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Cidade

Dorme

Hugo César de Lima


Vasques
Capítulo 1 – Uma Espécie de
Detetive da Verdade

Já passava da meia noite mas as luzes e o barulho da grande


metrópole não baixavam em uma rua sequer. Todas as
noites na cidade de São Paulo eram assim: centenas de
pessoas dentro e fora dos clubes e bares, se embriagando e
jogando conversa fora no intuito de esquecer que, no dia
seguinte, iriam encontrar com as mesmas pessoas, mandar
nos mesmo empregados invejosos e obedecer os mesmo
patrões com síndrome de superioridade.

Em meio a essa multidão, sentado no banco mais próximo à


saída do Hand’s Café – uma pequena mas estilosa
lanchonete que fechava às 2h da manhã – estava Victor
digitando e fazendo pesquisas em um notebook que havia
tirado de sua mochila vermelha escura no final da tarde do
dia anterior.

Victor Kutler era um jovem, alto, de corpo levemente


definido e um curto cabelo castanho escuro, ao contrário de
seus notáveis olhos azuis. Muito inteligente e ambicioso,
era um jornalista de 28 anos que vivia sozinho em um
pequeno apartamento próximo à universidade em que se
formou na grande cidade de São Paulo. Desde os 18 anos
de idade, quando deixou o interior do Rio de Janeiro e foi
para a capital econômica do país cursar jornalismo na USP,
Kutler tinha um objetivo: se tornar uma espécie de detetive
da verdade – daquele tipo de jornalista que investiga crimes
e assassinatos misteriosos, resolve charadas e fica ligando
fotos e notas escritas com uma linha vermelha num quadro
negro.

O único problema é que, desde que começou a trabalhar,


Marcos, o diretor chefe da revista Diga, só lhe dava
serviços “fúteis”, na visão de Victor é claro, como relatar a
falta de infraestrutura em pequenos e esquecidos bairros nas
periferias da cidade ou escrever uma matéria sobre um novo
projeto didático no colégio municipal do centro.

Desde quando entrou na empresa em 2014, três anos depois


que se formou, Marcos havia lhe dado somente um caso
“interessante”.

Um suposto homicídio do zelador Josias que trabalhava


num condomínio de prédios de classe média alta e foi
encontrado morto na manhã de uma segunda-feira por um
dos moradores do primeiro andar que alegou tê-lo visto
logo abaixo das escadas que levariam ao segundo andar
exalando um cheiro insuportável e rodeado por insetos não
tão agradáveis.

Com a chegada da polícia, os especialistas forenses


disseram que o velho Josias havia morrido no sábado,
aproximadamente às 22h, quando estava descendo do
quinto andar. Ele tinha acabado de terminar de limpar
aquele piso e estaria indo para casa. O que explicava o odor
mas não ficava nem perto de razoável, como ele morreu e,
mais estranho ainda, como ninguém mais achou seu corpo
ao longo de dois dias.

Com essa historinha aparentemente divertida em mãos,


Victor rapidamente caiu em cima do caso esperando
descobrir um grande assassino, frio e calculista. Afinal de
contas, quem mataria um pobre e inocente idoso de 72 anos
e por quê?

Bom demais para ser verdade, no dia seguinte, a polícia


conseguiu imagens das câmeras daquele prédio e viram que
praticamente todos os moradores haviam saído de viagem
por conta do feriado que começou na quinta. Só tinha
ficado um jovem engenheiro da computação que vivia no
último andar e que não saiu de seu apartamento ao longo de
todo o feriado pois tinha muito trabalho a fazer e não sentiu
o cheiro pela distância que estava do cadáver. Além disso,
junto com o depoimento da senhora Marta, esposa do
falecido, as câmeras mostraram que Josias estava no
telefone discutindo com Marta enquanto descia as escadas
quando seu telefone escorregou de suas mãos e, na tentativa
de agarrá-lo, pisou em falso nos degraus, saiu rolando e o
final você já sabe.

Com esse histórico de trabalhos, a Diga não era bem o


futuro que Victor esperava mas, até então, ele se mantinha
na empresa há 4 anos pois o salário deixava sua vida muito
cômoda.

Naquela madrugada, Victor estava pesquisando casos


antigos de assassinatos e os relatando num documento
virtual no intuito de estabeler um padrão e, posteriormente,
com a autorização de Marcos, escrever uma matéria com o
título: A origem dos assassinos.
“Perdão, senhor!”, disse uma das garçonetes. “Nós
fecharemos em 10 minutos, gostaria de pedir mais alguma
coisa ou posso fechar sua conta?”

“Não, claro. Pode fechar para mim...”, respondeu Victor.


E assim ele guardou seu computador, pegou a mochila e
largou uma nota de 20 reais seguido de uma fala
consideravelmente alta:

“O troco fica como gorjeta, até semana que vem.”

Disse isso porque toda sexta-feira ele vinha ao Hand’s e


agia exatamente igual, como se fosse um ritual: chegava no
final da tarde, após sair da sede da revista e era sempre o
último a sair. Praticamente fechava o lugar.

Foram necessárias mais umas três ou quatro semanas como


essa mas, finalmente, Kutler conseguiu um material
completo e conciso para apresentar ao chefe. Muito
confiante e animado, chegou mais cedo do que de costume
se ajeitou em seu escritório e entregou uma grossa pasta
verde para Carol, a belíssima secretária de Marcos.

“Assim que ele chegar entrega, por favor. É


importantíssimo que ele leia isso ainda hoje.” alegou Victor.

“Claro, senhor Kutler. Pode deixar.”, respondeu Carol de


maneira muito atenciosa como sempre foi.
Pouco menos de duas horas depois, Marcos vai até a sala de
Victor:
“O material até que é bom, Victor.”, elogiou Marcos. “No
entanto, não é uma boa hora para esse tipo de conteúdo.
Além de ser algo que gera um certo incômodo e muito
pouco interesse em nosso público-alvo.”

Não fazia nem duas semanas que um grupo de traficantes


organizou uma espécie de massacre em uma das maiores
favelas do Rio. O país vinha passando por uma enorme
crise geral, principalmente na segurança.

“Mas e se a gente começasse a educar nossos leitores? Algo


como fazer eles se interessarem por novos conhecimentos.”,
insistiu o jovem jornalista. “Não precisa ser agora, podemos
começar mês que vem. Sei lá!”

“Gosto da sua forma de pensar. Mas não há nada que eu


possa fazer. A gente trabalha em cima dos interesses dos
leitores e, nesse momento, assassinos não é uma sacada
inteligente.”

Victor desistiu de argumentar e voltou à sua mesa para


continuar seus trabalhos de rotina e Marcos virou as costas
e saiu andando, provavelmente para fazer a mesma coisa.

Naquela noite, Victor voltou para seu apartamento


cabisbaixo como nunca antes. Ele tinha em sua mente que
aquela matéria seria o início de sua carreira. Que iria ser
uma publicação de sucesso, seguida de várias outras
informativas e noticias no estilo de novelas, acompanhando
a polícia nas investigações e resolvendo os crimes.
Talvez até ganhar prêmios, ser promovido. Quem sabe?
Resposta: Marcos. Que havia acabado com seu barato.

Desmotivado e sem ideias, Victor deitou em sua cama de


tamanho solteirão, colocou seu computador no colo e
começou a pensar.

Por mais que ele gostasse da boa vida que levava com seu
alto salário na Diga, nunca se sentiu vivo. Fazendo o que
realmente queria. Talvez fosse a hora de rever suas atitudes
quanto a isso. Se não era assim que queria viver, o que
estava fazendo nessa vida tão estática? E assim tomou um
decisão: pegou o celular no criado e ligou para Pedro.

Pedro Trellus era um caminhoneiro que havia largado a


faculdade de jornalismo no segundo ano, onde conheceu
Victor, para se dedicar às viagens e seu sonho de conhecer o
mundo. Ser entregador de cargas foi a forma mais racional
que ele conseguiu para conciliar seu sonho com um
razoável retorno financeiro.

“Alô! Pedro?”, intoduziu Victor.

“Fala, meu irmão? Como você está? Já faz um bom tempo,


não?”, responde Pedro, até que bem animado.

Mesmo Pedro tendo abandonado a faculdade e Victor se


formado, eles manteram contato por um bom tempo uma
vez que ambos tinham sonhos diferentes e adoravam
conversar por horas sobre o futuro.
Após jogar um pouco de conversa fora, Victor finalmente
perguntou: “Você está em São Paulo hoje?”

“Cara, eu estou mas saio amanhã bem cedo e vou até o


interior do Mato Grosso do Sul fazer umas entregas de
ração e de lá parto para o Norte do país.”, respondeu Pedro.
“Volto para São Paulo só mês que vem.”

“E vai sozinho?”

“Vou sim.”

“O que acha de uma companhia?”

“Como assim? Você quer viajar todo esse tempo comigo?


Mas e o trabalho?”

Victor suspirou e disse: “Estou um pouco perdido na vida,


preciso de um tempo para pensar.”

Como Pedro amava uma boa conversa e não era muito fã da


solidão aceitou a companhia do amigo.

Assim, logo ao amanhecer do dia seguinte, Victor foi ao


encontro de Pedro num posto na saída da cidade com
apenas uma mochila e dentro: alguma trouxa de roupa, um
caderno em branco, uma caneta, um lápis, um envelope
com dinheiro suficiente para o tempo que precisar e, é
claro, seu notebook. Enquanto carregava sua carteira e seu
celular nos bolsos da calça que vestia.
Pouco antes das 7h da manhã, o camihão de Pedro já havia
saído do posto de gasolina e a viagem tinha começado. Era
naquela estrada que Victor abandonava tudo de concreto
que havia conquistado e sua comodidade em busca de algo
mais desafiador. Ou pelo menos um tempo para pensar no
que faria quando voltasse. Já que, provavelmente, seria
demitido da Diga.
Capítulo 2 – O Mistério da Cidade

Fazia quase uma semana que Victor e Pedro estavam na


estrada. A cada dia que se passava eles paravam e dormiam
em uma cidade diferente. Isso para carregar e descarregar
pequenos pedidos que Pedro sempre aproiveitava para fazer
uma grana extra e adiantar suas férias. E nesse ritmo, eles
haviam entrado em território sul-matogrossense há apenas
dois dias.

Estacionados em um posto perto de Água Clara, uma


pequena cidade relativamente perto da divisa dos estados,
estavam sentados numa humilde conveniência nos fundos e
tomando café, eram apenas 6:30 da manhã. Victor, com
notaveis olheiras, levantou a cabeça, olhou para seu
companheiro de viagem e, quase bocejando, disse:

“Chegamos bem cedo hoje. A quantidade de serviços por


aqui é bem baixa. E se a gente terminasse o mais rápido
possível e continuasse viagem?”

Com a testa levimente fransida, perguntou Pedro:

“De repente você está com pressa? Digo. Pode ser sim. Mas
é que eu pensei que a sua ideia era gastar mais tempo em
lugares diferentes. Para conhecer, ter novas experiências,
visões, etc.”
“Claro! Quero dizer, sim. Mas é que parece que essas
cidades de interior são praticamente idênticas.”, resmungou
Victor. “Os mesmos tipos de pessoas e rotinas. Todo mundo
com a mesma cara, acordando super cedo. Parece até que
falam igual.”

Pedro ficou uns segundos em silêncio como se estivesse


raciocinando e logo prosseguiu:

“Ah, mas é tudo assim mesmo. Eu te alertei que, nesse tipo


de viagem que eu faço, raramente acontecem coisas
diferentes ou divertidas. Eu costumo aproveitar mais são as
paisagens mesmo. E às vezes as noites.” Deu um sorriso um
tanto quanto malicioso e continuou. “Você sabe como são
essas jovens de interior. Sempre animadas com novidades
que acabem com o tédio diário que esses peões as dão.”

“Eu sei disso. É só que eu não vejo nada nessa cidade que
possa acrescentar, sabe?”, Victor deu uma longa inspirada
em silêncio e continuou a falar. “Vamos fazer assim. A
gente termina tudo por aqui, almoçamos e pegamos estrada.
Na próxima cidade a gente para e posamos para a noite num
bom hotel. Eu pago. O que acha?”

Sem necessidade de mais argumetos, foi só descobrir que


iria ter uma noite de conforto sem custo algum que Pedro
aceitou na hora.