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658 PARTE IV Cap.

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para a missa e almoço. Um cego, Miquele Menichino Brancia, vem implorar sua
bênção. Ele a dá e o cego passa a ver.

O acolhimento em Nocera é triunfal. Clero, nobres e o povo em peso puseram-se


em movimento."Glória ao Pai... Como se tomou leve a minha cruz!" São suas primei
ras palavras. Depois, prostemando-se diante do SS. Sacramento:"Meu Deus! obri
gado por ter-me livrado de tão grande fardo! Meu Jesus, eu não agüentava mais!"
Essas palavras, ouvidas por seus vizinhos mais chegados, perdeu-se no jubiloso Te
Deum entoado pela comimidade.

NOTA
QUINTA PARTE
1. C£ SH9(1961),pp.384-385;Tannoia,m,pp.231-232;TeUeria,n.pp.154-155. VerzeUae Tannola afirmam "Para onde não queres...
>>

que o pequeno deftmto era Afonso Maria,cqjo prenome tomava mais plausível o equívoco. Mas os registros (1775-1787)
paroquiais de Marianella indicam a morte de seu irmão Carlos.
2.Para essas citações de Afonso e para as seguintes, c£ SH 6 (1958), pp. 65ss., e seu contexto das Lettere.
Sobre a doença de Afonso, ver todo esse fascículo e ainda SH 12 (1964), pp. 209-213 e 9 (1961). pp. 424-427;
Tannoia, n, pp. 212-221,228-234; TeUeria, U, pp. 249-263.
3.8. Afonso, Lettere, m,pp. 350-351.
4.SH 9(1961), p. 383(29); cf. p. 413(172).
5. Relatórios à S. C. do Concilio: S. Afonso, Lettere, m,pp. 632 e 643; SH 17 (1969), pp- 206-214.
6. Citado por Tannoia, n, p. 234.
7. S. Afonso, Lettere, H, pp. 128-129.
8. Tannoia, n, p. 263.
9. Sammariam, pp. 593-594.
10. SH,29 (1961), pp. 410-411.
11. Tannoia, n, p. 336 e, para a seqüência, 337,338,170, 312, 309.
12. S. Afonso, Lettere, H, pp. 325-326.
13. SH 29(1977), pp. 313-314.
14. Ibid., pp. 314-316.
15. Para essa citação e seguintes: S. Afonso, lettere, m,pp. 427-428, 446, 460, 466.
16. J. Angot des Rotours, St. Alpbonse de LiguorL p. 118, nota.
17. Para esse episódio e suas citações: Taimoía, n, pp. 281ss.
18. J. Crétineau-Joly,Clément XIV et les jésuites, Liège,1847, p. 286; Cf. Catholicisme,II, col.64; SH 18
(1970), pp. 93-106.
19. Para essa citação e seguintes:8. Afonso,Lettere,n,pp.306-310,341-342,345; cf. também pp. 191,198.
Para os acontecimentos,c£ Tarmoia, H, pp. 392-424, e m,pp. 1-4.
20. SH 18(1970), p.3;cf. Mincuzzi,op.cit., p.978. Após a morte desse infeliz de Dom Rossi(1784),8.Ágata
permanecerá ainda sem bispo até 1792.

"Quando fores velho,


estenderás as mãos
e outro te cingirá
e te conduzirá
para onde não queres".
Jesusfalou assim para indicar
com que morte glorificaria a Deus.
{Jo 21, 18-19)
46."ESTOU EM NOCERA E AQUI ME ENCONTRO
NO PARAÍSO"
(1775-1778)

Precisamos ler isto, apesar de tudo!...

Santo Afonso orientou-se para os estudosjurídicos: aos dezesseis anosjá é


doutor em direito. O jovem doutor domina completamente seus manuais(Não
havia manuais!)e inscreve-se nos Tribunais de Nápoles. Descobre que a ciência
jurídica, mais do que desejável,quando se pleiteia, não é suficiente! Há necessi
dade de nervos de aço! Já em sua primeira defesa, Mestre Ligório... engana-se,
gagueja, mistura as peças e a classificação do dossiê. Nauseado,deixa a toga e o
tribunal...
n;

Quem gagueja e se engana, senão o autor dessas linhas? Prossigamos:

Prepara-se para o sacerdócio. O aristocrata brilhante entrega-se aos mais


humildes...Organiza os discípulos que a ele sejuntam sob o nome de redentoris-
tas.

Santo Afonso deve cedo deixar sua Congregação cheia de promessas.


("Cedo''?... Na realidade, exatamente 30 anos após a fundação!). É chamado a
uma sede episcopal na Campânia...Esse bispado é para ele uma extraordinária
graça de amadurecimento.(Já era tempo! Tomou-se,com efeito, bisp>o aos 66
anos.) Ele vai conhecer uma graça de despojamento: conseguiu jx)der deixar
seu cargo episcopal. Muito naturalmente, bate às pKDrtas da Congregação por
ele fundada. Ora,sua família religiosa o renega, rejeita-o e não quer mais ouvir
falar dele. Está "fora dos muros". Santo Afonso viverá atê avançada idade e
sofirerá atroz humilhação.Ele não contesta. Apenas toma conhecimento de que
lhe davam com a porta na cara.

Eis o que se pode ler numa obra litúrgica escrita e publicada em... 1980!

Não teríamos nenhum interesse em assinalar esse romance grotesco e detrator se


não fosse um exemplo flagrante e novo da ignorância dos cristãos a respeito dos
santos em geral e de Afonso em particular. Examine o primeiro católico que surgir —
leigo, seminarista ou padre — sobre Afonso de Ligório. Ele saberá três coisas: que era
rigorista, dotado do dom da bilocação e que foi expulso de sua Congregação. Nosso
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príncipes, 3 dos quais pertenciam ao Conselho de Estado, 17 bispos, 13 cardeais:


autor ainda floreia:fechando-lhe a E>orta na cara,os redentoristas mandaram-no viver padres,religiosos, religiosas, barões de todas as províncias;e também gente humilde,
fora dos muros! como aquele cabo-de-esquadra de Camerino para o qual o bispo parecia mais aten
cioso do que para com os outros.^ As duas mil cartas, mais ou menos,que nos restam
De fato, bem "dentro dos muros", sexxs confrades prepararam, para aquele que de Afonso são somente uma parte mínima das que ditava.
jamais deixou de ser o seu reitor-mor,um belo quarto ornado de molduras e de lambris
pintados. O quarto destinado aos grandes i)ersonagens. Mas o fundador, decepcio Acresce que ao voltar para Nocera,toda a correspondência destinada ao superior
nado, põe-se a protestar:
geral — durante o seu episcopado, três quartos dessa correspondência iam para a
mesa de seu substituto — acumula-se agora na sua. Retirou dos ombros o Monte
— Vocês querem que eu permaneça no meio desses lambris? O que eu quero é Tabumo, mas o peso do Instituto recai inteirinho sobre ele. Após seis meses de
ocupar minha antiga cela.
experiência, ele desabafa ao Pe. Maione com certa decepção.
— Impossível, protestaram: ela acha-se ocupada pelo Pe. Villani.
Esperava, retirando-me para Nocera,encontrar alívio em minha velhice;
Acabou por concordar que,em consideração a suas enfermidades e a sua digni mas que encontrei? Espinhos sem número, que não me deixam repouso. Deus
dade episcopal, lhe era necessário um quarto de dormir e um compartimento de seja louvado por isso!
trabalho e de recepção.Onde vão erigir um altar para sua missa. Consente,então,em
ocupar duas celas ordinárias no segimdo andar. Entrando ali, exclama:"Quão mais Tenho a cabeça no estado mais deplorável e devo manter sempre um pano
feliz sou aqui do que no palácio de Arienzo!" E no dia seguinte escreve a um de seus molhado ao alcance de minha mão, se é que quero evitar as vertigens ou as
padres:"Pela graça de Deus,estou em Nocera, desatrelado do cargo extenuante do ausências de espírito, tantas são as cartas que devo escrever.
episcopado, e aqui mp encontro no paraíso."^
Seria melhor, dirá você, não escrever mais cartas. Mas que posso fazer?
E começa o desfile, perante ele,do bispo de Nocera,Dom Benito Maria Sanfelice, Sou Superior. Se não fosse, deixaria esse cuidado; mas sou, e ficaria com
dos prelados, superiores e nobres de toda a vizinhança. escrúpulos se não comunicasse as luzes que Deus me dá; é que Deus concede
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aos Superioresluzes que não concede aos outros;é essa convicção que me leva a
Vieram com ele de Arienzo, o irmão Romito Francisco, evidentemente, que escrever tantas cartas.^
continuará seu ofício de leitor e de secretário, de enfermeiro e gerente, mas também o
fiel Aleixo PoUio.Este último, viúvo desde 1770, aos 28 anos,tinha duas fühinhas que
Mas era indispensável que o fundador continuasse como superior?
ele internou e dotou, em grande parte com as generosidades de seu patrão. Uma
Quando, 13 anos antes, nomeado bispo a contragosto, Ligório sentira-se "ex
tomar-se-á irmã redentoristina e a outra se casará. Livre, Aleixo acompanhou seu
pulso da Congregação por causa de seus pecados",não foi ele que pedira para acumu
bispo em Pagani, onde acabará por tomar-se irmão redentorista. Continua sendo,
para o bispo,o mensageiro,o cocheiro,o"camareiro"dedicado e de confiança de quem lar os dois cargos, mas sim os consultores-gerais e as comunidades. Se de resto tivesse
o grande enfermo pode prescindir sempre menos. Um de seus comoventes serviços sido então desonerado do Instituto, Villani é que teria sido eleito reitor-mor. O Pe.
será o de pegar no vestíbulo as crianças doentes trazidas por suas mães e levá-las até André era a bondade personificada: boa parte dosjovens confrades haviam passado
Afonso. Este abençoará mais de mil delas, impondo-lhes a mão sobre a cabeça e por suas mãos de mestre dos noviços;"governava a casa com tal doçura que,em toda a
curando-as. Outra tarefa de Aleixo será a de sustentá-lo, depois de colocá-lo em sua
Congregação, era considerado até mais santo ainda do que Afonso."® Ora foi exata
poltrona, de estação em estação da via-sacra, que fará todos os dias ao longo do mente a ele que este último escolheu como vigário. Mas quem é que salvara até o
corredor de seu andar, de pé nos primeiros anos, depois assentado, exprimindo-se momento o Instituto dos dentes de Maffei e de Samelli,se não o prestígio pessoal do
muitas vezes em alta voz, como o fazia também diante do SS. Sacramento. Essa fundador?

convivência parece ter sido o único noviciado do irmão Pollio. Mas quem teve jamais Treze anos se tinham passado.Em 1775, Villani tinha 69 anos. Afonso contava com
semelhante mestre igual?^ dez anos a mais,com peso dasenfermidades por nósconhecidas.Não se sabe,contudo,
se foi colocada a questão da demissão do reitor-mor vitalício. Não se p)ode esquecer a
Quanto a Romito,será também e sempre mais a segimda muleta de Afonso. Não dimensão então européia do antigo bispo de S. Ágata,e que Afonso continuava sendo
se pode fazer uma idéia da quantia de serviços que tinha de fazer o secretário deste em Nápoles run pára-raios incomparável para os que viviam ameaçados. Por outro
"monstro" de trabalho a quem nenhuma fadiga detinha. Verzella, em 1772, teve de lado — sentiu-se isto no capítulo de 1764 —jovens havia que,com toda a naturalidade
desistir para cuidar de sua saúde. Ora,o Pe. Felice nos informou que no tempo de seu também, mostravam-se arrojados; tanto mais que a última geração conhecia Afonso
episcopado,súmidades doutrinais dirigiam-se a Dom Ligório para consultas teológi quase que só de nome. De resto, este sentia talvez sua consciência interpelada pelo
cas ou morais, com vistas a livros em que estavam trabalhando. Vinham-lhes essas fato de que, durante os 13 anos de afastamento, o excessivamente bondoso Villani
cartas da Sicília, de Mãntua, Lucques, Veneza, Roma e seus Estados, de Bolonha, deixara os parafusos afrouxar: á disciplina relaxara. Disso é testemunha a significa
Ferrara,etc.Outros pediam conselho espiritual ou expunham problema de consciên tiva repreensão que recebeu de Ligório, em junho de 1773, o reitor-agricultor de
cia. Entre seus correspondentes habituais assinalados por Verzella, contamos 10 Deliceto, nosso cronista Tannoia, por não ter obedecido a uma ordem de Villani:
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Coisa singular! Alguns dentre nós falarem de reforma e de zelo, e não


Você, meu caro Antônio, quanto o estimo; mas hoje devo falar-lhe sem p)ensam em reformar-se a si mesmosem primeiro lugar,em reformar sua própria
rodeios. Censuram-no por ser pouco obediente às ordens dos superiores,e isto
me deixa claro um dos principais motivos porque a Congregação está presen vida, onde há mais censura do que em qualquer outra!...
temente sendo tão provada,é que os reitores são os primeiros a não obedecer. Compreendam bem,meusfilhos,meuscaríssimos filhosem Jesus Cristo,o
Eu sou,da parte do papa e da parte do rei, diretor da Congregação; quero que Deus quer dos senhores,é sua obediência,é a submissão respeitosa a seus
de agora em diante mudar de estilo; quero ser obedecido; e quem quiser ir-se superiores, muito mais do que sacrifíciossem conta ou mil outrasobras brilhan
que se vá. Ficará quem quiser. Deus náo tem necessidade de ninguém,e ele só tes com que piossa ser buscada a sua glória.
ama os bons súditos: aqueles que obedecem.
Deus quer-nos pobres e contentes com nossa pobreza, e devemos ser-lhe
Envie, pois, imediatamente, a qualquer preço, o irmão Antônio Maria agradecidos quando sua misericórdia nos concede à mesa um pedaço de pão,
Oliva a S. Ângelo a Cupolo e abstenha-se de buscar a intervenção do bispo,que quando não permite que nos falte o estritamente necessário.
atualmente estácom você.Mesmo se este quiser usar sua influência para reter o
irmão,faça todo o esforço para que renuncie a seu propósito. Somos pobres,e quem não está de acordo em levar entre nós vida pobre na
alimentação e no vestir, pode deixar nossa Congregação sem nos atormentar e
E não me responda que não conseguiu isso, porque se não enviar o irmão, ir-se para casa vivendo como melhor entender: estou pronto a conceder-lhe a
pedirei contas disso e você irá arrepender-se; mas espero que não me causará permissão; é que Deus não quer em sua casa servidores descontentes que o
esse desprazer. sirvam ã força e entre contínuas murmuraçóes...
Diga de minha parte aos padres de sua comimidade que levem a obediên Na idade avançada a que cheguei, conserve-me Deus a vida uriicamente
cia a sério. Aliás, dentro em pouco irei escrever sobre esse assunto a todas as
para combater as desordens que podem comprometer a obra das missões;estou
casas.
resolvido a combatê-las custe o que custar.
Estou resolvido a despedir quem quer que se recuse a obedecer, seja ele
meu próprio irmão.É que ninguém pense em buscar apoio na Corte: o rei, que Mesmo que a maioria devesse deixar-nos por essa razão, não me deixaria
me nomeou Diretor e que me é muito favorável não ouvirá seja lã quem for; minimamente amedrontar com isso. Ficará quem quiser. Deus não tem neces
declare isso a todos os seus padres.
sidade de muita gente; bastam-lhe pioucos mas bons. Apesar de seu pequeno
número, farão mais bem do que todos os impierfeitos, todos os orgulhosos e
todos os desobedientes juntos.
Abençóo e a todos os seus subordinados. — Irmão Afonso Maria.®

Três semanas depois, a circular ammciada seguia, animada de um vigor inusi Juntamente com a obediência aos superiores recomendo o amor para com
tado. Entre outras coisas lê-se ali: Jesus Cristo, a devoção à santa Paixão, a oração mental, os exercícios espiri
tuais e o dia de retiro usual. Quem ama a Jesus Cristo obedece, está contente
Minha dor é muito viva quando fico sabendo que alguns dos nossosjovens com tudo e piermanece sempre em paz.^
não levam vida conforme a perfeição requerida num operário evangélico. Mas
se se trata de um padre ou irmão mais idoso,mais antigo, meu pesar é mais vivo Essas palavras fi*isam o que Afonso entende por obediência e observância: a
e mais pungente,quando tomo conhecimento de aquele que deveria ser para os morte do individualismo e um dom de si incondicional à obra comum da missão.Eles
jovens espelho de edificação e de virtudes,faz pouco caso da obediência devida manifestam nesse ponto uma necessidade de reforma em que sua consciência de
aos superiores. fundador se sente empenhada:"Conserve-me Deus a vida unicamente para combater
as desordens que podem comprometer a obra das missões."
Essa santa obediência, essa submissão aos superiores que ocupam na
terra o lugar de Deus, não cessei de recomendá-la a todos, de viva voz e por Afonso, pois,chegou a Nocera dei Paganisem a menor idéia de demissão; muito
escrito.Dela depende com efeito,a par da boa ordem,a glória de Deus,o sucesso ao contrário. E quer retomar, como outrora, o ritmo comum da vida regular. Mas,
das missões e, também,a paz interior dos congregados; obedecendo pontual Villani, seu diretor espiritual, proíbe-lhe fazer-se levar ao coro ou ao refeitório; Do-
mente,estão seguros de fazerem tudo ã vontade de Deus,vontade que é a única nato Antônio Pignatori, seu médico, ordena-lhe dois passeios diários de carruagem.
fonte da verdadeira paz. Apesar disso, algxms dos nossos deixam-se, levados Fora isso, recomeçou sua vida tranqüila e implacável de oração e de trabalho, em
pelo demônio,arrastar e fazem pouco caso da obediência: vivem eles, assim,na sincronia com a comunidade.O irmão Romito é o companheiro de suas meditações,
inquietude e nela lançam seus companheiros e seus superiores: tudo isso sob três vezes ao dia,e de sua leitura espiritual: qjuda, pela manhã,ã sua missa dolorosa e
pretextos falazes que o inimigo da salvação lhes apresenta com efeito, como seráfica. Depois vem o trabalho até ao passeio, cerca de meio-dia, com Aleixo de
produto de sincero zelo, de louvável espírito de reforma e de amor verdadeiro cocheiro.Benditas saídas pela manhã e pela tarde,elas terminam na igreja onde o Pai
pela justiça e pela verdade. se demora porlongo tempo,em inflamada adoração.Em março de 1775,estando ainda
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em Arienzo,pedira a Pio VIe obtivera,por causa de suas dores de cabeça,a faculdade mendigos e de garantir regularmente o aprovisionamento de certo numero de pobres
envergonhados.'°
de trocar seu brevlário por outras preces à escolha de seu confessor. Freqüente
mente então,em lugar das horas canônicas, passa a recitar e meditar lentamente os
três terços do rosário. As horas de trabalho se sucedem, cortadas por aquelas ave- Em suas liberalidades, o superior geral não esquecia suas casas dos Estados
marias de fogo rezadas por ele de quarto em quarto de hora, às batidas do relógio. Pontifícios, que nasciam como por encantamento, mas no despKDjamento de Belém,
Quando soa o ângelus, põe-se de joelhos, e não pode mais levantar-se. Muitas vezes
nem pensa nisso, perdido que está na contemplação do mistério da encamação. É Nos anos de 1772-1773, com base em Santo Ângelo a Cupolo, oito redentoristas
preciso,então,tomá-lo nos braçose colocá-lo em sua cadeira para poder continuarseu brühavam intensamente nos Estados Pontifícios, bem além de Benevento, teiTitório
trabalho ou tomar a sua única refeição diária. Depois que se tomou por demais surdo encravado nos Estados Pontifícios. O animador da equipe era o jovem, zeloso e
f I para ouvir as batidas do relógio, pedirá que o avisem. Nos dias em que deve omitir o inteligente Pe. Francisco de Paula. O velho bispo de Veroli, Dom João Battista
l,l oficio em razão de dores de cabeça multo agudas, reza o pequeno ofício de Nossa Jacobini, desejava-os estabelecidos em sua diocese; um padre avinhonês, generoso e
Senhora que sabe de cor e que desde a mocidade jamais deixou de recitar. Esse extraordinário como sua Provença,oferecia aos padres a pequena igreja e a casa que
trabalhadorincansável manter-se-á fiel até o fim àssuas oito horas diárias de oração.® construíra para si a fim de dar atendimento a uma centena de habitantes nas colinas
de Scifelli. Com a anuência de Afonso, a 25 de abril de 1773, os documentos oficiais
À medida que santo Afonso vai-se afundando na surdez,seus leitores e colabora tinham sido assinados pelo padre avinhonês e pelo Pe. Villani.Este último apressara-
dores ficarão esgotados—e ele sabe disso—por precisarem gritar cada vez mais alto. se a ir prestar contas ao reitor-mor ainda em Arienzo.
Sua própria voz, bela e sonora até o fim,não poderia entretanto, encher uma grande
nave. Além disso, a postura ereta era uma aventura dolorosa para sua coluna verte Mas,ai! a alegria do fundador não era participada por alguns antigos.De Nocera,
bral curvada para o chão. Mas a paixão da Palavra fazia com que a esquecesse. O venerando Mazzini escrevia a Tannoia, mestre dos noviços em Delice
"É pela pregação, e somente por ela, gostava de dizer, que Jesus Cristo "Penso como você: não é preciso aceitar a fundação proposta na diocese de Veroli.
realiza a conversão dos homens;é,pois, pela pregação que se deve procurá-la.O Por um lado, pela razão que você me apresenta" (ele receia a personalidade de Pe.
importante é que se pregue o Cristo crucificado." Francisco de Paula);"pior outro lado, porque precisamos de gente para uma açao
próxima de Roma.Mas nem nosso Pai,nem o padre vigário,nem osoutros consultores
Convidá-lo para pregar era convidá-lo para uma festa, continua Tannoia: deram ouvidos a meus 'latidos'."^^
aceitava sempre com alegre sofreguidão. Dizia muitas vezes: "Sempre se tira
firuto da palavra de Deus.Não há coisa alguma a que tanto se oponha o inferno Ao contrário, Afonso olhava para o Norte, para os Estados, para os Alpes... Sua
do que à pregação."® Congregação teria assim, em caso de alarme, um primeiro refúgio irnedia ora o
Reino. Uma gruta de Belém pela pequeneze pobreza; mas não fora assim que nascera
Afonso sentia-se então feliz em arrastar-se, ajudado por Romito e Pollio, até ao o Cristo?
capítulo semanal, para impelir a comunidade ao zelo das almas e à prática das
virtudes.Ajudado
«-iVCClVAW por
pul eles
ClCd subia
dUUXCl todos ossábados ao
CLU púlpito
pUipitU da
Uü igrejinha de S.Miguel, E esse Pe. Francisco de Paula desperdiçando o dinheiro!
onde
rfc-nHo se
Qia acotovelavam
1 mais
•_ de 300 pessoas, para ali pregar as glórias de Maria. Era
TP.VCi

sempre com presteza que respondia afirmativamente aos padres e conventos de No- Enviei-lhe ultimamente doze ducados e envio-lhe hoje outros vinte e
cera que não dispensavam
m suas exortações.
pvnrharnpí!:
quatro pelo Pe. Blasucci: mas com esse dinheiro devem ser compradas unica
mente as coisas necessárias para a vida, e proíbo que comprem o menor livro
No convento do CarmineUò, curou até dois "tumores malignos": a inimizade com ele. Fiquei,com efeito,sabendo que seus padres de Veroli(Scifelli)sofrem
escandalosa que se votavam duas religiosas e um câncer do seio que torturava a grandes privações.
priora. Condenada pelos médicos, pedira ao Pai lhe obtivesse a cura."Seu mal vai
piorar, disse-lhe, mas não se aílga: abandone-se nas mãos de Deus e abrace o crucifixo: Só depois de duras penas é que consegui obter de Benedito Grazioli aque
a senhora agradará,assim,a Jesus Cristo e seu sofrimento será amenizado." Voltando
a São Miguel, mandou-lhe um frasco de água pura instruindo-a no sentido de banhar les cem ducados,e pensava que eles iriam fbmecer a subsistência para o próximo
seu mal com ela. Após as primeiras abluções o mal desapareceu. inverno; mas fiquei sabendo, não sem extrema dor, que eles serviram para^ a
compra de livros. Comprar livros, quando não se tem o que comer! Jã não
compreendo nada!
Os passeios do velho bispo,numa carruagem em fim de carreira, puxada por dois
animais gastos, pareciam-lhe um luxo mais do que supérfluo. A isso se resignava só
por obediência.Tocavam-lhe,é verdade,800 ducados anuais da mesa de S. Ágata,sua Se for possível devolver esses livros, mesmo com algum prejuízo, procure
pensão do Colégio dos Doutores, emolumentos da sede de Portanova e, ainda, seu
fazê-lo; desejaria muitíssimo que tudo o que lhes for doado seja empregado em
comprar pão: certamente que vocês precisam disso.
patrimônio famüiar. Mas a seus olhos tudo isso era propriedade dos indigentes,"seus
privilegiados", diz Tannoia. O irmão Romito tinha ordem de atender a todos os No caso de não poder devolver os livros, determine, de acordo com o Pe.
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Blasucci, as providências que devam ser tomadas para que não se saiba que Glória ao Pai!Que faríamosem Roma? Seria o adeus a nosso fim principal,
enviamos dinheiro para fora do Reino." adeus à nossa Congregação! Ficaríamos todos cortesãos.

Enviar dinheiro para fora do Reino era um crime, mesmo que se tratasse de Não obstante, agradeçamos a Deus a opinião que o papa tem de nós. Se
impedir que napolitanos morressem de fome.E,entretanto, urgia fundar outras casas Dom Veroli,nosso bispo quisesse apertar um pouco D.Macedõnio na conclusão
fora das Duas Sicílias, tal a exigüidade de Scifelli. Com o caloroso apoio de Afonso da iniciativa de Ceprano, a ocasião se apresenta favoiável.
começaram as sondagens não longe dali, em Ceprano, depois em Torrice. Logo mais,
aliás, a morte de Clemente XIV transmitia a seu sucessor o direito de autorizar as No mesmo dia desenvolvia seu pensamento em carta ao Pe. Villani.
novas fundações em seus Estados."
As notícias que você me dá de Dom Macedõnio causam-me prazer à me
Impaciente, dinâmico e não desprovido de ambições, Francisco de Paula so dida que sublinha a benevolência do papa para conosco. Mas agradeçamos a
nhavaem eternizar o Instituto,estabelecendo-o na Cidade Eterna.Desde os primeiros Deus e aos assessores do Soberano Pontífice não ter o projeto ido avante.
meses de 1774, expusera seu ponto de vista ao fundador.
Se o papa tivesse persistido em seu pensamento, ter-lhe-ia escrito em
Lisua longa carta,respondeu-lhe Afonso,e não aprovo de modo algum as termos enérgicos para fazê-lo desistir de sua decisão,com o risco de ter toda a
razões que você alega em favor de uma fundação em Roma; tinha resposta Congregação contra mim.
pronta para todos os pontos.l\4as para que perder tempo,quando vemos clara
mente que Deus não quer essa fundação? Que faríamos em Roma? Seria a ruína de nosso Instituto, porque nossas
missões seriam negligenciadas e,desviado de sua finalidade,o Instituto deixa
Deixe que digam que tudo desaparecerá, quando eu tiver desaparecido! ria de existir. Sobraria um monstro de duas cabeças.E para que servuia ele?
Responda que a Congregação não é minha obra, mas obra de Deus. Ele a
manteve durante 42 anos; ele continuará a mantê-la. Mil outros, em Roma, podem fazer o que ali faríamos: e no entanto que
seria de nossa Obra?
Por que o rei de Nápoles iria dissolvê-la? Ela não prejudica a ninguém;
todos os bispos a elogiam;ela não possuinenhuma renda e,o que mais importa, Nossa Congregação foi feita para as montanhas e para as populações
o rei deseja (são os termos mesmos do decreto de S. M. Catõlica)"que essa pequenas.Desde que nos misturássemoscom preladose cavaleiros,com damas
associação se mantenha não somente durante a vida de Afonso de Ligõrio, mas e cortesãos,adeus, missões,adeus,interior; nõs mesmos nos transformaríamos
indefinidamente, desde que a obra das missões não degenere de seu primeiro em cortesãos. Peço a Jesus Cristo que nos preserve de semelhante desgraça.
fervor".
Se Dom Ligõrio dizia não a Roma,os Estados Pontifícios não deixavam de ser o
A questão da nossa continuidade depende antes de tudo inteiramente de seu objetivo urgente. Satisfeitos pela supressão dos jesuítas, os napiolitanos tinham
Deus; de nosso comportamento, em seguida. Pelo que temos somente uma evacuado Benevento,deixando com isso livre S. Ângelo a Cupiolo. havia assim duas
coisa a fazer: viver imidos a Deus, observar nossas regras, ser caridosos para casas de refúgio no caso de expulsão do Reino.Mas somente duas. Ora,a tempiestade
com todos,estar contentes com nossas misérias e,acima de tudo,ser humildes; parecia estar para estourar. Era preciso levar decididamente para fora do Reino o
porque um pouco de orgulho pode perder-nos como perdeu os jesuítas. centro de gravidade do Instituto. A 30 de maio de 1776,o Paiexpunha por inteiro o seu
pensamento a um de seus confidentes, o Pe. Caione:
Esforce-se, peço-lhe, por todo o tempo que você exercer o superiorado,
esforce-se por se mostrar humilde e afável para com todos, sobretudo nas Meu caro padre, as casas napolitanas servirão pouco ao estabelecimento
missões,e testemunhe para com os confrades a maior caridade. Eles estão com da Congregação. Elas não formam um corpo único e estão unidas entre si
efeito sob os golpes da provação e longe de Nápoles,longe dos parentes; você apenas por uma cola fraca. Devemos por ora envidar esforços para conservar
precisa, então, ser sumamente caridoso a seu respeito." essas fundações, mas, digamos sem rodeios, se a Congregação não transpuser
os limites do reino de Nápoles,jamais será uma verdadeira Congregação...
Entrementes, a idéia de uma fundação em Roma evoluíra. Um amigo de D.
Jacobini,o bispo Vicente Macedõnio,secretário,falara dela ao papa e assessores.Em Quanto a mim,estou no fim dacarreira,mas vocês que sobreviverão,é que
25 de agosto de 1774, Ligõrio informava o reitor de Scifelli: deverão trabalhar na consolidação de nossa obra.

Recebi hoje de manhã um bilhete do padre vigário, e segxmdo o seu teor. Ora, apenas acabada de ser escrita essa carta, os padres Francisco de Paula,
Dom Macedõnio teria dito ao advogado Terragnolique o papa estava pensando Caione, Cimino e Costanzo pregaram, de 1.° a 20 de junho, uma espietacular missão
em confiar-nos em Roma a igreja de Gesü,mas que seus assessores o dissuadi em Frosinone(8.000 hab.),que era o principal aglomerado urbano da diocese de Veroli.
ram disso. "Nunca tivemos uma missão assim, diziam. Vamos ficar com os padres.""Nas colinas.
PARTE V Cap. 46 671
670 PARTE V Cap. 46

os famélicos que estavam em Scifelli e Frosinone. Durante o inverno de 76-77. o


perto das portas da cidade, os agostinianos estavam deixando a ermida de Nossa reitor-mor rende-se às razões do cardeal e de seus consultores. A 2 de janeiro de 1777,
Senhora das Graças.Já no dia 22,as autoridades municipais escreviam a Afonso para escreve a Francisco de Paula:
oferecer-lhe o lugar e materiais de construção. A alegria de Afonso atingiu o auge. No
verão, N. Sra. das Graças acolhia a comunidade redentorista de Frosinone, com O cardeal Banditi escreveu-nos que dos 700 ducados por ele enviados a
Francisco como reitor e Blasuccicomo visitador das novas casas. Dois breves pontifí Roma para pagar, entre outras coisas, o sustento dos jesuítas portugueses,
cios sucessivos dotam (escassamente) e aprovam (calorosamente) a fundação e o continuará enviando 400... Quanto aos 300 restantes,ele no-los quer dar,com a
Instituto. promessa de dar-nos os outros 400 quando se extinguir a piensão vitalícia dos
portugueses.
Eis que ressurge a atração por Roma.E o fundador muda de ponto de vista. Em
nns de outubro de 76, ele escreve a Blasucci:
A oferta era irrecusável; por isso aceitamo-la de comum acordo,os padres
Cimino,Maione,Villani, Mazzini e eu.Dessa maneira,se nossas casas do Reino
Agradeço a Deus sem cessar o fato de tê-lo conduzido a Frosinone: você têm poucos recursos, teremos ao menos uma casa que, com o tempo, vai
moderará ^io zelo de nossos confi-ades.No entendimento deles,a Congregação bastar-se a si mesma...
deveria sair de sua obscuridade,fazer barulho e fundar uma casa em Roma.
Nosso estabelecimento em Roma não me parece conveniente nem agora Outro assunto.Em Nápoles,o novo governo emitiu um decreto rigorlssimo
nem alongo prazo:deixo de falar das razões que me levam a pensar desse modo. a respeito da ordenação dos clérigos. Nenhum deles poderá mais receber as
Farei isso quando for necessário... ordens se houver 100 padresem sua terra natal,nem sejá houverem sua família
dois irmãos ou dois tios padres,nem se o patrimônio dos outros tios e irmãos for
O advogado Buonpiani aconselha-nos a ir a Roma para conseguir a casa inferior ao daquele jovem que deseja receber as ordens sacras. Devido a essa
aos Retiros,ocupada outrora pelosjesuítas hoje supressos.Sou profundamente determinação,eis-nos impedidos de receber muitos moços recomendáveis que
agradecido pela afeição que nos tem,e o terei eternamente na memória,diga- solicitaram sua admissão.Os pios operários deparam com os mesmos obstácu
lhe isso de minha parte. Mas antes de executar o projeto de que ele fala, seria los, e para seu grande desgosto, não podem receber novos elementos.
necessário, conforme meu parecer, esperar o momento mais propício, porque
amda não somos bastante conhecidos em Roma;e poderia ser encarado como Veio-me uma idéia e desejaria saber se você não a poderia comimicar ao
certa arrogância o fato de pretendermos a casa dos Retiros; tanto mais que bispo de Veroli.Tenha a bondade de falar-lhe na primeira ocasião e me comuni
aquelacasa estásendo cobiçada por váriascongregações residentesem Roma. que o resultado de sua conversa: poderia,então,tomar as minhas providências.
É necessário saber que tivemos aqui a maior dificuldade em enviar um de
Eis,pois,o meu parecer: por agora,precisamos unicamente estabelecer de nossos padres à Romanha; foi preciso pedir-lhe, suplicar-lhe, alguns até se
maneira flrme as duas casas que possuímos na diocese de Veroli, principal- recusam a partir, e tudo isso, porque ninguém quer ficar longe da família.
Ido^a serFrosinone. ApósInstituto,
tomado.Nosso o estabelecimento flrme
de resto,tem pordela, poderemos
fim principal ver o
evangeli- O bispo de Veroli não poderia adotar como seus esses moços recomendá
ar não as cidades importantes e de nome, mas as povoações do campo mais
veis e vinculá-los a uma de suas igrejas de Veroli, Frosinone ou Scifelli,de modo
andonadas e desprovidas de recursos espirituais. que pudessem em seguida ordená-los? Atenderíamos assim com uma só viagem
a dois escopos excelentes: desvincularíamos esses elementos de Nápoles e
Depois disso, se Deus nos manifestar um dia que nos quer ver em Roma, faríamos que se ordenassem na Romanha.Nossos bispos napolitanos, aterrori
obedeceremos. zados como estão, recusam-se a ordená-los.

^ A quarta casa nosEstados Pontifícios apresenta-se por si mesmaem Benevento. Vê-se que a política napolitana visava o estrangulamento do Instituto. A oferta
de Benevento tinha caído como uma graça insigne. Graça também era dispor do Pe.
en^^
P copai, aFrancisco Mariaque
casa e a igreja Banditi, novo tiveram
os jesuítas arcebispo, oferece a Ligório, na cidade
de abandonar. Caione para nomeá-lo superior. Fora preciso enviar a Scifelli esse antigo reitor de
Caposele... porque reclamavam-no para arcebispo de Conza. O Pe. Gaspar Caione,
^ ^®cusa: não quer estabelecimento em cidade, sobretudo em Benevento, doutor em direito civil e romano,fino letrado, poeta, grande missionário, rico de fé e
de 16 conventos de homens e de numeroso clero; certamente,também, experiência,não deixaria ninguém magoado,nem mesmo—perdão!— osjesuítas. A 6
que e causa repugnância instalar-se, como um chupim, no ninho da Companhia de junho, na festa do Sagrado Coração, os filhos de Afonso tomaram, pois, posse da
ISSO vida.O cardeal se comprometeu que eles trabalhariam na zona rural,enquanto igreja e do convento de Gesü em Benevento, onde renderam... o batalhão de Fer
a resi encia de S. Ângelo, aninhada em seuTabor,se especializaria nos retiros fecha- nando rv.
os. ém disso, as realidades econômicas não esperaram por Karl Marx para que se
impusessem:era necessário aceitar as rendas de Benevento para sustentar com vida Reclamado com grandes clamores pelo bispo e pelo povo de Agrigento, Blasucci
PARTE V Cap. 46 673
672 PARTE V Cap. 46

Toda a correspondência de Afonso com Francisco ressente-se do espírito inde


deixava os Estados Pontifícios, voltando para a Sicília. Caione era a melhor indicação pendente do visitador da Romanha. O superior geral vê-se reduzido a mendigar
para sucedê-lo como visitador das casas de ScifeUi e Frosinone. Mas Pedro Paulo informações,sempre com a mesma paciência. Até 19 de fevereiro de 1779. quando ele
tanto fez que o contemplado com o cargo foi seujovem primo. Francisco de Paula.B se zanga:
Afonso, confiou-o a ele, apesar de havé-lo recentemente repreendido.
A Regra proibia as quaresmas,pregações reservadas às cidadese voltadas para a Estão me pondo muito superficialmente a par dos negócios de Frosinone.
retórica pomposa. Ora, os dois amigos, Pe. Francisco e Pe. Criscuoli. viam-se já em não me explicam nada a fundo. Ainda nesta noite,é através do Pe. Ficocelli que
Roma e se esforçavam por mostrar a voz. Haviam aceitado uma quaresma em 1777. recebo um novo informe, isto é. a conclusão do acordo com o bispo de Veroli.
Criscuoli, reitor de Scifelli, recebeu este bilhete de 14 de janeiro: MLas que espécie de acordo é esse? Em que insiste o bispo? Sobre isso tudo
nenhuma palavra, segundo velhos hábitos adotados por você, de maneira que
Meu caro Deodado,fiquei sabendo que você aceitou a quaresma de Isola não vejo mais claro do que antes.
na diocese de Sora,e o Pe.Francisco a de Atina,na diocese de Aquino.Lamento
que antes de aceitá-las,nenhum dos dois me tivesse participado tal resolução. Deixe-me fazer, diz você. terminando sua carta.

Essas quaresmas, você bem sabe, foram-lhes oferecidas pelas prefei Nunca o impedi de agir; mas nunca ouvi dizer que alguém estivesse tra
turas,e nenhuma maquinação da parte dos nossos ocorreu, para que tal convite tando dos negócios da Congregação sem o meu parecer.
acontecesse. Apesar disso, não quero que nem você, nem quem quer que seja
dos nossos, preguem quaresmas, sobretudo no Reino, porque nossa Regra o Graças a Deus, ainda não morri e nem perdi a cabeça. Sou advogado,sou
proíbe e porque os operários apostólicos que buscam essa espécie de trabalho bispo: muitas vezes tive de tratar de negócios semelhantes. No momento sou
poderiam prejudicar-se a si próprios com eles. reitor-mor: p)or que, então, não me consultariam?

l^ate, pois, a qualquer preço de desculpar-se com o bispo de Sora; o Pe. Por favor, escreva-me o que se faz, o que se negocia e com quem. Já dei
Francisco com o bispo de Aquino. Digam-lhes que fui eu quem lhes proibiu e inúmeros conselhos,seja como bispo,seja como advogado;e será que me tornei
que levo muito a sério o fato de nossa Regra ser observada. agora, segundo seu parecer, incapaz de tudo?

Quero que se dediquem ãs santas missões. Deus quer de nós as missões: Mas basta o que já se passou. Quero de agora em diante ser informado de
não as quaresmas. Obedeça,sejam lá quais forem as pressões das prefeituras e tudo o que se refira ao processo da Igreja de Frosinone.^®
dos bispos.
Pedro de Ia Gorce escreveu que"o velho gosta de terminar seus dias nas honras e
Francisco insiste: sua casa é pobre e as quaresmas são bem pagas. Mas o na tranqüilidade". Sob esse ponto de vista, nosso octogenário nada tinha de velho.
superior geral não é daqueles que são comandados em tudo pelo econômico:
Assim, Scifelli e Frosinone causaram-lhe muitas preocupações. Em outubro de 1776,
Não há dúvida,responde;a necessidade em que estamos forneceria algum no tempo em que Blasucci era visitador, escrevera-lhe:
pretexto para sua quaresma. Quanto a mim,eu me recuso a tocar numa regra Represento-me nossa Congregação como uma barquinha no meio do mar,
estabelecida com tanta insistência por nosso Pai Falcoia. De fato, fortíssimas batida de todos os lados pelos ventos;e espero que Deus nos faça ver para onde
razões nos interdizem essem ministério.
quer conduzi-la e onde quer fazê-la parar definitivamente.Se ele quer que ela vá
a pique,digo agora e senipre direi: Bendito seja para sempre sua santa vontade!
Deixemos Deus fazer o que quer. Ele, p)or quem trabalhamos, não nos
deixará jamais faltar um pedaço de pão. Fico, contudo, satisfeito de saber onde você está, você que dirige essas
duas casas. Se você não estivesse aí, teria muito menos confiança...
Francisco de Paula teve então de obedecer. Mesmo sentindo a vocação para o
comando. Um pequeno incidente de 20 anos antes revelara o jovem estudante ao
fundador. No verão de 1756, Afonso estava traduzindo para o latim sua Prática do Termino aqui e não cesso de pedir a Deus que lhe conceda paciência e luz
confessor.Tomou como ajudantes Caione,Ferrara e Francisco.Ora a 14 de janeiro de para levar sua obra a bom termo, se é que ele a quer.
1751 escreve a Caione:
Os começos são flracos, bem que o vejo; mas de firacos começos Deus faz
Meu caro Gaspar, muito obrigado por seu trabalho. Gostei muito dele, surgir,quando quer,obras muito grandes,e espero,com o auxílio da Santíssima
porque manteve meu estilo simples.Encarreguei o estudante Francisco com a Virgem Maria, que isso acontecerá com essas casas...
tradução do capítulo sobre a "Assistência aos moribundos", mas ele entendeu
de fazer alta literatura em que até as minhas idéias foram mudadas. Tive de (P.S.) O Pe. Maione escreveu-me que viria ver-me segunda-feira; mas
começar tudo de novo.^® passaram-se os dias, e ninguém o viu. Novo acidente ocorrido no curso do
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processo tê-lo-á, talvez, posto em grandes embaraços. A barquinha irá sem


dúvida enfrentar alguma nova tempestade. Que Deus a guarde!

NOTA

1. Tannoia, m,p. 4; para todo este capitulo, c£ ibid., pp 4-i2


34. sS "ciZ,
S. Afonso, Lettere, II, p. 366.
■>-
5. De Rlsio, Croniche, p. 159.
6. S. Afonso, Lettere, pp. 230-231. 47. ATÉ A ÜLTIMA GOTA... DE SUA TINTA
7. Ibid., pp. 233-236.

pp. 351-353; Berrutl,op.cit., pp. 18-19,132-133; S. Afonso, Lettere, D. (1775-1785)


9. Tannoia, n, pp. 82-84.
10. Snmmarium, pp. 464-466; et SH 18 (1970), p. 5, n. 112. Quinze anos, idade de grandes sonhos, e muitas vezes de escolhas definitivas. A
12' S. Afonso, Lettere, H,
~ pp. 246-247. fundações, cf. TeUerla, n, pp. 566-580. idade de Daniel Comboni quando, em 1846, estudando no Instituto Mazza de Verona.
indagou-se sobre o que fazer de sua vida. Ora, alguém pôs-lhe nas mãos as Vitórias dos
14 lettere. n, pp. 227SS., 263-300. 324, 373. mártires escritas por um autor canonizado havia sete anos, Afonso de Ligório. Sua
410^11" ® seguintes: S. Afonso, Lettere. n, pp. 269-271, 291-292,372. 378-379. 385-387.408^- segimda parte é consagrada à história, recente então (1597-1633), dos mãrtires do
15." SH 12 Afonso, significava todos os Estados Pontiflcios. à exceção de Benevento. Japão. Ela o cativa, inflama, o faz decidir: irá ao Japão; ressuscitarã aquela Igi-eja de
16. S. Afonso, Lettere, H, pp. 494-495, 382, 384.
suas cinzas; muito feliz se puder ali derramar o seu sangue por Jesus Cristo. Nesse
tempo passa por Verona um missionário que busca reforços para a evangelização de
Cartum. Vai para o Sudão! E Daniel Comboni (1831-1881), com seus dois Institutos
missionários, tomar-se-á o apóstolo da África Central.^

Essa narrativa das Vitórias dos mártires, Afonso a começara em Arienzo. Numa
carta de 3 de novembro de 1774 a Remondini, em que lhe agradece a remessa de 5
volumes da Vida dos filósofos e pede "a obra de Fénelon contra Jansenius", ele
acrescenta:

Espiero que o senhor tenha recebido minha Tradução dos Salmos. Aqui ela
foi lida com agrado.

Para não perder na ociosidade os poucos momentos que me restam de


vida, comecei uma obra de piedade intitulada Vitórias dos mártires, cujos
relatos extraí dos autores mais famosos no assunto .2

Dia 9 de fevereiro de 1775:

Sua amável carta me faz saber que quer, desde sua publicação, um exem
plar de meu livro sobre Os mártires, revisto e corrigido por mim. Manifesta
também nela a intenção de oferecer-me por sua conta o sexto volume dos
Filósofos: agradeço-lhe de todo o coração.

Quanto ã obra dos Mártires, já estou no fim de minhas fadigas. Quando


chegar ao fim, não a publicarei sem que o avise antes, pode estar certo disso, e
sem enviar-lhe um exemplar.

Muitos cadernos dessa obra estão inteiramente acabados, mas para


imprimi-los com o cuidado que nisso emprego, é preciso muito tempo; tanto
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julgar pelas dissertações escritas até agora, porque incluo muita matéria em
mais que nesta avançada idade de 79 anos sofro continuamente de graves e pequeno número de linhas, e tudo é exposto com aquela clareza que todos.
violentas enfermidades, e em particular de palpitaçóes de coração que amea di2em-me. apreciam em meus livros.
çam minha vida a cada instante. Só posso trabalhar pouco ou mesmo nada,e
em certos momentos quase entrego a alma.
Tenho, aliás, apenas uma finalidade: a glória de Deus. e componho essa
obra para o bem das almas,já que ela nada contém que não coloque diante dos
Mas não.O que ele entregou foi a diocese e não a vida.E anuncia de Nocera em 8
olhos o fim último, a eterna felicidade ou a desgraça eterna.
de setembro:

Terminei as Vitórias dos mártires. No primeiro volume,falo dos mártires De fato, nove Dissertações teológicas e morais sobre a vida eterna cabem em
de diversos países; o segundo é dedicado aos mártires do Japão e ajuntei-lhes um volume de 250 páginas.É o tratado sobre a escatologia que faltava à Dogmática de
diversos opúsculos que serão muito úteis ãs diferentes classes de pessoas... Afonso.

Comecei, há muito tempo, outra pequena obra muito mais trabalhada 6 Esse tratado propicia um incidente significativo — hoje incompreensível—entre
utilíssima; tem o título: Procedimento da Divina Providência na realização da o autor e seu revisor eclesiástico,cõnego Salvador Ruggieri.É a respeito das crianças
salvação do homem por Jesus Cristo.Esse opúsculo encerra todas as profecias, mortas sem batismo.Teriam elas de incorrer na pena dos sentidos e na do dano,isto é,
figuras,sinais e sacrifícios que anunciavam a vinda de Jesus Cristo; a primeira no sofrimento consciente da privação eterna de Deus? Assim se exprimia Afonso,
parte já foi impressa. citando santo Tomás:"Elas não terão de suportar nenhuma das duas." Depois,com
toda a objetividade, naquele século XVIII do augustinismo triunfante, ajuntava:
Os assuntos tratados na segunda parte sáo: Jesus Cristo, a conversão dos "Mas santo Agostinho sustenta fortemente o contrário"e, após ele,os santos Gregório
pagãos, a destruição de Jerusalém e da Judéia, a expansão da fé, a destruição Magno,Prudente de Troyes,Isidoro, Bemardo, Alberto Magno e, entre os modernos,
das heresias, a morte funesta dos perseguidores da Igreja. Lourenço Berti, o cardeal Henrique Noris, Florent Conry e muitos outros.^

A obra abrange apenas dois pequenos volumes, mas encerra muitas coi Do alto de seujansenismo,o cónego Ruggieri declarou sem rodeios que a opinião
sas. O público, segundo espero, lhe dará bom acolhimento. de santo Tomás "não podia passar" e que D. Ligório devia seguir santo Agostinho.
Mas,a despeito da opinião coiTente, que será proclamada em 1794 pelo magistério de
A obra é dedicada ao papa Pio VI. É um "Discurso sobre a História Universal" Pio VH,Afonso recusa a correção de seu texto.Trata-se, para ele,da verdadeira face de
que nos leva para além das sendas ordinariamente trühadas por Ligório. E, entre um Deusjusto e bom. Sente-se a vibração de sua indignação nesta insistência com o
tanto, permanecemos no coraçáo do mistério de Cristo e da Igreja, o qual ele faz o cónego Simioli, em 15 de julho de 1776:
centro da História. É uma espécie de apologética positiva: um grande afresco bíblico
da Cidade de Deus. Mas não tentem buscar ali ternura para com os reformadores.
Já lhe escrevi por três vezes a respeito do{jensamento de santo Tomás,que
o revisor condena em meu livro e que diz não poder passar.
Após tudo isso, irá Afonso finalmente repousar? Nada disso! Ele quer ser aquele
servo do Evangelho, surpreendido pelo Mestre em pleno trabalho.
Não quero, repito, nem entender-me com ele, nem depender dele: quero
dep)ender do arcebispo, e farei o que o arcebispo mandar.
Vivo agora retirado de minha diocese,escreve ainda a Remondiniem 12 de
fevereiro de 1776, e não posso ficar ocioso. Comecei por isso uma obra mais Fui informado de que esse modo de ver de santo Tomás é ensinado publica
extensa sobre ojulgamento particular,julgamento imiversal, purgatório, anti-
mente em Nápoles no Colégio de Santo Tomás; mas o senhor revisor declara-o
cristo,ressiirreição,sinais precursores do fim do mundo,situação dos condena
inaceitável. Está bem! farei o que ordenar-me o arcebispo. Se tivesse sabido
dos e dos bem-aventurados, situação do mundo após o último julgamento.
disso antes, talvez teria renunciado a publicação da obra de preferência a
permitir que esse revisor a examinasse e atacasse santo Tomás. Os dominica
O trabalho é considerável, e estou todo rijo, estendido numa poltrona,
obrigado, apesar de tudo, a ler uma infinidade de livros, porque a obra conterá nos estão pasmados. No entendimento desse pedante, "a opinião de santo
somente teologia e Sagrada Escritura. Masserá inteirinho em língua vernácula, Tomás não pode passar". Quem é que diz isso? A Igreja? Não, porque a santa
à exceção dos textos escriturísticos e dos Santos Padres. Tenho em mãos Igreja venera os ensinamentos de santo Tomãs. Tenha, então, a bondade de
poupar-me as correções que esse revisor deseja introduzir em meu livro, p>orque
magníficas obras; mas sinto falta de tempo,de saúde,e aguardo a morte a cada
dia...
quero depender unicamente do arcebispo.

O conjunto todo, na minha opinião, não dará mais do que dois ou três Lamento todo o tempo que eu perdi com isso. O relatório sobre o livro já
volumes in-12, porque condenso as matérias, e odeio a prolixidade. Aliás, ela está no Palácio; espero agora o que quer fazer o arcebispo, e ver se me quer dar
aborrece a todos e não é lida por ninguém.Hoje em dia todos os leitores querem outro revisor,se quer deixar passar a doutrina de santo Tomás ou impedi-la de
livros sucintos e substanciosos. Assim será a minha obra, conforme espero, a passar. Farei o que ele disser. Paciência!®
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678 PARTE V Cap. 47

Dessa vez,o primeiro dos redentoristas não vai perder tão bela ocasião para que
Depois,em 22 de julho. Afonso atraca-se com o censor em pessoa: sua antífona seja ouvida do alto:
Vamos à questão das crianças. Escrevi:"santo Agostinho sustenta forte- Aos príncipes zelosos,continua,não lhes faltam meios, mais convenientes
mente o contrário": o senhor mudou e pôs: "Demonstra com fundamento o
con r o ••• Quererfazer-me dizer que santo Agostinho prova o oposto é querer e mais eficazes do que a força, para levar seus povos à verdadeira fé. Se lhes
levM-me a atacar santo Tomás e a dizer que a opinião de santo Tomás é viesse a faltar todos os outros recursos, que chamem a seus Estados bons
evidentemente falsa; conseqüentemente,é querer levar-me a dizer uma men missionários: por suas santas instruções e pregações, eles alijarão os erros e
tira grosseira pois que estaria eu asseverando algo contrário ao que penso:ora. trarão à luz a boa doutrina e o verdadeiro caminho da salvação. Assim agirai-n,e
antes de dizer uma mentira,estaria pronto a perder a vida. É por isso que pedi tantos outros com eles, os príncipes de que falei.
ao Pe. Benedito Cervone me obtivesse a atenuação daquela proposição:
demonstra-o com fundamento". Poder-se-ia dizer- "santo Agostinho tem por É verdade que as missões são assunto dos bispKJS. Mas a exp>eriência
certa, considera como absolutamente fora de dúvida etc " Peço-lhe que nào demonstra que, para converter seus súditos, o zelo de um príncipe santo e
queira que eu diga uma mentira. Como posso dizer'que santo Agostinho o prudente vale às vezes mais do que mil bispos e outras tantas missões e missio
demonstra, quando não posso chegar a persuadir-me de que santo Tomás nários.^
sustente uma doutrinafalsa?Eulhe peço.eu lhe rogo de não me deixar por mais
tempo nessa inquietação. Eis que já há dois meses esse dissabor pesa sobre Faltava levar o opúsculo a seus destinatários, que não eram os leitores habituais
mim. Peço-lhe. faça-me o favor de dissipá-lo. deste"preceptor dos pobres". Duas coisas: editá-lo também em francês,que era então
a língua das cortes européias, e levá-lo às cabeças coroadas. Já no ano seguinte o
Cervone.censor real. consegue que não se toque no texto de Afonso. Nomeado, opúsculo foi traduzido e publicado em francês, provavelmente aos cuidados do cônego
pouco depois, bispo de Aquila, recebe este bilhete do velho escritor: "Vossa Senhoria Henrique Hennequm,de Liège, admirador de Afonso,que talvez teve contato com ele
passa a uma condição que não lhe permitirá mais ser o meu revisor,justamente no em Roma. Ele se encarregou de enviá-lo a todas as cortes da Europa. Por outro lado,
momento em que passo a um estado que me toma incapaz de publicar qualquer em Roma.o cardeal Castelli deu-o de presente,tendo em vista os chefes deles, a todos
coisa .E,aliás,nesse começo de 1777 que confia ao Pe.Francisco de Paula:"Sinto-me os embaixadores e ministros das potências estrangeiras. Não nos resta nenhuma das
mm;jánáo posso ler.nem escrever;sou atormentado com uma dor de cabeça contínua respostas dadas ao autor por essas Majestades porque, diz Tannoia, a humildade de
e tive de abandonar toda a espécie de esforço."® Afonso, conforme seu hábito, destruía todo esse gênero de correspondência.® Se ela
não mudou o rumo da história, a Fidelidade dos súditos testemimha ao menos que o
Essas Dissertações teológicas sobre os novíssimos serão efetivamente o livro velho bispo estava imbuído de um zelo universal que nada pxodia entorp>ecer.
ai deste infatigável escritor. Seu zelo e sua coragem inspirar-lhe-áo ainda algims
pequenostratados—cerca de uma dúzia desde sua volta a Pagani—que imprime com Essa vigUância o torna atento às publicações antivoltairianas do antigo jesuíta
ou entre trabalhos de mais alentado fôlego. francês Claude-François Nonnotte (1711-1793). Em março de 1778. ele lhe escreve de seu
entusiasmo por elas. entabulando assim uma correspondência ativa de ao menos 15
cartas, e que durará até 1785. Eles se correspondem em latim: é a língua dos doutos,
Condren-Quesnel.
publicou 40 páginas
Sua meta sobre
era levar O sacrifício
os fiéis de Jesus
a compreender Cristo,
todos inspiradas
os gestos, todasem
as como o francês é. a dos diplomatas. Ora.no começo de maio de 1778.corre em Nápoles
paiawas do sacerdote, inclusive as do cânon. para que pudessem realmente partici o boato da conversão de Voltaire. Afonso exulta. Prontamente retoma sua pena e seu
par.Esse cuidado com a Assembléia que celebra era muito raro antes do Vaticano II- latim para dirigir-se pessoalmente a ele:

Ainda quarenta páginas, em 1777. sobre a Fidelidade dos súditos. Doze anos ...Meu coração se angustiava,derramava até lágrimas amargas,escreveu-
úntes da Revolução Francesa,o semicego de Nocera sente tremer tronos e altares. Vê lhe. vendo-o empregar tão mal e já há tanto tempK). os raros talentos com que
os monarcas abalar a Igreja e a fé. e serrar dessa forma o galho em que estão assenta- Deus o dotou; muitas vezes, apesar de minha profunda indignidade, dirigia ao
os.Quem não teme a Deus.não teme o Estado.Lança um grito de alarme aos príncipes Altíssimo as mais fervorosas preces para que esse Pai das misericórdias o
e dá-lhescomo exemplo Constantino.são Luís.santo Estêvão,são Etelberto.Luís XIV levasse a abjurar seus erros e o atraísse todo ao seu amor.
e Carlos Emanuel da Savôiaem sua ação pela"conversão"do Chablais.Em sua flnura
e^olheu.como vimos, um leque aberto.E na conclusão, tomou distâncias com rela- Meus ardentes votos estão hoje atendidos. Sua conversão(não temo dizê-
çao a sexis heróis,enaltecendo—é possível? — a liberdade religiosa,esse "delírio" que lo)prestou melhor serviço à Igreja do que o poderiam fazer os trabalhos inces
será condenado porGregório XVI(Mirari vos, 1832)e por Pio IX (Syllabus, 1864): santes.de cem congregações de missionários.

Não convém, escreve ele. usar da força para levar os súditos a abraçar a Entretanto, essa alegria universal deve ser uma alegria sem nuvens, e a
Verdadeira religião. É preciso deixar esses meios aos tiranos de outrora que sinceridade de sua volta à Deus deve estar ao abrigo de qualquer suspeita. O
constrangiam os homens a crer nos ídolos.Deus não força ninguém a chegar-se senhor devia. pois. conforme meu modo de ver. tomar a pena para recusar os
a ele. Quer ser adorado por corações livres e espontâneos. erros e os sofismas do escritor que. ultimamente, ousou arremeter contra os
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680 PARTE V Cap. 47

podido ver essa reimpressão."" A 9.® edição, em 1785, praticamente não sofirerá
dogmas de nossa fé(Jean-Jacques Rousseau). Por que o senhor nâo quebraria mudanças,a não ser que abandonará finalmente o pesado in-fólio para aparecer sob o
as armas que estão nas mãos dele? Não causa ele um mal imenso a tantos formato de in-quarto que o autor reclamava havia já muito tempo.
pobres moços que são arrastados pelo amor do livre pensamento a desprez^
audaciosamente a seu Deus e a não ter nenhuma preocupação com sua própria
alma?
Essa grande Moral latina de Afonso de Ligório. e seu resumo,o Humo apostoli-
cus, tornaram-se conhecidos,já em vida do autor, não somente nos Estados da Itália,
O senhor sofre da vista, bem sei; mas o menor escrito ditado pelo senhor mas na Espanha e Portugal —onde foram até condenados: na Alemanha,na França e
prenderia a atenção do mundo inteiro. Principalmente, reduziria ao sUéncio na Bélgica; na Áustria, na Polônia, na Sérvia e na Boêmia; nas duas Américas, nas
aqueles que querem atirar dúvidas sobre sua conversão è não vêem nela senão índias e até na China.
uma comédia de sua parte.®
Diz-se correntemente,com a Bibliografia do Pe. Maurício De Meulemeester,que
Não,nãoeraumacomédia.Mas,pena!umafalsanovela.Tristemente. Afonsopôs
de lado a carta. E Voltaire morreu naquele mesmo mês. Afonso publicou 111 obras.Isso é verdade,em se falando do apêndice de 5 páginas até
os in-quarto de 1.500. Digamos que a edição crítica em curso — ou emperrada? —
Naquelas mesmas semanas de maio de 1778, Ligório redigia o último opúsculo somente de suas Obras ascéticas deve atingir 18 tomos in-quarto de 400 a 500 páginas
por ele publicado. Seria por acaso que se trata de Lembretes destinados às redento- cada um.Então,seria Afonso \un escritor prolixo,suficientemente rico para imprimir
ristinas de S.Ágata e de Scala? O essencial da vida religiosa em 44"lembretes".Seria por conta do autor? Muito ao contrário: um homem conciso e sempre endividado. E.
ainda por acaso que o mais desenvolvido desses "lembretes", o 41.°, versa sobre a contudo, é um dos grandes sucessos de livraria da história. Ele pode contar, até os
atenção para com os"pobres pecadores que vivem longe de Deiis"? Não,não é casual, nossos dias, cerca de 20.000 edições em pelo menos 70 línguas. Shakespeare, mais
porque enviando,em 5 dejimho,10 exemplares a Santa Ágata,o Pai enviavajunto as velho por uma alentada geração, traduzido, é verdade, em 77 línguas, totalizava em
seguintes palavras: 1961 somente 10.602 edições.

Peço-lhes que leiam este opúsculo mais vezes ao ano; ao menos, procurem São conhecidos,durante sua vida,53impressores-editores.Os maiores e de longe
todas lê-lo por ocasião do retiro particular. foram os Remondini de Veneza e Bassano: João Batista (1713-1773) e seu filho José
Recomendo-lhes especialmente a todas que ponham em prática o número (1747-1811). Com 18 prensas e mais de mil operários, faziam concorrência a toda a
41, ã página 12; ali lhes é aconselhado rezar pelos pecadores,e sobretudo pelos Europa, especialmente a Paris e Augsburgo.^® Começou com eles por ocasião da 3.^
infiéis e outros infortunados que vivem separados da Igreja. A religiosa que nâo edição de sua Moralem 1757 e não teve sossego enquanto não tomaram nas mãossuas
reza pelos pecadores prova que tem pouco amor para com Jesus Cristo. Asque o obras espirituais: Veneza era o púlpito donde podia pregar ao mundo inteiro, o maior
amam desejariam vê-lo amado pelo mimdo inteiro. Recomendo-lhes, pois, os centro mundial do livro depois de Antuérpia.E os Remondini acharão o negócio tão
pecadores... bom que lhe escreverão:"Ainda que o senhor tenha apenas uma página para impri
mir, pode mandá-la."^"
Peçam também ao divino Mestre conceder-me uma boa morte, pois estoU
invadido por cruéis angústias,e tremo ao pensamento das contas que terei em Mas Veneza estava longe de Nápoles e o percurso, por terra(Roma)ou por mar
breve de prestar a Jesus Cristo... (Manfredônia),era longo e aleatório. Era necessário que seus manuscritos não corres
sem risco. Afonso elaborava então suas obras, tirava uma primeira impressão em
Eu as abençôo a todas e a cada uma em particular.^® Nápoles,em número suficiente para que o tipógrafo tivesse seu lucro na venda;depois
corrigia fartamente esse texto impresso, providenciava habitualmente cópia dessas
Para com as irmãs de Scala, Afonso guardara tanto discrição quanto afeição: ele correções e enviava a obra pronta a RemondinL "Empregue papel bom,mesmo com risco
não estava,lá em cima,com elas. Masfeito bispo,o único mosteiro que fundou foi o das
de aumentar um pouco o preço",implorava muitas vezes o autor.E as edições iam saindo,
redentoristinas de S. Ágata, a quem amava como filhas. Para elas, pois, a última de 2 a 3.000 exemplares — era difícil ir mais além com a prensa de mão; mas as
publicação da pena que lhe cai das mãos. E no centro desse testamento:"os pobres tiragens iam-se sucedendo. E os napolitanos, para desespero de Remondini e a des
pecadores que vivem longe de Deus".
peito de Afonso,continuavam a imprimir obras não reelaboradas e repletas de erros.
a vida,toda a obra de Afonso está nesta última insistência: as"redentoris Outros editores, em Turim, Milão, Florença, Roma, Benevento, Siracusa,
tinas",os"redentoristas", uma mesma palavra,e bem mais do que uma palavra: toda apoderavam-se de um "Ligório",dele tirando seus lucros. O copyright,inventado em
a vida do Redentor a continuar. 1710 pela rainha Ana Stuart, não tinha ainda aterrizado nos países do sol. Somente a
chegada da Revolução é que forçou para o Continente um estatuto firme dos autores e
Não publicará mais nada, salvo aperfeiçoar com acréscimos de todos os de seus direitos. O editor fazia com que o autor principiante pagasse os seus riscos;
dias, e purificar de todo o probabilismo mal compreendido a oitava edição de sua testemunhava sua gratidão para com o escritor tarimbado presenteando-o com al
Teologia moral. Ao aparecer em 1779, ele escreve a Remondini:"Experimentei uma guns exemplares; e os galerianos da pena tinham de dar-se por satisfeitos por serem
alegria indizível ao receber seis exemplares de minha nova Moral.Essa última edição lidos por alguns de seus pares: 50 leitores para um livro sério, 500 para um livro
me faz morrer de alegria,como ao contrário,estaria morto de desgosto,se não tivesse agradável, dizia Voltaire.^®
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até ao povo os princípios evangélicos. Como em todas as tentativas de mudar a


Fiel aseucarismapopulare aseuDeus,Afonso busca outro público e a glória de um partir do exterior aqui também surgiu uma moda cultural: os especialistas da
outro. A Remondini.que pede e insiste para que lhe mande seu retrato para colocá-lo moral se apoderaram da obra e com ela fizeram tal polêmica que até o autor
^ ° os autores importantes, diz um não obsti- viu-se nela envolvido e que ardeucom mais vivacidade ainda após a sua morte.
dn ® esta múmia egípcia faria uma estranha propaganda
um i^nf ^o-se
pmtor de tocaia obrigado
durante a fazer um
as refeições do orifício
bispo.^ena porta do refeitório e a colocar Ao contrário, as obras que granjearam a Afonso — mas não oficialmente
desta vez — o título de mestre do povo de Deus,foram Glórias de Maria, Visitas
ao Santíssimo Sacramento, Máximas eternas, Preparação para a morte. Prá
ele redn^ Quais forem a ciência e o rigor de suas demonstrações morais e teológicas. tica do amor a Jesus Cristo,O grande meio da oração,para citar apenas as mais
sohr«> a i, n^ímo O aparato científico. Assim, em 1759, edita uma Dissertação significativas e mais populares. Ele soube adivinhar as necessidades religiosas
Taniifni n ^ Proibição e destruição dos maus livros pela autoridade da Igreja, do povo e dar-lhes resposta no diapasâo da fé e da mentalidade populares.^®
imnres^or somente o rei tem autoridade,condena ao exílio o revisor real. o
um bei^^ul ° ao fogo.Ligório consegue acalmá-lo e a obra toma-se Para isso teve ele de forjar para si uma língua escrita.
tinha livraria. Mas isso é uma outra história. O Pe. Alexandre Di Meo
publicou ° nesse trabalho com toda a sorte de notas emditas... que Afonso náo O povo italiano dos séculos XVin e XIX não falava italiano. Falava piemontês
omos do mundo como um sábio?"!^
oinos ao respondeu, você quer então que eu passe aos ou lombardo, veneziano ou romanhol,napolitano ou calabrés. Se na Itália havia uma
língua literária — o toscano — compreendida entre os intelectuais, escrita çkdi eles e
para eles, os italianos mesmos falavam cada qual o seu dialeto regioiial. O toscano,
leiro advertidos de uma escolha deliberada, a mesma do cava- dizia Ugo Foscolo (1778-1827),é para os italianos uma língua estrangeira. O italiano é
encontro Hq r if deixara Nápoles em lombo de burro para ir ao uma língua escrita e que náo pode ser falada."
que os homor.o pobres.Por um esforço de pensamento e de expressão de
num italianof se demonstraram incapazes, ele chega a exprimir-se A principal razão disso é que o toscano formou-se, na Renascença, dentro do
somente tardiamente
torn- ^nnples que os
Afonso cabreiros
lançou do Sul
mão da nele se reconhecem. E. no entanto,
pena. solene E)eríodo latino, longo e artificial, à moda de Cícero. A vivacidade do Gênio
italiano, que crepita nos dialetos, encontrava-se aprisionada. Januário Samelli da
quela época, Gabriele D'Annunzio (1863-1938), Benedeto Croce (1866-1958) e tantos
çâo: pena? Um napolitano,o Pe.Francisco Chiovaro,dá-nos esta explica- outros de nossa época,que somente podem escrever envoltos na toga romana,são por
essa razão ''fastidiosos e muitas vezes insuportáveis"^®.
Para Afonso a imprensa nada mais é do que um meio de difusão do
Afonso sem dúvida embocava essa trombeta solene em suas defesas da juven
a entre os pobres.Como a música,a pintura,a poesia.Se não houvesse tude no tribunal de Nápoles.Sem isso,teria parecido indigente aos olhos de seus pares
nhum^^H^^ difundir seus escritos. Afonso não se teria ocupado com ne- e seria desastroso para seus clientes. Mas ele deixou esse estilo nos vestiários do
vel E^ obras de vulgarização, gênero em que é um mestre incontestá- Palácio de Justiça,falou napolitano nas Capelas da noite,e criou—é a palavra—criou
sua me a é multiplicar
nenhuma preocupação
o eco de sua palavra,literária.
atingir oEle mesmo
maior nospossível
número esclarece:
de um toscano escrito vivo e popular. Não um italiano vulgar e incorreto: em 1750,
^ soas. Não ao nível da elite: ele quer ser"educador"da massa;escreveu para compôs para seus estudantes uma pequena gramática italiana em 9 capítulos: Apon
rua. Paradoxalmente, aliãs. esse desprezo pela literatura é a tamentos para a língua toscana.^® Bem ao contrário: um italiano tomado "clássico"e
gem de seu sucesso: é em seu livro que se pode encontrar a melhor prosa que o FKDVO compreende ainda hoje muito bem.É que Afonso, na língua de então em
religiosa do século XVm italiano. vias de elaboração, teve o faro de escolher as palavras mais simples, as formas mais
•agradáveis, as palavras e formas que ficam,em virtude mesmo das leis da evolução
jgso não
^ o atraía.^ne certo que
Sentia-se jamais
apenas sonhou em
catequista. ser um dia
E professor Doutornão
primário da espera
Igreja! das línguas.

er aoutor honoris causa de qualquer universidade famosa. Quando lhe foram Mas quem é que vai ler, em meio a esse povo de analfabetos, o toscano que ele
oncedidas as honras do Doutorado e. extraordinariamente, mais depressa do fala,que ele escreve para os"abandonados"da cultura e não para escritores? Ora ele é
3 ®.^^^^Qner outro Doutor da Igreja,o bom do santo,lá no céu,terá sido sem lido,já que as edições e traduções se multiplicam durante a sua vida.
vida o primeiro a não se importar com isso.
Primeiro os padres, as religiosas,os religiosos—numerosos,muito numerosos —
O título que oficialmente lhe valeu essa honra foisua Teologia moral,obra não são "grandes cabeças".Então eles lêem Ligório. Lêem-no em particular: lêem-no
nao diretamente destinada às pessoas do povo, mas menos ainda aos professo em comunidade; ou na igreja, nos exercícios da Vida devota de que participam de
res ou aos sutis destrinchadores de casos de consciência.Escreveu-a para servir de manhã e à tarde,lá onde a missão passou.O povo ouve então as Visitas, as Glórias de
manual dos confessores — de seus confrades primeiro — que, longe das Maria, as Meditações sobre a Paixão. Ouve Ligório e gosta; e o introduz em seus
discussões das escolas de teologia,como ele tinham-se dedicado à tarefa de levar serões.
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tore Romano, dos dias 5 e 6 de novembro de 1962.


Instituição essencial da vida cotidiana,nobre,burguesa ou camponesa,ao longo 13. Enciclopédia italiana: -Remondinl"; Opere ascetiche. "Introd. gen. pp. 61-71.
do inverno,o serão é passado em conversa e leituras. Enquanto as mulheres fiam ou 14. Tannoia, III, p. 88.
costiiram,enquanto os homensfumam seu cachimbo ou consertam suas ferramentas, 15. SH 2 (1954), pp. 453-460; Berruti, op. cit., p. 47; cf. Robert Escarpit. La révolution du livre, 2a. ed..
sob a vela ou simplesmente inclinando-se sobre a chama da lareira, uma leitora ou um Unescoe PUF, Paris, 1969; Luclen Febvree Henri-JeanMartin, L*apparltiondu livre, Albin Michel, Paris. 1971.
16. SH 9 (1961), p. 385 (38); 8. Afonso, Lettere, m, p. 142.
leitor lê para todos.Nem sempre é o almanaque ou um livro dejardinagem.de cozinha 17. Berruti, op. cit., p. 257; Tannoia, I, p. 293.
ou de saúde;muitas vezes é o catecismo.narrações evangélicas, vidas de santos,obras 18. Em Mission chrétienne 174 (1973). pp. 3-4.
alimentadoras da fé e da oração.No mais pobre dos arrabaldes,na menor aldeia,encontra- 19. Cf. Encyclopaedia universalis, IX, pp. 269-271.
se sempre um leitor: o padre, "o tio padre" (que família não tem o seu?), o can 20. Ela está reproduzida em Opere ascetiche, **Introd. gen.'*, pp. 105-115; cf. Gregorio. S. Alfonso gramma-
tico.
tor da paróquia, o soldado licenciado, a mulher que fez o "conservatório". O impor 21. Cf. Robert Mandrou, De laculture populaire aux XVII® et XVIII® siècles, Stock, Paris, 1964. pp. 18-21.
tante é que o texto seja simples, condimentado com trechos que o ouvinte reterá e 36-41, 77-97; Albert Soboul, La crise de TAncien Regime, Artaud, Paris, 1970, pp. 180-181.
recontará, tomando-se assim ele mesmo um contador de estilo oral.2' 22. Sant*Alfonso poeta, Caserta, 1917, p. 48.
23. S. Alfonso, 28 (1957), p. 153.
A memória popular se enriquecerá ainda mais com cerca de 50 canções que o
missionário dos pequenos compôs, letra e música, através de meio século. Para
apreciá-lo não precisamos compará-lo nem a Dante,nem a Metastásio. Ainda uma vez
mais,ele é ele mesmo:um místico que partilha os arroubos de sua fé e de seu amor com
o povo todo simplicidade dos campos e dos arrabaldes. A música das palavras,o ritmo
das estrofes, o sabor das melodias, o fogo dos sentimentos desafiam a tradução. É
preciso recitar as canções,é preciso cantá-las em italiano ou em napolitano. Aliás,"o
júri" deu o seu voto: o voto de um povo que canta Ligório.

Dom Mário Palladino escrevia no início do século:

Somente Afonso de Ligório deu á Itália o canto popular em toda a sua


perfeição. Ainda hoje, após cento e cinqúenta anos, suas canções ressoam
através de nossos vales e montanhas e, como toda a verdadeira poesia, elas
conservam o frescor de suajuventude. Quantos poetas desde aquela época,por
entre as transformações literárias, abordaram esse gênero de poesia! Foram
elogiados durante certo período,e depois o povo os esqueceu,enquanto Afonso,
seu verdadeiro, seu doce poeta, permanece vivo em sua lembrança.22

Tão vivo que entrou na respiração de seu povo. Em particular, náo haverá um
viuc ressoe
atai sem que icíssue nas igrejas e sobre as ondas seu m
Tu scendi
■«. dalle
ji_ii — stelle, o^ Re dei
^a1
Cielo, composto certa noite em Nola. "Sem essa pastoral de santo Afonso, Natal náo é
mais Natal", dirá Giuseppe Verdi, após o serão danatividade de 1890, no palácio Dória
de Gênova.23

NOTA

1. S. Alfonso, 29 (1958), p. 9; Jean Mauzaize, Un apôtre de TAfrique au XIX® siècle, Bolonha, 1980.
2. P^a essa citação
jrara essa citação ee seguintes:
seguintes: S. Afonso, Lettere,
S. Afonso, Lettere, IIX,
m, pp.
pp. 46
467, 471-472, 472-473, 476-477.
3. Dissertazione
3. Dissertazione VI,
VT n.n 36-38, Ed.ir.H Marietti,
MnHptti Vm, vm. pp.
nn. 1054-1055.
10.54-1055
4. Denzinger, Enchiridion, n. 1526.
5. S. Afonso, Lettere, IH, pp. 479; 481-482; cf. SH 11 (1963), pp. 9-10.
6. Tannoia, III, pp. 24, 88; S. Afonso, Lettere, n, p. 408.
7. Opere, Ed. Marietti, H, p. 514.
Aviíirietüi, 11, p. 014.
Q rn
8. . os5 últimos
Tannoia, III, p. 47; cf. p. 236. — Sobre i opúsculos de Afonso, cf. De Meulemeester,Bibliogra-
phie, I, pp. 162-179.
9. S. Afonso, Lettere, n, p. 482; cf. pp. 473-476; SH 24 (1976), pp. 3-15; Tannoia, IH, p. 49-55.
10. Lettere, II, p. 488. — Cf. Opere, Marietti, IV, p. 384-389.
11. S. Afonso, Lettere, IH, p. 530; cf. Studia moralia, III, p. 122.
12. A partir de De Meulemeester, op. cit., III, (1939), p. 3, estimativa de Raymond J. Müler no L'Osserva-
48. VONTADE DO PAPA, VONTADE DE DEUS'
(1777-1781)

As concessões de Clemente XIV somente atiçaram os apetites dos regalistas.


Com Pio VI, Tanucci sentiu-se sempre mais à vontade,legislando atrevidamente,em
nome de seu fantoche real,em todas as matériaseclesiásticas.Em 1775,os napolitanos
viram-se proibidos de ir lucrar em Roma a indulgência plenária do jubileu: Fernando
rv substituíra a visita das basílicas romanas pura e simplesmente pela das basílicas
napKDütanas. O novo arcebispo, Serafino Filangieri, cuja nomeação não prenunciava
nada de bom para Ligório', de uma forma vil vinha-se mostrando cortesão e regalista:
suprimira,de seu título, que ele era arcebispo "pela graça da Sé Apostólica". Tendo o
papa se recusado a nomeá-lo cardeal, respondera Tanucci que o rei não se furtaria a
conferir a púrpiira e algims altos dignitários do Reino.Caminhava-se para uma Igreja
nacional, cujos bispos seriam nomeados pelo poder civil para serem seus servis ins
trumentos. Uma Igreja, principalmente, desmembrada de Roma,cujas pretensões à
suserania eram — e neste particular não sem razão — detestadas.
É nesse clima que sobrevém, em 1776, o incidente da chinea. Todos os anos,já
havia séculos, no dia da festa dos santos apóstolos Pedro e Paulo, o embaixador de
Nápolesjunto da Santa Sé devia pagar ao papa,um sinal de vassalagem,7.000 escudos
de ouro. Eles eram levados sobre uma cavalgadura branca, a chinea. Os napolitanos
sentiam,compreende-se,crescente aversão por esse tributo, mesmo pagando-o — que
ironia! — ao vigário daquele que disse:"Meu reino não é deste mundo".

A 29 dejunho de 1776,pois,quando o príncipe Colonna,embaixador de Fernando


rv se dirigia com grande pompa ao Vaticano para a apresentação da chinea,surgiu no
cortejo uma disputa de precedência entre os seus pajens e os do governador de Roma.
Tanucci transformou essa discussão de lacaios num caso de Estado. Mandou escrever
ao papa em nome do rei: "A experiência tem demonstrado que um ato de piora
devoção, como a apresentação da chinea, pode ser fonte de escândalo e ocasião de
desordem.Após madura reflexão,o rei decidiu que para o futuro a cerimônia não mais
se realizará... A razão, a reflexão, a humanidade, a justiça e uma sábia previdência
ditaram ao reiessa resolução,de vez que aforma da homenagem depende imicamente
de sua vontade soberana, da inspiração de sua piedade e de sua religiosa condescen
dência."

"A inspiração de sua piedade" levou-o ainda a oferecer a chinea em 1777,"mas


unicamente em testemunho de veneração pelo Príncipe dos Apóstolos".E foi a última
vez apesar dos protestos que,ano por ano.Pio VInão deixarã de levantar.^ Surge,pois,
por dez e mais anos um clima de guerra entre Roma e Nãpoles. Esse clima de guerra
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688 PARTE V Cap. 48

Para dar maiores probabilidades de êxito a esse dossiê,o pruneiro-ministro.em


náo deve ser perdido de vista se quisermoscompreender as peripécias que váo marcar janeiro de 1776, tirara-o da Câmara Real para transferi-lo à Junta dos Abusos, aquele
tão duramente os últimos anos de Afonso. tribunal de exceção criado e presidido por ele mesmo. Já era uma desqualiíicação,
quase uma condenação.
Por essa ruptura espetacular. Tanucci podiajulgar ter consagrado sua inamovi-
büidade!...Tinha feito o cálculo,sem levar em conta Maria Carolina A rainha era füha Recebemos esta manhã belas notícias, escreve Afonso ao Fe. Ângelo
de Maria Teresa daÁustria,irmã de José n.o"sacristão" e da infeliz Maria Antonieta. Maione. seu procurador pessoal em Nápoles. Eu disse "belas : maneira de
Nao chegou a gostar nem do grosseiro Fernando IV.nem daquele velho potentado que aceitar com resignação a vontade de Deus.
era Tanucci.Como sua mãe.aquüo de que ela mais gostava era do poder. Por isso. no
contrato de casamento de sua filha,ela estipulara que ajovem rainha seria admitida, Se essas notícias vierem a ser confirmadas,não nos restará nenhuma outra
com voto deliberativo, nas sessões do Conselho de Estado tão logo desse um herdeiro à esperança a não ser Deus. Mas Deus é mais poderoso que Tanucci e todos os
coroa de Nápoles. Em 1775. nascera o príncipe herdeiro. Maria Carolina persuadira seU outros.5
real esposo de que a tutela do papa-o rei da Espanha-durara demais. A Áustria
esperava a sua vez. Num sábado.25 de outubro de 1776. Fernando agradecia o velho Sabemos que nove meses mais tarde um peteleco de Maria Carolina lançou por
Tanucci. que servira os Bourbons durante 49 anos. e o substituía, influenciado por terra o colosso. A pedido de Afonso e de bispos amigos, o marquês delia Sambuca
Jose n.pelo seu embaixador em Viena,marquês delia Sambuca.Beccadelli Bologna- remeteu logo (7 de março de 1777)o processo Maffei-Samelli à Gamara Real e a seu
presidente. Baltasar Cito.
Dom Ligório somente podia alegrar-se com essa mudança na cúpula. Não nos
esqueçamos do feroz processo Maffei-Samelli. ainda pendente contra ele e seu Insti- A esse velho companheiro de estudos e de jogos, a essa Corte Suprema onde
tiito. Ora,as coisas nos últimos dois anos tinham-se singularmente deteriorado. Por conta com excelentes amigos. Afonso dirige, a não ser que tenha feito a Carlos De
decreto de 13 de outubro de 1775, Tanucci encarregara uma comissão de três mem- Marco, um memorando familiar, em que refuta as acusações de F. de Leon:
bros p^a que se informasse e requeresse a respeito desse antigo caso. Pusera à sua
irente Ferdmando de Leon.advogado fiscal da Junta dos Abusos agnóstico agressivo, Declaram contrário ao despacho de 1752 o fato de termos,em nossascasas,
que somente tinha a peito acabar com jesuítas, monges e redentoristas.^
superiores e responsáveis... Mas vejamos: o rei permite-nos "viver juntos .
Como fazê-lo sem hierarquia? Até as oficinas de trabalho e os rebanhos de
Astucioso e eficiente. Ferdinando de Leon aceitou as denúncias locais dos Maffei carneiros têm seus chefes de trabalho ou de fila. Chamemo-los reitores, priores
e dos Samelli. O seu relatório todo baseava-se em pontos de acusações que não ou como V.Sas. queiram, é de necessidade que aqueles que vivem juntos se
tinham perdão: os padres fizeram aquisições de bens. contrariamente à ordenança coloquem sob uma direção. Se assim não for, o grupo nada mais será do que
re^ de 1752; formam uma congregação, pois que têm superiores locais, noviços e uma justaposição de gente em desacordo, procurando cada qual seguir a pró
estudantes; participam das faculdades e privilégios de outros Institutos; fundaram pria cabeça e querendo fazer com que o grupo se dobre às suas fantasias.
c^as nos Estados Pontifícios para exportar para lã os tesouros do Reino;finalmente. Principalmente na missão... seria \ama bela de uma confusão e um belo escân
e e o mais grave,são rebentos dosjesuítas, tendo o mesmo autoritarismo e a mesma dalo...
moral relaxada.
Censuram-nos porque temos noviciado e estudantado. Mais uma vez,
Além disso, que necessidade hã de novas congregações e de novas voca* chamem como queiram essas casas de formação. O problema é saber se é
Ções num país que contacom 75.000 padrese monges?...A utilidade aparente da necessário manter a Obra das missões, substituir os elementos que venhain a
instrução dos pobres camponeses? Todas as coisas belas tiveram belos come- faltar.O decreto do reiexprime o desejo de que a Obra continue em seu primeiro
ços. Não existe seita nenhuma no mimdo que não se tenha apresentado com fervor.Como substituir os mortos e os desertores sem receber e formarjovens?
belas aparências. Depois manifestam-se o fanatismo, a ambição, etc.
Tomar padresjá maduros? Tomá-los de onde? Eles estão bem instalados e
Que Vossa Majestade esteja persuadido,conclui o advogado em seu rela não têm nenhuma vontade de vir participar de nossa existência de pobres.
tório: se não se empregarem remédios fortes e eficazes,essa nova Congregação Principalmente se já não são muitosjovens. Quem quererá arriscar sua vida e
chegarã a progredir. As outras se estabeleceram no meio de contradições; esta sua saúde viajando através das montanhas e dos ermos, sob chuva e neve,
vai se desenvolver do mesmo modo. Esperarão um tempo mais favorável, e correndo o perigo de deixar nisso a sua pele? Quantos dos nossosjá não morre
então as controvérsias atuais serão colocadas no rol das glórias do Instituto.E ram por causa das fadigas das missões? Se devemos mandar de volta osjovens,
meu nome.que de resto só merece a obscuridade. passará à história na Vida de isso não significa manter a Obra em seu primeiro fervor: é destruí-la.®
D. Afonso de Ligório. entre aqueles, dir-se-ã. que o demônio suscitou contra a
sua Congregação, como ele sempre tem feito contra as obras de Deus.'»
Essa defesa sem data é de 1777 ou de 1778? Lentamente,ela fez o seu caminho. A
12 de abril de 1779, o Pai escrevia a Maione:
Mas sim, caro Ferdinando de Leon. eis-nos aqui fiéis ao encontro marcado!
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690 PARTE V Cap. 48

Meu caro Pe. Ângelo,o negócio parece-me agora bem encaminhado. Dei* fim para o qual o Senhor o chsunou a este Instituto. Mas é igusdmente verdade
xemos que Jesus Cristo ajai ele operou milagres nessas perseguições, como (fiquei sabendo com grande pesar) que muitas desordens se introduziram na
você bem sabe.Ele não tolerará,estou certo,que seja destruída sua obra,obra Congregação,principalmente com relação às missões.É necessário acabar com
tão útü para os pobres pecadores. Da Calábria, das Apúlias, da BasUicata, da isso a qualquer preço.
diocese de Benevento,da Sicília e da Campânia romana,recebo, a respeito dos
trabalhos dos nossos padres e do bem que fazem, cartas que me têm tocado E recorda a pobreza na alimentação; a oração mental,"porque o OF>erário evan
profundamente. Deus seja por isso abençoado! gélico tem necessidade de ver claro para esclarecer os outros; e se quer acender a
chama do amor de Deus no coração do outro, tem de estar ele mesmo abrasado por
Creio agora que é bom prevenir o capeláo-mor.Dessa forma saberá do que primeiro".
se trata se publicarem uma ordenança. Mas siga nessa questão o expediente
que lhe parecer mais prudente... Nunca, nunca(e este ponto é de soberana importância)se permita que as
prefeituras façam despesas em nosso favor,ou que elas nos presenteiem ou nos
Minha saúde vai de mal a pior, mas asseguro-lhe que morrerei extrema dêem dinheiro.Isso tomaria as missões odiosas e expô-las-ia completamente ã
mente feliz se Jesus Cristo e Nossa Senhora me concederem ver garantida ã ruína ou ao menos diminuiria a estima das missões, desse ministério que é a
tranqüilidade de nossas casas.^ única razão de ser do Instituto do Santíssimo Redentor...

Afonso esperava então uma ordenança favorável. De fato, a 21 de agosto de 1779, Seguem alguns pontos de observância interna, e depois:
Carlos De Marco publicava,em nome do rei, xim despacho reconhecendo formalmente
a utilidade da Obra das missões; autorizando a existência das quatro casas: Ciorani, Essas recomendações me foram ditadas por minha afeição para com os
Nocera, Deliceto e Caposele; aprovando a nomeação de superiores e permitindo senhores e pelo desejo de que sejam observadas cuidadosamente.É por isso que
aceitar moços para formá-los no ministério do Instituto. tomei a firme resolução de enviar cada ano, enquanto Deus o permitir, um
visitador que percorra todas as casas em meu lugar...
Era lançar por terra o requisitório do procurador F.de Leon. Não hã dúvida,não
se tratava da qiiestáo dos votos. Mas esse decreto era um salto para a frente com relação Tudo, nessa circular, revela a esperança diante de um futuro estabilizado.
ao de 1752. E uma esperança de ir alêm, passo a passo."Se o grão-duque da Toscana
tivesse aparecido aqui pessoalmente,repetia com raiva o procurador F.de Leon,não Ora, melhor ainda,em 22 de outubro,em nome do rei, o primeiro-ministro delia
teria podido conseguir da Corte o que obteve essa padralhada!"® Sambuca encarrega Dom Ligório e seus missionários da pregação da "Cruzada" no
Reino. Tratava-se de reforçar a frota militar contra "os turcos" que devastavam as
Glória ao Pai,ao Filho e ao Espírito Santo!escreve Afonso dois dias depois costas napolitanas e sicilianas, incendiando, matando,capturando cristãos para Tú-
a Maione.O Pe.Cimino leu-me pausadamente o decreto.Celebrarei três missas nis, Algéria ou Trípoli. Delia Sambuca pretendia antes siiscitar donativos do que
em ação de graças.
onerar os impostos.Obteve do papa o que Maria Carolina não ousava ainda conceder:
uma Bula da Cruzada que outorgava privilégios espirituais a quem abrisse suas bolsas
Apadeçamos, pois, de todo o coração a Jesus Cristo e à Santíssima Vir em favor dos estaleiros navais de S. Majestade. Dom Filangieri foi designado
gem. Tinha recomendado esse assunto a ela de modo especial. comissãrio-geral da "Cruzada". Em fevereiro de 1778 publicou uma carta pastoral
para entusiasmar a opinião pública. Mas ninguém meteu tanto assim as mãosem suas
Meus agradecimentos a C. De Marco, ao capelão-mor. Agradecimento a disponibilidades... Foi então que o Govemo pensou nos redentoristas a quem acaba
você que colocou tanto zelo em fazer com que chegasse a bom termo tão vam de conceder como que uma segunda vida.
importante negócio...
Afonso tinha em suas veias sangue de capitão de galera. Viu sobretudo a soberba
Minha saúde declina; mas morro contente, garanto-lhe, se Jesus Cristo e ocasião de conseguir enfim o pleno reconhecimento legal. Mandou, pois, imprimir
Nossa Senhora me fizerem ver a Congregação firmada na paz.® uma circular pomposa, datada de 8 de novembro de 1779, e que começava assim:
Ao sentir aproximar-se essa esperança,o fundador dirige a seus filhos esta carta,
como seu testamento espiritual: Afonso Maria de Ligório, bispo pela graça de Deus e da Santa Sé Apostó
lica, reitor-mor dos padres missionários da Congregação do Santíssimo Reden
Minha idade e mais ainda minhas doenças contínuas, levam-me a crer, tor.
caríssimos Padres e irmãos que estas são as minhas últimas recomendações: Não saberíamos dizer-lhes com que alegria, com que júbilo recebemos da
primeira secretaria de Estado uma ordenança real confiando-nos,em nome de
Tenho grande motivo de regozijo,é verdade,porque a observância e a vida Sua Majestade nosso Soberano,a mais honrosa das missões. O rei nos impõem
regular, dizem-me,estão florescentes em nossas casas e cada qual tem a peito o formalmente que façamos apelo ao zelo de todos os senhores, caríssimos con-
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692 PARTE V Cap. 48

Não se tinha ainda o "cumpra-se" régio para o Breve apostólico que apro
frades,a fim de promover e sustentar a grande obra da santa cruzada,estabele vara nossas Regras. Por outro lado.em vista dos ataques do barão Samellie do
cida neste Reino por Sua Majestade pelos motivos indicados nessa ordenança- procurador fiscal F.de Leon. não se escaparia à supressão se não se tivesse um
Eis, para seu conhecimento, o texto desse documento:
assentimento real que nos assegurasse a mesma garantia que o "cumpra-se".
Estava-se em bom caminho,já que Sua Mqjestade aprovara superiores e res
Excelência.—Os trabalhos incessantes aos quais se entregam seus missionários ponsáveis pelo bom andamento interno das casas. Explicaram-me que era
do Santíssimo Redentor com vistas á instrução dosfiéis e promoção da prática da necessário apresentar ao Rei,em resumo,as Regras aprovadas por Bento Xrv,
piedade e da religião; o zelo ardente com que espalham por toda a parte os princí mas modificadas segundo o teor dos decretos reais de 1752 e 1779 e ajustadas à
pios da sã moral,próprios aformar os bons cidadãos e os bons cristãos, atraíram a
legislação do Reino.Esse foi o parecer de nossos advogadose de meus consulto
atenção de S. Majestade,o Rei. Por isso, S.M. resolveu confiar-lhe uma missão: a dc res. E deram-me a entender ser necessário o segredo mais estrito se não se
promover e de sustentar vigorosamente uma obra que visa unicamente a sálvaçaã quisesse comprometer e votar ao fracasso uma negociação tão fundamental.
das almas e o maior bem do Estado,quero dizer,a obra da cruzada. Ele deseja,poit,
que V. Senhoria, na qualidade defundador e de reitor-mor desses missionários, os
encarregue expressamente,em nome do Rei,de explicar o maisfreqüente que pode Encarreguei, então, um de meus consultores, o Pe. Ângelo Maione, que
rem, por toda a parte em que pregarem missões, as indulgências e outras graÇã^ residia em Nápoles, para que conduzisse o processo Maffei-Samelli a bom
- enurr^radas na Bula.Exporão ao mesmo tempo aosfiéis vassalos de S. M.como nossã termo; e as conversações começaram.Eu tinha em Nocera, para assisti-lo, outro
Marinha tem necessidade de um indispensável subsidio para rechaçar as contínudt consultor, o Pe. Fabrício Cimino, em cu^a fidelidade tinha muita confiança.
Meus confrades tiveram conhecimento dessas negociações;e,de quase todas as
agressões dos maometanos, agressões que causam os maiores males ã Igreja e ão
Estado.
casas do Reino, insistiram em saber que Regras iam ser apresentadas ao rei.
Estava disposto a dar-lhes satisfação: não teriam o direito de pretender infor
Certamente que nos chamaram a atenção às expressões "zelo ardente",'s® mações atualizadas sobre um assunto tão delicado e que os tocava a todos? Mas
moral" empregados pelo primeiro-ministro e o termo "congregação" ousado poT fui detido por certo temor que me infundiram os dois consultores. Seria, diziam
Afonso. Decididamente, o vento virara! eles, arruinar para sempre uma negociação indispensável ao corpo inteiro do
í] Instituto, o boato poderia chegar aos ouvidos do barão Samelli,cqjos recursos
Desde 1777, os advogados de Afonso e algims confrades tinham percebido a paralisariam tudo.^°
mudança.Sem esperar um "cumpra-se" para a Regra aprovada por Bento XIV o
clima político entre Roma e Nápoles o tomava impensável — julgavam que era Sente-se o afloramento da ambigüidade da situação através deste novo desmen
chegado o tempo de pedir ao rei"um regulamento interno"como Carlos de Bourbon! tido de Afonso, a 15 de dezembro, ao Pe. Corrado:
fixara um externo em 1752. Não que se pudesse pensar em tocar nas Regras e Consti
tuições canônicas, mas no único sentido de criar, para a Congregação, um estatuto Recebi sua carta e pesei-lhe todas as expressões. Não está imaginando,
legal.O capelão-mor.Dom Mateus Testa,tinha a mesma opinião e dava boas esperan eu penso, que queira enganá-lo ou afirmar uma mentira, nem que tenha
ças. O jurista Ligório,que sabia distinguir o estatuto civil de uma obra e seu estatuto perdido o espírito a tal ponto de permitir a menor mudança na Regra.E ixinto
religioso,empenhou-se nisso de corpo inteiro. Em segredo,encarregou do assunto os final, não se fala mais disso.
dois consultores-gerais, Ângelo Maione e Fabrício Cimino. A respeito de algims boa
tos que filtraram e deformavam as suas intenções, respondeu firmemente em 4 de Se recusam crer em mim depois de tudo isso, que posso fazer? Levarei isso
setembro de 1779 ao Pe. Bartolomeu Corrado: ã conta de meus pecados.

Fiquei sabendo que muitos se perguntam com ansiedade se não quero Todos esses boatos me causam grande aflição. Porque vejo claramente
estabelecer uma Regra nova, diferente da antiga. que é o demônio que os espalha para lançar a confusão em nossas fileiras.
Repito: afirmo-lhe em consciência que não se faz nada contra a Regra nem
Como é que pôde entrar no espírito de alguém talsuspeita,quando sempr® contra a observância em vigor na Congregação. Se não quiser acreditar-me,
vigiei com o maior cuidado no sentido da observância dessa Regra? Foi con paciência!^^
forme suas prescrições que sempre governei a Congregação, e até ao último
suspiro opor-me-eicom todas as minhas forças a que nela se mude um único i- O caso estava em boas mãos: Dom Testa, cap)elão-mor, sabia até que ponto era
necessário ceder aos regalistas e tinha a peito que as providências de seu amigo
Há clarezae franqueza.Maso superior geral deixa na ignorância,forçosamente,o Ligõrio surtissem êxito. Maione não tinha ambição diferente. No momento,envolvi
fato das negociações de pura formalidade que devem enfim dar ao Instituto o reco dos nojogo,redigiram um Regulamento completamente novo.Os quatro votos foram
nhecimento legal. Dará a explicação disso num longo memorando de 1780, não da substituídos por um juramento de castidade e obediência. Sobre pobreza e vida
tado, destinado a Pio VI: comum não havia nem uma linha. No lugar do voto e juramento de perseverança
estabelecia-se que a qualquer hora era permitido deixar o Instituto. A direção externa
Beatíssimo Padre, eis os fatos tais quais se passaram... do Instituto era confiada aos bispos. O reitor-mor somente tinha o comando nas
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694 PARTE V Cap. 48

questões internas,e suas faculdades,singularmente reduzidas, passavam em grande "Como fundador e reitor-mor da Congregação,leve,em seu nome,ao conhecimento de
todos e de cada um de seus membros que o presente Regulamento deve doravante
parte para seus consultores. Os capítulos gerais, a serem convocados cada 9 anos,
foram supressos; muitas outras prescrições de menor importância nâo apareciam entrar em vigor para sempre, sem alteração nem redução..."
mais.Para dar ao Regulamento feição civil,declarava-se que a Congregação devia sua
existência aos decretos reais de 1752 e 1779. Eles deviam ser inseridos no texto e Maione era suficientemente perspicaz para prever uma tempestade. Em vez de
deviam ser inviolavelmente observados por todos. A Regra de Bento XIV era assim levar imediata e desvanecidamente sua "obra prima" a Pagani, esp)erou uma oca
substituída por uma ordenança real. sião. Ela apresentou-se na pessoa do reitor de Benevento, Gaspar Caione.
consultor-geral, que ia pregar os exercícios espirituais aos padres de Salerno.
Afonso era jurista muito sutil para ver nisso um grave inconveniente. Não se
tratava de um documento situando a Congregação perante o Estado? Em 1777, num Pagani,8 de março de 1780, no início da tarde.Chega o Pe.Caione,trazendo para
memorando à Câmara Real, escrevera que "o decreto régio de 1752 era a pedra Afonso o tão esperado documento. Arrancados uns de seu dono,outros da oração, os
fundamental do Instituto"^^ para gente inteligente, a coisa era evidente! Entretanto confrades estão todos em poucos instantes reunidos com o Pe. Villani, reitor da casa e
ele teria seguramente recusado que esses emmciados destinados ao fogo civil pudes vigário-geral.Iriam todosjuntos ao quarto do Bispo? Hoje ele está muito doente. Mas
sem significar a exclusão prática das disposições religiosas fundamentais aprovadas não ousam romper os selos sem ele. À tarde, os padres vão passar com ele um mo
por Bento XIV. O texto, de qualquer modo, deveria ser-lhe submetido antes de ser mento de recreação: é todo alegre que lhes diz:
proposto ao Governo.De fato,em fins de setembro de 1779, Maione foi a Pagani para
apresentar o projeto ao reitor-mor. Mas... — Sexta-feira santa renovaremos nossa aceitação da Regra; nós também fai-e-
mos esse sacrifício a Jesus Cristo.
Mas Dom Ligõrio tinha 83 anos: seus olhos gastos faziam-lhe dificil toda e qual
quer leitura;sua surdezo impedia de ouvirlongos relatórios.O memorando de Maione — Nós o faremos, disseram-lhe, após a leitura e apreciação do Regulamento.
estava escrito em caracteres miúdos, carregado de rasuras e correções. O velhinho
tentou ler. Apôs algumas linhas teve de desistir. Seja papa ou santo, a velhice é Será que ele entendeu? Parece que não;e ninguém ousou forçar a situação. Mas
incompatível como o exercício das responsabilidades. Afonso confiou isso ao cuidado logo que se viram fora de seu quarto,insistiram com o vigário-geral até que ele abriu o
de seu diretor e vigário-geral, Pe. Villani. envelope selado. Houve verdadeira disputa das folhas soltas, que foram avidamente
lidas em grupos. É o estupor, o escândalo, a cólera. Passam a noite copiando suas
Villani, de 73 anos,era o homem das alterações da Regra. Recebera sem infartos páginas. Antes do dia, acordam Afonso; expõem-lhe o massacre a que sujeitaram a
as da Cúria Romanaem 1749.Teve o mesmo coração robusto diante das alterações do Regra; pedem-lhe justiça.
regalismo napolitano. Tanto mais que "esse Re^amento não era mais do que uma
formalidade que não obrigava em consciência"^3. Entretanto ficou sinrpreso com a —Não é possível!... Não é possível! Repete Afonso, percorrendo as páginas fatais.
supressão dos votos; mas Maione disse-lhe, não sem razão:"O rei não tolera os votos, E, virando-se para Villani:
porque fazem de nõs semi-regulares. Nõs não temos de fazer a lei, mas de recebê-la do
capelão-mor.Se a Regra ê aprovada na essência,não olhemos os pormenores." Villani — André, não esperava ser enganado dessa maneira por você.
tranqüilizou então o fundador—"tudo ia bem" — e Maione voltou para a capital com
uma assinatura em branco do superior. Depois, a toda a comunidade:

Como fora redigido segimdo as normas do Conselho de Estado,o Regulamento — Eu mereceria ser atado ã cauda de um cavalo: na qualidade de superior,
interno da Congregação do Santíssimo Redentor obteve dele sem dificuldade a apro deveria ter lido pessoalmente... Mas,vocês bem sabem,tenho tanta dificuldade de ler
vação unânime.Ele ê de 22 de janeiro de 1780. Apôs 40 anos de recusa,a Congregação algumas linhas que sejam.
obtinha finalmente um estatudo legal no Reino; a horda Maffei-Samelli-de Leon
perdera antes de haver pleiteado; o futuro das missões estava garantido. Testa e Ergue então os olhos para o Crucifixo:
Maione podiam estar orgulhosos,e sem dúvida o estavam.E,não duvidemos,estavam
felizes por causa de Afonso e de seu Instituto. — Meu Jesus, eu confiei em meu confessor. Se não podia confiar nele, a quem
poderia eu me dirigir?
Uma febre,entretanto, agitou os confrades.Escreviam a Maione,a Afonso.Este
chama Tannoia para junto de si... E desmanchou-se em lágrimas,repetindo:"Enganaram-me!Enganaram-me!" E
ainda:"Ó Deus, não castigue os inocentes, mas o culpado que arruinou a sua Obra."
Em Nápoles,durante todo o mês de fevereiro,o Regulamento foise arrastando do Esse culpado,sem dúvida, é ele mesmo,e com isso perde o apetite e o sono. Temem
Conselho de Estado à Câmara de S. Clara, e desta aos Negócios Eclesiásticos, da perdê-lo.
alçada de Carlos De Marco. A 1.° de março, o capelão-mor, finalmente, enviou um
exemplar oficial dele a Maione para ser entregue a Dom Ligõrio, com esta carta: No dia seguinte chama em seu socorro o Pe. Corrado, de Ciorani:
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PARTE V Cap. 48

Graças a Deus fiquei sabendo a tempo desse plano. Revoguei por isso
Estou correndo o risco de ficar louco. qualquer procuração outorgada por mim ao Pe.Maione e escrevi ao Pe.Corrado
que extinga o incêndio que o dito padre ateará nessa ocasião: essa fogueira
Vi o novo Regulamento,obra do Pe. Maione; ele é, quase que por inteiro, esfriará, tenho essa confiança.
contrário aos meus pontos de vista.
Enquanto esperamos, peço-lhe que voltem, você e seus padres, a Ciorani,
Aqui todos os jovens fazem grande barulho. se ainda não começaram outra missão; e se começaram alguma, voltem logo
que a tiverem terminado.
Peço-lhe, abandone tudo para vir ter comigo, se não quiser receber a
notícia de que perdi a cabeça e que morri de apoplexia.^" Comecei uma novena de nove Ave-Manas e nove Glórias em honra de
Nossa Senhora para que essa boa Mãe previna toda a desgraça. Eu, aliás,
O primeiro ato do reitor-mor,a partir do dia 13 de março,é o de retirar, i>erante o remediarei todo o mal; mas é Nossa Senhora quem deve intervir.
notário, toda a procuração do Pe. Caione para transferi-la ao Pe. Corrado. Envia
imediatamente este último a Nápolescom uma súplica ao rei e cartas para Dom Testa Faça com que rezem também todos os que nossão próximos,mas não diga
e ao marquês De Marco: nada das perturbações que agitam a CongrcS^Ç^o» ® logo que puder vir a
Nocera, venha. Por enquanto, não é necessário que os outros o acompanhem.
Meu caro Bartolomeo bem vê que nossa Congregação está próxima de sua Rogue a Jesus Cristo me conceda a resignação.
ruína: o senhor deve, pois, fazer o possível para vir em seu socorro.
Personalidade complexa a do Pe. Maione. Presa da ambição? Ao menos — por
Envio, inclusa, a súplica endereçada ao marquês De Marco e junto uma que não? da ambição do êxito. Partilhava inquestionavelmente a mentalidade
carta para ele: leve-a pessoalmente, ê preciso, e ponha-o a par de tudo. regalista? Isso é fireqüente em gente de Igreja, que se defix>nta com as ideologias
políticas do momento. Uma certa alergia à autoridade dos outros: lembramo-nos de
tí É preciso falar claro; senão,o Pe. Maione trabalhará por baixo do pano. que o Pe. Ângelo não quis ficar com Afonso em S. Ágata. Além disso, a autoridade
agora tinha 80, 83,85 anos... com vun vigário-geral que vinha apenas 10 anos atrás... A
É preciso dizer ao Senhor Marquês que o Pe. Maione quis aumentar o verdade é que o Pai sempre conservara sua confiança em Maione. Que iria agora
poder dos consultores. Porque ele mesmo é um dos consultores; que em nume acontecer entre eles? Na quinta-feira santa, 20 de março, Afonso escreve-lhe.
rosos pontos aniquilou o poder do reitor-mor, e que semelhante desprezo de
minha autoridade impede agora meus companheiros de me testemunhar qual É aos pés de Jesus Crucificado que lhe escrevo esta carta. É também a seus
quer respeito. pés que peço que você se ajoelhe, nestes dias em que este bom Mestre deu sua
vida por nosso amor.
É preciso, num destes dias, o mais cedo possível, que você procure o
Senhor Marquês; diga-lhe que não perdi o entendimento, como o Pe. Maione Esqueçamos o passado, meu caro Ângelo,e coloquemos uma pedra sobre
quereria fazê-lo crer. Ainda tenho uma cabeça, mas esse padre trabalha para tudo o que aconteceu.
que eu a perca.
Peço-lhe que volte a sua casa de Ciorani; e se essa casa não lhe agrada,
escolha a que quiser.
Para Carlos De Marco,tão regalista entretanto quanto Maria Carolina ou José H.
Afonso não tem nada aesconder:Afonso tem nele um amigo que fazsó o que pode,mas
um amigo seguro.É para tocar essa corda da amizade que dramatiza o desrespeito de Tenha a certeza de que, de minha parte, eu o amarei como antes: você
que seria objetivo de então em diante.
poderá comprová-lo pela exi}eriência. Continuará sendo consultor como no
passado e dará seu parecerem todosos assuntosimportantes da Congregação.
O fundador tenta em seguida reimir seu pessoale colocar o Céu de seu lado,como
sempre fez nos mais dias. A16 de março escreve, pois, ao Pe.Deodato Criscuoli,reitor Quanto a sua honra, deixe-a aos meus cuidados; meu perpétuo emiienho
de Ciorani: será defendê-la perante todos, confirades ou estranhos.

Mantenhamo-nos em paz, rogo-lhe pelas chagas de Jesus Cristo.


Não sei como não expectorei sangue após as confusões que têm agitado
tanto os espíritos na Congregação.
Nada mais tenho que lhe dizer: procure conselho aos pés do Santíssuno
Sacramento; em seguida, responda-me quando quiser.
Quando o Pe.Maione ficou sabendo que nem eu nem ninguém no Instituto
queria saber do novo Regulamento composto por ele e não pelo rei, planejou
recorrer ao Soberano para que ordenasse fosse despedido imediatamente todo Eu o abençóo. Digne-se Jesus Cristo cumulá-lo de seu santo amor e
conceder-lhe a graça de ser todo dele. Como eu o desejo.
aquele que não aceitasse esse Regulamento.
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698 PARTE V Cap. 48

Bispos e Regulares. Num rápido histórico,,explica-lhe que o Instituto ®stá sem


O fato é que Maione tinha colocado a Congregação diante de um dilema que reitor-mor legítimo desde o dia em que Dom Ligório foi nomeado bispo de S. Ágata,
tomava inevitávelo desacordo entre Romae Nápoles:ou ela recusava o Regulamento por um lado,foram as comimidades,e não um capítulo regifiar, que fizeram o ixjstu-
e caía sob os raios de Nápoles; ou ela o aceitava,e caía sob os de Roma. No primeiro lado de conservá-lo como reitor-mor; por outro lado o restrito pontificai que prolon
caso,era a supressão das casas napolitanas; no segundo, arriscava-se o rompimento gava o seu mandato foi apresentado para aceitação em 1764 a um capítulo Por sua vez
com as dos Estados Pontifícios.
inválido, "por diversas rasões que seria demasiadamente longo enumerai . Desde
então decorreram 18 anos sem que se realizasse outro capítulo.E agora. Dom Ligório.
O fundador recusou a alternativa e quis tentar um terceiro caminho,a ser encon
trado conjuntamente, numa reunião dos delegados de todas as casas. Convocou-a
com 84 anos, piede ao rei escolha seu sucessor.Ê a destruição da Regra,a mudança da
para o dia 12 de maio, em Pagani. Urgia caminhar depressa: em Nápoles, Maione, Congregação. Que fazer? Convocar um capítulo geral?... ao menos para as casas dos
surdo a seu superior e Pai,se movimentava todo para"fazer expulsar da Congregação Estatutos Pontifícios? Ou separar estascasas daquelas do Reino para que seja eleito o
seu próprio superior?
os que não aceitassem o Regulamento";enquanto,nos Estados Pontifícios, um outro
já tomara em mãos os destinos da Congregação do Norte e se apresentava como
salvador.
Zuccari recusou entrar nesse jogo e transmitir o dossiê ao cardeal Prefeito. Foi
um dos elementos de Francisco de Paula,o Pe. Isidoro Leggio, que. em fins de abril,
l]-í Referi-me ao Pe. Francisco de Paula, reitor de Frosinone e visitador das duas após a publicação do Regulamento, levou o assunto à Santa Sé.
casas da Romanha.Não nos esqueçamos de seu espírito de independência. É que ele
olha mais para Roma do que para Nocera, cuja velha guarda, sempre a mesma — A 15 de maio, segunda-feira de Pentecostes, abriu-se a assembléia de Pagani.
Villani, Mazzini — ao redor de um reitor-mor octogenário, lhe inspirava pouco entu Seus debates se prolongaram até 26 de jimho. Afonso, realmente, surdo e doente,
siasmo. Haveria por ventura também um pouco de mania de perseguição? Numa comparece pouco às sessões.Que pode ele repetir,senão o que escrevia a 12 de abi U ao
carta amarga do dia 2 de janeiro de 1780 ao Pe. Villani, queixava-se de ser criticado Pe. Leggio? Refletira e rezara muito: apiós um grito de dor Enganaiam-me!
pelos consultores; depois rogava ao admonitor oficial que lembrasse ao Bispo uma optou pela serenidade realista. Sacrificaram os votos? Eles podem ser recuperados no
regra, não menos venerável do que as outras: a de convocar um capítulo cada 9 anos: juramento de obediência, que permanece, e no qual se englobará toda a vida. O
até já tinha pensado em recorrer ao papa.'^ "comportamento interno"(insiste três vezes nisso) pode e deve continuar sem sofrer
mudanças. Diz, então, a Leggio e a seus confi"ades de Frosinone:
Era a gafe que não deveria acontecer! A gafe que iria precipitar a ação de uua
pequeno bisbilhoteiro intrigante, que era o Pe. Cipriano Rastelli. Teria sido melhor Mantenham-se todos fortemente ligados às antigas Regras, elas foram
que estivesse em missão naquele 12 de janeiro do que escrever de Pagani ao Pe- feitas não por mim, mas por Dom Falcoia, um verdadeiro santo, e foi através
Francisco de Paula esta carta estúpida e maldosa: delas que a Congregação se manteve até agora...

Os consultores tramam em grande segredo mudanças importantes que Mudar-se-ão algumas coisas, é verdade, para não ferir os direitos do rei,
tocam vivamente os interesses de cada um de nós. Maione, Cimino, com S. mas quanto ao comportamento interno, serão sempre observadas as mesmas
Excelência e seu conciliábulo puseram na cabeça a idéia de conseguir a aprova regras, como espero...
ção da Regra pelo rei. Ela dificilmente passaria. Sendo assim, eles pensam em
suprimir tudo o que é contrário ao decreto real (de 1779). Os votos e outras Permaneçam todos sem inquietações. Manter todas as regras do papa,os
coisas substanciais vão cair fora. Tudo está nas mãos de Maione sozinho.- votos por exemplo, não é possível, por que o rei não quer ouvir f^ar de votos;
Pediram ao Bispo que soubesse do parecer dos outros. Não quis ouvir nada e masserá feito ojuramento de obediência,e essejuramento bastará para manter
teve a ousadia de responder:"Quem quiser aceitar esse Regulamento ficará na as regras antigas referentes ao governo interno, sem que os direitos do rei
Congregação,quem não quiser,que se vá."O que infunde mais medo é que esses soôram qualquer ranhura...
dois consultores pensam em perpetuar seu despotismo.Talvezqueiram levar S.
Excelência a renunciar a seu cargo em favor de um deles. Se compreendi bem,o Quero que haju uma só Congregação do Santíssimo Redentor,e não duas.
alvo da operação seria o de dar um sucessor a S. Excelência para garantir, Se se tocouem alguns pontos de detalhe para obedecer ao rei, a coisa é de pouca
dizem, o futuro da Congregação. importância: o essencial é que o comportamento interno da Congregação con
tinue o mesmo que anteriormente.^®
E Rastelli, o puro,encerra esta carta com uma sátira contra os dois consultores
que não conhecendo nem Regra, nem pobreza, nem vida comum,colocaram toda a Nenhuma Ata oficial, nenhum relatório desinteressado nos sobrou daquelas
casa ao serviço de seu próprio desp>otismo! sessões, daqueles sofirimentos. Eram dezesseis — dois por casa — menos Agrigento,
que era longe demais. Sabe-se que fizeram o levantamento das mudanças "intolerá
Essa página arranca Francisco de Paula de suas hesitações. A 23 de fevereiro, veis". A 26 de maio,os padres Corrado e Fábio de Bonopane partiram para Nápoles
antes pois de o rei referendar o Regulamento,envia um relatório,com cópia da carta com a missão de debatê-las com os órgãos governamentais. Três semanas de traba
de Rastelli, ao Pe. Filipe Zuccari, advogado e pró-secretário da S. Congregação dos lhos perdidos. A 26 de junho, antes de se separarem, os representantes do reino
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700 PARTE V Cap. 48

Francisco de Paula foi além. Roma infiDrmou-se discretamente em Benevento,em


l(t' aceitaram o Regiolamento, sub conditione: "sob uma reserva" que nâo foi explici Veroli. Promoveu uma investigação em Pagani, pelo intemúncio de Nápoles, Dom
tada. Os mesmos votaram também por um novo Conselho Geral; algims "duros' Severino Servanti. Vivamente indisposta por essa nova invasão do rei, mal informada
insistiam na eliminação dos "responsáveis", isto é, Villani, Maione e Cimino. sobre o estado de saúde de Afonso, a Cúria nâo tinha para com ele julgamento
Julgando-se o primeiro responsável e para atenuar o golpe dos outros. Afonso depôs favorável. Até Pio VI dirá;"Sei que Dom Ligório é um santo,e muito devotado a esta
seu cargo de reitor-mor. Foireeleito,náo se sabe sob que condições,e Villani também; Sé Apostólica, mas nesse caso ele nâo o demonstrou".
mas Corrado é quem se tomou vigário-geral. Fora Villani, todo o Conselho estava
renovado;Blasucci figurava nele,mas náo seu primo Francisco de Paula. Os"pontifi- Enquanto Francisco de Paula e Leggio açulavam as secretarias romanas,
cais" abstiveram-se de votar.
Afonso,a 24 de agosto,respondia ao cardeal prefeito Francisco Carafa que,em vista de
seus 85 anos e de suas enfermidades, enviar-lhe-ia dois padres, após o verão, para
Semanas düacerantes para o fundador. Até sua neutralidade valia-lhe as censu esclarecer plenamente a verdade."Nâo esperava, acrescenta,ser tratado assim pelos
ras de todos."Fimdou a Congregação, diziam-lhe, e é V. Excia. mesmo quem a des- meus na idade em que estou."'®
tróL" Ele guardava sUéncio, como o Cristo sob os ultrajes. Ou, às vezes, dizia com
simplicidade:"É o fiiito dos meus pecados."
Tudo se precipitou. Sem esperar o resultado da investigação, a S. Congregação
Após a reimiáo de Pagani, muitos padres pediram para passar para o território emitia, a 22 de setembro,um decreto provisório: as casas do reino de Nápoles ficavam
pontifício; o Pe. Sossio Lupoli para lá evadiu-se com os 12 estudantes de que era privadas dos indultos e privilégios concedidos â Congregação do Santíssimo Reden
prefeito; o eminente,ejá ancião,Pe. Caione, reitor de Benevento, irritou-se certo dia tor e deviam considerar-se como sejamais tivessem a ela pertencido, iria ser dado um
contra esse "grupelho de jovens" que assistiam agora superior geral. Tornou-se de presidente às residências dos Estados Pontifícios. E, em 25 de setembro, segma a
imediato claro que a assembléia de Pagano apenas tomara evidente o inevitável: a nomeação de Francisco de Paula. Nesse mesmo dia chegaram a Roma os dois padres
mptura. enviados por Afonso: Antônio Tannoia e Salvador Gallo. Exatamente a tempo de
colher a notícia e de levá-la a Pagani.
O Pe. Francisco de Paula fazia com que isso se acelerasse: a 25 de jimho, e
novamente a 4 dejulho,sugeria... pedia"com lágrimas nos olhos" à Sagrada Congre — Deus me basta,disse Afonso;só tenho necessidade de sua graça.O papa assim
gação, desse um presidente autônomo às quatro casas dos Estados. o quer: Deus seja bendito!

E se a Sicília aderisse, pensava,seriam cinco! Nesse mesmo mês de julho, Fran Durante o dia, entretanto, foi assaltado de uma terrível tentação de desespero.
cisco de Paula escreveu ao reitor de Agrigento, seu "irmão" Pedro Paolo Blasucci Dizia chorando:"Por causa de meus pecados é que Deus abandona a Congregação.O
(suas mães eram irmãs). Recebeu uma resi)osta, que era uma ducha firia: demônio quer atirar-me no desespero. Ajudem-me a nâo ofender a Deus." Voltada a
paz,vira-se alegre para o Crucifixo e para Nossa Senhora:"Obrigado,Virgem Maria. A
Meu caro irmão, dizia Blasucci, recebi sua carta de 4 de julho. Sua expla Senhora me ajudou. Socorra-me, minha Mâe.Jesus, minha esperança, nâo serei con
nação nada me trouxe de novo.Não vejo que necessidade havia de pressurosa- fundido para sempre." A todos os que lamentam perante ele a situação,terá somente
mente dirigir,em nome de suas comimidades,súplicas à Santa Sé em favor da uma resposta: "Vontade do papa, vontade de Deus."
antiga Regra,com vistas a impedir a aceitação do Regulamento régio.O Regu
lamento régio somente diz respeito às casas do Reino.Jamais o rei concebeu o Quer também obedecer à vontade do presidente e morrer na Congregação.Toma
louco pensamento de legislar fora de seus Estados. As casas do Estado Pontifí a decisão de ir viver seus últimos dias como simples súdito na casa de Benevento.
cio estão e estarão sempre submetidas às regras estabelecidas por Sua Santi
dade. Seus recursos somente servem para desacreditar a nossa Congregação Mas os conventos do Reino,que guardam a Regra,sâo ainda da Congregação,
em Roma, pois que você a apresenta como degenerada. Você desacredita ao diz-lhe Vülani.
mesmo tempo suas próprias casas, pois que seriam elas filhas de um corpo
malsão. Além disto, atraisobre siimprudentemente a cólera do rei que,cedo ou Mesmo que seja, o papa nâo os reconhece por casas do Instituto, responde o
tarde, informado da ordem dada por Sua Santidade, obterá da Santa Sé a velhinho.
destruição de suas casas, porque não quererá tolerar, nas vizinhanças de seus
Estados, religiosos que lhe sejam hostis. —Está certo! Vá a Benevento!Isso levantará tal celeuma que V.Excia.agravará
mais ainda a tensão entre o papa e o rei.
Choro ao pensamento de que seu nome figurará na história do cisma que
você prepara,como o de Donato ou de Jeroboão. Não encabece quatro superio Afonso nâo mais falará desse propósito. Mas na primeira ocasião,a 8 de outubro,
res seduzidos por maus conselhos,e não dê ao mundo o horroroso escândalo de escreverá a Francisco de Paula:
1 I se subtrair à obediência de D. Ligório, desse santo velhinho pelo papa consti
tuído reitor-mor das casas do Reino conforme os decretos do rei.^^ Meu caro Francisco... estou feliz por terem os padres dos Estados Pontifí
cios se colocado sob a dependência do papa,e por você ter sido nomeado seu
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PARTE V Cap. 48

NOTA

superior.As notícias da missão de Velletritambém me causam satisfação.Tudo 1. S. Afonso, Lettere, n, p. 364.


está bem,e você não podia opor-se porque era a vontade do papa. 2. Bouvier-Laffargue. op. cit., pp. 217-218; Pastor, op. cit,, vol. XVI, P. m, pp. 86-97.
3. Cf. De Maio. op. cit., p. 328.
Certamente o papa mejulgou culpado,por ter aceitado o Regulamento do 4. Tannoia. III, pp. 29-34.
rei; mas você poderia levar-lhe, através de alguma pessoa amiga, a informação 5. S. Afonso, Lettere, n, p. 362; cf. pp. 395-399.
I ; de que corríamos risco de perdertudo se não aceitássemoso Regulamento? Seo 6. SH 25 (1977). pp. 304-306.
7. S. Afonso, Lettere, II, pp. 496-497.
papa o soubesse, certamente que não me condenaria.
8. O texto do decreto. S. Afonso. Lettere, n. pp. 502-503. Para este capítulo, cf. Telleria. II. pp. 581-553;
De Meulemeester. Histoire sommaire de ia Conçrégation,pp.86-102; Tannoia, m,pp.35-39.57-69,93-132. Este
Mais tarde, quanto for o tempo oportuno,espero colocá-lo ao corrente de CQtimo, ator do drama em cena carece de recuo psicológico e histórico necessário para um julgamento sereno.
tudo e pedir-lhe a graça que desejo;é que eu não me esqueci do afeto de que me Além disso, tem medo de comprometer a canonização de seu bem-aventurado Pai.
deu testemunho apesar de minha indignidade, e esF>ero viver e morrer como 9. Para essa citaçáo e seguintes: S. Afonso. Lettere, H, pp. 502-503. 498-500, 512-513, 505-506.
servidor fídelíssimo de Sua Santidade, como fidelíssimo servidor da Igreja. 10. SH 14 (1966). pp. 223 e 231. Náo se sabe se esse memorando chegou até o papa.
11. S. Afonso. Lettere, pp. 518-519.
12. SH 15 (1967), p. 217.
Providencie, rogo-lhe, alguém me preste esse serviço junto do papa; Ior 13. O. Gregorio, in SH 14 (1966), p. 51.
que eu não posso escrever-lhe, por enquanto,e no meio das graves dissensôes 14. S. Afonso, Lettere, n. pp. 524, 524-525. 527-528. 528-529. 538.
em que estou emaranhado, somente posso resignar-me à vontade de Deus. 15. Para essa carta e seguintes: Kuntz, X. pp. 72. 75. 76-78. Kuntz é aqui o documento de base.
16. S. Afonso, Lettere, n, pp. 534-536.
17. Kuntz, X, pp. 140-142.
Quanto aos senhores, meus padres, que residem nos Estados Pontifícios, 18. SH 11 (1963), pp. 283-284.
não se esqueçam de mim em seus santos sacrifícios e peçam para mim a graça 19. S. Afonso, Lettere, n, pp. 557-559.
de uma boa morte, porque o meu fim está próximo. 20. SH 11 (1963), pp. 295-299.

Amei-os muito, a todos assim como são. O Senhor quis essa divisão: que
sua santa vontade seja sempre adorada!

Se puderem escrever-me de tempK)em tempo sobre seus sucessos, ficaria


mmto feliz. Que Jesiis e Maria os abençoem a todos! e rezem por mim.^®

Afonso fará convites a Francisco de Paula a que vã a Pagani, convites nunca


aceitos.Escreverá ao papa tentando com que o faça sair dessa difícil situação. A 24 de
fevereiro de 1781,conseguirá do rei, para seus súditos, a permissão de acrescentar aos
juramentos de castidade e de obediência, os de pobreza e perseverança; será o pri
meiro passo no caminho da imião.^o infelizmente, não terájunto de si gente eficiente.
VUlani está velho; Corrado carece de perspicácia; Tannoia, de personalidade; Bla-
succi está na Sicília...

Na indecisão, degrada-se a situação. O Pe.Francisco de Pavila, que prometera


trabalhar pela união, impacienta-se e pede à S. Congregação que termine com o
provisório. Leggio,feito procurador das casas do Estado Pontifício, insiste na manu
tenção das decisões de 22 de setembro de 1780. Obtém ganho de causa a 24 de agosto
de 1781. A S.Congregação decide que se mantenha o decreto de 1780 e que não se volte
mais ao assxmto. O Instituto está cortado em dois; os confi-ades que vivem no Reino
não são mais membros da Congregação do Santíssimo Redentor. O fundador está
entre eles.

Pio VI declarará pessoalmente aos enviados de Dom Ligório que motivos políti
cos impediram outra solução: Roma não podia perder a ocasião de acertar um golpe
no rei e na rainha de Nápoles.
O golpe acertou Afonso. Ele teve apenas uma palavra: "Já há seis meses que
minha oração tem sido: Senhor, eu quero o que tu queres."
49."EIS-ME AQXn, MEU DEUS!"
(1781-1787)

Desde meados de dezembro, nâo caía uma gota de água em Nocera dei Pagani.
Em seus passeios diários,o velho bispo ouve o desespero daquele povo de pobres.Alô
de maio de 1779, domingo, faz com que o coloquem no púlpito e prega a p)enitência à
paróquia de Pagani. Segunda-feira vai rezar em sua capela de Nossa Senhora das
Graças. Lá, após algum tempo de silêncio, declara bruscamente às pessoas que se
agruparam ao seu redor:"Confiança!Rezem à Virgem,deixem o pecado,confessem-se
nesta semana e comunguem: domingo próximo teremos a chuva." Pensem só se a
notícia deixa de percorrer toda a região!E se não há expectativa!... Mas não.Não será a
profecia do padre que vai fazer baixar o barômetro: o céu permanece de chumbo até
domingo à tarde."Desta vez, murmiiram alguns, nosso bispo perderá a sua reputa
ção." Duas horas antes do ãngelusdatarde,o céu se cobre niom instante e toda a região
canta sob um dilúvio. Oito dias depiois, o padre Nonnotte ficará sabendo disso em
Paris!

Dez semanas mais tarde,é o Vesúvio que aterroriza a região. Entra em erupção
em 29 de julho, vomita uma alta chama e derrama sua lava ao norte, na direção de
Somma e Ottaviano. Dia 8 de agosto o vulcão volta a ameaçar Pagani que está a
ap)enas cerca de vinte quUómetros.Pelas9 horas da noite,o esp)etáculo é alucinante.O
Pe. Corsano corre ã cela de Afonso. Sustentado por Romito e Pollio, o bispo vai à
extremidade de seu corredor,cujajanela dá para o vulcão."Jesus!"exclama aterrori
zado. Faz um grande sinal da cruz e o Vesúvio se afunda em sua cratera.^

Para Afonso era menosfácil conjurar uma sentença pontifícia. A razão de Estado,
que não argumenta,que não mede os seus golpes, golpeara com mais força do que se
poderia prever. Os confrades das casas nap>olitanas "deviam ser considerados —
pesemos as palavras — como não tendo jamais sido membros da Congregação do
Santíssimo Redentor".De vez,Maione e Cimino não ousaram mais voltar"para casa";
o primeiro morreu prematuramente em 1787; o segundo serã promovido a bispo de
Cria, mas voltará,terminando seus dias em Pagani,em 1818,como "oblato", no meio
de seus irmãos. Quanto a Francisco de Paula e Leggio, queriam a presidência e a
separação, mas jamais tiveram em mira o aniquilamento do ramo napolitano. Não
pensaram que depois de deflagrar um incêndio, não se sabe até onde pode ir.

Quanto ao fundador, foi como o golpe de graça."Havia dois anos, escreve Tan-
noia, que o bispo estava no fim das forças; essa ruptura do Instituto foi como que sua
morte.Antes,ele levava o peso natural dos anos sobre um corp» extenuado e atormen-
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706 PARTE V Cap. 49


promoção de sua glória através de outras mais, e pedirei ao Senhor insistente
tado; depois, entrou em agonia e não foi mais um homem. Quase que cessou ^ mente essa graça.
alimentar-se e de dormir; sua sobrevivência no meio de tanta amargura parec
todos como um müagre." Teve de renunciar à pregação de Nossa Senhora ® Sublinho pontos muito úteis a serem transmitidos, se lhe parecer bem, a
dos,apesar do voto que fizera.Em novembro de 1780,feztambém sua última conie seus confirades.
cia à comunidade.Estendeu-se sobre a eficácia da oração, sua grande utilidade,
indispensável necessidade. Todos se admiraram com o calor e com a fiuência por Recomendo-lhes que preguem sobre o grande meio da oração: dediquei
manifestados. Era como que a senha transmitida a seus filhos.^ uma obra inteira a esse assimto. Deus quer conceder suas graças, mas com a
condição que se peça; quem não reza, não alcança.
Formou-se uma úlcera no estômago.Após um grave vômito de sangue quase qoe
esteve à beira da morte;voltou a silentamente e ouviram-no dizer;"Como? Não Não cessem de repetir que é preciso ser devoto da Santíssima Virgem, se
da Congregação do Santíssimo Redentor? Nôs não aceitamos a Regra de Bento alguém quer salvar-se.
Se observamos a Regra do papa, por que não seríamos da Congregação?" Sua pr
funda dor aflorava assim nos seus momentos de semiconsciência. Depois,já lúci Tomem cuidado para que em todos os sábados,em suas casas,seja feita a
conclmu: pregação sobre Nossa Senhora; e que esse assunto esteja presente em todas as
nossas missões...
— Duvidam talvez de que nós observemos a Regra que nos foi dada por
xrv. Não será por isso que somos rejeitados? Deus assim o quer. Enchamo-nos Seu irmão muito afeiçoado e obrigado(e, pela última vez de sua vida,ousa
paciência. assinar): Afonso Maria do Santíssimo Redentor.*

— Mas não,deixe de ter idéias pessimistas, diziam-lhe os confirades. Nós somos Seis meses mais tarde,o presidente põe o fundador ao corrente dos progressos da
verdadeiros redentoristas.
Congregação e assegura — gentileza macabra — que por ocasião de sua morte, cada
padre nos Estados Pontifícios rezará por ele as nove missas previstas em caso de
Acalmava-se aparentemente e voltava ao silêncio. Jamais, nesses momentos de morte do reitor-mor.
semiconsciência ou em seus delírios de doente, ouviram-no proferir a menor queixa
contra a Santa Sé ou contra quem quer que fosse.^
Agradeço-lhe, a você e a seus companheiros, responde em 21 de junho de
1782, a lembrança com que me honram; tenham a certeza, eu também não os
Justamente o contrário.Enquanto sofire a desgraça pontifícia e que,pela vontade esqueço.
de Deus,"deve ser considerado como não tendo jamais feito parte da Congregação
que fundou,está muito felizcom aexpansão fulgurante que ela deve aosfavores de Pio
VIe ao espírito empreendedor dos padres Francisco de Paula e Leggio.Escreve em 2 Desde agora eu lhe agradeço cordialmente, a você e a seus companheiros
de novembro de 1881 ao padre "presidente": todos, pela generosa resolução de me aplicarem as missas após a minha morte.

Escreva-me algumas linhas, quando puder: é uma alegria para mim.


Ontem,22 do corrente,recebicom alegria sua carta do dia 14 que me traz a
notícia notável de sua fundação em Foligno e Gubbio e de luna casinhola de O noviciado de Scifelli,com seus vinte e dois moços, me dã grande prazer:
pouso em Roma. Estou feliz por tudo isso...
rogo a Deus inflame-os sempre mais de seu amor.

Muito feliz também pela entrada de 15 noviços: você terá necessidade Agradeço a Deus sem cessar o fato de conceder a suas casas prosperidade
deles para as missões dessas novas casas... sempre crescente. Agradeço igualmente o fato de fazer-me morrer na humilha
ção, prova de que quer perdoar meus pecados...
Agradeço-lhe a ave-maria que manda rezar todas as noites segundo a
minha intenção:tenhaem vista especialmente alcançar-me a graça de uma boa Peça a Deus conceda-me morrer cheio de confiança em sua Paixão.
morte.
Os jovens que me rodeiam edificam-me por seu fervor.
Eu também agradeço a Deus o ter-me escolhido para começar todo o bem
que agora é feito por seu intermédio, e sobretudo por meio do papa, qué o Repito,reze a Jesuse Maria por mim;não deixareide pedir-lhe que o encha
Senhor quis consolar abençoando tantas obras úteis às almas. de seu amor.

Fiquei sabendo com alegria que em breve vocês irão pregar missões por Dito isso, eu o abraço com a mais cordial afeição, a você e a todos os seus
conta das novas casas de Foligno e de Gubbio.Deus vai servir-se de você para a companheiros. — Afonso Maria.
: D-
1

! i'
PARTE V Cap. 49 709

Cap. 49
simo Redentor que vivem no Estado da Igreja".® Afonso impetrara o indulto "para
De fato, a Congregação parecia tomar impulso: em 1782, Scifelli forma 21 no^ seus missionários";osjuristas romanos tiveram o cuidado de conceder somente a ele e
a seus missionários "tomados individualmente" (singulis), para não reconhecerem
ços; quatro outras casas se qjimtam bem depressa às quatro existentes: Spello i
cese de Foligno)em 1781,Gubbio em 1782,S.Juliano em Roma em 1783 e Cisterna um "corpo". Mas,com essa volta dos privilégios, a atividade apostólica retomou novo
1785. Em 1783, O presidente Francisco de Paula obtém da S. Sé sua nomeação ^ alento.
superior geral perpétuo;o convento de S.Juliano, perto de S. Maria Maior,em Rom Seis dias após, em 10 de abril, o primeiro-ministro assinava a sentença da Câ
lhe é designado como residência. mara Real que indeferia todas as reclamações e acusações do barão Samelli. Foi a
aceitação do Regulamento que enviava finalmente ao ferro velho a espada de Dámo-
Esse fulgurante surto foi iam fogo de artifício. Seu governo autoritário, cles suspensa havia 20 anos sobre as quatro casas napolitanas.
qual Afonso alertava o outrora reitor de Frosinone,foi contraproducente para
cisco de Paula. A Cúria Romana, importunada por seu procurador Leggio. ac O fervor dos 130 retirantes,sobretudo dos moços,naquela semana santa, dentro
intempestivas suas solicitações: votos solenes, nomeação vitalícia do procurador dos muros de Pagani,cantava, para Afonso e seu ofegante Instituto, as promessas da
seus conselheiros, etc.: seu alto crédito ruiu por terra.® E sobreveio Ressurreição.^®
financeira: os noviços e estudantes sem patrimônio tinham tão bom apetite com
outros;e as novasfundações precisavam de dinheiro quando este minguava até p Afonso mesmo somente pensava em morrer.Mas ele transbordava de esperança.
Scifelli e Frosinone. Repetia:"Sejam fiéis a Deus, e Deus será fiel para com a Congregação; as coisas se
ajeitarão depois de minha morte." Disse um dia ao Pe. José Cardone:"Esperava ver
Em 1785,o Pe.Francisco de Paula pediu à Congregação dos Bispose Reg^ares a restabelecida a situação antes de fechar os olhos; tenho pedido isso e continuo a pedir
permissão de convocar um capítulo geral. Não um capítiüo de eleições,sublmha e a Nossa Senhora; mas não é a vontade de Deus. As coisas entrarão no lugar depois de
superior vitalício e tem interesse em conservar seu estado-maior), mas um ^api minha morte.""
com miras somente —é ele quem sublinha—a recompor a observância.Impruoe •
"Será um capítulo eleitoral", responde a S.Congregação. Ora,a 19 de outubro,t Consciente de sua impotência e para previnir os sobressaltos desastrosos que
cisco de Paula recebe somente 13 votos em 20 no primeiro turno; 13 votos em 2 sua morte poderia acarretar, decide renunciar. Com a autorização real — o Regula
segimdo.Estava claro que sete votantes estavam decididos a não deixá-lo passar, mento o impõe — convoca um capítulo geral. Em 28 de junho de 1783, escreve aos
então que o procurador-geral Isidoro Leggio veio com um rescrito pontifício de reitores das quatro casas do reino e à de Agrigento:
outubro em virtude do qual essa eleição seria legítima e canônica pela maioria ao
luta;tinha sido feito um segimdo escrutínio somente para tentar atingir a maioria a De vez que minha idade avançada e minhas enfermidades me colocam na
dois terços exigida pela Regra. E foram cantar o Te Deum. Mas aqui vale impossibilidade de governar a Congregação, pensei em providenciar, por elei
mordazmente que Francisco de Paula,tão inquieto neste ponto ao tratar-se a® ção, um coat^utor que deverá suceder-me após a minha morte no cai^ de
rio, não tenha sido ele mesmo eleito segundo a Regra. Sua cotaçao, sem ^^7 ' reitor-mor e que, durante a minha vida, gozará de toda a minha autoridade.
baixava no Instituto. Baixava também em Roma,jã que o rescrito de aprovação Resolvitambém fazer ao mesmo tempo a eleição dos assistentes,do procurador
capítulo,com a data de 14 de setembro de 1787,recusou em bloco todas as disposiço da Congregação e dos reitores das casas.
capitulares em desacordo com a Regra de Bento XIV a começar pelas escolas secun
rias e superiores.® Pobre Francisco de Paula!
Para esse fim, participei minha resolução a Sua Majestade; e tendo-se
dignado o rei aprová-la por um acórdão especial, quero que a Congregação
E Afonso muito mais pobre ainda! Sua escola missionária tinha atravessado a inteira proceda à eleição dos assistentes, do procurador-geral e dos outros
fixjnteira, alunos e professores. Tudo estava por ser reconstruído. Felizmente que superiores, e que cada casa depute para esse efeito três de seus padres. Reali
se apresentavam jovens. Mas não mestres. Enquanto outros recusavam, o Pe. Joa zada essa eleição, será eleito meu coadjutor p)ela forma prescrita no Regula
Batista DiCostanzo aceitou abandonar as missões aos 38 anos para tomar-se "leitor mento onde se fala da eleição do novo reitor-mor após a morte de seu predeces-
de filosofia, de teologia em seguida^, em Deliceto. Deliceto, a Penúria; Ciorani, a sor.12
Miséria."Agora,todas as casas caem em ruína,suspirava o Pai. Ah! Senhor,que tua
vontade seja feita e aconteça o que acontecer!"®
Esse capítulo realizou-se em Ciorani, de 4 a 16 de agosto de 1783, em confiante
A 17 de outubro de 1780, chegara ã S. Congregação dos Bispos e Regulares o paz: a missão continua. Pedro Blasucci, que é o único representante da Sicília, é seu
secretário. No undécimo escrutínio, por 11 votos entre 15, o Pe. Villani foi eleito
relatório — compreensivo e favorável — de Dom Servanti sobre o Regulamento. Tres coadjutor de Afonso com futura sucessão.^® A 30 de agosto,o fundador comunica seus
semanas após o decreto pelo qualessa mesma Congregação aniquilava a parte napoUtó- resultados e assina sua última circular. Ela bastaria, se houvesse necessidade, para
na do Instituto. Esse relatório não impediu a confirmação do infeliz decreto, em
agosto de 1781. Mas, corroborado por cartas de numerosos bispos, sem dúvida provar seu devotamento, e o de todo o ramo napolitano, à Regra de Bento XIV:
contribuiu para que â S. Congregação, em 4 de abril de 1783, devolvesse a "Dom Meus caríssimos padres e irmãos em Jesus Cristo, Deus se dignou em sua
Ligório,pelo tempo de sua vida,e acada um dos missionários que participavam de seu
infinita misericórdia abençoar o capítulo geral que teve lugar,com o consenti-
ministério,asindulgênciase graças espirituais dos padres da Congregação do Santís-
I Í--
PARTE V Cap. 49 711

710 PARTE V Cap. 49


pretexto que seja, da menor parte dos emolumentos,ofertas ou presentes que
mento do rei,em nossas casas de Ciorani.Ele foilevado a bom termo;e,o que me lhe advierem de um trabalho ou oficio, e a qualquer título que lhe tenha sido
dá mais alegria, tudo se passou na paz, numa tranqüilidade perfeita dada a coisa, mesmo que fosse por particular benevolência.Queremos que tudo
grande satisfação dos padres delegados. Todas as nossas casas receberão seja incorporado à comunidade e colocado nas mãos do superior da casa onde
com alegria,tenho essa confiança,as decisões que nele foram tomadas.Poderá resida e da qual recebe os alimentos necessáriosjunto com o que é exigido para
tomar conhecimento delas na cópia autêntica das atas do capítulo enviadas a o honesto sustento...
cada pessoa,e procurem,após tê-las lido em comum,conservã-las nos arquivos.
Aí está o tom da circular. Os outros preceitos não têm finalidade outra do que a
O capítulo não tinha outro mandato do que proceder às eleições. Ele confiou, de garantir a antiga observância. Como se sabe que esse texto será lido e esquadri
pois, ao reitor-mor e a seu coadjutor a publicação de alguns preceitos oportimos. nhado em altas esferas, tanto em Nápoles como em Roma, a conclusão sabe dar a
César o que é de César e a Deus o que é de Deus:
1.0)No que respeita às missões,encarregamos ossuperiores que as
e os reitores locais de vigiarem atentamente o comportamento dos mission - Para cumprir com o dever de nosso cargo e aliviar a nossa consciência,
rios,e de fiscalizarem a observância exata dos antigoscostumesestabelecidose acrescentaremos uma recomendação geral. É nossa vontade prioritária que se
praticados quanto a esse gênero de trabalho; se, por conseguinte, os mission observe com a mais escrupulosa exatidão nosso Regulamento interno. Quere
rios pregam e catequizam com ciência, clareza, seriedade e decência que con mos,em segundo lugar, que se observe também de uma maneira uniforme em
vêm à cátedra sagrada;se não escolhem preferentemente uma igreja a outra,se todas as nossas casas todos os antigos usos tão louvavelmente praticados até
não abandonam sem expressa permissão do superior o encargo que lhe foi aqui,seja em casa,seja na missão.E proibimos aossuperiores autorizar o menor
assinalado;se são edificantes e reservados nas relaçõescom as pessoas de outro relaxamento, o menor abuso.
sexo,seja no confessionário,seja alhures;se não fazem visitas aosseculares seiu
permissão; se, pela modéstia, humildade, paciência, às quais estão obrigado Finalmente retiramos e anulamos qualquer dispensa ou permissão con
estreitamente pelo caráter de que estão revestidos,edificam a população,ou se, cedida por nós ou por nosso vigário, seja a todos em geral, seja a algum súdito
ao contrário, não a escandalizam por sua maneira de agir; se permanecem em particular; e se alguma razão a isso se opuser, tenham a bondade de
recolhidos na igreja ou na casa dos missionários, entregando-se ao ministéno manifestá-la a nosso coadjutor.Ele examinará a questão,pesará diante de Deus
que lhes foi confiado, ou se não se permitem passear ou distrair-se em outros os motivos alegados, e concederá,se quiser, as permissões que lhe parecerem
locais; se se pode observar que reina entrè eles a caridade, a subordinação e a necessárias.
santa harmonia;sobretudo,se aceitam com obediência e sem réplica qualquer
tarefa que lhes é assinalada pelo superior da missão. A presente circular deverá ser lida à mesa no refeitório no começo de cada
mês: dessa maneira, ficará gravada na memória e os transgressores não pode
Queremos e ordenamos também que,em tempo de missão guarde-se,com rão alegar nenhuma desculpa.
grande cuidado, religiosa moderação na alimentação. Os pratos caros, tais
como firangos, pássaros, peixes raros, carnes requintadas, bolos finos e todo Tenham todos a bondade de recomendar-nos a Jesus Cristo e à SS. Vir
gênero de doces,tudo fica proibido em tempo de missão; e se forem oferecidos gem, e de rezar pela prosperidade de nosso Instituto. Damos a todos a santa
semelhantes presentes, queremos que sejam generosamente rejeitados, ve bênção. — Irmão Afonso Maria, reitor-mor.^^
nham donde vierem.
Ele escreve no plural, com Vülani. Entretanto, assina sozinho; mas é uma demissão
Ordenamos ainda que,conforme o Regulamento e segundo uso antigo,em nas mãos de seu Coadjutor, para não pensar mais a não ser no Encontro.
tempo de missão seja feita a meditação em comiun todos os dias por meia hora,
no inverno cedo, à tarde no verão.
Hércules de Ligório, porém,faleceu bastante bruscamente em Marianella, a 8 de
Cada qual tenha a peito consagrar ao menos um quarto de hora à ação de setembro de 1780. A conselho de seu tio mas após madura escolha, sua primogênita,
graças após a missa; e que se celebre esse tremendo mistério com o recolhi Maria Teresa,entrou no convento de S.Marcelino. Ali professou em 2 dejulho de 1783.
mento e fidelidade exigidos pela igreja na celebração da santa missa...
Dia 11, Afonso dita para ela esta cartinha:
2.0)Oneramos a consciência dos reitores locais para que não consintam na
A notícia de sua profissão causou-me inexprimível alegria porque agora
introdução de qualquer novidade ou abuso que pudessem ferir, ainda que em você pode dizer a Jesus Cristo: Senhor, eu lhe pertenço inteirinha daqui para
matéria leve, a santa pobreza e a vida comum que juramos; e se porventura se
frente.
tenham introduzido tais abusos, que sejam extirpados diligentemente...
Deve somente estar extremamente atenta em vigiar as afeições de seu
Em virtude da santa pobreza e da vida perfeitamente comum proibimos a
coração e em observar os seus votos.
todos a aplicação para seu próprio uso ou de outras pessoas, sob qualquer
PARTE V Cap. 49 713
712 PARTE V Cap. 49

Então, o velhinho todo comp)enetrado:


De ordinário, passa-se da cela para o céu; mas há a possibilidade de passar
da cela para o inferno. O mérito não está em habitar Jerusalém, mas em viver — Quando tenho alguma dúvida sobre meu terço, não me contradiga, porque o
bem em Jerusalém.
que me importa é a salvação de minha alma e minha predestinação. E quando estou
Somente posso recomendá-la a Jesus Cristo, e fá-lo-ei de todo o coração, incerto de meu terço, estou incerto de minha salvação.
pode estar certa disto.
— Então, façamos assim, retrucou Aleixo Pollio: todas as ave-marias que o
Eu a abençôo em nome de Jesus Cristo e de Maria Santissima. confie senhor rezar a mais, aplique-as por minha alma.
sempre em mim...'®
— Melhor seria se você se calasse, replicou gravemente o bispo. São essas pala
As irmás de Afonso, Bárbara e Mariana,clarissas, viveram por muito tempo em vras ociosas de que você prestará contas a Deus.'®
S. Jerônimo. Seu irmão padre, Caetano, morreu em 4 de outubro de 1784, na casa da
família do bairro das Virgens. Uma das grandes alegrias do Pai era ouvir os missionários ao voltarem de seus
trabalhos. Voltava sempre nessas ocasiões insistentemente às idéias pastorais que
1. -i. Afonso mesmo celebrou a-sua última missa em 25 de novembro de 1785."Jesus haviam guiado sua vida e seu combate."Pobre sangue de Jesus Cristo pisado aos pés
Cristo não quer que continue a celebrar,disse. Seja feita sempre a sua vontade."Isso o pelos jansenistas! dizia ele... Foi por um beijo que Judas entregou Jesus Cristo; é
tomou apenas mais ávido da eucaristia."Dêem-me Jesus Cristo", suplicava muitas também por um beijo que eles traem a Jesus Cristo e as almas... Sei que os anjos não
vezes.E passava diante do tabemáculo grande parte do dia."Aqui está o Santíssimo são dignos de comungar; mas Cristo a isso convida o homem precisamente para
Sacramento,dizia ao criado Aleixo. Aquise comunga.Como é bonito! Duas lâmpadas aliviar nossas misérias. Todo o bem nos vem por esse sacramento; e sem seu auxílio,
brüham noite e dia diante da hóstia consagrada. Aqui é exposto o SS. Sacramento. tudo é ruína." Quanto mais estão os pecadores chafurdados no mal, tanto mais
Quanto tempo podemos ficar diante dele?" E no momento de partir:"Quando é que precisam ser amados.Jesus Cristo não agia diferentemente... Adiar a absolvição por
voltaremos a visitá-lo?"'® meses e meses não é socorrer os pecadores, mas acabar de arruiná-los. Nossa tarefa é
ajudá-los. E jamais serão mais bem sgudados do que dando a eles os sacramentos."'®
Mais do que nunca Nossa Senhora era depois de Deus seu primeiro amor. Man
dava que lhe lessem a vida de seus santos preferidos: Teresa de Jesus, Gregório de Que se releiam ou se cantem as quase 50 canções compostas por Ligõrio para as
Nazianzeno, Francisco de Sales, José Calazans que provara de sua mesma agonia de missões, não se encontrará ali nenhuma canção aterrorizante. Ignora o "Deus vinga
fundador; mas principalmente saboreava as leituras sobre Maria Santíssima. dor",e mesmo o"Senhor Deus"da liturgia ou a"Divina Majestade"dosespanhóis e de
Falcoia.Com terna familiaridade,que é toda uma teologia,dirige-se ao"bom Deus,ao
— Leiam-me alguma coisa sobre Nossa Senhora, pede certo dia ao irmão. "caro Jesus", ao "Redentor cheio de amor", a "Maria, a minha bela esperança".

Francisco Antônio Romito toma um livro e lé. Afonso escuta,enche-se de entu Ora Deus permitiu que,em seus últimos anos. Dom Ligõrio passasse pelo fogo
siasmo; das mais duras provas espirituais. Como se 22 anos de doença e 24 anos de persegui
ções não o tivessem ainda purificado suficientemente, conheceu, nos anos de 1784-1785,
— Como é belo! exclamou. Que livro é este? Quem escreveu tão belas páginas? o abandono düacerante do Cristo na cruz. "Quem sabe, dizia chorando, se estou na
graça de Deus e se me salvarei." E dirigia-se então ao Crucifixo: "Meu Jesus, não
—• Mas foi o senhor. Excelência! São as suas Glórias de Maria. permita que eu seja condenado, porque no inferno o Senhor não pode mais ser
amado."
—MeuJesus,continuouentão Afonso todo comovido,muito obrigado por ter-me
concedido escrever sobre tua mãe! — Como vai? perguntava-lhe um visitante.

O irmão anotou o fato e a data. Era o dia 25 de outubro de 1784.'^ — Estou sob o flagelo da justiça de Deus.

Em sua mocidade, Afonso comprometera-se por voto a recitar o terço todos os E surgiram tentações contra a fé. "Eu creio. Senhor, repetia, e quero viver e
dias. Chegado à idade em que a memória não imprime quase que mais nada — por morrer filho da santa Igreja." Os escrúpulos invadiam livremente, terrivelmente, o
falta de espaço poder-se-ia dizer — pergimtava muitas vezes:
campo de uma consciência que o velhinho não podiajá dominar; somente a obediência
devolvia-lhe então uma paz precária e a comunhão. Pior, excitações voluptosas
— Já rezei o meu terço, hoje? perturbavam-lhe os sentidos, arrancando-lhe gemidos,lançando-o no temor de ofen
der a Deus.O professor J anuário Goglia,assistente de Gastão Lambertini do Instituto
— Mas sim, respondeu-lhe um dia Romito com um acento de impaciência. Por de Anatomia da Universidade de Nápoles,que,em 1951-1952,estudou cientificamente
que duvidar sempre? o esqueleto de Afonso, explica essas perturbações pelas graves alterações das vérte-

À,
PARTE V Cap. 49 715
PARTE V Cap. 49

Em 23 de julho,em um de seus raros momentos de consciência, disse: "Eis-me


bras lombares e por sua ação excitante sobre os centros que comandam a inervaçao aqui, meu Deus!" depois, pela tarde: "Vem, meu Jesus". Tinham-no muitas vezes
dos órgãos genitais."Tenho 88 anos,dizia um dia,chorando,ao Pe.Criscuoli,e o ardor ouvido exclamar:"Meu Jesus, parece-me que mil anos me separam da felicidade de
de minha mocidade ainda não se extingiu." Um padre veio visitã-lo e disse-lhe: ver-te no Céu!"

■ Excelência,o senhor tem um ar melancólico,o senhor,a quem sempre víamos Dia 27, pelas sete horas da manhã,creram-no morto. Poi-lhe dada a absolvição e
alegre?
começaram as orações dos agonizantes. Ele voltou a si."Estou nas últunas',disse. O
— Alegre? respondeu. Eu sofro um infemo.^o
médico pediu-lhe a bênção.Abriu os olhos e,com vozclara:"Que o Senhor o abençoe."
Romito e Polio atiram-se jxmtos a seus F>ês.
Achamo-nos aquidiante de um fato psicológico clinicamente explicável.Quanto — Abençoe-nos, Pai.
às apariçóes do demônio que vinham tentá-lo contra a fé,contra a esperança ou contra
a humildade, que são relatadas por seu primeiro biógrafo, como distingui-las dos
pesadelos de um velhinho semi-acordado? — Nosso Senhor Jesus Cristo os abençoe!

Ao contrário, até mesmo naqueles meses de calvário interior, seus êxtases ti-
-.Av./ v^v^xxuxciAxv^, auç; xxxc^oxxxv^ xx^v^xx^x^o iixcocí) UC CaiVaXlO 1111/^1 lUi,
— Abençoe todas as casas e todos os mebros da Congregação.
,
nham testemunhas, , ~ ... . da
e foi necessário afastá-lo definitivamente . . <</^seus
igreja para que
arroubos místicos não perturbassem a assistência — Sim, disse o bispo, e os abençoou.

Houve quem se admirasse que Ligório não tivesse escrito um tratado de mística. Todos choravam; um por um veio beijar-lhe a mão.

Primeiro, a época cultural do iluminismo não levava a isso. Além disso, a ex^' — Abençoe também as casas dos Estados, rogou o irmão Romito.
riência pessoal das almas tinha-no feito muito desconfiado quanto às doenças espiri
tuais e mentais que são tomadas como união passiva com Deus. Finalmente,a Igreja, Ele as abençoou duas vezes. Depois,meia hora após,espontaneamente, abriu os
que condenara seus"amigos"Fénelon e Petrucci,só p>odia incitá-lo ao silêncio.^^ Mas, olhos e com voz forte: "Abençôo as casas dos Estados." Um momento depois,
além dos capítulos didáticos de suas obras pastorais — Prática do confessor,Homem pediram-lhe que abençoasse a diocese e as religiosas de S. Ágata e de Scala e ele fez o
apostólico — onde afloram sua experiência interior,é preciso ler seus longos poemas gesto de bênção. Em seguida, espontaneamente:"Eu abençôo o rei, os príncipes, os
em que a mística se lhe escapa, penetra na "floresta solitária e escura" das rupturas ministros e todos os administradores da justiça."
últimas para o encontró intuitivo do Amor. Sobre aquelas canções em que Afonso
vivia e fazia viver mais do que ensinava,o grande poeta Salvador Di Giacomo (1860- No dia 28, foi-lhe apresentada uma gravura de Nossa Senhora. Afonso olhou-a,
1934) dizia: "Elas são meus livros de oração."22 seus lábios se moveram e abriu seus braços num gesto de oferenda.

Mas Afonso escritor jamais visou esse público de escol. Como seu mestre Fran Dia 29,"dê-me a Madona",disse. Tomou-as nas suas mãos e rezou.Em seguida,
cisco de Sales quis fazer com que a santidade penetrasse nossalões e na Corte,Afonso, começou o estertor da morte e não o deixou mais.
fiel à sua escolha do mundo dos pequeninos,escreveu e pregou para levá-la ao mundo
dos lazzaronl e dos pastores. Uma de suas últimas alegrias foi ouvir a declaração a ele Dia 30, sendo-lhe apresentado um crucifixo, manifestou o desejo de tê-lo nas
feita pelo arquiteto napolitano José Mauro: mãos; apertou-o com amor e por três vezes esforçou-se por beijá-lo.

— As Capelas da noite? São freqüentadas por uma multidão de pessoas e temos Em suas Preces à divina Mãe para cada dia da semana, Afonso escrevera:"Ó
i*. li
santos até entre os cocheiros. minha Rainha, perdoai minha audácia: vinde pessoalmente, antes de eu expirar,
consolar-me com vossa presença. Essa graça, vós a fizestes a um grande número de
—Cocheirossantosem Nápoles!exclamou o bispo num sobressalto de felicidade. vossos servidores; quero-a também para mim e a espero... Ó Maria,eu vos espero; não
Glória ao Pai... Ouviu, José? Cocheiros santos em Nápolesi^a me recuseis esse consolo. Ora, dia 31, pelas seis horas da tarde, enquanto tinha
;l^ entre as mãos a imagem da Virgem, viram de repente inflamar-se seu semblante e se
tomar resplandecente, enquanto falava baixinho e sorria para a Madona. Uma hora
A16 de julho de 1787,um violento ataque de desinteria,seguido de intensa febre, após, renovou-se o mesmo "encontro" perante três outros padres.
advertiu que o fim do Bispo estava perto. Ouviam-no repetir uma profissão de espe
rança que escrevera em 21 de outubro de 1785: "Morro tranqüilo, abandonado nas No dia seguinte, 1.° de agosto,os confrades iam chegando,como por milagre, de
mãos de Jesus e Maria;espero ir logo agradecer-lhe no paraíso." E certo dia:"Senhor, todas as casas. De tempo em tempo apresentavam-lhe o crucifixo, e ele o apertava
bem sabeis que tudo o que pensei, disse,fizou escrevi,tudo foi para as almas e para a com amor,sem dar-se conta de que não era o mesmo.Pelo meio-dia, puseram-lhe nas
vossa glória." mãos sua cara Madona.E eis que sem contração alguma,sem um suspiro de dor, no
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716 PARTE V Cap. 49

convento cqjo ângelus tinham escutado. Clemente Maria Hofbauer e Tadeu Hübl
meio de sexis filhos em lágrimas e em oração,tendo nas mãos sua imagem da entravam assim nos redentoristas de S. Juliano, em Roma.
expirou no Senhor ao som do ângelus.^® Contava 90 anos. 10 meses e um dia. Tirm
I ! salvo erro, 98 filhos nas Duas Sicílias e 85 (quase todos napolitanos) nos Estados Informado da Admissão desses dois alemães ao noviciado e seu ardente desejo de
Pontifícios.2®
retornarem à sua pátria para fundar em Viena uma casa do SS.Redentor,os napolita
Ferdinando de Leon também morrera em sua banheira;o comissário Samelli,em nos perguntaram-se se seus irmãos dos Estados não haviam jjerdido a cabeça. Riam-
sua carruagem; e Maffei, nâo sei onde. Este último deixava uma viúva, seis filhos e se daquela casa alemã; mas ficaram atônitos ao ver que, com seu espírito profético,
30.000 ducados de dívidas. Uma nuvem de credores desabou sobre aquela pobre Afonso pensava de modo muito diferente."Quando lhe deram a informação do pie
família a que veio faltar o páo."Tudo o que puderem fazer para ajudar os filhos de doso desígnio daqueles estrangeiros, diz Tannoia, ele experunentou uma grande
Maffei, façam-no", escrevera pouco antes Afonso a Tannoia.^^ alegria." E logo, como se os véus que nos encobrem o futuro tivessem desaparecido,
anunciou os desígios de Deus."O Senhor, disse, vai servir-se desses dois homens, e
Restava a divisão do Instituto. Mas o fundador predissera-lhe o fim. Até viu,em podem estar certos de que ele propagará através deles sua glória naqueles países
vida,os primeiros passos da união: havia troca de missionários entre os dois ramos,ao longínquos.Desde a supressão dosjesuítas,aquelas regiões estão semi-abandonadas.
sabor das necessidades pastorais;os sufrágios para cada defunto eram feitos em toda Mas as missões deverão ser diferentes das nossas. No meio dos luteranos e calvinistas,
a família afonsiana; favorecidos pelo cardeal Banditi, houve entre os delegados das as instruções são mais úteis do que os sermões. É preciso começar por fazer rezar o
'i I
i,! duas partes conferências em Benevento,em 1786 e 1787. A morte de Afonso, venerado credo, e depois dispor o povo a deixar o pecado. Aqueles bons padres poderão fazer
por quase todos como fundador e pai, aproximou os corações e estimulou os arrepen muito bem, mas têm necessidade de maiores luzes." Depois, ouvindo somente seu
dimentos. Subsistia o Regulamento. zelo, Afonso ájuntou:"Eu vou escrever-lhes"; maslembrando-se logo que não era mais
seu superior disse: "Deus não quer que eu meta a mão nisso. Meu Deus, aumente
Blasucci e seus padres da Sicília tinham-se subtraído a ele. O Regulamento se minhas humühações, e que tudo seja para sua maior glória!"^®
impunha às quatro casas de Nápoles. Sob o mesmo rei e sob o mesmo governo,eram
entretanto de outro reino,a Sicília; e não eram uma casa, mas um grupo de missioná Para a maior glória de Deus,e também para a do seu fundador, os missionários
rios volantes hospedados pelo bispo de Agrigento.Entretanto,fino diplomata que era, redentoristas evangelizam hoje (1982) em toda a Europa, nas duas Américas, na
Blasucci fora pessoalmente ao capítulo de Ciorani, em 1783, por veneração para com Oceania,em sete países da África e no sul da Ásia, de Bagdá a Tóqxiio.
Afonso e para não romper com as casas napolitanas. Inabilmente, Villani exigiu a
aceitação do Regulamento na Sicília. Blasucci contemporizou e prociurou ganhar Oito meses após a morte de Afonso de Ligório,sob a pressão do povo e do clero,
tempo com evasivas. Quando, em 1786, diante de nova recusa, VUlani declarou os abria-se o processo informativo com vistas à sua canonização. Pio VI dispensou dos
sicüianos excluídos do Instituto. Blasucci obteve da Santa Sé ser agregado,com sua dez anos de intervalo exigidos antes da introdução da causa em Roma.Para começo
comunidade, à Congregação governada por Francisco de Paula. Tomava-se nova de jogo,o promotor da Fé — chamado também de advogado do diabo — objetou que
mente redentorista, sem nada dizer em Pagani, para não agravar a ruptura oficial- não se podia pensar em elevar aos altares esse culpado do Regulamento,eliminado da
sua Congregação pelo papa.Foi ainda Pio VIque assinouo decreto impondo silêncio a
Ora em setembro de 1788, Fernando IV proibiu a todos os religiosos do Reino a essa sinistra história. A 7 de maio de 1807 foi publicado o decreto sobre a heroicidade
dependência de superiores estrangeiros e a participação em capítulos realizados em das virtudes de Afonso. Mas o Santo Padre foi afastado de Roma e tudo sofreu um
países estrangeiros. Razão? Eles tinham somente de ater-se às Regras que tinham retardamento de dez anos...
aceito quando de sua profissão. Por uma deliciosa ironia, os sicüianos obtiveram
assim,da parte do Governo que não sabia o que estava fazendo, vun decreto de 17 de Porém,em Santa Maria das Virgens,alguém reabre religiosamente,à página 127,
abrü de 1790 pelo qual voltavam à Regra de Bento xrv. Os napolitanos imitaram o registro dos batizados do ano de 1696. A margem da ata do batizado de Afonso de
Blasucci e conseguiram a mesma frijunçâo a 9 de outubro de 1790. O Regulamento Ligório, uma mão escreve: "Beatiflcado em setembro de 1816"; depois, uma outra:
estava morto.Pio VI permite a convocação de um capítulo geral de unificação.O P®; "Canonizado em 26 de maio de 1839"; e,finalmente,\nna terceira:"Declarado Doutor da
Leggio foi(im dos mais ardentes promotores da reunião.E o Pe.Pedro Paulo Blasucci Igrejaem 23 de março de 1871".E não sobra maislugar para acrescentar:"Proclamado
foi eleito reitor-mor de todos os filhos de Afonso.^® padroeiro dos confessores e dos moralistas em 26 de abrü de 1950".

O fundador profetizara um dia: Em 1957, D. José de Luca, grande conhecedor da história da espiritualidade,
escrevia:
Não duvidem de que a Congregação se manterá até o dia do julgamento,
porque ela não é obra minha,masobra de Deus.Enquanto eu viver ela vegetará Desse séciüo(das Luzes),Afonso de Ligório é certamente o napolitano cujo
na obscuridade e na humUhação,mas após a minha morte desdobrará as suas
pensamento voou mais alto. Ele sombreia com J. B. Vico, ao menos para quem
asas e se estenderá, principalmente para o Norte. não situa a altura do pensamento somente na filosofia. Na história da Igreja,é
ele a mais vasta inteligência após o ano de 1500,como santo Tomás o foi após o
Ora em outubro de 1784, dois homens do Norte apresentaram-se ao primeiro ano 1000...
718,. PARTE V Cap. 49

Deixemos tudo isso e todo o resto, que se poderia dizer para a glória de
Santo Afonso, para lembrarmo-nos de que ele nos deixou,a nossos padres, a nossos
fiéis, alguns livros entre os mais caros à nossa alma. Ele colocou sobre os lábios
de todos, mesmo dos analfabetos as palavras de Teresa de Ávila e de João da
Cruz. Sugeriu ao povo as palavras mais elevadas nas fórmulas mais humildes,
os sentimentos mais extáticos no vocabulário mais simples.
ÍNDICE
Criou, entre os simples, corações de santos, e de grandes santos.^^
Prefácio 7
Introdução u
NOTA
Bibliografia 13
1. Taimoia, m,pp. 59-60, 168; Tellerla, n, pp. 601-603.
2. Taimoia, m,pp. 156 e 150.
3. Ibid., p. 136. Primeira parte
4. S. Afonso, Lettere, ü, pp. 619-620, 627.
5. Kuntz, XI, pp. 25-28.
6. Acta capitolorum generalimn, pp. 51-81; cí SH 18(1970), pp. 250-312.
"NOTÁVEL,JOVEM E RICO"(1696-1723)
7. S. Afonso, Lettere, II, p. 620, 623. 1.0 ano de 1696 no reino de Nápoles 21
8. Tannoia, m,p. 148. 2."Duques, não; mas cavaleiros" 27
9. Documenta authentica falcutatum, p. 37; cf. Tannoia, HI, pp. 137-142. 3. Berços e vidas 35
10. Tellerla, n, pp. 692-693; Kimtz, X, p. 452. 4."O que serã então este menino?"(1696-1708) !! 43
11. Tannoia, m,p. 144. 5."Com inteligência viva e com todas as suas forças"(1703-1708) 55
12. S. Afonso, Lettere, n, pp. 640-641. 6. Nas grandes horas de Nápoles (1707-1711) 65
13. As atas dos Capítulos: Analecta 2(1933). Ele ordenou que se encarregasse um grupo de padres de 7. Rua dos Tribunais (1708-1713) 71
redigir um comentário do Regulamento. Esse comentário: SH 8(1960), pp. 3-39; 14 (1966), pp. 48-92. 8."Desenho, pintura, arquitetura, em que Afonso fez maravilhas..." 83
14. S. Afonso, Lettere, n, pp. 644-651.
15. Ibid., n, p. 642; cf. pp. 567, 582, etc.
9."Sou doido pela música!" 91
16. Tannoia, ni, p. 157; Berruti, op. cit., p. 133.
10. Advogado aos dezesseis anos (1713-1723) 97
17. Pietas alfonsiana, p. 70.
11. Ó mundo, oferece-me tudo, tua oferta será vã (1710-1723) 111
18. Berruti, op. cit., p. 150. 12. Processo perdido ou causa ganha? (1723) 125
19. Tannoia, m,p. 152-153.
20. Tannoia, m,pp. 159-161; SH 6(1958), p. 76.
21. CL SH 1 (1953), pp. 169-197. Segunda Parte
22. Citado por Gregorio, Monsignore se diverte..., p. 235.
23. Tannoia,m,p.168.Para a seqüência,pp.170-201;cf.SH235(1977), p.308;Berruti,op cit dd 119 120 "VAI, VENDE TEUS BENS E SEGUE-ME"(1723-1732)
24. Opere asceticbe, Vn, p. 479. '
25. A gravura da Virgem com que Afonso conversou, a gravura que tinha nas máos no momento de sua 13. Os anos de Seminário: Formação e... Deformação? (1723-1726) 141
morte é religiosamente conservada pelos padres redentoristas de Paris. 14. Os anos de Seminário: Os encontros para a vida (1723-1726) 153
26. Kuntz, XI, p. 324. 15. Missões e Ministérios (1724-1726) 165
27. Summarium, p. 433; Telleria, I, p. 403. 16. Sou padre (1727-1728) 177
28. De Meulemeester, Histoire sommaire..., pp. 98-102. 17. As "capelas da noite" (1728-1732) 187
29. S. Alfonso,4(1933), p. 200. 18. No Colégio dos Chineses (1729-1732) 201
30. Tannoia, n, p. 148. 19. Em missões... Além de Éboli(1727-1730) 215
31. De Luca, S. Alfonso il mio maestro, p. 131. 20. Em missão... na cidade de Scala (1730) 227
21. Maria Celeste Crostarosa (1730-1731) 235
22. Fazendo a Jesus Cristo o sacrifício de Nápoles(1731-1732) 257

Terceira Parte

"DIRIGI-VOS, ANTES, ÀS OVELHAS PERDIDAS(Mt 10, 6)(1732-1762)


23.0 voto do Fundador (novembro-dezembro de 1732) 279
24."Ainda que tivesse de ficar sozinho"(janeiro-maio de 1733) 293
25."Estas pedras de Scala"(junho-dezembro de 1733) 311
26."Estes lugares se tornaram um paraíso"(1734-1735) 325
27. Em Ciorani, a casa-mãe...(1736-1741) 343
28."Nossos métodos são diferentes" 363
29.Em "Exílio" Às portas de Nápoles(maio de 1741-agosto de 1742)
30. Ligório ou Falcoia? (1742-1743)
31. Cenáculo e Pentecoste (1743-1745)
i|! 32."Nascido para o bem de todos F>or sua vida, sua ação e sua pena" .g
(1744-1748)
33."Meu purgatório, aqui em Nápoles"(1747-1748)
34. A Congregação do Santíssimo Redentor (1748-1750)
35. O servidor de Maria (1750-1756) ^g
36."Um grande debate em que se pesam os prós e os contras"(1752-1762)
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37. Nenhum minuto a perder (1754-1762)

Quarta Parte

"EU SOU O BOM PASTOR"(1762-1775)


38."Deus me expulsa da Congregação"(março-abril de 1762)
39."Temos um santo como Bispo (abril-julho de 1762)
40."Assim, o Bispo se suicida!"(1762-1763)
41."Deus nos apanhará pela fome"(1763-1764)
42. Bispo de Santa Ágata dos Godos(1763-1767)
43. Bispo para a Igreja Universal (1762-1774)
44."Temo menos as perseguições do que nossas infidelidades (1766-1775)
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45."Tiraram-me dos ombros o Monte Tabumo (1768-1775) °

Quinta Parte

"PARA ONDE NÃO QUERES..."(1775-1787)


46."Estou em Nocera e aqui me encontro no paraíso"(1775-1778)
47. Até à última gota... de sua tinta (1775-1785) ^„
48."Vontade do Papa, vontade de Deus"(1777-1781)
49."Eis-me aqui, meu Deus!"(1781-1787)

âiki