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volume I

Gerson Lodi-Ribeiro (org.)


1a edição

Editora Draco

São Paulo
2012
© 2012 by Camila Fernandes, Erick Santos Cardoso, Felipe Castilho, Estevan Lutz, Rubem Cabral, Ana
Cristina Rodrigues, Antonio Luiz M. C. Costa, Adriana Simon, Filipe Cunha e Costa, Daniel I. Dutra,
Sandra Pinto, Lidia Zuin, Gerson Lodi-Ribeiro, Cirilo S. Lemos, Valentina Silva Ferreira, Sid Castro.

Publisher: Erick Santos Cardoso


Edição: Gerson Lodi-Ribeiro
Revisão: Eduardo Kasse
Produção editorial: Janaina Chervezan
Arte e ensaio: Ericksama, Ader Gotardo (fotos), Elida Miranda (modelo)

Todos os direitos reservados à Editora Draco

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


Ana Lúcia Merege 4667/CRB7

Lodi-Ribeiro, Gerson (org)


Erótica Fantástica / Gerson Lodi-Ribeiro (org). – São Paulo: Draco, 2012 – (Coleção Erótica
Fantástica, v. I)

ISBN 978-85-62942-75-4

1. Contos brasileiros 2. Literatura Brasileira I. Título II. Coleção.

CDD-869.93

Índices para catálogo sistemático:


1. Contos : Literatura brasileira 869.93

1a edição, 2012

Editora Draco
R. José Cerqueira Bastos, 298
Jd. Esther Yolanda — São Paulo — SP
CEP 05373-090
editoradraco@gmail.com
www.editoradraco.com
www.facebook.com/editoradraco
twitter: @editoradraco
Índice
Capa
Folha de rosto
Créditos
Dedicatória
Prefácio
A Melhor Trepada da Cidade - Camila Fernandes
Botão de Rosa - Erick Santos Cardoso
Conto Pseudo-Erótico de Fantasia com Fantasias - Felipe Castilho
A cópula dos devoradores de mundos - Estevan Lutz
Dança de Shiva - Rubem Cabral
A Ilha dos Amores - Ana Cristina Rodrigues
Glicínias suspensas - Antonio Luiz M. C. Costa
Melhor Acompanhada - Adriana Simon
Memórias de Alto-Mar - Filipe Cunha e Costa
A Mulher Imperfeita - Daniel I. Dutra
Portal para o Paraíso do Amor e Prazer - Sandra Pinto
Santíssima Magdalena - Lidia Zuin
Para agradar Amanda - Gerson Lodi-Ribeiro
Robodisatva - Cirilo S. Lemos
Sexo de água: uma mutação tentadora - Valentina Silva Ferreira
Fêmea Humana - Sid Castro
Os donos das fantasias
Ensaio - Erótica Fantástica I - Elida Miranda e Ader Gotardo
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Aos aficionados por literatura erótica de qualidade,
com os votos de boas leituras, aqui e alhures.
Prefácio

Uma década atrás, quando organizei a antologia de contos eróticos fantásticos Como Era Gostosa a
Minha Alienígena! (Ano-Luz, 2002), preparei a introdução “Sexo e Fantástico: Parceiros Ideais”
para justificar a presença das temáticas de cunho sexual na literatura de ficção científica, horror e
fantasia em língua portuguesa. Naquela introdução, procurei apresentar um histórico breve do
fantástico erótico internacional para nortear os leitores, ambientando-os e, sobretudo, estimulando-os
a degustar os vinte trabalhos do fantástico erótico lusófono — bem como o texto de um convidado
especial mexicano — presentes naquele livro.
Uma década e diversas palestras temáticas mais tarde, creio que já não precisamos de uma
introdução daquele tipo para abrir a Erótica Fantástica. As trilhas desbravadas por aqueles vinte e
um pioneiros permanecem abertas e continuam percorridas até hoje por novos autores que têm
ousado abordar com graus de sucesso variados a temática sexual em seus escritos fantásticos. A
trilha dos pioneiros foi seguida, ainda que, algumas vezes, sem conhecimento de causa. Novas
antologias e coletâneas vieram, temáticas ou não. Romances eróticos, ou com a presença de
elementos eróticos marcantes, apareceram em praticamente todos os gêneros e subgêneros do
fantástico lusófono. Gametas meméticos dos pioneiros da Gostosa! fecundaram o imaginário
fantástico, a ponto de hoje comemorarmos a maturidade dos temas sexuais e correlatos na literatura
especulativa luso-brasileira.
O Projeto Erótica Fantástica foi concebido para exibir, brindar e gozar dessa e nessa maturidade.
À semelhança da Gostosa!, esta Erótica Fantástica 1 é uma antologia erótica lusófona com
dezesseis trabalhos, entre contos e noveletas. Treze autores brasileiros e três portugueses. Como a
obra que lhe serve de paradigma e fonte de inspiração, esta que você começou a desfrutar um ou dois
minutos atrás tentou e fracassou no objetivo de, sem sacrifício da qualidade, reunir um número
idêntico de trabalhos de autores e autoras: o placar final foi de 10x6 para eles. À medida do
possível, tentamos intercalar trabalhos sérios com outros bem-humorados ou até francamente
humorísticos; textos hardcore em termos de conteúdo sexual explícito, com outros de abordagem
mais sutil ou indireta, que poderíamos chamar de softcore — pense em algo como os canais pagos
adultos de TV a cabo, Sex Hot e Playboy, respectivamente.
Um aspecto da organização da Gostosa! que me deixou frustrado foi a ausência quase total de
textos fantásticos homoeróticos. Na Erótica logramos preencher essa lacuna de um jeito fluido e
excitante, sem abrir mão da qualidade.
No processo de seleção de textos para a Erótica Fantástica (ainda pensávamos então em publicar
um único livro), eu e o editor Erick Sama fomos surpreendidos (“soterrados” talvez fosse o termo
correto) por uma genuína enxurrada de textos de qualidade elevada dentre as quase duas centenas de
submissões recebidas. Consideramos um crime selecionar apenas dez ou quinze trabalhos dentre
tantos e tantos interessantes que apreciamos ao longo dos meses. Daí, a expansão do projeto inicial
de uma antologia erótica fantástica numa série. É por isto que, embora primogênita, a Erótica
Fantástica 1 já nasce com uma irmã gêmea, a Erótica Fantástica 2.
Nos próximos anos, é de todo provável que a excelência e a ousadia dos autores da literatura
fantástica lusófona produzam mais material erótico de qualidade, de modo a propiciar o nascimento
de várias irmãs mais novas dessas gêmeas iniciais da mamãe Gostosa!. Como as vendas da literatura
sexual fantástica costumam apresentar perfis rijos e vigorosos, a preparação e o lançamento de
eventuais Eróticas Fantásticas 3, 4, 5, etc. dependerão antes da imaginação e do suor prazeroso dos
autores portugueses e brasileiros de ficção científica, horror, fantasia. Escrevendo, é lógico! Do que
você imaginou que eu estava falando?
Quanto aos nossos autores e autoras, convém alertar aos eventuais leitores saudosos da Gostosa!
que apenas quatro dos dezenove presentes naquelas páginas aparecerão nas Eróticas Fantásticas 1 e
2. Torço para que a maioria ressurja com força total nas irmãzinhas mais novas destas lolitas
apetitosas. Em compensação, o projeto atual apresentará um punhado de novos talentos que, em nossa
opinião, deixam pouco ou nada a dever aos antigos galardões da década passada. No entanto, cumpre
aos leitores proferir o veredicto final neste quesito.
Por falar nisto, este prefácio já deu o que tinha para dar. Afinal, literatura erótica fantástica deve
ser consumida sem maiores preâmbulos e, sobretudo, sem moderação. Portanto, chega de papo
furado e vamos aos contos!

Gerson Lodi-Ribeiro,
Maio de 2012.
A Melhor Trepada da Cidade Camila Fernandes

Gina não se impressionou quando ouviu a campainha do seu apartamento. O rapaz telefonara há
menos de meia hora marcando o encontro, possivelmente encorujado sob um orelhão do centro da
cidade, onde seu anúncio se destacava com uma promessa atrevida:
GINA — Morena sensual, alto nível, a melhor trepada da cidade. Você nunca provou nada igual!
O número de telefone, fácil de decorar, era discado todos os dias por dezenas de dedos trêmulos,
mas alguns desistiam depois de ouvir o valor de seus serviços. Alto nível, dizia o anúncio. Se
queriam uma qualquer, que não telefonassem...
Gina, óbvio, não era seu nome real. Além de sugestivo para qualquer mente maliciosa, podia ser a
alcunha de uma celebridade ou o nome carinhoso de uma gata ou cachorra. E ela, a seu modo, era
todas essas coisas e mais.
Parado na porta, encurvado pela combinação pouco proveitosa de sua altura notável e magreza
excessiva, o rapaz a mediu com o olhar. Não era o corpo exuberante que ele imaginara capaz de
proporcionar a melhor trepada da cidade. Mas o tronco esguio, os seios pequenos e firmes, os
cabelos de índia e as pernas fortes, cor de jambo, iriam servir. Ela tinha olhos oblíquos que
insinuavam uma vaga ascendência asiática. Era um belo conjunto. Fora do vestido branco, deveria
ser melhor ainda.
— Não vai entrar?
O rapaz adentrou uma sala pequena, decorada com raro bom-gosto. Gina lhe ofereceu um drinque.
Ele não se entendia bem com o álcool, mas precisava desesperadamente relaxar. Assentiu. Nunca
recorrera àquele tipo de profissional. Mas sua última namorada o dispensara havia quase um ano e
os hormônios sacudiam seu corpo, exigindo um pouco de ação.
A moça curvou-se sobre o bar no canto da sala para apanhar uma garrafa. À mera visão das
nádegas carnudas oferecidas, viu-se apertado nas próprias calças.
Respirou fundo. O sabor do uísque era repugnante. O gelo no copo lhe fez bem. Agradeceu.
— Vem comigo? — A anfitriã pediu, tomando-o pela mão.
Foi conduzido por um corredor curto até um quarto. As paredes de um amarelo queimado, a cama
grande com a colcha vermelha e as cortinas longas na janela tornavam o recinto caloroso, ardente,
uma alcova. Mas o quadro na parede o incomodou. Mostrava um rosto bonito cujo lado direito era o
de um homem, mas as linhas do esquerdo revelavam claramente as feições de uma mulher. Metades
que se uniam. Ambos os olhos pareciam um tanto vidrados, como que em transe. Talvez isso o tenha
perturbado mais do que o hermafroditismo da figura.
Ficou tempo demais encarando a obra de arte duvidosa, até que tudo o que conseguia ver era um
rosto inteiramente masculino. Inclinou a cabeça. Tentava descobrir se o truque estava em seus
próprios olhos ou nos da pintura indecisa. Ficou constrangido ao notar que Gina o observava. Seu
sorriso era o de uma boa atriz.
— Eu cobro por hora. — Explicou, delicadamente. Já podiam ter começado tudo enquanto ele se
perdia em considerações.
— Eu quero ficar por cima. — Ele murmurou.
— Vai ficar.
— Depois, quero que você...
Ela o interrompeu, erguendo a mão e fuzilando-o com um par de olhos escuros.
— Não me diga como fazer o meu trabalho. — Ordenou, empurrando-o bruscamente.
Ele caiu deitado na cama. Ela subiu sobre seu corpo como uma gata ao colo do dono, tateando,
experimentando, ronronando, cravando as unhas. Ele tinha ouvido falar que as prostitutas não
permitiam beijos na boca, sacramentando esse gesto singelo como uma mostra de verdadeiro afeto,
proibida a um simples cliente. Mas Gina parecia desprezar esse preceito. Sua língua gelada envolveu
sem cerimônia a dele num beijo que julgaria apaixonado, não fosse a quantia vultuosa na sua carteira,
destinada a pagar pelo trabalho benfeito.
A profissional removeu uma a uma as peças de roupa do próprio corpo e do dele. A não ser pela
respiração cada vez mais forte, os batimentos cardíacos acelerados, o cliente ficou imóvel, submerso
no redemoinho de carícias molhadas, vigorosas, incansáveis. Seu ego era afagado e crescia junto
com o quinto membro, proporcional à sua altura e razão do seu orgulho. As meninas que o
desprezaram por ser tímido — Ah, se elas soubessem o que perderam...
Como precisava daquilo! Era um bom começo. Mas nada fora do comum até ali.
Gina colou seu abdome dourado ao dele. Rolaram sobre a cama. Debaixo dele, a garota acolheu o
pênis rijo em seu recôndito mais íntimo. Ele sentiu o abraço de suas pernas e o aperto ritmado que o
corpo dela começou a aplicar no seu.
Apertadinha? Seria essa a grande surpresa? Uma sombra de decepção ameaçou minar seu ânimo.
Esperava algo mais. A sensação que experimentava embalado naquele colo quente e úmido era,
mesmo assim, enlouquecedora. Decidiu aproveitar o momento, continuar arremetendo, não pensar no
dinheiro.
Uma tontura repentina, avassaladora, apoderou-se de seus membros. O ato não esmoreceu, mas
sua vista ficou negra. Lembrou-se do uísque. Drogado, quem sabe. Não...
O mundo se apagou por alguns instantes, não mais do que o tempo de um suspiro, para logo se
acender numa fogueira de delícias que o fez gemer. Então, ele abriu os olhos... e o que viu fê-lo
gritar.
Sobre ele, os braços longos retesados apoiando o corpo numa série de flexões ininterruptas e
aquele rosto anguloso, o queixo liso, os olhos cinzentos — era o seu rosto! Mas pertencia a outra
pessoa, era comandado por outra vontade que não a sua. E o grito que soltara ao se deparar com
aquele reflexo fora um grito de mulher. As mãos crispadas empurrando o peito nu do homem que ele
havia sido eram as de uma mulher. As pernas fortes, agora suas, eram as de uma mulher. Entre elas, o
sexo molhado que cedia às investidas do amante — sim, de mulher.
Ele era Gina. E Gina era ele. Teve certeza disso quando a personalidade que agora comandava
seu corpo sorriu com a sua boca um sorriso que ele mesmo nunca havia sorrido. Suave e tarado.
E ele percebeu que as sensações que tomavam seu ser enquanto o corpo masculino o penetrava
eram outras — improváveis, mas ainda assim deliciosas. Ele compreendeu que não queria parar e
abriu seu corpo — o corpo de Gina — àquela invasão.
E um sorriso marcou seus lábios femininos e os sons do prazer vieram roucos de sua garganta e
cada vez mais agudos, e ele gritou, ardentemente apaixonado por seu corpo de mulher, e sentiu como
fêmea o tsunami de êxtase que se ergueu, gigantesco, dentro de seu corpo, varrendo seus sentidos.
E o mundo se apagou de novo.
Quando luzes se acenderam em sua consciência, estava só na alcova, nu. Era um homem
novamente.
Suas roupas estavam dobradas ao seu lado, na cama desfeita, e ele as vestiu às pressas, como se
receoso de passar mais tempo ali. Já de pé, quase correu para a porta, mas se deteve ante o quadro
na parede. Olhou bem para a figura.
O rosto era indubitavelmente feminino.
Encontrou Gina na sala. Ela sorriu. Ele corou. Pensando na experiência que tivera há pouco, sentiu
vergonha, prazer e um imenso desejo de fazer perguntas. Aquilo havia mesmo acontecido? Ela lhe
dera algum alucinógeno? Utilizara alguma técnica hipnótica tântrica ilusionista new age total?
Abriu a boca, mas pensou bem e tornou a fechá-la.
Tirou a carteira do bolso e pagou pelo serviço — ou espetáculo — em dinheiro vivo. Não pôde
evitar, na despedida quase formal, um sorriso abobalhado.
A melhor trepada da cidade.
Com certeza!
Botão de Rosa Erick Santos Cardoso

“Each is not my love, moan I for what I make up hundreds so I know how to make love”
(Blue Bell Knoll, Cocteau Twins)

Logo é a minha entrada, minha dança àqueles que tanto ansiaram por minha presença. Todas as que
vieram antes de mim já estão lá, com certeza à mercê de um, dois ou todos os que exigem seus
favores. Estou esparramada em uma seda que só os sericulturistas Alvos mais tradicionais sabem
produzir. Minha cama é ampla, rodeada por colunas de madeira avermelhada e escura, como brasas
que se tornaram carvão. Vasculho essa minha câmara temporária com a cabeça tombada sobre um
travesseiro largo, vendo tudo invertido, essa sensação me traz um suspiro que sai devagar, suave.
Sorrio ao me pensar em uma crisálida e imagino se sorrirão os que me virem sair dela.
Um lindo quadro de rosas vermelhas espalhadas num campo de grama branca com um pedaço da
tela faltando está pendurado em frente à minha cama, de forma que sempre possa vê-lo quando estou
deitada. Ele sempre me tranquiliza quando as dores dos dias me assolam. Ou então me lembro de
uma velha canção, “Para cada um que não é meu amado, por que gemo?”.
Yelli nunca conseguiu disfarçar um riso discreto quando me via dançar, quando eu rodava
desajeitada, tola, achando que poderia arrancar um elogio de alguém que fazia isso há mais tempo do
que os meus parcos dezesseis, dezessete neanos, na época. Ela dedilhava um alaúde como só os
Alvos sabem fazer.
A parede está coberta de flores que não vivem e nem se incomodam com o cheiro das mentiras
bem pagas que vivo e do vinho respingado pelo tapete lestiano aqui, ali e acolá. Várias manchas.
Cada uma conta uma história, se às vezes me soam tão parecidas, outras são únicas, inesquecíveis.
Como em iminência de morte, lembro-me de que todas fizeram minha curta vida de Rosa Vermelha e,
através da porta dupla, parto para o derradeiro ato dessa farsa.

Primeira mancha. Curta, pingada e quase apagada.

Estou coberta pelo Duque de Veredia, um homem com o qual raras vezes pude dividir uma refeição
na mesa do senhor meu pai. Ele se mexe de forma curiosa e raivosa, balbucia o que pensa ser
excitante e me penetra apressado, com um membro pequeno e meio morto. Ele é pesado, mas estou de
bruços para não sentir seu hálito bêbado e encaro minha taça de vinho que está no criado-mudo. Ela
treme com a cama que bate na parede produzindo ruídos e rangidos que parecem um choro de
criança. Ele também geme como criança, eu apenas sigo suspirando sem perder meu papel, me
queixo de um jeito delicado e sensual, ele se excita e descarrega dentro de mim. O suor de sua
barriga dura melou meus quadris e minhas costas.
Olho para o lado e me viro para que eles possam me ver. Meus seios têm aréolas grandes e
rosadas, não deixei que nenhum dos quatro me marcasse enquanto se revezavam sobre mim.
Adquiriram o odor desses homens, mas logo mais não o terão.
Os outros contemplam a cena calados, conforme o combinado. Um deles tem o membro em riste
para mais uma sessão comigo, suponho, outro tinha gozado só de olhar, sem usar as mãos, o que já
deixou de me impressionar faz tempo. O terceiro bebia vinho com se estivesse aguardando o fim de
uma Reunião no Templo para nos dar a bênção. Sim, era sacerdote. Um Supremo, na verdade.
Roupas de seda álvica bordadas em fios de prata e ouro jogadas ao chão, pisoteadas. Agora vejo, um
deles ainda vestia apenas meias. Medo de se desnudar por inteiro na minha presença? Ou proteger
seus pés do meu jardim colorido e manchado de vinho, suor e todos os líquidos que uma pessoa pode
expelir. Ignoro seus nomes, só quero que o meu seja lembrado para sempre entre os bem-nascidos.
Sua Alteza sai de cima de mim esbaforido, será um grande frequentador de meus aposentos e,
quando vivia sorrindo para mim e cochichando para meu pai em nossa mesa distinta, eu já sabia que
as vantagens materiais de um casamento com sua família não seriam boas o bastante para comprar
minha atuação, ainda que muito maiores do que o restante do quarteto, reunido, poderia me oferecer.
Mesmo que isso fosse me tornar a princesa da Terra do Leste.

Segunda mancha. Duas gotas de um vinho licoroso.

O beijo dela era pequeno. Não sei como dizer, se é que é possível haver um beijo “pequeno”, mas o
dela era, minha língua mal cabia em sua boca. Primeiro me lambia com aqueles lábios que viveram
mais de cinco vezes a minha vida e ainda permaneciam com o frescor de uma rosa que ainda não se
abriu. Ela tinha cheiro de flores e a pele com uma textura aveludada que humano algum igualaria.
Antes desse beijo eu me vestia para um jantar importante na companhia de meus pais, o senhor
Duque de Veredia e a Duquesa de Veredia e Condessa de Espinosa. Minha tia, a Duquesa de
Claudiosa, também se faria presente. Receberíamos os monarcas da Terra do Leste. Não era uma
visita social, por mais que fossem meus parentes. A última vez que os vira foi na coroação de meu
tio como Rei da Terra do Leste. Já imaginava que logo anunciariam o Duque de Demarca e sua
esposa, a Rainha da Terra do Leste, Duquesa de Demarca e Marquesa de Feliana. O pensamento não
me empolgava. Yelli me apertava o espartilho com puxões que me obrigavam a prender a respiração.
Era meu aniversário de dezoito neanos e já passava da hora de ter me casado, minha mãe dizia. Para
Yelli, uma Alva que parecia ter dezesseis neanos aos noventa, isso soava como uma faceta divertida
dos costumes humanos.
Reclamei que meus seios estavam apertados e, ao afrouxar um pouco o corselete, senti seu abraço
por trás quando os tocou. Virei assustada e, antes que pudesse protestar, senti um aroma intenso de
flores e o toque de uma língua pequena como uma pétala macia e úmida me fazendo cócegas, me
fazendo sorrir, me fazendo corar e engolir qualquer vontade de pedir que parasse. Mas ela parou,
rápido demais. E me ajudou com o vestido rosado e rendado para que eu pudesse me apresentar aos
convidados que já estavam no salão. Meu cabelo bem amarrado e enrolado num belo coque, penas
vermelhas enfeitando os lados das minhas bochechas cheias de ruge e sardas. Minha boca manchada.
Fiquei olhando para meu retrato de menina na parede coberta por desenhos de rosas brancas e
outras flores. Meus olhos verdes cansados de esperar pelo retratista que não acabava nunca. Minha
cama, uma armação de sonhos quietos sob cortinas e panos que me tocavam o corpo apenas por cima
do meu camisolão. Yelli já havia se retirado nem sei há quanto tempo e alguém me chamou para ter
com as pessoas.
Os talheres bailavam com as louças, taças sorvidas e enchidas num banquete de murmúrios e
sorrisos fingidos. Os comensais brancos como Albinos, empoados como eu, apesar da minha pinta
não ser postiça como as que completavam suas maquiagens. Todos atores de uma comédia de
improviso à qual compareço no papel principal, uma apresentação que se inicia com a conclusão dos
negócios desta noite, meu casamento. Esse é o começo de uma temporada de espetáculos que durará
por toda a minha vida ou até eu engolir o extrato de sangue-albino como mamãe faria em alguns dias.
Fiquei de pé até que minha presença fosse notada, como uma atriz aguardando sua deixa para entrar
no palco.
— Claris, minha filha, cumprimente Sua Majestade, Amulete II, o rei da Terra do Leste, Duque de
Demarca e a senhora sua esposa, a Duquesa de Demarca e Marquesa de Feliana, que nos honram com
sua visita. — Meu pai se pronunciou, levantando-se sem notar o respingo de vinho, que parecia uma
pequena mancha de sangue em sua cravat. Então meu pai sorriu e abraçou sem cerimônias o irmão, a
quem não via desde o casamento com minha mãe, uma nobre comeriana.
Procurei por Yelli com os olhos sem me mexer e fiquei brincando com a língua, mas ela estava
fora do meu campo de visão. Fiz uma reverência delicada, meu vestido se esparramando pelo tapete
como as mãos da Alva sobre minha pele.
— Uma visão adorável que ilumina esta pequena confraternização. — O rei sorriu. — Mas, por
favor, peço-lhes que não tornemos a ocasião mais formal do que o necessário.
Foram cinco horas de pratos que entravam e deixavam a mesa sobre porcelanas álvicas, pratarias
dorfes e sete talheres diferentes, com formatos que hoje me lembram dos instrumentos de tortura que
um inquisidor me mostrou certa vez. Depois cantarolei peças criadas ao louvor de Anmaa por mães
de um convento lestiano e exibi meus dedilhados num alaúde presente de Yelli, sob os olhares
impassíveis dos visitantes. Ouvi elogios longos e maçantes sobre minha beleza, minha polidez e
meus dotes artísticos refinados, que representariam uma honra inestimável ao nobre que me
desposasse.

Só então eu soube que era prometida ao filho do rei da Terra do Leste e seria a primeira de minha
família a ser a herdeira direta de um trono. Meu pai é o terceiro filho na sucessão e minha mãe tem
dois irmãos mais velhos, além de minha tia, a Duquesa de Claudiosa, para suceder ao trono de
Coméria. Uma família de nobres que dificilmente chegaria ao trono. Surpresa, disfarcei a alegria de
tal honra com uma reverência profunda.
Depois de acompanhar a partida de nossos visitantes e receber os cumprimentos de meu pai, mãe
e tia, voltava para o meu quarto ansiando por reencontrar Yelli. Ainda que o cansaço após a
apresentação fosse imenso, sentia-me extasiada com a ideia de ter sua ajuda para me despir e me
preparar para o repouso. E lá estava ela, surgindo das sombras, sua silhueta esguia e comprida
movendo-se em silêncio para me auxiliar antes do toalete.
Talvez nunca tivesse notado o quão importante era esse pequeno jogo, o trabalho e a função de
uma criada álvica, criatura rara e adequada a alguém de minha estirpe. Solto um suspiro que me traz
lágrimas aos olhos e me lembra de como não há tempo que apague essas saudades tão densas que só
os amores juvenis proporcionam. Como se não fizesse apenas seis neanos.
Naquela noite Yelli traiu minhas expectativas de me arrepiar ao sentir seu ofício delicado,
dedicado, seu carinho verdadeiro por todos os detalhes da minha intimidade. Minhas roupas foram
deixando o corpo e quando sua mão se aproximava da minha pele, sempre havia uma renda, um
bordado, um tecido no caminho. Ao me tirar os colares, os brincos e as penas, privou-me do toque de
seus dedos suaves em minha pele. A maquiagem foi dissipada como mágica pelas sedas e algodões
sem sentir por um segundo sequer os dedos que via dançar sobre meu rosto. Senti meu próprio calor
em cada peça que se desgrudava de mim, como se estivesse sendo desmontada, preparada para um
próximo ato, mas só havia o descanso, a minha cama e era lá que eu a queria, a minha querida amiga.
Quando estava finalmente vestida em meu camisolão rosa, Yelli tornou-se pó, pois não encontrei
mais suas sombras ou sua presença. Chorei quieta com as partes internas das minhas coxas tão
úmidas que mesmo hoje me divirto com minha inocência, deitada em minha cama enorme, uma caixa
armada para me encasular até a próxima apresentação.

Terceira mancha. Uma que só descobri ao olhar por um espelho.

Mais uma noite e o sino toca, ele está aqui.


Há quem diga que não existe prazer nesse tipo de vida. Eu o tive por várias noites, não sabia por
quantas mais teria. Não queria que isso acabasse. Eu o via através do espelho quando entrou pela
porta, sua pele perfeita, seu rosto que não era de homem ou de mulher, como um Alvo. Tudo isso
fazia dele uma presença que me amedrontava, mal podia valer-lhe cada instante que separava um
toque do sino ao outro.
Ele fugia de algo, mas não me contava. Olhei para o espelho. Pedi que ficasse nu para cuidar dos
ferimentos que arranjara numa briga de que eu também não poderia saber o motivo. Deitou ao meu
lado de costas para mim. Chorei sobre sua pele, não pela primeira vez. Uma lágrima desceu e morreu
nos cabelos louros compridos grudados pelo suor, ele nem percebeu, só quando ouviu uma leve
fungada virou para me encarar, notou meus olhos vermelhos e voltou para o lado, encarando os
cantos escuros do quarto.
— Vou continuar minha viagem, não posso ficar aqui para sempre, Claris.
— Quando você for, não vou conseguir passar muitos dias aqui, devo partir também.
— De volta à sua terra? Onde fica, não vai mesmo me dizer?
— Não fará que você esqueça a viagem. Nós nos encontramos tarde demais.
— Estou aqui agora e acho que é isso que importa.
Beijou-me e me puxou da cama, meu corpo deslizou sobre o vestido e logo estava de pé. Com um
pulinho abracei-o com minhas pernas e fiquei suspensa, esperando por ele. Desajeitado com o monte
de pano, reclamou que eu ainda não estava nua, mas se arranjou. Riu pela minha audácia e acabou
com as costas na parede, segurando minhas coxas.
Seus olhos eram azuis e ele me olhava em silêncio, apenas respirando e tentando manter o fôlego,
como se procurasse onde acabava a cor do meu batom. Com os lábios entreabertos, eu suspirava e
engolia os gemidos enquanto roçava meu rosto no dele. Com a ponta da língua, tentava remover os
fios dourados e compridos de seus cabelos que grudavam em minha boca. Pensei que nunca amaria
um homem.
Quando o vi pela primeira vez, vivia no início da estrada da Rosa Vermelha. Convidaram-me para
estar entre bem-nascidos e ser uma das diversões do banquete sem imaginar que eu era um deles,
camuflada por minha máscara, não a de papel machê e tinta, mas a dos meus sorrisos e modos
refinados, que só podiam ter sido aprendidos com os mesmos mestres.
Engoli um grito, chegamos juntos ao clímax. Ele não me alertou de novo. Largou-me sem muito
tato, enquanto me apoiava nas pernas bambas, senti seu gozo escorrer pelas minhas coxas.
— Tolo, já disse para não fazer dessa forma, quer que eu engravide?
— Aí casaríamos e faríamos as famílias felizes.
Você não faz ideia de quem é a minha família, pensei. Então ele me deu uma leve rasteira e me
pôs no chão, deitando sobre meu colo enquanto ria satisfeito. Não aguentando a cara emburrada por
muito tempo, passei a desgrudar os cabelos de seu rosto, seu pescoço, tentando separá-los sem nunca
tocar sua pele com meus dedos.
— Somos iguais, no fim das contas.
— Sei tão pouco sobre você, Claris. Só sei que não é simplesmente uma moça que acabou no
bordel por falta de opção. Você fala como uma letrada e anda com elegância.
— Tudo isso se aprende.
— Sim, mas isso não nos faz iguais. Sou apenas um gitano perdido na estrada, vim para o que é o
destino de meu povo.
— Você finge que é um gitano como finjo que sou uma cortesã.
— Eu nasci gitano, pelo menos parte de mim. Por isso estou na estrada, preciso fazer isso.
— E eu nasci cortesã, pelo menos parte de mim, se meu corpo e dotes são meios de obter
vantagens.
Ficamos em silêncio sentindo o calor um do outro.
— Faça aquele truque com a mão? Não esse, tolo. Tire a mão daí.
— Qual, então?
— Aquele que me mostrou quando nos vimos pela primeira vez.
— Na casa do Conde de Merude? Pela Deusa, isso faz tempo.
— Pare de reclamar e faça logo.
Virou a palma da mão para cima e apoiou-a em meu braço. Um pequeno estalo fez com que uma
estrela brilhante andasse por sua mão, passeando e pulando. Tocou em mim e senti um
estremecimento por todo o corpo.
— Quer me ferir com isso? Vou entregá-lo ao Templo, seu Sombrio.
Apalpou meu seio e sorriu para mim. Fingiu desistir da ideia quando eu o ameacei com o olhar.
Então senti mais uma vez um tremor e admito que gostei. Tomei sua mão e a mordi com força, até
sangrar. Ele parou de rir.
Quando deixou de me visitar, senti-me mais cansada que sozinha. Não demorou muito para que eu
deixasse a cidade mais determinada do que nunca em terminar essa farsa. Foi então que segui pela
estrada como gitana para, através de minhas ligações, ouvir falar dos cento e vinte dias que se
preparavam.

Quarta mancha. De um corpo viscoso, como a tinta a óleo.

Eu posava para Yelli que marcava um pedaço meu a cada pincelada numa grande tela redonda. Como
em todos os dias em que passei por aqui, nas mais de trezentas sessões que durava a pintura, minha
mãe entrava em meus aposentos a cada quarto de hora, impaciente com o resultado, até que lhe pedi
que não fizesse isso, pois desconcentrava a artista. Ela saiu furiosa.
Estava sentada numa espreguiçadeira ao lado da janela de madeira escura, enorme e ladeada por
cortinas verde-claro, bordadas com flores e vinhas, presente de Yelli feitas de seda álvica. O vento
entrava e soprava minha maquiagem e me dava frio no colo por conta do decote do vestido. Eu
estava impecável como para uma festa e demorava a me vestir para posar. Ela se divertia em
silêncio, com um sorriso calmo que não sumia de seus lábios finos e perfeitos.
Uma pintura à moda álvica é feita devagar, sem a pressa característica dos humanos que sabem
que a cada minuto a morte está mais próxima. Os Alvos pintam cada detalhe como se fosse o mais
importante, pacientes, tranquilos, um ofício eternamente em progresso, de conclusão inatingível. O
pior é que, mesmo tão próxima do término, como Yelli jurou pelos seus antepassados, eu não fazia
ideia de como estava a pintura. Voluntariosa, a artista protegia seu trabalho em andamento com um
encanto que só servia para nos torturar. Não importava se descortinássemos o tecido delicado que a
cobria, a tela nos parecia sempre branca. Uma heresia incrível, usar desses expedientes numa casa
grandiosa como a nossa. Meus pais fingiam que nada acontecia, pois esse pecado se restringia às
brincadeiras da Alva comigo.
— Deixe-me ver. Termine isso logo, Yelli.
— Estou trabalhando, Alteza.
— Mas é meu esse desenho, deixe-me ver pelo menos como está, remova esse encanto. Ou está
me enganando? Se você estiver fingindo que sabe desenhar... — Hesitei, pisando em terreno
perigoso.
Yelli sorriu discreta.
— O trabalho de uma artista nunca termina, então espere o momento em que eu desista do desenho
para que possa olhá-lo. Peço-lhe gentilmente, não me constranja, Alteza.
Fiquei vermelha de raiva, levantei e saí pisando duro pelo tapete branco e fofo que cobria boa
parte do meu quarto. Yelli permaneceu quieta com o pincel na mão.
Saí para o jardim passando pelos criados e dei com meu pai na frente do palácio, entrando com
um Supremo, um dos homens mais importantes do Templo em nosso país. Fiz uma mesura desajeitada
e vi o olhar duro de meu pai, que me fez esquecer a raiva que sentia de Yelli e me lembrar da raiva
que tenho dele.
Apoiada num pilar de mármore rosado, contemplei o jardim impecável do palácio, sentindo o
vento no rosto. Não lembro quanto tempo se passou.
Corri para o quarto arrependida, queria ver Yelli e retomar a sessão de pintura. Ela não estava lá.
Minhas outras criadas me disseram que fora incumbida de outras tarefas a mando do duque e não
estava disponível. Irritada, gritei que isso não me interessava e queria vê-la, mandei que a
procurassem naquele instante.
Esperei por breves momentos olhando para a tela branca na qual era retratada há mais de trezentas
sessões. Que aspecto de mim estava naquele desenho secreto, o que eu não poderia saber sobre mim
e o que de tão grandioso me aguardava na conclusão desse quadro maldito? Isso me deixava
exasperada. Não consegui mais segurar e comecei a chorar esparramada no tapete branco, meu
vestido parecia meu corpo derretido.
As criadas não apareceram para me informar sobre Yelli e eu mesma esqueci de procurá-las.
Acabei adormecendo depois de chorar até soluçar, com dor de cabeça e exausta.
Abri os olhos ao me sentir erguida por alguém, a luz já não entrava pela janela e pude adivinhar a
silhueta esguia de Yelli me carregando até a cama. Pedi um abraço e ela me negou, passando a mão
em minha testa e meu rosto. Virou de lado para fechar os vidros, a noite caía, seu rosto parecia
marcado por lágrimas. Talvez fosse impressão minha. Yelli me tocou o rosto mais uma vez, queria
conversar com ela e pedir desculpas, mas acabei adormecendo contra minha vontade.
No dia seguinte o quadro estava coberto pela seda.

Quinta mancha, que sumiu, como se fosse um fantasma.

O fantasma de minha mãe me chamava e eu estava de pé olhando-a.


A caixa de música tinha uma melodia muito triste e me levava às lágrimas. Havia uma bailarina
que rodava em um giro infindável, apenas se interrompia até que a puséssemos de volta ao trabalho.
Eu andava movida pela curiosidade e apavorada pela presença do espectro que nunca dizia nada,
apenas esperava que a seguisse.
Minha mãe não me pediu desculpas, não me admitiu crimes, não me deu conselhos sobre como
me portar em sociedade. Seguindo suas instruções, fui buscar meu pai e minha tia. Ela estava
morta na espreguiçadeira quando chegamos. Eles não exprimiram surpresa. Pétalas de sangue-
albino esparramadas no peito e em volta de sua boca.
A música saía pela abertura da caixa, lenta, a corda deixando a tensão e tornando a melodia triste,
dura, quebrada.
Segui-a pela casa em plena noite pelos corredores escuros, carregando uma vela. Os criados
estavam recolhidos. Ela dobrou a esquina do corredor que seguia pelo perímetro do palácio, a porta
dos aposentos de minha tia estava aberta. Sangues-albinos em vasos nas mesas, pequenos espelhos
que refletiam a luz de minhas velas. Ela me aguardava em frente às portas dos aposentos de meu pai.
Minha mãe amava demais o balé e só assistia às danças com comentários duros de quem nunca
aproveitava as apresentações. Ela acreditava que a devoção às demandas da sociedade a fariam
um dia esquecer de seus sonhos frustrados, das entorses sofridas ao praticar os poucos passos que
aprendera imitando os espetáculos dos teatros contra a vontade de seus pais.
O clímax da música tinha intervalos que pareciam agressivos, abismos que logo voltavam a
crescentes que me doíam o peito. A corda já falhava, o cilindro dentado com as notas brigava com o
pente de aço, cada nota que soava, um sacrifício.
Ela acenou com a cabeça e as portas se abriram, uma fresta breve. Meu pai amava minha tia num
mar de pétalas de sangue-albino, essas flores belas, que refletiam tudo de tão brancas que são, ainda
que mortais se mastigadas. Eles pareciam uma massa viva e intensa, real, apaixonante e que, através
da fenda, pareciam parte de uma pintura viva. Os gemidos trincavam as últimas notas da caixa de
música.
Minha mãe assumia como parte de sua incumbência lidar com as libertinagens de meu pai com
as criadas e cuidar para que essas não chegassem à sociedade. Mesmo quando algum
constrangimento surgia, lidava com maestria com todas as situações, minimizando eventuais
danos causados. Os favores que minha tia prestava a meu pai foram logo assimilados como
suportáveis, mas as indisposições cada vez mais frequentes passaram a fazê-la prisioneira de seus
aposentos, morando num mundo pequeno e controlado, rodeado de vasos pequenos com flores
brancas, presentes de minha tia.
A música terminou. A bailarina estava quebrada quando apanhei a caixinha no chão. Ia dar corda
de novo, mas o fantasma me olhava. Afastou-se. Não conseguia mais fazer a caixa funcionar. Minha
mãe não estava mais em lugar algum.

Sexta mancha. Respingada na parede como o sangue de um pecador.

Se os inquisidores do Templo às vezes me tomam é porque os pecados do povo pagam por isso. E
muito bem. A cada circunfixo que vejo sobre roupas negras, aguardo com um sorriso mental os
olhares hipócritas. Mal se veem a sós comigo em seus quartos e lugares que deviam ser secretos e já
arrancam as roupas. Logo querem me cobrir para esquecer suas vergonhas e, dentro de mim, gritam
impropérios e blasfêmias ferozes que nunca deixam de me fazer rir quando relembro.
Mas esse inquisidor era diferente. Eram três horas da madrugada, fazia parte de seu ato fingir que
era discreto em seus motivos para a visita. Como combinado, eu já o aguardava, um pouco sonolenta,
admito. Perguntou-me se eu era a Rosa Vermelha.
— Eu sou a Rosa Vermelha.
Eu vestia preto, como ele, um vestido rendado e bordado à mão por mães habilidosas de um
convento lestiano. Nesse dia não usava maquiagem, meu rosto estava limpo como é hábito entre as
sacerdotisas fiéis. Não só por ironia, era parte de meu ato estar vestida de acordo com o cliente. Por
isso sou a Rosa Vermelha.
— Tenho dinheiro, mas o que preciso é diferente. Você é diferente, como dizem?
— Eu sou o que puder pagar, Pai. — Sorri. — Perdoa-me, pois pequei.
— Posso pagar muito, mas também exijo respeito à minha posição. — Tentou erguer a voz,
autoritário.
— Pois exige mais do que estou disposta a oferecer. Sua experiência comigo será única, mas não
espere que a submissão seja uma questão de posição social ou dinheiro. Se ela ocorrer, é porque fará
parte do nosso jogo.
Ele arregalou os olhos por um momento ínfimo e então se recompôs. Acho que considerou sair do
quarto, pois se virou de leve, mas desistiu e se voltou para mim. Tirou um saco pesado de moedas e
fez menção de me entregar. Apenas apontei com o queixo a mesa redonda e adornada onde mantenho
sempre um botão de rosa. Ao soltar a bolsa na mesa, sua abertura pendeu e pude ver que estava cheia
de moedas de prata e algumas de ouro.
— É a minha vez — Sussurrei com voz firme.
Ele ficou impassível e rígido, esperando que eu tomasse a iniciativa. Em silêncio, desabotoei sua
batina pelos lados, despi-lhe tomando cuidado para que meus dedos ou minha pele nunca roçassem
na sua. Sua pele se arrepiava, vi em sua nuca, em seus braços, em suas coxas e sob as nádegas.
Retirei com calma um circunfixo enorme que carregava ao peito, sob as vestes, sua base bem
trabalhada como a empunhadura de uma adaga. Feito de ouro branco, tinha versos sobre a vida de
Pietru Negro entalhados em desenhos que imitavam ventos que sopravam. Os dois círculos abertos
mais acima pareciam lâminas, duas foices, uma dentro da outra, a representação das Mães e a
consciência humana de que tudo o que há é pelo louvor a essa dualidade. Vestia roupas de baixo
simples e exibia um corpo duro e muito ferido, cicatrizes de chicote cobriam suas costas como uma
tatuagem que misturava traços antigos e novos no desenho que parecia feito a pinceladas largas e
ágeis.
Quando sua roupa preta e larga caiu, ouvi um ruído seco, como se houvesse mais uma bolsa de
dinheiro ali dentro. Mas não ouvi sons de moedas. Soprei devagar por toda a extensão de suas
costas, procurando os ferimentos mais novos. Usei as unhas para lhe abrir os cortes e ouvi um
suspiro onde só havia silêncio e tensão. Os arrepios subiam e desciam por sua pele. Riscando suas
coxas com as pontas das unhas, desci e encontrei o pacote que estava dentro dos panos grossos.
Eu lhe tocava as partes internas das pernas quando o senti estremecer ao notar que eu abria o
embrulho de couro amarrado por uma tira. Eram instrumentos como os usados por cirurgiões, só que
alguns eram diferentes. Peças metálicas pontiagudas e utensílios minúsculos, ideais para a
manipulação da carne. Como talheres. Fingimos juntos ignorar sua utilidade. Mas eu era curiosa e
poderia descobrir sozinha.
Deitei-o de bruços em minha cama sobre lençóis brancos e imaculados, que eu inutilizaria após a
sessão. Em silêncio, o homem permaneceu imóvel, aguardando meu julgamento, no quadro pendurado
vi rosas vermelhas que espalhavam suas pétalas sobre um tapete enorme de grama alva. Peguei um
dos instrumentos cortantes e o encostei nas costas do inquisidor, passeando com o frio do metal por
sua pele cheia de cicatrizes, imaginando onde eu tatuaria minha obra de arte.
— Espere. — Ele me interrompeu com voz trêmula.
Irritei-me até o âmago, mas sem demonstrar, sorri e sussurrei:
— Só vamos desenhar juntos, meu pai.
O cheiro dos incensos me incomodou um pouco durante o silêncio breve.
— Maquie-se então. Como uma Sombria.
Sorri. Excitada, senti vontade de lhe morder as costas, mas cumpri seu pedido singelo. Então não
era uma mãe que ele buscava, mas uma Sombria.
Pedi que só me encarasse após um longo quarto de hora. Ele se virou, temeroso, olhando-me de
lado da posição de bruços em que se encontrava.
Viu meus olhos verdes circulados por traços negros, cílios como seus instrumentos de metal. Meus
lábios eram carne viva e quentes, vermelhos, sob o meu delicado nariz arrebitado. Viu minha pinta
— verdadeira, sempre penso com orgulho — abaixo e um pouco ao lado esquerdo de meu rosto.
Começou a rezar de repente com o rosto enfiado no travesseiro.
Desenhei uma longa rosa vermelha em suas costas com traços rubros que se borravam enquanto os
riscava. Dominada pela delicadeza deste pai, lambia-lhe os excessos de tinta na pele que estremecia,
mas não me atrapalhava na arte. Minhas aulas de pintura foram extensas e minha tutora principal tinha
mais experiência do que eu adquiriria em toda a minha vida. Trocava de ferramenta, às vezes pelo
excesso de tinta e para conseguir melhores traços, embriagada pelo cheiro de ferro e pela reza, agora
contínua, do meu patrão.
Então me levantei e pude ver uma grande rosa vermelha sobre um gramado riscado a pinceladas
que se cruzavam, preparei-me para o grande final de minha performance. Tomei o grande circunfixo
que o pai levava em seu peito, que pulsava com uma energia de paz que sempre inebriava a nós,
pecadores, como se nos chamasse para o louvor. Envolvi o símbolo das Deusas numa camisa de
Lense, a deusa ascendente do amor para os Alvos, feita de tripa de carneiro, e o penetrei com vigor,
lubrificada pela própria tinta que me serviu no desenho.
O pai chegara ao clímax e foi embora sem me olhar nos olhos, chorando, beijando-me as mãos
como se eu fosse a própria Anmaa. Tive vontade de lhe devolver o dinheiro, tamanho o prazer dessa
sessão.

Sétima mancha, que se tornara vinagre, ralo, azedo.

Rezei e rezei por mais de duas horas na capela de nossa residência. A sacerdotisa me olhava, grave,
quando achava que eu diminuía a intensidade de meus clamores pela Mãe da Luz, mas então entrava
em seus fingimentos e sussurrava com força, olhos espremidos, fronte tensa, esperando romper
qualquer barreira que houvesse entre esta terra e o céu.
Eu não seria tola de contrariar minha mãe novamente. Yelli estava ameaçada por grandes apuros e
a última coisa que eu poderia suportar é se algo lhe acontecesse. Irônico imaginar que o que soava
como perigo de morte para mim era que ela me fosse afastada, que não pudesse mais servir à minha
casa, ser minha única amiga enquanto me ajudava a ser uma nobre responsável.
Não conseguia me concentrar com os olhos fechados por muito tempo. Ajoelhada e vestida em
branco, como a mãe, tentava não morrer de tédio. A capela estava escura, iluminada fracamente pelas
poucas velas acesas. A maioria dos castiçais era no formato que lembrava o grande circunfixo que
ficava apoiado numa base de metal sobre o altar, com suas velas apagadas e a parafina acumulada na
base do encaixe. Enquanto terminava mais uma reza, dispersa mais uma vez, vi a sacerdotisa
desencaixar o circunfixo com as duas mãos e colocá-lo junto ao peito, colado quase em meio aos
seus seios que faziam volume mesmo sob aquelas roupas feitas para esconder a carne. Infinitas vezes
ouvi esse sermão, porém o que a mãe me pedia era que beijasse o enorme objeto com submissão, o
que ela própria fazia quase a todo momento. Pode ser que minha vida atual me traga ideias profanas,
mas creio que havia mesmo um leve deleite pecaminoso em seu rosto ao manipular o instrumento
sagrado.
— Possuir um circunfixo do Santíssimo Templo do Mundo sob as Mães traz paz. — A mãe
sussurrou. — Protege-nos dos cantos sombrios de nossa existência.
Beijei o ouro frio e senti de fato um grande calor que me acalmou por breves instantes. Olhei para
cima e a mãe sorriu, benevolente.

Hoje Yelli estava taciturna e fria. Aquilo me angustiava porque tudo o que fazia era seguir sem
demora qualquer instrução ou pedido que eu lhe dirigisse. Não era a primeira vez que agia assim e
toda vez que acontecia me irritava muito. Queria que estivesse bem, serena, com o humor discreto e
elegante como é de seu costume. Admirar seus modos perfeitos de Alva é algo que me ensinava a ser
o que meus pais esperavam de mim, uma admiração que se confundia com inveja por ser sempre tão
impecável em seu comportamento.
Eu queria que ela falasse comigo, então pedi que se sentasse ao meu lado na espreguiçadeira e
dispensei os outros criados pelo resto do dia. Havia acabado de retornar do desjejum e não vira
meus pais, cada qual em seus afazeres, dentro ou fora da residência.
— Yelli, você sempre me diz isso, mas preciso perguntar. Por que não consigo sonhar com você
por mais que eu queira?
— Alvos não sonham. E não surgem em sonhos. É a maneira como as coisas são.
Não me intimidei.
— Se eu vivo com você todos os meus dias, por que o que ocorre enquanto durmo não pode ter
sua presença? Muitas vezes te chamei por lá, mas você nunca surgiu. Não seriam os sonhos as nossas
ideias mais perdidas misturadas, ou mesmo uma visão, um presságio, como dizem os videntes? —
Sorri.
— A Transformação ou como se diz, a Magia, é o que mantém a existência coesa. Nós fazemos
parte disso, assim como os humanos, o que inclui Vossa Alteza.
— Mas nós podemos aprender essa Magia, não é mesmo? Vocês não aprenderiam a sonhar? —
Provoquei.
— Vossa Alteza, cuidado com o que diz, por favor. Não é motivo de brincadeira falar da Magia
como se fosse algo banal. É uma seguidora do Templo, respeite essa condição, minha amada
Senhora.
— Responda-me se os Alvos podem aprender o sonhar. Quem sabe poderia surgir em meus
sonhos, lá estão as coisas com as quais vivo nos dias, as coisas que sinto, abismos em que
poderíamos nos esconder e... brincar.
Yelli ficou quieta e se virou. Fingiu ir arrumar as flores que estavam num vaso sobre uma mesa de
canto.
Quis insistir ainda mais, mas uma força estranha qualquer me deixou quieta por um momento.
— Em seus sonhos... você vê novamente as coisas ruins que já lhe aconteceram? — Yelli indagou
numa voz sombria. Quando parei de rir, ela prosseguiu. — Se aquilo que se repete em nossa mente
durante as horas de vigília é como um sonho, será que é como se eu, uma Alva, vivesse num
pesadelo, como você diz?
Era raro Yelli me chamar de você. Tal só ocorria quando estávamos nos sentindo muito à vontade
ou nas ocasiões em que passávamos muito tempo juntas, como antes de eu ir à Universidade do Dia
em Coméria.
— Esse abismo, Claris, em que você se vê nos sonhos, como é ele? É um lugar assustador ou
aconchegante e quente? Aconchegante e quente como quando estamos cobertas por tecidos
confortáveis e caros ou por homens nobres e caros que nos usam como a uma cama, que se pode
então lavar e reutilizar após secar?
Eu estava pálida, muito mais do que minha cor natural e minha maquiagem justificavam. Oculta
pelo pó, sentei-me, abracei meus braços descobertos e tentei entender o que Yelli queria dizer.
— Não sonhamos porque só aos humanos é dado o direito de lidar com suas ações no conforto da
própria alma, durante a noite. Nós lidamos com as nossas de dia. Com sua licença, Vossa Alteza.
Yelli se retirou.

Minha mãe parecia muito nervosa e mal conseguia manter o tom de voz uniforme, tremia e tinha a
maquiagem borrada. Como não me respondesse o que havia acontecido, decidi ignorar e fui atender
ao jantar que já estava servido. Ela me informou sobre a inspeção à mesa.
— Para Amulete II, o Rei da Terra do Leste, saber que você está prometida ao seu filho, o Duque
de Gramada, é o primeiro passo para ligarmos esses dois reinos por laços de sucessão sólidos e
legítimos. Você sabe, querida, há um acordo que seu pai firmou com o rei. Não é em Coméria que
está o nosso acesso, pois temos dois de seus tios na linhagem como sucessores diretos e,
francamente, resta-nos viver nossos rumos ou aguardar que morram, mas desejar o mal aos próprios
familiares é muito antiquado e deselegante. Claris, está me ouvindo?
Eu estava entretida com o pavê de morango e tentei prestar atenção, ela beirava a histeria.
— Pois vou logo ao assunto. Será examinada pelo Supremo da confiança de seu pai para
verificação de seu estado de donzela. Sem isso, não teremos a assinatura do Rei Amulete II para seu
compromisso de desposar o Duque de Gramada e se tornar a Princesa da Terra do Leste. Ou isso ou
precisaríamos esperar por toda, bem, você está mais que cansada de saber o quão longa é a fila de
sucessão, Claris.
Um homem que só cumprimentava por bons modos examinaria minha condição de donzela para
provar minha virgindade, é o que eu tinha entendido.
— Onde está Yelli, mãe?
— Estamos no meio de uma conversa importante, Claris. — Ela limpou a boca sem retocar os
borrões no ruge.
— Algum de vocês viu Yelli? — Virei-me para os criados mais próximos, imóveis como estátuas
de gesso. — Alguém sabe me dizer de Yelli? — Mais uma vez todos ficaram em silêncio.
Tentando manter a compostura, minha mãe suspirou e disse, o mais rígida possível, desafinando.
— Yelli não servirá mais a esta casa, Claris.
Levantei-me de susto, a mesa inteira balançou com meu movimento abrupto. Desvencilhei-me da
cadeira com dificuldade por conta do vestido e saí empurrando o móvel, que fez tilintar talheres e
taças.
O quarto de Yelli estava vazio. Não sei em que momento ela conseguiu preparar sua saída, quem a
teria auxiliado e para onde havia partido. Ninguém me atendia, olhavam-me em silêncio e me
tratavam com cortesia, sem nunca me dar uma simples resposta. Corri pelos corredores e cheguei à
porta dupla do escritório de meu pai, dois criados estavam à porta, mas, por medo de magoar a futura
Princesa da Terra do Leste, não se esforçaram muito para me impedir de invadir o aposento.
Quase caí ao empurrar a porta e o encontrei olhando-me por cima das lentes de leitura, curvado
com sua peruca comprida e branca cobrindo sua careca desgrenhada. Segurava uma pena e ficou
esperando eu iniciar a conversa. Como se eu demorasse, apenas disse.
— Claris, espero que haja um bom motivo para esse comportamento.
— Estou procurando Yelli, minha criada pessoal.
— Entendemos que a Alva não era uma companhia adequada. Este tipo de atitude agora é o que
temíamos estar florescendo em você, Claris. Pelo visto agimos tarde.
— O que houve com ela? — As lágrimas começaram a aflorar. — Eu não fui consultada.
— Há coisas importantes em jogo e não podíamos nos dar ao luxo de discutir essas banalidades,
minha filha.
— Eu nunca sou consultada. — Minha raiva começou a crescer e senti um fogo inquietante na
cabeça.
— Claris...
— Vou me retirar, meu pai, perdoe-me a intrusão. Amanhã estarei pronta para a consulta com Sua
Eminência, o Supremo.
— Querida... Não me olhe dessa forma. Sabe o que estamos fazendo aqui. É o destino de um país.
Você foi preparada sua vida inteira para o dia de amanhã. — Levantou-se e começou a caminhar em
minha direção. — Eu só quero que entenda que sua vida existe para os livros de história, o que
fazemos repercute na vida dos comuns por muitos neanos.
Consegui evitar o momento em que sua mão me tocaria o ombro com uma longa reverência e um
anúncio:
— Perdoe-me, meu pai. Estou muito nervosa, não agi corretamente. Vou à capela, preciso de um
pouco de paz.
Recuei para me retirar do aposento. Ele só se deu ao trabalho de virar e voltar para sua
escrivaninha.

A Deusa da Luz estava na capela, eu esperava. Tomei o circunfixo do altar com as duas mãos e o
levei ao meu peito, ele me aqueceu e me deu paz. Ajoelhei-me e comecei uma oração das que
repetimos tantas vezes nas reuniões do Templo. Minha concentração não vinha, só via os olhos
verdes e puxados de Yelli, sua boca de beijo pequeno e então parei. Sentindo-me culpada por
misturar as imagens quando precisava de silêncio em minha cabeça, fui para o meu quarto.
Estava tudo escuro, uma das criadas se assustou com a minha chegada repentina e fechou a janela
de vidro. Nuvens negras se formavam no céu, uma chuva se aproximava. Ela começou a acender
velas, pedi que se retirasse e tranquei as portas logo que me deixou, apressada e assustada com
minha expressão desolada.
Sozinha, com a pouca luz que havia, não sabia para onde andar, então vi o cavalete com a tela que
nunca terminava num canto, coberta por um pano largo. Sorri, triste, sabendo que nunca veria como
meus olhos pareceriam no desenho de Yelli, como minha pele se misturaria aos pós e tintas que
usava antes de sair do quarto. Num acesso de ódio, ataquei para rasgar a maldita tela com um golpe
do circunfixo, em silêncio para não incomodar as pessoas. A tela arrastou o cavalete um pouco e
derrubou o pano de seda álvica que lhe cobria, caindo com o desenho para cima sobre o tapete
branco.
Era uma janela, pois emitia luz que iluminou o quarto. Um enorme campo de grama branca, vívida,
apenas sem cor, ia até onde a vista podia alcançar. Flores brancas ou plantas exóticas minúsculas,
que nunca pude ver em minha vida, pareciam mover-se num vento que soprava, incansável. Todas
brancas e ainda assim pintadas com uma minúcia que decerto levara muitos dias para conjurar. Do
céu rosado, sem nuvens, eu agora via o mundo de cima. Nesse tapete gigantesco que abrigaria
milhares de garotas como eu deitadas, eu olhava o quadro de cima, apoiada em minhas mãos, com
medo de cair dentro dele e nunca mais voltar para esse lado da realidade. As lágrimas não paravam
de cair, mas não aderiam à pintura. Uma escorreu pelo rasgo do circunfixo e ficou pendurada,
estática. Parei de olhar e me joguei no tapete do meu quarto, com uma dor no peito que me exauriu as
últimas forças. Adormeci.
Com a mão incomodada por um inseto, abri os olhos e vi uma borboleta que levantou voo quando
mexi meu braço. A grama branca se dobrou quando virei o rosto, esmagando-a. Yelli estava sentada
ao meu lado, nua, vestida pelo vento, que se misturava à sua pele ao passar por ela. Eu também
estava nua. Não podia entender o que havia, mas se eu sabia algo, era que não se tratava de um
sonho. Alvos não surgem em sonhos.
Engoli o que ia dizer sufocada por um beijo pequeno. O toque desses lábios me trouxe mais paz
do que havia trazido quando estava do outro lado da tela, mais pacificador que circunfixos, acordos
de sucessão e pavê de morango.
Yelli não tinha os cabelos soltos ou amarrados, eram fios de ouro feitos de vento, eles se
misturavam à pele e a cobriam da minha visão humana, escondendo suas curvas suaves, sua cintura
delicada, seu umbigo que só havia em minha imaginação. Ela sorriu de minha surpresa por descobrir
sua nudez estranha, procurei logo aquilo que me fazia uma mulher humana em seu corpo. Ela tinha
seios, mas as aréolas não tinham cor, os mamilos no mesmo tom da pele. Lânguida, jogou-se de
costas na grama para que eu pudesse conhecê-la, enfim. Seus dedos dos pés eram pontiagudos, seus
calcanhares mais finos e todas as extremidades de seus membros eram mais compridas que as dos
nossos, não só as orelhas, os cantos dos olhos, suas mãos delicadas. Eu estava muito constrangida,
mas separei suas coxas para vê-la, não havia pelos. Ela sorriu e me puxou para ela, deu-me um beijo
pequeno e levou minha mão para encontrar um calor incrível, depois me deu na boca para sentir um
mel que nunca provara.
Então me cobri com todo o mel do mundo, afastando-me e mergulhando a cabeça entre suas
pernas, um sabor que não havia fora da grama branca que nunca termina, Yelli se retorcia e puxava
meus cabelos enquanto éramos sopradas pela brisa e o riso das fadas. Sua voz não existia, mas seu
êxtase formou nuvens brancas iluminadas por um pôr de mãe que nunca havia, a luz era quente, boa e
então trouxe a chuva quente.
Todo o meu corpo foi beijado com sua pequena boca. Isso fez com que demorasse muito, ainda
mais porque fazia questão de agir como se me desenhasse inteira, então por mais de trezentas
sessões, eu a tive descobrindo minhas curvas, mais generosas que as dela, claro. Meus seios não
precisavam da ajuda das roupas para saltar aos olhos, minhas coxas eram grossas e despontavam de
meus quadris, se eu puder exagerar na descrição e soar como uma escultura libertina de duendes. O
calor da chuva era quebrado pelos sopros de seus cabelos e mordidas em meus seios, seus dedos
eram suaves e profundos enquanto eu ria da virgindade que nunca seria confirmada por nenhum
Supremo e escorria, doce, pelas mãos de Yelli.
Abraçamo-nos por dias e neanos, exaustas, unidas, imóveis, para a eternidade dessa amizade que
me mostrou que, ao menos uma vez na vida, o amor me seria doce e real.

Abri os olhos, assustada. Era manhã e uma criada me chamava, batendo à porta. Dispensei-a dizendo
que me chamasse depois, pois ainda estava me preparando para a toalete.
Sentei-me na cama. Estava nua, mas não sentia frio. Ao meu lado, a tela com o desenho perfeito de
Yelli se estendia sobre o tapete branco, com um rasgo enorme na parte de baixo, feito pelo
circunfixo. Senti um leve cheiro de ferro e engoli um grito. O tapete branco embaixo de minhas coxas
tinha algumas gotas vermelhas que lhe manchavam, meu sangue. Uma das minhas mãos tocou o
circunfixo jogado ao meu lado. Tinha a base suja de sangue seco.
Levantei-me e comecei a chorar, em silêncio. Tomei o quadro em minhas mãos, quando descobri
um detalhe que não havia antes. Pétalas de rosas vermelhas se espalhavam por toda a base do
gramado branco, o céu tinha nuvens que choveram e agora se distanciavam. Um momento eterno que
nunca passava.

Um tinir de sino me lembra a velha caixa de música. Em minutos devo entrar e bailar para eles, fazer
meus giros constantes e cantarolar peças que os lembrem as coisas da infância.
Saio pela porta, estou num corredor que só tem como iluminação a luz que vem do seu final. Eles
aguardam ansiosos nessa pequena casa de ópera do palácio enorme onde viveremos pelos próximos
cento e vinte dias. Meus pés já sentem o piso de madeira e produzem sons surdos, há silêncio e
antecipação pela chegada da Rosa Vermelha. Tenho uma máscara feita de folhas e espinhos.
As cortinas fechadas, então desabrocham. Senhores bem-nascidos e o Alto Sacerdócio. Luzes
estão em mim, mas posso sentir suas respirações e fico excitada demais. Não da maneira que eles
gostariam. Preciso me concentrar para que a morte não venha antes da hora certa. Cordas, são baixos
e violoncelos. Antes que entrem os violinos, eu começo a dança, a caixa de música está tocando.
Estou vestida em vermelho, envolta por camadas e mais camadas de pétalas de roupas que serão
despidas. Estou leve, ainda que não saiba como fazer essa tal dança. Apenas me imagino na grama
branca e tento pensar que vai acabar logo. Uma princesa não sabe bailar, não é para isso que fui
criada.
Um começa a subir no palco antes que eu termine, é logo agredido por um carrasco observado
pelos patrões que assistem o espetáculo. Tudo nas vidas desses homens e mulheres é cuidadosamente
planejado e executado. O apressado é expulso e não participará da brincadeira.
Meus olhos se enchem de lágrimas, mas antes que me esqueça do caminho e duvide do que
alcancei, faço uma oração por todos os que insistem em propagar seu sangue por sucessões e
dinastias. Por minha mãe, que desistiu da vida engolindo pétalas de sangue-albino mascadas quando
o Supremo contou a meu pai que eu não era donzela ao final de sua inspeção. Por minha tia, que
sempre presenteara minha mãe com tais flores por achar que eram lindas e que compunham bem a
decoração de seus aposentos, tendo se casado com meu pai após esse ter se tornado viúvo. A ele,
claro, por agora se manter decidido a enganar a sociedade ao afirmar que, por grave doença, estou
retirada, sem fazer a menor ideia de onde estou e o que faço da minha vida, aguardando o momento
certo para que eu possa voltar e desposar o Duque de Gramada.
Estou esparramada no chão de madeira sobre meu próprio vestido. Eles aplaudem, estou suada e
palpitante, arfando. Então um calafrio enquanto eles começam a subir ao palco para me tomar. Já
posso ver seus rostos e mais do que nunca me concentro na música da caixa, na grama de um quadro.
Eles têm minhas luvas, têm meus sapatos, têm meu vestido pedaço a pedaço. Alguns se despem antes
de começar a me tocar, um primeiro salta e me toma enquanto outro rasga minhas meias e me abre as
pernas. Preciso estar imóvel e só deles. Esse é o trato.
Tento olhar nos olhos de cada um deles para nunca me esquecer do momento. Eles vêm em
sucessão. Há quem se esqueça de mim e comece a se amar ao meu lado. Há quem simplesmente se
masturbe e descarregue em minhas roupas.
Eu espero a todos. Não preciso tirar a máscara, minha identidade está protegida, a eles é essencial
que ignorem quem são as profissionais trazidas à festa. Talvez um dia algum deles possa me ver sem
ela. Serão cento e vinte dias até a morte.
Foram nove deles, quatro não vieram a mim, então surge o último. Esse parece o mais ávido,
como se guardasse toda a energia para esse momento. Primeiro me toma de quatro já despetalada e
vem com força, sinto uma lágrima escorrer quando ele entra. A morte está ao alcance de um vaso de
sangue-albino. Ele é agressivo e me machuca, mas eu gemo a quem não amo, por que não a quem
amei? Então me vira de frente porque quer olhar para os meus olhos antes de terminar. Minhas
lágrimas estão frias sob a máscara. Ele zurra como um burro e então descarrega em meus seios, um
exposto e cheio de marcas, o outro mordido, e sobre o meu abdome. Seu sêmen brilha em minha pele
como pétalas de sangue-albino. Alguns aplaudem o grande final, enfim sorrio aliviada. Não foi tão
ruim assim.
Tiro a máscara que me oculta de meus patrões e me revelo ao meu pai, o Duque de Veredia e a
todos os seus amigos, como o Supremo que me examinou há quatro neanos e se divertia com Yelli
antes que ela fugisse. Ao meu futuro sogro e tio, o Duque de Demarca, e a outros amigos tão
importantes.
Meu nome é Claris de Veredia, filha do Duque de Veredia, a profissional dos prazeres mais
elegante e bem-nascida dos reinos, possuidora de conhecimentos e habilidades sublimes e acima de
qualquer crítica e que, até esse dia, podia ser encontrada por aqueles que procurassem com paciência
e diligência a Rosa Vermelha.
Conto Pseudo-Erótico de Fantasia com Fantasias Felipe Castilho

Olá, amigo! Fico grato por você estar aqui, lendo estas linhas. Antes de mais nada, tenho certeza
absoluta de que esta é a primeira vez que você lê as crônicas de um motel... narradas pelo próprio
motel. Gozado, né? Ahn, olha... Me desculpe, não tive a intenção de fazer nenhum trocadilho.
Estamos nas preliminares ainda. É que meu vocabulário não é muito extenso, até mesmo pelo fato de
eu ser uma central de encontros sexuais. O que eu ouço dentro das minhas paredes e nos meus dois
andares não tem grande variedade lírica. Conheço montes de palavrões e expressões chulas, duzentos
e quarenta e oito nomes para “pênis” e trezentos e dezesseis para “vagina”. Talvez, se eu fosse um
teatro ou um cinema, a coisa pudesse ser diferente. Ou ainda posso torcer para um dia virar uma
franquia Starbucks. Sempre tem gente metida (desculpe) a intelectual enfiada dentro deles (desculpe
novamente), falando de Almodóvar, MPB, Brecht... Com certeza eu poderia me aproveitar um pouco
de toda a situação.
Hoje em dia, meu nome é Seduction’s. Sim, com apóstrofo e “s”. E sim, é ridículo, eu sei. Muitos
babacas abrem seus negócios por aí (foi mal), e colocam essa maldita vírgula alta e o “s” sem nem
ao menos saberem o significado da coisa, só por que fica com cara de gringo... Confie em mim, antes
de ser este motel de meia estrela, eu já fui quitanda (Jhony’s), vídeo locadora (Vídeo’s Master) e
empresa de entregas rápidas (Uésley’s Expres’s). O apóstrofo está sempre por lá, porque dá uma
cara estrangeira pro comércio. Enfim, depois do Uésley fechar a empresa, eu ainda me tornei um
banco e depois uma igreja. Não, minto... Foi uma igreja e depois um banco. Puxa, é bem difícil
diferenciar os dois. Ah, naquela época rolava tanto dinheiro aqui dentro! Quando virou banco um
pouco menos, mas também rolava. Acho que se mantivessem o mesmo gerente engravatado anterior o
lugar não teria falido. A igreja prosperou tanto que precisou mudar para um lugar maior. Um antigo
armazém de pneus de avião. É, o negócio do pastor tinha crescido bastante (e mais uma vez...).
Desde que me tornei motel, com esse “M” do letreiro vermelho parecendo muito com um “H”,
continuo vendo muitas situações similares às de meu tempo como banco. Os clientes continuam
saindo daqui fodidos (Foder é palavrão? Se sim, desculpe. Falam isso o tempo todo aqui, você
sabe.), e ainda continuam pagando por isso. E se você acha que esse é um comportamento estranho,
mal pode imaginar tudo o que já testemunhei.
Você está vendo a casa do outro lado da rua? Sim, aquela com luzes acesas e som alto, tocando
qualquer coisa moderna remixada. Está rolando uma festa à fantasia por lá. Nota-se pela gostosa
vestida de Vampirella ali em frente... Ah, esquece. Aquilo é uma prostituta mesmo e que está vindo
pra cá, inclusive. Alugou um quarto há um mês, se não me engano. Deixou quinze diárias quitadas
logo que chegou. Semana passada, pagou dez. (realmente me sinto na obrigação de pedir todas essas
desculpas por estas coisas que eu digo). Mas lá atrás dela, dentro daquela casa, acontece uma festa a
fantasia, todo final de mês. Eventos movimentados, no geral. O mais esperado do ano é o Baile de
Carnaval. A história que eu quero lhe contar aconteceu num desses, há alguns anos.
Posso dizer, com muito orgulho, que nesta ocasião eu salvei o mundo de uma destruição fatídica.

Já na recepção, a garota estava visivelmente excitada, esfregando os peitos salientes no parceiro e


produzindo o som de bexigas sendo friccionadas. Por sua vez, ele parecia um tanto constrangido com
todo o assédio. Tudo bem, estavam em um motel. Mas aquela ainda era a recepção do motel. O olhar
espantado da recepcionista corpulenta não ajudava. Ela parecia nunca ter visto nada igual à fantasia
daquele casal.
Segurando uma garrafa âmbar de cerveja, a garota estava de vinil preto e lustroso, dos pés a
cabeça. Bonitona, cabelos pretos curtos e pele bem clara. Pelos meus tempos como locadora de
vídeos, soube reconhecer a caracterização de Trinity, do Matrix. Se eu não fosse uma estrutura de
concreto e tivesse mãos, aplaudiria a mulher bêbada! Por isso seus belos peitões (única coisa que
não era compatível com a imagem de Carrie-Anne Moss) faziam o zinque zinque! de bexigas ao
serem apertados contra o corpo do seu parceiro. Porque estavam revestidos de vinil e também
porque a outra fantasia, a dele, conseguia ser ainda mais fantástica...
Quase dois metros de altura. Pele translúcida de um azul profundo, como se fosse feita de gelatina
de groselha azul (desculpe também por esta redundância) ou gel de cabelo com fator de fixação 4.
Tentáculos lovecraftianos ao longo de todo o corpo, sem um padrão de “ah, esse é o tentáculo
superior esquerdo e aquele o inferior direito”. Ele simplesmente tinha todo aquele monte de
protuberâncias, que se moviam lentamente no eixo de sua fantasia. Nem pernas, braços ou pescoço.
Boca nem pensar. Ele era uma massa informe em constante movimento. Na hora não pude adivinhar
como o sujeito lá de dentro podia respirar, com aquela roupa hermeticamente fechada. A não ser que
sua visão e sua respiração funcionassem através daquele único olho negro do tamanho de um melão,
bem no topo da geleia. Se eu também não fosse desprovido de mãos e lábios, o aplaudiria e depois
assobiaria loucamente daquele jeito que as pessoas fazem com os dedos nos cantos da boca...
Inferno, nunca vou saber como é fazer isso!

— Ahn... Período de três horas? — A recepcionista perguntou, os olhos miúdos por cima dos óculos
saltando de Trinity para a Grande Gelatina.
— Isso, isso! — A garota respondeu, ofegante. De dentro da fantasia de seu parceiro, era possível
ouvir uma série de cliques. Por fim, ele repetiu sem muita emoção, em tom monocórdio.
— Isso. Isso.
— São trinta reais.
Zinque zinque dos grandes peitos de vinil, cliques e cloques do ser azul.
— Obrigado. — Ele disse.
— De nada. Agora só falta você pagar, Azulão. — A recepcionista retrucou, cheia de sarcasmo e
impaciência. Todos os malditos casais que saíam daquelas festas a fantasia apareciam por lá
bêbados e, por algumas horas, esqueciam-se de como as coisas funcionavam normalmente.
— Pagar. — Ele repetiu, junto com aquela série de ruídos.
— É, pagar! Cartão de crédito, débito, dinheiro. Essa sua fantasia de gosma tá te impedindo de
pensar?
O mais completo silêncio do rapaz. A garota excitada soltou um risinho tolo, exalando cheiro de
cerveja enquanto falava.
— Vai logo, quero transar e quero fazer xixi. Na verdade, quero fazer os dois juntos...
A recepcionista bateu com a mão na testa. Novamente, se eu tivesse mãos, teria feito o mesmo.
Tenho mais de vinte privadas ao longo de mim e as pessoas querem mijar na cama! Mas a
recepcionista estava cansada de aturar aqueles jovens. Trabalhar de madrugada por uma merreca,
sem adicional noturno, e ter que ouvir aquele monte de besteiras sobre sexo e urina, sexo e fezes,
sexo e bolas de pingue-pongue, sexo e margarina sem-sal. Talvez se voltasse a vender cosméticos
daquele catálogo da Natureba’s conseguisse tirar o mesmo que o seu salário atual...
E então, aconteceu algo extremamente bizarro.
Um dos tentáculos azuis se esticou na direção da mulher atrás do balcão, enrolando-se ao redor de
sua cabeça. O olhar dela pareceu morrer no mesmo instante, ficando estranhamente vago.
— Quarto 206, aqui estão suas chaves. — A recepcionista falou sem emoção alguma, estendendo
um chaveiro com o logo do Seduction’s para outro tentáculo azul do rapaz. Arrematou com algo que
nunca havia dito para os clientes após o atendimento inicial. — Divirtam-se por mim.
Ela liberou o quarto sem receber pagamento algum. Cara, isso me assustou! O que foi aquilo,
sugestão mental num nível estupidamente avançado? Só sei que, quando o tentáculo se desenrolou da
cabeça da dona e o casal se afastou para as escadas, a recepcionista foi deixada a sós com a
expressão abobada. Não sabendo se ela voltaria ao normal tão cedo, voltei minha atenção para a
wannabe de cibergótica bêbada e para o Treco Azul que a acompanhava. Sim, Treco. Cada vez mais,
aquela carapuça de resina e borracha se parecia menos com uma fantasia.

A porta se fechou atrás da garota e ela nem se deu ao trabalho de girar a chave antes de se precipitar
na direção de seu parceiro, com o inconfundível sorriso alcoolizado.
— E agora, hein?
Suas mãos dançaram sobre a pele gelatinosa, e o Treco se enrijeceu. Parecia tenso, o coitado. Os
tentáculos pararam de se mover de súbito, e muitos cliques e cloques se repetiram num ritmo
frenético. Um zumbido de celular em modo de vibração invadiu o quarto e parecia brotar de dentro
da fantasia azul. A voz monocórdia voltou a soar numa pergunta que mal soava como tal:
— O que você está fazendo.
— Tentando tirar sua fantasia, caceta... Onde fica o zíper?
Zumbido novamente.
— Quem é Zíper.
A garota ignorou-o, e exibiu o melhor sorriso malicioso enquanto o apalpava.
— Hummm, faz isso de novo!
Zumbido e nova pergunta sem inflexão.
— Isso o quê.
— Isso! Quando você fala, tudo treme... hic! — A garota soltou as mãos do Treco por tempo o
suficiente para abrir o zíper e expor seus peitos para fora da roupa de vinil. Então encostou os
mamilos rosados na substância azul, ronronando. — Hummm, você é geladinho... Fala alguma coisa.
— O quê — O Treco zumbiu.
— Ai, que delícia! Não para de falar!
Os tentáculos se mexeram rapidamente. Por um segundo pensei que o cara iria tirar a fantasia e
finalmente dar um jeito na garota. Fiquei esperando para ver por onde ele sairia. Mas os tentáculos
pararam novamente e o único olho da coisa se fixou nos peitos que se esfregavam na sua gelatina.
— Me pergunto se esses não são os órgãos que servem para a amamentação das crias de sua
espécie.
— Ah, você é engraçado... uuuuh... Deve ser meio nerd, né? Uuuuh... Não vai tirar a fantasia, não?
— Eu não estou trajando fantasia.
— Entendi, não quer tirar? Tudo bem, fica com ela... Estou gostando de brincar desse jeito, é
exótico... Mas e você, tá gostando do que tá vendo, safado? Hein, canalha?
Sem parar de mexer os peitos para lá e para cá, ela emendou um tapa na gelatina que reproduziu o
som de uma toalha ensopada sendo atirada contra uma parede de azulejos. De minha inerte parte, vi
que era mais uma que gostava de uns tabefes e uns puxões na hora da sacanagem. Mas a real é que o
Treco pareceu se assustar com aquela demonstração de afeto peculiar e um dos tentáculos chicoteou
o rosto da garota. Ela cambaleou até cair na cama, com as mãos no rosto.
— Aaaai... Ah, então você gosta de uma violência, né? — Ela sorriu com a mais pura
perversidade, apertando um peito contra o outro. — Se quiser me comer vai ter que aguentar,
cachorro!
— Não fiz por mal, me desculpe. — O Treco pediu (sem parecer tão arrependido assim)
zumbindo a valer. — De acordo com meu Tradutor e Adaptador Universal de Expressões,
“cachorro” é um animal quadrúpede que vocês terráqueos utilizam para fins domésticos ou para o
preparo de pratos da culinária chinesa. Não consigo compreender sua menção a “cachorro” ao se
dirigir a mim.
Não sei vocês, mas a essa altura eu já estava convencido de que aquilo não era fantasia porcaria
nenhuma. Desculpe estragar o lance e entregar o jogo sem rodeios, mas aquela coisa não era humana,
ok? Estou apenas poupando tempo de sua vida. Se você não acreditar em mim, pode parar de ler
agora mesmo. No caso da garota, ela não estava em condições de pensar em nada a não ser apagar o
fogo que a bebida tinha acendido abaixo de seu umbigo.
— Eu te chamo de cachorro porque eu não sei seu nome ainda. — E passou a correr em círculos
em volta da cama redonda do quarto, enquanto o Treco fugia e falava naquele tom monótono.
— Você não poderia pronunciar meu nome com sua língua.
— Hummm, por quê? Vai ocupar minha boca com alguma outra coisa?
— Meu Tradutor e Adaptador Universal de Expressões não compreendeu a ironia desta pergunta.
A garota finalmente parou de correr em círculos e desabou na cama, emburrada.
— Pelo jeito a gente não vai transar até eu te perguntar o que é essa porra de Tradutor e
Adaptador Universal de Impressões...
— Expressões. — Ele corrigiu, erguendo um tentáculo no ar, como um indicador em riste. — É o
aparelho que permite com que eu fale com vocês de forma praticamente simultânea, traduzindo minha
linguagem para seus ouvidos e vice-versa. Do contrário, vocês só me ouviriam emitindo estalidos
através de meu corpo. Veja...
O Treco enfiou um dos seus tentáculos dentro de seu próprio corpo e remexeu lá por dentro como
se procurasse algo no fundo de uma mochila. Após alguns segundos, seu órgão manipulador emergiu
de sua própria gosma segurando um cilindro metálico, de uns trinta centímetros de comprimento. O
Treco fez clique e cloque, e o aparelho vibrou com força enquanto emitia a voz monocórdia
artificial.
— Este é o Tradutor e Adaptador Universal de Expressões. Ele pode ser configurado em mais de
cinco bilhões de línguas de sua galáxia, só que ainda não pode reproduzir as inflexões e os sinais de
indicação de emoção na voz. De modo que, por exemplo, em uma transcrição hipotética de minhas
palavras para um conto terráqueo pretensioso que misturasse ficção científica, fantasia e erotismo,
minhas falas seriam completamente desprovidas de pontos de exclamação e interrogação. O Tradutor
e Adaptador Universal de Expressões também não traduz nomes próprios. Meu nome, por exemplo,
é...
Houve um rápido farfalhar pelo quarto, seguido do que poderiam ser cinco segundos do áudio de
uma partida da final olímpica do tênis de mesa. É, aquele estalar todo era o nome do Treco.
— Legal. — A garota bocejou, entediada. Até que ela cresceu os olhos em cima do Tradutor e
Adaptador Universal de Expressões. — Posso dar uma olhada nesse negócio? Então era ele que
estava fazendo você vibrar, né?
— Sim, ele mesmo. — O aparelho respondeu, indo do tentáculo azul para a mão da garota. —
Fique à vontade, ele capta os meus estalos num alcance máximo de trinta quilômetros.
— Hum, saquei. Ele vibra forte, né? Vai falando, aí... Me fala um pouco da tua vida. Trabalha
com o quê?
— Eu sou apenas um auxiliar de manutenção bélica da frota estelar do planeta (seguiram-se dois
segundos do que poderia ser chuva de granizo sobre um telhado de zinco) que neste momento mantém
um fragata na órbita de seu planeta para fins de coleta. Como amanhã iniciaremos a destruição do seu
mundo, eliminando, é claro, o fato de que vocês já o estão fazendo o favor de destruí-lo para nós há
um bom tempo, recebemos um dia de folga para conhecer o lugar. Eu sempre vou a festas de planetas
desconhecidos para conhecer um pouco das culturas das civilizações que serão extintas. Desta vez
não foi diferente.
— Ah, entendi... Uh! — A garota gemeu, ofegante. Estava deitada na cama redonda do 206,
segurando o cilindro metálico do Treco com as duas mãos e colocando-o lentamente entre suas
pernas. — Mas fala aí, fala mais! Por que vocês vão... uuuh... destruir aaah... Terra?
— Ah, claro. O meu planeta natal (dois segundos de chuva de granizo no zinco) sofreu com o
declínio total de nossa principal fonte de alimento, uma espécie de cristal líquido que bebemos para
manter o nosso campo corporal rígido e resistente a radiação de nosso sol azul. Temos um vizinho na
borda de nossa galáxia, o planeta (meio segundo de um liquidificador batendo gelo), que produz um
composto químico que pode nos alimentar, mas eles apenas os vendem a preços exorbitantes. Como
eles estão com carência de carbono, nós procuramos planetas que possuam formas de vida baseadas
nestes tipos de compostos orgânicos, cauterizamos o lugar, coletamos o que restou carbonizado,
empacotamos, colocamos em nossas fragatas de transporte.
A essa altura, a garota já estava no quinto orgasmo consecutivo. O Tradutor e Adaptador
Universal de Expressões era o melhor consolo que ela já havia experimentado na vida, mais eficiente
até do que a batedeira de clara de ovos de sua tia. O Treco continuava dissertando tediosamente
sobre a ascensão e a queda das produções dos cristais líquidos no planeta Dois-Segundos-de-Chuva-
de-Granizo-no-Telhado--de-Zinco — e, consequentemente, mantendo a garota de vinil naquele
frenesi incansável. — quando ela, já sem as calças e inteiramente entregue ao seu aparelhinho
alienígena, gemeu em voz alta a seguinte frase que mudou todo o destino de nosso planeta.
— Chupa o meu peito!
O Treco hesitou.
— Você quer dizer, como os rebentos de mamíferos fazem nas tetas de suas progenitoras...
— É, vai logo...
— Qualquer um. — disse a guisa de pergunta.
— Qualquer um, os dois, tanto faz! Chupa o meu peito, caralho!
O Treco ficou surpreso com aquelas palavras de ordem. Sua raça nunca se estressava, nem usava
nenhuma forma de força física de comando a seu favor. No máximo, sugestionavam as mentes de
terceiros com seus tentáculos. Mesmo assim, sentiu-se extremamente tentado a obedecer a garota que
lubrificava e lustrava com afinco seu Tradutor e Adaptador Universal de Expressões.
Ele ondulou até a cama, onde a fêmea terráquea se contorcia e respirava com dificuldade, e
debruçou toda sua massa gelatinosa sobre as curvas que não despertavam absolutamente nada em sua
forma de vida desprovida de prazer sexual. Olhou por duas vezes os seios fartos antes de projetar
para fora de seu corpo o órgão que sua espécie usava para se alimentar do escasso cristal líquido.
Era como um tentáculo, só que mais fino. Ele grudou a ventosa em um dos seios, e eis que a
inesperada sensação inundou seu corpo informe.
A sensação de apetite aberto.
Não, ele não comeu a garota. Em nenhum dos sentidos que você está imaginando. Mas ali, com a
sua espécie de boca sobre um dos peitos da garota, ele teve a impressão de que poderia fartar seu
apetite ali mesmo. Nos seios da mulher.
— Cristal líquido. — Murmurou, sendo traduzido pelo cilindro. Internamente deveria estar
abismado, estalando efusivamente, mas sua voz continuava sem graça.
— O quê?! — Pela primeira vez em muitos minutos, a garota desviou a atenção do brinquedo
sexual emprestado. — Que cristal?
— Seus peitos. Dentro deles. Parecem ser feitos do nosso... cristal líquido.
— O quê, meu silicone? Eu tenho quinhentos mililitros em cada... Escuta, não dá pra você
continuar sugando? Eu estava quase chegando lá pela oitava vez quando você parou pra falar de
cristal líquido...
— Eu posso sugar seu peito.
— Ahn... isto foi uma pergunta?
— Sim.
— Tá, que seja. Vai em frente. Mas vê se fala alguma coisa longa e chata, pra ajudar... Isso!

Bom, se você achou o clímax do meu relato um tanto nonsense, eu explico: o silicone tem
componentes derivados do cristal de quartzo. De alguma forma, o nutriente que eles precisavam tanto
no planeta Dois-Segundos-de-Chuva-de-Granizo-no-Telhado-de-Zinco existia na composição
química de nosso silicone. O que aconteceu é que o Treco sugou com sua ventosa uns duzentos
mililitros de cada prótese mamária da garota, fazendo com que sua caracterização de Trinity ficasse
muito mais realista. Nem dor ela sentiu, estava concentrada demais no que acontecia abaixo do
equador de seu corpo. Então, a boa-nova foi transmitida naquela mesma madrugada para a Fragata de
Destruição que rondava o planeta: a Terra continha o alimento que eles tanto precisavam em Dois-
Segundos-de-Chuva-
-de-Granizo-no-Telhado-de-Zinco. E em abundância! Não precisaria mais ser carbonizada e vendida
em pedaços para os monopolizadores de Meio-Segundo-de-um-Liquidificador-Batendo-Gelo.
Imagino que, aos poucos, travestis, garotas populares e ricaças siliconadas passaram a ser
seduzidas por aí por seres azuis com tentáculos altamente sugestionáveis. Não faltaria futilidade na
Terra por um bom tempo. Também não faltaria insatisfação, descontentamento e vaidade na Terra por
um bom tempo. Logo, não faltaria silicone na Terra por um bom tempo. Fico me perguntando se em
algum momento os alienígenas descobriram que o silicone não precisava ser necessariamente
coletado de peitos...
E se você estiver se perguntando “como esse motel metido a escritor pôde descrever algumas
emoções internas e pensamentos dos personagens?”, aí vai minha resposta: licença poética. Não
passo de uma estrutura de tijolos e concreto, eu sei. Mas saiba que, após tanto tempo sendo o lugar
em que vocês se refugiam em suas horas de trabalho, de lazer, ou de prazer, passei a entender um
pouco como os humanos funcionam. Ou como eles vão lentamente parando de funcionar.
E, sim, sustento ferrenhamente minha opinião de que os salvei da destruição. Queria ver se todo
esse lance de masturbação com artefatos alienígenas e descobertas siliconadas teria acontecido aqui
dentro se eu ainda fosse a Quitanda do Jhony’s. Eu forneci as condições para que aquele casal
inusitado evitasse a aniquilação da Terra. Logo, eu também salvei a Terra. Mesmo assim,
ultimamente, observando a rua e o movimento ensandecido das pessoas no dia a dia, me pergunto se
salvá-los da destruição foi algo realmente sensato. Tenho a ligeira impressão de que a raça humana
já deu o que tinha que dar.
(E me desculpe por isso).
A cópula dos devoradores de mundos Estevan Lutz

Extraído dos relatórios da Christus – Sonda Espacial Autômata Terráquea.

Ano na Terra: 4479

Aproximando-se do sistema estelar HS 2860. Ativando a frenagem dinâmica para reduzir a


velocidade para 12.000 km/seg. Distância aproximada atual do planeta Terra: 1.019 anos-luz. O
sistema é constituído por quatro gigantes gasosos cujos diâmetros variam entre 98 a 179 mil
quilômetros. O segundo planeta mais próximo da estrela possui anéis. Nenhum dos planetas
demonstra dispor das condições básicas para o desenvolvimento da vida inteligente.
Nota: há 67 anos, este sistema dispunha de cinco planetas. Um desapareceu sem deixar vestígios.
O deslocamento para este sistema estelar tem por objetivo estudar as alterações gravitacionais ou
mesmo uma colisão de nível ciclópico que poderá ocorrer em virtude da aproximação de um corpo
celeste que viaja a 2.400 km/seg, prestes a ingressar na gravitosfera do sistema e, neste momento,
encontra-se a 4,34 trilhões de quilômetros do primário. Definição provisória do objeto em questão é
parca: uma estrela negra errante cujo diâmetro pode exceder 687 mil quilômetros.

Ano na Terra: 4508

A definição provisória atribuída ao objeto deve ser descartada. O “corpo” adentrou no sistema.
Estou a 239 milhões de quilômetros dele, em rota tangencial. Varreduras indicam uma irradiação de
táquions e grávitons que emanam da periferia do “corpo” e seguem simetricamente num eixo “Z”,
formando um cilindro cuja extensão atinge 1,9 milhões de quilômetros. O corpo cilíndrico é
perceptível apenas pela irradiação das partículas citadas. Visto a olho nu, é como uma mancha negra
que oculta, por trás de si, estrelas e constelações distantes, à medida que se locomove.
É provável que o “corpo” não pertença a este universo e aquilo que detecto seria apenas uma
distorção residual que ele deixa neste plano. Sua massa visível pode estar em outro nível
dimensional. Teoricamente, seu deslocamento se dá através da manipulação de grávitons. Ele viaja
agora a menos de 1.000 km/seg, e seu curso atual visa atingir o segundo gigante gasoso deste sistema,
o planeta dos anéis.

Ano na Terra: 4510


Acompanho o corpo cilíndrico deslocando-me a dois milhões de quilômetros adiante de sua parte
frontal, viajando a 720 km/seg. Apesar da distância, a atração gravitacional é robusta. A demanda de
energia de meu reator matéria/antimátéria se elevou em 55% para manter a posição atual. No centro
do “corpo”, um ponto luminoso crescente surgiu, irradiando luz branca. O contexto se assemelha a
um pequeno buraco negro em cujo centro a matéria começava a ser, inexplicavelmente, regurgitada
para o nosso universo. Oito meses, na velocidade atual, para atingir o gigante gasoso dos anéis.

Ano na Terra: 4511

Afasto-me seis milhões de quilômetros do “corpo”, mantendo o curso paralelo. Contemplo o gigante
gasoso de 108 mil quilômetros de diâmetro ser tragado com seus anéis e suas seis luas para o interior
da estrutura cilíndrica sombria, através de uma cavidade frontal intangível, indo ao encontro do
núcleo luminoso central e desintegrando-se numa explosão cujos reflexos duraram duas semanas
terrestres. O “monstro” havia se alimentado! As acelerações e desacelerações, bem como trajetória
variável, sugerem que o “corpo” possua alguma forma de consciência.

Ano na Terra: 4512

Em aceleração sutil, o “corpo” traça uma nova rota, descartando qualquer curso de colisão com os
demais planetas e o primário do sistema. Acompanho o deslocamento da estrutura cilíndrica
mantendo-me a onze milhões de quilômetros da mesma, passando sofrer pouca influencia
gravitacional dela. Seguindo a trajetória do “corpo”, meus sensores detectam a 8.9 trilhões de
quilômetros (quase um ano-luz), um segundo objeto, em repouso, com as mesmas características do
“corpo”, como se fosse outro membro da mesma “espécie”. Dada a aceleração atual da entidade
misteriosa que persigo, a interceptação dessa com sua entidade similar se dará em 34 anos terrestres.

Ano na Terra: 4545

Para facilitar as descrições que seguem, batizo o primeiro “corpo” de Alfa e esse que agora que se
aproxima de Beta.
Depois de uma redução abrupta de velocidade ocorrida durante o percurso do último trilhão de
quilômetros, Alfa deu início a um movimento rotacional, invertendo suas extremidades. Ele se situa
agora a 8,2 milhões de quilômetros de Beta. É provável que Beta tenha consumido o quinto planeta
do sistema HS 2860.
Coloquei-me numa posição intermediária entre os dois seres. Eles possuem diferenças irrisórias
em suas dimensões, dada a proporção. Beta possui doze mil quilômetros a mais no diâmetro e 122
mil quilômetros a menos no comprimento.
Alfa demorou sete semanas terrestres para rotacionar 180 graus, invertendo seus extremos.
Enquanto isso, Beta permanece em posição estática, emitindo apenas oscilações de táquions e
grávitons ao longo de sua estrutura negra.
Ano na Terra: 4546

O que registro seria o suficiente para impressionar qualquer pesquisador humano do ramo da
astrobiologia macroscópica. Os dois seres giram em torno de seus eixos longitudinais, completando
uma volta a cada 157 horas, enquanto emitem oscilações harmônicas em suas frequências de táquions
e grávitons. Através dos transdutores, converto as variações em som, e percebo notas graves e
prolongadas a intervalos regulares. Com acordes intermitentes, um ser completa o outro, constituindo
uma sinfonia estelar épica nunca antes verificada em minha missão exploratória. As duas criaturas
interestelares mantêm distância constante entre si, de acordo com os últimos registros. Apenas giram
e cantam.
Presume-se que tudo o que ocorre agora seja o prenúncio de acontecimentos ainda mais
fascinantes.

Ano na Terra: 4548

Depois de interromper a rotação, os dois corpos reduziram a intensidade de seus “cantos”. Alfa
passou a emitir radiações de neutrinos e fótons concentradas na extremidade oposta àquela que usou
para engolir o planeta. Leituras indicam que neste ponto houve redução gravitacional. Um ponto de
anomalia. Beta se movimenta lentamente, como se procurasse um posicionamento perpendicular em
relação ao primeiro. Os dois mantêm pouco mais de 6 milhões de quilômetros entre si. Manipulando
o fluxo de grávitons para evitar uma colisão.

Ano na Terra: 4549

Um súbito disparo de matéria no estado plasmático originou-se no ponto de anomalia de Alfa.


Milhares de esferas caudatas, semelhantes a cometas, com diâmetro aproximado de 1.700
quilômetros, e temperatura de superfície de 7.000°C, viajam, agrupadas, em direção a Beta, a 1.400
km/s.
Acelero em direção ao agrupamento dos pequenos corpos plasmáticos. Entretanto, em virtude de
minha distância, não atinjo uma proximidade razoável para efetuar uma análise pormenorizada.
Depois de uma hora de viagem, as bolhas plasmáticas atingem a zona central da linha longitudinal de
Beta.
Presumo que testemunhei um ato de acasalamento de proporções cósmicas.

Ano na Terra: 5921

Passo os últimos 1.372 anos acompanhando o estado letárgico de Beta. Depois que Alfa expeliu as
incontáveis esferas plasmáticas, ele manobrou e se afastou progressivamente, rumando em direção ao
braço de sagitário da Via Láctea. Meus instrumentos já não conseguem mais captá-lo.
Beta mantém níveis de grávitons baixos e constantes, com poucas variações de táquions. Especulo
se sua letargia pode ser consequência de uma provável gestação.
Ano na Terra: 8291

O processo de renovação das espécies é surpreendente e magnífico, seja em escala microscópica ou


numa escala que até este momento era inconcebível para meus criadores humanos. Beta emitiu
repentinos picos de táquions e grávitons que perduraram por quase mil anos e, depois, lançou por
uma das extremidades dois “pequenos” corpos negros e esféricos, com diâmetro médio de 65 mil
quilômetros cada. Possivelmente, dentro de vários milhares de anos, adquirirão forma cilíndrica.
Beta não emite mais variações de táquions e grávitons e vem se contraindo rapidamente. Talvez
esteja em seu ocaso.
Os dois novos seres seguiram por coordenadas diferentes, numa velocidade constante de 6.500
km/s. É possível que estejam buscando “alimento”: pequenos asteroides e meteoritos.
Se o universo fosse um oceano, esta seria a descoberta das baleias, enquanto que a humanidade
representaria uma colônia de bactérias que proliferou sobre as escamas de um peixe minúsculo.
Dança de Shiva Rubem Cabral

No dia em que a conheci, pouco mais que uma adolescente, fiquei fascinado por sua beleza exótica e
presença arrogante. Fingindo testar o tradutor, perguntei seu nome. A resposta resultou intraduzível.
O som, humanamente impossível de se repetir. Inspirado na mitologia hindu, chamei-a de Nataraja, a
dança de criação e destruição do universo composta pelo deus Shiva — a mudança necessária ou
inevitável, a força que não se pode resistir.

Um filete cristalino de suor desceu o vão gracioso das costas da vedaniana, borbulhando magnésio e
gás carbônico em seu caminho, fervendo quimicamente em contato com o ar e minha própria
transpiração, perdendo-se então na penumbra, que escondia elegantemente suas nádegas perfeitas e a
longa cauda serpenteante.
Rocei o nariz em sua nuca e a pele acetinada recendia agora a uma mescla de canela e baunilha,
embora ela não usasse perfume algum e, apenas há cinco minutos, o quarto inteiro cheirasse a um
mélange de rosas, bergamota e eucalipto. Seu cabelo-penugem cor de mel começou a se eriçar e a
azular, enquanto sua tez transitava do vermelho-cereja ao marfim. Agilmente, Nataraja virou o corpo
esguio, sem permitir que eu escapasse do abraço de sua carne. Então me vi, suado, extasiado e
exaurido, refletido naqueles enormes lagos multicoloridos e instáveis, que cumpriam o papel de
olhos. Ela ronronou alguma coisa em meu ouvido, em seu idioma dificílimo de se entender, cheio de
chiados, agudos e graves acima e abaixo do espectro audível, estalos de língua, vogais nasais e
outras sopradas através das pseudoguelras de sua testa. Eu já sabia de cor o que aquele som
significava e obedeci: “agora, mais rápido”.
Então, sua pele alva tornou-se negra como ébano e depois dourada. Seus olhos explodiram em
cores, feito um caleidoscópio lisérgico. Ventosas em seu abdome se agarraram tenazmente à minha
cintura enquanto sua língua agridoce brincava em minha boca. Dentro de Nataraja, eu percebia a
massagem de músculos fortes, tentáculos carinhosos diminutos, fluidos e calor. Ah, um calor quase
cruel, capaz de provocar sensações impossíveis, agonizantes até, de tão prazerosas. Sensações
intensas, capazes de me fazer suplicar pelo fim daquele martírio delicioso e, ao mesmo tempo, de
matar quem nos ousasse interromper. Por fim, já no limite das minhas forças, seu gemido rouco fez os
vidros das janelas vibrarem e meu coração pareceu arrebentar no peito. Minha cabeça pendeu e
desfaleci, exausto como nas cinco vezes anteriores naquela noite.

Despertei só, com o sopro marinho refrescante das muitas janelas que ela certamente abriu quando se
levantou. As luas Deva, Brahma, Vishnu e Shiva brilhavam no céu noturno esplêndido. Cada satélite
com sua particularidade. Brahma, a maior e a mais próxima, com cinco vezes o diâmetro aparente da
Lua terrestre, fulgurava cheia em sua majestade de prata. Shiva, pouco acima da linha do horizonte e
a leste, cintilava rubra e sinistra com vulcões muito ativos e rios de enxofre e óxido de ferro.
Pequenas moedas de azul-cobalto, de onde as mineradoras terrestres extraiam metais raros, Vishnu e
Deva estavam na fase crescente e coloriam as águas quase infindas do Oceano Ocidental conforme se
elevavam. Ganesha, Rama e Krishna estavam seguramente na fase de lua nova e, portanto, ainda
invisíveis no firmamento.
Assim eram as noites incríveis de Veda, segundo planeta do sistema Sigma Draconis, anã
amarelo-alaranjada, também conhecida como “Alsafi”. Nunca tive intenção de passar mais do que
um ano aqui, pesquisando a cultura dos vedanianos primitivos e pacíficos, mas o planeta já iria
completar sua terceira rotação completa ao redor do seu primário e eu não pensava em partir. Quem
poderia cogitar retornar enquanto se tinha Nataraja?
A alienígena linda retornou ao quarto, vestindo um robe que parecia feito de asas de libélulas
entrelaçadas com algas verdes e moles. Trazia nas mãos uma cuia de Go’par, um caldo frio de
vegetais nativos fermentados. Sob aparência normal, como então, apresentava o porte de uma humana
alta e pele e cabelos levemente prateados. O rosto exibia dois olhos muito grandes e redondos,
narinas discretas sem propriamente um nariz e lábios finos, que escondiam dentes alvos, planos e
selados entre si. Não sei exatamente o porquê, mas os pioneiros humanos acharam os nativos
semelhantes às figuras dos deuses hindus e batizaram o planeta e suas luas usando elementos de tal
mitologia.
Nataraja falou algo e, claro, não entendi. Estiquei o braço e alcancei o protótipo do tradutor que
eu ajudara a desenvolver; capaz de analisar sons numa gama muito mais ampla e detectar mudanças
sutis de cheiros, gestos e expressões faciais.
— Repita, por favor. — Eu disse ao aparelho, que projetou no ar um holograma gesticulante,
enquanto chilreava, estalava e aspergia compostos voláteis no ar.
— Yoshio, meditei muito e penso que não está funcionando. Preciso ir embora. Exijo retornar a
meu povo.
— Mas, por quê? — Gaguejei, chocado pela surpresa. — Não, não! Querida, você não percebe o
quanto eu a amo?
— <Sequência intraduzível de chiados guturais>! Amor é para os filhotes e somente enquanto eles
não podem se alimentar sozinhos. Você não precisa de mim e necessito de sexo de verdade, do tipo
que possa me ajudar a gerar minha descendência e fazer meu corpo cantar. Isto que fazemos é bom,
mas é vazio. Exceto pelo conforto, não há aqui nada daquilo que você me prometeu.
O tradutor ainda precisava de alguns ajustes e tendia a melhorar a prosa dos selvagens. Não
acreditava que os nativos tivessem um vocabulário tão rico. Expressões intraduzíveis ainda
ocorriam, decerto resultantes de alguma nuance do gestual ou mínima diferença química que teimava
em escapar à programação.
— O que eu posso fazer, para que você mude de ideia?
— Desejo filhos, muitos filhos. Em breve chegarei ao <intraduzível>. Crianças bem mestiças,
feito as que você me disse que eu teria consigo. Traga-me um neutro e um varão bem diversos e
concordarei em permanecer outro ciclo aqui com você. Recuse — ela elevou a cauda, que terminava
num grupamento de esporões venenosos, tocando o próprio pescoço — e serei forçada a abreviar
minha estadia neste plano e seguir para a Tribo de Sh’lef.
Vedanianos não mentiam, nunca. Acreditavam também, com toda a convicção do mundo que,
quando morressem, ingressariam na Tribo de Sh’lef, a eterna. A deusa apenas exigia uma morte
honrada e o suicídio numa prisão era considerado honrado. Descobrimos isto a duras penas, quando,
nos primeiros contatos com os nativos, alguns indivíduos foram capturados para estudo. Também
demoramos a descobrir que a espécie possui três sexos e enorme dimorfismo entre eles. Sua
sociedade era matriarcal, pois os machos, os tais “varões”, eram estúpidos e imensos, mais
preocupados com a defesa da tribo e a caça do que com qualquer outra coisa. No início, chegou-se a
pensar que eram feras domesticadas, empregadas como escravos. Ainda mais bizarros eram os
misteriosos e esquivos “neutros”, criaturas grotescas e atarracadas, que viviam isoladas nas selvas.
A diferença de proporções entre macho e fêmea não possibilitava a cópula e, por conseguinte, a
reprodução. Os neutros, segundo nossa visão, constituiriam tão somente a combinação esdrúxula de
uma vagina enorme de um lado e de um pênis de proporções menores do outro. Talvez tivessem
algum outro papel, quem sabe na preparação dos gametas, mas depois que estabelecemos contatos
amigáveis com as vedanianas, jamais cederam um macho ou um neutro para estudos.
Suspirei, desolado: eu deveria bastar. Naturalmente eu mentira para ela sobre a possibilidade de
reprodução. Seria mais fácil cruzar uma água-viva e um elefante, pois ao menos ambos possuem
DNA terrígena. Sem vislumbrar solução, respondi:
— Está bem, venha comigo e podemos trazer um neutro e um varão que lhe agradem. Você não
tentará fugir?
— Não tentarei. Lembre-se, Yoshio: eles deverão ser bem diversos.
Havia quase uma compulsão entre os vedanianos sobre diversidade genética. Fêmeas às vezes
migravam por semanas, até encontrar um neutro e um varão que atendessem seus requisitos exigentes.
A análise da hélice tripla, o complicado código genético da espécie, realmente demonstrou pouca
variação. Talvez tenham sofrido um cataclismo no passado e os poucos sobreviventes constituíam
uma população em que todos eram mais ou menos parentes em algum grau.

Deixamos a casa e nos dirigimos ao pequeno scramporto que ficava nos fundos do posto de
observação, no alto de um penhasco. Vivíamos reclusos na ilha Apasmara, a maior do arquipélago,
as únicas terras emersas deste hemisfério. No outro lado do planeta, ficava o supercontinente
Trimurti, tão grande quanto cinco Ásias. Como os vedanianos se originaram em Trimurti e em termos
de tecnologia ainda estavam no correspondente à Idade do Bronze, simplesmente não tinham
conhecimento da existência destas ilhas.
Entramos no scramjet de carga. Instrui oralmente o computador de bordo sobre nosso destino e,
mantendo a aceleração constante, subimos até a estratosfera, atingindo velocidade de cruzeiro Mach
doze. Circulamos o grande globo azul, quase duas vezes maior que a Terra, observando a linha do
dia cortando o oceano abaixo em tons solares e arroxeados.
Iniciei a descida no extremo oposto do continente, já sob a luz matinal do primário, cerca de
cinquenta mil quilômetros da aldeia natal de Nataraja. Acionei o bioscanner para localizar
assinaturas de vedanianos e não tardei em encontrar uma tribo próxima de um lago e cercada por
mata virgem.
Reconfigurei a aeronave para aterragem vertical e descemos numa clareira nos limites da vila de
choupanas coloridas, enfeitadas por flores simbióticas enormes. Inúmeros varões, alguns com mais
de quatro metros de altura e grandes presas que brotavam de seus maxilares inferiores, vieram
celeremente em nosso encalço, munidos de clavas e lanças, gritando brados inaudíveis, seguramente
abaixo dos vinte hertz.
Nataraja saiu comigo da aeronave e saudou os estrangeiros, que prontamente se tornaram
amistosos. Meu tradutor demonstrou-se completamente incapaz de registrar as palavras dos machos
ou dela.
— Em que idioma você está falando? — Sussurrei.
— Baixalíngua, naturalmente. O idioma dos varões. É muito simples e fácil. Já se nasce sabendo.
A fêmea observou, satisfeita, inúmeras características distintas nos varões daquela vila: seus
cabelos tinham um raro tom alaranjado e todos ostentavam listras azuladas discretas sobre os ombros
poderosos.
Nataraja caminhou entre os machos, apalpando suas pernas largas como troncos e examinando,
sem constrangimento algum, o estado de seus genitais sob as tangas. Terminou por selecionar um dos
maiores do grupo, um indivíduo jovem, que tinha muitas cicatrizes de antigos embates no peito e
testículos grandes como melões.
— Vamos! — Ela me disse, animada. — Precisamos pedir permissão às líderes e comprar este
aqui.
Negociamos o varão por alguns lasers de baixa intensidade, que impressionaram muito as fêmeas
pela facilidade em causar a combustão imediata de madeira.
— Agora, um neutro! — Ordenou.

Ao norte dali, numa área de florestas densas, identifiquei um rebanho de neutros pastando junto à
margem de um rio. Através do visor observei as criaturas estranhas: os traseiros altos, encimados
por vaginas intumescidas e os pênis sem testículos pendentes na dianteira, sendo essa parte muito
mais baixa. Assemelhavam-se a batatas com pernas e braços, inclinadas de forma a permitir o acesso
a varões e fêmeas em suas extremidades. Para mim, pareciam muito mais desenhos infantis mal-
acabados. Não entendia como fêmeas elegantes podiam ter relações com tais animais.
Nossa presença foi percebida e o bando se refugiou num bosque de árvores-de-couro, gemendo
avisos de perigo com suas vozes musicais.
Novamente, a presença de Nataraja trouxe a calma e logo, timidamente, os neutros se
aproximaram.
— É preciso pedir ao líder do grupo por autorização. — A vedaniana comentou, cantando feito
um rouxinol ao falar com os neutros.
Uma das criaturas bizarras, talvez a maior do grupo e com raros olhos dourados foi a escolhida.
Já sem medo algum de mim ou do varão, lambeu meus dedos com a língua áspera e roxa, piscando os
olhos inocentes, roçando a pele seca em minha perna e eriçando a cauda, exibindo a vagina púrpura e
cheia de filamentos, que exalava um odor frutado.
— Já estamos quase prontos. Só preciso de algum musgo azul. — Ela fez um gesto e falou algo
que não consegui ouvir e o varão se apressou em sumir nas matas, retornando minutos depois com
pelo menos cinquenta quilos daquela planta esponjosa. — Leve-nos agora, Yoshio! — Exibiu um
sorriso que quase a tornava humana na aparência.
De volta à casa, cedi um hangar vazio e o neutro e o varão começaram a forrar o piso com a tal
planta macia. Feito um ruminante, o neutro mascava o musgo delicadamente, produzindo uma espécie
de gel com odor de menta e almíscar. Incomodado pela ideia de ver minha amante deliciosa
envolvida com aqueles animais, somente por dever como pesquisador, deixei algumas câmeras
ligadas e um tradutor, para registrar os detalhes dos rituais de acasalamento da espécie e me dirigi à
porta, para esperar do lado de fora até que aquilo tudo acabasse.
Antes que eu saísse, Nataraja me abordou, segurando-me pelo braço com força.
— Onde pensa que vai, Yoshio? — Ela indagou, quando senti uma picada nas costas e notei sua
cauda retornando à posição de repouso.
— Você me picou! Está louca? Meu Deus, sabe-se lá o que isto pode fazer comigo! Vou morrer!
Por quê? Por...
— Já conheço muito da sua química. Você não irá morrer.
O mundo começou a girar e eu senti um calor ígneo, descendo pelo ventre, subindo pelas pernas e
se acumulando no meu pênis. O varão me ergueu no ar e Nataraja me arrancou as roupas. Antes de
desmaiar, senti orgulho: nunca estive tão viril em minha vida.
O que se seguiu foi uma espécie de pesadelo sensorial, de cores estouradas, resfôlegos úmidos,
sensações cálidas de dilatações lubrificadas e mais, mais calor.
Em meu delírio, vi-me em pelo e flutuando numa espécie de névoa rosada. Distante, quase
imperceptível, junto à linha do horizonte, notei uma mulher se aproximando. Os cabelos esvoaçantes,
os seios redondos e pequenos, as ancas largas, o rosto de traços finos, quase uma figura
renascentista. Raios dourados brilhavam sobre a cabeça, a voz maviosa encantava e excitava.
Levantou um dedo, fazendo um gesto de apontar para o céu e depois em direção à sua gruta escura,
enfeitada por cabelos castanho-avermelhados. “O céu é aqui”, eu pensei.
Despertei nu, o rosto afundado naquela substância azulada gelatinosa, o pênis sangrando, ereto e
muito maior que o tamanho normal. Nataraja e o varão haviam desaparecido. O neutro estava morto.
Jazia caído de lado, com as mãos pequenas entrelaçadas e uma expressão beatífica no focinho.
Procurei por toda parte e descobri que o scramjet de carga fora roubado. Isto era um absurdo! O
computador de bordo só responderia aos comandos de minha voz! Como conseguiram?
Tremendo, retornei ao hangar, recolhi as câmeras e transferi os arquivos para o computador. O
software fundiu as gravações num único holoarquivo. Temendo pelo que veria, ativei o holorregistro.
A alienígena narrava, não em baixalíngua ou em notas musicais dos neutros. Ela sabia que estava
sendo filmada e empregava sua própria língua, quase didaticamente:
— O varão possuirá o neutro.
Com o falo ereto da grossura e comprimento de uma coxa humana, o gigante gemia inaudível
enquanto o neutro cantava e o recebia sem muito esforço. Não eram agressivos, não agiam como
animais. Havia entrega ali, havia conhecimento sobre o que fazer. Havia também prazer.
— O neutro irá preparar a semente. É um grande esforço e um sacrifício nobre.
Já separada do colosso que quase a empalou, a criatura era sacudida por movimentos
espasmódicos, mexendo todo o corpo enquanto mudava de cores e cantava tristemente. Rolou no piso
macio por alguns minutos, choramingando, provavelmente sentindo dor. Levantou-se pouco depois,
aparentemente recobrada.
A visão do que veio a seguir, me fez gelar os ossos.
O macho me segurou pelos braços e eu, inconsciente, mas absolutamente alerta da cintura para
baixo. O gigante me ergueu, o neutro tomou posição e eu penetrei a criatura, que depois me sustentou
com tentáculos que saíram de sua genitália e se enrolaram ao redor de minha cintura, movimentando-
me para frente e para trás. Apesar da repulsa que o ato me causou quando assisti o holorregistro, uma
parte perversa do meu cérebro se deliciou com tudo aquilo, decerto uma lembrança tátil, de prazer
que marca a carne e o espírito, que revoltava e excitava em proporções idênticas.
Pequenos choques elétricos arrepiavam a pele do neutro e subiram até meu corpo, fazendo-me
tensionar todos os músculos, num misto de agonia e êxtase. Quando aparentemente cheguei ao
orgasmo, a criatura se apartou de mim, gritando a plenos pulmões, batendo com a cabeça contra as
paredes cobertas de gel azul.
— A pré-semente é diversa demais. Pode ser que o esforço seja demasiado.
Como se houvesse sido injetado com ácido ou metal derretido, o animal se revirou no chão, os
olhos amarelos arregalados, a pele trocando de cor, a língua pendente em meio à espuma de saliva
misturada com sangue.
Depois, tombou de lado, lamentando baixinho com sua voz musical e agitando as pernas e os
braços desproporcionais.
Nataraja se deitou nua junto dele, acarinhando-o e falando mansamente em sua língua. Encaixou-se
sob a dianteira da criatura e a picou algumas vezes com a cauda, causando uma ereção enquanto o
animal morria.
Minutos depois, levantou-se, sem se preocupar sequer em cobrir sua nudez.
— Aprendi muito consigo, Yoshio Yamada. Você me faltou com a verdade, logo é justo que eu o
faça também. Não permanecerei outro ciclo com você.
O último registro da câmera mostrou-a deixando a sala, encarando a lente e fazendo um gesto que
ela aprendeu comigo: “Adeus”.

No dia seguinte o scramjet foi recuperado por uma equipe da lua Vishnu. Apesar dos esforços dos
operativos, Nataraja não foi encontrada.
O inquérito que se seguiu e minha confissão sobre o relacionamento com a vedaniana, resultaram
em meu desligamento e imediata deportação de volta à Terra.
Sessenta anos depois — três anos somente, no tempo comprimido da nave, enquanto estive em
animação suspensa — soube de notícias preocupantes sobre Veda.
Novos indivíduos, de olhos rasgados, muito agressivos e ardilosos, capazes de mentir, emboscar,
matar e articular com perfeição frases inteiras em idiomas terrestres, estavam dominando e ganhando
territórios. As autoridades coloniais se encontravam divididas sobre a necessidade de intervenção.
No entanto, o roubo de vários scramjets e a morte de alguns cientistas num ataque surpresa acirraram
as posições, fazendo com que os pacifistas clamassem pelo abandono do planeta e os belicistas
exigissem a erradicação das tribos agressivas.
Na Terra, entreguei-me à bebida e aos prazeres mundanos, embora tudo parecesse mera sombra
do que experimentei com Nataraja.
Jamais entendi os detalhes do ocorrido, se fui usado desde o inicio ou se corrompi uma espécie
inocente e íntegra com minha falsidade. Às vezes, me pego olhando o céu sem graça do nosso
planeta, a Lua solitária e pequena, as estrelas ofuscadas pelas luzes das metrópoles. Nestes
momentos sinto saudades das sete luas, do tempo em que me senti um homem completo.
Se em algum lugar, os velhos deuses hindus ainda detiverem algum poder e aceitarem preces, rogo
por minhas crianças e por seu mundo, peço que me perdoem a herança com que os contemplei.
Peço também, embora saiba impossível, que eu possa um dia voltar a desfrutar do corpo de minha
deusa, mesmo que apenas um pouco — não! — um muito mais.
A Ilha dos Amores Ana Cristina Rodrigues

O ambiente enfumaçado da taberna refletia o exterior. Do lado de fora, a névoa se erguia do Tagus,
envolvendo o porto de Olissipona em uma nuvem fria e úmida. Vaz de Castro olhou pela janela suja
e agradeceu aos deuses por estar ali, aquecido. Só lamentava a companhia. Dom Recaredo, Conde de
Barcelona, havia feito uma proposta e cumpria responder se aceitava ou não.
Estava tentado a recusar, mas uma parte de si lhe dizia que o nobre não iria encarar uma negativa
de bom grado. Desagradar um homem que tinha relações de parentesco com a Casa Imperial poderia
lhe custar caro. Principalmente se ele também fosse um alquimista renomado, como era o caso.
— Meu caro Conde, o senhor bem sabe que essa rota é proibida. O Imperador já avisou que não
há perdão para quem atravesse as Colunas de Héracles e tente chegar ao Continente pelo Mar
Interior.
Com a cabeça escondida por um chapéu que não fora retirado ao entrar, seu interlocutor bateu de
leve na mesa.
—Já pedi para não me chamar assim enquanto estivermos em terra. Não posso ser descoberto.
— Como quiser. Mesmo assim, a viagem é proibida.
— Essa carga tem que chegar a Florentia antes do Solstício.
— Impossível, faltam menos de duas semanas. Só um mago poderia garantir isso.
O outro ergueu a voz, irritado, chamando a atenção dos outros ocupantes da taberna.
— E você realmente acha que eu sou tão ignorante assim? — Percebeu os olhares incomodados e
voltou a sussurrar. — Se eu pudesse chamar um mago para fazer o transporte não estaria aqui,
conversando com você, um contrabandista!
A resposta veio em um tom frio e baixo.
— Veja bem com quem você está tratando, Dom. Nobre ou não, ninguém ofende Vaz de Castro
assim.
Ele praticamente rosnou por cima da caneca de vinho que estava bebendo.
— Sou primo da Imperatriz, você não pode me ameaçar assim.
— Mesmo? Pois então, decerto sabe muito bem o que o Imperador Dom Diniz faz com quem não
cumpre a lei. Aliás, não foi um primo seu que foi sacrificado mês passado como punição por seus
erros?
O silêncio entre eles perdurou por alguns minutos desconfortáveis, em que Vaz esvaziou sua
caneca e pediu outra. Quando foram deixados novamente a sós, o conde voltou a insistir.
— Você vai levar a mercadoria ou não?
— Por esse caminho, não. O senhor sabe muito bem que a passagem pelas Colunas de Héracles é
proibida a navios sobre ordem do Imperador. Se quiser, podemos ir pelo mar das Astúrias e cruzar o
canal dos Pirineus, mas isso vai levar muito mais do que duas semanas.
O tilintar de um saco cheio de moedas de ouro chegou aos ouvidos do capitão enquanto Dom
Recaredo o balançava.
— Eu pago muito bem.
O dinheiro trocou de mãos e o Vaz sopesou o saco em silêncio.
— Isso é pouco.
— Chegando a Florentia, irá receber o dobro. Quanto mais cedo chegarmos, mais moedas.
Demorou algum tempo para que o capitão se decidisse.
— Esteja a bordo do Tágide à meia-noite, Conde. Sem atraso ou o acordo está desfeito.
Recaredo estendeu a mão para receber o saco de volta, mas num movimento rápido o marinheiro
guardou as moedas.
— Isto fica como garantia.
— Até mais ver, Capitão.
O Conde de Barcelona se levantou e saiu para a noite enevoada. Vaz de Castro permaneceu
sentado, considerando o que tinha acabado de fazer. Chamou uma das prostitutas que ocupavam a
taberna e resolveu aproveitar a noite. Ele não percebeu que, pouco tempo depois da saída do nobre,
outra pessoa abandonou o calor do estabelecimento.

— Achei que tinha desistido, Conde.


A luz das lanternas inundava o convés do navio. O capitão tinha o rosto avermelhado e coriáceo
de quem passava tempo demais ao sol. Corpulento, de estatura baixa e roupas gastas, fazia um
contraste marcante com seu passageiro. Dom Recaredo, Conde de Barcelona, era um homem alto e
esguio. Sua palidez era típica de quem raramente saía à luz do sol. Vestia-se de forma simples, todo
de negro, mas em tecidos finos.
— Você precisa aprender a respeitar seus superiores.
— E você precisa ser realmente superior a mim para pedir tal cousa. — O marujo apoiou
sutilmente a mão no punho da espada que levava à cinta.
Apesar da expressão carrancuda, o nobre não mais retrucou. Preferiu retomar a conversa como se
aquela troca de palavras duras não houvesse ocorrido.
— Está tudo pronto?
— A tripulação está toda a bordo e temos suprimentos para ir até Florentia. O senhor tem certeza
de que é isto o quer fazer? Podemos tentar fazer esse tempo indo pelo canal dos Pirineus...
O rosto do Conde de Barcelona se fechou e algo em sua expressão fez até mesmo o capitão
arrogante recuar um passo.
— Não podemos tentar nada, Capitão. Deixei esta questão bem clara. Cumpra o que acordamos e
não me incomode mais com isso.
Vaz de Castro simplesmente assentiu com a cabeça. Muitos falavam que o conde era um mago
oculto, um necromante que praticava artes mágicas banidas do Grande Continente. Não se arriscaria
a enfrentá-lo — ou mesmo contrariá-lo. Trocar palavras hostis era uma coisa, desafiar abertamente
um necromante era algo bem diferente.
As ordens para zarpar foram dadas em voz baixa. Não era proibido sair do porto de Olissipona à
noite, mas era incomum. Os navegantes do Tágide evitavam despertar demasiada atenção, navegando
com o máximo de silêncio possível. Por causa daquela calmaria, um clandestino foi encontrado.
Quando o vento frio do fim do outono invadiu o tombadilho, os olhos atentos do capitão perceberam
uma sombra movendo-se junto ao cordame do mastro principal.
Sem bradar um alerta ou fazer barulho, foi até lá e viu uma criança encolhida, perto das cordas de
reserva. Coberta com uma lona, provavelmente julgou que passaria despercebida até estarem em
alto-mar. Vaz ajoelhou-se perto da figura e falou, tentando não despertar a atenção dos outros
tripulantes.
— Quem é você e o que faz em meu barco?
Como não obteve resposta, puxou a lona e, à luz fraca do convés, logrou distinguir feições miúdas
e dois olhos que brilhavam, cheios de lágrimas.
— Se não me responder, irei lançá-lo ao mar agora mesmo. Ou talvez o dê para meu amigo, o
necromante, brincar um pouco.
A ameaça surtiu o efeito desejado e o clandestino começou a falar.
— Desculpe, Capitão. Eu estava ontem limpando o chão da taberna e ouvi a conversa. Sempre
quis saber o que há para além das Colunas. Não possuo família ou casa, nada a perder, pensei que
poderia entrar no navio e me revelar depois que já estivéssemos em alto-mar.
— Se queria vir conosco, podia ter se apresentado. Alguém do seu tamanho não come muito e
pode ajudar esfregando o convés. — Ergueu-se e estendeu a mão, já que não percebeu movimento do
menino para se levantar.
— O senhor não entende. Se eu pedisse, o senhor não iria deixar.
Com os olhos acostumados com a semiescuridão daquela parte do navio, Vaz reparou melhor na
criança. Foi quando percebeu que não era uma criança e muito menos um menino, mas uma moça,
muito jovem e miúda.
— Não posso levar você comigo. Os marujos acreditam que mulher a bordo traz má sorte e os
deuses sabem que já temos muito com o que nos preocupar.
Ela se ajoelhou, as lágrimas riscando o rosto.
— Por favor, Capitão, eu imploro! Prometo não causar problemas e trabalhar como qualquer um
dos seus homens. Não quero ficar aqui.
Vaz de Castro não era considerado um homem generoso ou sensível, mas era justo. Não tinha
muito a perder se a garota ficasse, desde que ela escondesse seu sexo e não se metesse em sarilhos.
— Você terá que trabalhar como qualquer um dos meus homens. Não posso tratá-la diferente ou
vão perceber tudo. E se descobrirem, afirmarei que não sabia. Você concorda com isso?
— Sim! — Ela quase gritou de alegria, mas reprimiu a manifestação a tempo.
— Qual o seu nome?
— Joana da Ribeira.
— Pois bem, agora é João da Ribeira. Durma bem porque amanhã você tem um dia de trabalho
duro pela frente.
E assim, o Tágide ganhou mais um tripulante.

Dois dias navegando pelo litoral lusitano sem maiores incidentes aliviaram os temores de Vaz de
Castro. Não havia perseguição ou sinais de que havia algo errado. O céu estava azul, o vento soprava
e o mar estava calmo. João da Ribeira tinha se adaptado rápido, mesmo que os outros tenham
reclamado de seu silêncio e isolamento. O capitão mandou deixarem o novato de lado e irem cuidar
de seus afazeres. Quanto menos falassem com ele, melhor. Depois que chegassem a Florentia, teria
que decidir o que fazer com o impostor. Contemplaria essa questão mais tarde.
Graças a todos os deuses, o conde permaneceu em sua cabine desde a saída do porto de
Olissipona. Os marujos gostavam de sua companhia tanto quanto o capitão e se sentiam
desconfortáveis na presença do alquimista. Com o nobre fora do convés, tudo estava correndo bem.
Bem demais.
No fim da tarde do segundo dia, avistaram as Colunas de Héracles no horizonte. Eram formações
rochosas, separadas por um grande braço de mar. As lendas afirmavam que o semideus grego teria
separado a ilha da Hispânia do Continente Sul para fugir de uma serpente imensa. Ao fazer isso,
criou duas montanhas gigantescas, uma de cada lado, separando o Oceano do Mar Interior. A
travessia por entre as duas pedras era complicada, mas sem grandes perigos para um navio como o
Tágide, com seu capitão experiente e uma boa tripulação. No máximo, poderiam encontrar piratas,
que não se atreveriam a atacá-los tão perto do litoral do Império.
O problema viria depois.
No momento em que Vaz de Castro estava no leme, ajustando a rota para evitar correntes que os
arremessassem contra as rochas, Dom Recaredo emergiu de sua cabine.
— Onde estamos?
— Nas Colunas. — Com um aceno de cabeça apontou às formações rochosas. — Se continuarmos
com tempo bom e sem outros problemas, chegaremos um dia antes do prazo, senhor.
O conde se aproximou da amurada do navio, observando a paisagem que se descortinava perante
seus olhos. Reparou que os tripulantes também olhavam, boquiabertos e temerosos. Somente um
encarava toda aquela majestade com real deslumbramento, absorto nas paredes de pedra que os
cercavam. O Tágide passava exatamente no meio e mesmo assim elas se estendiam gigantescas,
quase fechando o céu.
— Impressionante, não é? — A visão o tornava mais aberto a compartilhar impressões com um
marujo. Esse simplesmente assentiu com a cabeça, os olhos vidrados. O conde o olhou com atenção.
Era baixo e tinha o rosto fino, de traços delicados e imberbe. A pele debaixo da sujeira ainda era
branca, mostrando que tinha passado pouco tempo no mar, os cabelos estavam escondidos por uma
boina basca.
Prestar atenção naqueles detalhes despertou nele uma vontade a muito encerrada dentro de si, por
companhia e paixão. Geralmente apreciava homens mais velhos, que soubessem retribuir o prazer
com perícia. Mas ali, entre dois mares, em meio a homens embrutecidos liderados por um capitão
ganancioso, o jovenzinho poderia ser um alívio bem-vindo.
Foi até Vaz de Castro.
— Capitão, preciso de um serviçal em minha cabine. Espero que não se incomode se eu escolher
um tripulante para me atender.
O sorriso do capitão era claramente de deboche ao pensar em alguns dos seus brutos servindo ao
conde delicado. Naquele momento, havia esquecido de João da Ribeira.
— Claro, cumpre tão somente escolher um ao seu gosto.
— Pois bem. Rapazinho, venha comigo!
Quando Vaz percebeu o que tinha acontecido, já era tarde. Não tinha como retrucar, pois que já
havia autorizado. Se dissesse qualquer coisa, teria que falar da condição de João e não sabia como o
nobre iria reagir. O preconceito contra mulheres a bordo era arraigado até mesmo entre pessoas bem
nascidas.
João aproximou-se devagar, olhando desconfiado para os dois homens.
— João, o senhor conde precisa de si na cabine.
Os olhos arregalados, o jovem tentou se explicar, a voz muito baixa.
— Mas... não terminei o meu serviço, Capitão. Preciso...
Dom Recaredo o interrompeu:
— Meu jovem, não se deve relutar em obedecer uma ordem.
— Eu... não posso.
O capitão estava quase interferindo quando o navio emergiu de entre as Colunas. À frente deles, o
Mar Interno, espalhando-se por quilômetros infindos. Lograram ver as duas costas muito distantes,
um testemunho do quão altas eram as montanhas pelas quais passaram. Vaz de Castro aproveitou a
oportunidade.
— Olhem, estamos no Mar Interno.
O pôr do sol coloria as águas calmas com um estranho tom rosado e o silêncio tomou o convés.
— Não vejo nada demais, não entendo a proibição de navegar nestas águas.
— Há histórias de monstros e perigos terríveis, mas o Mar Interno tem monstros em vários pontos
e isso não faz o Imperador proibir a navegação. Mantendo a velocidade, amanhã de tarde estaremos
já além de Barkeno. A partir daí, singraremos por águas conhecidas.
O conde sorriu.
— Sim, estamos indo bem, dentro do planejado. Está fazendo um bom trabalho, Capitão. — O
homem fez uma vênia ligeira, entre agradecido e debochado.
Para alívio do capitão, o nobre parecia ter esquecido de João e seu desejo de tê-lo como serviçal.
Vaz de Castro sabia muito bem que tipos de serviços o conde almejava.
Estava pensando no que dizer para enfiá-lo de novo na cabine quando João deu um grito.
— O que é aquilo, no céu?
Os outros pararam para olhar na direção apontada. Uma mancha ainda informe sobrevoava a
embarcação, tão alto que era impossível distinguir o tipo de ave.
— Não me parece uma gaivota ou qualquer outro tipo de pássaro marinho. — O capitão tentava
discernir a criatura à luz do crepúsculo. Logo, outra mancha se juntou e ficaram as duas rodeando no
céu.
— Poderiam ser dragões?
Foi o conde que respondeu:
— Não, dragões não gostam do clima do Mar Interior, preferem sítios mais frios.
Vaz de Castro resolveu ser pragmático.
— Acho que é bom não arriscar. João, vá para a gávea e fique de olho em qualquer
movimentação. Toque o sino se uma daquelas criaturas se aproximar.
João não hesitou e subiu pelas cordas. Seria uma longa noite de vigia.
Apesar da tensão com a aparição das duas criaturas logo após atravessarem as Colunas, a noite foi
tranquila. Nada, nem ninguém se aproximou da embarcação, para alívio de João. Desceu da gávea e
encontrou Vaz de Castro no convés, estranhamente vazio.
— Capitão, está tudo bem?
— Não, não está. — Ele parecia cansado como se não tivesse dormido direito. — O vento
diminuiu e uma corrente está nos tirando do curso. Coloquei alguns dos homens para remar, mas não
está funcionando.
— Quer que eu reme também?
Ele riu.
— Não, jovem. Remar é trabalho duro demais para você. Fique por aqui, pois posso precisar de
seus préstimos.
Dom Recaredo também estava ali, apoiado na amurada e olhando o mar. O capitão viu a direção
do olhar do jovem e avisou.
— Fique fora do caminho dele. Ontem tivemos sorte. Hoje, as coisas podem ser diferentes.
João assentiu e foi limpar o outro lado do convés. Mal tinha começado quando o Tágide deu um
tranco e mudou bruscamente de direção. Ouviu o capitão praguejar e rumou em sua direção. O nobre
estava do lado do leme, conversando com Vaz de Castro.
— O que houve?
— A corrente ficou ainda mais forte. Nossos remadores não conseguem mais vencê-la e estamos
sendo arrastados...
— Arrastados para onde?
— Não sei! — Vaz de Castro estava tão irritado quanto o alquimista. — Não conheço essas águas,
não deveríamos estar aqui...
A frase parou no meio e o capitão arregalou os olhos. João e o conde se entreolharam, tentando
entender o que acontecia. Os tripulantes começaram a subir para o convés, com a mesma expressão
vazia nos olhos. O navio acelerou, dirigindo-se cada vez mais na direção contrária, aproximando-se
do Continente Sul.
— O que está acontecendo?
— Não sei senhor, é como se eles estivessem ouvindo algo.
— Como assim? Se eles estão escutando, nós deveríamos escutar também. — Neste momento,
uma sombra se interpôs entre o navio e o sol. Olhando para cima, as duas únicas pessoas ainda
conscientes no navio viram mais sombras como as do dia anterior. Só que eram muitas, tantas que se
confundiam umas com as outras, tornando difícil ter ideia de quantas sombras eram. Dessa vez,
voavam cada vez mais baixo, descendo.
— Será que vão pousar aqui?
— É o que parece, menino. — O conde respondeu preocupado.
Ainda estavam muito alto para serem reconhecidas, mas seus anos de estudo não haviam sido em
vão. Já sabia o que eram aquelas criaturas. Os marinheiros estavam todos agrupados no convés,
olhando para frente com a mesma expressão fixa.
— O que faremos? Será que vão nos atacar?
— Não há muito que fazer e sim, irão nos atacar. Mas não do jeito que você supõe.
Com o navio sendo puxado pela corrente, estavam indefesos. João ainda tentou despertar o
capitão ou algum dos outros, mas foi ignorado. Dom Recaredo ficou parado, esperando. Não disse o
que estava acontecendo para não preocupar o menino, mas se o que ele temia fosse verdade,
dificilmente sairiam vivos daquele lugar.
Quando a primeira sereia pousou no convés, João estava ao seu lado, apreensivo. Era uma
criatura realmente impressionante. Tinha asas embaixo dos braços e seu corpo era coberto por penas
azuis muito brilhantes. Tirando isso, era extremamente feminina, com curvas perfeitas e definidas,
seios fartos e coxas grossas. Ela os olhou com curiosidade.
— Por que não estão nos esperando como seus amigos?
Mais quatro sereias pousaram perto deles e, pelo som, outras mais estavam descendo no convés
do Tágide. Tirando as cores, todas eram muito parecidas entre si.
— Olha, são imunes! — A sereia coberta com penas verdes afirmou.
A vermelha se aproximou e levantou o queixo de João.
— Será mais divertido então, devorá-los enquanto estão conscientes.
A menor das cinco era ligeiramente mais esguia e estava coberta por penas amarelas. Ela sacudiu
a cabeça ao ouvir a fala de sua irmã. Mas João não percebeu isso, pois estava assustado demais com
o que estava acontecendo. Não só com a proximidade daquelas criaturas, pois isso nem era o pior.
Por todo o convés, as sereias e os marinheiros se misturavam numa confusão de corpos e penas
indescritível.
Vaz de Castro estava deitado nu perto do leme. Entre suas pernas abertas, uma sereia lambia seu
membro. Outras duas lambiam seus mamilos e ele fazia o mesmo com uma quarta criatura. Mais
avante, um marinheiro era montado por uma delas enquanto sugava o seio de outra. Noutro canto, três
homens se divertiam com uma mesma sereia.
— Criaturas obscenas, o que acham que estão fazendo aqui? Nós somos um navio do Imperador
lusitano! Vocês não podem nos tratar assim!
— Será que não, homenzinho? Vocês invadiram nossos domínios. Diante disso, estamos apenas
lhes dando as boas-vindas. Faz tanto tempo que não recebemos visitas... — A sereia que falou era
coberta de penas brancas e tinha uma voz tão doce que doía nos ouvidos de João. Ela se aproximou
de Dom Recaredo. — Não temos culpa que não consiga escutar a canção de nossas irmãs. Se
conseguisse, estaria se divertindo como os outros. Mas podemos consertar isso!
Com um golpe rápido da mão, ela cortou a roupa do nobre ao meio e a arrancou.
— Pare com isto! É inútil! Não conseguirá nada de mim.
A risada da sereia vermelha foi cruel.
— É o que você pensa. — Ela também se aproximou do conde e o arranhou no pescoço. Em
poucos segundos, Dom Recaredo compartilhava da mesma expressão de deleite dos outros. Sorrindo,
a sereia branca se abaixou e começou a chupá-lo lentamente, arrancando-lhe gemidos de prazer. Sua
irmã vermelha brincava com os mamilos expostos do conde, que se tornara inteiramente esquecido
do mundo.
Uma voz sussurrou no ouvido de João.
— Sabe no que ele está pensando agora, quando desfruta da minha irmã Cristal? Ele está
pensando em você, que é essa boca que está lá. Não o culpo. Uma boca tão bonita e mimosa, com
lábios tão desenhados, parece ter sido mesmo feita para beijar.
João não quis se virar para ver qual delas estava ali, tentando-o. O temor do que aconteceria se
seu disfarce fosse revelado era maior do que qualquer tentativa de sedução. Mãos frias acariciaram
seu pescoço.
— Não precisa ter medo. Sendo tão jovem, vai durar muito tempo conosco. Vamos aproveitá-lo
bem. Você vai adorar, só vai sentir prazer e mais nada. — Os dedos pequenos e gelados brincavam
com suas orelhas e ele pôde sentir a respiração dela no seu pescoço. Apesar de tudo, sentiu um calor
nascendo no fundo do seu estômago. — Entregue-se, vamos. Não pretendo fazer com você o que Rubi
fez ao seu amigo. Sempre desejei provar de um homem consciente, sem drogas ou magia. Deve ser
muito mais gostoso...
Os lábios frios da sereia beijaram a pele abaixo das orelhas. João não resistiu e suspirou. Pode
sentir o sorriso dela contra sua pele.
— Isso, querido, isso...
Uma sereia verde se aproximou.
— Âmbar, você conseguiu? Sem nada?
— Sim, Esmeralda. Ele me quer, mesmo sem ouvir nosso canto.
O rosto inacreditavelmente belo da sereia coberta de penas verdes pareceu triste e ela colocou a
mão direita na bochecha de João enquanto com a outra acariciava seus seios.
— E será que você só quer a minha irmã? Eu queria provar como é. — João engoliu em seco ao
ver os movimentos lascivos de Esmeralda e sentir os lábios de Âmbar descendo por seu pescoço. —
Você me quer também?
Sacudiu a cabeça, derrotado. Ao seu redor, ouvia sussurros e gemidos, vindos tanto dos
marinheiros quanto das sereias. O navio prosseguia, agora mais devagar, e a terra já não aparecia
mais, como se estivessem no meio do Mar Oceano. O sol estava coberto por uma camada fina de
nuvens.
As mãos esguias de Esmeralda puxaram sua camisa rota até rasgá-la, rompendo seu disfarce.
— Olha, Âmbar, é uma mulher!
Sem parar de beijar o pescoço de João, ela perguntou.
— Como você sabe?
— Tem seios... Tão pequenos e bonitos. — Ela os acariciou com a ponta dos dedos, brincando
com os mamilos já eriçados. — Será que podemos tê-la?
Âmbar encostou seu corpo nas costas nuas de Joana, sentindo-a se arrepiar ao seu toque. Imitando
a irmã, colocou sua mão no seio da jovem, beliscando-lhe o mamilo. Tirou a mão de lá e começou a
desatar os nós da calça de marinheiro que ela usava.
— Ela nos deseja e nós a queremos. Não há nada de errado nisto. Na ilha, resolvemos tudo.
Joana devia prestar atenção, devia se preocupar com o que seria a ilha, com que iriam fazer com
ela. Mas agora a única coisa que realmente importava eram as mãos que percorriam seu corpo, os
lábios que beijavam seu pescoço, as penas que acariciavam suas costas. Ela ardia de desejo e
incentivou as sereias, colocando as próprias mãos nos seios, acariciando-os como elas fizeram.
Âmbar a despira e podia sentir o roçar de suas penas no corpo da jovem, inclusive, em suas
nádegas. Esmeralda observara por alguns segundos enquanto Joana brincava com seus seios.
Fascinada, logo sucumbiu ao desejo e começou a sugá-los, um de cada vez. A sensação daquela boca
fria em sua pele quente fez Joana soltar mais um gemido e Âmbar desceu a mão que estava em sua
cintura, tocando na pelagem sedosa que protegia seu sexo. Os dedos frios abriam Joana devagar,
roçando sua pele com cuidado até chegar ao centro úmido e quente.
— Ah, Esmeralda, ela é tão macia, sinta. — Joana arquejou quando sentiu mais dedos naquela
parte tão íntima de si, tão frios em sua pele tão quente. Eles mexiam e acariciavam, causando
arrepios e tremores, tão intensos que eram quase insuportáveis. Ela se remexia no ritmo dos carinhos
das sereias, esquecida de tudo. Quando Âmbar — ou seria Esmeralda? Já não tinha como saber —
experimentou enfiar um dedo dentro de Joana, essa gemeu alto. Não demorou para que outros dedos
se juntassem e Joana perdesse o que lhe restava do controle. Uma onda de calor tomou conta de seu
corpo. Tornou-se cada vez mais difícil respirar e, de repente, algo explodiu dentro dela.
Sufocada por sensações irresistíveis, Joana desmaiou nos braços das sereias.

Dom Recaredo despertou no convés. Todos os tripulantes ainda estavam desacordados e não havia
sinal das sereias, além das penas espalhadas por todos os cantos. Procurou suas roupas e as
encontrou rasgadas no chão. Estava completamente nu, assim como todos os demais. O mais próximo
dele era o jovenzinho que, para sua surpresa, era uma moça. Aproveitando da inconsciência dos
outros, correu para sua cabine. Sentia-se pouco à vontade com sua nudez e precisava estar bem para
pensar no que tinha acontecido e como iriam sair dali.
Já em seu aposento e vestido, sentou-se no leito e refletiu sobre tudo o que tinha acontecido. Era
um alquimista — as acusações de necromancia eram apenas boatos, que ele nunca se preocupou em
desmentir — mas isso não o tornava um especialista em bestas e criaturas. Possuía, no entanto, certo
conhecimento básico.
Sereias eram raras no Continente. Muitos diziam, inclusive, que não existiam mais. Nos mares
gelados do Norte, alguns marinheiros encontravam as damas-do-mar, mulheres aparentadas com as
sereias, mas que eram parte peixe. Viviam em ilhas isoladas, capturando marinheiros para poderem
copular, depois se alimentando de sua carne. Se o mesmo caso se dava ali, restava a dúvida: por que
permaneciam vivos?
Uma batida na porta o arrancou desses pensamentos.
— Senhor Conde? — Era a voz do capitão.
— Pode entrar.
O capitão estava pálido e abatido. Trazia uma tigela de sopa na mão.
— O navio continua seguindo a mesma corrente e os remos ainda não fazem efeito. Como já
passou da hora da refeição, julguei por bem trazer-lhe algo de comer.
— Obrigado. — O conde pegou a tigela e a pousou na mesa ao lado do leito estreito. Não estava
com fome, mas sabia que iria precisar comer em algum momento. O capitão permaneceu de pé a seu
lado e Dom Recaredo percebeu que ele queria conversar.
— Pode falar, Capitão.
— O que aconteceu hoje de manhã, Conde? O que são aquelas criaturas? São harpias? O que
querem de nós, por que nos desviaram do curso? — O homem passou a mão pela testa, molhada de
suor. Era o retrato do desespero.
— Não tenho todas as respostas, Vaz. Elas me parecem sereias e não harpias. Harpias teriam nos
devorado imediatamente e não foi o que aconteceu. Estamos aqui, não estamos? Mas as intenções
delas me são desconhecidas. — Vaz de Castro pareceu ainda mais desanimado e se preparava para
deixá-lo a sós novamente quando Dom Recaredo o impediu. — Espera. Aquele jovenzinho...
— Sim, é uma mulher que me pediu abrigo no Tágide. Talvez tenha atraído má sorte para nós
todos.
O conde sacudiu a cabeça.
— Não, não é isso. Muito pelo contrário, eu creio. Nós dois estivemos imunes ao canto que vocês
escutaram. Precisamos ser envenenados para ceder.
— E o que isso quer dizer, senhor?
Era incômodo tocar no assunto. Por mais que o amor entre homens fosse socialmente tolerado,
sobretudo entre a nobreza, falar sobre isso ainda era um tabu. Porém, estavam presos naquela
situação e era justo que o capitão soubesse de todos os fatos.
— Eu não me relaciono com mulheres e creio que a sua clandestina também não, pelo menos até
hoje de manhã. Isso nos concedeu alguma defesa.
— Temos esperança de sobreviver a elas, então? Porque é certo de que irão voltar.
— Sim, também acho que elas não se foram de vez. E esperança é algo que só podemos perder
quando morrermos.
Antes que Vaz de Castro pudesse responder, o navio parou de repente, fazendo com que ele se
desequilibrasse. Dom Recaredo segurou-se na beira do leito.
— O que foi isso?
— Acho que batemos em alguma coisa, Conde. — Ele saiu da cabine, seguido de perto por seu
passageiro. Quando chegaram ao convés, foram surpreendidos com a visão que se descortinava
perante seus olhos.
O Tágide tinha batido em uma rocha, a poucos metros de distância de uma ilha, cercada por águas
mansas e azuis. As praias eram cobertas por uma areia fina e branca. Além da praia, começava uma
floresta densa e por todo o lado havia sereias e damas-do-mar.
Joana estava na amurada, espanto estampado em seu rosto. Vaz e o conde se aproximaram dela.
— Capitão! Elas voltaram!
Dom Recaredo falou alguma coisa, mas ele não ouviu. Sua mente estava repleta de uma melodia
doce e suave, que não deixava espaço para mais nada. As moças acenaram para ele da praia,
algumas com penas, outras com escamas, mas todas adoráveis. A lembrança da manhã deliciosa lhe
voltou ao espírito, desta vez sem o envergonhar e ele queria mais. Sem sequer pensar, jogou-se ao
mar e nadou até a praia. Não percebeu, mas foi imitado por toda a tripulação.
Aos poucos, a praia foi tomada por marinheiros que eram bem recebidos pelas sereias e damas-
do-mar. Logo, estavam encaixados, beijando-se, penetrando-se, lambendo-se, em total esquecimento
do que acontecia ao seu redor.
Como de manhã, Joana e Dom Recaredo permaneceram onde estavam sem ouvir a música que
seduzia os demais. Porém, não ficaram assim por muito tempo, pois três criaturas pousaram no
convés, Âmbar, Esmeralda e Cristal.
— Olá.
O Conde de Barcelona se retraiu e Joana tentou se esconder atrás dele. Por mais que as
lembranças lhe provocassem um calor indescritível e uma vontade insuportável de repetir aqueles
atos e fazer ainda mais, sabia que haveria um preço.
— O que querem de nós, sereias?
A sereia de penas brancas, Cristal, aproximou-se deles. Acariciou o rosto de Joana enquanto
respondia ao nobre.
— Você sabe muito bem o que queremos. Afinal, gostou do que aconteceu tanto quanto qualquer
um de seus companheiros de viagem.
— Eu fui drogado por vocês!
— Ah, eu sei. Nós fomos obrigadas a tanto. Mas não se preocupe mais com isto. — Retirou a mão
do rosto de Joana e pousou no peito dele, acariciando-o. — Fomos proibidas de forçá-lo novamente.
Você só irá ter o que desejar.
Com os olhos tão verdes quanto suas penas, Esmeralda se aproximou e sussurrou em seu ouvido.
— É só pedir, querido.
— Parem com isso. Não viemos aqui atormentá-los mais.
Conseguindo recobrar a consciência com a voz ríspida de Âmbar, Dom Recaredo se libertou das
duas sereias que o ladeavam.
— Então, vieram fazer o quê?
Antes de responder, a sereia pegou Joana nos braços, mesmo com a moça tentando fugir.
— Viemos buscar vocês. — Ao dizer isso, Cristal e Esmeralda pegaram cada uma em um dos
braços do alquimista e os cinco saíram voando.

Depois de sobrevoarem a praia coberta de corpos entrelaçados, passaram por cima da floresta e
atingiram uma clareira imensa coberta de flores. As três pousaram suavemente, depositando-os com
cuidado no solo.
— Onde estamos?
— Uma pessoa muito especial quer conhecê-los. Ela não sai da ilha, então pediu que fôssemos
buscá-los. — Âmbar se aproximou de Joana. — Vou até a praia, já que você estará ocupada agora.
Mas se me quiser mais tarde, é só me chamar.
Joana sentiu um nó dentro de si. Não conseguia saber se gostava das atenções das sereias, mas
elas a deixavam embaraçada, ainda mais com o olhar que o conde lhe dirigiu. Felizmente, ele se
manteve em silêncio e Joana não precisou pensar em respostas que ela mesma não sabia quais
seriam.
Dom Recaredo permaneceu de pé, no mesmo lugar em que foi deixado.
Cansada, Joana se encostou numa pedra cercada de flores e estava quase adormecendo quando
uma voz suave e ao mesmo tempo majestosa ressoou na clareira.
— Boa tarde. Peço desculpas por qualquer incômodo, mas eu precisava vê-los para entender o
que está acontecendo.
Se as sereias e as damas-do-mar eram lindas, a mulher defronte deles era indescritível. De todas,
era a única coberta com penas negras do pescoço para baixo. Os seios eram redondos e firmes, a
cintura fina e as pernas, longas e bem torneadas. Seu rosto lembrou ao conde as imagens dos antigos
egípcios, os olhos violetas marcados, o nariz destacando-se no rosto. Por puro reflexo, curvou-se,
prestando uma reverência pronunciada.
Joana fora criada nos bairros pobres de Olissipona. Portanto, jamais adquirira reflexos da atitude
correta a se adotar perante a realeza.
— E quem é você?
Ela soltou uma risada sonora.
— Sou Ônix, a rainha das sereias, senhora da Ilha da Morte.
— Esse lugar tão lindo tem esse nome?
A rainha fez um gesto e um trono de flores e grama se formou no meio da clareira. Outro gesto
com a mão e dois assentos confortáveis, feitos do mesmo material, apareceram em frente ao
primeiro. Ela sentou e acenou, convidando os dois a fazer o mesmo.
— Seu companheiro me parece ser bem experiente nas coisas estranhas de nosso mundo, menina.
Mas mesmo alguém tão nova e ingênua deve ter percebido que nosso objetivo não é dar prazer a
marinheiros que por acaso se aproximem de nosso território.
Dom Recaredo não esperou por maiores esclarecimentos:
— Se quer nos matar, por que não o faz logo?
— Porque precisamos de outra coisa. Não comemos a carne de vocês e só os matamos porque são
frágeis demais para suportar nossas demandas por muito tempo.
O choque transpareceu no rosto de Joana.
— Vocês trazem os marinheiros para cá e os... E ficam com eles até que morram de exaustão?
Ônix simplesmente assentiu.
— Isso é monstruoso!
— Bem, menina, seu amigo pode lhe garantir que estamos juntos com outros monstros em qualquer
bestiário. Não é nossa culpa sermos assim.
— Poupe-nos de sua sinceridade, Rainha. — O conde começava a perder a paciência. — Vocês
se alimentam das sementes dos homens, é isso?
— Se assim fosse, teríamos morrido há muitos anos, já que durante séculos barco algum passou
por perto... Não, precisamos de sua semente para nos fecundar. Por sorte, vivemos muito mais que
vocês, se não esta ilha estaria deserta por agora.
— Então, nos usam como reprodutores? Esgotam-nos e depois lançam nossos corpos ao mar?
— Exatamente.
— Isso é absurdo! — O conde bradou, exasperado. — Por que não usá-los, simplesmente, e
depois devolvê-los ao mar?
— Para quê? Para voltarem para seus reinos, contarem sobre nós e depois enviarem armadas para
nos atacar? O maldito Ulisses quase fez isso. Com ele, aprendemos que é melhor evitar que alguém
saia vivo da ilha.
Os dois se encararam longamente numa batalha desnecessária. Por mais familiarizado que
estivesse com as artes mágicas, Dom Recaredo era apenas humano.
Joana quebrou a tensão.
— E se conseguíssemos chegar a um acordo?
— O que você propõe, menina?
Por uns instantes, Joana perdeu a voz, intimidada pela própria audácia. Porém, lembrando-se de
tudo o que estava em jogo, respirou fundo e foi em frente, mesmo gaguejando:
— O senhor conde é parente do nosso Imperador...
Dom Recaredo a interrompeu.
— Sim, poderíamos chegar a um acordo de paz! Nossos navios não atacariam a ilha, não faríamos
mal a vocês, nem espalharíamos sua localização.
— E em troca? — A voz dela baixou para um tom suave, sensual, quase o ronronar de um gato.
— Você nos deixa ir em paz e embarcações com a bandeira do Império Lusitano terão livre
passagem. E vocês teriam toda a liberdade para pousar em nossos navios e se relacionarem com os
tripulantes que assim o quiserem.
— Sem precisar de magia ou veneno... Isso nos pouparia muito esforço. — Ela sorriu e ficou
ainda mais bonita. — Mas que garantia teremos de que cumprirão sua palavra?
— Eu fico aqui como garantia. — Joana se ofereceu.
— Hum. Eu aceito, mas há um preço a ser pago.
— E qual é? — Os olhos do nobre fulgiram de alívio.
— Eu quero você, Conde. Estou velha e preciso gerar uma nova rainha. Não há escolha melhor
para isso do que a semente de um alquimista, nobre de uma família muito antiga.
O rosto do conde ficou lívido.
— Eu não me relaciono com mulheres. Suas sereias só o conseguiram porque me drogaram.
— Ah, mas eu não vou fazer isso. — Ônix se levantou e avançou em sua direção. — Você só
precisa fechar os olhos e imaginar que é a boca de um homem que lhe está dando prazer. Só isso.
Como num ato reflexo, ele fechou os olhos. Interpretando o gesto como assentimento, a rainha das
sereias se ajoelhou em sua frente e lhe arriou as calças. Sem coragem para interrompê-los ou mesmo
se retirar, Joana assistiu quando a rainha começou a acariciar o conde. Sem lograr desviar a atenção,
viu-a deixá-lo ereto e teso com a língua. Sentiu uma pontada no ventre, uma saudade dos dedos
gelados de Âmbar e Esmeralda, punção que só aumentou ao ver Ônix abrir as pernas e montar em
cima do nobre, que gemia, possuído de desejo.
Ao perceber o olho fixo e os lábios secos de Joana, a rainha simplesmente sorriu em sua direção.
— Posso contar um segredo, menina? Estou montada nele e, mesmo assim, o conde só consegue
pensar no rapazinho do navio, com os traços tão delicados e a boca tão bonita...
Ela aumentou a velocidade dos seus movimentos, fazendo com que Dom Recaredo gritasse de
prazer. Joana sentia desejo de assumir o papel da rainha ou do conde, de fazer, de participar. Tocou
seus seios e sentiu a pontada lá embaixo aumentar, quase dolorosa. Sua mão desceu para dentro da
calça e começou a se acariciar, sentindo o calor úmido escorrer por seus dedos. Acompanhou o
ritmo do casal, o corpo tremendo de vontade e desejo. Quando Dom Recaredo gritou pela última vez
e o corpo de Ônix também ficou tenso, Joana foi possuída pela mesma onda de prazer que sentiu com
as sereias.

Ainda demorou três dias para que o Tágide se pusesse em condições de zarpar. Ao colidir com a
rocha, um rombo imenso se abriu no casco e começou a fazer água num dos porões. O reparo teria
demorado menos, se os marinheiros não tivessem aproveitado tanto a companhia das sereias e das
damas-do-mar. Mesmo sem a magia da música que elas entoavam, sua beleza era mais do que o
bastante para que pusessem o trabalho de lado.
Vaz de Castro conheceu a rainha e concordou com o acordo. Por ele, o Tágide sempre passaria
por aquelas águas. Joana percebeu que ele e a sereia de penas vermelhas estavam sempre juntos, o
que poderia explicar a boa vontade do capitão. Dom Recaredo havia se trancado na cabine desde a
conversa com Ônix e não saíra mais. Todos respeitaram seu isolamento, principalmente Joana, ainda
perturbada por tantas mudanças.
Ela estava na praia onde desembarcaram, observando os últimos preparativos para a partida do
navio. Ouviu alguém pousar atrás dela, mas não se virou.
— Arrependida por ter se oferecido?
Era Âmbar, as penas amarelas brilhando ao sol da manhã. Parecia preocupada.
— Não. Eu não teria mais lugar na tripulação e me tornaria um fardo. É melhor ficar com vocês.
A sereia abraçou-a por trás, beijando-a no pescoço. Elas tinham passado muito tempo juntas
naqueles três dias.
— Sinto-me feliz por você ter decidido ficar. Gosto de estar com você, do seu gosto, da sua
companhia.
O coração de Joana se oprimiu ao ouvir isso.
— Pena que o conde não vá conseguir chegar a tempo em Florentia.
— Vai sim. — Os dedos gelados subiram da sua cintura até a altura de seus seios e começaram a
brincar por cima do tecido fino, buscando os mamilos sensíveis. — A rainha destacou duas damas-
do-mar para guiá-los por uma corrente mágica. Estarão lá até o fim do dia.
Na praia, próximo de onde estavam, Vaz de Castro conversava com Ônix. Com intuito de resistir
às tentações de Âmbar, Joana se aproximou do casal.
— Agradeça ao Conde de Barcelona por mim, Capitão. Espero que nossos povos possam
conviver em paz por muitos séculos.
O capitão sorriu.
— Um acordo desses não será difícil de ser cumprido, Majestade. Obrigado por ter nos ajudado
com o navio.
— Era o mínimo que podíamos fazer. Façam boa viagem e espero vocês de volta à nossa ilha.
— Senhora, — Joana se aproximou ainda mais, seguida de perto por Âmbar, — como irá se
chamar a ilha? Manterá o mesmo nome?
Ônix virou-se para a moça e sorriu ao vê-la acompanhada por uma de suas meninas.
— Não, minha querida. Graças a vocês, acho que posso chamá-la de Ilha dos Amores.
Glicínias suspensas Antonio Luiz M. C. Costa

No muro coberto de trepadeiras com flores lilases, ela achou a entrada dos fundos do que parecia
uma casa comunal como tantas outras que abrigavam as vastas famílias de Atlântis, embora maior do
que a média. A entrada principal seria, com certeza, escandalosamente mais vistosa. Daquele lado,
só a placa redonda de oricalco, pendurada no arco do portão, indicava seu caráter peculiar. Na
circunferência, lia-se Kuaxihtam Senduciós Dlaudim, “Glicínia Suspensa, Bordel Classe Oricalco”.
No centro, um casal estilizado representava a posição aludida: o homem sentado colhia pelas coxas a
mulher agachada de frente para ele.
Em dois dias, ela fora obrigada a saber mais sobre bordéis do que jamais julgara precisar. Em
Atlântis, estavam quase todos organizados numa grande guilda e classificados em cinco categorias:
ouro, prata, oricalco, estanho e cobre, por ordem decrescente de preço, qualidade e prestígio.
Visitara seis, nenhum dos quais aceitara o negócio que propunha. Do último, recebera ao menos a
indicação daquele endereço. Era uma das maiores casas do ramo no bairro dos Prazeres e na capital,
talvez no Império. Sua melhor chance.
Ajeitou a saia e o corpete e entrou. Glicínias propriamente ditas cobriam muros e paredes e
pareciam chover das pérgulas e beirais. Os outros dlaudim que conhecera também exploravam o
duplo sentido de seus nomes. Existia uma posição diferente para cada um dos milhares que havia na
capital? Teria de aprender todas? Melhor não pensar nisso agora.
Na entrada, encontrou um porteiro, servo da Guilda, como indicava a coleira de prata que ela
faria qualquer coisa para não usar. Um eunuco de meia-idade, ao que parecia, mas dono de músculos
respeitáveis. Ele perguntou seu nome — Tita Satlana, binciós — e a quem ela procurava. Sim, a
gerente estava. O eunuco mandou um dos meninos que brincavam por ali — filhos de funcionárias?
— subir e perguntar-lhe se podia receber Tita-bin. Ele foi num pé e voltou noutro dizendo que sim, a
Tós-sió podia vê-la. Ela respirou fundo contra a sensação de opressão e acompanhou o garoto pela
escada e corredor até o escritório. Bem poderia pertencer a um mercador: a mobília era simples e o
mural e os vasos, decorados com cenas de erotismo ligeiro, não estariam fora de lugar numa boa casa
comercial de família tradicional.
— Podes ir, querido — falou uma voz feminina firme. — Entra, fecha a porta e senta-te, Tita-bin.
A moça obedeceu e acomodou-se no banco estofado. A senzar tinha cabelos lisos e cinzentos,
rugas em torno dos olhos amendoados, pele acobreada e ar enérgico. Sentada atrás de uma mesa de
mármore negro, vestia-se de maneira mais sóbria do que o comum. Usava tranças compridas, a dupla
corrente de prata de siociós sobre um xale de algodão preto e dourado, cores do clã, calças largas da
mesma cor e uns poucos anéis e enfeites a mais. Não fosse o bracelete característico da profissão,
pareceria uma diretora de escola.
— Então, em que posso ser útil?
Ela contou sua história. Seu pais, pequenos comerciantes, vieram do interior com o sonho de
enriquecer na capital, mas se deram mal. Não foram aceitos pela guilda do ofício, tentaram
estabelecer-se mesmo assim, perderam muito dinheiro e corriam o risco de serem reduzidos à
servidão por dívidas. Para tentar se reerguer, decidiram vender a filha mais velha como serva. Ela
propôs uma alternativa: ouvira falar que algumas guildas também compravam jovens promissores,
que permaneciam livres com o compromisso de reembolsar a corporação pelo preço pago. Os pais
concordaram, mas precisavam de mil ases no prazo de um mês. Ela logo descobriu que a Guilda da
Prostituição era a única onde poderia consegui-los. Tentara em seis dlaudim e a gerente do último, o
Torre Erguida, sugeriu-lhe procurar o Glicínia Suspensa.

O caso era típico, pensou Tós-sió. Uma família de artesãos ou comerciantes ouvia falar que alguém
fizera fortuna em Atlântis, culpava a mesquinhez de sua terra e a inveja dos vizinhos por suas
frustrações e vinha à metrópole atrás da oportunidade que julgava merecer.
Sim, ali o ouro corria como água, mas poucos sabiam represá-lo. A maioria desses iludidos era
apenas mediana e isso os punha em desvantagem ante metropolitanos igualmente medíocres, mas com
experiência do mercado e laços de guilda, família e vizinhança. Os fracassos eram bem mais comuns
que os êxitos, apesar de menos divulgados. Se uma família teimasse num negócio deficitário em vez
de voltar a sua terra ou aceitar um trabalho braçal enquanto era tempo, arriscava-se a cair inteira na
escravidão por dívidas. Mas se por acaso tinha uma filha jovem e bonita, podia encontrar quem a
comprasse pelo preço de vários escravos comuns e salvar os demais. Caso não insistisse nos
mesmos erros.
Ao menos, os pais dela tinham meio coração: pretendiam vendê-la como serva e não escrava.
Rendia menos e era um tanto mais difícil e demorado, mas deixaria à moça alguns direitos e
garantias, ao passo que uma escrava não tinha quase nenhuns.
Tós-sió cruzou as mãos sobre a mesa e pensou. Não gostava desse tipo de negócio. A maioria das
candidatas buscava apenas fugir da penúria sem outra qualificação além da boa aparência, mas
vinham livres de compromissos e, caso não se adaptassem, podiam ser mandadas embora sem
grandes prejuízos ou desgastes. Mas se eram compradas, a gerente era responsável pelo investimento
e se a garota não fosse capaz de reembolsar a Guilda, teria de vendê-la como escrava, o que o seu
próprio meio coração achava desagradável.
Por outro lado, seu tipo de jovem fomori, branca e esguia, com seios grandes e uma bela cabeleira
negra e ondulada, estava em falta na casa, assim como o ar decidido e inteligente. Não vinha
arrastada a contragosto pelos pais, tomara a iniciativa. Devia saber que, se não fosse a
incompetência dos pais, poderia ter sido aceita como aprendiz em muitas guildas, mas se o destino
lhe tirava a maioria das alternativas à coleira de serva, aceitava a que lhe restava e suas
consequências. Valia a pena avaliá-la.
— Deixa-me ver-te melhor, Tita-bin. Levanta-te e despe-te.
A moça ofegou, surpresa. Com certeza, nenhuma das entrevistas anteriores chegara àquele ponto.
Com as mãos trêmulas, tirou o corpete decotado e a saia leve e comprida de babados coloridos,
provavelmente a melhor roupa que tinha. Dobrou-a com cuidado sobre a mesa.
— Também a corrente, as sandálias e o pekenan — a moça teve um sobressalto, não esperava por
isso tão cedo. — Quero-te nua como nasceste, tira também as presilhas e solta o cabelo.
Ela obedeceu e ficou de pé, enquanto Tós-sió a perscrutava com olhos de especialista. Disse-lhe
para abrir a boca, avaliou-lhe o hálito e examinou os dentes. Apalpou os seios e a bunda, segurou-lhe
as mãos, esquadrinhou a pele, passou as mãos pelos cabelos e levantou-os para ver a nuca. Mandou-
a levantar os braços, dar uma voltinha, requebrar os quadris como se estivesse dançando. Ordenou-
lhe, então, sentar-se no tampo da mesa e abrir as pernas. Tita ficou vermelha, mas a deixou tocar e
cheirar o que quisesse. Por fim, a fez subir sobre o móvel para melhor observar os pés e pernas antes
de dar-se por satisfeita e lhe permitir descer e sentar-se. Tós-sió cruzou as mãos atrás das costas,
pensativa.
Mil ases não era caro, concluiu. Era saudável, graciosa e cheirosa, de carnes firmes e vulva
delicada. Ainda era um pouco magra para o gosto da maioria, mas era questão de um ou dois anos
para acabar de desabrochar, bastava alimentá-la direito. Se fosse o caso, saberia vendê-la no
mercado de escravos por mais de dois mil, talvez até três mil.
— Terminaste a escola? — perguntou, andando de um lado para o outro.
— A inicial, sim, no ano passado. — A moça estava sentada de mãos cruzadas sobre o ventre,
olhos baixos.
— Olhe nos meus olhos para responder. Há quanto tempo foi tua primeira vez?
— Uns quatro anos... — Ergueu o rosto.
— E quantas vezes fodeste?
— Eu... não sei, desculpa-me. — Abanou a cabeça. — Muitas vezes.
Bom. Se fossem tão poucas que pudesse contar, seria mau sinal.
— Tens namorado?
— Agora não, mas já tive.
— Com quantos já trepaste?
— Cinco... não, seis — Resposta satisfatória e sincera, na opinião da gerente.
— Inclusive homens maduros?
— Não, garotos da vizinhança e da escola.
— E mulheres?
— Não, prefiro os rapazes.
— Vem cá, beija-me e fode-me. — Pôs às mãos à cintura. — A sério, o melhor que puderes.
— Ahn? — Ela arregalou os olhos, mas se a ideia lhe causava asco, logrou não demonstrar.
— Isso mesmo que ouviste. Terás que foder com quem te quiser, atraente para ti ou não. E também
temos freguesas, sós ou acompanhadas. Vamos, não faça a cliente pedir duas vezes. — Para
completar, tirou o xale e exibiu os peitos caídos.
Ela se levantou, semicerrou os olhos, sorriu, fez um meneio lânguido e lambeu os lábios. Nada
mal, pensou Tós-sió, que não se iludia sobre a precariedade dos próprios atrativos. Aproximou-se,
fechou os olhos para abraçá-la e beijá-la. Tós-sió sentiu o toque carinhoso das mãos jovens nas
costas, a língua fresca na sua boca, a agradável pressão do corpo da moça contra o seu.
Se não era um beijo apaixonado, era uma boa imitação. Cravou-lhe as unhas no traseiro da moça,
que pareceu aceitar com gosto, balançando os quadris. Sem esperar nova ordem, meteu a mão dentro
de suas calças para acariciá-la intimamente. Tós-sió aprovou a iniciativa com um suspiro.
Encorajada, a moça lhe beijou o peito e desceu, devagar. Sugou-lhe os seios frouxos. Ajoelhou-se,
baixou-lhe as calças sem pedir licença e começou a beijá-la em torno da vulva, como quem se
aproxima lentamente do alvo. Tós-sió sentiu-se zonza e decidiu parar por ali, lembrando a si mesma
que aquilo ainda era uma entrevista profissional.
— É suficiente, Tita-xin, quero dizer, Tita-bin. Podes vestir-te. — A moça sorriu e virou-se para
pegar as roupas. Se estava aliviada ou desapontada, era difícil dizer. A gerente se vestiu também e se
recompôs na cadeira de espaldar alto.
— Tua proposta é aceitável, mas antes de fecharmos o negócio, devo informar-te de como
trabalhamos. A norma geral da Guilda é a seguinte: metade para a garota e metade para a Guilda,
com um mínimo de sessenta sês de serviço por mês. Abaixo disso, ela tem de pagar a Guilda como se
fizesse sessenta. Geralmente se consegue fazer mais. Muitas reclamam, mas se vires as contas, é
justo. Da parte da Guilda, saem as pensões das grávidas, das doentes, das aposentadas e dos órfãos,
as despesas com magos, médicos, parteiras e funerais, os impostos e a manutenção da casa, incluindo
decoração, refeições, música e espetáculos.
— Entendo.
— Até segunda ordem, cobrarias os honorários usuais desta casa, dois ticais ou duzentos mans por
meio sê. Dentro desse tempo, paparicas o cliente que te escolher e o atendes como ele ou ela
preferir, sem pôr teu corpo e saúde em risco. Ele pode pagar por mais tempo, mas não menos. Dois
clientes podem dividir os serviços de uma garota por três ticais ou três por quatro ticais. Certos
gastos extras dos clientes podem render comissões para a acompanhante, mas é proibido pedir
gorjeta. Trabalhamos em três turnos contínuos de revezamento, da manhã, da tarde e da noite.
— Tá certo.
— Mas para uma aprendiz, como serás no início, um terço da tua metade é retido a título de
pagamento pelo treinamento e material, o que reduz o disponível para pagar tua dívida.
Ela franziu a testa. — E quanto tempo dura o aprendizado?
— Eu decido conforme o caso. Varia de dois a sete anos. Outro aviso importante: os juros
cobrados pela Guilda para as filiadas são bem razoáveis, quatro por cento ao ano, mas pesam. Sobre
mil ases, são quarenta por ano, três e um terço por mês. Se fizeres uma média de sessenta sês por
mês, são doze ases, de modo que enquanto fores aprendiz, praticamente só pagarás os juros — Ela
pegou o ábaco sobre a mesa e fez as contas. — Nessas condições, tua dívida durará trinta anos, mais
ou menos. Saiba também que precisas de minha permissão para casar ou ter filhos e eu só a darei
com a dívida liquidada.
A menina mordeu os lábios e olhou para baixo, cerrando os punhos. Era a primeira vez que
parecia fraquejar, desde que entrara.
— Assim, parece quase o mesmo que a coleira — Tita conteve o choro.
Também pela primeira vez naquele dia, a gerente teve compaixão. Mas assim eram a vida e os
números. Sua obrigação era ser honesta, não corrigir os erros alheios. Apesar disso, adoçou seu tom.
— Antes de decidires, deixa-me falar do lado bom. Podes tirar até dez dias livres por mês a teu
critério, salvo nos dias de festa, pois são os de maior movimento. Fora dos turnos programados,
serás livre como qualquer uma e podes trabalhar em outra coisa ou divertir-te como quiseres, desde
que fora daqui. Só te será proibido prostituir-te em outro lugar. É mais liberdade do que os senhores
dão às servas-concubinas, para não falar das escravas.
Ela pareceu mais animada, até sorriu.
— Mas não tem jeito de diminuir o tempo?
— Podes trabalhar mais, mas este é um bom dlaudim de um bairro elegante. Há muita
concorrência e para conseguires clientes, precisas mostrar-te bonita, alegre, bem disposta para com
os clientes e o trabalho. Nessas condições, dificilmente fazes mais de cem clientes por mês. Oitenta,
mais ou menos, é a média. Com oitenta... — Pegou de novo o ábaco.
— E se eu fizer cem e abrir mão de ficar com um ás por mês? — Pareceu mais esperançosa.
— Então pagarias até dez ases por mês... — Manipulou as bolinhas com a prática de décadas —
Treze anos e quatro meses. Mas vai por mim, com um ás por mês para te dares algum agradinho de
vez em quando, a vida fica menos difícil. E não faria tanta diferença assim, deixa-me ver... hum,
quinze anos e meio, sem contar os extras. Com alguns anos de experiência, se te saíres bem, talvez te
ofereçam um lugar num classe prata ou ouro, onde podes ganhar mais.
— Farei o que for preciso, Tós-sió. Então, posso dizer a meus pais que o negócio foi aceito?
— Até esse preço, sim. Mas nem um ás a mais. — A rigor, seu dever como gerente seria regatear,
mas mil ases lhe parecia uma boa oferta. A menina havia de valer o investimento.

Quando os pais vieram fechar o negócio, Tita pôs seu selo sobre o contrato sem nada dizer, mas
rilhou os dentes de raiva e vergonha dos olhos esbugalhados que conferiam os dez sacos de ouro.
Claro que nunca tinham visto tanto ouro junto na vida, mas a expressão de felicidade pelo que
consideravam um ótimo negócio, lhe pareceu vil ao extremo. Dali em diante, Tós-sió lhe mereceria
mais o respeito do que eles — ao menos, ela lhe dava mais valor.
Recebeu um quarto dos mais modestos da casa, mas era só seu e maior e mais bonito do que
aquele que antes dividia com dois irmãos briguentos e preguiçosos que festejaram, aliviados, quando
souberam que o problema financeiro da família seria resolvido. Embora regulada para manter a
forma e a saúde, a comida, servida a horas regulares, não era má. As condições nas quais fora
admitida não eram segredo, mas não a discriminavam por isso. Era submetida aos mesmos trotes que
as outras três moças e o rapaz admitidos naquele início de ano.
Começou a ser adestrada imediatamente em todos os aspectos. Primeiro, nas modulações da voz e
da linguagem verbal e corporal. Tudo sobre modos de andar, sentar, rir, falar, piscar, compor a
postura, segurar um copo. Não apenas a elegância esperada na abordagem inicial, mas também os
comportamentos sensuais ou brincalhões, meigos ou depravados aos quais deviam recorrer para
melhor agradar o cliente, conforme seu caráter e humor do momento. Bem como a ocasião certa de
passar de um modo a outro, dançando conforme a música. Brinquedos e técnicas, jogos e substâncias,
posições e variações, eram demonstradas por colegas experientes. Também como se lavar por dentro
e por fora e se perfumar, maquiar e pentear com arte entre um cliente e outro, sem gastar mais tempo
do que o necessário.
Uma sessão por dia de exercícios de respiração, alongamento e ginástica para manter a forma e a
flexibilidade e três de treinamento especial dos órgãos sexuais, ânus, glúteos e períneo, examinados
por olhos e dedos das instrutoras. Contaram-lhes que antes de ter licença para trabalhar, elas teriam
de amassar bananas e de sugar e expelir ovos cozidos sem usar as mãos e o rapaz de manter a ereção
por um sê e satisfazer seis mulheres ou homens sem ejacular. Pensaram que era mais um trote. Não
era.
— Em Atlântis, ninguém tem grande dificuldade para foder de graça, mesmo que passe fome. — A
instrutora advertiu. — E muitos levam um dia de trabalho ou mais para ganhar o que gastam conosco
em meio sê. Se queremos que nos paguem, precisamos oferecer algo especial.
Uma quatorzena depois, foram formalmente iniciados, no salão de reuniões. Depois dos demais,
pois chegara por último, despiu-se completamente em frente à tribuna antes de responder às
perguntas rituais da bancada de gerente, subgerentes e supervisoras, garantir que aderia à Guilda de
livre vontade e jurar, por Gútis, guardar os principais mandamentos e segredos do ofício. Recebeu
então o gorpekenan e o bracelete que eram suas insígnias, as roupas do ofício, um nome profissional
e os aplausos da assistência.
O bracelete era de cobre com gravuras de casais copulando entre símbolos sexuais, usado no
braço esquerdo pelas aprendizes e no direito pelas profissionais plenas. Em Atlântis, quase todos
usavam uma insígnia de guilda ou equivalente. Não era obrigatório, mas convinha usá-lo, pois era
proibido usar um símbolo ao qual não se tivesse direito e pertencer a uma guilda poderosa era mais
prestigioso do que ser um biscateiro.
Já o gorpekenan na cintura era obrigatório em serviço e proibido fora dos muros do dlaudim. Ao
contrário do pekenan normal, não tinha os dentes de quifur que tornariam seu contato mortal a
estupradores. Mas, enquanto os xedli pekenan “desdentados” das escravas e servas-concubinas era
um simples cordão de fibras de peantás para prevenir a gravidez e algumas doenças, aquele era mais
trabalhado e fechado por um medalhão de oricalco no qual se engastava uma pedra vermelho-escura.
Servia também para deixar os usuários dispostos e corados, cortava os efeitos do álcool e das drogas
e servia para marcar o tempo.
As roupas não eram particularmente provocantes, mas diferentes. A maioria dos jovens atlantes,
de ambos os sexos, deixava o peito nu e usava calças, culotes, saias, saiotes ou tangas, conforme a
raça, o gosto e a ocasião. Já as prostitutas em serviço usavam saias longas e leves, de cintura baixa,
abertas do lado, feitas de brocados ou estampados artesanais, únicas e irrepetíveis. Não portavam
nenhum dos indicadores tradicionais de clã, estatuto e etnia, como se formassem um mundo à parte,
decorativo e fantasioso, com regras próprias.
Conforme o costume, adotou um nome profissional: Toranna, um diminutivo do nome da deusa
fomori do amor. Nunca tivera a presunção de se comparar com ela, mas quando Tós-sió lhe
perguntou como queria se chamar, teve essa inspiração repentina e a atribuiu à própria Toran.
Precisava agradá-la. No dia em que fora propor negócio ao Glicínia Suspensa e a gerente a testou,
fora à deusa que intimamente pedira socorro. Perdeu num instante a repugnância pelo corpo da velha,
como se fosse outra pessoa, com o mais estranho dos gostos. Acreditava que tinha sido possuída por
Toran e voltaria a precisar de seu auxílio.
Não faltaram oportunidades de invocar a protetora das meretrizes. Ao aceitar o trato, Tita pensara
que o suposto aprendizado era só pretexto para explorá-la, mas o treino era real, árduo e cada vez
mais assustador.
Após a iniciação, começou o exercício prático de todas as etapas do serviço e de suas principais
modalidades. Uma instrutora observava e tomava notas enquanto a novata abordava, servia e se
despedia de profissionais e aposentados da Guilda que representavam todo tipo de cliente, de moças
tímidas e velhos impotentes a um gigantesco mestiço de senzar e tlavatli cujo nome profissional de
Ohantôs, “Vara de Minotauro”, era um eufemismo, não um exagero. Às vezes, eram dois ou três
juntos. O mais difícil era aprender a fingir prazer apesar de exausta, dolorida ou enojada, arte
indispensável para a permissão de trabalhar que Tita queria o quanto antes, para pagar sua dívida tão
logo possível. Foi a primeira da turma a consegui-lo, apenas três meses após a iniciação.
Mesmo então, sentiu um frio na barriga ao se preparar para passar pela primeira vez ao “outro
lado” para o serviço. O bloco de atendimento era separado dos blocos de moradia por um muro alto.
Só se chegava lá por um corredor subterrâneo ou por uma passarela alta que descia de uma
plataforma. Um pouco depois do almoço, juntou-se a vinte e tantas mulheres, de várias raças e tipos
físicos e oito homens, de atletas másculos a eunucos andróginos, sobre a plataforma ao lado do muro.
Ao soar o gongo do novo turno, os músicos que, dia e noite, animavam o lugar e abafavam os
gritos e gemidos com flautas, pandeiros, alaúdes e tambores, passaram dos ritmos sensuais de
costume a outro mais eufórico e ríspido, saudando a troca da guarda. A turma da manhã sumia pelo
subterrâneo enquanto a nova desfilava passarela abaixo, como se baixasse do céu. Os clientes lá em
baixo assobiaram e aplaudiram até a chegada ao saguão principal.
Viam-se pinturas, relevos e estátuas de falos, vulvas abertas, corpos nus, casais em êxtase e
orgias. Impossível pensar noutra coisa. Se não era o santo dos santos, era o profano dos profanos.
Serviçais e artistas dos dois sexos circulavam por ali, mas era como se fossem invisíveis. As
atitudes e convenções de vestuário deixavam claro quem era quem. Clientes só tinham olhos para
profissionais do sexo e vice-versa. Depois da chegada do turno, uns e outros circulavam à vontade
pelos jardins, salões, taverna, termas e salas de espetáculos, como numa festa. Podiam conversar e se
mostrar, mas não se tocavam até o freguês se decidir.
Toranna não podia ser muito exigente se queria saldar a dívida de Tita, mas tentaria ser seletiva
ao menos na primeira vez. Um bom começo lhe daria sorte, supunha. Recostou-se a uma coluna do
saguão, exibindo as curvas do torso numa postura relaxada e atraente. O primeiro a se aproximar foi
um jovem senzar bonito, aparentemente solteiro, com uma corrente tripla de prata e insígnias de
estudante da Academia Imperial de Governo. Cabelo bem cortado e penteado, mãos manicuradas,
calças largas e colete de seda do clã Ralfu. Olhou-a de nariz empinado e peito estufado, examinando-
a de mãos cruzadas às costas, como quem desdenha a mercadoria. Toranna não se entusiasmou.
Estivesse à procura de um marido rico e tolo, talvez. Mas tanto seu bom-senso quanto a sabedoria
prática transmitida por suas instrutoras indicavam que aquele não seria um bom cliente. Na
classificação informal das mais velhas, era um “peruzinho”. Um tipo geralmente esnobe, arrogante,
teimoso, mimado e difícil de contentar, embora pagasse o mesmo que qualquer outro.
Era proibido recusar, salvo casos especiais que exigiam comunicação imediata à supervisora.
Doença contagiosa e tentativa de usar violência ou feitiços, por exemplo. Mas havia maneiras sutis
de desencorajá-lo. Toranna sabia que tinha um olhar penetrante e o encarou com um sorriso de
desafio. O moço corou, desviou o olhar e foi procurar outra.
Outro garotão se aproximou, interessado. Esse era inquieto, usava um rabo de cavalo. Roupas
boas, mas descuidadas do clã Quin, gestos soltos, uma só corrente de prata, estudante do Instituto
Imperial de Geografia e História. “Periquito”, diriam as mais velhas. Inexperiente, mas curioso,
falador, amigável e às vezes divertido. Um tipo que aparecia para uma experiência diferente ou para
afogar as mágoas, não como freguês regular. Deu um sorriso amigável e meneou o corpo. Mas a
risada musical de uma tlavatli baixinha, sentada do outro lado do salão, desviou a atenção do rapaz,
que se agachou para falar com ela, como se a conhecesse. Desapontada, Toranna fez um muxoxo.
Podia aprender a rir assim, mas jamais teria dentes tão bonitos quanto os dela, que faziam um belo
contraste com sua pele de azeviche.
Paciência, muitos outros a olhavam. O seguinte a se aproximar era gordinho e baixo para um
senzar e estava na idade em que os cabelos brancos começam a se fazer notar. Sorriso natural, jeito
de quem se sente em casa, cinturão de mestre sapateiro, uma corrente de prata e outra de bronze,
trajes medianos do clã Sã e duas pulseiras de prata, quer dizer, duas esposas. “Ganso”, pensou ela.
Cliente habitual, plácido, bem-humorado, caseiro, mais traquejado e esperto do que o “pato” comum
e mais capaz de apreciar o que ela tinha a oferecer. Não era o ideal, nem tão ruim. Ela ergueu as
mãos como para ajeitar o penteado na nuca, destacando cabelo, pescoço e seios enquanto compunha
uma expressão amável.
— Boa tarde, coisinha linda! — Soou espontâneo e caloroso e ela também sorriu com franqueza,
gostou da abordagem. Saber que gentileza gera gentileza é um bom sinal.
— Toranna, ao dispor de tua fantasia! — Fez uma mesura graciosa que ao mesmo tempo exibia a
perna pela fenda da saia.
— Sã Alció Lohnsau, zorciós, encantado. Mesmo. És nova aqui, não és?
— Sim, Sã-zor, é o meu primeiro dia!
— Então, não perderei a oportunidade de ser o primeiro a provar desse pitéu. Mas chama-me
Lohnsau-xin, gostosura.
Tirou da bolsa uma ficha de oricalco comprada na recepção a duzentos mans a unidade e lhe deu
na mão. Ela a pôs na fenda do medalhão do gorpekenan, que servia como cofrinho. Uma misteriosa
simpatia entre a ficha e o medalhão faria a pedra vermelha mudar de cor e brilhar em verde e ela
sentiu força e calor se espalharem pelo corpo. Ambos os efeitos duravam um pouco mais de meio sê,
o tempo pelo qual estaria à disposição dele.
— Teu desejo será o meu, Lohnsau-xin. Como posso te dar mais prazer? — Afagou-lhe o rosto.
— Sou um homem eclético. Surpreende-me. — Pegou-lhe a mão e a beijou.
— Vem comigo. — Ele lhe passou o braço pela cintura, ela fez o mesmo e o conduziu ao andar de
cima, onde uma pequena suíte lhe estava reservada. Trancou-a, sentou-o na poltrona e ajoelhou-se
numa almofadinha para lhe descalçar as sandálias, bonitas e complicadas, com tiras até o alto da
perna. Um anúncio ambulante de sua perícia como sapateiro. Pés feios, mas saudáveis. Depois lhe
tirou o cinto, por certo também da sua lavra e lhe desceu as calças, com suavidade. Já durinho, o falo
era do tipo “raposa” — pequeno e pontudo, geralmente rápido, versátil e resistente. Bom para quase
tudo, exceto entre tetas. Deu-lhe um beijinho.
— Um momentinho. — Encheu uma bacia de água morna e começou por lavar e massagear os pés.
Quando os considerou limpos o suficiente, beijou-os e mordiscou-lhe os dedos. O sapateiro se
agarrou nos coxins, segurando-se para não lhe pular em cima.
— Vem cá, Toranna-xin, senta-te em cima...
— Espera, deixa-me tirar o resto. — Tirou-lhe as correntes e enfeites do corpo, pretendendo com
isso fazê-lo ver de perto seus seios e deixá-lo se sentir livre como um bebê ou um animal.
Quando lhe tirou as pulseirinhas, ele comentou:
— Minhas mulheres, elas são boas garotas. — Como se precisasse se explicar. — Uma me ajuda
na sapataria, é ótima para atender os clientes, a outra é muito boa mãe e cozinheira. Mas não gostam
de trepar como eu, não entendem o meu jeito. É por isso que eu venho tanto aqui...
— Aqui e agora, tua mulher sou eu. — Calou-o com um beijo na boca e o deixou livrá-la da saia e
apalpar o traseiro. — E tua mulher quer lhe dar muito, mas muito prazer. Mas devagar, que temos
tempo, deixa-me fazer-te aproveitar ao máximo.
— Sim, sim!
— Deite-se nesta mesa, quero te massagear mais um pouco.
Ele obedeceu e virou uma massa de modelar trêmula naquelas mãozinhas jeitosas em manipular
pontos de pressão como se fossem os controles secretos dos desejos e das inibições. Toranna podia
praticamente enxergá-los. Tinha um talento natural para a magia e em semanas não só dominara
técnicas que a maioria de suas colegas levaria anos para começar a compreender, como descobrira
outras novas. Nem as instrutoras entendiam o que ela queria fazer. Interromperam e corrigiram: “está
errado, é assim e assado”. Ela obedeceu, para não atrasar sua licença para trabalhar. Mas agora ela
tinha um cliente nas mãos e ninguém para atrapalhá-la na busca de sua pedra filosofal: transformar
um corpo inteiro em órgão sexual, excitá-lo até o absurdo e fazê-lo gozar quantas vezes pudesse
suportar.
Agora, terminava a manipulação pelo couro cabeludo e pelo rosto, Lohnsau ofegava como se
estivesse em pleno ato. Chupou-lhe os dedos da mão esquerda e o fez gemer como se o fizesse no
falo. Agora era o momento de servir o prato principal. Levou-o a um divã cheio de curvas, que ela
considerava perfeito para uma trepada profissional.
— Agora me come, meu querido. Sou toda tua!
Subiu nele e deixou-se agarrar por dedos ávidos, enquanto o beijava na boca. Deixou-se penetrar,
no controle total do homem e de suas convulsões de prazer. Enquanto apertava, chupava e ordenhava
o falo usando só a vagina, continuava a massagear-lhe o corpo com os próprios seios e barriga e a
segurar-lhe as mãos, enquanto as línguas se entrelaçavam. Ele gozava repetidamente sem ejacular,
com o corpo todo e, se não estivesse com a boca tão ocupada, urraria como se estivesse sob a mais
cruel das torturas. Quando decidiu que era o momento do grande final, alcançou um pequeno consolo
lubrificado e o inseriu nele, coordenando os movimentos da mão com os da vagina. Sentiu-o chegar
ao “ponto de estourar” — aquele no qual o falo explodiria em sangue se não estivesse tão bem
contido por sua pressão — antes de deixá-lo vir com tudo. Não estivesse dentro dela, o jorro
chegaria ao teto. Depois de uma convulsão tão violenta, que quase a machucou, ele apagou.
Estava banhado de suor, com o coração disparado e quente como se agonizasse de febre. Tita
suspirou e saiu de cima, procurando uma toalha úmida para refrescá-lo. Da próxima vez, tinha de ser
mais comedida, não fosse o próximo cliente lhe morrer entre as pernas! Voltou a massageá-lo, agora
para trazer o sangue de volta à cabeça. Quando despertou, ele tentou levantar-se.
— Espere, Lohsau-xin, sente-se primeiro e descanse um momento para não desmaiar de novo.
Tome! — O fez beber uma cuia de água fresca da moringa.
— Caralho... — Ele se abanou com o leque que ela lhe emprestou.
— Queres mais?
— Mais?! Não, mal me aguento! Assim me matas!
— Mais água, meu amor!
— Ah, isso sim! Mas olha que morrer assim... — Fez uma expressão sonhadora, enquanto se
refrescava mais um pouco, mas abanou a cabeça. — Não, tenho quatro filhos para criar.
— Nem pense nisso! E de todo jeito, o tempo já vai acabar... — Ela apontou para a pedra no
gorpekenan: a luz verde passava à amarela, sinal de que estava prestes a apagar.
Ele suspirou e se levantou. — O ruim é a sensação de que o melhor da vida já passou!
Ela se despediu no corredor com um abraço e um beijo e entregou a chave à arrumadeira para
limpar o quarto e trocar lençol e toalhas enquanto ela se lavava e arrumava. A camareira de plantão a
ajudou a se pentear e se maquiar e perguntou:
— Foi teu primeiro serviço, não é? Que tal, achaste difícil?
— Hum... foi tudo bem. Gostaria de poder ter escolhido outra profissão, mas sei que há coisas
piores, portanto, não me queixo. — Respondeu enquanto a arrumadeira lhe devolvia a chave.
— Isso é bom. — A senhora falou. — Moças com essa atitude costumam se sair bem.
Pensou mais no que tinha sentido, enquanto descia a escada para procurar o próximo cliente.
Gozo? Não. Sentira mais de um espasmo, mas os ignorara como se fossem cócegas ou arrepios,
pequenos incômodos a atrapalhar a concentração na sua arte e no prazer do sapateiro. Tivera prazer,
mas não o da trepada, muito menos o do amor, e sim o de uma atriz que, mesmo sem gostar da peça
em cartaz, sabe quando faz uma boa apresentação.
Dessa vez, não precisou esperar, nem pôde escolher. Quando apareceu na entrada do saguão, um
tlavatli magro e alto, de sorriso atrevido, saltou à sua frente, ficha entre os dedos.
— Você é minha! — Homem de poucas palavras e sotaque do interior. “Boa tarde para ti
também”, pensou ela.
— Toranna, ao dispor de tua fantasia! — Fez a reverência protocolar.
— Tewant-quan, mas pra você sou o Mastaréu.
Ao aceitar a ficha, analisou: piloto da marinha mercante, quanciós, devia ser solteiro. Pelo estilo,
era um “gavião”, brusco, enérgico e confiante. Esse não era um pangaré dócil que ela tinha de incitar,
mas um corcel selvagem que ela teria de conter e convencer a aceitar rédeas para poder levá-lo a um
bom passeio. Quanto ao órgão, um “unicórnio”, fino e longo, óbvio por baixo da tanga. Devia ter
cuidado: podia machucar-lhe o reto, mas era frágil em certas posições e talvez demorasse a voltar à
ereção completa se a perdesse.
Assim que a luzinha se acendeu, o sujeito tirou o falo para fora, levantou-lhe a saia, ergueu-a nos
braços e tratou de meter ali mesmo, contra a parede, enquanto os outros, surpresos, olhavam,
apontavam e riam. “Hum, exibicionista”, constatou ela. Abraçou-o com braços e pernas firmes,
deixou-o penetrá-la e sussurrou-lhe ao pé do ouvido:
— Assim, Mastaréu, me fode todinha...
— Tá gostando, putinha? — Ele bufava e rilhava os dentes, mas tinha muito de representação.
— Adorando. — Mentiu. — Como és forte! Não queres mostrar-lhes que consegues me levar pro
quarto sem me tirar desse caralhão gostoso? Aposto que és capaz!
Nada como um desafio para manejar esse tipo. Ele a levou no colo escada acima até a porta
indicada enquanto ela o recompensava com suas artes vaginais, como quem premia o cavalo que fez
o truque certo com uma guloseima. Ele mesmo lhe tirou a chave do bolso e abriu a porta antes de
jogá-la na cama. Enquanto sacava a saia, ela notou como ele olhava para os lados, desapontado.
Faltam espelhos aqui, ele gosta de se ver trepando. Prefere fazer, ver e mostrar a sentir. O jeito
era deixá-lo ver o máximo.
— Mastaréu, me deixa chupar essa jeba! Por favor, estou louca de vontade!
— Quer? Então vem, putinha! — Saiu de cima e se deitou ao lado.
— Vamos pro divã que é mais gostoso! — Carregou num palavreado rouco e obsceno, fingindo
excitação. — Eu me ajoelho aos teus pés e sugo teu mangalho do cabeção até às bolas e lambo teu cu
e aí tu metes na minha boca até a goela e fodes nas minhas tetas e vês tudinho...
— Isso, isso! — Pulou, entusiasmado.
Tirou-lhe as sandálias e a tanga ainda pendurada aos quadris e aplicou boca, tetas e dedos
combinando as perícias da flautista, da encantadora de serpentes e da engolidora de espadas. Quando
ele lhe puxava os cabelos para ver melhor, ela o mirava nos olhos com cara de embevecida. Não que
aquilo não tivesse lá a sua graça. Ela se divertia com suas caretas, estremeções e revirar de olhos à
medida que o fazia de títere ao usar dedos e língua nos pontos certos. Como dizia a mais inspirada de
suas instrutoras, uma prostituta é uma fingidora e finge tão completamente que chega a fingir que é
gozo o gozo que deveras sente.
Quando sentiu que o tinha no ponto, esquecido do papel de macho durão e disposto a entregar-se
ao prazer, subiu e se fez penetrar de novo, agora de rédeas na mão, conduzindo-o como a um cavalo
de raça numa corrida de obstáculos, colocando-o em posições incomuns e deixando-o desfrutar de
atordoantes saltos sobre o abismo. Ele tinha bons músculos e precisava usá-los para sentir todo o
prazer de que era capaz. No momento de arrematar, sacou o falo da vagina, excitou-o com as mãos e
esfregou-o nos seios e gemeu:
— Esporra em mim, assim, me lambuza toda! — Um homem assim, previu ela, gozaria em dobro
ao admirar a própria ejaculação, prolongada e triplicada pela arte dela.
Não desmaiou, mas caiu sobre ela de olhos esbugalhados e arquejou por um bom tempo antes de
recobrar o fôlego e o controle dos músculos. Quando se levantou, os dois estavam lambuzados. Ela
limpou-o com uma toalha fresca, vestiu-o e se despediu. Ele se afastou de pernas trêmulas, enquanto
ela repetia a rotina higiênica e cosmética, fatigada.
Da terceira vez, quatro homens e uma mulher se aglomeraram à sua volta, mal pôs os pés para fora
dos camarins e todos queriam ser atendidos primeiro. Surpresa, ela pensou rápido e fingiu sortear ao
acaso, como uma criança numa brincadeira de roda — “Uma gata vai ao mato, quantos gatos ela
leva? Leva um, leva dois...” e pegou um “pato” bobinho. Depois daquela maratona, queria algo
menos cansativo. Deu certo: os outros riram em vez de se zangar. Teve de repetir a manobra mais
três vezes naquele turno e a aglomeração parecia crescer a cada vez. Ao todo, o turno lhe rendeu
quatro homens, uma mulher e um casal. Ao despachar o último freguês, Toranna ouviu o gongo e
suspirou de alívio. Já era noite fechada. Evitando o saguão, correu para se juntar à turma que voltava
pelo túnel, antes que outro cliente a visse.
Os semblantes variavam, uns exaustos como o dela, outros mais relaxados. Olharam-na com
curiosidade, mas ela não estava com vontade de puxar conversa naquele momento e seguiu em
silêncio. Então, já no meio do caminho, uma garota correu para alcançá-la.
— Tita-pu, Tita! — Ela se virou. Era a tlavatlizinha da risada gostosa. Qual era o nome dela... ah,
sim, era Yolotin.
— Oi, Yolotin-pu, que foi? — Ela parecia preocupada.
— Peço desculpas pelo cliente que te tirei, foi sem querer. É que me lembrei de uma piada que ele
me contou outro dia e tive de rir...
— Ah, não faz mal, tive tantos quanto podia dar conta. — Sorriu. Teria esquecido o incidente se
Yolotin não o lembrasse, mas gostou da gentileza da colega.
— Sim, um fenômeno, falaram tanto de ti...
— É? Como foi isso? — Ficou curiosa.
— O sapateiro foi à taverna beber e contar pros amigos como tinha ido parar nas nuvens. Aí, o
marinheiro ouviu a conversa, ficou impressionado, foi atrás de ti e voltou varadão, dizendo a todo
mundo que nunca fodeu igual. Então...
— Que bom que gostaram! — Ela sorriu, orgulhosa da façanha, enquanto chegavam às termas
privativas do bloco de moradia para relaxar com um banho quente. Tita e Yolotin lavaram-se as
costas enquanto conversavam.
— E qual foi a história que te fez rir? — Perguntou Tita.
— Era sobre uma hetaira cari que viveu há mil e tantos anos. Um vice-rei da ilha de Daitya, um
homem muito rico, muito poderoso, muito velho e muito sovina, recebeu a ordem de ir à capital, que
não visitava há muitos anos, para renovar o juramento de lealdade ao imperador Asar e receber
novas instruções. Lá em Ki, acabavam de inaugurar obras imensas e o velho, ao chegar à corte, ouviu
uma discussão acirrada entre dois partidos. Os bajuladores de Asar diziam que a maior maravilha da
capital passara a ser a cúpula dourada do novo Templo de Shapash. Os tradicionalistas insistiam em
que continuava a ser a velha Torre de Anshar. Quando o debate ia mais áspero, o grão-vizir surgiu no
salão e mandou todos se calarem, pois todos estavam errados: a maior maravilha de Ki era outra.
“Qual?”, perguntaram todos. “Uhulah”, respondeu. A briga acabou: todos riram, aplaudiram e lhe
deram razão. O velho perguntou o que era Uhulah e lhe responderam que era uma hetaira belíssima, a
deusa Belit feita gente. Embora o velho trouxesse consigo muitas concubinas e quase não fizesse uso
delas, a história o alvoroçou. Levando seus lacaios e guarda-costas, abordou-a quando saía do
templo da deusa e lhe perguntou quanto cobraria por uma noite com ele. Ela avaliou suas roupas e
seu séquito fez seu preço. “Quatro mil debens”, disse ela, uns dois mil ases em nossa moeda. “É caro
demais!”, reclamou ele. “Aceita dois mil debens por noite, que hei de voltar outras vezes”. Uhulah
olhou para aquele velhinho encarquilhado e respondeu: “Nada feito, na tua idade, aguentarás, no
máximo, uma vez”. Virou-lhe as costas e foi-se embora!
Tita riu amarelo. A história lhe doeu: a quantia desprezada pela tal Uhulah teria resolvido seus
problemas. Por mil ases numa noite, ela serviria um pelotão de homens-javalis, uma colônia de
leprosos. Mas Yolotin não percebeu o que lhe passava na cabeça:
— Ah, não sei contar direito! Quando o Kasmin conta é muito mais gozado. — Falou enquanto se
vestiam, agora com as roupas normais.
— Que bom ter um cliente engraçado! E como foi o serviço com ele?
— Nós brincamos de esconde-esconde. — Contou, enquanto caminhavam para o refeitório.
— Hem? Como assim?
— Fui me esconder no labirinto de ciprestes do jardim enquanto ele se virava de costas e contava
até cem. Fui e me embrenhei bem lá no meio, esperando por ele. Quando me achou, eu fiz que corria,
mas deixei ele me pegar. Aí me carregou no colo até um canteiro de violetas, me pôs de bruços no
meio delas e me pendurou no precipício...
“Pendurar no precipício”, no jargão da Guilda, era agarrar alguém de cabeça para baixo pelas
pernas e colocá-las sobre os ombros para sugar e lamber o sexo e o ânus. Fazer isso numa
profissional era uma inversão embaraçosa. Tita sentiu o rosto quente e riu para disfarçar.
— Parece coisa de namorados!
— É meio isto mesmo! Da primeira vez, estava abatido porque tinha uma namorada de muito
tempo que o trocou por um almofadinha rico. Ele me xavecou um tempão antes de deixar cair a ficha
e depois quis dançar comigo, me beijar e me bolinar antes de trepar. Quer dicas de como agradar as
garotas e eu ensino, com gosto. Tomara que se divirta tanto quanto eu!
— Será que te pareces com ela?
— Eu lá vou me parecer com uma dondoquinha senzar? Pelo contrário, foi com minha cara porque
tava com raiva dela. — Riu daquele jeito que a fascinava. — Queria o contrário!
No refeitório, Tita ia à mesa do costume, quando Yoloni a pegou pelo braço.
— Não Tita-pu, senta comigo. Já não és mais novata!
Verdade! Acabavam-se os trotes e entrava para as meias-oficiais. Sentou-se no banco ao lado de
Yoloni e reparou que aquela era a mesa das “safadas”. Tudo bem, simpatizava mais com aquele
grupo do que com as “cocotas” bonitinhas e vaidosas, as “quengas” exibidas e desbocadas e as
“piranhas” devassas em período integral. Safadas eram engraçadas e variadas.
A cozinheira e os ajudantes trouxeram panelas de barro com cozidos de peixe, legumes, arroz e
lentilhas, cestas de pães e tortilhas e moringas de água, sucos fermentados e marçó. Enquanto
comiam, Tita perguntou a Yoloni se tinha família em Atlântis. Sim, seu pai trabalhara como
estivador, mas caiu do alto de uma grua cujo braço se soltou e ficou inválido. A Guilda dos
Portuários lhe pagava uma pensão, mas mal bastava para alimentá-lo. A mãe passou a sustentar a si e
aos filhos como biscateira, lavando roupas, limpando latrinas ou vendendo sexo, conforme a
necessidade e a oportunidade, pois era proibido pedir esmolas e a quem não conseguisse o próprio
sustento só restava vender-se no mercado de escravos.
A filha começou por imitá-la, até se dar conta de que era atraente, tinha jeito com os homens,
adorava sacanagem e ganharia bem mais na Guilda. Mesmo como aprendiz, embolsava uns seis ases
por mês. Dava a metade para a mãe, o que bastava para mantê-la e aos dois irmãos menores a uma
distância segura da fome e da escravidão. Gastava pouco e guardava o resto, mas não fazia planos,
era apenas uma segurança.
Tita ficou comovida e com inveja. Yoloni tinha uma família para amar, ainda que pobre e infeliz,
enquanto a sua não servia nem para odiar, só para desprezar. E tinha algum dinheiro, enquanto ela só
tinha uma dívida sufocante.
Uma mugal tão miúda e delicada que parecia criança — chamavam-na Mimi, porque o nome
verdadeiro era difícil de pronunciar, — aproveitou o silêncio para contar sua história. O pai queria
casá-la contra a vontade com seu sócio na olaria, um gordo de meia-idade obcecado por conseguir
uma segunda esposa fiel, jovem e virgem. Levou-a para conhecer a casa do sujeito e ele lhe mostrou
como estava ampliando a casa para recebê-la. Quando o noivo veio retribuir a visita, ela zombou da
feiúra dele e o avisou de que, sabendo de sua preocupação, tinha dado as três virgindades aos dois
pedreiros que trabalhavam no anexo. Na verdade, explicou para Tita, eles não foram os primeiros
com quem trepara, mas queria deixar claro como o desprezava. O pai a expulsou na hora, gritando
que não a matava para não sujar as mãos. Ela pediu abrigo ao Pescoço do Ganso, um dlaudim classe
estanho do bairro mugal e ali ficou dois anos antes de Tós-sió a conhecer e a convidar para o
Glicínia Suspensa. Nunca mais vira os pais e o irmão, mas não se importava. Estava feliz ali, sentia-
se em família.
Kimpar, uma senzar de cabelo curto e jeito de rapaz, fez um elogio entusiasmado a Tós-sió. Disse
que há oito anos, quando ela assumiu a gerência, o bordel era grande, mas desmazelado e mal visto.
Virou o melhor e mais bonito classe oricalco da capital. A velha era durona, justa e competente.
Dava valor às garotas e as protegia de injustiças e clientes abusivos. Era candidata a supervisora do
bairro dos Prazeres, com certeza seria eleita e um dia seria cônsul da Guilda.
— Trabalhas aqui há tanto tempo? — Tita estranhou, pois Kimpar parecia tão jovem quanto ela.
— Não, que pensas? — Riu. — Que Tós-sió deixaria uma impúbere trabalhar? Não, virei
aprendiz quando acabei a escola, faz dois anos, mas fui criada aqui. Mamãe agora é supervisora e
está de turno, mas era uma glicínia desde bem antes de eu nascer.
Levantaram-se e foram espairecer um pouco antes de dormir. Algumas saíram à rua para ver o
movimento, outras foram ao salão e lá Yoloni convidou Tita a uma partida de dohtlisbás.
— Não quero arriscar dinheiro. Tenho uma bruta dívida.
— Não precisa, é só um passatempo.
Dividiram as cartas. O objetivo era descartá-las formando sequências e outras combinações. Uma
jogadora podia aproveitar o arranjo iniciado por outra e a primeira a se livrar das suas cartas vencia.
Enquanto Yoloni se divertia e brincava, batendo papo sobre tudo e nada, Tita pôs memória e intuição
a trabalhar, concentrada. Ganhou com facilidade.
— Gostei, mas agora acho que vou dormir. Boa noite!
— Posso ir contigo? — Yoloni inclinou a cabeça com um sorriso radiante.
— Hem? Yoloni-pu, está falando sério? Olha, estou caindo aos pedaços...
— Estás tensa, sinto e vejo desde que saímos do turno. Quero te massagear e te fazer companhia.
Eu me lembrei de meu primeiro dia de trabalho aqui, também me sentia meio assim e tive dificuldade
para dormir, me sentia muito só. Vamos, vais te sentir melhor.
Comovida, Tita deu a mão para Yoloni, levou-a a seu quarto e deixou que ela a despisse de tudo e
a massageasse, como fizera com o sapateiro. Nada de técnicas sofisticadas, só movimentos lentos,
firmes e carinhosos. Tita sentiu-se derreter naquelas mãozinhas, passaram pela sua cabeça, sem
controle, as emoções que a atormentavam desde que os pais lhe contavam que precisavam vendê-la,
a fúria contida, os momentos humilhantes e assustadores da negociação e do treinamento, os clientes
ávidos e insensíveis, a dívida aterradora. O nó que tinha na garganta desde o fim do turno se desfez
numa crise de choro e Yoloni, embora fosse menor que ela, a pôs no colo e a consolou como a um
bebê, sem fazer perguntas. Dormiu enrodilhada com a amiga e ao acordar, transaram como amantes
amadoras, o que foi uma delícia. E Tita entregou-se a viver seu dia a dia, sem tanto medo e com mais
esperança.
Melhor Acompanhada Adriana Simon

Uma semana antes da decolagem resolvi pôr um fim na minha solidão. Na falta de melhor companhia,
optei por eu própria: pelo implante de meu clone. Todos os exames físicos de avaliação para a
jornada haviam sido feitos um mês antes e a gravidez não seria detectada antes da partida. Eu sabia
dos riscos enormes que corria, mas tudo valeria a pena se realmente desse certo. Felicidade em
primeiro lugar. Desde o começo, decidi chamar o bebê de Amy. O anagrama de meu nome — May —
pareceu bem apropriado.
Um ano depois, sentada no centro de comando olhando para a vastidão das estrelas, continuo a
refletir na minha vida. Nunca gostei muito de mim. Talvez porque muita gente quisesse que eu
acreditasse que eu não era boa o suficiente. Se duvidar, eles tinham razão. Foram muitas desilusões,
mas nunca desanimei. Sempre consegui sacudir a poeira e dar a volta, se não por cima, pelo menos
com disposição para recomeçar. Sei que deveria buscar a felicidade dentro de mim mesma, sozinha.
Mas nunca consegui. Antes só do que mal acompanhada? Não para mim. Sempre precisei de
companhia. De alguém que validasse que eu servia para algo. Alguém que me amasse.
Comparações com meu irmão, em geral desfavoráveis, decerto contribuíram para a redução da
minha autoestima. Gustavo era o braço direito do meu pai e o queridinho da minha mãe. Sempre foi o
mais calmo, o mais carismático, o mais inteligente, o mais bem-sucedido e até aparentava ser o mais
certinho, o que não era verdade. Para fugir daquele ambiente opressivo repleto de comparações,
resolvi me alistar.
Minha vida mudou depois que eu entrei para a Força Espacial. Não havia mais comparações.
Agora eu era apreciada por meu raciocínio lógico, persistência e facilidade em tomar decisões. Estas
qualidades e dez anos de trabalho duro na Força, garantiram-me uma vaga na jornada de quatro anos
para Litas, a bordo do cargueiro Luna. Sempre me senti sozinha num mundo cheio de gente. A
perspectiva de viver por tanto tempo com somente outras cinco pessoas a bordo da Luna
definitivamente não me assustava.
Eu havia trabalhado anteriormente com Mark, o comandante da Luna. Ele pareceu bastante
satisfeito quando fui incluída na tripulação. Mark tinha 38 anos. Um canadense de queixo quadrado e
olhar penetrante. Tinha me interessado por ele quando o conheci, mas quando soube que ele era
casado e tinha dois filhos pequenos, esfriei de imediato. Não sinto a menor atração por homens
casados, ainda mais com filhos. Afirmou que sua família estava escalada para partir em cinco anos
na primeira nave de passageiros, que conduziria 512 colonos para Litas.
O implante havia sido um sucesso, mas existia uma probabilidade razoável de que o bebê não
vingasse. Se daria certo ou não, não dependia mais de mim. De qualquer forma, pelo menos eu estava
tranquila e contente por haver tentado. As atribulações da jornada fizeram com que eu pusesse tais
preocupações de lado para me dedicar ao dia a dia a bordo da nave. Quando finalmente comecei a
me sentir mais confortável com meus afazeres e com mais tempo para pensar nos meus problemas,
Lamai entrou na minha vida.
Lamai era a única mulher a bordo além de mim. Ela acumulava as funções de copiloto e
engenheira. Tinha 39 anos, divorciada, sem filhos. Quando Lamai me falou de sua idade pela
primeira vez, me surpreendi. Não parecia ter dez anos a mais que eu. Tailandesa, Lamai possuía pele
morena, era magra e baixinha. Seu corpo atlético, com seios pequenos, quadris estreitos e bunda
arrebitada, mais lembrava o de um adolescente do que de uma mulher de quase quarenta anos.
Peter havia tentado se aproximar da Lamai e depois havia tentado a sorte comigo. Jovem, alto e
musculoso, com rosto de modelo holográfico, Peter julgava-se capaz de atrair todas as mulheres da
Terra e do espaço. Algumas rejeições mais tarde, nosso psicólogo, Amal, chamou o garanhão para
uma conversa e o aconselhou a utilizar o equipamento de sexorrelaxamento de bordo.
A noticia da gravidez foi obviamente recebida com surpresa pelos membros da tripulação. Aos
poucos, todos acabaram por aceitar a situação, especialmente depois da reunião que Amal promoveu
conosco. Como além de psicólogo, era nutricionista, Amal se encarregava de distribuir as refeições.
O bom-humor daquele marroquino sereno era simplesmente contagiante. Ao longo da reunião,
esclareceu que, apesar desta gravidez não ser esperada ou adequada, não havia nada a ser feito e
qualquer ato ou atitude que prejudicasse minha gestação seria julgado criminalmente.
Alex, nosso médico e biólogo cingapurense, tranquilizou-me afirmando que aprendera a fazer
partos e que estava confiante de que seria capaz de fazer a cesariana com os lasers cirúrgicos
disponíveis na enfermaria. Também me ajudou com a azia e o refluxo horríveis que eu sentia. Além
do medicamento à base de hidróxido de magnésio que eu tomava diariamente, Alex me ministrava
sessões de acupressão. Também me cedeu pastilhas antiácidas que ajudaram a diminuir a sensação
de dor e queimação.
Com ajuda do Alex e de sua experiência com a medicina chinesa, Amal montou uma dieta
balanceada para a gravidez e para diminuir esses sintomas desagradáveis. A dieta consistia
basicamente de vegetais frescos ligeiramente cozidos e re-hidratados, uma vez que nosso suprimento
de vegetais frescos era limitado: feijão, grãos integrais com exceção de trigo e porções diminutas de
proteína animal, que atuavam mais como aromatizante, para dar sabor à comida, do que como
ingrediente essencial. Amal me aconselhou a tomar água a temperatura ambiente em lugar de gelada.
Lamai me apoiou desde o início. Já havia engravidado e perdido um bebê alguns anos antes e
parecia contente em participar de alguma maneira da minha gestação. Lamai significa “suave” em tai.
Os pais dela acertaram em cheio quando escolheram esse nome. Lamai era suave como uma pluma.
Gentil, calma e doce, ela aos poucos me cativou.
Os hormônios da gravidez realmente mexeram comigo. Antes reservada e controlada, agora eu
sentia as emoções à flor da pele. Um dia, eu estava chateada e tive que correr para meu camarote
para não chorar na frente de todos. Lamai veio atrás de mim. Conversamos bastante tempo, mas não
consegui me acalmar. Quando me abraçou, eu não quis mais soltar. Precisava desesperadamente de
carinho. Depois de vários minutos, ela finalmente se afastou, olhou nos meus olhos e disse que eu não
estava mais sozinha.
Esbocei um sorriso e fui surpreendida com um beijo. Foi a primeira vez que beijei uma mulher.
Seus lábios eram carnudos e macios. Lamai beijou então meu rosto sobre as lágrimas que haviam
corrido pouco antes. Levantou minha blusa e beijou meus mamilos delicadamente. Em instantes nos
despimos completamente. Sua pele morena fez um contraste lindo com a minha mais clara.
Desajeitada, tentei acariciar seus seios pequenos e firmes. Ela me afastou com delicadeza. Pôs-me
deitada e disse para eu relaxar. Beijou minha barriga grande de cinco meses e aos poucos foi
descendo para os meus quadris e meu púbis. Agora soltos, seus longos cabelos negros se
esparramaram sobre minha barriga. Sua língua quente lambia meu clitóris. Deslizei os dedos por seus
cabelos, agarrando-os pela raiz. Lamai introduziu o indicador na minha vagina e o moveu
ritmicamente, coordenando com os movimentos da língua. Fazia anos que eu não tinha relações com
ninguém e não tardou para que eu atingisse o clímax, puxando seus cabelos. Lamai sorveu meus sucos
com prazer. Então tornou a subir e, com um sorriso, beijou minha boca, sua língua agora brincando
com a minha.
Estava pronta para cair de boca na minha tailandesa cheirosa, quando ouvimos um estrondo e
fomos atiradas no piso do camarote. Vestimos-nos rapidamente e corremos para ver o que estava
acontecendo. Descobrimos que algum objeto ou força não detectada pelo sistema de defesa da nave
havia atingido o compartimento de carga e provocado uma despressurização. Lamai colocou seu traje
de atividade externa e desceu ao compartimento inferior. Quando quis ir com ela, Amal me persuadiu
de que, aos cinco meses de gravidez, eu não seria de grande valia. Fui então para o centro de
comando enquanto todos os outros quatro tripulantes tentavam lidar com a situação.
Tudo aconteceu muito rápido. Só me lembro de outra pancada forte e de ser novamente atirada ao
piso. Quando finalmente consegui levantar e olhar no monitor, notei que boa parte do compartimento
de carga havia sido arrancado da nave e as portas de acesso se selaram automaticamente.
Num piscar de olhos, os cinco desapareceram da minha vida como se nunca houvessem existido.
Inclusive, minha querida Lamai.
O acidente havia causado problemas no equipamento de transcepção, dentre outros. Transmiti um
pedido de socorro padrão. Porém, pelos meus cálculos, o mesmo não chegaria à Terra em menos de
três anos. Até o resgate chegar, não haveria mais ninguém a bordo.
Só eu. E eu.

Tento dormir, mas não consigo. Viro no leito de um lado para outro. A cada virada, preciso
literalmente levantar a barriga e virá-la junto comigo. Sinto-me desconfortável. Minha coluna dói,
meus pés estão inchados. Tenho uma azia horrível e acordo toda noite com falta de ar. Os pesadelos
não ajudam. Num deles, a bebê me furava de dentro para fora e sangue escorria pela minha barriga.
Em minha quadragésima semana, sinto-me ansiosa e estressada.
Quando me fecundei, a possibilidade de me submeter a um parto normal não me passou pela
cabeça. A cesariana é o procedimento habitual, mais seguro e partos normais nunca foram normais.
São coisa de gente “natureba”, não de pessoas lógicas e sensatas como eu. Só que agora não há outro
jeito. Fazer o quê? Não há ninguém a anos-luz daqui. Tenho que fazer como outros mamíferos e
nossos antepassados. Vai ter que ser na raça, já que a aplicação de qualquer anestesia não será
viável.
A questão do tempo de gestação não me sai da cabeça. Meu tampão mucoso já saiu há duas
semanas e ainda nada. É preciso fazer alguma coisa para agilizar este parto. Inspirada pela breve
experiência que tive com Alex e a medicina chinesa no começo da gravidez, resolvo fazer uma
pesquisa. Localizado no piso inferior, o holotanque permanece inoperante desde o acidente. Tento
efetuar a pesquisa através do computador mesmo. Este é um dos problemas da situação atual.
Mimada pelas facilidades tecnológicas modernas, sofro uma dificuldade tremenda ao utilizar um
teclado virtual para a entrada de dados, em vez dos comandos vocais. De certa forma, é como viver
num holo histórico ambientado no século XX.
Tento me manter positiva. Por sorte, a biblioteca em si ainda está intacta. Após algumas horas de
pesquisa na seção de história da medicina, descubro que há coisa de três séculos o parto natural era
razoavelmente comum em algumas culturas. Descubro também que naquela época já não se usava
mais fazer epsiotomia que, para quem não sabe, é o corte na parte lateral da vagina para abrir mais
espaço para o bebê sair. Era consenso geral que tal procedimento podia funcionar como aquele
pequeno corte numa embalagem de plástico para facilitar a abertura. Esta notícia me tranquiliza um
pouco, já que não acho que conseguiria fazer uma autoepsiotomia.
Em minha pesquisa também descubro que nossos antepassados usavam vários métodos
alternativos para agilizar o inicio do trabalho de parto. Faço uma lista:

1- Enema;
2- Caminhar/ fazer exercícios;
3- Acupressão;
4- Sexo;
E alguns mais arriscados que resolvo não experimentar, pelo menos por ora:
5- Ruptura artificial das membranas;
6- Rompimento da bolsa d’água (saco amniótico);
7- Ervas e medicamento naturais como óleo de prímula e óleo de rícino; e
8- Medicamento para induzir as contrações.

Enema é uma lavagem intestinal que pode ajudar a acelerar o parto (assim como, em tese, a
comida apimentada) por estimular o funcionamento deste órgão. Como prefiro ter minha bebê com as
melhores condições de higiene possíveis, para minimizar a hipótese de contaminação, decido por
este procedimento.
Os exercícios e caminhadas utilizam a força da gravidade para ajudar o bebê a descer e se
posicionar mais abaixo na região pélvica, consequentemente acelerando o trabalho de parto. Já estou
cansada de fazer exercícios e caminhar. Se o holotanque estivesse funcionando, seria mais agradável.
Para quem está acostumada a se exercitar em combates aquáticos em Miuris com dezenas de outras
pessoas, é entediante praticar sozinha, num espaço limitado e cercada pela frieza dos equipamentos.
Ao menos, a gravidade artificial se mantém funcionando.
Faço uma pesquisa em acupressão e descubro os pontos relevantes, alguns deles nas costas e,
portanto, inacessíveis. Autoaplico-me um pouco desta terapia nos pontos acessíveis. Entedio-me
rapidamente, mas me comprometo a repetir o tratamento três vezes por dia.
Segundo minha investigação, o sexo pode ajudar a estimular o trabalho de parto de duas maneiras.
Primeiro, por conter o hormônio prostaglandina, o sêmen ajuda a amadurecer o colo do útero,
tornando-o mole, curto e com a dilatação apropriada, o que estimula o início do trabalho de parto. A
segunda maneira é que o orgasmo feminino provoca a liberação do hormônio oxitocina, o que faz
com que o útero se contraia, o que pode induzir ao trabalho de parto.
Resolvo experimentar a ideia do sêmen. O compartimento de refrigeração que preservava sêmen a
bordo — bem como outros itens, como agentes patológicos e sementes — havia parado de funcionar
três dias atrás. Pensei em colocar esse material do lado de fora para preservação, mas as portas de
acesso externo estão inoperantes. Planto algumas sementes com a esperança de ter alguma vegetação
na nave. O sêmen já está descongelado, porém, como teoricamente pode sobreviver mais de 48
horas, creio que ainda sirva bem para meus propósitos.
Recolho o sêmen com a seringa mais longa que consigo encontrar, para facilitar o encontro dos
espermatozoides com meu útero. Deito no leito do camarote e insiro a seringa profundamente em
minha vagina. Pressiono o êmbolo aos poucos até que me encontre cheia do líquido. O volume de
fluido é bem maior do que o de uma ejaculação. De alguma maneira, a ideia de ter sêmen de um
desconhecido dentro de mim me deixa excitada. Acabo me masturbando com a seringa. Primeiro
delicada e depois entusiasticamente. Quando termino, coloco dois travesseiros embaixo dos meus
quadris e permaneço deitada de pernas para cima, mas com a barriga meio de lado, já que é muito
desconfortável deitar de costas. Essa é a melhor posição para que a prostaglandina faça seu trabalho.
Penso na Lamai. Como queria que estivesse aqui comigo. Fico triste com a lembrança. Que azar o
meu. Quando enfim conheci alguém digna de compartilhar meu futuro, veio esse acidente e eis-me
sozinha outra vez. Então me toco que não estou sozinha. Tenho meu bebê dentro de mim.
Ligo a gravação de hypnobirthing. Já faz algum tempo que estou fazendo os exercícios mentais e
ouvindo as gravações todas as noites, mas não boto muita fé nesta técnica. Tenho um bom controle
para a dor e conto com isto para me ajudar na hora do parto. Acabo adormecendo nesta posição.
Acordo com fome. Não tive desejos durante a gravidez, mas nos últimos oito meses passei a dar
preferência às comidas azedas. Esquento uma sopa de vegetais e acrescento uma dose caprichada de
suco concentrado de limão. Como rapidamente e com prazer. Deito de novo para ler um pouco. Tomo
o cuidado de deitar no meu lado esquerdo conforme recomendado para facilitar a circulação
sanguínea.
Nunca havia pensado seriamente em usar o equipamento de “relaxamento”. Considero-me
antiquada. Tive poucos parceiros e nunca usei acessórios. Não sei bem o porquê, mas o equipamento
de relaxamento era utilizado somente pelos membros masculinos da tripulação. Sempre fiquei meio
sem graça de deixá-los saber que eu precisava recorrer a esse tipo de apoio. Além disso, detesto
insetos e esses alienígenas minúsculos se parecem com baratas. Agora, no entanto, começo a
considerar essa opção, já que eventuais orgasmos ajudariam a acelerar o inicio do trabalho de parto.
A verdade é que a gravidez mexeu um bocado com meus hormônios: nunca me senti tão tesuda quanto
agora. A experiência com Lamai abriu minha mente a novas possibilidades e a ideia de experimentar
algo novo me deixa excitada.
Checo o equipamento e tudo parece normal. Entro no tanque, ajusto o capacete e aperto o botão
para começar. Em alguns momentos o tanque se enche de água. Fecho os olhos e tento não pensar nas
baratinhas alienígenas que entram em contato com meu corpo. Na minha cabeça, fantasio que um ser
de porte maior — bem maior — invade a nave e me encontra dormindo. Um alienígena
supermusculoso de dois metros e meio. Acordo assustada com ele montado em cima de mim. Seu
peso me pressiona contra o leito. Tento resistir, mas ele já está arrancando minha blusa. Neste
momento sinto a atividade dos insetos se intensificando. São pequenos beliscões que queimam como
gelo e fogo. Já cobrem meu corpo inteiramente e agora começam a penetrar nos meus orifícios. Fico
nervosa e decido voltar ao meu alienígena imaginário que segue arrancando minha blusa. Ele se
distrai por instantes ao tirar suas calças e me exibir dois membros azuis bem eretos. Tento me
desvencilhar, mas, de quatro no leito, só consigo me afastar um pouco. Ele me agarra pelas ancas e
arria minha calcinha. Sua língua quente e azul sobe pelo meu pé, meu tornozelo, minha panturrilha,
lambe a parte de trás do meu joelho e a superfície interna da minha coxa. Tento resistir novamente,
mas ele me arrebata pelos quadris e introduz seus dois pênis simultaneamente na minha vagina e meu
ânus. Grito de dor, mas aos poucos fico molhada e a dor dá lugar ao prazer. Cada vez que tento
escapar, ele enfia os dois membros mais fundo. Agora já não resisto mais. Arqueio meus quadris
para facilitar as penetrações e em pouco tempo tenho meu primeiro orgasmo. Ele me põe deitada no
leito. Seus dentes afiados mordem suavemente meus mamilos. Ele me monta mais uma vez,
aprofundando-se em meus orifícios dilatados. Cruzo os tornozelos atrás das costas dele e tenho meu
segundo orgasmo quando sinto o leite quente do alienígena escorrer pelo meu ânus e coxas. Sinto os
insetos me penetrando profundamente, me alargando como nenhum amante jamais havia feito. Agora
já não quero mais saber do alienígena grandalhão. Estou mais interessada mesmo nas baratinhas me
invadindo, me queimando de prazer... Os insetos continuam seu trabalho, até eu gritar, histérica,
durante o terceiro orgasmo. Definitivamente me sinto mais relaxada.
Penso na bebê e me sinto culpada e preocupada. Tenho horror de fazer qualquer coisa que
arrisque a saúde ou a segurança dela, mas me lembro que está protegida no meu útero por várias
camadas de músculos e pelo saco amniótico.
Aperto um botão. O aparelho emite um sinal aos insetos e esses se retiram num piscar de olhos. O
tanque se esvazia. Tiro o capacete, mas não consigo sair. Estou completamente esgotada, mas o
tanque não é nada confortável assim vazio. Por isto, encho-o até a metade. Sinto-me melhor. Cansada
e saciada. Deixo o véu do sono me abater e adormeço em questão de segundos.
Acordo passando mal. Sinto-me enjoada e tonta. Um calafrio me percorre a medula. Penso que
vou desmaiar. Vomito e tenho uma sensação de fraqueza. Será que foram os insetos? Renovo a água
do tanque e fico ali boiando na água morna. Começo a sentir cólicas muito fortes. Será que foi
alguma coisa que comi?
Olho no meu multi. Já são onze da noite. As cólicas começam de novo, mais fortes e com maior
frequência. Agora já é óbvio para mim de que estou em trabalho de parto. Fico feliz só por um
momento, até a próxima contração. Vomito de novo. Limpo o tanque e tento sair mais uma vez, mas
me encontro subitamente rodeada por um liquido quente. Percebo que minha bolsa se rompeu, o que é
um bom sinal. Torno a esvaziar e encher o tanque.
A dor tornou-se praticamente insuportável. Sinto medo. Não sei se tudo o que está acontecendo é
normal. É para doer tanto assim? A sensação que tenho é como se a cada quatro minutos um sujeito
fortíssimo estivesse batendo na minha coluna lombar com um malho, como faziam na antiguidade
para quebrar cimento na calçada. A frequência das contrações se reduz a três minutos. Viro-me de
bruços no tanque, cruzo as pernas e aperto o suporte com toda minha força a cada contração. Imagino
que é a mão da minha tia, de quem sinto saudades. Na verdade, se fosse a mão de alguém, acho que já
estaria quebrada pela força que emprego. Tento manter meu rosto relaxado, como a técnica de
hypnobirthing ensinava. Não sei se já está na hora de fazer força para o bebê nascer. Li que não se
pode fazer força até se estar com dez centímetros de dilatação e com o colo totalmente alongado. Não
sei o que fazer, mas não tenho muita opção: meu corpo toma a decisão por mim e começa a fazer
força sem meu consentimento. Resolvo ajudar. Abro minhas pernas e faço força a cada contração.
Não tenho tempo de pensar na dor. Só me concentro em fazer o meu trabalho.
Depois de umas trinta contrações, com muita dor e um grito profundo, finalmente a bebê nasce.
Amy é linda. Ela abre os olhinhos embaixo d’água e mantém a boca fechada. Parece
superconfortável naquele ambiente, como uma anfíbia. Lembro-me de que a placenta ainda está
conectada e que ela ainda recebe oxigênio pelo cordão umbilical. As contrações ainda continuam,
mas estou hipnotizada pela minha bebê, agora em meus braços. Finalmente, tenho uma família.
Alguém que posso dizer que é minha. Minha filha. Esta ideia é tão fantástica que penso que estou
sonhando.
Outra contração forte. Faço mais força e expulso a placenta. Não foi tão dolorosa quanto a
passagem da bebê, mas é uma dor que não dá para ignorar. A água se tinge de vermelho. Esvazio o
tanque e torno a enchê-lo parcialmente. Olho pelo espelho. Por sorte, parece que estou intacta. Ainda
bem, já que não gostaria de me autossuturar.
Não tenho nenhum utensílio para cortar o cordão umbilical. Li sobre o Lotus Birth, prática budista
de deixar o cordão umbilical cair naturalmente. Por falta de opção, resolvo adotar essa ideia. Coloco
Amy deitada na minha barriga e a placenta ao meu lado. Fecho os olhos e torno a abri-los quando
sinto a Amy se mexer. Sorrio. Ela está se arrastando e subindo com a boca aberta procurando meu
seio. Resolvo ajudá-la. A sucção dói um pouco a principio, mas o prazer emocional é maior do que a
dor. Ficamos assim. Eu e ela agarradinhas, nos curtindo.
May e Amy. Mãe e filha.

Convenço-me da grande vantagem do parto normal. Amy não tem nem sequer um dia e, apesar de
cansada, sinto-me bem disposta. Pronta para amamentar a cada três horas e trocar fraldas
improvisadas na mesma frequência. Sorrio com este pensamento. Uma ajudinha neste momento não
faria mal. Procuro dormir sempre que ela dorme para poupar minhas energias.
Apesar de ser uma pessoa impaciente, tenho toda a paciência do mundo com minha filha. Curto
cada momento. Agora não estou mais sozinha. Pelo menos não até que ela cresça. E sempre posso me
fecundar novamente. A espera do resgate será definitivamente muito melhor. Usarei grande parte do
meu tempo não apenas para cuidar dela e educá-la, como também para aprender a ser uma boa mãe.
Quando me sentir estressada e frustrada, sempre poderei recorrer às baratinhas para relaxar. Pelo
meu (nosso) temperamento forte, antecipo que enfrentaremos muitas discussões, mas eu estou ansiosa
e animada com o que o futuro nos reserva.
Olho para seus pezinhos e suas covinhas. Os olhos cinzas e a penugem negra. Amo essa bebê mais
que tudo. Comprometo-me a criá-la com todo o carinho e lhe dar todo o suporte e condições para que
ela se ame tanto quanto eu a amo. Também pretendo ser firme para que ela me respeite e dê valor ao
que tem. Recordo-me que Amy sou eu. Finalmente concluo que tenho o direito de me amar.
Memórias de Alto-Mar Filipe Cunha e Costa

Naquele dia, a única razão que me fez descer do alpendre das traseiras da casa do meu avô e enterrar
os pés queixosos e sonolentos na areia úmida logo pela alvorada foi a promessa de que regressaria
com o almoço pendurado na ponta de um anzol. A praia estava solitária, abandonada pelo verão e
por todos os que seguiam seu rastro de calor e a maré vazia despia as rochas e expunha suas
deformações escarpadas aos assobios do vento que as vaiavam. Rangi os dentes de frio.
Também ias à pesca em dias como aquele, avô? Tu que eras um pescador a sério e não como eu,
para quem a pesca é somente um passatempo? Erguias-te mesmo todas as alvoradas e desatavas o nó
do teu pequeno barco a remos para te lançares ao mar e dele trazeres o teu sustento e o da tua
família? Não duvido que sim, eu que tantas vezes ouvi as tuas histórias e em outras tantas participei,
quando me levavas no teu barco a pescar, eu ainda era criança. A verdade é que mesmo que naquele
momento meu corpo me implorasse para retornar ao conforto dos lençóis, jamais pensei em voltar
atrás. O almoço daquele dia seria em memória do meu avô, que tão inesperadamente decidira partir
sem nos pedir licença, precisamente naquele dia, um ano antes.
Passaria a manhã no mar, em pesca submarina junto às rochas, até achar um peixe digno de ser
cozinhado e partilhado em família, honrando assim sua pessoa e tudo aquilo que ele representava
para nós. Por isso, limitei-me a vestir o traje de mergulho e a transportar todo o equipamento —
luvas, pés-de-pato, máscara, tubo respirador, faca, etc. — pelas poças d’água até chegar às rochas
mais recônditas da praia, sem que nada fizesse prever o que estaria prestes a acontecer. Aposto, meu
velho, que nos teus incontáveis anos de mar nunca te deparaste com nada parecido ou se calhar até te
deparaste, mas, como eu, reservaste-te ao silêncio com medo de serdes desacreditado pelas pessoas
à tua volta. Nem sabes o quanto ansiava estar agora contigo a partilhar-te esta história, ao invés de
escrever estas memórias à medida que navego, divagando, em pleno alto-mar!
Penetrei pelos caminhos tortuosos dos aglomerados de rochas, sentindo a água gelada a me
arrepiar o corpo, primeiro os tornozelos, depois os joelhos, chegando ao limiar da cintura, até que
algo me fez travar: algo pequenino e brilhante que parecia cintilar no fundo do mar, mas que não
passava despercebido entre os demais búzios e calhaus. Atraído pela intensidade do seu brilho,
resolvi desenterrá-lo, pegando-o com cuidado e limpando a areia molhada que o cobria. Era um
espelho. Um espelho de mão.
À primeira vista, pensei tratar-se de alguma reminiscência dos meses da estação quente em que
aquela praia se tornava muitíssimo frequentada. Observei-o com curiosidade, contemplando-o e
tateando seu rebordo oval e dourado, de um material fino e cristalino como nunca tinha visto. Não
sabia bem o que era, mas havia alguma coisa que me prendia àquele fútil acessório da vaidade.
Talvez fosse algo que tivesse a ver com a luz que emitia, clara e brilhante com as águas do mar das
Caraíbas, em nada condizente com aquele dia nebuloso e maldisposto de inverno que me calhara em
sorte. Seu reflexo era enganador: a imagem que me devolvia quando o encarei diretamente era a de
um jovem — oh, como eu era jovem na altura! — com um rosto magro e um olhar intrigado, olhos
castanhos e cabelos da cor do mel, nariz pequeno e um queixo donde brotavam alguns rebentos de
barba que lhe davam um ar mais maduro do que aquele que realmente o caracterizava. Nada daquilo
era mentira, mas havia algo na imagem refletida que não batia certo, como se ela possuísse luz
própria, ou transportasse consigo uma aura capaz de embelezar tudo aquilo para onde apontasse.
Ao espelho que me enfeitiçava, seguiu-se um ligeiro soluçar vindo das redondezas, quase
inaudível, mas suficiente para captar minha atenção. Ainda pensei que pudesse ter sido algum silvo
mais agudo do vento, mas logo em seguida um novo soluço emergiu por detrás das rochas,
prolongando-se como um uivo comprido e melodioso. Eu não era a única alma viva naquela praia,
isso já era certo, mas o vento dificultava a percepção da origem do som. Resolvi trepar até alcançar
o cume de uma rocha mais elevada e foi então que a vi: uma mulher, na posição horizontal, debatia-
se à tona de água como se lutasse para se desprender das rochas que a encurralavam, gemendo
baixinho, como se presa numa armadilha. Tinha a pele muito branca e uns olhos azuis safira que
contrastavam com as águas turvas que a tentavam engolir. Seus cabelos louros muito compridos não
perdiam a luminosidade nem pelo fato de estarem molhados até à raiz, assemelhando-se a raios de
sol finíssimos a despoletar numa alvorada de céu limpo, noutro dia que não aquele. O que fazia uma
mulher tão bela, àquela hora da manhã, de braços e ombros desnudos, numa praia deserta, cinzenta e
desagradável como aquela, era um mistério para mim. A verdade é que estava sozinha e lutava
sozinha e chorava sozinha.
Sem hesitar, fui ao seu encontro, disposto a prestar-lhe todo o auxílio. Seus olhos pousaram em
primeiro lugar no espelho que por qualquer razão ainda conservava na minha mão direita, e logo em
seguida nos meus, num misto de espanto e de medo pela minha aproximação.
— Precisa de ajuda, menina? — Perguntei, mas ela só tinha olhos para o estranho artefato que eu
segurava. Estendeu-me a mão como se de um ato de desespero se tratasse, não para que eu a
amparasse ou a tirasse dali, mas em direção ao espelho que trazia comigo, com uma expressão de
súplica, tentando alcançá-lo sem conseguir sair do mesmo lugar. Confuso, estendi o meu braço por
cima da rocha que ainda nos separava para lhe dar o espelho que tanto cobiçava, naquele que foi o
primeiro contato físico entre nós, a primeira vez que senti sua pele lisa, macia e, mais estranho que
tudo, quente, a tocar na minha mão fria e enrugada.
— Obrigada! — Era a primeira vez que falava.
— Obrigado por quê?
— Por me teres devolvido. — Completou, sorrindo diretamente para mim, com uma expressão de
entusiasmo infantil e autêntica, instantes antes de uma nova vaga de ondulação a fazer contorcer o
rosto, gemendo de dor.
— Estás magoada? Deixa-me ajudar-te! — Pedi-lhe, tratando-a por tu como ela me tratara. Fitou-
me com desconfiança, continuando a batalhar sozinha, contorcendo-se para se desprender do que
quer que fosse que a mantinha ali naquela posição tão desconfortável. Determinado a resgatá-la,
contornei então a rocha que nos separava, dando dois passos na sua direção, ao que ela reagiu,
exclamando:
— Não! Afasta-te!
Mas era tarde demais, eu já tinha reparado: mesmo por trás dela havia uma nadadeira gigante que
se remexia à tona de água, fazendo-me acreditar que estaria na presença de um dos maiores peixes
que eu já tinha visto a nadar em águas tão perto da costa. Cambaleei instintivamente para trás,
receando não só por mim, mas também por ela, interrogando-me sobre o que estaria a fazer um
animal daquela envergadura nos caminhos rochosos estreitos da costa da praia. Mas ela, porém,
permanecia calma, e, entrelaçando sua mão na minha e levando-me a outra mão ao rosto, puxou-me
para si sem outra palavra me beijou nos lábios, ao mesmo tempo em que a extremidade da nadadeira
enorme se erguia uns centímetros acima das nossas cabeças. Só então compreendi plenamente.
Uma sereia. Estava a beijar uma sereia.
Não acreditas, avô? Também não quis acreditar na altura, mas é verdade! O mesmo mar em que
hoje me encontro a escrever estas memórias foi aquele que, mais de meio século atrás, levou uma
sereia até à praia onde eu me encontrava nesse dia. Era tão bela a criatura! Observei o serpentear da
sua cauda comprida (à falta de melhor designação), com as suas escamas verde-claras e azul-
marinhas mesmo à minha frente, e a nadadeira da sua extremidade, em forma de coração, quase
transparente de tão fina que era. Quando seus lábios se descolaram dos meus, o medo que até então
tinha estado presente tanto nos meus olhos como nos dela perante aquele encontro tão absurdamente
fortuito se dissipou totalmente. Tinha uma sereia diante de mim, que me beijara de livre vontade.
Nesse momento, só uma coisa me passava pela cabeça: tê-la só para mim!
— Liberta-me! — Implorou com voz melodiosa. — Não era intenção minha, mas cheguei
demasiado perto da costa e… estou presa! Por favor…
Nervoso, trepei por cima da rocha e desci pelo outro lado, pousando os pés com cuidado para não
pisar aquela magnífica cauda de peixe que, através da água, podia nitidamente confirmar como era
parte integrante daquele corpo esbelto de mulher que existia do tronco para cima, fundindo-se
escamas e pele numa linha indistinta pela zona da cintura, não se percebendo exatamente onde
terminava uma pele e começava a outra. Era uma cauda mais comprida do que eu imaginava, devendo
corresponder a dois terços do seu comprimento total. Reparei ainda que na zona mais larga,
correspondente às ancas de uma mulher humana, suas escamas estavam comprimidas entre duas
rochas, e que em algumas delas havia já feridas latentes por força da fricção constante com o
território dos mexilhões. Com um pé de cada lado, mergulhei as mãos na água para pegar gentilmente
na sua cauda escorregadia, soltando-a. Ela fez força ao mesmo tempo, e, assim que se soltou, nadou
para frente fazendo roçar toda a sua cauda versátil pelos meus braços e peito, dando meia volta para
ir em direção ao oceano.
Segui-a como pude, deixando todos os meus pertences para trás, trepando rochas e nadando contra
a corrente, lutando para não perdê-la de vista, o que não era fácil tendo em conta que ela se
movimentava literalmente como um peixe n’água. Quando dei por mim, estava quase sem pé no meio
do mar, a olhar, sem norte, para cada um dos trezentos e sessenta graus à minha volta, desesperado só
de pensar que a podia ter perdido. Mas não: silenciosamente e sem que desse por sua aproximação,
vi seu corpo emergir das águas mesmo à minha frente, na vertical, primeiro a cabeça, depois os
ombros, depois os seios desnudos, vestidos apenas com os seus cabelos lisos, depois a barriga, até à
cintura. Enrolou-me os braços em volta do pescoço e, pela segunda vez, beijou-me intensamente.
Pela segunda vez, não tive a arte nem o engenho para resistir.
— Tu és mesmo real? Mas, como… como é possível? Como vieste parar aqui? — Perguntei-lhe,
ofegante, entre os beijos que trocávamos.
— Foi um acidente. — Murmurou-me ao ouvido, antes de voltar a mergulhar os lábios molhados
nos meus. — Perdi meu espelho e segui seu rastro até esta praia, mas fui ingênua e me aproximei
demasiado… Teria morrido se tu não me encontrasses… Salvaste-me!
Lembro-me desse dia como se fosse ontem, apesar dos muitos anos que o separam do momento
presente. Tinha uma musa dos oceanos diante de mim, daquelas que deveria ter servido de inspiração
para alguns dos mais belos poemas de amor do Renascimento. Meu corpo transpirava de desejo e,
em pleno mar salgado, senti minha virilha pegando fogo por dentro do traje de mergulho quando
afastei gentilmente os cabelos finos que lhe pendiam, como lianas, pelo tronco até à cintura,
desbloqueando assim minha visão de seus seios nus e apetecíveis como pêssegos maduros. Ela
travou meu gesto no ato.
— Aqui não. É demasiado arriscado.
— Então onde?
— Conheço um sítio perfeito. Confia em mim. Agarra-te ao meu dorso.
Havia algo de irresistivelmente sedutor no modo como aquela sereia me convidara para partir
numa viagem com ela até a algum lugar incerto e, assim, deslizei para cima dela como se fosse uma
prancha de bodyboard e ela nadou como um golfinho, saltando e mergulhando, permitindo-me ir
respirando lufadas de ar fresco, até atingirmos uma velocidade de cruzeiro. E como ela era rápida!
Em delírio, senti seu corpo quente debaixo do meu, o impacto da água salgada e do vento forte
batendo na minha face por onde dançavam seus cabelos e a adrenalina à flor da pele numa sensação
única de liberdade e velocidade fundidas numa só.
— Ainda falta muito? — Gritei-lhe, ao fim de algum tempo.
— Não! Estamos quase!
Mentiria se dissesse que não vivenciei nenhum tipo de receio durante aquela viagem. Recordo-me
de que, a certa altura, meu espírito rebolou inquieto dentro de mim, a me interrogar se estaria mesmo
fazendo a coisa certa ao deixar para trás minha família, a palavra empenhada em relação ao almoço
prometido, trocando tudo por uma relação com uma… sereia. Só então me passaram pela cabeça as
histórias terríveis que já tinha ouvido contar sobre as sereias, principalmente a forma como usavam
seus encantos para seduzir os marinheiros e os arrastar para o fundo do mar, donde nunca mais
seriam vistos. Lembrei-me da epopeia de Ulisses, herói da Odisseia de Homero, porventura o único
homem que sobreviveu à travessia do mar das sereias de ouvidos destapados, escutando seu doce
canto, mas apenas porque foi amarrado ao mastro por seus marinheiros, caso contrário não teria
resistido ao impulso de ir ter com elas às profundezas do mar. Teria sido mais um homem incapaz de
resistir ao canto da sereia? Afinal, o que sabia eu realmente sobre sereias? Quem eram, onde viviam,
quais as suas intenções? Meu coração palpitou com violência e posso dizer que temi
verdadeiramente ter sido alvo de uma emboscada engenhosa à qual não soubera resistir e nem
pensara duas vezes antes de me aventurar com aquela sereia pelo mar. E se tudo naquela manhã, o
espelho, nosso encontro improvável, a forma como me seduzira, não passasse de um estratagema
cruel para caçar mais uma pobre alma masculina? Rezei para que não fosse assim, mas permaneci
firme em seu dorso, pois, naquele momento, desistir de acompanhá-la estava fora de questão. Estava
algures no meio do oceano e aquela sereia era o meu único meio de sobrevivência.
Contudo, não foi para o fundo do mar que ela me levou, mas sim para uma ilha deserta, cuja
encosta comecei a ver cada vez mais perto, até minha sereia deslizar como uma onda de rebentação
pela areia molhada daquela praia, deixando-me ali mesmo deitado a seu lado. Rebolou cento e
oitenta graus, ficando de barriga para cima, apoiando a nuca na areia e espreguiçando os braços e a
cauda, enchendo e esvaziando longamente o peito de ar, tornando seus seios mais voluptuosos. Ainda
de olhos fechados, disse-me:
— Aqui estamos por nossa conta. Sou tua.
Esfreguei os olhos e olhei com atenção à minha volta: o dia nebuloso tinha desaparecido por
completo, dando lugar a um céu azul e a um sol quente de verão. Estava à beira-mar numa ilha
paradisíaca de areia fina e dourada, enfeitada de árvores e arbustos com flores de todas as cores,
onde se podia escutar o canto primaveril dos pássaros sob o pano de fundo da banda sonora do
oceano. E a sereia ali estava, deitada aos meus pés, nua, romântica, à espera. Todos os meus receios
se dissolveram num ápice. Qual Ulisses, qual Odisseia, qual canto maléfico da sereia… Naquele
momento a única epopeia heroica que me vinha à cabeça era Os Lusíadas de Luís de Camões e a sua
Ilha dos Amores repleta de musas e ninfas que poderiam surgir num cenário daqueles por detrás das
flores e arbustos para se juntar à nossa comunhão de corpos.
Babando só de contemplá-la, logo me entreguei às delícias que seu corpo prometia, começando
por passar as mãos por seus cabelos e rosto, tocando de leve com meu dedo em seus lábios, unidos
um ao outro como dois amantes, mas que logo se separaram para dar passagem ao visitante curioso
que ansiava descer àquela gruta proibida. Beijei-a em seguida, descendo com minha língua à caverna
prometida, saboreando suas papilas gustativas a saber a delícias do mar. Mergulhei em seguida a
minha face nos seus seios, abraçando-a e sentindo sua pele quente e lisa a esfregar na minha,
beijando-a do pescoço ao umbigo.
Ela começou a me despir gentilmente do traje de mergulhador, fazendo deslizar meu fecho ecler
pelas costas, contando com minha colaboração para despir meus membros inferiores, deixando-me
apenas em traje de banho, à sua mercê. Em seguida, enrolando-me as pernas com a sua versátil cauda
de peixe, colocou-se em cima de mim, beijando-me a testa, o nariz e os lábios, descendo pelo
pescoço em direção ao meu peito. Seguindo o rastro da saliva dos seus beijos, seus cabelos de ouro
rastejaram pela minha face e boca enquanto ela me mordiscava os mamilos causando-me arrepios de
prazer, tudo num ritmo lento e preciso, para que sentisse cada movimento da sua língua que ia
descendo por meu ventre e umbigo, dançando perigosamente próxima da minha pelve, separada
apenas pelo fino tecido dos calções, onde minha ereção era já visível. Eu os despi, deixando meu
órgão sexual exposto à curiosidade e admiração com que a sereia observava a anatomia masculina de
um ser humano da cintura para baixo, primeiro com os olhos, depois com as mãos, depois com a
boca, lambendo-me os testículos e depois o pênis, com um desempenho que causaria inveja a
qualquer mulher humana. Por essa altura, eu já estava totalmente entregue à luxúria de seu corpo
mitológico, contudo, a estimulação não parara por aí, pois, como aquela experiência logo me
ensinou, sua cauda de peixe também era um ótimo membro sexual, esfregando-se pelos meus genitais
e envolvendo o meu pênis ereto entre as suas escamas, constringindo-o como uma cobra píton faria a
uma presa que estivesse prestes a devorar.
Como era doce e macia a sua pele, tão branca e tão lisa, sem nenhum sinal, marca ou cicatriz!
Pouco tempo depois, eu me encontrava em cima dela outra vez, beijando-a, acariciando-a,
possuindo-a como se não houvesse amanhã, à medida que as ondas nos lambiam os corpos à beira-
mar. Sua cauda se enrolava no meu pescoço, no meu peito, na minha cintura, entre minhas pernas e
eu, disposto a amá-la na sua plenitude e não apenas no que nela me fazia lembrar uma mulher, fui
descendo cada vez mais por seu corpo, alcançando sua cintura com a minha língua, momento em que
comecei a detetar a mudança de textura na sua pele. Totalmente rendido à sua condição de sereia,
agarrei-me com a mesma gula à sua cauda e amei-a como qualquer outra parte do seu corpo, sentindo
o sabor salgado das suas escamas e vendo de perto o brilho prateado do verde e do azul marítimos
que a vestiam. As escamas pareciam molhadas mesmo quando estavam secas. O fato de serem
escorregadias só as tornava mais exóticas e atraentes. Apesar das diferenças anatômicas, nossos
corpos se consumiram mutuamente numa dança e numa linguagem inteiramente corporais que duraram
toda a manhã, transformando-nos em fonte de delírio de prazer sensual e sexual um do outro.
Passado o clímax, limitamo-nos a ficar ali deitados e enrolados um no outro como se fôssemos
amantes de longa data, eu respirando entre seus cabelos louros, ela com a cabeça apoiada no meu
peito e a cauda a roçar de leve em minha coxa. Assim pairei por tempo indeterminado, de olhos
fechados, entre o sonho e a realidade.
— Tenho de ir! — Ergui o tronco subitamente, sentando-me como se acordasse de uma espécie de
transe. A mão dela desceu suavemente pelas minhas costas.
— Não vás. Fica comigo.
— Tenho de voltar para casa. Estão à minha espera. Desculpa… — Falei de coração pesado,
percebendo que não fazia a mínima ideia de quanto tempo se passara. Olhou-me com ar desiludido
enquanto eu começava a me vestir. Não queria magoá-la. — Fiz uma promessa à minha família e
tenciono cumpri-la. Caso contrário, passava aqui o dia todo contigo… mas não posso. Devo-lhes um
almoço. Levas-me de volta, por favor?
— Prometes que voltas outro dia? — Era exatamente o que eu queria ouvir.
— Prometo.
Regressamos da mesma forma, ela nadando e eu sobre seu dorso. Em pouco tempo estava de volta
ao local onde tudo começou, só que a maré estava completamente cheia. Era hora do almoço e o
peixe que eu prometera já era. Afinal de contas, a única coisa que tinha mordido o meu anzol tinha
sido uma sereia. Hoje, enquanto escrevo estas memórias em alto-mar, fico a pensar se não terás sido
tu, avô, que me enviaste aquela criatura em vez de um peixe, do céu etéreo onde estarás sentado.
Ainda me interrogava sobre que justificativa apresentaria à minha família por voltar para casa de
mãos abanando, quando, atrás de mim, do interior do mar onde ela estava escondida, ouvi sua voz de
sereia a entoar baixinho uma das canções mais belas que já tinha escutado, deixando-me quase
hipnotizado enquanto a ouvia. Pouco tempo depois, emergiu lentamente à superfície, segurando um
peixe comprido que parecia estar embalado como um bebê nos seus braços.
— Não te esqueças do teu almoço. É para ti.
Não resisti a beijá-la uma última vez. Não a queria largar. Nunca.
— Quando posso voltar a te ver? Podemos combinar outra altura, é só marcarmos um dia que eu
estarei aqui.
— Não. É demasiado arriscado. Eu só posso voltar quando tiver certeza de que é seguro. Toma!
— Devolveu-me o espelho que eu encontrara na praia e que estava na origem de toda a nossa
jornada. — Guarda-o para ti e não o mostres a ninguém. Sempre que me quiseres invocar, desta ou
de outra praia, desde que esteja deserta, traz o espelho contigo até à beira-mar e aponta-o bem alto
para o horizonte para que eu possa ver seu reflexo. Depois é só aguardar por mim que eu voltarei. Só
espero que cumpras tua promessa e que voltes também. Adeus. — Quando submergiu nas águas
salgadas, não voltou a vir à superfície. Partira e me deixara com um espelho mágico numa mão e um
peixe adormecido na outra.
Era um peixe delicioso. Graças a ela, o almoço em homenagem ao meu avô correu lindamente. No
entanto, mesmo naquela altura meu pensamento nadava para outras paisagens, voava para outros
mundos, só estava concentrado nela, a sereia. Permaneci nesse estado de alheamento nos dias que se
seguiram e só no sétimo dia após nosso primeiro encontro é que arranjei tempo para revisitar a praia
de manhã. Chovia, o que significava que devia estar deserta. Retirei a relíquia que me tinha sido
dada, que guardava religiosamente debaixo do meu colchão e segui as instruções que ela me dera: à
beira-mar, ergui as mãos bem alto, segurando o espelho e apontando diretamente para a linha do
horizonte. Esperei com a chuva a bater-me na cara com a mesma fúria obsessiva que eu. Passaram
cinco minutos, depois dez, depois quinze, depois trinta, depois quarenta e nada... Até que vi sua
cauda dançando entre as ondas. Corri para o mar, vestido como estava, gelado como estava,
possuindo-a nos meus braços, beijando-lhe o rosto quente, o pescoço, os cabelos. Ela estava igual à
vez anterior: bela, nua, sensual. Enrolou-me com sua cauda para me transportar até nossa ilha dos
amores e perpetuar nossa eterna troca de carícias, exatamente na mesma praia, na mesma areia, sob o
mesmo sol e o mesmo céu azul, para sentir em todo o esplendor aquele mesmo corpo meio mulher,
meio peixe, a roçar em mim, o mesmo sabor doce e salgado, as mesmas fantasias que me tinham
atormentado a semana inteira. Aquele se tornou o nosso ritual durante um bom tempo. Encontrávamo-
nos pelo menos duas vezes por mês. Era o nosso segredo, o nosso amor pagão, proibido, obsceno,
contra todas as regras da natureza, contra as próprias leis estabelecidas pelo universo e contra tudo
mais que podíamos imaginar. Mas era tão bom que eu não trocava por nada neste mundo.
Ela nunca falava muito sobre sua vida, sua origem ou o seu mundo. Quando perguntava por ele, ela
sorria e se limitava a dizer que, embora os habitantes dos nossos mundos quase nunca se
encontrassem, isto não queria dizer que uns não existissem para os outros. Nos meses que se
seguiram, trabalhei em todo o material que logrei coligir sobre sereias. Compilei mitos e lendas da
sabedoria popular para ver se conseguia chegar a algum fundo de verdade. Porém, por muito que
lesse sobre o assunto, nunca consegui distinguir por meus próprios meios o verdadeiro do falso.
Havia sempre uma questão que me deixava intrigado e para a qual não encontrava resposta em lado
algum. Com o passar do tempo, o que começou como mera curiosidade, evoluiu para uma das mais
loucas fantasias que me subiram à cabeça. Basicamente, eu sentia que faltava algo importantíssimo
para consumar a nossa relação carnal (ou deverei dizer peixívora), que complementasse nossas
carícias lascivas. Um dia, tomei coragem e a interpelei diretamente:
— Quero fazer sexo contigo! — Não sabia se era exequível ou sequer possível, realizar aquele
meu pedido crucial. Afinal de contas, nas minhas inúmeras pesquisas nunca lera nada sobre a forma
como um ser humano acasalaria com uma sereia, mas meu desejo já estava em ebulição há demasiado
tempo para continuar trancado no reino das fantasias sexuais. Estava disposto a ir mais longe do que
qualquer outro homem já fora — Quero penetrar-te! Unir os nossos corpos na fecundação e libertar
minha semente em ti, quero te possuir na totalidade, como a mulher sereia que és!
— Isso é impossível. — Respondeu ao fim de um período de silêncio — Não somos da mesma
raça.
— Mas tem de haver uma maneira, certo? Quer dizer, vocês se reproduzem como qualquer outra
criatura, ou não?
— Não da mesma forma. Teu órgão sexual não está adaptado para me fecundar.
— Podíamos ao menos tentar. Farei o que for preciso.
— O preço a pagar seria demasiado elevado. Jamais irias concordar.
— Por ti estou disposto a tudo. Diz-me como é, e deixa ser eu a decidir.
Ela rebolou até ao mar, onde nadou em círculos pequenos junto à praia, sem nunca sair do meu
raio de visão. Até que voltou ao fim de alguns minutos, dizendo:
— A única forma de termos sexo seria se tu te metamorfoseasses num de nós.
— Numa sereia?
— Não. Num dos nossos machos. Num tritão.
Eu já tinha ouvido falar de tritões. Vinham referidos nos textos de mitologia como gênios marinhos
de ordem inferior e eram representados como tendo tronco de homens e cauda de peixe. Seria
naquilo que eu precisava me… metamorfosear?
— E como é que isso é feito?
Ela me encarou diretamente com os olhos azuis bem abertos, raiando beleza à sua volta, sem me
deixar perceber se estava entusiasmada ou assustada.
— Estás mesmo a considerar fazer isso? Se passares pela metamorfose, não poderás voltar atrás!
Viverás como um dos nossos para sempre! Eu sempre te pedi para voltares para mim quando te foste
embora, mas isso não te posso pedir. Tens que ser tu a escolher o que estás disposto a fazer por
mim…
Era loucura, eu estava ciente disso. O que ela estava implicitamente a dizer era que se eu me
tornasse num tritão, perderia as minhas pernas, nunca mais voltaria a pisar terra firme, nunca mais
poderia regressar a casa, nem voltar a ver minha família. Tinha de deixar para trás todo o mundo tal
como eu o conhecia. Tudo para ficar com ela. Para sempre.
— Aceito. — Declarei, por fim — Diga o que tenho que fazer. Transforma-me num tritão e deixa-
me possuir-te por inteiro aqui e agora!
Ela me fitou, comovida, mas logo travou os meus ímpetos.
— Não pode ser feito aqui, não é assim tão simples.
— Então como é que isso é feito?
— Tens de passar por um ritual que pode pôr tua vida em risco, realizado no mais profundo dos
mares, na presença de membros da minha raça, que em conjunto decidirão se serás um bom candidato
para te juntares a nós. Depois passa-se à fase da metamorfose e não te quero enganar: nos raríssimos
casos em que isso aconteceu, poucos foram os que sobreviveram. Trata-se de um processo longo e
doloroso. Por isso te pergunto pela última vez: tens certeza de que queres ir em frente com tua
palavra e passar por isso?
— Só se tiver a certeza de que depois de me transformar tu irias ficar comigo. Aqui, no fundo do
mar ou noutro planeta. Mas comigo.
Foram essas as palavras exatas que usei. Hoje, escrevendo aqui neste mar, olhando para esta
situação com o discernimento que só a passagem dos anos concede, o diálogo todo me parece
demasiado piegas. Estava apaixonado e, por causa disso, tornei-me no protótipo de um personagem
miserável de histórias de sereias, em que um homem segue o canto e o encanto de uma sereia até ao
fundo do mar, incapaz de lhe resistir e lá fica prisioneiro para nunca mais voltar. Pensei que se
calhar a lenda tinha um fundo de verdade: os homens desapareciam realmente, não porque eram
enfeitiçados, mas porque o faziam de livre vontade e, se nunca mais voltavam. era porque esse era o
preço a pagar, a renúncia a toda a sua vida anterior no momento em que se tornavam tritões.
Minha partida definitiva ficou marcada para o mês seguinte, durante a noite, para que ninguém me
avistasse. Alegando que ia passar uns dias à casa junto à praia do meu avô, despedi-me da minha
família com um simples “até logo”. Como era de esperar, senti-me culpado por abandoná-los assim
sem dizer nada. Estaria a ser demasiado egoísta? Talvez. Mas tudo o que eu estava a fazer, era em
nome do amor (ou pelo menos assim pensava eu). Desapareceria sem deixar rastro, e todas as buscas
que fizessem à minha procura revelar-se-iam infrutíferas. Quando desaparecesse, seria para sempre.
Quando cheguei à casa do meu avô na noite marcada, nem entrei, descendo diretamente para a
praia escura onde o mar rugia. Estava frio. Perscrutei o horizonte e avistei ao longe, porém, cada vez
mais perto, as escamas brilhantes inconfundíveis da minha sereia. Comecei a entrar na água,
determinado a seguir aquele rumo, mas, a dada altura, ela não me deixou progredir.
— Não avances mais! Volta para trás! — À medida que gritava, batia violentamente com sua
cauda achatada na água. Tinha lágrimas nos olhos e um ar profundamente assustado. — Desculpa,
mas, se decidires avançar, não haverá retorno possível, estarás condenado! Volta para trás, para a
tua vida, esquece tudo e nunca mais penses em voltar a me ver!
— Mas…
— Faz o que te digo, ou arrepender-te-ás!
Com a rapidez de peixe que lhe era típica, voltou a desaparecer numa onda em mar revolto,
deixando-me parado à beira-mar, de coração partido e sonho despedaçado. Começou a chover. Não
sei ao certo quanto tempo estive ali na praia, de pernas estendidas, a apanhar com a água, sem saber
o que fazer. Senti-me como um viajante preso entre dois mundos, em que já tudo fizera para se
desprender daquele em que vivia, mas por razões que desconhecia, não tinha o passaporte necessário
para entrar no mundo que o esperava e com o qual tanto sonhava. Deixei-me ficar ali por várias
horas, sem forças para retomar o caminho de regresso à casa. Aquilo não podia acabar assim, eu
merecia pelo menos uma explicação, era o mínimo, depois de todos os sacrifícios que eu estava
disposto a fazer por ela. Se calhar, pensando melhor e à luz do que sei hoje, seria melhor que tivesse
ouvido seu conselho e voltado para trás, mas, por teimosia cega, continuei ali até que ela voltasse. A
verdade é que, para meu enorme espanto, ela voltou mesmo! Já a luz despertava na alvorada quando,
nadando vagarosamente entre as ondas, ela me surgiu aos pés com toda a doçura e encanto que eram
habituais.
— Parabéns! — Sorriu. — Ficaste à minha espera. Passaste a primeira fase do teste. Vens?
— Para aonde? — Senti-me confuso. Não entendia aquela mudança de comportamento.
— Para o fundo do mar. Até à caverna onde se realizará tua metamorfose. Já está tudo preparado.
Foste aceito entre os da minha espécie.
— Não percebo… Apareceste aqui e me mandaste embora! Agora falas como se não tivesse
acontecido nada?
— Foi um teste, já te disse. Faz parte do nosso ritual. Serviu para testar a tua real vontade de te
transformares num de nós. Tu ficaste na praia, o que significa que não desististe, mesmo depois de eu
te mandar embora. Deixaste-me orgulhosa. Agora vem comigo, ainda faltam as outras fases. Confias
em mim?
Era impossível resistir aos seus pedidos quando ela me falava daquela maneira. Acompanhá-la
era tudo o que queria. Agarrei suas mãos e fui ao seu encontro.
— E agora, o que fazemos? Eu não sei respirar debaixo de água… ainda.
— Deita-te ao comprido e fica a flutuar nos meus braços, de olhos fechados. Ouvirás minha voz e
só a minha voz e adormecerás, para sobreviveres à longa viagem que faremos até ao mais profundo
dos mares. Quando acordares já estarás entre os meus, em segurança.
Fiz o que ela pediu, fechando os olhos e me entregando aos seus braços. A última coisa que vi foi
seu rosto sempre belo e sua expressão melancólica.
— Desculpa… — Murmurou baixinho, antes de começar a cantar uma canção que me deixou
profundamente adormecido.
Quando despertei, não sabia se tinham passado minutos, horas ou dias desde que adormecera em
seus braços. Sentia-me zonzo e meu corpo pesava toneladas. Não me conseguia mexer, meus
músculos não respondiam às minhas ordens e não sentia as minhas pernas. Abri os olhos com
dificuldade, pois a luz me incomodava, como se me queimasse as pupilas com ferros em brasa.
Voltei a cerrá-los. Pelo menos conseguia respirar e, segundo me relatavam os outros sentidos, estava
fora d’água, apesar de meu corpo estar completamente molhado e de, à minha volta, não haver som
algum para além do gorgolejar da água. Inspirei e expirei profundamente, tossindo, cuspindo água
salgada e tentando uma vez mais sair daquela posição desconfortável. Não podia. Estava preso. Fiz
um esforço e abri os olhos para me contextualizar. Estava deitado no que parecia ser uma gruta
marítima subterrânea, mas sem estar submersa. Ambos os meus braços estavam esticados e
amarrados a duas rochas. Quando ergui a cabeça, verifiquei que ainda tinha duas pernas (o que, de
certa forma, me deixou aliviado) e que também elas estavam presas. Constatei igualmente que estava
completamente nu e tremia de frio à medida que o meu corpo ia recuperando a sensibilidade. Devia
ser da água gelada que me lambia os pés, vinda algures dos confins da gruta que mergulhava no
abismo até se perder de vista.
Não se via ninguém à minha volta. Estava só. Tratar-se-ia tudo aquilo de mais um teste que eu
teria que superar, com vista a me tornar no tritão que ainda não era? Seria aquela minha posição
macabra parte do ritual de que minha sereia falara? Mas então, por que não se via nem ouvia
ninguém? Fechei os olhos e tentei descansar, mas não me podia abstrair do desconforto que aquela
posição me provocava. Tentei libertar meus pulsos e tornozelos, mas em vão, pois algo viscoso
como algas, mas muito mais resistente, parecia enrolar-se com cada vez mais força, mantendo-me
atado àquela rocha dura e áspera.
Comecei então a chamar por ela. Uma e outra vez, cada vez mais alto, fazendo ressoar as paredes
daquela gruta em ecos infinitamente repetidos, eu gritava pela minha sereia. Esperançado, ouvi
movimentos na água, que indicaram que alguém estava por perto. O som que fazia era inconfundível:
só podia ser ela.
Elas chegaram vindas da escuridão. As sereias. Vi emergir não uma, mas três caudas de sereia
diferentes, que, lentamente, foram rastejando como répteis até mim. Meu entusiasmo esmoreceu-se.
Nenhuma delas era a minha sereia.
Pior do que isso, nenhuma delas se parecia com uma sereia, pelo menos como eu as imaginava,
principalmente depois de ter conhecido uma.
Seus corpos eram esqueléticos e macilentos como moluscos do fundo do mar, de pele fria,
peçonhenta, enrugada e sem nenhuma luminosidade ou beldade imanentes, como eu estava habituado
a ver na minha sereia. Seus rostos disformes, de olhos arregalados como os de seres alienígenas,
exibiam-se adornados por cabelos pretos emaranhados de algas. Suas bocas eram secas e
cadavéricas, de língua bifurcada e os narizes, à semelhança das suas unhas, eram compridos e
pontiagudos, fazendo lembrar as bruxas dos contos de fadas. Suas nadadeiras eram escuras e duras,
em nada lembrando escamas de peixe, mas sim carapaças de crustáceos, sendo que uma delas, ao
invés de escamas, tinha tentáculos de polvo da cintura para baixo, viscosos e gelatinosos,
repugnantes como sua dona, a mais feia de todas, a única que era gorda, pesada e já praticamente
careca.
Aquelas sereias, indignas de usar esse nome sob pena de ofender todas as sereias belas existentes,
rastejavam até mim como larvas pelas rochas, cada vez mais perto, sem elegância ou sentido de
sedução algum, gargalhando como hienas, rodeando-me para me apreciar, enquanto eu jazia,
completamente imóvel, aterrorizado e totalmente à disposição.
Percebi o que me estava prestes a acontecer. Bem podia chamar por minha amada que ela não
viria. Fora atraído até ali, qual presa para um covil de predadores. Não haveria ritual nenhum.
Haveria sim um banquete e eu seria o prato principal. Tinha sido levado pelo canto da sereia e agora
iria pagar o preço da minha fraqueza de espírito, pela minha condição humana masculina. Lembrei-
me da sua última palavra… “desculpa”. Estaria mesmo arrependida por me ter traído?
Tentei libertar-me uma última vez, mas em vão. Gritei em pânico na esperança de que alguém lá
fora me ouvisse, mas as únicas respostas que obtive foi do meu próprio eco e dos risos histéricos de
gozo daqueles autênticos mostrengos. De nada adiantou meu apelo desesperado. Eu estava algures no
meio do oceano, numa gruta onde a água embatia violentamente do lado de fora e aquelas criaturas
eram a única forma de vida inteligente por perto.
Nos dias incontáveis que se seguiram — terão sido semanas, meses, honestamente perdi a conta
— aquelas sereias fizeram de mim seu escravo sexual. Individualmente ou em grupo, fui amarrado,
torturado, penetrado e sodomizado de todas as formas possíveis e imagináveis para satisfazer suas
fantasias sexuais sedentas. Mesquinhas e cruéis, sequiosas de carne fresca como há muito nem
cheiravam, serviram-se e lambuzaram-se de mim em jogos de sevícias sexuais, que incluíam todo o
tipo de perversões, tais como: arranhadelas e mordidelas no corpo todo, arrancando-me pedaços de
carne com seus dentes de piranha; sessões violentas de chicoteamento, utilizando suas caudas como
açoites, martirizando-me as costas, coxas e nádegas; penetração anal e oral com tentáculos de polvo;
tortura de cócegas; sessões de sadomasoquismo e choques elétricos provocados por arraias,
poraquês e outros peixes análogos; e ainda orgias gastronômicas que envolviam todo tipo de
condimentos marinhos, tais como, ouriços-do-mar, estrelas-do-mar, crustáceos, moluscos e afins, que
de vez em quando degustavam naquele banquete de tortura.
Em todos os atos, eu era obrigado a gemer de prazer e a implorar por mais, respondendo a tudo
com um “sim, minha deusa”, a venerá-las e a obedecer a toda e qualquer ordem, a beber de seus
fluidos e excrementos, caso contrário minhas feridas seriam esfregadas com sal marinho.
A mulher-polvo era a pior de todas, preferindo sempre me devorar a sós, todas as noites, vinda
durante meu sono, depois das outras terem se recolhido para o fundo do mar onde dormiam e depois
de eu estar já exausto e cheio de mazelas físicas, incapaz de oferecer o mínimo de resistência.
Nessas alturas, ela me desprendia das amarras habituais, pois seus tentáculos eram extremamente
eficazes nos atos de esticar e torcer meus membros, elevando meu corpo à altura do seu rosto e da
sua boca bafienta que me beijava sem escrúpulos. Com os tentáculos que sobravam, penetrava-me
simultaneamente anal e oralmente, enquanto um dos outros me asfixiava, chicoteava ou eletrocutava e
o último me masturbava, torcendo-me o pênis e os testículos. Depois, borrava-me com a sua tinta
pestilenta de molusco e me obrigava a beijá-la e a lamber seu corpo viscoso e amargo, cada
saliência e cada centímetro da sua pele gordurosa. Só então me recolocava no meu cativeiro, depois
de eu estar completamente quebrado, às vezes já sem sentidos, atando-me mãos e pés às cordas que
me seguravam àquela rocha para que todas as manhãs voltassem a rastejar até mim para se
satisfazerem sadicamente à minha custa assim que o primeiro raio de sol iluminasse aquela gruta
onde eu jazia reduzido a um mero brinquedo sexual.
Meu sonho se tornara em autêntico pesadelo. Às vezes até começava a delirar, preferindo
entregar-me aos devaneios da loucura, mas em vão. Bem tentava fechar os olhos e imaginar que
estava com a minha sereia amada em nossa ilha paradisíaca, mas a realidade era demasiado dura
para a mente poder dela escapar. Aquele era o meu fardo agora e elas sugariam a vida de dentro de
mim até eu ser pouco mais que um cadáver, altura em que buscariam sua próxima vítima, servindo-se
das sereias belas que cruzavam os mares para lhes trazer carne fresca. Quem me contou isto foi a
própria mulher-polvo, numa das nossas sessões noturnas habituais de sodomização, desfazendo todas
as ilusões que eu ainda nutria em relação à minha sereia amada.
Foi precisamente numa dessas noites que, miraculosamente, encontrei o caminho para a saída:
depois de ter sido especialmente maltratado por essa criatura, meu corpo caiu inerte no solo rochoso.
Meus sentidos não me tinham abandonado ainda, como sucedera doutras tantas vezes, estava
simplesmente resignado com aquele destino de objeto sexual para o resto da vida. O descuido da
minha carcereira foi, contudo, evidente, já que, no fim, não me atou com o mesmo rigor e afinco das
outras vezes, deixando lasso o nó que me prendia ao cativeiro, e me deixando com um mínimo de
forças para sair pelos meus próprios meios. Pensando que eu desmaiara ou, quem sabe, morrera,
retirou-se, saciada, para o fundo do mar onde dormia.
Sorrateiramente, desprendi primeiro uma mão, depois a outra, então um pé, depois o outro. Sem
forças para me pôr de pé, rastejei e cambaleei junto às paredes da gruta, na esperança de encontrar
uma abertura sem ter de mergulhar nas águas onde elas mantinham seu ninho. Lá encontrei uma, ao
fim de quase uma hora de luta entre a realidade e o sonho, mas não havia dúvida de que aquele ponto
pequenino que brilhava lá de cima era uma estrela noturna. Aquela era minha única alternativa à
tortura e à morte que me aguardavam se eu ficasse ali. Por isso, comecei a trepar. Trepei pelas
rochas escorregadias, usando toda a habilidade de pescador que nunca fui.
Saí à superfície, venerando o luar que me batia na cara e o ar puro como há tantos dias não
respirava. Ainda meio a rastejar, continuei a percorrer aquela espécie de ilhéu isolado em pleno
alto-mar, feito de rochas escuras e pontiagudas, povoado por gaivotas, na esperança de encontrar
vida humana nas redondezas. Não sabia se era pior ficar ali na ilha ou me lançar ao mar numa tábua,
pois de uma forma ou de outra, elas ainda podiam me recapturar.
Acabei por optar pela segunda alternativa, pois se morresse, ao menos que fosse como um
náufrago em mar alto, longe daquele local. Felizmente, fui resgatado por um barco que passou ao
largo alguns dias depois e me devolveu à casa. O que, sinceramente, já não acreditava ser possível.
Hoje, aqui estou. A desculpa que dei pelos dias que estive ausente foi a de que tinha ido longe
demais no barco de pesca e naufragara numa tempestade. A verdade guardei-a para mim. Pelo menos
até hoje, o dia em que decidi derramar estas memórias ao sabor do mar que foi simultaneamente a
fonte do meu maior sonho e do meu maior pesadelo.
A verdade é que ainda penso nela. Foste mesmo capaz de me fazer aquilo, depois de tudo o que fiz
por ti? Se calhar devia ter ouvido teu apelo na noite em que me apareceste e me mandaste voltar para
trás! Quero acreditar que me tentaste salvar do teu próprio encanto quando me avisaste para
regressar e para nunca mais pensar em ti, mas sem sucesso. Eu próprio trilhei o meu destino quando
decidi ignorar teu conselho e ficar à espera naquela praia!
Se calhar, aquilo tudo fazia parte do estratagema. Duma forma ou de outra, resolvi perdoá-la. Até
hoje nunca falei dela e só queria reencontrá-la para lhe dizer isso mesmo: perdoo-te. Eu te amo.
Foste o único amor da minha vida. Não queria saber das tuas razões ou explicações para nada. Só
queria ver-te.
Por isso, passei o resto da minha vida a procurá-la. Ainda conservava comigo, intacto, o espelho
que ela me emprestara. Passado o trauma e a reintegração na minha antiga vida, voltei a sentir sua
falta e a procurá-la sempre que ia à praia. Invocava-a com o espelho apontado para o horizonte, mas
ela não aparecia. Fi-lo durante anos e anos a fio. Esperei dias e noites inteiras por um rastro seu. Até
hoje.
O barquinho de pescador do meu avô me transporta pelas águas do mar neste preciso momento e
pretendo fazer hoje minha última jornada. Passei o dia todo no mar a apontar o espelho aos quatro
cantos do horizonte e a escrever estas memórias que deixo aqui para quem as quiser ler, na vã
esperança de que minha sereia apareça, nova ou velha, bela ou feia, mas que me deixe somente olhar
para ela uma última vez.
Já é noite e ela não vem. Esta foi a última vez em que eu saí ao mar para procurá-la. Pego no
espelho e deito-o ao mar salgado, devolvendo-o ao lugar a que pertence, para que seja encontrado
por outro jovem ingênuo e apaixonado que se tornará sua próxima vitima. Ou talvez não. Talvez, ao
contrário de mim, encontre forças em seu espírito para resistir às tentações do canto da sereia.
Vejo o espelho desaparecer no fundo negro das águas. Acabou-se. Ligo o motor do barco, dou
meia volta e regresso para casa.
A Mulher Imperfeita Daniel I. Dutra

“O homem quer satisfazer seu único desejo com todas as mulheres. A mulher quer um único
homem que satisfaça todos os seus desejos.”
[ditado popular estadunidense]

Hospital Santa Casa de Misericórdia, Porto Alegre, duas e meia da madrugada.


Os estalos dos saltos altos nos corredores do hospital rompiam o silêncio da noite. À medida que
o som agudo aumentava o doutor Gustavo Moraes sabia que em breve a porta de seu consultório
seria aberta.
— Mandou me chamar, doutor? — A enfermeira Carine perguntou.
O doutor se levantou da cadeira e deu uma volta de 360 graus em torno da enfermeira. Os cabelos
longos de Carine eram escuros, lisos e, somados a sua pele branca, olhos azuis e um corpo de
medidas perfeitas, formavam um conjunto agradável que apetecia os olhares masculinos. A ausência
de constrangimento do doutor em admirar Carine contrastava com a total indiferença da enfermeira
que, alheia à expressão lasciva do médico, permanecia de pé com a postura elegante de uma
candidata de concurso de beleza e um sorriso que lembrava um anúncio de pasta de dente.
— Sim, Carine. Quero que você faça algo para mim.
Não era a primeira vez que Gustavo Moraes se encontrava naquela situação. Mas aqueles foram
outros tempos, antes da administração do hospital intervir. Gustavo sabia que não conseguiria o que
desejava de Carine. Entretanto, o plantão médico pode ser muito tedioso para um homem solitário. O
desejo sexual de Gustavo era tão intenso que se sobrepunha à capacidade de aceitar os fatos, dando-
lhe uma faísca de esperança ilusória e impedindo o doutor de aceitar o fato de que desta vez, ao
contrário das anteriores, não teria aquilo que tanto desejava de Carine.
— Carine, quero que você tire a roupa e se deite na mesa de exames.
A enfermeira levou suas mãos até o botão no topo da blusa, que expunha seios fartos exuberantes
e, quando tudo indicava que estava prestes a obedecer, de repente afastou as mãos das roupas.
— Sinto muito. Não tenho permissão para executar esta ação. — Carine explicou com face gélida
e um tom de voz impessoal que nada lembrava o jeito dócil da enfermeira momentos atrás. — Para
maiores informações, entre em contato com a administração. Obrigado.
— Porcaria! — O doutor esbravejou em voz alta. — Maldita hora que a administração do hospital
colocou essa droga de bloqueio nas ginoides.
“Doutor Gustavo Moraes, apresente-se imediatamente à sala de emergência.”
O aviso ecoando das caixas de som espalhadas pelos corredores interromperam seu monólogo
raivoso. Saiu do consultório às pressas, acompanhado da ginoide modelo DEDI-65. A chegada do
doutor e da enfermeira à sala de emergência coincidiu com a entrada dos paramédicos que
carregavam dois homens em suas macas.
— O que aconteceu? — O doutor perguntou a um paramédico.
— Temos duas vítimas de espancamento.
A informação surpreendeu Gustavo. Médico experiente em pronto-socorros, ele já havia atendido
centenas de vítimas de acidentes de carro e, dado o estado em que encontravam os homens na maca,
julgou que se tratava de mais um caso de acidente automobilístico.
Um dos homens começou a ter uma convulsão. Os paramédicos tentaram imobilizá-lo. Gustavo
ordenou a Carine que aplicasse uma injeção de fenobarbital enquanto examinava o paciente com o
seu aparelho de raios X portátil, constatando a presença de uma fratura grave na região cervical. Em
meio ao caos do atendimento, não percebeu a sacola preta na traseira aberta da ambulância
estacionada perto da porta principal. O plástico da sacola se mexia como um sapo no interior de uma
cobra. Da boca da sacola era possível ver longos cabelos louros presos num crânio destroçado, de
onde saíam circuitos quebrados e fios de todas as cores.

Condomínio Rocha Dorea, Porto Alegre, duas semanas antes.

Pela mira da espingarda, Rodrigo Antunes observa o guepardo caminhar pela savana. Alguns metros
a frente há um riacho. Uma gazela bebe água descansada. O guepardo se aproxima. Um declive
separa os dois animais. Da extremidade alta do declive, o felino acompanha os movimentos da presa.
O animal permanece imóvel. A gazela segue bebendo. O guepardo estica suas pernas esguias e joga
seu corpo para trás. Rodrigo move a espingarda ora para a esquerda, ora para direita, tentando a todo
custo acompanhar os movimentos de ambos os animais. Mira a arma em direção à extremidade
elevada do declive. O guepardo desapareceu. Quase não consegue enxergar o predador descendo o
declive numa velocidade espantosa. A gazela percebe o felino avançando em alta velocidade e foge
assustada. A perseguição tem início na savana africana. A gazela corre, corre, corre, mas o guepardo
ganha velocidade à medida que avança com passadas cada vez mais largas, abocanha a garganta da
gazela em plena corrida. O animal se debate agonizante. Sangue e pedaços de gazela escorrem pelos
cantos da boca do guepardo enquanto Rodrigo acompanha a cena pela mira da espingarda. Seus
músculos estão tensos. O dedo indicador suado resvala no gatilho. Morde o lábio inferior. Respira
fundo. Não tem certeza se este é o melhor momento para atirar.
— Amor, a comida está na mesa. — Uma voz feminina suave o informa quebrando
momentaneamente sua concentração.
— Já estou indo.
Rodrigo não gosta de comida fria. Aquecê-la no micro-ondas não o agrada. O sabor nunca é o
mesmo, principalmente quando se trata da comida feita por Priscila. É hora de tomar uma decisão ou
ele atira no guepardo ou pausa o jogo. Rodrigo detesta pausar. Sempre considerou a pausa uma forma
de trapaça. Não cabe mais dúvida. Pressiona o gatilho. O guepardo cai morto por cima da carcaça da
gazela. O predador se torna presa. Rodrigo vibra com sua vitória.
Após algumas horas com o capacete de realidade virtual enfiado na cabeça, Rodrigo já esperava
sentir uma leve dor no pescoço. Esses novos modelos são mais leves que os antigos. Porém, leves ou
não, os capacetes de RV possuem certo peso e esse produz efeito na coluna de jogadores
compulsivos de Savana Assault. No entanto, a dor no pescoço não era nada que uma massagem da
Priscila não possa curar.
A visão da picanha assada no forno acompanhada de salada de batata com maionese que o
aguardava era uma obra digna de um excelente chef de cozinha e ele não podia esperar menos de
Priscila, que estava de costas na pia lavando a louça usando nada além de um avental. Rodrigo
gostava de saborear sua refeição observando as nádegas carnudas e rosadas de Priscila enquanto a
loura se ocupava com seus afazeres domésticos.
Ao terminar sua refeição Rodrigo levanta da mesa e abraça Priscila por trás, segurando-a pela
cintura. Ele coloca as mãos por dentro do avental e começa a acariciar seus seios nus ao mesmo
tempo em que pressiona as nádegas dela contra sua virilha. Priscila larga os pratos imediatamente e
se vira para beijar Rodrigo.
A campainha toca uma vez. Rodrigo beija Priscila. A campainha toca pela segunda vez. Rodrigo
abaixa o avental de Priscila e mordisca os bicos de seus seios. A campainha toca pela terceira vez.
A excitação sexual de Rodrigo esmorece. Do outro lado da porta o rapaz franzino com uma sacola na
mão direita está prestes a tocar a campainha pela quinta vez quando um Rodrigo irritado abre a porta.
Ao perceber quem é, a fisionomia de Rodrigo se acende com uma expressão de camaradagem.
— Oi, Rodrigo. Tudo bem?
— Tudo ótimo, Adriano. Entra.
A diferença física entre os dois homens era gritante. Rodrigo tinha ombros largos e um corpo
rechonchudo. Seu queixo era quadrado e sua voz tinha um tom de barítono marcante. Adriano era
muito menor que Rodrigo, tinha ombros estreitos, um queixo delicado oculto atrás de uma barba
espessa que cobria seu rosto e uma voz que lembrava a de uma criança recém-entrada na puberdade.
Sua voz oscilava entre tenor e contralto.
Rodrigo convida Adriano a se sentar e grita para que Priscila traga uma cerveja para o amigo.
Adriano diz que não é necessário, mas, mal termina de dizer essas palavras e lá está Priscila seminua
à sua frente. Um tanto constrangido, pega a bebida. Rodrigo observa a maneira como o olhar do
amigo se dispersa ao redor da sala, evitando encarar Priscila.
— Sabe, nunca vou entender o que você tem contra ginoides.
— Não tenho nada contra ginoides. Apenas não acho que seja normal um homem se relacionar
com uma máquina.
— Às vezes você parece um desses fanáticos religiosos ciberfóbicos, ou pior, aquelas doidas
feministas que odeiam ginoides.
— Não é isso. Acredite, não sou preconceituoso. — Adriano afirma em tom de desculpa. — É que
não acho que ter uma namorada robô, ou seja lá como você chama o tipo de relação que você tem
com Priscila, seja uma prática saudável. Quer dizer, você não sente falta de ter uma mulher real ao
seu lado? Alguém que também tenha sentimentos e compartilhe esses sentimentos com você?
— Mas Priscila tem sentimentos.
— Priscila não tem sentimentos. Ela é uma inteligência artificial e tudo que ela possui são reações
físicas programadas que simulam emoções. Se ela ri é um programa, se ela chora é outro programa.
Ela não é capaz de sentir emoções.
— Como você pode afirmar com tanta certeza que inteligências artificiais não possuem
sentimentos?
— É o que os cientistas dizem.
— Os cientistas? O que sabem eles? Há muito tempo atrás, século XX, se não me engano, você
sabe que história não é meu forte, cientistas diziam que era impossível ultrapassar a velocidade da
luz. Sabia disso? Hoje viajamos para outros sistemas estelares em velocidades superiores à da luz.
Adriano recebeu a informação de Rodrigo com certa surpresa. Apesar de não ter replicado,
reconheceu que o amigo tinha um bom argumento.
— Se você quer saber algo sobre ginoides é preciso conviver com elas. — Rodrigo insiste. —
Convivo com ginoides desde que eu era adolescente e afirmo que os sentimentos de Priscila são tão
verdadeiros quantos os meus e os seus.
— Mesmo que inteligências artificiais possuam sentimentos, não se sente incomodado em saber
que uma máquina possa ter afeto por você? A mim isso causaria calafrios, sinto muito se o ofendo,
mas estou sendo franco.
— Não me incomoda nem um pouco. Para falar a verdade não me importo se Priscila tem
sentimentos ou não, o que importa é que eu tenho sentimentos por ela e isso me basta.
— Então você admite que ginoides talvez não possuam sentimentos?
— Sim, admito. É uma possibilidade.
— Suponha que eu esteja certo, suponha que inteligências artificiais não possuam sentimentos.
Nesse caso, se ginoides não têm sentimentos, então, quando uma ginoide diz “eu te amo”, por mais
sentimento que ela coloque na entonação das palavras, por mais que seu rosto expresse emoções e
por mais sincero que possa ser, não é verdadeiro. Isso não te incomoda?
— Você fala como se os seres humanos fossem sempre sinceros. Diga-me, você acredita mesmo
que casais humanos são sempre sinceros quando dizem ‘eu te amo’ um para outro?
O cinismo de Rodrigo incomodava Adriano. Todavia, a crueza dos comentários do amigo o feria,
não pela acidez em si, mas pela possibilidade de que Rodrigo pudesse estar certo. Não era raro
Adriano perguntar a si próprio se talvez ele não fosse ingênuo demais e, por esta razão, não
enxergasse a realidade como ela de fato é.
Adriano decidiu tentar uma abordagem diferente e perguntou secamente a Rodrigo:
— Você ama Priscila?
— Sim, eu a amo. — Rodrigo respondeu de forma que Adriano não soube dizer se suas palavras
eram sinceras.
— Aposto que você também devia amar a modelo anterior que você tinha. Como era mesmo o
modelo? NIHA-69 ou algo assim...
— NIHA-59.
— Mesmo assim, você a vendeu e comprou esse modelo novo. Como é mesmo o nome?
— ROBL-73. Chamo todos os modelos de ginoide que eu compro de Priscila porque eu gosto da
sonoridade do nome. Pris-ci-la. — Rodrigo repetiu lentamente, como se sentisse prazer ao
pronunciar as sílabas.
— Isso, ROBL-73, fazem tantos modelos diferentes que eu esqueço os nomes. Mas, voltando à
pergunta, como você pode dizer que ama Priscila se basta lançarem um modelo novo para que você
se desfaça dela? Como você pode dizer que a ama se a trata como mercadoria?
— Eu digo que amo Priscila porque ela me faz feliz tanto quanto minha antiga ginoide. E se
lançarem no mercado uma ginoide que me faça mais feliz que Priscila pode ter certeza que vou me
desfazer dela. Amor é isso, você ama pessoas pelo que elas podem fazer por você. Nada mais.
Quantos relacionamentos acabam porque uma das partes encontrou alguém que satisfaz melhor suas
necessidades? Quantos homens não trocam sua esposa por uma mulher mais jovem? Quantas
mulheres não abandonam seus maridos por homens mais ricos? O que eu e outros ciberssexuais
fazemos não é nem um pouco diferente. Homens e mulheres se tratam como mercadorias o tempo
todo. Se você vai me julgar então os julgue também.
— Mas isso não é amor. — Adriano replica num tom insistente. — Amor é quando duas pessoas
se encontram, sentem uma atração especial uma pela outra e querem ficar juntas. Você não pode
nutrir esse sentimento por uma ginoide. Sabe por quê? Ginoides são todas iguais. Elas não têm
vontade própria, não têm personalidade, ginoides existem apenas para servir seus usuários. Duvido
que você seja capaz de dizer uma única característica que diferencie Priscila de todos os modelos
que você teve antes.
— Claro que posso dizer que havia características diferentes entre um modelo e outro. — Rodrigo
fez uma pausa para tomar um gole de cerveja. — Os modelos da série ROBL-73 têm seios ajustáveis.
Priscila pode aumentar e diminuir o tamanho dos seios conforme o gosto do usuário. Comprei
Priscila porque o meu modelo antigo não tinha seios ajustáveis e, por incrível que pareça, chega uma
hora que enjoa transar sempre com uma mulher de seios enormes. É bom variar e...
— Falo de características como pessoa, Rodrigo.
— Como pessoa?
— É, do que elas gostam, o jeito como elas falam, o que elas pensam ou desejam. É disso que
estou falando, dessa singularidade que todo ser humano e apenas humanos, possuem que faz com que
você queira se relacionar com outra pessoa.
— Eu me relaciono muito bem com Priscila, se é que você me entende. — Rodrigo explicitou,
numa tentativa de parecer engraçado.
— Você entendeu o que eu quis dizer. — Adriano insistiu, decepcionado.
— Olha, Adriano, ao contrário do que você pensa, Priscila tem uma personalidade. Eu sei, é uma
personalidade moldada de acordo com os gostos e desejos do usuário, mas ainda assim é uma
personalidade e, no fim das contas, é isto que importa.
— Mas Priscila não é humana, ela não o ama de verdade! — Adriano sibila num tom de voz
estridente.
Adriano ficou constrangido por erguer o tom de voz de forma tão aguda. Certo receio, que
Rodrigo não entendeu a razão, transpareceu nos gestos de Adriano, que levava a mão a boca e tossia.
Adriano tomou um gole de cerveja demorado para aliviar a tensão.
— Já que estamos falando em venda e compra de ginoides, — Rodrigo prosseguiu, ligando o
computador, — veja isso. — Encostou gentilmente a mão em uma pasta na tela do computador e a
imagem de uma loura apareceu. — Esse é o novo modelo STDA-79. Sabe quando falei que é
enjoativo transar sempre com uma mulher de seios grandes e como às vezes seios pequenos são
bacanas? Transar com louras também pode enjoar e foi pensando nisso a Corporação Saiteki criou
esse modelo. Vai ser lançado no mercado daqui a alguns meses, mas já entrou em pré-venda.
Rodrigo deu um segundo toque na tela e a loura na imagem aos poucos começou a se transformar.
Seus cabelos lisos e dourados foram substituídos por cabelos encaracolados e escuros. Sua pele
clara adquiria gradativamente um tom escuro. Ao fim da transformação a loura na tela do computador
deu lugar a uma mulata lindíssima.
— Não é sensacional? — Rodrigo indagou, empolgado, a um Adriano cujo olhar expressava um
misto de indiferença com indignação mal disfarçada perante a imagem na tela. — Basta o usuário dar
o comando que a STDA-79 se transforma de uma loura numa morena ou numa ruiva ou até mesmo
uma negra. Agora você pode ter todas as mulheres que desejar numa única. A STDA-79 é o harém de
uma mulher só.
Priscila entra na sala.
— Amor, me faça uma massagem. — Rodrigo pede. — Já encomendei minha STDA-79. Deve
chegar dentro de alguns dias. Quanto à Priscila, acho que consigo um bom preço por ela numa loja de
ginoides usadas.
— Não fale assim na frente dela! — Adriano voltou a empregar o timbre agudo.
— Qual o problema? — Rodrigo retrucou, algo irritado. — Não foi você quem disse agora há
pouco que ginoides são máquinas sem sentimentos?
Adriano não respondeu. Enquanto a ginoide movimentava seus dedos pelo pescoço de Rodrigo,
que soltava pequenos gemidos de satisfação, Adriano a contemplava e refletia sobre sua reação.
Priscila era humana em todos os aspectos exteriores que contavam como critérios de julgamento. Não
fosse seu comportamento subserviente e seu corpo absolutamente perfeito, somados à indiferença
com que a ginoide cumpria suas funções, seria impossível distingui-la de uma mulher humana.
Adriano havia finalmente entendido como era fácil se deixar enganar pelas aparências e esquecer que
Priscila era uma máquina.
— Bom, acabei me esquecendo a razão pela qual passei aqui. — Adriano retirou um pacote de
sua sacola.
Rodrigo abriu a caixa e viu a torta de maçã.
— Fui eu quem fiz. Espero que goste. — Adriano sorriu.
Rodrigo apreciava a amizade de Adriano, mas não podia deixar de estranhar certas atitudes do
amigo. Não era a primeira vez que Adriano o presenteava e quando saiam juntos Adriano sempre
insistia em pagar a conta. A ideia de que Adriano fosse homossexual passou pela cabeça de Rodrigo
mais de uma ocasião. Isso explicaria tanto seu jeito efeminado quanto a implicância com as ginoides.
No entanto, como Adriano nunca havia passado do ponto de fazer meros agrados, Rodrigo não via
razão para traçar um limite. Além disso, Rodrigo se sentiria um hipócrita se deixasse de conviver
com Adriano por causa de sua orientação sexual, sendo que o próprio Rodrigo, por causa de suas
preferências sexuais, também era vítima de preconceito.
— Adriano, meu irmão está na cidade. Ele veio visitar meus pais e haverá um jantar na casa
deles. Você não gostaria de ir comigo?
— Sim, é claro, — Adriano disse, feliz, — mas porque você quer que eu compareça a uma
reunião da sua família?
— Bem, sabe, meus pais são antiquados. Eles mantêm aquela visão preconceituosa de que
ciberssexuais são pessoas doentes que não se relacionam com ninguém e passam o tempo todo
satisfazendo suas perversões sexuais com ginoides. Se você for, mostrarei aos meus pais que sou
como todo mundo, que tenho amigos e uma vida social, e que só porque optei me relacionar com uma
máquina isso não me torna diferente de ninguém.
— Tudo bem, pode contar comigo. Quando será o jantar?

Bairro Cristal, oito da noite, duas semanas depois.

O carro de quatro portas transita pelas ruas lentamente. A cada quadra que percorria, o veículo
chamava atenção dos transeuntes, pois se tratava de um modelo muito caro para aquele bairro. Entrar
no bairro Cristal transmitia ao visitante a sensação de haver retornado ao passado. O bairro possuía
uma estética nostálgica típica do fim do século XX, visível tanto na pavimentação em ladrilhos nas
calçadas quanto nas casas rústicas feitas de tijolos e telhados de ladrilho. Enquanto o progresso
contagiava o resto de Porto Alegre, a impressão era de que uma redoma invisível mantinha Cristal a
salvo dos avanços.
O carro deu algumas voltas, dobrou algumas esquinas e atravessou algumas ruas até chegar ao seu
destino. A porta da casa onde o carro havia estacionado se abriu. Um casal na faixa dos 60 anos de
idade apareceu na soleira. Do interior do veículo saíram quatro pessoas.
— Ricardo, que bom ver você, meu filho. Eu tava morrendo de saudades.
— Bom te ver também, mãe. — Ricardo abraçou a pequena senhora, inclinando-se levemente para
tanto.
Ricardo Antunes era um rapaz alto, de ombros largos, braços fortes e um tórax avantajado. Seus
olhos eram azuis e seus cabelos de uma cor castanho escuro que combinava com sua pele bronzeada.
Ricardo vestia um terno azul marinho de corte elegante, e os sapatos de couro preto estavam bem
lustrados. Suas acompanhantes eram três jovens mulheres cuja beleza fazia jus ao perfil aristocrático
ostentado pelo rapaz.
— Oi, pai, há quanto tempo. — O rapaz apolíneo enlaçou o progenitor num abraço apertado.
Rodrigo cruza a soleira aos rapapés com o irmão.
— Meu filho, como vai? — A senhora idosa indaga a Rodrigo, antes de abraçá-lo e beijá-lo.
— Tudo bem, mãe. — Rodrigo respondeu. — Esse é o amigo que falei que traria para o jantar.
Adriano, essa é minha mãe Carmem.
Dona Carmem cumprimentou o amigo de Rodrigo com alegria exagerada. Segurou seu rosto e,
sentindo a barba espessa de Adriano coçar suas palmas, disse o quanto era bom conhecer os amigos
de seu filho e que Adriano podia considerar-se parte da família.
— Pelo menos desta vez ele trouxe uma pessoa de verdade, além da sua prostituta mecânica. — O
pai de Rodrigo resmungou, lançando um olhar de desprezo para Priscila que estava ao lado de seu
filho.
— Arlindo, não comece. — Dona Carmem ralhou com o marido.
— Tudo bem, mãe. Deixa para lá. Vamos entrar? Você quer alguma ajuda na cozinha?
— Não precisa, fiquem à vontade na sala de estar que eu chamo vocês quando a comida estiver
pronta.
Seu Arlindo abriu um tinto guardado para ocasiões especiais. Vale dos Vinhedos, safra 2084. Na
sala, Ricardo e suas esposas Denise, Carolina e Ana Paula ocupavam o espaço de um sofá de três
lugares, Denise sentada ao colo de Ricardo. Na direção oposta havia duas poltronas menores
ocupadas por Adriano e Rodrigo. No centro havia uma cadeira maior ocupada por seu Arlindo, que
se sentara logo após servir o vinho aos demais. Priscila estava de pé entre as poltronas de Rodrigo e
Adriano.
— Então. Ricardo. Como vão as coisas na firma? — O anfitrião perguntou.
— Vão bem, pai. Consegui fechar um negócio de quarenta milhões de créditos. Com minha
comissão pretendo instalar uma jacuzzi maior lá em casa.
— Carro novo, filho? — Seu Arlindo olhou para o veículo no qual seu filho chegara pela janela
da sala de estar.
— Isto. Comprei anteontem com a comissão que ganhei recentemente.
— Rodrigo nunca vai ter dinheiro para comprar um carro enquanto continuar naquele emprego de
arquivista de biblioteca pública e ainda por cima gastando seu salário nessas putas eletrônicas. —
Seu Arlindo brindou Priscila com novo olhar de desprezo.
— Ginoides são muito mais baratas que carros. — Rodrigo retrucou, tímido e visivelmente
incomodado com a maneira que seu pai falava dele como se não estivesse presente.
Da escada localizada entre a sala de estar e a cozinha um senhor idoso descia os degraus a passos
lentos com a ajuda de uma jovem vestida de enfermeira. Era muito mais velho que Arlindo, mas
possuía uma semelhança marcante com o anfitrião.
— Vô! — Rodrigo se ergueu entusiasmado quando viu o ancião dar seu último passo para fora da
escada.
— Vem cá, guri! — O ancião deu um abraço forte em seu neto. Rodrigo ficou surpreso com a
força do abraço do avô.
— Vejo que ainda continua com sua DEDI-65. — Rodrigo apreciou a ruiva em que seu avô
apoiava o corpo.
— Sim, gosto deste modelo. Comprei bem barato. Na minha idade é melhor não dar moleza. É
bom ter uma ginoide versada em enfermagem, fora que ela também... — O idoso se aproximou do
ouvido do rapaz.
Rodrigo esboçou um sorriso discreto com o canto da boca.
— É, eu também uso essas funções da minha ginoide.
— Estou velho, mas não estou morto, guri. — O ancião deu uma piscadela ao neto.
Rodrigo tinha um carinho especial pelo avô paterno. Sentia que tinha no ancião um aliado e
alguém que compreendia sua orientação sexual.
Na mesa de jantar, seu Arlindo continuou indagando sobre a vida profissional de seu filho mais
velho. Como advogado bem-sucedido de uma firma internacional de advocacia que tinha como
clientes inúmeras corporações multinacionais, dentre elas a Saiteki, maior fabricante mundial de
ginoides, era de se esperar que Ricardo fosse o centro das atenções na mesa. No fundo, seu Arlindo
mal compreendia o que Ricardo contava sobre ações, contratos, clientes e questões jurídicas. Tudo
que um homem simples e de pouco estudo como seu Arlindo conseguia entender era que o filho era
um homem importante que ganhava muito dinheiro.
Rodrigo se entregava a goles seguidos de vinho na esperança de que o álcool fizesse o tempo
passar mais depressa. Durante a refeição todos permaneceram em silêncio, a exceção de um ou outro
que elogiava a comida da dona Carmem. Priscila e Débora — assim que o avô batizara o modelo
DEDI-65 — permaneciam em stand-by na sala de estar.
Adriano analisava Ricardo e suas três esposas. Seu olhar escrutinador não deixava escapar
detalhe algum da vestimenta das mulheres. Os sapatos Manolo Blahnik, os vestidos da Rdlay, as
bolsas Victor Hugo, os penteados elaborados, resultado de horas em salões de beleza chiques. Era
evidente para Adriano que, embora as três mulheres fossem amigas, havia uma rivalidade implícita
entre elas pela atenção de Ricardo.
— Então, — Adriano rompeu o silêncio da refeição dirigindo-se às três mulheres, — vocês se
importam se eu fizer uma pergunta indiscreta?
— À vontade, Adriano, — disse Denise, uma morena de olhos verdes com feições orientais
mescladas com uns poucos traços paleoárabes, que lhe concediam uma beleza exótica.
— Bom, como posso dizer isso? Quer dizer, sei que poligamia hoje em dia é muito comum... —
Adriano tossiu. — Vocês três são casadas com mesmo homem. Como as três lidam com isso? Vocês
não sentem ciúmes?
— Que nada! — Denise respondeu. — Quando a gente ama alguém de verdade, o amor liberta,
sabe?
— Imagino que seja fácil ser “libertada” pelo amor quando esse amor dirige um carro importado.
— Rodrigo murmurou.
— Rodrigo! O que é isso? — Dona Carmem reclamou com o caçula.
— Amo seu irmão pelo que ele é e não pelo que ele tem. — Denise afirmou, acompanhada quase
em uníssono por Carolina e Ana Paula.
— Aposto que Ricardo também ama você pelo que você é e não pelos seus implantes de silicone.
— Rodrigo retrucou, amargurado.
— Escuta aqui! Você não vai falar assim na minha casa. — O pai interveio. — Respeite suas
cunhadas.
— E eu estou desrespeitando alguém por acaso? Só estou enunciando o óbvio.
— Deixa, Sr. Arlindo. Rodrigo só disse isso porque bebeu vinho demais, mas nós amamos
Ricardo de verdade. — Denise replicou, após fitar Ricardo com os olhos para se certificar de que
ele estava ouvindo.
— Sim, amamos mesmo. — Carolina completa.
— Amamos inclusive o Rodrigo. — Ana Paula acrescenta. — Amamos todas as criaturas.
— Menos, bem, menos... — Ricardo se impacienta, dirigindo um olhar duro a Ana Paula, que o
fita com olhos de gazela à luz dos faróis de um carro.
— Ao menos Ricardo está com mulheres de verdade. Assim como eu. Ele me dará netos e sua
prostituta mecânica me dará o quê? Torradeiras? — Seu Arlindo desabafou.
— E daí, pai? E daí? Você tem Ricardo para lhe dar quantos netos você quiser. Não posso ser
feliz com Priscila? A ginoide do meu avô também o faz feliz. Porque você não o critica também?
— Seu avô é um homem de idade avançada. Ele precisa de uma enfermeira que cuide dele...
— E que trepe com ele de vez em quando.
O avô de Rodrigo caiu na gargalhada. A sinceridade alcoolizada de seu neto caçula era uma fonte
de entretenimento para o idoso, visto que este já tinha participado de muitos jantares familiares ao
longo de sua vida e os tinha como eventos tediosos.
— Ora, seu... — Arlindo se controlou para não dizer algo que tornaria a situação ainda mais
desagradável do que já era. — Rodrigo, você é jovem, deve haver muitas mulheres procurando
alguém como você. Por que você não pode ser como os outros homens?
— Entenda, pai. Sou um ciberssexual. Não sinto atração por mulheres humanas. Sinto muito, mas
não consigo ver nada de especial nelas.
— Desisto. — O pai de Rodrigo abanou as mãos, reconhecendo tacitamente que lhe faltava
argumentos e que a objeção a ter um filho ciberssexual era apenas preconceito mesmo.
Ao fim da reunião familiar Adriano e a esposas de Ricardo estavam em frente à soleira
despedindo-se de seu Arlindo e de dona Carmem. Ricardo e Rodrigo aguardavam perto do carro. Era
notável como os irmãos não compartilhavam nenhum traço físico em comum. Rodrigo era um homem
banal, não havia nada de excepcional em sua pessoa, era apenas mais um rosto esquecível na
multidão. A obesidade de Rodrigo, que aumentara com tempo devido as refeições de Priscila,
contribuía para gerar a imagem de um indivíduo medíocre, um mero figurante no palco da vida. A
simplicidade de suas roupas, compradas numa loja de roupas usadas com seu salário modesto de
bibliotecário, agravavam sua imagem decadente e produziam um contraste estranho com o glamour
cinematográfico de Ricardo.
— Ricardo, sobre o que aconteceu no jantar... Não tive intenção de ofender você, acho que bebi
demais.
— Eu sei disso. O pai é quem devia parar de implicar com você.
— Eu sei que é difícil para eles entenderem.
— É difícil para muita gente entender. Mas, gostando ou não, as pessoas têm que se acostumar
com os ciberssexuais e aceitar que isso não é nenhuma doença.
— É bom ouvir você falar assim, Ricardo.
— A propósito, antes que eu me esqueça.
Ricardo abriu o porta-malas do carro, pegou um pacote embrulhado com um papel vermelho
reluzente e o entregou ao irmão.
— O que é isso?
— Anda, abre.
Rodrigo rasgou o embrulho do pacote. Dentro havia uma caixa de papelão do tamanho de um
estojo de guitarra. Rodrigo abriu a caixa e tirou seu conteúdo.
— Ricardo, isso é de verdade? — Rodrigo indagou, incrédulo.
— Claro que é. Eu mesmo matei quando participei de um safári na África oito meses atrás.
A pele do guepardo era firme e macia. Segurar nas mãos a pele de um animal que Rodrigo caçara
inúmeras vezes em RV, sentir sua textura, os pelos duros e rígidos, e principalmente, encarar os
grandes olhos negros do guepardo era uma experiência que superava qualquer simulação. Sentiu um
temor jamais experimentado antes. Tinha em suas mãos algo que um dia fora vivo e matou muitas
criaturas. Ao segurar a pele do guepardo, e observar aquelas presas afiadas enormes, Rodrigo tomou
consciência do quanto a criatura era perigosa. Descobriu na pele do animal morto um respeito pelo
guepardo que não tinha antes.
— Nossa, obrigado mesmo, Ricardo.
— Sei que você curte esses jogos de realidade virtual de safári. Por isto achei que seria bom te
presentear com uma lembrança do mundo real.
Adriano e as esposas de Ricardo se aproximaram da dupla de irmãos.
— Então? Podemos ir? — Ricardo disse para todos.
— Ricardo, se não se importa eu prefiro caminhar um pouco. Quer dizer, se você não se importar,
Adriano. Se quiser, pegue uma carona com Ricardo que Priscila me acompanha. — Rodrigo propôs.
— Não tem problema. — Adriano respondeu. — Eu acompanho você.

Quarto 613 do Hospital Santa Casa de Misericórdia, quatro da tarde.

Deitado no quarto com o braço direito engessado, um curativo no olho esquerdo e tubos adentrando
pelas narinas, Rodrigo recapitulava os acontecimentos. Como um pesadelo, as imagens se
encaixavam de forma confusa e desordenada. Lampejos de punhos e pontapés em sua direção se
intercalavam com a imagem de homens e mulheres segurando bíblias e crucifixos.
Caído no chão Rodrigo via ao seu lado Priscila, suas pernas e braços eram violentamente
arrancados por homens armados com tacos de madeira e pés de cabra. Fios e placas de circuitos
jorravam do interior da ginoide e um líquido amarelo escuro esguichava das cavidades do tórax,
onde antes ficavam seus membros.
Na direção oposta, Rodrigo presenciava Adriano ser brutalmente pisoteado por um grupo que
cuspia nele gritando palavrões.
Eram dois minutos para meia-noite quando Rodrigo, Adriano e Priscila foram atacados por um
grupo de ciberfóbicos: homens e mulheres oriundos de grupos religiosos e organizações feministas
que condenavam a ciberssexualidade. Os primeiros acreditavam que a ciberssexualidade era contra a
lei divina, e os segundos que ginoides denegriam as mulheres.
Enquanto Rodrigo tentava organizar suas lembranças deitado em seu leito, o doutor Gustavo
Moraes fora informado por Carine que seu paciente havia acordado e seguiu ao quarto para examiná-
lo.
— Doutor, o que aconteceu com o Adriano?
— Quem?
— Adriano, o meu amigo que estava comigo.
— Você quer dizer, a mulher disfarçada de homem que estava com você?
— Do que o senhor está falando?
Numa tentativa de consolar seu paciente, o doutor Moraes disse que a descoberta fora uma
surpresa também para ele e sua equipe médica. O disfarce de Adriana era tão bom que o doutor só
foi descobrir que se tratava de uma mulher quando removeu suas roupas largas para realizar as
cirurgias. Adriana havia sofrido um grave ferimento na coluna e estava tendo convulsões. Não fosse
a cirurgia de emergência ela teria morrido.

Condomínio Emília Freitas, nove da noite, três semanas depois.

Rodrigo estava em frente à porta do apartamento número 138. O receio de ter que encarar a pessoa
com quem ele viera conversar lembrava o que ele sentiu ao segurar a pele do guepardo que seu irmão
havia abatido na África.
Hesitou muito. Pensou inúmeras vezes em desistir e até deu meia volta rumo ao elevador, mas
mudou de ideia e retornou. Repetiu esse ritual, o elevador foi chamado três vezes até desistir de vez
da ideia. Meia hora havia transcorrido até finalmente decidir tocar a campainha.
Uma mulher de cabelos curtos e negros, com o lado esquerdo do lábio inferior inchado e o rosto
cheio de escoriações atendeu a porta.
— Oi. — Rodrigo murmurou, embaraçado.
— Oi. — Adriana respondeu com ar tímido. — Quer entrar?
Rodrigo adentrou no apartamento. Era um lugar tão modesto quanto o que ele morava. Os dois
evitavam trocar olhares. No entanto, Rodrigo examinava Adriana discretamente. Uma mulher que, se
fosse atribuir nota pela beleza física, não mereceria mais do que cinco ou seis, numa escala de zero a
dez.
Adriana convidou Rodrigo a se sentar. Ambos se acomodaram no sofá de dois lugares na sala.
— Por que você não me procurou? — Rodrigo rompeu o silêncio que se instalou entre os dois.
— Pensei que você nunca mais iria querer falar comigo, depois que descobriu que eu te enganei
esse tempo todo. Tinha medo da sua reação.
— Vou ser bem sincero. Eu fiquei com muita, mas muita raiva mesmo de você. Não consigo
entender como pôde me ter feito de idiota durante esse tempo todo. Por que você nunca disse que era
mulher? Por que se disfarçar de homem para se aproximar de mim?
— Por quê? E você ainda me pergunta o porquê? Rodrigo, você alguma vez na sua vida reparou
em uma mulher que não fosse uma ginoide? — Desta vez Adriana não demonstrou preocupação de
ocultar o tom agudo de sua voz.
Rodrigo retornara momentaneamente à adolescência e, num piscar de olhos, reviveu sua
juventude. Lembrou-se de seus tempos de colégio, quando ele e seus amigos se juntavam no recreio
para admirar as últimas propagandas de ginoides. As propagandas eram muito sedutoras e jovens
praticarem atos libidinosos vivenciando os releases RV em pleno intervalo. Ganhou sua primeira
ginoide aos 14 anos de idade. Um presente do pai, que queria que seu filho perdesse a virgindade.
Um presente do qual seu Arlindo anos mais tarde se arrependeu. Pois, se antes Rodrigo já não nutria
muito interesse por humanas orgânicas, ter tido sua primeira experiência sexual com uma ginoide
acabou com qualquer possibilidade. As poucas tentativas de Rodrigo de conviver com orgânicas
constituíram experiências frustrantes. Elas agiam de forma ambígua, tinham atitudes indecifráveis, as
falas femininas muitas vezes não condiziam com as ações. Esse comportamento estranho provocava
muitas angústias em Rodrigo.
— Não entendo. O que você pretendia com isso? Se travestindo de homem desse jeito?
— Eu não sei, eu não sei. — Adriana replicou num tom estridente. — Acho que eu só queria um
pouco de atenção. — Uma lágrima escorreu por sua face direita. — Você não sabe como é ser
mulher nos dias de hoje! Minha avó me contava que no tempo dela os rapazes levavam as moças para
jantar fora e davam flores para elas.
— Meu avô também me falou isso. Ele me contou que os homens faziam essas coisas porque essa
era a forma de se conseguir sexo. — Rodrigo lembrou que seu avô lhe dizia que graças às ginoides
homens não precisavam mais perder tempo com tais bobagens.
— Sabe, quando eu estava no colégio os rapazes que eu desejava nunca olhavam para mim. Os
garotos populares só tinham olhos para as garotas bonitas e elas não se importavam em compartilhá-
los conosco. — Um véu de tristeza cobriu o rosto da garota. — Eu tive um namorado muito tempo
atrás. Então um dia ele conseguiu juntar dinheiro suficiente para comprar uma ginoide. Eu ameacei
terminar com ele, não ia dividir meu namorado com nenhuma máquina, e ele escolheu a ginoide.
Você não sabe como fiquei arrasada.
Por um lado Rodrigo se compadecia da rejeição que ela havia sofrido, por outro, entendia as
motivações do ex-namorado de Adriana. No entanto, o que ele até então desconhecia era o impacto
que as ginoides produziam no universo feminino.
Adriana esclareceu este tópico em detalhes.
Desesperadas, as mulheres tentaram de tudo para competir com as ginoides. Muitas mulheres
começaram a dividir homens como Ricardo entre si. Para as demais, restavam homens como
Rodrigo, que as ignoravam sumariamente, levando-as a usar todo tipo de artifício para conquistá-los.
A primeira mudança comportamental feminina marcante foi quando mulheres passaram a pagar
jantares e dar presentes caros para homens. Sexo no primeiro encontro virou lugar-comum, com a
iniciativa geralmente partindo das mulheres.
Nenhuma dessas estratégias funcionou. Arrumar um parceiro se tornava cada vez mais difícil para
as mulheres menos privilegiadas pela genética. Disfarçarem-se de homens — um fenômeno cultural
cada vez mais comum — era apenas mais uma tentativa desesperada de se aproximar do sexo oposto.
— Se você queria um namorado por que você não arrumou um androide? — Rodrigo abanou a
cabeça com ar perplexo.
— Você ainda não compreendeu? — Adriana lançou-lhe um olhar indignado. — Eu tentei te
explicar diversas vezes quando eu era Adriano, mas você nunca entendeu.
— Explique de novo, então. — Rodrigo pediu, interessado em entender a situação.
Adriana soltou um suspiro e virou as costas para Rodrigo bruscamente.
Sempre que Adriana e Rodrigo entravam no assunto “ginoides e relacionamentos”, ela sentia
como se estivesse conversando com um autista. Tendo esse fato em mente, respirou fundo e tentou
explicar para o amigo como se estivesse falando com uma criança.
— Rodrigo, sabe o príncipe dos contos de fadas? — Adriana se inclinou em direção a Rodrigo,
segurando suas mãos. — O príncipe ama a princesa de verdade, enfrenta vários perigos para ficar
com ela e depois que eles ficam juntos o príncipe a leva para morar num castelo e diz o quanto ama a
princesa e faz gestos românticos para comprovar esse amor. É isso que eu quero. Quero alguém real
que, quando olha para mim, eu possa ver em seus olhos que ele me ama, me quer, me deseja.
— Então o que você quer é alguém que faça coisas assim?
— Sim, eu quero, e muito.
— Um androide pode fazer isso.
— Mas não há sentimentos reais envolvidos! Um androide faria essas coisas apenas por que foi
programado para isso. Entendeu agora por que mulheres não querem androides?
Rodrigo se lembrou de uma conversa que teve com um vendedor numa loja de ginoides um tempo
atrás. O vendedor comentou que os principais compradores de androides eram homens homossexuais
e que as tentativas de comercializar androides para o público feminino foi um fracasso, havendo
pouco interesse da parte delas. Rodrigo tentava imaginar como seria estar com uma humana orgânica,
que tivesse esses sentimentos reais de que Adriana tanto falava e que eram tão importantes para ela.
Indagou-se por que deveria nutrir tais sentimentos por uma humana? O que havia de tão especial
nesses sentimentos reais das mulheres humanas que valessem mais que uma ginoide?
Até então todo o contato que Rodrigo tivera com mulheres humanas oscilava entre a decepção e a
indiferença. Mas, pela primeira vez, sentia algo diferente. Adriana havia despertado nele emoções
que ele não conseguia encontrar palavras para descrever. Enquanto acreditava que Adriana era
Adriano, conheceu-a intimamente e essa intimidade com uma mulher era algo que ele nunca havia
experimentado com nenhuma outra humana orgânica, nem mesmo com a própria mãe.
O caminho de volta para a casa foi tortuoso, pois durante todo o trajeto Rodrigo foi atormentado
por dúvidas e emoções contraditórias. Desejava ver Adriana novamente? Era uma pergunta que não
sabia responder. Parte dele queria retornar ao apartamento do qual acabara de sair, enquanto outra
parte ansiava por voltar para casa o quanto antes.
Não conseguia entender que efeito era esse que Adriana havia provocado nele que o deixava tão
perturbado. Era um sentimento paradoxal, que o fazia se sentir nervoso e ansioso, mas que também
lhe trazia um prazer emocional bizarro. A sensação era uma espécie de choque elétrico que partia de
seu coração e invadia todo o seu corpo. Tornou a pensar no que sentiu quando segurou a pele do
guepardo. A serenidade que sentia em companhia de suas ginoides era muito diferente do turbilhão
de emoções provocado por Adriana que agora o agrediam como o mar agride rochas na encosta.
Ao chegar no apartamento Rodrigo se deparou com uma caixa de plástico enorme em frente à
porta. Havia um holograma flutuando sobre a caixa — que era relativamente menor em altura e
largura que a porta do apartamento — e a assinatura era do síndico, que recebera a entrega enquanto
Rodrigo esteve fora, na casa de Adriana.
Empurrou a caixa para dentro do apartamento e desativou os fechos com suas impressões digitais.
Centenas de bolinhas de isopor explodiram para fora da caixa. Um invólucro de plástico opaco
cobria o conteúdo — um objeto de 173 centímetros de altura, 32 centímetros de largura e 53
quilogramas. Rodrigo removeu o plástico, esparramando-o pelo chão do apartamento junto ao mar
raso de isopor.
Ao contemplar o que havia na caixa todos os questionamentos que o atormentavam
desapareceram. Sua ginoide modelo STDA-79 havia chegado.
Portal para o Paraíso do Amor e Prazer Sandra Pinto

Eu tinha lhe dito que não era menina de acampar. Eu sou da cidade, não do campo. Seis tendas no
meio da floresta com um grupo de pessoas ao redor da fogueira não eram o meu estilo.
Há quatro dias no meio do mato, dormindo numa tenda e curtindo a natureza, como ele dizia. Fazer
necessidades atrás de uma árvore, tomar banho num rio a cem metros da tenda, não era para mim. E
ainda faltavam três dias para ir embora. Vem acampar, Jorge disse. Vai ser uma aventura, ele
insistiu.
— Vou matar meu namorado. — Murmurei irritada e frustrada.
Agora me afastei um pouco do acampamento para buscar lenha e aqui estou, perdida e rodeada de
árvores.
Já andava às voltas há uma hora e sentia que me afastava cada vez mais do acampamento.
— O melhor é parar e esperar que meu irmão me encontre. — Suspirei e olhei em volta. —
Espero que aja rápido, pois daqui a uma hora escurece.
Encostei numa árvore e passados uns segundos caí para trás como se não houvesse árvore
nenhuma. Rebolei por uma ravina e caí num monte de mato perto de um riacho.
— Ai! Minha cabeça. — Gemi de dor.
Não era só a cabeça que doía. Todo o meu corpo estava dolorido.
Cheia de dores, engatinhei até a beira do rio e lavei o rosto, mas a dor na cabeça era tão intensa
que me deitei um pouco para ver se melhorava. Reparei que o céu estava limpo e sem nuvens, mas
com uma cor diferente do habitual, virei a cabeça e as árvores eram parecidas com as que eu
conhecia, mas nunca as tinha visto antes com aquelas folhas.
Depois de alguns minutos entrei em pânico, de alguma forma eu estava num sítio completamente
diferente daquele em que havia estado até poucos minutos.
Não ajudou nada quando ouvi sons estranhos se aproximando. Minhas pálpebras estavam cada vez
mais pesadas. Quando vi sombras sobre mim, quase já não conseguia abrir os olhos.
— Ela parece estar ferida. — Ouvi uma voz de mulher.
— Sim. É melhor chamar o Luk. — Outra voz feminina sugeriu. — Ele é o que está mais perto e
decide o que fazer.

Quando Luk chegou perto das fêmeas, elas lhe explicaram que tinham encontrado uma fêmea de
espécie diferente. Ele ficou curioso e preocupado, nunca haviam encontrado pessoas de outro povo.
Ele se aproximou da fêmea e ficou imediatamente encantado, tinha corpo de mulher madura, mas o
rosto era completamente diferente do das fêmeas de sua espécie. Possuía longos cabelos castanhos e,
quando abriu os olhos, reparou que eram castanhos com íris circulares. Nunca tinha visto algo assim.
Tomou-a no colo e ela gemeu.

Abri os olhos e constatei que estava deitada numa cama dentro de uma pequena casa de madeira. Ao
verificar que a dor de cabeça já não era tão forte, levantei para poder agradecer a quem quer que me
tivesse socorrido. A porta se abriu de repente e eu olhei. Ofeguei e sentei de novo na cama. Fechei
os olhos e voltei a abri-los passados uns segundos.
Devia estar sonhando.
O homem me olhava cautelosamente e se aproximava devagar. Fiquei parada sem me mexer, em
choque, olhando-o de boca aberta.
— Está tudo bem. — Ele disse suavemente. — Ninguém vai lhe fazer mal.
Incrível, o recém-chegado falava português. Nunca havia imaginado nada assim. Ele era alto,
calçava botas de couro castanho-escuras amarradas por fios trançados, trajava uma espécie de tanga
coberta por um pedaço de pele à frente e no traseiro, presa por um cinto grosso de couro feito com
vários fios. Tinha uns desenhos abstratos tatuados no tórax amplo e musculoso. Portava pulseiras
largas de couro da mesma cor castanha. Seu rosto era diferente do de qualquer homem que eu já
houvesse visto.
Mantinha o cabelo preto azulado amarrado para trás numa trança comprida até as costas. Possuía
orelhas pontudas e olhar hipnótico. Seus olhos eram amarelos, mas as íris eram ovais e as pupilas se
limitavam a riscos pretos. Olhos selvagens e excitantes, que me faziam lembrar os de um gato.
Aproximou-se mais e sentou-se ao meu lado enquanto eu continuava na minha avaliação com os
olhos arregalados. Quando levantou a mão para meu rosto, prendi a respiração. Parou um instante e
então prosseguiu. Passou a mão na minha testa e eu gritei.
— Ai...
— Ainda te dói, mas já está a curar. — Sorriu para mim.
Passei os dedos na testa e senti que sofrera um golpe, por isso me doía tanto a cabeça. Olhei-o e
reparei seus caninos afiados sobressaindo um pouco dos outros dentes. Senti um calor invadir meu
corpo. Ele parecia muito atraente e selvagem.
— Onde estou? E quem és tu? Somos um... pouco diferentes, não somos?
— Estás em nossa aldeia. Eu sou Luk. — Ele inclinou a cabeça e me avaliou. — E, sim. Somos
diferentes.
Fazia lembrar tanto um gato selvagem que não resisti e me inclinei para trás na cama e olhei para
baixo das costas dele para ver se aparecia uma cauda. Sorri quando vi que ele não tinha e me senti
ridícula por pensar numa coisa dessas. Ele arqueou uma sobrancelha.
— O que foi?
— Oh! Nada... nada! — Sorri atrapalhada.
— Como vieste parar aqui?
— Bom! Também gostaria de saber. Estava acampando com amigos e me perdi. Quando me
encostei numa árvore, ela desapareceu eu caí numa ravina que não existia no local onde me sentei.
— Um portal? Deves ter encontrado por acidente um portal para o nosso mundo.
— Um portal? Isso existe? — Abanei a cabeça, perplexa. — Não acredito.
Novo arquear de sobrancelha.
— Por que não? Nós existimos. Também não acreditas que sou real?
Suspirei e o segurei no braço. A pele dele era suave e não resisti a mexer os dedos como uma
carícia.
— Eu tenho que voltar, precisa me ajudar. — Implorei.
Olhou para minha mão em seu braço e depois para mim. O olhar dele mudou, a cor ficou mais
escura e as pupilas mais dilatadas. De repente, inclinou-se para frente e me beijou.
A língua dele era quente e áspera, como uma lixa suave. Quando a roçou pela minha, fez a minha
pele arrepiar. Eu sabia que devia parar, mas a sensação era tão boa, eu já tinha saudades de ter um
homem que me desejasse assim. Ele me forçou a deitar, sem interromper o beijo. Deitado sobre mim,
enfiou a mão por dentro da minha camisola e acariciou meu seio.
Não consegui evitar o gemido com a sensação das mãos dele na minha pele, os mamilos já
estavam duros como pedra. Eu nem sequer usava sutiã. Arqueei os quadris e me esfreguei nele
enquanto gemia com as carícias de sua língua na minha boca e as carícias de suas mãos em minha
pele e no meu mamilo. Apertou-o com força, causando uma dor que provocava uma onda de prazer
no meu baixo ventre, deixando-me inteiramente molhada entre as pernas.
Comecei a acariciá-lo, passei as mãos em seu tórax musculoso e bronzeado, meus dedos
percorriam as linhas da tatuagem que seguiam até os ombros. Risquei-lhe suavemente as costas com
as unhas. Ele se arqueou e interrompeu o beijo. Olhou-me por segundos e me tirou a camisola.
Rapidamente desceu para o meu pescoço e me lambeu.
Soltei um gemido gutural quando senti os caninos afiados roçando a pele, seguidos pela língua
áspera, do pescoço até ao mamilo. Quando me mordeu delicadamente, finquei-lhe as unhas nos
ombros e ele grunhiu. Não aguentava mais as preliminares, queria-o dentro de mim.
Eu o afastei um pouco para lhe tirar o cinto. Ele assumiu uma posição mais cômoda e retirou a
tanga. Arranquei minhas calças e as calcinhas. Ofeguei quando olhei para o membro dele, grande e
grosso. Puxei-o para mim, abri as pernas para encaixá-lo nos quadris, quando o senti na minha
entrada, gemi e me empalei nele.
Ele me agarrou com força pelos quadris enquanto gemíamos envoltos numa onda de prazer. Gritei
quando ele enfiou tudo de uma vez, seu membro era grande e não tinha penetrado devagar. Ele parou
para que eu pudesse acomodá-lo. Quando a dor e o susto passaram, fechei os olhos e comecei a
mexer os quadris. Ele acompanhou meu ritmo. Suas estocadas eram profundas, sentia-o golpear o
colo do meu útero, gemia a cada novo ataque de seu membro. Abri os olhos quando ouvi seus
grunhidos. Estava com os lábios entreabertos, as extremidades dos caninos brilhando, fitando-me
através das pálpebras semicerradas.
Tão sexy. Tão selvagem.
Aumentei o ritmo ao sentir o calor subindo coluna acima, primeiro sintoma do orgasmo. Gemi
mais alto e, quanto mais eu gemia, mais ele acelerava. Agarrei-me aos seus ombros. Ele se curvou
em direção ao meu seio esquerdo e lambeu o mamilo com a língua áspera, levando-me à beira do
clímax. Depois lambeu o outro e foi intercalando as lambidas entre um mamilo e o outro, quando
senti a mordida num mamilo, arqueei as costas e gritei com a explosão do orgasmo mais intenso que
já senti. Ainda estava ofegante quando senti meus músculos vaginais comprimindo seu pênis. Enfiou
com mais urgência, num ritmo de bate-estacas, até lançar a cabeça para trás e rosnar enquanto
jorrava dentro de mim. Que sensação maravilhosa! Sua seiva era quente e picava, como pequenos
choques elétricos, sacudindo meu corpo em miniorgasmos.
Ele se deitou de lado e me olhou enquanto eu tentava acalmar as batidas do meu coração, antes
que eu tivesse um ataque cardíaco. Exibiu uma expressão satisfeita e me sorriu. Não sabia como
reagir. Supus que não devíamos ter feito amor, eu não pertencia àquele mundo, tinha que voltar ao
acampamento. Mas não haveria consequências, os homens gostavam de sexo casual.
— Você me ajudará a procurar esse tal portal?
— Provavelmente não o vais encontrar assim tão facilmente. — Explicou calmamente. — Pode ter
sido o destino, teres vindo parar aqui.
— Duvido. Eu nem consegui acampar, por isso me perdi. Não ia conseguir viver fora da cidade.
Brindou-me com um olhar intenso e enigmático enquanto estudava meu rosto, manteve-se assim
por alguns instantes. Parecia querer dizer algo. Comecei a me sentir inquieta com a avaliação. Ele me
atraía muito, não sabia o porquê, mas o fato dele ser diferente fazia com que eu o desejasse ainda
mais. Rememorei o que havíamos acabado de fazer. O jeito como me tocara, seus beijos ásperos e o
prazer que ele tinha despertado dentro de mim. Tornei a me excitar com tais pensamentos e ruborizei.
— Vens comigo ou não? — Eu disse impaciente enquanto cruzei os braços no peito, o que fez
meus seios se empinarem um pouco.
Desceu o olhar e eu estremeci. Como não respondeu de imediato, virei e comecei a me vestir.
— Onde é que vais? — Perguntou com voz autoritária.
— Vou procurar o portal sozinha. — Afirmei com convicção, sem me virar.
— O mais provável é te perderes por aí. — Replicou, divertido.
Parei na porta e me virei para ele.
— Pode ser que assim eu encontre finalmente o portal, foi assim que aconteceu. — Retruquei
furiosa antes de sair porta afora.

Só estava na floresta há dez minutos e já me sentia arrependida de ter me aventurado sozinha. Mas o
orgulho falou mais alto quando ouvi o tom de gozação de Luk. Suspirei e me sentei no chão encostada
a uma árvore. Quem sabe não me acontece novamente?
Mas não aconteceu nada. Já estava lá há horas e sabia que escureceria em breve. Tinha que sair
dali. Suspirei e gritei furiosa para o céu.
— Como vou saber onde procurar?
— Achas que a floresta te vai responder?
Luk estava encostado numa árvore com os braços cruzados no peito numa postura relaxada.
— Já acredito que tudo é possível. — Bufei. — Anda tudo tão estranho, que até podia haver
alguma resposta.
— Amanhã eu te ajudo a procurar. — Ele se aproximou e me estendeu a mão. — Agora vem, vai
escurecer e pode ser perigoso ficar por aqui.
Resignada, aceitei sua mão e me levantei. Senti um choque com o contato, soltei rapidamente a
mão e respirei fundo, tinha que manter a distância. Não poderia voltar a acontecer, podia ser
perigoso para mim. Se me envolvesse demais, podia me apaixonar e ia sofrer, pois nunca iria dar
certo, éramos muito diferentes e não só fisicamente.
— Achas que posso tomar um banho? — Pedi timidamente.
— Claro que sim, quando chegarmos, eu te preparo um. — Confirmou em tom neutro. Parecia
diferente, mais rude, frio e autoritário.
Quando saímos da floresta já estava escurecendo. Entramos na aldeia e eu parei abruptamente. Até
então atrás de mim, Luk avançou para o meu lado.
— O que foi? — Indagou, preocupado.
— Mas... eles estão transando... aqui?
— O quê? — Passou os olhos pela aldeia e então me fitou, surpreso.
— Não vês? Alguns casais estão copulando à vista de todos. — Murmurei baixinho e o olhei,
ruborizada.
Ele inclinou a cabeça e me sussurrou ao ouvido.
— Vocês não o fazem? — Ronronou num tom sensual.
— Claro que não! — Gritei. E me afastei dele.
De repente apareceu uma mulher. As mulheres desse povo só têm uma diferença em relação aos
homens: mantêm seus cabelos curtos. Só os homens possuem cabelos compridos e sempre trançados.
A mulher se enroscou nele, passou-lhe a mão no peito bronzeado e lhe sussurrou algo ao ouvido
antes de lambê-lo do pescoço à bochecha. Cerrei os maxilares e fechei os punhos de pura raiva.
Como ela ousava tocá-lo?
Fiquei tensa. O que era isto, ciúmes? Não, não podia ser, até porque eu iria embora tão logo
encontrasse o portal e ele era livre para ter as fêmeas que quisesse, como ele as chamava.
Ele a olhou e abanou a cabeça. A fêmea assentiu e se afastou com uma expressão de tristeza. Será
que ele a recusou por minha causa? Ah, merda! Eu nem devia estar com este tipo de preocupação, eu
não estou interessada nele.
— Pensei que iriam transar aqui e agora à minha frente. — Afirmei, irritada.
A expressão dele não se alterou, mas aqueles olhos de gato brilhantes me fitaram, inquietando-me.
As íris ovais amarelas dos olhos dele exerciam poderes hipnóticos. Finalmente ele rompeu o transe
ao falar:
— Nós nunca o faríamos à tua frente. — Explicou calmamente.
— O que eu vejo me diz o contrário.
— Nós que somos livres, fazemos sexo em privado por respeito aos futuros companheiros ou
companheiras de vida.
— Então, estes casais são companheiros de vida?
— Sim. Para nosso povo é uma maneira de mostrar o amor que sentem um pelo outro. — Ele disse
enquanto continuava a me olhar fixo, como se tentasse ler minha mente.
— Bom. Pois para o meu, um simples abraço e um beijo chega para mostrar o amor que um
amante sente pelo outro. — Expliquei ruborizada e excitada.
Ele inalou, sorriu e me pegou pela mão.
— Vamos lá a esse banho.

Quando entramos na cabana, ele me conduziu a outro quarto. Ainda não conhecia muito da casa dele.
Desde que acordei, estivera distraída com outras coisas... hum... mais interessantes. Agora, porém,
depois de olhar em volta, apesar de viverem no meio da floresta, até que eles tinham bastante
conforto.
No outro quarto havia uma banheira, ele a encheu de água e se virou para mim.
— Quando quiseres. — Cruzou os braços sobre o peito.
— Vais ficar aí ao alto. — Perguntei, espantada.
— Por quê? Há algum problema nisso.
— Claro que há. Tenho que tomar banho nua e não vestida.
— Sim, convém. — Exibiu um sorriso irônico. — Não imaginei que isto constituísse problema.
— Estou vendo que não vais sair. — Bufei. — Tudo bem.
Tirei a roupa rapidamente e me enfiei na banheira. Gemi e fechei os olhos quando a água quente
tocou minha pele. Senti uma ondulação e abri os olhos.
Luk estava ajoelhado à minha frente com um frasco de xampu na mão.
— Mergulha! — Ordenou.
Pensei em protestar, quando ele me deu um empurrãozinho para trás e cai de costas na água,
ficando com os seios inteiramente expostos. Quando vim à tona, enxuguei a água do rosto e o fitei.
Saudou-me com um olhar quente e esfomeado. Inalei profundamente quando começou a esfregar meu
cabelo comprido, a massagem suave em minha nuca me arrancou arrepios de prazer. Depois de
ensaboá-lo, ajudou-me a mergulhar novamente a cabeça e o esfregou com água até enxaguá-lo por
completo.
— Levanta-te. — Ordenou.
Fitei-o, hesitante. Ele pegou numa esponja e derramou gel de banho nela.
— Levanta-te. — Insistiu e eu obedeci.
Começou a me ensaboar os braços e os ombros. Desceu para os seios e eu olhei para ele. Mas
prosseguiu sem tocá-los, rodeando-os com a esponja até chegar ao estômago. Ofeguei quando senti
que me abria as pernas e me excitei por antecipação, mas ele passou a esponja na minha virilha e nas
coxas sem tocar minha vulva, já quente e latejante. Levantou minha perna direita e a ensaboou até a
sola do pé, depois fez o mesmo com a esquerda.
— Vira-te. — Pediu com voz rouca. Tinha os olhos brilhantes e cheios de luxúria, afinal eu não
era a única afetada e isso me fez sorrir. Notou meu sorriso e me virou rapidamente.
Esfregou minhas costas com rapidez e as nádegas bem devagar.
Senti a mão dele afagando minha bunda enquanto a esponja boiava na banheira. Com a outra mão
esfregou-me um seio e depois o outro. Desceu para o umbigo e dali até a vulva, que esfregou com a
espuma que tinha na mão.
Gemi e apoiei as mãos na parede do banheiro para me firmar quando ele passou o dedo na minha
racha e subiu até o rego. Ofeguei quando o enfiou. Gosto de ser penetrada ali. Ele me estimulou,
botando e tirando, me deixando cada vez mais ligada. Passei a movimentar os quadris,
acompanhando o ritmo dele. Senti a outra mão nas minhas costas, empurrando-me mais para baixo
deixando meu traseiro mais empinado e mais oferecido para ele. Quando retirou o dedo
choraminguei, saudosa, mas logo me compensou quando me lambeu com sua língua áspera
maravilhosa, arrancando-me um gemido de prazer.
— Por favor... — Implorei. — Mais!
Luk me agarrou pelas nádegas, afastando-as. Urrei quando o senti enfiando em meu orifício
apertado de uma única investida, penetrando até o talo.
Depois dessa primeira estocada vigorosa, os grunhidos de prazer de Luk se juntaram aos meus
gemidos. Comecei a mover os quadris para esclarecer que podia enfiar mais fundo. Ele compreendeu
e acelerou as investidas.
Fiquei tonta de prazer. Uma de suas mãos apertava meu mamilo, enquanto a outra alternava entre
me beliscar o clitóris e enfiar o dedo no meu canal úmido com o suco da excitação. O fogo se
espalhou pelo meu corpo à medida que o clímax se aproximava. Lambeu minha nuca sem interromper
suas estocadas arrasadoras. Quando mordiscou meus ombros com os caninos afiados e me beliscou o
mamilo e o clitóris ao mesmo tempo, foi demais para mim. Berrei e me contorci com ele bem
cravado em meu âmago, tão descontrolada que ele precisou me segurar pelos quadris para que eu não
caísse. Deliciado com as contrações intensas do meu orgasmo, Luk gozou logo a seguir, derramando
sua semente em meu reto com um rosnado de satisfação.
Estávamos ambos ofegantes. Encostei a cabeça na parede enquanto tentava acalmar meu corpo.
Ele permanecia deitado sobre as minhas costas. O sopro de sua respiração na minha nuca me
arrepiava.
Luk comandava meu corpo. Como podia ser? Eu não sabia. Éramos de espécies diferentes.
Possuía algumas características selvagens, mas sempre que me tocava eu tinha que tê-lo, senti-lo
dentro de mim. Agora ainda queria mais dele. Parecia que me tornara insaciável, uma fêmea no cio.
No entanto, ele parecia mais intenso, mais bruto do que da primeira vez.
Afastou-se e saiu de dentro de mim, tirou as botas e o que restava da tanga e entrou na banheira.
Tomamos banho juntos. Quando saímos, eu me dirigi para a cama e lhe dirigi um sorriso malicioso.
Ajoelhei-me na cama com as pernas entreabertas defronte dele, apalpei meus seios e esfreguei a
palma da mão entre as pernas.
Meu sorriso aumentou quando o vi congelar por uns segundos com o olhar fixo, enquanto seu
membro se enrijecia perante meus olhos, volumoso, saltitante em direção ao estômago. Lambi os
lábios ante aquela visão magnífica e continuei a me acariciar. Ele começou a se aproximar devagar e
subiu para a cama, recuei sem parar de me afagar.
Quando ele se esticou para me tocar, empurrei-o e o forcei a deitar-se na cama. Engatinhei sobre
seu estômago e agarrei seu membro com força. Ele gemeu, baixei e lambi as primeiras gotas de
sêmen que já afloravam na abertura, antes de envolver a glande inteira na minha boca. Ouvi-o grunhir
e contemplei a expressão de prazer em seu rosto. Continuei a chupá-lo devagar, saboreando cada
centímetro do seu membro.
Apertei suavemente as bolas e ele arqueou os quadris, balançando-os, forçando-me a chupar mais
rápido. Comecei a lambê-lo enquanto arrastava meus dentes pela haste inteira. Desenfreado, enfiou
fundo garganta adentro e quase me fez engasgar.
Notando que estava prestes a gozar, pensei em parar, mas ele me agarrou pelos cabelos, forçando-
me a prosseguir. Abracei-me às suas coxas e acelerei o ritmo. Soube que ia gozar no instante em que
me puxou os cabelos e engoli o máximo da haste que podia. Seus gemidos roucos aumentaram minha
excitação em engolir seu sêmen. Tanto que me percebi com as coxas e virilhas encharcadas dos meus
próprios sucos.
Sentou-se e me puxou para cima dele pela nuca, obrigando-me a inclinar a cabeça para trás para
me beijar. Minha língua se debatia com ferocidade contra a dele, misturando todos os sucos
envolvidos. Maravilhoso.
— Agora é a minha vez. — Decidiu, sensualmente autoritário.
Arregalei os olhos e me deitei na cama. Luk colocou minha perna sobre seu ombro. A primeira
lambida foi na virilha e eu arqueei as costas com o arrepio que me invadiu na coluna. Torturou-me
com algumas lambidelas, sem me tocar no sítio que eu queria. Subi a outra perna no ombro dele e o
puxei para mim com os pés, forçando-o a enterrar o rosto na minha vulva molhada.
Quando me lambeu bem devagar, do rego até as bordas dos lábios, enfiando a ponta da língua bem
dentro da minha abertura, perdi o fôlego, tamanha a onda de prazer que me invadiu.
Com uma nádega em cada mão, ergueu-me para encaixar aquela língua divina mais fundo. A
aspereza e o comprimento avantajado da língua dessa espécie constituem vantagens eróticas
inigualáveis.
Quando percebeu que meus gemidos ficaram mais altos, começou a chupar meu clitóris, puxava-o
entre os dentes com suavidade e depois me lambia novamente. Comecei a me esfregar em sua boca
com mais urgência. Ele me segurou pelas coxas, ao mesmo tempo que senti a picada dos seus dentes
afiados no clitóris.
Gritei de dor e prazer ao gozar como louca em sua boca e sua língua. Ele não parou de me
degustar até que os tremores das minhas pernas diminuíram. Mais tarde, baixou minhas pernas e se
deitou na cama, ao meu lado.
— Agora estamos quites. — E me beijou.
Eu me sentia tão saciada e tão relaxada que só me apetecia dormir.
— Não comeste nada hoje. Vou buscar algo e depois podes dormir.
Trouxe frutas e uma espécie de carne seca. Hesitei um pouco antes de experimentar, mas, na falta
de comida conhecida e com a fome que eu sentia, não pude ser muito exigente. Depois de me sentir
satisfeita, recostei nas almofadas e bocejei. Ele continuou a comer umas bagas castanhas que tinham
um sabor delicioso. Luk era realmente um espécime fantástico. Possuía uma resistência incrível e
parecia nascido para o sexo.
— Amanhã me ajudas a procurar o portal?
Ele virou-se rapidamente para mim e me olhou sério.
— Pensei que tivesses decidido que não valia a pena procurar. — Ele disse sem qualquer
emoção.
— E o que te fez pensar isso? — Ergui a sobrancelha.
— Eu estava enganado. — Ele me sorriu.
A porta abriu e eu rapidamente procurei uma manta ou toalha para me cobrir, mas não havia
nenhuma. Ele continuou a comer enquanto eu colocava a mão na boca de choque quando reparei quem
entrou.
Olhei para a porta e para o Luk, ele continuava a comer as bagas calmamente.
— Posso… posso saber o que se passa aqui? — Balbuciei, assustada e em choque.
O homem que entrou sentou-se ao lado de Luk.
— Eu sou o Luk, ele é o Markoon, meu irmão gêmeo. — O recém-chegado afirmou, apontando
para o homem que eu pensava ser Luk.
Permaneci calada por um bom tempo, aturdida por um redemoinho de pensamentos.
Luk olhou para mim e depois para Markoon.
— Então?
— Correu tudo bem. Há química, não haverá problemas. Ela ficou ligada a mim também, depois
de ter copulado contigo. Sabíamos que, sendo gêmeos, a mesma fêmea nos ia corresponder. É assim
em nossa raça. Só há um problema.
— Qual? — Luk me olhou ternamente.
— Ela continua a querer procurar o portal. — Markoon disse com uma carranca.
Olhava perplexa, ora para um, ora para o outro. Os dois falavam como se eu não estivesse ali.
— Ouçam lá. Eu estou aqui, por isso se expliquem e não falem como se eu não estivesse presente.
— Gritei furiosa. — Vocês me usaram?
— Claro que não. — Markoon disse rudemente. — Tu te entregaste aos dois. Em nossa raça,
gêmeos são raros. Por isto, qualquer fêmea que se atraía por um de nós, leva o pacote completo, dois
pelo preço de um.
— Já estou a ver como vos distingo. Tu! — Esbravejei, pondo o dedo no peito de Markoon. — És
rude, autoritário e achas que mandas.
Ele me agarrou o pulso e sorriu ironicamente.
— Começa a habituar-te, pois eu sou muito mais do que isto e gosto que me obedeçam. O pacato
aqui é o Luk.
Ofeguei e abri os olhos de espanto. Só aquela frase me fez ficar excitada e a ideia dele me obrigar
a me submeter de alguma forma, me fez querer agarrá-lo e o usar até rebentar de prazer.
— Vá. Meninos, não discutam. — Luk pediu num tom pacífico.
Mas a excitação passou logo que pensei no significado daquilo que eles disseram. Tentei soltar o
braço, mas Markoon manteve a pressão. Eu olhei o fixamente com raiva.
—Solta-me.
— Não. — Ele sorriu e inalou. — Acho que até estás a gostar.
Maldito, ele conseguia cheirar a minha umidade. Olhei para Luk.
— Luk! Tu entendes, eu não pertenço a esta terra. — Tentei soar mais calma do que me sentia. —
Eu não posso... Não consigo ter... vocês sabem.
— O quê? — Luk sorriu enquanto olhava para meus seios e lambia os lábios.
Markoon me puxou para o colo dele e me agarrou os braços atrás das costas, forçando-me a ficar
virada para Luk. Resfoleguei quando esse se abaixou para meu seio e lambeu. Mordia e lambia
várias vezes, alternando de um mamilo para o outro. Inclinei a cabeça para trás, apoiando no ombro
de Markoon e desfrutando do prazer que sentia.
Senti mãos afastando minhas coxas. Gemi quando Luk me lambeu entre as pernas.
—Gostas disto, não gostas? Imagina nós dois te dando um prazer que nunca sonhaste antes. —
Markoon sussurrou ao meu ouvido com voz rouca enquanto me mordiscava o pescoço e o ombro,
parando em minha nuca.
Ele também gostava. Senti o membro duro, lutando para se aninhar entre as minhas nádegas.
Ficava ainda maior sempre que eu mexia meus quadris para que Luk me lambesse mais rápido. Meus
gemidos se tornaram mais intensos e Markoon parou.
— Não a deixes gozar. — Markoon ordenou com firmeza.
Protestei quando Luk se levantou. Ele se virou para mim com olhar de predador e os lábios
brilhantes dos meus sucos. Tinha o membro duro, a glande vermelha e inchada de necessidade.
Markoon me empurrou para a cama. Eles se deitaram a meu lado. Markoon me beijou voraz, sugando
minha língua em sua fúria.
Depois desceu para meu seio e lhe dedicou toda a atenção. Luk me beijou logo a seguir com mais
suavidade, saboreando minha língua. Depois desceu e se ocupou do outro seio.
Gemi ao sentir a mão de Luk me entreabrindo as pernas. Usou a palma da mão para alisar minha
carne nua, quente e palpitante, antes de me penetrar profundamente com os dedos. Arqueei os quadris
quando senti os dedos se enfiando com força entre minhas pernas. Arregalei os olhos de surpresa ao
sentir outro dedo adentrando meu ânus.
Perdi o fôlego quando os dois enfiaram os dedos mais fundo ao mesmo tempo. Os gêmeos
combinavam seus ritmos, provocando sensações maravilhosas. Gemi alto quando retiraram os dedos
e se afastaram.
Markoon deitou na cama, agarrou meus quadris e me puxou para seu colo, posicionando a glande
intumescida em minha entrada úmida e afundando o pênis grosso numa única investida vigorosa. Meu
grito de susto se tornou em prazer quando me senti completamente preenchida. Outra estocada
profunda, sacando a haste inteira e voltando a enfiar tudo. Outra e mais outra. Nossas bocas se
encontraram, sua língua áspera estimulou a minha. Antes que eu pudesse soltar outro grito de paixão,
senti o membro rijo de Luk latejando em meu ânus. Markoon entreabriu minhas nádegas para facilitar
a entrada do irmão.
Gemi na boca de Markoon enquanto Luk atochava o pênis duro em meu reto. Suas mãos se
agarraram aos meus quadris, firmando-se para bombear para dentro e para fora num ritmo crescente.
Meus gemidos sufocados aumentaram quando meus mamilos rígidos se esfregavam contra o peito de
Markoon a cada nova estocada do irmão. Os dois penetravam com tamanha fúria e sintonia que eu
não conseguia parar de gemer. Alucinada de êxtase e paixão, comecei a duvidar do meu lugar. Seria
melhor tentar regressar ao mundo onde o homem que me dizia amar nunca me prestava atenção e
nunca me mostrou que meu corpo podia sentir tanto prazer ou permanecer neste mundo, com homens
de uma espécie diferente, que me olhavam como igual e onde seria amada por dois homens, dois
machos que se interessavam pelo meu bem-estar e prazer?
Perto do clímax, coloquei tais pensamentos de lado e apoiei as mãos no peito de Markoon,
concentrando-me no prazer que me invadia por todos os poros e orifícios. Markoon mordia os lábios
e me fitava com uma expressão mista de dor e prazer. Girei a cabeça e vislumbrei o semblante
afogueado de Luk, com os olhos fechados e a cabeça inclinada para trás, o rosto reluzente de suor e
êxtase, enquanto me cravava com tanta força que acabei tombando para frente, ficando a milímetros
da boca de Markoon. Beijei-o e ele correspondeu, lambeu meus lábios e agarrou meus seios com as
duas mãos. Quando pressionou meus mamilos com força, gritei, sem conseguir segurar mais o
orgasmo. O prazer medonho me acometeu em ondas de êxtase sucessivas. Os espasmos de meus
orgasmos comprimiam seus membros rijos para ordenhá-los. Ouvi os grunhidos dos gêmeos quando
os dois gozaram quase ao mesmo tempo.
Preenchida e avassalada, inclinei-me para trás, repousando a cabeça no ombro de Luk. Ele me
abraçou, massageando meus seios doloridos com delicadeza e carinho. Puxou minhas costas para seu
peito e me beijou o pescoço. Markoon me acariciava as coxas. Abri os olhos quando a minha
respiração se normalizou. Ainda não compreendia como pude despencar nesse torvelinho de prazer.
Luk sacou o membro gotejante do meu reto e se dirigiu ao banheiro. Markoon me puxou para si e
me deitou sobre o tórax.
— E agora? Ainda queres ir procurar o portal? — Indagou num tom irônico.
Engoli o bocejo para fuzilá-lo com o olhar.
— Por quê? Teu plano era me convencer a ficar, me enlouquecendo de prazer e transando comigo
até a exaustão? — Forcejei para me erguer.
Senti uma mão nas costas me impedindo de levantar, olhei sobre o ombro e vi Luk sentado à beira
da cama com ar sombrio.
— Temos que conversar. — Afirmou, sério.
Bocejei outra vez e aninhei a cabeça no vão formado entre o pescoço e o ombro de Markoon.
Envolvi seu pescoço com os braços e relaxei.
— Amanhã. Agora estou exausta. — Adormeci num piscar de olhos.

Quando acordei era quase manhã. Olhei a volta e deparei com Markoon na cama num sono profundo.
Luk não estava em lado algum. Levantei devagar e me vesti.
Concluí que nenhum dos dois ia me ajudar a procurar o portal. Os gêmeos queriam que eu ficasse.
Entendia o lado deles, pois já estava me convencendo de que seria bom permanecer ali.
Conhecíamo-nos há tão pouco tempo e, no entanto, Markoon e Luk já pareciam fazer parte de mim.
Quando os senti pulsando dentro do meu corpo, pareceu mágico, como se fôssemos um só.
Quem sabe não era uma boa altura para recomeçar? Minha vida na cidade era muito solitária.
Minha relação com Jorge já não estava boa há um bom tempo e meu trabalho era a única coisa que
me fazia feliz. Não seria difícil largar tudo para trás.
Por outro lado, as pessoas deste mundo são tão diferentes... E se não me aceitassem plenamente?
Isto me traria problemas a longo prazo. Imersa nesses devaneios, dirigi-me à porta, abri-a em
silêncio e rumei para a floresta. Amanheceria em breve e então haveria mais luz.
Durante horas percorri uma grande extensão de floresta ao longo do rio. O mesmo curso d’água
onde havia caído. Nada aconteceu. Não reparei em nada estranho que me fizesse perceber um portal.
Exausta e frustrada, sentei numa pedra chata à beira do rio. Talvez fosse hora de cogitar que, se eu
tinha que permanecer neste mundo, era melhor receber de braços abertos àquilo que o destino me
ofertara, até porque meus gêmeos não eram nada maus. Muito ao contrário. Realmente sentia falta
deles. Agora, porém, tenho outro problema, como voltar para a aldeia?
De repente percebo um vulto à minha esquerda. Cautelosa, giro em volta e suspiro de alívio ao
reparar em Luk. Então, sinto um toque no braço direito e dou com Markoon a se sentar na pedra, ao
meu lado.
Incrível, já logro distingui-los.
— Podemos conversar? — Luk me encara com o semblante tranquilo.
— Claro. — Respondo nervosa.
— Por que não queres ficar?
— Não sou daqui. — Suspirei.
— Isto não tem nada a ver. — Markoon replica, irritado. — É só por que não somos iguais?
— Markoon! — Luk repreende o irmão com o olhar.
— És mesmo rude. — Abano a cabeça. — Claro que não. Não tem nada a ver com semelhanças
ou diferenças.
Markoon agarra meu rosto e me beija brutalmente. Um beijo possessivo, que me arrebata um
gemido. Para, levanta e me toma no colo.
— Acho que nunca pertenceste a lado algum, como aqui. — Afirma, autoritário.
— Pertences-nos. — Luk declara em apoio ao irmão. Vira meu queixo e me tasca um beijo na
boca. — Ontem todos sentimos a união.
Olho para Luk e então para Markoon.
— Sempre me senti perdida na minha vida. — Suspiro. — No entanto, desde que cheguei aqui e
conheci-os... Parece que me sinto em casa.
Ambos sorriem e me beijam na testa.
— Então vamos para casa. — Propõem sorridentes em uníssono.
— Sim.— Decido, abraçando forte Markoon e depois Luk. — Vamos para casa.
Santíssima Magdalena Lidia Zuin

“A bobos y locos no les tengan en pocos”


Provérbio mexicano

Estou aqui, numa das plataformas do porto da minha cidade. Isto é, onde cresci, fiz minhas coisas. De
repente, será também onde morrerei. Bem, ao menos parece que foi para isso que vim, vesti minhas
melhores roupas e acendi meu cigarro mais caro. Observo a lua grande a brilhar entre os contornos
da fumaça que expeli há pouco. Uma noite bonita e cheirando a óleo de navio, como de praxe. A água
vai e vem, batendo-se contra as pedrinhas negras que formam a praia curta e suja, mas nunca vazia.
Marinheiros caminham entre sucatas e lixo, organizando as mercadorias recém-chegadas. Garras
metálicas deslocam caixas grandes de um lado para o outro. Calculo se, caso eu me jogue, essas
pessoas irão reparar. Ah, mas que pensamento desagradável. Mesmo no último instante, em que tenho
o poder de tirar minha própria vida, ainda dependo do aval alheio. Aliás, se pensar bem, só cheguei
a esse ponto por causa do inferno que são os outros. Mas, infelizmente, homens são bichos
essencialmente sociais e isso custa caro...
Digo isso porque mesmo o misantropo mais seboso da cidade se permitia sair de seu esconderijo
para correr à esquina, na venda de um imigrante mexicano. Ia lá para comprar cervejas, doces e
enlatados, mas também para trocar uma conversinha com a filha do dono, uma mocinha muito jeitosa,
apesar dos dentes tortos e amarelados de fumo. Justamente por ser razoavelmente agradável aos
olhos foi que ela se convenceu de que não valia a pena nem mesmo dar atenção ao cliente obeso e
fiel, uma vez que esse sempre a abordava com frases soltas e constrangedoras, adornadas por hálito
de álcool amanhecido. Ele precisava daquilo. Apesar de recusar o contato com a sociedade, por
motivos mais ou menos razoáveis, ele precisava da atenção daquela chica. E, como não recebia,
procurava nas entranhas de seu equipamento de realidade virtual as sensações de afeto e coito que a
realidade real não lhe proporcionava.
Encontrava na Rede, por meio de um serviço prestado a voyeurs, uma série de garotas e garotos
prontos para satisfazê-lo visual e sensorialmente, ainda que existissem para ele apenas como
impulsos elétricos disparados contra seu sistema nervoso. A ideia era fazer com que suas sinapses
fluíssem em alvoroço, provocando sudorese e tremor nas extremidades do corpo: dedos, mãos, pés e
genitais convulsionavam de acordo com o nível de interação com o programa de peep show. Vestida
em lingerie de látex azul, a dançarina de peruca loura se remexia com os braços erguidos,
interrompendo o movimento serpenteante apenas para comprimir os peitos à face do cliente invisível,
representado por uma termocâmera de mapeamento. Para que sua imagem chegasse perfeita e quente
ao nosso amigo misantropo, a mulher precisava decorar-se com uma dezena de adesivos contendo
microchips sensíveis ao calor e movimento de seus músculos. Anexados a partes estratégicas do
corpo, como as pernas, seios e glúteos, os aparelhos emitiam a mensagem via wireless para o
equipamento ao qual a câmera estava conectada: um computador pessoal móvel, resumido a uma tela
sensível ao toque, com não mais que cinco polegadas.
Uma nova decodificação da mulher era feita a cada milésimo de segundo, gerando pacotes de
dados pesadíssimos, capazes de fazê-la mergulhar nas ondas eletromagnéticas e correr pelas fibras
ópticas. Nesse mesmo intervalo de tempo, milhares de corpos assinantes estremeciam com a
recepção da performance traduzida em estímulos elétricos. Ainda que a fêmea virtual seduzisse com
táticas clichês e até mesmo vulgares, a leva de clientes não diminuía. Ao contrário, aumentava a cada
nova interação. E, apesar de sempre se despedir com um beijo soprado entre os dedos, ela logo após
cuspia o mais desdenhoso ar vindo dos pulmões — bastava o computador sinalizar a desconexão.
Minutos depois, a campainha do apartamento tocou estridente e rouca, apresentando defeito. Ela
correu até a cozinha acanhada, onde pôde enxergar a amiga, colega de trabalho na EyeCandy S.A, por
meio do visor do aparelho. Aproveitou o tempo que a outra levaria para chegar ao apartamento para
se trocar. Retirou a lingerie de látex azul, procurando na gaveta de calcinhas um conjunto de tecido
mais confortável, como algodão e renda. Escolheu um modelo antigo, de bojos arrojados e alças
largas, detalhadamente bordado com um requinte de camelô. Já na segunda tentativa de abotoar o
sutiã, a campainha soou novamente. Segurando a peça contra os seios, a moradora atendeu a porta e
deixou a ruiva entrar.
— Adorei a lingerie! — Valkyrie entrou, cheirando a ácido e goma de hortelã.
Após ajudar a amiga com o fecho defeituoso, a recém-chegada pulou para a poltrona, roubando de
cima do criado-mudo um dos cigarros marroquinos guardados num maço de plástico taiwanês.
— E aí, Mag? Qual é a boa para hoje?
Ela não respondeu. Enquanto tirava a peruca loura usada na sessão, revelando cabelos pretos
compridos e ondulados, aproveitou para pegar um embrulho em cima do balcão que dividia o espaço
entre a sala-quarto e a cozinha. O embrulho continha roupas escuras. Jogou-o para a amiga. Valkyrie
abriu o pacote, revelando um sorriso largo de dentes esbranquiçados pelo tratamento dentário
recente. Mag respondeu da mesma forma, já vestindo o seu modelo, composto por um vestido antigo,
modelo década de 1930, com ombros largos, cintura justa e uma única fileira de botões que vinha
desde a gola até a barra. Ambas usariam o mesmo estilo de roupa, combinado com meias de seda
preta e sapatos de salto alto.
Dividindo o espelho do banheiro, maquiavam-se apressadamente, cotovelando-se a cada troca de
pincel. Dali a dupla partiria para o estabelecimento que havia sido uma fábrica pequena, mais tarde
modificada para se tornar um museu e então, finalmente, um híbrido de salão de exposições e clube
noturno. A arquitetura antiga da carcaça dava uma impressão estranha àquele prédio que expelia o
pulsar da música interna pelas fendas das janelas pintadas de preto. Galgados os vários degraus da
escadaria de cimento corroído, as duas mulheres se apresentaram aos seguranças que vestiam óculos
de reconhecimento facial. Rapidamente receberam autorização para percorrer o corredor de entrada.
Adornada com quadros que ocupavam toda a extensão das paredes, a passarela multiplicava figuras
abstratas e hiper-realistas de mulheres nuas e de animais mortos perdidos entre pinceladas de neon
agressivas. Valkyrie ficou realmente impressionada com o aspecto vanguardista do lugar, mas Mag a
tomou pela mão revestida por uma luva de couro. Quis despertá-la do torpor de contemplação para
que pudessem avançar para o aposento seguinte.
O salão era relativamente grande, mas a quantidade de gente e de instalações artísticas sufocava a
área enegrecida. Ao estalar das luzes brancas, era possível enxergar estátuas enormes de alumínio
tão brilhante e retorcido que deixavam a impressão dinâmica da liquefação. Tubos de vidro cresciam
do chão ao teto, iluminados em turquesa, reproduzindo o holograma de uma mulher que respondia ao
toque dos observadores, expelindo raios como um globo de plasma. Valkyrie ficou tão encantada
com aquele ser artificial que nem sequer prestou atenção às paredes recobertas por animações 3D,
configuradas de acordo com o relevo do aposento. Caleidoscópios violeta e vermelhos se
reproduziam e se esticavam horizontalmente, dissolvendo-se em figuras geométricas e em rostos
genéricos que engoliam a si mesmos, desfazendo-se em mariposas que acresciam a terceira
dimensão. Entre os presentes, garçons e garçonetes vestidos em couro preto e óculos de lentes
coloridas equilibravam suas bandejas de vidro luminoso, onde taças de champanhe borbulhavam
coloridas em LED.
— Achava que festas deste nível só eram dadas em coberturas de edifícios no centro da cidade ou
na orla da praia! — Valkyrie comentou, ainda boquiaberta.
— Não, não. Essa gente consegue muito bem manipular a tecnologia cara e fazer seus truques de
barateamento. Chineses... — Mag agarrou duas taças, entregando uma para amiga.
Enquanto a dupla brindava, vez por outra encolhendo os braços para dar passagem aos demais,
Mag rascunhou uma expressão de desgosto. Por detrás de Valkyrie, aproximava-se um homem alto,
calvo e de olhos famintos. A boca gigante se abriu, cheia de dentes pequenos e tingidos de bebida
verde. Porém, antes que seus braços pudessem alcançar os ombros da ruiva, a morena a tomou pela
cintura, afastando-a num deslizar ligeiro e preciso, que as levou para o centro do salão. Tristan era
um agente recrutador da EyeCandy S.A, um canastrão responsável por caçar meninas que pudessem
se interessar pelo trabalho da empresa. Achou graça na forma como elas se desvencilharam da sua
conversa (muito provavelmente) fiada. Com as costas da mão, esfregou as narinas cheias de resíduo
sensível à luz negra.
De longe, Tristan acessava as estatísticas da conta de ambas as garotas, que já haviam anunciado
no sistema da EyeCandy a sessão out — nome dado às performances realizadas fora do cenário
formalizado pelos funcionários, normalmente suas casas ou estúdios particulares. O número de
acessos, normalmente alto, aumentava vertiginosamente em situações como aquela, já que fugiam da
simulação de ambientes convencional. Além disso, as duas atuariam de modo que os clientes
pudessem vivenciar suas experiências. Ciente disso, a ruiva reforçava a teatralização, primeiro
buscando a atenção da mulher dentro do tubo, quase numa súplica. Assim que seus olhos verdes
foram reconhecidos pela máquina, que a chamava pelo dedo indicador, Valkyrie depositou suas mãos
na superfície vítrea, despertando descargas de plasma irradiadas do corpo feminino emulado.
Mag se aproximava por trás da ruiva, tomando-a pela cintura com um dos braços adornado por
uma faixa vermelha com o logo da EyeCandy S.A — um vetor de olho com cílios compridos e
pálpebra baixa. Pretensamente surpresa, Valkyrie entreabriu os lábios, deduzindo que a outra mão da
amiga subiria pela sua visão periférica, tomando-a pelo pescoço após delinear sua silhueta dos seios
até a garganta. A ruiva se contorcia para trás, ora se entregando ao toque da morena, ora se
aventurando nos movimentos da mulher no tubo. Cedia de uma maneira quase doentia, o corpo
pesado e descontrolado. E é aí que o misantropo mais seboso da cidade entra novamente, já
lambuzado pela expectativa do que aconteceria a seguir. De olhos fechados, ele transpirava
freneticamente ao escolher o módulo de recepção sensorial do corpo de Mag. Convulsionava
conforme a ruiva cedia à atitude agressiva da outra, que a arremessava contra o tubo de plasma,
desabotoando seu vestido com pressa e dominância.
Enquanto alguns preferiam pôr-se na posição ativa, outros escolhiam o ponto de vista de Valkyrie.
Mas quem seriam os assinantes da EyeCandy? Tristan observava, pelo mapeamento dos assinantes
conectados àquela out, uma porcentagem de 30% de assinantes das classes baixas, 40% da classe
média e 30% da alta, sendo que os primeiros 70% se concentravam no perfil da morena. Isso podia
ser verificado através da pesquisa de rendimento mensal dos cadastrados, além da localização de
suas máquinas, de acordo com a região da cidade. O agente ria sozinho, pensando em como a massa
se deliciava com a sensação quase inédita de dominância, ainda que forjada por uma quantidade
generosa de créditos por mês.
Ao redor da dupla, formou-se um semicírculo de curiosos. Homens ajeitavam o volume nas
calças, pigarreando para disfarçar o deslize. Já as mulheres se continham em cochichos e risos
agudos, perdendo-se em limiares de repulsa, inveja e desejo. Mag encaixava os lábios grossos entre
os peitos da outra, pressionando-os com as mãos de dedos finos e compridos, alongados por unhas
postiças. Corria a língua pela região do colo, até retornar aos lábios de Valkyrie, sufocando-a em sua
soberania. Tristan vigiava de não muito longe, mantendo-se silencioso e entretido com as estatísticas.
A morena mergulhava as mãos no espaço entre o tecido e a cintura da ruiva, afinada por tight lacing.
A música fluía em batidas lentas e salpicadas por arpejos de sintetizador. A luz branca piscava oca e
sequencial, recortando os movimentos das duas que manchavam o rosto num beijo exagerado em
batom rubro. As mãos de Mag ignoravam os limites do pudor e dedilhavam os gemidos arrancados
da boca da outra. O público sorria com os olhos e despejava berros e assovios silenciados pelo som
ambiente. Bocas se escancaravam e punhos fechados se erguiam, comemorando a seminudez do casal
que, pouco depois, seria surpreendido por um apagão geral. Se antes a música encobria as vozes,
agora estas preenchiam o breu inesperado. Valkyrie estendeu o braço, tentando agarrar Mag, mas
seus dedos se trançaram no ar.
Com o retorno da energia, as luzes decorativas ainda piscaram umas duas vezes antes de
normalizar. Talvez fosse o gerador funcionando. Mas a música não havia reiniciado e Tristan tinha
desaparecido. Mag não reparou nisso, já que Valkyrie tossia sem parar, provocando a atenção das
pessoas ao redor. Os comentários cresciam proporcionais às pupilas da ruiva, que empalidecera
numa transpiração fria e incontida. O corpo estremecia, perdendo a força nas juntas, rendendo-se à
gravidade. A amiga tentou tomá-la nos braços antes que ela fosse ao chão.
— O que foi? O que você tem?
Valkyrie abria a boca, mas a voz não saía, sufocada na garganta com uma dor asmática. As veias e
artérias do pescoço fino saltavam, rígidas como os dedos de suas mãos. Mag franzia o cenho,
desesperada ante a figura da amiga em colapso. Os olhos verdes giravam pelas órbitas, perdendo-se
debaixo das pálpebras baixas. Eles antecipavam a violência com a qual a mulher se debateria em
seguida. Mag não conseguiu mantê-la nos braços naquelas condições, mas lutou para não deixá-la
cair. As pessoas gritavam por uma ambulância, celulares brilhavam entre as luzes da danceteria que
não parou por causa da emergência. A música gritava alto novamente quando Valkyrie passou a
ranger os dentes, esticando-se com os membros em câimbra. Depois disso, a ruiva não se moveu
mais. Tristan retornou no mesmo momento, perfurando a massa de pessoas que emoldurava a cena.
— Com licença, eu sou médico! Deixem-me passar — Gritava no ouvido dos outros, já que o som
dificultava a comunicação.
Ajoelhado, levou os dedos ao pescoço contraído de Valkyrie, onde os deixou por alguns segundos
traduzidos na perplexidade de sua expressão. A expectativa aumentava entre os presentes, que não
conseguiam levar o ar aos pulmões naqueles instantes que antecipavam a notícia de falecimento
repentino da mulher. Não foi necessário nem mesmo um diploma em medicina, como não era o caso
de Tristan, para reconhecer o óbito. O homem havia gritado a calúnia para que pudesse socorrer a
funcionária mais rápido. O grupo se desfez assim que notou a morbidez do evento em seu semblante,
abrindo espaço para a ação dos paramédicos. Ainda que sem esperanças, o desfibrilador foi usado.
Sem sucesso.
Mas é aí que começa o problema, o qual me fez chegar a este ponto, encarando o mar preto como
óleo e calculando a queda. Se ambas as mulheres estavam conectadas à Rede, fazendo uma sessão
out pela EyeCandy, naturalmente os usuários ligados a Valkyrie receberiam as mesmas sensações
que ela. Ou seja, eles tiveram uma experiência de morte. O mais curioso é que a empresa recebeu
várias reclamações de assinantes logados tanto à falecida quanto a Mag, porque não pagavam para
ter aquilo, porque tinha sido horrível etc. Alguns assinantes tentavam recobrar o que havia pago,
pleito que requeria um processo judicial ao qual eles precisariam submeter suas verdadeiras
identidades publicamente — exposição algo desagradável, já que ser voyeur virtual não é lá uma
virtude. Por isso, a maioria já começava ou então terminava em silêncio, em depoimentos anônimos
replicados pela Rede ou enviados à polícia local. Mas a organização não conseguia colher dados
suficientes para provar que Valkyrie havia sido assassinada, já que a própria necropsia não apontava
nesse sentido.
As notícias destacavam as práticas não muito saudáveis da falecida, como distúrbios alimentares
e uso frequente de narcóticos, além do abuso de álcool — estes últimos fatores apontados como
possível causa da morte. Séries de reportagens eram exibidas e depoimentos lacrimosos de Mag
eram replicados à medida que as ações da EyeCandy subiam no mercado. Ao contrário do que se
imaginava, a tragédia alimentava a face sádica dos usuários, que se mantiveram fiéis e trouxeram
mais lucros à empresa. Isso ocorreu porque, como de praxe, todas as sessões eram arquivadas e
disponibilizadas por um preço bem maior, caso quisessem acessá-las posteriormente. E não foi
diferente com os pontos de vista de Mag e Valkyrie, na última sessão out. Na verdade, estes
passaram a ser vendidos ainda mais caro e, mesmo assim, mantiveram posições elevadas no ranking
dos mais vendidos. De qualquer forma, ambas as experiências simuladas foram ripadas e
disponibilizadas gratuitamente, por fora. Mas nosso amigo misantropo não gostava de baixar coisas
“por fora”, já que podiam ter inserido algum programinha para rastreá-lo, algum vírus que detonasse
seu equipamento e lero-lero. Sendo assim, a paranoia o fez gastar uma boa quantidade de créditos,
quase metade do que ele costumava ganhar por mês com seus serviços em macroinformática —
conserto de consoles, computadores portáteis e afins.
Ele tinha adquirido tanto o ponto de vista de Mag quanto o de Valkyrie, armazenando-os em sua
conta na EyeCandy. E isso o excitava, fazia com que suas glândulas produzissem ainda mais suor e
reforçassem o odor azedo que ele mantinha com os dias sem banho. Enquanto os arquivos eram
baixados, ele resolveu dar uma olhada na geladeira. Percebeu que não havia mais cerveja. Precisaria
descer até a venda dos mexicanos, mesmo que a ruiva e a morena já o esperassem ansiosamente. No
estabelecimento vizinho, pegou mais engradados do que o normal, como a filha do dono reparou.
Enquanto lixava as unhas, observava pelo canto do olho a movimentação rastejante do cliente obeso,
adivinhando que uma hora ou outra, ele iria perturbá-la. No entanto, isso não aconteceu. O homem
partiu direto para o caixa após pegar alguns chocolates. A latina se enfureceu, sem sequer calcular o
porquê. Batendo suas plataformas contra o piso frio, marchou até a caixa registradora, empurrando
longe o ajudante de seu pai. Agora, mais de perto, ela reparava nas olheiras profundas e oleosas do
outro, que despejava suas compras sobre o balcão. Enquanto a esteira de produtos rolava e o
computador lia o código de cada item, a mulher buscava nos olhos do cliente a atenção que ele não
lhe havia concedido somente naquele dia dentre tantos outros. Sereno e ingênuo, ele não reconheceu
o incômodo da outra. Apenas pagou e deixou o lugar com suas sacolas pesadas.
Tinha pressa em rever aqueles momentos ainda frescos em sua memória. Trancafiado no cubículo
do elevador, voltava a transpirar, os dedos se enrijecendo em ansiedade. As sacolas tremulavam,
quase cedendo ao peso do conteúdo. Diante da porta do apartamento, o homem se confundia, tentando
encontrar nos bolsos da calça o cartão de destrave. Celular, embalagens de goma vazias, restos de
comida, papéis aleatórios. Cartão. Os dedos suados fizeram o objeto deslizar direto ao chão,
forçando o homem a deixar os pacotes de lado e se abaixar, tentando alcançar a tapeçaria sem dobrar
os joelhos atrofiados pela gordura e pela falta de exercício. Um ruído agudo do segundo elevador
recém-chegado ao andar. A mulher saía primeiro, puxando outro alguém, que o misantropo logo
reconheceu como sendo seu vizinho. Apesar de ter um bom emprego numa dessas megacorporações,
o condômino vivia naquela espelunca porque gastava todos seus créditos em prostitutas, drogas,
bebidas e, quem sabe, também na EyeCandy.
Ao agarrar o cartão, o homem pensava se o morador ao lado realmente teria interesse naquelas
coisas, tanto quanto ele. Percebia, então, que a mulher que ele prensava contra a parede era tão ruiva
quanto Valkyrie, com quase o mesmo tipo de corpo: peitos grandes e falsos, cintura afinada por
corpete, quadris alargados por gordura enxertada. Sem querer, ele gritou e despertou o interesse do
casal, que o olhou com um misto de susto e repulsa, já que a visão era a de um cara grande e gordo,
com as vestes grudadas ao corpo úmido e o rosto de alguém jovem, mas envelhecido pelos cabelos
desgrenhados e a barba há muito por fazer. Os dois entraram no apartamento o quanto antes, ainda
que a ruiva desesperada atrapalhasse o cliente-amante ao tentar abrir o cinto de sua calça Gucci.
Finalmente dentro de casa, tropeçando em lixo e bugigangas baratas que comprava pela Rede, o
misantropo guardou as cervejas na geladeira suja e pulou de volta na poltrona com fraturas expostas
em esponja e madeira. O ventilador de teto girava rouco enquanto o ar-condicionado tremia ruidoso,
remexendo com preguiça as fitas amarradas à grade. Ainda antes de se sentar, pegou de cima de uma
mesa a cabeça decepada (e muito realista) de uma mulher loura, boquiaberta e de mandíbulas
maleáveis. Posicionou-a rapidamente, com a prática que tinha, com os lábios a envolver seu pênis
pronto para o clique que acionaria o movimento úmido de sucção. Depois disso, retornou os sensores
ao corpo, tomando cuidado para secar com papel-toalha as regiões onde o equipamento se grudaria
— já que, caso contrário, ele poderia acabar queimando os periféricos ou tomando um choque. Em
poucos instantes, com um estalido já imperceptível devido ao uso recorrente, a visão da tela de TV
quebrada desfazia-se num clarão explosivo do menu rosado da EyeCandy. Pernas e braços pululavam
da segunda para a terceira dimensão, louras peitudas cresciam de miniaturas em anime e se
transformavam em blonde bombshells da segunda metade do século XXI. Com um movimento de
mão, como quem espanta mosquitos, ele afastou aquelas imagens para mergulhar em seu próprio
perfil: Blowman22 está disponível.
Conforme previsto, dois portais em destaque na conta chamavam a atenção para os pontos de vista
de Mag e Valkyrie já carregados, à disposição do cliente. Como ele havia experimentado as
sensações de Mag no dia em que o incidente ocorreu, resolveu descobrir o que Valkyrie havia
sentido até a hora da morte. Tudo a postos. O misantropo volumoso e amicíssimo deixava sua
carcaça adiposa e se comprimia num corpo de 1,67 metros acrescidos em saltos altos de 12
centímetros. O caminhar era suave, quase ébrio, misturado a formas e cores, sons e cheiros. Ela
estava drogada, ainda experimentando a boa fase dos químicos. Mag lhe cedera alguns comprimidos
ainda no caminho para a festa. Já dentro do prédio, impressionava-se com os quadros surrealistas
onde corpos de mulheres eram comidos por grandes bestas de falos compridos. O coração disparava,
mergulhado numa enchente de sensações que a traziam das obras ao rosto moreno de Mag, quem a
encaminhava para o cômodo seguinte. A surpresa fez suas íris perderem o ritmo dentro das órbitas,
revirando-se até encontrar o ângulo certo no tubo onde uma mulher de plasma mergulhava cheia de
fiapos reluzentes. Uma medusa feita de eletricidade.
O rosto suave e feminino do holograma valsava, flutuando entre os expectadores, entregando-se
com suas mãos delicadas, como uma sereia presa num aquário. Valkyrie sentiu nos olhos a ardência
do choro, o qual logrou evitar tecendo um comentário sobre a sofisticação da festa. Sua própria voz
ecoava estranha na cabeça, como se viesse de alto-falantes numa sala redonda. Mag logo retomou sua
atenção, dando-lhe uma taça de champanhe. Ela falava, mas suas palavras e letras se perdiam e se
prendiam numa tela de fumaça com cheiro de tutti frutti. Clubbers iam de um lado para o outro, com
novelos de lã de aço se enroscando à cabeça com o som de rádio sem sintonia. O ruído agudo
cortava os tímpanos e penetrava a cabeça, passando direto para a garganta num gole de espumante.
Algo rangia no estômago, dispersando o gosto azedo pela língua. Úmido da bebida e da saliva
engrossada, o músculo ainda recebeu em seguida a aspereza macia do beijo da amiga, que a tomava
dos braços elétricos da medusa incubada. De repente, Valkyrie estava agarrada ao tubo de plasma,
mas Mag a roubou com puxões violentos que despertaram o ciúme do ser sintético.
A morena a segurava pela cintura, fazendo seus botões saltarem num movimento brusco e violento
que a despiria parcialmente. Ela dedilhava as costelas salientes da amiga, tomando caminho para a
firmeza siliconada dos seios guardados em lingerie reforçada. Ainda assim, a veste não era
suficientemente complexa para que Mag não pudesse, num estalo de dedos, abrir o fecho frontal. Ao
mesmo tempo, encurralava Valkyrie com sua coxa entre as dela, roçando o tecido das meias-calças
justas. Com certa dificuldade, a ruiva conseguia notar a formação de observadores à volta do casal
que se comprimia contra o tanque de plasma, explodindo em reação ao contato físico. Seu coração
disparava junto ao ensurdecer dos ouvidos, que só tinham capacidade de ouvir o ronronar triste da
sereia elétrica.
Ao fundo, bem de longe, ainda era possível perceber as batidas da música eletrônica, como se
essas fossem reflexos de um marca-passo. E nesse fluxo de pensamentos absurdo, Mag a tomava pela
boca, beijando-a vorazmente, pressionando-a até seu pulmão começar a falhar e entrar em sincronia
com o sufoco e os gemidos da outra. Seus dedos a invadiam, num misto de incômodo áspero e
convite morno. Bastava permitir e tudo melhoraria gradualmente. Valkyrie transpirava, perdendo a
força das pernas, o foco da vista, o ritmo da respiração. E quando tudo pareceu apagar,
desaparecendo num resvaladiço de cores e sons deteriorados num jogo de espelhos, a treva chegou
de uma só vez, contaminando-a e encaixotando-a numa prisão de paredes invisíveis, sufocantes,
finalizada com a dor anestesiante de um baque final. Fim de conexão.
Blowman22 retornaria ao ambiente simulado onde Mag e Valkyrie continuavam convidativas. Mas
ele desconectou. A realidade voltava com a visão da parede descascada por infiltrações e com o som
do silêncio da cabeça de mulher, já desligada. Dotado de sensores capazes de desativá-lo após a
ejaculação do usuário, o brinquedo repousava no chão. Levantou-se, ignorando a sujeira viscosa no
chão, descobrindo-se extremamente oleoso e ofegante, num misto de susto e satisfação. A experiência
de morte misturada ao êxtase erótico o confundia numa briga freudiana entre Eros e Tânatos.
Enquanto a banheira enchia de água tingida de ferrugem do encanamento, ele lavava o rosto sobre a
pia esverdeada de musgo. A barba grande e molhada formava pingos sobre a bacia de porcelana
entupida de cabelos e restos escurecidos pela decomposição. O homem não queria acreditar. Sugeriu
a si mesmo tomar um banho, confirmando essa ideia ao sentir o cheiro doce do líquido fumegante.
Por outro lado, o ruído dos coolers do aparelho zumbia tão lacrimoso quanto o choro da sereia
elétrica, convidando-o para uma nova apreciação do ponto de vista de Valkyrie. Talvez, numa
segunda chance, ele captaria detalhes despercebidos. Mas era necessário lavar-se, retirar aquela
carcaça com 5% de algodão e o restante de suor e sujeira. O corpo gelatinoso dobrava-se como um
lençol grosso, remexendo-se até finalmente se assentar parcialmente abaixo da água quente. Com os
pés erguidos sobre as torneiras já fechadas, ajeitava o pescoço grosso no outro canto da banheira,
que lhe serviu de travesseiro para um cochilo. Bastaram alguns segundos até que ele reencontrasse o
sono que evitava por dias. Durante o estado alfa, ele ainda podia ouvir o barulho da água e o som do
próprio ronco, até que tudo se esmaeceu num cenário bastante conhecido e, ainda assim, estranho.
Uma luz branca e sequencial, piscando como relâmpago. Paredes pretas, sapatos e pernas, calças
de couro, cheiro de bebida e som de violoncelo. O chão quadriculado e pegajoso parecia menos
macio do que antes. Levantava-se com dificuldade, uma dor aguda vinda dos ossos da bacia. Mas
não podia se pôr realmente de pé. Os joelhos pareciam derretidos, fundidos ao chão como a vela ao
castiçal. Rastejava, o corpo preso pelos cotovelos. Sentia a dor nas costas aguçada pelo peso dos
seios. Um novo incômodo crescia ainda na região dos quadris, onde um falo balançava líquido.
Quando as pessoas lhe abriram o caminho, observando-lhe com olhos com formato de boca
sorridente, sentiu nas nádegas a sola e o salto do scarpin preto.
Era Mag, só que mais jovem e menos sofisticada, já que tinha o rosto bronzeado despido de
cosméticos. Ela ria com os dentes tortos e amarelados, lixando suas unhas. Não se incomodava com
o resmungo dolorido de quem estava sob seus pés, resfolegando de aflição. Pelo contrário. Assim
que terminou de afiar as garras, a morena virou a vítima para si, chutando-a até estendê-la no chão,
conforme desabotoava o vestido estilo anos 30. Os olhos do observador cativo brilhavam em
curiosidade, acompanhando o riso sarcástico da mulher. Sua gargalhada ecoava como música
ecumênica, aterrorizante e crescente pelos tubos de órgão escondidos na garganta. Quando finalmente
a risada atingiu o tom mais agudo, a veste se abriu como as asas de um morcego, revelando em Mag
uma genitália recheada de dentes afiados.
O homem acordou com o próprio grito. Pulou fora da banheira e correu de volta para a poltrona,
retornando os sensores ao corpo. Conectou-se outra vez à sua conta na EyeCandy, descobrindo que a
mulher com quem sonhara estava transmitindo uma nova sessão out. Por ser assinante, rapidamente
pôde acessar o ponto de vista da morena, que agora caminhava por um banheiro razoavelmente sujo,
com um quê de sanitário à beira da estrada. Suas botas ecoavam pelo cômodo de azulejos faltantes,
despertando um urro daquele que gemia, encolhido, ao fim do corredor de cabines, mictórios e pias.
O homem era duas vezes maior que ela, em altura e largura, mas sentia o medo de uma barata sob a
mira do inseticida. Talvez isso ocorresse pelo fato de estar algemado à parede, com a boca
preenchida por uma esfera de borracha e o cano de uma pistola avantajada apoiado bem no meio da
testa.
Enquanto se aproximava, Mag contraía os músculos do rosto num sorriso. Agarrou a vítima pela
camiseta com a propaganda de uma rede de restaurantes em postos de gasolina, puxando-a para si
enquanto se ajeitava sobre o colo da mesma. Movimentava-se sobre a calça do homem, estimulando-
o repetidamente, ainda que o nervosismo dele o impossibilitasse de responder à altura da mulher. Ela
gritava impropérios, gemia ao ouvido dele, esfregando o corpo nu e bronzeado contra a carcaça
pálida do outro. Mas o grandalhão não conseguia fazer nada senão tremer de medo, quase
rascunhando um choro. Não parecia ciente da situação, mas reagindo às substâncias que modificavam
sua pupila e enfraqueciam seu corpo. Irritada, Mag destravou a arma e disparou conta a têmpora do
inerte. O topo do crânio se desfez, espalhando miolos pela parede e pelo próprio corpo da assassina,
que largava a arma no chão e observava as mãos sujas de sangue. Corria os dedos pelo rosto e pelo
corpo, misturando o fluido rubro à própria transpiração. Agora sim, ela sentia, por detrás da
braguilha do homem, aquilo que procurava antes. Mesmo assim, não pensou ser tarde demais.
Quando tentou puxar o zíper do jeans masculino, no entanto, a conexão foi encerrada pelo cliente.
Rio de novo só de pensar na cena. Nosso amigo misantropo desligou tudo e vomitou sobre o
próprio colo — ou melhor, sobre a própria barriga. Enojado, levantou rapidamente, derramando
restos de macarrão instantâneo embebidos em cerveja e qualquer outra porcaria que houvesse
consumido horas antes. Tratou de se limpar rapidamente com pedaços de papel-toalha, vestindo a
primeira roupa que achou no chão. Precisava de ajuda e, daquela vez, julgava ser sério. Mas, como
diz o apelido, o cara era um praticante fiel da misantropia e não tinha ninguém mais próximo senão
os funcionários da mercearia mexicana. Golpeou o botão do elevador até que este chegasse ao andar
e, aflito, entrou no cubículo metálico, invadindo o espaço de um casal de adolescentes que morava
andares acima. Eles seguravam menos o riso do que a respiração. Por sorte, o homem saiu em
disparada à frente deles, fugindo do prédio até alcançar o mercado ao lado. Com um único impulso,
atirou-se contra a porta, que barrou seu movimento. Estava trancada.
— Abra essa merda! — Gritou, desesperado.
Ele adivinhava que havia alguém ainda na loja, já que os fundos estavam iluminados. Bastou-lhe
mais um soco e a porta deslizou, abrindo-lhe um caminho que seguiu quase rastejante. Berrava, sem
fôlego, por alguém, por ajuda. Até que encontrou na porta detrás do balcão uma luz distante que lhe
ofuscava a vista, permitindo-lhe apenas vislumbrar uma silhueta feminina. Adivinhou que seria a
mocinha latina, filha do dono, então suplicou por sua ajuda, admitindo sentir dores no peito, como se
aquilo se tratasse de uma angina. Indiferente, a mulher caminhou lenta e deliberadamente até o
homem, que se apoiava sobre uma pilha de engradados de cerveja. À medida que ela se aproximava,
era possível ver que seu corpo brilhava em pontos específicos, regiões de fixação de sensores. Ele
não quis acreditar.
No lusco-fusco da loja, ela ressurgia em carne e osso, na mesma lingerie de látex azul, com a
mesma peruca loura. O homem não sabia reconhecer suas sensações, revisitadas pelas flechas de
Eros e a foice de Tânatos. Os joelhos robustos fraquejavam, derretendo-se à sudorese do
nervosismo. Sabia que era Mag, pelas roupas, mas seu rosto ainda não se afigurava na escuridão
parcial do mercado. Ela seguia lenta como uma serpente, erguendo seus braços tal qual o réptil
ascende para o bote. Espreguiçava-se, como se aquilo lhe despendesse certo esforço ou lhe
provocasse muito tédio. Então estendia as mãos, revelando unhas grandes e quadradas, mais
familiares à memória da realidade que aos resquícios do virtual. Tocava o homem nos ombros,
descendo ao peito, à circunferência do abdômen desleixado. Conduzia-o ao chão, pedindo para que
relaxasse, que se deitasse e a permitisse montar sobre seu corpo estendido. Não soube negar, já que
se sentia tão débil quanto a vítima que ela abocanhara na última sessão vivenciada. Talvez não
tivesse sido ao vivo, como imaginara.
Ela murmurava com delicadeza, tocando-o com a maciez que é própria aos enamorados.
Massageava-o nos ombros, debruçando-se com os fios de cabelo sintético roçando-lhe o rosto. Nem
assim pôde reconhecer ninguém senão Mag, perdida na abstração de sua bagagem visual e de seus
desejos latentes. Tão gentil, tão surreal. Quando sentiu que chegava a derradeira hora do beijo, foi
recebido pelo impacto duro e gelado de dedos recobertos pela superfície metálica de um soco inglês.
Apesar de esguio, o corpo era tão firme e forte quanto os golpes desferidos contra a face redonda
que, lenta e gradualmente, transformava-se numa polpa de ossos esmagados e de sangue espirrado. A
dor o consumia em parcelas, embalando-o num sono interrompido pelo tiro da mesma pistola com a
qual ela havia matado o homem do sanitário.
A mulher se levantou, deixando os joelhos estalarem com o movimento repentino que a levaria
novamente para trás do balcão, como já parecia previsto. Afinal, além do móvel de madeira sintética
e vidro havia galões de combustível aguardando para serem despejados pelo estabelecimento. Ela
desfilava sobre os saltos altos, espalhando o líquido que concentraria sobre o corpo do nosso
falecido amigo misantropo. Já de saída, pegou uma mochila estrategicamente deixada ao lado da
porta, de onde tirou um sobretudo branco. Uma vez vestida, sacou do bolso uma caixa de fósforos
mexicanos com uma imagem de santa artesanalmente confeccionada. Um souvenir barato e rústico.
Acendeu um dos palitos, deixando-o para trás, no tracejado de gasolina que se seguiria até o morto.
Quando o fogo o atingisse, derreteria os sensores que ela havia fixado discretamente, assim que
alcançou o corpo da vítima.
A assassina não ficou para assistir o grand finale. Correu com certo cuidado, para que os saltos
não a traíssem, e se dirigiu à calçada da frente, onde chamou um táxi. Conforme o veículo se
afastava, ela observava saudosa pelo retrovisor o neon vermelho do mercado Santíssima Magdalena.
As chamas consumiam as mercadorias, alastrando-se até tomarem boa parte da área, finalmente
explodindo. Os estilhaços de vidro da fachada voavam pelo ar, atingindo o outro lado da rua. Ela não
chegou a ver se a explosão atingiu alguém que passava na calçada naquele instante maldito. De
qualquer forma, desconectou-se da EyeCandy e levou a mão à testa, benzendo-se en el nombre del
Padre, y del Hijo y del Espíritu Santo. Amén. Estava feito.
Conferi as estatísticas no meu computador portátil, verificando a grande aderência dos meus
assinantes e também um aumento de novos seguidores. De dentro do casaco, meu celular tocou. Era
Tristan. “Caramba, menina, você realmente faz para valer”, dizia ele, elogiando-me e arrancando-me
um sorriso grato, porém tímido. Nunca me acostumei a essas congratulações. E como nada nunca me
é fácil, descobri pelo retrovisor do carro o piscar azul-vermelho de viaturas da polícia.
— Seu filho da puta, tem policiais atrás de mim! — Gritei para Tristan e ele não entendeu o
porquê, já que havia pagado o quinhão que lhes comprava o silêncio e imunidade desde o incidente
com Valkyrie. — Hijo de puta, hijo de puta! — Eu repetia, começando a transpirar tanto quanto o
gordo que eu havia matado.
Alucinado de ódio e medo, o taxista me forçou a descer, não sem antes me chamar de vagabunda e
mais algumas coisas que preferi deixar na surdez da correria. Havia me deixado logo na orla da
praia das docas, onde os navios atracam para o desembarque de mercadoria.
Larguei os sapatos para trás, tentando correr na maior velocidade possível. A pressa era tanta que
me esqueci de tirar os fones de ouvido, de finalizar a chamada com Tristan. Ele gritava “o que é isso,
o que é isso”, mas eu não respondia. Tiros salpicavam meus tímpanos entupidos pelas batidas do
meu coração disparado e o resfolegar dos meus pulmões. Além do imbecil do Tristan.
Se eu olhasse para os policiais que me perseguiam a pé, perderia a noção de para onde me dirigia.
Mas não demorou muito até eu mesma me ver encurralada à borda de uma plataforma sobre o mar.
Num último gesto desesperado, retirei a pistola do casaco e recebi em troca gritos de ordem para
largar a arma e erguer as mãos limpas à cabeça. Eu não queria obedecer. Então comecei a pensar em
números: altura dali até a água; velocidade da queda; créditos a mais recebidos por esses serviços
para Tristan; aumento das assinaturas e das ações da EyeCandy; tempo que levaria para os policiais
perderem a cabeça e me meterem bala. Aí comecei, num quase transe, a recordar tudo: desde o
sufoco na imigração até a inauguração de Santíssima Magdalena e meu contrato com a empresa de
voyeur virtual.
Acendo um cigarro: meu melhor cigarro, minha melhor roupa. Vejo que ainda tenho no corpo os
sensores que me levaram àquela situação. Não estão desligados, como eu imaginava. Um último
gostinho ao Panis et Circenses virtual. Pensam que me entregarei aos leões fardados, que já chegam
de mansinho, segurando suas algemas. Nem fodendo. Sorvo uma última tragada do marroquino e
lanço-o ao mar, esperando para ver quanto demoraria para sua brasa apagar ao contato com a água.
Levou pouco. Bem menos do que eu pensei para um objeto leve — que dirá para o meu corpo? E o
que será de Tristan? Será que vão pegá-lo também? Já pegaram? Que merda, estou pensando de novo
nos outros. Dane-se. Meus pés vão sozinhos e eu me jogo sem nem calcular. E quando sinto a total
falta de chão, escuto lá um berro dos policiais:
—¡Es broma! ¡Es broma!
No meu ouvido, Tristan ri divertido, como criança que prega uma peça. Se minha perna quebrar
nessa queda, é bom que ele me dê novas e me pague a “lipo” que prometeu.
— Hijo de su puta madre.
Para agradar Amanda Gerson Lodi-Ribeiro

Tá bem. Vou te contar como é.


Cara, é bom demais!
Não é por nada, não. Não é por ser minha garota, nem nada. Mas Amanda tem a boca mais gostosa
que eu já provei.
Lábios carnudos, na medida certa. Naturais, é lógico. Tá certo, eu sei que todas elas usam. Todas,
menos Amanda. Já te falei que ela é diferente. Com certeza. Não há um pingo de silicone naqueles
lábios. Aliás, no caso dela, seria facílimo descobrir. Na primeira alteração que sofresse, o
organismo dela expulsaria qualquer tipo de implante no ato.
Dentes alvos. Perfeição simétrica absoluta. Muito fortes, também. Quando quer, Amanda sabe
morder como ninguém.
Uma língua comprida e habilidosa, de textura áspera, paradoxalmente aveludada, ávida para
explorar todas as protuberâncias e reentrâncias do meu corpo com uma malícia serpenteante
genuinamente diabólica, como se dotada de vida própria.
Quando imagino o que aquela boca sensual, os lábios maravilhosos, os dentes e a língua
depravada poderiam fazer comigo, se eu tivesse a coragem necessária para deixar...
Não.
É melhor parar por aqui.
Até porque sempre acabo misturando tudo. Os lábios carnudos fazem parte do seu mimetismo
humano. A língua comprida, áspera, irresistível é outra coisa. Faz parte da natureza verdadeira da
minha amada.
Olha só pro meu braço. Cara, me arrepio todo quando penso no que a boca de Amanda é capaz de
fazer.
Sobretudo, ali.
Tá certo. Tudo bem, eu sei que é besteira, que ela me ama, que jamais me faria mal. Pelo menos,
não se puder evitar.
Porém, mesmo assim, sinto medo. Não adianta. É mais forte do que eu.
Olha, amigo, faço questão de deixar bem claro: não é que nós não transemos. Transamos e muito.
Lógico! Afinal, do que adiantaria namorar uma loup-garou linda, cheirosa e apaixonada, se eu não
conseguisse transar com ela?
Até certo ponto, meu temor apimenta nossas relações. Amanda fica superligada quando sinto
medo. Isto mesmo: ela consegue cheirar meu pavor nos ferormônios que libero no suor. Da minha
parte, consigo manter o desempenho condigno, sem precisar de afrodisíacos sintéticos, nem nada.
Quer dizer, eu consigo quase sempre.
É verdade. Nós transamos numa boa.
Só não topo tudo que ela cisma de fazer.
Nem podia, né?
Ora, você pode imaginar muito bem o porquê. Não, cara, essas histórias de lua cheia e balas de
prata são uma tremenda bobagem. Folclore dos tempos da Idade Média. Hoje em dia, depois que a
comunidade licantrópica decidiu sair do armário e se assumir para reivindicar oficialmente seus
direitos de minoria não-humana, poucos são os que ignoram que, à semelhança dos outros
metamorfos simbióticos, o Lycanthropus sapiens sofre a alteração sempre que acometido por um
trauma ou emoção forte.
Em nossas primeiras transas, Amanda ainda tentou se controlar. Não adiantou nada, meu amigo. É
da natureza dela. Perto do primeiro orgasmo, perde o controle e começa a incorporar seu aspecto
real.
Não, cara. Não estou reclamando. Muito pelo contrário.
Sério. Curto minha garota do jeito exato que ela é.
Lógico que, da primeira vez que presenciei a alteração, com Amanda espetada no meu colo,
gozando no maior abandono, achei que tinha chegado a minha hora. Em meu favor, juro que não perdi
o embalo. Quase me borrei todo, mas continuei mandando bala como se nada houvesse acontecido.
Aliás, vai ver que é por isto que ainda estou vivo... Ahá! Claro que estou brincando.
Depois que me acostumei com suas alterações quando transamos, Amanda já não se preocupa
mais em tentar lutar contra o predomínio do aspecto licantrópico.
É uma delícia contemplar e sentir aquele corpo gostoso e flexível se alterar nos meus braços em
plena transa, tornando-se mais peludo e mais forte a cada segundo. Os pelos? Castanho-claros,
praticamente da mesma cor que os cabelos dela quando mimetiza a forma humana. A pelagem de
Amanda possui um aroma maravilhoso, de mulher cheirosa, maturado com uma pungência animal
magnífica que não consigo definir direito. De vez em quando, exala um frescor floral misturado com
uma insinuação sutil de almíscar.
E os uivos, cara!
Os uivos da Amanda me deixam arrepiado de tesão. Claro, né? Duro como um tronco de pau-
mulato. À medida que ela vai se excitando, começa a se contorcer, presa da metamorfose que ela
própria descreve como “agonia prazerosa”. A partir daí, os formatos dos ossos e as posições e os
calibres dos músculos se alteram a olhos vistos. Quando a alteração já está avançada, costuma
cravar as garras pontudas nas minhas costas. Nessa hora, aproveito para penetrar mais fundo na
minha lobinha e ela uiva mais alto ainda.
Já desistimos de transar em motéis. Os hóspedes das suítes vizinhas ficavam apavorados. Houve
uma vez que um casal mais afobado ligou para a polícia. Deu um trabalhão para explicar. Se não
fossem as credenciais dela, estaríamos ferrados.
Enfim, como já deu para notar, nosso sexo é muito apaixonado, gratificante pra cacete e, cara, a
metamorfose da Amanda é normalmente o melhor da festa.
Só não suporto a ideia de permitir que minha cadelinha gostosa faça sexo oral em mim.
O.k. É medo, sim. Um puta pavor, mesmo!
Sei lá, meu chapa. Aquela bocarra salivante escancarada, aquele linguão comprido enrodilhado
feito uma sucuri em volta do meu pau... Vai que algo dá errado... Pois, se ela se distrair um tiquinho
que seja, arranca minha linguiça fora e engole a coitada inteirinha duma abocanhada só, sem nem
perceber... Ela jura de joelhos que nunca faria isto, mas, caramba, só de pensar nessa possibilidade
hedionda, eu brocho na hora.
Já o contrário, nem precisa dizer que é uma gostosura!
É a mais pura verdade! Quanto aos machos, eu não sei, mas o cheiro das loup-garous fêmeas é de
cair de quatro. Literalmente.
Se lá também? Cara, principalmente lá! Afinal, do que você acha que eu estava falando?
Tomar Amanda na boca é como mergulhar de cabeça numa floresta densa e misteriosa. Depois da
alteração, então, que a lindinha dela fica ainda mais cheirosa, só costumo parar quando ela me
implora, quando já está cansada de tanto gozar.
Sim, os pelos se tornam mais cerdosos depois da alteração. É preciso um pouco de cuidado para
não arranhar o rosto todo. No fim, sempre acabo me lanhando um pouco. Só percebo bem mais tarde.
Em geral, no dia seguinte, quando me olho no espelho. Não tem muito jeito.
Cara, fico superaceso com esse poder absoluto de arrancar uivos da minha lobinha, de fazer
aquele corpo forte e peludo se contorcer de prazer na ponta da minha língua.
O único problema é que ela fica tão feliz, tão satisfeita, que entra numa de me recompensar da
mesma forma.
Fica um bocado magoada quando eu perco a moral ante a mera sugestão de me fazer fellatio e
você não imagina a agonia que é ter uma loup-garou tesuda, encharcada de hormônios e insatisfeita
ganindo de tristeza ao seu lado.
Só te digo uma coisa: não é uma cena bonita. Não, mesmo.
Para não falar da barulheira dos infernos, de perfurar os tímpanos.
A coisa ficou tão braba que já estamos até evitando esse assunto de sexo oral.
Só que não dá mais para tampar o Sol com a peneira. Por isto, como não consigo viver sem minha
lobinha, decidimos marcar consulta com uma terapeuta sexual que, ao que parece, tem certa
experiência em aconselhar casais humanos-metamorfos.
Pois é. Você sabe como é. “Decidimos” é maneira de dizer. Na verdade, foi a Amanda que
insistiu e eu prometi que iria para deixar minha garota feliz.
Vamos ver no que dá.
Ih, caramba! Já é tarde pra burro! Vou nessa. Se não minha garota me mata.
Não, cara. Fica frio. É só força de expressão.
Claro. Tranquilo. Esquece, meu chapa! Ela nunca faria isto.
Valeu o chope.

— Para início de conversa, ajudaria bastante se você se esforçasse um pouco para evitar chamá-la
por apelidos de alcova do tipo “lobinha”, “cachorrinha” e outros do mesmo gênero. — A terapeuta
de cabelos louros presos num rabo-de-cavalo me fita por cima dos óculos de leitura antiquados.
Doutora Luíza Pontes, segundo a placa à porta do consultório requintado. Meia-idade; ainda nos
trinques. As coxas bem-feitas transparecem da saia curta que ela veste por baixo do jaleco quando
cruza as pernas com o olhar fixo no meu. — Você sabe, Edu, precisamos colocar nossos
preconceitos de lado. Metamorfos não são lobisomens. São pessoas, como nós.
— É cadelinha. — Amanda sorri, deliciada com a mistura de surpresa e indignação que percebe
estampada no semblante da loura. — Adoro quando ele me chama assim. Olha, amor, não é pra parar
não, viu?
— Não se trata de preconceito. — Gaguejo, atrapalhado. Meus olhos passeiam da face de uma
mulher para a da outra. Na minha paranoia, chego até cogitar se as duas não ensaiaram de antemão
essa pegadinha dos apelidos só para me sacanear. — Sei que ela não é exatamente a mulher-lobo do
circo.
— Mas a ideia de transar com um predador feroz descontrolado te excita um bocado, não é? — O
brilho malicioso nos olhos azuis dessa terapeuta denota um cinismo desnecessário. — Vamos lá,
Edu. Pode confessar.
— Lógico que me excita. Ao que me conste, não há nada de errado nisso.
Claro que não.
Todo mundo sabe que não devemos discriminar os metamorfos. Afinal, respeito aos direitos das
minorias é o tipo de noção de cidadania que as crianças aprendiam na escola. Quer dizer, pelo menos
nos meus tempos de garoto. Porque, hoje em dia, existem turmas integradas na maioria dos colégios
públicos e particulares da Guanabara. A garotada humana convive com crianças metamorfas numa
boa desde o maternal até a universidade.
É errado chamá-los de lobisomens, sereias, vampiros, pés-grandes, mulheres-gorila, homens-onça
ou qualquer outra designação depreciativa do gênero.
O fato é que Carolus Linnaeus não sabia que os metamorfos licantrópicos não eram lobisomens de
verdade quando criou sua nomenclatura taxonômica esdrúxula e decidiu aplicá-la para batizar uma
pá de espécies metamórficas. Daí, o Lycanthropus sapiens.
Contudo, século e pouco mais tarde, Darwin assombrou o mundo com seu A Origem das Diversas
Espécies Humanas, onde levantou a hipótese de que os metamorfos humanoides teriam evoluído em
paralelo com a humanidade propriamente dita, como nossos predadores ou simbiontes.
Em suas formas humanas, eles se parecem conosco, é lógico. Faz sentido, visto que evoluíram
para serem desse jeito. De outro modo, não poderiam se misturar com homens e mulheres de verdade
para melhor predá-los.
De acordo com o que tenho lido no Scientia Online, a biologia evolutiva atual de fato corrobora
as descobertas paleoantropológicas do passado recente ao comprovar que os primeiros metamorfos
evoluíram como predadores de nossos antepassados pré-humanos, até atingir a relação de simbiose
complexa e delicada com os humanos anatomicamente modernos. Neste sentido, tivemos mais sorte
do que nossos primos neandertais, extintos devido aos seus sentidos apurados que lhes conferiam
maior habilidade em distinguir os paleometamorfos de seus próprios semelhantes.
Pois é. Como diz o ditado tibetano, “difícil é encontrar yeti mimetizado de guia sherpa”.
Porém, mesmo nesta época cientificamente esclarecida, de vez em quando ainda ouvimos alguém
se referir a um metamorfo por pejorativos como “homem-macaco”; “tritão” ou “lobisomem”.
Puro preconceito, é lógico.
Mas não é o meu caso. Em absoluto.
Só emprego os apelidinhos eróticos com Amanda quando estamos a sós. Transando ou loucos de
vontade de transar. Porque sei que ela morre de tesão quando eu a chamo de “cadelinha” ou
“lobinha”.
— Pode ou não ter algo de errado, dependendo de como vocês lidam com a questão metamórfica
dentro da relação sexo-afetiva do casal. — A loura pisca o olho com o rosto sorridente voltado para
Amanda. — Entendem o que estou querendo dizer, não é?
É impressão minha, ou essa doutora sem-vergonha está dando em cima da minha garota?
Engulo em seco. Esse negócio de terapia sexual é uma merda!
Nem sei porque fui concordar com essa palhaçada.
Opa! Agora ela está me encarando com ar de quem se julga capaz de vasculhar minha alma com
um simples olhar.
— Pelo que entendi do breve papo telefônico que eu tive com a Amanda para combinar esta
primeira consulta, você está sentindo uma certa dificuldade em fazer amor com ela, não é? — A
seriedade profissional da doutora se desmancha nesse sorriso condescendente cretino que ela insiste
em manter pendurado nos lábios. — Imagino que esteja ciente do privilégio que representa ser
tomado como parceiro exclusivo por uma metamorfa linda, talentosa e experiente como Amanda.
Pelos olhares descarados que essa loura anda lançando para a minha garota, aposto que ela
adoraria gozar desse privilégio ou, até mesmo, com esse privilégio.
— Não se trata de uma dificuldade. — Murmuro num tom quase inaudível. — Não exatamente.
— É só um temor idiota. — Amanda corre ao meu auxílio, mais solta e irreverente do que eu teria
preferido. — Um medo bobo em relação ao sexo oral.
— Ah, sim? Deveras curioso... — A doutora ergue os olhos do tablete que mantém aceso em
equilíbrio precário, ora sobre a coxa esquerda, ora sobre a direita. Balança a cabeça numa negativa
encharcada de menosprezo psicoterápico, camuflagem bastante efetiva para o tesão reprimido, diga-
se de passagem. — Há toda uma mitologia em torno do aroma inebriante exalado pelas partes íntimas
das metamorfas licantrópicas quando assumem seus aspectos reais. A esta altura, você já deve ter
percebido que existe um razoável fundo de verdade nessas lendas... Você sabe, Edu, há pessoas que
venderiam a alma ao diabo sem pestanejar pela oportunidade de...
— Você entendeu mal, Doutora. — Amanda me brinda com um sorriso lúbrico. — Não é o Edu.
Ele me chupa bem demais! Caramba, ele me faz subir pelas paredes e chegar ao céu.
Minha lobinha revira os olhos numa expressão cômica êxtase fingido para enfatizar a indiscrição
recém-confessada. O pior é que, por mais que me esforce, não consigo ficar puto com ela.
— Mas você não disse que...
— Ele não me deixa chupar. — Amanda solta uma risadinha sacana ao constatar que estou
vermelho como um tomate maduro. — Sei lá. Acho que tem medo da cadelinha dele mastigar sua
salsicha.
— É só isto? — O olhar decepcionado da terapeuta se afasta relutante de Amanda para se fixar
em mim. — Pensei que fosse o contrário.
Suspiro fundo. Conto até dez num esforço consciente para conjurar meus últimos resquícios de
paciência. Sabia que essa consulta ia ser uma tremenda furada.
— Como, só isto? — Amanda fuzila a loura com o olhar. — Edu me chupa divinamente. Fico
louca de tesão para fazer o mesmo com ele, mas esse bobo vive ganindo de medo...
— Calma, querida. — A terapeuta esboça um sorriso sem graça para Amanda. — Só quis dizer
que o problema não é tão grave assim.
— Ah, não?
— O problema todo é que, quando ela está cheia de... paixão, ela...
— Retém o aspecto real licantrópico, eu sei. — A Doutora Luíza faz um gesto de impaciência. —
E daí? Qual é o problema? Duvido que ela pretenda arrancar seu pênis com os dentes.
— Presas. — Corrijo numa tentativa debiloide de ganhar tempo.
— Que seja, com as presas. — A loura solta uma risada, dessa vez simpática para variar. —
Escuta só uma coisa, Edu. Amanda é sua mulher. Sua amante. Ela quer lhe dar prazer. Apesar do
aspecto licantrópico formidável e das suas fantasias... ahn... salutares a respeito, você há de convir
que não está realmente copulando com um animal selvagem.
— Eu sei, Doutora.
— Ela tem a situação toda sob controle, pode acreditar. Jamais faria mal às pessoas de quem
gosta.
— Sei disso. Quer dizer, meu lado racional me diz que é assim, mas...
— Pois então? Você devia dar mais ouvidos a esse seu lado racional.
— É que, quando imagino meu membro dentro daquela bocarra cheia de dentes afiados... Aquela
língua imensa pendente...
— Puxa vida, amor. Prefiro morrer a te fazer mal! — O semblante magoado de Amanda se ilumina
de repente com um sorriso safado. — Machucar ao meu brinquedo favorito? Só mesmo se eu fosse
louca!
— Eu sei, querida. Só que não consigo parar de sentir medo.
— Eu não vou te morder. Pelo menos, não com força e nunca, mas nunca mesmo, no meu salsichão
amado.
Não consigo pensar numa resposta à altura. O formigamento nas bochechas me diz que minhas
faces ficaram vermelhas de novo.
Nossa terapeuta interrompe meu embaraço com um pigarro discreto.
— Se o problema sexual de vocês se limita a esse receio tolo do Edu em deixar que você pratique
felação nele, creio que existe uma solução efetiva, capaz de satisfazer a ambos.
— Que bom, Doutora! — Amanda se remexe na poltrona. Suas narinas começam a se dilatar de
pura excitação. — Qual é essa solução mágica?
— É tão fácil que até hesito em lhes cobrar meus honorários normais. — Ela faz um gesto
peremptório para cortar o protesto que Amanda mal começa a esboçar. — Está certo. Já que
insistem, cobrarei o valor da consulta habitual.
— Claro que sim, Doutora. Afinal, vai resolver nosso problema, não vai?
— Creio que sim.
— A propósito, que tratamento é esse? — Minha voz sai num timbre mais trêmulo do que eu
esperava. Já me antevejo submetido a um procedimento longo, doloroso e ineficaz. — Espero que
funcione mesmo.
— É bem simples, só que não é um tratamento. Trata-se, antes, de uma precaução.
— Uma precaução? — Amanda e eu indagamos ao mesmo tempo.
Precaução para mim é camisinha. Nunca mais precisei me preocupar com esse tipo de coisa desde
que comecei a sair com Amanda. Não poderia engravidá-la ou lhe transmitir doenças, mesmo se
quisesse.
— Basta que, quando decidirem fazer amor, começarem pela felação. — Ela passa a língua pelo
lábio superior ao encarar Amanda com um olhar divertido. — Imagino que não seja difícil manter o
mínimo de controle para conter a metamorfose até o clímax do parceiro.
— Segurar meu tesão enquanto estiver chupando o Edu? — Ela suspira, entre céptica e animada.
— Não sei se vou conseguir, mas, de qualquer modo, vale a pena tentar.
— Se você por acaso julgar que não conseguirá se impedir de assumir o aspecto licantrópico,
talvez seja uma boa ideia pedir para o parceiro amarrá-la à cama. Se precisarem de acompanhamento
profissional numa primeira experiência, terei o maior prazer de...
— Muitíssimo obrigado, Doutora. — Interrompo-lhe a fantasia erótica terapêutica ao saltar da
poltrona como se de repente me percebesse sentado sobre uma almofada de carvões em brasa. —
Mas creio que não será necessário.
— Mesmo assim, usar cordas é uma ideia ótima. — Amanda levanta e cumprimenta a terapeuta
com dois beijinhos e uma carícia na nuca sensual demais pro meu gosto. — Mesmo que não dê certo,
vai incrementar ainda mais nossa relação. — Muito obrigada, Doutora!
— Têm certeza de que não precisam mesmo de ajuda? — Ante nossas negativas mudas
eloquentes, ela ainda tem o desplante de soltar um suspiro resignado. — Tudo bem. Se acaso surgir
qualquer dificuldade de última hora, não hesitem em me acionar pelo assistente. Vou programá-lo
para atender e passar seus chamados a qualquer hora.
— Pode deixar. — Ofereço-lhe meu aperto de mão mais circunspecto e impessoal. — Se precisar,
a gente liga.
Na antessala do consultório, sob o olhar atento da secretária, insiro o cartão e morro nos duzentos
cariocas da consulta.
Já no hall do andar, enquanto aguardamos o elevador, defronto-me com o olhar lascivo de
Amanda.
— Vou adorar ficar amarrada. Você vai poder fazer o que quiser comigo... — Ela me ronrona ao
ouvido em pleno elevador lotado. — Não sei por que nunca pensamos nisto antes.
— Eu já tinha pensado. — Afasto o rosto para fitá-la nos olhos. Sorrio numa tentativa pueril de
ocultar o nervosismo. Recordo que ela é capaz de ouvir minhas pulsações, sentir os aromas sutis do
medo presentes no meu suor e, mesmo neste ambiente repleto de gente, interpretar esses sintomas
todos muito bem para estabelecer um quadro coerente. Então, aproximo a boca do seu ouvido para
sussurrar. — Só que você romperia qualquer corda mais fraca do que um cabo de aço. Talvez fosse
melhor usarmos algemas.
— Grande ideia, amor. — Ela me mordisca o lóbulo da orelha. Logo que saltamos na privacidade
relativa do hall do pavimento térreo, sugere com a expressão mais cândida do mundo. — Vamos dar
um pulinho numa loja de sexo para comprar as algemas?
— Algemas de verdade, Amanda. Não estou me referindo aos brinquedinhos sexuais que você tem
em mente.
— Tudo o que você quiser, meu amor. — Ela me abraça forte em frente às portas automáticas.
Permanecemos juntos até que o dispositivo resolva fechá-las outra vez. — Vamos fazer tudo do
jeitinho que você achar melhor, tá?
“Foi um prazer tê-los conosco no Hipercentro Dom Pedro III.” — As portas abrem de novo e se
despedem com uma voz feminina sintetizada. — “Voltem sempre.”

Cinco e pouco da tarde, Visconde de Pirajá lotada.

No quarteirão seguinte aos escombros retorcidos do Phallus de Maia, as calçadas e passarelas


suspensas fremem de gente de todas as idades, perfis e matizes imagináveis e as quatro pistas estão
repletas de autos, triciclos e ônibus; para-choque com para-choque.
Observo a turba heterogênea de pedestres que passa diante dos nossos olhos à saída do Pedro III.
Humanos em sua vasta maioria. Não que seja fácil distinguir um metamorfo sob forma humana assim
de passagem. Somados, representam menos de 1% da população, mas ninguém ignora que eles vivem
entre nós. Eu, inclusive, vivo com uma.
Por falar nisso, veja só esse grupo de vampiros que cruza por nós, numa agitação ruidosa de dar
gosto. Garotos que se julgam no auge da moda: capas pretas esvoaçantes num clichê brega, mezzo
Drácula, mezzo Matrix, isto sem falar nesses caninos falsos protuberantes. E as meninas? Mini-saias
e meias arrastão tão negras quanto as capas dos rapazes, além das indefectíveis dentaduras, parecem
tão cafonas e démodés quanto eles.
Há também os dois hemitritões fajutos se pavoneando na calçada oposta e o falso lobisomem
caminhando de lá para cá na passarela suspensa sobre nossas cabeças.
Quando é que os adolescentes cariocas vão cair na real e largar mão dessas fantasias ridículas?
Não são os únicos, é claro. Pelo que vejo na telerrede, trata-se de um fenômeno sociológico
imbecilizante de âmbito global.
Como se vampiros conseguissem externar suas presas em plena luz do dia. E o que dizer desses
tritões de araque, com padrões de escamas perfeitos e pares de guelras exageradas, fixadas com cola
cirúrgica?
Ninguém parece ligar. Nas últimas décadas, adolescentes fantasiados de metamorfos se tornaram
parte da paisagem.
De repente, ouço um grito de mulher às nossas costas.
Giro para descobrir o que se passa. Uma garota de cabelos escuros cacheados se debate a uns
trinta ou quarenta metros de distância em meio ao mar de rostos assustados que se viram para olhá-la
e então se afastam, desinteressados.
Vislumbro uma tira de couro esticada na mão da jovem. Será possível que lhe estejam tentando
furtar a bolsa? Um assalto a céu aberto, em plena Ipanema?
Viro para comentar o fato com Amanda. Só que ela já não está mais ao meu lado.
Meio perdido, começo a procurá-la em meio na multidão de pedestres. Nem sinal dela neste
oceano de faces, cabelos e nucas.
Longos cinco segundos mais tarde, eis que o vulto de Amanda surge fugaz entre centenas de
troncos e costas. Desloca-se em alta velocidade como faca cortante no rebanho de transeuntes
aparvalhados. Some outra vez. Torna a aparecer, já em plena metamorfose, com tufos de pelo
brotando dos braços e ombros a cada passada. Agora parece bem perto da mulher que ainda grita e
se debate como possessa ou como alguém atacado por uma.
Por que cargas d’água Amanda sempre tem que meter o bedelho na briga dos outros? Será
possível que não consigamos ter um pingo de sossego nem quando ela está de folga?
Sem opção, começo a correr em direção ao tumulto.
Não sou nem de longe tão ágil quanto ela. Dou meia dúzia de encontrões, alguns dolorosos, até
conseguir me aproximar o suficiente da mulher desesperada, a ponto de confirmar o que está
acontecendo.
Quando chego à pequena clareira aberta no meio da multidão, breco na última hora para evitar
tropeçar no emaranhado de braços e pernas, cabelos e pelos, gritos, rosnados e gemidos. Quatro
pessoas engalfinhadas. Três delas humanas. Dois homens e duas mulheres.
Os dois marginais se mantêm aferrados à vítima. O branquelo lhe puxa os cabelos com a mão
esquerda, enquanto tenta torcer-lhe o braço com a direita.
O mulato segura a alça da bolsa da mulher e luta para lhe mirar uma pistola de agulhas com a mão
livre.
Sob aspecto licantrópico pleno, Amanda rosna de frustração quando falha em abocanhar o braço
do mulato. Pelo lanho sangrento no ombro do outro meliante, já deve ter lhe aplicado uma patada.
Agora cerra as garras da pata esquerda no braço que o mulato mantém estendido para arrancar a
bolsa da mulher. A outra pata avança para esganar o branquelo, mas o sujeito lhe antecipa a intenção,
consegue se esquivar e ainda lhe aplica um chute no ventre, tudo isto sem largar da mulher que, aliás,
continua gritando com energia de causar inveja à sirene de ambulância.
Lobisomem de saia plissada.
Nunca tinha visto Amanda desse jeito: alterada e, no entanto, vestida.
Se bem que “vestida” é mera força de expressão. Tudo bem que a saia está só um pouco
amarfanhada, mas a blusa decotada se encontra em frangalhos. Das sandálias, nem sinal. Decerto as
perdeu na correria da metamorfose.
A propósito, o pontapé do branquelo não surtiu o menor efeito, exceto o de fazê-la soltar o mulato.
Irada, Amanda rosna para o atacante. Arreganha os dentes, pronta para reagir.
Ato contínuo, o mulato aponta a pistola para o focinho dela e dispara.
A mulher grita outra vez, mas seu berro é abafado por um uivo lancinante de loup-garou.
Disparadas à queima-roupa, as microagulhas não se dispersam no feixe cônico característico.
Cravam-se todas na lateral do focinho e no pescoço da Amanda, provocando um estrago
considerável. O sangue jorra aos borbotões das regiões atingidas e logo lhe empapa o ombro e os
seios peludos.
Ela emite um ronco de britadeira assustador. Até então se controlando para não ferir demasiado os
ladrões, agora, com o focinho e o pescoço ensanguentados e borbulhando na agonia da cicatrização
hiperacelerada, minha amada é pura fúria animal.
Abocanha o antebraço do mulato num ataque tão rápido que não dá para ver. Só consigo entender
o que se passa quando ela começa a sacudir a presa com ferocidade assustadora. Não o solta até que
a arma voa da mão do criminoso.
Neste instante, juro que ouvi os ossos do sujeito estalarem!
O branquelo encara a cena com olhos esbugalhados de filme de terror. Quando enfim decide
largar a mulher para se evadir, já é tarde demais.
Porque Amanda acabou de soltar o corpo inerte do mulato e, antes que o mesmo desabe na
calçada, após um salto de cinco metros, agarra o fugitivo pelo cangote, arrancando-o do chão com
uma só pata.
Lanço um olhar rápido ao mulato. A mordida no antebraço parece um bocado feia. As presas de
Amanda seccionaram tecidos e músculos, só parando no osso, agora exposto, terrivelmente branco,
por baixo dessa sangueira toda.
Pelo menos, não arrancou o braço fora.
Talvez não tenha perdido o autocontrole de todo.
— O que está havendo aqui?
Viro para trás e me deparo com dois policiais para lá de troncudos. Ambos blindados e de armas
em punho, com o tórax peludo de Amanda decididamente enquadrado em suas alças de mira.
— Calma aí, pessoal. — Aponto para a mulher que estava sendo assaltada. — A senhora aqui
acabou de ser atacada por esses dois sujeitos. Minha namorada só estava exercendo seus atributos
legais ao tentar defendê-la.
Os dois policiais se entreolham com cara de interrogação.
O cabo baixa a zarabatana automática e examina o mulato desacordado com um olhar rápido, antes
de comentar:
— Já vi um holograma falado com a cara desse gajo lá na delegacia. — Volta a me fitar. Então
encara Amanda e solta um assobio admirado. — Tremenda dentada, heim?
— E a Madame? — O sargento direciona o tubo da zarabatana para o chão antes de abordar a
vítima. — Confirma a versão de que foi atacada por esses dois elementos?
Amanda deposita o branquelo trêmulo entre os dois policiais. O marginal permanece abúlico, a
fitar as notas musicais da Cidade Maravilhosa desenhadas no calçamento de pedras portuguesas.
A mulher parece em estado de choque. Seu olhar passeia do sargento para Amanda e então para o
branquelo. Sacode a cabeça, com ar de coitada. Abre a boca. A voz não quer sair.
— Pode perguntar para qualquer um, Sargento. — Falo, aliviado ao constatar que os ferimentos de
Amanda já fecharam. Quando recobrar a forma humana, não vai sobrar nem cicatriz para lembrar o
disparo. — Há um montão de testemunhas aqui em volta.
O sargento assente para o cabo.
— Não é a primeira vez que essa dupla assalta cidadãs incautas aqui na vizinhança. — Um sujeito
de meia-idade com barba de imperador velho brada da terceira ou quarta fila de populares
aglomerados a uma distância segura ao nosso redor. — Só que desta vez se deram mal.
— Eles me atacaram... Queriam roubar minha bolsa... — A vítima emerge da catatonia. Aponta
para o mulato caído aos nossos pés. — Esse aqui tinha uma arma...
— Por acaso é essa aqui? — O cabo ergue a pistola de agulhas do chão pinçando-a pelo cano
entre o polegar e o indicador enluvados. Perante o assentimento amedrontado da mulher, envolve a
arma num saco plástico que acabou de extrair de um dos compartimentos diminutos do cinturão.
Enuncia em modo automático para o processador pessoal. — Verificação padrão de digitais e DNA.
— A Senhorita? — O sargento se volta outra vez para Amanda. — Acaso tem licença para
exercer poder de polícia sob metamorfose?
— Amanda Winiarski, ao seu dispor. — Ela fita o policial com um olhar lupino amarelado. A voz
grave de licantropa soa pausada e inteligível. — Agente independente de ação tática repressiva.
Autorização especial número 437, com validade indeterminada para atuar em toda a Soberania da
Guanabara e nas províncias fronteiriças do Império do Brasil.
O sargento esboça um gesto de concordância. Murmura algo para si próprio. Imagino que esteja
trocando uma ideia com a Central através de um microfone implantado qualquer. Provavelmente,
para baixar as fichas dos meliantes e verificar a identidade de Amanda.
Muitos metamorfos licantrópicos trabalham para o Departamento de Segurança da Alcadaria,
sobretudo como agentes independentes de repressão criminal. Se você pensar um pouco, faz sentido:
para os metamorfos, trabalhos desse tipo constituem uma das poucas formas legais de exercitar seus
instintos de predadores. Afinal, quem melhor do que um lobisomem, elfo ou vampiro para farejar
pistas e rastrear suspeitos?
Lógico que, quando um ou outro criminoso acaba trucidado de forma brutal, oficialmente após
tentativa infrutífera de resistir à voz de prisão, as autoridades policiais e judiciais cariocas
costumam fazer vista grossa àquilo que se referem eufemisticamente como “excesso de zelo dos
agentes metamorfos”, não obstante a grita da turma dos direitos humanos. Até porque nossas
autoridades estão fartas de saber que não vivemos num mundo ideal. O Rio de Janeiro de verdade
não é o que se contempla do alto do Pão-de-Açúcar. Nas ruas aqui embaixo, o predador precisa
sobreviver de acordo com sua natureza. O resultado desse entendimento tácito é que, enquanto os
mutilados e os mortos forem apenas criminosos e desclassificados comuns, a vasta maioria dos
cidadãos de bem, contribuintes cumpridores da lei, acaba optando por ignorar o assunto.
Enquanto o cabo algema o branquelo, o sargento se comunica em voz alta com a Central para
relatar a ocorrência e pedir uma viatura para remover os delinquentes. Emprega um tom respeitoso
nas duas vezes em que pediu licença à Amanda para registrar fotogramas de suas retinas, antes e após
o regresso à condição humana.
— Procedimento de rotina. — O policial de armadura esboça um sorriso sem graça.
— Perfeitamente, Sargento Carvalho. — Agora que a pelagem se foi, Amanda dá uma de recatada
e tenta ajeitar o melhor possível o que sobrou da blusa para ocultar os seios praticamente desnudos.
— É um prazer trabalhar com agentes da lei tão atenciosos e cumpridores do seu dever quanto vocês.
Depois de percorrer de cima a baixo as formas humanas bem torneadas da minha lobinha com o
olhar apreciativo, o Cabo Cândido me sussurra um elogio ao pé do ouvido:
— Sujeito de sorte!
Mal os policiais nos liberam — não sem antes avisarem que deveremos ser contatados
posteriormente em nossos terminais domésticos para lavrar depoimentos virtuais como testemunhas
— caminhamos até o Centro Maurício de Nassau, no quarteirão da Visconde de Pirajá delimitado
entre a Marquês de Pombal e a Irineu Evangelista de Sousa. Preferia ter entrado no estabelecimento
logo em frente ao trecho onde ocorreu a tentativa de assalto, mas Amanda parece ter uma certa loja
de grife em mente para comprar outra blusa e um novo par de sandálias.

Só entendi o verdadeiro propósito de nossa ida ao Nassau quando, ao sair da loja com Amanda
devidamente paramentada com blusa e sandálias novas, ela comentou, inocente, que havia uma loja
de sexo no segundo andar.
Pensei que, com o surto de adrenalina provocado pela ação contra os assaltantes, ela ia esquecer,
ao menos por ora, nosso papo com a terapeuta interesseira e esse barato estranho das algemas.
Que nada! Se duvidar, não tirou a ideia da cabeça nem quando trincava o antebraço do marginal.
Aliás, quando torno a lembrar aquele antebraço destroçado justo quando experimento a resistência
dos elos da corrente de um par de algemas na loja de sexo, engasgo com a própria saliva e começo a
tossir.
— Que foi, amor? — Amanda pousa a mão nas minhas costas. — Sua alergia, de novo?
— Não foi nada. — Sorvo um hausto de ar para recobrar o fôlego. Então ergo o par de algemas
em frente ao rosto dela. — De repente, acho que estas aqui dão pro gasto.
— Beleza! — Ela toma as algemas nas mãos. Força um pouco as correntes com uma expressão
safada no olhar. — Vamos comprar dois pares, tá bem?
— Tem certeza? — Ante sua aquiescência entusiasmada, ponho a mão no bolso interno do casaco
para retirar o cartão. — Tudo bem. Deixa que eu pago.
— De modo algum. — Ela me pisca o olho. — Faço questão absoluta.

Depois do jantar à luz de velas, acompanhado por um bom tinto imperial da Província Cisplatina,
quando fomos para o quarto, nas palavras de Amanda, “sob recomendação médica”, as algemas nem
foram necessárias.
Quer dizer, não cheguei a algemá-la.
Não deu tempo.
Os dois pares de algemas foram usados, é claro.
Só que não do jeito que eu esperava.
Quando dou por mim, já estou nu e solidamente algemado. Um pulso preso em cada um dos pilares
maciços de madeira trabalhada que compõem a cabeceira da velha cama estilo Mauá.
Sob a claridade pálida emitida pelas velas aromáticas espalhadas pelo quarto, estremeço ao
constatar que, de tão excitada, Amanda já começou a se transformar antes mesmo de tirar o baby-doll
azul pela cabeça num gesto abrupto e arrancar as calcinhas rendadas com tanta força que acaba por
rasgar a peça minúscula.
— Não foi isto que combinamos. — Suspiro, arrepiado.
— Eu sei. Vai ser muito mais gostoso deste jeito. Você vai ver só. — Garante com voz gutural do
fundo da garganta de loup-garou. — Confie em mim.
— Mas você já está se alterando...
Engulo em seco ao observar os pelos brotarem da cútis branca como leite, para ocultar as sardas
minúsculas que se espalham pelos seios e ombros da sua forma humana.
— Só para te curar desse teu trauma bobo, meu amor. — O focinho se alonga, tornando-se mais e
mais proeminente no rosto já um bocado peludo. — Você vai adorar, eu prometo.
Emprestando veracidade à promessa, sinto o membro latejar e subir numa ereção dolorosa de tão
intensa.
Indefeso, duro como aço e totalmente em pânico da cintura para cima, só me resta racionalizar.
Por um lado, testemunhei in loco o que ela é capaz de fazer durante a tentativa de assalto em
Ipanema. Por outro, gente ou fera, minha cadelinha sempre foi supercarinhosa comigo. Carinho
vigoroso, é claro. Daqueles que me deixam com as costas lanhadas. Ainda assim, carinho. Do tipo
que não arranca pedaço.
O aroma magnífico de Amanda me invade as narinas, misturando-se com o cheiro do incenso e o
das velas perfumadas.
— Não falei que você ia gostar? — Ela me dirige um olhar guloso ao subir na cama e engatinhar
de quatro na minha direção. Nunca me pareceu tão animalesca e tão gostosa quanto agora. Por um
instante, entrevejo a língua pendente da bocarra escancarada, salivando de antecipação. — Relaxa,
meu amor. Mas não muito, viu?
Solta um latido curto a título de risada. Então baixa o focinho protuberante e me abocanha com
vontade.
Sinto os dentes enormes e aguçados roçando minha carne pulsante até retê-la entre as mandíbulas.
Um gesto em falso e nunca mais serei o mesmo...
Essas mesmas presas que arruinaram o antebraço do ladrão agora me arranham delicadas. Então,
Amanda para de mordiscar e começa a me sugar devagarzinho.
É lógico que não consegue me sugar lá muito bem sob seu aspecto real.
Mesmo assim, meu pênis palpita, louco para explodir.
Calma aí, meu rapaz! Segura o embalo, se não esta partida vai terminar no início do primeiro
tempo.
Sob aspecto licantrópico, os lábios e a musculatura fina da boca de Amanda não possuem nem de
longe a versatilidade da forma humana.
Áspera como lixa de madeira, a língua comprida compensa com folga a pouca flexibilidade dos
lábios lupinos.
E como compensa!
Começa a lamber desde a raiz da haste. Bem devagar. Caprichosa, a ponta da língua escala o
pênis até chegar à glande latejante. O resto dessa naja diabólica coleia a haste rígida, passando a
massageá-la com uma fricção deliciosa.
Deus do Céu! Em pensar que eu tinha medo que ela fizesse isto comigo...
De vez em quando, a língua divina interrompe seu solo magistral e cede lugar às mandíbulas. Os
dentes poderosos capturam minha carne inchada, mordiscando-a com uma brandura amorosa que eu
julgara impossível sob o aspecto licantrópico.
Então, a serpente mágica volta a se enrodilhar na minha haste. A ponta começa a trabalhar com
perícia justo no freio do prepúcio.
Ah... Essa aspereza maravilhosa!
Por mais que tente, não consigo mais segurar a onda. A ejaculação irrompe com a força de um
gêiser.
A língua não para de brincar comigo enquanto eu gozo.
Quando acabo, ela ondula ágil na minha barriga, no púbis e na pelagem cerdosa das próprias
faces, disposta a sorver até a última gota.
O uivo agudo de satisfação me pega de surpresa.
Aspiro fundo, enchendo os pulmões com o cheiro inebriante da fêmea amada.
Mal o eco do uivo reverbera nas paredes do quarto, Amanda começa a recobrar a forma humana.
— Então? Não falei que você ia gostar, seu bobo? — Com os pelos dos seios e da barriga mais
ralos a cada segundo e a pele recobrando sua alvura delicada, ela trepa sobre mim para desativar os
circuitos das algemas. — Não precisava ter medo, viu? Sua cadelinha é mansa. Nunca ousaria ferir
seu macho-alfa.
Sento na cama e esfrego os pulsos.
Então abraço Amanda. Nossos lábios se encontram num beijo apaixonado, agora que sua boca
terrível adorável voltou a ser humana.
Robodisatva Cirilo S. Lemos

Mulheres davam muito trabalho, não tinha dúvida disso. Era aquela coisa toda de jantares, boates,
presentes, romantismo e toda sorte de preâmbulos perfeitamente dispensáveis antes de chegarem ao
ponto que realmente interessava: sexo.
Por essas e outras é que Otis transava com uma máquina.
A RBS/TL não era um modelo exatamente atraente: pernas finas demais, total ausência de bunda,
boca pintada sem esmero com batom vermelho, uma cabeleira loura cheirando a detergente. Mas
havia um problema ainda maior.
A danada nunca gemia.
Deitava-se, com uma falta insuportável de personalidade, sobre a imitação de pele de urso, abria
bem as coxas plásticas e se colocava em modo de espera até que Otis terminasse. Por mais que ele
socasse o pau com força dentro dela, a expressão de criada que quer agradar ao patrão e o sorriso
condescendente estúpido jamais se alteravam. Não tinha tanta graça, mas saía bem mais em conta. O
dinheiro economizado servia para pagar o aluguel e ainda dava para encher a despensa com
macarrão instantâneo.
Otis estava na poltrona, mergulhado nos espíritos cinzentos que o cigarro anfetamínico fazia
volitar ao redor de sua cabeça. Quase sempre gargalhava, quando os espíritos penetravam em sua
pele e lhes percorriam as terminações nervosas, dedilhando-as como uma harpa desafinada. A risada
começava como pequenos repuxões nos músculos do seu maxilar, que iam crescendo até se tornarem
explosões incontroláveis. Mas isso era quando estava de bom humor. Havia ocasiões em que os
espíritos decidiam entrar pela sua uretra e se expandiam feito balões de fogo, fazendo-o gritar com
uma dor deliciosa. Seu corpo relaxava e ele ficava olhando para um buraco inexistente na parede até
sua mente religar de súbito.
A televisão mostrava imagens aéreas do antigo Mosteiro de São Bento, há cento e vinte dias
ocupado pela Liga Punarmtyu da Flecha-Flor. O rosto alongado de um monge apareceu, a cabeça
raspada refletindo uma luz qualquer, as pálpebras ocupando metade dos olhos, como se ele estivesse
entediado com a mediocridade pouco iluminada da repórter que lhe espichava o microfone. Era uma
gravação de semanas atrás, quando o monge ainda estava disposto a dialogar a respeito de sua fé. Ele
havia preparado um longo discurso, que falava de paz, amor e iluminação através da sexualidade e,
antes que percebesse, sua doutrina baseada no sexo estava sendo massacrada em todos os veículos
de mídia e redes sociais, ridicularizada com nomes como “Budismo Trepatrepa”, “Buda Comida” e
frases tiradas do contexto. A União Cristã exigiu de volta o patrimônio que havia vendido para a
Liga, alegando que esta havia transformado um terreno sagrado num bordel budista. Com a influência
do Vereador Almeida, a Justiça ordenou que o prédio do antigo mosteiro fosse devolvido aos
cristãos. Dezenas de homens e mulheres vestidos com túnicas laranja protestavam diante das
câmeras, observados de perto por policiais armados. A televisão se detinha nos cartazes com dizeres
do tipo “Mais sexo, menos repressão” e “Iluminação pela Sexualidade” e ignorava os que clamavam
por liberdade de expressão e direitos civis. Um close nas pernas longas de uma monja fez Otis
imaginar o que haveria por baixo daqueles panos esvoaçantes. Dois segundos depois, trocou de
canal. Notícias chatas não se comparavam ao episódio em que o Pernalonga se vestia de mulher, uma
coelhinha curvilínea de peruca loura e boca vermelha.
Seus olhos deslizaram lentamente para a RBS/TL (código de série ao qual, num arroubo de
solidão, acrescentara dois pares de vogais para formar um nome: Rubistela, R-U-B-I-S-T-E-L-A, sua
puta de silício, sua amante de plástico, seu depósito de porra). Ela estava imóvel, a carinha de safada
que ele se esforçara para criar com canetas permanentes cobrindo o sorriso monótono de fábrica.
Otis a vestira com uma fantasia de empregadinha, comprada numa sex-shop online por noventa e
nove centavos. Por baixo da minissaia preta, a luz da bateria sendo recarregada piscava e piscava.
Piscava.
Piscava.
Piscava.
— Rubistela... — Sussurrou.
Ainda tonto pelo cigarro anfetamínico, levantou e rodeou a empregada. Parou em suas costas,
sentiu o cheiro de sua cabeleira loura, a textura de sua carne plástica. A língua correu pela lateral da
cabeça, lambeu o batom adocicado, enfiou-se por entre lábios imaginários.
Agora estava diante dela, mirando fundo nos seus olhos feitos à caneta, dizendo que ela era linda,
maravilhosa, sua putinha artificial, coisas doces e sórdidas. Desabotoou devagar os botões da roupa
dela, um ritual lento, no qual cada instante era saboreado como vinho. Sentiu algo se avolumar dentro
de sua calça e pedir para sair. Não era hora ainda. Com cuidado, soltou a alça do uniforme de
empregada e deixou que um par de bolhas de silicone morno saltasse sobre suas mãos. Massageou-
os, excitado pela sensação de estar abusando de uma subalterna que precisava do emprego,
submetendo-a aos seus caprichos. As palavras ficavam mais agressivas e mais sujas, os seios
artificiais que ele construíra eram acariciados com mais vigor. Porque ela gostava, a piranha, ela
gostava e ele sabia disso. Com um movimento brusco, deixou-a nua e deitou-a sobre a imitação de
pele de urso. Seu polegar alcançou o umbigo de Rubistela e pressionou-o com força. Com um
pequeno espasmo, os leds começaram a piscar, lúbricos. Ela conhecia bem seu patrãozinho, havia
sido programada direitinho e feito aquilo muitas vezes. Suas coxas se abriram, revelando uma boceta
de silicone e microssensores, adaptada de um masturbador adquirido na mesma sex-shop onde
comprara a fantasia de empregadinha.
Havia dado um pouco de trabalho abrir a virilha dela, fazer um buraco profundo para conectar o
tubo vaginal e ligá-lo às fontes de calor. Tudo isso era muito técnico, mas agora só o que ele
conseguia pensar é que tinha penetrado profundamente Rubistela, deflorado seu sexo artificial,
explorado cada recôndito dele, de dentro para fora e de fora para dentro, e isso só fazia aumentar seu
desejo.
Livrou-se da calça, o membro apontando feito uma espada. Usou-o para acariciar a vulva macia e
cada vez mais morna de sua máquina, estimulando o clitóris para que os sensores liberassem
pequenas doses de lubrificante quente. Sentiu o fluído viscoso escorrer por sua glande e então
penetrou-a com força. As pernas de Rubistela batiam contra um piso, um ruído cadenciado e cada vez
mais intenso que arrancava urros de Otis e o faziam aumentar a violência de suas investidas. Algo se
contraiu dentro dele, pensou nos espíritos do cigarro anfetamínico, nas vozes da televisão discutindo
a devassidão da Liga Punarmtyu da Flecha-Flor, na sua própria flecha rasgando a flor de Rubistela e
começando a regá-la com jatos intermitentes de sêmen.
Quando o Gooid tocou, Otis havia acabado de escorregar para fora da vagina da RBS/TL.
Largado sobre a imitação de pele de urso, sorvia o ar em pequenos haustos e levitava
preguiçosamente na nuvem pós-orgástica que ocupava a sala estreita.
O toque do Gooid — (Sittin’On) the dock of the bay, uma canção das antigas, tão antiga que seu
intérprete morrera num acidente aéreo ainda antes dos voos orbitais — parecia vir de algum lugar
distante, uma lua enevoada, um planeta etéreo, uma baía de águas azuis e não da mesinha repleta de
guimbas de anfetamínicos e restos de comida logo ao lado. Embalado pela melodia, pela sonolência,
os navios partindo, os navios voltando, Otis resolveu que, fosse quem fosse chamando-o no aparelho,
podia esperar um pouco mais. Quando o cantor disse pela segunda vez, com uma melancolia livre de
qualquer vestígio de remorso, que deixara seu lar na Geórgia por Frisco Bay, a nuvem pós-orgástica
se dissolveu e um pedaço de realidade sólida caiu sobre a sala.
Otis se enrolou numa toalha com estampas da Turma da Mônica e atendeu à chamada. Sorridente
Sérvio, o rosto branco feito um copo de leite, esparramou-se para além dos limites da tela do Gooid.
Ao ver Rubistela deitada, as pernas abertas exibindo a boceta gosmenta e improvisada, engoliu o
cumprimento na ponta da língua e engasgou, as bochechas em fogo.
— Saia daí, querida. — Otis ordenou, divertindo-se com o que chamava de puritanismo hipócrita
do chefe. Deixou-se cair no sofá empoeirado. Rubistela levantou-se ligeira e ficou parada sobre a
pele de urso, ereta como uma régua.
— Você ainda está mantendo relações sexuais com sua faxineira. Isso é deprimente, sabia? Devia
usá-la para limpar a sujeira desse cubículo — Sorridente Sérvio falou, quando finalmente conseguiu
superar o rubor que lhe ardia a cara gorda. Deu uma boa olhada na sala de Otis e balançou a cabeça
numa reprimenda silenciosa. Era seu supervisor no Departamento de Assistência Técnica da Masbro
S/A, a quarta maior fabricante de brinquedos do mundo, e um sujeito agradável na maioria das vezes.
— Vá se foder. Quando estiver disposto a pagar um pouquinho mais pelos meus serviços, arrumo
um apartamento decente. Mas não posso prometer nada. — Otis se espreguiçou e varreu a areia dos
cantos dos olhos. O apartamento era pouco maior que um contêiner, é verdade, mas não precisava ser
lembrado disso o tempo todo. Muito menos às 7:45 da manhã. — A que devo o súbito
reaparecimento do meu chefe favorito? Tem alguma coisa para mim? Estou precisando de dinheiro.
Meu café acabou e você sabe como eu fico sem cafeína.
— Coma uma maçã, faça um exercício, sei lá. Só tente não parecer tão desesperado, por favor.
Vejamos... Solicitação de visita técnica em conjunto habitacional na Rua Lasgasse, 26. Problemas
com a linha de brinquedos educativos. Um Companheiro do Jovem Trabalhista. Enviando a Ordem
de Serviço.
Um ícone de chave de fenda sobre o logo da Masbro S/A brilhou na tela de Otis. O supervisor o
viu relaxar os ombros com um movimento de pouco entusiasmo.
— Companheiro do Jovem Trabalhista, chefe? Sabe como essa merda paga pouco. Não tem nada
maior aí na sua lista? Algo que não seja a porra de uma propaganda política mal disfarçada.
— Desculpe, Otis. É a única coisa que temos na Mancha 332 no momento. Devia dar graças a
Deus. O Havelino (sabe o Havelino?), da Mancha 393 está há dois meses sem um único trabalho.
Parece que está ganhando a vida vendendo cachorro de rua para os chineses.
— Ouvi dizer que isso dá dinheiro.
— Eu disse que era uma boa assinar aquele Plano de Seguro contra Ócio, mas vocês não me
deram ouvidos. Siga meu conselho agora. Vá trabalhar, mesmo que seja pouca coisa, mostre que é
útil para a empresa. Quem sabe, não lhe arrumam um contrato de efetivação? E veja se compra uma
boneca erótica para transar, essa sua RBS/TL nem mesmo lembra uma mulher. Parece um daqueles
manequins de teste das montadoras de automóveis. Aproveite: damos um belo desconto para nossos
colaboradores.
Um piadista, o chefe. Otis se despediu dele com um aceno e um sorriso falso. Após ter certeza de
que a chamada estava devidamente encerrada, mostrou o dedo médio para o Gooid. Insultar sua
putinha de lata, pobrezinha, quando o único defeito dela era o silêncio mortal na hora do sexo.
Deu uma olhada na ordem de serviço. Vestiu-se, preparou a mochila de ferramentas e certificou-se
de que os softwares estavam em ordem (da última vez, fora pego desprevenido com seis horas de
pornografia na frente de um cliente ao tentar reformatar um boneco de educação bíblica). Programou
Rubistela para aspirar o apartamento — seu universo numa casca de noz — e tirar as manchas de
porra da imitação de pele de urso. Depois a beijou e desceu pelo elevador pantográfico, antigo como
seu avô e tão rangente quanto.
A Mancha 332 era composta por 331 quarteirões mais o centro comercial do Rio de Janeiro, uma
longa avenida coalhada de edifícios coruscantes. Quando a metrópole engoliu oficialmente as
cidades da Baixada Fluminense, o Ministério de Interesses Civis proibiu a circulação de veículos
motorizados nas áreas ao redor do centro para desafogar o trânsito. Enquanto a imensa maioria das
pessoas ficou desorientada com a decisão, Otis se tornou um grande entusiasta das velhas bicicletas.
Adquiriu um quadro de fibra de carbono e montou a sua própria, seguindo um esquema encontrado
sem muitas dificuldades na Rede. Logo voava pelas ruas, verdadeiro borrão azul escuro, enquanto os
passantes não percorriam um único quarteirão sem praguejar contra os vereadores da cidade.
A viagem de bicicleta até o conjunto habitacional da rua Lasgasse não demorou nada. Quinze
minutos de pedaladas depois — com uma parada providencial numa máquina de café expresso —
Otis passou a tranca eletrônica na roda dianteira e deixou seu meio de transporte preso a um poste em
frente ao conjunto de prédios atarracados. O porteiro do Bloco Dois, um paranaense de testa sulcada
e ares de cansaço enfiado numa cabine à prova de balas, indicou o apartamento da cliente, a senhora
Bia+Trice Copenhague, após alertá-lo sobre o defeito do sistema de elevadores.
Otis subiu seis andares de escadas e bateu na porta do apartamento 602b.
Bia+Trice abriu(ram) a porta com ligeira impaciência.
Uma mulher-dupla.
Embora fossem, aos olhos da Lei, como gêmeas siamesas comuns, mulheres-duplas agiam como
uma única entidade a habitar um corpo feminino de três pernas e duas cabeças, compartilhando
órgãos, ossos, fluidos, roupas e pensamentos. Uma pessoa em duas, duas em uma. Fenômeno
incomum, mas de modo algum raro.
A primeira coisa que Otis sentiu quando ela(s) o atendeu(ram), a despeito da aparência peculiar
que exibia(m), foi um perfume cítrico quase imperceptível, mas pungente o suficiente para se
sobrepor ao cheiro de fritura que permeava o ambiente.
— Você é o cara da garantia? Otis Redding da Silva? — Ela(s) perguntou(ram), enrolada(s) num
quimono rosa com motivos florais. Otis desviou o olhar da trinca de pernas alouradas e murmurou
um lacônico “sim, como o cantor”. Ela(s) deu(ram) de ombros. — Já era tempo. O brinquedo está
ali.
Ele a(s) seguiu através da cozinha, esquadrinhando cada detalhe do traseiro que se arrebitava por
baixo do tecido, e pensando em quantos roteiros de filmes pornô eram exatamente daquele jeito.
O brinquedo estava em pé no centro da sala, diante de uma janela/TV por onde entrava a luz
quente do dia lá fora. Um animatrônico educativo modelo Companheiro do Jovem Trabalhista, pouco
maior que um menino de seis anos. Afundado numa poltrona de napa, um garoto moreno, este de
carne e osso, observou atentamente Otis se agachar e checar o código de série M13TR2Y1 na parte
de trás da caixa torácica vermelha.
— O nome dele é Espagueto. — O garoto afirmou com voz anasalada. — Ele é meu amigo e posso
consertá-lo sozinho.
Otis sacudiu a cabeça, sem dar muita atenção. Bia+Trice sentou(aram)-se no braço da poltrona e
passou(aram) o braço em torno do pescoço fino do menino.
— Carmaicon Xenon adora esse robozinho. Foi presente do bosta do pai dele. O Vereador
Almeida ganhou um monte dessas porcarias e distribuiu entre os empregados. Sabe o Vereador
Almeida? O carola fanático sempre ocupado atacando a religião dos outros? Então. Meu ex-marido é
motorista dele.
— Hum. Parece que ele não anda bem do coração, né?
— Tem mais chips no corpo daquele velho que no meu Gooid.
Otis sorriu sem vontade e tentou tirar aquela(s) mulher(es) incrivelmente cheirosa(s) de seu
campo de visão antes que perdesse a concentração. O ex-marido devia ser mesmo um bosta para
batizar o filho com um nome daqueles.
Os Companheiros do Jovem Trabalhista, fontes de educação não-subversiva e ufanismo em forma
de aventureiros politicamente corretos para os meninos e bonequinhas virtuosas para as meninas,
vinham com um sorriso imperturbável estampado nos displays digitais que formavam seus rostos.
Otis logo notou a ausência do sorriso pré-programado; em seu lugar, o modelo exibia uma expressão
compenetrada, olhos fechados, boca como um risco fino. O animatrônico parecia estranhamente
mergulhado em si mesmo. Verificou o medidor da célula de lítio enriquecido. Alguma coisa parecia
errada.
— Há quanto tempo ele está assim?
— Desde ontem — Carmaicon Xenon fungou.
Otis plugou o Assistente Digital na base da nuca do brinquedo e acessou sua planta. A figura
mostrava, sobrepostas, todas as camadas de componentes da estrutura. Nenhuma peça exibia a
luminescência arroxeada que indicava mau funcionamento. O hardware estava aparentemente em
ordem. Porém, a própria companhia instruía seus funcionários a não confiarem inteiramente naquelas
indicações. Frequentemente estavam erradas.
— Qual foi o problema?
— Espagueto estava me mostrando vídeos de defesa pessoal. Eu chutei a barriga dele, um koshi
muito forte e, então, ele ficou parado. Perguntou bem assim: “Há uma nova atualização disponível
neste momento. Deseja executar Nirvana Upgrade?” A voz estava diferente da que eu escolhi para
ele.
— E você executou a atualização? — Otis perguntou.
Carmaicon Xenon olhou para a(s) mãe(s), como se não soubesse se devia ou não confessar alguma
coisa. Bia+Trice piscou(aram) para ele, quatro olhos pestanejando em sequência.
— Sim. — O menino murmurou.
— E depois?
— Ele ficou um tempão fazendo barulho. Quando terminou, ligou a TV e ficou assistindo o jornal.
Eu falava, mas ele não respondia.
— O mais estranho, — Bia+Trice acrescentou(aram), duas vozes articulando as mesmas palavras,
— é que o brinquedo estava vendo a cobertura da TV sobre a briga dos vereadores cristãos com os
Buda Comida. Quando acabou, ele simplesmente ficou aí parado igual a uma estátua, sei lá,
parecendo sentir uma grande tristeza.
O zumbido característico da retomada de funções se fez ouvir. Espagueto abriu os olhos.
Carmaicon Xenon teve um sobressalto de alegria, abortado no instante em que a voz do animatrônico
ecoou pela sala. Sem pausas, sem inflexões:
— Om mani padme hum.
Otis arqueou uma sobrancelha e coçou o queixo, onde se espalhava uma penugem espetadiça.
Ergueu o Assistente Digital e leu a primeira pergunta do teste de integridade lógica que aparecia na
tela:
— M13TR2Y1, iniciar, executar. Quem é você?
— Om tare tam soha.
Nem era preciso consultar o Assistente Digital para saber que aquela não era a resposta que se
devia esperar. Confuso, Otis conferiu mesmo assim: Companheiro do Jovem Trabalhista, código de
série M13TR2Y1, lote 113, nome fantasia (à escolha do cliente), Masbro S/A, todos os direitos
reservados.
Balançou a cabeça e passou à pergunta seguinte:
— Sua função?
— Om mani padme hum.
No Assistente Digital: brincar enquanto ensina, ensinar enquanto brinca.
Todas as perguntas tiveram respostas semelhantes.
O teste de integridade lógica era, na realidade, uma maneira de vasculhar as configurações dos
nanocristais que constituíam a unidade de processamento dos animatrônicos. Ao respondê-lo,
brinquedos mais complexos como Espagueto vomitavam no Assistente Digital um grande volume de
dados, que depois era organizado e analisado em busca de anomalias. Levou quatro ponto sete
segundos para o aparelho relatar um número de erros tão elevado que era inacreditável que aquele
Companheiro do Jovem Trabalhista ainda estivesse funcionando.
Otis preencheu um formulário eletrônico, anexou as leituras do teste de integridade lógica e
enviou para o computador de Sorridente Sérvio.
Na janela-TV, um programa de auditório debatia a influência de uma religião baseada em sexo
sobre as pobres crianças do país, pontilhadas por imagens de monges cantando hinos à revolução
sexual que começará quando o iluminado chegar.
— Quer tomar um café enquanto aguarda? — Bia+Trice perguntou(aram).
Otis pensou ter captado algo no sorriso duplo dela(s), talvez um laivo de languidez, e sentiu seu
ventre estremecer. Ah, o cheiro daquela(s) mulher(es). Que perfume era aquele que agia feito um
ferormônio e causava nele tamanho efeito? A mulher-dupla nem era tão bonita, no final das contas:
acima do peso, quase translúcida(s) de tão pálida(s), com veias delineadas discretas e adoráveis sob
a pele.
Aceitou o café, cultivando pensamentos doces sobre vaginas em dose dupla enquanto conversava
amenidades com Bia+Trice na porta da cozinha. Tentava descobrir qualquer abertura que permitisse
uma abordagem mais direta nas palavras dela(s) quando falava(m) do filho, do tempo, da Liga
Punarmtyu da Flecha-Flor ou do ex-marido. Em algum lugar no fundo dos pensamentos, podia ouvir a
voz ligeiramente trêmula de Sorridente Sérvio dizendo: não coma as clientes, é contra as normas da
empresa. Foda-se, respondeu ao chefe imaginário, e logo ele e as gêmeas siamesas se agarravam a
caminho do quarto, não sem antes o técnico assegurar a Carmaicon Xenon que era de extrema
importância que ele não desgrudasse os olhos de Espagueto e, acima de tudo, não saísse da sala sob
hipótese alguma.
Bia+Trice gemia(m) tão alto que Otis teve de lhe(s) tapar uma boca com beijos e a outra com a
mão direita. Não queria que o menino ouvisse os gemidos. Lá no fundo, sentia-se um tantinho culpado
por estar comendo a(s) mãe(s) dele em vez de consertar o brinquedo. Além disso, não conseguia
parar de comparar o entusiasmo dela(s) com o silêncio de plástico e circuitos integrados de
Rubistela. O corpo macio e ondulante da mulher-dupla com a dureza que o aguardava em casa. A
peruca loura. A boca pintada de batom por ele próprio, a submissão fria, seus golpes violentos na
boceta de silicone e circuitos, o plástico das pernas batendo contra o piso. Sua puta de silício. Seu
depósito de porra. Mano, grunhiu Otis, penetrando Bia+Trice com força cada vez maior, estou
pensando num robô. A(s) mulher(es) gemeu(ram) ainda mais alto e apertaram os lençóis com os
dedos brancos.
Otis rolou para o lado, arfando feito cachorro velho na cama desarrumada. Não conseguiu gozar,
estava comendo duas mulheres ao mesmo tempo, duas mulheres que chuparam seu pau e cuspiram no
seu pau e não conseguiu gozar. Estou pensando num robô. Achou ter ouvido o alerta do Assistente
Digital. Ergueu a cabeça. As mãos suadas de Bia+Trice enlaçaram suas costas estriadas e o
arrastaram de volta para baixo. Uma língua deslizou por seu pescoço enquanto outra língua
sussurrava coisas em seu ouvido. Ele se viu mergulhando outra vez entre as pernas dela(s),
alternando as investidas em cada sexo, a imagem de Rubistela indo e voltando em sua cabeça. Não
adiantava, não conseguiria ejacular e terminar aquilo. Já estava arrependido, sentindo seu membro
cada vez mais flácido golpear as fendas rosadas de Bia+Trice. Sentiu o rosto enrubescer de
vergonha, como se aqueles quatro olhos embaixo dele pudessem ver Rubistela refletida nos seus.
Foi com alívio que Otis ouviu Carmaicon Xenon gritar alguma coisa em tom de surpresa.
— Temos de ver o que houve.
— Não... — Bia+Trice gemeu(ram). — Agora não.
— Pode ser importante.
Otis se vestiu depressa e correu para a sala. Deparou-se com Espagueto sentado sobre as pernas
cruzadas, as mãos de dedos finos repousando espalmadas sobre o ventre, imagem que lhe trouxe à
mente os sujeitos carecas vestidos de laranja que apareciam nos noticiários vociferando coisas sobre
liberdade para foder e a inconstitucionalidade da ordem de despejo emitida pela Câmara de
Vereadores. Entoava seu mantra, misturando o arquivo vocal a um ruído baixo, porém constante, de
atividade elétrica. A luz que agora entrava pela janela-TV assumia padrões estranhos. Parecia banhar
com plenitude apenas o corpo do animatrônico e as partículas de poeira que flutuavam pela sala,
enquanto o espaço ao redor permanecia imerso numa penumbra que Otis só podia definir como
fantasmagórica. Era a mesma sala e a mesma luz de antes e, no entanto, algo parecia profundamente
modificado.
Ali perto, Carmaicon Xenon tremia, os cabelos escuros eriçados como se tivesse sido assaltado
por um medo profundo. Bia+Trice apareceu(ram) pouco depois, enrolada(s) no quimono florido, e
caminhou(aram) em direção ao filho assustado. Mal deu(ram) dois passos, gritou(ram) e se
encolheu(ram), cada pelo do corpo querendo saltar fora da pele.
Otis esticou o braço e sentiu uma pequena corrente elétrica percorrê-lo. Provavelmente, um campo
gerado pela célula de lítio defeituosa. Mais um incômodo que propriamente um perigo. Gente fresca,
ele pensou, conduzindo mãe(s) e filho para a cozinha.
— Que porra foi aquilo? Quero esse negócio fora da minha casa! — Bia+Trice esbravejou(aram),
sacudindo o menino confuso.
O garoto gaguejou algo, indeciso entre reclamar e chorar.
— A bateria está com defeito. Mas não se preocupe, não apresenta nenhum risco para a senhora e
seu filho.
— Pelo amor de Deus, aquilo está dando choque. Choque. Não quero a merda de um boneco, dado
pelo merda do meu ex-marido, dando choque na merda da minha sala. Conserta logo isso.
— Claro. — Otis se perguntou quantas vezes aquela(s) mulher(es) podia(am) usar a palavra
merda após um orgasmo. Nem era um choque tão forte assim, afinal. Era como tocar uma geladeira
velha, um pequeno susto, um cabelinho arrepiado e pronto.
Voltou à sala para pegar o Assistente Digital. Quando os cabelos se esticaram devagar, não pôde
evitar um sorriso. O choque que levou ao apanhar o aparelho na mesinha de centro, no entanto, foi
consideravelmente mais forte. Ainda assim, nada para se preocupar.
— Oh, legal. — Resmungou, ao constatar que o Assistente Digital se recusava a funcionar. Enfiou-
o no bolso e, num movimento inconsciente, tateou em busca do maço de cigarros. Duas horas sem
fumar, pareciam dois séculos. Foi até a cozinha. — Posso usar o seu Gooid?
— Nosso Gooid só tem voz, agora. Vídeo, só depois do dia 15. Ainda não pude pagar as contas
de multimídia.
— Tudo bem.
Sorridente Sérvio atendeu a ligação ainda boquiaberto com os relatórios que via na tela de sua
estação de trabalho.
— Recebeu minhas leituras, chefe?
— Recebi. Otis, o que está acontecendo com esse brinquedo?
— É o que quero saber. A célula de lítio dele está fodida, mas isso não explica esse boneco estar
praticando ioga na sala dos clientes. E ele meio que, ahn, ferrou com o Assistente Digital. Pode
colocar isso como despesa da empresa, não pode?
Sorridente Sérvio não ouviu, ou fingiu não ouvir:
— Está havendo uma flutuação incomum na unidade de processamento do animatrônico. Pensei
que isso pudesse estar relacionado a um conflito entre a personalidade pré-definida pelo cliente e o
banco de dados do boneco, mas não é isso. Otis, seu brinquedo está armazenando a última
atualização no sistema de identidade e criando novas conexões de nanocristais. O sistema
operacional dele não tem autonomia para isso.
— O cliente executou atualizações de um tal Nirvana Upgrade. Deve ser um vírus desses
muçulmanos tarados da televisão.
— Não são muçulmanos, Otis. E não há nenhum Nirvana Upgrade na nossa lista de órgãos
autorizados a disponibilizar atualizações. Tem alguma coisa grande aí.
— O que eu faço, então?
— Talvez o melhor seja trazê-lo para cá.
Aquilo já estava ficando diferente de um roteiro de filme pornô.
Carmaicon Xenon olhava para seu Espagueto, uma vontade louca de chorar atravessada na
garganta. Para Bia+Trice, apoiada(s) de costas contra o batente da porta, não valia a pena o filho
ficar triste por uma besteira com a qual o pai não gastara um único centavo. Ao ver(em) o menino
sofrer, sofria(m) também e isso significava continuar a ser(em) atingida(s) pelo filho da puta do ex-
marido.
Otis desligou o Gooid e se aproximou dos dois.
— Vou ter de levar o Macarronada.
— Espagueto. — Carmaicon Xenon corrigiu.
— Espagueto. O problema aparentemente exige a troca da unidade de processamento dele. E a
bateria também está se comportando de maneira esquisita, vamos ter que substituí-la. Ambos os
procedimentos só podem ser realizados na fábrica. Anime-se, rapazinho. Seu boneco vai ganhar um
cérebro e um coração novinhos em folha.
— O que vai acontecer com ele? — O menino indagou, apreensivo.
— Vai ser outro robô. Morre Espagueto, nasce outro Espagueto. — Otis abriu seu melhor sorriso,
sem perceber a dose maciça de aflição que as palavras “outro” e “morre” despejavam sobre o
garoto. As cabeças de Bia+Trice lhe lançaram um olhar de censura quando o filho começou a chorar.
— Desculpe, eu não queria...
Carmaicon Xenon disparou em direção à sala e abraçou Espagueto.
Dois rápidos clarões.
O menino gritou e desabou inerte sobre o tapete, o corpo cuspindo uma linha tênue de fumaça. A
lâmpada de um abajur estourou. O apartamento se encheu com um cheiro de circuitos queimados tão
intenso que varreu em definitivo o perfume lúbrico que as gêmeas praticamente enfiavam no sistema
nervoso de Otis. Ele viu a(s) mulher(es) contorcer(erem) os rostos num esgar de desespero e
incredulidade e se atirar(em) em direção ao filho. Otis simplesmente emudeceu, incapaz de qualquer
reação além de abrir a boca ao máximo para tentar puxar o oxigênio que parecia cada vez mais
rarefeito.
O primeiro pensamento a cortar seu cérebro feito um raio foi: cometi um erro. Logo esse
pensamento evanesceu. As pernas enfraqueceram como se tivessem corrido uma maratona, o
apartamento girou ao seu redor. Imiscuído nas bolhas de luz que espocavam nas vistas feridas pelo
clarão elétrico, pensou ter visto os contornos vagos de algo semelhante a um animal atravessar o ar e,
tal qual um fantasma, penetrar no corpo do Companheiro do Jovem Trabalhista. Neste instante, por
trás da imagem de Bia+Trice histérica(s) com Carmaicon Xenon nos braços, o brinquedo educativo
chamado Espagueto Despertou.
— Eu sou Maitreya & o Iluminado & o Aclarado & o quinto Buda desta Era agora que as relíquias
do Saquiamuni encontraram seu ocaso.
Um sinal foi enviado via rádio. Todos os brinquedos educativos da Rua Lasgasse — ursinhos,
blocos de montar, bonecos de peças intercambiáveis — interromperam suas atividades e se voltaram
em direção ao Bloco Dois, deixando crianças impacientes e pais confusos. Treze Companheiros do
Jovem Trabalhista deixaram suas casas e ganharam as ruas. Cambaleavam em direção ao fim da Rua
Lasgasse ao som do mantra eletrônico enviado junto com as novas do Despertar do Maitreya.
Sorridente Sérvio engasgou com o sanduíche de carne assada quando constatou que cento e
dezoito brinquedos educativos baixaram a atualização do Nirvana Upgrade após as unidades
originalmente doadas ao gabinete do Vereador Almeida tê-lo feito. Uma leitura mais completa nos
servidores principais da Masbro S/A revelou que, oculto nos arquivos, havia um software de
integração que praticamente transformava dezenas de brinquedos educativos numa entidade coletiva
rudimentar, cujas células de energia lentamente se convertiam em bombas de pulso eletromagnético
de baixa intensidade, potentes o bastante para causar paradas cardíacas e danificar pequenos
aparelhos eletrônicos. As modificações de hardware que um trabalho desses exigia constituíam fruto
de trabalho interno.
O supervisor berrou essas informações nos ouvidos de Otis quando este finalmente atendeu ao
Gooid da cozinha.
— Saia já daí, está ouvindo? Leve os clientes com você, isole o apartamento e aguarde a chegada
da Polícia Técnica. Afaste qualquer pessoa com componentes médicos eletrônicos e não permita que
ninguém toque nessa coisa.
Agora é tarde, pensou Otis. O garoto fora eletrocutado e a(s) mãe(s) estava(m) em estado de
choque. Um puta marketing negativo para a empresa, não restava dúvida.
— O que está acontecendo, chefe?
— Não sabemos ao certo. Vai levar algum tempo para descobrir. Apenas saia daí, por favor.
Foda-se.
Nunca ia conseguir tirar a visão do pobre guri da cabeça, ainda mais depois de ter comido a(s)
mãe(s) dele.
— Om mani padme hum — Espagueto/Maitreya disse, quando viu Otis se aproximar com um
banco alto de madeira. O primeiro golpe estourou o display de seu rosto. O segundo e o terceiro
destroçaram a capa de plástico que lhe revestia o tórax. Otis só parou de bater quando banco e
brinquedo se despedaçaram mutuamente.
Bia+Trice havia(m) gritado até perder(em) a(s) voz(es), e agora jazia(m) no chão soluçando, os
olhos vítreos perdidos no teto. Otis colocou o ouvido no peito de Carmaicon Xenon. Não podia ouvir
o coração do menino. Saiu em busca de socorro.
Desceu as escadas. Chegou à portaria.
— Preciso de ajuda. Aconteceu um acidente lá em cima.
O zelador não respondeu. Olhava assustado para a rua.
Otis atravessou a porta e engoliu em seco: treze brinquedos educativos da Masbro S/A
aguardavam em perfeita ordem nos degraus do lado de fora.
— Om mani padme hum. — Bradaram as treze vozes simultâneas, uma serena cacofonia de
timbres, tons e estilos.
Otis estremeceu.
Os brinquedos o cercaram. Ele correu até o meio da rua, tropeçou num boneco e se estatelou no
asfalto quente. Acabou rodeado pelos rostos digitais, carinhas felizes, aventureiros durões,
donzelinhas coloridas e passantes curiosos.
A cabeça azul e prateada de um Companheiro do Jovem Trabalhista apareceu diante dele, o olhar
comprido e austero de um príncipe. Por um instante, Otis pensou que fosse Espagueto,
milagrosamente revivido; depois sorriu, uma pontada de vergonha açulando seu cérebro cheio de
nuvens anfetamínicas: não estava diante um espírito sobrenatural, mas de uma tentativa bem mundana
de matar o calhorda do Vereador Almeida. Que deu errado quando o velho distribuiu entre seus
puxa-sacos os brinquedos especialmente preparados para anular seu coração cheio de chips. Uma
gargalhada convulsionou-lhe a boca do estômago. Dane-se o Vereador Almeida, dane-se os
muçulmanos tarados...
Estou apaixonado por um robô.
Enquanto a multidão de brinquedos armava as baterias defeituosas para uma série de novos pulsos
eletromagnéticos, Otis teve uma epifania: instalaria um módulo vocal em Rubistela, sua puta de
silício, sua amante de plástico, seu depósito de porra, para fazê-la gemer como nunca.
Sexo de água: uma mutação tentadora Valentina Silva Ferreira

Na rebeldia do seu temperamento tempestivo, Sabrina foi à loja e comprou um peixe: cinzento, do
tamanho de um indicador, com uma grande barbatana superior e os lábios carnudos que mais
pareciam dois inchaços provocados por uma doença visceral. Mas ela não conhecia nada de peixes e
se o dono da loja dissera que aquele era dos bons, ela acreditava. A mãe refilou e protestou contra
aquela compra mal intencionada, pois sabia que a filha, na flor da idade, naquela altura em que se
quer tudo e muito mais ainda, e depois não se consegue guardar nem a metade, porque ainda somos
pequenos para os excessos que queremos, iria cuidar do bicho durante uma semana, com muita
dedicação e afinco e, depois, com as idas à praia e à esplanada, com os acampamentos e festas e
namoros e os exames da faculdade, iria submeter o pobre peixe, que não pedira para ser comprado, a
uma tortura de fome e desprezo que culminaria no seu afogar nas próprias fezes.
— E depois sobra para mim! — Gritou da cozinha, com um frango numa mão e uma faca na outra,
numa tentativa de impor autoridade que apenas resultaria numa gargalhada da filha.
O peixe foi colocado numa terrina de vidro que, olhando bem, poderia servir de jarra ou de
saladeira. Sabrina coloriu o fundo com umas pedras cor de coral e uma plantinha artificial que
deveria imitar uma alga muito bonita. O peixe lá mergulhou nas águas da sua nova casinha e,
passados os primeiros instantes de averiguação, aproximou-se do vidro e encarou a jovem como que
lhe agradecendo por tão aconchegante aposento.
— Até logo, peixinho — Ela jogou um beijo no ar, sentindo-se incrivelmente ridícula por isso.
Felizmente, não havia ninguém presente.
Nessa noite, Sabrina chegou tarde, cambaleando nas pernas que tocavam nos pés, nos pés que
tocavam no chão e no chão que lhe assobiava com desejo. É que Sabrina, para além do sorriso de
bebedeira alucinada, trazia um vestido esvoaçante e o chão, que é macho, via-lhe nas calcinhas o
contorno da sua feminilidade.
— O chão assobia-me. — Falou, transtornada e aflita para chegar ao quarto. — Que disparate! —
Finalmente, conseguiu abrir a porta, acender a luz e encarar o interior do seu refúgio que é o mesmo
que dizer da sua infância que, por falta de tempo e vontade, ainda permanecia igual aos tempos de
nobre inocência.
Despiu a roupa, tropeçando nos seus movimentos lentos e sentiu o vento, que fazia amor com a
janela aberta, acariciar todo o seu corpo nu. Finalmente, derrotada pelo álcool que bailava um tango
qualquer na sua cabeça, escorregou para dentro dos lençóis e inalou o doce cheiro a lavado.
No aquário, o peixe nadava para lá e para cá, numa espécie de corrida contra a própria sombra:
batia com os beiços no vidro, virava o corpo, nadava, batia com os beiços no vidro, virava o corpo,
nadava, numa repetição monótona que é, no fundo, a vida de um peixe. No céu, rasgado pelo volutear
da cortina que dançava ao vento, estava desenhada uma lua gorda, quase obesa, excepcionalmente
cheia. De si desmaiavam raios que iluminavam a terra, que benziam corpos nus de namorados
escondidos numa mata, que alegravam um nascimento e beatificavam uma morte, que se afogavam nas
águas dos rios, dos mares, dos lagos e do aquário de Sabrina. O peixe seguia o seu ritual,
atravessando os riscos brilhantes que perfuravam o líquido aquoso. O cinzento brilhava ao toque da
lua, raiando como se fosse um metal precioso, libertando o cinzento para além do cinzento. O peixe
estacou a meio do seu pequeno mar, soltando uma bolha que se rompeu ao encontrar o horizonte, o
fim da água e o início do mundo feito de ar. No passar de um segundo, a lua intensificou seu banho de
raios e o peixe aumentou de tamanho. E foi aumentando à medida que um novo braço lunar alcançava
as águas até que, por fim, rebentou o aquário. O peixe escorregou para o mundo, em silêncio. Ouviu-
se apenas o tilintar dos vidros e o chicotear da água no chão, mas foi só por um instante. O ronco
alcoolizado de Sabrina preenchia o quarto, transformando todos os outros sons em meros habitantes
secundários.
Aflito de dor, o peixe sacudia as barbatanas, tentando encontrar qualquer coisa que corroesse
aquele aperto no peito, aquele desassossego de não conseguir respirar, mas de sugar para dentro de
si nada mais que um ar que não lhe convinha, que, pelo contrário, revelava-se cada vez mais
prejudicial. Mesmo nesse momento, o peixe pensou quão irônica era a vida, em que os peixes
morrem no mundo dos humanos e os humanos morrem no mundo dos peixes e, no entanto, vivem os
dois juntos, numa mescla de mundos. Fechando os olhos calmamente, com a sinfonia de Sabrina ao
fundo, o peixe sentiu que a morte chegava. Seu corpo grande, aumentando sabe-se lá como pela lua,
acalmou os tremores e temores e se deixou levar. Porém, se o peixe passara por tal mutação, não
fazia sentido ele morrer já. E foi disso que tratou a lua logo a seguir: intensificou o brilho, acariciou
as escamas úmidas e transformou o peixe. As barbatanas ganharam novos contornos,
metamorfoseando-se em duas pernas e dois braços. O corpo perdeu sua forma oval e achatada,
fazendo surgir um corpo masculino, bem torneado, mas, ainda assim, cinzento e escamoso. Ainda
carnuda, boca foi colocada num rosto atraente de olhos grandes e expressivos, totalmente pretos.
A criatura ficou completa, deitada no chão, tentando entender que espécie de morte fora aquela; se
tinha reencarnado instantaneamente. Mas não, ao olhar para seu corpo entendeu que continuava peixe
em toda a sua textura e cor. Não tinha nariz, apenas dois pequenos buraquinhos que mal se notavam.
As guelras ocupavam o lugar das orelhas. Não tinha qualquer pelo ou fio de cabelo. O homem-peixe
analisou suas mãos, completamente fascinado por seu tamanho e pela quantidade de coisas que
poderiam caber ali. Apalpou os pés, sentindo cada dedo, a sua curvatura e a segurança que eles
tinham em suportar todo aquele peso. Depois, pressionou a polpa de suas pernas, tentando perceber
que espécie de carne era, se tinha músculos, sangue e ossos, cobertos por escamas ou se, no seu
interior, continuava peixe. Finalmente, chegou ao desconhecido: ao cimo das pernas, entre a barriga e
as coxas, detectou a presença de um objeto estranho e flácido. Tocou-lhe levemente e notou que isso
lhe agradava. Sabrina tossiu e o homem-peixe despertou da sua descoberta corporal. Por debaixo do
lençol branco dormia uma versão feminina do seu corpo. Aproximou-se da cama e descobriu a
garota. Comparou os corpos, analisando cada centímetro da pele humana: eram parecidos, porém, ela
conseguia ser incrivelmente melhor. O homem-peixe reparou que o objeto estranho começava a
ganhar uma nova amplitude. Ele se erguia sem autorização, subindo em direção aos céus, apontando
para cima, por fim, uma superfície macia e redonda. Sabrina entreabriu os olhos lentamente.
— Oh céus! Primeiro o chão que assobia e agora um extraterrestre nu... — Girou o corpo, ficando
de costas para o homem-peixe.
Ele analisou o contorno da coluna dela, percorrendo com os olhos a maciez daquela pele cálida.
Instintivamente quis cheirar o corpo humano, conhecer os odores das suas cavidades e elevações.
Aproximou-se de Sabrina e começou pelo cabelo. Inalou os fios escuros e sentiu um leve cheiro de
mentol. Escorregou até ao pescoço e gostou do contato íntimo que isso lhe provocava. Sabrina
estremeceu e acordou. Virou-se com fúria, assustando o homem-peixe que, desabituado às
instabilidades humanas, não esperava que um corpo tranquilo ficasse, de repente, tão agitado.
— Quem és? — Indagou, analisando aquele corpo nu e cinzento.
A criatura que, até ali desconhecia a arte das palavras, tentou imitar a boca da garota e sussurrou
o que seria a tentativa de uma frase. No entanto, saíram sons estranhos e agudos que resultaram num
maior receio por parte de Sabrina.
— Sai já daqui. Não sei de que inferno saíste, mas vai já embora!
O homem-peixe permaneceu enterrado no chão, com os olhos gigantes colados naquelas duas
bolas hipnóticas que se moviam por cima da barriga da humana.
Sabrina reparou nisso e se calou. Encarou melhor o corpo do extraterrestre ou lá o que fosse
aquela coisa. Viu o corpo de um homem, deliciosamente trabalhado, com músculos nos lugares
certos, com braços fortes e pernas elegantes. Enrubesceu ao detectar a haste intumescida e dura,
quase como mármore, entre as pernas do homem de escamas. Sem saber o porquê, sua boca secou e
sentiu o baile ritmado que seu coração começava agora em seu peito. No baixo-ventre, uma minhoca
de prazer deslizou pelas suas concavidades, fazendo as veias palpitarem um sangue quente.
O homem-peixe notou que aquelas duas bolas de carne, extremamente atraentes, endureciam diante
dos seus olhos e teve um desejo incontrolável de lhes sentir o tecido. Cautelosamente, aproximou-se
da garota. Ela nem se moveu. Encostou o corpo ao dele e sentiu uma tontura abarcar a sua cabeça.
Sabrina respirou um ar doce, molhado. Sentia-se desidratar. Seu corpo retesava com a falta de água,
de líquido, de algo que saciasse aquela sede de prazer. Aproximou sua boca à dele e mergulhou a
língua naquele buraco cinzento. O homem-peixe correspondeu, embora só naquele momento
percebesse que tinha dentro da sua boca um objeto mole e esponjoso que, em contato com o da
mulher, provocava-lhe torvelinhos dum sentimento que não sabia distinguir.
Sabrina se deitou, puxando o corpo do humanoide para si, sem nunca descolar a boca da outra,
que a sugava e lambia em movimentos ritmados e loucos. Se depressa se conheciam, depressa
Sabrina percebeu que aquele ser, embora um pouco atrapalhado, era capaz de lhe proporcionar um
prazer maior do que qualquer homem que conhecera. Sentia-se fascinada por aquela textura macia e
úmida, pela forma como suas mãos escorregavam pelo corpo cinzento e pela volúpia com que ele a
percorria.
Sem explicações, a criatura percebeu que aquele seu objeto estranho era, nada mais, nada menos,
que a chave da fenda cor-de-rosa que a humana guardava entre as pernas e, por isso, calculou o
ângulo e abriu a porta, sentindo no seu corpo uma sensação de glória. Entendeu, nesse momento, que
o corpo humano está interligado por sentimentos. Seu objeto estranho, duro e descontrolado,
conhecia o interior de Sabrina e o humanoide sorriu. Seus olhos penetravam os da garota e ele era
capaz de dissecar, uma por uma, as sensações que ela sentia.
Da boca da garota, semiaberta, pendia a língua vermelha e inchada pelos beijos. Abaixo dos
contornos perigosos do queixo, do pescoço e dos ombros, estavam as montanhas do seu
desassossego, agitadas por aquela viagem por mares revoltos. Sabrina gemia num compasso ritmado
e, por aquela altura, os olhos encontravam-se colados à parede, como se ela estivesse a sucumbir
perante os deleites mortíferos do prazer. O homem-peixe calculou que ela estivesse a morrer, que sua
chave era demasiado grande para aquela gruta estreita e que ela estava sofrendo horrores. No
entanto, embora seu coração metade humano, metade peixe, já sentisse uma espécie de afeição por
aquela mulher, ele não parou, pois, se o fizesse , achou que também morreria. É que no vulcão quente
que era o seu instrumento sentia uma espécie de lava guardada, uma lava que precisava sair para que
a natureza seguisse seu curso e o mundo ficasse normal. E foi isso que aconteceu: por entre os
suspiros sensuais de Sabrina, o homem-peixe descobriu o auge da vida humana, libertando toda a sua
fúria para dentro da concavidade morna e molhada da garota que também parecia galgar a plenitude.
Tomado por um sentimento de dispersão, o homem-peixe se deitou na cama macia e, só aí, entendeu a
magnitude da vida humana. Suas veias latejavam um sangue que fervia, o corpo libertava um vapor
que se colava aos vidros, o objeto estranho voltava à sua forma normal e os olhos pesavam como se
fosse impossível mantê-los abertos por muito tempo. Ao seu lado, pensativa, Sabrina lutava contra as
contrariedades que se formavam em sua cabeça. Por fim, cada um a seu tempo, acabaram por
adormecer.

Ao amanhecer, o homem-peixe acordou com uma dor no peito, como se não conseguisse respirar.
Quanto mais inalava o oxigênio do mundo humano, maior aquela dor ficava, dilacerando seus
pulmões e queimando acidamente as paredes dos outros órgãos. Conhecia aquela sensação: era igual
à que sentiu quando o aquário quebrou e ele caiu ao chão. Sem perceber porque razão o seu corpo
quase humano, após tantas horas de sobrevivência naquele mundo, perecia pouco a pouco, o homem-
peixe se aproximou da janela e sentiu na pele os afagos do sol que começava a nascer. Sua pele
escamosa parecia manteiga com aquele contato e, sem grandes explicações, saltou pela janela e
correu em direção ao que os seus olhos viam e o seu corpo desejava. Chegou, por fim, ao lago azul
de águas profundas e inalou o cheiro característico a molhado, embora aquele cheiro trouxesse
consigo outros aromas que ele não conhecia.
De repente, sentiu-se cheio, a abarrotar, como se estivesse grávido de si próprio, como se levasse
no bucho todos os alimentos do mundo. Entrou dentro da água, acalmando o fervor da sua pele. As
pequenas ondinhas formadas pelo vento lambiam suas escamas e, quando mergulhou por completo, a
dor no peito passou, a sensação de enjoo desapareceu e seu corpo perdeu aquela forma humanoide.
Era peixe novamente e depressa percebeu que aquelas águas fundas eram demasiado grandes para
seu corpo minúsculo. Confuso pela sensação de perda, nadou até uma pedra coberta de lodo e se
enfiou no buraco que ela formava em contato com outra pedra. Infelizmente, não sentiu nada
semelhante ao que sentira naquele quarto, quando o objeto estranho perfurou as paredes macias da
mulher.

Sabrina abriu os olhos e enfrentou o quarto.


— Que sonho estranho! — Suspirou enquanto puxava o lençol para cima.
Reparou que estava nua e sentiu um dolorido diferente entre as pernas. A cama estava úmida como
se houvesse recebido um corpo molhado. No chão, jaziam os restos de um aquário partido e a água
começava a ser absorvida pelo tapete.
— Onde está o peixe?
Levantou-se, vestindo rapidamente a calcinha e uma camisola e procurou pelo ser minúsculo que
comprara no dia anterior.
— Céus, estou ficando louca. Provavelmente parti o aquário com a bebedeira de ontem.
Abriu a porta do quarto, correu até à cozinha e pegou um pano. De novo no quarto, secou os
vestígios de água, recolheu os cacos e procurou pelo peixe por todos os cantos.
— Que loucura. Como o peixe pôde desaparecer assim?
— Que procuras? — A mãe intrigou-se ao entrar e ver a filha de gatas.
— O peixe.
— O peixe? Já mataste o peixe? — Deu uma gargalhada e rematou. — Pensei que durasse mais
tempo. — E com isso fechou a porta.
Lá dentro, Sabrina procurava encaixar todas as peças do quebra-cabeça que, até ali, julgara ter
sido um sonho. Um homem cinzento. Escamas. Uma pele molhada. Aproximou o braço ao seu nariz e
cheirou: exalava um autêntico cheiro de peixe. Descontrolada, saiu do quarto e foi tomar banho.
Queria esquecer o que tinha acontecido naquela noite ou daria em louca.

Nesta noite, tranquilizado por aquela lua que brilhava lá em cima, o peixe saiu do buraco e boiou à
superfície da água. A lua, que não estava tão cheia como na véspera, mas que, ainda assim, parecia
um queijo redondo, equilibrou seus raios sobre o lago e procedeu à transformação que, sinceramente,
o peixe não esperava que ocorresse de novo. Viu, portanto, seu desejo concretizado. Já fora d’água,
procurou o caminho de volta para aquele quarto onde estava a mulher deliciosa que o apresentara às
artes do amor. Sorriu, subitamente, com os sarcasmos da vida: ela, que fora sua dona quando era um
peixe, seria agora sua escrava nos ofícios amorosos. Caminhou pelo chão de terra, mas, em pouco
tempo, sentiu-se perdido. Não reconhecia nada naquele mundo que não era o seu. Escondido nas
sombras da noite, viu, ao longe, a figura de uma mulher. Era diferente de Sabrina, mais velha
provavelmente, mas igualmente bonita. Os cabelos eram louros e os seios inusitadamente maiores. O
homem-peixe sentiu seu objeto estranho acordar. Sorriu para ele como que o cumprimentando e
correu até à mulher. Quando viu aquela figura sinistra, esta gritou desconsoladamente e desmaiou. O
homem-peixe se sentiu derrotado ao notar que seu membro se retesava cada vez mais diante daquela
forma feminina que se encontrava estendida no chão.
Farejando o ar como um macho à procura de uma fêmea no cio, o homem-peixe baixou o corpo e
encostou o rosto ao peito da senhora. Ela respirava, lentamente, mas respirava. Da sua pele exalava
um cheirinho de suor matizado de tabaco barato e sua boca, de um vermelho ordinário, permanecia
aberta formando um trejeito sensual. O homem-peixe desesperou perante esta visão e afundou as
mãos naqueles seios enormes que pendiam para o lado direito, conforme ela estava deitada.
Espremeu a carne mole e viu sua escrava desta noite acordar. Estranhamente, ela não esperneou. Era
como se o toque daquela criatura conseguisse hipnotizar qualquer mulher. Levada por uma
sensualidade súbita, a prostituta abriu as pernas e empurrou, com facilidade, o humanoide para
dentro de si. Ele se aconchegou naquela furna, embora achasse que a da noite anterior fosse mais
prazerosa. Sacudiram os corpos ao sabor da excitação e alcançaram a plenitude em pouco tempo. A
mulher gritou, como se o líquido do homem-peixe queimasse suas entranhas. Ele suspirou e tremeu
nos braços dela. No fim, ela se sentou na borda do passeio e examinou aquele corpo benfeito, mas
estranho.
— O que és? — Perguntou, como se fosse perfeitamente normal ter acabado de saciar um bicho do
outro mundo.
Ele não respondeu. Espreguiçava o corpo lavado de prazer. De repente, encarou a desconhecida e
correu para longe dela. Pensando ter extinguido sua fome de sexo, sentou-se no muro de uma rua nada
movimentada. Do outro lado, bem escondida por árvores frondosas, havia uma casa pequena. O
homem-peixe detectou a sombra de uma mulher que escovava os cabelos à janela, admirando a lua.
Aproximou-se da casa e deixou que ela o visse. Primeiro, ela levou as mãos à boca, deixando o
pente cair no chão com um baque surdo. Depois, fitou aquela criatura apetitosa e sorriu. O homem-
peixe sentiu sua fonte de prazer se erguer em direção a ela, apontando sua extremidade brilhante e
macia como o ponteiro de uma bússola. A garota pareceu corar perante a visão da masculinidade
saliente do extraterrestre. Sem entender bem o porquê, levantou a mão e o chamou. O homem-peixe
riu-se e subiu pela janela. Naquela noite, queria mergulhar em muitas águas diferentes.

Sabrina tomava o café da manhã na mesa da cozinha. Abriu o jornal e procurou alguma notícia
interessante. Umas letras gordas e chamativas exclamavam “Mulher dá à luz bebê-peixe”. Sentindo,
de repente, uma má disposição, levou as mãos à barriga de quase nove meses e sentiu o sangue fugir
das suas veias. Dentro de si, uma barbatana acariciou o útero e ela correu até ao banheiro para
vomitar os restos de um desjejum mal digerido.
Fêmea Humana Sid Castro

“A palmeira arrastada pela torrente impetuosa fugia... E sumiu-se no horizonte.”


O Guarani, José de Alencar

A imensa nave humana girava lentamente no espaço, à deriva. Afora seu formato longo e irregular,
com módulos cilíndricos e semiesféricos interligados por passarelas e dutos de energia, o que mais
chamava a atenção era uma excrescência estranha na popa, como se um grande escorpião negro
houvesse se aferrado à nave. Do invasor saíam esporões robóticos compridos, forçando passagem
para tubos de acoplagem através da estrutura do último módulo. Visivelmente danificados, os
propulsores se quedavam inoperantes. Nuvens de cristais de gelo e chamas azuladas abandonavam a
carcaça agredida da nave em explosões silenciosas. Com certeza não era uma abordagem amigável.

1 – Nave Humana

— A situação é crítica. — O robô recitou em tom impessoal. Tinha a estatura e conformação de um


terrestre normal, embora fosse totalmente metálico e recoberto de plástico macio, em tons de cinza e
branco, com conectores e a série de fabricação PR-I no peito. Seus olhos brilhavam em azul-neon,
num rosto inexpressivo, imitação vaga de um humano orgânico. Controlava dezenas de painéis ativos
com velocidade espantosa, enquanto desativava outros em circuito.
Na câmara de comando exígua da Amazônia, basicamente uma bolha metálica na proa da
espaçonave, a situação parecia caótica. Mas já estivera pior, no momento em que foram atacados.
Investigavam um S.O.S. no interior da Nebulosa de Cometas, na extremidade do Braço de Perseus,
quando foram atacados traiçoeiramente. Naves científicas não possuem armamento. As chances de
encontrar uma raça inteligente hostil na periferia galáctica eram ínfimas.
O robô destravou os cintos de segurança da poltrona em frente aos monitores do painel de
comando, que mostravam cenas externas nada animadoras da Nebulosa, borrada por gases e
destroços orbitando as naves em queda inercial. A gravidade artificial da Amazônia fora
restabelecida e os sistemas de manutenção estavam funcionando quase perfeitamente, a despeito do
estado aparente de emergência dos instrumentos.
— Diga alguma coisa que não sei, Peri. — Vinda da figura num traje pressurizado, a voz soou
abafada. A figura se levantou da poltrona. Apesar da vestimenta espacial desajeitada, pelo timbre
percebia-se que se tratava de uma mulher.
— Você é a única sobrevivente a bordo. — O robô respondeu calmamente. Afinal, para todos os
efeitos, ele não podia ser considerado um ser vivo. — Outra informação que ainda desconhece:
estamos sendo abordados por priapanos, vulgos “estupradores do espaço”.
— Isso me soou ainda pior do que “única sobrevivente”. — Ela desconectou os lacres do traje
espacial. Um chiado de ar escapou quando retirou o capacete, lembrando-a um tanto tardiamente de
algo importante. — Posso tirar essa coisa?
— Positivo. Isolei as áreas sinistradas da Amazônia e redirecionei energia e atmosfera para os
setores da nave ainda sob nosso controle. — O robô ajudou a moça a despir o restante do traje
espacial.
Era uma jovem atlética de beleza exótica, pelos padrões terrestres. A pele dourada brilhava de
suor e os grandes olhos violetas, quase redondos, giravam apreensivos à sua volta. Soltou os cabelos
presos sem maiores cuidados, deixando cair uma cascata de fios ondulantes em tons lilases e roxos
naturais. O uniforme rasgado, uma blusa do Corpo Científico Cósmico, ostentava num dos ombros
uma bandeirinha verde-amarela com desenhos lembrando raios e um cocar de penas coloridas. Na
altura dos seios, semidescobertos por um longo rasgo no uniforme chamuscado, lia-se “Cecília
Costa” em caracteres latinos da Terra.
— Estaria morta se não me obrigasse a vestir o traje, Peri. — Falou, usando o apelido tupaniano
que lhe dera, brincando com a especificação de seu modelo e pousando a mão com afeto sobre seu
ombro. Durante a longa jornada pelo espaço, o robô fora um companheiro quase constante. Peri não
demonstrou reação ao toque e continuou a manipular os controles. Com um suspiro, ela deixou-se
cair novamente na poltrona. É apenas uma máquina, sua imbecil. Não lhe deve agradecimento.
— Expectativa de sobrevivência da oficial de ciências ecoplanetárias Cecília Costa, robô. — Ela
ordenou. — Por favor, nos termos os mais leigos possíveis.
Nanossegundos de análises e buscas nos bancos de dados da nave depois, Peri disparou:
— Mínimas. A tripulação humana morreu durante as explosões ou a descompressão súbita dos
ambientes. Alguns tentaram contato com os alienígenas e foram mortos. S.O.S. enviado, mas o resgate
a tempo é impraticável sem comunicação hiperespacial. Suprimentos alimentares estão na área sob
domínio do invasor, junto ao setor das biosferas. Água, inclusive. Mas posso arranjar alguma para
seu consumo imediato extraindo dos subsistemas de refrigeração. Temos energia e oxigênio
suficientes, mas muito antes disso os priapanos romperão os lacres do módulo central e chegarão
até... Você está bem?
Cecília baixou a cabeça, a longa cabeleira entre as pernas. Respirou fundo e, erguendo os grandes
olhos marejados, respondeu:
— Desculpe, só preciso de tempo para processar todas essas informações e pensar no que fazer...
se houver algo a fazer.
— Continuando: uma vez sob poder dos invasores, suas chances de sobrevivência diminuem. Os
Estupradores do Espaço são conhecidos pela rudeza com que tratam as fêmeas de sua espécie ou as
alienígenas.
— Mas eles são criaturas... obviamente inteligentes, já que contam com tecnologia hiperespacial.
Qual a razão para nos atacarem?
— Fêmeas.
— Como assim, fêmeas? Você quer dizer como eu, mulheres?
— Fêmeas de qualquer espécie inteligente. Com o objetivo de intercurso sexual. Na estrita
interpretação humana, estupro. Objetivo: espalhar a “semente sagrada do macho priapano” pela
galáxia, uma vez que estão em processo de extinção em seu próprio planeta.
— Mas sou alienígena para eles! Como podem me ver como provável reprodutora? Somos tão
diferentes, genética e morfologicamente quanto um humano de uma... sei lá, uma begônia...
— Os priapanos são uma espécie sui generis. Apenas os machos geram filhos, machos ou fêmeas,
com carga genética completa, chamados espermóvulos. As fêmeas da espécie, quando não
descartadas, servem apenas como hospedeiras, incubadoras de suas crias depositadas após o coito,
quando tem tamanho e gordura suficiente para isso. O embrião macho cresce, nutrindo-se da fêmea,
durante um longo período de gestação, ao fim do qual elas morrem, e são completamente devoradas.
Não admira que sua espécie tenha as fêmeas em tão baixa conta. Elas não passam de comida para
bebês-parasitas.
A garota sentiu um arrepio de horror, apertando os braços contra o corpo.
— Eu me sinto... dentro de um daqueles filmes clássicos de alienígenas que estudávamos na
escola!
Peri ignorou o comentário e continuou:
— O resultado foi o desenvolvimento de uma civilização misógina, em que as fêmeas se tornaram
uma subespécie. Mesmo assim, os priapanos construíram uma civilização tecnológica, em estágio
protoespacial. No auge de sua cultura, houve um movimento até então impensável: uma revolta
planetária das fêmeas. Os machos reagiram de maneira brutal a essa contestação do que
consideravam a ordem natural das coisas: promoveram o genocídio das fêmeas. Obviamente, fêmeas
crescidas tornaram-se uma presa valiosa e motivo de inúmeros combates. Detalhe: os machos
priapanos são canibais. Quando disputam uma fêmea, o perdedor é literalmente devorado pelo
vencedor. Fêmeas animais, métodos artificiais e estupros de machos são considerados perversões
dignas de execração e execução, embora aconteçam. Não é preciso dizer que tal soma de fatos levou
a espécie dominante em Príapo, como o chamam os terrestres ou Rankorr, seu nome original, rumo à
extinção.
— Grande Tupã!... Fomos tão longe no espaço e ainda não vimos nada!
— Há alguns anos, uma missão de ajuda da Liga dos Mundos Centrais desceu no planeta. Foi uma
tragédia. Os rankorianos descobriram suas fêmeas, independentes e inteligentes, e atacaram. Assim
surgiram os “Estupradores do Espaço”. Como parasitas que são, os priapanos tomaram as fêmeas
dos visitantes e, após devorarem os machos, roubaram também sua tecnologia. Logo, tinham naves
estelares com acesso ao hiperespaço e partiram de Príapo, em busca de fêmeas alienígenas para
estupro. É preciso entender que, além da determinação genética fatalista, que gerou um código moral
próprio, o estupro é considerado um evento sagrado pela cultura rankoriana. Mesmo sexo com
alienígenas radicalmente diferentes enquanto espécie. Medo e submissão é a única forma de atração
sexual conhecida por eles.
— Mas não estão um tanto longe de Príapo? A Nebulosa dos Cometas é uma região erma e
desabitada, somente visitada por expedições científicas de diversas civilizações.
— Não há dados de incursões priapanas tão longe de seu sistema natal. Mas faz sentido. Onde
mais encontrariam fêmeas superiores para consumo de suas crias?
— Deve haver outras naves que possam nos ajudar nas proximidades da Nebulosa.
— Sem acesso ao hiperespaço, estamos isolados, apesar de possíveis milhares de naves há
poucos anos-luz. E os predadores estão aqui.
— Bem, prefiro me atirar nua no espaço a ser incubadora de alienígenas parasitas!
Um alerta no painel chamou a atenção de Peri.
— Estão sondando esta sala. Captaram e estão analisando suas emanações de calor. Como
máquina, eu passo despercebido, pois não podem nos ver. Travei as câmeras do setor.
— Podemos vê-los?
— É possível. Algumas câmeras externas ainda funcionam.
As imagens no monitor mudaram. Corredores escuros, focos de incêndio, destroços, chuviscos
digitais, salas vazias. Então alguns vultos começaram a tomar forma no setor em que as duas
espaçonaves estavam acopladas. Figuras grandes e atarracadas saiam das câmeras de
descompressão, entre nuvens de gás e destroços. Cecília achou que usavam armaduras, mas logo viu
que tinham o corpo encouraçado. Os priapanos lembravam um cruzamento bizarro entre répteis e
tatus terrestres. Algo mais chamou a atenção da jovem.
— Os priapanos... são trípodes?
— Não. São bípedes, como nós.
— Mas então aquele membro central...
— Não serve para locomoção. É um membro sexual em repouso.
Cecília soltou uma exclamação de horror.
— Em repouso!... Senhor dos Trovões! Vou ser destroçada se me pegarem!
— Não se preocupe. Na verdade, o membro sexual do macho priapano, quando em ereção, abre a
carapaça protetora e libera dezenas de tentáculos, com os quais vasculham cada orifício da fêmea
hospedeira.
— Ah, isto me tranquiliza muito!

O robô observava Cecília andando nervosamente de um lado para outro da câmara. Havia pouca
coisa que pudesse fazer para ajudá-la, quando os alienígenas entrassem. Mas a jovem não estava
disposta a aceitar seu destino. Foi uma decisão lógica escolhê-la entre todos para usar o único traje
na câmara.
— Não posso ficar esperando, Peri. Preciso planejar uma defesa. Preciso de armas!
— Essa é uma nave científica. Não temos armas.
— Armas brancas! Preciso de facas, machadinhas, qualquer coisa cortante e primitiva. Deve
haver um lugar onde possamos improvisá-las.
— Não temos instrumentos primitivos. Além disso, seriam inúteis contra os priapanos. São seres
coriáceos, habitantes de um planeta de gravidade muito mais elevada do que a de Tupã. São
atarracados e resistentes. Não vai detê-los com instrumentos cortantes. A não ser que fiquem
excitados e abram suas carapaças durante o ataque sexual.
Em vez de responder, Cecília correu na direção da escotilha estanque.
— Vamos ver os setores livres. Quero conhecer bem nosso território antes que consigam
arrombar as comportas do corredor central.
PR-I teria soltado um suspiro de impaciência se fosse humano, mas como robô seu dever era
obedecer e proteger os tripulantes. Mesmo que isso implicasse sua destruição.
A câmara de comando era ligada ao restante da Amazônia por uma série de longos corredores,
atravessando alojamentos e laboratórios. Ali também ficava o módulo central, que gerava energia e
gravidade artificial para toda a nave. Dali até o setor invadido, onde estavam o módulo de
suprimentos e as biosferas, Peri tinha o controle.
Nos corredores, o ar ainda cheirava queimado e os destroços se espalhavam pelo chão. Os
sistemas automáticos funcionaram bem, estabilizando gravidade artificial e pressão atmosférica após
a invasão, isolando módulos rompidos, imprescindível numa espaçonave tão grande e de tripulação
pequena. Logo se depararam com os primeiros corpos, presos entre destroços, no acesso aos
laboratórios. A jovem estancou, voltando o rosto para os ombros do robô. Num ambiente onde todos
se conheciam e conviviam há meses era difícil encontrá-los naquele estado.
— O que vai fazer? — Perguntou, ao ver o robô resgatando os corpos dentre os destroços.
— Levá-los à câmara criogênica. Cecília pensou em dizer algo, mas não era o momento.
Continuaram a explorar os compartimentos até os aposentos dos tripulantes. Como esperavam,
encontraram mais corpos, alguns irreconhecíveis. Peri recolheu todos e os levou à câmara
criogênica. Inclusive o cadáver da comandante da Amazônia, Adriana, sua proprietária. Peri a
cobriu, ocultando o estrago causado pela descompressão explosiva do ambiente. Cecília observou
como o robô, apesar de não demonstrar emoção, carregava a comandante com todo cuidado, como se
o corpo ainda pudesse reagir.
— Não. — Ela tiritava de frio na câmara criogênica. — Não vamos mais guardá-los aqui. Não
quero que os canibais os encontrem. Não podemos permitir.
Peri depositou o corpo ensacado de Adriana junto aos demais.
— Não era neles que eu estava pensando, ao manter congelados os corpos.
— Como assim?... — Indagou, já temendo a resposta.
— O estoque de mantimentos está na área dominada pelos invasores.
— Não... não posso sequer pensar nisso!
— Você é uma cientista. Tratam-se apenas de nutrientes e proteínas. Podem ser devidamente
tratados para garantir sua sobrevivência.
— Ejete os corpos no espaço! — Ela ordenou.
— Há casos históricos de astronautas perdidos no espaço que passaram por essa provação
extrema. — O robô ainda tentou argumentar. — Ninguém irá condená-la. É para seu bem.
— Estou lhe dando uma ordem direta, robô! — Cecília falou com a voz trêmula, nem tanto pelo
frio. Peri não podia saber, mas esse era um tema tabu entre os colonos de Tupã.
O robô apenas assentiu com a cabeça. Levou os corpos para a câmara de comando, ejetando-os
pelo tubo de descompressão para o vácuo frio do espaço interestelar.

2 – O Falo Rankoriano

Lutt, o Grande, ainda se vangloriava do estratagema brilhante com que capturara a nave humana. O
segundo cérebro, dedicado à razão, dominava sua conduta, como acontecia aos anciãos de seu povo
que logravam sobreviver à disputa por fêmeas. Já passara da fase em que deveria seguir os impulsos
do primeiro cérebro e semear ele próprio a Semente Sagrada no Universo. Em seu organismo, os
ritos milenares da raça e o instinto primal do macho rankoriano já não pulsavam tão fortes. Porém,
mesmo a razão se submetia à lógica machista de Príapo.
Um odor de carne crua, amônia e outros gases orgânicos dominava o interior da sala de comando
da nave que uma vez pertencera à Liga dos Mundos. Sentados no chão, entre restos de ossos
humanos, sete rankorianos aguardavam inquietos a palavra do ancião, aboletado calmamente em sua
poltrona, observando os instrumentos com olhos de predador, apoiado em sua espada cerimonial
cortante. Como maior reprodutor do seu planeta, passara os últimos anos absorvendo os
conhecimentos que lhe permitiram dominar a nave. Mais do que todos, Lutt estava convencido de que
sua jornada pelas estrelas seria a salvação da espécie, ante o fenecer das suas fêmeas e o ocaso dos
machos. Ouvira falar dos humanos, nos registros da Liga e a maneira como se espalhavam por
centenas de mundos da periferia galáctica. Podiam não ser tão fortes quanto um rankoriano — e ainda
por cima se deixavam dominar por suas fêmeas! — mas possuíam qualidades que deviam ser
absorvidas por suas crias, através da carne. Devoraram alguns humanos que se humilharam em busca
de paz. Apesar da carne macia, essas criaturas eram perigosas e sua ideologia antinatural. Haviam
vasculhado parte da nave humana, e afora alguns corpos destroçados, não encontraram despojos de
valor. Por isto voltaram à sua nave, aguardando as ordens do mestre.
Todos a bordo da Rankorrk n’Korr, o Falo Rankoriano, eram crias suas, com missão de
perpetuar periferia afora a Semente de Rankorr, pela glória maior do Grande Fodedor Universal, que
criou tudo estuprando a matéria original, fêmea da Criação. Esse pensamento religioso ajustou o foco
de suas obrigações.
— Os instrumentos localizaram uma única fêmea humana sobrevivente na nave. — Lutt, o Grande
encerrou enfim o silêncio. — Todos os machos estão mortos, mas ela aguarda indefesa e aterrorizada
nossa sagrada semente. Prepare-se, Kanyr. Rakkor! Korr!
— Comer! Foder! — Os priapanos repetiram em uníssono, erguendo os falos couraçados e
batendo com eles no chão sujo de sangue, esgoelando as bocarras.
— Comer! Foder!

3 – Ceci e Peri

Cecília deixou-se cair ao piso do laboratório, apoiando a cabeça entre as pernas cruzadas. Estava
muito deprimida após se despedir de seus amigos, mas não tinha fome nem sede.
O robô se sentou ao seu lado, projetando o braço em torno dela, permitindo que recostasse no seu
ombro. O tronco do robô era macio e cálido como o de um ser humano. Se fechasse os olhos, quase
poderia se deixar enganar pelo seu toque.
— Minha cobertura plástica pode emular a textura e temperatura corporal de um humano orgânico.
— Informou, ecoando seus pensamentos.
— Então é verdade o que diziam? — Ela perguntou, sobre uma fofoca que ouvida no refeitório. —
Que você era casado com a comandante?
— A Comandante Adriana era minha proprietária, sim. — PR-I respondeu de pronto. — Entre
outras atribuições, exercia atividades sociais e sexuais a seu serviço. Naturalmente, nessas ocasiões,
minha cobertura epidérmica era devidamente adaptada às necessidades e preferências dela.
Cecília sorriu, envolvendo os braços no tórax de Peri, com os olhos fechados. Era impressão sua
ou podia sentir a respiração dele, seu coração pulsando?
— Não quero parecer preconceituosa, mas em Tupã esse tipo de relacionamento não é muito
comum. Somos uma sociedade um tanto... primitiva.
— Milhões de pessoas na Terra são legalmente casadas com robôs e androides. — Peri
aconchegou Cecília em seus braços cada vez menos mecânicos. — Quem mais seria tão fiel,
cumpriria com perfeição todas as expectativas humanas exageradas, sem jamais se magoar ou ferir?
Que príncipe encantado seria mais perfeito do que um robô?
— Hum... admito que isto está tão bom...
Cecília manteve os olhos fechados e se deixou levar pela ilusão. Sua mão passou a deslizar pelo
corpo do robô, prazerosamente quente e vivo, macio e másculo. Podia sentir músculos contraindo-se
a seu toque, enquanto os dedos desciam pelo tórax sem encontrar conexão alguma ou qualquer parte
metálica aparente. Se fosse uma ilusão, queria continuar com ela. De repente, afastou-se e abriu os
olhos, intrigada, quando sua mão tocou algo que crescia sob o ventre do robô e que, definitivamente,
não deveria estar ali numa máquina.
A jovem arregalou os grandes olhos violetas e, quase sem acreditar, viu a pele plástica do robô se
transformando. Conexões e marcas haviam desaparecido, o corpo estava inteiramente recoberto por
um tom de pele levemente dourado, mais escuro que o dela, imitando a tez de um tupaniano
bronzeado pelo forte sol amarelo do planeta. Uma película recobrira seus olhos azul-neon,
substituindo-os por uma perfeita imitação de íris violeta, assim como pálpebras e cílios. Curtos
cabelos lilases escuros cobriam o crânio até então calvo do robô. Espantada, a jovem acariciou o
tórax largo, onde até mesmo uma cobertura de pelos arroxeados se arrepiava sob a carícia de suas
unhas.
— Você... deve ser um modelo muito caro! — Foi tudo que conseguiu dizer, tocando com
delicadeza hesitante o corpo do robô, agora tão humano. — Sua nova epiderme é... perfeita! Pele,
pelos, temperatura corporal, pulsação, cheiro humano e...
Seus olhos baixaram para o sexo ereto, que tomava formas cada vez mais reais, sobre um tufo de
pentelhos roxos.
— Não hesite em me usar, Cecília. — Peri pediu com uma voz longe de robótica, trazendo a mão
dela de volta para seu pênis. — Minha programação para o prazer está ativada.
Ela sentiu a pele quente, as veias pulsantes e o cheiro que não sentia desde que seu namorado a
trocara por uma emigrante marciana magrela, pouco antes de aceitar o emprego no Corpo Científico e
se aventurar em sua viagem pelo espaço na Amazônia.
Esquecendo toda inibição e o perigo do outro lado da nave, a garota puxou o robô humanizado
sobre si, deixando que ele a despisse dos restos de seu uniforme. Peri empregou boca, língua e dedos
para explorar o corpo de Cecília, arrancando gemidos e suspiros de prazer com cada movimento
habilidoso. Sua boca úmida sugou os mamilos da jovem, intumescidos e arroxeados, em contraste
com o tom mais pálido de sua pele. Sua boca foi subindo pelo pescoço dela, languidamente exposto,
fungando a pele arrepiada até chegar aos lábios densos da garota, que beijou com avidez.
Gemendo, Ceci enlaçou os quadris de Peri com as pernas torneadas, mal sentindo seu peso de
robô enquanto ele, com a elegância de um atleta de nado sincronizado, deslizava por cima e dentro
dela, num ritmo quase cronométrico.
— Cecília... — Ele sussurrou ao ouvido da amante. — Estou lhe dando prazer suficiente?
— Ceci... me chame de Ceci... — Ela murmurou entre um gemido e outro. — Sim... Não pare!
Não conseguiu falar mais nada, enquanto seu corpo todo mergulhava em orgasmos múltiplos. Os
melhores de sua vida.

Delicado, mas firme, Peri ergueu Ceci de seu peito, libertando-a de seu enlevo. A epiderme do robô
readquiriu o aspecto artificial de costume.
— Que houve? — Ela pareceu decepcionada com a interrupção inesperada. Imaginava quantos
anos de serviço no Corpo Científico teria de trabalhar para conseguir comprar um robô tão capaz e
habilidoso. Talvez tivesse de chegar a comandante, como Adriana.
— Alerta. Os priapanos romperam a escotilha do setor das biosferas. Logo estarão no módulo
central.
Sem perda de tempo, Cecília voltou à realidade e vestiu seu uniforme, correndo para a câmara,
seguindo o robô.
— Não podemos ficar trancados para sempre no comando, Peri. Temos de detê-los o quanto antes.
— Eles atacarão um por vez. Seria humilhante para seu orgulho de macho rankoriano se baterem
todos contra uma única fêmea.
O robô parou, olhando as máquinas do laboratório. Com sua força prodigiosa, arrancou lâminas
de processadores geológicos, dando-lhes o formato de estiletes cortantes.
— Isto serve como arma branca? — Indagou, entregando-os para a jovem.
— Pensei que tinha dito que são imunes com suas couraças.
— Há somente uma chance de atingir um priapano. Mas para isso, você terá que se expor um
bocado.
— Estou pronta para tudo. — Ela tomou os estiletes, determinada. — Menos para me entregar.

Kanyr entrou resoluto no corredor central que dava acesso ao centro energético da espaçonave
humana. Passou pelas biosferas, que não lhe interessavam. Algumas cúpulas rompidas tiveram seus
biomas destruídos pelo vácuo espacial. Mas para Kanyr, o que importava era que, mais adiante, o
corredor central levaria até a câmara de comando e à fêmea humana. Resolveria tudo rapidamente e
voltaria a Rankorr, onde sua cria nasceria. A nave capturada seria destruída sem deixar vestígios. O
prêmio seria todo dele, o primogênito de Lutt, o Grande. Caminhava lentamente pelo corredor
central, com apenas o tradutor universal da Liga dos Mundos no pescoço. E, claro, uma microcâmera,
com a qual o ancião acompanhava seus movimentos. Seu grande falo couraçado permanecia inerte
entre as pernas atarracadas, a mente alerta e focada em um único objetivo: a fêmea humana.

Cecília tomou posição no laboratório, a meio caminho do comando. Tensa, procurava controlar o
medo e a respiração, enquanto aguardava a chegada do invasor. Os cabelos longos estavam presos
num coque no alto da cabeça, e vestia apenas o uniforme rasgado do Corpo Científico. Tremeu um
pouco quando a escotilha do compartimento se abriu e as luzes do corredor recortaram a silhueta
monstruosa no portal. Ao ver a humana num canto, sozinha e encolhida, Kanyr sentiu seu medo e
avançou. A luz branca da sala revelou seu corpo coriáceo. A cabeça reptiliana, com grandes olhos
negros globulares parecia atracada no casco formado por placas marrom escuras, desgastadas em
inúmeros combates. Braços escamados verde-escuros compridos e musculosos, terminados em
garras farpadas saiam do tronco atarracado. O que mais impressionava era o enorme falo, recoberto
de placas retráteis, caído entre as duas pernas curtas. Kanyr olhou a fêmea humana e não gostou do
que viu.
— Tire essa pele artificial, fêmea humana!
Cecília ouviu o que lhe pareciam grunhidos incompreensíveis, até que o tradutor universal os
transformou em palavras compreensíveis. Hesitante, a jovem se despiu dos restos de seu uniforme,
lembrando-se do que lhe dissera Peri, que os rankorianos raramente usavam algum tipo de vestimenta
— jamais as fêmeas. Retirou a última peça de roupa, deixando cair as mãos tensas ao longo do
corpo, sentindo-se indefesa. Muito embora viesse de uma cultura acostumada à nudez, sentia-se
constrangida em obedecer ao alienígena. Mesmo sabendo que pudor não fazia sentido algum para ele.
Kanyr olhou para o corpo de Cecília, que se manteve rija ao seu escrutínio, retesando cada
músculo. A pele lisa de qualquer escama ou cartilagem da humana parecia repugnante ao alienígena,
que não desativara a parte do cérebro que possuía um mínimo de senso estético. Ao contrário dos
demais, Kanyr não deixava o cérebro primal dominar sua mente, pois acreditava que assim agia
menos por instinto e poderia aproveitar melhor o medo da presa.
— Poderoso Fodedor! Você parece um verme dos pântanos com essa carne lisa horrorosa exposta
desse jeito. — Rosnou, com asco. — Vamos acabar logo com isso!
Ceci respirou fundo e aguardou tensa pelo alienígena que se aproximava rosnando e mostrando os
dentes pontiagudos.
“Medo é seu prazer”, lembrou-se das palavras de Peri.
— Não tenho medo de você, rankoriano. — Provocou, falando pausadamente na direção do
aparelho. E ergueu os peitos em desafio, encarando o priapano, fazendo-o hesitar durante instantes.
Kanyr ativou enfim o cérebro primal e abriu a bocarra num urro assustador, como que para marcar o
resgate de sua fúria primitiva. Incontinenti, o membro fálico couraçado foi se erguendo ameaçador na
direção da jovem, retraindo suas cartilagens externas. Dezenas de longos tentáculos verde-escuros,
libertos, vibravam gosmentos na direção dela, alongando-se como serpentes vivas.
Cecília aproveitou o intervalo para levar os braços aos cabelos num gesto de suposta submissão,
enquanto os primeiros tentáculos enroscavam-se em suas pernas. Enfiou os dedos entre os cabelos,
desesperando-se ao sentir que um dos membros do rankoriano explorava a fenda de seu sexo.
Contendo o medo e mantendo a frieza, puxou dos cabelos os estiletes afiados como lâminas que Peri
improvisara, antes que seus braços fossem imobilizados. Cortou os tentáculos penianos num gesto
repentino, como fazia com cipós nas florestas de Tupã. Um jorro de gosma escura esguichou, e Kanyr
demorou a perceber que fora seriamente ferido. Soltando um urro bestial e agitando as garras, atirou
Cecília violentamente contra a parede metálica. A garota tentou se recuperar antes que o alienígena a
alcançasse, mas todo seu corpo doía.
Enlouquecido de fúria e dor, Kanyr recolheu sob a couraça os restos de seus tentáculos cortados.
Seus olhos injetados focaram a fêmea humana com o único pensamento de rasgar Ceci em pedaços.
Sabia que Lutt a tudo observava. A dor era menor que a vergonha.
Ainda zonza, Ceci procurou inutilmente os estiletes, mas sem o elemento surpresa estava
impotente contra a fúria do monstro. Porém, antes que ele se aproximasse, a parede repleta de
máquinas assumiu forma humana, saltando sobre o alienígena. O robô deteve com braços de torno o
alienígena, que tentava alcançar a humana inutilmente. A pressão do robô foi aumentando, até que os
órgãos internos do priapano ferido cederam e um jato de sangue verde e vísceras jorrou por seus
ferimentos.

— A maldita fêmea humana tem uma máquina, um sem-vida como macho. — Lutt, o Grande bradou
revoltado no Falo Rankoriano. Para o ancião, era inconcebível que uma fêmea qualquer, mesmo uma
humana, resistisse a um reprodutor. E fazer uso de uma máquina era completamente obsceno. Talvez
até deixasse a máquina fodê-la, pensou, enojado.
— Vou acabar com essa abominação! — Furioso, o líder esmurrou o monitor com os punhos,
recusando-se a ver a imagem da fêmea humana e do sem-vida a partir dos restos de seu filho
vencido. Saltou do pódio, a espada cerimonial cortando o ar e acertando tudo a sua volta num gesto
de pura ira. Seus filhos jamais o haviam visto tão alterado.
— Temos de agir em grupo. — Arfou, mais calmo. — Todos juntos pela honra do macho
rankoriano. Vamos destruir o sem-vida e submeter essa fêmea humana abominável!

Depois de destruir o tradutor e a câmera presos ao priapano, Peri arrastou o cadáver para a câmara
criogênica, deixando uma trilha de matéria orgânica. Sua programação não permitia tirar qualquer
tipo de vida, a menos que a segurança de um ser humano estivesse em risco, segundo as salvaguardas
asimovianas.
— Corra para o comando. Sabem que estou aqui e vão atacar juntos.
Refeita, a garota não se preocupou em se vestir novamente. Correu de volta à proa e entrou na
câmara de comando. Pouco depois, Cecília gritou inutilmente quando percebeu que Peri trancara as
escotilhas estanques da câmara por fora. Uma tela se acendeu no painel, em resposta aos seus
protestos.
— Resistirei o máximo possível para prolongar sua vida, Ceci. Não há mais nada que eu possa
fazer — O robô desligou antes que a garota pudesse emitir uma contraordem.
Cecília mexeu no painel de controle, tentando achar uma câmera que lhe mostrasse o outro lado da
escotilha do comando. A imagem mostrou Peri imóvel no corredor, aguardando os invasores.
Eles não tardaram a chegar, seis priapanos ferozes, armados com enormes brocas de fusão. Atrás
deles, sobressaía erguida a espada cerimonial do ancião. A um gesto dele, caíram sobre o robô feito
uma horda ensandecida, com as brocas ativadas. Cecília ligou a câmera oposta, e pôde ver o ataque
em imagens trêmulas, entrecortadas por safanões violentos. Viu os braços poderosos do robô
causarem estragos nos priapanos mais afoitos, enquanto os demais miravam suas brocas contra ele.
Horrorizou-se quando pedaços do robô voaram decepados diante na tela. Mesmo assim, Peri
continuou a lutar. Os microfones da câmera transmitiam o som entrecortado de urros assustadores e o
barulho intermitente das brocas furando metal, com nuvens de faíscas ocultando as imagens. Logo
percebeu, agoniada, que só restara o barulho contínuo das brocas cortando metal. Então, o silêncio. E
o grito de vitória enfático dos priapanos.
— Rakkor! Korr!
Novo silêncio. Soluçou ante a imagem de circuitos e membros do robô espalhados pelo piso sujo
de plasma de androide. Num canto, reconheceu a cabeça destroçada de Peri, completamente
desfigurada, o cérebro eletrônico rompendo a caixa craniana.
Ceci desviou os olhos da cena. Não pôde evitar as lágrimas.
Quando voltou o olhar para a tela, deparou-se com a carranca deformada de Lutt, o Grande
olhando para ela. Ele dizia alguma coisa. Um som de microfonia depois, suas palavras começaram a
fazer sentido, através do tradutor universal.
— Fêmea humana! Destruímos o módulo de suprimentos! Você não tem como sobreviver sem nós!
Abra a escotilha!
Cecília Costa recuperou o controle e enxugou as lágrimas. Precisava pensar rápido no que fazer.
— Fêmea humana! Prometo fodê-la eu próprio, se abrir a escotilha. É a maior honra que uma
fêmea pode receber!
Ceci não sabia se podiam vê-la, mas apontou o dedo maior para a tela num gesto universal
humano que priapano algum poderia entender.
Um impacto fortíssimo atingiu a escotilha. Pela câmera pôde ver que estavam concentrando todas
as brocas na superfície metálica. Demoraria algum tempo para romper as duas escotilhas estanques,
mas ela não pretendia esperar sentada até lá. Uma ideia desesperada lhe passou pela cabeça.
Vestiu o traje de astronauta que Peri a fizera usar durante o ataque. Lacrou o capacete e conferiu o
ar e a pressão interna nos mostradores do capacete. Só então olhou o tubo de descompressão, por
onde fizera o robô ejetar os cadáveres dos outros tripulantes. Examinou o mecanismo e viu que
poderia disparar a si mesma dentro do tubo. Foi o que fez. Como se disparada por um canhão
silencioso, Cecília viu-se flutuando no espaço rumo às estrelas que jamais alcançaria àquela
velocidade. Talvez chegasse junto aos corpos de seus amigos. Mas, ativando os retrofoguetes do
traje, deteve a inércia e retornou em direção à nave. A Amazônia flutuava, terrivelmente maculada,
com a excrescência negra da nave inimiga entre ela e a fabulosa cena da Nebulosa dos Cometas. Seu
coração doeu ao ver o estado da cúpula das biosferas. Cecília pretendia permanecer no espaço até o
esgotamento do ar no traje, mas mudou de ideia ao ver que uma única biosfera sobrevivera intacta
aos priapanos.
Redirecionando os jatos do traje, Cecília mergulhou rumo à biosfera.
Quando os priapanos conseguiram romper as escotilhas do comando, urraram de raiva ao
encontrar a câmara vazia. Lutt, o Grande, não conseguia entender como uma simples fêmea
conseguira escapar deles. Contudo, sua ira foi superada pela confusão. Somente três de seus filhos
sobreviveram ao combate com o sem-vida.

4 – Floresta no Espaço

Não foi difícil encontrar uma escotilha de manutenção externa na base da biosfera. Logo Cecília
estava novamente sentindo a gravidade artificial, no subsolo da biosfera. Calculava que os priapanos
demorariam um pouco até entender o que tinha acontecido, mas não tardariam a procurá-la pelo
espaço ou pela nave com seus sensores. Subiu pelas escadas de serviço até uma das escotilhas de
acesso à biosfera.
A escotilha da biosfera lacrou-se com um chiado atrás de Cecília Costa. Somente então ela ousou
despir o traje espacial. Sentiu o ar puro e úmido da floresta atingindo sua pele nua. O chão de terra
fofa recoberto por folhas e raízes de árvores tropicais, o vento soprando seus cabelos soltos, o
perfume selvagem inundando suas narinas. Cheiros da floresta tupaniana, de origem terrestre, com
tempero alienígena. Não havia lugar melhor para ela em toda Amazônia que este ambiente que
reproduzia uma pequena parcela do principal bioma de seu planeta natal e que era transportado para
estudo em outras colônias. Ceci correu pela floresta transplantada, razão de sua contratação pelo
Corpo Científico Cósmico, como ecologista planetária. Desde o início da colonização de Tupã
milênios atrás, a humanidade introduzira na biosfera nativa incipiente elementos da fauna e flora das
regiões tropicais da Terra, adaptando-as às condições climáticas e biológicas tupanianas. As
espécies implantadas mesclaram-se admiravelmente bem ao meio ambiente original daquele mundo,
inclusive, influindo na evolução dos próprios colonos.
Sempre que a saudade se abatia sobre ela, buscava refúgio nas matas nativas da biosfera. A
imensidão selvagem da pequena floresta era um porto seguro para a jovem tupaniana, cuja cultura
tinha a volta à natureza como rito de iniciação à vida adulta. Treinados para enfrentar e conviver com
o mundo primitivo, os jovens eram praticamente abandonados seminus nas florestas tropicais do
planeta, despidos de toda e qualquer tecnologia. Com base em seus conhecimentos e tradições,
deviam provar que eram dignos de seu mundo adotivo. Para Ceci não havia um ambiente
desconhecido e selvagem à sua frente, mas um refúgio natural acolhedor.
Preciso de água. Corria descalça pela mata espessa. Não há cursos d’água aqui, mas sei
exatamente como encontrá-la. Mas antes, a segurança.
Improvisou uma faca de pedra lascada e com ela, manufaturou uma itajy, uma machadinha de
pedra, usando um pedaço de pau seco amarrado com fibras vegetais. Devidamente armada, encontrou
o que precisava nas grandes árvores da floresta: cipós d’água. Um corte preciso com a faca de pedra
e deixou o líquido escorrer da planta para sua boca. Também havia frutas na floresta. Logo encontrou
buritis, caju, mamão e outras plantas nativas de Tupã. Retirou larvas comestíveis no tronco de uma
árvore e as devorou com prazer, lembrando-se da primeira vez em que vencera a repugnância.
Técnicas de sobrevivência aprendidas em sua adolescência em Tupã, como parte da preparação para
os rituais que lhe facultariam o ingresso na vida adulta de sua sociedade. Uma cultura que estabelecia
um contraste entre a civilização tecnológica que chegou pronta ao planeta primitivo e sua busca por
raízes ancestrais comuns que definissem sua identidade enquanto povo, e não apenas como
emigrantes da Terra. Isso fazia parte da essência de Cecília como tupaniana.
Não havia animais de grande porte na biosfera, devido a limitações de espaço, mas logo
encontrou vários formigueiros de tocandiras. Essas formigas eram diferentes de suas ancestrais
terrígenas; mais robustas, podiam mastigar a carne de um humano, nas cerimônias de iniciação, em
que jovens colocavam as mãos em cestos de palha trançada repletos delas. Mas a cerimônia fora
proibida quando a espécie terrígena se adaptou com rapidez espantosa à gravidade e clima de Tupã,
fazendo vítimas fatais. Tudo isso é história e ela não podia perder tempo. O inimigo logo viria ao seu
encalço.
Conhecia bem o interior da biosfera. Procurou o promontório rochoso que ocultava a caverna
onde tantas vezes se refugiara para meditar durante a viagem. Fez dela sua fortaleza e se preparou
para o combate. Devia aproveitar enquanto houvesse luz artificial na biosfera. Todo o treino que
tivera em sua juventude revelava sua validade, fazendo-a sentir-se fortalecida e independente.
Lembrava bem que madeira, fibras, sementes e raízes devia encontrar para sua sobrevivência. Com
seus artefatos da idade da pedra lascou galhos e moldou flechas, vergando um arco com a boa
madeira flexível do ipê amarelo. Com um pedaço robusto de pau-brasil improvisou uma borduna.
Trançou palha com habilidade e logo tinha esteiras com as quais poderia montar cumbucas ou cestos.
Não era para guardar alimentos, no entanto, que precisaria deles. Procurou os melhores pontos,
estratégicos, para disfarçar com cobertura de sapé e folhas, as armadilhas montadas com estacas
pontiagudas. Foi um trabalho exaustivo, mas que esperava completar antes que fosse localizada.
Quando as luzes começaram a enfraquecer, anunciando a chegada da “noite”, uma chuva fina caiu
sobre a floresta. Cansada, Ceci se deitou nua sobre a laje de pedra fria e deixou a água limpa lhe
acariciar o corpo. Era um prazer quase comparável ao toque de Peri, pequenos orgasmos
percorrendo seu corpo de alto a baixo, como choques elétricos suaves.
Flagrou-se culpada por sentir mais falta do robô do que seus amigos humanos. Mas todos estavam
mortos. E Peri? Um robô morre? Seu cérebro eletrônico podia ser revivido? Antes que as trevas
tomassem a biosfera por completo, quando a luminescência fosca da Nebulosa de Cometas e as
estrelas do Braço de Perseus luziam por entre as frestas da cúpula, Ceci friccionou alguns galhos,
iluminando a gruta com uma pequena fogueira. Serviu para aquecê-la, mas, sobretudo, para endurecer
as pontas das flechas, que banhou em curare, extraído do cipó Strychnos toxifera. Se teria efeito num
priapano era outra história. Não se preocupou com a fonte de calor. Com seus sensores, eles a
descobririam de qualquer forma. Mesmo sem a proteção de Peri, sentia-se mais preparada para a luta
do que nunca. Adormeceu sem medo nem pesadelos.
Antes que as primeiras luzes do dia surgissem no micromundo da biosfera, Ceci já estava de pé,
pintando a pele com o negro do carvão, o azul do jenipapo e o vermelho do urucum. A pintura de
guerra era uma tradição de Tupã, embora no seu planeta guerras tenham ocorrido apenas nas
florestas, como uma forma de revival tribalístico. E foram proibidas, assim como a antropofagia
entre inimigos, que chegou a acontecer e se tornou um tabu mantido em segredo das demais colônias
terrestres. O verdadeiro espírito de Tupã era simbolizado pelo domínio de um mundo selvagem, a
luta pela sobrevivência do ser humano despido de tecnologia e conforto.

Depois de horas de buscas infrutíferas no espaço e na nave humana, os priapanos entraram na


biosfera, para eles um jardim de verão insípido, em comparação com as florestas e pântanos
perigosos de Rankorr, onde monstros incomensuráveis conviviam em batalhas perpétuas. Kirrar
seguia à frente, o sensor tentando identificar o calor característico da fêmea humana. Mas esse se
diluía dentre tantos focos de vida, espalhados por aquele bioma encapsulado. Não sabiam onde
procurar.
Um sentimento estranho incomodava o alienígena. Aquela fêmea humana era cheia de truques,
perigosa. Mantinha-se sempre um passo à frente dos priapanos. Na verdade, ela estava acima. Segura
entre os cipós na copa das árvores, Ceci observava que os inimigos resolveram separar-se para
cobrir melhor todo o território da biosfera.
Sozinho, Kirrar tomou um susto quando viu a fêmea humana dependurada naquelas plantas-
trepadeiras, como uma predadora em sua teia. Parecia que o esperava. Sentiu um arrepio de medo,
coisa indigna para um macho. Só havia uma atitude concebível: atacar. De repente, Kirrar pisou em
falso e viu galhos pontiagudos disparando em sua direção, quebrando-se como palitos em sua
couraça ou arrancando escamas de seus braços e rosto. A maldita fêmea humana o fizera cair numa
armadilha!
Ofendido, Kirrar usou as garras para se livrar das estacas e galhos que tentaram empalá-lo. Do
alto dos cipós, Ceci disparava flechas, mas a maioria ricocheteava no rankoriano.
— Kirrar desafia a fêmea humana! — O alienígena bradou impotente, envergonhando-se em
seguida do seu repto. Jamais um macho rankoriano desafiara uma fêmea de igual para igual.
Mas a jovem aceitou o desafio e deslizou pelos cipós, postando-se de pé numa clareira. Deixara
de lado o arco e a machadinha, tendo apenas a borduna nas mãos. Improvisara nos cabelos um
pequeno cocar de penas coloridas que os pássaros da biosfera perderam mata adentro. Com a pintura
que marcava seu corpo nu, dourado e lilás, fazia um magnífico contraste de cores, curvas suaves e
músculos femininos delineados em belas formas. Pelo menos para um humano.
Kirrar tentou se livrar das estacas e avançou novamente sobre ela, que não se esquivou enquanto
gritava:
— Sempre quis usar uma borduna! — O tacape zuniu pelos ares num golpe circular que terminou
na cabeça reptiliana do alienígena, estourando seus globos oculares em um, dois golpes certeiros.
Ceci soltou um brado de guerra tupinambá que aprendera nos retiros florestais de Tupã, mas que mal
pudera ser ouvido, abafado pelos berros de Kirrar. Cego, o priapano sentiu o chão ceder sobre seus
pés. Outra armadilha! A vegetação ocultava uma depressão repleta de mais estacas pontiagudas
untadas de curare. A maioria quebrou sob o peso do alienígena, mas outras penetraram nas frestas de
sua couraça, deixando-o entalado.
Não era o suficiente para matar um rankoriano, mas o curare concentrado começou a fazer efeito.
Estava semiparalisado. Ceci sabia que seus berros atrairiam os outros. Contava com isso.

Vindo de lados opostos da biosfera, Kuv e Rrikorrk ignoraram solenemente o derrotado Kirrar,
aprisionado na depressão. Ceci correu à sua frente pela floresta, deixando-se ver tempo suficiente
para que a seguissem entre as árvores até a entrada da gruta. Em saltos elegantes, ajudada pelo
impulso extra fornecido pela gravidade terrestre, menor que a tupaniana, a jovem pulou sobre o
promontório que encimava a caverna, escondendo-se entre os rochedos.
Os priapanos entraram na cavidade que lhe servira de lar.
— Onde está a fêmea humana? — Kuv gritou, revirando as cumbucas de palha trançada
espalhadas pela gruta. — Apareça e lute... como um macho!
— O que tem nestas coisas? — Rrikorrk perguntou, rasgando uma das cumbucas.
Os alienígenas olharam espantados as tocandiras em seu interior. Os insetos logo se espalharam
pelos braços dos alienígenas, que os esmagavam sem piedade. — Bichinhos?
As formigas tupanianas entraram sob as carapaças dos priapanos, que a princípio, sentiam apenas
uma coceira incômoda. Por mais que matassem as tocandiras, elas apareciam às centenas. Picando,
aferroando, penetrando sob os cascos, onde os alienígenas não podiam alcançá-las.
Que bom que a gravidade artificial da Amazônia é igual à da Terra. Ceci empregou a borduna
como alavanca para mover um grupo de rochas sobre o promontório. Como a gravidade de Tupã é
maior, sou mais forte aqui.
Mais um esforço e as pedras provocaram uma pequena avalanche, soterrando a entrada da gruta.
Ceci desceu, cansada, recostando-se sobre as rochas que bloqueavam a caverna. Ela podia ouvir
os gritos dos priapanos, sendo devorados vivos por dentro de suas carapaças.
Falta um.

5 – A Queda do Macho

Lutt, o Grande, não podia acreditar em seu destino. Onde estava o Grande Fodedor Universal para
deixar as coisas acontecerem assim? Não aguardou o resultado da batalha na biosfera. Recuou como
jamais pensou que faria diante de uma fêmea. Buscou refúgio no Falo Rankoriano, meditando sobre
sua desgraça. Não poderia voltar ao seu planeta sem sua honra.
Tomou enfim a decisão de travar o sistema de autodestruição da nave. Se derrotado, levaria
consigo qualquer prova. Ninguém saberia. Seu nome continuaria lendário. Mas ainda havia uma conta
a pagar, uma vingança a completar.
Não precisou aguardar muito. Como esperava, a fêmea humana apareceu, aquela criatura
abominável, desprovida de escamas e honra, que ousara afrontar a ordem natural das coisas.
Ela saltou do duto de acoplagem para o interior do covil de comando com as armas primitivas em
riste.
Ceci estacou, a respiração suspensa com as luzes de emergência avisando na língua dos Mundos
Centrais da destruição iminente da nave. Não entendia os caracteres nas telas, mas sabia que não lhe
restava muito tempo.
— Veio para o grande fim, fêmea humana. — Lutt ergueu a espada sagrada de Rankorr.
— Não sou uma fêmea humana! — Ceci gritou, a pele dourada e suada ressaltando a pintura de
guerra em negro, azul e vermelho, pronta para o combate. — Sou uma cidadã de Tupã!
Antes que a tupaniana erguesse a itajy, Lutt transpassou a espada cerimonial sob a própria cabeça
atarracada, deixando o corpanzil cair jorrando sangue verde.
Atônita, Ceci recuou para o duto. Correu de volta pela passagem, enquanto sentia o duto se
retraindo, pressão escapando da nave que se afastava. Conseguiu se trancar na câmara estanque, por
pouco não ficando presa no acoplador.
Sentiu um abalo na estrutura da nave humana, quando dezenas de pequenas explosões sacudiram o
veículo alienígena. O impacto afastou um pouco a nave invasora, que se despedaçou a poucas
centenas de metros de distância. Pelas vigias, chegou a ver a explosão que pouco depois destruiu o
Falo Rankoriano. A Amazônia girou sobre seu próprio eixo com o impacto, mas graças a seu sistema
de módulos estanques, resistiu para continuar sua jornada sem destino no espaço.

Ceci sentou-se à sombra de uma palmeira em sua floresta sagrada, uma pequena bolha verde num
resto de espaçonave flutuando à deriva no espaço. Enquanto houvesse um resto de energia e
atmosfera, a Amazônia vagaria perdida no vazio. A seu lado, a cabeça esturricada de Peri era sua
única companhia, fora alguns pássaros, tocandiras e outros pequenos animais. A unidade de memória
do cérebro eletrônico do robô estava intacta. Se algum dia fosse resgatada, Ceci talvez pudesse
recuperar Peri num novo corpo robótico, adquirido com a indenização que ganharia do Corpo
Científico Cósmico. Até lá, a mensagem de S.O.S. que ele enviara atravessaria anos-luz de espaço
até que a expedição de mundos civilizados mais próxima a captasse na Nebulosa dos Cometas. Era
sua única esperança, antes que a energia e o ar se acabassem. Enquanto isso, tinha uma pequena
floresta para abrigá-la e uma câmara criogênica cheia de carne alienígena para se alimentar. Afinal,
honraria o tabu de seu povo ao devorar o inimigo.
Os donos das fantasias

Camila Fernandes
É escritora, preparadora e revisora de textos, enquanto seu alter ego, Mila F., é ilustradora. Nascida
e residente em São Paulo – SP, é autora de Reino das Névoas – Contos de Fadas para Adultos
(2012). Tem contos publicados em Necrópole – Histórias de Vampiros (2005), Necrópole –
Histórias de Fantasmas (2006), Visões de São Paulo – Ensaios Urbanos (2006), Necrópole –
Histórias de Bruxaria (2008), Paradigmas – volumes I, II e III (2009), Extraneus II – Quase
Inocentes (2011), A Fantástica Literatura Queer – Vermelho (2011) e Paradigmas
Definitivos (2012). BLOG www.camilafernandes.wordpress.com
Erick Santos Cardoso
É desenhista de coração e editor de profissão. Mestre em comunicação, amante da cultura pop em
todas as suas vertentes. Tem na Editora Draco o seu projeto para produção e desenvolvimento da
literatura de entretenimento nacional. TWITTER @ericksama
Felipe Castilho
é paulistano, sagitariano e não acredita em horóscopos. Apenas acha que centauros são bacanas, e
por isso faz questão de reforçar seu signo. Autor do livro Ouro, Fogo & Megabytes (2012), também
publicou em diversas antologias de fantasia, terror e ficção científica. Era virgem de contos eróticos,
até então. TWITTER @felcastilho
Estevan Lutz
Além de arquitetar mundos paralelos e futurísticos, Estevan Lutz também é projetista elétrico
industrial. Em 2010, lançou o romance cyberpunk (ou, psychopunk) O Voo de Icarus – Até onde
nossa mente pode nos levar?. Já participou de várias antologias da literatura fantástica nacional.
Adora ler e reler temas ousados e especulativos da ciência que quase ninguém suportaria ler. No
momento, está planejando a 3° Guerra Mundial (em livro).
Rubem Cabral
carioca, engenheiro de sistemas, autor de contos de temática fantástica. A surpresa e o inusitado,
além do abuso sinestésico, são suas características marcantes ao escrever.
Ana Cristina Rodrigues
é escritora, historiadora e mãe, não necessariamente nessa ordem. Vive em Niterói, com o marido, o
filho e um número sempre flutuante de animais diversos. Geralmente escreve fantasia histórica, mas
também se aventura pela fantasia urbana, ficção científica e terror. É autora da antologia de contos
curtos AnaCrônicas e organizou as coletâneas Espelhos Irreais (2009), O melhor do Desafio
Operário (2009), Bestiário (2012), além de ter sido editora da Llyr Editorial. Tem contos
publicados em várias coletâneas e sites no Brasil e no exterior.
Antonio Luiz M. C. Costa
formou-se em engenharia de produção e filosofia, fez pós-graduação em economia e trabalhou como
analista de investimentos e assessor econômico-financeiro antes de reencontrar sua vocação na
escrita, no jornalismo e na ficção. Hoje escreve sobre a realidade na revista CartaCapital e sobre a
imaginação em outras partes. É autor da antologia Eclipse ao pôr do sol e outros contos
fantásticos (2010) e do romance Crônicas de Atlântida: o Tabuleiro dos Deuses (2011).
Adriana Simon
Paulistana, participou das antologias de ficção científica OutrasCopas, Outros
Mundos (1998), Phantastica Brasiliana (2000) e Como era Gostosa a Minha Alienígena (2002).
Teve contos publicados, ainda, em revistas e fanzines do Brasil, Portugal, Argentina, Grécia,
Alemanha, Estados Unidos e Inglaterra. É formada em Engenharia de Produção e Mecânica e
atualmente mora em Miami Beach, Estados Unidos, pertencendo à diretoria de uma companhia do
setor aeronáutico. SITE adrianasimon.tripod.com
Filipe Cunha e Costa
Natural de Lisboa, Portugal, nasceu a 14 de Outubro de 1987. Escritor nas horas vagas, foi vencedor,
a título de menção honrosa, da 10ª Edição do concurso literário Dar Voz à Poesia (2006) com o
poema Os Dias, publicado na IV Colectânea Dar Voz à Poesia, lançada em 2009 pela Câmara
Municipal de Ovar. É ainda o autor do romance O Templo dos Três Criadores (2012), o primeiro
livro da saga de fantasia Crónicas de Lusomel.
Daniel I. Dutra
é natural de Pelotas – RS. É formado em Letras (UCPEL) e Mestre em Literatura Comparada
(UFRGS). Sua Dissertação de Mestrado deu origem ao livro Literatura de ficção-científica no
cinema: A Máquina do Tempo – do livro ao filme (2010), um estudo sobre a obra de H.G. Wells. Na
ficção participou da antologia Deus Ex-Machina – Anjos e Demônios na Era do Vapor (2011) com
o conto “A máquina dos sonhos” e com o conto “Gary Johnson” na antologia Solarpunk a ser lançado
pela editora Draco.
Sandra Pinto
Nascida em Portugal na cidade de Aveiro, em 1972. Depois do nascimento de seu segundo filho,
passou a ter mais tempo para ler. Sempre gostou de vampiros e lobisomens, adorava ler essas
histórias.
Lidia Zuin
é jornalista e mestranda em semiótica pela PUC-SP. Autora das monografias Wired Protocol 7: Um
Estudo sobre Serial Experiments Lain e a Alucinação Consensual do Ciberespaço (2009) e Kunst
ist Krieg: Música Industrial e Discurso Belicista (2011). Publicou contos pela editora Draco nos
livros Imaginários v.3, Meu Amor é um Anjo e Space Opera II, e no Steampink, pela editora
Estronho. Participou da primeira edição da revista Vapor Marginal e organizou o
evento Science›n›Fiction (2010).
Gerson Lodi-Ribeiro
Autor de FC e história alternativa. Autor da noveleta clássica “A Ética da Traição”. Além de quatro
coletâneas de contos, publicou os romances Xochiquetzal: uma Princesa Asteca entre os
Incas (2009); A Guardiã da Memória (2011) e Aventuras do Vampiro de Palmares (previsto para
2012). Como antologista, coordenou a “triantologia” Vaporpunk (2010), Dieselpunk (2011) e
Solarpunk (2012), bem como as clássicas Phantastica Brasiliana e Como Era Gostosa a Minha
Alienígena!. É o responsável pela coleção Erótica Fantástica da Draco.
Cirilo S. Lemos
nasceu em Nova Iguaçu, Baixada Fluminense, em 1982, nove anos antes do antológico Ten, do Pearl
Jam. Foi ajudante de marceneiro, de pedreiro, de sorveteiro, de marmorista, de astronauta. Fritou
hambúrgueres, vendeu flores, criou peixes briguentos, estudou História. Desde então se dedica a
escrever, dar aulas e preparar os filhos para a inevitável rebelião das máquinas. Gosta
de sonhos horríveis, realidades previsíveis, fotos de família e ukuleles. Publicou em Imaginários
v. 3 (2010), Dieselpunk (2011), Sherlock Holmes: Aventuras Secretas (2012). É autor do romance
O Alienado (2012). TWITTER @CiriloSL.
Valentina Silva Ferreira
Mestre em Ciências Jurídico-Criminais. Começou na Revista Magazon. Autora de Distúrbio e A
Morte é uma Serial Killer (2012). Participa em mais de vinte antologias. Ficou em terceiro lugar no
25º Concurso Internacional de Contos Cidade Araçatuba e foi agraciada com menção honrosa no IX
Concurso Literário Castilho e no I Concurso Internacional de Contos Vicente Cardoso. Colaboradora
da Infektion Magazine e da Comunidade Literária Benfazeja. Escreve mensalmente para a
Revista JA
Sid Castro
Escritor e quadrinista, natural de Catanduva (SP). Colabora com a lendária revista de terror nacional
Calafrio e tem contos publicados nos livros Território V, Contos Imediatos, Portal 2001, Portal
Fahrenheit, Dieselpunk, A Batalha dos Deuses, Brinquedos Mortais, SOS – A Maldição do
Titanic e Terrir: Zumbis (HQ). TWITTER @sidemar SITE libernauta.wordpres.com