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29/05/2018 Decálogo neo-animista - Ruy Duarte de Carvalho | BUALA

Decálogo neo-animista - Ruy Duarte de Carvalho


Primeira proposta para um decálogo neo-animista (primeira ou porque sujeita a uma incessante reelaboração que jamais conduzirá à
fixação de um decálogo final, conclusivo ou definitivo, ou o primeiro de uma infinita série de decálogos……………)

1 – Embora parta da concepção animista segundo a qual tudo no mundo detém uma alma igual que cada existência exprime conforme
o corpo que tem e a substância que o sustem, a designação de neoanimismo ocorre para dar nome a um programa de acção urdido
para questionar o paradigma humanista que domina e conduz a marcha do mundo alargado ao exercício e à responsabilidade da
espécie humana inteira mas exclusivamente segundo a gramática imperativa produzida e mantida operante por apenas uma parte dela.
Para os neoanimistas, a proposta e a implementação desse programa constitui tarefa primeira. Esse programa, porém, não pretende
servir-se só de referências advindas da gramática do paradigma animista mas também das de todos os paradigmas culturais ou
civilizacionais inventariáveis no passado e no presente de todas as partes do mundo aonde a espécie humana tenha produzido ou
produza interrogação, reflexão, invenção, conceito, norma e eixo de acção.

África do Sul

2 – O paradigma humanista, imposto à espécie inteira pela via da ocidentalização completa do mundo, e decorrente da colocação
ideológica e idealista da terra no centro do universo, e do homem no centro da criação e do lado do divino em oposição ao resto da
natureza, ao procurar garantir, no seio da criação, um lugar de eleição e privilégio para o homem, produz necessária e
obrigatoriamente lugares de eleição e de privilégio para certos homens e grupos de pessoas e promove incessantemente impasses que
põem em causa a sorte e o destino da espécie inteira e até quiçá da criação total (sem com isso conseguir resolver ou anular
necessariamente os impasses anteriores que deram origem aos seguintes). A espécie, no geral, tem hoje a plena consciência disso, daí
a profusão de alertas catastrofistas como parte da pacotilha da acção política e cívica presentes.

Big Hole, SA

3 – Toda a contestação, mesmo revolucionária, ao curso da história sob o figurino humanista se tem empenhado na proposta, na
adopção ou na imposição de remedeios dentro do próprio paradigma humanista. Os neoanimistas entendem que o que importa é
colocar o próprio paradigma humanista em questão. Isso constitui para eles tarefa primeira e cuidarão sempre de procurar encarar os
fundamentos dos vários paradigmas em vez de se deixarem armadilhar por questões de modalidade dentro do paradigma humanista.

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4 – A intervenção neoanimista, reconhecendo embora que a dinâmica do paradigma humanista se impõe, impôs e imporá a toda a
terra habitada e desabitada (é um facto indesmentível e em pleno curso indetenível porque integrado culturalmente na dinâmica
inventiva transformativa que assiste à espécie inteira) propõe convocar, para recuperação e adequação ao todo do destino do homem a
haver, acções, entendimentos e políticas fundamentados em outros paradigmas igualmente produzidos pelas culturas dos homens,
mais a convocação de todos os saberes disponíveis, reconhecidos ou não, inclusive saberes que decorrem de produções humanistas
para além daquelas que se situam nos domínios das ciências e das ideologias, como é o caso das sabedorias e das poesias. Os
neoanimistas sabem também que a dinâmica transformativa própria da espécie é património da própria espécie e não apenas daqueles
que o paradigma humanista produz ou domestica.

Kimberley, SA

5 – A inventariação de todos os impasses humanistas presentes passados e previsivelmente futuros é tarefa neoanimista. Por exemplo:
o sistema económico produzido e instaurado pelo paradigma humanista colapsa quando a economia não cresce. O presente da espécie
indicia por outro lado, no presente, uma recessão de crescimento demográfico em curso a partir da europa e presumivelmente
consumável a prazo à dimensão global do mundo. Logo uma perspectiva a haver de recessão dos consumos, logo……..

Marta Mestre, Luhuna e Ruy Duarte de Carvalho, SA

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6 – Segundo o que parece sempre ter acontecido, e desde o mais remoto passado, desde que o curso da história regida pelo paradigma
humanista conduz a impasses ou a excessos maiores e evidentes (por exemplo: baixo império, baixa idade média, crítica da razão
pura, cientifismo), ele mesmo, o paradigma humanista, através dos dissidentes que também produz, convoca razões outras e saberes
outros (plotino/porfírio, renascença, leibniz / de vico – prevenindo contra o progresso - , romantismo, dada-surrealismo). É o que
tenderá a passar-se agora e daí a emergência de propostas heterodoxas perante a exaustão e o espectáculo dos remedeios e dos
catastrofismos… A catalogação de todas as críticas ao humanismo, à ditadura da razão científica, à ideologia do progresso, ao império
da coação tecnológica e à dinâmica do crescimento delirante e autofágico é tarefa neoanimista.

7 – Criticando ou combatendo o paradigma humanista e prognosticando a recuperação de políticas do equilíbrio, os neoanimistas


pretendem antes recolocar o desempenho e a livre existência das pessoas em equilíbrio, precisamente, com os interesses comuns das
pessoas, de todas as pessoas e de toda a criação.

8 – Não cabe aos neoanimistas nem inventar nada nem sentirem-se obrigados a isso. Antes tão só insistir em convocar todos os
saberes e rever os dados e os documentos e os materiais todos disponíveis . Eles podem revelar respostas outras, sendo os tempos
outros e as situações outras, para além daquelas que lhes decifraram consultadores anteriores ou mesmo quem os recolheu
ou instaurou.

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9 – O neoanimismo não é uma escola, nem uma igreja, nem una seita, nem um partido, nem um grupo ou célula de acção. Entendendo
embora que o paradigma humanista não detem o exclusivo das modalidades, das medidas e dos dispositivos necessários e pertinentes
ao exercício da vida e da carreira da espécie nos terrenos da terra e do mundo, os neoanimistas não perdem de vista que a própria
emergência de um movimento que se pretende com os seus contornos é decorrente e tributária do império e da carreira do
paradigma humanista.

A viagem prossegue no mapa e o país no chão

10 – Admitindo pois que embora da condição do mundo e dos homens faz parte a perturbante evidência de que o misterioso mister da
existência implica vida em sociedade e um fatal aparelho de instituições, chefias, lideranças, delegações e normas colectivas de gestão
de recursos, controle dos comportamentos e coberturas das relações, os neoanimistas pretendem agir e fazer-se ouvir porque
entendem que o paradigma humanista não detem o exclusivo das modalidades, das medidas, dos dispositivos necessários e pertinentes
para a vida em sociedade e nem sempre adopta aqueles que pareceriam mais adequados à integração das situações que gera, instaura,
sustenta e reproduz. Outros paradigmas postos de parte e arredados de consideração por advirem de culturas dominadas ou anuladas
pelo ocidente, poderão ser recuperados e adaptados a situações relidas agora, ou inventados a partir da reconsideração dos seus
fundamentais estigmatizados como arcaicos pelo processo de imposição da civilização ocidental. Isto pode ser válido e pertinente
para o exercício tanto das políticas de poder e controle como das políticas de manutenção e reprodução da espécie e das de
aprendizagem e expressão das pessoas.

11 – Estamos juntos todos, todos no mesmo barco, os homens todos e tudo quanto existe no universo inteiro. E se existirem outros
universos, também eles, ainda, estarão junto connosco no mesmo barco. E deus não é uma entidade… É o total de um processo
criativo e indecifrável em devir do qual cada um de nós, pessoa, animal, pedra, capim, astro, asteróide, vento, sopro e suspiro,
desgosto e dor, euforia e glória, faz parte integrante e inalienável……

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Escrito em 2009

por Ruy Duarte de Carvalho


Ruy Duarte de Carvalho | 15 Abril 2010 | alternativa, impasse, neo-animismo, neo-animistas, ocidente, paradigma humanista

por RUY DUARTE DE CARVALHO

Ruy Duarte de Carvalho.


(1941-2010) Poeta, antropólogo, escritor e cineasta. Participou na luta pela libertação de Angola e é nacional desse país desde que em 1975 passou a
haver cidadania angolana. Filho de um aventureiro caçador de elefantes, cresceu no Namibe, no Sul do país. Para além de regente agrícola e de
criador de ovelhas, estudou cinema em Londres. Em 1982, obteve com um filme, “Nelisita”, o diploma da Escola de Altos Estudos em Ciências
Sociais em Paris, tendo-se doutorado também aí, em 1986, em Antropologia Social e Etnologia, com uma tese sobre a produção da diferença cultural
entre os pescadores da costa de Luanda. Leccionou em Luanda, Coimbra, São Paulo, Paris e Berkeley. A sua base foi sempre Angola até se mudar
para Swakopmund, Namíbia, em 2008. A sua poesia encontra-se reunida em Lavra (2005) e os livros Vou lá visitar pastores (1999), Actas da
Maianga (2003), Os Papéis do Inglês, As paisagens Propícias (2005), Desmedida (2007), que ganhou o Prêmio Literário Casino da Póvoa, e
A Terceira Metade (2009), todos na Cotovia. No Brasil Os Papéis do Inglês (Companhia das Letras) e Desmedida (Língua Geral).

Artigos do autor
"A Construção da Nação e a Consciência Nacional", entrevista a Ruy Duarte de Carvalho

Cinema e antropologia para além do filme etnográfico

Da tradição oral à cópia standard, a experiência de Nelisita

Desmedida - pré-publicação Ruy Duarte de Carvalho

O direito à exigência

O futuro já começou?

Tempo de ouvir o ‘outro’ enquanto o “outro” existe, antes que haja só o outro... Ou pré - manifesto neo-animista

uma espécie de habilidade autobiográfica

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