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As três previsões

fracassadas de Marx
Publicado em 21/03/2016 por Eli Vieira

por Stephen Hicks*, em seu livro Explaining Postmodernism, 2004 (e edição


expandida 2011).

Marxismo: Esperando Godot**

Primeiro formulado na metade do século XIX, o socialismo marxista clássico fez


dois pares de alegações relacionadas, um par econômico e um par moral.
Economicamente, alegou que o capitalismo era impulsionado por uma lógica de
exploração competitiva que terminaria por causar o seu colapso; o modo de
produção comunal do socialismo, em contraste, provar-se-ia economicamente
superior. Moralmente, a alegação foi que o capitalismo era mau tanto por causa
das motivações de interesse próprio daqueles engajados na competição
capitalista quanto por causa da exploração e alienação causadas
pela competição; o socialismo, em contraste, seria baseado no sacrifício altruísta
e na partilha comunal.

As esperanças iniciais dos socialistas marxistas se concentraram nas


contradições econômicas internas do capitalismo. As contradições, pensaram
eles, se manifestariam num crescente conflito de classes. Enquanto a
competição por recursos se aqueceria, a exploração do proletariado pelos
capitalistas necessariamente aumentaria. Enquanto a exploração aumentaria, o
proletariado se tornaria ciente de sua alienação e opressão. Em algum ponto, o
proletariado explorado concluiria que não aguenta mais e então a revolução
aconteceria. Então a estratégia para os intelectuais marxistas era esperar e
montar um observatório para os sinais de que as contradições do capitalismo
estavam levando logica e inexoravelmente à revolução.

Eles esperaram por muito tempo. Quando veio o início do século XX, depois de
várias previsões falhadas de revolução iminente, não apenas estava
ficando constrangedor fazer mais previsões, começava a aparentar que o
capitalismo estava se desenvolvendo numa direção oposta à que o marxismo
disse que deveria se desenvolvendo.

Três previsões fracassadas

O marxismo era e é uma análise de classes, fazendo as classes econômicas


rivais numa competição de soma zero. Nessa competição, os mais fortes
venceriam cada rodada sucessiva de competição, forçando os mais fracos a
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apuros cada vez piores. As rodadas sucessivas de competição capitalista


também botariam os mais fortes uns contra os outros, levando a mais
vencedores e perdedores, até que o capitalismo gerasse uma estrutura
socioeconômica caracterizada por alguns poucos capitalistas no topo e no
controle dos recursos econômicos da sociedade enquanto o resto da sociedade
seria empurrado para a pobreza. Até a nascente classe média do capitalismo
não restaria estável, pois a lógica da competição de soma zero espremeria
alguns da classe média para a classe capitalista no topo e o resto para o
proletariado.

Essa análise de classe rendeu três previsões definidas. Primeiro, previu que o
proletariado iria tanto crescer como uma fração da população quanto se tornar
mais pobre: enquanto a competição capitalista progredisse, mais e mais pessoas
seriam forçadas a vender seu trabalho; e enquanto cresceria a oferta daqueles
vendendo seu trabalho, os salários que eles poderiam procurar necessariamente
diminuiriam. Segundo, previu que a classe média encolheria a uma porcentagem
bem pequena da população: a competição de soma zero significa que há
vencedores e perdedores, e enquanto alguns seriam consistentemente
vencedores e assim se tornariam capitalistas, a maioria perderia em alguma
etapa e seria forçada para o proletariado. Terceiro, previu que os capitalistas
também encolheriam como uma porcentagem da população: a competição de
soma zero também se aplica à competição entre capitalistas, gerando alguns
sempre vencedores em controle de tudo enquanto o resto seria forçado para
baixo na escada econômica.

Mas não foi assim que as coisas se sucederam. Já no início do século XX parecia
que todas as três previsões haviam falhado em caracterizar o desenvolvimento
dos países capitalistas. A classe dos trabalhadores braçais tinha diminuído como
uma porcentagem da população e atingido condições relativamente melhores. E
a classe média tinha crescido substancialmente tanto como uma fração da
população quanto em riqueza, e o mesmo aconteceu à classe alta.

O socialismo marxista, assim, estava diante de um conjunto de problemas


teóricos: Por que as previsões não deram certo? Ainda mais premente era o
problema prático da impaciência: Se as massas proletárias eram a matéria prima
da revolução, por que não estavam se revoltando? A exploração e a alienação
precisavam estar ali — apesar das aparências superficiais — e precisavam estar
sendo sentidas pela vítima do capitalismo, o proletariado. Então o que precisava
ser feito a respeito da classe trabalhadora decididamente não revolucionária?
Depois de décadas esperando esperançosamente e abocanhando qualquer
sinal de insatisfação e agitação trabalhadoras, o fato puro e simples era que o
proletariado não se revoltaria tão cedo.

Consequentemente, a estratégia precisava ser repensada. [1]


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Referências
1 – Werner Sombat, que foi um marxista no início de sua carreira, foi um dos
primeiros a repensar: “No fim, foi preciso admitir que Marx cometeu erros em
muitos pontos importantes” (1896, 87).
Bibliografia
* Stephen Hicks, 55, é um filósofo canadense-americano e leciona na Rockford
University, EUA. Confira a página do livro Explaining Postmodernism.
** N. do T.: Esperando Godot é uma peça do teatro do absurdo, uma
tragicomédia em dois atos, escrita pelo irlandês Samuel Beckett, em que dois
personagens, Vladimir e Estragon, esperam em vão por alguém chamado Godot.

Disponível em: https://xibolete.uk/marx/ Acesso: 15 de abril de 2018.


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4 ideias de Karl Marx que seguem


vivas apesar do fracasso da URSS e
do comunismo
Karl Marx, o ideólogo da Revolução Russa, cujo centenário é marcado
nesta terça-feira, dia 7 de novembro, é relevante hoje em dia?
Ainda que o filósofo alemão tenha vivido e trabalhado no século 19, uma época
bem diferente da nossa, é indiscutível que dois de seus textos, O Manifesto
Comunista (1848), redigido junto com o também filósofo alemão Friedrich
Engels, e O Capital (1867), tiveram em um momento determinado da história
uma grande influência política e econômica em muitos países e sobre milhões
de pessoas.

O surgimento da União Soviética (URSS) após a Revolução Russa foi um


exemplo disso. Ninguém nega que o bloco socialista marcou boa parte do século
20, no entanto, também é um fato que ele desmoronou e que o comunismo não
se materializou tal qual propuseram Marx e Engels, com o capitalismo vigorando
em quase todo o planeta atualmente.

Mas podemos dizer que todas as ideias de Marx estão obsoletas? Ou é possível
elencar algumas que se tornaram realidade e seguem vigentes até hoje? A
seguir, selecionamos quatro exemplos.

1. O ativismo político
Marx descreve a luta de classes na sociedade capitalista e como o proletariado
acabaria tomando o poder das elites dominantes em todo o mundo. O Capital,
sua principal obra, é uma tentativa de indicar essas ideias por meio de fatos que
podem ser verificados e de análises científicas.

Foi uma mensagem poderosa em um mundo pleno de opressão e desigualdade.


"A experiência pessoal de Marx, que viveu na pobreza, conferiu uma grande
intensidade à sua análise, que recorreu à Filosofia contra o monstro capitalista
que escravizava os seres humanos", explica à BBC um dos seus mais
renomados biógrafos, o britânico Francis Wheen.

Durante o século 20, as ideias de Marx inspirariam revoluções na Rússia, China


e Cuba e em muitos outros países onde um grupo dominante foi derrubado e os
trabalhadores se apoderaram da propriedade privada e dos meios de produção.
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O marxismo foi além e tornou-se uma maneira de interpretar o mundo: a simples


ideia de que a história é marcada pela luta entre classes antagônicas também
influenciou a literatura, a arte e a educação.

"Hoje em dia, Marx segue relevante como filósofo político. Geração após
geração, muitos buscam inspiração nele para suas próprias lutas", diz Albrecht
Ritschl, historiador alemão especializado em marxismo e chefe do Departamento
de História Econômica da London School of Economics, no Reino Unido.

"Continua-se a falar sobre os temas tratados por Marx. Por exemplo, a


globalização. Marx foi um dos primeiros críticos da internacionalização dos
mercados. Também se referiu à desigualdade ao alertar que ela estava
aumentando no mundo. Poderia se dizer que Marx continua sento atraente e faz
parte do discurso político atual."

Ainda que a queda da URSS, em dezembro de 1991, tenha sido um forte golpe
contra a teoria marxista (por algum tempo, partidos de esquerda e universidades
deram a ela menos importância), a crise financeira global de 2007/2008 voltou a
torná-la relevante.
Esse colapso foi um exemplo clássico das recorrentes crises do capitalismo que
haviam sido previstas pelo pensador alemão. Desde então, as vendas de O
Manifesto Comunista e O Capital crescem em todo o mundo.

2. A recorrência de crises econômicas


Marx questionou a ideia de que o capitalismo se autorregulava. Para ele, não
havia uma "mão invisível" que trazia ordem às forças do mercado, como havia
postulado o economista e filósofo escocês Adam Smith, considerado o "pai" do
capitalismo, em A Riqueza das Nações (1776).

Marx argumentava que o sistema capitalista estava condenado a períodos de


crises recorrentes inerentes a eles - hoje, os economistas falam em recessões.
"Ainda que ele não tenha sido o único a falar disso, sua ideia original era que
cada turbulência levaria a outra pior e assim sucessivamente até a destruição do
capitalismo", explica Ritschl.

A grande depressão econômica de 1929 e as outras subsequentes alcançaram


seu auge em 2007/2008, quando o mundo viveu um colapso financeiro inédito
em termos de gravidade, impacto e persistência. "É certo que os aspectos mal
resolvidos do capitalismo levam a novas crises, mas a ideia determinista de
Marx, de que o sistema desmoronaria por causa de defeitos intrínsecos, foi
desacreditada", diz Ritschl.
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"Mas hoje estamos mais alertas do que nunca diante das turbulências e somos
mais cuidados com elas, em parte graças a ele." Ainda que, ao contrário do que
previu Marx, as crises não tenham ocorrido nas indústrias pesadas, mas no setor
financeiro, esclarece o especialista.

3. Ganhos desmedidos e monopólios

Um aspecto importante da teoria de Marx é a chamada mais-valia: o valor criado


pelo trabalhador com sua força laboral. O problema, segundo o pensador
alemão, é que os donos dos meios de produção se apropriam da mais-valia e
tentam maximizar seus ganhos às custas do proletariado.

Assim, o capital tende a concentrar-se e centralizar-se em poucas mãos e, em


contrapartida, isso leva ao desemprego e a uma depreciação dos salários dos
trabalhadores. É possível ver isso hoje em dia.

Por exemplo, uma recente análise da revista britânica The Economist mostra
que, enquanto nas últimas décadas o salário dos trabalhadores em países como
Estados Unidos se estabilizou, o salário máximo de executivos aumentou
significativamente: em vez de ganhar o equivalente a 40 vezes o salário médio
dos trabalhadores, passaram a ganhar 110 vezes ou mais.

"A crítica de Marx à acumulação é válida ainda hoje, porque continua a ser um
dos pontos fracos do capitalismo", diz Ritschl. "Atualmente, vemos claramente a
acumulação desmedida de poder por parte das grandes empresas internacionais
e também a formação de monopólios e duopólios. Marx nos alertou sobre esses
riscos."

4. A globalização e a desigualdade

Biógrafos de Marx, como Francis Wheen e outros estudiosos de sua obra, dizem
que ele se equivocou com sua ideia determinista de que o capitalismo sepultaria
a si mesmo ao criar seus próprios coveiros. Mas ocorreu o contrário: com a
queda da URSS, o capitalismo não apenas saiu fortalecido como se expandiu
pelo mundo.

Ninguém expressa melhor essa ironia do que o pensador marxista Jacques


Rancière, professor de Filosofia da Universidade de Paris VIII: "O proletariado,
longe de sepultar o capitalismo, o mantém vivo. Trabalhadores explorados e mal
pagos, libertados pela maior revolução socialista da história (China), são levados
à beira do suicídio para que o Ocidente possa seguir jogando com seus iPads,
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enquanto isso, o dinheiro chinês financia os Estados Unidos, que, de outra forma,
estaria falido."
Mas, se Marx falhou em sua previsão, não errou nas fortes críticas à
internacionalização do capitalismo. Em O Manifesto Comunista, ele argumenta
que a expansão global do capitalismo se tornaria a principal fonte de
instabilidade do sistema internacional, como demonstrariam uma série de crises
financeiras nos séculos 19 e 20.

"A necessidade de constantemente expandir mercados para seus produtos


persegue a burguesia", sustentam Marx e Engels. "Deve se estabelecer e criar
conexões por toda parte. Isso obriga a todas as nações, sob pena de extinção,
a adotar o modo burguês de produção."

Por isso, o marxismo tem sido resgatado no debate atual sobre os problemas da
globalização. "Hoje, há no mundo muita gente preocupada com a destruição dos
mercados locais, na insegurança laboral e da perda de empregos", comenta
Ritschl.

"A globalização foi, por exemplo, um dos grandes temas da última eleição
americana, na qual dominou uma pergunta que poderia ter sido feita em muitas
partes do planeta: o que fazemos com aqueles que prejudicados por ela?"

Está claro que, apesar das previsões equivocadas e ideias obsoletas, Marx
colocou em pauta no século 19 vários temas de debate sobre política e economia
que seguem vigentes mais de um século depois.
Disponível em: www.bbc.com/portuguese/geral-41889653. Acesso: 15 de abril de 2018.
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Karl Marx: os altos e baixos de


uma ideologia
Há 130 anos morria Karl Marx. Poucos pensadores mudaram o
mundo de forma tão profunda e polarizada. Suas ideias foram
recebidas com entusiasmo, tratadas com desprezo e pervertidas
por ditaduras

Em busca do marxismo

O Manifesto Comunista escrito por Karl Marx e Friedrich Engels é, ao lado da


Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1789 e da Declaração de
Independência dos Estados Unidos, uma das obras políticas mais influentes da
história mundial. "Nunca, antes, um movimento desencadeado pela filosofia
havia exercido tamanho poder", disse o filósofo Hans Joachim Störrig. Na
segunda metade do século 20, metade da população mundial vivia em países
cujos governos construíram seus fundamentos ideológicos com base nas ideias
de Marx.

Assim, Marx resgatou sua própria reivindicação. Quando jovem ele escreveu:
"Os filósofos apenas interpretam o mundo de maneiras diferentes. O ponto, no
entanto, é transformá-lo."
Marx queria ser visto como um cientista, e não como um filósofo. Seu trabalho
era centrado na análise do trabalho. O homem é "o animal que produz a si
mesmo". Para analisar o trabalho, era necessário conhecimento econômico
apropriado, transmitido a Marx por seu amigo e colaborador Engels.
O pensador alemão formulou a teoria da mais-valia, segundo a qual uma pessoa
pode gerar mais valor do que o necessário para sua subsistência. O excedente
é apropriado pelo capitalista, ao fazer o trabalhador produzir mais em valor do
que lhe é pago para seu sustento. O resultado é o lucro.
As teorias de Marx se baseiam na ideia de que a base material caracteriza a vida
em sociedade: "A existência determina a consciência". A forma como vivemos e
trabalhamos influencia em como nos sentimos e pensamos. Além disso, Marx
acreditava que a história está sujeita a leis semelhantes às da natureza.
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Portanto, ele chegou à conclusão de que, tão certo como uma pedra cai no chão,
a sociedade capitalista burguesa iria cair em suas contradições internas.

Causa e efeito
Assim como a conjuntura econômica mundial, o pensamento de Marx passou
por fases de extremo entusiasmo e depressões profundas nos últimos 100 anos.
Sua teoria marcou a base do conflito da Guerra Fria. Na Rússia, Lenin e seu
sucessor Stalin transformaram o comunismo em ideologia e realidade política na
forma do Materialismo Histórico. Mao Tsé-Tung na China, Ho Chi Minh no Vietnã,
Kim Il-Sung na Coreia do Norte e Raul Castro em Cuba também seguiram as
ideias do alemão. Eles estavam convencidos de que Karl Marx havia encontrado
uma verdade universal. O que não impediu que adaptassem as teorias marxistas
em função de suas próprias necessidades. Não sem razão, o vencedor do
Prêmio Nobel de Literatura Albert Camus escreveu, em 1956: "Os erros que
cometemos com Marx nunca seremos capazes de redimir."

O colapso do bloco oriental


Em poucos anos, os países comunistas se tornaram brutais ditaduras com
milhões de mortos, como a União Soviética e a China. As previsões de Marx de
que a revolução era inevitável nos países desenvolvidos não se concretizou.
Pelo contrário, o sistema soviético, considerado um dos pioneiros do
comunismo, firmou suas bases na concorrência com o Ocidente capitalista.

Outras premissas de Marx também se provaram erradas, ou ao menos


tendenciosas. O filósofo liberal Karl Popper demonstrou que a teoria de Marx –
ao contrário de suas afirmações – não tinham suficientes critérios científicos. A
redução do Direito, da cultura e da arte a uma mera superestrutura determinada
por uma base econômica não faria jus à realidade.

Após o colapso da União Soviética ficou fácil de descartar a doutrina de Marx


como uma aberração histórica. As democracias liberais do Ocidente, com seus
sistemas econômicos capitalistas, haviam finalmente vencido o conflito que
marcou a segunda metade do século 20.
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Crise econômica mundial


Menos de duas décadas mais tarde ficou provado que as coisas não eram tão
simples. Com a crise financeira mundial de 2008, centenas de milhares de
pessoas perderam seus empregos e suas casas. E mais uma vez Marx voltou a
ser moderno.

Marx tinha descrito não apenas a globalização como resultado do capitalismo.


Ele havia descrito também as contradições internas da sociedade capitalista
burguesa que iriam, em sua opinião, levar a crises regulares e recorrentes. Além
disso, ele previu o acúmulo de capital na mão de poucos. "Na atual crise
econômica, ele não poderia ser mais atual", disse o economista Werner Krämer.

Netos e bisnetos de Marx


A rápida ascensão da China fez muitos se perguntarem: será que o comunismo
então funciona? Porém, o que é vendido por Cuba, China, Venezuela e Vietnã
como comunismo tem pouco a ver com as teorias do pensador alemão.

A concentração de riqueza interna associada ao nacionalismo chinês passa


longe das ideias de Marx. Ele via a libertação apenas nas mãos de um
proletariado internacional. De acordo com Krämer, que lecionou por um tempo
no país, a China é uma "sociedade relativamente injusta. A diferença entre ricos
e pobres é enorme." Esse é um indício de que "a China é hoje uma enorme
contradição entre a teoria marxista e a atual ordem econômica mundial."

Disponível em: https://www.cartacapital.com.br. Acesso: 15 de abril de 2018.


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DIREITO E MARXISMO

Introdução

O objetivo deste trabalho é apresentar uma crítica à visão marxista do direito,


apresentando-o a partir de uma análise teórica materialista, como fruto das relações
sociais e não como mera produção estatal. Pretende mostrar também a complexidade de
apreensão do fenômeno jurídico, apresentando seu caráter múltiplo, que só pode ser
apreendido a partir de uma visão dialética da realidade. Apresento a ideia de que ele tem
um papel estruturador e orientador destas relações sociais, sendo um instrumento que teve
um papel importante na ascensão da burguesia ao poder. Os marxistas devem se apropriar
desse instrumento para seus objetivos táticos e estratégicos, utilizando o manancial
teórico marxista para transformar o direito, rompendo com o positivismo jurídico e
aproximando-o da realidade social e tornando-o um instrumento capaz de apreender toda
a complexidade da produção e reprodução dos seres humanos organizados em sociedade.

A visão marxista do direito

A visão mais difundida no meio marxista acerca do direito é a que – por ser ele parte da
superestrutura - o toma como mero reflexo das relações econômicas da sociedade. O
modo produção da vida material condiciona a vida social e política, sendo, em última
instância, o determinante absoluto do direito.

Os defensores de tal concepção costumam justificar seu entendimento numa exposição


de Engels em sua obra A "Contribuição à Crítica da Economia Política" de Karl Marx,
que diz:

"Na produção social de sua vida, os homens constroem determinadas relações


necessárias e independentes de sua vontade, relações de produção que correspondem a
uma determinada fase de desenvolvimento das suas forças produtivas materiais. O
conjunto dessas relações de produção formam a estrutura econômica da sociedade, a
base real sobre a qual se levanta a superestrutura jurídica e política e à qual
correspondem determinadas formas de consciência social. O modo de produção da vida
material condiciona o processo da vida social, política e espiritual em geral". (Marx e
Engels, "Obras escolhidas", volume 1, p.301).

Essas palavras tornaram-se um dogma para os marxistas. Tal vezo fez com que a ciência
marxista ficasse estagnada no campo do direito, restringindo-se a uma área exclusiva dos
intelectuais burgueses. Com o tempo esse entendimento foi sendo combatido. O próprio
Engels questiona a maneira equivocada como suas palavras e as de Marx foram
interpretadas. Marcus Vinícius Martins Antunes, em seu ensaio Engels e o Direito, utiliza
a seguinte passagem de Engels:

"Se alguém tergiversa dizendo que o fator econômico é o único determinante, converterá
aquela tese em uma frase vazia, abstrata, absurda. A situação econômica é a base, mas
os diversos fatores da superestrutura que sobre ela se levantam – as formas políticas e a
luta de classes e seus resultados, as Constituições que, depois ganha uma batalha, a
classe triunfante redige, etc., as formas jurídicas, e inclusive os reflexos de todas essas
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lutas reais no cérebro dos participantes, as teorias políticas, jurídicas, filosóficas, as


idéias religiosas e o desenvolvimento ulterior destas até convertê-las em um sistema de
dogmas – exercem também sua influência sobre o curso das lutas históricas e
determinam, predominantemente em muitos casos, sua forma. ("Fios de Ariadne –
Ensaios de interpretação marxista", Editora UPF, p.36).

Há uma série de juristas que entendem o papel que o marxismo pode ter no
desenvolvimento do direito, mas todos apontam que precisamos primeiramente romper
com a visão dogmática sobre o direito. Fabio Coelho Ulhoa, em seu livro Direito e Poder,
questiona essa visão dogmática por parte dos marxistas:

"Essa equação reducionista, esse economicismo, é uma deturpação simplificadora do


marxismo marxista O modo de produção existente em uma sociedade é a sua base real
no sentido de que condiciona as demais relações sociais. Não as determina, por certo;
apenas a condiciona. As manifestações do espírito humano possuem o que se costuma
chamar de relativa autonomia, de uma lógica interna que não se consegue entender
apenas com o reporte às condições materiais da vida social". (Coelho, 2005: 08).

Mais adiante, Coelho diz:

"Pela redução voluntarista, o Direito é visto como mera expressão dos interesses da
classe dominante. Ignora-se, nessa perspectiva, o papel que as classes dominadas
desempenham na história e a própria dinâmica da luta de classes. O Direito acompanha,
com maior ou menor proximidade, os movimentos dessa luta. As concessões localizadas
da burguesia e os avanços e as conquistas do proletariado estão presentes no
condicionamento da produção normativa. Além disso, a classe dominante possui suas
segmentações, seus projetos diferenciados, que compõem uma complexa rede de
interesses, impossível de ser sintetizada na idéia de um Direito que atenda
exclusivamente aos de uma classe social apenas. (Coelho: 2005, 8-9).

Além de rever nossa posição em relação ao direito, teremos de desfazer a imagem


negativa que temos entre os juristas progressistas, buscando uma aproximação com esse
seguimento da intelectualidade que terá um papel estratégico na edificação de um Estado
democrático e inovador de suas instituições. Entendo que o caminho para isso é único,
retomar a essência do marxismo, que nada tem a ver com o dogmatismo. O marxismo é
uma teoria viva, não é um materialismo mecânico, que entende que a consciência social
fica reduzida às condições econômicas. Karel Kosik, em sua obra Dialética do Concreto,
questiona esse reducionismo e diz:

"Ao contrário, a dialética materialista demonstra como o sujeito concretamente histórico


cria, a partir do próprio fundamento materialmente econômico, idéias correspondentes
e todo um conjunto de formas de consciência. Não reduz a consciência às condições
dadas; concentra a atenção no processo ao longo do qual o sujeito concreto produz e
reproduz a realidade social; e ele próprio, ao mesmo tempo, é nela produzido e
reproduzido." (Cosique, 995, 124).

Então não podemos partir de um "único determinante", pois assim estaremos negando a
própria essência do marxismo. Cometemos, assim, um grande erro. Ao reduzimos o
objeto que estudamos, por óbvio, chegamos a conclusões imprecisas.
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Entendo que um dos principais erros cometidos por nós marxistas ao analisar o direito é
o fato de tomá-lo isoladamente da sociedade. Ao entender o direito como algo fora, ou
acima, da sociedade, esquecemos que ele é obra dos seres humanos. Apegamo-nos à
forma jurídica – a lei tomada isoladamente - e nos esquecemos do conteúdo - as relações
sociais apreendidas na complexidade de todas suas dimensões.

A extinção do direito

Essa visão parcial do direito nos levou a um equívoco que estagnou o pensamento
marxista no campo jurídico. Ao entendermos o direito simplesmente como a forma
jurídica, adotamos uma visão positivista do direito [01], aquela que entende que só o
Estado produz o direito. Então partimos para uma solução mecânica que pode ser
resumida na seguinte fórmula: se nosso objetivo estratégico é a extinção do Estado
e só esta cria o direito, nossa relação com o direito já está determinada – só nos resta
aniquilá-lo, ou seja, o fim do Estado é igual ao fim do direito. Fica evidente, então, a
influência redutora do positivismo jurídico na percepção marxista do fenômeno jurídico.

Esta armadilha positivista – que só é direito o que é elaborado pelo Estado - construída
pela burguesia logo após derrubar o poder feudal, enredou o pensamento marxista no
positivismo jurídico de tal forma que o horizonte do direito para o marxismo ficou restrito
a duas possibilidades, quais sejam: ou decretamos a morte do direito – já que queremos
destruir o Estado –, ou criamos um positivismo "de esquerda" – já que a única forma de
direito é o estatal –, a chamada "legalidade socialista".

Essa visão tem limitado não só nossa ação no campo teórico, mas também no campo
político, pois num período histórico onde os setores progressistas necessitam acumular
forças para aproximar-se do objetivo estratégico, um mecanismo como o direito – que
pode cumprir um papel estratégico na acumulação de forças – não pode ficar fora do
horizonte político e teórico dos portadores de novas relações sociais.

Devemos nos desarmar para enfrentar esse debate. As fórmulas e modelos só


prejudicaram a teoria marxista. Para desenvolver o marxismo não basta dizer as
mesmas coisas que foram ditas no passado pelos fundadores do marxismo, ou deixar
de falar coisas novas porque eles não falaram. Precisamos analisar a realidade, ver o
que mudou, quais são as características da atual fase histórica e, a partir delas, buscar
alternativas baseadas nos princípios marxistas, não como dogmas, mas como fio
condutor, como espinha dorsal de nosso pensamento.

Infelizmente, ainda há aqueles que usam as obras dos fundadores do marxismo para
impossibilitar a criação de qualquer tipo de formulação que não esteja "nos moldes" do
que já foi escrito por Marx, Engels e Lênin. Num "apelo à autoridade", usam o argumento
de que "Marx não escreveu sobre isso", "Lênin não disse tal coisa" e assim por diante.
Tal forma de encarar o marxismo é incompatível com a postura científica de seus próprios
fundadores. A complexidade da realidade mundial – em face da derrota sofrida pelo
campo socialista - e as tarefas de reconstrução de um novo imaginário socialista,
atualizado e em consonância com a realidade, cobram mais dos marxistas.
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A luta pela construção de um novo paradigma de enfrentamento das questões teóricas


entre os marxistas já vem sendo travada em nosso meio em todo o mundo. Samir Amin
nos apresenta uma grade contribuição para ajudar nossa corrente de pensamento a superar
antigos vezos ideológicos. Para ele ser marxista na atualidade requer uma profunda
mudança em nossa postura intelectual:

"Para mim, ser marxista é partir de Marx e não se deter mele, ou em um de seus grandes
sucessores da história moderna, seja Lênin ou Mao. Marxista e marxólogo são dois tipos
diferentes. Partir de Marx significa partir da dialética materialista, sem para tanto
considerar que todas as conclusões por ele tiradas do uso que ele disso fazia tenham sido
necessariamente corretas em seu tempo, ou sejam hoje. Fazer isso significa transformar
Marx em profeta, o que ele jamais pretendeu ser. Desmistificar Marx se impõe." (Samir
Amin, 2010: 72).

Tenho plena concordância com Samir Amin, devemos rever entendimentos tidos como
inquestionáveis e trilhar caminhos que antigamente não foram explorados pelos
fundadores do marxismo. A realidade histórica vivida por eles era diferente. Suas obras
devem ser estudadas - e compreendidas – dentro de determinado período histórico, com
uma realidade específica.

Precisamos desenvolver o marxismo para que ele possa estar à altura dos desafios atuais,
sendo um instrumental teórico capaz de transformar a realidade concreta e não um
discurso vazio. E só conseguiremos cumprir essa grande tarefa se adotarmos uma postura
crítica, criadora e antidogmática.

Para entender o direito

Devemos entender o direito como um fenômeno social de composição múltipla, não só


sob a forma jurídica, mas sim sob a dimensão das relações sociais, como forma de
produção e reprodução dos seres humanos em determinada sociedade.

O direito deve ser diferenciado da lei, pois ele é muito mais que isso. A tentativa de igualar
o direito à lei – e fazer crer que ele só pode ser criado pelo Estado - é uma construção da
burguesia para fazer crer que toda a legislação é direito, ou seja, tem base nas relações
sociais de determinada sociedade. Contrariando essa tese, Lyra Filho é enfático:

"A legislação abrange, sempre, em maior ou menor grau, Direito e AntiDireito, isto é,
direito propriamente dito, reto e correto, e negação do Direito, entortado, pelos
interesses classistas e caprichos continuístas do poder estabelecido". (Filho, 1995: 8).

A burguesia, com tal pretensão de igualdade, almeja "congelar" as relações sociais atuais,
"anestesiando" a capacidade de crítica da sociedade frente a uma lei injusta, escondendo-
a sob o manto da legitimidade jurídica do Estado, tentando fazer crer que as atuais
relações sociais – baseadas na exploração – sejam imutáveis, como se fossem inerentes
aos seres humanos e não uma construção historicamente determinada.

Depois dessa distinção, é necessário que vejamos o direito não como algo com vida
própria, à margem ou acima da sociedade, mas sim como algo construído pela experiência
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humana. Não se pode falar em direito desconectado da história de determinada


sociedade, de suas forças produtivas, de seu desenvolvimento social, dos valores que
lhe dão suporte, enfim, não se pode falar em direito apartado da existência humana.

A sociedade se apresenta como uma cadeia ininterrupta de relações sociais. Essas relações
se dão em diversos níveis e dimensões. Essas relações devem ser entendidas como o
próprio produzir-se da vida dos seres humanos organizados em sociedade. Marcos
Bernardes de Melo, no seu livro Teoria do Fato Jurídico, apresenta alguns elementos
dessa cadeia de relações:

"O ser humano, em situação normal, nasce no seio da família – o grupo social básico –
e a partir daí tem início a moldagem de suas potencialidades no sentido da convivência
social. A ampliação gradativa dos círculos sociais em que o homem se vê envolvido no
desenrolar de sua existência faz crescer, proporcionalmente, o grau de influência que a
sociedade exerce em sua formação. À medida que o indivíduo expande a área de seu
relacionamento com os outros, participando de grupos maiores, como companheiros de
brincadeiras, a escola, as congregações e comunidades religiosas, os clubes, e.g.,
aumentam também as pressões dos condicionantes sociais que procuram conduzir a sua
personalidade conforme os padrões da sociedade. (Mello, 2007: 03).

Note-se que os elementos apresentados por Mello deixam de lado as contradições de


classes, mas isso não invalida a ideia acerca da complexidade das relações sociais. Na
verdade, os elementos que ele apresenta servem de base para a afirmação que ele fará em
seguida no seu livro de que o direito é um instrumento de que a sociedade se utiliza para
agir sobre o ser humano, com o escopo de inserir em sua personalidade os valores sociais
dominantes na sociedade em que está inserido.

O direito é o mecanismo que organiza as relações sociais, buscando ao mesmo tempo


manter e direcionar essa sociedade. Manter o essencial para garantir sua continuidade
e direcioná-la. Aqui se apresenta um elemento importante do papel do direito na
construção da hegemonia em determinada sociedade, porque o direito tem um duplo
aspecto, ele é influenciado pelas relações sociais e depois se volta para essas mesmas
relações, dando-lhes direção.

As três dimensões do direito

Disse acima, que não podemos considerar o direito fora da sociedade em que ele é criado.
Então, o mesmo não se apresenta como realmente é, mas de uma forma que esconde sua
essência. O direito, que segundo uma apreensão restrita seria a lei, é apresentado como a
vontade do Estado que, em apertada síntese, seria uma imposição das classes dominantes.

Os marxistas não podem se apegar à aparência dos fenômenos, porque eles não se
apresentam como realmente são. A dialética marxista é fundamental para enxergar por
trás dos fenômenos, para superar sua aparência. Karel Kosik nos mostra a complexidade
da apreensão dos fenômenos numa realidade fetichizada:

"O complexo dos fenômenos que povoam o ambiente cotidiano e a atmosfera da vida
comum da vida humana, que, com sua regularidade, imediatismo e evidência, penetram
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na consciência dos indivíduos agentes, assumindo um aspecto independente e natural,


constitui o mundo da pseudoconcreticidade. A eles pertencem: - O mundo dos fenômenos
externos, que se desenvolvem à superfície dos processos realmente essenciais; - O mundo
do tráfico e da manipulação, isto é, da práxis fetichizada dos homens ( a qual não
coincide com a práxis crítica revolucionária da humanidade); - O mundo das
representações comuns, que são projeções dos fenômenos externas na consciência dos
homens, produto da práxis fetichizada, formas ideológicas de seu movimento; - O mundo
dos objetos fixados, que dão a impressão de ser condições naturais e não são
imediatamente reconhecíveis como resultado da atividade social dos homens.(Kosik,
1995: 15).

Com o fenômeno jurídico acontece o mesmo. O direito é apresentado como a forma


jurídica, mas isso não corresponde à realidade concreta. Trata-se de uma falsa
apreensão de sua natureza. Em sua complexidade, o direito possui três dimensões
fundamentais que o compõem, quais sejam: a ciência jurídica – o ordenamento
posto; a sociologia jurídica – os fatos que o geram; e a filosofia jurídica – os valores
sociais e que lhes dão suporte. Cabe salientar que essas três dimensões não são
estanques, havendo uma interpenetração entre as mesmas. Essas três dimensões formam
o todo do fenômeno do direito.

O direito, para ser entendido, deve ser observado sob a totalidade da experiência humana,
e não como uma mera lei escrita, que seja fruto da vontade da classe dominante ou como
um "ser com vida própria". É importante observar a opinião de Giusepe Lumia, que
fortalece a visão do direito como um fenômeno com três dimensões e nos apresenta
elementos importantes para uma melhor apreensão do que ele realmente é:

"a) a experiência do entrelaçamento real das relações intersubjetivas disciplinadas por


certo tipo de regras de comportamento que são as normas jurídicas; b) essas próprias
regras, o modo pelo qual são criadas e se organizam em sistemas normativos mais ou
menos complexos e estruturados; c) a atividade de aprovação ou desaprovação que
assumimos diante de tais regras, segundo as consideramos ou não conforme as idéias
que temos sobre o melhor modo pelo qual essas relações derivam ser reguladas."
(Giusepe Lumia, 2003: 3-4).

Destarte, também para Lumia, devemos entender o direito sob estes três aspectos que o
determinam: a norma em si e sua elaboração; a realidade social que fundamenta o
ordenamento jurídico e o sistema de valores que fundamentam esse ordenamento. Posto
de outra forma, devemos observar o direito sob a dimensão científica, sociológica e
filosófica. Não há como entender o direito – em face de sua complexidade enquanto
fenômeno social – sem levar em consideração os três aspectos que o compõem.

Em sua dimensão científica, temos a norma em si, como é feita a lei, seus requisitos
formais e materiais e sua estrutura. Nessa dimensão só a lei e o processo legislativo são
levados em consideração. Não importa, nessa dimensão, para que serve a lei, nem quais
seus objetivos, só importa se na sua elaboração foram observados os requisitos para sua
validade. A visão positivista do direito encerra o fenômeno jurídico nessa dimensão.

Na dimensão sociológica, temos os fatos sociais, que são criados por seres humanos,
pertencentes a classes sociais diferentes, temos as forças produtivas, entre outros
aspectos. Nessa dimensão importam os motivos da criação da lei, quais seus objetivos e
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para que serve determinada lei. Tem preocupação com os conflitos sociais que compõem
a sociedade.

Na dimensão filosófica, temos os valores morais e políticos. Aqui precisamos perquirir


os valores e as ideologias dos grupos que compõem dada sociedade, precisamos realizar
a crítica das outras dimensões e construir um conceito do que é justo ou injusto em dada
sociedade, enfim, a dimensão filosófica tem uma função axiológica, busca definir o valor
específico que se busca no direito.

A complexidade do fenômeno jurídico nos deixa claro que observá-lo apenas sob um
desses aspectos nos levará – e tem levado – a uma apreensão equivocada do direito. Por
isso defendo que o instrumental teórico marxista tem um papel importante na apreensão
e superação dos limites do direito.

Para se ter uma real apreensão do direito é necessário ir além da aparência dos fenômenos
e buscar os valores sociais que sustentam o ordenamento jurídico de determinada
sociedade, o grau de desenvolvimento da luta de classes e qual correlação de forças na
esfera nacional e internacional, o grau de desenvolvimento das forças produtivas, a
composição das instituições políticas e sociais. Somente com uma visão do todo teremos
uma real apreensão do direito, conseguindo assim, a utilização de todo o seu potencial no
desenvolvimento de determinada sociedade. Nesse sentido as palavras de Plauto Faraco
de Azevedo são esclarecedoras:

"A Metodologia Jurídica, para ser fecunda, deve orientar-se por uma concepção do
direito, que seja capaz de integrar todas as suas dimensões. Como afirma Elias dias,
"não se entende plenamente o mundo jurídico se o sistema normativo (Ciência do Direito)
se insula e separa da realidade em que nasce e a que se aplica (Sociologia do Direito) e
do sistema de legitimidade que o inspira e deve sempre possibilitar e favorecer sua
própria crítica racional (Filosofia do direito). Uma compreensão totalizadora da
realidade jurídica exige a complementaridade, ou melhor, a recíproca e mútua
interdependência dessas três perspectivas ou dimensões que cabe diferenciar ao falar do
direito: perspectiva científico-normativa, sociológica e filosófica." A não aceitação dessa
complementaridade funda-se em uma perspectiva epistemológica injustificável,
sujeitando a aplicação do direito a todos os azares, em virtude de separá-los do contexto
histórico, em função de que existe e se aplica." (Azevedo, 1999: 23 e 24).

Disponível: https://jus.com.br/artigos/15023/direito-e-marxismo . Acesso: 17 de abril de


2018.

Referência:

SILVA, Leandro Alves. Direito e marxismo. Revista Jus Navigandi, ISSN 1518-4862, Teresina, ano
15, n. 2537, 12 jun. 2010. Disponível em: <https://jus.com.br/artigos/15023>. Acesso em: 17
abr. 2018.