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G. Reale - D.

Antiseri

HISTÓRIA
DA FILOSOFIA
Do Romantismo
ao Empiriocriticismo
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Reale, G.
História da filosofia, 5: do romantismo ao empiriocriticismo / G. Reale, D. Antiseri;
[tradução Ivo Storniolo]. - São Paulo: Paulus, 2005. - (Coleção história da filosofia)

ISBN 85-349-2359-0

1. Filosofia - História I. Antiseri, D. II. Título. III. Série.

05-1795 CDD-109

índices para catálogo sistemático:


1. Filosofia: História 109

Título original
Storia delia filosofia - Volume III: Dal Romanticismo ai nostri glorni
© Editrice LA SCUOLA, Brescia, Itália, 1997
ISBN 88-350-9273-6

Tradução
Ivo Storniolo
Revisão
Zolferino Tonon
Impressão e acabamento
PAULUS

© PAULUS - 2005
Rua Francisco Cruz, 229 • 04117-091 São Paulo (Brasil)
Fax (11) 5579-3627 •Tel. (11) 5084-3066
www.paulus.com.br • editorial@paulus.com.br
ISBN 85-349-2359-0
y\ p re.se.nfação

Existem teorias, argumentações e dis­


putas filosóficas pelo fatb de existirem pro­ A história da filosofia é a história dos
blemas filosóficos. Assim como na pesquisa
científica idéias e teorias científicas são problemas filosóficos, das teorias filosó­
respostas a problemas científicos, da mes­ ficas e das argumentações filosóficas. É
ma forma, analogicamente, na pesquisa a história das disputas entre filósofos e
filosófica as teorias filosóficas são tentativas dos erros dos filósofos. É sempre a his­
de solução dos problemas filosóficos. tória de novas tentativas de versar sobre
Os problemas filosóficos, portanto, questões inevitáveis, na esperança de
existem, são inevitáveis e irreprimíveis; conhecer sempre melhora nós mesmos e
envolvem cada homem particular que de encontrar orientações para nossa vida
não renuncie a pensar. A maioria desses e motivações menos frágeis para nossas
problemas não deixa em paz: Deus existe, escolhas.
ou existiríamos apenas nós, perdidos neste A história da filosofia ocidental é
imenso universo? O mundo é um cosmo ou a história das idéias que informaram,
um caos? A história humana tem sentido? ou seja, que deram forma à história do
E se tem, qual é? Ou, então, tudo - a gló­ Ocidente. É um patrimônio para não ser
ria e a miséria, as grandes conquistas e os dissipado, uma riqueza que não se deve
sofrimentos inocentes, vítimas e carnífíces perder. E exatamente para tal fim os pro­
- tudo acabará no absurdo, desprovido blemas, as teorias, as argumentações e
de qualquer sentido? E o homem: é livre as disputas filosóficas são analiticamente
explicados, expostos com a maior clareza
e responsável ou é um simples fragmento possível.
insignificante do universo, determinado * * *
em suas ações por rígidas leis naturais? A
ciência pode nos dar certezas? O que é a Uma explicação que pretenda ser clara
verdade? Quais são as relações entre razão e detalhada, a mais compreensível na me­
científica e fé religiosa? Quando podemos dida do possível, e que ao mesmo tempo
dizer que um Estado é democrático? E ofereça explicações exaustivas comporta,
quais são os fundamentos da democracia? todavia, um "efeito perverso", pelo fato
E possível obter uma justificação racional de que pode não raramente constituir um
dos valores mais elevados? E quando é que obstáculo à "memorização" do complexo
somos racionais? pensamento dos filósofos.
Eis, portanto, alguns dos problemas Esta é a razão pela qual os autores
filosóficos de fundo, que dizem respeito pensaram, seguindo o paradigma clás­
às escolhas e ao destino de todo homem, sico do Üeberweg, antepor à exposição
e com os quais se aventuraram as mentes analítica dos problemas e das idéias dos
mais elevadas da humanidade, deixando- diferentes filósofos uma síntese de tais
nos como herança um verdadeiro patrimô­ problemas e idéias, concebida como
nio de idéias, que constitui a identidade e instrumento didático e auxiliar para a me­
a grande riqueza do Ocidente. morização.
;A p ^ e s e s t a ç ã o

* * * * *

Afirm ou-se com justeza que, em Ao executar este complexo traçado,


linha geral, um grande filósofo é o gênio os autores se inspiraram em cânones psico
de uma grande idéia: Platão e o mundo pedagógicos precisos, a fim de agilizar a
das idéias, Aristóteles e o conceito de Ser, memorização das idéias filosóficas, que
Plotino e a concepção do Uno, Agostinho são as mais difíceis de assimilar: seguiram o
e a "terceira navegação" sobre o lenho da método da repetição de alguns conceitos-
cruz, Descartes e o "cogito", Leibniz e as chave, assim como em círculos cada vez
"mônadas", Kant e o transcendental, Hegel mais amplos, que vão justamente da síntese
e a dialética, Marx e a alienação do traba­ á análise e aos textos. Tais repetições, re­
lho, Kierkegaard e o "singular", Bergson e petidas e amplificadas de modo oportuno,
a "duração", Wittgenstein e os "jogos de ajudam, de modo extremamente eficaz, a
linguagem", Popperea "falsificabilidade" fixar na atenção e na memória os nexos
das teorias científicas, e assim por diante. fundantes e as estruturas que sustentam
Pois bem, os dois autores desta obra o pensamento ocidental.
propõem um léxico filosófico, um dicioná­ •k -k ★
rio dos conceitos fundamentais dos diversos Buscou-se também oferecerão jovem,
filósofos, apresentados de maneira didá­ atualmente educado para o pensamento
tica totalmente nova. Se as sínteses iniciais visual, tabelas que representam sinotica-
são o instrumento didático da memoriza­ mente mapas conceituais.
ção, o léxico foi idealizado e construído Além disso, julgou-se oportuno enri­
como instrumento da conceitualização; e, quecer o texto com vasta e seleta série de
juntos, uma espécie de chave que permita imagens, que apresentam, além do rosto
entrar nos escritos dos filósofos e deles dos filósofos, textos e momentos típicos da
apresentar interpretações que encontrem discussão filosófica.
pontos de apoio mais sólidos nos próprios
textos. * * *

* * * Apresentamos, portanto, um texto cien­


Sínteses, análises, léxico ligam-se, tífica e didaticamente construído, com a
portanto, ã ampla e meditada escolha dos intenção de oferecer instrumentos adequa­
textos, pois os dois autores da presente dos para introduzir nossos jovens a olhar
obra estão profundamente convencidos para a história dos problemas e das idéias
do fato de que a compreensão de um fi­ filosóficas como para a história grande,
lósofo se alcança de modo adequado não fascinante e difícil dos esforços intelectuais
só recebendo aquilo que o autor diz, mas que os mais elevados intelectos do Ociden­
lançando sondas intelectuais também nos te nos deixaram como dom, mas também
modos e nos jargões específicos dos textos como empenho.
filosóficos. G io v a n n i R e a le - D a r io A n tiseri
Õv\c\ice g em i

índice de nomes, XVII mem romântico, 11; 5. Idéias fundamentais


índice de conceitos fundamentais, X X I do romantismo, 12; 5.1. A sede do infinito,
12; 5.2. O novo sentido da natureza, 12;
5.3. O sentido de “ pânico” pela pertença
Prim eira parte ao uno-todo, 12; 5.4. A função do gênio e
da criação artística, 12; 5.5. O anseio pela
O MOVIMENTO liberdade, 13; 5.6. A reavaliação da religião,
13; 5.7. A influência do elemento clássico e
ROMÂNTICO outros temas específicos, 13; 6. A prevalên­
E A FORMAÇÃO cia do “ conteúdo” sobre a forma, 13; 7. As
ligações entre romantismo e filosofia, 13.
DO IDEALISMO
C apítulo segundo
C apítulo prim eiro Os fundadores
Gênese e características da Escola romântica:
essenciais do romantismo _____ 3 os Schlegel, Novalis,
I. O “ Sturm und Drang” _____ 3 Schleiermacher,
I. As premissas históricas, 3; 2. As idéias e o poeta Hõlderlin
as características de fundo do “ Sturm und e as posições de Schiller
D rang” , 4; 3. Gênese e difusão do movi­ e de G oeth e_________________ 15
mento, 5.
I. A constituição do círculo
II. O papel desempenhado dos românticos,
pelo classicismo em relação a revista “ Athenaeum”
ao “ Sturm und Drang” e a difusão do romantismo 15
e ao romantismo___________ 6 I. Jena e o círculo dos Schlegel, 15.
1. O “ Sturm und D rang” como prelúdio
do romantismo, 6; 2. O novo sentido do II. Friedrich Schlegel,
clássico e da imitação dos clássicos, 7; 3. A o conceito de “ ironia”
importância do renascimento do clássico na
arte e na filosofia dos românticos, 7.
e a arte
como forma suprema
III. A complexidade do espírito________________ 16
do fenômeno romântico 1. O conceito de “ ironia” em sentido român­
e suas características tico, 16; 2. A arte como síntese de finito e
essenciais ________________ 9 infinito, 17.
1. Como deve ser delineado o problema da III. Novalis:
definição do romantismo, 10; 2. A gênese do
termo “ romântico” , 10; 3. Os tempos e os do idealismo mágico
lugares em que se desenvolveu o romantis­ ao cristianismo
mo, 11; 4. A característica espiritual do ho- como religião universal_____ 18
« IJn d ice 0 e ^ a l

1. O idealismo mágico: arte e filosofia como III. Herder:


magia, 18; 2. O cristianismo como religião a concepção antiiluminista
universal, 19. da linguagem e da história — 39
IV. Schleiermacher: 1. O homem é “ criatura da língua” , a his­
a interpretação da religião, tória é obra de Deus, 39.
o relançamento de Platão IV. Humboldt
e a hermenêutica------------- 20 e o ideal de humanidade----- 41
1. A importância de Schleiermacher, 20; 2. A
1. O “ espírito da humanidade” , 41.
interpretação romântica da religião, 21; 3. O
grande relançamento de Platão, 21; 4. Ori­ V. Os debates
gens da hermenêutica filosófica, 22.
sobre as aporias
V. Hõlderlin do kantismo
e a divinização da natureza— 23 e os prelúdios do idealismo— 42
1. Um poeta tipicamente “ romântico” , 23. 1. As críticas de Reinhold ao kantismo, 42;
2. As críticas de Schulze ao kantismo, 42;
VI. Schiller: 3. As críticas de M aimon à “ coisa em si”
a concepção da “ alma bela” kantiana, 43; 4. As críticas de Beck, 43.
e da educação estética------ 24
1. Vida e obras, 24; 2. A beleza como escola
de liberdade, 24; 3. Poesia ingênua e poesia Segunda parte
sentimental, 25. FUNDAÇÃO
VII. Goethe, E ABSOLUTIZAÇÃO
suas relações
com o romantismo
ESPECULATIVA
e a concepção da natureza — 26 DO IDEALISMO
1. As relações com o “ Sturm und D rang” ,
26; 2. Natureza, Deus e arte, 26; 3. “Wilhelm
Meister” como romance de formação espiri­ C apítulo quarto
tual, 27; 4. O significado de Fausto, 28. Fichte e o idealismo ético______ 47
Te x t o s _ F. Schlegel: 1. Rum o à nova I. A vida e as o b ras__________ 47
mitologia, 29; Novalis: 2. Cristandade ou
Europa, 30; Schleiermacher: 3. A herme­ I. A leitura iluminadora de Kant, 47; 2. O
nêutica, 33. período berlinense, 48.
II. O idealismo de Fich te______ 49
Capítulo terceiro 1. A superação do pensamento kantiano, 49;
Outros pensadores 2. Do “ Eu penso” ao “ Eu puro” , 50.
que contribuíram
III. A “ doutrina da ciência” ____ 51
para a superação
e a dissolução do Iluminismo 1. O primeiro princípio do idealismo de
Fichte: o Eu põe a si mesmo, 51; 2. O segun­
e prelúdios do Idealism o-------- 35 do princípio: o Eu opõe a si um não-eu, 52;
I. Hamann: 3. O terceiro princípio: a oposição no Eu
do eu limitado ao não-eu lim itado, 52;
a revolta religiosa ' 4. Explicação idealista da atividade cog-
contra a razão ilum inista----- 35 noscitiva, 53; 5. Explicação idealista da
I. Os limites da razão dos iluministas, 35. atividade moral, 53.

II. Jacobi e a reavaliação da fé — 37 IV. Problemas m orais_________ 55


1. A polêmica contra Spinoza, 37; 2. O 1. Fundação idealista da ética, 55; 2. Signi­
antiintelectualismo, 37; 3. A reavaliação ficado e função do direito e do Estado, 56;
da fé, 38. 3. O papel histórico da nação alemã, 56.
Ôv\ú'\c-e. g e r a !

V. A se g u n d a fase do pensamento V. As últimas fases


de Fichte (1800-1814)__________ 57 do pensamento de Schelling__ 87
1. Relações e diferenças entre as duas fases 1. A fase da teosofia e da filosofia da liber­
da filosofia de Fichte, 57; 2. Aprofundamen­ dade (1804-1811), 87; 1.1. A natureza de
tos do idealism o em sentido m etafísico, Deus, 87; 1.2. A justificação metafísica da
57; 3. A componente místico-religiosa no luta entre o bem e o mal, 87; 2. A “ filosofia
segundo Fichte, 58. positiva” (a partir de 1815), 88.
VI. Conclusões: VI. Conclusões
Fichte e os rom ânticos_____ 59 sobre o pensamento
1.0 idealismo de Fichte é idealismo “ético” ,59. de Schelling______________ 89
M apa c o n c e i t u a l - O E u puro e os três 1. Um juízo histórico difícil, 89
princípios fundam entais da doutrina da M apa conceitual - A filosofia da identida­
ciência, 60. de, 90.
T e x t o s - J. G. Fitche: 1. Primeira introdução T e x t o s - Schelling: 1. A necessidade da
à doutrina da ciência (1797), 61. filosofia da natureza, 91; 2. Característica
da produção estética, 91; 3. O verdadeiro
órgão da filosofia: a arte, 92.
C apítulo quinto
Schelling
e a gestação romântica Capítulo sexto
do idealismo ________________ 77 Hegel e o idealismo absoluto___ 95
I. A vida, I. A vida, as obras
o desenvolvimento e a gênese do pensamento
do pensamento de H egel__________________ 95
e as obras de Schelling______ 77 I. A vida, 96; 2. Os escritos hegelianos: as
obras da juventude e as obras-primas da
I. A vida e as obras, 77.
maturidade, 97; 3. Diversas avaliações das
II. Os inícios do pensamento obras-primas de Hegel, 97.
de Schelling II. Os fundamentos do sistem a__ 99
em Fichte (1795-1796)
1. Os fundamentos do pensamento hege-
e a filosofia da natureza liano, 100; 2. A realidade como espírito:
(1797-1799)______________ 79 determinação preliminar da noção hegelia-
1. O ponto de partida: o idealismo de Fichte, na do espírito, 101; 2.1. A realidade não é
79; 2. A unidade de espírito e natureza, 80; “ substância” , mas “ sujeito” ou “ espírito” ,
3. A natureza como gradual desdobramento 101; 2.2. Crítica a Fichte, 101; 2.3. Crítica
da inteligência inconsciente, 80; 4. A alma a Schelling, 102; 2.4. A nova concepção
do mundo e a natureza do homem, 81. hegeliana do espírito como infinito; 2.5. O
espírito como processo que se autocria em
III. Idealismo transcendental sentido global, 103; 2.6. O processo triádico
e idealismo estético (1800)___ 82 do espírito em sentido “ circular” dialético,
103; 2.7. Alguns corolários essenciais do
1. Partir do subjetivo para atingir o objetivo, pensamento hegeliano, 104; 2.8. O “ nega­
82; 2. A “ atividade re a l” e a “ atividade tivo” como momento dialético que leva o
ideal” do Eu: o ideal-realismo, 83; 3. A ati­ espírito ao positivo, 104; 3. A dialética como
vidade estética, 83; 4. A atividade da arte e lei suprema do real e como processo do pen­
as características da criação artística, 84. samento filosófico, 104; 3.1. O método que
IV. A filosofia da identidade torna possível o conhecimento do absoluto,
104; 3.2. Diferenças entre a dialética he­
(1801-1804)_______________ 84 geliana e a clássica dos gregos, 105; 3.3 A
1. A razão como absoluto, 84; 2. A identi­ estrutura triádica do processo dialético, 106;
dade absoluta, 85; 3. Da identidade infinita 3.4. O primeiro momento da dialética (tese),
absoluta à realidade finita e diferenciada, 85. 106; 3.5. O segundo momento da dialética
X
ce aerai

(antítese), 107; 3.6. O terceiro momento da VI. A filosofia do espírito-------- 124


dialética ou momento especulativo (síntese), 1. O espírito e seus três momentos, 125; 2. O
108; 4. A dimensão do “ especulativo” , o espírito subjetivo, 126; 3. O espírito objetivo,
significado do “ aufheben” e a “ proposi­ 126; 3.1. A concepção hegeliana do espírito
ção especulativa” , 108; 4.1. O momento objetivo, 126; 3.2. Os três momentos do
“ especulativo” como novidade da dialética espírito objetivo, 126; 3.3. A natureza do
hegeliana, 108; 4.2. O momento “ espe­ Estado, 127; 3.4. A natureza da história e a
culativo” como “ superação” no sentido filosofia da história, 127; 3.5. A realização do
de “ retirada-conservação” dos momentos espírito objetivo na história, 128; 4 .0 espírito
precedentes, 109; 4.3. A “ proposição” ou absoluto: arte, religião e filosofia, 128; 4.1. O
“ juízo” no sentido tradicional e no novo “ retorno a si mesma” da idéia, 128; 4.2. As
sentido especulativo, 109. formas do auto-saber-se do espírito: arte, reli­
gião e filosofia, 128; 4.3. As articulações dia­
III. A “ fenomenologia léticas da arte, da religião e da filosofia, 129.
do espírito” ______________ 110
1. Significado e finalidade da “ fenomeno­ VII. Algumas reflexões
logia do espírito” , 111; 1.1. O problema conclusivas------------------- 129
da passagem da consciência comum para a 1. “ O que está vivo e o que está morto” na
razão, 111; 1.2. A passagem da consciência filosofia de Hegel, 130.
finita ao absoluto, 111; 1.3. A “ fenome­
M apa c o n c e it u a l - Necessidade da ciência
nologia” como história da consciência do
indivíduo e história do espírito, 112; 2. A do absoluto, 132; O sistema da ciência, 133.
trama e as “ figuras” da “ fenomenologia” , T e x t o s - G. W. F. Hegel: a necessidade de
112; 2.1. As etapas do itinerário fenome- que a filosofia seja ciência sistemática do
nológico, 112; 2.2. A primeira etapa: a absoluto: 1. A natureza do saber científico
consciência (certeza sensível, percepção e o absoluto como espírito, 134; 2. O papel
e intelecto), 113; 2.3. A segunda etapa: a da Fenomenologia do espírito, 136; 3. A
autoconsciência (dialética de senhor-servo, natureza da verdade filosófica, seu método
estoicismo-ceticismo e consciência infeliz), e a proposição especulativa, 138; A Lógica:
113; 2.4. A terceira etapa: a razão, 114; 4. As articulações do elemento lógico e a
2.5. A quarta etapa: o espírito, 115; 2.6. A dialética, 141; A filosofia da natureza: 5. A
quinta etapa: a religião, 115; 2.7. A etapa concepção hegeliana da natureza, 142; A
conclusiva: o saber absoluto, 116. filosofia do espírito: 6. O espírito em seus
três momentos, 145; 7. A racionalidade do
IV. A ló g ic a _________________ 116 Estado e da história, 146.
1. A nova concepção da lógica, 117; 1.1. A
lógica hegeliana vai além da lógica formal e
além da lógica transcendental, 117; 1.2. A
lógica hegeliana como “ filosofia primeira” Terceira parte
(metafísica em sentido idealista), 117; 1.3. A
lógica hegeliana como exposição de Deus
DO HEGELIANISMO
antes da criação do mundo, 118; 1.4. O des­ AO MARXISMO
dobramento dialético global da lógica he­
geliana, 118; 2. A lógica do sei; 119; 3. A lógica
da essência, 119; 4. A lógica do conceito, C apítulo sétimo
120; 4.1. A lógica “ subjetiva” , 120; 4.2. O
significado de “ conceito” , 120; 4.3. O sig­ Direita e esquerda hegeliana.
nificado de “ juízo” , 121; 4.4. O significado Feuerbach
de “ silogismo” , 121; 4.5. O significado de e o socialismo utópico________ 151
“ idéia” , 122.
I. A direita hegeliana__________ 151
V. A filosofia 1. Um problema para os discípulos de Hegel:
da n atureza_______________ 122 o cristianismo é compatível com a filosofia
1. As sugestões que determinam as caracte­ hegeliana?, 151; 2. A direita hegeliana: de­
rísticas da filosofia da natureza, 122; 2. O fesa e justificação do cristianismo por meio
esquema dialético da filosofia da natureza, da “ razão” hegeliana, 152; 3. Os expoentes
124. mais significativos da direita hegeliana, 152.
J T n d ic e c je ^ a l

II. A esquerda hegeliana--------- 153 176; 9. O materialismo histórico, 177; 10. O


materialismo dialético, 178; 11. A luta de
1. David Friedrich Strauss: a humanidade
classes, 179; 11.1. O antagonismo entre
como união entre finito e infinito, 153;
burguesia e proletariado, 179; 11.2. Da
2. Bruno Bauer: a religião como “ desventura
sociedade feudal à sociedade burguesa, 180;
do m undo” , 154; 3. M ax Stirner: “ eu depo­
11.3. Da sociedade burguesa à hegemonia
sitei minha causa no nada” , 154; 4. Arnold
do proletariado, 180; 12. “ O Capital” , 180;
Ruge: “ a verdade submete em massa todo
12.1. O valor das mercadorias é determi­
o mundo” , 156.
nado pelo trabalho, 180; 12.2. O conceito
III. Ludwig Feuerbach de “ mais-valia” , 181; 12.3. O processo da
acumulação capitalista, 182; 13. O adven­
e a redução da teologia to do comunismo, 182; 13.1. A passagem
a antropologia____________ 157 necessária de uma sociedade classista para
1. Vida e obras, 157; 2. N ão é Deus que uma sociedade sem classes, 182; 13.2. A
cria o homem, mas o homem que cria Deus, ditadura do proletariado, 183.
157; 3. A teologia é antropologia, 158; 4. O M apa c o n c e it u a l _ K. M arx: Materialismo
“ humanismo” de Feuerbach, 159. e comunismo, 185.
IV. O socialismo utópico:
II. Friedrich Engels
Claude-Henri
e a fundação do “ Diamat” 186
de Saint-Simon,
1. A dialética: uma “ representação exata”
Charles Fourier
da totalidade do real, 186; 2. Engels contra
e Pierre-Joseph Proudon____ 160 Dühring, 187.
1. Saint-Simon: a ciência e a técnica como
base da nova sociedade, 161; 1.1. A lei do III. Problemas abertos_________ 188
progresso: os “ períodos orgânicos” e os “pe­ 1. C ríticas ao m aterialism o histórico e
ríodos críticos” , 161; 1.2. A era da filosofia dialético, 188; 2. Religião e estética: duas
positiva, 161; 1.3. A difusão do pensamento brechas no interior da concepção marxista,
de Saint-Simon, 162; 1.4. Desenvolvimen­ 189; 3. Os economistas contra M arx, 190.
tos místico-românticos do saintsimonismo,
163; 2. Charles Fourier e o “ mundo novo T e x t o s - K. M arx: 1. A religião é o ópio do
societário” , 163; 2.1. A racionalização das povo, 191; 2. A alienação do trabalho, 191;
paixões, 163; 2.2. A nova organização do 3. O materialismo histórico, 194; 4. As idéias
trabalho e da sociedade, 164; 3. Pierre- da classe dominante são sempre as idéias
Joseph Proudhon: a autogestação operária dominantes, 195; 5. A estrutura econômica
da produção, 165; 3.1. A propriedade é determina a superestrutura ideológica, 195;
“ um furto” , 165; 3.2. A justiça como lei 6 .0 materialismo dialético, 195; 7. A história
do progresso social, 166; 3.3. Crítica ao é história de lutas de classes, 196; F. Engels:
coletivismo e ao comunismo, 166. 8. O advento inevitável do socialismo, 197.
Te x t o s - L. Feuerbach: A teologia é antro­
pologia, 167.
Quarta parte

C apítulo oitavo OS GRANDES


Karl M arx e Friedrich Engels. CONTESTADORES
O materialismo
histórico-dialético____________ 169
DO SISTEMA
I. Karl M arx_________________ 169
HEGELIANO
1. Vida e obras, 171; 2. M arx, crítico de
Hegel, 173; 3. M arx, crítico da esquerda C apítulo nono
hegeliana, 173; 4. M arx, crítico dos econo­ Herbart e Trendelenburg.
mistas clássicos, 174; 5. M arx, crítico do
socialismo utópico, 175; 6. M arx, crítico Relançamento do realismo
de Proudhon, 175; 7. M arx e a crítica à e crítica
religião, 175; 8. A alienação do trabalho, da dialética hegeliana_________ 201
*Z7r\dice g e r a l

I. O realismo C apítulo décim o primeiro


de Johann Friedrich Herbart 201 Sõren Kierkegaard:
I. Vida e obras, 202; 2. A tarefa da filosofia, a filosofia existencial
202; 3. O ser é uno; os conhecimentos sobre do “ indivíduo”
o ser são múltiplos, 203; 4. A alma e Deus, e a “ causa do cristianismo” ____ 223
204; 5. Estética, 204.
I. Uma vida que não brincou
II. Adolf Trendelenburg, com o cristianism o_________ 225
crítico
I. A culpa secreta do pai, 225; 2. Por que
da “ dialética hegeliana” ____ 205 Kierkegaard não desposou Regina Olsen,
1. A posição de Trendelenburg, 205; 2. A 226.
“ negação” sobre a qual se fundamenta a
dialética de Hegel implica uma confusão II. A obra de Kierkegaard,
entre “ contradição” lógica e “ contrarieda­ o “poeta cristão” ,
de” real, 205. e seus temas de fundo_______ 227
1. Defesa do “ indivíduo” , 227; 2. O tema
da fé, 227; 3. Os temas da “ angústia” e do
Capítulo décimo “ desespero” , 228; 4. O caráter religioso da
Arthur Schopenhauer: obra de Kierkegaard, 228.
o mundo como
“ vontade” III. A descoberta
e “ representação” ____________ 207 kierkegaardiana
da categoria
I. Vida e obras_______________ 208 do “ indivíduo” ___________ 229
I. Schopenhauer: a vida, as obras e a influên­ 1. A categoria do “ indivíduo” , 229; 2. O
cia destas sobre a cultura sucessiva, 208. “ fundamento ridículo” do sistema hegelia-
no, 230; 3. Centralidade da categoria do
II. O mundo “ indivíduo” , 230.
como representação________ 210
1. Que o mundo seja representação é uma IV. Cristo:
verdade antiga, 210; 2. As duas componen­ irrupção do eterno
tes da representação: sujeito e objeto, 210; no tempo ________________ 230
3. Superação do materialismo e do realismo
1. A verdade cristã não deve ser demons­
e revisão do idealismo, 211; 4. As formas
trada, 230; 2. O princípio do cristianismo,
a priori do espaço e do tempo e a categoria
232.
da causalidade, 211.
III. O mundo como vontade___ 212 V. Possibilidade,
angústia e desespero________ 232
1. O mundo como fenômeno é ilusão, 212;
2. O corpo como vontade tornada visível, 1. A possibilidade como modo de ser da
212; 3. A vontade como essência de nosso existência, 232; 2. A angústia como puro
ser, 213. sentimento do possível, 232; 3. O desespero
como doença mortal, 233.
IV. Dor, libertação e redenção__ 214
VI. Kierkegaard:
1. A vida oscila entre a dor e o tédio, 214;
2. A libertação por meio da arte, 215;
a ciência
3. Ascese e redenção, 215. e o cientificismo___________ 234
M apa c o n c e i t u a l - O mundo como repre­ 1. Se é Deus que tem a precedência, a ciência
sentação, isto é, como fenômeno, 217. tem um limite intransponível, 234.
Te x t o s - A. Schopenhauer: 1. “ O mundo é VII. Kierkegaard contra
uma representação minha” , 218; 2. A vida a “ teologia científica” _____ 236
de cada indivíduo é sempre uma tragédia,
219; 3. “A base de todo querer é necessidade, 1. A teologia não é ciência, mas “ sabedoria
carência, ou seja, dor, 220. do espírito” , 236.
X III
D n d ic e q e r a l

M apa conceituai . - A filosofia existencial, 2 3 7 . Capítulo décimo terceiro


T e x t o s - S. Kierkegaard: 1. Estágio esté­ A filosofia italiana
tico, estágio ético e estágio religioso, 2 3 8 ; na época da Restauração.
2 . O indivíduo, 2 3 9 ; 3. A existência como Empenho social, milícia
possibilidade, 2 4 0 ; 4 . A escola da angústia, e revolução em Romagnosi,
2 4 0 ; 5. A única certeza é a ético-religiosa,
Cattaneo e Ferrari____________ 257
241.
I. A “ filosofia civil”
de Gian Domenico
Quinta parte Rom agnosi________________ 257
A FILOSOFIA I. A mente humana procede da síntese para
a análise, 257; 2. A “ filosofia civil” como
NA FRANÇA conhecimento do “ homem social” , 258.
E NA ITÁLIA II. A filosofia e o federalismo
NA ERA em Carlos Cattaneo________ 259
DA RESTAURAÇÃO 1. Carlos Cattaneo: “ a filosofia é uma mi­
lícia” , 260; 2. A filosofia como “ ciência”
das “ mentes associadas” , 260; 3. A teoria
política do federalismo, 260.
C apítulo décim o segundo
A filosofia na França III. Giuseppe Ferrari
na era da Restauração e a “ filosofia da revolução” __261
entre “ ideólogos” , 1. N ão à razão “ abstrata” , sim ao positivis­
“ espiritualistas” mo que instaura a “ época da ciência” , 262.
e “ tradicionalistas” ___________ 245 T e x t o s - C. Cattaneo: 1. O direito federal,
263; 2. As pátrias locais, 264.
I. Os ideólogos ______________ 245
I. As duas linhas filosóficas que caracteri­
zaram a passagem do século XVIII para o Capítulo décimo quarto
século X IX na França, 245; 2. Conceitos Os três pensadores italianos
essenciais dos ideólogos, 246; 3. Destutt de
Tracy, 246; 4. Cabanis, 246.
da era da Restauração
que propuseram um retorno
II. O espiritualismo à filosofia espiritualista
de Maine de B ira n _________ 247 e à metafísica:
1. A consciência como sentimento de exis­ Galluppi, Rosmini e Gioberti __265
tência individual, 247; 2. A consciência
como força agente e vontade, 248.
I. Pascal Galluppi
e a “filosofia da experiência” __265
III. Victor Cousin I. Vida e obras, 265; 2. A realidade do eu
e o espiritualismo e a existência do mundo exterior, 266; 3. O
eclético__________________ 249 princípio de causalidade e a dem onstra­
ção da existência de Deus, 266; 4. A fun­
1. O caminho da observação interior, 249. dação dos valores morais, 266.
IV. Os tradicionalistas ________ 251 II. Antônio Rosmini
1. C aracterísticas essenciais dos trad i­ e a filosofia do “ ser ideal” ___268
cionalistas, 251; 2. Louis de Bonald, 251; 1. A vida e as obras, 269; 2. Crítica do sen-
3. Joseph de Maistre, 252. sismo empirista e do apriorismo kantiano,
T e x t o s - L. de Bonald: 1. O catolicismo, 270; 3. A idéia do ser, sua origem e sua
princípio da sociedade civil e de conservação natureza, 270; 4. O “ sentimento corpóreo
social, 253; J. de Maistre: 2. O papado criou fundam ental” e a “ realidade do mundo
e salvou a Europa, 254. externo” , 272: 5. Pessoa, liberdade e pro­
C ó d ic e g e r a l

priedade, 272; 6. Estado, Igreja e o princípio III. A difusão do positivismo


da moralidade, 274. na Fran ça--------------------- 298
IlI.Vincenzo Gioberti 1. As figuras significativas de Laffitte, Littré,
Renan e Taine, 298; 2. Claude Bernard e o
e a filosofia nascimento da medicina experimental, 299.
do “ ser real” ----------------- 274
1. A vida e as obras, 275; 2. Contra o “ psi- IV. O positivismo
cologism o” da filosofia moderna, 276; 3. A utilitarista in glês__________ 300
“ fórmula ideal” , 276; 3.1. A filosofia como 1. Os principais representantes do positivis­
reflexão sobre a revelação originária de mo utilitarista inglês, 301; 2. O pensamento
Deus, 276; 3.2. Primeira parte da fórmula de Malthus, 301; 3. A economia clássica,
ideal: o ente existe necessariamente, 277; 302; 3.1. Adam Smith, 302; 3.2. David Ri­
3.3. Segunda parte da fórmula ideal: o ente cardo, 302; 4. Robert Owen: do utilitarismo
cria o existente, 277; 3.4. Terceira parte da ao socialismo utópico, 303; 5. O utilitarismo
fórmula ideal: o existente retorna ao ente, de Jeremiah Bentham, 304; 6. O utilitarismo
277; 4. O “ primado moral e civil dos ita­ de James Mill, 304.
lianos” , 278.
T extos- p. Galluppi: 1. Demonstração da V. John Stuart Mill:
existência de Deus, 279; A. Rosmini: 2. A entre lógica indutiva
idéia do ser, 279; 3. O momento privilegia­ e defesa da liberdade
do da “ilum inação” , 280; 4. A “pessoa” , do indivíduo______________ 306
281; 5. Liberdade de ensino, 282; 6. A 1. A crise dos vinte anos, 307; 2. O silogismo
benéfica influência do cristianismo sobre a é estéril: não aumenta nosso conhecimento,
sociedade civil, 282; V. Gioberti: 7. Sobre o 308; 3. O princípio de indução: a unifor­
catolicismo, 283; 8. A função do papado e midade da natureza, 308; 4. As ciências
do catolicismo na história da humanidade, morais, 309; 5. A defesa da liberdade do
284.
indivíduo, 310.
M apa c o n c e i t u a i . - Lógica, 3 1 1 .
Sexta parte T ex to s - A. Comte, 312; 1. A lei dos três está­
gios, 312; 2. A construção da sociologia como
O POSITIVISMO física social, 313; J. S. Mill: 3. Por que é neces­
NA CULTURA sário restringir a intervenção do Estado, 315.
EUROPÉIA
C apítulo décim o sexto
O positivismo evolucionista
C apítulo décim o quinto e materialista________________ 3 1 7
O positivismo sociológico
e utilitarista_________________ 287 I. O positivismo evolucionista
de Herbert Spencer_________ 3 1 7
I. O positivismo: linhas gerais_ 287 1. Religião e ciência são “ correlatas” , 318;
I. Desenvolvimentos da sociedade e pro­ 2. O papel da filosofia no pensamento de
gressos da ciência na época do positivismo, Spencer, 319; 3. A evolução do universo:
288; 2. Os pontos centrais da filosofia po­ do homogêneo ao heterogêneo, 320; 4. O
sitivista, 288. evolucionismo em biologia, 320; 5. O evo-
lucionismo em psicologia, 320; 6. O evolu-
II. Auguste Comte cionismo em sociologia e em ética, 321.
e o positivismo sociológico__ 290 M apa c o n c e i t u a l - O positivismo evolu­
1. A lei dos três estágios, 291; 2. A doutrina cionista, 322.
da ciência, 292; 3. A sociologia como física
social, 294; 4. A classificação das ciências, II. O positivismo na Itália,
295; 5. A religião da humanidade, 296. com particular atenção
M apa c o n c e i t u a i . - O positivismo socioló­ ao pensamento
gico, 297. de Roberto Ardigò_________ 323
X V
Ónd ic e a e Y c x I

1. A filo so fia deve estar ligada com o 1. O debate sobre a “ evolução” na França:
desenvolvimento das teorias científicas, Lamark, Cuvier e Saint-Hilaire, 342; 2. Char­
324; 2. A posição de Roberto Ardigò, 324; les Darwin e “ a origem das espécies” , 343;
2.1. Da sacralidade da religião à sacralidade3. A origem do homem, 344.
do “ fato” , 324; 2.2. O ignorado não é o
incognoscível, 325; 2.3. A evolução como V. A física no século X IX -------- 346
passagem do indistinto ao distinto, 325; 1. A física nos inícios do século, 346; 2. O
2.4. M oral e sociedade, 326. mecanicismo determinista como “ programa
de pesquisa” , 346; 3. Da eletrostática à ele-
III. O positivismo materialista trodinâmica, 348; 4. O eletromagnetismo e
na A lem anha_____________ 327 a nova síntese teórica, 348; 5. O desencontro
1. Contra as metafísicas da transcendência, com a mecânica de Newton, 350.
327; 2. Os principais representantes, 328.
VI. A lingüística: Humboldt,
T e x t o s _ H. Spencer: 1. N ão há antagonis­
mo entre ciência e religião, 329.
Bopp, a “ lei de Grimm”
e os “ neogramáticos” -------- 351
1. W. von Humboldt: a língua cria o pensa­
Sétima parte mento, 351; 2. A construção da “ gramática
co m p arad a” , 351; 3. O contributo dos
O DESENVOLVIMENTO “ neogramáticos” , 352.
DAS CIÊNCIAS VII. O nascimento
NO SÉCULO XIX, da psicologia
O EMPIRIOCRITICISMO experimental_____________ 353
1. A “ lei psicofísica fundamental” de Weber-
E O CONVENCIONALISMO Fechner, 353; 2. W. Wundt e o laboratório de
psicologia experimental de Leipzig, 354.

C apítulo décim o sétimo VIII. N as origens


O desenvolvimento da sociologia científica____ 355
das ciências no século X I X ____ 333 1. Emile Durkheim e as “ regras do método
sociológico” , 355; 2. O suicídio altruísta
I. Questões g e ra is____________ 333 e egoísta, 356; 3. O suicídio anômico, 357;
1. Ciência e filosofia no século X IX , 333; 4. Influências de Durkheim, 357.
2. Alguns resultados “ técnicos” da pesquisa
científica no século X IX , 334.
C apítulo décimo oitavo
II. O processo de “ rigorização” O empiriocriticismo
da matemática ____________ 335 de Richard Avenarius
1. Da “ aritmetização da análise” à “ logiciza- e Ernst Mach,
ção da aritmética” , 335; 2. George Boole e a ál­ e o convencionalismo
gebra da lógica, 335; 3. Das geometrias não- de Henri Poincaré
euclidianas ao programa de Erlangen, 336. e Pierre D uhem ______________ 359
III. As geometrias I. O empiriocriticismo _______ 359
não-euclidianas___________ 337
1. Richard Avenarius, 360; 1.1. Significado
1. A geometria euclidiana e a questão do do termo empiriocriticismo, 360; 1.2. A
quinto postulado, 337; 2. O nascimento concepção da “ experiência p u ra” , 360;
das geometrias não-euclidianas, 339; 3. O 1.3. O retorno ao conceito “ natural” de
significado filosófico da geometria não-eu- mundo, 361; 2. Ernst Mach, 362; 2.1. A
clidiana, 341. concepção biológica da ciência como adap­
tação ao ambiente, 362; 2.2. Como nascem
IV. A teoria os problemas e suas soluções, 362; 2.3. Crí­
da evolução biológica______ 342 ticas à mecânica newtoniana, 364.
XVI -í
Unaic-e- q e r a lI

II. O convencionalismo holísticos e negações do experimentum


de Henri Poincaré crucis, 369.
e Pierre Duhem____________ 365 T e x t o s - E. Mach: 1. A ciência “se tornou
1. O convencionalismo moderado de Poin­ o fator biologicamente e culturalmente mais
caré, 366; 1.1. A convenção não é arbítrio, propício” , 370; 2. A função das hipóteses
366; 1.2. A teoria institui o fato e “ a expe­ na pesquisa científica, 370; 3. A ciência
riência é a única fonte da verdade” , 367; economiza a experiência, 371; H. Poincaré:
1.3. Os axiom as da geometria como defini­ 4. O valor cognoscitivo da ciência, 372; P.
ções mascaradas, 368; 2. Pierre Duhem e a Duheim: 5. O papel da história da ciência,
natureza da teoria física, 368; 3.Controles 373.
C ódice de nomes *

B ern ard C., 28 8,298,299,334,346 C o n d illa c B., 246,247,249,257,


A Bernstein E., 188 265, 268, 270
Berzelius J. ]., 288, 334 C o n d o r c e t M.-J.-A., 291, 293
A g a z z i E., 339
Bichat X., 295 C o n r a d i K., 151, 152
A g o s t in h o d e H ip o n a , 272,
Binet A., 354 C o p é r n i c o N., 295, 343
275
BiotJ. B., 347, 369 C o r r e n s C ., 334
A l e m b e r t , J. B. L e R o n d d ’ , 291
Biran, M. de, 246, 247-248, 249 C o u l o m b , C . A. d e , 348
A m p è r e A . M . , 348
Blainville H.-M., 295 C o u s i n V., 246,247,249-250,275
A n g i u l l i A ., 323, 324
Blanc L., 163,169 C r o c e B., 13, 145
A p o r t i F., 270
A r d i g ò R., 287, 288, 324-326
Blanqui A., 163 Cuoco V., 258
B o a v e n t u r a , são, 272 C u v i e r G.,342
A r i s t ó t e l e s , 36, 51, 118, 119,
B õ h m e J., 88
120, 205, 249, 258, 268, 270,
B o l y a i J., 288, 339
313, 338
B o n a l d , L. d e , 251-252, 253­ V
A r o n R., 357
A r r h e n i u s S. A ., 334
254, 277
B o o l e G., 335, 336
A s t F.,34 D a n d o l o G., 326
B o p p F.,351, 352 D a r w i n C., 288, 317, 318, 320,
A v e n a r i u s R., 332, 359, 360-361
B r e n t a n o F., 205 333, 343-345, 354
B r e w s t e r D., 347 De Ruggiero G., 6
B r u g m a n n K., 353 D e S a n c t i s F., 207
B B r u n o G., 323 D e S a r l o F., 355
B ü c h n e r L., 327, 328
D e V r i e s H., 334
B a a d e r , F. v o n , 8 8 B u f f o n G.-L., 343 D e d e k i n d R., 288, 335, 336
B a b b a g e C., 330
D e l b r ü c k B ., 353
B a b e u f F.-N., 169
D e s c a r t e s R., 111,207,210,218,
Baccelli G., 325 O 248, 249, 262, 265, 275, 276,
B a c o n F., 290, 293
288, 290, 293, 295
B a e r , K.E. v o n , 334 C a b a n is P.-J. G., 245, 246-247 D e s t u t t d e T r a c y A.-L.-C., 245,
B a u e r B . , 153, 154, 156, 169, Calderón de la Barca P., 212 246, 248
171, 172 C a n n i z z a r o S., 334
D i d e r o t D., 291
B a u e r E., 172 C a n t o r G., 288, 335, 336
D u B o i s - R e y m o n d E., 328
Baugb A. C., 10 C a t t a n e o C ., 243,244,257,258.
D u h e m P., 331, 332, 359, 365,
B e c c a r i a C., 302, 304 259-261, 263-264, 324 366, 368-369, 373-374
B e c k J. S., 42, 43 C a t t e l l J., 354, 355
D ü h r i n g E., 187, 328
B e d s d o r f f , 351 C a u c h y L. A., 288, 335
D u r k h e i m E., 355-357
B e h r i n g , E. v o n , 334 C a y l e y A., 335
D u v i v i e r J., 248
B e n e k e F. E., 205 . C h a m p o l l i o n J.-E, 346
B e n t h a m J., 300, 301, 302, 304, C h a r c o t J.-M., 354
305, 306, 309, 321 C l a u s i u s R. J. E., 288, 347
Berchet J., 16 Coleridge S. T., 16
B e r g s o n H., 248, 249, 366 C o m t e A., 160, 285, 287, 288,
B e r k e l e y G., 70, 207, 210, 218, 289, 290-295, 297, 298, 299, Eckermann J. P., 28
269, 272 307,312-314, 321,355 E c k h a r t (M e stre ), J., 88

* Neste índice:
-reportam -se em versalete os nomes dos filósofos e dos homens de cultura ligados ao desenvolvimento
do pensamento ocidental, para os quais indicam-se em negrito as páginas em que o autor é tratado de
acordo com o tema, e em itálico as páginas dos textos;
-reportam -se em itálico os nomes dos críticos;
-reportam -se em redondo todos os nomes não pertencentes aos agrupamentos precedentes.
X V III

E h r l i c h P., 334 G o e th e J. W., 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, J o d l F., 328


E i n s t e i n A., 350 12, 15, 25, 26-28, 39, 41, 49, J o n e s W., 218, 351
E n e s í d e m o , 43 115,249 J o u l e J . P., 288, 347, 348
Enfantin B. P., 163 G õ s c h e l K . F., 151, 152 Ju v e n a l D. G., 221
E n g e l s F., 155, 169, 170, 172, G r a s s m a n n H., 336
175, 178, 180, 186-188, 196, G r a y A., 344
197-198, 328 G r im m ]., 240, 352
E r d m a n n J. E ., 152 G u illo t in J.-I., 3 K
E r n e s t i J. A., 33
E u c l i d e s , 337, 338, 339, 368
Kafka F., 207, 210
E u l e r L., 335
■H K a n t I., 24, 35, 37, 38, 39,42, 43,
Ê u t i c o , 284
48, 49, 50, 51, 52, 53, 54, 55,
H a e c k e l E., 287, 288, 327, 328 66, 82,85,106,111,112,120,
H a l l J . S., 354, 355 202, 207, 208, 209, 212, 213,
F H a m a n n J. G., 35-36, 37 218, 258, 265, 266, 268, 270,
H a m i l t o n W ., 318, 319 276, 321, 361
H a m i l t o n W . R ., 335 K e k u l é F. A., 334
F arad ay M., 288, 348, 349
Hansen H. P., 235 K e l v i n W. T., 347
Fazzari A., 266
Hartenstein G., 203 K e p l e r J., 295, 350
F e c h n e r G ., 353-354
H a r t m a n n N . , 17 Kierkegaard P., 225
F e r r a r i G., 244, 257, 258, 261­
Hartung H., 48 K i e r k e g a a r d S., 78, 88,199,200,
262, 324
Hayez F., 273 205, 208, 223-237, 238-242
Ferrarotti F., 355
H e g e l G. W. F., 8, 13, 14, 23, 28, Klein F., 288, 336
Ferri E., 324
39, 40, 45, 46, 77, 85, 89, 95, Klinger F. M., 4, 5, 6
F e u e r b a c h L., 151,153,157-159,
92-133, 134-147, 149, 151, Klopstock F. G., 5
167-168, 172, 176, 205 K o c h R., 288, 334
F i c h t e J. G„ 13, 15, 16, 18, 20,
152, 153, 154, 156, 157, 158,
159, 169, 173, 174, 178, 179, Kolakowski L., 289
21, 23, 39, 42, 43, 46, 47-60,
195, 196, 202, 205, 206, 207, K õ l i k e r R. A., 334
61-76, 79, 82, 83, 85, 87, 89,
208, 209, 215, 223, 230, 249, K õ p p e n K . F., 171
96, 97, 99, 100, 101, 102,
274, 276, 292 K r a e p e l i n E., 354
103, 117, 120, 134, 202, 207,
H e i d e g g e r M., 23 K r o n e c k e r L., 335
209,211
Heller A., 190 Kugler K., 102
F i s c h e r K., 152
H e l m h o l t z , H . L . F. v o n , 288, K u h n T., 347, 350
F o r b e r g , 48
346, 353, 354 K ü l p e O ., 354
F o u r i e r C., 160, 161, 163-165,
169, 304 H e l v é t i u s C.-A., 304
H e n r y J . , 348
F o u r i e r J. B., 347
France A., 210 H e r á c lito , 8
L
H e r b a r t J. F., 199, 200, 201-204,
Frederico Guilherme IV, 77
F r e g e G., 335, 336 205
H e r d e r J. G., 3, 5, 7, 8, 37, 39­ L a a s E., 328
F r e s n e l A.-J., 369 L a f f i t t e P., 298
F r e u d S., 354 40, 351
H e r t z H . R ., 288, 349 L a g r a n g e J.-L., 335
Friedrich C. D., 4, 5, 8, 14, 25 L a m a r c k J.-B., 342-343
H e r w e g h G., 172
F r i e s J . B., 205
H e s s M., 172 L a m e n n a i s , R . d e , 251, 275
F ü l l e b o r n G. G., 33
H i l b e r t D., 333, 336, 341 L a p l a c e P.-S., 317, 346, 369
H õ l d e r l i n F., 1, 2, 5, 12, 15, 23, L a r o m i g u i è r e P., 249
77, 95, 96 L a v o i s i e r A., 295
H o m m e l C. F., 71 L e g e n d r e A.M., 346
H o o k e r J. D., 344 L e R o y É., 365, 366
H o r k h e i m e r M., 207, 210 L e V e r r i e r U. J. J., 350
G a b e l l i A., 323, 324 L e h m a n n , 354
H u m b o l d t , W. v o n , 39,41,351,352
G a b l e r G . A., 151, 152 L e i b n i z G. W., 83, 134, 262, 265,
H u m e D., 262, 266, 269, 272
G a l i l e i G . , 188, 295, 346 ' 268, 270, 321, 338
H u s s e r l E., 267
G a l l u p p i p., 244, 257, 258, 265­ L e n i n N., 149
H u t c h e s o n F., 304
267, 279 Lenz M. R., 4, 5, 6
H u y g e n s C., 295, 369
G a l o i s E., 335 Leroy M., 352
G a l t o n F., 355 Lesseps F.-M., 163
G a n s E., 171 L e s s i n g G. E., 5, 37, 40, 196
G a r a u d y R ., 189 5 L e v i A., 326
G a u s s K . F., 337, 339, 346 L é v y - B r u h l L ., 357
Geymonat L., 289 J a c o b i F. H., 3, 5, 6, 13, 37-39, Lhermitte L., 299
G i b b s J . W . , 347 105, 249 L i e b i g , J. v o n , 288, 334
G i o b e r t i V., 56, 243, 244, 257, J a m e s W., 309 L i m e n t a n i L ., 326
258, 265, 269, 272, 275-278, J a n e t P., 354 L i n n e o C., 342
283-284 Jefferson T., 246 L i t t r é E., 298
G i o i a M., 258 J e v o n s W. S., 336 L o b a c e w s k i j N. I., 288, 339, 340,
G õ d e l K . , 333, 341 João (evangelista), 59 341, 368
X IX

L o c k e J . , 262, 268, 270 Nestório, 284 R e n a n E., 285, 298


L o m b r o s o C ., 323, 324 N e u m a n n F. E., 348 R i b o t T . , 299, 354
L o r e n t z H. A., 350 N e w t o n I . , 160,295,301,305,338, R i c a r d o D ., 169, 174, 300, 302­
L u c r é c i o C a r o , 221 346, 347, 348, 350, 369, 370 303
L u d w i g C ., 334 N o v a l i s F., 1, 2, 5 ,1 2 ,1 3 ,1 4 ,1 5 , Richmond G., 343
Luís Filipe d’Orléans, 249 18, 19, 30-32, 120 R i e m a n n B., 340, 341
L u t e r o M ., 1 8 , 19 Robespierre M., 115, 172, 246
L y e l l C ., 334 R o k i t a n s k y K., 334
O R o m a g n o s i G. D., 244, 257, 258,
259, 260, 261
M R o s e n k r a n z K. F., 152
O e rste d H. C., 348 R o s m i n i A., 243, 244, 257, 258,
O h m G. S., 348 260, 265, 2 6 8 - 2 7 4 , 276, 279­
M ach E., 331, 332, 346, 350,359, O ls e n R., 223, 226 283
360, 362-364, 368, 370-372 O w e n R., 169, 300, 303-304 R o u s s e a u J.-J., 5, 262
Macpherson J., 5 R u g e A., 153, 154, 1 5 6 , 172
M a g e n d i e F., 334
R u s s e l l B., 188, 335, 336
M a i m o n S., 42, 43, 49, 50
M a i s t r e , J. d e , 251, 252, 254­
P
255, 275
M a l e b r a n c h e N., 276 Palladino D., 339 s
M a l t h u s R., 300, 301, 344 P a p in D., 295
Mann T., 207, 210 P a r m ê n i d e s , 116, 117
S a c c h e r i J., 3 3 9
Manzoni A., 269 P a s c a l B., 248, 249, 295, 338
S a d i C a r n o t N. L., 347
Mao Tse-tung, 149 P a s t e u r L., 288, 334
S a i n t - H i l a i r e E. G., 3 4 2 , 3 4 3
M a r c h e s i n i G., 326 P a u l H., 353
S a in t- S im o n , C . H . d e , 1 6 0 , 1 6 1 ­
M a r c u s e H., 165 P e a c o c k G., 335
163, 169, 304, 355
Maroncelli P., 258 P e a n o G., 336
S a v i g n y , F. K . v o n , 1 7 1
Marx H., 171 P e c q u e u r C., 174
S a y J.-B., 1 7 4
M a r x K., 128,149,153,154,156, P e i r c e C. S., 336
S c h e l l i n g F. W., 8 ,1 3 ,1 4 ,1 5 ,2 3 ,
157, 161, 169-185, 186, 187, Pellico S., 258, 275
188, 189, 190, 191-197, 205, Pellizza de Volpedo G., 183 46, 7 7 - 9 0 , 91-93, 95, 96, 97,
303, 355 Pestalozzi H., 202 99, 102, 103, 117, 249
S c h i l l e r F. C. S ., 2, 3,
5, 6, 8, 15,
M a u p a s s a n t G., 210 Pio IX, papa, 268
16, 2 4 - 2 5
M a x w e l l J. C., 288, 347, 349, P l a n c k M., 351
S c h l e g e l A. W., 4, 15
350 P l a t ã o , 8, 20, 21, 82, 97, 106,
S c h l e g e l F., 1, 2, 10, 11, 13, 15,
M a y e r F., 209, 288 130, 134, 146, 205, 209,212,
Mazzini J., 258 15, 16, 17, 19, 20, 2 1,29, 47,
249, 268, 270, 275
M e n d e l G.J., 334
48, 49, 77
P o i n c a r é H., 331, 332, 359, 365,
S c h l e i e r m a c h e r F., 2 ,1 3 ,1 5 , 2 0 ­
M e n d e l e j e v D. I., 288, 334 3 6 6 - 3 6 8 , 372-373
22, 33-34, 47, 48
M e n d e l s s o h n M . , 196 P o i s e u i l l e J. L. M., 346
S c h o p e n h a u e r A., 199 ,2 0 0 , 2 0 7 ­
M i c h a e l i s K., 15 P o m p o n a z z i P., 323, 324
2 1 7 , 218-222, 230
Michelangelo Buonarroti, 7 P o p p e r K. R., 188, 190
M i c h e l s o n A. A., 350 P o u c h e t F. A., 334
Schopenhauer H. F., 209
S c h r õ d e r E., 336
M i l l J . , 300,301,302, 3 0 4 - 3 0 5 , 321 Pressburg H., 171
S c h u l z e G. E., 4 2 - 4 3 , 49, 50,
M i l l J . S., 287,288,289,299,300, P r o c l o , 249
301, 302, 304, 305, 3 0 6 - 3 1 0 , P r o u d h o n P. J., 160, 161, 165,
209
S e r g i G., 355
311, 315-316, 321 166, 169, 170, 175, 355
Milritz, K. B. von, 47 Shakespeare W., 5, 36, 212
S m i t h A., 169, 174, 300, 3 0 2 ,
Mittner L., 7, 10, 11, 28
303
M o l e s c h o t t J . , 287, 288, 327,
Q Soave F., 258
328
S ó c r a t e s , 16, 36,134, 249
M o liè r e J. B., 291
Quaranta M., 324 Sófocles, 212
M o n d o l f o R., 326
Q u i n e W. V. O., 366, 369 S p a l l a n z a n i L., 334
Montalenti G., 334
S p e a r m a n n C., 355
M o r l e y E.W., 350
S p e n c e r H., 285, 287, 288, 317­
M o r s e l l i E., 324, 355
M o s s o A., 355
322, 323, 324, 325, 329-330,
R 355
M ü l l e r J . , 334
S p i n o z a B., 37,40, 47, 80, 85, 87,
M u r r i A., 323, 324
R a f a e l S a n z io , 7 134, 196
Mynster, b i s p o , 223
R a h n J . , 47 Staèl A. L., Madame de, 16, 251
R a s k R . K ., 351 S t a n l e y H a l l J., 354
R a y l e i g h J . W ., 347 S t e w a r t D., 270
N R e i d T ., 270 S t i r n e r M., 1 5 3 , 1 5 4 - 1 5 6
R e i m a r u s H . S ., 37 S t o u t G. F., 355
Napoleão, 56, 245, 246, 252, 257 R e i n h o l d K. L., 42, 43, 49, 50, S t r a t t o n G. M., 354
N e e d h a m J . T ., 3 3 4 96 S t r a u s s D. F., 151, 1 5 3 - 1 5 4
X X

T V W e b e r F. H., 353, 354


W eber M ax, 188, 189
W e ie r str a ss K., 288
T a i n e H., 298 V a n i n i G. C., 142 Westphalen, J. von, 171, 173
T a l e s , 129 V a t t i m o G., 2 2 Winckelmann J., 6, 7, 16
T a r o z z i G., 326 Vaux, C. de, 296 W i t t g e n s t e i n L., 207, 210
Taylor H., 306, 307 Vico G. B., 260, 275, 292 W õ h l e r F., 334
T h i e r r y A . , 161 V i l l a r i P., 323, 324 W o l f F. A., 33, 34
Thiriat H., 321 V i r c h o w R., 334 W o l f f C., 134, 265
T h o m s o n J. J., 288, 350 Vogel von Vogelstein C., 28, 252 Wordsworth W., 16
T i e c k L., 15, 47, 48 V o g t K., 327, 328 W u n d t W ., 353, 354-355, 360
Tischbein J. H. W., 27 V o l t a A., 346
T i t c h e n e r E. B., 354
Togliatti P., 189
V o l t a i r e F. M . , 2 6 2
V
Tolstoi L., 210 Y o u n g T ., 346, 347, 369
T o m m a s i S., 323, 324 w
T r e n d e l e n b u r g A., 199, 200,
205-206
T r e v e l y a n G. M., 303
W a ck e n ro d e r
Wagner R., 328
W. H., 15 z
Trosiener J. H., 209 W a l l a c e A. R., 344 Z en ã o d e E l é ia , 1 0 6 , 108
T s c h e r m a k E., 334 W a r d J., 355 Z e u t h e n C ., 2 3 4
T u r g o t A. R. J., 291 W a r r e n J. K., 354 Z o l a É ., 2 1 0
C ódice de conceitos
fund a mentais

alienação do trabalho, 177 lei dos três estágios, 292


lógica, 120

mais-valia, 182
dialética, 106 materialismo dialético, 179
materialismo histórico, 178

especulativo, 109
espírito,127 não-eu, 53
eu, 50 natureza, 124

possibilidade, 233
filosofia negativa e filosofia positiva,

utilitarismo, 302
idéia, 105
identidade absoluta, 85
incognoscível, 319
indivíduo, 229 vontade (vontade de viver), 213
DO ROMANTISMO
AO EMPIRIOCRITICISMO
O MOVIMENTO
ROMÂNTICO
E A FORMAÇÃO
DO IDEALISMO

“Um deus é o homem quando sonha, um mendigo


quando reflete”.
Friedrich Hõlderlin
“Sucedeu que alguém levantou o véu da deusa
de Sais.
E o que viu?
Viu - maravilha das maravilhas - a si mesmo”.
Novalis
“Em todas as coisas está presente o eterno”.
Wolfgang Goethe
“Pode ser artista apenas aquele que tem uma reli­
gião própria, ou seja, uma intuição do infinito”.
Friedrich Schlegel
Capítulo primeiro

Gênese e características essenciais do rom antism o ____

Capítulo segundo

O s fundadores da E scola rom ântica:


os Schlegel, N o v alis, Schleiermacher, o poeta H õlderlin
e as posições de Schiller e de G o e th e _________________

Capítulo terceiro

O utros pensadores que contribuíram p ara a superação


e a dissolução do Ilum inism o, e prelúdios do idealism o
d a p í f u l o p r im e ir o

Ciênese e cam ctensticas


essenciais do romantismo

I. 0 " S + u^m u rvd D i^ c m g

• Antes da difusão da mudança radical promovida pela Revo- Um novo cjjma


lução Francesa de 1789, na Alemanha a têmpera cultural registrou cultural
entre 1770 e 1780 as primeiras clamorosas modificações que sobre _> § 7
a passagem do século teriam levado gradualmente à superação
total do iluminismo e à afirmação do romantismo.
• O movimento que promoveu tal reviravolta foi o Sturm und Drang ("Tem­
pestade e ímpeto"), cujas posições e idéias de fundo eram:
a) a natureza, entendida como força onipotente e criadora de vida;
b) o gênio, como força originária que cria analogamente à natureza e é regra
de si mesmo;
c) o panteísmo, que começa a se contrapor à concepção ilu- O Sturm
minista da divindade como razão suprema;
d) o sentimento pátrio, expresso no ódio pelo tirano, na eund Drang
sua difusão
exaltação da liberdade e no desejo de infringir convenções e leis —>§ 2-3
exteriores;
e) a predileção pelos sentimentos fortes e pelas paixões
impetuosas.
Quem deu sentido e importância supranacional ao Sturm und Drang foram
principalmente Goethe, Schiller e os filósofos Jacobi e Herder com sua primeira
produção poética e literária.

1 „ ;A s p r e m i s s a s k is + ó r ic a s quia na França e proclamada a República.


'
Em 1793, o rei foi condenado ao patíbulo.
A partir de agosto de 1793, teve início o
Talvez nunca tenha acontecido de o grande Terror, que produziu milhares de
fim de um século e o início de outro serem vítimas. A guilhotina (antigo instrumento
marcados por mudanças tão radicais e tão de execução capital, oportunamente modi­
claras como as mudanças que caracterizam ficado pelo médico Guillotin, membro da
os últimos anos do século XVIII e os primei­ Constituinte, a fim de torná-lo mais rápido
ros anos do século XIX. e funcional) tornou-se símbolo sinistro de
N o campo sociopolítico houve aconte­ morte, que punha fim às grandes esperan­
cimentos destinados a imprimir novo rumo ças filantrópicas, humanitárias e pacifistas
à história. Em 1789, explodiu a Revolução acesas pelo século das “ luzes” . '
Francesa entre o entusiasmo dos intelectuais A ascensão napoleônica, que culminou
mais iluminados de todas as nações euro­ em 1805 com a proclamação do Império, e
péias. Rapidamente, porém, a Revolução as campanhas militares, que puseram a Eu­
apresentou reviravolta que colheu todos de ropa sob ferro e fogo e subverteram toda a
surpresa. Em 1792, foi derrubada a monar­ estrutura política e social do velho continen­
Primeira parte - O movimehfo ^omânfico e a formação do idealismo

te, instaurando novo despotismo, fizeram 2 7^s idéias


ruir por terra todos os resíduos de esperan­ e as características
ças iluministas que ainda restavam.
Todavia, antes mesmo que explodisse de fundo
a Revolução na França, na década trans­ do^Sturm und Drang”
corrida entre 1770 e 1780, a intempérie
cultural registrava na Alemanha as primeiras
modificações de vulto que, a médio prazo, Eis as posições e as idéias de fundo
na passagem do século, levariam à supera­ desse movimento:
ção total do Iluminismo. O movimento que a) A natureza é redescoberta, exaltada
produziu tais modificações nessa década como força onipotente e vital.
ficou conhecido sob o nome de Sturm und b) Relaciona-se estreitamente com a
Drang, que significa “Tempestade e assalto” natureza o “ gênio” , entendido como força
ou, melhor ainda, “ Tempestade e ímpeto” . originária; o gênio cria analogamente à na­
A denominação deriva do título de drama tureza e, portanto, não extrai suas regras do
escrito em 1776 por um dos expoentes do exterior, mas ele próprio é regra.
movimento, Friedrich Maximilian Klinger c) À concepção deísta da divindade
(1752-1831), e parece ter sido usada pela como intelecto ou razão suprema, própria
primeira vez por A. Schlegel para designar do Iluminismo, começa a se contrapor o pan-
todo o movimento no início do século XIX. teísmo, ao passo que a religiosidade assume
Os dois termos provavelmente devem novas formas que, em seus pontos extremos,
ser entendidos como hendíadis, ou seja, se expressam no titanismo paganizante do
como dois termos que expressam conceito Prometeu de Goethe ou no titanismo cristão
único com duas palavras; assim, o sentido da santidade e do martírio de certas persona­
deveria ser “ ímpeto tempestuoso” , “ tempes­ gens de Michael Reinhold Lenz (1751-1792).
tade de sentimentos” , “ efervescência caótica d) O sentimento pátrio se expressa no
de sentimentos” . (O título original dado por ódio ao tirano, na exaltação da liberdade
Klinger ao seu drama era Wirrwarr, ou seja, e no desejo de infringir convenções e leis
“ confusão caótica” .) externas.

Caspar David Friedrich (1774-1840), “Abadia no bosque de carvalhos"


(Berlim, Staatliche Schlôsser und Garten).
Este quadro apresenta bem o clima espiritual do romantismo
em seus aspectos de sentimento de “pânico ” da natureza,
predileção pelas tonalidades crepusculares e noturnas, senso do mistério, revalorização da religião.
Capítulo primeiro - Gênese e características essenciais do romantismo

Caspar David Friednch, “ Um homem e uma mulher diante da lu a” (Berlim, Staatliche Museen).
Este quadro exprime certo clima intelectual e certa atmosfera espiritual do romantismo
(em clara antítese com o Iluminismo), que trazem em primeiro plano
os misteriosos encantamentos das sombras noturnas, com suas evocações
e com a inspiradora atmosfera “lunar", juntamente com a nostalgia que suscita
(recordemos os poetas Novalis e Hõlderlin). Os dois personagens que contemplam a lua,
assim como Friedrich os representa, exprimem de modo verdadeiramente emblemático,
como os estudiosos bem salientaram, a “ romântica fuga do espírito, para além daquilo que vemos

e) Apreciam-se os sentimentos fortesde


e língua alemã, além do já citado Lessing,
as paixões calorosas e impetuosas. influenciou os Stürmer sobretudo o poeta
Friedrich Gottlieb Klopstock (1724-1803),
com sua valorização do sentimento.
O Sturm und Drang teria apresentado
3 gên ese
influência bastante escassa se houvesse sido
e d i f m s q o d o m o v im e n to constituído apenas por figuras como a de
Klinger (que terminou sua vida aventurosa
como general do exército russo) ou a de
E sse m ovim ento foi in flu en ciad o Lenz (que morreu louco na Rússia, em plena
por alguns poetas ingleses, como Jam es miséria), que deixaram herança literária de
M acpherson (1736-1796), que publicara parco valor. Quem deu sentido e relevância
Fragmentos de poesia antiga, atribuindo- histórica e supranacional ao Sturm foram
os a Ossian, bardo antigo. Além da poesia ninguém mais que Goethe, Schiller e os
o ssiân ica, tam bém houve influência da filósofos Jacobi e Herder, com sua primeira
redescoberta de Shakespeare, autor sobre o produção poética e literária. Pode-se dizer,
qual Lessing já chamara a atenção dos ale­ aliás, que as fases mais significativas do
mães. E Rousseau também causara grande movimento têm exatamente Goethe por
impressão, seja com seu novo sentimento da protagonista, primeiro em Estrasburgo e
natureza, seja com sua nova pedagogia, seja depois em Frankfurt. Com a transferência
ainda com suas idéias políticas (o Estado de Goethe para Weimar (1775), começa a
como “ contrato social” ). Entre os escritores fase de declínio do movimento.
Primeira parte - O movimento foynanYico e a formaçao do idealismo

- II. o papel desem pervkado —


pelo classicism o
e m r e l a ç ã o a o ^ - S f u r m urvd
e a o rom antism o

• Em outra vertente, o novo classicismo surgido com Johann Winckelmann


(1717-1768) agiu como corretivo para a confusão e o caos dos Stürmer, impondo-
se pouco a pouco como um dos pólos dialéticos do romantismo. Conforme Win­
ckelmann, o único caminho para se tomar grandes é a imitação
o caminho dos antigos, que consiste em readquirir o olho dos antigos: neste
para a grandeza sentido, a imitação do "clássico" leva não só à natureza, mas
é a imitação também à idéia, que é uma "natureza superior"; o verdadeiro
dos antigos artista moderno descobre as belezas naturais, ligando-as com o
* 7-2 belo perfeito e, com o auxílio das forças sublimes nele inerentes,
toma-se regra para si mesmo. O neoclassicismo aspirava, portanto,
a mudar a natureza em forma e a vida em arte, não repetindo, mas renovando
aquilo que os gregos fizeram.
• Em perspectiva romântica, os aspectos im
Importância classicismo foram:
do renascimento 3) a medida, o limite e o equilíbrio como marca do clássico
do clássico (o movimento romântico nasceu justamente do impacto entre a
53 impetuosidade do Sturm und Drang e o limite do clássico;
b) o "renascimento" dos gregos, essencial também na filo­
sofia, além de na arte.

O *S t u r m und H V an 0/ O historiador da filosofia G. de Rug-


c o m o p re lú d io
giero expressou essa visão de modo particu­
larmente feliz: “ As manifestações do Sturm
d o ro m a n tism o und Drang apresentam, em estado fluido
e incandescente, o metal bruto que seria
forjado pela arte e pela filosofia alem ã” . E
O Sturm und Drang foi comparado por continua: “ Com efeito, a importância do
alguns estudiosos a uma espécie de revolu­ Sturm não é a de episódio isolado e circuns­
ção que antecipou verbalmente em terras crito, e sim a de uma expressão espiritual
germânicas aquilo que, pouco depois, seria a coletiva de todo um povo. N ão apenas os
Revolução Francesa no campo político. Por Klinger e os Lenz, mas também os Herder,
outros estudiosos, ao contrário, foi conside­ os Schiller e os Goethe (aos quais se poderia
rado como uma espécie de reação antecipada acrescentar o próprio Jacobi) passaram pelo
à própria Revolução, enquanto se apresen­ Sturm: os primeiros se detiveram nele e, por
tou como reação contra o Iluminismo, do isso, logo foram ultrapassados; os outros, ao
qual a Revolução Francesa foi a coroação. contrário, conseguiram dar forma ao infor­
Com efeito, como já se observou, tra­ me, ordem e disciplina ao conteúdo caótico
ta-se da reação do espírito alemão depois da própria natureza. Para nós, a experiência
de séculos de torpor, e do ressurgimento destes últimos é particularmente importante,
de algumas atitudes peculiares à alma ger­ porque nos permite estudar nos próprios
mânica. Portanto, encontramo-nos diante indivíduos duas fases sucessivas e opostas
de um prelúdio do romantismo, ainda que do mesmo processo histórico. N ão se trata
desalinhado e imaturo. apenas de um modo figurado de dizer que o
Capitulo primeiro - gênese e características essenciais do romantismo

Sturm representa a juventude desordenada, Essa idéia é “ uma natureza superior” ,


e o classicismo a composta e serena matu­ ou seja, é a verdadeira natureza. Sendo as­
ridade da alma alemã: o Sturm é realmente sim, podemos compreender muito bem estas
a juventude de Herder e de Goethe, que se importantes conclusões de Winckelmann:
ergue qual símbolo da juventude de todo o “ Se o artista se baseia em tais fundamentos
povo, e a vitória sobre ele tem significado e faz com que sua mão e seu sentimento
pessoal que dá fundamento mais íntimo e se guiem pelas normas gregas da beleza,
sólido à crise da alma coletiva” . encontra-se no caminho que o levará sem
Esse trecho acena ao classicismo, que falha à imitação da natureza. Os conceitos
agiu como corretivo da descompostura e do de unidade e de perfeição da natureza dos
caos dos Stürmer. Com efeito, o classicismo antigos purificarão suas idéias sobre a essên­
tem grande importância na form ação do cia desligada de nossa natureza e as tornarão
espírito da época que começamos a estudar mais sensíveis. Descobrindo as belezas da
e, pouco a pouco, se impõe não apenas nossa natureza, ele saberá relacioná-las com
como antecedente, mas como componente o belo perfeito e, com a ajuda das formas
do próprio romantismo ou até como um de sublimes, sempre presentes para ele, o artista
seus pólos dialéticos. Por isso, devemos falar tornar-se-á norma para si mesmo” .
dele, ainda que de modo sucinto. Esse é o ponto de partida do neoclassi-
cismo romântico. Como explica muito bem
L. Mittner (insigne historiador da literatura
O n o v o s e n t id o d o c l á s s i c o alemã), ele “ deveria ter-se formado organi­
camente da cultura alemã, como, segundo
e d a im it a ç ã o d o s c l á s s i c o s Winckelmann, se formara organicamente o
classicismo grego; ou seja, havia a aspira­
ção a um classicismo que não fosse cópia
É claro que o culto ao clássico não era e repetição, e sim misteriosa e miraculosa
estranho ao século XVIII iluminista. M as palingenesia dos valores supremos da an­
tratava-se de um “ clássico” de modismo, tiguidade” . O “ renascimento do clássico”
ou seja, de um clássico repetitivo e, por­ no espírito alemão e do espírito alemão,
tanto, privado de alma e de vida. M as, em graças à perene juventude da natureza e do
seus escritos sobre a arte antiga, publicados espírito: essa seria a suprema aspiração de
entre 1755 e 1767, Johann Winckelmann muitos escritores. Como escreve ainda M it­
(1717-1768) já lançava as premissas para a tner: “ Excetuando-se pouquíssimas de suas
superação dos limites do classicismo como realizações supremas, todo o classicismo
mera repetição passiva do antigo. alemão oscilaria entre duas tendências opos­
N a realidade, à primeira vista, uma de tas: imitação mecânica da arte grega, isto é,
suas máximas parece até afirmar o contrário: mais arte classicista do que substancialmente
“ Para nós, o único caminho para nos tor­ clássica, e aspiração a novo e genuíno clas­
narmos grandes e, se possível, inimitáveis, sicismo, inspirado pelo espírito grego, mas
é a imitação dos antigos” . surgido de evolução orgânica do espírito
M as essa “ imitação” que torna “ inimi­ alemão” . Assim, o neoclassicismo aspirava
táveis” consiste em readquirir o olhar dos a transformar a natureza em forma e a vida
antigos, aquela visão que Michelangelo e em arte, não repetindo, mas renovando o
Rafael souberam readquirir, e que lhes per­ que os gregos haviam feito.
mitiu buscar “ o bom gosto em sua fonte” e
redescobrir “ a norma perfeita da arte” .
E claro, então, que para Winckelmann 3 A i m p o r t â n c ia
a “ imitação” do clássico, entendida nesse
d o r e n a s c im e n t o
sentido, leva não apenas à natureza, mas
também além da própria natureza, ou seja, d o c lá ssic o n a a rte
à idéia: “ Os conhecedores e os imitadores e n a f ilo s o fia d o s r o m â n t ic o s
das obras gregas encontram nessas obras-
primas não somente o mais belo aspecto
da natureza, como também mais do que a Ainda há dois pontos muito importan­
natureza, isto é, certas belezas ideais dela, tes a destacar.
que [...] foram compostas por figuras cria­ Em primeiro lugar, devemos notar o
das somente no intelecto” . tipo de influência que o classicismo exerceu
Primeira purte - CD movimento romântico e a formação do idealismo

sobre os melhores representantes do Sturm, concepção da alma do mundo; Hegel elabo­


influência a que já acenamos. A marca do rará grandioso sistema precisamente graças
clássico é a “ m edida” , o “ limite” , o “ equi­ à redescoberta do antigo sentido clássico da
líbrio” . “ dialética” , com o acréscimo da novidade
Herder, Schiller e Goethe procuraram do elemento que ele chama de “ especulati­
precisam ente organizar as decom postas vo” , como veremos. E muito obteria do seu
forças do Sturm und Drang em função dessa constante colóquio com os filósofos gregos,
ordem e dessa medida. E foi precisamente não apenas do colóquio com os grandes pen­
desse impacto entre a tempestuosidade e sadores consagrados por tradição bimilenar,
impetuosidade do Sturm e o “ limite” , que é mas também do diálogo com os pré-socrá-
elemento característico do clássico, que nas­ ticos, particularmente, por exemplo, com
ceu o momento especificamente romântico. Heráclito, do qual utilizou quase todos os
Em segundo lugar, devemos notar que a fragmentos em sua Lógica.
redescoberta dos gregos, além da arte, seria Sem o componente clássico, portanto,
essencial também na filosofia: Schleierma­ não se explicariam a poesia nem a filosofia
cher traduziria os diálogos platônicos e os da nova época.
reintroduzirá no âmago do discurso filosó­ Com o que dissemos, já dispomos dos
fico; Schelling retomará de Platão conceitos elementos que nos permitem determinar os
fundamentais como a teoria das idéias e a traços essenciais do romantismo.

Caspar David Friedrich, “ Viandante sobre o mar de névoa" (Hamburgo, Kunsthalle).


Friedrich exprime aqui de modo emblemático a figura de um homem que encarna
a romântica Wanderung (o vagar pelo mundo),
impelido pelo desejo indefinível de aproximar-se do infinito,
de inserir-se na natureza em um abraço quase cósmico.
Cdpítulo primeiro - Gênese e características essenciais do fomantismo

:------- ÍTT. ,A c o m p l e x i d a d e
d o -fenômeno r o m â n t i c o
e suas c a r a c te r ís tic a s essen ciais

• Mesmo na complexidade extrema do fenômeno romântico, é possível dis­


tinguir em seu interior uma série de perspectivas e de categorias que definem os
traços essenciais.
• A palavra "romântico" aparece pela primeira vez na In- Aqênese
glaterra, pela metade do século XVII, para designar o fabuloso, do termo
o extravagante, o fantástico e o irreal. Gradualmente, o termo "romântico"
"romantismo" passou a indicar o renascer do instinto e da emoção, § 7-2
sufocados pelo racionalismo prevalente no século XVIII.
• Do ponto de vista historiográfico e geográfico, o romantismo designa o
movimento espiritual que, envolvendo não só a poesia e a filosofia, mas também
as artes figurativas e a música, desenvolveu-se na Europa entre o fim do século
XVIII e a primeira metade do século XIX. A partir da Inglaterra, o
movimento se expandiu em toda a Europa, na França, na Itália, o quando
na Espanha, mas a manifestação paradigmática do romantismo e o onde
foi em todo caso a que surgiu na passagem entre o século XVIII -> §3
e o século XIX na Alemanha.
• Na sensibilidade romântica dominou o amor da irresolução e das ambiva-
lências, dos sentimentos de preocupação e inquietação que se comprazem de si e
se exaurem em si mesmos. O termo mais típico para indicar esses
estados de ânimo foi Sehnsucht ("anseio"): um desejo que jamais a categoria
pode alcançar sua própria meta, porque não a conhece e não quer psicológica
ou não pode conhecê-la: um desejo de desejar, um desejo que é § 4
sentido como inextinguível e que justamente por isso encontra
em si a própria satisfação.
• Eis em síntese as idéias fundamentais do romantismo.
a) A Sehnsucht é desejo irrealizável porque aquilo que anseia é o infinito,
que é o sentido e a raiz do finito; sobre este ponto tanto a filosofia como a poe­
sia estão absolutamente de acordo: a filosofia deve captar e mostrar a ligação do
infinito com o finito, enquanto a arte deve realizá-lo: a obra de arte é o infinito
que se manifesta no finito.
b) A natureza, subtraída inteiramente da concepção meca-
nicista-iluminista, entende-se como vida que cria eternamente, Motivos
como grande organismo do todo afim ao organismo humano: a de fundo
natureza é jogo móvel de forças que gera todos os fenômenos, do romantismo
compreendendo o homem e, portanto, esta força é a própria
força do divino.
c) Estreitamente ligado a este sentido da natureza está o senso de pânico, ou
seja, o senso da pertença ao uno-todo, o sentir que se é um momento orgânico da
totalidade. No homem se reflete de algum modo o todo, assim como, vice-versa,
o homem se reflete no todo.
d) O gênio e a criação artística são elevados à expressão suprema do verda­
deiro e do absoluto. No poeta, natureza e arte se fundem junto e sobre o plano
passional, não sobre o intelectual, se tornam fenômenos musicais, poéticos.
Primeira parte - O movimento romântico e a formação do idealismo

e) Os românticos nutrem, além disso, um fortíssimo anelo pela liberdade, que


para muitos deles exprime o fundo operante de todo o ser, e o apreciam em todas
as suas manifestações.
f) A religião é, em geral, revalorizada no sentido de relação do homem com
o infinito e com o eterno, e é assim posta bem acima do plano ao qual o llumi-
nismo a reduzira. E a religião por excelência é considerada a cristã, embora com­
preendida de vários modos.
g) Sobre a esteira do elemento neoclássico, a grecidade é
a superioridade revisitada com a nova sensibilidade e amplamente idealizada.
do conteúdo
sobre a forma • A característica essencial da forma de arte tipicamente
da arte romântica consistiu na prevalência do "conteúdo" sobre a forma
->56
e, portanto, em uma revalorização expressiva do informal.
• O romantismo foi caracterizado pela saliê
Romantismo alguns sistemas filosóficos foi dada à intuição e à fantasia, em
e filosofia contraste com os sistemas baseados unicamente sobre a fria razão,
§7 entendida como único órgão da verdade. Neste sentido, todo o
idealismo é uma filosofia romântica.

j,, ( S o m o d e v e s e r d e l i n e a d o e) Em seguida, cumpre determinar a


o p ro b > lem a
forma de arte em que tudo isso se expressa.
f) Por fim, devemos nos perguntar em
d a d e fin iç ã o d o ro m a n tism o que sentido se pode falar e se fala de filosofia
romântica, o que assume grande importân­
Definir o romantismo é tarefa deveras cia neste estudo.
difícil, havendo até quem diga ser impos­ Vejamos a solução desses problemas,
sível. Alguém chegou a calcular terem sido seguindo a ordem em que os propomos.
dadas mais de cento e cinqüenta definições
diferentes desse fenômeno. Mittner recorda
que o próprio F. Schlegel, o fundador do y\ 0e n e s e d o term o
círculo dos românticos, escreveu ao seu ir­ ro m â n tic o
mão que não poderia enviar-lhe sua própria
definição da palavra “ romântico” porque
tinha “ 125 folhas de extensão” ! Deixando A palavra “ rom ântico” tem longa e
os paradoxos, podemos nos orientar com complexa história, que se inicia em período
facilidade na intricadíssima questão, dis­ anterior ao que estudamos, no qual se torna
tinguindo uma série de perspectivas e de técnica.
categorias capazes de determinar os traços A.C. Baugh (autor de conhecida histó­
essenciais do fenômeno do romantismo. ria da literatura inglesa) a resume do seguin­
a) Em primeiro lugar, seria bom expli­ te modo: “ O adjetivo ‘romântico’ aparece
car a gênese etimológica do termo, do ponto pela primeira vez na Inglaterra por volta de
de vista filosófico-lexicográfico. meados do século XVII como termo usado
b) D epois, devem os determ inar os para indicar o fabuloso, o extravagante, o
limites cronológicos e geográficos do fenô­ fantástico e o irreal (como se encontra, por
meno. exemplo, em certos romances de cavalaria).
c) Então será preciso procurar deter­ Foi resgatado dessa conotação negativa
minar sua categoria psicológica ou moral, no decorrer do século seguinte, no qual
como foi chamada, ou seja, o modo peculiar passou a ser usado para indicar cenas e situa­
de sentir e as características psicológicas ções agradáveis, do tipo das que apareciam
próprias do homem romântico. na narrativa e na poesia ‘rom ântica’ (no
d) Depois, é mister determinar qual sentido acima indicado). Gradativamente,
conteúdo ou quais conteúdos conceituais o o termo ‘romantismo’ passou a indicar o
romântico torna seus. renascimento do instinto e da emoção, que o
(Züpltulo primeiro - Genese e características essenciais do romantismo

racionalismo predominante no século XVIII mínimo denominador comum. Em primeiro


não conseguiu suprimir inteiramente” . lugar, pode ser apontado o que constitui
F. Schlegel relacionou o “ romântico” o “ estado de espírito” , o comportamento
com o romance e com aquilo que ele pouco a psicológico, o ethos ou marca espiritual do
pouco viera a significar nas expressões épicas homem romântico.
e líricas medievais, ao romance psicológico, Tal atitude romântica consiste na con­
autobiográfico e histórico moderno. Assim, dição de conflito interior, na dilaceração do
para Schlegel, “ romântica” era a moderna sentimento que nunca se sente satisfeito, que
forma de arte que, como evolução orgânica se encontra em contraste com a realidade e
da Idade Média até a sua época, possuía aspira a algo mais, que, no entanto, se lhe
marca própria, essência peculiar própria, escapa continuamente.
beleza e veracidade próprias, diferentes das A mais eficaz caracterização do roman­
que caracterizavam a grega. tismo como categoria psicológica foi dada
Isso, porém, nos leva a outros proble­ por L. Mittner e, portanto, a referimos em
mas, dos quais devemos falar adiante. suas próprias palavras: “ Entendido como
fato psicológico, o sentimento romântico
não é sentimento que se afirma acima da
3 O s te m p o s e os lu g a re s razão ou sentimento de imediatidade, in­
tensidade ou violência particulares, como
em q u e s e d es en v o lve u também não é o chamado sentimental, isto
o ro m a n tism o é, o sentimento melancólico-contemplativo;
é muito mais um dado de sensibilidade,
precisamente o fato puro e simples da sen­
Como categoria historiográfica (e geo­ sibilidade, quando ela se traduz em estado
gráfica), o romantismo designa o movimen­ de excessiva ou até permanente impres-
to espiritual que envolveu não somente a sionabilidade, irritabilidade e reatividade.
poesia e a filosofia, mas também as artes N a sensibilidade romântica, predomina o
figurativas e a música, que se desenvolveu amor pela irresolução e pelas ambivalên-
na Europa entre fins do século XVIII e a cias, a inquietude e irritabilidade que se
primeira metade do século XIX. comprazem em si mesmas e se exaurem em
Embora possam ser identificados certos si mesmas” .
pródromos desse movimento na Inglaterra, O termo que se tornou mais típico e
o certo é que o movimento apresenta forte quase técnico para indicar esses estados de
marca sobretudo do espírito e do sentimen­ espírito é “ Sehnsucht”, que pode se expres­
to germânicos. O movimento se expandiu sar melhor como “ ansiedade” (os sinônimos
por toda a Europa: na França, na Itália, “ desejo ardente” , “ anseio” ou “ anelo apai­
na Espanha e, naturalmente, na Inglaterra. xonado” são menos significativos).
Em cada um desses países, o romantismo L. Mittner também explica muito bem
assumiu características peculiares e sofreu esse termo com o conceito relativo: “ A
transformações. O momento paradigmático mais característica palavra do romantismo
do romantismo é o que se coloca a cavalo alemão, ‘Sehnsucht’, não é o ‘Heimweh’, a
entre o século XVIII e o século X IX na saudade (‘m al’, isto é, desejo, ‘do retorno’ a
Alemanha, nos círculos constituídos pelos uma felicidade antes possuída ou pelo menos
irmãos Schlegel em Jena e depois em Berlim, conhecida e determinável); ao contrário, é
como a seguir veremos melhor. desejo que nunca pode alcançar sua meta,
porque não a conhece e não quer ou não
pode conhecê-la: é o ‘mal’ (Sucht) ‘do desejo’
(Sehnen). M as o próprio ‘Sehnen’ significa
4 , 7^ c a r a c t e r í s t i c a e s p i r i t u a l com bastante freqüência desejo irrealizável
d o k o m e m ro m â n tico porque indefnível, desejar tudo e nada ao
mesmo tempo; não por acaso “ Sucht” foi
reinterpretado (...) como “ Suchen”, pro­
N o fenômeno que se verifica nesse arco curar; e a “ Sehnsucht” é verdadeiramente
de tempo e nesses países, e sobretudo na a busca do desejo, desejar o desejar, desejo
Alemanha, é possível identificar, embora que é sentido como inextinguível e que, pre­
com as devidas cautelas críticas, algumas cisamente por isso, encontra em si mesmo a
“ constantes” que constituem uma espécie de plena saciedade” .
Primeira parte - O m o v im e n to r o m â n t ic o e o f o r m a ç ã o d o id e a lis m o

5 «U d é ias fu n d a m e n ta is intrinsecamente, gera todos os fenômenos e,


portanto, também o homem: a força da na­
d o R o m an tism o
tureza, portanto, é a própria força do divino.
Hõlderlin exclama: “ Sagrada natureza! Tu
Isso, porém, ainda não basta. A cate­ és sempre igual, em mim e fora de mim, ao
goria psicológica romântica deve ser ligada divino que está em mim” .
à categoria do conteúdo ideal e conceituai Schelling dirá que a natureza é vida que
do romantismo. Com efeito, no período dorme, é inteligência petrificada, é espírito
de que estam os falando, algum as idéias que se faz coisa visível.
e representações mostram-se no mais das O antigo sentido grego da pbysis e
vezes associadas ao sentimento a que nos da “ natureza” renascentista é retomado e
referimos, embora o romantismo não seja notavelmente potencializado.
um sistema de conceitos, como já destaca­
mos várias vezes. E U O s e n t id o d e “p â n i c o ”
p e l a p e r t e n ç a a o u n o -t o d o

e h y\ s e d e d o infinito
Estreitamente ligado a esse sentido da
Todo romântico tem sede de infinito; natureza está o sentimento de “ pânico” , ou
e aquela “ ansiedade” , que é desejo irre- seja, o sentimento de pertencer ao uno-todo,
alizável, o é precisamente porque aquilo o sentimento de ser um momento orgânico
pelo que anseia, na realidade, é o infinito. da totalidade.
E talvez nunca como nessa época se tenha O todo se reflete de alguma forma no
falado tanto de infinito, entendido nos mais homem, assim como, ao contrário, o homem
diversos modos. se reflete no todo.
O romântico expressa essa tendência Outro trecho de Hõlderlin pode nos
ao infinito também como "Streben” , ou fornecer exemplo mais claro disso: “Ser um
seja, como perene “ tender” que nunca cessa, com o todo: isto é o viver dos deuses; isto
porque as experiências humanas são todas é o céu para o homem. Ser um com tudo o
finitas, ao passo que seu objeto é sempre infi­ que vive e, em feliz esquecimento de si mes­
nito e, como tais, são sempre transcendidas. mo, retornar ao todo da natureza: esse é o
A propósito, é exemplar a razão pela qual se ponto mais alto do pensamento e da alegria,
salva o protagonista do Fausto goethiano, é o pico sagrado da montanha, é o lugar da
uma das criações mais significativas desse calma eterna, onde o meio-dia perde o seu
período: ele se salva precisamente porque mormaço, o trovão a sua voz e o mar, fre-
consumiu a existência nesse perene “ Stre­ mente e espumejante, se assemelha às ondas
ben” (mas disso voltaremos a falar adiante). de um campo de trigo. Ser um com tudo o
O infinito é o sentido e a raiz do finito. que vive! Com essas palavras, a virtude des­
Nesse ponto, tanto a filosofia como pe sua couraça austera, o espírito humano
a poesia estão absolutamente de acordo: a despoja-se do cetro e todos os pensamentos
filosofia deve captar e mostrar a relação do se dispersam diante da imagem do mundo
infinito com o finito, ao passo que a arte eternamente uno, como as regras do artista
deve realizá-la: a obra de arte é o infinito dedicado diante de sua Urânia, bem como
que se manifesta no finito. a fatalidade férrea renuncia ao seu poder, a
morte desaparece da sociedade das criaturas
e a indissolubilidade e a eterna juventude
E U O n o v o s e n t id o d a n a t u f e z a tornam o mundo belo e feliz” .
A natureza assume importância fun­
damental, sendo inteiramente subtraída à >A f u n ç ã o d o g ê n io
concepção mecanicista-iluminista. e d a c r i a ç ã o a r t ís t ic a
A natureza passa a ser entendida como
vida que cria eternamente, na qual a morte O gênio e a criação artística são ele­
nada mais é do que “ artifício para ter mais vados a suprema expressão do verdadeiro
vida” (Goethe). e do absoluto.
A natureza é um grande organismo, Novalis escreve: “A natureza tem ins­
inteiramente afim com o organismo huma­ tinto artístico — por isso, não passa de
no; é jogo móvel de forças que, operando palavrório quando se pretende distinguir
Cãpítulo pYlTYieÍYO - C Ã ê n a s e e c a r a c t e r í s t i c a s e s s e n c i a i s d o r o m a n t is m o

entre natureza e arte. N o poeta, elas se dis­ esclarecedor: quase todos os expoentes de
tinguem quando muito pelo fato de serem destaque do rom antism o tiveram fortes
inteiramente intelectuais e não passionais e, crises religiosas e momentos de intensa re­
por paixão, se tornarem involuntariamente ligiosidade, de Schlegel a Novalis, de Jacobi
fenômenos musicais e poéticos [...]” . Ou a Schleiermacher, a Fichte e a Schelling.
então: “ Sem genialidade, nós todos não N o próprio Hegel, a religião é o momento
existiríamos. Em tudo é necessário o gê­ mais elevado do espírito, superado somente
nio” . Ou ainda: “ A poesia cura as feridas pela filosofia. E a religião por excelência é
infligidas pelo intelecto” . E, por fim: “ O considerada a cristã, embora entendida de
poeta compreende a natureza melhor do variados modos.
que o cientista” .
Para N ovalis, o gênio torna-se até in flu ên cia d o elem en to c lá s s i c o
“ instinto m ágico” , a “ pedra filosofal” do e o u tro s te m a s e s p e c ífic o s
espírito, ou seja, aquilo que pode tornar-se
tudo. Sobre o componente constituído pela
Schelling fará da arte até mesmo, co­ grecidade e sobre a influência do elemento
mo veremos, o órgão supremo da filosofia clássico já falamos acima.
transcendental. Recordamos apenas que se trata de
grecidade revisitada com nova sensibilidade
e amplamente idealizada.
EO O a n s e io p e la lib e r d a d e Quanto a outros temas específicos,
este não é o lugar para o aprofundamento:
Ademais, os românticos nutrem o for­ como, por exemplo, o amor pelas origens,
tíssim o anseio pela liberdade, que para o sentimento nacional, o renascido interesse
muitos deles expressa o próprio fundamento pela Idade Média e, em geral, pela história.
da realidade — e, por isso, apreciam-na em Bastam essas observações, às quais, aliás,
todas as suas manifestações. teremos oportunidade de retornar.
N o Henrique de Ofterdingen, é ainda
Novalis quem escreve: “Toda cultura leva
àquilo que não se pode chamar senão de
liberdade, porquanto com esse termo se 6 y \ p re v a lê n c ia d o "c o n te ú d o "
deva designar não um simples conceito, so b re a fo rm a
mas o fundamento operativo de todo o ser.
Essa liberdade é magistério. O mestre exerce
plenos poderes, de modo planejado e em N o que se refere à forma de arte tipi­
seqüência bem determinada e mediada. Os camente romântica, a característica essen­
objetos de sua arte são de seu arbítrio, pois cial é a que Schlegel já indicara, ou seja, a
ela não é limitada ou impedida por eles. E prevalência do “conteúdo” sobre a forma
precisamente essa liberdade, ou magistério e, portanto, a reavaliação expressiva do in­
ou domínio, constitui a essência e o fer­ formal (de onde o fragmento, o inconcluso
mento da consciência. E nela que se forja e o esboço que caracterizam as obras dos
a individualidade sagrada, a ação imediata autores desse período).
da personalidade. E cada ato do mestre
é, ao mesmo tempo, revelação do mundo
superior, simples e explicado, é palavra de
D eus.” Fichte fará da liberdade o fulcro 7 A s lig a ç õ e s
do seu sistema, e o próprio Hegel verá na e n t r e ro m a n tism o e filo so fia
liberdade a essência do espírito.

j A r e a v a l i a ç ã o d a r e li g iã o Por fim, no que se refere ao romantismo


filosófico, devemos observar que, além de to­
Em geral, a religião é reavaliada, re­ das as perplexidades levantadas por muitos
colocada bem acima do plano ao qual o estudiosos, e além dos equívocos de que ou­
Iluminismo a havia reduzido. N o mais das tros estudiosos foram vítimas, foi Benedetto
vezes, a religião entende-se como relação Croce quem pronunciou a palavra mais clara
do homem com o infinito e com o eterno. sobre o assunto. O romantismo filosófico
Um dado de fato revela-se particularmente “consiste no destaque que alguns sistemas
Primeira parte - O m o v im e n to r o m a n t io e a f o r m a ç ã o d o id e a lis m o

filosóficos dão à intuição e à fantasia, em para dissipar os horizontes iluministas. Aos


contraste com os sistemas que parecem não grandes filósofos idealistas dedicaremos
conhecer outro órgão do verdadeiro além capítulos especiais.
da fria razão, isto é, do intelecto abstrati-
vo. Sem dúvida, não pode haver sistemas
filosóficos que prescindam inteiramente das
formas intuitivas do conhecimento, como
não pode haver quem ignore inteiramente
as formas lógicas. Todavia, com razão se
afirma que Vico foi filosoficamente pré-
romântico, pela vigorosa defesa que fez da
fantasia contra o intelectualismo de Des­
cartes e de toda a filosofia do século XVIII.
E com razão chamam Schelling e Hegel de
‘filósofos românticos’, em contraste com os
kantianos ortodoxos...”
Todo o idealismo, portanto, é filosofia
romântica.
Além d isso, porém , acrescentem os
que os filósofos da época de que estamos
tratando também apresentam conteúdos es­
pecíficos que refletem as idéias gerais de sua
época, do que já falamos (infinito, natureza,
sentimento de pânico, liberdade etc.), tendo,
aliás, contribuído de forma determinante
para formá-las. Alguns escritos filosóficos
de Schelling ou de Hegel não podem ser
entendidos se não forem considerados no
espírito do movimento romântico.
Conhecendo agora as estruturas, os
métodos e os conteúdos próprios do roman­
tismo, podemos passar à caracterização de Caspar David Friedrich, “ Cruz na montanha''
seus expoentes, diferenciando os pensadores (Düsseldorf, Kunstmuseum).
Sobre a revalorização do cristianismo e,
e poetas que se consideraram românticos ou de modo especial, sobre o sentido da cruz
que são identificáveis com eles, dos pensado­ falaremos ainda difusamente no capítulo
res que, mais genericamente, contribuíram que trata de Novalis.
í S a p í t u lo s e g u n d o

Os f urvdadores da (Sscola ^omarvtica:


os S<zklegel, Alovalis, Sckleie^macke.^/
o poeta "Holde^liia
e as posições de Sckillei^ e de C\oetk<^

~ I. y\ c o n s t itu iç ã o —
d o c í r c u l o d o s r o m â n tic o s ,
a r e v i s t a /y \ t k e n a e u m //
e a d i f u s ã o d o ro m a n tis m o

• Jena foi a cidade em que no último lustro do século XVIII se constituiu o cír­
culo dos românticos, cujos animadores foram os irmãos Schlegel, August Wilhelm
e Friedrich; este último fundou em Berlim em 1798 o órgão oficial
do novo movimento, a revista "Athenaeum" (cujas publicações A Escola
cessaram em 1800). Ao movimento aderiram Novalis, Tieck, Wa- romântica
ckenroder, Fichte, Schelling e, principalmente, Schleiermacher. $'

1 5ena publicação cessou logo em 1800). Muito


ativos, os Schlegel promoveram algumas
e o c í r c u lo d o s S c k l e g e J
convenções em Dresden (1798) e em Jena
(inverno de 1799-1800), e vários encontros.
Jena foi a cidade em que se constituiu Ao movimento aderiu Novalis, que foi o
o círculo dos românticos, no último lustro poeta de ponta do grupo. Os Schlegel tam­
do século XVIII. Seus animadores foram bém tiveram contatos com os poetas Ludwig
os irmãos Schlegel: August Wilhelm (1767­ Tieck (1773-1853) e Wilhelm Heinrich Wa-
1845) e Friedrich (1722-1829) um lustro ckenroder (1773-1798), e encontraram-se
mais jovem (e do qual falaremos à parte, com Fichte (1796) e depois com Schelling.
logo em seguida), além de Karoline Michae- M as, em Berlim, foi sobretudo Schleierma­
lis (1763-1809), mulher de August Wilhelm cher quem esteve próximo a F. Schlegel.
Schlegel (que mais tarde separar-se-ia dele Hõrderlin ficou à parte, mas sua poesia e
para se casar com Schelling), que exerceu os pensamentos filosóficos que expressa
poderosa influência inspiradora e fascínio em seu romance Hyperion são tipicamente
extraordinário sobre os amigos (ao passo românticos.
que era muito temida pelos adversários, por O círculo dos Schlegel pronunciara
seus juízos cortantes: Schiller a chamava de uma palavra mágica que expressava a marca
“ M adame Lúcifer” ). Em 1797, em virtude espiritual da nova época. Os próprios adver­
de duro conflito com Schiller, F. Schlegel sários (como Schiller e Goethe) tornaram-se
transferiu-se para Berlim, onde passou a tais em relação aos homens do círculo e de
publicar a revista “ Athenaeum” , que foi o seus excessos ideológicos e pelo seu modo
órgão do novo movimento e cujo primeiro de viver, mas os sentimentos da época os
número saiu em maio de 1798. A revista ligavam necessariamente às idéias de fundo
teve muita fama, mas vida brevíssima (sua do movimento.
Primeira parte - O m o v im e n to r o m â n t ic o e a j- o n n a ç à o d o id e a lis m o

Além disso, o fato de o romantismo — o livro Sobre a Alemanha, de Mada-


expressar perfeitamente as instâncias es­ me de Staèl, em 1813, marca o nascimento
pirituais da época prova-se por sua rápida do romantismo francês e, em seguida, sua
difusão, não apenas na Alemanha, mas difusão européia;
também em toda a Europa: — a Carta semi-séria de Crisóstomo, de
— João Berchet, de 1816, marca o nascimento
as Baladas líricas dos poetas William
Wordsworth e Samuel Taylor Coleridge, de do romantismo italiano.
1798, com o Prefácio ampliado da segunda Aqui nos ocuparemos do romantismo
edição, de 1800, constituíram o manifesto alemão, indissoluvelmente ligado à história
do romantismo inglês; do pensamento filosófico.

_ ~ II. F V iedricK -S c k le g e l, —
o c o n c e i t o de^ironia^
e a arte. c o m o |orma s upre-vncn d o e s p ír ito

• No pensamento de F. Schlegel (1772-1829) é central a concepção do infinito,


ao qual se pode chegar ou com a filosofia ou com a arte; em ambas nos servimos
de meios finitos, e a grande dificuldade consiste em encontrar o acesso ao infinito
com os meios do finito.
Em filosofia, o único conceito original de F. Schlegel é o de
A ironia "ironia", a qual indica a atitude espiritual que tende a superar e a
e a mediação dissolver progressivamente a inadequação em relação à infinitude
de . de todo ato ou fato do espírito humano, e nela tem um papel
-T ç 1-2 decisivo o elemento "espirituoso" ou "brincalhão" do humor.
Na arte, ao contrário, é apanágio do gênio criador operar
uma síntese de finito e infinito: o verdadeiro artista anula-se como
finito para poder ser veículo do infinito, e neste sentido a arte assume também
um altíssimo significado religioso, porque religião é toda relação do homem com
o infinito.

1 O c o n c e ito d e ^ iro n ia ” culdade: encontrar o acesso ao infinito com


e m se n tid o ro m â n tic o
os meios finitos.
Schlegel tentou se mover em ambas
as direções, mas, em filosofia, criou apenas
um conceito verdadeiramente original, o de
F. Schlegel (1772-1829) partiu do clas­
“ ironia” ; o resto permaneceu fragmentário e
sicismo de Winckelmann (do qual já falamos apenas esboçado. Sua teoria da arte constitui
acima) e das teorias de Schiller (mais à fren­ o melhor que ele deu à sua época.
te), mas evoluiu e deu consistência autôno­ Retomado de Sócrates, seu conceito
ma ao seu pensamento, sobretudo a partir de “ ironia” é profundamente ampliado e
da leitura da Doutrina da ciência de Fichte, modificado. Em Sócrates a “ ironia” era a
e com Schelling. A concepção do infinito é simulação do jogo do adversário, com o
idéia central do seu pensamento, bem como objetivo de refutar o próprio adversário me­
de todo o pensamento romântico. diante suas próprias armas. Já em Schlegel
Ora, podemos chegar ao infinito pela a ironia supõe outros horizontes teóricos:
filosofia ou pela arte. M as, tanto numa como pressupõe a concepção do infinito como o
na outra, nos valemos de meios finitos. E objetivo ao qual se deve chegar e a inade­
aqui reside precisamente a verdadeira difi­ quação de todo pensamento que vise ao
Capítulo segundo - O s f u n d a d o r e s d a é ^ s c o la român+ica

objeto do pensamento. Assim, o ‘espirituo­


so ’ (no sentido de humor) com que, no
fim, o pensamento ironiza a si mesmo e se
suprime é precisamente a admissão profun­
damente justa e grandiosa de sua própria
impotência. Com isso, mediatamente, é a
reabilitação do irracional limitado e expulso
pelo pensamento. Trata-se de ‘pressagioso
girar em tom o do inabordáveP, de salto do
pensamento no vazio, que certamente nunca
levará a terreno sólido, mas que carrega
consigo a consciência imediata desse terreno
sólido, isto é, aquele que só é real enquanto
o pensamento abandona conscientemente a
si mesmo. A forma desse ‘abandono de si’
é a ironia, o espirituoso (o humor), o riso
sobre si mesmo” .

2 A a r te co m o sín te se
Fnedrich Schlegel (1772-1829)
criador do círculo dos românticos d e fin ito e in fin ito
e fundador da revista “Atbenaeum
Para ele a arte é síntese de finito e infinito.
Por tudo o que dissemos, é evidente que
essa superação do espírito humano e o pôr-
infinito, enquanto é sempre pensamento se gradualmente acima dos limites e de toda
determinado. Ora, a ironia se insere nesse finitude valem não apenas para a filosofia,
contexto com o a atitude espiritual que mas também para a ética, para a arte e para
tende a superar e dissolver esse “determi­ todas as formas da vida espiritual, consti­
n ado ” e, portanto, tende a impelir sempre tuindo autêntica marca do romantismo.
para mais além. A ironia, portanto, tende Segundo Schlegel, a arte é obra do
a suscitar um sentimento de contradição gênio criador que, precisamente por ser
não eliminável entre condicionado (finito) gênio, opera a síntese entre finito e infinito.
e incondicionado (infinito) e, ao mesmo O artista, o verdadeiro artista, é aquele
tempo, o desejo de eliminá-la e, por isso, o que se anula como finito para poder ser
sentimento da “ impossibilidade e necessida­ veículo do infinito. E, como tal, desenvolve
de da perfeita m ediação” ao mesmo tempo. elevadíssima missão entre os homens. Assim
Desse modo, a “ ironia” posiciona-se sem­ entendida, ou seja, como síntese de finito
pre acima de todo o nosso conhecimento, de e infinito, a arte assume também aspecto
toda a nossa ação ou obra. Em conclusão, a religioso, porque religião é “ toda relação
nova “ ironia” posiciona-se como o sentido do homem com o infinito” , e toda religião
de inadequação em relação à infinitude é mística, porque é “vida em Deus” .
de todo fato ou ato do espírito humano, Por fim, Schlegel apontou a “ indivi­
exercendo nela papel decisivo o elemento dualidade” humana que se desdobra como
do “ espirituoso” ou do “ brincalhão” , ou a essência da moralidade. A máxima que
seja, do humor. melhor resume seu pensamento a esse res­
Esse conceito de “ ironia” é quase o peito é a seguinte: “ Pensa-te como ser finito
pendant, de tonalidade aparentemente clas- educado para o infinito, e então pensarás
sicizante, mas na realidade profundamente um homem.”
romântico, do sentimento sério da Sehnsu- Em 1808, Schlegel se converteu e
cht (ansiedade), que descrevemos. abraçou o catolicismo. Era o desembocar
O filósofo Nicolai Hartmann nos deu flagrante da crise religiosa que grassava
disso caracterização muito eficaz: “ Schlegel praticamente em todos os românticos, mas
estava profundamente convicto da inex- que ele, diversamente dos outros, quis e
primibilidade e da incompreensibilidade soube levar às suas extremas conseqüências.
mística de tudo o que é último e autêntico
18
Primeira parte - O m o v im e n to r o m â n t ic o e a f o r m a ç ã o d o id e a lis m o

III. A) o v a l is :
d o i d e a l i s m o m ã g i c o a o cr is tia n is m o
c o m o r e l i g i ã o un iversal

• Tomando os movimentos do idealismo de F


O sentido (Friedrich von Hardenberg, 1772-1801) elabora a concepção do
mágico do real idealismo mágico, o qual divisa a verdadeira magia na atividade in-
§1 consciente produtora do eu que gera o não-eu: a verdade reside no
substrato mágico do real, ou seja, na fábula, no sonho e na poesia.
• A seguir, Novalis passa do idealismo mágico a uma visão cristã, dando início
a uma revalorização radical da Idade Média católica: aqui ele vê realizada a feliz
unidade destruída por Lutero, considerado em certo sentido
0 vajor como precursor do intelectualismo iluminista. Apenas a mensa-
universal 9em cristã sabe explicar o sentido da morte, e assim também a
do cristianismo altíssima mensagem grega de serenidade e harmonia acena ao
-> § 2 cristianismo.

1 O id e a lism o m á g ic o : portanto, é a verdadeira concepção mágica,


a r t e e filo so fia c o m o m a q i a
porque mostra que tudo deriva do espírito e,
portanto, que o espírito tudo domina e é o
poder soberano absoluto. “ Eu = não-eu: tese
suprema de toda ciência” : eis o princípio que
N ovalis (cujo verdadeiro nome era está na base do “ idealismo mágico” .
Friedrich von H ardenberg) nasceu em Assim , é com preensível a m áxim a
1772 e morreu em 1801, com apenas vinte que resume o significado do romance Os
e nove anos, consumido pela tuberculose. discípulos de Sais: “ Aconteceu de um deles
Foi considerado a mais pura voz poética levantar o véu da deusa de Sais. Pois bem,
do romantismo e, ao mesmo tempo, foi o que viu ele? Maravilha das maravilhas,
pensador (embora neste aspecto fosse muito viu-se a si mesmo” .
mais inferior). N a natureza e na divindade, assim
O pensamento de N ovalis, como se como no eu, há força idêntica, o mesmo
expressa sobretudo nos Fragmentos, tem seu espírito.
fulcro de novidade no chamado “ idealismo A filosofia é magia; mas a arte o é mais
mágico” . Fichte, como veremos, opõe ao re­ ainda. A poesia capta verdadeiramente o
alismo o idealismo gnosiológico-metafísico. absoluto, aliás, é o absoluto: “ A poesia é
O realista faz do objeto o prius e a partir o real verdadeiramente absoluto. Esse é o
dele procura derivar o sujeito; já o idealista núcleo da minha filosofia.”
faz do eu e do sujeito o prius e dele procu­ Com base nesse conceito é que foi
ra derivar o objeto. Analogamente, para construído o romance (inacabado) Henrique
Novalis, que acolheu as idéias de Fichte, de Ofterdingen, no qual se misturam sonho
transformando-as segundo suas exigências, e realidade, prosa e poesia. Trata-se de um
o realismo mágico era o antigo naturalismo “ romance de form ação” ou “ pedagógico” ,
ocultista, ou seja, aquele realismo que via no qual o protagonista forma-se através de
a magia predominantemente no objeto; o várias experiências e encontros, e no qual
idealismo mágico é a nova concepção, que o substrato mágico do real, a fábula, o
vê a verdadeira magia na atividade produ­ sonho e a poesia revelam ser a verdade. E
tora inconsciente do eu que gera o não-eu. desde a primeira página aparece em sonho
A nova concepção idealista da realidade, para o protagonista a “ flor azul” , que lhe
Cãpítulo SCgUTldo - CDs f u n d a d o r e s d a E s c o l a r o m â n t ic a

escapa exatamente quando lhe parece mais considerava como elevadíssima mensagem
próxima, e que constitui o símbolo daquele de serenidade e harmonia. Entretanto, se­
“ não sei quê” sempre perseguido e sonha­ gundo N ovalis, sem a mensagem cristã, a
do, mas nunca alcançado: a “ flor azul” é a única que sabe explicar o sentido da morte,
representação viva da romântica Sehnsucht, aquela harmonia não seria suficiente. Num
que nesse romance alcança expressões pa­ dos Hinos à noite, ele faz vir da Hélade um
radigmáticas. cantor (que sim boliza ele próprio) para
venerar o Cristo que veio ao mundo: “ De
uma costa distante, nascido sob o sereno
O c ristia n ism o céu da Hélade, um cantor veio à Palestina,
c o m o re lig iã o u n iv e rsal ofertando todo o seu coração ao menino
m iraculoso” , aquele menino que dava novo
sentido à m orte, trazendo-nos a “ vida
Novalis, porém, passou do idealismo eterna” .
mágico à visão inspirada no cristianismo, dan­ A “ noite” dos Hinos constitui impor­
do início a uma reavaliação radical da Idade tante símbolo: é a antítese daquela mes­
Média católica (no ensaio A cristandade ou a quinha “ luz” do intelecto iluminista, que
Europa), na qual via realizada a feliz unidade ilumina mediocridades, ao passo que a Noite
destruída por Lutero, considerado em certo é Absoluto. (Trata-se de uma retomada da
sentido como o precursor do tedioso, árido e célebre metáfora da “ noite” cara aos místi­
estéril intelectualismo iluminista. “ Eram be­ cos). Nesses Hinos, a cruz de Cristo ergue-se
los e esplêndidos os tempos em que a Europa triunfalmente, símbolo da vitória sobre a
era terra cristã... ” — assim começa o ensaio, morte: “ Incombustível é a cruz, bandeira
que colheu de surpresa o próprio Schlegel e triunfal da nossa estirpe” : símbolo triunfal
que estava destinado a dar grande impulso porque é a única que sabe nos ajudar na dor
à reavaliação romântica da Idade Média. e na angústia e, como já dissemos, porque
Ele subordinou ao cristianismo a pró­ é a única que sabe explicar o sentido da
pria m ensagem grega, que, no entanto, morte.

Novalis (1772-1801)
representou a voz lírica
mais pura do círculo
reunido pelos Schlegel
em torno da revista “Athenaeum'
Com a esplêndida imagem
da “flor azul inatingível"
criou o símbolo da romântica
Sehnsucht (anseio do infinito).
Primeira parte - CD m o v im e n to r o m â n t ic o e a f o r m a ç ã o d o i d e a lis m o

“ IV. .Sckleie.^mache.r: zz
a i n t e r p r e t a ç ã o d a r e lig iã o ,
o r e l a n ç a m e n t o d e 1-^1a tã o
e a U.arvne.nê-iAÍ\<zcK

As contribuições • Schleiermacher (1768-1834) deve ser lembrado principal­


de mente por:
Schleiermacher a) sua interpretação romântica da religião;
■^§1 b) o grande relançamento de Platão;
c) algumas idéias antecipatórias no âmbito da hermenêutica.
• a) A religião é uma relação do homem com a totalidade, é
A religião intuição e sentimento do infinito. A religião aspira a intuir o uni­
como intuição verso, tende a ver no homem, e em todas as outras coisas finitas,
do infinito o infinito, a imagem, a marca, a expressão do infinito: a ação do
infinito sobre o homem é, portanto, a intuição, e a resposta do
sujeito é o sentimento de total dependência do infinito.
• b) Importância histórica tem a grande tradução de Platão que Schleiermacher
antes projetou com F. Schlegel e depois levou a termo sozinho. A necessidade de
voltar a Platão havia sido percebida pelos românticos, principal-
o retorno mente depois da publicação da Doutrina da ciência de Fichte,
a Platão e a influência da tradução schleiermacheriana dos diálogos de
->§ 3 Platão foi enorme, tanto que eles se puseram de novo como um
dos pontos de referência indispensáveis.
• c) Por fim, Schleiermacher foi um precursor da hermenêutica filosófica con­
temporânea, pois com ele a hermenêutica, de simples técnica de compreensão
e interpretação dos vários tipos de escritos, começa a se tornar
a hermenêutica compreensão da estrutura interpretativa que caracteriza o conhe-
filosófica cer como tal: é preciso compreender o todo para compreender
§4 a parte, e em geral é preciso que objeto interpretado e sujeito
que interpreta pertençam a um mesmo horizonte "circular".

importância sobretudo em relação à teo­


A im p o rtâ n c ia logia dogmática protestante. Entre 1804 e
1828 traduziu os diálogos de Platão (com
d e S c k le ie rm a c k e r
introdução e notas). Postumamente, foram
publicadas suas aulas relativas à Dialética,
à Ética e à Estética, além de outros temas,
Friedrich Daniel Ernst Schleiermacher entre os quais reveste-se de particular im­
nasceu na Breslávia, em 1768. Em 1797, em portância a Hermenêutica, na qual se revela
Berlim, conheceu F. Schlegel e uniu-se ao um precursor.
círculo dos românticos, colaborando com o São três as razões pelas quais Schleier­
“ Athenaeum” . Posteriormente, ensinou em macher deve ser recordado:
Halles e, a partir de 1810, na Universidade 1) por sua interpretação romântica da
de Berlim. As obras que lhe deram maior religião;
notoriedade foram os D iscursos sobre a 2) pelo grande relançamento de Platão;
religião (1799) e os Monólogos (1800). Em 3) por algumas idéias antecipadoras de
1822, publicou a Doutrina da fé, que tem sua Hermenêutica.
C a p i t u l o S e g u n d o - O s f u n d a d o r e s d a í S s c o l a r o m â n t ic a

! A in te r p r e ta ç ã o A ação do infinito sobre o homem, por­


r o m â n tic a d a r e lig iã o tanto, é a intuição; o sentimento é a resposta
do sujeito: é o estado de espírito, ou seja, a
reação da consciência. Este sentimento que
acompanha a intuição do infinito é sentimen­
A religião é a relação do homem com to de total dependência do sujeito em relação
a Totalidade (com o Todo). Ora, a Totali­ ao infinito. O sentimento religioso, portanto,
dade e o Todo também se relacionam com é sentimento de total dependência do homem
a metafísica e a moral. M as isso, segundo (finito) em relação à Totalidade (infinita).
Schleiermacher, foi fonte de graves equívo­ Essa idéia vale para todas as formas de
cos, que fizeram penetrar indevidamente na religião. M as, com o passar dos anos, Sch­
religião grande quantidade de idéias filosó­ leiermacher também acabou por privilegiar
ficas e morais. M as a metafísica diz respeito o cristianismo. Cristo passou a aparecer-lhe
ao pensamento que se vincula à Totalidade, sempre mais como o mediador e o redentor
ao passo que a ética diz respeito ao agir em e, portanto, acabou por assumir a seus olhos
relação à Totalidade (as simples ações vistas as características divinas que ele negara ini­
como “ deveres” deduzidos da natureza do cialmente.
homem em relação com o universo). M as
a religião não é pensamento nem atividade
moral. Então, o que é ela? E intuição e 3 O g r a n d e re la n ç a m e n to
santimento do infinito e, como tal, possui
fisionomia bem precisa, que se distingue d e P la tã o
tanto da metafísica como da ética.
Eis as palavras precisas de Schleierma­
cher: a religião “ não aspira a conhecer e a Teve importância histórica a grande
explicar o universo em sua natureza, como a tradução de Platão, que Schleiermacher
metafísica, nem aspira a continuar seu desen­ projetou, inicialmente com Schlegel, mas que
volvimento e aperfeiçoá-lo através da liber­ depois teve de acabar sozinho, seja porque
dade e da vontade divina do homem, como a Schlegel era filologicamente menos prepara­
moral. Sua essência não está no pensamento do, seja porque era mais dispersivo.
nem na ação, e sim na intuição e no senti­ Sobretudo depois da publicação da
mento. Ela aspira a intuir o universo; quer Doutrina da ciência de Fichte, os românticos
ficar contemplando-o piedosamente em suas sentiram a necessidade de voltar a Platão.
manifestações e ações originais; quer fazer- Isto Schlegel escrevia expressamente
se penetrar e preencher por suas influências e Schleiermacher reafirmava de modo pro-
imediatas, com passividade infantil. Assim, gramático em carta ao seu editor: “ Tenho
ela se opõe a ambas em tudo o que constitui sempre em mim a secreta inclinação para
sua essência e em tudo o que caracteriza seus a crítica; é exercício muito útil para mim
efeitos. Em todo o universo, elas não vêem mesmo, realizado discretamente. E creio
nada mais além do que o homem no centro até que, com isso, pude fazer algo de bom e,
de toda relação, como condição de todo ser aqui e acolá, pude exercer papel de mediador
e causa de todo devir; esta, porém, tende a entre as partes em conflito; assim como mui­
ver no homem, não menos que em todas as tas coisas, no meu ‘Platão’, desenvolverão
outras coisas particulares e finitas, o infinito, a função de mediação entre as velhas e as
a imagem, a marca, a expressão do infinito” . novas concepções da filosofia” .
E diz mais: “ A intuição do universo Ele tentou operar essa “ mediação” so­
[...] é a pedra angular de todo o meu dis­ bretudo na Dialética, em que Platão funciona
curso, é a fórmula mais universal e mais como contrapeso ao racionalismo extremo
elevada da religião, por meio da qual podeis dos sistemas idealistas. M as a Dialética foi
descobrir todas as suas partes, e se podem publicada postumamente e não teve influên­
determinar sua essência e seus limites do cia sobre seus contemporâneos, enquanto era
modo mais exato. Toda intuição deriva da enorme a influência da tradução dos diálogos
influência do objeto intuído sobre o sujeito platônicos que, por mérito de Schleierma­
que intui, da ação originária e independente cher, se impuseram novamente como ponto
do primeiro, que é acolhida, compreendida de referência indispensável (basta registrar
e concebida pelo segundo, em conformidade que até hoje a tradução de Schleiermacher
com sua natureza” . continua sendo reimpressa e reproposta).
Primeira parte - O m o v im e n to ^om cm tico e a f o r m a ç ã o d o id e a lis m o

4 O r ig e n s macher foi o primeiro a teorizar com certa


clareza aquilo que as teorias modernas
d a K e rm e n ê u tic a filo só fic a
chamarão de ‘círculo hermenêutico’. Com
efeito, no fundo do problema proposto pelo
círculo hermenêutico encontra-se tanto a
Por fim, o nascimento da “ hermenêu­ questão da totalidade do objeto a interpre­
tica filosófica” contemporânea revelou em tar como, mais amplamente, a questão da
Schleiermacher um autêntico precursor totalidade maior à qual, em modo que deve
dessa ciência. Com ele de fato, no filosofo, ser determinado e que constitui precisamen­
além de simples técnica de compreensão e, te a questão de maior interesse filosófico,
portanto, de interpretação dos vários tipos pertencem tanto o objeto como o sujeito
de escrito (por exemplo, da Sagrada Escri­ da operação de interpretação. Em Schleier­
tura e de seus significados), a hermenêutica macher, esse círculo apresenta-se definido
começa também a se tornar compreensão em suas duas dimensões fundamentais (a .
em geral da estrutura de interpretação que pré-conhecimento necessário da totalidade
caracteriza o conhecimento enquanto tal. da obra a interpretar; b. pertença necessária
É preciso compreender o todo para da obra e do intérprete ao mesmo e mais
poder compreender a parte e o elemento e, vasto âmbito), embora ele detenha mais a
ainda mais geralmente, é preciso que o texto atenção na primeira dimensão” .
e o objeto interpretados e o sujeito inter- M ais à frente veremos amplamente
pretante pertençam ao mesmo horizonte de como se desenvolveu o segundo ponto e
modo, por assim dizer, circular. como a estrutura hermenêutica se tornou
G. Vattimo, que estudou acuradamente a interpretação de toda a experiência hu­
esse ponto, escreve o seguinte: “ [...] Schleier- mana. [3]

§riet>n($ Sdjfeiertttadjer^

lítemífdjet

Friedrich Schleiermacher (1768-1834),


criador do conceito romântico de religião
d « r f f í i e f o M i e .
como sentimento de radica! dependência
da Totalidade.
A direita, o frontispício de um livro
que reúne suas obras-póstumas filosóficas.
Capitulo Segundo - O s f u n d a d o r e s d a £ s c o l a r o m â n t ic a

V. -Holderl in
T • | I V_/ I V-- r I I » \

e. a d i v i n i z a ç ã o d a n a t u r e z a

• Os temas tipicamente românticos que ressoam em HõlderlinOs temas


(1770-1843), hoje considerado um dos máximos poetas alemães, românticos
são o amor pela grecidade, o primado espiritual da beleza e da da poesia
poesia como únicas capazes de captar o infinito-uno, o forte sen­ de Hõlderlin
timento de pertença a este "todo" e a divinização da natureza, ^ § 1
compreendida como origem de tudo (deuses e homens).

1 LAm p o e t a t i p i c a m e n t e mais nos interessa aqui. Trata-se de uma espé­


u ~.. n cie de “ romance de formação” , concebido em
r o m â n t ic o estilo epistolar, no qual a personagem “ se for­
m a” através do seu “ andar pelo mundo” (a
romântica Wanderung) e através de uma série
Friedrich Hõlderlin (1770-1843) foi de experiências dramáticas. Hiperion é um
amigo de Schelling e de Hegel em Jena, grego do século XVIII que queria lutar pela
mas não se ligou ao círculo schlegeliano independência de sua pátria dominada pelos
dos românticos. E, no entanto, sua poesia, turcos e para fazer renascer a antiga Grécia,
como já observamos, apresenta os traços mas que se dá conta de que os gregos de seu
típicos do romantismo. Viveu afastado de tempo são bem diferentes dos antigos. A essa
todos, vítima de trágico destino de loucura amarga desilusão, acrescenta-se a morte de
que, manifestando-se inicialmente em forma sua amada Diotima, depois do que ele se refu­
de grave crise, tornou-se depois estado per­ gia na Alemanha, onde, no entanto, encontra
manente a partir de 1806, ou seja, durante incompreensão total. Por fim, só encontra
cerca de metade de sua vida. Depois de paz refugiando-se no seio da divina natureza.
longas incertezas e incompreensões, hoje E seria exatamente dessa concepção da natu­
Hõlderlin é julgado como um dos maiores reza que Schelling partirá para superar Fichte.
poetas alemães. Papel determinante nessa
reavaliação teve o filósofo Heidegger, que
desenvolveu interpretações finíssimas da
poesia hõlderliniana.
O am or pela grecidade, o prim ado
espiritual da beleza e da poesia como as
únicas capazes de captar o infinito-uno, o
forte sentimento de pertença a esse “ tudo”
e a divinização da natureza, entendida como
origem de tudo (deuses e homens), esses são
os temas tipicamente românticos que ecoam
em Hõlderlin. Ele retomou também algumas
temáticas ligadas ao cristianismo (basta ver
os hinos cristológicos: Pão e vinho, O único
e Patmos), mas realizou estranha mistura,
concebendo a venerada figura de Cristo
como um deus ao no estilo dos deuses da
Grécia, e considerando-se a si mesmo como
novo profeta (quase como um novo João,
destinado a um novo Apocalipse).
Hiperion ou o eremita na Grécia (cujo Friedrich Fíòlderlin (1770-1843)
primeiro esboço remonta a 1792 e a elabora­ expressou admiravelmente
ção definitiva a 1797-1799) é o romance que temáticas e instâncias românticas.
Primeira parte - O m o v im e n to r o m â n t ic o e a f o r m a ç ã o d o id e a lis m o

V. 5ckiller:
a c o n c e p ç ã o d a ^ a l m a b e l a /;
e d a e d u c a ç ã o estática

Beleza • O motivo inspirador de Friedrich Schiller (1759-1805), o


e liberdade grande poeta e dramaturgo, é constituído pelo amor à liber­
—> § 2 dade em todas as suas formas essenciais, e a mais alta escola de
liberdade é a beleza, pela função harmonizadora que ela exerce.
Ora, quem consegue cumprir o dever com naturalidade espontâ­
nea, requerida justamente pela beleza, é a "alma bela", isto é, a
A essência alma dotada daquela graça que harmoniza instinto e lei moral.
da poesia
"sentim ental " Portanto, para tornar o homem realmente racional torna-se es­
-^ § 3 sencial a educação estética, que é educação à liberdade mediante
a liberdade.

1 V id a e obras ral. A Revolução Francesa e seus resultados


convenceram Schiller de que o homem ainda
não estava preparado para a liberdade, e
Friedrich Schiller nasceu em Marbach, que a verdadeira liberdade é a que está se­
em 1759, e morreu em 1805. diada na consciência. M as como se chega à
Em sua vida, podemos distinguir três liberdade? Schiller não tem dúvidas de que
períodos bem claros. N o primeiro período, a mais alta escola de liberdade seja a beleza,
ele foi um dos Stürmer de maior destaque em virtude da função harmonizadora que ela
(como o provam seus dramas Os salteado­ desempenha: “ só se chega à liberdade atra­
res, A conjura de Fiescbi em Gênova, Intriga vés da beleza” — eis o credo schilleriano.
e amor e Dom Carlos). A partir de 1787, No escrito Sobre a graça e a dignidade,
dedicou-se a rigorosos estudos de filosofia Schiller cria a célebre figura da “ alma bela”
(lendo Kant a fundo) e de história durante (die schõne Seele), destinada a grande reper­
uma década (estudos que lhe granjearam cussão na época romântica. A “ alma bela”
uma cátedra de história em Jena). N a última é aquela que, superando a antítese kantiana
fase, volta ao teatro, com a trilogia de Wal- entre inclinação sensível e dever moral, con­
lenstein (concluída em 1799), com Maria segue cumprir o dever com naturalidade
Stuart (1800) e com Guilherme Tell (1804). espontânea, requerida precisamente pela
Para a história da filosofia, interessam sobre­ beleza. A “ alma bela” , portanto, é a alma
tudo os escritos do período intermediário, dotada daquela “ graça” que harmoniza
particularmente Sobre a graça e a dignidade “ instinto” e “ lei m oral” .
(1793), Cartas sobre a educação estética N as Cartas sobre a educação estética,
(1793-1795) e Sobre a poesia ingênua e Schiller precisa que há dois instintos funda­
sentimental (1795-1796). mentais no homem: um “ instinto material”
e um “ instinto voltado para a forma” ; o pri­
meiro está ligado ao ser sensível do homem
e, portanto, à materialidade e à temporali-
2 .. .7^ b e l e z a dade; o segundo está ligado à racionalidade
. . . . . .
c o m o e s c o la d e lib e rd a d e do homem. A composição da antítese entre
os dois instintos não deve ocorrer sacrifi­
cando totalmente o primeiro em benefício
A marca espiritual de Schiller é cons­ do segundo, porque assim ter-se-ia forma
tituída pelo amor à liberdade em todas as sem realidade, e sim harm onizando-os
suas formas essenciais, ou seja, a liberdade mediante o que ele chama “ o instinto do
política, a liberdade social e a liberdade mo­ jogo” (recorde-se o kantiano “ jogo livre”
Capítulo segundo - O s f u n d a d o r e s d a í S s c o l a r o m a n t ic a

das faculdades), que precisamente medeia próprio natureza e, portanto, expressão ime­
a realidade e a forma, a contingência e a diata da natureza. Já o poeta “ sentimental” ,
necessidade. Esse jogo livre das faculdades que é o poeta moderno, não é natureza, mas
é a liberdade. Schiller também chama o sente a natureza, ou, melhor ainda, reflete
primeiro instinto de “ vida” , o segundo de sobre o sentir, e nisso se alicerça a comoção
“ form a” e o jogo livre de “ forma viva” , e poética. Escreve Schiller: “Aqui, o objeto
esta é a beleza. Para tornar o homem ver­ é referido a uma idéia, e sua força poética
dadeiramente racional, é preciso torná-lo reside apenas nessa referência. O poeta
“ estético” . A educação estética é educação sentimental, portanto, está sempre diante de
para a liberdade através da liberdade (por­ duas representações e sentimentos em luta,
que a beleza é liberdade). tendo a realidade por limite e a sua idéia por
infinito. E o sentimento misto que ele suscita
refletirá sempre essa dupla fonte.”
Os fermentos rom ânticos são mais
3. P o e s ia in g ê n u a que evidentes nessa concepção. O próprio
e p o e s ia se n tim e n tal Goethe, como todos os poetas modernos,
contra as intenções de Schiller e as apa­
rências exteriores, com base nessa análise não
N o terceiro ensaio importante, Sobre a podia deixar de ser catalogado como poeta
poesia ingênua e sentimental, Schiller ilustra “ sentimental” . O cânon da beleza clássica
uma tese interessante. A poesia antiga era não podia mais realizar-se imediatamente
ingênua porque o homem antigo agia como na dimensão da natureza, mas apenas ser
unidade harmônica e natural e “ sentia natu­ “ buscado” através de itinerário mediato,
ralmente” : em suma, o antigo poeta era ele ou seja, como ideal romântico.
Primeira parte - O m o v im e n to r o m â n t ic o e a f o r m a ç ã o d o id e a lis m o

vi. ao e tke,
s u a s r e l a ç õ e s c o m o ro m a n tis m o
e a c o n c e p ç ã o d a natureza

Posição crítica • Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832), o maior poeta


em relação alemão, foi o principal dos Stürmer, mas, a partir de 1775, quis
repropor os cânones clássicos da beleza. Condenou os românticos,
aos românticos
-^§1 mas não com a mira na alma do movimento, e sim nos excessos
do fenômeno romântico.
A concepção • Importante é sua concepção da natureza, co
da natureza como forma de organicidade impelida às conseqüências extremas:
—> § 2 a natureza é toda viva, até nos mínimos particulares, a totalidade
dos fenômenos é produção orgânica da "forma interior", e as
diversas formações naturais derivam de uma polaridade de forças (contração e
expansão), seguindo um progressivo crescimento e elevação.
A importância • Dois personagens de Goethe tiveram o privilégio de as­
de Wilhelm cender a símbolos: Wilhelm Meister, protagonista do mais belo
Meister exemplo de "romance de formação", ou seja, de desenvolvimen­
e de Fausto to espiritual, e Fausto, tornado personagem eterna, cuja chave
->§3-4 interpretativa consiste no encontro entre sua tensão incessante
e o amor divino que vem em seu auxílio.

1 ;A s re la ç õ e s gostava dos descomedimentos ligados ao


c o m o ^ S t u r m un d V rcx n g " movimento do fenômeno de imitação do­
entia a que Werther havia dado lugar, não
apenas no plano literário.
Johann Wolfgang von Goethe (1749­ Já o Goethe do período posterior quis
1832) é o maior poeta alemão. Ele resume ser clássico, repropondo os cânones clássicos
em si toda uma época, com suas dificuldades da beleza. Dizia que quem quer fazer algo
e suas aspirações. Diferentemente de Schiller, de grande deve, como os gregos, ser capaz
não dedicou obras específicas à filosofia; de elevar a natureza real à altura do espírito.
aliás, fez questão de manter certa distân­ Na realidade, o “classicismo” de Goe­
cia em relação aos filósofos de profissão. the nada mais é do que o resultado da força
Seus escritos, todavia, contêm numerosas decomposta do Sturm und Drang, ordenada
idéias filosóficas e algumas de suas obras pela forma e por novo sentido do “ limite” ,
tornaram-se verdadeiros símbolos para os e, na realidade, é romantismo.
românticos. Por isso, devemos tratar delas, Goethe condenou os românticos, não
ainda que brevemente. a alma do movimento (porque também nele
Inicialmente, como já dissemos, Goethe vivia uma parte daquela alma); condenou os
foi um dos Stürmer, aliás, o principal (e a excessos do fenômeno romântico.
esse período remontam obras fam osas, co­
mo o Gótz von Berlichingen, o Prometeu, As
dores do jovem Werther, o primeiro Fausto 2 /\Jature 2 a , TDe-us e a r t e
e o primeiro Wilhelm Meister). É verdade
que procurou acuradamente minimizar a
importância do movimento e do papel por N o que se refere às temáticas especí­
ele desempenhado; entretanto, confessa ter ficas, devemos recordar em primeiro lugar
contribuído para ele. N a realidade, não a concepção goethiana da natureza, que
Capitulo Segundo - CDs f u n d a d o r e s d a (S -sco \a r o m â n t ic a

é uma form a de organicism o levado às 3 ^ W ilk e lm /v A eisfer"


últimas conseqüências. A natureza é toda com o Rom ance.
viva, até em seus mínimos particulares. A
totalidade dos fenômenos é vista como pro­ d e f o r m a ç ã o e sp iritu a l
dução orgânica da “ forma interior” . Uma
polaridade de forças (contração e expansão)
origina as diversas formações naturais, que Entre suas obras, especialmente duas ti­
assinalam acréscimo e produzem elevação veram o privilégio de se tornarem símbolo: o
progressiva. Wilhelm Meister e, mais ainda, o Fausto.
Sua concepção de Deus é predominan­ A primeira é o mais belo exemplo de
temente panteísta, mas sem rigidez dogm á­ “ romance de form ação” ou de desenvol­
tica. Com efeito, ele disse ser “ politeísta” vimento espiritual. Através de uma série
como poeta e “ panteísta” como cientista; simbólica de experiências artísticas, Wilhelm
mas acrescentou haver espaço, pelas exi­ encontra-se por fim a si mesmo, realizan­
gências de sua pessoa moral, também para do-se mediante atividade prática, ou seja,
um Deus pessoal. inserindo-se na sociedade de modo factual.
Para Goethe, o “ gênio” é “ natureza que Para Wilhelm, as experiências artísticas
cria” , e a arte é atividade criadora e criação não foram puramente decepcionantes, mas
como a natureza, e até acima da natureza. também redundaram em potencialização das

johann Wolfgang von Goethe (1749-1832) fui o grande dominador da era romântica
com sua poesia, seu estilo de vida e seu pensamento.
Teve também influencia extraordinária íobre a política cultural da época.
Este belo retrato de Goethe sobre o fundo da campanha romana,
executado por jobann Heinnch Wilhelm Tischbein em 1787.
encontra-se no Stádelsches Kunstinstitut de hrankfurt.
28
Primeira parte - O m o v im e n to r o m â n t ic o e a f o r m a ç ã o d o id e a lis m o

energias próprias das atividades da última Quem se afana em perene tender,


fase (o romance reflete amplamente o pró­ esse nós podemos salvar!
prio Goethe que, de fervoroso Stiirmer, pas­
sara ao serviço do governo de Weimar). Em carta de 6 de junho de 1831 a
Schlegel julgou o romance como algo Eckermann, Goethe escreve: “Nesses versos
comparável à Revolução Francesa, ou seja, está contida a chave da salvação de Fausto” .
como expressão de uma tendência do século. E, segundo ele, a chave está no encontro
L. Mittner assim o define: “ O romance entre o incessante tender de Fausto, por
[...] deve ser entendido como tentativa de um lado, e o amor divino, por outro: “ No
realizar, no plano artístico, o que era irrea- próprio Fausto (há) atividade sempre mais
lizável no plano econômico-político real; de elevada e mais pura até o fim, e do alto (há)
fato, como o Fausto, ele é um verdadeiro o amor eterno que lhe vem em socorro” .
uno-todo, uno diverso em si mesmo, já que Goethe conclui, destacando expressamente:
abrange vários mundos sociais e éticos bem “ Isso está em perfeita harmonia com a nossa
fechados em si, mas que também estão ideal­ representação religiosa, segundo a qual nós
mente e até realmente relacionados entre si, não nos tornamos bem-aventurados median­
pelo menos no sentido de que do menor de te nossas próprias forças, e sim mediante a
tais mundos sempre se desenvolvem mundos graça divina que sobrevêm” .
maiores, que por fim deveriam abranger Trata-se de palavras que restituem ao
toda a realidade cultural e social da época personagem sua estatura romântica.
goethiana” .
Hegel fará algo semelhante, no mais
elevado plano filosófico, em sua Fenomeno­
logia do Espírito, que, como veremos, narra
as experiências da própria consciência que,
através das peripécias morais e espirituais da
história universal, chega à autoconsciência
e ao saber absoluto.

O s ig n ific a d o d e F a u sto

M ais duradoura foi a celebridade de


Fausto, que se transformou em personagem
eterno (uma posse para sempre, como diriam
os gregos). Sobre Fausto, porém, já se disse
até mais do que se deveria. Hegel se inspi­
rará em algumas cenas para descrever certas
passagens de sua Fenomenologia. Alguns
acreditam ver nele refletida profeticamente
a consciência do homem moderno. N o Stre-
ben de Fausto, ou seja, no tender sempre
para o ulterior, é mais fácil perceber o ati-
vismo que devora o homem contemporâneo.
M as Goethe nos reserva enorme surpresa ao Retrato de Goethe na maturidade,
nos dar a sua interpretação dos dois versos- executado em 1824 por Carl Vogel von Vogelstem,
chave do seu poema. Postos nos lábios dos desenhista e pintor alemão, conhecido por seus
anjos do céu, dizem os dois versos: mais de setecentos retratos.
. 29
Capítulo segundo - O s f u n d a d o r e s d a E s c o l a r o m â n t ic a ......

que é homogêneo e afim, ou, com paridade


F. S c h l e g e l de grandeza, daquilo que é inimigo. Mas,
se efetivamente as coisas supremas não são
suscetíveis de serem formadas pela intenção,
então é melhor deixar imediatamente de lado
toda pretensão de chegar a uma arte livre das
idéias, que seria então um nome desprovido
^ 1 Rumo à nova mitologia de sentido.
A mitologia é uma obra de arte livre da
F. Schlegel desejou que o humanidade natureza. €m seu tecido aquilo que há de su­
estivesse em grau de voltar à fonte de todo premo realmente tomou formo; tudo é relação
saber: a poesia. Um processo geral de e metamorfose, tudo é assimilado e transfor­
"rejuvenescimento" seria então o tempo, mado, e esta assimilação e transformação é o
'força divinatória''; o pensamento do homem, procedimento que lhe pertence propriamente,
"glória de beleza, luz e amor"; a realidade sua vida íntimo, seu método, se assim posso
dos Fenômenos, "era do ouro" do espírito de me exprimir.
quem, por todo lugar, verá brotar a Fonte da Aqui noto uma forte semelhança com o
verdade e do ser. soberano UJitz1 da poesia romântica, que não
se manifesto em ocorrências particulares, e
sim na construção do todo [...]. Ao contrário,
esta confusão levantada artificialmente, esta
€ este tênue reflexo do divindade no fascinante simetria de contradições, esta mara­
homem não é talvez o olma autêntica de toda vilhosa e eterna proximidade de entusiasmo e
poesia, a cintilação que o acende? ironia, que vive em toda mínima parte do todo,
Para esgotá-la não basta de fato o sim­ parecem-me ser já em si mesmas uma mitologia
ples representar homens, paixões evicissitudes, indireta. [...]
nem bastam formas artificiais, também querendo Ç assim, em nome da luz e da vida, não re­
embaralhar e novamente combinar milhões tardemos mais, mas apressemos, cada um a seu
de vezes as velhas soluções: isso é apenas o modo, o grande desenvolvimento para o qual
corpo externo visível, ou até, quando a alma se fomos chamados. Sede dignos da grandeza dos
apagou, o cadáver da poesia. Mas quando a tempos: o véu cairá de vossos olhos, e tudo
centelha de entusiasmo ao contrário explode, se tornará claro diante de vós. Pensar significo
transformando-se em obras, um novo fenômeno adivinhar,2 mas o homem apenas começou a
aparece diante de nós, vivo, em uma glória de tornar-se consciente de sua força divinatória.
beleza, luz e amor. Que incomensuráveis desenvolvimentos espe­
€ o que mais é toda bela mitologia, se ram essa força, e justamente agora! Porece-me
não um hieroglifo da natureza circundante em que quem estivesse em grau de compreender
tal transfiguração de fantasia e amor? nossa época, isto é, o grande processo univer­
fi mitologia tem grande valor. Rquilo que sal de rejuvenescimento, os princípios da eterna
de outro modo escapa da consciência para revolução, deveria poder conseguir segurar os
sempre, aqui se torna evidente, e é mantido, pólos da humanidade, entender e conhecer
de modo sensível e espiritual, como a alma no o modo de agir dos primeiros homens, assim
corpo que o acolhe, através do qual ela reluz como o caráter da era de ouro que aindo está
em nossos olhos e fala em nosso ouvido. porvir. 6ntão se calariam as tagarelices, o ho­
€is o ponto: nós, no que se refere às coi­ mem tomaria consciência daquilo que ele é, e
sas supremas, não nos entregamos inteiramente entenderia a terra e o sol.
apenas ao nosso espírito, é certo que quem F. Schle
se encontra ressequido em nenhum lugar verá Diálogo sobre a poesia.
brotar uma fonte - uma verdade conhecida à
qual sequer minimamente pretendo subtrair-me.
Todavia, devemos sempre dar prosseguimento 'UJitz é um termo alemão que significo "prontidão
àquilo que já recebeu forma, e desenvolver, de espirito" e que designo o categoria do humour, típica
do romantismo e formulada de modo específico por F.
acender, alimentar - em uma palavra: formar Schlegel.
- até as coisas supremas com o contato daquilo 2lsto é, prever o futuro.
30 . .
__ Primeira parte - O m o v im e n to r o m â n t ic o e a f o r m a ç ã o d o id e a lis m o

N o v a lis

Cristcindcide ou Curopa
O ensaio R Cristandade ou o Guropa (1799), apesar de sua brevidade, é um texto muito
denso e complexo, ao mesmo tempo um ensaio histórico, um estudo Filosófico e teológico e
uma obra de poesia.
Na história existe, segundo Novalis, uma relação particular entre passado e futuro: o passado
contém em si os germes daguilo gue será realizado apenas no Futuro e, portanto, o preFigura.
Saber ver em eventos passados estas preFigurações de eventos Futuros, sober colher a existência
de analogias proFundos entre eventos distantes entre si, indo além das aparências, signiFica lera
história de modo proFético e revelar seu íntimo progresso em direção à liberdade e à completude:
isto é o gue deve Fazer o historiador, gue é chamado não a registrar objetivamente os Fatos,
mas a interpretá-los, colocá-los em reloção mútuo, Fazer emergir seu significado proFundo. Nesta
leitura "em proFundidade" dos Fotos do história o historiador é assistido pelo "senso sagrado"
gue tem lugar no coração do homem. Graças ao senso sagrado é possível um conhecimento
mois aproFundado do mundo terreno, gue permite descobrir o aspecto moral do universo gue,
como um Fio, abre caminho através do mundo dos coisas visíveis e revelo sua ordem interior, o
sentido escondido. Revelar o sentido escondido dos eventos é o gue Novolis Faz nesse ensoio.
A Cristandade ou a £uropa percorre em grandes possos a história da Idade Médio até o
Fim do século XVIII e caracterizo os períodos históricos com base na presença ou na ausência do
senso sagrado. O ensaio obre-se com um olhar para os tempos míticos do Idode Médio, trans­
Formado guose em uma "era de ouro", cujo senso sagrado era Florescente de modo espontâneo
e inconsciente, para passar depois paro o período da ReFormo protestante, em gue é Forte o
contraste entre senso sogrodo e racionalidade, entre Fé e saber. Com a Contra-reForma parece
voltor um período de renascimento do senso sagrado, mas na época das Luzes e da Revolução
Francesa ele será oFuscado em Favor das Faculdades racionais. Novalis capta, porém, no FinoI
do século XVIII, os sinais de umo época nova gue está poro nascer e gue são particularmente
evidentes justamente na fílemanha. fís últimas páginas do ensaio, extraordinárias por causa
da sugestão visionária gue o anima, traçam o perFil de umo nova era de ouro em gue o senso
sogrodo atingirá pleno e consciente realização.
Os trechos propostos apresentam a interpretação que Novalis oFerece do Iluminismo e da
époco nova que ele vê chegar.
O primeiro trecho reFaz as origens do Iluminismo (a oposição entre o senso sagrado e a razão).
O segundo ilustra suas característicos, limites e contradições (o Iluminismo,).
Novalis abandona depois o Iluminismo e passa a tratar dos traços de umo época nova gue
está paro nascer (terceiro trecho: O renascimento do senso sagrado no Fílemanha: os sinais
de uma época novaj).
Na perspectiva dessa nova época, Novolis volta Finalmente o olhar poro trás, a Fim de pro­
curar compreender, para além dos limites e dos deFeitos do iluminismo, suo Função histórica,
oFerecendo um exemplo da leitura proFundo dos Fatos históricos de gue se Folou acima (guarto
trecho: Fl necessidade do Iluminismo para o progresso da história,).

1. fl oposição entre o senso sagrado blevaram com arrogância tanto maior contra a
e a razão antiga constituição. Instintivamente o erudito é
R Reforma havia sido um sinal do tempo, inimigo do clero segundo a antiga constituição;1
foi importante paro toda a 6uropa, embora o grupo dos eruditos e o do clero não podem
tendo explodido publicamente apenas na deixar de entravar guerras destrutivas, quan­
Alemanha verdadeiramente livre. Os melhores do estão separados: eles de fato lutam pela
gênios de todas as nações haviam se tornado
secretamente maiores de idade e, enganan­ Trata-se da constituição em classes antes do Revo­
do-se no sentimento de sua vocação, se su- lução francesa.
Cãpítulo segundo - O s f u n d a d o r e s d a E s c o l a r o m â n t ic a

próprio posição. €sta separação se acentuou ornamento colorido. A luz, por sua docilidade
sempre mais e os eruditos conquistaram tanto matemática e por seu atrevimento, tornou-se o
mais terreno quanto mais o clero da humani­ predileta deles. Alegravam-se pelo fato de que
dade européia aproximava-se do período da ela se deixasse decompor mais do que pelo
erudição triunfante, e o saber e a Pé entravam fato de que tivesse brincado com os cores e
em uma oposição mais saliente. Na fé se assim, da luz, chamaram sua grande empresa
procurou o motivo da estagnação geral e se lluminismo. Na Alemanha essa empresa foi con­
esperou eliminá-la por meio de um saber que duzida de modo mais aprofundado, reformou-se
abrisse uma brecha naquela estagnação. £m a instrução, procurou-se dar à velha religião um
todo lugar o senso sagrado sofreu numerosas sentido moderno, racional, mais comum, lavan­
perseguições nos formas por ele assumidas até do-a meticulosamente de todo traço de milagre
então e na sua configuração atual. O resultado e de mistério; mobilizou-se toda a erudição
do modo de pensar moderno foi chamado de para barrar qualquer escapatória para a histó­
filosofio e lhe foi atribuído tudo aquilo que se ria, empenhando-se em enobrecer a história,
opunha ao antigo e, portanto, sobretudo toda transformando-a em um quadrinho de gênero,
idéia contra o religião. Aquilo que inicialmente Familiar e moral, doméstico e burguês.
era um ódio pessoal em relação à fé católica se Deus foi transformado em preguiçoso
transformou, pouco a pouco, em ódio em rela­ expectador do grande e comovente espetácu­
ção à Bíblia, à fé cristã e, por fim, até à religião.
lo encenado pelos eruditos, que no fim devia
Mas não basta: o ódio em relação à religião oferecer uma suntuoso recepção e cumprimentar
se estendeu, de modo perfeitamente natural e solenemente os autores e os atores. A gente
conseqüente, a qualquer coisa que fosse objeto comum era iluminada com verdadeira predile­
de entusiasmo; declarou heresia a fantasia e o ção e educada naquele entusiasmo erudito;
sentimento, a moralidade e o amor pela arte, nasceu assim uma nova corporação européia:
pelo futuro e pelo passado; colocou com difi­ a dos filantropos e dos iluministas. Pena que a
culdade o homem no cimo da série dos seres natureza, apesar dos esforços realizados para
naturais e transformou a infinita música criadoramodernizá-la, permanecesse tão maravilhosa
do universo no rangido monótono de um enorme e incompreensível, tão poética e infinita. Se,
moinho acionado pela corrente do acaso e a de algum lugar, surgia uma velha superstição
ela entregue, um moinho em si, sem construtor a respeito de um mundo superior ou de outro,
e sem moleiro, um verdadeiro e próprio perpe- logo, de toda parte, levantava-se um grande
tuum móbile. um moinho que mói a si mesmo. rumor e, se possível, a perigosa centelha era su­
focada pela filosofia e pela argúcia; todavia, o
2. O lluminismo palavra de ordem dos eruditos era tolerância e,
flpenas um entusiasmo foi generosamente particularmente na frança, sinônimo de filosofia.
deixado ao pobre ser humano e tornado indis­ €ssa historio da irreligiosidode moderna
pensável como pedra de comparação da mais é singuloríssimo e é a chave de todos os fenô­
alta cultura para todo acionista desta última. O menos gigantescos da época moderna. 0a tem
entusiasmo por esta esplêndida e grandiosa início apenas nesse século e particularmente na
filosofia, e de modo marcante para seus sa­ segundo metade, e em breve tempo assume
cerdotes e mistagogos.2 A frança, portanto, dimensão e variedade que não podem ser
ficou contente de se tornar o útero e a sede descuradas; uma segunda Reforma, que fos­
desta nova fé que era uma mistura de puro se mais ampla e mais peculiar, era inevitável
saber. ímbora nessa nova Igreja a poesia fosse e devia necessariamente atingir em primeiro
desvalorizada, ainda assim existiam entre eles lugar aquele país que estavo mais de acordo
alguns de seus poetas que, para impressionar, com os tempos e que mais tempo permaneceu
recorriam aos antigos ornamentos e às velhas em estado de astenia pela falta de liberdade.
luzes, arriscando, porém, deste modo, iluminar Há tempo o fogo ultraterreno teria avançado e
o novo sistema do mundo com fogo velho. tomado vãos os plonos agudos do lluminismo,
Todavia, membros mais inteligentes sabiam caso não tivessem estado a seu favor a pressão
derramar logo água fria sobre ouvintes que já e a influência do mundo. Porém, no momento
haviam sido aquecidos. Os membros estavam em que surgiu um conflito entre os eruditos e os
empenhados sem descanso a limpara nature­ governos, entre os inimigos da religião e toda
za, o solo terrestre, as almas dos homens e as a sua companhia, eis que a religião teve de
ciências da poesia, a eliminar qualquer traço do
sagrado, a arruinar a lembrança de todos os
eventos e dos homens edificantes, servindo-se 2Os mistagogos soo os guias espirituais nos etapas
do sarcasmo, e a despojar o mundo de todo da asç0s0 .
Primeira parte - CD m o v im e n to r o m â n t ic o e a f o r m a ç ã o d o i d e a lis m o

intervir como terceiro elemento, determinante e polidez esplêndida, conhecimentos amplos e


mediador; e todo amigo delo deve agora reco­ uma fantasia rica e robusto. Parece despertar-
nhecê-la e anunciar sua chegada, embora esta se em todo lugar um pressentimento poderoso
ainda não fosse suficientemente evidente. Que do arbítrio criativo, do ausência de barreiras,
tenha chegado o tempo da ressurreição, e que da infinita variedade, da sagrada peculiaridade
justamente os eventos que pareciam impedir e da onipotente capacidade da humanidade
sua vivificação e ameaçavam seu ocaso defini­ interior. Surgida do sonho matutino da infância
tivo tenham se tornado os sinais mais propícios desajeitada, uma parte da humanidade põe à
de sua regeneração, tudo isso não pode de fato prova suas jovens forças com as serpentes que
ser posto em dúvida por um espírito dotado de circundam seu berço e que querem impedir-lhe
senso da história. B verdadeira anarquia é o o uso de seus membros. Ainda não sõo mais
elemento gerador da religião. Da destruição de que acenos, desconexos e rudes, mas que ao
tudo aquilo que é positivo ela levanta sua ca­ olho historiador revelam uma individualidade
beça gloriosa como nova fundadora do mundo. universal, uma nova história, uma nova humani­
O homem se eleva sozinho para o céu se nada dade, o abraço mais terno de uma Igreja jovem
mais o prende, e em primeiro lugar os órgãos e surpresa e de um Deus que ama, e a íntima
superiores se levantam sozinhos da uniforme concepção de um novo Messias em seus mil
confusão geral e da dissolução completa de membros ao mesmo tempo. Quem não percebe
todas as disposições naturais e das forças do o doce pudor de um alegre evento?
homem como o núcleo originário da configura­
ção terrena. O espírito de Deus revoa sobre as 4. A necessidade do Iluminismo
águas e apenas agora se percebe, no refluxo para o progresso da história
das ondas, uma ilha celeste, a moradia dos
homens novos, a bacia fluvial da vida eterna. Agora estamos suficientemente elevados
para dirigir um sorriso gentil também àqueles
3. O renascimento do senso sagrado
tempos passados de que acima falamos, e para
na Memanha: os sinais de uma nova época
reconhecer também naquelas surpreendentes
idiotices cristalizações notáveis do material da
Dos outros Gstados europeus além da Ale­ história. Queremos apertar, gratos, a mõo dos
manha pode-se apenas profetizar que com a paz eruditos e filósofos; essa loucura de fato devia
começará o pulsar neles uma novo e mais alta se realizar para o bem dos pósteros e devia se
vida religiosa, e logo consumirá qualquer outro fazer valer a visão científica das coisas. Mais
interesse mundano. Na Alemanha, ao contrário, fascinante e diversificada, a poesia, como uma
podemos indicar já, com absoluta certeza, os Indio cheia de ornamentos, contrapõe-se ao frio
sinais de um mundo novo. A Alemanha procede e morto Spitzberg3 daquele intelecto de pouco
com passo lento mas seguro, distanciando-se antes. Para que a índia seja assim quente e
dos outros (rstados europeus. Enquanto estes esplêndida, no centro do globo terrestre, um
se encontram ocupados com guerras, especula­ mar frio e imóvel, recifes mortos, névoa em vez
ções, espírito partidário, o alemão se apressa de céu estrelado e uma longa noite devem
a tornar-se, com grande diligência, membro de tornar seus dois extremos inóspitos. O signifi­
uma época mais elevada da cultura, e esse cado profundo da mecânica pesava sobre estes
progresso lhe dará forçosamente, com o passar anacoretas dos desertos do intelecto; o fascínio
do tempo, um grande predomínio sobre os ou­ da primeira intuição os subjugou, o antigo se
tros. Nas artes e nas ciências se tem um grande vingou deles; com uma negação extraordinária
fermento. Desenvolve-se muitíssimo espírito. 6c- sacrificaram ao primeiro conhecimento de si
trai-se de minas novas, ainda não exploradas. aquilo que de mais sagrado e belo existe no
Jamais as ciências estiveram em mãos mundo, e foram os primeiros a reconhecer de
melhores e abriram ao menos maiores ex­ novo, com a ação, o santidade da natureza,
pectativas; vai-se em busca de aspectos mais a infinitude da arte, a necessidade do saber,
diversos das coisas, não há nada que não o respeito de tudo aquilo que é do mundo, a
seja passado no crivo, avaliado, pesquisado. onipresença daquilo que é verdadeiramente his­
Tudo é elaborado: os escritores tornam-se tórico, o anunciaram e puseram fim a um domínio
mais pessoais e mais eficazes, todo velho dos fantasmas mais elevado, mais geral e mais
monumento da história, toda arte, toda ciência terrível do que eles próprios acreditavam.
encontra cultores e é abraçada com amor novo Novalis,
e tornada fecunda. Aqui e ali encontram-se, com R Cristondade ou a Europa.
freqüência agudamente unidas, uma versatili­
dade sem igual, profundidade extraordinária, 'Jé o monta mais oito do Boviero.
Cãpítulo S e g u n d o ~ CDs f u n d a d o r e s d a < S s c o la r o m â n t ic a

a interpretação é exercido em nossas escolas


S c h le ie r m a c h e r e universidades, e os comentários explicativos
dos filólogos e dos teólogos - de fato foram
eles que cultivaram este campo de modo exce­
lente - contêm um tesouro de observações e de
testemunhos instrutivos, que atestam suficiente­
3 fl hermenêutico mente quantos deles são verdadeiros mestres
na arte da interpretação, enquanto certamente,
bem ao lodo deles e no mesmo campo, de
Friedrich Schleiermacher conseguiu trans­ uma porte surge o arbítrio mais desenfreado
formar o pensamento hermenêutico da mo­ na presença de passagens difíceis, e de outra
dernidade de simples "arte da interpretação" uma pedante obtusidade descura com indife­
poro uma verdadeira e própria metodologia rença ou ultrapassa de modo tolo aquilo que
em grau de compreender um discurso ou há de mais belo. Mas, ao lado de todos estes
um escrito. Desse modo, o objeto do com­ tesouros, quem deve exercer pessoalmente a
preensão não é um objeto determinado, tarefa da interpretação, sem todavia poder ser
mos o complexo procedimento por meio do contado entre os artistas mais insignes, e ainda
quol o inferioridade do pensamento de um mais quando ao mesmo tempo deve preceder
indivíduo chega a manifestar-se no língua. na interpretação o juventude ávida de saber
Poro tal Fim Schleiermacher entreviu na teoria e a esta guiá-la, aspira a dispor de uma guia
hermenêutica o próprio centro de seu sistema tal que, enquanto metodologia verdadeira e
do saber, em que língua e pensamento se própria, não só seja o fruto mais ambicionado
compenetram um no outro em um movimento das obras-primas dos artistas desta disciplina,
circular de implicação recíproca, em uma obra mas também exponho em forma científica digna
contínuo de mediação. R hermenêutica cabe, o porte complexivo e os princípios do processo
porém, a tareia de manifestar o saber: uma hermenêutico. Quando tive a oportunidade pela
tarefa infinita em que todo indivíduo, procu­ primeira vez de dar aulas referentes à interpre­
rando compreender o sentido do realidade, tação, também eu fui induzido a procurar para
decide seu próprio destino. Schleiermacher mim mesmo, assim como pora meus ouvintes,
pode, portanto, ser considerado o fundador um guio semelhante. Mas, em vão. Não só a
do hermenêutica moderna. não irrelevante quantidade de compêndios
teológicos - embora alguns deles, como o livro
de êrnesti,1 se impusessem como testemunhos
de uma valente escola filológica mas tam­
Muitos, tolvez oté o maior parte, dos bém os poucos ensaios puramente filológicos
atividades que constituem a vido humana com­ deste gênero pareciam apenas coleções de
portam tríplice graduação, conforme o modo em regras particulares tiradas das observações
que são exercidos: um primeiro modo quase dos mestres, em certos casos definidas mais
privado de espírito e totalmente mecânico, um claramente e em certos outros mais oscilantes
segundo que se baseia sobre uma abundância na incerteza, ordenadas ora de modo desa­
de experiências e de observações, e por fim jeitado ora de modo mois conveniente. €u
um terceiro que é, no sentido próprio do termo, esperava olgo de melhor o partir da publicação
adequado à arte. Ora, parece-me que a este da Enciclopédia filológica que Fülleborn2 havia
último modo se deva inscrever também o inter­ extraído das aulos de LUolf,3 mas o pouco de
pretação, à medido que com esta expressão hermenêutico não tinha sequer a aspiração de
entendo justamente tudo aquilo que se refere querer delinear, aindo que com poucos traços,
à compreensão de um discurso de outrem. um desenho completo; e, como aquilo que era
O primeiro modo e o mais baixo nós o en­
contramos quotidianamente, não só no mercado
e pelas ruas, mas também em certos círculos
mundanos onde nós nos trocamos Frases feitas fama’J.reconhecida,
R £rnesti (1707-1781 )foi filólogo e teólogo de
autor também de uma institutio inter-
sobre assuntos comuns, de modo que de vez em pretis Novi Testamenti (leipzig, 1761) à qual aqui faz-se
quando já sabemos quase com certeza aquilo referência.
que replicaremos ao interlocutor, e o discurso é 2G. G. Füll0 born foi filósofo e 0scritor nascido em
1769, 0 foi autor precisament0 de uma €najclopaedio
regularmente pego e novamente atirado como phiioiogica,
uma bola. s/Ve primae iineae isagoges in ontiquorum
studia, 1798.
O segundo modo é o ponto em que pa­ 3Friedrich flugust UJolf (1759-1824) ensinou em Hall0s
recemos nos encontrar em geral, é assim que 0 em 80rlim; é considerado o pai do filologia moderna.
Primeira parte - O m o v im e n to r o m â n t ic o ■’ a f o r m a ç ã o d o i d e a lis m o

oferecido também aqui era aplicado, como é mais se torna indolente em seus movimentos de
natural, especialmente às obros da antiguidade modo inversamente proporcional à sua recepti­
clássica assim como na maior parte dos manuais vidade, e também nos mais vivazes, justamente
no âmbito peculiar das Sagrados êscrituras, não porque cada um em seu ser singular é o não
fiquei mais satisfeito do que antes. ser dos outros, o não compreensão jamais se
fl partir daí os ensaios mencionados no resolverá inteiramente. Mas se agora se tira dos
título constituem o quanto de mais significativo primeiros inícios a rapidez dos acontecimentos,
apareceu até hoje sobre este assunto. Ora, a reflexão é favorecida pela maior lentidão dos
quanto mais LUolf representa entre nós o espí­ movimentos e pelo mais longo atraso sobre a
rito mais refinodo, o genialidade mais livre da operação singular, e assim começa finalmente
filologia, e quanto mais o senhor Ast4ambiciona aquele período em que são coletadas expe­
proceder em todo caso como um filólogo qu® riências hermenêuticas e adiantadas propostas:
opero filosoficamente, tanto mais instrutiva e fe­ eu com efeito preferiria defini-las ossim ao invés
cundo deve ser a associação dos dois autores. de falar de regras. Mas uma metodologia - e
€, assim, para o momento parece-me que a coi­ isso parece derivar quase por si do que foi dito
sa mais conveniente, seguindo estes guias, seja até agora - pode-se ter apenas quando tanto o
a de ligar meus pensamentos sobre o assunto língua em sua objetividade quanto o processo
da interpretação a seus princípios. [...] da produção dos pensamentos enquanto função
Todavia, examinando as coisas mais cla­ da vida espiritual do indivíduo são pesquisa­
ramente, em todo momento de não compreen­ dos tão o fundo, em sua relação com o ser do
são nos encontramos ainda em uma situação próprio pensamento, que do modo em que se
análoga, mesmo que de menor porte. Mesmo procede em reunir e comunicar os pensamentos
se nos encontramos no mundo que nos é fami­ pode-se extrair um modelo pora expor em uma
liar, é todavia algo de estranho que nos vem concatenação completa o modo em que se deve
ao encontro na língua quando uma ligação de proceder na compreensão.
palavras recusa tornar-se clara, algo de estra­ Todavia, para esclarecer perfeitamente
nho que encontramos em nossa produção do este ponto devemos antes - e isso seria uma
pensamento e, embora seja análogo à nossa segundo tarefa em relação à primeira que aca­
produção, não conseguimos fixar o nexo entre bamos de expor - ter feito plena justiça a uma
os membros particulares de uma série ou então idéia que o senhor Ast parece ter tido antes de
suo extensão, e por conseguinte oscilamos LUolf, uma idéia que, antes que se determine
inseguros; portanto, podemos iniciar sempre de modo decisivo por meio dela a configuração
apenas com a mesma audácia divinatório. da hermenêutica, parece ser mais um achado
Assim não podemos simplesmente contrapor do que uma descoberta: refiro-me à idéia se­
nosso estado presente àqueles inícios gigan­ gundo a qual cada elemento particular pode
tescos da infância. Mas esso tarefa de com­ ser compreendido apenas por meio do todo e,
preender e de interpretar é um todo contínuo portanto, toda explicação do elemento particular
que se desenvolve gradualmente, e em seu pressupõe já a compreensão do todo.
contínuo proceder nos sustentamos sempre
mais mutuamente enquanto cada um oferece f. Schleiermacher,
aos outros termos de confronto e analogias, Os discursos acadêmicos de 1829,
mas ele começo sempre em cada ponto na Gm Hermenêutica.
mesma maneira presencial. Trata-se do lento
reencontrar-se do espírito pensante. Apenas 40 filólogo 0 filósofo Friedrich Ast (1778-1841) ensinou
que, como lentamente diminui tonto a circulação emJeno, landshut 0 Munique. Schleiermacher foz aqui umo
do sangue como a renovação da respiração, referência à sua obra Grundiinien der Grommotik, Herme-
também a alma quanto mais já possui tanto neutik und Hritik (Landshut, 1808).
íS a p í+ u lo t e r c e i r o

Ou+ros pervsadores que contribuíram


pam a superação e a dissolução
do dl umirvismo,
e prelúdios do idealismo

I. -hl a m a n n :
a r e v o Ita r e l i g i o s a c o n t r a a m z ã o ilumimsta

• Johann Georg Hamann (1730-1788) foi talvez o mais áspero e genial crítico
do Iluminismo, e o mais ardoroso defensor da religiosidade cristã que o Iluminismo
havia minado nas raízes.
• À razão iluminista, abstrata e despudoradamente divini-Crítica
zada, Hamann contrapõe a vida, a experiência concreta, os fatos do Iluminismo
reais e a história; contra o dualismo kantiano de "sensibilidade" e e defesa
"razão", ele acrescenta a linguagem, que é a razão que se torna da dimensão
sensível, assim como o Logos divino é o tornar-se carne de Deus. religiosa
Nesse horizonte assume por isso papel importante o conceito de ^ § 7
Revelação e se torna central a fé, principalmente a cristã.

1 f O s Iim i+es d a r a z ã o intricadíssimo jogo de citações de frases e


palavras, muitas vezes extraídas da Bíblia,
d o s ilu m in is fa s
ou então dos clássicos, tem sabor quase ca-
balístico para o leitor moderno. Isso, porém,
deve-se sobretudo ao fato de que, por uma
Johann Georg Hamann nasceu em Kõ- série complexa de razões, Hamann escolheu
nigsberg (cidade que já fora berço de Kant) o caminho indireto da ironia socrática para
em 1730. N ão concluiu estudos universitá­ criticar o Iluminismo.
rios em virtude de seus múltiplos interesses Os Stürmer e os românticos se interes­
e de suas leituras caóticas. Transferiu-se saram por ele, mas provavelmente mais por
para Londres, ocupando-se de comércio e motivos paralelos do que por convergências.
de ciência das finanças, mas faliu novamente Moser o batizou de “ o mago do N orte” ;
devido a variadas e obscuras vicissitudes. Goethe o chamou de “ o fauno socrático” ;
M as em Londres, em 1757, seu destino Schlegel encontrou nos escritos elípticos
foi marcado pelo encontro com a Bíblia e do pensador uma lógica de “ abreviador
pela emergência de forte vocação religiosa. do universo” . N a história do pensamento
Voltando a Kõnigsberg, passou a sobreviver posterior, porém, nunca se impôs como um
como empregado alfandegário. Morreu em clássico. Entretanto, há algum tempo ocorre
1788. lento renascimento do interesse por ele.
Em sua maioria curtos, seus escritos Com sua clareza e universalidade, a
são elaborados em estilo muito original, “ razão” tão exaltada pelo Iluminismo cons­
produzindo complexo jogo de citações e, titui, na realidade, um ídolo. E os atributos
sobretudo, de alusões sempre extremamente divinos com os quais é incensada são fruto
determinadas, mas muito difíceis de decifrar, de despudorada superstição. Hamann con­
até para seus leitores contemporâneos. O trapõe à razão abstrata a vida, a experiência
Primeira parte - O m o v im e n to r o m â n t ic o e a f o r m a ç a o d o id e a lis m o

concreta, os fatos reais e a história. E tam­ a ignorância daquelas regras de arte que
bém faz valer energicamente contra a abs­ Aristóteles descobriu refletindo sobre ele,
tração do conceito a concretude da imagem: e a ignorância ou a violação daquelas leis
“ Todo o tesouro do conhecimento humano críticas em Shakespeare? O gênio. Essa é a
e da felicidade é feito de imagens” . Contra resposta unânime. Sócrates, portanto, podia
o dualismo kantiano de “ sensibilidade” e até ser ignorante, pois tinha um gênio em
“ razão” , ele apresenta a linguagem como cuja ciência podia confiar, que ele amava e
o desmentido mais belo dessa concepção: temia como o seu Deus, cuja paz lhe impor­
com efeito, a linguagem é a razão que se faz tava mais do que toda a razão dos egípcios
sensível, como o Logos ou “ Verbo” divino e dos gregos, em cuja voz ele acreditava e
é Deus que se faz carne. através de cujo sopro [...] o vazio intelecto
Conseqüentemente, em Hamann as­ de um Sócrates podia tornar-se tão fecundo
sume papel muito importante o conceito quanto o ventre de uma virgem intacta” .
de Revelação: “ O livro da criação contém E evidente que, nesse horizonte de
exemplos de conceitos universais que Deus pensamento, a fé torna-se elemento central,
quis revelar à criatura através da criatura. apresentando-se como o fulcro em torno do
“ Os livros da aliança contêm exemplos de qual tudo deve girar.
artigos secretos que Deus quis revelar ao Hamann foi talvez o mais áspero e ge­
homem por meio dos homens” . nial crítico do Iluminismo e o mais denoda-
Sócrates, pai do racionalism o para do defensor daquela religiosidade e daquele
os iluministas, torna-se para Hamann, ao cristianismo, que o Iluminismo minara pelas
contrário, uma espécie de gênio profético raízes. Sem dúvida, ele foi profeta e corifeu
inspirado por Deus. Eis algumas afirmações de uma nova época, ainda que o espírito da
importantes dos hamannianos Memoriais nova época se tenha desviado para direções
socráticos: “ O que substitui em Homero opostas às apontadas pelo “mago do Norte” .
Cãpltulo terceiro - " P e n s a d o r e s q u e c o n t r ib u í r a m p a r a a s u p e r a ç ã o d o CJIum m ism o

i i . 3 a c o bi e a reava liaçao d a fe

• As Cartas sobre a doutrina de Spinoza (1785) de Friedrich


Heinrich Jacobi (1743-1819) constituíram um evento cultural es­ Contra
o racionalismo
trondoso, de onde originam-se uma "Spinoza-Renaissance" que de Spinoza
produziu seus frutos mais vistosos em Schelling. As teses funda­
mentais de Jacobi são as seguintes:
a) toda forma de racionalismo, coerentemente desenvolvido, acaba por ser
uma forma de spinozismo;
b) o spinozismo é uma forma de ateísmo, porque identifica Deus e natureza,
e de fatalismo, porque não deixa espaço para a liberdade.
• A ciência puramente intelectualista de tipo spinozianoAo intelecto
rebate-se contrapondo ao intelecto o caminho da fé, que é deve-se
sentimento e intuição; para alcançar a Deus, com efeito, não há contrapor
o caminho
nenhum caminho puramente especulativo, porque a especulação da fé
vem sempre e apenas depois da intuição, enquanto a fé, princi­ -->§2-3
palmente a cristã, é captação imediata do absoluto.

c) o spinozismo é fatalismo, porque


não deixa espaço para a liberdade;
con tra S p in o z a
d) o próprio Lessing (o tão admirado
Lessing, animador do círculo iluminista de
Berlim) era spinoziano e, portanto, panteís­
Friedrich Heinrich Jacobi (1743-1819) ta, ou seja, ateu e fatalista.
inicialmente esteve próximo dos Stürmer O ra, isso constituiu um ataque em
com os romances Allwill (1775-1776) e Wol- grande estilo contra os iluministas. E Jacobi
demar (1777), mas depois encontrou sua recorreu também a intervenções abalizadas,
própria acomodação espiritual na fé em um para torná-lo mais maciço e eficaz.
Deus-pessoa transcendente, entendido em Entretanto, isso surtiu efeito contrário
sentido cristão. Suas obras mais conhecidas ao desejado. Hamann, naturalmente, ficou
são as Cartas sobre a doutrina de Spinoza do seu lado. M as Kant não quis interferir,
(1785), David Hume e a fé ou idealismo e argumentando que não havia aprofundado
realismo (1787), Cartas a Fichte (1801) e As Spinoza o quanto era necessário. Goethe
coisas divinas e sua revelação (1811). respondeu que, para ele, Spinoza era theis-
As Cartas sobre a doutrina de Spinoza simus et christianissimus. Herder escreveu
constituíram acontecim ento cultural de um livro intitulado Deus, pronunciando-se
grande repercussão. Os antecedentes são os em favor de um spinozismo oportunamente
seguintes: na década de 1770, Lessing publi­ redimensionado, mas não negado. E assim
cara uma obra de H. S. Reimarus, deísta e desencadeou-se um processo que levaria
anticristão, mas sem esclarecer que intenções a uma Spinoza-Renaissance, que acabou
tinha com tal publicação. Então, suscitando produzindo, com Schelling, seus frutos mais
grande estupefação, Jacobi revelou que, em vistosos.
1779, Lessing lhe confessara ser favorável
a Spinoza e, portanto, panteísta. As teses
básicas de Jacobi são muito simples:
2„ O a n t ii n t e l e c t u a li s m o
a) toda forma de racionalismo coeren­
temente desenvolvido acaba por ser uma
forma de spinozismo; Segundo Jacobi, a ciência puramente
b) o spinozismo é uma forma de ateís­ intelectualista de tipo spinoziano não pode
mo, enquanto identifica Deus e natureza ser refutada por via especulativa, e sim por
(Deus sive natura); outro caminho: contrapondo ao intelecto o
Primeira parte - O m o v im e n to r o m â n t ic o e a f o r m a ç ã o d o id e a lis m o

caminho da fé, que é sentimento e intuição.


N ão há nenhum caminho puramente espe­
culativo para alcançar Deus; a especulação
vem sempre e somente depois da intuição,
podendo confirmar, mas não demonstrar. A
fé é confiança sólida naquilo que não se vê,
é captação do absoluto meta-intelectual (e,
nesse sentido, pode ser considerada “ razão”
superior, ou seja, a razão que Kant dissera
ser mera exigência do absoluto e que, em
Jacobi, é captação imediata do absoluto).
Eis como Jacobi expressa sua concep­
ção antiintelectualista: “ Tenho apontado
repetidamente a necessidade de se sair da
carreata do intelecto para uma filosofia que
não quer perder Deus. Como, no homem,
a razão só se apresenta depois, parece-lhe
que ela simplesmente se desenvolve pouco a
pouco de uma natureza que, em si, seja cega
e privada de consciência, contrariamente a
uma providência e previdência sábia. En­
tretanto, a deificação da natureza é contra-
senso; quem procede a partir da natureza
e começa com ela não encontra nenhum
Deus, que é o primeiro ou não é nada. Ora, Fnedrich Hcinrich Jacobi (1743-1819)
se minha filosofia falou disso, mostrou o reivindicou a originariedade e a originalidade
melhor caminho e, por isso, no testemunho da fé em relação ã razão
de muitos homens, produz impressão durá­ como via imediata de acesso ao absoluto.
vel, e nisso consiste seu valor científico. Ela
não podia querer promover uma ciência do
entusiasmo lógico” . O intelecto é pagão, o Deus. Como estou convicto da objetividade
coração é cristão: pobre de quem aprisionar de meus sentimentos do verdadeiro, do belo
o segundo no primeiro! e do bom, bem como de uma liberdade que
domina a natureza, da mesma forma estou
convencido da existência de Deus. E quando
esses sentimentos enfraquecem, enfraquece
3 A r e a v a lia ç ã o d a fé a fé em Deus” .
Nos dois extremos que se expressam
nas exclamações de Cristo na cruz (“ Meu
Eis como ele caracteriza a fé: “ A fé Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” )
[...], por isso, é luz original da razão, que o e de Cristo no momento de expirar (“ Pai, em
verdadeiro racionalismo admite como sua. tuas mãos entrego o meu espírito!” ), Jacobi
Apague-se a fé original, e toda ciência se tor­ vê a expressão da luta e vitória supremas. E
na vazia e sem sentido; pode até sibilar, mas no final de As coisas divinas, assim escreve:
não falar e responder. A fé é a confiança sóli­ “Assim falou o mais poderoso entre os pu­
da naquilo que não se vê. N ós nunca vemos ros, o mais puro entre os poderosos. E essa
o absoluto, mas cremos nele. N ós vemos o luta e essa vitória têm o nome de cristianis­
não-absoluto, o condicionado — e a esse ver mo. Cristianismo que o autor do presente
chamamos saber. Nessa esfera, é a ciência escrito declara haver abraçado, encerrando
que domina. M as a confiança naquilo que sua obra com esta profissão de fé” .
não vemos é maior e mais poderosa do que a Com linguagem de sabor existencialista
confiança naquilo que vemos. Se isto contra­ ante litteram, Jacobi indicou o ato com o
diz aquilo, nós chamamos a certeza do saber qual nos libertamos do intelecto e alcança­
de ilusão; ou seja, a fé submete os sentidos e mos a fé com a expressão “ salto mortal” .
a razão, enquanto por esta se entende a fa­ Hegel o ironizará pesadamente, dizendo que
culdade da ciência. A verdadeira ciência é o esse salto é mortal para a filosofia, porque
espírito que dá testemunho de si mesmo e de passa por cima da demonstração e da me­
Cüpítíílo terceiro - P e n s a d o r e s q u e c o n t r ib u í r a m p a r a a s u p e r a ç ã o d o J lu m im s m o

diação, que, para ele, são a filosofia. M as ferozes adversários de Jacobi nas respectivas
considera a posição de Jacobi até paradig­ fases finais do seu pensamento, seriam obri­
mática, dedicando-lhe amplo exame. Para gados, contra a vontade e sem reconhecê-la,
Hegel, Jacobi representa a posição do acesso a concordar com muito daquilo que ele dis­
imediato ao absoluto, em relação à qual a se. Tudo isso é suficiente para demonstrar
posição hegeliana pretende ser a exata antí­ que Jacobi foi uma das figuras-chave entre
tese. O próprio Fichte, e também Schelling, os corifeus do pensamento da era romântica.

III. "Herder:
a c o n c e p ç ã o an+iiluminis+a d a l i n g u a g e m
e d a kisíóna

• De Johann Gottfried Herder (1744-1803) são originais e inovadoras as con­


cepções da linguagem e da história.
• Quanto ao primeiro tema, a língua não é algo meramentelinguagem
convencional, mas é expressão da natureza específica do homem; Aexprime
a linguagem brota da reflexão humana, que fixa o jogo móvel a natureza
das sensações e dos sentimentos em uma expressão lingüística: humana
todo progresso humano ocorre com e por meio da língua, tanto ~ ^ § 1
que, diz Herder, o homem é criatura da língua.
• A visão herderiana-da história é dominada pela idéia de que Deus (o Deus
do cristianismo, compreendido como a religião da humanidade) opera e se revela
tanto na natureza como na história: a história é, portanto, neces­
sariamente voltada à atuação dos fins da Providência divina, e o A história
progresso, do qual cada fase (compreendendo a Idade Média) tem atua os fins
um significado próprio peculiar, é, portanto, a obra de Deus que providenciais
conduz à plenitude da realização os povos, considerados como de Deus
unidades vivas, quase como organismos. ^ § 1

O k orn em Quatro temas tratados por ele mere­


cem menção particular em uma história
é ^ c r i a f u r a d a l í n g u a ”,
do pensamento: 1) a nova interpretação da
a k istó ria é o b r a d e D e u s linguagem; 2) a nova concepção da história;
3) a tentativa de mediar spinozismo e teísmo;
4) a idéia do cristianismo como religião da
Johann Gottfried Herder (1744-1803) humanidade.
foi discípulo de K ant e, num prim eiro 1) A opinião comum é a de que cabe a
momento, participou dos Stürmer. Goethe Humboldt o mérito de ter fundado a lingüís­
constituiu desde o princípio um ponto de tica moderna. M as alguns pensam que o
referência para ele. A partir de 1776 viveu mérito deveria ser atribuído a Herder (sobre­
estavelmente em Weimar, isto é, na mesma tudo pelo escrito Tratado sobre a origem da
cidade em que Goethe escolhera morar. Foi língua). O certo é que suas concepções a esse
pregador, poeta, tradutor, erudito e pen­ respeito são muito originais e inovadoras. A
sador. Sua obra é muito vasta, mas pouco língua não é algo meramente convencional,
orgânica; cheia de incertezas e contradições, puro meio de comunicação, mas expressão
mas também de fortes iluminações. da natureza específica do homem. O homem
Primeira parte - O m o v im e n to r o m â n t ic o e a f o r m a ç ã o d o i d e a lis m o

distingue-se do animal pela “ reflexão” . E a inteiramente nela. Todavia, seu livro sobre
reflexão cria a linguagem, fixando o jogo o assunto, Deus, já citado, está cheio de
móvel das sensações e dos sentimentos na apor ias e incertezas.
expressão lingüística. A poesia é algo de
profundamente natural, que se constitui 4) Por fim, destaca-se a idéia de cristia­
ainda antes da prosa que, ao contrário, nismo, entendido não tanto como uma das
pressupõe a mediação lógica. A língua fixa o religiões, mas como a religião da humani­
marejar dos sentimentos, oferece ao homem dade. Porém também nesse ponto Herder
os meios para expressá-los e faz com que se m ostra am bíguo, porque não parece
todo progresso humano ocorra com e pela disposto a conceder a divindade a Cristo,
língua, a ponto de Herder afirmar que nós no sentido da teologia cristã. Entretanto,
somos “ criaturas da língua” . não o transforma em idéia ou símbolo, mas
o considera como homem que viveu aquele
2) tipo de vida que leva de modo perfeito a
A visão herderiana da história tam­
bém é profundamente nova em relação à Deus. E nesta chave ele interpreta também
visão iluminista. a teologia paulina.
a) Como a natureza é organismo que Muitos dos conceitos que Herder ex­
se desenvolve e progride segundo esquema pressou em uma moldura teórica incerta,
finalístico, da mesma forma a história é de­ quando situados em novas perspectivas
senvolvimento da humanidade que também idealistas, conhecerão desenvolvimento
se desdobra conforme um esquema finalísti­ essencial; sucesso particular terá a filosofia
co. Deus opera e se revela tanto na primeira da história, que encontrará em Hegel sua
como na segunda. máxima expressão.
b) Portanto, a história está necessaria­
mente voltada para a concretização dos fins
da Providência de Deus; por conseguinte, o
progresso não é simples obra do homem,
mas obra de Deus que leva a humanidade à
plenitude da realização.
c) N o decurso histórico, toda fase (e
não somente a fase terminal) tem significado
próprio (Herder reavalia fortemente a Idade
Média na obra Ainda uma filosofia da histó­
ria, ao passo que na mais breve Idéias para
uma filosofia da história da humanidade
a valorização que faz se revela bem mais
contida).
d) Por fim, à concepção iluminista do
Estado, Herder contrapõe a idéia de “ povo”
considerado como unidade viva, quase como
organism o (idéia, aliás, que prosperaria
muito).

2) Essa concepção da história pressu­


põe um Deus criador, pessoal e transcenden­
te, ou um Deus imanente?
Nesse ponto, Herder se mantém osci­
lante e ambíguo e, como já dissemos, chega Johann Gottfried Herder {1744-1S03)
é lembrado principalmente
até a tomar posição em favor de Lessing e por suas idéias originais e inovadoras
de Spinoza. Ele tenta salvar Spinoza, conce­ no campo lingüístico,
bendo Deus como substância que, embora e por uma concepção da história profundamente
passando pela natureza, não está contida antitética em relação ã visão iluminista.
Capítulo terceiro - P e n s a d o r e s Cjue c o n t r ib u í r a m p a r a a s u p e ^ a ç a o d o CH um inism o

IV. -H wmbo ld+


o id e a l d e ku m arvid a d e

• Além de ser o fundador da lingüística moderna, Wilhelm von


Humboldt (1767-1835) é conhecido pela sua concepção do ideal de O ideal
humanidade, compreendido como a "idéia" à qual todo indivíduo de humanidade
tende, embora sem jamais conseguir realizá-la plenamente. Este se realiza
ideal é o espírito da humanidade, do qual se aproxima sobretudo a na história
arte, mas que por meio dos indivíduos (por meio da ação da Provi­ - ^§1
dência dentro deles) se realiza nas nações e, portanto, na história.

CD “espírito da Humanidade” Considerações sobre a história universal


1 1 (1814), Sobre a função dos historiadores
(1821), Ensaio sobre os limites da atividade
do Estado (póstumo) e, por fim, os estudos
Wilhelm von Humboldt (1767-1835),
de lingüística: Sobre o estudo comparativo
amigo de Schiller e de Goethe, foi diplomata
das línguas (1820), Sobre a diversidade de
e estadista, finíssimo esteta, literato e pensa­
construção da linguagem humana e sobre
dor. Viveu por longo tempo em Roma, cida­
sua influência no desenvolvimento espiritual
de que lhe propiciava os maiores prazeres do da humanidade (1836).
espírito. Dentre suas obras, podemos recor­
E conhecida principalmente sua con­
dar: Teoria da formação do homem (1793), cepção do ideal de humanidade, entendido
Sobre o espírito da humanidade (1797),
como a “ idéia” para a qual tende todo
indivíduo, embora sem nunca conseguir rea­
lizá-lo plenamente. Esse ideal para o qual
todo indivíduo tende é precisamente aquilo a
que Humboldt chama de “ espírito da huma­
nidade” . E dele aproxima sobretudo a arte,
como aconteceu no povo grego ou como
ocorre nos “ gênios” , dos quais, para ele,
Goethe é a encarnação viva (dedicou amplo
estudo ao Hermann und Dorothee de Goe­
the, exaltando o elemento clássico). M as a
idéia de humanidade, através dos indivíduos,
realiza-se nas nações e, portanto, na história.
E assim que Humboldt define o obje­
tivo da história: “ O fim da história só pode
ser a realização da idéia que representa a hu­
manidade, em todas as direções e em todas
as formas” . Também Humboldt admite uma
Providência na história, que não age a partir
de fora, mas de dentro dos homens, ou seja,
mediante seu espírito. E o Estado deve limi­
tar-se a tutelar a segurança interna e externa,
sem interferir nos objetivos dos indivíduos,
o que lhes limitaria a liberdade.
Wilhelm ron I lumboldt (1767-1S3S),
M as Humboldt, como já observamos,
além de ser considerado
o fundador da lingüística moderna,
é considerado e apreciado principalmente
expressou no “ideal de humanidade" como fundador da lingüística moderna. Por
seu conceito romântico do espírito humano esse seu perfil, voltaremos a tratar dele mais
que se realiza na arte e na história. adiante, de forma mais ampla.
P v it t ic iv ã pU YtC - O m o v im e n to r o m â n t ic o e a f o r m a ç ã o d o i d e a lis m o

V. O s d e b a te s so b re as a p o ria s
d o k a n tism o
e o s p r e lú d io s d o id e a lis m o

• No clima mais amplo de renovação cultural, surge um


debate prolongado sobre os problemas de fundo postos e não
Tentativas resolvidos pelo kantismo. Tais discussões, que versam principal­
de superação
mente sobre o problema da "coisa em si", são promovidas pelos
do kantismo
kantianos K. L. Reinhold (1758-1823), S. Maimon (1754-1800) e
§ 7 -4
J. S. Beck (1761-1840), e pelo cético G. E. Schulze (1761-1833), e
representam uma passagem do criticismo ao idealismo.

1 jAs críticas de T^einkold tellung), assim definida: “ A representação,


na consciência, é distinta do representante e
ao kantismo do representado, sendo referida a am bos” .
O representante é o sujeito e, portanto, a
forma; o representado é o objeto e, portanto,
Paralelamente a esses fermentos mul- a matéria; a representação é a unificação
tiformes, desenvolveram-se vivas discussões deles.
sobre os problemas de fundo levantados e Assim, a consciência emerge como o
deixados abertos pelo kantismo, realizados momento de compreensão, que deveria su­
em plano rigorosamente técnico, e cujos re­ perar o dualismo kantiano; a forma faz-se
sultados lançam como que uma ponte entre coincidir com a atividade e espontaneidade
o criticismo e o idealismo, constituindo uma da consciência, e a matéria faz-se coincidir
transição gradual entre um e outro. com a receptividade.
O primeiro que se moveu nessa di­ Reinhold ensinou em Jena até 1794,
reção foi Karl Leonhard Reinhold (1758­ ano em que se transferiu para Kiel; em Jena,
1823), sobretudo nos três livros Ensaio de teve como sucessor Fichte, que se impôs com
uma nova teoria da faculdade humana de sua Doutrina da ciência.
representação (1789), Contribuições para Trata-se de uma passagem que assume
a retificação dos subentendidos que ainda significado quase simbólico, porque, como
perduram na filosofia (1790) e Fundamentos veremos, Fichte prosseguiria nessa direção
do saber filosófico (1791), que contêm a até as últimas conseqüências. O próprio
chamada “ filosofia elementar” (que significa Reinhold se tornaria fichteano e, mais tarde,
“ filosofia primeira” ). jacobiano.
Ele encontrou em Kant aquele que o
impediu de cair na “ superstição” e na “ in­
credulidade” (dilema ao qual a polêmica
sobre o spinozismo parecia levar). A Crítica
2 críticas de Sckwlze
da razão pura apresentava a estrutura autên­ ao kantismo
tica do saber e os limites da razão, ao passo
que a Crítica da razão prática mostrava o
primado da razão prática e a possibilidade Gottlob Ernst Schulze (1761-1833) se
de fundamentar a religião na moral. impôs à atenção de seus contemporâneos
M as a Crítica da razão pura é “ pro­ com um livro de 1792, intitulado Enesíde-
pedêutica” , e Reinhold tenta reconstruí-la mo, ou acerca dos fundamentos da filosofia
como “ sistema” . elementar defendida pelo senhor professor
Para construir um sistema é preciso Reinhold, com o acréscimo de uma defesa
um princípio, que, em sua opinião, é dado do ceticismo contra as pretensões da crítica
pela doutrina da “ representação” (Vors- da razão.
Capítulo terceiro - P e n s a d o r e s q u e c o n + ^ tb u í^ a m p a r a a s u p e r a ç ã o d o JJlum inism o

N o livro, publicado anonimamente, O que significa o seguinte.


Schulze vestia a roupagem do cético Enesí- N a consciência existe a form a, da
demo, sustentando que o ceticismo eneside- qual temos plena consciência, e a matéria,
miano e humeano não fora de modo algum da qual, ao contrário, não temos consciên­
superado pelo criticismo, do qual Reinhold cia; nós não podemos pensar nada fora da
era defensor, precisamente porque fazia am­ consciência e, portanto, devemos conceber
plo uso daquele “ princípio de causa” enten­ a matéria, leibnizianamente, como o grau
dido em sentido ontológico, que o próprio mínimo de consciência. A “ coisa em si” ,
criticismo (reduzindo-o a mera categoria do portanto, é o limite mais baixo dos graus
pensamento) pretendera eliminar. infinitos da consciência, assim como o exem­
Com efeito, as “ condições” do conhe­ plo V~2 ilustra de forma analógica.
cimento são “ causas reais” . “ Causas reais” Trata-se, indubitavelmente, de enge-
são as causas formais internas (enquanto nhosíssima interpretação da “ coisa em si”
determinam o fenômeno), e “causa real” é a como conceito-limite, que, no entanto, com­
“ coisa em si” , que produz a “ sensação” do promete o kantismo, imantizando a “ coisa
sujeito (ou seja, a matéria do conhecimento). em si” na consciência, precisamente como
Assim, das duas, uma: à) ou a coisa em si limite da consciência.
não é causa da sensação, b) ou então, se é
causa da sensação, não é “ incognoscível” .
Essas conclusões constituem um beco sem
saída, no qual o criticismo se atola.
críticas de BecU
De modo mais geral, Schulze objeta ao
criticismo o fato de ser vítima do mesmo sal­
to indevido do pensar ao ser, que ele censura A obra de Jack o b Sigism und Beck
como erro de fundo das provas tradicionais (1761-1840), autor de monumental Com­
da existência de Deus, particularmente a pêndio esclarecedor dos escritos críticos
ontológica. Com efeito, depois de ter esta­ do senhor professor Kant, a conselho do
belecido que, para ser pensado, algo deve próprio, em três volumes, publicados entre
ser pensado de certo modo, conclui que, 1793 e 1796, foi substancialmente uma obra
portanto, existe naquele modo, realizando de epígono.
dessa maneira a passagem do pensar ao ser Ele sustenta que, para se compreender
que, ao contrário, ainda fica por demonstrar. Kant, é preciso identificar o “ ponto de vista”
central do qual brotam todos os problemas
específicos conseqüentes.
Entretanto, começando como fiel ex­
y\s críticas de positor de Kant, Beck depois começa a
à “coisa em siwkantiana se afastar, eliminando a “ coisa em si” e
interpretando o objeto como produto da
representação.
O debate sobre a coisa em si foi apro­ O “ verdadeiro ponto de vista” para
fundado por Salomon Maimon (1754-1800) compreender Kant é a unidade sintética
no Ensaio acerca da filosofia transcendental da apercepção como atividade dinâmica. E
(1790) e em uma série de obras posteriores. dessa “ atividade” da unidade sintética da
A “ coisa em si” não pode ser consi­ apercepção que se pode derivar não somente
derada como estando fora da consciência, a “ form a” , mas também a “ m atéria” do
porque dessa forma seria não-coisa (Un- conhecimento.
ding), que Maimon identifica com número A obra de Beck foi concluída em 1796.
imaginário do tipo de que expressa M as, em 1794, já fora publicada a D ou­
grandeza não real. A “ coisa em si” deve ser trina da ciência, de Fichte, bem mais nova
pensada muito mais como, por exemplo, as e ousada, que fazia frutificar as tentativas
grandezas irracionais do tipo V T, que são mencionadas de repensar Kant e, ao mesmo
grandezas reais que expressam um valor tempo, as superava claramente com a cria­
limite, pelo qual nos aproximam os sempre ção do idealismo, do qual devemos tratar
mais do infinito. amplamente agora.
FUNDAÇÃO
E ABSOLUTIZAÇÃO
ESPECULATIVA
DO IDEALISMO

“Às perguntas que a filosofia não responde, deve-


se responder que elas não devem ser postas da­
quele modo”.
Georg Wilhelm Friedrich Hegel
Capítulo quarto

Fichte e o idealism o ético____________________

Capítulo quinto

Schelling e a gestação rom ântica do idealism o

Capítulo sexto

H egel e o idealism o absoluto _______________


( S a p ít u lo q u a r t o

R ck+ e
e o idealismo etico

I. j A v i d a e a s o b r a s

• Johann Gottlieb Fichte nasceu em Rammenau em 1762, Depois de ter fre­


qüentado o ginásio, em 1780 se inscreveu na faculdade de teologia em Jena, da
qual passou depois para Leipzig. De 1788 a 1790 foi preceptor em Zurique.
• Em 1792, depois da "iluminação" provocada pela leitura da Crítica da razão
prática, publicou o Ensaio de uma crítica de toda revelação, que marcou seu sucesso.
Em 1794, por indicação de Goethe, foi chamado à Universidade
de Jena, onde permaneceu até 1799 e compôs obras de grande Primeira fase
ressonância: Fundamentos da doutrina da ciência (1794), Discursos S1
sobre a missão do douto (1794), Fundamentos do direito natural
(1796), Sistema da doutrina moral (1798). Em 1799 explodiu a "polêmica sobre o
ateísmo", em que Fichte, envolvido, foi obrigado a pedir demissão.
• Transferiu-se para Berlim, onde conheceu Schlegel, Schleiermacher e Tieck, e
compôs o Estado comercial fechado (1800), A missão do homem (1800), a Introdu­
ção à vida beata (1806). Os Discursos à nação alemã de 1808, em
que afirmava o primado espiritual do povo alemão, o levaram ao Segunda fase
auge: em 1810 foi chamado à Universidade de Berlim, e também -» § 2
foi eleito reitor. Morreu de cólera em 1814.

1 y\ leitura iluminadora compreendendo então encontrar-se diante


de Kant de um talento excepcional e, por isso, deci­
diu ajudá-lo.
Depois de ter freqüentado o ginásio
em Pforta, em 1780, Fichte se matriculou
Joh an n G ottlieb Fichte nasceu em na faculdade de teologia em Jena, de onde
Rammenau, em 1762, de pais muito pobres, se transferiu para Leipzig. Foram anos du­
de origem camponesa. Em sua juventude ríssimos, porque as contribuições de von
conheceu a verdadeira e própria miséria, Miltitz eram escassas e, mais tarde, cessaram
tendo sido guardador de gansos para ajudar completamente. Fichte vivia de aulas parti­
a família. M as a miséria constituiu para ele culares, exercendo a humilhante função de
uma elevada escola moral. Nunca se enver­ preceptor.
gonhou de suas origens humildes, declaran­ De 1788 a 1790, foi preceptor em
do várias vezes ter orgulho delas. Zurique, onde conheceu Joana Rahn, que
Foi graças a um nobre e rico concida­ mais tarde se tornou sua esposa. O ano de
dão (o barão von Miltitz) que Fichte pôde 1790 foi decisivo para sua vida. Até aquele
iniciar seus estudos. O nobre ficou admirado momento, ele fora vagamente spinoziano
ao ver o rapaz repetir perfeitamente um e determinista. M as, além de Spinoza, tam­
sermão (ao qual ele não pudera assistir), bém nutrira interesse por Montesquieu e
Segunda parte - 1- u n d a ç â o e a b s o l u t i z a ç ã o e s p e c u l a t i v a d o id e a lis m o

pelas idéias da Revolução Francesa. Conhecia revelar a verdade e o nome do autor, Fichte
Kant apenas de nome. M as um estudante tornou-se repentinamente célebre. Já em
pediu-lhe aulas exatamente sobre Kant. E, 1794, por indicação de Goethe, foi chamado
assim, Fichte foi obrigado a ler as obras do à Universidade de Jena, onde permaneceu
filósofo de Kónigsberg, que constituíram até 1799.
para ele uma autêntica revelação. A Crítica Esse período constitui seus anos doura­
da razão prática descerrou-lhe os insuspei- dos, os anos de sucesso e de popularidade,
tados horizontes da liberdade, sugeriu-lhe com as obras que tiveram maior ressonância,
novo sentido da vida e o fez sair do pessimis­ entre as quais recordamos: os Fundamentos
mo fechado que o oprimia. Em Kant, Fichte da doutrina da ciência (1794), os Discursos
descobriu a chave de sua própria vocação e sobre a missão do erudito (1794), os Funda­
de seu próprio destino. Apesar da carência mentos do direito natural (1796) e o Sistema
de meios materiais e de ganhar a duras penas da doutrina moral (1798).
o que necessitava para sobreviver, escreveu Em 1799 explodiu acalorada polê­
que aquela descoberta o tornou interiormen­ mica sobre o ateísmo, na qual Fichte foi
te riquíssimo, a ponto de sentir-se até “ um envolvido, sobretudo por causa de artigo
dos homens mais felizes do mundo” . de seu discípulo Forberg. Fichte sustentava
Fichte compreendeu tão bem o pensa­ que Deus coincide com a ordem moral do
mento de Kant que no ano seguinte, depois mundo e que, portanto, não se pode duvidar
de uma estadia em Varsóvia (para onde se de Deus. Forberg, porém, ia além, susten­
dirigira na qualidade de preceptor), já estava tando que era possível não crer em Deus e,
em condições de escrever a obra intitulada não obstante, ser religioso, porque, para
Ensaio de crítica de toda revelação, na qual ser religioso, basta crer na virtude (e, por­
aplicava de m odo perfeito os princípios tanto, se podia ser religioso até sendo ateu
do criticismo, apresentando-a ao próprio ou agnóstico). A polêmica degenerou, em
Kant, em Kónigsberg. Esse escrito marcou virtude do comportamento imprudente de
o destino de Fichte. O editor Hartung o pu­ Fichte em relação à autoridade política e à
blicou em 1792, por intercessão de Kant, sua atitude orgulhosa, tanto que, no fim das
mas sem imprimir o nome do autor, de contas, o filósofo foi obrigado a apresentar
modo que foi confundido com trabalho do sua demissão.
próprio Kant. Quando Kant interveio para

2 C> período berlinense

Fichte então se transferiu para Ber­


lim, onde estreitou am izade (aliás, não
duradoura) com os românticos (Schlegel,
Schleiermacher, Tieck), e passou a viver
dando aulas particulares. Em 1805 foi cha­
mado à Universidade de Erlangen, que teve
de deixar depois da paz de Tilsit, porque a
cidade foi perdida pela Prússia. Sua ativida­
de cultural e política prática e o programa
por ele apresentado nos Discursos ã nação
alemã, de 1808, em que defendia a tese de
que a Alemanha se recuperaria da derrota

Johann Gottlieh Fichte ( Í7(i2-1H14)


repensou a filosofia transcendental,
transformando o F,u penso kantiano
de função unificadora para atividade criadora e,
desse modo, fundou o idealismo moderno.
' 49
Cãpltulo quarto - T -ich te e o id e a lis m o é t ic o

político-m ilitar m ediante renascim ento toda a sua vida. Os estudiosos chegaram a
moral e cultural, e afirmava inclusive o pri­ contar cerca de doze e até quinze escritos
mado espiritual do povo alemão, levaram que constituem reelaborações explícitas
novamente Fichte ao auge. Em 1810, com ou que podem ser considerados nessa ótica
a fundação da Universidade de Berlim, foi (muitos deles publicados somente depois
chamado pelo rei como professor efetivo, e da morte do filósofo). São importantes as
chegou a ser eleito reitor. Morreu em 1814 reelaborações de 1801, 1804, 1806, 1810,
de cólera, contagiado pela mulher, que con­ 1812 e 1813, nas quais, como veremos, Fi­
traíra a doença cuidando dos soldados nos chte vai decididamente além dos horizontes
hospitais militares. da redação primitiva.
As obras do período berlinense mar­ Todavia, o sucesso de Fichte permane­
cam, no pensamento de nosso filósofo, uma ceu ligado à Doutrina da ciência de 1794,
reviravolta notável do ponto de vista teórico. na qual os românticos encontraram resposta
Além do Estado comercial fechado (1800), fundamental às suas instâncias, como vere­
recordamos: A missão do homem (1800), a mos, e da qual F. Schlegel chegou até a dizer
Introdução à vida bem-aventurada (1806) que, juntamente com o Wilhelm Meister de
e os Traços fundamentais da época presente Goethe e a Revolução Francesa, represen­
(1806). M as devemos destacar sobretudo as tava uma das três diretrizes principais do
inumeráveis reelaborações da Doutrina da século. Vejamos, portanto, em que consiste
ciência. Fichte reescreveu essa obra durante essa grande “ diretriz do século” .

II. CD id e a lis m o d e T~ick+e

• A preocupação principal de Fichte foi em primeiro lugar contribuir para


a difusão do criticismo kantiano, e depois de descobrir o princípio de base, não
revelado por Kant, que unificava as três Críticas, a fim de construir o sistema do
saber, transformando a filosofia em uma rigorosa "doutrina da ciência" (Wissens-
chaftslehre).
Partindo das reflexões pós-kantianas de Reinhold, Schulze Fichte õe 0
e Maimon, o pensamento de Fichte chegou a transformar o Eu "fundamento"
penso kantiano em Eu puro, entendido como intuição pura que do criticismo
livremente se autopõe (se autocria) e, se autopondo, cria toda a kantiano
realidade. Esta é a grande novidade de Fichte, com a qual ele ia § 1-2
muito além do criticismo e fundava o idealismo.

jA superação M as vejamos alguns trechos de cartas


de Fichte. Logo depois de ter descoberto
do pensamento kantiano Kant, Fichte escreve: “ Vivo os dias mais
felizes que me lembro de ter vivido [...].
Como vimos, o encontro com o pen­ Mergulhei na filosofia, isto é, na filosofia
samento de Kant (não com o homem Kant, de Kant. Nela encontrei o remédio para a
que não apresentava fascínio exterior) revo­ verdadeira raiz de meus males e, ainda mais,
lucionou o pensamento e a vida de Fichte uma alegria interminável [...]. A reviravolta
a ponto de, no período imediatamente se­ que essa filosofia realizou em mim é enorme.
guinte, ele não ter outra preocupação senão Devo-lhe, de modo especial, o fato de que
a de contribuir para difundir o criticismo e, agora creio firmemente na liberdade do
posteriormente, a de investigar a fundo as homem, e vejo claramente que só pressupon­
três Críticas, com o objetivo de descobrir do-a é que são possíveis o dever, a virtude, a
o princípio de base que as unificava e que moral em geral” . E, por fim: “ Depois que li a
Kant não revelara. Crítica da razão prática, parece-me viver em
Segunda pãTte - T " u n d a ç ã o e a b s o l u + i z a ç a o e s p e c u l a + i v a d o id e a lis m o

mundo novo. Ela demole afirmações que eu chegar às últimas conclusões que lhe permi­
pensava irrefutáveis e demonstra teses que tissem unificar o sensível e o inteligível.
cria indemonstráveis, como o conceito de A grande novidade de Fichte, o golpe
liberdade absoluta, de dever etc.” de gênio que o levou à criação da nova filo­
M as Fichte também estava convencido sofia, consistiu na transformação do Eu pen­
de que o discurso de Kant não era conclusi­ so kantiano em Eu puro, entendido como
vo. Kant forneceu todos os dados para cons­ intuição pura, que se autopõe (se autocria)
truir o sistema, mas não o construiu. O que e, autopondo-se, cria toda a realidade, e na
Fichte pretendia era construir esse sistema, relativa identificação da essência desse Eu
transformando a filosofia em ciência rigo­ com a liberdade.
rosa, que brotasse de um princípio primeiro Fichte insistiu várias vezes em dizer
supremo: trata-se da chamada “ doutrina da que seu sistema nada mais era do que a fi­
ciência” (Wissenscbaftslehre). losofia kantiana, exposta com procedimento
diferente do de Kant. Entretanto, Kant não
se reconheceu na “ doutrina da ciência” de
21| l ^ o " í r t i pen so*
Fichte. E tinha razão: ao pôr o Eu como
princípio primeiro e dele deduzir a realida­
-' u
a o csu pu^o
n
de, Fichte criava o idealismo, cujos pontos
principais devemos examinar agora.

N e ssa tentativa de con struir um a


“ doutrina da ciência” , um “ sistema” que
unificasse as três Críticas de Kant, Fichte
utilizou m uito, de m odo expressamente
declarado, tudo o que escreveram Reinhold,
Schulze e M aimon, tanto o positivo como ■ Eu. O Eu de Fichte é o princípio
o negativo. originário e absoluto de toda a rea­
lidade, e se qualifica essencialmente
a) A R einhold Fichte reconhece o
como atividade que antes de tudo
mérito de ter chamado a atenção para a p õ e a si m esm a e, p ortan to , põe
necessidade de reconduzir a filosofia a todas as coisas; desse modo, o Eu é
um princípio único, que não se encontra condição incondicionada de si mesmo
tematizado em Kant e que cada qual deve e da realidade.
procurar por sua própria conta, tendo assim Na metafísica anterior a Fichte, a ativi­
“ preparado a fundação da filosofia como dade, o agir, era sempre considerado
ciência” . Entretanto, Reinhold não soube conseqüência do ser (operarisequ itu r
encontrar esse princípio, porque o princípio esse), o ser era condição do agir; o
idealismo de Fichte inverte, ao con­
da “ representação” por ele indicado vale trário, o antigo axioma e afirm a que
apenas para a filosofia teórica, mas não para esse seq u itu r operari: a ação precede
toda a filosofia. o ser, o ser é produto do agir.
b) A Schulze Fichte reconhece o mérito E, assim, o Eu pen so kantiano, que
de tê-lo feito refletir muito e, com suas crí­ era a estrutura transcendental funda­
ticas céticas, tê-lo feito compreender que a mental do sujeito, torna-se em Fichte
solução de Reinhold era insuficiente, sendo atividade, auto-intuição (a intuição
necessário, portanto, procurar o princípio intelectual que o próprio Kant con­
siderava impossível para o homem),
único em plano mais elevado. autoposição da qual são deduzidas
c) A Maimon, julgado como “ um dos todas as coisas. O Eu absoluto não é
maiores pensadores da época m oderna” , o eu do homem individual, ao qual
Fichte reconhece o mérito de ter mostrado a pertence um eu sempre e em todo
impossibilidade da “ coisa em si” , extraindo caso lim itado pelo não-eu.
disso algumas conseqüências frutíferas, mas
sobretudo aplainando-lhe o caminho para
Capitulo quarto - P ic k t e e o i d e a lis m o é t ic o

//
III. ^doutrina d a c iê n c ia

• Para Aristóteles, o princípio de todo saber científico era o princípio de não-


contradição; na filosofia moderna wolffiana e para o próprio Kant era o princípio
de identidade (A = A), considerado ainda mais originário; para Fichte, ao contrário,
o princípio se autopõe (Eu = Eu) e, desse modo, põe a identidade A = A.
O primeiro princípio do idealismo de Fichte, sua condição
incondicionada, é, portanto: o Eu põe absolutamente a si mesmo. A "Doutrina
O Eu, enquanto livre atividade originária e infinita, é autocriação da ciência "
absoluta por meio da própria imaginação produtiva. Este é o e os três
momento da liberdade e da tese. princípios
O autopor-se do Eu comporta necessariamente a posição do idealismo
inconsciente de alguma outra coisa diversa do Eu e, portanto, de Fichte
a posição de um não-eu. O segundo princípio é, portanto: o Eu § 1-3
opõe absolutamente a si mesmo, dentro de si, um não-eu. Este é
o momento da necessidade e da antítese.
A produção determinada do não-eu surge como limite, como de-terminação
do Eu, motivo pelo qual o não-eu de-terminado comporta necessariamente um eu
de-terminado, ele próprio oposto ao Eu absoluto. O terceiro princípio de Fichte é,
portanto: no Eu absoluto, o eu limitado e o não-eu limitado se opõem e se limitam
reciprocamente. E este é o momento da síntese.
• O terceiro princípio explica: tanto a atividade cognoscitiva,
Explicação
que se funda sobre o aspecto pelo qual o eu é determinado pelo idealista
não-eu, uma vez que o não-eu constitui a matéria do conhecer e da atividade
é, portanto, o limite necessário da consciência, como a atividade cognoscitiva
prática, que se funda ao contrário sobre o aspecto pelo qual o e da atividade
eu determina o não-eu, uma vez que o eu, para realizar-se como moral
liberdade, devem sempre superar os limites que o não-eu pouco ->§4-5
a pouco lhes opõe. Isso atesta a superioridade da razão prática
sobre a razão pura.

1( O p r im e ir o p r in c íp io ligação de A com A, põe, além da ligação


d o i d e a lis m o d e R c k t e : lógica, também o A. O princípio supremo,
portanto, não é o da identidade lógica A =
o p õ e a si m e s m o A, porque ele se revela posto e, portanto,
não originário. O princípio originário só
pode ser então o próprio Eu. E o Eu não é
N a filosofia aristotélica o princípio posto por algo diferente, mas se autopõe.
incondicionado da ciência era o princípio Eu = Eu, portanto, não significa identidade
de não-contradição. N a filosofia moderna abstrata e formal, e sim a identidade dinâ­
w olffiana e para o próprio Kant, era o mica de princípio autoposto. O princípio
princípio de identidade A = A, considerado primeiro, assim, é condição incondicionada.
ainda mais originário (no sentido de que Se é condição de si mesmo, então “ constrói-
aquele derivava deste). Para Fichte, por seu se a si mesmo” , “ é assim porque assim se
turno, este princípio deriva ainda de outro faz” , é “ posição de si mesmo” , em suma, é
princípio, de natureza inteiramente peculiar. autocriação.
Com efeito, o princípio A = A é puramente N a metafísica clássica, dizia-se que
formal, dizendo-nos apenas que, se existe operari sequitur esse, ou seja, a ação é conse­
A, então A = A. Necessariamente, pois, há qüente ao ser das coisas: para agir, uma coisa
apenas a ligação lógica “ se... então” . Essa deve primeiro ser, pois o ser é a condição do
ligação lógica não pode ser posta senão agir. Ora, a nova posição idealista subverte
pelo Eu que a pensa, o qual, pensando a precisamente o antigo axioma, afirmando
Segunda parte - F u n d a ç ã o e a b s o l u t i z a ç ã o e s p e c u l a t i v a d o id e a lis m o

que esse sequitur operari, o que significa se o primeiro momento é o da liberdade (a


que a ação precede o ser, ou seja, que o ser liberdade originária), o segundo momento,
deriva da ação e não vice-versa. Fichte diz que é o da oposição, é o momento da neces­
com todas as letras que o ser não é conceito sidade. Logo veremos que esse momento é
originário, mas “ derivado” , “ deduzido” , ou indispensável para explicar tanto a atividade
seja, produto do agir. teórica (a consciência e o conhecimento),
O Eu fichteano, portanto, é a intuição quanto a atividade prática (a vida moral e
intelectual que Kant considerava impossível a liberdade da consciência).
para o homem, porque coincidiria com a
intuição de um intelecto criador. A atividade
do Eu puro é exatamente auto-intuição, pre­ 3 CD terceiro p n n c ip io ',
cisamente no sentido de autoposicionamen- a oposição no ír^u
to. Fichte chega até a usar a expressão “ Eu
em si” para indicar precisamente o Eu como
do eu limitado
condição incondicionada, que não é um ao não-eu limitado
fato, e sim um ato, atividade originária.
Fica então evidente que esse Eu e essa
Inteligência não são o eu e a inteligência O terceiro princípio representa o mo­
do homem empírico individual, mas o Eu mento da “ síntese” . A oposição entre o Eu
absoluto, a Egoidade (Ichheit = Iidade). O e o não-eu ocorre no Eu, como já vimos.
eu empírico, como veremos, nasce somente Ora, essa oposição não é de tal monta que
em um terceiro momento. o Eu elimine o não-eu e vice-versa, e sim um
delimita o outro e vice-versa. Com efeito, é
evidente que a produção do não-eu não pode
surgir senão como limite ou como deter­
2 CD s & g u n d o princípio: minação do Eu. Assim, necessariamente, o
o <Su opõe a si um não-eu não-eu determinado comporta um Eu deter­
minado. Fichte usa o termo “ divisível” para
expressar esse conceito, de modo que a fór­
Ao primeiro princípio da “ posição” mula daí resultante torna-se clara: o Eu opõe
(tese) ou autoposição do Eu se contrapõe no Eu um não-eu divisível ao Eu divisível.
um segundo princípio de “ oposição” (an­ Fichte identifica esse terceiro momento
títese), que Fichte assim form ula: o Eu com a “ síntese a priori” kantiana. E, nos
opõe a si um não-eu. Podemos agora nos dois primeiros momentos, indica as con­
valer de um princípio da lógica formal para dições que a tornam possível. Além disso,
compreender o que Fichte diz. Tomemos a Fichte está convicto de estar em condições de
proposição “ não-A não é = A ” . Ela pressu­ “ deduzir” as categorias, que Kant pretendeu
põe a oposição de não-A e a posição de A. extrair de modo metódico seguindo um fio
M as ambas nada mais são do que atos do condutor, mas que, na realidade, extraiu
Eu e, além disso, pressupõem a identidade mecanicamente do quadro dos juízos. Dos
do Eu. Portanto, é o Eu que, assim como se três princípios examinados, por exemplo,
põe a si mesmo, opõe algo a si. podem-se “ deduzir” as três categorias da
M as a dedução deste segundo princípio qualidade:
mostra-se ainda mais clara e quase óbvia, 1) afirmação (primeiro princípio);
seguindo-se outra linha de pensamento. 2) negação (segundo princípio);
O Eu coloca-se a si mesmo não como algo 3) limitação (terceiro princípio).
estático, mas como algo dinâmico (como De modo análogo, Fichte procede para
ação): põe-se como poente, e o pôr-se como deduzir também as outras.
poente comporta necessariamente a posição A antítese entre Eu e não-eu e a limi­
de alguma outra coisa, ou seja, a posição tação recíproca explicam tanto a atividade
de outro algo e, portanto, a posição de um cognoscitiva como a atividade moral:
não-eu (o outro algo além do eu só pode 1) a atividade cognoscitiva funda-se no
ser o não-eu). aspecto pelo qual o Eu é determinado pelo
E evidente que esse não-eu não está não-eu;
fora do Eu, e sim no seu interior, já que nada 2) a atividade prática funda-se, por sua
é pensável fora do Eu. Portanto, o Eu ilimi­ vez, no aspecto pelo qual o Eu determina o
tado opõe a si um não-eu ilimitado. Assim, não-eu.
Cãpítulo C[UãVtO - F i r k l í ' e o id e a lis m o é+ico

Visto que tanto um quanto outro mo­ é evidente que a autoconsciência pura per­
mento se verificam no âmbito do Eu infinito, manece como limite do qual podemos nos
conseqüentemente se dá uma dinâmica que, aproximar, mas que nunca podemos atingir,
nos dois âmbitos, de modo diferente, se des­ exatamente por razões estruturais (derrubar
dobra em progressiva superação e domínio todo limite significaria derrubar a própria
do limite, como veremos. consciência).

ír ü x p lic a ç ã o i d e a l i s t a é ^ x p lic a ç ã o id e a lis ta


d a a tiv id a d e c o g n o sc itiv a d a a tiv id a d e m o ral

N a experiência e no conhecimento nós Se, na atividade teórico-cognoscitiva,


consideramos comumente que nos encon­ é o objeto que determina o sujeito, na ati­
tramos diante de objetos diferentes de nós e vidade prático-moral, ao contrário, como
que agem sobre nós. Como se explica o fato dissemos, é o sujeito que determina e mo­
de o sujeito considerar o objeto diferente difica o objeto.
de si, a ponto de sentir-se “ afetado” pela N o primeiro caso, o não-eu age sobre
ação dele? o Eu como objeto de conhecimento; no
Fichte procura resolver o problema re­ segundo caso, ao contrário, o não-eu age
tomando de Kant a figura teórica da “ ima­ sobre o Eu como uma espécie de “ impac­
ginação produtiva” e transformando-a de to ” ou “ esforço” (Anstoss), que suscita um
modo muito engenhoso. Em Kant a imagina­ “ contra-impacto” ou “ contra-esforço” . No
ção produtiva determinava a priori a forma agir prático, o objeto se apresenta ao homem
pura do tempo, fornecendo os “ esquemas” como obstáculo a superar. Assim, o não-eu
às categorias. Em Fichte a imaginação pro­ torna-se o instrumento através do qual o
dutiva torna-se criadora “inconsciente” dos Eu se realiza moralmente. Sendo assim, o
objetos. A imaginação produtiva, portanto, não-eu torna-se momento necessário para
é a atividade infinita do Eu que, delimitan­ a realização da liberdade do Eu.
do-se continuamente, produz aquilo que Ser livre significa tornar-se livre. E
constitui a matéria de nosso conhecimento. tornar-se livre significa afastar incessante­
Precisamente por se tratar de produção mente os limites opostos pelo não-eu ao Eu
inconsciente, o produto nos aparece como empírico.
“ diferente” de nós. N a explicação da atividade cognos-
M as a im aginação produtiva forne­ citiva, vimos que o Eu põe o não-eu. N o
ce, por assim dizer, um material bruto, do contexto da explicação da atividade prática,
qual, em etapas sucessivas, a consciência se
reapropria através da sensação, da intuição
sensível, do intelecto e do juízo.
Ora, se nós nos colocarmos no ponto
de vista da reflexão comum, pelas razões ■ N ão-e u. É a natureza em geral,
explicadas, formamos “ a sólida convicção com preendida como "reino dos lim i­
de que as coisas têm realidade fora de nós” tes". O não-eu é posto (produzido,
e que, portanto, elas existem sem nossa criado) inconscientem ente pelo Eu
intervenção. Todavia, quando, com a razão absoluto por m eio da im agin ação
l p ro d u t iv a , a q u a l, e n q u a n to em
filosófica, refletimos sobre as etapas do pro­ = K an t era apenas determ inadora a
cesso cognoscitivo e suas condições, então ; p rio ri da intuição pura do tem po, em
adquirimos consciência do fato de que tudo Fichte torna-se justam ente criadora
deriva do Eu e, em nossa autoconsciência, : "in co n scie n te" dos objetos. A im agi-
nos aproximamos sempre mais da “ auto­ ■ nação produtiva é assim a atividade
consciência pura” . E evidente que, em todo infinita do Eu que, delim itando-se
esse percurso, o não-eu se revelou como continuam ente, produz aquilo que
condição necessária para que nascesse a constitui a matéria do conhecim ento '
humano.
consciência, que é sempre consciência de al­ &

guma coisa diferente de si, e que, entretanto, |.

pressupõe sempre uma alter idade. E também


Segunda p ã Y t e - F u n d a ç ã o e a b s o l u t i z a ç ã o e s p e c u l a t i v a d o id e a lis m o

também estamos em condições de compreen­ um infinito tender à perfeição como su­


der, além do “ que” , também o “ por que” , peração progressiva da limitação. E nisso
ou seja, a razão pela qual o Eu põe o não-eu. revela-se a própria essência do princípio
O Eu põe o não-eu para poder se realizar absoluto.
como liberdade. Desse modo, Fichte considera ter de­
E ssa é um a liberdade d estin ada a monstrado definitivamente a superioridade
permanecer estruturalmente no plano da da razão prática sobre a razão pura, que
função ilimitada (o dever absoluto ou im­ Kant já intuíra. Deus não é substância ou
perativo categórico de que falava Kant). realidade em si mesma, e sim essa “ ordem
A infinitude do Eu é um infinito pôr um moral” do mundo; é o “ dever ser” e, portan­
não-eu para superá-lo ao infinito. Como é to, a idéia. A verdadeira religião consiste na
evidente, a eliminação completa do não-eu ação moral. O finito (o homem) é momento
só pode ser um conceito-limite; por isso, a necessário e estrutural de Deus (do absolu­
liberdade permanece estruturalmente como to como idéia-que-se-realiza-ao-infinito).
função infinita. A verdadeira perfeição é 11 i

iicbtc faz um discurso público


{gravura de um anônimo
do século XIX).
O sucesso e a popularidade
do fdósttfo.
iniciados com a publicação
em l ~ l>2 do Fnsaio de uma crítica
de toda revelação
e continuados com obras de época
como os Fundamentos
cia doutrina da ciência
(definidos por Schlegel como
"uma das três diretivas
principais do século").
conheceram,
depois do parêntese da chamada
"polêmica sobre o ateísm o"
de 1799, uma nova e ultima época
com os Discursos à nação alemã,
de ISOS.
Cãpltulo quarto - P i c k t e e o id e a lis m o é tic o

IV . T-Vob Ie m a s m o ra is

• Fichte resolve o problema da relação entre mundo fenomênico e mundo


numênico, sustentando que:
a) a lei moral é o nosso ser-no-mundo-inteligível;
b) a ação real constitui o nosso ser-no-mundo-sensível;
c) a liberdade, enquanto poder absoluto de determinar o sensível segundo o
inteligível, é a junção dos dois mundos: o verdadeiro principio de tudo é, portanto,
a liberdade do Eu.
O homem realiza sua tarefa moral de modo pleno quando entra em relação
com outros homens; a multiplicidade de homens implica o surgimento de muitos
ideais e, portanto, de um conflito entre ideais diferentes; nesse
conflito, uma vez que a ordem moral do mundo é o próprio O fundamento
Deus, não pode deixar de prevalecer aquele que é moralmente da lei moral
melhor. $1
• A vida associada implica o surgimento do "direito", porque em comunidade
o homem deve limitar a própria liberdade com o reconhecimento da liberdade
do outro; o direito fundamental do homem é, portanto, o direito à liberdade; o
segundo é o direito à propriedade. O Estado nasce de um contrato
social e, portanto, de um consenso das vontades dos indivíduos, A origem
e deve garantir o trabalho a todos, impedindo que haja pobres; do direito
para atingir este objetivo, o Estado pode, se necessário, fechar o e do Estado.
comércio exterior e tornar-se Estado comercial fechado. A missão
Tais posições socialistas, inspiradas pelos ideais da Revolução do §povo
2-3
alemão
Francesa, mudaram sob o evoluir dos acontecimentos históricos, —>

convencendo Fichte que apenas do povo alemão, militarmente


derrotado e politicamente oprimido e dividido, podia vir o impulso para o pro­
gresso da humanidade: apenas o povo alemão reunificado teria podido realizar
tal missão.

1 Fu n dação id e a lista e a liberdade é o elo entre os dois mundos,


i / ■ enquanto é poder absoluto de determinar o
d a e tica
mundo sensível segundo o inteligível.
O não-eu age sobre o Eu somente como
Os conceitos expressos por último “ resistência” , que não apenas estimula o Eu
encontram aplicação nas obras de Fichte a agir, mas pressupõe o seu ser posto por
expressamente dedicadas a temáticas éticas, parte do Eu.
jurídicas e políticas. O Eu é o verdadeiro princípio de tudo.
Dentre as muitas coisas interessantes Os problemas dos quais Fichte partira
ditas por Fichte a esse respeito, devemos nos são, assim, plenamente resolvidos, e o prin­
limitar aqui a destacar as mais essenciais. cípio ao qual visava para poder reduzir o
Em primeiro lugar, devemos notar que kantismo a uma unidade é alcançado.
Fichte resolve brilhantemente (pelo menos É claro que nesse contexto, em que
do seu ponto de vista) o grande problema tudo fica entregue à atividade moral, o pior
que tanto atormentara Kant sobre a relação dos males (o vício supremo) é a inatividade
entre o mundo sensível ou fenomênico e o ou a inércia, da qual derivam os outros
mundo numênico com o qual se relaciona vícios piores, como a vilania e a falsidade.
nosso agir moral. Fichte sustenta que a lei A inatividade (a acídia), com efeito, faz o
moral constitui nosso ser-no-mundo-inteligí- homem permanecer no nível de coisa, de
vel (o elo estrutural com o inteligível), a ação natureza, de não-eu e, portanto, em certo
real constitui nosso ser-no-mundo-sensível, sentido, é a negação da essência e do destino
Segunda parte - F u n d a ç ã o e a b s o l u t i z a ç a o e s p e c u l a t i v a d o id e a lis m o

do próprio homem. O homem realiza sua Nascido de um contrato social e, portanto,


função moral de modo pleno entrando em do consenso das vontades dos indivíduos,
relação com os outros homens. Exatamente o Estado deve garantir a quem é incapaz
para tornar-se plenamente homem, cada a possibilidade de sobrevivência, a quem é
homem tem necessidade dos outros homens. capaz a possibilidade de trabalhar e, por fim,
A necessidade de existirem muitos homens também deve impedir que alguém viva sem
(a “ d ed u ção ” da m ultiplicidade de eus trabalhar. Como concebido pelo filósofo,
empíricos) é, portanto, fundamentada por portanto, o Estado garante trabalho para to­
Fichte na consideração de que o homem tem dos e impede que existam pobres e parasitas.
o dever de ser plenamente homem, o que se N a obra O Estado comercial fechado, Fichte
realiza apenas se existem mais homens. sustenta que o Estado, a fim de alcançar os
A multiplicidade de homens implica objetivos apontados, pode, se necessário,
o surgimento de multiplicidade de ideais e, fechar o comércio com o exterior ou regulá-
portanto, conflito entre os defensores dos di­ lo a fim de assumir seu monopólio.
versos ideais. Nesse conflito, segundo Fichte,
é sempre o melhor que vence, até quando
é aparentemente derrotado. Esse conceito,
muito belo, é condicionado, porém, pela
3 O p a p e l k istó rico

visão de conjunto da qual brota, a qual im­ d a nação a le m ã


plica que, sendo a ordem moral do mundo
o próprio Deus, aquele que é moralmente
melhor não pode deixar de prevalecer. A essas posições socialistas está ligado
O “ douto” tem missão particular entre o ideal cosmopolita que Fichte defendeu por
os homens. Ele deve se empenhar não so­ certo período, inspirando-se nos ideais des­
mente em fazer progredir o saber, mas em pertados pela Revolução Francesa. M as os
ser moralmente melhor e, nesse sentido, com acontecimentos históricos aos quais assistiu
sua atividade e seu exemplo, deve promover na última fase da vida o convenceram de que
o progresso da humanidade. o impulso para o progresso da humanidade
não viria do povo francês, sob a guia de Na-
poleão, que agia como déspota e pisoteava
a liberdade, e sim do povo alemão, militar-
2 S ig n ific a d o
mente derrotado e politicamente oprimido
e fu n ç ã o d o d ire ito e dividido. O povo alemão reunificado — e
e do E stad o só o povo alemão — teria podido cumprir
essa missão. Os Discursos à nação alemã
terminam assim: “ Conhecemos nós algum
A multiplicidade de homens implica povo que se assemelhe a este nosso, que foi
também o surgimento do “ direito” e do o progenitor da civilização moderna e que
“ Estado” . Visto que o homem não está só, nos suscite a mesma confiança? Creio que
mas é parte de uma “comunidade” , é ser todo aquele que não se entregue às fantasias,
livre ao lado de outros seres também livres, mas pense, refletindo e discernindo, deve
e deve, portanto, limitar sua liberdade pelo responder com um ‘não’ a tal pergunta. Por­
reconhecimento da liberdade alheia. Mais tanto, não há outro caminho: se perecerdes,
precisamente, todo homem deve limitar sua toda a humanidade perecerá, e nunca mais
própria liberdade, de modo que todos e cada ressurgirá” .
um possam igualmente exercer a sua. Assim, Nem é preciso recordar as funestas ins­
nasce o “ direito” . trumentalizações políticas às quais essas
O direito fundamental é aquele que palavras deram origem. Em seu contexto
cada homem tem à liberdade (àquela li­ original, porém, elas tinham significado
berdade que é concretamente co-possível diverso, isto é, aquele significado que toda
no contexto de sociedade feita de homens nação que ressurge é levada a atribuir a si
livres). mesma. Foi nesse sentido, por exemplo, que
O segundo direito muito importante é ressoou o significado do Primado moral
o da propriedade. M as, a propósito desse e civil dos italianos, de Vicente Gioberti.
direito, Fichte manifesta idéias modernas Todavia, permanece o fato de que o escrito
e interessantes. Cada qual tem direito a de Fichte ofereceu amplos elementos à ideo­
poder viver mediante seu próprio trabalho. logia do pangermanismo.
Cãpltulo (JU ãV tO ~ F i c h t e e o id e a lis m o é tic o

v . * s e g u n d a fa s e
d o p e n s a m e n t o d e Tnckte ( Í 8 0 0 - Í 8 Í 4)

•A filosofia de Fichte, após a "polêmica sobre o ateísmo", 0 jdeaijSmo é


revela evidentes mudanças, de notável relevo e porte, que se aprofundado
desenvolvem segundo um aprofundamento progressivo do idea- em sentido
lismo em sentido metafísico e acentuadamente místico-religioso. metafísico
Na exposição da Doutrina da ciência de 1801, na base de tudo -»§ 1-2
existe o absoluto, que se manifesta formalmente em si como ra­
zão, como identidade que infinitamente se diferencia de saber e de ser; o absoluto
é assim cindido do saber absoluto, o qual, para ser superado, deve ser posto na
"evidência" da luz da unidade divina.
• Quanto à instância religiosa, já notável na Missão do
homem, encontra sua expressão mais típica na Introdução à a instância
vida beata, onde se afirma que na vida e nas ações do homem religiosa
devoto a Deus não é o homem que age, mas o próprio Deus; 3
a própria ciência torna-se uma espécie de união mística com o
absoluto.

1 pi l ^ e l a ç õ e s e d i f e r e n ç a s As novidades se desenvolvem segun­


do duas direções fundamentais, precisa­
e n tre a s d u a s fa s e s
mente:
d a f ilo s o fia d e F i c k t e 1) segundo aprofundamento progres­
sivo do idealismo em sentido metafísico;
2) em sentido acentuadamente místico-
A produção filosófica de Fichte pos­ religioso.
terior à “ polêmica sobre o ateísm o” , ou
seja, posterior ao m om ento em que se
estabeleceu em Berlim (1800), apresenta . 2. ^ A p r o fu n d a m e n to s
evidentes m udanças de pensam ento, de d o id e a lis m o
notável importância e alcance, a ponto de e m s e n tid o m e t a fís ic o
alguns estudiosos falarem de duas filosofias
de Fichte.
O filósofo, entretanto, defendeu a uni­ Em 1798, no Sistema da moral, Fichte
dade de seu pensamento. já escrevia: “ O saber e o ser não se cindem
A verdade talvez esteja no seguinte: fora da consciência e independentemente
Fichte sempre sustentou (e, provavelmente, dela, mas cindem-se somente na consciência,
com perfeita boa-fé) ter exposto em seus porque essa cisão é a condição da possibi­
livros as mesmas coisas que Kant dissera, lidade de todo conhecimento, e somente
só que expressando-as de modo diferente; mediante essa cisão é que surgem um e
entretanto, aconteceu que, expressas de outro. N ão há nenhum ser senão através
modo diferente, as coisas ditas por Kant da consciência, e fora dela não há também
tornaram-se diferentes; o mesmo pode-se nenhum saber que seja termo meramente
dizer da segunda filosofia de Fichte em re­ subjetivo e em movimento em direção ao
lação à primeira. Procurando dizer de modo seu ser. Pelo simples fato de poder dizer-me
novo as coisas ditas entre 1793 e 1799, os ‘eu’, sou obrigado a cindir: por outro lado,
escritos que vão de 1800 em diante acabam só porque digo ‘eu’, enquanto o digo, ocorre
por dizer coisas novas. a cisão. Portanto, estando a unidade assim
S e g u n d ã p ã T te - F u n d a ç ã o e a b s o l u t i z a ç a o e s p e c u l a t i v a d o id e a lis m o

cindida na base de todo conhecimento, e espelha na consciência, sobretudo no dever


em conseqüência do qual o subjetivo e o ser e na vontade moral.
objetivo são inseridos imediatamente na
consciência como unidade, é absolutamente
= X , não podendo, em sua simplicidade,
chegar de modo algum à consciência” .
3 ;A c o m p o n e n te

O segundo Fichte, ao contrário, reve­ m ís + ic o - r e lig io s a


la-se voltado para, à medida do possível, no s e g u n d o R ck +e
cap tar essa incógnita X e garantir-lhe
estatura ontológica tal que ela acaba por
tornar-se Deus acima do Eu, um absoluto Uma linha de pensamento análoga ma­
que é bem mais do que a ordem moral do nifesta-se nas exposições exotéricas, ou
mundo. seja, populares, que saíram paralelamente
A exposição da Doutrina da ciência de nesse período.
1801 já mostra claramente essa tendência. N a M issão do homem, Fichte dá à fé
Em uma carta, Fichte assim a resume: “ [...] extraordinário relevo, tanto que, em algu­
Minha nova Exposição [...] mostrará que é mas páginas, parece-nos quase estar lendo
preciso inserir na base o absoluto (ao qual, Jacobi.
precisamente por se tratar do absoluto, não N o que se refere aos fundamentos,
se pode acrescentar nenhum atributo, nem Fichte já fala, ao invés de Eu, de Vida, Von­
o do saber nem o do ser, e tampouco o da tade eterna e Razão eterna: “ Toda a nossa
indiferença do saber e do ser), e que esse vida é a sua vida. N ós estamos em sua mão
absoluto se manifesta em si como razão, se e aí permanecemos — e ninguém poderá daí
quantifica, se divide em saber e ser; somente nos arrancar. Nós somos eternos porque ela
sob essa forma é que chega a uma identida­ é eterna” .
de do saber e do ser, que se diversifica ao Ainda nessa obra, Fichte chega a afir­
infinito” . mar que “ somente o olhar religioso penetra
Retorna assim a sombra de Spinoza, no sinal da verdadeira beleza” .
da qual Fichte procura fugir desta maneira: A instância religiosa da última fase do
“ E só assim que se pode manter o ‘Uno e pensamento de Fichte encontra sua mais
o Todo’, mas não como em Spinoza, onde típica expressão na Introdução ã vida bem-
ele perde o ‘Uno’ quando vem ao ‘Todo’ e o aventurada, de 1806, na qual o idealismo se
‘Todo’ quando tem o ‘Uno’. Somente a razão colore com as tintas próprias do panteísmo
possui o infinito, porque nunca pode aferrar metafísico: “ N ão há absolutamente nenhum
o absoluto. E somente o absoluto, que nunca ser e nenhuma vida fora da vida divina ime­
entra na razão senão formaliter, é a unidade, diata. Esse ser é encerrado e obscurecido de
unidade que permanece somente qualifica­ vários modos na consciência, com base em
tiva e nunca quantitativa” . Desse modo, o leis próprias, indestrutíveis e fundadas na
absoluto é cindido do saber absoluto (da essência da própria consciência; mas, liberto
doutrina da ciência): “ O saber absoluto desses invólucros e modificado somente pela
[...] não é o absoluto [...]. O absoluto não forma do infinito, reaparece na vida e nas
é o saber nem o ser, nem a identidade nem a ações do homem dedicado a Deus. Nessas
indiferença de ambos, mas é absolutamente ações, não é o homem que age, e sim o pró­
o absoluto, pura e simplesmente” . prio Deus, no seu ser íntimo e originário e
N a redação da Doutrina da ciência, em sua essência, que age no homem e realiza
de 1804, o filósofo recorre até, além do sua obra por meio dele” .
conceito de unidade, também ao conceito Esta, segundo Fichte, seria a doutrina
neoplatônico de “ luz” , que, irradiando-se, do Evangelho de João, que corrigiria aque­
cinde-se em ser e pensamento. Aqui, Fichte le “ erro essencial e fundamental de toda
não apenas distingue o absoluto do saber falsa metafísica e doutrina da religião” ,
conceituai, mas sustenta que este insere-se que é a teoria da criação a partir do nada,
para ser superado na “ evidência” própria “ princípio originário do hebraísmo e do
da luz da unidade divina. N as últimas ex­ paganism o” . E mais: “ A suposição de uma
posições, Deus é concebido como ser uno criação, especialmente em relação a uma
e imutável, ao passo que o saber torna-se doutrina religiosa, é o primeiro passo em
a imagem ou esquema de Deus, “ o ser de direção ao erro: a negação de tal criação, se
Deus fora do próprio ser” , o divino que se suposta por doutrina religiosa anterior, é o
Capitulo quarto - F ic k + e t1 o id e a lis m o é t ic o

primeiro critério da verdade de tal doutrina E assim, Fichte reinterpreta segundo


religiosa. O cristianism o, especialmente seus próprios esquemas os conceitos do
Jo ão , o profundo conhecedor das coisas Verbo divino e do amor. A própria ciência
de que falamos, encontrou-se neste último torna-se uma espécie de união mística com
caso ” . o absoluto.

V I . (Sorvclusões:
F ick + e e o s ro m â n tic o s

• A última especulação de Fichte teve pouco eco. Na Doutrina da ciência, de


1794, os românticos, ao invés, haviam lido muitas de suas aspirações, como o con­
ceito de infinito e do incessante tender para o infinito, a redução
do não-eu a uma projeção do Eu, a proclamação da liberdade A marca ética
como significado último das coisas. é a constante
A constante do pensamento de Fichte foi em todo caso a do pensamento
marca ética. O idealismo de Fichte é idealismo "ético" principal- de Fichte
mente porque a lei moral e a liberdade são a chave que explica ^ 5
a escolha que todo homem particular faz das coisas e da própria
filosofia: escolhe o idealismo quem é livre, escolhe o dogmatismo objetivista (a
filosofia que dá proeminência às coisas em relação ao sujeito) quem não é espiri­
tualmente livre.

autoprodução e auto-superação provém da


dialética de Fichte, pelo menos no que se
refere à formulação e à definição teórica.
Se, para compreender o homem Fi­
As últimas especulações de Fichte ti­ chte, é preciso seguir toda a sua parábola
veram pouco eco. O sucesso da Doutrina evolutiva, para compreender o desenvol­
da ciência de 1794 não podia se renovar, vimento das idéias desse período é preciso
porque naquela obra os românticos viram concentrar-se sobretudo na D outrina da
também muitas de suas aspirações, que ali ciência de 1794 e nas idéias que estão em
eram mais sugeridas do que expressamente sua base. Ademais, a marca ética expressa
form uladas e proclam adas. Além do que nessa obra e nas obras estreitamente ligadas
era dito, leram também, nas entrelinhas, o a ela permaneceu a constante do pensamento
que não era dito, de modo que a obra foi de Fichte, o mínimo denominador comum
carregada de significados diversos. de toda a sua obra. O idealismo de Fichte é
Eis o que os românticos leram nela: o idealismo “ ético” ou “ m oral” , não apenas
conceito de infinito e do incessante tender ao porque a lei moral e a liberdade são a chave
infinito; a redução do não-eu a uma projeção do sistema, mas também porque são a chave
(ou criação) do Eu e, portanto, o predomínio que explica a escolha que cada homem em
do sujeito; a proclamação da liberdade como particular faz das coisas e da própria filoso­
significado último do homem e das coisas; fia: escolhe o idealismo quem é livre, escolhe
a concepção do divino como algo que se o dogmatismo objetivista (a filosofia que dá
concretiza no agir humano. O próprio con­ proeminência às coisas em relação ao sujei­
ceito romântico de “ ironia” como contínua to) quem não é espiritualmente livre.
Segunda parte - P w n d a ç ã o e a b s o l w + i z a ç ã o e s p e c u l a t i v a d o id e a lis m o

FICHTE
O EU PURO E OS TRÊS PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS
DA DOUTRINA DA CIÊNCIA

O fundamento do sistema do saber,


em grau de
transformar a filosofia em “ doutrina da ciência” , é
o Eu puro,
atividade auto-intuitiva pura
que, por meio da imaginação produtiva,
livremente se autopõe
e, autopondo-se, cria toda a realidade

...: :. ______. ... .. ..........JL._.... ............ .... ..... .... .......... . =

os três princípios fundamentais da doutrina da ciência são

1. O Fu põe absolutam ente a si m esm o (TFSF.i

1. ( ) liu oftóe absolutam ente a si. denlro de si. um não-eu i.AN I I IF.SF.l

Nn l:n absoluto, o eu lim ilaJo e o não-eu lintilado lim ilam -se reciprocamente |SIN"I I S F.)

A tividade e o g n o sd riv a : Atividade prática:


() eu e de-lerm m ado pelo não-eu ( ) eu de-termina <> não-eu

p or meio da
liberdade
que v p oder a b so lu to
de determinar

a ação real,------------------- segundo ------- a lei moral,


que constitui nosso que constitui nosso
scr-no-mundo-scnsívcl scr-no-miindo-inteligívcl
, 61
Capítulo quarto - Fickte e o i d e a lis m o é t ic o _

J. G. F it c h e

D Primeira introdução à doutrino do ciência (1797)


Um manifesto do idealismo: o que é o idealismo e por que um homem o escolhe

Poro responder às críticos suscitados pela sua Doutrina do ciência de 1794, Fichte empreen­
de a publicação em partes na revista "Jornal filosófico", o partir de 1797, do pensamento ex­
presso naquela obra, expondo-o em uma forma novo e respondendo a problemas que havia
levantado.
Na primeira porte da obra, projetada por Fichte com o título £nsaio de uma nova exposição
da doutrina da ciência, estava contida a Introdução que apresentamos aqui integralmente, e
que o filho de Fichte, ao publicar os escritos do pai, intitulou de Primeira introdução à doutrina
da ciência, título que permaneceu canônico.
Esta Introdução constitui o "manifesto" do idealismo e é apresentado com argúcia e notável
darezo.
O objetivo que Fichte se propõe é o de apresentar a idéia de fundo do idealismo, o que
deveria se impor como o único sistema filosófico coerente. O idealismo, segundo Fichte, não seria
refutável; quem procura refutá-lo, demonstra não entendê-lo. O motivo de fundo que impele a
escolher o idealismo não é de caráter intelectual, mas moral: com efeito, escolhe o idealismo
quem ama a liberdade, porque é apenas o idealismo que verdadeiramente a justifica.
Para alcançar este objetivo, Fichte procede como segue.
Temos representações de dois tipos: algumas são livres, outras se apresentam sempre
acompanhadas de um sentimento de necessidade.
O conjunto dos representações acompanhados pelo sentimento da necessidade é o que
chamamos de experiência, fí tarefa da filosofia é justamente a de fornecer explicação da ex­
periência e, portanto, do sistema das representações acompanhadas da necessidade.
Ora, aquilo que dá razão da experiência está fora da experiência, pelo motivo de que o
fundamento, enquanto tol, está fora daquilo que é fundamentado.
Os sistemas filosóficos que procuraram prestar contas da experiência são apenas dois: o
idealismo e o dogmatismo. O primeiro, para explicar a experiência, prescinde da coisa em si 0
se dirige à inteligência; o segundo, ao contrário, se dirige sobre a coisa em si.
/Vias aquilo sobre o que se fundamenta o dogmatismo, a coisa em si, não tem realidade
e pode ser considerada mera "invenção", ao passo que o objeto do idealismo faz referência
a dados precisos e incontroversos de consciência.
Dogmatismo e idealismo não têm entre si pontos em comum, e, portanto, não podem ser
refutados com armas lógicas. Seus princípios não são ulteriormente dedutíveis, e por isso suas
aceitações não podem ser discutidas logicamente. O idealista não pode refutar o dogmático,
porque este porte do coiso em si e dela foz derivor tudo, inclusive o consciência e a liberdade.
O dogmático não pode refutar o idealista, porque este não admite a existência da coiso em
si, sobre a qual o dogmático fundamento todos os seus raciocínios.
Coloca-se, então, o problema de fundo: do que depende a escolho que alguém faz?
Fundamentalmente, o interesse supremo que o homem tem é oquele que se refere a si
mesmo. /1/las há dois modos opostos de interessar-se por si mesmo, dois tipos diversos de
homens que atuam estes dois interesses. De um lado, há aqueles que, não estando ainda
elevados ao sentimento da liberdade e da autonomia em sentido adequado, têm apenas uma
consciência dispersa e apegada às coisas e, portanto, se dirigem às coisas e têm fé nelas por
amor a si. Do outro lado, ao contrário, há aqueles que se dirigem não às coisas, mas o si, ou
seja, à própria liberdade e autonomia.
Fls conclusões de Fichte, portanto, são as seguintes: o tipo de filosofia que alguém
escolhe, depende do tipo de homem que ele é; se tem fé nas coisos mais do que no liber­
dade, será um dogmático; se tem, ao contrário, uma autêntica fé em si e na liberdade, será
um idealista.
*■
Segunda parte - F u n d a ç ã o e a b s o l u t i z a ç ã o e s p e c u l a t i v a d o i d e a lis m o

----- ► ---- ——..... ............................................................................. ...............................................


Todavia, o idealismo tem uma superioridade sobre o dogmatismo não só de caráter moral,
mas também de caráter teórico.
O dogmático, partindo do coisa em si, não consegue explicar adequadamente a experiência.
Com efeito, movendo-se na ordem dos coisas em si, apenas com um grande salto, totalmente
indevido, pode-se passar da coisa em si para a consciência e a inteligência, porque esta não
é uma das coisas em si. O idealista, partindo ao invés da inteligência como primeiro absoluto,
resolve todos os problemas que o dogmático não pode resolver. Neste sentido, o idealismo
se impõe como único filosofia possível.
O Fundamento do idealismo é, portanto, a inteligência, compreendida como atividade que
dó a si mesma as próprias leis no decorrer do próprio agir, em virtude de sua própria essência.
Rs leis da inteligência se deduzem, portanto, da essência do própria inteligência, e o objeto
é o produto sintético dessos leis.
Para o idealismo a experiência torna-se produção de iivre-pensamento que age segundo
as leis de sua própria essência: "a priori" e "a posteriori" coincidem, no sentido de que são a
mesma realidade, visto de dois lados diFerentes.
R palavra última do idealismo, paro Fichte é, portanto, esta: não existe outra realidade a
não ser a inteligência, e da atividade da mesma inteligência derivam todas as outras coisas,
sem nenhuma exceção.
6m torno a esta tese girará toda a história do idealismo.

representações são acompanhados pelo sen­


I. fl tarefo da filosofia consiste timento da liberdade; outras, ao contrário, são
em dar a razão de toda experiência acompanhadas pelo do necessidade.
2. As representações
1. €ntre as representações que temos, que dependem da liberdade
algumas são necessárias, são motivadas pela própria liberdade
outras são livres e não por outra coisa
fica atento a ti mesmo: afasta teu olhar de De um ponto de vista racional não pode
tudo o que está ao redor de ti e dirige-o para surgir a pergunta: por que as representações
teu íntimo: esta é a primeira exigência que a que dependem da liberdade são determinadas
filosofia faz a seu discípulo. Não se trata de justamente deste modo e não de outro?
algo que se encontra fora de ti, e sim apenas Com efeito, estabelecendo que estas de­
de ti mesmo. pendam da liberdade, fico excluído todo empre­
Mesmo observando a si próprio de relan­ go do conceito de motivação ulterior; elas são
ce, cada um perceberá uma diferença importan­ assim pelo fato de que eu as determinei assim,
te entre as diversas determinações imediatas e se as tivesse determinado de modo diverso,
da própria consciência, que podemos também elos conseqüentemente seriam diversas.
chamar de representações.
Algumas, com efeito, nos aparecem com­ 3. f) explicação do princípio do qual dependem
pletamente dependentes de nossa liberdade, as representações necessárias
mas nos é impossível crer que o elas correspon­ (que em seu conjunto
da algo de externo a nós, sem que aí haja de constituem a experiência)
nossa parte uma contribuição neste sentido. é a tarefa da filosofia
Nossa fantasia e nossa vontade nos apa­
recem como livres. Outras representações são A seguinte, ao contrário, é sem dúvida
referidas por nós a uma verdade que deve ser uma pergunta que merece reflexão: qual é o
posta independentemente de nós, como a um fundamento do sistema de representações
seu modelo; e à condição de que elas coincidam acompanhadas pelo sentimento da necessida­
com esta verdade, ao determinar estas repre­ de e deste próprio sentimento da necessidade?
sentações nos sentimos vinculados. fornecer uma resposta a esta pergunta cons­
No conhecimento nós não nos conside­ titui a tarefa da filosofia; e, segundo penso, a
ramos livres quanto àquilo que se refere ao filosofia não é mais que a ciência que assume
seu conteúdo. Resumindo: algumas de nossos esta tarefa. O sistema das representações que
- 63
Cãpítulo quarto - F ic k t e e o id e a lis m o é t ic o ------

sõo acompanhadas pelo sentimento da neces­ a ciência que se preocupa de realizar a tarefa
sidade chama-se também experiência, tanto que indicamos.
interna quanto externa. Portanto, a filosofia
- para dizê-lo em outras palavras - deve indicar
o fundamento de toda experiência. II. O fundamento que dá a razão
de toda experiência
4. Três objeções e respostas às mesmas está fora da experiência
Contra o que acabamos de afirmar po­
dem ser levantados apenas três tipos de ob­
jeções. 1. O fundamento que explica aquilo
fllguém poderia, de um lado, negar que que está fundamentado
existam na consciência representações que não entra no âmbito deste último
sejam acompanhadas pelo sentimento da C possível indagar-se a respeito do fun­
necessidade e que se refiram a uma verdade damento apenas para aquilo que se julgou
determinada sem nenhuma contribuição neste como contingente, isto é, como algo do qual
sentido de nossa parte. Quem levanta essa se pressupõe a possibilidade de ser também
objeção, ou nega, indo contra a boa-fé, ou diferente de como é, e que, todovia. não deva
então é preciso supor que ele seja feito de ser determinado pela liberdade; e justamente
modo diverso em relação aos outros homens: pelo fato de que nos interrogamos sobre seu
mas se assim fossem as coisas, então para ele fundamento, ele se torna contingente para
não existiria sequer aquilo que ele nega, e não aquele que se põe esta pergunta, fl tarefa de
existiria nenhuma negação, e por isso podemos buscar o fundamento de uma coisa contingente
com razão descurar sua objeção. significa mostrar alguma outra coiso de cuja
Ou então alguém poderia dizer que a determinação se possa compreender por que
questão levantada é completamente insolúvel, o principiado1 assumiu, entre as múltiplas de­
que, a respeito, nos encontramos em um esta­ terminações possíveis, justamente aqueío que
do intransponível de ignorância no qual somos tem. Conseqüentemente ao conceito de funda­
forçados a permanecer. Deixar-se envolver por mento, este último cai fora do fundamentado;
alguém que levante questões deste tipo, e adu­ ambos, fundamentado e fundamento, à medida
zir motivações e contramotivações é totalmente que são tais, são opostos um ao outro e são
inútil. O melhor modo de refutá-lo é fornecer postos lado a lado, de modo que o primeiro é
uma resposta efetiva à pergunta; não lhe resta­ explicado graças ao segundo.
rá, então, nada mais a não ser examinar nossa
tentativa e indicar os pontos e as razões pelas 2. O conceito de fundamento
quais isso não lhe pareça suficiente. não pode ser entendido
Por fim, alguém poderia pôr em discus­ a não ser deste modo
são a denominação, e afirmar que a filosofia
é algo totalmente diferente, ou então que ela Ora, a filosofia deve indicar o fundamento
compreende também outras coisas além daque­ de toda experiência e, portanto, seu objeto
las que foram por nós indicadas, fl este seria necessariamente está fora de toda experiência.
fácil provar que desde sempre, e por parte de Cste princípio vale para toda filosofia, e teve
todas as pessoas que se ocuparam dela com igualmente valor universal até a época dos
competência, justamente aquilo que indicamos kantianos e de seus dados da consciência, ou
foi considerado filosofia; que tudo aquilo que seja, da experiência interna.
ele gostaria de passar como filosofia tem já Não há nenhuma objeção contra o prin­
outros nomes; que, se este termo deve designar cípio aqui enunciado: com efeito, a premissa
algo de preciso, ele deve designar justamente de nosso raciocínio consiste "simplesmente na
a ciência que indicamos. análise do conceito de filosofia que enuncia­
mos, e o resto é aquilo que se segue de tal
5. fl doutrina da ciência responde premissa. C se alguém quisesse lembrar que
a estes problemas o conceito de fundamento deve ser explicado
de modo diverso, não podemos certamente
fl partir do momento, porém, que não pre­ impedir que, ao usar esta expressão, ele pense
tendemos de foto deixar-nos envolver em uma aquilo que quiser: somos, porém, autorizados a
infrutuosa disputa centrada sobre um termo,
de nossa parte temos já renunciado há tempo
a este nome e chamamos doutrina do ciência € tudo oquilo que derivo do Princípio. [N. do T.]
Segunda parte - F u n d a ç ã o e a b s o l u t i z a ç ã o e s p e c u l a t i v a d o id e a lis m o

declarar que nós, na definição de filosofia que dogmatismo, elas são o produto de uma coisa
propusemos mais acima, não queremos enten­ em si que é seu pressuposto.
der nada mais que aquilo que indicamos. Se Se alguém quisesse negar este princípio,
não se devesse atribuir à filosofia o significado deveria demonstrar ou que existe também um
que indicamos, isso comportaria a negação da outro modo, diverso da abstração, para ele­
possibilidade da filosofia em geral assim como var-se acima do experiência, ou então que na
nós a entendemos: mas, em relação o isso, já consciência da experiência existe algo o mais
tomamos posição mais acima. que os duas partes que mencionamos.
Ora, quanto ao que se refere ao primeiro
ponto, emergirá mais claramente mais à frente
III. Os dois sistemas filosóficos que aquilo que indicamos como inteligência
aparece, com efeito, na consciência sob outro
que procuram dar razão predicado, e que não é, portanto, algo que é
de toda experiência possível produzido unicamente por meio da abstração;
mas também se demonstrará que a consciên­
cia da inteligência se fundamenta sobre uma
1. Paro explicar a experiência abstração que é perfeitamente natural para o
pode-se prescindir da coisa em si, homem.
dirigindo-se à inteligência Não se nego absolutamente que seja
(como o idealismo), perfeitamente possível fundir em um conjunto
ou então prescindir da inteligência fragmentos destes dois diferentes sistemos,
dirigindo-se à coisa em si e que este trabalho inconseqüente tenha sido
(como o dogmatismo) feito com muita freqüência; queremos negar,
O ser racional finito não possui nada fora porém, que, seguindo um procedimento con­
do experiência: é ela que contém toda a matéria seqüente, sejo possível um número maior de
de seu pensamento. O filósofo se encontra ne­ sistemas além destes dois.
cessariamente nas mesmas condições: parece,
portanto, inconcebível que ele posso elevor-se
acima da experiência. IV. O fundamento que o idealismo
€le, porém, pode abstrair; pode separar e o dogmatismo apresentam
por meio da liberdade do pensamento aquilo
que na experiência permanece preso. No ex­ para explicar a experiência
periência, a coisa, ou seja, aquilo que aparece
como determinado de modo independente de
nossa liberdade e sobre o qual nossa experiên­ 1 .0 objeto de uma filosofia
cia deve se regular, e o inteligência, que deve
conhecer, estão unidas de modo inseparável. O Definimos objeto de uma filosofia o funda­
filósofo pode abstrair de uma das duas, e, des­ mento que explica a experiência proposto por
se modo, ele abstrai da experiência e se eleva uma filosofia, pois ele parece existir apenas
acima dela. Se ele abstrair da coisa, resta-lhe graças a esta última e para esta última. (Entre o
uma inteligência em si, isto é, separada da ex­ objeto do idealismo e o do dogmatismo existe
periência; se abstrair da inteligência, então lhe uma diferença importante a propósito de sua
resto uma coisa em si, isto é, separada do fato relação com a consciência. Tudo aquilo de que
de que o coisa em si aparece na experiência, estou consciente chama-se objeto da consciên­
como fundamento explicativo desta última. O cia. Gxistem três tipos de relação possíveis entre
primeiro procedimento chama-se idealismo, o este objeto e o sujeito das representações:
segundo chama-se dogmatismo. 1) ou o objeto aparece como produto do
representação da inteligência;
2. Idealismo e dogmatismo
2) ou aparece como existente sem nenhu­
são os únicos dois sistemas
ma contribuição por parte da própria inteligência;
filosóficos possíveis
3) ou então aparece, por fim, ou como
determinado também no que se refere à própria
O que acabamos de dizer deveria ter natureza, ou como existente unicamente pelo
persuadido de que são possíveis apenas estes fato de que existe, mos determinável pela livre
dois sistemas filosóficos. Conforme o idealis­ inteligência no que se refere à sua natureza.
mo, as representações acompanhadas pelo fl primeira relação diz respeito a algo
sentimento da necessidade são o produto da puramente inventado, com ou sem um fim; o
inteligência que é seu pressuposto; conforme o segundo diz respeito a um objeto da experiên­
Capitulo quarto - T"ick+e e o i d e a lis m o é tic o

cia; o terceiro diz respeito apenas a um único a experiência pode ser efetivamente explicada
objeto que queremos logo mostrar. recorrendo à coisa em si, e que, sem ela, não é
absolutamente explicável: mas a questão está
2. O objeto do idealismo é o "€u em si” justamente nisto, e não é lícito pressupor aquilo
que ao contrário deve ser demonstrado.
Sem dúvida posso induzir-me livremente
a pensar isto ou aquilo: por exemplo, o pensar 4. fl vantagem que o objeto do idealismo
a coisa em si do dogmático. Se agoro abstraio tem sobre o do dogmatismo
daquilo que é pensado, e dirijo o olhar unica­
mente sobre mim, eis que eu me torno para O objeto do idealismo tem, portanto, em
mim mesmo, neste objeto, o objeto de uma relação ao do dogmatismo, a vantagem de que
representação determinada. O Pato de que eu ele deve ser demonstrado não como fundamen­
apareça para mim mesmo determinado justa­ to explicativo da experiência - o que resultaria
mente deste modo e não de outro, exatamente contraditório e transformaria este sistema em
como pensante, e pensante, entre todos os uma parte da experiência - mas, em geral,
pensamentos possíveis, justamente na coisa na consciência; o objeto do dogmatismo, ao
em si, deve depender, a meu ver, de minha contrário, não pode ser mais que pura invenção
determinação que eu faço de mim mesmo: eu que deve sua realização apenas pelo êxito do
me tornei livremente a mim mesmo o tal objeto. sistema.
Cu, porém, não me tornei o mim mesmo em si, Cstas observações foram feitas apenas
mas, ao contrário, sou levado necessariamente para permitir uma compreensão mais clara das
a pressupor a mim mesmo como aquilo que diferenças entre os dois sistemas e, portanto,
deve ser determinado pelo autodeterminação. não para delas deduzir conseqüências lógicas
Mas eu próprio sou, para mim, um objeto cuja contra o dogmatismo. Longe de querer que
natureza, em determinadas condições, depende isso se transforme em desvantagem para um
unicamente da inteligência, cuja existência deve sistema, é a própria natureza da filosofia que
sempre ser pressuposta. exige que o objeto de toda filosofia, como
Ora, justamente este €u em si2 constitui o fundamento explicativo da experiência, deve
objeto do idealismo. O objeto deste sistema, encontrar-se fora da própria experiência. Por
portanto, se apresenta verdadeiramente na qual razão o objeto deva depois se encontrar na
consciência como algo de real; não como uma consciência de modo particular, a isso ainda não
coiso em si, o que comportaria que o idealismo estornos em grau de fornecer explicações.
deixasse de ser aquilo que é, e o transforma­
ria em dogmatismo, e sim como 6u em si: não 5. Respostas a algumas objeções
compreendido como objeto da experiência, pois contra o idealismo
o Cu em si não é determinado, mas torna-se
determinado apenas por mim mesmo, e, sem Caso alguém não conseguisse estar
esta determinação, não seria nada e de fato convencido do que acabamos de afirmar, isso
não existiria; mas é entendido como algo que não prejudicaria ainda a possibilidade de se
se eleva acima de todo experiência. convencer do conjunto, a partir do momento de
que tudo o que dissemos constitui apenas uma
observação de passagem. Além disso, como me
3. O objeto do dogmatismo é a "coisa em si" propus, levarei em consideração as possíveis
O objeto do dogmatismo, ao contrário, objeções também a este ponto.
pertence aos objetos da primeira classe, os fllguém poderio negar a existência, que
quais são produzidos somente pelo pensa­ nós sustentamos, da autoconsciência imediata
mento livre; a coisa em si é pura invenção, em uma atividade livre do espírito. R quem o
e não possui nenhuma consistência. €la não fizesse, deveremos apenas lembrar, mais uma
aparece na experiência: com efeito, o sistema vez, as condições indicadas a propósito. Fl
da experiência é tão-somente o pensar que autoconsciência não se impõe, e não vem por
é acompanhado pelo sentimento da necessi­ si; é preciso de fato agir de modo livre, depois
dade; e nem mesmo o dogmático, que deve, abstrair do objeto e dirigir o olhar apenas sobre
como todo filósofo, indicar seu fundamento,
pode substituí-lo por alguma outro coisa. O
dogmático quer, na verdade, garantir à coisa 2flté agoro evitei esto expressão paro não dar ocasião
em si a consistência, ou seja, a necessidade poro uma representação do €u como coiso em si. Minho
de ser pensado como o fundamento de todo cautela foi inútil: por este motivo agoro me servirei dela
pois não vejo com quem eu deveria tomar cuidado. [Nota
experiência; e poderá fazê-lo, caso prove que de fichte]
Segunda parte - F u n d a ç ã o e a b s o l u t i z a ç ã o e s p e c u l a t i v a d o id e a lis m o

si mesmos. Ninguém pode ser obrigado o fazê- de umo coisa em si e, portanto, assim aparecem
lo, e mesmo que desse o entender que o seria, também nossas supostas determinações por
jornais se poderia dizer se nisso ele procede meio da liberdade, juntamente com a opinião se­
corretamente e como lhe é pedido fazer. Cm gundo o quol nós sejamos livres. Csta opinião se
suma: esta consciência não pode ser demons­ produz em nós por efeito da coisa em si; de igual
trada a ninguém; coda um deve produzi-la em modo são produzidas as determinações que nós
si mesmo por meio da liberdade. deduzimos de nosso liberdade, porém nós não
Contra a segunda afirmação, ou seja, que o sabemos, e é por isso que não os atribuímos
a coisa em si é pura invenção, poder-se-ia le­ a nenhuma causo, e podemos, portanto, atribuí-
vantar objeções openos se ela fosse mal-enten­ las à liberdade. Todo dogmático que seja con­
dida. Nós o remeteremos, então, ã descrição, seqüente é necessariamente fatal isto: ele não
feito mais acima, da origem deste conceito. nega o fato da consciência pela qual nós nos
consideramos livres, porque isso seria contrário
à razão; todavia, ele demonstra, deduzindo-a
V. Idealismo e dogmatismo de seu princípio, o falsidade desta afirmação.
não têm pontos em comum Cie contesta completamente a autonomia
do Cu, sobre a qual se fundamenta, ao contrário,
e são incompatíveis entre si o idealista, e o reduz apenas o um produto das
coisas, a um acidente do mundo; o dogmático
conseqüente é tombém necessariamente mate­
1. Os dois sistemas rialista. Cie poderio ser refutado apenos partin­
não podem ser refutados um pelo outro do do postulado da liberdade e do autonomia
porque seus princípios do Cu: mos é justamente isso que ele nega.
não podem ser deduzidos
Nenhum destes dois sistemas pode re­ 3. Por que o dogmatismo
futar diretamente o oposto: com efeito, suo não pode refutar o idealismo
controvérsia refere-se ao princípio primeiro, não Do mesmo modo, nem o dogmático pode
ulteriormente dedutível. Cada um deles refuta o refutar o idealista.
princípio primeiro do outro apenas se é aceito O princípio do dogmático, a coisa em
somente o próprio. Cada um nega inteiramente si, não é nada e, como deve reconhecer seu
o somente, e não têm sequer um ponto em co­ próprio defensor, ela não possui nenhuma rea­
mum sobre o qual se apoiar para se compreen­ lidade exceto a que lhe derivaria do foto de
derem e se conciliarem reciprocamente. Mesmo que openos partindo do coiso em si é possível
que eles possam parecer de acordo sobre as explicar a experiência.
palavras de uma proposição, cada um, todovia, O idealista aniquila esta demonstração
as entende em sentido diferente.3 explicando a experiência de modo diverso e,
portanto, contesta justamente o fundamento
2. Por que o idealismo
não pode refutar o dogmatismo
Cm primeiro lugar, o idealismo não pode 56 este o motivo pelo qual Kant nõo foi compreendido e
refutar o dogmatismo. O idealismo, como vimos, o doutrina da ciência nõo encontrou nenhuma vio de acesso,
nem é provável que a encontre logo. O sistema kantiano e o
tem de foto o vantagem sobre o dogmatismo da doutrino da ciência são ambos idealistas, nõo segundo
de estar em grau de mostrar no consciência seu o costumeiro significado impreciso, mas conforme o preci­
fundamento explicativo da experiência, isto é, so que acabo de ser indicado; os filósofos modernos, ao
a inteligência que age livremente. Também o contrário, são no conjunto dogmáticos, e estão firmemente
decididos o permanecer tais. Kant é suportado apenas
dogmático deve admitir este fato como tal: coso pelo fato de que foi possível dele fazer um dogmático; a
contrário, com efeito, ele se veria impossibilita­ doutrina da ciência, que não permite uma transformação
do de manter qualquer conversa posterior com o desse tipo, resulta necessariamente intolerável para estes
idealista; mas o dogmático transformo este fato expertos das coisas do mundo. A rápida difusão do filosofia
em aparência e ilusão, partindo de seu princípio kantiano, depois que foi compreendida como o foi, não é
uma prova da profundidade, e sim da superficialidade de
e deduzindo corretamente suas conseqüências: nosso tempo. Nesta imagem ela é, em parte, o porto mais
assim fazendo, ele o torna inadequado paro se bizarramente monstruoso que o fantosia humano jornais
tomar fundamento explicativo de outros coisas, tenha produzido, e pouco honra o intelecto de seus defen­
a partir do momento que, em suo filosofia, isso sores o fato de que el®s nõo perceberam isso; em parte, é
fácil demonstrar que ela deu boa impressão apenas porque
não é sustentável. se acreditou afastar toda especulação séria e possibilitou
Conforme o dogmático, tudo aquilo que um régio "deixe passar" para dedicar-se posteriormente ao
está presente em nossa consciência é o produto querido e superficial empirismo. [Nota de Fichte]
67
Capítulo quarto - F i c k t e e o I d e a l is m o é t ic o — ™,

sobre o qual o dogmatismo constrói seu siste­ e que o homem antes ou depois consegue al­
ma. R coisa em si se torna quimera total; não cançar, com o progresso do pensamento mesmo
se vê mais o motivo pelo qual ela deveria ser sem uma contribuição consciente de sua parte
hipotetizada e, deste modo, todo o edifício do - não encontra nada mais a não ser o foto de
dogmatismo desmorona. que ele deve necessariamente representar-se
estas duas coisas: 1) ser livre e 2) que existam,
4. Impossibilidade de fundir
fora dele, coisas determinadas.
em um único sistema
é impossível para o homem permanecer
idealismo e dogmatismo
neste pensamento; o pensamento do pura re­
presentação é openas um pensamento deixado
De tudo o que foi dito temos, ao mesmo pela metade, um fragmento de pensamento;
tempo, a inconciliabilidade absoluta dos dois ele deve figurar para si também algo que
sistemas, uma vez que aquilo que se deduz de corresponda à representação de modo inde­
um anula aquilo que se deduz do outro: segue- pendente do representar. €m outras palavras:
se daí, portanto, a inevitável inconseqüência de a representação não pode existir por si. €m si
sua mistura em um único sistema. €m toda ten­ ela não é nada, e é algo apenas se estiver
tativa nesse sentido, suas partes não são pos­ ligada a alguma outra coisa, t justamente esto
síveis de serem superpostas e em algum ponto necessidade do pensamento que, partindo do
origina-se uma enorme lacuna. Quem quisesse ponto de vista que foi dito, impele a se per­
pôr em discussão tudo o que acabamos de guntar: qual é o princípio das representações,
afirmar deveria demonstrar a possibilidade de ou então, o que é equivalente, o que é aquilo
tal composição, que pressupõe uma passagem que corresponde às representações?
contínuo da matéria para o espírito, ou vice- Ora, podem certamente estar juntas a re­
versa, ou então, o que é de fato equivalente, presentação da autonomia d o íu e a represen­
da necessidade para a liberdade. tação da autonomia da coisa, mas não podem
estar juntas a autonomia do €u e a autonomia
5. Se o idealismo não pode refutar
da coisa. Rpenas um, o fu o u a coisa, pode ser
o dogmatismo, e vice-versa,
o primeiro, o originário, o independente: o que é
o que pode levar a escolher um ou outro?
segundo, justamente pelo fato de ser segundo,
aparece necessariamente como dependente do
R partir do momento que, pelo que até primeiro ao qual deve estar unido.
agora consideramos, os dois sistemas, do Todavia, qual dos dois deve ser posto
ponto de vista especulativo, parecem ter o como primeiro? O €u ou a coisa? Para resolver
mesmo valor; e a partir do momento que eles o questão, a razão não pode fornecer nenhum
não podem estar juntos, e sequer estão em critério decisivo; não se trata, com efeito, de
grau um de organizar um ataque contra o outro, ligar um elemento em uma série, para o que
é interessante perguntarmo-nos o que pode seriam suficientes os princípios da razão, mas
mover quem perceba isso - e é fácil perceber trata-se do início de toda a série que, enquanto
- a preferir um sistema em relação ao outro, o to primeiro absoluto, depende unicamente
e como pode ocorrer que não se generalize o da liberdade do pensamento. €ste ato é, por­
ceticismo, como completa renúncia à solução do tanto, determinado pelo arbítrio e, o partir do
problema levantado. momento que a decisão do arbítrio deve ter
R controvérsia entre o idealista e o dog­ um motivo, ele é determinado pelo inclinação
mático está na questão se a autonomia da coisa e pelo interesse.
que deve ser sacrificada à do Gu, ou se, ao con­ O motivo último do diferença entre o ide­
trário, é a do €u que deve ser sacrificada à da alista e o dogmático é, portanto, a diversidade
coisa. O que leva, então, um homem razoável do interesse deles.
a declarar-se a favor de um de preferência ao
outro sistema? 7. O interesse de fundo do dogmático
está na fé que muitos homens
6. As razões das quais depende a escolha têm nas coisas por amor de si mesmos
do idealismo ou do dogmatismo
estão estreitamente ligadas ao interesse O interesse mais alto, e o fundamento de
de fundo de quem escolhe
todo outro interesse, é o que alimentamos por
nós mesmos. Isto verifica-se também poro o
Se o filósofo se coloco do ponto de vista filósofo. € o interesse que, invisível, guia todo
que indicamos - segundo o qual se deve neces­ o seu pensamento, é este: não perder o próprio
sariamente pôr se quiser se tornar um filósofo, eu no raciocínio; ao contrário, mantê-lo e afirmá-
Segunda parte - F u n d a ç ã o e a b s o l u + i z a ç â o e s p e c u l a t i v a d o i d e a lis m o

Io. Oro, existem dois níveis de humanidade, e, que ataca; ele, por isso, se defende com calor
antes que com o progresso do gênero humano e fúria. O idealista, ao contrário, não pode
todos tenhom alcançado o segundo nível, facilmente evitar olhar do alto para baixo, com
existem dois gêneros principais de homens. certo irreverência, o dogmático que não sabe
Alguns homens, que ainda não se elevaram dizer-lhe nada que ele não saiba já há tempo
a um sentimento pleno de sua liberdade e à e que não tenha já rejeitado como folso; com
autonomia absoluta, encontram o si mesmos efeito, ao idealismo se chega, mesmo que não
apenas na representação das coisas: eles mediante o dogmatismo, ao menos por meio
possuem apenas a autoconsciência dispersa, de uma disposição de espírito que dele se
apegada aos objetos, e que deve ser reunido aproxima. O dogmático inflama-se, entrevê as
partindo do multiplicidade destes últimos. Sua coisas e, caso tivesse a força dele, tornar-se-ia
imagem vem a eles refletida pelas coisas como persecutório; o idealista é frio, e arrisca-se de
por um espelho, e se estas lhes são arrancadas, ridicularizar o dogmático.
eis que, ao mesmo tempo, também seu eu vai
embora com elas. Ges não podem renunciar à 10. A escolha de um sistema filosófico
fé na autonomia das coisas por causa do amor depende da natureza
que têm por si mesmos: com efeito, eles sub­ e do caráter do homem que escolhe
sistem apenas junto com as coisas. Tudo aquilo
que são, assim se tornaram efetivamente por O tipo de filosofia que se escolhe de­
meio do mundo exterior. Aquele que, de fato, é pende, portanto, do tipo de homem que se
apenas um produto das coisas não poderá ver é: com efeito, um sistema filosófico não é um
a si próprio a não ser como produto das coisas,
e terá razão enquanto fala de si mesmo e de
seus semelhantes. O princípio do dogmático
é a fé nas coisas por amor de si mesmo: elo
é, portanto, uma fé inteiramente mediada no
próprio eu disperso e sustentado apenas pelos
objetos.
8. O interesse de fundo do idealista
está no amor pela liberdade
Quem, ao contrário, toma consciência da
próprio autonomia e independência de tudo
aquilo que existe fora dele - e esta tomada
de consciência é possível apenas se, indepen­
dentemente de tudo, o próprio eu se torna algo
- não tem necessidade das coisas para apoiar
a si mesmo, e pode prescindir delas, porque
elas anulam a autonomia e a transformam em
vã aparência. O eu que ele possui, e que é
objeto de seu interesse, anula a fé nas coisas:
ele tem fé em suo autonomia por inclinação, ele
a prende afetivamente. Sua fé em si mesmo é
imediata.

9. As conseqüências
que derivam da fé no eu
e da fé nas coisas
Partindo desse interesse é possível expli­
car também os afetos que normalmente intervém
quando se defendem os sistemas filosóficos.
O dogmático, com o ataque a seu sistema,
corre verdadeiramente o perigo de perder a si
mesmo: todavia, ele não possui armas que o
defendem desse ataque, porque justamente Fichte em um desenho a carvão da época,
em seu íntimo existe algo que o prende àquele conservado na Biblioteca de Munique da Baviera.
. 69
Cãpltulo quarto - F ic k t e e o i d e a lis m o é tic o ____

enfeite inerte, que s® pod® pôr à part® ® utilizar 2. Coincidência do real


conforme nosso humor, mas algo d® animado e do ideal na inteligência
pelo alma do homem que o possui. Um caráter
débil por natureza ou enfraquecido e encurvodo fl inteligência, enquanto tal, dirige o
p®la servidão espiritual, pelo luxo refinado e olhar para si mesmo, e este ver a si mesma se
pelas frivolidades jamais poderá elevar-se até estende imediatamente a tudo o que ela é, e
o idealismo. nessa união imedioto de ser e de ver consiste
a natureza da inteligência. Rquilo que nela
existe e aquilo que ela é em geral, ela o é por
11. Filósofo se é por natureza si mesma-, e apenas à medida que ela é aquilo
e não existe arte humana por si mesmo, elo é aquilo como inteligência.
que nos torne tal Penso neste ou naquele objeto: o que quer
Pode-se mostrar ao dogmático a insufi­ dizer isso, e como apareço então a mim mesmo
ciência e a inconseqüência de seu sistema, neste pensamento? De nenhum outro modo a
coisa de que falaremos em breve; pode-se não ser assim: eu produzo certos determinações
confundi-lo e amedrontá-lo de todo lodo; mas em mim quando o objeto é pura invenção; ou
não é possível convencê-lo, pelo fato de que então os determinações existem sem nenhuma
ele não está em grau de ouvir e de pôr à pro­ intervenção de minha porte, caso se trate de
va com calma e frieza uma doutrina que não algo de verdadeiro; e eu olho aguele produzir
pode suportar. Para ser filósofo - dado que o e este ser. €les se encontram dentro de mim
idealismo devesse ser demonstrado como a openos à medida que eu olho para eles: olhar
único filosofia verdadeira - deve-se ter nascido e ser estão unidos de modo indissolúvel.
filósofo, é preciso ser educado para sê-lo, e Fio contrário, uma coisa será também
educar a si mesmo poro assim se tornar: mas várias coisas: logo que surge o pergunta para
não existe nenhuma arte humana que faço se quem alguma coisa existe?, ninguém que
tornar filósofo, é por isso, portanto, que esta compreenda a palavra responderá: paro si
ciência espera poucos prosélitos entre os ho­ mesmo; dever-se-á, ao contrário, acrescentar
mens já Feitos; e se lhe for permitido esperar, mentalmente também uma inteligência, para
então ela espera mais dos jovens, cuja força a qual ela é algo; a inteligência, ao contrário,
inota oinda não está destruída pela debilidade é necessariamente para si mesma aquilo que
de nosso tempo. ela é, e não é preciso acrescentar nada mais.
Por meio de seu ser dada, como inteligência, é
dado também, ao mesmo tempo, aquilo para
o que ela é. Portanto, na inteligência - para
VI. A superioridade do idealismo me expressar com uma imagem - existe dupla
sobre o dogmatismo série, o do ser e o do olhar, a do real e a do
ideal; e sua natureza (que é sintética) consiste
na indissolubilidade desta duplicidade; poro
1. Impossibilidade de explicar a coisa, porém, cabe apenas uma única série,
a experiência partindo da "coisa em si” a do real (do puro "ser dado"), fl inteligência
como faz o dogmatismo e o coisa são, por isso, exatamente opostas;
Mas o dogmatismo é inteiramente incapaz encontram-se em dois mundos diferentés e não
de explicar aquilo que deve explicar, e isto é existe nenhuma ponte que os ligue.
decisivo para mostrar sua inadequação.
0e deve explicar a representação e as­ 3. fl inteligência pode ser verdadeiramente
sume o empenho de torná-la compreensível, alcançada apenas pensando-a
reduzindo-a a um efeito produzido pela coisa como um primeiro absolutç,
em si. Todavia, ele não deve negar aquilo que e não partindo da "coisa em si”
a consciência imediata afirmo a propósito do
representação. O dogmatismo quer explicar esta natureza
Mas o que afirma a propósito? Não é mi­ da inteligência em geral e de suas determina­
nha intenção captor com conceitos aquilo que ções específicas por meio do princípio de cau­
é possível ver openos no íntimo; nem pretendo salidade: ela deveria ser um efeito produzido,
esgotar o assunto, à cuja discussão dedica-se deveria ser o segundo membro da série.
uma grande parte da doutrina da ciência. Quero Todavia, o princípio de causalidade fala
apenas trazer à lembrança aquilo que cada um de única série reol, e não de dupla, fl força
que tenha fixado, embora por pouco, o olhar do causador investe outro que se encontro
dentro de si deve ter já encontrado há tempo. foro delo, oposto a ela, e nele gera um ser, e
70
__ Segunda parte - F u n d a ç ã o e a b s o l u + i z a ç ã o e s p e c u l a t i v a d o i d e a lis m o

nada mais depois: um ser para uma possível contraditoriedade. O som simultâneo, e a har­
inteligência Fora dele e não para si mesmo. Se monia, não se encontram nos instrumentos; eles
atribuirmos ao objeto do efeito apenas uma se encontram apenos na alma do ouvinte que,
força mecânica, o objeto transmitirá a impressão dentro de si, reúne em unidode a multiplicidade;
recebida àquilo que lhe está mais próximo, e o e, se não se acrescentasse mentalmente tam­
movimento que tomou o impulso do primeiro se bém um ouvinte, som simultâneo e harmonia de
transmitirá por toda umo série, longa o quanto fato não existiriam.
se queira; mas em nenhuma parte se encontrará
um membro da série que aja voltando sobre si 5. fl inteligência não pode ser concebida
mesmo. Ou então, caso se atribua ao objeto como uma das "coisas em si”
produzido pela ação o caráter mois elevado que
se puder atribuir a uma coisa, a excitabilidade, Mas quem poderia impedir que o dogma­
de modo que ele se regule segundo a próprio tismo admitisse que uma olmo seja como umo
força e em base às leis que a causa lhe confere, das coisas em si? Csta é umo dos coisas que o
como na série do puro mecanismo, então ele dogmatismo postula para a solução da questão
reagirá certamente oo estímulo, e no causa não levantado, C este o único modo para utilizar o
se encontrará o fundamento da determinação princípio de um efeito produzido pelas coisas
de seu ser nessa ação, mos encontrar-se-á sobre a alma, pois no materialismo encontra-se
apenas a condição para ser em geral alguma apenas uma interação das coisas entre si pela
coisa; mas ele é, e permanece, um puro e sim­ qual o pensamento seria produzido. Para tornar
ples ser, ou seja, um ser para uma inteligência pensável aquilo que não é pensável, desejòu-
possível que está fora dele. fl inteligência se se postulara coisa que causa, ou o alma, ou am­
pode ganhar caso não a concebamos como um bas, de modo que mediante o efeito produzido
primeiro absoluto, e sua união com um ser dela pelo causa fossem geradas as representações,
independente seria bem difícil de obter. fl co/so causadora devia ser feita de tal modo
€m base a esta explicação, o série é e que seus efeitos se tornassem representações,
permanece única, e de nenhum modo se ex­ como por exemplo Deus no sistema de Berkeley
plicou oquilo que deveria ter sido explicado. (que é um sistema dogmático e de foto não
Deveríamos ter demonstrado a passagem do um sistema idealista). Com isso em nada se
ser pora o representar; mas isto os dogmáticos melhoram os coisas: desse modo entende-se
não o fazem nem poderão fazê-lo. Com efeito, apenas um efeito produzido pela ação mecânico
em seu princípio encontra-se unicamente o fun­ e é simplesmente impossível pensar outra. O
damento de um ser e não do representar, que pressuposto dos dogmáticos, portanto, contém
é totalmente antitético oo ser. Cies fazem um puras palavras, privadas de sentido. Ou então
enorme salto de modo completamente estranho a alma deve ser de tal caráter que todo efeito
a seu princípio. sobre elo se transforme em representação.
Todavia, também aqui nos encontramos nas
4. O enorme salto que os dogmáticos mesmas dificuldades que no caso precedente:
são obrigados a fazer para passar torna-se simplesmente incompreensível.
das "coisas em si" para a inteligência
6. O dogmatismo é incapaz
Os dogmáticos procuram esconder este de deduzir aquilo que deve justificar
solto de vários modos. Cm sentido estrito - e partindo de seu princípio
é este o modo de proceder do dogmatismo
conseqüente, que se torna, ao mesmo tempo, Assim procede, portanto, o dogmatismo
materialismo - a alma não deveria ser alguma sempre e em toda forma que ele assume. Na
coisa, ou melhor, não deveria ser absolutamente enorme lacuna que permanece entre as coisas
nada, mas apenas um produto, apenas o resul­ e as representações, em vez de uma explicação
tado da interação das coisas entre si. ele põe palavras vazias, que podem de fato ser
Todavia, deste modo se gero apenas aprendidas de memória e repetidas, mas que
algo no âmbito das coisas, nunca, porém, algo não estiveram em grau, nem jamais estarão,
de separado dos coisas, se não se acrescenta de suscitar pensamentos no homem. Se, com
mentalmente também uma inteligência que efeito, se quiser verdadeiramente pensar no
observe as coisas. As semelhanças que os modo em que acontece aquilo que é pressu­
dogmáticos oferecem para tornar compreensí­ posto, eis que todo o conceito desvanece como
vel seu sistema, por exemplo, o da harmonia bolha de sabão.
que nasce ao soar juntos vários instrumentos, O dogmatismo, portanto, pode apenas
tornam melhor compreensível exatamente sua repetir seu princípio sob formas diversas e
Capítulo quartO - F ic k t e e o id e a lis m o é tic o

pode dizê-lo e redizê-lo, mos, tomondo-o tão precisos com as demonstrações como, por
como ponto de portido, jomois poderá alcançar exemplo, ocorre com a matemática. Se essa
aquilo que deve ser explicado e deduzi-lo. €, mentalidade apreende ainda que apenas
ao invés, justamente esta dedução constitui a um par de elementos da série, e entrevê a
filosofia. O dogmatismo, portanto, tombém em regra que guia a dedução, logo elo comple­
ótica especulativa, não é de foto uma filosofia, ta globalmente a parte que falto recorrendo
mas apenas uma afirmação e uma garantia à imaginação e sem proceder à indogação
impotente. Como única filosofia possível resto daquilo de que é composta. Se, por exemplo,
apenas o idealismo. um fllexonder von Joch4 diz a eles: todas as
coisas são determinadas pela necessidade da
7. O idealismo não pode ser refutado
natureza e, portanto, nossas representações
pelos adversários,
dependem das características das coisas, e
mas é apenas não compreendido por eles
nossa vontade depende das representações
e, portanto, toda a nosso vontade é determi­
Tudo o que até agora enunciamos não nada pela necessidade da natureza, e nossa
terá nada a ver com as objeções do leitor; com idéia da liberdade da vontade é tão-somente
efeito, não há simplesmente nada a objetar, ilusão, tudo isso parece para eles incrivelmente
mas se achará ao invés a ter o que fazer com compreensível e evidente, sem reparar o foto
o absoluta incapacidade da parte de muitos de que carece de bom senso, e eles tornam-se,
de compreendê-lo. Nenhum homem que com­ portanto, convictos e cheios de admiração pela
preenda as palavras poderá negar que todo precisão de tal demonstração. Devo lembrar
efeito produzido por uma causa é mecânico, e que a doutrina da ciêncio não toma impulso
que por meio de um mecanismo não se origina desta mentalidade leviana, e sequer lhe dá
nenhuma representação. Mas justamente aqui alguma importância. Se um único elemento do
está a dificuldade. € preciso um bom nível de longo codeia que ela deverá percorrer não se
autonomia e de liberdade do espírito poro liga estreitamente àquele que segue, então
saber compreender a natureza da inteligência ela não pretenderá ter demonstrado alguma
que descrevemos e sobre a qual se fundamenta coisa.
inteiramente nosso refutação do dogmatismo.
Muitos, com seu pensamento, não foram além
da compreensão do mero série do mecanis­ VII. O idealismo perfeito,
mo natural; e para estas pessoas também a
representação, se a quiserem pensar, entra seu fundamento
naturalmente nesta série, que é a única que se e seu modo de proceder
encontro traçada em seu espírito.
Para eles a representação torno-se uma
espécie de coisa, uma extraordinária ilusão 1. fl inteligência como pura atividade
do qual encontramos traços nos mais famosos que age segundo leis necessárias
outores de filosofia. Paro estes o dogmatismo O idealismo, como já foi visto, explica as
é suficiente: eles não notam nenhuma lacuna determinações
porque, para eles, não existe nenhum mundo do inteligência.daPara consciência, partindo da ação
o idealismo, a inteligência
contraposto. é puramente ativa e absoluta, e não sofre pas­
fl demonstração adotado, portanto, não sivamente. Isto porque, em conseqüência
pode refutar o dogmático, por mais clara que postulado, ela é aquilo que é primeiro e de seu
supre­
ela seja: com efeito, não é possível convencê-lo mo, ao qual nada se antepõe de que se possa
com esto prova, pois ele não tem a capacidade extrair um sofrer passivo. Pelo mesmo motivo,
de compreender a premissa. ela não possui um ser em sentido próprio, um
subsistir, porque este é o fruto de uma interação,
8. fl mentalidade leviana difundida e não existe nada, nem é pressuposto, com o
entre os dogmáticos qual a inteligência possa interagir. €la para o
Também o modo com que aqui se trata algumo idealismo é um fazer, nem se pode chamá-la de
o dogmatismo ofende a mentalidade leviana coisa de ativo, porque, assim dizendo, a
de nosso tempo, que certamente muito se di­
fundiu em toda época, mas que apenas agoro ^Fichte refere-se oqui ao livro de C. F. Hommel, fíiexan-
se elevou aos níveis de máxima formulada der von Joch: prêmio e castigo segundo as leis turcas, de
com palavras: não se deve ser tão rigorosos 1770. Hommel ensinou no Universidade de Leipzig, e talvez
ao deduzir, na filosofia não é o coso de ser fichte antes de 1787 foi ouvinte de seus cursos. [N. do T.]
Segunda parte - F u n d a ç ã o e a b s o l u t i s a ç ã o e s p e c u l a t i v a d o i d e a lis m o

expressão se referiria a algo que subsiste e que exatamente deste modo, pode ser ulteriormente
possui a atividade. Pois bem, o ideolismo não explicado se considerarmos o motivo pelo qual
tem nenhum motivo de supor uma coisa deste ela, em uma condição, aja em geral de modo
tipo, porque em seu princípio não há nada de determinado; e esto última coiso pode-se de
semelhante, e todo o resto deve ser deduzido novo explicar partindo de única lei fundamental:
disso. Ora, da ação desta inteligência devem no decorrer de seu agir, a inteligência dá o si
ser deduzidos representações determinados-, mesma as próprias leis, e esta legislação, por
as de um mundo que existe sem nenhuma inter­ suo vez, acontece por meio de um agir superior
venção de nossa parte, um mundo material que ou de um representar superior necessários, fl
se encontra no espoço, e assim por diante, os lei da causalidade, por exemplo, não é uma
quais são representações que, como é sobido, lei primeira e originária, mas openos um dos
existem na consciência. Mas por alguma coisa diversos modos de ligação do múltiplo, e pode
de indeterminado não é possível deduzir alguma ser deduzido da lei fundamental desta ligação;
coisa de determinado: a fórmula de toda dedu­ e o lei fundamental desta ligação do múltiplo,
ção, o princípio do fundamento neste caso não por sua vez, como tombém o próprio múltiplo,
encontra aplicação. Por isso o agir da inteligência pode-se deduzir de leis mais elevadas.
que pusemos como fundamento deve ser um
agir determinado, isto é, deve ser, a partir do 3. Dois métodos que se podem seguir
momento que a inteligência é o supremo fun­ ao determinar as leis da inteligência
damento explicativo, um agir determinado por
ela mesma, por sua natureza, e não por alguma Conseqüente a esta observação, o ideo­
coisa de exterior o ela. Portonto, o pressuposto lismo crítico pode pôr-se em operação de dois
do idealismo será o seguinte: o inteligência modos. Ou ele deduz o sistema dos modos
age, mas, por causa de sua própria essên­ necessários de agir, e ao mesmo tempo as re­
cia, ela poderá agir apenas de certo modo. presentações objetivas que assim se originam,
Se pensarmos este modo de agir necessário efetivamente das leis fundamentais da inteli­
separadamente do agir, ele se pode chamar, gência, fazendo originar progressivamente sob
com termo adequado, as leis do agir. existem, os olhos do leitor ou do ouvinte todo o comple­
portanto, leis necessários do inteligência. xo de nossas representações; ou, então, ele
Por conseguinte, também o sentimento da concebe estas leis em certo sentido assim como
necessidade que acompanha as representações elos aparecem diretamente já aplicadas aos
determinados é explicado: o inteligência, entõo, objetos e, portanto, em seu nível mais baixo
não prova, em tais casos, uma impressão prove­ (e nesse nível elos tomam o nome de catego­
niente do exterior, e sim sente em todo seu agir rias), e sustenta, portanto, que por meio delas
as delimitações de suo próprio essência. A medi­ os objetos são determinados e ordenados.
do que o idealismo exprime esto pressuposição
da existência de leis da inteligência que são 4. fls leis da inteligência
necessários, pressuposição que é a única de­ só podem ser deduzidas da essência
terminado razoavelmente e que possui um efe­ da própria inteligência
tivo poder explicativo, ele se chama idealismo
crítico, ou tombém transcendental. Um idealismo O crítico que seguir o segundo método,
transcendente seria, ao contrário, aquele tipo de e que não deduzir os leis admitidas pela in­
sistema que deduzisse as representações deter­ teligência a partir da essência desta última,
minadas partindo do agir da inteligência livre e de onde tiro seu conhecimento mesmo que
completamente desligado de leis: pressuposto apenas objetivo, ou seja, o conhecimento de
completamente contraditório, uma vez que, como que elas são justamente tais, isto é, a lei da
acabomos de lembrar, a um agir deste tipo não substancialidade, a da causalidade? Porque
se pode aplicar o princípio do fundamento. não quero ainda carregá-lo- com a pergunta:
de onde ele vem a saber que se trata de puras
leis imanentes do inteligência? São as leis que
2. fl inteligência dá a si mesma
as próprias leis específicas
se aplicam imediatamente aos objetos, e ele
poderio tê-las obtido por meio da abstração
em virtude da suprema lei destes objetos e, portanto, apenas em bose
fls leis do agir do inteligência, que devem à experiência. De nada ajuda se ele as tirou
ser admitidos, formom elas próprios um sistema, da lógica, fazendo um desvio: com efeito, a
pelo fato de serem enraizadas na natureza própria lógico, para ele, origino-se tão-somente
única da inteligência; isto é, o fato de que a por meio da abstração dos objetos, e ele faz,
inteligência, nesta condição determinada, aja portanto, apenas indiretamente aquilo que,
, 73
Capitulo Ç[Ua?tO - I -ic h t e e o i d e a lis m o é t ic o ......

se fosse feito diretamente, seria resultado 6. Objeções contra o dogmatismo


demasiado evidente o nossos olhos. Não há e contra o criticismo
nada, portanto, que lhe permita reforçar a
afirmação de que as leis do pensamento, por Um idealismo deste tipo, portanto, não
ele postuladas, são na realidade tais, ou seja, é demonstrado e não é demonstrável. Cie
no realidade nada mais que leis imanentes do não dispõe, contra o dogmatismo, de outras
inteligência: o dogmático afirmaria, opondo-se armas a não ser a afirmação de que 0 I0 tem
a ele, que existem nos coisas propriedades razão. C contra o criticismo mais elevado e
gerais, fundadas em sua própria natureza, e não perfeito não tem nenhuma outro armo a não
se compreenderia então por que deveríamos ser uma raiva impotente e a afirmação que não
dar maior fé à asserção não demonstrada de 0 possível ir além, o asserção que paro olém
um do que à não demonstrada do outro. disso não existe mais nenhum fundamento,
Seguindo este segundo método, não se que desse ponto para frente nós nos torna­
obtém nenhuma compreensão do fato de que ríamos incompreensíveis, e assim por diante:
a inteligência deva agir justamente deste modo mas todas estas coisas não têm exatamente
e do por quê isso aconteça. Poro este fim seria nenhum sentido.
preciso pôr nas premissas olgo que se posso atri­ Por último, em um sistema deste tipo,
buir apenas à inteligência, e delas seriam dedu­ são indicadas apenas as leis que determinam
zidas, sob nossos olhos, as leis do pensamento. só os objetos da experiência exterior, graças
unicamente ao juízo subsuntivo. Csta, porém,
é de longe a parte mais reduzida do sistema
5. Como o idealismo explica o objeto da razão. Cste criticismo pela metade, por isso,
e sua gênese proc0d0 às C0gas no campo do razão prática e
Cm particular, com este procedimento do juízo reflexivo, a partir do momento que ele é
não se compreende como se origine, depois, carente da compreensão de todo o processo da
o próprio objeto. Com efeito, mesmo que se razão, e repete justamente como um papagaio,
queira conceder ao crítico seus postulados repetindo-as com desenvoltura, expressões
não demonstrados, com eles não se explicam poro ele totalmente incompreensíveis.
nada mais que as propriedades e os relações
da coisa: o fato, por exemplo, que ela existe 7. O método seguido
no espaço, que se manifesta no tempo, que pelo perfeito idealismo
seus acidentes devam ser referidos a algo de
substancial, e assim por diante. Mas qual é o O método do perfeito idealismo trans­
origem daquilo que possui estas reloçães e cendental, que a doutrina da ciência expõe, já
estas propriedades: qual é a origem da matéria foi discutido por mim de modo muito claro em
que foi assumida nestas formas? Nesta matéria outro trabalho. Não sei explicar-me como tenha
se refugia o dogmatismo, e deste modo proce­ se tornado possível não compreend0r oqu0 la
de apenas de mal a pior. discussão: mas é em todo coso suficientemente
Sabemos bem: a coisa certamente se seguro que ela não foi compreendida.
origina por meio de um ogir segundo estas Vejo-m© por isso forçado o repetir coisas
leis, a coisa não é mais que todas estas rela­ já ditas e lembro que de sua compreensão
ções reunidos pela imaginação, e todas estas depende toda coisa nesta ciência.
relações juntas constituem a coisa: o objeto Cste idealismo parte de uma única lei
é sem dúvida a síntese originária de todos fundamental da razão, que ele demonstra ime­
aqueles conceitos. Forma 0 matéria não são diatamente na consciência. O procedimento é o
componentes particulares: as formas em sua seguinte. Convide o leitor ou o ouvinte a pensar
globalidade são matéria, e apenas com a com liberdade detorminodo conc0 ito: ao fazê-
análise obtemos as formas particulares. Mas, lo, ele se achará obrigado a proceder de certo
o respeito disso, o crítico, seguindo o método modo. C preciso aqui distinguir duas coisas: de
indicado, pode apenas dar-nos suo garantia, e um lado o ato de pensamento requerido que
permanece sempre um mistério como possa ter é realizado livremente, e quem não o realiza
seu conhecimento, se 0 que o tem. flté que não deste modo não vê noda daquilo que mostra a
se permito à coisa em sua inteireza originar-se doutrina da ciência; do outro, o modo necessário
sob os olhos do pensador, o dogmatismo não em que tal ato de pensamento deve ser rea­
foi S0guido até seus mais recônditos esconde­ lizado: tal modo funda-se na própria natureza
rijos. Isso, porém, torna-se possível apenas se da inteligência e não depende do arbítrio; ele
deixarmos a inteligência agir em seu conjunto, é algo de necessário mos que aparece apenas
e não apenas parcialmente. em uma ação livre e apenos com ela, e além
74
.... Segunda parte - F u n d a ç ã o e a b s o l u t i z a ç ã o e s p e c u l a t i v a d o i d e a lis m o

disso é algo de encontrado, mos cujo encontro no fim. Foi-lhe dado o ângulo reto do qual ele
é, por outro lodo, condicionado pela liberdade. deve traçar sua reta: tem então necessidade
também de outro ponto para o qual dirigir-se?
8. O idealismo tem apenas
Quero dizer: todos os pontos de suo linha são
um pressuposto fundamental dados contemporaneamente. Dê-se também
e o demonstra com a dedução efetiva um número determinado. Suponhamos que
ele seja o produto de certos fatores. 6 preciso
fl este propósito o idealismo demonstra então apenas encontrar, utilizando os regras
aquilo que afirma na consciência imediata. Mas bem conhecidas, o produto destes fatores. Será
é um puro pressuposto o foto de que oquele openas em um segundo tempo, apenas quando
algo de necessário seja lei fundamental de todo já se tem o produto, que se descobrirá se ele
a razão, e que partindo disso seja possível de­ coincide com o número dado. O número dado é
duzir todo o sistema de nossas representações a experiência em seu complexo; os fatores são
necessárias, não só das de um mundo, de como aquilo que é mostrado na consciência e nas leis
seus objetos sejam determinados mediante o do pensamento; a multiplicação é o filosofar.
juízo de subsunção e de reflexão,5 mas também Quem aconselha, enquanto se filosofa, o manter
de nós mesmos, como seres livres e práticos sob sempre um olho no experiência, aconselha a
leis. O idealismo deve demonstrar este pressu­ modificar um pouco os fatores, e a multiplicar de
posto por meio da dedução efetiva, e é exata­ modo um tonto errado, de maneira que, todavia,
mente nisso que consiste sua tarefa específica. se obtenham números que coincidam: é um pro­
No desenvolvimento deste último o idealis­ cedimento que é tanto desleal quanto superficial.
mo procede do seguinte modo. Qe mostra que
aquilo que foi assumido antes como princípio e 10. Para um idealismo perfeito,
que é provado imediatamente na consciência, "a priori" e ”a posteriori”
não se torna possível sem que contemporanea- são uma mesma realidade
mente aconteça também alguma outra coisa, e vista de dois lados diferentes
que esta alguma outra coisa, por sua vez, não
é possível sem que contemporaneamente acon­ A medida que os resultados últimos do ide­
teça outra terceira; e isso até que as condições alismo se vêem como tais, como conseqüências
daquilo que foi provado em primeiro lugar não do raciocínio, eles são o o priori no espírito hu­
estejam completamente esgotadas, e ele pró­ mano; à medido que eles se vêem, no caso que
prio seja perfeitamente compreensível segundo raciocínio e experiência efetivamente coincidam,
o possibilidade que tem de sê-lo. Seu caminho como dados no experiência, eles são o posterio­
é um progresso ininterrupto do condicionado ri. O o priori e o a posteriori para um idealismo
para a condição; toda condição se torna, por perfeito não são de fato duas coisos diferentes,
sua vez, um condicionado e dever-se-á, então, e sim uma só coisa; só que esta é vista de dois
procurar sua condição. lados diferentes, e é distinta apenas do modo
em que o ela se chega. Fl filosofia antecipo toda
9. Como devem ser entendidas as relações
e qualquer experiência, pensa-a apenas como
entre o procedimento do idealismo
necessária e, portanto, em relação à experiência
e a experiência
efetiva ela é o priori. R posteriori é o número, à
medida que é considerado como dado; o mesmo
Se o pressuposto do idealismo estiver número é, oo contrário, o priori, ò medido que
correto, e se na dedução se tiver procedido o fozemos resultar dos fotores como produto.
de modo correto, então, como resultado final, Quem possui uma opinião diversa o propósito,
como soma de todos as condições daquilo que não sobe ele próprio aquilo que diz.
se enunciara no início, deve-se obter o sistema
de todos os representações necessárias, ou 11. Os resultados de uma filosofia devem
seja, toda a experiência, cujo confronto não é coincidir com a experiência
absolutamente feito na própria filosofia, mos No coso em que os resultados do filosofio
apenas sucessivamente. não coincidirem com os da experiência, então
O idealismo, com efeito, não tende a esta
experiência como à meta que já lhe é conhecida essa filosofio será seguramente falsa, porque
de antemão e à qual ele deve chegar. Gm seu
procedimento, ele não sobe nada da experiên­ sO juízo de subsunção é o ato que leva um objeto o
cia e nem sequer a observo: procede movendo- ser assumido em um conceito, enquanto o juízo de reflexão
se do ponto de portida, segundo suas regras, tende a evidenciar as condições segundo as quais um
e não se preocupa com aquilo que daí derivará conceito se forma. [N. do T.]
. 75
Cãpltulo quarto - F ic k t e e o i d e a lis m o é t ic o _ _

nõo manteve o promessa de deduzir toda a 12. fl experiêncio como produto do atividade
experiência e de explicá-la com o atividade ne­ de um pensamento livre,
cessária da inteligência. Então, ou é totalmente mas conforme a leis
errado o pressuposto do idealismo transcenden­
tal; ou então ele foi utilizado de modo incorreto O caminho deste idealismo parte, como
apenas naquela descrição particular que não se vê, de algo presente na consciência, mas
forneceu aquilo que devia. Como o tareia de só depois de um livre ato de pensamento, para
explicar a experiência partindo de seu funda­ chegar a toda a experiência. O que se encontra
mento é uma característica da razão humona, entre um e outro é seu verdadeiro e próprio
uma vez que nenhuma pessoa razoável fará a terreno. Não é um fato da consciência e não
hipótese de que nela posso encontrar-se uma pertence à esfera da experiência: como poderia
tarefa cuja solução seja totalmente impossível, chamar-se de filosofia uma coisa deste gênero,
e uma vez que existem apenas dois caminhos a partir do momento que ela deve demonstrar o
paro resolvê-la, o do dogmatismo e o do idea­ fundamento da experiência, mas o fundamento
lismo transcendental, e que se pode demonstrar se encontra necessariamente fora daquilo que
facilmente que a primeira não está em grau é fundamentado? Trata-se de um produto do
de cumprir as promessas, então o pensador pensamento livre, mas conforme a leis.
decidido tomará sempre decisão pelo segundo Isto se tornará logo muito claro, se exa­
caminho, aquele segundo o quol houve erro na minarmos ainda um pouco mais de perto a
dedução mos o pressuposto, em si, é correto, afirmação basilar do idealismo.
e não se deixará desencorajar por nenhum Cste demonstra que aquilo que é simples­
fracasso, e provorá novamente até que no fim mente postulado não é possível sem o condição
o sucesso lhe seja propício. de um segundo elemento, e este último nõo o
é sem a condição de um terceiro, e assim por
diante: então, de tudo aquilo que o idealismo
enuncia nado é possível isoladamente, mas
cada elemento particular é possível apenas em
Johann Gottlieli M te ’s
união com todos os outros. Portanto, segundo
o que ele próprio afirma, openos o todo apa­
rece na consciência, e esse todo é justamente
s&mmtliche Werke. a experiência. O idealismo quer conhecer este
inteiro mais de perto, por isso deve analisá-lo,
e não procedendo às cegos, mas segundo as
regras determinadas da composição, de modo
a poder ver o todo que se origina sob seus
olhos. Cie está em grau de fazer isso porque
!!< *r a u $ 8 « *? c ln *n está em grau de abstrair, pois no pensamento
*00 livre ele certamente está em grau de captar o
particular isoladamente. Com efeito, na cons­
jr . H. r X C H T E. ciência não aparece apenas a necessidade das
representações, mas igualmente sua liberdade;
e, por suo vez, esta liberdade pode proceder
ou de modo conforme às leis ou arbitrariamen­
te. Tudo isso lhe é dado do ponto de vista da
consciência necessária: ele o encontra enquanto
Erste AMhellmg.
1 » llieoHlt>tkea Pklloxophle.
encontra a si mesmo. Mas a série que resulta
da composição deste inteiro é produzida pela
E n t e r ftanil.
liberdade. Quem realiza este'ato de liberdade
torna-se consciente dela e, por assim dizer,
predispõe novo âmbito na própria consciência;
Beriia, para quem não o realiza não existe aquilo que
VcrUg ? • it V e i l «ftá C & M p - deriva daquele ato.
O químico compõe um corpo, por exemplo,
um determinado metal, com seus elementos.
O homem comum vê o metal que lhe é bem
Frontispício do primeiro tomo da opera omnia conhecido; o químico vê a composição destes
de J. G. Fichte, organizada pelo filho determinados elementos. Os dois vêem, talvez,
(Berlim, 1845). algo de diferente? Penso que não. Cies vêem
76
___ Segunda parte - F u n d a ç ã o e a b s o l u t i z a ç ã o e s p e c u l a t i v a d o idealisM

o mesmo coisa, mas apenas a vêem de modo condição de querer pensar algo a propósito
diverso. O que é visto pelo químico é o a priori, do fundamento da experiência, fl inteligência
ele vê o particular; o que é visto pelo homem é pensável apenas como ativa, e como ativa
comum é o o posteriori, ele vê o todo. apenas neste determinado modo: isto é o que
€xiste apenas esto diferença entre os dois afirma a filosofia. Tal realidade é inteiramente
modos de ver: o químico deve analisar o todo suficiente, pois deriva do filosofia que não
antes de podê-lo compor, enquanto tem o que existe nenhuma outra realidade.
fazer com um objeto do qual não pode conhecer
as regras de composição antes de proceder à 14. Conclusões
análise; o filósofo, oo invés, sabe proceder à
composição sem ter antes efetuado a análise, fl doutrina da ciência quer traçar o idealis­
porque ele já conhece a regra de seu objeto:mo crítico perfeito ora descrito. O que dissemos
o razão. por último contém o conceito da doutrina da
ciência e, a este propósito, não ouvirei objeções
13. Paro a filosofia idealista
porque ninguém melhor do que eu está em grau
não há outra realidade
de saber o que quero fazer. As demonstrações
a não ser a inteligência,
da impossibilidade de uma coisa que está em
de cuja atividade
via de realização, e que em parte já o estivera,
derivam todas as coisas
são apenas ridículas, é preciso apenas seguir
de perto o desenvolvimento e examinar se ela
Portanto, ao conteúdo da filosofia não realiza aquilo que prometeu.
cabe nenhuma outra realidade senão a rea­ J. G. Fichte,
lidade do pensamento necessário, com a Primeiro introdução à doutrina da ciência.
íS a p íf u lo q u m fo

S c K e llir v 0
e a gestação romarvtica
do idealismo

— .-... I. /\ v id a ,
o d e s e n v o lv im e n t o d o p e n s a m e n to
e a s obi^as d e .S ek e llin g

• Friedrich Wilhelm Joseph Schelling nasceu em Leonberg, em Württemberg,


em 1775. Em 1790 inscreveu-se no seminário teológico de Tübingen, onde estreitou
relações de amizade com Hõlderlin e com Hegel. De 1796 a 1798 estudou mate­
mática e ciências naturais em Leipzig e Dresden. Passou então para Jena, onde
em 1799 foi nomeado sucessor de Fichte. Em 1800 saiu o Sistema do idealismo
transcendental, destinado a dar-lhe a máxima fama. Nesses anos
teve relações com o círculo dos românticos chefiado por Schlegel. a vida
Em 1803 passou a ensinar na Universidade de Würzburg. Em 1841 e as obras
foi chamado à Universidade de Berlim, mas em 1847 interrompeu § 1
seus cursos. Morreu em 1854 na Suíça.
Entre as obras mais significativas além do Sistema, recordamos: Idéias para
uma filosofia da natureza (1797), Filosofia e religião (1804), Pesquisas filosóficas
sobre a essência da liberdade (1809), Filosofia da mitologia e Filosofia da Revelação
(publicadas postumamente).

v id a e a s ob>m s como vimos, teve de se demitir devido às


complicações provocadas pela “ polêmica
sobre o ateísmo” .
Friedrich Wilhelm Joseph Schelling “ Um astro se põe e outro su rge” ,
nasceu em Leonberg, em Württemberg, em dissera Goethe por ocasião da demissão
1775, filho de pastor protestante, que o de Fichte e da ascensão de Schelling. Com
educou nos estudos clássicos e bíblicos. Em efeito, logo no ano seguinte (1800) saía
1790, com apenas quinze anos, matriculou- o Sistem a do idealism o transcendental,
se no seminário teológico de Tubinga, onde destinado a dar ao filósofo grande fama
estreitou relações de amizade com o poeta e, embora jovem, a impô-lo a todos os ro­
Hõlderlin e com Hegel que, mesmo sendo mânticos como ponto de referência. Nesse
um lustro mais velho, dele sofreria influência período, ele manteve relações com o círculo
decisiva. dos rom ânticos liderado por F. Schlegel
De 1796 a 1798, Schelling estudou e, sobretudo, com Caroline Schlegel, que
matemática e ciências naturais em Leipzig depois desposou.
e em Dresden. Depois, transferiu-se para Em 1803, Schelling passou a ensinar
Jena (com apenas vinte e três anos), onde na Universidade de Würzburg. Em 1806,
se tornou assistente de Fichte no ensino foi chamado à Academia de Ciências de
universitário. Em 1799 (com vinte e quatro Munique. Por fim, em 1841, foi chamado
anos), foi nomeado sucessor de Fichte, que, pelo rei da Prússia, Frederico Guilherme IV,
Segunda parte - F u n d a ç a o e a b s o l u t i : z a ç a o e s p e c u l a t i v a d o id e a lis m o

à Universidade de Berlim, onde teve entre determinações cronológicas são predomi­


seus ouvintes personagens destinados a se nantemente indicativas.
tornarem ilustres, entre os quais Kierke­ O grande número de escritos (muitos
gaard. M as o sucesso durou muito pouco. dos quais publicados postumamente) tam­
Em 1847 interrompeu o ensino e, em 1854, bém deu origem a uma série de problemas
quase esquecido, morreu na Suíça. complexos.
E bastante com plexa a parábola da Prescindindo dos primeiros dois tra­
evolução do pensamento de Schelling. Os balhos, ligados à exegese bíblica e à inter­
estudiosos realizaram grandes esforços para pretação dos antigos mitos, d e l 7 9 2 e l 7 9 3
procurar determinar as várias etapas desse (escritos, portanto, quando tinha dezessete e
itinerário, com resultados diferentes. A di­ dezoito anos), suas várias obras podem ser
visão mais racional é aquela que distingue ordenadas segundo as várias fases acima
os seis períodos seguintes: relacionadas. Eis as mais significativas:
1) o começo fichteano (1795-1796); 1) Sobre a possibilidade de uma forma
2) o período da filosofia da natureza da filosofia em geral (1794); Sobre o Eu
(1797-1799); como princípio da filosofia (1795); Cartas
3) o momento do idealismo transcen­ filosóficas sobre o dogmatismo e o criticismo
dental (1800); (1795).
4) a fase da filosofia da identidade 2) Idéias para uma filosofia da natureza
(1801-1804); (1797); Sobre a alma do mundo (1798);
5) a fase teosófica e da filosofia da Primeiro esboço de sistema da filosofia da
liberdade (1804-1811); natureza (1799).
6) a fase da filosofia positiva e da filo­ 3) Sistema do idealismo transcendental
sofia da religião (de 1815 em diante). (1800).
Cabe lembrar que essa divisão não de­ 4) Exposição do meu sistema (1801);
ve ser entendida de modo rígido e que as Bruno ou o princípio natural e divino das coisas

Friedrich Wilhelm Schelling


(1775-1854)
submeteu o idealismo
a uma complexa reelaboração
para dar lugar adequado
à natureza,
entendida como
“espírito visível"
e como momento do absoluto.
Seu pensamento evoluiu
sem descanso,
até desembocar
em uma "filosofia positiva”,
fundada sobre a religião
e sobre a revelação,
em vez de sobre a pura razão.
Cãpltulo quinto - 5 cKellii/\0 e a g e s t a ç ã o r o m â n t ic a d o id e a lis m o

(1802); Filosofia da arte (1802-1803); Lições 6) Introdução à filosofia da mitologia,


sobre o método do estudo acadêmico (1803). Filosofia da mitologia e Filosofia da revela­
5) ção, que são substancialmente os cursos
Filosofia e religião (1804); Pesqui­
sas filosóficas sobre a essência da liberdade ministrados em Berlim e publicados postu­
(1809); Lições de Stuttgart (1810). mamente.

= II. O s inícios d o p e n s a m e n to =
d e .S c k e llin g e m Tnckte ( i 7 9 5 - Í 7 9 6 )
e a filo s o fia d a n a t u r e z a ( Í 7 9 7 - Í 7 9 9 )

• Depois da primeira precocíssima produção, que é uma tentativa de assimila­


ção do idealismo de Fichte para repensar seus motivos de fundo, a partir de 1797
Schelling dedica-se a revalorizar a natureza, que Fichte privara
de qualquer identidade específica. Segundo Schelling, é preciso o s inícios
aplicar à natureza o mesmo modelo de explicação que Fichte apli- com Fichte
cara com sucesso à vida do espírito, porque o sistema da natureza -> § 1-2
está junto com o sistema do espírito. A natureza vem, portanto, a
mostrar-se como a produção de uma inteligência inconsciente que opera a partir
de dentro dela, desenvolvendo-se em sentido teleológico. O grande princípio da
filosofia natural de Schelling é, portanto: a natureza deve ser o espírito visível, o
espírito deve ser a natureza invisível.
• Com isso, a toda força natural que se expande, contrapõe-se de tempos em
tempos um limite, e a toda fase constituída pelo encontro da força expansiva e
da limitante corresponde a produção de um nível natural, o qual pouco a pouco
se apresenta como mais rico e hierarquicamente mais elevado: o
mais alto nível da natureza é o nível "orgânico", e o fim último a filosofia
da natureza é o homem, porque nele desperta justamente o es- da natureza
pírito, que em todos os outros graus naturais permanece como -> § 3-4
que dormente.

G p o n to d e p a rtid a ; os autodenominados “ kantianos” estavam


desencaminhados, porque a doutrina de
o id e a lism o d e P ic k te
Fichte era verdadeiramente (como susten­
tava seu autor) a “ verdadeira” doutrina
kantiana, desenvolvida de modo coerente e
O pensam ento inicial de Schelling consciente, e cujas conclusões balizam uma
ainda trata de problem as relacionados etapa decisiva: era preciso buscar na esfera
aos debates suscitados pelas dificuldades e do sujeito aquilo que antes se buscara na
aporias inerentes à “ coisa em si” kantiana, esfera do mundo externo e do objeto.
que, aliás, ele considera substancialmente Entretanto, por mais que esses concei­
resolvidos e superados pela filosofia de tos se expressem com a terminologia e no
Fichte. É compreensível, portanto, que a tom do pensamento de Fichte, já se revelam
primeira (e precoce) produção do filósofo novas exigências, que permitem pressentir
(entre os dezenove e os vinte e um anos) em que direção Schelling se moverá.
constitua essencialmente a tentativa de Em primeiro lugar, é evidente a marca
dominar o idealismo de Fichte e repensar fortemente metafísica com que Schelling
seus motivos de fundo. Segundo Schelling, trata a leitura da Doutrina da ciência (so­
Segunda parte - Fundação e absolutização especulativa do idealismo

mente mais tarde é que o próprio Fichte ; A u n id a d e d e e s p ír ito


seguiria esse caminho, com o vimos, em
e n atu reza
ampla medida precisamente por solicita­
ção de Shelling). Conseqüentemente, o Eu
puro é apresentado como o “ absoluto” ,
cuja unidade não é a unidade numérica Se não é um puro não-eu, o que é
dos indivíduos, mas sim a unidade própria então a natureza? Schelling considera que
do “ U no-T odo” im utável. O Eu não é o problema é solucionável supondo-se a
consciência nem pensamento nem pessoa, existência de unidade entre ideal e real, entre
porque consciência e pessoa são momentos espírito e natureza. Escreve ele: “ O sistema
posteriores e “ deduzidos” . da natureza é, ao mesmo tempo, o sistema
Analogam ente, Schelling dá grande de nosso espírito” .
relevo à “ intuição intelectual” (que Fichte Isso implica que se deve aplicar à na­
já reivindicara para o Eu), bem como à tureza o mesmo modelo de explicação que
“ liberdade” . Com efeito, ele delineia com Fichte aplicara com sucesso à vida do espí­
maior clareza a “ dedução do m undo” a rito. Em suma, para Schelling, os próprios
partir do Eu. princípios que explicam o espírito podem e
Cumpre também observar que a pre­ devem explicar também a natureza.
sença de Spinoza, assumido (em certo sen­ Sendo assim, então, aquilo que expli­
tido) como o adversário por excelência, ca a natureza é a mesma inteligência que
acentua ainda mais a marca metafísica do explica o Eu. E preciso transferir para a na­
pensamento de Schelling. Spinoza apre­ tureza aquela “ atividade pura” descoberta
senta-se como o campeão do dogmatismo, por Fichte como a “ essência” do Eu. Desse
enquanto absolutizou o objeto (o não-eu) modo, Scheling chega à conclusão de que a
e procurou garantir a paz do espírito ao natureza é produzida por uma inteligência
preço do abandono do sujeito (empírico) inconsciente, que opera em seu interior, que
ao objeto absoluto. Fichte, ao contrário, se desenvolve teleologicamente em graus, ou
não considera o objeto como absoluto, e seja, em níveis sucessivos, que mostram uma
sim o sujeito como absoluto, além de vin­ finalidade intrínseca e estrutural.
cular o sujeito empírico ao sujeito absoluto O grande princípio da filosofia da
mediante a intuição intelectual, que revela natureza de Schelling é o seguinte: “ A na­
precisamente a tangência do eu empírico tureza deve ser o espírito visível, o espírito
com o Eu absoluto. a natureza invisível. É aqui, portanto, na
Nesses escritos juvenis, em contra-luz, absoluta unidade do espírito em nós e da
além das implicações m etafísicas do Eu natureza fora de nós, que se deve resolver
entendido como absoluto, de que falamos, o problema de como é possível uma natu­
também já são visíveis as novas exigências reza fora de nós” . A natureza nada mais
que caracterizarão o interesse posterior de é do que “ inteligência enrijecida em um
Schelling. Schelling procurará particular­ ser” , “ sensações apagadas em um não-ser” ,
mente: “ arte formadora de idéias que transforma
a) atender mais às instâncias afirmadas em corpos” .
pelo objetivismo spinoziano e reequilibrar
o subjetivism o absoluto de Fichte, que
arriscava cair na unilateralidade oposta à y\ n a t u r e z a c o m o g m d w a l
spinoziana;
d esdobram en to
b) preencher a flagrante lacuna do
sistema de Fichte, que reduzira toda a na­ d a in t e lig ê n c ia in c o n s c ie n te
tureza ao puro não-eu, fazendo-a perder
toda identidade específica e quase anulan­
do-a. Se espírito e natureza derivam do
A partir de 1797, portanto, Schelling mesmo princípio, então devemos encon­
encaminhou-se para a revalorização da trar na natureza aquela mesma dinâmica
natureza e p ara o preenchim ento das la ­ de força que se expande e de limite que se
cunas do sistema de Fichte. M as, ao fazê- lhe contrapõe, que já encontramos no Eu
lo, punha em crise a Doutrina da ciência e segundo Fichte. M as a oposição do limite
aplainava o caminho para uma diferente só detém momentaneamente a força ex­
formulação e projeção do idealismo. pansiva, que acaba retomando seu curso
Capitulo quinto - 3 c k e l l m g e a g e s t a ç ã o r o m ã n + ic a d o id e a lis m o

para depois se deter em outro limite, e à eletricidade e à química, em nível mais


assim por diante. elevado, mas segundo a mesma dinâmica.
Ora, a cada fase constituída por tal Em conclusão, a natureza é constituída
encontro da força expansiva com a força pela mesma e idêntica força (inteligência
limitante corresponde a produção de um inconsciente), que se desdobra da maneira
grau e de um nível da natureza, que pouco como verificamos e que, pouco a pouco, se
a pouco se apresenta em patamares mais manifesta em planos e graus sempre mais
ricos e, portanto, hierarquicamente mais elevados, até alcançar o homem, no qual se
elevados. O primeiro encontro entre a for­ acende a consciência, quando a inteligência
ça positiva de expansão e a força negativa chega à sua autoconsciência. 1 í~|
de limitação dá lugar à “ m atéria” (que,
portanto, é produto dinâmico de forças).
A retomada da expansão da força infinita
positiva e o novo encontro com a força ^ ;A a l m a d o m undo
negativa e limitadora dá lugar àquilo que e a n afw i*e 2 Q d o K o m e m
se apresenta como “ mecanismo universal”
e como “processo dinâmico” geral.
Nesse ponto, explorando habilmente as Desse modo, agora ficam claras certas
descobertas da ciência de sua época (da qual afirmações de Schelling que se tornaram
era estudioso atento, como já recordamos), muito célebres: “ O mesmo princípio une a
Schelling procura mostrar a manifestação natureza inorgânica e a natureza orgânica” ,
móvel das forças, bem como sua polaridade pois as coisas singulares da natureza cons­
e oposição no magnetismo, na eletricidade tituem como que os elos “ de uma cadeia de
e no quimismo. vida, que se volta sobre si mesma e na qual
O todo momento é necessário para o todo” ;
esquema idêntico de raciocínio vale
para explicar o mais alto nível da natureza, aquilo que na natureza aparece como não-
que é o nível “ orgânico” . A esse propósito vivo é apenas “vida que dorme” ; a vida é
Schelling recorre aos princípios da “ sensi­ “ a respiração do universo” , ao passo que “ a
bilidade” , da “ irritabilidade” e da “ repro­ matéria é espírito enrijecido” .
dução” , em auge entre os cientistas de sua É compreensível, portanto, que Schelling
época, que ele faz corresponder, de modo tenha podido repor no auge o antigo con­
analógico, respectivamente ao magnetismo, ceito de “ alma do mundo” como “ hipótese

Uma antiga estampa, representando a Universidade de Jena.


Segunda parte - F u n d a ç ã o e a b s o l u t i z a ç ã o e s p e c u l a t i v a d o i d e a lis m o

para explicar o organismo universal” . Essa Por fim, o homem — que, considerado
antiquíssima figura teórica (que se tornou na infinitude do cosmo aparece fisicamente
muito famosa de Platão em diante), segundo como algo pequeníssimo —, revela-se, ao
Schelling nada mais é do que a inteligência contrário, como o fim último da natureza,
inconsciente que produz e rege a natureza, porque nele precisamente desperta o espíri­
e que só se abre à consciência com o nasci­ to, que em todos os outros graus da natureza
mento do homem. permanece como que adormecido.

III. i d e a l i s m o tra n scen d en ta l


e id e a lis m o e s t é t ic o ( i 8 0 0 )

• No Sistema do idealismo transcendental Schelling retoma o exame da filo­


sofia da consciência. Ele chama de "atividade real" a atividade originária do Eu,
produtora ao infinito, enquanto chama de "atividade ideal" aquela que toma
consciência colidindo com o limite; o limite, com efeito, é ideal
O idealismo no âmbito do saber (objeto da filosofia técnica), e real no âmbito
transcendental ^o a9'r (°bjeto da filosofia prática): a filosofia teórica é por isso
§ i _2 idealismo, enquanto a filosofia prática é realismo, e apenas juntas
elas formam o sistema completo do idealismo transcendental.
• A mais elevada tarefa da filosofia transcendental consiste em mostrar a iden­
tidade, inerente no próprio principio, da atividade consciente e da inconsciente, e
a atividade consciente-inconsciente presente tanto no espírito quanto na natureza
é a atividade estética: o mundo objetivo é, portanto, a poesia
A filosofia primitiva e ainda inconsciente do espírito, e o órgão universal da
da arte filosofia é a filosofia da arte. É este o "idealismo estético" que
§ 3-4 tanta impressão e tantos entusiasmos suscitou entre os contem­
porâneos.

1 1
P a r tir d o su b je tiv o de filosofia do espírito, Schelling concebeu e
escreveu nada menos que uma obra-prima,
p a i^ a a tin g ia o o b je tiv o
O sistema do idealismo transcendental, que
lhe saiu da pena quase perfeito.
Eis como o filósofo anuncia o pro­
Uma vez esclarecido que a natureza grama da filosofia transcendental: “ Pôr o
nada mais é do que a história da inteligên­ objetivo em primeiro lugar e dele extrair
cia inconsciente, que, através de sucessi­ o subjetivo é, como já observamos, a fun­
vos graus de objetivação, chega por fim à ção da filosofia da natureza. Ora, se existe
consciência (no homem), Schelling sentiu a uma filosofia transcendental, não lhe resta
necessidade de retomar o exame da filosofia senão seguir o caminho oposto: partir do
da consciência, ou seja, repensar a fundo a subjetivo como primeiro e absoluto, e dele
Doutrina da ciência de Fichte. Com efeito, fazer derivar o objetivo. Desse modo, a fi­
depois de ter examinado como a natureza losofia da natureza e a filosofia do espírito
chega à inteligência, era preciso rever como distinguiram-se segundo as duas possíveis
a inteligência chega à natureza. direções da filosofia. E se toda filosofia deve
E, ao fazer isso, tendo atrás de si tudofazer
o da natureza uma inteligência ou da
que Kant e Fichte já haviam dito em matéria inteligência uma natureza, daí deriva que
Cãpítulo quinto - Schelling} c o. 0e s t a ç ã o r o m â n + ic a d o id e a lis m o

a filosofia transcendental, a que cabe esta E, muito claramente, conclama a uma ati­
última função, é a outra ciência fundamental vidade unitária que esteja na base dos dois
necessária da filosofia” . momentos do sistema.

y A “a t i v i d a d e r e a l ”
3,,, ativ id a d e e sté tic a

e a “a t i v i d a d e i d e a l " d o
o id e a l-re a lism o Essa nova perspectiva que se delineia
pode ser mais bem compreendida com base
em outro raciocínio, que Schelling também
Também na construção do idealismo apresenta, inteiramente análogo ao anterior.
transcendental, como na filosofia da nature­ N a filosofia teórica, os objetos nos aparecem
za, Schelling enfatiza a polaridade de forças, com o “ invariavelmente determ inados” ,
seguindo o princípio próprio de Fichte, nossas representações nos parecem determi­
oportunamente readaptado. nadas por eles e o mundo nos parece algo
O esquema de raciocínio seguido por enrijecido fora de nós; na filosofia prática,
Schelling é o seguinte: o Eu é atividade ao contrário, as coisas nos aparecem como
originária que se autopõe ao infinito, ativi­ variáveis e modificáveis pelas nossas repre­
dade produtora que se torna objeto para si sentações, enquanto nos parece que os fins
mesma (e, portanto, é intuição intelectual que nos propomos podem modificá-las.
autocriadora). M as, para não ser apenas Existe aí contradição (pelo menos apa­
produtora, tornando-se também produto, rente), dado que no primeiro caso se exige o
a produção pura infinita que é própria do predomínio do mundo sensível sobre o pen­
Eu “ deve estabelecer limites ao seu próprio samento, ao passo que, no segundo caso, se
produzir” e, portanto, “ opor algo a si” . exige predomínio do pensamento (do ideal)
M as a atividade do Eu, enquanto é atividade sobre o mundo sensível. Em suma, pareceria
infinita, estabelece o limite e depois também que, para ter a certeza teórica, nós teríamos
o supera, gradualmente, em nível sempre de perder a prática e, para ter a certeza prá­
maior, como já dissera Fichte. tica, nós teríamos de perder a teórica.
Schelling chama a atividade que produz Eis então o grande problema que se
ao infinito de “ atividade real” (enquanto pro­ apresenta: “ De que modo, ao mesmo tempo,
dutora), ao passo que a chama de “ atividade as representações podem ser pensadas como
ideal” enquanto toma consciência, defron­ determinadas pelos objetos, e os objetos
tando-se com o limite. As duas atividades se podem ser pensados como determinados
pressupõem reciprocamente, “ e dessa mútua pelas representações?”
pressuposição das duas atividades [...] deve­ A resposta para o problema é a seguin­
rá ser derivado todo o mecanismo do Eu” . te: trata-se, diz Schelling, de algo mais pro­
Desse modo, porém, os horizontes da fundo do que a “harmonia preestabelecida”
Doutrina da ciência de Fichte se ampliam e de que falava Leibniz, posto que se trata de
o idealismo subjetivo torna-se propriamente identidade inserida no próprio princípio:
ideal-realismo, como diz Schelling nesta trata-se de atividade que, ao mesmo tempo,
passagem: “A filosofia teórica é [...] idealis­ é consciente e inconsciente e que, como tal,
mo, a filosofia prática é realismo, e somente está presente tanto no espírito como na
juntas formam o sistema completo do idea­ natureza e gera todas as coisas. Essa ativi­
lismo transcendental. Como o idealismo e dade consciente-inconsciente é a “ atividade
o realismo se pressupõem mutuamente, o estética” . Tanto os produtos do espírito
mesmo ocorre com a filosofia teórica e a como os da natureza são gerados por essa
filosofia prática; e, no próprio Eu, é ori- mesma atividade: “ A combinação de um e
ginariamente uno e ligado aquilo que nós do outro (do consciente e do inconsciente),
devemos separar em benefício do sistema sem consciência, dá o mundo real; com a
que estamos construindo” . consciência, dá o mundo estético (e espiri­
D evem os n otar que, desse m odo, tual). O mundo objetivo nada mais é do que
Schelling acaba por estabelecer a filosofia a poesia primitiva e ainda inconsciente do
transcendental com o terceiro momento espírito; o órgão universal da filosofia — e
para além da filosofia teórica e da filosofia a chave mestra de todo o seu edifício — é a
prática, mais precisamente como sua síntese. filosofia da a rte ". [ 2]
84
Segunda p U T te - T-i\v\dcxç.c\o e a b s o l u + i z a ç ã o e s p e c u l a t i v a d o i d e a lis m o

4 jA a t iv id a d e d a a r t e que a filosofia, assim como foi produzida e


nutrida pela poesia na infância do saber, e
e a s c a ra c te rístic a s
com ela todas as ciências que por seu meio
d a c r ia ç ã o a rtístic a são levadas à perfeição, uma vez alcançada
sua plenitude, como tantos rios retornarão
ao oceano universal da poesia, do qual
N a criação artística se fundem, com haviam saído. E não é difícil dizer em geral
efeito, o consciente e o inconsciente. O pro­ qual será o intermediário do retorno da
duto artístico é, de fato, finito, mas mantém ciência à poesia, visto que tal intermediário
significação infinita. N as obras-primas da já existiu na mitologia, antes que ocorresse
arte humana encontra-se a mesma marca das essa separação, que agora parece inconci­
obras-primas da arte cósmica. Assim, a arte liável. M as como possa nascer uma nova
torna-se “ a única e eterna revelação” . mitologia, que não seja criação de um poeta
E Schelling pode também se entregar individual, e sim de uma nova estirpe, que
aos mais audazes sonhos sobre uma huma­ represente como que um só poeta, esse é
nidade futura que leve a ciência de volta à problema cuja solução só se deve esperar
fonte da poesia e crie nova mitologia, não dos futuros destinos do mundo e do curso
m ais produto de um indivíduo, mas de posterior da história” .
uma estirpe regenerada: “ Ora, se apenas Esse é o “ idealismo estético” que tanta
a arte consegue tornar objetivo, com valor impressão e tantos entusiasm os suscitou
universal, tudo o que o filósofo só pode entre os contemporâneos, mas que, como
representar subjetivamente, deve-se espe­ todos os sonhos, embora imenso, durou
rar, para tirar ainda mais esta conclusão, somente por breve tempo. [31

I V . y \ filosofia d a ide-n+idade
(1 8 0 1 - 1 8 0 4 )

• A concepção da intuição estética, como captação da unidade do ideal e do


real, implicava já uma concepção do absoluto como "identidade originária" de
Eu e não-eu, sujeito e objeto, espírito e natureza. O absoluto é,
O absoluto portanto, esta identidade originária de ideal e real, e a filosofia
é identidade é saber absoluto do absoluto.
originária
A identidade absoluta é infinita e não sai nunca fora de si e,
de ideal e real
—> § 1-2 portanto, tudo aquilo que existe, existe, de algum modo, nela e
é "identidade": a identidade absoluta é definitivamente o Uno-
Todo, fora do qual nenhuma coisa existe por si mesma.
• Para resolver a grande dificuldade de explicar como e por que da identida­
de infinita nasçam a diferenciação e o finito, Schelling retoma o antigo conceito
gnóstico, aceito no passado pelo misticismo alemão, da "queda":
Do infinito a existência das coisas e sua origem supõem uma "queda" origi-
ao finito nária, uma "separação" em relação a Deus. É este o tema central
da fase "teosófica" do pensamento de Schelling.

1 A r a z ã o c o m o a b so lu to ideal e o real em sua unidade, e a definição da


filosofia transcendental como ideal-realismo
já implicavam claramente nova concepção
Essa concepção da arte, ou melhor, da do absoluto, que deveria abandonar as ex­
intuição estética, como aquilo que capta o pressões kantianas e fichteanas unilaterais,
C ã p ^ltu lo quÍHtO - S c k e llm g e a g e s + a ç ã o ro m â n tic a d o id ealism o
85

2 A id e n tid a d e a b so lu ta
■ Identidade absoluta. Partindo do
Eu absoluto de Fichte, que é Eu = Eu,
o jovem Schelling elabora sua con­ Portanto, “ o único conhecimento ab­
cepção do absoluto como identidade soluto é o da identidade absoluta” , e esta
originária de Eu e não-eu, sujeito e identidade absoluta é infinita e, por conse­
objeto, consciente e inconsciente, guinte, tudo aquilo que existe é, de algum
espírito e natureza. O absoluto é esta modo, “ identidade” , que, como tal, jamais
identidade originária de ideal e real, pode ser suprimida. Toda coisa que seja
e a filosofia é saber absoluto do ab­ considerada como ela é em si, resolve-se
soluto, ao qual nos elevam os apenas
com uma intuição originária. nesta “ identidade infinita” , enquanto existe
A identidade absoluta é infinita e não apenas nela e não fora dela.
sai nunca fora de si, e tudo aquilo que Essa identidade não sai de si, mas, ao
existe, existe, de algum modo, nela e contrário, tudo está nela: “ O erro funda­
é "identidade": a identidade absoluta mental de toda filosofia é o pressuposto de
é definitivamente o Uno-Todo, fora do que a identidade absoluta saiu realmente de
qual nenhuma coisa existe p o r si mesma. si mesma, bem como o esforço para tornar
A existência das coisas e sua gênese
supõem uma "queda"originária, uma compreensível o modo como acontece esse
"separação" em relação a Deus: em sair para fora. A identidade absoluta, no
Deus, com efeito, há um princípio entanto, nunca deixou de ser tal, e tudo o
obscuro e cego, que é "vontade" irra­ que existe, considerado em si mesmo, não
cional, e um princípio positivo e racio­ é mais o fenômeno da identidade absoluta,
nal, e a vida de Deus se explica como mas ela própria” .
vitória do positivo sobre o negativo. Essa “ identidade absoluta” é, portanto,
o “ Uno-Todo” , fora do qual nada existe
por si, é o próprio universo, que é coeter-
no à identidade. As coisas singulares são
manifestações fenomênicas que brotam da
diferenciação qualitativa entre “ subjetivo” e
como “ sujeito” , “ eu” , “ autoconsciência” “ objetivo” , da qual nasce o finito. Todo ser
e semelhantes, para basear-se em nova for­ individual é a diferenciação qualitativa da
mulação, que entendesse o absoluto como identidade absoluta; ele não só permanece
“ identidade” originária entre eu e não-eu, radicado na identidade (como em seu fun­
sujeito e objeto, consciente e inconsciente, damento), mas também pressupõe sempre
espírito e natureza, em suma, como coinci- a totalidade das coisas individuais às quais
dentia oppositorum. está ligado estrutural e organicamente.
O absoluto, portanto, é essa identidade
originária entre ideal e real, e a filosofia é
saber absoluto do absoluto, baseado em
sua intuição, que é condição de todo saber
3 T )a id e n tid a d e

posterior. in jin ita a b s o l u t a


Esse absoluto passa a ser cham ado à r e a l i d a d e fin ita
de “ razão” e o ponto de vista da razão é o e d ife re n c ia d a
ponto de vista do saber absoluto, e a filoso­
fia é uma ciência absoluta. A subversão da
posição de Kant agora se completou, assim
como se antecipou plenamente a perspectiva Desse modo, a indiferença ou identi­
que Hegel tornaria sua, embora com uma dade originária se explicita na dupla série
série de m odificações, como veremos. É (fenomênica) de “ potências” , ou seja, na
evidente que aqui nos encontramos diante série de “ potências” em que prevalece o
de concepção na qual Fichte e Spinoza são momento da subjetividade (A) e na série em
sintetizados em forma de espiritualism o que prevalece o da objetividade (B); mas, na
panteísta (ou panteísmo espiritualista) ra­ prevalência de A, está subentendido B, assim
dical. Tudo é razão e a razão é tudo: “ Fora como na prevalência de B está subentendido
da razão não há nada, tudo está nela” . A A, de modo que a identidade se conserva
razão é simplesmente una e simplesmente na totalidade e se reafirma em qualquer
igual a si mesma” . diferenciação.
Segunda paYte - F u n d a ç ã o e a b s o l u t i z a ç a o e s p e c u l a t i v a d o id e a lis m o

É evidente que a grande dificuldade simo, ou seja, o problema da origem do


dessa nova perspectiva de Schelling con­ finito a partir do infinito. N o ponto em que
siste em explicar como e por que nascem ele chegara, já não lhe era possível acolher
da “ identidade infinita” a diferenciação e o criacionismo (que faz o finito nascer por
o finito. ato de livre vontade do Criador e supõe a
N essa fase, Schelling procura em parte transcendência) nem o spinozismo (que, na
superar a dificuldade reintroduzindo a teoria prática, anula o finito e representa posição
platônica das idéias. N a razão, entendida pré-idealista). Assim, ele retomou o antigo
como identidade absoluta e unidade do conceito gnóstico, que o misticismo alemão
universal e do particular, existem unidades já havia abrigado no passado, segundo o
particulares (as idéias) que deveriam cons­ qual a existência das coisas e sua origem
tituir a causa das coisas finitas. Todavia, no pressupõem uma “ q u ed a” original, um
absoluto, as idéias estão todas em todas, ao “afastam en to” de Deus. Para Schelling,
passo que as coisas sensíveis estão separadas portanto, “ a origem do mundo sensível
e umas fora das outras. E Schelling sustenta só pode se explicar pelo afastamento em
que, no sensível, as coisas são tais somente relação ao absoluto através de um salto” .
para nós, ou seja, somente para nossa cons­ E esse é o tema central da fase “ teosófica”
ciência empírica. da filosofia de Shcelling, na qual se ouvem
E n tretan to, torna-se evidente que ecos irracionalistas, por vezes de modo até
Schelling já lutava com problema gravís­ acentuado.

Schelling
em um belo retrato da época,
realizado a carvão e pastel.
Cãpltulo C[UÍHtO - S c k e l l i n g e a g e s t a ç a o r o m â n t ic a d o id e a lis m o

V. A s últimas f a s e s d o p e n sa m en + o
d e 5 c k e llm g

• Os opostos, que Schelling havia anteriormente admitido como unificados


no absoluto, são agora por ele compreendidos como presentes em luta no pró­
prio absoluto. Em Deus há um princípio obscuro e cego, que é
"vontade" irracional, e um princípio positivo e racional, e a vida A fase
de Deus se explica justamente como vitória do positivo sobre o teosófica
negativo. e a filosofia
O drama humano, que consiste na luta entre o bem e o mal, da liberdade
entre a liberdade e a necessidade é, portanto, o espelhamento -^§1
de um conflito originário de forças opostas que estão na base da
própria existência e da vida de Deus. O mal existe no mundo porque já existe em
Deus, e no decorrer da história ele será vencido pelo caminho do espelhamento
daquela vitória sobre o negativo que se realiza eternamente em Deus.
• O último Schelling distinguiu:
a) uma filosofia negativa, ou seja, a especulação construída apenas sobre a
razão e que versa sobre o que<oisa universal, sobre a essência das coisas;
b) uma filosofia positiva, isto é, a especulação fundada, além
de sobre a razão, também sobre a religião e sobre á revelação, e A filosofia
referente à existência efetiva das coisas: a filosofia positiva deve "positiva"
necessariamente integrar a negativa. Para Schelling, a revelação 2
por excelência é a da religião cristã, mas em geral ele compreende
o arco histórico das religiões como uma espécie de revelação progressiva de Deus.
E o Deus de que se ocupa a filosofia positiva é o Deus-pessoa que cria o mundo,
se revela e redime o homem da queda.

jA fa s e d a te o s o fia como “pessoa” (o que fora excluído tanto


e d a f ilo s o fia d a l i b e r d a d e por Spinoza como por Fichte), mas pessoa-
que-se-faz.
(1 8 0 4 -1 8 1 1 ) Os opostos, que antes Schelling admi­
tira no absoluto como unificados, agora já
são entendidos por ele como presentes em
luta dentro do próprio absoluto.
K O y \ n a t u r e z a d e X ^eus Existe em Deus o princípio obscuro e
cego, que é a “ vontade” irracional, e o prin­
A solução do problema da origem do cípio positivo e racional, e a vida de Deus
finito e do infinito comporta uma revisão de se explica precisamente como vitória do
toda a problemática do absoluto. Schelling positivo sobre o negativo. Deus não é puro
aceita doravante ser chamado “ panteísta” , espírito, mas é também natureza.
desde que se entenda por “ panteísmo” que
tudo está em Deus, mas não, ao contrário,
que tudo é Deus. K O ; A ju s t i f ic a ç ã o m e t a fís ic a d a lu fa

Deus é o antecedente e as coisas são o e-vúre. o b e m e o m al

conseqüente. O conseqüente está no antece­


dente, mas não vice-versa ou, pelo menos, O drama humano, que consiste na luta
está em sentido totalmente diferente. entre o bem e o mal, entre a liberdade e a
Além disso, chegando a esse ponto, necessidade, nada mais é do que o refletir-se
Schelling também aceita considerar Deus de um conflito originário de forças opostas,
Segunda pãYte - F u n d a ç ã o e a b s o l u t i z a ç ã o e s p e c u l a t i v a d o id e a lis m o

que estão na base da própria existência e da zão, ao passo que a filosofia positiva, além
própria vida de Deus. Existe mal no mundo da razão, também se constrói com base na
porque ele já existe em Deus. religião e na revelação.
Portanto, os aspectos obscuros, nega­ E evidente que a revelação por exce­
tivos e angustiosos da existência têm sua lência é aquela na qual se funda a religião
origem no próprio absoluto. cristã. Schelling, porém, estende o conceito
Da mesma forma, a inteligência, a luz de revelação a todas as religiões históricas,
e o amor que existem no mundo já existem até as politeístas. Além disso, em geral ele
antes em Deus. Como luta entre os dois mo­ entende o arco histórico das religiões como
mentos, a vida reflete a luta originária que já uma espécie de “ revelação progressiva de
existe em Deus. E a vitória da liberdade, da Deus” . E compreensível, então, que o filóso­
inteligência e do positivo, que é o objetivo fo tenha feito, tanto da mitologia pagã como
da história dos homens, é o reflexo daquela da Bíblia, objetos de atenta análise.
vitória que se realiza eternamente em Deus Por fim, é importante destacar que o
e pela qual Deus é “ pessoa” . Deus de que se ocupa essa filosofia positiva
O mal, como o negativo que é supe­ já é o Deus-pessoa que cria o mundo, se re­
rado eternamente em Deus, é eternamente vela e redime o homem da queda: em suma,
rechaçado para o não-ser e, como tal, não é o Deus considerado naquela concretude
contrasta com a liberdade, com o bem, com religiosa que as filosofias modernas quase
a santidade e com o amor. nunca consideraram como objeto específico
Pode-se sentir nessa concepção resso­ de sua própria reflexão.
nâncias de Eckhart e sobretudo de Jacob Por fim, devemos notar como, nesta
Bõhme (místico e teósofo alemão), em cuja fase, Schelling, pondo em relevo o motivo
leitura Schelling foi iniciado por Franz von da existência não dedutível da essência,
Baader (1756-1841), que foi seu discípulo antecipe elementos “ existencialistas” que
e, ao mesmo tempo, o influenciou com seus Kierkegaard acolherá imediatamente e porá
fortes interesses teosóficos. em primeiro plano.

2 ^ " f ilo s o f ia p o sitiv a ”


(a p artir d e '1 8 1 5 ) I i
■ F ilosofia n e g a tiva e filo s o fia
positiva. A distinção entre filosofia
N a última fase, Schelling distinguiu positiva e filosofia negativa perten-
uma “ filosofia negativa” de uma “ filosofia ; ce à última fase do pensamento de
positiva” , passando a dedicar-se a esta últi­ ■ Schelling.
ma. Ele entende por “ filosofia negativa” a • A filosofia negativa é a especulação
filosofia professada até esse momento, ou construída apenas sobre a razão e
seja, a especulação em torno do “ que uni­ . que versa sobre o que-coisa universal,
versal’’, ou seja, em torno da essência das sobre a essência das coisas, sobre sua
coisas. Por “filosofia positiva”, ao contrário, possibilidade lógica.
ele entende a filosofia que diz respeito à • A filosofia positiva, ao contrário, é

I
existência efetiva das coisas. A primeira é : a especulação que se funda, além de
relativa à possibilidade lógica das coisas, a sobre a razão, também sobre a reli­
segunda à sua existência real. gião e sobre a revelação, e se refere
à existência efetiva das coisas: a filo­
Com essa distinção, ele não pretende sofia positiva deve necessariamente
negar a primeira forma de filosofia, mas integrar a negativa. .
fazer valer a necessidade da integração
substancial dessa forma. A filosofia negativa
é inteiramente construída com base na ra­
89
Capítulo quinto - 5 c k e ! l i n 0 e a g e s f a ç ã o r o m â n t ic a d o id e a lis m o

VI. Conclusões
s o b ^ e o p e n s a m e n fo d e 5 c k e llin 0

• Um juízo sobre a filosofia de Schelling é muito difícil, dada a sua complexa


parábola evolutiva. Ele deu o melhor de si entre 1799 e 1803, com os escritos que
gravitam ao redor do Sistema do idealismo transcendental, e desta
fase do pensamento de Schelling o próprio Hegel teve muito que a complexa
aprender. parábola
Depois, porém, o sucesso de Schelling foi pouco a pouco evolutiva
declinando, enquanto lenta mas constantemente subia a estrela P^samento
de Hegel, que de 1818 para a frente polarizará sobre si a atenção de^chellm9
de todos. ^

1 Wm ju í z o h i s t ó r i c o d ifícil obra é a expressão e o símbolo de um pe­


ríodo e — juntamente com alguns escritos
da filosofia da natureza, com a Exposição
É difícil emitir um juízo sobre a filosofia do meu sistema e com o Bruno, que refletem
de Schelling. Sua mobilidade desconcertou a fase da filosofia da identidade — nos dá
até os mais pacientes leitores, e a brusca o melhor de Schelling, até porque a veia
virada final irritou muita gente. Ele deu o teosófica do penúltimo período limita um
melhor de si para sua época entre 1799 e tanto os horizontes do filósofo, ao passo
1803, isto é, durante o período de Jena. E que as últim as obras foram publicadas
o próprio Hegel teve muito o que aprender postumamente.
dessa fase do pensamento de Schelling. M as, Hegel consagrará o esquema historio-
depois, o sucesso de Schelling foi declinando gráfico segundo o qual Fichte representaria
pouco a pouco, enquanto lenta mas cons­ o idealismo subjetivo, Schelling o idealismo
tantemente erguia-se a estrela de Hegel, que objetivo e o próprio Hegel o idealismo abso­
a partir de 1818 polarizará em torno de si a luto, como a tríade dialética de “tese” , “ antí­
atenção de todos. tese” e “ síntese” , cuja síntese “ supera” a tese
Talvez Schelling tenha sido o pensador e a antítese e as “penetra” . Historicamente,
que mais bem verbalizou as inquietudes esse esquema é inadequado, porque, por si
rom ânticas, aquele “ Streben” , ou seja, mesmos, Fichte e Schelling (considerados em
aquele tender incessante, aquele contínuo sua efetiva estatura histórica) não se deixam
“ superar-se” , deixando para trás o produto aprisionar por ele. Todavia, se nos limitar­
de sua própria criação para procurar outro, mos ao que seu tempo absorveu deles, essa
sempre novo. exemplificação mostra-se plausível, embora
O Sistema do idealismo transcendental com as devidas reservas. E, assim, com sen­
permanece como sua obra mais completa. tido de oportunidade, Hegel se impôs como
M as, em sua maior parte, ela é um compên­ aquele que dava de novo, potencializadas,
dio geral de coisas já ditas por seus ante­ as descobertas de Fichte e de Schelling, res­
cessores, só que expressas de modo melhor, gatando-as de sua unilaterãlidade, e trans­
visto que todas as novidades se concentram formando-as em verdadeiro conhecimento
em menos de trinta páginas (as idéias sobre sistemático e científico do absoluto, como
a arte e sobre a intuição artística). M as essa agora passaremos a ver mais longamente.
Segunda parte - F u n d a ç ã o e a b s o l u + i z a ç a o e s p e c u l a t i v a d o i d e a lis m o

SCHELLING
4 FILOSOFIA DA IDENTIDADE

O Absoluto
é o Uno-Todo,
. ^ identidade originária de
consciente inconsciente

#' ' <


ideal ■ ■ , . ^ real
(atividade teórica) espirito na ureza (atividade prática)

atividade estética,
ao mesmo tempo consciente e inconsciente
(filosofia da arte)

A CONCEPÇÃO DO ABSOLUTO
NA ÚLTIMA FASE DO PENSAMENTO DE SCHELLING

No Absoluto,
isto é, no próprio Deus,
existe a luta entre

um princípio positivo e
um princípio obscuro
e irracional, racional,
do qual derivam, que em Deus vence eternamente
como “ queda originária’’ e se revela pouco a pouco em todas as religiões,
até a religião cristã,
de Deus,
que é a mais perfeita

>
a Natureza a luta entre
bem e mal,
entre liberdade
e necessidade, na história humana o princípio positivo
no homem destina-se a vencer

a f i l o s o f i a p o s i t i v a é a especulação
baseada na religião e na revelação,
e refere-se à existência efetiva das coisas.
Ela deve necessariamente integrar — ------------ a f i l o s o f i a n e g a t i v a ,
que é a especulação baseada apenas na razão
e refere-se à essência (o que-coisa) das coisas
91
Capítulo quinto - S c K e l I in g a a g e s t a ç ã o r o m â n t ic a d o id e a lis m o ____

Os produtos da natureza inertes e priva­


S c h e l lin g dos de consciência não são mais que tentativas
falhos da natureza para refletir a si mesma; a
assim chamada natureza morta é em geral uma
inteligência imatura, de modo que em seus
fenômenos já transparece, ainda privado de
D fl necessidade consciência, o caráter inteligente.
fl natureza atinge o fim supremo, tornar-
se totalmente objeto de si mesma, unicamente
da filosofia da natureza
mediante a última e suprema reflexão, que não
pode ser mais que o homem ou, mais em geral,
Fl natureza aparece para Schelling pe­ aquilo que chamamos de razão, por meio da
netrada por um universal impulso Formativo qual a natureza pela primeira vez volta com­
e organizativo de modo a se mostrar, de pletamente para si própria, manifestando-se
Fato, como liberdade e subjetividade in fieri. originariamente idêntica àquilo que em nós é
Neste sentido, o aperFeiçoamento da ciência reconhecido como inteligente e consciente.
natural deveria consistir "na espiritualização Isto pode ser suficiente para provar que a
realizada de todas as leis naturais em leis do ciência natural tem a tendência necessária de
intuir e do pensar", e a FilosoFia da natureza tornar inteligente a natureza; é precisamente
deveria se tornar parte integrante, e por isso por essa tendência que ela se torno filosofia
necessária, do sistema do saber. do natureza, a qual é uma ciência fundamental
necessária da filosofia.
f. UJ. J. Schelling,
Se todo saber possui, por ossim dizer, Sistema do idealismo transcendental.
dois pólos que se exigem e se pressupõem
reciprocamente, então estes devem poder ser
encontrados em todas as ciências. Portanto,
devem existir duas ciências Fundamentais e
deve ser impossível sair de um pólo sem ser
impelido para o outro, fl tendência necessária
2 Caracterísitica
de todas as ciências naturais tem lugar, portan­ da produção estética
to, da natureza para o inteligente. Isso, e nada
mais, encontra-se na base do esforço para a
introdução da teoria nos fenômenos naturais. fí estética de Schelling mostra como a
O aperfeiçoamento supremo da ciência da arte prolonga no espírito o impulso Formativo
natureza consistiria na completada espiritualiza- da natureza, com a diFerença que atividade
ção de todas as leis naturais em leis do intuir e e produtividade são, no arte, acompanhadas
do pensar. Devem desaparecer completamente pela consciência, enquanto na natureza são
os fenômenos (o elemento material) e perma­ inconscientes. Na produção estética o ele­
necer apenas as leis (o elemento formal). Daqui mento objetivo e involuntário não desapare­
se conclui que quanto mais a conformidade com ce, mas, nas vestes de um "poder" estranho
leis irrompe na própria natureza, igualmente se que quase obriga o artista à sua atividade,
dissipa o véu, os próprios fenômenos se tornam une-se proFundamente com o elemento sub­
mais espirituais e, por fim, cessam completa­ jetivo e intencional.
mente. Os fenômenos óticos não formam mais
que uma geometria cujas linhas são traçadas
pela luz, e esta mesma luz é já de materialidade Que toda produção estética repouse so­
ambígua. Nos fenômenos do magnetismo de­ bre uma oposição de atividades pode-se já
saparece doravante qualquer rastro material, e concluir corretamente a partir do testemunho
dos fenômenos da gravitação, que os próprios de todos os artistas, segundo os quais eles
físicos acreditaram poder compreender apenas sõo involuntariamente impelidos à criação de
como ação diretamente espiritual, permanece suas obros e, produzindo-as, não fazem mais
exclusivamente a sua lei, cuja atuação no ma- que satisfazer um impulso irresistível de sua
crocosmo constitui o mecanismo dos movimentos natureza, porque se todo impulso procede de
celestes. uma contradição, de modo que, uma vez colo­
Perfeita teoria da natureza seria aquela cada a contradição, a atividade livre se torna
em que a natureza se dissolvesse em uma involuntária, então também o próprio impulso
inteligência. artístico deve provir de tal sentimento de contra­
Segunda pãTte - T -u n c la ç ã o e a b s o l u t i z a ç ã o e s p e c u l a t i v a d o id e a lis m o

dição interna. Todavia, esta contradição, pondo e eterna revelação que existe e o milagre que,
em movimento o homem inteiro com todas as mesmo que tivesse existido apenas uma vez,
suas forças, é sem dúvida uma contradição que deveria persuadir-nos da absoluta realidade
investe aquilo que há de último nele, a raiz do sypremo Absoluto.
de toda a sua existência, é como se nos raros F. LU. J
homens que mais do que outros são artistas Sistema do idealismo transcendental.
no sentido mais elevado da palavra, aquele
imutável idêntico sobre o qual está disposta
toda existência tivesse se despojado do véu
com o qual se circunda em outros homens e,
como é afetado imediatamente pelas coisas, 3 O verdadeiro órgão
assim também reaja imediatamente sobre
todas as coisas. Pode ser, portanto, apenas a do filosofio: o arte
contradição entre o consciente e o privado de
consciência no livre agir a pôr em movimento
o impulso artístico, assim como, por sua vez, R Filosofia da arte é para Schelling a
é apenas à arte que pode ser dado satisfazer conclusão sistemática de toda a Filoso­
nosso esforço infinito e resolver também em nós Fia, expondo a identidade originária de
a última e mais extrema contradição. consciente e inconsciente, subjetividade
Como a produção estética procede do e objetividade, liberdade e necessidade.
sentimento de uma contradição aparentemente Se a FilosoFia teórica, na determinação de
insolúvel, assim termina, segundo reconhecem sua abstração, permanece em um ponto
todos os artistas e todos aqueles que par­ de vista ainda isolado, a arte, ao contrário,
ticipam de sua inspiração, no sentimento de consegue tornar comunicável a "identidade
uma harmonia infinita. Que este sentimento originária", Fazendo-a penetrar na consciên­
que acompanha a realização seja, ao mesmo cia comum.
tempo, uma comoção, já o demonstra o fato
de que o artista atribui a perfeita solução da
contradição não a si próprio, mas a um favor Se a intuição estética é unicamente a
gratuito de sua natureza que, justamente como transcendental que se tornou objetiva, é evi­
o havia impiedosamente posto em contradição dente que a arte é o único documento que dá
consigo mesmo, depois lhe havia concedido a testemunho sempre e incessantemente àquilo
graça de libertá-lo da dor de tal contradição. que a filosofia não pode expor externamente,
Com efeito, como o artista é impulsionado in­ isto é, o privado de consciência no agir e no
voluntariamente ò produção, e até com íntima produzir, e sua identidade originária com o
resistência (daí as expressões recorrentes nos consciente. Cxatamente por isso a arte é para
antigos, como pati Deum etc., 0 em geral a o filósofo aquilo que há de supremo, porque
idéia de uma inspiração trazida por um sopro lhe abre, por assim dizer, o sancta sanctorum
estranho), da mesma forma também o objetivo onde, em união eterna e originária, quase em
sobrevêm em sua produção quase sem sua uma única chama, arde aquilo que é separado
intervenção, isto é, exatamente de modo mera­ na natureza e na história, 0 aquilo que na vida
mente objetivo. Assim como o homem marcado e no agir, como também no pensamento, deve
pelo destino não leva a termo aquilo que quer eternamente escapar. A visão da natureza que
ou que tem em mente, mas aquilo que deve rea­ o filósofo constrói artificiosamente é para a arte
lizar por causa de um destino incompreensível a originária e natural. Aquilo que chamamos de
sob cujo influxo jaz, também o artista, por mais natureza é um poema encerrado em secreta
que seja claramente intencionado, quanto ao e admirável escritura. Todavia, se o enigma
aspecto propriamente objetivo de sua criação pudesse desvelar-se, nele reconheceríamos
parece todavia encontrar-se sob o influxo de a odisséia do espírito que, por surpreendente
um poder que o separa de todos os outros engano, foge de si mesmo no ato de procurar-
homens, e o obriga a exprimir ou a representar se; com efeito, por meio do mundo sensível, o
coisas que ele próprio não vê perfeitamente sentido se mostra apenas mediante palavras, e
e cujo sentido é infinito. Ora, uma vez que o apenas por meio de névoa semidiáfana transluz
absoluto alcançar da coincidência das duas atenuadamente o país da fantasia pelo qual
atividades que escapam não é ulteriormente sempre anelamos. Toda pintura esplêndida
explicável, e todavia é um fenômeno que, nasce, por assim dizer, quando é removido
embora inconcebível, justamente por isso não o diafragma invisível que separa mundo real
pode ser negado, de modo que a arte é a única 0 mundo ideal, e não é mais que a abertura
93
Capítulo quinto - S c M I m g e a g e s t a ç ã o r o m â n t i c a d o id e a lis m o . .

por meio da qual vêm-nos ao encontro em sua próprio eu, até o ponto em que nós mesmos
plenitude as Figuras e as regiões do mundo da estávamos quando começamos a filosofar.
fantasia, o qual apenas imperfeitamente trans- Ora, se apenas a arte consegue tornar
luz no mundo real. Para o artista a natureza não objetivo, com valor universal, aquilo que o
é mais do que ela é para o filósofo, ou seja, filósofo pode expor unicamente de modo sub­
apenas o mundo ideal que aparece em meio jetivo, é de se esperar - paro tirar ainda esta
a permanentes limitações, apenas o reflexo conclusão - que a filosofia, assim como brotou
imperfeito de um mundo que existe não fora e foi alimentada pela poesia na infância do
dele, mas dentro dele. saber, e com ela todas as ciências que por
Quanto a saber de onde vem esta afi­ meio dela foram levadas à perfeição, uma vez
nidade da filosofia e da arte, apesar de sua alcançada sua plenitude, como diversos rios
oposição, as considerações precedentes já particulares confluirão novamente no oceano
deram uma resposta suficiente. universal da poesia do qual haviam saído. Qual
Concluiremos, portanto, observando o será, depois, o trâmite da volta da ciência para
que segue. a poesia não é em geral difícil de dizer, pois
Um sistema é completo quando é re­ este termo médio existiu na mitologia, antes
conduzido a seu ponto de partida. C este é que tivesse havido esta separação que agora
exatamente o caso de nosso sistema. Com parece insuperável. Todavia, como possa nascer
efeito, justamente o fundamento originário de uma nova mitologia, que não seja invenção do
toda harmonia entre o subjetivo e o objetivo, poeta particular e sim de uma geração nova
fundamento que poderia ser exposto em sua que quase represente, por assim dizer, um único
identidade originária unicamente por meio da poeta, isso é um problema cuja solução se pode
intuição intelectual, graças à obra de arte foi esperar apenas dos destinos futuros do mundo
completamente tirado para fora do subjetivo e do curso ulterior da história.
e se tornou totalmente objetivo, de modo que F. UJ. J
progressivamente conduzimos nosso objeto, o Sistema do idealismo transcendental.

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» S o 3.

Frontispício da edição de í 803 Frontispício do primeiro tomo


da obra de Schelling da opera omnia de Schelling,
Idéias para uma filosofia da natureza. publicada em 1856.
íS a p í + u l o s e x + o

■Hegel
e o idealismo absoluío

I. y\ v id a , a s o b r a s
e a g ê n e s e d o p e n s a m e n to d e E le g e i

• Nascido em Stuttgartem 1770, Georg Wilhelm Friedrich Hegel freqüentou o


ginásio da cidade natal. Em 1788 inscreveu-se na Universidade de Tübingen, onde
estudou filosofia e teologia; aqui estreitou relações de amizade
com Hõlderlin e Schelling. Terminando os estudos, Hegel foi pre- A vida § 1
ceptor em Berna (1793-1796) e em Frankfurt (1797-1799). Depois
da morte do pai, graças à herança que lhe coube, pôde dedicar-se inteiramente
aos estudos, e em 1801 dirigiu-se para Jena, onde conseguiu a docência e ensinou
primeiro como livre-docente, depois como professor extraordinário.
Em 1801 publicou a Diferença entre o sistema filosófico de Fichte eode Schelling,
tomando posição a favor do último; junto com Schelling, além disso, publicou de
1802 a 1803 o "Jornal crítico da filosofia", onde compareceram importantes ensaios
dele. Em Jena amadureceu sua primeira grande obra, a Fenomenologia do espírito,
terminada em 1806 e publicada no ano seguinte. Em dificuldades econômicas por
causa da guerra, transferiu-se primeiro para Bamberg, para dirigir sua "Gazeta"
local, depois para Nuremberg, onde foi diretor do ginásio até 1816; aí publicou a
Ciência da lógica, sua obra mais complexa. De 1816 a 1818 esteve na Universidade
de Heidelberg, onde publicou a Enciclopédia das ciências filosóficas em compêndio.
Em 1818 passou para Berlim, onde permaneceu até 1831, ano de sua morte. Foi este
o período de maior sucesso; aí viram a luz apenas as Linhas de filosofia do direito
(1821), mas foi intensa a atividade para preparar seus cursos (da história à estéti­
ca, da religião à história da filosofia), publicados postumamente pelos discípulos.
• A Fenomenologia do espírito, marcando no plano pessoal, além de no filo­
sófico, a ruptura definitiva com Schelling, inaugura a fase madura do pensamento
hegeliano. Depois da Fenomenologia, que constitui a "introdução" ao sistema
especulativo, os vértices do pensamento de Hegel são alcançados nas outras três
obras monumentais por ele publicadas em vida: A ciência da lógica (1812-1816), a
Enciclopédia das ciências filosóficas em compêndio (1817, reeditada com acréscimos
em 1827 e 1830; uma edição ulterior em três volumes, contendo os esclarecimentos
dados por Hegel no curso de suas aulas, foi publicada postuma­
mente por seus alunos entre 1840 e 1845) e as Linhas de filosofia As obras-primas
do direito (1821). hegelianas
Todas estas obras são de importância muito notável e isso e as diversas
explica porque, em tempos diversos ou em óticas diversas, cada avaliações delas
uma delas tenha sido considerada como a verdadeira obra-prima § 2-3
de Hegel. A Fenomenologia, embora com seus defeitos, é a obra
por certos aspectos mais viva e fascinante, mas a posição histórico-teórica de Hegel
emerge provavelmente com maior clareza e totalidade na Grande Enciclopédia,
em três volumes, cujas integrações dos cursos de aulas são extraordinariamente
ricas de análises e de notações ainda hoje dignas de serem meditadas a fundo.
96
Segunda parte - F u n d a ç ã o e a b s o l u t i z a ç a o e s p e c u l a t i v a d o id e a lis m o

que permaneceram inéditos, dos quais fala­


remos adiante.
Com a morte do pai, em 1799, graças
Georg Wilhelm Friedrich Hegel nasceu à herança que lhe coube, pôde se dedicar
em Stuttgart em 1770. O pai era funcionário exclusivamente aos estudos. Em janeiro de
público e a família não carecia de recursos. 1801, transferiu-se para Jena, cuja univer­
Assim, ele pôde seguir tranqüilamente os sidade era então a mais famosa. Lá haviam
estudos humanistas no ginásio de sua ci­ ensinado Reinhold e Fichte; Schelling as­
dade natal. Apaixonou-se principalmente sumira há pouco o lugar de Fichte (que se
pelos clássicos gregos, sem deixar de lado afastara pelas razões que já conhecemos); os
os latinos (dos quais gostava bem menos). irmãos Schlegel constituíram o primeiro cír­
Em Hegel, o amor pelo mundo grego au­ culo romântico. Em Jena, Hegel conseguiu
mentaria sem cessar com os anos, a ponto a docência universitária com a dissertação
de redundar em resultados verdadeiramente De orbitis planetarum, e ministrou cursos na
determinantes do ponto de vista teórico, qualidade de livre-docente a partir de 1801;
como veremos adiante. de 1805 em diante, ensinou na qualidade de
Em 1788, Hegel matriculou-se na Uni­ professor extraordinário. Em 1801 Hegel
versidade de Tübingen, onde estudou filo­ publicou seu primeiro escrito im presso,
sofia durante um biênio e teologia durante intitulado Diferença entre o sistema filo­
um triênio. O ambiente acadêmico de T ü­ sófico de Fichte e o de Schelling, tomando
bingen, substancialmente impregnado pela posição em favor do último. Além disso,
mentalidade iluminista, não o entusiasmou com Schelling, publicou entre 1802 e 1803
e não correspondeu às suas expectativas, a o “Jornal crítico de filosofia” , no qual fo­
não ser em mínimo grau. Entretanto, em con­ ram publicados importantes ensaios de sua
trapartida, estabeleceu relações de amizade autoria. Foi nesse período que amadureceu
com companheiros de estudo destinados sua primeira grande obra, Fenomenologia
a se tornarem protagonistas de primeira do espírito, que concluiu em 1806 (dizem
grandeza da cultura alemã, como Hõlderlin alguns que exatamente quando os canhões
e Schelling, que exerceram notável influência de Napoleão troavam nas proximidades de
sobre ele. Jena). A visão de Napoleão vitorioso, que
A explosão da Revolução Francesa fazia um reconhecimento a cavalo, produziu
(1789) e suas primeiras afirmações produ­ enorme impressão em Hegel: foi golpeado
ziram notável impressão sobre os estudan­ pela percepção visual daquele homem a ca­
tes de Tübingen. Hegel com partilhou seus valo que, a pouca distância, “ concentrado
ideais e conta-se que, com Schelling e H õl­ em um ponto” , como ele escreveu expres­
derlin, participou da cerimônia que celebrou samente, “ estendia seu poder e dominava o
os ideais revolucionários com o simbólico mundo inteiro” .
plantio da árvore da liberdade. Em dificuldades econômicas por causa
Esse fervoroso espírito revolucionário, da guerra, Hegel aceitou dirigir a “ Gaze­
posteriormente, suavizou-se muito. Sobretu­ ta de Bamberg” e transferiu-se para essa
do na última fase do seu pensamento, Hegel cidade, onde permaneceu somente alguns
manifestou posicionamentos conservadores meses. Com efeito, no outono desse mesmo
e, em alguns aspectos, até reacionários, ano, transferiu-se para Nuremberg, onde
embora tenha continuado a julgar a Revolu­ perm aneceu até 1816, na qualidade de
ção Francesa como etapa fundamental da diretor do ginásio. Esses anos foram muito
história. fecundos. Entre 1812 e 1816 escreveu e
Concluídos os estudos, ao invés de publicou a Ciência da lógica, sua obra mais
dedicar-se à carreira eclesiástica, Hegel complexa.
escolheu o ingrato ofício de preceptor, Em 1816, foi chamado para a Univer­
inicialmente em Berna (de 1793 a 1796) sidade de Heidelberg, onde permaneceu até
e depois em Frankfurt (de 1797 a 1799), 1818. Em Heidelberg, publicou a Enciclo­
onde reencontrou Hõlderlin. Nesse período, pédia das ciências filosóficas em compêndio.
dedicou-se a estudos de história política e Em 1818 Hegel foi para Berlim, onde
econômica, mas seus interesses teológicos permaneceu até 1831, ano de sua morte. Foi
continuaram muito vivos e suas meditações esse o período de maior sucesso. As coni-
a esse respeito revelaram-se muito fecundas, vências com o poder político permitiram-
como se pode ver em uma série de escritos lhe exercer até uma verdadeira hegemonia
Capítulo sexto - H e g e l e o ide alism o a bsolu to

cultural. Em Berlim, publicou apenas uma muito importantes para a compreensão da


obra, Elementos de filosofia do direito. M as gênese do sistema hegeliano. São eles:
teve atividade incessante na preparação de 1) R eligião po p u lar e cristianism o
suas aulas, que iam da história à estética, (fragmentos);
da religião à história da filosofia: foram 2) A vida de Jesus (1795);
publicadas por seus discípulos depois de 3) A positividade da religião cristã
sua morte e estão entre suas coisas mais (1795/1796, primeira redação);
vivas. 4) O espírito do cristianismo e seu
Desde jovem, Hegel sempre foi um destino (1798);
grande metódico, estudioso incansável e 5) Fragmento de sistema (1800) e a se­
tenaz, versado em todos os campos do saber: gunda redação de A positividade da religião
foi a antítese do gênio desregrado de certos cristã (incompleta).
românticos. A mais bela descrição de Hegel Em Jena, Hegel escreveu (mas deixou
é dada pelo próprio Hegel ao descrever inéditos) A constituição da Alemanha e o
Platão, ou melhor, como ele se representava Sistema da eticidade. Em 1801, como já disse­
Platão: “ Platão estudou muitos filósofos, mos, publicou A diferença entre o sistema de
esforçou-se longa e duramente, viajou e não Fichte e o sistema de Schelling. Entre os artigos
foi, na verdade, gênio produtivo nem poéti­ publicados no “Jornal crítico de filosofia” ,
co, mas sim mente que procedia lentamente. destacam-se principalmente dois: Relações
Ao gênio, Deus dá alguma coisa no sono. E o entre o ceticismo e a filosofia e Fé e saber.
que lhe dá no sono são, por isso, nada mais A Fenomenologia do espírito (1807)
que sonhos” . Esse retrato, na realidade, é um assinala etapa decisiva: Hegel se afasta de
perfeito auto-retrato. Hegel estudou muitos Schelling e apresenta um tipo de pensamento
filósofos, meditou, viajou; diferentemente de totalmente original, dotado de marca dora­
Fichte, de Schelling e de outros românticos, vante inconfundível.
que assinaram suas obras-prim as muito As obras seguintes à Fenomenologia
jovens, ele chegou lentamente à sua meta. são todas de notável relevo, marcando os
M as os sistemas de seus contemporâneos, pontos culminantes do pensamento hege­
aos quais ele alude, foram verdadeiramente liano. São elas (como, em parte, já recor­
como sonhos, que a manhã leva, ao passo dam os): Ciência da lógica (1812-1816),
que as idéias de Hegel passaram a constituir, Enciclopédia das ciências filosóficas em
bem ou mal, um componente fundamental compêndio (1817) e Elementos de filosofia
do pensamento ocidental. do direito (1821).
A Enciclopédia foi reeditada em 1827
e em 1830, com ampliações. Outra edição,
em três volumes, foi feita pelos alunos, de­
. O s escrito s k egelian os: pois da morte de Hegel, entre 1840 e 1845,
a s o b r a s d a ju ven tu d e com uma série de inserções, contendo os
esclarecimentos que Hegel dava nas aulas.
e a s ob ras-p rim as
E, apesar da amplitude, essa edição é a mais
d a m atu rid ad e interessante e a mais clara.
Também publicadas pelos discípulos,
as aulas levam os seguintes títulos: Aulas
Hegel foi escritor muito fecundo. Suas sobre a filosofia da história; Estética; Aulas
vastas leituras, a facilidade com que assi­ de filosofia da religião e Aulas sobre a his­
milava e memorizava os vários conteúdos tória da filosofia.
e seus interesses bastante variados deram
à produção hegeliana densidade cultural e
amplitude excepcionais. Retomando o que
já dissemos em parte e completando-o, po­ 3 D iv e rsa s av aliaçõ es
demos agora traçar um quadro dos escritos d a s ob ras-p rim as d e H egel
mais significativos do filósofo.
Entre os trabalhos juvenis do período
de Berna e de Frankfurt (1793-1800), des­ Entre todas essas obras, qual é a que
tacam-se sobretudo os escritos teológicos, melhor reflete o pensamento, o método e o
publicados por Nohl no início do século X X , espírito de Hegel? Essa pergunta não tem
e considerados por alguns estudiosos como resposta que se revista do consenso unânime
Segunda parte - F u n d a ç ã o e ab*so!w tização e s p e c u l a t iv a d o id e alis m o

dos estudiosos. Dependendo dos diferentes por causa das estreitas relações que, em
momentos históricos e culturais e das dife­ Hegel, existem entre o “ elemento lógico” e
rentes tendências dos estudiosos, respondeu- a “ linguagem” , que hoje está no centro dos
se e se responde de modo diferente a essa interesses filosóficos. Entretanto, é verdade
pergunta. Alguns já consideraram e muitos que a lógica contém tudo, porque também
ainda consideram a Fenomenologia do es­ é uma “ filosofia primeira” , ou seja, uma
pírito como a grande obra-prima de Hegel. “ m etafísica” ; porém, só contém tudo em
M as a Fenomenologia foi concebida como certa perspectiva, que é a da “ Idéia como
uma espécie de “ introdução ao sistema” e, L o go s” (como veremos), visto que a idéia
se é verdade que nela o sistema está presente, lógica ainda deve se desenvolver como
também é verdade que o está somente em “ natureza” e “ espírito” . Portanto, a lógica
esboço; além disso, ao lado de partes belís­ é somente parte do sistema, conforme decla­
simas, ela apresenta também partes bastante ração expressa do próprio Hegel.
problemáticas e rústicas. O material mais rico e interessante se
N o passado, celebrava-se principal­ encontra nos grandes cursos ministrados em
mente a Enciclopédia das ciências filosóficas Berlim e publicados postumamente. Essa
em compêndio, que apresenta o quadro riqueza é compreensível, dado que eles se
completo do pensamento e do método do fi­ ocupam da filosofia do espírito, ou seja, do
lósofo. Muitos, porém, destacaram a aspere­ momento culminante do sistema hegeliano,
za da obra, que, como compêndio, apresenta no qual está inserido, em certo sentido, todo
discurso por vezes muito denso e conciso e, o resto. N ão se deve esquecer, porém, o fato
portanto, nem sempre compreensível. M as, de que esses cursos foram em grande parte
sobretudo, destacaram que a Enciclopédia reconstruídos com base nas anotações dos
revela por demais o defeito do pensamento discípulos, tendo finalidade predominante­
hegeliano: a excessiva “ sistem aticidade” , mente didática.
a pretensão de apresentar um saber que N a realidade, todas as obras mencio­
não seja visão particular do absoluto, mas nadas, por um ou por outro aspecto, são de
a “ ciência absoluta do absoluto”, com as notável relevo, o que explica a razão pela
relativas pretensões de sabor hegemônico e qual, em tempos diversos ou em diversas
até totalitário. óticas, cada uma delas já tenha sido consi­
Houve período em que se apreciavam derada como obra-prima. Talvez não esteja
principalmente os Elementos de filosofia longe da verdade afirmar que, apesar de seus
do direito, pela peculiar concepção da defeitos, a Fenomenologia é a obra mais
ética e pela célebre doutrina do Estado (a viva e fascinante por certos aspectos. M as
concepção do “ espírito objetivo” , da qual a posição histórico-teórica de Hegel emerge
falaremos amplamente). Hoje, porém, essas principalmente na Enciclopédia, particular­
doutrinas se apresentam como notavelmente mente na grande, em três volumes, com a
obsoletas e, em sua substância, não são mais devida integração dos cursos ministrados,
aceitáveis. que, como já dissemos, são extraordinaria­
De algum tempo para cá, está no auge a mente ricos de análises e anotações, ainda
Ciência da lógica, valorizada principalmente dignas de profunda meditação.
Cãpltulo S e x tO - "H egel e o id ealism o absoluto

II. O s fu n d a m e n to s d o sis+em a

• Os núcleos conceituais a que todo o sistema hegeliano pode Qsfuncjamentos


ser referido, seguindo em concreto seu desenvolvimento até sua conceituais
plena realização, são três: §1
1) a realidade enquanto tal é espírito infinito;
2) a estrutura e a própria vida do espírito e, portanto, também o procedimento
com o qual se desenvolve o saber filosófico, é a dialética;
3) a peculiaridade desta dialética, bem diferente de todas as formas prece­
dentes de dialética, é o elemento "especulativo".
• Um ponto de vista fundamental do pensamento hegeliano é o de entender
a verdade não como substância fixa e imutável, mas como sujeito, como espírito,
isto é, como atividade, processo, automovimento. Para Hegel o espírito se autogera,
gerando ao mesmo tempo a própria determinação e superando-a completamente:
o espírito é infinito porque se atua e se realiza sempre como infinito que põe e
ao mesmo tempo supera o finito. O espírito infinito hegeliano é como um círculo
em que princípio e fim coincidem de modo dinâmico, como um
movimento em espiral em que o particular é sempre posto e A concepção
sempre dinamicamente resolvido no universal. do espírito
Esta é a novidade que Hegel ganha em relação a Fichte, no infinito.
qual a cisão de Eu e não-eu (entre sujeito e objeto, infinito e As novidades
finito) permanecia não superada. em relação
Depois, em relação à identidade originária, tematizada por a Fichte
Schelling, que parece a Hegel vazia, artificiosa e injustificada ("a e a Schelling
noite em que todas as vacas são pretas"), o espírito infinito hege­ ->§2.1-2.5
liano é um unum atque idem que se plasma de novo em figuras
sempre diversas: o absoluto é uma igualdade que continuamente se diferencia
para se reconstituir. Cada momento do real é momento necessário do absoluto,
o qual se faz e se realiza justamente em cada um e em todos estes momentos: o
real é, portanto, um processo que se autocria enquanto percorre seus momentos
sucessivos, e em que o positivo é justamente o próprio movimento como progres­
sivo auto-enriquecimento.
• O movimento próprio do espírito é o refletir-se em si mesmo, uma reflexão
circularem que Hegel distingue três momentos:
1) o ser-em-si;
2) o ser-outro ou ser-fora-de-si;
3) o retorno a si ou ser-em-si-e-por-si.
O movimento autoprodutivo do absoluto tem, portanto, um ritmo triádico,
que se repete estruturalmente em todos os níveis do real e que no próprio absoluto
dá lugar a três momentos originários e paradigmáticos:
1) a idéia em si, que é logos como racionalidade pura (objeto A circularidade
da lógica);
2) a natureza, que é a idéia fora de si, isto é, alienada (objeto do espírito
da filosofia da natureza); conforme
3) o espírito em geral, que é a idéia que, a partir da alienação, odialético
movimento
retorna a si e se torna em si e por si (objeto da filosofia do espírito). -> § 2.6-2.8
Tudo é, portanto, desenvolvimento da idéia, que suporta
e supera sua negação, e a famosa frase de Hegel "tudo aquilo
que é real é racional e tudo aquilo que é racional é real" indica justamente que a
realidade é o próprio desenvolver-se da idéia, e vice-versa.
• Segundo Hegel, o único método em grau de garantir o conhecimento cien­
tífico do absoluto, e de elevar assim a filosofia a ciência, é o método dialético, em
Segunda parte - F u n d a ç ã o e a b s o lu t iz a ç a o e s p e c u la t iv a d o idealism o

virtude do qual a verdade pode finalmente receber a forma rigorosa do sistema da


cientificidade; ele se remete aqui à dialética clássica, conferindo porém movimen­
to e dinamicidade às essências e aos conceitos universais que, já
„ descobertos pelos antigos, haviam, contudo, permanecido com
0s três eles em uma espécie de repouso rígido, quase solidificados. O
momentos coração da dialética torna-se assim o movimento, e precisamente
° o movimento circular ou em espiral, com ritmo triádico.
ít? Os três momentos do movimento dialético são:
1) A tese, que constitui o momento abstrato
o intelecto é a faculdade que abstrai conceitos determinados e
se detém nessa de-terminação própria do finito, considerando erroneamente que
as separações e de-finições assim obtidas sejam definitivas.
2) A antítese, que constitui o momento dialético (em sentido estrito) ou ne­
gativamente racional; o primeiro passo além dos limites do intelecto é realizado
negativamente pela razão, removendo a rigidez dos produtos intelectivos e levando
à luz a série de contradições e de oposições que caracterizam o finito: porém, uma
vez que todo membro de uma oposição é afetado por "carência", esta última é a
mola que impele a razão a uma síntese superior.
3) A síntese, que constitui o momento especulativo ou positivamente racio­
nal; aqui a razão capta a unidade das determinações contrapostas, ou seja, capta
dentro de si o positivo emergente da síntese dos opostos e se mostra ela própria
como totalidade concreta.
• O momento "especulativo" é, portanto, a reafirmação do positivo que se
realiza mediante a negação do negativo próprio das antíteses dialéticas e, portanto,
é uma elevação do positivo das teses a um nível mais alto. Para Hegel, com efeito,
a negação especulativa não é uma aniquilação total, nem uma
O momento reserva definitiva, mas é propriamente uma conservação daquilo
especulativo, que é negado, e sua elevação a um nível superior é um seu "en-
a "Aufhebung"
verdadeiramento" e uma sua "positivização" (ele usa os termos
e a "proposição
especulativa" aufheben e aufhebung, que em alemão têm o duplo significado
—> § 4 de "erguer, pôr à parte" e "conservar").
O especulativo é, portanto, o vértice ao qual chega a razão, a
dimensão do absoluto. Por conseguinte, as proposições filosóficas
devem ser proposições especulativas, que exprimem o movimento dialético com o
qual sujeito e predicado trocam entre si as partes de modo a constituir uma iden­
tidade dinâmica. Enquanto a proposição da velha lógica permanece fechada nos
limites rígidos do intelecto, a proposição especulativa é estruturalmente dinâmica
como a realidade que ela exprime e como o pensamento que a formula.

4 „ O s fu n d a m e n to s ra tudo o que os seus antecessores haviam


d o p e n s a m e n to K e0 elia n o
dito a esse respeito, especialmente Fichte e
Schelling, como veremos);
2) a estrutura, ou melhor, a própria
O m apa completo das idéias funda­ vida do espírito e, portanto, também o
mentais do hegelianismo é bastante amplo, procedimento segundo o qual se desenvolve
dado que se trata de uma das filosofias o saber filosófico, é a dialética (poder-se-ia
mais ricas e mais complexas (e, podemos dizer também que a espiritualidade é diale-
dizer também, uma das mais difíceis), mas ticidade);
os pontos básicos aos quais tudo pode ser 3) a peculiaridade dessa dialética, que
reconduzido são três: a diferencia claramente de todas as formas
1) anteriores de dialética, é aquilo que Hegel
a realidade enquanto tal é espírito
infinito (onde, por “ espírito” , entende-se chamou (em terminologia técnica) de ele­
algo que, ao mesmo tempo, assume e supe­ mento “especulativo”, que, como veremos,
Cãpítulo S e X tO - ' H e g e l e o i d e a l i s m o a b s o l u l o

constitui a verdadeira marca do pensamento


do filósofo.
A clarificação desses três pontos in­
dicará o objetivo ou o ponto terminal que
Hegel se propôs alcançar no seu filosofar, e
o caminho por ele seguido para alcançá-lo.
Entretanto, é evidente que sua plena
com preensão — com o disse justam ente
Hegel — só poderá ocorrer seguindo con-
cretamente o desenvolvimento do sistema
até sua conclusão, ou seja, percorrendo todo
o caminho até seu ponto final (com efeito,
como diz Hegel, em filosofia não existem
atalhos).

yA r e a l i d a d e c o m o e s p í r i t o :
d e te r m in a ç ã o prelim in ar
d a n o ç ã o K egelian a
d o espírito

Georg Wilhelm Irieilnch Hegel ( 17 7 0 - 1S ■>I )


E O ; A r e a l i d a d e n ã o é ^ s u b s + a n c i c", cLiboron a forma mais complexa
m a s “s u jeito ^ o w “e s p írito ^ e mais completa tle idealismo,
na qual procurou interpretar a totalidade
tios fatos c da historia em função
A afirmação fundamental da qual deve­ da identidade panlogistica de "real” e de “racional",
mos partir para entender Hegel é que a rea­ expressa pelo seu celebre mote:
lidade e o verdadeiro não são “ substância” "tudo o que e real e racional,
(ou seja, um ser mais ou menos enrijecido, tudo o que e racional e real".
como tradicionalmente era considerado no
mais das vezes), e sim “ sujeito” , ou seja,
“ pensamento” , “ espírito” . Para Fichte, o Eu põe-se a si mesmo,
Hegel acrescenta ainda que essa é ape­ enquanto é precisamente pura atividade
nas uma aquisição recente, que constitui autoponente e (inconscientemente) opõe a
peculiaridade própria dos tempos modernos. si o não-eu, ou seja, um limite, que depois
Trata-se, com efeito, de aquisição que procura superar dinamicamente. Todavia,
só se tornou possível com a descoberta nesse processo, o Eu de Fichte não alcança
kantiana do “ Eu penso” e dos diversos re- seu termo, visto que o limite é removido e
pensamentos do criticismo, particularmente afastado ao infinito, mas nunca inteiramente
das contribuições do idealismo de Fichte e “ superado” .
de Schelling (que, aliás, Hegel tende estra­ Esse infinito, que se pode representar
nhamente a diminuir ou a subestimar, em como uma reta que se estende sem limites,
benefício próprio). constitui, para Hegel, “ mau infinito” ou
“ falso infinito” , permanecendo processo ir-
resoluto, visto que nunca alcança plenamen­
E O C W + ic a a F ic k t e
te seu próprio fim ou objetivo, e visto que o
ser e o dever ser permanecem perenemente
Dizer que a realidade não é substân­ cindidos em uma espécie de corrida sem fim.
cia, mas sujeito e espírito, significa dizer Conseqüentemente, diz Hegel, Fichte não
que é “ atividade” , que é “ processo” , que consegue mais restaurar a situação de Eu e
é “ movimento” , ou, melhor ainda, que é não-eu, sujeito e objeto, infinito e finito.
“ automovimento” . Até aí, porém, Fichte já Portanto, permanece em Fichte uma
havia avançado, como já vimos. M as Hegel oposição ou antítese estrutural não supera­
vai mais além. da, que, porém, deve ser superada.
Segunda patte - F w n d a ç a o e absoluti^atpão e s p e c u la tiv a d o idealism o

C r ít ic a a S c k e llin g KOI A n o va c o n c e p ç ã o h e g e lia n a d o


espí^i+o c o m o infini+o

Uma tentativa de superar essas cisões


já fora feita por Schelling com sua filosofia Por conseguinte, a posição de Hegel
da identidade, que, num primeiro momento, é clara. O espírito se autogera, gerando ao
Hegel considerou como ponto de vista mais mesmo tempo sua própria determinação, e
elevado do que o de Fichte. M as a concepção superando-a plenamente.
da realidade como identidade originária de O espírito é infinito, não de modo pura­
Eu e não-eu, sujeito e objeto, infinito e finito, mente exigencial, como queria Fichte, mas de
como Schelling defendia, logo pareceu para modo a sempre atuar e se realizar, como con­
Hegel vazia e artificiosa, porque na realidade tínua colocação do finito e, ao mesmo tempo,
não deduzia nem justificava seus conteúdos, como superação do próprio finito. Enquanto
que já pressupunha como dados, e depois os “ movimento” , o espírito produz pouco a
reduzia sob o manto da “ indiferença” ou da pouco os conteúdos determinados e, portan­
“ identidade” abstrata e extrínseca. to, negativos (omnis determinatio est negatio,
Essa concepção pareceu a Hegel a já dizia Spinoza). O infinito é o positivo que
“ dissolução de tudo o que é diferenciado se realiza mediante a negação daquela nega­
e determinado” , a “ precipitação” de todas ção que é própria de todo finito; é a retirada
as diferenças “ no abismo da vacuidade” , e a superação do finito sempre a se realizar.
porque não se tratava de conseqüência de Tomado em si mesmo, o finito tem
desenvolvimento coerente e, portanto, não existência puramente “ ideal” ou abstrata,
se justificava a si mesma. no sentido de que não existe por si só, contra
Assim compreendemos a célebre afir­ o infinito ou fora dele — e isso, diz Hegel,
mação da Fenomenologia (que provocou constitui “ a proposição principal de toda
o rompimento da amizade entre Hegel e filosofia” .
Schelling), segundo a qual o absoluto de O espírito infinito hegeliano é, então,
Schelling é como “ a noite em que todas as como o círculo, no qual princípio e fim
vacas são negras” , bem como de que a filo­ coincidem de modo dinâmico, ou seja, como
sofia da identidade de Schelling é “ ingênua movimento em espiral no qual o particular é
e fátua” . sempre posto e sempre resumido dinamica­

Hegel ensina
mi l'nirersidadc
de Berlim.
Inirtiailar
de uma litografia
dc K. Kuglcr.
Capítulo sexto - -f-legel e o i d e a l i s m o a b s o l u t o

mente no universal; o ser é sempre resumido O real, portanto, é um processo que se


no dever ser e o real é sempre resumido no autocria enquanto percorre seus momentos
racional. Essa é a novidade que Hegel con­ sucessivos, e no qual o positivo é o próprio
quista, permitindo-lhe superar claramente m ovimento, que é auto-enriquecimento
Fichte. progressivo (de planta a botão, de botão a
Analogamente, também é compreensí­ flor, de flor a fruto).
vel a novidade que permitiu a Hegel superar
igualmente Schelling. O espírito não é unum
atque idem, como algo que, subreptícia e c a o p r o c e s s o t r iá d ic o d o e s p ír it o
extrinsecamente, se impõe a um material e m se rv H d o ^ c irc u la r^ d ia lé + ic o
diferente, e sim “ unurn atque idem que se
plasma em figuras sempre diversas” , e não a Todavia, ainda há outro ponto muito
repetição de alguma coisa idêntica, privada importante a destacar. Hegel salienta que o
de diversificação real. O espírito hegeliano, movimento próprio do espírito é o “ movi­
portanto, é igualdade que se reconstitui mento do refletir-se em si mesmo ”; trata-se
continuamente, ou seja, unidade-que-se-faz do sentido de “ circularidade” de que já
precisamente através do múltiplo. N essa falamos. E Hegel distingue três momentos
concepção, a quietude é somente “ o inteiro nessa “ reflexão circular” :
do movimento” . Sem movimento, a quietu­ 1) primeiro momento, que ele chama
de seria a quietude da morte, não da vida. A o do ser “ em si” ;
permanência não é a fixidez, que é sempre 2) segundo momento, que constitui o
inércia, e sim a verdade do dispersar. “ ser outro” ou “ fora de si” ;
3) terceiro momento, que constitui o
“ retorno a si” ou o “ ser em si e para si” .
w r m O e s p ír it o c o m o p r o c e s s o O “movimento” ou o “processo” auto-
q u e s e a u t o c r ia e m s e n tid o g lo b a l produtivo do absoluto tem portanto ritmo
triádico, que se expressa em um “ em si” , em
Estamos agora em condições de enten­ um “ fora de si” e em um “ para si” (ou “ em
der que, para Hegel, tudo o que dissemos si e para si” ).
vale para o absoluto e também para cada Vejamos um exemplo particular, apre­
momento particular da realidade (ou seja, sentado pelo próprio Hegel: “ Se [...] o
vale para o real, tanto em seu todo como embrião é em si o homem, ele,entretanto,
em suas partes), porque o absoluto hege­ não o é para si; para si só o é como razão
liano é de tal forma “ com pacto” que exige d esd ob rad a” [...], e somente essa é sua
necessariamente a totalidade das partes, realidade efetiva. A semente é em si a plan­
sem nenhuma exclusão. Cada momento do ta, mas ela deve morrer como semente e,
real é momento indispensável do absoluto, portanto, sair fora de si, a fim de poder se
porque este se faz e se realiza em cada um tornar, desdobrando-se, a planta para si (ou
e em todos esses momentos, de modo que em si e para si). E os exemplos poderiam se
cada momento torna-se absolutamente ne­ multiplicar à vontade, visto que esse pro­
cessário. Vejamos um exemplo, tomando cesso se verifica em todo momento do real,
um botão, a relativa flor e o fruto que daí como dissemos.
deriva. N o desenvolvimento da planta, o Todavia, em nível elevado, isso tam­
botão é de-terminação e, portanto, negação. bém se verifica no caso do real visto como
M as essa determinação é tirada (ou seja, su­ “ inteiro” . Assim, fica claro por que Hegel
perada) pelo florescimento, o qual, porém, fala do absoluto também como de círculo
enquanto nega essa determinação, também de círculos.
a “ verifica” , enquanto a flor é a positivida­ Visto como inteiro, o “ círculo” do
de do botão. Por seu turno, porém, a flor absoluto também marca seu ritmo pelos
é de-terminação, o que, portanto, implica três momentos já especificados (o em-si, o
negatividade, que por sua vez é tirada e fora-de-si e o retorno-a-si), momentos que
superada pelo fruto. E, nesse processo, são respectivamente denominados “ idéia” ,
todo momento é essencial para o outro e a “ natureza” e “ espírito” (em sentido forte). E
vida da planta é esse próprio processo, que como no processo que leva do germe ao ho­
pouco a pouco põe os vários conteúdos, ou mem, através do desdobrar-se do primeiro,
seja, os vários momentos, e pouco a pouco é sempre a mesma realidade que se desen­
os supera. volve, concretizando-se e então voltando a
104
Segunda parte - F u n d a ç ã o e a b s o lu t iz a ç a o e s p e c u la t iv a d o ide alism o

si mesma, e o mesmo ocorre também com fato de que, para Hegel, qualquer coisa que
o absoluto: a idéia (que é o logos, a racio­ exista ou aconteça não está fora do abso­
nalidade pura e a subjetividade em sentido luto, mas é um insuprimível momento dele.
idealista, como veremos mais amplamente O mesmo significado tem a afirmação
adiante) tem em si o princípio do seu próprio de que “ ser e dever ser coincidem” : o que é,
desenvolvimento e, em função dele, primeiro é o que devia ser, porque tudo o que existe
se objetiva e se faz natureza, “alienando- é precisamente momento da idéia e do seu
se ”, e depois, superando essa alienação, desenvolver-se (o que acontece é sempre o
retorna a si mesma. Por isso, Hegel pode que merecia acontecer).
dizer perfeitamente que o espírito é a idéia Doravante torna-se claro também o
que se realiza e se contempla por meio de chamado “ panlogismo” hegeliano, ou seja,
seu próprio desenvolvimento. a afirmação de que “ tudo é pensamento” .
E compreensível, portanto, a tríplice Isso não significa que todas as coisas têm
distinção da filosofia hegeliana em: pensamento como o nosso (ou consciência
1) Lógica; como a nossa), e sim que tudo é racional en­
2) Filosofia da natureza; quanto é determinação de pensamento. Essa
3) Filosofia do espírito. afirmação, explica Hegel, corresponde à afir­
A primeira estuda a “ idéia em si” , a mação dos antigos segundo a qual o Nous
segunda o seu “ alienar-se” e a terceira o (ou seja, a Inteligência) governa o mundo.
momento do “retorno a si” . Eis um esquema
de ilustração e resumo, que pouco a pouco
E 3 o N e g a t i v o ” c o m o m o m en to
esclareceremos:
d ia lé t ic o q w e le v a o e s p ír it o a o p o sitivo

1. Idéia em si (= logos), estudada Resta o último ponto a esclarecer: a


pela Lógica importância desempenhada pelo “ negativo”
2. Idéia fora de si (= natureza), na concepção hegeliana do espírito.
Absoluto estudada pela Filosofia da A vida do espírito não é a que se es­
(= idéia) natureza. quiva da morte, e sim aquela que “ suporta
3. Idéia que retorna a si ou em si a morte e nela se mantém” .
e para si (= espírito), estudada O espírito “ só conquista sua verdade
pela Filosofia do espírito com a condição de encontrar a si mesmo na
devastação absoluta” , diz Hegel, acrescen­
tando que ele é essa potência e essa força
precisamente porque “ sabe olhar o negativo
WrhM y \ lg u n s corolários e s s e n c ia is face a face e deter-se junto dele, transfor­
d o p e n s a m e n t o hec/elian o mando o negativo no ser” .
Todavia, para compreendermos esse
Concluamos esta caracterização pre­ ponto absolutamente fundamental, devemos
liminar do absoluto hegeliano com alguns passar para a explicação da dialética e do
corolários importantes e famosos. novo significado que ela assume.
N a Filosofia do direito, Hegel escreveu:
“Tudo o que é real é racional e tudo o que é
racional é real” . Isso significa que a idéia não
d ialética
é separável do ser real e efetivo, e sim que o
real ou efetivo é o mesmo desenvolver-se da d oo r e a l
c o m o l ei s u p r e m a d
idéia e vice-versa. Para atenuar o sabor do e com o processo
paradoxo de suas afirmações (cujas implica­
d o p e n s a m e n t o filosófico
ções veremos mais adiante), Hegel explicou
que essa sua afirmação diz de modo filosó­
fico a mesma coisa que se diz em religião
quando se afirma que existe um governo E D O m é t o d o q u e t o m a p o s s ív e l
divino do mundo e, portanto, que aquilo o c o n k e c im e n t o d o a b s o lu t o
que acontece é querido por Deus, e que Deus
é o que existe de mais real. Contudo, só se M uito se discutiu sobre as relações
compreende perfeitamente o sentido dessa entre Hegel e o romantismo. A concepção
afirmação importantíssima considerando o hegeliana da realidade e do espírito nasce
Cãpltulo S e X tO - "H e g e l e o id e a lis m o a b s o lu to

M as H egel su pera o rom an tism o


principalmente no que se refere ao aspecto
■ Idéia. A "idéia" é para Hegel o metodológico.
term o mais idôneo para exprim ir em Hegel polemiza vivamente contra a
geral o absoluto, isto é, o Deus uno pretensão romântica de captar imediata­
e trino do cristianismo, em sua tota­ mente o absoluto. Paradigmática é sua po­
lidade. A idéia absolutase autogera, lêmica contra a “ fé” , que, como já vimos,
gerando ao mesmo tempo a própria para Jacobi era a via de acesso imediata
determinação e superando-a com­
pletamente: ela se atua e se realiza para o absoluto. Para Hegel, ao contrário,
sempre como infinito que põe e ao a captação da verdade é “ absolutamente
mesmo tempo supera o finito. condicionada pela m ediação” e é “ falso
A idéia absoluta hegeliana é assim que exista um saber imediato, um saber
com o um círculo em que princípio desprovido de mediação” . Os românticos
e fim coincidem de modo dinâmico, têm razão ao afirmarem a necessidade de ir
ou melhor, como um m ovim ento em além dos limites próprios da atividade do
espiral em que o particular é sempre “ intelecto” , que, com seus procedimentos
posto e sempre dinamicamente resol­ analíticos ou com suas técnicas dedutivas,
vido no universal.
O automovimento da idéia absoluta não sabe ir além do finito e, portanto, não
é, com efeito, o movimento do refle­ pode captar a realidade e o verdadeiro, que
tir-se dentro de si mesma, refle­
é uma são o infinito. Todavia, o infinito não se
xão circular em que Hegel distingue capta com o sentimento, com a intuição ou
três momentos: com a fé, que são algo de não-científico.
1) o ser-em-si; É preciso, portanto, ir além da “ ame-
2) o ser-outro ser-fora-de-si;
ou todicidade” do sentimento e do entusiasmo,
3) o retorno a si ser-em-si-e-por-si.
ou e encontrar um “ método” que torne possível
O movimento autoprodutivo da idéia
absoluta tem , portanto, um ritmo o conhecimento do absoluto, precisamente
triádico, que se repete estrutural­ de modo “ científico” . A função que Hegel
atribui a si próprio em relação aos român­
m ente em todos os níveis do real
e que na própria idéia absoluta dá ticos ou aos idealistas anteriores, portanto,
lugar a três momentos originários e é a de “ operar a elevação da filosofia a ciên­
paradigm áticos: cia” , através da descoberta e da aplicação
1) a idéia em si, que é logos como de um “ novo m étodo” . Esse método, capaz
racionalidade pura; de levar além dos limites do “ intelecto” , a
2) a natureza, que é a idéia fora de si, ponto de garantir o conhecimento “científi­
isto é, objetivada e alienada;
3) o espírito em geral, que é a idéia co ” do infinito (do real em sua totalidade),
que retorna a si a partir da alienação Hegel o encontra na dialética. A dialética,
e se torna em si e por si. portanto, torna-se o instrumento com o qual
Tudo é, portanto, desenvolvim ento o filósofo dá forma aos lemas românticos
da idéia, e a famosa frase de Hegel informes e com o qual considera poder
segundo a qual "tudo aquilo que é apresentar o verdadeiro na forma rigorosa
real é racional e tudo aquilo que é que cabe ao verdadeiro, ou seja, no sistema
racional é real" indica justamente que da cientificidade.
a realidade é o próprio desenvolver-se
da idéia, e vice-versa.
E 9 D if e r e n ç a s e n tre
a d ia lé tic a h e g e lia n a
e a c lá s s ic a d o s g r e g o s

da visão romântica, mas Hegel leva-a a seu


termo e, assim, a conclui e então a supera. A dialética, como sabemos, é descober­
O Streben infinito (ou seja, o “ tender” ) ta dos antigos. Nascida no âmbito da escola
romântico, por meio do conceito hegeliano eleática (sobretudo com Zenão), alcançara
do espírito como “ movimento-do-refletir-se- seu ponto culminante com Platão. N a época
sobre-si-mesmo” , resolve-se e identifica-se moderna, Kant retomou-a em sua Crítica da
em sentido positivo, porque é resgatado de razão pura, mas reduzira-a a desenvolvimen­
sua indeterminação, vindo a coincidir com to sistemático de antinomias destinadas a
o auto-realizar-se e o autoconbecer-se do permanecer insolúveis, privando-a, portan­
próprio espírito. to, de valor cognoscitivo.
Segunda parte - F u n d a tp ã o e a b s o lu t i s a ç a o e s p e c u la tiv a d o idealism o

coisa particular ao conceito universal. En­


tretanto, para Hegel, as idéias platônicas e
f ■ D ia lé tic a . O único m étodo em 1 os conceitos aristotélicos ficaram, por assim
dizer, bloqueados em rígida quietude e quase
fJ
| g ra u de g a ra n tir o co nh ecim en to j
| científico do absoluto, e de elevar solidificados. Como, porém, a realidade é
| assim a filosofia a ciência, é, segundo devir, é movimento e dinamismo, é evidente
| método dialético,
Hegel, o por meio J que, para ser instrumento adequado, a dialé­
í; do qual a verdade pode finalm ente | tica deveria ser reformada nesse sentido.
| forma
receber a sistema
rigorosa do § É preciso, portanto, imprimir movi­
I da cientificidade. f mento às essências e ao pensamento uni­
| A dialética nascera no am biente da |
f Escola de Eléia, principalm ente com j
versal já descobertos pelos antigos. Escreve
| Zenão, e na grecidade havia alcan- í Hegel: “ Por meio desse movimento, os puros
| çado seus vértices com Platão; na era 3 pensamentos tornam-se conceitos, e só então
| m oderna fora retom ada por Kant, I são o que verdadeiramente são: automovi-
| que porém a privara de verdadeiro j mentos, círculos [...], essências espirituais.
Í valor cognoscitivo. Hegel se remete | Esse movimento das essências puras cons­
à dialética clássica, mas conferindo J titui em geral a natureza da cientificidade” .
l movim ento e dinam icidade às essên- J
1 cias e aos conceitos universais que, J
í já descobertos pelos antigos, haviam | m j A e s t r u t u r a t r iá d i c a
| porém perm an ecid o com eles em * d o p r o c e s s o d ia lé t ic o
| uma espécie de repouso rígido, quase f
| solidificados. O coração da dialética 4 O coração da dialética torna-se, assim,
| movimento,
se torna assim o e preci-
§ o movimento. E o motivo já está claro para
| movimento circular em |
samente o ou
| espiral, com ritmo triádico. 3 nós, pois sabemos que o movimento é a pró­
pria natureza do espírito, é o “ permanecer
| Os três m om entos do m ovim ento J
1 dialético são: | do dispersar” , é o cerne do real. Consideran­
I \) a tese, que é o momento abstrato f do as razões já exemplificadas quando fala­
| ou intelectivo; I mos do espírito, esse movimento dialético
| 2) a antítese, que é o momento dia- J nada mais poderá ser senão uma espécie de
j? lético (em sentido estrito) ou negati- | movimento circular ou movimento espiral
| vãmente racional; | com ritmo triádico.
| 3) a síntese, que é o momento especu- ^ A compreensão dos “ três lados” ou
| Iativo ou positivamente racional. j
momentos do movimento dialético nos le­
vará a compreender o ponto mais íntimo, o
verdadeiro fundamento de Hegel. Esses três
momentos são geralmente indicados com os
A redescoberta dos gregos permitiu termos tese, antítese e síntese, mas de modo
o relançamento da dialética como forma simplificado, pois Hegel os usa poucas vezes,
suprema de conhecimento, como Platão já preferindo linguagem muito mais complexa
fizera. (E, entre outras coisas, cabe precisa­ e articulada:
mente a Hegel o mérito de ter reconhecido os 1) o primeiro momento Hegel chama
diálogos chamados “ dialéticos” de Platão, de “ o lado abstrato ou intelectivo” ;
ou seja, o Parmênides, o Sofista e o Filebo, 2) o segundo momento, por seu turno,
que antes dele eram deixados de lado, mas denominava-se “ o lado dialético (em sentido
que depois dele, em conseqüência, passaram estrito) ou negativamente racional
a ser reconhecidos como fundamentais.) 3) o terceiro momento é chamado de “ o
Entretanto, em bora existam pontos lado especulativo oupositivamente racional” .
de contato muito notáveis entre a dialética Exam inem os detalhadam ente esses
clássica e a hegeliana, existe também, ao três pontos.
mesmo tempo, uma diferença essencial.
Os antigos, diz Hegel, deram grande
passo no caminho da cientificidade, en­ WWtW O p r im e ir o m o m en to
quanto souberam se elevar do particular ao d a d i a l é t i c a (t e s e )
universal. Platão mostrara a deficiência do
conhecimento sensível como mera “ opinião” O intelecto é substancialmente a facul­
e se elevara ao mundo das idéias. Aristóteles dade que abstrai conceitos determinados e
acrescentou o caminho para relacionar cada que se detém na determinação dos mesmos.
Cãpítulo Sexto - E le g e i e o ide alism o a bsolu to

Ele distingue, separa e de-fine, cristalizan­ ligação com ele (não podemos pensar o uno
do-se nessas separações e de-finições, que de modo rigoroso e adequado sem a relação
considera de certa forma definitivas. que o liga com os muitos), podendo-se dizer
Escreve Hegel na Grande Enciclopédia: o mesmo para os conceitos de “ semelhante”
“ A atividade do intelecto, em geral, consiste e “ dessemelhante” , “ igual” e “ desigual” ,
em conferir ao seu conteúdo a forma da uni­ “ particular” e “ universal” , “ finito” e “ in­
versalidade: mais precisamente, o universal finito” , e assim por diante. Aliás, cada um
posto pelo intelecto é universal abstrato, desses conceitos dialeticamente considera­
que, como tal, é mantido solidamente con­ dos parece inclusive “ transformar-se” no
traposto ao particular, mas que, desse modo, próprio oposto e como que “ dissolver-se”
ao mesmo tempo, também é determinado nele.
por seu turno como particular. À medida que Por isso, escreve Hegel: a dialética “ é
opera em relação a seus objetos separando e esse ultrapassar imanente no qual a unilate-
abstraindo, o intelecto é o contrário da intui­ ralidade e a limitação das determinações do
ção imediata e da sensação, que, como tal, intelecto se expressam por aquilo que são,
relaciona-se inteiramente com o concreto e isto é, como sua negação. Todo finito é su­
nele permanece parad a.” peração de si mesmo. A dialética, portanto,
A potência abstrativa do intelecto é é a alma motriz do procedimento científico,
grande e admirável, e Hegel não poupa sendo o único princípio pelo qual o conteú­
elogios em relação ao intelecto, no sentido do da ciência adquire um nexo imanente
de que ele é a potência que destaca e afas­ ou uma necessidade; assim, em geral, é nele
ta do particular, elevando ao universal. que se encontra a verdadeira elevação, não
Assim, a filosofia não pode prescindir do extrínseca, para além do finito (isto é, para
intelecto e de sua obra, devendo, ao con­ além de cada simples determinação do fini­
trário, começar exatamente pelo trabalho to)” . Hegel tem o cuidado de salientar que
do intelecto. o momento dialético não é absolutamente
Entretanto, o intelecto como tal apre­ prerrogativa do pensam ento filosófico,
senta conhecimento inadequado, que per­ mas está presente em todo momento da
manece encerrado no finito (ou, no m áxi­ realidade: “ Ora, por mais que o intelecto
mo, vai até o “ falso infinito” ), no abstrato comumente solicite a dialética, não se deve
cristalizado, e, por conseguinte, torna-se pensar de modo algum que a dialética seja
vítima das oposições que ele próprio cria, algo presente somente na consciência filosó­
distinguindo e separando. O pensamento fica; ao contrário, o procedimento dialético
filosófico, portanto, deve ir além dos limites pode-se encontrar em toda outra forma de
do intelecto. consciência e na experiência geral. Tudo
aquilo que nos circunda pode ser pensado
E U O s e g u n d o m o m e n to como exemplo da dialética. N ós sabemos
d a d i a l é t i c a (a n t ít e s e ) que todo finito, ao invés de ser termo fixo
e último, é mutável e transeunte; isso nada
O ir além dos limites do intelecto é mais é do que a dialética do finito, mediante
peculiaridade da “ razão” , que tem um mo­ a qual o finito, enquanto em si, é diferente
mento “ negativo” e um “ positivo” . de si, sendo impelido também para além
O momento negativo, que Hegel cha­ daquilo que é imediatamente e transfor­
ma de “ dialético” em sentido estrito (dado mando-se no seu oposto.” (A semente deve
que, em sentido lato, “ dialética” é o con­ transformar-se no seu oposto para tornar-se
junto dos três momentos que descrevemos), broto, ou seja, deve morrer como semente;
consiste em remover a rigidez do intelecto e a criança deve morrer como tal e transfor­
de seus produtos. M as fluidificar os concei­ mar-se no seu oposto para tornar-se adulto,
tos do intelecto comporta o esclarecimento e assim por diante.) O negativo que emerge
de uma série de contradições e oposições de do momento dialético, em geral, consiste
vários tipos, sufocadas no enrijecimento do na “ falta” que cada um dos opostos revela
intelecto. Desse modo, toda determinação quando se defronta com o outro. M as é
do intelecto transforma-se na determinação exatamente essa “ falta” que se revela como
contrária (e vice-versa). a mola que impele, para além da oposição,
O conceito de “ uno” , tão logo é ex­ para uma síntese superior, que é o momento
traído de sua rigidez abstrata, requer o especulativo, ou seja, o momento culminan­
conceito de “ m uitos” , mostrando estreita te do processo dialético.
Segunda pãTte - F u n d a ç ã o e a b s o lu t iz a ç ã o e s p e c u la t iv a d o ide alism o

Uma gravura do século XVI,


que representa
a Universidade de Heidelberg
(em primeiro plano).
Neste Ateneu Hegel publicou
a Enciclopédia.

E a O te^ceii^o m o m e n to d a d i a l é t i c a se resolve, o triunfo é também a quietude


o u m o m e n to e s p e c u la t i v o (s ín t e s e ) transparente e simples” .

O momento “ especulativo” ou “ positi­


vamente racional” é o que capta a unidade 4 7^ d im e n s ã o
das determinações contrapostas, ou seja, o d o “e s p e c u l a t i v o ”,
positivo emergente da resolução dos opostos
(a síntese dos opostos). Escreve Hegel: “ Em o s i g n i f i c a d o d o “a u f k e b e n w
seu verdadeiro sentido, o elemento espe­ e a “p r o p o s iç ã o
culativo é aquilo que contém em si como e sp e c u la tiv a ”
superadas aquelas oposições nas quais se
detém o intelecto (e, portanto, também a
oposição entre subjetivo e objetivo), e justa­
mente dessa forma mostra-se como concreto e h o m o m e n to “e s p e c u l a t i v o ”

e como totalidade” . c o m o n o v id a d e d a d ia lé tic a h e g e lia n a

A dialética, assim como a realidade


em geral e, portanto, o verdadeiro, é esse Como já dissemos, o pensamento antigo
movimento circular que descrevemos e que já adquirira o momento primeiro, ou seja,
jam ais tem repouso. Hegel chega até a com­ o nível do intelecto e, em ampla medida,
pará-lo a uma espécie de “ triunfo báquico” , também o segundo momento, ou seja, o
em uma passagem que vale a pena ler como racional-negativo ou dialético, como, por
conclusão: “ Desse modo, o verdadeiro é o exemplo, nos célebres argumentos de Zenão
triunfo báquico, onde não há membro que de Eléia, mas ignorara o momento “ espe­
não esteja ébrio; e, como cada membro, culativo” , e os próprios idealistas anterio­
enquanto se isola, imediatamente também res a Hegel não o identificaram bem. Ele,
Capítulo sexto - -H eg el e o idealism o absolu to

portanto, constitui descoberta tipicamente O especulativo constitui o ponto cul­


hegeliana. minante a que chega a razão, a dimensão do
O momento do “ especulativo” é a rea­ absoluto. N a Grande Enciclopédia, Hegel
firmação do positivo que se realiza mediante vai até o ponto de comparar o “ especula­
a negação do negativo próprio das antíteses tivo” (que é o “ racional” em seu mais alto
dialéticas e, portanto, é a elevação do positi­ nível) àquilo que no passado era chamado
vo das teses a um plano mais elevado. Se, por “ místico” , ou seja, aquilo que capta o ab­
exemplo, tomarmos o puro estado de ino­ soluto indo além dos limites do intelecto
cência, este representa um momento (tese) que raciocina.
que o intelecto cristaliza em si e ao qual
contrapõe, como antítese, o conhecimento
e a consciência do mal, que é a negação do K >1 "proposição"ou "juízo"
no s e n t id o t r a d ic io n a l
estado de inocência (a sua antítese); ora, a
e n o n o v o s e n t id o e s p e c u la t i v o
virtude é exatamente a negação do negativo
da antítese (o mal) e a recuperação do po­
sitivo da inocência em nível mais elevado, Depois disso tudo, não será difícil com­
que se tornou possível passando-se através preender também as afirmações de Hegel
da negação da rigidez que lhe era própria e, segundo as quais as proposições filosóficas
portanto, passando através da antítese, que devem ser “proposições especulativas” e não
desse modo adquire valor positivo, à medida juízos formados por um sujeito ao qual se
que leva a tirar aquela rigidez. atribui um predicado, no sentido da lógica
O momento especulativo, portanto, é tradicional.
o “ superar” no sentido de que é ao mesmo A proposição que expressa o juízo em
tempo o “ tirar-e-conservar” . sentido tradicional, com efeito, expressa
um tipo de juízo operado pel intelecto e,
portanto, pressupõe um sujeito pronto ao
E 11 O m o m e n to “e s p e c u l a t i v o ” qual são atribuídos ab extrinseco predicados
c.on\o "superação" no s e n t id o
d e V e ti r a d a -c o tis e ^ v a ç ã o ”
d o s m o m e n to s p f e c e d e n t e s

Hegel usa os termos que se tornaram ■ Especulativo. O "especulativo",


muito fam osos e até técnicos, aufheben que co n stitu i um a d escob erta t i­
(superar) e aufhebung (superação) para picam ente hegeliana, é o terceiro
expressar o momento “ especulativo” . Eis momento da dialética e consiste no
as suas próprias explicações a respeito, que conhecim ento dos opostos em sua
podem ser lidas na Grande Enciclopédia: u n id ad e: ele é a re a firm a çã o do
p o sitivo que se realiza m edian te a
“Aqui é o lugar oportuno para recordar o n eg a çã o d o n e g a tiv o p ró p rio das
duplo significado de nossa expressão alemã a n títe se s d ia lé tica s e, portanto, é
aufheben (superar). Por um lado, aufheben uma elevação do positivo da tese a
quer dizer tirar, negar; nesse sentido, por um nível mais alto.
exemplo, dizemos que uma lei, uma insti­ Para Hegel, com efeito, a negação
tuição etc., são suprimidas, superadas (auf- especulativa não é de modo nenhum
gehoben). Por outro lado, porém, aufheben uma aniquilação total, nem uma re­
significa também conservar; e, nesse sentido, serva definitiva, mas é propriamente
uma conservação daquilo que é nega­
dizem os que algo está bem conservado
do, e sua elevação a um nível superior
através da expressão wohl aufgehoben. Essa é um seu "en verd ad eiram en to " e
ambivalência do uso lingüístico do termo, uma sua "positivização". Ele usa a
pelo qual a mesma palavra tem sentido ne­ propósito os termos, que se tornaram
gativo e positivo, não deve ser considerada m uito famosos, a u fh eb e n e a u fh e ­
casual, nem devemos fazer disso motivo de bung, que em alem ão têm o duplo
acusação contra a linguagem, como se ela significado de "erguer, pôr à parte" e
fosse causa de confusão; pelo contrário, de "conservar". O especulativo cons­
nessa ambivalência se reconhece o espírito titui, portanto, o vértice a que chega
a razão, a dim en sã o do abso lu to .
especulativo da nossa língua, que vai além
da simples alternativa ‘ou-ou’ própria do
intelecto” .
Segunda pavte - F u n d a ç a o e a b s o lu t ia a ç ã o e s p e c u la t iv a d o id e alism o

como propriedades e acidentes, predicados “ o universal expressa o sentido do real” .


que também estão prontos e acabados em Portanto, o sujeito passa para o próprio
nossa representação (com base nos esque­ predicado (e vice-versa). A proposição em
mas com que o intelecto procede). Essa sentido especulativo diria que o real se resu­
operação de conjugar um predicado a um me no racional e, desse modo, o predicado
sujeito, portanto, é “ exterior” . torna-se elemento tão essencial da proposi­
A “ proposição especulativa” , ao con­ ção quanto o sujeito.
trário, deve ser tal de modo a não pressupor Aliás, na proposição especulativa su­
a distinção rígida entre sujeito e predicado e, jeito e predicado permutam-se as partes de
portanto, por assim dizer, deve ser plástica. modo a constituir justamente uma identida­
O “ é” da conjunção, então, expressará o de dinâmica. De fato, Hegel, assim formula
movimento dialético com que o sujeito se a proposição mencionada acima: “ Aquilo
translada ao predicado (em certo sentido, na que é real é racional; aquilo que é racional
proposição especulativa, tira-se e supera-se é real” , de sorte que aquilo que antes era
a diferença entre sujeito e predicado). “ Esse sujeito torna-se predicado, e vice-versa (a
movimento [...] é o movimento dialético da proposição reduplica-se dialeticamente).
própria proposição” , diz Hegel. E ainda: Em suma, a proposição da velha lógica
“ Só a enunciação do próprio movimento é permanece encerrada nos limites da rigidez
a representação especulativa” . e da finitude do intelecto. A “proposição
Vejam os um exem plo. Q uando di­ especulativa” , ao contrário, é própria da
zemos que “ o real é racional” em sentido razão que supera aquela rigidez, é uma
hegeliano (especulativo), não entendemos proposição que deve expressar o movimen­
(como na velha lógica) que o real é o sujei­ to dialético e, portanto, é estruturalmente
to estável consolidado (substância) e que o dinâmica, como também dinâmicos são a
racional é o predicado (ou seja, o acidente realidade que ela expressa e o pensamento
daquela substância), mas, ao contrário, que que a formula.

III. A ' 'fen o m enol o g ia


d o e-spín+o^

• A especulação filosófica surge quando a razão, negando as finitudes da


consciência, eleva-se até si mesma e até o absoluto. A passagem da consciência
comum para a consciência filosófica, porém, não pode se dar de modo repentino,
imediato, mas tem necessidade de uma mediação que seja ela
Da consciência própria filosófica. Ora, a Fenomenologia do espírito foi concebi-
comum (j-, e escrjta por Hegel exatamente com o objetivo de purificar a
^..con,^/enc/a consciência fenomênica e de elevá-la mediatamente até o saber
u>so íca absoluto. A Fenomenologia é, portanto, uma introdução ao filoso­
far, que é já ela própria um filosofar. Além disso, trata-se de uma
"introdução" que constitui um momento não só da vida humana,
mas também da vida do absoluto, do qual o homem é parte estrutural: ela é a via
filosófica que, conduzindo a consciência finita ao absoluto, coincide com a via que
o próprio absoluto percorreu para chegar até si mesmo, e seu método, portanto,
só pode ser o dialético. Mais precisamente, a fenomenologia (de phainómenon,
"o aparecer", e logos, "ciência") é a ciência do aparecer do espírito que se eleva
gradualmente, mediante momentos ligados dialeticamente, até o saber absoluto.
São dois, portanto, os planos que nela se cruzam e se justapõem:
1) a via percorrida pelo espírito infinito para chegar a sí por meio de todas as
vicissitudes da história do mundo;
✓ 111
Capítulo sexto - - H e g e l e o id e c J i s m o a b s o l u t o

2) o plano do espírito do homem individual, que deve percorrer novamente


a mesma via para dela se apropriar.
A história autêntica da consciência do indivíduo consiste em percorrer nova­
mente a história do espírito.
• O espírito que aparece é a consciência em sentido lato, isto é, como cons­
ciência de algo diferente (seja interno ou externo, e de qualquer tipo), cujo caráter
peculiar é, portanto, a oposição sujeito-objeto. Ora, o itinerário da Fenomenologia
é a progressiva mediação desta oposição até sua total superação, e percorre as se­
guintes etapas: consciência (em sentido estrito), autoconsciência,
razão, espírito, religião, saber absoluto. o itinerário
Cada uma dessas etapas é constituída por diferentes mo- da
mentos ou "figuras", que se sucedem segundo um ritmo dialéti- Fenomenologia
co cuja mola está na necessidade de superar toda desigualdade
entre o sujeito (a consciência ou Eu) e seu objeto (o "negativo")-,
o momento culminante do processo coincide com o momento em que o espírito
se torna objeto para si mesmo, dando assim lugar ao saber absoluto, isto é, ao
sistema da ciência que Hegel exporá na lógica, na filosofia da natureza e na filo­
sofia do espírito.

1 S ig n ific a d o e fin alid ad e argum enta argutam ente que pretender


d a “f e n o m e n o l o g i a
elaborar uma introdução à filosofia que
preceda a filosofia seria como pretender
d o esp írito” querer aprender a nadar antes de entrar na
água. Entretanto, Hegel está convencido
de que a passagem da consciência comum
■ a O p r o b le m a d a p a s s a g e m para a consciência filosófica deve ocorrer
d a c o n s c iê n c ia com u m p a r a a raz-cxo de modo mediato e não de modo rom an­
ticam ente im ediato e, portan to, Hegel
também admite que exista uma espécie de
Tudo o que destacamos, obviamente,
“ introdução à filosofia” .
implica que o homem, no momento em que
Ela, naturalmente, será uma “ intro­
filosofa, eleva-se bem acima da consciência
dução” ao filosofar, que é já ela própria um
comum, ou seja, mais precisamente, que sua
filosofar.
consciência eleva-se à altura da pura razão
e que se coloca em perspectiva absoluta
(ou seja, que adquire o ponto-de-vista-do- K O .A passagem d a c o n s c iê n c ia
absoluto). E, “ para construir o absoluto fin ita a o a b s o lu t o
na consciência” , é preciso negar e superar
as finitudes da consciência, elevando desse Podemos até dizer que na Fenomeno­
modo o eu empírico a Fm transcendental, a logia, entendida como caminho que leva
razão e espírito. ao absoluto, o homem está envolvido tanto
M as nada disso pode ocorrer ex abrup­ quanto o próprio absoluto. Com efeito,
to, ou seja, de chofre. N a verdade, Hegel no horizonte hegeliano, não existe o finito
condenou drasticamente o “ problema do “ separado” do infinito, o particular “ afas­
m étodo” como fora posto desde Descartes tado” do universal e, portanto, o homem
até o próprio Kant, chegando até a expedir não está afastado e separado do absoluto,
impiedosamente o atestado de óbito desse mas é parte estrutural e determinante dele,
problema, declarando-o como pertencente porque o infinito hegeliano é o infinito-que-
“ a uma cultura u ltrapassada” ; não pode se-faz-por meio-do-finito, e o absoluto é “ o
haver “ in trod u ção ” ao filosofar (como ser que reentrou eternamente em si pelo ser
pretendia o velho problema do método) outro” .
que já não seja filosofar, nem introdução Trata-se, portanto, de uma “ introdu­
à ciência que já não seja ciência. Hegel ção” ou de uma propedêutica que constitui
Segunda parte - F u n d a ç ã o e a b s o lu t i^ a ç a o e s p e c u la tiv a d o ide alism o

um momento, não só da vida humana, mas mas como figuras já depostas do espírito,
também da vida do absoluto: a “ fenome­ como graus de caminho já traçado e aplai­
nologia do espírito” é o caminho que leva nado” .
a consciência finita ao absoluto infinito, Vejamos agora qual é o esquema desse
que coincide com o caminho que o abso­ itinerário do espírito-que-aparece e da cons­
luto percorreu e percorre para alcançar a ciência que o percorre de novo, e quais são
si mesmo (o reentrar em si pelo ser-outro). algumas das “ figuras essenciais do espírito
Portanto, a Fenomenologia marca a passa­ já depostas” .
gem necessária e científica, como dissemos,
e sua metodologia não pode deixar de ser
a mais rigorosa metodologia científica, ou
seja, a dialética. • A +m rn a
//f. //
e as j\ g u ^ a s
" fe n o m e n o lo g ia ” d a “f e n o m e n o l o g i a ”
c o m o h is+ ó ria d a c o n s c iê n c ia d o in d iv íd u o
e k is + ó H a d o e s p ín + o
E U e t a p a s d o itin e rá r io
Com base nessa premissa, torna-se fácil fe n o m e n o ló g ic o
compreender o termo “ fenomenologia” na
acepção hegeliana. O termo deriva do grego O espírito que se determina e aparece é
pbainómenon, que significa manifestar-se ou a consciência no sentido lato do termo, que
aparecer e, portanto, quer dizer ciência do significa consciência de alguma coisa diversa
aparecer e do manifestar-se. Esse aparecer (tanto interna como externa, e de qualquer
(e, no sistema hegeliano, não poderia ser gênero que seja). Consciência indica sempre
diferente) é o aparecer do próprio espírito relação determinada entre um “ eu” e um
em diferentes etapas, que, a partir da cons­ “ objeto” , relação sujeito-objeto. A oposição
ciência empírica, pouco a pouco se eleva a sujeito-objeto, portanto, é característica
níveis sempre mais altos. distintiva da consciência.
A fenomenologia, portanto, é a ciência Ora, o itinerário da Fenomenologia
do espírito, que aparece na forma do ser consiste na m ediação progressiva dessa
determinado e do ser múltiplo e que, em oposição, até sua total superação.
uma série sucessiva de “ figuras” , ou seja, Podemos, portanto, dizer também que
de momentos dialeticamente relacionados o objetivo que Hegel persegue na Feno­
entre si, alcança o saber absoluto. m enologia é a anulação da cisão entre
N a “ fenomenologia do espírito” , co­ consciência e objeto, com a demonstração
mo se evidencia do que foi dito, existem de que o objeto nada mais é do que o “ si”
dois planos que se interseccionam e se jus­ da consciência, isto é, autoconsciência: a
tapõem: autoconsciência que, de Kant em diante, se
1) há o plano constituído pelo caminho tornara o centro da filosofia, e que Hegel
percorrido pelo espírito para chegar a si procura fundamentar cientificamente, dela
mesmo ao longo de todos os acontecimen­ extraindo ao mesmo tempo as últimas con­
tos da história do mundo que, para Hegel, seqüências.
é o caminho ao longo do qual o espírito se Resumidamente, o itinerário fenome-
realizou e se conheceu; ' nológico percorre as seguintes etapas:
2) mas há também o plano próprio do 1) Consciência (em sentido estrito);
simples indivíduo empírico, que deve per­ 2) Autoconsciência;
correr novamente aquele mesmo caminho 3) Razão;
e apropriar-se dele. 4) Espírito;
A história da consciência do indivíduo, 5) Religião;
portanto, outra coisa não pode ser senão o 6) Saber absoluto.
percorrer de novo a história do espírito. A A tese de Hegel é que toda consciência
introdução fenomenológica à filosofia é o é autoconsciência; por sua vez, a autocons­
percorrer novamente esse caminho. Escreve ciência se descobre como razão; por fim, a
Hegel: “ O indivíduo deve percorrer nova­ razão realiza-se plenamente como espírito,
mente os graus de form ação do espírito que, através da religião, alcança seu ponto
universal, também segundo o conteúdo, culminante no saber absoluto.
Capítulo Sexto - H e g e l e o id e alis m o absolu+o

Cada uma dessas etapas é constituída B I ; A s e g u n d a e ta p a :


por diferentes momentos ou “ figuras” . He­ a a u t o c o n s c iê n c ia
gel apresenta cada um desses momentos ou ( d ia lé t ic a d e s e n k o r - s e r v o ,
cada uma dessas figuras de modo a mostrar e s t o ic is m o - c e t ic is m o
que a sua determinação é inadequada e que, e c o n s c iê n c ia in fe liz)
portanto, obriga a passar a seu oposto; este
supera o negativo do anterior, mas, por sua A segunda etapa do itinerário fenome-
vez, embora em nível mais elevado, também nológico é constituída pela “ autoconsciên­
se mostra determinado e, portanto, inade­ cia” , que, através dos diversos momentos,
quado, obrigando a passar além e assim por aprende a saber o que ela é propriamente.
diante, segundo o ritmo da dialética, que Inicialmente, a autoconsciência se manifes­
bem conhecemos. Hegel precisa que a mola ta como caracterizada pelo apetite e pelo
dessa dialética fenomenológica está na desi­ desejo, ou seja, como tendência a se apro­
gualdade ou no desnível entre a consciência priar das coisas e fazer tudo depender de
ou o eu e seu objeto (que é o “ negativo” ), e si, a “ tolher a alteridade que se apresenta
na superação progressiva dessa desigualda­ como vida independente” . Primeiro a auto­
de. O momento culminante desse processo consciência exclui abstratamente de si toda
coincide com o momento no qual o espírito alteridade, considerando o “ outro” como
torna-se objeto para si mesmo. não-essencial e negativo. M as logo deve sair
Tentemos resumir e interpretar breve­ dessa posição porque se defronta com ou­
mente essas etapas da Fenomenologia. tras autoconsciências e, conseqüentemente,
nasce de modo necessário “ a luta pela vida
ou pela morte” , por meio da qual e somente
WEÊ A p r im e ir a e t a p a : por meio da qual a autoconsciência se realiza
a c o n s c iê n c ia ( c e r t e z a s e n s ív e l, (sai da posição abstrata do em si e torna-se
pe-^c-e-pçcKO e in te le c to ) para si). Com efeito, segundo Hegel, toda
autoconsciência tem necessidade estrutural
A etapa inicial é constituída pela “cons­ da outra e a luta não deve ter como resultado
ciência” , entendida em sentido gnosiológico a morte de uma das duas, mas a submissão
(e, portanto, em sua acepção mais estrita), de uma à outra.
que é o tipo de consciência que olha e a) Nasce assim a distinção entre “ se­
conhece o mundo como algo diferente e nhor” e “ servo” , com a conseqüente “ dia­
independente de si. Ela se desdobra em três lética” , que Hegel descreve em páginas
momentos sucessivos: a) da certeza sensível, que se tornaram fam osas, para as quais
b) da percepção, c) do intelecto. Cada um principalmente os m arxistas chamaram a
destes leva dialeticamente ao outro. atenção, e que estão efetivamente entre as
a) N o momento da sensação, o parti­ mais profundas e belas da Fenomenologia.
cular aparece como verdade, mas aparece O “ senhor” arriscou seu ser físico na luta
muito mais como contraditório, a tal ponto e, na vitória, tornou-se conseqüentemente
que, para compreender o particular, é neces­ senhor. O “ servo” teve medo da morte e,
sário passar para o geral. na derrota, para salvar a vida física, aceitou
b) N o momento da percepção, o obje­ a condição de escravidão e tornou-se como
to parece ser a verdade; mas logo também que uma “ coisa” dependente do senhor. O
ele é contraditório, porque se revela uno senhor usa o servo e o faz trabalhar para
e muitos, ou seja, um objeto com muitas si, limitando-se a “ desfrutar” das coisas
propriedades ao mesmo tempo. que o servo faz para ele. M as, nesse tipo
c) N o momento do intelecto, o objeto de relação, desenvolve-se um movimento
aparece como um “ fenômeno” , produzido dialético que acaba por levar à inversão dos
por forças e leis: aqui, o sensível se resolve papéis. Com efeito, o senhor acaba por se
na força e na lei, que são precisamente obras tornar “ dependente das coisas” , ao invés de
do intelecto; dessa forma, a consciência con­ independente, como era, porque desapren­
segue compreender que o objeto depende de de de fazer tudo o que o servo faz, ao passo
alguma outra coisa, ou seja, do intelecto, e, que o servo acaba por se tornar indepen­
portanto (de certo modo), de si mesma (o dente das coisas, fazendo-as. Além disso,
objeto se resolve no sujeito). Desse modo, a o senhor não pode se realizar plenamente
consciência torna-se autoconsciência (saber como autoconsciência, porque o escravo,
de si). reduzido a coisa, não pode representar o
Segunda parte - F u nclaçao e a b s o lu t i z a ç ã o e s p e c u la tiv a d o id e alism o

pólo dialético com o qual o senhor possa tem apenas “ consciência fragmentada de
se confrontar adequadamente (já se notou si” , porque procura seu objeto naquilo que
com razão que ser somente senhor é muito é apenas um além inatingível-, ela está ins­
menos do que ser pessoa autoconsciente); talada neste mundo, mas está toda voltada
ao contrário, o escravo tem no senhor um para o outro (inatingível) mundo. Para a
pólo dialético tal que lhe permite reconhe­ consciência infeliz, toda aproxim ação à di­
cer nele a consciência, porque a consciência vindade transcendente significa uma própria
do senhor é a que comanda, enquanto o mortificação e um sentir a própria nulidade.
servo faz o que o senhor ordena. Dessa A superação do negativo próprio dessa cisão
form a, Hegel identifica perfeitamente o (isto é, segundo Hegel, o reconhecimento de
poder dialético que deriva do trabalho. que a transcendência na qual a consciência
Diz ele: “ Precisamente no trabalho, onde infeliz via a única e verdadeira realidade não
parecia ser ela um significado estranho” , a está fora, mas sim dentro dela) leva a uma
consciência servil encontra-se a si mesma síntese superior, que se realiza no plano da
e encaminha-se para encontrar seu signifi­ “ razão” .
cado próprio.
M as a autoconsciência só alcança a
plena consciência através das etapas su­ WKM t e r c e ir a e t a p a : a r a z ã o
cessivas: b) do estoicismo, c) do ceticismo,
d) da consciência infeliz. A “razão” nasce no momento em que
b) O “ estoicism o” representa a liber­ a consciência adquire “ a certeza de ser to­
dade da consciência que, reconhecendo- da realidade” . Essa é a posição própria do
se com o pensam ento, in stala-se acim a idealismo.
da senhoria e da escravidão, que, como As etapas fenomenológicas da razão
sab em o s, constituem p ara os estóico s (ou do espírito que se manifesta como ra­
m eros “ in d ife re n te s” . M a s, querendo zão) são as etapas dialéticas progressivas da
libertar o homem de todos os im pulsos e aquisição dessa certeza de ser toda coisa,
de todas as paixões, o estoicism o o isola ou seja, da aquisição da unidade de pensar
da vida e, conseqüentem ente, segundo e de ser.
Hegel, sua liberdade permanece abstrata, Essas etapas repetem, em nível mais
retrai-se para dentro de si e não supera a elevado, como espiral que se eleva, em
alteridade. movimento que retorna sempre sobre si,
c) O estoicismo translada-se dialetica- segundo círculos cada vez mais amplos, os
mente para o “ ceticismo” , que transforma três momentos examinados anteriormente.
o afastamento do mundo em atitude de ne­ O nível mais elevado consiste justamente
gação do mundo. M as, negando tudo o que no fato de que agora, como razão, a cons­
a consciência tinha como certo, o ceticismo, ciência sabe ser unidade de pensamento e de
por assim dizer, esvazia a autoconsciência, ser e, nesse nível, as novas etapas consistem
levando-a à autocontradição e à cisão de precisamente em verificar essa certeza. E
si consigo mesma. Com efeito, a autocons­ assim temos as três etapas: A) da “ razão que
ciência cética nega as próprias coisas que é observa a natureza” ; B) da “ razão que age”
obrigada a fazer e vice-versa: nega a validade e C) da “ razão que adquire a consciência de
da percepção e percebe; nega a validade do ser espírito” .
pensamento e pensa; nega os valores do A) A “ razão-que-observa-a-natureza”
agir moral e, no entanto, age segundo tais é constituída pela ciência da natureza, que
valores. se move desde o princípio no plano da
d) A característica da cisão, implícita consciência de que o mundo é penetrável
na autocontradição do ceticismo, torna-se pela razão, ou seja, é racional. Hegel escre­
explícita na “ consciência infeliz” , que é ve: “ A razão procura seu outro, sabendo
a consciência de si como “ duplicada” ou que nisso ela não possuirá mais que a si
“ desdobrada” e “ no aspecto imutável e no mesma; ela busca apenas sua própria infi-
aspecto mutável-, o primeiro é considerado nitude” .
como coincidente com um Deus transcen­ Portanto, para poder-encontrar-a-si-
dente, e o segundo com o homem. A cons­ mesma-no-seu-outro, a razão deve superar
ciência infeliz (bimundana), segundo Hegel, o momento “ de observação” e passar para
é o traço que caracteriza principalmente o momento “ ativo” ou “ prático” , ou seja,
o cristianismo medieval. Essa consciência para a esfera moral.
Capítulo sexto - - H e g e l e o ic j e a l i s m o a b s o l u t o

B) A “ razão-que-age” repete em nível Quem não tiver continuamente pre­


mais elevado (isto é, no nível da certeza de sente essa dimensão intersubjetiva e social
ser toda coisa) o momento da autoconsciên­ do espírito não poderá compreender sequer
cia. O itinerário da razão ativa consiste em uma palavra do que diz Hegel.
começar a realizar-se, inicialmente, como Conseqüentemente, é claro que, du­
indivíduo para, por fim, elevar-se ao univer­ rante todo o curso do resto do itinerário
sal, superando os limites da individualidade fenomenológico, as “ figuras” tornam-se
e alcançando a união espiritual superior dos “ figuras de um mundo” , etapas da história,
indivíduos. que nos mostram o espírito “ alienado no
As etapas desse processo são indicadas tempo” , mas que, através dessa alienação,
por Hegel nas “ figuras” : se realiza, se reencontra e, por fim, se au-
a) do homem que busca a felicidade no toconhece. As etapas fenomenológicas do
prazer e no gozo (como, por exemplo, no “ espírito” são:
primeiro Fausto de Goethe); A) o espírito em si como eticidade
b) do hom em que segue a lei do (como se exprime de modo paradigmático
coração individual (como no sistema de no mundo greco-romano);
Rousseau); B) o espírito que se alheia de si (que
c) da virtude e do homem virtuoso, mas se cinde nas contradições, como acontece,
de modo ainda abstrato (como ocorre, por por exemplo, no lluminismo e na Revolução
exemplo, nos personagens que gostariam de Francesa que termina no terror);
reformar o mundo, mas que por sua qua­ C )o espírito que readquire certeza
lidade abstrata entram em falência, como de si.
Dom Quixote e Robespierre).
C) Síntese dos dois momentos anterio­
m i a q u in ta e t a p a : a r e lig iã o
res, a razão é dada pela autoconsciência
que supera sua posição em relação aos
outros e ao curso do mundo, encontran­ A Fenomenologia apresenta ainda uma
do neles seu próprio conteúdo. Esta fase etapa, ou seja, a “ religião” , através da qual
também se realiza em três momentos su­ chega-se à meta, ao saber absoluto. Já que
cessivos: deveremos falar sobre a concepção da reli­
a) o representado pelo homem in­ gião mais adiante, na filosofia do espírito,
teiramente voltado para as obras que rea­ limitamo-nos aqui a alguns poucos acenos
liza; (trata-se de páginas que, ao que parece, He­
b) o da razão legisladora; gel acrescentou à Fenomenologia por razões
c) o da razão que examina ou critica leis. contingentes, ainda que seu sentido redunde
Como momento conclusivo, nessa fase, claro no conjunto).
a autoconsciência descobre que a substância N a religião e em suas diferentes m a­
ética nada mais é senão aquilo em que ela nifestações o espírito toma consciência
já está imersa: é o ethos da sociedade e do de si mesmo, “ mas somente do ponto de
povo em que vive. vista da consciência, que tem consciência
da essência absoluta” e não ainda como
autoconsciência absoluta do próprio ab ­
E £ 9 A q u a r t a e t a p a : o e s p ir it o soluto, que será o ponto de vista do saber
absoluto.
A razão-que-se-realiza-em-um-povo- Pode-se também dizer que a religião é a
livre e em suas instituições é a consciência autoconsciência do absoluto, mas ainda não
que se reúne intimamente à sua própria perfeita, ou seja, na forma da representação
“ substância ética” , e isso é doravante o e não do conceito.
espírito. A forma mais elevada de religião para
O espírito é o indivíduo que con sti­ Hegel é o cristianismo, e nos dogmas funda­
tui um mundo tal como ele se realiza na mentais do cristianismo ele vê os conceitos
vida de um povo livre. O espírito, portan­ cardeais de sua filosofia: a encarnação, o
to, é a unidade da autoconsciência “ na reino do espírito e a trindade expressam o
perfeita liberdade e independência” e, ao conceito de espírito que se aliena para se
mesmo tempo, em sua oposição “ media- autopossuir e que, no seu ser-outro, mantém
t a ” . O espírito é “ eu que é nós, nós que a igualdade de si consigo, operando a síntese
é eu” . suprema dos opostos.
Segunda parte - F u n d a ç a o e a b s o lu t i s a ç a o e s p e c u la t iv a d o idealism o

HHHI e t a p a c o n c lu s iv a : por fim, ao puro conceito e ao saber ab­


o s a b e r a b s o lu t o soluto, ou seja, ao sistema da ciência, que
Hegel exporia na “ Lógica” , na “ Filosofia
A superação da forma de conhecimento da natureza” e na “ Filosofia do espírito” ,
“ representativo” próprio da religião leva, com overem os. TT 2T 3I

IV. A ló g ic a

• A Lógica começa e se desenvolve inteiramente no plano definitivamente


ganho da Fenomenologia, isto é, no plano do saber absoluto, em que desapareceu
toda diferença entre "certeza" (subjetividade) e "verdade" (objetividade); ela não
é, portanto, um puro "organon", no sentido em que o era a lógica formal, mas é o
estudo da estrutura do Todo, no sentido que a própria lógica é o auto-estruturar-
se do Todo.
A tese de fundo da lógica hegeliana, que retoma em sentido especulativo a
posição de Parmênides, é que "pensar" e "ser" coincidem: o pensamento, em seu
processo, realiza a si mesmo e o próprio conteúdo, e esta realiza-
A lógica ção dialética é ao mesmo tempo, de modo sempre mais elevado,
como reino um "pensar o ser" e o "ser do pensamento": a lógica coincide,
do pensamento portanto, com a ontologia (ou seja, com a metafísica). Em seu
pUç° complexo, portanto, a lógica é o reino do pensamento puro, da
verdade como ela é em si e por si sem véu: é a exposição de Deus
como Ele é em sua eterna essência antes da criação do mundo e
de todo espírito finito. O Deus exposto pela Lógica é, portanto, o elemento puro
do pensamento (o logos) que, para se tornar espírito, deve primeiro alienar-se na
natureza e depois superar essa alienação.
• O logos da Lógica deve também ser concebido como desenvolvimento e
processo dialético, e as diversas categorias por meio das quais pouco a pouco
se desenvolve podem ser consideradas como definições sucessivas, sempre mais
determinadas e mais ricas, do absoluto: a "idéia lógica" é a totalidade de suas
determinações conceituais em seu desdobramento dialético. Ora, as três etapas
fundamentais da Lógica são:
1) Na lógica do ser a dialética procede em sentido horizontal, mediante pas­
sagens que levam de um termo a outro que absorve em si o precedente; seu início
(que é o início absoluto da Lógica) é constituído pela tríade da
Lógica primeira categoria (a qualidade): a) ser; b) não-ser; c) tornar-se.
do ser Em certo sentido, nesse início já está presente todo o sistema
-> § 2 especulativo hegeliano, justamente porque todas as tríades su­
cessivas apenas exprimem o absoluto de modo pouco a pouco
sempre mais rico e articulado.
2) Na lógica da essência temos o desenvolvimento em profundidade dos vários
termos em seu "refletir-se" recíproco dirigido às raízes do ser (o termo alemão
Wesen significa: "o ser refletido em si e condensado em si mesmo"). Aqui se dão
as discussões sobre princípios de identidade e de não-contradição,
Lógica que por Hegel são considerados como pontos de vista do inte-
da essência lecto abstrato e unilateral: a verdadeira identidade, com efeito,
->§3 inclui as diferenças, e a contradição é a raiz de todo movimento
e vitalidade.
3) Na lógica do conceito o pensamento se atua na dimensão da circularida­
de: cada termo prossegue no outro até identificar-se dialeticamente com ele, e
Cãpltulo SextO - H e g e l e o id e alism o a bsoluto

tudo é um autodesdobramento do sujeito, o qual é toda a realidade. O conceito,


em sentido próprio, é o Eu penso que se autocria e, autocriando-se, cria todas as
determinações lógicas. Mudam, por conseguinte, os significados
de "juízo" e de "silogismo", estreitamente ligados ao "conceito": Lógica
o juízo coincide com a proposição especulativa que exprime a do conceito
identidade dinâmica de sujeito e predicado, e indica o tornar-se- -> § 4
universal do singular; o silogismo representa depois a unidade
dialética dos três momentos da universalidade, particularidade e singularidade,
tríade que constitui a estrutura fundamental de toda coisa e de toda a realidade.
A idéia lógica resulta, finalmente, como o conceito que se auto-realiza plenamente
e também a totalidade dos momentos desta realização.

1 y \ nova con cep ção à lógica da tradição aristotélica. Nem po­


dia ser diversamente, depois da revolução
d a lógica
kantiana e dos sucessivos desenvolvimentos
idealistas de Fichte e de Schelling.
A lógica de Hegel, portanto, não é um
M W ; A ló g i c a h e g e l i a n a puro organom , um puro “ instrum ento”
v a i a lé m d a l ó g i c a fo r m a l ou “ m étodo” no sentido em que a lógica
e a lé m d a ló g i c a t r a n s c e n d e n t a l form al o era. Todavia, também não é uma
lógica transcendental em sentido kantiano,
uma vez que esta se move no âmbito de
A Fenomenologia nos levou do ponto
uma forma de fenomenismo (ainda que
de vista do saber da consciência empírica ao
transcendental). A lógica é proposta por
ponto de vista do saber absoluto. Conside­
Hegel em sentido “ especulativo” , ou seja,
radas retrospectivamente, as várias etapas e
como uma lógica que chega às verdades
“ figuras” da fenomenologia ainda não são
últimas.
“ a ciência completa em toda a sua verdade” .
Poder-se-ia dizer que a lógica de Hegel
É compreensível, então, que Hegel (embora
é o estudo da estrutura do inteiro: o próprio
considerando as etapas fenomenológicas
Hegel fala expressamente de “ arm ação”
como momentos insuprimíveis e absolu­
do inteiro. M as essas expressões devem
tamente necessários, apenas por meio dos
ser entendidas dinamicamente, ou seja, no
quais a consciência adquire o verdadeiro co­
sentido de que a lógica é o estruturar-se,
nhecimento) chame o saber dessas “ figuras”
ou, melhor ainda, o auto-estruturar-se do
individuais de saber “ aparente” e, portanto,
andaime do inteiro.
apresente o iter fenomenológico também
como o “ voltar-se contra as aparências” ,
que pouco a pouco são superadas (ou seja,
retiradas-e-conservadas), até o momento em D E I A ló g ic a h e g e lia n a
c o m o “filo s o fia p r im e ir a "
que, como vimos, a consciência alcança o
(m e t a f ís i c a e m s e n t id o id e a lis t a )
ponto de vista do saber absoluto.
N o plano do saber absoluto, cai toda
diferença entre “ certeza” (que implica sem­ A tese de fundo da lógica hegeliana,
pre elemento de subjetividade) e “verdade” que nada mais é do que a conseqüência de
(que é sempre objetividade), entre “ saber” tudo o que foi dito até aqui, é que “ pensar”
como forma e “ saber” como conteúdo. e “ ser” coincidem e que, portanto, a lógica
O saber absoluto é exatamente essa ■ coincide com a ontologia (ou seja, com a
coincidência absoluta entre forma e con­ metafísica).
teúdo. E a Lógica se inicia e se desenvolve Parmênides já dizia: “ o pensar e o ser
inteiramente nesse plano, definitivamente são a mesma coisa” ; e exatamente esta é a
conquistado pela Fenomenologia. posição de Hegel, porém no único sentido
Por conseguinte, a lógica hegeliana possível depois da revolução kantiana, isto
torna-se algo totalmente novo em relação é, no sentido de que, no seu proceder, é o
Segunda parte - F u n d a ç a o e a b s o lu t iz a ç ã o e s p e c u la t iv a d o idealism o

próprio pensamento que realiza a si mes­ modo que se tem o máximo do resultado não
mo e o próprio conteúdo (realizando-se, no momento inicial, e sim no momento final,
realiza contemporaneamente o seu próprio e, portanto, não no Deus-que-é-objeto-da-
conteúdo). lógica, e sim no Deus-como-ele-é-depois-da-
A grande Lógica de Hegel constitui, criação, ou seja, no Deus que conheceremos
por assim dizer, a síntese dos conteúdos que na filosofia do espírito.
se encontram no Organon e na Metafísica O Deus antes da criação é de alguma
de Aristóteles. Portanto, têm perfeita razão forma um minus em relação ao espírito
os intérpretes que afirmam que a lógica depois da criação, enquanto representa o
hegeliana é uma “ filosofia primeira” (em momento da “ tese” , ao passo que o Deus
sentido aristotélico) e, portanto, uma “ teo­ depois da criação representa o momento da
logia” ou (como já dissemos) uma grandiosa “ síntese” . O Deus da Lógica é o elemento
“ metafísica” . Hegel censura Kant por ter puro do pensamento (o L o go s), que deve
negado a possibilidade de construir uma antes alienar-se na natureza, para depois
metafísica como ciência: com efeito, para superar essa alienação (negando-a) e tornar-
Hegel, “ um povo sem metafísica é como se espírito. O Logos, ou seja, o Deus como
templo sem altar” . era em sua “ eterna essência” , de que fala
Hegel chega até a dizer — e esta é talvez a lógica hegeliana, não corresponde ainda,
sua afirmação mais iluminadora — que as portanto, ao M otor imóvel de Aristóteles,
diversas categorias por meio das quais sua que é pensamento de pensamento, ou ao
lógica pouco a pouco se desenvolve podem nous (cosmo noético) plotiniano ou agos-
ser vistas como definições sucessivas do tiniano, porque não é ainda o máximo de
absoluto. Desde a primeira tríade, até as realidade. Isto será apenas o espírito, como
tríades mais elevadas, nada mais temos que veremos, que é a realização dialética (a auto-
“ definições mais determinadas e mais ricas” realização) daquele Logos de que trata a
do próprio absoluto. Cada categoria que se Lógica. Quando falar do espírito (e somente
desenvolve triadicamente constitui um elo então), Hegel se referirá solenemente ao
sempre mais amplo da espiral. Em suma: a motor imóvel de Aristóteles.
lógica hegeliana pode ser representada como É exatamente isso que Hegel entende
um dizer a mesma coisa de modo progres­ quando diz que a lógica estuda a idéia “ em
sivamente mais rico (um dizer, porém, que si” , ao passo que a filosofia do espírito estu­
coincide com um tornar-se-sempre-mais-rico da a idéia “ em si e para si” , ou seja, em seu
da própria coisa que é dita). “ retornar a si” depois de se ter “ alienado”
na natureza.
Somente tendo presente a concepção
E O A l ó g ic a h e g e lia n a do absoluto como “ processo” (ou auto-
c o m o e x p o s i ç ã o d e X?eus processo) dialético podemos compreender
an tes d a c r ia ç ã o d o m undo a novíssima concepção hegeliana da lógi­
ca (a mais difícil de todas as que foram
Usamos acima o termo “teologia” , não apresentadas nó contexto do pensamento
certamente por acaso ou arbitrariamente. ocidental).
E o próprio Hegel quem o diz claramente:
“ A lógica deve [...] ser entendida como o
sistema da razão pura, como o reino do O d e s d o b r a m e n t o d ia lé t ic o
puro pensamento. Esse reino é a verdade, g l o b a l d a ló g i c a h e g e l i a n a
como ela é em si e para si, sem véu. Pode­
mos, portanto, nos expressar deste modo: Ainda resta a esclarecer, porém, outro
esse conteúdo é a exposição de Deus, assim ponto muito importante. O Logos da L ó ­
como ele é em sua eterna essência, antes gica, ou seja, a idéia-em-si, não deve ser
da criação da natureza e de um espírito concebido como uma espécie de realidade
finito” . única e compacta, e sim, por sua vez, como
Ora, devemos atentar bem para esta desenvolvimento e processo dialético. A
expressão: “ Deus, como era antes da criação “ idéia lógica” é a totalidade de suas deter­
etc. ” Ela não significa aquilo que quer dizer minações conceituais em seu desdobramento
no contexto da filosofia clássico-cristã, dado dialético, ou seja, a totalidade dos conceitos
que, para Hegel, o absoluto é processo, é determinados e das relações que os ligam e
resultado do processo (auto-resultado), de ligam sua passagem de um a outro em cír­
Capítulo sexto - -Hl e ge J e. o i d e a l i s m o a b s o l u t o

culos sempre mais elevados, até o desvendar expressamente que as categorias de sua
total da verdade, que é precisamente a idéia lógica nada mais fazem do que expressar
em seu conjunto. o absoluto em níveis pouco a pouco mais
As três etapas principais da Lógica são elevados (e, portanto, as sucessivas tríades
as que Hegel chama de 1) “ ser” , 2) “ essên­ expressam sempre tudo, de modo pouco a
cia” e 3) “ conceito” . pouco sempre mais articulado).
1) N a lógica do ser, a dialética procede
em sentido horizontal, por meio de passa­
gens que levam de um termo a outro, o qual 3 || y \ lógica d a e s sê n c ia
absorve em si o anterior.
2) N a lógica da essência, ao contrário,
temos um como que desenvolver-se dos
vários termos e um como que “ refletir-se” A lógica da essência (como já aludimos
recíproco de um termo no outro. acima) trabalha escavando em profundida­
3) Por fim, na lógica do conceito, cada de, para encontrar as raízes do ser. Aliás, é
termo prossegue no outro e nele continua o próprio ser (que coincide com o pensa­
até identificar-se (dialeticamente) com ele. mento que o pensa) que se volta sobre si
Podemos dizer que e se aprofunda re-fletindo sobre si mesmo.
1) na lógica do ser, o pensam ento Para bem compreender esse ponto, é preci­
procede como que sobre um plano ou uma so recordar que, em alemão, “ essência” é
superfície; “Wesen”, que deriva do particípio passado
2) na lógica da essência, o pensamento do verbo ser, que é “ gewesen” e, em certo
aprofunda, ou seja, cresce segundo a dimen­ sentido, significa o refletir-se e o voltar-se
são da profundidade; sobre si mesmo do próprio ser, como que se
3) na lógica do conceito, o pensamento condensando em si. Também em grego, na
torna-se completo, ou seja, se dá segundo a expressão cunhada por Aristóteles, “ essên­
dimensão da circularidade. cia” dizia-se de modo análogo, com fórmula
M as o que dissemos sinteticamente (tò tí en einai) que os latinos traduziam por
ficará mais claro nas análises seguintes. quod quid erat esse (literalmente: o aquilo
que era o ser), que indicava precisamente o
ser enquanto refletido e condensado em si.
Em palavras simples, podemos dizer que a
lógica da essência estuda o pensamento que
quer ver o que existe sob a superfície do ser,
e chegar ao fundo dele.
O começo absoluto da Lógica é cons­ E nesta parte da lógica que se verificam
tituído pela primeira tríade, com a qual se as discussões sobre os célebres princípios de
inicia o movimento lógico da primeira ca­ identidade e de não-contradição, cuja pri­
tegoria (ou seja, a categoria da qualidade) meira consideração foi feita por Aristóteles
e constitui de longe o ponto mais discutido (e, conseqüentemente, sobre o princípio
de toda a lógica hegeliana (e talvez de toda leibniziano de razão suficiente).
a obra de Hegel). Assim como foram form ulados por
Essa tríade é constituída por: a) ser, Aristóteles e codificados pela lógica pos­
b) não-ser e c) devir. terior, segundo H egel, esses princípios
São inumeráveis as interpretações e representam o ponto de vista do intelecto
exegeses já apresentadas a esse respeito. abstrato e unilateral, e não o ponto de vista
Alguém já disse que, na realidade, nesse da razão, que é o único ponto de vista da
começo já se encontra toda a lógica e toda a verdade. Para Hegel, a verdadeira identidade
metafísica. “ Ser” , “ não-ser” e “ devir” , com não deve ser entendida do modo indicado
efeito, resumem tudo o que existe e que pode acim a, m as sim “ com o identidade que
ser pensado e dito. inclui as diferenças” . A verdadeira identi­
Todavia, para dizer a verdade, o mes­ dade é aquela que dialeticamente se realiza
mo poderia ser repetido, a títulos diversos, retirando e mantendo as diferenças e que,
para muitas outras tríades posteriores (se portanto, implica “a identidade na distinção
não até para todas elas). E quem com ­ e a distinção na identidade” .
preendeu o que explicamos acima não se Q uanto à relevância da “ contradi­
surpreenderá, dado que Hegel afirm ou ção ” e ao papel que ela desempenha no
Segunda pavte - F u n d a ç a o e a b s o lu t iz a ç ã o e s p e c u la t iv a d o id e alism o

pensamento de Hegel, já falamos em parte


acima. A contradição é a mola da dialéti­
ca e, conseqüentemente, é absolutamente ■ Lógica. A "lógica" de Hegel não !
necessária. Tudo isso também pode ser é puro "instrum ento" ou "m étodo",
expresso dizendo que só o infinito é não- como a lógica tradicional, e sim o es- |
contraditório, enquanto é perene superação tudo da estrutura do todo,
no sentido i
da contraditoriedade do finito (o não-con- de que a própria Lógica, enquanto ■
traditório é apenas a “ superação” dialética idéia-em-si, é a auto-estruturação do ;
da contradição). quadro do todo. j
A Lógica começa e se desenvolve in- J
É este o eixo especulativo que suporta
teiramente no plano definitivam ente 1
todo o sistema hegeliano. ganho da Fenomenologia do espírito, í
isto é, no plano do saber absoluto, em í
que desapareceu toda diferença entre \
4,, lógica d o conceito "certeza" (que implica subjetividade)
e "verdade" (que é sempre objetivi­
l

dade), entre "saber" como e forma i


"saber" como conteúdo. }
A tese de fundo da lógica hegeliana, f
WSM A ló g i c a “s u b je t i v a ”
que se remete à antiga posição de <
Parmênides, é que "pensar" e "ser"
Com a seção dedicada à lógica do con­ coincidem: o pensamento, em seu pro- í
ceito passamos àquela que Hegel chamou de cesso, realiza a si mesmo e o próprio *
conteúdo, e esta realização dialética é
“ lógica subjetiva” , por contraposição às pri­
ao mesmo tempo, de modo cada vez
meiras duas seções da “ lógica objetiva” . renovado, um "pensar o ser" e o "ser à
“ Subjetivo” entende-se em sentido al­ do pensamento". A Lógica coincide
tamente positivo, ou seja, no sentido de assim com a ontologia
(ou seja, com ■
lógica que introduz na esfera superior do a metafísica), e nesse sentido constitui |
sujeito. Assim como a verdade do ser é a a síntese especulativa dos conteúdos
essência, da mesma forma a verdade da que se encontram no Organon
e na
essência é a razão. Metafísica de Aristóteles.
Em seu conjunto, portanto, a Lógica
Alguém disse, numa analogia esclarece­
é o reino do pensamento puro; éa
dora, que aqui ocorre aquilo que o discípulo verdade como ela é em si e por si sem
de Sais (de que fala Novalis em seu romance) véu, é a exposição de Deus como e/e
descobriu tirando o véu que cobria a face é em sua eterna essência antes da
da deusa: descobriu a si mesmo (a passagem criação da natureza e de cada espírito
de Novalis em que esse conceito se expressa finito.
pode ser vista em trecho citado acima por O logos da Lógica deve ser concebido
nós). A referência é pertinente, mas deve ser tam bém com o desenvolvim ento e
processo dialético: a "idéia lógica" é
desenvolvida e completada.
a totalidade de suas determinações
N a lógica do conceito não só descobri­ conceituais em seu desdobramento
mos que a realidade é o sujeito (o que, aliás,
já havia sido aquisição da Fenomenologia),
dialético.
As três esferas fundam entais da Lógi­
mas também descobrimos o porquê. A lógica ca são: o ser, a essência e o conceito.
hegeliana do conceito é a lógica conduzida
do ponto de vista daquilo que Kant entre­
vira com o seu “ Eu penso” , já desenvolvida
por Fichte e aqui não só posteriormente
aprofundada, mas também levada às suas
conseqüências extremas. Tudo é visto, então,
como autodesdobrar-se dialético do sujeito, Hegel entende todo o resultado do movi­
que é toda-a-realidade. mento lógico até aqui alcançado.
O “ conceito” seria o Eu penso que
se autocria e, autocriando-se, cria todas
E 11 O s ig n i f i c a d o d e “c o n c e i t o ”
as determinações lógicas. Portanto, mais
um a vez, ele não entende aq u ilo que
M as, para Hegel, o que significa exata­ com um ente se entende por “ co n ceito ”
mente “conceito” (Begriff)} Por “ conceito” , do ponto de vista do intelecto, mas sim
Capítulo sexto - -H e g e l e o i d e a l i s m o a b s o l u t o

aquilo que se entende do ponto de vista termo mais importante torna-se o predicado
superior da razão. Estam os, portanto, em (e não mais o sujeito) da proposição, porque
novo plano. o predicado expressa o universal, ao passo
O conceito, diz Hegel, é “ aquilo que que o sujeito expressa o individual. O juízo,
form a e c r ia ” . Ele diz tam bém que é portanto, expressa o individual no-seu-tor-
“ ab so lu ta negatividade” , no sentido de nar-se-universal.
que é negação de toda determinação e de
toda finitude e superação das mesmas (é,
portanto, negatividade absoluta que se E O Os\Q n if ic a d o d e " s ilo g is m o ”
resolve em positividade absoluta). Por fim,
Hegel também qualifica o conceito como
“ potência livre” e até “ bem-aventurança O “ silogism o” representa a unidade
ilim itada” . Em suma: o conceito é o nome dos três m omentos: a universalidade, a
mais adequado (até este momento) para particularidade (ou especificidade) e a in­
expressar o absoluto. dividualidade, com a relação precisa que
E evidente que, mudando de modo tão os liga.
radical o significado do conceito no plano O silogismo (no novo sentido hege­
da razão, também o “ juízo” e o “ silogis­ liano) é o universal que através do parti­
m o ” (estreitamente ligados ao conceito) cular (a espécie) se individualiza, e vice-
devem adquirir sentido com pletam ente versa, ou seja, o indivíduo que, através do
novo. particular (a espécie), se universaliza. Por
exemplo: o animal (= universal), através
da espécie homem (= particular), se indi­
E 11 O s \ g n if ic a d o de “j w íz o ” vidualiza (por exemplo, em Carlos, Luís)
e, vice-versa, todo homem em particular
N o contexto da lógica hegeliana da (= indivíduo), através da espécie homem
razão, o “ juízo” coincide com aquilo que, (= particular), tende ao universal expresso
acima, vimos ser o significado da “ proposi­ pelo animal.
ção especulativa” , e à qual remetemos. O é Desse m odo, Hegel pode sustentar
da cópula do juízo hegeliano expressa iden­ a tese (absolutam ente p a rad o x al para
tidade dinâmica entre sujeito e predicado e o a velha lógica, m as óbvia no contexto

A cidade de jena em uma gravura de 1650.


líl
Segunda parte - F u n d a ç ã o e a b s o lu t iz a ç ã o e s p e c u la t iv a d o idealism o

da nova) de que toda a coisa é um silo ­ c a O s ig n if ic a d o d e /,id é ia /'


gism o.
Ele até concebe seu próprio sistema Por fim, também deveria se tornar
com o gigantesco silogism o, no qual os claro o novo significado que assume nesse
três momentos da “ idéia lógica” , da “ na­ contexto o termo “ idéia” , já antecipado em
tureza” e do “ espírito” são os três termos grande parte acima. Ela é o conceito que
do próprio silogism o, que se m edeiam se auto-realizou plenamente e, portanto, a
dinam icam ente. Para H egel, são gran ­ totalidade dos momentos dessa realização,
diosos silogism os os dogm as centrais do vista como processo-e-resultado-dialético.
cristianismo, nos quais se expressa a idéia A idéia, portanto, é a totalidade das
do universal que mediatamente se liga ao categorias da lógica em sentido especulativo
individual. e de suas relações desdobradas. CTfgH~ã~l

V. A filosof-ia da natureza

• A passagem da idéia para a natureza é o ponto teórico mais problemático


da filosofia de Hegel, sujeito a diversas interpretações que surgem das próprias
afirmações ambíguas do filósofo a esse respeito. Isso depende principalmente do
fato de que Hegel tem dificuldade de dominar as diversas suges­
Múltiplas tões que confluem sobre este ponto:
sugestões a) a processão dialética do neoplatonismo, que concebia o
e esquema desenvolvimento da realidade em sentido triádico como manên-
dialético cia (moné), saída {próodos) e retorno (epistrophé): para Hegel a
->§ 1-2 natureza corresponde à "saída";
b) o dogma da teologia cristã da criação;
c) os dogmas da encarnação, paixão, morte e ressurreição de Cristo;
d) a concepção tipicamente romântica do tornar-se-estranho do espírito a
si mesmo com o objetivo de tomar consciência de si e de se realizar completa­
mente.

Os intérpretes indicaram nessa passa­


q u e d e t e r m in a m gem da idéia para a natureza o ponto mais
problemático e quase que inexplicável do
a s características ponto de vista tanto exegético como teó­
d a filosofia d a n a iu ^ e .z c \ rico da filosofia de Hegel, salientando que
a linguagem da frase citada só poderia ser
metafórica, porque em Hegel tudo é idéia e
na idéia e, portanto, a criação da natureza
Depois de ter lido a Lógica, podemos não pode querer dizer o sobrevir de alguma
perguntar o que ainda pode estar faltando coisa diferente da própria idéia e separada
no sistema de Hegel, uma vez que nela está da idéia.
todo o pensamento e toda a realidade (lógica A razão dessa dificuldade depende
+ ontologia) . principalmente do fato de que, para esse
M as Hegel nos disse que a lógica é “ a ponto, confluem várias sugestões de gêneses
representação de Deus como ele é em sua diversas, que Hegel custa a dominar e que
essência eterna, antes da criação da natureza dão origem a inextricáveis aporias, que o
e de um espírito finito” . Então, aquilo que esquema dialético consegue unificar em
ainda falta é precisamente a “ criação da na­ parte, mas não consegue dominar e resolver
tureza” e, depois, de um “ espírito finito” . plenamente.
Cãpltulo Sexto - -H egel e o ide alism o absoluto

1) Em primeiro lugar, aparece a grande idéia decide livremente seu próprio tornar-
sugestão da processão dialética do neopla- se natureza.
tonismo (de que Hegel era fervoroso ad­ 3) M as com o teorema da criação se
mirador), que concebia o desenvolvimento interseccionam também as sugestões dos
da realidade em sentido triádico como dogm as da encarnação, paixão, morte e
manência (moné) — saída (próodos) — re­ ressurreição de Cristo, que Hegel entende
torno (epistrophé). A idéia lógica hegeliana como verdades racionais cósmicas. Por in­
corresponde à “ manência” , a natureza cor­ fluência de tais dogmas, ele chega inclusive a
responde à “ saída” (a natureza, como logo dizer que o espírito deve enfrentar a “ morte”
veremos, é a idéia que se afasta de si, que sai para, através da morte, conservar seu ser
de si), ao passo que o espírito hegeliano é (tema que já analisamos na seção dedicada
tematicamente apresentado como “ retorno” à dialética), razão por que a natureza seria
da idéia em si e para si. o momento da “ morte” (da idéia), que é
2) Às sugestões neoplatônicas acres­ depois superado em uma vida mais elevada
centam-se as do dogma da teologia cristã (a “ idéia” que ressuscita é o espírito” ).
da criação, ao qual Hegel faz referência 4) A essas sugestões, por fim, acrescen­
expressa, tanto no texto que lemos acima ta-se a concepção tipicamente romântica do
como em outros textos, nos quais diz que a espírito fazendo-se estranho si mesmo, como
Segunda parte 2
- F u i^ d a ç ã o e a bsolu tt a< :a o e s p e c u l a t i v a d o id e a lis m o

uma espécie de auto-ilusão, com o objetivo esteja retornando ao ser, isto é, à primeira
de tomar consciência de si e realizar-se ple­ fase da Lógica. M as, na realidade, diz ele,
namente. A natureza, portanto, seria esse “ esse retorno ao início é, ao mesmo tempo,
momento da auto-ilusão da idéia. progresso. Aquilo com que começamos era
o ser, o ser abstrato, e agora temos a idéia
como ser” , e a natureza é precisamente essa
2, O e s q u e m a d ialético
idéia-como-ser (como objeto). Em outros
textos, porém, ele faz uma série de afirma­
d a filosofia d a n a t u r e z a ções que parecem ter significado oposto. As
ambigüidades e incertezas de Hegel a esse
respeito só podem ser compreendidas com
O esquema dialético procura reduzir base no que precisamos acima sobre as múl­
essas sugestões a uma unidade, entendendo tiplas sugestões pelas quais ele permaneceu
a idéia como tese, a natureza como antítese condicionado. | Ê
(segundo momento negativo-dialético, au-
tonegação da idéia), da qual deverá depois
brotar o terceiro momento da síntese (mo­
mento positivo-dialético ou especulativo),
ou seja, o espírito, no qual, através da ne­
gação da negação, se realiza o momento da ■ N atureza. A natureza é a idéia em
m áxima positividade. Hegel insiste muito sua alienação, em seu estar-fora-de-si,
no momento de negatividade constituído a qual em sua existência não mostra
pela natureza, que é “ decadência da idéia nenhuma liberdade, mas apenas n e­
de si” (parece-nos até ouvir um eco do an­ cessidade e acidenta/idade.
tigo gnosticismo), e insiste na “ impotência A criação da natureza é propriamente
uma "queda da idéia a partir de si".
da natureza” . M uitos estudiosos pensam A verdade e o fim da natureza, cujos
que, na realidade, trata-se de um “ regres­ graus ascendentes são a m ecânica, a
so ” em relação à idéia. M as, pelo menos física e a orgânica, é o espírito.
na Grande Enciclopédia, Hegel procurou
dissipar essa suspeita. Com a passagem da
idéia à natureza, poderia parecer que se

VI. y\ filo s o fia d o e s p ír ito

• O espírito é a idéia que retorna a si a partir de sua alteridade, é a mais alta


manifestação do absoluto, o auto-realizar-se e o autoconhecer-se de Deus. Nesta
ótica, idéia lógica e natureza são vistas como pólos dialéticos dos quais o espírito
é a síntese viva. Também a filosofia do espírito estrutura-se de maneira triádica, e
divide-se, portanto, em três momentos.
O espírito *1 )0 espírito subjetivo é aquele ainda ligado à finitude. Suas
subjetivo etapas são: , , , ‘
§2 a) a antropologia, que e o estudo da alma considerada em
sua fase aurorai;
b) a fenomenologia, que estuda o processo que da consciência, através da
autoconsciência, leva à razão;
c) a psicologia, que estuda o espírito do indivíduo até sua liberdade.
• 2) O espírito objetivo é aquele que se realiza na família, na sociedade, nas
leis do Estado: é o ethos da vida ético-política, é a história-que-se-faz. As etapas
de sua realização são:
Capítulo sexto - -H egel e o ide alism o absoluto

a) o direito abstrato, em que a vontade livre se concretiza na relação com as


coisas e com os objetos externos;
b) a moralidade, em que a vontade livre formula seus juízos morais segundo
regras universais;
c) a eticidade, em que a vontade do sujeito quer fins concretos e se realiza
gradualmente através da família, da sociedade civil e do Estado: o Estado é a
própria idéia que se manifesta no mundo, e o cidadão existe apenas enquanto
membro do Estado.
A história do mundo, nascida da dialética dos Estados é, por- o espírito
tanto, o desdobrar-se da idéia e se desenvolve segundo um plano objetivo
racional, enquanto a filosofia da história, enquanto conhecimento -> § 3
científico deste plano, torna-se a "teodicéia" que justifica aquilo
que aparece como mal diante do poder absoluto da razão. Na história, o espírito
objetivo se particulariza como "espírito do povo" (Volksgeist) e todos os espíritos
nacionais são manifestações diversas do "Espírito do mundo" (Weltgeist), que se
serve dos povos para tecer seus desígnios (é esta "a astúcia da razão"). Ora, das
grandes fases da história do mundo (oriental, greco-romana, cristão-germânica),
a última é aquela em que o espírito parece ter-se plenamente realizado. E assim,
de modo mais aporético, a dialética histórica por fim pareceria deter-se.
• 3) A idéia conclui seu "retorno a si" no autoconhecer-se absoluto. O espírito
absoluto é a idéia que se autoconhece de modo absoluto, é Deus que se concilia
com sua comunidade e consigo mesmo. Também o espírito absoluto se desenvolve
em um sentido triádico, que corre paralelamente à história do mundo para conci­
liar-se e unificar-se com ela na fase da cristandade germânica. As fases principais
deste processo são:
a) a intuição sensível, isto é, a arte, que apresenta à cons- o espírito
ciência a verdade sob forma sensível; absoluto
b) a representação da fé, ou seja, a religião, que transfere o -> § 4
absoluto na interioridade do sujeito;
c) o conceito puro, ou seja, a filosofia, na qual se unificam a objetividade da
arte e a subjetividade da religião: aqui, diz Hegel, a idéia eterna sendo-em-si-e-para-
si se ativa, se produz e goza de si mesma eternamente como espírito absoluto.
O resultado final do desenvolvimento, que se encarna historicamente e ne­
cessariamente na filosofia hegeliana, é o próprio Deus enquanto se autoconhece
e leva assim todas as coisas à realização.

1 .1, O espírito O “ espírito” hegeliano é, portanto, o


correlativo filosófico daquilo que na religião
e seus três momentos é “ Deus” : é o auto-realizar-se e o autoco­
nhecer-se de Deus.
Voltando à tríade idéia-natureza-espíri-
O espírito é a “ idéia que volta a si de to, diremos que a idéia é o mero conceito de
sua alteridade” . N o espírito, sobretudo, saber e, portanto, a “ possibilidade lógica”
torna-se m anifesta aquela “ circularida­ do espírito; o espírito é a atualização ou a
de” dialética sobre a qual Hegel chama realização dessa possibilidade. O espírito
seguidamente a atenção. Como momento é a atualização e autoconhecimento vivos
dialeticamente conclusivo, ou seja, como da idéia. Nesse sentido, o espírito não é
resultado do processo (do autoprocesso), o último senão pelo nosso modo de nos ex­
espírito é a mais elevada manifestação do primirmos, mas efetivamente é o primeiro,
absoluto. Escreve Hegel: “ ‘O absoluto é o e, nessa ótica, idéia lógica e natureza devem
espírito’: esta é a mais elevada definição do ser vistas como momentos ideais do espírito
absoluto". não separados e não cindidos, mas como
Segunda parte - F u n d a ç ã o e a b s o lu t iz a ç ã o e s p e c u la t iv a d o idealism o

pólos dialéticos dos quais o espírito é a 3 O e s p ír ito ob jetivo


síntese viva.
Também a filosofia do espírito (como
toda parte e momento do sistem a hege-
E U A c o n c e p ç ã o k e g e lia n a
liano) é estruturada de maneira triádica,
d o e s p ír it o o b je tiv o
sendo, portan to, dividida em três m o­
mentos:
1) um primeiro, em que o espírito está Segundo alguns intérpretes, o espírito
no caminho de sua própria auto-realização objetivo é o momento mais significativo e
e autoconhecimento (espírito subjetivo); mais específico do hegelianismo, ou, pelo
2) um segundo, em que o espírito se menos, um dos mais característicos e interes­
autoconcretiza plenamente como liberdade santes. O espírito objetivo é o que se realiza
(espírito objetivo); nas instituições da família, nos costumes e
3) um terceiro, em que o espírito se preceitos da sociedade e nas leis do Estado,
autoconhece plenamente e se sabe como é o ethos que alimenta a vida ético-política,
princípio e como verdade de tudo, e é como é a história-que-se-faz.
Deus em sua plenitude de vida e de conhe­ O espírito objetivo é o momento da
cimento (espírito absoluto). realização da liberdade na ordem intersub-
jetiva, que pouco a pouco se amplia em
graus e em momentos dialéticos sucessivos,
que Hegel indica: a) no “ direito” ; b) na
“ moralidade” e c) na “ eticidade” .
A compreensão destes momentos nos
A idéia que retorna a si, portanto, é a fará compreender melhor o sentido do es­
emersão do espírito, que inicialmente ainda pírito objetivo hegeliano.
se manifesta ligado à finitude. Hegel expli­
ca, do modo que agora já conhecemos bem,
como a idéia infinita, que se faz espírito, EE9 O s t r ê s m o m e n to s
d o e s p ír it o o b je tiv o
ainda se encontra ligada ao finito no seu
emergir da natureza. N ão é o espírito que
se manifesta no finito, mas, ao contrário, a) Diz Hegel que, para não permanecer
é a finitude que aparece dentro do espírito. puramente abstrata, a vontade livre “ deve
E por que isso acontece? Trata-se, diz dar-se uma existência” , ou seja, concretizar-
Hegel, de uma “ aparência que o espírito se. E a matéria mais imediata em que isso
põe diante de si como barreira, para po­ ocorre é constituída pelas coisas e objetos
der, através da superação dessa barreira, externos. Desse modo, nascem o “ direito”
possuir e saber por si a liberdade como sua e aquilo que a ele está ligado.
essência” . Ainda que inseridos em nova b) M as essa forma de existência ime­
moldura, são evidentes, aqui, os ecos de diata é inadequada para a liberdade, pre­
Fichte. cisamente por ser imediata e exterior. Essa
As etapas do espírito subjetivo são: imediaticidade e exterioridade, portanto,
1) a antropologia, que é o estudo da devem ser negadas e superadas, ou seja,
alma, considerada em sua fase inicial como mediatizadas e interiorizadas, e disso nasce
o sono do espírito ou como o aristotélico a moralidade, o segundo momento do espí­
“ intelecto potencial” ; rito objetivo.
2) a fenomenologia, que retoma algu­ N essa esfera, as coisas exteriores são
mas temáticas da grande obra homônima e inseridas como indiferentes e o que conta
que, por meio da autoconsciência, leva da é meu juízo moral, minha vontade, a for­
consciência à razão (a qual, como consciên­ ma de universalidade em que se inspirou
cia de ser todas as coisas, é espírito, ainda a regra do agir. Essa é a esfera da vontade
que não desdobrado inteiramente); subjetiva, da qual é exemplo paradigm áti­
3) a psicologia, que estuda o espírito co a ética kantiana, que Hegel censura por
teórico (que conhece os objetos como al- ser unilateral, porque encerra o homem
teridades), o espírito prático (como ativi­ em seu “ interior” . Essa unilateralidade,
dade que modifica os objetos) e o espírito portan to, deve ser retirada e superada
livre, como síntese dos primeiros dois m o­ mediante a realização externa e concreta
mentos. da vontade.
Capítulo sexto - H e g e l e o id e a l i s m o a b s o l u + o

c) Entram os assim no momento seja, a manifestação-realização do espírito


da
eticidade, que é a síntese dos dois momen­ objetivo.
tos anteriores, ou seja, o momento em que
o querer do sujeito se realiza querendo fins
concretos, operando desse modo a mediação A n atu reza do Ê sta d o
entre o subjetivo e o objetivo. M as, por sua
vez, a eticidade se realiza dialeticamente Como síntese de direito e moralidade
nos três momentos: a) da “ fam ília” ; b) da e como possibilidade de ser da família e da
“ sociedade” e c) do “ Estado” . sociedade, o Estado é a própria idéia que se
Os fins que a vontade livre quer na manifesta no mundo. Hegel diz até que ele é
fase da eticidade, portanto, são os fins “ o ingresso de Deus no mundo” , um “ Deus
concretos postos pela realidade viva da real” . E isso é verdade até para o Estado
família, indicados pela sociedade com suas mais defeituoso, porque, por maior que seja,
múltiplas exigências, queridos pelo Estado o defeito nunca chega a ponto de eliminar o
com suas leis. positivo de fundo e, portanto, nunca é capaz
Entre as muitas páginas interessantes de invalidar o que foi dito.
de Hegel relativas aos três momentos da N essa concepção, o Estado não existe
eticidade, recordamos particularmente as para o cidadão, mas o cidadão é que exis­
passagens sobre a família (que ele mostra te para o Estado. Em suma, o cidadão só
ser algo bem mais elevado do que um “ con­ existe enquanto membro do Estado. Esta
trato” , enquanto “ síntese” ética, na qual era uma concepção grega, que é retoma­
o dado contratual e aquilo que a ele está da por Hegel e levada às conseqüências
ligado, como o sexo e o amor, encontram extremas no contexto do seu idealismo e
sua verificação em um ethos superior), e panlogismo.
as passagens sobre a sociedade (nas quais
Hegel identifica o organismo social como
interm ediário entre fam ília e Estado de E O ; A n a t u r e z a d a h is tó ria
modo tão claro que a sua intuição, como e a -filosofia d a k is t ó ria
alguns já notaram, pode ser considerada
com o o ponto cardeal da ciência social Se o Estado é a razão que faz o seu
moderna). ingresso no mundo, a história, que nasce
Quanto ao Estado, porém, devemos da dialética dos Estados, nada mais é que
am pliar o discurso, já que é através do o desdobramento dessa mesma razão: “ a
Estado e da dialética instituída entre os história é o desdobramento do espírito no
Estados que se realiza a história, que, para tempo, do mesmo modo que a natureza é o
Hegel, é verdadeira e própria teofania, ou desdobramento da idéia no espaço” .
A história é o “ juízo” do mundo e a
filosofia da história é o conhecimento e a
revelação conceituai dessa racionalidade e
desse juízo. A filosofia da história é a visão
j ■ Espírito. O espírito é a idéia que ■ da história do ponto de vista da razão,
r voltou a si da alienação e se tornou í contrariamente à visão tradicional, que era
| em si e para si: ele é a mais alta ma- a visão própria do intelecto.
| nifestação do absoluto, o auto-reali- \ A história do mundo se desenvolve se­
\ zar-se e o autoconhecer-se de Deus. j gundo um “ plano racional” (que a religião
J Nesta ótica, idéia lógica e natureza j
reconhece com o nome de Providência),
í são vistas como pólos dialéticos dos J
f quais o espírito é a síntese viva. J e a filosofia da história é a conseqüência
; Também a esfera do espírito estru- I científica desse plano. Por conseguinte, a
| tura-se de modo triádico, e divide-se j filosofia da história torna-se “ teodicéia” ,
I portanto em três momentos: espírito j ou seja, conhecimento da justiça divina e
I subjetivo, espírito objetivo, espírito 1 justificação daquilo que aparece como mal
% absoluto. No vértice do espírito abso- 1 diante do poder absoluto da razão.
f luto, que é constituído pela filosofia, 1 Segundo Hegel, aquilo que se apresen­
t "a idéia eterna sendo-em-si-e-por-si I
| se ativa, se produz e goza de si mesma j ta como mal nada mais é que o momento
|H».. eternam ente". negativo, que é a mola da dialética, de que
. . -;jSI| falamos acima. Como crepúsculo das coisas
particulares, a morte nada mais é do que o
Segunda parte - F u n d a ç ã o e a b s o lu t i s a ç ã o e s p e c u la t iv a d o idealism o

contínuo fazer-se do universal. A própria A história do mundo passa através


guerra é o momento da “ antítese” que move de etapas dialéticas que assinalam um in­
a história, a qual, sem guerras, registraria cremento progressivo de racionalidade e
somente páginas em branco. de liberdade do mundo oriental ao mundo
Como se vê, o filósofo não se detém greco-romano, e deste ao mundo cristão-ger-
diante de nada. De resto, uma vez afirmado mânico. Nesta última fase, o espírito parece
que “ a história é o desdobrar-se da natureza ter-se realizado plenamente, conservando em
de Deus em determinado elemento parti­ suas profundezas o passado como memória,
cular” , tudo segue como conseqüência. E e concretizando no presente o conceito de si
é certamente na Filosofia do direito que se mesmo. M as, se é assim, a história está des­
lê a célebre afirmação “ tudo o que é real, tinada a se deter na fase cristã-germânica? A
é racional; tudo o que é racional, é real” . dialética histórica se detém em determinado
Assim como na natureza, para quem afirma momento? E isso o que parece se dever con­
a identidade entre Deus e natureza (Deus cluir de tudo o que Hegel diz, contrariamen­
sive natura), toda coisa é necessária e tem te ao que os princípios da própria dialética
sentido absoluto, da mesma forma, para teriam necessariamente exigido. Trata-se de
Hegel, para quem pensa Deus sive historia, grande aporia, que repercutiria inclusive na
tudo é necessário e todo acontecimento tem concepção de história de M arx.
sentido absoluto.

173 A r e a l i z a ç ã o d o e s p ír it o o b je tiv o 4 O espírito absoluto;


n a h is t ó r ia
a rte / re lig iã o e filosofia

M as vejamos como, concretamente, o


espírito objetivo se desdobra na história. Ele
se particulariza como “ espírito do povo” E S I O V e t o r n o a si mesma"da id é ia

(Volksgeist), como ele pouco a pouco se


manifesta nos vários povos. M as o espírito D epois de se realizar-se na história
do povo é uma manifestação do “ Espírito como liberdade, a idéia conclui seu “ retor­
do mundo” (Weltgeist). no a si” no autoconhecer-se absoluto. O
Também são momentos particulares do espírito absoluto, portanto, é a idéia que
espírito do mundo os “ indivíduos cósmico- se autoconhece de maneira absoluta. E esse
históricos” , os grandes heróis, capazes de autoconhecimento é o autoconhecimento
captar aquilo cuja hora é chegada e levá-lo de Deus, no qual, porém, o homem desem­
a termo. O que eles fazem não lhes vêm do penha papel essencial. Ao mesmo tempo,
interior, mas do espírito que, por meio deles, Hegel abaixou Deus ao homem e elevou o
tece seus desígnios. homem a Deus.
Com efeito, depois que o espírito ser­
viu-se desses homens para seus objetivos, E Q ;A s formas d o a u to -s a b e r -s e
ele os abandona e então se tornam nada, d o e s p ír ito : a r t e , r e li g iã o e filo s o fia
como Napoleão, que, depois da derrota, so­
breviveu somente para definhar na pequena
ilha de Elba e para morrer na distante ilha Esse auto-saber-se do espírito não é
Santa Helena. uma intuição mística, e sim um processo
E como se explicam as paixões mes­ dialético; por isso, é processo triádico, que
quinhas que movem os homens e seus fins se realiza: 1) na arte-, 2) na religião; 3) na
particulares? E como se justificam as aciden- filosofia. Essas são, portanto, três formas
talidades de vários gêneros? Hegel responde por meio das quais conhecemos Deus e Deus
que o particular se ‘esgota’ e se exaure já na se conhece.
sua luta contra o outro particular, dado que Elas se realizam, respectivamente:
o particular é sempre conflitivo. E assim ele 1) através da intuição sensível (estética);
se arruina, ruína da qual emerge impertur- 2) através da representação da fé;
bavelmente o universal. 3) através do conceito puro.
A razão universal faz as paixões irra­ Eis como Hegel caracteriza, de modo
cionais e o particular agirem em seu benefí­ claro e preciso, estes três momentos dialéti­
cio. Essa é a “ astúcia da razão” . cos da filosofia do espírito.
129
Cãpltulo SeXtO - H e g e l e o i d e a l i s m o a b s o l u t o

1) “ A forma da intuição pertence à M S» A s a r t i c u la ç õ e s d i a lé t i c a s


arte, de modo que a arte é que apresenta à d a arte/ d a r e li g iã o e d a filo s o fia

consciência a verdade sob forma sensível,


que tem nessa sua aparência um sentido Por fim, devemos recordar que:
e um significado mais elevados, mais pro­ 1) A arte também é entendida e re­
fundos” . construída segundo etapas dialéticas: a) arte
2) “ O âmbito seguinte, que ultrapassa oriental; b) arte clássica; c) arte romântica.
o reino da arte, é o da religião. A religião 2) Também na religião distinguem-se
tem como forma de sua consciência a repre­ três momentos: a) religião oriental; b) reli­
sentação, enquanto o absoluto é transferido gião grega; c) religião cristã.
da objetividade da arte para a interioridade 3) A própria filosofia (que vem a coin­
do sujeito” . cidir com a história da filosofia) também é
3) “A terceira forma do espírito absolu­ vista desdobrando-se nos três momentos:
to é, enfim, a filosofia. Com efeito, a religião a) da antiguidade grega; b) da cristandade
na qual Deus é inicialmente objeto externo medieval; c) da modernidade germânica.
para a consciência [...] se revela depois no Em todos esses desdobramentos his-
elemento interior, impelindo e preenchendo tórico-dialéticos, sobretudo duas coisas
a comunidade” . chamam a atenção: em primeiro lugar, a evo­
H egel, p o rta n to , con clui: “ D esse lução pareceria cessar com a terceira fase,
modo, unificam-se na filosofia os dois lados na qual tudo pareceria chegar a seu termo;
da arte e da religião: a objetividade da arte, em segundo lugar, a história da filosofia, de
que aqui certamente perdeu a sensibilidade Tales a Hegel, apresenta-se como grandioso
externa, mas encontrou compensação na teorema, que se desdobra no tempo e no
forma suprema do objetivo, na forma do qual cada sistema constitui uma “passagem”
pensamento, e a subjetividade da religião, necessária. E esse teorema parece encontrar
que é purificada como subjetividade do sua própria conclusão precisamente na filo­
pensamento” . sofia de Hegel.
É justam ente este o esquem a que Com efeito, na filosofia de Hegel — em
Hegel seguiu ao traçar a síntese das três certo sentido — é o próprio Deus que se
m an ifestaçõ es g ran d io sa s do esp írito , autoconhece, e, conhecendo-se, atua todas
arte-religião-filosofia, principalmente nos as coisas.
fam osos cursos de suas aulas, que contêm Em suma, sob muitos aspectos a filo­
alguns de seus pensamentos mais belos e sofia pareceria ter alcançado seu ápice no
mais sugestivos. sistema de Hegel. fTgfifl 6 17 |

VII. y M g u m as re-jlexões c o n c lu s iv a s

• Todo o pensamento moderno posterior a Hegel pode ser visto como uma
espécie de acerto de contas com o "totalitarismo racionalista" hegeliano. Os
irracionalismos e as filosofias antidialéticas posteriores têm todos em comum
a reação contra a razão que Hegel tentou impor em todos os níveis de modo
absolutista.
O próprio totalitarismo político depreendeu suas armas con- £e+
ceituais para a própria autolegitimação em grande parte a partir
de Hegel, freqüentemente abusando dos conceitos hegelianos, os hegeliana
quais, porém, fornecem efetivamente amplo material disponível §7
para tal abuso.
Apesar disso, Hegel renasceu no século XX, e muitos aspectos de seu filosofar
constituem intuições formidáveis e pilares de grande profundidade nos diversos
âmbitos da realidade histórica. É, portanto, oportuno aproximar-se de Hegel es­
Segundã pãrte - F u n d a ç ã o e a b s o lu + iz a ç ã o e s p e c u la t iv a d o idealism o

tabelecendo, como dizia Croce, "aquilo que morreu e aquilo que está vivo em sua
filosofia"; e enquanto parece morta sua pretensão de dar ao homem o totalizante
conhecimento absoluto do absoluto, permanece ainda viva toda uma série de
análises extraordinárias, que se estendem nos vários campos do saber e constituem
um material quase inexaurível.

1 "O q u e e s t á vivo tuem uma forma de absolutização daquelas


e o q u e e stá m orto”
destruições.
A própria dialética, que desde a an­
na filosofia d e H e g e l tiguidade emergira como o único método
específico da filosofia (o único m étodo
que a filosofia possui como próprio), que
Apresentamos com amplitude o pen­ não a com partilha com as outras ciências,
samento de Hegel, porque com ele o pen­ teve de ser repensada e redimensionada
sam ento ocidental alcança uma de suas a fundo, acabando por ser parcialmente
encruzilhadas mais importantes. Com efeito, envolvida e arrastada por aquela “ des­
não se pode compreender grande parte da truição” .
história da filosofia e da cultura posterior se Também é sabido que, em larga me­
não se compreende Hegel. dida, foi em Hegel que o totalitarismo po­
É claro que, em primeiro lugar, em sua lítico foi buscar as armas conceituais para
gigantesca construção, o sistema hegeliano sua própria autolegitimação. E, embora seja
não podia ser conservado assim como era verdade que isso foi abuso, também é ver­
por ninguém, porque muitas de suas partes dade que Hegel efetivamente fornece amplo
estão juntas por razões que não têm tanto material que se presta a tal abuso.
suas raízes na lógica do próprio sistema, e A estatolatria, a teorização do povo-
sim na cultura romântica e no espírito de guia eleito pelo espírito para celebrar sua
sua época. Conseqüentemente, era fatal que, própria concretização, a concepção dos
entre os próprios hegelianos, se formassem homens cósmico-históricos de cujo lado
rupturas muito profundas, que levaram está o direito absoluto, têm em Hegel o seu
até a uma direita e a uma esquerda hege- teórico máximo.
lianas bastante distintas entre si: a direita N o entanto, Hegel renasceu no século
radicalizou o sistema, a esquerda o podou X X , em passado que ainda está próximo. E
e redimensionou amplamente, como logo até nos adversários continuou a sobreviver
veremos. por ele uma espécie de amor-ódio que ainda
Todavia, em geral, todo o pensamento persiste, e que o faz ressurgir inopinadamen-
moderno posterior a Hegel pode ser visto te dos modos mais variados.
como uma espécie de “ gigantom aquia- A verdade é que Hegel foi mente filosó­
gem ” (para usar uma célebre expressão de fica de primeira grandeza, e que muitas das
Platão) contra o panlogismo absolutista he­ coisas que escreveu constituem formidáveis
geliano. Alguns chegaram até a apresentar intuições e investigações de grande pro­
a história da filosofia pós-hegeliana como fundidade nos vários âmbitos da realidade
“ destruição da razão ” , onde por “ razão” histórica, cujo valor não se apóia necessa­
deve-se entender precisamente aquela razão riamente nas premissas teóricas do sistema
que Hegel tentou impor em todos os níveis e que, portanto, têm (ou podem ter) valor
de modo verdadeiramente totalitário, como autônomo e, como tais, são sempre passíveis
vimos. de valorização e reproposição.
E era fatal que, nessa operação de Croce afirmou que é preciso aproxi­
“ d estru ição ” , se fosse m uito além dos mar-se de Hegel estabelecendo “ o que está
justos limites, e que, conseqüentemente, vivo e o que está m orto” em sua filosofia.
com a razão hegeliana, fosse atingida toda E essa operação foi feita por muitos e de
a racionalidade humana, como veremos. muitos modos.
M uitas formas de irracionalismo moderno Parece-nos que a resposta à questão do
e contemporâneo têm essa gênese e consti­ que está morto e do que está vivo em ^egel
Cãpítulo S € X tO - H e g e l e o id e a lis m o a b solu + o

poderia ser assim resumida: está morta a


pretensão de dar ao homem o totalizante «h»rg ■ « » < !« grfckti# $ «»»«
conhecimento absoluto do absoluto; está
viva toda uma série de suas extraordiná­ (Ênr v k U p ô í i ie
rias análises que se estendem pelos vários
campos do saber e que constituem material
quase que inexaurível. E é por isso que,
logo depois que alguém o declara defini­ i*

tivamente morto, Hegel renasce do modo


menos pensado. «tjiii St<u
N a Fenomenologia, o filósofo escreve­ $ í t * • g t r.
ra: “ A verdadeira figura na qual a verdade
existe só pode ser o seu sistema científico.
Colaborar para que a filosofia se aproxime
da forma da ciência (absoluta) — meta que, Br. »#*
alcançada, seja capaz de substituir a expres­
são amor pelo saber por verdadeiro saber —,
eis o que me propus” . M as o que está morto
em Hegel é precisamente a pretensão de al­
cançar esse “ verdadeiro saber” totalizante pftiia. HM.%
•*» !* » C tairt ti» I n t l i t
enquanto tal, ao passo que permanecem
vivas precisamente aquelas coisas que se
inscrevem no âmbito da filosofia entendida Vrontisjncio da edição berlmense de IH4 i
na dimensão clássica do termo, ou seja, da Enciclopédia das ciências filosóficas
COmO filo-sofia. em compêndio de Hegel.
Segunda pãYte - T "u n d a ç ã o e a b s o lu t i z a ç ã o e s p e c u la t iv a d o id e alism o

HEGEL
NECESSIDADE DA CIÊNCIA DO ABSOLUTO
A intenção fundamental de Hegel é t r a n s f o r m a r a f il o s o f ia d e

AMOR D O SABER {PH ILO -SO PH IA) E M SABER REAL (SOPH IA).
A época pós-kantiana exige que a ciência seja
c i ê n c i a d o A b s o 1u t o
em duplo sentido

* *.
1. o p ró p rio A b soluto chega a ter ciência de si 2. a ciência tem como objeto o A bsoluto

O Absoluto é essencialmente sujeito (automovimento), é


Espírito
que se autogera, realizando-se como Infinito
que põe e ao mesmo tempo retoma dentro de si o finito:
Idéia
que se reflete circularmente em si mesma,
dando lugar a três momentos dialéticos paradigmáticos

í
1 . O SER-EM -SI

2. O SER -O U TRO O U SER-EORA-DE-S1

3. A VOLTA A Sl O U SER-EM -SI-E-PO R-SI

i
/ que se repetem .

em geral (em Deus):


1. Idéia em si: Logos divino como racionalidade pura
2. Idéia fora de si, alienada: Natureza
/ 3. Idéia que volta a si e se torna em si e por si: Espírito

*
em particular (em todos os aspectos do universo):
todo momento do real é momento necessário do Absoluto,
que se realiza progressivamente em cada um e em todos estes momentos,
e apenas no fim do autoprocesso existe em sua verdade

I
A ciência, portanto, tem como características essenciais:
1. a sistematicidade (ciência do Absoluto em cada um e em todos os momentos necessários de seu desenvolvi­
mento)
2. a dialeticidade, que repete os três momentos paradigmáticos do automovimento do Absoluto e dá lugar a um
método que se escalona em

I
1. t e s e : momento abstrato ou intelectivo, em que o intelecto está fechado às de-terminações do finito;
2. a n t í t e s e : momento dialético em sentido estrito ou negativamente racional, em que a razão evidencia as con­
tradições do finito;
3. s í n t e s e : momento especulativo ou positivamente racional, em que a razão recompõe as contradições e opera
a síntese dos opostos, mostrando a si mesma como totalidade concreta
Capítulo sexto - -H eg el e o id e alism o absolu to

HEGEL
O SISTEMA DA CIÊNCIA

In t r o d u ç ã o : F e n o m e n o lo g ia d o E s p ír ito
Ciência da automanifestação temporal do Espírito,
que da consciência sensível se eleva dialeticamente até o saber absoluto.
Dois planos se entrecruzam:
1. o caminho percorrido pelo Espírito para chegar a si por meio de todas as vicissitudes da
história do mundo
2. o caminho do espírito do homem singular, que deve percorrer de novo aquele caminho, para
dele se apropriar


A meta do itinerário fenomenológico é
o ser como puro pensar,
o absolutamente mediato e, ao mesmo tempo, o absolutamente imediato,
com o qual tem início a

" I
1 . L Ó G IC A : CIÊNCIA DA ID ÉIA EM SI COM O L O G O S DIVINO PURO
A Lógica é a auto-estruturação ideal do Todo, e expõe
“Deus antes da criação do mundo e de todo espírito finito” .
Articula-se nas três esferas:
1. Ser: o pensar em sua imediatez
2. Essência: o pensar em sua mediação
3. Conceito: o pensar que volta para dentro de si como totalidade

y
2 . F il o s o f ia da N a t u r e z a : c iê n c ia d a Id é ia f o r a d e s i , a l ie n a d a

A Natureza é a Idéia na forma da alteridade e da exterioridade.


Seus três momentos fundamentais são:
1. Matéria e movimento em geral (objeto da mecânica)
2. Corpos inorgânicos e processos físico-químicos (objeto da física)
3. Corpos orgânicos (objeto da física orgânica)

t .
3. F i l o s o f i a d o E s p ír it o : c iê n c ia d a I d é ia em si e p o r si
O Espírito em geral é a verdade e o fim último da Natureza:
é a verdadeira realidade da Idéia, que se desdobra em três estágios:
1. E s p í r i t o s u b j e t i v o : espírito do indivíduo, ainda ligado ao finito
2. E s p í r i t o o b j e t i v o : espírito coletivo que se realiza progressivamente:
a) na família; b) na sociedade civil; c) no Estado.
O Estado é a racionalidade em si e por si, em que a liberdade chega a seu direito absoluto.
A dialética dos Estados dá lugar à História do mundo: nela o Espírito do mundo se desdobra,
servindo-se dos vários povos e das grandes individualidades históricas para tecer
seus próprios desígnios (“astúcia da razão” )
3. E s p í r i t o cujos três momentos progressivos são:
a bso lu to ,

a) Arte; b) Religião; c) Filosofia.


Na Filosofia, “a Idéia eterna existente-em-si-e-por-si se produz e goza de si mesma eternamente como
Espírito absoluto”
Segunda pãYte - F u n d a ç ã o e a b s o lu + iz a ç a o e s p e c u la t iv a d o idealism o

H eg el

R NGCGSSIDAD6 DG QU6 R FILOSOFIA S€Jfl C1€NCIR SISTCMflTICfl DO RBSOIUTO

D A natureza do saber científico e o absoluto como espírito


R idéia de sistema amadurecera em Hegeljá durante o período de ensino como livre-docente
no Universidade de Jena (1801-180ó), tanto que a primeira obra hegeliana em volume, publica­
do em 1807, trazia no Frontispício o título: Sistema do Ciência. Primeira parte, fl fenomenologia
do espírito. No Famoso Prefácio a esta obra (do qual Foram tirados as páginas apresentadas a
seguir), Hegel anuncia explicitamente suo intenção de transFormara philosophia (o amor pela
ciência) em sophia (ciência verdadeira e própria: não uma ciência entre os outras, mos a ciência
por excelência), e declarava que a característica Fundamental da ciência é a sistematicidade,
porque a verdade pode-se moniFestar autenticamente apenas como um todo sistemático.
Ressoa de Foto nestas Frases a antiga defínição aristotélica da FilosoFia como "ciência da
verdade", ressoom oí com ainda mais vigor muitas proposições contidas na Doutrina da ciência
de Fichte, e em certo sentido aí se encontram traços do idéio que está na base dos grandes
sistemas FilosóFicos modernos (Spinoza, Leibniz, UJolFF).
Por outro lado, o FilosoFia enquanto tal sempre se apresentou como o ciência humana por
excelência, como o supremo saber atingível pelo homem, onerado porém por uma limitação
indiscutível. Platão põe no boca de Sócrates os palavras que exprimem com grande eFicácia
a consciência de todo consciência FilosóFica autêntica: "Na realidade, apenas o deus é sábio
(sophós), [...] ao passo que a sabedoria humano (anthropíne sophia) tem pouco ou nenhum
valor".
Todavia, a diFerenço crucial entre a posição hegeliana e a de todo outro pensador con­
siste no Foto de que Hegel pretendeu conduzir o FilosoFia muito além do saber humano e de
transFormá-la deFinitivamente em saber divino, no sentido de que no FilosoFia - na FilosoFia
hegeliana! - o Deus uno e trino do cristianismo chegaria por Fim a saber completamente o si
mesmo como espírito obsoluto, e que ossim o espírito humano saberia verdadeiramente o si
mesmo em Deus.

1. O elemento e a figura Se a época atual se revelasse madura pela ele­


verdadeira da verdade, isto é: vação da filosofia a ciência, então esta seria o
o conceito e o sistema científico única verdadeira justificação das tentativas que
fl figura autêntica em que a verdade pode se propõem tal escopo: com efeito, não só se
existir é apenas o sistema científico da própria demonstraria a necessidade da elevação, mas
verdade. Ora, colaborar para que a filosofia tombém, ao mesmo tempo, ela seria atuada.
se aproxime da forma da ciência, a fim de que fl verdadeira figura da verdade é, por­
chegue à meta em que possa depor o próprio tanto, posta na cientificidade, e isso eqüivale
nome de omor do saber para ser saber real, é a dizer que a verdade encontra o elemento da
aquilo a que exatamente me propus. própria existência apenas no. conceito.
fl necessidade interior de que o saber 2 . O absoluto como sujeito
seja ciência reside em sua natureza, e a única e como resultado.
ilustração satisfatória a respeito é a exposição O verdadeiro,
da própria filosofia, fl necessidade exterior, enquanto tornar-se de si mesmo,
por sua vez - à medida que ela, prescindindo é o Todo
da acidentalidade da pessoa e a partir das
circunstâncias particulares, é captada de modo Segundo meu ponto de vista, que deverá
universal -, é idêntica à necessidade interior, se justificar apenas mediante a exposição do
e o é precisamente na figura em que a época próprio sistema, tudo depende do conceber
representa a existência dos próprios momentos. e exprimir o verdadeiro não tanto como subs-
, 135
Cãpltulo S eX t O - f H e 0el e o id e alism o a b so lu to _

tôncio, 0 sim propriamente como sujeito. Ao Na realidade, esse medo apavorante


mesmo tempo, devemos notar que a substan- deriva da ignorância sobre a natureza da me­
cialidade inclui em si tanto o universal, isto é, diação e do próprio conhecimento absoluto.
a imediatez do próprio saber, como também a A mediação, com efeito, não é mais que o
imediatez que é ser ou imediatez pelo saber. auto-igualdade que se move por si mesma, é
[...] fl substância viva constitui o ser que é ver­ a reflexão dentro de si, o momento do €u que
dadeiramente sujeito, que é verdadeiramente é-por-si, é a negativo pura abaixada à sua
real, apenas à medida que ela é o movimento abstração puro, o mediação é o puro e simples
do pôr-a-si-mesma, apenas enquanto é a tornar-se. €m virtude da própria simplicidade, o
mediação entre o tornar-se-outro-a-partir-de-si €u, o tornar-se em geral, este ato do mediar,
e si própria, ênquanto sujeito, a substância é é exatamente tanto o tornar-se da imediatez
a negotividade pura e simples, e justamente quanto o próprio imediato.
por isso é o desdobramento do simples, é a êxcluir do verdadeiro a reflexão, e não
duplicação oponente que por sua vez constitui captá-la como momento positivo do absoluto,
a negação desta diversidade indiferente e de quer dizer, portanto, desconhecer a razão, é
sua oposição: apenas esta igualdade que se a reflexão que determina o verdadeiro como
restaura, apenas esta reflexão dentro de si resultado, mas que também remove a oposição
mesmo no ser-outro - não uma unidode origi­ entre o resultado e seu tornar-se; esse tornar-
nária enquanto tal, nem imediata enquanto tal se, com efeito, é igualmente simples, e por isso
- é o verdadeiro. O verdadeiro é o tornar-se não é diverso da formo do verdadeiro, que
de si mesmo, é o círculo que pressupõe e tem é a de mostrar-se simples em seu resultado,
no início o próprio fim como próprio fim, e que ou melhor: o verdadeiro é o ser que voltou à
é real apenas mediante a atuação e o próprio simplicidade.
fim. [...] O verdadeiro é o Todo. O Todo, porém, Se em si o embrião é indubitavelmente
é apenas a essência que se realiza mediante homem, não o é, porém, por si; é homem por
seu próprio desenvolvimento. Do absoluto, com si apenas como razão formada e desenvolvida,
efeito, é preciso dizer que é essencialmente um que se fez aquilo que ela é em si. Apenas esta é
resultado, que apenas no fim é aquilo que é sua realidade. Mas tal resultado é, por sua vez,
na verdade. 6 exatamente nisto consiste sua imediatez simples: ele, com efeito, é a liberdade
natureza: em ser realidade, sujeito, tornar-se- autoconsciente que repousa dentro de si mesma
a-si-mesmo. Gmbora posso parecer contraditório e que, em vez de segregar a oposição para
o fato de que o absoluto deva ser concebido deixá-la para trás, se reconciliou com ela.
essencialmente como resultado, bastará uma Tudo o que dissemos pode ser expresso
breve reflexão para eliminar esta aparência também assim: a razão é o agirem conformida­
de contradição. de com um fim. A elevação da suposta natureza
acima do pensamento desconhecido em sua
3. fl natureza da mediação essência, e sobretudo a colocação de escanteio
e a reflexão dentro de si. da finalidade exterior, lançaram descrédito so­
O início é o fim bre a forma do fim em geral. Já Aristóteles, ao
contrário, havia determinado a natureza como a
O início, o princípio, o absoluto em sua atividade conforme a um fim, e havia concebido
primeira e imediata enunciação, é apenas o o fim como o imediato, como aquilo que está
universal. € assim como não se expõe uma zoo­ em repouso, como o imóvel que é ele próprio
logia com o simples dizer "todos os animais", motor - e que por isso constitui o sujeito. Suo
com a mesma evidência salta aos olhos que as força para mover, tomada em abstrato, é o ser-
palavras "divino", "absoluto", "eterno" etc., não por-si, a negotividade pura. £ se o resultado é
exprimem, de fato, o conteúdo determinado do idêntico ao início, isso ocorre apenas porque o
divino, do absoluto, do eterno etc., mas apenas início é o fim; e isso eqüivale'a dizer: o real é
a intuição imediata que os concerne. Aquilo que idêntico ao próprio conceito apenas porque o
vale mais do que tais palavras, ainda que se imediato, enquanto fim, tem dentro do próprio
trate apenas da passagem para uma proposi­ interior o Si-mesmo, a realidade pura. O fim
ção, contém um tornor-se-outro que deve ser atuado, o real existente, é de fato movimento
retomado, ou seja, é uma mediação. A respeito e tornar-se plenamente desdobrado: e tal
desta última há, porém, uma espécie de medo inquietação é justamente o Si-mesmo. Neste
apavorante, como se aceitar a afirmação pela sentido, porém, o Si-mesmo é igual também
qual a mediação seria algo de absoluto e teria à imediatez e simplicidade do início, pelo fato
lugar no absoluto significasse ter de renunciar de que ele é o resultado, é aquilo que retornou
ao conhecimento absoluto. para dentro de si-mesmo: e aquilo que voltou
Segunda pavte - F u n d a ç ã o e a b s o lu t iz a ç ã o e s p e c u la t iv a d o ide alism o

poro dentro de si próprio é exatamente o Si- €ste ser-em-si-e-por-si, porém, é em


mesmo, é auto-igualdade e simplicidade que primeiro lugar apenas para nós o em si, é a
se refere a si mesma. substância espiritual, e deve, portanto, ainda
ser tal por si próprio: ele deve se tornar o saber
4. O verdadeiro é real apenas como sistema. que sabe o espiritual e que, ao mesmo tempo,
O absoluto como espírito sabe a si mesmo como espírito: ou seja, deve
se tornar objeto de si mesmo, e, igualmente
€ntre as diversas conseqüências que de modo imediato, também obieto removido,
derivam de tudo o que dissemos até agora, reflexo dentro de si próprio. A medida que
pode-se pôr em relevo a seguinte: apenas produz inconscientemente o próprio conteúdo
como ciência, apenas como sistema, o saber espiritual, o objeto é por si apenas para nós:
é real e pode ser objeto de exposição. [...] quando, porém, ele é por si também para si
O verdadeiro é real apenas como sistema, a próprio, então esta autoprodução - o conceito
substância é essencialmente sujeito: tudo isso puro - é para ele também o elemento objetivo
é expresso na representação que enuncia o em que tem a própria existência, e em tal exis­
absoluto como espírito- conceito eminentíssimo tência ele é, para si próprio, objeto refletido
que pertence ã época moderna e à sua religião. dentro de si.
Apenas o espiritual é o real: ele é a essência, O espírito que, de tal modo, sabe-se de­
ou seja, aquele-que-é-em-si: ele é aquilo que senvolvido como espírito, é a ciência. R ciência
se refere a outro, o determinado, é o ser-outro e é a realidade do espírito e é o reino que se
o ser-por-si (e é o permanecer-dentro-de-si em constrói em seu próprio elemento.
tal determinação, isto é, em seu ser-fora-de-si): G. UJ. f. Hegel,
apenas aquilo que é espiritual é em si e por si. Fenomenologia do espírito.

2 O papel da Fenomenologia do espírito


Para Hegel, a especulação filosófica, enquanto ciência, realiza-se quando a razão nega toda
finitude e se eleva até o absoluto. €sta elevação, todavia, não pode ser repentina e imediata,
mas deve acontecer em graus, segundo um movimento que já é filosofia.
R fenomenologia do espírito é exatamente a história da elevação da consciência fenomê-
nica das finitezos de seu saber ao saber absoluto: ela é, portanto, não só uma introdução ao
filosofar, mas um verdadeiro e próprio filosofar.
€ preciso, porém, compreender que tal filosofar não é apenas a expressão de uma pesquisa
pessoal ligada ó história intelectual do indivíduo, mas é também a manifestação da vida do
absoluto: ou seja, de um lado corresponde ao caminho que o absoluto teve de percorrer para
chegar à consciência de 5i-mesmo, do outro constitui o itinerário formativo do filósofo individual:
e esta coincidência se realiza porque o homem é parte estrutural do absoluto.
Fenomenologia, em sentido literal (de phainómenon, "aparecer", 0 logos, "ciência"), signi­
fico "ciência do aparecer do espírito" em seu processo de elevoção até o saber absoluto, por
meio de momentos dialéticos.
€m conclusão, são dois os níveis segundo os quais deve ser lida a fenomenologia: I) aquele
que ilustra o caminho seguido pelo espírito para chegar ò autoconsciência e que se realiza nas
vicissitudes da história do mundo: 2) o plano individual, que percorre de novo este caminho para
torná-lo próprio. Desse modo, o história autêntica da consciência do indivíduo deve percorrer
de novo a história universal do espírito. ■

1. fl fenomenologia do espírito em sua universalidade. Ora, o pressuposto ou a


é elevação até a ciência, isto é, condição do início da filosofia é que a consciên­
até o puro auto-reconhecimento do espírito cia se encontre nesse elemento. Tal elemento,
no absoluto ser-outro porém, chega à realização e à plena transpa­
rência apenas por meio do movimento do pró­
O puro auto-reconhecimento no absoluto prio tornar-se. €le é a pura espiritualidade, no
ser-outro, este ser enquanto tal, é o terreno sentido do universal, cujo modo de ser é o da
sobre o qual se funda a ciência, e é o saber imediatez simples: esta simplicidade, quando
- 137
Cüpítulo SCXtO - " H e g e l e o i d e a l i s m o a b s o l u t o --------

existe como tal, é o terreno, é o pensamento do espírito é a exposição do estruturar-se deste


que tem sede unicamente no espírito. movimento de autoformação em toda a sua
Uma vez que este elemento, esta imedia- amplitude e necessidade, e, ao mesmo tempo,
tez do espírito, constitui o caráter substancial ela apresenta os troços daquilo que de vez em
geral do próprio espírito, ele é a essencialidade quando é abaixado a momento e propriedade
transfigurada, a reflexão que, ela própria sim­ do espírito. R meta é a visão clara, por parte
ples, é por si a imediatez enquonto tal: é o ser do espírito, do que é o saber.
que se reflete dentro de si próprio. [...] Oro, o R impaciência pretende o impossível, isto
Fenomenologia do espírito é exatamente a ex­ é, alcançar o meta sem os meios. De um lado,
posição deste tornor-se da dênda em geral, isto ao contrário, pois todo momento é necessário,
é, do saber. O primeiro manifestar-se do sober, é preciso suportar o comprimento deste cami­
o espírito imediato, é a consdênda sensível, ou nho; do outro lado, é preciso deter-se junto
seja, aquilo que é privado de espiritualidade. a cado momento, enquanto cada um é ele
Para se tornar o saber autêntico, para produzir o próprio uma figura individual total, e deve ser
elemento da ciência - o qual é o conceito puro considerado em sentido absoluto apenas se a
da própria ciência -, o saber imediato deve determinação dele é entendida como totalidade
percorrer um caminho longo e difícil. ou concretude, como o Todo na peculiaridade
Gsse tornar-se, como se apresentará em desta determinação.
seu conteúdo e nas figuras que se mostram Uma vez que a substância do indivíduo,
ao longo do caminho, se revelará uma coisa uma \/ez que até o espírito do mundo teve a
totalmente diversa de um encaminhamento da paciência de atravessar estas formas por toda
consciência pré-científica para a ciência; não o sua duração temporal e de assumir a imensa
será também uma fundação da ciência, nem fadiga da história do mundo - durante a quol
será, por fim, o entusiasmo que, como um tiro ele de vez em quando encarnou em cada forma,
de revólver, começa imediatamente com o saber segundo tudo o que esta comportasse, o conteú­
absoluto e se desembaraça dos pontos de vista do total de si mesmo -, e uma vez que não lhe
divergentes, declarando não querer saber deles. teria sido possível chegará consciência de si com
R tarefa de conduzir o indivíduo do estado inculto menor fadiga, então, segundo a própria coisa, o
até o sober foi compreendido necessariamente indivíduo não pode chegar a conceber a própria
em seu sentido geral, e se tratou de considerar substância percorrendo um caminho mais breve.
o indivíduo universal, o espírito autoconsciente,
em seu processo de formação. [...] O indivíduo 2. fl vida do espírito, a morte
deve percorrer de novo os graus da formação do e a imensa potência do negativo
espírito universal também segundo o conteúdo,
mas como figuras já postos por parte do próprio O concreto é automovimento apenas
espírito, como graus de um caminho já traçado porque se cinde e se torna irreal. R atividade
e aplainado. Do mesmo modo, nós, na esfera do cindir e do separar é a força e o trabalho
das cognições, podemos ver hoje obaixar-se do intelecto, do mais extraordinário e maior
a noções, o exercícios, e até a brinquedos de potência, ou melhor, da potência absoluta. O
criança, aquilo que em épocas precedentes círculo que repouso fechado em si próprio, e
era apanágio openos do espírito moduro dos que, enquonto substância, sustento os próprios
adultos, e no progresso pedagógico podemos momentos, é a relação imediato que, por isso,
reconhecer, como em contraluz, a história da não tem nada de surpreendente. Mas o fato
formação do mundo. €sta existência passoda é de que o acidental enquanto tal, separado da
propriedade já adquirida do espírito universal, própria esfera, o fato de que aquilo que está
que constitui tanto a substância do indivíduo ligado o outro e é real apenas em conexão com
quanto, encarnando também sua exterioridade, outro obtenho uma existência própria e umo
sua natureza inorgânica. liberdade separada, tudo isso constitui a imensa
Sob este aspecto, e do ponto de vista potência do negativo: tudo isso é a energia do
do indivíduo, a formação consiste no aquisição pensamento, do €u puro.
desta dotação, em consumar dentro de si a R morte, se assim quisermos chamar essa
própria natureza inorgânica e em tomar posse irrealidade, é a coiso mais terrível, e para man­
dela por si mesmo. Do ponto de visto do espírito ter parado aquilo que está morto é necessária
universal enquanto substância, ao contrário, a a máxima força. Se, com efeito, o beleza impo­
formação consiste no fato de que esta subs­ tente odeia o intelecto, isso ocorre porque se vê
tância confere-se a própria autoconsciência e chamada por este o tarefas que ela não está em
produz o próprio tornar-se e a própria reflexão grau de realizar. R vida do espírito, ao contrário,
dentro de si. Ora, a ciência da fenomenologia não é o que se enche de horror dionte da morte
Segunda purte - F u n d a ç ã o e a b s o lu t i z a ç ã o e s p e c u la t iv a d o idealism o

e se preservo íntegro do desintegração e do --------------------------- :--------------


devastoção, mas é a vido que suporta o morte dialética confere ao saber o caráter sistemá­
e nela se mantém. tico que é próprio da ciência.
O espírito conquista a própria verdade ft dialético é um disciplino antigo, e efeti­
apenas com o condição de reencontrar o si vamente Hegel não desconhece essa origem,
próprio no desagregação absoluta. O espírito mas transforma radicalmente seus termos à
é esto potência, mas não no sentido do positivo medido que os arranco do rígido repouso em
que afasta o olhar do negativo, como quando que jazem, quase petrificados.
nos desembaraçamos às pressas de algo O método dialético tem umo estrutura
dizendo que não existe ou que é Poiso, poro triádica, cujo vértice é constituído pelo mo­
passar logo a algumo outro coisa. O espírito mento especulativo, no qual a razão copta
é, ao contrário, esto potêncio apenas quando a unidade das determinações contrapostas,
olha de Prente o negativo e permanece junto próprios do finitude, e penetra na região do
dele. Tal permanência é o poder mágico que absoluto como síntese de opostos.
converte o negotivo no ser. Por conseguinte, as proposições filosó­
£ste poder mágico identiPica-se com aquilo ficas devem ser proposições especulativas,
que chamamos o sujeito, o qual, conPerindo no que exprimem o movimento dialético com o
próprio elemento umo existência para a determi­ qual sujeito e predicado se intercombiam re­
nação, ultrapassa a imediatez abstrato - isto é, ciprocamente as partes de modo a constituir
o imediatez que é apenas em geral - e se torno umo identidade dinâmica.
assim a substância autêntico, torna-se o ser ou
o imediatez que não tem mais a medioção Poro
de si, mas que é esta próprio mediação.
1 .0 negativo
3. fl conclusão do fenomenologia do espírito e o movimento do verdadeiro
fl Penomenologia do espírito se conclui O elemento e o conteúdo do PilosoPia não
justamente com o ser como absolutamente é o abstrato ou o irreol, mas o real, aquilo que
mediado. No curso do Penomenologia, o espírito põe a si próprio e vive dentro de si próprio, a
prepara paro si próprio o elemento do saber. existência que está no próprio conceito. €ste
Neste elemento, os momentos do espírito se elemento é o processo que produz e percorre
desdobram na formo do simplicidade, a qual os próprios momentos, e todo o seu movimen­
sabe o próprio objeto como si própria. Aqui os to constitui o positivo e o verdade do próprio
momentos não caem mais um Poro do outro na positivo.
oposição entre ser e saber, mas permanecem A verdade, portanto, inclui no próprio in­
juntos na simplicidade do saber, são o verdadei­ terior também o negativo. Ora, se se pudesse
ro na Porma do verdadeiro, e sua diversidade é considerá-lo como algo do qual Pazer abstração,
apenas diversidade do conteúdo. Seu movimen­ o negativo se chamaria "Palso". De Pato, ao con­
to, que no elemento do verdadeiro em Porma de trário, aquilo que vai desaparecendo deve ser
verdadeiro se estrutura em um Todo orgânico, considerado ele próprio como essencial, e não
constitui o lógica ou filosofia especulativo. deve ser enrije