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Liev Trotsky

História da Revolução Russa


Disponível em: https://www.marxists.org/portugues/trotsky/1930/historia/index.htm
Índice
Tomo I.....................................................................................................................................4
Prefácio..............................................................................................................................4
Particularidades do desenvolvimento da Rússia...............................................................9
A Rússia czarista e a guerra............................................................................................18
O proletariado e o campesinato......................................................................................31
O czar e a czarina............................................................................................................44
A ideia de uma revolução palaciana................................................................................53
A agonia da monarquia....................................................................................................63
Cinco Dias: do 23 ao 27 Fevereiro 1917.........................................................................80
Quem dirigiu a insurreição de Fevereiro?.....................................................................103
O paradoxo da Revolução de Fevereiro........................................................................115
O Novo Poder................................................................................................................133
A dualidade de poderes.................................................................................................150
O comité executivo........................................................................................................156
O exército e a guerra.....................................................................................................176
Os dirigentes e a guerra................................................................................................190
Os bolcheviques e Lenine.............................................................................................199
O rearmamento do partido.............................................................................................217
As «Jornadas de Abril»..................................................................................................229
A primeira coligação......................................................................................................246
A ofensiva......................................................................................................................255
O campesinato...............................................................................................................266
Reagrupamentos nas massas.......................................................................................279
O Congresso dos Sovietes e a manifestação de Junho...............................................297
Conclusão......................................................................................................................310
Tomo II................................................................................................................................313
Prefácio..........................................................................................................................313
As «Jornadas de Julho»: a preparação e o início.........................................................318
As «Jornadas de Julho»: o ponto culminante e esmagamento....................................336

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Os bolcheviques podiam tomar o poder em Julho?......................................................356
O mês da grande calúnia...............................................................................................372
A contra-revolução levanta a cabeça............................................................................391
Kerensky e Kornilov.......................................................................................................406
A conferência de Estado em Moscovo..........................................................................421
A conspiração de Kerensky...........................................................................................436
O Levantamento de Kornilov.........................................................................................449
A burguesia mede-se com a democracia......................................................................461
As massas expostas aos golpes...................................................................................478
A maré enchente............................................................................................................495
Os bolcheviques e os sovietes......................................................................................514
A última coligação..........................................................................................................527
O campesinato diante de Outubro.................................................................................545
Saída do parlamento e a luta pelo congresso dos sovietes..........................................567
A questão nacional........................................................................................................584
O comité militar revolucionário......................................................................................603
Lenine apela à insurreição.............................................................................................626
A arte da insurreição......................................................................................................654
A tomada da capital.......................................................................................................676
A Tomada do Palácio de Inverno...................................................................................702
A insurreição de Outubro...............................................................................................725
O congresso da ditadura soviética................................................................................742
Conclusão......................................................................................................................770
Apêndices......................................................................................................................774
1 Particularidade do desenvolvimento da Rússia.....................................................774
Sobre as Particularidades ou Desenvolvimento Histórico da Rússia...................774
2 «O rearmamento do partido».................................................................................780
3 O congresso dos sovietes e a manifestação de Junho.........................................785

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Tomo I
Prefácio
Durante os dois primeiros meses de 1917, a Rússia ainda era a monarquia dos
Romanov. Oito anos mais tarde, os bolcheviques já estavam ao leme do governo, eles
que eram desconhecidos no início do ano e cujos líderes, no momento do ascenso ao
poder, ainda eram acusados de alta traição. Na história não se encontraria outro exemplo
de uma reviravolta tão brusca, sobretudo lembrando-nos que se trata de uma nação de
cento e cinquenta milhões de almas. É claro que os acontecimentos de 1917 – qualquer
que seja a maneira considerada – merecem ser estudados.
A história de uma revolução, como toda história, deve, antes de tudo, relatar o que
se passou e dizer como. Mas isso não é suficiente. Segundo a própria narração, é
necessário que se veja nitidamente porquê as coisas se passaram assim e não de outra
forma. Os acontecimentos não poderiam ser considerados como um encandeamento de
aventuras, nem baseados, uns após outros, numa moral pré-concebida. Eles devem
conformar-se com a sua própria lei racional. É na descoberta desta lei íntima que o autor
vê a sua tarefa.
O traço mais incontestável da Revolução é a intervenção directa das massas nos
acontecimentos históricos. Habitualmente, o Estado, monárquico ou democrático, domina
a nação; a história é feita pelos especialistas do ofício: monarcas, ministros, burocratas,
deputados, jornalistas. Mas, nos momentos decisivos, quando um velho regime se torna
intolerável para as massas, estas quebram as muralhas que os separam da arena
política, derrubam os seus representantes tradicionais, e, intervindo assim, criam o ponto
de partida para um novo regime. Que seja bem ou mal, os moralistas que julguem.
Quanto a nós, tomamos os factos tal como eles se apresentam, no seu desenvolvimento
objectivo. A história da revolução é para nós, antes de mais, a narração de uma irrupção
violenta das massas no domínio onde se regulam os seus próprios destinos.
Numa sociedade em revolução, as classes estão em luta. É evidente que as
transformações que se produzem entre o princípio e o fim de uma revolução, nas bases
económicas da sociedade e no substrato social das classes, é insuficiente para explicar a
marcha da própria revolução, a qual, num breve lapso de tempo, deita abaixo as
instituições seculares, criando novas e derrubando-as novamente. A dinâmica dos
acontecimentos revolucionários é determinada directamente pelas conversões
psicológicas rápidas, intensivas e apaixonadas das classes constituídas antes da
revolução.
Uma sociedade não modifica as suas instituições à medida das necessidades, como
um artesão renova as suas ferramentas. Pelo contrário: praticamente considera as
instituições que a dominam como uma coisa para sempre estabelecida. Durante dezenas
de anos, a crítica da oposição serve de válvula de escape ao descontentamento das
massas e ela é a condição à estabilização do regime social: tal é, por exemplo, em

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princípio, o valor adquirido pela social-democracia. São necessárias circunstâncias
absolutamente excepcionais, independentes da vontade dos indivíduos ou dos partidos,
para libertar os descontentes dos genes do espírito conservador e levar as massas à
insurreição.
As rápidas mudanças de opinião e de humor das massas, em tempos de revolução,
provêm, por consequência, não da maleabilidade e da mobilidade do psiquismo humano
mas do seu profundo conservadorismo. As ideias e as relações sociais continuam em
permanência atrasadas sobre as novas circunstâncias objectivas, até ao momento que
estas caem em cataclismo, e resulta em tempo de revolução, sobressaltos de ideias e de
paixões que os cérebros de polícias as representam simplesmente como obra de
“demagogos”.
As massas metem-se em revolução não como tendo um plano prévio de
transformação social, mas com o sentimento amargo de não poder tolerar por mais tempo
o antigo regime. É somente o meio dirigente da sua classe que possui um programa
político, o qual tem no entanto necessidade de ser verificado pelos acontecimentos e
aprovado pelas massas. O processo político essencial de uma revolução é precisamente
aquele em que a classe toma consciência dos problemas postos pela crise social, e que
as massas orientam-se activamente segundo o método das aproximações sucessivas. As
diversas etapas do processo revolucionário, consolidadas pela substituição a tais partidos
por outros sempre mais extremistas, traduzem a pressão constante reforçada das massas
sobre a esquerda, enquanto este impulso não se quebre contra obstáculos objectivos.
Então começa a reacção: desilusão em certos meios da classe revolucionária,
multiplicação dos indiferentes, e, seguidamente, consolidação das forças contra-
revolucionárias. Tal é pelo menos o esquema das antigas revoluções.
É somente pelo estudo dos processos políticos nas massas que se pode
compreender o papel dos partidos e dos líderes que nós não poderemos de forma
nenhuma ignorar. Eles constituem um elemento não autónomo, mas muito importante do
processo. Sem organização dirigente, a energia das massas se volatilizaria como o vapor
não fechado num cilindro de pistão. Todavia, o movimento não vem nem do cilindro nem
do pistão, mas do vapor.
As dificuldades que reencontramos no estudo das modificações da consciência das
massas em tempos de revolução são absolutamente evidentes. As classes oprimidas
fazem a história nas fábricas, nos quartéis e nos campos, nas cidades, nas ruas. Mas elas
não têm o hábito de notar por escrito o que fazem. Os períodos onde as paixões sociais
atingem a sua mais alta tensão não deixam em geral pouco lugar à contemplação e às
descrições. Todas as musas, mesmo a musa plebeia do jornalismo, ainda que ela tenha
os flancos sólidos, têm dificuldades em viver em tempos de revolução. Todavia, a situação
do historiador não é de forma nenhuma desesperada. As notas tomadas são incompletas,
discordantes, fortuitas. Mas, à luz dos acontecimentos, esses fragmentos permitem
muitas vezes adivinhar a direcção e o ritmo do processo subjacente. Bem ou mal, é ao
apreciar as modificações da consciência das massas que um partido revolucionário
baseia a sua táctica. A via histórica do bolchevismo testemunha que esta avaliação, de

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certa forma, era realizável. Porquê então o que é acessível a uma política revolucionária,
no turbilhão da luta, não seria acessível ao historiador retrospectivamente?
No entanto, os processos que se produzem na consciência das massas não são
nem autónomos nem independentes. Que os idealistas e os eclécticos não levem a mal, a
consciência é todavia determinada pelas condições gerais de existência. Nas
circunstâncias históricas da formação da Rússia, com a sua economia, as suas classes, o
seu poder de Estado, na influência exercida sobre ela pelas potências estrangeiras,
deveriam ser incluídas as premissas da Revolução de Fevereiro e da sua substituta – a
de Outubro. À medida onde parece particularmente enigmático que um país atrasado
tenha sido o primeiro a levar o proletariado ao poder, é necessário previamente procurar a
palavra do enigma no carácter original do dito país, isto é, no que o diferencia dos outros
países.
As particularidades históricas da Rússia e do seu peso específico são caracterizadas
nos primeiros capítulos deste livro que contêm uma exposição sucinta do
desenvolvimento da sociedade russa e das suas forças internas. Esperemos que o
inevitável esquematizar desses capítulos não desencoraje o leitor. No seguimento da
obra, encontrar-se-á as mesmas forças sociais em plena acção.
Esta obra não é de forma nenhuma baseada em lembranças pessoais. A
circunstância que o autor participou nos acontecimentos não a dispensa do dever de
estabelecer a narração sobre documentos rigorosamente controlados. O autor fala de si
na “terceira pessoa”. Isso não é uma simples forma literária: o tom subjectivo, inevitável
numa autobiografia ou memórias, seria inadmissível num estudo histórico.
No entanto, pelo facto que o autor participou na luta, é-lhe naturalmente mais fácil
compreender não somente a psicologia dos actores, indivíduos e colectividades, mas
também a correlação interna dos acontecimentos. Esta vantagem pode dar resultados
positivos, contudo com uma condição: a de não se relacionar aos testemunhos da sua
memória nas pequenas como nas grandes coisas, na exposição dos factos como em
consideração dos mobiles e dos estados de opinião. O autor considera que tanto que
dependa dele, teve em conta esta condição.
Resta uma questão – a da posição política do autor que, na sua qualidade de
historiador limita-se ao ponto de vista que era o seu como actor nos acontecimentos. O
leitor não está obrigado, bem entendido, a partilhar os pontos de vista do autor, o que este
último não tem motivo para dissimular. Mas o leitor tem o direito de exigir que uma obra
de história constitua não a apologia de uma posição política, mas uma representação
intimamente fundada do processo real da revolução. Uma obra de história só responde
plenamente ao seu destino se os acontecimentos se desenvolvem de página a página, no
todo natural da sua necessidade.
É para isso indispensável que intervenha o que se chama a “imparcialidade” do
historiador? Ninguém explicou ainda claramente no que isso deve considerar. Muitas
vezes cita-se um certo aforismo de Clemenceau, dizendo que a revolução deve ser
tomada “em bloco”; o que não é mais do que um subterfúgio espiritual: como se declararia

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um partidário de um todo que trás em si a divisão? A palavra de Clemenceau foi-lhe
ditada, parcialmente, por uma certa vergonha de antepassados demasiados resolutos,
parcialmente também pelo mal-estar do descendente diante das suas sombras.
Um dos historiadores reaccionários, e, por consequência, bem cotados, da França
contemporânea, Sr. Louis Madelin, que caluniou tanto, como homem de salão, a grande
Revolução – quer dizer o nascimento da da nação francesa – afirma que um historiador
deve subir sobre a muralha da cidade ameaçada e, daí, considerar os cercadores como
os cercados. É somente assim, segundo ele, que se chegaria à “justiça que reconcilia”.
Porém, as obras do sr. Madelin provam que, se ele sobe à muralha que separa os dois
campos, é somente na condição de batedor da reacção. Felizmente, aqui trata-se de
campos de outrora: em tempos de revolução, é extremamente perigoso de se manter nas
muralhas. Aliás, no momento de perigo, os pontífices duma “justiça que reconcilia”
continuam normalmente fechados em casa, esperando para ver que qual lado se decidirá
a vitória.
O leitor sério e dotado de sentido crítico não precisa de uma imparcialidade falaciosa
que lhe estenderia a taça do espírito conciliador, saturada por uma boa dose de veneno,
com sedimento de ódio reaccionário, mas falta-lhe a boa-fé científica que, para exprimir
as sua simpatias, francas, sem mascaras, procura apoiar-se sobre um honesto estudo
dos factos, sobre a demonstração das relações reais entre os factos, sobre a
manifestação de o que tem de racional no desenrolamento dos factos. Aí somente é
possível a objectividade histórica, e ela é então suficiente, porque é verificada e
certificada de outra forma que vai além das boas intenções do historiador – que aliás
garante – mas pela revelação da lei íntima do processo histórico.
As fontes desta obra consistem em numerosas publicações periódicas, jornais e
revistas, memórias, processos verbais e outros documentos, alguns manuscritos, mas a
maior parte publicados pelo Instituto de História da Revolução, em Moscovo e
Leninegrado. Julgámos inútil dar no texto referências que estorvariam o leitor. Entre os
livros de história que têm carácter de estudo de conjunto, utilizámos os dois volumes de
Ensaio sobre a História da Revolução de Outubro (Moscovo-Leninegrado, 1927). Esses
ensaios redigidos por diversos autores não têm todos o mesmo valor, mas contêm, de
qualquer forma, uma documentação abundante sobre os factos.
As datas referidas nesta obra são as do antigo estilo, isto é, elas atrasam 13 dias no
calendário universal, actualmente adoptado pelos sovietes. O autor foi forçado a seguir o
calendário utilizado na época da Revolução. Não seria difícil, na verdade, transpor as
datas no estilo moderno. Mas esta operação, que eliminaria certas dificuldades, criaria
outras mais graves. A queda da monarquia inscreveu-se na História sob o nome de
Revolução de Fevereiro. Porém, segundo o calendário ocidental, o acontecimento teve
lugar em Março. Certa manifestação armada contra a política imperialista do governo
provisório foi marcada na história como “jornadas de Abril”, enquanto, segundo o
calendário ocidental, ela teve lugar em Maio. Não nos detenhamos sobre outros
acontecimentos e datas intermediárias, notemos ainda que a Revolução de Outubro
produziu-se, para a Europa, em Novembro. Como se vê, o próprio calendário tomou a cor

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dos acontecimentos e o historiador não pode desembaraçar-se das efemérides
revolucionárias pela simples operação de aritmética. Queira o leitor lembrar-se que antes
de suprimir o calendário bizantino, a Revolução teve que abolir as instituições o temiam
conservar.
Léon Trotsky
Prinkipo, 14 Novembro 1930

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Particularidades do desenvolvimento da Rússia

O aspecto essencial e o mais constante de história da Rússia, é a lentidão da


evolução do país, tendo como consequências uma economia atrasada, uma estrutura
social primitiva, um nível de cultura inferior.
A população da planície imensa um clima rigoroso, aberto aos ventos de Este e às
migrações asiáticas, estava condenada pela própria natureza à estagnação prologada. A
luta contra os nómadas durou quase até ao fim do século XVII. A luta contra os ventos
que trazem as geadas no Inverno e a seca no Verão não terminou nos nossos dias. A
agricultura – base de todo o desenvolvimento – progredia pelas vias extensivas: no Norte,
cortavam-se e queimava-se as florestas; no Sul, as estepes virgens eram transtornadas.
Tomava-se posse da natureza no sentido da largura e não em profundidade.
Na época onde os Bárbaros do Ocidente se instalavam nas ruínas da civilização
romana e utilizavam tanto as pedras antigas como materiais de construção, os Eslavos do
Oriente não encontraram nenhuma herança nas suas planícies sem alegria : o nível de
seus predecessores tinha sido ainda mais baixo. Os povos da Europa ocidental, em breve
bloqueadas nas suas fronteiras naturais, criariam as aglomerações económica e culturais
das cidades industriais. A população da planície oriental, começava a sentir-se apertada,
penetrava nas florestas ou emigrava para a periferia, na estepe. Os elementos
camponeses dotados de iniciativa e os mais empreendedores tornavam-se, do lado
Oeste, citadinos, artesãos, comerciantes. No Este, certos elementos activos, audaciosos
estabeleciam-se como comerciantes, mas, em maior número, tornavam-se cossacos,
alfandegários ou colonos. O processo de diferenciação social, intensa no Ocidente,
atrasava no Oriente e se diluía-se por extensão. “O czar de Moscóvia” – mesmo se cristão
– governa as pessoas de espírito preguiçoso” escrevia Vigo, contemporâneo de Pedro I.
O “espírito preguiçoso” dos moscovitas reflectia o ritmo lento da evolução económica, a
amorfia das relações entre as classes, a indigência da história interior.
As antigas civilizações do Egipto, da Índia, e da China tinham um carácter
suficientemente autónomo e dispunham de bastante tempo para elaborar, mesmo
medíocres que fossem as suas possibilidades de produção, relaçõessociais tão completas
em detalhe como as obras dos artesãos destes países. A Rússia ocupava entre a Europa
e a Ásia uma situação intermediária não somente pela geografia mas pela sua vida social
e história. Ela distinguia-se do Ocidente europeu, mas diferia também do Oriente asiático,
aproximando-se em diversos períodos, por diversos aspectos, ora de um, ora de outro. O
Oriente impôs o jugo tatar que entrou como o elemento importante na edificação do
Estado russo. O Ocidente foi um inimigo ainda mais temível, mas ao mesmo tempo um
mestre. A Rússia não teve a possibilidade de forma-se segundo os modelos do Oriente
porque ela teve sempre que se acomodar face à pressão militar e económica do
Ocidente.

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A existência do feudalismo na Rússia, negada pelos historiadores de outrora, pode
ser considerada como incontestavelmente demostrada pelos estudos mais recentes.
Ainda mais: os elementos essenciais da feudalidade na Rússia eram os mesmos que
existiam no Ocidente. Mas só por esse facto, para estabelecer a realidade de uma época
feudal na Rússia foi preciso longas discussões científicas. Está suficientemente provado
que a feudalidade russa nasceu antes do tempo, que era informe e pobre em
monumentos da sua cultura.
Um país atrasado assimila as conquistas materiais e ideológicas dos países
avançados. Mas isso não significa que ela siga servilmente esses países reproduzindo
todas as etapas de seu passado. A teoria da repetição dos ciclos históricos – a de Vico e,
mais tarde dos seus discípulos – apoia-se na observação dos ciclos descritos pelos
antigas culturas pré-capitalistas, em parte sobre as primeiras experiências do
desenvolvimento capitalista. O carácter provincial episódico de todo o processo comporta
efectivamente certas repetições das fases culturais nesses focos sempre novos. O
capitalismo, porém, marca um progresso sobre tais condições. Ele preparou e, num certo
sentido, realizou a universalidade e a permanência do desenvolvimento da humanidade.
Por aí está excluída a possibilidade da repetição das formas de desenvolvimento das
diversas nações. Forçado a meter-se a reboque dos países avançados, um país atrasado
não se conforma com a ordem de sucessão: o privilégio de uma situação históricamente
atrasada – esse privilégio existe – autoriza um povo, ou mais exactamente, força-o a
assimilar tudo antes dos prazos fixados, saltando uma serie de etapas intermediárias. Os
selvagens renunciam ao arco e flechas, para tomar logo o fuzil, sem percorrer a distância
que separava, no passado, essas diferentes armas. Os Europeus que colonizaram a
América não retomavam a história pelo início. Se a Alemanha ou os Estados-Unidos
ultrapassaram a Inglaterra, foi justamente no seguimento de atrasos da sua evolução
capitalista. Em contrapartida, a anarquia conservadora na indústria carvoeira britânica,
como nos cérebros de MacDonald e dos seus amigos, é o resgato de um passado
durante o qual a Inglaterra – demasiado tempo – possuiu a hegemonia sobre o
capitalismo. O desenvolvimento de uma nação historicamente atrasada conduz
necessariamente a uma combinação original de diversas fases do processo histórico. A
curva descrita toma no seu conjunto um carácter irregular, complexo, combinado.
A possibilidade de saltar por cima dos graus intermediários, não é, compreende-se,
completamente absoluta; ao fim das contas, ela está limitada pelas capacidades
económicas e culturais do país. Um país atrasado, aliás, rebaixa frequentemente o que
ele pede emprestado o pronto a usar no exterior para adaptar à sua cultura mais primitiva.
O próprio processo de assimilação toma, nesse caso, um carácter contraditório. É assim
que a introdução de elementos da técnica e do saber ocidentais, antes de mais a arte
militar e a manufactura, sob Pedro I, agravou a lei da servidão, como forma essencial da
organização do trabalho. O armamento à europeia e os empréstimos à Europa ao mesmo
título – incontestavelmente resultados de uma cultura mais elevada – conduziram ao
reforço do czarismo que, pelo seu lado, travou o desenvolvimento do país.
A lei racional da história não tem nada de comum com os esquemas pedantes. A
desigualdade do ritmo, que é a lei mais geral do processo histórico, manifesta-se com

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maior vigor e complexidade nos destinos dos países atrasados. Sob a força das
necessidades exteriores, a vida retardatária é obrigada a avançar por saltos. Desta lei
universal de desigualdade dos ritmos decorre uma outra lei que, falta de denominação
mais apropriada, pode-se chamar lei do desenvolvimento combinado, no sentido da
reaproximação das diversas etapas, da combinação de fases distintas, da amalgama de
formas arcaicas com as mais modernas. Na falta desta lei, tomada, bem entendido, em
todo o seu conteúdo material, é impossível compreender a história da Rússia, como, em
geral, de todos os países chamados à civilização em segunda, terceira ou décima linha.
Sob a pressão da Europa mais rica, o Estado russo absorvia em comparação com o
Ocidente, uma parte relativa da riqueza pública muito mais forte, e não somente
condenava assim as massas populares a uma miséria dupla, mas enfraquecia também as
bases das classes possuidoras. O Estado, tendo porém necessidade do apoio destas
últimas, pressionava e regulava a sua formação. Resultado, as classes privilegiadas,
burocratizadas, nunca mais puderam levantar-se com todo o seu peso e o Estado russo
aproximava-se ainda mais dos regimes despóticos da Ásia.
A autocracia bizantina que os czars moscovitas se apropriaram oficialmente desde
do início do século XVI submeteu os grandes feudais, os boiardos, com a ajuda dos
nobres da Corte (dvoriane) e sujeitou estes últimos subjugando-lhes o campesinato para
se transformar em monarquia absoluta, a dos imperadores de Petersburgo. O atraso do
conjunto do processo é suficientemente caracterizado pelo facto que o direito de servidão
nascendo no fim do século XVI, estabelecido no XVII, atingiu o seu desenvolvimento no
XVIII e foi juridicamente abolido somente em 1861.
O clérigo, depois da nobreza, jogou na formação da autocracia czarista um papel
não negligenciável, mas unicamente o de um funcionalismo. A Igreja nunca se elevou na
Rússia ao grau de potência dominante que o catolicismo teve no Ocidente: ela contentou-
se com um estado de domesticidade espiritual junto dos autocratas e ela fazia-o com uma
humildade meritória. Os bispos e os metropolitas dispunham de um certo poder somente
a título de subalternos da autoridade civil. Havia mudança de patriarca quando sucedia
um novo czar. Quando a capital foi estabelecida em Petersburgo, a dependência da Igreja
em relação ao Estado tornou-se ainda mais servil. Duzentos mil padre e monjes
constituíram, em suma, uma parte da burocracia, uma especie de polícia confessional.
Em recompensa, o monopólio do clérigo ortodoxo nos assuntos da fé, as suas terras e
rendimentos, encontraram-se sob a protecção da polícia geral.
A doutrina eslavista, messiânica de um país atrasado, edificava a sua filosofia sobre
esta ideia que o povo russo e a sua Igreja são profundamente democratas, enquanto que
a Rússia oficial teria sido uma burocracia alemã, implantada por Pedro I. Marx notou
sobre esse sujeito:
“Foi portanto assim que os burros da Alemanha fazem recair a responsabilidade do
despotismo de Frederico II sobre os franceses, como se os escravos atrasados não
tivessem sempre necessidade da ajuda dos outros escravos mais civilizados para
aprender.”

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Esta breve nota atinge o fundo não somente da velha filosofia eslavista, mas
também as descobertas contemporâneas dos “racistas”.
A indigência, aspecto assinalável não somente da feudalidade russa, mas de toda a
história da antiga Rússia, encontra a sua expressão mais intolerável na falta de cidades
do verdadeiro tipo medieval, como centros de artesãos e de comerciantes. O artesanato
na Rússia não conseguiu destacar-se da agricultura e conservou o carácter das pequenas
indústrias locais. As cidades russas dos antigos tempos eram centros comerciais,
administrativos, militares, residências de proprietários nobres, em consequência centros
de consumo e não de produção. Mesmo Novgorod, que estava em relações com a Liga
Hanseática e nunca conheceu o jugo tatar, era unicamente uma cidade de comércio, e
não um centro de indústria. É verdade que dispersão das pequenas indústrias rurais nas
diversas regiões do país pedia serviços intermediários de uma actividade comercial
alargada. Mas os comerciantes nómadas não podiam de forma nenhuma ocupar na vida
social um lugar análogo ao que no Ocidente detinha a pequena e média burguesia das
corporações de artesãos, comerciantes, industriais, burgueses indissoluvelmente ligadas
à sua periferia rural. Além disso, as linhas magistrais do comércio russo conduziam ao
estrangeiro, assegurando desde séculos um papel dirigent ao capital comercial do exterior
e dando um carácter semi-colonial a todo o movimento de negócios no qual o comerciante
russo era intermediário, entre as cidades do Ocidente e a aldeia russa. Tais relações
económicas continuaram a desenvolver-se na época do capitalismo russo e encontraram
a sua expressão suprema na guerra imperialista.
A importancia insignificante das cidades russas contribuiu mais à elaboração de um
Estado de tipo asiático e excluía, em particular, a possibilidade de uma Reforma religiosa,
isto é da substituição da ortodoxia feudal e burocrática por uma variedade mais moderna
do cristianismo, adaptada às necessidades da sociedade burguesa. A luta contra a Igreja
do Estado não se coloca acima da formação de seitas de camponeses, cuja força era a
dos Velhos Crentes.
Quinze anos aproximadamente antes da grande Revolução francesa, eclodiu na
Rússia um movimento de cossacos, de camponeses e operários servos no Ural – o que
se chamou a revolta de Pougatchev. O que faltou a esse terrível levantamento popular
para que ele se transformasse em revolução? Um terceiro estado. Na falta de uma
democracia industrial das cidades, a guerra camponesa não podia transformar-se em
revolução, assim como as seitas religiosas dos campos não podiam erguer-se até à
Reforma. O resultado da revolta de Pougatchev foi, ao contrário, consolidar o absolutismo
burocrático, protector dos interesses da nobreza, que mostrou de novo o que ele valia na
hora difícil.
A europeização do país, começou formalmente sob Pedro I, tornava-se cada vez
mais, no decurso do século seguinte, uma necessidade para a classe dirigente, isto é
para a nobreza. Em 1825, os intelectuais desta casta, generalizando num sentido político
essa necessidade, chegaram à conspiração militar com o objetivo de restringir a a
autocracia. Sob o impulso da burguesia europeia que se desenvolvia, os elementos
avançados da nobreza experimentaram substituir um terceiro estado que faltava.

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Contudo, a intenção deles era de combinar o regime liberal com as bases da sua
dominação de casta, e era por isso que eles temiam sobretudo o levantamento dos
camponeses. Não é de espantar que esta conjura tivesse sido obra de um grupo brilhante
mas isolado, de oficiais que quebraram a espinha quase sem terem combatido. Tal foi o
sentido da revolta dos dezembristas.
Os nobres donos de fábricas foram os primeiros, da sua casta, a opinar a
substituição do trabalho dos servos pelo livre salariado. Eles foram nisso empurrados pela
exportação crescente do trigo russo. Em 1861, a burocracia nobre, apoiando-se sobre os
proprietários liberais, efectuou a sua reforma camponesa. Impotente, o liberalismo
burguês assistiu a esta operação na qualidade de coro dócil. Inútil de dizer que o
czarismo resolveu o problema essencial da Rússia – a questão agrária – de uma maneira
mais sovina e velhaca que aquela utilizada pela monarquia prussiana, nos dez anos que
seguiram, para resolver o problema essencial da Alemanha – a sua unificação nacional.
Que uma classe se encarregue de dar uma solução às questões que interessem a uma
outra classe, é uma das combinações que são naturais aos países atrasados.
Porém, a lei da evolução combinada mostra-se a mais incontestável na história e no
carácter da indústria russa. Esta, nascida tardiamente, não voltou a percorrer o ciclo dos
países avançados, mas ela inseriu-se, acomodando ao seu estado atrasado os resultados
mais modernas. Se a evolução económica da Rússia, no seu conjunto, saltou as épocas
do artesanato corporativo e da manufactura, vários desses ramos industriais também
saltaram certas etapas da técnica que tinham exigido, no Ocidente, dezenas de anos.
Seguidamente, a indústria russa desenvolveu-se, em certos períodos, com uma extrema
rapidez. Da primeira revolução até à guerra, a produção industrial da Rússia tinha pouco
mais ou menos duplicado. Isso parece a alguns historiadores russos um motivo suficiente
para concluir que seria necessário abandonar a legenda de um Estado atrasado e do
progresso lento do país. (Nota. Esta afirmação é do professor M. N. Pokrovsky. Ver
Apêndice I no fim do 2º volume.) Na realidade, a possibilidade de um progresso tão rápido
era precisamente determinada por um estado atrasado que, infelizmente, não somente
subsistiu até a liquidação do antigo regime, mas como herança deste último, manteve-se
até hoje.
O nível económico de uma nação é medido, essencialmente, pela produtividade do
trabalho, a qual, pelo seu lado, depende da densidade da indústria na economia geral do
país. Na véspera da guerra, quando a Rússia dos czares tinha chegado ao apogeu da sua
prosperidade, o rendimento público era, por pessoa, de oito a dez vezes inferior àquele
que se atingia nos Estados-Unidos, e não é de espantar se considerarmos que os quatro
quintos da população russa trabalhando para ela própria compunha-se de cultivadores,
enquanto que nos Estados-Unidos, para um cultivador havia 2,5 trabalhadores industriais.
Acrescentemos que na véspera da guerra, na Rússia, contavam-se 400 metros de vias
férreas por 100 Km2 , enquanto que a Alemanha contava 11,7 Km pela mesma extensão,
e que a Austria-Hungria, 7 Km. Os outros coeficientes comparativos são da mesma
ordem.

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Mas é precisamente no domínio da economia, como já foi dito, que a lei da evolução
combinada se manifesta com mais vigor. Enquanto que a agricultura camponesa ficava a
maior parte, até à revolução, quase ao nível do século XVII, a indústria russa, pela sua
técnica e estrutura capitalista, encontrava ao nível dos países avançados, e mesmo, em
certos aspectos, deixava-os para trás. As pequenas empresas cuja mão de obra não
ultrapassava as cem pessoas ocupavam em 1914 nos Estados Unidos, 35% do efectivo
total de operários industriais, enquanto que na Rússia a proporção era somente de 17,8%.
Admitindo um peso específico aproximadamente igual das médias e grandes empresas,
ocupando de cem a mil trabalhadores as empresas gigantes que ocupavam mais de mil
operários cada uma empregava nos Estados-Unidos somente 17,8% da totalidade dos
operários, enquanto que na Rússia a proporção era de 41,4%! Assim, para as principais
regiões industriais, a percentagem era mais elevada : para a região de Petrogrado, 44,4%
e mesmo, para a região de Moscovo, 57,8%. Chegar-se-à aos mesmos resultados se
estabelecer-mos uma comparação entre a indústria russa e a indústria britânica ou alemã.
Ese facto, estabelecido pela primeira vez por nós em 1908, inseria-se difícilmente na
representação banal que se dá de uma economia russa atrasada. Portanto, ele não
contesta o carácter atrasado, dá somente o complemento dialéctico.
A fusão do capital industrial com o capital bancário efectuou-se na Rússia, também,
de maneira tão completa que não se viu igual em nenhum outro país. Mas a indústria
russa, ao subordinar-se aos bancos, mostrava efectivamente que ela submetia-se ao
mercado monetário da Europa ocidental. A indústria pesada (metais, carvão, petróleo)
estava quase completamente sob o controlo da finança estrangeira que tinha constituido
para seu uso, na Rússia, uma rede completa de bancos auxiliares e intermediários. A
indústria ligeira seguia o mesmo caminho. Se os estrangeiros possuíam, no conjunto,
pouco mais ou menos 40% de todo o capital investido na Rússia, essa percentagem nos
ramos industriais directores era nitidamente mais elevada. Pode-se afirmar sem exagero
que a bolsa de controle das acções emitidas pelos bancos, fábricas e companhias russas
encontravam-se no estrangeiro, e a participação dos capitais da Inglaterra, da França e
da Bélgica duplicava comparativamente à Alemanha.
As condições nas quais se constituía a indústria russa, a estrutura mesmo de esta
indústria, determinaram o carácter social da burguesia do país e a sua fisionomia política.
A alta concentração da indústria marcava já ela própria que entre as esferas dirigentes do
capitalismo e as massas populares, não havia nenhuma hierarquia intermediária. Ao que
se juntava as mais importantes empresas industriais, da banca e dos transportes eram
propriedade de estrangeiros que, não somente acumulavam lucros na Rússia, mas
firmavam a sua influência política nos parlamentos de outros países, e que, longe de
favorecer a luta pelo regime parlamentar na Rússia, opunham-se muitas vezes. Basta
aqui lembrar o papel abominável que jogou a França oficial. Tais foram as causas
elementares e irredutíveis do isolamento político da burguesia russa e da sua atitude
contrária aos interesses populares. Se, na aurora da sua história, ela mostrou-se
demasiado pouco madura para efectuar uma Reforma, ela estava demasiado quando veio
o momento de dirigir a revolução.

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No conjunto da evolução do país, a reserva donde saía a classe operária russa não
foi o artesanato corporativo: foi o meio rural; não a cidade, mas a vila. Note-se aqui que o
proletariado russo formou-se não pouco a pouco, no decurso dos séculos, arrastando o
fardo do passado, como na Inglaterra, mas que ele procedeu por saltos, por mudanças
bruscas de situações, de ligações, de relações, e por rupturas violentas com o que existia
na véspera. É precisamente assim – sobretudo no regime de opressão concentrada do
czarismo – que os operários russos tornaram-se acessíveis às deduções mais ousadas
do pensamento revolucionário, assim que a indústria russa atrasada encontrou-se capaz
de ouvir a última palavra da organização capitalista.
O proletariado russo voltou sempre ao início da história da sua origem. Enquanto
que, na indústria metalúrgica, sobretudo em Petersburgo, se cristaliza o elemento do
proletariado de raíz autêntica, aquele que tinha definitivamente rompido com a aldeia – no
Ural predominava ainda o tipo de meio proletário, ele próprio meio camponês. O afluxo
anual da mão de obra que fornecia o campo a todos os distritos industriais restabelecia o
contacto entre proletariado e a reserva social donde ele tinha saído.
A incapacidade política da burguesia foi determinada directamente pelo carácter das
suas relações com o proletariado e os camponeses. Ela não podia arrastar consigo os
operários que se lhe opunham odiosamente na vida cotidiana, e que, cedo, aprenderam a
dar um sentido mais geral às suas ambições. Por outro lado, a burguesia foi igualmente
incapaz de arrastar a classe camponesa, porque foi apanhada nas malhas dos interesses
comuns com os dos proprietários de terras, e que temia uma ameaça à propriedade, de
qualquer maneira que fosse. Se a revolução russa tardou a desencadear, não foi somente
uma questão de cronologia: a causa deve-se também à estrutura social da nação.
Quando a Inglaterra realizou a sua revolução puritana, a população do país não
excedia cinco milhões quinhentos mil almas, cujo meio milhão em Londres. A França,
quando a ela fez a sua revolução contava em Paris com meio milhão de habitantes sobre
vinte cinco milhões do conjunto da sua população, a Rússia, no início do século XX
contava cerca cento e cinquenta milhões de habitantes, com mais de três milhões em
Petrogrado e Moscovo. Esses números, comparados cobrem além disso diferenças
sociais da mais alta importancia. Não somente a Inglaterra do século XVII, mas a França
do século XVIII ignoravam ainda o proletariado que conhece a nossa época. Ora, na
Rússia, a classe operária, em todos os domínios do trabalho, nas cidades e nos campos,
contava já, em 1905, pelo menos dez milhões de pessoas, o que representava mais de
vinte e cinco milhões – famílias incluídas – quer dizer mais que a população da França na
época da sua grande Revolução. Partido dos rudes artesãos e dos camponeses
independentes que formaram o exército de Cromwell, tomando seguidamente os sans-
culottes de Paris, para chegar aos proletários das indústrias de Petersburgo, a revolução
modificava profundamente o seu mecanismo social, os seus métodos, e, por
consequência, as suas desígnios.
Os acontecimentos de 1905 foram o prólogo das duas revoluções de 1917 – a de
Fevereiro e a de Outubro. O prólogo continha já todos os elementos do drama, que,
porém, não estavam afinados. A guerra russo-japonesa fez tremer o czarismo. Utilizando

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o movimento de massas como contraste, a burguesia liberal alarmou a monarquia pela
sua oposição. Os operários organizavam-se independentemente da burguesia, opondo-se
mesmo a ela, quando nasceram os sovietes (ou conselhos) pela primeira vez. A classe
camponesa insurgia-se sobre uma imensa extensão de território, pela conquista de terras.
Da mesma forma que os operários agrícolas, os efectivos revolucionários no exército
foram atraídos pelos soviets, os quais, no momento onde o desenvolvimento
revolucionário era mais forte, disputaram abertamente o poder à monarquia. Todavia,
todas as forças revolucionárias se manifestaram pela primeira vez, elas não tinham
experiência, faltava-lhes firmeza. Os liberais afastaram-se ostensivamente da revolução
quando se tornou evidente que não bastava fazer tremer o trono, mas que era necessário
o derrubar. A brutal ruptura da burguesia com o povo – tanto mais que a burguesia
arrastava desde então consideráveis grupos de intelectuais democratas – facilitou à
monarquia a sua obra de desagregação no exército, de escolha de contingentes fiés e de
repressão sangrenta contra os operários e camponeses. O czarismo, mesmo tendo
algumas costelas quebradas, saía vivo, suficientemente vigoroso, das dificuldades de
1905.
Quais foram então, nas relações de força, as modificações que a evolução histórica
provocou, no decurso dos onze anos, entre o prólogo e o drama? O regime czarista,
nesse período, chegou a colocar-se ainda mais em contradição com as exigências da
história. A burguesia tornou-se económicamente mais poderosa, mas, como já vimos, a
potência repousava sobre uma concentração mais forte da indústria e do crescimento do
papel do capital estrangeiro. Influenciada pelas lições de 1905, a burguesia fez-se mais
conservadora e desconfiada. O peso específico da pequena e média burguesia, antes já
insignificante, diminui ainda mais. Os intelectuais democratas não tinham geralmente
base social estável. Eles podiam exercer provisoriamente uma certa influência política
mas não jogavam um papel independente: a submissão dos intelectuais em relação ao
liberalismo burguês tinha-se agravada extraordinariamente. Nessas condições, só o
jovem proletariado pode dar à classe camponesa um programa, uma bandeira, uma
direcção. Os grandes problemas que se colocavam assim diante dele necessitaram a
criação sem demora de uma organização revolucionária especial, que poderia englobar
de uma só vez as massas populares e as tornar capazes de uma acção revolucionária
sob a direcção do operariado. Foi assim que os sovietes de 1905 conheceram um
desenvolvimento formidável em 1917. Note-se que os sovietes não são simplesmente
uma produção devida ao estado históricamente atrasado da Rússia, mas resultam de um
desenvolvimento combinado; a tal ponto que o proletariado do país mais industrial, a
Alemanha, não encontrou, na época do desenvolvimento revolucionário de 1918-1919,
outra forma de organização que os sovietes.
A revolução de 1917 tinha por objetivo imediato derrubar a monarquia burocrática.
Mas ela diferenciava-se das antigas revoluções burguesas no que respeita o elemento
decisivo que se manifestava agora era uma nova classe, constituida na base de uma
indústria concentrada, porvida de uma nova organização e de novos métodos de luta. A lei
do desenvolvimento combinado mostra-se aqui na sua expressão mas extrema:

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começando por derrubar o edifício medieval podre, a revolução levou ao poder, em alguns
meses, o proletariado com o partido comunista à cabeça.
Assim, segundo as suas tarefas iniciais, a revolução russa foi democrática. Mas ela
colocava de uma maneira nova o problema da democracia política. Enquanto os operários
cobriam todo o país de sovietes, juntando-lhe os soldados, et, parcialmente, os
camponeses, a burguesia continuava a negociar, questionando-se se ele convocaria ou
não a Assembleia constituinte. No decurso dos acontecimentos, esta questão apresenta-
se-nos de maneira concreta. Aqui, não queremos senão marcar o lugar dos sovietes na
sucessão histórica das ideias e das formas revolucionárias.
No meio do século XVII, a revolução burguesa, em Inglaterra, desenrolou-se sob a
cobertura de uma Reforma religiosa. A luta pelo direito de czar segundo um certo livro de
horas identificou-se à luta travada contra o rei, a aristocracia, os principes da Igreja e
Roma. Os presbiterianos e puritanos estavam convencidos de ter colocado seus
interesses terrestres sob a égide firme da divina providência. Os objetivos pelos quais
combatiam as novas classes confundiam-se indissoluvelmente, na sua mentalidade, com
os textos da Bíblia e com os ritos eclesiásticos. Os que emigraram levaram com eles esta
tradição confirmada no sangue. Daí a excepcional vitalidade das interpretações do
cristianismo dadas pelos Anglo-saxões. Vemos ainda hoje ministros “socialistas” da
Grande Bretanha basear a sua cobardia sobre textos mágicos nos quais as pessoas do
século XVII justificavam a sua coragem.
Em França, país que tinha saltado por cima da Reforma, a Igreja católica, na sua
qualidade de Igreja do Estado, conseguiu viver até à revolução que encontrou, não nos
textos bíblicos, mas nas abstracções democráticas, uma expressão e uma justificação
para os desígnios da sociedade burguesa. Qualquer que seja o ódio dos regentes actuais
da França pelo jacobismo, é um facto que, precisamente graças à acção rigorosa de um
Robespierre, eles têm ainda a possibilidade de dissimular a sua dominação de
conservadores sob formulas que, outrora, fizeram saltar a velha sociedade.
Cada revolução marcou uma nova etapa da sociedade burguesa e novos aspectos
da consciência das suas classes. Da mesma maneira que a França saltou por cima da
Reforma, a Rússia ultrapassou com um salto a democracia de simples forma. O partido
revolucionário da Rússia que devia selar sobre uma época completa procurou uma
formula para os problemas da revolução não na Bíblia nem no cristianismo secularizado
duma “pura” democracia, mas nas relações materiais existentes entre as classes. O
sistema dos sovietes deu a essas relações a mais simples expressão, a menos
disfarçada, a mais transparente. A dominação dos trabalhadores pela primeira vez
realizou-se no sistema dos sovietes, que, qualquer que tenham sido as peripécias
históricas mas próximas, entrou na consciência das massas de forma tão inextirpável que
nos outros tempos da Reforma ou a pura democracia.

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A Rússia czarista e a guerra
A participação da Rússia na guerra tinha contradições nos motivos e nos objectivos.
Com efeito, a luta sangrenta tinha por fim a dominação mundial. Nesse sentido, ela
ultrapassava as possibilidades da Rússia. O que se chamava os objectivos de guerra da
Rússia (os estreitos na Turquia, Galicia, Arménia) tinha uma importância muito relativa,
provincial, e não podia ter solução senão acessoriamente, tanto que não convinha aos
interesses dos principais beligerantes.
Ao mesmo tempo, a Rússia, na qualidade de grande potência, não podia abster-se
de participar na luta dos países capitalistas mais avançados, da mesma maneira que ela
não teria podido, durante a época precedente, dispensar-se de estabelecer no país
fábricas, vias férreas, adquirir armamento moderno e aviões. Frequentemente, entre os
historiadores russos da nova escola, as discussões iam ao ponto de saber em que
medida a Rússia czarista estava madura para uma política imperialista moderna, mas
essas controvérsias caem sempre na escolástica, porque se considera a Rússia sobre o
terreno internacional como um elemento isolado, como um factor independente. Ora, a
Rússia era somente um elo de um sistema.
A Índia, na forma e no conteúdo, participou na guerra como colónia da Inglaterra. A
intervenção da China, “voluntária” no sentido formal, era na realidade a intervenção de um
escravo numa rixa entre donos. A participação da Rússia tinha um carácter mal definido,
intermediário entre a participação da França e a da China. A Rússia pagava assim o
direito de ser a aliada de países avançados, de importar capitais e de pagar juros, isto é,
em suma, o direito de ser uma colónia privilegiada dos seus aliados; mas, ao mesmo
tempo, ela adquiria o direito de oprimir e de espoliar a Turquia, a Pérsia, a Galicia e em
geral os países mais fracos, mais atrasados que ela. O imperialismo equivoco da
burguesia russa tinha, no fundo o carácter de uma agência ao serviço das grandes
potências mundiais.
O sistema de compradores (intermediários comerciais) na China apresenta o tipo
clássico de uma burguesia nacional constituída em agência entre o capital financeiro
estrangeiro e a economia do seu próprio país. Na hierarquia mundial dos Estados, a
Rússia ocupava antes da guerra um lugar muito mais elevado que o da China. Que lugar
a Rússia teria ocupado após a guerra se a revolução não tivesse vindo? É uma outra
questão. Mas a autocracia russa, por um lado, a burguesia russa por outro, tinham
caracteres cada vez mais marcados de compradorismo: uma e outra viviam e subsistiam
da sua ligação com o imperialismo estrangeiro, serviam-no e não podiam manter-se sem
se apoiar nele. É verdade que no fim dos fins elas não podiam resistir, mesmo apoiadas
por ele. A burguesia russa meio compradora da finança estrangeira tinha interesses
imperialistas mundiais ao mesmo título que um agente retribuído por uma percentagem
está interessado nos negócios do seu patrão.
O instrumento de uma guerra, é um exército. Dado que todo exército, na mitologia
nacionalista, tem a reputação invencível, as classes dirigentes da Rússia não tinham
nenhum motivo de abrir uma excepção para o exército do czar. Na realidade, este exército

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não constituía uma força séria senão contra os povos meio bárbaros, os vizinhos pouco
consideráveis e os Estados em decomposição; sobre o terreno europeu, este exército não
podia agir senão como componente de coligações; para a defesa do país, ele não
preenchia a tarefa senão tirando partido dos imensos espaços onde a população era rara
e os caminhos impraticáveis. A virtude do exército de camponeses (mujiques) servos foi
Souvorov. A revolução francesa, que tinha escancarado as portas a uma nova sociedade
e a uma nova arte militar, deu o veredicto implacável contra o exército de Souvorov.
A meia abolição da servidão e a instituição do serviço militar obrigatório
modernizaram o exército tanto mais que o país – dito de outra forma, introduziram no
exército todos os organismos da nação que tinha ainda que fazer a sua revolução
burguesa. Na verdade, o exército czarista construía-se e armava-se segundo os modelos
ocidentais; mas isso aplicava-se mais sobre a forma que sobre o fundo. Entre o nível
cultural do camponês soldado e o nível da técnica militar não havia correspondência. No
corpo dos oficiais manifestava-se a ignorância grosseira, a preguiça, e a patifaria das
classes dirigentes da Rússia. A indústria e os transportes mostravam-se invariavelmente
incapazes de responder às exigências concentradas em tempo de guerra. Armadas, ao
que parece no primeiro dia das hostilidades, como convinha, as tropas encontraram-se
logo desprovidas não somente de armas, mas mesmo de botas. No decurso da guerra
russo-japonesa, o exército do czar mostrou o que valia. Na época da contra-revolução, a
monarquia, secundada pela Duma, encheu os depósitos de material de guerra e fez no
exército múltiplas remendos, atamancando também a sua reputação de invencibilidade.
Com a guerra de 1914 veio uma nova verificação, muito mais penosa.
Considerando os abastecimentos de guerra e as finanças, a Rússia encontrou-se
logo na dependência servil diante dos seus aliados. Havia aí a expressão militar da
dependência geral onde ela vivia em relação aos países capitalistas avançados. Mas a
ajuda oferecida pelos Aliados não salvou a situação. A falta de munições, o pequeno
número de fabricantes, o alongamento da rede rodoviária que deve distribuir traduzia o
estado atrasado da Rússia na linguagem clara das derrotas que lembravam aos
nacionais-liberais russos que os seus antepassados não tinham feito a revolução
burguesa e que, em consequência, a posteridade era devedora diante da história.
Os primeiros dias da guerra foram os primeiros da vergonha. Após um certo número
de catástrofes parciais, uma retirada geral declarou-se na Primavera de 1915. Os
generais vingavam-se da sua incapacidade criminosa sobre a população civil. Imensos
territórios foram devastados pela violência. O gafanhoto humano foi expulso a golpes de
nagaika (estilete camuflado no cabo de um chicote) em direcção à retaguarda. O desastre
da frente completou-se por um desastre no interior.
O general Polivanov, ministro da Guerra, respondendo às questões ansiosas dos
seus colegas sobre a situação na frente, declarou literalmente o que segue:
“Confiando na imensidão do nosso território, contando sobre as nossas lamas
impraticáveis, remeto-me também às boas graças de São Nicolau, padroeiro da Santa
Rússia.” (Conselho de ministros, processo verbal do 4 de Agosto 1915)

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Oito dias mais tarde, o general Roussky fazia aos mesmos ministros a confissão
seguinte:
“As exigências modernas das técnica militar são superiores às nossas
possibilidades. De qualquer forma, nós não podemos rivalizar com os alemães.”
E não era uma anedota. Um oficial chamado Stankevitch, relatou deste modo as
palavras de um chefe do corpo de engenharia:
“a guerra contra os alemães é sem apelo, porque não estamos em condições de
fazer o que quer que seja. Os novos métodos de luta tornam-se para nós as causas de
revés.”
Existem numerosos testemunhos nesse sentido.
A única coisa sobre a qual os generais russos se entendiam bem, era fornecer a
carne para canhão. Economizou-se bastante sobre a carne de vaca e de porco. As
incompetências que se encontravam à frente do Grande Quartel-General (G. Q. G.) tais
que Ianochkevitch sob o comando de Nicolas Nicolaievitch, e Alexeiev sob o comando do
czar, tapavam todas as brechas com novas mobilizações e consolavam eles e os aliados,
em alinhar colunas de cifras enquanto se necessitavam de colunas de combatentes.
Cerca de quinze milhões de homens foram mobilizados, enchendo os depósitos, quartéis,
acampamentos, multidões em tumulto que tripudiavam, onde se esmagavam pés,
multidões exasperadas que maldiçoavam. Se na frente esta massa humana foi um valor
ilusório, ela foi, na retaguarda um factor muito activo de desespero. Houve cerca de 5
milhões 500 000 de mortos, feridos e prisioneiros. O número de desertores aumentava. A
partir de Julho 1915, os ministros propagavam a lamentação:
“Pobre Rússia! Mesmo o seu exército que outrora tinha enchido o mundo com a
trovoada das suas vitórias, compõe-se agora de desertores e cobardes!”
Os próprios ministros, com o seu estilo de traquinas zombavam da “valentia dos
generais em retirada”, mas eles perdiam ao mesmo tempo horas a discutirem esse
problema: evacuar-se-ia ou não as relíquias de Kiev. O czar considerava que não ser
indispensável, porque os alemães não ousariam tocá-las, e, nos casos que se atrevessem
não seria tão importante.” Todavia, o Santo Sínodo tinha já iniciado a evacuação: “Ao
partir, nós levamos o que nos é caro...” Isto passava-se não na época das cruzadas, mas
no século XX, quando as derrotas da Rússia eram anunciadas pela rádio.
Os sucessos obtidos pela Rússia sobre a Austria-Hungria provinham muito mais do
estado de esta que da Rússia. A monarquia dos Habsburgo, em dissolução, reclamava há
muito tempo o seu coveiro, sem mesmo exigir que ele fosse altamente qualificado. A
Rússia, mesmo no passado, tinha tido a supremacia sobre os Estados em decomposição
como a Turquia, a Polónia ou a Pérsia. A frente Sul-Este das tropas russas, que era
dirigida contra a Austria-Hungria, conheceu grandes vitórias que distinguiram entre as
outras frentes. Aqui manifestaram-se vários generais que, na verdade, não demonstraram
de forma nenhuma suas aptidões de guerreiros, mas não estavam, de qualquer forma,

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embebidos desse fatalismo que caracteriza os capitães invariavelmente derrotados. É
desse meio que saíram mais tarde certos “heróis”, entre os Brancos, na guerra civil.
Por todo o lado procurava-se a quem se agarrar. Acusava-se de espionagem, sem
excepção, todos os judeus. Sacavam-se as pessoas cujo apelido era alemão. O G. Q. G.
do grande duque Nicolas Nicolaievitch mandou fuzilar o coronel da guarda Miassoiedov,
como espião alemão – que provavelmente não era. O ministro da Guerra Soukhomlinov
foi preso, homem insignificante e tarado, acusando-o talvez com fundamento, de alta
traição. O ministro dos Negócios estrangeiros da Grande-Bretanha, sir Edward Grey,
declarou ao presidente da delegação parlamentar da Rússia que o governo do czar agia
temerariamente se decidia, em tempo de guerra, acusar de traição o ministro da Guerra.
Os estados-maiores e a Duma acusavam de germanofilia a Corte imperial. Toda a
gente tinha ciúmes dos Aliados e detestava-os. O comando francês poupava as suas
tropas, expondo primeiro os soldados russos. A Inglaterra avançava lentamente. Nos
salões de Petrogrado e nos estados-maiores da frente, entregavam-se a gracinhas
inocentes: “A Inglaterra, dizia-se, jurou de aguentar até à última gota de sangue...do
soldado russo.” Tais piadas deslizavam para níveis inferiores e se repetiam na frente.
“Tudo pela guerra!” diziam os ministros, os deputados, os generais, os jornalistas. “Sim,
começava a dizer o soldado na trincheira, todos eles estão prontos a batalhar até à última
gota … do meu sangue.”
O exército russo, no decurso da guerra, sofreu mais percas que qualquer outro
exército comprometido no massacre : houve cerca de 2 milhões 500 000 homens mortos,
seja 40% das percas de todos os exércitos da Aliança. Durante os primeiros meses, os
soldados caiam sob os projecteis sem reflectir ou sem muita reflexão. Mas, de um dia ao
ao outro, sua experiência aumentava, a amarga experiência das camadas inferiores que
não se é capaz de comandar. Eles avaliavam a imensidade da desordem criada pelos
generais segundo as inúteis marchas e contramarchas feitas com solas que se
desmanchavam, segundo as cifras dos almoços que faltaram. Na sangrenta derrocada de
gentes e coisas, uma palavra sobressaía que explicava tudo: “Que absurdidade!” E, na
linguagem do soldado, o termo era mais apimentado.
A decomposição era mais rápida que noutro lado na infantaria, composta de
camponeses. A artilharia, que conta uma proporção muito forte de operários industriais,
distingue-se, em geral, por uma capacidade incomparavelmente maior de assimilação de
ideias revolucionarias: tinha-se visto em 1905. Se, em, 1917, pelo contrário, a artilharia se
mostrou mais conservadora que a infantaria, isso deve-se aos quadros desta última que
filtravam constantemente novas massas humanas, cada vez menos educadas; enquanto
a artilharia, que sofria percas infinitamente menores, tinha guardado os seus antigos
quadros. A mesma observação deveria ser feita com as outras armas especiais. Mas, no
fim de contas, a artilharia também começou a ceder.
Durante a retirada de Galicia, uma ordem secreta do generalíssimo recomendava
que se fizesse dessem vergastadas aos soldados que desertassem ou seriam culpados
de outros crimes. O soldado Pireiko diz nas suas memórias:

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“Os homens foram fustigados pelo mais pequeno delito, por exemplo por se
ausentarem algumas horas sem autorização; às vezes as vergastadas eram dadas
unicamente para levantar a moral das tropas!”
A partir de 17 Setembro 1915, Koropatkine notava, ao referir-se a Goutchkov:
"Soldados e sargentos começaram a guerra com aplicação. Agora estão extenuados
e, à força de bater em retirada, perderam qualquer fé na vitória.”
Pouco mais ou menos na mesma data, o ministro do Interior declarava sobre os
trinta mil soldados que se encontravam em convalescença em Moscovo:
“São elementos turbulentos que se insurgem contra qualquer disciplina, fazem
escândalo, metem-se em rixas com os agentes da polícia (ultimamente, um agente foi
morto por um soldado), que libertam pela força os indivíduos que são presos, etc. Sem
dúvida que em caso de sarilhos, toda a horda tomará o partido da multidão.”
O soldado Pireiko, já citado, continua:
“Todos, sem excepção, só se interessam a uma coisa: a paz... Quem seria o
vencedor? Que daria esta paz? Era a menor das preocupações do exército: ela queria a
paz a qualquer preço, porque ele estava cansado da guerra.”
Uma boa observadora, S. Fedortchenko, que serviu como enfermeira, surpreendeu
conversas de soldados, quase que adivinhou seus pensamentos, e anotou-os
correctamente no papel. Daí resultou um livrinho, O povo na guerra, o qual permite um
golpe de vista no laboratório onde as granadas, o arame farpado, os gazes asfixiantes e
vileza da autoridades trabalhavam durante longos meses, a consciência de vários milhões
de camponeses russos e onde foram triturados, ao mesmo tempo que os ossos das
criaturas humanas, preconceitos centenários. Muitos aforismos originais pronunciados
pelos soldados continham já as palavras de ordem da próxima guerra civil.
O general Roussky queixava-se em Dezembro 1916 de que Riga era a grande
miséria da frente setentrional. Era, segundo ele, um “ninho de propaganda”, assim que
Dvinsk. O general Brossilov confirmava esse julgamento: os efectivos que voltavam do
sector de Riga chegavam desmoralizados, os soldados recusavam de atacar, eles
mataram um capitão à baioneta, alguns homens tiveram que ser fuzilados, etc. “O terreno
propício a desagregação definitiva do exército já existia antes da revolução”, confessa
Rodzianko, que estava ligado aos círculos de oficiais e tinha visitado a frente.
Os elementos revolucionários, disseminados no início, infiltraram-se no exército sem
deixar rasto. Mas, à medida que se afirmava o descontentamento geral, eles emergiram.
Quando se expediu para a frente, por medida disciplinar, os operários que entraram em
greve, as fileiras dos agitadores reforçaram-se, e os movimentos de recuo do exército
dispunham a seu favor auditórios. A Segurança (Okhrana) declarava num relatório:
“O exército, na retaguarda e particularmente na frente, está cheia de elementos que
são capazes de se tornarem forças activa de um levantamento que outros não poderiam
senão recusar de reprimir...”

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A direcção da guarda da província de Petrogrado comunica, em Outubro 1916,
baseando-se no relatório de um investido de poder da União dos zemstvos, que o estado
de espírito do exército é alarmante, que as relações entre oficiais e soldados são
extremamente tensas, que se produz mesmo afrontamentos sangrentos, que, de todos os
lados, se encontraram milhares de desertores. “Alguém que permaneça junto do exército
deve ter a impressão sincera e completa que de uma incontestável desmoralização das
tropas.” Por prudência, o comunicado acrescenta que, se as informações parecem
credíveis em vários aspectos, mesmo assim é necessário dar crédito, tanto mais que
numerosos médicos retornados da frente deram informações idênticas.
O estado de espírito na retaguarda correspondia ao da frente. A conferência do
partido cadete, em Outubro 1916, a maioria dos delegados mostrara apatia e falta de fé
na vitória “em todas as camadas da população particularmente nos campos e entre a
classe pobre das cidades”. A 30 de Outubro 1916, o director do Departamento da polícia,
resumindo um certo número de relatórios, escreveu o que se segue:
“Observa-se de todo o lado e em todas as camadas da população uma sorte de
lassidão causada pela guerra, um desejo ardente de paz expeditiva, quaisquer que sejam
as condições que esta seja concluída...”
Alguns meses mais tarde, todos esses senhores, deputados e polícias, generais e
investidos de poder dos zemstvos, médicos e ex-guardas, afirmavam com tanta
segurança, que a revolução matou, no exército, o patriotismo e uma vitória garantida
antecipadamente lhe tinha sido confiscada pelos bolcheviques.
Foram indiscutivelmente os cadetes (constitucionalistas-democratas) que
interpretavam o papel de corifeu no concerto belicoso dos patriotas. Tendo rompido seus
laços problemáticos com a revolução desde do fim de 1905, o liberalismo, logo de início
da contra-revolução, levantou a bandeira do imperialismo. Esta nova atitude era a
consequência da primeira: a partir do momento que era impossível desembaraçar o país
das velharias do feudalismo, para assegurar à burguesia uma situação dominante, só
faltava concluir uma aliança com a monarquia e a nobreza, com o objectivo de melhorar a
situação do capital russo no mercado mundial. Se é exacto que a catástrofe universal foi
preparada por diversos lados, de tal maneira que ela foi, até um certo ponto, inesperada,
mesmo para os organizadores mais responsáveis, é pouco duvidoso que, na preparação
desta catástrofe, o liberalismo russo, como animador da política exterior da monarquia,
não se encontrava na última fila.
A guerra de 1914 foi reconhecida pelos líderes da burguesia russa como sendo a
sua própria guerra. No decurso de uma sessão solene da Duma de Estado, em 26 Julho
1914, o presidente da fracção cadete declarava isto:
“Nós não colocamos condições nem reivindicações; nós jogamos na balança nossa
firme vontade de vencer o adversário.”
A União sagrada, tornava-se, também na Rússia, a doutrina oficial. Durante as
manifestações patrióticas que tiveram lugar em Moscovo, o conde Benckendorf, grande
mestre-de-cerimónias, afirmou na presença de diplomatas:

23
“É essa aí a revolução que nos prediziam em Berlim?”
O embaixador da França, Paléologue, acrescentava:
“Um mesmo pensamento parece ter-se amparado de todos.”
Essa gente acreditava que era seu dever de alimentar e de semear ilusões em
circunstâncias que, pensar-se-ia, excluíam qualquer possibilidade de engano.
As lições que deviam remediar a esta bebedeira não se fizeram esperar muito
tempo. Pouco depois do início da guerra, um dos cadetes mais expansivos, Roditchev,
advogado e proprietário de terras, afirmou no seio do Comité central do seu partido:
“Pensam vocês que com esses imbecis se possa obter a vitória?”
Os acontecimentos provaram que não se pode ser vencedor quando se é
comandado por imbecis. Tendo perdido mais que metade a esperança de vencer, o
liberalismo tentou utilizar a situação criada pela guerra para proceder à depuração da
camarilha e obrigar a monarquia a um arranjo. O principal meio empregado foi acusar o
partido da Corte de ter sentimentos germanófilos e de tramar uma paz separada.
Na Primavera de 1915, quando as tropas nas linhas da frente desprovidas de armas
recuaram, nas esferas governamentais decidiu-se, não sem um certa pressão dos
Aliados, em apelar à iniciativa da indústria para os fornecimentos do exército. Com este
propósito foi constituído uma Conferência especial que se compôs, com os burocratas, de
industriais designados entre os mais influentes. As Uniões de zemstvos e das cidades que
foram criadas no início das hostilidades, assim que os Comités das indústrias de guerra,
formados na Primavera de 1915, tornaram-se os pontos de apoio da burguesia na sua
luta pela vitória e pelo poder. A Duma de Estado, apoiando-se sobre essas organizações,
devia manifestar-se com mais ousadia, como intermediária entre a burguesia e a
monarquia.
Grandes perspectivas políticas não desviavam, no entanto, a atenção dos pesados
problemas da actualidade. A Conferência especial, reserva central, dezenas, centenas de
milhões que se juntaram em biliões, foram distribuídos por canais ramificados, irrigando
abundantemente a indústria, satisfazendo pelo caminho uma multitude de apetites. A
Duma de Estado e na imprensa, certos benefícios de guerra para 1915-1916 foram
trazidos ao conhecimento do publico: a Companhia do Têxtil que pertencia a
Riabochinsky, liberais moscovitas, confessava 75% de lucros líquidos; a Manufactura de
Tver obteve mesmo 111%; a Laminagem de cobre de Koltchoguine, cujo capital era de 10
milhões, tinham ganho mais de 12 milhões num ano. Nesse sector, a virtude patriótica era
recompensada generosamente, e, note-se, sem demora.
A especulação de todo o tipo e o jogo na Bolsa atingiram o paroxismo. Imensas
fortunas elevaram-se sobre uma espuma de sangue. O pão e o combustível faltaram na
capital: isso não impediu o joalheiro Fabergé – fornecedor titular da Corte imperial – de
anunciar soberbamente que nunca tinha feito assim tão belos negócios. Vyroubova, dama
de honor da czarina, relata que em nenhuma outra estação precedente não se
encomendou tantos adornos, não se compraram tantos diamantes como no Inverno 1915-

24
1916. As boîtes de noite estavam sobrepovoadas de heróis da retaguarda, emboscados e,
simplesmente falando, personagens honradas que eram demasiado idosas para combater
na frente, mas suficientemente jovens para levar uma vida alegre. Os grandes duques
não foram os últimos a participar no festim dado em tempo de peste. (Alusão a um poema
celebre do grande poeta russo Alexandre Pouchkine.) Ninguém hesitou em fazer
despesas excessivas. Uma chuva de ouro caía do alto sem parar. A “alta sociedade”
estendia os braços, abria os bolsos para “apanhar”, as damas da aristocracia levantavam
as suas saias o mais alto que podiam, todos patinhavam na lama sangrenta – banqueiros,
intendentes, industriais, bailarinas do czar e dos grandes duques, prelados da Igreja
ortodoxa, damas e meninas da Corte, deputados liberais, generais da frente e da
retaguarda, advogados radicais, sereníssimos tartufos de um ou outro sexo, numerosos
sobrinhos e sobretudo numerosa sobrinhas. Todos apressavam-se em saquear e
alambazar, com a apreensão de ver o fim da chuva de ouro, tão bendita, e todos
empurravam com indignação a ideia de uma paz prematura.
Os lucros realizados em comum, as derrotas no exterior, os perigos no interior
estabeleceram uma aproximação entre os partidos das classes possuidoras. A Duma, que
tinha estado dividida na véspera da guerra, encontrou em 1915 a sua maioria de oposição
patriótica que passou a chamar-se “bloco progressista”. O objectivo oficialmente
confessado foi, bem entendido, “satisfazer as necessidades provocadas pela guerra”.
Nesse bloco não entraram, da esquerda os sociais-democratas e os trabalhistas, da
direita os pequenos grupos que eram bem conhecidos como os Cem Negros
(extremamente reaccionários). Todas as outras fracções da Duma – os cadetes, os
progressistas, os três grupos de outubristas, o centro e uma parte dos nacionalistas,
entraram no bloco ou se juntaram a ele, mesmos grupos nacionalistas: polacos, lituânios,
muçulmanos, judeus e outros.
Temendo enfurecer o czar ao pedir-lhe um ministério responsável, o bloco reclamou
“um governo unificado, composto de personalidades gozando da confiança do país”.
Desde então, o principe Chtcherbatov, ministro do Interior, caracterizava o bloco como um
grupo provisório, “uma coligação nascida das apreensões que se tem de uma revolução
social”. Aliás, para compreender esse raciocínio, não era necessário uma grande
perspicácia. Miliokov, que estava à cabeça dos cadetes, e em consequência do bloco de
oposição, dizia numa conferência do seu partido:
“Nós caminhamos sobre um vulcão... A tensão atingiu o seu grau extremo... Basta
um fósforo jogado por imprudência para provocar um tremendo incêndio...Qualquer que
seja o poder – mau ou bom - um poder firme é, por enquanto, mais necessário que
nunca.”
Se a esperança era grande em ver o czar, impressionado por tantos desastres, fazer
concessões, que, na imprensa liberal, apareceu no mês de Agosto uma lista feita de
antemão dos membros de um “gabinete da confiança”: o presidente da Duma, Rodzianko,
tinha sido o primeiro-ministro (segundo uma outra versão, designava-o como primeiro
ministro o príncipe Lvov, presidente da União dos zemstos); o ministro do interior tinha
sido Goutchkov, o dos negócios estrangeiros Miliokov, etc. A maior parte dessas

25
personalidade que se designavam elas próprias para uma aliança com o czar contra a
revolução deviam, dezoito meses mais tarde fazer parte de um governo dito
“revolucionário”. São essas piadas que a história permitiu-se mais uma vez. No momento
que falamos, a gracinha, pelo menos não durou.
Na maioria, os ministro do gabinete Goremykine não eram senão os cadetes
estupefactos do desenvolvimento que tomavam os assuntos, e, seguidamente, inclinavam
um acordo com o bloco progressista.
“Um governo que não tem a seu favor nem a confiança do depositário do poder
soberano, nem do exército, nem a das cidades, nem dos zemstvos, nem a da nobreza,
nem a dos comerciantes, nem a dos operários, é incapaz não somente de trabalhar, mas
mesmo de existir. A absurdidade é evidente”.
Foi nestes termos que o príncipe Chtcherbatov apreciou, em Agosto 1915, o governo
que ele fazia parte na qualidade de ministro do Interior.
“Se o assunto fosse conduzido convenientemente e se abre uma escapatória, dizia
Szonov, ministro dos Negócios estrangeiros, os cadetes serão os primeiros a procurar um
acordo. Miliokov é um burguês enfeudado e teme mais que tudo a revolução social. Além
disso, a maior parte dos cadetes tremem pelo seu capital.”
Pelo seu lado Miliokov considerava também que no bloco progressista “teria que
fazer concessões”. Portanto, as duas partes pareciam dispostas a transaccionar e pôde-
se crer que tudo iria bem funcionar. Mas, no 29 de Agosto, o presidente do Conselho,
Goreykine, burocrata carregado de anos e de honras – velho cínico que se ocupava de
política entre duas jogadas de cartas e que afastava todas as queixas dizendo que a
guerra “não lhe dizia respeito” - foi ao G. Q. G. , ver o czar, apresentar-lhe um relatório, e
voltou de lá para anunciar que cada um deveria ficar no seu posto, com a excepção da
Duma de Estado, demasiado presunçosa, cuja sessão seria adiada para o 3 de Setembro.
A leitura da okasa do czar decretando o adiamento da Duma foi ouvida sem uma só
palavra de protesto: os deputados gritaram “hurra para o czar” e dispersaram-se.
Como é que o governo czarista, que, segundo as suas próprias confissões, não tinha
nenhum apoio, pôde aguentar-se mais de dezoito meses? Os sucessos efémeros do
exército russo tiveram sem dúvida a sua influência reforçada por uma benéfica chuva de
ouro. Os sucessos, na frente, pararam, na verdade, logo, mas os benefícios da
retaguarda subsistiam. Porém, a causa principal do fortalecimento da monarquia, um ano
antes da sua queda, residia numa muito nítida diferenciação do descontentamento
popular. O chefe da Segurança de Moscovo, num relatório, declarava que a burguesia
evoluía para a direita, pela “apreensão de excessos revolucionários que se produziriam
após a guerra”; no decurso das hostilidades, viu-se, a revolução era ainda considerada
como improvável. O que alarmava além disso os industriais, era que “certos dirigentes
dos comités das indústrias de guerra estivessem com graciosidade com o proletariado”.
Em conclusão, o coronel da guarda Martynov, que, pela sua profissão, não tinha lido sem
proveito a literatura marxista, declarava que um certo melhoramento da situação política
era devido a

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“uma diferenciação continuamente acentuada das classes sociais, que revelava
vivas contradições de interesses particularmente sentidas no período que se
atravessava”.
O adiamento da Duma, em Setembro 1915, foi um desafio lançado directamente à
burguesia, e não aos operários. Mas, enquanto os liberais se dispersavam gritando (na
verdade sem grande entusiasmo) “hurra para o czar”, os operários de Petrogrado e de
Moscovo replicaram com greves de protesto. Foi um novo duche de água fria para os
liberais: eles temiam mais que tudo a intervenção indesejável de terceiros no seu duo de
família com a monarquia. Todavia, que iriam eles fazer seguidamente? Com ligeiros
grunhidos da sua ala esquerda, o liberalismo decidiu escolher uma receita aprovada: ficar
exclusivamente no terreno da legalidade e tornar a burocracia “de qualquer forma inútil”
ao assumir as funções patrióticas. Foi necessário de qualquer forma deixar de lado a lista
do ministério liberal que se tinha projectado.
Entretanto, a situação agravava-se automaticamente. Em Maio 1916, a Duma foi de
novo convocada, mas ninguém, propriamente dito, não sabia para quê. De qualquer
maneira, a Duma não tinha intenção de lançar um apelo à revolução. Além disso, ela não
tinha nada a dizer.
“No decurso desta sessão – disse Rodzianko nas suas Memórias – as sessões
foram aborrecidíssimas, os deputados pouco assíduos... A luta contínua parecia
infrutífera, o governo não queria saber de nada, o desespero crescia, e o país estava em
perdição”.
O espantalho da burguesia diante da revolução e a sua impotência na falta de
revolução, asseguraram à monarquia, durante o ano 1916, alguma aparência de apoio
social.
Cerca do Outono, a situação ainda se agravou. Tornava-se evidente que a guerra
não deixava alguma esperança; a indignação das massas populares ameaçava de
transbordar a qualquer instante. Ao mesmo tempo que atacava, como antes, o partido da
Corte, ao acusar de “germanofilia”, os liberais consideravam indispensável sondar para
ver se não haveria oportunidades de paz, porque eles preparavam o seu futuro. É
somente assim que se explica as conversações que tivera lugar em Estocolmo, em
Outono de 1916, entre o deputado Protopopov, um dos líderes do bloco progressista, e o
diplomata alemão Warburg.
A delegação da Duma que se dirigiu, em visita de cortesia, em França e em
Inglaterra, pode, sem dificuldades, constatar em Paris e Londres, que os caros aliados
tinham, durante a guerra, a intenção de exprimir da Rússia todas as forças vivas, depois,
após a vitória, de fazer deste país atrasado o campo principal da sua exploração
económica. A Rússia quebrada e a reboque pela Entente vitoriosa não teria sido mais do
que uma colónia. As classes possuidoras da Rússia não tinham mais nada que fazer
senão tentar desembaraçar-se dos abraços demasiados apertados da Entente e de
encontrar o seu próprio caminho para a paz, ao utilizar o antagonismo de dois formidáveis
adversários. A entrevista que o presidente da delegação da Duma teve com o diplomata

27
alemão, como primeiro passo nesta via, significava também uma ameaça aos aliados,
visando obter concessões, e um esforço de sondagem para reconhecer as possibilidades
efectivas de reaproximação com a Alemanha. Protopopov agia segundo não somente com
a diplomacia do czar (a entrevista teve lugar na presença do embaixador da Rússia na
Suécia, mas com toda a delegação da Duma de Estado.
Entre outros objectivos, ao efectuar este reconhecimento, os liberais tinham, para o
interior, intenções que não eram de menor importância: fia-te a nós, teriam eles dito ao
czar, e arranjar-te-emos uma paz separada, melhor e mais segura que a de Stürmer.
Segundo o plano de Protopopov, isto é dos seus inspiradores, o governo russo deveria
advertir os aliados, “com alguns meses de antecedência”, da necessidade de terminar a
guerra, e, se os aliados recusarem iniciar negociações de paz, a Rússia devia concluir
uma paz separada com a Alemanha. Numa confissão escrita após a revolução,
Protopopov diz, como uma coisa que se compreende naturalmente:
“Entre todas as pessoas razoáveis que havia na Rússia, e entre elas quase todos os
líderes do partido “a liberdade do povo” (cadetes) estavam convencidos que a Rússia não
estava em condições de continuar a guerra”.
O czar, a quem Protopopov, desde do seu regresso, entregou um relatório sobre a
sua viagem e as conversações, acolheu a ideia de uma paz separada com toda a
simpatia. Mas ele não via nenhuma razão em associar a este assunto os liberais. Se o
próprio Protopopov, por simples acaso, fosse admitido na camarilha do Palácio, rompendo
assim com o bloco progressista, isso se explica unicamente pelo carácter vaidoso que se
tomou, segundo a sua própria expressão, do czar e da czarina, ao mesmo tempo que se
apaixonava de uma inesperada pasta de ministro do Interior. Mas que Protopopov tenha
traído o liberalismo, é um episódio que não modifica absolutamente nada o sentido geral
da política exterior dos liberais, combinação de cupidez, cobardia e traição.
No 1º de Novembro, a Duma reuniu-se de novo. A sobre-excitação do país tinha
atingido um grau de intolerância. Esperava-se que da Duma actos decisivos. Era preciso
fazer ou, pelo menos, dizer qualquer coisa. O bloco progressista viu-se forçado mais uma
vez a recorrer às denúncias parlamentares. Numerando na tribuna os principais actos do
governo, Miliokov, a cada ponto, colocava esta questão: “É uma asneira ou uma traição?”
Outros deputados levantaram igualmente o tom. O governo não encontrou resposta. Ele
respondeu à sua maneira: proibiu a impressão dos discursos pronunciados na Duma. Em
consequência, esses discursos foram difundidos em milhões de exemplares. Não houve
serviço público não somente na retaguarda, mas na frente, onde não se ocupava de
recopiar os arengues sediciosos, frequentemente com as adendas que correspondiam ao
temperamento do copista. A ressonância dos debates foi tal que os próprios acusadores
tremeram.
O grupo de extrema-direita, o dos burocratas inveterados que inspirou Dornovo, o
homem que tinha reprimido a Revolução de 1905, apresentou então ao czar uma petição
contendo um programa. As perspectivas dos dignitários experientes, que tinham passado
pela escola policial, levaram longe e se as suas recomendações se mostraram inúteis, é
porque não existia nenhum remédio contra as doenças do antigo regime. Os autores da

28
petição pronunciavam-se contra todas as concessões à oposição burguesa – não,
pensavam eles, que os liberais desejassem levar demasiado longe as suas
reivindicações, como imaginavam os Cem Negros da ralé que os dignitários da reacção
consideravam de forma altiva, não, mas a desgraça era, segundo eles, que os liberais
fossem “tão fracos, tão divididos entre eles, e, para falar francamente, tão estúpidos que o
seu triunfo tivesse sido também tão efémero como instável.”
A fraqueza do principal partido da oposição, o dos democratas constitucionais
(cadetes) foi definida nos próprios termos: esse partido dizia-se democrático embora ele
fosse essencialmente burguês; compunha-se, em grande medida, de proprietários
liberais, tinha inscrito no seu programa a obrigação para os camponeses de readquirir as
terras.
“Excepção feita para esses trunfos emprestados ao jogo do outro – escreviam os
conselheiros secretos, utilizando uma linguagem que traia os seus hábitos – os cadetes
não são nada mais que uma numerosa aglomeração de advogados, professores e
funcionários de diversos departamentos, todos liberais : nada mais.”
Com os revolucionários era diferente. A petição dirigida ao czar reconhecia a
importância dos partidos revolucionários, e os autores rangiam os dentes ao escrever:
“O perigo representado por esses partidos e a sua força reside no facto que eles têm
uma ideia, que têm dinheiro (!), que têm a favor deles uma multidão pronta e bem
organizada. “Os partidos revolucionários” têm o direito de contar com as simpatias da
esmagadora maioria da classe camponesa que seguirá o proletariado desde que os
líderes revolucionários lhes façam sinal de se apoderar das terras do outrem. Que daria,
nessas condições, o estabelecimento de um ministério responsável diante do parlamento?
“O esmagamento completo e definitivo dos partidos de direita, uma absorção gradual dos
partidos intermediários (centro, conservadores liberais, outubristas e progressistas) pelo
partido dos cadetes que, no início, tomaria uma importância decisiva. Mas os cadetes
seriam ameaçados de sofrer a mesma sorte... E a seguir? A seguir viria a multidão
revolucionária, seria a Comuna, a perca da dinastia, a pilhagem das classes possuidoras,
para terminar, o banditismo do mujique”.
Não se pode negar que o furor reaccionário e policial subia aqui a originais previsões
históricas.
A petição, no seu programa positivo, não tinha nada de novo, mas era a
consequente: constituir um governo de implacáveis partidários da autocracia; abolir a
Duma; decretar o estado de sítio nas duas capitais: preparar os contingentes a esmagar a
revolta. Esse programa foi, em suma, a base da política governamental durante os últimos
meses que precederam a revolução. Todavia, para se realizar, esse plano pressupunha
forças que Dornovo dispunha durante o Inverno de 1905, mas que não existiam mais em
Outono 1916. A monarquia procurava abafar o país discretamente, dividindo as
resistências. O ministério foi remodelado. Aí entrou gente de confiança, indiscutivelmente
dedicada ao czar e à czarina. Mas essas personalidades, e à frente, o trânsfuga
Protopopov, eram insignificantes e lamentáveis. A Duma não foi dissolvida, mas foi

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fechada de novo. A declaração do estado de sítio em Petrogrado foi reservada para uma
data à qual a revolução teria logo obtido a vitória. Quanto às forças militares preparadas
para esmagar a revolta, elas foram levadas por elas próprias à sedição. Tudo isso foi
revelado dois ou três anos mais tarde.
O liberalismo, entretanto, esforçava-se para salvar a situação. Todas as
organizações da burguesia censitária apoiaram os discursos da oposição pronunciados
em Novembro na Duma por uma serie de novas declarações. Entre todas, a mais
insolente foi a resolução da União das Cidades, datada de 9 Dezembro:
“Criminosos irresponsáveis, facínoras, levam a Rússia à derrota, o opróbrio e a
escravatura.”
A Duma era convidada a “não separar-se tanto que não tivessem obtido um governo
responsável”. O próprio Conselho de Estado, órgão da burocracia e da grande
propriedade, pronunciou-se por um apelo ao poder de personalidades gozando da
confiança do país. A mesma petição foi formulada pelo Congresso da nobreza unificada:
pedras cobertas de musgo começavam a falar. Mas nada mudou. A monarquia não
abandonava o que lhe restava de poder entre as mãos.
A última sessão da última Duma foi marcada, após hesitações e contratempos, para
o dia 14 de Fevereiro 1917. Até à vinda da revolução, restava menos de quinze dias.
Esperavam-se manifestações. No Rietch (A palavra), órgão dos cadetes, ao mesmo
tempo que um comunicado do general Khabalov, chefe do corpo do exército da região de
Petrogrado, proibindo as manifestações, foi impressa uma carta de Miliokov prevenindo
os operários contra “os maus e perigosos conselhos” vindos de “fontes obscuras”. A
despeito das greves, a abertura da Duma teve lugar numa calma relativa. Fingindo não se
interessar à questão do poder a Duma ocupou-se de um problema exclusivamente
prático, ainda que grave: o do reabastecimento. A atmosfera era lânguida – como
descreveu mais tarde Rodzianko - “sentia-se a impotência da Duma, a sua lassitude numa
luta inútil”, Miliokov repetia que o bloco progressista “agiria pela palavra e somente pela
palavra”. Foi assim que a Duma se comprometeu no turbilhão da Revolução de Fevereiro.

30
O proletariado e o campesinato
O proletariado russo deu os seus primeiros passos nas condições políticas de um
Estado despótico. Greves proibidas por lei, círculos clandestinos, proclamações ilegais,
manifestações de rua, conluio entre a polícia e a tropa – tal foi a escola formada pela
combinação de um capitalismo em rápido desenvolvimento e dum absolutismo que cedia
terreno lentamente. A concentração dos operários nas empresas gigantescas, o carácter
igualmente concentrado da opressão exercida pelo Estado, enfim os desenvolvimentos
impulsivos de um jovem proletariado e cheio de frescura, fizeram da greve política, tão
rara em Ocidente, o método essencial da luta na Rússia. Os números de greves operárias
desde do princípio do século são os índices mais instrutivos sobre a história política
política na Rússia. Apesar do desejo que se tenha de não atravancar o texto de números,
é impossível de abster-se de citar os quadros das greves políticas no período entre 1903
a 1917. Esses dados, levados a sua mais simples expressão, dizem respeito somente às
empresas que eram da competência da inspecção das fábrica: os caminhos de ferro, as
indústrias mineiras e metalúrgicas, diversos ofícios e, em geral as pequenas empresas,
sem falar, bem entendido, da agricultura, não entram , por diferentes razões, neste
cálculo. Porém, a curva do movimento de greves não deixa portanto de se manifestar
nitidamente.

Anos Número de Grevistas (em milhares)


1903 87 [1]
1904 25 [1]
1905 1843
1906 651
1907 540
1908 93
1909 8
1910 4
1911 8
1912 550
1913 502
1914 (primeiro semestre) 575
1915 156
1916 310
1917 (Janeiro - Fevereiro) 575
[1] Para 1903 e 1904, a estatística relaciona-se a todas a greves, nas quais predominam sem dúvida as
greves económicas.

Temos diante de nós a curva, única no seu genero, da temperatura política de uma
nação que trazia no seu seio uma grande revolução. Num país atrasado onde o

31
proletariado não é numeroso – nas empresas subordinadas à inspecção das fábricas –
cerca de um milhão e meio de operários em 1905, cerca de dois milhões em 1917. O
movimento de greve toma uma amplitude que ele nunca teve em lado nenhum no mundo.
Dada a fraqueza da democracia pequena burguesa, da dispersão e da cegueira política
do movimento camponês, a greve revolucionária dos operários torna-se o aríete que a
nação ao acordar dirige contra a muralha do absolutismo. Que fossem 1 milhão 843 000
participantes nas greves políticas somente no ano 1905 (os operários tendo participado a
várias greves são, bem entendido, contados aqui como grevistas) esse número por si só
nos permitia indicar no quadro o ano da revolução, mesmo quando nós desconhecemos
as efemérides políticas da Rússia.
Em 1904, primeiro ano da guerra russo-japonesa, a inspecção das fábricas registou
no total somente 25 000 grevistas. Em 1904, as greves políticas e económicas no seu
conjunto contaram 2 milhões 863 000 participantes, seja um número 115 vezes superior
ao do ano precedente. Esse salto prodigioso sugere já que o proletariado, forçado pela
marcha dos acontecimentos improvisar essa actividade revolucionária extraordinária,
devia a qualquer custo tirar do seu próprio fundo uma organização que correspondesse à
amplitude da luta e à imensidão das tarefas previstas: assim nasceram os sovietes
(conselhos) da primeira revolução que se tornaram os órgãos da greve geral e da luta
pela conquista do poder.
Quebrado na sua insurreição de Dezembro 1905, o proletariado faz esforços
heróicos para conservar uma parte das posições tomadas no decurso dos dois anos
seguintes, os quais, como mostram os números das greves, ligam-se ainda muito perto à
revolução, sendo já anos de regressão. Os quatro anos seguinte (1908-1911) surgem no
espelho da estatística das greves como o período da contra-revolução vitoriosa. A crise
industrial que coincide com ela esgota ainda mais o proletariado já exsangue. A
profundidade da queda é simétrica à altura do voo anterior. As convulsões da nação
encontra as suas marcas nesses simples números.
A vida industrial reanimando-se a partir de 1910 levanta de novo os operários e dá
novo impulso à sua energia. Os números de 1912-1914 reproduzem quase os dados de
1905-1907, mas no sentido contrário: a tendência já não é a queda, é a subida. Sobre
novas bases históricas mais elevadas – os operários agora são mais numerosos e mais
experientes – uma nova ofensiva revolucionária se desencadeia. O primeiro semestre de
1914 aproxima-se evidentemente, quanto à importância das greves políticas, do ano que
data o ponto culminante da primeira revolução. Mas a guerra rebenta e interrompe
brutalmente esse processo. Os primeiros meses são marcados pela inacção política da
classe operária. Porém, desde da Primavera de 1915, esse entorpecimento começa a
dissipar-se. Ele abre-se um novo ciclo de greves políticas que, em Fevereiro de 1917,
conclui na insurreição dos operários e dos soldados.
Os bruscos fluxos e refluxos da luta das massas tornaram, em alguns anos, o
proletariado russo quase desconhecido. As fábrica que, dois ou três anos antes, se
meteram em greve, de acordo unânime, a propósito de um qualquer acto de arbítrio
policial, perdiam agora toda a aparência de espírito revolucionário e deixavam passar sem

32
protesto os crimes mais monstruosos das autoridades. As grandes derrotas são
duravelmente desencorajantes. Os elementos revolucionários perdem o seu poder sobre
a massa. Na consciência desta surgem na superfície os preconceitos e as superstições
mal digeridas. Os recém-chegados do campo, massas ignorantes, abandonavam durante
esse período as fileiras operárias. Os cépticos abanavam a cabeça irónicamente. Foi
assim de 1907 a 1911. Mas esses processos moleculares nas massas curavam as feridas
psicológicas causadas pelas derrotas. Um novo curso dos acontecimentos ou um
desenvolvimento económico surdo inaugurava um novo ciclo político. Os elementos
revolucionários reencontraram o seu auditório. A luta retoma um grau mais elevado.
Para compreender os duas principais correntes na classe operária da Rússia, é
importante considerar que o menchevismo formou-se definitivamente durante os anos da
reacção e da regressão, apoiando-se principalmente sobre uma fina camada de operários
que tinham rompido com a revolução; enquanto que o bolchevismo, terrivelmente
esmagado durante o período da reacção, subiu rapidamente, no decurso dos anos que
precederam a guerra, a crista do novo fluxo revolucionário.
“O elemento mais energético, o mais alegre, o mais capaz de lutar infatigavelmente,
de resistir e de se organizar constantemente, encontra-se nos grupos e indivíduos que se
concentram à volta de Lenine...”
É assim que o departamento da polícia apreciava o trabalho dos bolcheviques, nos
anos que precederam a guerra.
Em Julho de 1914, quando os diplomatas pregavam os últimos pregos na cruz sobre
a qual devia ser crucificada a Europa, Petrogrado estava em plena ebulição
revolucionária. O presidente da República francesa, Poincaré, quando veio depositar uma
coroa de flores no túmulo de Alexandre III, ouviu os últimos ecos de uma batalha de rua
com os primeiros fragores de uma batalha das manifestações patrióticas.
O movimento da ofensiva das massas em 1912-1914 teria levado à queda do
czarismo se a guerra não se intercalasse? Não é possível responder a esta questão com
toda a certeza. O processo conduzia implacavelmente à revolução. Mas por quais etapas,
nesse caso, dever-se-ia passar? Não corríamos para una nova derrota? Quanto tempo
teria sido necessário aos operários para revoltar os camponeses e conquistar a tropa? Em
todas as direcções, só se pode conjecturar. A guerra, de qualquer forma, fez retrogradar o
processo para acelerar tanto mais potentemente na fase seguinte e assegurar-lhe uma
esmagadora vitória.
Aos primeiros toques do tambor, o movimento revolucionário foi suspendido. As
camadas operárias mais activas foram mobilizadas. Os elementos revolucionários
tomados nas fábricas foram empurrados para a frente. As greves eram castigadas com
rigor. A impressa operária foi varrida. Os sindicatos foram abafados. Foram admitidos nas
oficinas, por centenas de milhar, mulheres, adolescentes, camponeses. Políticamente, a
guerra, em ligação com o afundar da Internacional, desorienta extraordinariamente as
massas e deu aos directors de fábrica que levantavam a cabeça a possibilidade de falar a
linguagem patriótica em nome das suas empresas, arrastando consigo uma parte

33
considerável da mão-de-obra e obrigando ao silêncio atentivo os operários mais afoitos e
resolutos. O pensamento revolucionário reduziu suas actividades nos pequenos círculos
que se silenciaram. Nesse tempo, ninguém se arriscava, nas fábricas, a se dizer
“bolchevique”, temendo ser preso ou mesmo brutalizado pelos operários atrasados.
Na Duma, a fracção bolchevique, cujo efectivo era fraco, não se mostra, no momento
que rebenta a guerra, à altura da sua tarefa. De acordo com os deputados mencheviques,
ela depositou uma moção que se comprometia a “defender os bens culturais do povo
contra qualquer atentado, viesse donde viesse”. A Duma sublinhou por aplausos esta
rendição. De todas as organizações e grupos russos do partido, nem um tomou
abertamente a posição derrotista que Lenine proclamou no estrangeiro. Porém, a
proposição dos patriotas entre os bolcheviques mostrou-se insignificante. Ao contrário dos
populistas e mencheviques, os bolcheviques, desde 1914, começaram a desenvolver nas
massas, pela imprensa e pela palavra, a sua agitação contra a guerra. Os deputados na
Duma encorajaram-se e retomaram o seu trabalho revolucionário sobre o qual as
autoridades estavam informadas de perto, graças às ramificações dos seus serviços de
provocadores. Basta dizer que, sobre sete membros do comité do partido em
Petersburgo, na véspera da guerra, três eram agentes da Segurança (Okhrana). Foi
assim que o czarismo brincava à cabra cega com a revolução.
Em Novembro,os deputados bolcheviques foram presos. Foi tentada a destruição do
partido em todo o país. Em Fevereiro 1915, o caso da fracção parlamentar foi ouvida no
Palácio da Justiça. Os acusados mantiveram-se calados. Kamenev, como teórico
inspirador da fracção, negava a posição derrotista de Lenine, assim como Petrovsky,
actualmente presidente do Comité executivo central em Ucrânia. O departamento da
polícia notou com satisfação que a sentença severa relatada contra os deputadas não
tinha dado ocasião a nenhum movimento de protesto entre os operários.
Em Agosto de 1915, os ministros do czar comunicavam entre eles dizendo que os
operários
“procuravam por todo o lado descobrir a traição, a conivência com os alemãs, a
sabotagem a proveito destes e que eles deleitavam-se ao se interrogarm sobre os
culpados dos nossos revés na frente”.
Efectivamente, nesse período, o sentido crítico da massa acordava e, parcialmente
sincero, parcialmente camuflado reclamava-se muitas vezes da “defesa da pátria”. Mas
esta ideia assinalava um ponto de partida. O descontentamento dos operários procede
então a avanços cada vez mais importantes, reduzindo ao silêncio os contra-mestres, os
Cem Negros do seu meio, permitindo aos trabalhadores bolcheviques de levantarem a
cabeça.
Da crítica, as massas vêem à acção. A indignação encontra, antes de tudo, uma
saída nos sarilhos causados pela insuficiência de abastecimento, os quais, aqui e ali,
tomam a forma de motins locais. Mulheres, velhos, adolescentes sentam-se, no mercado
ou na praça pública, mais independentes e mais ousados que os operários mobilizados
nas fábricas. Em Moscovo, o movimento, no mês de Maio, deriva do saque das casas

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alemãs. Ainda que os participantes sejam principalmente originários da ralé patrocinada
pela polícia, o facto que o progrom seja possível no Moscovo industrial prova que os
operários não tinham ainda acordado ao ponto de impor as suas palavras de ordem e
disciplina ao povinho das cidades, saídos do seu equilíbrio. Espalhando-se por todos o
país, os sarilhos sobre o abastecimento dissipam a hipnose da guerra e abrem caminho
às greves.
O afluxo de uma mão-de-obra pouco qualificada nas fábricas e a corrida
desenfreada aos lucros de guerra ocasionaram, por todos os lados, o agravar das
condições de trabalho e ressuscitaram os procedimentos grosseiros de exploração. O
aumento do custo de vida reduzindo automaticamente o valor dos salários. As greves
económicas foram inevitavelmente o reflexo da massa, tanto mais violento que ele tinha
sido contido durante muito tempo. As greves foram acompanhadas de comícios, de
moções de ordem política, de confrontações com a polícia, frequentemente com tiros de
armas de fogo, e houve vítimas.
A luta ganha primeiro a região central do têxtil. A 5 de Junho, a polícia dispara uma
salva sobre os tecelões em Kostroma: 4 mortos, 9 feridos. No 10 de Agosto, as tropas
abrem o fogo sobre os operários de Ivanovo-Voznessensk: 16 mortos, 30 feridos. No
movimento dos operários do têxtil estão comprometidos os soldados do batalhão
aquartelados nesse sítio. As greves de protesto respondem, em diversos pontos do país,
ao tiroteio de Ivanovo-Voznessens. Paralelamente propaga-se a luta económica. Os
operários do têxtil avançam muitas vezes nas primeiras filas.
Em comparação com o primeiro trimestre de 1914, o movimento, quanto à violência
da pressão e à nitidez das palavras de ordem, marca um grande recuo. Não é de
estranhar: na luta são levados, por uma parte considerável, as massas incultas, enquanto
que as camadas operárias dirigentes estão perturbadas. Contudo, desde das primeiras
greves em tempo de guerra, sente-se a iminência das grandes batalhas. Khvostov,
ministro da Justiça, declarava, em 16 de Agosto:
“Se os operários não se entregam neste momento a manifestações armadas, é
unicamente porque eles não têm organização.”
Goremykine exprimiu-se de uma forma mais precisa:
“A questão, para os agitadores de operários, reside na insuficiência de uma
organização deslocada no seguimento da prisão de cinco membros da Duma”.
O ministro do Interior acrescentou:
“É impossível amnistiar os membros da Duma (os bolcheviques), porque eles
constituem o centro da organização do movimento operário nessas manifestações mais
perigosas.”
Essa gente, de qualquer forma, sabia discernir sem erro onde se encontrava o
verdadeiro inimigo.

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Enquanto que o governo, mesmo num momento de pânico extremo, mesmo disposto
a fazer concessões liberais, considerava indispensável de continuar a bater os
bolcheviques, a alta burguesia esforçava-se de colabora com os mencheviques.
Assustados pela amplitude das greves, os industriais liberais tentaram impor aos
operários uma disciplina patriótica ao admitindo seus eleitos nos comités de indústria de
guerra. O ministro do Interior queixava-se de não poder opor-se senão com dificuldades a
esta iniciativa de Gotchkov:
“Todo este assunto apresentou-se sob o signo do patriotismo e em nome dos
interesses da defesa.”
É preciso, no entanto, notar que a própria polícia evitava prender os sociais
patriotas, vendo neles aliados indirectos na luta contra as greves e os “excessos”
revolucionários. A confiança exagerada na força do socialismo patriota baseava-se a
convicção da Segurança que enquanto durasse a guerra não haveria insurreição.
Quando as eleições do comité das indústrias de guerra, os partidários da defesa
nacional, à cabeça dos quais se encontrou o energético Gvozdiev, operário metalúrgico –
nós encontrámos-o ministro do Trabalho num governo revolucionário de coligação – foram
colocados em minoria. Eles aproveitaram porém de diversos apoios, vindos não somente
da burguesia liberal, mas também da burocracia, para derrubar os partidários do boicote
que guiavam os bolcheviques e impor ao proletariado de Petrogrado uma delegação nos
grupos orgânicos do patriotismo industrial. A posição dos mencheviques foi claramente
formulada num discurso que um dos seus representantes pronunciou seguidamente
diante dos industriais, no seio do comité:
“Vós deveis exigir que o poder burocrático existente abandone a cena, cedendo o
lugar a vocês, herdeiros do actual regime.”
Esta nova amizade política crescia de hora a hora. Após a revolução, ela daria fruto.
A guerra devastou terrivelmente as organizações clandestinas. Os bolcheviques
deixaram de ter organização centralizada do partido após a prisão da fracção parlamentar.
Os comités tinham uma existência episódica e nem sempre estavam em contacto com os
distritos. A acção vinha dos grupos disseminados, de círculos, de indivíduos isolados.
Todavia, o movimento de greve que começava a se reanimar nas fábricas, dava ardor e
vigor. Pouco a pouco, eles reencontraram-se entre eles, criando ligações entre grupos. O
trabalho retomou, clandestino. No departamento da polícia, escrevia-se mais tarde:
“Os partidários de Lenine, que lideram na Rússia a grande maioria das organizações
sociais democratas clandestinas, fizeram circular desde do início da guerra, nos seus
principais centros (a saber: Petrogrado, Moscovo, Kharkov, Kiev, Toula, Kostroma, o
governo de Vladimir, Samara), uma enorme quantidade considerável de folhetos
revolucionários, reclamando o fim das hostilidades, o queda do poder actual e a
proclamação da República; além disso, esta actividade teve como resultado sensível a
organização pelos operários de greves e de desordens.”

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O aniversário tradicional da marcha dos operários em direcção ao Palácio de
Inverno, que quase não se tinha notado no ano precedente, suscita uma grande greve no
9 de Janeiro 1916. O movimento de greves, nesse ano, torna-se duas vezes mais intenso.
Confrontações com a polícia acompanham toda a greve potente e obstinada. Em relação
às tropas, os operários têm uma atitude abertamente amistosa e a Segurança nota mais
que uma vez esse facto alarmante.
As indústrias da guerra aumentavam sem limites, devorante à volta delas todos os
recurso e minando assim suas próprias bases. Os ramos de produção de natureza
pacífica começaram a se esfarrapar. A regulamentação da economia geral, a despeito de
todos os planos, não chegava a nada. A burocracia, já incapaz de assumir esta tarefa
diante da obstrução dos poderosos comités das indústrias, não consentia todavia a se
despossuir do papel regulador em favor da burguesia. O caos aumentava. Os operários
experimentes eram substituidos por noviços. As carvoeiras, as fábricas da Polónia logo se
encontrariam perdidas: no primeiro ano da guerra, o país foi despossuido de cerca de um
quinto dos seus recursos industriais. Até 50% da produção fora afectada às necessidades
do exército e da guerra, cujo cerca de 75% dos tecidos fabricados no país. Os
transportes, sobrecarregados de trabalho, não estavam em condições de entregar às
fábricas as quantidades indispensáveis de combustíveis e as matérias primas. Não
somente a guerra absorvia todo o rendimento nacional corrente, mas ela começou a
dissipar seriamente o capital fondamental do país.
Os industriais recusavam cada vez mais em fazer concessões aos operários e o
governo continuou a responder a cada greve por uma rigorosa repressão. Tudo isso
levava o pensamento operário do particular ao geral, da economia à política: “é preciso
que todos declararemos greve ao mesmo tempo.” Assim renasceu a ideia de uma greve
geral. O processo da radicalização das massas exprimiu-se da maneira mais convencida
para a estatística. Em 1915, o número de participantes nas greves políticas é de 2,5
inferior ao dos operários comprometidos nos conflitos económicos; Em 1916, a
inferioridade exprimida pelo número 2; no decurso dos primeiros meses de 1917, as
greves políticas englobaram seis vezes mais de operários que as greves económicas . O
papel de Petrogrado é suficientemente indicado pelo número: durante os anos da guerra,
73% dos grevistas políticos pertenciam à capital !
No calor da luta, as velhas crenças foram consumidas. A Segurança declarou “com
dor”, num relatório, que se se reagiam conformemente às exigências da lei, “em todas as
ocasiões onde se produzem isoladamente ou abertamente crimes de lesa majestades, o
número dos processos baseados sobre o artigo 103 seria sem precedentes”. Porém, a
consciência das massas se atrasa perante o seu próprio movimento. A terrível pressão da
guerra e o desespero acelera de tal forma o processo de luta que largas massas
operárias não têm tempo de se desfazer, antes da revolução, das ideia e preconceitos
trazidos do campo, ou nas cidades, das familias pequeno burguesas. Esse facto deixava
marcas nos primeiros meses da Revolução de Fevereiro.
Perto do fim de 1916, o custo de vida sobe por saltos. À inflação e a desorganização
dos transportes, juntou-se uma verdadeira penúria de mercadorias. O consumo, por esta

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data, reduziu-se por metade. A curva do movimento operário desenha um ascenso
brusco. A datar de Outubro, a luta entra numa fase decisiva, unificando todas as
variedades de descontentamento: Petrogrado toma impulso para o grande salto de
Fevereiro. Nas fábricas explode o número de comícios. Sujeitos tratados: os
abastecimentos, vida cara, a guerra, o governo. Os panfletos dos bolcheviques são
difundidos. Greves políticas são declaradas. À saída das fábricas têm lugar manifestações
improvisadas. Acontece que os operários de certas empresas fraternizam com os
soldados. Uma violenta greve rebenta, em protesto contra o processo levantado aos
marinheiros revolucionários da frota do mar Báltico. O embaixador da França, informado
de um caso de tiroteio dos soldados sobre a polícia, atraiu a atenção de Stümer,
presidente do Conselho, sobre o incidente. Stümer tranquiliza o embaixador: “A repressão
será impiedosa”. Em Novembro, um importante contingente de operários das fábricas de
Petrogrado é mobilizado e enviado para a frente. O ano termina na tormenta.
Comparando a situação com a de 1905, Vassiliev, director do departamento da
Polícia, chega a conclusões extremamente pouco consoladoras.
“O espírito da oposição ganhou proporções excepcionais, que estava longe de
atingir, entre as largas massas, no decurso do período de sarilhos acima mencionados.”
Vassiliev não conta com as guarnições. E mesmo a guarde móvel não lhe parece
segura. A Segurança reporta que a palavra de ordem de greve geral se reanima e que a
perigo de retoma de terrorismo. Os soldados e oficiais que voltam da frente dizem da
situação actual:
“Para que serve procurar? Basta passar a baioneta pelo malandro. Se
permanecermos aqui, não seria por muito tempo...”
Chliapnikov, membro do Comité central dos bolcheviques, antigo operário
metalúrgico, conta que nesses dias os operários estavam muito nervosos:
“Basta às vezes que um só assobio, um rumor, para que os operários acreditassem
ter ouvido o sinal de entrar em greve.”
Esse detalhe é tão notável como sintoma político e como aspecto psicológico: a
revolução espera nervosamente descer à rua.
A província passa pelas mesmas etapas, mas mais lentamente. O carácter massivo
e a combatividade crescente do movimento transferem o centro de gravidade dos
operários do têxtil aos da metalurgia, as greves económicas às greves políticas, da
província a Petrogrado. No decurso dos primeiros meses de 1917, contavam-se 575 000
grevistas políticos, cuja parte do leão pertence à capital. Ainda que a polícia tivesse
infligido rigorosamente na véspera do 9 de Janeiro, houve, para este aniversário do dia
sangrento, 150 000 operários em greve em Petrogrado. Os espíritos estão
superexcitados, os metalúrgicos tomaram a dianteira, os operários sentem cada vez mais
que não há retirada possível. Em cada fábrica se destaca um núcleo de acção, a maior
parte das vezes aglomerado à volta dos bolcheviques. As greves e os comícios seguem-
se sem interrupção durante as duas primeiras semanas de Fevereiro. A 8, a fábrica

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Potilov, os polícias são acolhidos por “uma chuva de ferro e escória”. A 14 , dia de
abertura da Duma, houve em Petrogrado cerca de 90 000 grevistas. Várias empresas
fecharam também em Moscovo. No 16, as autoridades decidiram introduzir em
Petrogrado as “cartas de pão”. Esta inovação fez crescer a nervosidade. No 19, perto das
boutiques, em certos bairros da cidade, as padarias foram assaltadas. Foram os primeiros
relâmpagos precursores da insurreição que devia eclodir alguns dias mais tarde.
O proletariado russo não só extraía em si mesmo a audácia revolucionária. A sua
situação de minoria na nação mostra já que ele não poderia ter dado à sua luta uma tal
amplitude, nem, pela mais forte razão, tomar a direcção do Estado, se ele não tivesse
encontrado um poderoso apoio no mais grosso das massas populares. É a questão
agrária que lhe assegurou esse apoio.
A meia emancipação tardia dos camponeses, em 1861, influenciou uma economia
rural cujo nível não era diferente daquele que tinha existido dois séculos antes. A
manutenção dos antigos fundos de terras comunais, fraudulentamente desfalcadas
quando da reforma, com os métodos de cultura arcaicas, agravava automaticamente a
crise da superprodução nos campos, que era também a crise do sistema de afolhamentos
treinais. A classe camponesa sentia-se tanto mais armadilhada na medida que o processo
se desenrolava não no século XVII, mas no século XIX, isto é nas condições onde o papel
do dinheiro na economia já estava muito avançado, impondo à relha do arado em madeira
as exigências que só eram admissíveis para os tractores. Ainda aqui nós constatamos a
coincidência dos graus desiguais do processo histórico – no seguimento do qual se
afirmavam as contradições extremamente agudas.
Sábios agrónomos e economistas pregavam que os fundos de terra, na condição de
os trabalhar racionalmente, teriam sido perfeitamente suficientes, isto é, eles convidavam
o camponês a ganhar de uma só vez um grau superior de técnica e de cultura, sem
contrariar o proprietário nobre, nem o chefe da polícia nem o czar. Mas nenhum regime
económico, e ainda menos um regime agrícola, o mais atrasado de todos, nunca cedeu
terreno sem ter primeiro esgotadas todas as suas possibilidades. Antes de se ver forçado
a adoptar métodos de cultura mais intensa, o camponês devia entregar-se a uma última
experiência: ele tentaria alargar a sua exploração sem afolhamentos treinais. Ele não
poderia evidentemente aí chegar senão ao apoderar-se de terras que não lhe pertenciam.
Asfixiado, sentindo-se apertado nos vastos espessos que ocupava, maltratado pelo fisco
e pelo mercado, o mujique devia inevitavelmente tentar acabar uma vez por todas com o
proprietário nobre.
Na véspera da primeira revolução, a superfície global das terras utilizáveis, nos
limites da Rússia europeia, estavam avaliadas em 280 milhões de deciatines, isto é, uma
superfície tal que, em números redondos, poderia ser possuída por 10 milhões de famílias
rurais. Esta estatística agrária representava o programa completo de uma guerra
camponesa.
A primeira revolução não conseguiu resolver a questão dos proprietários nobres. A
massa rural não se sublevou inteiramente, o movimento nos campos não coincidiu com o
das cidades, a tropa, composta de camponeses, não ousou decidir-se e, finalmente,

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forneceu os efectivos suficientes para esmagar os operários. Desde que o regimento
Semenovsky, da Guarda imperial, tomou vantagem sobre a insurreição de Moscovo, a
monarquia rejeitou qualquer ideia de adiantamento sobre a grande propriedade, ou de
redução dos seus privilégios autocráticos.
Porém, a revolução quebrada estava longe de ter passado sem deixar traços na vida
do campo. O governo anulou as credenciais de 1861 a título de compra das terras pelos
camponeses e abriu novas possibilidades de imigração na Sibéria. Os proprietários,
assustados, cederam não somente importantes descontos nas rendas mas apressaram-
se a vender por lotes o seu latifundio. Esses resultados da revolução foram proveitosos
para os camponeses mais ricos que estavam em condições de comprar as terras do
domínio público.
A maior latitude para a formação, na classe camponesa, de uma categoria de
agricultores capitalistas foi, contudo, atribuida pela lei de 9 Novembro de 1906, principal
reforma da contra-revolução vitoriosa. Cedendo mesmo a uma pequena minoria de
camponeses, em qualquer comuna, o direito de retirar, contra a vontade da maioria, um
lote independente sobre as terras comunais, a lei de 9 Novembro caía como uma bomba
lançada pelo campo capitalista contra a comuna. Stolypine, presidente do Conselho,
definia a nova política do governo na questão agrária como “uma posição sobre os mais
fortes”. O que significava: empurrar a categoria superior de camponeses a lançar mão
sobre as terras comunais por compra de lotes “que se tornaram autónomos” e transformar
assim os novos agricultores capitalistas em apoios do regime. Era mais fácil de colocar
esse problema do que o resolver. Tentando substituir a questão agrícola à da sorte dos
kolaques (camponeses ricos), a contra-revolução deveria partir o pescoço.
Em 1 de Janeiro de 1916, 2 milhões 500 000 cultivadores tinham propriedade sua 17
milhões de deciatines. Dois outros milhões reclamavam que lhes fosse cedido 14 milhões
de deciatines. Isso podia passar por um formidável sucesso da reforma. Mas, na maioria,
as explorações isoladas das comunas eram totalmente desprovidas de vitalidade e não
representavam senão os elementos condenados a selecção natural. Enquanto que os
proprietários mais atrasados e os camponeses de condição modesta vendiam a quem
mais oferecesse – uns seus latifundios, outros arpentes de terras, os compradores vinham
principalmente da nova burguesia rural. A economia agrícola entrou numa fase de
indiscutível desenvolvimento capitalista. A exploração dos produtos da terra russa
aumentou, passando em cinco anos (de 1908 a 1912) de um bilião de rublos a 1 bilião e
meio. Isso significava que as largas massas camponesas se proletarizavam enquanto que
os elementos ricos do campo lançavam no mercado quantidades de trigo cada vez
maiores.
Os ataques obrigatórios do regime comunal nas aldeias substituíam rapidamente a
cooperação voluntária que conseguia, em alguns anos, penetrar de maneira relativamente
profunda as massas camponesas e que se tornou logo objecto de uma idealização liberal
e democrática. A força real, na cooperação, pertencia aos camponeses ricos, os quais, no
fim de contas, tiravam proveito. Os intelectuais populistas, que tinham concentrado na
cooperação camponesa as suas principais forças, dirigiam enfim o seu amor do povo para

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os caminhos resistentes da burguesia. Foi assim, em particular, que se preparou o bloco
do partido socialista-revolucionário “anti-capitalista” com o partido cadete que era, por
excelência, o do capitalismo.
O liberalismo, guardando as aparências de oposição em consideração pela política
agrária da reacção, considerava portanto com grande esperança a destruição da comuna
rural empreendida pelo capitalismo.
“No campo – escrevia um liberal, o príncipe Trobetskoi – forma-se uma poderosa
pequena burguesia que, pela sua natureza, pela sua estrutura, é igualmente estrangeira
aos ideais da nobreza unificada e aos sonhos socialistas.”
Mas esta maravilhosa medalha tinha o seu reverso. Da comuna rural destacava-se
não somente “uma poderosa pequena burguesia” mas também o seu extremo oposto,
seus antípodas. O número de camponeses que tinham vendido seus lotes inviáveis tinha
aumentado, no início da guerra, até ao milhão, o que significa pelo menos cinco milhões
de habitantes proletarizados. Como reservas de explosivos bastante potentes, existia
também milhões de camponeses pobres que não tinham outra coisa a fazer senão
manterem-se nos seus lotes de fome. Seguidamente, na classe camponesa,
reproduziram-se as contradições que tinham, cedo, entravado na Rússia o
desenvolvimento da sociedade burguesa no seu conjunto. A nova burguesia rural, que
devia constituir o apoio dos proprietários mais antigos e mais poderosos, se encontrava
em estado de hostilidade declarada em relação às massas camponesas, tanto que os
antigos proprietários em relação ao povo tomado em bloco.
Antes de se tornar um apoio da ordem, a burguesia rural tinha ela própria
necessidade de uma ordem fortemente estabelecida para manter as posições
conquistadas. Nessas condições, não é de espantar que a questão agrária, em todas as
Dumas do Império, tenha conservado a sua acuidade. Todos sentiam que a última palavra
não tinha sido dita. Petritchenko, deputado camponês, declarou um dia do alto da tribuna
da Duma:
“Vocês poderão proseguir vossos debate com quiserem, não conseguirão criar outro
globo terrestre. Será preciso que vocês cedam a terra sobre a qual nós estamos.”
Ora, esse camponês não era nem bolchevique, nem socialista-revolucionário; longe
disso, era um deputado de direita, um monarquista.
O movimento agrário, que, perto do fim de 1907, se tinha acalmado, assim que o
ascenso das greves operárias, acordou parcialmente desde 1908 e reforça-se no decorrer
dos anos seguintes. É verdade que a luta se transferiu, por uma boa parte, para o interior
da vida comunal: é nisso que consiste o calculo político da reacção. As coligações entre
camponeses armados não são raros por ocasião das partilhas das terras comunais. Mas
a luta contra o proprietário nobre não tem descanso. Os rurais obstinam-se a incendiar os
solares senhoriais, as colheitas, medas de feno, sem poupar pelo caminho os
camponeses ricos que se constituíram contra a vontade das comunas.

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Era essa a situação quando eclodiu a guerra. O governo expediu para a frente cerca
de 10 milhões de cultivadores e perto de 2 milhões de cavalos. As empresas agrícolas, já
fracas, foram ainda mais debilitadas. O número dos que não tinham campos a semear
aumentou. Mas, desde do segundo ano de guerra, os camponeses de média condição
baixaram de condição por sua vez. A aversão crescente do camponês pela guerra
afirmava-se de mês em mês. Em Outubro 1916, a direcção da guarda de Petrogrado
relatava que, nos campos, não se acreditava já mais a uma saída feliz das hostilidades:
segundo as afirmações tidas por agentes de seguros, os mestres de escola, os
comerciantes e outras pessoas,
“toda a gente espera com a última das paciências o fim desta maldita guerra”.
Ainda mais:
“Em todo o lado, discute-se questões políticas, votam-se resoluções contra os
proprietários nobres e os comerciantes; diversas organizações criam células...Pelo
momento, não existe ainda centro unitário, mas é preciso pensar que os camponeses
encontrarão a unidade por intermediário das cooperativas que se multiplicam de hora em
hora por toda a Rússia.”
Há aí alguns exageros, o guarda anticipa um pouco os factos, mas, sem dúvida, ele
tem razão no essencial.
As classes possuidoras não podiam abster-se de prever que as campanhas
apresentariam a factura, mas tentavam expulsar as pensamentos negros, esperando
livrar-se de qualquer maneira. Sobre isso, Paléologue, embaixador de França, que
gostava de se instruir, teve conversas, em tempo de guerra, com Krivochine, antigo
ministro da Agricultura, com Kokovtsev, antigo presidente o Conselho, com o conde
Bobrinsky, grande proprietário, com Rodzianko, presidente da Duma do Império, com o
grande industrial e com outros personagens distintas. Eis o que ele tirou dessas
entrevistas: para que se possa aplicar uma reforma radical na questão agrária, seria
necessário empregar um exército permanente de 300 000 agrimensores durante pelo
menos quinze anos; mas, durante esse tempo, o número de explorações agrícolas teriam
aumentado a 30 milhões e, consequentemente, todos os cálculos preliminares não teriam
mais nenhum valor. Assim, a reforma agrária, nos olhos dos proprietários nobres, altos
dignitários e banqueiros, apresentavam-se como a quadratura do círculo. Inútil dizer que
tais escrúpulos de matemáticos eram totalmente estrangeiros a mentalidade do mujique.
O camponês considerava que seria necessário antes de tudo defumar o senhor: o resto
logo se veria.
Se, contudo, os campos continuaram relativamente calmos durante os anos da
guerra, é que suas forças activas se encontraram na frente. Os soldados não esqueciam
a questão da terra, pelo menos quando eles não pensavam na morte, e suas reflexões de
mujiques sobre o futuro penetravam-se, nas trincheiras, do odor da pólvora. No entanto, a
classe camponesa, mesmo formada no manuseio das armas, nunca realizou pelas suas
próprias forças uma revolução agrária democrática, isto é a revolução que ela queria. Ela
tinha necessidade de uma direcção. Pela primeira vez, na história universal, o camponês

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devia encontra o seu guia na pessoa do operário. É essencialmente e, pode-se dizer,
integralmente o que distinguia a revolução russa de todas as que lhe procederam.
Em Inglaterra, a servidão desapareceu efectivamente cerca do fim do século XIV,
isto é dois séculos antes que ela fosse instituída na Rússia, quatro centos cinquenta anos
antes da sua abolição neste último país. A expropriação dos bens de raíz da classe
camponesa inglesa prolonga-se, através da Reforma e duas revoluções, até ao século
XIX. O desenvolvimento do capitalismo, que não precipitava nenhuma opressão do
exterior, teve assim todo o tempo necessário para meter fim à autonomia dos rurais, muito
tempo antes que o proletariado não desperte para a vida política.
Em França, a luta contra a monarquia absoluta, a aristocracia e os príncipes da
Igreja forçou a burguesia de diferentes níveis a completar, por etapas, cerca do fim do
século XVIII, uma revolução agrária radical. Depois disso, os rurais de França, que se
tornaram independentes, mostraram durante muito tempo o apoio seguro da ordem
burguesa e, en 1871, ajudaram a burguesia a dominar a Comuna de Paris.
Na Alemanha, a burguesia mostrou-se incapaz de dar uma solução revolucionária à
questão agrária e, em 1848, entregou os camponeses aos fidalgos provincianos, tal como
Luther, mais de três séculos antes, tinha abandonado os mendigos revoltados aos
principes do Império. Por outro lado, o proletariado alemão, no meio do século XIX, era
ainda demasiado fraco para tomar a direcção da classe camponesa. Seguidamente, o
desenvolvimento do capitalismo, na Alemanha, obteve também um prazo suficiente, ainda
que menos extenso que na Inglaterra, para se subordinar à economia agrícola tal como
ela tinha saído de uma revolução inacabada.
A reforma do estatuto do campesinato, na Rússia, em 1861, foi obra de uma
monarquia conduzida por nobres e funcionários sob a pressão das necessidades da
sociedade burguesa, e no entanto a burguesia era completamente impotente na política.
O carácter da emancipação dos camponeses era tal que a transformação acelerada do
país, no sentido do capitalismo, fazia inevitavelmente do problema agrário um problema
de revolução. Os burgueses russos sonhavam com uma evolução agrária à francesa, à
dinamarquesa, ou à americana – tudo que se quisesse, salvo de uma evolução russa.
Eles não sonhavam, todavia, a se porvir na história da França, no tempo oportuno, ou
melhor na estrutura social da América. Os intelectuais democratas, a despeito do seu
passado revolucionário, alinharam-se, no momento decisivo, do lado da burguesia liberal
e dos proprietários nobres, não do lado dos camponeses revolucionários. Nessas
condições, a classe operária era a única que pode colocar-se à cabeça da revolução
camponesa.
A lei de um desenvolvimento combinado dos países atrasados – no sentido de uma
combinação original dos elementos atrasados com os factores mais modernos – formula-
se aqui por nós nos termos mais perfeitos e dá, ao mesmo tempo, a chave do enigma da
revolução russa. Se a questão agrária, herdeira da barbarie, da história antiga da Rússia,
tinha recebido a sua solução da burguesia, se ele tinha podido receber uma solução, o
proletariado russo nunca teria chegado a tomar o poder em 1917. para que se fundasse o
Estado soviético, foi preciso a reaproximação e a penetração mútua de dois factores de

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natureza histórica completamente diferente: uma guerra de camponeses, isto é, um
movimento que caracteriza a aurora do desenvolvimento burguês, e uma insurreição
proletária, isto é um movimento que assinala o declínio da sociedade burguesa. Todo o
anos de 1917 se desenha aí.

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O czar e a czarina
O objectivo deste livro não é praticar esse tipo de pesquisas psicológicas autónomas
que frequentemente tentam, hoje em dia, de se substituir à análise social e histórica. O
nosso campo de observação trata antes de mais das grandes forças motoras da história
que têm um carácter supra-pessoal. A monarquia é uma dessas forças. Mas todas essas
forças agem por intermédio dos indivíduos. A monarquia está ligada à individualidade em
virtude do seu próprio princípio. Assim se justifica por si o interesse dado à personalidade
de um soberano que o desenvolvimento da história confrontou coma revolução. Nós
esperamos, além disso, mostrar no seguimento, pelo menos parcialmente, quais são os
limites do individual no indivíduo - muitas vezes mais estreito do que parece - e como, em
muitas ocasiões, o ''sinal particular'' não é outra coisa senão a marca individual de uma lei
geral superior.
Nicolau II recebeu a herança dos seus avós não somente um imenso Império, mas
também a revolução. Eles não lhe deixaram nenhuma qualidade que o tornasse apto a
governar seja o Império, uma província ou um distrito. No fluxo da história, cujas vagas se
aproximavam cada vez mais das portas do palácio, o último Romanov opunha uma
despreocupação surda: dizer-se-ia que entre a sua mentalidade e a sua época se erguia
uma ligeira mas impenetrável divisão.
As personalidades que frequentavam o czar relataram mais de uma vez, após a
revolução, que nos momentos mais trágicos do seu reinado - quando da rendição de Port
Arthur e quando a frota russa foi afundada em Tsou-Shima, e depois dez anos mais tarde,
quando as tropas russas bateram em retirada, abandonando Galicia, e depois ainda dois
anos mais tarde, nos dias que antecederam a abdicação, enquanto a Corte se sentia
esmagada, amedrontada, consternada - Nicolau II era o único que se mantinha calmo. Ele
continuou a informar-se do número de verstes (antiga unidade de medida utilizada na
Rússia) por si percorridas nas suas viagens pela Rússia, evocava os incidentes de caça,
anedotas relativas às recepções oficiais e, de maneira geral, interessava-se às futilidades
da sua vida habitual, enquanto a trovoada rebentava sobre a sua cabeça e que o seu céu
riscava-se de relâmpagos.
''O que é que isso significa? perguntava um dos generais que o abordava. Seria um,
quase inacreditável domínio de si devido à educação, à fé na Providência divina, ou a
uma inconsciência dos factos?''
A questão trás é já em si metade da resposta. O que se chama ''educação'' do czar,
sua faculdade em dominar-se em circunstâncias muito extremas, não se explica
unicamente de forma nenhuma por fingimento: o seu foro era duma indiferença profunda,
duma grande indigência de forças morais, a fraqueza dos impulsos volitivos. A máscara
da indiferença, que em certos meios, se nomeia ''educação'', confundia-se naturalmente
com o próprio rosto de Nicolau.

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O diário particular do czar tem mais valor que qualquer testemunho: de um dia ao
outro, de um ano ao outro, estende-se nessas páginas, anotações perturbadoras do seu
vazio moral.
“Passeei demoradamente e matei dois corvos. Ainda estava claro quando tomei chá.
Passeei a pé, canoagem. Outros corvos mortos e chá”.
Tudo nos limites da fisiologia. As cerimonias de igrejas são mencionadas no mesmo
tom que as bebidas.
Na véspera da abertura da Duma do Império, enquanto todo o país estava em
convulsão, Nicolau escrevia:
“14 de Abril. Passeei de blusa fina e retomei canoagem. Tomei chá na varanda.
Stana jantou e andou de canoa connosco. Depois, leitura.”
Nem uma palavra sobre a leitura: era um romance sentimental inglês ou um relatório
de polícia?
“15 de Abril. Aceitei a demissão de Witte. Jantaram connosco Maria e Dmitri. Foram
levados de carruagem ao palácio.”
No dia que se decidiu o adiamento da Duma, quando os altos dignitários assim como
os círculos liberais passavampelas angústias do medo, o czar escrevia no seu jornal:
“7 de Julho. Sexta-feira. Manhã muito ocupada. Atrasámos-nos meia hora pelo
almoço dos oficiais... Houve trovoada e uma atmosfera abafada. Passeio conjunto.
Recebido Goremykine; assinado o oukase do adiamento da Duma! Jantei na casa da
Olga e Petia. Li toda a noite.”
O ponto de exclamação que segue o anúncio do adiamento da Duma exprime o
máximo das emoções do czar.
Os deputados da Duma dispersada exortaram o povo a recusar o pagamento dos
impostos e do serviço militar. Várias revoltas militares tiveram lugar: em Sveaborg, em
Cronstadt, nos vasos de guerra e entre as tropas; o terrorismo revolucionário dirigido
contra os altos dignitários cresceu de maneira inaudita. O czar escreveu:
"9 de Julho. Domingo. A coisa está feita! A Duma fechou hoje. Ao pequeno-almoço,
após a missa, as caras fechadas eram visíveis...Belo tempo. No passeio encontrei o tio
Micha, que veio instalar-se aqui desde o inverno, vindo de Gatchina. Até ao jantar e toda a
noite, trabalhei tranquilamente. Passeio de canoa."
Que ele tenha passeado de barco, a coisa é clara; mas no quê ele trabalhou? Ele
não diz. É sempre a mesma coisa.
Vejamos mais longe nesses dias fatais:
“14 de Julho. Vestido, fui de bicicleta à casa de banhos, banhei-me no mar com
deleito.” “15 de Junho. Tomei banho duas vezes. Estava muito calor. Jantar a sós. A
trovoada passou.” “19 de Julho. Banhei-me esta manhã. Recepção na herdade. O tio
Vladimir e Tchaguine ao almoço.”

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Os levantamentos, as explosões de dinamite são indicadas por esta apreciação:
“Quanto aos acontecimentos, têm piada!” Somos fulminados por esta baixa
indiferença que não chega a um cinismo consciente. “Às nove horas e meia da manhã,
visitámos o regimento da Caspiana...Feito um longo passeio. Um tempo magnífico. Banho
de mar. Após o chá, recebi Lvov e Goutchov.'”
Nem uma palavra para dizer que esta audiência extraordinária, concedida a dois
liberais, foi motivada por uma tentativa de Stolypine de incluir políticos da oposição no seu
ministério. O príncipe Lvov, que devia encontrar-se mais tarde à cabeça do governo
provisório dizia então desta audiência:
“Esperava ver o soberano esmagado pelo tormento; em vez disso ele avança para
mim, jovial, desenvolto, um valentão em camisa cor framboesa.”
A visão do czar não ia mais longe que a de um medíocre funcionário da polícia, com
a única diferença que um polícia conhecia melhor a realidade e era menos
sobrecarregado de superstições. A única gazeta que Nicolau tinha lido durante anos, e na
qual ele inspirava suas ideias, era um semanário publicado, pago pelas finanças públicas,
pelo príncipe Mechtchersky, um ser vil, vendido, desprezado pelo seu próprio meio,
jornalista das cliques reaccionárias da burocracia. A perspectiva geral do czar em nada
mudara no decurso de duas guerras e de duas revoluções: entre a sua mentalidade e os
acontecimentos erguia-se sempre uma parede impenetrável de indiferença.
Não é sem razão que se chamava Nicolau fatalista. É necessário acrescentar que o
seu fatalismo era completamente oposto a uma fé activa na sua “estrela”. Pelo contrário,
Nicolau considerava-se ele próprio como um falhado. O seu fatalismo não era senão uma
forma de defesa passiva diante do desenvolvimento histórico e acompanhava-se de
arbítrio mesquinho nos seus motivos psicológicos, mais monstruosos pelas suas
consequências.
“Eu quero assim, assim deve ser”, escreveu o conde Witte. “Esta formula se
manifestava em todos os actos desse soberano débil que fez, unicamente por fraqueza,
tudo o que caracterizou o seu reino – vertendo constantemente sangue mais ou menos
inocente, e, a maior parte das vezes, sem nenhuma utilidade...”
Comparou-se por vezes Nicolau ao seu trisavô meio louco, Paulo I, que uma
camarilha sufocou, com o consentimento do próprio filho, Alexandre I, o imperador
“benigno”. Esses dois Romanov aproximavam-se com efeito pela sua desconfiança em
relação a todos, procedendo com desconfiança em relação a eles próprios, pelas mesmas
disposições desconfiadas de toda a sua poderosa nulidade, pelos sentimentos de
relegados, e, poder-se-ia dizer, por uma mentalidade de párias coroados. Mas Paulo I
tinha infinitamente maior brilho, as suas divagações comportavam um elemento de
fantasia, ainda que demente. No seu descendente tudo é terno; sem um traço vivo.
Nicolau era não somente desequilibrado, mas desleal. Os seus aduladores diziam
dele que era um sedutor, um encantador, por causa da amenidade nas suas relações com
a Corte. Mas ele mostrava-se particularmente carinhoso em relação aos dignitários que

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ele decidia despedir: tal ministro, contentíssimo do seu acolhimento encontrava, voltando
a casa, uma carta de destituição. Era para o czar uma maneira de vingar a sua nulidade.
Nicolau desviava-se com hostilidade de tudo o que era talentoso e grande. Ele não
se sentia à vontade senão no meio de espíritos indigentes, desprovidos de qualquer
talento, de devotos, de deliquescentes, que ele não tinha que olhar de alto a baixo. Ele
tinha o seu amor-próprio, mesmo bastante refinado, mas inactivo, sem uma ponta de
iniciativa, mantendo-se na defensiva de invejosos. Na escolha dos seus ministros, o seu
princípio era de os tomar sempre mais baixo. Só chamava a ele gente de espírito e de
carácter em caso último e se não houvesse outra saída, como se chama o cirurgião
quando se está em perigo de morte. Assim foi com Witte, seguidamente com Stolypine. O
czar considerava-os, um e outro, com uma aversão mal dissimulada. Logo que a crise
estava resolvida, Nicolau apressava-se de se desembaraçar dos conselheiros que eram
demasiado grandes para o seu tamanho. A selecção era de tal forma sistemática que
Rodzianko, presidente da última Duma, atreveu-se a dizer ao czar, no 7 Janeiro 1917,
quando a revolução batia à porta:
“Majestade, à sua volta, não fica um homem seguro e honesto: os melhores foram
afastados ou abandonaram; só restam os que gozam de má reputação.”
Todos os esforços da burguesia liberal para discutir com a Corte não levaram a
nada. Incoercível, e ruidoso, Rodzianko tentava sacudir o czar através de relatórios. Em
vão! Nicolau calava-se, não somente sobre os argumentos invocados, mas sobre as
impertinências, preparando em segredo a dissolução da Duma. O grande duque Dmitri,
outrora favorito do czar e que devia, mais tarde, participar no assassinato de Rasputine,
queixava-se diante do príncipe Iossopov, seu conjurado, do que o czar por qualquer
mistura que lhe tolhia as suas faculdades espirituais.
“Segundo certos rumores, escreveu por seu lado Miliokov, historiador liberal, este
estado de apatia intelectual e moral do czar era entretido pelo abuso do álcool.”
Tudo isso não passava de invenção ou exageração. O czar não tinha necessidade
de estupefacientes; a “mistura” mortal, tinha-a no sangue. Mas os sinais de intoxicação
pareciam particularmente impressionantes sobre o fundo dos grandes acontecimentos da
guerra e da crise interior que conduzia à revolução. Rasputine, que era psicólogo, dizia
brevemente do czar “que lhe faltava qualquer coisa lá dentro”.
Este homem desinteressante, ponderado, e “bem-educado”, era cruel. Não de
crueldade activa, perseguindo fins históricos, de um Ivan o Terrível ou de um Pedro – que
de comum entre Nicolau e eles? - mas crueldade cobarde de um rebento assustado por
sentir-se condenado. Desde da aurora do seu reino, ele felicitou “os bravos do regimente
de Fanagoria” que tinham disparado sobre os operários. Sempre ele “lia com prazer”
como se tivesse fustigado a golpes de nagaika os estudantes “de cabelos curtos”, como
pessoas sem defesa tinham tido o crânio quebrado nos progroms de judeus. Refugo
coroado da sociedade, ele era levado de todo a sua alma para os fundos imundos, para
os bandidos Cem Negros, e não somente ele pagava abundantemente na base das
disponibilidades do Tesouro, mas ele gostava de se entreter com eles sobre as suas

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proezas e agraciá-los quando, por acaso, eles estavam convencidos de ter assassinado
deputados da oposição. Witte, que se encontrava à cabeça do governo na época onde se
reprimia a primeira revolução, escreveu nas suas Memórias:
“Quando inúteis sevícias cometidas pelos chefes desses destacamentos chegavam
ao conhecimento do soberano, ele aprovava ou, pelo menos, cobria-as”.
Como o governador-geral das províncias bálticas pedia que se disciplinasse um
certo capitão chamado Richter que
“procedia a execuções por sua livre vontade, sem qualquer julgamento, mesmo em
relação de pessoas que não tinham oposto resistência”,
o czar notou sobre o relatório: “Ah! Esse folgazão!” Ele distribuía sem contar tais
encorajamentos. Esse “sedutor”, sem vontade, sem objectivo, sem imaginação, foi mais
terrível que todos os tiranos da história antiga e moderna.
O czar encontrava-se sob a influência da czarina, influência que aumentava com os
anos e as dificuldades. Juntos, eles constituíam uma espécie de tudo. Esta combinação
mostra já em que medida, sob a pressão das circunstâncias, o individual se completa pelo
elemento do grupo. Mas convém falar primeiro da czarina.
Maurice Paléologue, antigo embaixador da França em Petrogrado durante a guerra,
psicólogo refinado para académicos e para porteiros, deu um retrato cuidadoso lambido
da última czarina: ansiedade moral, diz ele substancialmente, melancolia crónica,
angústia sem limites, alternativas de sobressaltos de forças e de crises de astenia,
meditações dolorosas sobre o mundo invisível, superstições – todos esses traços, tão
fortemente marcados na pessoa da imperatriz, não são os que caracterizam o povo
russo? Tão estranho que possa parecer, há um grau de verdade nesta ficção adocicada.
Não é sem erro que o satírico russo Saltykov dizia dos ministros e dos governadores
saídos das baronias bálticas que eles eram “alemães com alma russa”: está fora de
dúvida que precisamente alógenos, não tendo nenhum laço com o povo, elaboravam a
mais fina cultura do administrador “verdadeiramente russo”.
Mas então porquê o povo retribuía um ódio tão declarado à czarina que, acreditando
em Paléologue, tinha tão bem adaptado a alma nacional? A resposta é simples: para
justificar a sua nova situação, esta alemã tentava assimilar, com um frio frenesim, todas
as tradições e as sugestões da Idade média russa, de todos o mais indigente e o mais
grosseiro, num período onde o povo fazia poderosos esforços para se emancipar da sua
própria barbárie medieval. Esta princesa alemã era literalmente possuída pelo demónio da
autocracia: tendo saído do seu buraco provincial até à cimeira do despotismo bizantino,
ela não queria por nada no mundo aí voltar. Ela encontrou na ortodoxia uma mística e
uma magia misturada ao seu novo destino. Ela acreditou tanto mais inabalavelmente na
sua vocação que a ignomínia do antigo regime se desvendava cada vez mais. Com
carácter forte, capaz de uma exaltação seca e dura, a czarina completava o czar mole,
dominando-o.

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No 17 de Março 1916, um ano antes da revolução, quando o país rasgado se torcia
já nas tenazes da derrota e do desespero, a czarina escrevia ao seu marido, no G. Q. G.:
“...Tu não deves deixar-te dobrar; sem ministério responsável, etc. - nada do que ele
queiram. Esta guerra deve ser a tua guerra, e a paz a tua paz, em tua honra, e a da
pátria, mas em nenhum caso em honra da Duma. Essa gente aí não tem o direito de dizer
mesmo uma só palavra sobre essas questões.”
Era de qualquer forma um programa acabado e que, precisamente, ganhava sempre
sobre as continuas hesitações do czar.
Quando Nicolau partiu para a tropa, na qualidade de generalíssimo fictício, foi a
czarina que se ocupou abertamente dos assuntos do interior. Os ministros apresentavam-
se a ela com os seus relatórios, como a uma regente. Ela conspirava com uma pequena
camarilha contra a Duma, contra os ministros, contra os generais do G. Q. G., contra toda
a gente, parcialmente mesmo contra o czar. No 6 de Dezembro 1916, ela escreveu a
Nicolau:
“No momento que disseste que querias manter Protopopov, como ele se atreve (o
presidente do Conselho, Trepov) agir contra a tua vontade? Dá um bom murro na mesa,
não cedas, sê o mestre, escuta a tua mulherzinha e o nosso Amigo. Acredita-nos”.
Três dias depois:
“Tu sabes que tens razão. Levanta bem a cabeça, ordena a Trepov a trabalhar com
ele... Dá um bom murro na mesa...”
Essas frases parecem inventadas. Mas são extraídas de cartas autênticas. E não
são coisas que se inventem.
No 13 de Dezembro, a czarina volta à carga:
“Sobretudo, não a esse ministério responsável que é a marioneta de todos. Tudo se
acalma e vai cada vez melhor, mas queremos sentir o teu punho. Há muito tempo, anos
inteiros, que me repetem a mesma coisa“
A Rússia gosta que lhe acariciem com a chibata, escreve a czarina da Rússia, ao
czar da Rússia, falando do povo russo, e isso dez semanas antes do dia que a monarquia
caia no abismo.
Ainda que mais dotada de carácter do que o marido, a czarina não lhe é superior
intelectualmente, ela é-lhe mesmo inferior; ainda mais que ele, ela procura a sociedade
dos pobres de espírito. A estreita amizade que, durante longos anos, liga o czar e a
czarina com a dama de honor Vyroubova marca o nível espiritual do casal imperial.
Vyroubova dizia-se ela própria idiota, e não era modéstia. Witte, a quem não se pode
recusar a segurança do golpe de vista, caracteriza-a como
“a mais banal, a mais imbecil dama do género petersburguês, vilã, igual a um
inchaço sobre uma pasta de brioche”.

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Na sociedade desta pessoa que cortejava servilmente os dignitários encarnecidos,
embaixadores, financeiros, e que tinha portanto bastante tino para não negligenciar de
encher os bolsos, o czar e a czarina passavam horas e horas, consultavam-na sobre
negócios, correspondiam com ela e relacionavam-se com ela através de cartas.
Vyroubova era mais influente que a Duma do Império e mesmo que o ministério.
Ela própria não era senão o médio do “Amigo” cuja autoridade dominava essas três
pessoas.
“...Tal é a minha opinião particular – escreveu a czarina ao czar – mas vou tratar de
saber o que pensa o nosso Amigo.”
A opinião do Amigo não é uma “opinião particular”; ela é decisiva.
“...Eu sou forte – insiste a czarina, algumas semanas mais tarde – mas ouve bem,
isto é, escuta o nosso Amigo e confia-nos em tudo... Eu sofro por ti como uma criança
delicada, de coração terno, que tem necessidade de ser dirigida, mas que dá atenção aos
maus conselhos quando um homem está aí, enviado de Deus, que lhe diz o que deve
fazer.”
O Amigo, o enviado de Deus, é Grigori Rasputine.
“...Com as preces e a assistência do nosso Amigo, tudo irá bem.” “Se não o
tivéssemos perto de nós, tudo teria terminado há muito tempo, estou absolutamente
convencida disso.”
Durante todo o reinado de Nicolau e Alexandra, chamaram à Corte curandeiros,
magos, possuídos, angariadores não somente de toda a Rússia, mas do estrangeiro.
Existia para esse efeito dignitários com títulos de fornecedores, que se agrupavam à volta
do oráculo para o momento, constituindo junto do monarca uma Câmara Alta toda-
poderosa. A esse meio não lhe faltava nem velhas beatas, nomeadas condessas, nem
excelentes hipocondríacos por falta de emprego, nem financeiros que consolidavam
gabinetes ministeriais inteiros. Considerando com ciúmes a concorrência não patenteada
de hipnotizadores e de bruxos, o alto clérigo ortodoxo apressava-se a trilhar escoamento
no santuário da intriga. Witte chamava o círculo dirigente, que lhe tinha partido a espinha
por duas vezes, “uma camarilha leprosa”.
Mais a dinastia se isolava, mais o autocrata se sentia abandonado, mais ele
ressentia a necessidade de uma ajuda do mundo espírita. Certos selvagens, para obter
bom tempo, fazem revolver no ar uma prancheta agarrada a um fio. O czar e a czarina
serviam-se de pranchetas para os mais diversos fins. Existia no vagão imperial um
oratório bem montado com grandes e pequenos ícones e toda a espécie de objectos de
piedade que foram opostos primeiro à artilharia japonesa, mais tarde à artilharia alemã.
O nível intelectual da Corte não tinha, propriamente dito, mudado muito de uma
geração à outra. Do tempo de Alexandre II, apelidado “o Emancipador”, os grandes
duques acreditavam firmemente nos diabos que assombram as casas e nas bruxas. Sob
Alexandre III, a coisa não era melhor, mas era mais calma. A “camarilha leprosa” existiu
sempre, modificava a sua composição, mudando os procedimentos. Nicolau II não criou,

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mas herdou dos seus avós a atmosfera de selvajaria medieval que reinava no palácio.
Mas, durante essas dezenas de anos, o país transformou-se, os problemas tornaram-se
mais complexos, a cultura aumentou, e o círculo da Corte encontrou-se empurrada para
trás, ultrapassada de longe. Se a monarquia fez, pela força, concessões às forças novas,
ela não chegava a se modernizar interiormente; pelo contrário, ela fechava-se sobre ela
própria; o seu espírito medieval engrossava sob a pressão do ódio e do temor, até que
tomou o carácter de um terrível pesadelo que cobriu o país.
No primeiro de Novembro 1905, isto é no momento mais crítico da primeira
revolução, o czar escreveu no seu diário:
“Fizemos conhecimento de um homem de Deus, Grigori, da província de Tobolsk.”
Tratava-se de Rasputine, camponês siberiano que tinha na cabeça uma cicatriz
indelével consequência de golpes recebidos por roubo de cavalos. Valorizado no
momento oportuno, “o homem de Deus” logo encontrou auxiliares bem colocados, ou,
mais exactamente, encontraram-lhe, e assim se formou uma nova cotaria dirigente que
meteu fortemente a mão sobre a czarina e, por intermédio desta, sobre o czar.
A partir do inverno de 1913-1914, na alta sociedade petersburguesa, dizia-se já
abertamente que da clique de Rasputine dependiam todas as altas nomeações, os
comandos e as adjudicações. O “santo idoso”, o peregrino, tornou-se pouco a pouco, uma
instituição do Estado. Vigiava-se cuidadosamente pela sua segurança e, não menos
cuidadosamente, os ministérios rivais espionavam-no. Os agentes do departamento da
Polícia mantinham a dia um horário da sua existência e não faltavam os relatórios
segundo os quais Rasputine, em visita à familia, na aldeia de Pokrovskoie, bêbado, ter-
se-ia batido violentamente com o seu próprio pai. No mesmo dia, 9 de Setembro 1915,
Rasputine mandou dois telegramas afáveis, um para a imperatriz, em Tsarskoie-Selo,
outro para o czar, no G. Q. G..
São épicos os relatórios dos bufos, escritos, no dia a dia, sobre as estroinices do
Amigo. “
Ele voltou para casa, hoje, às cinco horas da manhã, completamente bêbado”. “O
artista V. dormiu na casa de Rasputine na noite do 25 a 26.” “Ele chegou com a princesa
D. (mulher de um gentil-homem da Corte) ao Hotel Astoria.”
Lê-se um pouco mais à frente:
“Ele voltou para casa em Tsarkoie-Selo cerca das onze horas da noite.” “Rasputine
voltou para casa com a pr. Ch.; ele estava muito bêbado; todos os dois voltaram logo a
sair.”.
No dia seguinte, pela manhã ou à tarde, visita a Tsarskoie-Selo. Um bufo,
perguntando com arrependimento ao santo velho porquê ele parecia preocupado, obteve
esta resposta: “Não posso decidir se deve convocar-se ou não a Duma.”
Lê-se a seguir:
“Voltou a casa às cinco da manhã, bastante bêbado.”

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Assim, durante meses e anos, a mesma melodia tocava-se sobre três tons: “bastante
bêbado”, “muito bêbado”, “completamente bêbado”. Essas informações de alta
importância para o Estado eram coligidas e assinadas pelo general da guarda Globatchev.
O desenvolvimento da influência rasputiana durou seis anos, nos últimos anos da
monarquia.
“A sua existência em Petersburgo – conta o príncipe Iossopov, que participou em
certa medida nesta vida de Rasputine para se matar em seguida – era uma núpcia
continua, a bebedeira e o regabofe de um forçado que teve sorte.”
“Dispus – escrevia Rodzianko, presidente da Duma – de um grande número de
cartas de mães cujas filhas tinham sido desonradas por esse descarado devasso.“
Nesse mesmo tempo, é a Rasputine que Pitirim, metropolita de Petrogrado, e o
arcebispo de Varnava, que lia com dificuldade, que deviam os seus lugares. É sobre
Rasputine que repousou durante muito tempo o poder de Sabler, alto procurador do Santo
Sínodo, foi com o acordo de Rasputine que foi despedido o presidente do Conselho
Kokovtsev que não quis receber o “santo velho”. Rasputine nomeou Stürmer presidente
do Conselho de ministros, Protopopov, ministro do Interior, Raiev, novo alto-procurador do
Santo Sínodo, assim como outros. Paléologue, embaixador da República francesa, obteve
audiência de Rasputine, abraçou-o e disse: “Eis um verdadeiro iluminado!” Ele pensava
conquistar assim o coração da czarina para a causa da França. Um judeu chamado
Simanovitch, agente financeiro do “santo velho”, identificado pela polícia como jogador
nos clubes e como usurário, nomeou, com a ajuda de Rasputine, ministro da Justiça um
homem completamente vicioso, Dobrovolsky.
“Guarda na tua posse a pequena lista – escreve a czarina ao czar, sobre as novas
nomeações. O nosso Amigo pediu que tu converses de tudo isso com Protopopov.“
Dois dias mais tarde:
“O nosso Amigo diz que Stürmer pode ficar ainda por um certo tempo presidente do
Conselho de ministros.”
E ainda o seguinte:
“Protopopov venera o nosso Amigo, ele será bendito.”
Um dia, como os bufos tinham assinalado mais uma vez o número de garrafas e de
mulheres, a czarina confessava a sua aflição numa carta ao czar:
“Acusam Rasputine de ter beijado mulheres, etc. Lê os Apóstolos, eles beijavam
todos e todas, em jeito de boas-vindas.”
É duvidoso que essa referência aos Apóstolos tenha sido persuasiva para os bufos.
Numa outra carta, a czarina vai mais longe:
“Durante a leitura do Evangelho da noite, escreve ela, pensei tanto no nosso Amigo:
eu vi-o como os escribas e os fariseus perseguiram Cristo, fingindo serem perfeitos... Na
realidade, ninguém é profeta no seu país.”

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Era hábito, nesse meio, de comparar Rasputine a Cristo, e de forma nenhuma por
acaso. O temor diante das forças sussurrantes da história era demasiado penetrante para
que fosse suficiente ao casal imperial um Deus impessoal e da sombra não carnal de um
Cristo de Evangelho. Era-lhes necessário um novo acontecimento do “Filho do Homem”.
Em Rasputine a monarquia condenada e agonizante encontra um Cristo à sua imagem e
à sua semelhança.
“Se Rasputine não tivesse existido – disse um homem do antigo regime, o senador
Tagantsev – teria sido necessário inventá-lo.”
Esta palavra tem mais sentido do que pensava o seu autor. Se compreendermos por
“malandragem” a expressão extrema do parasitismo anti-social na escumalha da
sociedade, pode-se dizer, a propósito, da aventura rasputina que é em primeiro lugar uma
questão de malandragem coroada.

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A ideia de uma revolução palaciana
Porquê as classes dirigentes, procurando preservar-se da revolução, não tentaram
desembaraçar-se do czar e do seu séquito ? Elas quiseram, mas não ousaram. Elas não
tinham nem bastante fé na sua própria causa nem suficiente resolução. A ideia de uma
revolução palaciana assombrou os espíritos até ao dia que ela se afundou na revolução
de Estado. Convém insistir sobre o sujeito, nem que fosse para ter uma concepção mais
nítida das relações entre a monarquia e a cimeira da burocracia e da burguesia, na
véspera da conflagração.
As classes possuidoras eram monárquicas na quase totalidade: pela força dos
interesses, costume e cobardia. Mas elas desejavam uma monarquia sem Rasputine. A
monarquia respondia-lhes: tomem-me tal como sou. Em resposta a quem reclamava um
ministério decente, a czarina enviava ao Grande Quartel General uma massa dada por
Rasputine, exigindo do czar que ele a comesse para consolidar a sua vontade! Ela
conjurava-o:
“Lembra-te que mesmo M. Philippe (trata-se de um charlatão hipnotizador) disse que
não deverias ceder uma constituição, porque isso seria a tua perca e a da Rússia...” “Sê
um Pedro o Grande, um Ivan o Terrível, um imperador Paul, e esmaga toda essa gente
sob os teus pés!”
Que odiosa mistura de cobardia, de superstição e de aversão para um país do qual
se mantém à distância! Poderia parecer, na realidade, que, pelo menos na alta sociedade,
a família imperial não estava assim tão isolada: porque enfim Rasputine estava sempre
rodeado de uma plêiade de grandes damas e, de maneira geral, a bruxaria está em voga
na aristocracia. Mas esta mística do medo não liga as pessoas; pelo contrário, ela
desunia-os. Cada um conta salvar-se à sua maneira. Numerosas casas aristocrática
concorrem entre elas com os seus “santos”. Mesmo na alta esfera de Petrogrado, a
família imperial, como fosse pestilenta e colocada em quarentena, é rodeada de
desconfiança e hostilidade. A dama de honor Vyroubova escreveu nas suas Lembranças:
“Eu discernia e ressentia profundamente em toda à volta a animosidade em relação
aos que eu adorava, e sentia que esta animosidade tomava proporções espantosas...”
No fundo purpureado da guerra, os rumores distintos dos tremores subterrâneos, os
privilégios não renunciaram um só instante aos prazeres da existência, mas, pelo
contrário, grisalhavam-se. Mas, nos seus festins, apareciam cada vez mais um espectro
que lhes ameaçava com os seus dedos esqueléticos. Eles começavam então a imaginar
que todo o mal vinha do detestável carácter de Alice, da cobarde moleza do czar, de esta
idiota, cúpida Vyroubova, e do Cristo siberiano, de crânio golpeado. Intoleráveis
pressentimentos abatiam-se sobre as classes dirigentes, resentido-se por espasmos da
periferia para o centro, isolando cada vez mais a o cume detestado de Tsarkoie-Selo.
Vyroubova exprimiu com bastante vivacidade qual foi então o estado de alma desse
pequeno grupo nas suas Lembranças, seja dito, em geral, extremamente mentirosos:

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“...Pela centésima vez perguntava-me o que tinha acontecido à sociedade de
Petrogrado. Teriam todos sido atingidos de doença mental ou de uma epidemia infligida
em tempo de guerra? É difícil dar-se conta, mas, com efeito, todos estavam num estado
de sobreexcitação anormal.”
Muitos desses dementes pertenciam também à família dos Romanov, toda esse
matilha, odiada por todos, grandes duques e grandes duquesas. Mortalmente assustados,
tentavam escapar ao cerco cada vez mais apertado, cacarejavam com a aristocracia
fundibulária, propagavam boatos sobre o casal imperial, quezilavam-se entre eles e os
que os rodeavam. Muitos augustos tios dirigiam-se ao czar cartas de advertências nas
quais, sob formas respeitosas, compreendiam-se ranger de dentes e zombaria.
Protopopov, após a Revolução de Outubro, devia caracterizar com um estilo
bastante incorrecto, mas pitoresco, o estado de espírito das altas esferas:
“Mesmo as classes mais altas mostraram-se críticas na véspera da revolução. Nos
salões e nos clubes da alta sociedade, a política do governo era objecto de críticas
acerbes e maldosas; examinava-se, discutiam-se os relatórios que se tinham estabelecido
no seio da familia imperial; anedotas contavam-se acerca do chefe do Estado; escreviam-
se epigramas; numerosos eram os grandes duques que frequentavam essas reuniões
pérfidas. Até ao último momento, não havia consciência do perigo que havia nesse jogo”.
Os rumores que corriam sobre a camarilha do palácio tomava particular gravidade
pelo facto que se acusava de germanofilia e mesmo de conivência directa com o inimigo.
O ruidoso e pouco sagaz Rodzianko declara sem rodeios:
“A relação e analogia das tendências são lógicamente tão evidentes que não resta
mais, pelo menos para mim, dúvidas sobre a acção conjugada do estado-maior alemão e
do círculo de Rasputine: sobre isso, nenhuma dúvida pode subsistir.”
Como aqui a evidência “lógica” é alegada sem provas, o tom categórico desse
testemunho perde muito da sua força persuasiva. Nenhuma prova de um conluio dos
rasputines com o estado-maior alemão não foi descoberta, mesmo após a revolução.
Quanto à “germanofilia”, é um outro assunto. Não se trata, bem entendido, das simpatias
ou antipatias nacionais de uma czarina alemã, de um Stürmer primeiro-ministro, de uma
condessa Kleinmichel, de um conde Frederiks, ministro da Corte, ou de outros
personagens com nomes alemães. As cínicas Memórias da velha intrigante Kleinmichel
mostram com uma certa vivacidade impressionante o carácter supra-nacional que
distinguia as alta esferas aristocrática de todos os países europeus, ligados entre eles
pelos nós de família, de hereditariedade, pelo desdém por tudo o que se encontrava
abaixo de elas e – last, but not least – pelo cosmopolitismo de adultério nos velhos
castelos, nos solares na moda e nas Cortes da Europa. Muito mais reais foram as
antipatias orgânicas dos valetes do Palácio em relação aos obsequiosos advogados da
República francesa, e os simpáticos reaccionários, com apelidos teutónicos ou eslavos,
para o espírito puramente prussiano do regime berlinense que lhe havia imposto há muito
tempo com os seus bigodes cosméticos, as suas maneiras de Feldwebel e a sua
arrogante imbecilidade.

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Mas isso não resolvia a questão. O perigo resultava da própria lógica da situação: a
Corte, com efeito, não podia dispensar-se de procurar a sua salvação numa paz
separada, e com tanto mais obstinação que o perigo tornava-se mais eminente. O
liberalismo, na pessoa dos seus líderes, como ainda veremos, pensava reservar-se as
oportunidades de uma paz separada, calculando sobre a perspectiva da sua chegada ao
poder. Mas é precisamente por esta razão que ele conduzia a sua agitação chauvinista
com empenho, enganando o povo e aterrorizando a Corte. A camarilha, numa questão tão
grave, não ousava desmascarar-se antes do tempo e encontrava-se mesmo forçada de
falsificar o tom patriótico da opinião, ao mesmo tempo que apalpava o terreno para chega
a uma paz separada.
O general Korlov, antigo grande chefe da Polícia, que tinha aderido à camarilha
rasputina, nega, bem entendido, nas sua Memórias, as relações com a Alemanha, e a
germanofilia dos seus protectores, mas logo acrescenta:
“Não poderíamos censurar a Stürmer de ter pensado que a guerra feita à Alemanha
era a maior das desgraças para a Rússia e que ela não tinha nenhum sério motivo
político.”
Não se pode porém esquecer que Stürmer, que “pensava” de uma maneira tão
interessante, estava à cabeça do governo de um país em guerra com a Alemanha.
Protopopov, o último dos ministros do czar na pasta do Interior, teve, na véspera de entrar
no governo, conversões em Estocolmo com um diplomata alemão, das quais ele fez um
relatório ao czar. O próprio Rasputine, segundo o mesmo Korlov,
“considerava que a guerra com a Alemanha era uma enorme calamidade para a
Rússia”.
Enfim, a imperatriz escrevia ao czar, no dia 5 de Abril 1916:
“...Que eles não ousam dizer que tenha havido da parte Dele a menor coisa em
comum com os alemães; ele é bom e magnânimo. Para todos, como o Cristo, qualquer
que seja a religião que as pessoas pertençam; assim deve ser o verdadeiro cristão.”
Sem dúvida, junto deste verdadeiro cristão que não saía praticamente do estado de
bebedeira, poderiam muito bem se infiltrar, como larápios, usurários e aristocráticas
alcoviteiras, verdadeiras espias. “Ligações” desta natureza não são impossíveis. Mas os
patriotas da oposição colocavam questões mais largas e directamente: eles acusavam
nitidamente a czarina de traição. Nas suas Memórias escritas muito mais tarde, o general
Denikine disso testemunha:
“No exército, falava-se em voz alta, sem preocupação da hora e do lugar, da
instâncias da imperatriz que queria uma paz separada, da sua traição em relação ao
marechal de-campo Kitchner, a quem ela teria informado da viagem à Alemanha, etc. Esta
circunstância jogou um papel enorme na opinião do exército, da sua atitude em relação à
dinastia e da revolução.”
Esse mesmo Denikine conta que após a revolução, o general Alexeiev, como lhe
perguntaram claramente se a imperatriz tinha traído, respondeu “evasivamente de má-

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vontade” que tinham descoberto na casa da czarina, classificando os seus papeis, uma
carta onde estavam indicados em detalhe as colocações dos corpos do exército na frente,
e que ele, Alexeiev, tinha resentido que esse achado uma impressão intolerável...” Nem
mais uma palavra – acrescentou Denikine de uma maneira muito significativa: Alexeiev
mudou de conversa. “Que a czarina tenha ou não detido em sua casa uma carta
misteriosa, os generais mal-aconselhados estavam evidentemente bastante inclinados em
rejeitar sobre ela uma parte da responsabilidade dos seus defeitos. As culpas de traição
levadas contra a Corte espalhavam-se pela tropa, vindo sem dúvida principalmente do
alto, dos estados-maiores incompetentes.
Mas se a própria czarina, à qual o czar se submete em toda as coisas, entregou a
Guilherme os segredos militares e mesmo as cabeça dos grandes capitãs aliados, que
falta esperar, a não ser sanções contra o casal imperial? Ora, considerava-se o grão-
duque Nicolau Nicolaievitch como o verdadeiro chefe do exército e do partido anti-
germânico e, por consequência, e por assim dizer em virtude das suas funções, era ele
que estava indicado para patrocinar uma revolta de palácio. Foi por essa razão que o
czar, sob conselho de Rasputine e da czarina, destituiu o grão-duque e assumiu em
pessoa o comando supremo. Mas a imperatriz apreendia a entrevista do sobrinho com o
tio, no momento da possessão dos poderes:
“Meu caro, escreveu ela ao czar no G. Q. G., procura ser prudente e não te deixes
enganar por quaisquer promessas de Nicolacha, ou por qualquer outra coisa; lembra-te
que Grigori (Rasputine) salvou-te dele e dessa gente malvada...Lembra-te, em nome da
Rússia, o que ele querem fazer: expulsar-te (não é um mexerico, em Orlov todos os
papeis estavam já prontos) e a mim, fechar-me num convento...”
O irmão do czar, Miguel, dizia a Rodzianko:
“Toda a família reconhecia até que ponto é prejudicava Alexandra Fedorovna. Meu
irmão e ela estão exclusivamente rodeados de traidores. Toda a gente honesta foi
afastada. Mas que fazer em tal caso?”
Sim, precisamente: que fazer em tal caso?
A grande-duquesa Maria Pavlovna, em presença dos seus filhos, dizia e repetia que
Rodzianko devrait tomar a iniciativa de “eliminar” a czarina. Rodzianko propos que essas
afirmações não tiveram lugar, porque de outra forma, o seu juramento de fidelidade o
tivesse obrigado a comunicar ao czar, que uma grão-duquesa convidava o presidente da
Duma a suprimir a imperatriz. É assim que o imaginativo gentil-homem levava a questão
do assassinato da czarina como uma gentil gracinha inocente.
O próprio ministério encontrava-se por momentos em aberta oposição com o czar.
Desde 1915, dezoito meses antes da revolução, mantinha-se abertamente, em Conselho
de ministros, afirmações que nos parecem ainda hoje inacreditáveis. Polivanov, ministro
da Guerra:
“Só uma política de conciliação com a sociedade pode salvar a situação. Os diques
frágeis que existem actualmente não poderão evitar uma catástrofe.”

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Grigorovitch, ministro da Marinha:
“Não é segredo que a tropa não tem confiança em nós e espera mudanças.”
Sazonov, ministro dos Estrangeiros:
“A popularidade do czar e a sua autoridade são consideravelmente abalada aos
olhos da massas”.
O príncipe Chtcherbatov, ministro do Interior:
“Somos todos incapazes de governar a Rússia nas presentes circunstâncias … É
preciso uma ditadura ou uma política de conciliação.” (Sessão de 21 de Agosto 1915).
Nem uma nem outra solução não serviam de nada; nem uma nem outra eram
realizáveis. O czar não se decidia pela ditadura, rejeitava uma política de conciliação e
não aceitava demissões de ministros que se julgavam incapazes. Um alto funcionário que
tomava notas, acrescentou aos arengues ministeriais este breve comentário:
“ Para nós, então, é a lanterna!”
Em tal situação, não é de estranhar que, mesmo nos meios burocráticos, se tenha
falado da necessidade de uma revolução de palácio, como o único meio de evitar uma
revolução eminente. “Se eu fechasse os olhos – escreve um dos que participaram nessas
conversações – teria acreditado que me encontrava numa sociedade de revolucionários
enraivecidos.”
Um coronel da guarda que fez um inquérito, uma missão especial, nas tropas do Sul,
deu no seu relatório um quadro sombrio: no seguimento dos esforços de propaganda
sobre a germanofilia da imperatriz e do czar, o exército estava disposto a acolher a ideia
de uma revolução palaciana.
“Houve, nesse sentido, nas assembleias de oficiais, francas conversas que não
encontravam a indispensável reacção do alto comando. “Protopopov, por outro lado,
declarou que “um grande número de personagens do alto comando eram favoráveis a
uma revolução; alguns encontravam-se nas relações e sob a influência dos principais
líderes do chamado bloco progressista.”
O almirante Koltchak, que, em consequência se tornou famoso, declarou, diante da
comissão rogatória dos Sovietes, quando as suas tropas foram derrotadas pelo Exército
Vermelho, que ele estava em ligação com numerosos membros da oposição na Duma,
que ele tinha aprovado as manifestações, visto que “a sua atitude em relação ao poder
existente antes da revolução era negativo.” Koltchak, no entanto, não foi posto ao corrente
dos planos da revolução palaciana.
Depois do assassinato de Rasputine, as medidas de relegação que atingiram por
consequência certos grandes duques, a alta sociedade meteu-se a falar mais alto que
nunca da necessidade de uma revolução na Corte. O príncipe Iossopov conta que o grão-
duque Dmitri, em prisão domiciliária no seu palácio, recebeu visitas de oficiais de vários
regimentos que lhe propuseram diversos planos de acção decisiva ”que ele não podia
aceitar, naturalmente.”

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Considera-se que a diplomacia dos Aliados participou na conspiração, pelo menos a
do embaixador da Grande-Bretanha. Este último, por iniciativa dos liberais russos, tentou,
em Janeiro de 1917, influenciar Nicolau II, após ter pedido a sanção prévia do seu
governo. Nicolau ouviu com atenção e educadamente, agradeceu-lhe...e falou de outra
coisa. Protopopov, informava Nicolau que existiam relações entre Buchanan e os
principais líderes do bloco progressista e propunha estabelecer a vigilância à volta da
embaixada britânica. Parece que Nicolau não teria aprovado essa medida, achou que a
vigilância exercida sobre um embaixador “seria contrária às tradições internacionais”.
Entretanto, Korlov, sem rodeios, declarou que
“os serviços de informações notaram diariamente as relações do líder do partido
cadete Miliokov com o embaixador de Inglaterra”.
Em consequência, as tradições internacionais não impediam nada. Mas elas foram
violadas, o resultado mediocre: a conspiração palaciana não foi descoberta.
Existiu? Nada o prova. Ela foi demasiando extensa, essa “conspiração”, englobava
os círculos demasiado numerosos e diversos para se uma conspiração. Pairava no ar,
como rumor nas altas esferas da sociedade petersburguesa, como ideia confusa de
salvamento ou como formula de desespero. Mas não se condensa até se tornar um plano
prático.
No século XVIII, a alta nobreza, teve, mais de uma vez, de corrigir a ordem de
sucessão dos ocupantes do trono, encarcerando, ou abafando os imperadores
incómodos: pela última vez, esta operação foi feita com Paulo I, em 1801. Não se pode
afirmar, em consequência, que uma revolução palaciana tivesse transgredido as tradições
da monarquia russa: foi pelo contrário um elemento indispensável. Porém, a aristocracia
tinha cessado há muito tempo de se sentir segura. Ela concedia a honra de abafar o czar
e a czarina à burguesia liberal. Mas os líderes desta última não estavam muito decididos.
Após a revolução, designou-se mais de uma vez os capitalistas liberais Gotchkov e
Terechtchenko, assim que o general Krymov que lhe era próximo, como o núcleo da
conspiração. Gotchkov e Terechtchenko testemunharam eles próprios nesse sentido, mas
sem darem precisões. Antigo voluntário no exército do Boers contra os ingleses, duelista,
liberal que calçava esporas, Gotchkov devia parecer à generalidade da “opinião pública” o
homem mais adequado para um conspiração. Não o professor prolixo Miliokov, na
verdade! Gotchkov teve de lembrar-se mais de uma vez que um regimento de Guarda, ao
dar rapidamente um bom golpe, pode substituir-se à revolução e preveni-la. Já, nas suas
Memórias, Witte denunciava Gotchkov, que ele detestava, como um administrador dos
métodos empregados pelos jovens turcos para resolver o caso de um sultão indesejável.
Mas Gotchkov que, na sua juventude não tinha tido tempo para manifestar a sua bravura
de jovem turco, estava agora numa idade demasiado avançada. E, sobretudo, esse emulo
de Stolypine não podia dispensar-se de ver a diferença entre as condições russas e as da
velha Turquia: um golpe de Estado no Palácio, em vez de ser um meio preventivo contra a
revolução, não seria a última comoção que desencadearia a avalanche, e o remédio não
se tornaria pior que o mal?

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Na literatura consagrada à Revolução de Fevereiro, fala-se de preparativos de uma
revolução palaciana como de um facto perfeitamente estabelecido. Miliokov exprime-se
assim:
“A realização desse plano estava prevista para Fevereiro.”
Denikine atrasa a operação para a Março. Um e outro mencionam que estava no
“plano” parar no caminho o comboio imperial, exigir a abdicação e, em caso de recusa, o
que se supunha inevitável, proceder à “eliminação física” do czar. Miliokov acrescenta
que, diante da eventual admissível do golpe de Estado, os líderes do bloco progressista
que não participavam na conspiração e que não estavam ao corrente dos preparativos
dos conspiradores, deliberaram em comité restrito sobre a melhor maneira de utilizar o
golpe de Estado se ele fosse vitorioso. Vários estudos marxistas, nestes últimos anos,
acreditam a versão de uma preparação prática da revolução. Segundo este exemplo –
seja dito de passagem – pode-se constatar a facilidade com que a legenda se sobrepõe à
ciência da história.
Dá-se muitas vezes como a mais importante prova da conspiração uma narração
pitoresca de Rodzianko que demonstra que, precisamente, não houve qualquer
conspiração. Em Janeiro 1917, o general Krymov, regressando à capital vindo da frente,
queixava-se diante dos membros da Duma de uma situação que não poderia perdurar:
“Se vocês decidirem por esta medida extrema (derrubar o czar), nós vos
apoiaremos.”
Se vocês decidirem...Um outubrista, Chidlovsky, gritou exasperado:
“Inútil de poupá-lo e de ter piedade quando ele leva a Rússia à sua perca!”
Num debate tumultuoso, citou-se uma afirmação autêntica ou apócrifo de Brossilov:
“Se for necessário escolher entre o czar e a Rússia, caminharei pela Rússia.”
Se for necessário! O jovem milionário Terechtchenko mostrou-se um irredutível
regicida. Chingarev, cadete, declarou:
“O general tem razão: um golpe de Estado é indispensável. Mas quem decidirá?”
Toda a questão está aí: quem se decidirá? Tais são em substância as declarações
de Rodzianko quem, ele próprio, se pronunciava contra o golpe de Estado. No decurso
das poucas semanas que seguiram, o plano não progrediu, verosimilmente. Falava-se de
parar o comboio imperial, mas não se via qual homem deveria se encarregar da
operação.
O liberalismo russo, quando ele era jovem, apoiava com o seu dinheiro e as suas
simpatias os terroristas revolucionários, esperando que à força de bombas estes últimos
reduziriam a monarquia a deitar-se nos seus braços. Nenhum desses honrosos
personagens não estava habituado a arriscar a sua cabeça. Mas o temor não era tanto o
dos indivíduos mas de uma classe: isso vai mal pelo momento – pensavam eles – mas se
pioramos! De qualquer modo, se Gotchkov, Terechtchenko e Krymov tinham caminhado
seriamente para um golpe de Estado, preparando-o praticamente, mobilizando forças e

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recursos, ter-se-ia sabido de maneira mais exacta e mais precisa após a revolução,
porque os participantes, sobretudo os jovens executantes que seriam necessários, em
grande número, não tivessem tido nenhum motivo de calar o feito “quase” realizado: a
datar de Fevereiro, isso teria seguramente assegurado a carreira deles. Ora, nenhuma
revelação desse tipo não foi feita. É perfeitamente evidente também que, do lado de
Gotchkov e de Krymov, o caso não foi levado para além de suspiros patrióticos entre o
vinho e o charuto. Assim, os tontos da conspiração aristocrática assim que os
desajeitados da oposição plutocrática não encontraram neles próprios fôlego suficiente
para corrigir por actos a caminhada de um empreendimento que não funcionava.
Em Maio de 1917, Maklakov, um dos liberais dos mais eloquentes e mais fúteis,
bradava, numa conferência particular da Duma que a revolução despedirá a monarquia:
“Se a história virá amaldiçoar esta revolução, ela nos amaldiçoará também por não ter
sabido prevenir os acontecimentos oportunamente por um golpe de Estado a partir de
cima!” Mais tarde ainda, na emigração, Kerensky, seguindo Maklakov, dirá sem contrição:
“Sim, a Rússia censitária hesitou demasiado para executar em tempo útil o golpe de
Estado no alto (que se falava tanto e para o qual nos preparámos tanto [?]); ela demorou
a prevenir a explosão das forças elementares do Estado.”
Essas duas exclamações concretizavam o quadro, mostrando que mesmo após a
revolução, quando esta desencadeou todas as suas indomáveis energias, os sábios
patifes continuaram acreditar que se teria podido prevenir-la, substituindo-a, “em tempo
útil” uma pequena cabeça dinástica!
Não houve bastante audácia para decidir uma “grande” revolução palaciana. Mas daí
nasceu o plano de um pequeno golpe de Estado. Os conspiradores liberais não ousaram
suprimir o principal actor da monarquia; os grandes duques conceberam o assassinato de
Rasputine como o derradeiro meio de salvar a monarquia.
O príncipe Iossopov, casado com uma Romanova, assegurou-se do apoio do grão-
duque Dmitri Pavlovitch e do deputado monárquico Porichkevitch. Tentaram arrastar o
liberal Maklakov, evidentemente para dar ao assassinato um carácter de acto nacional. O
celebro advogado recusou sabiamente, após ter fornecido o veneno aos conjurados.
Detalhe de grande estilo! Os cúmplices juraram, não sem razão, que um automóvel da
casa imperial facilitaria o rapto do cadáver: os brasões de grão-duque tornaram-se úteis.
Os factos desenrolaram-se seguidamente como uma encenação de cinema calculada por
pessoas de mau gosto. Na noite de 16 a 17 de Dezembro, Rasputine, atraído para uma
patuscada no palácio Iossopov, foi morto.
As classes dirigentes, excepção feita de uma restricta camarilha e de místicas
admiradoras, consideraram o assassinato de Rasputine como um acto de salvação. Sob
prisão domiciliária, o grão-duque cujas mãos, segundo a expressão do czar, encontraram-
e manchadas do sangue do mujique – um Cristo, entendido, mas um mujique mesmo
assim! - recebeu visitas de simpatia de todos os membros da família imperial que se
encontravam em Petrogrado. A própria irmã da czarina, viúva do grão-duque Sérgio,
telegrafou dizendo que rezaria pelos assassinos e que ela benzia o seu gesto patriótico.

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Os jornais, enquanto não lhes foi interdito de mencionar Rasputine, publicaram artigos
entusiastas. Nos teatros, houve tentativas e manifestações em honra dos assassinos. Na
rua, as felicitações eram trocadas pelos transeuntes.
“Nas casas privadas, nas assembleias de oficiais, nos restaurantes – escreveu o
príncipe Iossopov – bebia-se à nossa saúde; nas fábricas, os operários lançavam urras
em nossa honra.”
É perfeitamente admissível que os operários não estavam entristecidos quando
souberam do assassinato de Rasputine. Mas as suas aclamações nada tinham em
comum com as esperanças fundadas no renascimento da dinastia.
A camarilha rasputina escondia-se na expectativa. O eremita foi enterrado na mais
restricta intimidade, pelo czar, a czarina, seus filhos, Vyroubova; depois do cadáver do
santo Amigo, de antigo ladrão de cavalos, executado pelos grão-duques, a família
reinante ela própria devia sentir-se proscrita. Porém, mesmo enterrado, Rasputine não
tinha repouso. Quando Nicolau e Alexandra Romanov foram constituidos prisioneiros,
soldados, em Tsarkoi-Selo, arrombaram com a tomba e abriram o caixão. Na cabeceira do
morto encontraram um ícone com a inscrição: “Alexandra, Olga, Tatiana, Maria, Anastásia,
Ania.” O governo provisório enviou um oficial encarregado – pergunta-se porquê – de
levar o corpo para Petrogrado. A multidão opôs-se e o delegado teve que fazer incinerar o
cadáver no próprio lugar.
Depois do assassinato do Amigo, à monarquia só lhe restava dez semanas para
viver. Porém, esse curto lapso de tempo pertencia-lhe ainda. Rasputine não existia mais,
mas a sua sombra continuava a reinar. Contrariamente a todas as esperanças dos
conspiradores, o casal imperial, após o assassinato, teimou em meter na primeira linha as
personagens mais detestáveis da clique rasputina. Dizia-se que Protopopov ocupava-se
de espiritismo, evocando o espírito de Rasputine. O nó de uma situação sem saída
apertava-se.
O assassinato jogou um grande papel, mas não aquele que tinham contado os
executantes inspiradores. Em vez de atenuar a crise, este acto agravou-a. Por toda a
parte falava-se desse assassinato: nos palácios, nos estados-maiores, nas fábricas, e nas
isbas dos camponeses. Uma dedução impunha-se: os próprios grão-ducados não tinham
contra a camarilha leprosa outras vias senão o veneno e o revolver. O poeta Blok
escreveu sobre o assassinato de Rasputine:
“A bala que o acabou atingiu em cheio a dinastia reinante.”
Robespierre lembrava já na Assembleia constituinte que a oposição da nobreza,
tendo enfraquecido a monarquia, tinha desencadeado a burguesia e, depois dela, as
massas populares. Robespierre dava ao mesmo tempo este aviso: no resto da Europa,
dizia ele, a revolução não poderia desenvolver-se tão rapidamente como em França,
porque as classes privilegiadas dos outros países, instruidas pela experiência da nobreza
francesa, não se encarregaria da iniciativa de fazer uma revolução. Ao apresentar esta
análise notável, Robespierre enganava-se porém em supor que a nobreza francesa, pela
sua leviandade na oposição, devia ter dado uma vez por todas uma lição aos aristocratas

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dos outros países. A Rússia demonstrou de novo, e em 1905 e, particularmente, em 1917,
que uma revolução dirigida contra um regime autocrático e de meia servidão, por
consequência contra a classe nobre, reencontra, nas suas primeiras acções, a assistência
não sistemática, contraditória, contudo muito eficaz não somente da nobreza média mas
também cimeiras de privilegiados desta classe, incluindo mesmo certos membros da
dinastia. Esse notável fenómeno histórico pode parecer inconciliável com a teoria de uma
sociedade constituida em classes, mas, na realidade, não contradiz senão a concepção
trivial.
A revolução eclodiu quando os protagonistas sociais atingiram a tensão extrema.
Mas é precisamente assim que a situação se torna intolerável mesmo par as classes da
velha sociedade, isto é para aquelas que estão condenadas a desaparecer. Sem acordar
mais valor do que convém às analogias biológicas, vem a propósito lembrar que um parto,
a uma certa data, torna-se também tão inevitável para o órgão maternal como para o seu
fruto. A oposição das classes privilegiadas prova que a sua situação tradicional é
incompatível com as necessidades de sobrevivência da sociedade. A burocracia dirigente
começa a deixar passar tudo por água abaixo. A aristocracia, sentindo-se directamente
visada pela hostilidade geral, joga a culpa sobre a burocracia. Esta acusa a aristocracia, e
seguidamente essas duas castas, juntas ou separadas, voltam o seu descontentamento
contra a monarquia que coroa o poder deles.
O príncipe Chtcherbatov, que, exercendo as funções nas instituições da nobreza, foi
chamado a dado momento ao ministério, dizia isto:
“Samarine e eu somos antigos marechais da nobreza. Até agora, ninguém nos
considerou como homens de esquerda, e nós não nos consideramos como tais. Mas nem
um nem o outro não compreendemos uma tal situação no Estado: o monarca e o seu
governo estando em desacordo radical com tudo o que há de razoável na sociedade (as
intrigas revolucionárias nem merece a pena falar), com a nobreza, os comerciantes as
municipalidades, os zemstvos, e mesmo o exército. Se, no alto, não querem ter em conta
as nossas opiniões, o nosso dever é de partir.”
A nobreza vê a origem de todos os males na cegueira da monarquia cegou ou na
perca da razão. Em geral, a casta privilegiada não acredita que não possa mais haver
política que reconciliaria a antiga sociedade com a nova ; noutros termos a nobreza não
se resigna em aceitar a sua condenação e, nas tormentas da agonia, se mete em
oposição contra o que há de mais sagrado no antigo regime, contra a monarquia. A
violência e irresponsabilidade da oposição aristocrática explicam-se pelos privilégios que
beneficiaram historicamente as altas esferas da nobreza e pelos temores intoleráveis face
à revolução. O falta de sistema e de contradições da oposição aristocrática explicam-se
pelo facto que é a oposição de uma classe que não tem saída. Mas, tal como uma vela,
antes de se extinguir, projecta um brilhante ramo de flamas, mesmo se fumacenta, a
nobreza, antes de se apagar, passa por brilhos de oposição que prestam grandes auxílios
aos seus inimigos mortais. Tal é a dialéctica desse processo que não somente concorda
com as teorias das classes sociais, mas que se explicam por esta teoria.

64
A agonia da monarquia
A dinastia caiu como um fruto podre antes mesmo que a revolução tenha tido o
tempo de examinar os seus problemas mais urgentes. A imagem da antiga classe
dirigente não seria completa se não nos esforçasse-mos em mostrar como a monarquia
chegou à hora da sua queda.
O czar encontrava-se no Grande Quartel General, em Mohilev, onde ele se dirigiu
não porque aí tinham necessidade dele, mas para escapar às preocupações que dava
Petrogrado. O general Dobensky, memorialista da Corte, que tinha acompanhado o czar
ao G. Q. G., escreveu no seu diário:
“Aqui, a vida é tranquila. Tudo continuará como no passado. Nada se espera dele
(do czar). Salvo em circunstâncias exteriores que possam, por acaso, provocar alguma
mudança...”
No 24 de Fevereiro a czarina escrevia (em inglês, como habitualmente) a Nicolau, no
G. Q. G.:
“Espero que o Kendrinsky da Duma (trata-se de Kerensky) seja enforcado pelos
seus espantosos discursos: é indispensável (a lei marcial) e será um exemplo. Todos
estão extremamente desejosos de te ver mostrar firmeza e imploram-te de a exercer.”
No 25 de Fevereiro, G. Q. G. recebia um telegrama do ministro da Guerra,
anunciando que as greves se tinham declarado na capital, que os sarilhos começavam
nos meios operários, mas que medidas tinham sido tomadas e que não se passava nada
de inquietante. Numa palavra, já se tinham visto outras e ver-se-iam ainda!
A czarina, que tinha sempre exortado o czar a não ceder, tentava ainda de se manter
em aprumo. No dia 26 de Fevereiro, com a evidente intenção de inculcar a coragem
incerta de Nicolau, ela telegrafou-lhe que “tudo está calmo na cidade”. Mas, num
telegrama da noite, ela é já forçada em reconhecer que “na cidade as coisas não estão
bem de forma nenhuma”. Em carta, ela diz:
“É preciso declarar claramente aos operários que é proibido entrar em greve e, em
caso de infracção, serão enviados para a frente como castigo. Os fuzilamentos são
inúteis; só é necessário manter a ordem e impedir os operários de passar as pontes.”
Sim, na verdade, basta pouco: somente ordem! E sobretudo não admitir operários no
centro, deixá-los sufocar na raivosa impotência dos arredores.
Na manhã do 27, o general Ivanov é expedido da frente para a capital com um
batalhão de cavaleiros de São Jorge e com poderes de ditador que ele só revelará após a
ocupação de Tsarskoie-Selo.
“É difícil imaginar uma personagem menos apropriada à situação – brada o general
Denikine, que, em seguida, exerceu ele próprio a ditadura militar – um velho caduco, que
não tinha em conta a situação política, que não tinha nem as forças nem energia, nem
vontade, nem rigor.”

65
A escolha tinha caído em Ivanov segundo as recordações guardadas na primeira
Revolução: onze anos antes, ele tinha reprimido o levantamento de Cronstadt. Mas esses
anos não passaram sem deixar traços: os castigadores tinham-se gasto, os punidos
tinham-se tornado homens maduros. As frentes do Norte e do Oeste receberam ordens de
preparar as tropas para uma expedição a Petrogrado. Evidentemente, pensavam ter
bastante tempo. Ivanov, pessoalmente, pensava terminar em breve com sucesso, e não
esqueceu mesmo de encargar um dos seus ajudantes de campo em Mohilev dos
abastecimentos para os conhecimentos que ele tinha em Petrogrado.
No 27 de Fevereiro, na manhã, Rodzianko expediu ao czar um novo telegrama que
terminava assim:
“A última hora chegou: a sorte da pátria e da dinastia está em jogo.”
O czar disse ao conde Frederiks, ministro da Corte:
“É outra vez esse gordo Rodzianko que me escreve toda a especie de futilidades às
quais não lhe responderei.”
Portanto, não, não eram futilidades! E seria necessário responder.
Cerca do meio-dia desse mesmo 27 de Fevereiro, o G. Q. G. recebia do general
Khabalov um relatório sobre o levantamento dos regimentos Pavlovsky, volhynien, lituano
e Preobrajensky, e sobre a necessidade de enviar da frente tropas seguras. Uma hora
depois chega, do ministro da Guerra, um telegrama animador:
“Os sarilhos que tinham começado, esta manhã, com certos elementos da
guarnição, são reprimidos fortemente e energicamente pelas companhias e batalhões fiéis
ao seu dever. ...Estou firmemente convencido de um rápido restabelecimento da calma...”
Portanto, após sete horas da noite, o mesmo Beliaev comunica já que “as poucas
tropas que continuam fiéis ao dever não conseguem acabar com a motinaria”, e pede o
envio urgente, de tropas verdadeiramente seguras, e em quantidade suficiente” para que
elas possam agir simultaneamente nos diferentes sectores da cidade”.
O Conselho de ministros, nesse dia, acreditou na oportunidade de eliminar, do seu
próprio meio, aquele que estava suposto de ser o responsável de todas as desgraças:
Protopopov, o perturbado que era ministro do Interior. Ao mesmo tempo, o general
Khabalov pôs em circulação um documento preparado sem o conhecimento do governo
declarando Petrogrado em estado de sítio, com a ordem de Sua Majestade. Foi assim que
se tentava ainda combinar o frio e o quente, mas ao que parece sem premeditação e, em
qualquer caso, sem esperança de sucesso. Nem mesmo se conseguiu fazer colar na
cidade os cartazes anunciando o estado de sítio: o gradonatchalnik (presidente da
Câmara) Balka não encontrava nem escovas nem cola. De maneira geral, “nada colava”
para as autoridades, porque ela pertenciam já ao reino das sombras.
A maior dessas sombras, no último ministério do czar, foi um septuagenário, o
príncipe Golytsine, que tinha antes dirigido certas obras filantrópicas da czarina, e que
esta tinha promovido a chefe de governo durante o período de guerra e de revolução.

66
Quando os amigos pediam a esse “bonacheirão russo”, a esse “velho mole” (segundo os
termos do barão Nolde, liberal), porquê ele tinha aceite um posto tão cheio de problemas,
Golytsine respondia: “Para ter mais uma lembrança”. Contudo ele na chegou a esse
resultado. Sobre o estado de espírito do último governo do czar nessas horas, temos
como testemunho a narração seguinte de Rodzianko:
“À primeira notícia de um movimento de massas em direcção ao palácio Maria, onde
o Conselho de ministros tinha as suas sessões, todas as luzes foram imediatamente
apagadas no edifício. Os governantes só queriam uma coisa: não serem notados pela
revolução. Portanto,o rumor que corria era enganador, o palácio não foi atacado e quando
se acenderam as luzes, um dos membros do governo do czar foi descoberto, “para sua
própria surpresa”, escondido debaixo da mesa. Tais eram as recordações que ele juntava
aí, não se sabe.”
Mas o estado de espírito do próprio Rodzianko não parecia estar à altura das
circunstâncias. Por longos mas vãs chamadas telefónicas ao governo, o presidente da
Duma tentava ainda dizer ao príncipe Golytsine. Este respondeu-lhe:
“Peço-lhe de não se dirigir a mim. Já me demiti.”
A esta notícia, Rodzianko, segundo a narração do seu fiel secretário, deixou-se cair
no cadeirão e cobriu o rosto com as duas mãos...
“Senhor, é terrível! Não temos mais o poder!... É a anarquia!...É o sangue!...”
E ele chorou docemente. Quando se desvaneceu o fantasma senil do poder czarista,
Rodzianko sentiu-se infeliz, abandonado, órfão. Como ele estava longe de pensar que, no
dia seguinte, ele devia “meter-se à cabeça” da revolução!
A resposta que Golytsine dava por telefone explica-se assim: na noite do 27, o
Conselho de ministros reconheceu-se incapaz de dominar a situação e convidou o czar a
meter à cabeça do governo uma personalidade gozando da confiança geral. O czar
respondeu a Golytsine:
“No que diz respeito a mudanças de pessoal nestas circunstâncias, julgo-as
inadmissíveis. Nicolau.”
Que outras circunstância estava ele à espera? Ao mesmo tempo, ele exigia que se
tomassem as “medidas resolutas” para esmagar a revolta. Era mais fácil em dizer que a
fazer.
No dia seguinte, 28, é a vez da indomável czarina perder enfim coragem. Ela
telegrafou a Nicolau:
“Concessões são indispensáveis. As greves continuam. Numerosas tropas
colocaram-se ao lado da revolução. Alice.”
Foi necessário o levantamento de toda a Guarda, de toda a guarnição, para forçar a
Hessense, zeladora da autocracia, a reconhecer que “concessões eram indispensáveis”.
Então, o czar começa a entrever que “o gordo Rodzianko” não lhe tinha comunicado

67
futilidades. Nicolau decide de juntar-se à sua família. É possível que ele tivesse sido
empurrado pelos generais do G. Q. G. que sentiam um certo mal estar.
O comboio imperial passou primeiro sem incidentes; como habitualmente, os chefes
da polícia e os governadores vinham saudá-lo às estações. Longe do turbilhão
revolucionário, na sua carruagem habitual, rodeado do seu séquito familiar, o czar tinha
aparentemente ainda perdido o sentido de um desfecho iminente. A 28, às 3 horas da
tarde, quando a sua sorte já está decidida pela marcha dos acontecimentos, ele mandou
à czarina, de Viazma, este telegrama:
“Está um lindo dia. Espero que você se sinta bem e calma. Muitas tropas são
enviadas da frente. O seu carinhoso Niki.”
Em vez das concessões que a própria czarina pede com insistência, o czar
carinhoso envia tropas da frente. Mas, apesar do “belo dia”, o czar vai encontrar-se,
dentro de algumas horas, frente a frente com a tempestade revolucionária. O trem
imperial chegou à estação de Vichera: os ferroviários não o deixam ir mais longe: “uma
ponte em mau estado”. O mais provável foi que esse pretexto foi inventado pelo séquito
imperial para dar melhor aspecto à situação. Nicolau tentou passar ou tentaram que ele
passasse por Bologoie, que se encontra no caminho-de-ferro de Moscovo a Petrogrado;
mas o seu comboio não obteve autorização desse lado. A demonstração tornava-se mais
eloquente que todos os telegramas recebidos de Petrogrado. O czar, cortado do seu G. Q.
G., não tinha meio de chegar à capital. Como simples “peons”, os ferroviários, a revolução
fazia xeque ao rei!
O historiógrafo da Corte, Dobensky, que acompanhava o czar no comboio, notou no
seu diário particular:
“Todos reconheciam que a passagem da noite em Vichera tem uma importância
histórica... Para mim, está absolutamente claro que a questão de uma constituição está
resolvida; certamente a constituição será cedida...Todos dizem que é preciso somente
caminhar com eles, com os membros do governo provisório.”
O caminho está cortado por um semáforo para lá do qual há perigo de morte, e o
conde Frederiks, o príncipe Dolgouroky, o duque de Leuchtenberg, todos, todos os altos
senhores, são agora partidários de uma constituição. Eles nem pensam mesmo na luta.
Basta caminhar, isto é, tentar ainda enganar as pessoas, como em 1905.
Enquanto que o comboio errava, não encontrando o caminho certo, a czarina
enviava telegramas e mais telegramas, rogando-lhe que volte o mais breve possível. Mas
os telegramas eram-lhe devolvidos com a menção em lápis azul:
“Residência do destinatário desconhecida.”
Os empregados do telegrafo não encontravam o paradeiro do czar da Rússia...
Regimentos, bandeiras e música à cabeça, marchavam em direcção ao palácio de
Tauride. Os membros da Guarda começavam a movimentar-se sob o comando do grão-
duque Kiril Vladimirovitch, o qual encontrou de uma só vez, como testemunha a condessa

68
Kleinmichel, a desenvoltura de um revolucionário. Os funcionários tinham dispersado. Os
habituados do palácio abandonaram o lugar. “Foi um salve-se quem puder”, escreveu
Vyroubova. No palácio rondavam bandos de soldados revolucionários, examinando todas
as coisas com uma ávida curiosidade. Antes mesmo que as altas esferas não tivessem
decidido da sorte da monarquia, os elementos da base transformavam o palácio dos
czares em museu.
O czar, cujo domicílio era incerto, obliquou em direcção de Pskov, a caminho de
estado-maior da frente Norte, que era comandada pelo velho general Roussky. Os
membros do séquito imperial fazem proposições em cima de proposições. O czar hesita.
Ele conta ainda com os dias e semanas, ainda que a revolução não se calcule senão por
minutos.
O poeta Alexandre Blok caracterizava o czar, no decurso dos últimos meses da
monarquia, nos seguintes termos:
“Teimoso e no entanto desprovido de vontade, nervoso mas enfraquecido em todas
as relações, não confiando em mais ninguém, excedido mas circunspecto nas suas
afirmações, ele não se domina mais. Ele tinha deixado de compreender a situação e não
dava mais nenhum passo sem se dar conta, deixando-se ir totalmente pela mão dos que
ele próprio tinha ergueu no poder.”
A que ponto tiveram que se acentuar os traços particulares, falta de vontade,
nervosismo, circunspecção e desconfiança no fim de Fevereiro e no início de Março !
Finalmente, Nicolau decidiu enviar – e portanto, parece nada expediu – um
telegrama a Rodzianko que ele detestava: dizendo que, para a salvação da pátria, o
presidente da Duma estava encarregado de constituir um novo governo. Porém, o czar
reservava-se o direito de distribuir ele próprio as pastas ministeriais dos Assuntos
estrangeiros, da Guerra, e da Marinha. Ele queria ainda negociar com “esse gente”; as
“numerosas tropas” não marchavam sobre Petrogrado?
Efectivamente, o general Ivanov chegou sem dificuldade a Tsarskoie-Selo:
claramente, os ferroviários não ousariam opor resistência ao batalhão de São Jorge. O
general confessou mais tarde que a caminho teve de fazer três ou quatro vezes
“reprimendas paternais” a simples soldados que lhe tinham falado sem maneiras: ele
fazia-os ajoelharem-se. Desde da chegada do “ditador” a Tsarskoie-Selo, as autoridade
locais vieram dizer-lhe que um confito entre o batalhão São Jorge e as tropas traziam
perigo para a família imperial. Simplesmente, as autoridades, tendo medo pelo seu lado,
aconselhavam ao “pacificador” de voltar atrás sem descargar seus vagões.
O general Ivanov colocou ao outro “ditador”, Khabalov, dez questões às quais lhe
respondeu com precisão. Reproduzimos-as integralmente – vale a pena.
Questões de Ivanov, respostas de Khabalov
1. Quais são os contingentes que continuam disciplinados e quais são os que se
dedicam à desordem?

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Tenho à minha disposição, nos navios do Almirantado, quatro companhias da
Guarda, cinco esquadrões e sotnias de cossacos, duas baterias de artilharia; as outras
tropas tomaram o lado dos revolucionários, ou então, de acordo com estes últimos, são
neutros. Há soldados e bandos que rondam pela cidade e desarmam os oficiais.
2. Quais são as gares que estão guardadas?
Todas as gares estão na posse dos revolucionários e rigorosamente guardadas por
eles.
3. Quais são os bairros da cidade onde se mantém a ordem?
Toda a cidade está na posse dos revolucionários, o telefone não funciona, e deixou
de haver ligação com os bairros.
4. Quem são as autoridades que administram esses bairros?
Não posso responder.
5. Todos os ministérios funcionam normalmente?
Os ministros foram presos pelos revolucionários.
6. Quais são as forças de polícia que você dispõe actualmente?
Nenhuma.
7. Quais são as instituições técnicas e administrativas do departamento da
Guerra que você dispõe neste momento?
Nenhuma.
8. Que quantidade de abastecimentos você dispõe?
Não disponho de nenhuma quantidade. Havia na cidade, em 25 de Fevereiro, 5 600
000 libras de farinha de reserva.
9. É grande a quantidade de armas, de peças de artilharia e de munições que os
amotinados se apoderaram?
Tudo o que depende da artilharia está nas mãos dos revolucionários.
10.Quais são os poderes militares e estado-maiores que continuam às vossas
ordens?
Pessoalmente tenho à minha disposição o chefe do estado-maior do corpo do
exército; não tenho contacto com os outros centros de comando.
Assim informado, de uma maneira pouco equivoca, sobre a situação, o general
Ivanov “consentia” a levar para trás as suas tropas, que não desembarcado, até à estação
de Dno.
“É desta maneira – concluiu o general Lokomsky, uma das principais personagens
do G. Q. G. - que nada resultou, salvo um escândalo, da missão confiada ao general
Ivanov com plenos poderes de ditador”.

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Aliás, esse escândalo teve poucas repercussões, ele afogou-se sem deixar traços na
vaga dos acontecimentos. O ditador expediu, dever-se-ia acreditar, abastecimentos aos
seus conhecimentos de Petrogrado e teve uma longa conversação com a czarina: ela
alegou a a abnegação do seu trabalho nos hospitais militares e queixou-se da ingratidão
do exército e do povo.
Entretanto chegam a Pskov, por Mohilev, notícias cada vez mas desastrosas. Os
guardas-costas da sua majestade, que tinham ficado em Petrogrado, e que cada soldado
era conhecido pelo seu nome e era alvo de favores da família imperial, apresentaram-se
na Duma do Império, pedindo autorização de prender os seus oficiais que tinham
recusado em participar no levantamento. O vice-almirante Kouroch que não via a
possibilidade de tomar medidas para dominar a rebelião em Cronstadt, dado que ele não
tem nenhum regimento à sua disposição. O almirante Nepenine telegrafava que a frota do
Báltico reconheceu o Comité provisório da Duma do Império. O chefe do corpo do exército
de Moscovo, Mrozovsky, comunicou:
“A maioria das tropas, com a artilharia, entregou-se aos revolucionários que, em
consequência, dominam a cidade; o gradonatchalnik e o seu ajudante abandonaram as
suas residências.”
Abandonar significava fugir.
O czar teve conhecimento de tudo isso no 1 de Março à noite. As conversações,
exortações sobre um governo responsável duraram até horas tardias, na noite. Enfim, o
czar, cerca de duas da manhã, deu o seu consentimento e houve, no seu círculo, um
suspiro de alívio. Assim, acreditava-se assim que o problema revolucionário tinha
recebido a sua solução, a ordem foi dada de trazer de volta para a frente os contingentes
que tinham sido dirigidos para Petrogrado para esmagar o levantamento. Rossky,
apressava-se a partir de madrugada, em comunicar a boa notícia a Rodzianko. Mas o
relógio do czar atrasava muito. Rodzianko, que, no palácio de Tauride, tinha já sido
assaltado pelos democratas, os socialistas, os soldados, os deputados operários,
respondia a Rossky:
“O que vocês contam fazer é insuficiente e é a sorte da dinastia que se joga... Em
toda a parte, as tropas tomam partido da Duma e do povo, exigindo a abdicação em favor
do herdeiro sob a regência de Miguel Alexandrovitch.”
Na verdade, as tropas nem pensavam de forma nenhuma reclamar o herdeiro, nem
Miguel Alexandrovitch. Rodzianko atribuía simplesmente à tropa e ao povo uma palavra
de ordem com a ajuda da qual a Duma esperava ainda conter a revolução. De qualquer
forma, o acordo do czar foi tardio.
“A anarquia, declarou Rodzianko, toma uma tal extensão que fui forçado, esta noite,
em nomear um governo provisório. Lamento, o manifesto veio demasiado tarde...”
Estas palavras solenes provam que o presidente da Duma tinha já encontrado tempo
de secar as lágrimas vertidas por ele sobre Golytsine. O czar leu o relato dessa conversa

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entre Rodzianko e Rossky, hesitou, releu o documento e resolveu esperar. Mas, então, os
chefes do exército deram o alarme: eles sentiam-se um pouco em causa, eles também!
O general Aleixeiev procedeu durante a noite a uma especie de plebiscito no alto
comando das diversas frentes. É bom que as revoluções modernas se realizem com a
ajuda do telegrafo, de modo que as primeiras reacções e réplicas dos detentores do poder
sejam registadas pela história na fita de papel. As conversações que tiveram lugar entre
os marchais-de-campo de sua majestade na noite do 1 e 2 Março constituem um
documento humano de um interesse incomparável. O czar deveria, sim ou não, abdicar?
Evert, general chefe da frente Oeste, só dava a sua opinião depois de conhecer a dos
generais Rossky e Brossilov. O general Sakharov, comandante na frente romena, exigia
que se lhe comunicasse previamente as conclusões de todos os outros grandes chefes.
Depois de muito fingimento, esse valente guerreiro declarou que a sua ardente ligação ao
monarca não lhe permitia, na sua consciência, aceitar a “infame proposição”; contudo,
“soluçando”, ele recomendou a abdicação ao czar, a fim “de se poupar solicitações ainda
mais abomináveis”. O general Evert explicava de modo convincente a necessidade da
capitulação:
“Tomo todas as medidas para que as informações sobre a situação actual nas
capitais não entrem no exército, a fim de evitar sarilhos que se produziriam sem dúvida.
Não existe nenhum meio de parar o curso da revolução nas capitais.”
O grão-duque Nicolau Nicolaievitch, da frente caucasiana, suplicou de joelhos ao
czar de tomar “medidas extraordinárias” e de abdicar; as mesmas súplicas foram feitas
pelos generais Aleixeiev e Brossilov, e almirante Nepenine. Quanto a Rossky, ele
formulava oralmente os mesmos pedidos. Sete grandes chefes apontavam
respeitosamente seus revolveres à cabeça do monarca adorado. Apreendendo o
momento de deixar passar a conciliação com o novo poder, temendo além disso as suas
próprias tropas, esses altos capitães, habituados a ceder posições, deram ao seu czar
generalíssimo um conselho unânime: desaparecer da cena sem resistência. Assim falava
não somente o longínquo Petrogrado contra o qual, parecia, ter sido possível enviar
tropas, mas a frente sobre a qual foi necessário retirar contingentes.
Depois de ter ouvido um relatório tão convincente, o czar determinou-se a
abandonar o trono que ele já não possuía. Um telegrama apropriado às circunstâncias foi
preparado, dirigido a Rodzianko:
“Não há sacrifício que eu não possa consentir para o verdadeiro bem e a salvação
da nossa mãe Rússia. No seguimento disso, estou disposto a abdicar em favor do meu
filho, com a condição que ele fique junto de mim até à sua maioridade, sob a regência do
meu irmão o grão-duque Miguel Alexandrovitch. Nicolau.”
Porém, mais uma vez, esse telegrama não foi enviado, porque soube-se que da
capital, dirigiam-se a Pskov os deputados Gotchkov e Cholguine. Era um novo motivo de
diferir a decisão. O czar ordenou que lhe devolvessem o telegrama. Ele temia
evidentemente fazer um mau negócio e esperava ainda notícias consoladoras, ou, mais
exactamente, esperava um milagre. Os deputados tendo chegado, Nicolau recebeu-os à

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meia-noite, entre o 2 e 3 de Março. O milagre não se deu e era impossível de se esquivar.
O czar declarou inopinadamente que não podia separar-se do seu filho (que vãs
esperanças fermentavam então na sua cabeça ?) e assinou o manifesto de abdicação em
favor do seu irmão. Assinou ao mesmo tempo oukases ao Senado, nomeando o príncipe
Lvov presidente do conselho de ministros, e Nicolau Nicolaievitch generalíssimo. As
suspeitas familiares da czarina justificaram-se assim: o execrado “Nicolacha” voltava ao
poder com os conspiradores. Ao que parece, Gotchkov considerava seriamente que a
revolução resignava-se a ter um muito augusto chefe de guerra. Nicolau Nicolaievitch, ele
também, tomou esta nomeação como algo de sólido. Procurou mesmo, durante alguns
dias, dar ordens e lançar apelos ao cumprimento do dever patriótico. Todavia, a revolução
procedeu sem dor à sua expulsão.
Para manter a aparência de um árbitro livre, o manifesto de abdicação foi datado das
15 horas, sob pretexto que esta decisão do czar tinha sido primitivamente tomada a essa
hora. Mas, com efeito, a “solução” adoptada na jornada, transmitindo o trono ao filho e
não ao irmão, tinha sido retirada com a esperança que os acontecimentos lhe fossem
favoráveis. Ninguém, portanto, não constatara abertamente o falso. O czar tentava uma
última vez salvar a cara diante dos odiosos deputados, os quais, por outro lado,
admiraram a falsificação como um acto histórico, isto é, uma impostura diante do povo. A
monarquia deixava a cena guardando o seu estilo particular. Mas os seus herdeiros
continuavam tão fiéis a eles próprios. É provável que eles considerem mesmo a sua
fraqueza como a magnanimidade do vencedor em relação ao vencido.
Abandonando um pouco o estilo impessoal, no diário íntimo Nicolau nota isto, no 2
de Março:
“Esta manhã Rossky veio e leu-me o texto de uma longa conversa que ele teve pelo
telefone com Rodzianko. A ouvi-lo, a situação em Petrogrado é tal que um governo
composto de membros da Duma do Império será impotente em fazer o que quer que seja,
porque ele é combatido pelo partido social democrata representado por um comité
operário. A minha abdicação é necessária. Rossky transmitiu o conteúdo desta conversa
ao G. Q. G. de Aleixeiev e a todos os comandantes do exército. Ao meio-dia e meia, a as
respostas foram recebidas. Para a salvação da Rússia e a manutenção da tropa na frente,
decidi dar esse passo. Consenti e um projecto de manifesto foi enviado ao G. Q. G..À
noite chegaram de Petrogrado Gotchkov e Cholguine com os quais conversei e a quem
remeti o manifesto modificado e assinado. À uma hora da manhã parti para Pskov, com o
coração pesado ; à volta de mim tudo é traição, cobardia e engano.”
A amargura de Nicolau II não era, é precio reconhecer, desprovida de motivos.
Recentemente ainda, no 28 de Fevereiro, o general Alexeiev telegrafava a todos os
comandantes em chefe sobre a frente:
“Nós temos todos a obrigação sagrada, diante do soberano e da pátria, de manter
nas tropas da frente a fidelidade ao dever e ao juramento prestado.”
Ora, dois dias após, Alexeiev convidava os mesmos chefes a faltar ao seu “dever”, a
violar seus “juramentos”. No alto comando, não se encontrou ninguém que interviesse a

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favor do seu czar. Todos se apressavam em tomar lugar no barco da revolução, contando
aí encontrar lugares confortáveis. Generais, almirantes desfaziam-se das insígnias
czaristas e ostentavam fitas vermelhas. Seguidamente, assinalou-se o caso único de um
justo: um chefe de corpo de exército morreu de uma embolia no momento de prestar novo
juramento. Mas não foi demonstrado que a ruptura cardíaca tivesse lugar no seguimento
da ofensa feita ao seu sentimento monárquico e não por qualquer outra razão. Os
dignitários civis, pela sua própria situação, não eram tidos em dar provas de coragem
como os militares. Cada um se desenvencilhava como podia.
Decididamente, o relógio da monarquia não estava coordenado com o da revolução.
A 3 de Março, na madrugada, Rossky foi novamente chamado da capital, pelo telefone.
Rodzianko e o príncipe Lvov exigiam que se retirasse o manifesto que vinha ainda
demasiado tarde. A chegada de Alexis, diziam evasivamente os novos mestres do poder,
poderia ser aceite por quem? - mas a entronização de Miguel é absolutamente
inaceitável. Rossky, não sem ser cáustico, lamentou saber que os deputados da Duma
chegados na véspera não estavam suficientemente informados sobre o objectivo da sua
viagem. Mas os deputados encontraram também a sua justificação:
“De uma forma inesperada para toda a gente eclodiu um motinaria de soldados tal
que nunca vi coisa igual”,
explicou o gentil-homem a Rossky, como se ele não tivesse feito outra coisa, toda a
sua vida, senão observar motinarias de soldados.
“Proclamar Miguel emperador, seria deitar óleo no fogo e então começaria a
implacável exterminação de tudo o que pode ser exterminado.”
Eis que voltaram, sacudidos, curvados, torcidos!
O corpo de generais encaixa ainda sem nada dizer esta nova “pretensão infâme” da
revolução. Somente, Alexeiev alivia um pouco a sua consciência telegrafando ao chefes
do exército:
“O presidente da Duma sofre a pressão dos partidos de esquerda e dos deputados
operários; nas comunicações de Rodzianko, não há franqueza, nem sinceridade.”
Somente, a sinceridade faltava aos generais nessas horas.
Mas o czar mudou de opinião mais uma vez. Chegado de Pskov a Mohilev, ele
remeteu ao seu antigo chefe do estado-maior Aleixeiev uma folha de papel a transmitir a
Petrogrado: declarava consentir deixar o trono ao seu filho. Evidentemente, esta
combinação lhe parecia finalmente mais sedutora. Aleixeiev, segundo a narração de
Denikine, leva o telegrama e... não o envia. Ele considerava que já chegavam os dois
manifestos precedentes dirigidos ao exército e ao país. A incoerência provinha do facto
que não somente o czar e os seus conselheiros, mas também os liberais da Duma
pensavam mais lentamente que a revolução.
Antes de abandonar definitivamente Mohilev, no 8 de Março, o czar, que,
formalmente, se encontrava já preso, redigiu um apelo às tropas que terminava assim:

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“Quem quer que seja que pense neste momento na paz, alguém que a deseje é um
cobarde, um traidor à pátria.”
Era uma tentativa feita, instigada por alguém, para desarmar os liberais que o
acusavam de sentimentos germanófilos. Esta tentativa falhou: ninguém se atreveu a
publicar o apelo.
Assim se terminava um reino que, de uma ponta à outra, tinha sido um
encadeamento de descontentamentos, de infelicidades, de calamidades e de actos
criminosos, desde da catástrofe no terreno da Khodynka, no dia do coroamento,
passando pelo fuzilamento dirigido contra os grevistas e os camponeses revoltados, pela
guerra russo-japonesa, pelo impiedoso esmagamento da Revolução de 1905, pelas
numerosas execuções, expedições punitivas, progroms nacionais, para acabar pela louca
e infâme participação da Rússia na louca e infâme guerra mundial.
Quando chegou a Tsarskoie-Selo, onde ele foi internado com a sua família no
palácio, o czar teria dito em voz baixa, se acreditarmos em Vyroubova:
“Não há justiça entre os homens.”
Ora, essas próprias palavras testemunhavam de forma irrefutável a existência de
uma justiça da história que, por ser tardia, não é menos real.
A semelhança do último casal dos Romanov e do casal real francês na época da
grande Revolução saltou aos olhos. Ela já foi notada, na literatura, mas brevemente e
sem deduções. Ora ela não é absolutamente fortuita como parece à primeira vista, e ela
dá preciosa matéria para conclusões.
A vinte e cinco lustros de distância entre eles, o czar e o rei se apresentam,em certos
momentos, como dois actores que preencheram um só e mesmo papel. Uma traição
passiva, expectante mas vindicativa, caracterizava esses dois homens, com a diferença
que, do lado de Luís, a falsidade se dissimulava sob a duvidosa bonomia, enquanto com
Nicolau ela parecia afável. Um e outro deram a impressão de homens a quem o ofício
estava a cargo e que, todavia, não consentiam ceder a menor parcela dos seus direitos,
que eles não sabiam dar uso. Os seus diários íntimos, análogos mesmo no estilo, ou por
falta de estilo, mostravam igualmente uma sufocante vacuidade espiritual.
A austríaca e a alemã, por outro lado, constituíam uma evidente simetria. As duas
soberanas são maiores que os seus soberanos não somente pela estatura, mas pela
moral. Maria Antonieta era menos piedosa que Alexandra Fedorovna, e distingua-se dela
pela sua paixão dos divertimentos. Mas um e outra desprezavam igualmente o povo, não
toleravam a ideia de concessões, não acreditavam na virilidade dos respectivos maridos,
olhavam-nos altivamente, Maria Antonieta com uma nuança de desprezo, Alexandra com
piedade.
Quando os autores de Memórias que, em seu tempo, tiveram intimidade com a Corte
de Petersburgo tentam mostrar-nos que Nicolau II se ele tivesse sido um simples
particular, tivesse deixado boas lembranças, eles reproduziriam simplesmente clichés de

75
julgamentos bem intencionados sobre Luís XVI, não nos enriquecendo em relação à
história nem ao conhecimento da natureza humana.
Já se leu que o príncipe Lvov, no momento mais alto dos trágicos acontecimentos da
primeira Revolução, indignou-se em encontrar não um czar desanimado, mas “um tipo
alegre, desenvolto, em camisa de cor framboesa”. Sem o saber, o príncipe reproduzia
simplesmente um relatório do governador Morris, enviado a Washington, em 1790, sobre
Luís XVI:
“Que esperar de um homem que, na situação, come bem, bebe bem, dorme bem e
sabe rir ; que esperar desse bravo rapaz que é mais alegre que ninguém?”
Quando Alexandra Fedorovna, três meses antes da queda da monarquia, vaticina
(“Tudo se arranja pelo melhor, os sonhos do nosso Amigo, são de tal forma significativos”)
ela identifica-se simplesmente a Maria Antonieta que escrevia, um mês antes da queda do
poder real:
“Sinto-me cheia de entusiasmo e qualquer coisa me diz que, brevemente, nós
seremos felizes e fora de perigo.”
Afogando-se, elas têm todas as duas sonhos iridescentes.
Certos traços de parecença são, naturalmente, devidos ao acaso e não têm, na
história, senão um interesse anedótico. Infinitamente mais importantes são os traços
implantados ou directamente impostos pelas todo-poderosas circunstâncias, que deitam
uma luz viva sobre as relações reciprocas do indivíduo e dos factores objectivos da
história.
“Ele não sabia querer e eis o traço principal do seu carácter”, declara, sobre Luís, um
historiador reaccionário francês.
Parecia que foi escrito sobre Nicolau. Um e outro eram incapazes de querer. Mas
todos os dois eram capazes de não querer. Na verdade, que teriam bem podido “querer”
os últimos representantes de uma causa histórica irreversivelmente perdida?
“Habitualmente, ele escutava, sorria; raramente, tomava uma decisão. Começava
por dizer: não”.
Aqui de quem se trata? Ainda de Capet. Mas, nesse caso, a maneira de agir de
Nicolau foi constantemente um plagiado. Todos dois vão pelo abismo, “a coroa cai-lhe nos
olhos”. Mas é mais fácil caminhar de olhos abertos para o abismo de forma inevitável?
Que mudança teria havido, na verdade, se eles tivessem a coroa sobre a nuca?
Poder-se-ia recomendar aos profissionais da psicologia em estabelecer uma
crestomatia das simétricas apreciações de Nicolau e Luís, de Alexandra e de Maria
Antonieta, assim como dos seus parentes sobre eles. Não são os materiais que faltam e o
resultado seria um testemunho histórico dos mais edificantes a favor da psicologia
materialista: excitações da mesma natureza (bem entendido, não idênticas, longe disso),
nas condições similares, apelam aos mesmos reflexos. Mais o excitante é poderoso, mais
rapidamente ele toma vantagem sobre as particularidades individuais. Às cócegas as

76
pessoas reagem diferentemente; à prova do ferro em brasa todos reagem da mesma
maneira. Tal como o martelo-pilão transforma indiferentemente em lamela uma bola ou
um cubo, assim, sob as fortes pancadas e implacáveis dos acontecimentos, os que
resistem são esmagados, perdendo as arestas da sua “individualidade”.
Luís e Nicolau eram os últimos rebentos de dinastias cuja vida foi tempestuosa. Num
e noutro, um certo equilíbrio, calma, “alegria” nos minutos difíceis exprimiam a indigencia
das suas forças íntimas de pessoas bem educadas, a fraqueza das suas distinções
nervosas, a miséria dos seus recursos espirituais. Moralmente castrados, todos os dois,
absolutamente desprovidos de imaginação e de faculdades criadoras, não tiveram
bastante inteligência senão mesmo antes de sentir a sua trivialidade e eles alimentavam
uma hostilidade ciumenta em relação a tudo que é talentoso e considerável. Todos os dois
tiveram que governar em presença de profundas crises interiores e do despertar
revolucionário das populações. Todos os dois defenderam-se contra a invasão de ideias
novas e a ascensão de forças inimigas. A resolução, a hipocrisia, a falsidade foram neles
dois a expressão não tanto Duma fraqueza pessoal mas da completa impossibilidade em
manterem-se em posições herdadas.
Mas, do lado das esposas, como se passava? Alexandra, ainda mais que Maria
Antonieta, tinha sido levada à cimeira dos sonhos de uma princesa, dado que ela casou,
simples provinciana do ducado de Hesse, o monarca absoluto de um poderoso país.
Todas as duas tomaram consciência máxima das suas altas missões: Maria Antonieta
num sentido mais frívola; Alexandra num espírito de hipocrisia protestante transposta em
esloveno ortodoxo. As desgraças do reino e o descontentamento crescente do povo
destruíam sem piedade o mudo da fantasia que tinham construido mioleiras presunçosas
que não eram, finalmente, senão mioleiras de mulheres pretensiosas e estúpidas. Daí
uma execração crescente, um ódio devorador em relação a um povo estrangeiro que não
se inclinava diante delas; daí a aversão pelos ministros que tinham em conta de certa
forma o mundo inimigo, isto é do país; daí o isolamento dessas mulheres na sua própria
Corte, e seus perpétuas queixas contra o marido que não tinha justificado as esperanças
suscitadas pelo noivo.
Os historiadores e os biógrafos com tendências psicológicas procuram
frequentemente e descobrem o elemento puramente individual, ocasional, onde se
reflectem, através das individualidades, as grandes forças históricas. É uma ilusão de
óptica análoga à das cortesãs que consideravam o último czar da Rússia como um
“falhado” de nascimento. Ele próprio acreditava ter nascido sob uma má estrela. Na
realidade, os seus infortúnios provinham de uma contradição entre os velhos objectivos
que lhe tinham deixado os seus antepassados e as novas condições históricas nas quais
ele encontrara lugar. Quando os Antigos diziam que Jupiter, quando quer tomar alguém,
tira-lhe primeiro a razão, eles resumiam, sob uma forma supersticiosa, profundas
observações de história. Quando Goethe fala da razão que se torna um non-sens ,
Vernunft wird Unsinn, nós rencontramos a mesma ideia de um Jupiter impessoal da
dialéctica histórica que priva da razão as instituições prescritas e condena os seus
defensores a toda a má sorte. Os textos dos papeis de Romanov e de Capet eram
estabelecidos com antecedência pelo desenvolvimento do drama histórico. Só restava

77
aos actores matizar a interpretação. Os dissabores de Nicolau como os de Luís
provinham não do seu horóscopo pessoal, mas do horóscopo histórico de uma monarquia
de casta burocrática. Todos os dois eram, antes de tudo, rebentos do absolutismo. A sua
nulidade moral, resultado da sua situação de epígonos de dinastias, dava a esta posição
um carácter particularmente sinistro.
Pode-se objectar que se Alexandre III tinha bebido menos, ele teria tido maior
longevidade ; a revolução encontrou um czar de um outro temperamento e sem
associação simétrica com Luís XVI não teria sido possível. Esta objecção não atingiu
portanto em nada o que foi citado acima. Nós não temos de forma nenhuma a intenção de
negar a importância do elemento individual no mecanismo do processo histórico, nem o
significado do fortuito no individual. Uma personalidade histórica deve ser somente
considerada, com todas as suas particularidades, não como uma simples soma de
aspectos psicológicos, mas como uma realidade viva, saída das condições sociais bem
definidas e reagindo a estas últimas. Assim como uma rosa não deixa de dar perfume
quando um naturalista indicou quais são os ingredientes que ela obtém do solo e da
atmosfera, a nudez das raízes sociais de uma individualidade não lhe retira nem o seu
perfume nem o seu fedor.
Se considerar-mos, como é dito mais acima, que Alexandre III pôde atingir uma
idade avançada, o mesmo problema esclarece-o por outro lado. É permitido conjecturar
que em 1904 Alexandre III não se comprometeu numa guerra com o Japão. Por esse
facto, a primeira Revolução tinha sido diferida. Até quando? É possível que a “Revolução
de 1905”, isto é um primeiro teste de forças, primeira racha no sistema do absolutismo, foi
então o prelúdio da segunda revolução, republicana, e a terceira, proletária. A este
respeito, só se pode suposições mais ou menos interessantes. É incontestável, de
qualquer forma, que a revolução não foi o resultado do carácter de Nicolau III e que
Alexandre III não estava mas habilitado a resolver os problemas. Basta lembrar que
nunca, em parte alguma, a transição do regime feudal ao regime burguês não se efectuou
sem violentos choques. Ontem ainda, nós observámos na China; hoje, constatamos na
Índia. O que se pode dizer é que tal ou tal política da monarquia, tal ou tal monarca
podiam aproximar ou afastar a revolução, e dar-lhe, superficialmente, uma especie de
carimbo.
Tal foi a obstinação enraivecida e impotente do czarismo ao tentar manter-se nos
seus últimos meses, suas últimas semanas, seus últimos dias, quando ele tinha
irremediavelmente perdido a partida ! Se houvesse em Nicolau a insuficiência da vontade,
a compensação encontrou-se no lado da czarina. Rasputine era o instrumento de uma
clique que lutava com determinação pela sua própria salvação. Mesmo nesse quadro
estreito, a personalidade do czar é absorvida pelo grupo no qual se concentra o passado
e se manifestam as últimas convulsões. A “política” dos dirigentes mediocres de Tsarskoi-
Selo, colocados face à revolução, foram reflexos de uma fera perseguida e enfraquecida.
Se, na estepe, um automóvel persegue velozmente um lobo, o animal acabará por se
cansar e deitar-se-a esgotado. Mas tente-se meter-lhe uma coleira; ele procurará rasgar-
vos em pedaços, ou pelo menos ferir-vos. Aliás, que lhe poderia ele fazer, nessas
condições ?

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Os liberais consideravam que havia qualquer coisa a fazer. Em vez de procurar no
momento oportuno um acordo com a burguesia censitária e de evitar assim a revolução
(tal era a acusação do liberalismo contra o último czar) Nicolau recusava obstinadamente
qualquer concessão, e mesmo, nos últimos dias, sob a faca fatal, quando cada minuto era
precioso, hesitava, negociava com o destino, deixava escapar as últimas possibilidades.
Tudo isso parece convincente. Mas como é lamentável que o liberalismo, que conhecia
tão infalíveis remédios para salvar a monarquia, não tinha encontrado meios de se salvar
ele próprio !
Seria absurdo afirmar que o czarismo nunca fez, em qualquer circunstância,
concessões. Ele cedeu todas as vezes que se viu obrigado para a sua salvaguarda. Após
a desastrosa guerra de Crimeia, Alexandre II procedeu a uma meia-emancipação dos
camponeses e a um certo número de reformas liberais nos domínios dos zemstvos, dos
tribunais, da imprensa, do ensino, etc. O próprio czar exprimiu então o pensamento sobre
as reformas: emancipar os camponeses de cima para que os de baixo não se
emancipem. Sob a pressão da primeira revolução, Nicolau cedeu uma metade de
constituição. Stolypine tomou a comuna rural para alargar a arena das forças capitalistas.
Todas essas reformas não tinham, todavia, sentido senão na medida onde as concessões
parciais salvavam o principal, as bases de uma sociedade de castas e da própria
monarquia. Quando as consequências das reformas começaram a desferrar para além
desses limites, a monarquia recuava inevitavelmente. Alexandre II, na segunda metade do
seu reinado, escamoteava as reformas da primeira metade. Alexandre III levou mais longe
as contra-reformas. Nicolau II bateu em retirada em Outubro de 1905, diante da
revolução, seguidamente pronunciou a dissolução das Dumas que ele próprio tinha
criado, e, assim que a revolução enfraqueceu, fez um golpe de Estado. Em três quartos
de século, se contarmos a partir das reformas de Alexandre II, desenrolou-se, seja
clandestinamente, seja abertamente, a luta de forças históricas superiores às qualidades
individuais dos czares, que se termina pela queda da monarquia. É somente nos quadros
históricos desse processo que se pode situar os czars, seus caracteres, suas “biografias”.
Mesmo o mais autoritário dos déspotas parece muito pouco à individualidade “livre”
que deixaria a sua marca, à sua vontade, sobre os acontecimentos. É sempre o agente
coroado das classes privilegiadas que forma a sociedade à sua imagem. Enquanto essas
classes não esgotarem a sua missão, a monarquia continua forte e segura dela própria.
Ela possui ainda um aparelho seguro de poder, uma escolha ilimitada de executantes,
porque os homens mais capazes ainda não ganharam o campo do adversário. Nesse
caso, o monarca, pessoalmente ou por intermédio de um favorito, pode tornar-se o
realizador de uma grande tarefa histórica, nesse sentido progressista. Passa-se de outra
forma quando o sol da velha sociedade cai no poente; as classes privilegiadas,
organizadoras da vida nacional, se transformam em excrescências parasitárias:
despojadas das suas funções directoras, elas perdem consciência da sua missão e a
certeza nas suas próprias forças; do descontentamento que elas têm delas próprias, elas
fazem o descontentamento da monarquia; a dinastia isola-se; o círculo dos que lhe
continuam fiéis até ao fim diminui; o seu nível baixa; porém, os perigos crescem; novas
forças pressionam; a monarquia perde toda a capacidade de iniciativa criadora; ela

79
continua na defensiva, debate-se, recua, os seus gestes tomam o automatismo dos mais
simples reflexos. A esta sorte não escapou o despotismo meio asiático dos Romanov.
Se se representar o czarismo na sua agonia, como, digamos, um corte vertical,
Nicolau seria o eixo de uma clique cujas bases repousavam sobre um passado
irremediavelmente condenado. Em corte horizontal, na história da monarquia, Nicolau era
o último elo da cadeia dinástica. Os seus mais recentes predecessores, que tinham
pertencido à colectividade da família, de casta, de burocracia, somente mais extensiva,
tentaram aplicar diversas medidas, diversos procedimentos de governo, para proteger o
antigo regime social contra os destinos que o ameaçavam e, contudo, legaram a Nicolau
II um império caótico, que trazia já a revolução nas suas entranhas. Se Nicolau tinha tido
escolha, teria sido entre diferentes caminhos de perdição.
Os liberais sonhavam com uma monarquia de tipo britânico. Mas o parlamentarismo
à beira Tamisa fosse ele o fruto de uma pacífica evolução ou o resultado da “livre”
previdência do monarca? Não, o parlamentarismo estabeleceu-se aí como resultado de
uma luta que tinha durado séculos e na qual um rei tinha deixado a sua cabeça numa
encruzilhada.
O paralelo histórico e a psicologia esboçada acima entre os Romanov e os Capet
pode aliás muito bem ser relacionada com o casal real que se encontrava à cabeça da
Grande-Bretanha na época da primeira revolução. Carlos I representava, no fundo, a
mesma combinação de aspectos essenciais que os memorialistas e os historiadores
atribuem com mais ou menos razão a Luís XVI e a Nicolau II.
“Carlos continuou passivo – escreveu Montégut – cedia quando lhe era impossível
resistir, ainda que contra a sua vontade, mas recorrendo à malícia, e não soube conciliar-
se nem com popularidade, nem com a confiança.”
“Ele não era obtuso – disse de Carlos Stuart outro historiador – mas faltava-lhe
firmeza...O papel de uma malvada fatalidade jogou, em relação a ele, pela sua mulher,
Henriette, uma francesa, irmã de Luís XIII, que era ainda mais convencida que Carlos das
ideias absolutistas...”
Não insistamos sobre os detalhes desse terceiro casal real – o primeiro
cronológicamente – que foi esmagado por uma revolução nacional. Notemos somente que
na Inglaterra também a aversão era personalizada pela rainha, francesa e papista, que
era acusada de intrigas com Roma, de relações clandestinas com os irlandeses
revoltados e de tramas junto da Corte francesa.
Pelo menos a Inglaterra tinha séculos de descanso à sua disposição. Ela foi pioneira
da civilização burguesa. Não sofreu opressão de outras nações: pelo contrário, ela
impunha cada vez mais a sua dominação no exterior. Ela explorava o mundo inteiro. Isso
atenuava os antagonismos interiores, condensava o espírito conservador, contribuía à
multiplicação e à estabilidade das camadas de exploradores parasitas sob formas de
landlords, da monarquia, da Câmara Alta e da Igreja do Estado. Graças aos privilégios
históricos excepcionais da Inglaterra burguesa no seu desenvolvimento, o espírito
conservador passou com flexibilidade das instituições aos costumes. É o que suscita

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ainda hoje a admiração dos filisteus do continente, gente tal que o professor Miliokov ou o
austro-marxista Otto Bauer. Mas, precisamente no presente, quando a Inglaterra,
incomodada no mundo inteiro, dissipa os últimos recursos dos seus privilégios de outrora,
o seu espírito conservador perde a sua elasticidade e mesmo, na pessoa dos trabalhistas
torna-se uma reacção colérica. Em frente da revolução da Índia, o “socialista” MacDonald
não encontra outros métodos senãos os que se servia Nicolau II contra a revolução russa.
É preciso ser cego para não ver que a Grande-Bretanha encaminha-se para formidáveis
tremores revolucionários nos quais desaparecerão definitivamente os restos do seu
espírito conservador, os restos da sua potência mondial e da sua actual máquina
governamental. MacDonald prepara esses tremores de forma especializada tal como
Nicolau II e não é menos cego que este último. Temos aí, constatemos, uma bastante boa
ilustração do papel de uma personalidade “livre” na história !
Mas como estabeleceu a Rússia, de desenvolvimento atrasado, a última de todas as
nações europeias, sobre bases económicas medíocres, teria podido elaborar um “espírito
conservador flexível” em formas sociais – sem dúvida especialmente para as
necessidades dos professores liberais e da sua sombra de esquerda, os socialistas
reformistas ? A Rússia ficou atrasada durante muito tempo, e, quando o imperialismo
mundial a prendeu nas suas mordentes, ela viu-se forçada a viver a sua história política
com abreviações consideráveis. Se Nicolau tivesse feito boa recepção ao liberalismo e
substituido Stürmer por Miliokov, a marcha dos acontecimentos teria sido pouco diferente,
mas ela teria sida no fundo a mesma. Porque é o caminho que seguiu Luís XVI, na
segunda etapa da Revolução, ao chamar a Gironde ao poder, o que não salvou da
guilhotina nem ele próprio, nem os Girondins. Os antagonismos sociais acumulados
deviam explodir, e, após a explosão, limpar o lugar. Diante da pressão das massas que
manifestavam em fim, abertamente, as suas queixas, calamidades, vexações, paixões,
esperanças, ilusões e reivindicações, as combinações superficiais da monarquia com o
liberalismo só tinham um interesse episódico e não podiam de forma nenhuma influenciar
senão a ordem das sucessões dos acontecimentos, talvez também o número dos actos
desempenhados; mas de forma nenhuma o desenvolvimento geral do drama, e ainda
menos a terrível conclusão.

81
Cinco Dias: do 23 ao 27 Fevereiro 1917
O dia 23 de Fevereiro, era o “Dia internacional das Mulheres”. Planeava-se, nos
círculos da social-democracia, dar a esse dia o seu significado por meios de uso corrente:
reuniões, discursos, panfletos. Ainda na véspera, ninguém pensaria que este “Dia das
Mulheres” poderia inaugurar a revolução. Nenhuma organização preconizou a greve para
esse dia. Ainda mais, uma organização bolchevique, e das mais combativas, o comité de
bairro essencialmente operário de Vyborg, desaconselhava qualquer greve. O estado de
espírito das massas segundo os testemunhos de Kaiorov, um dos chefes operários do
bairro, estava muito tenso e cada greve ameaçava tornar-se em confrontação aberta. Mas
o comité considerava que o momento de iniciar as hostilidades não tinha chegado – o
partido ainda não era suficientemente forte e a ligação entre operários e soldados sendo
demasiado insuficiente – decidiu portanto de não apelar à greve, mas de preparar-se para
a acção revolucionária para uma data indeterminada. Tal foi a linha preconizada pelo
Comité na véspera do dia 23, e parecia que todos a tinham adoptado. Mas no dia
seguinte pela manhã, apesar de todas as directivas, os operários do têxtil abandonaram o
trabalho em várias fábricas e enviaram delegados aos metalúrgicos para lhes pedir apoio
na greve. Foi de “contra-vontade” escreve Kaiorov, que os bolcheviques marcharam
seguidos pelos operários mencheviques e socialistas-revolucionários. Mas no momento
que se tratava de uma greve de massa, foi preciso comprometer toda a gente a descer à
rua e tomar a cabeça do movimento: tal foi a resolução que propôs Kairov, e o comité de
Vyborg viu-se na obrigação de apoiar”. A ideia de uma manifestação amadurecia há muito
tempo entre os operários, mas, nesse momento, ninguém fazia ideia do que é que
resultaria”. Tomemos nota do testemunho de um participante, muito importante para a
compreensão do mecanismo dos acontecimentos.
Acreditava-se antecipadamente que, sem a menor dúvida, em caso de
manifestação, as tropas deveriam sair dos quartéis e opor-se-iam aos operários. Que iria
passar-se? Estava-se em tempo de guerra, as autoridades não estavam dispostas a
brincar. Mas, por outro lado, o soldado da “reserva”, nesses dias, não era mais aquele
que, outrora se conheceu nos quadros do “activo”. Era verdadeiramente temível ? Sobre
isso, pensava-se muito nos círculos revolucionários, mas sobretudo abstractamente,
porque ninguém, absolutamente ninguém – pode afirmar categóricamente segundo todos
os documentos recolhidos – pensava ainda que o dia 23 de Fevereiro marcaria o início de
uma ofensiva decisiva contra o absolutismo. Tratava-se somente de uma manifestação
cujas perspectivas eram indeterminadas e, de qualquer modo, muito limitadas.
De facto, estabeleceu-se que a Revolução de Fevereiro foi desencadeada por
elementos da base que ultrapassaram a oposição das suas próprias organizações e que a
iniciativa foi espontaneamente tomada por um contingente do proletariado explorado e
oprimido mais que todos os outros – as trabalhadoras do têxtil, cujo número, deveria-se
pensar, devia-se contar muitas mulheres soldados. A última impulsão veio das
intermináveis sessões de espera às portas das padarias. O número de grevistas,
mulheres e homens foi, nesse dia, cerca de 90 000. As disposições combativas
traduziram-se em manifestações, comícios, confrontações com a polícia. O movimento

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desenvolveu-se primeiro no bairro de Vyborg, onde se encontram as grandes
companhias, e ganhou seguidamente o bairro dito “de Petersburgo”. Nas outras partes da
cidade, segundo as relações da Segurança, não houve greves, nem manifestações.
Nesse dia, as forças da polícia foram completadas com destacamentos de tropas,
aparentemente pouco numerosas, mas não houve confrontações. Uma multidão de
mulheres, que não eram todas operárias, dirigiu-se para a Duma municipal para reclamar
pão. Era como pedir leite ao bode. Em diversos bairros apareceram bandeiras vermelhas
cujas inscrições atestavam que os trabalhadores exigiam pão, mas não queria mais
autocracia nem guerra. O “Dia das Mulheres” tinha conseguido, ele estava cheio de
entusiasmo e não tinha causado vítimas. Mas era um dia difícil e à noite ainda ninguém
duvidava.
No dia seguinte, o movimento, longe de se acalmar, redobrou em recrudescência:
cerca de metade dos operários industriais de Petrogrado fazem greve no dia 24 de
Fevereiro. Os trabalhadores apresentaram-se a partir da manhã nas suas fábricas e, em
vez de iniciarem o trabalho fizeram comícios, depois disso dirigiram-se para a baixa da
cidade. Novos bairros, novos grupos da população foram levados no movimento. A
palavra de ordem “Pão” foi afastada ou coberta por outras formulas: “Abaixo a autocracia!”
e “Abaixo a guerra!” As manifestações não param na Perspectiva Nevsky: primeiro as
massas compactas de operários cantando hinos revolucionários; depois uma multidão
disparata de citadinos, de bonés azuis de estudantes. “O público nos passeios nos
testemunhava simpatia e, nas janelas de vários hospitais, soldados nos saudaram
acenando com o que lhe vinha à mão”. Eram numerosos os que compreendiam o alcance
desses gestes de simpatia dos soldados doentes em relação aos manifestantes ?
Todavia, os cossacos atacavam a multidão, ainda sem brutalidade; seus cavalos estavam
cobertos de espuma; os manifestantes jogavam-se de lado e de outro, depois tornavam a
formar grupos compactos.
A multidão nada temia. O rumor corria de boca em boca: “Os cossacos prometeram
não atirar.” Era claro que os operários tinham conseguido entender-se com um certo
número de cossacos. Um pouco mais tarde, portanto, os dragões surgiram meio bêbados,
lançando injúrias e furando a multidão, golpeando as cabeças com lanças. Os
manifestantes aguentaram com todas as suas forças, com coragem. “Eles não
dispararão”. E, ele não dispararam.
Um senador liberal que observou, nas ruas, os tróleis imobilizados (mas isso não se
passava no dia seguinte?), alguns com os vidros partidos, outros deitados de lado sobre
os carris, evocou as jornadas de Julho de 1914, na véspera da guerra. “Acreditava-se ver
renovar-se a tentativa de outrora.” O senador via com justeza, havia seguramente um laço
de continuidade: a história recolhia as pontas do fio revolucionário quebrados pela guerra
e reatava-os.
Durante todo esse dia, a multidão circulava de bairro em bairro, violentamente
perseguidos pela polícia, contida e empurrada pela cavalaria e por certos destacamentos
de infantaria. Gritava-se “Abaixo a polícia!” mas, cada vez com mais frequência,
lançavam-se urras dirigidas aos cossacos. Foi significativo. A multidão testemunhava à

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polícia um ódio feroz. Os agentes a cavalo eram acolhidos com assobios, pedras, gelo.
Diferente foi o contacto dos operários com os soldados. À volta dos quartéis, junto das
sentinelas, das patrulhas e dos cordões de barragem, trabalhadores e trabalhadoras
juntavam-se, conversando amigavelmente com a tropa. Foi uma nova etapa devido ao
crescimento da greve e da confrontação dos operários com o exército. Esta etapa é
inevitável em toda a revolução. Mas ela parece sempre inédita e, com efeito, apresenta-se
cada vez sob um novo aspecto: os que leram ou escreveram sobre o assunto não se dão
conta do acontecimento quando ele se produz.
A Duma do Império, contava-se, nesse dia, que uma formidável multidão cobria a
praça Znamenskaia, toda a Perspectiva Nevsky e todas as ruas vizinhas, e que se
constatava um fenómeno absolutamente insólito: a multidão revolucionária, e não
patriótica, aclamava os cossacos e os regimentos que marchavam ao som de música.
Como um deputado perguntava o que isso significava, um transeunte, respondeu-lhe:
“Um policia agrediu uma mulher com uma nagaika; os cossacos intrometeram-se e
perseguiram a polícia”. É possível que as coisas não se tenham passado assim, ninguém
estava em condições de confirmar. Mas a multidão acreditava que foi assim mesmo, que
a coisa foi possível. Crença que não caía do céu, mas que vinha da experiência já feita e
que, por consequência, devia ser uma aposta da vitória.
Os operários da fábrica Erikson, que conta entre as mais modernas do bairro de
Vyborg, depois de se terem juntado na manhã, avançaram em massa, cerca de 2 500
homens, na Perspectiva Sampsonovky, e, numa passagem estreita caíram sobre os
cossacos. Empurrando seus cavalos, os oficiais cortaram a multidão. Atrás deles, sobre
toda a largura da calçada, trotavam os cossacos. Momento decisivo ! Mas os cavaleiros
passaram cuidadosamente, numa longa fila, pelo corredor que acabavam de lhes abrir os
oficiais”. Alguns dentre eles sorriam, escreve Kaiorov, e um deles piscou o olho, como
amigo, do lado dos operários”. Significava qualquer coisa, esse piscar de olhos! Os
operários encorajaram-se, num espírito de simpatia e não de hostilidade em relação dos
cossacos que eles tinha ligeiramente contaminado. O homem que tinha piscado o olho
teve imitadores. A despeito das novas tentativas dos oficiais, os cossacos, sem transgredir
abertamente a disciplina, não perseguiram a multidão com demasiada insistência e
passaram somente através dela. Assim foi três ou quatro vezes e as duas partes opostas
ainda se reaproximaram mais. Os cossacos respondiam individualmente às questões dos
operários e tiveram mesmo com eles breves conversas. Da disciplina, só restava as finas
aparências e as mais ténues, com o perigo de uma quebra iminente. Os oficiais
apressaram-se a afastar as tropas da multidão e, renunciando à ideia de dispersar os
operários, dispuseram as tropas em barragem de uma rua para impedir os manifestantes
de alcançar o centro. Foi tempo perdido: colocados e de guarda, os cossacos não se
opuseram porém, aos “mergulhos” que faziam os operários entre as pernas dos cavalos.
A revolução não escolhia os seus caminhos à vontade: ao princípio da sua marcha à
vitória, ela passava sob o ventre de um cavalo cossaco. Episódio notável! Notável
também o golpe de vista do narrador que fixou todas estas peripécias. Nada de espantar,
o contador foi um dirigente, ele tinha atrás dele mais de dois mil homens: o olho do chefe
que se mantém vigilante contra as nagaikas ou as balas do inimigo é aguçado.

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A mudança de opinião no exército parece ter-se manifestado primeiro nos cossacos,
perpétuos fazedores da repressão e de expedições punitivas. Isso não significa portanto
que os cossacos tenham sido mais revolucionários que os outros. Ao contrário, esses
sólidos proprietários, montados nos seus próprios cavalos, orgulhosos das
particularidades da sua própria casta, tratando com um certo desdenho os simples
camponeses, desconfiados em relação aos operários, eram imbuídos de um forte espírito
conservador. Mas é precisamente a esse título que as mudanças provocadas pela guerra
pareciam ser mais vivas neles. E, por outro lado, não era precisamente eles que eram
puxados por todos os lados, enviando-os constantemente em expedição, lançando-os
contra o povo, enervando-os, e que, foram os primeiros postos à prova ? Eles estavam
“fartos”, queriam voltar aos seus lares e piscando o olho: “Façam à vossa vontade, se
forem capazes, nós não vos estorvaremos.” Porém, só existiam sintomas, aliás muito
significativos. O exército está ainda armado, lidado pela disciplina, e os fios condutores
encontram-se ainda nas mãos da monarquia. As massas operárias estão desprovidas de
armas. Seus dirigentes nem mesmo sonham ainda à conclusão decisiva.
Nesse dia, em conselho de ministros, a ordem do dia comportava, entre outras
questões, a dos sarilhos na capital. A greve ? Manifestações ? Já se tinham visto outras...
Tudo é previsto, ordens são dadas. Passa-se simplesmente à expedição dos assuntos
correntes.
Mas quais eram então as ordens ? Ainda que os dias 23 e 24, vinte e oito polícias
tivessem sido agredidos – sedutora exactidão da estatística ! - o general Khabalov, chefe
da região militar de Petrogrado, investido de poderes quase ditatoriais, não recorria ainda
ao fuzilamento. Não por bondade de alma ! Mas tudo tinha sido previsto e premeditado;
os tiros seriam disparados na sua hora.
Não houve revolução inesperada senão no momento que ela se desencadeou. Em
suma, os dois polos contrários, o dos revolucionários e o do governo, tinham-se
preparado cuidadosamente há anos, desde sempre. No que diz respeito aos
bolcheviques, toda a sua actividade desde 1905 tinha consistido unicamente nesses
preparativos. Mas a obra do governo tinha sido, ela também, em muita boa parte,
preparar com antecedência o esmagar da segunda revolução que se anunciava. Nesse
domínio, o trabalho do governo tomou, a partir de Outono de 1916, um carácter
particularmente metódico. Uma comissão presidida por Khabalov tinha acabado, cerca de
meados de Janeiro de 1917, a elaboração minuciosa de um plano para esmagar a nova
insurreição. A capital tinha sido dividida em seis sectores administrados por “mestres da
polícia” e subdivididos em bairros. À cabeça de todas as forças armadas tinha-se
colocado o general Tchebykine, comandante em chefe das reservas da Guarda. Os
regimentos foram repartidos nos bairros. Em cada um dos seis principais sectores, a
polícia, a guarda e o exército eram agrupados sob o comando de oficiais do estado-maior
especialmente designados. A cavalaria cossaca ficava à disposição de Tchebikine em
pessoa, para as operações de maior envergadura. O método de repressão era ordenado
da maneira seguinte: fazer-se-ia primeiro marchar a polícia; seguidamente, lançar-se-iam
os cossacos com as sua nagaikas; no fim, meter-se-iam em linha as tropas com seus
fuzis e metralhadoras. Foi precisamente esse plano, aplicação alargada da experiência de

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1905, que foi aplicado em Fevereiro. A infelicidade não estava num defeito da previdência,
nem numa concepção viciosa, mas no material humano. Foi aí que a arma devia se
encravar.
Formalmente, o plano contava sobre o conjunto da guarnição que contava até cento
e cinquenta mil homens; mas na realidade considerava-se no máximo o emprego de uma
dezena de milhar de homens; independentemente dos agentes da polícia que eram cerca
de três mil e quinhentos, a mais firme esperança fixava-se sobre os alunos cadetes. Isso
explica-se pela própria composição da guarnição nessa data: ela era composta quase
exclusivamente de reservistas, antes de mais 14 batalhões de reserva, ligados aos
regimentos da Guarda que se encontravam na frente. Além disso, a guarnição incluía: um
regimento de infantaria de reserva, um batalhão de reserva automóvel, uma divisão de
reserva de autos blindados, alguns contingentes de sapadores e de artilharia e dois
regimentos de cossacos do Don. Era muito, mesmo demasiado. Os efectivos da reserva,
demasiados copiosos, consistiam numa massa humana apenas trabalhada ou melhor,
livre desse treino. Além disso, todo o exército não tinha a mesma composição ?
Khabalov seguia cuidadosamente o plano que tinha elaborado. O primeiro dia, 23, só
a polícia surgiu. No 24, fizeram avançar nas ruas sobretudo a cavalaria, mas somente
armada de lanças e de nagaikas. Não se pensava utilizar a infantaria e abrir fogo segundo
o desenvolvimento dos acontecimentos. Ora os acontecimentos não se fizeram esperar.
No dia 25, a greve tomou uma nova amplitude. Segundo os dados oficiais, ela
englobava 24 000 operários. Elementos atrasados comprometeram-se a seguir da
vanguarda, um bon número de pequenas empresas pararam o trabalho, os tróleis não
funcionaram, as casas de comércio ficaram fechadas. No correr do dia, os estudantes do
ensino superior juntaram-se ao movimento. Cerca do meio-dia, foi por dezenas de milhar
que a multidão se juntou à volta da catedral de Kazan e nas ruas vizinhas. Tentou-se
organizar comícios a céu aberto, produziram-se conflitos com a polícia. Diante da estátua
de Alexandre III homens tomaram a palavra. A polícia montada começa a disparar. Um
orador cai, ferido. Tiros partem da multidão: um comissário da polícia é morto, um mestre
da polícia ferido assim que vários dos seus agentes. Lançam-se sobre os guardas
garrafas, bombas, granadas. A guerra deu boas lições sobre esta arte. Os soldados dão
prova de passividade e por vezes de hostilidade em relação à polícia. A emoção entre a
multidão é grande quando se sabe que os polícias dispararam sobre o povo junto da
estátua de Alexandre III e que os cossacos dispararam uma salva sobre a polícia: os
“faraós” a cavalo (assim chamavam aos agentes da polícia) foram forçados a fugir a
galope. Não era verdadeiramente uma legenda propagada com o objectivo de reforçar a
coragem, porque o mesmo episódio, ainda que relatado diferentemente, foi certificado por
vários lados.
Um dos autênticos condutores dessas jornadas, o operário bolchevique Kaiorov,
conta que os manifestants fugiram todos, a um certo momento, sob os golpes de nagaika
da polícia a cavalo, na presença de um pelotão de cossacos; então Kaiorov, e mais
alguns operários que não fugiram, destaparam a cabeça, aproximaram-se dos cossacos,
e de boné na mão: “Irmãos cossacos, vinde ao socorro dos operários na luta pelas

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reivindicações pacíficas ! Vocês vêm como nos tratam, nós, operários esfomeados, esses
faraós. Ajudai-nos ! Esse tom conscientemente obsequioso, esses bonés na mão, que
justo cálculo psicológico, que geste inimitável ! Toda a história dos combates de rua e das
vitórias revolucionárias fervem de tais improvisações. Mas elas perdem-se habitualmente
nos abismos dos grandes acontecimentos, e os historiadores colhem somente um
tegumento dos lugares comuns. “Os cossacos trocaram entre neles olhares singulares,
diz ainda Kaiorov, e nós mal tivemos tempo de nos afastar já eles se lançaram em cheio
na confusão”. Alguns minutos mais tarde, diante da entrada da gare, a multidão levava em
triunfo um cossaco que acabara de passar o sabre sobre um comissários da polícia.
Os faraós logo desapareceram, dito de outra forma, actuaram pela calada. Mas os
soldados mostraram-se baionetas em riste.
Operários interpelavam-os, angustiados: “Camaradas, vocês vêm ajudar a polícia ?”
Tiveram como resposta: “Circulai !”
Nova tentativa para retomar conversações; o mesmo resultado. Os soldados estão
deprimidos, atormentados por um mesmo pensamento, e toleram mal que a sua
ansiedade seja atingida em cheio.
Entretanto, a palavra de ordem geral é desarmar os faraós. A polícia é o inimigo
feroz, inexorável, odiado e odioso. A questão da conciliação nem se coloca. Eles são
agredidos ou abatidos. Mas em relação às tropas é diferente; a multidão esforça-se de
todas as maneiras em evitar conflitos com o exército; ele procura, pelo contrário, os meios
de conquistar os soldados, de os convencer, de os atrair, de os associar. Apesar dos
rumores favoráveis – talvez ligeiramente exagerados – que correram sobre o
comportamento dos cossacos, a multidão considera ainda a cavalaria com uma certa
inquietação. Um cavaleiro domina do alto a multidão; entre a sua mentalidade e a do
manifestante há quatro patas de cavalo. Uma personagem que se é obrigado de olhar de
baixo para cima parece sempre mais considerável e mais temível. Com a infantaria,
encontramos-nos em pé de igualdade na calçada, ela está mais próxima, mais acessível.
A massa esforça-se para abordar o soldado, olhá-lo francamente, de lhe soprar o hálito
quente. Nesses encontros entre soldados e operários, as trabalhadoras jogam um papel
importante. Mais ousadas que os homens, elas avançam em direcção às tropas agarram-
se às armas, suplicam e comandam quase: “Retirai as baionetas, juntem-se a nós!” os
soldados emocionam-se, sentem-se envergonhados, trocam olhares entre eles com
ansiedade, hesitam; um deles, enfim, decide-se antes dos outros e as baionetas são
retiradas num movimento de arrependimento sobre os ombros dos manifestantes, a
barragem abre-se, no ar soam os huras alegres de reconhecimento, os soldados são
rodeados, de todo o lado discute-se, crítica-se, apela-se; a revolução dá mais um passo.
No Grande Quartel General (G. Q. G.), Nicolau telegrafou a Khabalov para que
metesse fim às desordens “a partir de amanhã”. A vontade do czar concordava com a
segunda parte do plano de Khabalov; o telegrama limitava-se a dar um impulso
suplementar. A partir do dia seguinte a tropa deveria falar. Não é demasiado tarde ? Ainda
não se pode dizer. A questão é colocada, mas está longe de ser resolvida. A
condescendência dos cossacos, as oscilações de certas barreiras de infantaria são

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somente episódios cheios de promessas, às quais a rua em ebulição dá ressonância aos
milhares de ecos. É bastante para exaltar a multidão revolucionária, mas muito pouco
para a vitória. Tanto mais que são os produtos de incidentes de características contrárias.
Na tarde, um pelotão de dragões, dito em réplica aos disparos de revolver vindos da
multidão, abriu, pela primeira vez, fogo sobre os manifestantes, diante das Galerias do
Comércio (Gostiny Dvor): segundo o relatório de Khabalov enviado ao G. Q. G., houve
três mortos e dez feridos. Sério aviso ! Ao mesmo tempo, Khabalov ameaça expedir para
a frente todos os operários mobilizáveis que não teriam retomado o trabalho antes do dia
28. Ultimato do general dava portanto um prazo de três dias: era mais que do que
necessário para a revolução derrubar Khabalov e a monarquia acima de tudo. Mas só
após a vitória é que nos demos conta disso. E na noite de 25, ninguém sabia ainda como
seria o dia seguinte.
Tentemos de constituir mais claramente a lógica interna do movimento. Sob a
bandeira do “Dia das Mulheres”, 23 de Fevereiro, desencadeou-se uma insurreição há
muito madura, e contida, das massas operárias de Petrogrado. A primeira fase foi a greve.
Em três dias, ele estendeu-se ao ponto de se tornar praticamente geral. Esse único facto
bastou já para dar à massa e empurrá-la por diante. A greve, tomando o carácter cada vez
mais ofensivo, grave, combinou-se com manifestações que confrontaram as tropas e as
multidões revolucionárias. O problema era levado no seu conjunto, a um plano superior
onde devia resolver-se pela força das armas. Esses primeiros dias foram marcados pelos
sucessos parciais, sintomáticos em vez de efectivos.
Um levantamento revolucionário que se prolongou vários dias não pode ser vitorioso
senão, por degrau em degrau, se ele regista constantemente novos sucessos. Uma
paragem no movimento de vitórias é perigoso; marcar passo, é perder-se. Os sucessos
por eles próprios não bastam; é preciso que a massa tenha consciência do tempo útil e
que possa apreciá-los. Pode-se deixar escapar uma vitória no momento onde basta
estender a mão para a colher. Viu-se na história.
Os três primeiros dias foram marcados pela ascensão e agravamento constante da
luta. Mas é precisamente por esta razão que o movimento chegou a um nível onde os
sucessos sintomáticos tornaram-se insuficientes. Toda a massa activa desceu à rua. Ela
resistiu à polícia com bons resultados e sem demasiadas dificuldades. As tropas, nas
duas últimos desses três dias, encontraram-se já comprometidas nos acontecimentos: no
segundo dia, só a cavalaria tinha avançado; no terceiro dia, a infantaria. Elas resistiam,
formavam barragens, às vezes deixavam fazer, mas quase que não recorreram às armas
de fogo. A autoridade superior não se apressava a modificar o seu plano, subestimava em
parte a importância dos acontecimentos ( esta ilusão de óptica da reacção foi completada
pelo erro paralelo dos dirigentes da revolução) e, em certa medida, não tendo confiança
no seu exército. Mas, justamente, no terceiro dia, por causa do desenvolvimento da luta
como em consequência da ordem do czar, o governo viu-se forçado a alinhar as tropas.
Os operários, sobretudo a elite, tinham compreendido, tanto mais que na véspera, os
dragões tinham disparado. Desde então, a questão estava colocada pelos dois lados com
todo a sua amplitude.

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Na noite do 25 a 25, nos diferentes bairros, uma centena de militantes
revolucionários foram presos. Incluindo cinco membros do comité dos bolcheviques de
Petrogrado. Isso significou também que o governo tomava a ofensiva. Que iria então
passar-se ? Qual seria o despertar dos operários após o tiroteio do dia precedente ? E –
problema essencial – que diriam as tropas ? A aurora do dia 26 foi coberta de um nevoeiro
de incertezas e de vivas ansiedades.
O comité de Petrogrado tendo sido preso, a condução das operações na cidade é
transmitida ao distrito de Vyborg. Talvez seja para melhor. A alta direcção do partido zig-
zaga desesperadamente. É só na manhã do 25 que o bureau do comité central dos
bolcheviques decidiu enfim publicar um panfleto apelando à greve geral em toda a Rússia.
No momento que este panfleto saiu – a greve geral em Petrogrado, tornava-se em
insurreição armada. A direcção observava do alto, hesitou, atrasa, isto é, não dirige. Ela
está a reboque do movimento.
Mais nos aproximamos das fábricas, mais se descobre a resolução. Todavia, hoje,
no 26, o alarme chega a todos os distritos. Famélicos, estafados tremendo, sob o fardo de
uma enorme responsabilidade histórica, os cabecilhas de Vyborg mantêm conciliábulos,
fora da cidade, nas hortas, trocam impressões, tentam estabelecer um itinerário. O
qual ?... o de uma nova manifestação? Onde levaria uma manifestação de pessoas
desarmadas se o governo decidisse ir até ao fim ? Questão que atormenta as
consciências”.“Disse-se somente que a insurreição iria ser liquidada.” Assim se exprime
uma voz já conhecida, a de Kaiorov, e, primeiro, esta voz, parece, não é a sua. O
barómetro tinha tombado muito abaixo da tempestade.
Nas horas onde as hesitações atingem os revolucionários mais próximos das
massas, o movimento foi, de facto, muito mais longe daquilo que imaginavam os
participantes. Ainda na véspera, na noite do 25, os bairros de Vyborg encontraram-se
totalmente na posse dos insurrectos. Os comissariados da polícia foram arrombados, os
agentes massacrados; a maior parte dos outros desapareceram. O centro prefeitoral do
sector (gradonatchalstvo) teve as comunicações cortadas com a maior parte da capital.
Na manhã do 26, constata-se que não somente esse sector, mas os bairros de Peski,
quase até à Perspectiva Liteiny, estavam no poder dos rebeldes. Foi pelo menos o que os
relatórios da polícia descreviam da situação. Num certo sentido, era exacto, ainda que,
muito provavelmente, os insurrectos não se dessem conta: está fora de dúvida que em
muitos casos a polícia fugiu dos buracos antes mesmo de se encontrarem ameaçadas
pela ofensiva operária. Mas, independentemente do facto, a evacuação dos bairros
industriais pela polícia não podia ter, aos olhos dos trabalhadores, um significado decisivo,
porque as tropas não tinham ainda dito a sua última palavra. A insurreição “vai ser
liquidada”, pensaram os bravos dos bravos. Ora, ela desenvolvia-se.
No dia 26 de Fevereiro foi um domingo; as fábricas continuaram fechadas, e,
seguidamente, foi impossível calcular logo de manhã, segundo a amplitude da greve, a
força do desenvolvimento das massas. Além disso, os operários não puderam reunir-se,
como eles tinham feito nos dias precedentes, nas suas fábricas, e era mais difícil
manifestar. A Perspectiva Nevsky esteve calma na manhã. É então quando a czarina

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telegrafou ao czar: “ a calma reina na cidade”. Mas esta tranquilidade não durou muito
tempo. Pouco a pouco os operários operaram a concentração e, em todos os bairros,
convergiram para o centro. Impediram-nos de atravessar as pontes. Eles descem sobre o
gelo; porque, em Fevereiro, todo o Neva é uma ponte de gelo. Não basta puxar pela
multidão que atravessa o rio gelado para a reter. A cidade mudou totalmente de aspecto.
Por todo o lado as patrulhas, barragens, reconhecimentos de cavalaria. As artérias que
levam à Perspectiva Nevsky estão particularmente bem guardadas. Frequentemente
rebentam salvas, partindo de pontos de emboscadas. O número de mortos e de feridos
aumenta. Ambulâncias circulam nos diversos sentidos. De onde disparam ? Quem dispara
? Nem sempre é possível dar-se conta. Sem nenhuma dúvida, a polícia, fortemente
corrigida, resolveu não se expor mais. Ela dispara a partir das varandas, por detrás das
colunas, do alto dos telhados. Hipóteses são avançadas que se tornam facilmente
legendas. Conta-se que, para assustar os manifestantes muitos soldados vestiram o
uniforme dos polícias. Conta-se que Protopopov estabeleceu numerosos postos de
metralhadores nos telhados. A comissão de inquérito que foi instituida após a revolução
não encontrou traços desses postos. Não há provas que não tivessem existido. Todavia,
nesse dia, a polícia passa para segundo plano. É o exército que, definitivamente, entra
em acção. Os soldados receberam ordem rigorosa de disparar, e eles disparam,
principalmente aqueles que pertencem às escolas de oficiais subalternos. Segundo os
dados oficiais, houve, nesse dia, cerca de quarenta mortos e o mesmo número de feridos,
sem
contar os que a multidão pôde levar. A luta chegou à fase decisiva. A massa vai
recuar, sob as balas, em direcção dos seus bairros ? Não, ela não recua. Ela quer ganhar
a partida.
A vida dos funcionários, dos burgueses, dos liberais, Petersburgo, está aterrorizada.
O presidente da Duma do Império, Rodzianko, reclamava, nesse dia, o envio de tropas
seguras da frente seguidamente ele “mudou de ideia” e aconselha ao ministro da Guerra,
Beliaev, de a empregar contra a multidão não as armas mas as lanças dos bombeiros,
água fria... Beliaev, após ter consultado o general Khabalov, respondeu que os duches de
água fria tinham o efeito contrário, “precisamente porque são um excitante”. Tais eram as
conversações que levavam os liberais com os altos dignitários e os polícias sobre as
vantagens relativas do duche frio ou quente para dominar um povo insurrecto. Os
relatórios da polícia, nesse dia, provam que as lanças dos bombeiros não eram
suficientes: “No decurso dos sarilhos, observou-se de maneira geral, uma atitude
extremamente provocante dos ajuntamentos de amotinados em relação dos
destacamentos de tropas, sobre os quais a multidão respondia aos avisos lançando
pedras e pedaços de gelo colhidos na calçada. Quando a tropa disparava para o ar, como
aviso, a multidão, em vez de se dispersar, respondia às salvas com risadas. É somente
em disparando sobre a multidão que se conseguia deslocar os ajuntamentos: ainda os
participantes se escondiam, na maior parte, nas traseiras das casas vizinhas e, desde que
o tiroteio cessava, voltavam para a rua.” Esse relatório da polícia testemunha a elevada
temperatura das massas. Na realidade, é pouco provável que a multidão tenha sido a
primeira a começar a bombardear com pedras e gelo os soldados, mesmo os

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contingentes das escolas de oficiais subalternos: há aí uma grande contradição com a
psicologia dos insurrectos e a sua táctica sábia em relação ao exército. Par melhor
justificar os massacres de massas, as impressões transmitidas pelo relatório e a sua
disposição não são completamente as que convinham. Todavia, o essencial encontra-se
aí exactamente representada, e com um realismo notável: a massa não quer bater mais
em retirada, ela resiste com um furor optimista e mantém-se na rua na mesma após ter
recebido as salvas mortíferas; ela agarra-se não à vida, mas ao asfalto, às pedras, aos
pedaços de gelo. A multidão não está simplesmente exasperada, ela é intrépida. A
despeito do tiroteio, ela não perde confiança na tropa. Ela conta na vitória e quer obtê-la
custe o que custe.
A pressão exercida pelos operários sobre o exército acentua-se, contrariando a
acção das autoridades sobre as forças militares. A guarnição de Petrogrado torna-se
definitivamente o ponto de mira dos acontecimentos. O período de expectativa, que dura
quase três dias, durante os quais a grande maioria da guarnição pode ainda guardar uma
neutralidade amigável em relação aos insurrectos, chegava ao fim. “Disparai sobre o
inimigo !” ordenou a monarquia. “Não disparai sobre os vossos irmãos e irmãs !” gritam os
operários e as operárias. E não somente isso: “Vinde connosco !” Assim, nas ruas, nas
praças, diante das pontes, nas portas dos quartéis, desenvolve-se uma uma luta
incessante, ora dramática, ora imperceptível, mas sempre renhida, pela conquista do
soldado. Nesta luta, nesses violentos contactos entre trabalhadores, trabalhadoras e
soldados, sob contínuas detonações de espingardas e das metralhadoras, decidem-se os
destinos do poder, da guerra e do país.
Os disparos dirigidos sobre os manifestantes aumentam a incerteza dos líderes. A
amplitude do próprio movimento começa a parecer perigosa. Mesmo a sessão do comité
de Vyborg, na noite do 26, isto é doze horas antes da vitória, alguns vieram perguntar se
não era tempo de acabar com a greve. O facto pode parecer surpreendente. Mas deve-se
compreender que uma vitória constata-se mais facilmente no dia depois que na véspera.
Além disso, os estados de espírito modificam-se muitas vezes em resposta aos
acontecimentos e às notícias recebidas. A prostração sucede rapidamente ao novo
entusiasmo. Os Kairov e os Tchogorine têm coragem suficiente, mas, em certos
momentos o que dói é o sentimento de responsabilidade diante das massas. Há menos
hesitações nas fileiras operárias. Das suas disposições de então, possuía-se um relatório
dirigido à autoridade superior por um agente bem informado da Segurança, Chorkanov,
que jogou um papel importante na organização bolchevique: “Dado que as tropas não
colocaram obstáculos à multidão – escrevia o provocador – que em certos casos,
tomaram medidas com o objectivo de paralizar as iniciativas da polícia, as massas
sentiram-se seguras da sua impunidade, e, actualmente, após dois dias de idas e vindas
livres na rua, enquanto que os círculos revolucionários lançaram palavras de ordem tais
como “Abaixo a guerra !” o povo convenceu-se que a revolução tinha começado, que o
sucesso estava assegurado às massas, que o poder seria incapaz de reprimir o
movimento, visto que as tropas alinhavam do lado dos revoltosos e que a sua vitória
decisiva está próxima, visto que o exército, hoje ou amanhã, tomará abertamente o
partido das forças revolucionárias e que então o movimento, longe de se acalmar,

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crescerá constantemente, até à vitória completa e à queda do regime.” A apreciação de
uma brevidade e de uma luminosidade notável ! Esse relatório é um documento histórico
de grande valor. Isso não devia impedir, bem entendido, os operários, após a vitória, de
fuzilar o autor.
Os provocadores, cujo número era formidável, sobretudo em Petrogrado, temem,
mais que ninguém, a vitória da revolução. Eles dirigem a sua política: nas conferências
dos bolcheviques, Chorkanov pronuncia-se a favor das medidas mais extremistas; nos
seus relatórios à Segurança, ele sugere a necessidade de fazer resolutamente uso das
armas. Talvez Chorkanov se esforce, com esse fim, exigir a mesma certeza dos operários
na sua ofensiva. Mas, no essencial, ele tinha razão: os acontecimentos deviam
brevemente justificar a sua avaliação.
Hesitava-se e conjecturava-se nas esferas superiores dos dois campos, porque
nenhum podia, à priori, medir a relação de forças. Os índices exteriores tinham
definitivamente parado de servir de medida: um dos principais aspectos de uma crise
revolucionária consiste, com efeito, num violento contraste entre a consciência e as
antigas formas das relações sociais. As novas proporções das forças albergavam-se
misteriosamente na consciência dos operários e dos soldados. Mas, precisamente, a
passagem do governo à ofensiva chamada e precedida pela das massas revolucionárias
transformou a relação de forças de potencial a efectivo. O operário considerava o soldado
em frente, avidamente e imperiosamente; este, inquieto, desnorteado, olhava para o lado;
o que assinalava que o soldado já não estava seguro dele. O operário avançava mais
ousadamente que o soldado. O militar melancólico, sem ser hostil, sobretudo arrependido,
defendia-se através do silêncio e às vezes cada vez mais – replicava com um tom de
severidade fingida para dissimular a angústia com a qual batia o seu coração. É assim
que se realizava a ruptura. O soldado desembaraçava-se evidentemente do espírito
soldadesco. Mesmo assim, nesse caso, não se reconhecia logo a ele próprio. Os chefes
diziam que o soldado estava embriagado pela revolução; parecia ao soldado que ao
contrário ele retomava o sentido após o ópio do quartel. Assim se preparou o dia decisivo:
o 27 Fevereiro.
Portanto, na véspera ainda, um facto produziu-se que por ser episódico, não deixa
de dar uma nova cor a todos os acontecimentos do 26 de Fevereiro: ao anoitecer se
revolta a 4ª companhia do regimento Pavlovsky, guardas da sua majestade. No seu
relatório escrito um comissário da polícia, a causa dessa revolta é indicada, em termos
completamente categóricos: “É um movimento de indignação em relação dos alunos
oficiais subalternos do mesmo regimento que, encontrando-se de serviço na Perspectiva
Nevsky, dispararam sobre a multidão.” Por quem a 4ª companhia foi informada ? Sobre
esse ponto nos informa um testemunho conservado por acaso. Cerca das duas da tarde,
um pequeno grupo de operários acorreu às casernas do regimento Pavlovsky; em
palavras entrecortadas, eles falavam do tiroteio sobre o Nevsky. “Digam aos camaradas
que os vossos também disparam sobre nós; nós vimos sobre a Perspectiva soldados que
têm o vosso uniforme!” A reprimenda foi implacável, o apelo foi ardente. “Todos estavam
cansados e lívidos.” A semente não cai sobre a pedra. Cerca de seis horas, a 4ª
companhia deixou de livre vontade o quartel, sob o comando de um oficial subalterno –

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qual ? O seu nome perdeu-se sem deixar marca, entre as centenas e milhares de outros
nomes heróicos – e se dirigiu para o Nevsky para substituir os alunos oficiais subalternos
do regimento. Não era um motim sobre a carne estragada; era um acto de alta iniciativa
revolucionária. A caminho, a 4ª companhia teve uma escaramuça com uma patrulha da
polícia montada, disparou, matou um agente e um cavalo, fere outro polícia e outro
cavalo. O itinerário que seguiram então os “pavlovtsy”, na barafunda, não foi reconstituido.
Eles voltaram para o quartel e revoltaram o regimento completo. Mas as armas tinham
sido escondidas; segundo certos dados, os amotinados ter-se-iam apoderado de trinta
espingardas. Logo, ele foram cercados pelo regimento Preobrajensky; dezanove dos
“pavlovtsy” foram presos e levados para a fortaleza; outros renderam-se. Segundo outras
informações, vinte e um soldados faltaram à chamada, nessa noite,com as suas armas.
“Fuga” perigosa. Esses vinte e um soldados levaram a noite à procura de aliados,
defensores. Só a vitória da revolução os pôde salvar. Os operários aprenderam com eles,
certamente, o que se passou. Não foi um mau presságio para as batalhas do dia seguinte.
Nabokov, um dos líderes liberais mais popular e cujos verídicas Memórias parecem
ser por vezes o diário íntimo do seu partido e da sua classe, voltava a pé de uma noite
passada na casa de amigos, cerca de uma da manhã, por ruas sombrias e ansiosas; ele
voltava “alarmado e cheio de pressentimentos sombrios”. Pode ser que ele tenha
encontrado em qualquer cruzamento um dos desertores do regimento Pavlovsky. Todos
os dois apressaram-se a se afastar: eles não tinham nada a se dizer. Nos bairros
operários e nos quartéis, alguns vigiavam ou se consultavam, outros, mergulhados num
sono leve sonhavam febrilmente sobre o dia seguinte. Por aí o desertor “pavlovets”
encontrava asilo.
Como eram indigentes as notas tomadas sobre os combates de massas em
Fevereiro, mesmo comparadas aos relatos pouco rigorosos que foram dados das batalhas
de Outubro. Em Outubro, os insurrectos mantinham-se diariamente sob a direcção do
partido, cujos artigos, manifestos, processos verbais representam pelo menos a
continuação exterior da luta. Em Fevereiro não se passou assim. Do alto, as massas
quase que não eram dirigidas. Os jornais calavam-se, a greve era toda-poderosa. As
massas, sem olharem para trás, faziam elas próprias a sua própria história. Reconstituir
um quadro vivo dos acontecimentos que se produziram na rua é quase inconcebível.
Deve-se estar feliz se se conseguiu a encontrar a sucessão geral e a lógica interna.
O governo, que não tinha ainda abandonado o aparelho do poder, considerava o
conjunto dos acontecimentos de uma maneira mesmo mais pessimista que os partidos de
esquerda que , portanto, sabemos-lo, estavam menos que os outros à altura. Após o
tiroteio “conseguido” do 26, os ministros sentiram-se por um momento reconfortados. Na
madrugada do 27, Protopopov afirmava, num comunicado tranquilizador, que, segundo as
informações recebidas, “um certo número de operários estariam dispostos a retomar o
trabalho”. Ora, os operários nem sonhavam de forma nenhuma voltar para as suas
máquinas. O tiroteio e o revés da véspera não tinham desencorajado as massas. Como
explicar o facto ? Evidentemente, os “menos” eram largamente compensados por certos
“mais”. Propagam-se nas ruas, confrontando-se com o inimigo, sacudindo os soldados
pelos ombros, penetrando sob o peito dos cavalos, dirigindo-se para a frente, pondo-se

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em debandada, deixando os cadáveres nos cruzamentos, apoderando-se por vezes de
algumas armas, transmitindo notícias, captando rumores, a massa insurgida torna-se um
ser colectivo que tem um sem número de olhos, orelhas e tentáculos. Abandonando ao
anoitecer o terreno da batalha para voltar para casa, nos bairros das fábricas, a multidão
remói as impressões do dia, e, deixando cair os factos menores, os factos acidentais,
estabelece o balanço pesado. Na noite do 27, esse balanço foi aproximadamente o que o
provocador Chorkanov tinha apresentado às autoridades. A partir do dia seguinte, os
operários correm para as fábricas e, nas suas assembleias gerais, decidem continuar a
luta. São os do bairro de Vyborg que, como sempre, mostram-se os mais resolutos. Mas,
nos outros distritos, os comícios dessa manhã estão cheios de entusiasmo. Continuar a
luta ! Mas o que isso significa nesse dia ? A greve geral levou a manifestações
revolucionárias de massas imensas, as manifestações levaram os manifestantes a
choques com as tropas. Continuar a luta significa, nesse dia, apelar à insurreição armada.
Todavia, esse apelo não foi lançado por ninguém. Inevitavelmente, os acontecimentos
impõem-no, mas ele não está de forma nenhuma inscrito na ordem do dia do partido
revolucionário.
A arte de uma direcção revolucionária, nos momentos mais críticos, consiste, para os
nove décimos, saber surpreender a voz das massas – assim como Kaiorov tinha
surpreendido o movimento de sobrancelhas de um cossaco – ainda que seja necessário
ter uma visão ampla. A faculdade nunca ultrapassada em surpreender a voz da massa
fazia a força de Lenine. Mas Lenine não se encontrava em Petrogrado. Os estados-
maiores “socialistas”, legais ou meio legais, os Kerensky, os Tchkeidzé, os Skobelev e
todos os que giravam à volta deles, preferiam muitos avisos e contrariavam o movimento.
Mas mesmo o estado-maior central dos bolcheviques, que se compunha de Chliapnikov,
de Zalotsky e de Molotov, mostra uma incapacidade e uma falta de iniciativa cada vez
mais impressionantes. De facto, os bairros da cidade e os quartéis estavam entregues a
eles mesmos. O primeiro manifesto dirigido às tropas por uma organização da social
democracia próxima dos bolcheviques só foi lançada no 26. Esse manifesto, concebido
em termos bastante hesitantes, que nem sequer exortava o exército a tomar o partido do
povo, foi distribuido, logo na manhã do 27, em todos os distritos. “Porém – declara
Ioreniev, um dos dirigentes da organização – o desenrolar dos acontecimentos
revolucionários foi tal que as palavras de ordem vinham atrasadas. Quando os panfletos
foram difundidos nas massa dos soldados, esta estava já em movimento. “No que diz
respeito ao centro dos bolcheviques, Chliapnikov, seguindo os conselhos de Tchogorine,
um dos melhores líderes operários de Fevereiro, redigiu somente na manhã do 27 um
apelo aos soldados. Este apelo foi imprimido ? No melhor dos casos, só pôde aparecer no
fim da sessão, à hora da saída. É impossível que tivesse qualquer influência sobre os
acontecimentos do 27 de Fevereiro. Deve-se ter como princípio que nesses dias, os
dirigentes atrasaram-se de tal forma que eles dominavam do alto a massa.
Mas a insurreição, que ninguém ainda chamava pelo seu próprio nome, era, todavia,
levada à ordem do dia. O pensamento operário concentrava-se sobre o exército. Este
poderia arrastar aquele ? Não bastava uma agitação disseminada. Os trabalhadores do
bairro de Vyborg organizaram um comício diante dos quartéis do regimento moscovita. A

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acção deu mau resultado: é difícil a um oficial ou a um ajudante premir o gatilho de uma
metralhadora ? Os operários foram dispersados por um tiroteio violento. Outra tentativa
fora feita diante do quartel do regimento de reserva. O mesmo resultado: entre os
operários e os soldados se colocaram oficiais, armados de metralhadora. Os instigadores
operários, exasperados, procuravam armas, reclamavam-as ao partido. Responderam-
lhes que as armas estavam em posse dos soldados, entre os quais dever-se-ia procurá-
las. Os operários já sabiam disso. Mas como se apoderar ? E se o jogo estivesse
totalmente perdido durante o dia ? Foi assim que se chegou ao ponto crítico da luta. A
metralhadora devia varrer a insurreição, ou esta apoderar-se-ia das metralhadoras.
Nas suas memórias, Chliapnikov, principal figura de então no meio dos bolcheviques
de Petrogrado, conta que, a pedido dos operários que queriam armas, pelo menos
revolveres, ele lhe recusava, enviando-os procurarem nos quartéis. Ele queria assim
evitar afrontamentos sangrentos entre operários e soldados, apostando exclusivamente
na agitação, isto é sobre a conquista dos soldados pela palavra e o exemplo. Não
conhecemos outros testemunhos que confirmariam ou refutariam esta disposição de um
dos dirigentes mais populares nesses dias, deposição mais evasiva que providencial.
Teria sido mais simples confessar que os dirigentes não tinham armas. Sem sombra de
dúvida a sorte de toda revolução, numa certa etapa, decide-se por uma reviravolta de
opinião no exército. Contra uma tropa numerosa, disciplinada, bem equipada e habilmente
dirigida, as massas populares desprovidas, completamente ou pouco mais, de armas de
combate, não poderiam vencer. Mas nenhuma crise nacional profunda não pode deixar de
alcançar, a qualquer grau que seja, o exército; de maneira que, nas condições de uma
revolução verdadeiramente popular, a possibilidade abre-se – bem entendido sem
garantia – de uma vitória do movimento. Todavia, a passagem do exército para o lado dos
insurrectos não se faz sozinha e não é o resultado unicamente da agitação. O exército é
heterogéneo e os seus elementos antagónicos estão ligados pelo terror da disciplina. Os
soldados revolucionários, na véspera da hora decisiva, não sabem ainda o que eles
representam como força e qual pode ser a sua influência. Bem entendido, as massas
operárias não são homogéneas. Mas elas têm infinitamente mais possibilidades de rever
seus efectivos no decurso dos preparativos de um conflito decisivo. As greves, os
comícios, as manifestações são tanto actos de luta como meios de os medir. A massa não
se compromete inteiramente na greve. Os grevistas não estão todos dispostos a baterem-
se. Nos momentos mais graves, os mais decididos encontram-se na rua. Os que hesitam,
seja por lassidão, seja por espírito conservador, ficam em casa. Aí, a selecção
revolucionária faz-se sozinha; os homens são escolhidos pela história. No exército passa-
se de outro modo. Os soldados revolucionários, simpatizantes, hesitantes, hostis, ficam
ligados por uma disciplina rígida cujos comandos se juntam até ao último momento, sob a
férula do oficial. Os soldados estão ainda como antes contados como de “primeira” ou de
“segunda” classe; mas como é que eles se repartem entre amotinados e submissos ?
O momento psicológico onde os soldados passam à revolução é preparado por um
longo processo molecular que, como todo o processo revolucionário, atinge o seu ponto
crítico. Mas onde colocar exactamente esse ponto ? A tropa pode estar pronta a juntar-se
ao povo, mas não pode receber de fora o impulso necessário. A direcção revolucionária

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não acredita ainda na possibilidade de ganhar para si a tropa e deixa escapar as
oportunidades de vitória. Após esta insurreição amadurecida, mas não realizada, uma
reacção pode produzir-se nas tropas: os soldados perderão a esperança que os
inflamava, terão uma vez mais a cabeça sob o jugo da disciplina e, a partir de um novo
encontro com os operários, encontrar-se-ão a partir de então instigados contra os
insurrectos, sobretudo à distancia. Nesse processo, os imponderáveis ou dificilmente
ponderáveis, as correntes cruzadas, as sugestões colectivas ou individuais são
numerosas. Mas desta combinação complexa de forças materiais e físicas, uma dedução
impõe-se, numa nitidez irresistível: a massa dos soldados são tanto mais capazes de virar
as suas baionetas, ou então passar para o lado do povo com as suas armas, que eles
vêm melhor que os insurrectos são verdadeiramente em insurreição, que não é uma
manifestação após a qual o soldado deverá voltar novamente e dar contas; que haja luta
mortal; que o povo possa vencer se nos juntarmos a ele, e que assim não somente poder-
se-à assegurar-se da impunidade, mas dos consolos na existência. Noutros termos, os
insurrectos não podem provocar uma reviravolta no estado de espírito do soldado senão
com a condição de estarem eles próprios prontos a arrancar a vitória a qualquer preço,
em consequência também ao preço do sangue. Ora, esta determinação superior não
pode e não quererá passar-se das armas.
A hora crítica da tomada de contacto da massa insurrecta com os soldados que lhe
barram o caminho no momento crítico, é quando a barragem dos capotes cinzentos ainda
não se deslocou, quando os soldados mantêm-se ainda ombro a ombro, mas hesitam já,
enquanto o oficial, juntando o que lhe resta de coragem, comanda o fogo. Os gritos da
multidão, os urros de pavor e de ameaça, cobrem, a metade, a voz do chefe. As
espingardas estão suspensas, a multidão pressiona. Então, tal oficial aponta o seu
revolver sobre o mais suspeito dos soldados. No minuto decisivo, eis o segundo decisivo.
A morte do soldado mais ousado em direcção do qual os outros se voltam
involuntariamente, o tiro da espingarda dado sobre a multidão por um oficial subalterno
que apanhou a arma do morto – e eis que a barragem se volta a apertar, as armas
disparam sozinhas, varrendo a multidão, pelas ruas e quintais. Quantas vezes, desde
1905 não se passou assim: no segundo mais crítico, quando o oficial aperta o gatilho, o
seu gesto é previsto por um disparo saído da multidão que tem os seus Kaiorov e os seus
Tchogorine. Isso decide não somente a questão de uma escaramuça na rua, mas talvez
os resultados de todo o dia ou mesmo de toda a insurreição.
A tarefa que se atribuiu Chliapnikov – preservar os operários dos afrontamentos
violentos com os soldados, recusando distribuir armas aos insurrectos – não é em geral
realizável. Antes de chegar ao encontro com as tropas, houve numerosas escaramuças
com a polícia. A batalha das ruas começava pelo desarmamento dos faraós odiados,
portanto os revolveres passaram para as mãos dos insurrectos. O revólver, em si, é uma
arma fraca, quase um brinquedo, quando se opõe às espingardas, às metralhadoras e
aos canhões do inimigo. Mas essas armas estão verdadeiramente nas mãos do inimigo ?
É para verificação que os operários reclamavam armas. A questão é do domínio
psicológico. Todavia, mesmo uma insurreição, os processos psíquicos não podem ser

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isolados dos factos materiais. Para atingir a espingarda do soldado, é preciso primeiro
retirar o revólver ao polícia.
As emoções dos soldados nessas horas foram menos presentes que as dos
operários, mas não menos profundas. Lembremos ainda que a guarnição compunha-se
principalmente de batalhões de reservistas contando bastantes milhares de homens
destinados a completar os regimentos da frente. Esses homens, na maior parte pais de
família, previam o seu envio para as trincheiras, enquanto na frente a jogo estava já
perdido e o país arruinado. Eles não queriam guerra, eles queriam voltar para casa, voltar
para as suas famílias. Eles sabiam de antemão o que se preparava na Corte e não se
sentiam de forma nenhuma ligados à monarquia. Eles não queriam lutar contra os alemãs
e ainda menos com os operários de Petrogrado. Eles detestavam a classe dirigente da
capital que festejava em tempo de guerra. Entre eles encontravam-se operários que,
tendo um passado revolucionário, sabiam dar a todos esses estados de espíritos uma
expressão generalizada.
Conduzir os soldados, partindo dum descontentamento revolucionário profundo mas
ainda não manifestado, aos actos de franca rebelião ou pelo menos, para começar, a uma
sediciosa recusa da acção – tel era o problema. Cerca do terceiro dia de luta, os soldados
tinham perdido definitivamente toda a possibilidade de se manterem em posições de uma
neutralidade benevolente em relação à insurreição. Foi somente por acaso que indicações
fragmentárias sobre o que se passou nessas horas entre operários e soldados nos
chegaram. Sabe-se como, na véspera, os trabalhadores tinha retirado face aos
“pavlovtsy”, queixas veementes contra o comportamento dos cadetes. Cenas,
conversações, reprimendas, citações do mesmo género tiveram lugar sobre todos os
pontos da cidade, os soldados não tinham mais tempo para hesitações. Forçaram-nos ,
na véspera, a disparar; forçá-los-ão ainda hoje. Os operários não cedem nada, não
recuam e sob as balas, conseguem chegar aos seus objectivos. Depois deles, as
operárias, mães e irmãs, esposas e companheiras. Então a hora sobre a qual se falava
em voz baixa ainda não chegou: “Se nos juntássemos todos ?” E no momento das
supremas aflições, o terror intolerável diante do dia que se aproxima, de um ódio
sufocante em relação aos que vos impõem o papel de carrasco, os primeiros gritos de
revolta aberta levantam-se nos quartéis, e nessas vozes que ninguém sabe nomear, todo
o quartel, aliviado, entusiasta, reconhece-se. Foi assim que surgiu o dia da queda da
monarquia dos Romanov.
A reunião da manhã, na casa do infatigável Kaiorov, uma quarentena de delegados
de fábrica pronunciaram-se maioritariamente pela continuidade do movimento. A maioria,
mas não a unanimidade. É lamentável que não se pudesse estabelecer o que foi essa
maioria. Mas a hora não era propícia para redacções de processos verbais. Aliás, esta
decisão estava atrasada em relação os factos: a reunião foi interrompida por uma notícia
perturbante; os soldados tinham-se revoltado e as portas das prisões tinham sido
arrobadas. “Chorkanov trocou beijos com todos os assistentes”: beijos de Judas que,
felizmente, não anunciavam uma crucificação.

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Um depois do outro, logo pela manhã, antes de sair dos quartéis, batalhões da
reserva da Guarda revoltaram-se, seguindo o exemplo dado, na véspera, pela quarta
companhia dos “pavlovtsy”. Na documentação, notas e memórias, só restam pálidos
traços desse grandioso acontecimento da história humana. As massas oprimidas, mesmo
quando elas sobem aos mais altos cumes da criação histórica, contam poucas coisas
delas próprias e ainda menos tomam notas. E o sentimento lancinante do triunfo apaga
logo o trabalho da memória. Contentemo-nos do que resta.
Foram primeiro os soldados do regimento de Volhynia que se insurgiram. Desde das
7 horas da manhã, um comandante do batalhão chamou Khabalov pelo telefone para lhe
comunicar uma terrível notícia: os alunos cadetes, isto é um contingente especialmente
destinado à tarefa da repressão, tinham recusado marchar, e o respectivo chefe tinha sido
morto ou tinha-se suicidado diante das tropas; a segunda versão foi aliás logo
abandonada. Tendo queimado as naves, os “volhynianos” esforçaram-se e alargar a base
da insurreição: era a sua única chance de salvação. Eles precipitaram-se para os quartéis
vizinhos, os regimentos lituano e Preobrajensky, para aí “desobstruir” os soldados, assim
que os grevistas, correndo de fábrica em fábrica, “desobstruindo” os operários. Pouco
depois, Khabalov soube que os “volhynianos” não somente recusavam-se a devolver seus
fuzis como o general tinha ordenado, mas, com os “preobrajentsy” e os “lituanos”, e, o que
era pior, “unindo-se aos operários”, tinham saqueado os quartéis da divisão da guarda.
Isso prova que a experiência feita, na véspera, pelos “pavlovtsy” não tinham sido perdida:
os amotinados tinham encontrado dirigentes e, ao mesmo, um plano de acção.
Nas primeiras horas do dia 27, os operários imaginavam a solução do problema da
insurreição como infinitamente mais longínquo que ela não era na realidade. Mais
exactamente eles acreditavam ainda ter tudo a fazer, enquanto que a sua tarefa, pelos
nove décimos estava realizada. O ímpeto revolucionário dos operários do lado dos
quartéis coincidia com o movimento revolucionário dos soldados que saíam já na rua. No
decorrer do dia, essas duas correntes impetuosas misturaram-se para descer e levar o
telhado do velho edifício, a seguir as paredes, e mais tarde as fundações.
Tchogorine foi um dos primeiros a se apresentar no local dos bolcheviques, de
espingarda na mão, com uma fita de munições à bandoleira, “todo sujo, mas
resplandecente e triunfante”. Porque não resplandecer! Os soldados passam para o
nosso lado, de armas na mão ! Aqui e acolá, os operários já conseguiram unir-se com as
tropas, a penetrar nos quartéis, a obter espingardas e munições. O grupo de Vyborg, em
colaboração com os soldados mas resolutos, esquematizou um plano de acção: amparar-
se dos comissários da polícia, onde estão os agentes da polícia, e desarmar todos os
agentes; libertar os operários encarcerados nos comissariados, assim como os detidos
políticos nas prisões; esmagar as tropas governamentais na cidade, agrupar as tropas
ainda não revoltadas e os operários dos outros bairros.
O regimente “moscovita” aderiu ao levantamento não sem luta interior. O que é
impressionante, é que houvesse esse tipo de luta no exército. A pequena cimeira da
monarquia impotente, caía, tendo perdido o apoio da massa dos soldados, e escondia-se
nos interstícios, ou então apressava-se a vestir as novas cores. “Cerca das duas horas da

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tarde – conta Korolev, operário da fábrica “Arsenal” - como o regimento “moscovita” saía,
nós pegámos em armas... Cada um tinha um revolver e uma espingarda. Nós treinámos
um grupo de soldados que se aproximou (alguns deles nos pediram para os comandar e
de lhes indicar o que seria necessário fazer) e nós nos dirigimos para a rua Tikhvinskaia
para abrir fogo sobre o comissariado da polícia.” Foi assim que os operários não se
embaraçaram para mostrar aos soldados “o que havia a fazer”.
As boas notícias da vitória sucediam-se umas às outras: os insurrectos tinham carros
blindados. Cobertos de bandeiras vermelhas, eles espalhavam o pânico nos lugares ainda
não submetidos. Já não havia necessidade de rastejar sob os cavalos. A revolução
assumia toda a sua grandeza.
Pelo meio-dia, Petrogrado voltou a ser um campo de batalha: os tiros e os e o ruído
das metralhadoras ouviam-se por todos os lados. Nem sempre é fácil saber quem dispara
e de onde. O que é claro, é que se dispara entre o passado e o futuro. Bastantes disparos
foram inúteis: os adolescentes disparam com revolvers que procuraram para a ocasião. O
arsenal foi pilhado: “O que se diz, se contarmos só as brownings, distribuíram-se várias
dezenas de milhares.” A fumaça subia em colunas do palácio da justiça e dos
comissariados da polícia que ardiam. Em certos pontos, as escaramuças e as trocas de
fogo agravavam-se até se tornarem verdadeiros combates. Na Perspectiva
Sampsonovsky, diante dos edifícios ocupados pelos soldados viaturas de guerra, algumas
juntavam-se às portas, os operários aproximavam-se:” O que é que vocês esperam
camaradas ?” Os soldados sorriem, mas “um mau sorriso”, e eles calavam-se, diz uma
testemunha; os oficiais ordenam brutalmente aos trabalhadores para seguir caminho.
Os condutores do exército, assim como a cavalaria, mostraram-se, em Fevereiro
como em Outubro, como sendo as forças mais conservadoras. Brevemente, diante da
palissada, se agruparam os operários e os soldados revolucionários. É preciso obrigar a
sair o batalhão duvidoso. Alguém vem dizer que enviaram carros blindados: de outra
forma não haveria provavelmente os carros do exército, cuja equipa se fortaleceu com as
metralhadoras. Mas a massa pena em esperar, ela impacienta-se, alarma-se, e, na sua
impaciência, ela tem razão. Os primeiros disparos partem dos dois lados. No entanto, a
palissada é um obstáculo entre os soldados e a revolução. Os assaltantes decidem
demolir esta barreira. Abate-se parcialmente, incendia-se a outra parte. Os edifícios são
saqueados, há uma vintena. Os automobilistas refugiam-se em dois ou três. Os edifícios
são evacuados são imediatamente incendiados. Seis anos mais tarde, Kairov escreveu
nas suas Memórias: “Os edifícios em fogo, e à volta deles a palissada derrubada, o tiro
das metralhadoras e das espingardas, a animação visível dos assaltantes, a rápida
chegada de um camião trazendo revolucionários armados e, enfim, um auto blindado
cujas peças de artilharia brilhavam, formavam um esplêndido quadro inesquecível”. Era a
velha Rússia dos czares, da servidão, dos papas e da polícia que ardia com os seus
edifícios, cuspindo fogo e fumo, morrendo nos soluços dos tiros das metralhadoras.
Como os Kairov, dezenas, centenas, milhares de Kairov não se teriam
entusiasmado? O auto blindado que surgiu disparou alguns tiros de canhão sobre o
edifício onde se tinham refugiado os oficiais e os soldados condutores. O comandante da

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defesa foi morto. Os oficiais, despossuidos dos seus galões e decorações, fugiram a
través das hortas da vizinhança. Os outros renderam-se. Foi talvez o maior afrontamento
do dia.
O levantamento no exército tomava entretanto um carácter epidémico. Nesse dia os
efectivos que não se sublevaram foram só os que acharam que ainda não era o momento
de o fazer. Pela noite juntaram-se ao movimento os soldados do regimento Semenovsky,
conhecido por ter esmagado impiedosamente a insurreição moscovita em 1905: onze
anos passados tinham deixado a sua marca ! Com os caçadores, os “semenovtsy” vieram
à noite raptar os soldados do regimento Ismailovsky que as chefias mantinham fechados
nas casernas; esse regimento que, no 3 de Dezembro de 1905 tinha cercado e feito
prisioneiros os membros do primeiro Soviete de Petrogrado, era ainda considerado como
um dos mais atrasados. A guarnição do czar, na capital, com cerca de 150 mil homens, se
desagregava, fundia-se, eclipsava-se. Pela noite, ela já não existia.
Informado pela manhã do levantamento dos regimentos, Khabalov tenta opor ainda
alguma resistência, ao enviar contra os insurrectos um destacamento seleccionado de
cerca de mil homens, munidos das mais draconianas instruções. Mas a sorte desse
destacamento envolve-se de mistério. “Passa-se qualquer coisa, nesse dia, coisas
inacreditáveis, conta, após a revolução, o incomparável Khabalov: o destacamento mete-
se a caminho, e parte sob o comando de um oficial bravo e resoluto – trata-se do coronel
Kotiepov – mas...sem resultados ! “Companhias enviadas a seguir ao destacamento
desapareceram igualmente sem deixar rasto. O general começou a formar reservas na
praça do Palácio, mas “as munições faltavam e não sabíamos onde as procurar”. Tudo
isso está estabelecido autenticamente nas deposições de Khabalov diante da comissão
do governo provisório. Para onde tinha escapado os destacamentos destinados à
repressão ? Não é difícil adivinhar: desde que eles se encontraram fora , eles se fundiram
com a insurreição. Operários, mulheres, adolescentes, soldados insurrectos penduravam-
se por todos os lados às tropas de Khabalov, tomando-os como novos recrutas ou
esforçavam-se por os converter e não lhes davam possibilidades de se moverem de outra
forma senão com a imensa multidão. Fazer guerra a essa massa aglutinante que não
temia nada, que se agitava inesgotável, que penetrava por todo o lado, teria sido como
fazer espadachim num amassadouro !
Ao mesmo tempo que chegavam os relatórios sobre a extensão da revolta nos
regimentos, Khabalov reclamava tropas seguras para a repressão, para a protecção da
Central telefónica, do palácio Litovsky, do palácio Maria e outros lugares ainda mais
sagrados. O general telefonou à fortaleza de Cronstadt, exigindo reforços, mas o
comandante respondeu que ele próprio temia sobre a segurança da própria fortaleza.
Khabalov não sabia ainda que a insurreição tinha ganho guarnições vizinhas. Ele tentou,
ou fez de conta, em transformar o palácio de Inverno em reduto, mas esse plano foi logo
abandonado como irrealizável, e o último punhado de tropas “fiéis” foram enviados para o
almirantado. Aí, o ditador preocupou-se enfim em tomar as medidas urgentes e
importantes; ele mandou imprimir dois avisos à população que constituem os últimos
actos oficiais do regime: um sobre a demissão de Protopopov “por motivo de doença”;
outro decretando o estado de sítio em Petrogrado. Era efectivamente urgente tomar esta

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última medida porque, algumas horas mais tarde, o exército de de Khabalov levantava o
“estado de sítio” e, esquivando-se do almirantado, dispersava-se, voltado cada um para
casa. Foi somente por inadvertência que a revolução não prendeu logo na noite de 27 o
general, cujos poderes eram enormes, mas que ele próprio não era de temer. A prisão
teve lugar no dia seguinte sem complicações.
Era toda a resistência que o terrível regime imperial da Rússia pode manifestar
diante do perigo de morte ? Sim, pouco mais ou menos tudo, em despeito de uma grande
experiência na repressão, apesar dos planos minuciosamente elaborados. Mais tarde, os
monarquistas, tendo acordado, explicaram a vitória fácil do povo em Fevereiro pelo
carácter particular da guarnição de Petrogrado. Mas o curso ulterior da revolução refuta
esta explicação. É verdade que, desde do início do ano fatal, a camarilha sugeria ao czar
a necessidade de modificar a guarnição da capital. O czar acreditou sem dificuldades que
a cavalaria da Guarda, considerada como particularmente devotada, tinha-se
“suficientemente exposto ao fogo” e tinha merecido descanso nos quartéis de Petrogrado.
No entanto, cedendo às respeitosas advertências vindas da frente, o czar concordou em
substituir quatro regimentos da Guarda montada por três unidades da tripulação da frota
da Guarda. Segundo a versão de Protopopov, esta troca teria sido feita sem o
consentimento do czar, pela premeditação traidora dos grandes chefes: “os marinheiros
foram recrutados entre os operários e constituem o elemento mais revolucionário de todas
as Forças Armadas.” Mas são evidentes absurdidades. Simplesmente, o alto comando da
Guarda, sobretudo na cavalaria, estabelecia uma excelente carreira para voltar. Além
disso, esses oficiais superiores deviam sentir-se apreendidos ao pensar na obra de
repressão que lhes seria imposta, à cabeça dos regimentos que não se pareciam com
nada ao que eles tinham na guarnição da capital. Como provaram logo os acontecimentos
na frente, a Guarda montada não se distinguia mais do resto da cavalaria, e os marujos
da Guarda que se instalaram em Petrogrado não jogaram nenhum papel activo na
Revolução de Fevereiro. Porque o tecido do regime estava definitivamente podre e não
havia um só fio inteiro...
No dia 27, a multidão libertou sem encontrar resistência, os detidos políticos de
numerosas prisões da capital, e, nesse número, o grupo patriótico das indústrias de
guerra que tinha sido preso no 26 de Janeiro e os membros do comité bolchevique de
Petrogrado que Khabalov tinha mandado prendes quarenta horas antes. As distâncias
políticas estabeleciam-se desde da saída da prisão: os mencheviques patriotas dirigiam-
se para a Duma, onde se distribuíam os papeis e os postos: os bolcheviques voltam para
os bairros, para os operários e soldados, para acabar juntamente com eles a conquista da
capital. Não se dá ao inimigo o tempo de retomar o fôlego. A revolução, mais
necessariamente que qualquer outro assunto, deve ser levada até ao fim.
Quem deu a ideia de dirigir os regimentos insurrectos para o palácio Tauride ? Não
se sabe. Esse itinerário político resultou do conjunto da situação. Para o palácio Tauride,
como centro de informação da oposição, se dirigiam naturalmente todos os elementos do
radicalismo sem ligação às massas. É muito provável que foram precisamente esses
elementos que, no dia 27 de Fevereiro, sentindo um inesperado afluxo de forças vitais,
tomaram a liderança da Guarda revoltada. Foi um papel honroso que não comportava

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quase nenhum perigo. O palácio Potemkine, por todas as suas disposições, era o que se
podia conceber de melhor como centro da revolução. O jardim de Tauride não é separado
senão por uma rua de uma pequena cidadela militar onde se encontram as casernas da
Guarda e diversos serviços administrativos do exército. É verdade que, durante muitos
anos, esta parte da cidade tinha sido considerada, tanto pelo governo como pelos
revolucionários, como o torreão da monarquia. E assim era. Mas, presentemente, tudo
mudou. É um sector da Guarda que sai uma insurreição de soldados. As tropas só tinham
que atravessar a rua para chegar ao jardim de Tauride que só estava separado do rio
Neva por um quarteirão de casas. Ora, do outro lado do Neva, estende-se o bairro de
Vyborg, caldeira da revolução: aos operários bastava-lhes passar a ponte Alexandre, ou
então, se esta estivesse cortada, descer sobre o gelo do Neva, para alcançar os quartéis
da Guarda ou o palácio de Tauride. É assim que esta formação heterogénea e de origens
opostas, o tringulo do nordeste de Petrogrado – a Guarda, o palácio Potemkim, as
fábricas gigantes – se concentra em bastião da revolução.
No interior do palácio de Tauride criaram-se ou esboçaram-se diversos centros, cujo
estado-maior insurreccional. Não se saberia dizer que este estado-maior tenha tido uma
carácter sério. Oficiais “ revolucionários”, isto é oficiais que qualquer coisa, mesmo um
mal-entendido, ligou à revolução, mas que beatamente adormeceram nas primeiras horas
da insurreição, apressam-se a lembrar, após a vitória, que existem, ou melhor, solicitados
por outros vêm meter-se “ao serviço da revolução”. Eles examinam com um ar sagaz o
conjunto da situação e agitam a cabeça com pessimismo. Porque essas multidões de
soldados exasperados, muitas vezes desarmados, são incapazes do que quer que seja.
Eles não têm nem artilharia , nem metralhadoras, nem ligação, nem chefes. O inimigo
safar-se-ia com uma único destacamento sólido ! Pelo momento, as multidões
revolucionárias impedem, na realidade, qualquer operação metódica nas ruas. Mas, vinda
a noite, os operários voltam para casa, os citadinos acalmar-se-ão, a cidade ficará
deserta. Se Khabalov ataca os quartéis com um contingente forte, ele pode tornar-se
mestre da situação. Esta ideia, diga-se de passagem, apresenta-se, sob diversas
variantes, em todas as etapas da revolução. “Dêem-me um regimento sólido, dirão mais
de uma vez nos seus meios de valentes coronéis, eu varrerei em rapidamente todo esse
lixo”. Vários desses oficiais tentaram a aventura, como nós veremos. Mas todos só
podiam repetir a declaração de Khabalov: “O destacamento está a caminho, comandado
por um bravo oficial, mas...não há resultados...”
E donde poderiam eles provenir ? O contingente mais firme compunha-se de
agentes da polícia, de guardas e parcialmente de cadetes de alguns regimentos. Mas
esses efectivos revelavam-se lamentáveis diante do avanço das massas, assim que os
batalhões de São Jorge e as escolas de oficiais, oito meses mais tarde, em Outubro.
Onde é que a monarquia teria ela encontrado, para a sua salvação, a força armada pronta
e capaz de encetar um duel prolongado e desesperado com uma cidade de dois milhões
de habitantes ? A revolução parece-se com chefes de exércitos, empreendedores em
palavras, indefensável porque é terrivelmente caótica: por todo o lado movimentos sem
objectivo, correntes contrárias, agitações humanas, rostos espantados e como
subitamente pasmados, capotes ao vento, estudantes que gesticulam, soldados sem

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armas, armas sem soldados, miúdos disparando para o ar, o rumor de milhares de vozes,
o turbilhão dos rumores desencadeados, medos injustificados, alegrias enganadoras...;
bastava, ao que parece, levantar o sabre sobre toda esta multidão e ela espalhar-se-ia
imediatamente sem pedir contas. Mas é aí que está a grande ilusão de óptica. Um caos
somente em aparência. Sobre isso tem lugar uma irresistível cristalização das massas
sobre novos eixos. Essas multidões numerosas ainda não se deram conta completamente
de que elas querem, mas elas estão cheias de ódio ardente que elas não querem mais.
Elas deixam atrás de si um irreparável desmoronamento histórico. Sem meio de regresso
possível. Se alguém as dispersasse, elas votavam a reunir-se, uma hora mais tarde, e o
novo ascenso da multidão seria ainda mais furioso e sangrento. A partir desses dias de
Fevereiro, a atmosfera de Petrogrado tornou-se de tal forma incandescente que toda a
tropa hostil caindo ao seu alcance, ou se aproximando somente e expondo-se ao seu
hálito ardente, transforma-se, perde toda a segurança, sente-se paralizada, e rende-se,
sem resistência, à mercê do vencedor. Era o que devia compreender, no dia seguinte, o
general Ivanov que, sob ordem do czar, chegou à frente com um batalhão de cavaleiros
de São Jorge. Cinco meses mais tarde, a mesma sorte foi reservada ao general Kornilov.
Oito meses depois, a Kerensky.
Na rua, no decorrer dos dia precedentes, os cosacos pareciam os mais conciliantes:
foi assim que, mais que os outros, foram atormentados. Mas quando chegamos à
verdadeira insurreição, a cavalaria justifica uma vez mais a sua reputação de elemento
conservador ao deixar-se ultrapassar pela infantaria. No dia 27, ela tinha ainda na
expectativa uma aparência de neutralidade. Se Khabalov não contava mais com ela, a
revolução temia-a ainda.
Sobrava assim o enigma da fortaleza Pedro e Paulo, situada na ilha que banha o
Neva, em frente ao palácio de Inverno e das residências dos grandes duques. Por detrás
das muralhas, a guarnição estava ou parecia ser um pequeno mundo muito protegido
contra as influências exteriores. Não há artilharia permanente no lugar, com a excepção
de um antigo canhão que anuncia diariamente o meio-dia. Mas, hoje, as peças de
campanha foram içadas sobre as muralhas, e apontadas sobre a ponte. Que se prepara
por lá ? O estado-maior do palácio de Tauride, à noite, quebra a cabeça a questionar-se
sobre o que fazer em relação à “Pedro-Paulina”, e na fortaleza das pessoas se
atormentam a perguntar o que a revolução fará deles. Na manhã, o enigma terá solução:
“Sob condição de salvo-conduto para o corpo de oficiais”, a praça se renderá à discrição
do palácio Tauride. Tendo em fim visto claro na situação, o que não era muito difícil, os
oficiais da guarnição adiantaram-se aos acontecimentos inevitáveis.
Pela noite do dia 27 avançaram em direcção do palácio de Tauride, soldados,
operários, estudantes, gente comum. Aí, eles esperaram encontrar os que sabem tudo,
obter informações ou directivas. É aos molhos que se introduziram armas no palácio
juntas em diversos lados, e foram depositadas na sala transformada em arsenal.
Entretanto, à noite, nesses lugares, o estado-maior meteu-se ao trabalho. Expediu
destacamentos para vigiar as gares, e patrulhas em todas as direcções donde se pode
esperar uma ameaça. Os soldados cumprem de boa vontade, sem discutir, ainda que na
maior desordem, as instruções do novo poder. Eles exigem somente, de cada vez, uma

103
ordem escrita: esta iniciativa provém, provavelmente, dos restos do comando que ficaram
ligados aos regimentos, ou aos escribas militares. Mas eles têm razão: é necessário sem
falta meter ordem no caos. O estado-maior revolucionário, assim como o soviete que
acabou de serem criado, ainda não tem selos. A revolução deve ainda procura no seu
material burocrático. Infelizmente, dentro de algum tempo, ela fará esta aquisição para
além do necessário.
A revolução mete-se à procura dos seus inimigos. Na cidade dão-se prisões -
“arbitrárias”, dirão, num tom de censura, os liberais. Mas toda a revolução é arbitrária.
Não param de levar suspeitos ao palácio de Tauride: o presidente do Conselho de Estado,
ministros, polícias, agentes da Okhrana, uma condessa “germanofila”, agentes da guarda,
em grandes quantidades. Certos dignitários, como Protopopov, vêm por própria iniciativa
constituir-se prisioneiros: é mais seguro, “Os murros desta sala que, outrora, tinham
ressoado os hinos em honra do absolutismo, não ouviram mais nesse dia senão os
suspiros e os soluços, contou mais tarde a condessa devolvida à liberdade. Um general
preso sentou-se, esgotado, sobre a cadeira mais próxima. Vários membros da Duma
ofereceram-me amavelmente uma chávena de chá. Abalado até ao fundo da alma, o
general dizia-me:
“ Condessa, nós assistimos à ruína de um grande país.”
No entanto, esse grande país, que não estava de forma nenhuma disposto a morrer,
passava diante dos demitidos, batendo as botas, e o chão com a coronha das
espingardas, tremendo o ar com as suas chamadas e pisando as pessoas. As revoluções
sempre se distinguiram pela falta de urbanidade: provavelmente porque as classes
dirigentes não tinham tomado o cuidado, no devido tempo, de inculcar ao povo boas
maneiras.
O palácio de Tauride torna-se provisoriamente um Quartel-General, um centro
governamental, um arsenal, um centro de reclusão da revolução que ainda não absorveu
a sua face coberta de sangue e de suor. Nesse lugar, nesse remoinho, infiltram-se os
inimigos empreendedores. Por acaso, desmascarou-se um coronel da guarda que,
disfarçado, toma notas a um canto, não para servir a história, mas para informar as
tribunais marciais. Soldados e operários querem executá-lo mesmo ali. Mas pessoas do
“estado-maior” interpõem-se e raptam à multidão sem dificuldade o guarda. Nesta data, a
revolução ainda está indolente, confiante, mansa. Ela tornar-se-à implacável somente
após uma serie de traições, de logros e experiências sangrentas.
A primeira noite da revolução triunfante foi cheia de alarmes. Comissários
improvisados, para a vigilância das gares e outros pontos, na sua maior parte intelectuais
que as suas relações pessoais levaram por acaso, aventureiros, os que tiraram o chapéu
à revolução (oficiais subalternos, sobretudo de origem operária tivessem sido mais úteis !)
começam a enervar-se, vêm perigos em todo o lado, enervam os soldados e, por telefone,
pedem constantemente reforços ao palácio de Tauride. Aí também amotinam-se,
telefonam, enviam reforços que, muitas vezes, não chegam ao destino. Um daqueles que,
nessa noite, fizeram parte do “estado-maior” de Tauride exprimem-se assim:

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“Os que recebem ordens não as executam; os que agem fazem sem receber
ordem...”
É sem ordens que agem os bairros operários. Os dirigentes da revolução, tendo
iniciado os efectivos nas suas fábricas, aparando-se de comissariados, tendo
seguidamente sublevado os regimentos e demolido os refúgios da contra-revolução, não
se apressam em alcançar o palácio de Tauride, os estados-maiores, os centros directores;
pelo contrário; pelo contrário, acenam a cabeça com ironia e desconfiança desse lado: já
a rapaziada ocorre para partilhar a pele do urso que eles não mataram e que ainda não foi
acabado. Os operários bolcheviques, assim como os operários dos outros partidos de
esquerda, passam os seus dias na rua e as noites nos “estados-maiores” de distrito,
mantêm-se em contacto com os quartéis, preparam o dia seguinte. No decurso da
primeira vigia da vitória, eles continuam e desenvolvem o trabalho que realizaram nos
cinco primeiros dias. Eles constituem o esqueleto embrionário da revolução, ainda
demasiada fraco, como toda revolução no seu ínicio.
Nabokov, que o leitor já conhece na sua qualidade de membro do centro
constitucional democrata (cadetes), então desertor legal, emboscado no grande estado-
maior das forças armadas czaristas, rendeu-se como habitualmente, no dia 27, ao seu
serviço e aí ficou, ignorando tudo dos acontecimentos, até às três da tarde. À noite, na rua
Morskaia, ouvi-se tiros – Nabokov, no seu apartamento, afinou a orelha – autos blindados
passaram a toda a velocidade, soldados, marinheiros também corria, demolindo
paredes... O prezado liberal observa-os pela vidraça lateral de uma janela em tambor.
“O telefone funcionava ainda e as informações sobre o que se passara no dia eram-
me transmitidas, como me lembro, por amigos. Deitámo-nos à hora habitual.”
Esse homem devia tornar-se em breve um dos inspiradores do governo provisório
revolucionário (!), na qualidade de secretário geral. Na rua, no dia seguinte, uma velha
criatura desconhecida, um empregado de escritório ou um mestre escola, aproximou-se,
tirou o boné e dira:
“Obrigado por tudo o que você fez pelo povo.”
Contou próprio Nabokov com um modesto orgulho.

105
Quem dirigiu a insurreição de Fevereiro?
Os advogados e os jornalistas pertencendo às classes atingidas pela revolução
tiveram, no seguimento, despendido bastante tinta para demonstrar que em Fevereiro não
houve em suma senão um motim de mulheres, reforçada por uma revolta de soldados; foi
precisamente assim que alguns nos apresentaram a revolução. Luís XVI, no seu tempo,
quis ele também imaginar que a tomada da Bastilha foi de facto uma revolta, mas
explicaram-lhe com deferência que era na verdade uma revolução! Os que perdem numa
revolução estão raramente inclinados em lhe reconhecer o seu verdadeiro nome, porque
este, a despeito de todos os esforços dos reaccionários exasperados, toma na memória
histórica da humanidade a aureola de uma libertação em relação às velhas correntes e
preconceitos. Sempre os privilégios e os seus lacaios experimentaram infalivelmente
apresentar a revolução que os tinha derrubado como diferentes das revoluções
precedentes, como uma insubordinação, como sarilhos ou motins da ralé. As classes que
sobrevivem não se distinguem pelo espírito inventivo.
Logo após o dia 27 de Fevereiro, tentaram estabelecer analogias entre a revolução
russa e o golpe de Estado militar dos Jovens Turcos, que, como se sabe, as camadas
superiores da burguesia russa tinham sonhado bastante. Essa aproximação foi, contudo,
tão pouco convincente que ela reencontrou uma serie de refutações num jornal burguês.
Tougan Baranovsky, economista que, na sua juventude, tinha passado pela escola de
Marx, e que era na Rússia uma especie de Sombart, escreveu em 10 de Março no
Birjevye Viedomosti:
“A revolução turca consistiu num pronunciamento vitorioso do exército, preparado e
realizado pelos chefes deste. Os soldados eram somente executantes dóceis dos
projectos dos seus oficiais. Em contrapartida, os do regimento da Guarda que, no dia 27
de Fevereiro derrubaram o trono da Rússia, marcharam sem os seus oficiais... Não foi o
exército quem desencadeou a insurreição, foram os operários. Não foram os generais,
mas soldados que se dirigiram à Duma do Império. E os soldados apoiaram os operários
não por obtemperar dócilmente às ordens dos seus oficiais, mas... porque eles sentiam-se
aparentados pelo sangue aos operários, como classe trabalhadora, como eles próprios.
Os camponeses e os operários constituem as duas classes sociais que fizeram a
revolução russa.”
Não há nada a rectificar ou a completar nesses termos. O desenvolvimento ulterior
da revolução confirmou suficientemente o seu significado.
O último dia de Fevereiro, em Petrogrado, foi o primeiro dia que seguiu a vitória: dia
de entusiasmo, de abraços, de lágrimas de alegria, de desabafos prolixos, mas também o
dia onde se disparavam os últimos tiros sobre o inimigo. Nas ruas rebentavam ainda
disparos de espingarda. Contava-se que os faraós de Protopopov, ainda inadvertido da
vitória do povo, continuavam a disparar do alto dos telhados. Em baixo, disparava-se
sobre os granadeiros, as lucarnes e o sinos, onde se imaginava ver fantasmas armados
do czarismo. Pelas quatro horas da tarde foi ocupado o almirantado, onde se escondiam
os últimos resistentes do que outrora fora o poder de Estado. Organizações

106
revolucionárias e grupos improvisados procediam a prisões na cidade. A fortaleza presídio
de Schlusselburgo foi tomada sem resistência. Em todo o momento, novos regimentos
aderiam à revolução: na capital e nos arredores.
O queda do regime em Moscovo foi somente um eco da insurreição de Petrogrado.
Os mesmos estados de opinião nos operários e soldados, ainda que menos vivamente
exprimidos. As posições um pouco mais à esquerda na burguesia. A fraqueza das
organizações revolucionárias ainda mais marcada que em Petrogrado. Quando
começaram os acontecimentos sobre o Neva, os intelectuais radicais de Moscovo
consultaram-se entre eles sobre o que havia a fazer e não encontraram solução. Foi
somente a 27 de Fevereiro que nas fábricas de Moscovo rebentaram as greves, seguidas
de manifestações. Os oficiais diziam aos soldados, nos quartéis, que a canalha se
amotinava nas ruas que era necessário reprimir.” Mas, a partir desse momento, conta o
soldado Chichiline, os nossos davam à palavra “canalha” um sentido totalmente oposto!”
Pelas duas da tarde, numerosos soldados, pertencendo a diversos regimentos,
apresentaram-se diante da Duma municipal, procurando meio de aderir à revolução. No
dia seguinte, as greves estenderam-se. As massas avançavam com bandeira em direcção
à Duma. Moralov, soldado da companhia automóvel, velho bolchevique, agrónomo,
gigante magnânimo, e valente, conduziu à Duma o primeiro destacamento de tropas
sólido e disciplinado que ocupou a estação de TSF e outros postos. Oito meses mais
tarde, Moralov devia comandar a região militar de Moscovo.
As prisões abriram-se. O mesmo Moralov levou um camião de prisioneiros políticos
libertados. Saudando, a mão na viseira, um subcomissário da polícia pediu ao
revolucionário se deviam também libertar os judeus. Dzerjinski, mal tinha saído da casa
de reclusão e sem ainda se ter desembaraçado da vestimenta de prisioneiro, tomava a
palavra no interior da Duma onde o soviete estava já em formação. Dorofeiv, artilheiro,
devia contar mais tarde como os operários da doçaria Siou apresentaram-se, no primeiro
de Março, com bandeiras, no quartel de brigada de artilharia, confraternizaram com os
soldados e de que maneira, no excesso da alegria, vários desses homens não deixaram
de chorar. Houve na cidade alguns tiros emboscados, mas no conjunto, não se
produziram afrontamentos armados e não houve vítimas: foi em Petrogrado que
aguentava por Moscovo.
Num certo número de cidades da província, o movimento só se desencadeou no
primeiro de Março, quando a revolução estava já realizada em Moscovo. Em Tver, os
operários, abandonando o trabalho, foram manifestar diante dos quartéis e, misturados
aos soldados, desfilaram nas ruas da cidade. Nesta época, cantava-se ainda a
Marselhesa e não a Internacional. Em Nijni-Novgorod, milhares de pessoas juntaram-se
diante do edifício da Câmara municipal que, como a maior parte das cidades, fazia de
“palácio de Tauride”. Após um arengue do presidente da Câmara, os operários, com as
suas bandeiras vermelhas, foram libertar os detidos políticos. Sobre os vinte e um
contingentes que formavam a guarnição, dezoito vieram, antes de anoitecer, aderir
espontaneamente à revolução. Em Samara e em Saratov, houve comícios, e os sovietes
de deputados operários foram constituidos. Em Kharkov, o chefe da polícia, tendo tido
tempo de se informar na estação sobre os acontecimentos, subiu no carro diante da

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multidão excitada, e, tirando o boné, gritou: “Viva a revolução ! Hurra !” Ekaterinoslav
recebeu de Kharkov a notícia. À cabeça da manifestação caminhava o ajudante do chefe
da polícia, apoiando com a mão o forre do seu grande sabre, numa atitude regulamentar
com a parada, nos dias de festa imperial. Quando foi definitivamente demonstrada que a
monarquia estava perdida, houve quem retirasse com precaução, nos edifícios públicos,
os retratos do czar que foram enviados para os sótãos. As anedotas desse genero,
verdadeiras ou inventadas, circulavam em quantidade nos círculos liberais que ainda não
tinham perdido o gosto pelos gracejos a propósito da revolução. Os operários como os
soldados das guarnições viviam os acontecimentos de outra maneira.
Sobre o que se passou num certo número de cidades (Pskov, Orel, Rybinsk, Penza,
Kazan, Tsaritsyne, etc.), a crónica, ainda que sumária, traduziu exactamente o que se
passou.
No campo, as notícias da revolução vinham das cidades vizinhas, parcialmente das
autoridades, mas principalmente dos mercados, dos trabalhadores, dos soldados de
licença. A aldeia acolhia o acontecimento com uma reacção mais lenta e menos
entusiasta que a da cidade, mas não menos profunda: a aldeia vivia a relação da
revolução com a guerra e a questão da terra.
Não é exagerado dizer que só Petrogrado cumpriu a Revolução de Fevereiro. O
resto do país limitou-se a se juntar a ele. Só houve batalhas em Petrogrado. Em todo o
país não existiam grupos populares, partidos, instituições ou efectivos militares que
fossem erguidos para a defesa do antigo regime. O que mostra a que ponto eram pouco
fundadas as informações tardias de reaccionários, dizendo que se a cavalaria da Guarda
se encontrava em Petrogrado, ou se Ivanov tivesse levado da frente uma brigada segura,
a sorte da monarquia teria sido diferente. Nem na retaguarda, nem na frente, não se
encontrou brigada ou regimento pronto a bater-se por Nicolau II.
A queda do poder teve lugar sob a iniciativa e pelas forças de uma cidade constituida
por cerca de soixante-quinze partie da população do país. Pode-se dizer que os maiores
actos democráticos foram realizados de uma maneira não democrática. O país inteiro
encontrou-se colocados diante do facto consumido. Se havia em perspectiva uma
Assembleia constituinte, esta circunstância não mudava nada a nada, porque os prazos e
as modalidades da convocação de uma representação nacional deveria ser determinada
por órgãos que emanassem da vitoriosa insurreição de Petrogrado. Isso projectou uma
luz crua sobre a questão da função das formas democráticas em geral, e, em particular,
em período revolucionário. Ao feitichismo jurídico da “vontade popular” as revoluções
infligiram constantemente rudes golpes, tanto mais implacáveis, que elas foram
profundas, audazes, mais democráticas.
Diz-se muitas vezes, particularmente em relação à grande Revolução francesa, que
a extrema centralização da monarquia permitiu mais tarde à capital revolucionária pensar
e agir por todo o país. É uma explicação superficial. Se a revolução manifesta tendências
centralizadoras, ela age, não imitando a monarquia derrubada, mas em função de
necessidades inevitáveis de uma nova sociedade que não é mais compatível com o
particularismo. Se, numa revolução, uma capital desempenha um papel de tal forma

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dominante e, em certos momentos, concentra de certa maneira as vontades da nação, é
precisamente porque ele exprime de modo mais vivo as tendências essenciais da nova
sociedade e as empurra até ao seu fim. A província considera o comportamento da capital
como resultado das suas próprias intenções, mas já transformada em acção. A iniciativa
dos centros não é um prejuízo à democracia, mas a sua realização dinâmica. Todavia,
nas grandes revoluções, o ritmo desta dinâmica nunca correspondeu ao da democracia
formal e representativa. A província junta-se aos actos do centro, mas atrasada. Em
virtude da rapidez característica com a qual se desenvolvem os acontecimentos
revolucionários, chega-se a crises graves do parlamentarismo revolucionário, insolúveis
por métodos da democracia. Em todas as verdadeiras revoluções, a representação
nacional partiu o pescoço, chocando com a dinâmica revolucionária dirigente cujo foco
principal era a capital. Foi assim no século XVII na Inglaterra, no século XVIII em França e
no século XX na Rússia. O papel da capital é determinada não por tradições do
centralismo burocrático, mas pela situação da classe revolucionária dirigente, cuja
vanguarda é naturalmente concentrada na metrópole: isso aplica-se tanto à burguesia
como ao proletariado.
Quando a vitória da Fevereiro se estabeleceu solidamente, ocuparam-se do
recenseamento das víctimas. Em Petrogrado contaram-se mil quatrocentos e quarenta e
três mortos ou feridos, desse número oito centos e sessenta e nove militares, entre os
quais sessenta oficiais. Comparativamente ao número de homens caídos em qualquer
batalha da Grande Guerra, essas números foram insignificantes. A imprensa liberal
proclamou que a Revolução de Fevereiro não tinha sido sangrenta. Nos dias de efusão
geral e de amnistias reciprocas entre os partidos patriotas, ninguém empreendeu a
reconstituição da verdade. Albert Thomas, sempre amigo do vencedor, e mesmo de uma
insurreição vitoriosa, escreveu então que a revolução lhe surgiu “completamente
ensolarada, cheia de alegria, exempta de qualquer infusão de sangue”! Sem dúvida ele
esperava que esta revolução ficaria às ordens da Bolsa de Paris. Mas, decididamente,
Albert Thomas não tinha inventado a pólvora. Já a 27 de Junho de 1789, Mirabeau
bradava:
“Que felicidade ver esta grande revolução realizar-se sem ter cometido o homicídio,
sem ter feito chorar!... A história fala-nos bastante de actos de bestas ferozes...
Esperemos ter começado a história humana.”
Quando os três Estados foram constituidos em Assembleia nacional, os
antepassados de Albert Thomas escreviam:
“A revolução acabou, ela não custou uma gota de sangue.”
E deve-se conceder que efectivamente, neste período, nenhuma efusão de sangue
não teve lugar. O mesmo não se pode dizer dos dias de Fevereiro. Todavia, a legenda de
uma revolução não sangrenta foi obstinadamente apoiada, respondendo à necessidade
que tinham os burgueses liberais em representar os factos como se o poder lhes tivesse
caído nas mãos.

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Se a Revolução de Fevereiro não foi exempta de efusão de sangue, só poderemos
ficar estupefactos pelo pequeno número de víctimas, tanto no momento da insurreição
como no período que se seguiu. Havia um acertar de contas após a opressão, os
perseguimentos e humilhações, segundo ignóbeis tratamentos que as massas populares
russas tinham sofrido desde séculos ! Daqui, dali, é verdade, os marujos e soldados
acertavam contas com os seus piores opressores, com os oficiais. Todavia, o número
desses actos de represália foram insignificantes, ao princípio, em relação à quantidade de
sangrentos ultrajes outrora ainda recentemente infligidos. As massas só abandonaram a
sua bonomia bastante mais tarde, quando constataram que as classes dirigentes
procuravam retomar todo o terreno e explorar a seu proveito a revolução que elas não
tinham feito, assim que elas se apropriavam dos bens que elas não tinham produzido.
Togan-Baranovky tem razão em afirmar que a Revolução de Fevereiro foi obra dos
operários e camponeses, esses últimos representados pelos soldados. Subsiste todavia
uma grande questão: quem dirigiu a insurreição? Quem organizou os operários? Quem
levou à rua os soldados? Após a vitória, essas questões tornaram-se objecto da luta dos
partidos. A solução mais simples consistia nesta formula universal: ninguém conduziu a
revolução, ela fez-se sozinha. A teoria das “forças elementares” era melhor que qualquer
outra com a conveniência não somente de todos os senhores que, na véspera ainda,
tinham tranquilamente administrado, julgado, acusado, pleiteado, comercializado ou
encomendado, e que se apressavam, agora, a juntar-se à revolução; mas ela convinha a
numerosos politicos profissionais e a ex-revolucionários que, tendo dormido durante a
revolução; desejavam acreditar que, nesse caso, eles portaram-se como todos os outros.
Na sua curiosa História dos Sarilhos na Rússia, o general Denikine, antigo
generalíssimo do exército branco, disse sobre o dia 27 de Fevereiro:
“Nesse dia decisivo, não houve dirigentes; houve somente elementos enfurecidos.
No seu curso impetuoso, não se podia discernir nem plano, nem palavras de ordem.”
O douto historiador Miliokov não aprofundou mais a questão que o general cuja
paixão era de rabiscar sobre o papel. Até à insurreição, o líder liberal tinha apresentado
toda a ideia da revolução como sugerida pelo estado-maior alemão. Mas a situação
complicou-se após a insurreição que levou os liberais ao poder. Desde então, a tarefa de
Miliokov não foi mais a de desonrar a revolução ao ligá-la a uma iniciativa do
Hohenzollern, mas pelo contrário, de retirar aos revolucionários a honra e a iniciativa.
O liberalismo adoptou completamente a teoria do carácter elementar e impessoal da
insurreição. É com simpatia que Miliokov se reclamou meio liberal, meio socialista,
Stankevitch, mestre de conferências, que foi por momentos comissário do governo no
Grande Quartel General.
“A massa meteu-se em movimento, obedecendo a um apelo íntimo, inconsciente... -
escreveu Stankevitch acerca das jornadas de Fevereiro. - Sobre quais palavras de ordem
começaram os soldados? O que os conduziu quando se ampararam de Petrogrado,
quando incendiaram o Palácio da Justiça? Nem uma ideia política, nem uma palavra de
ordem revolucionária, nem uma conspiração e nem um motim, mas um movimento das

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forças elementares que reduziu bruscamente em cinzas o antigo regime sem deixar
nada.”
A força elementar toma aqui um carácter quase místico.
O mesmo Stankevitch traz um testemunho de grande valor:
“No fim de Janeiro, tive ocasião de encontrar Kerensky num círculo muito íntimo.
Sobre a possibilidade de um levantamento popular, todos pronunciaram-se de forma
nitidamente negativa, de medo de ver o movimento de massas, uma vez desencadeado,
cair nas correntes de extrema esquerda e criar assim grandes dificuldades na conduta da
guerra.”
Os pontos de vista do círculo de Kerensky não se diferenciavam de forma nenhuma
no essencial da dos cadetes. Não era daí que a iniciativa poderia surgir.
“A revolução caiu como um relâmpago num céu azul”, disse Zenzinov, representante
do partido socialista revolucionário. “Sejamos francos: ela chegou como uma grande e
alegre surpresa também para nós, revolucionários, que para ela tínhamos trabalhado
durante muitos anos e a tínhamos constantemente esperado.”
O caso não se apresentava muito melhor com os mencheviques. Um jornalista
pertencendo à imigração relata o encontro que ele teve, num trólei, no dia 24 de
Fevereiro, de Skobelev, futuro ministro do governo provisório:
“Esse social democrata, um dos líderes do movimento, declarou-me que as
desordens transformavam-se em depredações que era indispensável reprimir. Isso não
impedia Skobelev, um mês mais tarde, de pretender que ele e os amigos tinham feito a
revolução.“
As cores são aqui visivelmente carregadas. Mas, no essencial, a posição dos sociais
democratas mencheviques tornou-se de uma maneira que corresponde bastante bem à
realidade.
Enfim, Mstislavsky, que mais tarde devia ser um dos líderes da ala esquerda dos
socialistas revolucionários, para passar a seguir para os bolcheviques, disse da
Revolução de Fevereiro:
“A revolução nos surpreendeu, nós, homens de partido, em pleno sono, como
virgens loucas do Evangelho.”
Pouco importa aqui que esses homens se tenham parecido de certa forma com
virgens; mas eles dormiam todos efectivamente.
Mas o que aconteceu aos bolcheviques? Em parte já se sabe. Os principais líderes
das organizações bolcheviques clandestinas em Petrogrado eram então três: os antigos
operários Chliapnikov e Zaloustsky, e o antigo estudante Molotov. Chliapnikov, que tinha
vivido bastante tempo no estrangeiro e tinha estado ligado a Lenine, era, do ponto de
vista político, o mais maduro e o mais activo dos três que constituíam o Bureau do Comité
Central. Todavia, as lembranças do próprio Chliapnikov estabeleciam bem que todo o trio
não estava à altura dos acontecimentos. Até à última hora, os líderes imaginavam que se

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tratava somente de uma demonstração revolucionária, uma entre tantas outras, mas de
forma alguma uma insurreição armada. Kaiorov, que já citámos, um dos líderes do distrito
de Vyborg, afirmou categóricamente isto:
“Não se pressentia nenhuma directiva do centro do partido... O Comité de
Petrogrado estava prisioneiro, e o representante do Comité central, o camarada
Chliapnikov encontrava-se impotente para dar as directivas para o dia seguinte.”
A fraqueza das organizações clandestinas foi o resultado imediato das manobras
policiais de destruição que deram ao governo vantagens excepcionais diante a opinião
patriótica no início da guerra. Toda a organização, e, desse número, uma organização
revolucionária, tende ficar atrás da sua base social. As organizações clandestinas dos
bolcheviques, no início de 1917, ainda não tinham recuperado da destruição e da sua
desagregação, enquanto que, entre as massas, a atmosfera de patriotismo dava lugar,
repentinamente, à indignação revolucionária.
Para apresentar mais claramente a situação no domínio da direcção revolucionária,
é necessário lembrar que os revolucionários mais autorizados, os líderes dos partidos de
esquerda, encontravam-se na emigração, e, parcialmente, nas prisões ou deportados.
Mais um partido era temido pelo antigo regime, mais ele se encontrava rigorosamente
decapitado no início da revolução. Os populistas tinha na Duma uma fracção cujo líder,
Kerensky, era um radical independente. O líder oficial dos socialistas revolucionários,
Tchernov, encontrava-se na emigração. Os mencheviks dispunham na Duma uma fracção
à cabeça da qual figuravam Tchkheidzé e Skobelev. Martov estava imigrado. Dan e
Tseretelli deportados. À volta das fracções de esquerda – populistas e mencheviks –
agrupavam-se um grande contingente de intelectuais socialistas tendo um passado
revolucionário. Isso constitui uma aparência de estado-maior político, mas que só foi
capaz de se mostrar após a vitória. Os bolcheviques não tinham nenhuma fracção na
Duma: os cinco deputados operários que o governo czarista considerava como
constituindo o centro organizador da revolução tinham sido presos desde dos primeiros
meses da guerra. Lenine estava na emigração com Zinoviev, Kamenev tinha sido
deportado, assim como os dirigentes tarefeiros, pouco conhecidos então, Sverdlov,
Rykov, Staline. A social democrata polaco Dzerjinski, que não pertencia ainda aos
bolcheviques, encontrava-se preso. Os líderes que, por acaso, estavam presentes,
precisamente porque estavam habituados a agir sob a direcção autorizada e sem apelo,
não eram reconhecidos pelos outros como sendo capazes de jogar nos acontecimentos
revolucionários um papel dirigente.
Mas, a partir do momento que o partido bolchevique não podia asegurar aos
insurrectos uma direcção autorizada, que dizer das outras organizações políticas? Assim
se fortalecia a convicção geral de um movimento de forças elementares na Revolução de
Fevereiro. Contudo, esta opinião é profundamente errada, ou, no melhor dos casos, sem
conteúdo.
A batalha, na capital, durou não uma ou duas horas, mas cinco dias. Os líderes
esforçaram-se por travá-la. As massas responderam com uma dinâmica tanto mais forte e
levaram por diante. Elas tinham contra elas o velho Estado cuja fachada tradicional

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dissimulava ainda, poder-se-ia presumir, uma potente força, a da burguesia liberal, com a
sua Duma do Império, a União dos zemstvos e das Cidades, os comités das indústrias da
guerra, as Academias, as Universidades e uma imprensa ramificada; enfim, dois fortes
partidos socialistas que opunham uma resistência patriótica à força vinda de baixo. No
partido bolchevique, a insurreição encontrava a organização que lhe estava mais próxima,
mas decapitada, os quadros deslocados, fracas células clandestinas. Todavia, a
revolução, a qual ninguém esperava nesses dias, se tinha estendido e, enquanto que, nas
esferas superiores, acreditava-se na extinção do movimento, esta assegurava-se da
vitória através de um violento empurrão e potentes convulsões.
De onde provinha então esta potência sem par de perseverança e de
impetuosidade? Não basta alegar a exasperação. A exasperação explica pouco. Tão
diluidos que tenham sido os elementos operários de Petrogrado durante a guerra, em
virtude da mistura de elementos brutos, eles tinham uma grande experiência
revolucionária. Na perseverança e impetuosidade, apesar da falta de direcção e das
resistência vindas do alto, havia uma apreciação das forças, nem sempre expressada,
mas baseada na experiência da vida e num cálculo estratégico espontâneo.
Na véspera da guerra, os elementos operários revolucionários alinhavam com os
bolcheviques e arrastavam as massas consigo. Desde do início da guerra, a situação
modificou-se bruscamente: as camadas conservadoras intermediárias levantaram a
cabeça e arrastaram consigo uma parte considerável da classe operária; os elementos
revolucionários ficaram isolados e silenciosos. No decurso da guerra, a situação começou
a modificar-se, lentamente ao princípio, depois, após as derrotas, cada vez mais depressa
e mais radicalmente. Um descontentamento activo amparou-se da classe operária
completa. Na realidade, esta irritação foi ainda, em largos círculos, patrióticos, mas não
havia nada em comum com o patriotismo calculado e cobarde das classes dominantes
que adiavam todos os problemas interiores até à vitória. Porque, precisamente, a guerra,
as suas vítimas, os seus medos e as suas infâmias empurravam as antigas como as
novas camadas operárias contra o regime czarista, levava-os com uma violência temível e
à seguinte conclusão: isso não pode durar? Era uma opinião geral que contribuiu para a
coesão das massas e deu-lhes uma enorme força para a ofensiva.
O exército tinha aumentado, com milhões de operários e camponeses. Cada um
contava na tropa alguém de família: um filho, um marido, um irmão, um parente próximo.
O exército não era mais como antes da guerra, um meio separado do povo. Agora,
encontrávamos os soldados mais frequentemente; acompanhávamos quando eles
partiam para a frente, quando vinham de licença, ouvíamos as suas histórias,
conversávamos com eles, nas ruas, nos tróleis, falava-se das trincheiras, íamos vê-los ao
hospital. Os bairros operários, os quartéis, a frente e também, numa considerável
proporção, as aldeias tornaram-se de certa maneira, vasos de comunicação. Os operários
sabiam o que o soldado sente e pensa. Entre eles, haviam intermináveis conversas sobre
a guerra, sobre as pessoas que se enriquecem, sobre os generais, sobre o governo,
sobre o czar e a czarina. O soldado dizia da guerra: “Maldição!” O operário respondia,
falando do governo: “Que eles sejam amaldiçoados!” O soldado dizia: “Porquê calai-vos
aqui, no centro?” O operário respondia: “Quando se tem as mãos vazias, não há nada a

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fazer. Em 1905, nós já afrontámos infelizmente a tropa.” O soldado, após reflexão: “Ah! Se
todos se rebelassem conjuntamente!” O operário: “Sim, todos juntos.” Conversas deste
tipo, antes da guerra, só tinham lugar entre indivíduos isolados e de maneira clandestina.
Agora, era assim que se falava por todo o lado, a propósito de tudo, e quase abertamente,
pelo menos nos bairros operários.
A Okhrana czarista conseguia às vezes fazer boas sondagens. Quinze dias antes da
revolução, um bufo de Petersburgo, que assinava sob o pseudónimo de Krestianinov, fez
um relatório sobre uma conversa longa num trólei que atravessava um bairro operário.
Um soldado teria contado que oito homens do seu regimento tinham sido enviados para o
degredo por terem recusado, no último Outono, disparar sobre operários da fábrica Nobel
e por terem disparado sobre a polícia. Esta conversa teve lugar abertamente, visto que os
polícias e os bufos, nos bairros operários, preferiam passar despercebidos. “Nos faremos
contas com eles”, concluiu o soldado. O relatório continua assim: “Um operário disse
então: “Para isso, devemos organizar-nos, para que sejamos todos como um só homem.”
O soldado respondeu: “Para isso, não vale a pena preocupar-nos, há muito tempo que
nos organizamos... Eles beberam bastante sangue, os homens sofrem na frente, mas,
aqui, as pessoas empanturram-se!...” Não houve qualquer incidente particular. 10 de
Fevereiro de 1917. Krestianinov.” Incomparavelmente épico, o relatório do bufo ! “Sem
incidentes particulares!” Os incidentes deviam produzir-se, e logo: a conversa no trólei
assinala a iminência inevitável.
O carácter elementar da insurreição é ilustrado pelo exemplo curioso que dá
Mstislavsky: quando “a União dos Oficiais do 27 de Fevereiro”, constituida logo após a
insurreição, tentou estabelecer por inquérito quem, primeiro, tinha trazido para a rua o
regimento de Volhynie, houve sete deposições respeitante aos sete iniciadores dessa
acção decisiva. É muito provável, acrescentemos, que uma parte da iniciativa pertenceu a
alguns soldados; o que não impediu que o principal dirigente tenha podido cair nos
combates de rua, anonimamente. Mas isso não minimiza o valor histórico da sua iniciativa
anónima. O que é mais importante ainda, é que o outro lado do assunto, pelo qual nós
saímos do interior do quartel. O levantamento dos batalhões da Guarda que se declarou,
para a grande surpresa dos círculos liberais e dos socialistas legalistas, não foi de forma
nenhuma inesperada pelos operários. Se estes últimos não se revoltaram, o regimente
“volhyniano” nunca teria saído. O encontro entre operários e cossacos que um certo
advogado pôde observar pela janela, par dar parte a seguir, por telefone, a um deputado,
pareceu a um e a outro como um episódio de um processo impessoal: os gafanhotos das
fábricas tinham afrontado os gafanhotos dos quartéis. Mas pareceu ser outra coisa para o
cossaco que ousou piscar o olho do lado do operário, de outro jeito ainda ao operário que
decidiu de uma vez que o cossaco “tinha tido um bom golpe de vista”. A interpenetração
molecular da tropa e do povo continuou, sem interrupção. Os operários tomavam
constantemente o pulso da tropa e sentiam logo se aproximar o ponto crítico. O que lhes
deu também ao desenvolvimento das massas, que acreditavam na vitória, essa força
irresistível.
Aqui, nós devemos transmitir a impressionante nota de um dignitário que tentou
estabelecer um balanço das suas observações em Fevereiro:

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“É hábito dizer que o movimento começou pelo desencadeamento das forças
elementares, que os soldados saíram para a rua por sua própria iniciativa. Não estou de
acordo, de forma nenhuma sobre isso. E o que significa aliás essa palavra: “elementar”?...
A “geração espontânea” é, em sociologia, ainda menos apropriada que nas ciências
naturais. Se algum dirigente revolucionário de envergadura não atribuiu a sua etiqueta, o
movimento, sem ser impessoal, seria somente anónimo.”
Esta maneira de colocar a questão, incomparavelmente mais rigorosa que as
alegações de um Miliokov, respeitante os agentes da Alemanha e as forças elementares
da Rússia, é devido a um antigo procurador do czar que foi senador quando rebentou a
revolução. Talvez, seja a sua experiência judiciária que permitiu a Zavadsky de discernir
que um levantamento revolucionário não podia provenir das directivas de agentes do
estrangeiro, nem de um processo natural onde as personalidades não interviriam.
O mesmo autor cita dois episódios que lhe permitiram, de certa forma pelo buraco da
fechadura, um olhar sobre o laboratório do processo revolucionário. Na sexta-feira 24 de
Fevereiro, enquanto que, nos escalões superiores, ninguém previa ainda um
levantamento a curto prazo, um trólei no qual o senador tinha tomado lugar voltou-se
bruscamente com um tal vacarme que os vidros tiritaram e que um se quebrou, entre a
Perspectiva Liteiny e uma rua vizinha, imobilizando-se. O condutor convidou todos os
ocupantes a descerem. “ A viatura não irá mais longe”. Os viajantes protestaram,
injuriaram mas desceram. “Vejo ainda a cara do condutor, taciturno, sobriamente resoluto:
uma cara de lobo.” A circulação de tróleis parou por todo o lado. Esse condutor resoluto,
que já dava a um dignitário liberal a visão de uma “cara de lobo”, devia ter uma grande
consciência do dever para ousar ser o único a parar a sua viatura, cheia de funcionários,
numa rua de Petersburgo imperial, em tempo de guerra. São justamente tais condutores
que param o vagão da monarquia, pouco mais ou menos nestes termos: “ A viatura não
sairá daqui”, e desembarcou a burocracia sem estabelecer, estando apressada, estando
apressados, qualquer diferença entre generais da Guarda e os senadores liberais. O
condutor da Perspectiva Liteiny era um instrumento consciente da história. Ele deveria ter
sido educado previamente.
Durante o incendio do Palácio da Justiça, um jurista liberal, da mesma maneira que
o dito senador, lamentou-se na rua do facto de assistir à destruição do laboratório de
especialistas judiciários e dos arquives notariais. Um homem de idade madura, de
aspecto aborrecido, aparentemente, respondeu, resmungando: “Nós saberemos partilhar
as casas e as terras sem arquivos”. Provavelmente, o episódio foi arranjado
literáriamente. Mas os operários de idade madura desta especie e em posição de
responder indispensável não eram poucos na multidão. Eles próprios nada tinham a ver
com o incendio do Palácio de Justiça: ao que serviria? De qualquer forma, tais “excessos”
não poderiam de maneira alguma assustá-los. Eles armariam as massas, inspirando-lhe
não somente as ideias indispensáveis contra a polícia do czar, mas também contra os
juristas liberais, que temiam sobretudo que o fogo da revolução queimasse os actos
notariados da propriedade. Esses anónimos, rudes políticos da fábrica e da rua, não
tinham caído do céu; eles deviam ter sido educados.

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Registando os acontecimentos dos últimos dias de Fevereiro, a Okhrana dizia
também que ele era “elementar”, isto é, não dirigido metódicamente de cima; mas logo
acrescentou:
“O proletariado inteiro foi trabalhado pela propaganda.”
Esta afirmação era acertada: os profissionais da luta contra a revolução, antes de
ocupar as células dos revolucionários libertados, tinham discernido o processo do
momento melhor que não souberam os líderes do liberalismo.
A mística das “forças elementares” não esclarece nada. Para avaliar justamente a
situação e determinar o momento do levantamento contra o inimigo, era indispensável
que a massa, nos seus elementos dirigentes, colocasse as suas próprias reivindicações
face aos acontecimentos históricos, e possuísse os seus próprios critérios, para agir.
Noutros termos, não era necessário que a massa em geral, mas a massa dos operários
de Petrogrado, e de toda a Rússia, tendo passa pela revolução de 1905, pela insurreição
moscovita de Dezembro de 1905 que tinha quebrado o regimento da Guarda, dito
Semenovskyl; era preciso que, nessa massa, fossem disseminados os operários que
tinham reflectido sobre a experiência de 1905, criticado as ilusões constitucionais dos
liberais e dos mencheviks, tinham assimilado as perspectivas da revolução, tinham
examinado montes de vezes o problema da tropa, tinham observado atentamente o que
se passava nesse meio, e eram capazes de chegar às suas conclusões revolucionárias, e
de as comunicar aos outros. Enfim, era preciso encontrar, na guarnição, soldados de
espírito avançado, outrora tocados ou não, pela propaganda revolucionária.
Em cada fábrica, em cada corporação, em cada companhia militar, em cada taberna,
nos hospitais da tropa, a cada aquartelamento, e mesmo nos campos despovoados,
progredia um trabalho molecular da ideia revolucionária. Em todo o lado existia
comentadores dos acontecimentos, principalmente operários, junto de quem informavam-
mo-nos e que se esperava a palavra necessária. Os chefes de fila foram muitas vezes
abandonados à sua sorte, absorviam pedaços de generalizações revolucionárias que lhes
chegavam por diversas vias, descobrindo por eles próprios, nos jornais liberais, o que
precisavam ao ler entre as linhas. O seu instinto de classe era disfarçado pelo critério e,
se eles não pressionavam por todas as suas ideias até ao fim, o seu pensamento não
parava de, trabalhar obstinadamente, penetravam as massas e constituíam o mecanismo
íntimo, incompreensível, contudo decisivo, do movimento revolucionário, como processo
consciente.
Os políticos presuntuosos do liberalismo e do socialismo domesticado, tudo o que se
produz na massa parece ser simplesmente um processo instintivo, como se isso se
passasse num formigueiro ou numa colmeia. Na realidade, o pensamento que
atormentava a massa operária era mais arrojado, mais perspicaz, mais consciente que as
pequenas ideias com as quais se divertia a classe cultivada. Mais ainda: o pensamento
operário era mais científico: não somente porque ela tinha sido fecundada em larga
medida pelos métodos do marxismo, mas antes de mais porque ela tinha-se alimentado
da experiência viva das massas que deviam entrar logo na arena revolucionária.

116
O carácter científico do pensamento manifestou-se na sua correspondência com o
processo objectivo e na sua aptitude em influenciar o processo e regulá-lo. Que faculdade
era essa, mesmo no mais pequeno aspecto, pertencendo à mentalidade das esferas
governantes, onde se inspiravam do Apocalipse, onde se acreditava nos sonhos de
Raspotine? Ou então, por acaso, teriam elas sido científicamente fundadas, as ideias do
liberalismo que esperava que a Rússia atrasada, participando na luta dos gigantes
capitalistas, poderia ao mesmo tempo vencer e obter um regime parlamentar? Ou, talvez,
seriam concepções científicas dos círculos intelectuais que se confundiam servilmente
com o liberalismo decrepito desde da sua infância, abrigando assim a sua independência
ilusória sob uma verborreia há muito tempo ultrapassada? Na verdade, encontramo-los lá
no reino de um entorpecimento espiritual todo poderoso, no país dos fantasmas, das
superstições, da ficções, se quisermos, o reino das “forças elementares”.
Em consequência, não temos o direito absoluto de revisar completamente a filosofia
liberal da Revolução de Fevereiro? Sim ! Nós temos o direito de dizer: enquanto que a
sociedade oficial – esta superstrutura com numerosos andares que constituem as classes
dirigentes, com as suas camadas distintas, seus grupos, seus partidos e suas cliques –
vivendo dia a dia a sua inércia e o seu automatismo, alimentando-se dos restos de ideias
usadas, surda às exigências fatais da evolução, seduzida pelos fantasmas, não previam
nada, não se cumpria nas massas operárias um processo espontâneo e profundo, não
somente de ódio crescente contra os dirigentes, mas de julgamento crítico sobre a sua
impotência, de acumulação de experiência e de consciência criadora que se confirmou no
levantamento revolucionário e na sua vitória.
A questão posta acima: quem conduziu a Revolução de Fevereiro? Podemos, por
consequência responder com clareza desejada: operários conscientes e endurecidos que,
sobretudo, tinham sido formados na escola do partido de Lenine. Mas devemos
acrescentar que esta direcção, se ela foi suficiente para segurar a vitória da insurreição,
não esteve em posição de colocar, desde do início, a liderança da revolução entre as
mãos da vanguarda proletária.

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O paradoxo da Revolução de Fevereiro
A insurreição tinha vencido. Mas a quem ela passou o poder arrancado à
monarquia? Chegámos ao problema capital da Revolução de Fevereiro: como e porquê o
poder se encontrou nas mãos da burguesia liberal?
Quando os sarilhos rebentaram, no 23 de Fevereiro, não prestaram importância nos
círculos da Duma e da “sociedade” burguesa. Os deputados liberais e os jornalistas
patriotas encontraram-se como habitualmente nos salões e discutiam juntos a questão de
Trieste e de Fiume, e afirmavam de novo que a Rússia tinha necessidade absoluta dos
Dardanelos. Enquanto que a oukase de dissolução da Duma tinha já sido assinada, uma
comissão parlamentar discutia ainda, apressadamente, a transmissão dos serviços de
abastecimento à municipalidade. Menos de douze horas antes do levantamento dos
batalhões da Guarda, a Associação para as relações entre eslavos ouvia calmamente a
leitura do seu relatório anual.
“Foi ao regressar a pé dessa reunião – escreveu um dos deputados – foi somente
então que o silêncio angustioso e o aspecto desértico das ruas que, que habitualmente
eram mais animadas.”
Um vazio angustioso fez-se à volta das velhas classes dirigentes, e os seus
herdeiros de amanhã estavam apreensivos.
Por volta do dia 26, tornou-se evidente, tanto para o governo como para os liberais,
que o movimento era sério. Nesse dia, houve entre os ministros e certos membros da
Duma conciliábulos tendendo a um acordo, sobre os quais os liberais nunca mais tocaram
no assunto. Protopopov, nas suas deposições, declarou que os líderes do bloco da Duma
exigiam ainda, como habitualmente, a nomeação de novos ministros gozando da
confiança pública:
“Esta medida, talvez, acalmará o povo.”
Mas o dia 26 marcou, como se sabe, uma pausa no desenvolvimento da revolução e
o governo, por algumas horas, sentiu-se mais confortável. Quando Rodzianko se
apresentou junto de Golytsine para o persuadir a demitir-se, o presidente do Conselho
indicou sobre a mesa, a oukase da dissolução da Duma, já assinada por Nicolau, mas
ainda sem data. Foi Golytsine quem datou o documento. Como o governo poderia tomar
esta resolução no momento em que se desenvolvia a revolução? Sobre isso, a burocracia
dirigente tinha já há muito tempo estabelecido a sua posição.
“Que nós estejamos com ou sem o bloco, pouco importa ao movimento operário.
Pode-se vencer esse movimento por outros meios e, até ao momento, o ministério do
Interior safou-se bem.”
Foi assim que falava Goremykine desde Agosto 1915. Por outro lado, a burocracia
considerava que a Duma, se ela foi dissolvida, não se terminaria por nenhuma conclusão
audaciosa. Foi assim que em Agosto de 1915 que o príncipe Chtcherbatov, ministro do
Interior, no momento da discussão da dissolução da Duma, descontente, afirmou:

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“É muito improvável que os deputados se decidam em se insubordinar. São, em
maioria, cobardes, que não ariscam a pele.”
O príncipe não se exprimia com muita elegância, mas acertava em cheio, no fim de
contas. Na sua luta contra a oposição liberal, a burocracia sentia-se assim em terreno
firme.
Na manhã do dia 27, os deputados alarmados pela amplitude crescente dos
acontecimentos, reuniram-se em sessão ordinária. Foi somente então que a maioria
soube que a dissolução foi proclamada. A medida pareceu tanto mais inesperada que,
ainda na véspera, houve conversações de conciliação.
“E no entanto – escreveu orgulhosamente Rodzianko – a Duma inclinou-se diante da
lei, esperado ainda encontrar uma saída para esta situação complicada; ela não votou
nenhuma resolução no sentido de recusar em dissolver-se ou do recurso à violência para
se reunir.”
Os deputados juntaram-se em conferência privada, e confessaram a sua impotência.
Chidlovsky, liberal moderado, lembrou mais tarde, com algum sarcasmo, que um certo
Nekrassov, cadete da extrema esquerda, futuro associado de Kerensky, propôs
“estabelecer uma ditadura militar que devolveria o poder a um general popular”.
Entretanto, certos dirigentes do bloco progressista, que não assistiram a esta
conferência particular, tentaram de maneira prática salvar a situação. Rogaram o grande-
duque Miguel para vir a Petrogrado e, aí, propuseram exercer a ditadura, “forçar” o
pessoal do governo a demitir-se e exigir do czar, pelo telefone, que ele “cedesse” um
ministério responsável. No mesmo momento que se rebelavam os primeiros regimentos
da Guarda, os líderes da burguesia faziam uma última tentativa para esmagar a
insurreição com a ajuda de uma ditadura dinástica e, ao mesmo tempo, concordarem com
a monarquia às despensas da revolução.
“A irresolução que manifestou o grande-duque – declarou Rodzianko, com um tom
desolado – teve por consequência que se deixou escapar o momento favorável.”
A facilidade com a que os intelectuais radicais acreditavam no que eles desejavam,
vê-se no testemunho de Sokhanov, socialista sem afiliação partidária, que começou neste
período, a desempenhar, no palácio Tauride, um certo papel político.
“Informaram-me – escreveu nas suas amplas Memórias – o essencial que se
produziu novamente na política nas primeiras horas desta inesquecível jornada: a oukase
despedindo a Duma foi promulgada, e a Duma recusou disolver-se, elegendo um comité
provisório.”
O que procede foi escrito por um homem que mal saía do palácio de Tauride e que
tinha na mão os deputados notórios. Na sua História da Revolução, Miliokov, segundo
Rodzianko, declarou categóricamente:

119
“Após uma serie de discursos inflamados, decidiu-se que os deputados não
deixariam Petrogrado, mas não foi dito que, contrariamente à legenda que pretende, que
os membros da Duma recusariam separar-se como representantes de uma instituição.”
Recusar separar-se, foi tomar, de facto, uma iniciativa, ainda que tardia. Não deixar a
capital, era lavar as mãos e esperar para ver a volta que as coisas tomavam. A
credulidade de Sokhanov desculpa-se portanto por certas circunstâncias atenuantes. O
rumor segundo o qual a Duma teria tomado a decisão revolucionária de não obedecer à
okase imperial tinha sido metida a circular, à pressa, pelos jornalistas parlamentares, no
seu boletim de informação, a única publicação de então, no seguimento da greve geral.
Ora, como a insurreição tinha vencido naquele dia, os deputados não se apressaram em
refutar o erro cometido, encorajando assim na sua ilusão seus de esquerda: eles só
restabeleceram a verdade após terem emigrado. O episódio é, parece, de importância
secundária, mas é muito significativa. O papel revolucionário da Duma no dia 27 de
Fevereiro na sua totalidade um mito nascido da credulidade política dos intelectuais
radicais, satisfeitos e assustados pela revolução, incapazes de acreditar que as massas
pudessem levar a questão a bom termo, e apressados em encontrar rapidamente apoio
junto da burguesia censitária.
Entre as Memórias dos deputados que pertenceram então à maioria da Duma, foi
felizmente conservado um relatório que nos diz como esta Duma acolheu a revolução.
Segundo o príncipe Mansyriev, cadete de direita, não se encontrou, entre os deputados
que se juntaram em grande número na manhã do dia 27, nenhum dos membros da
direcção, nenhum dos líderes dos partidos, nenhum dos chefes de fila do bloco
progressista: os ausentes já estavam informados sobre a dissolução da Duma e sobre a
insurreição, e preferiram não se mostrarem o mais tempo possível; tanto mais que,
precisamente nesse tempo, eles estavam provavelmente em conversações com o grande-
duque Miguel sobre uma ditadura.
“No seio da Duma, a emoção era geral, o transtorno profundo, - disse Mansyriev.
Nem se ouviam conversas animadas; eram somente suspiros e curtas respostas do
género: “Cá estamos!” ou ainda confissões de temores pessoais.”
Tal é a narrativa de um deputado dos mais moderados, que deve suspirar mais
profundamente que os outros.
Antes das duas horas da tarde, quando os líderes se viram forçados em ir à Duma, o
secretário da direcção trouxe um alegre notícia, no entanto infundada:
“As desordens serão brevemente reprimidas, foram tomadas medidas.”
É possível que tenham compreendido “medidas” em vez de conversações sobre
uma ditadura. Mas a Duma, estava esgotada, e esperava uma palavra decisiva do líder do
bloco progressista. Ora, Miliokov declarou:
“Nós não podemos tomar, neste momento, nenhuma decisão, primeiro porque não
sabemos qual é a extensão dos sarilhos, seguidamente porque ignoramos de qual lado
alinha a maioria das tropas da guarnição, dos operários e das organizações sociais. É

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necessário recolher as informações precisas sobre tudo isso, e, seguidamente examinar a
situação; agora, ainda é demasiado cedo.”
Às duas horas da tarde, dia 27 de Fevereiro, era ainda demasiado “cedo” para o
liberalismo! “Recolher informações” significa lavar as mão e esperar a conclusão da luta.
Mas Miliokov não acabou o seu discurso, que aliás, ele tinha começado com a ideia
de a terminar com nada, porque Kerensky que se precipitou na sala, muito comovido
anunciou: uma imensa multidão de povo e de soldados, avançara a caminho do palácio
de Tauride, e esta multidão tem intenção de exigir da Duma que ela tome o poder!... Um
deputado radical sabe exactamente o que reclamam as potentes massas populares. Na
realidade, é Kerensky em pessoa que exige, pela primeira vez, que a Duma tome o poder
– esta Duma que, no fundo, espera sempre que a insurreição seja reprimida. A
comunicação de Kerensky provoca “um sarilho geral” e há “olhares assustados”. Todavia,
ele não teve tempo de terminar quando foi interrompido pelo oficial de diligências, que
ocorreu assustado: destacamentos de soldados, ultrapassando outros, aproximaram-se
do palácio, não sendo impedidos de entrar pelos homens do posto, o chefe da guarda
seria gravemente ferido. Um minuto depois, aconteceu que os soldados entraram no
palácio.
Mais tarde, deveria ser dito, nos discursos e nos artigos, que os soldados vieram
saudar a Duma e prestar sarmento. Mas, pelo momento, todos foram invadidos por um
pânico mortal. A vaga subiu-lhes à garganta. Os líderes sussurravam entre eles. É preciso
ganhar tempo. Rodzianko apressou-se em submeter à votação a proposição que lhe
sugeriram para constituir um comité provisório. Aclamações. Mas todos só tinham uma
ideia: fugir dali rapidamente, não se tratava de forma nenhumas eleições! O presidente,
tão aterrorizado como os outros, propôs que se confiasse ao Conselho dos decanos a
tarefa de formar o comité. Novas aprovações tumultuosas do punhado de deputados que
ficaram na sala: a maioria eclipsou-se. Foi assim que reagiu primeiro a Duma dissolvida
pelo czar diante a insurreição vitoriosa.
Entretanto, a revolução, no mesmo edifício, mas num local menos decorativo, criava
um outro órgão de poder. Os dirigentes revolucionários não tinham nada para inventar. A
experiência dos sovietes de 1905 estavam gravados para sempre na consciência
operária. A cada ascenso do movimento, mesmo no decurso da guerra, a ideia de
constituir sovietes renascia quase automaticamente. E, ainda que a concepção do papel
dos sovietes fosse profundamente diferente entre os bolcheviques e os mencheviques (os
socialistas revolucionários não tinham opinião estabelecida), a própria forma desta
organização estava, parece, fora de discussão. Os mencheviques, membros do comité
das indústrias de guerra, que acabavam de tirar da prisão, encontraram-se no palácio de
Tauride com os representantes activos do movimento sindical e da cooperação
pertencentes à mesma ala direita, assim que como os parlamentares Tchkheidzé e
Skobelev, - e eles constituíram logo ali um comité executivo provisório do Soviete dos
deputados operários, o qual se completou durante o dia, principalmente com os antigos
revolucionários que tinham perdido o contacto com as massas, mas mantinham “um

121
nome”. O comité executivo, cooptando igualmente bolcheviques, convidou os operários a
elegerem imediatamente os seus deputados.
A primeira sessão do Soviete foi marcada para a noite do mesmo dia, no palácio de
Tauride. Ela abriu, às nove horas, e rectificou a composição do executivo e designou,
além disso, representantes oficiais de todos os partidos socialistas. Mas não se tratava aí
do verdadeiro significado desta primeira assembleia dos representantes do proletariado
vencedor na capital. Os delegados dos regimentos insurgentes vieram à sessão exprimir
as sua felicitações. Entre eles, haviam os soldados analfabetos, marcados pela
insurreição e que não tinham papas na lingua. Mas eles encontravam precisamente as
palavras que nenhum outro tribuno possuía.
Foi uma das cenas das mais patéticas de uma revolução que acabava de sentir a
sua força, o despertar das massas sem número, a imensidade das tarefas a realizar, o
orgulho dos seus sucesso, uma alegre palpitação do coração ao pensar num dia seguinte
que devia ser ainda mais radioso que este dia. A revolução ainda não tem ainda ritos, a
rua está ainda cheia de fumo, as massas não sabem ainda cantar o seu novo repertório, a
sessão desenrola-se na desordem, com a potência das águas vernais que transbordam, o
Soviete abafou-se pelo entusiasmo. A revolução é já potente, mas ainda pueril na sua
ingenuidade.
Nesta primeira sessão foi decidido unir a guarnição com operários num só Soviete
de deputados e soldados. Quem, primeiro, propôs esta resolução? É provável que ela
viesse de diversos lados, como um eco da fraternização entre operários e soldados, que,
nesse dia, tinha decidido da sorte da revolução. Não se pode, todavia, dispensar de
assinalar que, segundo Chliapnikov, os sociais patriotas protestavam contra a intromissão
da tropa na política.
A partir do momento onde foi constituido, o Soviete, pelo intermédio do seu comité
executivo, começou a agir como o poder governamental. Ele elegeu uma comissão
provisória para os abastecimentos e o cargo de se ocupar de maneira geral das
necessidades dos insurrectos e da guarnição. Organizou o seu estado-maior
revolucionário provisório (tudo, nesses dias, foi declarado provisório) que falámos
precedentemente. Para retirar aos funcionários do antigo regime a faculdade de dispor
dos recursos financeiros, o Soviete decidiu que os corpos da guarda revolucionária
ocupassem logo o Banco do Império, a Tesouraria, a Moeda e os serviços de fabricação
de títulos do tesouro. As tarefas e as funções aumentaram constantemente sob a pressão
das massas. A revolução encontrou o seu centro incontestado. Os operários, os soldados
e logo os camponeses não se dirigiram senão ao Soviete, que tornou-se, aos seus olhos,
o ponto de concentração de todos as esperanças e de todos os poderes, a incarnação
mesmo da revolução. Mas os representantes das classes possuidoras virão também pedir
ao Soviete, mesmo rangendo os dentes, uma protecção, directivas, soluções a conflitos.
Todavia, desde das primeiras horas da vitória, enquanto que o novo poder
revolucionário se constituía com rapidez fabulosa e uma força irresistível, os socialistas
que se encontravam à cabeça do Soviete lançavam à volta deles olhares inquietos,
procurando um verdadeiro “patrão”. Eles consideravam coisa natural que o poder

122
passasse para a burguesia. Aqui forma-se o nó político principal do novo regime: por um
lado, o fio conduz à sala do Executivo dos operários e dos soldados; por outro, ele leva ao
centro dos partidos burgueses.
O conselho dos decanos da Duma, pelas três horas, no momento que a vitória na
capital já estava decidida, eleito um “Comité provisório dos membros da Duma”,
constituido com elementos dos partidos do bloc progressista, ao qual se juntou Tchkeidzé
e Kerensky. Tchkeidzé recusou. Kerensky hesitava. O nome do comité indicava, em
termos circunspectos, que não se tratava de um órgão oficial da Duma do Império, que se
formava somente, a título privado, um órgão da conferência dos membros da Duma. Os
líderes do bloco progressista só meditaram somente numa questão até ao fim: como
escapar às responsabilidades e manter as mãos livres?
A tarefa do Comité foi determinada em termos ambiguos, cuidadosamente
escolhidos:
“restabelecer a ordem e as relações com as instituições e as personalidades”.
Nem uma palavra sobre a natureza da ordem que esses senhores entendem
restabelecer, sobre as instituições com as quais eles desejam manter relações. Eles ainda
não estendem a mão para pele do urso...possivelmente o animal ainda não estava morto,
mas gravemente ferido!... Foi somente às onze horas da noite, do dia 27 de Fevereiro,
quando, segundo a confissão de Miliokov, “o movimento revolucionário manifestou-se
com toda a sua amplitude”, que “o comité provisório decidiu dar mais um passo e de
tomar o poder que deixava escapar o governo”. Imperceptívelmente, o comité dos
membros da Duma transformou-se em comité da Duma: quando se quer conservar as
aparências jurídicas de uma sucessão do poder, não há melhor meio senão falsear.
Mas Miliokov calou-se sobre o mais importante: os líderes do Comité executivo que
se formou durante o dia tinham arranjado tempo de se apresentarem ao Comité provisório
e de lhe persuadir a tomar o poder. Esta pressão amigável devia ter consequências.
Seguidamente, Miliokov explicou a decisão do Comité da Duma dizendo que o governo
ter-se-ia aprontado a marchar contra os insurrectos das tropas seguras e que,
“nas ruas da capital, poder-se-ia temer verdadeiras batalhas”.
Na realidade, o governo não dispunha mais de tropas, era já tinha sido derrubado.
Rodzianko escreveu mais tarde que
“se a Duma tinha recusado tomar o poder, ela teria sido detida e massacrada
completamente pelas tropas revoltadas, e que o poder teria caído imediatamente nas
mãos dos bolcheviques.”
Há aí, seguramente, um exagero absurdo, completamente no espírito do honrado
cavalheiro; mas ela traduz sem dúvida o estado de espírito da Duma que, vendo-se
atribuir o poder, considerou-se como políticamente violada.
Em tal situação, a solução não era fácil. As hesitações de Rodzianko eram
particularmente movimentadas, que suscitavam outras:

123
“O que vai acontecer? É uma revolta ou não?”
Um deputado monárquico, Chulguine, deu, segundo as suas palavras, esta resposta
à Rodzianko:
“Não há nenhuma revolta. Tomai o poder na qualidade de sujeito fiel...Se os
ministros fugiram, alguém deve substituí-los...Pode haver duas saídas: ou tudo acabará
por se arranjar, o soberano designará um novo governo, nós remetemos-lhe o poder. Se
isso não resultar, se nós não recolhemos o poder, este cairá nas mãos de gente já eleita
por uma certa canalha, nas fábricas...”
Inútil de citar as bestialidades pronunciadas pelo cavalheiro reaccionário contra os
operários: a revolução esmagou esses senhores. A moral é clara: se a monarquia ganhou,
nós estaremos com ela; se a revolução é vencedora, despachemos-nos a elaborá-la.
A consulta demorou. Os líderes democratas esperavam, muito agitados, uma
solução. Enfim, do gabinete de Rodzianko, saiu Moliokov. Tinha um ar solene. Avançando
para a delegação do Soviete, declarou:
“Há uma decisão, tomamos o poder...”
E, nas suas Memórias, Sokhanov escreveu com entusiasmo:
“Não perguntei o que significava esse “nós”. Não pedia mais nada. Mas, segundo a
expressão corrente, sentia em todo o meu ser a nova situação. Sentia-me como o barco
da revolução, balançava nesse tempo, ao grado dos elementos furiosos, vinha içar as
velas, encontrar a estabilidade e a regularidade dos movimentos na temível tempestade
que o sacudia.”
Que termos refinados foram utilizados para confessar prosaicamente o servilismo da
democracia pequeno-burguesa diante do capitalismo liberal! E que tremendo erro de
perspectiva política: o abandono do poder aos liberais não dará nenhuma estabilidade ao
barco do Estado, e, ao contrário, a partir desse dia, tornar-se-à para a revolução uma
razão de impotência, de caos formidável, de sobreexcitação das massas, de debandada
da frente e, a seguir, de um extremo empenhamento na guerra civil.
Se olharmos para os séculos passados, a passagem do poder para as mãos da
burguesia parece seguir uma regra definida: em todas as revoluções precedentes, nas
barricadas lutavam operários, pequenos camponeses, pequenos artesãos, um certo
número de estudantes; os soldados tomavam partido; a seguir, a burguesia bem
abastecida, que tinha prudentemente observado os combates de barricadas pela janela,
recolhia o poder. Mas a Revolução de Fevereiro de 1917 diferenciava-se das revoluções
precedentes pelo carácter incomparavelmente mais elevado e pelo alto nível político da
classe revolucionária, pela desconfiança hostil dos insurrectos em relação à burguesia
liberal e, em consequência, pela criação, no próprio momento da vitória, de um novo
órgão de poder revolucionário: um Soviete apoiando-se sobre a força armada das
massas. Nessas condições, remeter o poder à burguesia isolada politicamente e
desarmada pede uma explicação.

124
Antes de tudo, é preciso considerar de perto as relações de forças que se
estabeleceram, resultado da insurreição. A democracia soviética não estava obrigada
pelas circunstâncias objectivas a renunciar ao poder, em proveito da alta burguesia? A
própria burguesia nem pensava nisso. Já sabemos que, longe de esperar que revolução
lhe daria o poder, a burguesia previa desta última um perigo de morte para toda a sua
situação social.
“Os partidos moderados – escreveu Rodzianko – não somente não desejavam uma
revolução: eles temiam-na simplesmente. O partido da liberdade do povo (“cadetes)”,
nomeadamente, como esquerda dos grupos moderados e, em consequência, tendo mais
pontos de contacto com os partidos revolucionários do país, estava mais que qualquer
outro preocupado diante da catástrofe iminente.”
A experiência de 1905 lembrava de maneira demasiado convincente aos liberais que
uma vitória dos operários e dos camponeses poderia revelar-se não menos perigosa para
a burguesia que para a monarquia. A marcha da insurreição de Fevereiro, segundo as
aparências, confirmava somente esta previsão. Uniformes que fossem, sob vários pontos
de vista, as ideias política das massas revolucionárias, nesses dias, a linha de separação
entre trabalhadores e a burguesia foi contudo traçada.
Stankevitch – docente na Universidade, que tinha conhecimentos nos círculos
liberais, amigo e não inimigo do bloco progressista, caracterizou da seguinte maneira o
estado de espírito desses meios no dia após a insurreição que eles não com seguiram
prevenir:
“Oficialmente, eles triunfariam, eles celebrariam a revolução, gritavam vivas em
honra dos combatentes da liberdade, cobriam-se de fitas vermelhas, marchavam sob as
bandeiras vermelhas... Mas, no fundo, e a sós, eles estavam amedrontados, tremiam e
sentiam-se prisioneiros do elemento hostil que se metia por caminhos desconhecidos.
Nunca esquecerei a cara de Rodzianko, grande e gordo proprietário, grande personagem,
quando, mantendo um ar de altiva dignidade, mas também, com os seus traços pálidos,
as marcas de um profundo sofrimento e do desespero, atravessava a multidão de
soldados, descontraídos nos corredores do palácio de Tauride. Oficialmente, dizia-se que
“os soldados tinham vindo apoiar a Duma na luta contra o governo”, mas, de facto, a
Duma tinha sido dissolvida, desde dos primeiros dias. E encontrar-se-ia a mesma
expressão sobre todos os rostos, entre os membros do Comité provisório da Duma e nos
meio que a rodeavam. Diz-se que representantes do bloco progressista choraram, quando
chegaram a casa, em cenas de histeria causadas pelo desespero e impotência.”
Esse testemunho vivo tem mais valor que todas as outras pesquisas sociológicas
sobre as relações entre as forças. Segundo a narrativa de Rodzianko, este tremia de
indignação impotente ao ver os soldados desconhecidos, “obedecendo a ordens dadas
não se sabe por quem”, procediam à prisão de altos dignitários do antigo regime e
levavam-os à Duma. O cavalheiro encontrava-se assim, de certa maneira, responsável
pela prisão de de pessoas com as quais não estava sempre de acordo mas que era
pessoas do seu meio. Consternado por essas medidas “arbitrárias”, Rodzianko convocou

125
ao seu gabinete Chtcheglovitov, que tinham prendido, mas os soldados recusaram-se a
remetê-lo ao dignitário que eles detestavam.
“Como tentava dar provas de autoridade – escreve Rodzianko – os soldados
cercavam o prisioneiro mostrando-lhe suas armas, com um ar provocante e insolente;
seguidamente, Chtcheglovitov foi levado não sei para onde.”
Poder-se-ia confirmar de maneira mais clara Stankevitch, afirmando que os
regimentos vindos, dizia-se, apoiar a Duma, revogavam a realidade?
Que o poder, desde da primeira hora, pertenceu ao Soviete, os membros da Duma
podiam somente permitirem-se sobre esse assunto menos ilusões que ninguém.
Chidlovsky, deputado outubrista, um dos chefes do bloco progressista, escreveu nas sua
Lembranças:
“O Soviete tomou possessão de todos os centros de correios e do telegrafo, de
todas as gares de Petrogrado ou ainda das tipografias, de maneira que, sem autorização,
tivesse sido impossível enviar um telegrama ou abandonar Petrogrado ou mesmo de
imprimir um manifesto.”
Esta característica sem equívocos das relações de força só precisam de serem
esclarecidas sob um aspecto: a “tomada” dos correios e telégrafos, caminhos de ferro,
tipografias, etc., pelo Soviete, significa somente que os operários e os empregados
dessas empresas não queriam subornar-se a ninguém, excepto ao Soviete.
A queixa de Chidlovsky ilustra-se melhor por um episódio que se desenrolou quando
as negociações sobre o poder entre os líderes do Soviete e da Duma. A reunião geral foi
interrompida por um comunicado urgente informando de Pskov, onde o czar se
encontrava agora, após ter deambulado sobre as linhas de caminho de ferro, quando
Rodzianko foi chamados à estação de telegrafo. O todo poderoso presidente da Duma
declarou que não iria sozinho. Que os Senhores deputados operários e soldados me
forneçam uma escolta ou venham comigo; senão serei preso ao chegar ao telegrafo...
Bem entendido! - continuou, irritando-se. - Vocês têm agora o poder e a força. Podem
naturalmente mandarem prender-me... Talvez nos prendam todos! Não sabemos!” Isto
passou-se no primeiro de Março; apenas quarenta e oito horas passadas desde que o
comité provisório, à cabeça do qual se encontrava Rodzianko, tinha “tomado” o poder.
Como, entretanto, em tais circunstâncias, os liberais se encontravam no poder?
Quem (e como?) os tinham habilitado a formar esse governo saído de uma revolução que
eles temiam, contra a qual eles tinham agido, que procuraram esmagar, que se tinha feito
com tanta resolução e ousadia que o Soviete dos operários e soldados, saído da
insurreição, mostrava-se naturalmente e incontestavelmente mestre da situação?
Escutemos agora o outro lado, o que abandonou o poder. Sokhanov escreveu
sobres os dias de Fevereiro:
“O povo não estava de forma nenhuma voltado para a Duma, ele não se interessava
por ela e não sabia que fazer dela – a título político ou técnico – o centro do movimento.”

126
Essa confissão é tanto mais digna de atenção que o autor, nas primeiras horas, vai
esforçar-se para que o poder seja transmitido a um governo da alta burguesia. “Podemos-
nos exprimir mais categóricamente? Uma situação política poderia ser mais clara? E, no
entanto, Sokhanov, em plena contradição com a situação e com ele mesmo, declarou
logo:
“O poder que acaba de substituir o czarismo não deve ser burguês...É sobre esta
dedução que é preciso guiarmo-nos. De outro jeito, a insurreição falharia e a revolução
perder-se-ia.”
A revolução perdida por causa de um Rodzianko!
A questão das relações de forças entre as forças sociais é aqui substituida por um
esquema concebido à priori e na terminologia convencional: aí precisamente está a
quinta-essência do doutrinário dos intelectuais. E veremos mais longe que esse
doutrinário não tinha nada de platónico: ele substituía uma função política perfeitamente
realista, ainda que ele tivesse os olhos vendados.
Não foi por acaso que citámos Sokhanov. Neste primeiro período, o impostor do
comité executivo não era o seu presidente, Tchkheidzé, honesto e provinciano limitado,
mas Sokhanov, o homem menos adequado, digamos, de uma maneira geral para a
liderança de uma revolução. Meio populista, meio marxista, mais observador
consciencioso que homem político, mais jornalista que revolucionário, mais pensador que
jornalista, ele não era capaz de manter uma concepção revolucionária até ao momento
que esta concepção deveria ser aplicada. Internacionalista passivo durante a guerra,
decidiu desde do primeiro dia da revolução, que se deveria logo que possível entregar o
poder e a guerra à burguesia. Como teórico, pelo menos por necessidade, senão pela sua
capacidade de juntar as duas pontas, ele era superior aos outros membros do comité
executivo de então. Mas a sua principal força consistia mesmo assim no facto que ele
traduzia em linguagem doutrinária os traços orgânicos desta irmandade de gente de toda
a especie, portanto homogénea: falta de fé nas suas próprias forças, medo das massas,
atitude arrogante, mas deferente em relação à burguesia. Lenine dizia de Sokhanov que
ele era um dos melhores representantes da pequena burguesia. E é o que se pode dizer
de lisonjeiro sobre ele.
Não se deve esquecer que se trata aqui, antes de mais, da pequena burguesia de
um novo tipo capitalista: empregados da indústria, do comércio, da banca, funcionários do
capital por um lado, e da burocracia operária por outro lado, isto é desse novo terceiro
estado em nome do qual o social democrata alemão bem conhecido Eduard Bernstein, no
fim do século passado, tinha empreendido a revisão da concepção revolucionária de
Marx. Para dizer como a revolução cedeu o poder à burguesia, devemos introduzir um elo
intermediário no seguimento dos factos políticos: os pequenos burgueses democratas e
socialistas do género de Sokhanov, os jornalistas e os políticos de um novo terceiro
estado, que ensinavam às massas que a burguesia é a inimiga, mas temiam sobretudo
subtrair as massas à autoridade deste inimigo. A contradição entre o carácter da
revolução e o de um governo que daí resultou explica-se pelo carácter contraditório do
novo meio pequeno burguês que se colocou entre as massas revolucionárias e a

127
burguesia capitalista. No decurso dos acontecimentos ulteriores à revolução, o papel
político da democracia pequena burguesa novo género nos será completamente
desvendada. Previamente, limitemos-nos em dizer algumas palavras.
Na insurreição, é a minoria da classe revolucionária que intervém directamente e
encontra a sua força no apoio ou, pelo menos, as simpatias da maioria. A maioria activa a
e combativa, sob o fogo do inimigo, avança inevitavelmente os seus elementos mais
revolucionários e os mais abnegados. É sobretudo natural que, nos combates de
Fevereiro, os operários bolcheviques tenham estado nos postos avançados. Mas a
situação muda com a vitória, quando ela encontra a sua estabilidade política. Nas
eleições para a constituição de órgãos e instituições da revolução vitoriosa são convocada
e afluem as massas infinitamente mais numerosas que as que combateram de armas na
mão. Isto diz respeito não somente às instituições gerais da democracia,tais que as
Dumas municipais, os zemstvos, ou mais tarde a Assembleia constituinte, mas também os
órgãos de castas tais como os sovietes de deputados operários.
A esmagadora maioria dos operário, mencheviques, socialistas revolucionários e
sem partido, apoiaram os bolcheviques no momento onde a luta contra o czarismo se
tornou uma luta de corpo a corpo. Mas só houve uma pequena maioria de operários que
compreenderam que os bolcheviques se distinguiam dos outros partidos socialistas.
Todavia, todos os trabalhadores traçaram uma clara linha de demarcação entre eles e a
burguesia. Foi o que determinou a situação política após a vitória. Os operários elegeram
socialistas, isto é, os que estavam não somente contra a monarquia, mas também contra
a burguesia. Eles quase que não diferenciavam entre os três partidos socialistas. Mas
como os mencheviques e os socialistas revolucionários dispunham de quadros
intelectuais incomparavelmente mais consideráveis que se juntavam a eles vindos de
todos os lados, obtendo assim de uma vez uma reserva formidável de agitadores, as
eleições, mesmo nas fábricas e oficinas, deram-lhes uma preponderancia formidável.
No mesmo sentido, mas com uma força incalculável, ia a pressão da tropa
despertada. No quinto dia da insurreição, a guarnição de Petrogrado seguiu os operários.
Após a vitória, ela foi chamada a eleger sovietes. Os soldados deram voz e confiança aos
que se pronunciavam contra os oficiais monárquicos, pela revolução, e souberam dizê-lo
em voz alta: estes últimos eram voluntários, escriturário da tropa, oficiais da saúde, jovens
oficiais do tempo da guerra recrutados entre os intelectuais, pequenos empregados da
administração militar, isto é, a camada inferior do mesmo “novo terceiro Estado”. Quase
todos inscreveram-se desde Março no partido socialista revolucionário que, pela
inconsistência do seu pensamento, respondia melhor à situação social intermediária
assim como à insuficiência política deles. Os representantes da guarnição foram, por
consequência, muito mais moderados e mais burgueses que a própria massa dos
soldados. Esta, todavia, não via a diferença, a qual só se devia manifestar após a
experiência dos meses seguintes.
Os operários, por outro lado, queriam tornar sua ligação com os soldados tão
estreita que possível para consolidar uma aliança comprada com sangue e armar de
forma mais segura a revolução. E como, em nome do exército, falavam sobretudo os

128
socialistas revolucionários da última hora, a autoridade desse partido e dos seus aliados,
os mencheviques, só podiam aumentar aos olhos dos operários. Foi assim que, nos
sovietes, se afirmou a preponderancia dos dois partidos conciliadores. Basta dizer que,
mesmo no Soviete do bairro de Vyborg, o papel dos dirigentes pertenceu nos primeiros
tempos aos operários mencheviques. O bolchevismo, nesse período, fervia somente nas
profundidades da revolução. Os oficiais do bolchevismo, mesmo no seio do Soviete de
Petrogrado, representavam uma minoria que, aliás, não definia muito claramente a sua
tarefa.
Foi assim que se constituiu o paradoxo da Revolução de Fevereiro. O poder está
nas mãos dos socialistas democratas. Eles não o detêm de forma nenhuma por acaso,
por um golpe de mão à moda de Blanqui; não, o poder foi-lhe abertamente dado pelas
massas populares vitoriosas. Essas massas não somente recusaram a sua confiança à
burguesia, o seu apoio, mas elas não a diferenciavam da nobreza ou da burocracia. Elas
meteram as suas armas exclusivamente à disposição dos sovietes. Ora, a única
preocupação dos socialistas que acederam facilmente à cabeça dos sovietes era de saber
se a burguesia, politicamente isolada, odiada pelas massas, inteiramente hostil à
revolução, consentiria em recolher o poder das suas mãos. O seu consentimento deve ser
adquirido a qualquer preço; mas como a burguesia não pode evidentemente renunciar ao
seu programa, somos nós, “socialistas” que convêm que desistamos do nosso: calarmo-
nos sobre a monarquia, sobre a guerra, sobre a questão agrária, com a condição que a
burguesia aceite a prenda do poder.
Entregando-se a esta operação, os “socialistas”, como eles riam deles próprios,
continuam a denominar a burguesia de outra forma salvo de inimigo de classe. É com um
ceremonial quase religioso que se celebra um acto de provocação sacrilégio. Uma luta de
classe levada até ao fim visa a conquista do poder. A faculdade essencial de uma
revolução é de levar a luta de classe até ao fim. Uma revolução é precisamente uma luta
directa pela tomada do poder. Ora, nós, “socialistas” preocupamo-nos não de arrancar o
poder ao inimigo de classe, (dizem) que, portanto, não o detém e não o saberia tomar
pelos seus próprios meios, mas de lhe entregar a qualquer preço esse poder. Não é um
paradoxo? Parece tanto mais impressionante que a experiência da Revolução alemã de
1918 ainda não existia e que a humanidade não tinha ainda sido testemunha da
prodigiosa operação do mesmo género, com sucesso, que realizou o “novo terceiro
Estado” que dirige a social democracia alemã.
Como é que os conciliadores explicam a sua conduta? Eles tinham primeiro um
argumento de doutrinários: a revolução sendo burguesa, os socialistas não devem
comprometer-se ao tomar o poder; - que a burguesia responda por ele própria! Foi com
um tom muito intransigente. Mas, na realidade, a pequena burguesia escondia sob o
exterior da intransigência as suas lisonjas diante da potência da riqueza, da instrução, do
censo. Os pequenos burgueses reconheciam à alta burguesia uma especie de direito
primordial a tomar o poder, independentemente das relações de forças. Foi pouco mais ou
menos, no fundo, o gesto instintivo do pequeno comerciante ou do modesto professor
que, na gare ou no teatro, apaga-se respeitosamente para deixar passar...Rothschild! Os
argumentos dos doutrinários servem de compensação à consciência que eles tinham da

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sua própria nulidade. Dois meses mais tarde, quando se tornou evidente que a burguesia
não chegaria a reter pelos seus próprios meios o poder que lhe tinha sido cedido, os
conciliadores rejeitaram sem dificuldade os seus preconceitos “socialistas” e entraram
num governo de coligação. Não para expulsar a burguesia, mas para a salvar. Não contra
a vontade desta, mas a convite que tinha o tom de uma ordem: a burguesia ameaçava os
democratas de lhe jogar o poder à cabeça, em caso de recusa.
O segundo argumento invocado para rejeitar o poder foi, teve a aparência, de ordem
prática, sem ser, no fundo, mais séria. Sokhanov, que já conhecemos, invocava antes de
tudo “a dispersão” da Rússia democrática: “Nas mãos da democracia não se encontrava
então organizações sólidas e influentes, nem partidos, nem sindicatos, nem
municipalidades.” Isso tinha um tom de troça! Sobre os sovietes de deputados operários e
soldados, nem uma palavra é pronunciada por um socialista que fale em nome dos
sovietes. E no entanto, graças à tradição de 1905, os sovietes surgiram, de qualquer
modo, da terra e tornaram-se incomparavelmente mais potentes que todas as outras
organizações que tentaram mais tarde rivalizar com eles (municipalidades, cooperativas,
parcialmente os sindicatos). No que diz respeito à classe camponesa, a força dispersa
pela sua própria natureza, ela era organizada, mais do que ela tinha alguma vez sido, em
consequência da guerra e da revolução: a guerra tinha reunido os camponeses na tropa e
a revolução tinha dado ao exército um carácter político! Pelo menos oito milhões de
camponeses reunidos em companhias e em esquadrões, os quais constituíam
imediatamente suas delegações revolucionárias por intermédio dos quais, a qualquer
momento, sob apelo telefónico, poderiam constituir-se. Isso equivaleria à dispersão?
Pode-se seguramente dizer que no momento onde se decidia a questão do poder, a
democracia ainda não sabia qual seria a atitude da tropa na frente. Nós não levantaremos
a questão de saber se havia o mais pequeno motivo de temer ou de esperar que os
soldados da frente, excedidos pela guerra, quisessem apoiar a burguesia imperialista.
Basta constatar que esta questão fosse integralmente resolvida nos dois ou três primeiros
dias que os conciliadores empregaram justamente a preparar nos corredores um governo
burguês. “A insurreição estava, no 3 de Março, felizmente terminada”, confessou
Sokhanov. Embora todo o exército tivesse aderido aos sovietes, seus líderes afastavam o
poder com toda a sua força: eles temiam-o tanto mais que ele se concentrava
completamente entre as suas mãos.
Mas então porquê? Como é que os democratas, os “socialistas” que se apoiavam
directamente sobre tais massas humanas que não conheceu nunca nenhuma democracia
na história, e ainda sobre massas providas de uma experiência considerável, disciplinada,
armadas, organizadas em sovietes – como esta democracia poderosa, inquebrável
tivesse parecido, poderia temer a tomada do poder? Este enigma, subtil à primeira vista,
se explica pelo facto que a democracia não tinha confiança no seu próprio apoio,
apreendiam as massas, duvidavam da solidez da confiança dada a esta, e, sobretudo,
temia a “anarquia”,isto é receava, após ter recolhido o poder, tornar-se, no exercício da
autoridade, o instrumento do que se chama os elementos desencadeados. Noutros
termos, a democracia não se sentia convidada a tomar a liderança do povo, no momento
do seu ascenso revolucionário, mas designada como ala esquerda da ordem burguesa,

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uma especie de antena desta estendida do lado das massas. Ela se dizia e considerava-
se mesmo socialista para esconder não somente às massas, mas aos seus próprios
olhos, seu papel efectivo: se ela não se excitava, ela não pôde jogar esse papel. Assim se
explica o paradoxo fondamental da Revolução de Fevereiro.
Na noite do primeiro de Março, os delegados do comité executivo, Tchkheidzé,
Stieklov, Sokhanov e outros foram à sessão do comité da Duma para discutir as
condições nas quais o novo governo seria apoiado pelos sovietes. O programa dos
democratas passava completamente em silêncio os problemas da guerra, da proclamação
da República, da repartição das terras, do dia de oito horas, e concluía uma única
reivindicação: a da liberdade de agitação para os partidos de esquerda. Belo exemplo de
desinteresse, para os povos e o séculos: os socialistas que tinham nas mãos todo o
poder,e de quem dependia completamente a recusa ou cedência de outras liberdades de
agitação, cediam o poder aos seus inimigos de classe “sob as condições que estes
prometiam... a liberdade de agitação! Rodzianko não ousava ir à estação de telegrafo e
dizia a Tchkhei
dzé e a Sokhanov: “Vocês têm o poder, podem calar-nos todos.” Tchkheidzé e
Sokhanov responderam-lhe; “Tomai o poder, mas não nos prenda por ter feito
propaganda!” Se estudasse-mos as negociações dos conciliadores com os liberais e, em
suma, todos os episódios das relações mútuas entre a ala esquerda e a ala direita do
palácio de Tauride, nesses dias, dir-se-ia que, sob a cena gigantesca onde se
desenrolava um drama popular histórico, um grupo de actores provinciais, aproveitando
um canto livre e de uma pausa, desempenhava uma comédia musical por travestis
interpostos.
Os líderes da burguesia, devemos prestar-lhes essa homenagem, não esperavam
nada de igual. Teriam temido talvez menos a revolução se tivessem calculado que os
seus dirigentes adoptariam uma tal politica. Na verdade, mesmo nesse caso, eles teriam
cometido um erro de cálculo, mas logo de forma comum com estes últimos. Temendo
portanto que a burguesia não consentisse tomar o poder, mesmo nas condições
propostas, Sokhanov lançou um ultimato ameaçador: “Os elementos desencadeados
podem ser dominados por nós – ou por ninguém... Só há uma saída: que vocês aceitem
as nossas condições.” Noutros termos: “Aceitai um programa que é também o vosso. Mas
nós prometemos-vos, em contrapartida, de refrear as massas que nos deram o poder.”
Pobres domadores de elementos!
Miliokov foi surpreendido. “Ele nem sonhava – escreve Sokhanov – em esconder a
sua satisfação e sua agradável surpresa. Mas quando os delegados do Soviete, para dar
às suas palavras mais peso, acrescentaram que as suas condições eram “definitivas”,
Miliokov tornou-se sentimental e encorajou-os por uma frase: “Sim, compreendi-os bem e
reflecti muito e pensei como o nosso movimento operário tinha avançado desde 1905...”
Foi sobre este mesmo tom indulgente que os crocodilos da diplomacia do Hohebzollern se
entretinham, em Brest-Litovsk, com os delegados da Rada ucraniana, homenageando a
maturidade de homens de Estado antes de os engolir. Se a democracia soviética não foi
engolida pela burguesia, não foi por mérito de Sokhanov, nem por culpa de Miliokov.

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A burguesia recebeu o poder nas costas do povo. Ela não dispõe de qualquer apoio
nas classes trabalhadoras. Mas, com o poder, ela obteve em segunda mão qualquer coisa
como um apoio: os mencheviques e os socialistas revolucionários, incitados pelas
massas, remetiam por sua própria iniciativa um mandato de confiança à burguesia. Se
considerar-mos esta operação numa perspectiva enviesada de uma democracia formal,
ter-se-á o quadro das eleições em duas etapas, nas quais os mencheviques e os
socialistas revolucionários tomam o papel técnico de intermediários, isto é de eleitores
dos cadetes. Se consideramos a questão do ponto de vista politico, devemos dizer que os
conciliadores traíram a confiança das massas ao apelar ao poder daqueles contra os
quais eles próprios tinham sido eleitos. Enfim, de um ponto de vista social mais profundo,
a questão coloca-se assim: os partidos pequeno burgueses que, nas condições da vida
quotidiana, se mostram extraordinariamente pretenciosos e satisfeitos com eles próprios,
ressentiram, logo que a revolução os levou à cimeira do poder, ansiedade diante a sua
própria insuficiência e se apressaram a passar o leme aos representantes do capital.
Nessa acção vacilante manifestaram-se de repente a temível inconsistência do novo
terceiro Estado e a sua humilhante dependência diante da alta burguesia.
Compreendendo ou simplesmente pressentindo que, aliás, eles não estariam em
condições de manter por muito tempo o poder, que eles deveriam em breve ceder, seja à
direita, seja à esquerda, os democratas concluíram que era preferível entregá-lo no
próprio dia aos sólidos liberais, em vez de ser no dia seguinte aos representantes
extremistas do proletariado. E assim elucidado, o papel dos conciliadores, qualquer que
seja o seu condicionamento social, não deixa de ser uma traição para com as massas.
Tendo confiado nos socialistas, os operários e os soldados viram-se, de uma
maneira imprevista por eles próprios, politicamente expropriados. Ficaram
desconcertados, alarmaram-se, mas não encontraram logo saída. Seus próprios eleitos
atordoaram-os com argumentos aos quais eles não tinham qualquer resposta pronta, mas
que contradiziam todos os seus sentimentos e os seus anseios. As tendências
revolucionárias das massas não correspondiam mais, no momento da insurreição de
Fevereiro, às tendência conciliadoras dos partidos pequenos burgueses. O proletariado e
os camponeses votavam pelo menchevique e o socialista revolucionário, não como para
conciliadores, mas como para inimigos do czar, do proprietário, do capitalista. Ao votar por
estes últimos, eles estabeleceram uma divisória entre eles próprios e os seus objectivos.
Eles já não podiam avançar mais sem bater na parede que eles mesmos tinham erigido
sem a derrubar. Tal foi o surpreendente quiproquó nas relações de classe que revelou a
Revolução de Fevereiro.
Ao paradoxo fundamental se juntou imediatamente outro. Os liberais consentiram
em recolher o poder das mãos dos socialista somente com a condição que a monarquia
aceitaria o poder das suas próprias mãos.
Enquanto que Gotchokov, com o monárquico Cholguine, que o leitor já conhece, foi a
Pskov para salvar a dinastia, o problema de uma monarquia constitucional tornou-se o
ponto central das negociações entre os dois comités do palácio de Tauride. Miliokov
esforçou-se em demonstrar aos democratas que lhe traziam o poder na palma da mão,
que os Romanov não seriam mais um perigo, que naturalmente, Nicolau devia ser

132
eliminado, mas que o czarevitch Alexis, sob a regencia de Miguel, poderia muito bem
assegurar a prosperidade do país: “Um é uma criança doente, o outro um imbecil.”
Juntemos a isso a característica dada por um monárquico liberal, Chidlovsky, ao
candidato czar: “Miguel Alexandrovitch evitava de qualquer maneira de se intrometer nos
assuntos do Estado, qualquer que ele fosse, e consagrar-se-ia inteiramente aos desportos
hípicos.” Surpreendente recomendação, sobretudo se se quisesse apoiá-la diante das
massas. Quando da fuga de Luís XVI para Varennes, Danton declarou pretensamente, no
clube dos Jacobins, que um homem que tinha o espírito fraco não podia mais ser um rei.
Os liberais russos acreditavam contrariamente que um monarca de espírito fraco faria o
mais belo ornamento do regime constitucional. Aliás, foi um argumento que não foi
forçado, calcado sobre a psicologia dos idiotas da esquerda, e foi mesmo assim
demasiado grosseiro para eles. Sugeriu-se, nas largas esferas da burguesia liberal, que
Miguel Alexandrovitch era um “anglomane”, sem precisar se a sua anglomania dizia
respeito as corridas de cavalos ou o parlamentarismo. O essencial era ter um “símbolo
familiar do poder”, falta do qual o povo imaginar-se-ia que o poder não existia mais.
Os democratas escutavam, admiravam solenemente e aconselhavam … a
proclamação da República? Não, somente não antecipar sobre esta questão. O artigo 3
das estipulações do comité executivo dizia explicitamente:
“O governo provisório não deve de maneira nenhuma empreender acções que
predeterminem a forma futura do governo.“
Miliokov colocava a questão da monarquia como um ultimato. Os democratas
desesperavam. Então as massas vieram ao seu socorro. Nos encontros no palácio de
Tauride, absolutamente ninguém, nem operários, nem soldados, não queria um czar e não
havia meio de lhes impor. Contudo, Miliokov tentou contrariar a opinião e passar por cima
das cabeças dos aliados de esquerda para salvar o trono e a dinastia.
Na sua História da Revolução, ele próprio notou, circunspecção que, na noite do 2
de Março, a agitação causada pelo seu comunicado sobre uma regencia de Miguel
“cresceu consideravelmente”. Rodzianko descreveu em cores muito mais vivas o efeito
que produziram sobre as massas as maquinações monárquicas dos liberais. Logo que
chegou de Pskov, comunicando o acto de abdicação de Nicolau em favor de Miguel,
Gotchkov, a pedido dos ferroviários, nas oficinas do caminho de ferro, descreveu o que se
tinha passado, leu em público o documento e terminou gritando: “Viva o emperador
Miguel”. O resultado foi inesperado. O orador, segundo a relação de Rodzianko, foi
imediatamente preso pelos operários, mesmo, diz-se, ameaçado de ser fuzilado.
“Foi com dificuldades que o libertaram com a ajuda de uma companhia que estava
de guarda num regimento da vizinhança.”
Como habitualmente, Rodzianko exagerou sobre certos pontos; mas, no essencial,
os factos foram exactamente reproduzidos. O país tinha tão radicalmente vomitado a
monarquia que ela não teria podido de maneira nenhuma ser engolido pelo povo. As
massas revolucionárias não admitiam mais um novo czar?

133
Colocados diante de tais circunstâncias, os membros do comité provisório, um após
outro, afastavam-se de Miguel não definitivamente mas “esperando a Assembleia
constituinte”: logo se verra. Só Miliokov e Gotchkov apoiaram a monarquia até ao fim e
continuaram a colocar esta condição prévia para a sua participação no governo. Que
fazer? Os democratas pensavam que, sem Miliolov, não se poderia formar um governo
burguês e que, sem um governo burguês, não se poderia salvar a revolução. As
recriminações e conversas se prolongaram interminavelmente. Na sessão da manhã, no
dia 3 de Março, o comité provisório parecia ter alinhado completamente com esta opinião
que “seria necessário levar o grande-duque a abdicar...” Miguel considerava-se já como o
czar! Um cadete da esquerda, Nekrassov, tinha mesmo um texto de abdicação já pronto.
Mas como Miliokov recusava obstinadamente ceder, encontraram enfim, após debates
apaixonados, esta formula: “os dois partidos submetem ao grande duque as suas opiniões
motivadas e, sem avançar mais a discussão, submetem-se à sua decisão.”
Assim, o homem “completamente imbecil” que o seu irmão mais velho, transtornado
pela insurreição, tinha tentado, contrariamente aos próprios estatutos dinásticos, de
transferir o trono, tinha-se constituido em árbitro na questão da forma do Estado que
convinha a um país em revolução. Tão verosimilhante que isso possa parecer, esses
debates sobre a sorte do Estado tiveram realmente lugar. Para incitar o grande-duque a
desinteressar-se pelas suas cocheiras em consideração do trono, Miliokov assegurou-lhe
que haveria a inteira possibilidade de reunir, fora de Petrogrado, forças militares que
defenderiam os seus direitos. Noutros termos, mal Miliokov recebeu o poder das mão dos
socialistas que logo produziu o plano do golpe de Estado monárquico. Quando
terminaram os discursos para ou contra, os quais não tinham sido poucos, o grande-
duque pediu um momento de reflexão. Convidou Rodzianko à sala vizinha e pôs-lhe
cruamente esta questão: os novos dirigentes poderiam garantir-lhe não somente a coroa,
mas também a sua cabeça?
O incomparável gentil-homem respondeu que só podia prometer ao monarca morrer
com ele, se fosse necessário.
Isso não convinha de forma nenhuma ao pretendente. Quando, após ter apertado
Rodzianko nos braços, Miguel Romanov voltou-se para os deputados que esperavam,
explicou, “muito firmemente”, que renunciava à alta mas terrível função que lhe
ofereceram. Então, Kerensky, que personificava nas conversações a consciência da
democracia, sobressaltou da cadeira exclamando:
“Sua Alteza é um coração nobre?”
Ele jurou que iria proclamá-lo em todo o lado.
“A ênfase de Kerensky – notou secamente Miliokov – harmonizava-se mal com a
decisão prosaica adoptada.”
Não se pode estar de acordo sobre isso. O texto desse intermédio não se prestava
com certeza a discursos enfáticos. A comparação feita acima com uma comédia musical
interpretada num canto de uma arena antiga deve ser completada no sentido que a cena
se encontra cortada em duas por écrans: de um lado, os revolucionários suplicando os

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liberais para salvarem a revolução; de outro, os liberais suplicando a monarquia de salvar
o liberalismo.
Os representantes do comité executivo ficaram espantados ao verem que um
homem tão esclarecido e perspicaz como Miliokov se mostrou recalcitrante, teimando por
uma monarquia qualquer, e mesmo estando pronto a desistir do poder no momento que
não lhe davam como prenda suplementar um Romanov. O monarquismo de Miliokov não
era nem de um doutrinário nem de um romântico; pelo contrário, provinha de um cálculo
explicito dos proprietários assustados. O seu cinismo consistia também da sua debilidade
irremediável. O historiados Miliokov podia certamente alegar que um dos líderes da
burguesia revolucionária francesa, Mirabeau, no seu tempo, tinha igualmente tentado
reconciliar a revolução com o rei. Aí também, a base estava nas apreensões dos
proprietários sobre a propriedade: era mais prudente de abrigar a monarquia, mesmo se a
monarquia se mantinha sob a protecção da Igreja. Mas, em 1789, a tradição do poder real
em França era ainda reconhecida pelo povo, sem contar que toda a Europa circundante
era monárquica. Ao ligar-se ao rei, a burguesia francesa mantinha-se sobre um mesmo
terreno, com o povo, pelo menos no sentido que explorava os preconceitos deste último
contra ele próprio.
A situação era completamente diferente na Rússia em 1917. Abstracção feita das
catástrofes e dos prejuízos sofridos pelo regime monárquico em diferentes países, a
monarquia russa tinha sido irremediavelmente rachada depois de 1905. Após o dia 9 de
Janeiro, o papa Gapone lançou o anatema sobre o czar e a sua “raça de víboras”. O
Soviete dos deputados operários que se constituiu em 1905 mantinha-se abertamente no
campo republicano. Os sentimentos monarquistas da classe camponesa, sobre os quais o
czarismo contou muito tempo e que alegava a burguesia para cobrir o seu próprio
monarquismo mostrou-se simplesmente inexistente. A contra-revolução belicosa, que,
mais tarde, ergueu-se -a datar da empresa de Kornilov – ainda que hipocritamente, mas
tanto mais demonstrativa, negava o poder czarista: a ideia monárquica tinha perdido as
suas raízes no povo.
Todavia, esta mesma Revolução de 1905, que tinha dado um golpe mortal à
monarquia, minou para sempre as tendências repúblicas incertas da burguesia
“avançada”. É em contradição de um com outro que se realizaram estes dois processos
complementares. A partir das primeiras horas da Revolução de Fevereiro, a burguesia,
sentindo que ela se afogava, agarrou-se a uma palhinha. Ela precisava da monarquia,
não que ela tivesse essa fé em comum com o povo, mas, pelo contrário, porque ela não
podia mais opor-se às crenças populares outra coisa senão um fantasma coroado. As
classes “cultivadas” da Rússia avançaram sobre o terreno da revolução não como
anunciadoras de um Estado racional, mas como os campeões das instituições medievais.
Não tendo nem povo, nem neles próprios nenhum ponto de apoio, elas procuraram por
cima delas.
Arquimedes pretendia levantar a terra, se lhe dessem um ponto de apoio. Miliokov,
ao contrários procurava um ponto de apoio para impedir que lhe transtornem a
propriedade. E aí, ele sentia-se mais próximo dos mais decrépitos generais do czar, dos

135
altos dignitários da Igreja ortodoxa, que os democratas domesticados que não se
preocupavam que a condescendência dos liberais. Impotentes em fazer malograr a
revolução, Miliokov tomou firmemente a resolução de a enganar. Ele estava pronto a
encaixar muitas coisas: as liberdades cívicas para os soldados, as municipalidades
democráticas, a Assembleia constituinte, mas somente com a condição que lhe
deixassem o seu ponto de apoio de Arquimedes: a monarquia. Ele propunha-se fazer
gradualmente da monarquia o eixo à volta do qual se agruparia o corpo dos oficiais
generais, a burocracia renovada, os príncipes da Igreja, os proprietários, todos os
descontentes da revolução e, começando por um “símbolo”, criar pouco a pouco um
travão real monárquico, à mediada que as massas se cansassem da revolução. Tratava-
se de ganhar tempo!
Um outro líder do partido cadete, Nabokov, explicou mais tarde qual teria sido a
vantagem capital se Miguel tivesse aceite o trono:
“A questão fatal da convocação de uma Assembleia constituinte em tempo de guerra
teria sido metida de lado.”
São palavras que não devem ser esquecidas: a luta levada a cabo para adiar os
prazos da Assembleia constituinte teve um lugar importante no período que vai entre
Fevereiro e Outubro; os cadetes, nessa luta, ao negarem categóricamente que a sua ideia
foi de atrasar a convocação dos representantes do povo, perseguiram perseverantes,
obstinados, uma política de escamoteio. Infelizmente! Agindo assim eles não precisavam
de se apoiar senão neles próprios: não tiveram que se abrigar atrás da monarquia, no fim
de contas. Após a deserção de Miguel, nem mesmo Miliokov pôde apoiar-se numa
palhinha.

136
O Novo Poder
Desligados do povo, muito mais ligada ao grande capital financeiro estrangeiro do
que com as classes trabalhadoras do seu próprio país, hostil à revolução, que tinha saído
vitoriosa, aparecida tardiamente em cena, a burguesia russa não podia, pela sua própria
iniciativa, encontrar qualquer motivo a favor das suas pretensões de poder. Todavia, uma
base justificativa era indispensável, porque a revolução submete ao controlo implacável
não somente os direitos herdados, mas as novas pretensões. O menos apto a valorizar-se
diante das massas os motivos convincentes era o presidente do comité provisório,
Rodzianko, que, nos primeiros dias após a insurreição, se encontrou à cabeça de um país
em revolução.
Pajem no palácio sob o reino de Alexandre II, oficial de um regimento da Guarda,
chefe da nobreza na sua província, camareiro de Nicolau II, monarquista inveterado, rico
proprietário de terras e membro influente dos zemstvos, membro do partido outubrista,
deputado da Duma do Império, Rodzianko foi seguidamente eleito presidente dessa
Duma. Isso produziu-se após Gotchkov ter sido desembaraçado dos seus plenos
poderes, como “jovem turco”, era detestado na corte: a Duma esperava que por
intermédio do camareiro ela encontraria mais facilmente acesso ao coração do monarca.
Rodzianko fazia o que podia: sem hipocrisia, assegurava o czar da sua dedicação à
dinastia, pedindo como uma esmola para ser apresentado ao czarevitch herdeiro e
gabava-se diante deste último por ser “o maior e o mais gordo homem de toda a Rússia”.
Apesar dessas palhaçadas bizantinas, o camareiro não conquistou o czar para uma
constituição, e a czarina, nas suas cartas, chamava brevemente canalha a Rodzianko.
Durante a guerra, o presidente da Duma deu sem dúvida momentos desagradáveis ao
czar, colando-o à parede em audiências particulares, através de advertências confusas,
desde da crítica patriótica até sombrias profecias. Raspotine considerava Rodzianko
como um inimigo mortal. Korlov, um dos associados da banda do palácio, fala de
“insolência” natural de Rodzianko juntamente a “um espírito indubitavelmente limitado”.
Witte falava do presidente da Duma com mais indulgência, mas pouco melhor: “Um
homem que sem ser besta, bastante compreensivo: no entanto, a principal qualidade de
Rodzianko encontra-se não no seu espírito, mas na sua voz, ele tem um baixo excelente.”
Rodzianko tentou primeiro vencer a revolução por meio de uma lança de bombeiro:
chorou quando soube que o governo do príncipe Golytsine abandonou o seu posto:
recusou com temor o poder que lhe tinham entregue os socialistas, depois aceitou tomá-
lo, mas como sujeito fiel, para o restituir, desde da primeira oportunidade, ao monarca o
objecto perdido. Não é por culpa de Rodzianko se esta possibilidade não se apresentou.
Em contrapartida, a revolução, graças ao apoio desses mesmos socialistas, deu ao
camareiro a grande possibilidade em exercer a sua voz retumbante diante dos regimentos
insurgidos.
Desde do dia 27 de Fevereiro, o chefe dos esquadrões da Guarda Rodzianko
declarou a um regimento de cavalaria que surgiu no palácio de Tauride: “Guerreiros
ortodoxos, escutai o meu conselho. Sou um homem velho, não vos enganarei, escutai os

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oficiais, eles não vos dirão nada de mal e decidirão de acordo com a Duma do Império.
Viva a santa Rússia!” Todos os oficiais da Guarda estavam prontos a aceitar tal revolução.
Mas os soldados foram surpreendidos: porque seria ela necessária? Rodzianko temia que
os soldados e os operários, considerava Tchkheidzé e os outros homens de esquerda
como agentes da Alemanha, etc., e colocado à cabeça da revolução, olhava a todo o
momento à sua volta para ver se o Soviete não o ia prender.
A personagem de Rodzianko é um pouco ridícula, mas não fortuita: o camareiro com
voz de baixo via a aliança das duas classes de dirigentes da Rússia - os proprietários
nobres e a burguesia – aos quais se juntava o clero progressista: o próprio Rodzianko era
muito devoto e ordenou os cantos litúrgicos, enquanto que os burgueses liberais,
independentemente das suas opiniões sobre a ortodoxia, consideravam que uma aliança
com a Igreja era tão necessária para a ordem que uma aliança com a monarquia.
O honrado monárquico que recebeu o poder dos conspiradores, dos amotinados e
dos tiranicidas, nesses dias, dava dó. Os outros membros do comité não se sentiam
melhor. Alguns dentre eles evitavam geralmente apresentarem-se no palácio de Tauride,
julgando que a situação não era suficientemente definida. Os mais sábios andavam de
bicos de pés à volta da fogueira da revolução, tossiam por causa do fumo e diziam: que
acabe de queimar, e então tentaremos de fazer um assado. Tendo consentido em tomar o
poder, o comité não se decidiu logo em constituir um governo. “Na espera do momento de
formar governo”, como se exprime Miliokov, o comité limitou-se a designar comissários,
entre os membros da Duma, para as altas instituições governamentais: deixando-se
assim uma possibilidade de retirada.
No ministério do Interior foi enviado um deputado insignificante, mas talvez menos
cobarde que os outros, Karaolov, que promulgou, no primeiro de Março, um decreto
dando ordem de prisão a todos os funcionários da polícia pública ou secreta e o da
guarda. Esse terrível gesto revolucionário tinha um carácter completamente platónico,
dado que a polícia tinha sido detida antes dos mandatos e que a prisão foi a única forma
de a proteger contra as represálias. Muito mais tarde, a reacção considerou o acto
demonstrativo de Karaolov como o princípio de todas as calamidades.
Como comandante da praça em Petrogrado, designaram o coronel Engelhardt,
oficial de um regimento da Guarda, proprietário de escudarias de cavalos de corrida e
grande latifundiário. Em vez de prenderem o «ditador» Ivanov, chegado da frente para
meter ordem na capital, Engelhardt colocou à sua disposição um oficial reaccionário,
como chefe do estado–maior: no fim de contas, eles estavam do mesmo lado.
Foi enviado ao ministério da Justiça um ás do tribunal liberal de Moscovo, o
eloquente e vazio Maklakov, o qual deu primeiro a entender aos burocratas reaccionários
que ele não esperava ser ministro graças à revolução, e, «deitando um olhar sobre um
camarada expedicionário que entrava» disse em francês: «O perigo está à esquerda».
Todavia, à cabeça do comité, Rodzianko não fez muito ruído. A sua candidatura à
presidencia do governo revolucionário caiu por si própria: o intermediário entre os
proprietários e a monarquia era demasiado inapta em jogar o mesmo papel entre os

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proprietários e a revolução. Mas ele não subiu à cena, tentando animar a Duma, como
contrapeso ao Soviete, e ficando invariavelmente no centro de todas as tentativas de
coligação da contra-revolução dos burgueses e dos proprietários. Ainda ouviremos falar
dele.
No primeiro de Março, o comité provisório ocupou-se da formação de um governo,
avançando personalidades que a Duma, desde 1915, tinha recomendado muitas vezes ao
czar como gozando da confiança do país: os líderes do bloco progressista eram agrários
e industriais, deputados da oposição na Duma. A revolução feita por operários e soldados
não teve qualquer efeito sobre a composição do governo revolucionário, com uma
excepção. A excepção era Kerensky. A amplitude Rodzianko—Kerensky é a amplitude
oficial da Revolução de Fevereiro.
Kerensky entrou no governo como, diga-se, na qualidade de seu embaixador
plenipotenciário. No entanto, a sua atitude para com a revolução foi a de um advogado de
província que advoga em processos políticos. Kerensky não era um revolucionário, ele
roçava-se pela revolução. Eleito pela primeira vez à IV Duma, graças à sua situação legal,
Kerensky tornou-se presidente da pálida e impessoal fracção dos trudoviks (trabalhistas),
fruto anémico de um crescimento político do liberalismo com o populismo. Sem
preparação teórica, nem disciplina política, nem capacidade para as generalizações, nem
vontade como político. Todas as qualidades eram substituidas por uma emotividade
fugitiva, por uma efervescência fácil, e por esta eloquência que age não sobre o seu
pensamento ou vontade, mas sobre os nervos. Os discursos de Kerensky na Duma, num
espírito de radicalismo declamador que não faltava motivos, valeram-lhe senão a
popularidade, pelo menos a celebridade. Durante a guerra, como patriota, considerava
com os liberais que a própria ideia de uma revolução levaria à perdição. Ele reconheceu a
revolução quando a viu e que, agarrando-se à sua aparente popularidade, ela levou-o ao
apogeu. A insurreição identificou-se naturalmente para ele ao novo poder.
O comité executivo tinha entretanto decidido que, numa revolução burguesa, o poder
deve pertence à burguesia. Esta formula parecia falsa para Kerensky pela simples razão
que ela lhe fechava a porta do governo. Ele estava convencido, muito justamente, disto:
que o seu socialismo não lhe impedia a revolução burguesa, mesmo que não causaria
qualquer prejuízo ao seu socialismo. O comité provisório da Duma decidiu tentar arrancar-
lhe o deputado radical ao Soviete e conseguiria sem dificuldade ao lhe propor a pasta da
Justiça que Maklakov já tinha tido o tempo de recusar. Kerensky interceptava nos
corredores os seus amigo e perguntava-lhes: aceito ou não? Os amigos não duvidavam
que Kerensky estivesse decidido em aceitar. Sokhanov, muito favorável a Kerensky neste
período, disse deste último, na verdade, nas suas Memórias publicadas mais tarde, “a
segurança de qualquer missão a cumprir... e a maior acrimonia para com os que não
adivinhavam ainda esta missão”. Finalmente os amigos, entre eles Sokhanov,
aconselharam Kerensky a aceitar a pasta: seria mais seguro, ter-se-ia um homem para
saber o que se fazia entre as forças, os líderes do comité executivo recusar-lhe-iam uma
sanção oficial. Porque o executivo já se tinha pronunciado, como lembrava Sokhanov a
Kerensky e isso não era “sem perigo” de colocar ainda a questão diante do Soviete que
poderia simplesmente responder: “O poder deve pertencer à democracia soviética.”

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Tal foi, literalmente, a narrativa do próprio Sokhanov, verosimilhante combinação de
ingenuidade e de cinismo. O inspirador da sagrada comédia do poder reconhece
abertamente que, desde do 2 de Março, o Soviete de Petrogrado era favorável à tomada
formal do poder que lhe pertencia de facto desde da noite do 27 de Fevereiro, e que era
somente nas costas dos operários e dos soldados, sem que eles soubessem e contra a
sua vontade efectiva, que os líderes socialistas podiam expropriar o Soviete em benefício
da burguesia. O negócio concluido entre os democratas e os liberais ganhou, na narrativa
de Sokhanov, todas as aparências jurídicas necessárias de um crime contra a revolução,
isto é uma conspiração secreta contra o poder e os direitos do povo.
Sobre a impaciência de Kerensky, os dirigentes do comité executivo segredavam
entre eles que não era decente para um socialista em aceitar oficialmente uma parcela do
poder nas mãos dos homens da Duma que tinham acabado de receber a autoridade
completa das mãos dos socialistas. Melhor valia que Kerensky fizesse isso sob a sua
responsabilidade pessoal. Na verdade, esses senhores, por um infalível instinto,
encontraram em cada situação a saída mais confusa e falsa. Mas Kerensky não queria
entrar no governo com um fato de deputado radical: ele necessitava de uma toga de um
plenipotenciário da revolução vitoriosa. Para não encontrar resistência, ele não pedia a
sanção do partido do qual ele se proclamou membro, nem a do comité executivo, onde
ele contava como vice-presidente.
Sem prevenir os dirigentes, na sessão plenária do Soviete que ainda eram nessa
época umas reuniões caóticas, ele pediu a palavra para fazer uma declaração de
urgência e, num discurso que uns caracterizam como confuso, outros como histérico, -
onde aliás não há ponta de contradição, - ele pede que confiem nele, fala da sua
determinação de morrer pela revolução e da sua decisão ainda mais imediata de aceitar a
pasta de ministro da Justiça. Bastou que ele mencionasse a necessidade de um
complemento de amnistia política completa e o julgamento dos altos dignitários do czar
para que ele suscitasse uma tempestade de aplausos numa assembleia inexperiente que
ninguém dirigia. «Esta farsa, disse Chliapnikov nas suas Memórias, provocou em muita
gente uma profunda indignação e a aversão por Kerensky. » Mas ninguém lhe respondeu:
tendo transmitido o poder à burguesia, os socialistas, como sabe o leitor, evitavam
levantar esta questão diante da massa. Não houve voto. Kerensky decidiu interpretar os
aplausos como um mandato de confiança. À sua maneira, ele tinha razão. O Soviete era
indubitavelmente partidário da entrada dos socialistas no governo, vendo nisso a doutrina
oficial do poder, Kerensky aceitou, no dia 2 de Março, o posto de ministro da Justiça da
Rússia». O que Kerensky mostrou efectivamente, alguns meses mais tarde, no processo
contra os bolcheviques.
O menchevique Tchkhéidzé ao qual os liberais, guiando-se por um cálculo
demasiado simplista e sobre a tradição internacional, quiseram, num momento difícil,
impor o ministério do Trabalho, recusou categóricamente e continuou presidente do
Soviete dos deputados. Menos brilhante que Kerensky, Tchkhéidzé era contudo feito de
um matéria mais sólida.

140
O eixo do governo provisório foi, ainda sem ser formalmente o chefe, Miliokov,
incontestavelmente líder do partido cadete.» Miliokov era, geralmente, de outra têmpera
que os seus colegas do governo – escrevia Nabokov após ter rompido com o próprio
Miliokov - como força intelectual, como individuo com conhecimentos sem número, quase
inesgotáveis e de espírito largo. «Sokhanov, que fez cair sobre a personalidade de
Miliokov a responsabilidade da queda do liberalismo russo, escrevia ao mesmo tempo:
«Miliokov era então a figura central, a alma e o cérebro de todos os círculos políticos
burgueses... Sem ele, não haveria nenhuma política burguesa no primeiro período da
revolução.» Por excessivos que sejam esses julgamentos, eles notam a indiscutível
superioridade de Miliokov em relação aos outro políticos da burguesia russa. A sua força
consistia no que também fazia a sua fraqueza: ele exprimia cada vez mais perfeitamente
que outros, na linguagem da política, completamente a sorte desta burguesia, isto é a sua
incapacidade histórica. Se os mencheviques deploravam que Miliokov tivesse arruinado o
liberalismo, poder-se-ia dizer mais justamente que o liberalismo arruinou Miliokov.
A despeito de um neo-eslavismo reaquecido pelos seus anseios imperialistas,
Miliokov continuava sempre a ser um partidário burguês do Ocidente. Ele considerava
como o objectivo do seu partido o triunfo na Rússia da civilização europeia. Mas, cada vez
mais, ele temia as vias revolucionárias pelas quais tinham passado os povos ocidentais. É
por isso que o seu ocidentalismo conduziu a uma impotente ânsia em relação ao
ocidente.
As burguesias inglesas e francesas tinham erguido uma nova sociedade às suas
imagens. A burguesia alemã veio mais tarde e teve muito tempo que se contentar com
uma boa papa de aveia filosófica. Os alemãs inventaram a palavra Weltanschauung
(visão do mundo), que não existe entre os ingleses nem entre os franceses: enquanto que
as nações ocidentais criavam um novo mundo, os Alemães contemplavam-o. Mas a
burguesia alemã, deficiente na acção política, criou a filosofia clássica – e isso não é uma
simples contribuição. A burguesia russa veio ainda mais tarde: é verdade que ela traduziu
a palavra Weltanschauung em russo, mesmo com várias variantes, mas ela não a
demonstrou senão mais claramente, com a sua impotência política, mortal indigência
filosófica. Ela importava ideias assim que a técnica após ter estabelecido para esta última
altas tarifas alfandegárias e para as primeiras a quarentena do medo. Foi com tais traços
de carácter da sua classe que Miliokov foi chamado a dar uma expressão política.
Antigo professor de história em Moscovo, autor de importantes obras científicas,
depois fundador do partido cadete onde se fundiu a união dos proprietários liberais e a
união dos intelectuais de esquerda, Miliokov era absolutamente isento do intolerável
diletantismo político, parcialmente senhorial, parcialmente intelectual, que caracterizou a
maioria dos políticos liberais russos. Miliokov exercia a sua profissão muito a sério e isso
bastava a valorizá-lo.
Os liberais russos, até 1905, sentiam-se habitualmente tímidos por serem liberais.
Uma cor de populismo e, mais tarde, de marxismo, foi durante muito tempo para eles uma
cor indispensável de protecção. Esta capitulação vergonhosa, de facto pouco profunda,
de largos círculos burgueses, dos quais um certo número de jovens industriais, diante do

141
socialismo, exprimia a falta de segurança íntima de uma classe que surgiu a tempo de
para recolher milhões, mas demasiado tarde para tomar a cabeça da nação. Pais
barbudos, mujiques e lojistas enriquecidos, amontoavam riquezas sem pensar ao seu
papel social. Os filhos saíam das universidades num período em ebulição pré-
revolucionária das ideias e, quando tentava encontrar um lugar na sociedade, não se
apressavam em colocarem-se sob a bandeira do liberalismo, já gasto pelos países
avançados, descolorado e remendado. Durante um certo tempo, eles deixaram aos
revolucionários uma parte da sua alma e mesmo um parte dos seus rendimentos. Ainda
mais, isto diz respeito aos representantes das profissões liberais: em número
considerável, eles tinham passado, na sua juventude, por um período de simpatias
socialistas. O professor Miliokov nunca sofreu do sarampo do socialismo. Ele era
organicamente um burguês e não tinha vergonha disso.
Na realidade, no período da primeira revolução, Miliokov ainda não tinha renunciado
completamente à esperança de se apoiar sobre as massas revolucionárias por intermédio
dos partidos socialistas domesticados. Witte conta que no momento quando formou
governo, em Outubro de 1905, como ele pedia aos cadetes de «cortar a cauda à
revolução», estes responderam-lhe que eles não podiam mais renunciar às forças
armadas da revolução como Witte não podia fazê-lo com o exército. No fundo, já era,
desde então, uma chantagem: para se valorizarem, os cadetes procuravam intimidar Witte
com as massas que eles próprios temiam. Precisamente segundo a experiência de 1905,
Miliokov constatou que, muito fortes que fossem as simpatias dos grupos socialistas
intelectuais, as verdadeira forças da revolução – as massas – nunca devolveriam as
armas à burguesia e que elas seriam tanto mais perigosas para esta se elas estivessem
armadas. Tendo abertamente proclamado que a bandeira vermelha é um trapo vermelho,
Miliokov acabava com um evidente alívio de um romance que em suma nunca começou
seriamente.
A separação da denominada intelliguentsia e do povo constituía um dos temas
tradicionais do jornalismo russo, onde os liberais, contrariamente aos socialistas,
compreendiam como intelliguentsia todas as pessoas «instruídas», isto é as classes
possuidoras. Desde que este isolamento se descobriu, total e ameaçador diante dos
liberais durante a primeira revolução, os ideólogos des classes «instruídas» viviam na
espera perpétua do último julgamento. Um dos escritores liberais, um filosofo não ligado
pelas convenções da política, exprimiu a sua apreensão das massas com uma violência
desesperada que lembra o pensamento reaccionário epiléptico de Dostoievsky: «Quem
quer que sejamos, não somente não podemos sonhar de uma fusão com o povo, mas nós
devemos temê-lo mais que todas as execuções do governo e benzer esse poder que só,
por meio das baionetas e das suas prisões, nos protege contra o furor popular.» Com tais
disposições políticas, os liberais podiam sonhar em dirigir um nação revolucionária? Toda
a política de Miliokov está marcada do selo do desespero. No momento da crise nacional,
o partido à cabeça do qual ele se encontra pensa em evitar o golpe e não em o dar.
Como escritor, Miliokov é cansativo, prolixo e fatigante. Mesmo como orador. O
decorativo não é o seu genero. Poderia ser um «mais» se o avarento político de Miliokov
não necessitasse de se marcar, ou então, pelo menos, ele tinha tido o abrigo objectivo de

142
uma grande tradição: mas ele nem tinha uma pequena tradição. A política oficial em
França, quinta-essência do egoísmo e da velhacaria dos burgueses, tem dois potentes
apoios: a tradição e a retórica. Multiplicada uma pela outra, eles envolvem-se por um véu
protector cada político burguês, mesmo um faz-tudo tão prosaico do grande capital como
Poincaré. Não foi por culpa de Miliokov se os predecessores patéticos lhe faltaram e teve
que aplicar a política do egoísmo burguês na fronteira da Europa e da Ásia.
«Ao lado das simpatias por Kerensky – lemos nas Memórias do socialista
revolucionário Sokolov, sobre a Revolução de Fevereiro – desde do início, existe uma
grande simpatia, não dissimulada e estranha no seu género, em relação a Miliokov. Eu
não compreenderia e não compreendo ainda porquê este honrado político foi tão
impopular.» Se os filisteus tinham compreendido a causa do seu entusiasmo por Kerensky
e da sua aversão por Miliokov, eles teriam cessado de serem filisteus. O burguês médio
não gostava de Miliokov porque este exprimia-se num sentido demasiado prosaico e duro,
sem cor, a essência política da burguesia russa. Ao olhar-se num espelho, Miliokov, o
burguês viu que ele era insignificante, cupido, cobarde e, como acontece habitualmente,
se zanga contra o espelho.
Notando por seu lado as caretas de descontentamento do burguês liberal, Miliokov
dizia calmamente, e com segurança: «O homem da rua é besta.» Ele falava assim sem
irritação, com uma pronúncia quase carinhosa, desejando dizer: se o homem da rua não
me compreende hoje, não há infelicidade, ele compreenderá mais tarde. E Miliokov vivia
esta profunda certeza que o burguês não o trairia, e, obedecendo à lógica da situação, se
deixaria arrastar por ele, Miliokov, por falta de outra saída. E com efeito: após a
insurreição de Fevereiro, todos os partidos burgueses, mesmo os da direita, seguiram o
líder cadete, invectivando por vezes e mesmo amaldiçoando-o.
Para Sokhanov, político democrata socialista era outra coisa. Não era simplesmente
um homem da rua, era, ao contrário, o político profissional, suficientemente especialista
no seu pequeno ofício. «Inteligente», este político não poderia parecer, porque ele
saltitava demasiado de modo que um contraste contínuo existia entre o que Sokhanov
queria e ao que ele chegava. Mas ele passava-se por espertalhão, confundia e aborrecia.
Para o levar era preciso enganá-lo, não somente em lhe reconhecendo completa
independência, mas mesmo acusando-o de abuso de poder e de autoritarismo. Isso
lisonjeava-o e acomodava-o no seu papel de condescendent. É precisamente numa
entrevista com um des espertalhões do socialismo que Miliokov lançou a sua frase «o
homem da rua é besta». Foi uma lisonja delicada: «Só vós e eu é que somos
inteligentes.» Na realidade, Miliokov, precisamente nesse momento, meteu o anel no nariz
dos seus amigos democratas. Com esse anel, eles foram rejeitados.
A impopularidade pessoal de Miliokov não lhe permitiu tomar a cabeça do governo:
ele encarregou-se dos Negócios Estrangeiros, que já era a sua especialidade na Duma.
Ministro da Guerra da revolução era o grande industrial de Moscovo que já se
conhece, Gotchkov, liberal desde da sua juventude com disposições de aventureiro e
homem de confiança da alta burguesia do tempo de Stolypine, no período de
esmagamento da primeira revolução. A dissolução das duas primeiras Dumas, onde

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dominavam os cadetes, levou ao golpe de Estado de 3 de Junho de 1907, visando a
modificação do direito eleitoral em proveito do partido de Gotchkov, partido que dirigiu
seguidamente as duas últimas Dumas até à revolução. Quando, em 1911, em Kiev, foi
inaugurado o monumento de Stolypine, que tinha sido morto por um terrorista, Gotchkov,
depondo uma coroa, inclinou-se silenciosamente até ao chão: foi um gesto em nome de
classe.
Na Duma, Gotchkov consagrou-se sobretudo às questões de «potência militar» e, na
preparação da guerra, caminhava ao lado de Miliokov. Na qualidade de presidente do
comité central das indústrias de guerra, Gotchkov reunia os industriais sob a bandeira da
oposição patriótica sem impedir de algum modo os dirigentes do bloco progressista,
incluindo Rodzianko, de fazer dinheiro no fornecimento de material militar. Uma
recomendação de revolucionário era meia legenda ligada ao nome de Gotchkov na
preparação de uma revolução palaciana. O antigo chefe da polícia afirmou além disso que
Gotchkov «permitiu-se, em conversações privadas sobre o monarca, aplicar ao nome
deste um epíteto altamente ultrajante.» É completamente verosimilhante. Mas Gotchkov,
a esse respeito, não era excepção. A piedosa czarina odiava Gotchkov, dispensou a
Gotchkov insultos ordinários nas cartas e esperava que ele fosse enforcado «alto e
curto». Aliás, para esse fim, a czarina tinha mais que um homem debaixo de olho. De
qualquer maneira, este que tinha saudado o carrasco da primeira revolução era o ministra
da Guerra na segunda.
Como ministra da Agricultura foi nomeado o cadete Chingarev, médico na província,
que se tornou depois deputado na Duma. Os seus mais próximos partidários
consideravam-no como uma mediocridade honesta, ou, segundo a expressão de
Nabokov, como um «intelectual russo da província, feito à medida não do Estado mas de
um departamento ou de um distrito». O radicalismo indeterminado dos anos de juventude
de Chingarev pôde deste muito tempo deteriorar-se, e a principal preocupação deste
homem foi mostrar às classes possuidoras a sua maturidade de homem de Estado. Ainda
que o antigo programa cadete falasse de uma «expropriação obrigatória das terras dos
proprietários nobres depois de uma avaliação justa», nenhum proprietário levou esse
programa a sério, sobretudo agora, durante os anos de guerra, e Chingarev via a parte
principal da sua tarefa a diferir a solução do problema agrário dando aos camponeses a
esperança, com a miragem de uma Assembleia constituinte que os cadetes não queriam
convocar. Sobre a questão da terra e sobre a da guerra, a Revolução de Fevereiro devia
partir o pescoço.
Chingarev ajudou-a tanto que pôde.
A pasta das Finanças calhou a um jovem chamado Terechtchenko. Donde o foram
buscar? Perguntava-se com surpresa no palácio de Tauride. As pessoas informadas
explicavam que era um proprietário de refinarias de açucar, de domínios, de florestas e de
outras riquezas incalculáveis avaliadas em oitenta milhões de rublos de ouro, o presidente
do comité das indústrias de guerra de Kiev, pronunciando bem em francês e, além disso,
conhecedor de bailados. Acrescentaram, significativamente, que Terechtchenko, na
qualidade de confidente de Gotchkov, tinha quase participado na grande conspiração que

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devia obter a deposição de Nicolau II. A revolução que estorvou a conspiração ajudou
Terechtchenko.
Durante as cinco jornadas de Fevereiro, enquanto que nas ruas da capital, se
desenrolavam os combates revolucionários, diante de nós passou várias vezes a sombra
de um liberal nascido numa família de dignitários, filho do antigo ministro do czar,
Nabokov, figura quase simbólica da correcção do amor-próprio e no seu egoísmo
endurecido. Os dias decisivos da insurreição, Nabokov passou-os entre os quatro muros
de uma chancelaria ou em família, «numa expectativa ansiosa e desconcertante». Agora,
secretário de Estado do governo provisório, era com efeito ministro sem pasta. Na
emigração, em Berlim, vítima de uma bala insensata de um guarda branco, deixou notas
não desprovidas de interesse sobre o governo provisório. Atribuamos-lhe esse mérito.
Mas esquecemos-nos de nomear o primeiro ministro, que, aliás, todos esquecem
nos momentos mais importantes do seu efémero governo. No dia 2 de Março,
recomendando o novo governo na reunião do palácio Tauride, Miliokov indicou o príncipe
Lvov como «a encarnação dos meio socialistas russos perseguidos pelo regime czarista».
Mais tarde, na sua História da Revolução, Miliokov nota prudentemente que à cabeça do
governo foi colocado o príncipe Lvov «pessoalmente pouco conhecido da maioria dos
membros do comité provisório». O historiador tenta aqui de libertar o político da sua
responsabilidade por essa escolha. Na realidade, o príncipe contava há já muito tempo no
partido cadete, na sua ala direita.
Após a dissolução da primeira Duma, na famosa sessão dos deputados em Vyborg
que dirigiram à população o apelo ritual do liberalismo ofendido - «não pagar impostos» -
o príncipe Lvov, presente, não assinou o manifesto. Nobokov recorda nas suas
Lembranças que, desde da sua chegada a Vyborg, o príncipe caiu doente e que a sua
indisposição foi «atribuida à emoção na qual ele se encontrava». Segundo as aparências,
o príncipe não era feito para tremores revolucionários. Extremamente moderado, o
príncipe Lvov, em virtude de uma diferença política que parecia a vistas largas, apoiava,
em toda as organizações à cabeça das quais ele se encontrou, um grande número de
intelectuais de esquerda, antigos revolucionários, patriotas socialistas emboscados. Eles
não trabalham pior que os outros funcionários, não roubavam e, ao mesmo tempo, davam
ao príncipe a aparência de popularidade. Príncipe, rico e liberal, impunha-se ao burguês
médio. É por isso que o príncipe Lvov era indicado como primeiro ministro logo no tempo
do czar. Se resumirmos o que acabou de ser dito, é necessário reconhecer que o chefe
do governo da Revolução de Fevereiro representava um vazio patente, mesmo
sereníssimo. Rodzianko teria tido, de qualquer modo, mais cor.
A história legendária do Estado russo começa por uma crónica contando que os
enviados das populações eslavas teriam vindo pedir aos príncipes escandinavos e dizer-
lhes: «Vinde possuir-nos e serem os nossos soberanos.» Os miseráveis representantes
da democracia socialista representaram a legenda histórica como gesto, não no século
XIX, mas no século XX, com a diferença que eles dirigiam-se não aos príncipes do
ultramar, mas aos príncipes do país. Assim, como resultado da insurreição dos operários
e soldados, encontraram-se no poder vários proprietários e industriais extremamente

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ricos, que não se distinguiam absolutamente em nada, diletantes da política desprovida
de programa, tendo à cabeça um príncipe que não suportava os sarilhos.
A composição do governo foi agregada com satisfação pelas embaixadas aliadas,
nos salões burgueses e burocráticos e nos meios mais largos da média e parcialmente
pequena burguesia. O príncipe Lvov, o outubrista Gotchkov, o cadete Miliokov – esses
nomes eram de uma sonoridade tranquilizante. Talvez o nome de Kerensky obrigava os
aliados a fazer uma careta, mais ele não os assustava. Os mais perspicazes
compreendiam isto: há mesmo assim uma revolução no país: com um limoeiro tão seguro
como Miliokov, um buliçoso cavalo de envergadura só pode ser útil. Assim devia pensar o
embaixador de França Paléologue, que gostava das metáforas russas.
Entre os operários e os soldados, a composição do governo engendrou
imediatamente sentimentos de hostilidade ou, no melhor dos casos, a surda perplexidade.
Os nomes de Miliokov ou de Gotchkov não podiam suscitar nenhuma aclamação da
fábrica ou da caserna. A esse respeito conservaram-se numerosos testemunhos. O oficial
Mstislavsky exprime a triste ansiedade dos soldados que viam o poder passar do czar a
um príncipe: valaria a pena ter derramado sangue por isso? Stankevitch, que pertencia ao
círculo íntimo de Kerensky, fez, no 3 de Março, uma digressão no batalhão de sapadores,
visitando uma companhia após outra, e recomendava que o novo governo que ele próprio
considerava o melhor de todos os governos possíveis e de quem se falava com grande
entusiasmo. «Mas, no auditório, sentia-se um friozinho.» Foi somente quando o orador
citava Kerensky que os soldados «exaltavam uma verdadeira satisfação». Nesse tempo, a
opinião pública da pequena burguesia na capital já tinha chegado a transformar Kerensky
em herói colocado no centro da revolução. Os soldados, mais que os operários, queriam
ver em Kerensky um contrapeso ao governo burguês e admiravam-se somente que ele
estivesse só nesse lugar. Mas Kerensky, longe de ser um contrapeso, era um
complemento, uma camuflagem, um decor. Ele defendia os mesmos interesses que
Miliokov, mas com reflexos de magnésio.
Qual foi a real constituição do país após a instituição do novo poder?
A reacção monárquica escondia-se nos interstícios. Logo que surgiram as primeiras
águas do degelo, os proprietários de toda a especie e de todas as tendências agruparam-
se sob a bandeira do partido cadete que, em consequência, encontrou-se como o único
partido não socialista e, ao mesmo tempo, a extrema direita na arena aberta.
As massas caminhavam quase na totalidade para os socialistas que se confundiam,
na sua opinião, com os sovietes. Não somente os operários e os soldados das
formidáveis guarnições da retaguarda, mas o povinho colorido das cidades, artesãos,
vendedores ambulantes, pequenos funcionários, cocheiros, rapazes porteiros, domésticos
de todas as especies, afastavam-se do governo provisório e dos seus escritórios,
procuravam um poder mais próximo, mais acessível. Em número cada vez maior,
apresentavam-se no palácio Tauride delegados do campo. As massas afluíam nos
sovietes como sob os arcos do triunfo da revolução. Tudo o que ficava fora dos sovietes
caia de qualquer forma separados da revolução e pareciam pertencer a outro mundo. Era

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bem assim: fora dos sovietes ficava o mundo dos possuidores cujas cores eram
imediatamente fundidas numa só nuança de rosa pardo da protecção.
Não foi toda a massa trabalhadora que elegeu os sovietes, ela não acordou de uma
só vez, não foram todos os meios oprimidos que ousaram logo acreditar que a revolução
lhes dizia respeito também. Numerosos foram os que tinham consciência de uma
esperança indistinta. Para os sovietes se precipitou todo o activo das massas, e, em
tempo de revolução, mais que nunca, a actividade é vitoriosa; e como a actividade das
massas aumentava dia após dia, a base dos sovietes alargava-se constantemente. Foi a
única base real da revolução.
O palácio de Tauride era a sede da Duma e do Soviete. O comité executivo, no início
apertava-se nos estreitos escritórios pelos quais passava a incessante torrente humana.
Os deputados da Duma tentavam sentir-se mestres da situação nas suas salas de
aparato. Mas os muros foram logo levados pela forte torrente das águas da revolução.
Apesar da indecisão dos seus dirigentes, o Soviete alargou-se irresistivelmente, enquanto
que a Duma era rejeitada cada vez mais para as traseiras. A nova relação de forças abria
caminha por todos os lados.
Os deputados do palácio de Tauride, os oficiais nos seus regimentos, os generais
nos estados-maiores, os directores e administradores nas fábricas, os caminhos de ferro,
os telégrafos, os proprietários ou capatazes nas propriedades, todos sentiam-se, logo nos
primeiros dias da revolução, sob a infatigável e malévola vigilância da massa. O Soviete
era aos olhos desta massa a expressão organizada do seu desafío em relação a todos os
que a tinham oprimido. Os tipógrafos vigiavam de forma ciumenta os textos dos artigos
compostos, os ferroviários controlavam com inquietação e vigilância os comboios
militares, os telegrafistas davam uma nova leitura aos telegramas, os soldados
interrogavam-se entre eles com o olhar o mais pequeno gesto suspeito de um oficial, os
operários expulsava da fábrica o contramestre Cem Negro e observavam o director
liberal. A Duma, logo nas primeiras horas da revolução, e o governo provisório, logo nos
primeiros dias, tornaram-se uma reserva onde afluíam as queixas da alta sociedade, seus
protestos contra «os excessos», suas observações entristecidas, seus sombrios
pressentimentos.
«Sem a burguesia nós não poderemos tomar o aparelho de Estado» pensava a
pequena burguesia socialista, deitando um olhar assustado sobre os estabelecimentos do
Estado, donde o esqueleto do antigo regime parecia olhar com as suas órbitas profundas.
A saída encontrada foi que sobre o aparelho decapitado pela revolução colaram pouco
mais ou menos uma cabeça liberal. Novos ministros instalaram-se nos ministérios do czar,
e transformados em mestres de máquinas de escrever, dos telefones, dos estafetas, das
estenografas e dos funcionários, persuadiam-se cada vez mais que a máquina funcionava
no vazio.
Kerensky lembrou-se mais tarde como o governo provisório «tinha tomado o poder
no terceiro dia da anarquia de toda a Rússia, quando, sobre toda a extensão da terra
russa, não somente não subsistia nenhuma autoridade, mas não havia literalmente um só
presidente da câmara». Os sovietes de deputados operários e soldados, que dirigiam

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numerosos milhões, massas, não são considerados: porque enfim, eles não são senão
um elemento de anarquia. O país foi abandonado a si próprio, o que caracteriza o
desaparecimento do agente da polícia. Nessa confissão dos ministros que estavam mais
à esquerda é a chave de toda a política do governo.
Os lugares de governadores de província foram ocupados, por decisão do príncipe
Lvov, pelos presidentes das direcções departamentais de zemstovs, os quais não se
distinguem muito dos seus predecessores! Em mais de um caso, eram esses proprietários
feudais que consideravam mesmo os governadores de província como jacobinos. Na
cabeça dos distritos colocavam-se os presidentes da administração de distrito. Sob a
denominação completamente nova de «comissários», a população reconhecia velhos
inimigos. «Os mesmos velhos papas, mais pomposamente denominados», como outrora
dizia Milton sobre a cobarde Reforma dos presbiterianos. Os comissários de província e
de distrito ampararam-se das máquinas de escrever, das dactilógrafas, dos funcionários
ao serviço dos governadores e chefes da polícia (ispravniks) para melhor constatar que
estes não lhes legava nenhum poder. A vida, nas províncias e nos distritos,
concentravam-se à volta dos sovietes. A dualidade do poder passou assim de alto para
baixo. Mas, nas localidades, os dirigentes dos sovietes, os mesmos socialistas
revolucionários e mencheviques, agiam mais simplesmente e não rejeitavam – longe de
disso – o poder que lhe impunham todas as circunstâncias. Resultado, a actividade dos
comissários de província consistia principalmente em queixas sobre a absoluta
impossibilidade de exercer seus plenos poderes.
No dia seguinte da formação de um governo liberal, a burguesia sentiu que, longe de
ter adquirido o poder, ela tinha-o perdido. Tão fantástico que tenha sido o arbítrio da
clique rasputiniana até à insurreição, o seu poder real tinha uma característica limitada. A
influência da burguesia sobre os negócios do Estado era imensa. A participação da
própria Rússia na guerra foi em grande medida a obra da burguesia mais que da
monarquia. Mas o essencial foi que o poder czarista garantia aos proprietários suas
fábricas, terras, bancos, imóveis, jornais, e, em consequência, na questão mais
importante era o seu poder. A Revolução de Fevereiro modificou a situação em duas
direcções contrárias: ela confiou solenemente à burguesia os atributos exteriores do
poder, mas, ao mesmo tempo, retirou-lhe a porção de real potência que ela dispunha
antes das revolução. Os que, na véspera, tinham servido na União de zemstovos, onde o
príncipe Lvov era patrão, no comité das indústrias de guerra, onde comandava Gotchkov,
tornaram-se desde então, sob a denominação de «socialistas revolucionários» e de
«mencheviques», os mestres da situação no país e sobre a frente, na cidade e na aldeia,
nomearam ministros Lvov e Gotchkov e, por essa ocasião, colocaram-lhe condições como
se eles os admitiam como empregados.
Por outro lado o comité executivo, tendo criado um governo burguês, não podiam de
forma nenhuma decidirem-se, tal Deus da Bíblia, declarar que a sua criação era boa. Ao
contrário, o comité apressou-se logo em aumentar a distância entre ele próprio e a sua
obra, afirmando que dispunha-se a apoiar o novo poder unicamente na medida onde este
serviria fielmente a revolução democrática. O governo provisório concebia perfeitamente
que ele não se aguentaria mesmo uma hora sem o apoio da democracia oficial! Ora, esse

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apoio não lhe era prometido senão como prémio de boa conduta, isto é para a realização
de tarefas às quais ele se sentiria estranho, e cuja democracia ele próprio acabava de
recusar a solução. O governo nunca soube em que limites ele podia manifestar o seu
poder de meio contrabando. Os dirigentes do comité executivo não puderam sempre
informarem-se sobre isso com antecedência, porque lhes era tão difícil adivinhar o limite
onde rebentaria o descontentamento no seu próprio meio, como reflexo do
descontentamento da massa. A burguesia fingia ter sido enganada pelos socialistas. Por
outro lado, os socialistas temiam que, pelas suas pretensões prematuras, os liberais não
só sublevassem as massas, estragando assim uma situação que já não era fácil. «Na
medida que … tanto mais » - esta formula equívoca marcou todo o período que procede
Outubro, tornando-se a formula jurídica de uma mensagem interna ao regime híbrido da
Revolução de Fevereiro.
Para agir sobre o governo, o comité executivo elegeu uma comissão especial que
denominou gentilmente, mas divertida, «comissão de contacto». A organização do poder
revolucionário foi assim oficialmente construida na base dos princípios da exortação
mútua. Um escritor místico de um certo renome, Merejkovsky, encontrou um precedente
para um tal regime, mas somente no Antigo Testamento – perto dos reis de Israel
encontravam-se os profetas. Mas os profetas da Bíblia, da mesma maneira que o profeta
do último Romanov, recebiam pelo menos a inspiração directamente dos céus, e os reis
não ousavam contradizer: assim foi assegurada a unidade do poder. Para os profetas do
Soviete passava-se de outra maneira: eles vaticinavam somente sob a inspiração do seu
próprio pensamento limitado. Todavia, os ministérios liberais consideravam que nada de
bom em geral não podia vir do Soviete. Tchkheidzé, Skobelev, Sokhanov e outros faziam
diligências junto do governo e aconselhavam-o verbosamente a ceder! Os ministros
replicavam: os delegados voltavam ao comité executivo: impuseram-lhe a pressão da
autoridade governamental: remeteram-se em contacto com os ministros e…
recomeçavam o mesmo jogo. Esse moinho complicado não moía farinha.
Na comissão de contacto, todos se queixavam. Gotchkov, particularmente,
lamentava-se diante dos democratas sobre as desordens provocadas na tropa por
benevolência do Soviete. Às vezes, o ministro da Guerra da revolução, «no sentido
literal… lacrimejavam, ou, pelo menos, esfregavam com aplicação os olhos com o lenço».
Ele julgava, com razão, que secar as lágrimas ungidas do Senhor entrava directamente
nas funções dos profetas. No 9 de Março, o general Alexeiev, que se encontrava à
cabeça do G. Q. G., telegrafaria ao ministro da Guerra: «O jugo alemão aproxima-se se
nos mostrar-mos conciliatórios com o Soviete». Gotchkov respondeu-lhe em termos muito
lacrimosos: o governo, infelizmente! não dispõe poder real, o Soviet detém as tropas, o
caminho de ferro, os correios, os telégrafos. «Pode-se dizer nitidamente que o governo
provisório existe na medida que o Soviete lhe deixa.»
Em cada semana, a situação não melhorava. Quando o governo provisório, no início
de Abril, enviou deputados da Duma à frente, intimou-os, rangendo os dentes, a não
manifestar nenhum desacordo com os delegados do Soviete. Os deputados liberais
sentiram-se, durante toda a viagem, sob escorta, mas compreendiam que de outra forma,
quaisquer que fossem os seus altos poderes, eles não teriam podido não somente

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apresentarem-se diante dos soldados, nem mesmo encontrar o seu lugar no vagão. Esse
detalhe prosaico nas Memórias do príncipe Mansyriev completa admiravelmente a
correspondência de Gotchkov com o G.Q.G. Sobre o conteúdo essencial da constituição
de Fevereiro. O homem de espírito reaccionário caracterizava não sem razão a situação
assim: «O antigo poder está fechado na fortaleza Pedro e Paulo, o novo está nas prisões
domiciliárias.»
Mas o governo provisório não tinha outro apoio senão o equívoco apoio dos
dirigentes do Soviete? Onde se tinham metido as classes possuidoras? Uma questão bem
fundada. Ligada pelo seu passado com a monarquia, elas apressaram-se, após as
perturbações, em se agrupar sobre um novo eixo. O conselho da indústria e do comércio,
representando o capital unificado de todo o país, desde do 2 de Março, «inclinou-se
diante do alto facto da Duma do Império» e colocou-se «à inteira disposição» do seu
comité. Os zemstovs e as municipalidades comprometeram-se na mesma via. Já, no 10
de Março, o conselho da nobreza unificada, apoio do trono, apelava, na linguagem
patética da cobardia, todos os homens russos «a reunir fileiras à volta do governo
provisório, actualmente o único poder legal na Rússia». Quase ao mesmo tempo, as
instituições e os órgãos das classes possuidoras começaram a condenar a dualidade do
poder, atribuindo a responsabilidade das desordens aos sovietes, primeiro
prudentemente, seguidamente sempre mais ousadamente.
Por detrás dos patrões colocaram-se os grandes empregados, as uniões das
profissões liberais, os funcionários do Estado. Do exército chegavam telegramas
fabricados nos estado-maiores, manifestos e resoluções do mesmo género. A imprensa
liberal abriu uma campanha «pelo poder único» que, nos meses seguintes, tomou o
carácter de tiro cerrado contra os líderes dos sovietes. O conjunto tinha um ar
extremamente imponente. O grande número de instituições, de nomes conhecidos, de
resoluções, de artigos, de tom resoluto, tudo isso exercia infalivelmente uma acção sobre
os impressionáveis dirigentes do comité executivo. E, contudo, por detrás desta
ameaçadora parada das classes possuidoras, não havia força séria, - «Mas a força da
propriedade?» replicavam aos bolcheviques os socialistas pequeno burgueses. A
propriedade é uma relação entre os homens. Ela representa uma força enorme enquanto
que ela goza de um reconhecimento geral que tem por apoio um sistema de coerção
chamado «o Direito, e o Estado». Mas a situação consistia precisamente nisto que o
antigo Estado tinha-se desmoronado e que todo o direito antigo se encontrava colocado
sob um ponto de interrogação para as massas.
Nas fábricas, os operários viam-se cada vez mais patrões – e o patrão um hóspede
mal-vindo. Havia ainda menos firmeza nos proprietário rurais, face a face com os
mujiques sombrios e hostis, longe de um poder à existência do qual os donos dos
domínios, por causa da distância, tinha primeiro acreditado. Mas os proprietários, tendo
perdido a possibilidade de dispor dos seus bens e mesmo de os salvaguardar, deixavam
de ser verdadeiros proprietários e tornavam-se simples habitantes fortemente abalados
que não podiam, de maneira nenhuma, ajudar o seu governo, porque eles tinham
sobretudo eles próprios necessidade de serem ajudados por ele. Foi muito cedo que

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começaram amaldiçoar o governo pela sua fraqueza. Mas, ao maldiçoar o governo, eles
amaldiçoavam a sua própria sorte.
Durante esse tempo, a acção conjugada do comité executivo e do Conselho de
ministros parecia tomar como tarefa demonstrar que a arte de dirigir em tempo de
revolução consiste em perder tempo em muito palavreado. Entre os liberais, era questão
de um cálculo consciente. Segundo a sua firme convicção, todos os problemas deviam
ser adiados, salvo o do juramento de fidelidade à Entente.
Miliokov deu a conhecer aos seus colegas os tratados secretos. Kerensky fez de
conta de não ter ouvido. Evidentemente, só o grande procurador do Santo Sínodo, um
Lvov cheio de improvistos, homónimo do primeiro ministro, mas não príncipe, indignou-se
violentamente e declarou mesmo os tratados «dignos de bandidos e de vigaristas»,
provocando indubitavelmente um sorriso indulgente de Miliokov («o homem da rua é
besta») e a proposição de passar simplesmente à ordem do dia. A declaração oficial do
governo prometia a convocação da Assembleia constituinte sem demora, a qual, portanto,
não tinha sido intencionalmente fixada.
Estava fora de questão a forma do Estado: o governo esperava ainda restaurar o
paraíso perdido da monarquia. Mas na realidade a declaração consistia na obrigação de
perseguir a guerra até à vitória e «de respeitar absolutamente os acordos assinados com
os Aliados». No que dizia respeito ao mais terrível problema da existência popular, a
revolução tinha tido lugar somente, parecia, para declarar: tudo fica como estava. Como
os democratas davam ao reconhecimento do novo poder pela Entente um significado
místico: - o pequeno comerciante nada é enquanto que um banco não o reconheceu
solvável, - o comité executivo encaixou em silêncio a declaração imperialista do 6 de
Março. «Nem um órgão oficial da democracia – declarava um ano mais tarde Sokhanov,
num tom desolado - … não reagir publicamente diante do acto do governo provisório que
desonra a nossa revolução desde do seu nascimento aos olhos da Europa democrática.»
No 8 de Março saiu enfim do laboratório governamental um decreto de amnistia. Nesse
momento, as portas das prisões já tinham sido abertas em todo o país pelo povo, os
deportados políticos regressavam numa imensa torrente de reuniões, de entusiasmos, de
músicas militares, de discursos e de flores. O decreto ressonou como um eco tardio das
chancelarias. No dia 12 foi proclamada a revogação da pena de morte. Quatro meses
mais tarde, a mesma pena foi restabelecida pelos soldados. Kerensky tinha prometido
subir a Justiça a uma altura desconhecida. Num acesso de zelo, efectivamente, ele fez
admitir uma proposta do comité executivo preconizando a admissão de representantes
dos operários e soldados como membros das justiças de paz. Foi a única medida pela
qual sentia-se o palpitar do coração da revolução, medida que provocou por
consequência o pavor de todos os eunucos da Justiça. Mas aí pararam as despesas. Um
homem que ocupava, junto de Kerensky, um posto elevado no governo, o advogado
Demianov, «socialista» ele também, decidiu, segundo os seus próprios termos, de
manter-se o princípio da manutenção dos lugares de todos os antigos funcionários: «A
política do governo revolucionário não deve vexar ninguém sem necessidade.» Foi
essencialmente a regra de todo o governo provisório, que temia acima de tudo ofender
alguém entre as classes dirigentes, mesmo a burocracia czarista. Não somente os juízes,

151
mas mesmo os procuradores do czar mantiveram seus empregos. Bem entendido, as
massas podiam zangarem-se. Mas isso, era lá com os sovietes: as massas não
apareciam no horizonte do governo.
Uma especie de brisa de ar fresco vinha somente de uma personagem já nomeada,
o alto procurado Lvov, que fazia os relatórios oficiais sobre os «idiotas e os malandros»
instalados no muito Santo Sínodo. Os ministros não ouviam sem se alarmarem estas
saborosas apreciações, mas o Sínodo continuava a ser uma instituição do Estado, como
a ortodoxia uma religião do Estado. A própria composição do Sínodo foi conservada: a
revolução não se deve disputar com ninguém.
E continuaram a manter as sessões, ou, pelo menos, a receber os seus honorários,
os membros do Conselho de Estado, fiés servidores de dois ou três imperadores. Esse
facto tomou logo um significado simbólico. Nas fábricas e nas casernas, protestavam
ruidosamente. O comité executivo agitava-se. O governo discutiu em duas sessões o
destino e honorários dos membros do Conselho de Estado, e não pôde chegar a qualquer
decisão. Sim, como inquietar honráveis personagens, entre elas, aliás, um certo número
de grandes amigos?
Os ministros rasputinianos ainda eram uma fortaleza, mas o governo provisório
apressou-se a fixar-lhes as pensões. Isso dava o tom ou de troça, ou uma voz do outro
mundo. Mas o governo não queria indispor-se com os seus predecessores, mesmo se
estivessem presos.
Os senadores continuaram a dormitar nos seus uniformes extravagantes, e quando
o senador de esquerda Sokolov, recentemente promovido a esta dignidade por Kerensky,
ousou apresentar-se em sobrecasaca negra, foi simplesmente expulso da sessão: os
senadores do czar não tinham medo de se indispor com a Revolução de Fevereiro
quando eles se convenceram que o governo desta revolução era desdentado.
Outrora, em Alemanha, Marx viu a causa do desmoronamento da Revolução de
Março nisto que o movimento tinha «somente reformado a mais alta cimeira política,
enquanto que não tocava de forma nenhuma as camadas sob essa cimeira – a velha
burocracia, o velho exército, os velhos juízes, nascidos, educados e asseados ao serviço
do absolutismo». Os socialistas do tipo Kerensky procuraram a salvação lá onde Marx via
a causa da perdição. Os marxistas mencheviques estavam com Kerensky e não com
Marx.
O único domínio no qual o governo teve iniciativa e tomou um aspecto revolucionário
foi a sua legislação sobre as sociedade por acções: um decreto de reforma foi
promulgado desde do 17 de Março. As restrições nacionais e confessionais não foram
revogadas senão três dias mais tarde. Na composição do governo, havia um bom número
de pessoas que, sob o antigo regime, não tinham de modo nenhum sofrido senão das
imperfeições do sistema de sociedades por acções.
Os operários exigiam impacientemente a jornada de oito horas. O governo fingiu
surdez. Estava-se em tempo de guerra, toda a gente devia sacrificar-se pela pátria. Aliás,
era assunto do Soviete em aclamar os operários.

152
Ainda mais ameaçadora era a questão da terra. Aí, era preciso fazer pelo menos
alguma coisa. Assediado pelos profetas, o ministro da Agricultura, Chingarev, prescreveu
a criação de comités agrários locais, sem determinar, por circunscrição, as suas funções e
sua tarefas. Os camponeses imaginaram que os comités deviam remeter-lhe as terras. Os
proprietários dos domínios consideravam que os mesmos comités deviam proteger as
suas possessões. Foi assim que desde do início, o regime de Fevereiro sentiu-se o
pescoço apertado pelo nó do mujique, mais impiedoso que todos os outros laços.
Segundo a doutrina oficial, todas as questões donde saiu a revolução eram adiadas
até à
Assembleia constituinte. A vontade nacional podia ser avisada por irrepreensíveis
democratas constitucionais que não tinham conseguido, infelizmente! fazê-la cavalgar por
Miguel Romanov? A preparação da futura representação nacional, entretanto, fazia-se
com uma tal seriedade burocrática e com a lentidão tão calculada que a Assembleia
constituinte transformava-se uma miragem. Foi somente no dia 25 de Março, quase um
mês depois da insurreição – um mês de revolução! - que o governo decidiu formar, para a
elaboração da lei eleitoral, um estorvo de Conferência especial. Mas esta assembleia não
teve lugar. Na sua História da Revolução, constantemente falsa, Miliokov declara com um
tom confuso que em resultado das diversas complicações, «sob o primeiro governo, a
obra da conferência especial não foi empreendida». As complicações voltavam na
constituição da comissão e nas suas obrigações. A tarefa era diferenciar a Assembleia
constituinte até tempos melhores: até à vitória, até à paz ou até às calendas kornilovianas.
A burguesia russa, nascendo demasiado tarde, odiava mortalmente a revolução.
Mas ao seu ódio faltava-lhe força. Ela devia ficar na expectativa e manobrar. Não tendo
possibilidade de derrubar e de sufocar a revolução, a burguesia contava tomá-la por via
de extinção.

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A dualidade de poderes
Em que consiste a dualidade de poderes? Não podemos deixar de nos interrogar
sobre esta questão que não foi esclarecida nos trabalhos de história. Portanto, a
dualidade é um estado particular de uma crise social, característica não somente da
Revolução Russa de 1917, embora marcada precisamente por ela. Classes antagonistas
existem sempre na sociedade e a classe desprovida de poder esforça-se inevitavelmente
em fazer pender de um modo ou outro o curso do Estado para o seu lado. Isso não
significa de forma nenhuma que, na sociedade, reine uma dualidade ou pluralidade de
poderes. O carácter de um regime político é directamente determinado pela relação das
classes oprimidas com as classes dirigentes. A unidade de poder, condição absoluta da
estabilidade de um regime, subsiste enquanto que a classe dominante consegue impor a
toda a sociedade as suas formas económicas e política como as únicas possíveis.
O domínio simultâneo dos junkers e da burguesia – que seja segundo a formula dos
Hohenzollern ou da República – não constitui uma dualidade de poderes, mesmo que
sejam violentas em certos momentos dos conflitos entre os dois detentores do poder: eles
têm em comum a base social, uma cisão no aparelho governamental não é de temer nas
suas dissensões. O regime de duplo poder surge a partir de um conflito irredutível das
classes, e só é possível, em consequência, numa época revolucionária e constitui um dos
elementos essenciais desta.
O mecanismo político da revolução consiste na passagem do poder de uma classe a
outra. A própria insurreição violenta realiza-se habitualmente num curto prazo. Mas
nenhuma classe históricamente definida não sobe de uma situação subalterna à de
dominação subitamente, numa noite, mesmo numa noite de revolução. Ela deve já, na
véspera, ocupar uma posição extremamente independente em relação à classe
oficialmente dominante: ainda mais, ela deve concentrar nela as esperanças das classes
e camadas intermediárias descontentes do que existe, mas incapazes de exercer um
papel independente. A preparação histórica de uma insurreição conduz, em período pré-
revolucionário, à situação em que a classe destinada em realizar o novo sistema social,
sem ainda se tornar mestre do país, concentra efectivamente nas suas mãos uma parte
importante do poder do Estado, enquanto que o aparelho oficial continua ainda entre as
mãos dos antigos possuidores. É aí o ponto de partida da dualidade de poderes em toda
a revolução.
Mas não é o seu único aspecto. Se uma nova classe levada ao poder por uma
revolução que ela não queria é, na realidade, uma classe já envelhecida, históricamente
atrasada: se ela teve tempo de gastar-se antes de ser coroada oficialmente: se, chegando
ao poder, ela cai num antagonismo já suficientemente maduro e que procura meter a mão
sobre o leme do Estado – o equilíbrio instável do duplo poder é substituido, na revolução
política, por um outro equilíbrio, por vezes menos estável. A vitória sobre «a anarquia» do
duplo poder constitui, a cada nova etapa, a tarefa da revolução, ou então... da contra-
revolução.

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A dualidade de poderes não somente não supõe mas, geralmente, exclui a partilha
da autoridade em partes iguais e, em suma, todo o equilíbrio formal das autoridades. É
um facto não constitucional, mas revolucionário. Prova que a ruptura do equilíbrio social já
demoliu a superstrutura do Estado. A dualidade de poderes manifesta-se onde as classes
inimigas se apoiam já sobre organizações de Estado profundamente incompatíveis – uma
caduca, a outra formando-se – que, a cada passo, afastam-se entre elas no domínio da
direcção do país. A parte do poder obtida nessas condições para cada uma das classes
em luta é determinada pela relação de força e pelas fases da batalha.
Pela sua própria natureza, uma tal situação não pode ser estável. A sociedade
necessita de uma concentração de poder e, seja na classe dominante, seja, para o caso
presente, nas duas classes que se partilham a potência, procura irresistivelmente esta
concentração. A fragmentação do poder não anuncia outra coisa senão a guerra civil.
Antes, portanto, que as classes e os partidos rivais se decidam a guerrear, sobretudo se
eles temem a intervenção de uma terceira força, eles podem se encontrar obrigados
durante muito tempo em esperar e mesmo sancionar de qualquer forma o sistema de
duplo poder. Contudo, este último explode inevitavelmente. A guerra civil dá ao duplo
poder o seu poder a expressão mais demonstrador, precisamente territorial: cada um dos
poderes, tendo criado a sua praça das armas entrincheirada, luta pela conquista do resto
do território, o qual, muitas vezes, sofre a dualidade de poderes sob a forma de invasões
alternativas das duas potências beligerantes enquanto que uma delas não se fortaleceu
definitivamente.
A revolução inglesa do século XVII, precisamente porque era uma grande revolução
que transtornou a nação profundamente, representa nitidamente as alternativas da
dualidade de poderes com passagens violentas de um a outro, sob o aspecto da guerra
civil.
Primeiro, o poder real, apoiado sobre as classes privilegiadas ou as cimeiras das
classes, aristocratas e bispos, opõem-se a burguesia e as camadas próximas dela dos
fidalgos de província. O governo da burguesia é o Parlamente presbiteriano que se apoia
sobre a City londrina. A luta prolongada desses dois regimes resolveu-se por uma civil
aberta. Dois centros governamentais, Londres e Oxford, criam os seus exércitos, a
dualidade dos poderes toma forma territorial, ainda que, como sempre numa guerra civil,
as limitações territoriais sejam extremamente instáveis. O parlamento ganha. O rei, feito
prisioneiro, espera o seu destino.
Parece que se constituem as condições de poder único da burguesia presbiteriana.
Mas, ainda antes que seja quebrado o poder real, o exército do parlamento transforma-se
numa força política autónoma. Ela junta nas suas fileiras os independentes, os pequenos
burgueses, artesãos, agricultores, devotos e resolutas. O exército intromete-se de forma
autoritária na vida social, não simplesmente como força armada, não como guarda
pretoriana, mas como representação política de uma nova classe oposta à burguesia rica
e abastada. Em consequência, o exército criou um novo órgão de Estado que se ergueu
acima dos chefes militares: um conselho de deputados soldados e oficiais («agitadores»).
Veio então um novo período de duplo poder: aqui, o parlamento presbiteriano, aí, o

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exército independente. A dualidade de poderes conduz ao conflito declarado. A burguesia
torna-se impotente em dirigir contra o «exército modelo» de Cromwell – isto é, a plebe em
armas – as suas próprias tropas. O conflito termina pela depuração do parlamento
presbiteriano com a ajuda do sabre da independência. Do parlamento resta um vestígio, a
ditadura de Cromwell estabelece-se. As camadas inferiores do exército, sob a direcção
dos «levellers» (niveladores), ala extrema esquerda da revolução, tentam opor-se à
dominação da altas esferas militares, dos grandes do exército, lotar o próprio regime,
autenticamente plebeu. Mas o novo duplo poder não consegue desenvolver-se: os
levellers, as camadas mais baixas da pequena burguesia, ainda não têm e não podem ter
a via independente na história, Cromwell resolver logo o problema dos seus adversários.
Um novo equilíbrio político, aliás longe da estabilidade, instaura-se por um certo número
de anos.
Do tempo da grande Revolução francesa, a Assembleia constituinte, cuja espinha
dorsal compunha-se da elite do Terceiro estado, concentrava-se nas suas mãos o poder
sem suprimir portanto, na totalidade, as prerrogativas do rei. O período da Assembleia
constituinte é a de uma crítica dualidade de poderes que acaba-se pela fuga do rei até
Varennes e formalmente terminou com a proclamação da República.
A primeira Constituição francesa (1791), construída sobre a ficção da absoluta
independência dos poderes legislativos e executivos em relação um ao outro, dissimulava
o facto, ou tentava esconder ao povo uma real dualidade de poderes: o da burguesia,
definitivamente entrincheirada na Assembleia national após a tomada da Bastilha pelo
povo, e o da velha monarquia, ainda apoiada pela alta nobreza, o clero, a burocracia e a
casta militar, sem falar das esperanças fundadas numa intervenção estrangeira. Nas
contradições desse regime preparava-se a sua inevitável derrocada. Não havia saída
possível senão no aniquilamento da representação burguesa pelas forças da reacção
europeia, ou então na guilhotina para o rei e a monarquia. Paris e Coblence deviam
disputar-se.
Mas, ainda antes que se chegue à guerra e à guilhotina, entra em cena a Comuna
de Paris, que se apoia sobre as camadas inferiores do Terceiro estado da capital, e que,
cada vez mais corajosamente, disputa o poder aos representantes oficiais da nação
burguesa. Uma nova dualidade de poderes institui-se, cujas primeiras manifestações são
notadas desde 1790, quando a burguesia, grande e média, ainda está solidamente
instalada na administração e nas municipalidades. Que notável quadro – e odiosamente
caluniado – os esforços das camadas plebeias para subir de baixo, das caves sociais e
das catacumbas, e penetrar na arena interdita onde pessoas, com perucas e cuecas,
resolviam o destino da nação. Parecia que as próprias fundações, pisadas pela burguesia
cultivada, se reanimavam e se metiam em movimento, que, da massa compacta, surgiam
cabeças humanas, estendiam mãos calejadas, ouviam-se vozes roucas, mas viris. Os
distritos de Paris, cidadelas da revolução, viveram a sua própria vida. Eles foram
reconhecidos – é impossível não os reconhecer! - e transformarem-se em secções. Mas
eles quebravam invariavelmente as divisórias da legalidade, e recolhiam um afluxo de
sangue fresco vindo de baixo, abrindo, apesar da lei, suas fileiras aos párias, aos pobres,
aos sem cuecas. Ao mesmo tempo as municipalidades rurais tornaram-se o abrigo da

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insurreição camponesa contra a legalidade burguesa que protege a propriedade feudal.
Assim, sob uma segunda nação levanta-se uma terceira.
As secções parisienses ergueram-se primeiro em oposição contra a Comuna que a
honrada burguesia ainda dispunha. Pelo audacioso impulso do 10 de Agosto de 1792, as
secções ampararam-se da Comuna. A partir de então, a Comuna revolucionária opôs-se à
Assembleia legislativa, depois à Convenção, as quais, todas as duas, atrasavam-se na
marcha nas tarefas da revolução, registando os acontecimentos mas não os produzindo,
porque elas não dispunham de energia, da valentia e da unanimidade desta nova classe
que tinha tido tempo de surgir do fundo dos distritos parisienses e tinha encontrado apoio
nas aldeias mas recuadas. Assim como as secções tinham tomado possessão da
Comuna, esta, por uma nova insurreição, meteu a mão sobre a Convenção. Cada uma
destas etapas era caracterizada por uma dualidade de poderes nitidamente desenhada
cujas alas esforçaram-se em estabelece uma autoridade única e forte, a direita pela
defensiva, a esquerda pela ofensiva.
A necessidade de ditadura tão característica para as revoluções como para as
contra-revoluções procede das intoleráveis contradições de um duplo poder. A passagem
de uma dessas formas a outra cumpre-se pela via da guerra civil. As grandes etapas da
revolução, isto é a transferência do poder às novas camadas sociais, não coincidem aliás
de forma nenhuma com os ciclos das instituições parlamentares que dão seguimento à
dinâmica da revolução como uma sombra atrasada. No fim de contas, a ditadura
revolucionária dos sem cuecas fusiona, é verdade, com a da Convenção, mas qual
Convenção? - de uma assembleia desembaraçada, pelo terror, dos Girondinos que na
véspera, aí predominavam ainda, diminuída, adaptada à preponderância de uma nova
força social. Assim, pelos degraus de um duplo poder, a revolução francesa, durante
quatro anos, subiu ao seu ponto culminante. A partir do 9 de Termidor, de novo pelos
graus de um duplo poder, ela começou a descer. E, ainda uma vez, a guerra civil procede
cada recaída, da mesma maneira que ela tinha acompanhado cada ascenso. Desta
maneira, a sociedade nova procura um novo equilíbrio de forças.
A burguesia russa, combatendo a burocracia raspotiniana e colaborando com ela,
tinha, no decurso da guerra, fortificado extraordinariamente as posições políticas.
Explorando as derrotas do czarismo, ela concentrou entre as suas mãos, por intermédio
das uniões de zemstvos e das municipalidades e dos comités das indústrias de guerra,
uma grande potência, ela dispunha à sua vontade grandes fundos do Estado e
representava em suma um governo paralelo. Durante a guerra, os ministros do czar
queixavam-se por ver o príncipe Lvov abastecer o exército, alimentar, cuidar dos soldados
e mesmo criar para eles instalações de barbeiro. «É preciso acabar ou remeter-lhe o
poder», dizia, desde 1915, o ministro Krivochine. Ele não imaginava que Lvov, dezoito
meses mais tarde, obteria «todo o poder», não das mãos de Kerensky, de Tchkheidze e
de Sokhanov. Portanto, no dia seguinte ao dia onde isso se cumpriu, uma nova dualidade
de poderes se manifestou: ao lado do meio governo liberal da velha, desde então
formalmente legalizado, surgiu um governo liberal da véspera, desde então formalmente
legalizado, surgiu um governo não oficial, mas tanto mais eficaz, este das massas

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trabalhadoras, em especie, dos sovietes. A partir desse momento, a revolução russa
começa a subir à altura de um significado histórico mundial.
Em que, todavia, reside a originalidade da dualidade de poderes da Revolução de
Fevereiro? Nos acontecimentos dos séculos XVII e XVIII, a dualidade dos poderes
constitui cada vez uma etapa natural da luta, imposta aos participantes por uma relação
temporária de forças, e então cada partido esforça-se em substituir à dualidade o seu
poder único. Na Revolução de 1917, nós vemos como a democracia oficial, consciente e
com premeditadamente, constitui um duplo poder, defendendo-se com todas as suas
forças em aceitar a autoridade só para ela. A dualidade estabelece-se, à primeira vista,
não no seguimento de uma luta de classes pelo poder mas como resultado de uma
«concessão» benévola de uma classe para a outra. Na medida onde a «democracia»
russa procurava sair da dualidade, ela não via saída senão na sua própria renúncia à
autoridade. É o que nós chamamos «o paradoxo da Revolução de Fevereiro».
Poder-se-ia talvez encontra uma certa analogia no comportamento da burguesia
alemã, em 1848, em relação à monarquia. Mas a analogia não é completa. A burguesia
alemã tentou, na verdade, partilhar custasse o que custasse o poder com a monarquia
sobre as bases de um acordo. Mas a burguesia não tinha autoridade plena entre as suas
mãos e não queria de forma nenhuma ceder totalmente à monarquia. «A burguesia
prussiana possuía nominalmente o poder, nem um minuto ela duvidou que as forças do
antigo regime não se metessem com segundas intenções à sua disposição e não se
transformassem em partidários dedicados à sua própria força» (Marx e Engels). A
democracia russa de 1917, possuindo desde do momento da insurreição o inteiro poder,
esforçou-se não simplesmente em partilhar com a burguesia, mas em ceder a esta
integralmente os assuntos públicos. Isso significa talvez que, no primeiro quarto do século
XX, a oficial democracia russa já tinha chegado a uma decomposição política maior que a
da burguesia liberal alemã do meio do século XIX. É na ordem das coisas, porque é o
reverso do ascenso efectuado em alguns lustros pelo proletariado que tinha tomado o
lugar dos artesãos de Cromwell e dos sem cuecas de Robespierre.
Se considerar-mos um facto mais profundo, o duplo poder do governo provisório e
do comité executivo tinha um nítido carácter de reflexo. O pretendente ao novo poder não
podia ser senão o proletariado. Apoiando-se sem certeza sobre os operários e os
soldados, os conciliadores foram forçados a manterem a contabilidade em parte dupla dos
czares e dos profetas. O duplo poder dos liberais e dos democratas reflectem somente
uma partilha da autoridade ainda não aparente entre a burguesia e o proletariado.
Quando os bolcheviques expulsarão os conciliadores à cabeça dos sovietes – isso em
alguns meses – a dualidade subterrânea dos poderes se manifestará, e será a véspera da
Revolução de Outubro. Até a esse momento, a revolução viverá num mundo de
refracções políticas. Desviando através das racionalizações dos intelectuais socialistas, a
dualidade de poderes, etapa da luta de classe, transforma-se em ideia reguladora. É
precisamente por aí que ela se coloca no centro da discussão teórica. Nada se perde. O
carácter de reflecto do duplo poder de Fevereiro nos permitiu compreender melhor as
etapas da história onde esta dualidade aparece como um episódio de pletora na luta dos

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dois regimes. Foi assim que uma fraca claridade lunar, como reflexo, permite estabelecer
importantes conclusões sobre a luz solar.
Na maturidade infinitamente grande do proletariado russo, em comparação com as
massas urbanas das antigas revoluções, residia particularidade essencial da revolução
russa, que conduziu primeiro ao paradoxo de uma dualidade de poderes meio
fantasmagórica, e seguidamente impediu a real dualidade em resolver-se vantajosamente
para a burguesia. Porque a questão se colocava assim: ou a burguesia ampara-se
efectivamente do velho aparelho de Estado, renovando-o para servir os seus anseios, e
então os sovietes deveram retirar-se: ou os sovietes constituirão a base do novo Estado,
tendo liquidado não somente o antigo aparelho, mas também a dominação das classe que
se servem. Os mencheviques e os socialistas-revolucionários orientavam-se pela primeira
solução. Os bolcheviques pela segunda. As classes oprimidas que, segundo Marat, não
tinham tido, outrora, suficientes conhecimentos, nem experiência, nem direcção política
para levar até ao fim a sua obra, encontraram-se, na revolução do século XX, armadas
dessas três maneiras. Os bolcheviques foram os vencedores.
Um ano após a vitória, a mesma questão, diante de uma outra relação de forças, se
colocou de novo na Alemanha. A social democracia orientava-se para o estabelecimento
de um poder democrático da burguesia e a liquidação dos sovietes. Rosa Luxemburgo e
Karl Liebknecht tomavam pela ditadura dos sovietes. Os sociais democratas ganharam.
Hilferding e Kautsky na Alemanha, Max Adler na Áustria propunham «combinar» a
democracia com o sistema soviete, integrando os sovietes operários na constituição.
Seria transformar a guerra civil, potencial ou declarada, numa componente do regime de
Estado. Não se imaginaria utopia mais curiosa. A sua única justificação sobre os territórios
alemãs estariam talvez na velha tradição: os democratas do Wurtemberg, em 1884,
queriam já uma república presidida por um duque.
O fenómeno do duplo poder, insuficientemente avaliado até agora, estará em
contradição com a teoria marxista do Estado que considera o governo como o comité
executivo da classe dominante? Equivale em dizer: a oscilação dos cursos sob a
influência da procura e da oferta contradiz a teoria do valor baseado sobre o trabalho? A
dedicação da fêmea que defende o filho recusa a teoria da luta pela existência? Não,
nesses fenómenos, não encontramos somente uma combinação mais complexa das
mesmas leis. Se o Estado é a organização de uma supremacia de classe e se a revolução
é un remplacement de la classe dominante, a passagem do poder, das mãos de uma
classe para as mãos de outra, deve necessariamente criar antagonismos na situação do
Estado, antes tudo sob a forma de um dualismo de poderes. A relação de forças de clase
não é uma grandeza matemática que se presta a um cálculo à priori. Quando o velho
regime perdeu o equilíbrio, uma nova relação de forças não se pode estabelecer senão
como resultado da sua verificação recíproca na luta. É aí a revolução.
Pode parecer que esta digressão teórica nos tenha distraído dos acontecimentos de
1917. Na realidade, ela nos fez penetrar no centro do sujeito. É precisamente em volta do
problema da dualidade do poder que evoluía a luta dramática dos partidos e das classes.

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É somente da cimeira da teoria que se pode deslumbrar esta luta e a compreender
exactamente.

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O comité executivo
O que se criou, no 27 de Fevereiro, no palácio Tauride, sob a dominação do «Comité
executivo do Soviete dos deputados operários», tinha essencialmente pouco em comum
com esta denominação. O Soviete dos deputados operários de 1905, primeiro ascendente
do sistema, nasceu da greve geral. Ele representa directamente as massas em luta. Os
dirigentes da greve tornaram-se deputados do Soviete. A selecção dos efectivos produziu-
se debaixo de fogo. O órgão de direcção foi eleito pelo Soviete para dirigira ulteriormente
a luta. É precisamente o comité executivo de 1905 que meteu ordem na insurreição
armada.
A Revolução de Fevereiro, graças ao levantamento dos regimentos, saiu vitoriosa
antes que os operários tivessem constituído os sovietes.
O comité executivo formou-se arbitrariamente, antes do Soviete independentemente
das fábrica e dos regimentos, após a vitória da revolução. Vemos aqui a clássica iniciativa
dos radicais que se mantêm afastados da luta revolucionária, mas dispõem-se a recolher
os frutos. Os verdadeiros dirigentes operários ainda não tinham deixado a rua,
desarmando uns armando outros, consolidavam a vitória. Os mais previdentes foram
imediatamente alarmados pelas informações anunciando que no palácio Tauride criava-se
um certo Soviete de deputados operários. Assim como a burguesa liberal, esperando uma
revolução palaciana que alguém deveria cumprir, tinha preparado, durante o Outono de
1916, um governo de reserva para o impor, em caso de sucesso, ao novo czar - os
intelectuais radicais constituíam o seu governo sombra no momento da vitória de
Fevereiro. E como, pelo menos no passado, eles aderiram ao movimento operário e
estavam inclinados a referir-se às suas tradições, deram ao filho o título de «comité
executivo do Soviete». Foi uma das falsificações meio premeditadas que a história está
cheia, nomeadamente a história dos levantamentos populares.
Quando os elementos tomam uma feição revolucionária e que se quebra a ordem de
sucessão, as camadas «instruídas», chamadas a participar no poder, confiscam
decididamente os nomes e os símbolos que se associam às lembranças heróicas das
massas. As palavras, frequentemente, dissimulam a essência das coisas, sobretudo
quando estão em jogo os interesses das camadas mais influentes. A enorme autoridade
do comité executivo, desde do dia da sua criação, apoiava-se no seu pretendido direito de
sucessão em relação ao Soviete de 1905. O comité, rectificado pela primeira e caótica
assembleia do Soviete, exerceu seguidamente uma influência decisiva, tanto sobre a
composição do Soviete como sobre a sua política. Esta influência foi tanto mais
conservadora que a selecção natural dos representantes revolucionários, habitualmente
assegurado por uma atmosfera incandescente de luta, não se produzia mais. A
insurreição pertencia já ao passado, todos exaltavam-se da vitória, dispunham-se em
organizar a sua existência: as almas amoleciam-se, e certas cabeças também. Era
necessário meses de novos conflitos e de luta nas novas condições, determinando um
reagrupamento de homens, para que os sovietes, órgãos que concretizavam a vitória,
tornaram-se verdadeiros órgãos de luta e de preparação para um novo levantamento.

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Insistimos tanto mais sobre este aspecto do assunto que ele até ao presente ficou
completamente na sombra.
Todavia, não eram somente as condições nas quais se formaram o comité executivo
e o Soviete que determinaram o seu carácter moderado e conciliador: existiam causas
mais profundas e duráveis que agiram no mesmo sentido.
Havia em Petrogrado mais de cem cinquenta mil soldados. Como operários e
operárias de todas as categorias, pelo menos quatro vezes mais. Contudo, contra dois
delegados operários no Soviete, contavam-se cinco delegados soldados. As normas da
representação eram extremamente extensíveis, todas as proveniência eram dos
soldados. Enquanto que os operários elegiam um só representante por mil indivíduos,
pequenos contingentes militares enviavam frequentemente dois delegados. O tecido
cinzento dos uniformes constituiu o principal fundo do quadro do Soviete.
Mas mesmo entre os civis, nem todos foram eleito pelos operários, longe disso! No
Soviete foram admitidos um bom número de indivíduos por convite pessoal, ou por
protecção, ou simplesmente graças às suas próprias maniganças - advogados, e médicos
radicais, estudantes, jornalista - que representavam diversos grupos problemáticos, mas,
muitas vezes, as suas ambições particulares. Esta evidente alteração do carácter do
Soviete era bem tolerada por dirigentes que esperavam diluir a essência demasiado acre
das fábricas e das casernas com a água morna da pequena burguesia instruída. Números
desses novatos ocasionais, aventureiros, impostores, palradores habituados à tribuna,
acotovelando com autoridade, mantiveram durante muito tempo em xeque os operários
silenciosos e os soldados irresolutos.
Se foi assim em Petrogrado, não era difícil imaginar como as coisas se passavam na
província, onde a vitória chegou sem qualquer luta. Todo o país formigava de soldados. As
guarnições de Kiev, de Helsingfors, de Tiflis não cediam em número à de Petrogrado: em
Saratov, Samara, Tambov, Omsk, contavam-se de setenta mil a oitenta mil soldados: em
Iaroslav, Ekaterinjlav, Ekatarinburgo, nos sessenta mil: numa longa serie de outras
cidades, cinquenta, quarenta e trinta mil. A representação soviética era diversamente
organizada segundo os lugares, mas colocava por todo o lado a tropa numa situação
privilegiada. No sentido político, manifestava-se assim o esforço dos próprios operários
para se aproximarem o mais possível dos soldados. Os dirigentes empenhavam-se de
boa vontade em contentar os oficiais. Além de um número considerável de tenentes e
alferes que, nos primeiros tempos, tinham saído das fileiras, davam frequentemente,
sobretudo na província, uma representação particular no comando. Como resultado, os
militares tinham, em numerosos sovietes, a maioria esmagadora. A massa dos soldados,
que não tinham ainda fisionomia política, determinava, por intermediário dos seus
representantes, a fisionomia dos sovietes.
Em toda a representação existe um elemento de desproporção. É um elemento
particularmente considerável após insurreição. Muitas vezes, no início figuram como
deputados soldados politicamente incapazes, gente absolutamente estrangeira à tropa e à
revolução, intelectuais e meio intelectuais de toda a especie, emboscados nas guarnições
da retaguarda e que se mostravam patriotas. Assim se criava uma divergência entre a

162
mentalidade das casernas e a dos sovietes. O oficial Stankevitch, que os homens do seu
batalhão acolhiam, após a insurreição, com um ar deprimido e desconfiado, falou com
sucesso, numa secção de soldados, sobre o tema inflamado da disciplina. «Porquê,
perguntava, as disposições dos espíritos, no Soviete, ainda são suaves, mais agradáveis,
que as dos batalhões?» Esta ingénua incompreensão mostra mais uma vez como é difícil
para os verdadeiros sentimentos da base caminharem para as cimeiras.
Contudo, desde do 3 de Março, as reuniões de soldados e de operários começam a
exigir do Soviete que ele elimine imediatamente o governo provisório da burguesia liberal
e tome ele próprio o poder. A iniciativa, ainda sobre este aspecto, pertence ao bairro de
Vyborg. E, com efeito, qual reivindicação podia ser mais compreensível, mais aferente às
massas? Mas logo esta agitação foi suspendida: não somente porque os partidários da
defesa nacional opuseram-se violentamente, mas, coisa mais grave, porque a direcção
bolchevique, desde da primeira quinzena de Março, inclinava-se de facto diante do regime
do duplo poder. Ora, excepto os bolcheviques, ninguém não podia colocar
descaradamente a questão do poder. Os dirigentes de Vyborg tiveram que bater em
retirada. Os operários de Petrogrado, portanto, nem confiaram por uma hora no novo
governo: não o consideram com o seu. Mas eles davam atenção aos soldados,
esforçando-se para não se oporem a eles demasiado brutalmente. Os soldados que
apenas balbuciavam as primeiras palavras de política, ainda como mujiques não
confiassem em qualquer desses senhores, eles prestavam grande atenção aos seus
representantes, os quais, por outro lado, escutavam respeitosamente os líderes
autorizados do comité executivo: enquanto que estes últimos não faziam outra coisa
senão apalpar o pulso ansiosamente da burguesia liberal. De alto a baixo, tudo assentava
nessas atenções - provisoriamente.
Todavia, o estado de espírito da base surgia no exterior, e a questão do poder,
artificialmente afastada, ressurgia cada vez, ainda que sob uma forma disfarçada. «Os
soldados não sabem quem escutam», declararam os distritos e a província, levando
assim as suas queixas ao executivo, sobre a dualidade de poderes. As delegações das
frotas do Báltico e do mar Negro afirmam, no 16 de Março, que estão dispostas a
considerar o governo provisório na medida onde este agirá em conformidade com o
comité executivo. Noutros termos, esses delegados dispunham-se em não ter em conta o
governo. Mais se avança, mais esta nota se torna insistente: «O exército e a população
devem obedecer unicamente às decisões do Soviete», tal foi a resolução do Regimento
172 de reserva, que formulou ao mesmo tempo esse corolário: «As ordens do governo
provisório que infringem as decisões do Soviete não estão sujeitas à execução.» Foi com
um sentimento complexo de satisfação e inquietação que o executivo sancionou esta
disposição. Foi em rangendo os dentes que o governo a tolerou. Um e outro não tinham
outra coisa que fazer.
Desde do princípio de Março, os sovietes surgem nas principais vilas e centros
industrial. Daí, em algumas semanas, eles estendem-se por todo o país. Foi só em Abril-
Maio que eles começaram a ganhar os campos. Em nome do campesinato,
primitivamente, foi sobretudo o exército que falava.

163
O comité executivo do Soviete de Petrogrado tinha naturalmente tomado a
importância de uma grande instituição do Estado. Os outros sovietes regulavam o passo
sobre o da capital, adoptando, um após outro, as resoluções de apoio condicional ao
governo provisório. Ainda que, nos primeiros meses, as relações entre o Soviete de
Petrogrado e os sovietes provinciais se arranjassem, sem conflitos nem mal-entendidos
graves, a necessidade de uma organização de Estado não deixava de surgir de toda a
situação. Um mês após a queda da autocracia, uma primeira conferência dos sovietes foi
convocada, incompleta e de composição unilateral. Se, dos cento e oitenta e cinco
organizações representadas, os sovietes de localidades constituíam dois terços, eram
portanto sobretudo sovietes de soldados: com os representantes das organizações da
frente, delegados militares, na maior parte oficiais, formavam uma esmagadora maioria.
Os discursos retiniam sobre a guerra até à vitória completa e as inventivas dirigidas aos
bolcheviques, apesar da sua conduta ser mais que moderada. A conferência associou
dezasseis conservadores provinciais ao comité executivo de Petrogrado, legitimando o
seu carácter de instituição de Estado.
A ala direita reforçou-se ainda mais. A partir de então, intimidaram cada vez mais
frequentemente os descontentes, ameaçando-os com a província. Uma decisão sobre a
reorganização da composição do Soviete de Petrogrado, adoptada no 14 de Março, não
foi executada. Pouco importa: não é um soviete local que decide, mas é o comité
executivo pan-russo. Os líderes oficiais tinham ocupado uma posição quase inacessível.
As mais importantes decisões eram tomadas pelo executivo, mais exactamente no seu
núcleo dirigente, com acordo prévio com o núcleo do governo. O Soviete foi afastado.
Tratavam-lhe de reunião: «Não é aí, nas assembleias gerais, que se faz a política, e todos
esses «plenários» não têm absolutamente nenhuma importância prática» (Sokhanov).
Infatuados deles próprios, os mestres do destino consideravam que ao confiarem-lhes a
direcção, os sovietes tinham em suma preenchido o seu papel. O próximo futuro que não
é assim. A massa é muito paciente, mas ela não é desse barro que se pode modular à
vontade. E, nas épocas revolucionárias, ela instruiu-se rápidamente. Aí reside a mais alta
força da revolução.
Para melhor compreender o desenvolvimento ulterior dos acontecimentos, é
necessário analizar a característica dos dois partidos que, no início da revolução,
formaram um bloco compacto, dominaram os sovietes, nas municipalidades
democráticas, nos congressos da democracia dita «revolucionária», e conservaram
mesmo a sua maioria, aliás cada vez mais frágil, até à Assembleia constituinte, que se
tornou o último reflexo da sua potência de outrora, tal como o avermelhar da cimeira de
uma montanha iluminada pelo sol posto!
Se a burguesia russa se mostrou demasiado tarde para ser democrática, a
democracia russa, pela mesma razão, acreditava-se socialista. A ideologia democrática
dispensou até o esgotamento irremediável na corrente do século XIX. No limiar do século
XX, a intelliguentsia radical russa, se ela queria encontrar o acesso junto das massas,
tinha necessidade de uma cor socialista. Tal foi, no conjunto, a causa histórica que levou a
criação de dois partidos intermediários: mencheviques e socialistas-revolucionários. Cada
um deles tinha, no entanto, a sua genealogia e a sua ideologia particular.

164
As concepções dos mencheviques estabeleceram-se na base marxista. Sempre em
consequência do atraso histórico da Rússia, o marxismo aí consistiu no início não uma
crítica da sociedade capitalista como argumento da inevitabilidade do desenvolvimento
burguês do país. Astuta, a história utilizou uma teoria castrada da revolução proletária
para ocidentalizar, por esse meio, num espírito burguês, as largas esferas da
intelliguentsia populista rança. Nesse processo, os mencheviques ocuparam o lugar mais
importante. Constituindo a ala esquerda da intelliguentsia burguesa, eles ligaram-se esta
às camadas intermédias dos operários mais moderados que atraía uma actividade legal à
volta da Duma e nos sindicatos.
Os socialistas-revolucionários, em contrapartida, combatiam teoricamente o
marxismo, sofrendo parcialmente a sua influência. Eles consideravam-se como um partido
realizando a aliança dos intelectuais, operários, e camponeses, bem entendido sob o
controlo da razão crítica. No domínio económico, suas ideias representavam uma mistura
indigesta de diversos sedimentos históricos, reflectindo as condições contraditórias da
existência do campesinato num país onde crescia rápidamente o capitalismo.
A futura revolução deveria ser, para os socialistas-revolucionários não burguesa e
não socialista, mas «democrática»: eles substituíam uma formula política pelo conteúdo
social. Traçavam assim a via entre a burguesia e o proletariado, e, em consequência, o
papel de árbitros entre este últimos. Após Fevereiro, pode parecer que os socialistas-
revolucionários estavam muito próximos desta situação.
Desde da época da primeira revolução, eles já tinham raízes na classe camponesa.
Durante os primeiros meses de 1917, toda a intelliguentsia dos campos assimilou a
formula tradicional dos populistas: «terra e liberdade». Diferentemente dos mencheviques,
sempre ligados a um partido exclusivamente urbano, os socialistas-revolucionários tinham
encontrado, parece, um apoio extremamente forte entre os rurais. Ainda mais, eles
dominavam mesmo nas cidades: nos sovietes, por secções de soldados, e nas primeiras
municipalidades democráticas, onde recolhiam a maioria absoluta dos votos. A potência
desse partido pareciam ilimitada. Na realidade, era somente uma aberração política.
Um partido pelo qual toda a gente vota, fora uma minoria que sabe por quem votar,
não é um partido, assim como a linguagem que se servem as crianças de todos os países
não é uma língua nacional. O partido socialista-revolucionário trazia solenemente uma
denominação completamente prematura, informe e confusa na Revolução de Fevereiro.
Quem quer que fosse não tinha herdade do passado pré-revolucionário motivos
suficientes para votar seja pelos cadetes, seja pelos bolcheviques, votava pelos
socialistas-revolucionários. Mas os cadetes mantinham-se na campo entrincheirado dos
proprietários. Os bolcheviques eram ainda pouco numerosos, incompreensíveis, mesmo
assustadores. Votar pelos socialistas-revolucionários significava votar por uma revolução
no seu conjunto e não comprometia a nada. Nas cidades, os soldados esforçavam-se
para se aproximarem do partido que defendia a causa dos camponeses, um esforço dos
elementos atrasados da classe operária para se manter mais perto dos soldados, um
esforço do povo das cidades para não se afastar dos soldados e dos camponeses. Nesse
período, uma carta de membro do partido socialista-revolucionário dava um direito

165
provisório de entrada nas instituições revolucionárias e mantinha o seu valor até à troca
por um documento de maior valor. Não foi sem razão que se disse do grande partido, que
acolhia uns e outros, que era um «zero grandioso».
A datar da primeira revolução, os mencheviques deduziam a necessidade de uma
aliança com os liberais segundo o carácter burguês da revolução, e situavam esta aliança
acima de uma colaboração com a classe camponesa, considerada como aliada pouco
segura. Os bolchevique, por outro lado, estabeleciam toda a perspectiva da revolução
sobre uma aliança do proletariado com os camponeses contra a burguesia liberal. Como
os socialistas-revolucionários consideravam-se antes de tudo um partido camponês,
convinha, dizia-se, esperar, na revolução, por uma aliança dos mencheviques com a
burguesia liberal. Na realidade nós vemos na Revolução de Fevereiro um grupo inverso.
Os mencheviques e os socialistas-revolucionários agiam na mais estreita colaboração que
completa o seu bloco com a burguesia liberal. Os bolcheviques, sobre o aspecto oficial da
política, estão completamente isolados.
Esse facto inexplicável à primeira vista é, na realidade, completamente lógica. Os
socialistas-revolucionários não eram de forma nenhuma um partido camponês, a despeito
dos inumeráveis simpatias que acolhiam suas palavras de ordem no campo. O núcleo
essencial do partido - aquele que determina a política efectiva e destaca do seu próprio
meio ministros e funcionários - era muito mais ligado aos círculos liberais e radicais da
cidade que com as massas camponesas revoltadas. Esse núcleo dirigente, terrivelmente
inchado pelo afluxo de socialistas-revolucionários carreiristas de Março foi mortalmente
assustado pela amplitude do movimento camponês que desfilava sob as suas palavras de
ordem. Os populistas da última colheita desejavam, certamente, aos camponeses todo o
bem possível, mas não queriam nenhum «galo vermelho», não queriam o incêndio. O
medo dos socialistas-revolucionários diante dos campos revoltados é igual ao dos
mencheviques diante da ofensiva do proletariado: no seu conjunto, o espantalho dos
democratas reflectiu um perigo real que o movimento dos oprimidos suscitava para as
classes possuidoras, agrupando estas últimas num só campo da reacção burguesa e
nobiliário. O bloco dos socialistas-revolucionários com o governo do nobre proprietário
Lvov marcava a sua ruptura com a revolução agrária, e também com o bloco dos
mencheviques com os industriais e banqueiros do genero de Gotchkov, de Terechtchenko
e de Konovalov, equivalia a sua ruptura com o movimento do proletariado. A aliança dos
mencheviques e dos socialistas-revolucionários significou, nessas condições, não uma
colaboração do proletariado com os camponeses, mas uma coligação de partidos que
romperam com o proletariado e o campo para constituírem em comum um bloco com as
classes possuidoras.
Do que é dito acima, vê-se claramente a que ponto era fictício o socialismo dos dois
partidos democráticos: mas isso não significa de forma nenhuma que o seu democratismo
tenha sido real. Ao contrário, é precisamente a anemia do democratismo que precisava de
uma camuflagem socialista. O proletariado russo levava a luta pela democracia num
antagonismo irredutível com a burguesia liberal. Os partidos democráticos, constituindo
bloco com a burguesia liberal, devia inevitavelmente entrar em conflito com o proletariado.

166
Tais são as raízes sociais da luta implacável que se desenrolou seguidamente entre
conciliadores e bolcheviques.
Se levarmos os processos esboçados acima ao seu mecanismo de classe
completamente despojados, que, bem entendido, não tomaram consciência, até ao fim, os
participantes e mesmo os dirigentes dos dois partidos conciliadores, obtemos
aproximadamente esta distribuição da funções históricas. A burguesia liberal não podia
mais amparar-se da massa. Em consequência, ela temia a revolução. Mas a revolução
era necessária para o desenvolvimento da burguesia. Da burguesia censitária
destacaram-se duas classes compostas dos seus mais jovens irmãos e filhos. Um dos
destacamentos dirigiu-se para os operários, outro para os camponeses. Um e outro
tentaram atrair os operários e camponeses, demonstrando com sinceridade o ardor que
eles eram socialistas hostis à burguesia. Por esta via, eles adquirem, efectivamente,
influência considerável sobre o povo. Mas, a curto prazo, o efeito resultando das suas
ideias ultrapassa o seu pensamento. A burguesia sentiu-se em perigo de morte e dá o
sinal de alarme. Os dois clans que se tinham destacado dela, mencheviques e socialista-
revolucionários, responderam em conjunto à chamada do mais velho da família.
Passando sobre as velhas dissensões, eles apoiaram-se e, voltando as costas às
massas, correram ao socorro da sociedade burguesa.
Os socialistas-revolucionários, mesmo comparados aos mencheviques, eram
espantosamente frágeis e tornavam-se débiles. Aos bolcheviques, eles pareciam, em
todos os momentos, cadetes de terceira ordem. Aos cadetes, eles pareciam bolcheviques
de terceira ordem. A segunda qualidade, nos dois casos, era atribuída aos mencheviques.
A sua base móvel e ideologia informe ocasionavam uma selecção individual
correspondente: todos os líderes socialistas-revolucionários traziam a marca do
inacabado, do superficial e de uma ligeireza sentimental. Pode-se dizer sem exagero: o
bolchevique da base mostrava mais perspicácia em política, isto é nas relações entre as
classes, que os mais ilustres líderes socialistas revolucionários.
Não tendo critérios sólidos, os socialistas-revolucionários mostravam-se inclinados
para imperativos morais. Inútil de mostrar que as pretensões moralizadoras não os
impedia de forma alguma manifestar na grande política, as mesquinhas vigarices que
caracterizam tão bem, em geral, os partidos intermediários, desprovidos de base sólida,
de doutrina clara e de fundação moral autentica.
No bloco dos mencheviques e dos socialistas-revolucionários, o papel dirigente
pertencia aos menchevique, ainda se a maioria fosse incontestavelmente do lado dos
socialistas-revolucionários. Esta distribuição dos papeis traduzia à sua maneira a
hegemonia da cidade sobre o campo, a preponderância da pequena burguesia urbana
sobre a rural, e enfim a predominancia ideológica da intelliguentsia «marxista» sobre essa
outra intelliguentsia que se agarrava a uma sociologia nacionalista de «verdadeiros
russos» e prevalecia-se da indigência da história antiga do país.
Nas primeiras semanas que seguiram a insurreição, nenhum dos partidos de
esquerda, como se sabe, não tinha na capital verdadeiro estado-maior. Os líderes
geralmente reconhecidos dos partidos socialistas viviam na emigração. Os líderes de

167
segunda linha encaminhavam-se para o centro, vindo do longínquo Oriente. Daí resultou,
nos dirigentes provisórios, uma atitude circunspecta na expectativa, que os aproximava
entre eles. Nem um dos grupos dirigentes, nesse tempo não ia até ao fim do seu
pensamento. A luta dos partidos no Soviete tinha um carácter extremamente pacífico:
dizia-se que não se tratava senão de nuanças no interior de uma só e mesma
«democracia revolucionária». À chegada de Tseretelli, vindo da deportação (19 de Março),
a direcção soviética fez uma brusca viragem à direita, num sentido de uma completa
responsabilidade pelo poder e pela guerra. Mas os bolcheviques também, a meados de
Março, sob a influência de Kamenev e de Estaline, que voltavam da deportação,
bifurcaram rápidamente para a direita, de maneira que a distância entre a maioria
soviética e a oposição de esquerda no início de Abril tornou-se, talvez, menor do que tinha
sido no início de Março. A verdadeira diferenciação começou um pouco mais tarde. Poder-
se-ia dar a data precisa: 4 de Abril, no dia seguinte da chegada de Lenine a Petrogrado.
O partido menchevique tinha à cabeça das suas diversas tendências um certo
número de figuras iminentes, mas nem um só guia revolucionário. A extrema direita, onde
dominavam os velhos mestres da social democracia russa, Plekhanov, Zassolitch,
Deutsch, mantinha-se na posição patriótica já sob a aristocracia. Foi mesmo na véspera
da Revolução de Fevereiro que Plekhanov, publicou num jornal americano que as greves
e outros procedimentos da luta dos operários na Rússia seriam agora criminosos. Os
grandes círculos de velhos mencheviques, personificados entre outros por Martov, Dan,
Tseretelli, ligavam ao campo de Zimmerwald e rejeitavam toda responsabilidade sobre a
guerra. Mas o internacionalismo dos mencheviques de esquerda, mesmo o dos
socialistas-revolucionários de esquerda, dissimulavam na maior parte dos casos um
espírito de oposição democrática. A Revolução de Fevereiro reconciliou a maioria desses
«zimmerwaldianos» com a guerra, na qual eles viram desde logo a defesa da revolução.
O mais resoluto nessa via foi Tseretelli, que arrastou consigo Dan e outros.
Martov, que o início da guerra o tinha surpreendido em França e que só voltou do
estrangeiro no dia 9 de Maio, não pôde ver que os seus correlegionários da véspera
tinham chegado, após a insurreição de Fevereiro, a um ponto donde tinham partido
Guesde, Sembat e outros em 1914, quando eles se encarregaram de defender a
república burguesa contra o absolutismo germanico. Tendo tomado a cabeça da ala
esquerda dos mencheviques, que não conseguiram a atribuição de um papel sério na
revolução, mesmo pequeno que fosse, Martov ficou na oposição em relação à política de
Tseretelli—Dan, contrariando ao mesmo tempo a aproximação dos mencheviques de
esquerda para os bolcheviques. Em nome do menchevismo oficial agiu Tseretelli que
seguia uma maioria indubitável: os patriotas de antes da revolução uniram-se sem
dificuldades aos patriotas do apelo de Fevereiro. Plekhanov tinha todavia o seu grupo,
completamente chauvinista, situado fora do partido e mesmo fora do Soviete. A fracção de
Martov, sem ter abandonado o partido, não tinha jornal próprio como não tinha política.
Como sempre nos grandes acontecimentos históricos, Martov tinha irremediavelmente
perdido a cabeça e não se baseava em mais nada. Em 1917 como em 1905, a revolução
apenas se apercebeu da existência desse homem notável.

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À presidência do Soviete de Petrogrado, e seguidamente do comité executivo, foi
quase automaticamente que se encontrou o presidente da fracção menchevique na
Duma, Tchkhedze. Ele esforçava-se por introduzir nos seus deveres tudo o que ele tinha
em reserva de probidade, cobrindo a sua constante incerteza de piadas sem graça. Ele
trazia a indelével marca da sua origem provincial. A Georgia montanhosa, país do sol, das
vinhas, país de camponeses e de fidalgotes, contando um fraca percentagem de
operários, tinha produzido uma larga camada de intelectuais de esquerda, dóceis,
dotados de temperamento, mas, na sua esmagadora maioria, não se elevavam acima do
horizonte pequeno burguês. Em todas as quatro Dumas, a Georgia enviou como
deputados mencheviques, e, nas quatro fracções parlamentares, os seus deputados
interpretaram o papel de líderes. A Georgia tornou-se a Gironda da revolução russa. Se os
Girondionos do século XVII foram acusados de federalismo, os Girondinos da Georgia,
tendo começado pela defesa de uma Rússia una e indivisível, terminaram pelo
separatismo.
A figura mais notável da Gironda georgeana foi, indiscutivelmente, Tseretelli, antigo
deputado na segunda Duma, que, desde do seu regresso da deportação, tomou a cabeça
não somente dos mencheviques, mas de toda a maioria soviética de então. Não teórico,
nem mesmo jornalista, mas notável orador, Tseretelli foi e continuou a ser um radical do
tipo meridional francês. Nas condições da rotina parlamentar, ele ter-se-ia sentido como
um peixe na água. Mas tinha nascido numa época revolucionária e tinha-se intoxicado, na
sua juventude, de uma dose de marxismo. De qualquer modo, de todos os mencheviques,
foi ele quem mostrou, nos acontecimentos da revolução, mais desenvoltura e esforço para
ser consequente. Foi precisamente para isso que, mais que outros, ele contribuiu ao
afundamento do regime de Fevereiro. Tchkheidze subordinou-se totalmente a Tseretelli,
ainda que, por momentos, intimidado diante da sua intransigência de doutrinário que
censurava o revolucionário, na véspera ainda forçado, de representante conservador da
burguesia.
O menchevique Skobelev, que devia toda uma nova popularidade à sua situação de
deputado da última Duma, dava, não somente por causa do ser ar de jovem, a impressão
de um estudante que interpreta numa cena de família, o papel de um homem de Estado.
Skobelev tornou-se um especialista de extintor de «excessos», de eliminador de conflitos
locais, e ocupou-se, em geral, de calafetar as fissuras da dualidade de poderes até ao
momento onde, no papel de desastroso ministro do Trabalho, encontrou-se inserido no
governo de coligação em Maio.
Uma das personalidades das mais influentes entre os mencheviques foi Dan, velho
militante do partido, que tinha sempre sido considerado como o segundo Martov. Se, em
geral, o menchevisme se assimilou, na carne e no sangue, os costumes do espírito da
social democracia alemã em decadência, Dan, simplesmente, parecia ser um membro da
direcção do partido alemão, um Ebert de formato inferior. O Dan alemão realizou com
sucesso, um ano mais tarde, na Alemanha, a política que não tinha conseguido o Erbert
russo. A causa não se devia, todavia aos homens, mas às circunstâncias.

169
Se o primeiro violão na orquestra da maioria soviética era Tseretelli, foi uma
estridente clarinetista que, soprando com os pulmões cheios, os olhos injectados de
sangue, interpretava Liber. Menchevique da União operária israelita (Bund), ele tinha um
passado revolucionário de longa data, muita sinceridade, muito temperamento, muita
eloquência, era limitado e esforçava-se apaixonadamente em colocar-se como inflexível
patriota e em homem rígido de Estado. Liber transbordava literalmente de ódio em relação
aos bolcheviques.
A falange dos líderes mencheviques talvez próxima de Voitinsky, antigo bolchevique
ultra-esquerdista, participante distinguido da primeira revolução, tinha feito o seu tempo
de prisão, rompeu em Março com o partido sobre a questão do patriotismo. Juntando-se
aos mencheviques, Voitinsky, como é preciso, tornou-se um devorador profissional de
bolcheviques. Somente, não tinha bastante temperamento para se igualizar com Liber na
perseguição dos seus antigos camaradas de pensamento.
O estado-maior dos populistas, tão pouco homogéneo, era muito menos importante
e brilhante. Aqueles a que chamavam «socialistas populistas» constituindo o flanco da
extrema direita, tinham à sua cabeça o velho emigrado Tchaikovsky, cujo chauvinismo
militante era igual ao de Plekhanov e que não possuía portanto nem os talentos nem o
passado deste. Ao lado de Tchaikovsky, uma velha mulher, Brechko-Brechkosvskaia, que
os socialistas-revolucionários chamavam «avó da revolução russa», mas que zelava em
tornar-se a madrinha da contra-revolução. O veterano anarquista Kropotkine, que
conservava, desde a sua juventude, uma fraqueza em relação aos populistas, falando da
guerra, negava tudo o que ele tinha ensinado quase meio século: negador do Estado, ele
apoiou a Entente e, se ele se queixava da dualidade de poderes na Rússia, não era para
reclamar a supressão do poder, mas era pelo poder único da burguesia. Todavia, esses
velhos interpretavam um papel decorativo, ainda que Tchaikovsky, mais tarde, na guerra
contra os bolcheviques, tenha tomado a cabeça de um governo de blancos que Churchill
sustentava.
O primeiro lugar entre os socialistas-revolucionários, antes dos outros, mas não no
partido, e acima do partido, foi ocupado por Kerensky, homem desprovido de todo
passado de partido. Teremos ainda, mais de uma vez, a considerar esta figura
providencial cuja força consistia, em período de dualidade de poderes, numa combinação
de fraqueza do liberalismo com as fraquezas da democracia. Ao aderir formalmente ao
partido socialista-revolucionário, Kerensky não modificou a sua opinião desdenhosa em
relação aos partidos em geral: considerava-se como o eleito directo da nação. Mas, na
realidade, o próprio partido socialista-revolucionário não tinha deixado, por essa altura, de
ser um partido, tornando-se uma grandiosa nulidade, verdadeiramente nacional? Em
Kerensky ele encontrou um líder adequado.
Futuro ministro da Agricultura e seguidamente presidente da Assembleia constituinte.
Tchernov era incontestavelmente a figura mais representativa do velho partido socialista-
revolucionário, e não foi por acaso que ele era considerado como o inspirador, o teórico e
guia desse partido. Possuindo conhecimentos consideráveis, mas sem ligação entre eles,
antes de mais um grande leitor que um homem instruido, Tchernov tinha sempre à sua

170
disposição uma escolha ilustrada de citações apropriadas às circunstâncias, que
impressionavam duravelmente a juventude russa sem lhe ensinar grande-coisa. Só havia
uma questão à qual esse prolixo líder não tinha resposta: o que o levava e onde? As
formulas eclécticas de Tchernov, temperadas de moral e de maus versos, faziam por um
certo tempo a unidade de um público disparate que, nas horas críticas, dispersava-se de
um lado e outro. Não é de admirar que Tchernov tinha oposto com presunção o seu
método de formação de um partido ao «sectarismo» de Lenine.
Tchernov regressou do estrangeiro cinco dias depois de Lenine: a Inglaterra,
finalmente, deixou-o passar. Às múltiplas aclamações do Soviete, o líder do maior partido
respondeu pelo mais longo discurso, que Sokhanov, meio socialista-revolucionário, julgou
assim: «Eu não estava só, outros estavam comigo, patriotas do partido socialista-
revolucionário, a fazer caretas e a abanar a cabeça, perguntando-nos porquê ele cantava
tão desagradavelmente, entregando-se a tão estranhas fingimentos, rolava os grandes
olhos, e perorava interminavelmente a propósito de tudo e de nada.» Toda actividade
ulterior de Tchernov na revolução esteve em diapasão com o seu primeiro discurso. Após
ter tentado, várias vezes, opor-se, do lado esquerdo, a Kerensky e a Tsereteli, Tchernov,
bloqueado por todos os lados, rendeu-se sem combate, purifica-se do seu
zimmerwaldismo de emigrado, entrou na Comissão de contacto e, mais tarde, no governo
de coligação. Tudo o que ele fazia caía mal. Decidiu, em consequência, esquivar-se. A
abstenção no momento de votar tornou-se para ele uma forma de existência política. A
sua autoridade, de Abril a Outubro, fundiu ainda mais rápidamente que as fileiras do seu
partido. Qualquer distinção entre Tchernov e Kerensky, que se odiavam reciprocamente,
todos os dois tinham as suas raízes no passado pré-revolucionário, na velha sociedade
russa arruinada, na anemia e pretensiosa intelliguentsia que ardia de desejo de ensinar as
massas populares, de as tutelar e de assegurar-lhes a sua benfeitoria, mas era
absolutamente incapaz de as escutar, de as compreender e de aprender qualquer coisa
delas. Ora, na falta disso, não havia política revolucionária.
Avksentiev, que o seu partido levou aos postos mais altos da revolução - presidente
do comité executivo dos deputados camponeses, ministro do Interior, presidente do pré-
parlamento - representava já a caricatura perfeita de um homem político: delicioso
professor de literatura do liceu de raparigas em Orel, - é tudo que se pode dizer dele. É
verdade que a sua actividade política mostrou-se muito mais noviça que a sua pessoa.
Um papel considerável, sobretudo nos corredores, foi interpretado, no seio da
fracção socialista-revolucionário e do núcleo dirigente do Soviete, por Gotz. Terrorista
saído de uma família revolucionária reputada, Gotz foi menos pretencioso e mais actuante
que os seus próprios amigos políticos. Mas, a título de «praticante» como se dizia,
limitava-se às operações de cozinha, abandonando aos outros as grandes questão. É
preciso, aliás, acrescentar que não era nem um orador, nem um escritor, e que o seu
principal recurso era uma autoridade pessoal paga por anos no degredo.
Temos, em suma, nomeado todos os que se poderia nomear entre o círculo dirigente
dos populistas. À volta seguiam figuras já completamente acidentais, do género de
Philippovky, sobre o qual ninguém sabia explicar verdadeiramente porquê ele tinha

171
atingido o cume do Olimpo de Fevereiro: é preciso pensar que o papel decisivo pertence
ao seu uniforme da marinha.
Ao lado dos líderes oficiais dos dois partidos dominantes no comité executivo, havia
um bom número de «selvagens», de isolados, tendo participado no passado no
movimento em diferentes etapas deste, gente que, há muito tempo antes da insurreição,
tinham-se afastado da luta e, agora, regressados à pressa sob a bandeira da revolução
vitoriosa, não se apressavam de se colocarem sob a dependência de o partido. Sobre
todas as questões fundamentais, os «selvagens» seguiam a linha da maioria soviética.
Nos primeiros tempos, eles detinham mesmo o papel dirigente. Mas à medida que
voltavam da deportação ou da emigração os líderes oficiais, os sem partido eram
empurrados para a segunda fila, a política tomava forma, o espírito de partido
reencontrava os seus direitos.
Os adversários do comité executivo, no campo da reacção, notaram mais de uma
vez, a seguir, a preponderância dos alofilos nesse comité: judeus, georgianos, letões,
polacos e outros. Ainda se, em relação à totalidade dos membros do comité executivo, os
alofilos tenham sido uma ínfima proporção, sem dúvida que eles ocupavam um lugar
muito marcado no gabinete, nas diversas comissões, como ouvidores, etc.. Como os
intelectuais das nacionalidades oprimidas, grupos principalmente nas cidades,
completavam com abundância as fileiras revolucionárias, não é de admirar que, nas
gerações dos mais velhos revolucionários, o número de alofilos tenha sido
particularmente considerável. Suas experiências, ainda sem serem de grande qualidade,
tornava-os indispensáveis para a instituição de novas formas sociais.
Absolutamente estúpidas, todavia, são as tentativas feitas para apresentar a política
dos sovietes e o curso de toda a revolução de uma pretendida preponderância dos
alofilos. O nacionalismo, ainda nesse caso, manifesta desprezo em relação à verdadeira
nação, isto é ao povo, representando este, no período do seu renascimento nacional,
como uma simples vigota entre as mãos estrangeiras e fortuitas. Mas porquê então e
como os alofilos foram tão influentes sobre milhões de autóctones? Na realidade,
precisamente no momento de uma grande reviravolta histórica, a massa da nação toma
frequentemente ao seu serviço e que, em consequência, são os mais apressados em dar
uma expressão aos novos problemas. Não são os alofilos que dirigem a revolução, é a
revolução nacional que se serve dos alofilos. Foi assim mesmo quando das grandes
reformas do alto. A política de Pedro I não deixou de ser nacional quando, afastando-se
dos velhos caminhos, ele incorporou os alofilos e os estrangeiros. Os mestres artesãs do
arrabalde alemão e os capitãs de navios holandeses exprimiam melhor, nesse período, as
necessidades do desenvolvimento nacional da Rússia que os papas russos, outrora
introduzidos pelos gregos ou os boiardos moscovitas que se queixavam também da
invasão estrangeira, ainda que provindo eles próprios dos alofilos que formaram o Estado
russo. De qualquer modo, a intelliguentsia alofila de 1917 estava partilhada entre os
mesmos partidos que a intelliguentsia puramente russa, sofria dos mesmos vícios e
cometia os mesmos erros, e eram justamente os alofilos, entre os mencheviques e os
socialistas-revolucionários que exibiam um zelo particular pela defesa da unidade da
Rússia.

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Assim se apresentava o comité executivo, órgão supremo da democracia. Dois
partidos, tendo perdido suas ilusões mas conservou seus preconceitos, com um estado-
maior de dirigentes incapazes de passar da palavra aos actos, encontraram-se à cabeça
da revolução que era chamada a derrubar os entraves de séculos e a erguer as bases de
uma nova sociedade. Toda a actividade dos conciliadores que debilitavam as massas
populares e preparavam as convulsões da guerra civil.
Os operários, soldados, camponeses levavam os acontecimentos a sério. Eles
consideravam que os sovietes criados por eles deviam imediatamente ocupar-se da
supressão das calamidade que tinha engendrado a revolução. Todos iam aos sovietes.
Cada um levava lá o seu sofrimento particular. Ora, quem é que não tinha a sua maleita?
Exigia-se decisões, esperava-se ajuda, esperava-se justiça, insistia-se pelas represálias.
Lobiistas, queixosos, solicitadores, acusadores contavam que enfim o poder hostil tinha
sido o deles. O povo tem confiança no Soviete, o povo está armado: portanto, o Soviete é
o governo. Assim entendiam as pessoas, - e não tinham razão?
Uma corrente ininterrupta de soldados, de operários, de mulheres de soldados,
pequenos comerciantes, empregados, mães e pais, abria e fechava as portas, procurava,
questionava, chorava, reclamava, impunha medidas, indicando por vezes exactamente as
quais - e transformava o Soviete em verdadeiro poder revolucionário. «Não era de forma
nenhuma nos interesses e não entrava, de qualquer modo, nos planos do próprio
Soviete», gemeu o nosso conhecido Sokhanov, o qual, bem entendido, combatia tanto
que possível o processo. Com sucesso? Infelizmente! Ele é obrigado a confessar logo
que «o aparelho soviético meteu-se, contra a sua vontade, automaticamente, contra a
vontade do Soviete, a repelir a máquina oficial do Estado que trabalhava cada vez mais
no vazio». Que faziam então os doutrinários da capitulação, os mecânicos do
funcionamento no vazio? «Estávamos obrigados a resignarmo-nos e a assumir certas
funções governamentais - confessa melancolicamente Sokhanov - ao mesmo tempo que
apoiava essa ficção que a direcção estava no palácio Maria. «Era disso que se ocupava
essa gente num país arruinado, envolvido nas chamas da guerra e da revolução: com a
mascarada eles cobriam o prestígio de um governo que o posso repelia organicamente.
Morra a revolução, mas viva a ficção! Ora, ao mesmo tempo, o poder que essa gente
expulsava pela porta voltava a entrar pela janela, apanhando-os cada vez desprevenidos
e colocando-os numa situação ou ridícula ou indigna.
A partir da noite de 27 a 28 de Fevereiro, o comité executivo proibiu a imprensa
monárquica e tinha estabelecido para os jornais um regime de autorização. Ouviam-se
protestos. Os que gritavam mais alto eram os que tinham o hábito de amordaçar as
pessoas. Alguns dia após, o comité chocou de novo com o problema da liberdade de
imprensa: autorizar ou não a publicação de jornais reaccionários? Desentendimentos
manifestaram-se.
Os doutrinários do genero Sokhanov eram pela liberdade absoluta da imprensa.
Tchkheidze, no princípio, não estava de acordo: como deixar as armas à disposição sem
controlo do inimigo mortal? Ninguém, diga-se de passagem, não lhe passou pela cabeça
em submeter a questão ao governo.

173
Aliás, foi em vão: os operários tipógrafos só aceitavam as decisões do Soviete. No 5
de Março, o comité executivo deu essa confirmação: proibir as publicações de direita,
subordinando a publicação de novos jornais à autorização do Soviete. Mas, desde do dia
10, esta decisão foi abrogada sob o ataque dos círculos burgueses. «Basta três dias para
que se encontre razão», dizia, triunfante, Sokhanov. Triunfo sem fundamento! A imprensa
não está acima da sociedade. As condições da sua existência em tempo de revolução
reflectem a marcha da própria revolução. Quando esta toma ou ameaça tomar o carácter
de uma guerra civil, nenhum dos lados beligerantes não admitirá a existência de uma
imprensa hostil no seu raio de influência, como ele não abandonará de boa vontade o
controlo dos arsenais, dos caminhos de ferro, das tipografias. Na luta revolucionária, a
imprensa só é um instrumento de luta. O direito de expressão, de qualquer modo, não
está acima do direito à vida. Ora, a revolução atribui-se também esse último direito.
Poder-se estabelecer esta lei: os governos revolucionários são tanto mais liberais, tanto
mais tolerantes, tanto mais «generosos» com a reacção, quanto mais mesquinho é o seu
programa, quanto mais eles estão ligados ao passado mais conservador é o seu papel. E
inversamente: maiores são as tarefas, maior é o número de direitos e de interesses que
elas violam, mais o poder revolucionário está concentrado, mais a sua ditadura se exibe.
Bem ou mal, é precisamente por essas vias que até hoje a humanidade avançou.
O Soviete tinha razão quando quis controlar a imprensa. Porque renunciaria tão
facilmente a isso? Porque ele renunciou geralmente a toda a luta séria. Sobre a guerra
nada dizia, assim como sobre a atribuição das terras, e sobre a questão da república.
Tendo cedido o poder à burguesia conservadora, não tinha motivo para temer a imprensa
de direita, nem possibilidade de a combater. Em contrapartida, pouco depois, o governo,
com o apoio do Soviete, reprimiu impiedosamente a imprensa de esquerda. Os jornais
dos bolcheviques foram proibidos uns após os outros.
No 7 de Março, Kerensky declarava em Moscovo: «Nicolau II está nas minhas
mãos... Nunca serei um Marat da Revolução russa... Nicolau II, sob o meu controlo
pessoal, irá para a Inglaterra...» As damas jogavam flores, os estudantes aplaudiam. Mas
as massas agitavam-se. Nenhuma revolução séria, isto é aquelas que tinham a perder,
nunca tinha deixado um monarca destronado alcançar o estrangeiro. Os operários e os
soldados não paravam de exigir a prisão dos Romanov. O comité executivo sentiu que
não podia brincar com essa questão. Decidiu-se que o Soviete devia apoderar-se do
assunto dos Romanov: assim reconheceu-se abertamente que o governo não era digno
de confiança. O comité executivo deu ordem a todos os caminhos de ferro de não deixar
passar Romanov: daí a razão que o comboio do czar viajava sem destino. Um dos
membros do comité executivo, o operário Gvozdiev, menchevique de direita, foi enviado
para prender Nicolau, Kerensky foi desautorizado, e, com ele, o governo. Mas este, em
vez de se retirar, remeteu-se ao silêncio. A partir do dia 9 de Março, Tchkheidze transmitiu
ao comité executivo que o governo «tinha renunciado» à ideia de expedir Nicolau para a
Inglaterra. O czar e a família tinham sido presos, no palácio de Inverno. Foi assim que o
comité executivo subtilizava o seu próprio poder sob a travesseiro. Ora, da frente, cada
vez mais se faziam insistências: transferir o czar para a fortaleza Pedro e Paulo.

174
As revoluções sempre significaram transtornos da propriedade, não somente na
ordem da legislação, mas nas confiscações executadas pelas massas. Nenhuma
revolução agrária, em suma, não se produziu na história de outra forma: a reforma legal
seguiu sempre o «galo vermelho», o incêndio. Nas cidades, as confiscações
desempenharam um papel menor: as revoluções burguesas não tinham por objectivo
estremecer a propriedade burguesa. Mas não houve ainda revolução onde as massas não
se teriam apoderado, para fins sociais, os edifícios que antes pertenciam aos inimigos do
povo. Logo após a insurreição de Fevereiro os partidos saíram da ilegalidade, nasceram
os sindicatos, inúmeras reuniões tiveram lugar, todos os sovietes entraram em todos os
bairros - todos precisavam de instalações. As organizações amparavam-se dos palacetes
desocupados dos ministros do czar ou dos palácios abandonados pelas suas bailarinas.
As vítimas queixavam-se ou os poderes intervinham por sua própria iniciativa. Mas como
os insurrectos possuíam na realidade o poder, e como o poder oficial era só um fantasma,
os procuradores deviam finalmente dirigir-se ao mesmo comité executivo, com a
requisição de restabelecer os direitos espezinhados de tal bailarina cujas funções pouco
complicada eram altamente pagas pelos membros da dinastia a partir dos fundos do
povo. Como deve ser, a comissão de contacto pôs-se em acção, os ministros reuniram-
se, o secretariado do comité executivo consultou, delegações foram enviadas junto dos
ocupadores - e o negócio arrastou-se durante meses.
Sokhanov declarou que na qualidade de «homem de esquerda» não tinha nada a
opor às mais radicais das intrusões legais nos direitos de propriedade, mas em
contrapartida, ele era «o violento inimigo de todas as apropriações violentas». É por tais
subtilidades que a lamentável esquerda camuflava, habitualmente, a sua incapacidade.
Um governo realmente revolucionário teria sem dúvida podido reduzir ao mínimo as
apropriações caóticas promulgando a tempo um decreto de requisição de locais. Mas os
conciliadores de esquerda tinham entregue o poder aos fanáticos da propriedade para
pregar seguidamente, em vão, às massas, o respeito da legalidade revolucionária... ao
luar. O clima de Petrogrado não é favorável ao platonismo.
As longas filas de espera nas portas das padarias tinham dado o último impulso à
revolução. Essas «filas» também foram a primeira ameaça para o novo regime. Já na
sessão constitutiva do Soviete, tinha sido decidido criar uma comissão de abastecimento.
O governo nem se questionou como alimentaria a capital. Ele não teve qualquer problema
em reduzi-la à fome. O problema, também foi enviado para o Soviete. Ele tinha à sua
disposição economistas e estatísticos dotados de uma certa experiência prática, tendo
antes servido nos órgãos económicos e administrativos burgueses. Eram na maior parte
mencheviques da ala direita, como Gromann e Tcherevanine, ou antigos bolcheviques
muito afastados no sentido da direita como Bazarov e Avilov. Mas apenas encontraram-se
frente a frente com o problema do abastecimento da capital que se sentiram obrigados
pelo conjunto das circunstâncias em propor medidas muito radicais para jugular a
especulação e organizar o mercado.
Numa serie de sessões do Soviete foi ratificado um conjunto de sistemas de medida
de «socialismo de guerra», compreendendo a proclamação como bens do Estado de
todos os estoques de sementes, estabelecendo medida obrigatórias para o pão em

175
ligação com as mesmas medidas forçadas para os produtos industriais, o controlo do
Estado sobre a produção, a regularização das trocas de mercadorias com a aldeia. Os
líderes do comité executivo olhavam-se ansiosos: só sabendo propor, eles acediam às
resoluções radicais. Os membros da comissão de contacto transmitiam timidamente
essas resoluções ao governo. Este prometiam estudá-las. Mas nem o príncipe Lvov, nem
Gotchkov, nem Konalov não tinha vontade de controlar, de requisitar e de se limitar de
qualquer maneira, eles e os seus amigos. Todas as decisões económicas do Soviete
esbatiam-se à resistência passiva do aparelho governamental, na medida onde elas não
eram executadas, com autoridade, pelos sovietes locais. A única medida prática que o
Soviete de Petrogrado obteve a execução no domínio do abastecimento foi reduzir o
consumidor a uma ração fixa: uma libra e meia de pão para os trabalhadores manuais,
uma libra para os outros. Na verdade este limite não trouxe quase nenhuma mudança no
orçamento real alimentar à população da capital: com uma libra ou uma libra e meia,
pode-se viver. As calamidades da fome diária viriam mais tarde.
A revolução terá durante anos, não meses, mas anos, a apertar o cinto cada vez
mais. Ela ultrapassará essa dificuldade. O que a tormenta, pelo momento, não é a fome,
mas o desconhecido, a indeterminação do curso dos acontecimentos, a falta de certezas
para o futuro. As dificuldades económicas, agravadas por trinta e dois meses de guerra,
atingem as portas e janelas do novo regime. O desespero dos transportes, a falta de
diversas matérias-primas, o desgaste de uma parte considerável das ferramentas, a
inflação ameaçadora, a desordem da circulação das mercadorias -tudo isso exige
medidas audaciosas e urgentes. Chegando à linha económica, os conciliadores tornavam
essas medidas impossíveis sobre o aspecto político. Todo o problema económico sobre o
qual caíam se transformava em condenação da dualidade de poderes, e toda a decisão
que tinham que assinar escaldava-os intoleravelmente os dedos.
Houve uma importante verificação das forças e das relações sobre a questão do dia
de oito horas. A insurreição venceu, mas a greve geral continua. Os operários consideram
seriamente que a mudança de regime deve trazer também mudanças à sua própria sorte.
Daí provém a ansiedade entre os novos dirigentes, tanto liberais como socialistas. Os
partidos e os jornais patriotas lançam a palavra de ordem: «Soldados, para os quartéis!
Operários, para máquinas!» Assim, portanto, tudo fica como era? Perguntam os operários.
Pelo momento, sim, respondem, confusos, os mencheviques. Mas os operários
compreendem: se não há mudança imediata, eles serão novamente enganados. A
burguesia deixa aos socialistas o cuidado de resolver o assunto com os operários.
Alegando que a vitória alcançada «assegurou suficientemente a posição da classe
operária, na sua luta revolucionária» - com efeito, não temos agora os proprietários
liberais no poder? - o comité executivo decide, no cinco de Março, que o trabalho será
retomado na região de Petrogrado. Operários, às máquinas!
Tal é a força do egoísmo blindado das classes instruídas, dos liberais como dos
socialistas. Essa gente imaginava que os milhões de operários e de soldados, insurgidos
por um irresistível desenvolvimento do descontentamento e de esperanças, se
resignavam dócilmente depois da vitória com as antigas condições de vida. Segundo os
livros de história, os líderes estavam persuadidos que as coisas se tinham assim

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produzido nas antigas revoluções. Não, mesmo no passado, isso nunca aconteceu. Se os
trabalhadores foram impelidos para os antigos estábulos, foi por por desvios, por uma
serie de derrotas e enganos.
O reverso social cruel das revoluções políticas foi fortemente ressentido por Marat.
Por isso, se ele foi tão caluniado pelos historiadores oficiais. «A revolução - escreveu, um
mês antes do 10 de Agosto 1792 - foi realizada e apoiada unicamente pelas baixas
classes da população, por todos esses seres lesados que a insolente riqueza trata por
canalhas e que os Romanos, com o seu cinismo habitual, chamaram outrora
«proletários». Que dá portanto a revolução aos seres lesados? «Após certos sucesso de
início, o movimento foi finalmente vencido: falta-lhe sempre conhecimentos, habilidade,
recursos, armas, chefes, um plano de acção: fica sem defesa contra os conspiradores,
que têm a seu favor a experiência, a habilidade e a manha.» É de admirar que Kerensky
não tenha querido ser o Marat da revolução russa?
Um dos antigos capitãs da indústria russa, V. Auerbach, conta com um tom
indignado que «a canalha do povo compreendia a revolução como uma especie de
carnaval: os domésticos, por exemplo, desapareciam durante dias inteiros, passeavam
com fitas vermelhas, andavam de automóvel, e só voltavam pela manhã, para se lavarem,
e voltavam a sair em passeio.» É notável que se esforçando em mostrar o efeito
desmoralizador da revolução, o acusador caracteriza a conduta dos domésticos pelos
próprios traços que - excepção feita talvez da fita vermelha - reconstituíam bem a vida
habitual de uma patrícia burguesa. Sim, a revolução é considerada pelos oprimidos como
uma festa ou como uma véspera de festa, e o primeiro movimento dos servos-escravos
acordados por ela é de relaxar o jugo da servidão diária, humilhante, morna e sem saída.
A classe operária, no seu conjunto, não podia e não queria consolar-se unicamente
com as fitas vermelhas, símbolos de uma vitória ao proveito do outro. Nas fábricas de
Petrogrado, reinava a agitação. Bastantes empresas recusaram abertamente de se
submeter às decisões do Soviete. Os operários estão, bem entendido, dispostos a voltar
para as máquinas, porque são forçados a isso, mas em que condições? Eles reclamavam
o dia de oito horas. Os mencheviques alegavam que em 1905, os trabalhadores, tendo
tentado impor as oito horas, tinham sofrido uma derrota: «A luta sobre duas frente - contra
a reacção e os capitalistas - estava acima das forças do proletariado.» Tal era a ideia
central. Os mencheviques, de maneira geral, admitiam que uma ruptura com a burguesia
seria, no futuro, inevitável. Mas essa confissão puramente teórica não os obrigava a nada.
Eles consideravam que não se podia precipitar a ruptura. E como a burguesia era lançada
no campo da reacção não por frases incendiárias dos oradores e dos jornalistas mas pelo
movimento espontâneo das classes trabalhadoras, os mencheviques contrariavam com
todas as suas forças a luta económica dos operários e dos camponeses. «Para a classe
operária - professavam - as questões sociais, actualmente, não se colocam no primeiro
plano. Nesse momento, ela conquista a sua liberdade política.»
Mas em que consiste esta liberdade conceptual? Os operários não a podiam realizar.
Eles queriam antes de tudo um pouco de liberdade para os músculos e nervos. E eles
faziam pressões sobre os patrões. Que ironia: só no 10 de Março, como o jornal

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menchevique declarava que o dia de oito horas ainda não estava na ordem do dia, a
associação dos fabricantes, que, desde da véspera, viu-se obrigada a implicar-se em
relações oficiais com o Soviete, declarou que aceitava as oito horas e a organização de
comités de fábrica e de oficina. Os industriais mostraram mais perspicácia que os
estrategas democratas do Soviete. Nada de admirar: nas fábricas, os patrões
encontraram-se frente a operários que, pelo menos uma boa metade das empresas de
Petrogrado, na maioria as maiores, abandonavam unanimemente as máquinas após oito
horas de trabalho. Eles tomavam por eles próprios o que lhes recusavam o governo e o
Soviete.
Quando a imprensa comparou com ternura o gesto dos industriais russos, do 10 de
Março de 1917, ao da nobreza francesa, do 4 de Agosto 1789, ela estava muito mais
próxima da verdade histórica que ela própria pensava: tal como os feudais do fim do
século XVIII, os capitalistas russos cediam à necessidade e, por uma concessão
temporária, esperavam assegurar-se no futuro de uma restituição. Um dos publicistas
cadetes, transgredindo a mentira oficial, confessava claramente: «Para a infelicidade dos
mencheviques, os bolcheviques já tinham obrigado, pelo terror, a associação dos
fabricantes a aceitar a instauração imediata das oito horas.» Em que consistia o terror, já
sabemos. Os operários bolcheviques, indubitavelmente, ocupavam no movimento o
primeiro lugar. E, de novo, como nos dias decisivos de Fevereiro, a esmagadora maioria
dos operários alinhava com eles.
Foi com uma mistura de sentimentos que o Soviete, dirigido pelos mencheviques,
registou a formidável vitória, ganha, em suma contra ele próprio. Esmorecidos, os líderes
tiveram ainda que dar um passo em frente e convidar o governo provisório a decretar,
antes da Assembleia constituinte, o dia das oito horas para toda a Rússia. Mas o governo,
concordando com os patrões, esbarrou, e, na espera de melhores dias, recusou ceder à
reivindicação que lhe foi apresentada sem insistência.
Na região moscovita aconteceu a mesma luta, mas arrastou-se por muito tempo. Aí
também, o Soviete, apesar da resistência dos operários, exigiu a retoma do trabalho.
Numa da maiores fábricas, uma resolução contra a paragem da greve agrupou sete mil
votos contra seis mil. Foi pouco mais ou menos assim que reagiram as outras empresas.
No 10 de Março, o Soviete confirmou ainda uma vez a obrigação de voltar para as
máquinas. Se, na maioria das fábricas, depois disso, o trabalho recomeçou, em
contrapartida, quase por todo o lado, desencadeou-se uma luta pela redução do dia de
trabalho. Os trabalhadores corrigiam os seus dirigentes por actos. Após uma longa
resistência, o Soviete de Moscovo teve, enfim, no dia 21 de Março, que estabelecer o dia
de oito horas pela sua própria iniciativa. Os industriais submeteram-se imediatamente. Na
província, a luta prolongou-se até Abril. Quase por todo o lado, os sovietes travaram e
contrariavam, primeiro o movimento, depois, sob pressão do operários, reuniam-se com
os patrões: onde estes últimos recusavam consentir, os operários viam-se forçados a
decretar o dia de oito horas. Que racha no sistema!
O governo, premeditadamente, mantinha-se afastado. Entrementes, sob a direcção
dos líderes liberais, abriu-se uma furiosa campanha contra os operários. Para minimizar

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estes últimos, decidiram dirigir contra os soldados. A diminuição da horas de trabalho não
significava um enfraquecimento da frente? Tinham o direito de só pensar em si em tempo
de guerra? Nas trincheiras contam-se as horas? Quando as classes possuidoras se
comprometem na caminho da demagogia, elas não param diante de nada. A agitação
tomou um carácter enraivecido e, logo, foi levado até às trincheiras. O soldado Pireiko,
nas suas Memórias da frente, reconhece que a agitação, principalmente levada a cabo
pelos oficiais novamente promulgados socialistas, não foi eficaz. «Mas toda a infelicidade
da oficialidade que tentou dirigir os soldados contra os operários consistiu no facto que se
compunha de oficiais. Continuava demasiado fresca na memória de cada soldado, a
lembrança do que tinha sido para ele, há pouco, o oficial.»
Foi todavia na capital que os operários foram perseguidos da maneira mais intensa.
Os industriais, conjuntamente com o estado-maior cadete, encontraram os meios e forças
ilimitadas para a agitação na guarnição. «Cerca do dia 20 e nos dias seguintes, conta
Sokhanov, em todos os cruzamentos, nos tróleis, em qualquer lugar público, podia-se ver
os operários e soldados que entravam numa furiosa batalha oratória.» Davam-se assim
zaragatas. Os operários compreenderam o perigo e preveniram-no hábilmente. Para isso,
bastou-lhes contar a verdade, de citar os números dos lucros da guerra, mostrar aos
soldados as fábricas e oficinas, o ruído das máquinas, a chama infernal dos fornos - frente
permanente sobre o qual os trabalhadores sofriam inumeráveis percas. Sob iniciativa dos
operários, começaram as visitas regulares, por destacamentos da guarnição, de fábricas,
sobretudo das que trabalhavam para a defesa. O soldado olhava e escutava, o operário
mostrava e explicava. As visitas terminavam pela confraternização solene. Os jornais
socialistas publicavam numerosas resoluções de contingentes militares, afirmando a sua
indefectível solidariedade com os operários. Cerca de meados de Abril, o próprio objecto
do conflito desapareceu das colunas dos jornais. A imprensa burguesa calou-se. Assim,
após a vitória económica, os operários ganhavam uma outra, política e moral.
Os acontecimentos que levaram à luta pelo dia das oito horas tiveram uma grande
importância para todo o desenvolvimento ulterior da revolução. Os operários
conquistaram algumas horas de liberdade na semana para a leitura, as reuniões,e
também para o exercício de tiro que se tornou regular no momento da criação de uma
milícia operária. Após uma lição tão clara, os trabalhadores começaram a observar de
perto os dirigentes do Soviete. A autoridade dos mencheviques sofreu sérios prejuízos. Os
bolcheviques reforçaram-se nas fábricas e, parcialmente nos quartéis. O soldado tornou-
se mais atento, mais reflectido, mais circunspecto: ele compreendeu que alguém o
vigiava. A intenção perfídia da demagogia voltou-se contra os seus instigadores. Em vez
do afastamento e da hostilidade, houve coesão mais estreita entre os operários e os
soldados.
O governo, apesar do idílio do «contacto», detestava o Soviete, os seus dirigentes e
a sua tutela. Ele demonstrou desde da primeira possibilidade. Como o Soviete preenchia
as funções puramente governamentais, e a pedido do próprio governo, quando se tratava
de pacificar as massas, o comité executivo pediu um modesto subsídio para as suas
despesas. O governo recusou e, apesar dos pedidos repetidos do Soviete, continuou
firme na sua negação: o governo não pode dispensar fundos do Estado a uma

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«organização privada». O Soviete calou-se. O orçamento do Soviete caiu sobre os
operários que não deixaram de organizar subscrições para as necessidades da revolução.
Ao mesmo tempo, os dois partidos, liberais e socialistas, mantinham o decoro de
uma amizade completa mútua. A conferência pan-russa dos sovietes, a existência de uma
dualidade de poderes foi qualificada de invenção. Kerensky assegurou aos delegados do
exército que entre o governo e o Soviete havia unidade completa nas tarefas e nos
objectivos. Zelosamente, a dualidade de poderes foi negada por Tseretelli, Dan e outros
dirigentes do Soviete. Pela mentira, eles esforçaram-se a consolidar um regime fundado
na mentira. Todavia, o regime vacilava logo nas primeiras semanas. Os líderes
mostravam-se inesgotáveis em combinações organizativas: eles tentavam apoiar-se
sobre representantes do acaso contra a massa, sobre os soldados contra os operários,
sobre as novas dumas, os zemstvos e as cooperativas contra os sovietes, sobre a
província contra a capital, e, finalmente, sobre a oficialidade contra o povo.
A forma soviética não contém em si nenhuma força mística. Ela não está de forma
nenhuma exempta dos vícios inerentes a toda a forma de representação inevitável
enquanto esta for indispensável. Mas a força do sovietismo reside nisto: ele reduz esses
vícios ao mínimo. Pode-se dizer com segurança e a experiência o confirmará brevemente,
que qualquer outra representação, atomizando a massa, teria exprimido, na revolução, a
vontade real desta última incomparavelmente mal e com muito mais atraso. De todas as
formas de representação revolucionária, o soviete é a mais ágil, a mais directa e
transparente. Mas isso não é portanto senão uma forma. Ela não pode dar mais do que as
massas são capazes de dar a um dado momento. Em contrapartida, ela pode facilitar às
massas a compreensão das faltas cometidas e a sua reparação. Nisso residia mesmo um
das apostas mais importantes do desenvolvimento da revolução.
Quais eram portanto as perspectivas políticas do comité executivo? É duvidoso que
nenhum líder tenha tido perspectivas profundamente meditadas. Sokhanov afirmou, no
seguimento que, segundo o seu plano o poder não era cedido à burguesia senão por um
curto prazo, afim que a democracia tendo-se fortalecida retomaria o poder. Contudo, esta
construção dos factos ingénua em si, tinha um carácter evidentemente retrospectivo. De
qualquer modo, nessa época, ela não foi formulada por ninguém. Sob a direcção de
Tseretelli, as oscilações do comité executivo, se elas não pararam, forma pelo menos
erigidas em sistema. Tseretelli proclamou abertamente que falta de um sólido poder
burguês a revolução perder-se-ia inevitavelmente. A democracia deve limitar-se a fazer
pressão sobre a burguesia liberal, evitando de a empurrar para uma solução imprudente
no campo da reacção, apoiando-a ao contrário na medida onde ela consolidará as
conquistas da revolução. No fim dos fins, esse regime intermediário devia concretizar-se
por uma república burguesa, com socialistas na situação de oposição parlamentar.
O obstáculo para os líderes era menos na perspectiva que no programa corrente da
acção. Os conciliadores tinham prometido às massas obter da burguesia uma política
democrática interior e exterior por «pressão». Indiscutivelmente, sob a pressão das
massas populares, as classes dirigentes fizeram concessões mais de uma vez na história.
Mas a «pressão» significa no fim de contas que se ameaça de afastar do poder a classe

180
dominante e de tomar o seu lugar. É precisamente uma arma que faltava mesmo assim à
democracia. Ela própria tinha, pela sua própria vontade, confiado o poder à burguesia. No
momento da erupção dos conflitos, não era a democracia que ameaçava suprimir o poder,
era, pelo contrário, a burguesia que ameaçava de o recusar. Assim, a principal alavanca,
nos mecanismos de pressão, encontrava-se entre as mãos da burguesia. Por aí se
explica que o governo, apesar de toda a sua impotência,tenha podido resistir com
sucesso a todas as intimidações pouco sérias dos dirigentes do Soviete.
A meados de Abril, o próprio comité executivo encontrou-se no meio de um órgão
demasiado grande para misteriosas manobras políticas do núcleo dirigente que se tornara
definitivamente para os liberais. Um gabinete foi constituído, exclusivamente composto de
gente de direita, partidários da defesa nacional. Desde então, a alta política fez-se num
círculo íntimo. Tudo parecia se arranjar e consolidar. Tseretelli dominava nos sovietes de
uma maneira ilimitada. Kerensky subia e subia. Então precisamente manifestaram-se
nitidamente os primeiros sintomas alarmantes na base, nas massas. «É notável -
escreveu Stankevitch, próximo do círculo de Kerensky - que mesmo no momento onde o
comité se organizava, quando a responsabilidade do trabalho foi tomada por um gabinete
exclusivamente escolhido entre os partidos da defesa nacional, até a esse momento,
escapara-lhe a direcção da massa, que se afastou dele.» Impressionante? Não. Somente
normal.

181
O exército e a guerra
Já, no decurso dos meses que precederam a revolução, a disciplina no exército tinha
sido fortemente abalada. Pode-se notar bastantes queixas de oficiais na época: os
soldados faltam de respeito aos oficiais, o tratamento dos cavalos, do equipamento e
mesmo da armas estava abaixo de toda a crítica, a desordem reinava nos comboios
militares. A situação não era ruim sob todos os aspectos. Mas por todo o lado ela ia na
mesma direcção: a caminho da decomposição.
Agora juntava-se o tremor da revolução. O levantamento da guarnição de
Petrogrado produziu-se não somente sem a adesão dos oficiais, mas contra eles. Nas
horas críticas, os comandantes furtaram-se simplesmente. Chidlovsky, deputado
outubrista, encontrou-se, no dia 27 de Fevereiro, com oficiais do regimento Preobrajensky,
evidentemente com o objectivo de conhecer a atitude deles em relação à Duma, mas,
entre os aristocratas da Guarda, ele deparou-se com a incompreensão completa do que
se passava, talvez, mesmo assim, meio simulada: todos os homens eram monarquistas
assustados. «Qual foi o meu espanto – conta Chidlovsky – quando, na manhã seguinte, vi
todo o regimento Preobranjensky desfilar em ordem na rua, com a banda de música, sem
um oficial...» Na verdade, alguns contingentes vieram ao palácio Tauride com os seus
chefes, ou, mais exactamente, levaram os chefes com eles. Os oficiais, no cortejo triunfal,
sentiam-se de certa forma prisioneiros. A condessa Kleinmichel, que como detida
observou a cena, exprimiu-se com mais clareza: os oficiais pareciam carneiros levados
para o matadouro.
A Revolução de Fevereiro não criou divisão entre soldados e oficiais, ela
simplesmente mostrou-a à luz do dia. No espírito dos soldados, a insurreição contra a
monarquia era antes de tudo um levantamento contra os oficiais. «Desde da manhã do 28
de Fevereiro – escreveu nas suas Memórias o cadete Nabokov, que trajava nesse tempo
o uniforme de oficial – era perigoso sair de casa, porque já arrancavam os galões dos
oficiais.» Assim se apresentava na guarnição o primeiro dia do novo regime!
A primeira preocupação do comité executivo foi reconciliar os soldados com os
oficiais. Isso significava em resumo simplesmente que se substituía a tropa sob o antigo
comando. O regresso dos oficiais nos seus regimentos devia, segundo Sokhanov,
preservar o exército «da anarquia geral ou da ditadura da soldadesca sombria e
incoerente». Esses revolucionários, assim como os liberais, temiam não os oficiais mas os
soldados. Todavia, os operários, de acordo com «a sombria soldadesca», apreendiam
toda as desgraças precisamente do lado dos brilhantes oficiais. A reconciliação obtida não
era, por consequência, sólida.
Stankevitch descreveu da maneira seguinte a atitude dos soldados em relação aos
oficiais que voltaram após a insurreição: «Os soldados, ao violarem a disciplina e saindo
dos quartéis sem os oficiais, mas sobretudo em muitos casos contra a vontade destes
últimos, matando mesmo alguns deles que faziam o seu dever, pensaram ter cumprido
uma grande façanha emancipatória. Se isso foi uma façanha, e se os próprios oficiais
agora o afirmam, porquê os chefes não os fizeram sair para a rua? Enfim, para eles teria

182
sido mais fácil e menos perigoso. Agora, a vitória adquirida, eles juntaram-se aos
corajosos vencedores. Mas é sincera e duradoura?» Essas palavras são tanto mais
instrutivas que o seu autor pertence ele próprio a esses oficiais «de esquerda» que não
tiveram a mínima ideia de os levar para a rua.
Na manhã do dia 28, na Perspectiva Sampsonievsky, um oficial de engenharia
explicou aos seus soldados que «o governo detestado de todos tinha sido derrubado»,
que um novo tinha sido formado, com o príncipe Lvov à cabeça, e que, seguidamente, era
preciso obedecer aos oficiais. «E agora, peço a cada um de voltar ao seu posto no
quartel.» Alguns soldados gritaram a formula usual: «Feliz de estar às suas ordens!» Mas
a maioria parecia desorientada: então, é tudo? Por acaso, Kaiorov presenciou a cena. Ele
ficou impressionado. «Permita-me de dizer uma palavra, senhor comandante»... E, sem
esperar pela autorização, Kaiorov colocou a seguinte questão: «Foi para substituir um
proprietário por outro, nas ruas de Petrogrado, durante três dias, que o sangue dos
operários foi derramado?» Kaiorov, mais uma vez, agarrava o boi pelos cornos. A questão
que ele colocava foi objecto da luta nos meses seguintes. O antagonismo entre o soldado
e o oficial era o reflexo da hostilidade entre o camponês e o proprietário nobre.
Na província, os chefes da tropa, tendo evidentemente recebido a tempo as
instruções, expunham os acontecimentos de uma maneira uniforme: o soberano tinha,
diziam eles, esgotado as suas forças na preocupação da defesa do país e foi forçado a
transmitir a pesada responsabilidade do governo ao irmão. Via-se, ao olhar os soldados –
declara lamentando-se, um oficial num lugarejo da Crimeia. Via-se que, para eles, Nicolau
ou Miguel, era um só. Portanto, quando, o mesmo chefe é forçado, na manhã seguinte, a
anunciar ao batalhão a vitória da revolução, os soldados, segundo as suas próprias
palavras, transfiguraram-se. Suas questões, gestos, olhares, testemunhavam claramente
um «longo e perseverante trabalho realizado com insistência por alguém sobre os
cerebros escuros, cinzentos, não acostumados a pensar». Que abismo entre o oficial cujo
cerebro se adapta sem dificuldades ao último telegrama de Petrogrado e esses soldados
que, ainda que penosamente, determinam honestamente a sua atitude diante dos
elementos, avaliando-as eles próprios.
O alto comando, tendo reconhecido, formalmente, a insurreição, decidiu geralmente
não deixar a revolução ganhar a frente. O chefe do estado-maior do Grande Quartel
General ordenou aos comandantes da frente, no caso que se apresentassem no seu
sector delegações revolucionárias, que o general Alexeiev chamava «bandas», de os
prender imediatamente e de os levar ao tribunal marcial logo ali. No dia seguinte, o
mesmo general, em nome da sua alteza «o grão-duque Nicolau Nicolaievitch, exigia do
governo «que ele meta fim a tudo o que se produzia na retaguarda do exército, isto é à
revolução.
O comandante diferia tanto que possível informar o exército da frente sobre a
insurreição, não por fidelidade à monarquia mas por temer a revolução. Sobre certas
frentes foi estabelecida uma verdadeira quarentena: as cartas de Petrogrado eram
interceptadas, os mensageiros presos – o antigo regime queria assim algumas horas de
eternidade. A notícia da revolução não atingiu a linha de fogo senão cerca do 5 ou 6 de

183
Março, mas sob qual forma? Ouvimos pouco mais ou menos isto: o grão-duque foi
nomeado generalíssimo, o czar abdicou em nome da pátria e foi tudo. Em muitas
trincheiras, talvez mesmo na maior parte, as informações sobre a revolução vieram do
lado alemão em vez de Petrogrado. Haveria ainda dúvidas, entre os soldados, que todo o
comando não foi conjurado para dissimular a verdade? E os soldados podia dar o menor
crédito a esses mesmos oficiais que, no dia seguinte ou depois, trajavam fitas vermelhas?
O chefe do estado-maior da frota do mar Negro conta que a notícia dos
acontecimentos de Petrogrado não teria tido influência sobre os marinheiros. Mas desde
que chegaram da capital os primeiros jornais socialistas, «num piscar de olhos, o estado
de espírito das tripulações modificou-se, as reuniões política começaram e, das rachas,
saíram rastejando os agitadores criminosos». O almirante não compreendeu o que se
passava sob os seus olhos. Não foram os jornais que provocara a mudança nos espíritos.
Eles dissiparam somente as dúvidas dos marinheiros sobre a profundidade da insurreição
e permitiram às tripulações de se manifestar abertamente seus verdadeiros sentimentos,
o temor das represálias do lado do comando tendo desaparecido. A fisionomia política dos
oficiais do mar Negro, e a sua própria são caracterizadas pelo mesmo autor numa só
frase: «A maioria dos oficiais considerava que sem o czar a pátria perder-se-ia.» Os
democratas pensavam que a pátria se perderia se tais luzes não fossem devolvidas aos
obscuros marinheiros.
O comando do exército e da frota partilhavam duas alas distintas: uns tentavam
manter-se nos seus postos, compunham com a revolução, inscreviam-se no partido
socialista-revolucionários, e, mais tarde, alguns deles tentaram mesmo infiltrar-se entre os
bolcheviques. Os outros, em contrapartida, tentavam opor-se à nova ordem, mas logo
perdiam o pé num conflito e eram levados pela corrente dos soldados que subia. Tais
grupos são tão naturais que eles se reproduzem em todas as revoluções. Os oficiais
intransigentes da monarquia francesa, os que, segundo os termos de um deles, «lutaram
até ao fim», sofreram menos da insubordinação dos soldados que o servilismo de certos
colegas nobres. No fim de contas, a maioria do antigo comando era eliminada, esmagada,
e foi somente uma pequena parte que se reeducou e se adaptou. Os oficiais partilhavam
somente, mas de uma forma dramática, a sorte das classes nas quais eles tinham sido
recrutados.
O exército representa em geral uma imagem da sociedade que ele serve,
distinguindo-se no facto que ele dá às relações sociais um carácter concentrado, levando
até ao extremo os seus traços negativos e positivos. Não é por acaso que a guerra, do
lado russo, não valorizou nenhum nome de grande capitão. O alto comando é
caracterizado de uma maneira suficientemente brilhante por um dos seus: «Muito
aventureirismo, muita ignorância, muito egoísmo, intrigas, carreirismo, cupidez,
incapacidade, falta de perspicácia – escreveu o general Zalessky – e muito pouca ciência,
talentos, preparação, pouca vontade de se arriscar, mesmo de arriscar o conforto e a
saúde». Nicolau Nicolaievitch, que foi o primeiro generalíssimo, distinguia-se somente
pela sua altura e a sua obscenidade de muita augusta personagem. O general Alexeiev,
mediocridade cinzenta, decano de qualquer modo dos escrivões do exército, ganhava
pela assiduidade. Kornilov, capitão decidido, era considerado, mesmo pelos seus

184
admiradores como um simples de espírito. Verkhovsky, ministro da Guerra de Kerensky,
declarou mais tarde sobre Kornilov que era um coração de leão com uma cabeça de
ovelha. Brossilov e o almirante Koltchak eram em certa medida, admitamos, superiores
aos outros pela sua intelectualidade, e era tudo; a Denikine não lhe faltava carácter, mas,
para o resto, era um vulgar general do exército, que tinha talvez lido cinco ou seis livros.
Vinha a seguir os Iudenith, os Dragomirov, os Lokomsdy, sabendo ou não francês,
simplesmente bebedores, grandes bebedores, mas perfeitas nulidades.
Na oficialidade foram, na verdade, largamente representados não somente a Rússia
dos nobres, mas a da burguesia e da democracia. A guerra lançou nas fileiras do exército
dezenas de milhares de oficiais, jovens da pequena burguesia – oficiais, funcionários da
administração militar, médicos, engenheiros. Esses círculos, partidários da guerra até à
vitória, ressentiam a necessidade de algumas grandes medidas, mas submetiam-se, no
fim de contas, às altas esferas reaccionárias – por medo, do tempo do czarismo, e por
convicção após a revolução – assim como a democracia, na retaguarda, subordinavam-se
à burguesia. Os elementos conciliadores da oficialidade partilhavam a funesta sorte dos
partidos conciliadores com a diferença, que, sobre a frente, a situação se desenhava
desmesuradamente mais grave. No comité executivo mantinham-se por equívocos, mas,
diante dos soldados, era mais difícil.
Os ciúmes e os conflitos entre oficiais democratas e aristocratas, sem conseguir
renovar o exército, introduziram aí somente um novo elemento de decomposição. A
fisionomia do exército estava determinada pela velha Rússia e ela estava marcada pela
servidão. Tal como outrora, os oficiais consideravam como o melhor soldado o jovem
camponês que obedecia sem pensar e em quem ainda não tinha despertado a
consciência da sua personalidade humana. Tal era a tradição «nacional», sovoroviana, do
exército russo, que se tinha apoiado sobre uma agricultura primitiva, sobre o direito da
servidão e a comunidade agrária. No século XVIII, Sovorov obtinha ainda prodígios com
esse material.
Leão Tolstoi idealizou com uma predilecção de grande senhor, no seu Platão
Karataiev, antigo tipo de soldado russo que se submete sem vacilar à natureza, ao arbítrio
e à morte («A guerra e a paz»). A Revolução francesa, tendo aberto uma maravilhosavia
de penetração do individualismo, em todos os domínios da actividade humana, anulou a
arte militar de Sovorov. No decorrer do século XIX assim como no século XX, durante o
lapso de tempo que separa a Revolução francesa da revolução russa, o exército czarista,
como exército feudal, foi invariavelmente batido. O comando que se tinha constituido
sobre esse terreno «nacional» distinguia-se pelo desprezo da personalidade do soldado,
por um espírito de mandarinismo passivo, pela ignorância do ofício, pela completa falta de
heroísmo e por um notável dom de vigarice. A autoridade da oficialidade assentava sobre
os sinais exteriores da distinção, sobre o ritual das marcas de respeito, sobre o sistema
das repressões e mesmo sobre uma certa linguagem convencional, ignóbil dialecto de
escravos «incluindo, ignoro» - língua que o soldado devia manter ao dirigir-se ao oficial.
Ao aceitar verbalmente a revolução e prestando juramento ao governo provisório, os
marechais do czar faziam simplesmente cair sobre a dinastia derrubada as suas próprias

185
faltas. Eles aceitavam graciosamente que Nicolau II fosse declarado o bode expiatório de
todo o passado. Mas, quanto a ir mais longe, alto lá! Como teriam eles compreendido que
a essência moral da revolução fosse animar a massa humana sobre a imobilidade
espiritual sobre a qual foi construido todo o seu bem estar? Designado para comandar a
frente, Denikine declarou em Minsk: «Admito a revolução totalmente e sem restrições.
Mas considero perigoso para o país revolucionar o exército e de aí introduzir a
demagogia.» Formula clássica do pensamento obtuso de um general! No que diz respeito
aos generais subalternos, eles sóreclamavam, segundo os termos de Zalessky, uma
coisa: «Não nos toquem, e, pelo resto, nada nos importa?» Todavia, a revolução não
podia dispensar de os tocar. Saídos das classes privilegiadas, nada podiam ganhar, mas
muito a perder. Estavam ameaçados de ter de abandonar não somente seus privilégios de
comandantes, mas também as sua grandes propriedades. Ao mesmo tempo que fingiam
uma atitude lealista em relação ao governo provisório, a oficialidade reaccionária travou
uma luta tanto mais encarniçada contra os sovietes. E quando ela se convenceu que a
revolução penetrava irresistivelmente nas massas dos soldados e nas suas terras, o
comando considerou esse facto como uma traição nunca vista da parte de Kerensky, de
Miliokov, e de Rodzianko. Dos bolcheviques também, é preciso dizer?
As condições de existência da frota de guerra, mais que as do exército,
comportavam os germes vivos e permanentes da guerra civil. A vida dos marinheiros em
caixas de ferro onde são empilhados à força por vários anos, continua a não se distinguir,
mesmo sob o ponto de vista alimentar, da existência de presídios. Além disso, os oficiais,
pertencendo na maior parte aos círculos privilegiados, tendo escolhido a vocação e de
sua plena vontade o serviço da marinha, identificavam a pátria ao czar, o czar a eles
próprios, e no marujo viam a parte menos preciosa de um navio de guerra. Dois mundos
estranhos um ao outro e fechados vivem em contacto estreito, não deixando de ter olho
um no outro. As embarcações tinham as suas bases nas cidades marítimas industriais,
contando um grande número de operários indispensáveis para a construção e a
reparação de navios. Além disso, as equipagens das máquinas e dos serviços técnicos,
nos navios, eram compostas por um bom número de operários qualificados. Eis as
condições que transformavam a frota de guerra numa mina revolucionária. Nas
insurreições elevantamentos militares de todos os países, os marinheiros constituem o
elemento mais explosivo: quase sempre, desde da primeira possibilidade, eles exerciam
rigorosas represálias sobre os oficiais. Os marinheiros russos não foram excepção.
Em Cronstadt, a insurreição acompanhou-se de uma explosão desangrenta
vingança contra os chefes que, assustados pelo seu próprio passado, tentaram dissimular
a revolução aos marinheiros. Uma das primeiras vítimas foi o comandante da frota, o
almirante Viren, que gozava de um ódio bem merecido. Uma parte dos oficiais fora presa
pelos marujos. Os que foram deixados em liberdade foram desarmados.
Em Helsingfors e em Sveaborg, o almirante Nepenine não deixou chegar nenhuma
notícia de Petrogrado insurgido até à noite do 4 de Março, intimidando os marinheiros e
os soldados ameaçando-os de repressão. O levantamento, desse lado, rebentou com
mais violência e durou uma noite e um dia. Numerosos oficiais foram presos. Entre eles,
os mais detestados foram jogados para debaixo do gelo. Considerando o que conta

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Skobelev sobre o comportamento das autoridades de Helsingfors e da frota – escreveu
Sokhanov, portanto pouco indulgente em relação «à obscura soldadesca» - só nos
devemos admirar que esses excessos tenham sido significantes.»
Mas, no exército igualmente, não faltaram as represálias sangrentas que se
produziram por vagas sucessivas. No início, vingavam-se do passado, dos infames
tratamentos infligidos aos soldados. As más lembranças, ardentes como úlceras, não
faltavam. A partir de 1915, onde se tinha oficialmente estabelecido no exército czarista o
castigo disciplinar das vergastadas, os oficiais faziam, segundo as suas conveniências,
fustigar os soldados, muitas vezes pais de família. Mas não se tratava sempre e somente
do passado. Na conferência pan-russa dos sovietes, o relator sobre a questão do exército
comunicou que, entre o 15 e o 17 de Março, tinham ainda ordenado, no exército da frente,
castigos corporais aos soldados. Um deputado da Duma regressado da frente contava
que os Cossacos, na ausência dos oficiais, lhe tinham declarado o seguinte: «Olhe, você
fala da ordem dada (trata-se, ao que parece da famosa «ordem Nº 1», sobre a qual
falaremos mais tarde). Recebemos ontem, e portanto, hoje, o comandante bateu-me na
cara.» Os bolcheviques tal como os conciliadores preveniam os excessos entre os
soldados. Mas as vinganças sangrentas também eram tão inevitáveis como o coice de
uma arma após um tiro. De qualquer modo, ao dizer da Revolução de Fevereiro que ela
não foi sangrenta, os liberais fundavam-se no facto de terem recebido o poder.
Certos oficiais encontraram meio de provocar violentos conflitos a propósito das fitas
vermelhas que, aos olhos dos soldados, eram o símbolo da ruptura com o passado. Assim
teve lugar o assassinato do comandante do regimente de Somy. Um comandante tendo
exigidos de um efectivo de complemento chegado de novo, que retirassem a fita
vermelha, foi detido pelos soldados. Houve também um bom número de choques sobre os
retratos do czar que não foram retirados dos locais oficiais. Seria a fidelidade da
monarquia? Na maioria dos casos, não era senão suspeita sobre a solidez da revolução e
precaução pessoal para o futuro. Mas os soldados não estavam errados ao discernir por
detrás dos retratos, o espectro emboscado do antigo regime.
Medida irreflectidas vindas do alto, sobresaltos em baixo estabeleciam o novo
regime no exército. A autoridade disciplinar dos oficiais não foi abolida nem limitada: ela
caiu simplesmente durante as primeiras semanas de Março. «Era claro – disse o chefe do
estado-maior do mar do Norte – que se um oficial tentasse aplicar uma pena disciplinar a
um marinheiro, não havia força para obter a execução.» Aí vê-se um dos sintomas de
uma verdadeira revolução popular.
Desde da queda do poder disciplinar, a incapacidade prática da oficialidade não foi
dissimulada por acaso. Stankevitch, a quem não se pode recusar nem o dom da
observação, nem o interesse pela coisa militar, exprime-se em termos perturbadores
sobre o comando, mesmo desse lado: a instrução fazia-se ainda segundo os antigos
regulamentos que não respondiam mais às exigências da guerra. «Tais exercícios eram
provas de resistência e de submissão dos soldados.» A oficialidade esforçava-se, bem
entendido, em deitar a culpa da sua incapacidade sobre a revolução.

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Diligentes com os ajustamentos de contas impiedosos com o punho, os soldados
também inclinavam-se à credulidade infantil e a uma gratitude cheia de abnegação.
Durante um curto momento, o deputado Filonenko, padre e liberal, parecia aos soldados
da frente ser o portador das ideias de emancipação, o pastor da revolução. As velhas
concepções eclesiásticas aliaram-se estranhamente à nova fé. Os soldados traziam o
padre em triunfo, levantavam-no acima das cabeças, instalavam-no com muitas
amabilidades no seu trenó, e sufocando-o de entusiasmo, reportava na Duma: «Não
podemos acabar com os nossos adeus. Eles beijam-nos as mãos e os pés.» Parecia a
esse deputado que a Duma teve no exército uma formidável autoridade. Na realidade, a
autoridade pertencia à revolução e era ela que jogava o seu reflexo embaciado sobre
certas figuras aparecidas por acaso.
A erupção simbólica à qual procedeu Gotchkov no alto comando, demitindo algumas
dezenas de generais, não dava qualquer satisfação aos soldados, e, ao mesmo tempo,
criava nos oficiais superiores um estado de incerteza. Cada um temia não poder mostrar
serviço, a maioria deixava andar, adulava e apertava os punhos nos bolsos. Pior ainda,
deve dizer-se dos oficiais intermediários e subalternos, que afrontavam os soldados.
Desse lado, o governo não fez qualquer saneamento. Procurando as vias legais, os
artilheiros de uma bateria da frente escreviam ao comité executivo e à Duma de Estado,
sobre o seu comandante: «Irmãos...pedimos-lhes humildemente que afastem o nosso
inimigo interno Vantchekhasa.» Como não recebiam resposta, os soldados começavam a
agir pelos seus próprios meios: insubordinação, expulsões e mesmo prisões. Foi somente
após isso que o comando, despertando, fazia desaparecer da circulação oficiais que
tinham sido presos ou maltratados, procurando por vezes punir os soldados, ainda mais,
muitas vezes, deixando-os sem castigo, temendo complicar as coisas ainda mais. Assim
se criou uma situação intolerável para a oficialidade, a qual, não esclarecia de forma
nenhuma a situação dos soldados.
Foram numerosos os oficiais combatentes que, levando a sério a sorte da tropa
insistiam na necessidade de um saneamento geral do comando: senão, afiançavam, não
se poderia pensar à regeneração das capacidades combativas da tropa. Os soldados
submetiam aos deputados da Duma os argumentos não menos convincentes. Mais tarde,
quando eles eram vexados, eles deviam se queixar diante dos seus chefes, os quais,
habitualmente, não faziam atenção às queixas. Agora, como agir? Pois como o comando
era o mesmo, as queixas apresentadas teriam a mesma sorte. «A esta questão, era difícil
responder», reconhecia um deputado. Portanto, esta simples questão dizia respeito ao
destino e futuro do exército.
Não imaginemos que as relações no exército tenham sido idênticas em todo o país,
nas diferentes formações e nas tropas. Não, os contrastes eram consideráveis. Se os
marinheiros da frota do mar Báltico reagiram às primeiras notícias da revolução pelas
represálias sobre os oficiais, logo ali ao lado, na guarnição de Helsingfors, os oficiais
ocupavam ainda no início de Abril dirigiam os sovietes dos soldados e, nos momentos
solenes, aparecia, em nome dos socialistas-revolucionários, um imponente general. Tais
contrastes de ódio e de confiança não eram raros. Contudo, o exército apresentava um

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sistema de vasos comunicantes, e as disposições políticas dos soldados e marinheiros
tendiam a juntar-se num e mesmo nível.
A disciplina mantinha-se pouco mais ou menos enquanto que os soldados
esperavam mudanças rápidas e decisivas. Mas quando viram – declara um delegado da
frente – que tudo continuava na mesma, mesma opressão, mesma escravatura, mesmas
trevas, mesmas vexações, os sarilhos começaram. A natureza que não tinha premunido
todos os humanos, considerou, por infelicidade dar aos soldados um sistema nervoso. As
revoluções servem para lembrar de tempos a tempos esta dupla asneira.
Na retaguarda como na frente, as causas acidentais provocariam facilmente
conflitos. Tinham cedido aos soldados o direito de frequentar livremente, «em igualdade
com todos os cidadãos», os teatros, as reuniões, os concertos, etc.. Numerosos soldados
compreenderam que tinham direito à entrada gratuita nos teatros. O ministro explicou-lhes
que era necessário compreender «a liberdade» num sentido transcendental. Mas as
massas populares insurgidas nunca se mostraram inclinadas ao platonismo nem ao
kantismo.
O tecido gasto da disciplina rasgava-se num lado e noutro, em diferentes momentos,
nas diferentes guarnições e diversos corpos da tropa. Tal comando, frequentemente,
imaginava que, no seu regimento ou na sua divisão, tudo corria bem até à chegada dos
jornais ou de um agitador do exterior. Na realidade cumpriam-se o trabalho das forças
mais profundas e mais irresistíveis.
O deputado liberal Ianochkevitch relatou da frente esta ideia geral que a
desorganização se manifestava sobretudo nas tropas chamadas «verdes», tropas de
mujiques. «Nos contingentes mais revolucionários, entendiamo-nos bem com os oficiais.»
De facto, a disciplina mantém-se há muito tempo nos dois polos: na cavalaria privilegiada,
composta de camponeses abastados, e na artilharia: em geral, nos efectivos técnicos
apresentam uma percentagem elevada de operários e de intelectuais. A resistência mais
duradoura foi a dos cosacos-proprietários, que temiam uma revolução agrária na qual a
maior parte deles tinham somente a perder e nada a ganhar. Certos elementos das tropas
cossacas, mais de uma vez, mesmo após a insurreição, executaram tarefas de repressão.
Mas para o conjunto, a diferença não consistia nada nos graus de rapidez e os prazos da
decomposição.
Na luta surda, houve fluxos e refluxos. Os oficiais tentaram adaptar-se. Os soldados
recomeçaram a esperar. Mas, após acalmias temporárias, após dias e semanas de
tréguas, o ódio social, que decompunha o exército do antigo regime, a tensão crescia
cada vez mais. Cada vez mais vezes ela brilhava com reflexos trágicos. Em Moscovo,
num circo, foi convocada uma reunião de inválidos, soldados e oficiais. Um orador,
mutilado, do alto da tribuna, falou com vigor para os oficiais. Uma barulheira de protestos
surgiu: um ruído de pés, bengalas, muletas. «Há muito tempo, senhores oficiais, que
vocês ofendem os soldados à vergastada, a soco?» Feridos, estropiados, homens
erguiam-se como muralhas, uns diante dos outros, os soldados mutilados diante dos
oficiais mutilados, maioria contra maioria, muletas contra muletas. Nesta cena de
pesadelo na arena de um circo, anunciava-se já os furores da guerra civil.

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Em todas as relações e contradições, no exército como no país, persistia uma
questão que definia uma breve palavra: a guerra. Do Báltico ao mar Negro, do mar do
Norte ao Cáspio, mais longe, até à Pérsia, uma imensa frente, mantinham-se sessenta e
oito corpos de infantaria e nove de cavalaria. Qual era o seu futuro? E a guerra?
Do ponto de vista do abastecimento da guerra, o exército, no começo da revolução,
tinha sido reforçada. A produção interior para as necessidades da frente tinha aumentado:
ao mesmo tempo aumentavam as produções de material de guerra, sobretudo da
artilharia, vindo dos aliados por Mormansk e Arkhangel. Espingardas, canhões, munições,
havia tudo isso numa quantidade infinitamente grande principalmente nos primeiros anos
da guerra. Procedia-se à formação de novas divisões de infantaria. Desenvolviam-se as
tropas de engenharia. Na base disso, alguns dos infelizes grandes capitães tentaram mais
tarde demonstrar que a Rússia encontrava-se na véspera da vitória e que o único
impedimento tinha sido a revolução. Doze anos antes, Koropatkine e Linevitch afirmavam,
com razão, que Witte os tinha impedido de esmagar os japoneses. Na realidade, a
Rússia, no início de 1917, estava mais longe que nunca de vencer. Enquanto que as
munições da guerra aumentava, constatou-se no exército, cerca do fim de 1916, uma
grande insuficiência de produtos alimentares: a tifus e o escorbuto causavam mais vítimas
que os combates. O desespero dos transportes estorvava cada vez mais os movimentos
da tropa, o que reduzia a zero as combinações estratégicas ligadas aos importantes
deslocações da massas militares. Para cúmulo, uma grande insuficiência da recuperação
de cavalos condenava frequentemente a artilharia à imobilidade.
Mas o essencial não estava aí: não se podia contar sobre a moral da tropa. O que se
pode formular assim: o exército, como tal, já não existia. As derrotas, as retiradas, as
ignomínias cometidas pelos dirigentes tinham completamente abalado o espírito da tropa.
Não se podia remediar isso por medida administrativas, tal como não se podia modificar o
sistema nervoso do país. O soldado considerava agora uma pilha de projecteis com tanto
desgosto que um monte de carne podre: tudo isso parecia-lhe superfluo, inutilizável, era
um engano, uma vigarice. E o oficial não podia dizer-lhe nada de convincente e já não
ousava partir-lhe a cara. O oficial considerava-se ele próprio enganado pelo alto comando
e, ao mesmo tempo, acontecia-lhe muitas vezes sentir-se responsável dos seus
superiores diante do soldado. O exército estava irremediavelmente doente. Ele ainda
tinha a sua palavra a dizer na revolução. Mas, para a guerra, ele já não existia. Ninguém
acreditava na vitória, nem oficiais nem soldados. Ninguém aceitava mais as hostilidades –
nem o exército, nem o povo.
Na verdade, as altas chancelarias onde se vivia à parte de si, falava-se ainda, por
inércia, das grandes operações, de uma ofensiva na Primavera, da tomada dos estreitos
da Turquia. Preparava-se mesmo, na Crimeia, para esse fim, um grande contingente. Os
boletins anunciavam que para desencadear uma operação, designava-se os melhores
elementos do exército. Foram enviados de Petrogrado homens da Guarda. Todavia,
segundo a narração de um oficial que tinha começado a mandar fazer o exercício no 25
de Fevereiro, isto é dois dias antes da insurreição, os efectivos do complemento
encontravam-se abaixo de toda a crítica. Não se via vontade de guerrear nos indiferentes

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olhos azuis, castanhos, cinzentos... «Todos os pensamentos, todos os desejos tendiam
somente e exclusivamente para a paz.»
Este tipo de testemunhas não são numerosas. A revolução só manifestou o que se
tinha preparado antes dela. A palavra de ordem: «Abaixo a guerra» tornou-se por
consequência um dos principais gritos de unidade nos dias de Fevereiro. Ela vinha das
manifestações de mulheres, dos operários do bairro de Vyborg e dos quartéis da Guarda.
Quando os deputados percorreram a frente no início de Março, os soldados,
sobretudo os mais idosos, perguntavam invariavelmente: «E sobre a terra?» Os
deputados respondiam evasivamente que a questão agrária seria resolvida pela
Assembleia constituinte. Então elevou-se uma voz que traía o pensamento secreto de
todos: «Para que serve a terra? Quando eu morrer, já não precisarei mais dela.» Tal é o
ponto de partida do programa revolucionário dos soldados: primeiro a paz, a seguir a
terra.
Na conferência pan-russa dos sovietes, no fim de Março, onde se ouvia bastante
palavreado patriota, um dos delegados, representante directo dos soldados das
trincheiras, expunha com muita exactidão como a frente se tinha comportado em relação
à nova revolução: «Todos os soldados disseram: graças a Deus, talvez a paz seja para
breve.» As trincheiras tinham encarregado esse delegado de dizer à conferência:
«Estamos prontos a sacrificar a nossa vida pela liberdade, mas, todavia, camaradas, nós
queremos que termine a guerra.» Era a voz viva da realidade, sobretudo na segunda
parte desta reivindicação. Se for necessário aguentar, nós aguentamos, mas apressem-
se, lá em cima, a fazer a paz.
As tropas do czar em França, isto é, num meio que lhes era completamente
estrangeiro, eram animadas pelos mesmos sentimentos e passavam pelas mesmas
etapas de decomposição que o exército que tinha ficado no país. «Quando ouvimos dizer
que o czar tinha abdicado – explicava, em terra estrangeira, a um oficial, um soldado de
idade madura, camponês iletrado – pensámos aqui que então a guerra ia acabar... Porque
é o czar que nos enviou para a guerra... E o que é que faço com a liberdade se devo
apodrecer nas trincheiras?» Tal é a autêntica filosofia do soldado, que foi dictada pelo
exterior: palavras simples e persuasivas não poderiam ser inventadas por nenhum
agitador.
Os liberais e os socialistas meio liberais tentaram logo representar a revolução como
um levantamento patriótico. No 11 de Março, Miliokov explicou assim diante dos
jornalistas franceses: «A revolução russa foi feita para afastar os obstáculos que se
erguiam no caminho da Rússia para a vitória.» Aqui a hipocrisia combina-se com a ilusão,
ainda se, devemos pensar, a hipocrisia vence o resto. Francos reaccionários viam isso
com mais clareza. Von Struve, paneslavista de raça alemã, ortodoxo de origem luterana e
monárquico de formação marxista, definia, ainda se na linguagem do ódio reaccionário,
mais exactamente as fontes reais da insurreição. «Na medida que tomaram parte na
revolução as massas populares, e particularmente as massas de soldados – escrevia – o
movimento não foi uma explosão de patriotismo, foi uma desmobilização espontanea e

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desastrosa, expressamente dirigida contra a continuidade da guerra, isto é feita para
parar as hostilidades.»
Ao mesmo tempo que uma ideia justa, essas palavras inseriam também uma
calúnia. A desmobilização desastrosa provinha na realidade da guerra. Não foi uma
revolução que a criou – pelo contrário, ela parou-a por um momento. As deserções,
extremamente numerosas na véspera da revolução, diminuíram nas primeiras semanas
que seguiram a insurreição. O exército mantinha a perspectiva. Esperando que a
revolução daria a paz, o soldado não recusa apoiar a frente: de outro modo, o novo
governo não poderia portanto concluir a paz.
«Os soldados exprimem esta opinião clara – declarou, no seu relatório do 23 de
Março, o chefe de uma divisão de granadeiros – a qual mantemos a defensiva, e não
tomar a ofensiva.» Os relatórios militares e as relações políticas reproduzem de diversas
maneiras o mesmo pensamento. O alferes Krylenko, velho revolucionário e futuro
comandante em chefe dos exércitos bolcheviques, testemunha que, para os soldados, a
questão da guerra resolvia-se, nesse tempo, pela formula: «manter a frente, não marchar
para a ofensiva». Numa linguagem mais solene e portanto sincera, isso significava
defender a liberdade.
«Não plantar as baionetas na terra!» sob a influência de opiniões turvas e
contraditórias, os soldados, nesse tempo, recusavam muitas vezes ouvir os bolcheviques.
Parecia-lhes talvez, sob a impressão de certos discursos desajeitados, que os
bolcheviques não se preocupavam com a defesa da revolução e podiam impedir o
governo de concluir a paz. Mais se avançava, mais os soldados estavam convencidos
pelos jornais e os agitadores sociais patriotas. Mas, sem permitir por vezes aos
bolcheviques falar, os soldados, desde dos primeiros dias da revolução, recusavam
firmemente a ideia de uma ofensiva. Os políticos da capital viam aí uma especie de
malentendido que se podia afastar se convenientemente pressões fossem exercidas
sobre os soldados.
A agitação para a continuidade da guerra aumentou até ao último grau. A imprensa
burguesa, com milhões de exemplares, apresentava as tarefas da revolução à luz da
guerra até à vitória. Os conciliadores apoiavam esta agitação, primeiro em voz baixa,
depois ousadamente. A influência dos bolcheviques, muito fraca no momento da
insurreição, diminuiu ainda mais quando os milhares de operários, expedidos para a
frente para actos de greve, deixaram as fileiras do exército. A tendência para a paz não
encontrava por assim dizer expressão franca e clara precisamente aí onde ela era mais
intensa. Os comandantes e comissários que procuravam ilusões consoladoras,
encontravam nesta situação a possibilidade de exagerar sobre a realidade das coisas.
Nos artigos e discursos dessa época, não é raro afirmar que os soldados teriam recusado
tomar a ofensiva unicamente porque eles não compreendiam exactamente a formula
«sem anexações nem contribuições». Os conciliadores não se pouparam em explicar que
uma guerra defensiva podia comportar também a ofensiva, e mesmo muitas vezes exigi-
la. Como se se tratasse de escolástica! Uma ofensiva, era a retoma da guerra. A
expectativa sobre a frente, era uma trégua. A teoria e a prática da guerra defensiva, entre

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os soldados, constituía uma forma de acordo tácito primeiro, mais tarde confessada, com
os alemãs: «Não nos toquem e nós não vos tocaremos.» O exército não dá mais à guerra.
Os soldados cediam tanto menos às exortações bélicas que, sob o pretexto de
preparar a ofensiva, a oficialidade reaccionária tentava evidentemente retomar as rédeas.
Umprovérbio habitual entre os soldados: «A baioneta contra os alemãs, a coronha contra
o inimigo interno.» A baioneta de qualquer modo estava destinada à defensiva. Os
soldados das trincheiras não pensavam de forma nenhuma na conquista de territórios. O
desejo de paz formava uma poderosa corrente subterrânea que devia brevemente surgir
na superficie.
Sem negar que, antes da revolução, «notava-se» no exército fenómenos negativos,
Miliokovesforçou-se portanto, muito após esta insurreição, provar que o exército teria sido
capaz de realizar as tarefas que lhe atribuíam a Entente. «A propaganda bolchevique –
escreveu na qualidade de historiador – esteve longe de penetrar o conjunto da frente.
Durante um mês ou seis semanas após o início da revolução, o exército continuou são.»
Toda a questão é vista aqui sobre o plano da propaganda, como se esgotasse assim o
processo histórico. Sob a aparência de combater, com atraso, os bolcheviques aos quais
ele atribui uma força mística, Miliokov lutou contra os factos. Já vimos como o exército se
apresentou na realidade. Vejamos agora como os próprios chefes avaliavam a sua
capacidade combativa nas primeiras semanas e mesmo os primeiros dias que seguiram a
insurreição.
A 6 de Março, o general Roussky, comandante da frente Norte, informou o comité
executivo que os soldados recusam completamente obedecer à autoridade: é necessário
que venham da frente homens populares para restabelecer pelo menos alguma calma no
exército.
O chefe do estado-maior da frota do mar Negro conta nas suas Memórias: «Desde
dos primeiros dias da revolução, era claro para mim que não se podia continuar a guerra
e que a partida está perdida.» Tal foi também a opinião de Koltchak segundo os seus
próprios termos, e se ele continuou no seu posto de comandante em chefe da frota, era
unicamente para proteger a oficialidade contra os actos de violência.
O conde Ignatiev, que ocupava um posto elevado no comando da Guarda, escrevia,
em Março, a Nabokov: «É preciso tomar nota disto que a guerra acabou, que nós não
podemos continuar e não a continuaremos. Os homens inteligentes devem imaginar um
meio de liquidar a guerra sem dor: ou então produzir-se-à uma catástrofe.» Gotchkov, na
mesma época, dizia a Nobokov que recebia tais cartas em grandes quantidades.
Certos julgamentos, aparentemente mais favoráveis, extremamente raros, são
habitualmente aniquilados pelos comentários que os acompanham. «Nas tropas, o desejo
de vitória subsiste – relata Danilov, comandante do segundo exército – e mesmo, em
certos efectivos, aumentou.» Mas, logo depois, esta nota: «A disciplina caiu...É desejável
que se adie as operações ofensivas até ao momento de acalmia da situação crítica se
acalme (de um a três meses).» Seguidamente este acréscimo inesperado: «Os reforços

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chegam na proporção de 50%: se continuam a fundir da mesma maneira e se mostram
sempre tão indisciplinados não se pode contar sobre o sucesso de uma ofensiva.»
«A divisão é inteiramente capaz de agir pela defensiva», relata o valoroso
comandante da 51ª divisão de infantaria. E logo acrescenta: «É indispensável afastar o
exército da influência dos deputados soldados e operários.» Portanto, não era assim tão
simples!
O chefe da 182ª divisão relata ao comandante do exército: «Cada dia, cada vez
mais, manifestavam-se mal-entendidos sobre as coisas que, no fundo, eram bagatelas,
mas com um carácter perigoso: os soldados, cada vez mais, enervavam-se assim como
os oficiais.»
Até agora, trata-se de testemunhos dispersos, ainda se numerosos. Mas eis que, no
18 de Março, teve lugar, no Grande Quartel General, uma conferência das autoridades
supremas sobre a situação do exército. As conclusões das direcções centrais são
unanimes.» Nos meses que seguirão, é impossível enviar para a frente efectivos
complementares na medida das necessidades, porque se produz a fermentação em todos
os contingentes da reserva. O exército está doente. Não se conseguirá
provavelmenteacomodar os relatórios entre oficiais e soldados senão em dois ou três
meses. (Os generais não compreendiam que a doença só poderia progredir.) Pelo
momento, nota-se o desencorajamento na oficialidade, a fermentação nas tropas, um
considerável movimento de deserção. A combatividade do exército baixou e é muito difícil
contar com ela, presentemente, para caminhar em frente. Conclusão: «É inadmissível
executar actualmente operações activas projectadas para a Primavera.»
Nas semanas que seguiram, a situação continuou a piorar rápidamente, e os
testemunhos multiplicaram-se interminavelmente.
No fim de Março, o comandante da 5º exército, o general Dragomirov, escreveu ao
general Rossky: «O espírito combativo caiu. Não somente os soldados não têm vontade
de retomar a ofensiva, mas mesmo a simples perseverança na ofensiva é minimizada a
um ponto perigoso para a conclusão da guerra...A política, que se amparou largamente de
todas as camadas do exército... determinou toda a massa da tropa adesejar só uma coisa
– o fim das hostilidades e o regresso ao lar.»
O general Lukomsky, um dos pilares do Grande Quartel General reaccionário,
descontente com os novos costumes, trocou no início da revolução para o comando de
um corpo do exército e constatou, segunda a sua narração, que a disciplina não subsistia
senão na artilharia e em engenharia, onde se contava muitos oficiais do quadro e
soldados readmitidos. «No que respeita as divisões de infantaria, todas as três estavam
na via de uma completa decomposição.»
A deserção que tinha diminuído após a insurreição por razões de esperanças
suscitadas, retomou com força no seguimento de decepções. Numa semana, do primeiro
ao 7 de Abril, desertaram, segundo um comunicado do general Alexeiev, cerca de 8 000
soldados das frentes Norte e Oeste. «É com grande espanto – escrevia ele a Gotchkov –

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que li os relatórios irresponsáveis sobre a «excelente» moral do exército. Para quê? Nós
não enganaremos os alemãs e, para nós, é uma fanfarronada fatal.»
Convém notar que, até aí, quase nunca se faz alusão aos bolcheviques: a maior
parte dos oficiais apenas tinha assimilado esta estranha denominação. Se, nos relatórios,
trata-se das causas da decomposição do exército, alega-se os jornais, os agitadores, os
sovietes, sobretudo a «política», numa palavras, a Revolução de Fevereiro.
Ainda se encontravam alguns chefes optimistas que esperavam que tudo se
arranjaria. Mais numerosos eram os que, intencionalmente, fechavam os olhos sobre os
factos, temendo causar inconvenientes ao novo poder. E, em contrapartida, um número
considerável de oficiais, sobretudo no alto comando, exageravam conscientemente os
sintomas de decomposição para obter do governo medidas decisivas que eles próprios,
todavia, não se atreviam a dar nome. Mas, no essencial, o quadro é indiscutível.
Encontrando diante dela um exército doente, a revolução envolveu o processo com a sua
irresistível dissolução nas formas políticas que, em cada semana, era de uma nitidez cada
vez mais implacável. A revolução levava até ao fim não somente o ardente desejo da paz,
mas também a hostilidade da massa dos soldados em relação ao comando e às classes
dirigentes em geral.
Em meados de Abril, Alexeiev fez um relatório pessoal ao governo sobre a moral da
tropa, e sem poupar nas cores. «Lembro-me muito bem – escreveu Nabokov – do
sentimento de angústia e de desespero que me tomou.» Admita-se que na leitura desse
relatório, o qual não dizer respeito senão às primeiras seis semanas da revolução, assistia
também Miliokov: é provável que ele fizesse aceitar a Alexeiev na intenção de alarmar os
seus colegas e, por seu intermédio, os amigos socialistas. Gotchkov teve efectivamente,
após esse relatório, uma entrevista com os representantes do comité executivo. «Não
chegamos a catastróficas fraternizações, - gemia. Registou-se casos de completa
insubordinação. As ordens dadas são previamentediscutidas nas organizações do
exército e nas reuniões políticas. Em tal ou tal contingente, nem se quis ouvir falar de
operações activas... Quando homens esperam que a paz será amanhã – observava não
somente sem razões Gotchkov – não se pode forçar hoje a sacrificar a vida.»
Seguidamente, o ministro da Guerra concluía: «É necessário deixar de falar da paz em
voz alta». Mas, como precisamente a revolução tinha aprendido às pessoas a falar em
voz alta de tudo que antes guardavam para si, isso significava: é preciso acabar com a
revolução.
O soldado, com certeza, desde do primeiro dia da guerra, não tinha vontade
nenhuma de morrer, nem de combater. Mas repugnava-o da mesma maneira que um
cavalo da artilharia deseja muito de puxar um pesada peça na lama. Tal como o cavalo, o
soldado não acreditava poder desembaraçar-se do fardo que lhe tinha caído em cima.
Entre a sua vontade e os acontecimentos da guerra, não havia nenhuma relação. Para
milhões de soldados, significava o direito a uma melhor existência, antes de tudo, mais
geralmente, o direito à vida, o direito de se proteger das balas e dos obuses, como
também de preservar o rosto dos socos que aplicavam os oficiais. Nesse sentido, já
dissemos que o processo psicológico essencial no exército consistia num despertar da

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personalidade. Na erupção vulcânica do individualismo que tomava frequentemente as
formas anárquicas, as classes cultivadas viam uma tradição em relação à nação. Ora, na
realidade, nas tumultuosas manifestações de soldados, nos seus protestos desenfreados,
mesmo nos seus excessos sanguinários, era somente a nação que se formava com
materiais brutos, impessoais, pré-históricos. O transbordamento, tão detestável para a
burguesia, do individualismo das massas, era provocado pelo carácter da Revolução de
Fevereiro, precisamente porque era uma revolução burguesa.
Mas aí não era o seu único conteúdo. Porque, independente do camponês e do seu
filho soldado, o operário participava na revolução. Há muito tempo o operário tinha a sua
dignidade pessoal, tinha entrado na guerra não somente com ódio por esta, mas com a
ideia de a combater, e a revolução significava para ele não somente o simples facto de
uma vitória, mas também um triunfo parcial das suas ideias. O derrube da monarquia foi
para ele a primeira etapa, e não parava aí, apressando-se para outros objectivos. Toda a
questão era para ele saber em que medida seria apoiado pelo soldado e camponês.
«Para que serve a terra, quando eu abalar?» perguntava o soldado. «Para que me serve
a liberdade, dizia ele como o operário, diante das portas do teatro inacessíveis para ele –
se as chaves da liberdade estão nas mãos dos mestres?» Assim, através do caos
indescritível da Revolução de Fevereiro, brilhava já os contornos de aço de Outubro.

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Os dirigentes e a guerra

Que pensava tirar desta guerra e deste exército o governo provisório e o comité
executivo?
Antes de mais, é necessário compreender a política da burguesia liberal, dado que
ela tocava o primeiro violão. Aparentemente, a política de guerra do liberalismo
continuava a ser a da ofensiva patriótica, uma política de presa, e sem piedade. Na
realidade, esta política era contraditória, cobarde e tornava-se rápidamente derrotista.
«Se não houvesse revolução, a guerra teria sido perdida na mesma, e, segundo toda
a probabilidade, uma paz separada teria sido concluida», escrevia Rodzianko, cujos
julgamentos não se distinguiam pela sua originalidade, mas exprimiam tanto melhor a
opinião média dos círculos liberais-conservadores. O levantamento dos batalhões da
Guarda era para as classes possuidoras um presságio não de vitória exterior, mas de
derrota no interior. A esse respeito, os liberais não se iludiam, tanto mais que tinham
previsto o perigo e tinham-no combatido tanto quanto puderam. O inesperado optimismo
revolucionário de Miliokov, declarando que a revolução era um passo para a vitória,
representava em suma o último recurso do desespero. A questão da guerra e da paz
deixou de ser para três quartos os liberais uma questão independente. Eles sentiam que
não lhes seria dada oportunidade de utilizar a revolução para a guerra. Tanto mais
imperiosamente impunha-se-lhes uma tarefa: utilizar a guerra contra a revolução.
O encontro da hipnose bélica e da moral chauvinista abria à burguesia a única e
última possibilidade de ligação política com as massas, antes de tudo com o exército,
contra o que se chama «os aprofundadores» da revolução. A tarefa era de apresentar ao
povo a guerra herdada do czarismo, com os precedentes aliados e os mesmos objectivos,
como uma nova guerra, como a defesa das conquistas e das esperanças revolucionárias.
Se chegássemos aí – mas como? - o liberalismo contava firmemente dirigir contra a
revolução toda esta organização da opinião pública patriota que, na véspera, lhe tinha
servido contra a clique de Raspotine. Se não conseguiram salvar a monarquia, como
instância suprema contra o povo, era preciso ainda mais se agarrar aos aliados: durante a
guerra, de qualquer modo, a Entente constituía um tribunal supremo incomparavelmente
mais potente que não poderia ter sido a monarquia do país.
A continuação da guerra devia justificar a conservação do antigo aparelho militar e
burocrático, o adiantamento da Assembleia constituinte, a subordinação do país
revolucionário à frente, isto é aos generais nas suas ligações com a burguesia liberal.
Todas as questões interiores, antes de tudo o problema agrário, e toda a legislação social
estavam relegadas até ao fim da guerra e este mesmo fim, por sua vez, era adiado até à
vitória na qual os liberais não acreditavam. A guerra por esgotamento do inimigo
transformava-se em guerra pelo esgotamento da revolução. Talvez não fosse um plano
acabado, discutido e ponderado antecipadamente por sessões oficiais. Mas não era

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necessário. O plano decorria de toda a política anterior do liberalismo e da situação criada
pela revolução.
Obrigado a caminhar pela via da guerra, Miliokov não tinha, bem entendido, motivos
de renunciar antecipadamente à partilha do espólio. Porque, enfim, as esperanças da
vitória dos Aliados continuavam presentes e, com a entrada da América na guerra, tinham
extraordinariamente aumentado. Na verdade a Entente é uma coisa e a revolução outra.
Os líderes da burguesia russa tinham aprendido no decorrer dos anos que por razões de
fraqueza económica e militar da Rússia, a qual todas as variantes possíveis eram
examinadas, sairia necessariamente da guerra quebrada e enfraquecida. Mas os
imperialistas liberais decidiram conscientemente fechar os olhos sobre esta perspectiva.
Eles não tinham mais nada a fazer. Gotchkov declarava no seu círculo que a Rússia não
poderia ser salva senão pelo milagre e que a esperança de um milagre constituía o seu
programa de ministro da Guerra.
Miliokov, para a política interior, necessitava do mito da vitória. Em que medida ele
próprio acreditava nisso, não tem importância. Mas obstinava-se em afirmar que
Constantinopla devia ser nossa. E aí, agia com o cinismo que o caracterizou. No dia 20 de
Março, o ministro russo dos Assuntos estrangeiros exortava os embaixadores aliados a
trair a Sérvia para comprar, por esse meio, a traição da Bulgária em relação aos impérios
centrais. O embaixador da França franzia o sobrolho. Miliokov, contudo, insistia sobre «a
necessidade de renunciar, nesta questão, às considerações sentimentais», e, assim, ao
neo-eslavismo que tinha pregado desde do esmagamento da primeira revolução. Não foi
erradamente que Engels escreveu a Bernstein já em 1882: «Ao que se resume todo o
charlatanismo dos paneslavistas russos? À tomada de Constantinopla – e é tudo.»
As acusações de germanofilia e mesmo a compra pela Alemanha, ainda ontem
dirigida contra a camarilha do palácio, eram hoje voltadas, com uma ponta envenenada,
contra a revolução. Mais se avançava, cada vez mais ousadamente, ruidosamente,
insolentemente, ouvia-se esta nota no discurso e os artigos do partido cadete. Antes de se
apoderar das águas turcas, o liberalismo turvava as fontes e envenenava os poços da
revolução.
Não foram todos os líderes liberais, longe disso, ou pelo menos logo, que adoptaram
após a insurreição uma atitude intransigente sobre a questão da guerra. Muitos deles
encontravam-se ainda na atmosfera moral pré-revolucionária que se ligava à perspectiva
de uma paz separada. Certos cadetes dirigentes contaram isso seguidamente com uma
grande franqueza. Nabokov, confessou que, logo no 7 de Março, conspirava com
numerosos membros do governo sobre uma paz separada. Vários membros do centro
cadete tentavam colectivamente demonstrar ao líder a impossibilidade do prolongamento
da guerra. Miliokov, com a nítida frieza que o caracteriza expunha – conta o barão Nolde
– que os objectivos da guerra devia ser atingidos. «O general Alexeiev que, entretanto se
tinha aproximado dos cadetes, apoiava Miliokov, afirmando que «o exército podia ser
substituído». Para essa substituição foi designado esse homem do estado-maior,
organizador de catástrofes.

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Alguns, mais ingénuos, entre os liberais e os democratas, não compreendiam o
curso seguido por Miliokov e considerava-o como o próprio cavaleiro da fidelidade aos
aliados, o Dom Quixote da Entente. Que absurdidade! Quando os bolcheviques tomaram
o poder, Miliokov não hesitou um instante em partir para Kiev, ocupada pelos alemãs, e a
propor os seus serviços ao governo do Hohenzollern, o qual, na verdade, não se
apressou em aceitá-lo. O objectivo imediato de Miliokov, nesse assunto, era obter, para a
luta contra os bolcheviques, o mesmo ouro alemão que ele tinha procurado utilizar o
fantasma para sujar a revolução. O apelo de Miliokov à Alemanha pareceu, em 1918, a
muitos liberais tão incompreensível como tinha sido, nos primeiros meses de 1917, o seu
programa de esmagamento da Alemanha. Mas aí estava o verso e reverso da mesma
medalha. Preparando-se a trair os aliados como, precedentemente a Sérvia, Miliokov não
se traiu nem a sua classe. Ele seguia uma só e mesma política, e não foi por sua culpa se
ela tinha má aparência. Procurando às apalpadelas, sob o czarismo, as vias de uma paz
separada com o objectivo de evitar a revolução: reclamando a guerra até ao fim para
esmagar a revolução de Fevereiro: tentando mais tarde uma aliança com os
Hohenzollern, para derrubar a Revolução de Outubro – Miliokov continuava
invariavelmente fiel aos interesses dos possuidores. Se ele não consegui ajudá-los,
chocando cada vez contra um novo muro, foi porque os seus patrocinadores
encontravam-se num impasse.
O que faltou particularmente a Miliokov nos primeiros tempos que seguiram a
insurreição, foi uma ofensiva do inimigo, uma boa tareia alemã no crânio da revolução.
Por infelicidade, Março e Abril, pelas suas condições climáticas, eram pouco propícias, na
frente russa, às operações de grande envergadura. E sobretudo, os alemãs, cuja situação
se tornava cada vez mais penosa, resolveram, após grandes hesitações, deixar a
revolução russa seguir o seu processo interno. Só, o general Linsingen deu provas de
uma iniciativa privada, nos dias 20 e 21 de Março em Stokhod. Seu sucesso assustou o
governo alemão, e contentou o governo russo. O Grande Quartel General, com a
impudência que metia, no tempo do czar, em exagerar os mais pequenos sucessos, dava
importância excessiva à derrota de Sokhod. A imprensa liberal seguia-o. Os casos de
instabilidade, de pânico e as percas do exército russo eram descritos com mais gosto que
antes as capturas de prisioneiros e dos troféus. A burguesia e os generais evidentemente
concluíam no derrotismo. Mas Linsingen recebeu do alto a ordem de parar e a frente
parou de novo nas lamas primaveris e na expectativa.
A ideia de utilizar a guerra contra a revolução podia ter possibilidades de sucesso
somente na condição que os partidos intermediários, que seguiam as massas populares,
consentissem em encarregar-se do papel de mecanismo de transmissão para a política
liberal. Ligar a ideia da guerra à da revolução ultrapassava as forças do liberalismo: ainda
na véspera, tinham pregado a ideia que a revolução seria desastrosa para a guerra. Era
preciso passar esta tarefa à democracia. Mas, bem entendido, sem revelar-lhe «o
segredo». Não para iniciar um plano, mas para pescar. Era preciso apanhá-lo pelos seus
preconceitos, pelas suas pretensões à sabedoria política, pelas apreensões diante da
anarquia, pela sua obsequiosidade supersticiosa diante da burguesia.

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Nos primeiros dias, os socialistas – somos obrigados a chamar assim brevemente os
mencheviques e os socialistas-revolucionários – não sabiam que fazer com a guerra.
Tchkheidze suspirava: «Falámos sempre contra a guerra, como posso eu agora incitar à
continuação da guerra?» No 10 de Março, o comité executivo decidiu enviar um telegrama
para saudar Franz Mehring. Por essa pequena manifestação, a ala esquerda tentava
acalmar a sua consciência socialista que não era muito exigente. Sobre a guerra em si, o
Soviete continuava calado. Os líderes temiam provocar, sobre esta questão, um conflito
com o governo provisório e obscurecer a lua-de-mel do «contacto». Eles não deixavam de
temer a discórdia no seu próprio meio. Havia entre eles partidários da defesa nacional e
zimmerwaldianos. Uns e outros sobrevalorizavam as suas diferenças.
Largos círculos intelectuais revolucionários tinham sofrido, durante a guerra, uma
importante metamorfose burguesa. O patriotismo confessado ou disfarçado, tinha ligado
os intelectuais com as classes dirigentes desligando-os das massas. A bandeira de
Zimmerwald com a qual se cobria a ala esquerda não impunha grandes obrigações e, ao
mesmo tempo, permitia não mostrar uma solidariedade patriótica com a clique de
Raspotine. Mas, agora, o regime do Romanov tinha sido derrubado. A Rússia tornou-se
um país democrático. Sua liberdade, iridiscente com todas as nuanças, destacava-se
brilhantemente sobre um fundo policial da Europa tomada nas tenazes de uma ditadura
militar. Não íamos defender a nossa revolução contra o Hohenzollern? Perguntavam os
antigos e novos patriotas colocados à cabeça do comité executivo. Os zimmerwaldianos,
do tipo de Sokhanov e de Stieklov, alegavam sem certezas que a guerra continuava
imperialista: porque enfim os liberais afirmavam que a revolução deve assegurar as
anexações projectadas no tempo do czar. «Como poderei agora incitar ao prolongamento
da guerra?» perguntava Tchkheidze assustado. Mas como os próprios zimmerwaldianos
eram os iniciadores da transmissão do poder aos liberais, seus objectivos ficavam
suspendidos. Após algumas semanas de hesitações e de resistência, a primeira parte do
plano de Miliokov foi, com a ajuda de Tseretelli, resolvida de forma satisfatória: os maus
democratas que se consideravam como socialistas atrelaram-se aos arreios da guerra e,
sob o chicote dos liberais, empregavam todas as suas fracas forças para segurar a
vitória... da Entente sobre a Rússia, da América sobre a Europa.
A função principal dos conciliadores consistia em ligar a energia revolucionária das
massas à corrente patriótica. Tentaram, por um lado, despertar a combatividade do
exército – o que era difícil: tentaram, por outro, incitar os governos da Entente a renunciar
à pilhagem – e era ridículo. Nas duas direcções, iam das ilusões às decepções e dos
erros às humilhações. Notemos os primeiros marcos desse caminho.
Nos momentos da sua curta grandeza, Rodzianko tinha tido tempo de promulgar o
regresso imediato dos soldados nas casernas, substituindo-os por ordem dos oficiais. A
efervescência da guarnição causada por esta ordem obrigou o Soviete a consagrar uma
das suas primeiras sessões à questão da sorte ulterior do soldado. Na atmosfera ardente
dessa hora, no caos de uma sessão parecida a uma reunião política, sob a direcção dos
soldados que os líderes ausentes não poderiam ter parado, nasceu o famoso «Prikaz Nº
1» (Ordem nº1) o único documento respeitável da Revolução de Fevereiro, a carta das
liberdades do exército revolucionário. Os seus parágrafos audazes dando aos soldados

200
uma saída organizada sob uma nova via, decidiam: criar em todos os contingentes da
tropa comités eleitos: eleição dos representantes dos soldados no Soviete e nos seus
comités: manter as armas sob controlo dos comités de companhia ou de batalhão e «em
nenhum caso remetê-las aos oficiais»: no serviço, a mais severa disciplina militar: fora do
serviço, a saudação militar e os títulos hierárquicos são suprimidos: é proibido aos oficiais
maltratar os soldados, em particular de os tratar por tu, etc..
Tais eram as deduções feitas pelos soldados de Petrogrado da sua participação na
insurreição. Poderiam ser diferentes? Ninguém ousou resistir. No momento da elaboração
do «Prikaz», os líderes do Soviete estavam distraídos pelas preocupações mais
importantes: eles mantinham conversações com os liberais. Isso possibilitou a evocação
de um alibi quando tiveram que se justificar diante da burguesia e do comando.
Ao mesmo tempo que o «Prikaz nº1», o comité executivo, tendo tido tempo de se
dominar, tinha expedido à tipografia, como antídoto, um apelo aos soldados, o qual, ao
mesmo tempo que parecia condenar a linchagem dos oficiais, exigia submissão diante do
antigo comando. Os tipógrafos recusaram simplesmente de compor o documento. Os
autores, democratas, indignaram-se: onde iremos? Não seria correcto imaginar que os
tipógrafos exerceriam represálias sangrentas contra os oficiais. Mas, quando se exortava
a tropa a obedecer à oficialidade do czar, no dia seguinte à insurreição, os operários
tipógrafos viam aí a porta aberta à contra-revolução. Certamente, os tipógrafos tinham
cometido um abuso de poder. Mas não se sentiam somente tipógrafos. Tratava-se, no
espírito deles, da cabeça da revolução.
Nos primeiros dias, quando a sorte dos oficiais que voltavam aos seus regimentos
irritava demasiado os soldados como os operários, a organização social democrata inter-
distritos, próximo dos bolcheviques, colocou a questão irritante com ousadia
revolucionária. «Para que os nobres e os oficiais não vos enganem – diz-se no apelo
dirigido aos soldados – elegeis vós próprios vossos chefes de pelotão, de companhia, e
de regimento. Não aceiteis entre vós senão os oficiais que vocês conhecem como sendo
amigos do povo.» Mas o que aconteceu? A proclamação que respondia completamente à
situação foi imediatamente confiscada pelo comité executivo, e Tchkheidze, no seu
discurso, indicou como uma provocação. Os democratas, vêmo-los, não se incomodavam
para limitar a liberdade da imprensa quando se tratava de golpear a esquerda.
Felizmente, a sua própria liberdade era suficientemente limitada. Ao apoiar o comité
executivo como o seu órgão supremo, os operários e soldados, em todos os momentos
graves, corrigiam a politica dos dirigentes por uma intervenção directa.
Alguns dias mais tarde, o comité executivo tentava, por um «Prikaz nº2» abolir a
primeira ordem dada, limitando o seu alcance ao corpo do exército de Petrogrado. Em
vão! O «Prikaz nº2» era indestrutível, porque não inventava nada, mas só consolidava o
que rebentava por todo o lado, na retaguarda como na frente, e exigia ser reconhecido.
Frente a frente com os soldados, mesmo os deputados liberais esquivavam as questões e
as censuras sobre o «Prikaz nº1». Mas na grande política, a ordem audaciosa tornou-se o
principal argumento da burguesia contra os sovietes. Vencidos, os generais descobriram
desde então, no «Prikaz nº1», o principal obstáculo que lhes impedia de esmagar os

201
exércitos alemãs. Atribuía-se à origem alemã o «Prikaz». Os conciliadores não paravam
de justificar a sua cumplicidade e enervavam os soldados procurando retomar com a mão
direita o que tinham largado com a mão esquerda.
Entrementes, no Soviete, a maioria dos deputados exigia já a eleição dos chefes. Os
democratas ficaram transtornados. Não encontravam melhores motivos, Sokhanov tentou
intimidar, dizendo que a burguesia, a qual tinha o poder, não admitiria a eleição. Os
democratas escondiam-se por detrás de Gotchkov. No seu jogo, os liberais ocupavam o
lugar que a monarquia teria tomado no jogo do liberalismo. «Voltando da tribuna para o
meu lugar – conta Sokhanov tropecei num soldado que me impedia de passar e,
mostrando-me o punho sob os olhos, gritava enraivecido sobre os senhores que nunca
apoiaram o soldado.» Após este «excesso», correu procurando Kerensky, e foi somente
com o auxílio deste último que «o assunto se resolveu de um modo qualquer». Esses
homens só se ocupavam em arranjar assuntos.
Durante quinze dias, conseguiram fingir nada querer saber da guerra. Enfim, tornou-
se impossível adiá-lo mais. No 14 de Março, o comité executivo apresentou ao Soviete
um projecto de manifesto redigido pelo Sokhanov: «Aos povos do mundo inteiro».
A imprensa liberal declarou logo, sobre esse documento que unia os conciliadores
da direita e da esquerda, que era um «Prikaz nº1» no domínio da política exterior. Mas
esta apreciação elogiosa era tão falsa como o documento que fazia referência. O «Prikaz
nº1» constituía uma resposta honesta, directa, da base às questões colocadas pela
revolução diante do exército. O manifesto do 14 de Março era uma resposta falaciosa do
alto às questões postas honestamente pelos soldados e operários.
O manifesto, bem entendido, exprimia um desejo de paz, e mesmo de paz
democrática, sem anexações nem contribuições. Mas os imperialistas do Ocidente tinham
aprendido a servirem-se desta fraseologia muito antes da insurreição de Fevereiro. Foi
precisamente em nome de uma paz sólida, honesta, «democrática», que Wilson se
dispôs, nesse tempo, a entrar na guerra. O devoto Asquith apresentou no parlamento uma
classificação científica das anexações segundo a qual resultaria indubitavelmente que se
devia condenar como imorais todas as anexações que seriam contrárias aos interesses
da Grande-Bretanha. No que diz respeito à diplomacia francesa, ela consistia a dar à
cupidez do lojista e do usurário a expressão mais libertadora.
O documento expedido pelo Soviete, que não poderemos negar uma certa
sinceridade simplista, caía fatalmente na difícil situação da hipocrisia oficial francesa. O
manifesto prometia «defender resolutamente a nossa própria liberdade» contra o
militarismo estrangeiro. Isso implicava precisamente na indústria dos sociais patriotas
franceses desde Agosto 1914. «O tempo chegou para os povos de encontrarem uma
solução à guerra ou a paz», declarava o manifesto cujos autores, em nome do povo
russo, tinham acabado de deixar esta questão à discrição da alta burguesia. O manifesto
lançava este apelo aos operários alemãs e austro-húngaros: «Renunciai a servir de
instrumento de conquista e de violência nas mãos dos reis, dos proprietários e
banqueiros!» Esses termos continham a quinta-essência da mentira, porque os líderes do
Soviete não pensavam de forma nenhuma romper sua aliança com os reis da Grande-

202
Bretanha e da Bélgica, com o imperador do Japão, com os proprietários e os banqueiros,
os do país russo e os de todos os países da Entente. Tendo transmitido a direcção da
política exterior à Miliokov que, ainda recentemente, dispunha-se a transformar a Prússia
Oriental em província russa. Condenar teatralmente a carnificina, isso não mudava nada a
nada, o papa também ocupava-se disso. Com frases patéticas, dirigidas contra as
sombras do banqueiro, do proprietário nobre e do rei, os conciliadores faziam da
Revolução de Fevereiro a arma dos verdadeiros reis, proprietários e banqueiros.
Já no seu telegrama de felicitações ao governo provisório, Lloyd George apreciava a
revolução russa como provando que «a guerra actual, essencialmente, é uma luta pelo
governo popular e pela paz». O manifesto do 14 de Março, «essencialmente», se
solidarizava com Lloyd George e dava um apoio precioso à propaganda militarista na
América. Ele tinha três vezes razão, o jornal de Miliokov, quando ele escrevia que «o
apelo, começou com tons pacifistas, desenvolve-se no fundo em ideologia que temos em
comum com todos os nossos aliados». Se os liberais russos, contudo, atacaram-se mais
uma vez, e furiosamente, no manifesto, recusou-se em geral a deixá-lo passar, isso vinha
do medo da interpretação dada a esse documento pelas massas revolucionárias, mas
ainda confiantes.
Redigido por um zimmerwaldiano, o manifesto marcava a vitória de princípio da ala
patriótica. Na província, os sovietes tomaram em consideração o sinal. A palavra de
ordem «guerra à guerra» foi declarada inadmissível. Mesmo no Ural e em Kostroma, onde
os bolcheviques eram fortes, o manifesto patriota obteve a aprovação unânime. Não é de
admirar: porque, mesmo no Soviete de Petrogrado, os bolcheviques não opuseram nada
a esse documento mentiroso.
Algumas semanas mais tarde, era preciso efectuar um pagamento parcial sobre a
despesa. O governo provisório contraiu um empréstimo de guerra que, bem entendido, foi
chamado «empréstimo da liberdade». Tseretelli demonstrava que o governo cumpriria «no
conjunto e integralmente» as suas obrigações, a democracia devia apoiar o empréstimo.
No comité executivo, a ala opositora reuniu mais do que o terço dos votos. Mas, no
plenário do Soviete (22 Abril), votaram contra o empréstimo só cento e doze delegados
sobre quase dois mil. Daí, chegava-se à seguinte conclusão: o comité executivo está mais
à esquerda que o Soviete. Mas não é exacto. O Soviete era mais honesto que o comité
executivo. Se a guerra é a defesa da revolução, é preciso dar dinheiro para a guerra, é
preciso apoiar o empréstimo. O comité executivo não era mais revolucionário nem mais
evasivo. Vivia de equívocos e de subterfúgios. Apoiava o governo estabelecido por ele,
«no conjunto e totalmente» na medida onde e tanto que...» Essas pequenas astúcias
eram alheias às massas. Os soldados não podiam nem combater «na medida que» nem
morrer «no conjunto e totalmente».
Para consolidar a vitória da concepção governamental das divagações, o general
Alexeiev, que se dispunha no 5 de Março a mandar fusilar os bandos propagandistas, foi
oficialmente colocado, no primeiro de Abril, à cabeça das forças armadas. Doravante, tudo
entrava na ordem. O inspirador da política exterior do czarismo, Miliokov, era ministro dos

203
Assuntos exteriores. O comandante em chefe do exército do czar, Alexeiev, tornou-se o
generalíssimo da revolução. O princípio da sucessão estava integralmente restituído.
Ao mesmo tempo, os líderes do Soviete foram obrigados pela lógica da situação a
alargar as malhas da rede que eles próprios tricotaram. A democracia oficial temia
extremamente os chefes do exército que ela tolerava e apoiava. Ela não podia dispensar-
se de lhe opor um controlo, tentando ao mesmo tempo apoiar esse controlo sobre os
soldados e também de lhe restituir, tanto que possível, independentemente destes
últimos. Na sessão do 6 de Março, o comité executivo reconheceu que era desejável
instalar os seus comissários em todos os contingentes da tropa e nas administrações
militares. Assim se constituía uma tripla ligação: as tropas delegavam os seus
representantes ao Soviete: o comité executivo enviava os seus comissários às tropas:
enfim, à cabeça da cada contingente colocava-se um comité recrutado por eleição que
representava de certa forma uma célula de base do Soviete.
Uma das mais importantes obrigações dos comissários era vigiar a integridade
política dos estados-maiores e da oficialidade. «O regime democrático talvez ultrapassou
o da da autocracia», exclamou com indignação Denikinie, e, sobre isso, ele gabava-se da
habilidade do seu estado-maior que interceptava e lhe transmitia a correspondência
codificada dos comissários com Petrogrado. Vigiar os monarquistas e os partidários da
servidão – o que há mais ultrajante? Mas é um outro assunto se se rouba o correio
dirigido pelos comissários ao governo. Qualquer que fosse a moral, as relações interiores
do aparelho dirigente do exército manifestavam-se claramente: as duas partes têm medo
uma da outra e observam-se com hostilidade. O que os une, é somente o medo que elas
têm dos soldados. Os próprios generais e almirantes, quaisquer que fossem as suas
esperanças e planos para o futuro, viam claramente que falta do véu da democracia o
assunto deles não funcionava bem. O estatuto dos comités da frota foi elaborado por
Koltchak. Contava assim abafá-los mais tarde. Mas como, por enquanto, não se podia dar
um passo sem os comités, Koltchak intervinha junto do Grande Quartel General para
obter a sua autorização. De mesma maneira, o general Markov, um dos futuros capitães
do exército branco, enviou, no início de Abril, ao ministério, um projecto de instauração de
comissários para a vigilância da lealdade do comando. Foi assim que «as leis seculares
do exército», isto é as tradições da burocracia militar, quebraram-se como palhas, sob a
pressão da revolução.
Os soldados vinham aos comités de um ponto oposto e agrupavam-se à volta deles
contra o comando. E se os comités protegiam os chefes contra os soldados, era somente
em certa medida. A situação do oficial que tinha entrado em conflito com um comité
tornava-se intolerável. Assim constituía-se o direito não escrito dos soldados em destituir
seus chefes. Sobre a frente Oeste, segundo Denikine, em Julho, tinham despedido perto
de sessenta oficiais, desde de um comandante do corpo do exército até um chefe de
regimente. Mutações do mesmo género tinha lugar no interior dos regimentos.
Entretanto, cumpria-se com minúcia no ministério da Guerra, no comité executivo,
nas reuniões da comissão de contacto, trabalho tendo por fim criar formas «razoáveis» de
relações no exército e retirar a autoridade dos chefes, reduzindo os comités do exército a

204
um papel secundário, principalmente administrativo. Mais tarde, enquanto que os grandes
chefes limpavam com um simulacro de vassoura um simulacro de revolução, os comités
desenvolveram-se num poderoso sistema centralizado, que ia até ao comité executivo de
Petrogrado e consolidando pela organização a autoridade deste sobre o exército. Desta
autoridade, todavia, o comité executivo utilizava-a para levar de novo, por intermédio dos
comissários e dos comités, o exército à guerra. Os soldados tinham cada vez mais
frequentemente razão para se questionarem porquê os comités eleitos por eles
exprimissem muitas vezes não o que eles pensavam, eles soldados, mas o que os chefes
queriam deles.
As trincheiras enviam à capital deputados cada vez mais numerosos para saber o
que se passa. No início de Abril, o movimento dos homens da frente tornou-se incessante,
cada dia têm lugar no palácio Tauride conversações colectivas: os soldados enviados têm
dificuldades em compreender os mistérios da política do comité executivo, o qual não é
capaz de responder claramente a uma só questão. O exército transfere-se lentamente
para a posição soviética para se convencer tanto mais claramente da inconsistência da
direcção soviética.
Os liberais, não se atrevendo a opor-se abertamente ao Soviete, ainda tentam levar
o exército à luta. Como laço político com ele, o chauvinismo deve ser, evidentemente,
mantido. O ministro cadete Chingarev, numa entrevista com os delegados das trincheiras,
defendia a ordem de Gotchkov contra «a indulgência excessiva» em relação aos
prisioneiros, alegando «os actos de selvajaria dos alemãs». O ministro não obteve a
menor expressão de simpatia. A assembleia pronunciou-se resolutamente pela melhoria
da sorte dos prisioneiros. E eram os homens que os liberais acusavam em todas as
ocasiões de excessos e de ferocidade. Mas os obscuros homens da frente tinham seus
critérios próprios. Para eles era inadmissível de se vingar de um oficial pelas humilhações
infligidas aos soldados: mas parecia-lhes cobarde vingar-se de um soldado alemão
prisioneiro por actos de selvajaria reais ou fictícios de um Ludendorff. As normas eternas
da moral, infelizmente! Continuavam estranhos a esses mujiques ásperos e sórdidos.
Tentativas da burguesia para se apoderar do exército resultou no congresso de
delegados da frente Oeste (7-10 de Abril) uma competição entre liberais e conciliadores
que aliás não se desenvolveu. O primeiro congresso de uma das frentes devia ser
decisivo para verificar a política do exército, e os dois partidos enviaram a Minsk os seus
melhores representantes. Para o Soviete: Tseretelli, Tchkheidze, Skobelev, Gvozdiev;
para a burguesia, Rodzianko e outros. A agitação era extrema no teatro de Minsk, cheio
de assistentes, e espalhavam-se por ondas em toda a cidade. Segundo testemunhos dos
delegados, descobriu-se o quadro da situação real. Sobre toda a frente, confraterniza-se:
os soldados tomam a iniciativa cada vez mais ousadamente, o comando nem mesmo
pensa nas medidas de repressão. Que poderiam dizer os liberais? Diante deste auditório
apaixonado, logo renunciaram à ideia de opor as suas resoluções às do Soviete. Eles
limitavam-se às notas patrióticas nos discursos de inauguração e foram logo nitidamente
dominados. A batalha foi ganha pelos democratas sem dar um tiro. Eles não precisavam
de levar as massas contra a burguesia, eles tinham que as conter. A palavra de ordem da
paz, inserida de maneira equivoca com a palavra de ordem da defesa da revolução, no

205
espírito do Manifesto do 14 de Março, dominava o congresso. A resolução do Soviete
sobre a guerra foi adaptada por seiscentos e dez votos contra oito e quarenta e seis
abstenções. A última esperança dos liberais em opor a frente à retaguarda, o exército ao
Soviete, desfazia-se. Mesmo os líderes democratas regressavam do Congresso mais
assustados da sua vitória do que entusiasmados por ela. Tinham visto quais eram os
espíritos despertados pela revolução, e tinham sentido que esses espíritos estavam acima
das suas forças.

206
Os bolcheviques e Lenine

No 3 de Abril, Lenine chegava a Petrogrado, vindo da emigração. É somente a partir


desse momento que o partido bolchevique assume toda sua força e, o que é mais
importante, a sua própria voz.
O primeiro mês da revolução tinha sido, para o bolchevismo, em tempos perturbados
e de hesitações. No «Manifesto» do Comité central dos bolcheviques, redigido logo após
a vitória da insurreição, dizia-se que «os operários das oficinas e das fábricas, assim
como as tropas revoltadas, devem imediatamente eleger seus representantes no governo
revolucionário provisório». O manifesto foi imprimido no órgão oficial do Soviete sem
comentários nem objectivos, como se não se tratasse senão de uma questão académica.
Mas mesmo os dirigentes bolcheviques davam à sua palavra de ordem um significado
puramente demonstrativo. Eles agiam não tanto como representantes de um partido
proletário que se prepara a abrir por sua própria iniciativa a luta pelo poder, mas como ala
esquerda da democracia que, ao proclamar os seus princípios, dispôs-se, por um tempo
indeterminado, a interpretar o papel de uma oposição leal.
Sokhanov afirma que na sessão do comité executivo do primeiro de Março o centro
da discussão versa somente sobre as condições da transmissão do poder: contra o
próprio facto da formação de um governo burguês, nem uma só voz se ouve, ainda se
houvesse então no comité executivo, sobre trinta e nove membros, onze bolcheviques e
simpatizantes cujos três membros do centro, Zalotsky, Chliapnikov, e Molotov, estavam
presentes na sessão.
No dia seguinte, no Soviete, segundo a própria narração de Chliapnikov, sobre
quatrocentos deputados, votaram contra a transmissão do poder à burguesia somente
dezanove delegados, enquanto que a fracção bolchevique contava já quarenta delegados.
Esse voto passou completamente despercebido, num procedimento formalmente
parlamentar, sem claras contra-proposições do lado dos bolcheviques, sem luta e sem
agitação qualquer na imprensa bolchevique.
No 4 de Março, o Bureau do comité central adoptou uma resolução sobre o carácter
contra-revolucionário do governo provisório e sobre a necessidade de se orientar para a
ditadura democrática do proletariado e dos camponeses. O comité de Petrogrado,
reconhecendo não sem razão que esta resolução era puramente académica, dado que
ela não indicava de forma nenhuma o que era necessário fazer no próprio dia, abordou o
problema do lado oposto. Tendo conta da resolução sobre o governo provisório adaptada
pelo Soviete, declarou que «não se opunha ao poder do governo provisório na medida
que...» No fundo, era a posição dos mencheviques e dos socialistas-revolucionários,
relatada somente na segunda linha das trincheiras. A resolução abertamente oportunista
do comité de Petrogrado contradizia só na forma a posição do comité central cujo carácter

207
académico não significava outra coisa senão a resignação política diante do facto
consumado.
A disposição a inclinar-se, tácitamente ou com reservas, diante do governo da
burguesia não obtinha de forma nenhuma um consentimento indiviso no partido. Os
operários bolcheviques chocaram com o governo provisório, como uma fortaleza inimiga
surgida de repente no caminho. O comité de Vyborg juntou numa reunião política milhares
de operários e de soldados que, quase unanimemente, adoptaram uma resolução sobre a
necessidade da tomada do poder pelo Soviete. Participando activamente nesta agitação,
Dingelstedt testemunha o seguinte: «Não houve uma só reunião, uma só reunião operária
que tivesse rejeitado a nossa resolução nesse sentido, no momento que se encontrava
alguém para a propor.» Os mencheviques e os socialistas-revolucionários, não ousavam,
nos primeiros tempos, declarar francamente como eles colocavam a questão do poder
diante dos auditórios de operários e de soldados. A resolução de Vyborg, por causa do
seu sucesso, foi imprimida e colada em cartazes. Mas o comité de Petrogrado proibiu
essa resolução e Vyborg foi obrigada a ceder.
Sobre o conteúdo social da revolução e das perspectivas do seu desenvolvimento, a
posição dos dirigentes bolcheviques não deixava de ser confusa. Chliapnikov conta que:
«Nós estávamos de acordo com os mencheviques sobre a questão da fase da demolição
revolucionária das relações feudalistas e de servidão, às quais se substituiriam todas as
especies de «liberdades», particulares aos regimes burgueses.» A Pravda escrevia no seu
primeiro número: «A tarefa essencial é... de instituir um reino republicano democrático.»
Nas suas instruções aos deputados operários, o comité de Moscovo declarava: «O
proletariado visa obter a liberdade afim de lutar pelo socialismo que é o seu objectivo
final.» A alegação tradicional de um «objectivo final» sublinha suficientemente a distância
histórica em relação ao socialismo. Ninguém passava esse ponto. O temor de passar as
fronteiras da revolução democrática ditava uma política de temporização, de adaptação e
recuo efectivo diante dos conciliadores.
Não é difícil compreender a penosa influência da sua política que a falta de carácter
do centro tinha sobre a província. Limitemo-nos ao testemunho de um dos dirigentes da
organização de Saratov: «O nosso partido, que tinha activamente participado na
insurreição, deixa visivelmente escapar a sua influência sobre a massa, e esta influência
foi interceptada pelos mencheviques e os socialistas-revolucionários. Quais eram as
palavras de ordem dos bolcheviques, ninguém sabia nada... O quadro era muito
desagradável.»
Os bolcheviques de esquerda, antes de mais os operários, esforçavam-se em
romper a quarentena. Mas eles também não sabiam como fazer frente aos argumentos
sobre o carácter burguês da revolução e os perigos do isolamento do proletariado. A
contra-luz, eles submetiam-se às instruções dos dirigentes. Diversos correntes no
bolchevismo, desde do primeiro dia, chocaram violentamente entre si, mas nem um deles
não desenvolvia as suas ideias até ao fim. A Pravda reflectia este estado confuso e
instável das ideias do partido sem contribuir para a unidade. A situação complicou-se mais

208
em meados de Março, quando regressaram da deportação Kamenev e Estaline que
deram uma brusca guinada à direita na política oficial do partido.»
Bolchevique desde do nascimento do bolchevismo, Kamenev manteve-se sempre na
ala direita do partido. Não desprovido de preparação teórica e de faro político, possuía
uma grande experiência da luta de fracções na Rússia e uma provisão de observações
políticas feitas no Ocidente, Kamenev, melhor que muitos outros bolcheviques,
compreendia as ideias gerais de Lenine, mas somente para lhe dar na prática uma
interpretação tão pacífica que possível. Não se podia esperar dele nem independência na
decisão, nem de iniciativa na acção. Notável propagandista, orador, jornalista, pouco
brilhante mas reflectido, Kamenev era particularmente precioso nas conversações com os
outros partidos e também como iniciador nos outros meios sociais, onde, de tais
excursões, ele trazia sempre, à sua conta, algumas parcelas da mentalidade dos
diferentes partidos. Esses traços de Kamenev eram de tal forma evidentes que quase
ninguém se enganava sobre a sua fisionomia política. Sokhanov nota nele a ausência de
«ângulos agudos»: é preciso «sempre rebocá-lo e se ele resiste um pouco, é de pouca
duração.» No mesmo sentido pronunciou-se também Stankevitch: as atitudes de
Kamenev em relação aos adversários «eram tão moles que, parece, ele próprio tinha
vergonha da intransigência da sua posição; no comité ele era, indubitavelmente, não um
inimigo, mas somente uma oposição». A isso não há nada a acrescentar.
Estaline representava um outro tipo de bolchevique, tanto pela sua formação mental,
como pelo carácter do seu trabalho no partido: sólido organizador primitivo para a teoria e
política. Se Kamenev, na qualidade de publicista, viveu um certo número de anos com
Lenine na emigração onde se encontrava o foco do trabalho teórico do partido, Estaline,
na qualidade do que se chama um activista, sem largos conhecimentos teóricos, sem
grandes interesses políticos e sem conhecimento das línguas estrangeiras, era
inseparável do chão russo. Tais militantes não iam ao estrangeiro senão em curtas
viagens, para receber instruções, combinar tarefas a encetar e voltar à Rússia. Estaline
distingui-se entre os activistas pela sua energia, sua teimosia e sua ingenuidade nas
manobras nos bastidores. Se Kamenev, por natureza, «intimidava-se» diante das
deduções práticas do bolchevismo, Estaline, em contrapartida, tendia a manter deduções
práticas que ele assimilava sem qualquer moderação, combinando obstinação e rudeza.
Qualquer que seja a oposição de seus caracteres, não é por acaso que Kamenev e
Estaline tomaram, no início da revolução, uma oposição comum: eles completavam-se
mutuamente. Uma concepção revolucionária sem vontade revolucionária vale tanto como
um relógio cuja mola está quebrada: a agulha política de Kamenev estava sempre
atrasada nos problemas revolucionários. Mas a ausência de uma grande concepção
política condena o político mais dotado de vontade a irresolução quando surgem
acontecimentos grandes e complicados. O empirismo de Estaline está aberto às
influências do exterior não do lado da vontade mas do lado do pensamento. É assim que
um publicista sem volição e um organizador sem horizonte levaram, em Março, o seu
bolchevismo até aos limites do menchevismo. Estaline, nas circunstâncias, encontrou-se
ainda menos que Kamenev capaz de ocupar uma posição deliberada no comité executivo
onde ele entrou como representante do partido. Não subsiste nos processos verbais ou

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na imprensa nenhuma proposição, declaração, protesto, pelos quais Estaline teria
exprimido o ponto de vista bolchevique em contrapartida da atitude rastejante da
«democracia» diante do liberalismo.
Sokhanov disse nas suas Memórias: «Entre os bolcheviques nessa época, além de
Kamenev, surgiu, no comité executivo, Estaline... Durante todo o tempo da sua modesta
actividade no comité executivo, (ele) produzia – não somente sobre mim – a impressão de
uma mancha cinzenta que, por vezes, saltitava, terno e rápidamente apagado. Na
verdade, não há nada a acrescentar sobre ele.» Se Sokhanov subestima evidentemente
Estaline no conjunto, pelo menos caracteriza exactamente a sua impersonalidade política
no comité executivo conciliador.
No 14 de Março, o manifesto «Aos povos do mundo inteiro», que interpretava a
vitória da Revolução de Fevereiro segundo os interesses da Entente e significava o triunfo
de um novo social patriotismo republicano de marca francesa, foi adoptado
unanimemente pelo Soviete. Isso marcava um sucesso indubitável para Kamenev—
Estaline, sucesso obtido, aparentemente, sem grande luta. A Pravda escrevia sobre isso
que tinha um «compromisso consciente entre as diversas tendências representadas no
Soviete». Convinha acrescentar que o compromisso marcava um nítida ruptura com a
corrente de Lenine que, no Soviete, não se encontrava de forma nenhuma representado.
O membro da redacção do órgão central no estrangeiro Kamenev, o membro do
comité central Estaline e o deputado na Duma, Moranov, igualmente regressado da
Sibéria, afastaram a antiga redacção da Pravda demasiado «à esquerda» e, apoiando-se
sobre os seus direitos problemáticos, meteram a mão no jornal a partir do 15 de Março.
No artigo/programa da nova redacção, declararam que os bolcheviques apoiavam o
governo provisório, «na medida onde este combate a reacção e a contra-revolução».
Sobre a questão da guerra, os novos dirigentes não se pronunciavam categóricamente:
enquanto que o exército alemão obedecesse ao imperador, o soldado russo devia «ficar
no seu posto, ripostar a todas as balas e aos obuses». «Nós não adoptamos a palavra de
ordem inconsistente «Abaixo a guerra!» Nossa palavra de ordem consiste em exercer
uma pressão sobre o governo provisório para o obrigar... a fazer uma tentativa com o
objectivo de dispor todos os países beligerantes a abrir imediatamente conversações...
Mas, até lá, cada um fica no seu posto de combate!»
As ideias, tal como as formulas, vão totalmente no sentido da defesa nacional. O
programa de pressão sobre o governo imperialista com o objectivo de o «dispor» a
procedimentos de acção pacífica era o programa de Kautsky na Alemanha, de Jean
Longuet em França, de MacDonald na Inglaterra, mas não era de forma nenhuma o
programa de Lenine que incitava ao derrube da dominação imperialista. Ao ripostar à
imprensa patriótica, a Pravda ia ainda mais longe: «Todo «derrotismo» - escrevia-se nela,
ou mais exactamente o que uma imprensa pouco delicada, sob a vigilância da censura
czarista, estigmatizava desse nome, morreu no momento onde, nas ruas de Petrogrado,
se mostrou o primeiro regimento revolucionário.» Era separar-se nitidamente de Lenine. O
«derrotismo» não tinha sido inventado pela imprensa inimiga sob a vigilância da censura,
era Lenine que a tinha formulado assim: «A derrota da Rússia, é o mal menor.» A aparição

210
do primeiro regimento revolucionário e mesmo a queda da monarquia não mudava em
nada o carácter imperialista da guerra. «No dia da saída do primeiro número da Pravda
transformada, no 15 de Março – conta Chliapnikov – foi um dia de jubilação entre os
partidários da defesa nacional. Todo o palácio Tauride, desde de gente de negócios do
comité da Duma do Estado, até ao próprio centro da democracia revolucionária – o comité
executivo retinia uma notícia: a vitória dos bolcheviques moderados, razoáveis, sobre os
extremistas. No próprio comité executivo, receberam-nos com sorrisos venenosos...
Quando esse número da Pravda chegou nas fábricas, causou uma profunda estupefacção
entre os membros do nosso partido e nos simpatizantes, assim que a satisfação
sarcástica entre os nossos adversários... A indignação nos bairros foi enorme, e quando
os proletários souberam que a Pravda tinha caído nas mãos de três dos seus antigos
dirigentes, regressados da Sibéria, exigiram a sua exclusão do partido.»
A Pravda logo foi obrigada a imprimir um veemente protesto dos militantes de
Vyborg: «Se o jornal não quer perder a confiança dos bairros operários, ele deve trazer e
trará a luz da consciência revolucionária, qualquer que seja a dor para as corujas da
burguesia.» Os protestos da base obrigaram a redacção a tornar-se mais circunspecta
nas suas expressões, mas a não mudar de política. Mesmo o primeiro artigo de Lenine
que pôde intervir do estrangeiro não mudou a consciência da redacção. A orientação ia
completamente para a direita. «Na nossa agitação – conta Dingelstedt, representante da
ala esquerda – é necessário contar sobre o princípio do duplo poder... e demonstrar a o
carácter inelutável desta via contornada a essa massa de operários e de soldados que,
durante quinze dias de vida política intensa, era educada na compreensão completamente
diferente das suas tarefas.»
A política do partido em todo o país regulava-se naturalmente sobre a Pravda. Nos
numerosos sovietes, resoluções sobre questões essenciais eram agora adoptadas
unanimemente: os bolcheviques inclinavam-se muito simplesmente diante da maioria
soviética. Na conferência de Moscovo, os bolcheviques juntaram-se à resolução dos
sociais patriotas sobre a guerra. Enfim, na Conferência pan-russa dos representantes de
oitenta e dois sovietes que teve lugar em Petrogrado, no fim de Março e no princípio de
Abril, os bolcheviques votaram pela resolução oficial sobre o poder defendida por Dan.
Essa aproximação política extremamente pronunciado com os mencheviques situava-se
na base das tendências unitárias que se tinham largamente desenvolvidas. Na província,
os bolcheviques e os mencheviques unificavam-se nas organizações comuns. A fracção
Kamenev—Estaline transformava-se cada vez mais numa ala esquerda da dita
democracia revolucionária e incorporava-se no mecanismo de «pressão», nos bastidores
parlamentares, sobre a burguesia, que ela completava por uma pressão, nos bastidores,
sobre a democracia.
Os membros do comité central que residiam no estrangeiro e a redacção do órgão
central, o Social-democrata, constituía o centro espiritual do partido. Lenine, com Zinoviev
na qualidade de auxiliar, fazia todo o trabalho de direcção. As obrigações do secretariado,
extremamente cheias de responsabilidades, eram cumpridas pela mulher de Lenine,
Krupskaia. Nesse trabalho prático, esse pequeno centro apoiava-se na ajuda de algumas
dezenas de bolcheviques emigrados. O afastamento da Rússia tornava-se, no decurso da

211
guerra, tanto mais insuportável que a polícia da Entente apertava cada vez mais os
entraves. A explosão da revolução, há muito esperada, foi imprevista. A Inglaterra recusou
categóricamente aos imigrados internacionalistas, dos quais ela mantinha metódicamente
em dia as listas, de os deixar passar para a Rússia. Lenine exasperava-se, numa gaiola
de Zurique, a procurar um saída. Numa centena de planos elaborados um após outro,
teve que atravessar com o passaporte de um escandinavo surdo-mudo.
Ao mesmo tempo, Lenine não perde uma ocasião de ouvir, da Suíça, a sua voz.
Desde do 6 de Março, telegrafou, por Estocolmo, para Petrogrado: «Nossa táctica:
desafio completo, nenhum apoio ao novo governo: desconfiemos de Kerensky:
armamento do proletariado – única garantia: eleições imediatas à Duma de Petrogrado:
nenhuma aproximação com outros partidos.» Só a exigência de eleições à Duma, e não
ao Soviete, tinha nesta primeira directiva um carácter episódico e foi logo rejeitada: os
outros pontos, formulados nos temos categóricos de um telegrama, desenham já
inteiramente a direcção geral da política. Além disso, Lenine começa a enviar à Pravda as
suas Cartas de longe que, continham uma análise inacabada da situação revolucionária.
Os notícias dadas pelos jornais do estrangeiro permitiram-lhe logo concluir que o governo
provisório, com a assistência directa não somente de Kerensky, mas também de
Tschkheidze, engana não sem sucesso os operários, ao apresentar a guerra imperialista
como uma guerra de defesa nacional. No 17 de Março, ele expediu por intermediário de
amigos em Estocolmo uma carta cheia de apreensões. «O nosso partido se desonraria
para sempre, se suicidaria políticamente, se ele admitisse semelhante impostura... Eu
preferia mesmo uma cisão imediata com qualquer um do nosso partido em vez de ceder
ao social-patriotismo...» Após esta ameaça, aparentemente impessoal, portanto calculada
para atingir certas pessoas, Lenine esconjura: «Kamenev deve compreender que em cima
dele cai uma responsabilidade histórica de importância mundial.» Kamenev é designado
porque se trata de questões de princípio da política. Se Lenine tivesse como perspectiva
uma tarefa prática de combate, ele ter-se-ia lembrado logo de Estaline. Mas justamente
no momento onde Lenine se esforçava de transmitir, através da Europa fumegante, para
Petrogrado, a tensão da sua vontade, Kamenev, com o concurso de Estaline, voltava
bruscamente para o social-patriotismo.
Diversos planos – perucas, maquilhagem, passaportes falsos ou emprestados –
caiam uns após outros, irrealizáveis. Ao mesmo tempo afirmava-se cada vez mais
concretamente a ideia da passagem pela Alemanha. Esse plano assustava a maior parte
dos emigrados e não somente os patriotas. Martov e os outros mencheviques não
ousaram juntar-se à audaciosa iniciativa de Lenine e continuaram a bater inutilmente às
portas da Entente. Recriminações sobre a passagem pela Alemanha foram feitas por
numerosos bolcheviques, por causa das dificuldades que o «vagão blindado» suscitou no
domínio da agitação. Lenine, desde do início não tinha esquecido as dificuldades futuras.
Krupskaia escrevia ao mesmo tempo antes da partida de Zurique: «Bem entendido, na
Rússia, os patriotas irão gritar, mas somos forçados a estar preparados.» A questão
colocava-se assim: ou ficar em Suíça, ou passar pela Alemanha. Nenhuma outra via não
estava aberta. Lenine poderia hesitar mais um minuto? Exactamente um mês mais tarde,
Martov, Axelrod e outro tiveram que se comprometer a seguir Lenine.

212
Na organização dessa viagem insólita através de um país inimigo em tempo de
guerra afirmava-se os traços essenciais de Lenine como homem político: a ousadia do
projecto e uma meticulosa circunspecção no exercício. Nesse grande revolucionário vivia
um notário pretencioso que, portanto, conhecia o seu lugar e empreendia a redacção do
seu acto no momento onde isso podia ajudar à destruição de todos os actos notariais. As
condições da passagem através da Alemanha, elaboradas com o máximo cuidado, deram
lugar a um tratado original internacional entre a redacção de um jornal de emigrados e o
império do Hohenzollern. Lenine exigia para o transito um direito absoluto de
extraterritorialidade: nenhum controlo sobre o contingente dos viajantes, seus passaportes
e sua bagagens, ninguém tem o direito de entrar no meio do percurso no vagão (daí a
legenda do vagão «blindado»). Pelo seu lado, o grupo de emigrados comprometia-se a
reclamar que se libertasse da Rússia um número correspondente de prisioneiros civis,
alemãs e austro-húngaros.
Em colaboração com alguns revolucionários estrangeiros uma declaração foi
elaborada: «Os internacionalistas russos que... regressam agora à Rússia para servir a
revolução ajudar-nos-ão ao levantamento dos proletários dos outros países, em particular
os proletários da Alemanha e da Áustria, contra seus governos.» Assim falava o processo
verbal assinado por Loriot e Guilbeaux pela França, por Paul Lévy pela Alemanha, por
Patten pela Suíça, pelos deputados suecos de esquerda, etc.. Nessas condições e com
essas precauções, partiram da Suíça, no fim do mês de Março, trinta emigrados russos,
no meio de vagões de munições – eles próprios sendo um cargamento explosivo de
extraordinária potência.
Na sua Carta de adeus aos operários suíços, Lenine lembrava a declaração feita
pelo órgão central dos bolcheviques durante o Outono de 1915: se a revolução leva na
Rússia ao poder um governo republicano desejando continuar a guerra imperialista, os
bolcheviques opor-se-ão à defesa da pátria republicana. Actualmente, apresenta-se esta
situação. «A nossa palavra de ordem: nenhum apoio ao governo Gotchkov—Miliokov.»
Falando assim, Lenine colocava o pé no território da revolução.
Os membros do governo provisório não se aperceberam portanto de qualquer motivo
para se alarmarem. Nabokov conta isto: «Numa sessão do governo provisório, em Março,
durante uma suspensão, então que se continuava a discutir a propaganda bolchevique
que se desenvolvia cada vez mais, Kerensky declarou com um riso histérico que lhe era
habitual: «Esperai um pouco, o próprio Lenine vem aí, e então isso vai tornar-se sério...»
Kerensky tinha razão: esperava-se ainda que isso se tornasse sério. Todavia, os ministro,
segundo Nabokov, não viam razão de se inquietar: «O facto que Lenine se tenha dirigido
à Alemanha enfraquecerá a sua autoridade que não há razão a temer.» Como era do seu
género, os ministros eram bastante perspicazes.
Os amigos e disciplos foram ao encontro de Lenine na Finlandia. «Logo após ter
entrado no compartimento e de se ter assentado no banco – conta Raskolnikov, jovem
oficial da marinha e bolchevique – Vladimir Illitch caiu logo sobre Kamenev: - O que é que
você escreve na Pravda? Nós vimos alguns números e injuriámos você...» Tal foi o
reencontro após vários anos de separação. O que não impediu que ele fosse cordial.

213
O comité de Petrogrado, com a ajuda da organização militar, tinha mobilizado vários
milhares de operários e soldados para receber solenemente Lenine. Uma divisão
amigável disposta, a dos autos blindados, tinha enviado para a ocasião todas as suas
máquinas. O comité decidiu ir à gare com as tripulações de guerra: a revolução tinha já
despertado uma paixão por esses monstros obtuses que é tão vantajoso ter do seu lado
nas ruas de uma cidade.
A descrição do encontro oficial que teve lugar na sala dita «imperial» da gare da
Finlandia constitui uma página muito viva nas Memórias de numerosos tomos espessos
de Sokhanov. «Na sala imperial entrou, ou melhor, acorreu Lenine, trajando um chapéu
melão, de rosto imóvel, tendo na mão um magnífico ramo de flores. Parando sua marcha
no meio da sala, colocou-se diante de Tchkheidze como se tivesse chocado com um
obstáculo inesperado. E aí, Tchkheidze, sem abandonar o seu ar triste, pronunciou o
«saudação» seguinte, mantendo não somente no espírito, não somente à redacção, mas
ao tom de uma lição de moral: «Camarada Lenine, em nome do Soviete de Petrogrado e
de toda a Revolução, saudamos a sua chegada à Rússia... Mas consideramos que a
tarefa principal da democracia revolucionária é agora defender a nossa revolução de
todos os atentados que poderiam lhe ser feitos contra ela, tanto do interior como do
exterior... Nós esperamos que com nós você continuará esses objectivos.» Tchkheidze
calou-se. Diante deste discurso inesperado, eu fiquei desconcertado... Mas Lenine,
evidentemente, sabia muito bem como se comportar diante de tudo isso. A sua atitude era
a de um homem que nada toca do que se passa à volta dele: ele olha de um lado e de
outro, examinou os rostos, levou o olhar até ao tecto da sala «imperial», compondo o seu
ramo (que não concordava nada com o conjunto da sua pessoa, e, seguidamente,
voltando as costas à delegação do comité executivo, «respondeu» assim: «Caros
camaradas, soldados, marinheiros e operários, estou feliz ao saudar em vocês a
revolução russa vitoriosa, saudá-los como a vanguarda do exército proletário mundial... A
hora não estará longe onde, ao apelo do nosso camarada Karl Liebknecht, os povos
voltarão as armas contra os capitalistas exploradores... A revolução russa realizado por
vós abriu uma nova época. Viva a revolução socialista mundial!...»
Sokhanov tem razão, - o ramo de flores concordava mal com o conjunto da
fisionomia de Lenine, estorva-o indubitavelmente e incomodava-o como um objecto sem
sentido no ambiente severo. E, além disso, Lenine não gostava de flores em ramo. Mas
devia ser de estar ainda mais incomodado por esta recepção oficial e hipocritamente
moralizadora num sala de aparato da gare. Tchkheidze valia melhor que o seu discurso de
recepção. Ele tinha um pouco medo de Lenine. Mas tinha-no persuadido que era preciso
metê-lo na ordem logo à chegada, «o sectário». Para completar o discurso de Tchkheidze,
que provava o nível lamentável da direcção, um jovem oficial das tripulações da frota,
falando em nome dos marinheiros, teve essa boa ideia de desejar que Lenine se tornasse
membro do governo provisório. Foi assim que a Revolução de Fevereiro, frouxa, prolixa e
ainda ingénua, recebia um homem que tinha vindo com a firme intenção de lhe impor
pensamento e vontade. Já, essas primeiras impressões de Lenine, aumentando muito a
inquietude que ele tinha ao chegar, provocaria um sentimento de protesto dificilmente
contida. Mais valia arregaçar as mangas depressa. Ao apelar a Tchkheidze, aos

214
marinheiros e aos soldados, à defesa da pátria, à revolução internacional, do governo
provisório a Liebknecht, Lenine só fazia, na gare, uma pequena repetição de toda a sua
política ulterior.
E, portanto, esta revolução pacóvia adoptou no primeiro momento e sólidamente o
líder no seu seio. Os soldados exigiram que Lenine tomasse lugar sobre um dos autos
blindados e ele obedeceu. A noite que caía deu ao cortejo um carácter particularmente
imponente. As luzes dos outros auto blindados estando apagadas, as trevas eram furadas
pela luz clara dos faróis da viatura na qual viajava Lenine. A luz projectada destacava na
escuridão das ruas grupos agitados de operários, de marinheiros, desses mesmos que
tinham realizado a maior das insurreições, mas que tinham deixado o poder escapar-se
entre seus dedos. A fanfara militar deixou de tocar, várias vezes, durante o percurso, para
dar a Lenine a possibilidade de repetir, com variantes, o discurso pronunciado na gare
diante de novos auditores. «O triunfo foi espantoso – dise Sokhanov – e mesmo bastante
simbólico.»
No palácio de Kszesinka, quartel general bolchevique no ninho sedoso da bailarina
da Corte - esta justaposição devia divertir a ironia de Lenine sempre desperta –
recomeçaram os cumprimentos. Era demasiado. Lenine aguentou chuvas de elogios de
forma que um peão impaciente suporta a chuva debaixo do limiar de um portão de
garagem. Ele sentia que se alegravam com a sua chegada, mas irritava-o esta alegre
grande eloquência. O próprio tom das felicitações oficiais parecia imitado, fingido, numa
palavra emprestada à democracia pequeno-burguesa, declamadora, sentimental e
falaciosa. Ele via que a revolução, não tendo ainda determinado as suas tarefas e o seu
caminho, tinha já instituido a sua etiqueta aborrecida. Ele sorria com uma bonomia
zangada, consultando seu relógio, e por instantes, não se incomodava provavelmente de
bocejar. As palavras do último arengo tinham apenas deixado de entoar quando o insólito
aconteceu vazando sobre o auditório uma cascata de ideias apaixonantes que ressoavam
demasiadas vezes como chicotadas.
Nesse tempo, a arte da estenografia ainda não tinha sido descoberta pelos
bolcheviques. Ninguém tomava notas, todos estavam absorvidos por aquilo que se
passava. O discurso não subsistia, só ficou uma impressão geral nas lembranças dos
auditores, mas esta mesma impressão geral foi modificada pelo tempo: o entusiasmo foi
crescendo, o pavor diminui. Portanto, a impressão principal, mesmo entre os mais
próximos de Lenine, era precisamente este terror. Toda as formulas habituais que,
parecia, tinha adquirido num mês uma solidez inquebrável graças aos inumeráveis
repetições, caíam uns após outros diante do auditório. A curta réplica de Lenine, na gare,
enviada por cima da cabeça de Tchkhedze embaraçado, foi aqui desenvolvida num
discurso de duas horas dirigido directamente aos quadros bolcheviques de Petrogrado.
Por acaso, a título de convidado, admitido graças à boa vontade de Kamenev –
Lenine tinha horror dessas indulgencias – assistia a essa sessão o sem partido Sokhanov.
Foi assim que nós temos uma descrição, feita por um observador do lado, meio hostil,
meio entusiasta, do primeiro encontro de Lenine com os bolcheviques de Petrogrado.

215
«Nunca mais esquecerei esse discurso trovejante, que fez tremer e deixou
estupefactos não só a mim, herético chegado lá por acaso, mas também todos os
ortodoxos. Afirmo que ninguém não esperava nada igual. Parecia que, das suas tocas, se
levantassem todos os elementos e que o espírito da destruição universal, não conhecia
limites, nem dúvidas, nem dificuldades humanas, nem cálculos humanos, planava no
salão de Kszesinska sobre as cabeças dos disciples embruxados.»
Dificuldades e cálculos humanos, para Sokhanov, são principalmente as hesitações
do pequeno círculo da redacção da Novaia Jisn, ao tomar o chá na casa de Máximo
Gorki. Os cálculos de Lenine eram mais profundos. Não eram elementos que rondavam
sala, era um pensamento humano que não intimidavam os elementos que se esforçavam
por os compreender para os dominar. Mas, pouco importa: a impressão está dada de
forma viva.
«Quando meus camaradas e eu chegámos aqui – dizia Lenine, segundo Sokhanov –
pensei que nos conduzissem directamente da gare à fortaleza de Pedro e Paulo. Como se
vê, estamos longe disso. Mas nós não perdemos esperança de escapar a isso ainda e de
a evitar.» No momento onde, para outros, o desenvolvimento da revolução equivalia à
consolidação da democracia, para Lenine a perspectiva mais imediata era de voltar para a
fortaleza de Pedro e Paulo. Disseram que era uma sinistra piada. Mas Lenine não se
dispunha de forma nenhuma a brincar, e a revolução menos que ele.
Sokhanov queixou-se: «Ele rejeitou a reforma agrária pela via legislativa assim como
o resto da política do Soviete. Ele proclama a confiscação organizada da terra pelos
camponeses, sem demora... qualquer que fosse o poder do Estado.»
«Nós não necessitamos de uma república parlamentar, nós não precisamos de uma
democracia burguesa, nem de nenhum governo fora dos sovietes de deputados
operários, soldados e operários agrícolas!»
Ao mesmo tempo, Lenine afastava-se claramente da maioria soviética, rejeitando-a
no campo dos adversários. «Nesse período, não era necessário muito para o auditor ter
vertigem!»
«Só, a esquerda de Zimmerwald preside a defesa dos interesses proletários e da
revolução mundial – exclamava Sokhanov, traduzindo com indignação as ideias de
Lenine. Os outros, são sempre os mesmos oportunistas que pronunciam belos discursos,
mas, na realidade,... atraiçoam a causa do socialismo e das massas operárias.»
«Ele cai resolutamente sobre a táctica precedente aplicada pelos grupos dirigentes
do partido e certos camaradas antes da sua chegada», acrescenta Rskolnikov às palavras
de Sokhanov. «Aqui estavam presentes o maiores militantes responsáveis do partido.
Mas, para eles também, o discurso de Illitch era uma verdadeira revelação. Ele traçou o
Rubicão entre a táctica da véspera e a do dia.» O Rubicão, como veremos, não foi
traçado de uma só vez.
Não houve debates sobre o relatório: todos estavam demasiado atordoados e cada
um tinha vontade de juntar pelo menos os seus pensamentos. «Saí para a rua – termina

216
Sokhanov: a minha sensação era de ter recebido, nessa noite, pancadas na cabeça. Uma
só coisa era clara: não, eu, selvagem, não caminharei com Lenine!» Acreditamos!
No dia seguinte, Lenine apresentou ao partido uma breve exposição escrita das suas
ideias que se tornaram um dos mais importantes documentos da revolução, sob a
denominação de «Teses de Abril». As teses exprimiam pensamentos simples, em termos
simples e acessíveis a todos. «A república que saiu da insurreição de Fevereiro não é a
nossa república, e a guerra que trava não é a nossa guerra. A tarefa para os bolcheviques
é de derrubar o governo imperialista. Mas este mantém-se graças ao apoio dos
socialistas-revolucionários e dos mencheviques, os quais se apoiam na confiança das
massas populares. Estamos em minoria. Nessa condições, está fora de questão um acto
de força da nossa parte. É necessário ensinar às massas a não se fiar nos conciliadores e
nos partidários da defesa nacional. «É preciso dar pacientemente explicações.» O
sucesso de uma tal política, imposta pelo conjunto das circunstâncias, é garantido e nos
levará à ditadura do proletariado, consequentemente nos conduzirá para além do regime
burguês. Nós queremos romper totalmente com o capital, publicar seus tratados secretos
e incitar os operários do mundo inteiro a quebrar com a burguesia e a liquidar a guerra.
Nós começamos a revolução internacional. Só o sucesso desta revolução consolidará a
nossa, e assegurará a passagem ao regime socialista.
As teses de Lenine foram publicadas em seu nome, e somente em seu próprio
nome. As instituições centrais do partido acolheram-as com um hostilidade que misturava
estupefacção. Ninguém – nem organização nem grupo, nem nenhum militante – não
juntou a sua assinatura. Mesmo Zinoviev, que tinha chegado com Lenine do estrangeiro
onde o seu pensamento se tinha formado, durante dez anos sob a influência directa e
diária de Lenine, afastou-se em silêncio. E esse afastamento não foi surpreendente para o
mestre que conhecia demasiado bem o seu próximo disciple. Se Kamenev era um
propagandista divulgador, Zinoviev era um agitador, e mesmo, segundo a expressão de
Lenine, era só isso. Par era um líder, faltava-lhe demasiado sentimento da
responsabilidade. Mas não era só isso que lhe faltava. Desprovido de disciplina interior,
seu pensamento era completamente incapaz d trabalho teórico e dissolveu-se na
instituição informe do agitador. Graças à um faro excepcionalmente subtil, ele apanhava
tudo no ar, as formulas que ele necessitava, isto é as que lhe ajudavam a mais efectiva
acção sobre as massas. E como jornalista, e como orador, era invariavelmente um
agitador, com a diferença que, nos seus artigos, mostra-se sobretudo pelos seus lados
fracos, enquanto que nos seus discursos os lados fortes ganham. Muito mais audacioso e
desenfreado na agitação que qualquer outro bolchevique, Zinoviev é ainda menos capaz
que Kamenev de uma iniciativa revolucionária. É irresoluto, como todos os demagogos.
Tendo trocado a arena dos conflitos de fracções pelas lutas de classes imediatas,
Zinoviev separava-se quase involuntariamente do seu mestre.
Nesses últimos anos, as tentativas não foram numerosas para demonstra que a crise
de Abril do partido tinha sido um deslize passageiro e quase acidental. Tudo isso afundou-
se no primeiro contacto com os factosi.

217
Já, o que nós sabemos da actividade do partido no decurso de Março, nos mostra
uma contradição muito profunda entre Lenine, a contradição tinha atingido a sua mais alta
tensão. Ao mesmo tempo que a conferência pan-russa dos representantes dos oitenta e
dois sovietes, onde Kamenev e Estaline votavam por uma resolução sobre o poder
deposta pelos socialistas-revolucionários e mencheviques, teve lugar em Petrogrado a
conferência do Partido, composta de bolcheviques vindos de todos os pontos da Rússia.
Para caracterizar as tendências e as opiniões do partido, ou mais exactamente da sua
camada superior, tal como ela saiu da guerra, a conferência à qual compareceu Lenine
como ela terminava, apresentando um interesse completamente excepcional. A leitura dos
processos verbais, não publicados até a esse dia, suscita mais que uma vez a admiração:
era o partido representado por esses delegados que em sete meses mais tarde deveria
tomar o poder com mão de ferro?
Desde da insurreição, um mês tinha passado – um longo período para uma
revolução como para uma guerra, todavia, no partido, as opiniões não se tinham ainda
clarificado sobre as questões mais essenciais da revolução. De patriotas extremos, tais
que Voitinsky, Eliav, e outro participavam na conferência ao lado dos que se
consideravam como internacionalistas. A percentagem de patriotas declarados
incomparavelmente menor que entre os mencheviques, era contudo importante. A
conferência, no seu conjunto, não resolveu a questão: cisões com os seus próprios
patriotas ou união com os patriotas do menchevismo. No decurso de uma interrupção de
sessão da conferência bolchevique, teve lugar uma reunião comum de bolcheviques e de
mencheviques, delegados da conferência dos sovietes, para discutir a questão da guerra.
O mais fogoso menchevique patriota, Liber, declarou nessa assembleia: «A distinção feita
há pouco entre bolcheviques e mencheviques deve ser afastada e é preciso somente falar
da nossa atitude em relação à guerra.» O bolchevique Voitinsky não tardou a proclamar
que ele estava pronto a apoia as palavras de Liver. Todos juntos, bolcheviques e
mencheviques, patriotas e internacionalistas, procuravam uma formula comum exprimindo
a sua atitude em relação à guerra.
As opiniões da conferência bolchevique encontraram indubitavelmente a sua
expressão mais adequada no relatório de Estaline sobre a atitude em relação do governo
provisório. É indispensável citar aqui a ideia central do relatório que, até ao presente, não
tinha sido publicado em parte alguma, nem mais que os processos verbais no seu
conjunto. «O poder é partilhado ente dois órgãos cujo todo o poder ninguém possui.
Fricções e uma luta entre eles existem e devem ser. Os papeis são partilhados. O Soviete
tomou a iniciativa das transformações revolucionárias: o Soviete é o líder revolucionário
do povo rebelado, órgão controlando o governo provisório. Mas o governo provisório
tomou de facto o papel de consolidar as conquistas do povo revolucionário. O Soviete
mobiliza as forças, exerce um controlo. O governo provisório, resistente, atrapalhado,
pretende consolidar as conquistas que o povo efectivamente fez. Esta situação tem lados
negativos, mas ela também tem positivos: nós não temos mais por agora que forçar a
marcha dos acontecimentos ao acelerar o processo de expulsão das camadas burguesas
que inevitavelmente, deverão se desligar de nós.»

218
As relações entre a burguesia e o proletariado desenham-se pelo relator, que se
situou acima das classes, como uma simples divisão de trabalho. Os operários e os
soldados realizam a revolução, Gotchkov e Miliokov «consolidam-na». Nós reconhecemos
aqui a concepção tradicional do menchevismo, inexactamente copiada nos
acontecimentos de 1789. São precisamente os líderes do menchevismo que caracterizam
esta atitude de inspectores diante do proceso histórico, esta maneira de distribuir as
tarefas às classes diversas e de criticar com um tom protector a sua execução. Esta ideia
que seria desvantajoso de levar à disjunção entre a burguesia e a revolução foi sempre o
critério mais elevado de toda a política dos mencheviques. Na realidade, isso significava:
embotar e enfraquecer o movimento de massas para não assustar os liberais aliados.
Enfim, a conclusão de Estaline sobre o governo provisório liga-se inteiramente à formula
equívoca dos conciliadores: «Na mediada onde o governo provisório consolide os
progressos da revolução, é necessário apoiá-lo: na medida onde esse governo é contra-
revolucionário, é inadmissível que seja apoiado.»
O relatório de Estaline foi lido no dia 29 de Março. No dia seguinte, o relator oficial
da conferência soviética, os social democrata sem partido Stieklov, preconizava a mesma
assistência condicional ao governo provisório, traçou, no calor do entusiasmo, um tal
quadro da actividade dos que «consolidam» a revolução – resistência às reformas sociais,
objectivos monárquicos, protecção cedida às forças contra-revolucionárias, apetites de
anexação – que a conferência bolchevique, alarmada, rejeitou a formula de apoio. O
bolchevique de direita Noguine declarou: O relatório de Stieklov trouxe uma ideia nova: é
claro que presentemente deve-se falar não do apoio mas da oposição.» Skrynik concluiu
igualmente que segundo o relatório de Stieklov «muito tinha mudado: impossível falar de
um apoio ao governo. Há conspiração do governo provisório contra o povo e a
revolução.» Estaline que, na véspera esboçava um quadro idílico da «divisão do trabalho»
entre o governo e o Soviete, considerou-se obrigado a suprimir o artigo relativo ao apoio.
Debates curtos e pouco profundos continuaram à volta da questão de saber se
apoiava o governo provisório «na medida onde...» ou somente os actos revolucionários do
governo provisório. Um delegado de Saratov, Vassiliev, declarava não sem razão: «A
atitude em relação ao governo provisório é a mesma em todos.» Kerensky formulou a
situação ainda mais cruamente: «Não há desacordos sobre as acções práticas de
Estaline e Voitinsky.» Ainda que Voitinsky tivesse, logo após a conferência, passado para
os mencheviques, Krestinsky não estava errado completamente: ao retirar a menção
explicita de apoio, Estaline não suprimia o próprio apoio. Tentou colocar a questão de
princípio a Krassikov, um desses velhos bolcheviques que se tinham afastado do partido
durante numerosos anos e que, agora, cheio de experiências da vida, tentava voltar às
suas fileiras. Krassikov não tinha medo de tomar o boi pelos cornos: vocês não têm
intenção de estabelecer a ditadura do proletariado? Perguntava ironicamente. Mas a
conferência deixou a ironia de lado, e a questão ao mesmo tempo, como não merecendo
atenção. A resolução da conferência pedia à democracia revolucionária de exortar o
governo provisório «à luta mais enérgica pela completa liquidação do antigo regime», isto
é reservava ao partido proletário um papel de dama de companhia junto da burguesia.

219
No dia seguinte foi discutida uma proposição de Tsertelli sobre a fusão dos
bolcheviques e mencheviques. Estaline considerou este convite com inteira simpatia:
«Devemos marchar. É indispensável fixar as nossas proposições sobre a linha de
unificação. A unificação é possível sobre a linha Zimmerwald-Kienthal.» Molotov, que tinha
sido expulso por Kamenev e Estaline da redacção da Pravda por ter dado uma direcção
demasiado radical ao jornal, formulou objecções: Tseretelli deseja unificar elementos de
toda a especie, ele próprio também se diz Zimmerwaldiano, a fusão sobre esta linha é um
erro mas Estaline teimava na sua ideia: «Não convém, dizia, antecipar e de prevenir os
diferendos. Sem acordo, não há vida de partido. No interior do partido, nós eliminaremos
os pequenos desacordos.»
Toda a luta que Lenine tinha travado, durante os anos de guerra, conta o social
patriotismo e a sua camuflagem pacifista, era reduzida a nada. Em Setembro de 1916,
Lenine escrevia com particular insistência por intermediário de Chliapnikov, em
Petrogrado: «O espírito de conciliação e de unificação que é o que existe de mais nocivo
para um partido operário na Rússia: não somente é uma idiotia, mas é a perca do
partido... Nós não podemos contar senão sobre os que compreenderam o engodo da
ideia de unidade e toda a necessidade de uma cisão com essa confraria (os Tchkheidze e
companhia) na Rússia.» Este aviso não tinha sido compreendido. As dissensões com
Tseretelli líder do bloc soviético dirigente, eram apresentados por Estaline como pequenos
desacordos que se poderiam «eliminar» do interior de um partido comum. Esse critério
deu a melhor avaliação das opiniões de então do próprio Estaline.
No 4 de Abril, no Congresso do partido, apareceu Lenine. O seu discurso,
comentando as «teses», passa sobre os trabalhos da Conferência como a esponja
húmida do mestre que apaga o quadro o que escreve o aluno embaraçado.
«Porque não se tomou o poder? Pergunta Lenine.
Na Conferência dos sovietes, Stieklov, um pouco antes, tinha explicado em termos
confusos os motivos evocados para se abster do poder: a revolução burguesa é uma
primeira etapa, - há a guerra, etc.. «São imbecilidades, declarou Lenine. O assunto reside
nisto que o proletariado não é suficientemente consciente nem suficientemente
organizado. É necessário reconhecer. A potência material está nas mãos do proletariado,
mas a burguesia encontrava-se lá, consciente e preparada. É um facto monstruoso, mas
é indispensável reconhecê-lo abertamente e francamente e declarar ao povo que não
tomámos o poder porque não estávamos organizados, nem conscientes.»
O plano da objectividade mentirosa, atrás da qual escondiam-se os cobardes da
política, Lenine transpunha todas as questões sobre o plano subjectivo. O proletariado
não tomou o poder em Fevereiro porque o partido dos bolcheviques não esteve à altura
das tarefas objectivas e não tinha podido impedir os conciliadores de expropriar
politicamente as massas populares em proveito da burguesia.
Na véspera, o advogado Krassikov lançava o desafío: «Se estimamos que o
momento chegou para realizar a ditadura do proletariado, é portanto assim que é
necessários meter a questão. A força física, no sentido da tomada do poder, nós a temos

220
indubitavelmente.» O presidente retirou então a palavra a Krassilov, alegando que se
ocupariam das tarefas práticas e que a questão da ditadura não tinha lugar nesse debate.
Mas Lenine considerando que a única tarefa prática era precisamente a questão de
preparar a ditadura do proletariado. «A particularidade do momento actual na Rússia-
dizia ele nas teses – é marcar uma transição entre a primeira etapa da revolução que deu
o poder à burguesia no seguimento da insuficiência de pensamento consciente e de
organização do proletariado, e a sua segunda etapa que deve trazer o poder às mãos do
proletariado e das camadas mais pobres do campesinato.»
A Conferência, seguindo a Pravda, limitava as tarefas da revolução às reformas
democráticas, realizáveis pela Assembleia constituinte. Em contrapartida, Lenine
declarou: «A vida e a revolução rejeitam a Assembleia constituinte para último lugar. A
ditadura do proletariado existe, mas não sabem o que fazer com isso.»
Os delegados interrogavam-se, se olhando. Eles diziam entre eles que Illitch,
eternizando-se no estrangeiro, não tinha visto as coisas bastante de perto, não as tinha
discernido. Mas o relatório de Estaline sobre uma sábia decisão do trabalho entre o
governo e o Soviete caiu logo e para sempre no insondável passado. O próprio Estaline
calou-se. Doravante ele deveria calar-se por muito tempo. Só Kamenev continuará a
defender-se.
Já, de Genebra, Lenine avisava por carta que ele estava pronto a romper com
qualquer um que aceitasse as concessões sobre as questões da guerra, do chauvinismo
e de uma conciliação com a burguesia. Agora, frente a frente com a camada dirigente do
partido, ele desencadeia o ataque sobre toda a linha. Mas, inicialmente, ele não nomeia
ninguém entre os bolcheviques. Se for necessário um exemplo vivo de falsidade e de
equívoco, ele indica com o dedo os sem partido, Stieklov ou Tchkheidze. É o
procedimento habitual de Lenine: nunca colar ninguém prematuramente à sua posição
para lhe dar a possibilidade aos mais prudentes de se retirarem antes da batalha e,
assim, enfraquecer os futuros adversários declarados. Kamenev e Estaline consideravam
que participando na guerra após a revolução de Fevereiro, o soldado e o operário
defendiam a revolução. Lenine considera que o soldado e o operário, como antes,
participam na guerra como escravos submetidos ao capital. «Mesmo os nossos
bolcheviques – diz ele, restringindo o círculo à volta dos adversários – manifestam
confiança ao governo. Isso só se pode explicar pelo delírio da revolução. É correr para a
perca do socialismo... Se assim é não caminharemos juntamente. Gosto mais ficar em
minoria.» Não é uma simples ameaça do orador. É uma diligência claramente meditada
até às suas consequência.
Sem nomear Kamenev nem Estaline, Lenine é portanto forçado a nomear o jornal:
«A Pravda exige do governo que ele renuncie às anexações, é uma inépcia, uma gritante
derisão...» Uma indignação contida trai-se aqui por uma nota alta. Mas o orador reprende-
se logo: ele quer dizer nada mais do que o mínimo indispensável, nada de mais. De
passagem, deslizando, Lenine dá inigualáveis regras de política revolucionária: «Quando
as massas declaram que elas não querem conquistas, acredito-as. Quando Gotchkov e
Lvov declaram que não querem conquista, eles mentem. Quando o operário diz que quer

221
a defesa do país, o que fala nele, é o instinto do oprimido.» Esse critério, para o designar
pelo seu nome, parece simples como a própria vida. Mas a dificuldade é designá-lo no
proprio tempo pelo seu nome.
A propósito do Manifesto do Soviete «Aos povos do mundo inteiro», que forneceu o
pretexto à Rietch liberal de declarar no seu tempo que o tema do pacifismo se
desenvolvia entre nós numa ideologia comum com a dos nossos aliados, Lenine exprimiu-
se com mais precisão e vivacidade: «O que é particular à Rússia, é uma transição a
passo de gigante de uma opressão selvagem a mais subtil impostura.»
«Este apelo – escrevia Estaline sobre o Manifesto – se ele atinge as largas massas
(do Ocidente), trazer-à sem dúvida centenas e milhares de operários à palavra de ordem
esquecida: «Proletários de todos os países, uni-vos.»
«O apelo do Soviete – respondeu Lenine: não há uma só palavra com sentido da
consciência de classe. Só há lá fraseologia.» O documento do qual estavam muito
orgulhosos os zimmerwaldianos que nunca tinham saído de casa era aos olhos de Lenine
um dos instrumentos da «mais subtil impostura».
Antes da chegada de Lenine, a Pravda não mencionava geralmente a esquerda de
Zimmerwald. Falando da internacional, ela não indicava qual. É o que Lenine chamava o
«kautskysmo» da Pravda. «Em Zimmerwald e Kienthal declara na conferência do partido
– o centro obteve a preponderância... Existe uma corrente da esquerda de Zimmerwald
em todos os países do mundo. As massas devem discernir que o socialismo está dividida
no mundo inteiro...»
Três dias antes, Estaline proclamava-se, nessa mesma conferência, completamente
disposto a eliminar os desacordos com Tseretelli, na base de Zimmerwald-Kienthal, isto é
sobre as bases do kautskysmo. «Soube que na Rússia manifesta-se uma tendência
unificadora – dizia Lenine: unir-se com os partidários da defesa nacional, é trair o
socialismo. Penso que é melhor ficar só como Liebknecht. Só contra cento e dez». A
acusação de trair o socialismo, por enquanto ainda sem designação de pessoas, não é
simplesmente uma palavra dura: ela exprime integralmente a atitude de Lenine em
relação aos bolcheviques que estendem um dedo aos sociais-patriotas. Em oposição a
Estaline, que julga possível fusionar com os mencheviques, Lenine considera intolerável
que se mantenha em comum com eles o nome de social-democracia. «Falando em meu
nome pessoal - declara – proponho mudar a denominação do partido, de nos nomearmos
Partido comunista.» «Em meu nome pessoal», isso significa que ninguém, nem um
membro da Conferência, não consentia a esse gesto simbólico de uma ruptura com a II
internacional.
«Temem trair as vossas lembranças?» Diz o orador aos delegados desconcertados,
embaraçados, parcialmente indignados. Mas chegou o momento «de mudar de linha, é
preciso retirar a camisa suja e meter uma lavada». E insiste de novo: «Não vos agarreis a
uma velha palavra de ordem que está completamente podre. Se vós quereis edificar um
novo partido... todos os oprimidos virão a vós.»

222
Diante da grandiosa tarefa a iniciar, diante dos problemas das ideias nas suas
próprias fileiras, o pensamento do tempo estúpidamente perdido em recepções, em
felicitações, em resoluções rituais arranca ao orador esta queixa: «Basta de felicitações,
de resoluções, é tempo de se meter ao trabalho, de empreender um trabalho eficaz e
reflectido.»
Uma hora depois, Lenine foi obrigado a repetir o seu discurso numa reunião geral,
fixada previamente, dos bolcheviques e dos mencheviques, e o seu arengo pareceu à
maioria dos auditores ser qualquer coisa entre o delírio e a zombaria. Os mais indulgentes
encolhiam os ombros. Este homem tinha evidentemente caído da Lua: após a ausência
de dez anos, apenas desceu os degraus do patamar da gare de Finlandia, eis que prega
a tomada do poder pelo proletariado. Os menos complacentes dos patriotas lembravam o
vagão blindado. Stankenvitch testemunha que o discurso de Lenine contenta muito os
seus adversários: «Um homem que diz tais asneiras não é perigoso. Ainda bem que ele
chegou: agora, só temos que o ver:... agora, é ele próprio que se refuta.»
E portanto, com toda a ousadia da sua empresa revolucionária, inflexivelmente
decidido em romper mesmo com os antigos partidários do seu pensamento e camarada
de combate se eles fossem incapazes de acertar o passo com a revolução, o discurso de
Lenine, cujas partes são equilibradas entre elas, é penetrado de um profundo realismo e
de um infalível sentimento de massa. Mas é precisamente por isso que ele parecia
fantasioso aos democratas que patinavam à superficie.
Os bolchevique são uma pequena minoria nos sovietes, e Lenine medita na tomada
do poder. Não é espírito de aventura? Não há sombra na maneira que Lenine colocava a
questão. Nem um minuto ele fechou os olhos sobre a existência de uma «honesta»
mentalidade de defesa nacional nas largas massas. Sem se absorver por elas, ele não se
dispõe portanto a agir nas suas costas. «Nos não somos charlatães, - dirige-se em
direcção às futuras objecções e acusações, - nós devemos nos basear somente na
consciência da massas. Mesmo se devemos ficar em minoria, é bom. Vale a pena
renunciar por um tempo a uma situação dirigente, não tememos ficar em minoria.» Não
temer ficar em minoria, um só, como Liebknecht contra cento e dez! Tal é o motivo
condutor do discurso.
«O verdadeiro governo é o Soviete dos deputados operários... No Soviete, nosso
partido está em minoria... Nada a fazer! Só nos resta explicar pacientemente,
perseverantemente, sistemáticamente, a aberração da sua táctica. Enquanto estamos em
minoria realizamos um trabalho de crítica para libertar as massas da impostura. Nós não
queremos que as massas nos acreditem cegamente. Não somos charlatães. Nós
queremos que as massas se libertem pela experiência dos seus erros.» Não temer ficar
em minoria, não para sempre, mas temporariamente. A hora do bolchevismo soará.
«Nossa linha mostrar-se-à justa... Todo o oprimido virá connosco porque a guerra o trará.
Não outra saída há para ele.»
«A Conferência de unificação – conta Sokhanov – Lenine mostrou-se como a
incarnação própria da cisão... Lembro-me de Bogdanov (menchevique notável), sentado a
dois passos da tribuna dos oradores. Mas enfim é delirante, - gritou, interrompendo

223
Lenine, - é o delírio de um louco. É vergonhoso aplaudir essa trapalhada – grita ele,
voltando-se para o auditório, vermelho de cólera e de desprezo – você desonra-se?
Marxista?»
Um antigo membro do Comité central bolchevique, Goldenberg, que se mantinha
nessa época fora do partido, apreciou nos debates as teses de Lenine nestes termes
desprezíveis: «Durante muitos anos, o lugar de Bakunine na revolução russa ficou livre:
agora, ela foi tomada por Lenine.»
«O seu programa – contou mais tarde o socialista-revolucionário Zenzinov –
levantou então mais zombaria que indignação, tanto ele parecia a todos estúpido e
quimérico.»
Na noite do mesmo dia, numa conversa entre dois socialistas, e Miliokov,
antecedente à Comissão de contacto, falaram de Lenine. Skobeliev considerou-o como
«um homem absolutamente acabado, situado fora, situado fora do movimento».
Sokhanov deu a seu apoio ao julgamento de Skobelev e acrescentou que Lenine «era até
tal ponto indesejável para todos que nesse momento que era inofensivo para o
interlocutor Miliokov». A distribuição das tarefas, nessa conversa, apareceu todavia tal
como Lenine tinha previsto: os socialistas queriam preservar a tranquilidade do liberal
contra as preocupações que lhe podia dar o bolchevismo.
Mesmo o embaixador da Inglaterra ouvi rumor das histórias segundo as quais Lenine
era reconhecido mau marxista. «Entre os anarquistas recém chegados – notou Buchanan
– se encontrava Lenine, vindo da Alemanha em vagão blindado. Mostrou-se publicamente
pela primeira vez numa reunião do partido social-democrata e foi mal recebido.»
Mais indulgente que os outros para Lenine foi talvez nesses dias Kerensky, o qual
declara inesperadamente, num círculo dos membros do governo provisório, que tinha a
intenção de visitar Lenine, e explicou, em resposta às questões surpreendentes, assim:
«Mas ele vive verdadeiramente numa atmosfera completamente isolada, ele não sabe
nada, ele vê tudo através de lentes deformada pelo seu fanatismo, ele não tem perto dele
ninguém que o ajude um pouco a orientar-se no que se passa.» Tal é o testemunho de
Nabokov. Mas Kerensky mesmo assim não teve um momento livre para orientar Lenine
do que se passava.
As teses de Abril de Lenine não provocaram somente a indignação estupefacta dos
inimigos e adversários. Eles rejeitaram um certo número de velhos bolcheviques no
campo do menchevismo ou no grupo intermediário que se agregava à volta do jornal de
Gorki. Esta evasão não teve importância política séria. Infinitamente mais grave foi a
impressão que produziu a atitude de Lenine sobre toda a camada dirigente do partido».
Nos primeiros dias seguintes à sua chegada, escreve Sokhanov – seu isolamento
completo no meio de todos os camaradas do partido conscientes não faz a menor
dúvida.» «Mesmo os seus camaradas de partido – confirma o socialista-revolucionário
Zenzinov – os bolcheviques pasmados, desviaram-se dele.» Os autores dessas opiniões
encontravam-se todos os dias com os dirigentes bolcheviques, no comité executivo, e
tinham informações de primeira mão.

224
Mas idênticos testemunhos não faltam, mesmo nas fileiras bolcheviques. «Quando
apareceram as teses de Lenine – lembrava mais tarde Tsikhon, atenuando muito as cores
como a maioria dos velhos bolcheviques que tropeçaram na Revolução de Fevereiro –
sentia-se no nosso partido certas oscilações. Vários camaradas indicaram que Lenine
tinha um desvio sindicalista, que se tinha afastado da Rússia, que não considerava o
momento presente, etc..» Um dos militantes bolchevique notáveis na província, Lebediev,
escreveu: «Após a chegada de Lenine à Rússia, a sua agitação – no início não era
completamente compreensível para nós, bolcheviques – que parecia utópico e explicava-
se pelo seu longo afastamento da vida russa, foi pouco a pouco assimilada por nós e
entra por assim dizer no nossa carne e nosso sangue. Zalejsky, membro do Comité de
Petrogrado e um dos organizadores da recepção, exprimiu-se mais claramente: «As teses
de Lenine não encontrou partidário declarado, mesmo nas nossas fileiras.»
Mais importante é todavia o testemunho do Pravda. No dia 8 de Abril, quatro dias
após a publicação das teses, quando se podia já explicar e compreender entre si de uma
maneira suficiente, a redacção da Pravda escrevia: «No que diz respeito ao esquema
geral do camarada Lenine, parece-nos inaceitável na medida onde ele apresenta como
acabada a revolução democrática burguesa e conta sobre a transformação imediata desta
revolução em revolução socialista.» O órgão central do partido declarava assim,
abertamente, diante da classe operária e dos seus inimigos, seu desacordo com o líder
unanimemente reconhecido sobre a questão crucial da revolução a qual os quadros
bolcheviques se tinham preparado durante longos anos. Esta divergência foi suficiente
para apreciar toda a profundidade da crise do partido em Abril proveniente de um conflito
entre duas linhas inconciliáveis. Se esta crise não fosse ultrapassada, a revolução não
podia fazer um passo em frente.

225
O rearmamento do partido
Como se explica o isolamento excepcional de Lenine no início de Abril? Como se
pôde criar tal situação? E como foi obtido o rearmamento dos quadros bolcheviques?
Desde 1905, o partido bolchevique travava a luta contra a autocracia sob a palavra
de ordem de uma «ditadura democrática do proletariado e dos camponeses». Essa
palavra de ordem, assim que a sua argumentação teórica, provinha de Lenine. Ao avesso
dos mencheviques, cujo teórico, Plekhanov, combatia irredutivelmente «a ideia falsa da
possibilidade de realizar uma revolução socialista sem a burguesia» - Lenine considerava
que a burguesia russa era incapaz de dirigir a sua própria revolução. Para realizar a
revolução democrática contra a monarquia e os proprietários de terras, só o podia fazer o
proletariado e o campesinato estreitamente unidos. A vitória desta união devia, segundo
Lenine estabelecer uma ditadura democrática, que não somente se identificava a ela,
mas, pelo contrário, opunha-se-lhe, porque se atribuía a tarefa não para estabelecer uma
sociedade socialista, nem mesmo criar formas transitórias a caminho dessa sociedade,
mas somente limpar sem cuidados os estábulos de Aúgias da Idade Média.
O começo da luta revolucionária era completamente determinado por três palavras
de ordem – república democrática, confiscação das terras dos proprietários nobres, dia de
trabalho de oito horas – o que se chamava familiarmente as «três baleias» do
bolchevismo, em alusão às baleias sobre as quais, segundo uma velha crença popular,
repousa o globo terrestre.
A questão de saber se a ditadura democrática do proletariado e dos camponeses era
realizável resolvia-se em função de outra questão, a da capacidade do campesinato em
cumprir a sua própria revolução, isto é constituir um novo poder apto a liquidar a
monarquia e a propriedade latifundiária dos nobres. É verdade que a palavra de ordem da
ditadura democrática supunha também a participação no governo revolucionário dos
representantes operários. Mas esta participação era antecipadamente limitada pelo papel
do proletariado, como aliado de esquerda, na solução dos problemas da revolução
camponesa.
A ideia popular e mesmo oficialmente reconhecida da hegemonia do proletariado na
revolução democrática, não podia, em consequência, significar outra coisa senão que o
partido operário ajudaria os camponeses com as armas políticas dos seus próprios
arsenais, sugerindo-lhes os melhores procedimentos e métodos de liquidação da
sociedade feudal e mostrar-lhes-ia como aplicar esses meios. De qualquer modo, o que
se dizia do papel dirigente do proletariado na revolução burguesa não significava de forma
alguma que o proletariado utilizaria a insurreição camponesa para actualizar, ao se apoiar
sobre ela, as suas próprias tarefas históricas, isto é, a passagem directa a uma sociedade
socialista. A hegemonia do proletariado na revolução democrática distinguia-se
nitidamente da ditadura do proletariado e opunha-se a ela nas suas polémicas. Sobre
estas ideias que o partido bolchevique se tinha educado desde da Primavera de 1905.

226
A caminhada efectiva da Revolução de Fevereiro ultrapassou o esquema habitual do
bolchevismo. A revolução era, na verdade, realizada por uma aliança dos operários e dos
camponeses. O facto que os camponeses agiam principalmente sob o aspecto de
soldados não mudava ao assunto. A conduta do exército camponês do czarismo teria tido
uma importância decisiva mesmo se a revolução tivesse acontecido em tempo de paz.
Tanto mais natural que, nas condições da guerra, um exército de vários milhões de
homens tenha, nos primeiros tempos, escondido o campesinato. Após a vitória da
insurreição, os operários e os soldados encontraram-se mestres da situação. Nesse
sentido, poder-se-ia dizer, parece, que uma ditadura democrática dos operários e
camponeses se tinha estabelecido.
Portanto, na realidade, a Revolução de Fevereiro tinha trazido um governo burguês,
no qual o poder das classes possuidoras era limitado por um poder dos sovietes de
operários e de camponeses não realizado até ao fim. Todas as cartas encontraram-se
embaralhadas. No lugar de uma ditadura revolucionária, isto é da autoridade mais
concentrada, estabeleceu-se o regime de uma frouxa dualidade de poderes, onde a fraca
energia dos círculos governantes se despendia infrutuosamente a ultrapassar as
contrariedades interiores. Ninguém não tinha previsto esse regime. Além disso, não se
pode exigir que um prognóstico indique não somente as tendências essenciais de um
desenvolvimento, mas também as suas combinações episódicas. «Quem pôde fazer uma
grande revolução sabendo previamente como a fazer até ao fim? - perguntava Lenine.
Onde se poderia tomar tal ciência? Não se aprende nos livros. Não há livros para isso. É
precisamente da experiência das massas que pôde nascer a nossa decisão.»
Mas o pensamento humano é conservador, e a dos revolucionários, por vezes, mais
particularmente. Os quadros bolcheviques na Rússia continuavam a manter o velho
esquema e não consideravam a Revolução de Fevereiro – ainda se ele comportava
evidentemente nele dois regimes incompatíveis – que como uma primeira etapa de uma
revolução burguesa. No fim de Março, Rykov enviou da Sibéria à Pravda, em nome dos
sociais-democratas, um telegrama de felicitações sobre a vitória da «revolução nacional»
cuja tarefa era «a conquista da liberdade política». Todos os bolcheviques dirigentes, sem
nenhuma excepção – nós não conhecemos alguma – consideravam que a ditadura
democrática estava ainda no futuro. Quando o governo provisório da burguesia «se
esgotará», uma ditadura democrática dos operários e dos camponeses se estabelecerá,
preliminar a um regime parlamentar burguês.
Era uma perspectiva completamente errada. O regime saído da Revolução de
Fevereiro, longe de preparar uma ditadura democrática, foi a demonstração viva e integral
da impossibilidade desta ditadura em geral. Que a democracia conciliadora, não por
acaso, não pela leviandade de Kerensky e a inteligência limitada de Tchkheidze, tenha
transmitido o poder aos liberais, ela demonstrou por esse facto que, nos oito meses que
seguiram, ela lutou com todas as suas forças para manter o governo burguês, esmagar os
operários, os camponeses, os soldados. E caiu, no 25 de Outubro, no seu posto de aliado
e de advogado da burguesia. Mas, mesmo desde do princípio, era claro que se a
democracia, tendo diante dela tarefas gigantescas e o apoio ilimitado das massas, tinha
renunciado de sua própria vontade ao poder, isso era provocado não por princípios ou

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preconceitos políticos, mas pela situação desesperada da pequena burguesia na
sociedade capitalista, particularmente em período de guerra e de revolução, quando se
decidem as questões fundamentais da existência dos países, dos povos e das classes. Ao
remeter o ceptro à Miliukov, a pequena burguesia dizia: não, essas tarefas estão acima
das minhas forças.
O campesinato tendo erigido sobre ela própria a democracia conciliadora, contem,
numa forma primitiva, toda as classes de uma sociedade burguesa. Com a pequena
burguesia urbana que, na Rússia, não desempenha portanto nunca um papel sério, o
campesinato é o protoplasma onde novas classes se diferenciaram no passado, e
continuam a se diferenciar no presente. O campesinato tem sempre duas caras: uma
virada para o proletariado, a outra para a burguesia. A posição intermediária, mediadora,
conciliadora dos partidos «camponeses», do género do partido socialista-revolucionário,
não pode manter-se senão nas condições de um relativo marasmo político; numa época
revolucionária, o momento acontece inevitavelmente onde a pequena burguesia é
obrigada a escolher. Os socialistas-revolucionários e os mencheviques fixam a sua
escolha desde da primeira hora. Eles liquidaram no ovo a «ditadura democrática» para a
impedir de se tornar um ponto de passagem para a ditadura do proletariado. Mas mesmo
por aí, eles abriram caminho a esta última, somente do outro lado: não através deles, mas
contra eles.
O desenvolvimento ulterior da revolução não podia proceder, evidentemente, senão
a partir de factos novos e não de velhos esquemas. Pelos seus representantes, as
massas, meio contra vontade, meio inconscientemente, foram arrastadas no mecanismo
do duplo poder. Elas tiveram desde então que passar por aí para constatar por
experiência que esse mecanismo não podia dar-lhe nem paz, nem a terra. Afastar o
regime do duplo poder significa doravante, para as massas, romper com os socialistas-
revolucionários e os mencheviques. Mas é absolutamente evidente que a conversação
política dos operários e dos soldados para o bolchevismo, derrubando todo o edifício do
duplo poder, já não podia significar nada senão o estabelecimento de uma ditadura do
proletariado, apoiada na aliança dos operários e camponeses. No caso de uma derrota
das massas populares, sobre as ruínas do partido bolchevique não podia estabelecer-se
senão uma ditadura do capital. A «ditadura democrática» nos dois casos era excluída. Ao
dirigir a sua atenção para ela, os bolcheviques voltavam-se de facto para um fantasma do
passado. É sob este aspecto que os encontrou Lenine, chegado com a inflexível intenção
de meter um partido numa nova via.
O próprio Lenine, na verdade, não tinha substituído a formula da ditadura
democrática por outra, mesmo condicionalmente, mesmo hipotéticamente, até ao início da
Revolução de Fevereiro. Era justo? Pensamos que não. O que se passou no partido após
a insurreição mostrava de maneira demasiado ameaçadora o atraso do rearmamento
teórico que, aliás, nas condições dadas, só Lenine podia operar. Ele preparou-se para
isso. Ele levou ao rubro o aço e temperou no fogo da guerra. Aos seus olhos tinha-se
modificado a perspectiva geral do processo histórico. As perturbações da guerra tinham
bruscamente aproximado os prazos possíveis de uma revolução socialista no Ocidente.
Aliás, para Lenine, a revolução russa, ainda democrática, devia dar um impulso à

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insurreição socialista na Europa, que, seguidamente, devia arrastar também a Rússia
atrasada nesse turbilhão. Tal era a concepção geral de Lenine quando deixou Zurique. A
carta ao operários suíços, que já citámos, diz isto:
«A Rússia é um país de camponeses, um dos países mais atrasados da Europa. O
socialismo aí não pode sair directamente e imediatamente vencedor. Mas o carácter rural
do país, onde se conservaram enormes edifícios de proprietários nobres, pode, na base
da experiência de 1905, contribuir para o desenvolvimento da revolução democrático-
burguesa na Rússia e fazer da nossa revolução o prólogo de uma revolução socialista
mundial, um degrau de acesso a esta.»
Nesse sentido, Lenine escrevia então pela primeira vez que o proletariado russo
começaria a revolução socialista.
Tal era o ponto de junção entre a antiga posição do bolchevismo que limitava a
revolução aos objectivos democráticos, e a nova posição que Lenine expôs pela primeira
vez diante do partido nas suas teses de 4 de Abril. A perspectiva da passagem imediata à
ditadura do proletariado parecia absolutamente inesperada, contrária à tradição, e, enfim,
simplesmente falando, não entrava nos cerebros. Aqui, é indispensável lembrar que, até à
explosão da Revolução de Fevereiro e nos primeiros tempos depois dela, o que se
chamava trotskismo não era a ideia que, nas fronteiras nacionais da Rússia, não se pôde
erguer uma sociedade socialista (ideia de tal «possibilidade» não foi exprimida por
ninguém até 1924, e é duvidoso que ela tenha vindo ao espírito de alguém – o que se
chamava trotskismo, era esta ideia que o proletariado da Rússia pode se encontrar no
poder mais cedo que o do Ocidente, e que nesse caso ele não poderia manter-se no
quadro da ditadura democrática, mas devia se atacar às primeiras medidas socialista.
Não é de admirar que as teses de Abril de Lenine tenham sido reprovadas como sendo
trotskistas.
Os objecções dos «velhos bolcheviques» desenvolviam-se em várias linhas. O
debate principal consistia em saber se a revolução democrática burguesa estava
completamente terminada. Dado que a revolução agrária não tinha ainda sido realizada,
os adversários de Lenine podiam afirmar com razão que a revolução democrática não
tinha sido levada até ao fim e, seguidamente, concluíam, não há lugar para uma ditadura
do proletariado, mesmo se as condições sociais da Rússia permitiam em geral essa
ditadura num período mais ou menos próximo. Foi assim que a redacção da Pravda
colocava a questão numa passagem que nós citámos. Mais tarde, na Conferência de
Abril, Kamenev repetia:
«Lenine está errado quando diz que a revolução democrática-burguesa está
terminada… Sobrevivência clássica do feudalismo - a propriedade latifundiária dos nobres
– ainda não está liquidada… O Estado não se transformou em sociedade democrática…
É muito cedo para dizer que a democracia burguesa esgotou todas as suas
possibilidades.»

229
«A ditadura democrática – respondia Tomsky – eis a nossa base… Nós devemos
organizar o poder do proletariado e do campesinato e devemos separar a Comuna, dado
que lá não existe senão o poder do proletariado.»
«Diante de nós colocam-se imensas tarefas revolucionárias retomava Rykov. Mas a
realização dessas tarefas não nos conduz ainda para além dos quadros do regime
burguês»
Lenine via, certamente, tão bem como os seus detractores, que a revolução
democrática não estava terminada, ou, mais exactamente, que apenas iniciada ela
recuava já na traseira. Mas daí precisamente resultava que não seria possível levá-la até
ao fim sob o domínio de uma nova classe e não se podia chegar lá senão em arrancando
as massas à influência dos mencheviques e dos socialistas-revolucionários, isto é à
influência indirecta da burguesia liberal. A ligação desses partidos com os operários e
particularmente com os soldados alimentava-se da ideia de defesa - «defesa do país» ou
melhor «defesa da revolução». Lenine exigia, por consequência, uma política
intransigente em relação de todas as nuanças do social-patriotismo. Afastar o partido das
massas atrasadas para seguidamente libertar essas massas do seu estado atrasado.
«O velho bolchevismo deve ser abandonado – repetia ele. É indispensável separar a
linha pequena-burguesa da do proletariado assalariado.»
Do ponto de vista superficial, poderia parecer que os adversários perpétuos tinham
mudado as suas armas. Os mencheviques e os socialistas-revolucionários representavam
agora a maioria dos operários e dos soldados, como se eles realizavam de facto a aliança
política do proletariado e do campesinato que tinham sempre pregado os bolcheviques
contra os mencheviques. Ora, Lenine exigia que a vanguarda proletária saísse dessa
aliança. Na realidade, cada um dos partidos continuava fiel a ele próprio. Os
mencheviques, como sempre, julgavam que a sua missão era de apoiar a burguesia
liberal. Sua aliança com os socialistas-revolucionários era somente um meio de alargar e
de consolidar esse apoio. Em contrapartida, a ruptura da vanguarda proletária com o
bloco pequeno-burguês significava a preparação de uma aliança dos operários e dos
camponeses sob a direcção do partido bolchevique, isto é a ditadura do proletariado.
Objecções de outro tipo estavam baseadas sobre o estado atrasado da Rússia. O
poder da classe operária significa inevitavelmente a passagem para o socialismo. Mas a
economia e a cultura da Rússia não estão maduras para isso. Nós devemos levar até ao
fim a revolução democrática. Só a revolução socialista no Ocidente pode justificar entre
nós a ditadura do proletariado. Tais eram as objecções de Rykov na conferência de Abril.
As condições culturais e económicas da Rússia eram em si insuficientes para a edificação
de uma sociedade socialista - era para Lenine o ABC. Mas a sociedade não está de forma
nenhuma estruturada tão racionalmente que os prazos para uma ditadura do proletariado
caiam no momento onde as condições económicas e culturais amadureçam para o
socialismo. Se a humanidade se desenvolvesse tão regularmente, não seria necessário
ditadura, nem tão pouco revoluções em geral. Uma sociedade histórica viva é pouco
harmoniosa, tanto mais que o seu desenvolvimento é mais tardio. A expressão da
inarmonia encontra-se no facto que, num país atrasado como a Rússia, a burguesia

230
decompôs-se antes da vitória completa do regime burguês e que, para a substituir, na
qualidade de dirigente da nação, só havia o proletariado. O estado económico atrasado
da Rússia não dispensa a classe operária da obrigação de concretizar a tarefa que ela
própria se impôs, mas condiciona somente esta realização por dificuldades extremas.
Rykov, que repetia que o socialismo deve vir de países onde a indústria está mais
desenvolvida, Lenine dava uma resposta simples, mas suficiente:
«Não se pode dizer quem começará ou, nem quem acabará.»
Em 1921, quando o partido, ainda longe de se anquilosar burocraticamente, metia
tanta liberdade a apreciar o seu passado como a preparar o seu futuro, um dos mais
antigos bolcheviques, Olminsky, que tinha colaborado como dirigente na imprensa do
partido em todas as etapas do seu desenvolvimento, questionava-se como explicar que
no momento da Revolução de Fevereiro, o partido encontrou-se numa via oportunista. E o
que permitiu ao partido bifurcar bruscamente para o caminho de Outubro? A fonte dos
erros de Março aparece ao dito autor, justamente, no facto que o partido tinha
«exageradamente prologando» a sua orientação a caminho de uma ditadura democrática.
«A revolução que se anuncia não pode ser uma revolução burguesa … Era, disse
Olminsky – um julgamento obrigatório para todo o membro do partido, era a opinião oficial
do partido, sua palavra de ordem constante e invariável, até à Revolução de Fevereiro de
1917 e mesmo algum tempo depois.»
Para ilustrar a afirmação, Olminsky teria podido mencionar que a Pravda, ainda
antes de Estaline e Kamenev, isto é com uma redacção «de esquerda» que incluía o
próprio Olminsky, escrevia (7 de Março) como qualquer coisa evidente:
«Bem entendido, entre nós não se põe ainda a questão da queda da dominação do
capital, trata-se somente da queda da autocracia e do feudalismo… »
A falta de visão se deve que em Março o partido estava preso à democracia
burguesa. «Donde veio então a Revolução de Outubro? - pergunta mais longe o mesmo
autor. Porquê o partido, desde dos seus dirigentes até aos militantes de base, «tão
repentinamente» tenha renunciado ao que que ele considerava como uma verdade
inabalável durante quase vinte anos?
Sokhanov, como adversário, colocou a mesma questão de outra maneira.
«Como e por quais meios Lenine se desenvencilhou para ganhar aos
bolcheviques?»
Efectivamente, a vitória de Lenine no interior do partido não só foi integral, mas
alcançada num breve prazo. Os adversários dispensaram bastante ironia sobre a
questão, falando do regime pessoal do partido bolchevique. À questão posta por ele, o
próprio Sokhanov deu uma resposta completamente no espírito do seu heróico princípio:
«O genial Lenine era uma autoridade histórica – é um lado do assunto. Por outro
lado, à excepção de Lenine, não havia, no partido, ninguém nem nada. Alguns grandes

231
generais, sem Lenine, não são nada, tal como alguns enormes planetas sem o sol (deixo
de lado Trotsky, que estava nessa altura ainda fora das fileiras da Ordem).»
Essas linhas curiosas tentam explicar a influência de Lenine pela sua influência, tal
que o poder que tem o ópio em dar sono explica-se pelas suas faculdades em adormecer.
Tal explicação, todavia, não nos leva muito longe.
A influência efectiva de Lenine no partido era indubitavelmente muito grande, mas
não era de forma nenhuma ilimitada. Ela não era irrevogável mesmo mais tarde, depois
de Outubro, quando a autoridade de Lenine aumentou extraordinariamente, porque o
partido tinha medido a sua força à luz dos acontecimentos mundiais. Tanto mais
insuficientes são as alegações gratuitas sobre a autoridade pessoal de Lenine, referindo-
se a Abril 1917, quando toda a camada dirigente do partido já tinha chegado a ocupar
uma posição contrária à de Lenine.
Olminsky aproxima-se muito mais da solução do problema quando ele demonstra
que, apesar da sua formula de revolução democrática-burguesa, o partido, por toda a sua
política contra a burguesia e a democracia, preparava-se efectivamente há já muito tempo
a tomar o poder.
«Nós (ou muitos de nós) diz Olminsky – orientámo-nos inconscientemente para a
revolução proletária, acreditando dirigir-nos para a revolução democrática-burguesa.
Noutros termos, preparamos a Revolução de Outubro imaginando que preparamos a de
Fevereiro.»
Generalização altamente preciosa, que é ao mesmo tempo a confissão
irrepreensível de uma testemunha. A educação teórica do partido revolucionário tinha um
elemento de contradição que encontrava a sua expressão na formula equivoca da
«ditadura democrática» do proletariado e a do campesinato. Uma delegada que tomou a
palavra na Conferência sobre o relatório de Lenine, exprimiu o pensamento de Olminsky
ainda mais simplesmente:
«O prognóstico estabelecido pelos bolcheviques mostrou-se errado, mas a táctica
era justa.»
Nas teses de Abril que pareciam paradoxais, Lenine apoiava-se, contra a velha
formula, sobre a tradição viva do partido; irreconciliável em relação às classes dirigentes,
hostil a todas as hesitações, enquanto que os «velhos bolcheviques» opunham
recordações – ainda se frescas, mas já arquivadas – ao desenvolvimento concreto da luta
de classes. Lenine tinha um apoio sólido, preparado para toda a história da luta entre
bolcheviques e mencheviques.
Convém lembra aqui que o programa oficial da social democracia continuava ainda,
nessa época, comum aos bolcheviques e aos mencheviques, e que as tarefas práticas da
revolução democrática apresentava-se no papel idênticas para os dois partidos. Mas elas
não eram de forma nenhuma as mesmas nos factos. Os operários bolcheviques, logo
após a insurreição, tinham tomado por iniciativa sua a luta pelo dia de oito horas; os
mencheviques declaravam prematura esta reivindicação. Os bolcheviques dirigiam as

232
detenções dos funcionários czaristas, os mencheviques opunham-se aos «excessos». Os
bolcheviques energicamente criaram uma milícia armada, os mencheviques encravavam
o armamento dos operários, desejando manter-se em paz com a burguesia. Sem
ultrapassar ainda o limite da democracia burguesa, os bolcheviques agiam ou
esforçavam-se em agir com intransigência revolucionária, ainda se distraídos pela sua
direcção; em contrapartida os mencheviques, a cada passo, sacrificavam o programa
democrático aos interesses de uma aliança com os liberais. Faltando-lhes completamente
aliados democratas, Kerensky e Estaline não tinham inevitavelmente mais chão debaixo
dos pés.
O conflito de Lenine, em Abril, com o estado-maior general do partido não foi o
único. Em toda a história do bolchevismo, excepção feita de alguns episódios que, em
suma, confirmam somente a regra, todos os líderes do partido, em todos os momentos
principais do desenvolvimento, encontraram-se à direita de Lenine. Fortuitamente? Não!
Lenine tornou-se o chefe incontestável do partido o mais revolucionário na história
mundial, precisamente porque o seu pensamento e a sua vontade estiveram finalmente à
altura das grandes possibilidades revolucionárias do país e da época. Aos outros faltava-
lhes alguns centímetros, o dobro, e muitas vezes mais.
Quase toda a camada dirigente do partido bolchevique, durante meses e mesmo os
anos que tinham precedido a insurreição, tinha-se encontrado fora do trabalho activo.
Muitos tinham levado com eles nas prisões e a deportação as impressões pesadas dos
primeiros meses da guerra e tinham ressentido o desmoronar da Internacional no
isolamento e em pequenos grupos. Se, nas fileiras do partido, eles manifestavam uma
receptividade suficiente em relação às ideias da revolução – o que os ligava ao
bolchevismo – uma vez isolados, eles não estavam mais em condições de resistir à
pressão do meio ambiente e de dar por eles próprios uma avaliação marxista dos
acontecimentos. Os formidáveis movimentos que se produziram nas massas em dois
anos e meio de guerra tinham ficado quase fora do seu campo de observação. Ora, a
insurreição não os arrancou somente ao seu isolamento, mas colocou-os, por causa da
autoridade adquirida, nos postos supremos do partido. Pela sua mentalidade, esses
elementos encontravam-se frequentemente mais próximos da intelliguentsia «de
Zimmerwald» que dos operários revolucionários das fábricas.
Os «velhos bolcheviques», que sublinharam com enfase, em Abril de 1917, a sua
qualidade de antigos militantes, estavam condenados à derrota, porque defendiam
justamente esse elemento da tradição do partido que não tinha resistido à verificação da
história. «Eu pertenço aos velhos bolcheviques-leninistas – dizia, por exemplo, Kalinine na
conferência de Petrogrado de 14 de Abril – e considero que o velho leninismo não se
mostrou inaplicável para o singular momento actual, e admiro-me que Lenine declare que
os velhos bolcheviques estorvam no presente momento.» Lenine ouviu, nesses dias,
bastantes recriminações assim. Todavia, ao romper com a formula tradicional do partido, o
próprio Lenine não deixava de ser «leninista»: rejeitava a casca gasta do bolchevismo
para apelar o seu núcleo a uma vida nova.

233
Contra os velhos bolcheviques, Lenine encontrou apoio numa outra camada do
partido, já temperada, mas mais fresca e mais ligada às massas. Na insurreição de
Fevereiro, os operários bolcheviques como sabemos, tiveram um papel decisivo. Eles
consideravam que era evidente que o poder fosse tomado pela classe que tinha saído
vitoriosa. Esses mesmos operários protestavam veementemente contra a orientação
Kamenev—Estaline, e o núcleo de Vyborg ameaçou mesmo expulsar os «líderes» do
partido. Observava-se a mesma coisa na província. Havia quase por todo o lado
bolcheviques de esquerda que acusavam de maximalismo, ou mesmo de anarquismo. O
que faltou aos operários revolucionários, era só os recursos teóricos para defender suas
posições. Mas eles estavam prontos a responder à primeira chamada inteligível.
Para esta camada de operários que se tinham definitivamente erguido durante o
ascenso dos anos 1912-1914, orientava-se Lenine. Já, no início da guerra, quando o
governo tinha dado um rude golpe ao esmagar a fracção bolchevique na Duma, Lenine,
falando do trabalho revolucionário ulterior, chamava os que o partido tinha educado
«milhares de operários conscientes entre os quais, apesar das dificuldades, se recrutará
um novo quadro de dirigentes». Separado deles por duas frentes, quase sem ligação,
Lenine, todavia nunca se desligou deles. «Que eles sejam mesmo cinco e dez vezes mais
quebrados pela guerra, a prisão, a Sibéria, o degredo! Não se pode destruir essa camada.
Ela está viva. Ela está impregnada do espírito revolucionário e de anti-chauvinismo.»
Lenine compartilhava à distância os acontecimentos conjuntamente com esses operários
bolcheviques, encontrava com eles as deduções indispensáveis, mas mais largamente e
ousadamente que eles. Para combater a irresolução do estado-maior e a oficialidade do
partido, Lenine apoiou-se com certeza sobre os subalternos desse mesmo partido que
melhor representava o operário bolchevique de base.
A força temporária dos sociais-patriotas e a fraqueza dissimulada da ala oportunista
dos bolcheviques residia nisto que os primeiros apoiavam-se nos preconceitos e ilusões
actuais das massas, enquanto que os segundos acomodavam-se a isso. A principal força
de Lenine consistia que ele compreendia a lógica interna do movimento e regulava por ela
a sua política. Ele não impunha o seu plano às massas. Ele ajudava as massas a
conceber e a realizar os seus próprios planos. Quando Lenine trazia todos os problemas
da revolução a um só - «explicar pacientemente» - isso significava levar à consciência das
massas de acordo com a situação à qual elas foram levadas pelo processo histórico. O
operário ou o soldado, ao se desilusionando da política dos conciliadores, devia passar
para a posição de Lenine sem se demorar na etapa intermediária de Kamenev—Estaline.
Quando as formulas de Lenine foram dadas, elas iluminaram com uma nova luz,
diante dos bolcheviques, a experiência do mês decorrido e a experiência de cada novo
dia. Na larga massa do partido começou uma rápida diferenciação: à esquerda! à
esquerda! Para as teses de Lenine.
«Os distritos, uns após outros – diz Zalejsky – aderiram, e para a conferência pan-
russa do partido que se reuniu no 24 de Abril, a organização petersburguesa completa
pronunciou-se pelas teses.»

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A luta pela reorientação política dos quadros bolcheviques, começou na noite do 3
de Abril, terminou em suma no fim do mês. ii
A conferência do partido, que teve lugar em Petrogrado do 24 ao 29 de Abril,
chegava às conclusões de Março, mês de hesitações oportunistas, e Abril, mês de crise
aguda. O partido, nessa época, tinha crescido consideravelmente tanto em quantidade
como em valor político. Cento e quarenta e nove delegados representavam setenta e
nove mil membros do partido, cujos quinze mil em Petrogrado. Para um partido ontem
ainda ilegal e hoje antipatriota, era um número imponente, e Lenine repetiu-o várias vezes
com satisfação. A fisionomia política da conferência esboçou-se desde da eleição dos
cinco membros do secretariado: não se encontraram aí nem Kamenev nem Estaline,
principais causadores dos equívocos de Abril.
Ainda se, para o conjunto do partido, as questões litigiosas estivessem resolvidas
definitivamente, o número de dirigentes, ligados pela sua acção da véspera, continuavam
ainda nesta conferência, e oposição ou meia oposição em relação a Lenine. Estaline
reservava-se em silêncio, ficava na expectativa. Dzerjinski, em nome «de um grande
número», que «não estão de acordo em princípio com as teses do relator», pedia que se
ouvisse um relatório conjunto de «camaradas que viveram connosco a revolução
praticamente». Era uma evidente alusão à proveniência da emigração das teses de
Lenine. Kamenev, efectivamente, apresentou à conferência um relatório conjunto
preconizando a ditadura democrática-burguesa. Rykov, Tomsky, Kalinine tentaram
manter-se mais ou menos nas suas posições de Março. Kalinine continuava a apostar
pela união com os mencheviques, no interesse da luta contra o liberalismo. Um destacado
militante de Moscovo, Smidovitch, queixava-se no seu discurso:
«Em todo o lado onde nós nos apresentamos, dirigem contra nós um espantalho, as
teses do camarada Lenine.»
Antes, enquanto que os moscovitas votavam as resoluções dos mencheviques,
tinham uma existência mais tranquila.
Como discípulo de Rosa Luxemburgo, Dzerjinski pronunciou-se contra o direito das
nações a dispor delas próprias, acusando Lenine de proteger as tendências separatistas
que enfraqueciam o proletariado russo. Como ele tinha sido acusado, em resposta, de
apoiar o chauvinismo grão-russo, Dzerjinski respondeu:
«Posso censurá-lo (a Lenine) de manter o ponto de vista dos chauvinistas polacos,
ucranianos e outros.»
Esse diálogo, do ponto de vista político, não deixa de ter piada: o grão-russo Lenine
acusa o polaco Dzerjinski de chauvinismo grão-russo dirigido contra os polacos, e é
acusado por este último de chauvinismo polaco. A ideia política justa era ainda, nesse
debate, inteiramente do lado de Lenine. A sua política das nacionalidades tornou-se um
dos elementos dos mais essenciais da Revolução de Outubro.
A oposição extingui-se completamente. Sobre as questões litigiosas, ela reunia mais
de sete votos. Houve portanto uma excepção curiosa e notável no que diz respeito às

235
relações internacionais do partido. Completamente no fim dos trabalhos, na noite da
sessão de 29 de Abril, Zinoviev entregou, em nome da Comissão, um projecto de
resolução: «Tomará parte na conferência internacional dos zimmerwaldianos marcada
para 18 de Maio» (em Estocolmo). O processo verbal diz isto: «adoptado à unanimidade
menos um voto». Este único voto era o de Lenine. Ele exigia a ruptura com Zimmerwald,
onde a maioria afirmou-se definitivamente como a dos independentes alemãs e de
pacifistas neutros do género do suíço Grimm. Mas, para os quadros russos do partido,
Zimmerwald, durante a guerra, identificava-se quase ao bolchevismo. Os delegados não
concordavam ainda romper com Zimmerwald, que aliás continuava, a seus olhos, a
manter um laço com as massas da IIª Internacional. Lenine tentou limitar, pelo menos, a
participação na futura conferência ao fixar somente os objectivos de informação. Zinoviev
pronunciou-se contra ele. A proposição de Lenine não foi adoptada. Então ele votou
contra a o conjunto da resolução. Ninguém o apoiou. Foi a última ressaca dos
sentimentos de «Março», agarravam-se às posições da véspera, temiam ficar «isolados».
Todavia, a conferência não teve lugar em razão desses mesmos conflitos íntimos de
Zimmerwald que tinham levado Lenine a romper com este. A política de boicote, afastada
unanimemente menos um voto, realizou-se assim de facto.
O carácter brusco da conversão operada na política do partido era evidente para
todos. Schmidt, operário bolchevique, futuro comissário do povo do Trabalho, dizia na
conferência de Abril:
«Lenine deu uma nova orientação ao carácter da actividade do partido.»
Segundo a expressão de Raskolnikov, que escreveu, alguns anos mais tarde,
Lenine, em Abril 1917,
«realizou a Revolução de Outubro na consciência dos dirigentes do partido… A
táctica do nosso partido não se esboçou por uma simples linha direita; após a chegada de
Lenine, ela marca um brusco zigzag para a esquerda».
Mais directamente e também mais exactamente, a mudança surgida foi apreciada
por uma velha bolchevique, Ludmila Stahl:
«Todos os camaradas, até à chegada de Lenine, vagabundeavam pelas trevas –
dizia ela em 14 de Abril, na conferência petersburguesa. Só havia as formulas de 1905.
vendo o povo criar espontaneamente, nós não podíamos dar-lhe lições… Os nossos
camaradas tiveram que se limitar à preparação da Assembleia constituinte pelo
procedimento parlamentar e não contavam de forma nenhuma avançar. Tendo adoptado
as palavras de ordem de Lenine, fazemos o que a própria vida nos sugere. Não tememos
a Comuna pois, apesar de tudo, é já um governo operário. A Comuna de Paris não era
somente operária, ela era igualmente pequeno burguesa.»
Podemos concordar com Sokhanov, a reorientação do partido
«foi a principal e a vitória essencial de Lenine, terminada nos primeiros dias de
Maio».

236
Na verdade, Sokhanov considerava que Lenine tinha substituido, no decurso desta
operação, a arma do marxismo pela do anarquismo.
Fica por perguntar, e a questão tem a sua importância, ainda se é mais fácil de a
colocar do que responder: como teria seguido o desenvolvimento da revolução se Lenine
não pudesse ter chegado à Rússia em Abril de 1917? Se a nossa exposição mostra e
demonstra em geral alguma