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Betty Herbert

Tradução
Regiane Winarski
Copyright © Betty Herbert 2011

Todos os direitos desta edição reservados à


Editora Objetiva Ltda.,
Rua Cosme Velho, 103
Rio de Janeiro — RJ — CEP: 22241-090
Tel.: (21) 2199-7824 — Fax: (21) 2199-7825
www.objetiva.com.br

Título original
The 52 seductions

Capa
Tita Nigri

Imagem de capa
CSA Images/Printstock Collection/Getty Images

Revisão
Raquel Correa
Rodrigo Rosa
Mariana Freire Lopes

Coordenação de e-book
Marcelo Xavier

Conversão para e-book


Freitas Bastos

CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE
SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ

H46s

Herbert, Betty

Uma sedução por semana [recurso eletrônico]: 52 formas de aquecer seu casamento / Betty Herbert; tradução
Regiane Winarski. - Rio de Janeiro: Objetiva, 2012.

Tradução de: The 52 seductions


Formato: ePub
Requisitos do sistema: Adobe Digital Editions
Modo de acesso: World Wide Web
295p. ISBN 978-85-390-0408-9 (recurso eletrônico)

1. Relação homem-mulher. 2. Sedução. 3. Sexo no casamento. 4. Livros eletrônicos. I. Título.

12-5166. CDD: 306.7 CDU: 392.6


Para C, com amor
Prólogo

Sei que vou parecer muito recatada, mas garanto que não é nada disso.
Não, não sou recatada; só estou casada há dez anos. Há uma diferença, embora eu
suspeite que, se eu desenhasse um diagrama no qual um círculo representasse “pudor” e
outro representasse “estar casada por dez anos”, haveria uma sobreposição considerável.
Menciono isso para Herbert e ele diz: “Uma sobreposição em forma de vulva.” Para você
ver como as coisas desandaram. Já passou do ponto de qualquer avaliação freudiana.
Veja bem, não sou recatada. No parágrafo anterior, usei livremente a palavra “vulva”
sem preocupação alguma. Sei muito bem falar de sexo. Basta me observar no bar em um
sábado à noite. Sou aquela que conta piadas obscenas, fazendo os companheiros de
mesa gritarem de vergonha.
Só que não passo das palavras. Sou expert em fingir durante o papo. Na vida real,
entre quatro paredes, sou tão esclarecida sexualmente quanto Mary Whitehouse.1
Pensando bem, vamos apagar isso. Não tenho direito de criticar o apetite sexual de Mary.
Até onde sei, ela pode perfeitamente ter sido um tanto saidinha.
A questão é que não sou reprimida por natureza. Não fui criada em um ambiente
sexualmente reprimido (ao contrário: o apetite sexual de minha mãe deixaria Samantha
Jones2 envergonhada) e não sou contra o sexo de maneira alguma. O problema é que
acabei ficando com um pouco de repulsa quando o sexo envolve minha participação.
Começamos com muita disposição, Herbert e eu. Mal conseguíamos tirar as mãos um
do outro. Mas isso aconteceu há longos 15 anos, e eu tinha apenas 18 anos. Agora, aos
33, o sexo parece tão distante de mim que luto para lembrar para que serve. Raramente
transamos e, quando fazemos, normalmente é por causa de uma sensação de obrigação.
Quanto tempo faz? Um mês? Bem, acho que devíamos dar umazinha. Espere aí, tenho
que raspar as pernas primeiro.
Às vezes parece que todo meu desejo fugiu. Simplesmente não está mais presente. O
desejo costumava surgir em mim e incendiar meu corpo e minha mente. Costumava ser
deflagrado pelas coisas mais intangíveis: pelo cheiro de pele quente numa tarde de
verão, por uma troca de olhares. Agora, mesmo quando procuro, está estranhamente
ausente. Eu me lembro bem dele, e parece que apenas isso deveria ser o suficiente para
senti-lo quando eu quisesse. Mas não é assim. Ao contrário, parece que estou procurando
um gato perdido. Tudo me diz que alguma coisa deveria vir correndo, mas que estou
gritando em um quintal vazio.
Este livro não é sobre a morte do amor. Herbert e eu nos adoramos, e me orgulho em
dizer que somos extremamente felizes. Não temos filhos que nos cansem ou atrapalhem
nossa vida sexual. Mas os fogos de artifício pararam de estourar no quarto há muito
tempo. Em lugar deles, desenvolvemos uma coisa que se parece com constrangimento.
Mas um relacionamento cheio de amor não deveria estimular a imaginação? Na minha
experiência, não. Herbert é meu melhor amigo, meu confidente, meu suporte. É a pessoa
que cuida de mim, esteja eu doente ou não. Ele sabe o que me deixa triste e o que me
deixa com raiva. Ele sabe o que me faz feliz. A sensação de segurança que nasceu entre
nós é a coisa mais valiosa do mundo.
Mas essa segurança é um golpe mortal no desejo. O casamento moderno é fraternal
demais. Quem quer comprometer toda essa segurança maravilhosa ao pedir sexo?
Dividimos as tarefas de cozinhar e limpar, conversamos sobre nossos sentimentos e nos
esforçamos para apoiar um ao outro durante os momentos difíceis. Onde está o sexo?
Onde está o mistério? Onde está o frisson erótico?
No mundo limpo e novo do casamento moderno, o sexo é o sapo abominável no fundo
do jardim. Temos medo dele secretamente, mas sabemos que devíamos achá-lo
fascinante. Não conseguimos nos obrigar a matá-lo, então esperamos que morra por
conta própria. É um lembrete inconveniente do estado primitivo que pensamos ter
afastado de nossas vidas.
Mesmo que eu fosse tomada por uma onda maluca de paixão e quisesse atacar
Herbert, eu não saberia por onde começar. Não temos mais a linguagem para o sexo,
nem a verbal nem a física. Perdemos nossa imaginação sexual. Seria doloroso admitir
para Herbert que eu achava um filme, uma foto ou uma roupa sexy. Pareceria ridículo
demais. Sou sua esposa estável e sensata. Não que ele fosse reprovar; mas ficaria tão
surpreso que nós dois seríamos tomados de vergonha. Sexo é como um segredo que não
conto nem para mim mesma.
Eu odiaria admitir quando tinha 18 anos que era inexperiente. De alguma forma, ao
permanecer com o mesmo parceiro desde então (e nós dois fomos completamente fiéis,
tenho certeza absoluta), conservei a sexualidade de uma garota de 18 anos. É menos
picante do que parece, posso garantir, e sem os benefícios de uma barriguinha firme de
adolescente.
Se você tivesse me perguntado naquela época como era o sexo com Herbert, eu teria
dito, com sinceridade total, que era magnífico. Mas o problema é que continuamos
fazendo o mesmo sexo por muitos anos. Aconteceu um desgaste. O que é magnífico aos
18, se não for desenvolvido, se torna entediante aos 33. E ficamos estranhamente
satisfeitos em olhar com carinho para as lembranças das nossas transas do passado em
vez de gerar novas. Como invejo minhas amigas que navegaram por dezenas de caras ao
longo dos 20 e poucos anos! Elas têm um leque enorme de experiências que não consigo
nem imaginar.
Mas alguma coisa mudou. Primeiro, conseguimos ter uma vida sexual depois de uma
pausa particularmente longa, mesmo para os nossos padrões. Pode ter sido porque nos
vimos em um quarto de hotel com uma Jacuzzi e um estoque de lubrificantes em um dos
armários. É isso que acontece quando você ganha um upgrade para a suíte nupcial. Teria
sido uma pena não fazer uso completo dos recursos. Mas para ir direto ao ponto, o sexo
foi muito bom. Tão bom que (depois que paramos de tremer de surpresa), repetimos.
Três vezes em um final de semana. Era um número e tanto para nós, isso eu posso
garantir.
Foi como ser atingida por uma revelação. Que perfeita e completa idiota eu vinha
sendo. Que tremendo desperdício! Tantas mulheres da minha idade estão entregues a
aventuras sexuais, mas sonham em encontrar O Homem das Suas Vidas. Eu encontrei O
Homem da Minha Vida anos atrás e o desperdicei. Minha sexualidade é responsabilidade
minha. Qual é o sentido de sacrificá-la ao meu próprio sentimento muito britânico de
vergonha? Quinze anos juntos deveriam levar a alguma espécie de competência; no
nosso caso, levou a uma espécie de ignorância cega e confusa. Mesmo se eu quisesse,
não teria ideia de como excitar Herbert. Não faço ideia dos gostos e preferências sexuais
dele, e muito menos dos meus. Criei o hábito de dizer não antes mesmo da pergunta ser
feita, e já era hora de parar com isso.
Com nervosismo, me aproximo de H na cozinha e faço uma proposta.
— Nunca vamos ser o casal que transa todo dia — digo eu —, então vamos ser mais
realistas. E se marcarmos um dia para fazer sexo uma vez por semana? Mas com um
detalhe: Nos revezamos em preparar uma sedução para o outro a cada semana, durante
um ano.
Fico surpresa com a rapidez com que ele concorda. Na verdade, um adorável sorriso se
abre no rosto dele.
— Tudo bem — diz ele.
— Mas temos que cumprir o combinado — digo eu. — Nós dois. Vai exigir um certo
esforço.
— Acho que conseguimos fazer isso.
— Quando começamos nosso relacionamento, uma parte do motivo para o sexo ser
tão bom era porque esperávamos com ansiedade por ele o dia todo. Acho que seria bom
um pouco mais dessa ansiedade.
— Tudo bem — diz ele. — Bom. Ótimo! Desde que não tenha que ser elaborado
demais sempre.
— Não, elaborado, não. Só interessante. Só intencional.
— E isso não significa que não podemos transar em outros momentos também.
— Não force a barra.
É assim que a sedução começa.
Acordo na manhã seguinte e penso: “Meu Deus, eu realmente falei aquilo em voz
alta.” Era uma bela ideia que passeava pela minha cabeça e a arruinei ao transformá-la
num pacto sexual bizarro. Agora tenho que imaginar — e confessar — 26 formas de
sedução ao longo de um ano, e tenho que abrir minha mente para as 26 que Herbert vai
planejar para mim. Por dentro, já estou me encolhendo de vergonha.
Tudo bem, penso eu. Não acho que Herbert vá se importar se deixarmos a ideia de
lado. Não seria a primeira vez, afinal. Mas Herbert está na cozinha, assoviando.
— Como a ideia foi sua, acho justo que você prepare a primeira sedução — diz ele.
— Hum, tá. Certo. Provavelmente. — Não consigo argumentar com a lógica dele e
acho que ele também não gosta muito da ideia de ser o primeiro a sugerir algo.
— Sexta, então?
— Perfeito.
Confinada no fundo da minha imaginação, uma sedução parecia uma coisa muito
divertida e excitante. Mas, em aberto, ganhou ares de ameaça. Uma sedução é uma
expressão de seu gosto sexual pessoal, um convite para compartilhar um prazer. Se você
não tem mais certeza sobre o que gosta, é uma perspectiva apavorante.
Em desespero, faço o que qualquer mulher sã faria: digito “sedução” no Google.
Meu Deus, quanta coisa. Tenho medo de clicar em algo que não queira ver. Tenho
mais medo ainda de clicar em um link que abra janelas infinitas ou que detone
completamente meu disco rígido. Como se navega nesse mundo e se separa o bom do
ruim? O que estou procurando?
Fico aliviada em ver um jornal de circulação nacional no topo da pesquisa.
Cuidadosamente, clico no guia de “Dez melhores brinquedos sexuais” que o jornal
oferece. Algemas de cetim, uma palmatória acolchoada, um “pênis de cerâmica quente e
frio”. Vamos com calma. Preciso beber uma taça de vinho. Isso é normal? Está todo
mundo fazendo isso?
Sigo os links, esperando encontrar algo voltado para iniciantes. A primeira página
obviamente foi vítima da recessão e seu conteúdo foi substituído por uma coisa de teor
duvidoso. Fecho a janela o mais rápido possível.
Pulo o site seguinte simplesmente por sua aparência deplorável. Fotos demais de
louras siliconadas me fazem pensar em calcinhas de lycra. Posso estar pondo em risco
minha intimidade, mas não vejo motivo para comprometer meu bom gosto. Nem para me
pôr em risco de ter candidíase.
Pior, o preço dos produtos mais sofisticados me exclui desse mercado. O jornal me
leva ao que parece um soco inglês (“para ser usado no dedo do meio da mão dominante
da pessoa”) que custa 560 libras na Coco de Mer. Sério. Tenho dificuldades em imaginar
as circunstâncias nas quais eu pagaria tanto por uma rápida sessão de masturbação
mútua, supondo que é isso que se faz com o tal objeto. Na verdade, as aplicações dele
são um mistério para mim.
A Coco de Mer já me assustou, de qualquer forma, com a máscara de cachorro de
couro (220 libras pelo acessório chique de bondage) e calcinhas de trezentas libras que
são lindas, mas não são para mim. Eu me pergunto, envergonhada, se não sou mais uma
garota no estilo Ann Summers,3 pelo menos em termos de faixa de preço, ou até mesmo
de ambição.
A Coco de Mer pelo menos usa fotos artísticas de mulheres com coxas carnudas que
não depilam todos os pelos pubianos. O site da Insinuate é cheio de garotas com cara de
atriz pornô oferecendo os corpos magros ao olhar masculino. Gostaria de saber quantos
homens compram coisas no site e ficam decepcionados quando veem os corpos das suas
mulheres usando a peça. Não conseguimos corresponder a esse tipo de expectativa.
Mesmo assim, considero comprar uma calcinha de seda Bridgette — até ver a parte de
trás. Não tenho tanta certeza se a racha da minha bunda merece ter uma janela própria.
Talvez o fato de eu estar usando a palavra racha já diga tudo que você precisa saber.
Então terá que ser Ann Summers. Espero uma proliferação de franzidos, cetim e renda
barata, todos na cor obrigatória: vermelho. Não estou completamente errada, mas, para
ser honesta, a maior parte do que vejo poderia estar na Marks & Spencer. 4 Isso me
deprime e me consola, simultaneamente. Nesse ponto, estou em um estado de total
desespero. Inconsolável, clico em várias partes do site, enquanto me pergunto se lingerie
atrevida é realmente aquilo de que preciso. Afinal, ainda não me rendi a pacotes de
calcinhas de mercado nem a sutiãs cinza. Gosto de saber que minha roupa íntima está
em bom estado; nunca se sabe quando vamos ser atropeladas por um ônibus.
Sinto os primeiros sinais de uma revolta. Por que tenho que comprar alguma coisa
para ser sexy? E quando desenvolvemos essa ideia de que precisamos nos encher de
acessórios para fazer sexo? Dá para comprar anéis vibratórios para o pênis na Boots5
hoje em dia. Só consigo sentir que estamos perdendo a essência da nossa sexualidade
sob essa inundação de babados e vibrações entorpecentes.
Decidida, desligo meu laptop e me pergunto que diabos vou fazer se tiver que
depender apenas da minha imaginação.

1 Ativista católica inglesa dos anos 1960 e 1970. (N. da T.)


2 Personagem da série de TV Sex and the City. (N. da T.)
3 Cadeia inglesa de lojas de lingerie e acessórios sexuais. (N. da T.)
4 Maior rede de lojas de departamento do Reino Unido. (N. da T.)
5 Maior cadeia de farmácia e loja de produtos de beleza do Reino Unido. (N. da T.)
Dezembro
Sedução no 1
O primeiro encontro

O dia da primeira sedução chega e me vejo pensando com cansaço sobre como os
eventos especiais da vida, como presentes de aniversário e manter contato com velhos
amigos, são sempre minha responsabilidade. Por que preciso inventar a primeira
sedução? Talvez pudéssemos ter uma boa conversa sobre isso à noite e quem sabe
sentar para fazermos um planejamento juntos, ou algo do tipo. Você sabe onde está
pisando quando tem um planejamento.
Mas então, em algum ponto do caminho (e na verdade isso acontece por volta das
17h, com Herbert estando para chegar uma hora depois), me dou conta do quanto estou
sendo mesquinha. O espírito da coisa toda não é medir cada detalhe do que fazemos,
não é arrastar as mesmas irritações velhas e insignificantes para a situação. Uma
sedução é um ato de generosidade, um gesto de boa vontade. A resistência que sinto
está enraizada no medo e não em algum sentimento genuíno de injustiça.
Eu praticamente corro para o banho e consigo raspar as pernas e as axilas sem
derramar muito sangue. É um bom (embora incomum) sinal. Posso não ter uma sedução
pronta, mas pelo menos conseguirei estar simplesmente adorável quando ele chegar em
casa. Passo um pouco de perfume e penso em colocar o vestido vermelho um tanto sexy
que usei para uma festa no Natal passado. Não, esta noite não vou me vestir como
alguma outra pessoa, penso; vou me vestir de mim mesma. Quero me sentir relaxada e à
vontade, não toda amarrada como um peru ridículo. Há mais nisso do que um leve sinal
de dona de casa de classe média. Depois de pensar um pouco, coloco um par de meias
7/8 com costura atrás, visto um par de meias 3/4 por cima, minha melhor calcinha de
renda, uma saia jeans e um suéter listrado. Ao me olhar no espelho, me sinto aliviada
por estar com uma aparência bem normal, ainda que um pouco melhorada.
Só quando estou passando a maquiagem (muito delineador preto, em homenagem à
paixão um tanto infeliz de Herbert por Gwyneth Paltrow em Os Excêntricos Tenenbaums )
é que uma ideia surge. E se começarmos tudo de novo?
Quando conheci Herbert, ainda morava com minha mãe, então eu ficava na casa dele
nos finais de semana. Eu costumava colocar algumas coisas em uma pequena mala
marrom vintage e encontrá-lo no pub. H comentou depois, com olhos úmidos, que sabia
que iria se dar bem sempre que me via com aquela malinha. A dita cuja já se desfez de
velhice depois de ter sido carregada pela chuva inúmeras vezes, mas tenho uma pequena
valise azul, comprada recentemente em uma loja de caridade, que podia servir. Mas ela
só fará efeito, é claro, se eu levá-la para fora de casa. Preciso me encontrar com Herbert
no pub para dar toda a sensação de “primeiro encontro”.
Eu queria ter pensado nisso antes das 18h. Rezando para o trânsito de sexta-feira
atrasar H, corro pela casa à procura da maldita valise azul. Quando por fim a encontro
(escondida na lateral do sofá, é claro), vejo que está cheia de livros. Jogo-os no chão da
sala de estar e imediatamente os arrumo de novo, pensando que não há nada mais nem
remotamente sedutor do que chegar em casa e encontrá-la revirada (embora pudesse ter
servido como lembrança da casa de Herbert quando o conheci). Coloco minha bolsa,
celular e chaves na valise, visto meu novo e lindo sapato oxford preto e branco e quase
saio correndo pela porta, torcendo para não dar de cara com ele no caminho.
O que acontece é que nossa gata, Bob, me segue durante quase todo o caminho até o
pub, miando para chamar minha atenção. Mas Herbert não está em lugar algum. Consigo
escapar da gata por causa de uma mulher que passava com uma criança pequena e entro
no pub, onde peço uma vodca com tônica para me acalmar. De impulso, pergunto ao
barman se há uma mesa disponível no restaurante do andar de cima para mais tarde.
Este será um encontro muito mais adulto do que quando nos conhecemos. Nosso
primeiro encontro foi em um bar gay na véspera do Natal de 1995. Fui levada lá por outro
homem, que me largou lá sem nem piscar. Eu não sabia dirigir, os ônibus tinham parado
de passar e minha mãe só poderia ir me buscar duas horas depois. Não havia escolha
além de sentar sozinha e torcer para que alguém estivesse a fim de conversar comigo.
Felizmente, essa pessoa foi Herbert. Assim que ele se sentou ao meu lado, senti como se
tivesse sido tomada por uma paixão fulminante. Voltei para casa e contei para minha
família que estava apaixonada.
Agora, percebo que estou surpreendentemente nervosa. Tudo parece um tanto
arriscado. Espero que ele não fique decepcionado. Enquanto levo minha bebida para a
mesa, reparo que dois homens no bar ficam me olhando. Isso não acontece há muito,
muito tempo. Deve ter alguma coisa a ver com minha expressão determinada; ou talvez
seja apenas por eu ser uma mulher sozinha em uma sexta à noite. Mando uma
mensagem de texto para H: Minha primeira sedução será um encontro com você. Quando
estiver pronto, me encontre no pub.
Nenhuma resposta. Bebo minha vodca com tônica pensando que ele certamente está
com o celular descarregado. Sempre acontece com o telefone de Herbert. Quinze minutos
depois, recebo uma mensagem de resposta que diz: Legal. Estou indo.
Só sobrou o gelo derretido no fundo do copo quando Herbert chega, usando sua
melhor camisa, parecendo estar com mais medo do que eu. Que casal ridículo nós somos.
Ele vai até o bar e pede um Cosmopolitan para mim, que bebo agradecida.
— Olha só — falo —, eu trouxe minha malinha, como antigamente.
Ele parece espantado por alguns segundos e depois ri e diz:
— O que tem aí?
— Ah, só minhas chaves, infelizmente. E minha carteira.
Mas ficamos mais relaxados depois disso. Conversamos com alegria e ele coloca a mão
no meu joelho. Eu me sinto muito bem — meio que empolgada por estar com ele. Ele
normalmente acha nada a ver irmos ao bar sozinhos, mas esta noite significa que temos
que dar um pouco de atenção um ao outro, em vez de nos sentarmos em frente à TV por
algumas horas antes de adormecer.
— Fiquei na dúvida se deveria ter colocado o terno antes de sair — admite ele depois
de um tempo. Fico satisfeita por ele sentir que podia ser importante, mas feliz por ter
decidido não colocar.
Para resumir a história, tomamos mais duas bebidas e fizemos uma deliciosa refeição
(tenho que trocar de entrada com Herbert, que se espanta com o ponto da vitela,
muitíssimo malpassada), e depois voltamos para casa e vamos para a cama. Nesse
ponto, não posso detalhar muito bem o que aconteceu, não por recato, mas porque
minha memória ficou um pouco embaçada pelos dois coquetéis, uma vodca com tônica e
meia garrafa de vinho. Tenho uma vaga noção de que envolveu uma cavalgada invertida,
mas não sou capaz de dizer mais do que isso. Mas posso divulgar que (sem nenhum
planejamento) também transamos na tarde seguinte.

ossa primeira sedução provavelmente parece bastante comportada para um casal

N que já transou antes, mas você precisa ter em mente que estamos bem no início.
Fora o comecinho do nosso relacionamento, Herbert e eu nunca tivemos uma
vida sexual muito agitada. Nunca foi uma parte dominante da nossa identidade como
casal. Não quer dizer que não gostamos de sexo; o que acontece é que, com certa
frequência, nenhum de nós dois pode perder tempo com isso. No entanto, nos últimos 18
meses, a situação ficou particularmente ruim por uma razão bastante específica.
Estou menstruando quase sem parar há 18 meses. No último mês de julho, tomei a
decisão de retirar o implante contraceptivo. Grande erro. Parece que meu corpo esqueceu
como se regula sozinho, sem hormônios sintéticos. Estou em uma confusão emocional,
hormonal e física, cheia de enxaquecas, náusea, com tornozelos inchados e dores
misteriosas que parecem se espalhar da minha barriga para meus pulsos nos dias ruins.
Se você olhar embaixo das minhas pálpebras, elas estão branquinhas por dentro. Estou
permanentemente exausta.
Meu erro foi mencionar para minha médica que estávamos pensando em ter um bebê.
Agora, isso parece ter acontecido há muito tempo; o desejo de ser mãe desapareceu de
mim junto com as últimas reservas de energia. Mas em algum lugar nos meus registros
deve haver uma nota sobre isso, porque sempre que pergunto o que pode ser feito, ela
oferece indicação de clínicas que fazem fertilização in vitro. Não quero fazer FIV. Só quero
me sentir melhor.
Em abril, me cansei de ouvir que era para “esperar quatro meses e ver se tudo se
ajeita”. Eu sentia que até lá não teria sobrado nada de mim. Pedi para colocar um DIU,
porque quando usei um no passado fiquei completamente sem menstruar. Minha médica
pareceu perplexa e perguntou se eu sabia que não poderia engravidar usando um DIU.
Pareceu que eu estava quebrando um tabu ao dizer que talvez não me importasse em
não ter filhos. Era como se uma série de imposições culturais ficassem claras na hora em
que uma mulher de trinta e poucos anos começasse o procedimento. Na minha idade, eu
deveria priorizar minha capacidade de reprodução e colocar isso acima da minha saúde.
Tive que esperar dois meses para a colocação do DIU. Enquanto esperava,
ironicamente, tive um aborto espontâneo bem no começo da gestação. Eu não tinha ideia
de que estava grávida, porque o sangramento não tinha parado. De qualquer modo, o
DIU não fez diferença alguma. Quando voltei depois de dois meses para meu checkup,
me mandaram esperar mais dois meses para ver se ia começar a funcionar. Não
funcionou.
Em outubro, voltei à minha médica.
— Volte em quatro meses — disse ela.
Nessa hora, tenho que dizer que chorei no consultório dela. Não sou muito de chorar,
mas eu estava mais do que desesperada.
— Não posso ficar esperando por meses. Nada muda — falei.
— Bem, o que você quer que eu faça? — perguntou ela, um tanto na defensiva.
— Me dê alguma coisa para parar o sangramento e me indique um ginecologista.
— Tudo bem — disse ela. Eu não tinha me dado conta de que ela estava esperando
que eu desse as instruções. Ela prescreveu uma pílula, e depois de três semanas isso
pareceu segurar um pouco o sangramento. Com a indicação, pude usar o plano de saúde
para marcar minha consulta com o ginecologista.
Ele arregalou os olhos, horrorizado, quando contei minha história. Depois, me
examinou. Ele disse que meu colo do útero estava vermelho vivo, com crescimento de
tecido na parte externa, e que eu estava sangrando muito ao mais leve toque.
— Ninguém viu isso até agora? — disse ele. — Obviamente, tem alguma coisa errada.
Isso aconteceu na semana passada. Em poucos dias, ele marcou outra ultrassonografia
para mim (desta vez, transvaginal, administrada com algo que se parece muito com um
patético pênis artificial) e, na semana que vem, uma colposcopia (para examinar meu
colo do útero com uma câmera que aumenta a imagem) e uma biópsia.
Pelos três dias seguintes à consulta com ele, eu sorria como um gato orgulhoso, feliz
por finalmente ter tido a chance de chegar ao fundo do meu problema. Então, de repente
me dei conta do que tudo isso podia significar. Semana que vem, faço um exame para
detectar câncer de colo de útero. Nem consigo pensar sobre o que pode significar caso dê
positivo.
Sedução no 2
Rendição

Marcamos nossa segunda sedução — é a vez de Herbert — para sábado à tarde.


Trabalho no campo da educação, ajudando professores a serem mais criativos, e darei
um curso intensivo de treinamento na noite de sexta. Isso significa que tenho bastante
tempo para pensar no que ele vai planejar — e se ele vai conseguir planejar alguma
coisa — enquanto luto para entreter um grupo de pessoas que não conheço, todas
aparentemente um tanto chocadas pelo restaurante do hotel de quatro estrelas não
servir a comida em porções enormes.
Meu compromisso de trabalho termina na hora do almoço de sábado e mando um
torpedo para Herbert: Chego em 45 minutos. Vamos almoçar?
A resposta dele é imediata: A sedução primeiro.
Uau. Sinto o que acho que pode ser chamado de frisson erótico. Afasto o pensamento
de que é melhor que seja rápido, porque estou morrendo de fome.
Enquanto dirijo para casa, ensaio mentalmente um pedido de desculpas adiantado
pelo estado da minha depilação (minha depiladora diz que não pode trabalhar quando o
carro está quebrado) e me pergunto se consigo dar uma fugidinha até o banheiro para
passar fio dental antes de tudo começar.
Estou bastante nervosa quando abro a porta da frente. A casa está completamente
silenciosa. Há um bilhete no chão do saguão que diz “Sedução”. Coloco as bolsas no chão
e o abro.
Vá para o quarto e tire a roupa. Há uma echarpe sobre a cama. Coloque-a como se
fosse uma venda e se deite. Deve estar agradável e quente lá dentro.
Quando estiver pronta, vou entrar. Não vou falar com você. Vou amarrar suas mãos
com a faixa do roupão e depois vou excitar você. Se você não se sentir à vontade em
algum momento, é só dizer.
Bem. Primeiro eu penso, Oh, merda, e depois me sinto bastante satisfeita. Ele
realmente me desafiou. Vejo de imediato que isso tudo tem a ver diretamente com uma
conversa que tivemos algumas semanas atrás, na qual falei que às vezes quero apenas
receber o prazer que ele estiver me dando sem ter que me preocupar em retribuir.
Também me esforço para não rir especificamente pela faixa do roupão em vez de algo
menos banal. Uma corda de seda, talvez? Não, a faixa de um roupão. Vamos tentar não
reagir demais, hein?
Herbert deve então estar sentado no outro quarto, esperando por mim. Isso por si só
já é bem excitante. Tiro as roupas e as dobro em cima da cômoda, depois me sento na
cama. Minha echarpe escocesa está dobrada em cima do travesseiro. Amarro-a ao redor
dos olhos e depois me deito, curiosa para saber o quanto ele percebe só de ouvir pelas
paredes.
Ele obviamente está ouvindo com muita atenção; não preciso esperar muito. Ele entra
e dou uma risada, de leve. Acho que quero enviar um sinal de que estou satisfeita em
vez de apavorada. Ele resiste e não diz oi, como eu esperava. Em vez disso, ouço-o vir
em minha direção. Ele pega minha mão direita com delicadeza, a beija e depois amarra a
faixa ao redor do meu pulso. Percebo que ele está me tranquilizando. A faixa é uma coisa
macia e familiar, não é presa muito apertada, dá para escapar. Ele faz o mesmo com a
outra mão.
Meus sentidos já estão trabalhando de uma maneira completamente diferente do
normal. Sem ver e sem poder tocar, o mundo parece de alguma forma maior. Tenho
consciência das pausas entre os toques de Herbert, sem saber o que acontecerá a seguir.
Meu olfato também é ativado: sinto o aroma de alguma coisa não familiar nele e me
pergunto se ele passou loção pós-barba só para me enganar (ele costuma tratar a loção
pós-barba como uma espécie de afronta a seu status de homem natural). Reflito e
concluo que não foi esse o caso. Acho que eu apenas estava encarando tudo de forma
diferente.
Depois de tudo, ele me conta que se perguntou se eu teria dúvida se era mesmo ele,
mas na verdade o efeito foi o oposto: percebi de quantas formas eu o conhecia além da
visão e do som. Era estranho não poder me mexer, me ajeitar ou retribuir o toque; senti
tudo com muito mais intensidade do que o normal e gostei bastante da ideia de que
estava entregando meu corpo para H, entregando todo o controle para o que ele fazia ou
via. Com a venda, me senti mais anônima, mais capaz de aceitar o que me era dado.
Pude ofegar e gemer — na verdade, isso foi mais necessário do que o normal, por ser
nossa única forma de comunicação.
Mas o interessante foi que, apesar de tudo ser intensamente prazeroso, lutei para
atingir o orgasmo, que só aconteceu depois que ele me desamarrou e pude me mexer
um pouco mais. Acho que H estava mais incomodado com isso do que eu (ele foi levado
a trazer a escova de dente elétrica em um determinado ponto, até que ela começou a
apitar freneticamente por causa da bateria gasta).
Para mim, ser desamarrada foi como a maravilhosa abertura da comporta de uma
represa, principalmente porque ele tinha evitado me beijar até aquele ponto. Posso dizer
com honestidade que aquele primeiro beijo foi um dos mais deliciosos que já demos.

uando acabamos com o período de seca na Jacuzzi do hotel, não fazíamos sexo

Q havia quatro meses. Na última vez em que havíamos tentado, tivemos uma briga
de amplitude nuclear. Há algo de particularmente perigoso em acrescentar sexo
a uma briga. É como acrescentar menta a uma lata de Coca — a explosão resultante é
desproporcional de uma maneira quase inimaginável. O comentário mais inocente pode
destruir sua autoestima sexual.
É difícil contar uma briga sem fazer um ou os dois parecerem intimidantes e
irracionais. Sou a briguenta em nossa casa; H prefere dar a outra face, o que me deixa
louca, e depois irrompe em uma ira no estilo do Incrível Hulk. Isso reflete nossas
perspectivas básicas nesses assuntos. Vejo brigas como ataques um tanto inofensivos
para o escape de vapor, uma chance para purificar o ar na relação. Já H faz qualquer
coisa para evitá-las e depois age como um leão irritado quando não consegue mais
suportar.
Acho que estou mostrando esse cenário como forma de explicar o quanto essa briga
em especial foi estranha. Primeiro, porque eu não estava implicando com Herbert; eu
estava me empenhando para ser gentil, delicada e tolerante. Provavelmente foi isso que
o irritou. Ele deve ter interpretado meu comportamento como uma tentativa de pegá-lo
desprevenido.
Tínhamos acabado de descer depois de uma lamentável e distraída tentativa de fazer
sexo. Eu realmente não me lembro se tudo tinha terminado em uma conclusão
satisfatória para algum dos dois, mas ambos estamos em silêncio. Pelo que me lembro, H
está fazendo alguma coisa no fogão. Acabou de anoitecer. Ele está de roupão.
— Querido — eu digo, o mais gentilmente possível —, reparei que você estava com
dificuldade de se concentrar no que estávamos fazendo.
— Eu estava? — diz ele.
— Estava. Acho que sei por quê. Você está se sentindo um pouco desestimulado por
tudo que está acontecendo, o sangramento e tudo mais?
H parece horrorizado.
— Não. Claro que não. Não estou desestimulado. Está tudo bem.
— Mas não está, não é?
— Não, não é por aí.
— Herbert, acho que nós dois sabemos que você tem... lutado... para manter a ereção.
Silêncio.
— Não. Não reparei nisso.
— Herbert. — Isso é irritante. Achei que ele poderia se incomodar, mas nunca esperei
que pudesse negar.
Nada.
— Herbert, estou tentando ser o mais delicada possível, mas o que quero dizer é que
consigo entender que você talvez esteja achando isso tudo difícil. Você deve se preocupar
com várias coisas. Não é de se surpreender que tenha algum efeito em você.
Nenhuma resposta de novo.
— Herbert, preciso que você ao menos responda.
Ele se vira para mim.
— Bem, se vai me obrigar a dizer, não há nada de errado com meu pau. É você. Você
não é mais tão apertada como antes.
Deixo que você imagine o nível da briga que se seguiu. Por um tempo, tento
acompanhar o argumento dele. Admito que minha vagina não é mais o paraíso que
costumava ser (embora isso pudesse ter sido expresso por: “Minha boceta é o Pântano
do Desespero! O que você quer que eu faça quanto a isso?” Tenho um talento especial
para xingamentos literários), mas um pau mole é uma coisa objetivamente existente.
Não se pode negar que está acontecendo. Simplesmente está lá.
H não aceita nada do que digo. Parece que alguma coisa se quebrou nele. Ele passou
um ano sendo um marido que me apoia, que é paciente, que finge que não vê. Foi
solidário, me consolou e, às vezes, limpou o sangue. Tolerou as vezes em que precisei
trocar de lençol antes do dia da faxineira e quando deixei que ela os trocasse de novo
para que não tivesse uma ideia errada. Teve conversas sinceras com nossos amigos
sobre meus problemas sem cair no constrangimento masculino. Ele jamais vai permitir
que seja acusado de isso impedir que me deseje, mesmo que signifique ter que dizer
alguma outra coisa bem mais ofensiva. Ele se esforçou muito para se comportar
perfeitamente durante todo o problema.
Quatro meses depois, ainda não faço ideia se ele reparou nas ereções inconsistentes
ou não. Acho totalmente plausível que tenha tirado o assunto da cabeça; já devia estar
tirando tantas outras coisas da cabeça mesmo. De qualquer forma, termino encolhida no
chão, infeliz. Eu me sentia a coisa mais nojenta e fétida que existia.
— Queria que você fosse arrumar outra pessoa com quem transar — disse eu. — Não
posso mais lhe oferecer isso.
H só me abraçava e sussurrava, sem parar, “desculpa, me desculpa”, contra meus
cabelos.
Brigas são um estado estranho e alterado. Os psicólogos falam sobre a “inundação” de
substâncias químicas na corrente sanguínea que ocorre quando estamos com raiva, o que
pode até alterar nosso controle racional das ações. Só sei que é perfeitamente possível
dizer uma coisa durante uma briga com a mais profunda e sincera intenção e, mais tarde,
uma hora depois, se dar conta de que aquilo não era o que você sentia. É como se você
tivesse sido arrastado pela lógica do próprio argumento e fica sem saber de que lado
está. Herbert ficou humilhado por ter se recusado a assumir alguma responsabilidade por
seu papel no fim da nossa vida sexual; e eu não queria realmente que ele fosse transar
com outra pessoa. Nenhum de nós estava certo de dizer o que dissemos, mas um dos
misteriosos privilégios de estar em um relacionamento longo é que você pode expressar
seus pensamentos mais sombrios e ainda assim ser perdoado.
Dito isso, você vai entender por que ficamos sem falar de sexo por quatro meses. Nós
não sabíamos como recomeçar.
Sedução no 3
Entre no boudoir

A bola está comigo esta semana. E depois da surpreendente primeira sedução de


Herbert, sinto que o nível do jogo aumentou — ou melhor, que não é mais o bastante
simplesmente estar disposta a transar com ele, como eu esperava.
Apesar disso, passo a maior parte da semana nervosa. Marcamos um encontro para
sexta à noite; na sexta de manhã, ainda estou pensando nas alternativas. Não consigo
escapar de uma sensação de intimidação. Não há como alcançar o tesão da última
sedução de Herbert. Metade de mim se sente obrigada a subir o nível um pouco mais,
mas a outra metade, mais barulhenta, está exigindo intensamente que eu esqueça essa
história toda e vá assistir ao programa de perguntas e respostas apresentado por
Stephen Fry na TV, de pijama.
Vou até a cidade para ver se consigo fazer alguma compra para sair desse dilema.
Com uma tigela de sopa na mesa e um reconfortante café com leite, chego a uma
espécie de acordo. Não há sentido em forçar tanto minha zona de conforto a ponto de
ficar amedrontada. Preciso trabalhar com o que tenho. Minha proposta é diferente da de
Herbert — uma abordagem mais feminina, talvez, mas também mais organizada. Minha
sedução será transformar nosso quarto em um boudoir.
Nosso quarto tem problemas. Nem sei dizer por quê. Não tenho vergonha de dizer que
o resto da casa é lindo, mas nosso quarto parece imune ao meu encanto decorativo. Ele
contém uma linda e pesada cama de madeira recém-adquirida, o papel de parede da
marca Neisha Crosland é incrível, os lençóis são os melhores que consegui encontrar em
oferta na TK Maxx e as belas cortinas foram feitas por mim à mão, mas, mesmo assim,
ele consegue ter o ar de um quarto de hotel Premier Inn. Acho isso um mistério; ele
teimosamente resiste a todas as minhas investidas. Eu o encho de coisas adoráveis, mas
ele insiste em permanecer bem menos do que a soma das partes.
Talvez seja um problema nosso; talvez nosso quarto seja tão absolutamente não sexy
que neutraliza qualquer pensamento sexual que possamos ter. Provavelmente não ajuda
o fato de eu sentir um calor enorme e ficar de boca seca à noite, e por isso gosto de
mantê-lo em uma temperatura que algumas pessoas chamariam de “gelada”.
Ando pelas lojas à procura de alguns produtos que possam torná-lo mais convidativo.
Compro Prosecco, petiscos e um buquê de rosas na M&S. Compro um óleo de massagem
de gerânio na Fenwick. Procuro um guia de sexo na WHSmith e decido comprar o livro
Sex: How To Do Everything, de Em & Lo, que escolho por causa das fotos bem
ilustrativas. Também escolho um exemplar da revista Cosmopolitan, na esperança de
conseguir mais algumas dicas.
Quando chego em casa, aumento o aquecimento do quarto, acendo velas, cubro a
cama de pétalas de rosas e levo meu toca-discos Dansette para lá. O quarto fica
adorável, sem a formalidade de quarto de hotel, mas quero dar um clima real de
relaxamento, então levo uma enorme pilha de almofadas da sala de estar para lá e as
coloco na cabeceira da cama. Coloco uma lingerie bonita, um par de meias para aquecer
meus pés e meu roupão ligeiramente mais glamouroso (o que uso normalmente é cinza e
tem capuz; não é nada sedutor). Depois, me acomodo para esperar a chegada de
Herbert.
Ele foi para a academia. Ótimo. Folheio a revista e chego à desconfortável conclusão
de que é feita para mulheres bem mais jovens do que eu. A “melhor dica sexual do
mundo para deixá-lo enlouquecido”, anunciada na capa, não passa de “pareça estar
curtindo de verdade”. Obrigada, Cosmopolitan. Eu não tinha percebido ainda que ele
tinha a expectativa de que eu parecesse estar me divertindo.
Pois bem, não vou ficar falando o quanto Herbert chegou tarde nem que não se deu ao
trabalho de tomar banho na academia. (Ele: “Eu não sabia o que íamos fazer.” Eu: “Nada
que não exigisse um banho antes, jamais.”)
Apenas direi que a ideia de boudoir é maravilhosa. Nós relaxamos, ficamos
embriagados e ouvimos discos de rock antigo. O ritmo é lento, confortável, de flerte. Com
os dois seminus, podemos nos dedicar a carícias e carinhos; não há pressa. Faço uma
massagem em H, a primeira em anos, depois esfrego meu corpo nu pelas costas dele,
para cima e para baixo. Ele não parece se incomodar nem um pouco com isso.
Petiscos são perfeitos para uma sexta à noite, mas posso afirmar oficialmente que o
mini beef Wellington da M&S é horrível. O guia de sexo de Em & Lo ganha um revirar de
olhos de H, que parece se achar um especialista em sexo; as fotos que considerei um
pouco estimulantes são tachadas de comportadas por ele. Mas o Prosecco nos mantém
quentes e entusiasmados e a luz de velas é deliciosa.
Entretanto, jamais cobrirei a cama de pétalas de rosas novamente. Depois de passar
uma boa parte da noite catando-as em vários cantinhos, tenho ainda que passar um
tempo considerável na manhã seguinte varrendo-as de debaixo da cama. Apesar dos
esforços, encontro três enfileiradas em frente à janela depois da ida da faxineira na
segunda-feira, para que eu saiba que ela as encontrou.

s coisas estão mudando por aqui. Três vezes essa semana, Herbert me deu um

A tapa forte no bumbum, uma dessas vezes enquanto transávamos. Isso nunca
aconteceu antes.
A velha e séria Betty não teria gostado, mas estou decidida a encarar de mente
aberta. Pensando bem, é gostoso, meio como ser uma garçonete em uma comédia trash.
Não que eu fosse aprovar caso Herbert fizesse isso em uma garçonete, mas acho que
consigo não ter objeções a ele fazer em mim. Não dói e é feito com um espírito carinhoso
que há muito tempo quero cultivar em nossa relação.
Mas por ser uma criatura sem sutileza alguma, não consigo simplesmente deixar
passar. Depois da terceira vez (na cozinha, quando estou cozinhando), sou obrigada a
dizer, com grande delicadeza:
— Ei, você fica batendo na minha bunda!
— Isso mesmo — diz Herbert. — Gosto muito dela.
Pode não ser muito para se gabar, mas acredite, H não é um ser muito sociável, e me
dá prazer saber que gosta de alguma parte do meu corpo. Não que particularmente
desgoste de alguma parte, sabe; é só que ele não costuma verbalizar. Se pressionado,
suspeito que citaria “vagina” e “boca” como as duas partes favoritas. São funcionais.
Eficientes.
H nunca deu bola para apetrechos sexuais. Portanto, quando mostro a ele esta
semana um site na internet que vende lingerie ousada, com esperanças de um presente
“improvisado”, acabo tendo que me dar por derrotada.
— Você não liga mesmo pra lingerie, não é?
— Não ligo, não.
— Não tem nada que ache ao menos um pouco interessante?
Um suspiro profundo.
— Nudez?
— Você me vê nua o tempo todo.
— Sim, esse é o problema.
Obrigada, Herbert. Tento explicar que é esse o objetivo da lingerie: tornar o mundo
exótico. Herbert dá de ombros.
— Tá, talvez. É mais por você do que por mim.
Ele tocou num ponto importante. O sexo para mim (e acho que para as outras
mulheres também) é só 25 por cento físico. O resto é imaginação, vontade, expectativa,
desempenho. Por exemplo, o único modo de eu ter prazer com uma rapidinha é se eu
estiver tentada pela ideia de dar uma rapidinha. A rapidinha em si não é o bastante.
Sexo, para mim, se trata de estar no clima.
Esta semana, me esforcei para ser um pouco mais sexy, um pouco menos a mesma do
dia a dia. Apesar de não haver necessidade alguma na minha vida profissional, tenho
evitado usar jeans a semana inteira e tenho me aventurado nas saias e sapatos de salto
(só os baixinhos). Meus tamancos Birkenstock de sempre estão se sentindo pouco
amados. Tenho usado meias 7/8 quase sempre. Por acaso, gosto de meias 7/8, não por
serem sexy nem nada, mas pelo que não fazem em comparação com as meias-calças,
que é dar a sensação de que minhas partes íntimas ficaram guardadas o dia inteiro em
um Tupperware. O benefício adicional é que deixam as pernas lindas.
Herbert está certo: tudo isso me fez sentir um pouco melhor. Se consigo sempre
parecer ao menos apresentável, é mais provável estar no clima de sexo quando a
oportunidade surge. Ao menos essa é a teoria.
Quando conheci Herbert, todos sabiam que eu gostava de me vestir bem. Eu
frequentava brechós beneficentes atrás de peças lindas e passava horas me arrumando.
Seria apavorante usar a mesma roupa duas vezes e mais ainda me vestir casualmente.
Eu nem tinha calça jeans.
Isso tudo mudou quando me dei conta de que as outras mulheres me odiavam por
isso. Elas achavam que eu estava competindo. Eu não estava; só realmente gostava de
roupas. Mesmo assim, abri mão disso. E agora, quando olho para minhas amigas, vejo
que todas nós temos a mesma aparência. Colocamos duas camisetas, uma por cima da
outra; colocamos leggings por baixo da saia e jeans por baixo do vestido. Ficamos um
pouco escandalizadas quando vemos um decote. Mais e mais, nos vestimos como as
crianças pequenas que acompanham muitas de nós.
É claro que nos vestimos de maneira confortável (amém!), mas acho que também
estamos mandando uma mensagem proposital. De uniforme e Crocs, somos seres
assexuados e somos de confiança. Não vamos roubar o marido de ninguém nem nos
afastar dos nossos. Somos boas meninas e estamos nos vestindo como babás para provar
isso.
Nas últimas semanas, me vi procurando uma terceira alternativa. Quero uma
feminilidade casual, o tipo de jeito sexy que não envolva dedos esmagados nem seios
espremidos. Não quero assustar ninguém nem comprometer meus valores feministas; só
quero me sentir um pouco menos anulada sexualmente. Do mesmo modo, não estou
“apimentando” minha vida sexual. Na verdade, estou reformando-a. “Apimentar” é
desesperado demais para mim. Essa palavra me faz pensar em uniformes de enfermeira
muito curtos e, sinceramente, em swing. Desejo algo intermediário entre diva sexy e ser
assexuado, entre apimentar e deixar apodrecer.
Talvez meu problema em geral seja que não vejo sexo como algo nem remotamente
apimentado. É uma coisa normal que pessoas normais fazem, com muitas variações bem
documentadas e predileções. Sempre encarei orgasmos como direitos meus de nascença,
e não como algo que posso ter como bênção ocasional, se o vento soprar a meu favor e
eu conseguir me concentrar bem. Não me sinto nada constrangida por sexo (só mesmo
pela falta dele na minha vida até recentemente) e não tenho culpa nenhuma por não
achar que o sexo deveria ser só para procriação. Entendo os processos corporais por trás
do sexo e entendo como chegar a eles sozinha, sem a ajuda de um homem.
Ainda assim, tanta coisa na literatura sexual insiste na ideia de que o sexo é mais
perversão, que é preciso fazer uso de uma sensação de culpa e transgressão para
aumentar a excitação. Eu não entendo.
Então aqui estou, entre uma coisa e outra. Tenho certeza de que não sou a única que
se sente assim. E, francamente, aqueles de nós para quem o sexo não é uma coisa
proibida, para quem o prazer é um direito, precisam trocar ideias. É quase como se
estivéssemos inventando uma coisa nova.
Sedução no 4
La Vie Parisienne

Nosso presente de Natal é uma viagem a Paris, cidade do romance e, vamos ser
honestos, da ousadia.
— Não vamos nos dar ao trabalho de planejar seduções enquanto estivermos lá,
vamos? — diz Herbert antes de partirmos. — Vamos ver o que nos inspira.
Eu concordo; sempre fizemos sexo nas férias, mesmo nos anos de seca. Acho que é
porque temos tempo, mas também acho que é porque o sexo está na agenda (implícita).
Nós dois esperamos fazer sexo nas férias, então fazemos. É uma lição para o resto da
vida.
Há algo transformador em estar de férias. Você deixa para trás todos os pensamentos
sobre trabalho e obrigações por um tempo e pode se sentir como uma pessoa
completamente diferente. O que há na vida comum e rotineira de casado que faz com
que você sinta que o desejo não é permitido?
No primeiro dia, saímos do hotel e andamos pelo Marais, olhando as lindas butiques e
parando de vez em quando para um chocolate quente. Está muito frio; há montinhos de
neve nas laterais das calçadas que sobraram das nevascas nos dias anteriores. Compro
um vidro de perfume de açafrão e gosto de deixar Herbert sentir o cheiro dele no meu
pulso em intervalos de minutos, enquanto ele se mistura com o cheiro da minha própria
pele. Mais tarde, quando voltamos para o quarto, ele me joga na cama assim que
fechamos a porta e sussurra no meu ouvido:
— Seu cheiro está delicioso.
Isso é tudo que quero: ser desejada. É o bastante para me deixar excitada para
sempre. Mas é difícil continuar desejando a mesma pessoa depois de tantos anos. O
desejo é um animal volúvel; ele exige mudança constante para manter seu interesse.
No dia seguinte, entramos em um sex shop lotado de garotas adolescentes.
Raramente fico à vontade em lugares assim — e esse é um local moderno, iluminado,
meio empório brega, meio loja de consolo fluorescente. Não tenho nada contra
brinquedos sexuais, mas eles frequentemente me parecem representar a morte do
desejo, um tipo de inflação sensorial. Muitos dos acessórios parecem ser sobressalentes
ao sexo em si, como se as sensações que nosso corpo produz não fossem intensas o
bastante. Eles são retratos do tédio que muitos de nós sentimos, eu acho, da sensação
de que o sexo precisa progredir ao longo da relação para nos manter interessados.
Muitas vezes, ele diminui em vez de progredir e se resume a um agregado
desinteressado do que é seguro e incontestável.
Já tive um vibrador rabbit que eu achava completamente entediante, então não fico
muito interessada na loja, mas Herbert parece ávido por levar alguma coisa para casa.
Então, escolhemos um dispositivo de silicone com um anel que se coloca ao redor do
pênis, um que se coloca ao redor do saco e duas unidades vibratórias que ficam acima e
abaixo do pênis. A ideia é que nós dois teríamos um “prazer” a mais durante o sexo.
H o coloca quando chegamos em casa. O efeito é como passar um elástico ao redor
dos sacos dele: eles são forçados a formar um balão apertado, o que parece bastante
desconfortável (embora ele me assegure que não incomoda). Tem também um cheiro
nojento de plástico que não ajuda muito a melhorar o clima. Entrando na brincadeira, vou
para cima dele e passo os dez minutos seguintes tentando me posicionar de forma que a
porcaria do negócio faça contato com meu clitóris. No final, só consigo um serviço
alternado, mas mesmo isso tem um efeito estranho em mim: consigo sentir as vibrações,
mas não as outras sensações mais comuns. Sou completamente incapaz de dizer se H
está dentro de mim ou não. É como se minha vagina estivesse distraída. Tenho que me
concentrar muito para apreciar o ato. No final, nós o tiramos, pois estou ficando
entediada e me sinto um pouco de fora do ato. A meu ver, as sensações que ele produz
são inferiores ao sexo normal.
Então, o que aprendemos com isso? Bem, talvez o sexo já seja bom o suficiente,
quando acontece. Tenho sorte, eu acho. Aprecio os elementos simples do sexo: olhares,
beijos e toques. Nunca tive muito problema em chegar a um orgasmo, e quando tenho
dificuldades de chegar lá, posso ficar tranquila por saber que sempre consigo sozinha.
Então talvez eu possa me dar ao luxo de não me interessar por esses pequenos
aparelhos que substituem essas sensações por vibração. Ou talvez ainda não tenha
encontrado um bom o suficiente para me levar às alturas.
Porém, mais do que isso, aprendi sobre desejo: como a companhia é tão importante
quanto qualquer coisa que aconteça. Se tiver escolha, eu sempre vou preferir H me jogar
na cama a pequenos vibradores cor-de-rosa. Acho que o desejo é mais forte do que as
vibrações mais elaboradas. A questão é: Como podemos continuar sentindo aquele
desejo, ano após ano?
Janeiro
Minha gata, Bob, me ensinou tudo que sei sobre bancar a difícil.
Bob é uma gata muito bonita, com pelagem macia da cor de casco de tartaruga.
Estranhos que passam na rua acham-na irresistível, e eu também. Sinto uma necessidade
quase física dela — não só do pelo macio, mas do cheiro, da sensação do rabo se
enroscando na minha mão para me cumprimentar.
Mas em geral ela me evita. Ao que parece, prefere os carinhos das crianças que
passam na rua aos meus. Isso é fonte de total e completa infelicidade para mim. Não
consigo entender. Dedico a ela a melhor das atenções, mas parece que isso só a afasta,
normalmente com uma expressão de incômodo nos olhos. Não era assim quando ela era
filhote; naquela época, ela não se cansava de mim. Mas agora parece que já servi ao
meu propósito. Ela não me quer mais.
Tremo quando penso no quanto isso parece com o modo como venho tratando
Herbert. Aqui estou eu, ansiando ridiculamente por Bob, enquanto até pouco tempo
negava as mesmas atenções ao meu próprio marido.
Deve haver algum sentido na relação quando o sexo é tirado das atividades em
comum. Não consigo apontar um momento preciso, mas me lembro de uma época em
que o sexo passou de uma satisfação compulsiva e voluptuosa a uma demanda
indesejada do meu tempo. Tenho quase certeza de que a transição aconteceu para mim
primeiro e depois para Herbert, porque consigo me lembrar de uma sensação de receio
de que ele fosse esticar a mão em minha direção, de uma forma um tanto deliberada
demais para ser apenas carinho. Também me lembro de aprender a evitar beijos e
carícias por medo de que fossem o princípio de alguma coisa maior. Seja como for,
Herbert foi educado demais para questionar, ou talvez não soubesse como. Depois de um
tempo, em vez de reclamar da rejeição, ele ajustou o próprio desejo para equilibrar-se ao
meu.
É um padrão de comportamento que Bettina Arndt descreve muito bem no livro The
Sex Diaries. Um membro do casal perde o interesse por sexo e o outro é deixado com
uma sensação confusa de rejeição, tentando imaginar o que houve de errado. Quem
termina com o erotismo é quase sempre a mulher, mas certamente não em todos os
casos.
Nos relacionamentos, um “não” geralmente pesa mais do que um “sim”. Sempre vi
minha capacidade de dizer não para o sexo como um veto inquestionável. Eu
simplesmente cancelei o sexo, unilateralmente. Herbert nunca concordou ativamente
com esse acontecimento e eu nunca pedi sua opinião.
É claro que as mulheres devem ter o direito inalienável de dizer não para o sexo,
estejam elas ou não tendo um relacionamento com o parceiro para o qual recusam. Mas
e se sempre dissermos não? E se dissermos não para parceiros que são gentis e
atenciosos, que prometeram ser fiéis a nós e assim fizeram e que sabem que podem nos
oferecer prazer se permitirmos? O que nossos parceiros devem fazer então?
Percebo agora que me tornei a controladora do sexo, racionando nosso prazer sexual
como se estivéssemos sob cerco inimigo. Nem sei bem como isso aconteceu. Como
muitas mulheres, acho que passei a ver o desejo permanente dos homens por sexo como
uma fraqueza, uma falta de capacidade de manter controle. Quando comecei um
relacionamento estável e duradouro, estava cansada da insistência do desejo sexual
masculino. Ser uma adolescente significa ser apalpada, coagida, implorada, perturbada e
enganada por homens de vários níveis de atração. Quando conheci Herbert, aos 18 anos,
já não tinha mais paciência. E, essencialmente, tinha aprendido a equacionar o desejo de
fazer sexo com poder. Eu estava determinada a estar no time vencedor.
Conforme o tempo foi passando, reparei que minhas amigas também se afastavam do
mundo sexual. Depois que cada uma de nós estava casada, falar sobre nossas vidas
sexuais virou tabu, uma quebra do pacto monogâmico. Alguns anos mais tarde, vieram as
confissões cautelosas. Não fazemos mais. O rumo das conversas indicava que estávamos
um tanto aliviadas com isso; preferíamos uma boa noite de sono. Nunca sabemos
realmente o que acontece por trás das portas dos quartos das nossas amigas, mas
gostaria de saber quantas de nós realmente acreditam nisso. Eu me vi declarando
publicamente minha gratidão pelo fim da minha vida sexual e secretamente lamentando-
a. Senti que estaria sendo diferente da maioria se agisse de outra maneira. Fiz minha
parte na constituição da “fraternidade das sem sexo”. Era uma forma diferente de exercer
poder, que queria garantir que ninguém estaria se divertindo mais do que eu.
No presente, o sexo está começando a parecer novamente um prazer fácil e simples,
uma coisa que dá tanto para mim quanto para Herbert. Pode ser difícil separar sexo de
poder, mas esse poder não precisa ser antagônico. Pode ser o poder de duas pessoas
trabalhando juntas com o mesmo objetivo; não uma batalha, mas um acréscimo. Por que
não consegui ver isso antes?
A única resposta que posso oferecer é esta: as mulheres têm uma hierarquia de
amores, e o amor sexual fica na parte mais baixa dela. Pensamos tolamente que
podemos apenas transcender o amor sexual quando ele passa para uma coisa mais
profunda e o colocamos de lado.
Os homens entendem essa questão de forma diferente: que é tudo a mesma coisa.
Eles veem o amor como um processo cumulativo que reúne todas as encarnações
anteriores para formar um todo maior e mais profundo. Entendido dessa maneira, o sexo
não é o parente pobre do amor; é uma prática permanente que estimula todas as coisas
maravilhosas que há nele: confiança, desejo, intimidade e êxtase.
Sedução no 5
Inocência e experiência

É tarde de sábado, e estou comendo torrada com queijo quando Herbert decide anunciar
sua próxima sedução.
Ele está um pouco nervoso por causa disso, posso perceber. Dez dias se passaram
desde que voltamos de Paris e 11 desde que fizemos sexo pela última vez. O Natal e o
Ano-Novo nos mantiveram ocupados. Já tive que refrescar a memória dele sobre planejar
essa sedução. Estamos nos atrasando.
— Só precisa de um pouco de planejamento — disse ele na época. Agora vejo por quê.
— Quanto à minha próxima sedução — diz ele. — Você talvez precise saber sobre ela
antes.
— É mesmo? — eu digo.
— É. Para entrar na personagem.
Um pouco da torrada com queijo mencionada acima desce pelo caminho errado.
— Personagem? — gaguejo, com lágrimas nos olhos por causa da dor da torrada.
— É — diz ele, evitando contato visual. — Achei que devíamos tentar um pouco de
teatro. Ando tentando pensar em algo que não seja muito pornográfico.
— Isso significa que você vem consertar a máquina de lavar? — Dou um sorrisinho
forçado. — Ela está mesmo fazendo um barulho estranho.
— Não. — Ele está muito sério. — Você é uma mulher de trinta e poucos anos. É um
tanto espiritual e meio new age. Eu tenho vinte e poucos anos e sou virgem. Estou
desesperado por sexo. Ah, e tenho um certo fetiche por pés. Vamos nos encontrar em um
café, que será a sala de jantar. Tentei pensar em nomes que não lembrem ninguém que
conhecemos. Você se chama Dorothy e eu me chamo Lars.
— Certo — eu respondo, grata por poder usar a torrada com queijo para disfarçar a
vontade crescente de rir. Enfio tudo na boca de uma vez, o que me impede de fazer as
seguintes perguntas:
Por que você fica mais novo e não eu?
Fetiche por pés?
Vai ter bolo?
Tenho que usar fantasia? Não tenho saias rodadas nem montes de pulseiras.
Fetiche por pés?!
Por que diabos você escolheu o personagem menos sexy possível para mim?
FETICHE POR PÉS?!
Depois de ter mastigado e engolido, decido que a pergunta menos humilhante dessas
todas é: “Vai ter bolo?”
— Bolo? Oh. Não. Não pensei nisso. Amanhã à noite, então?
Enquanto ele começa a esvaziar a máquina de lavar louça, outra pergunta surge na
minha cabeça. Espere aí, será que estamos representando a primeira transa de Herbert?
Conheci a mulher que apresentou Herbert ao maravilhoso mundo da penetração. Ela tem
uma tendência a usar tie-dye.
Chega a noite de domingo e estou um tanto relutante. Não tenho interesse algum em
ajudar garotos de vinte anos a se livrarem de sua virgindade. E nós dois ficamos irritados
por mulheres de trinta e poucos anos muito “espirituais”. Ou pelo menos era o que eu
pensava. Também tenho que ficar pedindo a Herbert para me lembrar do nome dela. Ah,
sim, Dorothy. Isso mesmo. Sem os sapatinhos sexy de rubi.
Mas H está entusiasmado. Grita para mim, no andar de cima, para saber se estarei
pronta em uma hora.
— Sim — respondo e continuo digitando. Odeio atuar. Odiava na escola, odeio agora.
Eu nem conseguia suportar a interpretação de diálogos da aula de francês.
Mas não há escapatória. Se eu pular fora de uma sedução, ainda mais tão no começo,
vou quebrar o encanto e deixaria nós dois hesitantes para os planos que viriam.
— Está pronto? — grito na escada. — Me dê cinco minutos.
Olho no armário, procurando o traje certo para uma dama com interesses esotéricos.
Fico feliz em dizer que não tenho muito a oferecer nesse aspecto. Encontro uma bata
jeans (que costuma ser bem chique) e a combino com um colar longo de contas (também
chique se estiver em um contexto melhor) e minha legging angorá. Mas antes de vestir a
roupa, vou até o banheiro e lavo meus pés. Não tenho ideia do que H pode ter em mente
quando fala em “fetiche por pés”. Não vou me arriscar.
No andar de baixo, H tirou tudo da mesa de jantar e colocou uma barra de chocolate
sobre ela.
— Que tipo de chá você quer? — pergunta ele.
— Ah, herbal — respondo, sem saber se já estamos incorporando os personagens. Ele
volta com duas xícaras de chá e parece nervoso. Esse é Lars ou é ele mesmo?
— Oi. Sou Dorothy.
— Lars — ele quase sussurra. O que se segue é uma conversa bastante artificial. Sou o
tipo de pessoa que encara a timidez em excesso como uma espécie de submissão, então
Lars quase certamente me irritaria na vida real. Mas, por outro lado, Dorothy também.
Nas minhas mãos, ela é um tanto maternal (é o que Lars parece querer extrair de mim) e
fala demais sobre ioga e druidismo.
Muitas vezes tive motivo para reclamar sobre H mal responder quando pergunto
qualquer coisa; incorporando o personagem Lars, ele leva isso a um nível absurdo. Luto
para obter frases completas dele e sinto que estou arrastando a conversa sozinha. “Como
é que essas duas pessoas acabariam transando?”, eu me pergunto. Na vida real, não
aconteceria. Lars não é um homem sexy. Direciono a conversa para sexo tântrico, um
assunto sobre o qual não sei nada.
Felizmente, isso permite que Lars confesse sua virgindade e seu desejo de perdê-la.
— Você gostaria que uma mulher mais experiente mostrasse o caminho? — digo.
Lars acha que é uma boa ideia. Eu o convido para meu “apartamento” no andar de
cima e o puxo pela mão.
Antes de começarmos, eu tinha imaginado como Lars seria na cama: seria ele atrevido
em seu desespero ou tímido e sentimental? Nenhuma das duas coisas, no final das
contas. Ele é um tanto adorador. Quer olhar para Dorothy nua e dizer que ela é linda.
Não me incomodo com isso, nem quando ele pega um dos meus pés, o acaricia e diz que
é lindo. Como quiser, Lars. Eu acho que os pés são a melhor prova que temos contra o
design inteligente.
O único outro incidente relacionado a pés acontece quando Lars pergunta se posso
masturbá-lo com os pés.
— Como imagina que posso conseguir fazer isso? — pergunto, tentando permanecer
dentro do personagem de Dorothy, espiritual. Lars diz que de lado. Tento por alguns
sofríveis segundos, mas, francamente, não tenho músculos no abdômen para isso. E Lars
se entedia mais rápido do que eu.
Mais tarde, quando conversamos, H admite que a coisa do fetiche por pés foi só
porque queria tornar Lars um pouco mais interessante.
— Então não reflete nenhum desejo seu mais profundo? — pergunto.
Ele parece envergonhado.
— Não. Meu Deus, não.
Graças a Deus por isso. Concordamos que o sexo entre Dorothy e Lars foi bom,
embora não melhor do que Betty e Herbert conseguiriam numa noite comum e
provavelmente até um pouco menos quente. Devo dizer que o sentimental Lars não era
meu tipo; prefiro um pouco mais de malícia nos meus amassos. Suspeito que H o tenha
achado um pouco entediante também. De qualquer forma, H foi taxativo ao dizer que a
cena imaginada não representava de modo algum a perda de sua virgindade. Ele fica um
pouco constrangido quando mostro as semelhanças. Deixo o assunto de lado.
O que me surpreende é como foi fácil entrar no personagem e permanecer nele — não
me senti boba como achei que aconteceria. Isso me lembra das brincadeiras de
personagens quando eu era criança, quando você acaba ficando totalmente absorvido
pelo personagem que finge ser. Acho que o truque de incorporar personagens é fazer de
corpo e alma — qualquer piscadela ou cutucada pode trazer o constrangimento à
equação. O outro truque é escolher uma situação que excite ao menos um dos dois.
— Pensando no assunto, acho que eu teria preferido que você fosse o técnico que
conserta a máquina de lavar, afinal.
— Sim — diz H —, você pode estar certa quanto a isso. Eu estava tentando evitar
alguma coisa cafona demais, mas talvez cafona seja necessário. — Ele pensa por um
tempo. — Como anda seu sotaque de dona de casa de Essex?
dia feliz chega: minha colposcopia. O sonho de toda garota, certo? Como diz o

O panfleto que me deram depois do exame, na maioria dos casos a colposcopia dá


resultados normais.
Quando chega a hora do exame, tenho um surto mental pensando: “O que acontece se
for câncer?”Mas a pergunta não era para ser bem essa. Sei o que acontece se for câncer,
com todos os detalhes apavorantes. Minha real pergunta é: o que acontece se não
encontrarem nada? O resultado que menos consigo encarar é ouvir que devo ir para casa
e conviver com o sangramento.
A enfermeira que me chama na sala de espera está sorrindo com coragem.
— Está frio, não é? — digo, para puxar conversa.
Ela me dá um olhar solidário.
— Algumas pessoas sentem frio quando estão nervosas, é verdade — diz ela.
— Não, está mesmo frio. O termômetro do meu carro estava marcando 2°C quando eu
estava vindo para cá.
— Ahan — diz. Ela me senta ao lado de uma máquina com um adesivo que diz “Pode
ser afetada pelo bug do milênio” e vai pegar uma camisola. Ela me observa enquanto a
visto. — Não se esqueça de tirar a calcinha.
— Sim. Dessa eu já sabia.
— É fácil esquecer quando se está nervosa — diz ela.
Será que pareço apavorada? Tenho certeza de que não. Ninguém gosta de uma visita
ao ginecologista, mas estou bem satisfeita por estar ali. Sou adulta e meu médico é um
profissional. Não vejo razão para entrar no joguinho da vergonha profunda só por
fingimento.
Essa, na verdade, é minha segunda colposcopia (fiz minha primeira dez anos atrás,
quando meu DIU sumiu), então sei o que esperar. Na primeira vez, eu estava mais
assustada pela perspectiva, mas fiquei tão feliz quando me deixaram ver na tela o que
estava acontecendo que no final até gostei.
— Assisti a um documentário semana passada — falei para o ginecologista — que
mostrava como o colo do útero suga o esperma quando se tem um orgasmo.
Há um silêncio sepulcral da parte do doutor.
— Ele não gosta de ser lembrado do que está ligado a sexo — sussurrou a enfermeira
ao meu lado.
Tenho certeza de que o ginecologista atual é muito mais sensato, mas a enfermeira
está quase me deixando doida. Ela aperta meu braço, contrai o rosto e diz “Ohhh” toda
vez que o pobre homem chega perto de mim.
— Você está sendo muito corajosa — diz ela.
Não estou, não. Não dói e estou apenas lidando com isso da mesma forma que lidaria
com um exame dos dedos dos pés.
Então começo a sentir uma vaga sensação de repuxo em algum lugar da vagina.
— Você está tentando tirar meu DIU? — pergunto.
— Não — diz o ginecologista —, me deram um instrumento cego para a biópsia.
Ele continua a mexer.
— Se concluiu que está cego, talvez seja melhor não usá-lo — eu falo.
— Olhe só — diz ele para a enfermeira, puxando de novo. — Nada. Ele deveria colher
imediatamente. Você tem outro?
Há uma pequena inquietação enquanto as duas enfermeiras procuram um novo
instrumento, o tempo todo reclamando e dizendo que o primeiro estava perfeito.
Entregam um segundo a ele, uma espécie de pinça comprida com ponta curva. O
primeiro sai coberto de sangue. Ouço um estalo alto.
— Pronto — diz ele —, é assim que deve funcionar!
A enfermeira volta para o meu lado.
— Você está sendo tão corajosa — diz ela de novo.
— O que mais posso fazer? — Começo a contar a ela a história (na minha opinião,
hilária) sobre meu último exame, durante o qual, toda vez que eu abria as pernas, uma
van de sorvete lá fora tocava música.
Em meio a isso tudo, o ginecologista olha para cima e pergunta:
— Sua família está completa, sra. Herbert?
Fico um pouco surpresa pelo tipo de pergunta que parecia datar dos anos 1940.
— Ainda não tive nenhum — gaguejo, pensando: “Não dá para perceber aí?” Depois
percebo que não é o bastante e acrescento: — Não tenho certeza. Não decidimos. Não
agora. Talvez depois. Estávamos tentando. Mas aí tudo isso começou. Agora deixei um
pouco a ideia de lado.
Informação demais. Ele parou de fazer contato visual. A enfermeira intensificou o olhar
de pena.
Sedução no 6
Despertador de manhã cedo

Pela maior parte desta semana, elaboro um plano perspicaz. Na terça de manhã, vou
botar o despertador para tocar uma hora antes e surpreender Herbert com uma sedução
pré-trabalho. Li em algum lugar, só Deus sabe onde, que os homens amam ser acordados
com um boquete. Eu decido entrar no jogo. Desde que consiga me lembrar do que tenho
que fazer quando o despertador tocar. Há um grande risco de eu ligar o piloto automático
e cambalear da cama para o chuveiro.
Na segunda à noite, percebo que não vai funcionar. Já tenho dúvidas sobre o humor de
Herbert quando ele descobrir que são 6h e não 7h da manhã, mas minhas maiores
preocupações são relativas às circunstâncias. Primeiro, H tomou banho depois da
academia na noite de domingo, então não se deu ao trabalho de tomar banho de novo
na manhã seguinte. Na noite de segunda, estava claro que ele tinha decidido esticar isso
por mais um dia. Será que eu queria botar um pênis dois dias sem banho na boca?
Sinceramente, não. Além do mais, fiz para o jantar uma massa com tanto alho que passei
a noite tomada por incontroláveis e surpreendentes arrotos. Suspeitei que isso fosse
levar a algo desagradável na manhã seguinte. Para evitar a experiência de me aborrecer
por todos os aspectos listados, decidi colocar essa ideia na geladeira por mais um dia.
Após refletir, decido que é melhor avisá-lo que vamos fazer sexo na manhã seguinte.
— Oh — diz ele —, tudo bem.
— Parece má ideia, não é?
— Não. Parece, hum, divertido.
Herbert odeia as manhãs. Não, nada disso. Ele não está consciente o bastante de
manhã para odiá-la. Ele não é exatamente um ser humano durante as manhãs, apesar
de passar certa vibração de “foda-se e morra”. Eu também não posso exatamente me
chamar de uma pessoa matutina, mas, em comparação a Herbert, sou Julie Andrews às
7h da manhã. Não vamos nem pensar às 6h.
No entanto, na minha alegre cabecinha, eu tinha fé de que os benefícios fossem fazer
valer a pena. Na verdade, eu tinha ficado filosoficamente envolvida, pois tinha concluído
que o maior benefício seria ir trabalhar sabendo que já tinha transado naquele dia.
Se eu tivesse parado para olhar para isso por um outro ângulo, teria percebido a
besteira que representava. Eu estava esperando que nós dois encarássemos uma transa
de amanhecer não espontânea para me sentir orgulhosa durante o resto do dia. Dá para
ver a falha no meu argumento: eu não tinha pensado em curtir o sexo; eu tinha pensado
na ideia do sexo depois de ele ter acontecido. A complicação não é erótica (veja a
Sedução nº 5).
Quando o despertador toca na quarta de manhã, dou de cara com outro problema. Na
verdade, eu não tinha dormido bem naquela noite (por ter acordado várias vezes
pensando: “Oh, Deus, preciso encontrar entusiasmo para fazer sexo em poucas horas”), e
isso significa que começo a manhã me sentindo não muito bem. Fica imediatamente
óbvio que um boquete está fora de questão. Acabaria me fazendo vomitar.
— Preciso fazer xixi primeiro — diz H, saindo da cama.
— Na verdade, eu também — digo quando ele volta.
Cambaleio para o quarto escuro, me perguntando se H voltou a dormir, e tiro meu
pijama.
— Quer uma pastilha de menta? — pergunto, feliz por minha inteligência de colocar
um pacote na mesa de cabeceira ontem à noite.
Cada um de nós chupa uma e nos aconchegamos um no outro. Tenho que dizer que
essa parte é bem gostosa, mas de uma forma que me faz pensar em voltar a dormir.
Percebo que sou eu que tenho que tomar a iniciativa, então começo a acariciar o corpo
de H. Ele se inclina e chupa um dos meus mamilos, que se mostra surpreendentemente
sensível a esta hora da manhã. Concluo que o truque vai ser acabar logo com isso, para
que possamos nos sentir satisfeitos logo. Estico o braço e seguro o pênis de H.
No entanto, ele não corresponde. “Droga”, eu penso, “vou precisar de um pouco mais
de ajuda”. Não estou nem um pouco excitada. Chego mais perto de H e esfrego seu pênis
no meu clitóris, mas a sensação é seca e áspera.
— Espere um minuto — eu digo. — Vou pegar lubrificante.
A princípio, ele parece não gostar da ideia de lubrificante. Eu não iria tão longe a
ponto de dizer que ele o vê como uma afronta à sua capacidade sexual, mas certamente
ele encara como um último recurso. Eu sou mais pragmática, pois sei que não sou tão
úmida em certos momentos do meu ciclo. Além do mais, eu tinha comprado um
lubrificante com sabor de hortelã na Boots, achando que podia ser um pouco mais
divertido.
Coloco um pouco nos dedos e esfrego um pouco em mim, depois vou para a cama e
subo em cima de H. Talvez eu tenha demorado muito no banheiro (o lacre de plástico foi
terrível de abrir no escuro), mas ele parece mais sonolento do que quando o deixei.
Deslizo seu membro para dentro de mim e começo a rebolar, obtendo pouca reação.
Tenho uma sensação que só posso descrever como uma espécie de queimação fria. Fico
curiosa para saber se Herbert percebe. Eu me inclino para beijá-lo, achando que a
pastilha não é tão eficiente para disfarçar seu bafo matinal e, portanto, nem o meu.
Depois de rebolar por alguns minutos com vigor crescente, preciso perguntar:
— Ainda está acordado?
— Estou. — A resposta vem depois de uma pausa suspeita. Àquela altura, o
lubrificante está tornando quase impossível que eu sinta alguma coisa. Talvez eu possa
encorajar H a gozar rapidamente para eu ir me lavar. Sugiro que H fique por cima. Ele
concorda com voz sonolenta. Mas depois de alguns minutos, me vejo fatalmente distraída
por um debate mental sobre o sentido de lubrificantes assim. O que significa? A que devo
comparar essa sensação estranha? Será que devo me sentir mais apertada? Ou estou
sendo literal demais?
— Herbert, acho que não vou conseguir gozar. Esse lubrificante está me deixando
dormente.
— Oh — diz ele —, eu também.
— Certo. O que fazemos então? Desistimos e fazemos uma xícara de chá?
Ele pensa por um momento.
— Acho que sim.
— Então o sexo de manhã cedo foi um desastre — digo mais tarde, enquanto
comemos ovos poché com torrada.
— Talvez a gente deva fazer um pouco mais tarde da próxima vez. Às 10h em vez de
6h.
— Hummm. Ou talvez a gente nunca mais deva chegar perto daquele lubrificante.
— Isso também — diz ele.
Fevereiro
É noite de sexta e estou encolhida no sofá de camisola. Uma biópsia de colo de útero e
sexo na mesma semana provavelmente era demais para mim. Minha barriga dói.
O telefone toca, é uma velha amiga de faculdade para contar que está grávida. Tenho
que confessar que esse tipo de conversa tem sido comum na minha vida ultimamente;
estou em uma idade em que todas as minhas amigas estão começando a ter filhos. De
qualquer forma, fico muito feliz por ela. Acho que ela já estava tentando havia um
tempo. Conversamos alegremente sobre o assunto por uma hora, e desligo com a vaga
intenção de tricotar alguma coisa. Decido mandar uma mensagem de texto para as
amigas em comum para dizer: Ah, você ficou sabendo? E. está grávida! A resposta é a
ausência de SMS. Estranho, penso eu. Talvez eu tenha fofocado antes de ela ter a chance
de contar para todo mundo.
Uma das nossas amigas me liga no dia seguinte.
— Graças a Deus ela finalmente te contou — diz ela. — Estava ficando constrangedor.
Fico confusa.
— O quê?
— Ela tem mandado mensagens de texto pra todo mundo dizendo: “Como vou contar
para Betty? Ela vai ficar chateada.” Todas nós dissemos para ela parar com isso, é claro.
— Oh — eu digo, me sentindo burra por ter ficado tão genuinamente feliz por ela no
dia anterior.
Acho que nunca choraminguei nem rangi os dentes por causa da gravidez de uma
amiga. Pode ter havido períodos da minha vida em que fiquei desesperada para ter
filhos, mas no momento tal desejo parece ter passado. Um bebê nos braços de uma
amiga não faz com que meus braços pareçam vazios. Fico realmente feliz por elas e me
esforço para ser uma boa tia. Converso baixinho com bebês e tomo conta de crianças
pequenas. Até levo meu afilhado ao zoológico, mesmo que raramente.
Talvez esse seja meu problema; talvez meu desejo de ajudar seja visto como
desespero. Por Deus, já vi isso em outras mulheres também. Cada idade tem seus
estereótipos, e um dos piores, na minha opinião, é o da mulher de trinta e poucos anos
desesperada por um bebê.
A ambivalência não é permitida, é? Bem, é o melhor que posso oferecer. Ambivalência
reprodutiva. Acho bebês adoráveis, mas trabalhosos. Crianças pequenas variam de
interessantes a tediosas, geralmente dentro de intervalos de dez minutos. Acho
maravilhoso famílias grandes, mas também casais unidos e livres. Sobre o assunto de ter
ou não filhos, vejo uma boa vida seja qual for o caminho.
O mundo não foi feito para pessoas como eu. Esperam que eu odeie crianças e faça
campanha para que sejam banidas de todos os locais públicos ou que eu seja tomada por
uma inveja desesperada cada vez que vejo uma. Não sinto nenhuma dessas coisas.
Respeito as identidades de meus amigos como pais e o modo como suas prioridades
mudam, mas raramente saio da casa deles desejando ter a vida deles (apesar do que
alguns claramente supõem).
É claro que há uma parte mesquinha de mim que se questiona se estou perdendo
alguma coisa espetacular, mas ao mesmo tempo há uma parte mesquinha de mim que
se preocupa com a perda do que tenho com Herbert caso tivéssemos um bebê. Também
há uma parte de mim que se encolhe de pavor pela escolha de amigas de amamentar
eternamente e de abrir mão das próprias vidas em favor da maternidade. “O que há de
errado em colocá-las em uma creche e continuar vivendo?”, costumo me ouvir dizer em
voz alta, mas ao mesmo tempo sei que me sentiria culpada se fizesse isso. Talvez eu
realmente queira ser pai, não mãe: uma pessoa que é amada, mas que se desliga
facilmente. O pensamento de uma pessoa pequena agarrada a mim me faz sentir
claustrofobia.
Era nesse clima que estávamos tentando ter um bebê. Achamos que eu podia parar
com o método contraceptivo e ver o que ia acontecer. Queria nunca ter contado às
minhas amigas; elas concluíram que havia muita vontade por trás disso. Quando a falta
de hormônios artificiais deflagrou o Armagedom ginecológico, fiquei furiosa de a única
sugestão da minha médica de família ser a fertilização in vitro. De repente, fui encaixada
no estereótipo de “desesperada por maternidade”. Relógios biológicos eram mencionados
quando eu dizia que talvez só quisesse cuidar do problema primeiro, obrigada.
A fertilização in vitro nunca devia se tornar obrigação. É uma opção maravilhosa para
aqueles que sentem que ter filhos é seu destino, e certamente não sou uma dessas
pessoas cruéis que gostariam de proibi-la no Serviço Nacional de Saúde. Mas também
quero o direito de dizer que não é para mim. É um jogo estressante e incerto, e minha
escolha é lidar da melhor maneira possível com as possibilidades que recebo.
Então, como me tornei a Fada Malvada da Concepção aos olhos das minhas amigas?
Porque desisti de ter um bebê quando descobri que não podia fazer um com facilidade?
Ou porque concluíram que estou escondendo um desejo profundo e traumático em algum
lugar? Talvez eu seja irritante porque privilegiei minha saúde em detrimento da
reprodução. Quem sabe, mas o que fica claro é que muitas pessoas supõem que uma
vida sem filhos não faz sentido. Oh, por favor. Acho que consigo sobreviver.
Se sinto alguma tristeza quando uma amiga me diz que está grávida, é porque sei que
vou perdê-la para o lindo bebezinho, mesmo que apenas por alguns meses. Vai demorar
até que eu possa ir com ela ao pub na sexta à noite ou ficar com ela até as duas horas
da madrugada, fofocando com pratos vazios entre nós. Minha tristeza não é por causa da
ausência de um filho; é pelo sentimento de que, uma a uma, minhas amigas estão se
afastando. E preciso construir uma vida para mim levando isso em consideração.
Sedução no 7
Espelho, espelho meu

Estou pegando o jeito da coisa. Nem faço careta quando Herbert sugere que sua sedução
seja colocar um espelho na beirada da cama enquanto fazemos sexo.
Alguns meses antes, eu teria dito: “Oh, meu DEUS, NÃO! Não vou me sujeitar a
observar meu corpo HORRÍVEL sacudindo DE JEITO NENHUM! Mais uma vez, NÃO!”
Acho que muitas mulheres vão se solidarizar. Cada vez que me vejo pelada, que me
observo com atenção, sofro um pequeno trauma, com lembranças incluídas. Há partes de
mim que acho que ainda são razoáveis, mas mesmo essas não são apropriadas para
exibição pública. Definitivamente, sou uma daquelas pessoas que fica melhor de roupa.
E mesmo de roupa, às vezes levo um susto. Semana passada, uma amiga postou fotos
minhas no Facebook, e eu achei que nelas estava usando o meu lindo cardigã novo.
Errado. Eu não fazia ideia de que tinha um pneu daquele tamanho. Na verdade, eu vivia
feliz da vida, achando que não tinha pneu algum. Errado de novo. Continuo a tremer cada
vez que penso nessas fotos.
Por outro lado, não sou dessas mulheres que admitem isso em público facilmente.
Prefiro ficar quieta quando se trata de confessar minhas ansiedades quanto a meu corpo.
Elas são chatas e, além do mais, para que chamar atenção para elas? Sinceramente,
fazer isso é uma forma de traição. Quando as amigas confessam suas inseguranças
físicas para mim, fico quieta. Pior, absorvo em silêncio seus protestos de que eu não
entenderia porque sou tão segura. Não, eu penso: eu sofro em silêncio.
Mas desde que as seduções começaram, percebi uma espécie de trégua acontecer
entre mim e meu corpo. Pela primeira vez em muito tempo, percebi que sou desejável
aos olhos de Herbert, e embora meu senso de autoconfiança não deva depender da
opinião dele, isso me deu um tremendo estímulo.
O sexo é pura postura, não é? É se jogar de corpo e alma no alter-ego que todos
possuímos: o exótico, cheio de vida, livre. E a beleza não passa de sexo disfarçado. As
pessoas que desejamos são bonitas. Portanto, ao alcançar a postura sexual melhor do
que em qualquer outra época, consigo me sentir muito mais bonita.
Isso não me impediu de tirar minhas lentes de contato antes de começarmos. Mas
observar nossos movimentos embaçados no espelho me fez lembrar do quanto os
homens gostam de ver o que está acontecendo durante o sexo. Eu mesma fico a maior
parte do tempo de olhos fechados, recolhida ao meu mundo, mas H gosta de ver,
literalmente, as entradas e saídas. Ele me viu de praticamente todos os ângulos
possíveis, então o que penso estar escondendo quando evito isso? Será que acho que ele
não sabe como é minha vagina a essas alturas? É difícil para a minha cabeça neurótica
aceitar isso, mas observar a ação efetivamente melhora o sexo para ele, quer eu consiga
aceitar meu corpo ou não.
Isso também me lembrou de outra coisa. Eu tinha 19 anos e H me levou para a frente
do espelho quando estávamos fazendo sexo. Eu me lembro de observar meu próprio
rosto se transformando, indo do constrangimento para a confusão e para o
reconhecimento, vendo a pele morena de H contra a minha pele branca.
— Pronto — disse ele —, vê o quanto você fica bonita quando está excitada?
Apesar da vergonha, concordei com ele.

costume dizer que, de vez em quando, a vida vem e nos dá um choque de

É realidade.
Para mim, essa postura não parece nada razoável. Não vejo a “vida” como um
agente mal-intencionado. A vida é uma força passiva que simplesmente está ali, no
caminho, enquanto você tenta ir em frente. Eu preferiria usar uma metáfora diferente: de
vez em quando, você bate a cabeça na barreira entre suas intenções e a realidade.
Para que essa imagem funcione de verdade, você tem que se imaginar (como eu faço)
sentada em um jardim em um dia quente de verão. “Já sei”, você pensa, “vou entrar e
pegar um copo d’água”. Isso é perfeitamente lógico; nem é uma ideia exótica. A água é
uma coisa moral e eticamente neutra para se querer em um dia quente. É essencial.
Então você fica de pé, anda para dentro de casa e então — BUM — bate a cabeça contra
a porta da varanda. Você supôs que estava aberta, mas algum idiota a fechou. Você fica
ali de pé, tonta por um momento (talvez tenha estirado o músculo do pescoço ou feito
um galo na testa; talvez seu nariz esteja sangrando), e pensa: “Merda de azar. Não
mereço isso.”
Esse é um prólogo longo para a questão pegajosa da tentativa de sedução de hoje.
Uso o termo “pegajosa” aqui literalmente, mas vou chegar a isso depois. De qualquer
forma, tenho certeza de que você logo vai entender o motivo.
O começo não foi muito promissor. No começo da semana, Herbert me ligou no meio
da manhã para dizer que tinha batido o carro a caminho do trabalho e pediu que eu fosse
buscá-lo no hospital. Ele não sofreu nada além de um torcicolo, mas não teve vontade de
sexo a semana toda. Acabou concordando em fazermos a sedução na sexta à noite
(minha vez) e, assim, pensei em sugerir uma coisa um pouco safada dessa vez.
Quando ele chega em casa na sexta à noite, digo:
— Pensei em um desafio para a sedução de hoje. Vamos para a cidade, para uma
noitada, e durante o tempo que passarmos lá, temos que encontrar um lugar para fazer
sexo. Em público.
— Certo — diz H, sem sorrir. — Quando você diz “em público”, quão público está
querendo dizer?
— Oh, não muito. Em um banheiro, ou algo assim. Talvez em uma passagem escura.
Não no meio da pista de dança.
— Estou tentando pensar em onde isso pode ser — diz ele, e começa a listar todos os
bares a que vamos, a dissecar as possibilidades de transa discreta de cada um.
— Não — eu digo —, o objetivo é aproveitar uma oportunidade quando ela aparecer.
Não é um exercício de planejamento prévio.
— Ah, certo, me desculpe. Acho que sou racional demais para isso.
— Não precisamos fazer isso se você estiver cansado demais. Sua semana foi difícil.
— Foi mesmo. Estou pensando, será que podíamos fazer no carro?
— Mas isso seria bom pra sua coluna?
— Não.
Eu cedo. Está claro que ele não está empolgado. Pensando no assunto, talvez meu
plano seja um pouco ambicioso demais para um homem que acabou de bater de carro.
— Vamos apenas fazer sexo no quarto por enquanto — diz ele.
Pelo menos não me depilei à toa. Vou com entusiasmo para a cama, me perguntando
quando deveria mencionar que ele pulou fora de uma sedução primeiro. Eu tinha gostado
da minha ideia; uma vez li uma história malcontada sobre Debbie Harry e Chris Stein
sendo pegos transando no banheiro do CBGB,6 depois de anos de relacionamento. Esta,
portanto, é uma ideia de sedução com antecedentes. Não estou disposta a deixar passar
facilmente.
Acendo algumas velas enquanto H se despe — é pelo menos um gesto para obter um
ambiente sedutor. As coisas vão bem. H está animado, talvez para compensar a falta de
entusiasmo pela minha sedução, e eu me sinto um tanto safada por ter sugerido uma
coisa que o fez amarelar. “ Aguenta essa, Herbert”, penso, de um jeito brincalhão. “Não
sou mais a ponta mais fraca da nossa vida sexual! Não mesmo!”
Subo nele para tentar fazer a cavalgada invertida, uma posição acrescentada
recentemente ao nosso repertório e que nós dois adoramos. Depois de um tempo,
percebo um som úmido, escorregadio. “Nossa”, penso com orgulho. “Como tenho ficado
molhada ultimamente!”
— Me desculpe pelo barulho — digo para H, e ele não parece se importar. Sinto que
estou quase tendo um orgasmo, então me viro para ficar de frente para ele nos últimos
momentos. Nós dois gozamos ao mesmo tempo e afundo o rosto em seu pescoço.
— Caramba — eu digo —, estou tão molhada hoje. — Coloco minha mão lá embaixo
para sentir o quanto estou molhada e encontro uma coisa pegajosa, quente e densa. É
escura à luz das velas. — Oh, Deus — eu digo, e H acende a luz.
Há sangue para todos os lados.
— Meu Deus! — eu digo, e corro para o banheiro para ficar de pé debaixo do chuveiro,
tentando não chorar.
— Não se preocupe — escuto H gritando do quarto —, eu limpo tudo. Vou trocar o
lençol.
Fico muda de horror. Fico de pé sob o chuveiro, pensando que diabos H deve pensar
de mim. Então o chamo para entrar no chuveiro depois de mim. Ele parece estar
tranquilo.
— Pelo menos não vou ter que tomar banho amanhã de manhã — diz ele
alegremente, enquanto observo a água avermelhada descer pelo ralo.
Fico silenciosa durante o jantar daquela noite. Há momentos em que tenho medo de
que as lágrimas saiam apesar da minha vontade. Só depois de três taças de vinho e de
um tiramisu de cereja, me sinto capaz de me inclinar para H e sussurrar:
— NUNCA MAIS vamos fazer cavalgada invertida novamente, entendeu?
Ele ri tanto que tenho que perguntar se está chorando.

6 Famosa casa noturna de Nova York. (N. da T.)


Sedução no 8
Passos suaves

Depois do final desagradável da nossa tentativa anterior de fazer sexo, há um breve


intervalo de uma semana. Na verdade, nem falamos sobre o assunto e voltamos com
alegria para nossas vidas familiares e celibatárias. Mas então, pela primeira vez, percebo
o valor das seduções. Não podemos simplesmente esquecer o sexo durante meses.
Temos que continuar insistindo.
Herbert é melhor nisso do que eu. Ele não entra em discussão sobre o assunto. Só
enfia a cabeça pela porta do meu escritório uma tarde e anuncia que a sedução da
semana vai ser stair sex.
— Sexo na escada? — eu pergunto. — Na escada que vai do primeiro andar até o
segundo ou sexo em que a gente fica se encarando?7
— A que vai do primeiro andar até o segundo — diz ele, como se fosse a coisa mais
normal do mundo. Eu não estranharia se ele escolhesse fazer sexo me encarando. Ele
tem um orgulho estranho de minha mãe tê-lo descrito uma vez como tendo “olhos
sagazes”.
— Tudo bem. Podemos ir ao pub primeiro?
— Depois.
— Certo.
Penso que estou sendo muito tolerante. Afinal, é Dia dos Namorados, e ele
obviamente teve essa ideia do nada.
— Mas escada não é uma locação em vez de sedução? — pergunto.
— É um formato — diz ele. — Uma estrutura.
— Em cima do carpete de fibra de coco.
— Você pode ficar de roupa.
— Talvez seja mesmo necessário.
Moramos em uma casa dos anos 1930 e nossa escada é bem estreita. A meu ver, eu
só faria sexo nela se estivesse com um desejo desesperado que não aguentasse nem
chegarmos até o quarto. Planejar fazer sexo na escada me parece uma ideia errada. No
entanto, já trapaceei com H esta manhã para conseguir um presente não planejado de
Dia dos Namorados (sugeri o presente na frente de um amigo que é conhecido por ser
pão-duro, forçando H a provar que é melhor do que ele), então me sinto obrigada a não
reclamar demais.
Vou para o andar de cima e coloco meias longas para proteger os joelhos do atrito.
Tiro a calcinha. H está me esperando no hall e parece gostar da ausência de calcinha. No
começo, acho a escada bem divertida. Há certa atmosfera de brincadeira ao tentarmos
encontrar a melhor posição. É verdade que, devido ao fato de os degraus serem
estreitos, lutamos para encontrar um ângulo no qual ele consiga me penetrar, mas
acabamos conseguindo, comigo de quatro.
Mas tenho que confessar que meu bom humor acaba depois de um tempo. Ou nem
tanto meu bom humor, mas minha expectativa de me divertir. É que a movimentação de
H é livre, por ele estar de pé e com um corrimão no qual se apoiar; eu, por outro lado,
ainda sinto a fibra de coco me espetando através das meias e meu rosto está
pressionado contra o degrau de cima. Eu realmente precisaria estar um pouco mais
bêbada para curtir isso.
Nós nos viramos, e desta vez fico com uma perna por cima do corrimão e outra por
cima do ombro de H, mas os degraus são tão estreitos que sou forçada a botar todo meu
peso em um cotovelo para poder empurrar a pélvis para o alto. Subimos um pouco a
escada para voltarmos para a posição de quatro, mas dessa vez comigo deitada de
barriga para baixo por cima do último degrau. Assim é um pouco melhor, mas ainda
muito desconfortável, e a posição vem acompanhada de uma visão completa da poeira
que tem embaixo da cama. Nessa hora, a gata Bob decide que precisa chegar de
qualquer jeito ao topo da escada, embora estejamos no caminho, então começa a se
forçar para passar encostada ao corrimão atrás de nós e continua tentando mesmo
quando fica claro que é gorda demais para isso.
— Falta muito pra você? — pergunta H.
— Muito. Pode gozar.
É sempre alarmante ver como um homem consegue chegar ao orgasmo sem o mínimo
de conforto e concentração; algumas investidas um pouco mais vigorosas e H é um
homem feliz.
Saio da posição de bruços e Bob pula por cima de mim para ocupar seu desejado lugar
em cima da cama. Não consigo não desejar poder me juntar a ela.
— Isso foi meio ruim, não foi? — diz H. Quero dizer: “Pareceu ótimo pra você”, mas
sinto que tenho uma vantagem aqui.
— Hum. Vamos dizer que você me deve um orgasmo.
— Está na hora de escolhermos uma sedução que funcione.
— É. Isso pode exigir um pouco de planejamento de sua parte.
Depois disso, vamos para o pub. Já comentei que H costuma não gostar de ir para o
pub sozinho comigo, sob o argumento de que a bebida é mais barata em casa e que lá
tem televisão. Eu provavelmente contribuí para essa preferência por guardar todas as
minhas Conversas Muito Importantes para os raros momentos em que tenho sua atenção
total.
Mas esta noite é diferente por algumas razões. H toma cerveja e conversamos sobre
várias coisas. É gostoso. Um grupo de mulheres entra segurando balões em forma de
coração e flores. Pelo visto, elas decidiram curtir o Dia dos Namorados sozinhas. Estou
feliz por toda essa insegurança e fingimento terem acabado para mim. A primeira onda
de paixão é boa, mas é bom também ter falhado no sexo na escada sem me questionar
se é prejudicial para o relacionamento.
Vamos para casa um tanto bêbados, e pedimos todas as entradas do cardápio de um
restaurante chinês, como costumamos fazer no Dia dos Namorados — principalmente
porque fingimos que não vamos comemorar o Dia dos Namorados todos os anos e depois
sucumbimos a ele quando é tarde demais para reservar uma mesa de restaurante.
É isso que me seduz: ouvir música, comer comida ruim e, depois, ir para a cama
dormir.

stou preocupada com Herbert. Ele anda silencioso e irritável desde a batida de

E
cara.
carro. Às vezes ele é um cara calado, mas atualmente anda muito frio. Quando
disse que tudo estava bem depois do acidente, eu não devia ter acreditado logo de

Na manhã que aconteceu, ele me ligou de um hospital a uma hora de distância. Tinha
tido que frear de repente ao entrar em uma rotatória e o motorista de trás não conseguiu
parar a tempo. Corri para buscá-lo.
Quando cheguei, ele estava saindo da sala de exames. Pareceu surpreso por eu estar
lá, como se tivesse esquecido que me pediu para ir buscá-lo. Conversamos um pouco no
estacionamento e tentei fazer com que ele tomasse ao menos uma xícara de café e
desabafasse, mas ele só queria ir para o trabalho no carro batido. A única coisa que pude
fazer foi voltar para casa.
A vida é assim para H; ele prefere baixar a cabeça e ignorar suas próprias
preocupações a fazer estardalhaço. Mas ele voltou para casa nervoso, dolorido e exausto
naquela noite. Tentei fazer-lhe uma massagem nas costas e seus músculos estavam
contraídos e rígidos. Ele me pediu para parar; estava doendo demais.
A seguradora o encaminhou a um psicólogo, mas não parece ser o bastante. Sua
sensação de segurança também foi ferida. Quando ele conta aos amigos sobre o
acidente, quase sempre se enrola e tenta justificar o motorista que bateu nele. Não foi
culpa dele; H podia muito bem se ver fazendo a mesma coisa. Eu me pergunto se isso
não piora as coisas; ao não se permitir botar a culpa em alguém, Herbert se sente mais
exposto à natureza caótica da direção. Ele admite que seu estômago dá um nó quando
ele se aproxima daquela rotatória.
Enquanto Herbert absorve lentamente o impacto da batida, espero pelo resultado do
exame de câncer de colo de útero. Como posso pensar no meu corpo enquanto não tenho
essa resposta? Seria ele algo frágil que precisa de proteção cuidadosa ou uma coisa que
eu devia me forçar a celebrar? Será que eu deveria deixar tudo em suspenso, só por
precaução? Embora eu saiba que seria melhor assim, é difícil afastar a ideia de contágio,
a imagem de que meu corpo é algo que oferece perigo ao toque, para nós dois. Fico
hesitante comigo mesma, paro de fazer atividade física e me mantenho atenta a
sintomas que deveriam me preocupar.
No entanto, no meio de tudo isso, estranhamente, prosseguimos com as seduções.
Elas estão começando a parecer uma defesa contra nossa vulnerabilidade.

7 A palavra “stair” (escada) e o verbo “stare” (encarar) têm a mesma pronúncia. (N. da T.)
Sedução no 9
Uma noite no cinema

Minha mãe emite um som especial quando há cenas de sexo na TV. Não tenho certeza de
como poderia colocá-lo em palavras, mas é mais ou menos o som que um operário faz
quando você pede que ele faça qualquer coisa, ou o som que você faz para mostrar
solidariedade quando outra pessoa corta o dedo: Shhhh. Como nas frases: “Shhhh, isso
vai sair caro” ou “Shhhh, aposto que isso doeu”.
Ouvi muitas vezes que a geração dela acha que inventou o sexo. Minha mãe discorda
educadamente: ela acha que ela, pessoalmente, o inventou e não está disposta a
compartilhar o crédito com outras pessoas. As suas conquistas sexuais são lendárias, pelo
que ela diz. Minha mãe gosta de dizer que ela e meu pai fizeram sexo todas as noites de
seu casamento, mesmo quando estavam se divorciando. Há coisas na vida que é melhor
não saber.
Durante meus anos de adolescência, ela se esforçou para se certificar de que eu não
encontrasse nela o pudor com o qual conviveu quando adolescente. Não havia nenhum
assunto sobre o qual ela não falasse. Eu ficava inevitavelmente horrorizada. Minha mãe
sempre queria que eu fosse a garota mais sexualmente liberada da cidade. Só posso
imaginar, embora eu evite conversas sobre esse assunto, que ela se decepcionou por eu
ter acabado sendo a puritana Saffy, enquanto ela era uma cópia de Edina.8
Imagine a cena: eu aos 13 anos, sentada no sofá assistindo à TV, com minha mãe na
cadeira ao lado. As pessoas na tela começam a se beijar. Fica claro que há línguas
envolvidas. Sinto um desespero apavorado e torço para que ela educadamente saia da
sala ou desligue o aparelho, como os outros pais fazem. Não. Mamãe começa a fazer
aquele barulho. A intenção é que seja um sinal claro: “Veja, querida, uma coisa
vagamente empolgante está acontecendo na TV.”
É claro que percebi isso muito bem. Como era costume nos programas dos anos 1980,
a mulher na tela está tirando os brincos de pressão e indo para o quarto. Eu me pergunto
se consigo sair da sala despercebida. Minha mãe agora sibila como uma chaleira de água
fervente. Shhhh: ela desabotoou a camisa dele! Shhhh: ele abriu o vestido dela! Shhhh:
ela está passando os dedos nos pelos do peito dele!
Nesse ponto, o barulho não diminuía e às vezes vinha acompanhado de alguns oohs e
alguns comentários. “Ooh, ooh, pelos do peito, shhhh!” Só posso agradecer pelos
programas de TV dos anos 1980 não irem muito além desse tipo de cena. O casal caía na
cama e minha mãe emitia um shhhh final e trêmulo antes de ir fazer um café.
Sempre me perguntei se ela percebia que estava fazendo isso em voz alta ou se
achava que estava me ensinando o jeito certo de uma mulher reagir. Se fosse a segunda
opção, ela não precisava ter se dado a esse trabalho. Meus hormônios adolescentes
estavam fazendo o serviço muito bem, obrigada.
De qualquer modo, isso tudo teve um terrível efeito a longo prazo sobre minha
capacidade de assistir a qualquer coisa vagamente sexy na TV. Não é que eu não reaja a
essas coisas; é que fico com medo de que eu vá transparecer de alguma forma, como
acontecia com minha mãe. Acho que posso confiar que não vou fazer shhhh, mas será
que posso confiar que não vou estalar os lábios ou respirar com mais intensidade? Não
tenho certeza.
Só houve um filme que provocou uma reação erótica em mim e Herbert, e as razões
foram todas erradas. Depois de assistir a Beleza Roubada, estávamos tão cansados do
roteiro estúpido e do olhar daquele velho que optamos por transar no chão da sala de
estar. Fora isso, não temos histórico nenhum de compartilharmos filmes eróticos. Fomos
assistir a Desejo e Perigo juntos com muitas expectativas, mas nós dois sentimos que o
ritmo intenso era mais do que inadequado. É entediante que eu goste de sexo
consensual? E (sim, já contando o final) que não termine com um ordenando a execução
do outro?
Ainda assim, a sedução baseada em um filme parecia uma escolha óbvia. Bem, assistir
a filmes pornôs juntos é uma escolha mais óbvia, mas só de pensar nisso já fico nervosa.
Nunca assisti a nenhum filme, mas na minha mente tudo é abusivo e nojento. Então vai
ter que ser um filme de cinema. E depois de anos evitando me excitar com um filme, fico
completamente sem ideias.
É aí que entram os maravilhosos frequentadores do Twitter. Uma busca por “filmes
que excitam sem serem pornográficos” gera uma torrente extraordinária de respostas,
que vão do picante (O cozinheiro, O ladrão, Sua mulher e o amante) ao romântico (O
piano) e ao levemente bizarro (Mulholland Drive).
A maior parte das sugestões vem de mulheres, e as escolhas delas apontam para um
enredo sexy. Um olhar mais demorado é tão importante quanto ver as pessoas fazendo
sexo. Parecemos gostar de sugestão, de clima. Em muitos casos, eu preferiria que a
câmera parasse aí, para que pudéssemos imaginar a consumação do ato.
Faço tentativas repetidas para encorajar os homens a sugerirem filmes, mas eles
relutam em participar. Eu me pergunto se é porque sabem que suas escolhas seriam as
erradas para as mulheres. Ouvimos repetidamente que os homens são mais estimulados
visualmente e que gostam de ver a ação até o fim. Talvez então os filmes sejam
comportados demais para eles. E talvez eles também saibam que vamos discordar se
disserem isso.
Mantenho isso em mente quando peço os DVDs; quero ter certeza de que tenham
fantasia o bastante para me agradar e sexo o bastante para agradar a Herbert. Os filmes
que escolho são Nove semanas e meia de amor, A bela da tarde, Shortbus e Secretária.
Decidimos assisti-los em uma tarde de domingo. O ambiente todo é envolvente:
procuramos uma experiência similar a um cinema e usamos meu projetor digital com a
tela pendurada na parede da sala, fechamos as cortinas e espalhamos almofadas no
chão. Com a lareira acesa, o local fica confortável. Eu me divirto muito fazendo danças no
estilo Tales of the Unexpected com minha sombra projetada na tela. Talvez eu nem
precise dos filmes.
Uma amiga liga pouco antes de começarmos a sessão, perguntando se pode vir tomar
chá.
— Hum, desculpe — ouço Herbert dizer —, vamos sair.
Espero que ela não pergunte para onde; ele é um péssimo mentiroso e sei que vai
acabar contando a verdade. Ele volta com uma garrafa de vinho.
— Me sinto tão culpado — diz ele.
Somos péssimos em arrumarmos tempo só para nós, dessa maneira. É interessante
perceber isso por si só: não é surpreendente não termos arrumado tempo para o sexo se
nos sentimos obrigados a aceitar cada pedido que os amigos fazem. Normalmente,
largamos tudo para o mais casual dos convites. Também somos anfitriões compulsivos.
Se estamos planejando alguma coisa divertida, convidamos todos os nossos amigos. Não
separamos momentos suficientes para nós dois.
Assistimos a Nove semanas e meia de amor primeiro. H fica na poltrona e eu me sento
nas almofadas, encostada nas pernas dele. Ele estica o braço e faz carinho na minha
nuca. Eu fico meio desorientada com tudo isso: as cortinas fechadas em uma tarde
cinzenta, a dedicação de várias horas para ficarmos excitados. Honestamente, acho que
nunca fizemos uma coisa assim antes — nós dois assistindo a um filme com a intenção
clara de ficarmos excitados.
Fico um pouco preocupada com Nove semanas e meia de amor. H parece ser alérgico
aos anos 1980 e eu assisti ao filme muito tempo antes, mas não terminei. Tenho a
sensação de que o achei meio assustador.
Oh. Certo. É assustador. A partir do momento que percebo o olhar cabisbaixo de
Basinger e o sorriso estranho e incessante de Rourke, meu estômago começa a
embrulhar. E não de uma forma boa. De uma forma que diz: “Não haveria a menor
possibilidade de eu começar uma conversa com aquele homem, muito menos um
relacionamento.” Ele é absurdamente sinistro, mesmo antes de começar a manipular
Basinger como uma marionete. Sinto como se estivesse contemplando a versão sexual de
Hannibal Lecter. Com meu marido. Em uma tarde de domingo. Para obter emoção
sexual.
Não funciona para mim. Não me identifico com Basinger. Eu sairia daquele
relacionamento na hora em que ele começasse a me dar vinho da minha própria taça.
Não entendo por que ela é atraída por ele. Fico curiosa para saber o que H está
pensando. Também me pergunto se eu poderia tricotar. A sucessão de jogos fica chata
depois de um tempo. Perdi toda a simpatia pelos dois personagens. O sexo é
surpreendentemente contido. A maior parte do tempo, vemos as coxas de Basinger com
a barra das meias 7/8 aparecendo e depois a câmera muda de direção.
Ao final do filme, estou me sentindo com bem menos vontade de fazer sexo do que
antes de ele começar.
— O que você achou? — pergunto a Herbert.
— Horrível — diz ele. — Não quero assistir a alguém sendo tão cruel com uma mulher.
Fico aliviada. Nós dois concordamos que perdemos todos os estímulos carnais. Vamos
para a cozinha para nos reorganizarmos e colocamos o jantar no forno e fazemos café. É
um intervalo necessário. Não pela primeira vez, eu me pergunto se ser liberal de classe
média prejudica consideravelmente o desejo sexual. Não aprovamos muitas coisas; tudo
tem um lado político. O sexo deve ser bem mais fácil se você carrega a velha ideologia
de “o homem sempre manda”.
Graças a Deus por Secretária. É mais reconfortante do que picante. A história da
garota confusa que encontra o poder por meio do chefe que bate nela (de verdade) é
muito reanimadora. Não é politicamente correta, é engraçada, inteligente e maravilhosa.
Para falar a verdade, é só um pouco sexy, mas trata de sexo consensual entre dois
adultos esclarecidos. O engraçado é que o assunto dos dois filmes é o mesmo: o homem
que gosta de controlar, a mulher que brinca com a extensão de sua submissão. A
diferença é que Secretária não está interessado em identificar as vítimas.
Por sugestão de Herbert, assistimos a Secretária usando somente roupas íntimas, o
que me deixa com um pouco de frio, mas vale a pena. H ama o contato de pele e é
gostoso ser acariciada e beijada. Fazemos sexo antes de o filme terminar. Quando chega
na parte dos créditos, faço com que ele fique de pé em frente à luz do projetor. Achei que
ele acharia erótico observar enquanto o coloco na boca na silhueta do telão. Mas acho
que o sexo oral teria sido o suficiente por si só.
Depois disso, me reclino sobre a mesa para que H possa observar sua sombra
entrando e saindo de mim. Ele tem ideias melhores. Passa as mãos pelo meu bumbum e
coxas por alguns momentos, depois faz uma pausa. Em seguida, dá dois tapas certeiros,
um no lado esquerdo do bumbum e um no direito. Eu começo a rir.
— Não achei que íamos interpretar o filme!
Ele me penetra e bate de novo. Não posso dizer que me deixa incrivelmente excitada,
mas também não é desagradável. É um gesto de quem está gostando, brincando. O
quarto tapa me faz dizer: “Ai!”
— Oh, Deus, me desculpe — fala H, rindo. — Foi um pouco forte, não foi? Doeu? Minha
mão está ardendo.
Ele faz carinho em meu bumbum por um tempo, mas não para o que estava fazendo.
Os tapas recomeçam um ou dois minutos depois. Quero saber o que ele está pensando
quando os dá.
— Está gostando bastante de bater na minha bunda, não está? — pergunto.
— Não — diz ele, parecendo confuso —, pensei que você gostasse.
Suspiro internamente. Aquele medo liberal está atrapalhando de novo. Se gosto de
bater na bunda de uma mulher, o que isso faz de mim? Se vamos chegar a algum lugar
com isso, um de nós tem que ceder um pouco. Mas isso não o interrompe. Ele continua
me dando tapinhas até o final.
Mais tarde, do nada, ele diz:
— Talvez a gente tenha que experimentar uns tapas no meu bumbum qualquer dia
desses.

ginecologista está olhando para as anotações quando entro no consultório.

O — Sra. Herbert — diz ele calorosamente —, você ficará feliz em saber que a
biópsia não encontrou nenhuma célula cancerosa e nem pré-cancerosa.
Quero dizer a ele que eu tinha concluído isso pelo fato de ele ter se esquecido de
passar o resultado para mim e para minha médica, e que ele também se esqueceu de
marcar uma consulta de retorno. Como a secretária falou com certo constrangimento, eu
tinha “sumido da lista dele de alguma forma”.
— Mas encontramos uma inflamação — diz ele —, que pode ser devido a infecções
repetidas.
Que ótimo. Procuro não pensar que essa é uma parte do meu corpo intimamente
associada a sexo.
Pelo que ele diz, tenho uma grande “zona de transformação”, que é o equivalente
ginecológico a ouvir que você tem bunda gorda e pelos no queixo. A zona de
transformação é a área do colo do útero onde as células frágeis que recobrem o útero se
encontram com as mais resistentes, que ficam do lado de fora. Como essas células
mudam com o tempo, esse é o lugar mais vulnerável para o desenvolvimento de câncer
de colo de útero. A minha, por algum motivo, é particularmente grande, o que significa
que tenho essas células frágeis na parte externa do colo do útero. Elas sangram
facilmente, sem parar. Meu colo do útero é, em essência, uma ferida aberta.
— É claro que colisões constantes aumentam a chance de que sangrem — diz o
ginecologista.
Colisões constantes? Ah, ele quer dizer sexo. Acho um tanto engraçado que ele possa
chamar sexo de “colisões constantes”. Decido usar o termo no futuro. Ao que tudo indica,
minha desastrosa experiência com a cavalgada invertida piorou tudo.
Meu próximo passo é a cauterização do colo do útero, além de ter uma câmera
inserida no meu útero para ver até onde as células ruins vão. As alegrias não terminam
aí. Os outros sintomas (enxaqueca, náusea, dores) são parte de como meu período
menstrual é de verdade quando não estou usando contracepção hormonal.
— Estão dentro do âmbito das experiências normais — diz ele — e não são
patológicos. Mas os sintomas parecem bem ruins. O que não entendo é porque o DIU
hormonal que você usa não acabou com tudo isso. Embora raro, é possível que esteja
com defeito. Vou trocá-lo quando for fazer as outras coisas, só pra garantir. Enquanto
isso, você deveria continuar tomando mini-Pill.
— E se decidirmos ter filhos?
— Vamos cuidar disso quando chegar a hora. Mas só posso dizer que é melhor você
engravidar bem rápido!
Ele ri sozinho. Deve parecer tão simples aos olhos dele.
Herbert fica feliz com o resultado. Ele jamais sonharia em me contar, mas acho que
andou muito preocupado com isso. Porém, a reação dele é mais do que mero alívio.
— O que ele está dizendo é que tenho um pênis enorme — diz ele no carro, no
caminho para casa. Ele repete a frase algumas vezes para sua diversão própria, mas
depois decide que prefere “medicamente grande”.
Suspeito que mal conseguiu se controlar para não postar a informação no Facebook.

8 Dupla de personagens principais da série inglesa de TV Absolutely Fabulous. (N. da T.)


Março
Achei que talvez fosse uma sedução por si só passarmos uma noite em Brighton. É uma
cidade cheia de vida, um tanto alegre, e eu me visto de acordo com o clima, com meus
novos sapatos vermelhos com salto anabela e meias 7/8 brancas. Um dia, vou aprender
que essas coisas não fazem efeito em Herbert, só me deixam com os pés doendo no final
do dia. Por outro lado, nunca atraí tantos olhares de aprovação em postos de gasolina.
H está em um frenesi de compras, então vamos para North Laine assim que
chegamos. Tenho uma vaga lembrança de um sex shop com ambiente mais feminino por
ali, mas não consigo encontrá-lo. Acabamos por cometer o erro de entrar em uma loja ali
perto, cheia de artigos sexuais e outras tralhas. A loja está abarrotada de calcinhas
bobas, o que pode ser legal para quem gosta. O que não é legal é ser incomodada de
uma forma absurda pelos vendedores. Assim que passamos pela porta, somos abordados
por uma garota pálida, mal saída da adolescência e com aspecto suado, que pergunta se
precisamos de ajuda.
— Não, obrigada — eu respondo, o que parece ser o sinal universal que significa “Por
favor, nos siga pela loja e mostre o uso de objetos pelos quais não demonstramos
interesse”. Sou tomada por uma vontade desesperada de ir embora. Tudo que vejo me
parece horrível; fica claro que a loja tenta dominar o mercado de presentes ousados para
despedidas de solteiro e amigos secretos de Natal.
Fico desapontada por H querer ir ao andar de cima, mas vou com ele mesmo assim.
Acho que ele pensa que pode melhorar depois que passarmos pela parte constrangedora
que é a frente da loja. Se tiver mesmo pensado isso, se enganou. No andar de cima, está
passando um DVD de um filme pornô dos mais nojentos (uma dona de casa dos anos
1980, com coxas cheias de hematomas e cinta-liga, subindo e descendo em um homem
que suponho ser o leiteiro), ao lado de uma parede cheia de horrendas roupas íntimas de
vinil. Uma nova vendedora nos aborda e nos oferece dois por um para todos os filmes.
Espero que ela esteja falando do preço.
Saímos o mais rapidamente que conseguimos. Há alguma coisa em passeios assim
que dá a sensação de fracasso. Será que não sei me divertir? Será que sou travada? Acho
que não, mas resisto a falar sobre brinquedos sexuais com uma adolescente que parece
ter bebido demais na noite anterior. Será que essas pessoas não percebem que ir
comprar acessórios sexuais com o parceiro pode ser parte do flerte?
Depois de jantar e tomar algumas bebidas, voltamos para o quarto do hotel, levando
conosco mojitos de coco do bar do subsolo. Levamos também Shortbus, um dos filmes
que nos recomendaram para a Sedução nº 9, e nos deitamos para assistir usando
roupões iguais do hotel.
É uma boa surpresa ver que o começo de Shortbus faz Herbert ofegar.
— Essa é a coisa mais sexualmente explícita que já vi sem ser em um filme pornô —
diz ele, rindo. A longa sequência de abertura mostra um homem tentando se filmar
chupando o próprio pênis, intercalado com imagens de uma mulher e um homem fazendo
um sexo muito entusiasmado. A terceira linha de narrativa, uma dominatrix mostrando
sua grande coleção de vibradores e depois chicoteando um homem um tanto irritante,
parece banal perto das duas outras.
Gosto muito de Shortbus. É inteligente e engraçado e admiravelmente predisposto a
não afastar a câmera da ação. No entanto, começo a ficar tensa com a aproximação do
final. Não quero que termine. Inevitavelmente, vamos fazer sexo depois, e não consigo
suportar essa ideia.
Tento não pensar no assunto. Não vou mais me deixar levar por esse tipo de
pensamento, vou? Prometi estar aberta para tudo. Mas estou cansada. Herbert começa a
acariciar meu joelho. A sensação é tão estranha que tenho que pedir para ele parar.
— Você está acariciando a parte onde fica a cicatriz — eu digo. — A sensação é ruim.
Estou encostada no peito dele, meu corpo entre suas pernas. Ele começa a acariciar
meu seio direito e isso é estranhamente incômodo também. Acabo me encolhendo.
— Me desculpe. Não sei o que tenho hoje — eu digo.
— Se está cansada, não precisamos ir em frente. Não é uma obrigação.
— Não, não, é uma pena estarmos nesse quarto lindo e não aproveitarmos.
Vou até o banheiro e examino o seio incomodado. Já tive abscessos nele e sempre
começa assim, com uma dor repentina e inexplicável. Mas desta vez não há nada. Volto
para Herbert.
— Que tal fazermos um 69? — pergunta ele.
Isso deve ser tranquilo. Acho a posição 69 chata, mas pelo menos não apresenta
desafio nenhum. Mas não consigo gostar das sensações agora. Estou completamente
distraída. Sinto as mãos dele me acariciando e tenho medo do momento em que vai
enfiar o dedo em mim.
— Não faça isso — eu digo, e depois caio no choro.
Choro por quase uma hora, com soluços profundos e ofegantes. Talvez eu tenha
bebido demais, não sei, mas às vezes você nem percebe o que mais está te
preocupando. Desta vez, é o medo do que está acontecendo dentro de mim: meu terrível
colo do útero que sangra e dói. Fiz um pouco de atividade física no dia seguinte à visita
ao ginecologista e senti dor a semana toda. Mal percebi que estava doendo, e menos
ainda que estava preocupada com isso. Mas de repente todo meu corpo parece se
revoltar para se proteger. Estou com medo de piorar as coisas, principalmente em cima
desses lindos lençóis.
Herbert se supera em momentos assim. Ele me abraça, me beija e não faz muitas
perguntas. Sabe o que há de errado comigo sem eu ter que falar. Ele pega lenços de
papel, hidratante labial e copos de água e me embala até eu dormir.
É manhã de domingo e a chuva corre pelas sarjetas de Brighton como um rio. Eu me
sinto melhor, como se tivesse me desintoxicado, mas estou cansada. Chorar sempre me
deixa cansada.
Uma época, fui a uma terapeuta durante seis semanas. No final desse período, ela
falou:
— Acho que você é a única paciente que não chorou.
Pareceu uma acusação. A meu ver, chorar muitas vezes é um ato manipulativo, com o
objetivo de fazer outra pessoa se sentir culpada. Costumo chorar quando H não está
perto. Não quero obrigá-lo a ter que lidar com isso.
Mas hoje, estou feliz por ter chorado. É bom poder ficar quieta e um pouco triste, para
variar. Recebemos café no quarto às nove, uma pilha de panquecas de mirtilo, maple
syrup e bacon. Comemos assistindo a Friends e comentamos como o programa é sempre
ainda mais engraçado do que lembrávamos. H está carinhoso e atencioso. Não temos
pressa para nos arrumarmos e depois irmos para a cidade.
Compro dois cafés com leite em uma lanchonete com estilo perfeito.
— Precisamos aprender a transar sem penetração — eu digo, e Herbert concorda.
Nunca consideramos isso antes. Sei que não acontece com muitas mulheres, mas adoro
sentir H dentro de mim; nenhuma quantidade de contato clitoriano consegue compensar
essa sensação. Os orgasmos que tenho só com o clitóris me parecem superficiais e
trêmulos em comparação aos profundos e calorosos que alcanço com a penetração. Por
esse motivo, costumo ficar impaciente com as preliminares. Não quero perder tempo
nenhum a caminho da verdadeira sensação.
Mas se queremos continuar a fazer sexo sem eu me preocupar, sei que isso precisa
mudar. Não é que teremos que fazer dessa forma todas as vezes; é só que precisamos
ter alternativas no nosso repertório. Preciso poder pedir que seja assim.
Seguimos para almoçar em um bar adorável onde, anos atrás, tomamos um porre de
vodca. Estou me sentindo melhor e converso sobre tudo. Começo a desabafar. Conto
para ele que andei meio deprimida. Que os dias passam sem eu conseguir fazer nada.
Fico olhando para a tela do computador, esperando e-mails chegarem. Não consigo me
fazer agir. Eu me preocupo com tudo. Preciso de um novo emprego. Preciso ter mais
controle.
H participa um pouco e então, de repente, deixa de fazer contato visual e sei que perdi
sua atenção. Estou no meio da parte em que conto que leio os classificados todos os
dias, mas não acho nada.
— Tenho certeza de que tudo vai se resolver — diz ele, e concentra a atenção ao
processo de comer um pedaço de carne de porco assada.
Ficamos em silêncio. Estou furiosa. “Era esse o limite da sua solidariedade?”, eu penso.
“Da próxima vez, avise quando eu estiver ficando chata.” Já falamos sobre isso antes,
sobre essa capacidade de se retirar de uma conversa quando ela fica difícil. Olho para ele
por um tempo, mas isso não tem efeito algum sobre um homem que se recusa a olhar
para você. Acabo dizendo:
— Você sabe como encerrar uma conversa, hein?
Ele me lança um dos seus olhares apavorados, como se eu estivesse prestes a jogar
meu vinho nele em público. Ele faz qualquer coisa para evitar uma cena. Respiro fundo e
tento elaborar de uma forma mais gentil.
— Acho muito difícil lidar com você quando se retira de uma conversa assim. Preciso
de seu apoio moral às vezes. Não é certo você simplesmente se entediar.
— Oh, Deus — diz ele —, aqui não.
— Não estou começando uma briga. É só que me sinto muito estressada no momento.
Sinto como se toda a incerteza do nosso relacionamento estivesse em mim. Parece que
sou eu a responsável por todas as mudanças que aconteceram. Preciso conversar sobre
isso às vezes.
Não sei bem o que acontece a seguir, mas alguma espécie de estranha mudança
ocorre e percebo que H está lutando para não chorar. Devo tê-lo visto chorar umas dez
vezes durante todo o tempo que estamos juntos. Ele não é um homem de lágrimas.
— Você está bem? — eu pergunto.
A voz dele está rouca.
— Eu... eu estou um pouco sensível no momento.
Seguro a mão dele por cima da mesa.
— Tenho pensado nisso — eu digo. — Tudo mexe com você ultimamente.
— É.
— Você sabe o que está causando isso?
Ele sacode a cabeça e menciona o estresse no trabalho, o acidente de carro e alguns
outros assuntos superficiais.
— Mas sei que não tenho o direito — diz ele, com os olhos se enchendo de lágrimas de
novo — quando penso no que você está passando. Não consigo suportar.
Conversamos bastante depois disso. É raro que ele compartilhe os sentimentos assim.
Com nós dois deprimidos, acho que nos esquecemos de cuidar direito um do outro. O
mundo está fazendo H se sentir vulnerável atualmente. O acidente de carro, embora não
tenha sido sério, aconteceu de repente e o deixou frágil. Ele discute com colegas no
trabalho. O corpo da sua esposa parece conspirar contra ela. Não sente muito desejo e
não entende por quê.
— As seduções estão tornando tudo pior? — pergunto.
— Não — diz ele. — Elas me colocam sob pressão, mas sem elas acho que teríamos
parado de novo. Só acho difícil sentir desejo sexual como antes. Sinto como se estivesse
fingindo. Mesmo quando é bom, não é como costumava ser.
Devia ser um golpe, mas é ótimo ouvi-lo admitindo isso. Durante anos, carreguei a
culpa da nossa vida sexual fracassada, mas agora percebo que meu desejo diminuído
vem escondendo o dele. Ele não teve coragem de assumir, mas perdeu grande parte da
identidade sexual também.
Desde que começamos as seduções, eu floresci mais do que ele. Mudei muito, mas
acho que ele ainda não foi em frente. Ele sempre esteve à vontade no papel de marido
sofrido, privado de sua cota total pela esposa desinteressada, feliz em se contentar com
a masturbação no chuveiro (ato que ele também conseguiu bloquear alguns anos atrás)
em vez de ceder à irritação e à coerção às quais outros homens recorrem. Mas agora,
comigo insistindo no sexo mais frequente, criativo e apaixonado, com minha nova regra
de dizer sim a tudo que ele pede (dentro do razoável), com meu novo hábito de fazer
sexo oral, ele está tendo dificuldades. Não tem mais desculpas. Ele finalmente tem que
se esforçar para se nivelar ao meu eu sexual. É uma virada de 180 graus que ele não
esperava.
O que é engraçado é que isso levou a uma das nossas seduções mais apaixonadas,
naquela mesma noite. Mas o que me fascina ainda mais é esta pergunta: se duas
pessoas concordam que não sentem mais tanto desejo uma pela outra, por que fariam
um pacto de ir atrás desse desejo em vez de deixá-lo morrer?
Não faço essa pergunta de forma negativa nem retórica, mas um tanto assombrada.
Sentimos uma saudade um do outro, de uma parte de cada um de nós que ainda
sabemos estar lá, mesmo não conseguindo encontrá-la no momento. Acho isso
extraordinário e milagroso.
Sedução no 10
Faça você mesmo

Era de se pensar que, depois de passar o final de semana em vários estados chorosos,
nossa sedução seria um lixo. Ou que pularíamos a sedução em favor de uma atividade
mais aconchegante: um jogo de cartas, talvez, ou o esquecimento bem-vindo da TV. Ah,
não. Não nos intimidamos facilmente. Nessa casa, sempre vamos em frente.
Depois dos dramas do almoço, andamos de volta para o carro. Tínhamos planejado ir
a outro sex shop na volta, um que me disseram ser mais agradável para mulheres, mas
sugiro a Herbert que ele talvez não esteja a fim disso agora. Ele parece chocado.
— Ah, não. Eu ficaria desapontado se não fôssemos. Eu estava pensando que
poderíamos comprar um daqueles vibradores com controle remoto, como o de Shortbus.
E eu queria um jogo sexy de tabuleiro.
Isso veio de um homem que está preocupado de estar perdendo o desejo. Desconfio
que o vibrador com controle remoto não exista de verdade, mas fico satisfeita por ele
querer usar um.
— Eu adoraria um daqueles vibradores elegantes — eu digo. — Daqueles pequenos e
lindos, que dá pra usar de várias maneiras.
Ele quase para no meio da rua.
— Eu adoraria poder ver você se masturbar — diz ele. — Você nunca me deixa olhar.
Isso é uma meia verdade. Eu me masturbei espontaneamente para H quando
começamos a namorar e ele ficou ofendido. Achou que fiz aquilo por ele não estar me
satisfazendo. Nunca repeti. Mas sou legal demais e não vou mencionar isso agora. O
músculo que vira a outra face é assumidamente pouco usado, mas consigo acioná-lo.
— Claro, tudo bem.
Trabalho em casa, então o “relaxamento de freelancer” não é novidade para mim. Faz
passar o tempo e me impede de ficar lendo coisas no Twitter por tempo demais. É o
melhor remédio que conheço para dores de cabeça; faz uma enxaqueca parecer quase
erótica. Descobri esse “relaxamento” quando tinha cinco anos e continuei praticando com
dedicação desde então. Na verdade, quando comecei minha vida sexual, achei por um
tempo que não conseguia ter orgasmo, até que me dei conta de que era a mesma coisa
que eu já fazia havia anos. “Oh”, pensei. “É isso que é um orgasmo.”
Desenvolvi uma técnica bastante específica que sigo um tanto fielmente. Às vezes
arrumo tempo para uma sessão mais caprichada, mas em geral deito de barriga para
baixo para me masturbar. Foi também um prazer ver Maggie Gyllenhaal fazer isso em
Secretária. Chego ao orgasmo mais fácil dessa forma e as sensações são mais intensas.
Será que tem a ver com o peso dos meus quadris sobre minhas mãos? Seja como for, a
masturbação para mim envolve tocar na minha vulva e na parte de cima do meu clitóris.
Nunca entro na vagina a não ser que precise de um pouco de umidade, porque não faz
sentido. Consigo chegar a orgasmos perfeitamente satisfatórios dessa forma, geralmente
sem nem tirar a roupa.
Essa descrição faz o ato parecer chato e mecânico, e de certa forma é mesmo. O ato
físico da masturbação, para mim, não é o principal; é a oportunidade para fantasiar que o
acompanha, para me entregar ao mundo particular da minha imaginação erótica durante
um tempo.
Voltando ao presente, minha técnica é problemática se eu quiser fazer um show para
H. Fico na dúvida se devo deixá-lo me ver masturbar da forma tradicional ou se tento
fazer algo mais explícito. Na verdade, nem preciso pensar muito. Meu jeito é coisa minha
e acabaria rapidamente; preciso de um pouco mais de exibicionismo.
Ainda temos que terminar nossa lista de vídeos da Sedução nº 9, então colocamos A
Bela da Tarde quando chegamos em casa. As atuações são terríveis, o que comento com
H que pode vir a ser tranquilizador no que diz respeito a exibir bastante sexo. Depois de
um começo lento, Bela vai trabalhar em um bordel para tentar se liberar da “frigidez” que
sente com o marido. Fazia muito tempo que eu não ouvia a palavra “frígida” usada com
seriedade. É tudo um mal-entendido. Bela só precisa ser tratada com um pouco de
rudeza para compreender seus desejos de submissão. É difícil não chegar à conclusão de
que o filme foi escrito por um homem.
Entretanto, acho o conflito de Bela entre querer sexo e ter medo dele um tanto
erótico, e a incerteza do que cada novo cliente pode trazer poderia funcionar para mim.
Reparo rapidamente que H está entediado. Não há sexo o bastante para o gosto dele.
Preciso ampliar um pouco mais seu interesse.
— Parece a lingerie que comprei semana passada — falo para ele, apontando para
uma das prostitutas na tela que passeia elegantemente pelo salão. — Acha que devo ir
vesti-la?
— Tudo bem. — Ele dá de ombros, com seu desinteresse habitual.
Mas essa nova lingerie pode dar algum resultado. Para começar, é deliciosamente
retro, que é a estética preferida de H . Além disso, não tem nada entre as pernas. É uma
espécie de minivestido estilo anos 1950, com meia-taça nos seios e liga cor-de-rosa
chiclete com renda preta. É irreverente o bastante para ser divertida, mas bastante sexy
de um jeito meio caricatural. Corro para o quarto e visto a lingerie, e coloco também
meias 7/8 com costura vermelha compradas na Topshop. Desço toda prosa.
— O que você acha?
Ele olha para cima e dá um sorrisinho malicioso.
— Bonito.
Eu me deito na extremidade do sofá, de frente para ele, e abro as pernas. Ele se vira
para me dar atenção completa. É muito difícil começar. Sinto como se tivesse esquecido
como se faz. Fico constrangida, mas só porque percebo de repente que estou dando uma
aula. Preciso dar o exemplo, mas isso não parece certo. É irritante perceber que a
atenção de Herbert fica dividida entre mim e a TV.
Tomo uma decisão. Preciso me masturbar de verdade, em vez de fazer uma exibição
para Herbert se divertir. Eu sou o centro da questão. Tiro meus óculos e fecho os olhos.
Estico as pernas e contraio os músculos da barriga. Passo a língua sobre os lábios, respiro
mais fundo. Quando abro os olhos, vejo que H já esqueceu o que está se passando na
tela da TV. Está me observando com atenção, com o rosto mais para perto de mim. Eu o
ignoro de novo e me retraio para meu mundinho. É mais difícil fazer isso deitada de
costas, mas estou chegando lá devagar. Preciso de um pouco mais de concentração do
que o normal. H começa a acariciar minhas coxas e a beijá-las, e isso me enche de
desejo, por vê-lo se controlando para não me tocar quando está claro que está
desesperado para fazer isso. Chega um ponto em que não suporto mais e empurro o
rosto dele na direção do meu corpo, uma oferta que ele aceita de bom grado.
Tenho um dos melhores orgasmos da minha vida, daqueles de gritar mesmo, e
imediatamente me levanto e retribuo. Deixo que ele goze na minha boca, uma coisa que,
acredite, é raridade até mesmo nessa nova ordem em que funcionamos. Ele fica muito
grande e duro, de um jeito que não vejo há muito tempo.
Mesmo depois disso, ainda sinto desejo. Eu o puxo para cima de mim, para poder
esfregar seu pênis entre minhas pernas até estar ereto de novo, e fazemos sexo com
penetração de um jeito que eu nem suportava imaginar ontem, mas pelo qual anseio
desesperadamente hoje. Ele sussurra no meu ouvido:
— Continue a se tocar.
Então eu me sento em cima dele, para que ele possa ver melhor. Tenho outro
orgasmo explosivo antes mesmo que ele consiga registrar o que está acontecendo.
— Ótimo — diz ele. — É minha vez. Vou me masturbar enquanto você lambe meus
mamilos.
Como sempre, fico feliz em ajudar.

enho uma história difícil com boquetes. Eu odiava fazer e evitava a todo o custo.

T Acho que, durante nossa primeira década juntos, devo ter feito menos que uma
vez por ano em Herbert.
O que posso dizer em minha defesa? Não sei ao certo. Talvez que nunca me acostumei
a fazer. Eu não teria admitido na época, mas quando conheci Herbert, nunca tinha feito
boquete em ninguém. Eu sei que devia ter contado, mas me sentia completamente
incompetente. Eu queria parecer tão adulta para ele (aos 18 anos, costumamos achar
que vamos conseguir fingir uma coisa assim) que não podia admitir não saber fazer. Ele
foi educado demais para perguntar no começo, mas mais tarde perguntou, e por algum
motivo achei melhor exagerar na resposta e acabei dizendo que achava fazer sexo oral
em um homem politicamente inaceitável.
Talvez eu até achasse mesmo, quem sabe? Eu era muito politicamente ativa nessa
época e estava estudando um texto na universidade que continha muita teoria feminista.
Temo ter sido influenciada por Andrea Dworkin em lugar de Germaine Greer. Fiquei
preocupada de a sexualidade masculina estar me oprimindo, talvez de uma forma que eu
não tivesse notado. Sinceramente, eu preferia não me ajoelhar na frente de homem
nenhum.
Os anos se passaram e isso virou uma piada. H contou para um amigo uma noite que
estava torcendo para ganhar um boquete no Natal e isso virou uma brincadeira entre
nosso grupo de amigos. Várias pessoas ainda me perguntam se H ganhou o tal boquete
no Natal. Eu sorrio e faço cara de paisagem.
Herbert, graças a Deus, nunca se recusou ao gesto equivalente. Ele passa horas lá
embaixo, lambendo e sugando. Às vezes, preciso pedir que ele pare porque está me
cansando. Outras vezes, ele me leva a orgasmos espetaculares e vibrantes.
E ele bem que tentou me encorajar. Nunca reclamou nem me chantageou (e nem fez
como um amigo nosso, que ofereceu sapatos novos em troca). Já se posicionou algumas
vezes de um jeito que o pênis ficou em cima da minha cabeça, com a esperança de eu
enfiar na boca como algum bebê relutante com sua chupeta. Sem chances. Anos atrás,
depois de eu culpar meu olfato apurado (meu nariz é sensível como o de um gato), ele
começou a lavar o pênis na pia toda vez que urinava. Ainda faz isso até hoje. Anos de
otimismo silencioso foram finalmente recompensados.
Acabei percebendo há muitos anos que na verdade eu não tinha problema nenhum em
fazer boquete. Minhas amigas pareciam estar fazendo com alegria e eu não queria ficar
para trás. Mas, àquela altura, eu achava que não podia mudar a atitude de repente. Eu
não podia simplesmente dizer: “Pois bem, mudei de opinião.” Mais do que qualquer coisa,
eu ainda me sentia completamente incompetente. Tinha medo de fazer errado, de ser
decepcionante. Ainda o orgulho bobo. Eu não conseguia me livrar disso.
O que mudou? Não tenho certeza. Acho que, no começo, devo ter cooperado um pouco
mais quando ele o sacudiu perto do meu rosto. Pegamos a mania de fazer 69 por um
tempo, mas eu ainda ficava relutante em fazer sozinha. Fico vermelha ao confessar que
só no dia em que pensamos nas seduções me entusiasmei em fazer nele.
Estávamos na Jacuzzi da Suíte Nupcial, que nos ofereceram por trinta libras a mais
porque o hotel estava em uma semana de pouco movimento. H estava deitado na água e
eu, agachada perto da cabeça dele, em uma espécie de assento no canto. O quarto
estava escuro, iluminado só por debaixo da porta. A pouca luminosidade fazia nossa pele
brilhar. Naquele momento, não transávamos desde a Grande Briga da Vagina, como
chamo carinhosamente o evento.
H sempre foi mais corajoso do que eu. Ele começou a me acariciar, de leve no começo,
mas depois com mais insistência. Eu estava reprimida havia tanto tempo que não sabia
como recomeçar. Deixei a água quente e o calor me levarem. Ele se levantou e sentou
na lateral, e me ajoelhei na água botando o pênis dele na boca. Acho que ele ficou
bastante surpreso, mas adorei o gosto de água limpa. Com o efeito dos jatos da Jacuzzi,
gozei antes dele. Eu senti que o dei algo: um sinal de que me importava com o prazer
dele.
Nas semanas seguintes, pesquisei um pouco, mas também pratiquei (nele, é claro).
Era delicioso ouvi-lo adorando o gesto. Tenho certeza de que ele estava me instruindo
sobre como fazer e fiquei agradecida pelo apoio moral.
Aprendi alguns truques: variar o ritmo, mas não mudá-lo com muita frequência. Como
eu, ele gosta de sentir a intensidade aumentar. Ele adora quando passo a língua rígida
pelo comprimento e quando acaricio de leve a cabeça com a ponta da língua. Mas o que
sempre o faz gemer é quando encosto a cabeça no céu da boca quando sugo, passando
ao mesmo tempo a ponta da língua por cima do meu lábio inferior. Imagino que a
sensação deve ser deliciosa. Sempre babo um pouco, mas acho que isso não importa.
A questão é que (e ainda não contei isso a ele) comecei a gostar muito de fazer sexo
oral. Sempre fico um pouco ofegante. Adoro o quanto ele fica satisfeito, embora
estejamos sofrendo agora do que chamo de “inflação de boquete”. Qualquer mínima
diminuição da ereção já o faz dizer: “Acho que talvez eu precise de um boquete.”
Ontem, quando eu estava andando pela rua, fui tomada por uma lembrança sensorial
do cheiro e do gosto dele, do cheiro salgado e de sabonete que ele tem ao redor dos
pelos pubianos. Foi muito surpreendente. “Finalmente aprendi a amar o corpo dele”,
pensei, “depois de todos esses anos”.
Sedução no 11
O tratamento do silêncio

Estou a caminho da cama, no andar de cima, quando Herbert me alcança na escada.


Acabei de voltar do pub, onde passei a noite sendo levada para o mau caminho (em
termos de consumo de álcool) por minha adorável amiga P.
— Você falou que ia me contar qual é a sedução de amanhã — diz H. — Me pediu pra
lembrar.
— Ah — eu falo, e faço uma pausa para ficar séria. — Não podemos falar um com o
outro amanhã. Boa noite.
— Posso mandar mensagem de texto?
— Não.
— E-mail?
— NÃO!
— E se houver uma emergência?
— Puta que pariu! Se houver uma emergência, você pode falar comigo. É improvável
que haja alguma emergência. Preciso dormir.
Se eu estivesse um pouco mais sóbria, poderia ter pensado em explicar minha ideia.
Escolhi um dia de silêncio porque quero fazer com que nós dois pensemos um pouco mais
sobre comunicação. É fácil para Herbert ficar em silêncio; ele não precisa de muito para
se fechar nos próprios pensamentos. Muitas vezes não tive resposta a uma pergunta que
fiz e acabei por descobrir que ele respondeu em pensamento e se surpreendeu por não
ter falado nada em voz alta. Costumo ficar sem graça em restaurantes, porque ele não vê
motivo para manter uma conversa.
Por outro lado, reconheço que meu desejo de preencher o espaço entre nós com
palavras costuma irritá-lo. Eu me meto em todos os pensamentos e atitudes dele, em
geral sem motivo. Sou uma comunicadora. Quero conversar sobre tudo na minha vida.
Naquela noite, eu até acabo acordando por estar falando dormindo. Eu me sento na
cama, embriagada, e acaricio o rosto de H. Felizmente, ele não acorda.
Portanto, um dia sem palavras, pois nós dois precisamos pensar sobre nos
comunicarmos sem falar. H acorda antes de mim na manhã seguinte e fico deitada na
cama por um tempo, tentando descobrir se estou de ressaca. Parece que não, mas
algumas aspirinas ajudam a melhorar meu estado. H me traz uma xícara de chá na cama
e me beija na cabeça em vez de dizer a frase usual: “Hora de levantar.” Acho que é uma
mudança positiva na minha rotina matinal.
Tomo banho, me visto e vou para o andar de baixo. H está arrumando a cozinha
depois de ter tomado café. Eu me irrito por ouvi-lo falar com a gata, mas só tendo a
mímica como recurso, percebo que não consigo criticá-lo por seguir as regras ao pé da
letra, mas não o espírito do jogo. Ele faz um carinho no meu braço e me beija quando
passa a caminho da porta. Depois volta e sopra minha barriga, parecendo ter tido essa
ideia depois de passar por mim. Penso que um voto de silêncio todas as manhãs poderia
evitar vários comentários mal-humorados.
Depois que ele sai, percebo que me sinto estranha quanto a esse início de dia. Tenho
uma reunião em uma hora e estou lutando contra a impressão de que não posso falar
nada com ninguém. Também sinto como se tivéssemos brigado. As coisas estão meio
confusas e fico tendo que lembrar a mim mesma o que está acontecendo. Posso exercitar
minhas cordas vocais conversando com a gata Bob enquanto faço meu café.
Percebo que estou aliviada pela ideia de um dia sem e-mails trocados entre mim e H
para falar sobre várias coisas relacionadas à nossa casa. Meu GPS quebra e não posso
contar para ele. Isso é estranhamente reconfortante; parece tornar o acontecimento
menos importante. Faço compras e mando entregar sem avisar a ele. Não é necessário.
Sinto como se tivesse retirado um monte de tarefas do meu dia.
Fica claro que H luta mais com esse conceito do que eu. Ao meio-dia, ele me manda
um e-mail para perguntar o número de série da tampa do fogão. Não entendo bem por
que isso se encaixa na categoria de coisas urgentes; a lâmpada queimou um mês atrás.
Estou ignorando você, é a resposta que mando no e-mail, depois tenho vontade de me
dar um tapa por responder.
Também é bom não poder reclamar com ele por causa do e-mail quando ele chegar
naquela noite. Ficar em silêncio significa que é difícil ser negativo. Estamos limitados a
perguntas positivas e gestos simpáticos (“Vamos cozinhar ou pedir comida?” é uma
pergunta feita com uma frigideira sacudida em uma das mãos e um cardápio de
restaurante especializado em curry na outra, junto com uma expressão de dúvida.). É
difícil irritarmos um ao outro em silêncio. H faz muito mais contato visual do que o
habitual e passamos dez minutos nos agarrando no sofá antes de a comida chegar, o que
me deixa tonta de desejo.
Mas, por algum motivo, é difícil levar isso em frente. H coloca uns discos e nos
aninhamos no sofá ouvindo música e cantarolando. Estou começando a me sentir
preguiçosa, então mexo nos armários e encontro nosso Jenga. H sorri, mas antes de
começarmos a jogar, ele sai da sala e volta enrolando um baseado.
Isso me irrita: tossi a semana inteira e a última coisa que quero é que ele encha a sala
de fumaça. Além do mais, reparei que ele está começando a usar maconha como se
fosse Viagra. Nós dois comentamos que ele fica bem mais amoroso quando fuma um
pouco, e algumas vezes comentei que gosto dele assim porque não se cansa de mim. No
entanto, não gosto da ideia de ele usar isso para acender seu desejo por mim. Fico com a
sensação de que é insultante, principalmente no meio de uma sedução.
Tenho que deixar passar. Espero até que ele tenha perdido a primeira rodada e
sinalizo que nosso jogo é strip Jenga. Ele tira uma das meias. Sei que foi uma má ideia;
sou péssima nesse jogo. Acabo sentada nua no sofá enquanto ele ainda está com todas
as peças de roupa. Além do mais, o baseado que ele fumou parece ter feito desaparecer
toda a maravilhosa comunicação não verbal que havia entre nós. Ele está vidrado no jogo
e eu estou com frio e nua à toa.
Eu me pergunto se não consigo reanimar a sedução. Ando até o quarto e assovio do
topo da escada para que ele se junte a mim. Eu tinha imaginado que a noite silenciosa
levaria a fazermos amor lentamente, com nossos corpos inteiros em sintonia. Mas H
parece estar no piloto automático. Ele segue as mesmas coisas que fazemos há anos,
primeiro tentando me colocar em um desconfortável 69, depois cutucando repetidamente
meu clitóris com a língua de uma forma dolorosa até que sou forçada a cobri-lo com as
duas mãos, depois de minhas mensagens mais sutis terem falhado. Eu o puxo em direção
a mim e começo a acariciar todo seu corpo, tentando passar a mensagem de que quero
que ele vá mais devagar, que seja mais profundo. “A questão aqui é a comunicação!” É o
que tenho vontade de gritar, mas não posso. Eu me pergunto se ele entende o objetivo
dessa sedução. Eu me sinto culpada por estar irritada com ele sem ter explicado a
sedução direito.
E, naquele momento, de repente, ele segura a nuca e faz uma careta. Olho para ele
por um tempo, tentando entender o que está acontecendo, e depois pergunto:
— Você está bem?
— Minha nuca está doendo — explica ele.
— Por causa do acidente?
— Acho que sim.
— Deite-se e vamos dormir — eu digo, aliviada.
Na manhã seguinte, quando ele está na banheira, me ajoelho ao lado dele e explico
por que fiquei decepcionada na noite anterior.
— Não quero que você adquira o hábito de fumar um baseado todas as vezes que
fazemos sexo — eu digo. — Não é a saída.
Fico surpresa pela forma como ele ouve isso. Alguns meses antes, acho que nós dois
faríamos um drama por causa de uma conversa assim. Agora, conseguimos conversar
com calma e clareza.
— Tudo bem — diz ele —, não percebi. Que tal começarmos o silêncio novamente
amanhã de noite, com a cabeça tranquila?
E isso é tudo. Simples assim. Não discutimos nem nos aborrecemos. Apenas
conversamos. Obviamente, o sexo ainda não está perfeito; obviamente, nosso desejo
doente ainda não está curado. Mas há uma mudança no ar e acho que se deve ao
seguinte: Herbert não tem mais dúvidas de que quero fazer sexo com ele. Não há como
ter dúvidas depois de todo o esforço que tenho feito. Ele não suspeita mais que estou
tentando fugir do sexo inventando desculpas.
E eu também estou aliviada, pois nem sabia direito por que estava inventando essas
desculpas.
– É sua vez de pensar em uma sedução. Não estou reclamando, só lembrando.
Precisamos continuar animados. Ou que ELE continue animado! Ha ha.
Droga. Minha tentativa de falar em um tom leve falhou completamente. Detesto ter
que reclamar, mas às vezes me sinto forçada a isso. Quando é a vez de Herbert planejar
a sedução, reparei que sempre há uma longa espera.
Herbert suspira.
— É tão trabalhoso. Não consigo pensar em nenhuma novidade.
— Também é difícil pra mim. Mas eu pesquiso. Senão, nunca teria ideias.
— É mais fácil pra você. Você trabalha em casa. Não posso ler sobre essas coisas no
trabalho.
Isso é só uma meia verdade. Mesmo se H trabalhasse em casa, ele não faria pesquisa.
Não é o jeito dele. Prefiro não mencionar que ele dorme pelo menos duas horas a menos
do que eu todas as noites, o que o deixa com tempo depois que vou para a cama. Às
vezes, sou o modelo de autocontrole.
— Então o que você está dizendo? Quer desistir?
— Não, não desistir — diz ele. — Mas não podemos decidir juntos as seduções em vez
de nos revezarmos? É pressão demais.
Não gosto dessa ideia. Uma das coisas que tenho amado nas seduções é a sensação
de que H está pensando mais na nossa vida amorosa, em vez de passivamente
esperando que momentos eróticos aconteçam. É gostoso saber que estou nos
pensamentos dele quando estou longe.
— Não sei, Herbert. Fico com a sensação de que você está dizendo: “Quero que você
planeje todas as seduções.”
— Isso não é justo! Eu tenho me dedicado muito!
— Sim, e agora você perdeu o entusiasmo. Fizemos algumas poucas e você já está
entediado.
— Não estou entediado. Só quero ter certeza de que estou fazendo certo.
— E eu quero ser seduzida ao menos uma vez na vida, em vez de viver fazendo todo o
trabalho duro!
— Você será seduzida, só não todas as malditas vezes! Às vezes podemos querer
decidir as coisas juntos! E às vezes podemos ter duas ótimas ideias seguidas e não
querer esperar nossa vez!
— Tudo bem então. — Sendo honesta, digo isso com um tom hostil. — Desde que você
continue a se esforçar, eu não ligo!
— Ótimo!
— Ótimo!
Tenho a sensação de que perdi essa.
Sedução no 12
Bruxaria

É manhã de domingo e estou vagando pelo quarto de calcinha e sutiã, tentando decidir o
que vestir. Isso pode levar bem mais do que meia hora em um final de semana e
confesso que caí em uma espécie de transe.
Estou olhando estupidamente para minha gaveta de camisetas quando Herbert entra
de repente no quarto, me empurra para a cama, tira minha calcinha e me penetra, sem
mais nem menos.
“Meu Deus”, eu penso, “isso nunca acontece”.
— Estou com tanto tesão de repente — sussurra ele no meu ouvido. Caramba. Agora
eu também estou.
Meia hora depois, quando estamos nos vestindo, ele diz:
— A propósito, devo dizer que isso conta como minha sedução. E não minha única
sedução de hoje. Mas definitivamente conta.
E quem sou eu para discutir? Não consigo resistir a tanto entusiasmo. Mas tenho uma
objeção.
— Na verdade, eu seduzi você — eu digo.
— Ah, é? Como?
— Joguei óleo no seu banho escondido. Sempre deixa você maluco.
Ele pensa por um momento.
— É mesmo? Você já fez isso antes? — pergunta ele.
— Fiz.
— Quantas vezes?
— Algumas.
— Isso é praticamente bruxaria — diz ele. — Digamos que foi trabalho de equipe,
então.
Sedução no 13
Algumas comprinhas

Herbert demonstrou entusiasmo em se oferecer para comprar lingerie nova para mim.
Quando digo “se oferecer”, quero dizer “responder a um ultimato”, porque acabei
percebendo que todos os gastos feitos durante as seduções até agora (DVDs, lingerie,
livros e um vibrador com controle remoto que é tão barulhento que temos que esperar
um tumulto na rua para podermos usá-lo) saíram do meu bolso.
— Você não tem escolha — eu digo. — Pode me pagar metade de tudo que comprei
até agora ou pode comprar alguma coisa legal pra mim e deixamos por isso mesmo.
Fico feliz em saber que ele prefere a segunda opção, porque tenho algo em mente.
Entrei na Ann Summers na sexta quando deveria estar comprando cartões de aniversário
e me surpreendi apaixonada por um conjunto de lingerie com um sutiã meia taça e uma
cinta-liga de aparência retro, com renda delicada cor-de-rosa e estampa de oncinha.
Encontro as peças no site da loja e mostro para ele.
— Não é lindo? — eu digo. Ele concorda, então eu discretamente me retiro, querendo
dar privacidade para que ele brinque com o cartão de crédito. Quando volto, fico
decepcionada ao ver que Herbert tomou a iniciativa de admirar uma espécie de macacão
justo feito de tecido de meia arrastão.
— Que tal esse? — pergunta ele.
Finjo certa frivolidade.
— É preciso tirar o troço todo para fazer qualquer coisa — digo baixinho. — Não faz
sentido.
— Não — diz ele. — É aberto lá embaixo.
Eu devia saber que não ia conseguir uma coisa que realmente quisesse. Mas não faz
sentido fazer com que ele pague por uma lingerie que não acha sensual.
— Talvez devêssemos ir à loja — eu digo.
Você já deve ter percebido que não sou fã de Ann Summers. Sou uma esnobe estética
e a loja toda tem aura de despedida de solteiro. Levo H até o canto onde fica meu tipo
preferido de lingerie e ele diz “Oh, legal” e sai com entusiasmo atrás das fantasias de
enfermeira.
— Se vou me fantasiar de enfermeira — eu digo —, quero um vestido de verdade. Não
uma imitação brega. — Felizmente, ele concorda, mas parece inevitavelmente atraído
pela fantasia de garçonete de cervejaria. Depois ele se distrai com as algemas de pelúcia
rosa, que insiste para que eu experimente na loja. Mais uma vez, uso meu bom-senso
estético. — Concordo em comprarmos uma simples, mas não aceito a pelúcia.
H escolhe uma outra.
— Ah, essa vem com uma venda. Excelente. — Ele a enfia debaixo do braço, junto com
o macacão de meia arrastão (o qual eu tinha esperanças de que ele tivesse esquecido),
e, inexplicavelmente, uma fantasia de gato. Eu me pergunto se devo prender Bob quando
chegarmos em casa.
Tento me interessar pelo conjunto de objetos em forma de pênis (com veias de
aspecto realista — eca!) e me encontro bastante enojada quando o ouço gritar, do outro
lado da loja:
— Seu tamanho é 36C?
Ele está sacudindo meu conjunto de lingerie no ar. Que alegria.
Quando chegamos em casa, ele leva as compras para o quarto e diz:
— E então, qual você vai usar primeiro?
Estou bem-humorada, então levo o macacão infernal para o banheiro e o visto. Fico
surpresa de ver que fica bom. Assim como meias arrastão podem acrescentar
maravilhosos contornos às pernas, essa peça faz parecer que nasci para usar macacão
grudado no corpo. Concluo que é uma peça de roupa muito favorável às mulheres, por
esconder todos os tipos de excessos e por deixar a nudez um pouco mais coberta. E por
ficarmos mais aquecidas do que quando estamos nuas. Eu me surpreendo até agora por
admitir isso, mas passo um bom tempo me admirando no espelho e só depois entro no
quarto.
H decidiu contribuir com os procedimentos deixando sua ereção sair pelo zíper aberto
da calça.
— Olhe — diz ele —, a minha também é aberta embaixo.
Bem, o sexo é maravilhoso com o macacão. Meus seios ficam pulando para fora, mas
acho que esse é o objetivo. De vez em quando tento encaixar o macacão nos meus
mamilos, mas de nada adianta; eles acabam escapando. Fica claro que H acha o
elemento visual ótimo. Ele me pede para ficar de quatro e me mexo para a frente e para
trás enquanto ele fica parado, o que descobrimos ser uma maneira bem mais prazerosa
de fazer sexo de quatro, para nós dois. Percebo que ele está gostando muito de ver e me
lembro de uma compra que fiz na semana passada, para o caso de algo assim acontecer.
— Espere — eu digo, e corro para o andar de baixo. Volto com um espelho de mão de
madeira que comprei em um evento de beleza. — A Bela da Tarde diz que sempre tem
um na bolsa. — H se diverte arrumando o ângulo do espelho para ter uma visão melhor e
se observa entrar e sair de mim.
Infelizmente, essa excitação toda significa que ele perde a concentração e goza
quando estou me aproximando do clímax, mas isso não me incomoda muito. Como falei
na Sedução nº 10, sou capaz de consertar isso sozinha, e trocaria facilmente um orgasmo
por um homem que perde o controle ao me ver.
gora que percorremos um quarto das seduções, fico intrigada com o modo como

A começamos isso tudo.


Parece que subi um morro e agora estou olhando para trás, para o ponto de
partida. Parece absurdamente distante. Daqui, já é fácil ver por que as seduções são
necessárias e por que o sexo é importante para nós. Mas como eu soube, naquela época,
que esse seria o caso? O que nos fez voltar ao sexo quando ele já tinha claramente se
tornado um assunto controverso nas nossas vidas?
Talvez tenha sido nostalgia pelo que tivemos um dia, a lembrança de sermos
irresistíveis um para o outro. Nunca esqueci os dias em que o sexo era compulsivo,
elétrico, viciante. É difícil aceitar que nunca mais vou me sentir daquele jeito, que nunca
mais vou ter a sensação do corpo inteiro se manifestando na expectativa de um toque.
Ao recomeçar as seduções, eu estava com a secreta esperança de arrancar essa cobiça
física do porão e tirar a poeira dela para colocá-la em uso.
Isso ainda não aconteceu e não sei se acredito que vá acontecer. Por tudo que li, essa
sensação é o resultado de um coquetel muito distinto de compostos químicos pulsando
pela corrente sanguínea e não vai acontecer de novo. De qualquer forma, ela sempre
vem acompanhada de insegurança. O casal passa as horas que está longe imaginando se
um ainda ama o outro e depois, quando descobre que ama, os dois comemoram juntos,
também corporalmente. Acho que não consigo encarar esse vaivém de ansiedade e alívio
novamente.
Mas acho que eu era atraída pelo sexo por outros motivos também. O que eu queria
mais do que tudo era intimidade. Nós já tínhamos uma forma de intimidade, é claro, mas
uma intimidade concreta, do tipo que existe entre duas pessoas ocupadas que sabem
tudo uma sobre a outra e formam uma pequena e prática equipe. É um amor que se
moldou como gelatina, que não é mais moldável, mutável; é um amor no qual todos os
parâmetros foram decididos. Eu estava entediada com esse tipo de amor, com suas
certezas duras e arrogantes. Eu queria uma coisa com contornos um pouco mais flexíveis.
A ideia das seduções pode parecer ter surgido do nada para mim, mas provavelmente
não é coincidência elas terem começado quando levei H para uma viagem de final de
semana. Eu me lembro de pensar secretamente que, se eu pudesse tirá-lo da estrutura
da nossa rotina, teríamos a chance de nos tornarmos amantes de novo. É muito comum
que cada segundo do nosso tempo livre esteja comprometido um mês antes. Eu estava
começando a sentir que éramos uma parceria e não um casal. Queria fazer contato
novamente.
Desde que as seduções começaram, reparei que meu instinto estava certo: embora
sempre tivéssemos compartilhado sentimentos e conversado sobre nossos problemas, há
uma coisa no sexo que acrescenta uma qualidade diferente à nossa comunicação. Há
uma sensação maior de conforto entre nós, uma sintonia maior e menos suspeita de que
o outro queria o que não podemos dar. Em palavras simples, estamos mais satisfeitos.
Sedução no 14
O ato diário

Primeiro dia
Antes de começarmos, devo dizer que tentamos fazer sexo diariamente uma vez antes
disso. Acho que foi em 1998, quando tínhamos acabado de nos mudar para nosso
primeiro apartamento juntos. Por pura coincidência, fizemos sexo três dias seguidos, e
isso fez com que Herbert fizesse uma brincadeira.
— Mesmo horário amanhã?
Sempre aceito desafios. O quarto dia foi divertido; o quinto pareceu obrigação. No
sexto dia, nós dois concordamos que não queríamos nos dar ao trabalho e fomos para a
cama com um pouco de vergonha.
É um mito comum entre as mulheres que os homens fariam sexo todos os dias se
tivessem oportunidade. Nós mulheres costumamos nos ver como as guardiãs do sexo,
limitando cuidadosamente os piores excessos dos nossos parceiros. Levei anos para
entender que não é esse o caso no que diz respeito a mim e Herbert. Ele se entediou
com o sexo diário mais rápido do que eu.
No entanto, com meu habitual otimismo, tenho a esperança de que adquirimos
algumas manhas do negócio nos últimos meses, então estou disposta a tentar de novo.
No mínimo, quero provar que podemos encaixar o sexo naqueles dias de semana quando
nós dois estamos cansados e esgotados. Se H vai estar disposto a sacrificar o episódio da
semana de Lost ou de Survivor, ou qualquer outra besteira que ele acompanha, nós ainda
veremos.
Começar é fácil. Sugiro o sexo enquanto Herbert remexe coisas na cozinha e ele
imediatamente diz sim, olha pela janela (para ver se tem alguém no jardim, talvez? Seria
uma perturbadora primeira vez, se houvesse) e abre meu jeans. Eu me reclino sobre a
bancada e esfrego o pênis dele entre minhas coxas por um tempo, depois passamos uma
divertida e risonha meia hora tentando uma série de posições, primeiro em vários pontos
da cozinha e depois no sofá.
Missão cumprida e com prazer. Um bom começo.

Segundo dia
Recebemos amigos para o almoço de domingo, o que significa a manhã na cozinha e
arrumando a casa e a tarde comendo e bebendo. Quando eles vão embora, às 19h,
estamos os dois empanturrados de comida, exaustos e encarando as consequências da
bebedeira do almoço.
Vamos para a frente da TV assistir a um filme e depois nos evolvemos com um
programa sobre chefs da confeitaria francesa. Quando nos levantamos a fim de ir para a
cama já é quase meia-noite.
Tiro a roupa enquanto Herbert está no banheiro e reparo em um caroço dolorido acima
do clitóris. Ao observar mais de perto, percebo que é uma bolha. A ironia de isso
acontecer no começo de uma semana de sexo diário não passa despercebida. Afinal, isso
nunca aconteceu antes. Talvez seja pelo uso excessivo da área. Antes de me dar conta
do que estou fazendo, tento estourá-lo com um alfinete esterilizado (bem, ao menos
lambido primeiro). Ai.
Não quero gerar a discussão se isso é ou não uma boa ideia (embora confesse ter
passado dez minutos da manhã seguinte tentando pensar em como colar um band-aid na
vulva), mas quando H volta para o quarto, tenho a triste tarefa de informá-lo que ele não
vai chegar nem a menos de dez metros do meu jardim feminino, de modo algum.
Ficamos deitados na cama pensativos por um tempo, envergonhados por nossa
intenção de fazer sexo todos os dias ter terminado tão cedo. Mas então, de repente, meu
espírito competitivo ganha vida e eu me sento.
— Quer que eu masturbe você? Tenho certeza de que conta como sexo.
H não podia ficar mais animado e logo me faço ficar com dor no braço em nome da
sedução. Ele fica um pouco de saco cheio de eu falar besteiras durante o ato (“E pensar
que os homens pagam por isso!”), mas, para falar a verdade, é meio estranho masturbar
o próprio marido, de roupa, sem prospecto algum de retribuição. Isso me faz lembrar dos
meus 15 anos de novo, por vários motivos. A velha Betty não faria isso; na verdade, eu
teria dito que ele era perfeitamente capaz de fazer sozinho. Mas a nova Betty topa tudo.
Acho que digo isso em voz alta. Pobre H; ele provavelmente está tentando se concentrar.
Imagino que ele fique grato quando consegue gozar.

Terceiro dia
Planejamos ver um filme juntos esta noite; Herbert até tomou a precaução de me
mandar uma escala para a noite por e-mail para que pudéssemos encaixar tudo que
tínhamos para fazer (com apenas trinta minutos para transar). Mas as peripécias até
tarde da noite anterior têm seu preço e passo a reunião da tarde bocejando. Em
circunstâncias normais, eu nem pensaria em sexo esta noite. O filme com certeza vai
ficar de fora.
Herbert chega da academia e me encontra mergulhada em um banho de banheira que
não estava na escala. De certa forma, é uma tentativa de retirar o band-aid que grudei
na bolha de ontem, que provavelmente vai atrapalhar meu prazer sexual hoje. Na
verdade, uma bolha latejante logo acima do clitóris parece improvável de aumentar o
estímulo sexual em qualquer um de nós dois. Isso tudo parece uma má ideia.
Faço o jantar e comemos assistindo a A Escuta (estamos no meio da quarta
temporada), depois H lava a louça. É hora de ir para o quarto. Tento enrolar e fico vendo
Masterchef, mas não adianta nada. H também gosta de desafios.
No quarto, conversamos sobre a bolha. H acha que talvez devamos ficar no sexo de
quatro. Eu argumento que não deveríamos pensar demais antes.
— Vou gritar se doer — eu digo. H espera que não seja um plano maluco meu para
estourá-la. Eu queria ter pensado nisso antes.
Há alguns momentos em que acho que não vai rolar, que vamos concluir que é uma
ideia idiota e vamos acender os abajures para ler um livro. No entanto, H mergulha entre
minhas pernas e começa a me lamber com pequenos e delicados movimentos. É divino.
Nada no mundo me faria colocar a boca perto daquela coisa (estou falando da bolha, não
da minha perereca), mas mais uma vez fico grata pela falta de asco da parte dele. Eu me
afundo nos travesseiros e deixo que ele pacientemente me leve a um orgasmo que faz
meu corpo inteiro tremer. Depois disso, subo nele.

Quarto dia
Acordo de manhã e descubro que estou sangrando de novo. É claro. Fico impressionada
por conseguir esquecer que isso vai inevitavelmente acontecer. Além disso, a bolha
finalmente estourou, o que me deixa um tanto feliz.
Quando seguimos para o quarto às 22h, temos que encarar uma total indiferença
quanto ao sexo. Eu comi demais; Herbert está exausto. Nós dois acolheríamos a
inconsciência agora.
— Talvez devêssemos fazer cara ou coroa — eu digo —, e o vencedor pode dormir
durante o ato.
— Injusto — diz H, que sabe muito bem que tenho muita sorte.
— Tudo bem, qual é a posição que exige menos energia?
— De lado.
— Vamos fazer assim, então.
Coloco uma toalha debaixo de nós e fico de costas para H, imaginando que podemos
começar o sexo como um ato de força de vontade. É uma ideia otimista. O pobre H luta
para conseguir uma ereção e eu não estou me saindo muito melhor. Como algumas
pessoas conseguem fazer isso todas as noites da vida?
— Vamos precisar de lubrificante — eu digo.
Como mencionei antes, H costuma ver o uso de lubrificante como uma afronta pessoal,
mas esta noite ele aceita. Ele vai até o banheiro e volta com um tubo. Passo um pouco
em mim e um pouco nele; em seguida, num ato incomum de imaginação, eu giro da
posição clássica de lado (da qual nunca gostei muito, o ângulo me parece desconfortável)
e fico na transversal, como ele de lado e eu de costas no ângulo certo para alcançar o
pênis, com as pernas por cima do quadril dele.
Nunca fizemos muito essa posição e não tenho certeza do motivo, pois ela
imediatamente me parece adorável. É confortável e não sobrecarrega ninguém; também
faz partes incomuns entrarem em contato. Acho que H não gosta de posições assim
porque elas parecem um tanto distantes e impessoais, mas é perfeita esta noite porque
nós dois já estamos ansiosos por nossos espaços individuais.
No entanto, conforme vamos nos movendo, eu me sinto enjoada. A culpa é minha.
Comi um pudim de chocolate que não precisava ter comido, e agora ele está se
vingando. Fico na dúvida se vou conseguir ir até o final.
— Sinta-se à vontade para gozar se quiser — eu digo. — Não se segure por minha
causa.
— O mesmo vale pra você — ri ele. É, ha ha ha, Herbert. Faça piada com o delicado e
difícil equilíbrio do orgasmo feminino por sua própria conta e risco.
Ele acelera um pouco e faço barulhos encorajadores. Na verdade, não é desagradável.
O grande benefício do sexo diário, até onde eu percebo, é a sensação de dever cumprido
que obtemos. É um pouco como limpar a geladeira: só saber que você conseguiu fazer já
é o bastante.
H goza, deita de costas e diz:
— Ainda bem que a transa acabou. — Depois acrescenta rapidamente: — Quero dizer,
estava muito bom...
— Tudo bem, eu sei o que você quis dizer — eu digo, depois vou para o banheiro para
decidir se é melhor tentar segurar o conteúdo do meu estômago.
Nota mental: executar a sedução de amanhã antes do jantar.

Quinto dia
O que me chama mais atenção nessa brincadeira de sexo diário é quanto tempo ela
gasta. Fico triste em dizer que não costumo passar as noites de bobeira, pensando no
que fazer. Obviamente, não há um vazio em forma de sexo na minha rotina.
Esta noite é um bom exemplo. Reservamos uma mesa para jantar às 20h em um
restaurante em uma cidade vizinha, e antes H planejou visitar um amigo. Passei a tarde
em uma reunião e nós dois chegamos em casa às 18h30. Isso só deixa trinta minutos
para o sexo. H declara que precisa de um banho antes. Eu me pergunto em voz alta se
devemos esperar até depois do jantar, nesse caso.
— Não — diz ele. — Junte-se a mim no chuveiro.
É um gesto doce, considerando que nós dois detestamos sexo no chuveiro. Nós somos
altos e portanto não nos damos bem em espaços pequenos; acho escorregadio e, por
causa disso, quase perigoso; um dos dois sempre fica debaixo do jato quente de água e
um fica sempre fora e com frio; e, pior de tudo, faz barulho. Acho que a água tira a
lubrificação natural, de modo que odeio a sensação do sexo quando nós dois estamos
debaixo d’água. É como morder isopor.
No entanto, consigo ver que essa talvez seja nossa única chance de transar, então tiro
a roupa e entro com ele. Mas não antes de pegar um vidro de óleo de bebê do armário.
Adoro óleo de bebê, o cheiro e a sensação dele na pele. Alguém realmente usa isso
em bebês ou ele é unicamente comprado para o sexo e para limpar fogões de inox?
Pressiono meu corpo contra o de Herbert e espalho o óleo entre nós. Fica
instantaneamente gostoso nos movermos juntos, deixando que o óleo deslize contra
nossos peitos. Eu me reclino e passo um pouco no pênis dele, depois o coloco entre
minhas coxas. Pobre H, está exausto depois de uma semana de seduções diárias. É bem
difícil dar vida ao pênis dele e, mesmo quando conseguimos, é uma ereção parcial.
Consciente do horário, eu me reclino sobre a prateleira na extremidade da banheira e
o guio para dentro de mim. H coloca mais óleo nas minhas costas, de forma que escorre
no meio do meu traseiro, com sensação fria e chocante. Depois sinto uma palmada
intensa no traseiro, seguida de outra.
— Ai — eu digo. — Com que você está fazendo isso?
— Sei lá — diz H. — Com essa coisa.
Eu me viro e vejo que ele está sacudindo minha lixa de pé.
— Eca, não use isso! Eu uso isso para tirar a pele áspera dos pés.
Ele a solta rapidamente no pote de onde a tinha retirado.
Confesso que fico surpresa de nós dois conseguirmos ter um orgasmo, mas só depois
de sairmos do chuveiro e irmos para a cama. Depois de nós dois termos gozado, olho
para o relógio e vejo que deveríamos ter saído para o restaurante cinco minutos atrás.
Não há a menor chance de conseguirmos ir até a casa do nosso amigo. Enquanto nos
vestimos, tentamos pensar em boas razões para não termos aparecido.

Sexto dia
Isso pode ser considerado trapaça, mas transformei o sexto dia na Sedução nº 15. Pode
me processar.

Sétimo dia
Bem, parafraseando Bill Clinton, eu não tive relações com Herbert no sétimo dia da nossa
semana de sexo diário. A diferença é que estou falando a verdade. Não fizemos nada
picante com um charuto que todo mundo poderia interpretar como um ato sexual, exceto
o próprio presidente Clinton.
A razão: um misto de exaustão e desinteresse. Eu estava sangrando de novo, o que
significava que estabeleci serem minhas partes privadas território proibido. H, que Deus o
abençoe, estava sofrendo de um protesto peniano. Apesar disso, ele me ofereceu uma
lista de maneiras criativas de fazer sexo sem nenhum de nós ter que usar os genitais,
sendo a melhor: “Eu podia tentar me masturbar enquanto você sopra minhas bolas.”
São 23h de uma sexta. Acabei de comer um monte de fatias de pizza e bebi muito
vinho.
— Não — eu digo. — Que se dane. Não vou fazer isso.
Às vezes, você tem que saber admitir quando foi vencido. Seis dias seguidos não é
ruim. Um sétimo teria parecido prostituição.
Sedução no 15
Garota sundae

Você já criou uma senha tão inteligente que teve vontade de contar para todo mundo?
Não só o Google a declara como “muito forte”, como ela é um tanto inteligente, difícil de
adivinhar e fácil de lembrar. A própria natureza desse tipo de senha faz você querer
compartilhá-la com todo mundo, o que acabaria totalmente com o objetivo dela.
Bem, isso meio que descreve meu sentimento depois de desenhar um biquíni em mim
mesma usando chantilly. Com framboesas como acessórios. Ficou muito bom. Tão bom
que tive vontade de pegar meu iPhone para postar uma foto no Twitter. Mas então me
dei conta de que estava nua e coberta de creme comestível. Aquela vontade de
compartilhar que dura uma fração de segundo com certeza é um dos maiores perigos da
era da internet.
Devo dizer que sou o que podemos chamar de “opositora ideológica” do chantilly. Ele
é, na minha opinião, a maldição da culinária moderna, um não alimento asqueroso que
deprecia ativamente tudo que adorna. Ele pula em cima de você saindo dos mais
surpreendentes lugares — cafés de alta qualidade parecem não conseguir resistir a um
morrinho desse creme ao lado do bolo caseiro —, e sou conhecida por interrogar garçons
sobre o significado de “creme” em pratos do cardápio.
Por essa razão, nunca me cobri de chantilly para Herbert. Eu não conseguia suportar
que o creme fosse pasteurizado e viesse em uma lata. Nos últimos meses, me questionei
extensivamente se havia um jeito de escapar disso. Saco de confeitar? Ou simplesmente
uma tigela e uma colher? Considerei brevemente se é possível conseguir um daqueles
artefatos que usam no Starbucks para acrescentar chantilly indesejado ao chocolate
quente. Mas mesmo eu podia ver que isso era complicado demais. Posso fazer minha
própria maionese, mas reconheço que o creme enlatado tem seu lugar no quarto.
Já Herbert adora chantilly, principalmente porque vem em um recipiente prático que
diminui consideravelmente o tempo necessário para levá-lo à boca. Portanto, no almoço
de quinta, vou ao supermercado e compro a lata infernal, um pacote de framboesas
(infelizmente não era época, mas não dá para atingir o mesmo efeito com as verduras da
primavera), um pote de calda de chocolate e uma garrafa de Cava. E nem pense que não
considerei a possibilidade de fazer a calda de chocolate em casa.
Naquela noite, espero até que H entre no chuveiro depois da academia e rapidamente
me arrumo. Cubro a cama com a toalha impermeável que fica sobre a mesa da cozinha e
com dois edredons facilmente laváveis. Depois me deito e coloco o biquíni de creme em
mim, enfeitando elegantemente com framboesas. Decido deixar a calda de chocolate
para H, principalmente porque vou estragar minha criação se me mexer muito. Então, eu
me deito e espero. Ele está demorando séculos no chuveiro. O creme está frio e está
começando a escorrer em alguns pontos. Eu devia ter me servido de uma taça de Cava
para passar o tempo.
Chega uma hora em que ele sai do banheiro e eu digo:
— Surpresa!
Ele aperta os olhos em minha direção por um tempo.
— Estou coberta de chantilly — eu digo.
— Ah — diz ele. — Eu não estava entendendo. Estou sem óculos.
Ele mergulha com entusiasmo, com o vidro de calda de chocolate. Junto com o creme,
nós dois ficamos com gosto de profiteroles. As framboesas são menos populares, por
serem frutas e, consequentemente, não kosher para H, mas ele concorda em brincar de
“esconder a framboesa”. Mas a melhor parte é o jeito como a calda de chocolate gruda
na pele, nos fazendo lamber com mais insistência do que o habitual.
Por sugestão minha, também experimentamos mergulhar partes de nós no Cava, uma
ideia que peguei no livro Meu Jardim Secreto, de Nancy Friday. É uma ideia
surpreendentemente ruim. Primeiro experimentamos com o pênis de H. As bolhas
borbulham loucamente e depois se reúnem ao redor dele como em um tanque de
piranhas.
— Ai — grita ele —, isso dói!
Sem acreditar, mergulho um mamilo no copo e sinto o mesmo efeito: as bolhas dão a
sensação de centenas de pequenas agulhas, o que é agradável nos primeiros segundos,
mas depois se transforma em algo bem mais doloroso. Não recomendo. Além do mais, a
experiência deixa o Cava com gosto de pênis.
Depois de meia hora, nós dois estamos com creme, calda de chocolate e framboesas
esmagadas dos pés à cabeça. Por um tempo, isso proporciona um contato corporal
escorregadio e delicioso, mas há um ponto distinto em que nós dois ficamos prontos para
entrar no chuveiro. Enquanto estamos ali de pé, supervisionando a remoção da calda de
chocolate do cabelo um do outro, H olha para mim com o que só pode ser descrito como
admiração.
— Não acredito que você se permitiu ficar tão suja — diz ele.
— Não acredito que comprei creme pasteurizado — respondo.
Abril
Depois da semana de sexo diário, fomos para Barcelona por alguns dias para nos
recuperarmos.
É uma cidade que visitamos pela primeira vez quando eu ainda estava na faculdade, e
somos apaixonados por ela desde então. Naquela época, ficamos em um albergue
horroroso com um chuveiro que escorria água até o chão ao lado da cama. Desta vez,
trocamos de casa com outras pessoas e passamos o final de semana cuidando de um
gato psicótico ironicamente chamado Paz, que odeia tanto nossa presença que ataca os
tornozelos de Herbert todas as vezes que ele tenta cruzar a sala.
A maior parte dos nossos dias é passada andando pela cidade, barrio a barrio, parando
de vez em quando para um café ou uma taça de vinho. Herbert adora discos de vinil,
então passo boa parte da tarde lendo em bares, para evitar ter que andar atrás dele
enquanto ele revira estantes de discos. Ele é um pouco mais compreensivo com isso do
que costumava ser. Para começar, a internet agora significa que ele consegue encontrar
quase tudo o que quer, sempre que quer, mas também houve um momento marcante em
Atenas, alguns anos atrás, em que ele passou três horas em uma loja enquanto eu
andava de um lado para o outro nas ruas ao redor. Não vamos mencionar o incidente em
Deli, quando ele desapareceu em um tuk-tuk para ir a um armazém fora da cidade e
passou a tarde toda lá, me deixando sem saber em que ponto eu devia começar a me
preocupar. Desde então, aprendeu a se controlar um pouco mais.
Feriados e férias são sempre meus momentos de reflexão; raramente termino um sem
querer fazer alguma mudança. Em Barcelona, começo a desejar a grandeza da vida lá, o
modo como as cidades colocam uma enorme variedade de experiências aos seus pés.
Herbert e eu sempre moramos em cidades pequenas e sempre fizemos questão de
considerar isso o suficiente. Estou começando a me perguntar se estamos certos quanto
a isso ou se simplesmente aceitamos a mesma vida dos nossos pais sem questionar
muito.
Estamos almoçando em um restaurante em Raval quando digo para Herbert:
— E se morássemos aqui? Como seria nossa vida?
Não quero dizer nada com a pergunta, mas acho que não quero excluir possibilidade
alguma. Somos jovens, independentes, não temos filhos; não vejo motivo para não irmos
morar em algum lugar incomum se tivermos vontade. Essas coisas deixam H nervoso.
Para cada “e se”, ele acha que tem uma mudança a caminho. H acredita (e acho que
está certo, em uma perspectiva maior) que o caminho da felicidade está em escolher sua
vida, permanecer fiel à sua escolha e não perder tempo indo atrás de todas as outras
possibilidades. Para mim, são as possibilidades que me tiram da cama de manhã.
A conversa fica mais intensa e se encaminha para aquele terrível território no qual
caem os casais que estão há muito tempo juntos: brigar sobre o jeito que brigam.
— Por que você sempre faz isso? — eu digo. — Por que não me deixa curtir imaginar
coisas? Você odeia mudanças.
H revira os olhos.
— Não comece de novo.
— Não estou começando! Só quero ser capaz de ter uma conversa sobre meus sonhos.
Não quero supor que só há um meio de viver nossa vida.
— Você sempre acha que estou preso à situação atual. Não é verdade. Não sou tão
chato como você me faz parecer.
— Nunca falei que você era chato!
— Acho que você me usa como desculpa. Acho que você sabe que pode me culpar por
não querer fazer todas essas coisas, mas também não faria nenhuma delas.
— Não — eu digo, ajustando o tom da minha voz na esperança de que, para um não
falante de inglês, a briga pareça apenas um debate mais caloroso. — Acho que a verdade
é que você não acredita que continuarei amando você ao longo das mudanças.
É uma verdade tão primitiva e simples que sinto meu fôlego sumir. Ouvir isso em voz
alta parece nos acalmar. Esse cachorro negro nos segue há anos e agora está ao ar livre
e olhando confuso para nós dois.
O medo sempre foi o lado escuro do amor. Só quando nossos amados são importantes
o bastante é que começamos a nos perguntar se não vão um dia nos deixar para trás.
Eu me lembro de ver esse medo nos olhos de Herbert pela primeira vez depois de um
ano juntos. Eu o conheci no meu último ano de escola e tivemos um feliz caso por alguns
meses enquanto eu terminava o ano. Eu tinha conseguido uma vaga em uma boa
universidade e não pretendia de forma alguma recusar, e, para ser honesta, tinha
suposto que a relação acabaria quando eu fosse morar em outra cidade e fizesse novos
amigos. Eu estava com muito medo de perguntar o que ele achava.
Mas Herbert era mais corajoso do que eu.
— Vou até lá todos os finais de semana — anunciou ele uma noite, e manteve a
palavra durante três anos inteiros. Aquele momento foi como abrir uma comporta de
represa para mim, um momento em que finalmente me permiti acreditar que meus
instintos eram verdadeiros: eu estava apaixonada. Não era só uma fantasia infantil.
Em um final de semana, alguns meses depois de ter começado a faculdade, decidi que
faria diferente e visitaria H. Eu estava com muita saudade da companhia dele e estava
gradualmente aprendendo que odiava as pequenas complicações da vida acadêmica.
Peguei o trem e ele me encontrou na estação.
Lembro que estava escuro e chuvoso. Entrei no carro, feliz por estar em casa, e
quando me virei para Herbert, ele se encolheu. Foi a coisa mais dolorosa que já vi, uma
espécie de covardia animal que não entendi até estacionarmos do lado de fora do
apartamento e ele cair em lágrimas e expirar.
— Você vai terminar comigo, não vai? — disse ele.
Não consigo descrever o quanto é doloroso, nem mesmo agora, repetir essa cena na
minha imaginação. Felizmente, ele foi tranquilizado com facilidade: tinha interpretado
erroneamente vários comentários e gestos inocentes e nós dois ficamos felizes em
esclarecer aquela situação. Mas aquele momento permaneceu comigo. Eu de repente
entendi o poder terrível que acompanha o amor.
Posso dizer com honestidade que nunca tive dúvidas de que sempre amarei Herbert.
Depois daquele dia, percebi que estávamos em uma outra dimensão: eu tinha o dever de
nunca dar a ele motivo para duvidar de mim. Nunca abri espaço nem mesmo para um
flerte com outro homem, nunca menti para ele sobre nada. Posso fazer isso por vontade
própria, porque ele nunca procurou me controlar. Tenho a liberdade para escolher, e eu o
escolhi, várias e várias vezes.
É claro que entendo por que ele vê o amor como uma coisa delicada. Ele não foi criado
para acreditar no amor. O pai de Herbert largou a mãe pela melhor amiga dela quando
ele tinha 8 anos. Isso é mais ou menos normal hoje em dia; meu pai também largou
minha mãe. Mas a diferença entre nós é que, apesar de eu me sentir rejeitada pelo meu
pai, havia outras pessoas ao meu redor que continuavam a me amar e que eu sabia que
jamais me abandonariam.
A vida de H não foi assim. A mãe dele casou com um homem cuja presença na casa o
fazia infeliz. Chegou a um ponto que H se sentiu forçado a sair de casa. Ele tinha 14
anos. Passou um tempo morando com o pai e a madrasta, mas também não se sentia
bem-vindo lá. Mais tarde, passou um tempo com a irmã mais velha. Acabou indo morar
sozinho aos 17 anos.
Você pode imaginar o quanto esse homem era autossuficiente quando o conheci aos
24 anos, mas também o quanto era isolado. Ele não acreditava que o amor existisse, e
então, quando admitiu para si mesmo que me amava, ficou com medo de que eu o
largasse.
Isso tudo soa muito triste, mas na verdade não é: é um triunfo, porque esse pobre
garotinho cresceu e é um dos homens mais amorosos, carinhosos, respeitosos e sensuais
que conheço. O medo que ele sentia está bem enterrado agora e, se consigo vê-lo de vez
em quando, é porque o conheço muito bem.
Quando me vejo pelos olhos dele, costumo pensar no risco que sou para ele, essa
mulher que ele podia ter perdido de várias maneiras, mas que repetidamente escolhe
estar com ele. E não é um compromisso frágil; é “para sempre, para o que der e vier”.
Acho difícil assumir o compromisso de uma aula semanal de ioga porque parece um peso
grande demais para mim, mas digo facilmente “para sempre” para Herbert porque sei
quando tenho algo realmente bom nas minhas mãos.
Sedução no 16
Pornografia, parte 1

Por causa de uma infecção do trato respiratório (sexo com tosse seca, alguém aí? Achei
que não...), essa sedução chega bem atrasada.
Sendo completamente honesta, H e eu voltamos ao nosso padrão de feliz abstinência
nas últimas duas semanas. Eu não sinto exigência libidinosa alguma do meu corpo
destituído de sexo. Até onde sei, Herbert também não. É decepcionante perceber que,
fora da estrutura das seduções, pouco mudou. Ainda levamos a vida alegremente sem
sexo. Ainda não estamos sofrendo de ondas incontroláveis de desejo.
Assim, tive tempo para me preocupar com essa sedução. Foi ideia de H, sugerida uma
semana atrás. Pornografia. Para que assistíssemos juntos. Porque os filmes
hollywoodianos foram fracos demais para o gosto dele.
Tenho uma relação difícil com pornografia. Não consigo desligar meu cérebro feminista
tempo o bastante para aguentá-la. Estudei sobre isso na faculdade e, naquela época,
assim como agora, achei os princípios políticos impossíveis de decifrar. Temos o direito
de chamar as mulheres que atuam nesses filmes de vítimas, mesmo se elas não acharem
que são? É justo condenar a pornografia pelos papéis sexistas vulgares que apresenta
quando costumamos recorrer aos mesmos estereótipos quando a porta do quarto está
fechada? A pornografia muda o modo como os homens agem com as mulheres, ou será
que aquilo tudo é só fantasia? É possível existir pornografia não machista? Se sim, seria
sexy?
H concorda com minhas preocupações quanto à pornografia, mas diz que não muda o
fato de que fica excitado ao ver homens e mulheres fazendo sexo.
— Há pornografia e há pornografia — diz ele de forma enigmática. Imagino que isso
significa que ele também não gosta tanto de ver lourinhas com lábios carnudos demais e
seios inflados tanto quanto eu.
Ele queria que eu o ajudasse a escolher um filme, mas recusei. Achei que esse devia
ser um meio de ele me mostrar o caminho.
— Alugue o que você escolheria para ver sozinho — eu digo.
— Ah, não, não vou fazer isso — responde ele, parecendo horrorizado.
— Por que isso seria um problema?
— Ainda não estou pronto para isso.
— Você está tentando me dizer que tem alguma preferência misteriosa que me
deixaria escandalizada?
— Não. Não! Eu realmente não sei o que escolheria para mim. Faz muito tempo, e eu
preferia ter certeza de que você não ficaria ofendida.
Ele segue debatendo sobre o que alugar pelo resto da semana. Está bem mais
preocupado com isso do que eu. Depois de muito pensar e de vários outros pedidos para
que eu o ajudasse a escolher, chega uma hora em que anuncia que escolheu um
“clássico”, O Diabo na Carne de Miss Jones, do qual nunca ouvi falar e que ele nunca viu.
— Dizem que tem história — diz ele — e foi feito nos anos 1970, então as pessoas têm
aparência um pouco mais normal. É o que espero.
Ótimo; vai ser alguma espécie de nonsense dirigida a uma plateia de “casais”
imaginários. Essa impressão some no segundo em que o filme começa. A princípio, não
consigo identificar a imagem um tanto pixelada, mas então percebo que é um close da
vagina da atriz principal enquanto ela enfia e tira o dedo lá de dentro.
— Que visão! — eu digo, completamente sem querer, depois me dou conta de que
falei igual à minha mãe. Não, nada disso: igual à minha avó. — Me desculpe — eu digo, e
decido ser um pouco mais liberal. Sirvo uma taça de vinho para mim mesma.
O Diabo na Carne de Miss Jones sofre de um pouco de história demais. Depois da
breve cena de abertura, temos que aguentar dez minutos de explicação (e um suicídio)
antes que aconteça qualquer outra cena de sexo. Até eu sei que esse não é o objetivo.
— Se eu estivesse assistindo a isso sozinho, pularia muitas partes — diz H.
Mas a tentativa de enredo logo desaparece e temos as cenas que esperávamos. A
perda da virgindade da srta. Jones, vários boquetes entusiasmados, sexo vaginal, sexo
anal, sexo lésbico, duas mulheres e um homem, dois homens e uma mulher... ah, e duas
cenas sem nenhum propósito envolvendo uma cobra e uma tigela de frutas, que parecem
estar ali para passar o tempo.
O que posso dizer é que é revigorante ver mulheres relativamente normais com seios
pequenos fazendo sexo. A parceira na relação lésbica da srta. Jones tem a área do
biquíni bem cabeluda, o que me surpreende bastante. E, como Herbert se apressa em
mostrar, a srta. Jones não é explorada nem humilhada; é uma participante disposta e
entusiasmada que rapidamente toma a frente de suas aventuras sexuais.
Isso o torna um filme não machista? Não, não especificamente. É uma representação
de uma mulher com um entusiasmo excessivo pelas coisas que os homens amam: ela faz
boquetes com jeito de adoração (o tempo todo falando com o pênis sobre como ele é
maravilhoso), não precisa de preliminares para ter orgasmos delirantes e tem uma boa
frase de abnegação (“Oh, dói muito, mas não pare”) que acaba se tornando irritante
depois de um tempo. De um modo geral, O Diabo na Carne de Miss Jones fala de como é
o sexo para os homens e não para as mulheres — muita penetração e exibição.
Como comento com H no meio do filme, não acho nem um pouco excitante olhar para
as vaginas de outras mulheres e nem para as enormes ereções de homens
desconhecidos. O sexo para mim é sensação e não estímulo visual, e ainda fico um pouco
surpresa quando vejo genitais femininas do ponto de vista masculino — não é assim que
vejo a minha.
Como comentário adicional, fui assistir a um comediante recentemente e ele nos
contou que o amigo dele, por algum motivo, viu sua primeira vagina aos 36 anos.
— O que achou? — perguntou o comediante.
O amigo deu de ombros.
— Parecia meio inchada — respondeu ele.
Ao ver a vagina da srta. Jones de perto, tive que concordar. É como se a visão de uma
vagina não encaixasse com o fato de você ter uma.
A questão de assistir a filmes pornôs é que eles são moderadamente excitantes, mas
só em um nível mecânico, para aquela parte do cérebro que reconhece o sexo e diz: “Ah,
sim, posso fazer isso também.” Mas, para mim, não foi além disso. Não consegui desligar
meu cérebro do século XX por tempo o bastante para não ficar analisando o filme. Será
que um filme pornô feito por uma mulher seria diferente?
No entanto, gosto quando H estica a mão e massageia delicadamente meu clitóris
conforme o filme se desenrola. Lenta e regularmente, a massagem leva a um
maravilhoso nível de sensibilidade quando fazemos sexo depois. H acha que isso significa
que o filme teve mais efeito sobre mim do que admito.
Eu discordo, mas estou disposta a testar minha teoria. Na noite seguinte, fazemos a
mesma coisa, mas assistindo na TV ao debate político para a próxima eleição.
O efeito é exatamente o mesmo. Com o bônus adicional de que nós dois estávamos
procurando um meio de aliviar o tédio.

tarde de domingo e estou fazendo uma salada na cozinha.

É Herbert desce para o andar de baixo depois de ter tomado banho e enfio o nariz
em seu pescoço e inspiro profundamente. Amo o cheiro atrás da orelha dele, de
floresta úmida e torrada amanteigada. Sinto um sinal daquele cheiro na base da minha
pélvis, uma explosão pequena, porém evidente.
Em seguida, eu me viro e continuo a preparar a comida. Só quando ele sai do
aposento me dou conta do que acabou de acontecer. Não é que não pensei em sexo; eu
afastei o pensamento antes que ele virasse uma ideia consciente. Não “não podemos
fazer sexo agora”, mas sim “não fazemos sexo agora”. Não é o que fazemos. Não é a
coisa a fazer.
Eu devia largar tudo e ir atrás dele na porcaria da escada. Mas não faço isso. Não é a
coisa a fazer, eu acho. Mesmo depois de todos esses meses de sedução, ainda seria um
choque para nós dois se eu expressasse desejo assim.
Mas é um certo progresso reparar no pequeno pensamento, tê-lo capturado com uma
rede. Ainda resisto aos meus próprios desejos. Ainda resisto à ideia de mim mesma como
uma pessoa que tem desejos.
Isso me faz pensar na sedução desta semana, assistir a filme pornográfico juntos. Será
que eu me permitiria gostar do filme, em alguma circunstância? Acho que não. Acho que
significaria para mim uma falta de poder, uma sensação de que minha reação sexual está
sujeita a forças fora do meu controle. Por algum motivo, não gosto muito dessa ideia. Eu
valorizo ser inteligente e cínica e não me entregar.
Sedução no 16
Pornografia, parte 2

Estou deitada de costas no sofá, com Herbert de pé acima de mim. Passo lentamente a
língua por seu pênis, para cima e para baixo, e ele pula de um pé para outro, ofegando.
— Ahh! É bom demais! Não consigo aguentar! Tudo está tão sensível!
A diferença, como H maliciosamente sugere depois, é que ele me deixa escolher o
filme pornô dessa vez. Deixando de lado a insinuação de que gosto das coisas do meu
jeito (gosto mesmo), ele não está errado. Foi fácil decidir de cara que eu não ia reagir ao
filme que H escolheu, mesmo que isso tenha sido de maneira subconsciente. Quando
chegou a hora de fazer minha própria seleção, eu tinha que procurar uma coisa que me
excitasse.
E saiba que encontrei muita coisa que não me excitava. Eu me dediquei a horas de
pesquisa, quase sempre com um nó no estômago que me dizia que eu nunca ia encontrar
nada com que ficasse à vontade. Achei os sites maiores de download totalmente
confusos, com categorias altamente específicas que eu não tinha conhecimento o
bastante para interpretar. Achei que “capô de fusca” e “chiclete” eram duas coisas que
poderiam tornar uma tarde de sábado no centro da cidade desagradável; pelo que
entendi, constituem gêneros de pornografia.
O que acabei concluindo foi que eu tinha que desenvolver um gosto tão específico
quanto esses para encontrar o filme pornô que eu queria. E quando pensei sobre isso,
achei fácil. Minhas especificações eram:
• Teria que mostrar pessoas que eu pudesse realmente desejar, em vez de o tipo de
idiotas que eu atravessaria a rua para evitar.
• Teria que levar em consideração o prazer da mulher tanto quanto o do homem.
• Não estou nada interessada em mulheres sendo retratadas como piranhas,
vagabundas ou putas, nem em vê-las humilhadas ou degradadas. Quero vê-las sendo
tratadas como eu gostaria de ser tratada.
• Uma produção razoável seria uma vantagem.
• Quero que seja explícito. Não estou convencida da ideia de que as mulheres gostam
que a pornografia não mostre nada abaixo da cintura.
• Essa é uma consideração não estética, mas preciso poder fazer download do filme.
É claro que a grande alegria da internet é que você sempre consegue encontrar
pessoas com gostos semelhantes, desde que consiga encontrar o termo certo de busca.
Depois de muito tempo pesquisando no Google, digito timidamente “pornografia
feminista”, com a expectativa de que a mensagem “alerta de contradição” fosse piscar na
tela do meu laptop e em seguida ele explodisse. Mas não é isso que acontece. Caramba,
tem até uma cerimônia de premiação para isso.
Acabo escolhendo Cinco histórias para elas, da Lust Films. Não é perfeito. A segunda
história, sobre a esposa de um jogador de futebol que aceita um ménage à trois ridículo
me faz querer subir pelas paredes, principalmente ao ver que um dos “garanhões” parece
ser um masturbador compulsivo cuja abordagem ao sexo oral não envolve nada além de
mover a cabeça de um lado para o outro. O homem da história de dominação também
parece lutar para manter uma ereção significativa. No entanto, as duas lésbicas da
primeira história são deliciosas de se ver e não há a sensação de que estejam atuando
para um olhar masculino.
Eu não poderia contar sobre as duas últimas histórias, infelizmente. Estávamos um
tanto distraídos.
Maio
Eu me sento no consultório do médico e o vejo ler as anotações sobre mim. Depois, ele
me pergunta:
— Alguma coisa mudou lá embaixo?
— Não — eu respondo —, está tudo exatamente igual.
Na realidade, eu gostaria que não precisássemos recorrer à linguagem infantilizada
nessas situações. O colo do útero é uma parte tão legítima do seu corpo quanto, por
exemplo, o braço ou a orelha. Não vamos fingir que ficamos constrangidos em saber que
ele existe. Principalmente considerando que você, meu senhor, ganha sua vida com essas
nossas peculiaridades.
— Certo — diz ele, e toma algumas notas. — Então acho que vamos em frente com a
cauterização. Você concorda?
— Concordo — eu digo. — Totalmente.
— E quando gostaria de marcar? Devo marcar como urgente?
— Hum, sim — eu digo. — Na verdade, achei que o senhor ia fazer hoje.
Ele ri do mesmo jeito que o dr. Hibbert de Os Simpsons.
— Ah, não, não podemos fazer hoje. Precisamos de anestesia geral, o que significa
que você vai precisar de mais uma consulta de avaliação antes do procedimento. Leve
este formulário para as enfermeiras. Vejo você em breve.
Ando até a sala ao lado, onde já tem uma daquelas cadeiras ginecológicas toda
arrumada com uma bandeja de instrumentos ao lado. Há duas enfermeiras sentadas,
aguardando.
— Ah — diz uma delas, lendo minha folha de papel. — Você não quer fazer hoje,
então? Estávamos prontas.
— Eu também — eu digo, me controlando para não acrescentar: Até depilei a virilha.
— Bem, podemos fazer agora, se você quiser.
— O médico disse que preciso de uma anestesia geral.
— É mesmo? — diz a enfermeira, em total descrença. Ela revira os olhos para a
companheira. — Você não precisa, sabe. A escolha é sua. Ele ao menos debateu suas
escolhas com você? Você não ficou muito tempo lá dentro.
— Hum... — não tenho certeza do que dizer. Não costumo ter opinião sobre se preciso
ou não de anestesia geral para um dado procedimento. Fica completamente fora da
minha área de conhecimento. — Se ele acha que preciso de anestesia geral, acho que
devo precisar — falo sem convicção.
— Rá! — diz a enfermeira, de um jeito que interpreto como: O que ele sabe? — Aposto
que você está esperando há séculos por isso, não está, querida?
— Uns dois anos, mais ou menos.
— Não se preocupe. Vamos encaixar você logo. — Ela pisca, olha para meus
formulários médicos e passa os próximos dez minutos fofocando sobre o quanto meu
médico é um idiota.
Saio na sala de espera, tonta pelos procedimentos kafkianos do Serviço Nacional de
Saúde e irritada pela sensação de que aquelas duas enfermeiras conseguiram absorver
com empatia todas as minhas preocupações e indignações, me deixando, estranhamente,
sem nenhuma.
Sedução no 17
O poder do agora

Ainda estou pensando sobre meu desejo débil e sobre como trazê-lo revigorado e de
volta para nossas vidas. Parece que ele se soltou do ancoradouro e agora está vagando
no vasto mar da minha percepção. Sei que está lá e às vezes até consigo detectar sua
presença no meu radar. Mas ele é desgarrado, esquivo. Não consigo fazer com que se
sustente sozinho por tempo suficiente para entendê-lo.
Parte do problema é que acho difícil admitir para mim mesma quando estou excitada.
Não estou mais acostumada a me ver desse jeito. E mesmo quando registro que está
acontecendo, uma inibição bizarra toma conta de mim quando penso em contar a
Herbert. Digo “bizarra” porque, afinal, seria benéfico para nós dois saber o que me
excita. Preciso encontrar uma forma de me ajudar a superar minha própria vergonha.
A ideia que tenho é simples: vamos mandar por mensagem de texto a palavra “agora”
para o outro sempre que pensarmos em sexo. Não precisamos dizer mais do que isso e
nem tomar nenhuma atitude para sinalizar. Só precisamos admitir nossa própria e
permanente sexualidade.
Espero que isso possa nos ajudar a nos mantermos quentes durante os dias que
passamos separados, o que pode nos levar a ver fogos de artifício no quarto quando
chegarmos em casa. Quando faço a sugestão, imagino que vamos mandar a palavra
“agora” um para o outro umas quatro ou cinco vezes ao dia. Mas, previsivelmente, esse
nível de desejo espontâneo está um pouco além de nós.
Na verdade, não ocorre nenhum “agora” no primeiro dia, e nem mesmo no segundo.
De minha parte, fico avaliando mentalmente minha vagina em busca de sinais elétricos
que possam indicar um momento de excitação. Nada. Na verdade, isso me faz sentir mais
do que nunca como um galho velho, em vez de uma mulher sexualmente vibrante que se
volta para seus desejos enquanto espera seu amante chegar em casa. Penso em fingir
um “agora” no final do segundo dia, mas me parece muito desonesto.
Acho que Herbert deve estar tendo mais momentos “agora” do que eu. Os homens não
pensam em sexo a cada sete segundos? Talvez ele não tenha lido meu e-mail direito. Ou
talvez, como sempre, o celular dele esteja esquecido no fundo da pasta de trabalho, sem
bateria.
Não. Quando pergunto, ele dá de ombros, ri e diz:
— Eu sei! Eu não fazia ideia de como penso pouco em sexo.
No terceiro dia, começo a concluir que a ideia morreu cedo demais e que vou ter que
voltar aos meus planejamentos. Mas então — veja só! —, H me manda um e-mail
falando sobre transferência de dinheiro entre nossas contas bancárias, mas que termina
com a frase: Ah, e “agora”, que fique registrado.
Só de ler aquilo, tenho um pequeno momento “agora” também e mando um e-mail em
resposta falando isso. Ele me manda uma piscadela de volta.
Mas não fazemos sexo naquela noite. Já tínhamos esquecido sobre o assunto quando
chegamos em casa. Nem nos vemos no dia seguinte até a hora de dormir, quando
estamos prontos para dormir apenas. O dia seguinte é um sábado e temos mais tempo
juntos. No meio da tarde, H chega sorrateiro por trás de mim, me abraça e diz: “Agora.”
Fazemos o melhor sexo das últimas semanas. E no domingo também.
Sedução no 18
Madame masculina

Às 20h30 da noite de domingo, Herbert coloca a bandeja de jantar sobre a mesa e diz:
— Vou lá para cima raspar minha barba.
“Puta merda”, eu penso, “ele está mesmo falando sério”.
Ele vem ameaçando uma sedução em que estaria vestido de mulher há mais ou menos
um mês. Não tenho certeza se ele quer executar uma fantasia ou apenas investigar uma
curiosidade mórbida. Suspeito que seja a segunda opção; Herbert não é um homem
particularmente feminino. De qualquer forma, como nada tinha acontecido até então,
achei que a ideia tinha morrido. Mas não. Ele apenas andava refletindo sobre ela.
— Me traga uma lingerie — diz ele enquanto raspa a barba.
— Só uma calcinha? — eu pergunto.
— Um sutiã também. E uma cinta-liga.
— Nenhum dos meus sutiãs vai caber em você.
— Posso botar um enchimento. Consigo forjar uns peitos.
— Não, quero dizer que não tenho nenhum que vá caber na largura das suas costas.
Devo explicar que H tem 120 centímetros de medida de peito e meus sutiãs tamanho
36C não tinham a menor chance. Mas ele parece terrivelmente desolado pela perspectiva
de sua hora usando sutiã ser negada, então pego uma calcinha de renda francesa preta
(que tem a melhor chance de caber) e o sutiã do conjunto. Hesito em oferecer a ele
minha cinta-liga Agent Provocateur, mas não tenho certeza se meias 7/8 com elástico em
cima vão se segurar sozinhas em coxas cabeludas.
H está secando o rosto e passando uma enorme quantidade do meu melhor
hidratante, dando uns tapinhas no rosto que deve ter aprendido nos comerciais de Brut
dos anos 1980. Afrouxo as alças do sutiã ao máximo, passo-as pelos braços dele e uso
um lenço de seda para amarrá-las atrás. Quando ele fica de pé, o resultado parece um
sutiã, mesmo subindo constantemente.
— Ooh — diz ele —, tenho peito que quer se exibir. — E coloca a mão ao redor do
mamilo com luxúria.
— Você está fazendo isso por você ou por mim? — pergunto, em dúvida se quero
mesmo saber a resposta.
— Não comece a ter ideias — diz ele. — Só estou fazendo isso porque é engraçado. E
porque não vejo o motivo de só você se divertir com maquiagem e lingerie. Pode me
passar as meias agora?
A cinta-liga fica completamente esticada ao redor dos quadris dele, e não acho que vá
voltar a ser a mesma algum dia. Ele não faz ideia de como prender as meias de renda,
então tenho que fazer isso por ele. Ele coloca a calcinha e rapidamente percebemos que
ou um testículo fica aparecendo ou a racha do traseiro, dependendo de como ele ajeita.
H não desanima. Ele anuncia que “provavelmente seria perigoso” passar maquiagem
sozinho e se senta obedientemente para que eu faça o trabalho completo: corretivo,
base, blush, sombra, delineador e batom. Ele decide passar máscara nos cílios sozinho,
por desconfiar de eu estar tentando cegá-lo quando passei a sombra.
Eu me sento e o observo. Herbert é estrábico e, assim, quando olha para alguma coisa
de perto, só consegue enxergar com um olho de cada vez. Isso significa que não tem
uma percepção de profundidade muito boa. Primeiro, de alguma maneira, ele acaba
passando máscara na mão. Depois, enfia o pincel na lateral de seu rosto, deixando uma
marca preta e grossa. Por fim, consegue passar os cílios no pincel e imediatamente abre
demais os olhos, de forma a deixar listras pretas nas pálpebras.
Com a maquiagem terminada, ele se afasta e se admira no espelho, fazendo biquinho
no estilo que as mulheres vagabundas fazem nos filmes ruins.
— O que você acha? — pergunta ele.
— Hum — eu digo —, não tenho certeza se você é meu tipo de garota. — Ele faz um
som de reprovação, afofa o cabelo e entra no quarto para escolher um colar de contas na
minha penteadeira. Eu passo perfume atrás das orelhas dele.
É estranho vê-lo assim. A pele dele parece morta debaixo do peso da base e a lingerie
parece uma paródia da sexualidade feminina. Mas a maquiagem e a lingerie que ele está
usando são minhas. Eu me pergunto se caio na mesma armadilha, de colocar os adereços
do desejo na esperança de tentar resumir a coisa toda. Fico querendo saber se também
pareço pouco com quem sou nessa circunstância.
Não ajuda em nada o fato de ele ter resolvido fazer voz fina. Ele ignora os acessos de
risada que isso provoca em mim. Acaricio a parte nua da coxa dele, acima das meias, e
lambo os mamilos, que aparecem debaixo do sutiã.
— Há alguma maneira em particular que você tenha imaginado fazer isso? — eu
pergunto.
Ele diz:
— Não sei. Talvez você fique entre minhas pernas dessa vez.
Tentamos e não funciona; não conseguimos o ângulo certo e o pênis dele fica saindo
de dentro de mim.
— De quatro? — sugere ele.
Eu respondo:
— Só para entender, o que você espera que isso envolva?
— Bem, não sei nada sobre você possuir uma cinta com um consolo, então eu só
estava pensando em você me masturbar com as mãos ao redor do meu corpo.
— Certo — eu digo. — Só queria ter certeza.
Vou para trás de H por um tempo, até que ele diz:
— Chega, já estou me sentindo idiota.
Fico feliz por parar.
Fazemos o sexo do jeito que faríamos se H não estivesse vestido de mulher. É bom,
mas demoro um tempo para ficar realmente excitada.
Depois que recuperei minhas meias usadas de dentro da lata de lixo (“não são um
artigo descartável, Herbert!”) e demonstrei o uso de loção de limpeza Eve Lom (H: “Você
realmente tem que fazer isso todos os dias?”), pergunto a ele:
— E então, gostou?
Ele dá de ombros.
— Foi legal. Mas não repetiria.
Devo dizer que fico aliviada.

epois de 15 anos em um relacionamento, acho quase impossível imaginar como

D alguém faz sexo com um novo parceiro. Não consigo visualizar a mecânica de ir
do primeiro momento de contato visual ao ponto de mostrar minha bunda para
alguém. A esse ponto da vida, isso me parece uma coisa simplesmente bizarra de se
fazer.
E, no entanto, estranhamente, o sexo parecia mais fácil naquela época. Eu não me
sentia tão estranha em querer fazer e nem por experimentar uma coisa nova. Eu sentia
como se houvesse uma espécie de privacidade pela qual pudesse expressar meu desejo.
Eu sabia que eu era um mistério para Herbert e ele era um mistério para mim. Qualquer
coisa que eu oferecesse na arena sexual era minha e só minha. Ele não me conhecia bem
o bastante para perceber se eu já tinha feito aquilo antes ou se era uma coisa nova. Eu
estava me soltando para poder me fazer uma pessoa nova aos olhos dele.
Quando me comparo à garota que conheceu Herbert, fico um tanto impressionada com
o quanto me tornei envergonhada. Essa segurança toda não deveria ter me libertado
para expressar meus desejos mais íntimos? Eu não devia me sentir à vontade e segura o
bastante para experimentar, com o conhecimento pleno de que meu amante é gentil e
confiável? Eu não devia ter tido muitos anos para explorar e progredir, que me deixariam
com alguma espécie de conhecimento?
Na verdade, aconteceu o contrário. Ao longo do tempo do nosso relacionamento, fui
ficando cada vez menos experimental e progressivamente mais envergonhada dos meus
próprios desejos. Eu me permiti desistir de certas coisas porque elas falharam uma vez; e
nós dois caímos nas rotinas sexuais chatas que não excitam nenhum de nós dois.
Tenho certeza de que, se eu tivesse um novo parceiro, voltaria a meu eu liberal de
novo. E, ainda assim, com Herbert, sou sua esposa prática e sensata, a organizadora do
lar e designadora de tarefas. Em algum ponto do trajeto, escolhi ser isso em vez de ser
sua amante selvagem. Eu obviamente não podia sustentar ser as duas coisas ao mesmo
tempo.
Em retrospecto, parece uma escolha estranha de se fazer. Atualmente, eu escolheria o
papel de amante selvagem sem nem pensar. Mas posso me lembrar de uma época nos
meus vinte anos, quando o desejo do meu coração era ser caseira, ter segurança e
estabilidade. Até aquele ponto, a vida parecia incerta para mim. Eu queria ter certeza
quanto ao meu mundo e queria criar alguma estabilidade para Herbert. Então eu pintei
paredes, fiz cortinas na máquina de costura que herdei da minha avó, aprendi a cozinhar
e insisti com H que queria ter filhos. Na minha cabeça, eu estava construindo um futuro
sensato para nós. Ao olhar para trás, vejo que estava entediando até a mim mesma.
Sinto como se estivesse vivendo minha vida ao contrário. Quanto mais velha fico e
quanto mais meus amigos se estabelecem, mais quero ir contra isso. Não quero que
minha vida seja estruturada ao redor de pagamentos de hipoteca e TV nos sábados à
tarde. Há um mundo lá fora esperando por mim.
E o sexo é parte disso. Quero reacender a selvageria da minha própria luxúria antes
que ela desapareça completamente. Isso significa que, de alguma maneira, tenho que
deixar de lado a formalidade que cresceu em mim e lutar contra essa estranha vergonha.
É mais fácil falar do que fazer. Vejo isso em Herbert também. Por anos ele procurou
arduamente passar a ideia de possuir uma sexualidade selvagem, transmitindo dicas e
insinuações de ser secretamente mais pervertido do que eu imagino. Agora, com esse
manual de sexualidade moderna aberto diante de si, está tendo dificuldades. Quando
contrariado, o desejo dele parecia uma coisa sombria e inaceitável para ele, algo
misterioso que era demais para mim. Agora, é como um fantasma que desaparece à luz
do dia. Ele acha difícil querer qualquer coisa em particular, então recorre a experimentos
em vez de seduções, coisas nas quais ele pensa logicamente em vez de ser levado a elas
pelo desejo.
A pergunta é: como exterminamos essa vergonha? Pois, no momento, ela parece
quase impossível de ser derrotada.
Sedução no 19
Controle remoto

— Não está acontecendo nada.


— Talvez as pilhas tenham acabado.
— Você não carregou?
Estamos sussurrando essa conversa sobre a mesa de um restaurante
surpreendentemente silencioso. Digo “surpreendentemente” porque nós o escolhemos
por ser o lugar mais barulhento da cidade, com as mesas mais separadas. Porém, a noite
de quinta-feira, ao que tudo indica, não é a noite certa. Além de nós, há mais um casal
no salão, e eles não estão falando muito.
Herbert começa a mexer no bolso de novo, mas tira a mão rapidamente quando se dá
conta de que a garçonete está de pé atrás dele.
— Hum, vocês gostariam de pedir alguma bebida?
Nós dois nos mexemos com desconforto... bem, possivelmente mais eu do que
Herbert. Porque estou com um vibrador bullet de controle remoto atado a meu corpo e
ele está começando a escorregar para fora de minha calcinha.
— Uma taça de vinho tinto pra mim, bem grande — eu digo. — E um bife malpassado.
A garçonete sorri, fecha o bloco e se vira para ir embora. Naquele exato momento,
Herbert deve finalmente ter apertado o botão certo, porque o vibrador ganha vida, me
fazendo dar um gritinho involuntário. Tento transformar isso em um surto de tosse
quando a garçonete olha para mim. H ri como um lunático.
— Vou ter que ir ao banheiro ajeitar isso — eu digo. — Você pode desligar por um
momento?
H aperta o botão de novo e a vibração muda de um modo intenso e constante para
uma pulsação regular.
— Ah — eu digo —, assim é muito melhor. Não vamos esquecer. Tente de novo.
Desta vez, o movimento é como uma rotação baixa, como um motor em ponto morto.
— Não — eu digo. — Ainda está ligado.
O casal silencioso se inclina para conversar e de vez em quando olha para nós.
— Acho que vamos precisar de uma palavra-código.
— Que tal “esquilo”? — sugere H.
— Claro, porque é uma palavra muito discreta, não é? É o tipo de palavra que surge
em uma conversa o tempo todo.
H ri baixinho e aperta o botão de novo.
— Ah, certo, esquilo — eu digo.
Vou mancando até o banheiro, onde tenho que desenrolar o longo fio entre o vibrador
e o estojo das pilhas antes de conseguir tirar o jeans. Estou usando uma bata hoje,
porque é a única peça de roupa que tenho que disfarça a caixa rosa presa ao meu jeans,
com uma pulsante luz vermelha e fios saindo dela. Na minha primeira escolha de roupa,
eu parecia uma mulher-bomba incompetente. Mas admito que era uma combinação bem
mais sexy do que a atual.
O jeans também é importante: ele age como silenciador. Ao que tudo indica, minha
vagina não tem uma proteção acústica suficiente para impedir que o zumbido escape, um
barulho como o que você ouviria caso compartilhasse o quarto com um mosquito faminto.
H sugeriu que eu usasse um absorvente para sufocar o som. Não era uma opção
atraente.
Volto para a mesa e vejo que nossa comida chegou. H me deixa comer um pouco e
então vejo sua mão ir em direção ao bolso novamente.
— Nada? — diz ele.
— Não — eu respondo. Ele come outro pedaço de frango e aperta o botão de novo.
— Oh! Chinchila! Hamster! ESQUILO! — eu ofego enquanto H tenta casualmente
tomar um gole de Coca-Cola.

stou sentada na sala de espera para cirurgia em uma tarde de segunda-feira.

E Passei por uma enfermeira, um anestesista e um escrivão, e me perguntaram


quatro vezes se posso estar grávida. Também tive que fazer um teste de gravidez,
então estava cada vez mais incerta do motivo de essa pergunta ser relevante.
Mas estou bem satisfeita. Todo mundo foi gentil comigo hoje; tudo foi cuidadosamente
discutido. A enfermeira que faz meu registro explica, sem que eu precise perguntar, por
que me pediram para tirar o esmalte das unhas dos pés. Isso significa que verificou a
horrorosa aparência das minhas unhas sem esmalte, mas tento não me prender a esse
fato.
Olho ao redor da sala de espera e reparo que todo mundo parece bem mais nervoso
do que eu. A mulher à minha esquerda está apertando a mão do marido e mordendo o
lábio inferior.
— Você devia dizer que está com medo — sussurra ele para ela. — Podem lhe dar
alguma coisa para ajudar.
— Shh — diz ela. — Fique quieto, por favor.
Herbert não está esperando comigo. Mandei que fosse para casa. Há situações que
temos que encarar sozinhas, e considerando o quanto ele parecia tenso esta manhã,
acho que não ajudaria tê-lo comigo. É melhor enfiar a cara em um livro e deixar o tempo
passar. Sozinha, fico bem calma.
A culpa disso é em parte porque estou ansiosa pelo procedimento há muito tempo, eu
acho. Na verdade, lutei para estar ali. A ideia de que pode haver um tratamento que vai
fazer tudo melhorar é maravilhosa.
Mas é também porque eu podia viver sem isso. Nos últimos meses, Herbert e eu
gradualmente chegamos a um acordo de como lidar com meu corpo insubordinado. Parei
de mentalizá-lo como uma zona morta do erotismo, como um equipamento quebrado.
Juntos, encontramos caminhos para contornar suas falhas. Mesmo quando o pior
aconteceu, nós demos um jeito. Continuamos a fazer sexo de qualquer maneira e
tivemos ótimos momentos. O sangue afeta a determinação de Herbert bem menos do
que a minha, na realidade.
E assim, mesmo se a cirurgia não der certo, vai ficar tudo bem. Nada piora minha
situação, exceto talvez a cavalgada invertida.
— Betty, você pode colocar a camisola agora?
Troco de roupa em uma pequena e limpa sala de exames e mando uma mensagem de
texto para H (Ah, chegou minha vez!) antes de entregar minha bolsa para uma
enfermeira e ir andando pelo corredor atrás de outra enfermeira, de avental cirúrgico,
que fala sobre o filho que vai começar na pré-escola.
Eu me deito. O anestesista que conheci cedo coloca uma cânula na minha mão e a
enfermeira tira meus óculos, dizendo que não ficarei longe deles.
— Tudo bem — diz o anestesista. — Vou botar você no oxigênio e em vinte segundos
você vai dormir.
Faço que sim com a cabeça e ele ajusta a máscara. Pisco e reparo que meus olhos
estão desfocados. Mais um segundo, mais desfocados; pisco e, depois disso, só me
lembro de alguém dizendo:
— Betty, Betty, é hora de acordar agora.
Sedução no 20
Dentro e fora do jardim de campânulas

Fiquei a maior parte da semana passada imaginando quando poderia fazer as coisas:
dirigir, fazer atividade física, tomar álcool e, é claro, o querido sexo. Não quero estragar o
bom trabalho do meu ginecologista nem desmaiar, e quero evitar a qualquer custo essas
duas coisas enquanto dirijo. Acabei por descobrir que a anestesia geral faz você se sentir
estranha por bastante tempo, e é difícil até pensar em fazer muita coisa durante pelo
menos uns cinco dias.
No entanto, no domingo começo a me sentir como um ser humano normal de novo. Na
verdade, estou desesperada para sair de casa. Seguimos para o local da Sedução nº 19
para comer o maravilhoso assado do almoço de lá, e depois H sugere um passeio no
bosque, no meio das campânulas.
As campânulas azuis são uma das minhas coisas favoritas (junto com o mar,
andorinhas, neve e muitos outros fenômenos não naturais tais como Stevie Wonder,
martíni com gim e amêndoas, de preferência servidos juntos). Hoje, não sei se terão
murchado com o calor, mas podemos vê-las do estacionamento: um azul quase
sobrenatural preenchendo os espaços entre as árvores.
O bosque está cheio de sombras, mas o ar ainda está surpreendentemente quente e
cheio do cheiro inebriante da campânula azul, parecido com mel. Conforme andamos,
quase não vemos ninguém. Há alguns esquilos e um pombo perdido, mas a humanidade,
ingrata, parece estar longe desse bosque em um dia de sol.
Não tenho certeza de quem tem a ideia primeiro. Talvez tenha sido simultâneo.
Conforme andamos, percebo que estou acariciando as costas de H. Ele para e me beija.
Chegamos a um portão, e quando paro para abri-lo, H se encosta em mim e cheira minha
nuca. Cruzamos um campo aberto e chegamos a outro trecho de bosque, ainda mais
vazio do que o anterior. Paro para beijar H e ele enfia a mão dentro da minha blusa e
beija meu seio. Dou um grito, gargalhando. Ele abre o zíper da minha saia.
— Não podemos fazer isso de pé no meio do caminho — eu digo.
— Nós veríamos se alguém estivesse vindo.
— Só depois de terem nos visto!
Continuo seguindo o caminho e depois vou para o meio das árvores. Não há muito
abrigo ali também, mas pelo menos demoraria um tempo até nos verem. Eu me encosto
em uma árvore e H me alcança.
— Achei que você tinha me dispensado — diz ele, e me beija.
Ele não perde tempo. Abre o jeans e ergue minha saia. Será que já posso fazer sexo?
Não tenho certeza. Talvez eu deva dizer alguma coisa... Ah, mas não; H já pensou nisso.
Ele cuidadosamente coloca o pênis entre minhas coxas e prosseguimos assim. Na
verdade, esse é um jeito bem melhor de fazer sexo de pé — é bem mais fácil do que a
necessidade de encontrar o ângulo certo e de se equilibrar.
E, para mim, é delicioso. Toda hora me esqueço de ficar de olho, embora decida ser a
responsável por não deixar a calça de H cair até os pés. Mesmo assim, de vez em quando
eu me lembro de onde estamos e analiso o horizonte em busca de outros seres humanos.
Ninguém chega lá. Só nós dois.
Desculpe, foi uma piada ruim.
Sedução no 21
Me ligue

Herbert e eu passamos três anos morando longe quando fui para a universidade.
Estávamos no frenesi sexual do nosso relacionamento por uma parte desse tempo. Nem
uma vez pensamos em fazer sexo por telefone.
Isso deve dar uma noção do quanto a ideia não me atrai. Odeio falar baixarias; não
tenho vocabulário para isso. Sou bem silenciosa no quarto, fora o ocasional “Que
gostoso”, e mesmo isso é uma coisa que preciso lembrar a mim mesma de fazer. A ideia
de ficar falando “Oh, querido” ao telefone é suficiente para me dar alergia.
Mas Herbert viajou para a Alemanha, em uma rara viagem de negócios, e anunciou
várias semanas antes que aproveitaríamos a oportunidade para fazermos um pouco de
sexo pelo telefone. Não tinha como eu evitar. Pelo que sei, é um tipo comum de
alternativa ao sexo hoje em dia.
Mesmo assim, fico tentada a sabotar o projeto indo ao pub. Não ajuda o fato de que H
só consegue ficar sozinho bem tarde da noite, e até essa hora já passei muito tempo
pensando no que vou dizer para ele. Já tomei três taças de vinho, só pelo apoio moral.
Isso pode ser bom ou não.
Tento entrar no clima tirando a roupa e indo para a cama com um exemplar de Meu
jardim secreto, mas cada página que abro parece ser sobre alguma prática sexual bizarra
que faz minha vagina se contrair.
Chega uma hora em que H manda uma mensagem de texto. Vamos usar o Skype?
Não, respondo eu. Posso ficar na cama se usarmos o celular.
Certo. Mas a não ser que você seja rápida, vou ter uma conta de telefone alta demais
para incluir nas despesas.
Ah, tudo bem, mando em resposta, esperando passar um nível adequado de má
vontade. Vou para o andar de baixo, ligo o computador e coloco o headfone enorme e
ridículo de H. O visual não é bom.
Levo uns cinco minutos para ajustar tudo de forma que possa ouvi-lo e durante esse
tempo ameacei rebaixar a sedução para sexo por mensagem de texto. No entanto, acabo
por ouvir a voz de H baixinho, depois mais alto quanto ajusto o controle de volume.
— Hum, como você se sente? — diz ele.
— Nervosa — eu respondo, sabendo que não é a resposta certa.
Há silêncio do outro lado da linha. Eu suspiro.
— Descreva onde você está.
— Estou no meu quarto de hotel — diz ele. — Estou segurando o meu pau. Está duro.
— De verdade? — eu grito. — Você está inventando?
— Não — diz ele pacientemente. — Estou acariciando meu mamilo esquerdo.
— Fico feliz de você ser tão específico. Eu odiaria ter que imaginar qual mamilo você
está acariciando.
— Faz parte da construção do cenário. E você?
— Ah — eu digo. — Certo. Hum, estou nua, sentada à escrivaninha. Estou me
acariciando.
— De que parte do seu corpo você está falando?
— Da vulva — eu digo, engolindo em seco por causa da feiura da palavra. — Estou
passando os dedos entre os lábios e colocando-os devagarzinho na boceta.
— Você tem que fazer o que está dizendo, Betty.
— Estou fazendo!
Começo imediatamente a fazer.
— Qual é a sensação?
— É bom. Estou com os pés em cima da escrivaninha. Se eu ligasse a webcam, você
teria uma ótima visão.
— Ligue!
Eu me sento direito e clico em botões no Skype, esperando que uma imagem apareça,
mas nada acontece.
— Tudo bem — diz H —, deixe para lá. Você está se distraindo.
E então, por impulso, faço uma coisa que nunca fiz antes: pego meu celular, tiro uma
foto da minha mão na xoxota e mando para Herbert. Por alguns segundos, fico tomada
por uma ansiedade terrível de que posso ter mandado para alguma outra pessoa sem
querer, mas então ouço o bip reconfortante do outro lado da linha.
— O que era pra ser isso? — diz H.
— Bem, está escuro aqui.
Ouço-o rir e recebo uma mensagem no meu celular, uma foto de perto do pênis dele
com os pés ao longe. Ele ainda está de sapatos.
— Tudo bem, concordo que sua iluminação é melhor — eu admito e tento tirar outra
foto, mas essa parece um pedaço de pele qualquer. Coloco o telefone na mesa. Tem
alguma coisa na ideia de mandar fotos dos nossos genitais para o outro que me dá a
sensação de intimidade, de uma maneira positiva.
— Ei, H, adivinha o que estou fazendo? — eu digo. — Tem um vidro de esmalte na
minha mesa. Estou passando-o pelos meus lábios. Hmm, a sensação é deliciosa e fria. Eu
o empurrei para dentro da vagina agora.
Essa é a primeira vez que fiz qualquer coisa remotamente erótica com um vidro de
esmalte de unha, mas tenho que admitir que a sensação foi realmente gostosa. H ficou
quieto, então tiro outra foto, desta vez me virando para a luz, e envio para ele.
— Ah, essa é boa — diz ele, e manda outra foto do pênis, mas tirado da direção
oposta, com seu rosto sorrindo orgulhoso ao fundo. Caio na risada e paramos de
conversar. Consigo ouvi-lo respirando na outra extremidade da linha e mudo de posição
para poder me inclinar sobre a poltrona do escritório e enfiar a cara na almofada. O fone
escorrega e só consigo ouvir H baixinho, mas me certifico de manter o microfone perto da
boca, para que ele possa ouvir que minha respiração fica cada vez mais ofegante.
Consigo transmitir o que considero ser um orgasmo em alto e bom som, e logo em
seguida H me manda outra foto, do que imagino ser a imagem da conclusão do orgasmo
dele.
— Orgasmos simultâneos, mesmo tão longe um do outro — eu digo, e não ouço
resposta. — Herbert? Herbert, você está me ouvindo?
Acontece que H perdeu meu orgasmo esplêndido porque eu tinha soltado sem querer
o plugue do microfone.
— Típico — digo eu.
— Não tem problema. Repetimos outro dia!
— Isso foi bom. Não foi nada ruim, como eu esperava.
— Não. E mandei fotos do meu pinto!
— Mandou sim. É melhor deletar as fotos antes de ir trabalhar amanhã, hein.
— É melhor mesmo.
Há um silêncio levemente constrangedor por um momento, depois H respira fundo e
diz:
— Fiquei preso duas horas no trânsito no caminho para cá hoje. E a cafeteira do meu
quarto não está funcionando...
Fico um pouco chocada com o quão rapidamente voltamos à realidade.
Junho
Às vezes, fico um pouco envergonhada de admitir que sou casada. Não é uma escolha
nada radical. Frente à variedade de formas nas quais os seres humanos podem viver
atualmente, escolhemos pela mesma instituição que nossos avós. Pior ainda, é uma
instituição que carrega uma leve aura de opressão, de acúmulo de propriedade e de
prender pessoas.
Mas Herbert e eu nos casamos porque não acreditávamos no casamento.
Nós nos casamos porque não acreditávamos que era a coisa moral ou ética a fazer.
Não acreditávamos que ia validar ou santificar nossa relação de alguma maneira. Não
acreditávamos que nos uniria por mais tempo.
Nós nos casamos porque nossos pais não conseguiram fazer o casamento dar certo.
Nós nos casamos porque crescemos achando que o casamento era uma instituição
absurda e opressiva que inevitavelmente explodia. Nós nos casamos porque pensávamos
que a própria ideia de casamento dependia de uma noção distorcida da natureza do
homem e da mulher.
Nem todo mundo vai entender isso, mas frente a essas crenças, casar era o gesto mais
loucamente romântico em que pudemos pensar, um ato de fé cega em nós dois e em
nossa capacidade de ir até o final. Não achamos que a instituição pudesse nos unir;
achávamos que nós mesmos podíamos.
Está na moda dizer que a monogamia não pode dar certo. A velha desculpa dos
adúlteros de que o homem não consegue evitar espalhar suas sementes foi endeusada
pelo novo discurso evolutivo do qual de repente gostamos. Do outro lado da cerca,
encontramos a direita religiosa curiosamente concordando, alegando que os homens
precisam de estrutura e da disciplina de Deus para mantê-los no caminho certo.
E quem iria querer a velha e gasta monogamia quando há tantas opções interessantes
por aí?
Bem, eu quero, mas não porque acho que seja melhor do que qualquer outra escolha.
Ao contrário: especialmente antes de começarmos as seduções, eu sentia uma pontada
de inveja das explorações variadas das minhas amigas solteiras.
Venho devorando a literatura sobre como manter relacionamentos longos cheios de
vida, e muitos dos livros começam com uma variação da frase “A monogamia é o melhor
caminho”. Acho essa atitude irritante e limitada. Não há melhor caminho, mesmo para
um indivíduo só. Devemos todos fazer nosso acordo com o parceiro se queremos ter um
ao nosso lado. Desde que as duas partes concordem, tudo vale. Não é da minha conta.
E em todas as escolhas há benefícios e desvantagens. O acordo da monogamia requer
um enorme esforço dos dois lados para manter a relação viva e bem, principalmente pelo
período de vida de um adulto. Todo mundo a interpreta de maneira diferente, mas para
nós sempre significou um compromisso de ficar acima de qualquer repreensão e não se
permitir nem mesmo o menor flerte, que poderia dar chance ao parceiro de suspeitar da
nossa fidelidade. Claramente, também significa não ir atrás das atrações que surgem de
tempos em tempos; a monogamia não torna você imune a elas. Os casados há muito
tempo ainda desejam a adrenalina do risco e do romance, a emoção da caçada e, até
certo ponto, temos que aceitar que isso acabou para nós.
E os benefícios? Bem, há a crescente sensação de confiança e certeza e o privilégio de
ter alguém só para você. Porém, mais do que tudo, há um tipo de liberdade em ter feito
essa escolha. Talvez seja a liberdade da submissão; mas talvez seja também a liberdade
de escolher não se perguntar continuamente se seu parceiro é bom o suficiente, se você
é bom o suficiente. Desde que você tenha escolhido alguém bom, você pode continuar
trabalhando para alcançar o elusivo estado que é a perfeição.
A monogamia não é apenas uma escolha que se faz uma vez. É uma escolha diária,
permanente, que deveria ser feita com total noção das outras escolhas possíveis. Deveria
ser uma escolha consciente feita por duas pessoas, e não uma aceitação superficial
“daquilo que todo mundo faz”. Se seguirmos a monogamia automaticamente e nunca a
questionarmos, morreremos. O acordo pode ser quebrado por infidelidades secretas, mas
pode ser igualmente quebrado com o término do amor e da afeição.
Vista dessa maneira, a monogamia é uma escolha radical dentre tantas em vez de
uma aceitação insossa de uma convenção. Não é para todo mundo e ninguém deveria
insinuar o contrário. Mas, para mim, é a coisa certa.
Sedução no 22
Acessórios

— Você ficaria surpresa com a quantidade de clientes que depilam tudo desse jeito.
Aposto que não contam para ninguém.
Droga, eu penso, qual é a vantagem disso? Pelo menos sei que a depilação completa
faz sucesso.
Eu estava procurando um lugar que oferecesse vajazzling (a prática americana de
depilar com cera e decorar a área acerca da vulva com adesivos de strass), mas parece
que os salões da alta sociedade de Kent não sentem que haja demanda para tal serviço.
Em vez disso, tenho que fazer uma depilação Hollywood (depilar tudo) e, depois de um
tempo, colar as vajazzles (adesivos de strass) eu mesma.
Chego ao salão e recebo o que a funcionária chama de forma otimista de “calcinha de
papel”, mas que na verdade é uma tira de lenço de papel preto com elástico. Pelo visto,
é um tamanho só para todas, o que significa que não tenho esperança alguma de
esconder muito por trás da tira. No final, isso importa muito pouco: a calcinha é apenas
um gesto simbólico em prol da minha dignidade. A primeira ação da depiladora é
empurrá-la para um lado para poder depilar com cera ao redor dos meus grandes lábios.
Não vamos falar de dor. No entanto, direi o seguinte: mesmo durante as seduções,
ainda não tinha me visto deitada de barriga para baixo em uma mesa, abrindo as
bochechas da minha bunda para que uma moça depile meu ânus.
Não é adequado admirar a perereca sem pelo antes de ir embora do salão, então sigo
a convenção e dou uma boa olhada quando chego em casa. Está um pouco vermelha e
irritada, mas — e me dói admitir isso, porque me condena a anos de tortura nas mãos da
depiladora — está adorável. A sensação é macia e jovem, mas não tem nada de
“garotinha” na aparência; na verdade, tem uma aparência distintamente adulta e
experiente.
Está também fascinantemente sensível. Enfio a mão na calcinha repetidamente para
ver se ela ainda está lá, e a estranha sensação que tenho é a de tocar na vagina de outra
pessoa. Além de a superfície não estar nada familiar sob meus dedos, as sensações são
diferentes ao toque. Sou como uma criança com um brinquedo novo.
Quando Herbert chega em casa, eu me recuso a deixar que ele veja (quero que a
vermelhidão suma; não quero que a primeira reação dele seja “Ai, isso deve ter doído!”),
mas na hora de dormir deixo que enfie a mão dentro do meu pijama e toque nela. Ele
parece um pouco hesitante e rapidamente tira a mão. Não tenho certeza se aguentaria
muitas carícias, de qualquer forma.
No dia seguinte, a aparência da pele está mais calma e continuo encantada com essa
nova parte do corpo que descobri. Por volta das seis, me recosto em um travesseiro e
começo a me decorar com adesivos de strass. Depois de muito tempo fazendo buscas
infrutíferas na internet (e de um breve flerte com a decoração de borboleta da Coco de
Mer, antes de descobrir que custava cem libras), acabei encontrando tatuagens artísticas
para crianças e cristais roxos para o corpo por £1,99 cada no eBay. Eu não tinha ideia de
que esse tipo de coisa existia até a semana passada, mas, como já tive oportunidade de
comentar ao longo das seduções, todo dia se aprende alguma coisa.
A arte de decorar com adesivos de strass, de acordo com minha leitura on-line, é
deixar os enfeites bem altos, para que não se tenha um cristal preso acidentalmente em
uma área delicada. Fico mais do que feliz em seguir essa regra. Tenho um sentido
aguçado do que é brega na maior parte do tempo, mas esta noite ele fica de lado. Acima
da minha intimidade careca, crio o que gosto de ver como um display inspirado em
artdéco, com toques de Las Vegas misturados. Ah, e também consigo escrever “PARA H”
com cristais roxos — imagine só.
Às sete, H me manda uma mensagem de texto dizendo que está saindo do trabalho.
Rapidamente tiro uma foto da minha xoxota decorada, com o acréscimo recatado de uma
folha de figueira do jardim, e respondo à mensagem dele com a foto. Purpurinástico,
responde ele, e, poucos segundos depois, Agora.
Era o que eu esperava depois de todo esse trabalho!, eu respondo.
Admito que me preocupei com H não gostar dos enfeites. Ele investe muito em sua
autoimagem de alguém de mente aberta, e enquanto aplicava os adesivos fiquei
pensando se uma depilação completa precisava mesmo de qualquer enfeite.
A julgar pela reação dele, eu não tinha nada com que me preocupar. Mas considerando
o quanto os cristais saíram do lugar durante nossas atividades, eu queria ter contado
quantos colei ali.
Mas depois, sinto as dores familiares no abdômen. Tento descartá-las e nem conto
para Herbert. É normal sentir desconforto. Poucos dias se passaram da minha operação.
No dia seguinte, pergunto a H o que ele gostaria de fazer à tarde, e a resposta
lisonjeira dele é:
— Eu gostaria de passar mais algum tempo com sua xoxota careca, por favor.
Isso é adorável. Só que, depois de alguns minutos, começo a emitir estranhos sons
molhados.
— Oh, Deus, me desculpe pelos puns vaginais — eu digo.
— Acontece — diz H. — Gosto de pensar neles como um som de apreciação.
— Eu soltei puns vaginais durante toda nossa primeira transa, então você não pode
dizer que não foi avisado.
— Eu lembro bem — diz ele e ri, e depois olha para baixo. — Ah, Deus, sangue!
Parece que a cirurgia não fez diferença alguma.
À snãovezes sinto como se tivesse os espinhos de um ouriço. São uma barreira afiada que
consigo retirar.
Pensei que tivesse conseguido baixá-los um pouco ao longo dos últimos meses, ou que
pelo menos eles estivessem menos densos. Mas esta semana, lá estavam eles de novo:
grosseiros, afiados, impenetráveis.
Tive uma semana estranha, frustrada, irritada. Não aconteceu nada em particular, mas
está quente, estou muito atarefada no trabalho e nem todo mundo está cooperando. Mas
mais do que isso, sinto como se meu corpo tivesse agindo contra ele mesmo. Tudo
parece estar errado. Várias vezes, o mero som do rádio foi demais para mim. Se Herbert
tenta falar comigo ao mesmo tempo em que ele está ligado, grito com ele. Não consigo
suportar ser tocada. Sinto como se minha pele estivesse muito fina.
Duas vezes essa semana saí correndo da cama no meio da noite, certa de ter sentido
uma enxurrada de sangue descer pelas pernas. Nas duas vezes, percebi que estava
sonhando. A mente demora a alcançar o corpo. A minha parece assustada e em defesa
dele.
Sou mediadora e sei que essas expressões são necessárias. A meditação é como a
lenta ação da água na pedra. Gradualmente, ela desgasta camadas e camadas de
sedimento e de vez em quando alguma coisa desconhecida é exposta à luz, uma camada
de ossos velhos. Eles também se desgastam com o tempo, mas precisam ser revelados
para serem erodidos. Ao longo dos anos, aprendi que meu corpo guarda um sinal dos
meus medos, uma defesa física contra eles que ao longo dos anos se torna uma dor
intensa.
Esta manhã, por exemplo, fui para a aula de ioga, a segunda desde que meus
problemas ginecológicos me fizeram desistir. Antigamente, eu conseguia me dobrar ao
meio como uma cadeira de jardim, não por causa da minha habilidade na ioga, mas
porque tinha quadris muito flexíveis. Hoje, fiquei chocada ao descobrir que não conseguia
me inclinar para a frente, que meu movimento pélvico havia ficado rígido como um nó.
Depois que superei a humilhação (uma mulher de 70 anos estava se inclinando para a
frente perfeitamente na minha frente), vi o quanto eu vinha imaginando meu corpo como
uma coisa frágil que precisava de proteção. Venho me encolhendo como um ouriço, e
mesmo partes do meu corpo que não consigo controlar se uniram ao movimento.
Mas mesmo ao perceber isso, o que faço com a informação? Uma coisa é entender que
meu corpo se encolheu para se proteger, mas como faço para desencolhê-lo?
Sedução no 23
Hora do jogo

Sou competitiva por natureza. Levei anos para aceitar isso, principalmente porque sou
péssima em esportes. No entanto, depois que terminei a faculdade, me dei conta de que
você pode ser competitivo sem ficar correndo por aí, e desde então me tornei apavorante
quando colocada frente a um desafio qualquer. Consigo arrumar uma vitória na maior
parte das situações. Você deveria me ver tentando atingir a menor distância possível do
acostamento da rua.
Isso é relevante porque a sedução de Herbert esta semana é um jogo de tabuleiro de
sexo. Nós o compramos há meses, durante a viagem a Brighton, e ele estava esperando
no armário, principalmente porque tenho fugido dele como o diabo foge da cruz. Não me
pergunte por quê; eu não consigo dizer o motivo. É só que me dá uma sensação de
“estamos tentando apimentar a relação”.
Mas Herbert está interessado, e ele não chegou onde está hoje sem uma boa
quantidade de esperteza. O golpe de mestre é me dar a escolha de duas seduções que
não me interessam muito: “O jogo de tabuleiro ou a fantasia de gata.” É o tipo de
escolha que vejo pais espertos oferecerem a crianças teimosas (“Você tem que comer o
espinafre ou então vai sentar na cadeirinha”). Escolho o jogo de tabuleiro.
O item em questão se chama Lust (luxúria). Nele, temos que andar com um peão
sobre uma série de pegadas coloridas, o que nos leva a pegar cartas que sugerem
alguma coisa romântica ou erótica para ser feita como preliminar. Se fizermos essas
coisas e nossos parceiros aprovarem, somos recompensados com cartas-de-fazer-amor
que levam a uma “experiência de fazer amor” (ou seja, uma transa) no final do jogo.
Eu: — Então nós vemos quem cria a melhor experiência de fazer amor e essa pessoa
ganha.
H: — Não. Nós decidimos juntos sobre a experiência de fazer amor.
— Qual é o sentido disso?
— É legal. Trabalho de equipe.
— Então não podem chamar de jogo, não é?
Herbert me ignora e começa a arrumar as peças. Ele já esperava esse
comportamento.
Minha primeira carta de preliminar me manda fazer uma serenata para H com uma
música romântica. Por alguma razão, acho isso simplesmente impossível. Sou tomada
pelo medo e pela vergonha.
— Não consigo pensar em nada adequado — eu digo.
— Cante qualquer coisa, não importa.
— Mas estou com Fight the Power tocando na minha cabeça sem parar.
— Tem razão. Essa não é adequada.
Minha maior preocupação com Lust é que ele vá nos mandar fazer coisas, mas não nos
mande fazer sexo de verdade. Estou errada. A primeira carta de fazer amor que tiro da
pilha é “A Tartaruga” (estilo papai e mamãe, mas com as pernas presas nos ombros
dele); a segunda é “Sadomasoquismo Leve”. De repente, me deparo com a ideia de que
Lust talvez não seja tão superficial quanto eu gostaria. Ainda estou sangrando um pouco
por causa da sedução da semana passada e também estou me recuperando de uma crise
de cistite. Eu estava contando com não haver penetração nas cartas.
Não digo isso para Herbert; afinal, há uma vitória em jogo aqui. Apesar de tudo, gosto
de Lust. Os desafios eróticos que o jogo sugere são genuínos — em certo momento,
tenho que fingir que sou enfermeira e dar um banho em Herbert — e parecem
direcionados a casais como nós, que estão juntos há um tempo, com ênfase nas
lembranças juntos. H adora. Ele é imune à vergonha dos desafios sentimentais (ele atua
com dedicação como Romeu se reencontrando com Julieta depois de uma longa
separação, enquanto dou risadas e faço caretas). Eu acho emocionante que ele esteja
disposto a executar cada tarefa com tanta dedicação, mas por outro lado ele sempre foi
do tipo que segue as regras. H gosta de fazer o que mandam. Eu resisto à autoridade
mesmo que seja do meu interesse. Fight the Power podia ser meu hino.
Há dois pequenos conflitos durante o jogo. O primeiro é quando deixo a gata Bob
entrar no quarto (não consigo lamber as partes de trás dos joelhos de Herbert como o
jogo manda se estou distraída com os miados), o que inevitavelmente significa que Bob
pula na cama, pega o dado com a boca e sai correndo com ele. Tento convencer H de
que isso é hilário e que pelo menos sabemos onde o dado está, mas ele não fica feliz. Diz
que é “minha culpa” e que não estou “concentrada”. Pego o dado, lavo na pia e nós
vamos em frente.
O segundo conflito surge quando tenho que olhar no fundo dos olhos de H e beijá-lo.
Insisto que não é obrigatório manter meus olhos abertos durante o beijo. Beijar de olhos
abertos é estranho e devia ser desencorajado oficialmente. H tenta me negar uma carta
de fazer amor por causa dessa infração. Eu devo ter ficado irritada; não me lembro bem.
Mas recebo a carta de fazer amor.
De um modo geral, nós nos divertimos e ficamos um pouco menos rabugentos
conforme o tempo passa. A melhor parte para mim: H se deitando sobre meus joelhos
para levar umas palmadas (não conseguimos pensar em mais nada para fazer com
aquela carta de “Sadomasoquismo Leve”) e gritando: “Não consigo aguentar! É a
expectativa!” com as mãos entrelaçadas atrás da cabeça.
Mas antes disso, há um momento que me dá um aperto no coração. Pego uma carta
que me pede para dizer a H de que maneiras ele ficou mais bonito desde que nos
conhecemos. Antes que eu possa abrir a boca, ele diz:
— Ah, bem, você não vai ter nada a dizer sobre isso. — E depois quase se encolhe
fisicamente.
Então eu digo:
— Herbert, você está muito mais bonito para mim agora porque cresceu na sua própria
pele. Você vive à vontade e é seguro. Você sabe quem você é. Adoro seu cheiro. E seu
rosto é como um lar pra mim.
Sedução no 24
Quem gosta da bola

Não pela primeira vez, eu me pergunto o que os vizinhos devem pensar. Estamos em
uma manhã quente e úmida de domingo, todas as janelas estão abertas e estou
emitindo um som que é uma mistura de gritos e risada histérica. Não é o tipo de barulho
que você faria, por exemplo, se estivesse assistindo a algum programa engraçado na TV
ou se seu marido tivesse contado uma piada. Tampouco é o tipo de barulho que uma
criança de quatro anos poderia fazer se fosse pendurada de cabeça para baixo pelas
pernas. Ou, no meu caso, o barulho que uma mulher de 33 anos faria quando o parceiro
está executando sexo oral nela enquanto ela tenta se equilibrar com o rosto para baixo
em uma bola de exercícios.
Não sou boa em abrir mão do controle. Alguns minutos antes, H me mostrou como
fazer ao se deitar serenamente sobre a bola enquanto eu lambia seu pênis. Gostoso,
agradável, calmo. Agora estou me engasgando, me debatendo e de vez em quando
chutando, entre ataques de risada enlouquecida.
— Você está bem? — diz H, segurando minhas coxas para que eu não caia. — Está
gostando, não está?
Minha resposta pode ser perfeitamente resumida por:
— Gaaah, prrrt, argh, sim! Waaah, squeeee, vou cair! Aaaaah!
— É perfeitamente seguro — diz H. — Não vou soltar você.
Isso é fácil para ele dizer; eu é que estou tendo que aguentar a desconcertante
imagem do chão indo para a frente e para trás enquanto ele ajeita a bola para conseguir
o melhor ângulo. Enquanto isso, subiu tanto sangue à minha cabeça que sinto que
minhas bochechas podem explodir. O mais perto que cheguei disso antes foi quando
tinha 14 anos e minhas amigas e eu decidimos passar uma feliz tarde de verão cheirando
uma garrafa de solvente no terreno baldio atrás da escola. Naquela vez, passei mal.
Agora...
— Eurgggh, estou enjoada!
Herbert coloca meus pés no chão e fico de joelhos. Ele não vai se arriscar. Consegui
vomitar depois de andar de ônibus na semana passada. Tenho um senso de equilíbrio
muito frágil.
— Meu Deus, você está até com o rosto vermelho — diz H.
O quarto está girando.
— Tonta! — eu falo rindo. Estou sem fôlego e posso sentir meus músculos do abdômen
doendo depois de uma situação intensa.
— Sua vez — eu digo.
Herbert senta sobre a bola de exercício e eu subo nele. É como fazer sexo em um
pula-pula, sem ter onde nos apoiarmos. O desafio é que cada pulo seja maior do que o
anterior, o que significa que saio completamente de Herbert depois de umas seis
estocadas. Ele está começando a aparentar nervosismo.
— O que vai acontecer se esse troço estourar? — pergunta ele, se apoiando na parede.
— Não estoura — eu digo, segurando nos ombros dele. — O máximo que pode
acontecer é desinflar devagar.
Saltamos por mais alguns segundos. É impossível beijar, pois há um risco evidente de
quebrarmos os dentes um do outro. Isso parece mais um exercício aeróbico do que um
ato de intimidade.
— Acho que está desinflando!
Ficamos de pé e observamos; ainda está completamente inflada.
— Não, está perfeita — eu digo. — Você está paranoico.
No entanto, depois desse ponto fica claro que H não consegue manter a ereção
sentado sobre a bola. Fico inicialmente inclinada a sugerir que é devido à incapacidade
masculina de executar multitarefas, mas, pensando melhor, acho que deve ser uma
incapacidade de manter uma ereção ao fazer uma coisa perigosa.
Parabéns, evolução: outra adaptação completamente sensata. Vamos para a cama e
terminamos nossa sedução de uma maneira mais tradicional (e segura).
Julho
Herbert e eu vamos assistir a Hair no West End. Ao ver as vacas sagradas da rebeldia
jovem dos anos 1960 — amor livre, nudez, maconha, largar a escola — expostas na
minha frente, sorrio sozinha. Longe do contexto desafiador daquela época, Hair agora
parece um espetáculo datado, com valores ingênuos e simplistas, com as motivações de
rebeldia agora vistas como coisas corriqueiras.
Mas quando o final se aproxima e a plateia é convidada a dançar no palco, fico
paralisada na cadeira. H vai imediatamente para lá; tenho fotos dele balançando os
braços no ar no meio da multidão. Mas para mim é impossível. Isso deflagra uma série de
pensamentos: eu não conseguiria subir no palco e dançar porque ficaria muito
envergonhada; e eu certamente não conseguiria tirar a roupa, como o elenco fez em um
momento anterior da peça, mesmo com a pouca luz que havia.
Isso me faz pensar em uma viagem de férias de verão que fiz com minha mãe quando
eu tinha 6 anos e ela tinha acabado de se divorciar. Ela passou duas semanas usando
apenas uma calcinha turquesa, se bronzeando. Fazer topless talvez esteja fora de moda
agora, mas nunca me aventurei nem a usar um biquíni. Tomo cuidado até para que meus
maiôs não sejam muito cavados.
O que me torna tão inibida? Minha mãe e sua geração precisaram lutar para se livrar
da vergonha do corpo que era incutida nelas, e aqui estou eu, perplexa com a visão da
minha própria pele, sem a desculpa de um pai opressivo ou de uma sociedade
reprovadora. O mesmo acontece com o sexo: por que sinto que tenho que lutar para
entender minhas próprias motivações eróticas quando nunca deixei de ter permissão
daqueles que me cercam?
Digo isso para Herbert depois, enquanto estamos sentados em um bar atrás da
Carnaby Street tomando mojitos.
— Sinto como se tivesse batido em um muro. Chegamos tão longe com as seduções e
o sexo melhorou muito, mas atingi um platô. Estou procurando coisas seguras para fazer
em vez de me desafiar. Há um muro de inibições que é quase tangível.
H dá uma risadinha.
— Então você está gostando. Isso é bom, não é? Quem disse que precisa ser
desafiador?
— Não é que tenha que ser desafiador. É que consigo sentir essa barreira. Nem sei o
que há do outro lado dela. Não é que tenha uma coisa que eu queira fazer, mas não
consiga me levar a fazer. É só que não estou me entregando por completo. Ainda estou
pensando demais sobre tudo.
Ele se solidariza, mas percebo que não entende de verdade. H não tem inibições; ele
topa experimentar qualquer coisa. Mas, para mim, há um impulso de proteção que está
sempre lá, uma necessidade de me encolher como uma bolota do ouriço em vez de me
expor a alguma coisa nova. Isso se aplica a dançar tanto quanto se aplica ao sexo;
sempre fui a criança que não ia na montanha-russa nem no escorrega grande. É uma
mistura de medo físico e de vergonha projetada. Mais do que isso, é completamente
impenetrável. Não sei do que tenho medo, mas sei que tem uma presença da inibição lá,
que quica e volta sempre que tento libertá-la.
Mudo de abordagem.
— Vamos dizer assim. Estamos quase na metade das seduções. Quando tiverem
acabado e não houver estrutura para seguirmos, o que você acha que vai acontecer?
Vamos continuar fazendo sexo e vamos continuar fazendo coisas interessantes?
Ele pensa por algum tempo.
— Não sei — diz ele. — Quero dizer, gosto das seduções, mas ainda não sinto que
cheguei lá. Não posso dizer com honestidade que perseguirei você querendo sexo depois
que acabarem.
Pronto. Exatamente. Minha inibição e a falta de desejo de Herbert: farinha do mesmo
saco. As duas coisas estão, para nós, inquestionavelmente presentes. São parte da nossa
estrutura, um campo de força misterioso que não conseguimos atravessar. Mas sabemos
instintivamente que tem alguma coisa do outro lado — para mim, a capacidade de
alcançar a entrega; para H, uma sensação de desejo que o move sem necessidade de
argumento consciente.
Ainda há alguma coisa em nós dois que está nos reprimindo contra nossa vontade. E
pareço não conseguir decidir que não quero mais isso. Sinto como se precisasse que
alguém me ajudasse a romper a barreira.
Alguns dias depois, Herbert sugere uma sedução de sexo tântrico. Não sou contra isso
por princípio, mas nenhum de nós sabe direito o que é, muito menos como executar.
Percorro alguns sites em busca de um workshop decente, mas tudo que vejo me
incomoda. Há uma enorme quantidade de jargões pseudoespirituais e um número
alarmante e ainda maior de referências à dança. Eu não danço. Pior, alguns dos sites que
encontro deixam claro que é apenas para casais heterossexuais. Mesmo sendo parte de
um casal heterossexual, não tenho desejo algum de trabalhar com uma empresa que vê
a heterossexualidade como a única configuração válida.
Pensando que talvez consiga alcançar algum progresso sozinha, vou para o site da
Amazon, onde descubro o livro de Barbara Carrellas, Urban Tantra. Aleluia! Isso não é só
exatamente o que quero do tantra; é o que quero do próprio sexo. Uma espécie de
alegria sem limites e confortável pinga de cada página que ela escreve. Reconheço
imediatamente que esse é o estado que procuro. Ao pesquisar no site dela, fico
inicialmente desapontada de ver que ela mora em Nova York. Mas mando um e-mail para
ela, conto nossa história e pergunto se seria possível que ela me desse umas aulas por
Skype.
Ela concorda, mas diz que não pode começar até voltar de Berlim, onde está dando
aulas em um festival de sexo chamado Xplore. E por alguma razão que não consigo
explicar direito, me vejo comprando ingressos para mim e para Herbert e fazendo
reservas em um voo para Berlim.
“Rá!”, eu digo para mim mesma. “Você pode ser inibida, mas ninguém pode dizer que
não é espontânea.”
Sedução no 25
Era digital

Na noite de sábado, estou no pub com alguns amigos. Estamos sentados bebendo vinho
e falando mal de pessoas conhecidas. Não estou dando minha atenção completa ao
papo, o que é incomum. Em vez disso, estou pensando em como direcionar a conversa
para falarmos de ânus. Provavelmente é uma boa coisa eu não estar bêbada o bastante
para começar essa discussão. Mas também é uma pena, porque um pouco de apoio
moral me faria bem.
Há uma sedução iminente e já estou preocupada com ela. Amanhã à tarde, prometi —
não há forma romântica de dizer isso — enfiar o dedo na bunda de Herbert. Na verdade,
suspeito que esse seja o tipo de coisa que não deve ser discutida e sobre a qual não se
deva pensar demais; deve ser feita em um rompante de paixão e depois acabar entrando
nas práticas eróticas do casal ou não, dependendo da reação. Mas passar 15 anos em
uma relação sem cruzar essa fronteira em particular (embora ele já tenha feito em mim)
faz parecer que merece uma certa pompa.
Toquei no assunto com H e ele concordou com alegria. Droga! Eu estava com
esperança de que ele recusasse. Mas não. Herbert ouviu falar que vários cavalheiros
gostam de um pouco de estímulo na próstata, então eu terei que lutar contra minha
vontade de vomitar para executar isso.
Por reconhecer que nem todo mundo é como eu, talvez eu precise explicar que sofro
de uma obsessão por higiene que, dependendo da perspectiva, é limitante e opressiva
(na de Herbert) ou perfeitamente racional (na minha). Não gosto de coisas sujas, e a
parte interna do reto de uma pessoa deve merecer lugar nessa lista (as outras coisas
incluem acampamento, pés e cachorros). Tenho a mania de lavar as mãos e também um
ótimo olfato, que tenho medo de ser acionado. Essas coisas fazem a brincadeira com a
próstata (quem imaginou que esse seria um termo atraente?) uma ideia claramente
apavorante.
Quando chega a hora, H sente meu desconforto.
— Você pode usar as luvas de borracha se fizer você se sentir melhor — sugere ele,
querendo ajudar.
— Acho que eu não suportaria ver a faxineira usando-as depois — eu digo. — Além do
mais, isso me parece uma outra sedução. — Não, eu preciso ser adulta.
Eu me sirvo de uma taça de vinho, apesar de serem apenas 17h.
Nós tiramos a roupa e nos deitamos na cama.
— Só preciso de alguns minutos para entrar no clima — eu digo.
— É a minha bunda! — diz H. — Eu que deveria me preocupar.
Tomo um gole de vinho.
— De qualquer modo — diz ele —, me certifiquei de deixar tudo extralimpo pra você.
Não pergunto o que isso quer dizer.
— Como vamos fazer isso então? — eu pergunto. — Devo apenas enfiar lá ou você
quer um boquete ao mesmo tempo?
Como poderia ser previsto, H escolhe o boquete simultâneo. Pelo menos isso me dá
um ponto de partida. Também significa que não preciso olhar. Passo lubrificante em um
dedo e o deslizo para dentro.
Andei lendo sobre isso. Pelo que entendi, tenho que procurar a glândula da próstata,
que fica à distância (conveniente) de um dedo dentro do reto e é um pouco elevada. Mas
não consigo sentir nada. Procuro com cuidado, mas não sinto variação alguma, só um
monte de tecido maleável. Não é tão desagradável quanto temi. Mas percebo que devo
enfiar e tirar o dedo um pouco mais, e não apenas procurar a elusiva próstata.
— Hum — ouço H dizer acima de mim. — Você se importa de ficar um pouco parada
pra que eu possa me acostumar?
— Ah, desculpe — eu digo. Eu meio que tinha esquecido de perguntar se ele estava
gostando. — O que você acha?
— Bem, a sensação é um tanto médica no momento. — Ele é sempre afiado, meu H.
Percebeu direitinho que o estou examinando. — A sensação na parte externa é boa, mas
na parte de dentro parece meio... — ele não conclui.
— Oh — eu digo de novo e retiro o dedo.
— Não é que eu não esteja gostando — diz ele. — Ainda estou com uma ereção.
— Eu meio que estava esperando que ele murchasse assim que eu começasse, então
estou bem impressionada.
— Sim — diz H. — Eu também, na verdade. Mas vai murchar se você continuar a falar
sobre isso.
Certo. Vivo esquecendo que falar sobre o pênis de Herbert faz com que ele murche.
— E se eu ficar só na parte externa? — eu sugiro, e começo a esfregar o dedo
delicadamente ao redor do ânus.
— Hum, isso é bem melhor — diz ele.
Recomeço o boquete. Mas percebo, depois de um tempo, que ele parece estar
gostando menos do que o normal; ele está me observando em silêncio, sem dar nenhum
dos suspiros de prazer que costuma emitir nessas horas.
— Não tenho certeza de que isso está sendo bom pra você — eu digo.
— É razoável.
— Bem, se é apenas razoável, será que posso ir lavar minhas mãos?
Mãos limpas. Eu me sinto muito melhor quando volto para a cama. H está imerso em
pensamentos.
— Li em algum lugar que os homens não gostam quando falam com eles sobre esse
tipo de coisa. Eles gostam, mas não querem admitir.
— Não, Herbert — eu digo. — Você não leu isso. Viu em Sex and the City.
Ele dá um sorrisinho.
— É onde consigo as melhores informações.
— Mas, em geral, acho que você não tem uma próstata particularmente sensível. —
Consigo omitir o “graças a Deus” do final dessa frase.
— Talvez não. Mas vou dizer uma coisa: gosto da ideia de você me dar beijo grego.
Olho para ele, apavorada.
— Tudo bem — diz ele. — Não se preocupe. Deve ser um passo muito grande pra
você.
Gaguejo por alguns momentos, tentando pensar em uma situação na qual eu
alegremente lamberia o ânus de alguém.
— De jeito nenhum — eu digo. — Estou tentando ser mais cabeça aberta ultimamente,
mas não.
Depois disso, penso se posso ir até o banheiro lavar as mãos de novo.

m ano atrás, Herbert e eu nos casamos pela segunda vez. Não que tenhamos nos

U divorciado antes nem nada assim. Na verdade, o primeiro casamento foi tão
simples que precisávamos restabelecer um equilíbrio.
O primeiro foi um evento altamente seletivo. Achávamos que não podíamos confiar em
nossas famílias, ou elas o estragariam. A mera ideia de nossos pais em um aposento só,
com seus respectivos novos companheiros, nos enchia de temor. O único jeito pelo qual
poderíamos lucrar seria organizar uma aposta sobre quem brigaria primeiro. Não era uma
opção atraente.
É claro que, quando você decide excluir os pais dos planejamentos do casamento, é
difícil justificar convidar qualquer outra pessoa. Só contamos para minha melhor amiga e
seu companheiro e depois, em um acesso de culpa de último minuto, para minha prima.
Levamos oito semanas do início ao fim dos preparativos e marcamos para a data mais
próxima que conseguimos. Em meu desespero de me livrar de todos os pensamentos
confusos que um casamento traz, comecei a confiar em cabeleireiros e atendentes de
lojas de produtos de beleza, qualquer pessoa que ficasse parada tempo o suficiente para
ouvir.
O evento em si não teve nada demais. Eu me senti boba de ler meu juramento para
um aposento quase vazio, com minhas duas convidadas fungando devidamente atrás de
mim. Eu disse “sim” em vez de “prometo” e soltei risinhos nervosos todas as vezes em
que H falou. Fiz uma piada inoportuna sobre a princesa Diana quando estava assinando o
registro. Passei o dia me perguntando por que minhas meias estavam caindo e descobri
na hora de ir para a cama que não eram do tipo com elástico nas coxas.
Depois disso, viajamos para passar a lua de mel em Devon e contamos a novidade
para todo mundo por cartão-postal. Alguns encararam melhor do que outros. Acho que a
maior parte das pessoas ficou feliz por nós. Para meu pai, foi a última gota. Não nos
falamos desde então.
Conforme nosso décimo aniversário de casamento se aproximava, toda aquela
incerteza parecia bem distante. Talvez, se eu for honesta, sentimos que conquistamos
nosso mérito. Nós nos casamos uma semana depois que terminei a faculdade e nós dois
sabíamos que era um grande passo e que nossas vidas mudariam de forma que não
compreendíamos ainda. Nosso pequeno casamento refletiu o fato de que nos sentíamos
pequenos também e mais do que um pouco ansiosos sobre se conseguiríamos passar
pela vida adulta juntos. Na verdade, houve momentos em nossa primeira década nos
quais sermos casados nos impediu de nos afastarmos. Era algo que nos lembrava que
tínhamos assumido um compromisso feliz em épocas mais fáceis. Fez com que
encontrássemos um caminho em meio aos problemas.
Com dez anos de casamento nas costas, eu queria uma oportunidade para comemorar.
Sempre lamentei ter perdido a chance de reunir todos os nossos amigos em um só lugar
para comermos, bebermos e dançarmos. Nunca quis o vestido branco e nem ser princesa
por um dia; eu só queria uma festa animada, uma chance para reunir meu mundo ao
meu redor. Quando começamos a planejar uma festa, nos demos conta de que não era
uma renovação dos nossos votos, mas sim o casamento que devíamos ter tido, só que
um pouco atrasado.
Os convites diziam Casamento Atrasado, o que confundiu alguns e fez outros rirem.
Reservamos um restaurante na praia onde moramos e até mandei fazer um vestido, uma
espécie de vestido de formatura dos anos 1950 com estampa africana. Começamos a
comemoração com um chá da tarde e uma cerimônia curta no andar de cima do
restaurante. Uma das nossas amigas decorou o local com um monte de pássaros de
jornal e balões; outros leram poemas e fizeram discursos. No final de tudo, teve
champanhe e nadamos no mar.
Quando anoiteceu, mais convidados chegaram. Oferecemos um maravilhoso bufê
marroquino preparado por uma amiga que é arqueóloga. Ela passou a noite ouvindo
convites para preparar comida em futuros eventos e educadamente respondendo que
estava satisfeita com seu emprego no British Museum. Tínhamos contratado uma banda
que chegou vestida como personagens da antiga série de TV Joe 90; e depois Herbert foi
o DJ. Todo mundo dançou, até eu. Houve um rompante espontâneo de mergulhos sem
roupa. À meia-noite, soltamos lanternas voadoras e observamos enquanto flutuavam ao
longo da costa.
Mesmo levando em conta a monstruosa ressaca que tive (eu estava tão animada que
esqueci completamente de comer a maravilhosa comida servida), foi um dia
absolutamente perfeito. Mas o melhor de tudo foi o seguinte: depois que todo mundo foi
para casa e bem depois da hora em que deveríamos estar na cama, Herbert e eu
andamos até a praia. Estávamos elétricos e exaustos. Não havia ninguém ali. Perto da
beira da água, estava escuro e silencioso. Tiramos as roupas e entramos na água, nus.
Bem, eu entrei; H só entrou até a água chegar ao tornozelo e logo depois me chamou.
Nós nos beijamos de pé na água com o som da boate que ficava ali perto pulsando ao
redor de nós. Depois, fizemos amor na parte mais escura da praia. Esquecemos de
consumar nosso casamento na primeira vez; desta vez, foi memorável.
Sedução no 26
Zumbido de amor

Depois da última sedução, nós dois precisamos de alguma coisa que seja realmente
prazerosa. Felizmente, estou pronta para essa eventualidade. Tenho um vibrador Lelo
novinho em folha descansando alegremente na gaveta de calcinhas.
Possuo uma história desfavorável com vibradores. O primeiro que vi era da minha
mãe, quando eu tinha 7 anos. Estávamos morando com meus avós na época, depois do
divórcio, e ela morria de medo de minha avó encontrá-lo. Por razões que só ela pode
explicar, decidiu enrolá-lo em papel alumínio e guardá-lo no porta-luvas do carro. Você
pode imaginar minha surpresa: pensei que tinha encontrado uma baguete. Qundo me viu
segurando aquilo, mamãe o enrolou rapidamente e não falamos mais nisso.
A segunda vez foi na casa de Herbert, quando o conheci. Ele estava em uma caixa
empoeirada, com uma variedade de acessórios. Todos eram estranhos. Um se chamava
Invasor Anal. Eu o fiz se livrar dele, principalmente ao ver que ele não conseguia lembrar
como o adquiriu. Vide Sedução nº 25 para entender minhas preocupações com higiene.
Algum tempo depois, comprei um Rampant Rabbit na loja Ann Summers, como era
moda na época. Era cor-de-rosa e maleável, tinha cheiro forte de produtos químicos e um
compartimento de pilha pendurado que a vendedora me garantiu ser uma grande
melhora em comparação ao modelo anterior, que era ligado na tomada. Duvido que seja
verdade; o Rabbit tinha a tendência de parar em momentos cruciais. O que eu mais
odiava nele era o modo como procurava dominar toda a experiência, com aquelas
orelhas idiotas que rodavam de um lado para outro mas nunca encostavam no meu
clitóris e com as bolas que se mexiam sem parar que faziam parecer que alguém estava
se contorcendo dentro de mim. Eu provavelmente o usei duas vezes e depois joguei fora.
Achei uma forma bem inconveniente de masturbação.
Então o que me fez comprar outro? Bem, eu não tinha planejado fazer isso. Mas fiquei
cara a cara com esse em uma loja na semana passada, e alguma coisa nele chamou
minha atenção. Parecia resistente, refinado e elegante, com desenho simples e estilo de
iPod. Não tinha um cheiro estranho (sim, eu cheirei). Mais do que isso, o formato parecia
bem atraente: não grande demais, mas cheio de curvas e intrigante. Sendo bem franca,
eu gostei da ideia de usá-lo. E isso, levando em consideração a história anterior, é uma
grande coisa.
Primeiro experimentamos em Herbert, deixando que vibre nos mamilos, no pênis, nas
bolas, no períneo... Ele começa a parecer alarmado. “Gostoso”, é a conclusão dele, mas
afirma não ser algo que usaria sozinho. Experimentamos em mim. Confesso que gosto da
sensação da ponta arredondada entrando e saindo de mim, mas fico um pouco reticente.
É bom, mas não tem nada de especial.
Mas então H faz uma sugestão.
— Vamos ver se ele torna a posição de quatro melhor pra você.
H gosta muito da posição de quatro, e ela não me incomoda, mas me faz abandonar
toda e qualquer esperança de ter um orgasmo. Além do mais, sempre nos posicionamos
de uma forma que minha cabeça bate contra alguma coisa. Sei que isso não é inerente à
posição em si, mas sim à nossa competência em geral. Mesmo assim, não seria minha
primeira escolha.
No entanto, hoje eu me ajoelho na ponta da cama, coloco o Lelo para pulsar e o
encosto no meu clitóris.
— Uau — diz H —, posso sentir as vibrações percorrendo seu corpo.
É bem gostoso. Aumento um pouco a intensidade, deixando um pouco mais
consistente. Melhor ainda. Em seguida, sem querer, minha mão escorrega levemente e
me vejo segurando-o mais abaixo, onde encosta no pênis de Herbert. H geme e eu...
bem, eu ruborizo ao dizer isso, mas começo a fazer sons de grunhidos totalmente
involuntários, do tipo que nunca saiu da minha boca antes. Fico tentando parar, mas não
consigo. A sensação é extraordinariamente intensa e me sinto ligeiramente
descontrolada. Quero que pare, mas ao mesmo tempo não quero que pare nunca. Enfio o
rosto no travesseiro, na esperança de os vizinhos não conseguirem me ouvir.
Estranhamente, não tenho um orgasmo em si (embora isso possa ter sido uma
questão de sincronia; H, não surpreendentemente, interpreta meus gritinhos estranhos
como um clímax e abre seus portões do prazer), mas a experiência toda tem uma
sensação orgásmica e só um pouco — nosso segredinho — desinibida.
Só depois faço as contas e percebo que essa é a Sedução nº 26, o marco da metade
do caminho.
— Nada mau — eu digo.
— Ah, Deus — responde H. — Você quer dizer que ainda temos que pensar em outras
26?

uantas pessoas são necessárias para compor um casamento?

Q Bem, sua resposta pode variar de acordo com a época e a sociedade na qual
você vive, mas não é aí que quero chegar. Aqui e agora, no mundo ocidental, a
resposta é “duas”, legalmente falando. Mas ideologicamente, a história é diferente. Com
frequência, lutamos para que seja pelo menos uma.
A propaganda do casamento moderno é absoluta. Não somos mais duas pessoas
optando por passar a vida juntos. Em vez disso, acham que devemos nos tornar um só.
Isso é o ideal bonito e eufórico, um sinal de que somos completamente compatíveis.
Queremos ser tão parecidos que nos misturamos um ao outro, como uma natureza morta
indistinta feita com lápis pastel.
Foi por isso que sempre lutei também. Era disso que eu sentia orgulho durante todo o
meu casamento. Mas, de repente, vejo isso como alguma coisa com a qual devo me
enfurecer.
Na noite do nosso décimo primeiro aniversário de casamento, Herbert e eu sentamos
em um restaurante juntos. Converso sobre uma coisa e outra, sobre como o vinho logo
esquenta nesse tempo, como as batatas estão boas. “Onze anos”, fico repetindo. Onze
anos! Há um desespero crescente na minha voz. Percebo que estou levando a conversa
sozinha. Os olhos de Herbert percorrem todo o salão; ele se afundou em um devaneio
particular. Isso costuma acontecer com H, mas, esta noite, me enfurece.
— Puta que pariu — eu digo. — Você podia ao menos prestar atenção. Hoje, pelo
menos, acho que se comunicar comigo é importante.
— Desculpe — diz H. — Você está certa. Às vezes esqueço que você é outra pessoa.
Essa é uma versão curta de uma discussão mais longa e mais calorosa, mas você
entendeu. Não é nem que ele fique satisfeito consigo mesmo apenas. É que nossos
limites estão tão indefinidos que não há o suficiente a dizer.
Talvez esse seja o destino natural do casal sem filhos. Sem o acréscimo de pessoas
pequenas, ficamos sem coisas sobre as quais falar. Talvez essa fusão seja necessária
para a paternidade, criando uma união de solidariedade entre os dois de forma que
consigam lidar com a inevitável negligência das necessidades do outro. Mas quando só há
os dois, essa ligação parece quase ameaçadora. Parece que se chegou a uma situação
estável que pode ficar a vagar sem destino.
É a aproximação extrema que torna o sexo difícil. Como um casal tão unido pode
oferecer novos mistérios um ao outro? Ou, colocando de outra forma, como podemos
suportar admitir novas paixões e desejos na pessoa que deveria conhecer sua alma por
dentro e por fora? A sensação seria de traição. Em nossa luta por união, sufocamos as
inovações.
Quando penso no assunto, vejo que essa fusão me fez erguer barreiras. Talvez
conscientemente, talvez não, identifiquei de forma gradual todas as coisas que acredito
que me tornam aceitável para Herbert e as puxei para a superfície. Enquanto isso, a
parte mais selvagem e menos previsível de mim se recusou a ir embora. Ainda está lá,
mas coloquei um casulo ao redor dela, uma casca grossa pela qual não consigo mais
passar. Isso me lembra da cicatriz que tenho no cotovelo, onde uma pedra ficou presa
quando eu tinha 9 anos. Ainda está lá, ligeiramente escura sob a pele, mas removê-la
agora seria um sofrimento.
É exatamente isso que venho fazendo este ano, mexendo na pedra do cotovelo e me
perguntando por que é tão difícil tirá-la de lá. Eu achava que o amor era um caso de uma
coisa ou outra: protetor e compreensivo ou apaixonado, arriscado e caótico.
Sensatamente, optei pelo primeiro tipo. Agora acho que posso ter o melhor dos dois
mundos. Posso ter um marido que é meu amante, que me excita e me surpreende, mas
em quem posso confiar para cuidar de mim se a necessidade surgir. Posso confiar nele
sobre essas duas coisas porque posso confiar em mim sobre elas também.
Então o gesto mais romântico que posso fazer por Herbert é me separar dele, só um
pouquinho. Preciso aprender que algumas coisas não são da minha conta. Muitas noites
me vejo verificando se ele escovou os dentes. Preciso parar de tentar cuidar dele como
uma mãe chata. Preciso aprender a ficar um pouco mais sozinha, a parar de tentar impor
um consenso sobre tudo o que fazemos.
Porque aí, quando estivermos juntos, poderemos curtir a novidade da companhia um
do outro.
Sedução no 27
Boca suja

Herbert fez o jantar, lavou a louça e agora está dobrando as roupas lavadas perto de
mim enquanto fico olhando, perplexa, na cozinha. Não tenho certeza de onde veio essa
explosão de entusiasmo doméstico, mas gosto. Não o bastante para participar, mas
pareço uma ótima espectadora de esportes.
Com o cesto de roupas quase cheio, ele diz:
— É melhor você se servir de gim e tônica antes da sedução de hoje.
Em seguida, sobe para o banheiro para tomar um banho.
Sou totalmente obediente, principalmente no que envolve o gim Bombay Sapphire.
Tomo goles da bebida e me pergunto o que será que ele planejou.
Ele desce com cheiro fresco de xampu de menta e tira meus óculos.
— Não acabou ainda? Você vai precisar de mais de um.
Dou um suspiro.
— Pare com isso. O que é então?
— Falar baixaria.
— Ah, Deus, Herbert — eu digo —, é meu pior pesadelo.
— Você só precisa de gim suficiente.
— Já fiz sexo pelo telefone. Qual é a diferença?
Ele olha para mim como se eu fosse uma criança preocupada em ir para a escola.
— Você não falou muitas baixarias daquela vez, falou?
— Não, você está certo — eu digo. — Fui para a respiração ofegante o mais rápido que
pude.
— E antes disso você tirou fotos.
— Sim.
— Dessa vez, você tem que me olhar nos olhos.
— Oh, Deus.
No quarto, ele não perde tempo. Assim que tiro a calcinha, ele gruda a boca na minha
virilha de uma maneira que acredita demonstrar entusiasmo. É como se ele achasse que
pudesse me surpreender e me fazer falar baixarias espontaneamente. Improvável.
— Que tal? — pergunta ele, o som abafado.
— Uma delícia — eu respondo com honestidade. Eu me deito e fecho os olhos por um
segundo, depois me dou conta de que não tenho permissão para simplesmente curtir.
— Imagino que “uma delícia” não era o que você estava esperando.
— Não.
O que devo fazer, um comentário?
— Mas não quero falar sobre isso; só quero sentir. Uso palavras o dia inteiro. Isso é
diferente. É bom me comunicar de uma forma diferente.
H faz uma pausa.
— Então você basicamente vai boicotar a sedução?
Boicotar é uma palavra tão forte.
— Não — eu digo —, acho que não. — Tento pensar em alguma coisa para dizer,
qualquer coisa, mas não encontro as palavras. — Você não pode começar?
É nesses momentos que mais admiro H. Ele imediatamente aceita o desafio. Não tem
vergonha nenhuma.
— Tudo bem — diz ele com alegria. — Adoro a sensação da sua xoxota macia e
molhada na minha língua.
— Eca — eu digo —, detesto a palavra xoxota. Me faz pensar na minha mãe. Não sei
por quê.
Ele me ignora.
— Tenho uma visão tão boa daqui. Estou fantasiando sobre enfiar meu pau em você.
— Pode enfiar então — eu digo. Ele revira os olhos. Esse se tornaria o superpoder
especial dele se ele fosse atingido por um raio radioativo.
— Posso sentir seu clitóris ficando duro sob minha língua.
— De onde você tira essas coisas?
— Adoro estar aqui embaixo quando você goza. Posso ver sua boceta e seu cuzinho se
contraindo. É lindo.
— Não tenho certeza se quero saber sobre isso. É mesmo o que acontece?
— Sua vez. Vamos lá.
— Hum...
— O que você está pensando?
— Seu cabelo parece grande e inchado visto desse ângulo.
— Os lábios da sua xoxota estão grandes e inchados.
— No mundo feminino, H, isso não é considerado um elogio.
Ele sorri. É o homem mais extraordinariamente paciente que conheço. Estou lançando
contra ele tudo que tenho de resistência e ele desfaz tudo como se fosse fumaça.
— O que quer fazer agora? — pergunta ele.
É uma pergunta capciosa? Quero poder ter um orgasmo em paz.
— Quero chupar seu pau — eu respondo, relutante.
Ele se deita de costas com alegria.
— Uau — diz ele em um tom um tanto ridículo —, que delícia. Adoro a sensação
intensa. Nem consigo descrever o quanto é bom.
— Adoro sentir você ficando cada vez mais duro — eu digo, me aquecendo no tema. —
E adoro olhar pro seu rosto e ver você todo feliz, de olhos fechados.
— Sabe o que eu amo? — Alguém faça esse homem parar de falar. — Adoro quando
estamos trepando e nós dois ficamos completamente absorvidos no ato, como se
tivéssemos esquecido quem somos.
É impossível não sorrir.
— É, eu também amo isso.
— Às vezes quase desperto no meio do ato e percebo que me perdi por um tempo.
— Conseguimos desligar nossos cérebros — eu digo entre uma chupada e outra.
— É, paramos de pensar demais e ficamos os dois em silêncio.
— Está vendo? — eu digo. — Silêncio. O silêncio é bom.

s mulheres reunidas na sala de espera estão considerando uma rebelião.

A Acabamos de receber a notícia de que a clínica de colposcopia está com um atraso


de 45 minutos. Eu sei que estão minimizando o problema. Já estou esperando há
quarenta minutos e ainda tem uma pessoa na minha frente na fila. Ela está tão
aborrecida que fica soltando suspiros que acho que devem representar sua insatisfação.
— Toda vez é assim — diz ela, olhando alternadamente para mim e para a enfermeira.
Nós duas tentamos fazer expressões de solidariedade, mas sim, toda vez é assim. O
milagre é que ela esperava que fosse diferente e que não se lembrou de trazer um livro.
Em minha experiência recente, parece ser política do Serviço Nacional de Saúde fazer
com que você espere que um médico agracie você com sua presença real. Seu tempo
existe para ser sacrificado. Se você arruma muita confusão, eles executam a maior
punição disciplinar que possuem: a próxima consulta que podem oferecer é em seis
semanas.
— Corre tudo bem na clínica às quartas-feiras — diz a enfermeira com uma calma
impressionante — porque os atendimentos começam às 11h. Os da segunda-feira
começam às 9h, e ele — ela mexe a cabeça com ressentimento na direção da sala do
médico — não consegue chegar antes das 9h30. — Todas fazemos som de reprovação. —
Além do mais — acrescenta ela, aumentando o ímpeto de ressentimento —, ele marca
todas as consultas com duração de 15 minutos, independente do que precisa ser feito.
Tem manhãs em que todas são atendidas com atraso, e outras nas quais todas entram e
saem tão rápido que sobra tempo.
— Bem, eu vou ser bem rápida, pode ter certeza — diz a mulher irritada. Mas não é.
Pelas minhas contas, ela fica lá por vinte minutos. Terminei meu livro e estou
conversando com a recepcionista sobre a festa de aniversário dela quando chega minha
vez.
O ginecologista começa nossa conversa como de costume. É vago, dá risadas
paternais, durante as quais nenhuma palavra de verdade é perceptível até ele chegar ao
objetivo:
— Como estão as coisas aí embaixo?
— Não estou convencida de que estejam muito diferentes — eu digo. — Ainda sai um
pouco de sangue depois do sexo e às vezes é um sangramento intenso. E ainda sinto dor
depois.
Ele está ocupado lendo as anotações sobre mim, no meio das quais vejo pavorosas
fotos cor-de-rosa do que suponho ser meu colo do útero.
— Mas em geral, está melhor?
— Não, acho que não.
Ele olha para a frente, com uma expressão de decepção no rosto.
— Você recebeu o resultado dos exames histológicos?
— Não — eu digo. — Você recebeu?
Ele mexe nos papéis de novo, não encontra nada, se vira para o computador e digita
meu nome no banco de dados.
— Aí estão — diz ele. — Está tudo bem.
— Isso é bom.
Ele dá de ombros.
— Quando foi sua última menstruação?
— Há séculos. Hum, em novembro do ano passado. Quando comecei a usar pílula.
— Pílula? Mas você usa DIU. Por que está usando os dois?
— Porque você mandou.
Ele parece um pouco surpreso.
— A enfermeira do seu caso não está aqui hoje — diz ele. — Você vai precisar me
explicar.
— O DIU não acabou com os terríveis sintomas menstruais que eu estava tendo, então
tentamos usar a pílula também — eu digo, pensando: “Não tenho enfermeira no meu
caso.”
Ele suspira.
— Bem, precisamos considerar se você está sofrendo uma mistura de problemas
hormonais e físicos.
— Estou. Já chegamos a essa conclusão. Meses atrás.
Ele mexe mais nos papéis.
— Talvez você precise parar de usar a pílula.
— Não — eu digo —, prefiro tirar o DIU. É a pílula que parece funcionar.
Ele me ignora.
— É melhor darmos uma olhada.
No teto da sala de colposcopia, alguém colou um pôster com falas engraçadas de
filmes, para você tentar fingir que não está ali. Também há uma enfermeira encantadora
para distrair você no alarmante momento em que um close da sua vulva aparece na tela
ao seu lado, antes de inserirem o espéculo. Fama, finalmente.
Meu colo do útero parece composto do mesmo revestimento rosado que o interior da
minha boca. O buraco no meio não é um círculo perfeito, mas sim uma forma crescente.
Parece que está sorrindo para mim, de um jeito meio bêbado. Falo isso para o médico e
ele responde com grande desconforto:
— Tudo isso é completamente normal, posso garantir.
Abaixo do sorriso e um pouco para a esquerda há uma área um pouco mais
avermelhada. Observo enquanto o ginecologista a cutuca com uma haste de algodão;
uma bolha de sangue imediatamente surge, vinda de um ferimento não visível, e escorre
pela superfície rosada.
— Você se importa se eu fizer uma biópsia? — diz ele.
Enquanto me visto, a enfermeira me entrega um absorvente diário com “aloé e
abacate” escrito na tira do adesivo.
— Caramba — eu digo. — Eles são bem bacanas para o Serviço Nacional de Saúde,
não são? Normalmente são aqueles enormes, que parecem um colchão.
— É — diz ela. — Eu mesmo comecei a comprar esses na Lidl. São muito melhores.
— É muita gentileza sua — eu digo, estranhamente comovida por esse pequeno gesto
de humanidade. — Obrigada.

Herbert chega em casa naquela noite na hora em que estou entrando no chuveiro. Ele
passa a cabeça pela porta rapidamente para dizer oi, depois volta um minuto depois,
sem roupas.
— Ah, não — eu digo —, você está sem sorte. Tenho nitrato de prata no colo do útero
e a não ser que você deseje uma ponta cauterizada, pode mudar seus planos.
— Na verdade — diz ele —, eu só estava planejando entrar no banho depois de você.
Conversamos um pouco sobre minha consulta.
— Por que ficam fazendo biópsias? — pergunta H.
— Não sei. Acho que não conseguem pensar em outra coisa pra fazer.
— Será que acham que se esqueceram de cauterizar uma parte? Ou que aquela
cauterização não funcionou naquela parte?
— Não sei — eu digo. — Fico sem vontade de perguntar depois de um tempo.
— É sua terceira biópsia, não é?
— É. Não sei por que acham que vão encontrar alguma coisa dessa vez.
— Isso me faz lembrar meu pai — diz H — e o modo como ficavam fazendo biópsias.
Quando finalmente encontraram alguma coisa, ele já estava quase morto.
— Obrigada.
— Não quero dizer que é igual com você. Só quero dizer que ficam fazendo porque um
resultado negativo nem sempre significa que não há nada ali.
— Obrigada de novo.
— Quanto tempo você tem que esperar até o resultado?
— De seis a oito semanas.
— Meu Deus.
Naquela noite, vivemos normalmente. Jantamos juntos, andamos até a costa para ver
o sol se pôr e voltamos para casa. H vai para o escritório para mexer no computador por
um tempo e eu leio na cama até adormecer.
Fico chateada com ele por me deixar sozinha, mas o que mais ele poderia fazer? Em
noites como essa, por mais tempo que ele me fizesse companhia, não seria o bastante.
Quero conversar sobre as coisas até que estejam esmiuçadas; H não tem estômago para
isso. Mais do que isso, quero absorvê-lo em mim de alguma forma, como se ele fosse um
creme, um hidratante para a alma. Sei que essa necessidade é impossível. Um
companheiro pode confortar você, mas não pode fazer nada além de adiar o momento
inevitável em que você estará sozinha com todos os seus medos, ansiedades e
frustrações. No final, você ainda vai ter que lidar com tudo sozinha.
Não sei há quanto tempo estou dormindo quando ouço H entrar no quarto.
— Você não deu boa-noite — diz ele, e aconchega o corpo no meu.
Chego em Berlim com o coração na garganta. Herbert não está melhor; ele se
recolheu completamente no silêncio. Eu estaria mentindo se não admitisse ter sérias
reservas quanto a essa viagem. O que pareceu um ato divertido de espontaneidade
algumas semanas atrás agora parece algo altamente intimidante. O que as pessoas
fazem em festivais de sexo, afinal?
Para piorar, a cidade em si é encantadora, cheia de bares que fazem você querer
passar a tarde dentro deles e de ruas largas que são deliciosas de percorrer. A comida é
barata e as pessoas são simpáticas. Há vários bons argumentos para apenas transformar
o final de semana em uma viagem de passeio.
No entanto, vamos para um armazém no antigo lado leste e nos dirigimos à recepção.
Todo mundo parece estar muito à vontade ali; eu mal consigo convencer meus pulmões a
respirar. Jovens alemães sorridentes passeiam pelo local, cumprimentando velhos amigos
e obviamente se perguntando quando podem começar a ação. Como a maioria dos
britânicos, sempre supus que os alemães possuem uma atitude muito mais saudável com
relação ao sexo do que nós; agora tenho certeza. Meus espinhos de ouriço estão se
evidenciando de novo.
Esperamos no canto de uma sala, tomando chá, depois seguimos para o primeiro
workshop de Barbara Carrellas. Eu me apresento e ela é muito simpática. Acho que posso
suportar isso, afinal. No entanto, estou preocupada com a reação de Herbert. Se ele já
acha ioga muito chato, só Deus sabe o que vai achar disso.
A sala está ficando cheia. Nós nos sentamos no chão e vemos as pessoas entrarem.
Barbara colocou uma música suave enquanto esperamos, e um casal fica de pé e dança,
com os corpos se mexendo e se contorcendo juntos. Capturo o olhar de Herbert e ele
arregala os olhos, como se dissesse: “Puta merda!” Dou uma risada e acaricio o joelho
dele, torcendo para que não saia da sala nem tenha um ataque nervoso no meio do
evento.
No fim das contas, o primeiro workshop é fácil: só precisamos respirar e fazer algumas
contrações pélvicas. Herbert se entrega aos exercícios com vontade, e mais uma vez fico
impressionada com a capacidade dele de experimentar coisas novas sem vergonha. O
efeito geral é calmante e energizante, embora os alemães levem muito a sério o convite
para acrescentar sons sexuais à respiração. Há momentos em que gemem tão alto que
minha vontade de lutar ou fugir é fortalecida.
Nós provavelmente não nos envolvemos com o festival em geral o tanto quanto
deveríamos, mas não temos muita certeza de para onde ir entre os workshops. No
espaço principal, a maioria dos participantes está envolvida com alegria em suas
atividades preferidas bem na nossa frente. Para falar a verdade, eu nunca observei outro
casal fazendo sexo antes. Não há nada remotamente furtivo nisso, porque há uma total
falta de vergonha ou constrangimento na sala e uma falta total de julgamento também.
Considerando que somos as pessoas mais quadradas do festival, fico agradecida por essa
atmosfera de tolerância. Mesmo assim, saímos para almoçar, porque achamos que não
estamos exatamente contribuindo para o clima.
Estou preocupada com o segundo workshop de Barbara. Para começar, o nome é
Tantra Exótico e Pervertido. Durante as 27 seduções anteriores, acho que ficou claro que
não sou nem pervertida nem exótica. Além do mais, precisava ter levado um pedaço de
corda com 3,5 metros. Se a segurança do aeroporto de Heathrow tem problemas de eu
levar um vidro de xampu de tamanho normal na mala de mão, imagine o que acharia de
uma corda. E onde se compra essas coisas? Na B&Q?
— Acho que não tenho conhecimento suficiente — eu digo para H durante o almoço. —
Já me sinto como uma nerd boba no fundo da sala. Isso só pode piorar as coisas.
— Viajamos até Berlim — diz H, com lógica. — Acho que devíamos tentar.
— Não podemos. Não temos corda.
— Sairemos nessa parte se for preciso.
Encaro H por alguns momentos.
— Por que você quer tanto ir? Você estava mais preocupado do que eu hoje de manhã.
— Já me acalmei. Está tudo bem.
— Você está gostando disso, não está?
— Não, só estou mantendo a mente aberta.
— Se você acha que é algo que curte, pode dizer.
— Não. Não é isso.
— Tem certeza?
— TENHO.
Vamos pular as próximas duas horas e você pode concluir por si mesmo.
Estamos trabalhando em troca de poder no tantra, antes de tudo criando uma
sensação de equilíbrio ao respirar e embalar o corpo juntos. Depois nos revezamos para
controlar o movimento de embalar, enquanto o parceiro cede o controle do corpo. Eu
gosto de H me embalando no colo, para a frente e para trás (depois que consigo parar de
rir por causa de um olhar demoníaco dele), mas H odeia quando eu faço. Ele é bem mais
pesado do que eu e está completamente rígido. “Relaxe”, eu digo para ele, mas ele não
consegue. No final, consigo que ele se deite de costas no chão, o que é uma má ideia em
uma sala cheia de casais em movimento. A mulher ao nosso lado tropeça na cabeça de H
e nem repara. Ele parece tenso.
Barbara coloca a sala em ordem.
— Agora — diz ela — vamos brincar um pouco com uma sensação meio intensa. —
Uma pausa. — Estou falando de dor.
Ouvimos risadas aliviadas dos alemães. Ela prossegue e descreve como o parceiro
“receptivo” pode guiar o que o parceiro “ativo” faz, usando um sistema de sinal de
trânsito e as palavras “mais”, “menos”, “mais forte” e “mais suave”. A parte tântrica é
que o parceiro receptivo tem tempo para absorver as sensações depois, para permitir que
elas se tornem mais prazerosas.
— Vocês não precisam pegar pesado — diz ela. — Por exemplo, se seu parceiro
escolher morder, comece com alguma coisa que não deixe marcas.
Eu me viro para H.
— Tudo bem, você primeiro. O que você quer?
— Morder — diz ele, um tanto previsivelmente. As pessoas ao nosso redor estão
tirando a roupa.
— Certo, me dê seu braço.
Ele obedece e mordo seu antebraço de leve. Ele respira fundo.
— Mais — diz ele. — Mais forte.
Mordo de novo, desta vez deixando pequenas marcas de dentes.
— Mais, mais devagar, mais força.
Dou uma terceira mordida, essa com mais vontade. A sensação de morder carne
humana assim é um pouco obscena. Ela é completamente flexível e quase crocante,
como lã de algodão. H fecha os olhos, respira e diz:
— Isso é surpreendentemente gostoso. Quer fazer no meu mamilo?
Olho para ele por alguns segundos. “Tudo bem”, eu penso. “Tudo bem.”
— Certo, mas se você começar a me chamar de “mestre” ou qualquer coisa assim, vou
matar você.
Ele sorri e desabotoa a camisa. Estou mordendo o mamilo de uma pessoa em público.
Se nós estamos fazendo isso, tenho medo de pensar o que as outras pessoas da sala
estão fazendo.
Estranhamente, a sensação de morder um mamilo me parece menos obscena do que a
de morder um braço. Um mamilo, afinal, é uma coisa preparada para aguentar uma
mordida. Mesmo assim, ele parece horrivelmente frágil entre meus dentes.
— Mais forte — diz H.
— Tem certeza?
— Ahan — diz ele. Mordo com mais força. Ele respira fundo. — Experimente puxar para
cima enquanto morde.
Eu obedeço. Parece que quem está no comando é ele. Fico agradecida por isso. Ele
inclina a cabeça para trás de satisfação e geme, e na mesma hora Barbara diz que o
tempo acabou.
Enquanto está falando, ele abotoa a camisa, se inclina e sussurra no meu ouvido:
— Estou com a maior ereção do mundo.
Sedução no 28
Tantra bebê

Herbert e eu estamos sentados na cama, tentando ficar na posição básica do sexo


tântrico, yab-yum. Em teoria, ele devia estar sentado com as pernas esticadas, comigo
em seu colo com minhas pernas ao redor dele. Estamos falhando horrivelmente logo na
primeira dificuldade.
H: — Minhas costas estão doendo... será que posso... não, isso ainda não está certo...
ai... você pode sair um pouco?
Empilhamos almofadas atrás dele e assumimos a posição de novo. Ainda não
acertamos. Ele está praticamente deitado agora, mas se ele se posicionar mais para
cima, não tenho onde botar os pés.
— Será que devemos tentar de pernas cruzadas então? — eu sugiro.
Não. H não senta de pernas cruzadas. Não há uma só parte dele que seja flexível, eu
desconfio. Acho que vou passar meus anos de velhice pegando coisas no chão para ele.
— Cadeiras?
— Mas assim nossos chakras não vão estar alinhados.
— Herbert, você não acredita em chakras.
— Só estou entrando no clima da coisa toda.
— Vamos começar a respiração e ver se paramos de reparar no desconforto.
Voltamos à posição yab-yum e começamos a olhar nos olhos um do outro. Desafio
qualquer pessoa a fazer isso sem rir, principalmente com H, que eu acabo por descobrir
que não pisca.
É quase dolorosamente íntimo ficar olhando para alguém por tanto tempo; tem
alguma coisa de espantoso nisso que acaba fazendo você ficar sério. Sincronizamos nossa
respiração, baixando o ritmo como aprendemos na Xplore, inspirando pela boca e
soltando com um suspiro. Quando isso está dominado, colocamos nossas mãos esquerdas
no coração um do outro e nossas mãos direitas em cima da mão esquerda do outro.
Respiramos mais um pouco e começamos a nos balançar delicadamente. Nesse
momento, devo ter relaxado um pouco demais, porque solto um pum muito barulhento.
Despencamos da yab-yum e caímos na risada.
— Acho que vai precisar de um pouco mais de treino — eu digo. H afirma que seus pés
estavam mesmo ficando dormentes.
Tento outra abordagem. Urban Tantra fala sobre “a margem resiliente da resistência”,
o que significa que, quando você toca em seu parceiro, deve fazer isso com tanta
consciência de forma que sinta o momento em que seu toque é demais para ele — suave
demais ou intenso demais. Ao tentar tocar nessa margem entre prazer e exagero, em vez
de ficar confortavelmente dentro dos limites, você está revigorando a experiência para
vocês dois. Explico isso para H, que diz:
— É meio como o modo como aprendemos a acariciar um gato. — Acho a analogia
perfeita.
Eu faço com ele primeiro.
— Fale comigo — eu digo. — Conte-me o que está sentindo.
Passo a mão pelo braço dele primeiro, tentando fazer as palmas e os dedos da mão
parecerem vivos.
— Forte demais — diz ele.
Faço com mais delicadeza, depois ainda mais, até que estou passando a parte de trás
dos meus dedos nele, pelo peito e pela barriga. Ele geme.
— Uma delícia.
Aprendo lentamente o quanto ele gosta de ser tocado de leve e o quanto é prazeroso
executar o toque. Nós trocamos de papel e descubro que gosto de toques diferentes em
partes diferentes, de leve nas costas, mas com firmeza nas coxas, para não sentir
cócegas. Pela primeira vez, percebo que tocar é diferente de massagear, por procurar
estimular a pele em vez de os músculos.
— Vamos tentar uma coisa mais intensa? — eu pergunto. H sorri. Ele está ansioso por
essa parte. Começo com as mordidas no mamilo que fizemos no workshop. A mesma
reação; o rosto dele demonstra uma calma feliz.
Quando terminamos, eu o beijo e ele diz:
— Quero fazer isso em você.
É surpreendente o quanto ele tem que morder com força até que eu sinta alguma
coisa.
— Parece uma espetada de leve — eu digo.
— Mas estou com medo de arrancar o negócio com os dentes a qualquer momento!
— Acho que os mamilos femininos são muito mordidos para isso.
— Agora estou achando que você que é bem durona.
Fico feliz em ser chamada de durona. Mas aí ele sugere me dar umas palmadas. Não
sou tão durona, ao que parece. Não consigo não gritar com sinceridade toda vez que ele
me bate e fico ainda mais agoniada com a espera entre palmadas.
— Você está realmente gostando disso? — pergunta H.
— Hum, não sei — eu digo.
Sedução no 29
História de choro

Já mencionei que vi Herbert chorar umas dez vezes durante os 15 anos em que o
conheço. Ele se recusa a chorar, não por nenhuma intenção machista, mas porque faria
qualquer coisa para evitar parecer vulnerável.
— Não leve para o lado pessoal — ele me disse uma vez —, mas não confio em
ninguém no que diz respeito a emoções assim, inclusive você.
Nas raras vezes em que o vi chorando, a sensação foi tão catastrófica — para nós dois
— que imediatamente nos tirou da briga que estava acontecendo no momento. Quando
H chora, é como ver um prédio desabar. Não consigo suportar, nem ele.
Quando estou sozinha, é frequente sentir grandes lágrimas idiotas descendo pelo meu
rosto com o mínimo de provocação, seja triste ou calorosa. O jornal me leva às lágrimas
quase todas as manhãs, assim como o noticiário noturno. Mas quando Herbert está por
perto, eu me controlo. Não há lágrimas por causa do jornal e nem em filmes. Levo como
uma questão de orgulho pessoal manter meus olhos secos na companhia dele. Mesmo
quando tenho que enfrentar um filme insuportavelmente triste, o máximo que qualquer
um de nós dois faz é piscar um pouco mais ou fungar, mas nunca o bastante para
precisar de um lenço.
Apesar disso, H tem a impressão de que sou tão chorona quanto um recém-nascido.
Acho que é porque eu choro quando brigamos ou quando estou chateada. Isso me parece
perfeitamente normal, mas em relação a ele, é terrivelmente lacrimoso. Tenho medo de
pensar o que ele pensaria de mim se eu chorasse todas as vezes que sinto vontade.
Mas recentemente, H chegou em casa e disse:
— Tive que encostar o carro no caminho para o trabalho hoje de manhã de tanto que
eu estava chorando.
Ele estava escutando A menina que roubava livros em audiolivro. Isso me
surpreendeu, não tanto por ele ter chorado, mas por estar disposto a admitir. De
repente, me pareceu ridículo estarmos privando um ao outro desse ato de intimidade.
Concordamos em deixar de lado a próxima sedução e aprender a chorar na frente do
outro no lugar dela.
Como meio de chegar a isso, escolhemos Onde vivem os monstros, a adaptação de
Spike Jonze para o famoso livro infantil. É um filme incrivelmente triste, que captura o
deslocamento e a solidão de ser criança. Sinto minha garganta apertar nos primeiros
cinco minutos, quando o iglu de Max é destruído por chutes dos amigos da irmã dele, e
tenho imediatamente o impulso de segurar as lágrimas, mesmo no escuro. H está
deitado, encostado em mim, e é inevitável reprimir o reflexo de tremor na barriga. É
muito intenso, muito no começo.
— Isso já é triste — eu digo, e H responde:
— Estou tentando não pensar demais sobre isso.
É justo. Ele tem mais a perder do que eu. Deixo que ele se afunde silenciosamente
contra o meu corpo e assistimos ao restante do filme em silêncio. Ele provoca coisas
estranhas na minha mente, com todas aquelas alusões a mães e pais e como não
conseguem não mostrar seus defeitos. A dancinha de robô de Max, executada para a
mãe quando ela recebe uma ligação difícil de trabalho, me lembra de quando eu tinha 4
anos e estava esperando minha mãe acabar de falar com meu pai ao telefone durante o
período do divórcio, pronta para cantar todas as músicas que eu sabia para fazê-la sorrir
de novo. Quando o enorme monstro Carol destrói seu próprio forte por frustração, sou
remetida à tarde em que meu pai colocou o rosto no meu colo e chorou, depois de
desperdiçar um dos nossos raros dias juntos discutindo com a nova esposa.
No final do filme, estou em convulsão pelas lágrimas, cheia da sensação de como era
ser aquela criança solitária e confusa de novo. A adulta em mim também está chorando,
sentindo uma estranha conexão corporal entre aquela época e a atual, aquela mãe
martirizada e minha própria vida sem filhos.
H me observa silencioso e sério.
— Você chorou? — eu pergunto.
— Não — diz ele. — Simplesmente não aconteceu. Mas fiquei muito triste.
Depois disso, vou para o banheiro e choro um pouco mais. Dessa vez, pelo garotinho
que aprendeu a não chorar com coisas tristes.
Agosto
Fiz depilação completa pela segunda vez. Eu não esperava que fosse acontecer. Mas
gostei tanto da primeira que nada pareceu bom o bastante depois.
Antigamente, eu veria com leve reprovação as mulheres que removem todos os pelos
pubianos. Eu seria educada demais para dizer, mas sentiria que elas estavam de alguma
forma traindo a irmandade, fazendo concessões demais para o olhar masculino. Nunca
me ocorreu que elas podiam estar se divertindo. Depois da primeira vez, reparei que me
senti distintamente adulta em vez de infantilizada; mas agora eu também acrescento que
me dá uma sensação de controle sobre um corpo às vezes incontrolável. Xeque-mate. Eu
posso tornar este corpo sexy.
Herbert também travou sua própria luta para gostar das minhas partes íntimas
depiladas. Ele realmente queria não ter achado atraente. Mas não conseguia parar de
olhar e não conseguia impedir que seu corpo reagisse ao que via. Quando eu estava
pensando em voz alta se deveria fazer pela segunda vez, ele disse imparcialmente:
— Gosto dos dois jeitos, não tenho preferência.
Mas depois, ele acabou admitindo que realmente gostava da minha xoxota careca.
Ele acrescentou, com culpa:
— Eu podia me depilar também, se você quiser.
— Por que você faria isso?
— Para que não seja só você. Para que seja igual.
— Você gostaria de depilar? Excita você?
— Na verdade, não.
— Então não depile.
Parece que inventamos umas regras ridículas com relação aos corpos das mulheres. Só
estamos tentando acertar e estamos preocupadas com a forma pela qual as mulheres
podem perder o poder em alguns relacionamentos (e em algumas sociedades inteiras).
Estamos enojadas com a extensão da violência doméstica e pelo modo como os corpos
das mulheres são vistos como ímãs para estupro e abuso. Estamos cansadas do desfile
de formas femininas vistas como objetos, desprovidas de qualquer personalidade ou
preferência.
O problema é que aqueles corpos não são o meu corpo. E se eu crio uma série de
regras pessoais em resposta a esses horrores, não protejo aquelas mulheres e minimizo
minha relação consciente com meu próprio corpo. Não quero que as mulheres em geral
sejam tratadas como crianças, mas eu depilar ou não meus pelos pubianos não faz a
menor diferença quanto a isso. E se eu removo a sexualidade do meu corpo
completamente, não faço nada que atinja o patriarcado; eu só restrinjo minhas próprias
escolhas e me afasto mais de compreender a verdade sobre minha própria sexualidade.
Isso não é liberação.
As pessoas falam sobre pós-feminismo: a ideia de que, com as batalhas feministas
vencidas, as mulheres podem começar a escolher dentre os espectros de identidade que
existem por aí, mesmo se algumas delas parecem bastante com os papéis tradicionais
que pensávamos terem sido abolidos. Mas, para mim, isso não se trata de feminismo.
Estou preocupada com os direitos humanos em geral. Não quero que ninguém machuque
ninguém. O machismo me irrita tanto quanto a qualquer mulher (mesmo aquelas com
todos os pelos pubianos intactos), assim como a atitude feminina antagônica de que os
homens são maus e não valem nada.
Se aprendi alguma coisa este ano, foi que precisamos tirar o “deveria” do âmbito do
sexo. Não existe forma específica na qual eu “deveria” usar meus pelos pubianos. Não
existe forma específica na qual eu “deveria” querer fazer sexo. Só interessa a mim e a
mais ninguém. O que eu negocio com meu parceiro só interessa a mim.
Sei que algumas pessoas vão dizer: “Ah, mas você tem sorte de ter escolha.” É
verdade, tenho mesmo. Não vejo conflito entre depilar meus pelos pubianos e defender
as mulheres contra a circuncisão forçada. As duas atitudes são perfeitamente
compatíveis. Tenho a maravilhosa escolha de descobrir o que sensibiliza meu corpo e ir
atrás disso. Qual é o sentido de desenvolver novas tiranias em lugar das antigas?
Sedução no 30
Despertar erótico

Se qualquer pessoa entrasse no quarto agora, acharia que Herbert estava cochichando
com meu clitóris.
Não é deliberado. É que seu rosto está bem perto, e fico dizendo para ele tocar com
mais delicadeza, mais delicadeza, mais delicadeza; a cada ajuste, o volume da voz dele
diminui um tom.
— Estou tocando nele, afinal? — pergunta ele.
— Está — eu digo. — Acho que sim. Assim está ótimo.
Devo observar que, a essas alturas, depois de 15 anos juntos, você esperaria que ele
já soubesse disso, mas se aprendemos alguma coisa ao longo dessas seduções é que
nada é como se espera. Estamos praticando as carícias envolvidas na Massagem de
Despertar Erótico do livro Urban Tantra , e esta é uma aula prática sobre o quanto
conhecemos pouco a área íntima um do outro. Na verdade, também é uma aula prática
sobre como conhecemos pouco sobre nossas próprias áreas íntimas.
Durante a massagem de Herbert, tenho que fazer coisas variadas, como esticar, girar,
torcer, beliscar e apertar o pênis dele; preciso prestar atenção aos testículos, à uretra
(para mim, é “o buraco do xixi”), à membrana do pênis e ao períneo. De vez em quando,
ele diz:
— Vou ter que não olhar para decidir se gosto disso. — Aí ele fecha os olhos e
geralmente descobre que gosta.
Isso tudo é muito divertido. Faz com que eu me dê conta do quanto meu repertório era
limitado até agora. Os pênis, ao que parecem, toleram todas as formas de contorção e
ainda acabam felizes. H certamente diz “mais forte” muito mais vezes do que diz “mais
suave”, e reclamou uma vez. O fato de que diz algo é a melhor parte; me faz perceber
que aprendi a lidar com um pênis com completa ausência de feedback. Como podemos
decidir sozinhas o que fazer com uma criatura tão estranha? Não é de surpreender que eu
tenha escolhido a manipulação com apenas uma das mãos anos atrás e tenha
permanecido usando somente ela até agora. Parecia produzir resultados.
A Massagem de Despertar Erótico é gloriosamente metódica. Você trabalha nas partes
do seu parceiro até sentir que mapeou cada centímetro. Quando chega minha vez de
receber, descubro inesperadamente que gosto de ter meu útero massageado e que os
pequenos e delicados toques que H dá ao redor do meu clitóris e da minha vulva são
geralmente deliciosos. Ele tende sempre a fazer sexo oral como preliminar, então fico
feliz em vê-lo olhando para o livro com perplexidade, tentando entender que parte é
qual.
Acho que eu preferiria que ele nunca tentasse fazer contato direto com meu clitóris de
novo, e também acho que é bom saber disso. Enquanto puxa a fina pele que o recobre,
ele diz:
— Eu vivo o perdendo.
Eu tenho que sussurrar:
— Sim, é porque você fica espetando-o e ele se esconde.
Sempre achei que um pouco de conhecimento é uma coisa perigosa quando se trata
de homens e clitóris, e esse toque em particular é insuportável.
Ele fica surpreso com o quão delicadamente eu gosto de ser tocada e com o quanto as
sensações são precisas. Mover os dedos alguns milímetros significa a diferença entre o
céu e a total indiferença.
Você repara bem mais nas coisas quando está só recebendo e não tentando ser
recíproca. Minhas mãos seguem sempre para o corpo dele porque não sei bem o que
fazer. Acho difícil me concentrar no momento, nas sensações que ele está me dando.
Mais do que isso, acho difícil confiar nele, principalmente com ele distraído, lendo um
livro. Algumas vezes, preciso exigir que ele escute quando estou dando feedback, porque
ele não está prestando atenção. Isso me deixa cada vez mais tensa.
O que reparo mais do que tudo é como meu humor muda quando passamos para a
parte da massagem dentro da vagina. Sou tomada por pensamentos obsessivos sobre se
ele vai provocar os sangramentos de novo. Acho que me sinto fora do controle; fico
perguntando “o que você está fazendo agora?” e ele tem que ler a descrição do livro para
que eu me sinta à vontade de novo. Tento me concentrar nas sensações, mas meu
cérebro não está sintonizado para realmente apreciá-las. Meu corpo está puxando a
ponte levadiça.
Então H vira a página e diz:
— Oh.
— O quê?
— Cheguei na parte do colo do útero.
— Tudo bem, então já chega pra mim.
— Podemos voltar um pouco, para as coisas das quais você estava gostando.
— Não — eu digo. — Acho que foi o bastante por hoje.

erbert está no quarto, de cama. Ainda está se sentindo tonto e não consegue ficar

H acordado.
Está claro que é só uma virose. Como todos sabemos, elas não são tratáveis e
precisam de repouso e espera. Mas costumo achar que essas coisas só nos atingem
quando deixamos — essas pequenas doenças chatinhas costumam sinalizar que estamos
esgotados, estressados ou nervosos.
As seduções estão pesando nas costas de Herbert agora. Faltam 19 e ele está com
medo de ficar sem ideias. Quando estamos juntos na cama, ele se desconcentra com
facilidade e se preocupa com a técnica. Já reparei que está com alguns pelos pubianos
brancos; e o que eles representam já não me passa despercebido. Em que ponto
deixamos de ser estudantes voluntários de sedução e passamos a nos preocupar se
somos experts o bastante?
Um exemplo: semana passada, ele anunciou ter visto uma coisa tarde da noite no
canal 5 sobre como fazer sexo oral em uma mulher.
— Venho fazendo errado todos esses anos — disse ele.
Nunca me pareceu errado, mas deixo que faça do novo jeito. Pelo que percebo, o
“jeito certo” é chegar de lado (como tocar uma gaita) com uma das mãos no períneo e
outra no baixo-ventre, esticando os dois pontos. Em seguida, você lambe só o clitóris.
Tentamos por um tempo e foi gostoso (todo sexo oral é gostoso), mas mecânico e
repetitivo. Por que deixar de lado todas as maravilhosas partes sensíveis só para usar
uma técnica que é fácil de se resumir?
— Você se saía bem melhor fazendo do seu jeito — falei para ele. — Você descobriu
sozinho.
Se aprendi alguma coisa sobre sexo nas trinta seduções que fizemos até agora, foi que
a técnica mata o desejo. Seja um amante cheio de conhecimentos, mas nunca esqueça
que o que faz o desejo levantar voo é o contato. O bom sexo é mais ou menos como um
fluxo livre de comunicação. Quando ouvimos, quando realmente nos sintonizamos ao
corpo e à mente do nosso parceiro, parece que criamos uma conexão elétrica. Não
chegamos perto desse momento do fluxo se seguirmos o livro-texto.
Quando comecei minhas aulas com Barbara Carrellas, ela me perguntou em que
problemas eu queria me concentrar.
— Minha inibição — eu disse —, minha incapacidade de me entregar.
Esta semana, ela riu e me disse:
— Você NÃO é inibida. Britânica, talvez. Mas simplesmente não está interessada em
fazer as coisas por fazer. Não tem paciência para as coisas que não são sinceras. Você é
uma nerd do sexo. É uma de nós.
É estranho, porque depois disso senti como se uma cortina tivesse sido levantada. Fui
modificada por isso. Não há volta. Não sou a pessoa mais sexualmente elétrica do
mundo, mas tenho desejo e ele bate à minha porta com regularidade crescente. Não
estou mais preocupada se todo mundo está fazendo mais sexo que eu. Algumas pessoas
fazem, mas já vi o bastante para saber que não é comparável. Meu sexo é meu sexo, e o
sexo das outras pessoas é delas.
Sinto como se tivesse trocado de pele. Ou talvez eu apenas possa abaixar aqueles
espinhos de ouriço. E, como Herbert, estou apavorada, exausta e com frio na barriga
porque não há mais volta agora. A mudança é sempre dolorosa. Só ficar de pé neste
planeta girando é o bastante para me deixar tonta às vezes. Mas estou finalmente
convencida de que estamos mudando para melhor.
Sedução no 31
Respiração do fogo

Herbert ainda está sofrendo pelo vírus misterioso. Está exausto, com dor na cabeça e nos
ombros. Fiquei tentada a achar que era uma doença emocional despertada por meu
recente entusiasmo por sexo tântrico, mas acabei admitindo que talvez os sintomas
fossem genuínos. Ele passou a maior parte da semana assistindo a Stargate Atlantis na
cama, uma maneira certeira de me afastar do quarto.
Isso é uma pena, porque minha depilação completa está fazendo milagres. Sem insistir
muito no assunto, a depilação me faz sentir como uma nova mulher — uma cuja vulva
não é mais encoberta por pelos pubianos, e assim se fricciona contra uma quantidade de
superfícies novas e interessantes. Eu estou — e vamos falar a verdade, isso é raro —
“pronta para a ação”. H claramente não está. Na noite de terça, ele faz uma sugestão
cansada:
— Fico feliz em ver você se masturbar — isso é o máximo que ele está disposto a dar.
“Bem”, eu penso, “acho que vou ter que seduzir a mim mesma”. Ele vai trabalhar na
sexta e fico sozinha em casa. E agora que penso no assunto, tem uma coisa que quero
fazer há algum tempo, que realmente não fica melhor a dois: o orgasmo tântrico da
Respiração do Fogo.
Existe certo misticismo ao redor da Respiração do Fogo, que é uma combinação de
respiração, visualização e contrações pélvicas. Quando falo no Twitter que vou
experimentar, uma pessoa imediatamente responde para me avisar que ouviu dizer que
isso pode deixar você maluca. Leio isso com certo ceticismo, porque não consigo
imaginar como pode acontecer. É só respiração, certo?
Em teoria, a Respiração do Fogo ajuda você a acessar um estado de êxtase, uma onda
de energia por todo seu corpo, em vez de apenas limitada aos genitais. A reputação é
que também pode despertar emoções muito fortes, sejam felizes ou tristes. Você não
escolhe. Mas como o risco de loucura, luto para acreditar que poderia ser afetada com
tanta intensidade. Nada me desanima. De qualquer forma, já passei pela técnica básica
durante meu workshop no Xplore. Ninguém perdeu um braço nem uma perna, embora
várias pessoas tenham chorado depois. Eu estava muito ocupada pensando no que
Herbert devia estar pensando para me dedicar completamente naquele momento.
A técnica parece um pouco com bater na cabeça e esfregar a barriga ao mesmo
tempo: para principiantes, você precisa respirar de uma certa forma, contrair os músculos
da base da pélvis e balançar a pélvis. Demora um tempo para pegar o jeito, e paro várias
vezes e recomeço. Desconfio que seja apenas falta de prática. Depois preciso visualizar a
energia circulando nos meus chakras, percorrendo meu corpo.
Fico ali deitada, bufando e resfolegando e apertando a base da pélvis, pensando: “Ah,
isso provavelmente quer dizer que ao menos posso pular a meditação desta noite.” O
balanço e as contrações são gostosos e me consolo com isso.
Mas aí algo estranho acontece. Quando a visualização chega perto da parte de cima do
meu corpo, começo a ter a sensação de que não estou mais imaginando. A energia
parece estar subindo sozinha. Ela chega ao topo da minha cabeça e eu prendo a
respiração, contraio todos os músculos do meu corpo e solto...
Por alguns momentos, sinto como se todo meu sangue subisse de repente para a parte
de cima da minha cabeça e cores piscam na frente dos meus olhos: azuis e verdes
pulsantes. As solas dos meus pés formigam. Em seguida, tudo fica preto e vazio e
atemporal. Eu volto a mim me sentindo sonolenta e serena, meio que energizada em
todas as partes. Parece impossível, mas uma hora se passou desde que comecei.
Fico impressionada, assustada e um pouco confusa. Não tenho ideia do que aconteceu,
mas mal posso esperar para tentar de novo.
Talvez uma sedução sozinha não conte, mas me ocorreu, ao refletir na sequência
desse evento bizarro, que devemos aprender a seduzir a nós mesmos antes de querer
seduzir outra pessoa.
Sedução no 32
Marte ataca

Estou lendo Os homens são de Marte, as mulheres são de Vênus e odiando cada segundo
de leitura. Quero muito que esteja errado; quero muito viver em um mundo pós-sexo no
qual não sejamos nem homens nem mulheres, mas apenas pessoas. Não. Acontece que
Herbert é um perfeito ser de Marte e eu sou um perfeito ser de Vênus, apesar de não
querer assumir isso.
Vejamos, por exemplo, este final de semana. H diz que está doente demais para o
sexo, mas parece surpreendentemente animado fora do quarto. Minhas sugestões de
praticarmos respiração tântrica são respondidas com um suspiro martirizado. Na
segunda-feira, estou realmente cansada disso. Parece que ele não está cooperando e que
estou fazendo tudo sozinha.
Isso geralmente levaria a uma briga. Mas naquela tarde levo Marte & Vênus para um
café e o acho decepcionantemente revelador. Ao que parece, Herbert está sentindo que
sua competência está sendo desafiada por todas as coisas novas e técnicas para as quais
tenho tentado arrastá-lo. Ele resiste passivamente e retornou à sua caverna para fazer
cara feia. Eu quis dizer pensar, me desculpe.
Como venusiana que sou, permito que todas as minhas emoções dependam das
reações dele e não imponho limites quanto ao tanto que estou disposta a trabalhar pelas
seduções antes de ficar zangada. Bem, ao menos essa é a teoria. Mas o que isso significa
na prática?
Naquela noite, decido testar um pouco da teoria Marte & Vênus. Eu me certifico de não
estar em casa quando ele chega. Saio para uma longa caminhada na beira da praia, o
que me ajuda bastante a ficar menos irritada. Quando volto, vou direto para o chuveiro
depois de um rápido oi. H não está acostumado com isso. Eu geralmente caio em cima
dele quando ele chega em casa e quero saber sobre cada detalhe do seu dia. Ele acaba
indo atrás de mim para o banheiro e diz:
— Malhei um pouco quando cheguei em casa e depois tomei banho.
Tradução: “Onde você estava?”
— Muito bem! — digo eu, muito bem-humorada.
Em seguida, faço sanduíches de frango para o jantar. Sem sujeira, sem talheres. Eu
confesso que possivelmente transformo o jantar em trabalho árduo na maior parte das
noites; adoro cozinhar e às vezes meus padrões se elevam demais. Não esta noite.
Comemos os sanduíches, eu lavo a louça, H lava a roupa e eu vou para meu escritório
ler. Pela segunda vez nesse dia, é ele quem vai atrás de mim.
— Temos alguma coisa planejada? — pergunta ele.
— Não — eu digo. Eu me levanto e me aconchego nele. — Podíamos fazer sexo?
— O que você tinha em mente?
— Nada. Sem planos. Nada de sedução. Vamos apenas fazer sexo, como antigamente,
que tal?
Ele parece desconfortável.
— Mas sem penetração.
Eu tinha esquecido sobre isso. Sugeri recentemente para Herbert que eu talvez
sentisse mais entusiasmo por sexo se não tivesse a desconfiança insistente de que podia
me machucar. Que eu preferia racionar o sexo com penetração a parar de fazê-lo
completamente.
— Isso preocupa você? — eu digo.
— Não.
— Porque sou levada a acreditar que há algumas coisas das quais você gosta nesse
tipo de sexo.
— Não sou eu — diz ele. — É você.
Ele está certo. Geralmente sou eu quem pede por sexo com penetração. Adoro a
sensação de ser preenchida e adoro os orgasmos que tenho. Sinto como se pudesse me
perder nisso. Até recentemente, é claro, isso me tornava uma boa companhia. Mas
agora, posso ver por que isso talvez deixe H se sentindo um pouco incompetente.
— Hum, acho que sobrevivo — eu digo —, mas precisamos pensar em um termo mais
sexy do que sexo sem penetração.
— SSP — diz ele.
— Certo — eu digo —, vamos fazer SSP. Ou será que dizemos “desempenhar” SSP?
Tenho certeza de que não preciso mencionar a variedade de coisas que podem
constituir SSP, então vamos pular para o final. Estamos os dois deitados em um estado
pós-orgasmo e tenho uma ideia.
— Herbert, olhe só uma sedução para você. Vou deixar que você tire uma foto da
minha vagina com seu celular novo, mas em retribuição você vai ter que se masturbar
em público, olhando para ela, amanhã. Depois vai me dizer como foi.
— Ceeeerto — diz H. — Que tipo de “em público” você quer dizer?
— Ah, só fora de casa. Em algum banheiro. Não no meio do shopping center.
— Mas tenho que trabalhar amanhã. Não vou trabalhar de casa.
— Você não tem hora de almoço?
— Sim, mas vou para o pub com J... Ah...
— Ótimo. Você pode fazer lá.
Herbert pensa por um tempo, sem parecer muito entusiasmado com a ideia.
— Bem, considerando que tenho a tecnologia, seria uma pena não fazer um vídeo.
Não posso discutir com isso, posso? Ele corre para pegar o celular, e antes que eu
perceba, estou seguindo várias instruções de botar a perna aqui, abrir os lábios, mover
meus dedos em direção à minha vagina. Não pela primeira vez, acho engraçado o quanto
a imaginação masculina é específica quando se trata de ver uma mulher. A câmera
representa um olhar luxurioso sobre meu corpo. Eu gosto disso.
Depois disso, ele se deita ao meu lado e mostra o filme. Não estou de óculos, então
vejo um borrão, mas consigo ver a pele clara com uma linha mais escura no meio, e
depois a câmera se afasta e mostra meus contornos nus contra o lençol azul-turquesa.
Fico mais do que lisonjeada de ele querer meu corpo todo na imagem.
Por volta da hora do almoço no dia seguinte, recebo uma mensagem de texto de H.
Gozar, eu acabei de.
Demoro alguns momentos para entender o que ele está falando.
Você está me contando no estilo de Yoda?, eu respondo.
Sim. Acrescenta emoção.
Não, Herbert, não mesmo.
Quando ele chega em casa à noite, pergunto como foi.
— Bem, bati uma no banheiro do pub, o que posso dizer?
— Foi bom?
— Foi.
— E...
Herbert suspira.
— Foi meio barulhento. Eu estava em uma cabine, então tive que ser cuidadoso. Além
do mais, botei meu celular pra tocar todos os vídeos, em vez de só o seu, sem querer.
Acabei assistindo ao trailer de Kick Ass – Quebrando Tudo por um tempo. Aí parei e
programei o celular para ficar repetindo o vídeo com você. Quase derrubei o aparelho na
privada. Aí percebi que precisava de um pouco de lubrificação, então, sabe, cuspi na
mão...
Eu: — Rá! Então O Segredo de Brokeback Mountain estava certo!
H (me ignorando): — ... mas isso foi muito barulhento, então tive que secar a mão.
— Então foi meio ruim, de um modo geral?
— Não. Tive um orgasmo ótimo, na verdade. Só que J olhou para mim de um jeito
meio engraçado quando voltei do banheiro.

ico tão bêbada na noite de sexta que tenho que passar a maior parte do sábado na

F cama.
Entenda que não estou falando isso com orgulho. Eu devia ter passado para o
chá por volta da meia-noite em vez de servir mais vinho na taça das pessoas. Tenho um
modo bem estabelecido de dizer que bebi demais: toco compulsivamente Journey of the
Sorcerer, do Eagles, para meus convidados. Ignorei esse aviso e toquei em seguida outra
música que também é um aviso: Egyptian Reggae. Quando vou aprender?
O motivo de eu contar isso não é para me torturar com a culpa. É só que a experiência
me fez pensar nas formas pelas quais, às vezes, escolhemos a doença em vez de a
saúde.
Enquanto estou deitada na cama no sábado à tarde, tentando ficar parada o suficiente
para evitar vomitar, penso que as ressacas não são tão acidentais quanto parecem. Não
são uma falha na moderação, mas sim uma escolha contra ela, uma redenção deliberada
para a noite. São uma forma de chegar ao seu eu mais jovem novamente, àquela época
em que você não tinha muita coisa para fazer na tarde de sábado e podia ficar mais
tempo na cama. São um pedido de descanso da esteira da vida adulta. São um pedido
para esquecer por um tempo que você tem 33 anos, que é funcionalmente estéril, que
espera pelos resultados de mais biópsias do colo do útero e que não faz ideia do que vai
acontecer em seguida.
Eu adoraria ter um modo mais emocionalmente inteligente de lidar com os momentos
de transição da vida, mas isso é o melhor que tenho. Ao deixar de lado um pouco do meu
controle adulto, tenho que botar para fora o distúrbio que sinto. Transformo uma crise
emocional em uma crise física muito mais tangível e contornável. E isso, por outro lado,
significa que me cuido melhor durante alguns dias.
Sedução no 33
Tempo e maré

Herbert está determinado quanto a isto.


— Mas está chovendo — eu digo. — Vamos ter que adiar até que o tempo melhore.
— O site da BBC diz que não vai haver uma só nuvem no céu à 1h da madrugada.
— Não vou esperar até a 1h da madrugada.
— As nuvens não somem de repente. Vão embora gradualmente.
— Bem, desde que você não se importe que eu vá de galocha e capa de chuva.
— Parece encantador.
Maldito. Era para ele desanimar. Em vez disso, contemplo meu guarda-roupa e
imagino qual pode ser o traje mais apropriado para sexo em uma praia com chuva.
— Devo pegar a toalha de piquenique no sótão? — grita H do andar de baixo.
— Não vou me deitar de jeito nenhum!
O que acontecer vai ter que ser de pé, sem dúvida com nós dois apoiados em uma das
muretas de madeira que cercam a praia. Isso ao menos facilita na escolha da roupa. Saia
comprida, sem calcinha, meias grossas (está frio lá fora), botas e, sim, a capa de chuva.
Eu não estava brincando.
Está escuro quando entramos no carro, mas a chuva parou. Conforme dirigimos pela
costa, vemos que o sol ainda não se pôs completamente. O horizonte brilha em um tom
vermelho, com pesadas nuvens pretas acima. Vemos pedaços da praia entre as casas. O
mar está iluminado pelo sol que se esconde. O visual está tão lindo que ofego, e H vê o
que vejo nessa hora e encosta o carro. Coloco a mão na coxa dele e ele a segura. Há
alguma coisa de excitante nessa praia escura e carregada, apesar da capa de chuva.
Dirigimos até que haja menos casas e paramos em um estacionamento vazio. Agora, o
mar está escondido atrás de um banco de areia. Subimos os degraus de madeira
escorregadios até chegarmos ao topo. Abaixo de nós, o quebra-mar forma uma silhueta
preta contra uma linha estreita de céu azul e laranja. A maré está baixa, revelando a
areia molhada repleta de piscinas rasas e espelhadas, cada uma refletindo o pôr do sol. É
uma visão linda, o mar azul-prateado e o céu azul-prateado. Nós dois corremos até a
beira da areia e ficamos em silêncio, ouvindo o som da água à nossa frente e os pássaros
cantando no pântano atrás de nós. O ar está vibrando de eletricidade, à espera de outra
tempestade.
Eu me encosto em uma coluna áspera de madeira e puxo H em minha direção. Nós
nos beijamos e ele levanta minha saia, depois coloca o pênis semi-enrijecido entre
minhas coxas. Ele reage imediatamente ao toque. Parece que absorvi um pouco da
estática do ar.
Esta noite, sei que H gostaria de uma repetição de sua lembrança favorita, da noite
em que fizemos sexo na praia depois do nosso casamento atrasado, mas não é para
acontecer. Enquanto nos beijamos, ouvimos vozes ao longe e duas pessoas aparecem no
caminho, acima da praia. H rapidamente fecha o zíper do jeans e eu digo:
— Bem, talvez seja melhor irmos para casa, para a cama. Vamos chamar isso da
melhor preliminar do mundo.
Nós nos viramos para o mar a fim de dar uma última olhada antes de voltarmos para o
carro. Acima de nós, as nuvens se foram e vemos um céu repleto de estrelas.
Setembro
Primeiro dia de trabalho depois das férias escolares. Eu não queria estar nessa situação.
Meu trabalho é financiado pelo governo e nos preparamos para cortes este ano. Eu tinha
esperanças de já ter encontrado outro emprego, mas não há nenhum por aí. Eu me sinto
um alvo fácil.
Logo cedo, reunião. Meu cliente chega 45 minutos atrasado, mesmo eu tendo dirigido
uma hora até o local de trabalho dele. Estou furiosa. Ele não me oferece nem um copo de
água.
Volto para casa a fim de atacar a enorme pilha de papéis que só aumenta. A conta do
cartão de crédito é uma surpresa. Estou atrasada na lavagem das roupas. O chão do meu
escritório está coberto de coisas que serão vendidas em um bazar no qual vou ajudar
semana que vem. Minha mãe, que mora na Espanha, mandou um e-mail para dizer que a
situação da coluna dela piorou tanto desde que a vi que ela luta para se vestir de manhã.
Ela vem me visitar na semana seguinte, então marco uma consulta com um
fisioterapeuta e torço para ela não se irritar. Eu me preocupo com a cama na qual estava
planejando colocá-la para dormir e me dou conta de que preciso comprar uma nova. Eu
queria que ela não morasse tão longe.
Começo a escrever minha lista de coisas a fazer. Minha dentista se esqueceu de
escrever uma recomendação para o cirurgião sobre meu maxilar, que parece estar se
deslocando para a esquerda de uma maneira dolorosa. Ela me diz que vai fazer isso na
sexta. Respiro fundo e ligo para o consultório do ginecologista, que não fez contato
depois de sete semanas para me dar o resultado da biópsia e nem para marcar uma nova
consulta.
— A secretária dele pediu demissão de repente e há um buraco enorme na papelada
— me diz alguém. — Estamos tentando resolver.
Pergunto se há alguma previsão de quanto tempo vai demorar.
— Não sei.
— Olhe só — eu digo —, estou esperando pelo resultado da minha terceira biópsia
para investigação de câncer de colo de útero. Você não pode apenas me dar o resultado?
— Não. Está no sistema, provavelmente sendo digitado. Ligue no final da semana.
Começo um discurso crítico sobre há quanto tempo isso está acontecendo, como sou
empurrada de um lado para o outro e que estou cansada disso, mas vacilo no meio. A
mulher na outra extremidade da linha ficou quieta.
— Me desculpe — eu digo —, sei que isso não tem nada a ver com você.
— Está terrível aqui — diz ela baixinho. — Tanta coisa caiu sobre nossas cabeças e não
estamos conseguindo resolver.
Recebo um e-mail de trabalho me pedindo para fazer a avaliação de um projeto que
nem aconteceu ainda. Respondo, perguntando como poderia fazer isso. Meus batimentos
cardíacos soam fortes nos meus ouvidos.
Várias vezes durante os últimos meses eu cultivei a fantasia de entrar debaixo da
minha mesa e ficar em posição de proteção contra desastres.
Mas hoje, eu penso: “Mas que porra.” Respiro fundo, puxo minha cadeira e examino o
espaço debaixo da mesa. É pequeno, mas acho que caibo. Eu me espremo lá embaixo,
apoio o queixo nos joelhos e coloco as mãos sobre a cabeça. Queria ter feito isso meses
atrás. É maravilhoso: abafado, escuro, com cheiro de madeira seca. Eu me sinto tão boba
que acabo sorrindo. Meu batimento cardíaco acelerado soa delicioso lá embaixo, como o
vento soprando na praia.
Eu me pergunto quanto tempo é aceitável que eu fique ali. É desconfortável, mas pelo
menos é um desafio que consigo encarar. Encontro a costumeira junção de sobrancelhas
no meio da testa e a desfaço com os dedos. Eu me aconselho a não chorar para cima de
Herbert quando ele chegar em casa.
Nessa hora, na mesa acima de mim, sinto meu telefone vibrar avisando da chegada de
uma nova mensagem de texto. Estico a mão hesitante e o levo para meu mundo
escondido. É de Herbert.
Estou saindo do trabalho, então você precisa se preparar para o meu plano, hehe.
Espero que ainda esteja usando aquela saia curta, a mesma de hoje de manhã.
Coloque meias compridas e uma calcinha branca de algodão.
Você pode se preparar e ficar molhada para mim, talvez usando seu vibrador?
Vou mandar uma mensagem de texto quando tiver estacionado lá fora. Vá até a
cozinha e se incline na bancada.
Eu vou entrar e, sem falar nada, vou começar a te comer. Não vamos falar nada até
que isso tenha acontecido.
Está bem assim? Estou ficando excitado só de escrever.
Fico olhando para a mensagem por um tempo, com a luz do telefone como um clarão
no meio da escuridão.
Estou rindo como uma estudante, eu respondo.
Sedução no 34
Homem misterioso

Estou empolgada com essa. Herbert sugere uma sedução que é tão específica e incomum
que parece que vi uma parte das fantasias dele. Eu me pergunto se alguma vez o convido
para dentro da minha mente dessa forma.
Só que não tenho uma única calcinha branca de algodão. É coisa da lei de Murphy,
que, considerando minha exemplar coleção de lingeries, meu marido vá querer uma
calcinha branca de algodão. Mexo na bagunçada gaveta de calcinhas em procura de algo
da mesma categoria e encontro uma que tem corações amarelos e rosa nela toda. Vai ter
que servir. As outras opções são minha calcinha preta esportiva ou minha ceroula térmica
(tudo bem guardadinho), que uso na caminhada na neve que faço uma vez por ano. E
depois a tiro assim que chego em casa, para que ninguém me veja com ela.
Meias compridas, saia curta, calcinha de corações. Parece que tenho 15 anos de novo,
mas sem a tinta verde no cabelo. Começo a limpar a bancada da cozinha, a única parte
que não tem armários em cima. Tem um suporte magnético de facas, mas não posso
fazer nada quanto a ele. Tiro a chaleira elétrica da tomada.
Por mas feliz que eu esteja em acatar o pedido de masturbação (como já mencionei,
eu trabalho de casa), eu me cubro de lubrificante. Quando ele manda a mensagem de
texto para avisar que estacionou lá fora, passo mais um pouco. Essa transa improvisada
precisa de um pouco de planejamento.
Quando a porta da frente se fecha, eu me inclino sobre a bancada da cozinha. Escuto
H tirar a roupa na sala de estar e entrar na cozinha. Ele não desperdiça tempo para
executar o que prometeu, embora seja um tanto desajeitado no começo, talvez por não
ser tão fácil quanto ele imaginou. Mas também é maravilhoso. Sinto seu pênis crescer
quando ele entra em mim e suas pernas nuas roçando contra as minhas. Tenho que me
sintonizar com cuidado para sentir se ele está gostando, pelos sons que faz e pelos
movimentos.
Depois de um tempo, começo a me perguntar se ele está enrolando demais. Para
executar esse tipo de fantasia com eficácia, acho que você tem que abandonar suas
preocupações com o orgasmo feminino. Isso não é uma coisa que H faz sem permissão
explícita. Então eu me viro, passo as pernas ao redor dele e grudo a boca em seu
mamilo. Ele geme e prosseguimos com entusiasmo.
Alguns minutos depois, vejo seus olhos se arregalarem e ele segura meus ombros e
ofega. “Orgasmo espetacular”, eu penso. Mas não.
— Me desculpe quebrar o clima — ofega ele —, e não é que eu não goste de você ter
se virado, mas você fica quase batendo com a cabeça no suporte de facas e estou com
dificuldades de me concentrar. — Ele tira as facas uma a uma, coloca na pia e
prosseguimos: um pouco mais de tempo sobre a bancada e depois no chão da cozinha.
Depois que terminamos, ele sorri, me beija e diz:
— E então, como foi seu dia?
— Bem, eu estava me escondendo debaixo da mesa quando você mandou a
mensagem de texto — eu digo —, mas me sinto bem melhor agora.
Ele olha para mim com os olhos apertados por um momento, depois conclui que eu
devo estar brincando.

inalmente chega uma carta do meu médico. Os resultados do exame são claros.

F Eu me vejo sentindo alívio, depois me xingo por me deixar ficar preocupada com
isso. Só estão fazendo exames porque não têm ideia do que mais fazer. Tenho que
parar de deixar que isso abale meu estado emocional, principalmente com o Serviço
Nacional de Saúde funcionando com a velocidade de tempos geológicos.
Mas, ainda assim, ligo para Herbert aos prantos.
— É uma boa notícia — diz ele. — Não é?
— É — eu falo, fungando. — Mas a próxima consulta é em dois meses. É uma espera
sem fim. E quando finalmente tenho consulta, ele já esqueceu por que fui lá.
— Bem, é para isso que temos o plano de saúde. Você esperou tempo suficiente para
os padrões de qualquer pessoa.
Herbert e eu temos um plano de saúde que você só pode usar se as listas de espera
do Serviço Nacional de Saúde estiverem longas demais. Não fazem perguntas; se você
considera que sua espera foi excessiva, para eles já basta. Confiam que você decidirá de
maneira justa. Isso inevitavelmente me faz me comportar como uma criança culpada
quando penso em usá-lo. Se não há nenhuma emergência, acho difícil justificar o uso.
Mas Herbert tem razão desta vez. Sinto que não estou recebendo o tratamento que
preciso no Serviço Nacional de Saúde. Pego o telefone, pronta para ligar para a empresa
do plano de saúde. Mas na hora em que o menu gravado começa, eu me vejo desligando
de novo.
Nem tenho certeza do motivo. Não me sinto bem quanto a isso. Faço uma xícara de
café para pensar. Por algum motivo, não consigo encontrar justificativa. Não me sinto
mais doente; esse é o problema. É verdade, tenho alguns sintomas, mas sei como
controlá-los sozinha. Desenvolvemos estratégias. O que eu preciso é ficar um pouco mais
em forma, observar o que como e cortar a bebida. Essas coisas não têm nada a ver com
meu médico.
Um ano atrás, eu precisava desesperadamente de atenção médica; agora, já recebi.
Não me proporcionou a cura perfeita, mas me deu o bastante para ir levando. Enquanto
eu confiar nesses profissionais para me classificar, estou presa em um ciclo de dúvidas e
espera, uma dependência que me exaure e me assusta. Quero estar novamente no
controle. Quero o direito de me ver fundamentalmente bem.
Ligo de novo para Herbert.
— Acho que não vou me dar ao trabalho de ligar para o plano de saúde — eu digo
casualmente. — Acho que vou esperar e ver como estou em novembro.
— Você não precisa esperar, você sabe — diz ele, parecendo perplexo.
— Não, está tudo bem, eu quero. É minha escolha.
Sedução no 35
Centrais de atendimento

— Vou entrar em um normal — diz H com decisão.


— Não “Apenas 21” nem “Senhoras Maduras”?
— Não.
— “Amante Dominadora”?
— Não.
— Tem certeza?
— TENHO.
Acho que é um tanto injusto provocá-lo quanto à escolha de tipo de bate-papo quando
é minha culpa que ele precise escolher um. Eu tive uma ideia genial. Uma coisa para
ampliar um pouco a sensação de risco, acrescentar um certo frisson. Ofereci fazer um
boquete em Herbert enquanto ele liga para uma linha de bate-papo de sexo.
Meu raciocínio é o seguinte: é uma forma monogâmica de quase fazer um ménage à
trois. Além disso, reparei no entusiasmo de Herbert em falar baixarias e me pergunto se
isso não pode ser legal. Na verdade, apague isso, não é completamente honesto: tenho
esperança de colocá-lo em uma situação na qual ele se sinta tão pouco à vontade quanto
eu com relação a esses papos eróticos. Há uma parte levemente vingativa de mim que
quer tirá-lo da zona de conforto.
Portanto, é encorajador ver que ele sente a necessidade de tomar duas cervejas antes
de sequer abrir as páginas da Time Out para encontrar um número de telefone
apropriado.
— O álcool dá coragem? — eu pergunto e ele fica vermelho. Não tenho certeza de já
tê-lo visto ficar vermelho antes.
Quem está perdendo a coragem agora sou eu.
— Você não precisa fazer isso se não quiser — eu digo. — Só vale a pena se você
achar divertido.
Ele suspira.
— Parece divertido. Está tudo bem. Só não me faça ligar para alguém especializado
demais.
— Tudo bem — eu digo, e subo para passar batom. Quando volto, H está sentado
pelado na poltrona do meu escritório, com o telefone na mão. Ele se lembrou de colocar
uma almofada ao lado dos pés para que eu possa ajoelhar sobre ela. Fico um tanto
tocada por esse gesto.
Ele não perde tempo e liga, então começo a lamber rapidamente seu pênis ainda
mole. H é capaz de ser tomado por acessos surpreendentes de timidez, então me
convenço de que precisamos alcançar uma ereção antes que ele comece a falar, senão
não há esperança. Mas acontece o contrário: assim que a mulher atende, o pênis dele dá
um pequeno salto de alegria. Consigo ouvir a voz dele acima de mim, estranhamente
perdida e ofegante:
— Alô. Ah, oi, Erica... Meu nome é Herbert... Tenho 38 anos... Você tem 30? Qual é a
cor do seu cabelo?
“O quê?”, eu penso. “Por que isso é importante? Garanto que ela é loura.”
— Erica — diz ele —, tenho uma confissão pervertida a fazer. — Olho para ele na
esperança de ele me ver e sorrir, mas parece que está falando sem ironia alguma. —
Minha esposa está comigo. Ela está chupando meu pau.
Ai, eca, eu penso. Acho que eu não podia esperar que ele não contasse a ela, mas
agora estou pensando no que Erica pensa de mim. Isso me lembra a esposa do vilão de
Quem Vai Ficar com Mary?, que alegremente faz sexo oral no marido enquanto ele
assiste a futebol americano.
— Ela tem olhos castanhos e cabelo castanho acinzentado.
Acinzentado? Ele devia ter contado sobre os fios brancos também.
— Ah, é mesmo? Hummm... Eu gostaria de ver isso. — Erica obviamente acabou de
dizer que gostaria de fazer sexo comigo. Ela conhece as fantasias masculinas, não posso
negar. — Sua fantasia favorita? Sim, me conte... Hummm... Hummm... Hummm... Três
paus... — Como isso funcionaria na vida real? — É, você parece meio gulosa.
Ele continua fechando os olhos e gemendo. Estou começando a me preocupar com as
condições da conta de telefone. Sugo com mais intensidade e começo a calcular
mentalmente o valor final da ligação, já que são 36 centavos por minuto. Isso me acalma
em meio aos “Hummm” e “Oh”.
Ele não fala muita baixaria, na verdade; praticamente só ouve. Então é isso que ele
quer quando pede que eu fale baixarias. Eu não conseguiria suportar soltar aquela pilha
de clichês e, de qualquer modo, H me conhece bem demais para acreditar. Na verdade,
fico espantada com Erica por fazer tudo parecer tão convincente.
Eu penso por um momento se poderia aprender alguma coisa com ela, mas um
pensamento muito mais prazeroso me ocorre: estou terceirizando. As maravilhas do
capitalismo avançado estão tornando possível que eu delegue um elemento
particularmente exaustivo dos meus deveres sexuais. Excelente. Vale cada centavo das
prováveis cinco libras que vai acrescentar à minha conta de telefone.
O segundo bônus é que toda essa atenção feminina leva Herbert ao orgasmo com
velocidade incomum. Ele anuncia duas vezes, para nós duas, e depois agradece
educadamente a Erica pelo tempo dela. Eu me pergunto se deveria gritar “Obrigada,
Erica!” para o telefone também, mas prefiro deixar que ela imagine se Herbert não está
fingindo a existência da esposa extremamente submissa.
á uma briga.

H Como costuma acontecer com essas coisas, ela começa com uma bobagem e se
expande até dominar todo o nosso universo. Eu acuso Herbert de reagir de modo
estranho quanto a buscar minha mãe no aeroporto.
— Não estou agindo de modo estranho — diz ele —, só estou tentando decidir a
logística. Por que você está transformando isso em algo muito maior do que é?
Eu mostro surpresa por ele achar que tem o direito de me responder assim,
considerando que era ele quem estava agindo estranho. Dá para ver como o círculo
começa.
— Por que você sempre tem que fazer isso? — diz ele. — Por que sempre tem que ver
o pior em mim?
Estávamos andando perto da praia quando isso acontece.
— Mantenha a voz baixa — eu digo. — Você está nos fazendo passar ridículo.
Ele sacode a cabeça e continua.
— Esqueça — eu digo. — Eu vou buscá-la. É mais fácil.
— Não tenho problema algum em ir buscá-la — diz ele, quase gritando.
— Tá! Tudo bem! Você não tem problema. Está certo. Vou buscá-la mesmo assim.
Andamos em silêncio. Pego a mão dele.
— Herbert — estou falando sério —, eu vou buscá-la. Não se preocupe.
É uma tentativa genuína de acalmar a situação, mas isso não fica muito claro. Ele
solta minha mão. Andamos por mais uns dez minutos e eu digo:
— Vou para casa. Não faz sentido continuarmos andando se não vamos conversar. —
Eu queria dizer que era para ele ir comigo, mas ele sacode a cabeça e anda para longe
de mim. Vou sozinha para casa.
Dali em diante, o dia todo se transforma em um confronto constante dos nossos
acessos de raiva. Herbert me oferece uma xícara de chá e pergunta se vou ler o pôster
que ele está criando, e fico furiosa com ele por agir como se nada tivesse acontecido.
Vou para meu escritório cultivar meu mau humor. Mais tarde, saio de lá repentinamente
para gritar com ele. Brigamos sobre quem deve pedir desculpas. Minha posição infeliz é a
de quem está no meio de cozinhar carneiro biryani, o prato favorito de H, que está
marinando desde o dia anterior. Não posso desperdiçá-lo, mas é um trabalho de amor
cozinhar aquela porcaria. Eu suponho que a briga terá acabado quando ele ficar pronto.
Não acaba. São 21h e estou morrendo de fome, mas não sirvo comida para ele de
jeito nenhum. Sirvo uma porção para mim mesma e grito para ele na sala, avisando que
tem comida se ele quiser. Ele não vai pegar. Coloco alguns pedaços na boca, mas não
consigo engolir.
— Você nem vai comer minha comida? — eu pergunto.
— Não.
— Meu Deus, você é tão cruel às vezes.
A gritaria recomeça. Nem consigo lembrar o que dizemos, mas acabo fazendo uma
coisa que nunca fiz antes: vou embora. Pego minha bolsa, fecho a porta com cuidado
para que os vizinhos não escutem e saio na escuridão. Dou alguns passos confusos em
frente ao portão, sem saber bem em que direção ir, depois saio em direção ao mar. Sei
que ele não vai me seguir. A gata Bob anda atrás de mim na rua por um tempo, mas
finjo que não a vi.
Sinto como se fosse feita de sopa, minha pele mal contendo as ondas agitadas,
incontroláveis, doentias. Passo em frente a um bar na orla e entro para comprar uma
taça de sidra forte em um copo plástico. Depois vou até a praia. A maré está baixa e o ar
está quente e úmido. À noite, as muradas de madeira lançam sombras perto do quebra-
mar e você pode ficar invisível em sua escuridão. Eu me encolho na frente de uma estaca
úmida e bebo minha sidra, me sentindo mais calma do que me sentia em muito tempo.
Não quero ir para casa. As estrelas se espalham no céu em um caminho leitoso. Uma
raposa caça nas pedras, tão perto que chega a ser emocionante. Verifico se perdi o
último trem para Londres. Eu me pergunto se é possível desaparecer nos dias de hoje,
jogar o iPhone no mar e sumir. Percebo que estou rindo quando o vento sopra, que abro
a boca para sentir as rajadas nas bochechas. Será que eu poderia dormir na praia esta
noite, uma vagabunda ridícula com uma bolsa Orla Kiely?
Herbert manda uma mensagem de texto uma hora depois. Por favor, me diga onde
você está. Eu não ligo. Fico na praia até a meia-noite, depois que todas as casas e os
restaurantes apagaram as luzes, e até a raposa ter ido embora.
Durante esse tempo, penso que discutimos assim em completa segurança. Quando
começamos a namorar, cada briga carregava o risco de um rompimento e eu costumava
sentir que estava brigando em dois lados de uma vez: para proteger meus interesses e
salvar nossa união. Agora, esse perigo acabou. Não vamos nos separar, não por causa
disso, nem por causa de nada mais. E isso nos deixa atados de uma maneira terrível.
Estamos cada um de nós brigando para manter nosso senso de individualismo, na
verdade, mas não estamos em posição de fazer ameaças. Mesmo se nos recusarmos a
mudar, nenhum de nós vai embora.
Quando discutimos atualmente (o que, graças a Deus, é raro), parece que estamos
tentando aniquilar um ao outro, ganhar pelo prazer de ganhar. Fazemos isso sabendo
que não há vitórias nesse estágio; sempre vamos ter nosso momento de triunfo negado
porque não estamos brigando com uma pessoa completamente separada.
Herbert está me procurando quando volto para casa. Mando uma mensagem de texto
e ele volta correndo e me abraça como se eu fosse a coisa mais preciosa do mundo.
Ficamos acordados conversando durante metade da noite e ainda assim não entendemos
completamente o outro, nem depois de 15 anos de expressão. Mas o amor e a
compreensão são duas coisas diferentes.
Sedução no 36
Amor carinhoso

Depois da horrível briga, Herbert tem um dos gestos mais gentis que já o vi fazer: ele tira
o dia de folga para conversar comigo.
Dentre outras coisas, conversamos sobre o modo como as seduções nos mudaram,
como o passo das inovações às vezes nos deixa exaustos, mas também como nos deram
uma sensação de deliciosa conspiração que nunca tivemos antes. Queremos que o ano
acabe, mas temos medo do que vai acontecer quando terminar.
— As seduções me tornaram mais ambiciosa quanto à vida — eu digo. — Me fizeram
pensar que não tenho que aceitar o ritmo de desaceleração inevitável. Fizeram-me sentir
no auge dos meus poderes.
— Eu só me sinto mais relaxado quanto a tudo — diz H. — Eu costumava me
preocupar muito mais quanto a acertar. Agora entendo que sexo deve ser instável.
— É mesmo verdade. Antes de começarmos, você costumava se ofender se eu usasse
lubrificante.
Um pequeno sorriso constrangido.
— Talvez. Não lembro.
Dirigimos até a cidade ao lado para um chá da tarde com torta de morango.
— Eu me pergunto se às vezes esquecemos a verdadeira ideia de sedução nisso tudo
— eu digo. — Sempre interpretamos como “uma coisa diferente para fazer a cada vez”.
Não devia ser assim. Devia ser: “O que deixaria meu companheiro louco de desejo hoje?
De que ele precisa?”
— Me dê um exemplo — diz H.
— Certo, se eu fosse seduzir você esta noite, de que você precisaria? O que mais
excitaria você?
— Não sei — diz ele. — Estou exausto. Não sinto muita vontade de fazer sexo.
— Exatamente. O que você precisa é ser acalentado. Você quer se sentir seguro de
novo e quer descansar.
— Você quer dizer que o que fizemos hoje é uma sedução?
— Acho que sim. Mas deixe-me ver se consigo fazer melhor esta noite.
Naquela noite, depois do jantar, preparo a banheira e passo meia hora deitada na
água quente, lendo. Depois convido H a fazer o mesmo.
Enquanto ele está lá deitado com sua ridícula touca floral (duas vezes ele tentou me
persuadir a fazer sexo com ele tendo esquecido de tirá-la), acendo velas pelo quarto todo
e preparo um bule de chá de hortelã.
— Quer que eu coloque música? — eu pergunto.
— Não — diz ele. —Só quero paz e tranquilidade.
Nós nos deitamos sobre travesseiros e almofadas e eu digo:
— O que mais o acalentaria agora?
— Nada — diz ele. — Estou me sentindo bem e aquecido depois do banho. E você?
— Uma massagem nas costas. Meus ombros estão doloridos.
Ele massageia meus ombros enquanto me encosto nele, depois passa as mãos
cobertas de óleo pelos meus seios. Eu odiava quando ele fazia isso; eu achava que
estava tirando proveito da minha massagem. Esta noite, a sensação é calorosa e afetiva.
— Vou dizer o que eu gostaria — ele sussurra no meu ouvido. — Eu gostaria de uma
massagem de peitos.
— Você quer que eu massageie seus peitos? — Dou uma risada.
— Não, eu quero que você me massageie com seus peitos. Bem de leve. Às vezes,
seus mamilos esbarram em mim sem querer e é uma delícia.
Dou uma risadinha e tento executar a requerida massagem de peitos, que é um
procedimento mais preciso do que parece. Mas logo estou deitada sobre ele para que
nossos corpos inteiros se toquem e, sem nem pensar no assunto, eu o coloco dentro de
mim.
Fazemos sexo lento, cheio de óleo e eletricamente sensível, depois apagamos as velas
e adormecemos.
Sedução no 37
Entretenimento no carro

Minha mãe está hospedada conosco. Por dez dias.


Gosto da minha mãe tanto quanto qualquer garota gosta da sua, mas dez dias é muito
tempo para tolerar a presença de outro ser humano em sua casa, mesmo sendo a pessoa
que trouxe você ao mundo. No entanto, considerando que minha mãe agora vive uma
requintada vida bebendo e fumando na Espanha, visitas longas são inevitáveis. Herbert e
eu simplesmente não estamos acostumados a conviver com outras pessoas. Temos
nossas rotinas, caramba! Gosto de culpar minha total falta de tolerância e flexibilidade no
fato de ter sido criada como filha única, o que significa que posso botar a culpa na minha
mãe. Legal.
Já mencionei antes que minha mãe não se opõe a sexo. Na verdade, ela defende o
sexo com entusiasmo. No entanto, suponho que nem mesmo ela queira estar ciente do
exato momento em que H e eu estamos seduzindo um ao outro. Precisamos de outro
plano.
— Bem — diz H —, venho pensando em sexo no carro há algum tempo.
— Certo — eu digo, sem pensar muito no assunto. — Boa ideia.
Mas quando chega a hora marcada, peguei um resfriado que está ficando sério e estou
tossindo como um marinheiro velho. Isso não é atraente; e, do meu ponto de vista, a dor
de cabeça latejante também não é.
— Vamos deixar para outro dia? — pergunta H.
— Não — eu digo, um tanto heroicamente —, não podemos desistir com tanta
facilidade.
Por volta das 21h, inventamos uma desculpa para minha mãe, dizendo que precisamos
ajudar um amigo em um trabalho, e saímos de carro.
— E então, para onde vamos? — eu pergunto.
— Não sei — diz H. — Eu tinha esperança de que você tivesse alguma ideia.
— Não consigo pensar em lugar nenhum.
— Bem, qual é o melhor tipo de lugar? — diz ele. — Estacionamento?
— Parece demais com sexo em público. E se alguém estacionar do nosso lado?
— O bairro industrial?
— Tem câmeras de segurança e guardas.
— O parque da cidade?
— Fecha ao anoitecer. Tem o pessoal que passeia com o cachorro.
— Rua deserta?
Penso por alguns segundos.
— Não sei. Por que não damos uma volta pra ver?
H entra em uma rua que nunca exploramos antes e por um tempo nos vimos em uma
pista estreita ladeada de cercas vivas e com uma casa ou outra.
— Aqui? — diz H.
— É a entrada da casa de alguém.
Ele também sugere um acostamento de rua (tem risco demais de carros que estiverem
passando nos pegarem na luz dos faróis) e uma pista que leva a um campo (as casas
com vista para lá viriam nossos faróis e provavelmente chamariam a polícia). Eu me
pergunto se existe algum lugar no sudeste da Inglaterra que seja tranquilo o bastante
para você fazer sexo no carro, principalmente se o que você gosta não for exibicionismo.
Para piorar, a dor de cabeça e a tosse estão me fazendo sentir cada vez mais como uma
mulher que prefere estar na cama descansando. Não estou nem um pouco excitada.
— Posso sugerir uma alternativa? — eu digo para Herbert quando nos vemos em uma
rua cada vez mais residencial. — Que tal eu bater uma punheta em você enquanto
voltamos para casa?
— Não parece muito divertido pra você.
— A parte de “chegar em casa” é minha recompensa.
Ele encosta e abre o jeans, e eu estico a mão até ele. Dirigimos em silêncio por um
tempo.
— Está gostoso?
— Mais do que eu esperava. É um pouco como escutar um audiolivro quando você
dirige; seu corpo está funcionando no piloto automático, então seu cérebro está livre
para se concentrar.
— Que bom — eu digo.
Ele coloca a mão entre as minhas pernas e começa a me acariciar, mas eu digo:
— Não, eu estou bem. Prefiro que você mantenha as duas mãos no volante, se não se
importa.
Herbert pega o caminho mais longo para casa e, quando chegamos, encontramos
minha mãe fazendo palavras cruzadas no sofá.
H vai para o banheiro sem dizer oi. Eu engulo dois comprimidos e vou para a cama.
Sedução no 38
Shhh!

Herbert e eu estamos sentados no meu escritório. Estamos trabalhando na montagem de


um website para o serviço beneficente de um amigo, que prometi impulsivamente fazer e
agora está testando meus níveis de competência. Herbert, que trabalha construindo
bancos de dados, está tentando me ajudar, mas está confuso com a simplicidade do
programa. Minha mãe está na sala ao lado, jogando Scrabble com ela mesma. Eu falei
que isso a deixa com um leve ar de necessitada, mas ela me ignorou.
Estou tentando explicar para H que quero fazer uma nuvem de palavras com os
nomes, mas como ele nunca viu uma nuvem de palavras, estou começando a perceber
que vai demorar mais do que eu pensava. Nós dois ficamos em silêncio por um tempo
enquanto procuro alguns exemplos no Google. Então Herbert pega meu laptop, abre um
novo e-mail e começa a digitar.
Você está bem?, escreve ele. Não temos muito tempo para conversar quando sua mãe
está aqui.
Estou ótima, digito em resposta. Só um pouco sobrecarregada. Coisas demais para
fazer. Tempo insuficiente. Etc.
Posso ficar com ela amanhã à noite para você sair, se você quiser.
Obrigada, mas eu dou um jeito. O final de semana está chegando.
Amo você.
Amo você também. E estou adorando a conversa digitada.
;-)
É uma delícia poder conversar assim, em segredo.
— Ei — eu digo em voz alta, piscando para ele —, pensei em um site que vai mostrar a
você o que quero dizer.
Eu digito: Acho esse site muito excitante. Tem fotos lindas. E abro um blog que uma
pessoa recomendou. É uma compilação de fotos de pessoas realmente fazendo sexo com
prazer, em vez de posando ou parecendo exploradas. Algumas estão claramente apenas
curtindo estarem nuas. Desço a página para que H veja.
— Ah! — diz ele. — É exatamente o tipo de nuvem de palavras de que precisamos.
Nós rimos baixinho.
— Quais são suas favoritas? — eu pergunto.
Volto para o topo da página e desço o cursor, parando em cada foto. H faz um sinal de
polegar para cima para a primeira e depois o faz subir ou descer, dependendo da reação
a cada foto. Fico deliciada em ver que as fotos das quais ele gosta mais são as fotos nas
quais as pessoas estão sorrindo, relaxadas e um tanto bagunçadas. O polegar desce a
qualquer sinal de falsidade ou pose ou de qualquer coisa séria demais.
Eu costumava ter medo de olhar pornografia com ele porque tinha receio de descobrir
que ele mantinha secretamente um olhar masculino explorador. Mas é o contrário. O
polegar sobe com mais entusiasmo para uma mulher sentada em uma cama, a barriga
grande formando pneus.
— Por que essa? — falo para ele só com movimentos de boca.
— Ela tem um sorriso adorável de quem sabe das coisas — sussurra ele em resposta.
Por volta das 23h, estou exausta, mas ainda assim concordei em fazer sexo com
Herbert no sofá. É incrível o que se consegue fazer quando se está realmente motivado.
No meu caso, a motivação vem da minha capacidade de acessar minha veia rebelde
adolescente, mesmo na minha idade. Ridículo, eu sei. Mas tem algo de irresistível em
trocar carícias no andar de baixo enquanto sua mãe dorme no andar de cima.
Na verdade, é como nos velhos tempos. É desconfortável, corrido e inconveniente, e
requer níveis quase impossíveis de silêncio de nossa parte. Houve uma espera tensa até
que ela fosse para a cama, durante a qual trocamos olhares disfarçados e sufocamos
bocejos. Em certo ponto, eu até consegui acariciar os mamilos de Herbert enquanto ela
estava na cozinha, de costas. Mas agora, depois de ter passado uma eternidade no
banheiro e de ter chamado a gata Bob para ir com ela para a cama (Bob é uma traidora.
Ela jamais sonharia em subir na cama comigo), finalmente ficamos sozinhos.
Nesse ponto, o que quero mais do que tudo é assistir a The Inbetweeners em paz,
sem ninguém dizendo repetidamente: “E isso é considerado engraçado atualmente?” No
entanto, não vou conseguir. Herbert já tirou o pijama.
Mas deixamos a TV ligada, o que significa que, em intervalos de alguns minutos, H cai
na gargalhada quando há uma piada particularmente engraçada. Minha concentração
também não está perfeita: estou prestando atenção no andar de cima, esperando ouvir
passos. Enquanto isso, H decidiu responder a tudo que falo com “Shhh!” Pela minha
experiência, uma conversa distante é ininteligível, mas “shhh” se propaga. É uma
denúncia evidente.
Acho que o prazer de uma sedução assim é noventa por cento nostalgia. Ela me leva
de volta à época em que o sexo tinha que ser cuidadosamente escondido dos meus pais
e colegas, que também era uma época em que era irresistível da maneira mais
enlouquecedora. Agora que o sexo está disponível em um quarto bonito e confortável, é
mais difícil desejá-lo verdadeiramente. Talvez a verdade seja que as nossas primeiras
experiências de sexo são silenciosas e arriscadas, então não acreditamos que um
encontro lânguido e sem pressa seja a coisa boa.
Talvez as seduções não sejam nada mais do que uma mãe simbólica no quarto do
andar de cima. Talvez não sejam nada mais do que uma razão para dizer: “Aqui. Agora.”
Sedução no 39
Uma aventura incrivelmente grande

Falei uma vez que o amor monogâmico não é nada mais do que uma escolha dentre
muitas outras.
Hoje, quero dizer o oposto. Hoje, quero dizer que o amor pode escapar da sua
capacidade de tomar decisões. Hoje, quero dizer que o amor é compulsivo.
As duas coisas são verdade: o amor é tanto uma escolha quanto um desejo
incontrolável, um ato de escolha e uma imposição. Quando conheci Herbert, não escolhi
me apaixonar por ele; apenas me apaixonei. Se você tivesse me perguntado dez minutos
antes de nos conhecermos como era a sensação de se apaixonar, eu não saberia a
resposta. Mas ele apareceu na cadeira ao meu lado e lá estava: um sentimento
enervante de completa adoração que nunca deixei de sentir.
Quando comecei essas seduções — já quase um ano atrás —, a chama estonteante do
amor tinha diminuído e virado uma coisa mais controlada. Tínhamos passado por muitos
momentos difíceis e eu estava inclinada a ver o amor como uma coisa mais mecânica, ao
menos em longo prazo. Nós certamente nos amávamos, mas esse amor era também uma
escolha que nos mantinha juntos quando a vida ficava difícil. Eu senti que abrir mão de
certas coisas — a diminuição do sexo, a limitação das próprias escolhas para que as vidas
se encaixem — era inevitável, mas que valia a pena.
Agora aquela forma viciante de amor parece ter voltado. Em um minuto eu estava
pensando: “Será que essas seduções vão mesmo fazer alguma diferença nas nossas
vidas?” E então, de repente, me dei conta de que não conseguia parar de olhar para ele.
Reparei ultimamente que meus olhos gostam de absorver o rosto dele. É tranquilo,
calmo, infinitamente fascinante. E tenho mais certeza do que jamais tive. No começo, eu
costumava me perguntar se algum dia acordaria e veria que a atração acabou, como a
dor que supera o efeito da morfina. Agora, sei que isso não aconteceu nem vai acontecer.
Digo tudo isso porque, quando minha mãe estava conosco, senti saudade dele. Eu o vi
todos os dias e dormi na mesma cama que ele todas as noites, mas senti saudade dele
mesmo assim. Eu estava desesperada para ter algum tempo sozinha com ele, pela
chance de estar com ele tranquilamente.
Na sexta, estou transtornada por uma coisa que parece frustração sexual, mas que na
verdade é frustração amorosa. Além disso, é aniversário de Herbert na segunda e
semana passada foi o meu. Odeio perder a oportunidade de comemorar.
Mando uma mensagem de texto para ele no trabalho: Você pode tirar a segunda-feira
de folga?
Estou resolvendo isso agora, é a resposta que recebo.
Certo. Vou levar você para um Dia de Passeio.
Quando chega a segunda, tendo levado minha mãe em segurança ao aeroporto na
noite anterior, eu e Herbert pegamos um trem para Londres. No almoço, comemos um
biryani com dhal e lembramos nossa viagem à Índia dois anos antes. Depois, vamos ao
zoológico de Londres para admirar os tigres que dormem e achar os pinguins fofos.
Depois de um chá com torta no Primrose Hill, deixo H olhar as lojas de discos em
Camden enquanto tomo café e me controlo para não reclamar.
A sedução de hoje, então, não é sobre sexo, mas sobre romance. Nós nos beijamos na
rua e caminhamos de mãos dadas. Ao final do dia, só conseguimos nos aconchegar na
cama e adormecer.
As seduções podem não ter tornado o sexo compulsivo de novo, ou pelo menos não do
jeito que era quando começamos a namorar. Mas trouxeram o amor à superfície,
desabrochando e provocando. É difícil imaginar que apenas um ano atrás eu sentia
vontade de deixar de lado essas coisas infantis de sexo e romance. É difícil imaginar a
intensidade com a qual eu fantasiava com sexo com outras pessoas e o quanto isso era
desolador.
E agora, o sexo e o romance não só estão de volta, mas trazem consigo estranhos e
novos sentimentos de mudança e possibilidade. Minha imagem de Herbert como imutável
e complacente se foi (ou, como uma vez falei durante uma briga, “apenas matando o
tempo antes de morrer”). Minha imagem de nossa relação ter encontrado seu estado fixo
se foi. Aqui estamos nós dois, capazes de termos a vida que escolhermos.
Andamos pelo Exmouth Market a caminho do Moro para jantar.
— Você acha que poderia morar aqui? — eu pergunto.
H olha ao redor.
— Sim — diz ele. — Talvez.
Outubro
Quando conheci Herbert, eu tinha horror à ideia de ter filhos e ele também. Mas depois
eu mudei. No começo dos meus vinte anos, fiquei desesperada para ter um bebê. A visão
de Herbert, no entanto, não tinha mudado. Ele não queria. Tivemos brigas. Fiz tentativas
de persuasão. E acabamos chegando ao seguinte impasse: por que o “não” de Herbert
deveria pesar mais do que o meu “sim”? H é um homem racional. Ele concordou que não
era justo.
Fizemos um trato. Ele teria mais cinco anos de liberdade, até meu 28º aniversário, e
depois eu poderia ter meu bebê. Para mim, estava bom: era a idade na qual minha mãe
me teve. Os cinco anos se passaram. Não foi tão difícil ignorar a insistente parte do meu
cérebro que queria fazer um bebê. Nossos amigos começaram a ter filhos. Eu segurei
bebês observadores no colo e brinquei com crianças pequenas. Ouvi justificativas
defensivas para escolhas maternais: seio ou mamadeira, cama compartilhada ou berço. A
mim, parecia que uma variedade de crianças era feliz em uma variedade de situações. Eu
me perguntava se algum dia poderia fazer essas escolhas.
Mais do que tudo, eu via o quão profundamente os filhos atingiam as vidas dos meus
amigos — homens e mulheres — e percebia o quanto eu teria que me dedicar para
tolerar esse tipo de vida.
Quando chegou meu aniversário de 28 anos, eu não tinha mais certeza. Eu não podia
dizer com honestidade que tinha feito tudo que queria fazer e estava pronta para
sossegar. Mas mais do que isso, eu não conseguia mais ver a paternidade como uma
coisa que eu poderia jogar casualmente em cima de Herbert por causa de um acordo
hostil que exigi quando tinha 23 anos.
Ouvimos muito sobre o poder prioritário do relógio biológico da mulher e como isso
não pode ser negado. Desde o começo do meu casamento, incontáveis mulheres me
aconselharam a ignorar os desejos de Herbert e “me fazer ficar grávida”. Isso me deixa
horrorizada. Imaginem a mulher recebendo o mesmo tratamento em retribuição, a tripla
armadilha de ter sua escolha ignorada, seu estilo de vida radicalmente abreviado e a
possibilidade de invocar a reprovação em coro da sociedade caso você não consiga
simplesmente idolatrar a criança. Talvez eu tenha um relógio biológico mais instável do
que as outras mulheres, mas essa necessidade irreversível de ser mãe me parece muito
com afirmação (felizmente) desacreditada de que os homens não conseguem se controlar
e estupram.
Eu escuto repetidamente que, quando visse o fruto do nosso amor, Herbert cederia.
Ele mesmo me disse isso, depois de ligar para todos os amigos e interrogá-los sobre seus
sentimentos quanto à paternidade. Ele até tentou me convencer de perder o receio da
fertilização in vitro, apesar do fato de eu saber muito bem que ele tem as mesmas
objeções que eu. E acho que, um dia, eu talvez aceite essa proposta. Também desejo
que um dia eu engravide mágica e acidentalmente e que todo esse peso da decisão seja
tirado de mim.
Mas aqui e agora, estou feliz em ser dona de uma postura antiquada e dizer que amo
H demais para forçá-lo à paternidade contra sua vontade. Nossa vida é boa e não estou
disposta a arriscá-la por amor a uma pessoa que ainda nem existe. Mas também acho
que ser adulta é o processo de aprender a viver na encruzilhada entre duas estradas.
Devíamos parar de nos surpreender por haver mais de um jeito bom para se fazer as
coisas. Temos sorte por podermos escolher.
Sedução no 40
Mostre e conte

Herbert e eu nunca compartilhamos fantasias. Tenho certeza de que compartilhar uma


fantasia é o ato máximo da intimidade, mas esse é justamente o problema.
Relacionamentos longos oferecem uma abundância de intimidade. Quero guardar um
pouco só para mim, e construir um muro ao redor da minha vida de fantasia é a melhor
maneira que consigo imaginar de conseguir isso. Minhas fantasias me oferecem um
pouco de privacidade sexual.
Mais do que isso, elas não necessariamente representam o que quero fazer na vida
real. Eu saboreio a irrealidade delas. Tenho medo de que apodreçam, como uma maçã,
se forem expostas.
Mas olhar as fotos com Herbert semana passada me fez pensar que a boa pornografia
media nossa fantasia para nós, deixando que expressemos gostos e preferências sem
expor demais nossas próprias vontades secretas. Observar as reações de Herbert me
ensinou tanto sobre ele que eu queria não só aprender mais, mas compartilhar mais
também. Eu me perguntei como poderia montar uma sedução que envolvesse
compartilhar o que nos excita.
A única coisa sobre a qual sei muito são livros. Tenho muitos deles. Às vezes eu os
leio, mas em geral gosto de tê-los ao meu redor. Nossa casa tem dois aposentos no
andar de baixo. Herbert encheu o dos fundos de discos de vinil (tivemos que reforçar a
sustentação embaixo deles) e eu preenchi o da frente com livros. Quando damos festas,
todos os convidados se concentram ao redor dos discos e não dos livros. Para mim, está
ótimo.
Quando pensei em compartilhar fantasias, os livros me vieram imediatamente à
mente. A partir do momento em que encontrei a pilha de romances de Jackie Collins de
minha avó dentro da gaveta do quarto de hóspedes, passando por O paciente inglês e A
insustentável leveza do ser na minha adolescência, chegando a Pétala escarlate, Flor
branca este ano, os livros sempre alimentaram minha imaginação erótica. Várias vezes
me surpreendi com a mão dentro da calça jeans enquanto lia.
Eu faço a sugestão a Herbert:
— Vamos compartilhar trechos de livros que nos excitaram. O objetivo é oferecer ao
outro uma visão de nossas fantasias.
Herbert parece preocupado por um tempo; ele é disléxico, lê devagar e provavelmente
só quatro ou cinco livros por ano. Mas aí ele vai até a pequena área de nossa biblioteca
que pertence a ele e pega quatro livros sem hesitar. Enquanto isso, observo minha
coleção de livros, me perguntando sobre o que poderia ter me excitado de verdade
quando li. Fosse o que fosse, eu provavelmente tinha emprestado para alguém.
— Ande logo! — diz H. — Não se dê tempo para ficar ansiosa.
Esse é o problema. Estou agindo como costumo agir, pensando demais. Eu me
pergunto se quero mesmo que H conheça as fantasias que vejo em cada livro que tiro
das prateleiras. Eu hesito.
— O que você está procurando? Alguma coisa em especial? — pergunta ele.
— Sei que tive uma ideia ontem, mas não consigo lembrar agora.
— Então esqueça esse.
— Tudo bem. Também acho que emprestei meu exemplar de História de O.
— Posso baixar no celular. Não tem problema.
— Você escolheu mais livros do que eu.
— Também não é problema. Eu não tinha muitos para escolher. Foi mais fácil para
mim.
É doloroso que ele tenha que me tranquilizar quanto à minha sedução desse jeito. Tiro
dois livros da prateleira e vamos para o quarto.
Herbert abre um dos livros dele primeiro. É um livro que eu também li, mas nunca me
ocorreu que poderia ser erótico. Jude: Level 1, de Julian Gough. É uma maravilhosa
comédia do absurdo irlandesa, e Herbert encontra o trecho que quer com rapidez
surpreendente. Achei que ele falaria para mim sobre o livro e depois me entregaria para
ler, mas não; ele começa a ler. Nosso herói, Jude, que tem dois pênis (um dos quais
também é seu nariz), está indo para a batalha em um cavalo, com o objeto de seu
desejo empoleirado à sua frente. Inevitavelmente, seu membro localizado na parte
normal do corpo fica ereto e eles acabam fazendo sexo no cavalo em meio a seu
barulhento grupo de companheiros.
— Bem, não pensei nisso dessa forma — eu digo.
— Mas você não acha brilhante? Não só a coisa de ter dois pênis.
— Acho que sim — eu digo.
Eu confesso, parece meio divertido. Mais do que minha primeira escolha, a parte de Os
filhos da meia-noite em que o médico é seduzido ao examinar uma jovem apenas por um
buraco no lençol, parte a parte. Não é escrito para emocionar; eu tinha me esquecido
disso. H não se sensibiliza. Ele seleciona um trecho de Deuses Americanos, de Neil
Gaiman, no qual um homem está fazendo sexo com uma prostituta que parece estar
vestida de Mulher Maravilha e que, depois de pedir que ele a idolatrasse, engole o corpo
dele todo com a vagina.
— Herbert — eu digo —, seria rude sugerir que suas escolhas são estranhas?
— Sim — diz ele —, mas veja o quanto ele estava se divertindo antes de ela o engolir.
Eu escolho um terreno mais seguro: História de O no celular de H. Eu o li pela primeira
vez aos 17 anos, em uma antologia de histórias eróticas na estante de uma amiga. Só
havia as primeiras páginas e fiquei um pouco decepcionada depois de ler tudo e
gradualmente ter que ver O se submeter mais e mais. Mas as primeiras páginas
permanecem fortes para mim enquanto as leio em voz alta. H também parece gostar.
— Então você gosta da ideia de receber ordens?
— Não me venha com ideias. O que gosto é o detalhe sensual; a ideia de ela ir ficando
nua sob as roupas.
— Hummm — diz H, parecendo sonhador.
Ele abre My Secret Garden, de Nancy Friday, no qual escolheu a fantasia de uma
mulher que sonha com um amante que não consegue ver fazendo sexo oral nela debaixo
da mesa de um restaurante chique.
— Gosto da ideia de mais ninguém saber — diz ele.
Eu folheio meu exemplar de A vida sexual de Catherine M, mas não consigo encontrar
nenhum trecho que eu goste.
— Acho que eu gostava da ideia da insaciabilidade dela — eu digo. Eu devia ter
acrescentado: E a ideia de ser possuída por hordas de homens desconhecidos, mas não
falo nada. Talvez eu ainda aprecie aquele muro de privacidade que cerca minha vida de
fantasia.
— Vamos parar com os livros? — diz H. — Está tarde.
Ele apaga a luz, e fico me sentindo um fracasso. Está claro que isso não o excitou.
Talvez eu não tenha me dedicado o bastante.
Mas então, na escuridão, ele vai para cima de mim e começa a me beijar
freneticamente. A sensação do pênis ereto espetando minha coxa me faz ofegar.
— Eu me lembrei do outro livro! — eu digo.
— Hummm — diz H, que está com a cabeça em outras coisas.
— É o trecho de Destrinchando no qual o amante dela não consegue esperar para
subirem para o apartamento, então eles fazem contra a parede do corredor. Adoro a
ideia de alguém estar tão desesperado por mim.
H realmente não está ouvindo.
Sedução no 41
De cabeça para baixo

Outro dia, do nada, Herbert disse:


— Sabe de uma coisa? Acho que aprendemos a fazer sexo sem ter que ficarmos
bêbados primeiro.
Não acho isso totalmente justo. No passado distante, tenho certeza de que devemos
ter feito sexo sóbrios. É só que, nos anos recentes, estarmos bêbados era a única forma
de contornarmos nosso constrangimento de dar o primeiro passo. Mais ainda durante as
seduções, muitas vezes precisei tomar uma bebida para me acalmar e conseguir executar
alguma delas. Podemos ter ficado mais relaxados quanto a admitir estarmos com
vontade, mas de muitas formas as seduções me fizeram procurar a garrafa de gim
Bombay Sapphire como nunca antes.
Mas no caso do exemplo de hoje, é difícil imaginar como aconteceu sem uma boa
quantidade de ousadia embriagada. Ah, sim, eu sei: Herbert realmente achou que era
uma boa ideia. Isso mesmo.
Não sou muito fã da posição 69. É para adolescentes (ou pelo menos para aqueles
cujos pais saem de casa de vez em quando). É o tipo de coisa que parece incrível — Nós
dois recebemos sexo oral! E ao mesmo tempo! U-hu! — mas que, na prática, é
consideravelmente menos do que a soma das partes. O posicionamento não é em
particular confortável, independentemente das suas variações (falaremos mais disso
depois), mas isso não é o pior. Não, o verdadeiro problema é a sobrecarga neural.
Dizendo isso, eu posso destruir o mito da mulher ser multitarefas, mas não consigo me
concentrar em fazer um boquete e receber sexo oral ao mesmo tempo. Só consigo me
concentrar em uma coisa ou outra, meu prazer (nesse caso, fazendo um boquete sem
vontade) ou no dele (nesse caso, desperdiçando o esforço dele).
— Para quê? — eu pergunto a Herbert.
— Ah, mas você sempre goza quando fazemos 69 — diz ele, com ar de sabedoria. —
Às vezes você não sabe do que gosta.
Ele está certo e errado. Eu chego ao orgasmo, é verdade, mas é um tipo de orgasmo
pequeno, mecânico, educado e superficial. É como se apenas meu clitóris mostrasse
saber o que está acontecendo. É bom, mas eu preferiria uma coisa de cada vez.
Agora, como você deve ter adivinhado, Herbert é um grande apreciador da posição 69.
Ele recorreria a ela todas as vezes que fazemos sexo se eu deixasse. Esse elemento de
distração que tanto detesto é exatamente do que ele gosta. Permite que ele desligue o
cérebro consciente, a parte que costuma pensar demais sobre tudo. Ele está envolvido
em duas coisas que aprecia ao mesmo tempo e não entende por que reclamo tanto.
Então, quando ele sugere uma sedução baseada na posição 69, não fico surpresa. O
que me faz erguer um pouco as sobrancelhas é a escolha dele quanto ao formato.
— Quero fazer aquela coisa de você ficar de cabeça para baixo, pendurada nos meus
ombros com suas pernas — diz ele.
Eu fico olhando fixamente para ele.
— É óbvio que nenhum de nós dois poderia fazer isso.
— Ceeerto.
— Então pensei em um jeito de quase conseguirmos usando a poltrona do quarto da
frente.
— Não vejo como isso pode funcionar.
— Não se preocupe. — Ele aponta para sua cabeça. — Está tudo planejado.
Quando chega a hora, nós dois estamos de pé, nus, no quarto da frente,
completamente sóbrios. H empurrou a poltrona para o meio do quarto e estamos os dois
andando em volta dela.
— O que você precisa fazer — diz ele — é dobrar suas pernas acima das costas da
poltrona para se manter de cabeça para baixo.
— Devo ficar pendurada no encosto de uma poltrona como um morcego? — eu digo. —
E de onde tiro a força muscular nas coxas para fazer isso?
— Não! — diz ele. — Do outro lado. Olhe, vou mostrar.
O que ele faz, essencialmente, é sentar na cadeira ao contrário, com as costas no
assento e as pernas erguidas contra as costas da poltrona.
— Ah, você não está realmente de cabeça para baixo, não é? — eu digo. — Apenas
está com as pernas para cima.
Nesse momento, H começa a rir. Não consegue parar. Seu rosto está ficando vermelho
como beterraba.
— Devo admitir que parecia um pouco mais de cabeça para baixo na minha cabeça —
diz ele, entre risadas.
Eu também começo a rir e chego perto dele para demonstrar como a posição é
impossível. A cabeça dele está tão perto do chão que eu precisaria ser uma dançarina de
limbo experiente para ter alguma chance de ter contato com a língua dele. Enquanto
isso, os testículos dele caem por cima do pênis e tenho uma visão bem mais detalhada
da racha da bunda dele do que eu gostaria.
— Muito bem! — diz ele. — Reposicionar! — E ele tenta sair da poltrona, mas só
consegue passar as pernas por cima da cabeça, de forma que fica preso como um
besouro de cabeça para baixo. Ele sacode os pés enormes no ar e ri tanto que fico com
medo de ele desmaiar.
— Me ajude! — ofega ele.
Depois de ter tirado H daquela posição, ele insiste:
— Tudo bem, o problema era que a poltrona era baixa demais. Vamos tentar o sofá.
Sua vez.
Com toda a minha paciência, eu me deito de costas no assento do sofá.
— Espere. — H segura minhas pernas e me puxa para cima, para que meu traseiro
fique no alto do encosto. — Assim é melhor — diz ele, e vai para cima de mim.
Bem, o rosto dele pode estar na minha virilha, mas em todos os outros aspectos
estamos pavorosamente desalinhados. O pênis dele está a milhas da minha boca e os
testículos estão apoiados na minha testa, como uma compressa quente. Agora sou eu
quem está rindo descontrolada. Deve ser por causa de todo sangue que desceu para a
minha cabeça. Herbert também está rindo.
— Se você mexer a cabeça de um lado para o outro, até que é bem gostoso — diz ele.
Eu saio da posição.
— Deixe pra lá — eu digo, tentando parecer compreensiva.
— Não, ainda não vamos desistir. Tenho outra ideia.
Eu o sigo até o quarto de hóspedes, onde ele me mostra a cama, coberta de pelos de
gato.
— Você pode plantar bananeira sobre a cama, encostada na parede — diz ele, como
se fosse a coisa mais simples e óbvia do mundo.
— Não, Herbert. Não consigo plantar bananeira. Isso não é uma alternativa.
— Pode deixar, eu ajudo.
Não sei por que concordo em fazer isso, mas obedientemente coloco as mãos ao lado
da cabeça, como aprendi na aula de ioga. H segura meus tornozelos e tenta erguê-los
até seus ombros, mas nessa hora minha cabeça escorrega para o lado e eu caio, primeiro
sobre a cama e depois escorregando para trás dela.
— Chega — eu digo.
— E se você conseguisse deixar o pescoço mais firme?
— CHEGA.
Herbert faz beicinho.
— Foi tão perfeito na minha imaginação.
— Ótimo — eu digo. — Que permaneça lá.
Se isso era um plano para me fazer adotar a forma convencional do 69 com mais
entusiasmo, funcionou.

que você acharia de eu levar um gatinho filhote comigo pra casa hoje?

O As outras mulheres podem ficar enlouquecidas com bebês, mas comigo são
gatinhos. Herbert devia estar se preparando a vida toda para essa mensagem de
texto. Por eu vir de uma família que tinha quatro gatos, ele devia saber que um nunca
seria o bastante.
Quer minha resposta sincera?, responde ele.
É claro.
Não.
Tenho certeza de que ele não pode realmente querer dizer isso. E, de qualquer forma,
ele não viu o serzinho em questão, nem ouviu a história dele. Estou em uma conferência
em um hotel e há sete gatinhos pretos idênticos brincando no estacionamento e
passando debaixo das rodas de todos os carros. De acordo com o jardineiro, um já foi
atropelado. Parecem ser gatos de rua e o hotel não se sente responsável por cuidar
deles.
— Em poucas semanas eles vão começar a cruzar uns com os outros e vai haver
centenas de gatos pretos aqui — eu digo para uma colega.
— Todos surdos e cegos — diz ela.
Tiro pedaços de atum do meu sanduíche do almoço e jogo para os gatinhos, que
pulam nervosamente ao redor dos meus pés.
— Seria cruel não levar um — eu digo. Eu me pergunto se Herbert mudaria de opinião
se pudesse vê-los. Imediatamente, mando uma foto para ele.
Sim, fofos, mas o que Bob vai fazer?, responde ele.
Bob vai adorar ter um gatinho em casa!, eu digito, não sendo completamente sincera.
Bob é a gata mais insanamente tensa que já encontrei. Ela é capaz de comer o gatinho
para poder controlá-lo.
Sei que nada que eu disser vai impedir você de fazer o que quer. Só estou dando
minha opinião, diz H.
Isso é carta branca, não é? Estico a mão para acariciar um dos gatinhos e ele sibila e
foge.
— Não se preocupe — diz minha colega —, eu pego um pra você na hora de voltar pra
casa. Sou boa com gatos de rua.
E por acaso eu passo a tarde me perguntando se estou fazendo a coisa certa? Nem um
pouco. Passo a tarde fingindo trabalhar e furtivamente procurando uma caixa apropriada
para botar o gatinho e levá-lo para casa.
Mas quando chega a hora, estou muito nervosa. Os gatinhos têm por volta de oito
semanas e já os vi comendo comida sólida (é uma forma educada de dizer “atacando a
carcaça de um pombo”), mas fico repentinamente ciente de que estou prestes a tirar um
deles da mãe. Isso me parece uma coisa cruel de se fazer, ao menos em curto prazo.
Espero no carro enquanto minha colega pega o gatinho para mim, e quando recebo a
caixa com os buraquinhos para respiração, saio dirigindo sem olhar para dentro dela.
Em casa, coloco a caixa no chão do meu escritório e tiro a fita adesiva. Lá dentro, uma
pequena bola preta de pelo pisca para mim por alguns momentos, depois sai e tenta
fugir em cinco direções de uma vez, acabando por bater a cabeça na janela e volta a ficar
parada, me encarando com raiva. Corro para tirar uma foto e mandar para Herbert.
A gatinha Elsie em seu novo lar.
Aaah, responde ele. Então é menina?
Não tenho ideia. Todos os filhotes de gato são meninas, não são?
Quando Herbert chega em casa, Elsie já se escondeu debaixo do meu arquivo, de onde
não sai — ao menos enquanto estamos olhando — por algum tempo.
Sedução no 42
O TAC

Nesse ponto do jogo — com apenas dez seduções faltando —, sinto que deveríamos ter
nos tornado algum tipo de expert.
Deveríamos conseguir ir para o quarto, tirar as roupas, nos envolver em alguma coisa
mutuamente sedutora, alcançar orgasmos monumentais, colocar os pés para o alto para
fumar um cigarro pós-sexo (no nosso caso, um cigarro metafórico) e tomar uma taça de
vinho. Mas não. Às vezes, até o básico foge de nós.
— Vamos tentar o TAC esta semana? — eu digo para Herbert.
— Claro — diz ele. — Quer me lembrar mais uma vez para que serve?
Já discutimos a Técnica de Alinhamento Coital antes, mas nunca chegamos a fazê-la.
Você começa na posição papai e mamãe, depois o homem movimenta o corpo para cima,
de forma que o pênis fique só com a ponta dentro da mulher, com o comprimento dele
contra a vulva. Ela ergue a pélvis e juntos eles se balançam no que costuma ser descrito
como um movimento de gangorra. H sempre afirmou que isso parece complicado demais
para valer a pena.
— Bem — eu digo —, é recomendado para mulheres que têm dificuldade para chegar
ao orgasmo, então acho que deve ser excelente se você já consegue gozar facilmente.
Mas, às vezes, dois mais dois não dá quatro. Eu culpo The Inbetweeners. Antes de
irmos para o quarto, assistimos a um episódio em que Simon tenta perder a virgindade
com a namorada, mas não consegue uma ereção. Rolamos de rir quando o azarado
Simon teve que estapear e gritar com o pau em uma tentativa vã de fazê-lo entrar em
ação.
Cortando para meia hora depois: Herbert parece estar sofrendo de contágio televisivo.
Não há muita coisa acontecendo lá embaixo.
— Será que você não está no clima? — eu digo, da maneira mais delicada possível. —
Podemos tomar uma xícara de chá e continuar mais tarde.
— Ah! Não fale sobre isso! Vai piorar tudo! Ah, veja o que você fez!
Ele está certo. O pouco progresso que conseguimos foi desfeito. Eu me viro de lado e o
coloco na boca, e gradualmente atingimos algo que se assemelha a uma ereção, ainda
que um pouco apática. Enquanto isso, Herbert estica a mão e tenta acariciar meus lábios
vaginais.
— Ai! — eu grito. Estou completamente seca. — Use lubrificante! — eu digo e, para ser
honesta, há uma rispidez crítica na minha voz.
H passa lubrificante em mim e voltamos à posição. Afinal, não vamos deixar passar
uma oportunidade como essa, a sincronização de um pênis ereto e uma vagina úmida,
ainda que desinteressada.
Quando se trata de sexo, acredito no provérbio “finja até sentir”. Muitas vezes segui
em frente sem muito desejo até que meu corpo finalmente entrou em sintonia. O
problema é que, quando vocês dois estão encarando o sexo com um suspiro feminino, é
difícil para o corpo encontrar alguma coisa pela qual se entusiasmar.
A mecânica é tranquila. Ficamos na posição papai e mamãe, H se move para cima e,
depois de alguns insucessos, acho que conseguimos. Passo minhas pernas ao redor das
panturrilhas dele e começamos a nos balançar. É engraçado como, sem excitação, o sexo
pode parecer uma parte do corpo se esfregando em outra e nada mais. Não há magia. Eu
me pergunto se meu clitóris vai acabar reagindo se eu me concentrar o bastante. Depois
de cinco minutos pensando, eu digo para H:
— Está provocando alguma coisa em você?
— Não — diz ele. — E em você?
— Nada.
— Nem tenho certeza se ainda está dentro.
— Ah, está. Só não está fazendo nada de interessante.
— Certo.
— Será que devemos desistir?
— Se você não se importar.
De volta à segurança da sala de estar, com o chá na mão, eu digo para Herbert:
— Seria justo dizer que você tem um problema com a técnica?
Um suspiro.
— O que há de errado com a minha técnica? — diz ele.
— Ah, Deus, eu não quis dizer isso. Eu quis dizer que você odeia a ideia de seduções
para as quais você precisa de alguma técnica. Deixa você nervoso.
— Talvez. Não sei.
— Sabe, não há nada de errado em cometer erros quando se tenta coisas novas, não
é? Você só precisa saber rir e tentar de novo.
Herbert está olhando resolutamente para a frente.
Eu sei reconhecer quando fui derrotada.
Sedução no 43
O retorno da cavalgada invertida

A Sedução nº 42 deixa um gosto amargo na nossa boca. Há alguma coisa de


particularmente patético em sexo que não dá certo; deixa uma trilha atrás de si que
segue você até o dia seguinte. Egos fragilizados, eu acho. Meu instinto é rir e suportar
em vez de desistir no meio daquele jeito, mas isso não funciona quando os dois estão
rindo e suportando.
Precisamos de uma pequena redenção. Precisamos de um orgasmo descomplicado. Na
manhã de domingo, sou vítima do que, dadas as circunstâncias, parece inspiração divina.
Acordo de um sonho, cujos detalhes agora estão meio esquecidos, mas no qual vejo
Herbert e eu no bar do subsolo de um belo hotel, cercados pelos integrantes de um circo.
Para ser bem direta e honesta, todos estavam fazendo sexo. Dois acrobatas estavam
pendurados em um trapézio acima de nós, com os corpos entrelaçados. Por cima do
ombro de H, eu podia ver o apresentador batendo luxuriosamente na bailarina, e o
bumbum dela era uma enorme roseta, emoldurada pelo tutu. O sonho acabou quando
estávamos decidindo se íamos nos juntar a eles.
Eu me levanto e cambaleio de boca seca até o banheiro, onde tomo um copo de água
e entro no chuveiro. Mesmo quando estou me enxugando, ainda estou excitada; me vejo
lamentando que sexo no domingo de manhã não seja uma coisa que façamos.
Mas fazíamos antes. Costumava praticamente ser parte da nossa rotina. Acho que tudo
mudou quando compramos nossa casa e o domingo virou uma cacofonia de furar paredes
e pintar, de acordar cedo, de rádio alto e peixe empanado com batata frita no almoço.
Mas hoje, eu me pergunto...
Enfio a cabeça pela porta. H, como de costume, colocou a cabeça no meu travesseiro e
seu corpo está espalhado diagonalmente na cama. Ele faz isso todas as manhãs, assim
que levanto. Faço cócegas nos pés dele.
— Quer transar? — eu digo.
Ele respira fundo. Faz uma pausa.
— Não.
— Ah, vamos! Eu faço uma xícara de chá e você pode entrar no chuveiro para acordar.
H esfrega o rosto.
— Tudo bem — diz ele, sem muito entusiasmo.
Eu desço a escada e coloco a chaleira no fogo, e fico animada ao ouvir o chuveiro
sendo ligado. Pelo menos ele não rolou para o lado e dormiu de novo. Quando o chá está
pronto, posso ouvi-lo no banheiro, então subo na cama, nua.
Ele acaba deitando ao meu lado e toma um grande gole de chá. Eu me aconchego com
as costas pressionadas contra ele.
— Calma — diz ele. — Não terminei meu chá ainda.
Isso não parece promissor.
Mas aí ele toma toda a xícara de chá e entra debaixo das cobertas. Ele passa a língua
pela base da minha coluna e pela divisão da minha bunda. Em seguida, ele ergue minha
perna por cima de seu ombro e me lambe. Fico deitada de lado e coloco o travesseiro em
cima do rosto. Eu não estava esperando isso. Fica claro que vale a pena provocá-lo antes
que ele esteja totalmente acordado.
As coisas continuam e estou me contorcendo com alegria em cima dele.
— Herbert — eu digo —, acho que gostaria de experimentar a cavalgada invertida de
novo.
H ergue uma sobrancelha. Juramos jamais voltar a isso. Mas, nos últimos meses, meu
corpo parece estar se comportando. Faz muito tempo que não sangro depois do sexo.
Acho que posso estar melhorando. E, além do mais, o diabinho em mim quer fazer um
teste.
— É claro — diz H. — Só vamos devagar.
H adora a cavalgada invertida. É o que considera a perfeição em relação à vista e
permite que ele orquestre os procedimentos. Acho quase pejorativo, mas adoro a
sensação. Eu me viro de forma a ficar de frente para os pés dele e deixo que ele coloque
o pênis no lugar certo. Primeiro de tudo, ele prefere colocá-lo entre minhas pernas, o que
é bem gostoso para nós dois, depois ele o desliza para dentro de mim. Eu me inclino para
a frente para aproveitar o efeito máximo e H abre as bandas do meu traseiro e começa a
massagear meu ânus. Ele costuma fazer isso e eu reclamava por princípio: não tinha
certeza se era higiênico. Mas agora, este ano, eu superei. É delicioso.
Mas desta vez ele vai um pouco mais longe. Consigo ouvi-lo mexer na mesa de
cabeceira e logo sinto lubrificante no meu traseiro, depois o dedo dele deslizando para
dentro. Eu ofego, mas de prazer, e sorrio para mim mesma por causa de todas as
inibições que superei este ano. É uma sensação maravilhosa ter o dedo e o pau dele
dentro de mim, com cada movimento que eu faço me levando de uma sensação intensa
para outra.
Quando começo a sentir um orgasmo crescendo dentro de mim, eu me viro para olhar
para ele e ele se segura nos meus quadris enquanto lanço a cabeça para trás e sinto meu
ser todo ir para a cabeça. Debaixo de mim, as pernas de H se abrem e fecham,
acompanhando minhas convulsões.
Nós dois caímos na gargalhada e, em seguida, inesperadamente, minha risada se
transforma em lágrimas.
— Não de tristeza — eu digo, entre soluços —, só... um bom... orgasmo.
H me olha maravilhado.
massagista parece alarmada com meus arranhões. Sou lembrada da cena em

A História de O, na qual nossa heroína é confrontada sobre as marcas em seu corpo


quando vai se depilar.
— Ah — eu digo —, é só minha gatinha nova. Fui tentar carregá-la.
Ela arregala os olhos. Gatinhos deveriam ser pequenos e brincalhões, não é? Não Elsie.
Ela tem um coração negro. Em geral, ela se esconde debaixo do arquivo e, se ousamos
sequer olhar para ela, ela silva. Ontem ela se enfiou atrás da minha impressora e eu
ingenuamente pensei em aproveitar a oportunidade para ver o sexo dela. Vamos apenas
dizer que erguê-la pela nuca não teve o efeito calmante que o livro sobre gatos diz. Ela
conseguiu se virar no ar e atacar minha mão com as garras e os dentes. Quando
finalmente consegui soltá-la da minha mão, ela silvou de novo, só para deixar clara sua
opinião. Não cheguei nem perto de verificar debaixo do rabo dela.
Por sua vez, a gata Bob ficou inexplicavelmente simpática. Nos raros momentos em
que não está de sentinela na porta do meu escritório, farejando e ocasionalmente
ronronando, ela me segue e exige minha atenção. Bob nunca fez nada assim. Ela
costuma dar a impressão de que sou sua captora em vez de amada dona. Fica claro que
um pouco de ciúme não é uma coisa ruim. Trate com indiferença para ser bem tratada, é
o que eu digo.
Estou achando esse negócio de ser dona de um gatinho novo muito estressante.
Confesso que supus que Elsie só levaria uns dois dias para começar a se enroscar no meu
colo e brincar com meus cadarços. Mas agora sinto como se estivesse cuidando de uma
reabilitação completa. A favor de Herbert, devo admitir que nem uma vez ele disse: “Eu
nunca a quis aqui.” Por outro lado, não foi tão solidário quanto eu gostaria quando ela
usou minha cesta de tricô como privada.
De qualquer modo, eu mereci essa massagem. É uma coisa que tenho feito cada vez
mais ultimamente, planejar algo que faz meu corpo se sentir cuidado. Antigamente, eu
considerava um tremendo desperdício de dinheiro, mas agora parece a melhor das
gratificações — do tipo que não deixa você se sentindo culpada depois. Eu até criei o
hábito de fazer esfoliação duas vezes por semana. O chão do box fica terrível, mas meus
cotovelos ficam bem mais macios.
Eu antes via isso tudo como vaidade sem sentido. Eu era limpa e (ocasionalmente)
tinha a perna raspada; de que mais eu precisava? Além do mais, Herbert nunca fez o
menor esforço nesse sentido. Ele acha que metrossexual é um suplemento de revista.
Tenho que o lembrar de aparar a barba e cortar as unhas do pé, e mesmo assim ele
costuma demorar para fazer isso. Por que eu deveria me enfeitar demais se ele não liga
para meus cuidados e nem os dele?
No entanto, assim como comprar lingerie boa, aprendi que faço isso por mim, não por
ele. Não sinto necessidade alguma de ser magrela e perfeita, mas, por outro lado, não
fico mais convencida quando digo para mim mesma que não sinto necessidade de ser
bonita. Ao longo dos anos, fiquei horrorizada pelo modo como meu corpo armazenou
depósitos de gordura e áreas de pele cinzenta. É como se minha autoimagem mental
tivesse sido gradualmente sombreada de preto, cobrindo os pedaços que não suporto
mais contemplar, muito menos exibir em público. O problema era que havia algumas
partes remanescentes que não estavam sombreadas.
Acho que devo ter confundido “aceitar meu próprio corpo” com “não olhar para ele”. Eu
queria ser confiante e segura o bastante para não ficar obcecada com as coisas que não
podia mudar. Em vez disso, me forcei a engolir uma noção de declínio corporal que me
deixou desolada e nada atraente. E, criticamente, eu disse para mim mesma que era
vaidade me sentir assim.
Estou começando a iluminar as partes sombreadas que tentei persuadir meu cérebro
de esquecer. Estou fazendo aula de ioga e aumentando minha força com exercícios de
power-plate. Estou comendo melhor e bebendo menos. E até comecei a correr, embora,
para ser justa, atualmente isso signifique que arrasto os pés, ofegante, um minuto de
cada vez, com uma caminhada de dois minutos depois. Não tenho certeza se realmente
conta.
Tudo isso me parece diferente de vaidade. Na verdade, é parte do comportamento de
um amante; não se trata de procurar perfeição, só satisfação, e a capacidade de sentir
liberdade e conforto com o próprio corpo.
Sedução no 44
O alimento do amor

Herbert faz uma careta, engole com dificuldade e bochecha com o espumante para tirar o
gosto da boca.
— Bem, foi uma... experiência indiferente.
— Estou tão orgulhosa de você! — eu digo. — Você quase não reclamou.
É que Herbert acabou de ingerir sua primeira ostra. Crua. Para dar o contexto, eu
nunca o vi comer frutos do mar antes, exceto quando algum palhaço coloca camarões no
seu yakisoba e ele tem que cuspir.
O mais surpreendente é que ele comeu a ostra por vontade própria. Sempre estou
disposta a pressionar H a fazer várias atividades, mas meu limite é fazê-lo comer peixe.
Tentei no começo do nosso relacionamento e isso levou a um ataque histérico. Aprendi
minha lição.
A sedução de Herbert desta noite é comida. Especificamente, ele pesquisou uma lista
de alimentos com propriedades afrodisíacas. Ele me conta que a maior parte dos itens na
lista foi desmascarada por alguém na internet, mas está disposto a tentar mesmo assim.
A lista dele contém: amêndoa, semente de anis, abacate, banana, pimenta chili,
chocolate, café, funcho, figo, alho, gengibre, mel, mostarda, noz-moscada, abacaxi,
pinhão, ostra crua, rúcula, trufa, baunilha e vinho.
— O que vamos comer então? — eu pergunto.
— Quero comer tudo isso, para falar a verdade.
Certo. É claro.
— Imagino que você tenha um plano.
— Bem — diz ele —, não as ostras sozinhas, é claro. Qual é aquele negócio que
costuma se comer com elas?
— Vinagrete de echalota.
— Muito disso então. Como se arruma trufas?
— Acredite, não temos dinheiro para isso.
— Ah.
— Mas acho que dá pra comprar óleo de trufa.
— Serve. Eu estava pensando em colocar nos aspargos.
— Não é época de aspargos.
— Você vai ter que comer mesmo assim.
— Tudo bem. Prato principal?
— Algum tipo de picadinho. Acho que posso colocar vários dos ingredientes e cozinhar
junto.
— E as frutas? Você não come frutas.
— Como sim!
— Cite a última vez em que comeu uma fruta voluntariamente.
— Não sei. Em uma torta?
— Assim não conta.
H suspira para mim. Não estou apreciando o esforço dele.
— Que tal grelharmos as frutas e acompanhar com sorvete de gengibre? — eu digo. —
Eu podia fazer uma calda de mel e manteiga.
Passamos a tarde fazendo compras e cozinhando. H arruma a mesa com a toalha que
compramos nas férias e minhas taças de champanhe de um bazar beneficente. Usamos
velas e talheres de prata. Ele até se lembra dos guardanapos, embora eu confesse que
os redobrei enquanto ele estava de costas.
Começamos com as ostras e depois passamos aos aspargos com manteiga de trufas e
parmesão. Por não ser época de aspargos, estão um pouco aguados, mas mesmo assim
deliciosos.
— Está sentindo alguma coisa? — eu pergunto.
— Talvez um pouco de tontura?
— É só o medo remanescente das ostras.
Fazemos uma pausa antes do prato principal e passamos o tempo sentados no meu
escritório, empurrando pedaços de sobra de frango para a gatinha Elsie. Ela silva de vez
em quando. H questiona se ela teria gostado das ostras mais do que ele.
O picadinho, que cozinhou e virou uma sopa grossa com pedaços de carne, está
delicioso, uma estranha combinação de doce, apimentado e muito quente. Nós
equilibramos com abacate, salada de funcho e grandes bolas de creme azedo. Depois,
planejamos fazer outra pausa antes da sobremesa, mas acabamos caindo juntos no sofá
e de lá vamos para a cama. A sobremesa é esquecida.
A comida teve algum efeito afrodisíaco?
Bem, do meu ponto de vista, acho possível sim. Eu estava no clima quando acabou o
prato principal e meu orgasmo pareceu sair de mim sem precisar de muito
encorajamento. Se isso foi o resultado de uma noite romântica ou da comida, não sei. E
se foi a comida, eu me pergunto que ingrediente em particular provocou a magia.
Mas para H, ela foi menos eficiente. Não há dúvida de que também estava no clima,
mas o entusiasmo dele era tanto que ele se virou de cabeça para baixo antes, quase
desmaiou porque o sangue foi para o lugar errado e perdeu a ereção porque o sistema
circulatório procurou compensar e mandou todo o sangue para a cabeça.
Ao menos, essa é a desculpa dele. Minha teoria é que a caixa de Viagra que ele
encomendou para a sedução do final desta semana estava executando alguma espécie
de vodu de impotência.
Sedução no 45
A pílula azul

Já tivemos seduções com começos mais promissores.


Herbert enfiou na cabeça que quer fazer uma espécie de teste de consumidor: Viagra
herbal contra o verdadeiro. Foi uma das primeiras sugestões dele para as seduções, e ele
continuou a falar em favor dela ao longo do nosso ano. Eu nem sabia que era possível
comprar sem receita médica, mas H achou um site na internet que oferecia uma consulta
on-line e depois disso nada o deteve.
Ele chega em casa certa noite e diz casualmente durante o jantar:
— O Viagra está a caminho.
— Ah, meu Deus — eu digo. — Você realmente fingiu ter uma disfunção erétil para um
médico?
— Não — diz ele. — Só falei a verdade. Eu disse que às vezes não consigo ter uma
ereção se me sinto sob pressão ou se estou distraído. Disse que não consigo fazer sexo
com minha esposa sempre que ela quer.
— Mas desconfio que você não tenha mencionado que isso só corresponde a uns cinco
por cento do tempo.
— Não. Mas também não mencionei que é parte de um projeto sexual bizarro.
Bizarro é uma palavra tão feia. De qualquer forma, as míticas pílulas azuis chegam
rapidamente pelo correio, seguidas pelas correspondentes feitas de ervas. H escolhe
tomar estas últimas primeiro. Ele diz que quer ir se preparando para o evento principal.
Então, na noite de quinta, ele toma dois comprimidos e pouco depois dois amigos
aparecem sem avisar.
Enquanto ofereço chá em vez de vinho e não torno a encher a xícara deles, observo H
com atenção. Ele está muito silencioso. Eu espero muito que não esteja tentando
esconder o volume na calça.
Assim que vão embora, ele diz:
— Isso foi horrível. Você acha que eles perceberam?
— Então funcionou?
— Não. Primeiro meu nariz ficou dormente, depois o resto do meu rosto. Agora estou
com uma dor de cabeça horrível e não consigo enxergar direito.
— Droga.
— É. E eu achando que não faria efeito algum.
Então a noite terminou cedo para Herbert. E depois dessa experiência, é
compreensível que ele fique relutante em tentar a pílula verdadeira. Mas quando chega a
noite de domingo, seu espírito de aventura se recuperou o bastante para que vá até a
cozinha durante o programa Antiques Roadshow e tome meio Viagra.
— Deve levar meia hora para fazer efeito — diz ele, então nos sentamos no sofá para
assistir a um trecho fascinante sobre o antigo cofre de Agatha Christie. Isso não faz nada
acontecer, então decidimos esperar mais um pouco. Meia hora se passa. — Acho que
talvez eu deva tomar a outra metade — diz H.
É o que ele faz, e assistimos a Have I Got News for You. Nem o decote de Janet
Street-Porter nem o sorriso matreiro de Paul Merton despertam em H a vontade de agir.
Eu bocejo.
— Bem — diz H —, foi perda de tempo. Vamos para a cama?
— Será que poderíamos obter uma ereção da maneira tradicional?
— Não. Estou de mau humor agora.
Vamos para o quarto e, enquanto escovo os dentes, H lê a bula do Viagra.
— Ah — diz ele —, parece que você tem que estar excitado para que funcione. Ele não
simplesmente proporciona uma ereção.
— Você nem pensou em ler isso antes de tomar?
— Sei lá.
— Então, basicamente, é como a coisa normal? Qual é o objetivo?
— Bem, tecnicamente é para pessoas com disfunções eréteis — diz H.
Vamos para a cama e H sugere que eu acaricie o pênis dele. Para falar a verdade, meu
cérebro já se ajustou à função “ir dormir”, mas acho que não faz sentido desperdiçar 12
libras gastas em Viagra. Não demora muito para o coleguinha despertar, e logo está duro
como pedra.
— Hum, nossa — eu digo. — Acho que essa é a diferença do Viagra.
H olha para baixo com certo orgulho.
— Está sentindo alguma coisa diferente?
— Não, acho que não — diz ele. Mas então, pensa por um momento. — Na verdade,
sim, talvez eu esteja.
— De que maneira?
— Não sei. Apenas está diferente.
Eu me seguro para não pedir para ele ser mais específico, pois uma discussão
profunda demais do nosso encontro sexual tem a tendência de nos levar ao tipo de
situação que requer o uso de Viagra. H sobe em mim e logo o pênis estranhamente duro
está agindo alegremente. Só que, para mim, parece aquela arma medieval para derrubar
a porta do castelo.
— Ai — eu digo —, isso é um tanto desconfortável.
— Quer que eu pare?
— Não, mas será que podemos fazê-lo deslizar pelo meio das minhas pernas?
H sempre gosta dessa prática em particular; na verdade, ele não consegue perceber a
diferença entre isso e a verdadeira penetração. Normalmente eu também gosto, mas
esta noite a sensação do pênis incansável contra minhas partes mais delicadas não é
nada confortável.
— Talvez um pouco de lubrificante? — eu sugiro.
Passamos o lubrificante. Ele melhora bem as coisas e até consigo chegar a um
pequeno orgasmo, mas não consigo deixar de sentir alívio quando ele finalmente goza.
Ele se deita sobre os travesseiros e suspira profundamente. Eu olho para baixo.
— Caramba — eu digo —, a coisa ainda está firme aí embaixo.
Nós dois olhamos para ele com uma espécie de espanto. Eu quase imagino que ele
está nos encarando desafiadoramente.
— Você diria que ele parece diferente do normal? — eu pergunto.
— Eu também estava pensando isso, agora mesmo.
— Meio que menor e mais grosso?
— É! Você está certa.
— Que estranho. É uma nova forma de ereção.
— Humm. Eu não estava esperando isso.
— Bem, o que você vai fazer com ele agora?
— Vou dormir.
— Não vai incomodar? Quero dizer, ele não vai exigir sua atenção?
— Betty — diz H —, você não faz ideia de como é ser um garoto adolescente, faz?
E depois desse comentário enigmático, ele esconde o pênis tirano e reto dentro do
pijama e adormece.
Novembro
Agora estou na quarta semana do programa de corrida e consigo correr três minutos sem
morrer.
Mas está bom, porque sou uma corredora no meu coração. Tudo em relação à minha
experiência com a corrida até agora me mandou parar. Na verdade, esta é minha quarta
tentativa de começar. A primeira tentativa terminou depois que achei meu personal
trainer tão assustador que tive um ataque de pânico de verdade. Na segunda vez, me dei
conta de que ser anêmica dificultava permanecer consciente e correr ao mesmo tempo.
Na terceira vez, desenvolvi uma terrível canelite. Mas não importa. Esperei
pacientemente que todas essas coisas passassem e agora estou tentando de novo.
Pode ser que alguma coisa aconteça e eu tenha que parar desta vez também. Meus
joelhos estão um pouco cansados, confesso. Mas o problema é que minha segunda
corrida aconteceu em uma manhã de inverno em uma rua com calçamento preto e
brilhante. O ar estava pesado pela geada e embora eu estivesse ofegando, havia alguma
coisa de viciante naquela manhã silenciosa e fria, no asfalto brilhante e nos meus pés
batendo de forma instável sobre ele. Eu sabia que aquilo era para mim, independente do
tempo que levasse.
Eu me lembro de me sentir exatamente do mesmo jeito em relação à meditação. Eu
sabia que precisava dela e tentei várias maneiras de começar, mas mesmo assim
demorei seis anos para fazer com que se tornasse parte da minha vida. Agora me sentiria
como uma pessoa pela metade sem ela. Acho impossível frequentar academias ou seguir
rotinas, mas meus vinte minutos, duas vezes por dia, são sagrados.
É igual com as seduções. Passamos anos desejando ter uma vida sexual melhor, mas
(sem contar as estranhas férias de verão), até o momento, nada aconteceu. Agora estou
extremamente agradecida por não termos desistido completamente. É um milagre que
ainda soubéssemos que o sexo era importante, mesmo não nos dando ao trabalho de
fazer. Por que isso sempre voltava à superfície, mesmo quando estávamos tentando
empurrar para baixo?
Tenho um milhão de respostas para essa pergunta agora (intimidade, biologia, uma
sensação compartilhada de conspiração), mas o motivo para o qual sempre retorno é
este: o sexo é uma expressão de vigor. Ele requer uma autoestima vigorosa e uma
relação vigorosa para vencer a vergonha e chegar ao prazer. E também requer uma
concepção vigorosa do corpo da própria pessoa. Para fazer sexo, para se entregar a ele,
precisamos nos ver como fortes e dispostos, capazes de nos envolver em um pouco de
batalha.
Eu não me sentia assim quando comecei as seduções. Mas ontem tive uma consulta
marcada há muito tempo com meu ginecologista e fui capaz de dizer:
— Quer saber? Estou perfeitamente bem.
Ele me deu alta.
Então pode-se dizer que neste ano meu tratamento médico funcionou e agora estou
em uma condição física bem melhor para voltar a apreciar o sexo. Mas é mais do que
isso. Minha autoimagem mudou. Parei de desconfiar de que tenho a saúde debilitada.
Essa é uma crença que carrego comigo desde a infância, e este ano me dei conta de que
não preciso mais dela.
Não é que minha área de lazer esteja uma utopia. Ainda temos que tomar cuidado às
vezes (mas, por outro lado, às vezes não). Desenvolvemos meios de contornar o
problema. E, mais do que tudo, aprendi que meu corpo pertence a mim. Não é mais
responsabilidade de Herbert encontrar maneiras de satisfazê-lo, assim como não é
responsabilidade do meu médico fazê-lo funcionar bem. Ele é meu. Agora o vejo como
forte, em forma e saudável. Cuido muito bem dele.
Há um ano, eu estava preocupada com a forma mais apropriada de cultivar os pelos
pubianos para ir a uma consulta médica. Será que ele reprovaria uma leve aparada nos
cantos com uma gilete? A depilação com cera era uma medida extrema? Ontem, cheguei
pronta para apresentar meu púbis completamente depilado. Ele é meu e faço o que
quiser com ele. Acho difícil de acreditar que já pensei diferente.
Sedução no 46
Cócegas

Não suporto que me façam cócegas. Não considero nem remotamente divertido. Não me
faz gargalhar, só rosnar como um animal. Não parece uma coisa muito legal de se fazer
com alguém.
Herbert aprendeu isso no começo da nossa relação, quando tentou fazer cócegas em
mim, brincando, e eu bati na boca dele.
— Por que fez isso? — perguntou ele, colocando a mão no rosto.
— Eu mandei parar e você não parou.
Um olhar horrorizado.
— Mas é pra você me implorar para parar. Faz parte da brincadeira.
— Eu não gosto.
Essa conversa se repetiu de várias maneiras (embora sem a violência que a
acompanhou), em intervalos regulares ao longo do nosso casamento. Herbert está
convencido de que fazer cócegas é divertido. Estou convencida de que é horrendo. É um
impasse.
Então eu sabia que, cedo ou tarde, ele sugeriria isso como sedução.
— Ah, Deus, não — eu respondo.
— Vamos lá. Vai ser legal.
— Você sabe o que a sensação de cócegas significa?
— Não, Betty, e não importa...
— É uma reação evolucionária. Aprendemos a sentir cócegas para conseguirmos
identificar quando um inseto está andando sobre nossa pele. Para o caso de ser
venenoso.
H sacode a cabeça.
— Portanto — eu digo —, fazer cócegas devia contar como prática sadomasoquista.
— Você não está falando sério.
— Estou.
— São só cócegas.
— Tudo bem — eu digo —, eu faço cócegas em você.
— E eu faço cócegas em você.
— Preciso de uma palavra código.
Este é o problema com as seduções: não é completamente legítimo dizer não para
nada. Na preparação, me consolo comprando uma pena na Coco de Mer, que espero ser
uma afronta menor ao meu espaço pessoal do que a movimentação dos dedos de outra
pessoa.
Quando chega a hora da sedução, eu decido tomar a iniciativa.
— Certo — eu digo —, vou fazer cócegas em você.
— Não — diz H —, você primeiro. — Faço uma careta. — Não se preocupe. Vou parar
se você pedir.
Ele me pede para me despir e deitar de bruços na cama. Eu devo ser a pessoa que
mais sente cócegas no mundo. Se, por exemplo, H vai fazer sexo oral em mim antes de
eu estar devidamente aquecida, passo os primeiros cinco minutos gritando de agonia por
causa das cócegas e afastando o rosto dele. Acho que eu devia me considerar sortuda
por ele achar isso engraçadinho e persistir.
Esta noite, tudo que ele faz é passar a pena pelas minhas costas, mas tenho
convulsões. Não dou risadas; faço um som para o qual não há nome algum, mas que
parece muito com “urrrrrr”. Bem alto.
Neste ponto, H decide que é adequado falar comigo como se eu fosse Elsie, a gatinha
psicótica.
— Está tudo bem — diz ele, com uma voz meio afeminada. — Acalme-se. Pronto.
— Foda-se — eu digo.
Ele apoia a pena na base das minhas costas e eu começo a sacudir as pernas. É
terrivelmente intenso, a própria definição de desconforto.
— Você só precisa respirar. É como encarar uma dor.
— Certo — eu digo —, não quero fazer isso. Vamos ver se você gosta.
Ele parece desapontado, mas deita de bruços mesmo assim. Passo a pena pelas
pernas dele e pelo bumbum, depois a arrasto pelas costas. Nada.
— Você não sente nem isso? — eu pergunto.
— É claro que sinto. É delicioso.
— Seu esquisito — eu digo. — Vire-se.
Ele gosta mais ainda quando passo nos mamilos e sobre os testículos. Ele nem ri.
Tenho certeza de que está se exibindo.
Acabo me entediando. Se ele não vai achar isso nem vagamente torturante, não estou
interessada.
— Isso não é exatamente uma sedução, é? — eu digo. — É só uma chance para você
demonstrar o quanto sou péssima.
Ele se vira.
— Não é verdade!
— É sim. Você está deliberadamente tentando não rir. Está se comportando como um
garoto de 6 anos que está recebendo cócegas de um dos irmãos. Está contraindo todos
os músculos para evitar ter qualquer sensação.
— Não, eu... Bem, é, está certo, acho que é a força do hábito.
A irmã mais velha de Herbert, que na idade adulta é 30 centímetros mais baixa do que
ele e tem um temperamento incrivelmente doce, era uma tirana na infância, de acordo
com ele.
— Pelo menos estou envolvida.
— Tudo bem, Betty, sua superioridade moral está clara.
— Ótimo.
— Ótimo.
— E então, quer que eu faça mais cócegas em você? — eu pergunto. — Só se você
concordar em rir, obviamente.
— Tudo bem. E depois é sua vez.
Acho que não. Só vou ter que encontrar outras formas para distraí-lo.
Sedução no 47
Eu estou no comando

Estou de pé no banheiro tentando me enfiar em um espartilho preto de vinil e me vejo


refletindo sobre Jane Austen.
Em particular, estou pensando que as conquistas femininas que as jovens nos livros
dela tiveram que realizar — cantar, dançar, conhecer um pouco de francês — não são
nada em comparação às conquistas exigidas da mulher moderna. Já testei minhas
algemas, treinei os golpes de chicote e fiz maravilhas com um tubo de gloss e delineador
preto. Mas acho que o espartilho vai ser um desafio grande demais.
Depois de prender a pele no zíper várias vezes e observar que até essa peça de roupa
não é o bastante para me proporcionar qualquer espécie de imitação de seios fartos,
acabo me dando por satisfeita. Na verdade, por ser uma gótica adolescente em
recuperação, gosto da roupa. Eu provavelmente a usaria para sair para dançar 15 anos
antes. Até a ridícula saia-lápis de vinil. E as luvas de vinil até os cotovelos.
No quarto, acendo algumas velas para criar uma atmosfera de calabouço. Não é de
surpreender que não funcione. O problema de dar vida às nossas fantasias em casa é que
é difícil escapar da atmosfera doméstica. Passo muito tempo enfiando roupas em gavetas
e recolhendo xícaras de chá vazias, mas assim que chamo H para se juntar a mim, me
dou conta de que meus chinelos estão em frente à mesa de cabeceira. Acabo decidindo
usar a venda.
Não posso dizer que essa seja minha fantasia em particular, mas acho que pode se
parecer ao menos um pouco com a de Herbert. Meu palpite há muito tempo é que ele
gostaria de ser dominado. Mas o problema é que não tenho a menor ideia de por onde
começar. Já dei para trás uma vez quando pensei nessa sedução e me sinto tão ridícula
na segunda tentativa quanto me senti quando pensei nela a primeira vez. Por isso estou
usando a fantasia, que deixei H escolher. Às vezes você precisa encarar a fase brega para
encontrar sua expert interior.
E na verdade não é com a dominação que me incomodo, mas com a reação submissa.
Eu o faço se ajoelhar nu em cima da cama e coloco a venda nele, depois tento algemar
os pulsos dele atrás do corpo. Isso não vai dar certo. As algemas que funcionaram
perfeitamente em mim nem mesmo se fecham ao redor dos pulsos de H. Dou uma
risadinha e ele também. Sem nada mais a vista, pego o elástico que prendia as algemas
na caixa. Ele segura por uns cinco minutos. Depois disso, H obedientemente mantém as
mãos no lugar como se ainda estivessem amarradas.
Enquanto isso, experimento minhas várias ferramentas. Passo meu açoite de camurça
pelo corpo nu dele e o uso para bater nos mamilos e testículos. Bato com um pouco mais
de força no traseiro e na parte de trás das coxas. Mexo no pênis dele usando as mãos
enluvadas e mordo os mamilos. Passo a pena pelo torso dele.
Mas aí, fico um pouco entediada. Isso tudo é um pouco unilateral demais para mim.
Procuro inspiração e bato o olho em uma vela acesa. Todos vimos Corpo em evidência,
certo? Pareceu ir muito bem quando Madonna fez.
— Que tal um pouco de cera de vela? — eu digo para H em minha melhor voz
dominadora.
— Hum, tudo bem — diz ele em resposta. Sentindo-me corajosa, derramo uma trilha
de cera quente sobre a barriga dele. H parece apavorado. A pele fica vermelha debaixo
da cera.
— Quer mais? — eu digo. Vejo a ereção dele diminuir.
— Hum, sim, senhora. — Sei que ele não quer de verdade. Também me pergunto se
tem algum problema em retirar o uso da palavra “senhora” a essas alturas.
— Você não mentiria pra mim, mentiria? — eu pergunto, tentando não sair do
personagem. — Quer mesmo?
H expira.
— Você está certa — diz ele. — Não quero, senhora.
— Bom menino — eu digo. Estou me sentindo terrivelmente culpada e estou morrendo
de vontade de ver se a cera o queimou de verdade. — Pode remover a cera.
Ele esfrega a cera com o dedo e põe à mostra uma linha de marcas vermelhas na pele.
Pelo menos não formou bolha. Eu me inclino e lambo as marcas e, para distrair, mordo
seus mamilos mais um pouco.
O problema com essa dominação toda é que é uma tarefa muito solitária. Com H se
comportando tão passivamente, não estou tendo nenhuma das dicas que costumo usar
para me excitar. Acho que não entendo o sentido de papéis tão diferentes. Por que, por
exemplo, não podemos nos revezar com o açoite? Seria bem mais interessante. Também
tenho a sensação de que faria menos caso do incidente da cera de vela.
Felizmente, H repara que estou um pouco perdida. Ele pede para tirar a venda para
poder ver melhor e, depois disso, tudo fica bem. Ele alega que o espartilho deixa meus
seios lindos, embora eu não perceba. Mas depois me vejo pensando qual foi o sentido
daquilo tudo.
— Eu senti como se estivesse tentando fazer o sexo de outra pessoa — eu digo.

erbert está de cama, resfriado, e estou me perguntando quando estará

H recuperado. Quero fazer sexo com ele, e não só porque temos um prazo. Meu
corpo quer. Talvez eu finalmente tenha despertado o desejo sexual.
Na verdade, ele sempre esteve lá. Meu eu sexual se sente do mesmo jeito de sempre,
só que não tenho mais vergonha. Eu costumava achar que este ano despertaria algo
totalmente novo em mim, um diferente conjunto de desejos. Talvez eu encontrasse
algumas perversões que me tornassem mais interessante. Mas não. Eu sempre soube
exatamente quem eu era; só nunca me permiti liberdade. Sinto como se estivesse
começando a pegar o jeito.
A Sedução nº 47 me fez perceber que parte da minha aversão a sexo vem de sentir a
pressão para ter um bom desempenho. Eu devia saber que era besteira, mas fui sugada
pelo sexo da mídia, aquele desfile de corpos perfeitos e erotismo estigmatizado. No
século XXI, não parece mais ser o bastante apenas fazer um sexo simples sem nenhuma
jogada especial — ou sexo “baunilha”, como chamam, torcendo o nariz. Se quero ser uma
mulher moderna e liberada, sinto como se devesse ser algo mais sombrio, mais sujo,
mais ousado.
Eu sempre quis ser a garota bacana do fundo da sala. Ganhei minhas medalhas de
honra adolescente, ao pintar o cabelo de verde e enaltecer as virtudes de discos que até
eu achava impossíveis de ouvir. E uma parte de mim deseja ser uma garota bacana
sexualmente também, alguém com gostos um tanto curiosos e desafiadores. Tenho que
aceitar que isso não é verdade e que é irrelevante, de qualquer modo.
Se eu perguntar a mim mesma, honestamente, o que quero do sexo, eu diria que
quero sensações surpreendentes, comunicação íntima e o sentimento de ser transportada
para outro estado de existência por algum tempo. Porém, mais do que tudo, quero
autenticidade. Não quero fazer, desajeitada, o tipo de sexo que acho que deveria fazer.
Quero procurar desejos autênticos e palpites eróticos e gerar minhas próprias reações
genuínas. Essa é a coisa mais difícil de alcançar, principalmente quando você está
navegando pelos desejos e ideias preconcebidas do parceiro.
Persistir nas seduções nem sempre foi fácil. A estrutura delas me deu a motivação que
eu precisava para iniciar um diálogo com Herbert sobre sexo, mas o empurrão constante
em direção às novidades que elas exigem é implacável. Não há espaço nelas para
voltarmos às coisas das quais gostávamos e para explorá-las ainda mais. Além do mais,
algumas vezes elas significaram que experimentamos nossas ideias — o TAC é um bom
exemplo disso — apenas para cumprir o combinado.
Mas, por outro lado, estou com medo de estagnarmos novamente sem as seduções.
Parece que precisaremos encontrar um novo acordo sexual quando elas terminarem.
Sedução no 48
Brinquedo de menino

Herbert está navegando na internet quando volto para casa.


— Quero um desses — diz ele.
Isso não é incomum; as compras on-line de H provavelmente são a única coisa que
mantém o correio britânico ocupado atualmente. Mas observo melhor e vejo que ele não
está comprando um disco ou um DVD. Está me mostrando o Flip Hole, que é
encantadoramente chamado de “masturbador masculino”.
— Eca — eu digo.
— Mas aqui diz que é o melhor acessório sexual para homens que existe!
— Sim — eu digo —, para homens solteiros.
E paramos por aí. Só que, em pouco tempo, começo a me sentir culpada. Que direito
eu tenho de julgar? Afinal, me sinto muito à vontade com acessórios sexuais em formato
de pênis; por que deveria ter algum problema com acessórios que imitam vaginas?
Acho que existe um preconceito quanto a homens usarem acessórios sexuais. Nós
mulheres fizemos um bom trabalho modificando a imagem de nossa vida de
masturbação, transformando-a em liberada e saudável, mas a masturbação masculina
precisa desesperadamente de uma reforma. Talvez ainda estejamos presos à ideia do
garanhão que não precisa se masturbar porque faz sexo quando quer; ou talvez
tenhamos sido infectados pela imagem do masturbador masculino furtivo que “tem
impulsos” nos momentos mais impróprios.
De qualquer modo, minha sensação é a de que, ao contrário dos homens, as mulheres
heterossexuais não estão ansiosas para ver seus parceiros se masturbarem.
Então, inevitavelmente, compro o Flip Hole para Herbert. Para falar a verdade, estou
incrivelmente curiosa para saber o que ele envolve. Assim que chega e antes que H
possa dar uma olhada nele, eu o tiro da caixa e abro.
É um tubo comprido de borracha, forrado com uma espécie de geleia moldada.
Lembra-se daquelas criaturas grudentas que a gente tinha quando criança e que jogava
na janela e via escorrer? É feito disso. É bem macio e de acordo com o site do fabricante,
cada calombo e ranhura tem uma função diferente; tem até um diagrama bem moderno.
Eu fecho o negócio e enfio os dedos nele. Não tenho certeza se consigo diferenciar as
partes, mas concordo que a sensação lá dentro é bem gostosa. Quase erótica.
H chega em casa e passa algum tempo lendo as instruções. O quanto pode ser difícil?
Só se enfia o membro ali dentro, não é? Eu me seguro para não dizer isso; é legal vê-lo
curtindo o brinquedo novo.
— O que você vai fazer enquanto eu estiver usando? — pergunta ele.
— Não sei. Observar? Não observar? Pra mim, tanto faz.
Deixamos por isso mesmo. Mas um pouco mais tarde, escuto música vinda da sala e H
me chamando:
— Corra, estou ficando com frio.
Ele está sentado no sofá, nu, assistindo a um DVD de Betty Page que comprou em
uma galeria de arte semanas atrás.
— Muito retrô — eu digo.
H sorri.
O Flip Hole vem com três variedades de lubrificante e H escolhe “Selvagem” em vez de
“Real” ou “Suave”. Isso me parece inevitável; selecionar “Suave” seria como comprar
camisinhas em tamanho pequeno. Imagino que todos os homens queiram ter uma
experiência selvagem em vez de uma suave.
De qualquer modo, o Flip Hole parece cumprir o que propõe. Eu me esforço para não
achar cômico, mas é difícil. Acho que o motivo de os homens gostarem de ver as
mulheres usando acessórios sexuais é que eles melhoram a visão; com o Flip Hole, não
há nada para ver além do movimento de vai e vem.
— Você consegue sentir todas as partes diferentes? — eu pergunto. — Os altos-relevos
fazem alguma diferença?
— Não e não, mas é uma delícia mesmo assim, e será que você pode parar de fazer
perguntas? Estou tentando me concentrar.
Fui repreendida. Tento aprender com o manual do olhar masculino e apenas observar.
As pernas dele estão contraídas, mas o rosto está relaxado e a respiração está lenta. Os
olhos estão fechados; ele está completamente controlado. Estou tendo permissão de
assistir a uma coisa frágil e bonita; é uma atitude de intimidade e confiança, não uma
coisa excitante, mas uma demonstração de amor.
Ele deixa a cabeça pender para trás quando chega ao orgasmo e então treme e olha
para mim, para o Flip Hole e para mim de novo.
— Foi bom? — eu pergunto.
— Delicioso. Mas agora estou me sentindo meio bobo.
— Você não devia se sentir bobo — eu digo, e o beijo. — E agora vou poder visualizar
o que você está fazendo na próxima vez que eu sair.

osso pequeno lar está gradualmente voltando ao estado de equilíbrio.

N A gatinha Elsie está mostrando sinais de que acredita que não somos totalmente
inúteis, por cortesia de uma pena presa a um palito que compramos no pet shop
do bairro, com a qual ela luta com alegria depois de um pouco de persuasão. O fato de
que ele vem com um cheiro que atrai gatos ajuda, assim como o aparelho de colocar na
tomada, que libera um odor de feromônio de gato e serve para fazê-la achar que marcou
o território todo. Sim, estamos drogando nossa gata para que ela goste de nós e não
temos vergonha disso. Ela ainda age com frieza quanto a tocarmos nela, embora quase
arranque nossa mão para pegar um pedaço de salmão.
Durante uma dessas brincadeiras com a pena, chegamos à conclusão que Elsie está
mais para Elvis. Ele parece aceitar graciosamente a mudança de sexo. Bob permanece
consternada, mas de vez em quando decide fingir ataques à tigela de comida dele. Ela
também passou a dormir nos meus pés à noite para demarcar que sou propriedade dela.
Tudo vai se acertar; tudo se acerta no final. Outras coisas também estão se acertando.
Em algum ponto nos últimos meses — e eu não saberia dizer quando —, parei de me ver
como uma mulher no meio do processo de decidir se queria ter filhos e me tornei uma
mulher que ainda não quer filhos. A diferença é pequena, porém crucial. Em vez de
apertar as mãos e tentar forçar uma escolha, estou preferindo ficar com quem eu sou
agora. Estou perfeitamente ciente de todos os avisos sobre abrir mão da fertilidade
feminina depois dos trinta, mas isso não é uma razão boa o suficiente para eu ter um
bebê. Lamento, vida, mas você vai ter que esperar que eu chegue lá no meu próprio
tempo.
O problema é que o mundo de repente parece muito divertido. Herbert e eu estamos
bem. Estamos felizes. Somos praticamente invencíveis. Isso significa que não precisamos
mais nos agarrar um ao outro com tanta intensidade. Podemos ir atrás de nossas
próprias ideias agora. Se isso parece uma coisa pequena para você, para mim parece que
meu coração se abriu e a luz está entrando nele.
— Se não vamos ter filhos — eu digo para Herbert —, então não precisamos mais viver
no padrão das pessoas que terão filhos, precisamos?
— Hum, não, acho que não — diz H. — O que você quer dizer?
— Bem, não precisamos trabalhar em excesso para ter uma casa de três quartos — eu
digo. — E isso é só um exemplo.
H parece perplexo.
— Amo esta casa. Esta casa é ótima.
— Tudo bem. Eu também amo esta casa. Mas nada nos impede de alugá-la por um
tempo e morar em outro lugar, talvez. Se quiséssemos.
— Bem, não. Mas não se esqueça do meu trabalho.
— Você poderia tirar uma licença. Ou arrumar um novo emprego!
H me olha com olhos arregalados, apavorados, o que faz as palavras dele
desaparecerem.
— Tudo bem, Herbert, não entre em pânico. Ninguém está forçando você a mudar.
Mas talvez eu possa tentar umas coisas diferentes. Talvez eu viaje um pouco ou alugue
um apartamentozinho em Londres, para poder passar um tempo morando em uma
cidade grande. Talvez você possa ir me visitar quando eu estiver morando lá e possamos
fingir que somos namorados de novo, em vez de casados há muito tempo.
Herbert sorri.
— É melhor você achar um jeito de poder pagar isso primeiro.
Estou pensando: “Droga, Herbert e sua resistência a coisas novas”, quando ele diz:
— Eu também gostaria de mais tempo sem você. Gostaria de sair com meus amigos
sem ter que sempre ser em casal e gostaria de passar mais tempo jogando no
computador sem ter que me preocupar se você vai desaprovar. Tem um grupinho em
Londres que se reúne uma vez por mês para conversar sobre discos. Acho que eu
gostaria de começar a frequentar essas reuniões.
Isso me pega de surpresa por alguns segundos. Em todo nosso tempo juntos, nos
agarramos um ao outro como se fôssemos siameses, mesmo quando estamos
completamente cansados disso. Não era que estivéssemos tomando conta um do outro
ou com medo de que o outro se afastasse; era só que achávamos que era isso que casais
unidos faziam. Agora que nos sentimos mais unidos do que nunca, podemos nos permitir
nos afastarmos um pouco.
Sedução no 49
Exercício

Chega uma época na vida de toda mulher em que ela precisa chamar os músculos da
pélvis para uma conversinha. Ou alguma coisa assim.
Na verdade, seria mais honesto dizer o seguinte: chega uma época na vida de toda
mulher em que ela desconfia não ter mais a vagina de uma garota de 16 anos.
Para mim, isso aconteceu quando tive que comprar um novo coletor menstrual
Mooncup ano passado. O site explicava que as mulheres acima de 30 anos perdem “tônus
vaginal” e, por isso, precisam comprar o tamanho maior. Obrigada, Mooncup. Eu poderia
ter passado sem o lembretezinho de que estou a caminho do túmulo.
Também houve “um incidente” no qual tossi e urinei um pouco. Foi uma boa
quantidade de urina, na verdade. Comecei a suspeitar que meus músculos da pélvis
estivessem cedendo um pouco.
Não sou o tipo de pessoa que aceita essas coisas passivamente. Alguns meses atrás,
comprei um kit de bolas Lelo Luna, que são pesos vaginais bonitos e de cores pastel que
têm aparência completamente inocente mesmo quando você — pode acreditar —
esquece que os deixou na pia do banheiro quando recebe convidados para jantar.
Existem de dois tamanhos e você pode aumentar a resistência gradativamente ao juntar
duas bolas com uma pequena tira.
A primeira coisa que vou dizer é que não há nada de remotamente erótico em usá-las,
independente do que diz na embalagem. Há uma espécie de bolinha solta lá dentro que
era para ser estimulante, mas que, na verdade, dá a sensação de que você está com
gases. Toda vez que me mexo, sinto uma espécie de movimentação interna, como se eu
fosse uma garrafa de água que foi virada de cabeça para baixo. Isso não é problema
quando você entende o que está acontecendo — e, honestamente, fico um tanto
agradecida de não ficar tensa quando elas estão dentro.
Também demorei um tempo para aprender a tirá-las antes de usar o banheiro. O
menor movimento de expulsão faz com que pulem para fora sozinhas. Ainda não tenho
certeza se isso significa que tenho um tônus excelente ou sou completamente flácida, e
acho que é melhor não saber. Mas, seja como for, já perdi uma no vaso sanitário. Isso
não me deixou feliz.
No entanto, elas estão começando a ter um efeito ótimo. Eu estava sentada em uma
reunião alguns dias atrás e, como estava ficando rapidamente desinteressada, decidi
contrair algumas vezes a pélvis para passar o tempo. Meu Deus. Foi como se toda a
minha parte de baixo ganhasse vida. Dentro de trinta segundos, eu estava a caminho de
um orgasmo, bem ali, na mesa de reunião. Precisei acionar os freios rapidamente antes
de fazer alguma coisa constrangedora.
Decido fazer um teste com Herbert. É claro que, sendo a mulher que sou, não consigo
fazer isso de forma direta. Decido planejar como um experimento. Ofereço sexo normal
(ou seja, sem sedução) para Herbert para eu ver se ele nota alguma diferença.
Começamos com ele fazendo sexo oral em mim. Quase sempre começamos assim;
Herbert desconfia que eu nunca entro no espírito das coisas se ele não der duro lá
embaixo antes. Hoje, espero até ele deslizar um dedo para dentro de mim e então
começo uma série intensa de contrações.
Acho que ele repara; pelo menos, dá umas risadinhas. Eu também dou risadinhas,
para mostrar que não estou tendo nenhum tipo de convulsão. Nesse ponto, contrações da
pélvis não têm utilidade para Herbert, mas me ajudam a me manter no clima. Elas
aumentam a sensação e me deixam concentrada na vagina, em vez de permitir que
minha mente vá para algum outro assunto, tal como a lista de compras.
Depois de um tempo, ele limpa a boca no edredom (esse hábito é culpa minha; eu
incuti nele um mínimo de etiqueta pós-sexo oral) e deita de barriga para cima. Eu monto
nele e começo a fazer movimentos lentos e longos, contraindo os músculos da vagina ao
mesmo tempo. Isso parece não despertar nenhuma reação específica. Logo decido ficar
completamente parada, para ver se meus músculos da pélvis conseguem fazer o trabalho
sozinhos.
Herbert fica deitado com um olhar de expectativa paciente no rosto.
— Você sente alguma coisa? — eu pergunto. — Estou contraindo os músculos da
pélvis.
— Hum, seria rude eu dizer não?
— Ah. Então tá. — Sim, Herbert, seria rude dizer não. Estou contraindo como louca lá
embaixo.
— Deve ser porque é tão maravilhoso de qualquer jeito que não consigo sentir
diferença. — Sempre diplomático.
— Está tudo bem. Ou você consegue sentir ou não consegue. Não estou levando para
o lado pessoal.
Nós prosseguimos. Pelo menos todas as contrações levam a um ótimo orgasmo.
Herbert chega ao clímax logo depois de mim e eu me deito e apoio a cabeça no peito
dele. Respiramos juntos por um tempo e tento dar umas contraídas finais, só por fazer.
— Ai! — diz Herbert. — Consegui sentir isso!
— Excelente — eu digo, e exercito meus músculos recém-descobertos mais um pouco.
Só para ter certeza de que funcionam, entende.
Sedução no 50
Remédio

Em nossa casa, não existe gripe masculina. Só de ouvir essa palavra, Herbert fica furioso.
Quando H fica doente, ele segue em frente com determinação, enquanto eu faço bico
por qualquer coisa. Eu choramingo e exijo atenção no primeiro dia de qualquer doença,
depois passo os dias seguintes gemendo que estou entediada e lamentando a terrível
perda de tempo da minha vida que a doença representa.
Ultimamente ele não tem sido tão forte quanto eu gostaria. Ele se recuperou de um
resfriado duas semanas atrás, mas pegou outro esta semana. Sim, ele vai para cama
sem reclamar e continua a fazer suas tarefas com a roupa suja e a colocar a louça na
máquina, mas não anda muito disposto a fazer sexo comigo. Eu sei que, tecnicamente,
não é culpa dele, mas temos um prazo a cumprir. Planejamos um final de semana em
Paris para comemorar o final das seduções, e isso vai acontecer no começo de dezembro.
Portanto, todas as seduções têm que estar terminadas no final de novembro. Não vou
ceder desta vez. Mas o tempo está passando.
Felizmente, tenho um plano perspicaz: uma sedução que funciona também como
remédio de resfriado. Recebi uma dica de que pastilhas para tosse Fisherman’s Friend são
a última palavra em sexo oral excitante.
Dou essa sugestão a Herbert.
— Se não tiver nenhum outro efeito, ao menos vai deixar seu nariz desobstruído — eu
digo.
— Tem semente de anis nas pastilhas?
— Tenho quase certeza de que sim.
— Mas não gosto de anis.
Eu explico delicadamente que essa não é a questão.
— Ah, então tá — diz ele, suspirando —, mas só se eu puder fazer primeiro. Não vou
conseguir gozar se souber que tenho que colocar uma Fisherman’s Friend na boca depois.
Certo. Tudo bem. Abrimos a embalagem e ele consegue sugar a estranha pastilha
marrom sem fazer muita careta.
A sensação demora um tempo para surgir. A princípio, é um formigar bem suave, mas
então se torna uma coisa que é quente e fria ao mesmo tempo. Ao contrário do infernal
lubrificante de hortelã da Sedução nº 6, ele me faz sentir borbulhante e ultrassensível,
como se minha vulva exigisse permanente atenção. Quando Herbert afasta a boca por
alguns instantes, a sensação permanece, como um fogo gelado.
Eu começo a ler o verso da embalagem.
— Oh, tem eucalipto e pimenta-da-guiné — eu digo. — Não é surpresa que fique
quente e frio.
Herbert me ignora.
— Seu amigo não colocou spray Deep Heat no membro uma vez?
— Nas bolas.
— E serviu pra quê?
— Para sentir dor. Shh.
— Quer trocar?
Nós trocamos. Herbert também gosta do efeito da pastilha, o que eu acho um tanto
surpreendente. Mas ele faz uma advertência:
— Acho que isso pode tornar o orgasmo impossível — diz ele.
Bem, no meu ponto de vista isso faz a pastilha ter um duplo propósito. Sensibilidade e
longevidade? Só pode ser interferência divina.
— Você não pareceu se importar com o gosto — eu digo para ele depois.
— Ah, Deus. O gosto era horrível — diz ele —, mas até eu sei identificar quando a
coisa está criando resultados.

pesar do resfriado de Herbert, que agora está ameaçando virar uma pneumonia,

A eu o arrasto para a feira Erótica de Londres em uma sexta depois do trabalho. Ele
se comporta com muita coragem, o que pode ou não estar relacionado ao fato de
que Dita von Teese vai se apresentar. Acho que ele tomou tanto remédio que não se
incomoda com mais nada.
Tenho esperança de que a Erótica mexa com nossa imaginação enquanto caminhamos
para nossas seduções finais. Estou em busca de inspiração. Mas o que encontro é uma
perplexidade moderada. Parece que alguém abriu uma toalha de mesa aos meus pés e
espalhou um banquete que representa todas as áreas da sexualidade contemporânea
para minha avaliação. Há as partes que me desagradam (um stand de garotas do
tabloide Sunday Sport dando autógrafos), as partes para as quais olho com desprezo
(lençóis de cetim com estampa de oncinha), as partes que não consigo entender (gaiolas
de cachorros para humanos) e as partes que me fascinam (acessórios sexuais de
eletroestimulação).
Pelo menos, não fico mais intimidada por essas coisas; antigamente, eu teria corrido
pelos corredores até chegar ao bar, tentando evitar contato visual. Mas minha mente
está vazia. Quero que alguma coisa em especial salte aos meus olhos, mas depois de um
ano experimentando coisas novas, não sou uma pessoa fácil de impressionar. Acessórios
para a próstata? Não. Amarras para prender à cama? Não são novidade. Chibata de
camurça? É a fantasia de outra pessoa, não a minha.
Fico encantada por um tempo com os incríveis espartilhos em exibição, trabalhos
intrincados de renda e fita, mas todos estão fora do meu poder aquisitivo. De qualquer
modo, não acho que seriam o bastante para botar fogo na noite por si só; há mais
chances de serem admirados pelas minhas amigas do que por Herbert. A mobília sexual
parece divertida, mas os contornos do nosso sofá também o são. H está satisfeito demais
com o Flip Hole para pensar em outro acessório sexual.
É ótimo poder tocar e examinar acessórios que eu só tinha visto on-line. Eu me vejo
observando mais de perto coisas que antes eu tinha encarado como algo que não era
para mim. H permite que eu o guie pela feira, mas sem muito interesse. O que ele
sempre entendeu — e eu o admiro por isso — é que o sexo se resume apenas a alguns
elementos, não importa em que embalagem venham. Ele não procura novidade, só
contato, comunicação, sensação. A autenticidade que eu desejo, ele a tem guardada há
anos. Este ano, ele atingiu um senso confortável da própria sexualidade, enquanto eu
corro em zigue-zague em torno da minha essência sexual.
Estamos quase perdendo o interesse e prontos para ir para casa.
— Acho que vamos ter que pensar nós mesmos em uma coisa para a última sedução
— diz H.
— Bem, tem uma coisa que me deixou curiosa — eu digo. Meu estômago dá um nó. —
Mas não sei o que você vai achar.
— Me mostre — diz ele.
— É caro e talvez não seja para nós.
— Não se convença a não querer mais. Apenas me mostre.
Eu o levo até o stand que mal olhamos antes, e o primeiro efeito é Herbert erguer as
sobrancelhas para dizer: É mesmo? Mas logo estamos perdidos no meio do stand e estou
nervosamente mostrando uma coisa para que H examine e sussurrando:
— Você não acha lindo?
Sedução no 51
Garota má

— Ui! Fique parado. Ai. Ai. Retire! Devagar! Devagar!


— Não foi bom?
— Eu não estava esperando que você enfiasse a coisa toda de uma vez na primeira
tentativa, Herbert.
— Ah, desculpe. É que entrou tão facilmente.
— Foi o lubrificante!
— Ah. É. Desculpe.
— Eu talvez precise de um tempo antes de recomeçarmos.
Quando comecei as seduções, eu me perguntei se o sexo tinha mudado desde a última
época em que estava realmente envolvida com ele. E acho que uma das mudanças tem a
ver com sexo anal. Antigamente (palavras da senhora idosa de 33 anos), só as meninas
más faziam. Eu me lembro de uma conversa sussurrada entre um ex-namorado e os
amigos, no qual falavam de uma amiga chamada de “Sarah Caixa Suja”, sem qualquer
sinal de percepção que tinham enfiado o pênis naquele exato lugar e não tinham
recebido um apelido, depreciativo ou não.
Se eu tivesse 18 anos agora e estivesse começando um relacionamento, acho que o
sexo anal provavelmente estaria na jogada. Mas quando eu conheci Herbert, não. Ao
longo dos anos, reparei em uma obsessão peculiar entre nossos amigos homens, a
maioria dos quais admite nunca ter tido a oportunidade. Ao mesmo tempo, a ideia de
sexo anal recebe uma indiferença calculada por parte de nossas amigas mulheres — sem
mencionar uma certa aura de tabu. O consenso parece ser que as garotas boas não
fazem e as que fazem têm hemorroidas.
E o problema para mim, ao longo deste ano, é que comecei a achar essa
desaprovação latente uma coisa tentadora. Costumo achar que, se as mulheres de 35
anos desaprovam alguma coisa, provavelmente é divertido. Passei a gostar da ideia de
transgressão que o ato engloba, da libertação das limitações físicas que exige. O sexo
anal é uma coisa desavergonhada para se fazer. Na minha cabeça, ele começou a
representar a desinibição.
Ainda assim, eu ficava com vergonha de abordar o assunto com Herbert. Mais do que
qualquer outra coisa que tenhamos feito, o sexo anal parecia uma volta de 180 graus.
Por um tempo, tive esperança de que ele sugeriria isso, mas não aconteceu. Seria por
medo de me ofender? Seja como for, quando finalmente levantei a questão (“Acho que
devíamos fazer sexo anal, por uma questão de conclusão das seduções”), ele
simplesmente disse: “É claro.”
Mas aí, deixamos de lado. Durante muito tempo. As seduções foram acontecendo.
Tocamos no assunto algumas vezes, mas nenhum de nós pareceu realmente querer
tomar a iniciativa. Até esta noite. Com duas seduções faltando e com a coisa que já
compramos para a Sedução nº 52, não há mais espaço para manobras. Herbert chega
em casa, tomamos uma taça de vinho e, sem discutir o assunto, vamos para o quarto.
As coisas correm muito bem. Para falar a verdade, fico muito excitada de pensar em
fazer uma coisa tão audaciosa, e há um momento em que me pergunto se vamos pular o
sexo anal por estarmos nos divertindo tanto. Mas aí Herbert pergunta onde guardo o
lubrificante, e me vejo negociando os méritos de ficar de quatro contra a posição de
frente para ele. A posição de quatro parece me oferecer um pouco mais de privacidade
para compor minha expressão facial e acrescenta à natureza animal da coisa toda, eu
acho.
No entanto, como você já deve ter concluído, a primeira tentativa de H é um pouco
mais robusta do que eu esperava. Não é horrível, mas arde. Eu me viro para olhar para
ele e nos beijamos por um tempo, enquanto me pergunto se vou me sentir pronta para
tentar de novo. Cinco minutos depois, eu estou. Pelo que posso perceber, não houve
dano algum. Pego meu vibrador em cima do guarda-roupa para ver se consigo aproveitar
um pouco mais desta vez.
Eu me posiciono de novo e H vai com um pouco mais de calma. Ele coloca só a cabeça
do pênis dentro de mim e fica parado até eu me acostumar. A sensação é boa — não é
particularmente dolorosa, ainda que seja um pouco apertado e resistente. Na verdade,
parece um pouco com perder a virgindade, embora eu esteja menos confusa desta vez. O
vibrador ajuda bastante. Eu o seguro contra meu clitóris até que as solas dos meus pés
fiquem formigando e faço o melhor que posso para relaxar e me entregar. Em pouco
tempo sou absorvida pelo meu corpo em vez de pensar no processo. Quando percebo o
que está acontecendo, vejo que estou me movendo um pouco e Herbert está ofegante.
— Que tal tomar um banho rápido e nós terminarmos da maneira tradicional? — diz
ele.
Eu concordo com satisfação; é bom me conectar com ele de novo, cara a cara. Depois,
ele diz:
— Eu não consegui perceber se você estava gostando.
— Sim — eu digo —, eu acho que estava.
Passo o resto da noite exalando um brilho de garota má.
Sedução no 52
No espelho

Acendo a luz do banheiro e olho no espelho. Minhas bochechas estão rosadas e meu
cabelo está espetado em vários ângulos. O que sobrou do meu batom vermelho ainda
está na boca, mas também no queixo, orelha, pescoço e seios. Desconfio que Herbert
esteja com mais batom do que eu agora.
Coloco um pouco de demaquilante em um pedaço de algodão e começo a limpar a
roupa de enfermeira de borracha que estou usando. Quero que esteja imaculada para a
próxima vez.
Herbert entra. Tiro minhas meias e ele abre o zíper do vestido. Eu o tiro. Durante uma
hora, ele deu a sensação de uma milagrosa segunda pele, macia e excitante. Mas agora,
por baixo, estou suada e um tanto gelada.
— Como será que se lava isso? — eu digo.
— Imagino que você deva limpar com um pano — diz H.
Neste momento, vejo nosso reflexo no espelho. Nós dois estamos nus e corados,
radiantes. Herbert está usando o meu pequeno chapéu de enfermeira. Ele me abraça por
trás e ficamos ali por um momento, sorrindo como se o espelho estivesse capturando um
retrato fugidio.
— Será que vamos voltar a fazer sexo depois disso? — eu pergunto.
— É claro!
— Mas vamos ter que esperar alguns dias? Para descansar?
Herbert sorri e me entrega meu pijama.
— Na verdade — diz ele —, acabei de tomar um Viagra, então você tem cerca de uma
hora.

oi um longo ano. Houve momentos em que me perguntei no que me meti. Houve

F momentos em que achei que Herbert iria se rebelar. Quando sugeri as seduções,
achei que talvez fôssemos aprender a fazer sexo melhor. Eu não esperava que toda
a minha noção de mim mesma fosse modificada.
Fui profundamente transformada por essa experiência. Ao fazer uma coisa tão simples
quanto nos forçar a fazer sexo uma vez por semana (o que, de acordo com algumas
pesquisas, nem chega na frequência média), parecemos ter revirado todos os elementos
da nossa vida juntos. Às vezes, pareceu uma sequência longa e particularmente
desgastante de psicoterapia. Mantivemos um espelho virado para nossas vidas, tanto as
individuais como a de casal. Não havia onde nos esconder.
É claro que não era o sexo em si que importava; era a necessidade de tratar do
desejo. Quando começamos, achei que o desejo seria ressuscitado pelo mero ato de
fazer mais sexo. Isso não aconteceu. Aprendi que o desejo é uma criaturinha maliciosa.
Ele muda e se transforma ao longo do tempo e exige nossa constante atenção e
compreensão. Ao seduzir um ao outro, compensamos anos de negligência, e atrair a fera
de volta para nossas vidas foi sofrido em alguns momentos. Mas se não pudermos ser
honestos quanto a o que realmente desejamos, como podemos esperar realmente sentir
desejo?
Veja, por exemplo, essa sedução final. Foi construída com coisas que nenhum de nós
podia ter admitido querer um ano atrás. Eu usando uma minúscula (Não estou gorda
demais para uma roupa minúscula?) fantasia de enfermeira (Ah, por favor! Que
estereótipo velho e machista!) de borracha (Borracha? Isso não é para pervertidos?) com
um decote profundo (Não preciso apertar meus seios de maneira desconfortável a ponto
de pularem para fora da roupa para poder fazer sexo). Herbert finalmente está podendo
me admirar dentro de uma fantasia assim, em vez de ficar apavorado por não ser
politicamente correto fazer isso (H: “Vamos começar com você ajoelhada em cima do
meu rosto, por favor. A vista é espetacular”). Nós dois concordamos que gostaríamos de
tentar de novo o sexo anal, porque gostamos quando fizemos.
Acho que nunca me dei conta antes do quanto eu me sentia confusa quanto a sexo.
Minhas visões liberais significavam que sempre acreditei que as pessoas deviam ter
permissão de fazer o que quisessem na cama. Minhas visões feministas diziam que as
mulheres eram frequentemente exploradas e humilhadas pelo sexo. Nunca reparei na
contradição até este ano. Eu estava dizendo para mim mesma que as outras pessoas
podiam ir se divertir o quanto quisessem, mas que era melhor eu não fazer isso, para não
correr o risco de ser oprimida. Agora percebo que é besteira. O sexo é um ato
moralmente neutro, não uma força das trevas, e, desde que seja consensual, não
podemos ser oprimidos pelas coisas que escolhemos fazer no quarto. Relações desiguais
não simplesmente surgem dos papéis que assumimos durante o sexo e é reducionista
pensar que é assim.
No começo das seduções, eu disse: “Eu não vejo o sexo como algo remotamente
apimentado.” Não acredito mais nisso. Tive que aprender de novo o que torna o sexo
ousado. Metade de mim precisava torná-lo emocionalmente seguro, mas a outra metade
precisava sentir o risco e o perigo do sexo. Isso não tem nada a ver com ser ameaçada
fisicamente; na verdade, se baseia em sua disposição de se envolver de verdade com o
parceiro, de deixar que ele veja as partes secretas da sua alma. É assustador revelar a
paixão que se contorce debaixo do seu eu sensato e previsível, mas também é excitante.
A beleza dessa revelação é que ela rompe o conforto do casamento e significa que o sexo
pode continuar a ser excitante muito depois da empolgação inicial. Só que os dois têm
que estar dispostos a se render, a olhar nos olhos um do outro. Essa é a verdadeira
intimidade.
Ainda sinto que temos quilômetros a percorrer. Há camadas de desejo que ainda
temos que descobrir. A dura lógica das seduções significou que tínhamos poucas chances
de fazer uma segunda tentativa de qualquer coisa. Agora teremos tempo para
desenvolver um pouco mais de competência, sem a pressão do projeto. Estamos ambos
exaustos e um tanto impactados, mas eu, pelo menos, mal posso esperar para cair de
cabeça nessa.
Epílogo

Herbert e eu estamos sentados em um café no Marais, tomando Kir.


— Não olhe agora, mas o casal atrás de você está de amassos por cima da mesa! Ah,
ela levantou... está se sentando no colo dele... Ah, meu Deus, ela está montando nele!
Eu disse NÃO olhe, Herbert!
Herbert me ignora e vira a cabeça para trás para olhar. Felizmente, o homem e a
mulher atrás de nós nem reparam.
— Talvez devêssemos fazer o mesmo — diz Herbert.
— Não sou francesa o bastante.
— Fazíamos isso o tempo todo.
— Eu tinha 18 anos. Não sei qual era a sua desculpa.
— Eu só estava agradecido de você querer um amasso comigo.
— Nossos amigos começaram a falar. Ficou constrangedor.
— Verdade.
Voltamos para Paris para comemorar o final das seduções e deixamos Elvis e Bob para
trás para acertarem suas diferenças nas mãos capazes de uns bons amigos. Pareceu a
coisa certa a fazer quando fizemos a reserva; eu me lembro da sedução parisiense do
ano passado como o momento em que comecei a ver minha própria sexualidade de novo.
Mas naquele momento, eu não sabia o quanto eu me sentiria estranha no final das
seduções, o quanto me sentiria desolada. O projeto que me consumiu o ano todo de
repente acabou, bem quando estávamos ficando bons nisso. Por um lado, estou
começando a pensar que eu talvez tenha tempo de cuidar do jardim de novo; por outro
lado, sinto como se meu mapa tivesse sido arrancado das minhas mãos. Sem a estrutura
das seduções, vamos cair nos velhos maus hábitos?
Herbert não ajuda nesse sentido.
— Vamos ou não vamos, não há como saber — diz ele.
Para ser justa, eu fiz a pergunta a ele enquanto estávamos sentados no Eurostar, e
provavelmente não foi o melhor momento. Mas, ainda assim, essa resposta faz parecer
que não aprendemos nossa lição. Se há algum resquício de aprendizagem que podemos
guardar deste ano, certamente é que o bom sexo exige algum nível de esforço, ou pelo
menos de premeditação.
Não ajuda em nada o fato de que reservei um quarto com camas separadas. Isso não
é tão excêntrico quanto parece. Herbert tem 1,92 metro de altura e eu tenho 1,80. Não
cabemos em uma cama de casal normal, principalmente se quisermos mesmo dormir.
Quando eu estava fazendo os planejamentos, me pareceu uma decisão sensata e adulta:
ter intimidade e dormir na mesma cama não são a mesma coisa. Mas, ao chegar ao
hotel, parece uma decisão infeliz. Andamos por Paris, saímos para jantar e depois nos
aconchegamos castamente em nossas camas separadas e vamos dormir.
Na manhã seguinte, descemos a rua até um mercado de antiguidades, onde fico
desapontada ao descobrir que há boas ofertas de discos. Enquanto Herbert se perde
entre as pilhas de vinis, eu ando pelas barracas, enfiando meu rosto no cachecol para me
manter aquecida. Alguns flocos de neve começam a cair. Eu volto correndo e conto para
Herbert. Ele sorri, distraído.
Passados somente 15 minutos, a neve já cai com intensidade. Os donos das barracas
xingam o tempo e começam a arrumar as coisas. Herbert insiste em olhar uma última
caixa de discos antes de eu conseguir arrastá-lo até um café para tomarmos uma bebida
quente. Estamos com frio e nossos pés estão úmidos. Concordamos que o melhor é voltar
para o hotel para pegarmos sapatos melhores e colocarmos mais roupa. Depois saímos
de novo, tão cheios de roupas que é difícil andar. Não é nada sexy.
Paris é muito bonita na neve. Os toldos das lojas e as calçadas ficam cobertos de
branco e os prédios baixos assumem uma beleza sóbria. Depois de outra caminhada
congelante, vamos para um restaurante almoçar e saímos algumas horas depois, com
sono por causa do vinho e do confit de pato. O tempo frio faz andar parecer um trabalho
árduo. Herbert tenta me animar com uma ida ao Centre Pompidou, mas as luzes de neon
e as filas enormes me fazem sentir ainda mais exausta. Eu o convenço a me levar de
volta para o hotel para uma soneca vespertina.
Tiro as botas, os dois pares de meias, o jeans, a calça legging, o suéter, a camisa e as
três camisetas e vou para a cama. Herbert se aconchega atrás de mim. Em um momento
eu estou quase adormecendo, mas no momento seguinte Herbert está beijando a minha
nuca e estou passando os pés nas pernas dele.
No domingo, fazemos sexo comigo colocando meu corpo como uma ponte entre as
duas camas. Depois, seguimos para Belleville para jantar. Estou usando meus melhores
sapatos, que são ridículos para calçadas tão escorregadias: são de camurça preta de
salto Anabela com estampa de oncinha. Eu devia estar de galocha. Só que sapatos de
salto são um pouco como sexo; você tem que criar as oportunidades para usá-los. Pelo
menos é o que eu digo para Herbert enquanto me agarro ao braço dele ao descermos os
degraus íngremes da estação do metrô.
Herbert toma mojitos e eu fico no vinho. Conversamos sobre as férias do ano que vem,
nossos planos para o Natal, se vamos conseguir socializar o gatinho Elvis. Eu toco no
assunto das seduções de novo.
— Acha que vamos conseguir sem elas? Acha que mudamos mesmo?
— Sim — diz Herbert. — Eu acho. Você não?
— Não sei. No começo, eu queria ter de novo aquela sensação que tínhamos quando
começamos a namorar, quando não conseguíamos largar um do outro. Eu queria sentir
borboletas no estômago de novo. Agora sei que isso não vai acontecer. É preciso esforço
e planejamento. Mas se acho que vale a pena? Com certeza.
— A vida é assim, Betty. Não é um livro de romance. Nada acontece por magia.
— Você está certo, é claro. Mas quero saber que não vou ser a única me esforçando.
Quero saber que, às vezes, vou ser seduzida sem ter que pedir antes.
Herbert dá de ombros e sei que estou exigindo demais. Na verdade, quero dos dois
jeitos: ser prática e independente e romanceada e protegida. Pouco a pouco, construí
uma relação que é sincera, igualitária e equilibrada, mas às vezes uma parte de mim
deseja ser tomada nos braços, ser encantada com rosas e gestos grandiosos. Essas
coisas confundem Herbert e eu não queria que ele fosse diferente em nada. O amor e o
sexo se resumem à mesma essência: ligação. Isso nós temos de sobra e sou grata por
isso.
— Bem — diz Herbert —, que tal eu mudar de lugar e me sentar ao seu lado, para que
possamos dar uns amassos como os parisienses?
Naquela noite, conforme adormecemos em nossas camas separadas, eu digo:
— Eu amo você.
— Como se diz “eu amo você” em francês?
— Je t’aime.
— Muito bem. Je t’aime vous.
— Não, é só “je t’aime”. E nós já passamos do estágio de vous.
— Foi o que eu disse. Je t’aime vous.
— Tudo bem, Herbert. Je t’aime vous aussi. Boa noite.
Agradecimentos

Primeiro e mais importante, meu profundo agradecimento e minha adoração vão para
Herbert, que generosamente ofereceu seu corpo para um ano de experimentação sexual.
Como sempre, ele me impressionou com sua confiança, apoio e gentileza. Esse é para
sempre.
Meu muito obrigada vai para as pessoas que tornaram este livro possível: a
superagente Felicity Blunt e a equipe da Curtis Brown; Carly Cook, Rhea Halford, Helena
Towers, Vicky Cowell e Jo Whitford, da Headline; Katie McGowan e Lucy Abrahams, por
tornarem o projeto global.
Eu não teria conseguido terminar o ano sem as seguintes pessoas: Andrea Gibb,
Barbara Carrellas, minha cúmplice Peggy Riley, e Beccy Shaw, Sarah Williams, Amy
Barker, Marnie Summerfield-Smith, Rosa Ainley, Sue Jones, Tracey Falcon e Imogen
Noble, que absorveram minha necessidade obsessiva de falar sobre o projeto. Também
preciso fazer meu agradecimento para minha mãe por não se aborrecer por causa do
projeto todo.
Por fim, tenho um débito profundo com meus amigos do Twitter e com os leitores do
meu blog (infelizmente, vocês são muitos para eu citar todos aqui), que me apoiaram
para ir em frente, me deram forças, comemoraram, lamentaram, compartilharam
experiências e ofereceram conhecimentos preciosos durante o processo todo. O blog não
teria sido nada sem vocês. Obrigada.