Sei sulla pagina 1di 24

Revista Científica da UNESC

v. 13, n. 16 (2015)

TRABALHO ANÁLOGO À CONDIÇÃO DE ESCRAVO: A EXPLORAÇÃO DO TRABALHO HUMANO E SEUS IMPACTOS SOCIAIS EM RONDÔNIA

CERQUEIRA, G. R. R. GOMES, M. A. S. MEMÓRIA, D. O. G. PONCE, R. G. RAGNINI, O. G. J. REIS, S. ROCHAS, H. M. SÃO JOSÉ, N. ¹Acadêmicos do Curso de Bacharel em Direito da Fundação Universidade Federal de Rondônia - UNIR. E-mail: pesquisa.cientifica.unir@gmail.com OLIVEIRA, K. S.

Docente do Curso de Direito da Fundação Universidade Federal de Rondônia - UNIR. E-mail: kaiomi.cavalli@unir.br

RESUMO O presente artigo apresenta o resultado de um estudo de caso, tendo como objetivo central de estudo, a exploração do trabalho humano e seus impactos sociais em Rondônia, decorrente do trabalho análogo à de escravo, tomando como primícias, a violação do trabalho digno diante da existência da exploração do ser humano em detrimento de uma ordem econômica. Em que pese, foi possível constatar que, mesmo com os avanços tecnológicos e a modernização dos meios de produção, a exploração do trabalhador no Brasil é uma realidade, caracterizando novas formas de trabalho escravo, a qual é denominada “Trabalho Análogo à de Escravo”. A metodologia aplicada no desenvolvimento da pesquisa, consiste em um estudo de caso de natureza exploratório-descritivo utilizando-se de estudos bibliográficos, pesquisas na internet, bem como da utilização de trabalhos cientifico já elaborados sobre a temática em comento. O estudo permitiu concluir que, o estado de Rondônia vem sendo palco dessa mazela, entre o ano de 1995 a 2014, quarenta e três empregadores foram relacionados no Cadastro de Empregadores Infratores do Ministério de Trabalho e Emprego (MTE), cadastro este conhecido como “Lista Suja”. Em Rondônia tal fenômeno está ligado em sua maioria a atividade agropecuária, onde ocorre uma facilitação para sua ocorrência, pelo fato do local de trabalho ser situado em zona rural, que por ser extensa e de difícil acesso, dificulta a chegada dos órgãos fiscalizadores. Fato este que permite que o empregador que adota a prática escravocrata com seus empregados se sinta à vontade para perpetuar tal ato, pois acredita que não será flagrado, e em decorrência disto saíra impune. Palavras-chaves: Escravidão. Exploração do trabalho humano. Impactos Sociais.

INTRODUÇÃO

A globalização e o desenvolvimento tecnológico acelerado promove uma

desvalorização generalizada do trabalho, e as pessoas não conseguem sobreviver a

61

não ser em condições de extrema degradação, o que vem contribuindo para uma evolução na forma de exploração do trabalho humano. Com o objetivo de aprofundar o conhecimento da relação entre os aspectos sociais e trabalho, este artigo visa apresentar a problemática da exploração do trabalho humano e os reflexos que o mesmo possa gerar em meio a sociedade. Cada dia mais, as pessoas trabalham excessivamente para que seja possível prover uma melhor qualidade de vida à sua família, é notável a quantidade de pessoas que se sacrificam e concordam com certas condições degradantes de trabalho para que seja possível a manutenção do seu emprego e, com isso resguardar a sua segurança e de sua família em face da frágil economia existente. Assim sendo, o presente artigo tem como objetivo central de estudo, a exploração do trabalho humano e seus impactos sociais em Rondônia decorrente do trabalho análogo à condição de escravo, apresentando uma previa contextualização do trabalho escravo e sua evolução história, analisando as modalidades do trabalho análogo ao escravo, não obstante, procurou-se identificar fatores que contribuem para o trabalho análogo ao de escravo, bem como, uma verificação de ocorrências de casos regionais (Rondônia), e por fim, avaliar os efeitos decorrentes do trabalho escravo na economia. A metodologia adotada para a elaboração da pesquisa constitui em um estudo exploratório-descritivo amparado por meio de referências bibliográficas com a finalidade de fornecer parâmetros para o esclarecimento de ideias, oferecendo dados para a realização de estudos mais aprofundados referente ao tema. Segundo Gil (2002, p. 41), “A pesquisa bibliográfica é desenvolvida com base em material já elaborado, constituído principalmente de livros e artigos científicos”. Do mesmo modo, Prestes (2005, p.26), define pesquisa bibliográfica com

aquela que se efetiva tentando-se resolver um problema ou adquirir

sendo “[

conhecimentos a partir do emprego predominante de informações provenientes do material gráfico”. Para Gonçalves e Meirelles (2004, p. 37), é aquela “realizada para descobrir ou descrever melhor o(s) problema(s)-raiz que são apontados através de sintomas (ou queixas) para se alcançar os objetivos.” O estudo é de caráter exploratório, pois procura expor as distinções

existentes entre a forma de escravidão da antiguidade, que tinha a pessoa humana

]

62

como res (coisa), do atual conceito de trabalho escravo, o trabalho análogo à de escravo. Propende ainda, em um processo descritivo abordar a realidade fática as quais as vítimas do trabalho escravo contemporâneo são submetidas. Contumaz, uma abordagem socioeconômica foi realizada para que seja possível obter uma ampla visão sobre o tema e seu impacto na sociedade e na economia que a envolve. Ainda na área sociológica, sobreveio uma explanação sobre medidas que estão sendo adotadas para combater esse tipo de prática, como programas de combate a escravidão e as chamadas lista suja de empresas que utilizam esse tipo de mão de obra. Com base no escopo mencionado, é cediço que a ordem econômica brasileira repousada na valorização do trabalho humano, de modo que é indispensável assegurar o respeito ao princípio constitucional que versa sobre a dignidade da

pessoa humana. A dignidade do ser humano é transcendente a legislação e compõem parte intrínseca da lei natural, aquela que está inscrita nos princípios do Direito Natural e considerados bens humanos evidentes em si mesmos. Assim sendo, a importância do estudo emana da necessidade de investigar as hipóteses que podem caracterizar trabalho em condições degradantes e sob jornada exaustiva, com ou sem o cerceamento ao direito de liberdade do trabalhador, e que desta decorra obtenção de lucro do capital mediante exploração e

a opressão de trabalhadores.

TRABALHO ESCRAVO E SUA EVOLUÇÃO HISTÓRICA Desde os tempos mais remotos, são encontrados relatos sobre a escravidão na história da humanidade. As primeiras formas de escravidão são constatadas no período da pré-história, com a existência das primeiras tribos, que começaram a

guerrear contra as outras e o lado perdedor era escravizado, sendo impostos a eles

a realização de tarefas degradantes, desta forma, o trabalho representava punição, submissão aos povos da tribo vencida.

em um determinado

momento da pré-história, os homens perceberam que os prisioneiros de guerra - normalmente sacrificados em cultos religiosos - poderiam ser usados para o trabalho ou ‘domesticados’ como os animais”.

De acordo com Childe (apud Olivieri, 2010), [

]

63

Várias civilizações antigas foram erguidas com base no trabalho escravo, onde as gigantescas obras exigiam mão de obra braçal, com jornadas extenuantes e sem o mínimo de condições para o operário. Os egípcios, gregos e romanos utilizaram do trabalho escravo para as mais diversas funções, seja na fabricação de utensílios, em trabalhos domésticos, seja na condição de gladiadores. Para Jorge Neto e Cavalcante (2005, p. 3):

O trabalho na Antiguidade, representava punição, submissão, em que os trabalhadores eram os povos vencidos nas batalhas, os quais eram escravizados. O trabalho não era dignificante para o homem. A escravidão era tida como coisa justa e necessária. Para ser culto, era necessário ser rico e ocioso.

Paul Lovejoy (2002, p 29-30), caracterizou a escravidão na antiguidade como:

uma forma de exploração com características específicas. Os escravos

eram uma propriedade do seu senhor [

sua origem ou dos quais, por sanções judiciais ou outras, se retirava a herança social que lhes coubera ao nascer. A coerção podia ser usada à vontade pelo senhor de escravo. Pois a força de trabalho do escravo estava à completa disposição de um senhor. Não tinham direito a sua própria sexualidade e nem ás suas próprias capacidades reprodutivas. A condição de escravo era herdada a não ser que fosse tomada alguma medida para modificar essa situação.

eram estrangeiros alienados pela

] [

]

No período medieval, a forma de trabalho da antiguidade, que era a escravidão, sofre um processo de mudança, passando a ser substituída pela servidão, surgindo então o feudalismo. O feudalismo contribuiu para que houvesse a evolução no trabalho humano, que teoricamente deixou de ser escravo e passou a ser servil. A servidão nada mais foi do que um tipo de escravidão, não exatamente no sentido estrito da palavra, mas em medida semelhante, posto que o indivíduo naquelas condições não dispunha de liberdade, estando sujeito as mais severas restrições, tal como impossibilidade de livre locomoção. Para Vianna (1991), este período caracterizou-se como sendo um sistema intermediário entre a escravidão e o trabalho livre. Melgar (1995, p. 50) resume este período da história do trabalho humano nos

o tipo de trabalho existente até a Revolução Industrial não era um

dizeres, “[

]

64

trabalho livre, era um trabalho de escravos e servos, cuja ínfima condição social era condizente com o escasso ou quase nulo valor que se atribuía ao seu esforço”. Uma nova e profunda mudança nas relações de trabalho ocorre entre os séculos XVII e XVIII em virtude das revoluções liberais e consequentemente com a Revolução Industrial. Com ênfase na Revolução Industrial, inicia-se um processo de produção em larga escala que visava aumento de produção e redução no tempo de execução das atividades, onde a máquina entra em cena e passa a ocupar o lugar do homem, sobrando aos proletariados a realização de trabalhos repetitivos e exaustivos, sendo que as condições de trabalho a que foram submetidos naquele período são consideradas como desumanas. Sobre este período, Cerqueira (1961, p. 343) revela:

Para poder enfrentar a livre concorrência, os chefes de indústria não encontravam recurso mais fácil do que explorar ao máximo os operários, pagando-lhes ínfimos salários e impondo-lhes jornadas de trabalho excessivas, muito superiores a sua capacidade física, a fim de reduzir ao mínimo o custo da mão-de-obra e, portanto, o custo da produção, o que lhe permitia auferir maiores lucros. Desamparados de qualquer proteção e impedidos de se reunir para reagir contra esses abusos, viam-se os operários na dura contingência de escolher entre os baixos salários insuficientes para a sua subsistência e a mais completa indigência. Prolongavam-se as jornadas de trabalho a 14 e 16 horas, não se distinguindo entre trabalho noturno e trabalho diurno. Trabalhava-se a semana toda, sem um dia de repouso [

Assim, os trabalhadores viviam em uma realidade desfavorável, eram submetidos a jornadas de trabalho fatigantes, locais em sua maioria sem condições para o exercício da atividade, e recebimento de baixos salários. Não havia por parte dos governantes a imposição de normas trabalhistas a serem observadas no desenvolvimento das atividades econômicas.

TRABALHO ESCRAVO NO BRASIL

A história da utilização da mão de obra escrava no Brasil tem como marco

inicial o período Brasil colonial. O Brasil colônia era objeto da prática do mercantilismo de Portugal, o qual tinha como objetivo principal, a obtenção de lucros, e para alcançar estes lucros Portugal recorreu a mão de obra escrava.

A princípio para suprir as necessidades de mão de obra para a empresa

colonial valiam da escravização dos nativos das terras brasileiras, chamados pelos

65

europeus índios ou indígenas. Em segundo momento, os escravos negros foram trazidos ao Brasil para trabalhar, principalmente, em canaviais e engenhos de açúcar. O tráfico negreiro teve seu início oficial no ano de 1559, quando a metrópole portuguesa permitiu o ingresso de escravos africanos no Brasil. Os negros não eram considerados pessoas titulares de direitos, eram tidos como racialmente inferiores e juridicamente reputados objeto de relações econômicas, o que seria um grande argumento na época para serem tratados como mercadorias. Legalmente o negro não era considerado pessoa e sim coisa. A história do Brasil teve seus principais momentos forjados pela inserção do escravismo como parte constitutiva de sua própria sociedade, e que, conforme Stuart Schwartz (2001, p. 93), é de:

natureza predominantemente e perniciosa da escravatura como sistema

social e econômico, e como uma estrutura que, enquanto permaneceu vigorosa, determinou os contornos de todos os outros aspectos da vida brasileira. Com efeito, analisar a história da escravidão no Brasil é trabalhar com a própria história do Brasil.

] [

Todavia, mesmo diante de toda essa narrativa é flagrantemente encontrado casos de trabalhadores em condições análoga à de escravo. Assegurar apenas o direito à liberdade do ser não basta, se não forem criadas ferramentas eficientes para inibir e punir aquele que ainda utiliza-se da degradação da pessoa humana.

CONCEITUAÇÃO DE TRABALHO ANÁLOGO À CONDIÇÃO ESCRAVO Desde a abolição da escravatura, com o advento da Lei Áurea no ano de 1888, o Brasil vivencia um legado negativo deixado pelo trabalho escravo existente na época do período colonial, onde a principal força de trabalho era oriunda da exploração do trabalho humano, sendo este tido como propriedade de seu senhor. A característica essencial do escravo reside na sua condição de propriedade de outro ser humano, noção que traz, necessariamente, a ideia de sujeição pessoal. Reproduzindo as palavras de Brion Davis, (2001, p. 49): “Em geral, tem sido dito que o escravo possui três características definidoras: sua pessoa é a propriedade de outro homem, sua vontade está sujeita à autoridade do seu dono e seu trabalho ou serviços são obtidos através da coerção”

66

Contudo, a prática do trabalho escravo evoluiu, tomando moldes diferentes daquela existente no Brasil colônia. Na atual conjuntura, o trabalho escravo contemporâneo não está adstrito a pessoa negra, e sim a uma situação em que o ser humano é submetido a jaezes similares com a escravidão, ou seja, o chamado trabalho análogo à condição de escravo. Arrazoando sobre o tema, Sento-sé (2000, p.24) ensina:

Um ponto fundamental que distingue o trabalho escravo na atualidade daquele encontrado até o final do século XIX é o fato de o trabalhador não mais ser parte integrante do patrimônio do patrão. E isto não poderia ser tolerado hodiernamente, em razão do que preceitua a nossa Constituição Federal, que coloca a dignidade da pessoa humana como um dos fundamentos da República Federativa do Brasil (art. 1º, III).

Embora possua novos moldes e contornos, o trabalho escravo na atualidade possui várias semelhanças com o tradicional, conforme demonstra Sento-sé (2000, pp. 24-25):

] [

período colonial e do Brasil Império, movida também por interesses mesquinhos e escusos, ampliar abusivamente os lucros e ganhos, ás custas

da exploração do trabalhador, embora, repita-se, o trabalhador não integre o patrimônio do patrão.

] [

tradicional e a nova escravatura. O detentor do poder econômico pouco se

importa com a condição humana do seu semelhante.

Por tal motivo, há grande afinidade entre a chamada escravidão

Com efeito, a situação presente é muito assemelhada àquela, do

No mesmo sentido, Santos (2003, p. 26) compara a escravidão antiga com a atual, da seguinte forma: “A descrição do trabalho escravo contemporâneo se assemelha em muito ao trabalho escravo da época colonial. Ao trocar-se a figura do senhor de engenho pela do fazendeiro e a do feitor pela do gato ou capataz, as similaridades são gritantes”. Transcrevendo as palavras de Sento-sé (2000, p. 27), trabalho escravo contemporâneo é aquele:

] [

degradantes, inclusive quanto ao meio ambiente em que irá realizar a sua atividade laboral, submetendo-o, em geral, a constrangimento físico e moral, que vai desde a deformação do seu consentimento ao celebrar o vínculo

empregatício, passando pela proibição imposta ao obreiro de resilir o vínculo quando bem entender, tudo motivado pelo interesse mesquinho de ampliar os lucros às custas da exploração do trabalhador.

67

em que o empregador sujeita o empregado a condições de trabalho

Todavia, o ordenamento jurídico brasileiro não apresenta um conceito pronto e acabado do que vem a ser trabalho análogo à condição de escravo, entretanto, a doutrina e a jurisprudência classifica como trabalho escravo, situações em que submetem a pessoa humana a condições degradantes e ao mesmo tempo em que ocorre o cerceamento de sua liberdade. Para Nascimento (2011, p. 931) “O conceito, a definição ou a caracterização do que seja trabalho escravo contemporâneo ou trabalho forçado é indeterminado na legislação trabalhista brasileira, fato que gera intensa insegurança aos empregadores e cizânia entre juristas”. A Convenção da Organização Internacional do Trabalho - OIT nº 29 (ano de 1930) e a Convenção 105 (ano de 1957) exibem o termo “trabalho forçado” bem como o “trabalho obrigatório” como sinônimos de todo trabalho forçado exigido de um indivíduo sob a ameaça de uma pena qualquer e para o qual ele não se ofereça voluntariamente, o que caracteriza no Brasil o chamado trabalho análogo à de escravo. Figueira, (2004, p.33), elucida as múltiplas formas de denominação empregadas para definir o conceito de escravidão contemporânea:

Como não se trata exatamente da modalidade de escravidão que havia na Antiguidade greco-romana, ou da escravidão moderna de povos africanos nas Américas, em geral o termo escravidão veio acrescido de alguma complementação: "semi"; "branca", "contemporânea", "por dívida", ou, no meio jurídico e governamental, com certa regularidade se utilizou o termo "análoga", que é a forma como o artigo 149 do Código Penal Brasileiro (CPB) designa a relação. Também, têm sido utilizadas outras categorias para designar o mesmo fenômeno, como "trabalho forçado", que é uma categoria mais ampla e envolve diversas modalidades de trabalhos involuntários, inclusive o escravo.

Na obra, Manual de Combate ao Trabalho em Condições análogas às de escravo editado pelo Ministério do Trabalho e Emprego (2011, p. 11) cita que:

Diversas são as denominações dadas ao fenômeno de exploração ilícita e precária do trabalho, ora chamado de trabalho forçado, trabalho escravo, exploração do trabalho, semiescravidão, trabalho degradante, entre outros, que são utilizados indistintamente para tratar da mesma realidade jurídica. Malgrado as diversas denominações, qualquer trabalho que não reúna as mínimas condições necessárias para garantir os direitos do trabalhador, ou seja, cerceie sua liberdade, avilte a sua dignidade, sujeite-o a condições

68

degradantes, inclusive em relação ao meio ambiente de trabalho, há que ser considerado trabalho em condição análoga à de escravo.

O procurador do trabalho da 2ª região e professor Ronaldo Limados Santos (2003a, p. 55,56) assevera:

] [

contemporâneo”, “escravidão por dívida”, “trabalho forçado”, “trabalho

]em todas as

hipóteses levantadas, constatamos flagrantemente a sempre presença de vícios de vontade, seja no início da arregimentação do trabalhador, no começo da prestação de serviços, no curso da relação de trabalho e até mesmo por ocasião do seu término. Os mais diversos métodos de coação, simulação fraude, dolo, indução a erro, são empregados para cercear a vontade do empregado e obriga-lo à prestação de serviços contra a sua vontade.

obrigatório”, “redução à condição análoga à de escravo” [

independentemente da denominação adotada – “trabalho escravo

Diante da dificuldade em apresentar um correto e apropriado conceito ao fenômeno do trabalho análogo à de escravo, a reforma legislativa do Código Penal Brasileiro, contribuiu significativamente ao estabelecer hipóteses em que se configura a condição análoga à de escravo, tanto nas modalidades do caput do artigo 149 como nas formas equiparadas do § 1.º, conforme transcrito:

Art. 149. Reduzir alguém a condição análoga à de escravo, quer submetendo-o a trabalhos forçados ou a jornada exaustiva, quer sujeitando-

o a condições degradantes de trabalho, quer restringindo, por qualquer

meio, sua locomoção em razão de dívida contraída com o empregador ou preposto: (Redação dada pela Lei nº 10.803, de 11.12.2003) Pena - reclusão, de dois a oito anos, e multa, além da pena correspondente

à violência. (Redação dada pela Lei nº 10.803, de 11.12.2003)

§

11.12.2003)

1 o Nas mesmas penas incorre quem: (Incluído pela Lei nº 10.803, de

I - cerceia o uso de qualquer meio de transporte por parte do trabalhador, com o fim de retê-lo no local de trabalho; (Incluído pela Lei nº 10.803, de

11.12.2003)

II - mantém vigilância ostensiva no local de trabalho ou se apodera de

documentos ou objetos pessoais do trabalhador, com o fim de retê-lo no local de trabalho. (Incluído pela Lei nº 10.803, de 11.12.2003)

Verifica-se que, de forma simplificada, o trabalho em condição análoga à de escravo é tipificado penalmente diante de quatro condutas específicas: a) sujeição da vítima a trabalhos forçados; b) sujeição da vítima a jornada exaustiva; c) sujeição da vítima a condições degradantes de trabalho; d) restrição, por qualquer meio, da locomoção da vítima em razão de dívida contraída com o empregador ou preposto. Masson (2014, p. 205), salienta:

69

Fica nítido que não mais se exige o tratamento do ser humano como em épocas distantes da nossa história (pessoas acorrentadas e sujeitas a chibatadas, aprisionadas no pelourinho etc.). O conceito de escravo há de ser interpretado em sentido amplo, abrangendo inclusive a submissão de alguém a uma jornada exaustiva de trabalho.

Pelo exposto, há de se conceituar trabalho análoga à condição de escravo, todo e qualquer trabalho forçado ou obrigatório, compreendendo o trabalho ou o serviço exigido de uma pessoa sob ameaça, coação ou violência com restrição de locomoção. Contudo, não determina de modo objetivo o que seja trabalho análoga à condição de escravo, jornada exaustiva ou condições degradantes de trabalho, gerando dessa forma insegurança jurídica.

FATORES QUE CONTRIBUEM PARA O TRABALHO ANÁLOGO À DE ESCRAVO O modelo de globalização adotado no mundo capitalista, contribui de forma significativa, seja impulsionando ou restringindo o processo de desenvolvimento econômico e social, fazendo com que a competitividade incentive uma constante redução nos custos do trabalho, provocando arrefecimentos as condições de emprego, culminando na imposição do trabalho forçado. Empreende-se que, depois de tantos avanços na sociedade e a evolução da história dos direitos humanos, a escravidão devia de ter se extinguido. Porém, ainda em pleno século XXI a escravidão é uma realidade no que tange a exploração do trabalho humano. O trabalho escravo atual consiste de extrema exploração econômica de forma adaptada a globalização que, para obter maior lucro e produção, submete o trabalhador a situações desumanas, tendo como único objetivo a extração econômica retirada por meio da exploração do trabalhador. Afirma Antônio Luiz Monteiro da Costa (2000): “A escravidão está inteiramente reproduzida pelas atuais condições da economia - desemprego tecnológico, crescimento das migrações e redução ao absurdo da remuneração de atividades tradicionais, geralmente tecnologicamente atrasadas”. Na contemporaneidade, a globalização visa atender ao capitalismo, principalmente os países desenvolvidos, de modo que possam buscar novos mercados. Em decorrência das inovações tecnológicas e o incremento no fluxo

70

comercial mundial, tornou-se cada vez mais competitivo o mercado, fato esse que colabora na permanência do uso da exploração da mão de obra do ser humano. A condição avarenta em que se deparam grande parte da população vem agravando e favorecendo o sistema de escravidão. Isto decorre da busca pela sobrevivência e das dificuldades de se alocar no mercado de trabalho, ou seja, os trabalhadores não têm outra opção senão a de aceitar a primeira oportunidade de emprego que lhes é ofertada. Em muitos casos, são submetidos a trabalhos degradantes, em que a remuneração não condiz com os serviços prestados, se por sorte existe, a moradia não passa de um barraco, uma cama e direito à alimentação pouco saudável, em forma de salário in natura. Todo este cenário demonstra que os empregados estão cada vez mais vulneráveis, sujeitando-se a condições degradantes de trabalho em barganha da sobrevivência pessoal e de seus familiares, abrindo mão de seus direitos fundamentais básicos, sua liberdade, e também de sua dignidade. Segundo a OIT (2007, p. 11), o sistema que garante a manutenção do trabalho escravo no Brasil contemporâneo é ancorado em duas vertentes: de um lado, a impunidade de crimes contra direitos humanos fundamentais aproveitando-se da vulnerabilidade de milhares de brasileiros que, para garantir sua sobrevivência, deixam-se enganar por promessas fraudulentas em busca de um trabalho decente e de outro, a ganância de empregadores, que exploram essa mão de obra. Com isso, o trabalho análogo à condição de escravo, se manifesta de várias formas, sendo as mais frequentes a: escravidão por dívida, por imigração, por miséria e necessidade de sobrevivência e tráfico de pessoas. Figueira, (2000, p. 9), relata como ocorre o trabalho escravo no Brasil:

A essas pessoas é prometida uma recompensa em termos de rendimento, que as atrai e que sempre funciona como estímulo para continuar na região. A organização do trabalho, que é rudimentar, precisa de feitor, do carrasco, para manter a disciplina. A disciplina é obtida por débitos que o trabalhador mantém com o barracão, pela passagem adquirida para seu deslocamento até o local de trabalho, por algum adiantamento que lhe foi fornecido anteriormente.

[ ]

natureza, ou seja, enquanto for possível trabalhar, se trabalha. Os

O limite da jornada de trabalho desses trabalhadores é a própria

71

alojamentos são típicos do meio rural, improvisados com estacas, geralmente fechados com plásticos na cor preta.

Filho, (1985, p. 4) afirma que:

Em uma dada formação, o trabalho escravo podia vegetar ao lado de outras formas dominantes e mais dinâmicas de produção social. Temos produção escravista quando uma parcela dos bens sociais é sistematicamente produzida pelo escravo. Uma sociedade pode ser definida como escravista quando a produção escrava submete as outras formas de produção, e a própria formação, à sua dinâmica.

Não a óbice que a maximização dos lucros das grandes empresas, seja ela comercial, industrial ou agropecuária é o fio condutor que liga passado e presente e que o trabalho escravo se insere na própria lógica do capital. Sakamoto (2007) defende o ponto de vista de que o trabalho escravo pode ser considerado como um espaço “não capitalista” necessário ao desenvolvimento do próprio sistema. É a forma ilegal de trabalho que acelera a capitalização e garante a capacidade da concorrência. Neste contexto, não resta dúvida que a incidência do trabalho em condições análogas à do escravo está intrinsecamente relacionada com:

a) Trabalho por dívida - situação que caracteriza submissão do empregado

ao empregador tendo em vista a perpetuação da dívida, a remuneração do empregado está submetia a descontos e outros acertos por conta do domínio econômico que o empregador estabeleceu sobre o empregado;

b) Isolamento geográfico - devido à extensão territorial do país que contribui

para o isolamento geográfico dificultando o acesso para a realização de fiscalização;

c) A impunidade - esta é um dos principais fatores que contribuem para a

prática do trabalho escravo. Entretanto, nota-se a grande dificuldade para por em prática soluções para diminuir efetivamente a impunidade.

OCORRÊNCIA DE TRABALHO ANÁLOGO AO DE ESCRAVO EM RONDÔNIA Os flagrantes feitos por órgãos fiscalizadores nas últimas décadas, mostram que a prática de trabalho análogo ao de escravo é bem mais comum do que grande parte da sociedade imagina.

72

Dados apresentados pelo governo federal, no período compreendido entre os anos de 1995 a 2014 demonstram que operações conjuntas entre órgãos fiscalizadores e as polícias federais, resultaram no resgate de 48.705 pessoas em situações análogas à escravidão no Brasil, deste total, 863 trabalhadores encontravam-se no estado de Rondônia. A veracidade das informações pode ser constada com base no infográfico abaixo, o qual, classifica por unidade da federação, o quantitativo de trabalhadores resgatados ao longo de 19 anos de combate a essa mazela que assola o país.

de 19 anos de combate a essa mazela que assola o país. Fonte: Repórter Brasil (2014).

Fonte: Repórter Brasil (2014).

Em 2003 o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), criou um Cadastro de Empregadores flagrados utilizando de mão de obra análoga à escrava, este cadastro é mais conhecido como “Lista Suja”. Conforme o Ministério de Trabalho e Emprego, a inclusão e exclusão de empregadores na “Lista Suja”, é regulamentada pela Portaria Interministerial nº 2/2011 - MTE/SDH, que dita que o empregador somente será incluído na lista quando se constatar que haviam trabalhadores escravos em sua propriedade, após ele se defender em primeira e segunda instâncias administrativas e as exclusões da lista serão feitas quando o empregador pagar todas as taxas e impostos referentes a regularização de seus empregados, além do pagamento das multas decorrentes da

73

ação fiscal, porém, somente após o acompanhamento feito pelo MTE no período de dois anos, com a finalidade de verificar que não haverá reincidência na prática de trabalho escravo. O quadro abaixo, traz a relação de empregadores de Rondônia que foram relacionados no Cadastro de Empregadores do Ministério de Trabalho e Emprego (MTE), “Lista Suja” desde 2002 a 2014.

Quadro: 01

Ano

Estabelecimento Inspecionado

Município

Total

2002

Agropecuária Iquê

Vilhena

1

2002

Agropecuária Itaúna Ltda (Fazenda Bela Vista)

Chupinguaia

11

2002

Agropecuária Pimenta Bueno S/A

Pimenta Bueno

18

2002

Fazenda Anita

Chupinguaia

12

2003

Fazenda Livramento

Cerejeiras

73

2003

Fazenda Modelo

Chupinguaia

128

2003

Fazenda São Joaquim

Pimenteiras do Oeste

219

2003

Fazenda Tapyratynga

Corumbiara

12

2003

Fazenda Três Irmãos (Agrop. Três Irmãos)

Corumbiara

51

2004

Fazenda São Sebastião

Chupinguaia

18

2005

Fazendas São João, Água Boa e Pedra Alta

Chupinguaia

19

2005

Ivipora Agropecuária Ltda. (Fazenda Tropical)

Corumbiara

10

2005

Parplan Agropecuária Ltda. (Fazenda Ivipita)

Corumbiara

13

2008

Agropecuária Corumbiara

Chupinguaia

5

2008

Fazenda América

Porto Velho

23

2009

Construtora BS Ltda.

Jaci-Paraná

53

2009

Fazenda Novo Horizonte

Vilhena

1

2009

Locação de Máquinas e Const. Primavera Ltda

Porto Velho

5

2010

Fazenda Agrinbo

Vista Alegre do Abunã

11

2010

Fazenda Biribas

Vista Alegre do Abunã

4

2010

Fazenda Rancho Colorado

Porto Velho

8

2010

Fazenda São Francisco

Ariquemes

1

2010

Fazenda São Francisco

Porto Velho

17

2011

Eplan Engenharia Planej. E Eletricidade - Ltda

Rondônia

9

2011

Fazenda Guará II

Guajará-Mirim

5

2011

Fazenda Nova Descoberta

Corumbiara

6

2011

Fazenda Nova Querência

Cacaulândia

7

2011

Fazenda Pedra Branca/Fazenda Pedra Bonita

Ariquemes

10

2011

Fazenda Pedra Preta

Cujubim

22

2011

Fazenda Pica-Pau

Porto Velho

6

2011

Fazenda Pica-Pau

Porto Velho

1

2011

Fazenda São Francisco

Guajará-Mirim

4

2011

Fazenda São João

Ariquemes

6

2011

Fazenda Sonho Meu

Porto Velho

4

2011

Fazenda Tuliane

Porto Velho

8

2011

Fazenda Wakayama

Porto Velho

2

2012

Fazenda Araputanga

Chupinguaia

29

2012

Fazenda Vitória

Porto Velho

5

2012

Manejo Florestal

Porto Velho

5

74

2013

Fazenda Bandeirante

Chupinguaia

11

2013

Fazenda Massangana

Ariquemes

2

2013

Manejo Florestal - Fazenda Pasárgada

Porto Velho

6

2014

Giovani Luiz Minosso

Porto Velho

2

TOTAL DE TRABALHADORES EM CONDIÇÕES ANÁLOGO AO ESCRAVO

863

Fonte: Repórter Brasil (2014).

No estado de Rondônia, a principal atividade flagrada utilizando mão de obra comparada à escrava é a pecuária. Porém, também foram flagradas empresas de construção civil, inclusive das empresas terceirizadas na construção das Usinas do Madeira, além de atividades de extração ou corte de madeira. De acordo com o cadastro do MTE, o empregador de Rondônia que figura a mais tempo na lista suja é o pecuarista Roberto Demário Caldas, considerado o maior pecuarista do estado e por isso conhecido como “Rei do Gado”. Em 2003 foram encontrados aproximadamente 400 trabalhares em condições degradantes em duas de suas fazendas em Pimenteiras do Oeste, sendo 219 confirmados como trabalho análogo à escravo na Fazenda São Joaquim, o maior número já registrado neste estado. Os trabalhadores residiam em barracos de lona que não ofereciam o mínimo de proteção contra as intempéries do tempo ou animais, não tinham acesso às instalações sanitárias ou à água tratada, nenhuma alimentação ou equipamento de proteção eram fornecidos aos trabalhadores, porém estes eram cobrados pelo empregador com valores exorbitantes, contumaz, os contratos de trabalho desses trabalhadores estavam irregulares. Ainda em 2003, outros 128 trabalhadores foram encontrados em uma fazenda no município de Chupinguaia pertencente à Denes Gouveia Dalafini, morando em barracos cobertos com encerados, não tinham acesso à água própria para consumo humano e dormiam em redes ou sobre camas improvisadas feitas de madeira roliça. Em outubro de 2009, oito homens que trabalhavam para empresa Locação de Máquinas e Construtora Primavera Ltda, na obra de reforma da antiga sede do Tribunal de Justiça em Porto Velho, acionaram o Ministério Público do Trabalho - MTE. Estes trabalhadores foram contratados nos municípios de Rolim de Moura, Candeias do Jamari e Porto Velho, além de Humaitá-AM e residiam em um imóvel no centro de Porto Velho sem condições de habitabilidade, seus quartos e banheiros eram feitos de compensados de madeira, localizados na sala e varanda do imóvel, em ambiente insalubre, sem iluminação, ventilação, com paredes mofadas e

75

cercados de lixo. Em seus depoimentos, os trabalhadores narraram que eram maltratados, sofriam ameaças dos responsáveis pela construtora, que chegaram a cortar o fornecimento de alimentação aos trabalhadores quando estes cobraram seus direitos trabalhistas. Em junho de 2011, o Ministério Público Federal - MPF denunciou o ex- senador Ernandes Amorim por manter em sua propriedade, Fazenda São João, localizada em Ariquemes, seis trabalhadores em condições semelhantes a de trabalho escravo. Segundo o MPF, o empregador tinha conhecimento do fato, pois, lidava diretamente com os trabalhadores que foram contratados para construir uma cerca na propriedade, percebendo a remuneração de R$ 2.000,00 (dois mil reais), por quilômetro construído, quando na realidade estavam recebendo apenas R$ 500,00 (quinhentos reais), por quilômetro, não recebiam alimentação ou equipamentos de proteção, forçando-os a comprar de seu empregador, que por sua vez cobrava valores altos, superando o saldo a receber, caracterizando escravidão por meio de dívida. A fiscalização à propriedade, constatou ainda que os trabalhadores não possuíam diversos de seus direitos trabalhistas, residiam em barracos sem proteção lateral, eletricidade e água potável, não tinham acesso a instalações sanitárias adequadas. O cenário em que os trabalhadores são encontrados não diferencia entre si, todos com alojamentos improvisados sem rede de esgoto, sem iluminação, alimentos e água impróprias para o consumo, falta de equipamentos de proteção para execução dos trabalhos e com jornadas que ultrapassam doze horas diárias. Comumente, o trabalho na zona rural é o mais propício para encontrar trabalhadores sujeitos a essa mazela, que é o trabalho análogo à de escravo, mas não menos importante, a fiscalização na zona urbana vem ocorrendo de forma intensificada, devido ao grande número de cadeias produtivas já constatadas condições degradantes de trabalho.

IMPACTOS SOCIOECONOMICOS DO TRABALHO ANÁLOGO AO ESCRAVO EM RONDÔNIA Como já citado, não resta dúvida de que o trabalho análogo à condição de escravo contemporâneo possui semelhanças e diferenças em relação ao sistema

76

escravista abolido no Brasil no ano de 1888. Comparando o modelo praticado na antiguidade e o contemporâneo, restam apenas sentimentos de indiferença e superioridade em relação a maneira como foram e são praticados, todavia, ambos tende a incessante busca pela lucratividade. Já a principal diferença entre os dois modelos, é que no sistema tradicional o escravo era propriedade, e hoje isso é proibido, conforme prevê o artigo 149 do Código Penal Brasileiro. Desta forma, o trabalhador reduzido a condição análoga à de escravo atualmente é visto, pelo empregador, como um mero prestador de serviços, sendo a peça engrenadora fundamental do processo produtivo, ou seja, após ser explorado, é simplesmente abandonado, é lançado à sorte, Silva (2010). Segundo Pereira (2008), à escravidão não é decorrente da introdução do sistema de produção capitalista, na verdade ela somente acompanhou o desenvolvimento da sociedade, com motivos, objetivos e de maneiras diferentes, que persistem até os dias atuais. Para melhor exemplificar, os trabalhadores superexplorados hoje, não dependem mais da sua raça ou da cor da sua pele. Para Schwarz (2009),

[…] a escravidão está sempre relacionada à pobreza e à discriminação:

entre 2003 e 2007, um terço dos trabalhadores resgatados do trabalho

escravo no Brasil pelo Ministério do Trabalho e Emprego era oriundo do Maranhão, o estado mais pobre da Federação; por outro lado, o coletivo imigrante com maior presença no Brasil, em situações de escravidão, é formado por bolivianos, sobretudo por aimarás e quíchuas, egressos de um dos países mais empobrecidos das Américas. O problema não se restringe

a países periféricos, alcançando diversos países centrais, como os

europeus, que convivem com o escândalo da superexploração da mão-de- obra de estrangeiros em seus territórios para sustentar o seu atual modelo de desenvolvimento econômico. […] Entretanto, em países como o Brasil,

em que essa assimetria determinada histórica e culturalmente é ainda mais severamente agravada por problemas nacionais crônicos e resilientes como

a insuficiência das políticas agrárias, a concentração de renda, o uso

socialmente nocivo da propriedade, as largas desigualdades sociais e regionais e a consequente pobreza e exclusão social e econômica de um

grande número de pessoas, a escravidão contemporânea toma maior relevo.

Assim, o autor destaca que o fator “ser pobre” é preponderante aos trabalhadores resgatados em situações semelhantes a de escravidão. Observa- se também a grande presença de imigrantes bolivianos, advindos de regiões mais pobres das Américas. Ressalva-se que o excerto acima foi publicado no ano de

77

2009, e nos dias atuais, além destes, os haitianos também são superexplorados no Brasil povo que tem uma estimativa de migração no país com mais de 22 mil pessoas desde o ano de 2010. Wrobleski (2014), destaca também que a exploração das pessoas em nosso país está diretamente relacionada à ausência de políticas públicas adequadas, sem as quais deixam as pessoas em um estado crítico de vulnerabilidade. Economicamente, o sistema de produção capitalista necessita de mão de obra barata. É óbvio que quando se tem menos custos com pessoal, maior será o lucro. Em contrapartida, o proletariado pobre, miserável, necessita do modesto dinheiro ganho com o trabalho. Para Armatya Sen (apud Silva, 2005) economia, ética, liberdade individual e desenvolvimento estão estreitamente relacionados. Para ele “o desenvolvimento consiste na eliminação de privações de liberdade que limitam as escolhas e as oportunidades das pessoas de exercer ponderadamente sua condição de agentes”, logo, a liberdade se torna o principal objetivo do desenvolvimento. Com isso, já não apresentam mais liberdade àqueles grupos de pessoas que aceitam serviços com regimes análogos aos de escravo, pois necessitam do dinheiro para que possam regressar à comunidade de origem, pois se voltarem sem, estariam violando as normas comportamentais intrínsecas ao grupo que pertencem. Retornar sem dinheiro seria algo vergonhoso pelo que seria entendido por fracasso. Desse modo, ficar isolado geograficamente, estar sendo controlado por meio da violência física e/ou simbólica (endividamento), viver em condições degradante e humilhante, desta maneira vindo a perder os seus direitos como cidadão, seria uma forma de tentar vencer na vida, de tentar viver e de continuar vivendo, situação esta que será transmitida de geração para geração.

MEDIDAS DE COMBATE AO TRABALHO ANÁLOGO AO ESCRAVO Além das penalidades previstas na legislação penal, o Brasil se destaca no cenário internacional com programas e medidas de prevenção e combate ao trabalho escravo, caracterizados pelos seguintes órgãos:

78

Organização Internacional do Trabalho (OIT) - É a agência das Nações Unidas que tem por missão promover oportunidades para que homens e mulheres possam ter acesso a um trabalho decente e produtivo, em condições de liberdade, equidade, segurança e dignidade, da qual o Brasil faz parte juntamente com mais 184 países.

Comissão Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo - Seu objetivo é coordenar e avaliar a implementação de ações previstas no Plano Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo.

Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) - Através do Grupo Especial de Fiscalização Móvel, tem a finalidade de fiscalizar e de combater a prática da utilização de mão de obra escrava.

Cadastro de Empregadores Infratores “Lista Suja” - Criado em 2004, com a Portaria nº 540 do Ministério do Trabalho e Emprego foi criado o “Cadastro de Empregadores Infratores que tenham mantido trabalhadores em condições análogas à de escravo”, e contém o nome de pessoas físicas e jurídicas flagradas pela fiscalização.

Plano Nacional para Erradicação do Trabalho Escravo - Elaborado pela Comissão Especial do Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (CDDPH), tornando-se a Resolução 05/2002 do CDDPH.

O combate ao trabalho em condição análoga à de escravo deve observar as políticas de atuação e planejamento da Secretaria de Inspeção do Trabalho (SIT), bem como a Instrução normativa nº 91/2011. As ações fiscais desenvolvidas pelas unidades descentralizadas do MTE são organizadas pelas chefias de fiscalização, em colaboração com Coordenadores por elas designados para a condução dos trabalhos. As chefias de fiscalização deverão informar a SIT previamente do cronograma de ações possibilitando que as mesmas sejam empreendidas de forma eficiente e eficaz.

79

Cabe destaque, a promulgação da PEC 3 do Trabalho Escravo - Emenda Constitucional nº 81/2014 que da nova redação do artigo 243 da Constituição Federal onde:

As propriedades rurais e urbanas de qualquer região do país onde forem localizadas culturas ilegais de plantas psicotrópicas ou exploração de trabalho escravo na forma da lei serão expropriadas e destinadas à reforma agrária e a programas de habitação popular, sem qualquer indenização ao proprietário e sem prejuízo de outras sanções previstas em lei, observado, no que couber, o disposto no Artigo 5º.

Ainda deve ser regulamentada para definir o que será considerado trabalho escravo, e em que casos se dará o perdimento de terras, imóveis e benfeitorias, a emenda inclui também o que está na propriedade, como máquinas ou gado. Embora o estado brasileiro acumule grandes esforços para extinguir a escravidão contemporânea que ocorre em nosso país, maiores são as dificuldades encontradas, dentre elas à extensão territorial é um fator que em muito dificulta as ações de combate a exploração dos trabalhadores em condições análogas à de escravo, porém, vale citar que conforme dados da OIT o Brasil desponta como um dos países que mais combate o trabalho escravo.

CONCLUSÃO A observância do trabalho escravo através da história, demonstra que tal prática socioeconômica provoca consequências gravíssimas ao desenvolvimento de uma economia e que se estende a estrutura social de uma nação. O objeto da degradação do indivíduo para o trabalho é o mesmo contemporaneamente, o lucro. Porém, o humano feito escravo não é mais de uma raça específica e sim todo

e qualquer indivíduo em condição vulnerável. A escravidão pode não se manifestar

em sua forma clássica, já conhecida pelos seus métodos, mas se valem de novos estratagemas para suprimir a vontade do indivíduo como trabalhador, a exemplo da

privação de liberdade, os castigos físicos e ainda torturas psicológicas, aviltar seus direitos e submetê-lo a uma condição em que seu esforço de trabalho traga apenas

o lucro ao escravista, sem que este cumpra com suas obrigações legais.

3 Projeto Emenda Constitucional

80

O termo a que se refere à escravidão transformou-se para acompanhar a

nova roupagem que está em prática, sendo adotado então convencionalmente o uso

da nomenclatura de atividade análoga à escravidão.

Em Rondônia tal fenômeno está ligado em sua maioria a atividade

agropecuária, onde ocorre uma facilitação para sua ocorrência, pelo fato do local de

trabalho ser situado em zona rural, que por ser extensa e por vezes de difícil acesso

dificulta a chegada dos órgãos fiscalizadores. Fato este que permite que o

empregador que adota a prática escravocrata com seus empregados se sinta a

vontade para perpetuar tal ato, pois acredita que não será flagrado, e em

decorrência disto saíra impune.

A legislação brasileira para o assunto é adequada e aborda o tema em todas

as suas possibilidades, prevê diversas penas para o infrator em questão e ainda

aparelha o Estado para coibir o trabalho escravo, porém o esforço para suprimir a

escravidão deve ser contínuo e nunca cessar, pois, onde ocorre qualquer

agrupamento humano e existir relação de trabalho entre os indivíduos sempre

haverá a possibilidade da ocorrência de trabalho escravo, e este sempre estará se

remodelando, sendo necessário que o Estado também se intere de como tal prática

ocorre, tendo sempre como objetivo a extinção deste ato vil que fere a dignidade

humana e suprime o indivíduo em todas as suas características.

REFERÊNCIAS

ALMEIDA, André Henrique de. Mecanismos de combate ao “trabalho escravo contemporâneo”. In: Âmbito Jurídico, Rio Grande, XV, nº 98, mar 2012.

BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília: Ed. do Senado Federal, 2014.

Manual de combate ao trabalho em condições análogas às de escravo. Brasília: MTE, 2011. Decreto-lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940. Brasília: Ed. do Senado Federal, 2014.

Ministério Público da União. Procuradoria Geral do Trabalho. Revista do Ministério Público do Trabalho. ed. especial. Trabalho escravo. Ano XIII. n. 26. Brasília: LTr, 2003ª.

81

CERQUEIRA, João da Gama. Sistema de Direito do Trabalho. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1961.

COSTA, Antônio Luiz Monteiro Coelho da. A escravidão chega ao terceiro milênio. Revista Isto É. 16 de outubro de 2000.

DAVIS, David Brion. O problema da escravidão na cultura ocidental. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001.

FIGUEIRA, Ricardo Rezende. Pisando fora da própria sombra: a escravidão por dívida no Brasil contemporâneo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2004.

Trabalho escravo no Brasil: Depoimento de Walter Barelli e Ruth Vilela. Estudos Avançados; volume 14, número 38, páginas 7-29. Abril 2000.

GIL, Antônio Carlos. Como elaborar projetos de pesquisa. São Paulo: Atlas, 2002.

GONÇALVES, Carlos Alberto; MEIRELLES, Anthero de Moraes. Projetos e relatórios de pesquisa em Administração. São Paulo: Atlas, 2004.

GOMES, Ângela Maria de Castro. Repressão e mudanças no trabalho análogo a de escravo no Brasil: tempo presente e usos do passado. Revista Brasileira de História. v. 32, nº 64, p. 167-184. 2012. Disponível em:

<http://www.scielo.br/pdf/rbh/v32n64/10.pdf> Acesso 01/10/2014.

JORGE NETO, Francisco Ferreira. CAVALCANTE, Jouberto de Quadros Pessoa. Direito doTrabalho. 3ª ed. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2005.

LOVEJOY, Paul E. A Escravidão na África: Uma história de suas transformações. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002.

MAESTRI FILHO, Mário José. O escravismo antigo. 2.ed. São Paulo: Atual; Campinas: Ed. Unicamp, 1985.

MASSON, Cleber. Direito penal esquematizado: parte especial volume 2. 6ª ed. São Paulo: Método, 2014.

MELGAR, Alfredo Montoya. DerechodelTrabajo. 16. ed. Madrid: Tecnos, 1995.

NASCIMENTO, Amauri Mascaro. Curso de direito do trabalho: História e teoria geral do direito do trabalho: Relações individuais e coletivas do trabalho.26ª ed. São Paulo: Saraiva, 2011.

Organização Internacional do Trabalho. Trabalho Escravo no Brasil do Século XXI, Brasília: 2007. p. 11.

OLIVIERI, Antônio Carlos. Trabalho compulsório ainda existe no Brasil. Disponível em: <http://educacao.uol.com.br/historia- brasil/ult1702u64.jhtm?action=print>. Acesso 02/10/2014.

82

PEREIRA, Luciana Francisco. A escravidão contemporânea e os princípios do Direito do Trabalho. Revista Âmbito Jurídico. n. 59, ano XI, novembro/2008. Disponível em: <http://www.ambito-

juridico.com.br/site/index.php?n_link=revista_artigos_leitura&artigo_id=5242>

Acesso 02/10/2014

PRESTES, Maria Luci de Mesquita, A Pesquisa e a construção do conhecimento científico: do planejamento aos textos da escola à academia, 3ª ed. Catanduva:

Rêspel, 2005.

Portal Secretaria Direitos Humanos. Disponível em:

<http://www.sdh.gov.br/assuntos/conatrae/programasa/copy_of_comissao-nacional-

para-a-erradicacao-do-trabalho-escravo> Acesso em: 01/10/2014.

Portal Palácio do Planalto. Disponível em:

<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/de12848compilado.htm> Acesso em: 01/10/2014.

Portal Repórter Brasil. Disponível em: <http://reporterbrasil.org.br/lista-suja/> Acesso em 25 de setembro de 2014.

Disponível em: <http://reporterbrasil.org.br/dados/trabalhoescravo/> Acesso em 25 de setembro de 2014.

Portal Comissão Pastoral da Terra de Rondônia Brasil. Disponível em: <http://cptrondonia.blogspot.com.br/2013/11/campanha-de-fraternidade-2014- e.html> Acesso em 01 de outubro de 2014.

Portal Tudo Rondônia. Disponível em: <http://www.tudorondonia.com/noticias/veja-

quem-sao-os-empresarios-de-rondonia-que-aparecem-na-lista-suja-do-trabalho-

escravo-no-brasil-250-trabalhadores-foram-libertados-no-estado,4096.shtml > Acesso em 01 de outubro de 2014.

SANTOS, Ronaldo Lima dos. A escravidão por dívidas nas relações de trabalho no Brasil contemporâneo. In: Revista do Ministério Público do Trabalho, nº 26. Brasília: LTr, 2003.

SAKAMOTO, Leonardo Moretti. Os acionistas da casa-grande: a reinvenção capitalista do trabalho escravo no Brasil contemporâneo. 2007. Tese (doutorado em Ciência Política) - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, USP, São Paulo, 2007.

SENTO-SÉ, Jairo Lins de Albuquerque. Trabalho escravo no Brasil na atualidade. São Paulo: LTr Editora, 2000.

SCHWARTZ, Stuart. Escravos roceiros e rebeldes. Bauru: Ed. Universidade do Sagrado Coração, 2001.

83

SILVA, Maria Aparecida de Moraes. Trabalho e trabalhadores na região do “Mar de Cana e do Rio de Álcool”. Agrária. Revista do Laboratório de Geografia Agrária. FFLCH-USP. n. 02. São Paulo, 2005. Disponível em:

<http://www.revista.usp.br/agraria/article/view/103/103> Acesso 01/10/2014

SILVA, Marcello Ribeiro. Trabalho análogo ao de escravo rural no Brasil do século XXI: novos contornos de um antigo problema. Dissertação de Mestrado em Direito Agrário. Universidade Federal de Goiás. Goiânia, 2010. Disponível em:

<http://portal.mpt.gov.br/> Acesso 01/10/2014

SCHWARZ, Rodrigo Garcia. A cidadania cativa: Uma breve perspectiva da escravidão contemporânea no Brasil. Revista Âmbito Jurídico. n. 64, ano XII, maio/2009. Disponível em < http://www.ambito-juridico.com.br/> Acesso 01/10/2014

VIANNA, Segadas. O trabalho até a idade moderna. In: SÜSSEKIND, Arnaldo. ARANHÃO, Délio. VIANNA, Segadas. Instituições de Direito do Trabalho. 11. ed. São Paulo. Ltr, 1991. vol. 1.

WROBLESKI, Stefano. Imigrantes haitianos são escravizados no Brasil. Repórter Brasil. 2014. Disponível em <http://reporterbrasil.org.br/> Acesso em: 01/10/2014

84