hipnotizada. Parecia ouvir o canto de um


anjo.

- Hei tudo bem? Ta tão ruim assim que você ficou


muda?
- Não eu... eu... estou surpresa. Nunca vi ninguém
tocando com tanta paixão. Parece que você está
colocando sua alma, como se quisesse se mostrar mais.

Nunca ninguém tinha falado aquilo com Marina. Para


ela música realmente era o espelho da sua alma. Tudo
que sentia conseguia transmitir por notas musicais,
mas poucas pessoas reparavam nisso.

- Eu só tento passar para os outros o que a música


realmente significa pra mim. – baixou a cabeça
timidamente.
- E faz isso muito bem. Você vai seguir carreira?
- Não sei. Sinceramente, não me vejo tocando em
orquestra. Nem dando aula. Eu gosto mesmo de criar
arranjos, recriar composições. Gosto de trabalhar em
equipe. Piano solo é uma coisa que me soa estranho.
- De repente você dá certo como arranjadora ou
produtora musical.
- Quem sabe não é? Enquanto isso estou estudando e
dando o meu melhor.
- Bom, deve estar achando estranho a minha visita. Eu
vim aqui pra te chamar pra almoçar. Quer?

Marina pensou bem. Almoçar fora não estava nos seus


planos, até porque Lívia a levaria a um restaurante caro
e ela não tinha dinheiro para isso.

- Bom, eu não sei...


- Aceite, por favor. O lugar é lindo e você vai adorar.
- É que eu não... bom... – queria dizer o motivo, mas
estava sem graça.
- Eu convido e eu pago. Aceite vai. – Lívia pedia como
um cachorro pedia por comida.
- Tudo bem, vou trocar de roupa.

Pegou uma roupa mais ou menos como a de Lívia,


imaginou que se ela estava de jeans e tênis, não
deveria ser nada chique.

Ao saírem do prédio Marina meio que procurou o carro


de Lívia e não o viu, até que a morena apertou um
controle que estava na mão e o alarme soou fazendo a
loirinha olhar. Era um Chrysler conversível. Arregalou
os olhos nem disfarçando o espanto.

- Capota fechada ou aberta? – a morena perguntou


com um sorriso meio sarcástico.
- Tanto faz.
- Então será aberta, assim você aproveita o sol.

Marina entrou no carro até com medo de sentar. Ficou


pensando em quantos carros teria aquela mulher.

- Não pense que tenho uma coleção deles. É só esse e


o outro. – Lívia pareceu adivinhar seus pensamentos.
- Ah não, eu nem pensei nada. – a loirinha tentou
disfarçar.

Praticamente foram em silêncio para o restaurante,


sorte que não demorou. Era no alto da Boa Vista.
Chegaram e se sentaram a uma mesa que ficava do
lado de fora do restaurante, dando uma vista para a
floresta da Tijuca. O restaurante não estava cheio e
isso deu mais comodidade às duas.

- Bonito aqui.
- Eu adoro, é calmo e posso almoçar sossegada. Você
conhece quais lugares do Rio?
- Nenhum, ta bom pra você? – Marina sorriu.
- Jura? Ah então vamos combinar de dar um passeio
depois. Assim posso te mostrar o que tem de bom na
cidade maravilhosa.
- Combinado. Eu sempre gostei do Rio, mas nunca tive
muita oportunidade de passear aqui por conta da
distância da minha cidade.
- Você conhece mais lugares do país?
- Não muito. Somente perto mesmo da minha cidade. E
em Pinheiro Machado, pois a família de minha mãe é de
lá.
- Onde fica isso?
- Rio Grande do sul.
- Tem no mapa?
- Tem. – Marina sorria divertida com a cara de Lívia.
- Seu sorriso é lindo, devia sorrir mais. – a morena a
encarou.
- Eu sorrio. Não? – a loira questionou.
- Quando toca fica séria, concentrada, chega a fazer
um bico. Que eu particularmente acho lindo, mas que
fica séria você fica.
- É porque eu não gosto de errar, se me distrair posso
perder o fio da meada. Vou tentar sorrir mais, senão
vou parecer antipática.
- Você fica linda de qualquer jeito.

Lívia estava atacando de todos os lados.

- Mas pode parecer antipatia.


- Nem se fizer muito esforço ficará antipática. Eu que
pareço antipática. Quando entro num tribunal o chão
até treme de tão feia que é minha cara. Todo dia
quando acordo o diabo pensa: Nossa! Ela acordou!

Marina sorriu.

- Você não me pareceu ser assim. De fato é séria, mas


tem seu lado divertido.
- Que poucos conhecem.
- Então sou privilegiada.
- Pode apostar. Vamos pedir?
- Sim.

Pediam e enquanto aguardavam o garçom trouxe uma


garrafa de vinho.

- Você bebe?
- Raramente. Fico meio leve quando bebo.

Lívia sorriu.

- Então vou pedir outra coisa.


- Não, tudo bem, eu te acompanho, mas só tomo essa
taça, é o meu limite.
- Está gostando da faculdade Marina? – Lívia perguntou
e serviu o vinho ao mesmo tempo.
- Estou, no começo estranhei um pouco. Meu professor
é muito exigente.
- Assim que é bom.
- Eu sei, minha professora em São Paulo também era.
- E você é de onde? Te perguntei naquele dia e você
não me respondeu?
- É verdade, eu tive que sair rápido pra voltar a tocar.
Sou de Jaú, interior de São Paulo. Essa tem no mapa.

Lívia achou graça.


- Sim, conheço Jaú. É famosa pela produção de
sapatos.
- Isso aí.
- Você mora com seus pais.
- Sim e não. Meu pai passa a maior parte do tempo no
sítio. Eu moro com minha mãe na cidade. Mas ele vai
pra cidade todo final de semana ou nós vamos para o
sítio. Meu pai é produtor de cana.
- Ah sim. E você gosta de ficar no sítio?
- Às vezes sim, não se tem muito que fazer, mas é bom
pela tranquilidade.
-Tem irmãos?
- Sim, um irmão mais velho, já é casado e tem uma
filha. Já sou tia. – Marina sorriu.
- Olha que legal. E você gosta de ser tia?
- Adoro! Faço qualquer coisa por ela. É o amor da
minha vida. Sou tia coruja.
-Eu não serei tia.
- Por quê?
- Sou filha única.
- Ah sim. Sua família mora no Rio?
- Não na capital, mas no interior também. Visconde de
Mauá... é região serrana.
- Já ouvi falar, dizem que é lindo.
- Vou pra lá alguns finais de semana. Esse não fui
porque minha mãe saiu em viagem com algumas
amigas.
- Ser filha única tem suas vantagens. Não tem irmão
para pegar no seu pé.
- Seu irmão faz isso?
- Às vezes, agora que casou nem tanto, mas antes era
um saco. – Marina falou revirando os olhos. – Mas eu
gosto dele.
- Minha mãe, depois que me teve, precisou tirar o útero
por conta de complicações no parto. Também ela não
teria mais filhos, já que assumiu a gravidez sozinha.
Meu pai se mandou.
- Nossa.
- Minha mãe me criou sozinha, morávamos aqui no Rio.
Ela só se mudou pra Mauá porque uma irmã de minha
avó morava lá com a filha. Então fica melhor perto da
família, mas isso foi depois que saí da faculdade.
Enquanto não me formei ela ficou do meu lado.
Passamos muita dificuldade aqui. Graças a Deus, hoje
posso dar a ela o que precisa.

Lívia não sabia nem porque tinha contado sobre a vida


dela para Marina. Não agia assim, não dava detalhes da
sua história. Parou de falar e abaixou a cabeça.

- Que bom que você pode fazer isso, família é o nosso


principal alicerce. Sem eles não temos nada de
concreto nesse mundo. – Falou acariciando as mãos de
Lívia, que estavam em cima da mesa. - Sinto saudade
dos meus pais, só poderei vê-los daqui um mês.
- É longe?
- Mais ou menos, pego um ônibus para a capital e
depois outro para Jaú. Mas a grana também não ajuda,
não posso ficar indo e vindo porque a passagem é cara.
- Entendo.
- Graças a Deus Eduardo me chamou para tocar com
eles. Bendito tecladista irresponsável que eles tinham.
– Marina brincou. – Agora com o dinheiro que ganho
dos shows posso me manter aqui. Infelizmente meus
pais não podem me ajudar.

Conversavam enquanto almoçavam, Marina falou sobre


sua vida no interior e contou histórias sobre a escola de
música e de quando fazia apresentações, falou das
dificuldades que a família enfrentava e o sacrifício que
os pais fizeram para que ela viesse para o Rio. Lívia
falou do seu trabalho e de alguns casos que já pegara
no tribunal. Ao término a morena insistiu para pedirem
sobremesa, nem estava com fome, mas queria passar
mais tempo com Marina. Quando saíram do restaurante
a morena a levou para um passeio rápido de carro.
Marina adorou os lugares que Lívia mostrou, já estava
tarde quando chegaram ao prédio na Tijuca.

- Lívia queria te perguntar uma coisa.


- Pode perguntar.
- Por que me deu aquele teclado? E não adianta dizer
que foi por conta da banda, Eduardo falou comigo
antes. Por que veio aqui hoje e me chamou pra
almoçar? Sua vida é tão diferente da minha. Qual o
interesse nisso tudo?

Lívia respirou fundo, precisava falar rápido e passar


confiança a Marina.

- Quando te vi a primeira vez tocando te achei


diferente, parecia tão confiante e inocente ao mesmo
tempo. Gostei de você. Depois conversando com
Fabrício e os garotos, pude perceber que você era uma
pessoa legal. Vi que juntava o útil ao agradável. Só
quis te ajudar.
- Como assim?
- Marina, ser bonita, inteligente e boa pessoa são
características raras num ser humano. Todas juntas
então, nem se fala. Eu apenas gostei de você. – Lívia
falou segurando as mãos de Marina.
- É que eu sou uma pessoa muito diferente do meio em
que você vive. E você tem outra experiência de vida...
e...
- Hei, não está me chamando de velha ta?
- Não!
- Não sou tão mais velha que você. Quantos anos tem?
- Vou fazer dezoito.
- Pois eu tenho vinte e cinco. Você tem carinha de anjo,
parece ser mais nova. Tem rosto de menina.

Marina baixou a cabeça.

- E foi isso que me encantou. – Lívia segurou seu


queixo levantando-o a ponto de ficarem bem próximas.
– Posso te dar um beijo?
- Eu não sei se...
- Queria te dar um beijo pra você nunca mais
esquecer...

Nem terminou de falar e delicadamente Lívia a beijou,


primeiro o lábio superior e depois o inferior, mordendo
de leve. Aos poucos foi colocando sua língua e
buscando a de Marina que acabou se entregando. O
mundo parou ali e Marina não soube precisar quanto
tempo ficaram se beijando, somente quando Lívia se
afastou e então ela abriu os olhos e viu o mais
profundo azul dos olhos de Lívia.

- Eu preciso ir. – abriu a porta do carro e saiu


rapidamente.

Lívia sorriu satisfeita, não insistiu e deixou para


procurar Marina depois. Foi para casa tomar um banho
e relaxar, precisava pensar.

Marina entrou no apartamento correndo, pra sua sorte


Monica ainda não tinha chegado. Correu para o
banheiro e tomou um banho gelado. Ainda sentia o
gosto de Lívia nos lábios.

“O que foi isso meu Deus?! Nunca senti uma coisa


assim.”

Quando saiu do banho viu Monica saindo da cozinha.

- Eita, achei que tinha se afogado aí dentro.


- Chegou faz tempo?
- Tem uma meia hora. Tudo bem?
- Tudo, como foi o almoço?
- Ah, ele é tão lindo!
- Isso é namoro?
- Acho que sim. – estava radiante, parecia ver corações
a sua frente.

As duas sentaram na sala e Monica contou como foi seu


dia, já Marina achou melhor omitir o almoço que tivera
com Lívia.

- Você passou o dia aqui?


- Sim. Fiquei estudando.
- Caxias você não?
- Estou aproveitando que o teclado está funcionando.
- Ainda vai usá-lo?
- Vou.
- Hugo me disse que Eduardo vai trazer o novo aqui
hoje. De repente a gente vende esse ué. No conjunto
que toco o rapaz quer um teclado, posso vender pra
ele.
- Dê seu preço, afinal você mesma me ajudou a
comprar.
- Vou tentar.

Aproveitaram o resto da noite pra passar uma matéria


da qual teriam prova naquela semana. Eduardo chegou
e entregou o teclado para Marina. Quando estava
saindo esta o acompanhou até o portão lá embaixo.

- Eduardo, posso falar com você?


- Claro.
- Lívia veio aqui hoje.
- Ai, porque será que não estou surpreso?!
- Saímos pra almoçar e depois ela me deixou aqui de
volta. Não contei a Monica, não sei como ela reagiria a
isso.
- O que aconteceu?
- Nos beijamos e...
- Marina, já te alertei sobre Lívia. Depois não vá dizer
que não foi avisada.
- Ela pareceu ser tão legal.
- Ela sempre parece ser legal e de fato é, mas Lívia não
é de namorar. E vem cá, desde quando você é lésbica?
Você já teve alguma experiência gay?
- Já.
- Gente e eu pensando que você era muito inocente.
- Ah Eduardo, eu não nasci ontem. Sou só uma pessoa
discreta.
- Eu sei, mas te acho gente boa demais pra sofrer na
mão de Lívia. Se quiser curtir tudo bem, mas não caia
de cabeça nisso.
- Obrigada por me alertar.
- Se precisar conversar, estou sempre às ordens.

Despediram-se e Marina subiu. Monica já ajeitava suas


coisas pra dormir e a loirinha fez o mesmo. Antes de
pegar no sono ficou pensando nas palavras de Eduardo,
mas quando adormeceu sonhou com o beijo de Lívia.

Aquela semana passou voando. Marina teve prova na


segunda e na terça, ensaio na quarta e quinta teve aula
com Marconi que a elogiou muito.

- Menina, to gostando de ver. Terá um concerto só com


peças de Bach, vou te colocar na lista.
- Eu?
- Não, a minha avó. – brincou.
- Marconi, eu li sobre esse concerto, são alunos quase
formados. Não posso me juntar a eles.
- E por que não? Só porque é calouro ainda? Pois será a
primeira. E não será só piano, tem alunos de harpa,
flauta e violão. Eduardo estará lá.

Marina ficou um pouco assustada, mas o entusiasmo de


Marconi a animou. Saiu da aula e foi direto falar com
Monica que saiu da sala toda contente.

- Amiga, estou escalada para a apresentação de Bach.


- Eu ia dizer a mesma coisa.
- Temos que comemorar. Vamos pra lanchonete comer
aquele sanduíche de queijo.

À noite Hugo passou para pegar Monica para sair e


chamou Marina.

- Sou branca, mas não tenho vocação pra vela.


- Que isso! Eduardo estará com Fabrício.
- Vela de novo e de dois! Podem ir numa boa, vou ficar
pra dar uma repassada nas músicas novas pra sexta.

Marina até tentou estudar, mas ficou pensando em


Lívia. Depois daquele dia não a tinha visto mais e nem
notícias tinha também. Não sabia como procurá-la e
também achou melhor, não sabia das intenções dela e
Eduardo já a tinha avisado.

Lívia por sua vez estava ao telefone despachando


Bianca.

- Já disse que não vou sair hoje.


- Mas por quê?
- Não estou afim e amanhã tenho muitas questões a
resolver no escritório e ainda pego um tribunal à tarde.
Se eu sair, será na sexta-feira e olhe lá. Pois no final de
semana pretendo visitar minha mãe.
- Você anda me evitando.
- Se você pensa assim, não posso fazer nada.

Bianca sabia que estava sendo dispensada, então seu


orgulho falou mais alto. Não insistiu mais e decidiu
largar Lívia de lado. Quando desligaram Lívia se deixou
cair em uma cadeira no seu quarto, estava era
pensando em Marina.

- Lívia, Lívia... acorda. Se não se prendeu até hoje, não


é agora que vai se amarrar e logo nessa menina. –
falou para si mesma.
Sentou em seu escritório e começou a ler uns
processos, acabou desviando sua atenção.

Sexta-feira no bar, o Acorde começou a tocar e a


morena não estava lá. Marina olhou por todos os lados
e nada dela aparecer. Fabrício que estava assistindo
ficou de olho nela, sabia quem estava procurando.
Quando desceram para o intervalo o rapaz a
interceptou antes de chegar à mesa.

- Está procurando Lívia não é?


- Não, eu... é estava. – riu sem graça.
- Pode ser que não venha, amanhã deve acordar cedo
para visitar tia Marta.
- Ah sim.
- Marina, você é uma menina bonita, gente boa, não se
amarre em Lívia.
- Não estou amarrada.
- Aqui no Rio tem muitas garotas que dariam qualquer
coisa pra ficar com você. Tecladistas aqui são famosas.
– o rapaz brincou.

Estavam conversando animadamente que nem


perceberam quando Lívia apareceu. Vinha
acompanhada de um amigo. Sem que Marina visse, ela
chegou por trás e apertou seus ombros.

- Cheguei tarde, mas a tempo de ouvir uma música do


Djavan?
- Oi! – Marina logo se animou. – Claro, ainda falta uma
pra tocar.
- Senta aí Lívia, já estamos voltando. – Eduardo falou.
- Não obrigada, estou com um amigo. Não devo
demorar, amanhã viajo cedo. – Falava e ainda
mantinha as mãos no ombro de Marina. – Vou esperar
pela minha música. – Falou ao seu ouvido e saiu.
Monica observou a cena e nada falou. Quando a banda
saiu ela se dirigiu a Fabrício e perguntou:
- É impressão minha ou sua prima está dando em cima
de Marina?

Fabrício quase engasgou com a cerveja.


- Não que eu tenha nada contra, mas ela deveria saber
que Marina é hétero.
- E é?
- Claro, ela já namorou e tudo. Quase casou.
- O que?!
- Sim, exagero meu dizer quase casou, mas ela fez
planos e tudo. Só terminou porque o namorado a traiu.
- Novidade essa agora.
- Marina é muito centrada, não mistura relações
amorosas com estudo e trabalho. Por isso sempre está
sozinha. Bota tudo na frente do namoro.
- Eu gosto dela.
- Eu também e torço pra que ache alguém que a ame e
que ela ame também, acho Marina muito fechada.
Muito reprimida, da roça, só de olhar pra ela já se sabe
que é do interior.
- Nossa Monica, não precisa falar assim! Nem parece
amiga dela.
- Eu falo isso pra ela também.

Fabrício achou o comentário desnecessário e não quis


esticar o papo.

Quando a banda recomeçou Marina já tinha um olhar


totalmente diferente e não conseguiu esconder o
sorriso. Faltando cinco músicas para acabar tocaram
Linha do Equador de Djavan. Cantarolou baixinho e
olhando para Lívia de vez em quando. Quando a música
acabou a morena se levantou e se despediu de Monica
e Fabrício na mesa. Deu um tchau para a banda e antes
de sair do bar virou-se e piscou o olho para Marina que
sorriu timidamente. Ninguém percebeu, pra sua sorte.
No domingo de manhã os garotos resolveram fazer um
churrasco na casa de Fabrício. Hugo e Monica estavam
no clima de romance e não se desgrudavam.

- Aqueles dois ali vão casar. – Pedro brincou.


- Vão. E vamos tocar no casamento deles. – Marina
veio falando.
- Podem apostar. – Monica tinha escutado e entrou na
conversa.

Fabrício ouviu o telefone tocar e saiu para atender.


- Fá, é Lívia tudo bom?
- Tudo. Já voltou?
- Ainda não, voltarei apenas na segunda. Queria te
pedir um favor, tenho uns processos para despachar na
segunda cedo. Não os separei, estão na minha gaveta
que fica trancada. Pegue as chaves no meu
apartamento e despache pra mim.
- Claro. Passo lá hoje e pego.
- Que está fazendo de bom?
- Nada demais, um churrasco com o pessoal. Marina
está aqui. – Fabrício falou já se arrependendo do que
dissera.
- Ah é? Posso falar com ela?
- Ai, pra que eu fui falar!
- Anda, vai... chame ela aí.
Pra não dar na pinta, já que Monica estava desconfiada,
Fabrício chamou Marina fingindo mostrar algo e quando
ela entrou lhe entregou o telefone.
- É pra você.
- Pra mim? Quem é?
- Atende ué. – saiu para dar privacidade à loirinha.
- Alô?
- “Mas é doce morrer nesse mar, de lembrar e nunca
esquecer... Se eu tivesse mais alma pra dar eu daria,
isso pra mim é viver...”
O rosto de Marina imediatamente se iluminou.

- Adorei a música!
- Cantei pra você. - falou baixinho.
- Eu vi e achei lindo! Estou com saudades. – Lívia nem
soube por que disse aquilo.
- Por que não veio no churrasco?
- Estou em Mauá, na casa de minha mãe.
- Volta hoje?
- Só amanhã.
- Ah...
- Está se divertindo aí?
- Sim, eu gosto de juntar o pessoal. Conversamos
sobre coisas diferentes. Por exemplo: Música! –
brincou.
- Posso ver você amanhã quando eu chegar?
- Pode.
- Então me espere na esquina da sua rua, as oito. Vou
te levar pra jantar.Ta bom.
- Aproveite o churrasco e até lá.
- Obrigada, bom resto de domingo e venha com
cuidado.

Quando desligaram Lívia ficou pensando na delicadeza


de Marina ao pedir cautela para viajar. Ninguém nunca
falara assim com ela. Realmente era uma garota
diferente.

Melodia
Lisa Bee
lisabeex@yahoo.com.br

Selecione o idioma ▼
O dia nunca passou tão devagar, Marina tentava não
ligar para o encontro com Lívia, mas não conseguia.
Disfarçou o quanto pode para não dar na cara e Monica
desconfiar. Pra sua sorte a garota saiu da faculdade e
foi para casa de Hugo e provavelmente passaria a noite
lá.

Chegaram juntas. Quando Marina se aproximava do


local, Lívia buzinou e encostou o carro. Como estava
calor, usava um vestido preto que lhe caía até os
joelhos, tinha detalhes em branco e era bem largo,
usava um top por baixo. Os cabelos estavam soltos e
molhados, quando entrou no carro a morena sentiu seu
perfume. Lívia adorou aquela visão.

- Nossa que cheirosa!


- Obrigada. Você também está muito bonita! Nós
vamos a algum lugar muito chique? – Marina ficou um
pouco preocupada, já que viu que Lívia usava um
terninho e salto alto.
- Não meu anjo. O lugar é simples e terá pouca gente.
Estou assim porque venho do meu escritório. Hoje meu
dia foi de cão. E o seu como foi?
- Estudando, como sempre. Estou ensaiando aquela
fuga de Bach.
- Já está pronta?
- Sim, faltando os ajustes finais.

Marina não sabia nem onde Lívia a estava levando, mas


não era muito perto. Ficou tentada a perguntar, mas se
conteve. Um tempo depois pararam em frente ao que
parecia ser um condomínio, tinha dois blocos. Entraram
e desceram numa garagem.
- Vem, o elevador fica ali. – Lívia a chamou.

Entraram no elevador e quinze andares acima, saíram


direto numa antessala, muito bem arrumada. Lívia tirou
uma chave da bolsa e abriu a porta. Marina estava
entrando em seu apartamento.

- Bem-vinda. É aqui que me escondo. – falou abrindo


os braços, como que mostrando o apartamento. A
loirinha ficou boquiaberta. Era imenso, o piso negro
contrastava com os móveis brancos. Da onde estava
dava pra ver parte da sala e tinha uma parede de vidro
enorme.
- Bonito aqui. – Marina ainda tinha os olhos
arregalados.

Lívia se divertiu com a cena.

- Vem, vou te mostrar o resto.

A morena foi puxando Marina pela mão e mostrando os


cômodos, tudo tinha a cara de Lívia, muito bem
decorado, mas básico, nada muito enfeitado ou
colorido. O último lugar a ser mostrado foi o quarto.
Era no segundo andar e muito grande também. Havia
um closet e de outro lado o banheiro.

- Nossa que banheira grande!


- É muito confortável.

Marina ficou pensando em quantas mulheres Lívia já


não levara ali. Sentiu ciúme e fechou o cenho, mas logo
sorriu de novo quando a morena a chamou.

- Linda, vem ver a varanda, tem uma vista magnífica.

Abriu a porta e dali puderam ver o mar.


- Nossa que lindo! Você deve ficar aqui bastante tempo.
- Aí que se engana, venho pouco aqui.

Na varanda havia uma mesa com duas cadeiras e ao


canto uma espreguiçadeira bastante convidativa.
Marina chegou até o parapeito e olhou para baixo,
sentiu até uma vertigem, chegou a cambalear e foi
amparada por Lívia que a abraçou por trás.

- Opa. Tem medo de altura? – disse envolvendo sua


cintura com os braços.
- Normalmente não, mas aqui é bem alto.
- Eu te seguro. – repousou o queixo na cabeça da
loirinha.

Marina sentiu-se confortável naqueles braços longos e


fortes, recostou sua cabeça no peito de Lívia e fechou
os olhos. Foi uma sensação indescritível. A morena
sentiu o abandono de Marina e a abraçou mais forte,
não conseguia distinguir que sensação era aquela.
Ficaram assim por algum tempo até que o estômago de
Marina se manifestou.

- Está com fome?


- Na verdade não. Mas acho que meu estômago está. –
falou uma loirinha sem graça.
- Então vem. – a morena riu.

As duas desceram as escadas indo para a cozinha e


Marina estranhou o fato de nem sentir cheiro de
comida.

- Você vai fazer o jantar? – perguntou curiosa.

Lívia sorriu.

- Não, eu não sei cozinhar. Mas já providenciei nosso


jantar.

Pegou o telefone e avisou que já poderiam trazer.

- Já está vindo.

Enquanto não entregavam o jantar, ela arrumou a


mesa. Terminou bem a tempo de chegar o pedido.

- Desculpe a ignorância, mas aqui eles têm serviço de


quarto? – Marina realmente estava confusa.
- Não linda, eu sempre peço comida desse restaurante.
Hoje à tarde liguei para eles e encomendei o jantar,
pedi que deixassem pronto e eu avisaria a hora de
entregar.
- Ah sim.
- Sente-se, vou lhe servir.

Nunca em momento algum Lívia serviria alguém, ainda


mais num segundo encontro. Estava surpresa com ela
mesma.

Jantaram num clima quase romântico. A morena havia


tirado o casaco e estava apenas de saia e uma blusa
bem decotada, deixava o colo à mostra e Marina não
pode deixar de ver. Quando terminaram foram para a
sala. Lívia ligou o som e deixou Marina à vontade.

- Se importa se eu tomar um banho rápido? Preciso


tirar essa roupa, ta com cheiro de tribunal.

Marina achou graça e disse que tudo bem, ficaria na


sala, esperando. A música estava tão relaxante que
recostou a cabeça no sofá e fechou os olhos. Pouco
tempo depois a morena voltou, percebeu que a loirinha
não a tinha visto, então se aproximou em silêncio por
trás da poltrona e se inclinou beijando a testa de
Marina.
- Oi. Já voltou?
- Era só um banho rápido.
- Está cheirosa. – Marina falou passando a mão nos
cabelos de Lívia que caíam em seu rosto.
- A música estava tão boa que você dormiu.
- Não dormi, apenas recostei aqui, estava relaxando.
Faço isso às vezes.

Lívia deu a volta e sentou ao lado de Marina. Ficou


olhando para ela e devagar se aproximou para lhe dar
um beijo. A loirinha quis abaixar a cabeça, mas foi
impedida pelas mãos da promotora.

- Gostei tanto daquele beijo que ele não saiu da minha


cabeça. Queria repetir a dose. Posso?

Em resposta Marina tomou a iniciativa e a beijou


segurando o rosto da morena delicadamente. Lívia não
se conteve e puxou Marina contra seu corpo, apertando
a cintura dela num gesto apaixonado. Parou de repente
e olhou nos olhos de Marina que se mostrava
totalmente entregue.

“Calma Lívia, muita calma!”

Lívia respirou fundo e falou calmante, ou tentando


parecer calma.

- Menina, você me deixa louca. Tem noção do quanto


estou me segurando pra não te agarrar com vontade?
- Não precisa se apavorar, eu não vou sair correndo. –
Marina disse acariciando o rosto dela e sorrindo
ternamente.
- Estou acesa!
- Shii... Calma!

Marina colocou a mão nos lábios de Lívia e depois os


beijou com carinho.

- Acho que nunca beijei uma mulher tão bonita. –


confessou.
- Já beijou outras mulheres? – Lívia ficou surpresa.
- Já. Tive uma namorada, na verdade não foi bem um
namoro. Ficamos algumas vezes, logo depois que
terminei com meu ex, mas durou pouco.
- Você gostava dela?
- Éramos muito amigas antes do relacionamento
começar, não sei se gostava a ponto de amar. Foi só
uma experiência.
- E você gostou?
- Olha, confesso que me senti diferente. Relacionar-se
com mulher é mais intenso que com homens, mas eu
gostei sim.
- Você tem pressa de voltar pra casa hoje? – mudou de
assunto.
- Bom, na verdade tenho, porque não sei que horas
Monica vai chegar e ela vai achar bem estranho eu
estar fora até tarde da noite.
- Hum...
- Por quê?
- Não pode ligar pra ela?
- Não temos telefone em casa e ela não tem celular,
assim como eu também não tenho.
- Incrível no século vinte e um você não ter um celular.
- Eu tenho um, mas está em São Paulo, deixei com
minha mãe. Preciso ver um pra mim aqui, mas me
faltou oportunidade ainda.
- Queria que passasse a noite aqui comigo. – Lívia
tentou.
- Não! Monica vai ficar preocupada.
- Só por isso?
- É que acho estranho, vir aqui pela primeira vez e
passar a noite. Não acho isso certo.
- Hum. “Tomei um toco!” – A morena fez um bico.
- Ah que é isso, que bico é esse?
- Achei que poderia ficar aqui comigo.
- Não posso. Quem sabe outra oportunidade.
- Pode ficar só mais um pouco então?

Marina pensou e achou que não teria problema.

- Posso. – Sorriu franzindo o nariz, gesto que deixou


Lívia mais encantada.
- Então senta assim. – Lívia virou-se para Marina e a
fez passar as pernas por trás da sua cintura, ficando
uma de frente para a outra. Como a loirinha estava de
vestido, ficou um pouco sem jeito e acanhada. – Calma,
não vou olhar sua calcinha. – riu.
- Boba. Esse vestido é largo, da pra cobrir tudo.

Entre uma conversa e outra, sempre vinha um beijo


roubado por Lívia. Apesar de todos os avisos de
Eduardo, Marina não conseguia enxergar nada de ruim
na mulher que estava a sua frente. Bem sabia que Lívia
era do tipo conquistadora, jogava charme, cantadas,
mas não via mal nisso. Afinal, quando se queria
conquistar, era esse tipo de coisa que se fazia mesmo.

- Já está ficando tarde, preciso ir. – Marina falava com


muito custo, pois Lívia estava com a boca colada em
seu pescoço fazendo coisas com a língua que a estava
deixando desnorteada.
- Fica mais um pouco. Por favor!
- Pedindo desse jeito como é que eu vou resistir.

Marina aceitou o pedido com um beijo cheio de paixão.


Momentos mais tarde, disse novamente que teria que ir
pra casa.

- Ta bom, vou te levar.


- Posso ir de ônibus, não precisa se deslocar até lá.
- Não, eu te trouxe, eu te levo. Além do mais é muito
perigoso e você com essa carinha de anjo solta por aí
essa hora da noite não é uma boa.

Lívia a pegou pela mão e quando estavam saindo,


parou na porta e a beijou de repente, abraçando Marina
e a levantando do chão.

- Vou te largar senão você não sai daqui hoje.

Marina apenas sorriu.

- Ah, eu te trouxe um presente. Espere. – Lívia correu


até sua bolsa e tirou de dentro um pequeno embrulho.
– Abre.
Marina abriu e era uma casinha de cerâmica com um
escrito na frente. “Visconde de Mauá.”
- Uma lembrança da minha cidade, de coração.
- Que lindo! Obrigada, adorei. – Marina a beijou nos
lábios.

Quando chegaram em frente ao prédio Lívia a beijou


ardentemente.

- Isso é pra você não se esquecer de mim.


- Nem que eu quisesse. Volte com cuidado viu. Acho
que você corre muito.
- Acha? Que isso, pra Rio de Janeiro ta bom.
- Não sei, mas acho que poderia ter mais cautela. Vá
devagar.
- Ta bom.

Beijaram-se novamente e Marina desceu do carro. Lívia


só foi embora quando viu que a garota tinha entrado e
fechado o portão.

No dia seguinte Monica acordou e foi direto para o


quarto de Marina.

- Quero saber onde estava que chegou tarde? – disse


pulando em cima dela.
- Você estava em casa?
- Não.
- Ué, como sabe que saí?
- Eu vi você entrando no prédio, eu tava logo atrás.
- Me viu chegando? – Marina achou que Monica tivesse
visto o carro de Lívia.
- Sim, subindo as escadas já.
- Ah sim. Eu fui ligar para meus pais, me bateu uma
preocupação de repente e fui ligar. Não ia conseguir
dormir se não falasse com eles.
- Sei. – Monica falou em tom desconfiado. - Achei que
tivesse de cacho por aí.
- Que cacho Monica! Você que pelo visto vai me
abandonar daqui a pouco, ta quase casada.
- Ai, ele é lindo.
- É lindo, mas você não acha que está indo muito
rápido?
- Não, ta tudo certo.
- Então ta.
- Hoje vou sair pra ver um celular. Não quer ir comigo?
Aproveita e veja um pra você.
- Vou com você sim, mas vou esperar para comprar o
meu. Tenho que ver até quando vão durar essas
apresentações com a banda. De repente dá uma parada
aí vou ter que economizar.
- Marina, se você economizar mais terá de parar de
comer.
- Deixa de ser boba.
- Você segura demais as coisas.
- Mas eu preciso Monica.
- Eu sei amiga, só digo que poderia relaxar. As coisas
estão andando, vai dar tudo certo.
- Tudo bem, mas o celular fica pra depois.
- Ok. – Monica revirou os olhos e foi se arrumar. Marina
só não sabia que ela tinha visto sim a amiga descer do
carro de Lívia. Esperou pra ver no que ia dar aquilo
tudo.
As duas saíram para procurar um celular e só
encontraram um bom que coubesse no orçamento
depois do almoço.

- Nossa, graças a Deus achamos um. Minhas pernas


estão doendo. E ainda tem que andar até a faculdade.
– Marina reclamou.
- E assistir aula de história da arte.
- Me dê um tiro, por favor.
- Só depois que atirar em mim. – Monica fez um gesto
como se desse um tiro em sua cabeça.

As duas rumaram para a faculdade e só saíram de lá


quase a noitinha. Hugo estava esperando Monica na
saída e foi acompanhando as duas até em casa. Subiu
com elas para o apartamento e ficaram vendo TV até
que Marina resolveu ir dormir.

- Boa noite pra vocês, o sono me chama.

Os dois ainda ficaram na sala e por fim foram para o


quarto. Hugo acabou dormindo lá. Marina acordou com
uns barulhos vindos do quarto de Monica, sabia bem o
que era.

- Meu Deus, só espero que ela esteja se protegendo. –


Virou para o lado, colocou o travesseiro sobre a cabeça
e tentou dormir, mas custou a conseguir.

No dia seguinte estava um caco, levantou cedo para ir


pra aula e pareceu ir no rumo. Chegou a cochilar no
ônibus.

“Monica me paga!”

Assistiu aula a pulso, quase dormindo em cima do


caderno de pauta. Quando saiu encontrou com Eduardo
na entrada da escola.

- Nossa que cara é essa? – falou vendo as olheiras da


menina.
- Não dormi.
- Que houve?
- Monica e Hugo.

Eduardo não se conteve e começou a rir.

- E você ri? Juro que compro um radinho hoje com um


fone potente. Prefiro escutar bolero de Ravel e contar
carneirinhos para dormir.
- Ai Marina, você me mata de rir.

Nesse instante chegou Fabrício num carro bem


conhecido, vinha acompanhado de Lívia. Ela ia somente
deixá-lo para se encontrar com Eduardo, mas quando
viu Marina, resolveu encostar o carro e parar um
pouco.

- Olá.
- Oi. – Os dois responderam ainda sorrindo.
- Estão rindo de que?
- Marina e suas ideias.
- Vamos almoçar? – Lívia convidou.
- Vim deixar Fabrício pra almoçar com você Eduardo,
mas tive uma ideia, vamos todos juntos.

Eduardo olhou para Marina, deu de ombros e Fabrício


quem decidiu.

- Então vamos que eu to cheio de trabalho hoje.


- Nem me fale. – Lívia suspirou.

Foram a um restaurante próximo dali. Não parecia


muito barato, mas não era luxuoso. Serviram-se e
sentaram pra comer.
- Então, qual era a graça?
- Marina não dormiu a noite. – Eduardo já falou
começando a rir.
- Que aconteceu? – Fabrício perguntou.
- Monica e Hugo lá em casa. Preciso falar mais alguma
coisa?

Todo mundo começou a rir.

- Ai gente, to morrendo de sono. Falei que hoje vou


comprar um radinho com um fone.
- É, escutar bolero de Ravel. – Eduardo completou.
- Argh! Que horror. – Fabrício fez careta.

O pessoal todo riu.

- Tadinha. Se quiser pode dormir lá em casa.

Fabrício olhou para Lívia e estreitou os olhos em tom de


desaprovação.

- Não, obrigada. O radinho já me resolve.

Continuaram comendo e conversando. Marina foi a


primeira a acabar.

- Você sempre come tão pouco assim? - Lívia


perguntou a Marina.
- Como, estou de dieta.
- Como sempre? Já viu Marina comer outras vezes?
- Já. Já almoçamos e jantamos juntas.
- Ah é? Que novidade, não? – Eduardo olhou para a
loirinha.
- É, jantamos juntas na segunda. – disse
envergonhada.
- Aliás, poderíamos marcar alguma coisa lá em casa
essa semana.
- Quinta-feira tem um concerto, na verdade mais um
recital, só Bach. – Eduardo falou. – Você foi escalada
não foi Marina?
- Fui. – disse em tom preocupado.
- Que cara é essa? Você dá conta numa boa.
- Eu posso ir nesse recital?
- Pode sim. – Eduardo falou.
- Mamãe chega quinta à tarde, ela vai gostar de
assistir, vou levá-la.

Marina meio que se decepcionou, pois achava que Lívia


iria para vê-la.

- Vocês tocam na sexta?


- Sim.
- Então depois do show podiam ir até minha casa.
Depois junta todo o pessoal lá, ou quem quiser ir.
- Combinado.

Terminaram e foram pagar a conta. Marina levou um


susto, mas não teve jeito, pagou e saiu. “Lá se foi meu
radinho.” Eduardo e Fabrício sentiram o problema, mas
nada puderam fazer na hora. Quando saíram Marina e
Eduardo voltaram para a escola de música, Lívia e
Fabrício para o trabalho.

- Você não desiste não é Lívia? – Fabrício falava


enfezado dentro do carro.
- Que isso Fá. To levando numa boa e ela ta gostando.
- Claro, sei bem como é seu jogo de sedução.
- Posso te falar uma coisa? Honestamente?
- Deve.
- Eu gosto dela, é uma garota diferente. É meiga, doce,
sincera e ingênua.
- Aí você gosta mais né, tem um gostinho especial.
- Não é isso, eu estou falando sério. Acho Marina uma
menina boa e sinto querer ela perto de mim. Me passa
uma paz. Não sei dizer...
- Está falando sério? – Fabrício estava incrédulo.
- Estou. – Lívia estava séria. – Sei que tenho problemas
com relacionamentos duradouros, mas ela parece ser
diferente.
- Ela é diferente. Tem outra realidade, você não nota
isso?
- Eu noto, mas não pode ser mudado?
- Como? Você vai sustentá-la? Já olhou o padrão de
vida dela e o seu? E não é preconceito, mas é que ela
não vai conseguir acompanhar isso. Você pode não
perceber as coisas, mas viu como ela fica preocupada
até com um almoço?! Tem a vida simples demais.
Como vai ser isso mais pra frente? Você não vai querer
descer o seu nível social por causa dela que eu te
conheço bem.

Pela primeira vez Lívia estava sem argumento. Pensou


bem nas palavras de Fabrício.

- Não a faça sofrer, Marina é bacana demais pra você


sacaneá-la.
- Pode deixar, não vou fazer mal a ela.

Indo pra escola Eduardo deu uma ótima notícia.

- Marina o dono do bar me ligou pra falar que eles vão


fazer uma reforma e vai ficar fechado por duas
semanas, mas quando reinaugurar faremos shows
todas as sextas. Contrato fechado para seis meses e
pagando mais.
- Nossa que barato!
- E tem mais. Essas duas semanas eu fechei um show
numa quinta para uma boda de prata, o pessoal nos viu
tocando lá no bar e gostou. E o outro show, você nem
vai acreditar.
- Por quê?
- É no pão de açúcar.
- Mesmo?
- Sim, lá no alto do morro da Urca.
- Nossa que sonho.

Os dois tão pagando bem.

- Que beleza. Poderei comprar um celular, o meu ficou


em São Paulo com minha mãe e ficar em orelhão aqui o
tempo todo não ta dando.

Eduardo sorriu, no fundo tinha certa pena da garota.


Queria ajudar, mas também fazia seus sacrifícios.

- Conte sempre comigo pra qualquer coisa. – falou


meio penalizado.
- Eu sei que posso contar. Acho que você foi um anjo
que Deus colocou no meu caminho, ele sabia que eu ia
precisar.
- E você a irmãzinha que eu não tive.

Os dois voltaram para a escola e cada um foi assistir


sua aula.

Quando Marina chegou, Monica estava no banho.


Comeu alguma coisa e entrou para o quarto.

- Ei, tudo bom? – Monica perguntou.


- Tudo.
- Preciso pedir desculpas. Ontem fiz barulho né? E... Te
dar os parabéns adiantado amiga! – Pulou em cima da
garota para lhe dar um abraço. – Desejo tudo de bom
pra você, muita saúde e que aqui no Rio você consiga
tudo que sonha pra sua vida.
- Obrigada. Achei que ia se esquecer.
- Claro que não.
- Mas meu aniversário é só amanhã.
- É que vou dormir na casa de Hugo. – falou meio sem
graça.
- Está muito distraída com esse namoro e sim, fez
bastante barulho ontem. Mas tudo bem, não dormi
bem, mas essa noite eu vou né?

Monica riu.

- Vai sim. – sorriu.


- Sei. Não comenta sobre meu aniversário, sabe que eu
fico sem graça.
- Tudo bem, vou ficar quieta.
- Monica você está se protegendo direitinho não é?
- Claro, ta achando que sou doida?
- Perguntei só pra confirmar mesmo. Se cuida então,
boa noite.
- Boa noite.

Marina entrou no banho e quando saiu foi direto pra


cama. Não sabe por que, mas chorou ao lembrar-se da
família, dos amigos que deixara no interior. Dormiu
sem perceber.

No dia seguinte a primeira coisa que fez foi ligar para


sua mãe.

- Oi mãe, tudo bom?


- Oi filha, tudo jóia e por aí?
- Aqui está tudo bem.

Contou as novidades e depois perguntou por sua


sobrinha.

- Como vai a Isa?


- Está uma graça, cada dia mais arteira.
- Estou com saudade dela, de todos, aliás. Talvez dê
pra ir aí daqui umas semanas, nas pausas daqueles
shows. Já guardei o dinheiro da passagem.
- Não se preocupe, qualquer coisa seu pai manda pra
você.
- Não precisa, vai dar tudo certo.
Despediram-se e Marina saiu meio cabisbaixa para
aula. Não percebeu o garoto atrás dela. Quando ia
atravessar a rua ele puxou sua bolsa e saiu correndo.

- Ei, minha bolsa!

As pessoas passavam e não deram nem atenção, ela


tentou correr, mas foi em vão. Achou sua bolsa jogada
uns metros a frente, mas somente com documentos e
chaves. Sem nenhum dinheiro. Chegou na escola com
os olhos cheios de lágrimas. Entrou na sala de aula e
seus olhos vermelhos eram visíveis. Monica que viu,
logo levantou:

- Que houve?
- Fui assaltada.
- Ô meu Deus! Vem, vamos sair daqui.

Levou Marina até a cantina e pediu um copo com água


e açúcar.

- Toma, fica calma.


- Levou o dinheiro com o qual ia viajar. Estava
guardando para ir pra casa.
- Amiga, calma. O importante é que você está bem.
- Eu tinha juntado... ia depositar no banco hoje... –
Marina começava a soluçar.
- Você junta de novo. Isso não será problema. Vem
aqui. – Monica a abraçou e deixou que ela chorasse,
entendia a dificuldade da amiga e ficou com pena.

Deixaram a aula de lado e foram para casa. Hugo ia


encontrar com Monica a tarde, mas ela o dispensou
contando o ocorrido e disse que ficaria com Marina.
Mais que rapidamente ele deu a notícia ao resto do
grupo que baixou todo na casa delas. Quando entraram
Monica logo advertiu:
- Ela dormiu agora. Com muito custo tomou banho e
deitou. Por favor, não comentem o ocorrido, senão ela
vai chorar de novo.
- Nossa eu to arrasado, sinto como se fosse comigo. –
Pedro falou.
- É, você também já foi assaltado. – Eduardo falou.
- Pois é. A gente fica se sentindo um trouxa.
- Nossa, ela juntou esse dinheiro pra ir pra casa. Estava
programando isso.
- A gente dá um jeito. Eu dou meu cachê pra ela dos
shows que faremos. Ela não sabe quanto é ainda. Posso
dar uma enganada. – Eduardo falou.
- Eu também dou o meu. – Pedro concordou.
- Calma gente, ajuda é bem vinda, mas tem que
combinar isso direito. – Hugo se manifestou.
- Tudo bem, mas vamos ajudar. – Eduardo estava
decidido.

O telefone de Eduardo tocou e era Fabrício querendo


saber onde estava.

- Estou na casa de Marina e Monica. Marina foi


assaltada essa manhã...

Como Fabrício estava dirigindo o celular estava no viva


voz e Lívia estava ao seu lado...

- Vire esse carro agora, nós vamos pra lá.

O rapaz nem questionou, chegaram em instantes. Lívia


subiu rapidamente as escadas e bateu na porta. Monica
foi abrir e a morena quase passou por cima dela.

- Onde ela está? Quero vê-la.

Todos olharam assustados, até mesmo Fabrício que já


conhecia bem sua prima.
- Calma Lívia.
- Quero saber onde ela está.
- Está no quarto dormindo, por favor, não acorde... –
Monica não teve tempo de falar nada.

Lívia passou por ela e entrou no quarto, fechou a porta


e deixou todo mundo chocado.

- Que deu nela? – Monica perguntou.


- Estou sem palavras. – Fabrício falou pasmo.
- Deixa ela conversar com Marina. Lívia é boa nessas
horas, fala coisas animadoras. – Eduardo tentou
disfarçar.
- Então ta né. Alguém quer um suco ou café.
- Eu quero.
- Eu também.

Cada um foi respondendo tentando mudar a conversa e


despistar Monica.

Lívia agachou na beirada da cama e acariciou os


cabelos da loirinha. Tinha o semblante tranquilo, mas o
nariz estava vermelho de tanto chorar. A morena sentiu
um aperto no coração. “Meu Deus o que é isso!? To
ficando louca!” Tanto alisou os cabelos de Marina que
ela acordou.

- Lívia... – seus olhos encheram de lágrimas.


- Oi meu anjo, calma. Eu estou aqui. – abraçou-a
aconchegando-a em seu colo. – Quem fez isso com
você? Te machucaram?
- Não. Mas levaram meu dinheiro. Eu não percebi o
garoto se aproximando, tinha acabado de falar com
minha mãe no telefone, estava distraída. Eu não... –
recomeçou o choro.
- Calma, não chore. – Lívia beijava o topo de sua
cabeça. – Pelo menos você está bem, isso é o
importante. – a afastou um pouco e falou sério. – Você
viu quem fez isso?
- Não, ele saiu correndo, só depois que achei minha
bolsa jogada no chão.
- Se eu pego um filho da puta desses, não sobra nem a
alma pra ir pro inferno.

Marina voltou a chorar e Lívia a abraçou.

- Quer sair pra dar uma volta?

Marina hesitou e Lívia insistiu.

- Vamos, você distrai e daqui a pouco esquece.


Prometo te trazer de volta sã e salva.

Marina ouviu vozes do lado de fora e perguntou:


- Quem está lá fora?
- Os meninos e sua amiga Monica.

A loirinha se surpreendeu, ainda mais por Lívia estar


dentro do quarto dela. Pensou no que Monica estaria
achando disso.

- Vamos? Vou te levar pra um lugar bem legal que


conheço, tenho certeza que vai gostar.

Marina se levantou e esfregou os olhos parecendo uma


criança. Olhou para o espelho:
- Nossa, eu to horrível!
- Está linda. Troque só de roupa, porque sair de pijama
não seria uma boa. Apesar de eu achar que está uma
graça. – Lívia se referia ao pijama rosa com
borboletinhas que Marina usava. – Vou me virar e você
troca de roupa, pode deixar que eu não olho.

A loirinha ficou desconfiada, mas escolheu um


vestidinho prático e rapidamente trocou pelo pijama. As
duas saíram do quarto e Marina foi recebida com
sorriso pelos garotos.

- Ah, acordou a bela adormecida. Eu desconfiei que


Monica tivesse te dado um chá de apagão. Você não
acordava mais. – Eduardo brincou.
- Eu dei foi água com açúcar mesmo.
- E aí Marina, se sente melhor? – Pedro perguntou.
- É, vai passar, não tem mesmo o que fazer. –
respondeu triste.
- Tenho certeza que você recupera o dinheiro rapidinho.
Damos graças a Deus que você está bem, isso é o que
importa. – Fabrício também falou.
- É verdade. Nessa violência que está o Rio hoje em
dia, sair e voltar vivo pra casa já é muito bom. E a
tendência é só piorar, já que as autoridades não fazem
seu devido papel. – Lívia falava indignada.
- É... – a loirinha baixou a cabeça novamente.
- Vou levá-la pra dar uma volta. Assim ela se distrai e
esquece isso. Mais tarde eu a trago de volta Monica,
pode ficar tranquila.
- Tá bom, só quero que ela fique bem. – olhou
desconfiada.
- Vai ficar. – Lívia beijou o topo da cabeça de Marina.

As duas saíram e Monica ficou intrigada.

- Qual é a da sua prima com Marina? – se dirigiu a


Fabrício.
- Nada, por quê?
- Vir aqui, querer levá-la pra dar uma volta.
- Que tem isso?
- Não sei, parece que está interessada nela.

Eduardo até engasgou.

- Se tiver, tem algum problema? – ele perguntou.


- Não... Não... Só achei esquisito.
- Você tem preconceito? – o rapaz indagou.
- Eu não. Na verdade nunca tive um amigo gay, mas
não vejo problema. Convivo numa boa. – falou sem
olhar direito pra eles.
- Bom saber. – Fabrício falou sério.

Dentro do carro Lívia sorriu e falou animada.

- Vamos dar um passeio.


- Você não tinha que estar trabalhando?
- Tinha, mas isso eu vejo depois. Posso faltar um dia ao
meu escritório, dou um duro danado naquilo lá, não é
possível que não possa tirar meio dia de folga.
- Obrigada. – Marina falou baixinho.
- O que disse?
- Estou agradecendo por estar ao meu lado.
- Não me agradeça, estou fazendo com interesses a
parte.
- Interesse?
- Sim, te levo pra dar uma volta e passo mais um
tempo ao seu lado. Também estou me beneficiando
com isso. – Piscou o olho para a loirinha, que sorriu em
troca.

Lívia a levou até a Pedra Bonita, aonde as pessoas iam


para saltar de asa delta ou pular de paraglider.

- Nossa que legal aqui. Você gosta de lugares altos.


- Por que diz isso?
- Seu apartamento é no décimo quinto andar.

Lívia achou graça.

- Vem, senta aqui para poder ver a paisagem.

Lívia a puxou e sentaram em uma pedra próxima à


plataforma de saltos. A morena sentou primeiro e
puxou Marina, fazendo-a sentar entre suas pernas, de
costas pra ela. A loirinha encostou a cabeça no colo de
Lívia e sentiu o vento bater no rosto. Talvez Lívia não
soubesse, mas aquele passeio estava sendo mais que
especial para ela naquele dia. Tinha a sensação de que
o tempo havia parado.

- Está gostando?
- Sim, parece que estou voando de asa delta.
- Quer voar?
- Não! – Marina abriu rapidamente os olhos.
- Tem medo?
- Acho que teria.
- Nunca viajou de avião?
- Não. – Disse envergonhada.
- Pois vai um dia, eu tenho certeza.
- Não ligo pra isso. As pessoas têm a intenção de ter
muito dinheiro, fazer muitas viagens, comprar muitas
coisas. Eu só quero ter uma vida estável, morar num
lugar meu e ajudar minha família. Não desejo ser rica.
- Quando eu tinha sua idade, desejava somente ter
uma casa pra morar, pois morávamos de aluguel. Hoje
tenho muito mais do que desejei ter.
- Você se esforçou, sua mãe te ajudou e com o apoio
dela você venceu na vida. Admiro muito isso nas
pessoas. Se você tem o que tem é porque
provavelmente é uma merecedora de tudo isso, pois é
uma boa pessoa.
- Será mesmo que sou?
- Eu aposto que sim.
- Quer fazer outra aposta?
- De que?
- De que você muda de ideia em pouco tempo.
- Não mudarei.
- Estamos apostadas.
- Por que está dizendo isso?
- Porque não sou uma pessoa perfeita.
- Ninguém é. – Marina virou o rosto e com uma das
mãos tocou o rosto de Lívia. – Temos que aprender a
gostar das pessoas como são e entendê-las sem julgar.
É difícil isso, mas é valido tentar.
- Você realmente é uma pessoa ímpar.
- Estou procurando virar par, não quero ficar ímpar a
vida toda. – A loirinha brincou.
- Você vai achar alguém que a faça feliz.

Aquelas palavras incomodaram Marina. Por que Lívia


não poderia ser esse alguém? Ficaram um bom tempo
ainda apreciando a paisagem e se curtindo, parecia até
um namoro. Ao entardecer Marina disse que precisava
voltar pra casa.

- Monica deve estar preocupada.


- Ela ta é com o namorado dela.
- Ah isso é.
- Está com fome?
- Um pouco, não almocei.
- Então agora é a outra parte do passeio.

As duas levantaram e entraram no carro. Antes de dar


partida Lívia se virou para Marina e falou baixinho.

- Faz mais de uma hora que eu quero te dar um beijo,


posso fazer isso agora?

Marina sorriu.
- Acho que estou precisando mesmo de um beijo seu.

Lívia apertou um botão no painel do carro, reclinou o


banco de Marina e o dela, dando espaço para que
chegasse mais perto. Segurou o rosto de Marina e a
beijou com toda delicadeza que pode. Sentiu as
lágrimas descerem pelo rosto dela. Parou o beijo e viu
um par de olhos verdes marejados.

- Que foi meu anjo?


- Nada, ainda estou triste. Desculpa, você está fazendo
tudo para me alegrar e eu aqui chorando feito uma
idiota.
- Isso vai passar. Só não estou gostando de ver esse
rosto lindo, vermelho. Que eu posso fazer pra melhorar
essa carinha? Se eu contar uma piada, será que você
vai rir?

Marina sorriu franzindo o nariz.


- Adoro quando ri assim.
- Assim como?
- Franzindo o nariz, dá vontade de morder. Pode?

Marina riu meio de lado.


- Pode.
- Hum... – Lívia mordeu o queixo, depois as bochechas,
a ponta do nariz e desceu para o lábio inferior,
mordendo e chupando no final.

Sem querer Marina soltou um gemido baixinho. Aquilo


acendeu os instintos de Lívia. Começou a subir uma das
mãos, que estava na cintura, foi até o seio, mas sentiu
a mão de Marina a impedindo, então recuou. Começou
a morder o pescoço da loirinha, o lóbulo da orelha,
depois desceu até o colo e tentou baixar a alça do
vestido, mas também foi impedida. Marina puxou seu
rosto e beijou sua boca, passando a língua devagar nos
lábios de Lívia.

- Você está me deixando louca. – a voz da morena saiu


completamente rouca.

Marina fingiu não escutar e continuou com o beijo,


agora com mais paixão. Lívia pegou os dois braços da
loirinha e os levantou, segurando-os acima da cabeça.
Beijou as laterais e chegou no colo. Baixou a alça do
vestido, fazendo aparecer a beiradinha do seio
esquerdo, ficou louca quando viu o biquinho enrijecido
por baixo do tecido. Quando ia acabar de baixar a alça,
Marina se soltou e a levantou novamente.
- Ah, você quer acabar comigo. Só pode.
- Quero não, você que está querendo me deixar doida
aqui. Não acha que aqui seria muito arriscado?
- Arriscado por quê?
- Por ser um carro ué.
- Meu carro tem insulfilm e vidros blindados, ninguém
vai nos incomodar.
- Não é isso. – Marina se desvencilhou. – É que não
acho que seja o lugar mais apropriado.

Lívia respirou fundo e entendeu o que Marina queria


dizer.

- Tudo bem. – Lívia se ajeitou no banco e ligou o carro


para saírem.
- Está brava?
- Não. – estava séria.
- Está chateada?
- Também não.
- Está o que então?

A morena parou o carro de novo e a agarrou lhe dando


um beijo cheio de intenções e depois falou:
- Estou morrendo de vontade de você, mas vai passar.

Acelerou e desceu o morro. Marina sorriu timidamente


enquanto se ajeitava no banco. No meio do caminho
arriscou colocar a mão esquerda na perna de Lívia, que
levou sua mão cobrindo a de Marina.

- O lugar que vou te levar é um dos que mais gosto de


ir aqui no Rio, sempre levo minha mãe lá. Tudo que se
come lá é gostoso.
- Se tiver pão com manteiga eu já vou gostar, com a
fome que estou.
- Também estou morrendo de fome. – apertou a mão
de Marina.
A loirinha se limitou ao silêncio.

Chegaram ao local e Marina ficou maravilhada.

- Eu sempre quis vir aqui. Já tinha lido sobre ela na


internet.
- Então já conhecia a Confeitaria Colombo?
- Só pelo computador, é mais linda ao vivo.
- Então vamos entrar.

Foram direto para o segundo andar, sentaram-se e


pediram um café completo. Enquanto comiam Marina
falava sobre o lugar.

- Meus compositores prediletos vinham aqui, Chiquinha


Gonzaga e Villa Lobos. Quando cheguei ao Rio, dentro
do ônibus ainda, comentei com Monica que queria vir
aqui qualquer dia desses.
- Aqui está então.
- Obrigada por me trazer. – disse sorrindo.
- Não me agradeça linda, quero é ver você sorrindo de
novo. Isso já é um agradecimento. “Mas o que eu estou
dizendo?! Lívia, quer parar de ser romântica!”

Marina olhava atenta ao lugar e ficava mais admirada.


Quando terminaram de comer Lívia fez uma ligação
para o escritório, depois disse que ia ao banheiro.
Quando estava voltando encontrou com Bianca.

- Querida, está viva! Quanto tempo?


- Que isso Bianca? Parece que não nos vemos há anos.
- Em relação à frequência que nos víamos, tem tempo
que não te vejo. Que faz por aqui?
- Vim tomar um café.
- Sozinha?
- Não.
Já estavam se aproximando da mesa onde Lívia estava
e Bianca pode ver Marina.

- Ah sim, trouxe sua sobrinha. – disse em tom meio


sarcástico.
- Não, essa é Marina, uma amiga minha.
- Ah sim. Prazer Marina. – Bianca sorriu.
- Oi, prazer.
- Pedofilia dá cadeia e sem fiança, você deveria saber
disso melhor do que eu. – Bianca cochichou no ouvido
da morena. Não passando despercebido por Marina.
- Deixa de ser ridícula.
- Bom meninas, vou indo tenho muito que fazer hoje
ainda. E Lívia... me procure quando sair do jardim de
infância.

Marina ficou possessa, quase não acreditou no que


ouviu. Apesar de Bianca ter dito em voz baixa, não
tinha como não escutar. Quando Lívia se sentou a
loirinha estava emburrada. Sabendo o motivo, tentou
descontrair.

- Terminou de comer?
- Já.
- Você viu que eles têm um piano aqui? De vez em
quando tem alguém tocando, venho pra cá só pra ouvir
às vezes.
- Deve ser bonito.
- Quer tocar lá?
- Lá em cima?
- É.
- Pra que?
- Queria te ver tocando, eu adoro.
- Já me viu tocando em outros lugares. Não vou me
expor aqui nesse lugar só porque você acha bonito. –
Marina falou mais ríspido do que imaginou.

Lívia estranhou a resposta, mas não falou nada.


- Me desculpe, não queria ser grossa.
- Mas foi.
- Desculpe, é que não gosto desse tipo de exposição.
Em casa eu toco sempre que me pedem, mas acho uma
exposição sentar num lugar público e tocar sem motivo.
Você pode me ver tocando em outras ocasiões.
- Tudo bem.

Quando estavam saindo Lívia pediu que Marina


esperasse do lado de fora e entrou novamente, pegou
um embrulho no balcão.

- Isso é pra você levar.


- O que é?
- Uma torta de morango com amêndoas que eles fazem
aqui. Um presente pra você.
- Não precisava. – Marina agora ficara sem graça, havia
sido grossa e Lívia atenciosa.

Quando chegaram em frente ao prédio onde Marina


morava Lívia somente se despediu, não ia subir.

- Queria agradecer pelo passeio, eu adorei tudo.


- Que bom, fico feliz por isso.
- Desculpe novamente pelo que falei na confeitaria, não
tinha necessidade daquilo.
- Não tem problema, eu compreendo.
- Quero te pedir uma coisa, posso?
- Fale.
- Pode me dar um beijo? – Marina sorriu.
- Isso nem precisava pedir.

Lívia a puxou beijando-a com vontade, quase colocando


Marina em seu colo. Quando se afastou a loirinha ainda
tinha os olhos fechados. De repente os abriu e o verde
se encontrou com o azul.
- Às vezes tenho a impressão de que já te conheço. –
Marina falou mais para si mesma.

Lívia sorriu, mas não falou nada.

- Obrigada mais uma vez pelo passeio. Fica com Deus e


vai...
- Já sei, vai com calma pra casa.
- Isso.
- Ah, espere. Quero que fique com meu cartão, aqui
tem meus telefones do escritório, da minha casa e
celular. Se precisar de qualquer coisa me ligue.
- Pode deixar.

Beijaram-se de novo e se despediram. Quando Marina


entrou no apartamento Monica estava no quarto
estudando.

- Oi, trouxe uma coisa que você vai adorar.


- O que?
- Comida! – a loirinha sorriu.

Marina foi até a cozinha e abriu o embrulho mostrando


a torta.

- Nossa isso deve ta muito bom.


- Então aproveita.
- Onde comprou?
- Não comprei, ganhei. Lívia me deu, é da confeitaria
Colombo.
- Uia! Você era doida pra ir lá.
- Pois é, tem que ver como é bonito.
- Gostou do passeio?
- Sim, fomos até a Pedra Bonita.
- Saltou de paraglider? – Monica riu.
- Não bobona, só conheci. A vista de lá é linda. –
Marina se lembrou dos momentos com Lívia.
- Essa moça parece ter gostado de você.
- É. – a loirinha sorriu. – Ela é legal, muito educada.
- Bonita ela não? – Monica jogou verde.
- É né? Ela chama a atenção onde passa. Bom, vou
tomar um banho e estudar. Tem concerto essa semana.
- Estava estudando também, pode ouvir depois? Quero
saber se estou indo bem.
- Claro.

Marina entrou no banho e quando saiu, sentou na sala


pra ouvir Monica. Realmente estava ótima. Monica
podia não acreditar, mas tinha talento nato para música
e uma facilidade incrível de tocar qualquer instrumento.
Tocava piano também, além de contrabaixo, violão e
saxofone. Resolveu se dedicar à flauta transversa, pois
era o sonho de seu pai.

A semana correu bem, Marina contou a seus pais o


episódio do assalto e ele disse que mandaria dinheiro
para ela. Nem que fosse o da passagem. Ela não
aceitou dizendo que se precisasse pediria. Não viu nem
falou mais com Lívia durante aqueles dias. Sexta-feira
de manhã Monica andava de um lado para outro na
sala:
- Que foi Monica? Ta gastando o chão. – Marina
brincou.
- Não tenho roupa.
- Como não tem roupa? Achei que estivesse nervosa
por conta da apresentação.
- Não! Sabe que não ligo, mas não sei o que vou vestir.
- Quer ver se tenho alguma coisa que te sirva?
- Não. Você coloca roupas muito estilo menininha. –
debochou.
- Hein? – Marina se indignou. – Não coloco nada.
- Coloca sim. Faz parecer que tem até menos idade.

Aquilo foi quase um tapa na cara, fez Marina lembrar o


episódio com Bianca na confeitaria.
- Ah, eu gosto.
- Eu não acho feio, só acho que você poderia se
valorizar mais como mulher.

Marina foi até seu quarto e olhou para o vestido que


estava em cima da cama, o que iria usar na
apresentação. Era banco com detalhes de florzinhas
verdes, realmente não era o estilo mais adulto de se
definir. Achou que Monica poderia estar certa.

- Acha que esse está muito infantil? – mostrou o


vestido.
- Acho.
- Mas o que eu vou vestir então?
- Pronto, já não bastasse eu na dúvida, agora você.

Monica entrou no quarto da amiga e abriu o guarda


roupa, revirou as gavetas e tirou os cabides e achou
uma saia preta mais curta e de cintura alta. Pegou uma
blusa branca sem mangas e colocou como se montasse
um manequim.

- Aí, fica mais elegante. Coloque um cinto, eu tenho


um. Vai ficar ótimo, ta usando cintura alta.
- E o que eu iria calçar?
- Salto.
- Não gosto de salto para tocar.
- Você vai tocar uma música. – enfatizou o uma. – E
isso não vai te matar.

Marina vestiu as roupas e realmente ficaram boas.


Penteou os cabelos e fez duas tranças nas laterais as
prendendo atrás da cabeça. Parecia outra mulher.
Ajudou Monica a escolher o que vestir. Optaram por
uma calça reta social e uma blusa salmão mais larga
com um decote na frente. Saíram e foram para a
escola. Chegando lá havia certa movimentação na
porta, as duas viram Marconi, que logo as encaminhou
até o teatro.

- Concertistas na frente, daquela fileira ali em diante


são pra convidados. Gente, que monte de pastas são
essas? – perguntou aos alunos.
- Partitura ué. – um deles respondeu.
- É Marina, só você me mata de orgulho. Vai tocar sem
ler. – saiu apressado para terminar de ajeitar outras
coisas.

Os garotos da banda chegaram pouco depois


acompanhados de Lívia e sua mãe.

- Mãe, senta aqui, a visão é melhor.


- Nossa que bonito esse lugar.
- Sim, vai ficar mais lindo ainda quando começarem a
tocar. – Lívia pensou em Marina.

O concerto começou e aos poucos os alunos foram se


apresentando. Quando Monica subiu ao palco os
garotos aplaudiram animados, principalmente Hugo que
fez a graça de assobiar chamando a atenção. Aquilo
deu mais motivação à garota que tocou entusiasmada.
De piano só havia quatro alunos e Marina seria a
penúltima. Quando chegou a sua vez, se levantou e
subiu ao palco. Lívia olhou para a programação e olhou
para a moça que estava sentada em frente ao piano.

“Ué?! Erraram?”

Só depois viu que era Marina quem estava sentando


para tocar.

“Meu Deus como está linda!”

Não só pensou como falou, fazendo sua mãe perguntar:


- O que foi?
- Nada, estou fazendo uma observação aqui.
- Baba não prima. – Fabrício brincou.
- Deixa de ser bobo.
- Mãe, essa que é Marina, minha amiga da qual lhe
falei. – Lívia falou mostrando a loirinha.
- Bonita ela.
- Hum, ta se apresentando pra sogra. – Fabrício mais
uma vez implicou.
- Quer parar!?
- Fabrício, meu filho, faça silêncio. – Marta o advertiu.
- Só estava brincando com Lívia tia.
- Deixe-a prestar atenção na moça.
- Ela já faz isso tia. – Fabrício não se conteve.
- Eu acerto com você depois. – Lívia falou levantando
uma sobrancelha.

Marina respirou fundo, olhou para o meio do piano


como se procurasse algo e fechou os olhos. Era como
um ritual. Seus dedos tocaram as teclas e o tempo
parou, parecia ficar em transe. O reitor, que estava
assistindo ficou maravilhado.

- Essa menina é boa.


- Ela é muito aplicada, estou muito feliz de tê-la como
aluna. Tem algumas manias, mas isso é fácil de
melhorar. – Marconi falava orgulhoso.

Marina terminou e foi aplaudida como os outros alunos,


mas seus olhos verdes procuravam um par de olhos
azuis que facilmente encontrou. Estava séria até vê-los,
depois abriu um sorriso luminoso. Ao final do concerto
as pessoas se juntavam para se cumprimentar.

- Marina, você foi ótima! Viu, nem precisou ficar


nervosa. – o professor a elogiou.
- Não fiquei, só antes um pouco.
- Parabéns menina. Está no caminho certo. E você
Monica também arrasou, posso falar com folga que é
uma das melhores flautistas que tem nessa nova leva.
– falou e saiu para falar com os outros alunos.

Os garotos se aproximaram para elogiar também.

- Muito bom! Só podia ser minha namorada. – Hugo era


só elogios.
- Esse ta babando, mas de fato você foi ótima Monica.
Fiquei impressionado com a respiração, porque fuga
não é fácil. – disse Eduardo.
- Obrigada, obrigada! – Monica fez reverência.
- E você loirinha, nem preciso dizer que fiquei babando.
Só pensava uma coisa: Aquela ali é a tecladista da
minha banda. – Pedro elogiou, pareceu até rolar um
clima.

Os outros garotos riram e só não brincaram porque


Lívia chegou mais perto com a mãe.

- Boa noite. Gente, pra quem não conhece essa é Dona


Marta, minha mãe.
- Muito prazer. – responderam Marina e Monica.
- Menina, você toca bem hein! – a morena se dirigiu a
Monica. – Fiquei impressionada, acho seu instrumento
lindíssimo. Mas o meu preferido ainda é o piano. – se
virou para Marina. – Você foi simplesmente magnífica.
Meus parabéns!
- Obrigada. – Marina estava envaidecida.
- Que tal sairmos pra comemorar? – Lívia convidou. –
Nada demorado, afinal hoje é quinta ainda.
- Vamos ao café do forte, lá é tranquilo e não deve
estar cheio essa hora. – Fabrício sugeriu.

Seguiram para lá, uns no carro de Lívia e outros no de


Fabrício.

Sentaram-se do lado de fora numa mesa comprida para


que coubessem todos. Lívia chamou o garçom e fez os
pedidos. Estavam conversando animados, é claro que a
morena fez questão de se sentar ao lado de Marina.
Ficou entre ela e sua mãe. E ao lado de Marta, Fabrício
que fez questão de ficar ali para ouvir a conversa.

- Lívia me falou de você Marina. – Marta sorriu.


- É? Espero que bem.
- Claro que falei bem. – a morena resmungou.
- Disse que você é muito inteligente e esforçada.
Salvou a vida dos meninos outro dia.
- Eles também salvaram a minha, precisava muito
trabalhar e juntou o útil ao agradável.
- Você é de São Paulo, sim?
- Sou do interior. Sou de Jaú.
- Seus pais não ficaram preocupados de você ter vindo
pra cá?
- Claro! Mas não teve jeito, nessa carreira musical, ficar
no interior é perder tempo. Como diz minha mãe.
Deixa, mas reza. E tem que ser assim mesmo. – falou
um tanto triste, se lembrando do assalto.
- Eu que o diga, Lívia também me preocupa aqui no
Rio.
- Eu não vim sozinha de tudo, tenho Monica que é uma
amiga de todas as horas.
- Gostaria que Lívia também tivesse uma amiga, ela
fica muito sozinha aqui.
- A senhora que pensa tia. Lívia está sempre
acompanhada. – Fabrício cutucou.
- Quer perder o emprego? – a promotora cochichou em
seu ouvido.
- Não. Quero é jogar lenha nessa fogueira. – riu.
- Palhaço.
- Precisa fazer mais amigos aqui minha filha.
- Eu faço mãe, tenho Fabrício e Marina também é uma
amiga, a conheci faz pouco tempo, mas nos damos
bem.
- Muito bem. – Fabrício mais uma vez.

Se pudesse, Lívia o matava com os olhos.


- Me conta uma coisa Marina. Piano é um instrumento
difícil?
- Ah eu não acho, toco desde pequena. Comecei com
sete anos.
- Queria muito aprender.
- Eu não tenho muito jeito pra ensinar, mas se a
senhora quiser, posso dar umas dicas. Monica é melhor
professora que eu.
- Seria uma boa.
- Mamãe sempre quis aprender um instrumento, quem
sabe não é o piano? – Lívia completou.

Continuaram conversando até que Marina se levantou


para ir ao banheiro, fazendo Lívia se levantar fingindo
falar ao telefone, mas foi pretexto para ir atrás dela.
Entrou no banheiro e a viu lavando as mãos.

- Você está simplesmente maravilhosa com essa roupa.


- Vesti meio que a contra gosto, Monica disse que me
visto que nem criança.
- Eu gosto de qualquer jeito, mas realmente essa roupa
está lindíssima.
- Obrigada. Vamos?
- Vamos, só vou ao banheiro, me espere.
- Tudo bem.

Lívia entrou no reservado e minutos depois chamou


Marina.

- Marina, pode me ajudar aqui, não consigo abotoar a


calça.

A loirinha na maior inocência abriu a porta e Lívia a


puxou.

- Peguei! Agora só largo se me der um beijo.


- Lívia, isso é perigoso. E se chegar alguém?
- Não vão nos ver, estamos fechadas aqui. Agora o
beijo.
- Mas...

Nem teve tempo de responder e sua boca foi calada


com lábios apressados. Não tinha como se esquivar,
pois o reservado era pequeno e nem queria sair dali
também. Lívia se afastou sorrindo.

- Tava doida pra fazer isso desde a hora que te vi


tocando.
- Você é louca.
- Sou, por você.

Nesse instante alguém chega ao banheiro. A morena


fez sinal para que ficasse em silêncio e esperou. A
pessoa entrou no reservado ao lado e Marina teve
vontade de rir, sendo impedida por Lívia, que
aproveitando a posição beijou o pescoço da loirinha e o
mordeu de leve. Marina teve de se segurar para não
soltar um gemido. Depois que a pessoa saiu as duas
saíram também e voltaram para a mesa.

Para não levantar suspeita, Marina voltou primeiro e


depois Lívia ainda com o telefone na mão como se
estivesse falando nele. A noite transcorreu bem, mas
não demoraram em voltar pra casa. Marta estava um
pouco cansada e queria dormir cedo.

No dia seguinte nem Marina nem Monica tiveram aula,


então aproveitaram a manhã para dormir. Quando
acordaram, por volta de onze horas, as duas
resolveram dar uma faxina no apartamento. Como de
costume, Marina estudou um pouco a tarde e Monica foi
ensaiar com o conjunto para tocar em um casamento
no domingo. Já estava anoitecendo quando Eduardo
passou no apartamento para pegar Marina. Seria o
último final de semana da temporada tocando no bar,
depois disso só os dois shows que Eduardo tinha
agendado.

- Será que depois desses shows vão aparecer outros? –


Marina indagou.
- Claro. Estou fazendo uns cartazes pra divulgar mais e
também cartões da banda. Quando estiver pronto,
deixo uns com você.
- Cartazes?
- Sim, e você vai ter que tirar umas fotos.
- O que?! – Marina assustou.
- É isso aí mocinha. Fotos sensuais de biquíni para o
cartaz da banda.

Marina olhou incrédula para a cara dele, que começou a


rir.

- To brincando paulista. Pretendo tirar fotos nos shows


e depois fazer uma montagem. Mas essas fotos só
vamos tirar no show lá na Urca.

Chegando ao bar o pessoal estava a espera, com


exceção de Monica que só chegou quando já tinham
começado. Estavam com músicas novas e isso agradou
o público, não tocaram só MPB da velha guarda.
Quando acabou o pessoal pediu bis e um homem ainda
quis dar uma canja, depois que a banda assentiu, ele
subiu no palco.

- Queria cantar Dona na versão do Roupa Nova.

Hugo olhou meio preocupado, essa música ele não


sabia. Marina sabia mais ou menos e Eduardo já tinha
tocado, Pedro só iria acompanhar.

- Hugo, fica olhando pra mim que eu te falo as notas. –


Marina falou.
Começaram meio devagar até que o homem começou a
cantar, meio desafinado no início, mas depois acabou
se soltando e cantando melhor. O público animou e
cantou junto animando mais o local. Quando acabaram
deixaram um cd tocando e foram para o apartamento
de Lívia, ela tinha preparado tudo para recebê-los.

Estava tudo arrumado e nas mesas tinha só comida


japonesa, pois Lívia adorava. Tinha convidado Carlos e
Larissa, que chegaram logo depois deles.

- Oi, boa noite. Nossa que chique, vou matar a vontade


de comer comida japonesa. – Larissa se animou.
- Que bom que vieram.
- Daqui a pouco chega Bianca.
- O que? – Lívia quase gritou.
- Eu a chamei, não era pra chamar?
- Não Carlos. – Lívia ficou com raiva. – Bianca é
passado.
- Ihh, então espero que ela não venha.
- Será um milagre se isso acontecer. Bom, fiquem à
vontade, minha mãe está aí hoje, muito cuidado com
os comentários, não vão piorar minha imagem. – riu.
- Fica tranquila.

Carlos e Larissa eram casados há alguns anos e amigos


de Lívia. Ele era advogado e Larissa arquiteta.
Conheceram Lívia na faculdade e se tornaram amigos.

Ao sentar na poltrona Lívia logo puxou Marina para se


sentar ao lado dela. Monica viu aquilo e olhou esquisito.
Fabrício também reparou e viu a cara de Monica, mas
ficou atento.

- Senta aqui. Quero você do meu lado. – Lívia falava


com tanta firmeza que ninguém ousava questionar suas
atitudes ou ao menos brincar.
- Eu adorei! – Marta falou animada. – Vocês deviam
fazer show em Mauá.
- Ué, só convidar que nós vamos.
- Seria uma boa, lá é tão bonito. – Marina falou
empolgada.
- Conhece lá?
- Não, só pela internet.
- Quem sabe vai conhecer não é? Lívia podia convidar
Marina para ir lá em casa.

Marta nunca chamou nenhum amigo ou amiga de Lívia


para ir até sua casa, o convite inusitado foi motivo de
estranhamento para ela.

- Podemos combinar isso. – Lívia falou em tom sério.


- Hum a sogrinha até convidou. – Fabrício não perdeu a
oportunidade.

Lívia fingiu que não ouviu. O interfone tocou e a


morena até gelou, devia ser Bianca.

- Oi amor! Festinha surpresa! Adorei o convite.

Lívia revirou os olhos, contrariada.

- Oi Bianca. Fique à vontade, não é festa, apenas uma


reunião com amigos.

Bianca olhou em volta e viu o pessoal do conjunto,


inclusive Marina.

- Ah sim, está de babá hoje.


- Para com isso! Não quero ver você falando mal de
Marina.
- Ihh ta defendendo. No começo é assim não é Lívia,
depois você desinteressa.

Lívia deu de ombros e saiu, sentou novamente ao lado


de Marina.
- Tudo bem? Você ta com uma cara. – a loirinha
perguntou.
- Nada demais, desafetos.
- Ah. – Marina logo viu Bianca e entendeu.
- Hoje você vai dormir lá em casa lindinho? – Monica
perguntou pra Hugo.
- Eu vou, passo o final de semana com você lá.
- Um final de semana inteirinho sem dormir. - Marina
entrou em desespero.

Eduardo caiu na gargalhada.

- Marina, pode ficar lá em casa se quiser. – Pedro


ofereceu todo amistoso.
- Não! Ela dorme aqui. – Lívia se apressou.
- Calma gente, tem Marina pra todo mundo. – Eduardo
continuou rindo. – Pode dormir lá em casa também.
- Não precisa pessoal. Eu dou um jeito. Mônica vai me
deixar dormir essa noite, não vai Monica?! – Olhou
significativamente para a amiga.
- Claro! Fica tranquila. Prometo!
- Sei não. – Fabrício que estava quieto resolveu ajudar
a prima. – Dorme aqui Marina, porque esses dois tão
num agarramento que não dá pra prometer nada. –
falou e piscou pra Lívia.
- Não sei, não quero incomodar.
- E não vai, fica com a gente, mamãe vai gostar da sua
companhia.
- Mamãe né? – Fabrício falou e saiu.

Lívia se levantou e foi atrás dele.

- Você está do meu lado ou contra mim?


- Eu? Estou em cima do muro. Olha Lívia, te dei uma
força ali, mas sinceramente não sei qual é a sua com a
garota. Às vezes parece que você gosta dela e às vezes
dá a impressão de que só quer curtir. Por isso tenho te
cutucado, seja honesta comigo. Você quer o que com
ela?
- Não sei, eu mesma fico confusa. Gosto do jeitinho
dela, de estar perto dela, mas eu vejo muitas
diferenças entre nós. Ela é muito nova ainda e isso
pode ser um problema, sem contar aquilo que
conversamos outro dia das outras diferenças.
- Essas coisas não pesam quando se gosta de verdade
da pessoa.
- Às vezes penso que ela poderia melhorar em alguns
aspectos.
- Tipo o que?
- Ela é nova ainda, tem uma carreira pela frente, vai
crescer e se tornar uma mulher muito bonita, mais do
que é. Marina é uma menina ainda, está em fase de
adaptação no Rio, parece meio perdida, insegura e isso
também me incomoda.
- Você quer alguém mais seguro.
- Isso ou que ela fosse mais madura. Não que não seja,
mas que fosse mais.
- Entendo, mas isso só com o tempo querida. Terá
paciência ou não.
- Eu acho que não me preocupo com o lado financeiro,
não ligo para essas diferenças, já passei meus apertos
na vida também.
- Já viveu na pele, então sabe como é.

Eduardo chamou Fabrício e ele saiu deixando Lívia


pensativa.

A ruiva ficou desfilando pra lá e pra cá conversando


com um e com outro até chegar até Marta.

- Até que enfim vou conhecer a senhora.


- Lívia sempre vai me visitar, por isso não venho muito
aqui e acabo não conhecendo os amigos dela. Dessa
vez ela me convidou para assistir uma apresentação,
então eu vim. Aproveito e passo o final de semana
aqui.
- Muito bom. Apresentação de que? – perguntou
curiosa.
- De música clássica. Aquela mocinha ali tocou e aquela
loirinha também. – apontou para Monica e Marina.
- Ah. Lívia agora está mais humana ajudando os
pobres. – Bianca se referia aos garotos da banda.
- Como assim?
- Resolveu interagir com esse pessoal da banda.
Povinho estranho.
- Lívia sempre tem contato com eles, afinal o rapaz ali
é namorado de Fabrício.

Uma coisa que pouca gente sabia era que Marta sabia
da preferência sexual do sobrinho e também da filha,
somente não ficava comentando o assunto, pois era
algo que não dizia respeito a ninguém.

- A senhora sabe... – Bianca ficou confusa.


- Eu vejo mais do que as pessoas podem apostar.
- Eu só acho que Lívia deveria se enquadrar mais na
condição dela, uma promotora bem sucedida,
inteligente se misturar com músicos de bar. Isso não
combina com ela.
- E combina o que? Moças elegantes por fora e indignas
por dentro?

Bianca ficou sem ar. Não soube o que falar.

Marina que passava perto ouviu parte da conversa e


não pode precisar o quanto ficou chateada, era como se
tivessem jogado um balde de água fria. Sentiu-se
inferior e deslocada. Teve vontade de voltar pra casa.
Voltou para onde estavam todos, ficou em pé mesmo e
logo saiu para perto da varanda. Ficou admirando a
vista. Bianca se aproximou dela e falou em tom
debochado.
- Não come nada menina?
- Estou sem fome.
- É, só de olhar para esses hashis dá pra perder a
fome. Muito complicado.
- Não acho. Muito simples. Você pega dessa forma. –
Marina pegou os dois pausinhos e posicionou da forma
correta pegando um sashimi, molhou no shoyu e
comeu. – Muito simples. – saiu lhe dando as costas.

Quem estava perto e viu a cena, não pode deixar de rir.


A cara de Bianca era impagável. A loirinha se apoiou no
parapeito da varanda novamente e ficou olhando a
paisagem.

- Linda a vista, não é? – Marta se aproximou.


- Verdade. E o vento é melhor ainda.
- Bianca está pegando no seu pé?
- Nada que possa me incomodar. Atitudes não me
incomodam, palavras sim.
- Não ligue pra ela, é uma coitada. Vive no pé de Lívia
pegando migalhas de atenção. Ela já teve seus quinze
minutos de fama, agora minha filha já se cansou dela.

Marina entendeu e ficou confusa ao mesmo tempo.

- Marina eu sei que Lívia é gay. Como também sei que


seus olhos até brilham quando olha pra ela.

A loirinha baixou a cabeça sem graça.

- Não se envergonhe, aceito tudo nessa vida desde que


leve a felicidade. Se ela é feliz assim, eu respeito.
Querer eu não queria, mas respeito, para o bem dela.
O começo da aceitação vem de casa, se os seus não te
aceitam, como vai ser aceito para o resto do mundo?
- Está certa. Isso dá mais confiança a qualquer um.
- Gosta mesmo dela?
- Mais do que pensei. Estou descobrindo um sentimento
novo com Lívia, já havia namorado outra garota antes.
Mas ela é diferente de tudo que já vi. É segura, ousada,
inteligente, bonita, carinhosa. Nunca vi essas
qualidades todas numa pessoa só.
- E é bem sucedida.
- Isso não faz diferença pra mim. – falou como se
sentisse ofendida. - Eu venho de uma família muito
simples, fui criada pelo plantio da cana, meu pai diz
que cada calo que ele tem na mão vale a felicidade de
ver os filhos bem. E dinheiro nunca sobrou em casa e
nem por isso deixamos de ser felizes.
- Você tem dado duro aqui não é?
- Muito. Às vezes tenho vontade de voltar pra casa e
deitar no colo da minha mãe. Mas se ela sofre a minha
ausência hoje, vai sofrer mais ainda se me vir
fracassada na vida. Então quero dar orgulho a ela.
- E vai conseguir, tenho certeza.
- Deus a ouça.
- E quanto a Lívia, mostre a ela que você é mais do que
uma garotinha do interior. Acho que ela gosta de você,
só não está acostumada a ter um relacionamento sério.
Nesse ramo ela não se esforçou muito. – riu.

Marina ouviu o conselho e sorriu. Continuaram


conversando até que Lívia se aproximou.

- Posso saber o que as comadres estão fofocando? –


chegou por trás enlaçando a cintura de Marina com um
braço.

A loirinha ficou meio sem jeito, por estar perto da mãe


de Lívia, mas viu que ela não ligou, então relaxou.

- Estamos falando da vida.


- Da sua ou a de Marina?
- De modo geral.
- E eu to atrapalhando a conversa?
- Não Lívia, estávamos apenas falando de carreira,
trabalho, sonhos... essas coisas. – Marina alisou seu
braço.
- E tem algum sonho desse aí que eu posso realizar? –
Lívia falou toda carinhosa com a loirinha.
- Não, porque os sonhos são meus e eu que quero
realizá-los.
- Eu acho você uma pessoa muito talentosa e tenho
certeza que vai conseguir muita coisa boa nessa vida.
- Sim, mas por enquanto sou pobre, imatura e muito
nova. – Marina se desvencilhou dos braços de Lívia e
voltou para a sala.
- Geniosa ela. Será que ouviu minha conversa com
Fabrício?
- Não sei, mas ouviu o que Bianca falou comigo. –
Então Marta contou o que tinha conversado com a ruiva
e Lívia ficou possessa. Saiu da varanda, entrou pela
sala e foi direto onde ela estava, conversando com
Carlos.
- Vem aqui, por favor. – pegou a ruiva pelo braço e a
levou até a entrada do apartamento, fechou a porta e
ficou só na antessala perto do elevador.
- Que foi?
- Vá embora, agora. Não quero ver você na minha
frente.
- Aconteceu alguma coisa?
- Você ainda pergunta? Sabe muito bem o que falou
dos meus amigos, se você não gosta deles, o que faz
aqui? Nem te convidei a vir na minha casa. Entenda
uma coisa, aquele povinho ali faz parte da minha vida.
Você que ta destoando deles, então saia! Quero você
longe de mim!
- Acha que isso é fácil?
- Acho, principalmente pra uma promotora que conhece
meio mundo da justiça. Conseguir uma liminar para
que você fique longe de mim não é nem um pouco
difícil. E aí? Quer bater de frente comigo?

Bianca ficou pálida.


- Calma Lívia, eu não falei por mal, estava apenas
conversando e...
- Some daqui.

Lívia nem se deu ao trabalho de olhar para trás. Largou


Bianca ali e virou as costas fechando a porta na cara
dela. Carlos veio em seguida e ficou surpreso.

- Ué, ela já foi?


- Ela foi convidada a se retirar. Outra hora te conto.

Quando Lívia voltou o papo na sala estava animado.


Ainda ficaram um bom tempo conversando. Monica
comentava o episódio de Marina com Bianca.

- Marina pega no pausinho aí.


- Viu como sei usar? Esse povo acha que somos da roça
amiga.
- Lá também tem comida japonesa.
- Isso aí.
- Não imaginei que gostasse. – Lívia falou.
- Eu adoro, por isso sei usar os hashis.
- Mas a primeira vez foi um terror hein. – Monica a
entregou.
- Nossa, nem me fale, não consegui de jeito nenhum.
Daí peguei e levei um par pra casa e fiquei treinando lá,
comi uma semana só usando hashi. Menos o almoço,
mas café da manhã, lanche, tudo eu usava, até
aprender.
- Por isso ta craque.
- Posso dar aula se quiserem. – sorriu a loirinha.

Já passava das duas da manhã quando o pessoal


resolveu ir embora. Como na maioria dos lugares,
quando um fala que vai, outros vão atrás. Marta estava
cansada, mas não se entregou, ficou o tempo todo com
eles conversando.
- Eduardo, acho que vou aceitar o convite de ir dormir
na sua casa.
- Ótimo. É bom que botamos o papo em dia.
- Que papo? Vocês se falam sempre. – Lívia estava
indignada. – Você disse que ia dormir aqui.
- Eu não disse isso. Você quem falou que eu não iria
incomodar.
- E não vai, dorme aqui. – disse segurando a mão dela.
- Não, melhor ir com o Dudu. – Marina se soltou.

Estavam quase na porta, uns se despedindo dos outros.


Lívia puxou a loirinha num canto.

- Por que não quer dormir aqui?


- Porque não. Vou incomodar, tirar a privacidade da sua
mãe.
- Não é por isso, ela não vai se incomodar. O que
aconteceu?
- Talvez eu me sinta melhor na casa de Eduardo que é
mais o meu estilo. – falou a última palavra com um
gesto de aspas com os dedos.

Então Lívia entendeu o que estava acontecendo.

- Escuta o que vou te dizer. Você não tem estilo de


ninguém, você é única. Pelo menos aos meus olhos. E
não ligue para o que uma idiota como Bianca fala, ela
não tem escrúpulo e nem bom senso.
- O que ela disse não é nenhuma mentira, só a forma
como foi dita que machucou, mas não é só ela que
pensa assim. Você também e isso me machuca mais. –
Marina tinha os olhos marejados, mas segurou as
lágrimas e não chorou. – Agora preciso ir.
- Não! Fica, por favor, a gente conversa.
- Hoje não, estou cansada. Já viu a hora?

Lívia estava visivelmente chateada.


“Ela esta me dando um toco de novo?!”

Fabrício a chamou pra se despedir e ela se virou para


falar com ele. Marta viu a situação da filha e quis
intervir.

- Fica Marina, amanhã faço waffles pra você. Tenho


certeza que não vai se arrepender. – Piscou os olhos
para ela.
Marina sorriu.
- Isso é chantagem.
- É um pedido. – Marta sorriu.
- Ta bom eu fico, mas não tenho roupas, só essa aqui.
- Problema nenhum, você veste alguma coisa minha,
somos quase da mesma altura. Lívia saiu grande assim
nem sei por qual motivo. – brincou.
- Então eu peço e você não fica, minha mãe pede de
primeira e você aceita. Muito bom isso.
- Ela me ofereceu uma coisa que você não ofereceu.
- O que?
- Waffles.
- Se soubesse que queria negociar...
- Ia me dar o que?
- Tenho muito a oferecer, você nem imagina. – Lívia
olhou com tanta intensidade que Marina corou.
- Sou de gosto simples moça, venho do interior, os
Waffles já me bastam. – Disse passando a mão no
rosto dela e seguindo Marta até a sala.

O pessoal se foi e Marina ficou.

- Vou tomar um banho e já volto. – Marta falou e subiu.

Assim que ela saiu, Lívia chamou a loirinha para a sala.

- Meu anjo vem aqui. – sentou Marina no sofá e se


ajoelhou no chão, de frente a ela e entre suas pernas. –
Se falei alguma coisa que te ofendeu, por favor, me
desculpe. Eu não queria te magoar. E se foi Bianca, não
ligue, porque ela não sabe nada da vida. O pai dela é
um diplomata rico que banca todas as gracinhas que
ela faz. É uma pessoa fútil e vazia.
- Ela não falou nenhuma mentira, mas é que às vezes a
verdade dói não é?
- E quem é que sabe da verdade? Ninguém pode julgar
ninguém. Isso sim é verdade. Eu juntei todo o pessoal
aqui e fiz essas coisas pensando em você. – disse
sorrindo e segurando as mãos da loirinha. – Queria que
ficasse feliz.
- Eu estou feliz, só fiquei um pouco envergonhada. Vai
passar.
- To animada que você vai dormir aqui.
- Eu vou só dormir Lívia. – Marina já foi logo avisando.
- Eu sei, mas estou contente da mesma forma. Você...
– baixou a cabeça, depois levantou novamente e falou.
- ...você quer dormir comigo, no meu quarto?
- Não sei se isso é uma boa ideia.
- Juro que não faço nada.
- Jurar em vão perante uma autoridade dá cadeia
sabia? – brincou.
- Tô sabendo. E será que a autoridade aí não pode me
dar um crédito? – Lívia fez uma cara meio safada.
- Não sei, sua expressão não me passa confiança.
- E Vossa Excelência quer alguma garantia?
- Gostei do Vossa Excelência. – Marina sorriu. – Pode
me chamar assim daqui pra frente.

Lívia deu uma gargalhada. Fazendo a loirinha rir junto


com ela. E num impulso a beijou. Suas mãos que
estavam apoiadas no sofá, subiram para as coxas de
Marina e foram até a cintura. A pianista colocou as
duas mãos no ombro da promotora e apertou quando
sentiu o beijo ficar mais ardente. Lívia se aproximou
mais e puxou Marina pela cintura, fazendo-a abrir mais
as pernas e colar seu corpo no dela. Aquele contato
acendeu todos os instintos da morena.

- Não sei exatamente o motivo, mas só de ter você


colada em mim, meu corpo fica louco. – falou
sussurrando no ouvido de Marina.
- É porque você é assanhada. – a loirinha se afastou.
- Você que me assanha.
- Eu?
- É. Gostosa e linda desse jeito.
- Ah que nada.
- Verdade. – beijou seus lábios. – Você pode não saber,
mas existe uma mulher muito bonita aí dentro. Acho
que ela está desabrochando ainda.
- Desabrochar é uma palavra inusitada.
- Meio brega, mas é verdade. E então excelência, vai
dormir comigo?
- Promete que não vai fazer nada?
- Prometo.
- Jura dizer a verdade, somente a verdade, nada mais
além da verdade?
- E num é que ela sabe das coisas? Andou frequentando
algum tribunal?
- Sim, matei uma pessoa. – Marina fez cara de mal.
- Então terei que prendê-la. – Lívia levantou uma
sobrancelha.
- Mas quem prende não é o guarda?
- Eu sou uma autoridade, posso prender se quiser.
- Hum... – Marina teve um pensamento quase obsceno.
- Que cara é essa?
- Pensei demais aqui. – Marina mordeu o queixo de
Lívia, que ainda permanecia ajoelhada à sua frente.
- Quando penso que você é muito ingênua e vejo essa
cara de sem-vergonha, começo a duvidar.
- Não sou ingênua, sou transparente. Quem me
conhece sabe que não tenho nada a esconder do que
sou e de onde vim.
- Transparente não é não. Essa roupa não me deixa ver
nada. – Lívia brincou.
- Ainda bem.
- Que pena. Tenho certeza que tem muita coisa boa
aqui. – Enfiou as mãos por debaixo da saia, mas não
avançou.
- Tem nada, sou muito rechonchuda ainda.
- Eu to gostando do que vejo.
- Porque é uma safada.

Lívia riu e se levantou.

- Vem, minha mãe já deve estar saindo do banho. Vou


ver o que ela separou pra você vestir. Espero que nada
muito comportado.
- Vindo da sua mãe, pode esperar.

Subiram as escadas e Marta estava saindo do banheiro


quando as duas apareceram.

- Marina, esse pijama serve em você, tem toalhas no


banheiro também. Precisa de calcinha?
- Não, eu tenho uma na bolsa.
- Você anda com uma calcinha na bolsa? – Lívia
perguntou intrigada.
- Ando, quando se mora fora de casa e não tem carro,
é bom se prevenir.

A morena achou graça.

- Vou tomar meu banho então.


- Pode ir no banheiro do meu quarto. – Lívia falou.
- Tá bom.
- Fique à vontade linda.

Marina entrou pro banho e Lívia foi até o quarto de sua


mãe.

- Mãe, ela pode dormir comigo? – parecia uma criança


pedindo um brinquedo.
- Lívia, não acha que ela vai ficar constrangida?
- Acho que ela pensa mais no constrangimento da
senhora.
- Penso que ela vai ficar sem jeito.
- Eu não vou fazer nada, ela sabe disso.
- Será que não vai?
- Mãe!
- Lívia eu conheço muito bem você. E sei que agora
está empolgada com essa menina. Será que essa
empolgação tem prazo para acabar?
- Não sei. Eu a acho diferente de tudo.
- De todas você quer dizer.
- Pode ser, ela é meiga, é simples, gosta de coisas
simples.
- Ela gosta é de você, por isso não acho certo magoá-
la. Se ver que isso não vai dar em nada, então pare
agora.
- Mas eu gosto da presença dela. – insistiu.
- Então ta bom Lívia, você já é adulta e sabe o que
fazer. Só saiba que ela não é uma pessoa qualquer.
Não é do tipo aproveitadora e se magoá-la pode não ter
volta.
- Eu sei.
- Uma vez na vida, dê valor a quem gosta de você. E
gosta sem interesses.

Lívia baixou a cabeça e ficou pensativa. Sua mãe tinha


toda razão e ela parecia uma adolescente.

Marina entrou no banheiro e ficou admirada. Era todo


preto e tinha uma hidromassagem enorme de um lado
e uma ducha do outro. A bancada era imensa,
principalmente para uma pessoa. Quando saiu de lá a
morena estava ajeitando a cama.

- Cama arrumada! Tem dois travesseiros pra você.


- Só preciso de um.
- Eu gosto de dois, um pra apoiar a cabeça e outro pra
abraçar. Se bem que essa noite acho que não vou
precisar dele. – olhou de cima a baixo para Marina.
- Você prometeu...
- Tá certo excelência. – sorriu. – É que você está uma
graça com esse pijama. – Lívia se referia ao pijama
rosa e branco que sua mãe emprestara a Marina. Era
um short e uma blusinha sem mangas, estava muito
simpático.
- Vai tomar seu banho anda. – Marina começou a
empurrar a morena para o banheiro.

Quando Marina estava se deitando Marta apareceu na


porta.

- Vai ficar bem aí?


- Vou sim. – Marina parecia sem jeito.
- Marina estou acostumada, não precisa ficar sem jeito.
Não sou uma mãe moderninha, mas como eu disse,
respeito a escolha de minha filha e outra, sei que você
é uma pessoa sensata. Não vai fazer nada que não
queira.
- É...
- Boa noite então e durma bem. Diz pra Lívia que já fui
dormir, até ela sair do banho eu já estou no quinto
sono. Nunca vi demorar tanto.

Realmente Lívia demorou, Marina bem que tentou


esperar, mas não aguentou. Acabou adormecendo.
Sentiu um corpo quente lhe abraçar pelas costas e uma
boca beijar sua nuca. Abriu os olhos e sorriu. A morena
parecia usar um roupão, não sabia se estava vestida
por baixo.

- A sua pele é tão macia. – Lívia sussurrou no seu


ouvido.
- Lívia você me prometeu... – Marina sentia as mãos da
morena passearem pelo seu corpo.
- Eu menti. – Lívia mordeu o lóbulo da orelha dela.
- Isso dá cadeia.

A morena riu. Estava excitada com a situação. E ter a


loirinha ali ao seu lado estando sozinhas a deixou em
brasa. Parecia ter pressa.

- Você não vai me denunciar, vai? – agora uma das


mãos ameaçava um toque no seio esquerdo.

Marina se virou e ficou de frente para ela que


imediatamente subiu ficando sobre seu corpo.

- Se você for presa, quem vai me pedir os melhores


beijos do mundo? – Marina falou de uma forma tão
doce que fez Lívia perder a urgência e se acalmar.
Abaixou a cabeça escondendo-a no colo de Marina e
aspirou seu perfume.
- Está cheirosa.
- É o sabonete do seu banheiro. – Marina respondeu.
- Você sempre é cheirosa.
- Isso eu faço questão de ser mesmo.

Lívia a beijou de novo, mas dessa vez com mais


delicadeza. Marina abriu as pernas e enlaçou a cintura
da morena, sentindo o peso do corpo dela sobre o seu.

- Isso é golpe baixo. – a morena levantou uma


sobrancelha.
- O que? – Marina se fez de desentendida.

Lívia respirou fundo, beijou o queixo da loirinha, ficou


olhando em seus olhos. Parecia procurar alguma coisa.

- Que foi? – Marina indagou.


- Estou admirando. Seus olhos são a coisa mais bonita
que já vi, quando olho pra eles, penso que conheço
você de algum lugar. Como se estivesse te
reencontrando.
Marina ficou na dúvida sobre as palavras de Lívia.
Estava sendo sincera ou era apenas uma cantada?
Sentia sinceridade nas palavras, mas o histórico da
morena não ajudava.

- Seus olhos também me chamam a atenção. Fico


observando você e tenho a sensação de que me é
familiar. Mas posso estar impressionada.
- Impressionada com o que?
- Com você.
- Por quê?
- Você é a mulher mais bonita que eu já vi na minha
vida. – Marina falou com tanta sinceridade que Lívia
não aguentou.

Beijou aqueles lábios macios e não pensou mais na


promessa, se deixou levar. Suas mãos percorreram o
corpo de Marina e ao contrário da vez anterior a
loirinha não se opôs a nada. Colocou umas das mãos
embaixo da blusa dela e sentiu seu corpo arrepiar. Foi
subindo com cautela, não sabia se ela deixaria,
percebeu que não teve impedimentos então chegou a
um seio. Quando passou os dedos no biquinho, sentiu a
loirinha arquear o corpo e gemer. Terminou de levantar
a blusa e viu os seios empinados, de bicos rosados.
Marina ainda não era uma mulher feita, mas seu corpo
era lindo. Com beijos molhados foi fazendo um rastro
da barriga até a boca e lhe beijou com paixão. Marina
abriu o roupão de Lívia e viu que ela usava uma lingerie
de renda preta, ficou admirada. Sabia que ela tinha um
corpo bonito, mas era mais do que imaginava.

- Você quer? – Perguntou olhando em seus olhos.

Marina pensou se estava fazendo a coisa certa, pensou


em hesitar, mas viu sinceridade nos olhos de Lívia.
- Quero. – falou baixinho.

A morena se levantou um pouco e puxou o short do


pijama, deixando Marina só de calcinha. Beijou sua
barriga e mordeu, Marina quis abrir o sutiã de Lívia,
mas ficou com vergonha.

- Pode abrir. – Lívia falou beijando-lhe os lábios.

Então a loirinha delicadamente tirou a peça e viu os


seios da morena, eram lindos e fartos. Passou a mão
bem de leve com tanta sutileza que Lívia achou o gesto
quase imaculado. Acariciavam-se sem pressa e seus
toques eram calmos e leves. A morena não tinha
aquela urgência que sentia das vezes que fizera sexo
com outras mulheres, com Marina era diferente. Não
fazia sexo, fazia amor. “Amor?!” - pensou
rapidamente. Ela estava fazendo amor e isso era
inédito. Desceu pelo corpo de Marina e buscou ser o
mais gentil que podia. Tirou a sua calcinha e viu um
triangulo de pêlos dourados. Marina se acanhou um
pouco e colocou as mãos como que escondendo. Lívia
achou aquilo inaudito. Subiu por seu corpo novamente
e levou uma das mãos de Marina até sua calcinha para
que ela a tirasse também. Estavam totalmente nuas e
sentindo seus corpos colados. Lívia novamente desceu
com beijo até chegar aonde queria. Abriu as pernas de
Marina bem devagar e levou a boca até o clitóris. A
loirinha gemeu baixinho e segurou os cabelos da
morena, acariciando-os. Não sabe por quanto tempo
ficou assim, Lívia era carinhosa, quente e isso fez com
que Marina se entregasse por completo. Sentiu a língua
da morena fazer coisas inimagináveis, num beijo intimo
e ardente. Para Lívia o gosto de Marina era algo que
nunca havia experimentado, nem com toda a
experiência que tinha. Por um momento achou que
estava sonhando, estava entorpecida. Sentiu que a
loirinha entrava no clímax, seus gemidos estavam
roucos e seu corpo começou a tremer. Quando ela
finalmente gozou a morena parou e foi beijando cada
parte que ia passando, até que viu aqueles olhos
verdes semicerrados. Estava ofegante e com as
bochechas vermelhas, Lívia a achou linda. Sorriu e a
beijou na bochecha, no queixo, na ponta do nariz e
finalmente nos lábios.

- Acho que nunca senti isso na minha vida. – Lívia falou


quase num desabafo.
- Tirou as palavras da minha boca. – ainda estava
ofegante.
- Linda!

Marina sorriu ao ouvir ser chamada de linda. A abraçou


tão forte que Lívia estranhou.

- Hei, não vou sair daqui. Não precisa me agarrar desse


jeito.
- É pra sentir você.
- Mas está sentindo.
- Só que eu quero mais.

Marina beijou a morena com vontade, se virou na cama


e ficou por cima dela. Sabia muito bem que teria de se
esforçar, não tinha nem de longe a experiência de Lívia.
Fez tudo com calma, a intenção não era impressionar,
mas ser ela mesma. Beijou o colo de Lívia, depois
desceu para os seios e se deteve neles, mordia e
assoprava, fazendo a morena se arrepiar.

- Você está judiando de mim? – a voz saiu rouca.


- Não, estou provando você.

Marina continuou descendo e tirou a calcinha da


morena, encontrou os pêlos bem aparados, passou a
língua da virilha até o meio da coxa e quando Lívia
menos esperou, ela abocanhou seu sexo e sugou todo
aquele líquido. Sentiu um gosto ímpar e isso a excitou
como nunca havia acontecido. Levou as mãos até os
seios da morena e apertou-os enquanto sugava seu
sexo. Não demorou muito para que a morena gozasse.
Marina sentiu como se fosse dona daquele corpo
escultural. Foi parando devagar e sentindo o corpo da
outra tremer. Ficou por cima dela e beijou seus lábios.

- Onde você aprendeu isso?


- Não fiz nada demais.
- Não é o que fez, mas como fez. Posso dizer que estou
de pernas bambas e isso é raro.
- Ah é? – Marina lhe deu um selinho.
- É. Vem cá. – Lívia a abraçou e aconchegou a loirinha
no seu colo.

Adormeceram naquela posição.

Estava quase amanhecendo quando Marina se mexeu e


acordou, ainda estava em cima de Lívia, na mesma
posição que dormiram. Ficou observando a morena, as
sobrancelhas delineadas, a franja bagunçada, os lábios
perfeitos. Era linda. Os olhos dela se abriram e tinham
um azul impressionante.

- “Foi assim como ver o mar, a primeira vez que meus


olhos, se viram no seu olhar...” – Marina cantou um
pedaço da música.

Lívia sorriu e recebeu o beijo mais doce que podia.

- Dormiu bem?
- Dormi como um anjo.
- Você é um anjo.
- Sou nada.
- Se bem que o que você fez comigo ontem não é digno
de um anjo. Depois a safada sou eu.
- Você é safada e assanhada.
- Que ultraje!

Marina riu, levantou e ficou sentada em cima de Lívia,


mas enrolada na coberta, não se sentia à vontade para
mostrar seu corpo. A morena percorreu o corpo dela
por baixo da coberta e parou as mãos na cintura.

- Acordar com essa visão é um privilégio. Ficaria


melhor sem a coberta.
- Depois diz que não é safada.
- Eu não sou é boba, uma mulher linda dessas na
minha frente, nua e eu vou ficar marcando bobeira?
Vem aqui vem linda.
- Não. – Marina tinha um sorriso safado.
- Ah é? Então eu vou aí.

Lívia se levantou, sentando na cama, ficando de frente


para a loirinha.

- E agora? Vai correr?


- Não. – Marina ainda tinha o mesmo sorriso.
- Então posso fazer o que eu quiser?
- Pode.
- Ah Marina, você não sabe o que diz.

Lívia arrancou a coberta e ambas ficaram nuas.


Segurou a loirinha com firmeza e rodeou as mãos na
cintura, trazendo-a para um beijo. Mordia os lábios de
Marina e chupava. Desceu uma das mãos para o seio e
apertou o bico fazendo a garota gemer entre os beijos.
Levou a outra mão até o sexo dela e a sentiu molhada,
enfiou dois dedos bem devagar e não sentiu
resistência, então começou com estocadas bem leves,
sentindo o corpo da loirinha. Marina colocou as mãos
sobre os ombros de Lívia e começou um rebolado que
deixou a morena louca. Os movimentos foram
aumentando e então Marina também massageou o
clitóris de Lívia até que as duas gozaram juntas.
Abraçaram e permaneceram inertes, somente sentindo
os corpos respirarem cansados. Lívia deitou e puxou
Marina com ela, virando-a numa posição para deitarem
de conchinha. Abraçou a loirinha bem forte e aspirou
seu perfume. O dia estava quase clareando.

- Temos que levantar? – Marina falou cansada.


- Não meu amor. Está cedo ainda. Dorme que quando
for a hora eu te chamo.

Lívia ficou alisando aqueles cabelos loiros e pensando


na noite que passara. De repente um pensamento a
perturbou: “Eu a chamei de amor?!” Dormiu pensando
nisso.

Quando Marta acordou estava tudo em silêncio ainda,


viu no relógio e ainda era cedo. Levantou da cama e foi
andando pelo apartamento, passou pelo quarto de Lívia
e tentou abrir a porta, estava fechada, mas não
trancada. Entrou devagar e viu as duas dormindo
abraçadas. Desconfiou que pudesse ter acontecido
alguma coisa, mas só ia saber mesmo quando a filha
acordasse. Estava na cozinha fazendo um café quando
Lívia apareceu.

- Bom dia mãe.


- Bom dia minha filha.
- Dormiu bem?
- Sim e você também, pelo visto.
- Dormi. – Lívia nem quis esconder o sorriso.
- Lívia, Lívia... – quis repreendê-la.
- Mãe me deixa. Sei o que estou fazendo.
- Será que sabe? Normalmente eu não ligo para o que
faz da sua vida amorosa, mas dessa vez vou ficar no
seu pé.
- Ah sim, você, Fabrício, mais quem?
- Isso porque você é sem juízo.
- Não sou, sabe que não. E dessa vez está sendo
diferente.
- Em que, posso saber?
- Ela é diferente, eu sou diferente com ela também.
- Deus, só espero que não faça besteira.

A preocupação de Marta era que Lívia mais uma vez


largasse mão de alguém. No início era sempre
empolgada, mas depois algo acontecia e ela perdia
totalmente o encanto. Sempre saía alguém machucado
e era a outra parte.

- Mãe, não precisa se preocupar com o café. Vou pedir


alguma coisa.
- Prometi a Marina que faria waffles.
- Mas eu quero levar café na cama para ela.

Marta olhou surpresa, Lívia nunca tinha feito isso nem


para ela.

- Agora fiquei com ciúme. Nunca recebi café na cama.


- Ah mãe, eu faço um pra você então, mas lá em Mauá.
Prometo.
- Sei. – Olhou de rabo de olho.
- Não sabia que queria um, você sempre levanta tão
cedo e faz tudo.
- Quem faz tudo? – Marina apareceu na cozinha.
- Ah, você levantou. Não era pra levantar. – Lívia
lamentou.
- Você disse que me chamaria quando se levantasse.
- Não, disse que chamaria quando fosse a hora.
- E não é?
- Não. Volta pra lá!
- Que?
- É. Anda, corre! – Lívia começou a botar pressa na
loirinha. Foi até ela e abraçando-a por trás foi andando
até a escada. Pegou-a no colo e subiu levando-a para o
quarto. Marta ficou boquiaberta.
- Fica quietinha aqui. Eu já volto.
- O que eu vou ficar fazendo aqui?
- Veja TV. Não saia daqui.

Marina não entendeu, mas ficou quieta. Lívia desceu


correndo e pediu o café da manhã.

- A senhora toma com a gente, assim eu agrado todo


mundo.
- Não precisa, depois te cobro o meu. – Marta quis dar
mais privacidade a elas.
- Ah mãe, vai tomar café sozinha?
- Não, eu como alguma coisinha do que chegar. Pode
fazer sua surpresa, ela vai gostar.
- Ah não. Você toma com a gente, eu te chamo, só vou
levar pra fazer surpresa e depois te chamo. Ela gosta
de você e sei que também gostou dela.

Marta sorriu, Lívia tinha razão. Simpatizou com Marina


desde o primeiro dia que a viu e em poucos dias já
sentia um carinho por ela.

- Ta bom. Vou ficar no quarto e você me chama lá.

Um tempo depois chegou o café, Lívia correu e foi


arrumar tudo numa bandeja. E levou para o quarto.
Marina havia cochilado de novo.

- Mas que dorminhoca. – deixou a bandeja de um lado


da cama e foi se aproximando da garota, abraçou seu
corpo e cheirou sua nuca. – Você dormiu de novo?
- Eu só cochilei. Deu preguiça.
- Hum... – Beijou o pescoço dela. – ...trouxe uma
coisinha. – Beijou de novo.
- O que?
- Café da manhã na cama. – Beijou-lhe os lábios.
- Nossa! Você faz isso pra todas? – quando percebeu
Marina já tinha falado. – Ah desculpe, foi o impulso.
- Acha que já fiz isso antes? – Lívia ficou séria.
- Não... não sei.
- Nunca fez! Posso garantir. – Marta entrou no quarto
falando.

Marina ficou meio sem graça.

- Viu?! Você é a primeira. – Lívia sorriu novamente. –


Senta aqui mãe, vamos comer juntas. Ela ta com ciúme
Marina, porque nunca levei café na cama pra ela.
- Ah, então vamos para o quarto dela, tomamos o café
lá.
- Não! Pode ser aqui, já me dou por satisfeita. Isso
tudo aqui ta com uma cara boa.

A bandeja era grande e tinha salada de fruta, geléias,


croissant, pães, suco e leite com chocolate.

- Vamos todas sair da dieta. – Marta falou rindo.


- Depois fazemos uma caminhada, aí compensa.
Podemos andar na praia.
- Marina, andar na praia uma hora dessas? – Lívia
perguntou.
- Ué, o que tem. Eu mesma vou ter que sair pra ligar
pra minha mãe, ligo sempre as quartas e sábados. Já vi
que tem um orelhão aqui perto.
- Que orelhão menina, ligue daqui de casa. Pra que vai
sair pra isso.
- Não precisa, eu to acostumada.
- Você não tem um celular? – Marta perguntou.
- Não. Eu ia comprar um, mas houve um imprevisto e
eu vou esperar mais um pouco. Tinha um, mas ficou
em São Paulo, minha mãe precisou dele.
- Você tem irmãos? – Marta perguntou.
- Tenho um mais velho. Ele ajuda meu pai na roça e no
final de semana eles vão para a cidade, já é casado e
tem uma filha.
- Seu pai é produtor?
- Sim, de cana de açúcar. Tem gado também, mas é
pouco. Cria galinhas também, porco, pato, mas tudo
para uso nosso. Ele não vende.
- Sua mãe não fica com ele por quê?
- Porque eu morava lá, talvez eu estando aqui ela
passe mais tempo com meu pai. Aproveita e cuida das
coisas. A gente planta muita coisa lá. Em casa as
verduras, legumes e frutas, a maioria vem da roça.
- Pelo menos a alimentação de vocês deve ser muito
saudável.
- É sim. Nada de agrotóxico.

Enquanto Marina ia contando, Lívia observava seu jeito.


Realmente era uma menina ingênua e de costumes
simples. Por isso era diferente. Quando acabaram,
recolheram a bandeja e foram para a cozinha lavar a
louça, Marina mudou de roupa e já ia saindo.

- Bom, vou ali e já volto


- Aonde vai?
- Vou ligar pra minha mãe.
- Não linda liga daqui.

Marina ficou um pouco sem jeito.

- Vai, tem um telefone ali naquela mesa. – Lívia


mostrou e ela foi até lá.

Discou e esperou.

- Oi mãe! Bom dia! ...Aqui está tudo bem e aí?


...Manda um abraço pra ele. Liguei só pra dizer que
está tudo bem... Está sim, ela é meio esquisita mesmo,
sabe como é né, muito agitada... Vou falar... Ta indo
tudo bem... Ah sim, foi ontem e foi muito bom. Depois
eu conto tudo com detalhes para a senhora. Não posso
demorar no telefone. Não estou ligando de orelhão,
estou na casa de uma amiga... Obrigada. Benção mãe.
Lívia da sala não pode deixar de ouvir a conversa,
achou a ligação rápida, Marina realmente só dava um
alô para a mãe não se preocupar. Provavelmente para
a ligação não ficar cara. Lembrou de quando sua mãe
foi pra Mauá, também ligava e falava rápido.

- Prontinho. Eu só falo que estou bem e pronto. Senão


ela se preocupa.
- Ta certo. Quando vai vê-la?
- Talvez depois dos shows da semana que vem.
- O bar não vai entrar em reforma? – Lívia foi se
aproximando para abraçá-la.
- Vai, mas são outros shows. – Marina abriu os braços
para aconchegá-la.
- Não sabia desses. – lhe deu um selinho.
- Sim, um é uma boda de prata. E o outro é lá no
morro da Urca.
- Lá no alto?
- Sim! – Marina falou empolgada.
- Nossa e será que eu posso ir?
- Acho que pode. Eduardo não falou nada de público
restrito. Acho que vai ter um evento lá durante alguns
dias e na sexta nós vamos tocar.
- Então vou lá te ver.
- Vou adorar. – Marina a beijou e acariciou aqueles
longos cabelos negros.
- E tem mais shows depois desses?
- Não. Por quê?
- Por nada. – Lívia parecia estar pensando.
- Ta pensando em que hein?
- Nada, só tentando arquitetar uma coisa.
- Sei. E posso saber o que é?
- Mais pra frente.
- Ó! E eu vou ficar curiosa?
- Vai. Eu gosto de surpresas.
- Ai, ai...

A morena a beijou e abraçou levantando Marina do


chão.

- Linda! Sabia que adorei a noite de ontem? – Lívia


falou em seu ouvido e colocou-a no chão.
- Eu também gostei. – Marina falou com timidez.
- E quero repetir a dose.
- Depois diz que não é safada. – Marina se
desvencilhou dela e se virou fingindo estar contrariada.
- Hei, vem aqui. – Lívia a puxou e abraçou pelas costas.
– Quem manda ser gostosa. Agora eu viciei. – virou
Marina e beijou-a novamente.

Marta, que havia ido ao quarto, chegou até a sala e viu


as duas juntas, tentou não chamar a atenção e ir direto
para a cozinha, mas não deu certo. Marina a viu e se
soltou de Lívia que não entendeu, mas quando se virou
viu o motivo.

- Preciso voltar para o apartamento. Tirar essa roupa,


estou com ela desde ontem.
- Pegue roupas lá e volte pra cá.
- Não precisa, acho que essa noite Monica não deve
dormir lá.
- Hugo disse que passaria o final de semana lá.
- Ah é, tinha esquecido.
- Então, dorme aqui.
- Lívia, sua mãe ta aqui, ela quer sua companhia
também.
- Sei dividir minha atenção.

Marta voltou da cozinha e se aproximou das duas.

- Marina eu não esqueci, Lívia que me desviou da


minha promessa.
- O que? – a menina não entendeu.
- Seus waffles! – Falou desolada.

A loirinha achou graça da cara dela.


- Ah, não tem problema. Fica pra outra vez.
- Não! Você tem que provar meus waffles. Eu faço no
café da manhã de amanhã. – Marta olhou
intencionalmente para Lívia.
- Não precisa Marta, o café de hoje já foi suficiente. Era
bem mais do que eu esperava.
- Mas os meus waffles não têm nada a ver com o café.
Dorme aqui e você não vai se arrepender.

A loirinha acabou cedendo e aceitando ficar o final de


semana lá.

- Ta bom vai, eu fico.


- Oba! Então eu te levo na sua casa, você pega as
roupas e voltamos. Pode ser?
- Pode.
- Vem conosco mãe?
- Quero dar uma volta na rua, preciso comprar um
perfume que sua tia me pediu.
- O filho desnaturado dela não pode fazer isso? – Lívia
se referia a Fabrício.
- Fabrício é mais desligado que qualquer outra coisa.
- Para algumas, para outras nem tanto. Bom, vamos
então, vou só trocar de roupa.

Saíram primeiro para passar na casa de Marina, ela as


convidou para subir e as duas aceitaram. A loirinha
abriu a porta e estava tudo em silêncio.

- Ué, não tem ninguém em casa? – Entrou no quarto da


amiga, a cama estava desarrumada, mas realmente
não tinha ninguém em casa. – Fiquem à vontade, só
vou pegar uma roupa.

Enquanto Marina se trocava e olhava o que ia levar.


Lívia e Marta sentaram na sala.
- Aqui é bonitinho.
- Sim, me lembrou quando mudei logo que a senhora
foi pra Mauá. Era mais ou menos assim o apê.
- É verdade. Elas moram de aluguel?
- Provavelmente sim. Hoje em dia os aluguéis da Tijuca
estão caros.
- O povo se aproveita dos estudantes que vêm de fora.

Marina saiu do quarto e chegou na sala.

- Linda, aqui vocês pagam aluguel, não é?


- Sim. Um horror! Mas não achamos outro mais barato,
os que tinham eram em lugares bem perigosos. Aqui
ainda ta bom.
- Estou falando com Lívia que eles se aproveitam de
vocês virem de fora e cobram uma nota.
- Com certeza. Mas eu acho que está bom, o prédio é
tranquilo. Eu e Monica estudamos todos os dias e os
vizinhos não reclamam.
- Claro! Vocês tocam muito bem, nem podem reclamar.
– falou Marta.
- Bom estou pronta. – sorriu.
- Então vamos. – Lívia se levantou junto com a mãe.

Dirigiram-se para o Barra Shopping, Marina nunca tinha


ido lá, na verdade nem pensara em ir. Era outro mundo
para ela. Ficou olhando e não pode deixar de admirar.

- Bonito aqui.
- É um shopping como os outros. – Lívia falou.
- Mas é bonito ué.
- Vou te levar num lugar aqui que vai gostar. – Lívia
passou o braço pela cintura de Marina.

Marta ficava de olho no comportamento da filha,


parecia uma adolescente.

- Mãe, qual loja a senhora quer ir?


- É no segundo piso.

Foram para lá e Marina olhava por todos os lados


admirada com as lojas. Compraram o perfume que
Marta queria e continuaram andando. Lívia passou em
frente a uma loja e viu um conjunto de saia e blazer,
achou bonito e entrou para experimentar. Quando saiu
do provador, tanto Marta quanto Marina se
encantaram.

- Nossa ta linda. – Marina sorriu.


- Ta mesmo. – Marta concordou.
- Ficou excelente Lívia! – a vendedora falou um tanto
efusiva.
- Gostou mesmo? – Lívia perguntou a Marina.
- Gostei. – ela sorriu.
- Vou levar então.
- Mais o que minha linda? Temos mais novidades.

O tratamento da vendedora com Lívia deixou Marina


irritada, pareciam ter intimidade demais. Marta logo
percebeu e deu um jeito de distrair a loirinha, fazendo-
a olhar outras roupas.

- Está sumida querida. – a vendedora falou enquanto


dobrava as roupas.
- Trabalhando muito.
- Apareça mais na loja, vamos marcar alguma coisa,
sinto falta daquelas noitadas.

Não tinha a menor chance de Marina não ouvir, pois a


loja não estava cheia, não era grande e a vendedora
não falava baixo. Marta olhou para Lívia com uma cara
feia e Marina preferiu sair da loja.

- Vai ficar difícil, estou namorando e curtindo minha


namorada em programas mais tranquilos. Obrigada,
tchau.
Lívia saiu e nem viu a cara de decepção que a
vendedora fez.

- Onde está Marina?


- Saiu, pra não ouvir essas sandices. Eu me pergunto
pra onde vai o seu juízo às vezes.
- Ele tira férias. – Lívia descontraiu.

Marina esperava olhando uma vitrine de uma loja a


frente da que Lívia estava.

- Gostou de alguma coisa aí?


- Oi? Ah não, estava só olhando.
- Aquela roupa ali combina com você. – Lívia mostrou
um vestido todo preto, mais soltinho com detalhes
brancos na beirada.
- Bonito mesmo.
- Vamos entrar pra ver?
- Não.
- Por quê?
- Porque não quero.
- Que custa?
- Custa nada, o vestido é que custa.
- Posso dar de presente pra você?
- Não.
- Mas por quê?
- Porque não Lívia. Pra que isso? Eu tenho roupas.
- Eu sei, mas queria te dar um presente.
- Você já me deu um, trouxe de Mauá, lembra?
- Aquilo nem foi presente.
- Sim, mas não quero. Vamos?
- Ta bom. – Lívia foi contrariada.

Marta assistia a cena e achava graça.

- Ah esqueci a chave do carro na loja, vou voltar.


Podem ir andando.
As duas foram andando e olhando vitrine, enquanto
Lívia correu. Olhou rapidamente, estavam distraídas
então entrou na tal loja do vestido.

- Quero esse vestido e aquelas sandálias. Rápido! E é


presente.

A vendedora viu que ela estava com pressa e correu o


quanto pode. Entregou a sacola, Lívia pagou e saiu.
Colocou o presente dentro da sacola que estava sua
roupa que tinha acabado de comprar.

- Voltei. A moça tinha guardado a chave e quase que


não acha. – deu uma desculpa.

Marina ainda parecia enfezada com o que ouvira da tal


vendedora, estava meio séria.

- Amor, tem uma loja aqui que você vai gostar. – Lívia
puxou Marina pela mão.

A loirinha mesmo com raiva não deixou de reparar em


como Lívia a chamou, nem Marta, que só levava susto
a cada comportamento da filha.

Entraram em uma loja de chocolates e todo tipo de


guloseimas.

- Nossa! Que loja legal! – Marina se animou.


- Tudo aqui é gostoso. TUDO!

Lívia pegou um bombom e deu pra ela comer.

- Morde. Tem licor dentro.

Marina mordeu e achou uma delícia.


- Hum, que gostoso.
- Olha esse mãe, tem creme de menta. – Falou
mostrando a Marta, que também experimentou e
gostou
- Estamos comendo sem pagar? – Marta indagou.
- Não. – Lívia riu. - Eu conheço o dono, por isso estou
nessa intimidade toda, mas aqui a gente escolhe e pesa
depois. Vamos escolher. Comemos depois do almoço.

Marta pegou uma caixa pequena e escolheu alguns.


Lívia, exagerada, pegou a caixa maior.

- Vem linda, a gente escolhe juntas. – Pegaram


bombons, garrafinhas de chocolates, chocolates
importados, pirulitos, até frutas banhadas em calda
quente.
- Posso comer uma dessas agora? – Marina perguntou
olhando para uma cereja com chocolate.
- Claro. – Lívia pegou um e deu na boca dela.
- Nossa que delícia. – Falou deixando escorrer
chocolate no canto da boca.

Lívia até se arrepiou. Se não estivesse em público teria


tirado com a própria língua.

- Delicia é você com esse chocolate na boca. Sorte sua


que estamos em público. – falou baixinho e limpando a
boca da loirinha com o polegar.
- Eu já terminei de escolher. – Marta falou.
- Acho que acabamos também não é? – Marina falou
ainda vermelha de vergonha pela declaração de Lívia.
- Sim.

A morena levou tudo até o caixa e pagou. Continuaram


passeando até dar fome.

- Tem um restaurante italiano muito bom aqui,


podemos ir lá. – Lívia sugeriu.
- Por mim tudo bem. – Marina concordou.
- Desde que seja comida eu to aceitando, to morrendo
de fome. – Marta falou fazendo as duas darem risada.

Sentaram e pediram, cada uma escolheu sua massa.


Marina quis espaguete, Lívia um pene e Marta ravióli.
Os pratos chegaram e elas comeram conversando. A
loirinha deu um show de elegância almoçando, para a
surpresa de Lívia. Marina enrolou o espaguete com o
garfo e a colher, fazendo tudo como manda a etiqueta.
Quando terminaram de comer não quiseram a
sobremesa, pois tinham muito chocolate. Andaram
mais um pouco e foram para casa. Lívia jogou a sacola
no sofá e caiu em cima dele.

- Nada melhor que o aconchego do lar.


- Nossa, falou e disse. – Marina se sentou. – Sinto falta
do meu quarto em Jaú, do meu piano...
- Com o tempo você vai se acostumar ao Rio, vai
acabar sendo seu lar. – Marta sentou-se ao lado dela.
- Eu sei. Sinto falta mesmo é da família. Se eles
estivessem aqui, eu me acostumaria mais rápido. O
aconchego é do lar familiar, não da casa em si.
- Quando mamãe foi para Mauá eu morava num
apartamento no Grajaú, sempre achei que era legal lá.
Depois que ela mudou, fiquei deslocada. Era falta dela.
– Lívia sorriu para a mãe.
- Eu acho legal a relação de vocês duas, parecem mais
irmãs.
- Mas Lívia é uma ótima filha, não posso nunca me
queixar dela. Tem seus defeitos que eu tento a todo
custo corrigir ou ao menos diminuí-los, mas isso todo
ser humano tem.
- E algum dia aprende. Acredito que a tendência do ser
humano é sempre melhorar. Ela ainda tem salvação. –
Marina brincou.
- Ela será salva do purgatório. – Marta entrou na
brincadeira.
- As duas vão parar ou vou ter que argumentar a meu
favor?
- Papo de advogada. Vamos correr Marina! – Marta se
levantou, fazendo de conta que iria puxar a garota, que
achou graça. – Bom eu vou descansar as pernas que
passear no shopping me destruiu.
- Onde posso deixar minhas coisas? – Marina
perguntou.
- No meu quarto mesmo.
- Eu levo pra você Marina, vou subir. – Marta pegou a
mochila dela e subiu pra descansar.

Assim que ela saiu Lívia chamou Marina.

- Psiu. Loirinha bonitinha.

Marina fez que não ouvisse, ela continuou.

- Gatinha, vem cá. Psiu!

A loirinha não aguentou e riu.

- Que foi? – disse com um sorriso lindo no rosto.


- Vem aqui.

Ela chegou perto e a morena a puxou fazendo cair em


cima dela.

- Era isso que eu queria.


- Que eu caísse em cima de você?
- Sentir você mais perto de mim. – a morena sorriu e a
beijou. Ficaram num amasso no sofá e nem se
preocuparam com Marta. O tempo passou e elas nem
perceberam. Para Marina era um sonho misturado com
fantasia. Lívia era um presente, que parecia não ser
para ela, mas iria aproveitar e deixar rolar, agora já era
tarde pra tentar evitá-la. E para Lívia era uma sensação
nova, trilhava por um caminho totalmente diferente e
estava gostando. Não sabia quanto tempo ia durar
também, mas estava adorando todos os momentos ao
lado de Marina.

Ainda estavam se beijando quando Marina se lembrou


de ver as horas.

- Meu bem, preciso saber das horas, tenho que me


arrumar pra ir tocar. – falou entre beijos.
- Você me chamou de meu bem? – Lívia parou e sorriu.
- Chamei... – Marina ficou receosa.
- Nunca me chamou assim. Chama de novo?
- Meu bem. – Disse sorrindo e acariciando o rosto dela.

A beijou novamente e apertou Marina contra seu corpo.

- As horas...
- Ai, ta bom, são seis horas. – Lívia esticou o braço
olhando no relógio.
- Preciso me arrumar daqui a pouco.
- Quer subir, a gente toma banho e se arruma juntas.
- Como assim a gente toma banho? – Marina riu mais
de vergonha que qualquer outra coisa.
- Quer tomar banho comigo? – Lívia perguntou como
uma criança.

A loirinha ficou encabulada, tomar banho com Lívia


seria uma exposição do seu corpo e tinha vergonha.

- Não sei... eu... tenho vergonha. – falou escondendo o


rosto com as mãos.
- Qual o motivo da vergonha?
- Ah, sei lá...
- Eu apago a luz. – brincou.
- Não é isso... ah não sei...
- Tudo bem, não vou te forçar. Quero que faça comigo
o que sentir vontade e prazer.
- Eu sei, a gente dá tempo ao tempo.
- Tá bom. Agora outro beijo.
- Mais?
- Muitos!
- Que pidona!
- Se der corda eu quero muito mais.
- Ô mulher safada essa que eu arrumei.
- Você tem direito a devolução ou troca da mercadoria,
se quiser. – Lívia fingiu desdém.
- Hum... – Marina se levantou. - Deixa ver... – ficou
examinando a morena, que permaneceu deitada.
Passou a mão pela lateral de seu corpo e enfiou dentro
da blusa. – O material é bom, firme, macio... –
levantou a blusa e cheirou a barriga da morena. –
Cheiroso! – Passou a língua fazendo Lívia se arrepiar. –
Gostoso também... É... não quero devolver, nem
trocar. Aceito este mesmo.

Lívia a puxou para um beijo cheio de paixão.

- É do tamanho certo pra mim, é muito mais do que eu


imaginava, do que meus sonhos permitiam. Você é o
melhor presente que Deus me deu. – Marina falou
olhando para aqueles olhos azuis, que com a
declaração ficaram um pouco marejados.
- Como você consegue fazer isso comigo eu não sei. Só
sei que eu nunca me senti tão completa.

Beijaram-se de novo e esqueceram-se da hora. Só


lembraram quando Eduardo e Fabrício interfonaram.

- Meu Deus do céu, olha só o que você fez! Agora estou


atrasada. – Marina levantou rápido e reclamou, mas em
tom de brincadeira.
- Eu? Você não estava aqui à força.
- Você me distraiu. – Fez bico.
- Como?
- Sendo linda desse jeito. – Beijou a morena e saiu
correndo.
- Volta aqui. – Lívia correu atrás e a agarrou.
- Lívia, preciso correr, os meninos estão subindo. –
Marina tentava se soltar.
- Calma, tem tempo ainda. Vem aqui gostosa! – Lívia a
puxou e abraçou por trás e foi caminhando com ela até
a porta para abrir para os meninos. As duas estavam
brincando e rindo.
- Nossa que melação toda é essa? – Fabrício falou.
- Marina você não está pronta? – Eduardo se assustou.
- Estou quase, me arrumo em um minuto. Só preciso
me livrar desse bichinho aqui. – Disse apontando para
Lívia.
- Usou agora me descarta. – Lívia brincou. – Gente,
entra que nós já vamos nos arrumar.

Os dois entraram e esperaram na sala, Lívia subiu com


Marina. Bem que tentou um banho com ela, mas não
deu certo. Tomaram banho separadas, Marina foi na
frente, quando saiu do banheiro enrolada na toalha viu
o vestido da vitrine no shopping em cima da cama.
Olhou para Lívia em tom de reprovação.

- Vai ficar lindo em você. – Lívia tinha uma cara de


criança sapeca.
- Porque fez isso?
- Não resisti, achei o vestido a sua cara. Por favor,
aceite.

Marina ficou olhando para ela e com aquela cara de


cachorro sem dono que Lívia fazia, ela não resistiu.

- Tá bom vai. Me ajuda a vestir? – perguntou em tom


inocente.
- Só se for agora.

Lívia pegou o vestido e abriu o zíper que tinha atrás,


Marina se virou de costas e desenrolou da toalha. A
morena engoliu seco, o corpo dela era lindo. Tinha uma
cintura fina, bumbum empinado e pernas grossas, seu
corpo era quase dourado, tinha os cabelos caindo ao
meio das costas.

- Meu Deus! Desse jeito fica difícil me apressar. – Lívia


jogou o vestido de lado e pegou Marina por trás.
- Lívia! Preciso descer...
- Só um minutinho, prometo não demorar. – A morena
já mordia a orelha de Marina e passava as mãos por
todo seu corpo.
- Hum... não faz isso... – levantou uma das mãos até a
nuca da morena e acariciou.

Lívia nem ouviu, levou uma das mãos até o seio e a


outra foi caminhando pela barriga, ventre até chegar ao
sexo de Marina, ela já estava molhada.

- Por Deus, você é uma delícia. – disse sugando o


pescoço da loirinha.
- Ah... por favor...

Lívia escorregou o dedo para dentro da vagina de


Marina e com o polegar ficou massageando o clitóris, a
fez levantar uma perna e colocar em cima da cama
para poder se apoiar melhor. Apertava o bico do seio e
mordia o pescoço dela. Marina começou a rebolar
sensualmente, deixando Lívia ainda mais excitada.
Gemia baixinho e segurava os cabelos de Lívia.

- Goza pra mim... – a morena sussurrou em seu


ouvido.

Marina sentia um prazer tão intenso que gemia


abafado, não demorou muito para seu corpo todo
estremecer. Suas pernas estavam moles, mas Lívia a
segurou.

- Não vou deixar você cair. Senta aqui. – falou


carinhosamente.

Marina sentou na beirada da cama e Lívia fez questão


de vesti-la. Primeiro a calcinha, depois o vestido, ao
contrário do que pensou antes, Marina não se sentiu
envergonhada. A morena tirou as sandálias da caixa e
falou se justificando.

- As sandálias combinavam com o vestido, por isso


comprei. – falou olhando com rabo de olho, esperando
uma reação da loirinha.
- Você não tem jeito. Vem aqui. – Marina puxou Lívia
fazendo-a ficar de joelhos entre as pernas dela. – Não
precisa me agradar com presentes. O que eu quero de
você lhe sai de graça. Me agrade com beijos, carinhos,
atenção e sorrisos...é isso que quero. Entendeu?
- Entendi. – Lívia disse sorrindo e depois calçando as
sandálias nela.

Marta estava entrando no quarto e viu a cena. Viu


Marina beijando Lívia delicadamente.

- Agora seu banho meu bem.

Lívia correu para tomar um banho rápido. Neste


instante Marta bateu na porta já dentro do quarto.

- Hoje você tem show não é?


- Sim e você vai né?
- Quero ir, mas acho que estou atrasada, você está se
arrumando já.
- Podemos esperar, não tem problema.
- Não, eu vou depois então. Avise a Lívia.
- Eu posso ir com Eduardo e Fabrício, eles estão na sala
lá embaixo. Depois você vai com Lívia.
- Ah eles estão na sala? Vou até lá dar um oi, aí tomo
banho com calma e pego um táxi. Podem ficar
tranquilas.
Marta foi falar com os garotos e saiu. Pouco depois
Lívia apareceu enrolada na toalha.
- Vou me vestir rápido.

Jogou a toalha na cama e foi para o closet. Marina


levantou e foi atrás dela curiosa. Lívia estava de costas
procurando uma roupa, completamente nua. Seu corpo
era escultural, as costas eram musculosas, braços
torneados. Lívia girou a cabeça e a viu observando.

- Hei que foi?


- Estou admirando uma obra de arte.
- Boba. – se virou e pegou uma calcinha.

Marina se aproximou e a abraçou por trás encostando


seus lábios nas costas dela, aspirou o perfume.

- Cheirosa. – Passou a unha levemente pelas costas


dela. – Macia. – Deu uma mordida nas costas dela. – E
gostosa.
- Linda, vamos nos atrasar. – a voz de Lívia quase não
saiu.
- Não to nem aí.

A morena se virou, ficando de frente para Marina que


pode ver os seios dela quase na altura de sua cabeça.

- Calminha aí baixinha. Deixa eu vestir minha roupa e


vamos embora, senão a banda se atrasa. Prometo
compensar você depois. Certo?
- Não! Eu não sou baixinha! – Marina estava com um
bico enorme.

Lívia soltou uma gargalhada.


- Ta bom minha linda. Você é estatura baixa. – beijou a
loirinha. – Agora deixa eu me vestir.
Marina cedeu e saiu para acabar de se arrumar, passou
uma leve maquiagem, fazia tempo que não se
maquiava, achou que Lívia gostaria. Se perfumou e
aguardou. A morena saiu do closet já toda arrumada.

- Que linda! – as duas falaram ao mesmo tempo.

Marina usava o vestido que ganhara, sandálias pretas


de salto e uma maquiagem que realçava somente os
olhos, os cabelos estavam soltos. Lívia colocou uma
calça jeans justa e escura e uma blusa branca mais
folgada sem manga e com detalhes no decote, estava
de salto e cabelos soltos também.

- Está uma gata, do palco vou ter que tomar conta de


você. – Marina brincou.
- Vamos?
- Vamos.

Na sala, Marta estava de papo com os meninos.

- E aí tia, como foi o sábado? Marina ficou aqui?


- Sim, fomos até a casa dela para que pegasse umas
roupas, depois fomos ao shopping, almoçamos lá e
voltamos.
- E Lívia?
- Estou admirada com o tratamento que ela dá a
Marina. Comprou presente pra ela hoje, fomos até
aquela loja de chocolate e ela gastou um horror lá só
agradando a garota.
- Quem te viu quem te vê. – Fabrício falou espantado.
- E Marina? – Eduardo perguntou.
- Ela é um anjo. Não reclama de nada, não pede nada,
está sempre satisfeita com as coisas. Parece que caiu
do céu. Fico pensando nas coisas que Deus faz, Lívia
sempre teve uma vida amorosa muito desregrada, fútil
e com péssimas influências. Essa garota veio pra tirar
minha filha desse caminho.
- E será que Lívia gosta dela?
- Querido, eu vi minha filha calçando sandálias em
Marina.
- O que? – Fabrício estava de boca aberta.
- Ela não percebeu ainda, mas se ajoelha aos pés de
Marina, literalmente. É apenas um gesto, eu sei, mas é
algo que ela nunca fez. Está amável, delicada e tem
necessidade de agradar Marina. Não é como das outras
vezes que ela dava presentes para impressionar. Agora
ela faz isso para ver a menina feliz.
- To besta! – disse Eduardo.
- Eu estou feliz. Gosto de Marina, parece uma menina
boa, de família, espero sinceramente que Lívia não
estrague tudo. Espero com sentimento de mãe.

As duas desceram abraçadas e brincando uma com a


outra.

- Sua mãe disse que vai depois de táxi, disse que quer
se arrumar com calma.
- Ué, por quê?
- Não sei, vê com ela aí.
- Mãe, a senhora não vai agora?
- Não, vou tomar um banho e depois pego um táxi,
senão atraso vocês. Eu perdi a hora dormindo.
- Quer que eu venha te buscar?
- Não precisa, eu me ajeito, tem táxi logo aqui
embaixo.
- Bom, estamos prontas.
- Marina, eu vim te buscar, mas nem precisa. Lívia está
de carro, Fabrício também.
- Então, porque não espera sua mãe, lá ainda vamos
passar o som. Quando vocês chegarem provavelmente
nem teremos começado. – Marina se virou para Lívia e
falou toda carinhosa.
- Hum, vai sem mim?
- Vou morrendo de saudade. – A loirinha falou baixinho.
- Ai, ai, será que dá pra desgrudar? – Fabrício implicou.
- Tá bom, vamos, senão atrasa tudo lá.

Despediram-se e Lívia que estava pronta ficou na sala


esperando a mãe tomar banho. Foi para a varanda e
ficou pensando e olhando a paisagem. Lembrou de uma
coisa que queria fazer, não sabia se era certo, mas a
curiosidade falou mais alto. Por ser promotora e saber
que muitos a viam como vilã no tribunal, às vezes
recebia ligações estranhas, então decidiu colocar um
gravador para registrar as conversas nos seus telefones
para se precaver. Resolveu ouvir a conversa de Marina
com a mãe, porque ficou desconfiada de alguns
trechos.

- Oi mãe! Bom dia!


- Bom dia filha. Tudo bem?
- Aqui está tudo bem e aí?
- Aqui também. Hoje seu pai ta aqui, mas está lá fora
conversando com o vizinho novo.
- Manda um abraço pra ele. Liguei só pra dizer que está
tudo bem.
- Encontrei com os pais de Monica na igreja, ela está
bem? Tem dado pouca notícia.
- Está sim, ela é meio esquisita mesmo, sabe como é
né, muito desligada.
- É, diga a ela que a mãe dela também gostaria que ela
ligasse. – riu.
- Vou falar.
- E os estudos? Ah, como foi o recital?
- Ta indo tudo bem. Ah sim, foi ontem e foi muito bom.
Depois eu conto tudo com detalhes para a senhora. Não
posso demorar no telefone. Não estou ligando de
orelhão, estou na casa de uma amiga.
- Tudo bem, então fique com Deus e boa semana.
- Obrigada. Bença mãe.
- Deus te abençoe.

Quando a gravação terminou Marta estava ao pé da


escada olhando para a filha.

- Já achou chifre em cabeça de cavalo?


- Mãe! Que susto! Não, eu só fiquei curiosa.
- Sabia que ia fazer isso.
- Eu sou uma advogada, não esqueça, gosto de saber
de tudo.
- Neste caso está bisbilhotando. Se ela souber que você
fez isso vai ficar chateada.
- Eu sei. Foi bobeira minha.
- Lívia, me diga uma coisa. O que sente por ela?

A morena respirou fundo e falou:


- Quando estou com Marina me sinto tranquila, como
se ela controlasse a minha ansiedade. Ela tem o poder
de me acalmar. Não quero mais nada quando estou ao
lado dela.
- Isso é amizade.
- Não mãe, também não vou dar detalhes de outras
coisas. Sinto atração por ela sim, desejo, mas não é só
carnal.
- Já sentiu isso antes?
- Só aquela vez.

Lívia se referia a um namoro que teve com uma garota


da faculdade, era de família tradicional e tinha dinheiro.
Na época Lívia ainda vivia com dificuldade. Namoraram
por muitos anos e no fim do curso a garota a largou
para ficar com um cara rico, pois era do mesmo nível
social. O episódio havia deixado Lívia arrasada e nunca
mais se prendeu a relacionamento nenhum. E as
palavras ditas pela garota nunca saíram da cabeça
dela. Sempre que conquistava alguma coisa, se
lembrava de tudo: “Não podemos ter um
relacionamento a vida toda. Olha só pra você e olhe pra
mim, não somos da mesma classe social e isso com
certeza vai me prejudicar.” Na época, Marta só soube
desse namoro depois que Lívia contou sobre sua opção
sexual.

- Filha, espero que dê certo. Vejo você vagando por


relacionamentos tão vazios, estava falando isso agora
há pouco com os meninos e eles também torcem por
você.
- Fabrício não crê em mim.
- Os dois têm medo de você magoar Marina.
- Não vou fazer isso.
- Estou confiando em você. – olhou com seriedade.
- E você gostou dela hein mãe.

Marta sorriu.

- Ela é uma boa menina e como falei para os garotos,


me parece que ela só quer você e não o que você tem.

As duas saíram e foram para o bar, chegando lá Monica


tinha deixado lugares reservados para elas e o show já
tinha começado.

- Marina me disse que se eu não guardasse uma


cadeira para vocês, ela me jogava o teclado na cabeça.
O que fizeram com minha amiga? Ela está linda!
- Demos um trato nela. – Marta brincou.
- Eu adorei! Podem continuar, ela ta precisando. Não
que seja feia, mas ela não se dá valor. Essa roupa lhe
fez jus ao corpo que tem. – Monica sorriu.

Lívia ficou satisfeita, assistiu ao show sem piscar os


olhos. Marina estava realmente linda e até recebeu
elogios do público. Em dado momento alguém mandou
servir uma bebida para ela, o garçom levou e entregou
um bilhete. Ela o leu sem deixar de tocar. Fez uma cara
com um misto de riso com vergonha. Depois entre uma
música e outra pediu a Eduardo que falasse ao
microfone que ela não bebia.
- Gente, gostaria de informar que as bebidas podem
direcionar a mim, Pedro e Hugo, pois a nossa
queridíssima tecladista não bebe em serviço e nem
marca encontros após o show. E ela não está aberta a
negociação.

Marina achou graça. Pedro contou na baqueta e


recomeçaram a tocar. Pouco depois entregaram outra
bebida e outro bilhete, ela entregou a Eduardo e o
mesmo falou novamente.

- Não adianta insistir galera.

Lívia fazia uma cara enfezada, mas sorria quando


Marina piscava o olho pra ela.

Quando o show terminou eles avisaram sobre a


reforma no local e que voltariam em breve. Monica
levantou para ir cumprimentá-los.

- Amiga, você ta linda! Avisei para Lívia continuar te


empurrando pro caminho da luz. – brincou. – Essa
roupa ta maravilhosa.
- Que é isso Monica, é só um vestido.
- E lindo! Como está passando lá naquele apê? Melhor
que eu claro!
- Ta tudo bem, elas são simpáticas. Volto amanhã ta?
Veja se sossega o facho. Teve um final de semana
inteiro pra namorar. – Falou fazendo aspas com os
dedos. – Onde você esteve hoje de manhã que eu fui lá
e não te achei?
- Eu saí com Hugo, fomos no jardim botânico, tem que
ver que lindo é lá.
- Que legal, depois quero conhecer.
- Você foi lá pra que?
- Pra pegar umas roupas, não imaginava dormir fora o
final de semana.
- Está te fazendo muito bem, até sua pele melhorou. –
Monica jogara a indireta da noite, mas Marina fingiu
não entender.
- Vem, vamos sentar.

Ficaram de papo até a madrugada. Estavam animados,


falando sobre música, shows. Monica contava histórias
da cidade dela e de Marina e os casos sobre as
apresentações que já tinham feito juntas. Todos
achavam graça dela.

- Uma vez tocamos em um aniversário e tinha um


maluco que, pra agradar, jogou balas em nós. Só que
doeu né. Imagina uma bala de coco voando a cinco
metros de distância. Marina quase ficou cega, o cara
acertou uma na cara dela.
- Nossa, foi mesmo. Minha vontade era de jogar o
teclado em cima dele. – disse revirando os olhos.

Lívia escutava a tudo em silêncio, mas não estava


entediada, apenas observava. Algumas vezes Marina
acariciava sua perna por baixo da mesa e ela lhe olhava
e sorria. Monica fingia não perceber, mas estava
atenta. Apesar de ser desligada, conhecia muito bem
Marina para dizer que ela estava diferente. Quando
resolveram ir embora combinaram que Fabrício levaria
a banda, mais Monica.

- Juízo hein! – Marina advertiu.


- Eu tenho juízo.
- Então use! Falei com minha mãe ontem e ela disse
que encontrou com a sua e você não dá notícias há
dias. Quer matar seu pai do coração?
- Ah, eu me esqueci.
- Pois é, ponha essa cabecinha pra funcionar. Ligue
então.
- Vou ligar.
- Fique bem viu.
- Você também.
Despediram e todos voltaram para a casa. No caminho
Marta fez uma observação.

- Sua amiga Monica é muito engraçada.


- Ela é. Não tem quem fique sério perto dela.
- Ela sabe de vocês duas.
- Que? – Marina arregalou os olhos.
- Sabe sim, só não tem certeza. Fique atenta a ela, só
para não se surpreender depois. Se ela é mesmo sua
amiga, não vai criar problema.

Marina ficou apreensiva, mas Marta estava certa.


Monica não iria repudiá-la por isso, eram amigas.

Chegando ao apartamento Marta deu boa noite e foi


dormir. Já no quarto, Lívia arrumava a cama e Marina
pegava as cobertas e travesseiros.

- Vocês estava séria hoje. Aconteceu alguma coisa?


- Não, estava apenas observando.
- O que?
- Você, os meninos, sua amiga Monica...
- Hum... e viu alguma coisa que te desagradou? –
Marina se aproximou querendo abraçá-la.
- Só aqueles bilhetinhos sem-vergonha que você
recebeu. – disse um tanto brava.

A loirinha riu.

- Ô meu amor, nem liguei. Joguei tudo fora, você viu.


- E o que estava escrito? – Lívia se virou para ela para
abraçá-la e levantou a sobrancelha.
- Um falava em sair depois do show. Eduardo disse que
não. E o outro era se não podia negociar. Aí você ouviu
a resposta.
- Você não é negociável mais. – apertou Marina contra
ela, segurando pela cintura.
- Não sou. Estou fechada para balanço.
- Você agora tem dona.
- Tenho? – Marina perguntou surpresa.
- Tem. – ainda estava séria.
- E essa minha dona é muito exigente? – Disse
colocando as mãos no ombro de Lívia.
- Bastante. E ela está querendo umas coisinhas neste
momento.
- Posso negociar também...
- Ah, comigo você negocia?
- Claro. Tem que haver uma relação de custo e
benefício.
- Hum... – Lívia levantou novamente a sobrancelha. - O
que você quer?

Marina mexeu nos cabelos dela os colocando atrás da


orelha.

- Primeiro, que me chame de amor novamente. Gostei


disso...
- Que coisa fácil. Achei que queria algo mais
complicado. Chamar você de amor não é esforço
nenhum.
- Então fala...
- Amor. Meu amor... – Marina sorriu.

Lívia parecia ter necessidade de ouvir aquela palavra,


não de qualquer um, mas de alguém que realmente
gostasse e valesse à pena. Fazia tempo que não ouvia.

- E o que mais meu amor quer? – Marina a beijou


delicadamente. – Hum? – mordeu o queixo.
- Quero fazer amor com você. – Falou no ouvido da
loirinha.

Ficaram se olhando, como que hipnotizadas até que


seus lábios se aproximaram e o beijo veio cheio de
paixão. Lívia puxou Marina para seu colo, fazendo suas
pernas cruzarem em sua cintura. Sentou na beirada da
cama e foi tirando o vestido dela a deixando só de
calcinha.

- Você é linda. – disse em seu ouvido e a puxando para


um beijo.

Marina tirou a blusa dela e desabotoou o sutiã, passou


levemente a mão em um seio e sentiu que a morena se
arrepiou, passou novamente a mão agora apertando o
bico e a morena gemeu. Beijou aquela boca como se
fosse a primeira vez, tentando mostrar a Lívia tudo que
sentia por ela e que agora estava totalmente entregue
àquele sentimento.

- Vem aqui, que eu não me aguento de tanta vontade


de você. – a voz de Lívia saiu quase que suplicando.

Puxou Marina para o meio da cama e arrancou sua


calcinha jogando-a longe, tirou o resto de sua roupa e
deitou por cima dela, fez abrir as pernas e se encaixou
entre elas, sentindo seus sexos molhados. Colocou os
braços de Marina para cima e mordeu as laterais até
chegar ao pescoço e sugar com vontade arrancando um
gemido da loirinha. Começaram um rebolado gostoso,
encaixando-se perfeitamente, os corpos pareciam feitos
um para o outro.

Marina gemia baixinho e agudo, deixando Lívia


enlouquecida de prazer. Aumentaram os movimentos
até que seus corpos sacudiram juntos gozando ao
mesmo tempo, mas a morena não parou, pegou a mão
de Marina e levou em seu sexo, fazendo o mesmo na
loirinha.

- Mais rápido, por favor, amor... ahh... mais... rápido...


ahh. – Marina pedia, ao mesmo tempo em que também
acelerava seus movimentos.
- Geme pra mim... ahh... isso... ahh...

Os gemidos ficaram mais altos e os movimentos eram


rápidos e mais uma vez o gozo chegou. Lívia abraçou
Marina tão apertado como se quisesse que ela entrasse
em seu corpo. Olhava para a imagem dela, a franja
meio bagunçada, o peito arfante, bochechas vermelhas
e os olhos semicerrados. A boca entreaberta pedindo
pra ser beijada e foi o que fez. Mordeu o lábio inferior e
passou a língua depois.
- Delícia!

Marina aconchegou a morena em seu colo e ficaram


assim por um tempo, descansando.
- Com você as coisas são tão diferentes que eu custo a
acreditar. – Lívia falou baixinho, sentindo os carinhos
de Marina em seus cabelos.
- Eu sempre acreditei que Deus mandasse somente as
pessoas certas para nossa vida. Mas quando você
apareceu eu demorei a entender que era um presente
dele, pois pra mim, você era algo intocável. – Marina
virou de repente ficando por cima de Lívia. – Agora
vejo que nada acontece por acaso e que vir para o Rio
foi a decisão mais certa que tomei. – beijou-lhe os
lábios.
- Você não vinha pra cá?
- Eu não sabia se vinha, porque meus pais não tinham
condições de me ajudar por muito tempo. Eu vim
sabendo que poderia voltar para casa a qualquer
momento. Aliás, posso voltar. O fato de ter conhecido
os meninos e tocar com eles, não é garantia de nada.
Shows podem ter e não ter, cachê também.
- E se voltar vai fazer o que em São Paulo?
- Não sei, estudar outra coisa por lá, não sei ao certo.
- Não! Você não vai voltar. – Lívia a abraçou e depois
falou olhando em seus olhos. – Quero que você saiba
de uma coisa... Se precisar de ajuda me fale, por favor,
não quero que volte porque é seu sonho estudar
música e não quero ficar longe de você.
- Lívia, não posso e não quero depender de ninguém,
muito menos de você. Nos conhecemos há pouco
tempo e você também não tem obrigação nenhuma
comigo.
- Eu sei, mas eu gostaria de ajudar se você precisasse.
- Mas...
- Querida, me escute... Quando eu comecei meus
estudos passei muita dificuldade aqui no Rio com
mamãe. Sinto por não ter tido apoio de ninguém, ver a
sua situação me lembrou como era difícil também na
minha época. Me deixa te ajudar e é só se você
precisar. É como se eu retribuísse a Deus tudo que ele
me deu de bom.

Marina ficou comovida com aquelas palavras, mas


receber ajuda de Lívia era demais, não poderia aceitar,
até mesmo porque nem sabia para que direção aquele
relacionamento iria.

- Aceita? – Lívia falou beijando a mão da loirinha.


- Tudo bem, mas só se eu tiver muito enrolada mesmo.
Admito que sou orgulhosa e não gosto de depender de
ninguém.
- Eu sei, mas promete me falar?
- Prometo.
- Então ta bom. – Lívia sorriu e a beijou.

Marina olhou para um lado, olhou para outro.

- Amor...
- Oi.
- Estou com vontade de comer alguma coisa doce. –
Marina estava olhando para a caixa de chocolates que
estava no criado ao lado da cama. – Posso pegar um
chocolate daqueles?
- Claro, comprei pra você, nem precisava pedir.
Marina se esticou um pouco para pegar a caixa, Lívia
aproveitou para mordê-la.

- Ai.
- Gostosa! Por isso que eu mordo.

Marina pegou uma garrafinha feita com chocolate e


licor por dentro. Mordeu um pedaço e deu um beijo em
Lívia, passando o chocolate para a boca dela.

- Hum... delícia... – Lívia passava a língua nos lábios de


Marina.
- Você não viu nada. – Marina empurrou para que a
morena se deitasse e a segurou, não deixando se
levantar. Pegou a garrafa e entornou um pouco do licor
na boca dela e depois lambeu sensualmente. Lívia ficou
maluca, aquilo era algo inédito para ela.
- Ah, mas você quer que eu fique doida não é?

Marina continuou derramando licor pelo corpo da


morena. Passou entre os seios e lambeu, depois num
dos seios e chupou com vontade arrancando gemidos
de prazer da outra. Desceu pela barriga e foi
derramando o líquido e lambendo, até que chegou ao
sexo dela. Jogou o líquido no ventre e deixou escorrer
até os pêlos. Sorveu tudo que podia, entornou mais um
pouco e lambeu passando a língua com vontade,
chupando o clitóris da morena.
Lívia estava em êxtase, segurava os cabelos de Marina
e os acariciava.
- Mais... por favor... amor....

Marina chupava com delicadeza e avidez, sentia as


pernas da morena estremecerem numa antecipação do
gozo. Agarrou a cintura dela e a apertou contra sua
boca para aumentar o contato. Quando viu que ela iria
gozar introduziu dois dedos em sua abertura dando
estocadas fortes. Fez a morena arfar e gritar de prazer.
Depois de sentir que ela relaxara deu um beijo leve
entre as pernas dela e foi subindo salpicando beijinhos
pelo seu corpo. Lívia estava totalmente entregue àquela
loirinha, seu corpo estava esgotado. Marina beijou seu
rosto com carinho e deitou por cima dela, encostando a
cabeça em seu peito. Então Lívia a abraçou. Ficou
pensando no que estava sentindo naquele momento.
Um sentimento que não sabia o que era fazia muito
tempo.

- Amor... – Marina a chamou.


- Oi.
- Hoje, você é a melhor parte da minha vida. – Beijou o
colo dela e fechou os olhos.

Lívia se emocionou. Ficou alisando os cabelos de Marina


até que conseguiu dormir.
No dia seguinte Marina acordou primeiro e fico olhando
a morena dormir, ressonava tão tranquila, seu rosto
estava sereno. Olhou tanto que a morena acordou.

- Bom dia! – Marina falou sorrindo.


- Morri e estou no céu?
- Não. – riu.
- Estou vendo um anjo.
- Você dá essas cantadas sempre ou é só comigo? – a
loirinha achou graça.
- Ah, eu fui sincera.
- E essa cantada é velha.
- Ta bom vai, exagerei. Mas que é muito bom acordar
olhando para você, isso é.
- Dormiu bem?
- Dormi e você?
- Muito bem. – Marina se virou para Lívia a abraçar por
trás. Gostava de ficar naquela posição com ela.

Lívia ligou a TV e ficaram assistindo um filme que


estava pela metade já.
- Quer ir no cinema comigo algum dias desses? –
Marina perguntou.
- Eu quero. Que filme será que ta passando?
- Não sei, a gente escolhe na hora.
- E quando vamos?
- O dia que você tiver livre.
- Pra você estou livre sempre.
- Ah, não diga isso, você tem seus compromissos ué.
Vamos ver um horário legal durante a semana talvez.
Essa semana tem os shows que te falei, podemos ir
antes se você não estiver ocupada.
- Essa semana tenho uma audiência danada.
- É? Pode me contar?
- Posso, você quer mesmo saber? – Lívia achou curioso
Marina se interessar pelo trabalho dela. Normalmente
as pessoas achavam chato. Já ouvira isso antes.
- Eu quero, depois que te conheci e me contou que era
promotora, fiquei curiosa para saber como é no
tribunal.
- Sério? – Lívia sorriu.
- Verdade, acho legal. Deve ser emocionante mostrar
provas e fatos contra ou a favor de alguém. No seu
caso contra né. Fico imaginando você falando no
tribunal e claro fantasio horrores, porque você deve
ficar irresistível com aquela roupa... como é que se
chama mesmo?
- Toga.
- Isso.

Lívia se remexeu na cama incrédula com as palavras da


loirinha.

- Bom, então vou contar. Estou num caso de um senhor


que está sendo acusado de estuprar e matar uma
jovem. A justiça nesse país é tão lenta que ele,
atualmente, já é velho e nem acredito que atente
contra a vida de alguém hoje. Mas há alguns anos sim
e ele será condenado da mesma forma.
- E qual a linha de defesa?
- Estão tentando alegar que ele não oferece mais risco
para a população.
- Mas ele tem que pagar pelo que fez, é questão de
justiça.
- Concordo. Então montei minha acusação baseando-
me no fato de que se ele teve como fazer o que fez há
dez anos, agora tem que pagar pelas consequências.
Senão vira impunidade.
- E com isso as pessoas vão fazendo as coisas erradas,
sabendo que não serão condenadas.
- Isso aí. Então essa audiência vai demorar, é júri
popular e os advogados de defesa são muito bons,
porque o réu tem boa condição financeira, mas vou
colocá-lo na cadeia.
- Mas você tira de letra, tenho certeza.
- Como sabe se nunca me viu atuando num tribunal? –
Lívia perguntou duvidando.

Marina se virou para ela e respondeu sem gaguejar.


- Porque nota-se a distância que você adora o que faz e
que tem competência de sobra pra isso.
- Hum... linda! – Lívia a beijou.
- Você que é linda. – sorriu.

Ficaram na cama ainda um tempo entre carícias


amorosas. Até que Marta bateu na porta.

- Pode entrar mãe.

Marina pensou que Lívia devia confiar plenamente na


mãe, para não trancar a porta de seu quarto. Marta
entrou meio desconfiada.

- Estamos conversando, entra.


- Achei que pudessem estar dormindo ainda.
- Acordamos faz pouco tempo.
- Bom dia Marina.
- Bom dia. Senta aqui pra conversar com a gente. –
Marina puxou a coberta para que Marta se sentasse.
- Não minha filha, eu vou a cozinha pagar uma
promessa.
- Hein? – Marina achou graça.
- Vou fazer os waffles.
- Ah, nossa achei que ia rezar.
- Mãe! waffles só para Marina? E pra mim? – Lívia fez
um bico.
- Pra você também ciumenta.
- Marina você quer com o que?
- Não entendi. – falou sem graça.
- Waffles de que?

Marina ficou confusa e Lívia a ajudou.

- Pode ser salgada, com queijo, presunto, peito de


peru, requeijão ou doce com chocolate, mel, sorvete.
Tem sorvete no freezer mãe.
- Ah... ah... não sei. Pode ser uma salgada e uma
doce? – ela perguntou meio envergonhada.
- Mãe, faz uma de requeijão com ervas e uma de
nuttela com sorvete crocante. Ela vai gostar.
- E pra você?
- Eu como com ela.

Marta saiu do quarto e deixou as duas sozinhas


novamente.

- Nossa deve ser gostoso. Nunca comi waffles. – Marina


falou sem olhar para Lívia. – Eu já vi em filme, mas ao
vivo nunca.

Lívia sorriu, mas não quis brincar com Marina.


Realmente ela era simples e qualquer coisa boba como
waffles a agradava.
- Vem aqui meu anjo. – a puxou e a abraçou como se
quisesse mostrar a ela que gostava de ficar perto, de
fazer carinho, querendo cuidar dela. Era estranho
porque nunca fora tão carinhosa com alguém, só com
sua mãe, o que era bem diferente.

Marina olhou para ela e viu naqueles olhos azuis uma


sinceridade muito grande. Aproximou-se mais e falou
em seu ouvido bem baixinho.

- Quer tomar um banho comigo?

Lívia custou a acreditar no que ouvira. Levantou e


pegou Marina no colo, levando-a para o banheiro.
Marina sorriu com um misto de felicidade e timidez.
Tirou a roupa dela com delicadeza. Entraram no box e
Lívia a colocou no chão, abriu o chuveiro e deixou a
água quente sair. Entrou debaixo dela e puxou Marina
com ela. Beijaram-se por um longo tempo, apenas
sentindo a água cair em seus corpos. Ao contrário do
que Marina imaginou, Lívia não partiu pra cima
querendo alguma coisa sexual.

- Vou dar banho em você, posso?


- Pode. – Marina estava visivelmente acanhada.

Lívia pegou uma esponja, colocou o sabonete líquido e


começou a esfregar as costas de Marina, de forma tão
delicada que mais parecia uma massagem. Aproveitou
para admirar o corpo dela, era jovem ainda, mas tinha
um corpo lindo e sabia que à medida que ficasse mais
velha as formas mudariam e ficaria ainda mais bela.
Lavou os cabelos e depois falou com toda ternura que
podia.

- Agora é minha vez. – entregou a esponja pra ela.

Marina fez o mesmo, porém lavar os cabelos era uma


tarefa um pouco mais difícil já que Lívia era bem mais
alta.

- Será que você poderia se abaixar só um pouco?

A morena se controlou e não riu, mas sua vontade era


de arreliá-la. Sentou numa beirada que fazia a divisão
entre o box e a banheira, abriu as pernas e Marina
pode ficar entre elas e de pé. Aproveitou a posição e
segurou a cintura da loirinha, beijou os seios, um de
cada vez, depois levou a mão até o sexo dela e
massageou com cautela. Marina começou a sentir as
pernas amolecerem.

- Amor... ahh... – Gemeu baixinho.

Lívia a fez sentar em seu colo, de lado e continuou


massageando até que ela gozou sacudindo em
espasmos.

- Agora não consigo nem me levantar.


- Vai sair daqui do jeito que entrou.

Pegou-a no colo e saiu do banheiro, depois voltou e


pegou uma toalha para enxugá-la. Marina sorria e
gostava da atenção que a morena lhe dava. Vestiram-
se e foram para a cozinha. Desceram brincando uma
com a outra e rindo.

- Achei que tinham desistido dos meus waffles. – Marta


reclamou, mas brincando.
- Não! Estou morrendo de fome! – Marina olhava a
mesa do café com os olhos brilhando.
- Pra sua altura até que você come bem. – Lívia
brincou.
- Ah... vou me lembrar disso depois. – Marina estava
indignada.
- Eu gosto das baixinhas. – Lívia fez cócegas nela.
- Sua boba.

Sentaram-se próximas e Lívia puxou as pernas de


Marina para que ficassem em cima das suas. Estavam
num grude só.

Marta olhava para as duas e ficava satisfeita. Colocou


os waffles num prato e serviu. A loirinha então pegou
um pedaço e deu na boca de Lívia.

- Ih, vai ganhar na boca. Mas é muita folga não é não?


– Marta brincou.
- Ela merece. – Marina sorriu acariciando o rosto da
morena. – Nossa, ta muito bom! Será que a minha mãe
aprende a fazer pra mim quando eu for a São Paulo?
- Não é difícil, tem que ter a forma, mas a massa é
fácil. E o que vai colocar por cima é você quem escolhe.
- Muito bom. – deu outro pedaço a Lívia e comeu outro.
- A minha mãe não é grande coisa na cozinha. Quando
quer, faz pratos muito gostosos, mas quando não quer
também, sai da frente. Uma vez ela foi fazer um molho
e quis colocar pimenta, só que não olhou direito e virou
o vidro, ele estava destampado, caiu tudo no molho.
- Meu Deus! – Marta se espantou.
- E ela não falou nada. Na hora do almoço era um tal
de tomar água. Eu tinha um namorado na época e ele
quase engasgou coitado. – falou rindo, fazendo as duas
rirem também.
- Você namorou muito tempo? – Lívia olhou de soslaio.
- Quase dois anos.
- Nossa!
- Terminaram por qual motivo? Assim se não for
indiscrição a minha. – Marta perguntou.
- Ele era muito ciumento e queria controlar minha vida.
Tudo que eu fazia ele queria saber, mas era exagerado.
Se eu fosse na padaria ele queria que ligasse pra
avisar. Aí quando disse que ia focar meus estudos na
música para fazer vestibular, ele enfezou. Pois sabia
que faculdade de música não tinha perto de Jaú. Aí quis
me boicotar.
- Como assim?
- Ele tentava me distrair dos estudos. Brigava comigo
toda hora, arranjava outras coisas para me fazer mudar
de ideia, mas não deu certo. Ele foi ficando nervoso
com a situação porque viu que não havia mudado meu
propósito. Eu sabia disso e me sentia um pouco
culpada, por querer uma coisa diferente da dele. Saí
um dia para comprar um presentinho pra ele e fui fazer
surpresa, aí o peguei me traindo, na casa dele mesmo,
com uma conhecida minha ainda.

Marta e Lívia ficaram surpresas.

- Fiquei em choque. Ver alguém te traindo é uma coisa


muito estranha, dá um nó na garganta e parece que
passa na sua cabeça seus momentos todos com aquela
pessoa.
- E ele viu?
- Viu, quis se justificar, mas eu saí de lá e nunca mais
vi a cara dele.
- Até hoje?
- Sim, poucos meses depois eu vim para o Rio.
- Homens! Uns trastes! – Lívia protestou.
- Que nada, tem muito homem legal por aí, eu que dei
azar. Acho que foi melhor assim, Deus tira aqui e dá
uma coisa melhor lá na frente. – Falou sorrindo e
olhando com carinho para Lívia, que ficou toda boba
com o comentário.
- Chega de história trágica, vamos comer nossos
waffles. Ainda tem o doce, ta na geladeira. – Marta
mudou de assunto.
- Oba!

Marta as serviu e Marina se deliciou.

- Nossa esse é mais gostoso! Eu gosto mais de doce.


- Também gosto de coisas doces. – Lívia sorriu
- Vem, abre a boca pra provar esse aqui. – Marina
novamente serviu Lívia.
- Ela ta toda besta. – Marta olhou implicando com a
filha. – Nunca teve esse tratamento VIP, como vocês
costumam dizer.
- Nunca? Ah que isso, então vou compensar o tempo
que passou.
- Nem minha mãe me trata assim. – Lívia fingiu uma
mágoa.
- Ah, que mentira! Eu trato sim, faço os pratos que
você mais gosta.
- Do que ela gosta? – Marina perguntou interessada.
- Lívia adora massas e peixes. E doce ela gosta de
coisas geladas, pavês, sorvetes, tortas...
- Bom saber. Você não cozinha? – Perguntou à morena.
- Eu me viro na cozinha.
- Se vira comprando comida fora, esse é o jeito dela se
virar. – Marta riu.
- Ah mãe, é mais pratico.
- E você, sabe cozinhar? – Lívia perguntou.
- Eu sei. O que não sei aprendo. Eu gosto de cozinha.
- É mesmo? Viu mãe, acertei na mosca. Linda, pianista
e excelente cozinheira.
Todo mundo riu!

Terminaram o café e limparam a louça. Ficaram


conversando na varanda durante toda a manhã. Marta
em uma cadeira, Lívia a Marina em outra. A morena
sentada com Marina recostada em seu peito.

- Até que enfim vamos ficar um pouco nessa varanda.


Lívia nunca vem pra cá.
- Venho pouco porque não tenho tempo mãe.
- Não é falta de tempo, é falta de costume.

Marta falou de sua infância, da vida em Mauá. Contou


curiosidade sobre Lívia, coisas que Marina adorou
saber.

- Mãe certas coisas não se conta, vai que ela se


arrepende. – brincou.

Marina riu e passou a mão no rosto de Lívia, da franja


até o queixo num gesto carinhoso.

Almoçaram no apartamento mesmo, Marta fez um


almoço simples e muito gostoso, depois deram uma
volta na praia. Lívia resolveu tomar água de coco e
parou num quiosque.

- Oi Lívia! Quanto tempo! – Uma loira de olhos cor de


mel, vestida num biquíni mínimo apareceu ao seu lado.
- Ah, oi Samantha. Tudo bem?
- Agora melhor! Faz tempo que não te vejo.
- Estou trabalhando muito.

Marina e Marta estavam sentadas numa mesa perto e


observavam.

- Não tem vindo à praia, sinto sua falta para nossas


caminhadas.

“Caminhada, sei...” – pensou Marina. - Toda vez que


ela sai é assim? - perguntou.

- Nem sempre. – Marta tentou não rir da cara de


Marina, que estava brava. – Eu só observo para ver o
que ela vai fazer e ela nunca me decepciona.
- Você tem malhado em casa? Está com um corpo
ótimo. – a loira falou.
- Tenho malhado no prédio, quando não se tem tempo
o que salva é a academia mesmo. Preciso ir, minha
mãe está esperando ali.
- Ah é? Vou lá conhecê-la.
- Não! Fica pra outro dia, ela está com pressa. – Lívia
se despediu rapidamente e voltou.

Marta que estava olhando falou completando a frase


anterior.

- Ela nunca me apresenta para esse tipo de mulher,


sabe que não aprovo.
- Mas ela me apresentou e...
- Você é diferente, ainda não percebeu isso?

Marina tinha a cabeça um tanto confusa. As palavras de


Marta de certa forma a confortaram e deram
segurança, mas não se esquecia dos conselhos de
Fabrício e Eduardo. Sem contar no que ouviu da
conversa de Lívia com o primo.

- Água de coco fresquinha. – a morena falou sentindo o


clima e sabia bem por que. Entregou um coco à mãe e
o outro à Marina e sentou ao lado dela. Estava de
óculos escuros e ficou olhando para a loirinha que
olhava para o mar.
- Não vai me dar nem um golinho? – pousou a mão em
cima da perna de Marina.
- Ah desculpe, não sabia que queria. – Entregou o coco,
mas Lívia não o pegou, puxou só o canudo e tomou um
gole. Um silêncio sepulcral se fez.
- A praia hoje está calma. – Marta tentou puxar
assunto.
- Quer dar um mergulho mãe?
- Eu não, nem trouxe maiô.
- Quer amor? – Lívia estava toda carinhosa.
- Não estou de biquíni. Aliás, nem o trouxe para o Rio.
- Por que não?
- Não achei que fosse a praia, vim para estudar e
trabalhar.
- Hum. Então fica pra próxima.
- Se quiser nadar pode ir, a gente fica aqui na sombra
não é Marta?
- É sim. Vai Lívia, sei que você gosta.

Lívia hesitou, ficou na dúvida se seria uma boa ideia,


mas acabou indo, o mar realmente estava convidativo.
Tirou o short e a blusa, ficando só num biquíni preto
que fazia jus ao seu corpo. Foi correndo para a água e
mergulhou. Marina não pode deixar de admirar, ela era
realmente bonita e sensual, ficou pensando no que
Lívia tinha visto nela, achou melhor não se perguntar. A
morena nadou um pouco e quando estava voltando
notou que vinha em sua direção a loira do quiosque.
Marina ficou olhando de longe para ver o que a morena
ia fazer. A loira puxou papo e Lívia fingiu não dar
atenção, olhava fixamente para Marina. A loira pareceu
entregar um papel para a promotora, mas esta o pegou
e amassou, continuou andando e quando passou por
uma lixeira num carrinho de picolé jogou o papel no
lixo. Quando chegou até as duas, Marina estava séria
ainda.

- A água está ótima!


- Estou com inveja, pare de falar. – Marta brincou.
- Mãe, a senhora tem que deixar um maiô aqui ou
biquíni mesmo, está em forma ainda.
- Da próxima vez eu trago. Quando vai pra Mauá?
- No próximo final de semana eu acho. Só que vou no
sábado cedo. – Lívia olhou para Marina, mas ela olhava
para o mar. – Bom acho que já sequei um pouco,
podemos subir.

Levantaram-se e foram andando pelo calçadão, Marina


se mantinha séria e Lívia sabia o motivo.

- Por que será que essa bonitinha está tão séria? –


disse se aproximando por trás.
- Não é nada.
- É sim, mas tudo bem eu sei como faço pra ver aquele
sorriso que eu adoro. – Lívia começou a fazer cócegas
em Marina que não se aguentou e riu. – Viu como
tenho meus truques? – Disse abraçando a loirinha. –
Apesar de achar que fica linda brava, eu prefiro seu
sorriso lindo com covinhas. Bonitinha! Lindinha!
Gatinha. – à medida que ia falando ia beijando o
pescoço de Marina. – Gostosa! – falou ao ouvido dela.

Marina ficou meio sem graça porque Lívia a estava


agarrando na rua, na frente de outras pessoas, mas a
morena parecia nem ligar. Acabou cedendo aos
encantos dela. Passaram pela tal loira que falou com
Lívia justamente quando a morena abraçava Marina, aí
sim ela gostou.

- Crianças, modos na rua. – Marta advertiu.


- Ta bom, parei.

Chegaram ao apartamento e Lívia foi tomar um banho


pra tirar a água salgada do corpo. Marina ficou na
varanda conversando com Marta.

- Dê um desconto a Lívia. Esse povo que fica na cola


dela, é coisa antiga.
- Eu fico imaginando o quanto ela não aprontou por aí.
- Fabrício deve ter contado muita coisa, não?
- Na verdade não, ele só se preocupou com o fato de
Lívia não se apegar a ninguém.
- Te incomoda essas investidas dessas moças?
- Ah, um pouco. Nem sei se tenho o direito de ficar
incomodada. É ciúme isso, mas eu sinto, não vou
negar.
- É porque gosta dela. Lívia sempre enxergou
relacionamentos como algo descartável. Ela tem seus
motivos, sei que não justifica, mas são coisas do
coração. Espero que você tenha paciência com ela e
que consiga mudá-la.
- Acho que a diferença entre os outros relacionamentos
e eu, é que falando sinceramente, não ligo para o que
Lívia faz da vida, quanto ganha ou como gasta seu
dinheiro. Eu gosto dela e não de sua carreira. De fato a
admiro muito, mas se ela tivesse a mesma condição
que eu, gostaria dela do mesmo jeito.
- Você gosta mesmo dela?
- Acho que mais do que pensava. No início, confesso
que fiquei com receio, ainda mais pelos alertas que
recebi. Depois me deixei levar, não pensei nas
consequências, agora, passando o final de semana com
ela aqui vi que não tem mais volta. Gosto mais do que
imaginei, não sei se já percebeu isso, mas é.

Lívia estava descendo quando as viu conversar, então


esperou acabarem de falar para aparecer, acabou
ouvindo tudo.

- Ela gosta de você. Como mãe posso ver isso, mas vá


com calma.
- Pode deixar, quero que ela fique comigo enquanto se
sentir bem. E se depender de mim ela se sentirá bem
sempre.
Marta sorriu.

Depois que viu que o assunto tinha terminado a


morena apareceu.

- Pronto! Limpa e cheirosa! – chegou animada, mas


com receio de Marina ainda estar chateada.
- Vem cá. – Marina esticou os braços para ela.
- Colinho?
- Isso.

Lívia deitou, colocando a cabeça no peito de Marina,


que ficou alisando seus cabelos.

- Você vai embora amanhã Marta? – Marina perguntou.


- Vou cedo, Lívia me leva na rodoviária.
- Porque não passa a semana aqui?
- Ah não, tenho meus afazeres, aqui é muito agitado
pra mim.
- Nossa, morar em Mauá deve ser muito bom. Tranquilo
né?
- Muito. O Rio é só para fins de semana, mas confesso
que prefiro quando Lívia vai pra lá.
- Penedo é ali perto não é?
- Sim, e Itatiaia e Resende. O Parque de Itatiaia é
muito bonito, você ia gostar.
- Monica foi ao jardim botânico aqui no Rio e adorou.
- Lá também é lindo.
- Gosto de lugares assim, com muita árvore e som de
água caindo. Do meu quarto lá na roça eu ouço o
barulho do riacho, pra dormir é ótimo.
- Deve ser bom ficar lá.
- Às vezes sim, mas tem hora que enjoa e sem contar
que é bem fora de mão. Só serve mesmo pra passar o
fim de semana.

Marta fez sinal para Marina olhar Lívia, que havia


dormido.

- Dormiu. – falou baixinho.


- Eu vou tomar um banho também e dar uma
deitadinha, vai passar um filme bom hoje na TV.
- Fico por aqui, servindo de travesseiro.
- Você gosta! – Marta brincou.

Marina ficou um tempo com Lívia em seus braços,


acariciava seus cabelos, o rosto e beijou o topo de sua
cabeça. Quis cochilar também, mas não conseguiu,
ficou admirando a paisagem da varanda. Quase uma
hora depois a morena acordou.

- Dormi no seu colo? – parecia confusa.


- Dormiu. Estava cansada?
- Na verdade nem tanto, mas aí eu deitei e vocês
estavam conversando eu acabei pegando no sono. O
colinho estava bom.
- Que bom que gostou. Pode se servir dele à vontade.
- Está brava ainda? – Lívia tinha receio.

Marina sorriu e beijou seus lábios.


- Não. Já passou.

A morena queria dizer que a partir de agora só tinha


olhos para Marina e que nada podia atrapalhar o
relacionamento delas. Ficou surpresa quando pensou
em relacionamento, mas não queria mais saber, queria
era viver aquilo tudo.

- Que foi?
- Nada, estou te olhando. – Lívia ainda observava.
- Posso te contar um segredo?
- Pode.
- Você fica linda de biquíni.
- É? – sorriu.
- Ahan... pensei em muitas coisinhas...
- Jura? Depois eu que sou safada. – Lívia riu. – No que
pensou?
- Não posso contar.
- Como não? Eu sou parte interessada.
- Só que eu tenho vergonha.
- Ahh, não tenha. Me conta!

Marina respirou fundo e resolveu falar.


- Pensei em tirar aquele biquíni... beijar sua
barriga...morder bem de leve... e depois subir pelos...
- Para! Senão te pego aqui na varanda.
- Não tem quem não olhe para você de biquíni.
- Você não me olhou. – Lívia fez um bico, que Marina
achou lindo.
- Olhei sim, quando você não estava me olhando.
- Fazendo charme.
- Ahan e você caiu. – deu uma gargalhada.
- Boba! Achei que estivesse com raiva de mim, por
conta daquela...
- Shii... deixa aquilo pra lá, já passou. – Marina a
beijou.

Ficaram na varanda até quase anoitecer, simplesmente


conversando. Lívia nunca mais imaginou que uma
simples tarde de conversa deitada no colo de alguém
era tão bom ou até melhor que uma noite de sexo.
Sentia paz e sabia que proporcionava algo para aquela
loirinha encantadora que estava com ela. Marina
conversava animada, ria das histórias de Lívia e isso
era uma coisa inédita.

Quase anoitecia quando as duas resolveram se levantar


dali. Foram até o quarto onde Marta estava e essa
dormia profundamente.

- Filme... ai ai... – Marina fez sinal negativo com a


cabeça.
- Tenho que acordá-la daqui a pouco, vamos sair pra
jantar.
- Ah vamos? Não fui convidada. – Marina brincou.
- Eu ia convidar uma outra aí... – Lívia entrou no jogo.
- Ah é? Posso saber quem é?
- É uma gata aí que eu conheci.

Entraram no quarto.
- Ela é uma delícia. – Lívia continuou falando. – Sem
contar que é cheirosa. – de repente se virou para
Marina e a agarrou pela cintura. - E faz amor tão
gostoso que eu to viciada. – deu um beijo cheio de
segundas intenções. Marina retribuiu a altura e não
demorou muito para que as roupas fossem jogadas
pelo quarto.

Instantes depois já exaustas na cama, Lívia puxa


Marina para seu colo.
- Quer jantar aonde?
- Achei que você já tinha definido um lugar.
- Sei de alguns lugares, mas talvez queira ir em algum
específico.
- Amor, como posso escolher lugar para jantar se nem
conheço o Rio direito. Os lugares que saí até hoje a
maioria foram com você.

Lívia ficava contente quando Marina a chamava de


amor. Sentia o carinho dela muito nítido.
- Então vou levar vocês duas a um restaurante bem
tranquilo. Mamãe prefere lugares assim.
- Eu também, comer com muita gente e barulho eu
acho ruim. Lá na faculdade não servem almoço, só
lanche, mas quando saio para almoçar o lugar às vezes
está cheio eu perco até a fome.
- Por que não almoça naquele que fomos outro dia?
- Lívia, aquele restaurante é caro. Se eu almoçar lá
todo dia vou ter que morar na rua. – riu.
- Então vou te pegar pra almoçar todos os dias. Assim
você economiza e eu passo mais tempo contigo.
- Não, não! Vai ficar pagando almoço pra mim todo dia
agora?
- Qual o problema?
- Não quero. Uma vez ou outra tudo bem, mas toda vez
não.
- Teimosa. – Lívia mordeu o pescoço dela.
- Sou não.
- É sim! – mordeu de novo.
- Para de me morder, cachorrinha. Está vacinada?
- Estou, o cartão de vacinas está completo.
- E esse bichinho tem pedigree?
- Ih, acho que ele é vira lata.
- Não tem problema eu o quero assim mesmo. Vem
aqui bichinho, me dá um beijo. – Marina puxou Lívia e
a beijou.

Ficaram um tempo na cama até dar a hora de tomar


banho e mudar de roupa. Lívia acordou a mãe e ela
também foi se arrumar.

- Que roupa devo usar? – Marina perguntou saindo do


banho.
- Eu prefiro nenhuma. – A morena beijou a nuca de
Marina. – Mas coloque uma roupa casual. Eu vou usar
jeans.

Saíram e foram a um restaurante bem tranquilo, era


aconchegante e ficaram em um local com poucas
pessoas. Pediram e jantaram conversando. Marta
combinou a volta dela para Mauá. Seria no primeiro
ônibus, Lívia a deixaria na rodoviária e levaria Marina
de volta indo direto para a faculdade.

No dia seguinte fizeram o combinado, Marina se


despediu de Marta prometendo uma visita em Mauá.
Lívia tinha tudo arquitetado na cabeça, mas não havia
falado ainda para a loirinha. Queria se certificar de que
daria tudo certo. Já dentro do carro as duas
combinavam para onde iriam.

- Amor, pode me deixar em casa.


- Não tem aula agora?
- Não, só de tarde. Eu vou pro apartamento porque
Monica deve estar lá ainda.
- Quer almoçar comigo? – Lívia perguntou toda
simpática.
- Amor, vai vir aqui só pra me buscar? O que eu te falei
ontem?
- Só dessa vez. Que tem isso? – pedia com jeito.
- Não vai te atrapalhar?
- Não.
- Então ta. Me pega que horas?
- Meio dia ta bom?
- Tá.
Beijaram-se e se despediram.

Assim que Marina entrou no apê deu de cara com


Monica.

- Bom dia!
- Opa, achei que tinha se mudado. – a amiga brincou. –
Disse que vinha ontem.
- Que nada. Eu vinha, mas saímos pra jantar e
chegamos tarde. E aí, aproveitou bem o fim de
semana?
- Ai, aproveitei. – Monica parecia uma abobalhada
apaixonada. – Passeamos, namoramos, fiz comida pra
ele, ele me levou na praia do arpoador, tão romântico.
- Meu Deus, já vi que esse casamento sai mais cedo do
que imagino.
- Como foi o final de semana?
- Foi bom, dormi mais do que tudo.
- A moça é gente fina? – Monica se referiu a Lívia.
- É sim e a mãe dela é muito simpática.
- Ah, a mãe dela ficou aí? Achei que tinha ido embora
no sábado.
- Não, foi embora hoje.

Monica tinha ficado intrigada com o fato de Marina e


Lívia terem ficado o final de semana juntas, mas ao
saber da permanência da mãe da morena, suas dúvidas
diminuíram.

- Nossa preciso muito estudar, esse final de semana


todo sem encostar numa tecla sequer. – Marina
reclamou.
- Deixa de ser caxias Marina! Eu também não estudei.
- Você tem facilidade, eu não.

Marina falou e foi saindo da sala e entrando no quarto,


deixou suas coisas e sentou no teclado para estudar.
Monica revirou os olhos, mas acabou fazendo mesmo.
Quando estava perto da hora do almoço que Marina se
lembrou de como iria se explicar para Monica que não
iria almoçar em casa, quando pensava numa desculpa a
amiga bateu na porta de seu quarto.

- Má, vou almoçar com Hugo, quer vir?


- Não obrigada, vou almoçar em casa mesmo.
- Nos encontramos na aula então.
- Ta bom.

Meia hora depois que Monica saiu, Marina saiu também,


a morena já esperava no carro.

- Hei! – Marina se aproximou e deu um selinho.


- Selinho não, eu quero um beijo decente. – Lívia
reclamou.

Marina então segurou o rosto dela e beijou-lhe os lábios


bem devagar. Ao final do beijo sugou o lábio inferior,
mordendo-o depois.

- Hum... agora sim.


- Como foi a manhã meu bem?
- Até que tranquilo, mas a tarde a coisa pega pro meu
lado.
- Por quê?
- Um cliente vai lá no escritório, não sou eu que vou
pegar a causa dele, pois não faço mais isso. Será
Fabrício e ele está uma pilha de nervos, até brigou com
Eduardo.
- Coitado gente. Vou me encontrar com ele hoje à
tarde.
- Provavelmente estará chateado.

As duas foram para o restaurante conversando.


Almoçaram e depois Lívia deixou Marina na porta da
faculdade. Alguns alunos que estavam ali repararam no
carrão em que a loirinha chegou e uns fizeram
comentário, mas ela nem reparou. Foi para a aula e
como havia falado encontrou-se com Eduardo na
cantina depois.

- Ei Dudu. Tudo bem? – perguntou como se não


soubesse de nada.
- Tudo e você?
- Tudo jóia. – ela o olhou atenta e continuou. Que cara
é essa?
- Ah, briguei com Fabrício. Ele ta nervoso por conta de
um trabalho aí e eu que pago o pato.
- Ô meu Deus. Tenha paciência com ele, depois ele vai
ver que está errado e virá pedir desculpas.
- Espero que sim. Não gosto de brigar com ele.
- Ninguém gosta de brigar com a pessoa que ama.
- Mas me conta, como foi o fim de semana? Ta num
chamego danado! – ele brincou.
- Nossa, estou nas nuvens. Ela é tão... tão... linda!

Eduardo caiu na gargalhada.


- Falou que nem Monica.

Marina riu também.

- Fomos ao shopping no sábado e no domingo


almoçamos em casa mesmo e jantamos fora a noite.
Não sei sabe, conversei muito com dona Marta e ela
pediu que eu tivesse paciência com Lívia. Estou tendo e
confesso que vou deixar levar até onde der. Ela tem
sido atenciosa comigo, me chamou pra almoçar hoje e
tudo.
- Marta disse que ela age diferente com você.
- Não sei como ela agia com as outras e nem quero
saber. Ela deve ter aprontado muito, onde quer que vá
alguém a conhece. Não como se conhece qualquer um,
conhece intimamente sabe.
- Ô, se sei. – levantou as sobrancelhas.

Monica apareceu e a conversa sobre Lívia morreu ali.


Ficaram de papo até tarde da noite, quando foram para
casa já passava das oito horas. Fabrício ligou para
Eduardo e pediu desculpas, assim como Marina falou.
Disse que havia se excedido e ficou tudo bem.
Aproveitou e perguntou sobre Marina, pois Lívia queria
o paradeiro dela. Ele disse que ela havia ido para casa.

No apartamento Lívia ficou pensando num jeito de dar


um celular a Marina, mas ela não ia aceitar. Ficou com
raiva de querer falar com ela a noite e não ter como. E
ir até a casa dela com Monica lá, não seria uma boa,
pois a garota iria ficar ainda mais desconfiada.

“Esconder um relacionamento é complicado!


Relacionamento?!” Lívia se assustou com seu
pensamento. Demorou a dormir aquela noite.

No dia seguinte ficou pensando como iria fazer para


falar com Marina, tentou por Fabrício e pediu que ele
ligasse para Eduardo, mas o rapaz não sabia onde ela
estava. Foi até a faculdade e esperou um pouco perto
da hora do almoço, mas nem sinal dela. Foi para o
apartamento quando saiu do trabalho, mas nada
também. Chegou em casa irritadíssima. Ligou para a
mãe.

- Ah mãe, não consigo falar com Marina!


- E o que você quer com ela?
- Eu? Ah... nada, só vê-la. – ficou sem graça.
- Está com saudades?
- Eu não! Ah vai... Tá bom... Estou. – falou baixo.
- Lívia, não é vergonha isso, aprenda a sentir as coisas
e assumi-las. Amanhã tente falar com ela logo cedo,
será melhor na casa dela do que na faculdade.
Depois que desligaram Lívia bolou um jeito de dar um
celular a ela. Dessa vez dormiu mais rápido, mas
acordou cedo e foi à rua comprar o aparelho. Pensou
em um top de linha, mas provavelmente Marina não
iria aceitar. Então viu um muito simpático branco e rosa
e achou a cara dela, tinha como colocar músicas em
mp3 e até radio. Lembrou-se dela reclamando de
Monica com Hugo e riu.
- Vou levar esse. É para presente.

Saiu da loja entrou no carro e deixou o presente no


banco de trás. Foi trabalhar e assim que Fabrício
chegou pediu que ele ligasse para Eduardo.
- Nossa, que saco você hein. Dá logo um celular pra
essa menina desamparada que eu não sou pombo
correio.

Lívia olhou para o rapaz que estava de mau humor e


levantou uma sobrancelha.
- Primeiro, eu já providenciei o celular, só não tive
oportunidade de dar a ela. Segundo, não tenho nada
com suas crises bipolares, enfrente seus clientes.
Terceiro, me respeite que sou sua chefe. E quarto,
Marina não é desamparada e se você se referir a ela
dessa forma outra vez, pode se considerar demitido.

Fabrício arregalou os olhos e ficou parado na frente


dela.
- Se não conseguir se mexer, me fale o número de
Eduardo que eu mesma ligo.

Fabrício pegou o telefone e ligou para o namorado.


- Oi Du. Sabe de Marina?
- Encontro com ela hoje, temos ensaio para o show de
amanhã e sexta.
- Eles têm ensaio hoje. – Fabrício falou com Lívia ainda
com Eduardo ao telefone.
- Quero horário e local.
- É no mesmo lugar? – Fabrício falou com Eduardo.
- Sim.
- Ok. Beijo. Tchau.
- Te levo lá quando acabarmos aqui.

Lívia fez render o dia para que saísse cedo do


escritório. A tal audiência seria no dia seguinte cedo e
queria deixar tudo acertado. Saiu na hora certa, foi em
casa tomou um banho rápido e foi para o tal ensaio,
Fabrício a levou. Ficou do lado de fora porque não sabia
se Monica estava lá dentro. Quando o ensaio acabou
Hugo foi com Pedro e Marina com Fabrício e Eduardo,
só depois que saiu do local que viu o carro de Lívia
parado próximo a eles. Ficou toda animada. Os dois
entraram no carro no banco de trás e ela no da frente.

- Oi meu amor! – Lívia falou com um sorriso


incrivelmente lindo.
- Oi meu bem! Que saudade!

Beijaram-se como se não se vissem há meses. Fabrício


e Eduardo ficaram de queixo caído no banco de trás.
- Que amor! – Eduardo brincou.
- Não fala nada não, porque senão leva bronca. –
Fabrício advertiu.
- Deixa de ser besta Fabrício, você sabe que exagerou
hoje de manhã. Vamos jantar todos?
- Não posso demorar, nem avisei nada a Monica.
- Quer ligar meu anjo?
- Não, ela não está me esperando, mas só não posso
demorar.
- Tudo bem, vamos por aqui por perto mesmo. Está
com fome?
- Não muita, comi alguma coisa esquisita no almoço
que não me caiu bem.
- Ah eu também hein, desde àquela hora estou como se
tivesse comido um boi. – Eduardo concordou.
- É, eu estou enjoada.
- Ih, foi Lívia que te engravidou. Viu prima, agora vai
ter que assumir. – Fabrício implicou.

Todos riram da bobeira do rapaz.


- Eu assumo, ainda mais uma criança que com certeza
nasceria linda. – sorriu para Marina.

Os dois não paravam de se surpreender com as


declarações da morena, parecia outra pessoa.
Sentaram-se num restaurante onde a especialidade era
salada e comidas mais light. Assim Marina pode comer
algo mais leve sem que piorasse seu enjôo. Lívia tirou
da bolsa um embrulho e falou toda sorridente.

- Amor, ganhei isso aqui por conta de um plano que fiz


de telefone lá no escritório, só que como eu já tenho
um, queria saber se você não quer ficar com ele.

Fabrício olhou com uma cara de deboche para ela e só


não a arreliou porque Lívia o fuzilou com os olhos.
- O que é?
- Abre. Até embrulhei para presente, caso você
aceitasse...

Marina abriu e viu o celular, olhou para Lívia séria.


- Até aonde você mente nessa história?
- Não estou mentindo.
- Lívia, te conheço tem pouco tempo, mas o suficiente
pra saber que você adora fazer essas gracinhas.
- Ah, aceita linda, o que eu vou fazer com esse celular?
Ganhei e estou te dando. – disse quase fazendo bico.

Marina olhou para os dois à sua frente para ver se


havia alguma entrega nos seus olhares, mas eles
estavam estáticos, pareciam nem respirar.

- Vocês dois são comparsas, eu sinto isso.


- Não sei de nada! – Eduardo se defendeu.
- Eu só falo na presença do meu advogado. – Fabrício
brincou.
- Ta bom, estou acreditando em você, mas não faça
nada pelas minhas costas, ta me ouvindo? – Marina a
olhou bem sério.
- Estou. – Lívia tinha uma carinha sapeca.
- Obrigada. – a beijou no rosto. – Agora posso falar
com você todo dia e com a minha mãe sem ter que ir a
um orelhão.
- Viu como vai ser útil? – Eduardo saiu em defesa de
Lívia. – Celular é importante Marina, ainda mais que
mora em outra cidade.
- Eu sei, só não acho prioridade. Tenho outras coisas
para ajeitar aqui, por isso deixei pra depois.
- Agora não é mais problema. – Lívia segurou sua mão
com carinho.

Ficaram conversando que perderam a hora, sair com os


dois era animado. Eduardo e Fabrício eram
completamente diferentes, mas combinavam
perfeitamente. Um era calmo e desligado o outro era
nervoso e atento. Contavam piadas, casos de trabalho
e riam animados.

- Esse final de semana não tem show não é? – Lívia


perguntou.
- Não, só amanhã e sexta.
- Que tal irmos para Mauá? – sugeriu. – Vou visitar
minha mãe e aí ficamos na casa dela.
- Eu acho ótimo, assim vejo minha mãe, senão ela me
chama de desnaturado. – disse Fabrício.
- Bom, por mim não tem problema. Preciso ver como
vou falar com Monica.
- Eu ajudo, digo que Marta convidou. – Eduardo falou.
- Bom garoto. Você é mais aliado que esse ingrato aí. –
Lívia falou se referindo a Fabrício.
- Não sou ingrato, sou realista.
- Vai ser ótimo, você vai adorar Mauá meu anjo. E se
der passeamos por Penedo também e Itatiaia. Deve ta
um friozinho bom lá.
- Hum, adoro frio. – Marina se empolgou. – Cabe todo
mundo lá?
- Cabe. Elas moram numa espécie de vila. Mamãe num
chalé, tia Bete no outro e um terceiro que elas alugam.
- Que interessante. Assim ficam perto uma da outra.
- Isso.
- Será que dá pra ir?
- Bom, só não vou responder agora, porque preciso
conversar com Monica.

Certa hora foram embora, Lívia achou melhor deixar


Marina primeiro, caso Monica visse, diria que estavam
vindo do ensaio.

- Podíamos combinar de sair mais vezes. – Eduardo


sugeriu.
- Pois é. Eu saio pouco aqui e outra, agora com Monica
namorando, que não vou sair mesmo.
- Nossa, aqueles dois engataram um romance, parece
que nunca namoraram na vida. – Fabrício opinou.
- Deixa eles ué, desde que se cuidem de resto ta bom.
- Se cuidar como, Marina?
- Ué, camisinha. Monica grávida nesse momento não
seria uma coisa boa.
- É verdade. Nós não temos esse problema. – Lívia
brincou.
- Boba. – Marina lhe deu um tapinha no braço.

Marina desceu do carro e subiu para casa. Monica ainda


estava acordada.
- Uai, onde você foi?
- Eu saí do ensaio e Fabrício convidou para ir num
restaurante. Aí eu tava de carona, acabei indo.
- Por que não veio com Pedro e Hugo?
- Eu fiquei depois do ensaio para passar uma música
com o Eduardo. A que vamos tocar na entrada do casal
da boda de prata. – Marina inventou aquilo de última
hora.
- Ah sim. É amanhã não é?
- Isso e depois o da Urca. To doida pra tocar lá. – falou
empolgada.
- Amanhã eu toco numa cerimônia religiosa também. É
casamento no civil, mas vão fazer um coquetel. Chique,
tem que ver. Pediram para ir de roupa de gala.
- Nossa, isso porque não tem festa. – Marina riu.
- E essa sacola é o que? – Monica se referiu ao celular.

Marina ficou pálida, tinha esquecido dele.


- Ah, então esse celular o Fabrício me deu. – inventou
na última hora também. – Diz ele que o escritório onde
trabalha fez um plano de telefonia e eles ganharam
vários, como ele sabia que eu não tinha e queria
comprar, me deu. Disse que foi recompensa pelo
assalto.
- Nossa que beleza! É o mesmo escritório daquela
prima dele né?
- Sim. – Marina baixou a cabeça.

O assunto morreu ali e foram dormir.

No dia seguinte Marina foi cedo para a aula de piano,


passou a manhã toda na faculdade e aproveitou para
estudar num piano que estava vago. Monica pra variar
tinha saído da aula e ido para a casa de Hugo. Marina
estava concentrada estudando quando o telefone tocou.
Levou um susto, ainda não tinha se habituado a ideia
do celular. Atendeu sabendo que era Lívia, pois só ela
ainda tinha o número.

- Oi amor. – falou com voz melosa.


- Como sabe que sou eu?
- Você é a única que tem o número do telefone. – riu. –
E eu sei olhar a bina.
- Achei que tinha passado para o pessoal.
- Ainda não, esqueci ontem de dar aos meninos e hoje
deixei anotado para Monica caso ela precisasse.
- Ela não achou estranho?
- Claro que achou, mas eu dei uma desculpa.
- Hum... Quer almoçar?
- Estou estudando. Que horas você vai?
- Seria agora.
- Eu queria ficar aqui pra aproveitar que este piano está
vago.
- Nossa, trocada por um piano. Que injustiça. – Lívia
resmungou.
- Não diga isso. Já foi a audiência?
- Já, deu tudo certo. Depois te conto os detalhes, mas o
fato é que ele está na cadeia, vai sair por bom
comportamento daqui uns anos com certeza, mas pelo
menos vai pagar pelo que fez.
- Meus parabéns, estou orgulhosa de você. – falou
animada.

Lívia ficou toda boba com o elogio, nunca se sentira


assim.
- Prometo uma coisa então, pra compensar a falta no
almoço. Quer negociar? – Marina falou.
- Quero.
- Sexta-feira quando terminar o show eu passo o final
de semana com você em Mauá. Te darei toda minha
atenção, vou paparicar você, encher de beijos e
mordidas, abraços e serei toda sua.

Lívia suspirou no telefone.


- Então quer dizer que você vai?
- Decidi agora. – riu.
- Que esses dias passem voando porque eu já fiquei em
brasa aqui.
- Vou apagar seu fogo.
- Ah Marina, você não tem noção do que está me
prometendo.

Lívia desligou empolgada e Marina rindo.

O show a noite foi muito bom, os convidados gostaram


e Eduardo aproveitou para distribuir cartões. Quando
foi pagar o cachê Marina estranhou.

- Nossa, deu isso tudo?


- Deu ué, fechamos bem o show.
- Que maravilha, duas vezes mais que no bar.

Na verdade os garotos fizeram uma vaquinha para


aumentar o cachê dela, para que pudesse repor o
prejuízo do assalto. Em casa quando estava deitada já,
Lívia ligou.

- Oi linda! Como foi lá?


- Foi ótimo, diz o Dudu que todo mundo gostou e pegou
telefone.
- Que bom então. Amanhã vou te ver.
- Estou com saudades.
- Eu também, não vejo a hora de chegar amanhã.
Depois do show você é minha. Vai direto lá pra casa.
- Preciso dormir bem porque amanhã vejo que a noite
será movimentada.
- Me aguarde.

Desligaram com a ansiedade para o dia seguinte.

A sexta-feira foi corrida, pois Marina teria uma aula


novamente com Marconi na parte da manhã e uma
prova à tarde. Quando saiu da Faculdade correu para
arrumar o cabelo, pois os meninos pediram produção
para o show, iriam tirar fotos para o cartaz. Lá no salão
viu que também faziam depilação, então resolveu fazer
uma coisinha. Saiu de lá correndo e foi pra casa tomar
banho. Encontrou com Monica no portão do prédio.

- Mulher preciso correr, estou atrasada e tenho que me


arrumar.
- Toma seu banho primeiro, depois eu vou. Você vai
com quem? – Monica perguntou.
- Acho que Fabrício vem me buscar. – mentiu, pois
sabia que era Lívia. – Vem comigo?
- Não, Hugo vai passar aqui antes.

Marina pensou como ia dizer, mas não viu um jeito


melhor, então foi direta.

- Eu vou viajar esse final de semana.


- Vai pra Jaú?
- Não, Eduardo e Fabrício chamaram para ir a Mauá
conhecer a família deles e a cidade.
- Nossa! Que chique, nem me chamaram. – Monica
ficou um tanto chateada.
- Eles me chamaram no dia do ensaio, você não estava
perto e...
- Tudo bem Má, estou brincando. Então se você vai,
Hugo pode vir pra cá?
- Ué, tudo bem. Monica, mesmo eu estando aqui, ele
pode vir também. Só não fazer muito barulho. –
brincou. – Eu vou dormir hoje na casa de Eduardo, para
podermos sair bem cedo amanhã.
- Sem problema. Você bem que podia arrumar um
namorado. Assim faz barulho junto.
- Ai que horror Monica!

As duas riram.

- Deixa eu correr que to atrasada.


- Vai lá, te encontro no show.

Marina correu, arrumou sua mala, pegou o teclado


embalou tudo e foi para o banho. Saiu rápido e se
maquiou. Procurou uma roupa, não quis usar vestido.
Então usou uma calça jeans mais justa e uma blusa
preta mais soltinha com um decote na frente. Calçou as
sandálias que Lívia lhe deu e se maquiou, passou um
lápis mais escuro nos olhos e um rímel que realçou a
cor, ficando mais verde, o restante da maquiagem era
mais simples. Quando saiu Monica estava se arrumando
também.

- Noooossa! Se superou. Ta aprendendo a se produzir.


- É que Eduardo pediu que desse uma caprichada para
o cartaz.
- Muito bom. To achando que ele quer é te ver
produzida.
- Olha a bobeira hein.

O telefone de Marina tocou e era Fabrício falando que


esperava lá embaixo.
- Bom, já vou indo. Te encontro lá.
- OK. Boa sorte!
- Valeu!

Marina desceu com a mochila nas costas e o teclado


com a alça atravessando. Quando apareceu na calçada
com dificuldade os meninos viram e foram ajudar.

- Por que não disse que estava com muita coisa


Marina?
- Calma gente dá pra levar.
- Vem, vamos ajudar.
- Cadê Lívia?
- Ela pediu que eu te buscasse e deixasse você e Dudu
lá na Urca. Eu vou buscá-la depois, ela ficou enrolada
no escritório.
- Ah ta. – falou um tanto desapontada.

Foram entrando no carro e conversando.


- Calma bonitinha, que ela vem. Falou em você o dia
inteeeeiiro! – Fabrício exagerou na última palavra.
- Falou o que?
- Falou do final de semana, que foram no shopping, que
foram na praia, jantar fora e que vão viajar juntas e bla
bla bla...
- Juro que nunca vi Lívia tão empolgada. – Eduardo
confessou.
- Sério? – Marina perguntou curiosa.
- Verdade, ela fala de você como se fosse o primeiro
amor da vida dela e faz planos como se fossem casar.
- Que exagero gente.
- Não é não. – Fabrício interveio.

Pelo caminho só falaram de Lívia, até chegar ao Pão de


Açúcar. Eduardo esperou um pouco para subir com
Marina e Fabrício foi buscar Lívia. Marina ficou
maravilhada dentro do bondinho. Olhava tudo em volta
e seu sorriso era comovente, parecia uma criança num
parque de diversões.

- Nossa é muito lindo! Olha a cidade toda iluminada. –


falava andando de um lado para o outro.
- Lá de cima é mais bonito ainda.

Quando chegaram lá no alto, colocaram o teclado e


deixaram tudo preparado para o show, passaram som e
depois levaram Marina para conhecer. Ali, por enquanto
só estavam os músicos que haviam chegado e um
pessoal da produção.

- Lá de cima a vista ainda é mais legal. – Eduardo


falou. – Outro dia a gente sobe até o Pão de Açúcar.
- Eu vou adorar!
- Mas quem vai trazê-la aqui sou eu. – Lívia chegou por
trás abraçando a loirinha.
- Hei! Que saudade! – Marina se virou abraçando bem
forte a morena.
- Ôôô... que abraço apertado.
- Senti sua falta.
- Eu também minha linda, até sonhei com você. – Lívia
a olhou com ternura e lhe deu um beijo rápido nos
lábios, antes que mais alguém visse.
- Eu to sobrando aqui ou posso ficar de vela? - Eduardo
brincou.
- Pode ficar seu bobo. – Marina falou.
- Fique e aprenda a ser carinhoso com seu namorado. –
Lívia abraçou Marina e beijou o topo de sua cabeça.
- Aff... mulheres! – Eduardo revirou os olhos.

Ficaram andando por ali até que o restante da banda se


aproximou deles.

- Marina! Altamente produzida! – Pedro brincou.


- Ué, tem que tirar foto. – ela sorriu tímida.
- Está uma gata mesmo, eu diria uma delícia. – Lívia
sussurrou logo atrás dela.

Monica reparou que Lívia havia chegado primeiro e


indagou para si mesma a presença da promotora todas
as vezes nos shows. Deixou pra lá, achava que estava
colocando minhoca na cabeça. O promotor os chamou
para se prepararem, pois as pessoas estavam subindo
já. Havia uma tenda com um bar tender e uma
iluminação bem moderna, o lugar estava realmente
bonito. Quando a banda começou os convidados se
dirigiam mais para perto do palco. Lívia estava distraída
ouvindo a música quando alguém chegou atrás dela.
- Oi gata! Que milagre sair do casulo.

Ela se virou para ver quem falava e viu que era uma
juíza com quem já tinha saído algumas vezes e
obviamente já tinha largado.
- Oi Camila. Como vai?
- Bem melhor agora.
Camila havia sido seu affaire antes de Bianca, saíram
por quase seis meses e todo mundo achou que aquele
relacionamento duraria, até porque tinham muito em
comum e a juíza era absurdamente linda. Tinha os
cabelos loiros dourados, parecidos com os de Marina,
olhos cor de mel e uma pele morena, nas horas vagas
fazia triátlon e isso lhe rendeu um belo corpo.
- Não sumi, apenas estou trabalhando muito.
- Estou naquela mesa ali. – Disse apontando. – Vamos
nos sentar.
- Não, obrigada. Estou curtindo o som aqui,
- Desde quando gosta de música?
- Desde muito tempo e desde que meus amigos tocam
nesta banda.

Camila não era burra e percebeu logo o interesse de


Lívia.
- Está de olho naquela menina? – falou um tanto
surpresa.
- Camila, o que você quer? – ela desconversou.
- Sabe o que quero. Estou com saudades de você. –
disse alisando o braço da promotora.
- Você não precisa de mim. Tem muitas garotas que
dão um rim para ficar com você.
- Não quero qualquer uma, quero você.
- Estou indisponível.

Camila se aproximou e falou ao ouvido dela.


- Pois quando estiver liberada, sabe que pode me
procurar... quando quiser.

Lívia fechou os olhos se mostrando irritada e saiu de


perto.

Marina assistiu tudo e olhava discretamente, sentiu um


frio no estômago e uma sensação de incômodo muito
grande.
Tocaram por quase quatro horas seguidas, sem
intervalo. Quando acabaram um DJ começou
imediatamente. Os músicos desceram do palco e foram
recebidos pelos amigos.

- Amiga arrasa! – Monica cumprimentou Marina que


devolveu o cumprimento batendo na mão dela.
- Show! – Fabrício falou. - Daqui a pouco estão
distribuindo autógrafos.
- Nossa que exagero. – Hugo brincou.

Marina se mantinha um pouco séria, por conta do que


viu anteriormente entre Lívia e a outra mulher.
Sentaram-se um pouco e curtiram a festa, até que Lívia
se manifestou para ir embora, pois iriam viajar cedo no
dia seguinte.

- Ela vai? – Monica perguntou a Marina.


- Pelo que parece sim. Fabrício não me avisou nada,
mas a mãe dela mora lá né.
- Ah sim. Uia vai viajar de carrão!
- Menina boba meu Deus! – Marina riu.

Despediram-se e desceram os quatro, Marina, Lívia,


Fabrício e Eduardo combinando de saírem bem cedo no
dia seguinte.

As duas foram em silêncio para o apartamento. Marina


não estava chateada, mas com medo, na verdade
receio. Nem sabia o motivo direito, por isso ficava
calada. Lívia estava doida para chegar em casa e poder
conversar com ela, era a terceira vez que Marina ficava
assim e talvez na quarta a loirinha não tivesse tanta
tolerância. Finalmente quando chegaram e botaram o
pé dentro do apartamento a morena a puxou pelo braço
e a beijou.

- Isso é pra você saber que hoje só tenho olhos para


você e mais ninguém me importa. Seja quem for e
como for. Era só isso que queria que soubesse. É a
única que em tão pouco tempo, conseguiu me encantar
por completo.

A soltou e saiu andando pelo apartamento e subindo as


escadas. Marina ficou até zonza com aquele beijo. Foi
andando para o quarto e pensando que tinha que parar
com aquelas atitudes e passar a confiar mais em Lívia.
Se quisesse que fosse diferente, teria que fazer
diferente também. Parou na porta do quarto e viu a
morena arrumando a cama. Deixou a mochila no chão e
chegou perto dela, seus olhos marejaram e ela não
conseguiu conter o choro, ia chamar pela morena, mas
não conseguiu, o que pode fazer foi tocá-la para que
olhasse para trás.

- Que foi amor?


- Desculpa. – Marina chorava. – Acho que gosto tanto
de você que te ver com outra pessoa me dói lá dentro
como nem sei explicar e vem um aperto no peito. Me
perdoa.

Lívia correu para abraçá-la.


- Eu que peço perdão por esses episódios
desnecessários. Infelizmente não posso fazer nada para
que não aconteça. Só te peço para confiar em mim.
- Eu confio. – Marina disse olhando em seus olhos.

Beijaram-se novamente. Lívia foi se excitando e deu


vazão aos seus desejos acumulados pelos dias que não
vira a loirinha.

- Estou morrendo de vontade de você, desde a hora em


que te vi. – beijava e mordia ao mesmo tempo. – Eu
não consigo mais ficar longe de você Marina. Não
consigo! – parou de repente olhando para ela como se
buscasse cada detalhe daquele rosto. – Faz amor
comigo?
Marina nem precisou responder, Lívia viu naqueles
olhos verdes um sim. Era a rendição e o desejo. Pegou
a loirinha pela cintura e levou até a cama, tirou sua
roupa, a deixando somente de calcinha. Os seios
empinados foram um convite, Lívia não se conteve,
abocanhou-os e mordeu de leve, depois sugou para
depois passar a pontinha da língua nos bicos
endurecidos. Marina gemia enlouquecida agarrando-se
aos cabelos negros de Lívia. As carícias eram
embaladas por gemidos das duas que não esperaram
muito para que pudessem se sentir. Quando a morena
arrancou a calcinha de Marina percebeu que ela estava
depilada e havia deixado apenas uma tira fina de pelos
que lhe tirou totalmente a razão.

- Deus do céu! Hoje você quer mesmo me matar.


- Gostou? – Marina tinha um sorriso safado nos lábios.
- Sem-vergonha! Vou te mostrar se gostei ou não.

Lívia arrancou a calcinha dela e jogou longe, abriu suas


pernas com rapidez e se enfiou entre elas. Lambia,
sugava, mordia, sorvia cada gota. Marina se contorcia
de prazer, gozou várias vezes seguidas e suas pernas
estavam totalmente sem força. A morena arrancou sua
própria calcinha e encaixou seus sexos começando a
rebolar sentindo aquele contato fascinante.

- Amor... amor... – Marina gemia no ouvido dela


deixando a morena mais estimulada.
- Quer mais? – Lívia rebolava sensualmente.
- Quero...
- Então pede...
- Eu quero mais... ahhh... mais... – Marina abria mais
as pernas e rebolava junto com ela.

Gozaram juntas em espasmos alucinantes.


Lívia se levantou, sentando-se na cama e recostando
nos travesseiros, colocou Marina sentada em seu colo
de frente para ela. A abraçou, ainda sentindo sua
respiração agitada. Ajeitou a franja de Marina que
teimava em cair no seu rosto, colocou os cabelos dela
atrás da orelha e a beijou. Suas testas se uniram num
gesto carinhoso e só se ouvia suas respirações
cansadas. Quando se acalmaram Lívia olhou em seus
olhos, respirou fundo pensando bem no que ia dizer,
não queria adiar nem se precipitar, arriscou.
- Eu te amo. – olhava-a a nos olhos.

Marina custou a entender, achou que estava sonhando.


Falou ternamente:
- O que é amor? É sentir saudade? É saciar os desejos
com o responsável pela saudade? É querer acordar ao
lado dessa pessoa? Poder olhar nos seus olhos e se
sentir seguro? Pensar nela até dormindo? Se for... Eu
também te amo!
O momento foi selado com um beijo cheio de carinho.
Eram cúmplices de um sentimento inédito para Marina
e há muito não sentido por Lívia. Ficaram abraçadas
por um bom tempo, sem dizer nada, apenas curtindo a
presença uma da outra. Quem quebrou o silêncio foi a
loirinha.
- Acho que Monica está querendo me falar sobre a
gente.
- Por que acha isso? – Lívia alisou seu rosto.
- Porque ela me faz umas perguntas esquisitas. Hoje
mesmo lá no show, ela viu você chegando e perguntou
se ia também para Mauá. Eu disse que talvez sim, já
que sua mãe mora lá e ela olhou para você meio
desconfiada. Quando passei o final de semana aqui ela
também jogou umas indiretas.
- Acha que ela pode se incomodar?
- Sinceramente não sei, ela diz que não liga e que
aceita homossexualidade, mas nunca teve nenhuma
pessoa próxima. Essas coisas são fáceis de aceitar
quando se está longe.
- É verdade, mas acho que ela é sua amiga. Me
surpreenderia muito se criasse encrenca.
- Tomara. Ela é minha melhor amiga mesmo. Sem ela
aqui não sei o que fazer...
- Você tem a mim. Não sou muito, mas sirvo pra
alguma coisa. – Lívia fingiu descaso.
- Não! Você é muito, é até mais do que eu preciso,
estou no lucro. Deus me deu de presente uma mulher
linda, inteligente e que me ama. Que mais eu posso
querer?
- Quer namorar comigo? – Lívia a surpreendeu.

A loirinha arregalou os olhos, parecia que tudo ia rápido


demais, só não conseguia controlar.

- Sério?
- Sei que está sendo tudo muito rápido, mas estou
deixando meu coração levar tudo isso. E sim, é sério. –
Lívia tinha uma expressão realmente séria. – Eu gosto
da sua companhia, eu sinto vontade de ver você feliz o
tempo todo e eu te amo. Então, quer namorar comigo?
- Quero. – Marina deu o sorriso mais lindo que Lívia já
vira.

Beijaram-se de novo até que as carícias foram


aumentando e dando lugar a gemidos e falas
desconexas. Lívia levou a mão até o sexo de Marina e a
sentiu molhada, começou a esfregar os dedos bem de
leve sentindo escorregar, a loirinha começou a rebolar
e desceu a mão até o sexo de Lívia massageando
também. Arqueou o corpo para trás, dando uma visão
total de seus seios que foram abocanhados com
vontade, Lívia alternava de um para outro mordendo e
lambendo os bicos. Quando estavam gozando olharam-
se com paixão e falaram ao mesmo tempo.
- Te amo, te amo, te amo... – E foram repetindo até
chegarem ao clímax abraçando-se no final.
Quando o sono chegou as duas adormeceram
cansadas, mas felizes.

Acordaram cedo no dia seguinte.

- Amor, levanta! Precisamos nos arrumar. – Lívia


chamou Marina.
- Hum, to com preguiça. – a loirinha se espreguiçava
toda na cama.

Lívia olhou seu corpo e ficou tentada, mas não podia.


- Tentação! Não me desconcentre. Vamos, tomamos
banho rápido pra acordar e pé na estrada.

Marina levantou e as duas foram para o banheiro. O


banho foi jogo rápido e quando estavam saindo a
loirinha pegou sua mochila.

- Tem roupa de frio aí? Estamos no outono, e lá sempre


é mais frio.
- Tem um casaco ué. Vamos ficar lá um final de
semana só.

Lívia olhou para aquela mochila e não acreditou muito,


Marina estava subestimando o tempo da cidade.
- Vamos?
- Vamos. – Lívia a pegou pela mão e saíram.

Passaram na casa de Fabrício, onde ele e Eduardo já


esperavam na calçada do prédio.
- Nossa, pra que sair tão cedo Lívia? – Fabrício entrou
bocejando no carro.
- Pra chegar cedo lá. Quero levar Marina para conhecer
a cidade.
- Ah, isso vai demorar semanas, porque Mauá é
enorme. – ele debochou.
- Não seu bobo, também quero levar ela em Penedo e
se der em Itatiaia.
- Passeios românticos. – ele revirou os olhos. - Marina
o que você fez para agarrar essa promotora?

Ela nem teve tempo de responder e Lívia se adiantou.


- Nem queira saber, são detalhes muito íntimos.

Lívia levou um tapa no braço.


- Ela que me agarrou.
- É verdade, tomei a iniciativa.

Todos riram.

Pegaram a estrada, o trânsito ajudou bem e em pouco


tempo chegaram a Mauá. Fabrício e Eduardo ficaram
surpresos, pois durante quase todo o tempo da viagem
Lívia e Marina foram de mãos dadas, ou Marina ia com
a mão em cima da perna direita da morena. Olhavam-
se com carinho e se tratavam como namoradas. Um
olhava para o outro e fazia sempre uma cara de
surpresa. Quando chegaram na vila foram recebidos
por Marta e Bete.

- Chegaram cedo, que bom! Assim damos um passeio.


– Marta foi a primeira a falar. – Como foram de
viagem?
- Bem tranquila. Bom dia mãe, como vai a senhora?
- Deus te abençoe. Vou bem graças a Deus. E você
bonitinha, tudo bem? – se referiu a Marina.
- Tudo. Nossa aqui é lindo, até onde eu vi.
- E tem mais coisas bonitas para você ver.
- Oi meu filho, lembrou de sua mãe! – Bete veio
abraçando Fabrício.
- Oi mãe, não me esqueci da senhora, estou sem
tempo.
- Sei... sei... Lívia também não tem tempo e vem
sempre aqui.
- Mas eu sou uma filha perfeita, ele é um desnaturado.
– Lívia brincou.
- Obrigado! Obrigado mesmo viu. Valeu pela força! –
Fabrício brincou.
- Tudo bom dona Bete? - Eduardo a cumprimentou.
- Oi Dudu, tudo ótimo. Como vai a banda?
- Ah está uma maravilha.
- Fabrício disse que teve problemas com o tecladista, e
depois arranjaram outra pessoa?
- Sim, olha ela aí na sua frente. – Ele apontou Marina.
- Nossa, não sabia que era ela. Estão de parabéns, uma
moça muito bonita.
- Vem gente, vamos entrar e deixar as coisas lá dentro.
– Marta chamou.

Marta levou Lívia e Marina e Bete levou Fabrício e


Eduardo.
- Nos encontramos lá nos fundos. – disse a morena.

Quando entraram Marina foi a primeira a falar.


- Nossa que bonito aqui dentro. – falou admirando o
chalé. – Eu adoro chalés, parecem aconchegantes.
- Eu gosto muito daqui. Por isso não vou muito ao Rio,
fica difícil largar meu cantinho.
- Olha, confesso que também não largaria. Adorei sua
casa.
- Então está convidada para vir muitas vezes, quantas
quiser. – Marta falou simpática.
- Ela virá. – Lívia sorriu.
- A mãe de Fabrício sabe dele e Eduardo? Fiquei curiosa
agora, desculpa perguntar.
- Que isso, sem problema. Ela não sabe diretamente,
desconfia ou finge que não sabe. – disse Marta. – Trata
Eduardo como um amigo de Fabrício.
- Ah.
- Essa é sempre a melhor saída quando não quer
contar.
- Melhor mesmo. – Marina concordou.
- Vem amor, vamos subir para nosso quarto. Acomodar
as coisas e sair.
- Nosso quarto? Ih Marina, já está assim é? – Marta riu.
- Ta vendo? Agora estou importante. – brincou
abraçando a namorada.
- Ta ficando sério dona Marta. Sua filha está
namorando. – Lívia sorriu.
- É mesmo? Fico feliz que esteja namorando e que seja
Marina.
- Sabia que ia gostar. – Lívia abraçou a mãe também.
- Vão, subam e se ajeitem.

As duas foram para o quarto. Era bem amplo, tinha


duas janelas, sendo que uma dava para uma pequena
varanda e a outra era tipo uma bay window. Havia uma
cama de casal ao centro e um armário grande com um
baú próximo a ele. Uma pequena lareira no canto e um
banheiro.
- Que quarto legal, gostei dele.

Lívia a abraçou por trás e a levou até a bay window.


- Olha que vista? – os fundos davam para um rio e uma
mata bem fechada, subindo a montanha.
- Que lindo amor! Hum, quero namorar aqui mais
tarde. Posso?
- Você pode tudo. – a beijou. – Agora vamos passear?
Quero te mostrar a cidade. E coloque um casaco mais
grosso, está ventando muito. – falou pra ver a intenção
de Marina.
- Esse não dá? Ele é grosso. – Se referia a um casaco
branco. Era a cara dela, tinha uma listra verde nas
mangas, umas aplicações na frente e capuz. Mas era
um pouco fino.
- Acho que vai sentir frio, veremos então.
- Não vou.

Lívia não falou mais nada. Desceram e avisaram Marta


que iam sair.
- Você vem mãe?
- Não, vou preparar o almoço. Bete também está
fazendo alguma coisa por lá, vamos juntar depois.
- Ta bom, volto para o almoço.

As duas saíram e Lívia achou melhor andarem pela vila


só para mostrar as lojas, depois que o comércio
fechasse ela não poderia aproveitar mais. O vento
bateu mais forte e Marina encolheu os braços, mas não
reclamou. Entraram numa loja de presentes, com
várias lembranças da cidade.

- Olha, parecida com a casinha que você me deu. – a


loirinha mostrou.
- Sim.
- Vou levar uma pra minha mãe. – Marina escolheu
uma de seu agrado e levou.

Quando saíram novamente veio o vento e a loirinha


cruzou os braços. Lívia a abraçou tentando esquentá-la.
Entraram em uma loja de roupas, pois Lívia deu uma
desculpa esfarrapada dizendo que precisava de um
casaco novo. Escolhia um e outro e olhava para a
namorada. Marina já tinha entendido que Lívia queria
comprar um casaco para ela. Quando ia falar que não
queria a morena se adiantou.

- Não discuta comigo. Aqui está frio e esse seu casaco


não vai aguentar. À tarde nós vamos dar uma volta
mais longa, à noite vamos sair e você não vai aguentar
o frio. Não te trouxe aqui para ficarmos enfiadas em
casa. – Falou com tanta autoridade que Marina nem
discutiu.

Escolheram dois casacos, outro um pouco mais


reforçado que o de Marina e três blusas de lã. Quando
Lívia foi pagar, a loirinha viu um gorro e achou a cara
da promotora. Pegou e levou a outro vendedor e pediu
que embrulhasse para presente. Guardou dentro de sua
bolsa sem que ela visse. Ao saírem Lívia falou:
- Veste aquele casaco preto agora e guarda esse seu.

Marina obedeceu e Lívia a achou linda no casaco novo.


Era vermelho escuro, com um zíper na frente e nas
mangas havia bordados brancos.

- Está linda.
- Obrigada. – Marina falou sem graça.

Lívia nada falou, pegou na mão dela e continuaram


andando. Pararam para comer pinhão, pois Marina não
conhecia.
- Isso é gostoso!
- Sim, mas não exagere, porque mamãe está fazendo o
almoço. Se chegarmos sem fome lá, ela manda a gente
embora. – Brincou.
- Então já parei. – Marina levantou as mãos para o alto.
- Vamos que agora o trajeto é de carro. Foram até a
toca da raposa, uma das cachoeiras famosas na região,
Marina ficou encantada. Lívia aproveitou e tirou muitas
fotos.
- Posso tirar foto sua? – Marina perguntou.
- Pode. Essa máquina, você vai se dar melhor assim. –
Lívia regulou no automático.

Marina deu uma olhada, tirou uma foto solta para


avaliar a máquina e pronto.
- Amor, fica ali virada para a cachoeira.

Lívia fez o que a loirinha pediu e Marina ajustou a


máquina como queria e bateu a foto. Depois de umas
cinco fotos em posições diferentes, Lívia ficou curiosa.
- Deixa ver o que você está aprontando. - Quando viu
ficou surpresa. – Nossa! Ficou muito bom.
- Claro a modelo ajudou.
- Estou falando de modo geral.
- Viu, eu sei tirar foto, conheço máquina digital. Já
chegou na minha terra. – a loirinha brincou.
- Palhacinha. É que achei que você não ia se adaptar,
sei lá... – falou um tanto sem graça.
- Meu irmão tem uma parecida, por isso eu conheço.
- Vou deixar a máquina na sua mão então.
- Vou adorar, adoro tirar fotos. Depois gravo em um cd
pra levar pra minha mãe, ela adora fotos.

Continuaram andando por ali, fizeram uma caminhada


rápida. E quando deu a hora do almoço voltaram para
casa.
- Antes de anoitecer te levo em outra cachoeira e
aproveitamos para jantar. E amanhã te levo em
Penedo.
- Vamos jantar fora?
- Ahan.
- Vamos sozinhas?
- Ahan.
- E vamos aonde? – Marina estava cheia de perguntas.
- Surpresa.
- Ah... – fez bico.
- Você vai gostar.
- Eu sei que vou, com você do meu lado, qual lugar que
fica ruim?
- Ah, essa declaração merece um beijo.

Lívia parou o carro em frente à casa da mãe e beijou


Marina.
- Desde que chegamos não me deu nem um beijinho. –
a morena reclamou.
- Ô que judiação. Vou te compensar meu bem. –
Marina a puxou e beijou novamente. – Eu prometi ser
toda sua e te paparicar, mas é você que está fazendo
isso. Bela namorada que sou.
- A mais linda de todas. – sorriu.

Saíram do carro e entraram em casa, vinha um cheiro


excelente da cozinha.
- Hum que cheiro bom. – Marina falou.
- Comidinha da mamãe. Isso é uma benção.
- Estou doida pra comer a comida da minha também.

Marta saiu da cozinha falando que ainda não estava


pronto e que elas esperassem mais um pouco. As duas
resolveram se sentar na sala onde também tinha uma
bay window. Lívia sentou esticando as pernas e Marina
sentou entre as pernas dela.
- Quando vai ver sua família?
- No próximo final de semana. Saio daqui na sexta e
volto no domingo a noite.
- Um final de semana inteiro sem você?
- Comporte-se hein.
- Hum... – foi a morena que fez bico dessa vez.
- Passa rápido.
- Virei pra cá então.
- Isso, assim sua mãe te vigia pra mim. – Marina
despistou olhando para cima.
- Você ainda não confia em mim, não é? – ficou séria.
- Confio, estou brincando. Confio em você mais do que
pensa. Até porque não tenho motivo para pensar o
contrário.
- Obrigada por me dar um voto de confiança.
- Eu sempre dou voto de confiança às pessoas, quando
perco é porque elas mesmas me fizeram perder.
- Você fala que Deus foi muito bom com você, mas ele
também me deu um presente que eu nem mais
esperava.

Beijaram-se ternamente, ficaram trocando carícias,


brincando e conversando, era realmente um namoro
que fazia bem as duas. Eduardo chegou com Fabrício
que pigarreou interrompendo um beijo do outro casal.

- Ê paixão!
- Vai dar uns pega no seu namorado também e para de
me encher. – Lívia falou brincando.
- Eu dou, mas eu sou discreto. – Fabrício deu um beijo
rápido em Eduardo.
- Essa fase de namoro já passamos, agora somos
sóbrios. – disse Eduardo.
- Daqui a pouco passa essa fase boa aí e fica só a
rotina. – Fabrício se sentou no sofá.
- Que nada, a gente vai mudar sempre. – Lívia falou.
- Vai nada, vocês se esquecem disso.
- Todo namoro tem suas fases ruins mesmo, mas eu
dou um jeito de temperar.
- Ou colocar um caldinho. – Marina brincou.
- Onde foram? – Eduardo perguntou.
- Fomos na Toca da Raposa, primeiro andamos por aqui
e depois fomos lá.
- Gostou Marina?
- Adorei!
- Ela gosta de tudo, mulher fácil de agradar. – Lívia a
abraçou.
- Eu gosto de novidade.
- Ah é? Quer dizer que quando eu deixar de ser
novidade, como vai fazer?
- Te trocarei. – Marina piscou o olho para os meninos.
- O que? – Lívia estava indignada, até afastou a
loirinha.
- Brincadeira amor.
- Você falou muito sério. – Lívia foi se levantando.
- Lívia deixa de ser boba que eu tava brincando.
- Não, não... falou sério demais pro meu gosto.
- Preciso de um advogado. Fabrício, me ajuda.
- Eu? Contra promotor público eu não me arrisco. Eles
são miseráveis. – Brincou.

Lívia se levantou e foi para a cozinha.


- Agora vê, eu aguento isso?
- Aguenta, você a ama. – Fabrício falou.
- Amo. – achou graça.
O almoço ficou pronto. Sentaram-se a mesa e Lívia
ficou do lado da mãe, olhava meio enfezada para
Marina que lhe sorria de volta.

- Ela está com raiva.


- Que houve? – Marta perguntou.
- Disse que vou trocá-la quando enjoar. – Marina riu.
- Ah, isso vai demorar ainda. – Marta entrou na
brincadeira.
- Mãe! Ainda dá razão?
- A gente quando enjoa de uma roupa não a descarta?
É assim mesmo.

Lívia ficou enfurecida.


- Só a roupa, você não ta meu amor. – beijou o rosto
dela que quis se esquivar. – Olha que carinha mais
linda! Fica brava e fica mais bonita, como pode?

Lívia fingia não ligar. Marina pegou o prato e sentou ao


lado dela para lhe dar comida na boca.
- Vem. Eu falei que ia te paparicar e vou cumprir. Toma
meu anjo, comida na boca.

Lívia fez que não quisesse.


- Ah, eu não recusava o tratamento de uma loiraça
dessas. – Fabrício falou implicando.
- Ela aceita. Não é meu bem? E ela sabe que eu a amo.
E que se continuar com esse bico hoje à noite vamos
dormir cedo. – Falou a última frase no ouvido de Lívia.

Imediatamente a morena abriu um sorriso.


- Só vou aceitar porque sou uma excelente
negociadora.
- Isso aí. – Marina piscou para ela.

Bete olhava tudo e nada falava, estava acostumada ao


comportamento de Lívia e que Marta aceitasse. Sempre
conversavam sobre o assunto, mas Marta nunca falava
de Fabrício. Esse assunto dizia respeito somente a ele e
sua mãe.

Quando o almoço terminou Marta foi para a cozinha


ajeitar a louça e Bete a ajudou.
- Marta, que houve para Lívia trazer uma namorada
aqui?
- As coisas estão mudando minha irmã.
- Ela parece boa moça.
- É sim, por isso tudo está mudando. E eu rezando para
que continuem assim.

Na sala o pessoal se reuniu para conversar, o tempo


estava nublando e isso preocupou Lívia para a saída a
noite.
- Vai chover e estragar meus planos.
- Calma, às vezes para até lá. E outra, se não der pra
sair eu não ligo.
- Ah já sei... o importante é você do meu lado. –
Fabrício falou com voz melosa imitando Marina.
- Besta! – Marina jogou uma almofada nele.
- Estou estupefato, perplexo, pasmo...
- Que isso? Abriu um dicionário?
- Não me interrompa... estou assustadoramente
intrigado com o poder que essa baixinha tem. Marina,
de onde você vem tem mais de você? Porque conheço
muita gente que precisa de um sossega que nem você
deu em Lívia.
- Fabrício, quer fazer o favor de me respeitar?

Todo mundo ria na sala.


- Eu não sosseguei ninguém, eu só dou a ela o que ela
precisa.
- Não me diga, por favor, eu quero passar sem os
detalhes! – ele disse revirando os olhos.
- O que você me deu que eu precisava?
- Atenção e carinho. – Marina a olhou com simpatia.
Lívia pensou que sempre se surpreendia com Marina,
com seus gestos e declarações.
- Como posso não amar uma pessoa assim? – Lívia a
abraçou.
- Tudo por causa do Pablo. – Eduardo falou. – Se ele
não tivesse faltado àquele show, Marina não teria
tocado com a gente, você não a teria visto tocando e
uma hora dessas estaria só e abandonada. – riu da
última frase.
- Eu estaria só e abandonada, porque Monica me largou
à deriva no Rio. Agora só tem olhos para Hugo.
- Gente impressionante também, Hugo só fala dela.
- São os encantos das paulistanas. – Lívia beijou o topo
da cabeça de Marina.
- Marina, seu pai é produtor de cana, sua mãe deve ter
passado açúcar em você. – Fabrício brincou fazendo a
loirinha gargalhar.
- Minha mãe passou foi mel mesmo.
- A minha passou pimenta. Tsss! – Lívia fez um gesto
como que encostando no braço e saindo fumaça.
- Por falar em mãe eu vou ligar pra minha. Senão ela
fica preocupada. – Marina se levantou e foi pegar o
celular no quarto, desceu as escadas já discando o
número de casa. Falou com a mãe e disse que estava
em Mauá passeando, falou da cachoeira e que estava
tudo bem. – Prontinho!
- Já tranquilizou a mãe. Como ela se chama? – Eduardo
perguntou.
- Maria José ou Zezé. – Marina sorriu.
- Eu não sabia o nome dela. – Lívia falou.
- Nunca me perguntou também ué.
- Descuido isso.
- Tem que saber o nome da sogra Lívia, que falta de
educação. – Eduardo a arreliou.

Ficaram de papo até o meio da tarde. Depois


resolveram sair para dar uma volta e jantar. Lívia e
Marina subiram para o quarto, enquanto Fabrício e
Eduardo foram para a casa de Bete se arrumar.

- Acho que vai combinar. – Marina se olhava no espelho


com um par de botas na mão.
- O que meu anjo?
- Essas botas com a calça. Só usei uma vez. Nem sei
por que eu as trouxe para o Rio. Quando estava
arrumando minhas malas, olhei para elas e decidi na
última hora.
- Seu subconsciente que lhe disse: Leve-as, pois você
vai dar um passeio com a morena mais linda do Rio de
Janeiro. – Lívia brincou.
- Só do Rio? Pra mim ela é a mais linda do mundo, sem
exagero.

Lívia sorriu para ela.


- Linda! Te amo.
- Também te amo, muito!

Beijaram-se apaixonadamente.
- Pena que já está vestida. – Lívia falou com os lábios
colados nos de Marina.
- Você disse que tínhamos que sair mais cedo. Assim
voltamos mais cedo também e a noite serei toda sua.
Eu prometi, não prometi?
- Ahan... – Beijava seu pescoço. – E eu estou morrendo
de vontade de você.
- Mas ontem a gente fez amor até tarde. – Marina
sentia os beijos em seu pescoço e falava com voz
melosa.
- Ontem foi ontem, já passou. – Beijou seu colo e
passou a mão num dos seios.
- Amor, se comporte. Mais tarde, certo?
- Ta bom, ta bom...

Marina terminou de se vestir, estava com uma calça


jeans, a bota preta sem salto e uma blusa preta de lá
também que havia ganhado de Lívia. Os cabelos
estavam soltos e a franja que já estava um pouco
grande, lhe caía quase nos olhos. Passou um perfume e
um hidratante no rosto por conta do frio.

- Que gatinha! Tem compromisso pra hoje à noite? –


Lívia a olhava.
- Tenho. Vou sair com minha namorada.
- Ah que pena, ia te chamar para sair. Não quer
desmarcar com ela e sair comigo?
- Não. Eu prometi e tem mais... não tem convite nesse
mundo que me faça desmarcar com ela.
- Sortuda essa sua namorada.

Marina olhou com cara de sapeca e falou.


- Depois que eu enjoar dela, podemos conversar... –
seu sorriso era quase cômico.

Lívia enfezou de novo e virou as costas.


- Não amor, estou brincando.
- Estou rindo por dentro. – permanecia séria.
- Ô amor! Não vou enjoar de você. Vem aqui, me da
um beijo.
- Não!
- Ah, só um vai...
- Não.

Marina se aproximou enquanto ela se arrumava,


abraçou sua cintura e mordeu seu queixo, o pescoço,
alisou as costas de Lívia.
- Sabia que eu adoro seu cheiro? Que essa semana que
passou senti sua falta todos os dias, principalmente na
hora de dormir? – Beijou o colo. – Só dormi direito
novamente ontem, quando estava contigo. Incrível
como em pouco tempo você me faz falta.

Marina encostou a cabeça no colo da morena, no


começo falou para que ela soubesse o quanto amava,
mas terminou a fala pensando realmente no quanto
amava aquela pessoa.
- Te amo muito minha promotora enfezada.

Lívia que fingia não escutar, acabou se emocionando


com a declaração da loirinha.
- Também te amo! Achei que não conseguiria mais isso
na minha vida. Mas você conseguiu isso de mim.

Beijaram-se novamente.
- E você ainda acha que vou enjoar? Se soubesse o que
se passa no meu coração, não duvidaria disso nenhum
segundo. – Abraçou forte a morena.

Quando Lívia terminou de se arrumar que Marina pode


ver o quanto estava bonita. Usava uma calça escura,
bem justa e uma blusa cinza escuro com um sobretudo
por cima negro como a calça e botas combinando.

- Que tal?
- Nossa que linda!
- Essa chuvinha que vai bagunçar meu cabelo. Ele fica
arrepiado quando tem garoa assim.
- Hum, então espere.

Marina foi até sua bolsa e tirou um saquinho de


presente.
- Eu comprei isso hoje de manhã naquela loja. Não sei
nem se você gosta de usar, mas vai te ajudar com a
chuva.

Lívia abriu o saquinho e viu um gorro preto. Era


discreto e simples, combinava com sua roupa.
- Perfeito! – colocou na cabeça e ajeitou.
- Gostou? – Marina falou timidamente.
- Adorei amor. – falou sorrindo.

Marina ajeitou a parte de trás e os cabelos da morena.


- Não vai passar nada no rosto?
- Não, pra que?
- O frio pode queimar a pele. Vem aqui. Abaixa só um
pouquinho. – Lívia achou graça do pedido. – E não ria
da minha estatura. – levou um tapa no braço. Marina
passou um hidratante no rosto da morena e ao final
beijou a ponta de seu nariz.

Desceram e os garotos já esperavam na sala. Marta


não quis ir, achou melhor deixar os jovens irem
sozinhos. Tinha marcado um jogo de damas com
algumas amigas.

Lívia levou Marina para a cachoeira do escorrega.


Quando chegaram lá a chuva tinha parado.

- Nossa, que maravilha.


- Essa cachoeira tem um tobogã natural, as pessoas
sentam ali e escorregam até lá embaixo. Por isso o
nome.
- Deve ser legal. Já escorregou aqui?
- Eu já. – Lívia fez uma cara sapeca.
- Eu também já, é muito bom. No calor é um dos
melhores programas de Mauá. – disse Fabrício.

Andaram ali por perto e tiraram fotos até escurecer,


depois pegaram o carro e foram a um restaurante
próximo do local onde a especialidade era fondue.

- Nossa que frio lá fora! Aqui dentro ta bem melhor. –


Marina falou.
- E ainda queria usar aquele seu casaquinho. – Lívia
implicou com ela.
- Ah, não achei que fosse fazer tanto frio.
- Aqui sempre é mais fresco, ainda mais quando fica
essa chuvinha fina.
- O fondue daqui é muito bom. Já comeu fondue
Marina? – Eduardo perguntou.
- Não. Já estive em uma festa que eles serviram na
mesa, mas eu não comi.
- Por que não?
- Porque eu estava contratada pra tocar, não pra
comer.
- E não ofereceram?
- Nada! Tem gente que acha que músico não come e
não tem sede. – brincou.
- Isso é verdade, já toquei em lugares que se não fosse
Fabrício para levar algo para a banda estaríamos
lascados.
- Esse povo é muito mal educado. – Lívia reclamou. –
Que falta de bom senso.

O garçom veio para atendê-los e então pediram o


fondue salgado primeiro. Pediram um vinho para
acompanhar. Quando o garçom veio, Marina viu em
uma travessa várias carnes cruas e na outra o queijo
derretido. Achou estranha aquela carne crua e ficou
imaginando como se comeria aquilo.

Eduardo viu da sua cara de preocupação e a


tranquilizou.
- Calma que eles ainda vão trazer o óleo quente, você
coloca a carne dentro, ela frita e depois você mergulha
no queijo.
- Ah... – ela se tranquilizou.
- Tem pão também amor, você pode molhar direto no
queijo.
- Achei que iam me fazer comer carne crua. – ainda
estava de olhos arregalados.

Todos à mesa acharam graça.


- O fondue que eu vi era doce, de chocolate.
- Vamos pedir esse também, depois desse.

Depois que o garçom serviu tudo os quatro se


deliciaram. Marina servia Lívia na boca como já vinha
fazendo desde o almoço.
- Agora é assim? Toda vez é comida na boca? – Fabrício
implicando como sempre.
- É, eu prometi a ela tratamento cinco estrelas esse
final de semana.
- Viu, casais recentes são assim. Esse aqui não me dá
nem água, só esporro. – Eduardo falou achando graça.
- Em vez de ficar implicando, poderia fazer o mesmo
Fá. – Lívia piscou o olho para ele e mordeu a carne que
Marina a servia.
- Vocês duas não têm é vergonha na cara, fazer isso
aqui na frente de todo mundo.
- Eu não devo nada a ninguém. – Lívia falou.
- Nem eu. – completou Marina.
- No Rio, em alguns lugares eu até entendo e respeito
sendo discreta, mas aqui ninguém me conhece mesmo.
Não vou deixar de fazer ou receber um carinho da
minha namorada porque não estão gostando. Ai deles
se me tirarem daqui por conta disso.
- Viu! Por isso quis logo uma promotora. – Marina
brincou.
- Excelente escolha. – Lívia piscou para ela.

Acabaram o fondue de queijo e logo veio o de chocolate


com pedaços de fruta.

- Esse eu te sirvo amor. – Lívia espetou um morango e


mergulhou no chocolate. – Cuidado que está quente.
Marina mordeu achando uma delícia.
- Isso aqui é comida dos Deuses.
- Come bastante mesmo, aí chega mais tarde pega no
sono e dorme. – Eduardo brincou.
- Ah não dorme nada.
- Não mesmo.

As duas se olharam com cumplicidade e caras sem-


vergonhas.

Terminaram de comer e voltaram para casa. Fabrício e


Eduardo se despediram na porta. Quando as duas
entraram em casa Marta já estava dormindo. Foram
direto para o quarto e mal entraram Lívia passou a
chave na porta.

- Vem aqui delícia. – Puxou Marina pelo braço e a


agarrou.

Marina correspondeu à altura e se entregou as carícias


da namorada. Arrancaram as roupas em segundos.
Lívia levou a loirinha até a bay window e a sentou de
pernas abertas, ajoelhou-se entre elas e foi direto em
seu sexo. Lambia e chupava com maestria, colocou as
pernas de Marina em seus ombros e se deliciou com o
gosto da loirinha, que gemia sem controle. Agarrava os
cabelos de Lívia e puxava, já totalmente descontrolada.
Gozou em poucos instantes, mas Lívia não quis parar,
levou a mão em seu clitóris e massageou novamente,
subiu pela barriga da loirinha com beijos e parou nos
seios lambendo e mordiscando. Marina arqueou o corpo
para trás e abriu mais as pernas até gozar novamente
sacudindo todo o corpo. Quando suas pernas relaxaram
ela praticamente caiu em cima de Lívia.

- Será que você ainda me deixou com um pouquinho de


energia? – falou com certo dengo.
- Por que amor?
- Quero fazer uma coisa, mas primeiro preciso me
recompor. – disse sorrindo e ofegante ao mesmo
tempo. Quando sentiu que as pernas estavam mais
firmes, se levantou e foi até sua mochila, estava
totalmente nua e já não sentia mais vergonha. Pegou
um pequeno frasco e olhou para Lívia, que a observava
encantada.
- Vem... – chamou já perto da cama.

Lívia se aproximou e sentou na beirada da cama.


- Deita de costas pra mim.
Lívia então deitou e Marina sentou em suas nádegas.
Derramou um óleo que tinha no frasco e começou a
massagear as costas da morena.
- Nossa que cheiro bom.
- É uma essência, comprei da mesma moça que me
depilou. Ela vende umas coisinhas interessantes. –
falava e massageava ao mesmo tempo.
- Que coisinhas?
- Tipo óleos, cremes, calcinhas comestíveis...
- Opa! Preciso conhecer essa moça. – Lívia sorriu. –
Sabe que eu tava precisando de uma massagem?
- Sei, você é muito tensa. Precisa relaxar.
- Acha que sou tensa?
- Acho, não só tensa como agitada, às vezes parece
estar calma, mas não está. Por dentro você pega fogo.
- É que sou quente. – brincou.
- Não falo disso sua boba, falo de ansiedade.

Lívia fechou os olhos e suspirou.


- Está gostando?
- Muito, a sensação é de total bem estar.
- Que bom, eu estava ansiosa, achei que não ia dar
conta de você. – Marina falou meio envergonhada.
- Dar conta? Como assim? – Lívia quis se virar, mas a
loirinha não deixou.
- Ei, quietinha aí, ainda não terminei.
- Mas como é isso de dar conta?
- Eu acho que você faz muita coisa por mim, tenho
medo de que se canse disso uma hora, então como não
posso retribuir da mesma forma, quero te compensar
com o que está ao meu alcance. – Marina tinha a voz
calma e suave. – Sei que temos muitas diferenças,
principalmente financeira, não queria que elas
existissem, mas já que existem, quero estreitar essa
diferença com gestos simples, pra você saber que o que
eu quero é seu amor e sua atenção, só isso.
Lívia ficou pensando no que ela falou, fechou os olhos e
se deixou relaxar. Acabou adormecendo. Marina a
olhou com carinho, ficou alisando seus cabelos,
instintivamente a morena procurou seu colo, sem
acordar e adormeceram ali.
No meio da noite, Lívia estava agitada na cama e se
debatendo. Dizia algumas coisas sem sentido.
- Não, vai me deixar aqui? Volte, por favor! Vamos
conversar! As coisas vão mudar.

Marina podia sentir a agonia da namorada.


- Amor, acorda... shii... ei... já passou.

Lívia acordou espantada.


- Nossa! Que pesadelo horrível.
- Calma, já passou. – alisava seus cabelos. – Vem,
deita aqui de novo. Podia sentir o coração acelerado
dela.
- Eu dormi depois da massagem?
- Dormiu.
- E deixei você à deriva? – brincou.

Marina achou graça.


- Deixou.
- Ah, que falta de educação. – disse envergonhada.
- Você tava dormindo tão linda que não te acordei,
fiquei velando seu sono e também dormi.
- E eu que pensei numa noite daquelas.
- Uma noite “daquelas” não precisa ser só sexo.

Lívia se aconchegou mais nos braços da loirinha e


respirou fundo.
- Também é bom ficar assim.
- Também gosto. Cama, coberta, uma namorada linda
e chuva lá fora. Que mais eu posso querer?
- Faço das suas palavras as minhas. - Sorriu.
- Está mais calma?
- Ahan.
Marina beijou os cabelos da namorada e adormeceu.
Acordou com a claridade no quarto. Lívia dormia de
bruços virada para ela. Estava com o semblante calmo.
Marina levantou, trocou rapidamente de roupa e
desceu. Rezou para encontrar Marta pela casa. Estava
entrando na cozinha quando ela a chamou.

- Já acordou?
- Oi, bom dia! Acordei. Queria saber se posso preparar
um café da manhã para Lívia.
- Claro. Vou te ajudar.

Em poucos instantes Marta esquentou um leite com


chocolate e fez torradas enquanto Marina pegava um
iogurte na geladeira e colocava em uma taça com
cereais. Pegou um cacho de uva e uns morangos.
Prepararam a bandeja e Marina subiu para o quarto.
- Obrigada! Acho que ela vai gostar.
- Ah vai sim.

Marta achou graça da empolgação da menina.

Quando a loirinha entrou no quarto, Lívia ainda dormia.


Deixou a bandeja numa mesa de canto e tirou a roupa
novamente se enfiando embaixo das cobertas. A
morena sentiu um corpo gelado encostar-se ao seu.

- Está gelada linda.


- É o frio.
- Hum... vem cá que eu te esquento. – Lívia colocou
Marina sob ela. A loirinha a abraçou sentindo o peso de
seu corpo. Olhavam-se carinhosamente, beijaram-se e
suas línguas se encontraram. O beijo ficou mais
ardente, mas não tinha urgência de sexo. Queriam se
curtir, aproveitar aquele momento de intimidade. Lívia
acariciava o corpo de Marina em cada parte, passeava
suas mãos por cada canto sentindo o corpo se arrepiar.
Sua língua ficou mais exigente e procurou o pescoço da
loirinha, lambia e mordia sentindo estremecer a carne.
Marina arranhava as costas de Lívia e abraçava sua
cintura com as pernas. Lívia encaixou seus sexos e fez
um movimento de vaivém bem devagar. Marina
segurou sua cintura e apertou contra ela. Novamente
as línguas se encontraram e entraram no ritmo daquele
momento. Gozaram depois de muitas carícias e beijos
apaixonados. Lívia escondeu sua cabeça no pescoço de
Marina e continuou em cima dela.

- Esquentou?
- Muito!

A morena sorriu e já ia saindo de cima dela.

- Não, fique aqui.


- Estou pesando em cima de você, linda.
- Eu gosto de sentir você assim. – falou baixando os
olhos.
- Por quê?
- Não sei, você é diferente, não estou dizendo isso pra
te agradar ou impressionar. Não sou assim. Sua
presença me passa confiança, me deixa segura e
quando você está ao meu lado eu sinto que nada de
ruim vai acontecer.

Lívia ficou comovida com aquelas palavras, não era a


primeira vez que Marina dizia aquilo.
- Te amo viu. Minha loirinha linda. – se declarou.
- Também te amo meu anjo. – alisou aqueles longos
cabelos negros. – Está com fome?
- Um pouco. Parece que dormi um dia inteiro.
- Ainda é cedo, não são nem nove horas.
- Vamos tomar café?

Marina forçou o corpo para mudar de posição e ficou


em cima de Lívia.
- Vamos. – pegou o travesseiro e cobriu o rosto da
namorada. – Fique assim.
- Que é isso? – a voz saiu abafada por conta do
travesseiro.

Marina correu e pegou a bandeja.


- Agora pode tirar. - Marina estava sentada na cama
com a bandeja ao lado dela. – Café da manhã na cama
para minha namorada.
- Nossa, o serviço é cinco estrelas mesmo.
- Tem um monte de coisas. Torradas, suco, chocolate
quente, iogurte, frutas e uns biscoitinhos.

Lívia olhava admirada pelo fato de Marina estar sem


roupa e à vontade.
- Que foi?
- Queria saber se a mulher sentada ao lado da bandeja
também faz parte do café? Estou adorando ver você
toda nua em cima da cama.
- Ah, agora fiquei com vergonha. – se cobriu com o
lençol.
- Não fique, se soubesse como tem o corpo bonito.
- Meu corpo ainda é meio rechonchudo.
- Porque é nova, quando estiver na minha idade vai
pedir pra ter esse corpo.
- Quando eu puder vou começar a fazer exercícios.
Malhar ou caminhar, qualquer coisa. Não gosto de ficar
parada.
- Você fazia alguma coisa na sua cidade?
- Andava a pé. – Marina riu. – Exercício mesmo eu não
fazia, mas ajudava minha mãe no sítio e em Jaú eu
andava pra lá e pra cá, porque morava no centro e não
pegava ônibus.
- Seu pai tem carro?
- Só a caminhonete de carregar as coisas do sítio. Meu
irmão tem uma moto.
- Se quiser, podemos nos exercitar, porque não
caminhamos?
- Amor, você tem seus compromissos.
- Mas eu malho todo dia, posso substituir a malhação
por alguma coisa com você. Ou pode malhar lá comigo,
seria minha convidada, não tem problema nenhum.
- A gente vê isso depois. Ou eu to precisando tanto
assim? – disse se olhando e apertando a barriga.
- Você que tocou no assunto ué, eu não disse que tava
precisando de nada.
- Ta insistindo tanto. – Marina fez bico
- Ah não, eu só sugeri. Vem aqui que eu vou desfazer
esse bico.

Lívia puxou a loirinha e beijou seus lábios.


- Vamos comer, esse chocolate ta uma delícia, eu
experimentei um pouco lá embaixo, sua mãe me deu a
receita.
- Trocando receitas com a sogra.
- Claro, sabendo do que você gosta vou te fisgar pela
boca. Não é assim que se pegam os peixes? – brincou.
- Achei que eu tinha fisgado você. – mordeu uma
torrada.
- Você me seduziu.
- Ah é?
- Uma pobre menina do interior. – a loirinha riu.
- Inocente né?
- Ahan.
- Sei bem dessa inocência aí. – Lívia a olhava com um
sorriso de canto que era sua marca registrada.
- Ainda bem que você me quis. – Marina beijou os
lábios dela. – Antes do chocolate prova esse iogurte. –
Ela havia picado os morangos e colocado dentro junto
com os cereais.
- Estou adorando esse tratamento. Pena que é só esse
final de semana.
- No Rio também te dou tratamento VIP, o ruim é que
Monica já desconfia muito de mim, aliás, da gente.
- Ela não te faz perguntas indiscretas?
- Não, mas ela fica de olho na gente. Quando disse que
viria pra cá ela não falou nada, somente que eu
aproveitasse. Ela não é boba. Sua mãe mesmo já disse
que ela sabe, acho que só não quer falar, quer que eu
fale.
- E você vai falar?
- Não é o momento pra isso, nem sei se existirá esse
momento, mas agora não. Estamos no início dos
estudos, moramos juntas. Já pensou se dá algum
problema? E precisamos nos separar? Ficaria ruim pra
ela e pra mim.
- Aí você vem morar comigo. – Lívia falou mais no
ímpeto que raciocinando.
- É bem verdade o que as pessoas dizem sobre casais
de mulheres, elas se conhecem num dia, namoram no
outro e casam no terceiro. – achou graça.
- Não ta me levando a sério? – Lívia permaneceu séria.
- Estou amor, só que isso ainda é cedo. Cada coisa no
seu tempo devido, não é?
- Isso.
- Se Monica viesse falar comigo sobre nós, teria alguma
problema pra você?
- Nenhum. Nunca escondi meus relacionamentos, no
meu escritório todos sabem que sou gay e quem eu
mais precisava que soubesse e me aceitasse já sabe e
aceita, que é minha mãe. Então não vejo problema
algum.
- Meu pai morreria se soubesse que sou gay.
- Ele é preconceituoso?
- Não sei se a palavra certa é essa, mas ele foi criado
numa família muito religiosa e tradicional, já pode
imaginar os princípios dele né.
- É. – respondeu pensativa. - Vamos terminar o café?
Quero te levar em Penedo e se der em Itatiaia.
- Amor, está chovendo.
- Não tem problema, agora eu tenho um gorro ultra
super mega potente que não deixa meus cabelos
arrepiados. – Brincou. – E foi minha namorada linda
que me deu. – puxou a loirinha e beijou seus lábios.
Terminaram o café e tomaram um banho para sair.
Lívia se arrumou primeiro e deixou Marina terminando
de se arrumar no quarto. Foi atrás de Marta.

- Bom dia mãe.


- Bom dia minha filha. Chegaram ontem que eu nem vi.
- Não chegamos tarde. Tive aquele pesadelo essa noite.
- De novo filha? Está se sentindo bem?

Lívia fez que sim com a cabeça e depois sorriu.


- Não estava sozinha quando acordei.

Ela sempre tinha pesadelos e todos eles com a ex


namorada, sempre sobre o episódio do dia em que a
garota terminou o namoro. Acordava chorando e
assustada toda vez.

- Mãe, vamos pra Penedo, a senhora vem conosco né?


- Não minha filha, vai curtir seu passeio.
- Eu quero que a senhora venha, não vim aqui só para
trazer Marina. A senhora adora Penedo que eu sei e
adora aqueles chocolates de lá.
- Ta bom, vou me arrumar.

Marina apareceu no alto da escada quando Marta ia


subindo.

- Olha que linda que ela está!

Usava uma calça grossa de lã preta e uma blusa branca


também de lã, as botas até o joelho e os cabelos
lavados e soltos.

- Vai fazer sucesso em Penedo. – Marta brincou.


- Hei, que isso. Essa aí já tem dona. – Lívia revidou.
- Isso tudo aqui é obra da sua filha, que fica comprando
as coisas pra mim. Se estou bonita é culpa dela.
- Mas é bonita pra mim e não para os outros.
- Deixa eu me arrumar, senão atrasa. – Marta subiu as
escadas e foi para seu quarto.

Marina se aproximou lentamente de Lívia que já a


olhava com cobiça. Enlaçou seu pescoço com os braços
e a beijou.

- Hum... está cheirosa. – a morena falou.


- Gostou?
- Adorei. Vai me dar trabalho hoje. Vou ter que ficar de
olho.
- Então verá que só tenho olhos para você, sua boba.

Ficaram de namoro na sala até Marta voltar. Dessa vez


foram só as três, pois os garotos passariam o dia com
Bete.
Chegando em Penedo, deixaram o carro no centro e
passearam por ali. A cidade era conhecida como a
Finlândia Brasileira, suas casas e lojas eram em estilo
colonial. E assim como Mauá também era rica em
paisagens e cachoeiras. Visitaram algumas lojas, foram
ao museu e depois almoçaram. Antes de irem embora
foram comprar chocolates. A loja era imensa e Marina
não sabia pra onde olhar.

- Vou levar uns chocolates para casa. Minha mãe


adora!
- E esses daqui são muito gostosos. – Marta falou.

Marina comprou algumas barras e bombons. Levou


também um licor para seu pai.
- Hum, esse licor ta com uma cara ótima. Vou levar um
também. – Lívia se animou.

Após as compras as três ainda andaram mais um pouco


por Penedo, depois deram uma volta de carro e
tentaram ir à Itatiaia para visitar o parque, mas estava
fechado por conta do mal tempo.

- Pena estar fechado, você ia gostar.


- Não tem problema, da próxima vez nós vamos.
- Gostou do passeio Marina? – perguntou Marta.
- Adorei! Mauá é muito bonita e Penedo também.
- Então pode vir quantas vezes quiser.
- Agradeço o convite.

Quando chegaram em Mauá deixaram as compras no


quarto e foram a casa de Bete. Fabrício e Eduardo
tinham saído e as duas ficaram conversando. Bete quis
saber das aulas de Marina e confessou que sempre teve
vontade de estudar música. Falou que tinha vergonha e
por isso não quis aprender. Marina a encorajou e disse
que ainda estava em tempo. Perto de anoitecer os
garotos voltaram e todos lancharam na casa de Bete
mesmo.

Já no quarto, Marina arrumava suas coisas para


viajarem no dia seguinte.

- Pra que a pressa? Vamos sair amanhã depois do


almoço.
- É? Eu não sabia, achei que fosse de manhã cedo.
- Não amor, agendei meus compromissos no escritório
para a tarde e você também não tem aula, não é?
- Sim.
- Devia ter te falado antes, desculpa.
- Não tem problema. Eu até gostei, o bom é que não
preciso acordar cedo. Ou preciso?

Lívia achou graça.


- Não linda. Dormiremos até mais tarde.
- Eu gosto de dormir.
- Sei disso.
- Você acha ruim? – Marina parecia insegura.
- Não. Eu durmo pouco porque tenho pouco sono
mesmo. Deve ser porque sou tensa como você falou.

Marina sentiu certo incômodo na frase da namorada.


Aproximou-se de Lívia, que estava sentada na bay
window, e segurou suas mãos.

- Quando disse que você era tensa não foi uma crítica.
Só pensei que talvez pudesse ficar mais tranquila, acho
até que a sua profissão exige um pouco de tensão
mesmo. Exige que você seja mais articulada, mas nos
momentos de folga pode relaxar.
- Às vezes não consigo relaxar.
- Por que não?
- Não sei. Falta de prática talvez, a gente se acostuma
a ser de uma forma que fica difícil mudar depois.
- Você gostou mesmo da massagem?
- Gostei.
- Então vou fazer sempre que quiser.
- Todo dia!
- Amor, todo dia não dá. – Marina sorriu.

Ficaram conversando e namorando no quarto. Mais a


noite foram para a sala fazer companhia a Marta, que
assistia TV. Marina se recostou no sofá e esticou os
braços para dar colo à namorada.

- Colinho bom esse. – Lívia a abraçou.


- Vou fingir que nem ouvi, porque até então o colinho
bom era o meu. – Marta falou fingindo indignação.
- Ah mãe, os dois colos são bons, tenho o seu aqui e o
dela no Rio.
- Sei...
- Ciumenta.
- Eu não.

Marina se divertia com as duas, era impressionante a


cumplicidade que tinham.
- Colo de mãe não tem igual, a minha não é de dar
colo, mas só de sentir ela perto de mim eu gosto. Mãe
tem esse dom de passar calma para os filhos.
- É verdade, quando mamãe está perto eu não tenho
medo de nada.
- Quem tem medo sou eu. – Marta brincou. – Lívia já
fez cada coisa que foi de arrepiar os cabelos.
- Como assim? – Marina ficou curiosa.
- Ela já fez esses troços de descer da corda, de nadar
num bote no meio da correnteza, já voou num
paraquedas maluco.
- Esportes radicais então hein mocinha?
- Eu fazia, até que enjoei. Agora to sossegada.
- Graças a Deus! – Marta levantou as mãos para o alto
como que agradecendo e fazendo as duas rirem.

Marina e Lívia ainda ficaram assistindo TV um tempo,


até que resolveram ir para o quarto. Como havia
prometido, a loirinha fez outra massagem em Lívia,
mas dessa vez ela não dormiu. Esperou a namorada
para dormirem juntas. No meio da noite a morena
acordou e ficou olhando Marina dormir, sua cabeça
deitada em seu peito e o rosto virado para ela.
Acariciou-o e depois seus cabelos, fazendo ela se mexer
um pouco. De repente lhe deu uma vontade louca de
beijá-la e assim fez. Abaixou um pouco e beijou seus
lábios, mordeu de leve, depois passou a língua. Marina
sentiu aquele toque e acordou. Lentamente os beijos
deram lugar a gemidos e toques provocantes, fizeram
amor no meio da madrugada e adormeceram
novamente.

A claridade do quarto foi quem acordou as duas. Lívia


primeiro, pois não gostava de claridade. Olhou para o
relógio e viu que estava quase na hora de partirem.
Levantou-se, tomou um banho e ajeitou suas coisas.
Depois acordou Marina.
- Amor... – Beijou-lhe os lábios. – Lindinha, vamos
levantar? A gente toma café e parte.

Marina abriu os olhos e sorriu com doçura.

- Acordar esses dias todos com esse sorriso compensou


todo o passeio. – Lívia sorriu e a beijou.
- Estamos atrasadas?
- Ainda não, mas tem que se levantar e se arrumar.
- Ta bom. – Ela se espreguiçou como uma gata.

Lívia passou a mão na sua barriga fazendo cócegas e


Marina se encolheu.

- Vou descer e ficar com mamãe lá embaixo.


- Ta bom, já desço.

Marina se levantou e foi para o banho.

Na cozinha Lívia conversava com a mãe que ajeitava a


mesa para tomarem café.

- Já comeu mãe?
- Sim, acordei cedo, dormi cedo também. Que horas
vocês vão?
- Depois do café um pouco, não quero correr e chegar
no Rio em cima da hora. Marina tem aula logo após o
almoço.
- Ela gostou da viagem?
- Adorou.
- É tão fácil agradá-la.
- Sim. – Lívia sorriu.
- E então? Está tudo bem aí nesse coração?

Lívia suspirou e pensou para responder.

- Está sim mãe. Eu gosto dela, Marina é extremamente


carinhosa e faz isso sem precedentes, espera de mim o
que ninguém espera.
- É porque você estava acostumada com
relacionamentos por interesse. Com ela não, noto que é
diferente.
- Sim, mas eu às vezes ainda a trato como uma
menininha, que é o que ela me parece ainda.
- Ela vai amadurecer, dê tempo ao tempo. Garanto que
se tornará uma pessoa madura e sensata. Ela tem
princípios.

Lívia contou sobre o celular, as roupas que havia


comprado e o comportamento de Marina. Marta deu
razão à loirinha, dizendo que a filha não poderia
proporcionar essas regalias sempre.

- Às vezes isso irrita Lívia. Ela quer ser independente e


você está tornando-a dependente de você.
- Vou maneirar, mas eu gosto de vê-la feliz.
- E sabe que pra isso precisa fazer muito menos.

Nesse instante Marina apareceu na cozinha.


- Bom dia.
- Bom dia menina. – Marta falou. – O café está
esperando.
- Estou com fome mesmo.

Sentaram-se para comer e Marta acabou as


acompanhando.

Após comerem e conversarem um pouco, as duas se


despediram de Marta e foram chamar Fabrício e
Eduardo. Saíram todos na calçada.

- Marina, adorei te conhecer. Volte mais vezes! – Bete


falou.
- Obrigada dona Bete. Voltarei sim.
- Que isso de Dona Bete. Só Bete ta bom. – sorriu.
- Mãe fique com Deus, eu ligo quando chegar. – Lívia
falou para Marta.
- Vê se faz o mesmo desnaturado! – Bete chamou a
atenção de Fabrício.
- Sim senhora.
- Obrigado pela estadia Bete. – Eduardo agradeceu.
- De nada meu filho, volte sempre que quiser também.

Todos se despediram e os quatro saíram. Já dentro do


carro Lívia conversou com os garotos.

- Gostaria de pedir um favor a vocês. Marina e eu


estamos meio pé atrás com Monica, não sabemos se
ela desconfia, se sabe da gente e se concorda com o
relacionamento. Por um tempo, podiam nos dar uma
ajuda, nos acobertando.
- É, Monica ainda é uma incógnita pra mim. – disse a
loirinha.
- Como seria isso? – Fabrício perguntou.
- Quando Marina for lá para casa, podia dizer que ela
está na casa de Eduardo, em viagens que fizermos
foram vocês que convidaram. Essas coisas.
- Por mim sem problema. – Eduardo falou.
- Cobro taxa extra. – Fabrício brincou.
- Sabia. Você tem décimo terceiro, décimo quarto
salário, benefícios e ainda quer taxa extra? – a morena
sorriu.
- Décimo quarto salário? – Marina arregalou os olhos.
- É, meu bem. Seria uma participação nos lucros.
- Poxa, vou largar a vida de músico e virar advogada. –
desabafou.
- E não é Marina? Ser músico ta dureza. – Eduardo
brincou.
- Se ta. – disse ainda surpresa, fazendo todos rirem.

Chegando ao Rio, Lívia deixou os garotos na casa de


Fabrício e saiu com Marina. Ainda dentro do carro
perguntou:
- Almoça comigo?
- Hum... – parou pra pensar. – Almoço! – disse
beijando-a.
- Onde quer ir?
- Não sei, pode ser na sua casa?
- Lá em casa? Por quê?
- Porque lá é mais tranquilo e eu posso namorar mais
um pouco.
- Gostei da ideia.

Foram para o apartamento e Lívia pediu o almoço.


Sentaram no sofá para esperar a refeição e ficaram
namorando. Depois ela deixou Marina na porta da
faculdade.

- Vejo você hoje ainda? – ela perguntou.


- Não sei amor, que horas você sai do escritório?
- Mais tarde, como não trabalhei de manhã, deve ter
muita coisa pra fazer agora.
- Talvez quando sair, já estarei em casa.
- Eu te ligo então, pode ser?
- Pode.

Beijaram-se e se despediram.

Quando Marina saiu do carro alguns alunos a olharam


novamente e assim que pisou na faculdade deu de cara
com Monica.

- Má! Como foi de viagem?


- Nossa, foi ótima. Lá é lindo e eu trouxe um presente
pra você. – Tirou da mochila uma pequena caixa com
chocolates e lhe deu.
- Chocolate! Vou comer agora!
- De jeito nenhum! – Chegou seu professor. – Vai
comer chocolate e fazer aula? Quer babar essa gosma
na flauta menina?
- Ah, só um!
- Só se me der um também. – ele brincou.
- Má, vou pra aula e depois quero os detalhes.
- Ta bom.

Marina foi assistir a suas aulas e depois aproveitou o


horário vago para estudar. Vez ou outra Lívia mandava
uma mensagem carinhosa no celular.

À noite já em casa Marina estava estudando para uma


prova quando o celular tocou. Viu que era Lívia e
atendeu perto da janela para que Monica não ouvisse.

- Oi. – falou carinhosa.


- Oi meu anjo. Está em casa?
- Estou. E você, ainda no escritório?
- To agarrada aqui. Acho que preciso é daquela
massagem.
- Hum, podemos providenciar.
- Tem serviço delivery?

Marina morreu de rir.


- Tem, mas tem que marcar hora.
- O que está fazendo ai?
- Estudando, tenho prova na quarta, mas é tranquilo.
- Você é inteligente, sei que vai se sair bem.
- Ô melação! – Fabrício passou no fundo e gritou.
- É um abusado mesmo! – Lívia resmungou fazendo
Marina achar graça.
- Amor, não vai ficar aí até tarde. Tem que descansar,
acordamos cedo hoje.
- Eu sei, não vou demorar. Será que nos vemos
amanhã?
- Seria bom, porque eu estou morrendo de saudade. –
Marina falou em tom meloso.
- Eu também. Então bom estudo e durma bem.
- Você também. Se cuida viu? Te amo.
- Também te amo.
Desligaram e Marina voltou a estudar. A semana
passou correndo, Lívia teve vários compromissos
impossibilitando de se verem. Na quinta-feira ela ligou
para Marina logo cedo, a loirinha estava indo para a
faculdade.

- Hoje à noite você vai dormir lá em casa. – disse


enfática.
- Mas... eu não sei se... bom tem ver... – Marina estava
desconcertada, pois Monica estava do lado dela.
- Por que não sabe e tem que ver?
- É que... deixa ver quando vai acabar minha aula, aí
eu te ligo, pode ser?
- Você tem algum compromisso?
- Não, na verdade não sei, vou olhar aqui. Daqui a
pouco te ligo e falo.
- Marina?! – Lívia estava indignada.

Marina desligou já pensando numa desculpa para dar a


Monica.

- Eduardo acha que não faço mais nada no Rio.


- Que foi?
- Quer marcar um ensaio, mas eu quero estudar hoje,
porque sei que quando viajar não vou estudar nada lá
em casa. Só posso ensaiar depois que terminar tudo.
- Ele não comentou nada com Hugo.
- Porque quer passar umas músicas só comigo,
estamos escolhendo para o repertório.
- Eu hein, nunca vi isso, passar só com tecladista. De
repente ele ta afim de você.
- Que isso Monica. Ficou maluca?! Ele namora.
- Mudou de lado ué.
- Ai, vou fingir que não ouvi.

Assim que Monica entrou pra sua aula, Marina foi


correndo para o banheiro e de lá ligou para Lívia.
- Amor desculpa! Monica estava do meu lado e ela não
deixa passar nada.
- Ah eu achei isso esquisito. Não falo com você direito
quase a semana toda e quando ligo você me trata
assim.
- Me perdoa, sabe como ela é. Não posso dar qualquer
vacilo.
- Sei... – estava séria.
- Hum... não fica brava. Você disse sobre dormir na sua
casa? Eu vou, saio da aula, passo em casa rápido e
pego minhas coisas. De lá já vou para minha cidade.
- E como vai explicar isso a sua amiga?
- Dou um jeito. Digo que estou precisando ensaiar, sei
lá. Invento qualquer coisa. Pego um ônibus e vou direto
para sua casa.
- Não, vem até meu escritório. Estarei aqui ainda e
daqui nós vamos.
- Ta bom, me passe o endereço por mensagem que eu
chego aí.
- Ok. Beijos. – Lívia ainda tinha a voz em tom sério.
- Amor?
- Oi.
- Amo muito você. Minha promotora brava. – falou
baixinho. Tirando um sorriso de Lívia.

Desligaram e Marina foi estudar. Terminada a aula de


piano, teve outra aula de transposição e
acompanhamento. Tirava de letra essa matéria, pois
tinha facilidade para acompanhar uma melodia, apenas
sabendo o tom da música e tinha excelente ouvido, seu
professor já a chamava de “absoluta”, fazendo
comparação a quem tem ouvido absoluto na música.
Pois ela conseguia saber uma nota musical sem
precisar do tom ou referência. Quando saiu da aula,
esperou Mônica e no caminho de casa falou que
Eduardo tinha marcado ensaio e que não voltaria, pois
dormiria na casa dele.
- Amanhã eu só tenho aula de manhã, então vou para a
faculdade e de lá pego meu ônibus.
- Ihh, to achando que tem coisa aí.
- Que coisa menina?
- Acho que o Dudu ta afim de você.
- Para de falar besteira Monica, você sabe que o
Eduardo namora e sabe também quem ele namora.
- E daí quem ele namora? – Monica fez cara de
espanto. – Eu já disse que ele pode mudar de lado ué.

Marina olhou para a amiga incrédula, ou ela não havia


entendido ou se fazia de boba.

- Eu entendi o que quer dizer, ele é gay, mas não


impede de uma hora querer trocar de lado não é?
- Aff... essas coisas não acontecem.
- Claro que acontecem.
- Ta bom Monica, mas ele não está afim de mim, pelo
menos não acho.

Chegando em casa, Marina somente pegou sua mochila


com algumas roupas. Despediu-se de Monica pedindo a
amiga juízo no final de semana em que estaria fora.

- Comporte-se hein. Hugo vem pra cá não vem?


- Vem. – Monica sorriu.
- Então juízo.
- Sim senhora. Mande um abraço pra dona Zezé e outro
pra minha mãe.
- Cara de pau você hein. Que dia vai lá visitar sua
família?
- Vou no próximo final de semana talvez, porque esse
eu estou tocando.
- Ta certo. Beijos, fica com Deus.
- Vai com ele.

Marina pegou o ônibus e foi para o escritório de Lívia,


no caminho mandou uma mensagem para Eduardo
pedindo para confirmar que ela iria pra casa dele.
Chegando à frente do prédio, olhou para cima e depois
olhou no celular.

- Nossa! Décimo segundo andar. Ela gosta de lugares


altos.

Entrou, pegou o elevador e subiu. Chegando ao andar


indicado olhou para um lado e para outro, o escritório
era à direita. Quando se virou viu logo a placa com o
nome dela. Foi andando devagar e assim que pisou lá
dentro uma secretária muito bem arrumada a olhou de
cima a baixo.

- Pois não? Em que posso ajudá-la?


- Queria falar com Lívia.
- Qual o seu nome?
- Marina.

A secretária olhou na agenda.

- Dra. Lívia está muito ocupada, pode voltar outra


hora?
- Eu posso aguardar?
- Vai demorar garotinha. – Continuava olhando Marina
dos pés a cabeça.
- Tudo bem eu espero.
- Você quem sabe.

Marina andou até uma janela próxima e ficou


esperando em pé. Até porque a secretária não a
convidou a sentar-se. Ficou mais de meia hora parada
ali. Chegou outra garota, um pouco mais nova que a
secretária e também olhou para Marina.

- Quem é? – perguntou falando baixo para a secretária.


- Está esperando a Lívia. Vai dormir aí, porque acho
meio difícil ela atender. Nem tem hora marcada e
nunca vi na vida.

Marina podia ouvir os cochichos, mas não entendia


direito. Ficou vermelha de vergonha e queria sair
correndo dali. Nesse instante Fabrício apareceu e
arregalou os olhos.

- O que você ta fazendo aí do lado de fora e em pé? –


Disse passando direto pelas meninas e indo até Marina.
- Estou esperando Lívia.
- Tem quanto tempo que você está aqui?
- Pouco mais de meia hora.
- Jesus misericórdia, se Lívia souber disso... Vem
Marina, entra.

Marina entrou com Fabrício e foi direto para a sala de


Lívia, o que deixou a secretária e a outra garota de
boca aberta.

- Quem será esta figura? – falou a secretária.


- Não sei, só sei que é alguém que não deveria ter
esperado para falar com Lívia.

Fabrício deu uma batida na porta e logo entrou.


- Visita pra você...

Lívia estava ao telefone e sorriu fazendo sinal para que


Marina entrasse.
- Ela é toda sua. – disse o rapaz e saiu.

Marina entrou e ficou em pé parada na porta.


Discretamente olhou a sala da namorada, era parecida
com o apartamento no quesito estilo, tudo muito básico
e bem decorado, sem excessos. Os móveis eram
escuros e o piso era de madeira, havia uma janela de
vidro imensa e uma mesa para seis pessoas. Lívia,
ainda ao telefone, fez sinal para que Marina se
aproximasse dela. A beijou e continuou falando ao
telefone.

- Eu sei... pode ficar tranquilo senhor Augusto, vamos


resolver isso até segunda-feira de manhã... Até lá,
obrigada. – desligou. – Oi meu anjo, demorou. O
trânsito ta ruim?
- Nem tanto. Tudo bem?
- Melhor agora. – Lívia puxou Marina e beijou sua boca.
– Ô saudade dessa boca gostosa.
- Eu também, sonhei com você a noite toda. Acordei
até mais feliz.
- Sonhou o que?
- Não posso falar essa hora, é imprudente.

Lívia achou graça, beijou seus lábios e a abraçou


sentindo seu perfume.

Estavam de chamego quando alguém bateu na porta,


Marina se afastou rapidamente e Lívia autorizou que a
pessoa entrasse.

- Lívia, chegaram esses papéis do escritório do senhor


Augusto.
- Sim, falei com ele agora pouco, estava esperando
esses documentos. Obrigada.
- Aquele cliente que ligou de manhã, já ligou mais três
vezes, o que eu faço com ele?
- Nossa que cara chato, já disse que não pego pensão
familiar. Cruzes! Vou mandar prender esse sujeito. –
falou revirando os olhos. – Não paga pensão poxa.

A secretária olhou para Marina que estava sentada na


cadeira em frente à promotora.
- Mais alguma coisa? – disse olhando para a loirinha.
- Não, obrigada.

A secretária já ia saindo quando Fabrício entrou.


- Lívia, tem que avisar a Érica que Marina aqui é passe
livre, ela a deixou esperando lá fora por mais de meia
hora. Se eu não chego, ela tava lá até agora.
- Como é que é? – Lívia fechou o cenho.
- Ela não tinha hora marcada e eu achei que era...
- Você não é paga para achar nada Érica, da próxima
vez me avise. Se vem aqui só pra me avisar de um
cliente chato, como não pode me avisar que alguém me
espera lá fora? Use essa cabeça ruiva para alguma
coisa, por favor.
- Me desculpe... – A secretária estava totalmente
desconcertada.
- Preste atenção, Marina pode entrar na minha sala a
hora que ela quiser, ouviu bem? Mesmo que eu estiver
em reunião, atendendo o Papa, ela entra na minha sala
quando bem entender.
- Ok.

Érica saiu da sala e Fabrício que estava ao lado


aproveitou e fechou a porta.
- Eu tinha que falar. Podia até ter deixado passar, mas
ela é tão petulante que não aguentei. Érica trata as
pessoas do modo que lhe convém e de acordo com as
aparências. Ainda vai aprender a não julgar pela capa.

A forma como ele falou deixou Marina sem graça, pois


parecia que ela não tinha boa aparência então. Lívia
também percebeu, mas viu que o rapaz não falou com
má intenção. Após deixar uns papéis na mesa de Lívia
ele saiu e se despediu das duas, dizendo que ia
embora.

- Fabrício, eu disse a Monica que teria ensaio somente


com Eduardo hoje e dormiria na casa dele. Qualquer
coisa você confirma viu?
- Tudo bem, daqui a pouco ela vai pensar que vocês
dois tem alguma coisa.
- Já pensou. – Marina riu.
Despediram-se e ele saiu.
- Está séria, que houve? – Lívia perguntou.
- Não, estou normal.
- Érica te tratou mal?
- Não! – respondeu rapidamente. – Ela foi educada.
- Não tratou mal, mas também não tratou bem não é?
- É, mas não tem problema.
- Depois vou conversar com ela. Vem cá, vem. – Lívia
fez sinal com a mão.

Marina se aproximou e a morena a fez sentar em seu


colo, beijou seu rosto e acariciou seus cabelos.
- Está com fome?
- Ainda não.
- Hoje vou pedir comida japonesa, sei que você adora.
- Hum, eu gosto mesmo! – ela sorriu. – Ainda tem
muito trabalho?
- Mais ou menos, mas é jogo rápido. Preciso dar
andamento num processo para Fabrício e depois vamos
embora.
- Posso me sentar àquela mesa para estudar?
- Claro amor. Vai estudar agora?
- É que semana que vem tenho um trabalho para fazer,
então peguei um livro para ler. Como lá em casa não
vou estudar mesmo, vou aproveitar e adiantar
enquanto estou aqui.
- Tudo bem.

Marina ficou lendo seu livro enquanto Lívia terminava


seu trabalho, instantes depois Érica bateu na porta e a
promotora autorizou sua entrada. Ela apenas se
despediu dizendo que estava indo e desejou bom final
de semana à ela e à Marina, que foi educada
retribuindo. Quando Lívia terminou, reuniu os papéis
ao centro da mesa e ajeitou suas coisas, era
extremamente organizada. Levantou-se e foi até
Marina, que concentrada, nem viu que a namorada se
aproximava.
- Já terminei. – beijou o topo de sua cabeça.
- Nossa nem vi você se aproximando, estou
concentrada aqui. – Marina estava com o livro aberto e
um bloco ao lado fazendo anotações.
- Nossa já anotou isso tudo?
- Sim, na verdade eu estou anotando é muita coisa,
mas o livro é ótimo, fala sobre música renascentista.
- Pra quando é o trabalho?
- Quarta-feira que vem.
- Então dá tempo.
- Ah dá sim.
- Vamos?
- Vamos.

A loirinha recolheu suas coisas e foram embora.

No apartamento, enquanto Marina deixava suas coisas


no quarto, Lívia ligava para pedir o jantar. A loirinha
desceu as escadas e abraçou a namorada, que ainda
estava ao telefone e repousou a cabeça em seu peito.
Lívia enlaçou sua cintura e pousou o queixou na cabeça
dela. Gostava desses gestos carinhosos que a loirinha
tinha.

- Quer tomar um banho, meu anjo? – falou colocando o


telefone no gancho.
- Preciso, saí da aula e só peguei minhas coisas em
casa e vim.
- Então vamos.

Já iam subindo quando telefone tocou e Lívia atendeu.


- Oi Lala! – disse brincando com Larissa.
- Lívia, liguei no seu celular e não atende. Vamos sair?
- Meu celular deve estar descarregado. Hoje não, vou
ficar em casa, tenho um compromisso.
- Amanhã, Carlos e eu vamos numa festa de
inauguração de uma nova casa de shows aqui no Rio.
Vamos? Tenho convite VIP.
- Vamos ver, de repente dá pra ir. Amanhã eu confirmo
com você, pode ser?
- Claro, te espero ligar.
- Ok, beijos.

Despediram-se.
- Quem era?
- Larissa, minha amiga. Ela estava aqui aquela vez do
coquetel, lembra?
- Lembro, casada com aquele moço, o...
- Carlos.
- Isso.
- Estava me chamando para sair, mas hoje eu tenho
outros planos. – beijou Marina.
- E amanhã? Ela convidou para que? – disse meio
desconfiada.
- Acho que uma inauguração, de uma casa de show.
- Ah sim.
- Não sei se vou. – Lívia falou com descaso.
- Por que não? Se estiver afim, vá se distrair ué, sei
que você gosta e ainda vai ficar sozinha. Ou você vai
para Mauá?
- Eu disse que ia, agora não sei.
- Então aproveita o convite dos seus amigos.
- Posso ir mesmo? – Lívia parecia uma criança pedindo
alguma coisa.
- Claro meu bem. – Marina mexeu em seus cabelos. – E
que é isso de pedir? Não precisa da minha autorização.
- Achei que não fosse gostar da ideia de me ver saindo
sozinha.
- Não! Eu não gosto é de ver esse bando de mulher
folgada dando em cima de você, mas isso não tenho
como controlar. Eu confio em você. – Marina tentou
transmitir sinceridade em suas palavras.
- É, vou ver se vou. Se eu me animar.
- Isso. – beijou seus lábios.
- Confia mesmo em mim?
- Confio. Porque te amo e sei que me ama também.

Lívia pegou a loirinha no colo e a levou para o banheiro.


Colocou a banheira para encher e despiu Marina bem
devagar. Deixou que ela tirasse sua roupa também e
quando estavam completamente nuas, entraram na
banheira. Lívia ligou a hidromassagem e colocou a
loirinha sentada em seu colo, de frente para ela.
Beijaram-se por um longo tempo, entre carícias e
sorrisos.

- Acho que uma das melhores coisas do mundo é poder


se aconchegar nos braços de quem se ama. – Marina
falou deitando a cabeça no colo de Lívia e a abraçando.

A morena fechou os olhos e a aconchegou.


- Vou sentir sua falta esse final de semana. Mesmo com
pouco tempo que nos conhecemos, sinto como se
fizesse parte da minha vida há muitos anos.
- Eu também sinto sua falta, todo dia que não te vejo.
Aí fico contando as horas pro dia passar.
- Meu dia tem passado rápido, com tanto processo pra
ler que quando vejo o dia acabou.
- Ta trabalhando muito amor. Vem, vire-se que eu vou
fazer sua massagem.
- Hum, eu bem ia pedir mesmo.
- Nem precisa, vou fazer sempre que estivermos
juntas.

Lívia mudou de posição ficando de costas para Marina,


relaxou os ombros e fechou os olhos apenas sentindo
aquelas mãos delicadas. Marina só parou porque o
interfone tocou. Havia um no banheiro e ela mesma o
atendeu.

- Amor é o jantar.
- Fique aí, vou lá pegar.
- Vou sair também.
- Tem um roupão que comprei pra você, está no guarda
roupa.
- Ta.

O roupão era branco e felpudo, tão macio que Marina o


abraçou vestida nele. Lívia usava um parecido, porém
negro. Desceu as escadas e encontrou a namorada
ainda na porta. A ajudou com os pacotes.

- Na cozinha?
- Não amor, na sala mesmo.

Marina levou para sala e ajeitou a mesa.


- Eu comprei saquê, você já tomou?
- Não. É meio forte, acho que sou fraca para bebida.
- Experimente, mas se não gostar, tem suco na
geladeira.

Sentaram e comeram conversando sobre a semana de


trabalho e faculdade. Marina se distraiu e tomou saquê
tanto quanto Lívia. Ao fim do jantar, já estava
vermelha e rindo das histórias que a namorada
contava. Quis se levantar para ir ao banheiro, mas
sentiu as pernas bambas e quase caiu.

- Opa! Acho que tem alguém leve demais.


- Leve eu?! Quem me dera, sou mais pra pesinho de
porta.
- Não diga besteiras, vem, vou te ajudar.
- Acho que beber esse troço não foi uma boa ideia.
- Já vai passar.

Lívia carregou Marina no colo até o quarto, ligou o ar,


pois fazia calor. Havia um pequeno frigobar, que ela
quase não usava, mas sempre mantinha pelo menos
água dentro dele. Pegou uma garrafa e deu à loirinha.

- Tome meu anjo, água vai ajudar.


- Eu preciso mesmo é fazer xixi e não beber água. –
disse meio mole.
- Sim, mas beba água também.

Marina foi se levantar para ir ao banheiro e caiu de


joelhos. Lívia olhou a cena, não sabia se ria ou se
ficava preocupada. Levou a garota para debaixo do
chuveiro, tirou seu roupão e deixou cair uma água fria.
Sentiu pena, pois Marina se encolheu toda.

- Esse banho vai tirar essa moleza.

Quando ela saiu a morena a enxugou e levou para a


cama, deu mais água a ela e se deitou fazendo Marina
deitar em seu peito.

- Amor, assim eu vou dormir.


- Melhor que durma mesmo, senão pode demorar a
passar o efeito.
- Mas eu queria... – Marina parou de falar.
- Queria?
- Fazer amor com você... – Falou em tom meloso. –
Porque amanhã eu vou viajar e só vou te ver semana
que vem...
- Eu sei amor, mas...
- E se eu não fizer isso... – Marina se levantou com
certa dificuldade e ficou de frente para Lívia
completamente nua. - ...você pode sentir vontade e
procurar em outra...

Lívia colocou a mão nos lábios dela a interrompendo.


- Não diga isso, nem que fiquemos um ano sem fazer
amor, não vou procurar outra pessoa. Não estou com
você por causa de sexo, estou porque te amo.
- Mas a tentação é grande. – Fez um gesto engraçado
enfatizando a última palavra.

Lívia achou graça.


- A minha tentação é você agora, toda linda e nua na
minha frente.
- Então vem aqui... – Marina fez sinal com o dedo
indicador e um sorriso sem-vergonha nos lábios.
- Ah Marina, não me provoque.
- Vem... – Foi se afastando lentamente, até mesmo
para não cair da cama, ainda se sentia zonza.

Lívia a puxou e colou seus lábios nos dela.


- Gostosa!

Beijou com paixão e lambeu seu corpo todo, mordeu,


passeou suas mãos por todos os cantos. Marina gemia
e se entregava as carícias de Lívia, que a pegou pela
cintura e fez ajoelhar na cama ficando de quatro,
chegou por trás levando a mão em seu sexo e
massageou devagar, sentindo o líquido escorrer entre
os dedos.

- Está molhada... delícia... – a voz de Lívia saiu rouca.


Mordeu os ombros da loirinha e apertou o bico do seio.
Marina sentia as pernas bambearem, quando gozou
deixou seu corpo cair na cama, com Lívia caindo em
cima dela. Virou rapidamente e puxou a morena
fazendo-a se ajoelhar em frente ao seu rosto, levou a
língua direto em seu sexo, segurando Lívia pela cintura
e apertando contra sua boca. Marina sentia aquele
gosto indescritível que a promotora tinha e não se
importou em demorar, queria curtir aquele momento.
Passava a língua com vontade para depois deixar só a
pontinha em cima do clitóris. Quando viu que a morena
ia gozar, levou a mão até sua abertura e introduziu dois
dedos com estocadas fortes. Lívia caiu sobre ela com a
respiração entrecortada e ofegante. Olharam-se com
carinho e Marina a abraçou.

Lívia levantou a cabeça e ficou olhando diretamente nos


olhos da loirinha.
- Que foi?
- Estou pensando em como fazer você acreditar que te
amo e que não penso em mais ninguém.

Marina ficou calada somente olhando naqueles olhos


azuis. Respirou fundo e falou tentando ser o mais
sincera possível.
- Eu confio, mas às vezes acho que sou pouco para
você. Que uma hora ou outra vai se cansar de mim.
- E me diz como vou me cansar?
- Não sei, eu sou nova, tenho que correr atrás da
minha independência ainda, sou uma estudante pobre e
há muitas diferenças nesse aspecto entre você e eu.
Sua vida social é totalmente diferente da minha, seus
hábitos.
- Vida social se muda e hábito não é uma necessidade.
Posso mudá-los também.
- Pra que? Por quê? Por mim?
- Sim.
- Isso não é justo.
- Não é questão de justiça, é de vontade. Se eu achar
que devo, eu mudo.
- Mas se você é assim hoje é porque gosta e vai mudar
pra que?
- Já parou para pensar que sou assim por falta de
opção?

Lívia se endireitou e sentou na cama puxando Marina


para se sentar frente a ela.
- Minha linda, certas coisas que faço na vida são pela
mais pura falta de opção. Se saio para festas, bares e
boates é porque não tenho companhia em casa. Mamãe
sabe o quanto me custa ficar sozinha. Ela só não mora
aqui comigo, porque não tenho coragem de tirá-la da
tranquilidade de Mauá. Às vezes acho que você não me
conhece direito.
- Acho que não conheço mesmo. – Marina baixou a
cabeça. – Faz poucos meses que estou aqui no Rio.
- Então, com o passar do tempo, vamos nos
conhecendo e verá que sou diferente do que pensa.
Mas isso é fruto do que Fabrício falou de mim, tenho
certeza.
- Não é isso...
- Tudo bem, entendo a postura dele. Agora me dá um
abraço, bonitinha. – Lívia apertou a loirinha contra seu
corpo e deitaram na cama. Adormeceram pouco depois.

No dia seguinte Marina acordou cedo para ver a hora,


Lívia ainda dormia. Viu que tinha tempo para a aula.
Ligou a TV bem baixinho e ficou assistindo. Não
demorou muito para que a morena acordasse.

- Bom dia meu amor! – Marina a beijou.


- Bom dia. Já acordou?
- Faz pouco tempo. Achei que tinha perdido hora.
- Você tem aula? Não pode faltar?
- Tenho. Não gosto de faltar, podem passar alguma
coisa importante.
- Não pode pegar com Monica?
- Ela não faz essa matéria. Por que de tantas
perguntas?
- É que tirei a manhã pra ficar com você, já que vai
viajar queria curtir mais sua companhia. – falou em
tom sério.
- Ô meu bem, então eu fico com você. – acariciou seu
rosto. – Achei que ia trabalhar, você não falou nada
ontem. – a abraçou deitando a cabeça em seu colo. –
Convite mais que aceito, eu tava com preguiça de ir à
aula mesmo.
- Você disse que não gosta de faltar.
- Gostar não gosto, mas por um motivo desses, eu falto
uma semana se precisar.

Lívia gostava do jeito de Marina falar, era espontânea.


Passaram a manhã na cama namorando e fazendo
amor. Nem tomaram café, só almoçaram. Lívia levou
Marina na rodoviária e se despediram dentro do carro
com beijos apaixonados.

- Juízo aqui hein mocinha.


- Juízo lá bonitinha.
- Pode deixar, te mando mensagem quando chegar.
- Quando volta?
- No domingo à noite eu saio de lá e chego aqui na
segunda cedinho.
- Te pego aqui na rodoviária. Quando estiver entrando
no Rio me avise.
- Não amor, é muito cedo.
- Eu venho, fique tranquila.

Beijaram-se de novo e saíram do carro. Lívia a levou


até a roleta de embarque e lá lhe deu um abraço.
Esperou que Marina entrasse no ônibus e ele saísse.

Assim que se sentou e se acomodou a loirinha mandou


uma mensagem para Monica dizendo que estava saindo
e desejou bom final de semana. Mais no meio do
caminho mandou uma mensagem toda carinhosa para
a namorada. Quando chegou na capital, trocou de
rodoviária e foi para o terminal da barra funda, pegou o
outro ônibus para Jaú e chegou em casa quase a
noitinha. Foi recebida pela família quando desceu do
ônibus.

- Mãe! Que saudade! – abraçou a mãe e se dirigiu a seu


pai. – Tudo bem pai?
- Tudo ótimo. Como foi de viagem?
- Tranquila, dormi quase o trajeto todo.
- Que novidade! – a mãe brincou, pois sabia que a filha
sempre dormia em qualquer viagem.

Foram para casa e lá Marina contou as novidades do


Rio, claro omitindo o namoro. Mas não escondeu que
conheceu Lívia, falou sobre todo mundo. Mostrou
algumas fotos, inclusive as de Mauá.

- Que lugar lindo! – falou Maria José.


- Lá é muito legal, tem cada cachoeira mais bonita que
a outra.
- E você foi com esse pessoal? – perguntou apontando
para Eduardo, Fabrício e Lívia.
- Sim. Esse aqui é o Dudu, o que toca comigo. Esse o
Fabrício o... – parou para pensar. ...amigo dele e Lívia
que é prima de Fabrício. A mãe de Fabrício e a de Lívia
moram em Mauá. São irmãs.
- Bonita essa moça!
- Mãe ela é alta! Olha nessa foto a diferença de
tamanho dela pra mim. – Marina brincou.
- É. – Maria José ficou reparando na foto das duas.
- Dudu estuda violão, está no quarto período. Lívia e
Fabrício são advogados, ela na verdade é promotora e
os dois trabalham juntos. A mãe dela é muito legal,
muito simpática.
- E Monica, não foi nessa viagem?
- Ih, a senhora nem sabe. Monica agora só tem olhos
para o Hugo, o baixista da banda. Os dois tão que tão
num chamego.
- Começou a namorar muito rápido, daqui a pouco
desanda nos estudos.
- Que isso! Ela tem juízo, é meio avoada, mas sabe dos
seus compromissos.

Marina contou todas as novidades, falou do concerto


que tinha participado e das aulas na faculdade, jantou
com a família e no sábado de manhã foi para o sítio.
Passou o final de semana lá.

Lívia saiu com Carlos e Larissa para a tal inauguração


da casa de show, mas não se divertiu, pensava o tempo
todo em Marina e contando as horas para ela voltar.
Assustou-se com tal pensamento, pois nunca havia tido
essa atitude.
- Mãe, queria mudar um pouco as minhas roupas. –
Marina falou se olhando no espelho.
- Que tem de errado com elas?
- Acho que me deixam muito menininha. Monica fica
dizendo que eu pareço ter menos idade do que tenho.
- Quando tiver com quarenta anos e alguém lhe disser
isso você vai adorar.

Marina achou graça da mãe.


- Vou deixar esses vestidos aqui.
- Se quiser, podemos ir à rua para comprar alguma
coisa. Se você acha que está fora da moda, mas eu não
acho.
- Não é fora de moda. É mudar um pouco só. Mas não
vou comprar nada agora, preciso economizar.
- Seu pai não está mandando dinheiro para você. Posso
te ajudar se quiser.
- Não precisa, guarde para alguma eventualidade. Eu
vou me virando lá no Rio.

Marina só retornou à cidade depois do almoço no


domingo, pois queria preparar suas coisas para voltar.
Aproveitou bem a companhia de todos e matou a
saudade da sobrinha, não desgrudou dela. Antes de ir
embora sua mãe lhe deu uma roupa nova atendendo ao
pedido da garota por querer mudar de estilo. Quando
chegaram do sítio, ela foi correndo na cidade e
comprou uma calça e uma blusa.

- É mais ou menos assim que você quer? – mostrava a


calça com a blusa em cima da cama.
- Mãe, não precisava, eu disse que ia ver isso depois.
- Que nada, é um presente.
- Obrigada.

Marina aproveitou também para levar o biquíni, caso


precisasse no Rio. A loirinha se despediu de todos com
os olhos cheios de lágrimas. Saindo da cidade ligou
para Lívia.

- Oi. – a voz ainda estava chorosa.


- Que foi lindinha?
- Estou saindo daqui ta.
- E essa voz, o que é?
- Ah... nada, só saudade do pessoal. Minha sobrinha ta
linda, estou levando fotos para você conhecê-la.
- Vou adorar. Não fique triste que logo você vai vê-los
de novo.
- Agora só nas minhas férias.
- Vai passar rápido amor.
- É, vai sim.
- Te espero amanhã cedo viu. Faz boa viagem.
- Obrigada. Amo você.
- Também te amo.

Despediram-se e Marina virou de lado, ajeitou o


travesseiro e dormiu. Chegando em São Paulo, fez o
caminho inverso, saiu da Barra Funda indo direto para
o terminal do Tietê para pegar o ônibus para o Rio.
Eram seis horas da manhã quando chegou na entrada
da cidade e ligou para Lívia como ela havia pedido.
Assim que desceu do ônibus a namorada já a esperava
com uma caixa nas mãos. Marina veio sorrindo e a
abraçou.

- Saudade desse abraço! – Lívia falou apertando-a.


- Eu também. Fiz você acordar cedo amor.
- Acordaria até de madrugada para vir te buscar. Isso
aqui é pra você. – Entregou a caixinha e pegou Marina
pela mão e foram para o carro.

Dentro do veículo a loirinha, com a caixa no colo, olhou


curiosa.
- O que é?
- Abra.
Marina abriu e viu um bichinho de pelúcia tocando um
piano.
- Que lindo! – abraçou-o. – E tem o seu cheirinho.
- Sim, como diz Fabrício, tive a ideia mais original de
todas, passar meu perfume no bichinho. – Lívia se
referia à cena que Fabrício tinha visto dela passando
seu perfume no presente. – Não sabia que todo mundo
fazia isso.
- Geralmente é para a pessoa se lembrar de quem deu
o presente, mas eu nunca me esqueço de você. –
inclinou-se para beijá-la. – Obrigada.
- Como foi lá? Matou a saudade? – ligou o carro e saiu.
- Foi ótimo, aproveitei para descansar, comer a
comidinha da mamãe e curtir a sobrinha. Ela ta linda
amor, tem que ver que fofura. Já manda beijinho pra
gente. Tirei umas fotos pelo celular. – Marina mostrou
as fotos e Lívia ficou encantada.
- Que linda. Ela se parece com você. Tem os olhos
parecidos.
- Minha cunhada falava que ia olhar para meus olhos,
para que Isa nascesse com os meus, da mesma cor.
Deve ter funcionado.
- É verdade.
- E seu final de semana?
- Fiquei em casa o sábado todo e à noite fui naquela
inauguração, mas voltei cedo, não teve nada demais lá.
Domingo eu fui a Mauá e voltei, cheguei de noite.
- Minha mãe achou você muito bonita. Ela te viu nas
fotos de Mauá. Eu tive que me controlar para não ficar
só falando de você o tempo todo, mas a minha vontade
era dizer que eu tinha a namorada mais linda do mundo
e que ela tomou conta do meu coração.

Aquelas palavras foram o presente para Lívia por


acordar tão cedo.
- Quer ir lá para casa meu bem? Assim você descansa.
- Ta bom. Preciso mesmo esticar a coluna, o ônibus não
é ruim, mas o bom mesmo é uma cama.

As duas chegaram ao apartamento e Marina tomou um


banho para relaxar. Quando saiu do banheiro estava
somente de calcinha e sutiã. Lívia não estava no
quarto. Deitou na cama e esticou os braços para trás
fechando os olhos. Respirou fundo e somente relaxou.
Minutos depois sentiu o perfume de Lívia e um peso
sobre seu corpo. Sorriu para ela ainda com os olhos
fechados.

- Está sorrindo. Como sabe que sou eu?


- Senti seu perfume e ouvi seus passos. – Marina abriu
os olhos e a abraçou.
- Eu entrei descalça no quarto.
- Mas eu ouvi.
- Está com sono?
- Não. Só com o corpo meio dolorido.
- Então deixa sair de cima de você.

Lívia fez menção de sair, mas Marina a segurou.


- Não. Fique. Eu gosto. – fechou os olhos e puxou a
morena.

Lívia não conseguiu ficar quieta por muito tempo, sentir


aquele corpo só de calcinha e sutiã embaixo dela era
demais para seus instintos. Começou a se esfregar e
em poucos minutos já tinha tirado as roupas íntimas da
loirinha e as suas roupas. Não tinha pressa em fazer
amor, só queria sentir o cheiro e o gosto da namorada.
Depois de muitas carícias chegaram ao clímax e se
abraçaram. Marina se sentia nas nuvens, uma sensação
de prazer e aconchego. Era sempre o que sentia
quando estava com Lívia.

- Te amo. – Falou baixinho em seu ouvido.


- Você é o amor da minha vida. – Lívia disse num
sussurro quase inaudível.
Adormeceram abraçadas.

Monica estava na faculdade quando encontrou com


Eduardo saindo de uma aula.
- E aí Dudu. Como foi o ensaio?

Eduardo imediatamente lembrou-se do combinado com


Marina.
- Rendeu bem. Passamos umas músicas, excluímos
algumas do repertório.
- Vão voltar esse final de semana não é?
- Pois é. Estou ansioso, passei pelo bar outro dia e já
estavam nos acabamentos.
- E eu não estarei aqui, vou pra casa nesse fim de
semana.
- Ah que pena. Marina foi esse final de semana não é?
Eu a levei na rodoviária.
- É, ela chega agora de manhã. Nem sei se vem direto,
deve estar moída da viagem.
- Imagino, depois ligo pra ela pra saber das novidades.

Marina se remexeu na cama e acabou acordando Lívia.


A loirinha virou de bruços e continuou dormindo. Lívia a
acordou com um beijo na nuca.

- Ei mocinha, vamos acordar?


- Hum, tirei um sono bom. – se espreguiçou.

Lívia a puxou pela cintura para beijá-la.


- Você não está com fome?
- Um pouco.
- Vem almoçar então. Depois te levo para a faculdade.

Almoçaram juntas e Lívia levou Marina, dessa vez a


deixou perto da faculdade, pois Monica podia estar por
perto e desconfiar. Marcaram de se falar a noite quando
chegassem em casa.

À noite, assim que Marina entrou no apartamento


Monica a encheu de perguntas.
- E a viagem? Foi boa? Como ta o pessoal? Deu recado
a minha mãe? Que urso é esse?
- Calma! Foi tudo bem e não dei o recado, mas pedi a
minha mãe que falasse com ela. Esse urso eu ganhei
da... minha mãe. – Marina despistou.
- Lindinho ele. Eu vou nesse final de semana. Devo sair
daqui na quinta a noite. Porque nesta sexta tenho uma
aula que não é importante.
- Que bom, vai poder aproveitar mais um dia. E aqui,
tudo correndo bem?
- Sim, esse final de semana fiquei na casa de Hugo.
- Achei que ele viria pra cá.
- Não, achamos melhor ficar por lá. Só no domingo que
apareci para ajeitar algumas coisinhas.

As duas conversaram por um tempo e depois foram


dormir.
- Você até que não ta com cara de cansada. – Monica
observou. – Deve ter dormido a viagem toda.
- Dormi bastante. Mas quero uma cama agora. Dormir
uma noite no ônibus não é nada bom.
- Verdade. Durma bem então.
- Até amanhã.

Assim que entrou no quarto, Marina mandou


mensagem para Lívia desejando boa noite.

A semana correu tranquila, Marina entregou o trabalho


e teve aulas dobradas de piano. Monica estava na
expectativa da viagem e para compensar o namorado
dormiu na casa dele todos os dias da semana. O que
possibilitou Marina de falar mais à vontade com Lívia.
Ao telefone as duas marcavam de se encontrar.
- Amor, Monica viaja amanhã à noite. Então eu queria
te fazer um convite.
- Que convite?
- Quer jantar comigo? Aqui em casa mesmo, uma
coisinha simples.
- Hum... jantar. Deixa ver na minha agenda... – Lívia
fez de difícil.
- Olha direitinho, se você não puder, eu chamo a outra.
- Engraçadinha. Claro que eu aceito. Preciso levar o
que?
- Traga você. Só isso.

Despediram-se combinando o horário do jantar. Na


quinta de manhã, depois que saiu da aula, Marina foi ao
mercado comprar os ingredientes para o jantar. Chegou
em casa, preparou os ingredientes, deixando tudo
quase pronto. Iria fazer um escondidinho de camarão.
Cozinhou as batatas e preparou o recheio. Depois foi
tomar um banho. Quando saiu, acendeu um incenso e
ligou o pequeno som que Monica havia trazido de casa.
Lívia tocou o interfone e em seguida já batia na porta.

- É aqui que mora a pianista mais linda e talentosa do


Rio de Janeiro?
- Ih, acho que a senhorita se enganou de casa. Aqui
mora uma pianista iniciante e feinha.
- Acho que ela não tem espelho em casa. – Lívia entrou
e a beijou com paixão. – Está cheirosa.
- Acabei de sair do banho.

Marina estava com um vestido preto mais soltinho e


sandálias baixas.

- Esse vestido é novo?


- Não, eu trouxe de casa, ele é fresquinho e nesse calor
que faz no Rio, tem que ser uma coisa assim.
- Adoro quando usa vestido.
- Eu fico meio menininha. – Marina fez uma careta. –
Falei com minha mãe que quero mudar um pouco meu
visual. Monica vive dizendo que me visto que nem uma
garotinha.
- Eu prefiro sem roupa, mas você insiste nesse negócio
de se vestir. – brincou.
- Safada. – Marina lhe deu um tapa no braço. – Vem,
estou preparando nosso jantar.
- Está cozinhando? – Lívia perguntou surpresa.
- Estou ué.
- Tirando minha mãe, ninguém nunca cozinhou pra
mim. – a morena falou meio sem jeito.
- Então sou a primeira? Espero que esteja com fome,
assim a comida desce melhor.
- Falo sério. Ou é a comida da minha mãe ou pago para
cozinharem pra mim.
- Pois então vou te cobrar um preço alto. – Marina se
aproximou dela toda insinuante.
- Diga seu preço que eu pago. – falou num sorriso
safado e levantando uma sobrancelha.
- Vai sair caro. – Marina parou se encostando ao marco
da porta da cozinha.
- Vale a pena. – olhou-a de cima a baixo.

A loirinha voltou para a cozinha e continuou preparando


o jantar. Lívia chegou por trás dela e beijou seu
pescoço.

- Já disse que te amo hoje?


- Ainda não.
- Eu te amo. – falou baixinho em seu ouvido.

Marina se virou e enlaçou o pescoço de Lívia com os


braços.

- Também te amo. – beijou sua boca. – Agora deixa eu


terminar esse escondidinho.
- E ta escondendo o que? – brincou.
- Camarão.

Lívia sentou-se em uma cadeira e ficou observando


Marina na cozinha. Tinha um jeito todo delicado.

- Como foi essa semana na faculdade? – puxou


assunto.
- Fiz aula dobrada de piano. Marconi me passou uma
lista de músicas novas, ta me dando trabalho.
- Você dá conta. Vai ter outro concerto?
- Acho que não, pelo menos não tem nada programado.
– Marina colocou o escondidinho no forno e se voltou
para Lívia. – Pronto, agora só assar.
- Estou com fome.
- Eu também, vim da faculdade direto, nem comi nada,
tomei banho e fui preparar o jantar.
- Minha fome é você. – Lívia a puxou pela mão, fazendo
Marina sentar em seu colo de frente com as pernas
aberta.
- Ei, quer deixar de ser assanhada? Estou de vestido e
você me puxando assim?
- Não tem nada aqui que eu já não tenha visto. –
beijava seu pescoço e percorria seu corpo com as
mãos.
- Sim, mas isso fica pra depois. – Marina segurou as
mãos da namorada. – O jantar primeiro.
- Não posso ir direto para a sobremesa? – voltou a
acariciá-la.
- Sou sua sobremesa? – sorriu.
- A mais deliciosa de todas. – Lívia a beijou, dessa vez
sendo correspondida. Ficaram num amasso gostoso até
que o cheirinho do escondidinho tomou conta da
cozinha.
- Está pronto. – Marina falou sentindo as mãos de Lívia
passearem por debaixo do vestido.
- Depois a gente come.
- Mas tenho que tirar do forno amor, senão vai
queimar.
Lívia parou com as carícias e respirou fundo.

- Calma! – Marina sorria.

Levantou e tirou a travessa do forno, colocou na mesa.

- Que cara ótima! – Lívia olhou a travessa com cobiça.


- Vamos ver o gosto. - Pegou os pratos e os talheres. –
Amor, quer tomar suco ou refrigerante? Eu não comprei
vinho, não sabia qual era bom. No mercado tinha uns
que julguei serem bons, mas eram caros. – disse
arregalando os olhos.
- Vamos tomar suco, mais leve.
- Ta bom.

Marina serviu Lívia e depois se serviu.


- Nossa! Está uma delícia.
- Muitas vezes minha mãe estava na roça e eu tinha
que me virar. Acabei tomando gosto pela cozinha.
- Muito bom, agora eu caso. – Lívia sorriu.
- Mas eu não sou muito boa pra passar roupa, lavar até
que me viro também.
- Arrumei uma mulher completa, pianista, cozinheira,
inteligente, linda e gostosa.

Marina sorriu timidamente. Às vezes ficava


desconsertada com os elogios de Lívia.

Terminaram o jantar e foram para a sala. A loirinha


ficou um pouco sem jeito, pois estava óbvio que seu
apartamento era bem mais simples que o de Lívia e não
tinha muitas coisas para fazer.

- Amor, aqui não tem TV por assinatura, mas se quiser


podemos assistir um filme, tem uma locadora aqui
perto.
- Não vim aqui pra ver TV. Vim pra namorar. – disse
abraçando Marina e a beijando na testa. – Adorei o
jantar.
- Gostou mesmo? – A loirinha envolveu seu pescoço
com os braços.
- Gostei, você cozinha muito bem e como disse, nunca
ninguém cozinhou pra mim.
- Então daqui pra frente você será minha cobaia.
Porque eu adoro inventar pratos e testar receitas
novas.
- Eu vou adorar. – Lívia sentou no sofá junto com
Marina. – Monica fica até segunda em são Paulo?
- É, essa semana mal a vi, ficou na casa de Hugo. Ele
só não vai com ela porque tem show amanhã.
- Ah é mesmo! Vou lá te ver.
- Estou curiosa para ver como ficou a decoração nova.
Ensaiamos essa semana, refrescamos a memória para
algumas músicas e tiramos algumas novas.

Marina queria fazer um convite a Lívia, mas ficou meio


sem jeito, arriscou assim mesmo.

- Você quer dormir aqui comigo hoje? O apartamento é


simples, não tem vista para o mar e nem a minha cama
é de casal, mas a de Monica é, podemos ficar lá e...
- Vou adorar! – Lívia respondeu antes que ela
terminasse de falar. – Mas eu prefiro a sua cama
mesmo. A gente se ajeita lá.
- Vai ficar apertado.
- Dou um jeito nisso.

Deitadas no sofá, namoraram e conversaram até o


sono chegar. Depois foram para o quarto. Marina bem
que tentou ajeitar a cama para que ficasse mais
confortável, mas não deu muito certo. Lívia, que já
tinha tirado sua roupa, estava só de calcinha e sutiã.

- Não trouxe roupa de dormir e acho muito difícil uma


sua caber em mim.
- Vai ficar só um pouco pequena.
- Ahan. – segurou o riso. Deitou na cama e chamou
Marina. – Deita, eu te abraço e assim dá pra dormir.
- Vou ficar praticamente em cima de você.
- Quer coisa melhor? Eu to adorando.
- Boba.
- Melhor ainda se tirar a roupa e ficar que nem eu.
- Mas é muito safada, não é Lívia?
- E você adora.

Marina riu, tirou a parte debaixo do pijama ficando só


de calcinha e a blusa que usava.

- Se eu tirar a blusa fico sem nada, não estou usando


sutiã.
- Também não ligo se tirar.

A loirinha deitou e se aproximou de Lívia encostando o


rosto em seu peito e abraçando sua cintura.

- Amor? – Lívia chamou.


- Oi.
- Você vai dormir? – perguntou um tanto curiosa.

Marina achou graça da pergunta. Se remexeu,


levantando-se da cama e sentando em cima do púbis
da morena. Aquela posição já acendera os instintos da
morena. Marina passou as unhas pela barriga de Lívia e
arranhou de leve, causando um arrepio. Lívia enfiou as
mãos por baixo da blusa de pijama e segurou a cintura
da namorada, fez menção de puxá-la para baixo, mas
Marina não deixou, num movimento rápido tirou sua
calcinha e a de Lívia, começou a se esfregar nela, ainda
sentada em seu púbis. Lívia fechou os olhos e sentiu o
contato, estava molhada. Marina tocou o clitóris dela
fazendo leve pressão.

- Vem aqui Marina, está me deixando louca.


- Shhi... não estamos com pressa, estamos?

Lívia não teve como impor, quando via aquele sorriso


se derretia toda. Marina continuou a esfregar os dedos
enquanto rebolava sensualmente, até que Lívia gozou e
quando pensou que teria uma trégua a loirinha desceu
da cama e se ajoelhou no chão puxando as pernas da
morena e se enfiou entre elas sugando seu sexo, agora
com mais voracidade. Lívia se sentou na cama e
acariciou aqueles cabelos loiros. Era incrível como podia
se abandonar completamente para Marina.
- Ai... amor... assim...

Marina usava a língua com maestria e em pouco tempo


Lívia gozou novamente. Ainda teve forças para puxar a
loirinha e abraçá-la.
- Te amo, te amo, te amo. – A cada declaração, Marina
a beijava. – Não sabe como te amo e agradeço a Deus
todos os dias por você ter aparecido na minha vida.

Lívia se surpreendeu com a declaração repentina.


- Também te amo minha linda. Você é o meu juízo, a
minha tranquilidade, é o meu caminho certo.
- Não sabe o bem que me faz...

Falaram ao mesmo tempo e sorriram.

Os lábios se tocaram e novamente se amaram. Dessa


vez foi Lívia quem fez Marina delirar e dizer palavras
desconexas. Tocava aquele corpo como se fosse a
primeira vez. Mordia, lambia, beijava cada pedacinho e
quando sentiu seu corpo tremer a abraçou forte. Marina
se aconchegou em seu colo, respirando ofegante. Seus
corpos se encaixaram para dormirem abraçadas. Na
manhã seguinte Marina acordou primeiro e deixou Lívia
dormindo tranquila. Preparou o café da manhã e foi
correndo na padaria comprar pão.
Quando Lívia acordou e viu que Marina não estava no
quarto, se levantou e a procurou, não a viu, então
voltou para o quarto. Viu que o celular dela estava em
cima do criado, então imaginou que não tinha ido
longe. Não aguentou de curiosidade e pegou o telefone,
mexeu nas ligações recebidas e discadas, nas
mensagens e se tinha foto. Marina só mandava
mensagem para ela e ligava para a mãe. Viu sua pasta
da faculdade e resolveu folhear. Seus trabalhos
corrigidos estavam numa repartição e a maioria era
feito a mão, sua letra era bonita, pequena e
redondinha, era de forma. Haviam partituras e folhas
pautadas, em uma delas estava escrito uma frase:
“Qual o melhor encontro da vida, senão um amor
reconhecendo outro?” Sorriu. Depois viu que numa
bolsinha tinha algumas canetas e a maioria lápis de um
material diferente, parecia grafite. Ouviu o barulho da
porta e guardou tudo. Deitou novamente na cama. De
olhos fechados percebeu Marina entrando no quarto e
sentando na beirada da cama. Abriu os olhos e viu o
mais belo sorriso.

- Bom dia! Não vou nem perguntar se dormiu bem,


deve estar toda moída.
- Dormi otimamente bem e não estou moída.
- Comprei pão quentinho. Vem, senão ele esfria.
- Você foi à padaria?
- Sim, essa hora sai pão fresquinho e é uma delícia.
- Então vamos, que estou com fome. Ontem à noite me
deram uma canseira. – se levantou da cama.
- É? Quem foi essa sem-vergonha? – Marina fingiu não
saber.
- Uma loirinha assanhada que conheci. – Lívia a
abraçou por trás e foi andando para a cozinha.
- Ah, tenho certeza que essa loirinha aí só fica
assanhada quando vê uma morena alta de olhos azuis.

As duas tomaram o café e Lívia se despediu para ir


trabalhar. Marina tinha aula e dessa vez não quis faltar.
Combinou de ir para o escritório da namorada quando
saísse da faculdade. Assim que subiu as escadas da
escola de música um garoto que era de sua turma a
cumprimentou.

- E aí Marina, não veio de carrão hoje?

Por um instante ela ficou sem entender e depois se


lembrou do carro de Lívia.

- Hoje vim de ônibus mesmo. – sorriu forçado.

Aquele comentário a incomodou, teve a sensação de


que as pessoas comentavam sobre a vida dela.

“Como é que pode, a gente pensa que fofoca é só coisa


de gente do interior.”

Depois da aula, como combinado, foi para o escritório


de Lívia. Assim que apareceu na recepção a secretária
abriu caminho para que ela entrasse. A outra estagiária
não entendeu ao certo e depois foi conversar com
Érica.

- Ué! Não entendi. – estava confusa.


- Essa garota deve ser algum cacho da Lívia, pra poder
entrar aqui assim a qualquer hora.
- Ai, ai, esse povo gay não tem vergonha mesmo.
- Quer perder o estágio?
- Eu não, por quê?
- Se Lívia ou Fabrício ouvirem uma coisa dessas, você
está na rua e será jogada pela janela ainda.
- Credo! Foi só um comentário.
- De mau gosto. A falta de vergonha na cara não é só
coisa de gay, é de hétero também. - Érica a
repreendeu.
Érica era secretária de Lívia desde que a promotora
montou o escritório, eram da mesma idade, não tinham
nada em comum a não ser que uma era boa chefe e a
outra boa funcionária. O limite entre as duas era o
respeito e isso bastava. Lívia sabia dos defeitos dela,
mas tolerava por ser boa funcionária.
Marina bateu na porta e recebeu um ok do outro lado.

- Olá!
- Hei! Entra, estou terminando pra gente almoçar.

Marina se sentou na cadeira em frente à mesa de Lívia.

- Muito trabalho?
- Um tanto quanto. – riu.
- Vou ficar ali na mesa então. Estou com uma resenha
para fazer.
- Se quiser pode usar meu notebook. Está naquela
gaveta da estante.
- Não precisa, eu vou fazendo umas anotações e depois
passo a limpo.
- Os professores não exigem o trabalho digitado?
- Não, só alguns. Quando pedem, eu vou a uma lan
house e faço lá.

Lívia continuou trabalhando e Marina estudando. Um


tempo depois Fabrício entrou na sala com uma pasta
abarrotada de papéis.

- Chefinha, esse processo vai levar anos para ser lido.

Lívia, sem levantar a cabeça, olhou para ele apenas


levantando os olhos e a sobrancelha.

- Oi Marina! Lívia te botou pra trabalhar? – perguntou


vendo a garota lendo.
- Não! – sorriu. – Isso é trabalho da faculdade.
- Ah sim, não fique muito tempo nesta sala, que ela te
coloca no meio da função. – sentou em frente à
promotora. – Meu estagiário é horrível, quero outro.
- Foi você mesmo que o escolheu.
- Eu me enganei, ele é lerdo Lívia e chega atrasado
todo dia.
- Então dispense-o e ligue para a faculdade para saber
se eles têm outro disponível.
- Tudo bem. Por enquanto vou trabalhando com a sua
estagiária.
- Pode ficar com ela se quiser. Pretendo contratar outro
funcionário.
- Pra que?
- O movimento está aumentando e eu preciso de mais
gente para dar conta da parte burocrática.
- Tenho um amigo da faculdade que é excelente. Ele
forma junto comigo.
- Quero com OAB já.
- Ah, aí vai ter que procurar melhor.
- Pode deixar o processo aí que vou ler, chame a
estagiária converse com ela e veja pra mim na
faculdade outro estagiário por enquanto, até eu ver o
que fazer com um novo contratado. – Lívia conversava
com ele sem levantar a cabeça, apenas olhava de vez
em quando e voltava sua atenção para a documentação
que tinha em mãos.
- Qual é o nome dela?
- Dela quem?
- Da estagiária.
- Sei lá.
- Aff, a menina ta aqui tem quatro meses e nem
sabemos o nome dela.
- Prontinho. Leve esses documentos e deixe com essa
garota para levar ao fórum, diga a ela para protocolar
tudo.
- Sim senhora. Já vai almoçar?
- Não sei, vou ver o que Marina quer fazer.
- Hum, a última palavra continua sendo a sua. Sim,
querida o que você quiser. – o rapaz brincou.
- Palhaço.
- Hoje tem show, você vai?
- Claro.
- Eduardo está tão empolgado que até sonhou de noite.
- Marina também está.
- Bom, vou nessa.

Fabrício saiu da sala e Lívia foi em direção a Marina.


Estava tão concentrada que nem a viu chegar. A
morena se aproximou por trás, apoiando as mãos nos
braços da cadeira e a beijou no topo da cabeça.

- Psiu. Quer almoçar?


- Não estou com muita fome. Nossa, esse trabalho é
mais difícil do que eu pensei. É muita coisa pra fazer.
- Pra quando é?
- Na outra sexta-feira.
- Se você digitar ao invés de escrever, vai andar mais
depressa. Porque depois de fazer suas anotações vai
ter que passar a limpo ainda.
- É. – Marina falou desanimada.
- Pode usar meu notebook, eu quase não o uso. Vai te
ajudar.
- Fico com medo de estragar.
- Não vai, você é responsável. Sei disso.
- Posso mesmo? – Marina virou a cabeça para cima.
- Pode. – Lívia a beijou.

Saíram pra almoçar e Lívia deixou o escritório na mão


de Fabrício. Almoçaram no shopping e quando
terminaram ficaram andando por lá mesmo até a hora
de Lívia voltar. Passando por uma loja, Lívia viu um
conjunto muito bonito e olhou para Marina.

- Que foi? Pode parar.


- É a sua cara.
- Não é não.
- Amor, podia usar hoje no show.
- Se todo show que eu fizer tiver que comprar uma
roupa nova, vou morar na rua com roupa nova, porque
não vou ter dinheiro para o aluguel.
- Te dou de presente.
- Você me dá muitos presentes.
- Dou nada, você não deixa.
- Porque não acho justo isso.
- E desde quando receber presente da namorada é ser
justo ou não. Quero te agradar ué.

Marina parou de andar e ficou de frente para a


namorada.

- Você já me agrada. Não sabe o quanto. Agora vamos


andando.

A contragosto Lívia foi com ela, mas olhou para o nome


da loja e memorizou.

Mais tarde quando deixou Marina em casa e já ia para o


escritório, fez uma ligação do celular para a loja e
encomendou a roupa. Pediu que entregassem no
escritório. A noite pegaria a loirinha para irem ao show.
Assim que entrou no apartamento Lívia lhe deu o
presente.

- Não brigue comigo. Não resisti.


- Outra vez não resistiu. – Marina estava séria.
- Experimenta, se não gostar eu devolvo.

Marina levou a roupa para o quarto e se vestiu, abriu a


porta e foi mostrar para a namorada. Era uma calça
leging preta e uma blusa mais clara e larga com um
cinto preto. Usava as sandálias que Lívia tinha lhe dado
da outra vez.

- Uau! Nem preciso dizer que está linda.


- Não ta muito justa essa calça?
- É assim mesmo. – Lívia se levantou e foi se
aproximando com aquele olhar faminto. – Posso te dar
um beijo?
- Faz tempo que não me faz essa pergunta. – Marina
sorriu.

Beijaram-se, mas logo saíram para o show.

Realmente o bar tinha ficado muito bonito, a decoração


era uma mistura de rústico com elegância. Não perdera
o ar aconchegante, pelo contrário, tinha ficado mais
agradável. Havia um palco dessa vez com uma
iluminação embutida para as bandas que ali iam tocar.
Os garotos ficaram empolgados. Marina foi a última a
chegar e quando apareceu na entrada do local Pedro
veio recebê-la.

- Marina! Ta bonita.
- Nossa, bonito ta esse lugar.
- Ficou irado não é?
- Muito.

Lívia havia deixado a loirinha na porta do bar e foi em


busca de um lugar para estacionar o carro. Não
demorou muito para encontrar, estava na calçada em
frente ao local quando viu que Pedro passou o braço
em volta da cintura de Marina e a levou para dentro do
bar. A tecladista ficou desconcertada, tirou a mão dele
delicadamente, mas ele insistiu. Lívia fechou o cenho e
entrou no bar. Algumas pessoas estavam sentadas na
entrada e cumprimentaram os músicos dizendo que os
aguardavam ansiosos.

- Viu como estamos chiques, tem até gente esperando.


– Hugo falou animado.
- E o dono? Cadê ele? – Marina perguntou.
- Passou aqui mais cedo, está lá dentro. Ele tem um
sócio agora, que foi quem investiu na nova decoração.
- Muito bom mesmo. – Marina falou olhando em volta e
avistou Lívia vindo com uma cara muito séria.
- Nossa, ela ta com uma cara. – Eduardo falou.
- É, deixa eu saber o que aconteceu. – Marina se
afastou.
- Marina ainda está saindo com essa mulher? – Pedro
perguntou só para Eduardo.
- Está sim.
- Que desperdício. – balançou a cabeça negativamente.
- Pedro, melhor procurar outra. – Eduardo sorriu.
- Homem gay eu aceito, agora mulher eu não consigo
conceber! – falou contrariado.
- Isso é ser machista. E é por isso que as mulheres
estão trocando de lado. E seja discreto, porque Hugo só
desconfia delas e ele pode contar a Monica.
- Relaxa que não vou falar nada.
- Que foi amor? Está séria?
- Eu que pergunto o que foi. Vi Pedro bem à vontade te
levando pra dentro do bar como se fosse seu
namorado.

Marina ficou sem graça, mas não teve culpa no


ocorrido.

- Ele passou o braço na minha cintura, eu tirei, mas ele


insistiu. Quando nos aproximamos dos meninos eu me
livrei logo dele, não pude fazer muito.
- Podia ter pedido a ele para tirar a mão.
- Mas eu tirei...
- Não, acho que até gostou.
- Que isso! Amor, não fale assim.

Os garotos chamaram e Marina teve de ir.

- Depois conversamos. – Lívia a olhou séria.

Marina saiu desconsertada. O show começou e nem


bem o primeiro compasso da música tocava e a banda
foi aplaudida, arrancando sorrisos dos músicos. Marina
olhou para Lívia sorrindo e ainda sentiu aquele olhar
reprovador. Novamente ficou sem graça.

Fabrício estava chegando atrasado, sentou-se ao lado


da prima.

- E aí, tem tempo que começou?


- Não, foi agorinha.
- Que cara feia! Que houve?

Lívia contou o ocorrido e Fabrício achou graça.

- Está com ciúme! Quem diria! Deixa só Eduardo saber


disso.
- Pedro é um folgado e isso não é ciúme.
- É sim, admita. Não te custa admitir ciúme. Já disse
que a ama?
- Já.
- Então isso é ciúme mesmo. E você brigou com ela?
- Marina deixou ele se aproximar.
- Vai vê ficou sem jeito. Lívia ela é uma garota ainda,
não sabe lidar com essas coisas. Ela não soube lidar
nem com você. Veja só com pouco tempo que se
conhecem, parecem casadas já e olha que Eduardo e
eu avisamos tudo sobre você. E ela nem quis saber, se
entregou totalmente. Se você quiser agora sacaneá-la,
ela vai perder o rumo na vida.
Lívia ficou pensando no que ele dissera. Fabrício
parecia sem juízo, mas tinha mais que ela mesma.
- Não vou desistir dela. Ela é importante pra mim. –
Lívia a olhava com doçura.
- Ta vendo como gosta dela e se gosta está sentindo
ciúme.
- Ai que coisa chata você.

Fabrício se limitou a rir e tomar a cerveja que o garçom


servia.
O show não teve intervalo, tocaram direto, as músicas
novas fizeram sucesso. Quando acabou Marina estava
esticando as costas.

- Também estou quebrado hein. – Hugo falou.


- E Marina, as músicas novas fizeram sucesso. O
público bem que gostou. – Eduardo veio falando e
guardando o violão.
- Não disse? Ainda tem música boa que não seja só
bossa nova.
- Gente, to com fome. – Pedro passou por eles e foi
logo descendo do palco.

Quando se sentaram Lívia não estava na mesa.

- Cadê ela? – Marina perguntou a Fabrício.


- Foi ao banheiro.

Quando a morena voltou, veio conversando com uma


mulher muito bem arrumada e parecia ser íntima dela.
Parecia bem animada. Parou no meio do bar e ficou de
papo com ela. Marina olhou desconfiada, fingiu não dar
importância.

- Ela tem ciúme de você. – Fabrício falou em seu


ouvido.
- O que?
- É isso mesmo que ouviu, ela ficou possessa com
Pedro.
- Não tive culpa!
- Eu sei, ela também sabe, mas tem ciúme. Ela vai
fechar a cara, mas depois volta ao normal. Marina,
nunca vi Lívia sentir ciúme de alguém. Ela tem ciúme
das coisas e não dos outros.
- Mas parece que agora está bem alegrinha. – Marina
olhava para ela, que agora segurava as mãos da
mulher num gesto bastante intimo. - Olha, pra mim
chega. Vou embora, e depois nos falamos.
- Espera garota, ela vai sentar aqui.
- Não, eu não fiz nada, não preciso passar por isso.

Marina se despediu dos garotos e disse que precisava ir


para casa, pois teria um compromisso no outro dia. Foi
ao banheiro primeiro e de lá saiu por um lado onde
Lívia não a visse. Quando a morena voltou, perguntou
por Marina.

- Já foi, ela disse que tinha um compromisso amanhã


cedo.

Lívia olhou para Fabrício e ele a puxou num canto.

- Ela saiu, porque você é uma idiota. Que é isso de ficar


de papo com outra e largá-la aqui? Está com raiva? Vá
resolver o problema com a pessoa em questão. Ridículo
isso que você fez. Eu falo sempre que Marina que é a
criança, mas quem não saiu do jardim de infância foi
você.

Lívia se levantou sem se despedir dos garotos. Saiu


atrás da namorada.

Dentro do ônibus Marina chorava silenciosamente para


não chamar a atenção. Desceu quase em frente ao
apartamento e entrou em casa. Jogou a pasta de
partituras na mesa e tirou a roupa. Foi para o banheiro
e lá sim, chorou como uma criança. No fundo, sentia
que aquele relacionamento tinha mais problemas do
que pensava. Diferenças sociais e financeiras, sem
contar a idade. Achava que Lívia era muito para ela,
sentia-se pequena perto dela. Sentiu raiva, ciúme,
tristeza, tudo ao mesmo tempo. O telefone tocou e era
ela, mas Marina não quis atender. Minutos depois o
interfone também tocou e ela também não atendeu.
Chorou até dormir.
No sábado acordou depois das dez da manhã com o
celular tocando. Achou que era Lívia, mas se enganou,
era Eduardo querendo lhe entregar o cachê do show.
Ele marcou de levar para ela antes do almoço.

Quando ela abriu a porta ele entrou e somente deixou o


envelope com o dinheiro para ela.

- É jogo rápido, vou sair para almoçar e vim trazer pra


você.
- Obrigada, podia ter deixado para entregar na
faculdade.
- Achei que podia precisar.
- Precisar eu preciso, mas não to matando cachorro a
grito.
- Desculpa Marina, não trouxe só por isso, mas...
bom... vou saindo.

Marina não entendeu a frase, quando Eduardo saiu e


ela ia fechando a porta Lívia apareceu. Havia
combinado com ele de ir lá, pois o garoto seria sua
chave, já que provavelmente Marina não abriria a porta
para ela. A morena usava uma calça jeans meio
surrada e uma blusa clara com uma fita de presente
enrolada na cintura.

- Entrega para senhorita Marina.

A loirinha teve vontade de rir, mas se segurou.

- Não pedi presente nenhum.


- Aceite este presente, pois ele tem algo a lhe dizer.

Marina por fim deixou Lívia entrar.

- Me desculpe, por favor! Não quis te magoar, sei que


não teve culpa ontem, mas quando vi aquele folgado
com você fiquei morrendo de ódio.
- Você pede para que tenha confiança em você sendo
que não tem comigo. – Marina falou chateada.
- Perdoa amor, por favor.
- Nós temos muitas diferenças Lívia, esse
relacionamento não vai dar certo. Você tem que ter ao
seu lado mulheres como aquela com quem estava
ontem, por sinal bem à vontade. Aquela ali sim, é
mulher pra você. Bonita, chique, elegante, do seu
nível...

Marina não terminou de falar, pois Lívia calou sua boca


com um beijo tão intenso que a loirinha perdeu o
fôlego.

- Não quero saber de nível, quem gosta disso é


pedreiro. Eu quero você, ainda não percebeu que é
você quem eu amo, que me satisfaz, que me agrada.
Eu sou louca por você Marina, entenda isso! E se fiquei
brava ontem é porque tive ciúme. Não sei lidar com
isso, faz tempo que não sentia.
- Se toda vez que tiver raiva ou ciúme agir assim, eu
não vou aguentar. Isso dói, me magoou, tanto que não
aguentei ficar lá ontem. – Marina baixou a cabeça.
- Não farei isso nunca mais. Juro! – Levantou o rosto
dela.
- Eu te amo Lívia, nunca vou te trair.
- Desculpe. Não quero ver esse rostinho triste, muito
pelo contrário. Prometo conversar mais com você sobre
esse problema. Sei que às vezes se sente deslocada,
mas não sinta. Você tem tudo que eu quero.
- Você não entende...
- Pensa que não, mas entendo. Escute... – segurou o
rosto dela com as mãos. - ...Em pouco tempo aprendi o
que é ter um relacionamento sério e descobri isso com
você. Não abro mão de você na minha vida e vou fazer
qualquer coisa para tê-la ao meu lado e feliz.
Beijou Marina de forma tão delicada que a loirinha
acabou cedendo. Marina a abraçou, mas sentiu o laço
que ela trazia na cintura.

- Que laço é esse?


- É pra embrulhar o presente.
- E de onde você tirou essa ideia?
- Eu vi numa história que li na internet. A namorada se
embrulhou para presente, era um casal como a gente.
Por isso vi semelhança, uma morena e outra loirinha.
- Ah... eu adorei o presente. – sorriu.
- Na história a loirinha quis saber o que o presente
fazia.
- Ah é? Então vejamos... O que ele faz, hein? É melhor
eu desembrulhar mais. – tirou o laço e depois a blusa –
Quanto embrulho! – tirou também o sutiã. – Deixe-me
ver se eu adivinho o que esse presente faz! – pôs a
mão na cintura e ficou pensando e olhando para a
morena. – Acho melhor continuar desembrulhando. –
tirou a calça e a deixou somente de calcinha. –
Cheiroso ele, forte... – mordeu o ombro da morena. –
Gostoso também.

Lívia estava no seu limite e não aguentou sua


excitação. Pegou Marina e a levou para o quarto.
Fizeram amor de uma forma quase selvagem. Marina
gemia e arranhava as costas de Lívia e não se dava por
satisfeita e sempre queria mais. Exaustas de tanto
gozarem, caíram deitadas uma nos braços da outra.
Lívia deitada de barriga para cima e Marina abraçada a
ela com a cabeça em seu peito.

- Que presente safado esse! – sorriu.


- Gostou dele?
- Adorei!
- Eu vim aqui pra te raptar.
- Pra onde?
- Bom na verdade não preparei nada em especial, só ia
te levar lá pra casa.
- Então eu tenho um convite pra te fazer. Vamos ao
cinema hoje? Aqui perto tem um, podemos ir lá e
depois pra sua casa.
- Vamos direto daqui?
- Algum problema nisso?
- Não, só não trouxe roupa pra sair.
- Ué, está ótima assim.
- Ta bom então.

Almoçaram no apartamento mesmo, Marina fez uma


comida bem caseira. Arroz, feijão, batata frita, bife de
frango e uma salada.

- Faz tempo que não como nada tão...


- Simples?
- É, desde o tempo da faculdade. Eu adoro a comida da
minha mãe, mas ela faz umas coisas diferentes, porque
sabe que eu gosto.
- Lá em casa a gente ta acostumado a comer coisas
simples. Meu pai tem colesterol alto, ele precisa comer
sempre carne magra e minha mãe é hipertensa, nada
lá em casa se excede no sal. E a maioria das frutas e
verduras vem do sítio.
- Muito saudável.
- Esse é o lado bom. – sorriu.

Arrumaram a cozinha e depois ficaram na sala


conversando. Lá pelas sete da noite saíram para ir ao
cinema, Lívia deixou o carro num estacionamento
próximo e foram a pé. Na entrada do cinema Marina se
antecipou e comprou as entradas. Lívia deixou que ela
fizesse.

- Quer pipoca? – A loirinha perguntou.


- Eu quero. - Lívia aceitou e deixou que a loirinha
comprasse também.
Entraram na sala com um saco enorme de pipocas,
água e um saquinho de balas.

- Você vem no cinema pra comer ou para ver filme?


- Os dois. – respondeu parecendo uma criança
animada.

Lívia revirou os olhos achando graça. Depois falou


querendo mexer com ela.

- Eu venho pra namorar.


- Por que será que eu não me surpreendo com isso? –
sorriu.

O filme começou e nem bem a luz apagou e Lívia logo


se assanhou. Pousou a mão na perna direita de Marina
e acariciou. Não demorou muito para começar a beijar
o pescoço da loirinha, que se deixou levar pelas
carícias. Em pouco tempo as duas estavam num
amasso e totalmente alheias ao filme. Pouco antes das
luzes acenderem, mostrando que o filme já havia
acabado, as duas estavam se recompondo.

- Gostou do filme? – Lívia perguntou com sarcasmo.


- Safada! Você não tem vergonha mesmo não é? –
beliscou seu braço.
- Ai! Não fiz nada que as pessoas também não façam.

Saíram do cinema e passaram rapidamente no


apartamento para Marina pegar umas roupas.

- Preciso tomar um banho, você vem comigo? – Lívia


chamou assim que entram em casa.
- Vou ligar pra minha casa, pode ir que eu já vou.

Lívia entrou no banho e Marina ligou para a mãe, falou


que Monica havia viajado e a mãe confirmou, pois já se
encontrara com ela. E disse que estava mandando
umas roupas para ela pela amiga. Quando desligou,
Marina tirou a roupa e entrou no banheiro. Lívia estava
de costas, com as mãos apoiadas na parede e a cabeça
embaixo do chuveiro, deixando que a água caísse em
seus cabelos.

- Que foi? – Marina a abraçou por trás e beijou suas


costas.
- Nada, estou tentando relaxar. – Lívia virou e a beijou
nos lábios. – Tudo bem com sua família?
- Sim, minha mãe disse que está mandando umas
roupas. Monica vai trazer. Eu deixei lá pra lavar, porque
lavar aqui na mão, nem sempre fica bom.
- Eu até que lavo roupa bem, hoje não faço mais isso,
mas me viro quando preciso.
- Confesso que não é meu forte.
- Se quiser, pode mandar pra cá que eu junto tudo e a
empregada lava.
- Não precisa, eu me viro. Monica e eu temos um
pacto, ela lava e eu passo. – Marina passava a mão nos
cabelos de Lívia que insistiam em cair no rosto. – Fica
de costas, vou ensaboar você.
- Faz aquela massagem? – a morena pediu
carinhosamente.
- Faço, mas depois, na cama. Trouxe um hidratante,
acho que vai gostar.

Terminaram o banho e foram para cama. Marina vestiu


o roupão e pediu que Lívia não se vestisse.
- Que vai fazer comigo? – Lívia fingiu estar assustada.
- Pode deixar que não vou abusar de você.
- Ah que pena. – riu.
- Sem-vergonha.

Marina pegou na mochila o hidratante e voltou para a


cama.
- Deita de bruços.
Sentou como da outra vez em Mauá e espalhou o
hidratante pelas costas da morena. Sentiu que Lívia
suspirou e depois viu que fechou os olhos. Começou a
massagear, apertava com certa força e depois passava
a unha de leve, vendo a pele se arrepiar. Desceu até a
cintura dela, subiu pelos braços, depois pegou sua mão
e massageou os dedos, fazendo o mesmo com a outra
mão. Levantou e massageou as pernas também,
seguindo até os pés. Quando terminou, achou que Lívia
estivesse dormindo, mas se enganou. Ela estava de
olhos abertos e parecia pensativa. Marina tirou o
roupão e pegou a coberta, cobrindo-as. Houve um
sincronismo, ela esticou os braços ao mesmo tempo em
que Lívia já se aproximava para se aconchegar em seu
colo.

- Que foi amor? Te achei quieta desde a hora do banho.


Você não tava assim antes.
- Estou pensando na semana agitada que vou ter. Não
comentei com você, mas tenho reunião no escritório.
Depois dessa reunião eles querem fazer um pequeno
coquetel, coisa de gente besta. Mas tenho que ficar,
porque é um pessoal que trabalha comigo, preciso estar
bem com eles. Pode ser que não te veja nesse dia.
- Tem que fazer uma social. – Marina acariciava seus
cabelos.
- Isso aí.
- Não tem problema, você não pode é se complicar por
minha causa. Nos vemos no outro dia.
- Tenho que ficar de olho nesse Pedro. – fechou a cara.
- Ah, para. Ele pode até tentar, mas não terá sucesso.
- Hum. – Lívia resmungou fazendo Marina sorrir.
- Bichinho bravo.
- Hum. – Resmungou de novo.
- Que eu amo. Acho que nunca amei alguém tanto
quanto amo você. E se amei, nem me lembro se era
tão bom assim.
As palavras de Marina serviram para Lívia se lembrar
do passado.

- Às vezes a pessoa diz “eu te amo” sem se preocupar


com a intensidade que essas palavras têm. – Lívia falou
mais para si mesma e sobre o que viveu.

Marina ficou em silêncio por uns instantes e depois


falou parecendo contrariada.
- Mas eu falo quando tenho certeza do que sinto
naquele momento. Já ouvi eu te amo para logo em
seguida ver a mesma pessoa que disse nos braços de
outra. – tinha um rancor na voz.

Lívia se levantou e olhou em seus olhos.


- Não me referi a você.
- Eu sei.
- Confio em você.
- Então não vai ficar cismada por não ir ao show na
semana que vem?
- Aí eu não sei. – Lívia deitou novamente emburrando.
– Aquele cara é um malandro isso sim.
- Então vejamos. Que posso fazer pra você se sentir
melhor quanto a isso? – Marina falava tão suavemente
que Lívia desemburrou a cara.
- Pode dizer que me ama todo dia.
- Eu já faço isso.
- Pode me ligar no dia do show para dizer então.
- Isso vai te deixar mais tranquila? – Marina achou
estranho o pedido.
- Vai.
- Mas não posso ligar enquanto estiver tocando.
- Tudo bem, e quando não estiver você me liga?
- Ligo, mas isso é só na semana que vem. – parou e
pensou. - De repente eu saio de lá e venho correndo
para me encontrar com você. Se bem que desde que te
conheci, não tenho passado o final de semana direito
com Monica.
- Mas ela só fica com Hugo, ora bolas.
- Tudo bem, mas não sei o que ela vai fazer semana
que vem. Pode ser que eu não possa vir pra cá ou que
a gente não possa se encontrar com mais folga.
- Ai... ai... – Lívia emburrara novamente.
- Mas a gente dá um jeitinho.
- Eu sei um jeitinho.
- Qual?
- Você vem morar comigo.
- Que? – Marina arregalou os olhos.
- Que tem? É verdade... ó... – Lívia se levantou. – Aqui
você não precisa pagar aluguel e nem precisa se
preocupar com outras despesas, o dinheiro que ganhar
será só seu.
- Ta querendo me sustentar?
- Seria uma ajuda de custo. – sorriu.
- Não, seria sustentar. Como vou sair e largar Monica?
E o que vou dizer aos meus pais quando eles, por
acaso, vierem aqui. Olha pai, não estou morando mais
no apartamento, porque sabe, eu moro com a minha
namorada. No mínimo ele enfarta.

Lívia achou graça.


- Não posso amor. Sei que às vezes fica difícil a gente
se ver, mas sempre damos um jeito. Moramos na
mesma cidade. E vir pra cá seria muito precipitado,
não?
- Por quê? Você não diz que me ama? E eu não amo
você? Então, qual o problema?
- Calma dona impulsiva. Uma coisa de cada vez.
- Ah. – Lívia emburrou de vez. Virou para o lado,
fechou a cara e cruzou os braços num gesto indignado.

Marina não quis falar, pois com ela não se tinha muitos
argumentos. Achou melhor agir. Aproveitou que ela
estava de costas e beijou sua nuca, passou a mão em
suas costas, arranhou de leve, até porque suas unhas
estavam curtas. Beijou seu ombro, mordeu o pescoço.
Sentiu a respiração da namorada se alterar, mas ela
ainda fingia não ligar. Desceu a mão pela cintura dela e
chegou até o os pêlos pubianos e acariciou, depois
ameaçou colocar os dedos em sua abertura, mas voltou
para os pêlos. E com a mão lá e a boca bem próxima a
sua orelha, falou com a voz mais doce que Lívia já
ouvira.
- Não quer fazer amor comigo?

Lívia se rendeu. Girou o corpo ficando por cima de


Marina, prendendo seus braços.
- Alguém resiste? Não tem como.
- A intenção é não resistir mesmo. – sorriu franzindo o
nariz.
- Linda!

Beijaram-se e deram vazão ao desejo. Fizeram amor a


noite inteira. Em cima da cama, no tapete do quarto,
na mesa que ficava no canto. Lívia colocou Marina
debruçada na mesa e por trás acariciava seu clitóris e
com a outra mão agarrava sua cintura. Marina estava
sem forças já. Arranhava os braços da namorada e
gemia como uma gata. Lívia estava insaciável. Quando
gozaram, pegou Marina no colo e a levou de volta para
a cama, deitando as duas de conchinha, como
gostavam. Beijou o pescoço dela delicadamente.

- Te amo muito.
- Também te amo. – a voz de Marina saiu cansada.

Dormiram quando o sol já estava nascendo. O telefone


tocou e as duas nem ouviram.

- Aposto que estão de sacanagem. – Fabrício falou


desligando o telefone.
- Deixa elas, estão apaixonadas. – Eduardo interveio.
- Marina está né, ainda não me convenci com Lívia.
- Depois do que vi em Mauá, estou convencido sim.
- Esse namoro está no início ainda, Lívia é uma caixinha
de surpresas. Acredite, só me convenço quando ela
pedir aquela loirinha em casamento.
- Aí já é demais né.
- Você não conhece relacionamento lésbico? Elas se
conhecem num dia, namoram no outro e casam no
terceiro. Amor implacável. – riu.
- Eu acho que elas se dão bem, Marina tem paciência
com Lívia e Lívia parece ter se identificado com Marina.
Ela tem carinho por ela.
- Identificado com o que? As duas são completamente
diferentes. E carinho não é amor.
- Ah Fabrício, para de pegar no pé. Marina também não
é criança, ela sabe o que é certo ou errado para ela.
- Espero que sim.

Marina acordou com o telefone, mas não teve tempo de


atender. Levantou e olhou pela porta que dava pra
varanda, o sol estava forte. Quando viu no relógio já
eram quase meio-dia. Lívia dormia tranquila e não quis
acordá-la. Tomou um banho e desceu pra cozinha.
Procurou na geladeira alguma coisa pra fazer, depois
olhou nos armários e teve a ideia de fazer uma
lasanha. Estava distraída e nem viu que a morena
chegou à cozinha e ficou observando-a. Estava com
uma blusa comprida e descalça. Olhava a panela com o
molho, ao mesmo tempo em que tirava o macarrão e
deixava escorrer numa outra panela. Montou a lasanha
e colocou no forno. Quando virou se assustou com
Lívia.

- Ai, que susto! Acordou faz tempo amor?


- Não, você não estava na cama aí resolvi descer pra
ver o que estava aprontando. – foi se aproximando.
- Estou fazendo uma lasanha.
- Eu vi.
- Estava me espionando é?
- Apenas observando. – Lívia a beijou. – Sabia que
você está muito sexy com essa blusa?
- Eu? Nossa, essa blusa é velha, é um camisolão. Ela é
fresquinha por isso coloquei. Tomou banho?
- Tomei. Minhas costas estão ardendo. Acho que uma
gata me arranhou.

Marina morreu de vergonha com o comentário, ficou


vermelha imediatamente.

- Desculpa, é que... ontem você estava impossível. –


falou envergonhada.

Lívia ficava toda besta com os elogios da namorada


sobre seu desempenho na cama, inflava seu ego.
Almoçaram sem pressa e Lívia adorou a comida.

- Estou me acostumando mal, vou querer comidinha da


namorada sempre.
- É né, comidinha, massagem, mais o que?
- Quero você inteira só pra mim.

Marina sorriu e levantou de sua cadeira, sentando no


colo de Lívia, de frente pra ela.

- Você já me tem.
- Quero todo dia, toda hora. – a olhou com cobiça.
- Assim você enjoa.
- Não sei o que Fabrício te falou sobre mim, mas pode
apostar que não enjôo de você.

Marina pensava naquelas palavras, poderia ser


verdade, mas como será que Lívia tinha enjoado das
outras mulheres? Passaram a tarde namorando e mais
a noite foram ao shopping dar uma volta.

Monica voltou na segunda de manhã e apareceu na


faculdade à tarde. Deixou as malas no apartamento e
quando encontrou Marina a avisou sobre suas coisas.
- Sua mãe mandou roupa pra você. Ela perguntou se
você estava namorando.
- Minha mãe é uma figura mesmo. Por que não
perguntou a mim?
- Porque sabia que você não ia contar.
- E o que você contou?
- Que não estava namorando, mas que eu desconfiava
de alguém.
- Como assim? – Marina se surpreendeu.
- Ué, falei de Eduardo e que ele dava muita atenção a
você. Ela disse que viu ele na foto que você mostrou.
- Monica!
- Falei o que penso. – levantou as mãos num gesto
desleixado.

Marina revirou os olhos como se dissesse que a menina


não tinha jeito. Entraram para a aula e só saíram mais
a noite. Como Monica havia viajado, quando as duas
chegaram ao apartamento Hugo já a esperava. Marina
reparou o fato dele trazer um presente e lembrou de
Lívia. “Cariocas! Muito galantes.”

- Tem problema se eu dormir aqui hoje Marina? – ele


perguntou receoso.
- Não. Tudo bem.
- Valeu!

Os dois subiram num agarramento só, Marina sabia que


aquela noite teria de dormir com o fone no ouvido.

Na quarta, os meninos da banda haviam desmarcado o


ensaio e este seria somente no dia seguinte e mais
cedo. Quando saíram do estúdio Lívia os esperava
encostada no carro. Marina abriu um sorriso tão
luminoso que qualquer um podia notar. Foi andando
depressa ao encontro da namorada e aproveitou a rua
vazia para abraçá-la.

- Olha o chamego. – Fabrício, que estava ao lado,


implicou.
- Inveja é fogo. – Lívia retrucou.
- Tudo bem Fabrício? – Marina falou ainda abraçada à
namorada.
- Tudo. Ensaio demorado esse.
- É que atrasamos para começar. Eu tive aula até mais
tarde. Nossa tenho muita coisa pra preparar, está
chegando a etapa final do período e eu to cheia de
música.
- Eduardo também tem reclamado.
- Mas ele estuda em casa. Eu, pra estudar piano, tenho
que marcar hora na faculdade e está cada dia mais
concorrido.
- Teclado não é a mesma coisa né. – ele falou.
- Não, o peso das teclas é diferente, mas ajuda muito.

O restante da banda se aproximou e dali foram


embora. Como sempre, Lívia a levara e depois deixava
Fabrício e Eduardo. Marina só saiu do carro depois de
ganhar um beijo cheio de más intenções de Lívia.

- Eu tenho mesmo que ver isso? – implicou o primo.


- Podia aproveitar e fazer o mesmo. – Marina brincou.

Depois que Marina saiu Lívia comentou dentro do carro.

- Onde será que tem piano aqui nessa cidade?


- Ah não! Para! Não vai fazer isso. – Fabrício logo
retrucou.
- O que? Fiquei boiando agora. – Eduardo falou
confuso.
- Você não vai comprar um piano. – voltou Fabrício
incisivo.
- Piano? Pra que Lívia quer um piano? – Eduardo ainda
estava confuso.
- Eduardo, acorda! Por que ela vai comprar um piano?
– Fabrício olhou para o namorado tentando fazê-lo
entender.
Eduardo parou para pensar e depois entendeu.
- Nossa! Que chique! Muito romântico isso, eu sei onde
vende piano.
- Então você vai me ajudar. – Lívia ficou animada.
- Não vai nada. Você não vai comprar um piano Lívia.
Que vai fazer com ele depois? – Fabrício interveio.
- Não lhe devo satisfações do meu dinheiro e ele será
um presente para Marina, que, aliás, nem sei o
aniversário dela. Se tivesse perto, poderia lhe dar de
presente.
- E o que vai fazer com esse piano depois?
- Depois de que?
- Lívia, você acha mesmo que vai levar esse
relacionamento adiante?
- Fabrício, você realmente não me conhece. E não tem
reparado em mim nos últimos meses.
- Eu tenho e realmente você mudou um pouco. Levo fé
em vocês duas. – Eduardo ficou do lado de Lívia.
- Ai, eu não falo mais nada então. Depois sou o chato,
o implicante, então deixa pra lá.
- Lívia, amanhã estou de folga de manhã, podemos ver
esse piano. Não vai conseguir de imediato, geralmente
são encomendados.
- Sem problema.

Como combinado os dois foram até uma loja onde


Eduardo havia comprado seu violão, lá eles também
tinham um catálogo de pianos, havia alguns na loja,
mas somente os modelos de armário. E Lívia queria um
de cauda. Olharam os catálogos, como ela não entendia
nada, deixou por conta de Eduardo.

- Essa marca é a melhor de todas, lá na escola eles têm


dele e é o que Marina sempre estuda.
- Realmente a Steinway & Sons é líder em qualidade,
tradicionalismo e elegância. – o vendedor falou
animado.
- Líder no preço também, né amigo? – Eduardo logo
falou.
- De fato um Steinway não é barato, mas compensa
por sua qualidade de som, sua acústica. Alguns desses
pianos costumam demorar um ano para serem
fabricados, são feitos artesanalmente.

Lívia bateu o olho em um modelo do catálogo e ficou


fascinada.

- Olha que lindo esse! Vai ficar muito bom na minha


sala.
- A senhora toca? – o vendedor perguntou.
- Não, mas minha namorada sim. – ela respondeu tão
naturalmente que o vendedor nem teve tempo de se
surpreender. Já Eduardo não teve a mesma reação,
quase deixou cair o papel que estava em sua mão.
- Marina é pianista e estuda na federal, ela precisa de
um piano para treinar. Por isso estamos querendo
comprar. – disse ainda surpreso.
- Esse modelo é excelente. Ele aceita bem ambiente de
teto alto e amplo, é para salas grandes.
- Exatamente o que preciso. Quero esse.
- Lívia, primeiro a gente pergunta preço. – Eduardo
falou baixinho.
- Quanto é moço?
- Olha, um Steinway desses está em média cento e
vinte mil.

Eduardo quase desmaiou. Lívia se manteve séria, sem


dar chance do vendedor saber se ela havia achado caro
ou não. Seu olhar para o catálogo era indecifrável.

- Poderiam me acompanhar, por favor. – o vendedor os


chamou para os fundos da loja.
Entraram num salão e o vendedor puxou um pano que
revestia o que parecia ser um piano. Quando ele o
descobriu Eduardo ficou boquiaberto, era o modelo do
catálogo.

- Os trouxe aqui para poder ver de perto. Este piano foi


encomendado por um cliente, faz três meses. Chegou
ontem e o colocamos aqui, ele vem pegá-lo na semana
que vem.
- É lindo. Os da escola são mais antigos, esse está
novinho.
- Esse custou o preço que lhes falei. – observava a
reação deles.
- Quanto quer por ele? – Lívia foi incisiva.
- Ele não está à venda senhora, o dono vem buscá-lo
creio que na segunda.
- Eu pago mais por ele. Quanto quer?

O vendedor cresceu os olhos, mas nada podia fazer.

- Não posso, confesso que seria interessante para mim,


mas meu chefe não vai autorizar.
- Quero falar com seu chefe então. Preciso de um piano
para hoje. Tenho urgência.
- Calma Lívia, talvez encomendando eles possam
acelerar a vinda do piano. Não é?
- Acredito que sim. – respondeu o vendedor.
- O seu chefe, por favor. – Lívia fingiu não ouvir.

O rapaz não sabia ao certo o que fazer, então chamou


o chefe que veio em poucos minutos.

- É o seguinte, preciso desse piano, ele não está à


venda, mas estou disposta a pagar o que me pedir
nele.
- Já foi comunicado ao dono que o instrumento chegou?
– o senhor perguntou ao vendedor.
- Sim, ele vem buscá-lo na segunda.
- Então sinto muito, caso não tivessem falado, poderia
vendê-lo e tratar uma nova encomenda, mas neste
caso fica difícil.
- Eu pago a vista.
- Lívia. – Eduardo a puxou pelo braço. – Tenha
paciência.
- Se eu encomendar um agora, só chegará depois que
acabarem as aulas de Marina. Não vai adiantar.
- Se eu não comprar aqui, vou até São Paulo e lá
consigo um. Então, podemos negociar?
- Se a senhora for até São Paulo, mesmo que consiga
um pagará um valor altíssimo para trazer ao Rio.
- Isso não é problema para mim.
- O transporte poderia prejudicar a qualidade do
instrumento.
- Isso sim é um problema, por isso vamos negociar
este aqui. Eu pago a mais o que gastaria para trazer
um piano de São Paulo para cá.

Eduardo olhava para Lívia perplexo, tentava falar, mas


ela não deixava espaço.

- A senhora gastaria mais de cinco mil. Seria melhor


esperar outro.
- Minha namorada não pode esperar.

O senhor por um momento pareceu ter parado de


respirar.

- É pegar ou largar.
- Lívia...
- Eduardo, eu saí de casa para comprar um piano e vou
comprar.

O dono da loja olhou para ela e sorriu.


- A senhora quer que entregue o instrumento que
horas?
Ela sorriu satisfeita.
- Pode hoje à tarde?

Lívia entregou o cartão com o endereço, combinou um


horário melhor e acertou os valores a pagar. Quando
saiu da loja Eduardo estava pálido.

- Meu Deus do céu! Eu não vou nem comentar o fato de


você ter gasto uma pequena fortuna num piano.
- Então não comente. – entrou no carro.
- Lívia, tem noção do que acabou de fazer?
- Tenho. Dinheiro é pra isso mesmo, comprar coisas.
- Tão caras assim?
- Ela merece.

Ligou o carro e saíram.


- Gosta mesmo dela? – Eduardo a indagou.
- Mais do que eu mesma imaginei gostar de alguém.
- Isso não é uma fase?
- Não.
- Lívia, escute, eu te conheço desde que comecei a
namorar Fabrício e isso faz algum tempo. Sempre te vi
perambular e saltar de um relacionamento a outro, o
seu tempo de namoro com Marina ainda é curto, não
está impressionada?
- Já me viu impressionada?
- Já.
- E impressionada eu gastava meu dinheiro comprando
pianos caros?

Ele sorriu.
- Eu a amo e quero o melhor pra ela.
- Me dou por satisfeito.
- Obrigada por me ajudar e peço por favor, para não
contar sobre o valor desse piano a Fabrício.
- Tudo bem. Posso pedir uma coisa?
- Pode.
- Vai dar o piano que dia?
- Amanhã, pois hoje tenho uma reunião e vocês têm
show.
- Posso estar perto? Quero ver a carinha dela. – ele
falou feliz.
- Claro, vou convidar você, Fabrício, Carlos e Larissa,
faz tempo que não os vejo. Combinamos algo amanhã
à noite.

De tarde, os funcionários da loja levaram o piano,


montaram e um afinador foi logo em seguida para fazer
os ajustes. Realmente ele combinava com a sala e a
promotora ficou imaginando Marina tocando nele,
ficaria mais lindo ainda. À noite Lívia teve a reunião
seguida de um coquetel e como combinaram Marina lhe
ligava para saber se estava tudo bem e dizer que
também estava bem. Não dormiu no apartamento da
namorada porque Monica estaria em casa e dessa vez
outra desculpa não iria colar. No sábado de manhã
Monica arrumou suas coisas dizendo que ia para
Paraty, uma cidade próxima ao Rio, visitar a família de
Hugo. Marina não pode esconder a felicidade. Assim
que Monica saiu ela ligou para Lívia.

- Bom dia amor. – a loirinha falou com voz melosa.


- Bom dia minha linda. Acordou agora?
- Que nada, bem mais cedo. Monica agitou a casa aqui.
- E onde ela está?
- Nesse momento indo para Paraty com Hugo e vai
passar o final de semana lá. Estava pensando em ir
praí.
- Você não vai estudar hoje?
- Não sei. – Aquilo não era a pergunta que Marina
esperava. – Talvez eu dê uma lida em algumas
partituras novas, mas...
- Então eu passo aí de tarde para te pegar para
jantarmos, pode ser?
- Pode. – a voz de Marina entregava sua decepção.
Quando desligaram Lívia estava com o coração partido.
Praticamente deu um gelo na namorada por conta da
surpresa. Depois se animou e foi ligar para o pessoal
convidado a ir até sua casa. Mais à tarde, ela não
aguentou e foi ao apartamento, já arrumada para sair.
Marina atendeu a porta e sorriu sem jeito.

- Tudo bem? – Lívia beijou-lhe os lábios.


- Tudo. Estava estudando.
- Muita coisa pra estudar?
- É, bastante, tem uma música muito difícil. Marconi
está me escalpelando.
- Tadinha. – beijou-a novamente.
- Você chegou cedo? Ou estou atrasada?
- Vim mais cedo um pouco, pra namorar sabe...
- Ah... – Marina sorriu.

Lívia sabia que ela estava chateada com o fora que


levara mais cedo. Abraçou a namorada
carinhosamente, beijou seu rosto, tentou se desculpar
veladamente.

- Te amo muito viu gatinha linda!


- Também te amo.
- Amor, quando é seu aniversário?

A pergunta foi tão repentina que Marina olhou


indagativa.
- Por que quer saber?
- Curiosidade ué.
- Meu aniversário é em maio.
- Já passou então.
- Sim.
- Peraí, mas eu já te conhecia nessa época.
- Ahan. – Marina despistou.
- E por que não me falou nada?
- Porque não tive oportunidade ué. Ia chegar pra você
e falar: Hei, hoje é meu aniversário.
- Poderia ter falado meu anjo. A gente podia ter feito
alguma coisa especial.
- E fizemos.

Lívia a olhou curiosa.


- Foi no dia que você me levou na Pedra Bonita e na
confeitaria, eu adorei o passeio. Pra mim foi especial. –
Marina sorriu.

Lívia se lembrou daquele dia, era o mesmo do assalto.


Ficou penalizada e ao mesmo tempo com raiva da
garota ter passado por tal situação num dia especial
para ela. Marina era realmente simples, qualquer um
teria feito drama naquele dia.
- Vou tomar banho, já volto.

Bem que Lívia queria participar do banho, mas achou


melhor não. Tinha preparado uma noite mais que
especial e esperava que tudo desse certo. Combinou
com Fabrício para ir ao apartamento e receber Carlos e
Larissa e nem deixou espaço para que ele falasse da
compra do piano. Havia contado ao casal sobre o
relacionamento e eles confidenciaram que já tinham
notado, principalmente por sua ausência nas noites
cariocas.
Marina saiu do banho enrolada na toalha.

- Amor, vamos aonde? Que tipo de roupa devo usar?


- Nada formal, põe aquela roupa que você usou no
show da Urca.
- Ta bom.

Saiu do quarto já arrumada e viu Lívia usar o celular,


parecia mandar uma mensagem, mas não perguntou o
que estava fazendo.
- Estou pronta.
Olhou para ela e sorriu.
- Está linda! – Lívia estava tão sorridente que Marina
achou até estranho. A loirinha pegou sua mochila como
de costume. Subindo o elevador Lívia abraçou Marina
carinhosamente.
- Já disse que te amo?
- Disse, mas eu gosto de ouvir sempre.
- Te amo, minha loirinha bonitinha.

Quando as duas saíram do elevador e entraram no hall


o ambiente estava meio escuro.
- Ué, não tem luz? – Marina perguntou entrando já pela
sala.
- Tem sim. – Uma voz masculina respondeu, era
Fabrício.

Quando ele acendeu a luz que Marina pode ver o piano


ao longe, próximo às poltronas da sala. Sua voz sumiu,
não conseguiu dizer nada, piscou os olhos achando que
estava em outro lugar ou que errara de apartamento.
Olhou para Lívia que a olhava com ternura.

- Não vou dizer que um cliente me deu, porque você


não vai acreditar.
- Meu Deus! Como... Aonde... – estava pasma. – Por
que...
- Porque eu te amo. – Lívia falou em seu ouvido e
abraçando-a por trás.

Os olhos de Marina marejaram, nunca na vida sentira o


que estava sentindo naquele momento.
- Marina! Hoje teremos concerto. – Eduardo veio se
aproximando e tentando fazer com que ela não
chorasse. – É claro que você vai dar a honra de tocar
pra todo mundo não vai?

A loirinha olhou para o lado e aí que viu Larissa e


Carlos. Ainda estava paralisada. Virou-se para Lívia e
olhou nos seus olhos, ficou parada como se não tivesse
ninguém ali.

- Como você consegue me surpreender todos os dias?


- É pra você não enjoar de mim. – sorriu.
- Nunca! Você é a pessoa mais incrível que já conheci
na vida. É o meu alicerce, meu apoio, se tornou minha
vida. – as lágrimas rolaram e dessa vez não teve como
segurar. – Te amo muito. – Marina a abraçou se
envolvendo também nos braços de Lívia.
- Elas começam a me convencer. – disse Fabrício.
- Eu levo fé. – Eduardo sorriu.

Carlos e Larissa se aproximaram dos dois rapazes sem


nada dizer.

- Agora o concerto. – Eduardo interrompeu o momento


romântico.
- Eu nem trouxe partitura. – falou timidamente.
- Já te vi tocando sem ler, porque não pode agora? –
Eduardo falou.
- Ah Marina, Lívia falou que você é uma excelente
pianista. Podia nos dar o prazer de te ouvir. – Larissa
incentivou.

Marina então sentou no piano, que já estava aberto,


concentrou, fez o mesmo ritual que faz quando toca.
Tocou lenda do Caboclo de Villa Lobos, era mais lenta.
Depois tocou um chorinho de Ernesto Nazareth. Foi
aplaudida por todos. Lívia estava toda boba vendo a
namorada tocar. Seus olhos nem piscavam.

- Você toca Tom? – Carlos perguntou.


- Só se Eduardo me acompanhar.

Ela tocou Luiza, Garota de Ipanema, Águas de Março,


Samba do Avião e pra fechar Eu sei que vou te amar.
Depois tocou trechos de músicas que a banda tocava.
Atendeu ao pedido de Carlos que queria aprender a
tocar e o ensinou “parabéns pra você” no piano. Ele
ficou todo animado.

- Carlos, você como pianista é um fracasso. Ainda bem


que não ta nesse ramo. – Lívia brincou.
- Está de parabéns menina, você toca muito bem. Virei
seu fã. – Ele se dirigiu a Marina.
- Obrigada, estou começando ainda, mas um dia eu
chego lá.
- Vai chegar com certeza. – Lívia falou abraçando-a
cheia de orgulho.

Foram para a sala conversar e beber, até a hora do


jantar. Marina ainda não acreditava no que estava
acontecendo. Olhava para Lívia e sorria-lhe com tanto
carinho que a promotora se sentia enternecida. Depois
de certa hora todos foram embora, Lívia levou-os até a
porta e quando se virou, viu Marina olhando para o
piano e passando as mãos, como se o acariciasse.

- Acho que vou perder a vez pra esse piano. – se


aproximou. – Você está namorando ele mais que eu.
- Estou custando a acreditar.
- Você gostou do presente? – Lívia a abraçou por trás
como gostava.
- Gostar não é bem a palavra. Eu adorei, estou sem
palavras, não sei nem o que dizer. Posso dizer que te
amo? Que você sim é o meu melhor presente. Que não
consigo mais imaginar minha vida sem você nela. E
isso é mais importante que qualquer coisa. E me
pergunto às vezes, por que você é assim comigo?
- Porque eu te amo, porque quero proporcionar a você
o que tiver de melhor nessa vida e falo no sentido
material e emocional. Nunca se sinta sozinha, porque
terá sempre a mim. Se te dou presentes, não é para te
comprar, é pra ver seu sorriso, que eu tanto amo.
A loirinha não teve mais palavras, estava vivendo o
melhor momento de sua vida e queria curtir cada
segundo. Abraçou a namorada e a beijou com carinho,
demonstrando seu amor. Os beijos se tornaram
urgentes e seus corpos ansiaram por mais carícias.
Lívia empurrou Marina para se apoiar no piano,
fazendo-a esbarrar nas teclas.
- Acho melhor fecharmos. – Marina sorriu.

Lívia então fechou a tampa e colocou a namorada em


cima do piano, arrancou sua blusa em segundos e viu
aqueles seios arfantes e pedindo para serem tocados.
Chupou e sugou com vontade, arrancando gemidos
excitantes de Marina. Abriu sua calça e viu a calcinha
de renda preta transparente na frente, deixando
aparecer os pêlos aparados. Enfiou a mão por dentro da
calcinha e sentiu a namorada molhada.
- Delícia!

Baixou o corpo e sentou-se no banco do piano ficando


de frente para Marina, colocando suas pernas em seu
ombro. A visão era mais que privilegiada. Sugava,
lambia e percorria com as mãos aquele corpo pedindo
para ser amado. Marina gemia e arfava, tremia
involuntariamente. Lívia sabia tocá-la como se conhece
cada pedacinho dela. Quando chegou ao clímax suas
pernas amoleceram, foi amparada pela morena que a
abraçou e a pegou no colo.
Subiram para o quarto e deitaram na cama, Marina
ainda sentia o corpo mole.

- Está molinha?
- Estou. – respondeu com dengo.
- Hum... vem cá.

Marina se virou e deitou seu rosto no colo de Lívia,


ficaram abraçadas se acariciando, sentindo uma paz
muito grande, que só os amantes sentiam.
Adormeceram sem perceber.

No meio da noite, Marina acordou sentindo o peso do


corpo de Lívia sobre o seu. Gostava daquela sensação,
só depois percebeu que estava nua. Delicadamente se
virou para sair de baixo dela, o que fez com que Lívia
se virasse de barriga para cima, ainda dormindo. Ficou
pensando que devia estar cansada, pois dormira com a
roupa que estava usando na noite anterior. Como ela
estava de vestido não foi muito difícil tirar, baixou a
alça e tirou por baixo, deixando-a somente de calcinha.
Ficou admirando o corpo seminu da namorada.

“Tão bonita!”

Passou de leve a mão em sua barriga, nas pernas,


depois puxou a calcinha bem devagar e se ajeitou em
cima dela. Beijando seus seios, colo e pescoço. Lívia
sentiu os carinhos e a abraçou, Marina então, se
posicionou entre as pernas dela e começou a rebolar
bem devagar. Como Lívia fazia quando faziam amor.
Sentiu o sexo molhado e o contato aumentar quando a
morena abriu mais as pernas. Lívia pressionou a cintura
de Marina contra seu corpo e subiu as mãos por suas
costas a puxando para um beijo. Suas línguas se
encontraram e dançaram sincronizadas, assim como
seus corpos. Marina apoiou os braços nas laterais de
Lívia e aumentou o rebolado.
- Assim... ah... – a morena sussurrou soltando um
gemido.

Marina aumentou seus movimentos e as duas gozaram


ao mesmo tempo, selando o momento com um beijo
apaixonado. Lívia relaxou e somente sentiu aquele beijo
quente e molhado. Marina foi descendo por seu corpo
com mordidas até chegar entre suas pernas. Não
esperou muito para devorar aquele sexo encharcado,
Lívia puxava seus cabelos e gemia alto, sentindo a
língua dela penetrar em sua vagina. Gozou novamente
arqueando o corpo e puxando os lençóis. Marina sorriu
satisfeita por saber proporcionar prazer à namorada.
Sorria admirada, vendo aquele corpo respirar
descompassado. Lívia sentiu o olhar da namorada e
sorriu para ela ainda de olhos fechados.

- Onde aprendeu isso menina?


- Vendo minha namorada fazer.
- Hum... vem aqui. – esticou os braços para que ela se
deitasse.

Marina se aconchegou e ficou alisando os cabelos da


morena até que dormiu. Lívia sentiu que ela havia
relaxado o corpo. Dormiu em seguida.

Acordaram ao mesmo tempo, Marina estava agarrada a


Lívia, parecia sentir frio, o ar estava ligado e seus
corpos estavam descobertos. Lívia tentou puxar a
coberta, mas a loirinha a segurou.

- Não amor, fica...


- Só vou pegar a coberta meu anjo. – se esticou o
quanto pôde e puxou o edredom.
Marina acabou acordando, se espreguiçou e abraçou o
travesseiro com um sorriso no rosto. Olhava para Lívia
e sorria mais ainda.
- Que foi? – a morena perguntou.
- Estou olhando para você. – sorriu - Quando te vi pela
primeira vez, senti como se te conhecesse, seus olhos
eram familiares pra mim. Dizem que a gente reconhece
um grande amor pelo olhar. Será que te reconheci?
Lívia ficou envaidecida com aquelas palavras.
- Quem sabe? Eu me apaixonei pelo seu jeitinho. Ele
me conquistou aos poucos.
- Obrigada por me fazer a mulher mais feliz do mundo.
- Te fazendo feliz, eu também sou feliz.
- Amor, tenho a impressão de que depois que
começamos a namorar, você vai menos em Mauá.
- Não é verdade, quando você viajou eu fui. E eu vou
sempre, mas não é todo final de semana.
- Daqui a pouco sua mãe reclama e com razão.
- Ela entende quando não posso ir e quando falo que é
por sua causa ela nem liga.
- Eu adoro a sua mãe. – Marina sorriu.
- Ela também gosta de você. Vamos tomar um café? Ou
não está com fome?
- Depois dessa noite, estou morta de fome.
- Então vem bichinho faminto.

Lívia bem que tentou preparar um café, mas era muito


desajeitada. Queria fazer waffles, mas não deu certo.
- Cozinha realmente não é seu forte. – Marina brincou.
- Ai que fracasso. – falou desanimada.
- Já entendemos que nesse relacionamento eu cozinho
e você lava a roupa. Certo? – continuou brincando.
- Certo. Pode ser da lavanderia? – sorriu como uma
criança levada.
- Ai... ai...
- Pelo menos a calda do waffle ta boa. – Pegou colher
com chocolate e lambeu, depois pegou um pouco e
passou nos lábios da loirinha. – Hum que delícia! – se
aproximou para beijá-la. – Fica mais gostosa.
- Assanhada! – Marina lhe deu um tapinha no braço.
- Sou assanha, mas você adora. – Lívia veio se
aproximando com a colher suja de chocolate. – Essa
calda quente vai ficar ótima em você, vem cá vem...
- Não amor, vou ficar grudando. – Marina foi se
afastando.
- Vai nada, eu vou tirar tudinho. – olhava com cobiça
para o corpo dela.
- Não se aproxime.

Lívia vinha andando com um sorriso sem-vergonha nos


lábios e a sobrancelha arqueada. Marina saiu correndo
pelo apartamento e Lívia foi atrás.
- Vem aqui gatinha, não pode ir muito longe.
- Fique longe de mim.
- Ah, não tenha medo, eu prometo ser boazinha.
Gatinha... vem cá... – Lívia a olhava com desejo.
- Não amor, eu só trouxe essa roupa.
- Depois você pega uma minha. – Lívia tentava
encurralá-la. – Você não tem saída.

Marina olhou para um lado e para outro e realmente


estava presa. A campainha tocou e ela aproveitou a
distração da namorada e saiu correndo em direção a
porta, mas Lívia a pegou primeiro e sujou seu rosto
com chocolate.

- Peguei!
- Ah... olha só o que você fez... – Marina fazia beicinho,
mas ria ao mesmo tempo.
- Ta linda.
- É né? – pegou o restante da colher e passou no rosto
da namorada, até o pescoço.
- Sabe que vai ter que tirar isso não é? – levantou a
sobrancelha.
- Sei, com o maior prazer. – sorriu.

Abriram a porta e deram de cara com Fabrício e


Eduardo.

- Que é isso? Teve guerra aqui? – Eduardo falou.


- Uma perseguição. – Marina sorriu. – Bom dia
meninos. Entrem.
- Se tiverem se pegando, a gente volta depois. –
Fabrício implicou como sempre.
- Deixa de ser bobo menino. A gente não se “pega” o
dia todo. – Lívia falou.
- Era só uma brincadeirinha. – Marina falou sorrindo.
- Estávamos tomando café, vamos pra cozinha.
As duas levaram os garotos para a cozinha e se
sentaram a mesa.

- Vão ficar sujas assim?


- Claro que não. – Marina respondeu a Fabrício. Depois
pegou um papel toalha e foi limpar a namorada.
- Não era bem assim que eu queria. – Lívia fez bico.
- Depois a gente conversa melhor sobre esse assunto.
– Marina sorriu carinhosamente recebendo em troca um
beijo
- Eu fico chocado com esse relacionamento. Eduardo
estou vendo mesmo o que estou vendo?
- Está. – Eduardo sorriu.

Marina limpava o rosto da namorada e recebia os beijos


mais doces.

- Isso é o que eu chamo de relacionamento meloso. –


Eduardo brincou.
- Literalmente. – Lívia achou graça. – Vamos tomar
café, a intenção era fazer waffles, mas não deu muito
certo.
- Só tia Marta que sabe. E os delas são de comer
rezando.
- É verdade. – Marina concordou.
- Você já comeu os waffles dela?
- Eu já.
- Ih, então vai dar casamento mesmo. Tia Marta nunca
fez waffles para nenhuma das namoradas de Lívia.

O comentário de Fabrício soou um tanto esquisito, ele


mesmo percebeu e tentou consertar.

- Digo... ela deve gostar muito de você pra ter feito


waffles.
- Quem não gosta de Marina? – Eduardo desconversou.
- Por isso eu tomo conta. – Lívia falou com um
semblante sério.
- Nem precisa, já estou satisfeita com o que tenho. –
Marina lhe sorriu.
- Então, passamos aqui pra saber se vocês não topam
pegar uma praia.
- Hum, o sol está convidando mesmo. – Lívia se
animou.
- Eu trouxe meu biquíni, deixei aqui da última vez que
vim. – Marina falou um tanto tímida.
- Oba, então dá pra ir. – Eduardo logo se levantou.
- Então vamos trocar de roupa, já voltamos. – Lívia
levantou e levou Marina com ela.

No quarto Marina pegava o biquíni, a parte de baixo era


preta e a de cima era estampada em tons de amarelo,
vermelho e verde. Lívia havia entrado no closet para
pegar o seu. Quando saiu já viu a namorada
devidamente vestida. Apenas ajeitando a camiseta.
Usava um short jeans também. Terminaram de se
arrumar e desceram.

Já na praia, andaram pela orla um tempo até que


pararam em um quiosque. Lívia pediu água de coco
para ela e Marina, Fabrício e Eduardo foram de cerveja.
Por conta do calor Marina tirou a blusa e ficou só com a
parte de cima do biquíni, Lívia olhou de soslaio
percebendo os olhares alheios em cima da namorada.

- Amor, tem que passar filtro solar. – falou como se


estivesse em casa, nem deu atenção aos que
prestavam atenção. Pegou na bolsa o protetor solar e
passou nas costas da loirinha e depois no rosto. –
Apesar de estarmos na sombra, esse mormaço também
queima.
- Deixa eu passar em você. – Marina pediu o frasco.

Lívia tirou toda a roupa e ficou só de biquíni e Marina


então pode passar o protetor no corpo todo dela.
Marina não percebeu, mas dois alunos da faculdade
passaram por perto e a viram fazer aquilo, olhavam
curiosos e deram uns sorrisinhos cínicos. Eduardo viu e
balançou a cabeça negativamente.

- Que foi? – Fabrício cochichou.


- Aqueles dois ali olhando para Marina. Uma duplinha
de músicos fofoqueiros que tem naquela faculdade.
- Eu acho que Marina deveria tomar mais cuidado, as
duas, aliás.
- Depois vou conversar com ela.

Marina terminou o que estava fazendo e Lívia continuou


deitada. Ficou conversando com os meninos, até que
ela e Eduardo resolveram dar um mergulho.

- Depois eu vou, quero ficar aqui no sol um pouco,


pegar uma corzinha porque estou desbotando.

Marina tirou o short e foi com Eduardo. Dentro da água


os dois brincaram com as ondas. A praia não estava de
tudo vazia, mas dava para nadar sem esbarrar em
ninguém. Em determinada hora Eduardo comentou com
ela sobre os garotos e a alertou.

- Tem que ficar de olho Marina, esse povo é maldoso e


pode fazer fofoca. Sei que ninguém tem nada com a
sua vida, mas falo por Monica, ela ainda não sabe de
nada. E se desconfia que fique assim por um tempo,
até ver qual a dela.
- Hugo comenta alguma coisa?
- Não, ele é um cara muito correto. Ele sabe do meu
relacionamento com Fabrício, mas nunca falou nada.
Nem contra, nem a favor. Fica na dele.
- Entendo, tomarei mais cuidado.
- Lívia, poderia ser mais discreta com Marina quando
estiverem na rua? – Fabrício também aproveitou pra
comentar.
- O que? – Lívia não entendeu.
- Eduardo viu dois caras da faculdade passarem aqui e
eles viram Marina passando protetor em você. Esse
povo é muito fofoqueiro, isso pode prejudicar a menina
depois na faculdade.
- Ninguém tem nada com a nossa vida.
- Eu sei, mas você ainda tem uma posição privilegiada
perto dela. Já está encaminhada na vida, ela está só
começando e isso pode atrapalhar.
- Tudo bem. – respondeu e se virou de costas.

Os dois saíram da água e voltaram para o quiosque.


Marina veio andando e torcendo o cabelo, depois o
balançou para tirar o excesso da água, não teve quem
não a olhasse. Apesar de ainda ser nova, seu corpo já
começava a chamar a atenção, pelas curvas que
surgiam.

- Nossa que gata! – Fabrício sorriu.

Lívia que estava de costas se virou para olhar quem era


e viu Marina chegando. Seu corpo parecia estar
dourado, por causa do reflexo de sol. Comeu a loirinha
com os olhos e só depois que ela chegou perto que teve
noção de que o biquíni que ela usava era bem sensual,
ou ficara sensual nela.

- Posso saber onde arranjou esse biquíni? – a olhou


com uma sobrancelha levantada.
- Ué, trouxe lá de casa, você não disse que era bom ter
um biquíni aqui?
- Sim, mas não um biquíni mínimo que nem esse.

Marina achou graça.

- Não é mínimo, é maior que o seu, que está cavado


demais.
- Ihh, estão tendo a primeira DR. – Eduardo brincou.
- Não é cavado nada, você já me viu com ele?
- Vi, mas não quer dizer que não o tenha achado
pequeno demais desde a primeira vez que o vi.
- Meu biquíni é cavado Fabrício? – Marina perguntou.
- Sei de nada, eu uso é sunga. – ele riu.
- Senta que você está chamando muito atenção desse
jeito. – Lívia falou sério para Marina.
- Como é que é?
- Você veio andando e todo mundo olhou.
- O que é bonito é pra se ver mesmo. – Fabrício falou.
- Não o que é meu. – a morena continuava séria.

Marina se sentou na beirada da mesma cadeira que


Lívia estava e segurou a mão dela.

- Meu anjo, mesmo que olhem, eu não dou confiança.


Esse é o único biquíni que eu tenho aqui no Rio e
mesmo que tivesse outros, você implicaria do mesmo
jeito. Eu também acho o seu meio curto, mas posso
falar com sinceridade?
Lívia a olhou como se esperasse pela resposta.
- Eu até gosto, assim posso ver as pessoas te
admirando, mas sabendo que você é minha. – Falou
baixo e delicadamente, como sempre fazia quando
conversava com Lívia.
- Tem como resistir? – Lívia olhou para os dois, que já
estavam rindo da cena. – Depois Fabrício diz para me
comportar perto de você.
- Pois é, isso é um assunto para resolvermos depois.
Quanto àquele pessoal da faculdade, devemos só
evitar, não custa nada.
- Não vai colocar sua roupa? – Lívia voltou ao assunto
do biquíni.
- Pra que?
- Ora, pra... pra... o sol está forte.
- Lívia, estamos na sombra e eu estou com calor. Aliás,
alguém quer água de coco, eu vou buscar.
- Chame o rapaz que ele traz aqui.
- Eu vou lá.
- Vou te ajudar. – Fabrício se levantou.

Marina foi andando com ele e até chegarem à barraca o


rapaz falou brincando.

- Lívia é jogo duro hein, não provoca o ciúme dela


senão terá problemas.
- Não tem motivos para ter ciúme. O meu biquíni está
curto mesmo? – falou meio insegura.
- Não menina, está normal, ela que está fazendo graça.

Quando voltaram a morena estava deitada de bruços e


de costas. Além do coco eles trouxeram água comum.

- Quer? – a loirinha perguntou a namorada.


- Agora não. – respondeu sem olhar para ela.

Marina olhou para Eduardo e Fabrício e fez uma cara de


sapeca, pegou a garrafa de água e derramou nas
costas de Lívia.

- Acho que precisa se refrescar.


- Ai Marina! – Lívia deu um pulo da cadeira.
- Molhar é bom, pra hidratar a pele.

Lívia emburrou e fechou a cara, sentou-se na cadeira e


pegou o coco ao seu lado. Marina a olhou sorrindo e ela
não devolveu o sorriso. Então a loirinha sentou-se ao
lado dela e acariciou seu braço.

- Mulher brava! Que eu amo. – falou só para ela ouvir.

Ainda ficaram um tempo ali. Mais tarde resolveram


almoçar num restaurante próximo e que permitia a
entrada de pessoas com roupa de banho. Marina vestiu
somente o short, ficando com a parte de cima do
biquíni, ainda contrariando a namorada. Depois do
almoço voltaram para casa. Fabrício e Eduardo se
despediram das duas e elas subiram para o
apartamento. Assim que entrou no prédio Marina quis
lavar o pé que estava sujo de areia. Quando entrou no
apartamento Lívia a agarrou de repente e arrancou a
parte de cima do biquíni.

- Vou dar um sumiço nesse biquíni indecente. – jogou a


peça longe e depois desabotoou o short da loirinha num
segundo, puxando a parte de baixo do biquíni junto. –
Quem tem que ver esse corpo sou eu e mais ninguém.
– ia beijando cada parte que via pela frente.

Marina não teve como argumentar. E Lívia não fez


rodeios.

- Abra as pernas para mim. – Falou incisivamente e


meteu a mão entre as pernas da loirinha e tocou seu
clitóris fazendo uma pressão, ao mesmo tempo em que
a outra mão apertava o bico do seio e ali mesmo na
entrada do apartamento fez amor com a namorada.
Quando sentiu que a loirinha amoleceu a beijou com
carinho. Marina havia ficado calada, como se não
tivesse gostado de tal situação, mas não reclamou.
Depois apenas pegou as roupas jogadas no chão e
subiu para o quarto. A promotora estranhou a reação
dela, mas nada falou. Deixou suas coisas na área de
serviço, pois tinham areia e também subiu, ao entrar
no quarto viu que Marina estava no banho. Tirou o
biquíni e entrou no box, Marina estava de costas e
fingia ou não tinha percebido a aproximação de Lívia.
Ela pôs as mãos em seu ombro e beijou o topo de sua
cabeça. Marina não se virou, então a morena deu a
volta e viu que ela estava chorando.
- Que foi amor? – perguntou preocupada.

Marina não conseguiu falar, cobriu o rosto com as mãos


e chorou mais ainda. Lívia a abraçou o mais forte que
pode.
- Fala meu anjo, o que aconteceu?
- Se acha que fico me exibindo para as pessoas ou que
quero chamar atenção, está enganada. – falou entre
soluços. – Eu não sou esse tipo de mulher que pensa. E
eu não sou um objeto do qual você pode pegar a hora
que quiser e do jeito que quiser. – saiu do box e pegou
a toalha.

Lívia ficou imóvel por um segundo, não sabia o que


fazer. Precisava tomar banho e precisava ir atrás de
Marina. Deixou a água cair por seu corpo só para tirar a
maresia e correu atrás da loirinha. Marina já ajeitava
suas coisas no quarto para ir embora.

- Espera! Marina, por favor, me espera.

Ela não deu ouvido e pegou sua mochila. Lívia,


enrolada na toalha, foi atrás e pararam na sala.

- Calma! Desculpa, por favor, me desculpe. Me perdoa,


meu amor, me perdoa. – Sua voz era preocupada. –
Não achei que fosse se ofender, eu estava com ciúme,
me precipitei, desculpa. Não fiz por mal e não quis te
tratar daquela forma, não pensei que te magoaria.

Marina forçava se soltar, mas não conseguia, pois Lívia


era mais forte.

- Me solta!
- Não!
- Você não pode me obrigar a ficar aqui.
- Não posso, mas, por favor, me escuta. – soltou-a. -
Você pode ir, mas me escuta primeiro.

Marina parou então e a escutou.


- Eu não quis te magoar, não achei que fosse se
ofender. Foi meu instinto que falou mais alto. Desculpa.
Achei que fosse gostar, eu errei. Não faço mais isso,
prometo. Não vai embora, ficamos juntas só no sábado
e domingo, não me prive mais da sua companhia.
Fique, por favor. – pedia com toda sinceridade.
Marina parou e olhou para o chão como se tivesse
vergonha de alguma coisa. Lívia aproveitou que ela
parecia se render e a abraçou.
- Me perdoa. Não vou fazer mais. Achei que... que ia
gostar. Não sei. – tentava se explicar.
- Não gosto de ser tomada a força... ninguém mais vai
fazer isso comigo. – Marina retomou o choro e
escondeu o rosto no peito da namorada.

Lívia não entendeu o que ela disse, somente a abraçou.


Depois pegou a mochila dela e colocou na cadeira,
depois sentou com Marina no sofá. Ela ainda chorava.
Ficou acariciando seus cabelos até que ela se
acalmasse. Quando ela parou e a olhou com aqueles
olhos verdes, mas vermelhos pelo choro, ficou
sensibilizada.

- Amor, que foi? Não estou desmerecendo sua reação,


mas me parece que tem mais coisa acontecendo. Quer
me contar?

Marina abaixou a cabeça.


- Não tenha vergonha de mim.

A loirinha tomou fôlego, passou as mãos no rosto para


limpar as lágrimas, depois olhou nos olhos de Lívia e
falou.
- Já fui violentada uma vez.

A morena arregalou os olhos e não soube articular uma


palavra.
- Vou te contar isso somente uma vez, porque é um
assunto que só minha mãe sabe.
Lívia a olhava demonstrando toda sua atenção.
- Quando eu tinha oito anos, tínhamos um vizinho que
era casado e não tinha filhos. Ele e sua mulher sempre
gostaram de criança, então eu ia muito lá. Um dia ele
estava sozinho em casa e me chamou pra sentar no
colo dele, eu fui. Daí ele começou a passar a mão em
mim e me lamber. Eu não entendia o que estava
acontecendo, mas sabia que aquilo não era certo, afinal
estávamos numa sala que ele tinha como uma oficina e
ela ficava bem escondida.
Lívia apertava a mandíbula num gesto tenso e cerrava
o punho. Marina continuou.
- Não sei dizer quanto tempo eu fiquei ali, mas ouvimos
um barulho no portão da casa e era a esposa dele
chegando, então ele me soltou e eu saí correndo. Ele
sabia que eu não contaria nada, por isso nem me
ameaçou. Nunca mais entrei na casa dele sozinha. Mas
pra minha desgraça meu pai o chamou pra ajudar com
alguns serviços no sítio e ele vivia rondando meu
quarto. Nessa época eu já era uma mocinha, devia
estar com uns doze anos. Um dia ele entrou no meu
quarto enquanto dormia, só não fez nada porque meu
irmão chegou na hora.
- Seu irmão percebeu?
- Não, esse vizinho é um senhor muito católico, muito
solícito ali na região e ninguém desconfia dele, pelo
contrário. Gostam muito dele e da esposa. Depois de
alguns meses meu pai o dispensou.
- Ele ainda é vivo?
- É, mas está entrevado numa cama, a esposa que
cuida dele. Diversas vezes meu pai já foi lá ajudá-la a
levantar ele da cama ou do chão, pois como é muito
grande e gordo, às vezes cai e a esposa não aguenta
levantá-lo. Como eu sumi da casa deles sempre me
cobravam uma visita, aí um dia contei pra minha mãe o
motivo deu nunca mais ter voltado lá. Ela chorou tanto,
disse que eu deveria ter contado na época, mas eu não
entendia direito o que era e sentia vergonha.
Quando Marina acabou de falar, Lívia estava respirando
pesado, parecia bufar de raiva. Seus olhos pareciam
escurecidos de ódio.

- Esse infeliz devia estar na cadeia.


- Existem muitos como ele e eu penso em quantas
crianças não o visitaram que ele não fez o mesmo que
fez comigo.
- Cretino desgraçado! – fechou o punho dando um soco
na poltrona.
- Jurei que nunca faria nada de que não tivesse
vontade. Principalmente sexo, ter alguém a força é um
ato de crueldade sem tamanho. – sua voz saiu chorosa.

Lívia a abraçou tão forte, como se quisesse mostrar que


tudo estava bem.
- Não fique assim meu amor, já passou e hoje ele está
tendo o que merece. Deus sabe o que faz. Isso me
revolta de uma forma como não sei explicar. Sabe
disso, pois coloquei na cadeia aquele imbecil do qual
falamos aquela vez. – Lívia pegou as duas mãos de
Marina e as beijou. – Sinto muito que tenha passado
por isso. Prometo, juro pela minha mãe que nunca vou
te forçar a nada. Nosso relacionamento será baseado
no consentimento mútuo. Está me entendendo? Não
quero que nada de mal lhe aconteça. – A beijou nos
lábios. – Eu te amo Marina. – Lívia voltou a abraçá-la
sentindo uma dor no coração. Estava com pena e ao
mesmo tempo com raiva da própria atitude. Ficou
sensibilizada com a situação de Marina e nunca poderia
ter imaginado que algo assim tivesse acontecido com
ela.

Mais a noite quando estavam assistindo TV, Eduardo


ligou as convidando para ir até a casa de Fabrício, as
duas aceitaram e foram até lá. O apartamento de
Fabrício era a prova viva de que homem solteiro
morando sozinho não dava certo.

- Se não fosse a faxineira isso aqui seria uma desordem


geral. – Lívia brincou.

Marina ficou impressionada com a quantidade de livros


e papéis que tinham espalhados pela casa.

- Como você consegue morar aqui? – Lívia continuou.


- Eu me entendo nessa papelada que, aliás, vem tudo
do seu escritório.
- Ele não me parecia desorganizado. – Marina falou
baixo para que o rapaz não escutasse.
- Mas ele é. – Lívia respondeu no mesmo tom e
achando graça da cara da namorada.
- Eu bem que tento arrumar, mas não tem jeito. Ele
bagunça tudo de novo. Ainda bem que nem trago
minhas partituras pra cá, senão perderia todas. –
Eduardo falou.
- Parem de reclamar, não é sujeira, são só folhas.
- Ahan. – os três responderam ao mesmo tempo, rindo
depois.

Fabrício os chamou para sentarem na varanda, não era


grande, mas o suficiente para acomodá-los. Tinha uma
mesa e três cadeiras, sendo que uma era grande. Então
Lívia se sentou e acomodou Marina em seu colo.

- Mas vocês não se desgrudam né? – brincou com as


duas.
- Ué, você não tem outra cadeira. Vou sentar aonde? –
Marina brincou.
- Eu pego uma lá na cozinha, fique com a minha.
- Não precisa, porque ela está muito bem aqui. – Lívia
o interrompeu.
- Aí, num disse? Não desgruda.
- Eu acho que ele tem inveja de vocês. – Eduardo
brincou.
- Também sinto isso. – Marina sorriu. – Há quanto
tempo estão juntos?
- Vamos fazer dois anos de namoro.
- Nossa, tem tempo.
- Eduardo é um santo. Aguentar Fabrício esse tempo
todo não é moleza. – a morena brincou.

Fabrício, que tinha ido a cozinha buscar bebida, voltou


com uma bandeja.

- Marina, como você não bebe, trouxe suco.


- Ah, obrigada.
- Você trás bebida e cadê as coisas que compramos no
mercado? – Eduardo perguntou.
- Não dá pra trazer tudo de uma vez. Você sentou aí e
não levantou ué.
- Ta, vou te ajudar. Era só pedir.

Os dois eram engraçados juntos, pareciam casados há


anos. Foram para cozinha reclamando.

- Apesar de brigarem assim, eles se amam. Nunca vi


tanta cumplicidade. Quando um precisa o outro vai
correndo.
- Eles têm diferenças, mas combinam e se completam.
– Marina sorriu.
- Eu completo você?

Marina pensou para responder.


- Você me sacia. – respondeu sério e olhando para
Lívia. – Você trás o que eu preciso, satisfaz minhas
necessidades e tira o melhor de mim. Isso deve se
completar. – sorriu.

Lívia beijou aqueles lábios que lhe sorriam.


- Se eu fosse um quebra-cabeça a se montar, você
seria a peça mais importante. Eu sempre achei que
tinha tudo que precisava, que dinheiro comprava o que
queria e que estava feliz. Só quando você apareceu em
minha vida que percebi o quanto me faltava e o quanto
estou melhor agora.

Beijaram-se de novo e trocaram carinhos.


- Muito romântica a frase do quebra-cabeça viu. –
Marina riu e beijou o nariz da namorada.
- Foi a forma que tive de me expressar melhor. – Lívia
fez uma careta.
- Linda.
- Te amo. – sussurrou em seu ouvido como se
estivesse contando um segredo.
- Eu também. – Marina fez o mesmo.
- Ô chamego! Ainda bem que não são diabéticas, de
tanta melação viu. – Eduardo veio trazendo as coisas
de comer.
- O tempo vai passar e isso vai acabar. – Fabrício
trouxe mais bebida num isopor. – Acabam os carinhos,
as palavras delicadas tipo, amor, meu bem, querida. De
repente começam os apelidos sem lógica tipo, Bê, que
é abreviação de bebê ou inha, abreviação de gatinha.
Ridículo – revirou os olhos fazendo as duas rirem. –
Quando passar de um ano acaba isso tudo e o sexo vira
rotina, passa a ser marcado. Duas vezes por semana,
três vezes por mês.
- É, aí a TV fica mais interessante e o namoro mais
calmo.
- Primeiro, nos tratamos por apelidos praticamente
quando estamos a sós. – Lívia quis retrucar.
- Mentira, que eu já vi você chamando Marina de amor,
de gatinha. – Fabrício revidou.
- Não terminei... Segundo, já assistimos TV juntas e
nada é monótono.
- Se já começou com a TV logo no início, imagina daqui
uns tempos, vocês...
- Terceiro, não fazemos sexo, fazemos amor.
- Touché! – Eduardo bateu a mão na de Lívia num
gesto de cumprimento.
- Me limito a ficar quieta, já tenho advogada para me
defender. – Marina beijou a morena.
- Eu brinco com vocês, mas no fundo eu sou da torcida
organizada para sair casamento. – Eduardo sorriu e
tomou um gole da cerveja. – Lívia sabe que torço pela
felicidade dela e vejo Marina uma candidata certa para
isso.
- Ainda bem. Não quero que ela abra concurso e vagas
para outras se candidatarem.

Todos riram da loirinha.


- E nem você. – Lívia brincou.
- Não! Eu estou satisfeitíssima com o meu quebra-
cabeça. – Marina pegou os dois braços da namorada e
envolveu sua própria cintura, se aconchegando.
- Que quebra-cabeça? – Eduardo ficou confuso.
- Nada, coisa nossa.
- Aí já têm até códigos de conversa. – Fabrício
implicou.
- Marina, não sei como consegue disfarçar esse
relacionamento de Monica. Ou ela é muito sonsa ou
você é excelente atriz.
- Eu acredito na primeira opção. – Fabrício riu.
- Monica já está desconfiada, mas não tem coragem de
me falar. Talvez ela não saiba qual será a própria
reação, então prefere fingir que não vê. Ela já até
incitou um relacionamento entre você e eu.
- Sério? – Eduardo acabou rindo.
- Verdade. Aquela vez que ensaiamos e eu fui para o
apartamento de Lívia, ela acha que fiquei no seu
apartamento e que rolou alguma coisa. Sinceramente
eu disse que não rolava nada, mas também não estou
forçando a barra. Se ela acha isso mais fácil assim.
Claro, se você não se importar.
- Por mim tudo bem.
- Eu até pensei que vocês dois poderiam simular um
relacionamento mesmo. – Lívia sugeriu. – Tudo bem
Fabrício?
- Tudo bem, se fosse outra pessoa eu não gostaria,
mas Marina é tranquila.
- A gente vai levando pra ver aonde vai dar isso. –
Marina falou. – Só que essa situação me incomoda, não
gosto de mentir para Monica, apesar de achar
necessário.
- Pode até ir levando, mas não por muito tempo,
porque Monica não é boba. Como vai fazer pra estudar
no piano novo? Vai dizer que Lívia comprou porque quis
ajudar? Outra vez? Não bastasse o teclado, agora um
piano. Sem chance de ela aceitar isso.
- É. Não tinha pensado em como falar isso pra ela.
Posso dizer que estou estudando com você. Ela não vai
me acompanhar mesmo.
- Por enquanto pode dar certo, mas...
- Mas quando não der mais a gente pensa em outra
coisa. Não vamos ficar imaginando antes de acontecer
não é? – Lívia interrompeu o assunto.
- No momento em que eu julgar certo, falo com ela.
Não vou mentir para minha melhor amiga.

A conversa durou até tarde da noite. Lívia e Marina se


despediram dos dois e voltaram para o apartamento.

Na segunda Marina ficou no apartamento na parte da


manhã para estudar.

- Se precisar de alguma coisa me liga ta? – Lívia beijou


os lábios da loirinha.
- Tudo bem. Bom trabalho. Te amo.
- Também te amo e bons estudos. Te ligo mais tarde.

Marina estudou a manhã toda e quando deu a hora foi


para a faculdade. Encontrou com Monica na cantina.
Estava animadíssima, contando detalhes da viagem.

- Má, a cidade é linda. Quero morar em Parati.


- Ah sim, largar os estudos e me deixar sozinha.
- Não boba, quando eu estiver bem velhinha,
- Ta certo.
- Hoje à noite você tem ensaio?
- Não.
- Preciso que me ajude nessas músicas aqui. – Monica
mostrou as partituras. – São para o exame final. Vou
comer essas músicas, nem peguei na flauta esse final
de semana.
- Eu tenho estudado viu. Eduardo arranjou um piano
pra mim, não venho mais na faculdade. Está muito
difícil marcar hora aqui, o pessoal só dá preferência aos
veteranos. – Marina aproveitou para colocar o assunto
do piano no meio da conversa.
- Hum, arranjou um piano. Prestativo, não?
- Ele tem me ajudado. – sorriu.
- Sei. – falou com ar debochado.
- Deixa de ser besta, vamos pra aula, você precisa é
estudar menina.

Estudaram até tarde da noite. Os vizinhos não


reclamavam do barulho, pelo contrário, até gostavam.

Na aula de Marina, Marconi pediu que ela tocasse com


outro aluno, assim como estava fazendo com Monica.
Ela aceitou, mas com isso teve mais trabalho, pois
seriam mais duas músicas para estudar. Combinou com
o rapaz de estudar na parte da tarde, após sua aula de
piano. No meio do ensaio ele soltou uma piadinha que a
desagradou.

- É... Marina, está requisitada na faculdade. Ta famosa


logo no primeiro período. Vem até de carrão.
- Que nada, eu ralo como todo mundo. – se limitou a
responder o óbvio.

O rapaz viu que não tinha chance de esticar a conversa,


então retornou ao ensaio.

Quando chegou em casa, Marina quis tocar no assunto


com Monica.

- Esse povo da faculdade é fofoqueiro mesmo. Nunca


vi.
- Está falando de que?
- Estava ensaiando com um menino, aquele da flauta. E
ele veio fazendo piadinha, dizendo que só chego na
faculdade de carrão. Isso aconteceu umas poucas
vezes.
- Eu já ouvi isso também.
- Já?!
- Semana passada. Não te falei nada, porque sabia que
ia se chatear. O povo ta falando que você é sapatão. –
Monica falou tranquilamente.
- O que? – Marina estava vermelha de vergonha. –
Mas...
- As pessoas são cruéis Marina.
- Engraçado, eu ando sempre com você e Eduardo.
- Deve ser por isso, sabem que Eduardo é gay. Acham
que você é também.

Marina ficou desconsertada. Monica continuou.

- Eu não sei qual é a de Eduardo, às vezes acho que ele


gosta de você. E acho que aquela prima de Fabrício
gosta de você também. Ela te olha como se fosse te
comer. Eu não entendo é o Fabrício nisso tudo.

Marina lembrou-se da conversa no dia anterior e


resolveu jogar com o que podia, mas Monica perguntou
antes.

- Você sente alguma coisa por Eduardo?


- Eu gosto dele, não sei dizer...
- Hum... Sabia que tinha coisa aí, acho que ele também
gosta de você. Agora tome cuidado com aquela mulher,
ela tem cara de encrenca.

Marina não gostou do que Monica falou de Lívia, teve


vontade de defendê-la, mas sabia que não podia. Se
Monica soubesse o que Lívia já tinha feito por ela,
pensaria diferente, com certeza.

No dia seguinte ela contou à namorada sobre a


conversa e omitiu o comentário da amiga. Lívia disse
que o certo por hora era disfarçar mesmo.

- Hoje não tenho aula a tarde, vou estudar lá no


apartamento. Posso?
- E precisa pedir? Claro que pode.
- Estou com a chave que você me deu, vou direto e te
espero lá.
- Ta bom.

Quando Lívia saiu do elevador, chegando ao


apartamento, já ouvia Marina estudando. Parou um
tempo e ficou ouvindo. Sorriu sem perceber. Abriu a
porta devagar para Marina não perceber, mas seu
celular tocou e acabou lhe entregando. A loirinha se
virou e ia se levantando quando ela fez sinal para que
continuasse.
- Não pare vou atender na cozinha.

Marina continuou e poucos minutos depois Lívia voltou,


beijou o topo de sua cabeça e parou ao lado do piano.
Marina somente terminou o exercício que executava e
parou.

- Está tocando há muito tempo?


- Entre uma parada e outra acho que tem umas quatro
horas, mas eu paro de uma em uma hora. – disse
esticando as costas e em seguida levantando para
abraçá-la.
- Saudade de você! – falou com certa manha e beijando
seus lábios calorosamente.
- Hum, que beijo bom. Gostei dessa saudade aí.
- Acho que estou carente. – abraçou a namorada pela
cintura, encostando a cabeça em seu peito.
- É por causa do que conversamos hoje? – Lívia passou
os braços pela cintura dela.
- Sim. Por que as pessoas tomam tanta conta da vida
dos outros?
- Porque não têm nada mais útil para fazer. Não ligue
meu anjo, isso vai acabar passando. Eduardo já passou
por isso e hoje ele nem liga.
- Como posso inventar um namoro com ele, se todo
mundo diz que ele é gay?
- Nossa questão não é o pessoal da faculdade, é
Monica. E isso vai durar pouco.

Marina estava confusa, mas pensava que o certo


mesmo era fazer o que tinham combinado.

- Falei sobre um piano pra Monica, mas minha vontade


era contar que você tinha me dado o presente mais
lindo que já ganhei.
- Disse exatamente o que?
- Que Eduardo tinha conseguido um piano pra que eu
estudasse.
- Ótimo, ela deve ter achado estranho.
- Claro. Mas não tem problema, isso vai protelar as
coisas.

As duas foram para a cozinha lanchar e para surpresa


de Lívia, Marina quis dormir lá mesmo. Achou uma
excelente ideia.

As semanas iam passando e cada vez que se


aproximava das provas finais, mais corrido ficava.
Marina se alternava entre estudar, ensaio da banda e
com Monica e o outro aluno. A amiga tocou para um
harpista e também ficou bem atarefada. Eduardo fez
dupla com Marina em música de câmara e estavam se
dando bem.

- A gente entrosa fácil hein Dudu.


- É, coisa de músico bom. – ele brincou.

Os dois ensaiavam em uma sala na escola e sempre


passava alguém para ouvir. Monica se animou ao ver os
dois tocando juntos.

Lívia ficou enrolada com um processo que demorou


mais do que esperava, com isso Fabrício também se
complicou, mas no final tudo foi resolvido. Faltavam
duas semanas para os exames finais e Marina estava
uma pilha de nervos por conta de tantos compromissos.
Eduardo tinha fechado quatro shows, além dos que
faziam no bar e isso acabou de completar a agenda. No
final do quarto show, os músicos desceram do palco e
sentaram-se à mesa onde estava o pessoal.

- Esse bar é bem legal hein, mais chique que o outro. –


Monica observou.
- Sim, pagam mais também. – Eduardo falou enquanto
guardava o violão.
- Amiga, temos visitas hoje. – Monica se referia a
Hugo.
- Hugo não é visita Monica, ele praticamente mora com
a gente.

O namoro dos dois ia a mil maravilhas.

- Você está cansada. Nota-se isso a distância. – Monica


continuou.
- Preciso de férias urgentes. Não durmo direito, acordo
de madrugada, não consigo mais dormir uma noite
toda.

Monica sabia que as idas de Hugo atrapalhavam, o


barulho da rua também e que Marina nunca reclamava,
mas pra ela chegar a comentar é porque realmente
estava cansada. Fabrício ouvia a conversa e deu a
deixa.

- Marina, se quiser pode ficar lá em casa.


- Ou lá em casa. – Eduardo falou.
- Viu, tenho muitas opções. – Marina brincou com a
amiga.
- No meu apartamento tem espaço também, pode ficar
num quarto sozinha. – Lívia se meteu na conversa. –
Moro no alto o único barulho que se escuta é do vento.
- Aí Marina, no apartamento de Lívia você vai dormir
bem. – Ele sorriu com malícia, levando um beliscão da
prima.
- Vou ver, acho que vou aceitar mesmo, assim Monica
fica numa boa com o namorado e eu descanso. Senão
não chego viva para as provas.

Monica adorou a ideia, mais porque ficaria à vontade


com Hugo.

No dia seguinte Marina pegou suas roupas e foi embora


com Eduardo depois que saiu da faculdade, mas ele a
deixou no apartamento de Lívia, que já a esperava na
entrada.
- Oi gatinha. – beijou-lhe os lábios.

Marina estava visivelmente cansada e apesar de não


parecer Lívia também estava.
- Pedi uma lanchinho pra gente, não sei se está com
fome.
- Acho que estou com fome sim.
- Acha? – Lívia achou graça.
- É, lembro que lanchei à tarde, mas acho que não comi
nada depois. O dia hoje foi danado.
- Nem me fale.

As duas foram para a cozinha.


- Meu dia foi tão tumultuado também. Semana que
vem preciso ir a Curitiba. Tem uma audiência lá. Vou
carregar Fabrício comigo.
- Nossa, é muito complicado?
- Mais ou menos, mas está tudo esquematizado. Faz
uns dois meses que trabalho nesse caso.
- Eu reclamando e você cheia de trabalho também.
Desculpe.
- Não tem problema, meu trabalho é meio chato
mesmo. Fica difícil partilhar dos detalhes.
- Eu não acho chato, pelo contrário, acho emocionante.
Queria muito te ver num tribunal.
- Sério?
- Verdade, já te falei isso.
- Então uma hora eu levo você. Devo ir a Curitiba
outras vezes, aí levo você comigo.

Marina sorriu franzindo o nariz, deixando Lívia


encantada.
- Podemos tomar um banho? Estou com cheiro de
fumaça de cigarro de gente fumando no ônibus. – a
loirinha fez uma careta.

Lívia se aproximou dela e cheirou seu pescoço.


- Ta nada, seu cheirinho é muito bom.
- Sem contar que estou com o nariz entupido, não
entendi porque tinha máquina de fumaça naquele bar
ontem. Acho que essas coisas se usam em shows e eu
tenho alergia. Só não comecei a espirrar porque o lugar
era grande.
- Então vamos para o banho. Tem uma banheira nos
esperando.
- Adivinhou meus pensamentos.
Lívia a pegou no colo.
- Eu gosto quando me pega assim. – Marina sorriu.
- E gosta mais do que?
- Gosto quando me abraça, quando me beija, entre
outras coisas.

Foram para o quarto e entraram no banheiro. Lívia


tirou a roupa de Marina e a loirinha fez o mesmo com
ela.
- Vem aqui. – dessa vez Marina entrou primeiro na
banheira e sentou, puxando Lívia para ficar em seu
colo. – Sou pequena, mas eu dou conta. – brincou.
- Ah dá, se dá. – Lívia repousou a cabeça no peito da
loirinha e fechou os olhos.

Marina jogava a água morna em seus braços, passava


a mão molhada no rosto e acariciava ao mesmo tempo.
- Cuidar bem dessa morena aqui, senão ela me troca.
- Nem em sonho. – Lívia respondeu com os olhos
fechados.

Marina a beijou no rosto e mordeu sua bochecha. Lívia


levou a mão por trás da nuca dela e a puxou para
beijar sua boca. Aproveitando a posição, Marina
acariciou um seio e desceu percorrendo um caminho
passando pela barriga, ventre até chegar entre as
pernas dela. A morena se abriu mais e deixou a loirinha
fazer o que queria. Marina enfiou dois dedos em sua
vagina e com o polegar massageou o clitóris. Lívia
arqueava o corpo e mordia o lábio inferior da loirinha.
Quando gozou e gemeu abafado enrijecendo o corpo. A
loirinha puxou seu corpo para mais perto e abraçou
com carinho.

- Gostosa. – falou em seu ouvido.


- Não levanto mais dessa banheira. Acho que perdi o
jogo das pernas.
- Eu te ajudo, não posso te carregar, mas te ajudo.
Quando saíram da banheira, caíram direto na cama.
Nem se vestiram, se enfiaram completamente nuas
embaixo do edredom e dormiram abraçadas.

O sol já estava alto quando o telefone tocou. Lívia nem


se mexeu da cama, foi Marina que ouviu e foi atender.
- Alô. – tinha voz de sono.
- É por isso que minha filha me largou, esqueceu que
tem mãe e só tem olhos pra bonitinha aí.
- Marta, bom dia!
- Boa tarde, porque já passa de meio-dia.
- Minha nossa! Perdemos a hora.
- Foram dormir tarde não é?
- Nem tanto, estamos é cansadas mesmo.

Marina contou as novidades, falou da faculdade e que


Lívia estava trabalhando muito. Marta sabia por alto
dos acontecimentos, pois a filha ligara para ela.

- Pode deixar que vou cobrar da sua filha uma visita,


mas não brigue com ela, pois tem trabalhado muito,
tadinha. – Marina olhava com carinho para a namorada
que ainda dormia.
- Tudo bem, te espero aqui qualquer dia desses.
- Eu vou sim.

Despediram-se, Marina colocou o telefone no gancho e


deitou por cima das costas de Lívia, beijou sua nuca e
aspirou seu perfume. “Cheirosa!” Ela acabou acordando
e se remexendo, virando para ficar de frente e
colocando Marina sentada em seu ventre.

- Bom dia, dorminhoca.


- Eu? Acordei primeiro que você. Já até falei com sua
mãe.
- É? Quando?
- Agorinha. Ela ligou e disse que você anda ausente.
- É, não fui mais lá, muito trabalho, mas sempre ligo.
- Disse a ela que vamos aparecer. – beijou sua boca.
- Você é a queridinha da minha mãe, não sei como
conseguiu isso.
- Meus encantos! – Marina sorriu brincando.
- Eu sei, adoro todos eles. – Lívia subiu as mãos que
estavam nas pernas de Marina para sua cintura, alisou
sua barriga e depois subiu para os seios, espalmando a
mão de leve. A loirinha fechou os olhos àquela
sensação e sorriu. Lívia aproveitou a posição e enfiou
um dedo em sua vagina, depois escorregou para o
clitóris e sentiu escorrer a excitação da namorada por
eles. Marina mordia o lábio inferior numa expressão
sexy que Lívia nunca tinha visto, estava linda. Aliás,
estava mudando, seu corpo parecia tomar forma e aos
poucos ia se transformando em uma mulher. Apertava
o bico de um seio e com leves estocadas fazia a loirinha
cavalgar em seus dedos.
- Isso... assim... goza pra mim... – Lívia tinha a voz
rouca de desejo.

Marina aumentou o rebolado, inclinou o corpo para


frente e apoiou os braços na lateral para acelerar os
movimentos, depois jogou o corpo para trás como se
quisesse que Lívia enfiasse mais os dedos. Gozou
gemendo alto e agudo. Sentiu que a namorada retirou
os dedos de dentro dela e a puxou carinhosamente.
- Te amo. – beijou seus lábios.
- Também... te amo...

Dormiram novamente.

Acordaram depois das duas da tarde, tomaram um


banho e decidiram que iriam pra Mauá.

- Amor, não trouxe roupa pra ir pra lá.


- Então não vamos dormir, voltamos à noite. Vamos só
para ver minha mãe.
Chegando lá fizeram surpresa para Marta, que ficou
feliz com a presença das duas. À noite, já perto de ir
embora Marta conseguiu convencer as duas a ficarem.

- Marta, não trouxemos roupas.


- Lívia tem roupa aqui e você usa alguma minha.

Marina não teve como negar. Dormiram e foram


embora só no domingo à tarde.

- Eu nem estudei esse final de semana.


- Encare como um descanso amor, você tem ficado
muito tempo sentada naquele piano.
- As provas estão chegando.
- E você vai se sair muito bem como sempre. – Lívia
alisava suas pernas enquanto dirigia.
- Deus te ouça.

Quando chegaram ao Rio, Marina aproveitou para


estudar enquanto Lívia lia o processo que iria
representar em Curitiba. Quando Marina se sentiu
cansada foi até o escritório que a namorada tinha em
casa. Ela estava concentrada lendo alguns papéis,
usava um óculos de grau. Chegou por trás dela e
repousou o queixo em sua cabeça.

- Que moça concentrada.


- Oi amor, nem te vi chegando. – Lívia se virou e tirou
os óculos.
- Fica linda de óculos. – Marina sentou em seu colo.
- Pareço mais velha.
- Imagina, fica sexy. – mexeu na franja dela, tirando-a
de seu rosto.
- Cansada?
- Não, só as costas que doem às vezes, mas logo
passa. Esse final de semana foi uma benção, estava
muito cansada. Monica é minha melhor amiga, mas
quando Hugo está lá em casa os dois não sossegam. E
não estou falando só de sexo, é conversa mesmo, eles
ficam de papo até tarde e não sei se você já percebeu,
mas ele fala alto.

Lívia achou graça.

- Você ri né? – deu um tapa no braço da morena.


- Hum... porque não fica aqui até terminar as provas?
Sinceramente, acho que Monica vai gostar, vai dar mais
liberdade a ela.
- Não sei, a ideia é ótima, mas...
- Mas?
- Se bem que eu descansaria bastante. – falou
pensativa.
- Só pra descansar é? – Lívia fingiu desapontamento.
- Não, sua boba. Ficaria mais perto... – Pausou e olhou
com uma cara sapeca. - ...do meu piano.

Lívia levantou uma sobrancelha num gesto contrariado.

- Eu sabia que um dia seria trocada por esse piano. –


olhou para o lado.
- Não troco você nem por um piano feito pelas mãos de
Bach.
- Duvido. – ainda olhava para o lado despistando.

Marina pegou seu rosto e virou para se olharem.

- Eu te amo Lívia, assim como amo a música. São as


duas coisas que fazem parte da minha alma. Não
consigo ficar sem. – sorriu e beijou a ponta de seu
nariz.

Lívia pousou as mãos em suas pernas e subiu para sua


cintura. Marina usava um short de malha bem
larguinho, a morena rodeou os dedos pelo elástico do
short e a olhou com um sorriso safado nos lábios.
- Vou voltar a estudar. – Marina tirou as mãos dela. – E
você continue lendo.
- Ah claro, porque ler milhares de papéis era o que eu
queria mesmo... – Lívia revirou os olhos.

Segunda cedo Marina foi ao apartamento e encontrou


com Monica já saindo.
- E aí mulher? Ta com uma cara ótima. Descansou?

Marina odiava esse comentário dela, soava falso.


- Bastante. Sinto-me renovada. – sorriu. - Já você está
com olheiras, que houve?
- Muito exercício. – riu.
- Aff, ainda bem que não fiquei aqui.
- É eu queria te pedir um favor... – Monica falou sem
graça. – Hugo pediu para ficar aqui alguns dias, porque
vão trocar a caixa d’água do prédio onde ele mora.
Será um transtorno, vai faltar água, então eu falei
que...
- Que ele podia ficar. – Marina sorriu, mais por saber
que não iria precisar arranjar uma desculpa para ficar
fora.
- É...
- Tudo bem Monica. Não precisa ficar acanhada,
façamos o seguinte, vou ficar na casa do Eduardo
então. Só não quero que diga a minha mãe que estou
lá. Ela não vai te ligar, mas quando estivermos em Jaú,
não fale com ela.
- Eu sei, minha mãe também não sabe que Hugo dorme
aqui. Agora me conta, rolou algo?
- Que? Que rolou menina. Rolou foi muito estudo.
Minhas costas estão podres. Estou doida pra passar
essa etapa das provas. Seu trabalho de Música
Brasileira está pronto?
- Está e o seu?
- Terminei também, imprimi na casa da prima do
Fabrício. – jogou com a conversa. – Ela me emprestou
o notebook dela e aí adiantei bem alguns trabalhos.
- Prestativa ela. – Monica debochou.
- Monica, não fale das pessoas sem conhecê-las. Lívia é
uma pessoa legal, não vi nada de errado nela.
- Pedro disse que ela não é flor que se cheire.
- Ela te fez alguma coisa?
- Não. Claro que não.
- Então não tem motivo para falar qualquer coisa dela.

O assunto encerrou ali.

Marina arrumou suas coisas, dessa vez uma mala


maior. E foi para a faculdade carregando tudo com a
ajuda de Monica. Quando acabou de subir as escadas,
Marconi as viu e brincou.

- Eu sabia que iam acabar se mudando pra cá.


- Bobo, eu que estou de mudança. – Marina sorriu.
- Ué, vai desistir das provas?
- Nem que eu morra, levanto do caixão e venho fazer
essas benditas provas. Mas preciso me concentrar e
consegui um piano para tocar com mais frequência, vou
pra casa de um amigo.

Assim que entrou na sala Marconi chamou Marina para


conversar.

- Marina, sei que cada aluno aqui tem seu professor e


que não devo me meter em assunto que não é meu.
Mas o professor de Monica disse que ela anda muito
desleixada nos estudos. Chega atrasada na aula e quer
sair mais cedo. Só chega na hora quando vem junto
com você.

Marina sabia que era por conta do namoro.

- Vou conversar com ela.


- Ela vai passar, pois é muito inteligente e tem muita
facilidade, mas se continuar assim não vai concluir o
curso em tempo normal, as coisas vão só dificultando,
você sabe. E aluno que tem boas notas, é mais
requisitado, você sabe.
- Deixa comigo, eu falo com ela durante as férias.

Depois da aula Marina ia saindo carregando a mala


quando o carro de Lívia parou em frente à faculdade.
Ela intuitivamente olhou para um lado e para outro,
para ver se não tinha ninguém olhando, felizmente
tinha poucos alunos na faculdade àquela hora. Lívia
abriu o porta-malas e ajudou a loirinha a colocar sua
bagagem lá, depois entraram no carro.

- Hei lindinha! Como foi a aula? – beijaram-se.


- Foi ótima. Marconi praticamente já me passou, mas
preciso fazer a apresentação.
- Viu como eu estava certa. Você passa tranquilo. –
arrancou com o carro.
- Não passei ainda né, mas só dele falar que está tudo
certo já me dá mais segurança.
- Falou com Monica?
- Nem te conto, Hugo vai passar uns dias lá. – Marina
contou da conversa e Lívia achou uma excelente
coincidência.
- Esses dois, não sei, viu? To achando que vou sobrar a
qualquer momento.
- Sobra nada, eu não deixo. Pego você pra mim. – Lívia
beijou-lhe os lábios rapidamente.
- Presta atenção no trânsito!
- Ta bom. – sorriu como uma criança.

No meio da semana Lívia viajou e deixou mil


recomendações com Marina. Abasteceu o apartamento
e disse que se precisasse poderia ligar qualquer hora.
Deixou o cartão do banco com ela e a senha.
Surpreendeu-se com tal atitude, nunca na vida tinha
feito isso com ninguém.

- Não queria te deixar sozinha.


- Que é isso amor, são só três dias.
- Comporte-se viu.
- Você também e boa sorte.

Despediram-se com um beijo apaixonado.

Chegando em Curitiba Lívia se instalou no hotel e


Fabrício e o estagiário num quarto sozinhos. Na hora do
almoço qual não foi sua surpresa, deu de cara com
Camila, que veio em sua direção assim que a viu.

- Que surpresa boa. Passeando?


- Não, estou a trabalho. – disse se sentando.
- Ah, mas após todo trabalho, vem o descanso.
- Sim, mas eu vou descansar na minha casa.

Lívia se levantou, arrastando com ela os dois rapazes.

- Eu não tinha terminado de comer! – Fabrício


reclamou.
- Come depois. Vou para meu quarto, não quero ser
incomodada até a hora de irmos.

O julgamento começaria às três da tarde e Lívia se


trancou para se concentrar. Faltando pouco mais de
meia hora, alguém bateu na porta e ela atendeu
pensando ser Fabrício.

- Te achei! O que não faz esse pessoal de hotel por uns


míseros trocados.
- Mas?! O que quer aqui Camila?
- Sabe bem o que eu quero. – Camila empurrou Lívia
para dentro do quarto sem que ela esperasse e a
beijou. Por uns instantes a morena pareceu confusa,
mas a empurrou com força.
- Sai daqui Camila. Esquece que eu existo!
- Lívia, pra que tanta repulsa? Nos dávamos tão bem.
- Falou no tempo certo, dávamos. Não estou mais
disponível.
- Não vou desistir tão fácil, não acredito que tenha se
esquecido das nossas aventuras sexuais. – beijou-a
rapidamente sem que Lívia esperasse, mas foi
empurrada logo em seguida.

Camila saiu do quarto sorrindo maliciosamente e quase


trombou com Fabrício entrando. Ele viu a cara de Lívia
e a de Camila e balançou a cabeça negativamente.

- Eita que aconteceu alguma coisa.


- Nada do que você está pensando.
- Todo mundo diz isso.
- Cala a boca Fabrício, não sabe o que está dizendo.
Não aconteceu nada, essa daí que não se enxerga.
- Lívia, Lívia... – Fabrício balançava a cabeça.

No Rio, Marina estudava com Eduardo, Monica e


Frederico ao mesmo tempo, o rapaz da flauta.
Marcaram um ensaio geral na faculdade para facilitar.
Quando Frederico foi embora ela passou com a amiga
que logo terminou também para ir se encontrar com o
namorado. Marina a olhava saindo e estava
preocupada.

- Monica, estuda em casa. Não desconcentra, senão


pode prejudicar sua nota.
- Pode deixar, está tudo sob controle.
- Ela está errando um pedaço da música, não acerta o
tempo de jeito nenhum. – Eduardo falou.
- Já conversamos, repassamos, mas ela não está
concentrada.
- Namoro atrapalha às vezes.
- Pois é. Monica sempre foi assim, sua sorte é a
facilidade que tem para aprender as coisas, no lugar
dela eu estaria muito pior, preciso de mais
concentração para estudar.
- Eu também e nesse ponto Fabrício me ajuda muito.
- Eu gosto de ver o relacionamento de vocês, são
diferentes, mas se dão bem. Gosto dele, é um cara
muito legal. Pega no meu pé e de Lívia, mas acho
engraçado.
- Fabrício se preocupa com você demais, no início ele
advertia e praticamente ameaçava Lívia se fizesse algo
com você.
- Fico muito feliz que tenha encontrado bons amigos
aqui. É minha família de coração.

Por conta das provas, Eduardo negociou com o dono do


bar que eles tocavam toda sexta, para passar a data
daquela semana para a outra. Pois as provas
terminariam na quinta e na sexta eles estariam livres.

Aqueles três dias foram de muito trabalho. Lívia teve


problemas com a defensoria e precisou de recesso
várias vezes, mas no fim conseguiu que o réu tivesse
pelo menos quinze anos de prisão. Camila bem que
tentou falar com Lívia, mas ela havia trocado de quarto
e informado que se a incomodassem que ela
processaria o hotel. Quando tudo terminou ela não
esperou um minuto na cidade, logo voltou para o Rio.
Mandou uma mensagem para Marina dizendo mais ou
menos o horário que iria chegar. Dentro do avião, já
com as coisas mais calmas Fabrício resolveu tocar no
assunto.

- O que aquela mulher queria com você?

Lívia respirou fundo e falou pausadamente.

- Camila e eu tivemos um affaire, pouco antes deu


conhecer Bianca. Nesse tempo ela quem quis terminar,
confesso que fiquei mal por alguns meses, mas depois
conheci Bianca e tudo voltou como era antes. Não sei
se ela se arrependeu, mas agora quer um “revival”. E
isso não interessa, o importante é que EU não quero
mais nada com ela.
- Vocês se beijaram?
- Ela me beijou, mas eu a empurrei. – falou amarrando
o cenho, mas depois olhou para o primo. – Fabrício,
não conte a Marina que Camila estava lá. Nem sei o
que fazia em Curitiba, essa foi a pior coincidência que
já tive na vida.
- Não vou falar nada, prometo. Só quero que seja
honesta com a menina caso aconteça alguma coisa.
- Marina se tornou muito importante, você não tem
ideia. Não vou magoá-la.

Os dois se calaram.

A loirinha correu e comprou algumas coisas para fazer


um jantar, pois chegariam entre sete e oito horas da
noite. Tomou um banho e arrumou o quarto. Desceu
pra cozinha e começou a preparar o jantar, quis um
prato rápido e prático. Então fez estrogonofe e de
sobremesa um bolo gelado. Quando Lívia chegou o
apartamento estava todo escuro. Ela abriu a porta e
chamou por Marina, que não respondeu. Andou até
chegar à mesa da sala e deixou sua pasta e o casaco
lá. Sentiu uns braços lhe envolverem por trás e um
beijo em seu ombro direito.
- Senti saudade, muita. – a voz de Marina era doce.

Lívia se virou e a abraçou pela cintura, fazendo a


loirinha subir para seu colo, enlaçando sua cintura com
as pernas.
- Não sei mais viver sem você.

A levou para o quarto e nem quis saber de jantar,


fizeram amor como se não se vissem há anos. Exaustas
e suadas, estavam deitadas, Lívia de barriga para cima
e Marina de lado, agarrada em seu corpo com a cabeça
em seu peito.

- Pensei em você todos os dias. – Lívia confessou. –


Estava doida para vir embora. Quando o julgamento
acabou minhas malas já estavam no fórum. Fabrício
ficou possesso, queria sair à noite e voltar só amanhã
de manhã.
- E Eduardo esperando por ele, olha que sem-vergonha.
- Eles estão fazendo aniversário de namoro, acho que
ele queria comprar um presente.
- Ô amor, e você não esperou o coitado?
- Não, comprasse antes, ele teve tempo. Eu queria vir
embora ver minha namorada. – sorriu. – Tudo bem por
aqui?
- Sim, ensaiei com o pessoal, Eduardo desmarcou o
show de hoje, passou para sexta e sábado que vem.
- Que dia é a apresentação?
- Quinta-feira a minha, a dos formandos é no sábado.
Não vou poder ir, por conta do show.
- É verdade.
- Meu professor me chamou hoje para conversar sobre
Monica. O professor dela tem se queixado da falta de
compromisso dela nas últimas semanas. É o namoro,
ela está deixando as outras coisas de lado.
- Isso não é bom.
- Nem um pouco e essa semana que vai ficar sozinha
com ele nem quero saber se está estudando ou não.
Senão fico mais preocupada.
- Ela já é grandinha meu amor, sabe o que é certo ou
errado. Com certeza vai estudar
- Assim espero.
- Estou com fome, quer comer alguma coisa?
- Na verdade eu fiz um jantar, mas ele foi deixado de
lado. Está pronto, agora preciso esquentar de novo.
- Ah, não sabia que tinha jantar. – Lívia se virou para
ela.
- Fui no mercado e comprei umas coisinhas, os
mercados daqui de perto são muito frescos.
- Por quê?
- Eles vendem tudo embaladinho, certinho, comida pra
solteiros e solteiras. Tem pra todo tipo de pessoa,
claro, todo mundo rico, porque os preços são
absurdamente caros. Mas venha, também estou com
fome, não comi esperando você chegar.
- Eu cheguei logo te agarrando, toda assanhada. – Lívia
pareceu estar sem jeito.
- Adorei! – Marina sorriu. – Vem assanhada! – brincou.

Na sala de jantar a mesa estava pronta e com velas a


postos, só faltavam acender. Enquanto Marina foi até a
cozinha, Lívia reparou no que ela havia preparado.
Sorriu contente. Marina se esforçava em agradá-la e
sempre trazia surpresas boas. Pensou nela comprando
em um mercado na barra. Deve ter se assustado,
realmente tinha mais pompa que qualquer outra coisa.
Quando ela veio trazendo a travessa, as velas já
estavam acesas.

- Nem sei se você gosta, eu fiz estrogonofe.


- Hum. O cheirinho ta bom.

Marina colocou a travessa sobre a mesa e voltou para a


cozinha. Veio trazendo o restante das coisas.
- Espero que goste, nem provei.
- Eu gosto é dessa cozinheira. – Lívia abraçou Marina
por trás e mordeu sua orelha. – Pianista e cozinheira de
mão cheia.
- Boba! Eu sou aprendiz de cozinheira.
- Ah, mas eu gosto de tudo. Inclusive da cozinheira. –
dessa vez mordeu o pescoço, causando arrepio na
outra.
- Deixa de ser assanhada e vamos jantar.

Sentaram-se para comer e depois do jantar arrumaram


a cozinha. Dormiram logo em seguida.

Na manhã seguinte Marina acordou cedo e deixou Lívia


dormindo. Fechou a porta do quarto e desceu. Ligou
para a mãe, deu as notícias da semana e depois se
sentou ao piano. Resolveu estudar utilizando o
abafador, para não acordar a namorada. Distraiu-se
tanto que nem a viu passando por trás. Lívia alisou
seus cabelos e beijou o topo de sua cabeça.

- Bom dia!
- Bom dia. – Marina sorriu.
- Que som esquisito é esse, deu problema no piano? –
Lívia pareceu preocupada.
- Não amor, eu que estou usando o abafador. – Marina
pegou sua mão e beijou.
- Ué, por quê? – Lívia se sentou ao lado dela no banco
do piano, porém na posição inversa.
- Não quis te acordar. Eu levantei cedo e vim pra cá,
você estava tão tranquila dormindo.
- Dormi que nem uma pedra essa noite. Essa viagem
me desgastou bem.
- Tadinha. Da próxima vez eu me escondo na mala e te
faço uma surpresa lá. Aí cuido de você.

Por um momento Lívia pensou em Marina fazendo uma


surpresa a ela e vendo Camila em seu quarto, sentiu
até um frio na barriga.

- Que você quer fazer hoje? – Marina a tirou de seus


pensamentos.
- Namorar. – Sorriu.
- Acho que posso cuidar disso.
- Bom, isso se eu não for atrapalhar seus estudos,
nesse piano. – a morena fingiu ciúme.
- Ah, que ciumenta. – Marina a abraçou. – Será que um
beijinho resolve esse bico?
- Um beijinho? Nossa! Você toca esse piano como se o
acariciasse, senta nele com todo cuidado, fica alisando
toda hora e comigo é só um beijinho?

Marina segurava o riso.


- Então vejamos. – Mudou de posição, sentando no colo
da namorada, como se fosse montar. – Eu acaricio você
também. – Passava a mão em seu rosto, cabelos,
ombros, percorreu os braços. – Mais o que? – Colocou a
mão no queixo como se pensasse. – Ah sim, eu não
beijo o piano, mas beijo você. – beijou seus lábios. –
Mordo. – mordeu o lábio inferior. – Posso tocar você
também. – levou a mão por dentro da do hobby da
morena e enfiou dentro da calcinha. Lívia tombou a
cabeça para trás e gemeu baixinho. Marina aproveitou
para morder seu queixo e beijar seu pescoço.

A morena segurou na cintura de Marina e apenas


deixou ela fazer o que quisesse, estava a mercê
daqueles toques cuidadosos e exigentes ao mesmo
tempo.

- Gosta assim? – falou em seu ouvido.


- Ahan... mais rápido, por favor...

Marina acelerou os movimentos e sentiu aquele corpo


fascinante ficar rígido e estremecer. Lívia encostou sua
cabeça no ombro dela, sua respiração era falha.

- Ainda acha que gosto mais desse piano que de você?


- Tive provas consideráveis agora. – Lívia sorriu
ofegante.

O final de semana foi para as duas pra descansar e


namorar. No domingo à tarde saíram para fazer uma
caminhada e tomar água de coco na praia, depois
deram um passeio pela cidade. Como havia prometido
há muito tempo, Lívia levou Marina para conhecer o
Corcovado e o Pão de Açúcar, dessa vez com mais
folga.

Aquela semana seria de correria total. Monica havia se


dado conta de que não estava preparada o suficiente
para a prova e se descabelou. Fazendo Marina ficar
preocupada.

- Sabia que você ia surtar. Depois eu que sou a


apavorada.
- Eu estou errando Marina.
- De nervoso. Sei que é difícil pedir calma, mas hoje é
terça-feira e ainda temos tempo pra estudar. Eu fico a
sua disposição para passar a música de câmara. O
restante é com você, mas eu ajudo no que puder
também.

As duas ensaiaram até tarde da noite, até que deu o


horário da escola fechar. Dessa vez Monica não quis
saber de Hugo, deixou o rapaz em casa de molho. Ao
saírem da faculdade Lívia esperava Marina do lado de
fora. A loirinha quase caiu pra trás quando viu a
morena vestida num terninho preto risca de giz e blusa
preta, salto alto, cabelos soltos e muito bem penteados.

- Nossa! Que chique! Que ela ta fazendo aqui? – Monica


perguntou pra Marina, que estava muda.

Lívia veio se aproximando com o sorriso mais


encantador do mundo.
- Boa noite meninas! Estão perdidas essa hora aqui no
centro?
- Estávamos estudando. - por fim Marina falou.
- Posso dar uma carona para vocês?
- Não vamos para o mesmo lugar, Marina ainda vai
para a casa de Eduardo.
- Sem problema, eu deixo você em casa e a levo até lá.
- Por que você ta aqui essa hora? – Monica perguntou
desconfiada.
- Eu vim aqui no centro atender um cliente e quando ia
embora vi as duas saindo, achei que quisessem carona.

“Quanta cara de pau!” – pensou Marina.

- Vamos então. Carona a gente não recusa.

Entraram no carro e saíram.

- Muito corrido por conta das provas? – Lívia puxou


assunto.
- Estou completamente apavorada. Marina não, nem
parece que tem prova final.
- Só estou me concentrando, mas no fundo estou
nervosa.
- Ela é cdf, estuda o dia inteiro.
- Ela tem cara mesmo de estudiosa. – Lívia a olhou
sorrindo.

Marina nem se atreveu a olhá-la, pois não aguentaria o


riso.

- Chegando em casa vou estudar, noite a fora se


precisar.
- Monica, lembra do que tia Célia falava com a gente
quando estudávamos no conservatório?
- Sei...
- Angu de um dia só, não engorda cachorro! - as duas
falaram ao mesmo tempo.
- Não adianta agora apavorar e querer fazer tudo de
uma vez.
- Eu sei, mas agora vou pelo menos estudar pra me
sentir mais segura.

Chegaram ao endereço de Monica e ela se despediu,


combinando um ensaio no dia seguinte. Assim que o
carro arrancou Marina deu um beliscão na namorada.
- Ai, o que é isso? – Lívia reclamou.
- É pra deixar de ser cara de pau. “Estava passando por
aqui e as vi... nossa ela tem cara de estudiosa.” Dizem
que os promotores mentem e você faz jus à fama.
- Ô linda, achei que ficaria feliz de ter ido buscar você.
- E estou, mas não precisava fazer aquele teatro todo.
- Ué, tem que disfarçar, não?

Marina a olhou de lado, não aguentou e sorriu.

- Boba! Amo você, sabia?


- Sabia!
- Convencida.
- Sabia também.

Levou um tapa no braço.

- Ai, você está me batendo muito hoje. Não vou ganhar


nenhum beijinho? – a morena fez um bico.
- Ganha sim. – Marina aproveitou que estavam paradas
no sinal, segurou seu rosto e beijou delicadamente.
- Ah não quero beijo assim, quero assim. – Lívia a
puxou e deu um beijo cheio de intenções.

Quando chegaram em casa Marina logo pediu por um


banho.
- Preciso tomar banho, estou suada, cansada e com as
costas doídas. – falou se dirigindo ao banheiro.
- Judiaram de você hoje, não é lindinha?
- Nossa! Primeiro ensaiei com Fred e depois Monica me
alugou.
- Acho que agora ela está acordando.
- Juro que não imaginava que ela fosse ficar assim,
sempre namorou, mas cuidava dos estudos.
- De repente passando esse aperto ela aprende. – Lívia
abriu o chuveiro.
- Tomara.
- Agora vem que eu vou te dar banho. – Abraçou a
loirinha por trás e entrou no box.

Não fora propriamente um banho, mas verdadeiras


carícias.

Nos poucos dias que se seguiram Marina só fazia


estudar e ajudar a amiga. Repassaram todas as
músicas e depois tiveram a última aula cada uma com
seu professor. Marconi já adiantara que a loirinha tinha
passado nas outras matérias teóricas e que só faltaria
mesmo a prova prática. Era quinta-feira e Marina
estava em frente ao espelho escolhendo uma roupa
para tocar. Lívia não havia chegado do trabalho e
mandara mensagem dizendo que iria direto para a
apresentação. Queria que a namorada estivesse com
ela. Estava ansiosa e Lívia tinha o poder de acalmá-la.
Respirou fundo e continuou olhando para o espelho e
provando as roupas.
Lívia estava no shopping correndo com uma sacola na
mão e o telefone na outra.

- Fabrício! Preciso correr! Ainda tenho que passar na


joalheria.
- Lívia, até parece que é você que vai tocar. Pode
deixar que eu fecho o escritório.

A promotora tinha saído cedo e deixado um bilhete


falando que não iria almoçar em casa, pois estava cheia
de trabalho. Mais a tarde mandara uma mensagem
para Marina, falando do horário de se encontrar,
porém, o que Marina não sabia era que ela queria fazer
uma surpresa. Comprou uma roupa nova para ela e
passou na joalheria para mais uma extravagância,
talvez o passo mais importante de sua vida. Havia
também reservado uma sala num restaurante só para
os garotos da banda, Monica, ela e Marina, queria
comemorar. Quando entrou no elevador, estava
ofegante. Olhava para o relógio e pensava se ainda
daria tempo. Abriu a porta do apartamento e procurou
por algum sinal de Marina. Subiu para o quarto e viu a
loirinha ao que parecia, tentando montar uma roupa
sobre a cama para vestir. Olhou para a porta e viu a
morena, parecendo cansada.

- Oi amor. Achei que íamos nos encontrar lá na escola


de música. – a olhou com mais minúcia. – Nossa, que
cara é essa? Correu de alguém? – brincou.
- Não! Corri pra cá. Ainda bem que cheguei a tempo.
Quero chegar junto com você, aliás, quero te levar. –
sorriu, já se acalmando. – E ficar do seu lado.

Marina achou bonitinha a atitude dela em se preocupar


por levá-la a audição.
- Então toma banho linda, eu já tomei o meu, estou
aqui procurando uma roupa.

Lívia pegou a sacola e entregou a ela.


- Comprei pra você. É um presente pelo ciclo vencido.
Sei o quanto estudou e se esforçou.
- Outro presente não é? – Marina a olhou séria.
- Você merece. – se aproximou para beijá-la.
- Obrigada. Sem você do meu lado acho que não faria
da mesma forma, se estou tranquila agora é porque
está comigo. – Beijou a morena com carinho.

Lívia correu para o banho e em poucos instantes saiu e


se arrumou. Marina já estava pronta e se olhando no
espelho. Era um vestido longo, lilás com detalhes em
preto e uma sandália combinando com o vestido. Fez
duas pequenas tranças no cabelo e amarrou atrás.
Estava muito bonita.

- Uma gata! - Lívia tinha um olhar faminto.


- Nem pense nisso. Estamos as duas prontas.
- Quero um beijo pelo menos. – se aproximou e a
pegou pela cintura.

Saíram depois de muitos beijos. Já dentro do carro o


celular de Marina tocou e era Monica querendo saber
dela.

- Estou a caminho. Me encontra na porta da escola. –


desligou. – Coitada, está apavorada, nunca vi Monica
assim.
- Vai passar, daqui a pouco ta todo mundo feliz. Ah
mamãe lhe mandou um beijo e desejou sorte. Disse
para eu tirar muitas fotos para mostrar a ela depois.
- Que gentil, depois vou agradecê-la. Minha mãe
também ligou e disse que assim que eu terminar que é
para ligar pra ela, a hora que fosse. Está rezando de lá.
- Viu, está protegida de todos os lados.

Chegaram e pararam próximos à escola, havia outros


carros, mas Lívia conseguiu uma boa vaga por conta de
um flanelinha muito esperto que ficava por ali. Antes de
descerem a morena segurou as mãos de Marina e falou
suavemente.

- Meu amor, desejo boa sorte, fique calma que vai dar
tudo certo, sei que você se preparou para isso e agora
está colhendo o fruto de seu esforço. Saiba que estarei
na plateia te aplaudindo de pé. Não porque é uma
excelente pianista, mas também porque te amo muito.

Marina ficou comovida com as palavras da namorada.


- Obrigada meu bem, saber que você está do meu lado
é mais importante que qualquer coisa.
- Não sei se agora é o momento certo, mas eu acho
que tenho que fazer isso enquanto estivermos a sós.
Por mim faria em público, mas quero respeitar sua
opinião e privacidade. – tirou uma caixinha de um
compartimento da porta do carro e a abriu, eram duas
alianças. - Marina, você quer ser a mulher a ficar do
meu lado, a pessoa mais importante, a minha
prioridade, a pianista dos meus sonhos e a minha
cozinheira preferida? – sorriu ao dizer as últimas
palavras.

A loirinha ficou atônita. Seus olhos marejaram e uma


lágrima teimosa caiu.
- Eu... nossa... – gaguejou. – Não sei como conseguir
ser tudo isso, mas eu aceito e prometo fazer o possível
pra corresponder às suas expectativas.
- Você já corresponde a todas.
- Eu aceito.

Beijaram-se como se fosse a primeira vez. Estavam


felizes, era como se um flash passasse pela cabeça das
duas, não sabiam como ou quando aquele
relacionamento tinha ficado tão sério, mas o que
importava era que se amavam. Trocaram as alianças e
cada uma beijou a mão da outra num gesto de carinho.
- Te amo! Meu anjo mais lindo. – Lívia alisou seus
cabelos falando emocionada.
- Também te amo.
- Isso poderia ter sido mais romântico, mas não resisti.
- Lívia falou meio envergonhada.
- Não importa quando e onde você faça as coisas, o
importante pra mim é ter você. Não me importo com o
cenário e sim com a protagonista. – sorriu.

Saíram do carro e foram direto para a escola, Eduardo


e Fabrício chegaram logo em seguida e minutos depois
Monica apareceu com Hugo. Pedro foi depois
acompanhado de uma menina, que todos entenderam
ser uma namorada.

- Mais tranquila amiga? – Marina perguntou.


- Agora estou. Eu fiquei nervosa antes, mas quando vai
chegando a hora, vou me acalmando.
- Assim que é bom, porque nervosismo atrapalha
muito.
- Está chiquérrima! Adorei o vestido. – Monica a olhou.
- Você também está, vai arrasar.
- Vamos né, porque tocamos juntas.
- Essa escola só tem aluna gata mesmo hein. – Fabrício
se aproximou para brincar com elas.
- Porque acha que eu estudo aqui? – Eduardo também
chegou perto.
- E aí Du? Tudo pronto? – Monica perguntou.
- Tudo sob controle.
- Eduardo já está acostumado, veterano não tem mais
nervoso. – Marina falou.
- Na próxima vocês também estarão mais tranquilas.
- Que aliança é essa? – Fabrício falou no ouvido de
Marina, que ficou desconsertada. – Quando foi?
- Agora há pouco no carro.
- Nossa que original! – ele revirou os olhos. – Lívia já
foi melhor.
- Para de pegar no pé dela. Eu adorei.
- Como tudo que ela faz. Amor é fogo mesmo.

As pessoas começaram a chegar e o movimento


aumentou, fazendo com que todos fossem para o
auditório. Os alunos sentaram nas cadeiras marcadas e
os convidados nas fileiras mais atrás. Antes de se
afastar, Marina olhou para Lívia e sorriu para ela,
recebendo um piscar de olho e um boa sorte. Monica
tamanho nervosismo nem percebeu a aliança na mão
da amiga.

- Não sei como ninguém viu aquela aliança. – Fabrício


brincou. – Parece mais um cinto de tão larga.
- Demorei tanto a escolher e você ainda me fala uma
coisa dessas?
- É bonita, só não é discreta; ouro branco e um
diamante daquele tamanho cravado no meio, só Monica
sonsa mesmo que não viu, mas assim que ela ver vai
comentar. E eu quero ver a cara de Marina.
Lívia ficou quieta, pois o comentário de Fabrício a
incomodou.

As apresentações se iniciaram e um a um foi subindo


no palco para se apresentar. Primeiro os alunos em
dupla, Marina e Frederico foram um dos primeiros,
depois Marina tocou para Eduardo e voltou para tocar
com Monica para encerrar esta parte do recital. De
longe se notava a cumplicidade das duas, Marina olhou
para a amiga e sorriram. Fizeram sinal uma para a
outra e começaram. Quando terminaram a música se
abraçaram emocionadas. Foram aplaudidas de pé. Um
professor veio até o palco e elogiou a performance dos
alunos, depois deu início as apresentações individuais.
Era por ordem alfabética, para não causar problemas
entre os alunos. Eduardo foi um dos primeiros. Por
conta das mesmas iniciais Marina se apresentou e logo
em seguida Monica. Quando a loirinha subiu ao palco o
silêncio imperava no lugar, sentou-se ao piano, colocou
a partitura, abriu, tudo muito pausado. Olhou para o
fundo do piano, fechou os olhos e respirou fundo ao
mesmo tempo em que colocava as mãos posicionadas
nas teclas, era seu ritual. Abriu os olhos e começou a
tocar. O som do piano encheu todo o auditório. Marconi
estava radiante e só recebia elogios pela aluna. Lívia
tirava foto ininterruptamente. Ao final da música Marina
também foi aplaudida de pé. Monica veio em seguida,
resolveu tocar em pé, diferente dos outros flautistas,
isso lhe dava mais segurança. Marina torcia para ela
sentada na primeira fileira. Terminou sendo aplaudida
também e de pé pela amiga pianista. Quando o último
aluno se apresentou e desceu do palco os músicos se
reuniram para se cumprimentar e também receberam
os elogios dos professores. Pouco depois Fabrício se
aproximou com Lívia, Hugo, Pedro e a namorada.

- Meus parabéns às musicistas e ao músico.


- Passamos amiga! – Monica abraçava Marina.
- É passamos, agora que venha o segundo período. – a
loirinha sorriu.

Um foi parabenizando o outro até que Lívia se


aproximou.

- Estava linda, radiante e tocou divinamente bem. –


Abraçou a loirinha apertado. – Te amo! – falou em seu
ouvido.
- Obrigada, significa muito para mim saber que você
gostou. E eu também te amo, minha linda. – falou
ainda abraçada a ela.

O abraço foi mais longo que o de um cumprimento


normal, mas as duas nem estavam ligando. Depois que
todos se cumprimentaram. Lívia convidou para irem ao
restaurante dizendo que ela havia reservado mesas.

- Nossa quanta gentileza! – Monica falou.


- Vocês merecem e na verdade a ideia foi de Fabrício,
eu só dei um empurrãozinho. – piscou o olho para o
primo.

Assim que chegaram ao restaurante o garçom os


recebeu e levou todos para o lugar indicado. Lívia
tratou logo de sentar Marina ao seu lado e do outro
sentou Eduardo, seguido de Fabrício. Hugo e Monica
ficaram na frente deles na mesa. De fato eram três
casais.

- Nossa, acho que vou dormir por uma semana inteira


agora. Parece que tiraram um peso das minhas costas.
– Marina desabafou.
- No segundo período você estará mais acostumada
com isso, é porque a primeira vez é difícil mesmo. –
Eduardo a animou.
- Já eu, estou relaxada. Agora é férias!
- E eu terei minha namorada de volta. – Hugo abraçou
Monica.
- Ihh, tinham dado uma trégua. Marina, voltou o
agarramento.
- Senhor! Ainda bem que vou pra minha casa, aliás,
vamos não é? – falou com Monica.
- Então, eu não tinha te falado, mas eu pensei em ir só
na segunda quinzena de julho.
- Por que Monica? Já avisou seus pais?
- É que eu a chamei para ficar uns dias em Parati, com
a minha família. – falou Hugo.
- Seu pai vai ficar doido! E não sou eu a pessoa que vai
avisá-los de que você não vai.
- Pode deixar que eu falo, já tenho discurso pronto. –
disse sorrindo.
- Mulher doida! - Marina revirou os olhos.
- Sou doida, mas te amo. – sorriu. - Amiga, queria te
agradecer por ter me ajudado essa semana. Se não
fosse você eu acho que teria surtado na hora.
- Que isso, sei que faria o mesmo por mim se eu
precisasse. Senão, pra que servem os amigos?
- De qualquer forma, muito obrigada.
- O agradecimento é ter você ao meu lado nessa
jornada não é? – Marina sorriu.
- É! Juntas até o fim! Uhuuu! – Monica levantou o copo
para um brinde.
- Um brinde aos músicos. Os melhores da cidade! –
Eduardo também levantou seu copo.

Todos brindaram.

- Pensei em ir com você. Que acha? – Lívia falou


baixinho com Marina enquanto os outros conversavam.
- Pra São Paulo?
- É, já andou de avião?
- Nunca.
- Então, seria uma boa oportunidade, a primeira
experiência seria uma ponte aérea, aí você toma gosto.
- Ah, eu não sei, esse bicho quando cai faz um estrago
danado.
- De acordo com as estatísticas acontecem mais
acidentes de carro do que com aviões.
- E iríamos nós duas?
- Pensei em levar Fabrício comigo e Eduardo lógico.
Assim disfarça mais.
- Estava pensando em uma coisa quando vínhamos pra
cá, mas depois conversamos. De qualquer forma não
sei amor, será que Monica não vai desconfiar? – Marina
pareceu em dúvida.
- Ficamos em um hotel.
- Não! Podem ficar lá em casa, só preciso conversar
com minha mãe.
- Fale com ela amanhã.
- Tá bom, de manhã eu ligo e converso.
- Isso! – Lívia se empolgou.
- Falar em mãe, preciso ligar para ela, disse que
avisaria assim que terminasse tudo. – Marina ligou
para falar com a mãe, mas o barulho da mesa
atrapalhou a conversa, então se levantou e ficou um
pouco distante, o suficiente para conseguir falar.
- Oi mãe! Deu tudo certo, já estamos no segundo
período. Sim! Monica foi ótima também, agora estamos
comemorando... Não vou voltar tarde... Sim, já estou
de férias. Amanhã te ligo e conto mais detalhes.

Enquanto Marina falava ao telefone Lívia a observava,


estava linda naquele vestido e seu andar era todo
gracioso.

- Baba não. – Eduardo implicou.


- Você está pegando a mania do seu namorado. – Lívia
sorriu.
- É a convivência.
- Marina está falando com quem? – Monica perguntou.
- Com a mãe. – Lívia foi quem respondeu.
- Ah sim, amanhã eu ligo para os meus pais. Meu pai
particularmente fica na torcida.
- Então ligue de uma vez ora.
- Eles devem estar dormindo. Marina que é filhinha da
mamãe mesmo, liga toda hora se deixar. – debochou.
- Ela está certa, como está longe tem que manter a
família informada de tudo. – Eduardo a defendeu.

Monica olhava para a amiga e aí que reparou na


aliança.

- Nossa, que anel bonito! Não vi que tinha comprado.


Devia estar muito nervosa para não ter reparado,
principalmente porque ela não usa anel.
- Não? – Lívia se surpreendeu.
- Ela não gosta muito, porque atrapalha pra tocar.
- Ah... – pareceu decepcionada.
- Marina mudou um pouco, parece mais madura. Até no
jeito de se vestir, de falar... – Fabrício observou.
- São os ares do Rio de Janeiro. – Hugo falou.

Quando Marina retornou a mesa, Monica logo se


manifestou.

- Amiga! Anel lindo! Onde comprou? Deixa eu ver! –


esticou as mãos para a amiga.

Marina foi pega de surpresa e antes mesmo de ter


conversado com a namorada resolveu logo aquela
situação que a incomodava tanto.
- Não é bem um anel, é uma aliança.

Lívia sentiu um frio na espinha.


- Aliança? – Monica demorou um pouco para entender.
- Sim, ganhei hoje juntamente com o pedido mais lindo
que já ouvi.

Monica olhou um pouco surpresa e esperando que


Marina continuasse a falar, mas a loirinha
simplesmente pegou a mão direita de Lívia, onde
estava sua aliança e colocou em cima da mesa,
entrelaçando seus dedos.

- Pode-se dizer que estamos...? – olhou para a morena


e sorriu.
- Noivas. – Lívia beijou sua têmpora direita.
- Mas...? – Monica estava perdida. – Desde quando? –
gaguejou. – Por quê?

Marina olhou para Lívia como se pedisse ajuda, então a


morena resolveu falar.

- Monica, preste atenção. Sei que isso lhe parece


absurdo ou inaceitável, mas eu amo Marina. Desde que
a vi pela primeira vez tocando com os meninos, fiquei
encantada. Por insistência minha, aos poucos fui
conhecendo a pessoa maravilhosa que ela é, aconteceu
que nos apaixonamos e desde então estamos
namorando.
- Há quanto tempo?
- Quatro meses mais ou menos. – Marina foi quem
respondeu.
- Por isso ela te pegou na faculdade algumas vezes, por
isso dormiu no apartamento dela, viajou... – Monica
parecia encaixar os fatos. – Por que não me contou?

O silêncio imperava na mesa.


- Tive medo que se zangasse ou não aceitasse. Já
falamos sobre isso, não é?
- Sim. – baixou a cabeça.
- Tentei mentir falando que sentia algo por Eduardo,
falei que ele e Fabrício eram só amigos, mas vi que
mentir não ia ser legal. Você é minha melhor amiga,
sempre foi. Vivemos juntas desde criança e sua
amizade é muito importante na minha vida. – Marina
falava de forma doce. – Eu não aguentava mais
esconder de você, ia conversar com Lívia hoje sobre
isso, mas já que você viu minha aliança, decidi falar
aqui mesmo.
- E vocês vão morar juntas? – Monica perguntou
preocupada.
- Não! – Marina achou graça da preocupação da amiga.
– Isso é um passo muito importante, não pode ser feito
assim de repente. E outra, não vou te deixar morando
sozinha.
- Convite não faltou. Disse a ela que poderia morar
comigo, mas ela prefere você. – Lívia fingiu ciúme.
- Boba! A concorrência é forte, Monica é minha amiga
há muitos anos.
- Desde os seis anos de idade. – Monica sorriu. Depois
parou um pouco e olhou para as duas. – Olha, confesso
que desconfiava, mas não acreditava. As pessoas têm
comentado...
- Eu sei. – Marina concordou.
- Você está feliz?
- Muito!
- Então eu tenho que respeitar. Não entendo, achava
que... bom, você já é adulta e sabe o que quer da sua
vida. Penso que mais que eu até. Então que seja feliz. E
você trate-a bem, senão terá problemas com a cidade
de Jaú inteira, viu? – advertiu a promotora.
- Sim senhora. Pode deixar que ela está em boas mãos.
- Assim espero. – Monica sorriu.

“Também espero.” – Pensou Fabrício que olhou para


Eduardo, parecendo pensar a mesma coisa.

Monica esticou os braços sobre a mesa para pegar nas


mãos de Marina.

- Sempre te admirei e te respeitei, agora não será


diferente.
- Obrigada por aceitar tudo isso e ficar do meu lado.
- Estarei sempre.
- Então mais um brinde! – Eduardo levantou o copo.
Brindaram satisfeitos e Marina mais aliviada. Lívia
passou o braço em volta do corpo dela e a abraçou,
Marina repousou a cabeça em seu ombro sorrindo.

Jantaram e ainda pediram sobremesa. Na saída do


restaurante Fabrício se despediu juntamente com
Eduardo e coube a Lívia e Marina levarem Monica e
Hugo para casa.

No caminho para casa Lívia dirigindo, pôs a mão na


perna esquerda de Marina, como fazia algumas vezes.
Ela olhou um tanto receosa, pois não sabia qual seria a
reação da amiga.

- Marina, quando vai para Jaú? – Monica perguntou.


- Devo ir na segunda.
- Estou querendo ir também, que acha Monica? – Lívia
falou.
- Você? Em Jaú? Que vai fazer lá?
- Conhecer a sogra. – brincou.
- Aff, conheça o sogro também e veja como é bravo.
- Ihh, aí já complicou. Mas falando sério, pensei em ir
com ela para passear mesmo.
- Você não trabalha não é? – perguntou quase num
deboche.
- Trabalho e muito, mas posso tirar folga, afinal o
escritório é meu e tenho folgas quando preciso.
- E a gente escolheu ser músico. – revirou os olhos
fazendo todos no carro rirem. – Bom, eu acho que vai
levantar suspeita, mas...
- Fabrício e Eduardo podem ir, assim dá pra disfarçar. –
Marina falou.
- É uma ajuda.

Chegaram ao apartamento e Lívia encostou o carro


falando.
- Ainda conversaremos sobre isso, não é? – olhou para
Marina.
- É. Monica eu passo aqui ainda antes de viajar. Preciso
pegar umas roupas.
- Tudo bem.

No apartamento Monica estava sentada no sofá um


pouco pensativa.

- Que foi lindinha? – Hugo perguntou.


- Esse relacionamento, será que isso vai adiante?
- Pelo pouco que conheço e ouvi falar de Lívia, parece
que ela está mesmo gostando de Marina.
- Você já sabia?
- Desconfiava, mais do que você. Pois já a conheço
através de Fabrício, que é namorado de Eduardo.
- Por um momento achei que Eduardo estava afim de
Marina.
- Sem chance, pode até ser que ela tentou fazer você
acreditar nisso, mas ele é gay convicto. – sorriu.
- Meu Deus! Nem sei onde vai dar isso tudo. Espero
que Marina saiba o que está fazendo.
- Nunca desconfiou dela?
- Não. Ela namorou a ponto de ficar noiva, o namorado
a traiu. Depois não a vi mais com ninguém, pensei que
queria mesmo ficar sozinha.
- Vai vê se decepcionou com o ex.
- Pode ser... Vai saber né? Pelo menos a mulher tem
grana.
- Não acho que ela esteja com Lívia por dinheiro.
- Eu também, mas dinheiro melhora muito as coisas.

Hugo até estranhou o comentário, mas deixou pra lá.

Marina e Lívia estavam dentro do elevador, já subindo


para o apartamento.

- Posso saber o que te fez contar tudo para Monica


assim tão de repente?
- Seu amor por mim e minha confiança nela. Espero ter
feito a coisa certa.
- Acho que ela precisa de tempo para digerir tudo isso.
- Espero que sim. – Falou pensativa.

Entrando no apartamento Lívia a abraçou.

- E que tal me dar um beijo? Estou louca por um tem


um bom tempo.
- Todos os beijos que você quiser. – beijou a namorada
e entre um amasso e outro as duas subiram para o
quarto.

Na sexta Lívia acordou e deixou Marina dormindo, foi


trabalhar e deixou um bilhete carinhoso no quarto,
outro no banheiro e outro na cozinha. Quando a loirinha
acordou ficou toda boba. Tomou café e por costume
sentou no piano para tocar. Eduardo ligou pouco depois
e combinou de ir para lá, apenas para conversar.

- Agora nas férias música é só curtição.


- Sim, fica mais descontraído, até pra estudar.
- E ontem? Foram levar Monica, ela não disse nada no
caminho?
- Não, mas sei que ficou nos observando. Ela ainda vai
se acostumar.
- Verdade. O que eu puder fazer pra contribuir eu faço
e Fabrício também.
- Obrigada, vocês são excelentes amigos.

Coincidência depois, Monica ligou e pediu o endereço de


Lívia, iria fazer uma visita. Assim que ela chegou
Marina a recebeu no hall e ela viu que Eduardo estava
lá.

- Ô Dudu! Estão ensaiando?


- Que nada, só brincando de tocar. Hoje tem show e eu
resolvi só repassar umas coisinhas.
- Hugo perguntou se iam ensaiar.
- Não há necessidade, vim aqui mais pra jogar
conversa fora.

Da onde estava Monica não podia ver o piano, só


quando entrou que o notou na sala.

- Meu Deus! Um... Steinway & Sons. – os olhos


estavam arregalados.
- É. – Marina estava toda orgulhosa do piano.
- Então era aqui que você estudava.
- Sim, não tinha dito que vinha para cá, pois ficaria no
mínimo estranho.
- Da outra vez que estive aqui eu não o vi na sala.
- Claro! Porque ele não estava aqui. – Eduardo falou. –
Foi um presente para Marina.
- Ela te deu um Steinway & Sons de presente? – Monica
levantou a sobrancelha mais perplexa que duvidosa.
- No dia que ela comprou eu estava junto. – Eduardo
contou empolgado. – Nunca vi alguém fechar um
negócio tão rápido. Lívia queria um piano, mas esse só
por encomenda. Haviam outros, mas ela queria
Steinway, então olhou no catálogo e escolheu. O
vendedor, pra agradar, quis mostrar um que estava no
galpão, aguardando entregar para o dono. – ele fez
uma pausa.
- E? – Monica perguntou.
- E que o dono teve de esperar mais três meses para
chegar outro piano, porque o dele está aqui nessa sala.

Marina abriu a boca num gesto de incredulidade, mas


seu sorriso logo apareceu.

- Gente! Um piano desses custa caro. – Monica falou


surpresa.
- Coisas do amor.
Marina ficou envaidecida, sendo percebido pela amiga,
que não falou nada.

- O som dele é incrível. – Eduardo olhava para as


teclas.

Marina sentou e resolveu tocar um pouco, logo Eduardo


a acompanhou. Monica se empolgou e tirou a flauta da
mochila e se juntou aos dois. Tocaram clássicos da
bossa nova. Lívia ligou, mas por conta da música,
Marina não ouviu, então resolveu ir até o apartamento.
Saindo do carro na garagem um vizinho a abordou:
- Lívia! Que beleza de música. Vou querer apresentação
todos os dias.

Ela não entendeu nada. Dentro do elevador escutou


uma música e ao sair dele ouviu mais nitidamente.
Abriu a porta e viu o trio animado. Ficou os
observando, tocavam samba de uma nota só. Quando
terminaram ela bateu palma.

- Meus vizinhos estão morrendo de inveja. Um me


parou pra dizer que quer apresentação todo dia. Vamos
cobrar cachê e ganhar um extra. – disse andando em
direção a eles. – Tudo bem amor? – beijou Marina nos
lábios esquecendo completamente de Monica ali perto.
- Tudo bem. – a loirinha sorriu.
- Te liguei, mas você não atendeu, agora entendi o
motivo.
- Ah, nós nos empolgamos um pouco. – falou sem jeito.
- Adorei!
- Já que recebemos elogio, agora só tocamos com
cachê. – Monica brincou.
- Que isso! Não pode nem dar uma melhorada que já
vai cobrando. – Lívia sorriu.
- O lance é valorizar o passe. – riu.
- Então, eu vim chamar essa mocinha aqui pra almoçar,
mas acho que vou pedir alguma coisa aqui mesmo. Não
posso demorar, estou cheia de serviço e se for viajar,
preciso adiantar muita coisa. Ligou pra sua mãe, meu
anjo?
- Ai, eu esqueci. – falou colocando a mão na cabeça. –
Acordei, sentei aqui, logo Dudu chegou, depois Monica
e eu me distraí. Ligo depois do almoço, prometo.
- Tudo bem então. Vou pedir o almoço. Quer alguma
coisa em especial? – Lívia alisou os cabelos da
namorada.
- Não.
- Sobremesa? – Sorriu.
- Hum, podia. – os olhos da loirinha brilharam.
- Ta bom, já venho. – Beijou o topo de sua cabeça.
- Eu quero salmão trufado com molho de pêra francesa.
– Eduardo gritou.
- Vai sonhando! – Lívia respondeu lá de dentro da
cozinha.
- Ah, não funcionou. – ele fingiu se chatear.

Monica estava calada, parecia tensa, observava o


tratamento de Lívia com Marina, realmente eram um
casal como os outros. Não tinha nada preconcebido,
mas pensava ser diferente do que se julgava habitual.
Lívia era extremamente atenciosa e carinhosa com
Marina, que também correspondia a altura. Talvez
estivesse exagerando e seus conceitos estivessem
ultrapassados. Reparou que as duas tinham mais
cumplicidade que ela e Hugo ou muitos casais héteros.
- Vem gente, vamos pra sala. – Marina chamou.

Sentaram pra conversar até o almoço chegar e o papo


rendeu. Almoçaram na cozinha mesmo e logo Lívia teve
de ir embora.
- Vai ficar o dia todo aqui? – perguntou abraçando
Marina pela cintura já na porta do apartamento.
- Acho que vou. – Marina enlaçou o pescoço de Lívia
com os braços. – Você demora a chegar?
- Não sei amor, pode ser que sim. Se eu não chegar a
tempo, vou direto para o show e nos encontramos lá.
- Então bom trabalho, se cuida viu. Não esquece que te
amo. – a beijou.
- Também te amo. – Lívia lhe deu um beijo todo
apaixonado. – Até mais tarde. – lhe deu mais um
selinho rápido.
- Até.

Monica olhava de canto de olho de onde estava, mas


não passou despercebido por Eduardo.
- Me pergunto se você está admirando ou recriminado.
- Oi? Ah não... eu... só estou observando.
- Com boas ou más expectativas?
- Não sei, é tudo muito novo. Não sou uma pessoa
retrógada, acho que é falta de costume.
- Aos poucos você vai entender; se gosta realmente de
Marina, vai aceitar.
- Certas mudanças não são tão fáceis. – falou ainda
olhando pra elas.

Lívia foi direto do apartamento para o fórum, encontrou


com Fabrício lá. Ao entrar numa sala viu Camila
passando pelo corredor e mais que depressa fechou a
porta.

- Você está se escondendo dela? – Fabrício perguntou


incrédulo.
- Estou, quero evitar confusão. Toda vez que essa
mulher aparece vem junto com encrenca. Quero
distância e sossego.
- Isso aí, agora você é uma mulher compromissada.
- E enlaçada. – apontou para a aliança.

Por intermédio de outras pessoas, Camila soube que


Lívia estava em audiência e entrou na hora do
julgamento. Admirava a performance da promotora e
quando estavam saindo ela a abordou.
- Meus parabéns. Está cada dia melhor.
- Obrigada. Tchau!
- Calma lindinha. Só estou fazendo um elogio.
- Eu agradeci, agora preciso ir. Estou com pressa.
- Lívia, o carro já está lá fora. – Fabrício avisou.
- Vamos então.

Saiu apressada.

- Calma Camila, tudo é questão de tempo. – a juíza


falou para si mesma.

Marina aproveitou a tarde livre e ligou para a mãe.


Falou com mais detalhe da apresentação no dia anterior
e depois perguntou sobre levar alguns amigos.

- Não tem problema Marina, desde que eles não liguem


de dormir no chão. Eu arrumo mais colchonetes. Quem
são?
- Eduardo, que toca comigo, Fabrício, nosso amigo e a
prima dele, Lívia.
- De repente eles querem ficar no sítio também.
- Sim, vou falar com eles então.

Estava feliz, sua mãe aceitara numa boa e só faltava


acertar tudo com Lívia. Estava ansiosa para contar a
novidade. Arrumou-se para o show e esperou Eduardo
para irem juntos. Encontraram-se todos no bar, mas
Lívia e Fabrício só chegaram para a segunda parte do
show. Marina a achou linda e quando seus olhos se
cruzaram sorriram simultaneamente. No final do show,
Marina se sentou entre Monica e Lívia e dessa vez a
amiga pareceu mais relaxada. Não demoraram muito,
apenas o tempo de comerem alguma coisa e irem
embora.

- Monica, amanhã passo lá no apartamento. Estará em


casa?
- Provavelmente. Preciso ir a faculdade entregar um
trabalho novamente, acredita que perderam?
- Nossa senhora! Aquele pessoal é muito
desorganizado.
- Pois é, ainda bem que tinha salvado.

Deitadas na cama e totalmente nuas, Lívia sobre o


corpo de Marina, encaixada entre as pernas dela,
namoravam com beijos e mordidas.

- Adorei o show. – Lívia falou.


- A banda está entrosada, daí quando precisamos
improvisar fica fácil nos entender.
- Verdade. – mordia seu queixo.
- Ah amor, liguei pra minha mãe.
- E aí?
- Quando vamos? – sorriu.
- Sério? Posso ir?
- Pode! – sorriu e acariciou o rosto dela. - É só não
reparar na casa, pois terão que dormir em colchonetes.
- Nem me importo. Quero ficar perto de você. Vou
avisar os meninos e ver as passagens. A gente desce
em São Paulo, aluga um carro e vai pra Jaú. Dá quanto
tempo de viagem?
- Umas quatro horas. Por que não vamos de ônibus de
São Paulo para Jaú?
- Porque de carro a gente pode passear por lá. Vou
conhecer a sogra! – Falou animada. – E o sogro!
- É né. Fica esperta que eles não são fáceis.
- Dou um jeito. Conquistei a filha, agora conquisto os
sogros.
- Me conquistou é? – Marina passou o indicador
contornando o rosto da namorada.
- E não foi? Insisti, rodeei, agradei e depois peguei.
- Pegou Lívia! – deu um tapa nela. – Cafajeste!
- Ô lindinha, peguei pra mim, um peixinho lindo.
- Se falar sereia vai ficar brega. – riu.
- É, pensei nisso. – Lívia achou graça também. – Acho
que no fim das contas você quem me pegou.
- É dizem isso mesmo. – Marina olhava para cima como
que distraída.
- Ah é?
- Sou boa laçadora. Morei na roça to acostumada com
bichos indomáveis. – ria.
- E enlaçou direitinho. Aqui a prova. – mostrou a
aliança.
- Às vezes não acredito que namoramos.
- Por quê?
- Sei lá, era algo fora da minha realidade namorar aqui
no Rio, ainda mais alguém como você.
- Que tem eu? Sou como a maioria, tenho duas pernas,
dois braços, dois olhos. – piscou os olhos num gesto
brincalhão e Marina riu. – Uma boca. – beijou a
namorada. – Um nariz. – cheirou seu pescoço fazendo-
a rir novamente.
- Não é isso sua boba. Achava que uma pessoa já com
a vida feita, não iria se apaixonar por uma menina
como eu, que está apenas começando.
- Me chamou de velha? – Lívia levantou uma
sobrancelha.

Marina deu uma gargalhada.


- Não, você entendeu o que eu disse.
- Vou te mostrar um dos motivos pelo qual me
apaixonei por você...

Lívia começou a rebolar, roçando seus sexos.


- Ah... isso... é... muito bom... – Marina abria mais as
pernas.
- Não viu nada.

Fizeram amor noite a fora e foram dormir quase


amanhecendo.

Monica entrou na faculdade com o trabalho nas mãos e


encontrou com Frederico, o rapaz que tinha tocado com
Marina.

- E aí Monica? Folga até agosto agora hein.


- Graças a Deus.
- Ta perdida aqui?
- Vim entregar um trabalho, perderam o meu.
- Normal. - riu. - E Marina?
- Está... em casa. Por quê?
- Por nada. Queria agradecer por tocar comigo, não deu
tempo na quinta. Muita gente ao mesmo tempo e
quando a vi já estava saindo com a namorada.

Monica ouviu o comentário e nada falou.

- Me fala uma coisa... – se aproximou da menina. –


Você convive numa boa com isso?

Ela não soube o que responder, olhou para os lados


tentando ganhar tempo.

- Sou uma pessoa de mente aberta. E se ela está feliz,


qual o problema? – falou e saiu dando a deixa para o
rapaz concluir que o boato era verdade.

À tarde estava vendo TV com Hugo, quando a porta se


abriu, era Marina.

- Hei gente. Tudo bem?


- Tudo. – os dois responderam ao mesmo tempo.
- Vim pegar umas coisinhas. Monica quer que leve
alguma coisa pra você ou quer que traga quando for a
Jaú?
- Ah eu quero hein. Vou ligar para minha mãe e pedir
pra separar umas roupas que estão lá.
- E pelo visto você não vai né?
- Vou. – Monica enfatizou a palavra. – Mas quero
passar o final das minhas férias lá.
- Já eu pretendo ficar uns vinte dias. Aproveitar bem a
família.
- Vai todo mundo? – Monica perguntou desconfiada.
- Fabrício, Dudu, Lívia e eu. Já conversei com minha
mãe.
- E ela levou na boa?
- Sim, são meus amigos.
- Amigos, sei...
- Monica, queria que eu dissesse o que?
- É, ta certa.

Marina terminou de pegar suas coisas e saiu. Pegou um


ônibus e voltou para o apartamento. Lívia havia ficado
em casa para terminar de ler uns documentos e
adiantar tudo no trabalho para poder viajar. Ligou para
Fabrício e falou sobre a viagem dizendo que daria folga
a ele se topasse ir junto, ele nem pestanejou, aceitou
de cara. Marina guardou suas coisas e ajeitou a mala
que estava meio revirada. Depois foi procurar a
namorada, devia estar no escritório. Quando ia
entrando ouviu o telefone de Lívia tocar e esperou um
pouco, não queria invadir seu espaço. Ia saindo quando
escutou a namorada falar com raiva.

- O que você quer? Já disse para não me encher a


paciência Camila. Não quero e não vou. Me deixa em
paz.

Desligou o telefone. Marina imaginou que seria a tal


mulher do show da Urca e que provavelmente queria
alguma coisa com Lívia. Esperou um pouco e bateu na
porta para entrar.

- Oi amor. – o rosto da morena mudou ao vê-la. - Já


pegou tudo?
- Sim, estava arrumando ali no quarto, mas mala não
tem jeito, sempre fica revirada.
- Coloque no closet, tem espaço lá.
- Daqui a pouco estou tomando conta da casa.
- Não é por falta de convite. Esse apartamento é
grande e você bem que poderia vir morar comigo. – fez
bico.
- Ah, que bico bonitinho. – se sentou no colo da
morena. – Mas ainda é cedo, vamos esperar. Já tenho a
chave daqui, um piano e boa parte das minhas roupas.
- Falta o mais importante, você. – Lívia beijou seus
lábios.
- Vamos esperar.
- Ai, esperar, esperar... – Lívia amarrou o cenho.
- Eu já fico aqui tanto tempo amor, passo os finais de
semana com você e agora passarei até mais tempo, já
que Monica sabe da gente.
- De fato melhorou bem ela saber.
- Então, vamos devagar. – acariciou seu rosto.
- Que tal irmos a Mauá amanhã? Pra dormir hein,
voltamos na segunda cedo.
- Oba, estou com saudade de dona Marta.
- Então preparamos as coisas e vamos assim que
acordarmos.

Marina olhou a mesa da namorada, cheia de papéis.

- Quanto papel! Ir pra Mauá não vai te atrapalhar?


- Vou levá-los, de repente consigo ler alguma coisa lá.
- Tudo bem, então já vou arrumar minhas coisas e
deixar pronto, porque depois que chegar do show ficará
em cima da hora. Quer que arrume as suas?
- Eu quero.
- Alguma roupa em especial?
- Aquele casaco que levei da última vez e minhas botas
pretas.
- Onde vai vestida assim? – Marina fingiu desconfiar.
- Vou levar minha namor... noiva. – corrigiu. – Para
jantar fora.
- Moça de sorte essa. – Marina sorriu e a beijou.
Subiu para o quarto para ajeitar as malas. Lívia ligou
para a operadora de celular e pediu que trocassem seu
número. Acertaram e ficaram de mandar um novo chip
para ela na segunda. Depois olhou na internet
passagens para São Paulo e viu que só teriam na terça-
feira a noite. Marcou assim mesmo e depois iria
conversar com Marina. Lívia passou a tarde no
escritório e Marina não quis incomodar. Quando deu a
hora de ir para o bar, as duas se arrumaram e
desceram.

No final do show Eduardo chamou o dono do bar para


conversar, pois como iriam viajar não poderiam tocar
nos dois próximos finais de semana. A princípio ele
reclamou, mas o rapaz o convenceu a chamar um
grupo de amigos deles que tocava jazz e ele aceitou.
Pedro pareceu não gostar muito da ideia, mas foi voto
vencido na banda. Afinal estavam tocando direto toda
semana e mereciam um descanso. Monica aproveitou
para entregar algumas coisas para Marina levar para
São Paulo e se despediu dela.

- Juízo aí viu? – a loirinha recomendou.


- Você também, muito juízo. Agora posso falar. –
sorriu.

Marina e Lívia acordaram cedo e foram para Mauá, no


caminho Lívia falou do horário da viagem a São Paulo.

- Amor, só consegui passagem para terça quase a


noite. Sairemos daqui umas seis da tarde.
- Quanto tempo até São Paulo?
- Não dá uma hora, uns quarenta minutos talvez, mas
chegaremos lá e até que alugamos um carro acho que
não vai dar pra ir direto para Jaú. A gente dorme num
hotel e sai na quarta cedinho.
- Tudo bem. Assim não pegamos estrada à noite.
Marina não reclamava de nada e Lívia ficava
impressionada com isso, pra loirinha não tinha tempo
ruim.
Quando chegaram em Mauá, Marta as recebeu cheia de
sorrisos.

- Marina! Meus parabéns, fiquei sabendo que arrasou


na audição.
- Obrigada, fiz o melhor que pude.
- E estava linda! – Lívia completou. – Tudo bem mãe?
- Tudo ótimo, vamos entrando.

Marta sentou com elas na sala e colocou o papo em dia,


falaram das aulas, das férias e a viagem que fariam
para ver a família de Marina. Depois Lívia pediu licença
e se recolheu no quarto para ler os documentos que
havia levado.

- Nossa, ela tem trabalhado muito. – Marina falou.


- A viagem vai ser bem vinda, assim ela descansa
também. Lívia não sabe parar de trabalhar, às vezes.
- Se concentra lendo e revisando inquéritos, laudos,
processos, que às vezes perde a noção da hora.
- E como estão as coisas no Rio?
- Tudo bem, agora estou mais tranquila, por estar de
férias. Vou cuidar melhor de Lívia. – falou com carinho.
- Está empolgada. Espero que corra tudo bem. – Marta
falou com certa preocupação.
- Vai correr, minha mãe é super tranquila, meu pai é
mais sério, mas é boa pessoa também.
- Disso eu não tenho dúvida, só tenho medo de
desconfiarem.
- Bom, estamos meio que combinados com Eduardo e
Fabrício para disfarçar melhor.
- Mesmo assim, a gente pensa que pai e mãe não
vêem, mas se enganam. Nós sabemos de tudo.
- Vai dar tudo certo.
- Se Deus quiser.
- Falei com Monica.
- Sobre vocês e Lívia?
- Sim, contei no dia da apresentação.
- Menina, e ela não ficou desconcentrada? Essas coisas
não se falam assim.

Marina riu da preocupação de Marta.

- Falei depois da apresentação, quando fomos jantar


pra comemorar.
- E ela?
- Ah, estranhou um pouco, mas aceitou e acho que
agora é questão de se acostumar. Realmente acho que
ela desconfiava, mas não queria enxergar. Monica é
minha amiga e vai entender.
- Os amigos não nos julgam, eles nos entendem e
respeitam.

Estava anoitecendo e as duas continuaram o papo até


que Marta olhou no relógio.

- Lívia deve ter afogado naqueles papéis. Disse que


íamos jantar, mas acho que esqueceu.
- Vou lá ver.

Marina foi para o quarto e encontrou a namorada


fazendo algumas anotações.

- Meu amor, está tarde, sua mãe quer saber se ainda


vamos jantar.
- Quantas horas?
- São quase nove horas.
- Meu Deus! Nem me dei conta, desculpe.
- Não tem problema. – Beijou sua testa. – Se quiser
continuar aí, a gente come alguma coisa por aqui
mesmo.
- De jeito nenhum, vou tomar um banho.
- Então vou avisar sua mãe para se arrumar também.
Quando Marina voltou para o quarto Lívia ainda estava
no banho, então trancou a porta e tirou a roupa. O
banheiro estava todo enfumaçado, por conta do banho
quente e Lívia estava com a cabeça enfiada debaixo do
chuveiro. Marina abriu o box e a abraçou por trás.

- Que foi amor? Está quietinha aí.


- Descansando a cabeça. – Lívia apenas virou o rosto.
- Tem trabalhado muito não é?
- Um pouco. – respirou fundo.

Na verdade Lívia não estava trabalhando além do


normal, já era acostumada com sua rotina. O que a
incomodava era Camila no seu pé e o que aquilo
poderia prejudicar sua relação com Marina. Girou o
corpo e abraçou a namorada repousando o queixo em
sua cabeça.

- Você confia em mim?


- Confio amor. Por que isso agora?
- Por nada.

Olhou para Marina e se perdeu naqueles olhos verdes,


sorriu timidamente parecendo uma adolescente. Seus
lábios se encontraram beijando devagar, com carinho
até que os beijos se tornaram mais quentes. Marina se
desvencilhou de Lívia deixando escapar um gemido.

- Amor, temos que sair.


- Só mais um minutinho. – Sua boca descia para
encontrar um seio.
- Sua mãe está esperando... ah... amor... – Marina
sentia a língua de Lívia passar no bico do seio. –
Ah...não faz isso...

Lívia levou a mão até o clitóris dela e esfregou sem


tirar a boca de onde estava. Marina não resistiu e se
entregou.
Uns bons minutos depois, as duas saíram do quarto e
desceram para a sala.

- Nossa, se a demora foi porque estavam se


aprontando, valeu a pena. Estão lindas! – Marta as
esperava na sala.
- Também está linda mãe.

Procuraram um lugar mais aconchegante possível.


Foram a pousada de um amigo de Lívia e jantaram em
seu restaurante. Estava muito frio, então ficaram perto
de uma lareira.

- Leandro, obrigada por conseguir um lugar perto da


lareira. A mocinha aqui está congelando. – Lívia se
referiu a Marina.
- Imagina, você é cliente especial.
- Nossa! E olha que estou acostumada ao frio de São
Paulo.
- Hoje está frio mesmo, até eu que estou acostumada
com o clima, estou congelando.

Lívia passou o braço atrás de cada uma e as abraçou.

- Eu esquento vocês.
- Vou chamar o garçom, sejam bem vindas. – Leandro
saiu.
- Eu reclamo, mas eu adoro frio. Por isso moro aqui. –
Marta falou.
- Também gosto, no sítio nessa época do ano faz um
frio danado, gosto de ficar lá pra ver a cerração de
manhã.
- Ih, quero ver essa cerração aí, será que tem jeito? –
Lívia brincou.
- Claro, é só acordar cedo.
- Ah, então ela não vai ver, Lívia gosta de dormir até
tarde.
- Eu faço um esforço mãe.
- Depois me conta Marina. – riu.

Quando a bebida chegou, Lívia pegou a mão direita de


Marina, assim como ela havia feito no restaurante no
dia da apresentação.

- Mãe, quis trazê-las para jantar porque quero


comemorar uma coisa. – colocou a mão dela e de
Marina sobre a mesa. – Ficamos noivas. – sorriu.
- Meu Deus! Que maravilha! Como eu não vi essa
aliança?! Que por sinal, é enorme.
- Ela é exagerada. – Marina riu.
- Quando foi?
- No dia da apresentação dela. No carro, não foi num
lugar romântico, mas...
- Mas foi o pedido mais lindo do mundo. – Marina falou
interrompendo a namorada.
- Então vamos brindar. – Marta levantou a taça de
vinho. – Que sejam felizes, Deus as abençoe.
- Que assim seja. – as duas falaram juntas.

Jantaram conversando depois resolveram pedir


sobremesa.

- Aqui a sobremesa mais gostosa é a cheesecake. Já


comeu? – Lívia perguntou.
- Não, é de que?
- É uma torta de queijo, vou pedir, você vai gostar.
- Hum, deve ser boa.
- Qual doce que você não gosta? – Lívia brincou.
- Ah, é que doce é gostoso. – Marina falou sem graça.
- Deixa a menina Lívia.
- Estou brincando com ela mãe. Sei que Marina adora
doce. É minha formiguinha. – brincou.

O garçom veio trazendo três pedaços de torta, só que a


de Marta era de limão.
- Hum, a sua ta com uma cara boa também. – Marina
falou olhando.
- Quer parar de ser gulosa que a sua está aí na frente.
– Lívia implicou.
- Eu sei amor, só falei que ta com a cara boa.
- Eu te dou um pedaço. – Marta estendeu um pedaço
para ela, que comeu satisfeita.
- Nossa, que delícia!
- Ai... – Lívia revirou os olhos.

Marina tirou um pedaço da sua e quando colocou na


boca sorriu como se estivesse comendo algo dos
deuses.

- Gostou?
- Muito! É minha preferida.
- Ah ta. – Lívia achou graça. – A última sobremesa que
comemos lá em casa foi a sua preferida também.
- Eu mudei de ideia, agora é essa aqui. Qual é mesmo o
nome?
- Cheesecake.
- Isso. Adorei! – falava como uma criança.

Já em casa, Marina e Lívia não demoraram a dormir,


pois sairiam cedo no dia seguinte. Despediram-se de
Marta e prometeram voltar logo que voltassem de São
Paulo. Na estrada Lívia vinha atenta ao trânsito e pouco
falava.

- Está preocupada amor?


- Não.
- Está calada.
- Estou pensando aqui numa coisa... você não tem
habilitação não é?
- Não, acabei de fazer dezoito.
- Então vamos providenciar uma.
- Pra que?
- Pra dirigir? – Lívia foi sarcástica.
- Eu entendi sua boba. – deu um tapa no braço dela. –
Mas eu não preciso de carteira agora.
- Já sei, não é prioridade.
- Exatamente.
- Certas coisas são apenas úteis, não custa ter a mão,
vai que uma hora precisa. Vou ver quanto fica pra fazer
as aulas e combinamos um horário.
- Não podemos esperar?
- Pra que? E outra, é uma vantagem pra nós, assim
poderá voltar dirigindo e me descansar.
- Tem sempre um argumento, não é Lívia?
- Tenho Marina. – falou debochando.

Assim que chegaram em casa Lívia deixou Marina no


apartamento e foi trabalhar. Estava sentada em sua
mesa quando Fabrício chegou com uma caixa.

- Lívia, chegou um chip de telefone. Foi você quem


pediu?
- Foi, estou trocando meu número. Peça a Érica para
providenciar que todos saibam que troquei meu
telefone.
- Pra que isso?
- Camila.
- Aff. – ele revirou os olhos, deixou o chip na mesa e
saiu.

Lívia pegou e o colocou no celular, ligou para o


apartamento, Marina atendeu.

- Alô.
- Gostaria de falar com a senhorita Marina. – Lívia
mudou a voz.
- Sou eu, quem deseja?
- Bom dia senhorita. Te vi em um show nesse final de
semana e te achei muito bonita. Tem algum
compromisso para hoje à noite?
Marina ficou corada até a raiz dos cabelos.

- Olha, não sei quem está falando, mas isso não tem
graça.
- Que isso! Não estou pedindo nada demais, só um
jantar romântico. Te achei tão linda, nunca vi uma
mulher mais gata que você.
- O que? – Marina estava indignada. – Procure outra
pessoa, pois eu sou compromissada. – desligou o
telefone.

Ficou olhando para o aparelho ainda com raiva. Ele


tocou novamente, era o mesmo número.

- O que foi? – falou ríspido.


- Nem comigo você quer sair? – Lívia falou com voz
normal.
- Ah? Lívia! Era você?

A morena morreu de rir do outro lado da linha.

- Que telefone é esse?


- Meu número novo, anote-o.
- Por que trocou?
- Precisei.

Marina não discutiu o motivo, mas imaginava pelo que


era.

- Amor, na verdade ligo pra dizer que não vou almoçar


em casa. Só chego bem à noite, vou adiantar o máximo
que puder aqui pra viajar amanhã tranquila.
- Tudo bem, acho que não vou sair, te espero a noite.
- Ok. Te amo.
- Também te amo.

Como falou, Lívia ficou até tarde da noite no escritório


e Fabrício a acompanhando, pois também viajaria.
Quando chegou em casa já passava das onze e Marina
estava dormindo. Foi a cozinha e viu um bilhete
dizendo que tinha jantar no forno. Achou bonitinho a
loirinha se preocupar com ela. Jantou e subiu para o
quarto, Marina dormia profundamente. Entrou no
banho e saiu rápido, se enfiou debaixo das cobertas. A
loirinha sentiu o corpo de Lívia e virou para se
aconchegar nela.

- Demorou linda. – falou com os olhos fechados.


- Mas graças a Deus só ficou pouca coisa pra amanhã.
– beijou sua testa.
- Que bom. – cheirou o pescoço da morena. – Está
cheirosa...
- Tomei banho querida. E você também está cheirosa...

Dormiram profundamente.

A terça foi corrida, Marina arrumou sua mala e a de


Lívia, que havia deixado uma lista de coisas dela que
era pra colocar em sua mala. Às quatro da tarde, Lívia
chegou em casa correndo, tomou um banho rápido
enquanto Marina combinava com o táxi para buscá-las.
Desceram e o táxi já as esperava, passaram para pegar
Fabrício e Eduardo e foram para o Santos Dumont.
Fizeram o check-in e ficaram esperando. Marina estava
visivelmente nervosa.

- Meu amor, fica tranquila, o avião não vai cair.


- Pra tudo tem uma primeira vez.
- Que isso! Eu não quero morrer num desastre de
avião. – Fabrício falou.
- Calma viu, eu estou aqui. - Lívia a abraçou.

O vôo foi anunciado e eles seguiram para embarcar.


Sentaram-se e Lívia falou para Marina ir na janela para
ver a vista. Quando o avião taxiou a loirinha apertou a
mão da morena e Lívia riu da expressão dela. Quando
pegou a pista e aumentou a velocidade, Marina
arregalou os olhos quando viu o chão se afastando. O
dia estava meio chuvoso e o avião, quando subia,
entrou em uma nuvem ficando tudo branco em volta.

- Uia! Ficou tudo branco! Não to vendo nada.


- É assim mesmo amor.
- Se eu não to vendo o piloto também não está. – falou
apavorada.

Lívia achou graça.


- Ele tem piloto automático.

Quando saiu da nuvem Marina pode ver o céu cheio de


estrelas e a visão foi maravilhosa.
- Olha que lindo! – tirou uma foto rapidamente.
- Chega mais perto do vidro pra foto ficar melhor. –
Lívia a ajudou.
- O povo ta pensando que sou da roça, tirando foto
daqui de dentro.
- O povo eu não sei, mas eu to. – Fabrício implicou do
banco de trás.
- Chato! – ela riu.

Quando tudo se acalmou a loirinha relaxou no banco.


- Agora acho que posso respirar. – suspirou.
- Linda! Parecia um bichinho fofo com medo do novo.
Linda, linda... Dá vontade de encher de beijinho. – Lívia
falou puxando-a para mais perto.
- Ah, é que eu nunca... – Marina ficou envergonhada.
- Ô meu amor, eu sei, a primeira vez que viajei de
avião também tive pânico. Só que não tinha ninguém
para segurar minha mão. – Lívia fez biquinho.
- Tadinha. Eu seguro agora. – Marina segurou a mão
direita dela e Lívia deitou a cabeça no ombro da
loirinha.
- Daqui a pouco estamos chegando, vamos deixar as
coisas no hotel e de lá mesmo procuro a locadora. Qual
carro devemos pegar?
- Um que tenha quatro rodas e ande. – Marina brincou
fazendo Fabrício rir no banco de trás.
- Fabrício faz que nem Eduardo, durma! – se referiu ao
outro rapaz que ressonava no banco de trás.
- Ele está dormindo porque tomou remédio, tem horror
a avião.
- Isso ele não me contou. – Marina falou rindo.
- Pois é, ele fica mais apavorado que você.

Momentos depois o avião desceu no aeroporto de


Congonhas. Pegaram um táxi para o hotel e assim que
se acomodaram no quarto, Lívia ligou apara a recepção
para providenciar o carro.

- Enquanto não chega, vamos tomar um banho pra


sair?
- E nós vamos aonde?
- Pensei em dar uma volta aqui perto, tem um
restaurante muito legal, é italiano, acho que vai gostar.
- Os meninos vão?
- Vou ligar pra saber.

Lívia ligou, mas Fabrício disse que não ia, pois estava
cansado e como viajariam cedo no dia seguinte, ele
preferia dormir cedo.

Depois de saírem do banho, Lívia ligou para a recepção


novamente para se certificar do carro. O atendente
informou que ele já estava aguardando. As duas
desceram e enquanto ela assinava o contrato da
locação, Marina observava o hotel e as pessoas
entrando e saindo. Todo mundo muito bem arrumado,
os funcionários uniformizados. Pensou que nunca tinha
estado num lugar daqueles. Havia um piano perto do
bar, mas estava vazio.
- Quer tocar? – Lívia chegou por trás passando o braço
em sua cintura.
- Não! Só se for pra pagar a conta do hotel. – brincou.
– Muito chique isso aqui.
- É um hotel executivo, existem outros mais chiques.
- Mais que esse?
- Sim.
- Nossa! Aí neste caso teria que tocar vinte e quatro
horas pra pagar a conta.
- Boba! Você, por hora, é minha pianista particular.
Gosto de exclusividade.
- Exclusividade só na pianista?
- Em tudo. Você é toda minha e não abro mão disso.

Marina se sentia lisonjeada com aquelas declarações e


realmente se sentia de Lívia, como se mais ninguém
fosse lhe tocar. Saindo do hotel, Marina avistou o carro
e se assustou.

- O carro é esse?
- É. – Lívia não esboçou nenhuma reação.
- Pra que um carro desse tamanho? – Se referia a um
modelo da Hyundai.
- Porque ele tem mais lugares, na verdade dois a mais.
E tem tração nas quatro rodas, é mais confortável e vai
nos ajudar para ir ao sítio.
- Vai colocar ele na estrada de chão. – Não era nem
uma pergunta, mais uma constatação.
- Claro.
- Meu Deus!

O restaurante era muito bonito, tiveram que esperar


um pouco do lado de fora, pois como não tinham feito
reserva, aguardaram por uma mesa. Ficaram
conversando até que o garçom as chamou. Havia um
lado só de queijos e outros tipos de frios que os clientes
poderiam se servir. Primeiro passaram por lá
apreciaram as iguarias.
- Nossa esse queijo é bom? – Marina colocava um
pedaço na boca.
- Eu adoro também. Quando venho aqui, sempre passo
ali primeiro. Muitas vezes nem janto, só como os
queijos. – sorriu.
- Já veio muitas vezes aqui? – o tom de voz da loirinha
era desconfiado.
- Algumas.
- Ah... – Olhou para os lados.
- Quer saber se vim acompanhada, é isso? – Lívia a
olhava nos olhos.
- É.
- Sim, uma única vez.

Marina abaixou a cabeça um pouco chateada. Na


verdade sabia da resposta, mas esperava outra.

- Se soubesse que ficaria com essa cara, eu teria


mentido.
- Não! Não quero que minta para mim. Prefiro a
verdade. Eu também não tinha nada que ter
perguntado. Curiosidade besta.
- Então vamos mudar de assunto?
- Vamos.

Depois de provarem dos queijos, pediram um nhoque.


Jantaram em clima romântico e depois foram para o
hotel. Assim que entraram no quarto Marina foi pegar
água no frigobar.

- Amor, posso tomar água?

Lívia olhou para ela incrédula.

- Como assim, “posso tomar água”? Claro que pode,


você nunca me perguntou isso.
- Não é que essas coisas em hotel são muito caras.
Uma vez eu viajei com minha família para o litoral,
ficamos num hotel. Meu pai proibiu terminantemente
de pegar qualquer coisa na geladeira, isso incluía água.
Comprávamos na rua e levávamos para o quarto, pra
economizar.

Lívia achou graça da história, mas ficou com pena


também. A família de Marina era uma das muitas nesse
país que lutava para viver e ter o mínimo de conforto.

- Aqui nesse frigobar você pode pegar o que quiser, ok?


– Passou por ela com uma toalha na mão, beijou seus
lábios e foi para o banheiro.
- Vai tomar banho?
- Um rápido, só pra descansar pra dormir. Quer vir?

Marina nem pensou duas vezes. Entraram para o banho


e de rápido não teve nada. Quando saíram a loirinha
lembrou-se dos garotos.

- Será que Eduardo e Fabrício estão dormindo?


- Vai saber, esses dois tão naquela fase morna do
relacionamento, mas passa.
- Será que o nosso vai ter isso, como eles falaram? – a
loirinha perguntou fazendo drama.
- Acho muito difícil.
- E por quê?
- Porque nós duas inovamos, reinventamos, mudamos
e saímos da rotina. – Lívia abraçou e beijou seus lábios.

Marina olhou para ela e teve uma ideia.


- Amor, posso pegar aquele sorvete que ta no frigobar?
– sorriu inocente.
- Pode linda. Mas você quer tomar sorvete essa hora?
- É que quando eu como algo salgado, eu quero comer
algo doce depois.

A loirinha se desvencilhou dos braços de Lívia e foi até


a geladeira, pegou um pequeno pote de sorvete e
voltou olhando para ela maliciosamente.

- Você não disse que eu adoro doce? – falou


empurrando ela para a cama e fazendo-a se deitar. –
Então vou comer doce da melhor forma que tem,
saboreando junto com a morena mais gostosa desse
mundo. – abriu a toalha de Lívia e deixou seu corpo nu
todo a mostra. – Vou começar a inovar. E para que
esse relacionamento não fique morno, nada melhor
que... sorvete.

Marina pegou a colher e tirou um pouco do pote,


passou pela barriga da morena, deixando um rastro até
os seios. Desceu com a boca e foi lambendo, fazendo
Lívia se arrepiar inteira.

- Assim você vai me matar... ahh... – a voz de Lívia


saiu rouca.
- Ninguém morre disso.

Marina pegou mais um tanto e derramou no ventre e


lambeu novamente, depois lambeu a colher tirando o
que restava e abocanhou o clitóris da morena. Lívia
gemeu alto e arqueou o corpo. Marina se entreteve ali
por um bom tempo, não tinha pressa e estava
adorando degustar uma morena com sorvete. Lívia
segurava seus cabelos, ora se agarrava nos lençóis se
contorcendo.

- Amor... por favor... não pára... mais... ah... ahh...

Marina sabia que ela estava em seu limite, então


aumentou os movimentos e pressionou a língua no
ponto onde sabia que a morena delirava de prazer. A
respiração de Lívia ficou acelerada e seu corpo tremeu
sinalizando o gozo, Marina então, segurou suas pernas
e sugou todo seu líquido. Deixou o pote de sorvete do
lado da cama e subiu pelo corpo da morena, ficando em
cima dela.

- Adorei isso. – Lívia ainda ofegava.


- Shii... - Marina beijou seu queixo e mordeu. – É pra
inovar, sair da rotina...

A promotora soltou uma gargalhada.


- Boba!
- Que te ama!
- Também amo você. – Lívia virou de repente ficando
por cima dela. – Estou completamente apaixonada,
largada, abandonada e de quatro.
- Ui, de quatro? – Marina sorriu com malícia.

Lívia levantou uma sobrancelha. Levantou ficando de


joelhos e puxou a loirinha fazendo-a ficar de costas. Foi
tão rápido que Marina não teve como pensar, de
repente estava de quatro.

- Essa calcinha está me atrapalhando. – Lívia a rasgou


numa puxada só. Depois puxou novamente o corpo de
Marina para tirar sua blusa. Ela esticou os braços para
cima, facilitando e Lívia puxou a peça já descendo as
mãos e parando nos seios. Pegou os dois biquinhos e
apertou entre os dedos. Marina levou a mão na nuca da
morena e virou o rosto para beijá-la. Esfregavam-se de
forma sensual, Lívia mordia a nuca e o ombro de
Marina e suas mãos passeavam por seu corpo.
Posicionou o corpo dela de quatro novamente e a
penetrou por trás bem devagar, sentiu a vagina
molhada.
- Que delícia, é tudo pra mim? – falou excitada.
- Devagar... ah....

Lívia massageava o clitóris e a penetrava ao mesmo


tempo. Manipulava um seio junto com os movimentos
da outra mão. Marina rebolava e gemia como uma
gata, não demorou muito a estremecer e antes que
gozasse Lívia parou o que fazia e se enfiou debaixo das
pernas dela. Marina ficou de joelhos e a morena entre
eles, fez com que ela se abaixasse um pouco e lambeu,
sugou, mordeu de leve, sentindo o gosto e a maciez
daquela carne, subiu as mãos e chegou aos dois seios e
enquanto os acariciava, pressionou a língua no clitóris
fazendo Marina gozar e cair sobre seu corpo.

Fizeram amor até de madrugada em várias posições e


maneiras diferentes. E do pote de sorvete não sobrou
nada. Acordaram com as batidas de Fabrício na porta
do quarto. Lívia se levantou, colocou um roupão e foi
andando meio sonolenta. Abriu a porta e estava
bocejando.

- Que você quer uma hora dessas?


- São nove horas da manhã, que horas nós vamos?
- Calma, ta cedo ainda.
- Cedo nada, vamos chegar lá de tarde. Você não
dormiu direito? Está com uma cara.
- Dormi otimamente bem.
- Ahan – ele levantou uma sobrancelha.
- Preciso tomar café, você já tomou o seu?
- Estou descendo com Dudu.
- Então quando terminar me chame de novo. Vou pedir
meu café aqui no quarto.
- Folgada meu Deus!

Lívia fechou a porta e ligou para o serviço de quarto,


pediu um café reforçado. Separou uma roupa para
viajar e deixou a mala pronta e depois foi ao banheiro e
lavou o rosto. Marina se espreguiçou na cama e
chamou por Lívia.
- Amor!

Ela saiu do banheiro.


- Que foi?
- Nada, achei que tinha saído. Quantas horas?
- Nove horas.
- O que? – Marina deu um pulo da cama. – Nossa,
vamos chegar tarde.
- Calma, chegaremos para o almoço. Pedi café pra
gente.
- Vou correr e mudar de roupa. – Marina saiu andando
pelo quarto completamente nua.

Lívia adorou a visão e foi se aproximando com olhos


famintos.
- Delícia de mulher andando nua desse jeito. – agarrou
a loirinha por trás.
- Amor, preciso arrumar as coisas.
- Calma, não vou demorar. – encostou Marina na
parede e tirou o próprio roupão, colando seu corpo no
dela. Marina apoiou os braços na altura da cabeça e
Lívia aproveitou aquela posição para percorrer seu
corpo com as mãos. Lambia e mordia, enquanto Marina
gemia baixinho. Fizeram amor novamente e depois
tomaram um banho rápido para esperar o café da
manhã.

Depois que comeram pegaram a estrada rumo a Jaú.


Antes de sair, Marina ligou para a mãe e informou o
horário que deveriam chegar e ela combinou que os
aguardava para o almoço. A estrada estava boa e sem
trânsito, isso facilitou a ida. Pararam num posto na
estrada para irem ao banheiro e retomaram a viagem.
Por volta de uma hora entravam na cidade. Lívia não
conhecia o trânsito e pediu ajuda a Marina, que indicou
o caminho. Em poucos minutos estavam na porta de
sua casa. Era um lugar simples, com um pequeno
jardim na frente e uma escada que dava acesso a
entrada de casa.

- Gente, essa é minha casa. Sejam bem vindos.


- Estou doido pra esticar as pernas. – Eduardo falou.
- Amor, vou tirar a aliança, senão pode ser que minha
mãe desconfie. Tudo bem?
- Tudo lindinha. Deixa ela aqui no carro.
- Não, vou guardar comigo.

Lívia sorriu da preocupação da garota.


- Me dá um beijinho antes da gente entrar? – a morena
pediu.

Beijaram-se e saíram do carro.


- Beijinho antes de entrar. Que coisa medonha. –
Fabrício brincou.
- Medonha foi a ideia que tive de trazer você! Seu
mala. – Lívia respondeu. – Pare de me amolar.

Marina subiu os poucos degraus e bateu na porta, mas


já abrindo com sua chave.
- Ô de casa!

Ninguém apareceu de imediato, então eles foram


entrando. A primeira coisa que Lívia reparou foi no
piano de armário que ficava na sala.

- Marina! Graças a Deus que chegaram bem. – sua mãe


veio animada recebê-los. – Fizeram boa viagem?
- Fizemos, a estrada está boa. Mãe quero apresentar.
Essa é Lívia, esse é Fabrício, primo dela e Dudu, meu
amigo da faculdade.
- Prazer senhora. – Lívia foi polida.
- Ah, nada de senhora. Pode me chamar de Zezé.
- Ta certo. – Lívia sorriu.
- Oi, muito prazer. – foi a vez de Fabrício.
- Prazer dona Zezé. – Eduardo também cumprimentou.

De repente um neném aparentando um ano de idade


entra na sala.
- Titi! Titi! – veio sorrindo. – Aahhh!
- Isa! Ei neném! – Marina se abaixou para abraçá-la. –
Saudade dessa menininha! – Beijou seu rosto. – Dá um
upa na tia!

A menina a abraçou sorrindo.

Lívia pode perceber que a sobrinha de Marina era uma


cópia dela. Tinha cabelos loiros, poucos, mas da mesma
cor e os olhos eram verdes, idênticos aos dela.

- Pessoal, esse é meu xodó, Luisa. Para os íntimos Isa.

Todo mundo brincou com a criança, que abriu um


sorriso deixando todos encantados.

- Ela é a sua cara. – Eduardo falou.


- Coitada, não desanima a criança. – Marina brincou.

Lívia estava parada feito uma boba com um sorriso no


rosto. Ver Marina com aquela criança havia deixado
uma sensação de bem estar, de família.

- Meninos, o almoço está quase pronto. Não sabia do


que gostavam então fiz uma lasanha, molho branco
Marina, do jeito que você gosta.
- Hum... estou começando a gostar dessas férias. –
Fabrício falou empolgado.
- Eu arrumei o quarto de seu irmão para os garotos e
você dorme com a moça no seu quarto Marina. – Zezé
falou.

Marina olhou para Lívia e sorriu contente.


- Então vamos levar as malas e acomodar as coisas, já
voltamos.

Marina saiu pela casa e deixou os meninos no quarto do


irmão que tinha uma cama de solteiro com bicama.
Depois foi ao seu quarto com Lívia, que sorriu logo que
entrou.
- Olha que bonitinho, parece o quarto de uma
menininha.

Se referia ao branco dos móveis e a parede pintada de


rosa.
- Ah, esses móveis são escolha da minha mãe, tenho
eles desde que fiz sete anos. – tentava se justificar.
- Uma graça. Adorei sua mãe, muito simpática. A ideia
de me deixar aqui foi a melhor coisa que ouvi até
agora.
- Sem-vergonha. – Marina lhe deu um beliscão.
- Ai! Pelo menos ficarei mais perto de você.
- Eu sei amor, também gostei da ideia. – falou
baixinho. – Agora vamos, senão minha mãe vem aqui.

Saíram do quarto se dirigindo à cozinha. Maria José


terminava de tirar a lasanha do forno. E Luisa estava
brincando no chão com várias panelas.
- Meu amor! Quanta panela! – Marina se abaixou para
brincar com ela.
- Ixi! – sorriu para Marina.
- Nossa, já tem dois dentinhos. – Lívia também se
abaixou. – Você sabe cozinhar neném?

Isa as olhava e sorria batendo uma colher nas panelas,


fazendo muito barulho.
- Cozinhar eu não sei, mas bater panela com certeza. –
Maria José brincou.
- Mãe ela cresceu muito.
- Está muito espertinha e andando, você viu né.
- Vi.

Lívia brincava com a menina com tanta naturalidade


que surpreendeu Marina.
- Bom, o almoço ta pronto. Cadê os meninos?
- Chegamos. – Eduardo respondeu entrando na
cozinha.
- Cadê o pai e o Mateus?
- Estão na roça e Barbara também. Os dois não vieram
porque estão cortando cana essa semana e ela você
sabe como é acanhada quanto tem visita.
- O pessoal quer conhecer o sítio.
- Ih esse povo da cidade grande... será que vai gostar?
- Vamos sim, eu adoro a tranquilidade do interior.
Minha mãe mora em Mauá, junto com minha tia, mãe
de Fabrício. Lá também é pequeno e me refugio sempre
quando posso.
- Marina me contou que foram para lá passear.
- Verdade, minha mãe convidou. Ela gosta muito de
Marina.

A loirinha sorria satisfeita vendo a mãe entrosar com


Lívia. Enquanto conversavam se serviam e a lasanha foi
um sucesso, todo mundo repetiu.
- Gente, ainda tem sobremesa. Fiz pudim.
- Oba, o pudim da minha mãe é uma delícia.
- Dona Zezé, Marina sempre gostou muito de doce? –
Lívia perguntou já em tom sarcástico.
- Desde pequena, é que nem uma formiga.
- Imaginei. – levantou uma sobrancelha com um sorriso
de canto.
- Para. – Marina falou baixo batendo na perna dela.

Fabrício revirava os olhos e Eduardo ria. De tarde


sentaram para conversar na sala e Marina atendeu aos
pedidos insistentes e tocou piano. Eduardo, que havia
levado seu violão, a acompanhou cantando e tocando
junto.

- Vocês devem fazer sucesso no Rio. – Maria Jose


elogiou.
- Nós tocamos toda sexta mãe, agora teremos uma
folga de duas semanas, mas o contrato é até o fim do
ano.
- Que maravilha. Toquem mais, estou adorando.
Continuaram na apresentação até tarde.

À noite, na hora de ir dormir, Lívia se enfezou por conta


da porta aberta em seu quarto.
- Você tinha que dormir de porta aberta?
- Sempre foi assim, eu tenho medo de escuro.
- Lá em casa você não parece ter medo. – levantou
uma sobrancelha.
- Mas lá eu tenho você ao meu lado. – sorriu
docemente alisando os cabelos da namorada que
estava no colchonete do seu lado. – E outra, se eu
fechar a porta agora minha mãe vai estranhar.
- Humpf. – Lívia fechou a cara.
- Brava, que eu amo. Dorme com Deus. Te amo muito.
– beijou a palma da mão e passou no rosto da morena.

Lívia sorriu e levantou rapidamente agarrando Marina e


lhe dando um beijo apaixonado.
- Também te amo.

Marina ficou tão desnorteada que nem respondeu.

No dia seguinte prepararam tudo para ir para o sítio.


Lívia foi dirigindo e Marina ao seu lado. Maria José foi
entre os meninos e Luisa na cadeirinha. O tempo
estava meio nublado, mas não chovia, porém o frio era
intenso.

- Nossa, aqui em São Paulo faz mais frio que no Rio. –


Eduardo falou.
- Então se prepare porque lá na roça é pior. – Marina o
animou com as palavras.
- Fiquei bastante animado agora. – revirou os olhos.
- Já está tudo pronto por lá, os meninos no quarto de
Mateus e Marina no seu mesmo com Lívia.
- Ué e Mateus, dorme aonde?
- No meu quarto, que é o maior, ele fica lá com Barbara
e Luisa.
- Papai sabe disso?
- Sabe, ele que deu a ideia.
- Hum. – Marina ficou pensativa.
- Como seu pai se chama? – Lívia perguntou baixinho,
como que envergonhada.
- Roberto. – Marina sorriu.
- Ah sim.

Quando saíram do asfalto e pegaram a estrada de


chão, Lívia reparou que tinha barro em alguns lugares.
- Choveu por aqui?
- Sim, anteontem choveu bem.

Lívia não teve dificuldade em passar no barro.


- Viu como o carro caiu bem nessas horas? – olhou
para Marina sorrindo.
- É, caso contrário estaríamos naquele buraco lá atrás.
- Eu penso em tudo. – pousou a mão na perna de
Marina num gesto instintivo e logo retirou arregalando
os olhos, sorte que Maria José não percebeu.

Avistaram a primeira porteira e Marina desceu pra


abrir, assim foi com mais quatro porteiras até chegar a
casa. Marina viu o pai com uma enxada na mão e
correu ao encontro dele. Lívia foi com o carro até
próximo a casa e parou onde Maria José indicou,
desceram e foram na direção da loirinha e de Roberto.
Lívia pode perceber que Marina era a versão feminina
do pai e vendo-a conversar e vir andando com ele,
notou que até os trejeitos eram parecidos.

- Bom dia minha gente! – ele cumprimentou.


- Bom dia. – responderam ao mesmo tempo.
- Pessoal, esse é meu pai, seu Roberto. Pai esse é
Dudu, Fabrício e Lívia.
- Fiquem à vontade, aqui é roça viu, num tem muito
que fazer, tem cana pra cortar. – sorriu fazendo os
outros rirem.
- O ar puro já me satisfaz e a paisagem é maravilhosa.
– Lívia logo se manifestou.
- Vamos entrando gente, Mateus deve estar lá dentro.
- Ta não, foi no vizinho pegar uns materiais que
estavam emprestados. – Roberto falou.

O lugar da casa não era grande, perto dela havia um


açude e na beirada dele um monjolo que funcionava
por conta da queda d’água de uma pequena cachoeira.
O curral ficava mais ao fundo próximo a um galinheiro.
A plantação de cana se estendia por todo o terreno
atrás da casa e perdia-se de vista.

Todos entraram e se acomodaram. Barbara saiu de um


dos quartos e cumprimentou o pessoal ao mesmo
tempo em que pegava a filha.

- Ei filhinha! Mamãe tava com saudade.


- Barbara só deixou Luisa comigo porque Marina ia
chegar, normalmente ela não desgruda da menina. –
Maria José falou baixo para a nora não escutar. – Bom,
eu vou cuidar dos afazeres e vocês fiquem à vontade.
Marina acomodou os garotos e depois levou Lívia para
seu quarto. A morena bem que tentou roubar um beijo,
mas a pianista foi incisiva.
- Agora não Lívia, quer que meu pai nos veja?
- Vou ficar na vontade as férias inteiras?
- Se isso for preciso para que tudo fique tranquilo, vai
sim.

Saíram do quarto e foram para a cozinha, Marina


ajudou a mãe e Lívia ficou na varanda com os garotos e
Barbara.

- Mãe, estava pensando. Pode juntar todo mundo no


meu quarto e Mateus e Barbara voltam para o quarto
deles, assim não os deslocam.
- Que isso, eles não ligam.
- Mais por conta de Luisa. E outra, colocando os
colchonetes todos juntos, os três se esquentam.
- Você quem sabe, se achar melhor assim.

Mateus veio de charrete do sítio vizinho e a deixou


perto da casa, desatrelou o cavalo e levou umas
ferramentas para o pai, só depois que cumprimentou os
que estavam na varanda.
- Bom dia!

Marina chegou na hora.


- Opa, bom dia. Mateus, esses são meus amigos.

Apresentou todos e ele somente acenou com a cabeça.


Mateus era mais sério a primeira vista, mas depois se
socializava melhor.

O pessoal só se juntou mesmo na hora do almoço.


Havia uma mesa grande que cabiam todos e assim
almoçaram conversando.

- E aí Marina, já ta falando carioca? – o irmão


perguntou.
- Ah, acho que não, mas estou aprendendo um monte
de gírias.
- Ela deu foi sorte, porque as pessoas com quem
convive mais tempo não têm o sotaque carregado. –
Eduardo falou.
- É verdade, eu pouco tenho sotaque, Eduardo também
e Lívia que teria mais, também não tem graças a anos
de fonoaudióloga. – Fabrício riu.
- Ué, não sabia que tinha feito fono? – Marina se
surpreendeu.
- Fiz pra poder encarar melhor um tribunal, juiz
nenhum me daria uma causa com o sotaque que eu
tinha.
- Tipo carioca malandro. – Fabrício debochou levando
um chute por debaixo da mesa. – Ai. – Reclamou.
- Você é advogada? – foi Roberto quem perguntou.
- Sou formada em direito, mas atualmente sou
promotora.
- Também minha chefinha. – Fabrício bateu no ombro
da prima.
- E você é o puxa-saco. – Roberto brincou com o rapaz
tirando boas risadas do pessoal.
- Viu, reconheceram seu disfarce. – Lívia falava ainda
rindo.
- Eduardo toca comigo pai.
- Ah, então é dele que sua mãe falou.
- Estou famoso por aqui? – o rapaz brincou.
- É que Marina disse que você é um grande amigo.
- Verdade, pessoas como Eduardo são como anjos da
guarda. – disse olhando carinhosamente para o rapaz.
– Mas não posso reclamar, fiz boas amizades no Rio e
me sinto feliz com isso. Fabrício é uma mão na roda,
sempre ajuda a banda, dá conselhos, briga também, os
outros garotos também são ótimos. Sem contar Monica
que é doida, mas é minha parceira de aventuras,
passamos poucas e boas naquela faculdade.
- Contar com os amigos é muito bom. – disse Maria
José.
- Esqueceu de ninguém não? – Lívia fingia desolação.
- Você? – Marina sorriu afetuosamente. – Bom, você é
quem mais me motiva a querer melhorar, lutar pelos
meus sonhos, é a maior incentivadora que poderia ter
ao meu lado. – Marina falou sem disfarçar o brilho nos
olhos que não desgrudavam dos de Lívia.

Fabrício que notou o momento romântico, cortou logo


querendo também justificar essas palavras.

- Lívia nos deu um teclado de presente e deixou Marina


estudar no piano da casa dela! – falou sem respirar.
- Calma, uma coisa de cada vez. – Roberto quem falou.
– Como é que é isso?
- Quando nosso tecladista saiu, carregou o teclado dele
e Marina não tinha um. Até comprou um usado, mas
era a treva aquilo. Lívia comprou um novo e deu pra
banda.
- É mesmo, isso foi um gesto muito carinhoso. – Marina
sorria. – O piano é por que... ela tem um na casa dela
e me deixou estudar lá quando eu precisasse, pois os
da faculdade são muito concorridos e os veteranos têm
mais preferência.
- Que beleza! Viu minha filha, você achava que seria
muito difícil no Rio e que talvez nem ficasse por lá.
Deus lhe mandou verdadeiros anjos e tudo deu certo. –
Maria José falou.
- E eu agradeço todos os dias.
- E Monica, como ela está se comportando por lá? –
Zezé perguntou.
- Ah mãe, Monica sempre foi doidinha, mas ela no
fundo tem juízo. Está namorando Hugo, o baixista da
banda, ele é um bom rapaz. Ela só é empolgada. Por
pouco não prejudica sua nota na faculdade. Isso porque
deu mais prioridade ao namoro que aos estudos, mas
passou tanto aperto que acho que aprendeu.
- O pai dela morreria se ela não se formasse.
- Eu sei.
- E quando ela vem?
- Aí já não sei. Ela disse que viria antes de acabarem as
férias.
- É, vem quando estiver faltando uma semana. –
Eduardo riu.
- Eu não duvido Dudu.
- Não sou ninguém para julgar, mas acho que ela
deveria dar mais valor a família, afinal os pais dão um
duro danado para vê-la estudando fora. – Lívia falou.
- É, pais não são pra vida toda. – Eduardo falou.

Almoçaram sob conversa animada e a tarde passou que


nem viram. Andaram pelos arredores do sítio e
puderam conhecer sobre a produção de cana ouvindo
Roberto falar animado.

À noite, já no quarto, os quatro se ajeitavam pra


dormir.

- Vocês dois dormem mais desse lado que eu vou ficar


nesse canto aqui. – Lívia apontava para o colchonete.
- E pra que tudo isso? – Fabrício perguntava.
- Não discuta comigo.

Marina apenas olhava a arrumação dos três. Pouco


depois que se deitou e estava quase cochilando, sentiu
um abraço envolver seu corpo.

- Lívia, ficou maluca? – Marina falou baixo.


- Fiquei, estou com saudade de abraçar você. – Lívia
falou baixo também.
- Só de abraçar? – Marina se virou perguntando com
voz inocente.
- Não, de beijar também. – beijou-lhe os lábios. – De
morder. - mordeu o lábio inferior. – E de fazer amor...
– colocou uma das mãos entre as pernas da loirinha e
apertou seu sexo.
Marina gemeu afastando a mão da morena.
- Aqui não amor, meus pais podem acordar e tem os
meninos ainda...
- Sim, e os meninos querem dormir. – Fabrício logo se
manifestou.
- Quer calar a boca? – Lívia falou entre dentes.
- Não! Quero dormir.

Lívia voltou a avançar o sinal e Marina a interrompeu


novamente.
- Lívia, por favor, aqui não. – quase implorava.

Lívia parou, ponderou pensando na outra vez que havia


tomado Marina a força.
- Tudo bem, desculpe incomodar. – falou sério e se
desvencilhando da namorada.
- Fica aqui comigo, a gente dorme juntas, mas se ouvir
algum barulho você corre pro colchonete, tudo bem? –
falou delicadamente.
- Tudo bem. – ainda estava séria.

Marina se aconchegou ao corpo de Lívia, que a abraçou,


mas ficou preocupada, sabia que quando aquela
promotora queria alguma coisa e não conseguia, ficava
irritada. Dormiu e acabou tendo pesadelos em função
de seus pensamentos.

Maria José sempre acordava cedo, acompanhava o


marido que se levantava praticamente com as galinhas.
Foi para a cozinha preparar o café da manhã e passou
pelos quartos para ver se estava tudo em ordem.
Estava distraída passando o café quando Marina
chegou.

- Bom dia mãe.


- Bom dia minha filha.
- Quer ajuda?
- Prepare a mesa somente. Seu pai está tirando leite
das vacas, quer ir lá?
- Ah eu quero.
- Sua vaquinha está prenha, deve nascer bezerrinho no
fim do ano.
- Que beleza.

Marina foi em direção ao curral ajudar o pai. Voltaram


com a leiteira cheia.
- Leite pronto pra ferver. – Roberto falou.

Eduardo e Lívia estavam chegando na cozinha.


- Bom dia minha gente. – o rapaz falou.
- Bom dia. – todos na cozinha responderam.
- Passaram muito frio? – Roberto brincou.
- Que nada. – Eduardo respondeu. – Dormir neste
silêncio é uma benção. Fazia muito tempo que não
dormia ouvindo barulho de grilos, água corrente e da
natureza mesmo.
- Quando a avó de Marina era viva reclamava do
monjolo, dizia que incomodava pra dormir. Falava
assim: Aquele diacho fica a noite toda... pó... pó... pó...

Todos acharam graça de Roberto contando.

- Minha avó era uma figura, tenho saudade dela. –


Marina falou pensativa.
- Está calada Lívia, não dormiu bem? – Maria José
perguntou.
- Dormi sim, é que de manhã eu fico quieta mesmo.

Marina a olhou de soslaio e nada falou.

- O outro rapaz está dormindo ainda? – Roberto


perguntou.
- Está, depois eu vou chamá-lo.

Sentaram para tomar café praticamente em silêncio.


Marina estava um pouco desconfiada do
comportamento de Lívia e Maria José percebeu que
tinha algo errado, mas apenas observou. Roberto
conversava com Eduardo, mas pouco também. O
ambiente só melhorou quando Luisa chegou andando e
carregando uma boneca. Seguida por Barbara e Mateus
que cumprimentaram a todos.

- Titi!
- Ei menina! Que boneca bonita!

Marina pegou a menina no colo e ficou brincando com


ela. Quando terminaram de comer alguns foram para a
varanda. Lívia voltou para o quarto com Eduardo e
Fabrício. Marina continuava com Luisa no colo até que
Barbara chegou para levar a criança para mamar.
Então resolveu sair para fazer uma caminhada.

No quarto, Lívia era repreendida por Eduardo, que


achou estranha a cara dela.

- E porque você não dormiu com sua namorada, vai


ficar com essa cara de cão o dia todo?
- Ela é minha noiva e eu só queria estar mais perto. –
falava enfezada.
- Ah sim e o título de noiva lhe dá mais direito sobre
ela. Lívia, deixa de criancice. Marina veio pra cá pra
poder curtir a família. Vocês duas ficam grudadas
praticamente o tempo todo no Rio. Será que você não
pode ter um pouco de compreensão? É a casa dos pais
dela, quer que alguma coisa dê errado e estrague as
férias dela?
- A vida dela né? Porque se os pais dela descobrem
sobre vocês, é bem capaz dela nunca mais botar os pés
aqui. – Fabrício completou. – Estou admirado com seu
comportamento infantil.
- Vocês têm privacidade suficiente no Rio, então pra
que tudo isso aqui? Respeite-a sendo mais flexível com
as coisas.

Lívia continuou emburrada, mas sabia que os meninos


estavam certos. Quando saíram do quarto ela foi
procurar por Marina.

- Ela estava na varanda, mas acho que saiu. – falou


Mateus. - Gente, alguém quer pescar? Estou indo pro
açude.
- Pescar? Com vara ou molinete?
- Olha, não sei como vocês pescam na cidade grande,
mas aqui no interior a gente usa é isso aí mesmo. – riu.
- Eu quero! – Eduardo se animou.
- Eu fico aqui descansando e tirando foto. – Fabrício
falou já se sentando numa cadeira na varanda.
- Então vamos ver se você é bom de pesca. – Mateus
brincou com Eduardo.

Depois que os dois saíram Fabrício pegou a máquina e


ficou tirando fotos da onde estava mesmo. Nem
reparou que Barbara se aproximou.

- Está gostando das férias?


- Bastante. Aqui é uma tranquilidade só, bem diferente
do Rio. Muito trânsito, carros buzinando, gente
estressada.
- Imagino. Não sei como Marina aguenta.
- Ela se adaptou bem.
- Também, arrumou amigos muito legais.
- Nós gostamos muito dela também.

Os dois ficaram de conversa e Fabrício pode perceber


que Barbara era mais atenta do que se imaginava e
poderia saber facilmente sobre a relação de Marina com
Lívia.

- Oi! – Lívia falou chegando por trás de Marina.


- Oi. Não ouvi você se aproximando. – continuou
andando.
- Posso caminhar com você?
- Claro.

As duas andavam pelo caminho contrário que levava ao


sítio. Marina sempre que ia lá, fazia esse percurso, pois
havia muitas sombras e era muito calmo. Gostava de
caminhar e pensar na vida. E era o que estava fazendo
até Lívia chegar.

- Ficaremos quanto tempo aqui? – Lívia perguntou.


- Uma semana, talvez menos. Por quê?
- Por nada, mas daqui voltamos pra sua casa em Jaú,
não é?
- Sim. Pensei em ficar até perto do dia do próximo
show, mas vejo que será um problema isso.
- Qual o problema?
- Você.
- Eu?!
- É, sei que está fazendo um esforço muito grande
vindo pra cá. Não tem muito que fazer e o que se tem
são coisas simples. Assim como o lugar é muito
simples.
- Que isso, eu...
- Sem contar a falta de privacidade. – interrompeu.

Lívia ficou quieta.


- Então provavelmente ficaremos até o meio da semana
que vem.
- Não amor. Vamos ficar até a data que você quiser. –
Lívia parou no meio do caminho segurando o braço de
Marina.
- Acha que fico feliz, estando aqui e vendo a sua cara
como a de hoje de manhã?
- Eu estava com sono amor, não era cara feia pra você.
- Ahan. – continuou andando.
- Marina. – Lívia a pegou pelo braço e andou até uma
árvore próxima. – Escute uma coisa. – encostou a
loirinha na árvore. – O fato de querer estar próxima,
querer ter mais privacidade é porque me acostumei a
isso. Sinto falta de ter você mais perto, mas não
significa que eu não esteja gostando. Eu te amo Marina
e isso é o suficiente pra querer ficar ao seu lado
simplesmente. Perdoa se pareço impaciente.
- Você nem disfarça.
- É falta de costume, vou tentar corrigir.
- Se quiser ir embora, eu fico e volto depois, pode ser
assim também. – baixou a cabeça.
- Eu vim, estou aqui, conheci sua família e só volto com
você. Adorei todos eles e estou gostando de passar as
férias aqui, penso em mamãe que também iria gostar.
- Iria mesmo. – Marina sorriu.
- Vamos aproveitar.
Pegou Marina pela mão e continuaram o passeio.

Os dias que se seguiram transcorreram muito bem. A


noite sempre se juntavam para conversar e contar
histórias. Roberto falava do sítio, da colheita e sempre
com brilho nos olhos. Maria José se concentrava em
agradar a todos. E Marina aproveitava o tempo para
matar a saudade da família e principalmente da
sobrinha. Estava brincando com ela no chão da sala
quando Lívia se aproximou.

- Posso brincar?

Como resposta Luisa pegou uma panelinha e entregou


a ela.

- Acho que ela quer te ensinar a cozinhar. – Marina riu.


- Ih, até você já sabe dos meus dons culinários? – Lívia
fez cócegas na menina que começou a rir.

Enquanto Luisa mexia nos brinquedos no colo de Lívia,


Marina a observava, admirada.

- Você leva jeito com criança.


- Que nada, é costume. Fabrício é um pouco mais novo
que eu e quando éramos crianças eu ajudava tia Bete a
cuidar dele. Acho que até perdi o jeito.
- Perdeu nada.
- Será que se eu convidar o pessoal para jantar
amanhã quando voltarmos para Jaú, eles aceitam?
- Papai talvez resista, mas eu te ajudo.
- Então à noite a gente fala sobre isso.

No jantar Lívia cutucou Marina, que falou sobre saírem


para jantar.

- Estou convidando, é uma forma de retribuir a estadia,


que tem sido muito agradável.
- Difícil é sair da roça moça, essa semana tem muito
trabalho. – Roberto pareceu sem graça.
- Ah pai, um dia só não faz mal.
- Vamos deixar pra ver isso na próxima semana. –
Maria José falou.
- Mas eu vou cobrar hein. – Lívia brincou.

Na semana seguinte voltaram para a cidade, só ficando


no sítio Roberto e Mateus. Os dois haviam prometido ir
durante a semana. Assim que chegaram em casa Lívia
quis sair com Marina para andar pela cidade.

- Amor, pensei direitinho, caso eles não queiram jantar


fora, a gente faz o jantar pra eles. Que acha?
- A gente? – Marina riu. – Nós duas sabemos que quem
cozinha nesse relacionamento sou eu.
- Então, você cozinha e eu ajudo, serei sua assistente.
- Hum, gostei disso. Mas acho que eles vão aceitar,
minha mãe é mais maleável e ela gosta de sair, meu
pai que é mais bronco pra essas coisas.

Lívia parou o carro numa vaga e antes de descer olhou


para Marina parecendo uma criança e falou:
- Quando a gente chegar no Rio você pode cozinhar pra
mim? Estou com saudade da sua comida.
- Ô amor, eu cozinho sim. Quer alguma coisa em
especial? Mesmo que não saiba fazer, eu aprendo. –
sorriu e segurou a mão de Lívia.
- Qualquer coisa, tudo que você fez até hoje tava
gostoso. Na verdade acho que estou sentindo falta
daqueles momentos só nossos.
- Hum. – Marina se aproximou e viu que a rua não
estava muito movimentada e beijou a boca de Lívia. –
Também sinto falta, meu bem. Prometo que chegando
em casa eu te paparico, faço almoço, jantar, café da
manhã e tudo que você quiser. – segurou seu rosto e
beijou seus lábios novamente.
- Ô tentação! Vontade louca de pegar você aqui e agora
dentro desse carro. – Lívia a puxou e segurou firme na
cintura de Marina, mordeu seu pescoço e chupou com
vontade.
- Amor, não faz isso que também está ficando difícil
resistir. – Marina tentava se desvencilhar, mas as mãos
de Lívia já procuravam lugar entre suas pernas. –
Amor... amor... – quase implorava.
- Tá bom! Parei! Vamos descer, caso contrário não vou
me segurar.

Marina a olhou com ternura e deu um selinho.


- Te amo!

Lívia saiu do carro, deu a volta e quando ficou de frente


pra ela a abraçou forte.
- Também te amo.

Segundos após se separarem, Marina viu o ex


namorado passar e as olhar com curiosidade.
- Hum, meu ex.

Lívia se virou para vê-lo e o encarou.


- É, você realmente merece coisa melhor. Nesse caso,
eu.
- Modesta. – lhe deu um tapa no braço.
- Realista.
- Boba, mas eu concordo. Ele não chega a seus pés.

Andaram pelas ruas e compraram algumas coisas. Lívia


comprou roupas de inverno para Luisa, tudo escolhido
pelas duas.

- Preciso comprar um presente para os sogros.


- Ah é? Ta querendo agradar?
- Sabe como é né. – brincava. – Me dá uma dica.
- Meu pai gosta muito de vinho e minha mãe gosta de
qualquer coisa.
- Sabe onde tem uma boa adega aqui?
- Olha, adega não sei, mas tem um mercado aqui que
vende queijos, vinhos entre outras iguarias.
- Então vamos.

Chegando ao mercado Lívia escolheu um vinho chileno


e também comprou alguns queijos.
- Podíamos fazer uma coisinha hoje à noite. Que tal?
- Tudo bem. – Marina concordou. – Aqui tem um
salame muito bom, ele é temperado com azeite e ervas
finas.

Compraram tudo que precisavam e saíram. Passaram


em frente a uma loja de bolsas e compraram uma para
Maria José. E Marina comprou outra para Marta.
- Também tenho que agradar minha sogrinha. Adoro-a!
- Ela também te adora amor. Que acha da gente
almoçar aqui na rua?
- E largar os meninos lá em casa?
- Que tem? Eles não vieram porque são preguiçosos e
ficaram dormindo.
- Vou avisar minha mãe então.

Marina ligou e avisou que iria almoçar na rua.

Foram ao shopping e almoçaram por lá. Quase na hora


de ir embora, Lívia viu uma loja que vendia utensílios
domésticos, procurou uma forma de waffles e achou.

- Linda, vou levar pra sua mãe. Você disse que gostaria
que ela aprendesse a fazer.
- Amor, já compramos muitas coisas.
- Só mais essa.
- Ai, ai...

Assim que saíram deram de cara novamente com o ex


de Marina e dessa vez ele parou para cumprimentá-la.
- Oi Marina! Quanto tempo.
- É, faz tempo mesmo.
- Voltou pra Jaú?
- Não, estou passando férias com minha família e
amigos. – olhou para Lívia.
- E como está no Rio?
- Muito bem, graças a Deus. Agora tenho que ir, minha
mãe está me esperando.
- Calma, vai ficar aqui até quando? Podíamos marcar de
sair.
- Não dá, estou indo embora por esses dias e quero
aproveitar a companhia deles. Tchau.

Marina deu as costas para ele e saiu. Lívia nada falou


até o perder de vista. Quando entraram no carro ela
disparou a falar.

- Idiota, palhaço, infeliz, abusado e pretensioso. – Lívia


bufava.
- Ei! Calma mocinha. Ele não fez nada e já passou.
- Imbecil.

Marina olhou para ela e achou graça da cara de brava.

- Vem aqui bichinho. – puxou a morena pelo rosto. –


Você fica linda quando está com raiva, mas eu gosto
mais ainda do seu sorriso. – beijou sua boca. – Que tal
me dar um. – esfregou seu nariz na ponta do nariz
dela, fazendo Lívia sorrir. – Agora sim, melhorou.

Lívia ligou o carro e voltaram para casa de Marina.


Chegaram parecendo Papai Noel em fim de ano.

- Minha nossa senhora! Compraram a cidade toda?


- Ah mãe, Lívia quando decide ir às compras, ninguém
segura.
- Óóóó... – Fabrício chegou na sala olhando os
presentes.
- Sem comentários. – Eduardo o interrompeu.
- São só umas coisinhas. – Lívia tentou se justificar. – E
presente pra esse neném lindo aqui. – falou olhando
para Luisa.

Tirou das sacolas as roupas e por último uma caixa


grande toda colorida e entregou a menina.
- Esse, nós duas escolhemos em comum acordo. –
falou do presente.

Luisa foi andando em direção a caixa e a rasgou de


cima a baixo. Era um carrinho para passear, rosa, lilás
e verde. Tinha buzina, pisca-pisca e um teto flexível.

- Olha neném, tem musiquinha. – Lívia apertou o botão


fazendo tocar uma música infantil.

Luisa ria e levantava as mãozinhas.


- Nossa, que lindo filha! – Barbara chegou falando.

Luisa virou de repente e abraçou Lívia num gesto


carinhoso e que acabou desconsertando a morena.
- Isso, dá “upa” na tia. – Marina falou achando graça da
cara de Lívia. – Trouxemos mais coisas mãe. O pai já
chegou?
- Ele está no banho.
- Então depois entregamos o dele. Esse aqui é da
senhora. – entregou a bolsa. – E esse também, vou te
ensinar a usar.
- Que é isso?
- Faz waffles.
- Como?
- Waffles mãe, vou fazer amanhã no café da manhã,
até compramos os ingredientes.

Marina ainda entregou um presente para a cunhada e


deixou um para o irmão.
- Eu não ganho nada? – Fabrício retrucou.
- Você ganhou a viagem.
- Ahh... Chefe mais pão dura.

Maria José achava graça de Fabrício.

Como combinou no dia seguinte Marina fez waffles pra


todo mundo e um especial para a noiva.

- Esse negócio é muito gostoso. Só não sei se levo jeito


pra manusear.
- Mamãe não é uma chef de cozinha, mas quando quer
faz direito. A mãe de Lívia cozinha muito bem.
- Minha mãe gosta de inventar receita, por isso vocês
duas se dão bem. – Lívia falou.

Poucos dias antes de irem embora as duas conseguiram


levar o pessoal para jantar. Deixaram que Maria José
escolhesse o lugar. Já sentados à mesa e após fazerem
os pedidos, Roberto falou agradecido.

- Eu queria agradecer o convite e o presente. Não


precisava disso tudo.
- Nós que agradecemos a estadia. Adorei os dias que
passamos aqui, me sinto renovada.
- Vocês são boas visitas, não dão trabalho e ainda dão
presente. – Maria José riu.
- E podem voltar sempre que quiserem. São bem-
vindos.

As bebidas chegaram e eles brindaram animados.


Jantaram em clima de felicidade e despedida ao mesmo
tempo.
No dia de ir embora Marina chorava a toa. Na hora
mesmo de ir, se despediu do pai e da mãe com um
abraço apertado.

- Olha, vocês não reparem, mas comprei um presente


pra cada um também. Na verdade eu que fiz. – Maria
José falava e entregava a Lívia e aos garotos um
pacote.

Eles abriram e era uma toalha bordada com o nome de


cada um.

- Mãe, você bordou isso quando? – Marina perguntou


curiosa.
- À noite, todos os dias e escondido de vocês. –
Roberto a dedurou.
- Não precisava se incomodar dona Zezé. – Eduardo
falou. – Muito obrigado, eu adorei.
- Eu também.

Marina ficou comovida com a atenção que a mãe deu


aos amigos.

Foi para se despedir de Mateus, com ele era algo mais


polido, mas com muito choro também. Abraçou a
cunhada e quando foi a vez da sobrinha ela não se
aguentou, chorou como criança.

- Titia vai sentir muita saudade viu.


- Titi!
- Fica com Deus, bonitinha. Titia ama você.

Luisa a abraçou encostando a cabeça no ombro de


Marina. Saíram pouco antes das duas da tarde. Dessa
vez Fabrício foi dirigindo com Eduardo na frente. Marina
e Lívia foram no banco de trás. Quando pegaram a
estrada Marina deitou a cabeça no ombro da morena e
os olhos estavam cheios de lágrimas. Lívia estendeu o
braço e a abraçou.

- Meu amor, não chora. Daqui uns dias vem um feriado


e você vai poder vir visitá-los.
- Eu sei, mas eu sinto muita falta deles.
- Que eu posso fazer para que se sinta melhor? – Lívia
acariciava seus cabelos.
- Você já faz. Acho que se não fosse você e os
meninos, talvez eu nem estivesse no Rio. Só que
família é diferente, tenho saudade deles e quando estou
longe me sinto fora de lugar.
- Não está, e eles estão felizes que você esteja
estudando e indo bem na faculdade. Estão orgulhosos.
- É verdade Marina. Sua mãe, quando fala de você, os
olhos chegam a brilhar de orgulho. Seu pai também,
apesar de parecer mais comedido. – Eduardo também
falou.
- Adorei sua família, aliás, minha também. Porque se é
a família da minha noiva, é a minha também.

Marina pegou a aliança que estava guardada na bolsa e


colocou no dedo.

- Acho que agora posso colocar.


- Ah bom, achei que tinha desistido.
- Nunca! Mas não é uma aliança que prova nada, é o
que está aqui. – apontou o coração.
- E o que está aí? – Lívia falava baixinho.
- Meu amor por você. – Marina a olhou nos olhos.
- Linda! – beijaram-se.

Marina voltou a se aconchegar nos braços de Lívia e


acabou adormecendo. Quase perto de São Paulo, Lívia
acordou.
- Nossa cochilei. Fá está tão quieto que acho que
deixou a voz lá em Jaú.
- Estou concentrado. Quase nunca pego estrada.
- Vamos deixar o carro na locadora e ir direto para o
aeroporto viu? Não comprei as passagens de volta, mas
acho que deve estar tranquilo, é meio de semana.

Quando estavam próximos da locadora Lívia acordou


Marina. Acertaram tudo e o próprio funcionário os
deixou no aeroporto como cortesia. Não tiveram
dificuldades para pegar o vôo e antes das dez já
estavam em casa. Marina apenas mandou uma
mensagem para Monica avisando que havia chegado.
Enquanto Lívia deixava as coisas no quarto a loirinha
também ligou para a mãe e avisou que havia chegado.
Quando subiu, a morena já a esperava para tomarem
banho.

- Que saudade de ficar assim. – Lívia a abraçou


embaixo do chuveiro.
- Eu também. Gosto tanto desse abraço. – Marina
encostou a cabeça no colo da morena. – Amor, acha
que meus pais desconfiaram? – levantou a cabeça.
- Acho que não. Nem tiveram motivo, não fizemos nada
na frente deles. Fabrício é mais observador para essas
coisas, depois vou perguntar a ele.
- E o que achou da viagem? – Marina parecia receosa.
- Ao lado da minha noiva? Qualquer viagem é boa.

Marina sorriu franzindo o nariz esquecendo qualquer


dúvida que poderia ter. Beijaram-se apaixonadamente.
Lívia não aguentava mais segurar a vontade que tinha
de fazer amor com Marina. A puxou pela cintura,
fazendo com que enlaçasse as pernas nela. Mordia seu
pescoço e sugava com vontade, Marina arranhava seus
ombros e gemia baixinho, aumentando ainda mais a
excitação da morena.

- Amor... vamos pra cama... – Marina pedia com voz


manhosa.
- Daqui a pouco... – Lívia mordia o lábio inferior da
loirinha enquanto apertava um seio. – Não estou com
pressa, quero você bem devagar... – mordeu a orelha e
levou a mão que estava no seio até entre as pernas
dela.
- Ah... mas eu também quero você... aahhh – Marina já
rebolava sentindo os dedos de Lívia.
- Então primeiro goza pra mim. – sussurrou em seu
ouvido e aumentou seus movimentos.

Marina arqueou o corpo tombando a cabeça para trás,


seus gemidos estavam cada vez mais altos e agudos.

- Isso... geme gostoso. – a voz de Lívia saia


completamente rouca. Sentiu quando a loirinha gozou
arranhando suas costas e contraindo as pernas.

Fechou o chuveiro e saiu do banheiro indo direto para a


cama. Sentou na beirada com Marina ainda em seu
colo. Beijavam-se com urgência e saudade. Marina
empurrou Lívia para que se deitasse e saiu de cima
dela, abrindo suas pernas em seguida. Delicadamente
levou os dedos em sua vagina e constatou que estava
molhada.

- Hum... Isso tudo é pra mim?

Lívia gemeu abafado e sorriu.

- Safada, está cada dia mais sem-vergonha.


- E você não gosta? – Marina bolinava o clitóris
encharcado.
- Adoro.

Usava os dedos com maestria, esfregava devagar para


em seguida acelerar os movimentos. Reclinou o corpo e
sugou um seio, mordendo o biquinho, depois voltou a
se concentrar entre as pernas da morena. Levou a boca
ao clitóris e os dedos em sua abertura, fazendo
movimentos circulares. Lívia abriu mais as pernas e se
deixou levar por aquela sensação de prazer e luxúria.
Marina ficava fascinada com aquela visão, ver aquele
corpo estremecendo aos seus toques era um prazer
extraordinário. Lívia gozava, mas Marina parecia
insaciável, só parou com os movimentos quando a
morena levou sua própria mão interrompendo a
loirinha.

- Pare, senão minhas pernas vão cair.


- Cansou? – sentou no púbis da morena.
- Não... – ofegava. – Vem aqui, que eu não saciei a
minha vontade de você...

Puxou Marina pela cintura e a beijou com desejo,


estava saciando seus instintos e sua excitação era
incontrolável. A noite foi muito curta para as duas.
Ainda faziam amor quando o sol começava a nascer.
Marina estava sentada na beirada da cama e Lívia entre
suas pernas a lambia com voracidade.

- Ah... amor... aahhh... – arqueava o corpo e sentia as


mãos da morena subirem para seus seios.

Lívia se levantou, subindo na cama, girou o corpo e


pela primeira vez Marina soube o que era a posição 69.
Esgotadas, deitaram lado a lado, de barriga para cima.
Lívia passou a mão no rosto tirando a franja e falou
ainda respirando descompassado.

- Acho que durmo um dia inteiro.


- Eu também. – Marina respondeu também cansada.
- Mas primeiro um banho, que tal? – Lívia virou, ficando
em cima de Marina.
- Banho? Tem certeza? – a loirinha riu desconfiada.
- Juro!
- Você não consegue jurar. Lembra da primeira vez que
dormi aqui?
- Se eu não consigo cumprir com meus juramentos a
culpa é sua. Por ser gostosa, cheirosa e deliciosamente
linda, fica difícil resistir. – falou enchendo a loirinha de
beijos.

Tomaram banho e mesmo cansadas fizeram amor


embaixo do chuveiro novamente. Quando iam dormir,
Lívia resolveu desligar o celular e o telefone que ficava
no quarto, para não incomodá-las. Dormiram por
longas horas e só acordaram porque o interfone tocava
insistentemente. Lívia levantou e foi atender.

- Oi. - a voz saiu mais irritada do que imaginou.


- Senhora Lívia, me desculpe incomodá-la. É que tem
alguém aqui na portaria querendo falar com a dona
Marina. – o porteiro falou receoso.
- E quem é?

Ele pareceu perguntar o nome e depois respondeu:

- Monica.
- Ah sim, pode mandar subir.

Lívia olhou no relógio e viu que eram quase quatro da


tarde. Esperou Monica subir e quando abriu a porta
para ela, pediu que esperasse um minuto.

- Atrapalho?
- Não, imagina. – tentou não ser irônica. – Vou chamar
Marina, ela está dormindo.
- Qualquer coisa eu volto depois.
- Não precisa, só um minuto.

Lívia saiu e Monica ficou pensando se estaria


incomodando. Ficou reparando no apartamento com
mais minúcia, era realmente um lugar bonito e
aconchegante. Qualquer um se sentiria bem naquela
situação. Pensou em várias coisas, foi interrompida por
Marina, que descia as escadas.

- Ei Monica!
- Oi, e aí? Tudo bem? – reparou que a loirinha usava
um roupão e imaginou que estivesse ocupada mesmo.
- Tudo jóia, estava dormindo. Chegamos muito tarde e
ainda fui desfazer as malas.
- Você vai passar a semana aqui?
- Não sei, por quê?
- Por nada, só pra saber. Como foi de férias?
- Ótimo, matei a saudade, mas sempre fica um
pouquinho.

Monica achou graça.

- Você é muito manteiga derretida, daqui a pouco vai


vê-los de novo.
- E aqui, como estão as coisas?
- Bem, fiquei uns dias na casa de Hugo, depois fomos
ver a família dele. Quando vai passar no apartamento?
– perguntou de novo.
- Como disse, não sei, está precisando de alguma
coisa?
- Não, só queria conversar.

Marina sentiu que Monica queria falar algo e que no


apartamento de Lívia não era o melhor lugar.

- Passo lá amanhã, pode ser?


- Pode.
- Quer tomar um café? Eu to morrendo de fome.
- Queria uma água, se não for incomodar.
- Monica, pelo amor de Deus. Para com esse lance de
incomodar e aqui pode ficar a vontade.
- Ah, sei lá né. Apartamento chique. – falou com ironia.
- Lívia é mais simples do que imagina.

Marina fez um lanche rápido junto com Monica e depois


levou a amiga até o elevador.

- Amanhã eu passo lá.


- Combinado.

Voltou à cozinha e arrumou uma pequena bandeja para


levar para o quarto. Lívia assistia TV e quando viu a
loirinha entrando, ajeitou as coisas na cama para que
ela se sentasse.

- Lanchinho. – Marina falou sorrindo.


- Hum... Isso faz parte da promessa feita em Jaú?
- Eu prometi alguma coisa? – se fez de desentendida.
- Ah sua cara de pau, você disse que ia fazer um monte
de coisas.
- Disse? – Marina foi engatinhando para sentar sobre o
ventre de Lívia.
- Ahan... – a morena percorreu a lateral do corpo da
namorada.
- Acho que não me lembro.
- Ah, cachorrinha, deixa você...
- Cachorrinha? – Marina fingiu espanto.
- É...
- Houve um tempo em que você me chamava de
gatinha.
- E você ainda é minha gatinha. – mordeu seu queixo.
- Então, vou cumprir com minha promessa, vem que
vou servir seu café... da tarde, porque pela hora.
- Dormimos muito, não é?
- Bastante.
- A noite foi agitada.
- Foi.
- Te dei uma canseira?
- Deu. – Marina se limitava a responder, brincando com
Lívia.
- Se arrependeu? – Lívia ficou desconfiada.
- E quando é que me arrependi de algo que fiz com
você? Nunca!

Lívia era só sorrisos.

No dia seguinte Lívia foi trabalhar e deixou Marina no


apartamento dela. Assim que entrou viu Monica sair do
quarto para o banheiro.

- Bom dia! Dormindo ainda?


- Aproveitando as férias.
- É, tem que descansar, temos alguns dias ainda.
- Pois é, e queria falar sobre isso também. – Monica
logo foi objetiva. – Durante o resto das férias você vai
ficar aqui ou com Lívia?
- Não sei Monica, são coisas que não pensei e não
penso a respeito. Óbvio que se me perguntar onde
quero ficar, vou dizer que com ela. Mas Lívia também
tem seus compromissos e não gosto de atrapalhar.
- Pensa em morar com ela?
- Ela já me fez o convite, mas sinceramente, acho isso
muito cedo. Pode ficar tranquila que não vou te
abandonar.
- Não é isso, é que... – Monica pausou, parecendo
pensar no que falar. - ...Talvez se você fosse pra lá,
Hugo viria pra cá ou eu moraria com ele.
- Monica! Da mesma forma que acho cedo ir morar com
Lívia, também acho que você morar com Hugo é muito
precipitado. E se não der certo o relacionamento? Já
pensou em seus pais vindo pra cá ou os meus? Onde
ficariam?
- É, nisso eu não pensei.
- É mais provável que seus pais venham que os meus.
Ainda mais que você não vai lá né.
- Ainda não fui, mas vou. Semana que vem.
- Ficar uma semaninha né? – Marina a repreendeu.
- Melhor que nada, Hugo não vai.
- Bom, se está pensando em morar com ele, faça o
teste dele vir pra cá. Mas não acho interessante nos
desfazermos desse apartamento agora. Não custa
esperar um pouco né?
- Tudo bem. E quando ele estiver aqui...
- Eu fico com Lívia, pode ficar tranquila.
Depois da conversa, Monica pareceu mais tranquila.
Marina então pegou algumas de suas coisas e voltou
para o apartamento.

No escritório, Fabrício tentava entender o


comportamento de Lívia.

- Não entendi o motivo daquela sua cara num dia lá no


sitio da família de Marina.
- É que ela não queria... namorar.
- Claro, na casa dos pais, você ficou doida?
- Eles não iam ver.
- Lívia, entenda, Marina ainda é nova, não tem esse
jogo de cintura que você tem. E já pensou se os pais
descobrem? Botam ela pra fora de casa.
- Você acha? Queria mesmo te perguntar se percebeu
algo lá.
- Deles não muito, mas pelo jeito dá pra notar que eles
são conservadores demais. E a cunhada é mais
cismada, não fala muito, mas observa pra caramba.
- Ela falou algo?
- Não, mas ficou de olho. E o que você achou da
viagem? Não tive tempo de perguntar antes.
- Eu gostei.
- Só? Esperava mais empolgação.
- Ué, dizer que gostei, não é empolgado?
- Lívia, te conheço. Quando você gosta mesmo não
para de falar sobre o assunto.

A morena parou um pouco, respirou fundo e depois


falou pausadamente.

- Eu gostei da viagem, adorei conhecer a família de


Marina. Só não gostei de não ter privacidade com ela.
Mas isso acho que é porque me acostumei ao ritmo
daqui. Fiquei pensando nas coisas que me falou.
- Que coisas?
- Nas diferenças que temos de família, financeira, de
maturidade. Eu sei que Marina ainda é muito inocente,
às vezes imatura.
- Ela mudou um pouco.
- Sim, concordo, mas ainda age como se fossemos um
casal de adolescentes.
- De repente é porque ela ainda se sente uma e não é
você quem vai mudá-la. Isso se muda vivendo,
crescendo e aprendendo. Você sabe disso, o que não
sabe é se vai ter paciência. Porque agora está tudo
bem, ainda é tudo muito novo, mas quando caírem na
rotina eu quero ver se vai aguentar.
- Por que você pragueja meu relacionamento?!
- Não estou praguejando. É uma advertência, todo
casal passa por crise, sabe disso. Quando você enjoava,
trocava de namorada.
- Não eram namoradas, eram no máximo ficantes.
- Mas trocava. Sinceramente não sei o que você viu
nela, Marina não é nem seu tipo físico. Você
normalmente gosta de mulher mais alta, bem magra e
no estilo perua. Ela não tem nada disso.

Fabrício saiu da sala deixando Lívia pensativa.


Realmente Marina não era em nada parecida com as
mulheres que ficava, mas ela a amava. Adorava seu
jeito, mas em algumas coisas realmente eram
diferentes. Muitas vezes a indecisão da garota a
deixava inquieta e até sem paciência.

Marina aproveitava as horas em que Lívia estava


trabalhando para tocar piano. E quando a morena
estava em casa, as duas conversavam, namoravam e
sempre faziam amor. Marina nunca se sentiu tão feliz e
para Lívia tudo era diferente e novo, aqueles momentos
eram únicos. Vez ou outra comentava sobre a volta as
aulas de Marina e do tempo que não poderiam mais
ficar juntas. Marina percebeu até irritação nos
comentários da promotora, mas sempre dava um jeito
de agradá-la.

Uma segunda a noite, Lívia chegaria em casa mais


tarde, pois não trabalhara no escritório de manhã por
conta de uma audiência. Marina aproveitou a última
semana de férias e se dedicou a dar atenção a morena.
Foi ao mercado e comprou algumas coisas para
preparar um jantar. Estava tudo pronto quando
lembrou que não tinha comprado nada para beber.
Desceu novamente e quando voltava do mercado, Lívia
passou por ela de carro. Era noite e poucas pessoas
passavam na rua.

- A gatinha ta sozinha? Posso te dar uma carona, linda?

Marina olhou e tentando fazer descaso, respondeu:


- Não posso, sou noiva e nenhum pouco desfrutável.
- Ah, que pena. E quem é essa pessoa maluca que
deixa uma lindinha dessas sozinha e a essa hora?
- É que minha noiva trabalha muito. Estou justamente
indo pra casa, para lhe fazer uma surpresa.
- Que sorte ela tem hein? Entra no carro então, eu te
dou uma carona. Assim você chega mais rápido.
- Você é muito confiada, não? Não desiste?
- É que nunca vi uma mocinha tão bonita na rua e
sozinha.
- Agradeço o elogio, mas recuso a carona. – continuou
andando.
- Que é isso! Aceite, é com boa intenção. – Lívia tinha
um sorriso lindo no rosto.

Marina, então entrou no carro.

- Só estou aceitando, pois tenho certa pressa. É que


venho cumprindo uma promessa.
- Você vai à igreja? – brincou.
- Não. – Marina riu. – É outro tipo de promessa.
- E pode me contar?
- Claro que não! É surpresa para minha noiva.
- Mas não era promessa?
- Sim, mas é surpresa também.
- Me fale onde você está indo que a deixo lá. – Lívia
continuou brincando.
- É logo virando a esquina.
- Sabia que é perigoso andar na rua uma hora dessas?
- Eu saí rápido, só para comprar uma bebida.

Lívia encostou o carro a poucos metros do seu prédio.

- Por que parou o carro? – Marina fingiu espanto.


- Queria conversar um pouco mais com você, conhecê-
la melhor.
- Conversar. – riu. – Sei...
- Sério, te achei muito simpática e não tenho muitos
amigos na cidade, queria apenas conhecê-la melhor.
- Não sei se devo, minha noiva é muito ciumenta.
- Boba! Ela que não está aqui com você. – Lívia foi se
aproximando.
- Já disse, ela trabalha muito. – Marina tentava se
afastar.
- Deveria cuidar melhor de você, é tão linda. – avançou
novamente.

Marina não teve como recuar mais, pois já estava


colada na porta do carro.

- Você é irresistível, sabia? – Lívia falava com a boca


colada no ouvido de Marina.
- Eu não posso... sou noiva...
- Não tenho ciúme. – riu. – Levou uma das mãos ao
seio de Marina enquanto mordia seu pescoço. A loirinha
não resistiu mais.
- Amor... dentro do carro é perigoso... ahh...
- Não é... o vidro é filmado e ninguém nos verá. – suas
mãos já buscavam lugar entre as pernas de Marina,
que para sua sorte, usava vestido. Puxou sua calcinha e
chegou ao clitóris. – Rebola pra mim, gostosa...

Marina gemia baixinho e rebolava de encontro aos


dedos da morena. Agarrou-se ao pescoço de Lívia e
puxou seus cabelos. Suas bocas se encontraram e o
beijo foi mais que urgente. Marina gozou em pouco
tempo.

- Meu Deus! Que loucura, se alguém pega a gente,


estamos lascadas. – Marina tentava se recompor.
- Calma amor, ninguém vai nos prender.
- Não é prender, é passar vergonha.

Lívia ligou o carro e metros adiante entrou na garagem


do prédio. Dentro do elevador ela passou o braço pela
cintura de Marina e beijou sua testa, a loirinha estava
vermelha ainda.

- Vermelha desse jeito, vai conseguir disfarçar bem. –


riu.
- Ah, para, sua boba. – Marina colocou as mãos no
rosto.
- Minha menina tímida.

Entrando em casa, Lívia a agarrou por trás, mordeu o


ombro de Marina, subiu para o pescoço, enquanto suas
mãos já percorriam por aquele corpo que tanto
cobiçava.

- Lívia, quer sossegar! – Marina tentava se soltar.


- Não sabe como estou morrendo de vontade de você...

Lívia carregou Marina para o quarto e de lá entraram no


banheiro. Só saíram depois que a morena se deu por
satisfeita. Deitadas na cama, uma ao lado da outra,
Marina lhe deu um tapa na coxa.

- Safada!
- Apaixonada. – Lívia se virou e ficou por cima da
loirinha. – Completamente apaixonada.
- Você é muito sem-vergonha e só pensa em sexo
Lívia, como pode isso? Tem hora que me pega de jeito
e... – pensou pra falar. – Eu fico...
- Satisfeita? Cansada?
- Também sua boba. – deu um tapa no braço dela. – Eu
fico impressionada com a sua vontade de fazer sexo.
- Fazer amor. – corrigiu. - Acho que já estou sentindo
sua falta antecipada. Depois que começar as aulas você
vai olhar só para aquele piano. – fez bico.
- Ô meu amor, que isso. Eu divido bem a atenção. E
por falar em atenção, vem aqui. – Marina levantou e
puxou Lívia pela mão.
- Pra onde vamos?
- Pra sala.

Chegaram à sala e Marina pediu que Lívia esperasse de


olhos fechados. Correu pra cozinha e pegou o jantar, os
pratos e as taças. Fez tudo correndo.

- Agora vem.
- O que você está aprontando? Eu queria...

Lívia viu a mesa posta com velas e flores e o jantar


servido.

- Que lindo!
- Fiz pra você. Queria ter lhe ajudado no banho, fazer
massagem e depois jantar, mas a senhorita apressada
não me deu tempo.
- Isso tudo é pra mim?
- Não, eu convidei a torcida do flamengo também, só
que eles estão atrasados. – riu. – É lógico que é pra
você. Vem, senta aqui.

Lívia sentou e Marina sentou ao seu lado, serviu o


jantar e ali comeram em clima romântico.

- Sei que minhas férias estão acabando e que depois as


coisas vão ficar mais corridas, mas isso não quer dizer
que não vá lhe dar atenção. E você não pode esquecer
que eu a amo, sou e sempre serei sua.
- Eu sei amor...
- E que se por um acaso o tempo ficar curto, meu amor
será ainda maior, porque ele aumenta de acordo com a
saudade que sinto por você. Te amo!

Beijaram-se com imenso carinho e dali voltaram para o


quarto, mas não fizeram amor, apenas se curtiram e
aproveitaram os momentos que tinham a sós.

A banda retornou aos shows e Eduardo conseguiu


agendar todas as quintas em outro bar. E alguns
sábados em um clube. O volume de shows aumentou a
renda dos músicos e Marina pode até guardar dinheiro.
As aulas voltaram e por conta de trabalhos e provas
Marina dormia algumas noites no apartamento com
Monica.

- Bem que esse notebook de Lívia nos ajudou hein?


- Caiu do céu. Senão estaríamos fazendo à mão como
antigamente.
- Descobri um site que dá pra baixar aquele programa
que o professor falou, o de fazer partituras.
- Ih Monica, isso é seguro?! Ficar pegando programa
pirata pode vir com vírus.
- Que nada, deixa comigo.

Monica entrou no site, baixou o programa e assim que


o instalou o computador travou, reiniciou e não quis
mais abrir qualquer programa.

- Aí, olha o que aconteceu! Tem como voltar? – Marina


estava aflita.
- Não sei. Vou ligar pro Hugo, ele deve saber.

Ela ligou, mas não tiveram sucesso. Marina ficou


chateada porque o computador não era dela e não
saberia como explicar a Lívia.

- Agora sobrou pra mim.


- Eu falo com ela Marina, digo que a culpa foi minha.
- Só que o computador está sob minha
responsabilidade. À noite, depois do ensaio eu vou vê-
la e falo com ela.
- Desculpa amiga, pode falar que eu vou mandar
arrumar.

Marina pegou o notebook e foi para a aula e depois


para o ensaio. Quando saíram Monica também estava
esperando Hugo e como todos se juntaram resolveram
sentar num quiosque perto da praia para beber alguma
coisa.

- Que foi amor? Está com uma cara. – Lívia perguntou.


- Preciso te contar uma coisa.
- Sou toda ouvidos. – Lívia se virou para ela e ficou
prestando a atenção.
- Hoje de tarde estava fazendo um trabalho com
Monica e ela resolveu baixar um programa que monta
partituras. – Marina falava devagar quase parando. –
Então ela... – olhou para cima, para os lados. – Depois
que ela o instalou...
- Atalha Marina, estou ficando nervosa já.
- Calma...
- Ela ta querendo dizer que depois que eu instalei o
note travou e agora não funciona. Só que eu disse pra
ela que vou arrumar e que ela não tem culpa, inclusive
nem queria que eu colocasse o programa, eu que
insisti. Pronto falei! – Monica despejou tudo de uma
vez.
- É isso? – Lívia levantou a sobrancelha.
- É. – Marina baixou os olhos.
- Marina, não precisa ter vergonha, essas coisas
acontecem. – Lívia tentou ser delicada.
- Você me emprestou o notebook, então é
responsabilidade minha que ele não estrague.
- Não foi culpa sua. – alisou seus cabelos. – Depois a
gente leva pra arrumar.
- Me desculpe.
- Não tem o que desculpar, esquece isso.
- Amanhã vou levar num amigo de Hugo e ele disse
que vai dar um jeito. Tem algum dado nele que você
precise salvar? – Monica perguntou a Lívia.
- Não. Quase não usei aquele note.

Marina ainda parecia sem graça com a situação e Lívia


achou estranho. Monica que era a responsável não
estava nem ligando, pois já estava resolvendo tudo.

- Ele disse que entrega em dias. – Monica falou. – Vai


ficar novinho em folha e pode apostar que não pego
mais nenhum programa na internet, muito duvidoso
isso.
- Realmente, tem que ter cuidado com essas coisas. –
Lívia falou. – Já me lasquei também com isso.
- Eu morro de medo de baixar essas coisas na internet,
prefiro ficar sem. – Marina falava.
- Tem que arriscar ué, dessa vez deu errado.

O papo continuou até tarde. Decidiram ir embora, por


conta da hora. Essa noite Marina resolveu dormir no
apartamento, então Lívia deixou ela e Monica em casa.

- Tem certeza que não quer vir? Amanhã te deixo na


faculdade. – Lívia falou.
- Não, eu tenho aula cedo e você disse que iria para o
escritório mais tarde.
- Isso não é problema.
- Não quero atrapalhar.
- E desde quando me atrapalha Marina? – Lívia estava
irritada com a atitude da loirinha.
- Calma, está com raiva de alguma coisa?
- Não. É que você acha que incomoda, que atrapalha.
Se digo que não, eu falo a verdade, não teria porque
mentir.
- Ta bom, mas hoje não vou. Amanhã eu durmo lá
depois do show e passo o final de semana com você.
Pode ser?
- Tudo bem, você quem sabe. – respondeu séria.
- Ih, vai ficar chateada?
- Vai mudar alguma coisa?
- Claro, não quero que fique chateada. Não vou com
você hoje, mas vou amanhã.
- Ta bom. – Lívia deu um beijo rápido em Marina e
ligou o carro.

A loirinha saiu dando boa noite e subiu pro


apartamento. Foi dormir aborrecida. No dia seguinte,
acordou cedo e foi pra aula, no caminho Monica
percebeu que ela estava chateada e comentou.

- Brigou com Lívia?


- Não.
- E por que essa cara?
- Ela queria que eu fosse dormir na casa dela ontem e
eu não fui.
- Nossa e ela brigou por isso?
- Lívia gosta das coisas do jeito dela.
- E você sempre faz. – não era uma pergunta e sim
uma constatação.
- Faço quando quero.
- Vai me dizer que ela nunca te convenceu? – Monica
foi quase irônica.

Marina pensou pra responder e a amiga estava certa.


Lívia sempre dava um jeito de conseguir o que queria e
ela sempre cedia.

- Eu a amo, é por isso.


- Tenha respeito por você primeiro e pelas suas
opiniões.

Marina ficou pensativa, Monica estava certa por um


lado, mas no fundo achava também que fazia as
vontades de Lívia porque se sentia bem. Nem
conseguiu assistir aula direito, ficou dispersa quase
todo o tempo. Quando saiu da faculdade foi almoçar
com os garotos e ainda assim ficou mais calada.

- Que foi Marina? Está distraída hoje. – Eduardo


comentou.
- Nada, estou pensando na matéria.
- Ahan! Ela está encanada. – Monica logo dedurou.
- Com o que gente? – Eduardo ficou curioso.
- Lívia ficou brava com ela ontem, porque não foi
dormir na casa dela.
- Ah Marina! E você dá corda pra essas bobeiras de
Lívia? Ela é assim mesmo, gosta tudo do jeito dela e ai
de quem se atrever a contrariá-la. Falo isso por
Fabrício, que corta um dobrado com ela. Quando ela
vier com essas palhaçadas corte logo, senão vai ficar
escrava das vontades dela.

Marina ficou olhando um tanto assustada e Eduardo


notou, então tentou tranquilizá-la.

- Você tem que estabelecer parâmetros, não pode só


ceder. Tem que ter meio termo. Entende?
- Entendo. – baixou a cabeça.
- Ela vai admirá-la mais se você for uma pessoa mais
segura de suas decisões.

Marina achou que as palavras deles faziam todo


sentido. Continuaram almoçando e depois ela passou
no apartamento, pegou suas coisas e foi para o
apartamento de Lívia. Quando chegou, sabia que ela
não estaria em casa. Deixou algumas coisas no quarto,
depois foi estudar piano. Perdeu a noção da hora e
quando olhou no relógio faltava uma hora para ir tocar.
Subiu correndo, tomou banho e se arrumou. Ligou para
Lívia, mas ela não atendeu seu celular. Já havia ligado
durante o dia, mas não conseguira falar também. Ligou
para Eduardo e marcou com ele no apartamento; como
seria o primeiro show naquele bar, ela não sabia onde
era. Quando se encontraram, Marina logo perguntou:
- Dudu, Fabrício ainda está trabalhando?
- Não, eu estava saindo quando ele chegou.
- Lívia não chegou em casa ainda.
- Deve estar enrolada no escritório.
- Tentei ligar também e nada.
- Depois ela aparece no show.

Começaram a tocar e nada da promotora. Marina ficava


procurando, mas ela não apareceu. Quando terminaram
de tocar, nem ficaram no local. Recolheram suas coisas
e foram embora. Fabrício deixou a loirinha no
apartamento de sua prima.

- Mocinha, sobe devagar viu? – tentou brincar com ela.


– E tira essa ruga da testa.
- Estou preocupada, Lívia não me atendeu e nem
apareceu hoje.
- Deve estar cansada.

Quando ela saiu do carro ele logo falou.

- Olha a merda aí. Eu te juro que peço demissão e


abandono Lívia se ela sacanear com Marina.
- Pede demissão nada que você precisa do emprego.
Isso foi só um desencontro. – Eduardo tentou justificar.
- Desencontro?! – riu. – Vamos ver.

O elevador nunca demorou tanto para descer. Marina


entrou, apertou o botão e subiu. Chegou ao
apartamento e abriu a porta, estava tudo quieto.
Chegou a imaginar coisas, como Lívia não estando em
casa, ou que estivesse com outra pessoa. Subiu as
escadas e foi direto pro quarto. Estava tudo escuro,
mas pode ver que ela dormia. Marina se sentiu
estranha, como se não fizesse parte de onde estava,
não gostava de se sentir assim. Entrou no banheiro,
fechou a porta com todo o cuidado para não acordar a
noiva. Tomou um banho bem quente. Deitou devagar
na cama e se aproximou de Lívia, realmente parecia
estar dormindo. Os cabelos estavam espalhados no
travesseiro e pela pouca claridade podia ver o contorno
do rosto. Ficou admirando-a por um tempo, alisando
seus cabelos. Depois beijou sua têmpora e deitou.

Apesar de estar quieta, Lívia estava acordada. Esperou


um pouco e depois virou-se para o lado de Marina, deu
de cara com um par de olhos verdes a olhando.

- Não dormiu? – sua voz saiu grave.


- Ainda não. – a voz de Marina saiu doce.
- Está sem sono?
- Por que não foi no show? – Marina perguntou receosa.
- Tenho que ir em todos eles?
- Não, mas poderia ao menos ter me atendido. Estava
tão ocupada que não podia?
- Estava.
- Tudo bem, me desculpe se a incomodei. – Marina
virou para o outro lado.

Lívia ficou incomodada com a situação. Sabia que tinha


sido grossa, mas achava que mudaria o jeito de Marina
sendo mais rígida com ela às vezes. Abraçou a loirinha
por trás e escondeu o rosto em seu pescoço.

- Perdoe, prometo atender da próxima vez.

Marina sentiu conforto naquele abraço, mas estava


chateada. E confusa também com as palavras de
Monica e Eduardo.

- Ta certo Lívia, foi um mal entendido.


- Vai ficar com raiva? – Lívia cheirou o pescoço dela e
mordeu de leve.
- Não estou com raiva.
- Certeza? – Lambia do pescoço a orelha, enquanto
uma das mãos já procurava o seio da loirinha.
- Tenho... ahh...

Só o contato com aquela pele macia e o cheiro de


Marina já inebriava os sentidos de Lívia.

- Faz amor comigo? – a voz da morena saiu quase num


sussurro.

Em resposta Marina se virou e beijou os lábios da


morena. Sentia o corpo arrepiar a cada toque dela e
não pensou em mais nada, apenas se deixou levar pelo
que sentia naquele momento.

Na manhã seguinte Lívia acordou cedo e preparou o


café da manhã, depois ficou esperando Marina descer.
Quando ela apareceu na cozinha viu a bancada toda
arrumada e a morena esperando, vestida num hobby
negro. Pensou estar no paraíso.

“Acordar e ter uma visão dessas... Não há coração que


aguente!”
- Bom dia! – Lívia sorria.
- Bom dia.

A morena veio ao encontro dela e beijou-lhe os lábios.

- Tentei preparar um café bem esperto pra gente.


- Você que fez tudo? – Marina perguntou surpresa.
- Foi. Só não consegui fazer waffles, porque voou tudo
quando liguei o liquidificador pra fazer a massa. – Lívia
apontou para a sujeira no canto da pia.

Marina riu imaginando a situação.

- Não ria, eu me esforcei. – fez beicinho.


- Eu sei meu bem. – Marina fez um carinho no rosto
dela.
- Eu gosto quando me chama de meu bem.
- Também gosto quando me trata bem. – Marina
rebateu na hora, deixando Lívia um pouco sem graça. –
Então deixa provar pra ver se está tudo bom.
- Senta, que vou te servir.

Lívia a serviu e comeram juntas. A morena havia feito


misto quente, suco e preparou um iogurte parecido
com o que Marina havia feito em Mauá.

- Preciso ir pra aula, senão vou me atrasar.


- Vou te levar.
- Não precisa, ainda é cedo pra você sair, descanse um
pouco, ontem você trabalhou até tarde.

Marina pegou uma maçã e colocou na mochila.

- Isso aqui é pro lanche. – sorriu.


- Almoça comigo?
- Almoço. – a loirinha pegou as partituras e colocou na
mochila também. – Bom trabalho. Te amo.
- Boa aula, também te amo.

Lívia a levou até a porta e antes de sair beijou seus


lábios apaixonadamente. Depois que Marina saiu ficou
pensando em sua atitude no dia anterior e não
entendeu porque perdera a paciência. E não havia
trabalhado até tarde, pelo contrário, ficou enrolando no
escritório porque não queria encontrar com Marina.
Teve vergonha de sua atitude.

Quando chegou ao escritório estava com o semblante


normal. Fabrício a olhou e nada comentou.

- Que foi? Pode despejar o sermão por não ter ido ao


show ontem.
- Não tenho nada para lhe dizer, eu já disse antes e
você sempre soube o que eu penso desse
relacionamento.
- Não vai chamar a minha atenção?
- Pra que? Sua consciência por si só já faz isso.

Ele saiu deixando a promotora sem palavras pela


primeira vez.

Marina foi para a aula se sentindo melhor. Quando


esperava Marconi entrar na sala, eis que surge outra
professora.

- Bom dia Marina, meu nome é Vera. A partir de hoje


vou lhe dar aula.

A loirinha arregalou os olhos, sem esconder a surpresa.

- O que houve com Marconi?


- Nada, simplesmente você passou para a minha pauta
de alunos.
- Ele não quis me dar mais aula?
- Não querida, eu quis dar aula pra você.

Marina não entendeu nada.

- Ele me passou o que você está estudando, podemos


começar com os exercícios. Antes de qualquer coisa,
toque a escala de Fá sustenido para mim.

Marina fechou o cenho, não gostava de tocar escala,


muito menos a de Fá sustenido.

“Mas que diacho de mulher, fá sustenido?!”

Tocou a escala de forma devagar, pois quase nunca a


estudava.

- Muito bem, vamos treinar mais a velocidade depois.


Agora pode começar pelos exercícios.
- Só tenho um pronto. O outro ainda estou estudando.
- Tudo bem querida, pode ser. Quero vê-la tocando o
que sabe, para avaliar seu desempenho.

Aquele tratamento estava incomodando Marina. Não


tinha intimidade nenhuma com a professora para ela
lhe chamar de querida. Tocou todas as partituras que
estavam prontas e depois parte daquelas que estava
estudando. Vera elogiou e depois combinou outro
horário de aula com ela.

- A partir de agora será minha aluna e teremos aula


três vezes por semana.

Marina apenas assentiu com a cabeça e guardou suas


partituras.

- Vamos nos dar bem Marina, gostei de você.


A loirinha saiu e no andar de baixo encontrou com
Monica e contou a novidade.

- Nossa, eu já ouvi falar dela. Dizem que é o cão do


avesso, mas é uma das professoras mais disputadas. E
normalmente só pega alunos do sexto período em
diante.
- É pra me sentir melhor ou pior? – Marina debochou.
- Depende do seu ponto de vista. – riu

Marconi ia passando e a pianista foi correndo falar com


ele.

- Marconi, porque me passou pra outra professora?


- Não te passei Marina, na realidade Vera viu você
tocando no recital e gostou muito. Ela é excelente
professora. Vai se dar bem.
- Ela é muito exigente!
- Por isso mesmo, vai ver como vai melhorar. Fiquei
feliz que ela tenha escolhido você, geralmente ela pega
aluno veterano.
- Eu preferia você. – falou chateada.
- Pode ter aula comigo se quiser, podemos marcar
aulas extras. Assim eu vou acompanhando seus
estudos. E até te ajudo com as músicas populares.
- Jura?
- O que eu não faço para ver esses olhinhos verdes
brilhando? – o professor brincou.

Marina sorriu satisfeita.

- Passa na minha sala depois e conversamos sobre as


aulas. – Marconi falou e saiu.

Marina foi com Monica assistir outra aula e antes de


almoçar agendou com Marconi as aulas extras. Lívia já
a esperava quando ela saiu da escola.
- Quer almoçar conosco Monica? – Lívia convidou.
- Não, mas se quiser me dar uma carona eu aceito, vou
encontrar com Hugo.
- Então vamos.

Entraram no carro e Monica logo disparou.

- Conta pra ela a novidade Marina.


- Que novidade? – Lívia perguntou.
- Troquei de professor, agora tenho professora. Vera, o
nome dela.
- É a melhor professora da escola e foi ela quem
escolheu Marina. Tem aluno do sexto período doido pra
fazer aula com ela e não consegue. Agora vão se
descabelar porque ela está dando aula a uma aluna do
primeiro ano.
- Sério amor? Que notícia boa! – Lívia falou empolgada.
- Ah, ela é muito séria, não brinca como Marconi. É
rígida e mandou-meeu tocar a escala de fá sustenido.
- Nossa! Logo de cara? – Monica fez cara feia.
- É.
- Carrasco mesmo. Mas em pouco tempo vai ver como
tocará melhor.

Marina revirou os olhos.

- Não entendi o lance da escala, mas estou feliz. Se ela


te escolheu é porque sabe do seu potencial. – Lívia
pousou a mão na perna dela.
- Eu entendo, mas eu gostava de Marconi. Ele me
ofereceu aula extra e eu aceitei.
- Vai estudar mais?
- Vou amor, eu gosto da aula dele. Então estudo com a
Vera durante o dia e a tarde eu pego aula extra com
ele.
- Gente é aqui que eu fico. – Monica falou. – Hugo já
está ali me esperando. Má, até mais tarde.
- Até.
- Por que até mais tarde? Você vai dormir na sua casa
hoje? – Lívia perguntou num tom mais sério do que
imaginou.
- Não. Hoje tem show e ela vai.
- Ah sim. – ficou sem graça.
- Você vai? – Marina perguntou timidamente.
- Vou sim meu anjo.

A loirinha não escondeu o sorriso. Deixaram o carro no


estacionamento do restaurante e entraram. Marina
pediu uma salada, não estava com muita fome e Lívia
pediu peixe.

- Está de dieta? – a promotora perguntou.


- Não. Estou sem fome mesmo, mas se emagrecer
também não vou reclamar.
- Seu corpo está ótimo.
- Mas pode melhorar.
- Então me conta, como foi a aula da professora nova?
- Ah, ela é boa professora e como falei é muito
exigente, mas eu não gostei do tratamento dela
comigo.
- Como assim?
- Ela me chama de querida. – falou a última palavra
fazendo aspas com os dedos e revirando os olhos.
- Como é que é?!
- Eu não tenho intimidade com ela para me chamar
assim. Acho esquisito essa forma de tratamento.
- Não gostei disso. – Lívia levantou uma sobrancelha. –
Qual é a dessa professora?
- Eu não sei, só sei que sinto saudade antecipada de
Marconi.
- Pelo menos ele lhe dará aulas extras.
- E vai me ajudar com outras músicas. Eu gosto muito
dele, foi simpatia a primeira vista. Ele sabe que gosto
de MPB e não se importa.
- Será que posso assistir a aula dessa professora?
- Pra que? Não sei. – Marina ficou confusa. – Posso
perguntar a ela, mas não agora, acabei de ser
apresentada à megera.

Lívia achou graça da forma como Marina falou.

- Peça pra voltar a estudar com Marconi, se você se


sente melhor.
- Ué, você ficou toda contente com a professora, falou
que ia ser bom. Agora ta me dizendo pra trocar?
- Ah, é porque você não gostou dela. – Lívia desviou os
olhos.
- Lívia, olhe pra mim.

A morena abaixou a cabeça e depois levantou os olhos.

- Está com ciúme?


- Não.

Marina achou estranho, mas não insistiu. Depois do


almoço Lívia foi para o escritório e Marina para o
apartamento estudar. Só parou quando a promotora
chegou.

- Não pare, estava tocando tão bonito.


- É que está na hora de me arrumar.
- O que estava tocando? – Lívia parou ao lado dela.
- Chama-se Rapsódia Húngara, mas é a quatro mãos. A
professora passou hoje e estou dando uma olhada na
minha parte. Ela tocará comigo.
- Hum. – Lívia levantou a sobrancelha.
- Essa música é tocada num desenho do Tom e Jerry e
se não me engano no do Pica-Pau também. – Marina
sorriu. – Senta aqui do meu lado. – Marina chegou para
o lado e deu espaço para Lívia sentar.

Começou a tocar e fazia a parte da professora como


que cantando.
- Parece bonita. – Lívia continuou séria, parecia
desinteressada.
- Hoje estava tocando uma música da Vanessa da
Matta, Eduardo insistiu em tocar, não sei se ficará boa
na voz dele. É pra no caso de alguém pedir.
- Qual é?

Marina então começou os primeiros acordes, pra depois


cantar a música.

“Ainda bem
Que você vive comigo
Porque senão
Como seria esta vida?
Sei lá, sei lá
Nos dias frios em que nós estamos juntos
Nos abraçamos sob o nosso conforto
De amar, de amar
Se há dores tudo fica mais fácil
Seu rosto silencia e faz parar
As flores que me mandam são fato
Do nosso cuidado e entrega
Meus beijos sem os seus não dariam
Os dias chegariam sem paixão
Meu corpo sem o seu uma parte
Seria o acaso e não sorte”

Os olhos de Marina eram tão expressivos e fixos na


partitura que Lívia se comoveu. Virou o rosto em
direção a ela e beijou o topo de sua cabeça e a
abraçou, mas sem atrapalhar a música.

“Ainda bem
Que você vive comigo
Porque senão
Como seria esta vida?
Sei lá, sei lá
Se há dores tudo fica mais fácil
Seu rosto silencia e faz parar
As flores que me mandam são fato
Do nosso cuidado e entrega
Meus beijos sem os seus não dariam
Os dias chegariam sem paixão
Meu corpo sem o seu uma parte
Seria o acaso e não sorte
Entre tantos anos
Entre tantos outros
Que sorte a nossa hein?
Entre tantas paixões
Esse encontro
Nós dois, esse amor.”

Quando Marina cantou a parte final os olhos de Lívia


estavam marejados. Marina parecia perceber mais as
coisas do que Lívia imaginava.

“Entre tantos anos


Entre tantos séculos
Que sorte a nossa hein?
Entre tantas paixões
Esse encontro
Nós dois, esse amor.”

- Nossa, ficou tão ruim que você ta chorando. – a


loirinha a abraçou sorrindo.
- Ficou lindo. Você deveria cantar essa música, tem a
voz de um anjo.
- Ah, anjo é demais. Eu sou, no máximo, afinada.
Vamos ver o que Eduardo vai querer fazer.
- Já disse que te amo hoje?
- Só de manhã. – sorriu docemente.
- Te amo. – beijou-lhe os lábios. – Te amo. – mordeu o
pescoço e a pegou no colo. – Te amo. – Foi andando
para o quarto enchendo a loirinha de beijos que ria
sentindo cócegas.

No bar onde já tocavam desde o início do ano os


frequentadores mais assíduos já esperavam pela
banda. Eduardo apareceu com Pedro e logo chegou
Hugo, acompanhado de Monica.

- Ei Dudu! Que horas vão começar? – perguntou um


rapaz sentado numa mesa perto do palco.
- Daqui a pouco, estamos esperando a tecladista.

O rapaz fez um sinal para que Eduardo se aproximasse


e então perguntou.

- Gatinha ela, por acaso tem namorado? – parecia


muito interessado.
- Tem sim, ela é noiva.
- Noiva? Bicho, que louco. Ela parece nova.
- E é, mas já foi fisgada.

Eduardo pediu licença e saiu. Não passou muito tempo


e Marina chegou acompanhada de Lívia. Estava
lindíssima, usando uma saia até os joelhos e uma blusa
branca com detalhes no decote que deixou à mostra o
colo; usava um colar e os cabelos estavam soltos, com
a franja cuidadosamente penteada. Por conta do clima
que ainda era frio, colocou um casaco. Lívia também
estava muito bonita, usando um macacão todo preto,
botas de salto alto, cabelos soltos e com uma
maquiagem que realçava seus olhos.

- Minha nossa! Capricharam hoje. – Eduardo falou


olhando para as duas.
Marina vinha andando e cumprimentando algumas
pessoas que a elogiavam e Lívia estava logo atrás com
uma das mãos na cintura da loirinha, como que
marcando território. Quando se aproximaram do
restante da banda, Monica logo as elogiou.

- Vão a qual festa depois daqui?


- Que isso, você não diz que tenho que me produzir?
Então estou tentando.
- Está conseguindo. – olhou a amiga de cima a baixo.
- Obrigada. Deu certo no casamento? – Marina se
referia ao casamento em que Monica tinha tocado.
- Sim, acabou cedo, a noiva não atrasou nada. Essa
tava doida pra casar.

A piada fez todo mundo que estava perto rir.

Depois que começou o show Lívia se sentou com


Monica e Fabrício e pediu algo para beberem.

- Tudo certo? – Fabrício perguntou.


- Sim.
- Certo mesmo?
- Ta Fabrício. O que você quer saber? – ela se irritou.
- Nada, só saber se está tudo bem entre vocês.
- Está sim, maravilhosamente bem. – Lívia não deu
detalhes, achava que a intromissão das pessoas no
relacionamento dela com Marina poderia atrapalhar,
então se limitou a falar o mínimo possível.
- Marina está tão bonita. – Monica falou com os dois. –
E não sou só eu que acho. O povo aqui repara nela. –
falou olhando para Lívia.
- Sim, muito obrigada por me informar. – a morena riu
de lado.

Um garçom chegou perto de Marina e deixou um copo


de suco, ela olhou rapidamente e voltou a concentrar
no teclado. No final da música ela chamou o garçom e
perguntou quem havia mandado e ele fez sinal,
mostrando uma pessoa no fundo do bar. Ela somente
agradeceu e voltou a tocar. De longe, Lívia reparava
em tudo e resolveu mandar também uma bebida para
Marina. Pouco tempo depois o garçom entregou um
coquetel de frutas. Marina arregalou os olhos achando
estranho, novamente perguntou ao garçom e ele
apontou para Lívia, que sorria discretamente para ela.
Marina retribuiu o sorriso e pegou a taça tomando um
gole. Um tempo depois o garçom veio com um bilhete e
entregou a Marina. Era um recado do outro rapaz que
havia mandado o suco, perguntando por qual motivo
ela não o tomara. Marina respondeu com toda
educação dizendo que não aceitava bebida de
estranhos e agradeceu o carinho.

No final do show, descendo do palco ela foi abordada


pelo mesmo rapaz.

- Posso me apresentar? – falou timidamente.


- Pode. – Marina sorriu.
- Meu nome é João, fui eu quem mandou o suco pra
você.
- Oi João, prazer.
- Me disseram que você não toma nada alcoólico. Achei
que gostaria do suco. – Falou timidamente.
- De fato eu não bebo, mas agradeço pelo suco. Me
desculpe por não tomá-lo, mas é que a gente escuta
tantas histórias macabras sobre boa noite cinderela e
outros golpes que fica difícil.
- Eu entendo. Então você conhece a pessoa que te
mandou o outro drinque?
- Sim. – Marina sorriu.

Lívia a distância olhava o casal com os olhos apertados.

- Seu sorriso é muito bonito Marina, alguém já te falou


isso? – o rapaz continuava tímido.
- Já. – Marina levantou a mão direita e mostrou a
aliança.
- Ah, você já é comprometida.
- Sou sim. Agradeço a gentileza pelo suco, mas preciso
ir.
- Me desculpe se eu faltei com o respeito.
- Que isso, imagina. Você foi educado demais, existem
poucas pessoas como você.
- Ainda assim, eu virei sempre que puder assistir o
show, gosto muito da banda.
- Que ótimo, ficarei feliz em te ver por aqui.

Marina se despediu do rapaz com dois beijos no rosto e


saiu.

- Eita que esse ta babando. – Eduardo brincou.


- Nossa, que saia justa. E ele foi todo simpático, mas
eu já tenho dona.

A primeira coisa que viu quando chegou perto da mesa


foi o olhar de Lívia. Ela levantou da cadeira e puxou a
cadeira ao lado para que Marina se sentasse. A loirinha
achou até esquisito, pensou que a noiva fosse brigar ou
comentar alguma coisa.

- Quer comer alguma coisa meu amor? – perguntou a


morena.
- Hum... não. Quero outro coquetel daquele.
- Gostou? – falou sorrindo enquanto colocava os
cabelos da loirinha atrás da orelha.
- Muito bom.
- Esse suco aqui também é gostoso, morango com
guaraná.
- Me deixa provar.

Marina bebeu um pouco e gostou.


- Garçom, troca o coquetel pelo suco que nem esse.
- Marina, arrasando corações. Achei até que daria
autógrafos. – Pedro veio brincando.
- E num é? Daqui a pouco vou querer seguir carreira
solo.
- Ingrata, te dou a fama e você faz isso comigo. –
Eduardo fez drama.
- Ah imagina, só largaria vocês caso não me quisessem
mais.

Monica que estava no banheiro, voltava pra mesa e de


longe já implicando.

- Lívia deve estar trincando os dentes de ciúme. –


parecia meio alterada.
- Você bebeu? – Marina riu.
- Bebi, bebi, bebi, bebi... – falou se sentando.
- Eu tava de olho nela lá do palco. Uma cerveja atrás
da outra. – Hugo falou.
- Perguntei se tava acostumada a beber e ela disse que
sim. Então eu deixei e acompanhei. – Fabrício disse
animado. – Mas eu to bem ainda, só estou alegre.
- Meu Deus! – Marina balançava a cabeça.
- Má! Eu já disse que você está linda né!? Menina como
ta conseguindo tocar com esse anelão? Você nunca
toca com nada nos dedos. – Monica parecia muito
agitada.
- Isso não é um anelão Monica, é minha aliança e não
tiro pra nada.
- Não mesmo? – Lívia perguntou.
- Não, eu não gosto de anel que tem pedras grandes
que ficam fora do círculo, pois elas caem entre os
dedos às vezes. Esse aqui a pedra é cravada no anel.
Nem incomoda.
- Se precisar tirar tudo bem. – passou o braço pelos
ombros de Marina. – Mas confesso que prefiro você
com ele. – falou em seu ouvido, fazendo um carinho
em seguida como se aspirasse o perfume de Marina.
- Ô chamego! Aqui, o lance é bater papo, namorar é
em casa, mais tarde. – Monica voltou a falar alto.
- Monica fala baixo – Marina se indignou. – Garçom,
traga muita água e gelada.
- Que água, só se for água que passarinho não bebe.

Chegava a ser engraçado as tiradas da garota, não


tiveram como segurar o riso.

Passava das duas e todo mundo estava cansado,


menos Monica que estava ligada no duzentos e vinte.

- Amor, vamos? – Marina chamou Lívia.


- Claro, estou um pouco cansada. – a morena levantou
e chamou o restante. – Vamos gente? Alguém quer
carona?
- Eu estou de carro. – Fabrício se manifestou. – Levo o
pessoal, podem ir.

Lívia deixou um dinheiro com o primo para as despesas


e se despediu, saindo com o braço envolto na cintura
de Marina, que pareceu não se importar.

- A outra acha que não a conheço. – Fabrício observava


as duas.
- Que foi? – Eduardo perguntou.
- Lívia, saindo com Marina, isso tudo é demarcação de
território. Pra mostrar que a loirinha bonitinha da banda
tem dona e que é pra todo mundo saber que ELA é a
dona.
- Ah Fá, não vi dessa forma.
- Já viu ela fazendo isso quando Marina está vestida
normalmente?
Eduardo ficou pensativo.
- Na praia, aquela vez ela ficou com ciúme.
- Sei não... Lívia tem uns comportamentos esquisitos,
hora ta impaciente com Marina e hora age como se
estivesse de quatro por ela.
Eduardo não deu atenção ao namorado e continuou
conversando com os demais.

Lívia continuou com as gentilezas, abriu a porta do


carro para Marina quando entraram e saíram dele.
Abriu a porta do apartamento e antes de entrarem a
pegou no colo como se fosse uma noiva.

- Já que você diz que sou sua noiva, vou carregá-la


como tal. – Lívia entrou e foi direto para o quarto. Ia
beijando e mordendo o pescoço de Marina, que ria
gostosamente.
- Acho que sim, não é? Aliança na mão direita quer
dizer que estou noiva.
- Minha noiva! – Lívia ia repetindo aquelas palavras e
beijando o corpo de Marina. Chegaram ao quarto e logo
se despiram deixando somente as peças íntimas.
Marina usava uma calcinha de renda vermelha e não
usava sutiã. Lívia entre beijos tirou a calcinha com os
dentes. Marina abriu as pernas para receber o corpo da
morena e com os próprios pés tirou a calcinha de Lívia.
Abriu o sutiã e contemplou aqueles seios fartos. Lívia
segurou os dois braços de Marina na altura de sua
cabeça e encaixou os sexos começando uma esfregação
gostosa. Ouvia os gemidos baixinhos da loirinha e
sentia sua excitação aumentar.
- Geme pra mim... – Lívia falava rouco. Apertava um
seio massageando devagar até que desceu uma das
mãos entre as pernas de Marina e enfiou dois dedos em
sua abertura.
- Ahh...
- Quer assim? – fazia movimentos leves.
- Assim... isso... Não para...
- Diz que me ama. – Lívia pedia entre beijos molhados
e não parava com os movimentos.
- Eu te amo... te amo... muito... ahh...
Quando Lívia percebeu que Marina chegaria ao orgasmo
introduziu mais um dedo em sua vagina e cobriu um
mamilo com a boca sugando devagar. Marina gozou
gemendo alto e arqueando o corpo.

- Te amo... – beijou Lívia. – Te amo! – mais beijos. –


Te amo muito! – Marina segurou o rosto da morena e
beijou a ponta do nariz.

Lívia abaixou a cabeça escondendo o rosto entre o


pescoço e o ombro de Marina, aspirou o perfume dela e
suspirou.

- Você me deixa louca, sabia?

Marina ficava acanhada quando Lívia falava daquela


forma. Baixou os olhos e mordeu o lábio inferior.

- E tímida, fica mais linda. – Levantou a cabeça e beijou


sua testa, depois os lábios.

Marina foi se remexendo, desceu uma das mãos até o


meio das pernas de Lívia e começou a manipular o
clitóris. Lívia abriu mais as pernas e deixou que a
garota fizesse o que quisesse. Seus seios ficaram na
altura do rosto de Marina que aproveitou para sugá-los
alternadamente. Mordia o bico e fazia leve pressão com
os dentes. Lívia não demorou a gozar deixando seu
corpo cair sobre o de Marina.

Namoraram pela madrugada. E só depois de meio-dia é


que acordaram. Marina mexeu e despertou Lívia junto
com ela.

- Bom dia gatinha dorminhoca. – Lívia falou.


- Bom dia amor.

Nem quiseram sair da cama, ficaram por lá até o


estômago reclamar. Saíram só à tarde pra jantar e
depois seguiram para Mauá numa viagem de última
hora. Marta ficou feliz em vê-las e passaram o final de
semana tranquilo. Mais pra Lívia que ficou longe dos
comentários alheios.

O mês passou voando. Lívia trabalhou pouco no


escritório por conta das várias audiências que teve,
Fabrício assumiu a frente e praticamente nem almoçava
para dar conta de tudo. Marina nunca estudara tanto.
Vera se mostrava uma professora muito rigorosa, mas
isso rendeu uma grande evolução para a loirinha.
Quando fazia aulas com Marconi, era notável sua
melhora e ele sempre a elogiava.

Por conta dos muitos compromissos as duas quase não


se viam e quando chegavam a se encontrar Lívia estava
cansada, Marina estava exausta e a única coisa que
conseguiam fazer era dormir. A vida sexual não estava
das mais ativas, mas carinho sempre existia entre elas.

Lívia estava no escritório pedindo um almoço e


esbravejando com a demora do pedido.

- Mas que diabo! Será que é tão difícil entregar um


almoço? E olha que vocês estão a metros do meu
escritório!

Fabrício estava entrando na sala e viu a cena de olhos


arregalados.

- Ok, não quero mais, muito obrigada... Não quero


saber se já está pronto. Se estivesse, a comida estaria
aqui na minha frente.

Lívia bateu o telefone e bufou de raiva.


- Ei, trouxe um lanche pra mim, vamos dividir. – falou
calmo.
- Quero almoço Fabrício, não lanche.
- É comida japonesa, você gosta.

Lívia olhou para ele, ainda de cara feia, depois


suspirou.

- Ta bom, traz aqui. E obrigada.

Ele foi até a sala dele e voltou trazendo a barquinha de


sushis, sashimis e etc.

Sentados comendo, ele resolveu perguntar:


- Lívia, hoje você está mais nervosa, que houve?
- Trabalho, muito trabalho.
- Você já trabalhou muito outras vezes e não se
estressou tanto.
- Ai Fabrício, não amola. – se irritou novamente.

Ele não disse nada, então ela ponderou e falou


calmamente.

- É falta de sexo, não vejo Marina direito faz semanas e


quando vejo ela está cansada e confesso, eu também.
- Sexo? Cadê aquele papo de fazer amor?

Lívia somente revirou os olhos e novamente se irritou.


Tomou um pouco de suco e continuou.

- Tenho uma audiência amanhã. Aquele outro caso de


pedofilia.

Fabrício apenas assentiu com a cabeça.

- Adivinha qual juiz está no caso?


O rapaz fez sinal de que não sabia.

- Ou melhor, juíza. É Camila.


- Ih, mas que inconha.
- Nem me fale, isso vai me render uma aporrinhação.
- Faça seu trabalho e saia de lá.

Lívia ficou olhando para o copo de suco como se


olhasse uma bola de cristal. Fabrício não quis esticar a
conversa, pois conhecia bem a prima e principalmente
a chefe.

À noite, ela chegou em casa e ligou para Marina.

- Onde está?
- Estou na faculdade, tendo aula com Marconi.
- Você veio aqui hoje? Estou em casa.
- Fui pra pegar umas partituras e estudar um pouco.
- Vai voltar?
- Não, vou sair tarde daqui. Vou amanhã, pode ser?
- Eu te pego, vem aqui hoje.
- Ai amor, vou sair tarde e é longe. Amanhã tenho aula
cedo, show à noite. Prometo sair da aula e ir direto
para seu escritório.
- Amanhã tenho audiência, não vou ao escritório.
- Te encontro a noite no apartamento antes do show
então.
- Ta bom Marina. Boa aula.

Marina sentiu a chateação na voz da namorada.

- Desculpa, prometo que amanhã nos encontramos. –


tentou argumentar.
- Tudo bem.
- Te amo viu?
- Eu também.

Desligaram, mas Marina não se deu por satisfeita.


Infelizmente não podia fazer muito e não iria se
sacrificar, Lívia teria de entender. A promotora por sua
vez ficou chateada, queria ficar com Marina,
principalmente antes de encontrar com Camila. Não
sabia ao certo por que, mas era importante para ela.

No dia seguinte a promotora acordou cedo, se arrumou


e foi direto para o fórum. Encontrou com Fabrício
chegando também.

- Pronta?
- Pronta.
- Amem! Vamos lá!

Assim que a audiência começou e Lívia pisou no


tribunal, sentiu os olhos de Camila pousarem sobre ela.
Começou primeiro o advogado de defesa, falando por
um longo tempo. Seguido dele Lívia falou com a
imponência de sempre e a segurança de quem não
estava ali disposto a ser derrotado. Camila a devorava
com os olhos e de certa forma isso incentivou ainda
mais o seu discurso. Houve um recesso e nesse tempo
Lívia aproveitou para almoçar, correu dali com Fabrício
e nem viu a cara de Camila. Horas depois, quando
voltaram o advogado de defesa a cumprimentou e
sentou-se para falar sobre o caso.

- É Lívia, hoje você não ta me dando trégua. Já lhe


peguei em outros casos, mas confesso que esse é o
mais difícil.
- Marcos, você sabe bem que as chances do seu cliente
são mínimas, o que você vai fazer é atenuar a pena,
mas isso se eu deixar.
- Cá entre nós, a juíza parece estar mais do seu lado
que do meu.
- Não existe