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Ismar Tirelli Neto

Michelangelo Antonioni, Zabriskie Point, 1970


Os homens imaginários

Para dizer algo à vizinhança do éter


o nosso elemento
aquilo em que nos movemos

n.º 38 Abril de 2016 55


I s m a r Ti r e l l i N e to

Desistfilm

para Manuel Puig,


para Amanda Meirinho

LEIO EM algum lugar que o Léo Ferré escreveu “Avec Les Temps”
em duas horas.

Estas notas desagradavelmente autobiográficas foram, em


sua grande maioria, redigidas em caráter de urgência e des-
barato. E partem elas próprias de notas, ou sequer isto: bor-
ralho de fichas, judiadas folhas de papel almaço e uns poucos
documentos espalhados a esmo por diversas pastas no com-
putador, todos pompeando títulos um bocado opacos, salvos
(salvos!) às pressas entre uma e outra tarefa doméstica ou
tradutória (ao que parece, traduzir é o que faço agora para, por
assim dizer, ganhar a vida). Representam uma tentativa de
falar alguma coisa – de começar a falar – sobre estes anos
todos no longo dos quais o cinema me vem pulverizando
lentamente.

É uma vaziez apaixonada, o que sinto.

Já o que ouço, e isto me parece absolutamente digno de


nota, é o relógio da cozinha a bater grande e comezinho atra-
so. Por vezes, o som avulta, torna-se quase que insuportavel-
mente alto, isto conforme uma lógica toda própria a que, é
provável, morremos todos sem aceder. O som sem traçado,
sem comentário: isto me parece, por algum motivo, também
digno de nota. Recuado o cinema, o tempo sucede sem pro-

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Ismar Tirelli Neto

priamente uma arte do tempo. Sem uma arte de depuração.


Amanhece. Não “le jour se lève”.

Por vezes, ouço também os movimentos de Rafael pelo


apartamento, que é minúsculo e situa-se em alguma capital
sem a menor importância ao Sul de um rebentado país sul-
-americano.

O país troca de mãos. E ouço:

o modo como se encadeiam os movimentos de Rafael atrás


de mim às batidas do relógio da cozinha (à minha direita), e
como estas duas séries de sons encadeiam-se elas também ao
marulho gutural que se repete, periodicamente, pelos canos
deste “moderno” edifício onde todos os moradores se detestam
com a máxima polidez e os porteiros nos encaram a todos
como confessores escandalizados. Há muito tenciono dizer-
-lhes: desistam de minha alma, tenham a fineza de desistir de
minha alma (minh’alma). Não há nada lá. Só esta arte deci-
didamente menor e, claro está, sem o menor “futuro”. Não
preciso voltar os olhos. Também a palavra “movimento”
parece-me, de certa forma, “aquém”, mas não sei dizer que
deficiência trai & transluz quando a escrevo, quando ela
ocorre. Rafael é esguio, irritadiço, “fidgety”, lembra ao de leve
um ator americano do final dos anos 1960, rosto barbado
onde vêm aflorar em coceiras todo o desencanto e o não-con-
formismo de uma geração. Um gato arranhou-lhe o rosto
quando pequeno, a cicatriz por detrás da cerração de pelos,
detrás do biombo. Há pouco – início da madrugada – enrolou
um charro em papel de embrulhar pão. Peter Fonda, Michael
Sarrazin, aquele rapaz que fez “Zabriskie Point” e logo em
seguida teve morte trágica. Mais um nome que se perde. Eu
poderia, é claro, pesquisar. Mas quero permanecer, por pouco
que seja, nesta perda.

É uma vaziez apaixonada, o que sinto quando penso em


cinema.

O que vejo, já o que vejo: é cinema.

O que sinto é uma espécie de raiva.

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Desistfilm

Mas é uma raiva desconcertantemente pequeno-burguesa,


na medida em que advém da realização de que este obtuso sa-
cerdócio tomou-me tudo que eu tinha sem me dar nada em
troca.

O cinema irresulta-me a mim.

Gostaria de esquecer este texto tão logo o desse por termi-


nado. Mas não é isto o que vai acontecer. Sei que estou cavou-
cando um vespeiro um bocado perigoso, feito de colecionismo
desesperado, vontade perversa de evasão, incapacidades
inconfessáveis diante da realidade tal como ela se apresenta,
tal como ela nos quereria. Quem confessa? Eu não poderei ser
jamais real. Onde, numa imagem, dói? Em que ponto da som-
bra ou da luz formam-se as secreções, os inchaços, em que
ponto da imagem carcome? Este homem que acaba de apagar
as luzes, que ressona ao de leve sobre a minha cama, é Peter
Fonda, é o sujeito que interpreta o Nazareno em “Jesus Christ
Superstar” – o relógio bate, o texto se escreve, Rafael, como
todos os outros, um belo dia se cansará deste banquete proje-
tivo para, uneasy rider, correr o seu fantasma pelo mistério
tão moço da América, das Américas. E é possível que o faça
ainda que passemos o resto da vida em companhia um do
outro. A sua imagem me abandona em grandes assomos
dramáticos, a sua imagem percorre estas estradas sem
extremos e sempre tomadas em hora mágica, e como não sei
diferençar uma coisa da outra, como não aprendi a reter os
entes no corpo e na forma que eles de fato têm, Rafael me
abandonará, já me abandonou, eu já abandonei Rafael, todos
me abandonaram e eu abandonei a todos (sendo que meu
abandono de todos é um pouco mais recente, e acena para
algo como erguer-se dentro do cinema, movimentar-se um
pouco, ainda que com dificuldade, dentro do cerco que ele
impõe). Sei que inicio, neste texto, um enfrentamento que
durará anos & anos, e sei que o cinema vencerá. Assim como
vencerá meu pai, o militarismo do avô já falecido, os homens
que tomaram o país a muque não faz muitos dias.

Tenho trinta anos de idade. Sou escritor, homossexual, ex-


-alcoólatra e o bom senso permite-me apenas umas poucas
afirmações deste quilate por ano. A ideia de representações
justas, consistentes e certeiras já não me parece muito crível.

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Ismar Tirelli Neto

Mas nesta zona de indiferenciação quase total que o cinema


cavou sob nossos pés ao longo de sua história, creio ainda ser
possível realizar coisas

boas (porque precárias, porque sem fecho), úteis (que


livrem a vida humana da tirania da utilidade) e vitais (que
afirmem o tempo inteiro que estamos, para bem ou para mal,
para bem ou para mal, em relação).

O que vejo é cinema, não tal & qual. O que vejo, sabe-se,
isto é que é pior, SABE-SE, o governo – incompetente, etnocida,
imperdoavelmente ambíguo com relação às únicas pautas que
importam de fato: direitos humanitários, a criação e a
manutenção a qualquer preço de condições primárias a todos os
seus sujeitos e a salvaguarda das minorias –, o governo deposto
por coisa indizivelmente pior. Dá-se como num filme, governa-
do pelos mesmos pressupostos hipnóticos, e é real. Dá-nos a ver,
é explícito, substancial, e na mesma assentada oculta tudo, uma
espécie de antimanifestação. E as notas, o regime de desbarato
em que foram escritas e também coligidas e “depuradas”, par-
ticipam igualmente desta desconexão fundante, esta impotência
– “tudo começa na alienação”, diz o Morin em alguma parte de
“O Cinema, ou o Homem Imaginário” – que é, talvez, a cláusu-
la maior do contrato cinematográfico.

Rafael, dormindo, acaba de emitir um som de assentimento.


“Um-hum”. Deve acatar qualquer coisa em sonho. Concorda
em descer um pouco mais. É provável.

O trem avança ainda sobre um pequeno grupamento de


senhores & senhoras aterrorizadas.

Eu jamais resolvi este terror, esta infância. Jamais pude sair


daquela sala. Morri. O simplório fazendeiro do Nebraska –
“ver para crer” – ceifado por um insulto cerebral durante uma
projeção de “O Exorcista”. Não era um boato infundado. Não
era apenas publicidade. Vi o Demônio e morri.

Ver para crer, ver para crer.

Tomei tudo à letra. Os negligés, as canções, os vampiros,


os brocados, as garrafas de licor, estampidos ao longe, lábios

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Desistfilm

tomados em primeiríssimo plano, cigarros, perseguições por


becos expressionistas, flores saturadas a não mais poder, as
crianças desacreditadas e perfeitas, cães mais sabidos que cer-
tos ex-amantes, as camas separadas, comentário musical, o
efeito “lua”, o efeito

Impiedoso Deus da trívia

ergo os braços roliços, leitosos, lanhados a entoar um de


vossos cânticos, Hooray for Hollywood, There’s No Business
Like Showbusiness, That’s Entertainment!, miserere de
tabloide, interminável chiado, ser engolido, esperar ser cuspi-
do fora, fora dos nomes, tantos, tantos nomes, tantos nomes
dentro dos quais gritamos desde sempre por ajuda, vejam:
Anna Sten, Bella Darvi, Gloria Grahame, Luciana Paluzzi,
Sylva Koscina, Adriana Prieto, Elizabeth Hartman, Patty
Duke, Senta Berger...

Senta Berger!

O elencá-los assim, com o devido desespero, não poderia


ser tomado, afinal, por um poema? Então, não haverá mais
incautos como eu?

Mesmo o que se seguiu a isso não passou de uma mentira.

“Tem a natureza da natureza”.


O quê?
Salvo engano, é neste termos que o John Cage fala do
herói, do conceito Campbelliano de “herói”.
O herói, sendo impassível, vivendo em completa aceitação
daquilo que lhe ocorre, teria “a natureza da natureza”.
Salvo engano, salvo engano.
Não faz diferença.
Posso usá-lo para falar sobre outras coisas.
Vê-se que não ser um intelectual tem lá suas benesses de
onde em onde.
Posso usá-lo.
Sim, eu posso usá-lo.
O cinema “tem a natureza da natureza”.

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Ismar Tirelli Neto

Uma segunda natureza.


Acresça-se a isto o fato de que já não há bem uma primeira.
Nossa única natureza é uma segunda natureza.
She’s second nature to me now, like breathing out and
breathing in.
Artifício.
Geralmente, dispomos da palavra “artifício” para falar de
coisas ralas.
E pouca gente parece entender e habitar agonicamente o
artifício, seus tratos labirínticos, sua terrível densidade.
Fassbinder, Schroeter, Sirk, Leisen, Minnelli, Cukor.
Foi vendo um filme que ouvi pela primeira vez este termo,
“second nature”.
Foi vendo “My Fair Lady”.
Foi uma canção do musical “My Fair Lady”.
“I’ve Grown Accustomed to Her Face”.
Sim, trata-se de um espetáculo teatral, algo que originou-
-se de um espetáculo teatral.
Mas eu vim a conhecer o texto, a canção e o termo através
do filme “My Fair Lady”.
Está à minha frente o Rex Harrison lamentando a ausên-
cia de Audrey Hepburn.
A meu lado, meu avô.
Meu avô começa a despedir-se de mim.
Algo foi posto em marcha.
Uma perda irrecuperável.
Fricotagem, fogo infernal.

Meu avô, cujo nome sou obrigado a continuar.


[Não poderia mudá-lo, já que não há mais uma natureza
primeira?]
Ao lado, vendo partir seu único neto homem em longa
trituração.
Será uma vida desejada?
Eu não sei.
Neste primeiro momento, há apenas o imenso prazer de ser
subjugado, dissolvido, o empuxo irresistível da fantasmagoria.

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Um sentimento de familiaridade que parece apaziguar


toda vontade inarticulada, todo horror apenas intuído.
Algo é posto em marcha.
Vou-me com os fantasmas.
Vou-me para onde não há tempo morto.
Finalmente, uma experiência me coloca em relação.
E trata-se, em uma instância, de uma mentira.
Em nada se parece o “tempo morto” do cinema com o
“tempo morto” de nossas vidas.
Ainda que certo cinema – e vejam que não trato aqui das
experiências mais radicais de um Lav Diaz ou de um Béla Tarr –,
ainda que certo cinema fale-nos sempre de dilatações tempo-
rais e instantes esvaziados, ainda que certo cinema insista,
bravamente, em ocasionar no espectador uma pequena
reflexão sobre a terrível opressão do tempo que passa, o cine-
ma jamais atingirá plenamente esta opressão, o cinema jamais
atingirá verdadeiramente o tempo morto.
Isto é da vidinha.
Nossas vidas, por falta de palavra melhor, reais.

Torceduras.
Exigências do cinema plasmadas à vida real.
O mais vago sentido.
Ao lado, meu avô.
Começa agora o nosso “longo adeus”.
Ainda não sei que estou indo.
Naquele momento, no entanto, eu me tornava para ele
irrecuperável.
Assim como meu avô é agora, para mim, irrecuperável.
Esta foi minha infância, ou melhor, seu momento mais
decisivo.
Houve isto de idílico, enfim.
A imensa felicidade em falar com o avô dos filmes antigos
que ele gosta de ver na tevê, de noite.
Mas há algo de errado.
Isto é claro.
Não se trata apenas da anedótica defasagem temporal.
Não se trata apenas de dois excêntricos simpáticos, um
muito novo, um muito velho.
Não se trata apenas de uma aliança forjada na irrealidade.

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Ismar Tirelli Neto

Ora, fosse apenas isto.


Faltava ao conjunto apenas um vira-latas de aspecto maroto.

Dizem que não matou ninguém.


E isto basta.
Para eles.
“Eu perguntei para ele uma vez”, disse minha mãe, o rosto
descomposto.
“Eu perguntei para ele, eu disse por favor me conte a ver-
dade você já matou alguém você já torturou alguém? Ele disse
que não. Ele disse que não”.

Ele matou a todos, minha mãe. Ele nos matou a todos.

Eu não tinha ainda doze anos.


Anthony Quinn viera ao Brasil rodar um filme.
Anthony Quinn conhecera, durante a rodagem, uma criança
brasileira a quem sentira-se estranhamente vinculado.
Salvo engano, Anthony Quinn alegou que eram coisas de
vidas passadas.
Ele levou a criança embora.
Uma vida melhor.
Não sei se ela chegou a ficar com Quinn e os de Quinn.
Mas me lembro distintamente disto, da impressão que me
fizera: Quinn a levara embora.
Eu sabia quem ele era.
Eu o esperava.
Houvera um erro.
Claramente houvera um erro.

Coloco-me em público.
Tenho onze anos de idade, sei um bocado sobre filmes
antigos.
Como toda criança, sou cabotino e irrefreado.

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Desistfilm

Comigo, no entanto, isto toma cores de paroxismo.


Busco ativamente me colocar em público.
Passível de ser encontrado.
Levado embora.
Participo de alguns programas televisivos.
Se eu me colocasse em público, me tornaria mais visível
para Anthony Quinn.
Para alguém como Anthony Quinn, alguém que exercesse
esta função.

Minha avó surra a empregada.


Eu choro.
Meu avô, geralmente a placidez em pessoa, olha para mim
fundamente e pergunta: és um homem ou um rato?
A mãe me mostra um pequeno objeto de cerâmica para
guardar as escovas de dente.
Diz que é para quando tivermos uma casa só nossa.
Não compreendo muito bem para onde foi meu pai.
Minha madrinha não vive conosco; divide um apartamen-
to com uma mulher sobre a qual todos à minha voltam silen-
ciam ou desconversam.
Inclusive minha madrinha.
Sou muito novo.
Mais tarde, o canal de filmes velhos leva “Descalços no
Parque”.

Participo aos doze anos de um programa televisivo de per-


guntas e respostas.
A cada domingo, respondo a 10 perguntas sobre cinema
antigo.
Ao cabo de dez domingos, o prêmio: uma viagem a
Hollywood.
“A Meca do Cinema”.
No nono domingo, nona pergunta, perco.
“Que prêmio ganhou Jack Lemmon por A Síndrome da
China?”
Era a Palma de Ouro em Cannes.
Respondi O Globo de Ouro.

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Ismar Tirelli Neto

Quando Ismar morreu, quando o Comandante Ismar


Tirelli morreu, contava eu catorze ou quinze anos.
“Em bom tempo”, costumo dizer.
Mas talvez não seja o caso.
Poderíamos ter chegado ao ódio.
E com o ódio, a algo mais completo, mais real.
Algo inescapável.
A consolidação de uma imagem.
Sem movimento.
Sem movimento que confundisse as coisas.
Aos vinte, teria tido eu a coragem de dizer-lhe que me
deitava com homens, que desprezava o militarismo, o patrio-
tismo, que via claramente a influência corruptora e nociva
que ele, com sua imperturbabilidade e “solidez de caráter”,
exercera sobre todos à sua volta?
Meu avô.
O Comandante.
“Mas ele nunca matou ninguém. Nunca torturou
ninguém”.
Minha mãe é cocainômana.
Tem bons e maus anos.
Desde que me mudei, tento me concentrar em tocar uma
vida estreita, cabível.
Sobretudo, sozinho. Coisa que jamais pude ser.
Eu próprio bebi sem parar durante quase uma década.
A avó morreu.
A madrinha morreu.
Não tenho notícias da mulher com quem minha madrinha
passou os últimos vinte anos de vida.
Continuo sem compreender muito bem que foi feito de
meu pai.
Vemo-nos ocasionalmente.
Dá aulas de ioga e administra uma espécie de spa no inte-
rior de São Paulo.

É preciso despicar-se do cinema.

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