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A educomunicação na educação musical e seu impacto

na cultura escolar
Paula Alexandra Reis Bueno
Instituto Brasileiro de Pós-Graduação e Extensão, Curitiba, Paraná, Brasil

Rosa Maria Cardoso Dalla Costa


Universidade Federal do Paraná, Curitiba, Paraná, Brasil

Roberto Eduardo Bueno


Instituto Brasileiro de Pós-Graduação e Extensão, Curitiba, Paraná, Brasil

Resumo

O estudo analisou a inter-relação comunicação/educação em


contextos de ensino/aprendizagem de música inseridos no seguinte
programa de complementação curricular: Programa Viva a Escola, da
Secretaria de Estado da Educação do Paraná, na cidade de Curitiba,
no ano letivo de 2009. Argumentou-se que essa inter-relação
acontece quando, em uma educação musical de qualidade, existe
também o trabalho para a formação de ouvintes aptos, consumidores
críticos e produtores autônomos e responsáveis, com abordagens da
educação para os meios, da mediação tecnológica no ensino e da
mediação na gestão comunicativa, ou seja, com educomunicação na
educação musical. Por meio da análise de conteúdo de documentos e
entrevistas realizadas com estudantes e professores, considerou-se que
ocorreu uma educação musical de qualidade: constatou-se fluência
musical em momentos significativos de composição, performance
e apreciação musical, momentos estes que foram sustentados pelo
desenvolvimento teórico e técnico e permeados por interações
humanas significativas. A educomunicação encontrou um local
propício para sua efetivação e houve manifestações iniciais no espaço
da educação musical nos contextos investigados. No entanto, essa
inter-relação comunicação/educação ainda não aconteceu de forma
intencional, planejada e sistematizada. Isso remete à reflexão sobre
a importância do trabalho interdisciplinar entre educador musical
e educomunicador para a efetivação de um processo de ensino/
aprendizagem de música em harmonia com as novas sensibilidades
humanas advindas de uma sociedade condicionada pelas tecnologias
da informação e da comunicação.

Palavras-chave

Educação e tecnologia – Mídia-educação – Educação musical – Música


Contato:
Paula Alexandra Reis Bueno – Análise de conteúdo.
paula.reis.musica@gmail.com

Educ. Pesqui., São Paulo, Ahead of print, nov. 2012.


Educommunication in music education and its impact on
school culture

Paula Alexandra Reis Bueno


Instituto Brasileiro de Pós-Graduação e Extensão, Curitiba, Paraná, Brasil

Rosa Maria Cardoso Dalla Costa


Universidade Federal do Paraná, Curitiba, Paraná, Brasil

Roberto Eduardo Bueno


Instituto Brasileiro de Pós-Graduação e Extensão, Curitiba, Paraná, Brasil

Abstract

The study analyzed the communication/education interrelation


in contexts of teaching/learning of music as part of a
supplementary curriculum program entitled Programa Viva
a Escola, organized by the State Secretariat for Education of
Paraná in the city of Curitiba during the academic year of 2009.
We argue that such interrelation occurs when, in a high-quality
music education, there is also an effort aiming at forming able
listeners, critical consumers, and autonomous and responsible
producers, using approaches from the education for the media,
from the technological mediation of teaching, and from the
mediation in communication management, in other words,
from educommunication in music education. Through a content
analysis of documents and interviews carried out with students
and teachers, we concluded that a high-quality music education
took place: we observed music fluency in significant moments of
music composition, performance and appreciation, moments which
were sustained by the theoretical and technical development, and
permeated by significant human interactions. Educommunication
found fertile ground for its development, and there were initial
manifestations within the sphere of music education in the
contexts investigated. However, such communication/education
interrelation still did not take place in an intentional, planned
and systematized manner. This fact points to the reflection about
the importance of the interdisciplinary work between the music
educator and the educommunicator, in harmony with the new
human sensibilities emerging from a society conditioned by the
technologies of information and communication.

Keywords

Education and technology – Media-education – Music education –


Contact:
Paula Alexandra Reis Bueno Music – Content analysis.
paula.reis.musica@gmail.com

Educ. Pesqui., São Paulo, Ahead of print, nov. 2012.


Uma educação musical de novas relações (estrutura musical), as quais
qualidade apresentam seu valor ao incorporarem experi-
ências anteriormente vividas (experiência esté-
A música é uma antiga forma de ex- tica: estruturas simbólicas são transformadas
pressão humana e transmite significados com em experiências significativas). Assim, o autor
funções psicológicas, cognitivas, emocionais e nomeia as camadas da atividade musical de
sociais para o indivíduo. Devido à sua impor- materiais, expressão, forma e valor.
tância, as habilidades musicais foram trans- A música nasce em contextos sociais; no
mitidas de pessoa para pessoa desde épocas entanto, por sua natureza metafórica, ela não
remotas. De fato, desde a Antiguidade, fala-se é apenas um reflexo da cultura, mas pode ser
da educação musical como elemento forma- criativamente interpretada ou produzida. Uma
dor do homem, conforme se verifica na obra A vez que a música é uma forma de discurso e,
República, de Platão (1990). portanto, depende de negociações dentro de
No intuito de apresentar o que se consi- sistemas de significados compartilhados, a in-
dera educação musical de qualidade para pos- teração humana, a cooperação e o encontro
teriormente analisar sua inter-relação com o do prazer em experiências compartilhadas são
universo da comunicação, utilizou-se a teoria considerados objetivos da educação musical.
de educação musical de Keith Swanwick como Sendo a música uma forma simbóli-
referencial teórico. Optou-se por essa teoria de- ca, rica em potencial metafórico, a meta da
vido ao fato de o autor pensar a educação mu- educação em música, para Swanwick (2003),
sical de forma ampla, considerar a importância é garantir o acesso aos três processos metafó-
do envolvimento ativo e apresentar fundamen- ricos. Para isso, o autor acredita que é neces-
tos para desenvolver procedimentos didáticos e sário seguir três princípios simples de ação em
currículos que contemplam a música em todas educação musical:
as suas dimensões.
Para Swanwick (2003), a música é uma 1- considerar a música como discurso;
forma de discurso, palavra esta entendida não 2- considerar o discurso musical uns dos
no sentido técnico ou usual, mas como uma outros;
troca de ideias por meio de símbolos sono- 3- prezar pela fluência do início ao final
ros, como um compartilhamento de sistemas das práticas musicais.
de significados. Esse discurso carrega em seu
coração um processo metafórico que ocorre Dessa forma, uma educação musical
em três modos: notas são transformadas em comprometida com a qualidade cuida para
melodias, ou gestos musicais; tais melodias ou que os estudantes caminhem entre todas as
gestos desenvolvem-se em novas estruturas; quatro camadas da atividade musical oriundas
estas, por sua vez, podem despertar para ex- dos três processos metafóricos presentes em
periências significativas, como as relacionadas seu discurso, por meio de atividades de en-
com a história de vida. volvimento específico com a música, ou seja,
Esse processo metafórico é interior às de composição, apreciação e performance mu-
pessoas, mas seu efeito pode ser observado nas sical, sendo estas apoiadas e reforçadas pela
camadas da atividade musical, ou seja, é pos- literatura e pelo desenvolvimento teórico e
sível ao educador musical verificar quando o técnico. Além disso, tal educação deve prezar
estudante, a partir dos materiais sonoros (no- pelo respeito ao discurso musical dos sujeitos,
tas, sons...), encontra formas expressivas (cria, com experiências significativas de interações
percebe ou interpreta melodias, frases ou gestos humanas, e, finalmente, buscar a fluência mu-
musicais) e organiza essas formas produzindo sical em todas as etapas do desenvolvimento.

Educ. Pesqui., São Paulo, Ahead of print, nov. 2012.


Tendo esclarecido o que se considera autônomas de aprendizagem. Portanto, as
educação musical de qualidade, Swanwick tecnologias tornaram-se parte integrante do
encerra sua obra de 2003 refletindo sobre as processo de envolvimento das pessoas com a
tecnologias de informação e comunicação, música e promoveram a abertura para outras
sobre como elas testam os três princípios fun- práticas musicais.
damentais para a educação musical e sobre a Tais possibilidades de participação co-
importância de um olhar em relação à tecno- letiva no universo musical contemporâneo
logia não como um fim em si mesma. desmobilizaram plataformas culturais elitis-
A sociedade contemporânea está con- tas, mas também geraram outra discussão so-
dicionada pelas tecnologias e mídias que bre as músicas pós-modernas e o valor dessas
geram novas sensibilidades humanas e mo- obras musicais.
dificam a maneira de organizar muitas ati- Adorno (1999) criticou veementemente
vidades. Existe a necessidade de a educação a indústria cultural, afirmando que ela “im-
estar atenta a essas mudanças e levar para o pede a formação de indivíduos autônomos,
interior da escola um trabalho que contemple independentes, capazes de julgar e de decidir
a inter-relação comunicação/educação, ou conscientemente” (p. 8), pois está interessada
seja, a educomunicação. apenas em consumidores ou empregados. Para
Bévort e Belloni (2009) afirmam que a ele, a indústria cultural reduz a humanidade
educação para a mídia é parte essencial dos às condições que representam seus próprios
processos de socialização, reprodução e trans- interesses relativos a elementos característi-
missão da cultura, cos do mundo industrial moderno, exercendo
o papel de ideologia dominante.
pois as mídias fazem parte da cultura Martín-Barbero (2001) compreende as
contemporânea e nela desempenham críticas de Adorno como um aristocratismo
papéis cada vez mais importantes, sua cultural que não aceita a existência de uma
apropriação crítica e criativa sendo, pluralidade de experiências estéticas, dos di-
pois, imprescindível para o exercício da versos modos de fazer e utilizar socialmente
cidadania. (p. 1083) a arte.

Isso também é uma realidade para a Adorno estaria convencido da onipo-


educação musical, pois os sujeitos apresentam tência do capital e cego para as contra-
novos modos de ouvir e fazer música. Existem dições vindas das lutas operárias e das
mudanças nos discursos musicais e também formas de resistências das classes popu-
em ferramentas, materiais sonoros, repertórios, lares. (p. 86)
maneiras e recursos de socialização relaciona-
dos a tais discursos. Isso o impediu de ver nas tecnologias
dos meios de comunicação algo além de um
A educomunicação na educação instrumento fatal de alienação totalitária.
musical Em contraposição às ideias de Adorno,
Martín-Barbero (2001) tece argumentações
No universo musical, os avanços tec- baseadas no texto A obra de arte na era de
nológicos oferecem amplas possibilidades de sua reprodutibilidade técnica, de Benjamin,
acesso à audição das obras produzidas, pos- apresentando uma leitura bastante original
sibilitam aos músicos certas formas de cria- segundo a qual a morte da aura na reprodu-
ção e interpretação, e aos estudantes faci- ção da obra de arte refere-se mais à demo-
lidades diversas, assim como possibilidades cratização de seu uso do que à perda de seu

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valor. Porém, se antes a obra estava envolta Benjamin (1990) alerta para as mu-
no brilho do museu, o que impedia as mas- danças de sensibilidade, mudanças no modo
sas de acessá-la, agora estas podem usá-la e de sentir e perceber, advindas dos cursos dos
gozá-la. Ele acredita que Benjamin vê na téc- períodos históricos e das formas de existência
nica e nas massas uma forma de emancipação das comunidades humanas, afirmando que a
da arte, de modo que o sentido não pode ser forma orgânica assumida pela sensibilidade
absorvido pelo valor. humana não depende apenas da natureza,
No que concerne à música, tal problemáti- mas também da história. De maneira con-
ca acentua-se, tornando-se por vezes conflitante. creta, os artefatos da indústria cultural afe-
Bourdieu (1982), por exemplo, em A reprodução: tam a sensibilidade humana. Desmitificando
elementos para uma teoria do sistema de ensino, a ideia de gosto pessoal, Nogueira afirma
apresenta as características nocivas dos meios, (2001) ser necessário admitir que o mass me-
reforçadas pelo efeito do modelo globalizante dia desempenha um papel preponderante na
de reprodução. Na obra Questões de sociologia escolha musical da população.
(BOURDIEU, 1983), ele defende a ideia de que No caso particular da música, é pre-
cada categoria social se reconhece em obras que ciso que a escola engendre estratégias que
correspondem a seus hábitos e estilos de vida; visem à formação de ouvintes aptos, consu-
assim, a grande música, a música de concerto, midores críticos e produtores responsáveis.
quando usada no ensino, remeteria à distinção Dessa forma, na inter-relação comunicação/
de classes e à imposição da classe dominante. educação, visualiza-se a possibilidade de
Nesse caso, qual seria o repertório musical ade- uma formação voltada para tais objetivos.
quado para o ensino de música na escola? A inter-relação comunicação/edu-
Forquim (1993) apresenta esse questio- cação também é conhecida como educo-
namento a partir dos trabalhos de Vulliamy. municação. Soares (1999, 2002) menciona
Desse autor, Forquim extrai os pressupostos te- áreas concretas de intervenção social para a
óricos de que o ensino musical na Grã-Bretanha educomunicação, acreditando que tal inter-
era totalmente baseado no etnocentrismo euro- -relação tem o objetivo de formar recepto-
peu, fruto de uma tradição hegemônica ociden- res autônomos e críticos perante os meios: a
tal que considera séria apenas a música erudita, chamada mídia-educação ou educação para
alegando que a escola deveria dar preferência os meios. Além disso, ela também tem o ob-
à música popular devido ao fato de esta per- jetivo de realizar a mediação tecnológica na
tencer ao universo cultural dos jovens. No en- educação, ou seja, auxiliar no uso das tecno-
tanto, Forquim posiciona-se de maneira muito logias de informação e comunicação; a me-
cautelosa em relação aos estudos de Vulliamy, diação na área de gestão comunicativa, que
pois, se por um lado as abordagens sociológi- se refere à participação social nos meios de
cas da música podem ser fecundas no sentido comunicação; e a reflexão epistemológica a
da dimensão política relacionada ao currículo, respeito do novo campo de atuação.
por outro, ele questiona se a leitura sociológica Em educação musical, a inter-relação
forte das formas simbólicas apresentadas por comunicação/educação pode efetivar-se com
Vulliamy é compatível com a realidade da ex- a intersecção entre as áreas de intervenção
periência estética. Forquim acredita que posi- social da educomunicação e os princípios
cionamentos extremados podem apenas trocar de uma educação musical de qualidade, nos
um etnocentrismo por outro. termos de Keith Swanwick:

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Figura 1 – A educomunicação na educação musical

Educomunicação

Educação musical de qualidade: Educomunicação:


1- Educação para os meios;
1- Considera a música como 2- Mediação tecnológica no
um discurso; ensino;
2- Respeita os diversos 3- Mediação na gestão
discursos musicais dos sujeitos comunicativa;
envolvidos no processo; 4- Reflexão epistemológica
3- Preza pela fluência em todas a respeito do novo campo de
as etapas do desenvolvimento. atuação.

Dessa forma, a educomunicação na edu- produções musicais em estúdios de gravação,


cação musical efetiva-se na área de intervenção promovendo assim o aprendizado sobre o fun-
de educação para os meios quando, conside- cionamento dos equipamentos e das técnicas
rando-se a música um discurso e respeitando o da gravação de áudio em estúdio. Podem-se
discurso musical dos outros, pode-se fazer mú- estudar as formas de amplificação sonora dos
sica fluentemente e promover a reflexão sobre ambientes, dentre outras ações.
a qualidade das obras musicais dos repertórios A gestão comunicativa refere-se à parti-
assumidos, o papel social dessas músicas e seu cipação democrática, seja no âmbito da produ-
lugar na sociedade, a diferença da audição sem ção e da autoria nos meios virtuais, seja no da
e com imagens (videoclipe), o efeito da media- indústria da comunicação. Trata-se da criação e
ção tecnológica ou midiática em tais obras e o manutenção de canais de comunicação nos es-
modo como são produzidas. paços escolares, bem como da participação nas
Apreciar, executar e compor músicas na diversas mídias. Ela pode efetivar-se pela apro-
atualidade pressupõe o envolvimento com os priação e pelo manejo da música como lingua-
produtos da mídia e também o uso das tec- gem da comunicação, e também pelo uso dos
nologias. Assim, na mediação tecnológica na recursos da informação para sua divulgação.
educação musical, o sujeito pode engajar-se Além disso, presta-se a mediar uma produção
na intencionalidade educativa do uso das tec- processual, aberta e rica da comunicação no
nologias a partir de recursos tecnológicos dis- interior dos espaços educativos e nas relações
poníveis para o aprendizado de música, como destes com os meios de comunicação e com a
os laboratórios de informática dos estabeleci- própria sociedade.
mentos, os softwares voltados à educação mu- A inter-relação comunicação/educação
sical ou os diversos recursos on-line disponí- no processo de ensino/aprendizagem da mú-
veis para esse fim. Também é possível realizar sica, na área de intervenção social relativa à

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reflexão epistemológica, concretiza-se com as da educação básica. No Estado do Paraná, exis-
reflexões e contribuições do presente estudo e tiu o Programa Viva a Escola, composto por de-
de outros trabalhos na área para a consolidação zessete atividades relativas aos possíveis recor-
do campo da educação musical, assim como da tes do conteúdo disciplinar previstos no projeto
educomunicação. político-pedagógico das escolas. As atividades
Como a educação musical na escola estavam distribuídas e organizadas em quatro
pública tem lidado com a perspectiva da edu- núcleos de conhecimento: 1) expressivo-corpo-
comunicação no processo de ensino/aprendi- ral; 2) científico-cultural; 3) apoio à aprendiza-
zagem de música? A partir dessa questão, pro- gem; 4) integração comunidade e escola.
pôs-se um estudo para analisar a inter-relação No núcleo científico-cultural, houve
comunicação/educação em contextos de ensi- a opção de propostas na modalidade música,
no/aprendizagem de música, com a premissa ou seja, propostas pedagógicas com produção
de que, em tais contextos, a educação musical de trabalhos musicais, como banda rítmica,
possa apresentar sua inter-relação com a co- fanfarra, coral, produção sonora (eletrônico-
municação enquanto efetiva-se como desenvol- -digital), dentre outras. Na Instrução no 017/08
vimento de um processo de ensino/aprendiza- (PARANÁ, 2008), da Secretaria de Estado da
gem de qualidade. Acontece essa inter-relação? Educação do Paraná (SEED/PR), os professo-
Como ela ocorre? De que forma ela se dá? Como res foram orientados a escrever propostas que
as tecnologias e as mídias influenciam na nova possibilitassem a “efetiva apropriação dos ele-
maneira de ensinar e aprender música? mentos que estruturam e organizam a música,
visando à atuação do sujeito em sua realidade
Educação musical na escola singular e social” (p. 4).
Essa perspectiva foi interessante para a
Havia a intencionalidade de realizar a análise da educomunicação na educação musi-
investigação na educação básica das escolas cal no espaço escolar, pois o processo de ensino/
públicas da capital do Estado do Paraná, na aprendizagem de música tinha mais chances de
cidade de Curitiba. Porém, em visita às esco- ser efetivo uma vez que as aulas eram voltadas
las, observou-se uma inconstância da educação para a especificidade da área de conhecimento,
musical nesses contextos. O conteúdo música contando com tempo supostamente adequado
era previsto na disciplina Arte, que conta com para seu desenvolvimento, com a possibilidade
apenas duas horas-aula semanais para possibi- de utilização dos recursos tecnológicos dispo-
litar aos estudantes a compreensão da arte em níveis às escolas, com classes de apenas vinte
sua totalidade, ou seja, as diversas dimensões alunos e com profissionais habilitados ao de-
do envolvimento humano com as linguagens senvolvimento da proposta.
das artes visuais, do teatro, da dança e da mú-
sica. Além do tempo escasso, as escolas não O método
possuíam infraestrutura para as aulas, havia
poucos professores habilitados em música e o Optou-se pela análise de conteúdo con-
número de alunos por turma era excessivo. forme apresentada por Laurence Bardin (1977),
Verificou-se, no entanto, a possibilida- que tem suas fases organizadas em três polos
de de a educação musical estar acontecendo de cronológicos: 1) pré-análise; 2) exploração do
forma efetiva no espaço escolar público para- material; 3) tratamento dos resultados, inferên-
naense: nas propostas de complementação cur- cia e interpretação.
ricular. Tratava-se de políticas públicas para a Para a pré-análise, a autora propõe cin-
realização de atividades num turno diferenciado co etapas. Na primeira, nomeada leitura flutu-
daquele em que o aluno cursava as disciplinas ante, tomou-se contato com os textos sobre o

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Programa Viva a Escola e, consequentemente, estudantes de cinco das seis propostas contata-
com instruções, resoluções, regulamentos, nor- das. Uma das propostas foi descartada devido
mativas, orientações, apresentações e encami- ao fato de não ser específica de música.
nhamentos que orientaram os professores na ela- Na terceira etapa, referente à formulação
boração de propostas para o ano letivo de 2009. de hipóteses e objetivos, considerou-se relevan-
A partir de contato com uma represen- te investigar se e como aconteceu a inter-re-
tante da Diretoria de Políticas e Programas lação comunicação/educação nas propostas de
Educacionais (DPPE) da SEED/PR, obteve-se a ensino/aprendizagem de música nos contextos
informação de que, para o ano letivo de 2009, selecionados, gerando-se a hipótese de que a
foram aprovadas seis propostas de educação educomunicação seria uma consequência direta
musical para a capital paranaense; obteve-se do trabalho da educação musical, pois a música
ainda a relação das escolas que tiveram suas ouvida pelos alunos é, em sua maioria, a da mí-
propostas aprovadas, os nomes dos professores- dia, ouvida (assistida) por meio do uso de tec-
-coordenadores e os títulos das propostas1. nologias. Os alunos vão para a aula de música
Foi realizada uma pesquisa sobre as com o objetivo de aprender as obras vinculadas
características de cada escola e a localidade à mídia e o professor tem de lidar constante-
onde se encontravam; além disso, os diretores mente com essa realidade, sem se afastar, no
e pedagogos dos estabelecimentos foram con- entanto, dos objetivos relacionados à educação
tatados para se obter acesso aos documentos musical propriamente dita. Assim, a educomu-
enviados e aprovados para implementação via nicação estaria presente no próprio discurso da
o Programa, assim como para conhecer o de- educação musical contemporânea.
senvolvimento dessas propostas na prática da Na quarta etapa, de referenciação dos ín-
realidade escolar. Foram observadas duas aulas dices e elaboração de indicadores, por tratar-se
em cada escola para se tomar contato com as de uma pesquisa de caráter qualitativo, optou-se
realidades educacionais e mapear os contextos. por leituras atentas dos textos e por buscas de
Houve conversas informais com os alunos após referências aos mass media, às tecnologias, aos
as aulas, leitura dos documentos e agendamen- aspectos e às posturas assumidas na educação
to de entrevistas com professores-coordenado- musical, além de outros tópicos que emergiram
res e com estudantes. na busca. A partir da leitura atenta dessas abor-
As entrevistas foram realizadas a par- dagens por tópicos, iniciaram-se a elaboração
tir de um roteiro semiestruturado, conforme de temas e o refinamento destes na perspectiva
dias e horários agendados, sendo gravadas no da elaboração das categorias temáticas.
computador por meio do programa Audacity. Na etapa de preparação do material, pri-
Participaram das entrevistas cinco professores- meiramente, todas as entrevistas foram trans-
-coordenadores e 63 estudantes. critas na íntegra; as propostas escritas foram
Na etapa da escolha dos documentos, recortadas e agrupadas por itens (subtítulos: justi-
optou-se pela análise dos documentos escritos ficativas, encaminhamentos metodológicos etc.);
(propostas de educação musical direcionadas ao os dados de pesquisa sobre as características das
Programa Viva a Escola) e pela transcrição das escolas e as regiões onde se encontram localiza-
entrevistas com os professores-coordenadores e das foram dispostos em documentos do Microsoft
Office – OneNote 2007. Na sequência, as entre-
1- MOTTINHA, Rosana. Contato para verificação das propostas de vistas transcritas foram exportadas para o pro-
educação musical aprovadas pelo Programa Viva a Escola para a cidade
de Curitiba no ano letivo de 2009. [Mensagem para fins de pesquisa grama computacional ATLAS.ti 5.0 – Scientific
científica enviada por integrante da Coordenação de Integração de Atividades Software, a fim de sistematizar a análise.
Curriculares (CIAC) da Diretoria de Políticas e Programas Educacionais (DPPE)
da Secretaria de Estado da Educação do Paraná (SEED/PR)]. Mensagem Seguiu-se para o segundo polo cronológi-
recebida por <dppe.ciac@gmail.com> em 9 maio 2009. co, a exploração do material, em que se realizou

Paula Alexandra R. BUENO; Rosa Maria C. DALLA COSTA; Roberto E. BUENO. A educomunicação na educação...
a leitura exaustiva das propostas escritas pelos tomando-se o tema por base. Assim, nas
professores-coordenadores e das transcrições entrevistas, estipularam-se temas-eixos que
das entrevistas, na perspectiva da verificação foram determinados a partir da leitura exaustiva
da relação entre os sujeitos e o objeto da pes- e marcados nos textos com auxílio do software
quisa, bem como das dimensões das implica- ATLAS.ti 5.0; agrupou-se em torno desses temas-
ções e dos sentimentos desses sujeitos em face eixos tudo o que foi expresso a seu respeito,
do objeto de estudo. Essa atividade culminou formando uma espécie de aranha por meio da
na codificação dos textos. função Network View Manager. A partir da
As unidades de registro obtiveram um visualização dos temas por meio do recurso Code
tratamento a partir das unidades de significação, Manager, foi realizada a categorização.

Figura 2 – Categorização

Nas propostas escritas seguiu-se o mesmo meio de scanner e impressora digitais, marcados
tratamento; no entanto, elas foram analisadas com canetas coloridas, recortados, comparados,
separadamente e sem auxílio do software com- codificados e categorizados conforme os mesmos
putacional. Os textos foram fotocopiados por critérios utilizados para a análise das entrevistas.

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As pesquisas sobre as escolas em que as Figura 3 – Georreferenciamento dos contextos investigados
propostas foram realizadas e sobre as realida-
des sociais, culturais e ambientais da localidade
onde elas se encontram constituíram elementos
auxiliares nas inferências e interpretações.
Foram editados comentários em cada ca-
tegoria, sintetizando ideias iniciais emergidas
das análises. As sínteses das entrevistas foram
comparadas com as das propostas escritas.
Seguiu-se para o terceiro polo, o tratamento
dos resultados obtidos e interpretação, voltando-se
à leitura das categorias temáticas na perspectiva de
identificar novas inferências. Depois, efetuou-se o
tratamento dos resultados obtidos e as devidas in-
terpretações, por meio da leitura e da análise final
de todo o material. Foram realizadas a síntese e a
seleção dos resultados relevantes. Uma vez verifi-
cada e descartada a possibilidade de novas infe-
rências, elaborou-se o primeiro relatório do estudo.
O relatório escrito foi submetido à vali-
dação por meio de leitura e debate com os pro-
fessores-coordenadores participantes, e, após as
correções por eles solicitadas, concluiu-se a re-
dação final do estudo.

Os contextos
Figura 4 – Georreferenciamento (ampliado) dos contextos
Os cinco colégios que tiveram propostas investigados
de educação musical aprovadas para realização
pelo Programa Viva a Escola situavam-se nas
regiões central, norte e leste de Curitiba.
Verificou-se que, dos cinco contextos
investigados, quatro deles constituíram-se por
estudantes de classe social média e um por es-
tudantes de classe social baixa. Entretanto, no
que se refere ao envolvimento com tecnologias
e mídias, não há diferenças significativas, pois
nos cinco contextos são mencionadas a utili-
zação de tecnologias diversas e a presença da
cultura da mídia nos repertórios pessoais.
Dentre as propostas escritas de educação
musical, quatro delas entenderam o ensino da
música como área do conhecimento em que a
sensibilização estética e a capacidade criadora apresentando o resgate social em primeiro pla-
são almejadas. Uma proposta volta-se para o en- no. Nas falas, porém, todos os professores fize-
sino da música numa visão mais contextualista, ram referência ao envolvimento com atividades

Paula Alexandra R. BUENO; Rosa Maria C. DALLA COSTA; Roberto E. BUENO. A educomunicação na educação...
musicais diretas em que se busca o respeito aos A análise
diversos discursos musicais e a fluência musical
é alcançada. Após pré-análise, delimitação do foco do
As entrevistas, as observações de aulas e estudo e inferências a partir da visualização de
a leitura das propostas levaram à interpretação temas específicos abordados nos textos, consi-
de que aconteceu uma educação musical de qua- derou-se relevante a definição das categorias
lidade nos contextos investigados. Constatou-se temáticas análogas às áreas de intervenção da
fluência musical em momentos significativos de educomunicação a fim de facilitar a interpreta-
composição, performance e apreciação musical, ção e a redação do texto do estudo.
sendo tais momentos sustentados pelo desenvol- Assim, foram definidas três categorias para
vimento teórico e técnico e caracterizados por a análise de conteúdo dos textos, dos documen-
interações humanas significativas. tos e das transcrições das entrevistas, conforme se
Foi possível verificar que o desenvol- descreve a seguir:
vimento das propostas agregou indivíduos em • Categoria 1ª: referências sobre a edu-
atividades nas quais a superação conjunta das comunicação na educação musical na área de
dificuldades e as conquistas coletivas permiti- intervenção educação para os meios;
ram criar elos de amizade e de identificação, • Categoria 2ª: referências sobre a edu-
com momentos de interiorização na compre- comunicação na educação musical na área de
ensão e construção de subjetividades. Também intervenção mediação tecnológica na educação;
ocorreu o acúmulo de símbolos das relações • Categoria 3ª: referências sobre a edu-
humanas em forma de repertórios musicais e comunicação na educação musical na área de
gravações de músicas apreciadas em conjunto. intervenção gestão comunicativa.
Percebeu-se a fluência musical quando Das cinco propostas escritas, apenas uma
os entrevistados citaram as performances sa- fez referência à educação para os meios, no sen-
tisfatórias, as execuções que suscitaram alegria tido de que a educação musical possibilita a re-
no grupo, as composições e improvisações mu- flexão crítica das músicas da indústria cultural,
sicais que foram apresentadas publicamente, o propiciando um refinamento do gosto, uma sen-
entendimento de obras antes desconhecidas e o sibilização estética necessária para o posiciona-
aprimoramento constante no fazer musical. mento crítico perante os meios, num momento
Duas das propostas foram aprovadas, histórico em que a mídia é presença constante na
sem observações ou ressalvas, contendo no vida dos estudantes e das demais pessoas.
item Recursos a necessidade de instrumentos Nas entrevistas, porém, professores e
musicais específicos, mas as escolas nunca re- estudantes referem-se à presença das músicas
ceberam os instrumentos solicitados. Ou seja, o da mídia nas aulas. Eles também se referem a
Programa não resolveu a dificuldade da falta de debates sobre esses produtos culturais, à prepa-
recursos para as aulas de música nas escolas. ração para um posicionamento crítico perante
Essa é uma questão problemática, pois, para a os meios, aos diversos tipos de música encon-
educação musical apresentar sua inter-relação trados na mídia e seus respectivos valores, à in-
com a comunicação, ela precisaria ainda de clusão dessas músicas no repertório performáti-
mais recursos. Siqueira (2008) tem alertado co do grupo e à comparação e análise de obras
para a necessidade de infraestrutura. musicais da indústria cultural.
O fato de os instrumentos não serem for- Percebe-se, nas falas dos professores,
necidos causou transtornos diversos na realização muito receio em assumir um trabalho com as
do encaminhamento planejado, mas os professo- músicas da mídia. As reflexões e os debates so-
res efetuaram adaptações nas propostas e conse- bre as músicas da mídia caminharam no sen-
guiram uma educação musical significativa. tido de que os professores tentavam “mostrar

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aos estudantes que existem coisas diferentes”, Na análise da transcrição das entrevistas,
tentavam levá-los ao encontro com as obras- encontraram-se menções diversas à utilização
-primas, ao passo que os estudantes tentavam de tecnologias digitais, seja por parte dos es-
convencer seus mestres de que “aquela música tudantes que traziam para as aulas os equipa-
era boa para se aprender”. No repertório per- mentos que adquiriam, seja por parte dos pro-
formático dos grupos, foram incluídas as mú- fessores que, pouco a pouco, foram incluindo
sicas da mídia, e os professores justificaram-se os equipamentos em suas práticas pedagógicas.
afirmando que existem músicas de valor na in- O que se buscou perceber na análise foi a in-
dústria cultural e conteúdos musicais a serem tencionalidade educativa no uso dessas tecno-
aprendidos a partir delas. logias, dessas mediações tecnológicas.
Apreciar, executar e compor músicas Alguns relatos referem-se ao fato de os
na atualidade pressupõe envolvimento com os alunos utilizarem-se dos equipamentos tecno-
produtos da mídia, mas isso não significa que a lógicos na perspectiva de colaborar com a aula
educação para os meios seja uma consequência de música, sugerir repertório para apreciação,
direta desse envolvimento. Os professores não análise e/ou performance. Também houve rela-
foram displicentes em relação aos produtos da tos sobre pesquisas na internet para conseguir
indústria cultural que eram trazidos para sala cifras, de modo que a aula de música consistiu
por seus alunos, mas tinham receio sobre como em um momento de sanar as dúvidas.
lidar com eles. Nos fundamentos didático-pe- Nos relatos, há frequentes citações da uti-
dagógicos do ensino da música, mais especi- lização de uma televisão com entrada USB e leitor
ficamente na compreensão da forma musical, de cartão de memória, disponibilizada pelo Estado
os professores encontraram uma maneira inte- aos seus estabelecimentos de ensino. Foi mencio-
ressante de realizar a reflexão crítica sobre as nado seu uso principalmente na perspectiva de
músicas da mídia e buscar por obras-primas. apreciação de obras, mas também como exempli-
Porém, se fundamentassem suas reflexões tam- ficação e acompanhamento de exercícios musi-
bém no conteúdo epistemológico da educomu- cais. Também houve alusões a respeito da utili-
nicação, estariam mais seguros e conscientes zação de aparelhos de reprodução de arquivos de
quanto às escolhas realizadas e aos respectivos áudio e mp3, bem como relatos de filmagens de
encaminhamentos adotados. aulas para posterior apreciação e análise crítica.
Dessa forma, a interpretação da análise Não foram mencionadas utilizações do
do conteúdo dos textos, no que se refere à edu- laboratório de informática ou outras experiên-
cação para os meios, assume o posicionamento cias com internet ou softwares no momento da
de que a aula de música foi um local muito pro- aula. Tampouco se fez referência sobre idas ao
pício para o trabalho com a mídia-educação. No estúdio de gravação e outras formas de gravação
entanto, faz-se necessário uma abordagem pla- em CD do trabalho realizado em sala, ou mesmo
nejada, sistematizada e refletida, tanto no âmbi- sobre buscas pelo entendimento de amplificação
to didático-pedagógico musical, quanto nos fun- sonora dos ambientes utilizados para as apresen-
damentos da comunicação, para que de fato se tações realizadas.
efetive a educomunicação na educação musical. Apesar de os entrevistados menciona-
Quanto à mediação tecnológica na edu- rem a utilização de tecnologias quando foram
cação, das cinco propostas de educação musical questionados sobre a importância destas para o
investigadas, somente uma dá a entender o pla- aprendizado de música e para o aprendizado da
nejamento do uso das tecnologias no ensino, utilização dos equipamentos no sentido de in-
pois se refere à utilização dos recursos do esta- clusão ao universo da música, as falas conside-
belecimento. Este contava com laboratório de raram essas questões irrelevantes para o desen-
informática e outros recursos tecnológicos. volvimento musical.

Paula Alexandra R. BUENO; Rosa Maria C. DALLA COSTA; Roberto E. BUENO. A educomunicação na educação...
A interpretação que se deu é de que a musical. Também não foram citados telefone-
mediação tecnológica tem acontecido de forma mas ou visitas às redes de televisão, rádio e/ou
incipiente nos contextos investigados que fa- jornais impressos, nem postagem de material na
zem parte do cotidiano dos sujeitos da educa- página eletrônica YouTube, produção de CDs ou
ção musical, mas a intencionalidade educativa qualquer outra atividade nesse sentido.
é elementar, muito voltada para a exemplifica- A interpretação da análise é de que ain-
ção de repertórios ou exercícios. da não aconteceu uma efetiva mediação na ges-
E quanto ao uso das tecnologias no en- tão comunicativa na perspectiva de criar ecos-
sino, com profundidade, reflexividade e siste- sistemas comunicacionais dialógicos, abertos
matização, apresentando o sentido desse uso e criativos. E a educomunicação na educação
no e para o processo de ensino/aprendizagem musical é mais complexa do que foi imaginada
da música? Com relação à gestão comunicativa, na hipótese deste trabalho.
todas as propostas escritas e falas referem-se a
apresentações públicas em espaços escolares e Considerações finais
externos à escola.
Na proposta escrita do 1º contexto, a Verificou-se, nos contextos investiga-
performance musical foi considerada um dos dos, que no ano letivo de 2009 as propostas
instrumentos de avaliação; na proposta do 2º de ensino/aprendizagem de música inseridas
contexto, ela foi entendida como exercício de no Programa Viva a Escola foram efetivas e de
cidadania e participação social; na do 4º con- qualidade: a música foi considerada um discur-
texto, como uma forma de proporcionar o es- so humano e o discurso musical de todos os
treitamento da relação entre os sujeitos do uni- sujeitos envolvidos no processo foi respeitado,
verso escolar. Nas falas dos estudantes do 5º com interações humanas significativas, encon-
contexto, a performance musical foi menciona- tro do prazer em experiências compartilhadas e
da como um processo de profissionalização, de fluência musical em momentos importantes de
modo que eles esperavam da carreira musical composição, performance e apreciação musical,
uma nova oportunidade de trabalho. sendo estes apoiados e reforçados pela litera-
Verificou-se, no entanto, que apesar de tura e pelo desenvolvimento teórico e técnico.
as apresentações serem momentos muito signi- Foi possível constatar as dimensões
ficativos, elas não geraram um ecossistema co- sociais significativas do trabalho com a edu-
municacional, ou seja, o grupo se comunicava cação musical nesses contextos. O desenvol-
com a plateia por meio da performance musical, vimento das propostas agregou indivíduos,
mas não houve uma continuidade que desse superou dificuldades com a união de todos,
abertura a um processo dialógico. Também não alcançou conquistas coletivamente, permitiu
houve participação nos meios de comunicação, criar elos de amizade e de identificação, com
apenas divulgação, por meio de bilhetes, mani- momentos de interiorização na compreensão
festação oral e mural da escola. e na construção de subjetividades. Também
Foram citadas outras práticas de gestão ocorreu o acúmulo de símbolos das relações
comunicativa nos estabelecimentos com canais humanas em forma de repertórios musicais e
de comunicação abertos, como rádio-escola e gravações de músicas apreciadas em conjunto.
jornalzinho da escola, mas, apesar de haver Na análise, verificou-se que houve refle-
participações isoladas de alguns estudantes in- xões críticas sobre as músicas da mídia na apre-
tegrantes das propostas de educação musical, ciação e nas performances musicais, reflexões
tratou-se de iniciativas externas às aulas de estas ancoradas na compreensão das formas e
música nas quais não houve um processo de estruturas das músicas e na busca do encontro
integração dessas atividades com a educação com as obras-primas. Além disso, houve o uso

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de algumas tecnologias no ensino e composi- logias como instrumento de expressão; imple-
ções musicais socializadas por meio de apresen- mentar programas de educação para os meios;
tações públicas. refletir sobre o novo campo, sistematizando
No entanto, o trabalho com as músicas informações; e coordenar gestões de proces-
da mídia foi realizado de forma tímida, com sos traduzidos em políticas públicas. Assim, a
bastante receio e insegurança. As tecnologias educomunicação pode apresentar-se planejada
foram utilizadas, principalmente, para exempli- e sistematizada no âmbito escolar, integrando
ficação de obras e exercícios, sendo que muitas saberes na produção de novos conhecimentos.
delas não foram mobilizadas na e para a educa- Além disso, é importante que essas refle-
ção musical. A participação na gestão comuni- xões deem-se no âmbito do currículo da educa-
cativa deu-se apenas no sentido das apresenta- ção básica, pois, se a educação prepara o indiví-
ções públicas e de suas divulgações. duo para conhecer o mundo e viver em sociedade,
Assim, percebeu-se que os contextos in- ela precisa abordar o universo da comunicação,
vestigados mostraram-se propícios para o desen- adentrar a trama das novas tecnologias de infor-
volvimento da educomunicação; no entanto, é mação e comunicação em suas dimensões sociais
necessário que haja desejo, disposição e inten- e políticas, e, nesse sentido, a música torna-se
cionalidade a fim de que se gere planejamento um elo entre indivíduos e facilita a compreensão
e sistematização para que ela de fato aconteça. da complexa estrutura da comunicação.
Com relação à intencionalidade, o traba- Este trabalho, portanto, ressalta a im-
lho integrado do educador musical e do educo- portância da presença da educação musical e
municador pode constituir-se como um facili- da educomunicação no currículo da educação
tador da inter-relação comunicação/educação. básica, enfatizando a necessidade de que este
Para Soares (1999), as principais funções de um seja reformulado a partir da interdisciplinari-
educomunicador são: elaborar diagnósticos, dade e do aprender a aprender, ou seja, a par-
planejando, executando e avaliando processos tir das interconexões de conhecimentos, tendo
comunicacionais; assessorar os educadores no em vista a formação científica e o avanço de
uso dos recursos da comunicação e promover competências e abordagens em face das novas
o emprego cada vez mais intenso das tecno- tecnologias de informação e comunicação.

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Recebido em: 10.05.2012

Aprovado em: 18.09.2012

Paula Alexandra Reis Bueno é mestre em Educação pela Universidade Federal do Paraná e especialista em Educação
Musical pela Escola de Música e Belas Artes do Paraná, atuando como professora da Secretaria de Estado da Educação do
Paraná e do Instituto Brasileiro de Pós-Graduação e Extensão.

Rosa Maria Cardoso Dalla Costa é pós-doutora em Comunicação, doutora em Sciences de l’Information et de la
Communication e mestre em Educação, atuando como professora de pós-graduação da Universidade Federal do Paraná.
E-mail: rmdcosta@uol.com.br.

Roberto Eduardo Bueno é doutor, mestre em Saúde Coletiva pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná, especialista
em Educação Ambiental e professor de pós-graduação no Instituto Brasileiro de Pós-graduação e Extensão. E-mail: roberto.
edu.bueno@gmail.com.

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