Sei sulla pagina 1di 10

(arte)

Em sociedades dependentes, uma das

(cultura)
espécies de crítica, a mais apressada e
costumeiramente aceita como
inquestionável, é a que diz respeito ao
elitismo da criação.
Neste livro, Lúcia Santaella procura
deslindar a complexidade de, alguns
dos mais fundamentais problemas que
se embutem nessa crítica.
Com base numa visão dialético- EQUÍVOCOS DO ELITISMO.
materialista do território cultural,
procede a exercícios de reflexão que
põem em confronto e interação
questões referentes à produção Lúcia Santaella
artística, cultura popular. e meios de
comunicação de massa. Nesse
trinômio de múltiplas determinações,
faz emergir indagações que colocam
em questão os clichês críticos com
que, de hábito, são rotuladas as
atividades criadoras. C EDITORA
Lúcia Santaella

BIBLIOTECA DA EDUCAÇÃO
Série 7— ARTE E CULTURA
Volume 1

Dados de Catalogação na Publicação (CIP) Internacional


(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Santaella, Lúcia.
(Arte) & (cultura) : equívocos do elitismo / Lúcia Santaella.
— 2. ed. — São Paulo : Cortez, 1990. (Biblioteca da educação. Sé-
rie 7. Arte e Cultura; v. 1)
ISBN 85-249-0245-0
1. Arte e sociedade 2. Cultura 3. Cultura popular L Tftulo. (Arte) & (Cultura)
equívocos do elitismo
CDD-306.4
90-0122 -701.03

Indicas para catálogo sistemático:


Arte e cultura : Sociologia 306.4
2! edição
Arte e sociedade 701.03
3. Cultura popular : Sociologia 306.4

C EDITORA
IV
Repensando o conceito
de ciátura popular

"Não tende a esvaziar seu próprio espaço um


projeto político que utiliza a cultura como ele-
mento de sua realização e que só consegue se
afirmar e encontrar sua validade depredando
todas as esferas da cultura que não se enqua-
dram nos cânones de seu projeto?"
IV
Repensando o conceito de
cultura popular

Antes de entrarsios especificamente na discussão da problemática


de cultura popular, deixaremos aqui algumas notas esboçadas sobre
questões que, a nosso ver, constituem-se em verdadeiras pedras de
toque para que não iniciemos nosso caminho sobrecarregados com
uma bagagem de mal-entendidos.
Em primeiro lugar, livremo-nos, ou tentemos nos livrar, de uma
concepção idealista de cultura. Quando dizemos idealista, não estamos
tomando este termo como sinônimo de idealizada, mas em oposição
à materialista. Nessa medida, encaixam-se no que chamamos idealistas
muitas das concepções de cultura travestidas de marxismo. Trocando
em miúdos: toda visão de cultura como emanação ou reflexo da
produção econômica de uma sociedade histórica é urna visão não..
apenas mecânica como também idealista. Isto porque, se assim for,
os dois princípios fundamentais do materialismo dialético estão sendo
falseados: a primazia da prática e a primazia do concreto. Toda teoria
do reflexo afirma, sem dúvida alguma, o concreto e a práxis a nível
da produção econômica, mas, ao afirmar, absolutiza e, ao absolutizar,
reduz toda a realidade e concreção do social às relações econômicas
de que qualquer outra realidade passa a ser emanação (deixando,
portanto, de ser realidade). Nas angulações que essa visão permite,
a cultura aparece como um epifenômeno cuja lógica e leis de funcio-
namento explicam-se diretamente pela lógica de engendramento da
produção econômica.
Parece desnecessário chamar atenção para isso, visto que os escri-
tos de Marx e Engels e Lênin já alertaram contra esse perigo até à

33
saciedade. No entanto, um teórico húngaro, G. Lukács, tornou-se político, e a cultura como expressão do espiritual ou como expressão
mundialmente famoso como marxista, produzindo epígonos por todos das questões da alma coletiva que não se maculam nas intempéries
os cantos do globo (e muitos no Brasil) ao criar uma teoria da lite- do corpo.
ratura e de seus fundamentos estéticos (teoria bastante rica e com- Ficando bem claro que não estamos, em absoluto, veiculando a
plexa, não há como negar) que se alicerça numa concepção da arte visão do cultural como um limbo paralelo, a salvo das tensões e
como reflexo. Parece também desnecessário chamar atenção para isso, contradições do econômico e político, podemos retomar o que tentá-
visto que vários textos,' infelizmente poucos no Brasil, têm aparecido, vamos dizer. Em resumo: as práticas sociais não se reduzem ao
criticando as bases muito mais hegelianas do que marxistas desse econômico, mas se estendem ao político e ao cultural. Cada uma
pensador húngaro. No entanto, toda atenção que chamarmos para dessas dimensões é uma unidade complexa, relativamente autônoma,
esse problema será sempre pouca, enquanto não resgatarmos uma de práticas diferenciais determinadas pelo econômico em última ins-
visão da cultura como dimensão relativamente autônoma que tam- tância. Com isso, toàia-se possível falar em concepção materialista da 7
bém compõe a concreção e materialidade da realidade social. cultura e em relação dialética entre super e infra-estrutura, visto que
Para tal, não é suficiente afirmar que os fenômenos culturais são sem uma base de produção material específica a cultura acaba sendo
fortemente mediatizados em relação ao econômico, gozando de auto- reduzida a uma relação de subordinação à materialidade do econô-
nomia relativa. Trata-se, isto sim, de resgatar os alicerces materiais mico, o que impede a apreensão das complexas e reais interações
concretos dos fenômenos culturais em sua especificidade, resga- dialéticas do econômico e político e do cultural.
tando a dimensão cultural co- mo uma estrutura complexa de práticas Não podemos aqui deixar de remeter nosso leitor para um texto,
diferenciais e específicas. Não se trata aqui, certamente, de impor a a nosso ver fruto de um pensamento fundante, sobre o qual estamos
visão da dimensão cultural como independente dos condicionamentos baseando nossas colocações. Referimo-nos ao trabalho de Robert
econômicos, pois que isso seria incorrer mais flagrantemente no idea- Henry Srour,2 pensador brasileiro que lançou as bases mais fecundas
lismo de se conceber o econômico como corpo material, regido pelo
2. Modos de Produção: Elementos da Problemática. Rio de Janeiro,
Ed. Graal, 1978. Uma excelente síntese dos pontos fundamentais desse tra-
1. Veja-se, por exemplo, Jauss, H. R. História Literária como Desafio à balho, de autoria do próprio Srour, encontra-se no artigo: Por uma (Re)Ela-
Ciência Literária. Vila Nova de Gaia, Portugal, José Soares Martins, p. 29 boração do Conceito de Modo de Produção. Educação e Sociedade. São
segs. Veja-se também: Enzensberger, H. M. As Aporias da Vanguarda, em Paulo, Cortez Editora / Autores Associados / Cedes, n.° 1, setembro de 1978.
Vanguarda e Modernidade. Tempo Brasileiro n.° 26-27. Rio de Janeiro, 1971, Para que fiquem mais inteligíveis as nossas referências ao trabalho de Srour,
p. 90 e segs. N. Jitrik faz também uma inteligente colocação a respeito da alinhavaremos aqui alguns tópicos que nos parecem necessários: "Sem aban-
teoria do reflexo. Apesar de não estar se referindo diretamente a Lukács, donar a tripartição das formações sociais nas instâncias ou dimensões do eco-
julgamos oportuno aqui transcrever tal colocação: "O sociologismo vulgar não nômico, político e cultural, Srour sinonimizou o conceito de modo de produ-
vê, pois, por trás das imagens estabelecidas pelo texto, o trabalho que torna ção com o de estrutura social, .entendendo esta como princípio de articulação
possível o ato literário; talvez o veja, enquanto estabelece um juízo de valor das relações estruturais, e considerando estas como as relações que confrontam
que tem por eixo a eficácia — sempre quimérica — do reflexo, mas nesse agentes coletivos e que são mediadas por instrumentos de trabalho particula-
caso o oculta na medida em que predomina o reconhecimento do refletido e res. Por não restringir as estruturas apenas às relações econômicas, estenden-
assim chamado 'valor' se lhe subordina. O trabalho como tal desaparece do-as, com inegável coerência, para as relações políticas e culturais, o autor
no referente — o refletido — que aparece e no valor — exaltado -- que redefiniu modo de produção como não restrito à produção econômico-material,
acompanha como a consagração do ato crítico sua própria operação de ocul- recuperando, de forma absolutamente conectada, as condições de existência
tamento". Op. cit., p. 11. dessa mesma produção e resgatando a especificidade e autonomia das pro-

34 35
para inteligirmos a complexidade das produções culturais nas suas falseado o quadro "político altamente complexo em que se enfrentam
interações não menos complexas com o político e o econômico em classes sociais, frações e camadas de classe, bem como categorias
sociedades historicamente pensadas. Entre as grandes decifrações desse sociais" 3 nas sociedades capitalistas modernas.
autor, que tocam mais de perto a problemática de que estamos aqui É por estar, parece-nos, justamente preocupado com os equívo-
nos acercando, está sua elucidação do processo de trabalho como cos gerados por essas precariedades conceituais que Ferreira Gullar,
práticas de transformação e apropriação que diferencialmente se num artigo bastante elucidativo,} procura deslindar a densidade das
especificam nas dimensões do econômico, político, cultural e interagem questões implícitas no problema da cultura em sua relação com as
na conjunção de suas determinações. Através disso (condições mate- classes sociais. O primeiro equívoco enfrentado pelo autor diz respeito
riais de existência) e da articulação das determinações dos agentes à identificação de cultura e ideologia. Enfatizando a enorme comple-
coletivos nos processos de produção (condições sociais de existência), xidade das manifestações culturais nos seus níveis de maior ou menor
o autor chega a montar uma teoria de classes, perturbadoramente autonomia em relaçá• às ideologias, Gullar já lança precisos contra-
lúcida, capaz de dar conta da intrincada malha, até então aparente- ataques às duas linhas simplificadoras mais comuns: de um lado, a
mente insondável, das relações, tensões e clivagens antagônicg entre identificação pura e simples de cultura-ideologia e, de outro, a ('
agentes coletivos nas sociedades históricas. mística de uma "cultura nacional" como um limbo aclassista acima de
O que queremos reter, para fins da questão que ora estamos quaisquer suspeitas. É a partir disso que, numa síntese referente espe-
nos propondo indagar, porém, é a maneira como a evidenciação, cificamente à problemática da cultura brasileira, o autor acaba por
realizada por Srour, da densa tessitura social nas sociedades capita- nos fornecer alguns pontos indicativos do complexo território em que
listas modernas leva-nos necessariamente a questionar a precariedade uma cultura se produz: "Cultura Brasileira existe porque existe uma
inoperante dos conceitos anacrônicos e anêmicos sobre os quais tem história que se desenrola dentro dos limites geográficos do país, sob
se erigido a maior parte das colocações teórico-práticas a respeito de condições econômicas, políticas, administrativas e culturais especí-
cultura popular. ficas. Ela tanto é produzida pelo povo analfabeto como pelas camadas
Antes de mais nada, essa precariedade advém da neblina em alfabetizadas e pelas elites intelectuais, é um produto ideologicamente
que o próprio conceito de cultura tem se visto envolvido juntamente confuso e contraditório, marcado na maioria dos casos pela alienação
com outros conceitos que lhe são coetâneos, tais como: superestrutura, cultural e política em que vivem as grandes massas populares, e não
ideologia, alienação, além de simplificações obscurecedoras que têm só elas. Portanto, se cultura brasileira não é sinônimo de 'cultura da
classe dominante', tampouco é sinônimo de cultura revolucionária ou
duções política e cultural. Com isso, articulam-se não apenas quatro esferas `cultura nacional-popular' ".3
que compõem cada uma das três dimensões (econômica, política, cultural), Descartando, de saída, a errônea visão de que cultura é apenas a
como também intersecciona-se dinâmica e dialeticamente o jogo de suas
cultura das classes dominantes, o autor evita, por outro lado, o
inter-intra e sobredeterminações. A reafirmação do postulado materialista do
primado da prática, como apropriação do mundo, isto é, processo de trans- absurdo de se subestimar e detratar qualquer produto cultural que
formação de um dado objeto, tornou-se mais complexa ao abraçar também
a instância política e cultural, resguardando, certamente, as devidas especifi-
cidades e retirando do caminho os entulhos e entraves das concepções ainda Srour, R. H. Modos de Produção..., op. cit., p. 239.
fortemente idealistas que negam as condições materiais de existência social Considerações em torno do Conceito de Cultura Brasileira. Escrita.
ao político e cultural". Santaella Braga, M. L. Literatura .e Ideologia. In: São Paulo, Vertente, ano I, n.° 1, 1977.
Produção de Linguagem e Ideologia. São Paulo, Cortez, 1980, p. 64-65. 5. Idem.

36 ' 37
não seja produzido pelo povo, pois que isso significa considerar que lançamos às cegas, munidos de meia dúzia de crenças, repetidas à
todas as formas culturais criadas em sociedades capitalistas estejam saciedade, como se a mera repetição lhes desse foro de verdade e, sob
imediatamente alocadas em duas categorias estanques e sem media- seu manto, todas as ações atingissem o alvo esperado.
ções: burguesas ou populares. Por essas razões, o intelectual não deve ser visto indiscrimina-
Num outro artigo mais recente, fi Gullar volta a alertar para a damente como um ser à parte, um eleito, iluminado, nem como um
complexidade das questões relativas à vida política e cultural de nosso alienado dos processos sociais, nem como aquele que, para estar
país: "Repõe-se, sob novas formas, velhos problemas: a alienação engajado na luta de classes, precisa necessariamente estar nas ruas
cultural e a dependência do país, o baixo nível de consciência das levantando bandeiras de ação, mas como aquele que trabalha com
classes subalternas, a luta por uma autêntica cultura nacional-popular pensamentos, sobre eles fazendo incidir sua prática, o que lhe dá,
e pela edificação de uma sólida democracia. Inevitavelmente, os inte- assim, "maiores possibilidades de formular uma contra-ideologia e
lectuais serão chamados a participar da discussão e do encaminha- maiores probabilidagies de diagnosticar as contradições e as situações
mento dessas questões. Desde já, portanto, é necessário ter claros de classe (espoliação, opressão, etc.)". 8 Essa, uma das especificidades
certos pontos".7 da tarefa que cabe ao intelectual na grande obra coletiva em que toma
Concordamos com o autor, mas vamos muito além. Não são parte: "sem onipotência, nem humilhações, é preciso lavar ps olhos:
apenas certos pontos que devem ser esclarecidos, porém todo o para ajudar a realidade a mudar, há que começar a vê-la". 9 "Se acei-
pensamento acerca do que continuamos a chamar superestrutura tamos que o intelectual vê o processo social de maneira distinta do
política, cultural e ideológica deve ser recomposto em bases mais resto, não por superioridade ou inferioridade, mas por simples divisão
fecundas. Só assim podemos hoje fazer a crítica que nos permita de trabalho, isto significa que também intervirá no processo de maneira
superar os equívocos e mal-entendidos, no fundo teóricos, sobre os diferente e que seu combate se situará em parâmetros distintos aos
quais se erigiu a práxis do movimento do Centro Popular de Cultura dos homens de ação ( .). '5 10
nos anos 60. Nessa medida, a superação de equívocos teóricos não Esse nosso parêntesis não está se dando por acaso. Por aqui
deve ser vista como mero diletantismo de intelectuais de gabinete, estamos abrindo caminho para contra-atacar um dos alicerces funda-
alienados da prática. Os fenômenos reais, concretos, sejam eles cultu- mentais que norteou a ação do Centro Popular de Cultura. E isto,
rais, políticos ou econômicos são sínteses de múltiplas determinações. não simplesmente para voltarmos no tempo, como se quinze anos não
Não se apresentam a nós como dados já prontos, transparentes, ine- houvessem transcorrido, mas porque, de um lado, os.equívocos desses
quívocos. (Não é o homem que se engana, é a realidade que o engana alicerces continuam até hoje presentes e, de outro lado, porque a
dissimulada pelas aparências.) Fenômenos reais, portanto, exigem ser análise crítica desses equívocos se faz premente como meio de busca
decifrados, desvendados. Só a análise rigorosa das condições reais de e encontro de novas possibilidades de ação cultural-social. Estas se
existência material e social dos agentes coletivos em situações concre- tornam dificultosas e erráticas sem um aclaramento das complexas
tas pode nortear as opções possíveis de intervenção transformadora configurações do território da cultura. Justamente aqui, aliás, locali-
dessas condições. Caso contrário, reificamos a práxis e a ela nos
Srour, R. H. Modos de Produção. , op. cit., p. 237.
Galeano, Eduardo. O Exílio entre a Nostalgia e a Criação. Cadernos
Vanguardismo e Cultura Popular no Brasil. Temas de Ciências Hu- de Opinião n.° 12, julho de 1979, p. 45.
manas n.° 5. São Paulo, Ed. Ciências Humanas, 1979. 10. Traba, Marta. La Cultura de la Resistencia. In: Literatura y Praxis
Idem, p. 89. en América Latina, op. cit., p. 61.

38 39
za-se um dos pontos nodais daqueles equívocos: na visão simplifica- sobredeterminam o econômico. Conduzidos pelas vias desse obscuran-
dora e maniqueísta da cultura. Segundo esta, tudo que não seja produ- tismo, aqueles que discursam contra a opressão acabam sendo opres-
zido para o povo, na linguagem do povo, é burguês e elitista. Divide-se sores de primeira linha, quando negam o espaço mesmo de existência
a produção cultural em dois campos nitidamente separados, como se e aparecimento de qualquer produto cultural e, mais ainda, do artís-
defrontamento das clivagens sócio-culturais não se desse numa urdi- tico: o espaço da liberdade. Esquecem-se que a experiência estética
dura complexa de mediações dialéticas que não se deixam expressar adquire seu valor justamente porque resiste a sectarismos, questiona
em categorias dicotômicas simples. Daí que, segundo a visão mani- determinismos. É sempre um dedo apontando para a liberdade como
queísta, qualquer produto científico e artístico, quando não se encaixa necessidade. Colocando indiscriminadamente, na categoria de bur-
na estipulada categoria de "para o povo", passa imediatamente para gueses, todos os produtos artísticos e culturais não 'catalogáveis na
a categoria de burguês, alienado e opressor, com o que incautamente categoria de populares, rejeitam obras irredutíveis a catálogos, inclu-
se alimenta a ilusão de que a burguesia pode ainda preencher as sive aos burgueses, à as oferecem na bandeja para a burguesia, que
condições fundamentais para desempenhar o papel de uma classe acaba por ganhar para suas fileiras muito mais do que jamais sonhou
universal, como se esta dispusesse de uma ideologia homogeneamente pedir.
cosida. Quando, ao contrário, evidenciar as fissuras e fendas e rasgos) O que causa maior estranheza, entretanto, no que toca aos
que se apresentam nessa pseudo-homogeneidade, é tarefa urgente (- agentes desse cerco redutor em relação à arte, é o fato de que esses
para o enfraquecimento da hegemonia dessa classe sobre as outras. j agentes se apresentam como baluartes do marxismo. Traem, contudo,
Muitas vezes, por exemplo, olhos menos maniqueístas nos fazem ver ç', nas raízes, o pensamento estético de Marx. Esquecem ou desconhecem
que trabalhos de artistas e cientistas, apressadamente chamados elitis- "elevado papel que Marx concede à sensibilidade humana, em geral,
tas e burgueses, estão na realidade fazendo emergir subversões à e, em particular, à sensibilidade estética. Enquanto o sentido humano
imposição de universalidade de valores através dos quais a hegemonia dos objetos só existe para os sentidos humanos (` . a mais bela das
burguesa busca a dominação. músicas carece de sentido e de objeto para o ouvido não musical .. .'),
Cumpre salientar que a grande vítima do cerco redutor, que a os sentidos são meios de afirmação do homem no mundo objetivo
concepção maniqueístá da cultura produz, é a arte. Todo artista que meios de autoconhecimento. Isto é o que Marx pretende dizer
não enquadrar sua produção dentro dos esquemas de ordem do quando afirma que os 'sentidos se converteram diretamente, em sua
engajamento político preestabelecido não passa de "ideólogo da prática, em sentidos teóricos'. Sublinha, assim, diferentemente de
espoliação", a serviço de interesses antipopulares. Não são poucos Hegel, que o homem não se afirma somente como ser pensante, mas
os mal-entendidos sobre os quais tal visão simplificadora se monta. mediante todos os sentidos. São tão humanos quanto o pensamento,
Limitar-nos-emos a apontar alguns. mas essa humanidade dos sentidos é, como tudo que é propriamente
Em primeiro lugar, o total obscurantismo quanto à especifici- humano, uma conquista. (. . .) É necessária a objetivação da essência
dade relativa da criação artística e das mediações da arte em relação humana, tanto no aspecto teórico como prático, tanto para converter
a outras produções culturais. Além disso, e aqui está o ponto mais em humano o sentido do homem como para criar o sentido humano
nevrálgico: uma completa incompreensão quanto ao caráter da dimen- adequado a toda riqueza da essência humana e natural." "
são política e quanto ao da cultural que, confundidos, perdem a força
de seus contornos, perdendo-se assim os meios de inteligibilidade dos 11. Vázquez, Adolfo Sánchez. As Idéias Estéticas de Man.. Rio de Ja-
modos como essas dimensões sociais se determinam mutuamente e neiro, Paz e Terra, 1978, p. 85.

40 41
Aqueles equívocos, contudo, não são casuais. Como já men- apropriaram, rapidamente, de todos os valores novos reconhecidos e
cionamos anteriormente, são frutos inevitáveis da generalizada in- consagrados para então manipulá-los à vontade. Também, sob o fas-
compreensão teórica que ronda não só a especificidade das práticas cismo, nenhuma atrocidade foi perpetrada sem que houvesse uma
políticas e das culturais, como também a articulação de suas determi- justificativa moral para tal. Os que hoje na Alemanha ainda bradam
nações. Infelizmente, os efeitos concretos da confusão teórica não se por sua ética e humanidade estão simplesmente esperando a oportu-
deixam esperar: projetos de ação e movimentos, que se pretendem nidade para perseguir aqueles que suas leis condenam e para exercer
politicamente revolucionários, caem na armadilha de uma visão rea- a mesma desumanidade de que teoricamente acusam a nova arte. Na
cionária da cultura que é utilizada como meio de efetivação da prática Alemanha, o engajamento freqüentemente significa repetição daquilo
política. Uma proposta político-cultural, potencialmente rica e dans- que todos já estão dizendo ou, pelo menos, estão dispostos a escutar.
formadora, como o foi o CPC, por exemplo, sucumbiu não apenas A idéia de uma mensagem na arte, mesmo quando politicamente
ante os golpes da repressão estatal de que foi vítima, mas de dentro radical, já contém Itália acomodação ao mundo: a posição do confe-
do próprio vazio conceituai em que se articulou. Confundiram, sem rencista esconde um acordo secreto com os ouvintes que só poderiam
meandros de diferenciação, produção artística com projeto cultural e perder a noção de ilusão, recusando-a." 12 Que não façamos, pelo
estes, com prática política. Não estamos, com isso, tentando afirmar menos, da história cultural brasileira sempre uma farsa do que já foi
que esses fatores não estão sempre mutuamente implicados. As impli- a história dos outros.
cações não são, contudo, mecânicas e imediatas. E a delimitação de Uma ação política de educação popular que se põe a campo
suas interferências é fundamental para que um movimento social não munida de confusas definições, eminentemente paternalistas, autori-
circule viciosamente em torno de seus próprios equívocos. tárias e superciliosas a respeito de classe social, consciência, engaja-
Um projeto político que utiliza a cultura como elemento de sua mento, alienação, valor estético, etc., corre o risco "de cair no volun-
realização e que só consegue se afirmar e encontrar sua validade tarismo, de praticar uma política cultural cujo móbil principal se
depredando todas as esferas da cultura que não se enquadram nos reduz a uma espécie de forcing junto dos escritores para que estes se
cânones de seu projeto, tende a esvaziar seu próprio espaço, pois a `ajustem', se 'corrijam', se 'reeduquem', a toda pressa e ao menos
obsessão do político conduz à negação da complexidade do cultural formalmente, para que a todo momento façam coincidir a sua demar-
quando, paradoxalmente, a cultura é, no caso, proposta como meio de _ che com as necessidades imediatas da classe operária e da sua van-
efetivação do político. Por outro lado, o desprezo pela dimensão guarda; o preço a pagar por essa precipitação é sempre muito elevado
estética em produções — ditas artísticas engajadas — dirigidas ao — do proletcult ao jdanovismo, das Conversas de Yenan à revolução
povo (como se efeitos estéticos não passassem de meros traços deco- cultural de Pequim, em 1966"." O 'CPC, infelizmente, também cabe
rativos burgueses) revela não só um profundo desconhecimento quanto nesse elenco.
ao potencial da função político-social das criações artísticas, como Não nos demoraremos em detalhar outros ângulos das contra-
também um desprezo pelo próprio povo, como se a este o estético dições da ação do CPC, visto que uma laboriosa análise, à luz de
não fizesse falta.
Isso tudo, sem mencionarmos as não poucas ciladas que a
chamada arte engajada inadvertidamente arma para Si mesma e nas
Adorno, T. W. Sartre e Brecht, engajamento na literatura. Cader-
quais incautamente cai. "É por isso que na Alemanha de hoje se deve
nos de Opinião n.° 2. Rio de Janeiro, Ed. Imlbia, p. 37.
encorajar antes a obra de arte autônoma do que a engajada. Estas se Prévost, C., op. cit., p. 172.

42
(

/ ) .
Gramsci, foi realizada por Renato Ortiz." Queremos nos demorar um
intervenção da ideologia em seu seio como uma de suas mais íntimas
pouco mais na categoria de alienação, através da qual muitas das
condições de existência"," a cognição busca a inteligibilidade do
análises de nossa realidade social continuam se processando. A defi-
mundo, enquanto a ideologia é uma forma de apropriação do mundo
nição dessa categoria se prende a uma noção de ideologia como falsa
prenhe de elementos imaginários. A distinção entre ambas se faz mais
consciência de sabor nitidamente lukacsiano. O equívoco maior a que
acirrada nas sociedades de classe, quando a relação ideológica "de
essa espécie de concepção conduz é o de que ela necessariamente tem
ilusão/alusão com a realidade é capitalizada pela classe dominante,
de pressupor a existência de uma consciência imaculada ou verda-
deliberada ou inconscientemente, em proveito de uma ocultação e/ou
deira, liberta do falso e iluminada. As conseqüências a que isso acaba
falsificação das diferenças estatutárias e das relações de oposição que
por conduzir são inevitáveis: a verdade está sempre com aqueles que
separam os dominantes dos subalternos. As relações ideológicas esta-
falam sobre a alienação dos outros, e sua missão social insubstituível
belecidas são então relações de hegemonia que vinculam agentes que
é a de dar a esses outros uma consciência que lhes foi roubada. Sem
suportaram o mesmoOprocesso de inculcação dos elementos simbólicos
deixarmos de aqui lembrar que toda forma de doação de consciência
necessários para a reprodução das relações de produção, de domi-
é também uma forma de usurpação, não nos demoraremos em discutir
nação, etc." 17
a estranha mescla de messianismo e positivismo de tal concepção.
Em síntese: conhecimento e ideologia imbricam-se inextricavel-
Queremos enfatizar, por outro lado, que toda essa questão de
mente e têm suas marcas de distinção em termos de dominância e
ideologia e alienação, para produzir efeitos práticos reais, tem de ser
não numa separação rígida e maniqueísta que divide o mundo em
reconduzida às trilhas em que Marx, em momentos muito lúcidos, a
dois campos separados: o dos iluminados (que tudo sabem) e o dos
colocou: todo processo de conhecimento está impregnado de ideologia
alienados (que tudo desconhecem).
e a falsidade da consciência é forma necessária de conhecimento, isto
As conseqüências mais empobrecedoras, no entanto, da concep-
devido à opacidade sempre dada do real. Esta não é certamente uma
ção de alienação como falsa consciência dizem respeito ao mecani-
afirmação categórica. Estamos radicalizando-a para evidenciar que
cismo com que é aplicada às sociedades dependentes. Senão vejamos.
conhecer é também um processo de trabalho, de transformação e
apropriação do real enquanto pensado. Ou, segundo as palavras de
Srour: "(. .) o real não é transparente e dele não se faz uma leitura
imediata; a abstração não espelha .o real, porém dele se apropria
cognitivamente, isto é, modifica de modo particular o objeto apro-
priado; a produção cognitiva não é por si mesma uma prática material,
ao mesmo título que a prática produtiva econômica que transforma
a natureza, pois o pensamento não trabalha diretamente com o con-
creto, mas com representações mentais desse mesmo concreto"."
Com isso, não se quer dizer que não exista qualquer distinção
entre ideologia e conhecimento. Se, bem que "a cognição suporte a

Cultura Popular: Organização e Ideologia. Cadernos de Opinião n.°


12, julho de 1979, p. 65 e segs.
Idem, p. 185.
Srour, R. H. Modos de Produção..., op. cit., p. 37.
Idem, p. 184.

44 45