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E ü 6 E N E EE N E R R I E E
£ D ú í N £ H. M [ R R I L L

0 reino

de sacerdotes

que Deus colocou

entre as nações

Tradução
Romell S. Carneiro

CB4D
Todos os direitos reservados. Copyright © 2001 para a língua portuguesa
da Casa Publicadora das Assembléias de Deus. Aprovado pelo Conselho
de Doutrina.

Título original em inglês: Kingdom o f Priests


Baker Books, Grand Rapids, MI, USA.
Primeira edição em inglês: 1987

Tradução: Romell S. Carneiro


Preparação de originais: Alexandre Coelho e Patrícia Oliveira
Revisão: Jeferson Magno
Capa: Flamir Ambrósio
Editoração eletrônica: Olga Rocha dos Santos

CDD: 221 — Antigo Testamento


ISBN: 85-263-0337-6

Para maiores informações sobre livros, revistas, periódicos e os últimos


lançamentos da CPAD, visite nosso site: http://www.cpad.com.br

As citações bíblicas foram extraídas da versão Almeida Revista e


Corrigida, edição de 1995, da Sociedade Bíblica do Brasil, salvo
indicação em contrário.

Casa Publicadora das Assembléias de Deus


Caixa Postal 331
20001-970, Rio de Janeiro, RJ, Brasil

T’ edição/2001 ■, ■
3- Edição 2002 , ...
Prefácio

A história de Israel não pode ser construída seguindo-se as linhas


dos estudos históricos normais, pois baseia-se em documentos (o Antigo
Testamento) que não são tão-somente históricos em seu caráter. O Antigo
Testamento é, acima de tudo, teológico, e não literatura meramente histó­
rica. Isto significa que será necessário abordagens teológicas e não históri­
cas para conduzir ao propósito fundamental da mensagem a ser discernida.
Ao contrário do que afirmam muitos estudos contemporâneos, ape­
nas porque o Antigo Testamento é por definição "história sagrada", não
significa que lhe falte autenticidade histórica, como alguns acreditam.
Com efeito, ele é o registro da aliança de Jeová com seu povo escolhido,
um registro que constantemente chama a atenção para a divina interpre­
tação e até mesmo predição dos acontecimentos. Mas sempre pressupõe
que estes mesmos acontecimentos ocorreram de fato no tempo e no es­
paço. A mensagem teológica, em outras palavras, está alicerçada na his­
tória genuína.
O propósito deste estudo não é interpretar o significado dos aconteci­
mentos subjacentes - uma tarefa mais propriamente da teologia bíblica - ,
mas descobrir os dados históricos e, mediante todas as fontes à disposição
(incluindo o texto bíblico, documentos extrabíblicos e arqueológicos), re­
construir a história de Israel seguindo as linhas e métodos historiográficos,
até onde seja possível, em razão da natureza única do material. Qualquer
sucesso obtido será importante para um verdadeiro entendimento do pas­
sado de Israel no Antigo Testamento, um objetivo de valor em si mesmo, e
H istória de I srael \o A\t ; c-. : í :~ - v e ‘-to

para a comprovação histórica do registro. A veracidade é absolutamente


decisiva para tomar efetiva a mensagem religiosa e teológica. Todo o êxito
que alcançarmos será em total benefício do leitor.
A concretização de um projeto que trouxe tanta satisfação pessoal ao
autor requer que aqueles que o tornaram possível sejam reconhecidos. Foi
durante um período de licença gentilmente concedido pelo Seminário Te­
ológico de Dallas, de 1983 a 1984, que a maior parte desta obra foi elabora­
da. Portanto, quero expressar minha apreciação por esta política generosa
e esclarecida. Além disso, o seminário colocou à disposição suas depen­
dências de informática. A digitação foi feita pelas mãos abençoadas de
Marie Janeway. A editora Baker Books e, particularmente, a Allan Fisher e
Ray Wiersma, eu credito minha especial gratidão por sua paciência, co­
nhecimento e atenção meticulosa em cada detalhe do projeto. Finalmente,
agradeço a minha querida esposa, Janet, e a minha filha Sonya por supor­
tarem minha ausência, inquietação e freqüentes pedidos, e pelo constante
encorajamento que delas recebi para concluir este projeto.
Sumário
Prefácio v
Ilustrações xi
Abreviaturas xiii

Introdução: A história de Israel e a historiografia........................................................ 1


Considerações preliminares 1
Os problemas enfrentados na produção de uma história do antigo Israel nos dias atuais 2
A presente abordagem da história de Israel 4

1. Origens............................................... :............................................................... 7
Israel em Moabe 7
O propósito da Torá 8
A história dos patriarcas 11

2. O Êxodo: Nascimento de uma Nação..............................................................49


O significado do êxodo 49
A localização histórica do êxodo 50
A data do êxodo 59
A data e a duração do cativeiro egípcio 69
Cronologia dos patriarcas 73
A jornada no deserto 73

3. A Conquista e a Ocupação de Canaã...............................................................89


A terra como o cumprimento da promessa 89
O mundo antigo do Oriente Médio 90
Os 'apiru e a conquista 99
A estratégia de Josué 106
A data da conquista de Josué 118
A campanha contra os enaquins 120
Modelos alternativos da conquista e ocupação 121
A terra repartida entre as tribos 129
A segunda renovação da aliança em Siquém 139

4. A Era dos Juízes: A Violação da Aliança, Anarquia e a


Autoridade Humana...................................................................................... 143
O problema crítico-literário no livro de Juízes 143
A cronologia de Juízes 149
H :-:> ’R!a de I srael so A ntigo Testamento

O mundo do antigo Oriente Médio 154


Os juízes de Israel 162
A trilogia de Belém 184

5. Saul: A Aliança Mal Compreendida.............................................................. 197


A exigência por um reinado 197
A cronologia do século onze 200
A escolha de Saul 203
O primeiro desafio de Saul 208
O declínio de Saul 210
Considerações teológicas 219
O surgimento de Davi 222

6. Davi: O Reinado da Aliança...........................................................................235


A falta de nacionalidade antes de Davi 235
Davi em Hebrom 240
Crônicas e história teológica 244
Jerusalém, a capital 246
O estabelecimento do poder de Davi 249
Uma introdução à cronologia davídica 256

7. Davi: Os Anos de Luta................................................................................... 263


O Egito e a independência de Israel 264
As guerras contra os amonitas 265
O início dos problemas familiares de Davi 276
Jerusalém como centro do culto 277
A rebelião de Absalão 283
Os esforços de Davi para reconciliação 287
Mais problemas para Davi 289
O plano de Davi para construir um templo 290
A sucessão salomônica 296
A burocracia davídica 298

8. Salomão: Do Pináculo ao Perigo.................................................................... 303


Os problemas da transição 303
O fracasso da oposição contra Salomão 306
O conclave em Gibeão 308
Relações internacionais 309
Os projetos de construção de Salomão 312
Rupturas no império de Salomão 316
A forma de governo de Salomão 319
Apostasia moral e espiritual 330
Salomão e a natureza da sabedoria 332

9. A Monarquia Dividida................................................................................... 335


As raízes da divisão nacional 335
A ocasião imediata da divisão nacional 339
O reino de Roboão 343
O reino de Jeroboão 345
A pressão das nações ao redor 350
Abias de Judá 351
Asa de Judá 352
O novo surgimento da Assíria 356
Nadabe de Israel 358
A dinastia de Baasa de Israel 358
Omri de Israel 360
JosafádeJudá 362
Acabe de Israel 366
A ameaça da Assíria 370
Os sucessores de Acabe 371
A unção de Hazael de Damasco 375
Jeorão de Judá 375
A unção de Jeú 377

10. A Dinastia de Jeú e o Judá Contemporâneo....


O reinado de Jeú em Israel 379
A táliadejudá 381
O papel das outras nações 382
Joás, rei de Judá 384
Jeoacaz, rei de Israel 388
O cenário internacional 390
Jeoás, rei de Israel 391
Amazias, rei de Judá 392
Jeroboão II, rei de Israel 395
Uzias, rei de Judá 398
O ministério dos profetas 400

11. O Castigo de Yahweh: Assíria e o Juízo Divino


Fatores responsáveis pela queda de Israel 413
O fim da dinastia de Jeú 414
A Assíria e Tiglate-Pileser III 415
Menaém de Israel 418
Os últimos dias de Israel 418
O impacto da queda de Samaria 422
Judá e a queda de Samaria 425
Ezequias de Judá 433
O ponto de vista dos profetas 445

12. Esperança Desvanecente: A Desintegração de Judá


O legado de Ezequias 457
Manassés de Judá 459
Amom de Judá 462
O cenário internacional: Assíria e Egito 462
Josias de Judá 468
A queda de Jerusalém 473
O testemunho dos profetas 481
i
13. O Exílio e o Primeiro Retorno..................................
Uma visão panorâmica 497
A situação mundial durante o exílio 504
O povo judeu durante o exílio 510
A situação mundial durante o período de restauração 516
O primeiro retorno 521
Problemas decorrentes do retorno 524
A influência benéfica dos profetas 525
H istória de I srael no A ntigo T estamento

14. Restauração e Nova Esperança............................................. .........................529


A influência persa 5?9
Outros retornos posteriores: Esdras e Neemias 535
Malaquias, o profeta 548

Bibliografia 551
índice das Escrituras 555
índice de temas 563
Ilustrações
Tabelas cronológicas
1. A seqüência da Era do Bronze 17
2. Os Patriarcas 18
3. XII Dinastia do Egito 42
4. 18a e 19a Dinastia do Egito 50
5. A vida de Davi 257
6. Os reis da monarquia dividida 340
7. Os reis neo-assírios 357
8. Os reis neo-babilônicos 476
9. Os reis da Pérsia 507

Mapas
1. O Oriente Médio nos tempos do Pentateuco 14
2. Canaã nos tempos dos patriarcas 21
3. O êxodo 53
4. A chegada na Transjordânia 80
5. O Oriente Médio nos tempos de Josué e dos juízes 91
6. A conquista de Canaã 100
7. Os territórios das tribos 130-131
8. Israel durante a era dos juízes 146
9. O reino de Saul 199
10. O Oriente Médio durante a monarquia unida 207
11. O reino de Davi 236
12. Jerusalém nos dias de Davi e Salomão 247
13. Os doze distritos do reino de Salomão 325
14. A monarquia dividida 337
15. O Império Assírio 385
16. O Império Babilónico 461
17. O Império Persa 500
Abreviaturas

AASOR Annual of the American Schools of Oriental Research


ADA] Annual of the Department of Antiquities of Jordan
AfO Archiv für Orientforschung
AJA American Journal of Archaeology
AS Assyriological Studies
ASOR American Schools of Oriental Research
AUSS Andrews University Seminary Studies
BA Biblical Archaeologist
BAR Biblical Archaeological Review
BASOR Bulletin of the American Schools of Oriental Research
BES Bulletin of the Egyptological Seminar
Bib Sac Bibliotheca Sacra
BTB Biblical Theology Bulletin
BWANT Beiträge zur Wissenschaft vom Alten und Neuen Testament
BZAW Beihefte zur Zeitschrift für die alttestamentliche Wissenschaft
CAD Assyrian Dictionary of the Oriental Institute of the University of Chicago
CAH Cambridge Ancient History
CBQ Catholic Biblical Quarterly
EQ Evangelical Quarterly
GTJ Grace Theological Journal
HTR Harvard Theological Review
HUCA Hebrew Union College Annual
IE] Israel Exploration Journal
A:rv. Interpretação
'ASES Journal of the Ancient Near Eastern Society
XIY H istória de I srael no A ntigo T estamento

JAOS Journal of the American Oriental Society


JBL Journal of Biblical Literature
JCS Journal of Cuneiform Studies
JEA Journal of Egyptian Archaeology
JETS Journal of the Evangelical Theological Society
JJS Jornal of Jewish Studies
JNES Journal of Near Eastern Studies
JNSL Journal of Northwest Semitic Languages
JSOT Journal for the Study of the Old Testament
JSS Journal of Semitic Studies
JTS Journal of Theological Studies
KJV King James Version
LexTQ Lexington Theological Quarterly
NEASB Near East Archaeological Society Bulletin
Or Orientalia
OTS Oudtestamentische Studien
PEQ Palestine Exploration Quarterly
RA Revue d'assyriologie et d'archéologie orientale
RSV Revised Standard Version
TD Theology Digest
Tyn Bull Tyndale Bulletin
UF Ugarit-Forschungen
VT Vetus Testamentum
WTJ Westminster Theological Journal
ZAW Zeitschrift für die alttestamentliche Wissenschaft
Introdução_ _ _ _ _ _ _ _ _
A História de Israel e a Historiografia

Considerações Prelim inares


Os problem as enfrentados na produção de uma história do antigo
Israel nos dias atuais
A questão da inerrância
A ausência de documentos pré-mosaicos
Seletividade histórica
A presente abordagem da história de Israel
Reconhecimento do caráter revelador do Antigo Testamento
Reconhecimento do método bíblico
Reconhecimento do propósito bíblico

C o n s id e ra ç õ e s P re lim in a re s

Qualquer tarefa científica deve partir de um conjunto de afirmativas,


não importando quão especulativas sejam. Isto tornará o empreendimen­
to viável e racional. Este fato é especialmente verdadeiro quanto à história
escrita, mais que a maioria das disciplinas, uma vez que os acontecimen­
tos ecoam no passado, que sua facticidade e significado podem ser
reconstruídos (mesmo que parcialmente), e que é possível integrá-los e
sintetizá-los em algum tipo de construção que seja crível e bem entendida
pelo leitor moderno.
Quando a história é a narrativa de um povo completamente envolto
em literatura sagrada, a natureza da tarefa torna-se ainda mais complexa,
e as afirmativas muito mais proféticas. A visão que o pesquisador tiver da
integridade e autoridade daquela literatura influenciará a forma como ele
irá trab alh ar com tais m ateriais, sem falar dos proced im entos
metodológicos e de suas conclusões.
Uma história de Israel depende quase inteiramente das fontes do Anti­
go Testamento, uma coleção de escritos reconhecidos pelo Judaísmo e Cris-
H istória de I srael no A ntigo T estamento

tianismo como as Sagradas Escrituras, a Palavra de Deus. O nível de res­


peito que os historiadores têm pelas Escrituras afetará sensivelmente a
maneira como empreenderão sua tarefa. O cético contemplará as fontes
como nada mais que uma coleção de mitos, fábulas, lendas, poesia e ou­
tros eeneros ou6 possuem crec^^i^clscle rclstivci e servir3.rn sioencis como
veículo de transmissão das tradições antigas. Os crentes, por outro lado,
saberão que têm em suas mãos uma obra completamente peculiar; um
livro que é a própria revelação divina. Assim, não é possível aproximar-se
desta literatura da mesma forma como se faz com outros textos antigos.
Referimo-nos a ela como a Palavra de Deus, aceitando sua autoridade e
dignidade como fonte histórica de inigualável valor. A' 1
Considerar que o Antigo Testamento é a Palavra de Deus alterará radi­
calmente a tarefa de escrever uma história de Israel; pois tal atividade
estará em um nível teológico. Escrever a história de Israel e escrever a
história de um outro povo envolvem perspectivas completamente dife­
rentes, pois no caso de Israel, história e teologia nãb podem ser separadas.
Por esse motivo, o cepticismo tão familiar e necessário à historiografia
convencional não poderá fazer parte desta obra. Em virtude da confissão
de que respeitamos a autoridade das fontes que estaremos investigando,
anulamos o direito de rejeitar o que não conseguirmos entender ou o que
julgamos difícil de acreditar. ^
Isto não significa, entretanto, que uma história do Israel antigo escrita à
luz da pesquisa moderna se restrinja tão-somente a uma recapitulação do
registro bíblico. O próprio fato de que o Antigo Testamento relata aconteci­
mentos antigos como história sagrada, como fenômeno primariamente teo­
lógico em vez de social ou político, é suficiente para justificar as repetidas
tentativas de reconstruir a história segundo as linhas normais da
historiografia. Este livro representa tal esforço. Nosso propósito é compre­
ender a história de Israel como uma integração dos fatores políticos, sociais,
económicos e religiosos, utilizando como base não apenas as informações
do Antigo Testamento como Escritura, mas também as fontes literárias e
arqueológicas do antigo Oriente Médio, do qual Israel fazia parte.

ws pruDiemas enirem aaos na proauçao a e um a nisum a ao


a n tig o Is ra e l n o s d ia s atu a is

A questão da inerrância

Um dos fatores de maior influência para uma grande visão do Antigo


Testamento, isto é, a visão de que ele é a própria Palavra de Deus revelada
INTRODUÇÃO 3

aos homens, é a sua inerrância. Enquanto a maioria dos estudiosos evan­


gélicos conservadores admitem que esta inerrância pertence exclusivamen­
te ao autographa, os textos originais, também afirmam que o Antigo Testa­
mento em sua forma primitiva é completamente inerrante. Isto significa
que ele não apenas é teologicamente livre de erros, mas também que trata
acertadamente e com autoridade de assuntos relacionados à ciência e his­
tória, sempre que seja seu propósito fazê-lo.
Honestamente, reconhecemos que esta visão do Antigo Testamento
como uma testemunha inerrante da história de Israel é problemática para
muitas pessoas orientadas cientificamente, pois está fundamentada em
uma conjetura teológica: os mesmos textos usados como documentação
histórica são de origem e natureza divinas, e têm sido sobrenaturalmente
preservados.

A ausência de documentos pré-mosaicos

Embora possa haver alguma evidência de que Moisés utilizou alguns


documentos para compor o livro de Gênesis - as chamadas toledot
("genealogias") - a existência desses documentos é completamente sem
comprovação. Conseqüentemente, isto sugere que, ou ele dependeu ex­
clusivamente da infalível e inquebrável tradição oral (que cobria milhares
de anos), ou recebeu as informações por revelação direta. A segunda hipó­
tese obviamente é rejeitada pela maioria dos estudiosos, ao passo que a
sugestão da tradição oral é relativamente aceita. O oriente próximo testifica
abundantemente acerca do uso de tradições orais, embora não do mesmo
nível ou com a mesma integridade implicada no caso de Gênesis.

Seletividade histórica

E inevitavelmente necessário na história escrita incluir alguns aconte­


cimentos e excluir outros, geralmente com base na disponibilidade de da­
dos e nos interesses do historiador. Esta seletividade é particularmente
visível no relato histórico de Israel no Antigo Testamento, porque o Autor
(e autores) tinha objetivos determinados em mente. O verdadeiro impulso
do Antigo Testamento é teológico. Os fatos mais relevantes para os gran­
des temas do propósito divino, por exemplo a redenção, são preservados
enquanto outros são excluídos. Sem dúvida a história de Israel envolve
mais do que as informações contidas no registro bíblico. De fato, as fre-
qüentes referências a documentos não-canônicos, tais como o "Livro de
Jasar" e o "Livro das Crônicas dos Reis de Israel [ou Judá]", deixam os
4 H istória de I srael no A ntigo T estamento

estudiosos alarmados com respeito ao conteúdo que esses materiais pode­


riam fornecer. Entretanto, por razões não muito claras, seu conteúdo não
foi adicionado ao registro histórico canônico.
O problema para o historiógrafo, então, é a natureza seletiva do Antigo
Testamento. Ele não é primariamente uma história, uma crônica, no senti­
do político do termo, mas uma relato descritivo, direcionado da obra de
Deus na vida dos homens.

A p re s e n te a b o rd a g e m d a h is tó ria d e Isra e l

Reconhecimento do caráter revelador do Antigo Testamento

Esta presente abordagem da história de Israel parte da confissão de


que o Antigo Testamento é a revelação de Deus na forma escrita. Esta con­
fissão obviamente pressupõe sua inspiração como Palavra de Deus e rati­
fica sua inerrância em todas as áreas, incluindo a história. Isto não signifi­
ca que alguém possa escrever uma história de Israel sem enfrentar dificul­
dades - algumas insuperáveis - , mas que é possível fazê-lo reconhecendo
plenamente que os problemas não são inerentes às fontes, mas à incapaci­
dade dos historiadores humanos de ter acesso e interpretar essas fontes. O
registro pode estar in co m p leto; de fato, ele freqü entem ente é
complementado pelas informações extrabíblicas. Contudo, ele nunca está
errado quando entendido completamente.

Reconhecimento do método bíblico

De acordo com o que foi dito acima, esta presente obra reconhece o
processo de seletividade no texto canônico e, portanto, não espera que o
Antigo Testamento diga mais ou menos do que aquilo que se propõe a
falar com respeito à história. Esse processo de seletividade não deveria
nos surpreender, pois ocorreu em vários outros registros escritos da mes­
ma época. Por exemplo, alguns acontecimentos marcantes do Antigo Tes­
tamento não foram registrados na história secular quando, na verdade,
qualquer um poderia esperar que eles tivessem sido.
Do mesmo modo, muitos eventos cruciais no mundo também não são
mencionados no Antigo Testamento. É realmente estranho que os textos
egípcios (ou ainda mais surpreendente, hititas) sequer façam menção do
êxodo de Israel, e também que o Antigo Testamento permaneça em abso­
luto silêncio com respeito ao poderoso Hamurabi. A única explicação para
tais omissões repousa na idéia de que houve grande seletividade e (se­
IsTRODUÇÃO 5

gundo os padrões modernos) e uma historiografia não-ortodoxa. O histo­


riador moderno precisa admitir que esta é a situação real e tratar os fatos
dessa maneira. Não é responsabilidade ou trabalho do historiador dizer o
que as fontes deveriam ter incluído, mas trabalhar com elas e tentar extra­
ir delas o melhor entendimento possível.

Reconhecimento do propósito bíblico

Um compromisso assumido por todo aquele que busca escrever uma


história de Israel é aceitar o Antigo Testamento em seus próprios termos.
De fato, ele é um livro de história, mas ao mesmo tempo é a revelação
progressiva da mente e dos propósitos do Senhor. É desta forma que ele
deve ser lido e interpretado teologicamente. Embora a totalidade dos fa­
tos perfaçam um corpo de informação histórica, cada fato, cada evento,
cada pessoa do Antigo Testamento tem uma significação especial quando
visto no contexto como um todo. O êxodo, por exemplo, é muito mais do
que um episódio emocionante que lançou as bases para a nacionalidade
de Israel. E um evento simbólico que tipifica a ação salvífica do Senhor
com respeito a Israel e também a todo o mundo. Ver os fatos desta manei­
ra não interfere na historicidade literal. Mas deixar de enxergar assim é
falhar em ver o Antigo Testamento como uma obra de história que trans­
cende infinitamente os limites da historiografia comum.
Israel em M oabe
O propósito da Torá
Gênesis
Êxodo
Levítico
Números
Deuteronômio
A história dos patriarcas
Abraão: o ancestral das nações
As origens de Abrão
A viagem até Canaã
O estabelecimento em Canaã
A viagem para o Egito
A separação entre Abrão e Ló
Os reis do Oriente
Abrão e sua cultura
A destruição de Sodoma e Gomorra
Abraão e os filisteus
A busca de uma esposa para Isaque
Jacó: pai de muitas nações
A bênção e o exílio
A volta para Canaã
O casamento de Judá
A descida ao Egito
A história de José
O cenário
A atmosfera cultural
De José ao êxodo

Isra e l e m M o a b e

Ao término do século quinze antes de Cristo1, uma multidão de pesso­


as conhecida como Israel - uma raça exclusiva entre todas as nações -
reuniu-se nas planícies de Moabe momentos antes da invasão e conquista
de Canaã, que se daria diretamente ao ocidente e através do Rio Jordão.
Moisés, que foi por mais de quarenta anos o seu venerado líder, estava
prestes a morrer, e já tinha transferido as rédeas de autoridade a seu jo­
vem assistente Josué. Esse foi um momento totalmente singular. O Israel

Os princípios que fundamentam a estrutura cronológica adotada nessa obra estão con­
tidos nas pp. 59-73.
8 H istória de I srael no A ntigo T estamento

que anteriormente não passava de um povo escravizado e desorganizado


foi miraculosamente libertado do domínio da mais poderosa nação da ter­
ra, o Egito, e encontrou-se com Jeová, Deus do céu e da terra, no Sinai. Lá
eles entraram numa aliança com Ele e foram feitos seus servos e povo de
propriedade exclusiva. Agora, após um intervalo de quarenta anos, eles
chegaram a leste de Jerico, estando prestes a entrar na sua terra e futuro
lar, a Canaã que o Deus da aliança lhes prometera.
Mas existe uma multidão de perguntas que exigem respostas. Não há
dúvida de que Moisés e muitos de seus antepassados tinham aprendido
sobre os propósitos de Deus, seja por revelação direta ou por tradição
oral, e que eles passaram as intenções de Deus para seus contemporâne­
os de várias formas diferentes. Apesar disso, até o presente momento
não há qualquer sistematização que nos leve a compreender quais foram
os "blocos formadores" da história e teologia que resultaram na estrutu­
ra de um povo unido em aliança com Deus, possuidor de uma tremenda
responsabilidade e privilégio de agir como seu povo, segundo o seu pla­
no redentor.
Quem, de fato, era esse povo? Qual era a significação de Israel? Como
Israel veio à existência? Qual é, especificamente, o propósito que essa na­
ção tem de realizar na condição de mais um membro dentre todos os de­
mais povos e nações? Além de todas essas coisas, qual foi a razão da cria­
ção dos céus, da terra, e de toda a humanidade? O que o Criador tinha em
mente para a sua criação? E se Israel foi eleito para lhe servir, como seria
realizada essa servidão de forma que contribuísse para a implementação
dos grandes propósitos salvíficos de Deus?

O p ro p ó s ito d a T orá

As tradições universais judaica e cristã ensinam inequivocamente que


Moisés agiu como mediador e porta-voz de Jeová para seu povo. No pro­
pósito de providenciar respostas para as perguntas anteriores, dedicou a
última parte de sua longa e produtiva vida a esse ministério.2 A forma
como as respostas vieram a se constituir chama-se para os judeus de Torá,

2 O surgimento da chamada Alta Crítica, de cunho cético, no período então chamado de


Iluminismo, ocorreu no décimo oitavo século. Seus partidários tentaram negar a auto­
ria mosaica do Pentateuco, e consideravam-no um apanhado de vários documentos
que foram escritos muitos anos depois das datas tradicionalmente atribuídas a Moisés.
Para uma descrição da história desse movimento e uma resposta contra seus argumen­
tos, ver em Roland K. Harrisson, Introduction to the Old Testament (Grand Rapids:
Eerdmans, 1969), pp. 3-82.
O rigens 9

e para os cristãos de Pentateuco, ou seja, os livros de Gênesis, Êxodo,


Levítico, Números e Deuteronômio. Embora comumente sejam descritos .
como "Lei", na verdade são mais história, porém escrita de forma muito
mais elevada.3

Gênesis

O propósito do Gênesis é documentar o fato de que o Deus de Israel é


o Criador de todas as coisas e, inclusive, traçar a história da raça humana
desde a criação até o tempo em que Israel se desenvolveu como uma na­
ção especial. O livro descreve as intenções cósmicas de Deus, a recusa da
humanidade em se conformar com os propósitos divinos, e mostra os
mecanismos e as promessas contidas na aliança, por meio dos quais Deus
iria por fim alcançar todos os seus objetivos, apesar da desobediência dos
homens. Isso envolve a chamada e a separação de Abraão que, através de
sua inumerável descendência, se tornaria o canal de bênçãos para todo o
mundo.4

Êxodo

O Êxodo relata a história dos descendentes de Abraão desde a sua li­


bertação da escravidão e opressão egípcia até a sua constituição como povo
de Deus no deserto do Sinai. Mostra que Israel não era digno dessa graça,
mas que, por razões conhecidas apenas por Deus, foi separado para entrar
num concerto com Ele a fim de servir tanto como um repositório das ver­
dades salvíficas quanto como um veículo através do qual essas verdades
seriam comunicadas e, por fim, culminariam na encarnação de Jesus Cris­
to. Os principais temas do livro giram em torno dessa aliança. O ponto
mais alto do êxodo histórico foi a dádiva da aliança, o texto inteiro que
consta em Êxodo 20-23. Lá encontram-se descritas as prescrições de culto
com respeito ao modo pelo qual os servos deveriam se aproximar da ma­
jestosa pessoa do Deus Soberano (sacrifício e ritual), e o local onde tal
aproximação teria lugar (o tabernáculo).

’ Ver pp. 4,5


4 Gerhard von Rad, Genesis: A Commentary, trad. John H. Marks (London: SCM;
Philadelphia: Westminster, 1961), pp. 154-56. O propósito das histórias patriarcais está
bem descrito e por John Goldingway, "The Patriarchs in Scripture and History", em
Essays on the Patriarchal Narratives, ed. A R. Millard e D. J. Wiseman (Winona Lake, Ind.:
Eisenbrauns, 1983), pp. 1-34.
10 H istória de I srael no A ntigo T estamento

Levltico

A terceira seção da Torá providencia os padrões de santidade que de­


veriam fazer parte da vida daqueles que estariam incumbidos de estabe­
lecer e manter o acesso ao santo e infinito Senhor da aliança. Esses pa­
drões não eram apenas para o povo de modo geral, mas caíam particular­
mente sobre os sacerdotes, que deveriam servir como intercessores na es­
trutura do culto público.

Números

O livro de Números descreve a migração de Israel do Egito até as


planícies de Moabe, uma viagem repleta de uma sucessão de rebeliões
contra o Senhor e contra os administradores de sua teocracia, que cul­
minou na morte de todos os adultos da geração do êxodo. Houve, por
conseguinte, a necessidade de se fazer pelo menos uma legislação adi­
cional para os que faziam parte da nova geração, enfatizando nova­
mente as bases que regem a aliança antes que eles se estabelecessem
em Canaã. Logo, muita coisa que temos em Números, da mesma forma
que em Êxodo e Levítico, é prescritiva em sua natureza, e não narrativa
técnica da história. Mas de forma geral, o livro de Números cita os even­
tos históricos significantes do período que vai da aliança do Sinai até a
chegada de Israel às planícies de Moabe, um período de aproximada­
mente trinta e oito anos. O livro é assim qualificado como histórico e é
de contribuição fundamental para a compreensão do Israel antes da
conquista.

Deuteronômio

Dentre os livros do Pentateuco, Deuteronômio é sem dúvida o menos


histórico, uma vez que em sua inteireza apresenta um longo discurso de
Moisés para a comunidade da aliança que estava às vésperas da con­
quista. Do ponto de vista literário, esse discurso deve ser visto como um
texto exaustivo de uma aliança, e seus elementos encontram paralelos
em outros documentos da mesma característica que pertenciam ao anti­
go Oriente Médio.5 O propósito do livro é repetir, com algumas emen­
das e clareza, a mensagem básica de Êxodo 20-23 - uma repetição neces­

5 Meredith G. Kline, The Structure ofBM ical Authority (Grand Rapids: Eerdmans, 1972),
pp. 9-14.
O rigens II

sária em face das circunstâncias históricas que transpiravam já por qua­


se quarenta anos desde a revelação no Sinai. A geração que presenciou e
entrou em aliança no Sinai já havia morrido ou estava morrendo. Nesse
caso, a nova geração também precisava ouvir e, por ela mesma, respon­
der às exigências que o pacto com Jeová lhes impunha. Em outras pala­
vras, precisava haver uma reafirmação daquela aliança, como era de cos­
tume por todo mundo ao leste do Mediterrâneo, quando se findava uma
geração de um povo vassalo.6 Além disso, o pacto do Sinai - assim como
suas prefigurações em Números - foi particularmente preparado para
atender às necessidades de uma sociedade nômade que se dirigia para
um vida permanentemente sedentária em Canaã. Finalmente, as tribos
haviam chegado à entrada da terra prometida e, logo, uma alteração no
pacto se tornava necessária como prevenção para as grandes mudanças
que Israel iria encontrar. Deuteronômio é o discurso de despedida de
Moisés, no qual ele alerta e lembra o povo acerca de quem eles são, de
onde foram tirados e qual deve ser a sua missão daquele dia em diante,
à medida que eles reivindicam a terra da promessa e trabalham como
mediadores entre as nações.

A h is tó ria d o s p a tria rc a s

A história de Israel não começa com Moisés, com os acontecimentos


do êxodo ou com a aliança. Porém, a compreensão e sistematização
dos relatos com respeito às origens de Israel, seu trabalho e destino
foram, sem dúvida, preparadas por Moisés nas planícies de Moabe,
onde o profeta também manifestou seus dotes e habilidades de histori­
ador. Na criação da Torá, sua obra-prima, Moisés serviu tanto como
testemunha ocular quanto como organizador e colecionador de todo o
material necessário para documentar o passado. Sem dúvida que esta­
mos diante de um livro histórico, mas podemos dizer que na verdade é
muito mais do que isso - estamos diante de um tratado de teologia
cujo propósito é mostrar que o Deus Criador, por meio da nação esco­
lhida Israel, soberanamente realizará seu propósito redentor para toda
a humanidade.7

6 Peter C. Craigie, The Book of Deuteronomy, New International Commentary on the Old
Testament (Grand Rapids: Eerdmans, 1976), pp. 28,30-32.
~Para um apanhado historiográfico um pouco diferenciado sobre as histórias dos patriar­
cas, ver inter alia, John T. Luke, "Abraham and the Iron Age: Reflections on the New
Patriarchal Studies", JSOT 4 (1977): 35-47, esp. p. 47.
12 H istória de I srael no A ntigo T estamento

Abraão: o ancestral das nações

As origens de Abrão
A história de Israel tem início com a chamada de Abrão para ser o pai
da nação escolhida. No final da lista genealógica que começa com Sem,
filho de Noé (Gn 11.10-26), aparece o nome de Terá, pai de Abrão, Naor e
Arã. Terá viveu em Ur dos Caldeus (v. 28), a famosa cidade sumeriana
localizada às margens do Rio Eufrates, cerca de 241 quilômetros a nordes­
te da costa atual do Golfo Pérsico.8 A mais satisfatória reconstrução da
cronologia bíblica localiza o nascimento de Abrão em 2166 a.C.,9 uma época
em que a cidade de Ur caiu nas mãos de um povo bárbaro e montanhês
conhecido por Guti.10
Conforme já foi constatado, Ur era uma cidade da Suméria - a mais
importante dentre um complexo de cidades-estados - povoada pela civili­
zação altamente culta dos sumários pelo menos desde a metade do quarto
milênio. A Ur de Terá e Abrão era, por assim dizer, uma cidade altamente
cosmopolita, já que não-sumérios como o próprio Abrão e seus antepassa­
dos - de origem semítica - lá viveram e fundiram seus conhecimentos
intelectuais e sua cultura com o lastro cultural dos sumários.11
Visto que por aqueles tempos Sargão (2371-2316)12 estabeleceu em
Agade o Império Acadiano, de dominação semita, aproximadamente 321
quilômetros a noroeste de Ur, é quase certo que Abrão era bilíngüe, domi-

8 Acerca de dados relativos às escavações em Ur, ver em C. Leonard Wooley, Ur of the


Chaldees (New York: Norton, 1965).
9 Essa cronologia será melhor elaborada nas pp. 59-73. Que a era patriarcal se enquadra
aproximadamente nos períodos I-II do Bronze Médio (aprox. 2000-1800) foi demonstra­
do por John J. Bimson, "Archaeological Data and the Dating of the Patriarchs", em Essays
on the Patriarchal Narratives, editado por A.R. Millard e D. J. Wiseman (Winona Lake,
Ind.: Eisenbrauns, 1983), pp. 53-89; ver John Bright, A History of Israel, 3a ed. (Philadelphia:
Westminster, 1981), p. 85.
10 C.J. Gadd, "The Dynasty of Agade and the Gutian Invasion", em Cambridge Ancient
History (CAH), 3ed.., editado por I.E.S. Edwards et al. (Cambridge: Cambridge University
Press, 1971), vol. 1, parte 2, pp. 454-61. O domínio dos Guti extendeu-se de aproximada­
mente 2240 até 2115.
11 Dietz Otto Edzard, "The Early Dynastic Period", em The Near East: The Early Civilization,
editado por Jean Bottéro et al. (New York: Delacorte, 1967), pp. 86-87; Thorkild Jacobsen,
"The Assumed Conflict Between Sumerians and Semites in Early Mesopotamian
History", JAOS 59 (1939): 485-95.
12 As datas extrabíblicas para esse capítulo são as mesmas obtidas no Cambridge Ancient
History, 3ed.
O rigens 13

nando tanto a língua sumeriana quanto a acadiana. O local de onde os


descendentes de Abrão se originaram e como eles se estabeleceram em Ur
não está registrado no relato histórico. A miscigenação entre os elementos
étnicos sumerianos e semíticos no terceiro milênio está bem atestada na
Mesopotâmia inferior; por esta razão, não há necessidade de se buscar
por uma outra Ur além da que tem sido tradicionalmente associada a
Abrão.13
A principal deidade adorada em Ur era o deus lua sumeriano Nannar,
conhecido em acadiano como Sin. Não há dúvida de que Abrão e sua fa­
mília eram devotos fiéis a Sin e às divindades a ele associadas, pois em
Josué 24.2 vemos o registro de que eles adoraram e serviram a outros deu­
ses além do rio (o Eufrates). Além disso, alguns estudiosos identificam o
nome Terá como sendo uma forma da palavra hebraica yareah ("lua"), o
que pode sugerir que o seu nome revelava qual era sua orientação religio­
sa.14 Quando Terá e sua família deixaram a cidade de Ur, restabeleceram-
se em Arã, um outro importante centro de adoração ao deus Sin.
r O assunto que trata acerca do nascimento de Abrão no paganismo em
contraste com sua descendência direta da linha escolhida de Sem é de gran­
de interesse, embora não possa ser considerado aqui em detalhes. Contu­
do, está claro que a genealogia que liga Sem a Abrão não deve ser vista
como completa, mas apenas como seletiva. Ou seja, os nomes que apare-

13 Cyrus H. Gordon lançou a teoria que Abrão não tinha ligações com a Ur dos Caldeus
mas com uma Ura' na Síria, um local muitíssimo mais próximo de Arã e, segundo seu
ponto de vista, muito mais compatível com as narrativas de Isaque e Jacó, cujas esposas
procederam da parentela de Abrão em Arã ou da parte mais alta da Síria. Ver detalhes
em "Abraham of Ur", em Hébrew and Semitic Studies, editado por D. Winton Thomas e
W.D. McHardy (Oxford: Clarendon, 1963), pp. 77-84. Mais recentemente foi ventilada a
confirmação de uma outra Ur mais ao norte, que está registrada nos textos de Ebla.
Mas, conforme Paul C. Maloney, os sinais cuneiformes usados por aquela Ur são dife­
rentes dos utilizados para soletrar o mesmo nome da Ur dos Sumérios ("The Raw Mate­
rial", BAR 6.3 [1980]: 59). Para uma veemente defesa do ponto de vista que a Ur dos
Caldeus deve ser entendida como aquela cidade localizada no sul, ver H.W.F. Saggs,
"Ur of the Chaldees", Iraq 22 (1960): 200-9. A frase identificadora "dos Caldeus" é sem
dúvida uma glosa explicativa surgida tempos depois, já que os caldeus e os kaldu-(i.e.
caldea) não eram conhecidos até o século nove a.C. O propósito, é claro, era distinguir a
Ur que se localizava no sul daquelas outras cidades que tinham o mesmo nome.
14 William G. Dever e W. Malcolm Clark, "The Patriarchal Tradition", em lsraelite and Judaean
History, editado por John H. Hayes e J. Maxwell Miller (Philadelphia: Westminster, 1977),
p. 127. O nome mais provavelmente deve ser buscado no acadiano tarhu ("ibex"). Ver
Claus Westermann, Genesis 1-11: A Commentary, traduzido por John J. Scullion
(Minneapolis: Augsburg, 1984), p. 564.
O*:-jess 15

cem são talvez os representantes de muitos outros que, por motivos a nós
desconhecidos e que não podem ser determinados, não foram inseridos
no registro.15 Caso Sem e Abrão tenham sido contemporâneos, conforme
uma interpretação estrita da genealogia nos forçaria a reconhecer, então
torna-se extremamente difícil entender como os ancestrais mais imediatos
de Abrão tornaram-se pagãos e, mais ainda, por que Abrão teria sido cha­
mado exclusivamente para essa sagrada missão, já que havia crentes dis­
poníveis para cumprir o propósito que Deus tinha em vista.16 E mais: caso
Sem e Abrão tenham sido contemporâneos, torna-se difícil conciliar o fato
de Abrão haver morrido aos 175 anos, "... em ditosa velhice, avançado em
anos..." (Gn 25.8), pois o registro bíblico diz que Sem morreu aos 600 anos,
uma idade consideravelmente mais jovem do que seu pai Noé (950 anos).
Claramente, podemos ver que Sem precedeu Abrão por muito mais anos
do que uma estrita leitura do texto permite enxergar. Portanto, houve tempo
suficiente para permitir o fato de Jeová ter desaparecido da linhagem de
Sem, tornando-se necessária a sua revelação ao pagão Abrão.

A viagem até Canaã


Não há como definirmos com precisão quando foi que Abrão partiu de
Ur para Arã. Ele já era velho o suficiente para estar casado e ainda jovem
o suficiente para continuar debaixo da autoridade patriarcal de seu pai. A
despeito do fato de seu nome ser mencionado em primeiro lugar na
genealogia, ele era o mais jovem dentre os três filhos de Terá.17 Arã mor­
reu em Ur; logo, apenas Naor, Abrão, e o filho de Arã chamado Ló, parti­

15 Para estudar as formas e funções das genealogias no Antigo Testamento e no antigo


oriente médio, ver em Robert R. Wilson, Genealogy and History in the Biblical World (New
Haven: Yale University Press, 1977); Jack M. Sasson, "A Genealogical 'Convention' in
Biblical Cronology", ZAW 90 (1978): 171-85; Gerhard F. Hasel, "The Meaning of
Chronogenealogies of Genesis 5 and 11", Origins 7 (1981): 53-70.
Uma interpretação estrita, ou seja, uma interpretação que afirma que as listas
genealógicas não omitem nenhuma geração, requereria que Noé tivesse morrido em
2168, apenas 2 anos antes do nascimento de Abrão, e que Sem morrera em 2016, antece­
dendo a Abrão em apenas 25 anos! Ver em Gênesis 9.28; 11.10,11; 25.7. (Nós assumimos
nessa obra que Terá estava com 130 anos quando Abrão nasceu. Ver a nota 17).
Isso está bastante evidente pelo fato de Abrão ter 75 anos quando partiu de Arã (Gn
12.4). Essa saída ocorreu somente após a morte de Terá (At 7.4), que faleceu aos 205 anos
(Gn 11.32). Portanto, Abrão não nasceu antes dos 130 anos de Terá. O fato registrado em
Gn 11.26 que Terá estava com 70 anos quando ele teve Abrão, Naor e Terá quer dizer
que ele estava com essa idade quando nasceu o seu primeiro filho. Abrão é listado em
primeiro lugar devido a sua importância na narrativa que se segue.
16 H istória d e I srael no A ntico T estamento

ram com suas esposas seguindo Terá em direção à grande cidade de Arã,
cerca de 965 quilômetros a noroeste de Ur. Por que Terá e sua família dei­
xaram a cidade de Ur é algo que não pode ser determinado, embora pos­
samos supor que os levantes políticos e culturais que estavam acontecen­
do na Sumária, em razão das conquistas impostas pelos Guti, devam ter
contribuído diretamente para tal decisão. Terá não tinha como descobrir
que os bárbaros Guti seriam expulsos em 2115, e que a gloriosa 3aDinastia
de Ur seria estabelecida sob Ur-Nammu. Nessa ocasião, Terá e sua família
já estavam vivendo em Arã, e dentro de vinte e cinco anos Abrão estaria
partindo dali para Canaã (Gn 12.4; cf. At 7.4).
Nos anos de sua estada em Arã - que na época era um centro comercial
e de negócios habitado principalmente por uma raça conhecida pelos
sumerianos por MAR.TU e pelos acadianos por Amurru (os amoritas bí­
blicos) - , Abrão sem dúvida tornou-se fluente no dialeto semítico amorita
que lá era falado e adquiriu um estilo de vida nômade, com o qual ele
viria mais tarde a se familiarizar em Canaã.18 Os amoritas nesse tempo
não apenas ocupavam as principais cidades a noroeste da Mesopotâmia,
mas também, por necessidade de expansão comercial, atingiram o sudes­
te e o sudoeste.19
Por fim, pelo fato de haver população suficiente na Mesopotâmia cen­
tral, surgiram as cidades-estados amoritas, tais como Isin, Larsa, e a mais
importante de todas: Babilônia. O próprio Hamurabi (1792-1750), o mais

Ninguém deve a priori rejeitar o grande número de anos que os patriarcas viveram
simplesmente por não encontrarem paralelos nos dias de hoje. Uma análise objetiva dos
únicos dados que temos disponíveis exigem que esses números sejam tomados do jeito
que nos foram apresentados, a não ser que exista evidência histórica que nos prove o
contrário. Será útil observar que é dito que Sargão de Acade reinou por cinqüenta e
cinco anos, Rim-Sin de Larsa durante sessenta, Ramsés II do Egito por sessenta e seis
anos e, Phiops II do Egito por noventa e quatro anos! Para mais informações, ver em
William W. Hallo e William K. Simpson, The Ancient Near East (New York: Harcourt
Brace Jovanovich, 1971), p. 55; CAH 1.2, p. 64; 2.2, p. 232; 1.2, p. 195. Todos esses, com
exceção de Ramsés, foram contemporâneos com o período dos patriarcas. Além disso,
mesmo sendo grandemente exagerada, a lista dos reis sumérios fala de reis muito anti­
gos que reinaram por séculos e até mesmo por milênios. Sem dúvida que essa
longevidade deve estar baseada nalguma fonte genuinamente histórica. Ver em Thorkild
Jacobsen, The Sumerian King List, Assyriological Studies 11 (Chicago: University of Chi­
cago Press, 1939).
18 Para informações sobre MAR.TU ou amurru, da Alta Mesopotâmia no início do segun­
do milênio, ver em Jean Bottéro, "Syria During the Third Dynasty of Ur", em CAH 1.2,
pp. 562-64.
19 Ignace J. Gelb, "Na Old Babylonian List of Amorites", JAOS 88 (1968): 39-46.
O rigens 17

ilustre dentre todos os reis da Antiga Babilônia, era um descendente dos


amoritas. O deslocamento em sentido sudeste que vemos no povo amorita
torna-se de importância fundamental para a história bíblica, pois envolve
a penetração e ocupação desta raça tanto na Síria quanto em Canaã, esten­
dendo-se inclusive até as fronteiras do Egito. Esses amoritas, que foram
equivocadamente caracterizados em certa ocasião como sendo de origem
puramente nômade, eram na verdade seminômades em sua maioria, e
geralmente urbanizados.20 As pesquisas arqueológicas realizadas em nu­
merosos sítios na Síria e em Canaã têm revelado, segundo o ponto de vista
de alguns estudiosos, que as populações indígenas dessas regiões foram
dominadas na última parte da Baixa Era do Bronze (2200-2000) por povos
geralmente descritos como amoritas.21

Tabela 1 A seqüênria da Era do Bronze

Baixo Bronze 3000-2000


Baixo Bronze I 3000-2800
Baixo Bronze II 2800-2500
Baixo Bronze III 2500-2200
Baixo Bronze IV 2200-2000
Médio Bronze
Médio Bronze I 2000-1900
Médio Bronze II 1900-1550
Alto Bronze
Alto Bronze I 1550-1450
Alto Bronze II 1400-1200

20 Para um apanhado do estilo de vida "dimórfico" dos amoritas, ver Michael B. Rowton,
"Urban Autonomy in a Nomadic Environment", JNES 32 (1973): 201-15; M. Liverani,
"The Amorites", em Peoples o f Old Testament Times, editado por D.J. Wiseman (Oxford:
Clarendon, 1973), p. 114.
21 A assim chamada hipótese amorita foi popularizada e encontrou um maior defensor no
trabalho de Kathlen Kenyon, Amorites and Cananítes (London: Oxford University Press,
1966), esp. pp. 76,77. Mais tarde surgiu forte oposição contra esta teoria, representada
especialmente por C.H.J. de Geus, "the amorites in the Archaeology of Palestine", UF 3
(1971): 41-60. É seguro afirmar que muitos estudiosos ainda acreditam a hipótese e que
ela é a que supre-nos com a melhor explicação sobre a liberdade que os patriarcas ti­
nham de seu movimentar em Canaã nesse período, além de ser a melhor forma de se
elucidar o padrão dos assentamentos descritos no Antigo Testamento. Maiores infor­
mações, ver Eugene H. Merril, "Ebla and Biblical Historical Inerrancy", Bib Sac 140 (1983):
302-21, esp. pp. 306-8; Benjamim Mazar, "Canaan in the Patriarchal Age", em World
History of the Jewish People, vol. 2. Patriarchs, editado por Benjamim Mazar (Tel Aviv:
Massada, 1970), pp. 169-87, 276-78.
IS H istória de I srael ko A ntigo T estamento

O historiador bíblico relata que Jeová disse a Abrão para deixar seu
país (na ocasião era Arã), indo para um lugar que Ele progressivamente
lhe revelaria. É tentador supormos que Abrão não tenha se movido da­
quele local sozinho, mas que tivesse participado das grandes migrações
de amoritas que estavam em voga naqueles dias.22 E verdade que Abrão

Tabela 2 Os Patriarcas

O nascimento de Terá 2296


O nascimento de Abrão 2166
A partida de Abrão de Arã 2091
Hagar é dada por mulher a Abrão 2081
O nascimento de Ismael 2080
A reafirmação da aliança 2067
A destruição de Sodoma e Gomorra 2067
O nascimento de Isaque 2066
A morte de Sara 2029
O casamento de Isaque 2026
O nascimento de Jacó e Esaú 2006
A morte de Abraão 1991
O casamento de Esaú 1966
A morte de Ismael 1943
A viagem de Jacó a Arã 1930
Os casamentos de Jacó t 1923
O nascimento de Judá 1919
Final dos catorze anos de trabalho pelos
quais Jacó obteve suas duas esposas 1916
O nascimento de José 1916
O final da estada de Jacó com Labão 1910
A chegada de Jacó a Siquém 1910
Diná é deflorada 1902
O casamento de Judá 1900
José é vendido 1899
José é preso 1889
José é libertado 1886
Morte de Isaque 1886
O início da fome 1879
Primeira visita dos irmãos de José ao Egito 1878
Judá comete incesto com Tamar 1877
Segunda visita dos irmãos de José ao Egito 1877
Descida de Jacó ao Egito 1876
Morte de Jacó 1859
Morte de José 1806

22 J. Kaplan, "Mesopotamiam Elements in the Middle Bonze II Culture of Palestine", JNES


30 (1971): 293-307, esp. 305-6. A hipótese amorita não é indispensável em nenhum as­
pecto à historicidade das narrativas patriarcais, pois Abrão poderia ter se movimentado
independentemente da alta Mesopotâmia para Canaã.
O rigens 19

nunca é mencionado na Bíblia como sendo de origem amorita, embora a


designação "Abrão, o Hebreu" possa indicar que ele era tido como al­
guém que estava associado a certos povos migradores.23

O estabelecimento em Canaã
Quando Abrão chegou em Canaã, achava-se numa terra que in­
dubitavelmente tinha passado por algumas modificações culturais devi­
do às novas condições descritas anteriormente. Por um período de mais
de mil anos o elemento étnico predominante na terra tinha sido o cananita.24
Quem eram os cananeus na época de Abrão continua obscuro, embora o
Antigo Testamento ligue Canaã originalmente a Cão, filho de Noé. Se eles
eram ou não semíticos em sua etnia, o fato é que falavam uma língua
semítica que se comparava substancialmente à que Abrão deve ter apren­
dido em Arã.25 As escavações feitas recentemente em Tel Mardikh (a anti­
ga Ebla), situada a menos que 240 quilômetros a sudoeste de Arã, têm
revelado diversas tabuinhas escritas numa linguagem tão parecida com o
cananeu, que muitos estudiosos a têm classificado de protocananéia.26 O3

3 William F. Albright defende a idéia que Abrão não deva ser visto como um pastor de
rebanhos que levava o estilo nômade de vida, mas como um mercador ou caravaneiro,
ou seja, substancialmente um semi-nômade. ("From the Patriarchs to Moses: I. From
Abrahan to Joseph", BA 36 [1973]: 11-15). Quanto à definição de hebreu, ver pp. 100-2.
:J Embora não fosse possível até bem pouco tempo encontrar referências aos termos Canaã
ou cananeus nos textos literários extrabíblicos mais antigos do que a metade do segun­
do milênio (ver Sidney Smith, The Statue of ldri-Mi [London: British Institute of
Archaeology in Ankara, 1949], p. 15; Michael C. Astour, "the Origins of the Terms
'Canaan', 'Phoenician' and 'Purple'," JNES 24 [1965]: 346-47), não existe razão para du­
vidar de que as populações nativas da Palestina nos primórdios da Idade do Bronze
tivessem sido cananéias. Conforme diz Roland de Vaux, "Visto que não houve alteração
da raça ou da cultura no decurso do terceiro milênio, os 'cananeus' bem podem ser
considerados os fundadores da primitiva Idade do Bronze." ("Palestine in the Early
Bronze Age," em CAH 1.2, p. 234). Além disso, existe uma informação contida num
texto de Ebla, e que antecede em mil anos à referência de Idri-Mi (Alalakh), citando um
tal "senhor de Canaã" (be ka-na-na-im). Ver Giovanni Pettinato, The Archives o f Ebla
(Garden City, N.Y.: Doubleday, 1981), p. 253.
:= Sabatino Moscati, Na Introduction to the Comparative Grammar of the Semitic Language
(Wiesbaden: Otto Harrassowitz, 1984), pp. 3-8; William L. Moran, "The Hebrew Language
in Its Northwest Semitic Background", em The Bible and the Ancient Near East, editado
por G. Ernest Wright (Garden City, N.Y.: Doubleday, 1965), pp. 59-64.
Pettinato, Archives, p. 56; quanto as escavações e dados arqueológicos, ver em Paolo
Mathiae, Ebla: An Empire Rediscovered, traduzido por Christopher Holme (Garden city,
X.Y: Doubleday, 1981).
20 H istória de I srael no A ntigo Testamento

que é mais significativo ainda é o fato de tais tabuinhas datarem de 2500


a.C. Sendo assim, ainda antes da época de Abrão havia uma profunda
afinidade entre as línguas faladas no noroeste da Mesopotâmia e Síria (e
presumivelmente em Canaã).27 Já que Abrão era fluente no idioma amorita,
a assimilação do novo idioma cananita, sua nova terra natal, seria uma
tarefa muitíssimo fácil.
Um dos efeitos da ocupação de Canaã pelos amoritas foi que eles
restringiram o acesso dos cananeus à planície costeira do Mediterrâ­
neo, o vale de Jezreel, bem como o vale do Jordão (Nm 13.29). Os
amoritas se estabeleceram na porção central das grandes regiões mon­
tanhosas, e desenvolveram um estilo de vida baseado na pecuária e na
agricultura.28 Semelhantemente, Abrão se estabeleceu nas regiões mon­
tanhosas e limitou-se nessa área até ao sul na fronteira do deserto do
Negueve.
O primeiro local onde o patriarca levantou suas tendas foi Siquém
(Gn 12.6), um nome que surgiu somente anos após seu estabelecimento,
uma vez que nos dias de Abrão não havia cidade alguma naquele lo­
cal.29 Lá ele edificou um altar e também fixou sua residência, aparente­
mente sem qualquer oposição contrária. A terra se abriu diante dele e
era dele para a possuir. As referências enigmáticas a respeito dos cananeus
que habitavam a região (Gn 12.6; 13.7) não contradizem o quadro geral
da época, e podem ter sido apenas anotações feitas por Moisés para
mostrar que, mesmo sendo uma civilização urbanizada em sua época

27 Para uma posição cautelosa e ao mesmo tempo bem informativa quanto à relevância
dos textos de Ebla com respeito a história, vida social, religião e linguagem da antiga
Síria, ver em Lorenzo Vigano e Dennis Pardee, "Literary Sources fo the History of
Palestine and Syria: The Ebla Tablets," BA 47 (1984): 6-16.
2S Kenyon, Amorites, pp. 76-77; William F. Albright, "The Jordan Valley in the Bronze Age",
AASOR 6 (1926): 68; Norman K. Gottwald, The Tribes ofYahweh (Mary-knoll, N.Y.: Orbis,
1979), p. 452. O que não significa necessariamente nomadismo ou vida em cabanas,
conforme D. J. Wiseman nos mostra com respeito aos patriarcas ("They Lived in Tents",
em Biblical and Near Eastern Studies, editado por Gary A. Tuttle [Grand Rapids: Eerdmans,
1978], pp. 195-200).
29 William G. Dever, "Palestine in the Second Millenium BCE: The Archaeological Picture,"
em Hayes e Miller, History, p. 99; Joe D. Seger, "The Middle Bronze II C Date of the East
Gate of Shechem," Levant 6 (1974): 117. Em 1900 Siquém desenvolveu-se num centro
urbano, quase duzentos anos após a chegada de Abrão em Canaã (aprox. 2100). Na
narrativa não existe sequer uma pista que nos indique que ali existiu uma cidade nos
dias de Abrão. Pelo contrário, parece que ele construiu um altar num local desocupado,
o qual mais tarde se tornou a cidade de Siquém.
22 H istória de I srael no A ntigo T estamento

(ou seja, viviam em cidades-estados), nos dias de Abrão, eles tinham sido
desapossados e estavam "na terra" no sentido de serem forçados a uma
forma de vida mais agrária.30
Mudando-se para uma outra colina entre Betei e Ai, cidades que rece­
beram esses nomes tempos depois,31 Abrão e seu clã novamente não en­
contraram nenhuma resistência. Esse padrão foi mantido por todo um
percurso na direção sul, através de toda a extensão da região montanhosa.
Com os cananeus efetivamente habitando nas planícies e vales, e os
amoritas (entre os quais Abrão viveu) levando um estilo nômade de vida,
este patriarca moveu-se e se estabeleceu conforme sua vontade e livre esco­
lha, sem qualquer impedimento ou ameaça por parte daqueles que forma­
vam a população nativa da região.

A viagem -para o Egito


Pouco depois da chegada de Abrão ao Negueve, a terra foi afligida
por uma severa seca, forçando-o a partir com sua família para o Egito a
procura de alívio. Devido a infalível cheia do rio Nilo que, como conse-
qüência, irrigava continuamente as ricas fazendas da região, o Egito
desde os tempos mais remotos sempre foi considerado o celeiro do
mundo Mediterrâneo oriental. Não foi nada difícil chegar ao Egito, já
que seus habitantes, com muita regularidade, vinham demonstrando
aberta hospitalidade para com os povos semitas.32 Elavia, é claro, certa
resistência e alerta com relação àqueles estrangeiros barbados, mas
mesmo assim costumava-se estender o tapete de boas-vindas especial­

30 Esse particularmente parece ser o caso de Gênesis 13.7, que fala de uma tensão entre
Abrão e Ló por causa de pastos para seus rebanhos. Justamente porque os cananeus
estavam "na terra", o espaço para Abrão e Ló era pequeno.
31 Confira em Gênesis 28.19 e Josué 8.28 (visto que o nome Ai significa "ruína", subenten­
de-se que esta cidade passou a se chamar assim somente após a conquista israelita do
local). O nome anterior para o sítio de Betei, que chamava-se Luz, continua sem com­
provação, embora esteja claro que tal local se estabeleceu tão cedo quanto a primitiva
Idade do Bronze. Ver em J.L. Kelso, The Excavation ofBethel 1934-1960, AASOR 39 (1968).
Não há como localizar a cidade de Ai com precisão hoje em dia. Para termos uma visão
completa do assunto, ver em John J. Bimson, Redating the Exodus and Conquest (Sheffield:
JSOT, 1978), pp. 215-25.
32 Cyril Aldred, The Egyptians (New York: Praeger, 1961), pp. 103-4. Este estado de coisas
continuou por todo o Primeiro Reino Intermediário e Reino Médio, conforme nos é
demonstrado por O. Tufnell e W. A. Ward, "Relations Between Byblos, Egypt and
Mesopotamis at the End of the Thrid Millennium B.C., Syria 43 (1966): 165-241, especial­
mente páginas 221-23.
O rigens 23

mente se os semitas fossem daqueles cuja inclinação voltava-se para o


comércio.33
A visita de Abrão ao Egito aconteceu próximo ao final do Primeiro Pe­
ríodo Intermediário, provavelmente durante a 10a ou 11a Dinastia. Quan­
do ele chegou ao Egito e contemplou as grandes pirâmides próximas a
Mênfis, sabemos que esses grandes monumentos do Reino Antigo já esta­
vam ali por mais de quatro séculos. Mas aquela era gloriosa tinha chegado
ao fim com a 5a Dinastia e, por três séculos, o Egito entrou em profundo
declínio, primariamente devido a ascensão do poder dos nomarcas ou
governantes dos distritos locais. Visto que Abrão chegou em Canaã por
volta de 2091 a.C., e que provavelmente entrou no Egito não muito depois
dessa data, concluímos que o rei para quem ele mentiu com respeito a ser
Sara sua esposa foi, ao que tudo indica, Wahkare Achthoes III (aprox. 2120­
2070) da 10a Dinastia, e que provavelmente foi o compositor da famosa
"Instrução para o Rei Meri-ka-Re".34 Esses conselhos coligidos para seu
filho, que tratam da deslealdade dos asiáticos, bem podem estar relacio­
nados de uma forma ou de outra com a duplicidade apresentada por Abrão.

A separação entre Abrão e Ló


Apesar da deslealdade praticada por Abrão no Egito, ainda assim o
Senhor decidiu abençoá-lo naquele lugar; por fim, o patriarca retornou
para o Negueve e de lá moveu-se para a vizinhança de Betei e Ai, levando
consigo grandes riquezas. A multiplicação dos rebanhos de Abrão e Ló foi
tão significativa que eles chegaram à conclusão de que era impossível a
coexistência nas mesmas terras de pastagens. Além disso, é claro, há toda
uma possibilidade de haver existido naquele local o elemento cananeu
não-sedentário também competindo pelos espaços abertos. No intuito de
aliviar a tensão que estava se desenvolvendo em conseqüência do aglo­
merado de rebanhos, Abrão propôs a seu sobrinho Ló que se afastassem
um do outro. Mais uma vez temos a nítida impressão de que a terra estava
completamente disponível para eles, ou seja, não havia latifundiários de
quem as terras devessem ser compradas, ou para quem fosse necessário
pedir permissão para fixar residência. Todas essas informações condizem

Ver o texto interessante "The Instmction for King Meri-ka-Re," em James B. Prithcard,
Ancient Near Eastern to the Old Testament, 2a edição (Princeton: Princeton University Press,
1955), pp. 414-18, esp. 11.91ff: "Vede o maldito asiático... ele não consegue viver num
único lugar, (mas) suas pernas foram feitas para perambular".
’ William C. Hayes, "The Middle Kingdom in Egypt," em CAH 1.2, pp. 466-68. Ver tam­
bém nota 33.
24 H istória de I srael no A ntigo T estamento

exatamente com os padrões de fixação de residência conhecidos em Canaã


nesse período.
Olhando cobiçosamente para o oriente, Ló decide procurar sua fortuna
nos pastos verdejantes das planícies do Jordão, provavelmente na parte
baixa daquele vale, do leste de Betei para o mar Morto.35 A história da
cultura daquela região nos diz que o local já havia sido ocupado por po­
vos cananeus que também tinham sofrido as mesmas devastações
provocadas pelos amoritas, as mesmas experiências pelas quais os habi­
tantes irmãos da região montanhosa haviam passado.36 Alguns estudio­
sos sugerem que as cidades impenitentes da planície, inclusive Sodoma,
devem ser situadas nessa região ao norte do mar Morto.37 Porém, é mais
provável ainda que tais cidades estivessem fixadas a sudeste do mar, con­
forme a tradição de longos anos tem acreditado e as recentes escavações
têm confirmado.38 Caso tenha sido assim, conclui-se que Ló deve ter en­
trado a princípio no vale do Jordão, depois continuou seguindo em dire­
ção sul até chegar aos arredores de Sodoma (Gn 13.12).
Quanto a Abrão, as partes mais altas de Betei lhe proporcionavam uma
vista panorâmica privilegiada de toda a região que Deus havia prometido
dar a ele e a seus descendentes. A ordem de Deus "...percorre essa terra no
seu comprimento e na sua largura..." (Gn 13.17) implica em afirmar a pos­
sessão e a dominação que Abrão tinha de toda aquela área.39 Como resul­
tado, Abrão deu seus primeiros passos, viajando com sua família e reba­
nhos para um acampamento próximo a Manre, que tinha sido assim cha­

35 Yohanan Aharoni, The Land ofihe Bible (Philadelphia: Westminster, 1979), pp. 133-4.
36 Jerico, a principal cidade da área, segundo a opinião de Kenyon (Amorites p. 9), tinha
sido destruída por volta de 2300 e reconstruída por uma "população numerosa, embora
fossem nômades" (p. 33). Esses primitivos anos do Médio Bronze sobreviveram até cer­
ca de 1900 (p. 35). A natureza não-urbana da área explicaria o porquê de Ló (cerca de
2090 a.C.) ter decidido escolher a "planície do Jordão" como sua porção.
37 Willem C. Van Hatten, "Once Again: Sodom and Gomorrah", BA 44 (1981): 87.
38 Ver particularmente a obra em andamento de Walter Rast e Thomas Schaub, "Survey of
the Southeastern Plain of the Dead Sea," ADAJ 19 (1974): 5-53; "Bab edh-Dhra' 1975,"
AASOR 43 (1978): 1-60; "Preliminary Report of the 1979 Expedition Bab edh-Dhra' and
Numeira: May 24-July 10,1981," ASOR Newsletter 4 (1982): 4-12.
39 A divina promessa da terra e as outras bênçãos (Gn 12.1-3; 15.18-21; 17.1-8) estão
registradas numa forma de aliança tecnicamente conhecida nos estudos do antigo Ori­
ente Médio como sendo um "concerto da graça". É uma iniciativa que parte daquele
que concede o favor, e quase sempre sem que para isso exista quaisquer prerequisitos
ou qualificações. Ver em Moshe Weinfeld, "The Covenant of Grant in the Old Testament
and in the Ancient Near East", JAOS 90 (1970): 184-203: Samuel E. Loewenstamm, "The
Divine Grants of Land to the Patriarchs," JAOS 91 (1971): 509-10.
O rigens 25

mada em homenagem ao seu líder amorreu (Gn 14.13), e que seria um dia
a cidade de Hebrom (Gn 13.18). Sabemos que a referência a Hebrom, por
parte de Moisés, não passa de anotações explicativas feitas por ele, já que,
de acordo com Números 13.22, a cidade não havia sido ainda construída
até sete anos antes da construção de Zoan, a cidade mais importante
construída pelos hicsos bem ao oriente do Delta do Egito. Esses dados
colocariam a fundação da cidade de Hebrom a cerca de 1727, ou seja, tre­
zentos anos depois de Abrão.40

Os reis do Oriente
A essa altura, a narrativa patriarcal envereda por um caminho comple­
tamente diferente. Até agora tudo tem girado em torno de uma atmosfera
estritamente pessoal, com caráter muito mais biográfico do que qualquer
outra coisa, o que resulta numa dificuldade quase intransponível quando
tentamos associar essas narrativas ao contexto histórico internacional mais
abrangente.41 Por outro lado, vemos em Gênesis 14 que Abrão se encon­
trou com reis e líderes de algumas tribos da região, cujos nomes não ape­
nas são mencionados, mas também seus territórios e alianças militares são
descritos em detalhes. Praticamente todos os estudiosos admitem a natu­
reza historiográfica da narrativa, embora reconheçam a grande dificulda­
de existente em identificar os protagonistas e encaixá-los numa série de
acontecimentos conhecidos nas fontes extrabíblicas.42

40 Zoan é identificada com Avaris ou (mais provavelmente) com a Tanis dos hicsos, situa­
da a cerca de 32 quilômetros de Avaris. Alguns estudiosos identificam Zoan e Tanis com
a Per-Ramesse. Ver Jacquetta Hawkes, The First Great Civilizations (New York: Knopf,
1973), p. 315. Se Zoan é Avaris ou Tanis, em nada irá afetar a cronologia em questão, já
que os sítios onde os hicsos viveram foram construídos por volta do mesmo período
(ca. 1720). Ver William C. Hayes, "Egypt: From the Death of Ammenemes III to Seqenenre
II," em CAH 2.1, pp. 57-58.
41 Não queremos com isso sugerir que as narrativas patriarcais, apenas por serem relatos
biográficos, não devam ser consideradas históricas em seu gênero literário. Cada vez
mais se tem reconhecido que o estilo literário em forma de biografia é uma forma extre­
mamente positiva e produtiva de se contar uma história. Ver em Luke, "Abraham and
the Iron Age," fSO T4 (1977): 37; Lawrence Stone, "The Revival of Narrative: Reflections
on a New Old History," Past and Present 85 (1979): 3-24; " 'Disilusioned' with Numbers
and Counting, Historians Are Telling Stories Again," The Chronicle of Higher Education,
13 June 1984, pp. 5-6.
4: Da mesma forma, por exemplo, Ephraim A. Speiser, Genesis, Anchor Bible (Garden City,
N.Y.: Doubleday, 1964), pp. 108-9; Niels-Erik A. Andreason, "Genesis 14 in Its Near
Eastern Context,", em Scripture in Context, editado por Cari D. Evans et al. (Pittisburgh:
Pickwick, 1980), pp. 60,62-65.
26 H istória de I srael no A ntigo T estamento

O resultado dessa dificuldade tem produzido duas ações em si negati­


vas: ou cria-se uma atitude de completo cepticismo acerca desse aconteci­
mento, produzindo a teoria de que tudo não passou de fábula histórica
ou, por outro lado, desenvolve-se o desejo de identificar cada um desses
personagens com indivíduos bastante conhecidos do antigo Oriente Mé­
dio. Por exemplo, durante muito tempo o rei de Sinar, Anrafel, foi identi­
ficado como o grande Hamurabi da Babilônia. Não há como negar que
Sinear é uma palavra bíblica para descrever a Mesopotâmia (ver Gn 10.10;
11.2), mas Hamurabi (1792-1750) viveu cerca de trezentos anos depois de
Abrão, segundo a melhor cronologia. Além disso, Anrafel, de modo
filológico, não pode ser equivalente a Hamurabi. Da mesma forma, todas
as tentativas de associar Arioque rei de Elasar a Arriyuk ou Arrwuk de
Mari, Quedorlaomer a Kudur-lagamar de Elão, ou Tidal a Tudhaliyas I de
Hati, falharam em conseqüência das razões lingüísticas e cronológicas. É
muito mais prudente dizer hoje que apesar do relato possuir cada marca
de credibilidade histórica, não há como fazer a identificação desses reis do
Oriente.43
Quanto aos líderes das cidades que faziam parte da planície, é possível
um pouco mais de exatidão. Alguns estudiosos que tiveram acesso a algu­
mas das tabuinhas de Ebla sugeriram que as cidades da planície e os no­
mes dos reis que ali estão contidos se encaixam perfeitamente com aque­
les outros descritos na narrativa bíblica.44 Até que esses textos sejam pu­
blicados e assim tornem-se acessíveis para o público em geral, tais reivin­

43 Ver a discussão bastante elucidativa de Keneth A. Kitchen, Ancient Orient and Old
Testament (London: Tyndale; Chicago: Inter-Varsity, 1966), pp. 43-44. Kitchen dá a en­
tender que embora as pessoas listadas em Gênesis 14 não possam por enquanto ser
ligadas a indivíduos em histórias extrabíblicas, os nomes são por outro lado muito fa­
miliares no período do Bronze Médio. S.Yeivin vai até mais além: datando o período
patriarcal como tendo existido do décimo oitavo ao décimo sexto séculos - trezentos
anos mais tarde do que a nossa cronologia - ele identifica os reis com alguns governantes
bem conhecidos ("The Patriarchs in the Land of Canaan," em World History ofthe Jezvish
People, vol. 2, pp. 215-17).
44 David Noel Freedman, "The Real Story of the Ebla Tablets," BA 41 (1978): 143-64.
Giovanni Pettinato, que foi o primeiro a fazer tal afirmativa, tempos depois recuou de
sua posição por motivos até agora inteiramente desconhecidos. Ver em seu Archives, p.
387, para se achar evidências pelo menos acerca das cidades de Sodoma e Gomorra nos
textos de Ebla. Precisamos, porém, adotar uma posição bastante cautelosa a fim de não
atribuirmos tanta importância aos achados em Ebla, e não darmos ao Antigo Testamen­
to uma importância quase nula. Ver alguns avisos importantes em Robert Biggs, "The
Ebla Tablets: An ínterim Perspective," BA 43 (1980): 82-83,85.
O rigens 27

dicações não poderão ser confirmadas. Mas não há absolutamente nada


no relato bíblico que tenha sido reprovado pelas novas descobertas literá­
rias, e nem existe qualquer incongruência com o ambiente histórico onde
tais narrativas tiveram lugar. A invasão de Canaã por quatro (presumivel­
mente) das maiores potências não deve nos conduzir necessariamente a
idéia de que toda força militar foi usada por tais reis nessa campanha. E
quase certo que tal campanha tivesse um caráter mais exploratório, cul­
minando nos resultados inesperados que produziram a conquista de al­
gumas cidades da planície (Gn 14.4).
Depois de doze anos, as cidades se rebelaram. Como conseqüência, os
reis do Oriente voltaram e deram fim à rebelião, levando consigo os prisi­
oneiros e despojos. Quando descobriu que seu sobrinho Ló estava conta­
do entre os prisioneiros, Abrão e seus confederados Manre, Escol e Aner
perseguiram os inimigos e os subjugaram em Hobá, situada ao norte de
Damasco. Não é difícil de acreditar que, com apenas "318 homens treina­
dos", Abrão tenha sido capaz de resgatar Ló e todos os seus bens, uma vez
que os vizinhos amoritas também levaram suas tropas, o que no final deve
ter somado milhares, sem falar que não há nenhum registro de que
Quedorlaomer e seus aliados tenham vindo a Canaã com um considerá­
vel contingente militar.

Abrão e sua cultura


As referências a Abrão como "o hebreu" (Gn 14.13) são de especial in­
teresse, tanto porque é a primeira vez que as vemos em todo o Antigo
Testamento, quanto porque tal palavra surge nos lábios de alguém não-
israelita. Em raras ocasiões, o povo escolhido intitulou-se de hebreu, espe­
cialmente nos dias antigos. A razão para isso, sem dúvida, está no fato de
que embora a designação étnica hebreu deva achar sua origem em Eber, o
ancestral de Abrão (Gn 10.21,25), um nome similar conhecido por 'apiru
(ou habiru) levou os contemporâneos de Abrão e as gerações subseqüentes
a confundirem os dois.45 Ou seja, apesar de os hebreus fazerem clara dis­
tinção entre eles e os demais povos conhecidos por ‘apiru, outros não tive­
ram o mesmo cuidado para entender ou reconhecer essa distinção, já que
eles passaram a se referir pejorativamente a Abrão e seus descendentes

45 Uma discussão mais aprofundada acerca dos 'apiru e seu relacionamento com os israe­
litas terá que esperar até que tratemos da questão da conquista de Canaã (pp. 100-8).
Por enquanto, sugerimos pesquisar em Moshe Greenberg, The Hab/piru (New Haven:
American Oriental Society, 1955); Michael B. Rowton, "Dimorphic Structure and the
Problem of the 'Apiru-'Ibrim," Jnes 35 (1976): 17-20.
28 H istória de I srael no A ntigo T estamento

como hebreus. Em contrapartida, essa atitude levou os hebreus a se utili­


zarem de um outro termo com o qual se identificariam, que se tornaria
comum pelo menos em tempos posteriores, ou seja, passariam a se cha­
mar "israelitas".
Algumas atitudes características de Abrão e sua mulher em Gênesis
15 e 16 requerem um pouco mais de nossa atenção, em relação a alguns
hábitos e leis do antigo Oriente Médio, especialmente algumas práticas
hurianas que estão registradas nas tabuinhas de Nuzi. Esses documen­
tos, que foram escavados e publicados há mais de cinqüenta anos, con­
sistem primariamente de registros de importantes famílias hurianas que
viveram por volta de 1500 a .C , tendo habitado em Nuzi (a moderna
Yorghan Tepe), aproximadamente oitenta quilômetros a sudoeste de
Assur, na Assíria.46 Os documentos se referem a assuntos tais como he­
rança familiar e direitos de propriedade, escravidão, adoção e coisas se­
melhantes. Já foi notado por estudiosos mais antigos que os documentos
de Nuzi tratam acerca de assuntos sociais e familiares como reminiscên­
cias das histórias patriarcais. Eles foram então utilizados para explicar
alguns costumes bíblicos que até o momento não tinham praticamente
nenhuma significação para nós.
Um dos problemas em que a evidência dos documentos de Nuzi foi
aplicada diz respeito à objeção feita por Abrão, que considerava a promes­
sa divina de uma inumerável multidão impossível, já que ele não possuía
herdeiro algum, exceto Eliezer de Damasco, a quem ele descreveu como
sendo "um servo nascido em minha casa" (Gn 15.3). O que está afirmado
aqui é que Eliezer era um filho adotivo, algo também confirmado por Jeová,
que assegurou não ser Eliezer o herdeiro de Abrão, mas "aquele que será
gerado de ti, será o teu herdeiro" (v. 4).
As tabuinhas de Nuzi parecem se referir a essa mesma situação: um
escravo poderia se tornar o herdeiro de um casal que não tivesse filhos
caso fosse por eles adotado. Outro caso interessante refere-se à esterilida­
de de Sara e às providências que ela mesma tomou para garantir sua des­
cendência mesmo em face dessas circunstâncias (Gn 16.1-6). Ela simples­
mente ofereceu sua escrava particular chamada Hagar para Abrão como
uma espécie de mãe de aluguel, mas o filho dessa união, Ismael, seria
considerado como o filho de Abrão e Sara. Esse costume também é encon-

46 Para informações que descrevem como foram as escavações e publicação dos textos, ver
em Ephraim A. Speiser, New Kírkbuk Documents Relating to Family Laws, AASOR10 (1928­
1929): 1-73.
O rigens 29

trado nos documentos de Nuzi, que descrevem a mesma estratégia em


situações semelhantes.47
Estudiosos mais modernos têm chamado a atenção para a facilidade
com que o conteúdo de Nuzi tem sido usado para iluminar detalhes sobre
os costum es da época p atriarcal, chegando m esm o a "p ro v ar" a
historicidade desse período.48 Os patriarcas têm sido classificados pela
cronologia bíblica tradicional anteriores aos textos de Nuzi em aproxima­
damente quatrocentos ou quinhentos anos. Esse problema foi tão sério
que levou estudiosos tais como Cyrus Gordon a regredir a era patriarcal
para a Era do Bronze Superior (aprox. 1550-1200), de forma que os docu­
mentos de Nuzi pudessem ser nela encaixados.49 Isso é a pior espécie de
subjetivismo. Aposição mais racional é assumir que as tabuinhas de Nuzi
refletem na realidade costumes que não tiveram início nesta época, mas
que já vinham sendo praticados por séculos. De fato, muitos costumes
semelhantes aos vistos nos documentos de Nuzi foram comprovados em
muitos sítios arqueológicos, os mais antigos, e ainda continuam sendo de
utilidade indispensável na compreensão do estilo de vida patriarcal.50 De
qualquer forma, não existe nada nos dois incidentes mencionados que
necessitem de uma data posterior ao que tem sido requerido pela perspec­
tiva bíblica, nem devemos imaginar que esses incidentes aparecem como
relatos isolados, sem qualquer analogia contemporânea.

A destruição de Sodoma e Gomorra


A história das cidades das planícies não termina com o final dramático
do resgate efetuado por Abrão e seus companheiros. Algum tempo depois

47 Para esse e outros paralelos, ver em Cyrus H. Gordon, "Biblical Customs and the Nuzi
Tablets," BA 3 (1940): 1-12; Speiser, Genesis, esp. pp. Xl-xliii; Samuel Greengus, "Sisterhood
Adoption at Nuzi and the 'Wife-Sister' in Genesis," HUCA 46 (1975): 5-31.
48 Thomas L. Thompson, The Historicity of the Patriarchal Narratives (Berlin: de Gruyter,
1974); John Van Seters, Abraham in History and Tradition (New Haven: Yale University
Press, 1975); Thomas L. Thompson, "The Background of the Patriarchs: A Reply to
William Dever and Malcolm Clark,"/SOT 9 (1978): 2-43.
49 Cyrus H. Gordon, "Hebrew Origins in the Light of Recent Discovery/'em Biblical and
Other Studies, editado por Alexander Altmann (Cambridge: Harvard University Press,
1963), pp. 5-6.
57 Ver em M.J. Selman, "Comparative Customs and the Patriarchal Age," em Essays on the
Patriarchal Narratives, editado por A.R. Millard e D.J. Wiseman (Winona Lake, Ind.:
Eisenbrauns, 1983), pp. 91-139; Tikva Frymer-Kensky, "Patriarchal Family Relationships
and Near Eastern Law,"BA 44 (1981): 209-14.
30 H istória de I srael no A ntigo T estamento

desse incidente, o Senhor aparece a Abrão (agora Abraão - Gn 17.5)51 e lhe


anuncia sua decisão de destruir as cidades por causa de sua renitente ini-
qüidade. Embora Abraão tenha intercedido em seu favor, ele não tinha
condições de reter a ira de Deus; com exceção de Ló e suas duas filhas,
todas as cinco cidades e seus habitantes pereceriam. Em decorrência do
juízo divino, algum tipo de erupção vulcânica ou explosão petrolífera lan­
çou para os céus uma grande quantidade de material magmático que cho­
veu em seguida sobre a terra.52
Visto que a narrativa está posta entre a promessa feita a Abraão e Sara
de que eles teriam um filho dentro de um ano (Gn 18.14) e o nascimento
de Isaque (Gn 21.2), um fato que ocorreu em 2066 a.C.,53 concluímos que
o julgamento e destruição dessas cidades só pode ter ocorrido por volta
de 2067 a.C. Já mencionamos anteriormente que as inscrições em Ebla
com certeza mencionam pelo menos as cidades de Sodoma e Gomorra.
Uma vez que tais documentos não podem ser mais antigos que 2500 a.C.,
não é difícil deduzir que estas cidades não puderam ser destruídas antes
dessa data. Por outro lado, escavações arqueológicas recentes têm de­
monstrado em Bab edh-Dhra' e noutros locais na península de el-Lisan e
suas imediações, na extremidade a sudeste do mar Morto, a existência
de restos de entulhos de antigos complexos urbanos aparentemente an­
teriores a 2000 a.C.54
Não há como não ser tentado a acreditar que algum desses locais - ou
todos eles - compõe as cidades bíblicas da planície, já que tanto sua loca­
lização quanto as datas são compatíveis com o testemunho do Antigo Tes­
tamento. Sabemos que não há como ser dogmático nessa matéria por falta
de confirmação literária extrabíblica acerca dessas cidades; mesmo assim,
fica claro que as histórias patriarcais ganham maior corroboração do que
jamais tiveram anteriormente.55

51 Abrão = "pai exaltado" e Abraão = "pai de multidões". Para saber sobre a proveniência
e significação teológicas desses nomes, ver em D. J. Wiseman, "Abraham Reassessed,"
em Essays on the Patriarchal Narratives, pp. 158-60.
52 Os escavadores da região atribuem a destruição dos sítios urbanos a um terremoto. Ver
em Michael D. Coogan, "Numeira 1981," BASOR 255 (1984): 81.
53 Para uma linha de argumento que apoia essas datas, ver Eugene H. Merrill, "Fixed
Dates in Patriarchal Chronology," Bib Sac 137 (1980): 242-43.
54 Rast e Schaub, "Bab adh-Dhra' 1975," AASOR 43 (1978): 2; van Hatten, "Sodom and
Gomorrah," BA 44 (1981): 89.
55 Albright, "Jordan Valley," AASOR 6 (1926): 62, chega mesmo a dizer que "É muito difí­
cil separar o abandono de Bab ed-Dra' da destruição das Cidades da Planície."
O rigens 31

Abraão e os filisteus

Pouco depois da destruição das cidades da planície, Abraão viajou para


o sul e oeste de Manre até uma região entre Cades-Barnéia e Sur, em al­
gum ponto bem ao norte da península do Sinai. Lá ele habitou por algum
tempo com um homem chamado Abimeleque, rei de Gerar. Nesse local,
Abraão disse à sua esposa que fingisse ser sua irmã, uma tática que ele já
tinha empregado anteriormente no Egito. Esse subterfúgio tem levado al­
guns estudiosos a acreditar que estamos diante de um relato duplicado do
mesmo acontecim ento.56 Da mesma forma, a mentira de Isaque para
Abimeleque acerca de sua mulher Rebeca, chamando-a de sua irmã, tem
sido colocado como uma duplicata da história de Abraão com Abimeleque,
ou talvez uma tríade com o relato de Abraão e Faraó.57 Mas, além dos três
relatos divergirem em detalhes e terem em comum apenas a mentira a
respeito da esposa, não existe razão por que Abraão não poderia repetir o
mesmo recurso que havia funcionado razoavelmente bem antes, e sem
dúvida Isaque deve ter aprendido esse truque com seu pai.58
De maior importância histórica e também maior dificuldade é a identi­
ficação de Abimeleque como sendo um filisteu (Gn 21.32,34; ver 26.1).
Geralmente, admite-se que essa identificação é anacrônica na melhor das
hipóteses, já que os filisteus, como parte da migração feita pelos povos do
mar, não entraram e possuíram a parte da costa inferior de Canaã até 1200
a.C. ou depois dessa data.59 Além disso, o nome Abimeleque é semítico e
não filisteu.60
O segundo desses dois problemas será tratado em primeiro lugar. O
nome Abimeleque significa "meu pai é o rei" e poderia, na verdade, ser
mais um título do que necessariamente um nome próprio.61 O fato de que
Isaque tratou com um rei filisteu do mesmo nome muitos anos depois
poderia até dar suporte a tal proposta. Muitos anos depois, Josué derro­

56 John Skinner, A Criticai and Exegetical Commentary on Genesis (New York: Scribner, 1910)
p. 315.
57 Ibid., pp. 364-65.
58 Gleason L. Archer, Jr., A Survey ofOld Testament Introduction (Chicago: Moody, 1964), pp.
120- 21 .
89 Van Seters, Abraham, p. 52.
Roland de Vaux, The Early History of Israel, traduzido por David Smith (Philadelphia:
Westminster, 1978), pp. 503-4.
Kitchen, Ancient Orient, p. 81; idem, "The Philistines," em Peoples ofOld Testament Times,
editado por D.J. Wiseman, pp. 56-57; D.J. Wiseman, "Abraham in History and Tradition.
II: Abraham the Prince," Bib Sac 134 (1977): 232-33.
32 H istória de I srael no A ntigo T estamento

tou a jabim, de Hazor, um rei cananeu; e muitos anos depois disso Débora
e Baraque subjugaram um rei de Hazor também conhecido por Jabim.
Embora aqui tenhamos um nome próprio, podemos ver que esses são exem­
plos que nos mostram que diferentes reis ou governantes de um mesmo
local podem ter nomes semelhantes.
Mais relevante talvez seja o uso de títulos como Faraó ou Czar, usados
de maneira que se tornaram praticamente nomes próprios em vez de pu­
ramente títulos. Sendo assim, não há como alguém determinar o caráter
étnico do nome de Abimeleque, ou seja, se ele, mesmo sendo filisteu, pôde
ter se utilizado de um título semítico ou se, por ter assimilado profunda­
mente a cultura semítica, adotou para si um nome semítico.
O problema da presença de filisteus em Canaã quase um milênio antes
da chegada dos povos do mar é mais complicado, embora não insolúvel.
Uma série de textos oriundos de Mari, Ras Shamra e de outras partes,
refere-se aos povos de Caftara, cujo local de origem pode ter sido a ilha de
Creta ou um outro local em alguma região do mundo Egeu.62 E a Bíblia
associa os primitivos filisteus aos caftorim, cujo lar era em Caftor ou Creta
(Dt 2.23; Jr 47.4; Am 9.7; ver Gn 10.14). Os caftara ou caftorim eram clara­
mente o mesmo povo, e suas extensas viagens, conforme está registrado
em documentos extrabíblicos, poderiam bem explicar sua existência em
Canaã durante a era do Bronze Médio.63
A chegada dos povos do mar tempos depois teria apenas aumentado o
número dos filisteus presentes na região. Essa hipótese, além de dar base à
historicidade dos encontros dos patriarcas com os primitivos filisteus, tam­
bém explicaria a decisão de Israel quanto a não seguir o caminho do mar em
direção reta do Egito para Canaã, "embora fosse mais curto" (Ex 13.17), pois
isto significaria destruição certa por parte dos filisteus. Uma das mais fortes
evidências em favor de uma data mais recente para o êxodo (aprox. 1250) e
uma outra correspondente para a conquista da terra (após 1200) é justa­
mente a referência aos filisteus. Porém, se os filisteus já estavam habitando
na terra desde os tempos patriarcais, então deduz-se que a data tradicional
para o êxodo (1446) pode muito bem ser mantida em vigor.
Seguindo a data de 2066 para o nascimento de Isaque, Abraão e
Abimeleque viram-se às voltas com problemas relativos aos pastos e di­

62 de Vaux, Early History, p. 504.


63 Caso um texto assírio posterior, que trata sobre o império de Sargão de Acade, possa de
fato ser confiável, então as referências a Caftara podem mesmo estender-se para bem
antes de seu tempo (ca. 2350 a.C.). Ver em Gadd, "Dynasti of Agade", em CAH 1.2, pp.
429-30.
O rigens 33

reitos à água potável; daí concluíram que deveriam entrar num acordo
pelo qual passariam a respeitar os limites e poços. Um contrato de igual
teor foi feito entre Isaque e um outro Abimeleque (Gn 26.26-33). Em ambas
as situações, o local do tratado foi em Berseba, que deriva seu nome ("poço
do juramento") do pacto que ali outrora foi realizado.
As evidências arqueológicas nos dizem que Berseba não fora encontra­
da até bem depois do período Médio Bronze, sendo bem provável que
Abraão e sua família não tivessem ocupado a área de forma permanente,
mas apenas como um local para peregrinação religiosa ou como uma es­
pécie de acampamento para as migrações sazonais.64 De fato, não há nada
nas narrativas bíblicas que explicitamente relacionem Berseba com um
centro urbano até a época da conquista (Gn 21.14,31-33; 22.19; 26.23,33;
28.10; 46.1; cf. Js 15.28). Este local foi uma importante estalagem para os
patriarcas, mas não era desenvolvido a ponto de produzir restos que pu­
dessem ser arqueologicamente reconhecíveis.

A busca de uma esposa para Isaque


Sara morreu em Hebrom em 2029 a.C. (Gn 23.1,2; cf. 17.17). Dentro de
um espaço de três anos após seu sepultamento numa capela adquirida de
Efrom, o hitita, Abraão tomou providências para obter uma esposa para
seu filho Isaque, que na ocasião já estava beirando os quarenta anos (ver
Gn 25.20). Ansioso para que seu filho se casasse com alguém que fosse
membro de seu clã, Abraão enviou seu servo de volta até Arã-Naharaim
(alta Mesopotâmia - Gn 24.10), de onde o próprio Abraão tinha vindo em
direção a Canaã.65 Seu irmão, Naor, já tinha muitos filhos, incluindo
"Quemuel (o pai de Arã)" (Gn 22.21) e Betuel, o pai de Rebeca e Labão (Gn
22.23; 24.29). Portanto, o Antigo Testamento indica que tanto os arameus
quanto os israelitas podem ser remontados genealogicamente a Terá, pai
de Abraão.66 (Embora em Gn 10.22 Aram seja descrito como um filho de
Sem, sabemos que isso é verdade apenas no sentido de ser descendente.)
O servo de Abraão viajou até a cidade de Naor (Gn 24.10). Esta prova­
velmente é apenas uma forma de identificar a residência de Naor, irmão
de Abraão, embora houvesse uma cidade chamada por aquele nome, con­
forme nos indica as referências acadianas a Nahur(u). Visto que tais refe-

Yohanan Aharoni, "Excavations at Tel Beer-Sheba," BA 35 (1972): 111-27; "Excavations


at Tel Beer-Sheba," Tel Avivi 2 (1975): 146-68.
“'.Terry J. Prewitt, "Kinship Structures and the Genesis Genealogies," JNES 40 (1981): 92.
"■ Para uma defesa dessa tradição, ver em Merril E Unger, Israel and the Aramaeans of
Damascus (Grand Rapids: Baker, 1980 reprint), pp.8-10.
34 H istória de I srael no A ntigo Testamento

rências fazem parte de uma época bem posterior à vida de Naor, deduz-se
que tal cidade provavelmente não foi aquela visitada pelo servo de
Abraão.67 De qualquer maneira, Betuel e Labão concordaram que a moça
Rebeca fosse entregue para Isaque, de forma que, após serem acertadas as
obrigações costumeiras da época, ela voltou com o servo de Isaque para
sua casa no Negueve cananeu.
Abraão casa-se novamente e, através de sua esposa Quetura, torna-se o
ancestral dos clãs de Joscan, Midiã e Dedã (Gn 25.2-4; 1 Cr 1.32,33). Os
midianitas participariam de forma especial na história subseqüente do povo
de Israel. Da mesma forma que os demais povos, eles também assumiram
um estilo de vida nômade e, por fim, alcançaram toda a vasta península
sírio-árabe. Abraão morreu na idade de 175 anos (1991 a.C.), deixando
seus dois principais filhos, Isaque e Ismael, como seus herdeiros. A des­
cendência de Ismael se estabeleceu nos desertos a leste e ao sul de Edom e,
seguindo os mesmos passos de Israel, desenvolveu-se numa federação de
doze tribos. O relacionamento deles com os midianitas é incerto, embora
os termos ismaelitas e midianitas pareçam por muitas vezes intercambiáveis
(Gn 37.25,27-28,36).

Jacó: pai de muitas nações

A bênção e o exílio
Isaque, é claro, era o filho da aliança de Abraão, aquele através do
qual Deus mediou as promessas redentoras concernentes à nação e à
terra (Gn 12.1-3; 15; 17.1-14; 25.21-24). Embora Isaque tivesse quarenta
anos quando se casou, seus filhos gêmeos nascidos de Rebeca somente
vieram ao mundo vinte anos após seu enlace, em cumprimento da pro­
messa (Gn 25.20,26). Abraão estava então com 160 anos, e dentro de quin­
ze anos seus olhos já não mais poderiam contemplar a fidelidade de
Deus.68 Esaú, o herdeiro aguardado da aliança, perdeu seu direito de
primogenitura e os demais privilégios da aliança, e assim teve de se con­
formar em tornar-se o pai das tribos edomitas. Embora Jacó tenha se

67 William F. Albright, From the Stone Age to Christianity (Garden City, N.Y.: Doubleday,
1957), pp. 236-37. Nahur(u) não parece ser confirmado antes de 1750 a.C., ao passo que
Naor, irmão de Abraão, teria se estabelecido em sua cidade por volta de 2100 ou algo
semelhante. E claro que é possível que o nome da cidade por fim tenha refletido o de
seu fundador.
68 Acerca de informações relativas a essas estimativas, ver Merrill, "Fixed Dates," Bib Sac
137 (1980): 243-44.
O rigens 35

utilizado da manipulação pessoal e do auxílio de sua mãe, ainda pôde


experimentar em sua vida o favor do Senhor de se tornar o pai da nação
escolhida.
O resultado das maquinações de Jacó foi o afastamento de seu irmão
Esaú e a fuga para Padã-Arã69 (noroeste da Mesopotâmia), ambos para
escapar de seu irmão e conseguir uma esposa dentre sua própria parente­
la. Nessa ocasião, Jacó já estava com 76 anos de idade (cerca de 1930 a.C.),
e tudo indicava que permaneceria sem descendentes.70 No caminho em
direção à família de sua mãe, ele foi reanimado e encorajado pelo encon­
tro com o Senhor em Betei, um local conhecido anteriormente como Luz,
mas que agora ganhava um novo nome, pois Jacó considerou aquele local
como a "casa de Deus". Foi lá que Deus renovou a aliança anteriormente
feita com Abraão e Isaque (Gn 28.13-15).
Finalmente Jacó chegou à casa de Labão. Após muita discussão, ficou
decidido que ele se casaria com Raquel, mas somente depois de servir a
Labão, pai da moça, por um período de sete anos. Pode ser que esse tipo
de serviço envolvesse aquilo que conhecemos ser comum nos contratos
coligidos para criadores de gado da antiga Babilônia, através do qual es­
ses criadores se tornavam empregados por um determinado espaço de
tempo, com vistas a receber em troca uma parte dos lucros. Não seria difí­
cil para um astuto criador de gado usar esse tipo de contrato para tomar
proveito ao máximo das propriedades do seu senhor. Ao que tudo indica,
foi essa a exata situação entre Labão e Jacó, pois na continuação da narra­
tiva vemos que os filhos de Labão já olhavam Jacó como uma ameaça aos
seus direitos como herdeiros.71 O fato de Raquel ter roubado os ídolos
domésticos pode ser visto como uma amável e zelosa esposa tentando

69 O termo deriva do acadiano paddanu ("estrada") + Aram, ou seja, "a estrada de Aram".
Visto que este local é identificado com o Arã-ATaharaim ("Aram dos dois rios") em Gênesis
24.10 (cf. 28.2) e, mais tarde, com o Aram em 27.43 e 28.10, pode até ser que o nome
signifique nada mais que Aram. E interessante observar que o termo acadiano harrãnu
também significa "estrada". Ver em CAD,H, pp. 107-13.
70 Essa estimativa é deduzida dos fatos que tomam por base que o nascimento de José
ocorreu 14 anos após a chegada de Jacó em Padã-Arã e que, quando Jacó desceu ao
Egito, ele tinha cerca de 130 anos e seu filho José apenas 40.
71 O ponto de vista que propõe a teoria que o acordo feito entre Jacó e Labão é puro reflexo
de práticas hurrianas de pseudo-adoções é corretamente rejeitada pela maioria dos es­
tudiosos hoje em dia. Os paralelos percebidos com os contratos firmados com criadores
de gado da antiga Babilônia já foram claramente demonstrados. Ver, por exemplo, Martha
A. Morrison, "The Jacob and Laban Narrative in Light of Near Eastern Sources," BA 46
(1983): 156-60.
36 H istória d e I srael no A ntigo T estamento

possuir, para si mesma e para seu marido, o direito legal à sua parte na
propriedade de seu pai (Gn 31.19).72
Seja como for, o fato é que infelizmente Jacó descobriu que Labão era
muito mais astuto do que ele. Após sete longos e penosos anos de traba­
lho, ele recebeu como esposa a filha mais velha Léia, e não Raquel. Para
que ele pudesse ter esta última como esposa, teria de se comprometer a
trabalhar para Labão por mais sete anos. Ao final dos catorze anos, Labão
insistiu com Jacó que este permanecesse por mais seis anos, perfazendo
um total de 20 anos (aprox. 1930-1910 a.C.), pois era bem evidente que a
presença de Jacó trazia benefícios econômicos para Labão.
No decorrer desses anos, Jacó teve onze filhos e pelo menos uma filha
de suas duas mulheres e de suas duas concubinas. Esses filhos, juntamen­
te com Benjamim, que nasceu em Canaã, foram os ancestrais das doze
tribos de Israel. Segundo a maioria dos críticos (incrédulos) da tradição, a
história de Jacó e seus filhos foi uma lenda que servia apenas para firmar
uma origem comum e um conjunto de tradições para as doze tribos que
perfaziam o contingente e a confederação daqueles que haviam conquis­
tado a terra, conhecidos agora por Israel.73 Contudo, uma leitura respon­
sável da narrativa não ocasiona problemas históricos insuperáveis. Há
milagres descritos na história que nos mostram a intervenção do Senhor
em favor de Jacó e suas esposas. A integridade do relato só poderá ser
rejeitada mediante uma leitura da história com olhos positivistas. Ora, se
Deus tem de estar ausente dessa história, então não há como ver sua mão
em outra parte, e o Antigo Testamento se torna uma mera obra de ficção,
não importando o quão piedoso seja o seu intento.
O nascimento de onze filhos em apenas sete anos já não mais é visto
como um problema tão sério, como antes costumava se considerar. Os
quatro primeiros, nascidos de Léia, podem ter vindo nos primeiros quatro
anos (Gn 29.31-35). Nesse ínterim, Raquel, movida de intensa inveja para
com sua irmã, instou veementemente com Jacó para que possuísse sua
serva Bila, semelhante ao que Sara havia feito anteriormente com Abraão
para obter o filho Ismael da escrava Hagar. Os dois primeiros filhos de
Bila, Dã e Naftali, podem ter nascido também nos primeiros quatro anos
(Gn 30.1-8).
Após o nascimento dos dois filhos de Bila, Léia, crendo que já não mais
poderia ter filhos, insiste com Jacó para que possua sua serva Zilpa em

72 Ibid., pp. 161-62.


73 Martin Noth, The History of Israel, 2a edição (New York: Harper and Row, 1960), pp. 121­
27.
O rigens 37

seu lugar. Zilpa tem dois filhos no quinto e sexto ano (Gn 30.9-13). Léia
mais uma vez engravida, provavelmente no quinto ano, e dá à luz dois
filhos chamados Issacar e Zebulom, no sexto e sétimo ano (Gn 30.17-20). ■
Por fim, Raquel tem seu próprio filho, chamado José, no sétimo ano (Gn
30.22-24). Mesmo sendo todo esse cálculo hipotético, não é impossível que
as coisas tenham acontecido assim, o que nos mostra inclusive como os
problemas bíblicos podem ser resolvidos, desde que tenhamos a mente
aberta para as soluções.

A volta para Canaã


Depois de vinte anos vivendo em Padã-Arã, Jacó voltou para Canaã.
Durante o regresso, fez acordo de paz com seu sogro Labão (Gn 31.43-55)
e com seu irmão Esaú (Gn 33.1-17); finalmente, chegou a Siquém. Muitos
estudiosos concordam que Siquém foi fundada nessa mesma época (1910
a.C.),74 mas é duvidoso que esta cidade tenha ganho este nome ainda nos
dias de Jacó. Sem dúvida, o seu nome foi dado em homenagem ao filho de
Hamor (Gn 33.19), o maioral do clã que vivia naquela região, mas esse
nome, com certeza, não poderia ter sido dado enquanto Siquém vivia. Além
disso, é possível que a frase "E chegou Jacó salvo à cidade de Siquém..."
(v. 18)75 deva ser entendida como "Jacó chegou a Salém, ou seja, à cidade
de Siquém", significando que nos dias de Jacó a cidade chamava-se Salém,
mas que em dias posteriores, em homenagem ao jovem personagem da
história bíblica, teve seu nome mudado para Siquém.
Em Siquém Jacó comprou uma propriedade onde decidiu cavar um
poço, estabelecendo-se ali por vários anos. A princípio, tudo ia muito
bem entre Hamor e Jacó, mas um dia Siquém, filho de Hamor, agarrou
Diná, filha de Jacó, e a violou. Levi e Simeão vingaram a humilhação de

74 Esta aparece nos textos de execração egípcios como Skmimi por volta de 1850 a.C. Ver
em Walter Harrelson, "Sechem in Extra-biblical References", BA 20 (1957): 2. O historia­
dor Dever argumenta que a ocupação de Siquém ocorreu no início do período do Bron­
ze Médio II A, que data de 2000-1800. Uma data a meio caminho em 1900 se encaixa
bem com a cronologia bíblica ("The Patriarchal Traditions," em Israelite and Judaean
History, p. 99; cf. pág 84).
75 Isso também já foi sugerido pela Septuaginta, pelas versões siríacas, Eusébio e Jerônimo.
Citado por Franz Delitzch, A New Commentary on Genesis (Minneapolis: Klock and Klock,
1978 reedição), vol. 2,p p. 215. O hebraico salém no texto massorético pode ser um adje­
tivo significando "seguro" (Francis Brown, S.R. Driver e Charles A. Briggs, A Hebrew
and English Lexicon o f the Old Testament [Oxford: Clarendom, 1962], p. 1024), mas a forma
natural de se traduzir essa idéia seria besalom.
38 H istória de I srael no A ntigo T estamento

sua irmã, ferindo todos os homens da cidade, matando-os, inclusive o


próprio Hamor e Siquém. Temendo a má repercussão do acontecimento
entre os vizinhos cananeus, Jacó decidiu deixar a região e viajou em di­
reção ao sul até Betei. Lá ele experimentou a presença de Jeová numa
teofania e, por mais uma vez, ouviu as promessas de Jeová a respeito da
terra e de sua descendência. Novamente Jacó chamou aquele lugar de
Betei, a casa de Deus, pois ali ele tinha visto a presença de Deus de uma
maneira grandiosa.
Enquanto Jacó e sua família avançavam ainda mais para o sul, em
direção a Efrata (ou Belém), Raquel morreu ao conceber seu segundo
filho, Benjamim. Após erigir um memorial de pedras sobre sua sepul­
tura, Jacó se deslocou até Hebrom, terra natal de seu pai. Isaque ainda
era vivo, e morreria quinze anos mais tarde, numa boa velhice de 180
anos. Durante um ou dois anos nesse lugar, Jacó ordenou a seus filhos
que voltassem a Siquém em busca das pastagens sazonais para seus
rebanhos. Procurando saber melhores informações acerca de seus fi­
lhos, das pastagens e dos rebanhos, Jacó enviou José, seu filho predile­
to, para obter essas informações. Não os achando em Siquém, José in­
dagou dos habitantes locais o paradeiro de seus irmãos e descobriu
que eles haviam partido em direção a Dotã, que ficava cerca de 24 qui­
lômetros a noroeste de Siquém. Vendo-o se aproximar, os irmãos de
José, a princípio, cogitaram matá-lo, mas depois decidiram vendê-lo a
uma caravana de ismaelitas que estava a caminho do Egito. E assim
José se viu como escravo no Egito ainda em sua tenra mocidade - aos
17 anos (em 1899 a.C.).

O casamento de Judá
O quarto filho de Léia, chamado Judá, casou-se com uma cananéia
que lhe deu três filhos. Essa união com pessoas que não pertenciam ao
clã, especialmente com uma cananéia, era vista muito negativamente
pelos patriarcas e considerada repreensível, pois vemos nos relatos que
tanto Abraão quanto Isaque foram bem esforçados na tarefa de assegu­
rar que seus filhos se casassem com mulheres da mesma parentela (Gn
24.3; 27.46). Vemos esse mesmo princípio quando Diná, mesmo tendo
sido violada por Siquém, foi radicalmente proibida por Jacó e seus ir­
mãos de se casar com ele (Gn 34.14). Havia uma tendência em andamen­
to que conduziria os filhos de Jacó a uma assimilação da cultura e reli­
gião cananéias, um processo que seria consideravelmente acelerado pela
união matrimonial. Tudo isso deve ter alarmado o espírito de Jacó, parti­
cularmente porque um pouco do estilo de vida cananeu já tinha se apo­
Ú ?: ge \s 39

derado de seu filho mais velho, Rúben, que violou um dos mais severos
tabus patriarcais - o incesto - coabitando com Bila, a concubina de seu
pai (Gn 35.22).76
Mas a preocupação de Jacó nem podia se comparar à de Jeová, que
tinha chamado o patriarca e seus pais para serem um povo separado de
todas as demais nações. Essa exclusividade de Israel agora estava sendo
ameaçada pelas tendências sincretistas em voga, através do casamento de
Judá. Fica claro, então, que José não foi enviado ao Egito por causa de
alguma punição, mas primordialmente para ser o canal da bênção da pro­
vidência divina, pois Jeová o estaria usando a fim de preparar o caminho
para um período de incubação, no qual o povo de Israel iria crescer e ama­
durecer no Egito, tornando-se então uma nação apropriada (Gn 50.19-21).
Logo, a venda de José como escravo poderia ser vista como uma reação
divina ao casamento de Judá.77

A descida ao Egito
A essa altura torna-se oportuno discutir um pouco acerca da cronolo­
gia referente à venda de José como escravo, o casamento de Judá, e a des­
cida de Jacó e sua família ao Egito, examinando os detalhes na ótica da
história egípcia, cuja parte principal pode pelo menos ser reconstruída de
forma razoavelmente correta. Baseando-nos na data de 1876 a.C. como o
início da peregrinação no Egito, deduzimos que o nascimento de José ocor­
reu em 1916 a.C.78 José foi vendido aos egípcios quando tinha 17 anos (Gn
37.2), chegando ao Egito em 1899 a.C. Judá, o quarto filho de Léia, que não
poderia ser muito mais velho que José, no máximo três anos (veja as pp.
36,37), não deve ter se casado muito antes de 1900, quando estaria com 19
anos. Caso esse casamento tenha de fato causado o ímpeto de Jeová em
permitir que José fosse vendido ao Egito, como parece bem plausível, en­
tão esse casamento pode ser datado por volta de 1901 ou 1900, ou seja,
pouco depois de Jacó e sua família terem se mudado de Siquém para
Hebrom.

' Stanley Gevirtz diz que Rúben usurpou os direitos de concubinato do pai ("The
Reprimand of Reuben", JNES 30 [1971]: 98). A atitude de Rúben foi típica do estilo de
vida dos cananeus, e especialmente do estilo de vida dos supostos deuses da região. Ver
em Charles F. Pfeiffer, Ras Shamra and the Bible (Grand Rapids: Baker, 1962); pp. 31-32.
- Para outras razões sobre a localização desse capítulo 38 de Gênesis, ver Judah Goldin,
"The Youngest Son or Where Does Genesis 38 Belong?" JBL 96 (1977): 27-44.
' Para uma discussão mais detalhada sobre essas datas e o devido apoio a elas, veja em
Merrill, "Fixed Dates", Bib Sac 137 (1980): 241-51.
40 H istória de I srael no A ntigo T estamento

Em 1876, quando Jacó estava com 130 anos de idade (Gn 47.9), José já
vivia no Egito há 23 anos. Ele havia trabalhado cerca de dez anos na casa
de Potifar e depois, provavelmente por mais três anos, sofreu na prisão
de Faraó, vítima de acusações forjadas acerca de um possível assédio à
esposa de seu senhor (Gn 40.1,4; 41.1). Por fim, aos 30 anos (1886 a.C.),
ele foi libertado e passou a servir como o Ministro da Agricultura de
Faraó ou alguma coisa semelhante (Gn 41.46). Foi nessa época que os
sete anos de fartura principiaram (1886-1879), seguidos por tristes sete
anos de fome (1879-1872). A primeira visita dos filhos de Jacó ao Egito
para comprar grãos pode ter ocorrido no segundo ano da fome (1878). A
segunda visita deve ter acontecido em 1877 (Gn 43.1; 45.6,11). Partiu Jacó
e toda a sua família para o Egito em 1876, bem na metade do período da
fome (Gn 46.6). José estava então com 40 anos de idade, e seu irmão
Judá, com 43.
Entre os que acompanharam Jacó ao Egito estavam Perez e Zerá, os
filhos de Judá, frutos de sua união ilícita com a nora Tamar, e também
seus netos Hezrom e Elamul (Gn 46.12). Os gêmeos Perez e Zerá nasce­
ram somente depois que o terceiro filho de Judá, chamado Selá, já estava
completamente crescido (Gn 38.14). Devido à tenra idade na qual os va­
rões se casavam no antigo Israel, é totalmente possível que Judá tenha se
casado aos dezoito anos, que seus dois primeiros filhos tenham nascido
nos dois primeiros anos de seu casamento, e que Selá tenha vindo ao
mundo dois ou três anos mais tarde. Isto fixaria o casamento de Judá em
1901, o nascimento de Er em 1900, e o de Onã em 1899. Talvez Selá tenha
nascido não muito depois de 1896. Ao perceber que não poderia ter Selá
como seu marido, Tamar se disfarçou de prostituta e engravidou, em
uma data que não passa de 1880 (ou provavelmente mais tarde), e deu à
luz Perez e Zerá nove meses depois. Mesmo espremendo as datas, ve­
mos que é impossível que Perez pudesse ter levado consigo descenden­
tes ao Egito em 1876, ou seja, dois ou três anos depois. Talvez a intenção
da lista de Gênesis 46 seja simplesmente catalogar aqueles que entraram
no Egito, inclusive aqueles como Hezron e Hamul que assim o fizeram
potencialm ente.79 A inclusão do nome dos filhos de José, Manassés e
Efraim, na lista das 70 pessoas que entraram no Egito, mesmo tendo eles
nascido nesse país, nos mostra que essa lista não deve ser encarada lite­
ralmente ao extremo.

79 Delitzsch, Genesis, vol. 2, p. 340.


Op.'GEXS 41

A história de José

O cenário
A história de José tem sido interpretada como uma composição de sa­
bedoria com pouca ou nenhuma base histórica.80 Entretanto, o Antigo Tes­
tamento apresenta sua carreira e os eventos que cercaram sua vida como
história genuína. Podemos notar, entre aqueles que aceitam a historicidade
das narrativas acerca de José, a existência de uma divisão profunda a res­
peito dos detalhes e do ambiente nela contidos. Alguns, baseados na teo­
ria de uma peregrinação no Egito de no máximo 215 anos, insistem que
José serviu na corte dos reis hicsos que estavam no poder no período de
aproximadamente 1661 a 1570.81 Os proponentes desse ponto de vista apon­
tam para o fato de que era muito mais provável que um rei hicso (em vez
de um egípcio nativo) estabelecesse em seu governo um homem de ori­
gem semita, como foi o caso de José. Contra tal possibilidade precisamos
levar em conta o fato de que não há qualquer chance de se provar uma
peregrinação de 215 anos (ver pp. 69-73). Além disso, toda a narrativa
sugere que o rei seja um governante egípcio, e não um hicso.
Segundo a cronologia adotada nesta obra, José nasceu no ano 1916,
entrou no Egito em 1899, subiu ao poder em 1886, e morreu em 1806 (Gn
50.22) na idade de 110 anos. Toda a duração de sua vida foi contemporâ­
nea à magnífica e deslumbrante 12a Dinastia do Médio Império Egípcio,
uma dinastia que teve seu início em 1991 e findou-se em 1786. Embora
saibamos que seja muitíssimo difícil a reconstrução da cronologia desse
período, é certo também que as datas citadas pelo Cambridge Ancient History
não podem estar muito distantes. Seguindo esse sistema de datação, apren­
demos que José foi vendido ao Egito já no final dos anos do reinado de
Ammenemes II (1929-1895).82 Seu reinado foi conhecido como um gover­
no pacífico, caracterizado pelo alto desenvolvimento da agricultura e da
situação econômica do país, e pelo incremento das relações internacionais
que o aproximaram do ocidente da Ásia. Nesse caso, José não seria mal
recebido nessa corte, por causa de seus ancestrais étnicos. Ao que tudo

' Gerhard von Rad, "The Joseph Narrative and Ancient Wisdom", em The Problem of the
Hexateuch and Other Essays (Edinburgh: Oliver and Boyd; New York: McGraw-Hill, 1966),
pp. 292-300.
' ■ G. Ernest Wright, Biblical Archaeology, edição abreviada (Philadelphia: Westminster, I960),
pp. 35-37; Pierre Montet, Egypt and the Bible (Philadelphia: Fortress, 1968), pp. 7-15.
Quanto à sua vida e época, ver em G. Posener, "The Middle Kingdom in Egypt," em
ZAH 1.2, pp. 502-4.
42 H istória de I srael no A ntigo T estamento

indica, foi durante o reinado de Sesostris II (1897-1878) que ele ficou apri­
sionado, cerca de dez anos após a sua chegada ao Egito (i.e., em 1889).
Foram os sonhos de Sesostris que ele interpretou e sob quem ele serviu
como um alto oficial do governo.

Tabela 3 XII Dinastia do Egito

Ammenem.es I 1991 - 1962


Sesostris I 1971 - 1928
Ammenemes II 1929 - 1895
Sesostris II 1897 - 1878
Sesostris III 1878 - 1843
Ammenemes III 1842 - 1797
Ammenemes IV 1798 - 1790
Sobkneferu 1789 - 1786

É bastante significativo que, durante o governo de Sesostris II, o nomarca


de Beni Hasan tenha recebido Abisha com alegria em sua cidade, um líder
tribal de origem semítica, um fato bastante comemorado e registrado nos
murais de Beni Hasan. Sesostris também importou e empregou um gran­
de número de escravos asiáticos e não pouco mercenários, uma política
que nos mostra que não havia qualquer espécie de anti-semitismo ou sen­
timento parecido.83 Mais marcante dentre todas as informações é que aque­
la foi uma época de grandes projetos do governo para o assentamento de
colonos e para controle das inundações. O detalhe principal de tudo isso
foi a construção de um canal cavado para ligar a bacia de Fayyum ao rio
Nilo, um canal cujas ruínas permanecem até hoje, e que foi chamado de
Bahr Yusef("Rio de José").84 Será que a sobrevivência desse nome não sig­
nifica um testemunho da contribuição que José deu ao rei Sesostris II nes­
ses seus projetos públicos? O texto bíblico nos diz que os sete anos de
fome preditos por José foram precedidos por sete anos de abundância nas
colheitas. Obviamente esse período teve seu início imediatamente após a
libertação de José da prisão, e continuou pelos sete anos seguintes (1886­
1879). Embora não possamos nos lançar em especulações devido à inexa­
tidão da cronologia egípcia, fica quase impossível não notar que, segundo

83 Ibid., pp. 541-42. Posener ainda observa: "A história bíblica de José faz-nos lembrar o
comércio escravagista" (p. 542). Ver também Posener, "Les Asiatiques en Egypte sous
les xii et xiii dynasties,"Sj/rw 34 (1975): 145-63.
84 Posener, "Middle Kingdom", em CAR 1.2, pp. 505, 510-11.
43

o sistema adotado pelo Cambridge Ancient History, o rei Sesostris II morreu


exatamente no final dos anos preditos de abundância e que seu sucessor,
Sesostris III (1878-1843) inaugurou seu reinado coincidentemente com o
período descrito de fome.
Sesostris III, uma das maiores figuras do Médio Império, deve ter sido
o rei que convidou Jacó e seus filhos a se estabelecerem no leste do Delta,
que era visto como o jardim do Egito antigo. Dentre seus problemas mais
antigos, temos as ameaças de rebelião feita pelos nomarcas locais, um fato
que pode ser explicado, talvez, devido ao desespero da população por
causa da fome, e à falta de confiança no governo central para providenciar
uma solução. Esses tumultos foram todos reprimidos, e Sesostris, talvez
com a ajuda de José, dividiu a terra em três partes ou "departamentos",
cada qual dirigida por um oficial conhecido como "relator". Os relatores,
por outro lado, estavam sob as ordens do vizir que, para todos os efeitos,
era um primeiro mimstnx85
Alguma coisa dessa política está refletida em Gênesis 47. Na época da
fome, José vendia os grãos que tinham sido armazenados durante os
anos de fartura. Muito tempo antes, ele já tinha acumulado todo o di­
nheiro da terra nos cofres públicos (vv. 14,15). Ele aceitou o gado como
pagamento pelos grãos, e quando não mais havia rebanhos para que o
pagamento fosse efetuado, tomou então as terras e seus habitantes, com
exceção das propriedades pertencentes aos sacerdotes (vv. 19-23). De­
pois, passou a dar aos agricultores a semente necessária para o plantio e
exigiu em troca 20 por cento da colheita para os cofres de Faraó, como
forma de imposto, e o restante eles podiam guardar para si. Dessa for­
ma, José possibilitou que o rei controlasse seu povo e suas terras de uma
maneira jamais vista antes. O resultado positivo dessa sábia administra­
ção foi que também houve um crescimento da classe média, e foi preci­
samente na época de Sesostris III que irrompeu um significativo cresci­
mento de comerciantes e artesãos.
Entretanto, o rei Sesostris III não se ocupava exclusivamente com ne­
gócios domésticos em seu governo. Na verdade, ele fortaleceu o domínio
do Egito sobre a Núbia, ao sul, e também empreendeu pelo menos uma
campanha à Palestina, onde ele diz ter chegado a Sekmem (provavelmen­
te Siquém). Mais importante de tudo, os textos de execração que foram
produzidos nessa época mostram interesse e compreensão incomuns da

Ibid., pp. 505-6; para uma indicação adicional de que Sesostris III é o faraó em vista, ver
em James R. Battenfield, "A Consideration of the Identity of the Pharaoh of Genesis 47,"
JETS 15 (1972): 77-85.
44 H istória de I srael no A ntigo T estamento

Palestina e da Síria. Entre os nomes contidos nos textos estão numerosas


cidades e vilarejos mencionados, inclusive no Antigo Testamento.86
José faleceu no ano 1806, bem próximo ao final do reinado do último
grande rei da 12a Dinastia, Ammenemes III (1842-1797).87 Nada se conhe­
ce acerca de José nesse período, mas Ammenemes estava totalmente en­
volvido na exploração das minas de turquesa no Sinai, no contínuo assen­
tam ento na região do Fayyum , e em alguns am biciosos projetos
arquitetônicos. Ele gozava de vastíssima influência, mas, com sua morte,
o poderio do Médio Império entraria em seus últimos dias.

A atmosfera cultural
Está bastante evidente que o fundo histórico e cronológico da vida de
José encontra-se totalmente enquadrado no período do Médio Império
egípcio. O que falta ainda ser demonstrado é que o arcabouço cultural
visto em Gênesis 37-50 se adapta melhor a um governo de origem egípcia
do que com uma dominação de reis hicsos.88 Caso tal afirmativa possa ser
comprovada, todos os argumentos em favor de uma peregrinação de ape­
nas 215 anos perderão praticamente toda sua força.
Qualquer um perceberá logo de início que todos os nomes próprios
descritos em Gênesis são de origem egípcia, e não de hicsos.89 Precisamos,
é claro, reconhecer que, embora poucas inscrições do período hicso te­
nham sobrevivido, está comprovado nesses registros um número consi­
derável de nomes próprios. Baseados nos dados obtidos através desses
nomes próprios, alguns estudiosos, tais como John Van Seters, identifi­
cam os hicsos como semitas, especificamente os amoritas.90 Manetho su­
geriu que o termo hicso em si significa "reis pastores", porém estudos mais
recentes indicam que seu significado quer dizer "dominadores de terras
estrangeiras" ou algo parecido.91 De qualquer forma, os hicsos certamen­
te não eram egípcios, e suas tradições, costumes e estilo de vida eram tão
diferentes dos egípcios quanto o eram seus nomes.

86 Ver em Pritchard, Ancient Near Eastern Texts, pp. 328-29.


87 Posener, "Middle Kingdom", em CAH 1.2, pp. 509-12.
88 Os hicsos eram um povo de origem semítica que penetraram no Egito à nível do Delta
por volta do século dezoito, e que eventualmente obtiveram o controle político da mai­
or parte do Baixo Egito por 150 anos. (1720-1570). Ver em Donald B. Redford, "The
Hycsos Invasion in History and Tradition,", Or, n.s. 39 (1970): 1-51.
89 Montet, Egypt, pp. 14-15.
90 John Van Seters, The Hycsos (New Haven: Yale University Press, 1966), pp. 194-95.
91 Ibid., p. 187.
O rigens 45

O primeiro nome estrangeiro que aparece dentro das narrativas da vida


de José é o de Potifar, supervisor da guarda de elite de Faraó e senhor de
José. Além de ser descrito especificamente em Gn 39.1 como um egípcio,
seu nome também é totalmente egípcio (P^dyq/R', "aquele a quem Rá
deu")-92 O próprio José casou-se com Asenate, filha de Potífera, o sacerdo­
te do deus On (ou Heliópolis). O nome dela significa "que pertence a Neith"
(uma deusa egípcia), enquanto o nome de seu pai era apenas uma varian­
te de Potifar. O nome de José foi mudado logo após seu casamento para
Zafenate-Panéia, o que possivelmente significava "o que fornece o alimento
da vida". Ora, podemos até admitir que José tenha servido a um nobre
egípcio mesmo durante os anos de dominação dos hicsos, mas é simples­
mente inadmissível que seu nome semítico tenha sido alterado para um
outro de origem semítica, ainda que debaixo da dominação estrangeira
dos hicsos. Não obstante, é difícil entender como ele teria se casado com a
filh a d e um s a c e r d o te e g íp c io q u e serv ia n u m cen tro r e lig io s o em
Heliópolis, bem ao sul do centro de controle político dos hicsos no Egito.
Vários costumes e preconceitos confirmam um fundo histórico egíp­
cio. Quando José, pela primeira vez, compareceu perante o rei Sesostris II,
logo após sua libertação da prisão, ele se barbeou para que o rei não se
sentisse ofendido. Foi exatamente isso que um exilado egípcio chamado
Sinuhe fez quando retornou ao Egito após ter vivido por anos entre os
semitas da Síria.93 José teria cometido um grande insulto a um rei hicso,
cujo costume era usar barba, caso tivesse comparecido diante dele com o
rosto liso. Quando os irmãos de José vieram a ele a procura de grãos, não
sabendo ainda qual era sua verdadeira identidade, ele os separou no ho­
rário do jantar porque os "egípcios não podiam comer com os hebreus"
(Gn 43.32). Caso José tivesse se apresentando como um oficial de origem
semítica a serviço do rei hicso, seria muito estranho o fato de ele mesmo
afastar-se de elementos da mesma raça. O fato de ele estar agindo segun­
do uma tradição já existente por muitos anos prova que a história nada
tem a ver com os hicsos.
Outro detalhe que confirma ainda mais os preconceitos egípcios da
narrativa é a declaração feita por José, que dizia serem os pastores uma
abominação para os egípcios (Gn 46.34). Ora, urna coisa que os hicsos não

Para uma boa e produtiva discussão sobre esses nomes, ver em Montet, Egypt, pp. 14­
15. '
Pritchard, Ancient Near Eastern Texts, pp. 18-22. De acoi-do com Alan Gardner, Egypt of
the Pharaohs (London: Oxford University Press, 1961), p. 130, este conto deve ser enqua­
drado durante os dias do rei Sesostris I (1971-1928).
46 H istória de I srael no A ntigo T estamento

poderiam deixar de ser era pastores. Eles nunca desprezariam os hebreus


pelo fato de serem estes também pastores como eles o eram. E, finalmente,
o embalsamamento e a lamentação pela morte de Jacó se adapta melhor às
práticas egípcias (Gn 50.2,3).94 Embora os rituais funerários dos hicsos não
estejam ainda bem compreendidos hoje, é certo que diferiam radicalmen­
te dos que eram feitos pelos egípcios - os únicos dentre todas as nações do
mundo antigo que possuíam os procedimentos funerários semelhantes aos
descritos em Gênesis.
Por último, temos a questão da língua. Em sua primeira viagem ao
Egito, os irmãos de José, acreditando que ele era um egípcio, começaram
a falar uns com os outros em hebraico (Gn 42.23). Querendo não
decepcioná-los em sua apreensão, José fez sua parte e conversou com
eles exclusivamente no idioma egípcio. Com certeza, se eles tivessem
suposto por um momento que José fosse um hicso, não teriam conversa­
do em hebraico, na tentativa de evitar que José os entendesse, uma vez
que, independente do estoque étnico de onde os povos hicsos derivaram
sua língua, eles com certeza falavam os dialetos semíticos e iriam acabar
entendendo o hebraico.
Concluindo, é completamente evidente que José viveu no Egito e que
serviu como um alto oficial da administração desse país durante os anos
de dominação egípcia, e não na época dos hicsos. Esses dados evitam uma
peregrinação de 215 anos de duração, e firmam a data do êxodo no tradi­
cional ano de 1446, embora uma data mais recente para esse acontecimen­
to (1260), associada com a peregrinação de 215 anos, nos permitiria locali­
zar José num período pós-hicso da dinastia egípcia.

De José ao êxodo

A dominação dos hicsos no Egito ocorreu entre a morte de José e o


nascimento de Moisés, um período em que o Antigo Testamento se mos­
tra completamente silencioso. E bem razoável admitir que o relacionamento
existente entre os hicsos e os hebreus tenha sido o mais amigável possível,
uma dedução que tem ganhado apoio cada vez maior, caso os inimigos
descritos em Êxodo 1.10 tenham sido os hicsos. De outra forma, tudo o
que é necessário observar é que os hicsos mantiveram efetivo controle do
Baixo Egito (o Delta) por cerca de 150 anos (1720-1570). Eles tomaram e
reconstruíram a cidade de Avaris por volta de 1720, o que está confirmado

94 John Ruffle, The Egyptians (Ithaca, N.Y.: Cornell University Press, 1977), pp. 197-210;
Van Seters, Hycsos, pp. 45-48.
:-ess 47

na esteia que foi encontrada por August Mariette em 1863 e conhecida por
"esteia dos quatrocentos anos".95 Esse monumento foi construído em 1320
a.C. por Seti, vizir do rei egípcio Horemheb, para marcar o quadrigentésimo
aniversário da (re)construção da cidade, um fato cuja autenticidade não
tem porquê de ser questionado. A dominação dos hicsos teve início du­
rante a 13a Dinastia egípcia que, devido à pressão exercida por esses inva­
sores, retirou-se para o sul e se estabeleceu em Mênfis. Quando por fim
essa cidade caiu sob o poder dos hicsos, a dinastia moveu-se ainda mais
para o sul, e finalmente chegou ao fim por volta de 1633.96
Enquanto isso, a 14a Dinastia egípcia permaneceu no controle da re­
gião oeste do Delta até cerca de 1603. Centralizados em seu Sais (Xois),
essa linhagem de reis resistiu aos hicsos quase até o fim. As dinastias 15a
e 16a foram representadas por reis hicsos; seu início ocorreu com a toma­
da de Mênfis (1674) e continuou até sua expulsão do Egito em 1567.97
Mesmo sendo culturalmente inferiores, os hicsos aprenderam e adota­
ram as artes egípcias e sua ciência.98 Eles também identificaram suas di­
vindades com as dos egípcios, igualando-as especialmente com Baal,
Resheph ou Teshub.99 Um aspecto ainda mais positivo dessa dominação
estrangeira foi a introdução e a popularização no Egito dos cavalos, car­
roças e carruagens,100 bem como do arco feito por diversos materiais.101
Alguns dos mais proeminentes reis hicsos da 15a Dinastia foram Salitis
(Sharek); Khyan, que se auto-intitulava "filho de Re" (Rameses?); e
Apophis I, cuja filha casou-se com um príncipe de Tebas que também se
intitulava "filho de R e".102 Foi ele o primeiro a sofrer a maior resistência
por parte dos egípcios de Tebas, e que por fim foi expulso do Alto Egito
de volta para o Delta. Esse avivamento egípcio aconteceu durante a lide­
rança de Seqenenre II da 17a Dinastia (1650-1567), cujo filho Kamose deu
início à expulsão dos odiados hicsos não apenas do Alto Egito, mas tam­
bém do próprio Delta.

Ver p. 36, n. 40.


Hayes, "From the Death of Ammenemes III," em CAH 2.1, pp. 44-54.
Ibid., pp. 54-64.
Ronald J. Williams, "The Egyptians", em Peoples ofOld Testament Times, editado por D.J.
Wiseman, p. 87.
~9 Van Seters, Hycsos, pp. 171-80.
--'Jack Finegan, Archaeological History of the Ancient M iidle East (Boulder, Col.: Westview,
1979), pp. 254-55.
: : Roland de Vaux, Ancient Israel (New York: McGraw-Hill, 1965), vol. 1, p. 243.
; : A semelhança do elemento Re (ou Ra) na formação dos nomes dos reis hicsos é de espe­
cial significação para uma data mais anterior para o êxodo. Ver p. 70.
48 H istória de I srael no A ntigo T estamento

Em seu terceiro ano (1575), Kamose lançou-se num ataque contra


Apophis, rei dos hicsos, mas morreu antes mesmo de terminar sua mis­
são. Seu objetivo foi alcançado por seu irmão Amosis (1570-1546), funda­
dor da 18a Dinastia (1567-1320), que, através de seu general Ahmose, re­
conquistou a cidade de Mênfis e, logo em seguida, Avaris. Ahmose não se
contentou apenas em expulsar os hicsos para fora do Egito, mas os perse­
guiu até Sharuhen (aprox. 1563), e assim se assegurou de que eles nunca
mais voltariam a trazer problemas para o Egito.103
As dinastias 18a e 19a (1567 - aprox. 1200) perfazem o substancial da
terceira e última parte da grande civilização egípcia que existiu no antigo
Oriente Médio, o chamado Novo Império (1567- aprox. 1100). Visto que o
êxodo, a conquista, e muito do que temos acerca dos juízes se enquadra
nesse período, torna-se vital que seja feita uma boa descrição de seu curso,
especialmente naquilo que toca a narrativa do Antigo Testamento.

io3para um estudo acerca de todo esse período, ver em T. G. H. James, "Egypt: From the
Expulsion of the Hycsos to Amenophis l," em CAH 2.1, pp. 289-96.
0 Ê X 0 D 0: N A S t I N E 0 I 0
D E U HA N A ( Ã 0
O sig n ific a d o do êxodo
A localização histórica do êxodo
O novo reino egípcio
O Faraó do êxodo
As dez pragas
A rota do êxodo
A data do êxodo
Evidência bíblica interna
As evidências a favor de uma data recente
Ausência de acampamentos sedentários na Transjordânia
Os israelitas e a construção da cidade de Ramsés
Evidências da conquista ocorrida no século XIII
A data e a duração do cativeiro egípcio
O problema
A revelação dada a Abraão
Evidências a favor de um longo cativeiro no Egito
Evidências a favor de uma curta peregrinação no Egito
Cronologia dos patriarcas
A jornada no deserto
Do mar de Juncos até o Sinai
A aliança do Sinai
Do Sinai até Cades-Barnéia
De Cades-Barnéia às planícies de Moabe
O encontro com Edom
O encontro com os amoritas
O encontro com Moabe

O s ig n ific a d o d o ê x o d o

O êxodo é o evento teológico e histórico mais expressivo do Antigo


Testamento, porque mostra a magnificente ação de Deus em favor de seu
povo, uma ação que os conduziu da escravidão à liberdade, da fragmen­
tação à unidade, de um povo com uma promessa - os hebreus - à uma
nação estabelecida - Israel. No livro de Gênesis encontram-se a introdu­
ção e o propósito, seguindo-se então todas as revelações subseqüentes do
.Antigo Testamento. Um registro que é ao mesmo tempo um comentário
inspirado e uma exposição detalhada. Em última análise, o êxodo serve
50 H istória de I srael no A ntigo T estamento

como um tipo do êxodo promovido por Jesus Cristo, de forma que ele se
torna um evento significativo tanto para a Igreja quanto para Israel.1

A lo c a liz a ç ã o h is tó ric a d o ê x o d o

O novo reino egípcio

Segundo 1 Reis 6.1, o êxodo aconteceu cerca de 480 anos antes da fun­
dação do templo de Salomão. De fato, Salomão deu início à construção em
seu quarto ano, ou seja, em 966 a.C , de forma que, de acordo com uma
hermenêutica normal e uma aproximação séria dos dados cronológicos
bíblicos, o êxodo ocorreu em 1446 a.C. Antes de apresentarmos argumen­
tos detalhados em favor de tal data, vamos por enquanto nos deter na
décima oitava dinastia do Egito que, de acordo com a data tradicional,
forma o quadro da época em que o êxodo aconteceu.
Como apontado no capítulo 1, a décima oitava dinastia foi fundada
por Amósis, o responsável pela expulsão dos hicsos. E bem provável ter
sido ele o que está descrito em Êxodo como o novo rei que não conhecia

Tabela 4 18a e 19a Dinastia do Egito

18a Dinastia
Amósis 1570-1546
Amenotepe I 1546-1526
Tutmose I 1526-1512
Tutmose II 1512-1504
Hatchepsute 1503-1483
Tutmose III 1504-1450
Amenotepe II 1450-1425
Tutmose IV 1425-1417
Amenotepe III 1417-1379
Amenotepe IV (Akhenaten) 1379-1362
Semenca 1364-1361
Tutankamon 1361-1352
Ai 1352-1348
Horembeb 1348-1320

11Dinastia
Ramsès I 1320-1318
Setos I 1318-1304
Ramsès II 1304-1236
Merneptá 1236-1223

1 Ver, e.g., Claus Westermann, Elements of OM Testament Theology (Atlanta: John Knox,
1982), pp. 217 a 218; Eimer Martens, God's Design (Grand Rapids: Baker, 1981), p. 256.
j: ■j Do: N ascimento de uma N ação 5/

José (Êx 1.8).2 Isto não sugere que ele não tenha conhecido José pessoal­
mente, mas apenas que sua benevolência não mais se estendia aos descen­
dentes de José - os hebreus. Ele havia, afinal, expulsado os hicsos, um
povo bastante aparentado aos hebreus, e pode ter ficado receoso de que a
rápida multiplicação destes pudesse se constituir numa séria ameaça ao
seu recente governo e autoridade.
Ele ou seu sucessor, Amenotepe I (1546 - 1526), foi o responsável pela
política repressiva que se seguiu naqueles dias. Isto incluía a redução dos
hebreus à escravidão com trabalhos forçados em projetos de construções
públicas (Êx 1.11-14),3 um plano que foi igualmente implementado por
Amósis. Quando tal projeto fracassou, seguiu-se um decreto promulgan­
do o genocídio de todos os machos hebreus que nascessem (Êx 1.15,16).
Esse decreto pode ter sido emitido por Amenotepe ou, o que é mais prová­
vel, por Tutmose I, de acordo com a reconstrução histórica promovida neste
trabalho.
Admitindo a data de 1446 a.C. para o êxodo, podemos determinar a
data do nascimento de Moisés, um fato de elevada importância nesta
conjuntura. O Antigo Testamento informa que Moisés tinha a idade de
80 anos pouco antes do êxodo (Êx 7.7), e 120 anos na sua morte (Dt
34.7).4 Visto que sua morte ocorreu bem no fim do período do deserto,
podemos datá-la em 1406. Um simples cálculo então fornece o ano 1526

- Wiiliam F. Albright, "From the Patriarchs to Moses: II Moses Out of Egypt", BA 36 (1973): 54.
- Embora Kenneth A. Kitchen aceite a data mais recente para o êxodo, ele cita evidência
abundante sobre trabalhos forçados como escravos, incluindo semitas, na manufatura
de tijolos no período da 18° Dinastia. Veja seu livro: "From the Brickfields of Egypt",
Tyn Buli 27 (1976): 139-140.
4 A divisão da vida de Moisés em períodos de 40 anos - com 40 anos matou um egípcio,
aos 80 retornou do exílio entre os midianitas, e aos 120 morreu - sugere para alguns
estudiosos uma certa artificialidade. Argumenta-se que 40 anos é a representação de
uma geração ideal, de forma que Moisés deve ter tido uma vida três vezes mais longa
que uma geração normal. Veja, por exemplo, a obra de J. Alberto Soggin, A History of
Anciente Israel (Filadélfia: Westminster, 1984), p. 383. Essa mesma idéia também se apli­
caria aos reinados de 40 anos de Saul, Davi e Salomão; aos 40 (ou ocasionalmente 20)
anos de governo e períodos de descanso na época dos juízes; e a muitas outras utiliza­
ções deste número. E possível que esses períodos devam ser tomados em sentido literal,
e que não reflitam qualquer artificialidade ou coincidências, mas sejam uma deliberada
organização da história de acordo com o padrão estabelecido pelo próprio Deus. O nú­
mero 40, em outras palavras, também pode ter um significado teológico e tipológico em
si mesmo, e o próprio Deus pode ter distribuído os acontecimentos dessa forma. Ver
Tohn J. Davis, Bihlical Numerology (Grand Rapids: Baker, 1968), pp. 52-54. Davi, porém,
vê apenas o número sete com valor simbólico (p. 124).
52 H istória de I srael no A ntigo T estamento

para o seu nascimento. Por conseguinte, Moisés nasceu no mesmo ano


da morte do faraó Amenotepe. E preciso enfatizar que não se pode es­
perar uma absoluta precisão, mas nossas datas para a cronologia do
Novo Reinado, assim como todas as datas que usamos, são as mesmas
utilizadas pelo Cambridge Ancient History, uma publicação lançada por
estudiosos imparciais, reconhecidos academicamente como autorida­
des da mais alta confiabilidade.5 Quaisquer ajustes nas datas que au­
mentem ou diminuam alguns anos em nada afetarão as conclusões aqui
propostas.
Amenotepe foi sucedido por Tutmose I (1526-1512), um plebeu que ti­
nha se casado com a irmã do rei. Provavelmente foi ele o autor do decreto
que ordenou o infanticídio, pois enquanto Moisés estava em iminente pe­
rigo de morrer, Arão, que havia nascido três anos antes (Êx 7.7), parece ter
estado isento. Não seria difícil admitir que o faraó que promulgou essa
política deve ter subido ao trono após o nascimento de Arão e antes do
nascimento de Moisés. Nesse caso, a evidência bíblica aponta diretamente
para Tutmose I.
Tutmose II (1512-1504) casou-se com Hatchepsute, sua meia-irmã mais
velha. Ele morreu jovem sob circunstâncias bastante misteriosas. Sentin­
do que se aproximava da morte, ordenou a nomeação de Tutmose III (1504­
1550) como seu co-regente e herdeiro. Esse governante que, sem dúvida,
foi o mais ilustre e poderoso dentre os que viveram no Novo Reino, distin­
guiu-se de várias maneiras. Seus primeiros anos não foram muito promis­
sores - era filho de uma concubina e tinha se casado com sua meia-irmã,
filha de Hatchepsute e Tutmose II - mas por fim veio a obter notáveis
vitórias nas terras ao seu redor, que incluíram nada menos que 16 campa­
nhas à Palestina. Porém, os primeiros 20 anos de seu reino foram domina­
dos por sua poderosa madrasta, Hatchepsute. Embora proibida pela cul­
tura de se tornar faraó, ela de fato agia como tal e, em todos os critérios,
pode ser considerada a pessoa de maior fascínio e influência da história

5 Com respeito às datas para o rei Amenotepe (Amenophis)I, ver T.G.H. James, "Egypt:
From the Expulsion of the Hyksos to Amenophis I", no Cambridge Ancient History, 3. ed.
por I.E.S. Edwards e associados (Cambridge: Cambridge University Press, 1973), v. 2,
parte 1, p. 308. Acerca de Tutmose (Tuthmosis)I, Tutmose II, Hatchepsute, Tutmose III e
Amenotepe II, ver William C. Hayes, "Egypt: Internai Affairs from Thutmosis I to the
Death of Amenophis III", em CAH 2.1, pp. 315-21. Para datas alternativas da 18a Dinas­
tia (cerca de 1533-1303) ver William W. Hallo e William K. Simpson, The Ancient Near
East (New York: Harcourt Brace Jovanovich, 1971), pp. 330-301. As datas do CAH (1546­
1319) foram adotadas por George Steindorff e Keith C. Seele em When Egypt Ruled the
East (Chicago University Press, 1957), pp. 274-275.
54 H istória de I srael no A ntigo T estamento

egípcia.6 Sem dúvida, nos primeiros anos de Tutmose III, foi Hatchepsute
quem ditou as resoluções, um relacionamento que decerto ele detestava,
mas encontrava-se impotente para se opor. Somente após a morte da ma­
drasta, Tutmose III demonstrou toda repugnância que sentia por ela, man­
dando extinguir toda e quaisquer inscrições ou monumentos em sua ho­
menagem.
O quadro geral de Hatchepsute leva-nos a identificá-la como a ousada
filha do Faraó que resgatou Moisés. Somente ela dentre todas as demais
mulheres de sua época seria capaz de ir contra uma ordem do Faraó, bem
diante dele. Embora a data de seu nascimento seja desconhecida, ela pro­
vavelmente era vários anos mais velha do que seu marido, Tutmose II,
que morrera em 1504, bem próximo de seus 30 anos.7 Ela devia estar no
início de sua adolescência, por volta de 1526, data do nascimento de Moisés
e, portanto, com condições de agir em favor de sua libertação.
Tutmose III era menor de idade quando assumiu o poder em 1504 e
m ais novo que M oisés.8 Se, de fato, Moisés foi filho de criação de
Hatchepsute, há probabilidade de haver ele sido uma forte ameaça ao
jovem Tutmose III, visto que Hatchepsute não tinha filhos naturais. Isso
significa que Moisés era um candidato a ser faraó, tendo apenas como
obstáculo sua origem semítica. Parece-nos que houve uma real animosi­
dade entre Moisés e o faraó. Isto fica claro em virtude de Moisés, após
matar um egípcio, ter sido forçado a fugir para salvar a vida. O fato de
ter o próprio faraó considerado a questão - que, em outra situação, seria
pouco relevante - sugere que este faraó especificamente tinha interesses
pessoais em se livrar de Moisés. O exílio auto-imposto por Moisés ocor­
reu em 1486, quando ele tinha 40 anos de idade (At 7.23). Tutmose III já
estava no poder havia 18 anos; e a idosa Hatchepsute, que faleceria três
anos mais tarde, não tinha mais condições de interditar a vontade de seu
enteado/sobrinho.9
Durante longos quarenta anos, Moisés permaneceu fugitivo do Egito,
tendo se abrigado entre os midianitàs do Sinai e da Arábia. Uma das ra­

6 Uma visão fascinante e um pouco imaginativa acerca de sua vida e reinado pode ser
vista na obra de Evelyn Wells, Hatshepsut (Garden City, N.Y.: Doubleday, 1969).
7 Steidorff e Seele, When Egypt Ruled the East, pp. 39-40.
8Tutmose III foi designado vice-regente na última parte do reinado de Tutmose II, provavel­
mente não menos que em 1508. Ver Hayes, "Internai Affairs," do C4H 2.1, pp. 316-317.
9 Tutmose III sucedeu Hatchepsute em 1483. Para tentar apagar a memória dela dentre os
egípcios, ele não apenas mandou destruir todos os monumentos construídos em sua
homenagem, como também matou em público todos os oficiais que a serviram. Ver
Hayes, "Internai Affairs," no CAH 2.1, p. 319.
O Ê xodo : N ascimento de uma N ação 55

zões para tão longo exílio foi justamente o fato de continuar a viver e rei­
nar o Faraó de quem Moisés havia escapado. Somente após sua morte,
Moisés sentiu-se livre para retornar ao Egito (Êx 2.23; 4.19). Tutmose II I '
morreu em 1450 e foi sucedido por seu filho Amenotepe II (1450-1425).
Segundo os padrões cronológicos aceitáveis nesta discussão, era este
Amenotepe quem reinava na ocasião do êxodo.
Antes de deixarmos Tutmose III, é essencial notarmos que o relato bíbli­
co requer um reinado de quase 40 anos para o Faraó que perseguiu a vida
de Moisés, porquanto o rei que morreu no fim dos anos do exílio de Moisés
em Midiã era claramente o mesmo que o havia ameaçado quase 40 anos
antes. Dentre todos os reis da 18a Dinastia, somente Tutmose III teve um
reino tão longo. De fato, ele é o único governante que, em todo período
durante o qual o êxodo poderia ter ocorrido, reinou tanto tempo - com ex­
ceção de Ramsés II (1304-1236). Mas Ramsés, o faraó preferido pela maioria
dos estudiosos, é geralmente associado ao faraó do êxodo, não ao faraó cuja
morte possibilitou o retorno de Moisés ao Egito. Caso a morte de Ramsés
houvesse trazido Moisés de volta ao Egito, o êxodo deveria ter ocorrido
após 1236, uma data muito tarde para ser satisfatória.10

O Faraó do êxodo

Quando finalmente Moisés retornou ao Egito, ele e seu irmão Arão co­
meçaram a negociar com o novo rei, Amenotepe II, a respeito de uma per­
missão para Israel deixar o Egito com o propósito de adorar a Jeová e,
enfim, deixar o país definitivamente. Este poderoso rei conduziu uma cam­
panha em Canaã em seu terceiro ano (aprox. 1450) e uma outra em seu
sétimo ano, provavelmente em 1446,11 coincidindo com a tradicional data
do êxodo. Não é difícil imaginar que a dizimação do exército de Faraó no
mar de Juncos pode ter ocorrido após essa sétima campanha e que, após

10 As implicações dessa linha de raciocínio são devastadoras para a teoria de uma data
mais recente para o êxodo; ver pp. 68-69.
11 Alan Gardiner, Egypt of the Pharaohs (London: Oxford University Press, 1961), pp. 200­
202. Muitos historiadores defendem a idéia de uma co-regência entre Tutmose III e
Amenotepe II, de cerca de três a seis anos. Seguindo a opinião de que sua morte ocorreu
em 1450, seu filho deve ter governado com ele de 1453 (ou 1456) até 1450. Esta interpre­
tação se encaixa melhor quando se pensa em uma primeira campanha em parceria com
uma segunda, onde ele já assumia o governo sozinho, portanto, em 1450 e 1446 respec­
tivamente. Veja Donald B. Redford, "The Coregency of Thutmosis III and Amenophis II,
JEA 51 (1965): 107-22; William J. Murnane, "Once Again the Dates for Tuthmosis III and
Amenothep II,"JANES 3 (1970-1971); 5.
56 H istória de I srael no A ntigo T estamento

tamanha desmoralização, um total desinteresse por uma aventura imedi­


ata se abateu sobre o reino, especialmente para o norte.12
Nossa identificação de Amenotepe II como o faraó do êxodo está basea­
da em duas outras considerações. Em primeiro lugar, embora a maioria dos
reis da 18a Dinastia tenha estabelecido sua principal residência em Tebas,
bem ao sul dos israelitas no Delta, Amenotepe morava em Mênfis e, aparen­
temente, reinou daquele local por um bom tempo.13 Isto o colocava em gran­
de proximidade com a terra de Gósen, fazendo-o bastante acessível a Moisés
e Arão. Em segundo lugar, evidências sugerem que o governo de Amenotepe
não passou para seu filho mais velho, mas para o caçula Tutmose IV. Esta é
uma informação subentendida na chamada "esteia do sonho", que foi en­
contrada na base da Grande Esfinge perto de Mênfis.14
O texto, que registra um sonho no qual Tutmose IV recebeu a promessa
de que um dia viria a ser rei, sugere, como diz um historiador, que o seu
reino sucedeu "mediante uma imprevista mudança no destino, como a
morte prematura do irmão mais velho".15 E claro que isto é praticamente
impossível de se provar, mas também não há como deixar de especular se
tal morte prematura não tenha ocorrido por intermédio do juízo de Jeová
que, na décima praga, matou todos os primogênitos do Egito que estavam
sem a proteção do sangue da Páscoa, "...desde o primogênito de Faraó,
que se sentava em seu trono, até o primogênito do cativo que estava no
cárcere..." (Êx 12.29).

As dez pragas

Antes de continuarmos a integração entre a história da 18a Dinastia e a


narrativa do êxodo, é preciso atentar para o relato do retorno de Moisés ao
Egito, das dez pragas, e do evento do êxodo propriamente dito. Moisés
havia fugido do Egito na idade de 40 anos (1486), e encontrou um santuá­
rio na terra de Midiã (Êx 2.15). Os midianitas, descendentes de Abraão

12 Gardiner, Egypt, p. 202, descreve uma campanha no nono ano (aprox. 1444) que foi "em
menor escala" do que a ocorrida no ano sétimo. É tentador ver esta redução como um
efeito colateral da experiência do êxodo.
13 Hayes, "Internai Affairs,", em CAH 2.1, pp. 333-34. Era comum aos reis da 18a Dinastia
entregar o governo da cidade de Mênfis ao príncipe coroado. Veja Donald B. Redford,
"A Gate Inscription from Karnak and Egyptian Involvemente in Western Asia During
the Early 18thDynasty," JAOS 99 (1979); 277.
13 Quanto ao texto, procurar James B. Pritchard, Ancient Near Eastern Texts Relating to the
Old Testament, 2a edição (Princeton: Princeton University Press, 1955), p. 449.
15 Hayes, "Internai Affairs", em CAH 2.1, p. 321.
5 Ê xodo: N ascimexto de uma N ação 57

através de Quetura (Gn 25.2), moravam na península arábica, provavel­


mente ao leste da península do Sinai, passando pelo Golfo de Acaba.16
Moisés conheceu um sacerdote midianita chamado Jetro (ou Reuel), que
claramente se tornou adorador de Jeová (Êx 18.11).17 Moisés então se ca­
sou com uma das filhas de Jetro, Zípora, com quem teve dois filhos, Ger­
son e Eliezer (Êx 18.3,4). Próximo ao quadragésimo ano em que Moisés
habitava na terra de Midiã, Jeová lhe apareceu no monte Sinai em uma
sarça ardente, identificando-se como o Deus de Abraão, Isaque e Jacó. Ele
disse a Moisés que havia chegado o tempo em que o povo de Israel parti­
ria da terra da escravidão e possuiria Canaã, a terra da promessa. A Moisés
coube o privilégio e a responsabilidade de conduzi-los para fora do Egito.
Provavelmente poucos meses após esta revelação, Moisés e Arão se
encontraram com faraó que, ao que tudo indica, era Amenotepe II. A prin­
cípio, eles solicitaram permissão para conduzir o povo ao deserto a fim de
adorar a Jeová; este pedido não apenas foi negado, como também produ­
ziu uma intensificação dos trabalhos forçados sobre Israel. Nesta situação,
os israelitas imediatamente passaram a questionar a autoridade de Moisés,
o qual tornou a Jeová para uma confirmação de sua chamada. Mais uma
vez, Jeová garantiu resgatar o seu povo (Êx 6.6), para torná-lo, mediante
uma aliança, o seu povo especial (v. 7), fazendo-o chegar em segurança à
terra uma vez prometida a seus pais (v. 8). Seguiu-se então uma seqüência
de entrevistas com Faraó, e todas falharam em obter permissão para ado­
rar no deserto.
Certamente o faraó sabia que a intenção não era simplesmente fazer uma
romaria ao deserto para adoração, mas sim partir totalmente do Egito, para
nunca mais lá voltar. Para provar a sua autoridade, Moisés operou sinais e
maravilhas na presença de Faraó. O primeiro sinal envolveu a vara de Arão,
que se tornou em uma serpente e, em seguida, devorou as serpentes produ­
zidas pelos mágicos do Egito. As dez pragas que se seguiram foram todas
de caráter judicial - abatiam-se sobre o Egito após cada recusa do Faraó em
permitir a partida de Israel. A última dessas pragas foi a morte dos primo­
gênitos, que atingiu até mesmo a própria família do Faraó.

!6 Para uma discussão adicional acerca da identidade e localização dos midianitas, veja
Roland de Vaux, The Early History of Israel (Philadelphia: Westminster, 1978), pp. 330-338.
Mesmo que o relato (Êx 18.1-12) não apresente Jetro como um homem completamente
convertido a Jeová, não há dúvida de que ele o reconheceu como o Deus supremo entre
os deuses. Veja Umberto Cassuto, A Commentary on the BookofExodus (Jerusalém: Magnes,
1967), pp. 216-217. Para uma análise tradicional e histórica das supostas fontes acerca
do casamento e do comissionamento de Moisés em Midiã, ver George W. Coats, "Moses
in Midian", JBL 92 (1973); 3-10.
58 H istória de I srael no A ntigo T estamento

É impossível compreender exatamente o que ocorreu por ocasião de cada


praga, visto que as fontes egípcias - naturalmente - não atestam nada a res­
peito. Contudo, é evidente que cada uma das pragas causou uma aberração
na natureza, uma anomalia que afetou o tempo, os animais, as águas, ou algo
similar. Além disso, elas pareciam conter um polêmico desígnio. Cada praga
era uma afirmação da superioridade de Jeová sobre a divindade (ou deuses)
responsável pela área da natureza que estava sendo particularmente atingi­
da. Os céticos consideram as pragas como um relato bastante exagerado de
fenômenos naturais perfeitamente compreensíveis, ainda que incomuns.18
Porém, uma séria avaliação da narrativa não permite tão arrogante descaso
com as dimensões catastróficas das pragas. É preciso entender o que elas eram
- autênticos derramamentos da ira de um soberano Deus que desejou mos­
trar, para todo o Egito e também para o seu povo, que Ele é o Senhor de toda
terra e céu, o único perfeitamente capaz de resgatar o seu povo da penosa
escravidão no Egito, fazendo com eles uma aliança, tornando-os seus servos.
Quando sobreveio a última praga, havendo Jeová destruído toda
autoconfiança humana, Faraó rendeu-se e permitiu que Moisés e seu povo
partissem (Êx 12.31,32). Porém, quando os hebreus realmente saíram, Faraó
voltou atrás e se encarregou de persegui-los. Abateu-se sobre o rei o pesar de
ter deixado sair do Egito sua maior força de trabalho, aquela com a qual ele
poderia realizar seus ambiciosos projetos públicos. Aquela altura, entretanto,
os quase dois milhões19 de israelitas já haviam deixado a cidade de Ramsés
(i.e., Gósen; Gn 47.6,11) e chegado a Sucote,20 bem a oeste do lago Timsa.
Seguiram de lá em direção norte, tentando evidentemente penetrar em Canaã
através da grande via costeira ao mar Mediterrâneo. Eles sabiam por certo
que encontrariam os filisteus caso continuassem naquela rota, de sorte que
Jeová os guiou para o sul, após terem cruzado, é claro, o mar de Juncos.

A rota do êxodo

O ponto exato onde Israel cruzou o mar de Juncos não pode ser deter­
minado, mas certamente não era o mar Vermelho, o que chamamos hoje

18 Para uma história de interpretação das pragas, ver Brevard S. Childs, The Book ofExodus
(Philadelphia: Westminster, 1974), pp. 164-168. Para um estudo que considera as pragas
do Egito como apenas "fenômenos naturais" e eventos históricos, veja Greta Hort, "The
Plagues of Egypt", ZAW 69 (1957); 84-103; 70 (1958); 48-59, especialmente pp. 58-59.
19 As informações a respeito do enorme contingente que saiu no êxodo serão consideradas
nas pp. 72-73.
20 Talvez t-k-w (ou seja, Tel el-Maskhütah), bem ao ocidente dos Lagos Amargos. Veja
Yohanan Aharoni, The Land ofthe Bible (Philadelphia: Westminster, 1979), p. 196.
O Ê xodo : N ascimento de uma N ação 59

de Golfo de Suez. Este local estava muito ao sul para se encaixar no iti­
nerário bíblico. Além disso, o termo hebraico para descrever a passagem
pelas águas, yam süp ("mar de juncos"), é totalmente impróprio para o
mar Vermelho. A tradução da palavra "mar Vermelho", vista em muitas
versões inglesas, está baseada na Septuaginta, que por certo assumiu ser
o mar de Juncos um nome antigo para mar Vermelho.21 O registro de
Moisés declara que Israel estava em um local próximo a Pi-Hairote (lo­
calização desconhecida), entre Migdol (também desconhecido) e o mar.
Mais especificamente, Israel encontrava-se "diante de Baal-Zefom" (Êx
14.2), local hoje identificado como Tel Dafanneh, ao ocidente do Lago
Menzalé, uma bacia a sudeste do mar Mediterrâneo.22 As evidências hoje
sugerem que esse é o mar de Juncos pelo qual Israel passou.
Embora saibamos que o local tenha sofrido muitas dragagens para a
construção e manutenção do Canal de Suez, o lago Menzalé sempre foi
fundo o suficiente para impedir a passagem a pé sob quaisquer cir­
cunstâncias. A passagem de Israel pelo mar, que antecedeu o afoga­
mento dos exércitos e carruagens egípcias, não pode ser explicada como
uma "travessia de um pântano". Foi preciso a poderosa ação de Deus,
uma ação tão expressiva em sua extensão e significado que, a partir
daquele m omento, na história de Israel, ela seria para sempre um
paradigma por meio do qual os atos salvíficos e redentores de Deus
seriam evocados. Se não existiu um milagre real nas proporções aqui
descritas, todas as demais referências ao êxodo como o arquétipo do
poder soberano e salvífico da graça de Deus tornam-se vazias e sem
significação real.23

A d a ta d o ê x o d o

Antes de narrarmos a viagem de Israel pelo deserto, é necessário exa­


minarmos uma questão crucial: a data do êxodo. A questão é fundamen­

21 Para um ponto de vista que sugere que yam süp significa "mar distante" ou "mar da
extinção", mesmo referindo-se ao mar Vermelho de uma forma mito-poética, veja Bernard
F. Batto, "The Reed Sea: Requiescat in Face" JBL 102 (1983): 27-35.
22 Tel Dafanneh pode ser o mesmo local conhecido por Tahpanhes (Jr 2.16; 43.7,8; 44.1).
Ver também Oxford Bible Atlas, editado por Herbert G. May, 2a edição (London: Oxford
University Press, 1974), p. 58. Porém, na terceira edição de 1984, já não se identifica Baal
Zefon como Tel Dafanneh.
22 Como um exemplo de uma aproximação que visa manter a integridade histórica do
acontecimento, ainda que negue os detalhes registrados na Bíblia, ver Brevard S. Childs,
"A Traditio-Historical Study of the Reed Sea Tradition", VT 20 (1970); 406-18.
60 H istória de I srael no A ntigo T estamento

tal não apenas porque o êxodo é em si um evento central histórico e


teológico, mas também porque nossa interpretação da história antece­
dente e subseqüente a este acontecimento será sensivelmente afetada pela
data fixada.

Evidência bíblica interna .

O ano de 1446 já foi proposto como a data do êxodo. Sobre esta base
cronológica desenvolvemos nossa discussão a respeito dos reis hicsos, do
Novo Império, e das narrativas de José. Visto que a integridade de nossa
posição depende exclusivamente de uma data mais anterior, em vez de
uma outra mais recente que tem sido defendida pela maioria dos estudio­
sos, torna-se então vital que apresentemos uma defesa contundente em
favor da data mais antiga.
Há duas datas bíblicas principais que tocam diretamente a questão do
êxodo. A primeira delas se encontra em 1 Reis 6.1, onde está escrito que o
êxodo precedeu a fundação do Templo de Salomão em 480 anos. Levando
em consideração por enquanto que Salomão deu início à construção do
templo em 966,24 podemos concluir que o êxodo aconteceu em 1446. Mas,
por uma série de razões, essa data é quase universalmente rejeitada em
favor de uma data mais recente, mais ou menos por volta do século XIII
(1260).25 Para conciliar o fato a uma data mais recente, a cifra 480 não deve
ser considerada literalmente, mas deve ser vista como uma forma misteri­
osa de descrever 12 gerações (sendo quarenta anos, como dizem, uma ge­
ração ideal). Entretanto, visto que uma geração na verdade está mais per­
to dos 25 anos, o período entre o êxodo e as obras iniciais do templo é
estimado em 300 (25 X 12) anos, o que sugere aproximadamente o ano
126626 para o êxodo. Se fosse possível comprovar que a antiga cronologia
israelita (ou qualquer outra) assim fazia os cálculos, e que 1 Reis 6.1 é um
exemplo da aplicação de tal método, o caso pareceria estar solucionado.27
Infelizmente não há provas. A inevitável conclusão é que uma redução de

24 Edwin R. Thiele, The Mysterious Numbers ofthe Hebrew Kings (Grand Rapids: Eerdmans,
1965), p. 28; ver também pp. 22,55. Nós aqui aceitamos como ponto de partida a reco­
nhecida e autorizada reconstrução da cronologia da monarquia dividida feita por Thiele.
25 John Bright, A History of Israel, 3a edição. (Philadelphia: Westminster, 1970), pp. 123-24.
26 Ibid., p. 123; John Gray, I & II Kings (Philadelphia: Westminster, 1970), pp. 159-60.
27 Kenneth A. Kitchen compara a cifra de 480 anos como um hábito dos escribas do Orien­
te Médio de chegar a determinados números, após extraí-los de números inteiros. Os
480 anos, então, seriam um total que na verdade deveria representar apenas cerca de
300 anos. Infelizmente, Kitchen não fornece evidências sólidas que provem que tais
O Ê xodo: N ascimento de uma N ação 61

480 para 300 anos, a fim de satisfazer algumas conclusões subjetivas, tor­
na-se um exemplo de apelação indigno de qualquer historiador ou estudi­
oso da Bíblia. Certamente o ônus da prova recairá sobre os críticos que
preferirem considerar os dados dos historiadores bíblicos de forma não
literal.
A segunda prova em defesa do ano 1446 aparece em uma mensagem
do juiz Jefté aos seus inimigos amonitas. Jefté afirmou não ter eles razão
para qualquer hostilidade contra Israel, uma vez que durante os 300 anos
após a vitória de Israel sobre Seom, os amonitas nunca haviam contestado
os direitos de Israel sobre a Transjordânia. Uma simples leitura desse lon­
go memorando (Jz 11.15-27) deixa claro que Jefté se referia ao período da
história de Israel pouco antes da conquista, que ocorreu cerca de 40 anos
após o êxodo. A vitória de Israel sobre os amonitas ocorreu por volta de
1100 a.C., uma data largamente reconhecida. Neste caso, Jefté se referia a
acontecimentos que haviam ocorrido perto de 1400 a.C.
Está claro que o número 300 não pode representar gerações ideais, com
resultados satisfatórios (i.e., 300 não é divisível por 40). Logo, os propo­
nentes de uma data mais recente para o êxodo são forçados a utilizar no­
vos métodos de cálculo. Tipicamente eles postulam a conquista em duas
etapas, afirmando que Jefté não se referia à conquista israelita como uma
confederação das 12 tribos, mas a uma anterior, uma ocupação "pré-êxodo"
da Transjordânia por uma tribo, ou tribos, que somente mais tarde asso­
ciou-se àquelas poucas tribos de Israel que possuíam a tradição do êxodo.28
A conquista da Transjordânia, segundo esta recriação da história do Anti­
go Testamento, precedeu a conquista de Canaã por mais ou menos um
século. Além disso, Jefté inequivocamente referia-se aos conquistadores
de Seom como os israelitas que tinham saído do Egito (Jz 11.13,16). Por­
tanto, a menos que se desconsidere a própria evidência interna, a data de
1446 para o êxodo permanece de pé.
Além dos dados cronológicos bastante específicos, o Antigo Testa­
mento fornece uma descrição suficiente do êxodo e seu período antece­
dente, confirmando uma data mais antiga para o evento. Já foi exposto
que a história de Moisés melhor se adapta às datas e circunstâncias da
18a Dinastia do Egito. Se aceitarmos a data mais recente para o êxodo, a
qual sempre está associada a Ramsés II, será preciso desconsiderar todo
o testemunho bíblico. Moisés não voltou ao Egito até que aquele faraó

costumes estavam em vigor em 1 Rs 6.1 (Ancient Orient and Old Testament [London:
Tyndale, 1966], pp. 74-75).
T.J. Meek, Hebreia Origins (New York: Harper and Row, 1960), pp. 30-31, 34-35
62 H istória de I srael no A ntigo T estamento

- que antes tentou tirar-lhe a vida - estivesse morto. O retorno de Moisés


da terra de Midiã foi postergado por aproximadamente 40 anos; logo,
o rei em questão deve ser alguém que reinou, no mínimo, por este perí­
odo de tempo. Na 19a Dinastia, somente Ramsés II - que reinou de 1304
a 1236 - satisfaz este requisito, porém ele não pode ser o faraó do êxodo,
porque este foi sucessor de um outro que havia tido um reinado de
longa duração.
A data mais recente exige que Merneptah (1236 - 1223) tenha sido o
rei durante a humilhação no êxodo. Porém, ainda que tal evento tives­
se ocorrido em seu primeiro ano como faraó, a jornada de 40 anos no
deserto dataria o início da conquista em 1196. Os juízes de Israel de­
vem então ser reunidos no período desde o início de sua administração
(cerca de 40 anos após do início da conquista - 1156) até a morte de
Sansão, o último juiz (com exceção de Samuel, que viveu também sob a
monarquia), por volta de 1084. Nenhuma manipulação das evidências
consegue espremer os longos anos do governo dos juízes em 70 ou 100
anos. Além disso, o próprio Merneptah liderou uma campanha em
Canaã no seu quinto ano (1231), durante a qual ele afirmou ter encon­
trado e vencido Israel.29 Obviamente é impossível que Israel, num es­
paço de apenas cinco anos, tivesse escapado do Egito, parado no mon­
te Sinai, peregrinado no deserto, conquistado Seom e Ogue, entrado
em Canaã e, finalmente, por lá ter se estabelecido. Os que advogam
uma data m ais recente precisam desconsiderar todo m étodo his-
toriográfico, e reinterpretar o único documento genuíno - o Antigo Tes­
tamento.30

As evidências a favor de uma data recente

Ausência de acampamentos sedentários na Transjordânia


Há três argumentos principais desenvolvidos para apoiar uma data
mais recente para o êxodo; dois destes são substanciais, e o terceiro é du­
vidoso até mesmo para os defensores de tal ponto de vista. Este será con­
siderado primeiro. Por muitos anos, o eminente arqueólogo e explorador

29 Para obter maiores informações sobre o texto da chamada "esteia de Israel", consulte
Pritchard Ancient Near Eastern Texts, pp. 376-78.
30Isso é exatamente o que os críticos estudiosos fazem. Para uma aproximação mais deta­
lhada desse caso, ver H.H.Rowley, From Joseph to Joshua (London: Oxford University
Press, 1950), esp. pp. 129-44.
0 Ê xodo: N ascimento de uma N ação 63

Xelson Glueck afirmava - baseado nos objetos de cerâmica encontrados


na superfície e nas encostas dos morros por toda a Transjordânia e pelo
Xegueve - que não havia quaisquer registros acerca de populações seden­
tárias que ali tenham residido entre os anos 1900 e 1300 a.C.31 Praticamen­
te todas as autoridades em Antigo Testamento aceitaram esta opinião e,
portanto, concluíram que as referências aos povos estabelecidos em Canaã
encontrados por Moisés e Josué precisariam de uma data após 1300 para a
jornada no deserto. Segue-se que o êxodo também não poderia ter ocorrido
muitos anos antes dessa data. Mais tarde, os sítios arqueológicos outrora
escavados por Glueck - que até então eram considerados como evidência
para uma data recente do êxodo - foram novamente pesquisados por ou­
tros cientistas, que concluíram exatamente o oposto, afirmando inclusive
que muitos dos achados remontavam à Era do Bronze Recente, ou eram até
mesmo mais antigos.32 Muitos locais relacionados às histórias de Moisés e
Josué vindicaram de forma convincente a data de 1400.

Os israelitas e a construção da cidade de Ramsés


Um segundo argumento para a data mais recente é visto no próprio tex­
to bíblico. Êxodo 1.11 assinala que os israelitas, quando submetidos à escra­
vidão, construíram algumas cidades para Faraó, incluindo Piton e Ramsés.
As cidades, à princípio, chamavam-se Pi-Atum e Per-Ramesse, e ambas não
foram construídas, mas reconstruídas pelos israelitas.33 A insistência na re­
levância desse versículo como um indicador da data do êxodo fundamenta-
se, exclusivamente, na pressuposição de que a cidade de Ramsés foi assim
chamada por causa de Ramsés II, o famoso rei dà 19a Dinastia. Pode-se con­
siderar que ele construiu ou reconstruiu a cidade usando seu nome (Per-
Ramesse), e que para isso tenha se valido da mão-de-obra escrava do povo
'apiru (embora isto não possa ser comprovado nos papiros freqüentemente
utilizados).34 Todavia, é inseguro tentar provar que a cidade de Êxodo 1.11

?1Nelson Glueck, "Explorations in Eastern Palestine and the Negev", BASOR 55 (1934): 3­
21; BASOR 86 (1942): 14-24.
John J. Bimson, Redating the Exodus and Conquest (Shefield: JSOT, 1978), pp.67-74; James
R. Kautz, "Tracking the Ancient Moabites", BA 44 (1981): 27-35; Gerald L. Mattingly,
"The Exodus-conquest and the Archaeology of Transjordan: New Light on an Old
Problem,", GTJ 4 (1983): 245-62.
Veja E.P. Uphill, "Pithom and Raamses: Their Location and Significance", JNES 27 (1968):
291-316; JNES 28 (1969): 15-39.
Para ver o texto (Leiden 348), consulte Moshe Greenberg, The Hab/piru (New Haven:
American Oriental Society, 1955), p. 56, numero 162.
64 H istória de I srael no A ntigo T estamento

é a mesma Per-Ramesse de Ramsés II, e que o povo 'apiru eram os israelitas.


William Albright demonstrou há muitos anos que os Ramessidas não têm
origem na 19a Dinastia, mas remontam ao período dos hicsos.35 Não pode­
ria ser verdade que os israelitas reconstruíram uma cidade chamada Ramsés
bem antes do reinado de Ramsés II?
Tem sido recentemente proposto por alguns estudiosos conservadores
que a passagem de Êxodo 1.11 é um anacronismo. Ou seja, os israelitas
reconstruíram na época uma cidade conhecida por Tanis e, anos mais tar­
de, um editor inspirado modificou o nome no texto para Ramsés, visto
que o nome original não mais era usado, tornando-se sem sentido para os
leitores. Embora seja uma distinta possibilidade (outros exemplos tam­
bém podem ser citados), parece-nos desnecessário, caso o nome Ramsés
possa ser associado (e pode) a um período na história egípcia que antece­
da ao êxodo.
Um outro fator que tem sido desprezado é o longo período entre a cons­
trução das cidades e o êxodo. A passagem diz que os israelitas eram força­
dos a trabalhar no projeto e que, quanto mais eram maltratados pelos egíp­
cios, mais se multiplicavam e enchiam a terra. E bem nítida a impressão de
uma geração sucedendo a outra. Além disso, após falhar em seu desígnio,
faraó promulgou o infanticídio, um evento que precisa ser datado na época
do nascimento de Moisés. Amenos que alguém descarte a informação bíbli­
ca referente à idade de Moisés na época do êxodo, outros 80 anos haviam se
passado antes deste acontecimento. Ora, se Ramsés II foi o faraó do êxodo e
a cidade de Ramsés foi batizada em sua homenagem, então seu reino in­
cluiu os anos da construção, os anos entre a construção das cidades e o de­
creto do infanticídio, e os primeiros 80 anos de Moisés. Um total que bem
pode ultrapassar 100 anos. Ainda que Moisés tivesse apenas 40 anos na
época do êxodo, um reinado de 60 anos para Ramsés seria inadequado. E
nenhuma tradição bíblica permite que Moisés tenha sido tão jovem naquele
momento. Logo, se o testemunho do Antigo Testamento possui alguma
credibilidade, a cidade de Ramsés, antes do êxodo, não foi batizada com

35 William F. Albright, From the Stone Age to Christianity (Garden City, N.Y.: Doubleday,
1957), pp. 223-24. Gleason L. Archer Jr. faz uma citação acerca de uma pintura numa
parede que data da época de Amenotepe III (1417-1379), na qual aparece o nome de um
famoso vizir conhecido por Ramose. Conforme Archer tem procurado indicar, isso signi­
fica que nomes como o de Rameses têm datas anteriores a 19a Dinastia e que, por conse­
guinte, o nome da cidade de Êxodo 1.11 não necessariamente precisa ser datada tão
recente quanto a época de Rameses II ("An eighteenth-Dynasty Rameses," JETS17 [1974]:
49-50). Mas Archer está errado ao dizer que a pintura jamais foi citada na literatura, já que
a mesma está registrada em Hayes, "Internai Affairs", em CAH 2.1, pp. 342,405.
0 Ê xodo: N ascimento de uma N ação 65

esse nome por causa de Ramsés II. (Sobre o nome Ramsés, Charles Ailing
tem outras informações.)36

Evidências da conquista ocorrida no século XIII


O terceiro e mais utilizado argumento em defesa da data mais recente é
a evidência arqueológica de uma devastação maciça de cidades e vilarejos
da parte central de Canaã durante esse período. Uma vez que essas evi­
dências são incontestáveis, e o único evento histórico em qualquer perío­
do que poderia ser responsável por isto seria a invasão dos israelitas,.con­
clui-se que a conquista de Canaã foi a causa de tais destruições, tendo o
êxodo ocorrido poucos anos antes.37
Entretanto, há alguns sérios problemas com esta interpretação dos
dados arqueológicos. Em primeiro lugar, não há qualquer evidência
extrabíblica encontrada nos sítios arqueológicos em Canaã, na metade
do século XIII, que indique a origem de tais invasões. As supostas evi­
dências de transição cultural são, até hoje, motivo de discussão, de for­
ma que não podem indicar quaisquer mudanças à influência dos israe­
litas no local.38 É preciso observar quç os únicos documentos existen­
tes que descrevem levantes e conflitos militares, mesmo que remota­
mente similares ao relato bíblico da conquista, são as cartas de Tel el-
Amarna. Estas foram escritas por uma testemunha ocular dos fatos;
descrevem os conflitos entre aá cidades cananéias e repetidamente
mencionam os 'apiru, que\tomam posições diferentes em momentos
diferentes.39 O momento histórico descrito nessas cartas endereçadas

* Para mais exemplos, ver Charles F. Ailing, "The Biblical City of R a m s é s JETS 25 (1982):
136-37. Contudo, o próprio Ailing demonstra que o nome Ramsés, ou uma de suas vari­
antes, já foi coiivpfovado e achado em épocas tão remotas quanto a 12aDinastia (p. 133).
Sendo assim,-, assumir que o nome da cidade descrita em Êxodo 1.11 deve conduzir a
Rárftsés II é totalmente sem fundamento, embora a cidade deva sem dúvida ter sido
assim chamada em homenagem a alguma personalidade dentre a realeza da época. Tentar
achar nessa referência qualquer anacronismo também forçará na mesma direção em
Gênesis 47.11, onde o texto mostra a fixação de Jacó e sua família na "terra de Ramsés"
como seu no'' lar. _ x er teori; i e conduza a uma d ± l dal s o deve ser tida
como fraca.
37 Esta é a visão tanto de estudiosos liberais quanto de conservadores. Maiores informa­
ções, ver Harry T. Frank, Bible, Archaeology, anã Faith (Nashville: Abingdon, 1971), p. 95;
Kitchen, Ancient Orient, pp. 61-69; Roland K. Harrison, Old Testament Times (Grand
Rapids: Eerdmans, 1970), pp. 175-76.
3' Kathleen Kenyon, Archaeology in the Holy Land (New York: Praeger, 1960), pp. 208-10.
3" Para consulta das principais cartas, ver Pritchard, Ancient Near Eastern Texts, pp. 483-90.
66 H istória de I srael no A ntigo Testamento

aos faraós Amenotepe III e Amenotepe IV (Akhenaten) está entre 1380


e 1358, precisamente a data tradicional da conquista! Embora não se
deva identificar automaticamente os "apiru" como os hebreus, alguns
estudiosos mais motivados e defensores da data recente para o êxodo
sugeriram que as cartas de Amarna refletem, na realidade, uma con­
quista anterior por algum as tribos de Israel, tais como Efraim e
Manassés, aproximadamente em 1375, e que as demais tribos conquis­
taram Canaã quase um século depois.40 Esta posição exige que Josué
preceda Moisés por 100 anos ou mais, uma visão que desconsidera toda
a evidência bíblica tradicional. Esta reconstrução falha ao produzir pro­
vas convincentes enquanto tenta acomodar os dados arqueológicos e
inscrições extrabíblicas ao registro bíblico.
Pode-se levantar a questão acerca do significado de camadas de entulho
arqueológico do século XIII (que revelam algum tipo de destruição), e da
falta desta evidência no início do século XIV.41 Vamos iniciar por esta últi­
ma. Primeiro, embora todos os estudiosos concordem que as cartas de
Amarna refletem as condições reais e tumultuosas de Canaã no início do
século XIV, reconhecem que as guerras civis e maus tratos provocados pelos
'apiru e outros povos quase não deixaram sinais de invasão ou conquista
perceptíveis à pesquisa arqueológica.42 Portanto, também não seria possí­

40 Meek, Hebrew Origins, pp. 23-25. Meek estabelece a data do êxodo e da conquista de
Canaã bem próximo de 1200 a.C.
41 Para uma discussão mais abrangente, ver Eugene H. Merril, "Palestinian Archaeology
and the Date of the Conquest: Do Tells Tell Tales?" GTJ 3 (1982): 107-21.
42 Kenyon, Archaeology, pp. 209-12; George E. Mendenhall, "The Hebrew Conquest of
Palestine", BA 25 (1962): 72-73. Shemuel Ahituv cita alguns casos de destruição causa­
das pelos egípcios, mas não apresenta nenhum exemplo oriundo do interior de Canaã
que possa ser datado depois de Tutmose III (1504-1450) e antes de Seti I (1318-1304).
Além disso, nenhuma cidade ou vilarejo conquistado por Josué foi citado por Ahituv
como tendo sido conseqüência de conflitos internos com os 'apiru ou devido a qualquer
campanha egípcia na região. Sendo assim, as regiões montanhosas de Canaã permane­
ceram virtualmente ilesas durante o período de Amarna, o mesmo período da conquis­
ta descrita na Bíblia. ("Economic Factors in the Egyptian Conquest of Canaan", IEJ 28
[1978]: 93-96,104-5). Thutmose IV, que foi o faraó que reinou durante os anos da pere­
grinação no deserto (1425-1417), fez apenas uma campanha em Canaã, na qual conquis­
tou Gezer. Nem mesmo Amenotepe III (1417-1379) ou Amenotepe IV (1379-1362) - os
governantes que reinaram durante os anos da conquista - se lançaram em qualquer
ataque a Canaã. Ver James M. Weinstein, "The Egyptian Empire in Palestine: A
Reassessment," BASOR 241 (1981): 13-16. Michael W. Several vai muito mais além, de­
monstrando que o período de Amarna foi caracterizado como uma era de paz jamais
vista antes ou depois, uma condição que ele associa diretamente ao sólido controle egípcio
O Ê xodo : N ascimento de uma N ação 67

vel que a conquista israelita não deixasse vestígios arqueológicos? Em se­


gundo lugar, e ainda mais importante, não existe evidência arqueológica da
conquista no início do século XIV, especialmente porque as cidades e vilarejos '
cananeus, com poucas exceções, foram poupados da destruição material,
como uma questão política iniciada por Moisés e implementada por Josué.
Em outras palavras, sinais de uma grande devastação no período de 1400
a 1375 tornam-se um grande problema para a visão tradicional, já que o
testemunho bíblico indica claramente que a Israel foi ordenado aniquilar a
população cananéia, mas poupar as cidades e vilarejos nos quais eles vivi­
am. E o registro bíblico afirma que o mandato foi fielmente observado. As
grandes exceções foram Jerico, Ai e Hazor. A cidade de Jerico tem sofrido
tanto a degeneração causada pelo tempo e as escavações feitas sem a dire­
ção científica apropriada, que os especialistas estão completamente dividi­
dos em relação à cronologia, um fato que leva muitos a desconsiderarem o
local como importante para a pesquisa em geral.43
A localização de Ai ainda está em debate e, enquanto não for definida, a
data de sua destruição continuará sendo um ponto questionável.44 Quanto
a Hazor, Ygael Yadin, escavador e principal autoridade no local, sugeriu a
princípio que ela sofrera um terrível incêndio por volta de 1400 - uma cala­
midade por ele associada à conquista porém, mais tarde, ele modificou a
data para o século XIII.45 Sem considerar o que o levou a reavaliar sua teo­
ria, muitos estudiosos ainda estão convencidos de que sua data original
deve ser aceita.46
A razão da falta de comprovação arqueológica para as conquistas
do século XIV é que não há nada para se confirmar, por assim dizer.
Moisés disse que o Senhor daria a Israel cidades que eles não haviam
construído, casas cheias de bens que eles não haviam ajuntado, cister­
nas que eles não haviam cavado, e vinhas e olivais que eles não haviam
plantado (Dt 6.10,11). E Josué, após a conquista, pôde confirmar o cum-

sobre a região ("Reconsidering the Egyptian empire in Palestine During the Amarna
Period," PEQ 104 [1972]: 128-129). As Cartas de Amarna falam de várias coisas, menos
de paz.
43Roger Moorey, Excavation in Palestine (Grand Rapids: Eerdmans, 1983), pp. 116-17.
44 Bimson, Redating, pp. 215-25.
45 Yigael Yadin, "The Raise and Fali of Hazor", em Archaeological Discoveries in the Holy
Land, Archaeological Institute of America (New York: Crowell, 1967), pp. 62-63;
"Excavations at Hazor, 1955-1958", em The Biblical Archaeologist Reader, editado por
Edward F. Campbell, Jr., e David Noel Freedman (Garden City, N.Y.: Doubleday, 1964),
vol. 2, p. 224; "The Fifth Season of Excavations at Hazor, 1968-69," BA 32 (1969): 55.
46 Bimson, Redating, p. 194.
68 H istória de I srael no A ntigo T estamento

primento destas promessas (Js 24.13). Logo, as hipóteses de muitas au­


toridades que defendem uma conquista violenta da terra simplesmen­
te desaparecem diante da tradição bíblica. O silêncio da arqueologia
com respeito à conquista do século XIV é, em si mesmo, um poderoso
apoio a tal data.
O que podemos fazer então com as evidências óbvias de uma destrui­
ção das cidades cananéias no século XIII? Em primeiro lugar, é impor­
tante notar que se a conquista israelita ocorreu no início do século XIV,
então essas cidades eram de Israel havia muito tempo, e não dos cananeus.
Atualmente, não há como fazer distinção entre os fenômenos culturais
Idade do Bronze Recente Cananita e Idade do Bronze Recente Israelita.
Em segundo lugar, deve ter havido outros fatores, além de Israel, que
também agiram e contribuíram para a destruição. O livro de Juízes es­
clarece que Israel foi constantemente ameaçado e atacado por povos ini­
migos que estavam dentro e fora de Canaã.
Nenhum momento da história foi tão devastador para Israel como o
século XIII, ou seja, precisamente o tempo em que os defensores da data
mais recente para o êxodo estabelecem a conquista. A cronologia tradici­
onal localiza o governo de Débora durante este período, e o de Gideão
um pouco depois. Embora não seja descrita a extensão dos prejuízos cau­
sados pelos inimigos (os cananeus e os midianitas), o fato de que Jabim
de Hazor "oprimia os filhos de Israel violentamente" por vinte anos (Jz
4.3), e que muitas das tribos foram unificadas sob o governo de Débora e
Baraque na intenção de barrar a força dos adversários (Jz 5.12-18), suge­
re uma vasta operação militar que pode ter infligido graves danos mate­
riais às cidades de Israel.47 A opressão midianita parece não ter afetado
Israel com a mesma intensidade, consistindo principalmente em destrui­
ção de plantações, mas com muita dificuldade a guerra pôde ser evitada
durante o período de opressão midianita. Além disso, o conflito que se­
guiu a expulsão dos midianitas por Gideão envolveu destruição materi­
al: O filho de Gideão, Abimeleque, que se autoproclamou rei, reduziu a
cidade de Siquém a escombros (Jz 9.45) antes de ser assassinado em um
cerco malsucedido em Tebez.48
Não há nada que determine o agente da destruição nos sítios urbanos da
Palestina do século XIII, exceto o que está registrado no Antigo Testamento.
Somente este registro possui completa precisão. Uma construção cuidadosa

47 Bright, History, p. 176; Kenyon, Archaeology, p. 238.


48 Edward E Campbell, Jr., and James E Ross, "The Excavation of Shechem and the Biblical
Tradition," BA 26 (1963): 16-17.
O Ê xodo : N ascimento de uma N ação 69

da cronologia baseada em uma hermenêutica não distorcida requer uma


outra explicação para tais destruições que não seja a conquista. A melhor .
alternativa seria a opressão de Israel causada pelos cananeus e midianitas, e
o restabelecimento da paz mediante a ação heróica dos juízes.
Torna-se claro que os argumentos comumente produzidos em favor de
uma data mais recente para o êxodo e para a conquista de Canaã não são
convincentes e, de fato, pelejam contra qualquer análise objetiva do relato
bíblico. O Antigo Testamento sustenta a data de 1446 a.C. Qualquer nega­
ção desse fato é simplesmente um apelo sem evidência sólida.

A d a ta e a d u ra ç ã o d o c a tiv e iro e g íp cio

O problema

O estabelecimento de 1446 como a data do êxodo permite a reconstru­


ção das cronologias mais antigas. Consideraremos primeiro a duração do
cativeiro no Egito e, em seguida, as principais datas da história patriarcal.
Conforme sugerimos no Capítulo 1, a duração da peregrinação no Egito
possui ramificações cruciais para um melhor entendimento das narrati­
vas patriarcais e de José. Uma peregrinação de 215 anos, por exemplo,
situa José no contexto hicso, ao passo que uma duração de 430 anos apre­
senta José vivendo em uma típica dinastia egípcia. As implicações são sig­
nificativas. Semelhantemente, uma peregrinação de 215 anos posiciona
Abraão e seus sucessores imediatos 215 anos mais tarde do que a data
tradicional, requerendo assim uma reconsideração dos eventos contem­
porâneos, por exemplo, a destruição das cidades da planície.

A revelação dada a Abraão

O ponto de partida de nossa discussão centra-se na revelação dada por


Jeová a Abraão de que seus descendentes seriam peregrinos em uma terra
estranha por quatrocentos anos, e que nesse período sofreriam grande afli­
ção (Gn 15.13). Porém, na quarta geração, eles seriam libertados desse jugo
pelo Senhor e seriam reintroduzidos em Canaã (Gn 15.16). A justaposição
de "quatrocentos anos" e "quatro gerações" sugere firmemente que gera­
ção aqui deve ser entendida como um século.49 Uma grande dificuldade

4° William E Albright defende a idéia de que a palavra hebraica dôr ("geração") significa
"duração da vida" no hebraico primitivo, de sorte que a passagem de Gn 15.16 está se
referindo a quatro "durações da vida", de cem anos cada (The Biblical Periodfrom Abraham
70 H istória de Israel no A ntigo T estamento

surge quando quase toda a peregrinação é caracterizada como um perío­


do de agonia, enquanto somente a última parte - após o surgimento do
novo rei "que não conhecera a José" - foi de fato aflitiva.50 Sem dúvida,
para as gerações subseqüentes de israelitas que refletiram sobre aqueles
dias, essa peregrinação não poderia ser lembrada como um momento de
crescimento, mas como dias de opressão e escravidão. O êxodo de fato foi
visto como um escape de grande tormento.

Evidências a favor de um longo cativeiro no Egito

Em defesa de uma longa permanência no Egito temos a declaração


explícita de Moisés: "O tempo que os filhos de Israel habitaram no Egi­
to foi de quatrocentos e trinta anos. E aconteceu que, passados os qua­
trocentos e trinta anos, naquele mesmo dia, todos os exércitos do Se­
nhor saíram da terra do Egito" (Êx 12.40,41). Isto situa a descida de
Jacó e seus filhos ao Egito em 1876 (o êxodo em 1446 + 430 anos de
peregrinação), uma data que estaria bem fundamentada no registro
bíblico. Um problema parece surgir, entretanto, no relato da Septuaginta
de Êxodo 12.40,41 e nas palavras de Paulo sobre esta passagem em
Gálatas 3.17. A Septuaginta informa que a duração de tempo em que os
israelitas viveram "no Egito e Canaã" foi de 430 anos; Paulo parece
apoiar esta afirmação quando diz que a Lei de Moisés foi entregue 430
anos após a promessa feita a Abraão a respeito de sua descendência.
De fato é verdade que o período desde a chamada de Abraão para dei­
xar Arã até a descida de Jacó ao Egito é de 215 anos. Assim sobrariam
apenas 215 anos para a peregrinação, se Paulo (e a Septuaginta) pre­
tendia dizer que os 430 anos referiam-se a todo o período desde a cha­
mada de Abraão até o Êxodo.
Todavia, é difícil sustentar a cronologia da Septuaginta. Além da cla­
ra afirmativa de uma peregrinação de 430 anos, há obviamente o contex­
to histórico egípcio (melhor do que o contexto hicso) nas histórias de

to Ezra [ New York: Harper, 1963], p. 9). O acadiano cognato é dãru e também significa
"duração da vida". Maiores informações em Harold Hoehner, "The Duration of the
Egyptian Bondage," Bib Sac 126 (1969): 306-16.
50 Aí está a razão de Leon J. Wood afirmar que o "novo rei, que não conhecia a José" sem
dúvida era um hicso, e não um governador egípcio. A subida dos hicsos ao poder por
volta de 1720 deixaria um período de aproximadamente 280 anos de opressão até o
momento do êxodo, em 1446 (A Survey of Israel's History [Grand Rapids: Zondervan,
1970], p. 37). Contudo, duzentos e oitenta anos não é o mesmo que quatrocentos anos.
Logo, o problema dos quatrocentos anos não está ainda solucionado.
0 Ê xodo: N ascimento de uma N ação 71

José (pp. 41-46). Além disso, a referência de Paulo ao período entre a


promessa abraâmica e o pacto com Moisés não aponta necessariamente
para a primeira vez em que a promessa foi feita. Esta foi afirmada e rea­
firmada por várias vezes a Abraão, Isaque e Jacó, sendo a última ocasião
precisamente na véspera da partida de Jacó para o Egito (Gn 46.3,4). Paulo
poderia estar se referindo não exatamente a Abraão, mas ao Pacto
Abraâmico, que foi feito pela última vez com Jacó, precisamente 430 anos
antes do êxodo.

Evidências a favor de uma curta peregrinação no Egito

A teoria de uma peregrinação de apenas 215 anos tem atraído muitos


estudiosos porque acomoda mais facilmente as "quatro gerações" descri­
tas em Gênesis 15.16 e as quatro gerações de Levi até Moisés (Ex 6.16-20).
E possível entender como a distância entre Levi e Moisés poderia ser de
215 anos, mas como apenas quatro gerações preencheriam 430 anos?51 O
significado da expressão "quarta geração" em Gênesis 15.16 já foi discuti­
do anteriormente - geração é sinônimo de século. A resposta para a
genealogia torna-se um pouco mais complexa.
Levi tinha aproximadamente 44 anos de idade quando desceu ao Egito
com seu pai Jacó.52 Êxodo 6.16 registra que ele tinha 137 anos quando
morreu; portanto, Levi viveu no Egito por aproximadamente 93 anos. Seu
filho Coate viveu toda sua vida (ou quase toda) no Egito e morreu aos 133
anos. Anrão, que passou todos os seus dias no Egito, morreu aos 137 anos.
Moisés, seu filho, deixou o Egito na idade de 80 anos. O tempo total destes
quatro anos no Egito (incluindo os anos de Moisés em Midiã) resulta em
433 anos, o que não excede muito a 430. As quatro gerações - Levi, Coate,
Anrão e Moisés - representam assim um total artificial de aproximada­
mente 430 anos. Dizemos artificial porque a sobreposição de gerações não
foi levada em conta. Este método de cálculo é bem diferente do estabeleci­
do pelas modernas noções de cronologia, mas não se pode negar que o
seu uso possa ser utilizado para propósitos literários.53

Rowley, From Joseph to Joshua, pp. 70-73.


- Ver Eugene H. Merrill, "Fixed Dates in Patriarchal Chronology," Bib Sac 137 (1980): 244.
B Um exemplo bem conhecido dè uma cronologia que aparenta ser diacrônica, mas que
na realidade é sincrônica, é aquela vista na Lista dos Reis Sumerianos. As dinastias ali
contidas parecem estar em ordem sucessiva, mas os registros mais recentes mostram
que estavam freqüentemente em paralelo. Ver Thorkild Jacobsen, The Sumerian King
List, Assyriological Studies 11 (Chicago: University of Chicago Press, 1939), pp. 161-64.
O mesmo método parece estar envolvido na cronologia dos juízes (ver pp. 150-51). Tal-
72 H istória de I srael no A ntigo T estamento

Além disso, Kenneth Kitchen sugeriu que a estrutura de Êxodo 6.16­


20 não reflete gerações imediatamente sucessivas, mas tribo (Levi), clã
(Coate), família (Anrão) e indivíduo (Moisés).54 Uma estrutura parale­
la é vista em Josué 7.16-18, onde tribo (Judá), clã (Zerá), família (Zimri)
e indivíduo (Acã) aparecem. Este Acã, embora membro da família de
Zimri, é especificamente identificado como filho de Carmi. Moisés,
portanto, pode não ter sido filho direto de Anrão, como aparece suge­
rido em Êxodo 6.20.
Como apoio à idéia de que a genealogia de Êxodo 6.16-20 é seletiva -
sendo a peregrinação, portanto, de longa duração - existem algumas con­
siderações. Bezalel, um dos artífices que supervisionaram a construção do
tabernáculo (Êx 31.2-5), era contemporâneo de Moisés e também a sétima
geração desde Jacó (1 Cr 2.1,4,5,9, 18-20), enquanto Moisés era apenas a
quarta. Elisama, o líder da tribo de Efraim na ocasião da jornada de Israel
pelo Sinai (Nm 1.10), era a nona geração desde Jacó (1 Cr 7.22-26). E ainda
mais notável: Josué, assistente de Moisés, era a décima primeira geração
desde Jacó (1 Cr 7.27).
Embora essas onze gerações possam ser enquadradas perfeitamen­
te nos limites necessários para uma peregrinação de 215 anos, o fato é
que não se pode usar as quatro gerações da genealogia de Levi a Moisés
como um argumento para uma curta peregrinação, uma vez que é pra­
ticamente certo que a genealogia de Levi a Moisés seja representativa,
e não completa.
Uma última objeção à teoria de um curto período no Egito está baseada
na dificuldade de se entender como as setenta (ou setenta e cinco) pessoas
da família de Jacó, na ocasião da descida ao Egito, multiplicaram-se em
apenas 215 anos para seiscentos mil homens, sem contar as mulheres e as
crianças (Êx 12.37). Mesmo os 430 anos se mostram curtos em circunstân­
cias naturais. O registro bíblico, no entanto, declara que o notável cresci­
mento ocorreu como resultado da bênção e providência de Deus. Pode-se
demonstrar matematicamente como, após dez ou doze gerações, 430 anos
seriam suficientes para todo esse crescimento da população, mas 215 anos
é algo realmente difícil de aceitar.55

vez então as quatro gerações de Levi a Moisés foram selecionadas porque o total de
anos nelas envolvido aproximava-se de 430 anos.
54 Kitchen, Ancient Orient, pp. 54.5.
55 Quanto a uma evidência matemática, ver Cari R Keil e Franz Delitzsch, Biblical
Commentary on the Old Testament, vol. 2, The Pentateuch (Grand Rapids: Eerdmans, 1951),
pp. 28-29.
0 E xodo: N ascimento de uma N ação 73

Concluímos que a idéia de uma peregrinação mais longa deve ser pre­
ferida, pois melhor acomoda os requisitos da cronologia bíblica, e ajusta-
se à história egípcia de uma maneira bem mais satisfatória.

C ro n o lo g ia d o s p a tria rc a s

O estabelecimento das datas para o êxodo e para a permanência no


Egito torna possível precisar as datas do período patriarcal.
E essas datas somente serão admissíveis se o estudante estiver disposto
a aceitar a facticidade da informação contida em Gênesis. Caso alguém ar­
gumente, baseado em qualquer informação, que a longa vida dos patriarcas
é impossível ou que as narrativas registram acontecimentos não históricos,
episódios legendários, tal pessoa não poderá dizer nada significativo a res­
peito de cronologia ou história. Rejeitar os únicos dados disponíveis signifi­
ca desprezar qualquer chance de reconstruir a história primitiva dos hebreus.
De acordo com Gênesis 47.9 Jacó estava com 130 anos quando pela pri­
meira vez chegou ao Egito e apresentou-se perante o rei. A data deste acon­
tecimento, como já demonstrado, foi em 1876. Logo, Jacó nasceu em 2006.
Seu pai Isaque tinha 60 anos na ocasião, uma indicação de que seu nasci­
mento ocorrera em 2066 (Gn 25.26). Abraão, é claro, gerou Isaque quando
tinha 100 anos (Gn 21.5); portanto, ele nasceu em 2166. Embora haja defe­
sa para estes números, aumenta a aceitação de que as histórias dos patri­
arcas acomodam-se melhor no princípio da Idade Média do Bronze do
antigo oriente. É impossível fazer com que todos aceitem os patriarcas
como pessoas de carne e sangue, mas tem-se tornado cada vez mais difícil
permanecer cético diante da profunda compatibilidade entre o relato de
Gênesis e as descobertas sobre as épocas e os locais em que a Bíblia situa
os patriarcas.

A jo rn a d a n o d e se rto

Do mar de Juncos até o Sinai

Com este amplo quadro histórico em vista, examinemos os passos de


Moisés e Israel desde a partida do Egito. Após terem atravessado o mar de
Juncos, quase em uma disposição militar (Êx 12.51), os hebreus viajaram
por três dias através do deserto de Sur e chegaram a Mara, onde as águas
amargas foram feitas doces. De lá caminharam até Elim e entraram no
deserto de Sin - mais ou menos quarenta e cinco dias após terem deixado
o Egito (Êx 16.1) - onde pela primeira vez foram supridos com o maná.
74 H istória de I srael no A ntigo T estamento

Movendo-se em direção a Refidim,56 foram atacados pelos amalequi-


tas (Êx 17.8-16). Estes eram uma tribo de nômades guerreiros cuja ori­
gem não pode ser identificada, embora Amaleque, nascido de Timna,
concubina de Elifaz (filho de Esaú), possa ser o pai dessa tribo (Gn
36.12,16). Se assim o for, o ataque a Israel é ainda mais repreensível, uma
vez que envolvia irmão contra irmão. Não é de estranhar que Amaleque
tenha sido incluído no herem de Deus (Êx 17.14).57 Israel os encontrou
novamente quando estava para penetrar em Canaã pelo sul (Nm 14.39­
45). Mais tarde, os mesmos amalequitas uniram-se aos moabitas (Jz 3.13)
e midianitas (Jz 6.3) nas campanhas militares contra Israel no período
dos juízes. Saul falhou em aniquilá-los como lhe havia sido ordenado (1
Sm 15.1-9), mas Davi atacou e destruiu muitos deles em suas expedições
através do deserto (1 Sm 27.8; 30). Finalmente desapareceram, e a última
referência bíblica a seu respeito provém dos tempos de Ezequias (cerca
de 700 a.C.; 1 Cr 4.41-43).
Sob o comando de Josué, o povo de Israel derrotou os amalequitas e
por fim chegou à montanha sagrada do deserto do Sinai, no terceiro mês
após o êxodo (Êx 19.1). Embora os tradicionais situem essa montanha na
parte sudeste da península do Sinai, estudiosos mais modernos têm su­
gerido uma localização ao nordeste ou mais situada ao centro da penín­
sula. Visto que a maioria (se não todos) dos locais que fizeram parte
daquele itinerário já não mais pode ser identificada, é praticamente im­
possível assegurar alguma informação. Mas isto é de menor importân­
cia. O principal é que neste local Israel encontrou-se com Jeová, e lá am­
bos fizeram um pacto.58

56 Os nomes desses cinco primeiros locais - Shur, Marah, Elim, Sin e Refidim - são exclu­
sivamente mencionados no Antigo Testamento, não havendo como associá-los aos mo­
dernos sítios arqueológicos. Sur era um deserto que se estendia por todo o ocidente
central do Negueve (Gn 16.7; 20.1;25.18; ISm 15.7; 27.8). Mara é mencionada apenas nos
acontecimentos ocorridos no itinerário do deserto (Êx 15.23; Nm 33.8,9), da mesma for­
ma que Elim (Êx 15.27; 16.1; Nm 33.9,10). Sin é o deserto que fica situado entre Elim e
Refidim (Êx 16.1; 17.1; Nm 33.11,12). Refidim situa-se entre Alush (Nm 33.14) e o monte
Sinai (Êx 17.1,8; 19.2). Para as possíveis localizações desses sítios, ver o mapa da p. 53.
57 O termo hebraico herem refere-se ao ato de consagrar alguém ou alguma coisa para o
serviço exclusivo de Deus. Pode ser que (conforme nesse ocorrido) haja a possibilidade
do objeto consagrado vir a ser aniquilado. Ver Leon J. Wood, herem, em R. Laird Elarris,
Gleason L. Archer, Jr., e Bruce K. Waltke, editores de Theological Wordbook of the Olá
Testament (Chicago: Moody, 1980) vol. 1, pp. 324-25.
58 Para um apanhado sobre os vários pontos de vista, ver Siegfried Elermann, A History of
Israel in Olá Testament Times, traduzido por John Bowden (Philadelphia: Fortress, 1975),
pp. 71-73.
5 n '.odo: N ascimento de uma N ação 75

A aliança do Sinai

Não serão tratadas aqui as questões teológicas que envolvem o cha­


mado pacto mosaico ou sinaítico. Basta mencionar que através desta ali­
ança o Senhor Jeová confirmou a redenção que efetuara - livrou os
hebreus da suserania egípcia, tornando-os seus próprios servos, "...um
reino sacerdotal e o povo santo" (Êx 19.6). O papel deste povo a partir
daquele instante seria mediar ou interceder como sacerdote entre o Deus
santo e as nações rebeldes do mundo, tendo em vista não somente pro­
clamar a salvação, mas também providenciar o canal humano através do
qual esta seria efetuada.59
Pode-se afirmar historicamente que as doze tribos de Israel estavam
presentes no Sinai para participar da aliança com Jeová. Esta afirmação é
rejeitada por Martin Noth e outros estudiosos, que afirmam ter sido a tra­
dição sinaítica originalmente propriedade de uma ou duas tribos, que en­
tão compartilharam seu entendimento acerca do passado com as demais
tribos, até que a herança de cada uma tornou-se a herança de todas.60 Nota-
se claramente que uma das intenções da narrativa do êxodo e da aliança é
provar que todo o Israel tomou parte no êxodo e encontrou-se com Jeová
no Sinai. Somente uma avaliação céptica do texto fundada em hipóteses
críticas improváveis pode afirmar algo que não seja a participação das
doze tribos de Israel nesse momento crucial e sagrado de sua história.
Um outro fato importante é que a forma literária em que a aliança do
Sinai aparece (Êx 20-23) é profundamente semelhante aos tratados de
suserania e vassalagem do antigo Oriente Médio, especialmente os hititas,
que foram feitos no mesmo período.61 A semelhança torna-se ainda maior
no livro de Deuteronômio, que efetivamente é uma aliança extensa e apro­
priada à geração de israelitas que estava para entrar em Canaã.62 De acor­
do com George Mendenhall, Meredith Kline, Kenneth Kitchen e outros
estudiosos, Êxodo 20-23 e Deuteronômio seguem a mesma estrutura e

Walther Eichrodt, Theology ofthe Old Testament (Philadelphia: Westminster, 1961), vol. 1,
pp. 36-45,481-85.
' Martin Noth, History of Pentateuchal Traditions, traduzido por Bernhard W. Anderson
(Englewood Cliffs, N.J.: Prentice-Hall, 1972).
George E. Mendenhall, "Covenant Forms in Israelit Tradition", em Biblical Archaeology
Reader, editado por Edward F. Campbell, Jr., e David Nowl Freedman (Garden City,
X.Y.: Doubleday, 1970), vol. 3, pp. 38-42; Klaus Baltzer, The Covenant Tormulary in OJd
Testament, Jewish, and Early Christian Writings (Philadelphia: Fortress, 1970).
J.A. Thompson, Deuteronomy: An Introduction and Commentary (Leicester: Inter-Varsity,
1974), pp. 14-21.
76 H istória de I srael no A ntigo T estamento

contêm os elementos essenciais dos clássicos tratados entre suserano e


vassalo, que foram descobertos em grande abundância nos arquivos dos
hititas em Boghazkeui, Turquia (antiga Hatusas). Visto que a maior parte
desses textos existe desde a Idade do Bronze Recente, conclui-se que os
textos bíblicos semelhantes são deste período, ou seja, o período que tem
sido tradicionalmente relacionado à época de Moisés. Porém, na intenção
de defender uma data bem mais recente para o livro de Deuteronômio,
muitos estudiosos preferem associar sua forma e conteúdo aos documen­
tos neo-assírios do sétimo século.63
Mas uma minuciosa comparação entre esses tratados e os textos bíblicos
revela problemas insuperáveis de interpretação. Por exemplo, as fórmulas
de bênçãos fazem parte integral tanto da literatura do Bronze Recente quanto
dos textos bíblicos, embora sejam completamente estranhos aos documen­
tos assírios.64 Pela lógica, fica claro que Moisés adotou a forma e o estilo de
tratados que já eram bem conhecidos no décimo quinto e décimo quarto
séculos, compondo os textos bíblicos baseado nesses modelos.65
O motivo de Moisés ter adotado esta forma é perfeitamente compreen­
sível. Ele poderia com certeza ter criado um novo estilo literário, com seus
próprios elementos peculiares; mas, visto que sua intenção era ser mais
instrutivo do que criativo, ele utilizou um veículo com o qual o povo já
estava bastante familiarizado. Em outras palavras, como um bom profes­
sor Moisés estava ciente do princípio pedagógico segundo o qual o aluno
aprende melhor quando o ensinamento parte do conhecido para o desco­
nhecido. Moisés se utilizou desta forma de comunicação a fim de que a
aliança entre Jeová e Israel pudesse ser revestida na forma dos tratados
internacionais, intentando preservar as verdades teológicas profundas que
a ela estão associadas.

Do Sinai até Cades-Barnéia

Desde a entrega da Lei - seguindo-se as cerimônias de confirmação, a


instituição do sacerdócio e outros elementos essenciais - até a recém-for-

63 Moshe Weinfeld, Deuteronomy and the Deuteronomic School (Oxford: Clarendon, 1972),
pp. 59-157; R. Frankena, "The Vassal Treaties of Esarhaddon and the Dating of
Deuteronomy,", OTS 14 (1965): 122-54.
64 Moshe Weinfeld, "The Loyalty Oath in the Ancient Near East," ( if 8 (1976): 397.
65 Kenneth A. Kitchen, "Ancient Orient, 'Deuteronism,' and the Old Testament," em
New Perspectives on the Old Testament, editado por J. Barton Payne (Waco: Word, 1970),
pp. 1-24.
O Ê xodo : N ascimento de uma N ação 77

mada comunidade teocrática, passaram-se praticamente nove meses (Êx


19.1; 40.17). Por volta do primeiro mês no ano seguinte após o êxodo (aprox.
1445) foi construído o Tabernáculo e, exatamente um mês depois, inicia­
ram-se os preparativos para que as tribos partissem do Sinai em direção a
Canaã (Nm 1.1). A viagem teve início precisamente no vigésimo dia do
segundo mês do segundo ano (Nm 10.11,12), o que significa que Israel
esteve acampado no Sinai por quase um ano inteiro. É impossível saber
acerca do cotidiano desse período, exceto que o povo era nômade e pasto­
ril. Existem oásis e terras de pastagem a sudeste do Sinai, mas estes não
poderiam prover água e alimentação para um contingente de homens e
animais tão grande.
O relato bíblico sugere que todo o processo - desde a saída do Egito até
Canaã - foi uma série de atos miraculosos de Deus por meio dos quais Ele
redimiu, libertou e sustentou o seu povo. Leitores modernistas podem ler
o texto da maneira que acharem melhor. Podem, inclusive, rejeitar catego­
ricamente o registro bíblico afirmando que as palavras não passam de um
embelezamento exagerado produzidas por trovadores que glorificavam
indevidamente seu modesto passado; ou podem aceitá-lo como uma reci­
tação de uma sóbria historiografia, não obstante a inabilidade de compre­
ender seus diversos mistérios. Tais julgamentos situam-se no campo da fé
religiosa, e não nos estudos científicos das hipóteses históricas.
Finalmente, Israel moveu-se em direção norte, ainda que com muita
dificuldade. A maioria dos locais mencionados no itinerário de Números
e Deuteronômio não mais pode ser localizada, de forma que o caminho
exato não pode ser definido.66 O primeiro acampamento foi em Tabera
(Quibrote-Hataavá - Nm 11.3,34), um local que distava três dias de via­
gem do monte Sinai (Nm 10.33), mas também não pode ser identificado.
Do mesmo modo, Hazerote (Nm 11.35) é desconhecida hoje; mas o princi­
pal acampamento dos israelitas durante os quarenta anos - Cades-Barnéia
- certamente é identificado como Tel el-Quddrat, localizado no deserto de
Zim, aproximadamente oitenta quilômetros a sudoeste de Berseba (Nm
20.1).67 De Cades os doze espias penetraram em Canaã, viajando pelo nor-

- Não será por isso que devemos considerar o relato coaio não-histórico, conforme muitos
têm pensado, tais como G.I. Davies, que identifica os tinerários de Deuteronômio como
um embelezamento dos instantes de mudanças nas aitigas fontes narrativas e em P (a
suposta fonte sacerdotal da legislação contida no Pentateuco), fazendo-as oarecer como
verdadeiras, o que serviria apenas para trazer esperança à comunidade do exílio ("The
Wilderness Itineraries and the Composition of the Pentateuch", VT 33 [1983]: 12-13).
Para uma visão que identifica o sítio tão antigo quanio a Era do Bronze Médio I, ver
H istoric de I srael no A ntigo T estamento

te até Reobe, provavelmente a mesma Bete-Reobe que fica a oeste de Dã e


a quarenta quilômetros ao norte do mar da Galiléia. Caso a "entrada de
Hamate" (Nm 13.21) seja entendida como Lebo-Hamate (a moderna
Lebweh), o reconhecimento feito pelos doze pode tê-los levado tanto para
o norte que chegaram mesmo a alcançar a nascente do rio Orontes, 160
quilômetros ao norte do mar da Galiléia.68
No decorrer da viagem, os espias também visitaram a cidade de
Hebrom, habitada naqueles dias pelos enaquins (uma raça de gigantes), e
colheram enormes cachos de uvas em Escol ("cacho"), assim chamada em
conseqüência do evento. Naqueles dias Hebrom já existia por aproxima­
damente trezentos anos (Nm 13.22; ver pp. 24,25), embora tenha sido an­
tes conhecida pelos patriarcas com o nome de Manre ou Quiriate-Arba
(Gn 13.18; 23.2; Js 14.15).
Quando retornaram a Cades-Barnéia, a maioria dos espias disse ao povo
que Canaã era habitada por gigantes que viviam em cidades com mura­
lhas intransponíveis. Apesar de Josué e Calebe afirmarem exatamente o
oposto, o povo deu crédito ao relato desanimador e decidiu rejeitar a lide­
rança de Moisés. Em conseqüência, Jeová condenou aquela geração de
adultos a uma peregrinação sem fim nos desertos do alto Sinai. E foi assim
por trinta e oito anos até que, por fim, morreu aquela geração, exceto Josué
e Calebe. A conquista de Canaã, que poderia ter tido seu início dois anos
após o êxodo, ocorreu na verdade quarenta anos mais tarde, em 1406 a.C.
Neste ínterim o povo decidiu amenizar a sentença pronunciada por
Jeová contra eles; lançaram-se em um ataque contra os amalequitas e
cananeus que habitavam nas montanhas ao sul de Canaã. Moisés foi con­
tra essa tentativa doentia de vitória, não permitindo que a arca da alian­
ç a - a evidência tangível e simbólica da presença de Jeová - os acompa­
nhasse. Conforme as palavras de Moisés, os israelitas foram duramente
derrotados e humilhados, fugindo de seus adversários até o sul de Horma
(a moderna Tel el-M ishash),69 cerca de doze quilômetros a leste de

RudolphCohen, "The Excavatiors at Kadesh-barnea (1976-78)," BA 44 (1981): 104. Cohen


lança a novíssima teoria de que j destruição dos sítios arqueológicos do Bronze Médio
I no Negueve e em outros locais, as quais têm sido atribuídas pelos estudiosos aos
amoritas devem, na realidade, ser creditadas às tribos israelitas que, à medida que saí­
am do Egito pelo norte, devastavam a região. Isso colocaria o êxodo numa data muitís­
simo remota, aproximadamente 2000 a.C. ("The Mysterious MB I People," BAR 9 [1983]:
16-29)! Tudo o que se liga às atividades patriarcais na tradição deve ser associado à
conquista israelita.
68 Yohanan Aaaroni, The Land of the Bible (Philadephia: Westminster, 1979), pp. 72-73.
69 Ibid., p. 201.
0 Ê xodo: N ascimento de uma N ação 79

Berseba. Esta lição parece ter sido suficiente, pois não houve mais qual­
quer outra tentativa de entrar em Canaã prematuramente.

De Cades-Barnéia às planícies de Moabe

O encontro com Edom


No quadragésimo ano, Moisés traçou planos para retomar a marcha
até Canaã. Desta vez a estratégia determinada era tentar uma penetração
pelo leste, atravessando o rio Jordão em direção ao caminho próximo a
Jericó. Para a concretização desse plano, Moisés sabia que teria de atraves­
sar os territórios edomita e moabita, já que a rota mais acessível ao norte
de Cades-Barnéia passava bem no centro das duas nações. E além disso
esta rota, a chamada Estrada Real, era muito bem defendida, especialmente
nos locais onde havia estreitamentos entre montanhas. Logo, viajar por
esse caminho obrigatoriamente exigia a permissão daqueles que controla­
vam os pontos principais.
Primeiro Moisés enviou mensageiros a Edom e lembrou-lhe o pas­
sado histórico comum às duas nações, e como eles estavam ligados por
laços fam iliares.70 Os edomitas eram primariamente descendentes de
Esaú, que ocupou essa terra desde quando separou-se de Jacó (Gn 32.3).
A tradição bíblica indica que os habitantes originais de Edom, conheci­
da anteriormente como Seir, eram os horitas, associados seguramente
aos hurrians dos textos do antigo Oriente Médio. Eles foram expulsos
por Esaú tanto por sua força quanto pela graciosa ação de Jeová (Dt
2.12,22; Gn 36).
Os apelos de Moisés com respeito a uma mesma origem foram despre­
zados, bem como o discurso sobre o grande livramento dado por Jeová a
Israel, quando os retirou do Egito, e a proposta de permanecerem estrita­
mente na estrada, abstendo-se da água ou comida de Edom. Frustrado,
Moisés mesmo assim partiu de Cades e acampou-se nas regiões monta­
nhosas de Hor, onde morreu Arão (Nm 20.28,29). Essa região ainda não
identificada provavelmente ficava a nordeste de Cades, "ao longo da es­
trada para Atarim".71 Entretanto, o rei da cidade-estado cananéia Arade
soube que Israel se aproximava e lançou um ataque contra os israelitas. É
muito difícil saber qual é essa Arade, embora seja provavelmente Tel el­

’ Para uma visão panorâmica da identidade e história dos edomitas e moabitas, ver John
R. Bartlett, "The Moabites and Edomites," em Peoples ofOld Testament Times, editado por
D.J. Wiseman (Oxford: Clarendon, 1973), pp. 229-58.
Aharoni, Land ofthe Bible, pp. 201-2.
O Ê xodo : Nascimento de uma N ação 81

Milh em vez de Tel Arade, já que esta não existia em tempos pré-
salom ônicos.72 Tel el-Milh situa-se cerca de 19 quilômetros a oeste de
Berseba e 96 quilômetros a nordeste de Cades. O rei de Arade estava
temeroso porque os exércitos de Israel aproximavam-se de sua cidade
"ao longo da estrada para Atarin", um vale que ligava Arade a Cades.
Isso parece sugerir que Moisés, apesar de forçado a abandonar os planos
de passar pela Estrada dos Reis, estava uma vez mais determinado a
penetrar em Canaã pelo sul. Em todo o caso, Jeová concedeu a vitória
sobre Arade em Hormá, o mesmo local onde Israel havia sofrido terrível
derrota trinta e oito anos antes.

O encontro com os amoritas


A resistência cananéia, contudo, desencorajou Moisés, que retornou ao
sul com a intenção de passar a Edom pelo leste. Isso custaria uma viagem
de mais de 160 quilômetros até Elate, no mar Vermelho (Golfo de Acaba),
e 321 quilômetros de volta para o norte até as planícies de Moabe. É muito
difícil reconstruir toda a trajetória de Israel, porque os detalhes são esparsos
e muitos locais não mais podem ser identificados. Porém, juntando partes
da narrativa de Números 21 com a lista de acampamentos em Números
33, pode-se traçar uma rota geral.73 ■
Após partirem de Hor, os israelitas seguiram em direção leste até
Zalmona (es-Salmaneh?), dentro dos limites de Edom (Nm 33.41). De lá
foram cerca de 28 quilômetros em direção sudeste até Punom (Feinan),
um local de minas de cobre e talvez o local do episódio da serpente de
bronze.74 Obote, o próximo local mencionado em ambas as listas (21.10;
33.43), não pode ser localizado com precisão, mas, ao contrário do que
pensa a maioria dos estudiosos, provavelmente deve ser localizado ao les-

"2 Ibid., pp. 215-16.


Para consultar algumas rotas sugeridas, ver Yohanan Aharoni e Michael Avi-Yonah,
Macmillan Bible Atlas (New York: Macmillan, 1968), no mapa 52. A unidade e integrida­
de essencial das várias listas de itinerários são enfatizadas por Albright, "Moses Out of
Egypt," BA 36, pp. 58-59. Z. Kallai, por outro lado, partindo da hipótese da crítica de
tradição, advoga a idéia de que o relato de Números 33 é um resumo estilizado que se
baseou em um conjunto de tradições que circulavam na época, e que cobre desde Êxodo
até Números 21. Finalmente, Deuteronômio 1-2 seria uma "versão refinada do conceito
que modelou a adaptação de Números 20-21" ("The Wandering-Traditions from Kadesh-
Barnea to Canaan: A Study in Biblical Historiography," JJS 33 [1982]: 183-84). O proble­
ma com essa hipótese é que ela se apóia sobre uma aceitação indiscriminada das supo­
sições da crítica da tradição.
’’ .Aharoni, Land of the Bible, p. 204.
82 H istória de I srael no A ntigo T estamento

te de Edom.75 Caso seja assim, uma viagem de Punon ao sul em direção ao


mar Vermelho e outra em direção a Obote não foram mencionadas em
momento algum de Números. Porém, Deuteronômio 2.1-8 revela que Is­
rael partiu de Hor seguindo a estrada que dá no mar Vermelho; depois
voltou-se para o norte, não pela estrada de Arabá ou pela Estrada dos
Reis, mas “pela estrada no deserto de Moabe", contornando ao leste a
maioria dos centros populacionais de Edom. Depois de Obote veio Iye-
Abarim, na fronteira moabita, formado na ocasião pelo Vadi Zered, um
riacho permanente que corria dos planaltos ao oriente para dentro do mar
Morto, ao sudeste.76 E dali partiu Israel em direção norte, passando pelo
rio Arnon (Nm 21.13), e acampou-se no território amorita em Dibom-Gade
(Dhiban), a pouco menos de 64 quilômetros do Jordão.
Israel passou pela fronteira oriental de Edom e pelo centro de Moabe
sem qualquer incidente. Embora os moabitas não tivessem condições de
resistir a Israel, ainda que tentassem, Jeová instruiu Moisés a não lhes fa­
zer nenhum mal, pois Ele havia dado aquela terra a Moabe (Dt 2.9). Os
moabitas surgiram de uma relação incestuosa entre Ló e sua filha mais
velha (Gn 19.37); eram, portanto, parentes próximos dos israelitas. Eles
substituíram a população nativa dos planaltos mais altos da região orien­
tal, e construíram um reino cuja fronteira ao sul chegava até o rio Zerede.
Sua fronteira ao norte variava de Arnon a uma linha que seguia direto
para o oriente, e que partia da margem superior do mar Morto. Os habi­
tantes mais antigos eram chamados de Emim, um subgrupo, tal qual os
enaquins, de uma raça chamada refain. Estes eram aparentemente um povo
gigante, cujo nome significa "os terríveis", mas cuja origem é completa­
mente desconhecida.77
Ao chegar a Dibom, Israel deparou-se com os terríveis amorreus que,
naqueles dias, controlavam toda a Transjordânia entre o Arnon e o Jaboque,
com exceção das fortalezas amonitas do oriente. Esses amorreus descen­
diam provavelmente de uma antiga migração do povo amurru em dire­
ção a Canaã, da qual Abraão deve ter feito parte (ver pp. 16,17). Desde os
tempos mais antigos, eles vinham forçando os cananeus nativos a deixa­
rem as montanhas, estabelecendo-se naquele local e iniciando uma forma
de vida seminômade que, mais tarde, tornou-se urbanizada. Esse quadro

75 Martin Noth, Numbers: A Commentary, tradução de James D. Martin (Philadelphia:


Westminster, 1968), p. 245.
76 Já por inúmeras vezes, lye Abarin tem sido identificada com el-Medeiyineh, 32 quilô­
metros a sudoeste do mar Morto (Aharoni, Land of the Bible, p. 202).
77 Conrad L'Heureux, "The Ugaritic and Biblical Rephain," HTR 67 (1974): 265-74.
O Ê xodo: N ascimento de uma N ação 83

permaneceu até os dias de Moisés, como deixa claro o relato dos doze
espias (Nm 13.29). Mesmo os mais distantes planaltos haviam sucumbido
aos amorreus, e, como resultado, os moabitas e amonitas tiveram de
entrincheirar-se e satisfazer-se com uma considerável redução de seus ter­
ritórios (Nm 21.26-30).78 Mesmo percebendo o iminente conflito, Moisés
decidiu seguir a rota pelas terras amoritas até Beer (localização desconhe­
cida), Matana (desconhecida), Naaliel (desconhecida), Bamote (desconhe­
cida), e finalmente até Pisga, situada na margem de um alto planalto que
possibilita a visão do mar Morto. Essa estrada passava bem próximo à
capital dos amorreus, chamada Hesbon, o que sem dúvida provocaria a
sua intervenção.
Logo, Moisés solicitou a Siom, rei dos amorreus, permissão para conti­
nuar naquele caminho. Esse pedido - feito enquanto Israel achava-se no
deserto de Quedemote (Dt 2.26) - foi negado; e Siom lançou-se para atacar
Israel em Jaaz (Khirbet el-Medeiyineh?), situada cerca de 32 quilômetros
ao sul de Hesbon. Israel prevaleceu e, em pouco tempo, tomou a cidade
de Hesbon, matou a Siom, e ocupou todas as terras dos amorreus - desde
Arnom até Jazer, a nordeste de Jerico.
A ordem dos acontecimentos e o caminho percorrido são bastante obs­
curos, já que os diferentes relatos alistam diferentes lugares.79 A narrativa
fundamental - Números 21.13-32 - parece descrever o itinerário de ma­
neira resumida (vv. 16-20), registrando a comunicação com Siom, sua per-

7 Embora equivocado quanto a capacidade de exatidão dos textos históricos referentes


aos amoritas da Transjordânia, M. Liverani reconhece que, na tradição de Israel, os
amoritas constituíram-se num povo pré-conquistado da região. Sua falha reside em não
reconhecer que sua teoria não se fundamenta em bases históricas seguras ("The
Amorites," em Peoples ofOld Testament Times, editado por D.J. Wiseman, pp. 125-26).
7lJ Veja Eugene H. Merrill, "Numbers", em The Bible Knowledge Commentary, editado por John
F. Walvoord e Roy B. Zuck (Wheaton, 111.: Victor, 1985), vol. I, pp. 239-40. John Van Seters
faz a tentativa de harmonizar os relatos de Números 21.21-35, Deuteronômio 2.26-37 e
Juízes 11.19-26, utilizando fontes deuteronomistas, sobre as quais a versão de Números
foi baseada. O "escritor-redator" de Números inseriu na narrativa um motejo em forma
de cântico contra Moabe (Nm 21.27-30), um outro relato "críptico e artificial" a respeito
da conquista de Jazer e, por último, a história acerca da guerra contra Ogue, um aconteci­
mento que ele extraiu de Deuteronômio 3.1-7 ("The Conquest of Sihon's Kingdom: A
Literary Examination,"JBL 91 [1972]: 195). Uma variante disso - que Números 21.21-25 é a
fonte de outras duas narrativas acerca da campanha contra Seom - é sugerida por John R.
Bartlett, "The Conquest of Sihon's Kingdom: A Literary Re-examination," JBL 97 (1978):
347-51. Esses fatos apenas corroboram mais a verdade da tradição bíblica, embora até
mesmo Bartlett, que nega a autoria mosaica de Números e Deuteronômio, falhe em admi­
tir que o mesmo autor possa ter contado o mesmo acontecimento com ênfases diferentes.
84 H istória de I srael no A ntigo T estamento

tinácia e sua derrota em Jaaz e em outros lugares (vv. 21-32). O local de


onde foi feita a primeira solicitação de passagem, o deserto de Quedemote,
não se encontra em Números, mas consta no discurso pronunciado por
Moisés sobre a conquista da Transjordânia, registrado em Deuteronômio
2.26. Talvez tenha sido esse o primeiro acampamento após Dibon-Gade e
o anterior a Beer. A lista dos acampamentos registrados em Números 33
não menciona nenhum dos lugares descritos em Números 21.13-20, mas
acrescenta Dibon-Gade, a primeira parada ao norte de Arnom (21.13);
Almom Diblataim (Khirbet Dleilat esh-Sherqiyeh), dezenove quilômetros
ao norte de Dibom-Gade; e os "montes de Abarim, defronte de Nebo"
(33.47). Essas montanhas são, ao que tudo indica, uma cordilheira da qual
Pisga (21.20) e Nebo (Dt 32.49) constituem os pontos mais altos. Foi prova­
velmente desses locais que Israel partiu a fim de capturar Hesbon, Jazer,
Aroer e todas as demais cidades controladas pelos amorreus.
Ao norte do reino de Siom estava um outro rei amorreu, Og de Basã.
Sua jurisdição estendia-se de Jazer até o extremo norte do rio Iarmuque, e
entre o Jordão e o oeste, tendo o reino amonita ao oriente. Tecnicamente,
Basã situava-se ao norte do Iarmuque, mas parece que na época da con­
quista de Israel, Og também já controlava a região sul do Iarmuque, co­
nhecida por Gileade. Tanto Basã quanto Gileade eram constituídas de pla­
naltos bem irrigados com florestas verdejantes, pastagens e terrenos culti­
váveis. O local foi tão bem-visto pelos israelitas que Rúben, Gade e a me­
tade da tribo de Manassés decidiram ali se estabelecer em vez de cruza­
rem o Jordão.
A marcha de Israel em direção a Basan foi tão rápida que Og não pôde
interceptá-los até que chegassem a Edrei, sua cidade capital, aproximada­
mente 48 quilômetros a sudeste do mar da Galiléia. Neste local o rei gi­
gante foi derrotado e destruído (Nm 21.35), e as sessenta cidades foram
tomadas (Dt 3.4). Israel controlou assim toda a Transjordânia das terras
dos amorreus, desde o vale do Arnon, ao sul, até o monte Hermon, ao
norte, uma distância de aproximadamente 241 quilômetros.

O encontro com Moabe


Quando ficou claro para Balaque, rei de Moabe, que Israel ficara no
controle de todo o norte da Transjordânia, parte inclusive de seu reino,
temeu que o seu território fosse o próximo a sucumbir. Por outro lado, a
vitória sobre Siom havia finalmente removido os amorreus das terras do
norte de Arnon, um território que Moabe vinha exigindo havia bastante
tempo. Tentando afastar a ameaça do povo israelita e retomar os territóri­
os agora desocupados na região oriental do mar Morto (inclusive as planí-
O Ê xodo: Nascimento de uma N ação 85

cies de Moabe), Balaque alugou os serviços de Balaão, um renomado adi­


vinho de Petor. Esta cidade era provavelmente a Pitru mencionada nos
textos acadianos,80 cuja localização ficava em algum ponto próximo ao rio
Eufrates, mais precisamente na alta Mesopotâmia (ver Dt 23.4). Escritos
cuneiformes oriundos da importante cidade-estado de Mari revelam a
existência de uma corporação de profetas que se especializavam em vári­
as habilidades, inclusive na previsão do futuro.81 Os documentos datam
de aproximadamente 1700 a.C.; embora tais profetas e suas técnicas para
prever o futuro tenham sido detectados no oriente do Mediterrâneo há
centenas de anos antes de 1700 a.C. Portanto, o papel vivido por Balaão no
contexto histórico de Moabe enquadra-se perfeitamente com as informa­
ções de fontes extrabíblicas.
Atarefa solicitada por Balaque foi basicamente impetrar maldições con­
tra Israel em nome do próprio Jeová, Deus de Israel. Imagina-se que a
técnica usada por Balaão consistia em usar o poder da palavra proferida
unida à capacidade de adivinhar o futuro, trazendo à existência o que
estava sendo solicitado. Assim, Balaão diferenciava-se do nabi ou rõ'eh do
Antigo Testamento, que eram apenas mensageiros que proclamavam a
vontade de Deus, mas a manipulavam. Balaão agiu, ao menos, como um
bãrü ou mahhú - um profeta que se utilizava de vários meios para discernir
e interpretar os presságios. Ele também era visto como um manipulador,
ou seja, alguém que possuía a capacidade de persuadir os deuses.82 Uma
vez que Jeová era o Deus de Israel, era evidente que Balaão passasse a agir
em nome de Jeová a fim de alcançar a solicitação do rei Balaque. Porém tal

50William F. Albright, Yahiueh and the Gods of Canaan (Garden City, N.Y.: Doubleday, 1969),
p. 15, n. 38.
11 Herbert B. Huffmon, "Prophecy in the Mari Letters," BA 31 (1968): 101-24; John F.
Craghan, "The ARM X 'Prophetic' Texts: Their Media, Style and Structure," JANES 6
(1974): 39-58.
52 Para um maior conhecimento do profetismo e adivinhação na Mesopotâmia, ver A.
Leo Oppenheim, Ancient Mesopotamia (Chicago: University of Chicago Press, 1964),
pp. 206-27. Balaão praticava uma forma de encantamento em que combinava algumas
palavras ritualísticas com ações, o que supostamente ocasionava uma mudança no
curso dos eventos divinos. Ver H.W.F. Saggs, The Greatness That Was Babylon (New
York: New American Library, 1968), pp. 311-14; Frederick L. Moriarty, "Word as Power
in the Ancient Near East," em A Light unto My Path, editado por Howard N. Bream,
Ralph D. Heim e Carey A. Moore (Philadelphia: Temple University Press, 1974), pp.
345-62. Para uma confirmação sobre as funções de advinhador e amaldiçoador de
Balaão, ver Jacob Hoftijzer, "The Prophet Balaam in a 6thCentury Aramaic Inscription,"
BA 39 (1976): 12-13.
86 H istória de I srael no A ntigo T estamento

não sucedeu, e as maldições que Balaão intentava pronunciar tornaram-se


bênçãos em seus lábios; e ele voltou em desgraça para Petor. Parece que
ele retornou a Moabe tempos depois, e foi um dos responsáveis por enco­
rajar Israel a adorar Baal em Petor, um centro de culto situado a poucos
quilômetros do Jordão (Nm 25; 31.8,16; 2 Pe 2.15; Jd 11; Ap 2.14). Os
midianitas sofreram as conseqüências por participarem nesta sedução de
Israel (Nm 25.6,16-18), e muitos deles pereceram juntamente com Balaão
(Nm 31.1-12). E irônico que o mesmo povo que serviu de refúgio para
Moisés, e de quem este tomou para si uma mulher como esposa, se tornas­
se um dos principais causadores da mais séria e importante apostasia de
Israel após o monte Sinai. \
Terminada essa crise, Moisés passou a dar atenção à conquista de Canaã.
Ele mesmo não participaria da campanha por sua intemperança ao ferir a
rocha, em vez de falar-lhe. Mas como mediador da aliança, ainda possuía
a responsabilidade de providenciar a aquisição da terra e a acomodação
do povo no local. Antecipando-se às decisões de Moisés, os líderes das
tribos de Rúben e Gade (e mais tarde a tribo de Manassés) solicitaram
permissão para continuar na Transjordânia, tendo sua porção repartida
naquela região. O pedido baseava-se especialmente no fato de ser aquela
região bastante apropriada para a pecuária. Visto que eles eram criadores
de gado, não haveria razão para buscarem uma herança em outro local.
Moisés assentiu e tomou providências para repartir-lhes a terra, mas exi­
giu que se comprometessem a ajudar as demais tribos nas campanhas de
conquista de Canaã.
A Rúben e Gade coube todo o território entre Arnon ao sul e Jazer ao
norte, isto é, toda a região que anteriormente era governada por Siom, rei
de Hesbon. Em virtude de as cidades herdadas por Rúben e Gade serem
espalhadas e misturadas umas com as outras (Nm 32.34-38), as duas tri­
bos foram progressivamente perdendo suas identidades independentes.
Mais tarde, Josué procurou corrigir o problem a procedendo uma
redistribuição (Js 13.8-33). O território oriental de Manassés, dividido en­
tre os clãs de Maquir e Jair, era substancialmente idêntico ao antigo reino
de Ogue. Os maquiritas tomaram posse da parte sul, ou seja, de Gileade
até as fronteiras de Rúben e Gade. Os jairitas receberam como herança a
região ao norte de Gileade, definida mais precisamente como a cidade de
Argob, pertencente ao reino de Ogue. Seus limites eram o monte Hermon
ao norte e os pequenos reinos de Maaca e Gesur ao sul, bem acima do
Iarmuque (Dt 3.13,14). Um terceiro elemento, conhecido por Nobá - que
aparentemente não tinha ligação alguma com Manassés - apoderou-se de
Quenate e das vilas ao seu redor (Nm 32.42). Quenate situava-se cerca de
O Ê xodo: N ascimento de uma N ação 87

96 quilômetros ao oriente do mar da Galiléia, penetrando bastante o de­


serto Haurã.
Enfim, chegou o momento da morte de Moisés. Após ter resolvido so­
bre a tática de conquista, as cidades de refúgio, e a justa alocação para as
tribos ocidentais, Moisés recapitulou todas as instruções em seu discurso
final à nação de Israel, registrado solenemente no livro de Deuteronômio.
Embora para alguns este livro não tenha sido escrito por Moisés, mas por
um historiador anônimo da linha "deuteronomista" que viveu no sétimo
século, tornando-se corolários essenciais para tais críticos, o fato é que não
há nada no livro que necessariamente conduza a tais conclusões, tanto na
forma quanto no conteúdo em si. Os detalhes e o estilo do livro estão de
acordo com o que é conhecido da Era do Bronze Recente de Canaã; é con­
sistente com o restante do Pentateuco; e provê uma conclusão literária
satisfatória para os escritos de Moisés. A geração mais antiga já havia
morrido, e a nova precisava de uma expressão mais recente da aliança
com Jeová. Deuteronômio é uma iniciativa em favor da aliança à qual a
nação de Israel, às vésperas da conquista, poderia e deveria responder.83
Para documentar a fidelidade de Deus a respeito de seu pacto, e o signifi­
cado de Israel na História, Moisés escreveu o livro de Gênesis e o restante
da Torá nesse período.

Peter C. Craigie, The Book of Deuteronomy, New International Commentary on the Old
Testament (Grand Rapids: Eerdmans, 1976), pp. 30-32.
0N P I ST A E A
P A ( Ã 0 DE C A N A Ã
A terra como o cumprim ento da promessa
O mundo antigo do Oriente Médio
Mesopotâmia.
. Mitani
Os hititas
0$ estados sírios
Egito
Os 'apiru
Os 'apiru e a conquista
A estratégia de Josué
A campanha de Jerico
A campanha central
Siquém e a renovação da aliança
A campanha em direção sul
A campanha em direção norte
A data da conquista de Josué
A campanha contra os enaquins
M odelos alternativos da conquista e ocupação
O modelo histórico-tradicional
O modelo sociológico
A terra repartida entre as tribos
A distribuição em larga escala
A distribuição da terra para cada tribo
As cidades de refugio
As cidades dos levitas
A segunda renovação da aliança em Siquém

A te rra co m o o c u m p rim e n to d a p ro m e s s a

Um elemento central e indispensável da promessa feita por Jeová aos


patriarcas era a ocupação perpétua da terra de Canaã. Para lá foi que Ele
conduziu Abraão desde Arã; abençoou-o com uma aliança e descendên­
cia, dizendo-lhe que embora seus descendentes viessem a sofrer sob o
jugo de escravidão estrangeira por quatrocentos anos, um dia eles volta­
riam para Canaã. Após muitos anos, o próprio Jeová apareceu a Moisés
e o comissionou para conduzir seu povo Israel para fora do Egito, levan­
do-o para a terra da promessa. Israel era tido por Jeová como seu filho.
Mas seu filho havia se tornado escravo de um outro senhor, duro e exi­
90 H istória de I srael no A ntigo T estamento

gente, que não admitia reconhecer os direitos de Jeová sobre o seu pró­
prio povo. Por conseguinte, em uma demonstração de poder e amor, Jeová
sacudiu o jugo de seu povo, derrotando o opressor e libertando os hebreus
através da passagem pelo mar de Juncos, até que chegaram ao local de­
terminado para a aliança - o Sinai. Foi lá que Ele afirmou sua soberania
sobre os descendentes de Abraão, e ofereceu-lhes o grande privilégio de
se tornarem seus servos na grandiosa missão de reconciliar a humanida­
de consigo mesmo. A aceitação por parte de Israel gerou uma aliança,
um contrato mediante o qual Israel e Jeová ligavam-se e obrigavam-se
mutuamente, e era garantido a Israel a apropriação de todas as promes­
sas feitas aos patriarcas. Os hebreus haviam se tornado uma nação, e
como tal passaram a ter um rei, o próprio Jeová, e uma constituição, o
livro da aliança ou concerto (Êx 20-23), e, mais tarde, o Deuteronômio.
Tudo o que eles precisavam agora era de uma terra onde pudessem go­
zar tanto a nacionalidade quanto a estabilidade. Até mesmo a terra ain­
da era uma promessa a ser cumprida. O que Israel precisava fazer era
tomar posse da ordem divina e partir para a ocupação da terra.
Israel permaneceu nas planícies de Moabe bem às vésperas da ocupa­
ção e conquista da terra. Moisés era morto e o manto de mediador da ali­
ança agora repousava sobre os ombros de Josué. Animado e encorajado
pela promessa de Jeová de que estaria sempre com ele - como havia esta­
do com Moisés - , Josué começa a planejar a estratégia que resultaria na
conquista e ocupação da terra da promessa.

O m u n d o a n tig o d o O rie n te M é d io

Antes de dar continuidade ao relato bíblico, é importante notar com


atenção o universo geopolítico em que tais fatos aconteceram. Isto é
necessário não somente porque a história bíblica é parte de um vasto
horizonte histórico, mas também por ser possível integrar a história de
Israel com as de outros povos e eventos contemporâneos. Um proble­
ma encontrado é que a data tradicional estabelecida para a conquista
(aprox. 1406-1399; ver p. 149), de modo similar ao evento do êxodo,
tem sido o alvo de severa crítica por parte de alguns estudiosos moder­
nos, que preferem adotar o ano 1250 ou até outra data mais recente. E
evidente que a narrativa da conquista deve refletir de certa forma o
antigo mundo do Oriente Médio. Por outro lado, e igualmente impor­
tante, uma cuidadosa observação do ambiente em que se encontra o
livro de Josué aumenta a compreensão de detalhes desta parte do Anti­
go Testamento.
92 H istória de I srael no A ntigo T estamento

Mesopotâmia

Embora a Mesopotâmia tenha apenas uma importância secundária para


Canaã na Era do Bronze Recente, algumas observações podem ser de ex­
trema valia. Logo após o saque da Babilônia efetuado pelos hititas sob
Mursilis, em 1595, o vácuo criado na Mesopotâmia central foi rapidamen­
te preenchido por um povo montanhês do oriente chamado cassitas, que
dominou o local até cerca de 1150 a.C.1 Embora os cassitas não fossem tão
bárbaros quanto às vezes são descritos, a maior parte de suas leis é com­
pletamente obscura. São particularmente interessantes algumas correspon­
dências enviadas pelo rei cassita Burnaburias II ao rei Amenotepe III, do
Egito. Essa carta, que foi descoberta nos arquivos de El-Amarna, é um
protesto contra a aliança estabelecida entre o Egito e a Assíria, o principal
inimigo de Burnaburias, situado ao norte.2 Ele escreveu uma outra carta a
Amenotepe IV, na qual reclamava o fato de seus mensageiros - que na
ocasião viajavam por toda a terra de Canaã, na época uma província egíp­
cia ostensivamente vigiada - terem sido tratados com grande descaso.3
Essa carta, que deve ser datada perto de 1370, reflete as condições do final
do período da conquista que, segundo a cronologia bíblica tradicional, foi
uma fase descrita pelo próprio Antigo Testamento como um período peri­
goso e de desordem legal.
Ao norte da Babilônia, a Assíria começava a despertar da longa
dormência provocada pela política e supremacia cultural dos hurrianos.
Um grande avivamento veio por intermédio de Assur-uballit (1365-1330),
que deu início a uma campanha de expansão contra o reino hurriano de
Mitani, ao ocidente, e contra o reino cassita de Babilônia, ao sul. Ele escre­
veu pelo menos duas cartas ao rei Amenotepe IV, pedindo-lhe não apenas
ouro, mas também outros presentes, e por fim (mesmo relutante) entre­
gou a própria filha para ser esposa do monarca egípcio.4 Sem dúvida o
casamento foi realizado com o objetivo de obter o apoio egípcio em suas

1 Para uma descrição dessa era tão obscura da história da Babilônia, ver em C.J. Gadd,
"Hammurabi and the End of His Dynasty," no Cambridge Ancient History, 3a Edição,
editado por I.E.S. Edwards et al. (Cambridge: University Press, 1973), vol. 2, parte 1, pp.
224-27; Margareth S. Drower, "Syria c. 1550 - 1500 B.C.," CAH 2.1, pp. 437-44; D. J.
Wiseman, "Assyria and Babylonia c. 1200-1000 B.C.," no CAH 2.1, pp. 443-47.
2 Jorgen Alexander Knudtzon, Die El-Amarna Tafeln, 2 vols. (Aalen: Otto Zeller, 1964
reedição),# 9.
3 Ibid., # 8
4 Ibid., # 16; Albert Kirk Grayson, Assyrian Royal Inscriptions: (Wiesbaden: Otto
Harrassowitz, 1972), vol. 1, pp. 47-49, # 10-11.
A C onquista e a O cupação de C anaã 93

campanhas militares contra os hurrianos e os cassitas. Contudo, não há


registro de que tenha existido qualquer envolvimento de Assur-uballit em
Canaã, nem que a Assíria tenha querido efetuar qualquer campanha mili­
tar naquela direção senão nos anos do reinado de Tiglate-Pileser I (1115­
1077), próximo ao fim do período dos juízes de Israel.

Mitani

Mitani, o reino dos povos hurrianos, situava-se como um reino tampão


entre a Assíria ao leste e os hititas ao oeste. Estando ao longo dos rios
Habor e Balik, ambos tributários do Eufrates superior, Mitani alcançou
seu apogeu e grande influência durante o período da Era de Amarna (aprox.
1400-1350), ou seja, precisamente na época da conquista de Israel.5 Por
estar localizado em uma região praticamente indefensável, o reino de
Mitani era constantemente varrido pela primeira potência que o atacasse.
É improvável que este reino tenha representado alguma ameaça para
Canaã.

Os hititas

Anatólia, agora a porção central da Turquia, era o lar dos hititas. Esse
povo indo-europeu de origem ainda incerta, tendo assumido o controle
de Hatti, a população original, já havia criado um reino de estabilidade e
alto poder político-cultural em cerca de 1800 a.C.6 Após muitos anos de
declínio, o Médio Reinado Hitita surgiu e não só reafirmou o poder hitita
em Anatólia, como também iniciou um programa imperialístico de ex­
pansão territorial em várias direções. De grande importância para a histó­
ria de Israel foi o movimento em direção sul e sudeste promovido por
Tudalias II que, por volta de 1440, atacou e capturou Halab (Aleppo), de
Mitani, como também a maior parte da Síria dominada por Amenotepe II,
rei do Egito.7 Porém, esse domínio foi de curta duração, uma vez que os
monarcas egípcios e de Mitani fecharam acordos militares para reaverem
as terras ocupadas. Além disso, os vários levantes e inquietações internas

5 J.R. Kupper, "Northern Mesopotamia and Syria," em CAH 2.1, pp. 36-41; Drawer, "Syria,"
em CAH 2.1, pp. 417-36; A. Goetze, "The Sruggle for the Domination of Syria (1400-1300
B.C.)", em CAH 2.2, pp. 1-8.
- O.R. Gurney, The Hitites (Baltimore: Penguin, 1964); Seton Lloyd, Early Highland Peoples
of Anatolia (New York: McGraw-Hill, 1967).
~ O. R. Gurney, "Anatolia c. 1600-1380 B. C.," em CAH 2.1, p. 676.
94 H istória de I srael no A ntigo T estamento

na região forçaram Tudalias e seus sucessores a abrir mão de suas guarni­


ções na Síria.
Por fim, essas perdas foram restabelecidas por um rei hitita, comumente
apontado como o fundador do Império hitita, Suppiluliumas (1380-1346).8
Foi ele quem conduziu os hititas a uma posição de preeminência no extre­
mo oriente do mundo mediterrâneo, precisamente no mesmo tempo em
que Josué conquistava e se estabelecia em Canaã. Essa supremacia foi al­
cançada por meio de ações militares e por tratados internacionais que re­
giam a situação entre suseranos e vassalos. Aproximadamente em seu pri­
meiro ano, Suppiluliumas lançou-se em uma campanha militar experi­
mental na Síria, que na época era dominada teoricamente pelo rei de Mitani,
Tusratta. Mas segundo uma carta escrita por Tusratta para Amenotepe III,
rei do Egito, os hititas foram forçados a retirar-se.9 Os egípcios e os hititas,
nesse interregno, desenvolveram relações bastante amigáveis. Suppiluliu­
mas, por exemplo, escreveu uma carta congratulando Amenotepe IV por
sua ascensão ao trono egípcio;10 e este, apesar de ligado por casamento ao
rei Tusratta, não interferiu nos problemas entre os hititas e Mitani.
Finalmente, para não mais ser restringido, o ambicioso monarca hitita
lançou uma invasão de grandes proporções na Síria (aprox. 1365) e apode­
rou-se de toda a região entre o Mediterrâneo e o Eufrates, dominando ao
sul até o Líbano. Isto causou um alarme considerável em Gubla (Biblos),
como pode ser visto na desesperada correspondência entre Rib-Adda de
Gubla e Am enotepe IV.11 A fim de não antagonizar-se com o Egito,
Suppiluliumas resolveu não mais estender sua campanha para o sul. Vis­
to que Amenotepe estava nessa época extremamente envolvido em ques­
tões religiosas e filosóficas, os hititas nada tinham a temer. Essa situação
provocou uma espécie de vácuo em Canaã, ou seja, não havia ali forte
dominação de superpotências, o que permitiria o livre percurso de Israel
para estabelecer-se ali como reino.

Os estados sírios

Os estados sírios achavam-se pressionados entre os hititas e o povo de


Mitani. Halab, juntamente com Alalaque e Tunip, tornou-se vassalo dos

8 Goetze, "Domination of Syria", em CAH 2.2, pp. 5-20.


9 Knudtzon, El-Amarna, # 17.
10 Ibid., #41.
11 Ibid., # 68-96; Ronald F. Youngblood, "The Correspondence of Rib-Haddi, Prince of
Byblos", dissertação para obtenção de Ph.D., Dropsie College, 1961.
A C onquista e a O cupação de C anaã 95

hititas. A princípio, Ugarite permaneceu independente dos hititas e dos egíp­


cios, mas por fim aliou-se a eles. O estado de Amurru, entretanto, tirou van­
tagem desse momento em que as grandes potências não se pronunciavam
para expandir sua influência desde o Médio Orontes até o Mediterrâneo.
Seu rei, 'Abdi-Asirta, tornou-se uma grande ameaça a Rib-Adda, e seu filho
Aziru finalmente tomou Gubla. Aziru, então, fez um tratado com Niqmaddu
de Ugarite, no qual ambos decidiram participar da mesma sorte dos hititas;
isto disparou uma resposta dos mitanitas que, por sua vez, provocou uma
retaliação por parte dos hititas. Suppiluliumas fez um tratado com
Niqmaddu e então atacou a capital de Mitani, Wassugani, mas o rei Tusratta
conseguiu escapar. Então Suppiluliumas manteve a Síria sob forte domina­
ção hitita e até poderia ter avançado por Canaã em direção ao Egito, o que
não ocorreu devido à crescente ameaça dos assírios, fator que desviou sua
atenção de marchar para o oriente até a sua morte.12

Egito

Os egípcios também desempenharam função significativa durante o


período da conquista. E estranho que a história egípcia não relate em
nenhum lugar o êxodo ou a conquista, mas dado que os egípcios tendi­
am a registrar somente as vitórias e não as derrotas, não há porquê es­
pantar-se da omissão. Amenotepe II (1450-1425), o faraó do êxodo, não
tinha mais qualquer interesse em empreender uma campanha na Pales­
tina após seu quinto ano de reinado - o ano do êxodo. Seu filho Tutmose
IV (1425-1417) aparentemente lançou-se em uma campanha no extremo
norte - em Arã-Naharaim. Isso pode ter acontecido enquanto Israel ain­
da estava no deserto do Sinai, não ocasionando qualquer efeito na con­
quista. Amenotepe III (1417-1379) reinava durante o período em que Is­
rael invadiu e ocupou Canaã. Porém sua atenção não se voltava para
defender seus interesses em Canaã, mas para as artes e para a caça. Qual­
quer que tenha sido a atividade militar na ocasião, esta foi dirigida con­
tra a Núbia ao sul. Isto se tornou providencial para Israel, pois, confor­
me já vimos anteriormente, tanto os mitanitas quanto os hititas - e, mais
tarde, os assírios - estavam em sua maior parte discordando uns dos
outros, tornando-se incapazes de ocupar o espaço em Canaã produzido
pelo desinteresse do Egito. Apenas os cananeus, completamente desor­
ganizados entre si, estavam no caminho.

12 Quanto ao reino de Suppiluliumas e seu relacionamento com a Síria, ver em Kenneth A.


Kitchen, Suppiluliiima and Amarna Pharaohs (Liverpool: University of Liverpool, 1962).
96 H istória de I srael no A ntigo T estamento

O destino dos egípcios em nada mudou com a ascensão de Amenotepe


IV (1379-1362).13 Filho de Amenotepe III e de uma rainha mitanita chama­
da Tiy, ele tornou-se a figura mais intrigante da história do antigo Oriente
Médio. Sua maior contribuição não foi no campo político, militar ou cul­
tural, mas no desenvolvimento de um quase monoteísmo ao redor do deus
Re-Harakhte, uma divindade representada por Aton ou por um disco so­
lar. Ele centralizou o culto em uma cidade construída especificamente para
esse fim, chamada Akhetaton (el-Amarna) e mudou seu próprio nome para
Akhenaten, para se adequar melhor à significação de seu compromisso.
Tamanho era seu interesse pela religião que se tornou indiferente aos ne­
gócios externos.
Muitas das cartas de Amarna, encontradas em seus arquivos reais em
Akhetaton, são oriundas de príncipes cananeus que, reconhecendo sua
soberania formal sobre eles, apelavam a Akhenaten para sair em seu auxí­
lio e livrá-los de toda sorte de perigos. Tais apelos, também enviados a seu
pai, ficaram sem resposta justamente porque os faraós estavam mais pre­
ocupados com seus respectivos lazeres. É importante notar que as datas
relativas a Amenotepe III e Akhenaten coincidem com a tradicional data
da conquista. O outro lado da moeda da indiferença egípcia pelos negóci­
os em Canaã revela, sem dúvida, a mão de Jeová, que providenciou as
circunstâncias apropriadas para que seu povo pudesse possuir a terra que
Ele lhes havia prometido.

Os 'apiru

Nossa perspectiva do mundo do Oriente Médio antes e durante a con­


quista não pode ser concluída sem a observação de alguns eventos na
própria Canaã. Isso envolve primeiramente uma consideração dos 'apiru
ou habiru - um povo cuja presença destruidora e maciça em Canaã é
gritante nas cartas de Amarna. Eles são descritos como mercenários sem
destino, que algumas vezes se tornavam uma ameaça para todos os esta­
dos cananeus, e outras vezes lutavam em lados opostos nas guerras en­
tre cidades.
Quando a existência dos 'apiru foi pela primeira vez descoberta nos
textos de Amarna, muitos estudiosos da Bíblia imediatamente concluíram
que, após uma longa espera, uma evidência extrabíblica havia sido encon­

13 Para um relato envolvente da história, cultura e contribuição de Amenotepe IV


(Akhenaten), ver John A. Wilson, The Culture of Ancient Egypt (Chicago: University of
Chicago Press, 1951), pp. 213-31.
A C onquista e a O cupação de C anaã 97

trada para confirmar a conquista de Canaã por Israel.14 Isto se baseava na


coincidência da data das cartas com a cronologia tradicional da conquista
e na admirável similaridade lingüística entre 'apiru (ou Habiru) e 'ibri
("hebreu"). Contudo, muito tempo antes, referências aos 'apiru já haviam
sido confirmadas, oriundas do antigo mundo do Oriente Médio, tão anti­
gas quanto o antigo Período Acadiano (cerca de 2360-2180). Em muitas
partes dos textos o nome aparece na forma logográfica SA.GAZ, a forma
preferida nas cartas de Amarna, com exceção das que vinham de Abdi-
Hepa, rei de Jerusalém.15 Etimologicamente SA.GAZ está ligado a um verbo
sumeriano que significa "assassinar; matar"; um LUSA.GAZ era um assas­
sino. No acadiano essa forma aparece como habbatu, "ladrão", ou talvez
"pessoa despejada".16 A forma silábica habiru/hapiru/ápiru é cronológica e
geograficamente espalhada. A etimologia acadiana não é clara, embora
William Albright tenha associado o termo a epeni ("poeira"; cf. Heb. 'apar)
e sugerido que os 'apiru fossem caravaneiros, ou "homens do pó".17 Essa
sugestão não tem achado apoio universal.
Está claro que nenhum dos termos usados para descrever os 'apiru
têm qualquer significação étnica. Os 'apiru não eram uma nacionalidade,
mas provavelmente uma classe social. Eles são geralmente olhados com
desprezo, como viandantes sem raízes, mercenários que vendiam seus
serviços a quem mais lhes oferecesse. Este é o quadro que emerge muito
claramente dos textos de Amarna.18
A questão do relacionamento dos 'apiru com os hebreus é de particular
importância. É óbvio que os termos destes povos não são idênticos, visto
que 'apiru aparece na história bem antes de qualquer data plausível para
Abraão e existe em números muito além do que qualquer população de
hebreus concebível, pelo menos até o tempo da conquista. Além disso,
dificilmente os hábitos e costumes dos 'apiru se enquadrariam com o re­
trato bíblico dos hebreus. Finalmente, os termos 'apiru e ‘ibri, embora

14 Para um relato que procura relacionar a história de Israel como sendo a dos 'apiru,
ver Moshe Greenberg, The Hab/píru (New Haven: American Oriental Society, 1955),
pp. 3-12.
15 Para explicar a exceção, William L. Moran propõe a idéia que o escriba era de origem
síria, da mesma forma que seu senhor ("The Syrian Scribe of the Jerusalem Amarna
Letters," em Unity and Diversíty, editado por Hans Goedicke e J.J.M. Roberts [Baltimore:
Johns Hopkins University Press, 1975], p. 156).
16Assyrian Dictionary, editado por Ignace J. Gelb et al. (Chicago: Oriental Institute, 1956),
vol. H, pp. 13-14.
17William F. Albright, "Abraham the Hebrew," BASOR 163 (1961): 36-54.
18 Greenberg, Hab/píru, pp. 70-76.
98 H istória de I srael .wo A ntigo T estamento

fonética e lingüisticamente semelhantes, não parecem ter uma etimologia


comum. Como já sugerido, a etimologia de 'apiru é desconhecida,19 mas
'ibri parece voltar ao ancestral de Abraão, Eber ('eher). Um hebreu, então,
era um heberita. Isso parece ser quase certo à luz de Gênesis 10.21, que diz
ter sido Sem "o pai de todos os filhos de Eber". A genealogia semita de
Gênesis 11.10-26 começa com Sem e termina com Abraão, mas próximo ao
meio dá ênfase a Eber (vv. 14-17). Parece que o genealogista quis informar
ser Abraão um semita cuja ancestralidade derivava de Eber, tornando-o
um eberita, ou seja, hebreu.20
Em virtude da semelhança entre 'apiru e 'ibri, é bem provável que
este tenha sido ocasionalmente confundido com aquele.21 O estilo de
vida patriarcal pode ter levado alguns observadores a concluir que
Abraão, o hebreu, foi na verdade Abraão, o 'apiru. Talvez isso explique
por que no Antigo Testamento os israelitas raramente se referiam a si
mesmos como hebreus, pois se tratava de um epíteto usado normal­
mente pelos estrangeiros, na maioria das vezes com sentido pejorativo.
Por exemplo, quando a esposa de Potifar, movida de frustração, acu­
sou José de tê-la assediado, ela o descreveu como "h eb reu " (Gn
39.14,17). Da mesma maneira a filha de Faraó referiu-se a Moisés (Ex
2.6), e os filisteus a Israel (1 Sm 4.6,9).
Apesar de os estranhos não haverem distinguido de maneira bem
clara os 'apiru dos hebreus, os israelitas eram bem conscientes de tal
diferença. Percebe-se isto, conforme já proposto, em sua relutância em
chamarem a si próprios de hebreus, como se vê em uma ou duas passa­
gens em que os israelitas falam acerca dos hebreus (mais corretamente,
'apiru), descrevendo um povo que não eles próprios. Em 1 Samuel 13,
Saul manda tocar a trombeta de guerra e diz: "Ouçam isso os hebreus"
(v. 3). Que a passagem não é uma referência aos israelitas é confirmada
pela subseqüente diferenciação entre "os hom ens de Israel" e os
"hebreus" (vv. 6,7). Toda a passagem indica que Saul, já nesse seu iní­
cio de carreira e em face da ameaça dos filisteus, alugou em seu favor
tropas de mercenários para lutar ao lado de sua milícia israelita. Esses
mercenários bem poderiam ter sido os 'apiru, em vez de os hebreus. A
natureza instável dos 'apiru, uma peculiaridade atestada, parece refle­
tir-se em um encontro com os filisteus: "...e também estes se ajuntaram
com os israelitas que estavam com Saul e Jônatas" (1 Sm 14.21). Sem

19 Ibid., pp. 90-91.


20 Ibid., pp. 92-93.
21 Ibid., pp. 93-94, n. 44.
A C onquista e a O cupação de C anaã 99

dúvida israelitas e hebreus, nessas passagens, não podem ser vistos


como um mesmo povo.22

O s 'a p iru e a co n q u is ta

Enquanto os israelitas faziam clara distinção entre si e os 'apiru, os


escribas que compuseram a correspondência de Amarna a tinham muito
mal definida. Visto que tal correspondência se refere às condições caóticas
encontradas em Canaã na primeira metade do século XIV - condições atri­
buídas na maior parte aos ataques violentos feitos pelos 'apiru - , e que a
data tradicional da conquista e ocupação de Canaã por Israel corresponde
exatamente a esse período, é quase impossível não associar o tumulto que
se passou em Canaã aos israelitas e 'apiru, ainda que ambos não sejam
identificados separadamente nos textos de Amarna. Em outras palavras,
para os cananeus, os 'apiru eram os hebreus e os hebreus eram os 'apiru.
Esse ponto de vista é tão forte que alguns defensores da data mais re­
cente para o êxodo, conforme visto anteriormente (p. 66), afirmam que a
conquista feita por Josué precede o êxodo de Moisés.23 Além de reivindi­
carem uma reinterpretação radical da tradição bíblica - que afirma terem
sido ambos contemporâneos - essa tese exige necessariamente a rejeição
das doze tribos no êxodo, da aliança feita no Sinai e da peregrinação no
deserto, em favor de uma hipótese em que apenas algumas tribos teriam
participado do êxodo, e as restantes teriam sido as que contribuíram para
a conquista bem no início. Porém, seria muito mais satisfatório abandonar
a hipótese de um êxodo mais recente e ver nos documentos de Amarna
uma evidência extrabíblica para a participação das doze tribos na con­
quista de Canaã desde seus primórdios.
Contudo, esta posição também não está isenta de problemas, uma vez
que o livro de Josué parece não se referir aos 'apiru; nem o comportamen­
to destes, conforme claramente descrito nos textos de Amarna, pode en­
quadrar-se com a narrativa bíblica dos israelitas. A falta de referência aos
'apiru não é uma grande dificuldade, desde que a maior parte do período
da conquista antecede a era de Amarna por cerca de vinte e cinco anos,

22 Essa posição tem sido não apenas exposta, mas forçosamente defendida por Norman K.
Gottwald, The Tribes ofYahweh (Mary-knoll, N.Y.: Orbis, 1979), pp. 417-25. Para uma
excelente discussão acerca da evolução dos termos que se referem aos hebreus, ver em
Nadav Na'aman, "Habiru and Hebrews: The Transfer of a Social Term to the Literary
Sphere," JNES 45 (1986): 271-88.
23 Por exemplo, T.J. Meek, Hebrew Origins (New York: Harper and Row, 1960), pp. 21-23.
o
<5 Monte
^ Hermom

MA R
MEDITERRÂNEO

A
Monte
Halaque
A CONQUISTA
DE C A N A Ã
Cades-Barnéia
A C onquista e a O cupação de C anaã 101

precedendo, portanto, as referências mais antigas aos 'apiru em Canaã.24


Além disso, é característico da historiografia bíblica ser extremamente se­
letiva quanto a detalhes. Caso a presença dos 'apiru tenha sido considera­
da pelo historiador bíblico como pouco relevante para o propósito reden­
tor da conquista, então eles seriam completamente esquecidos. Algumas
grandes potências como os cassitas, os mitanitas e os egípcios estavam no
mínimo envolvidos indiretamente nos negócios em Canaã no início do
décim o quarto sécu lo, e m esm o assim nem um sequer desses
envolvimentos foi mencionado no livro de Josué. Também não é possível
argumentar que a razão para tais omissões é que a conquista ocorreu de
fato em uma data mais recente, no séc XIII, porque as grandes potências
envolvidas da época - Assíria e Egito - também não são mencionadas.
Tudo o que pode ser dito é que as preferências particulares do historiador
foram o fator determinante para a escolha de quem iria ou não ser incluí­
do em seu relato. Além disso, pode ser que o historiador tenha agrupado
os 'apiru (como ele também o faz com outros povos) juntamente com os
cananeus, hititas, amoritas ou outros.
Com respeito à descrição dos 'apiru feita pelos textos de Amarna e suas
diferenças do que está registrado na Bíblia acerca dos israelitas, é necessá­
rio dizer que esta diferença apenas confirma nosso argumento de que os
'apiru e os hebreus, apesar de terem muito em comum, eram povos essen­
cialmente distintos. Parece que os 'apiru estiveram em Canaã antes da era
de Amarna e se punham freqüentem ente ao lado de reis cananeus
opositores. Os israelitas entraram em Canaã em bloco, de uma só vez, e
foram considerados hostis aos cananeus. Não se pode conhecer hoje como
os israelitas e os 'apiru relacionavam-se durante e após a conquista, mas é
provável que os ápiru, percebendo o grande sucesso dos israelitas em
Canaã, tenham se mudado para outras áreas, seguindo o tradicional estilo
de vida nômade. Ou, como já foi proposto, permaneceram (pelo menos
até algum ponto) e foram assimilados por Israel ou passaram a servi-los
como mercenários.
É importante notar que a atividade dos 'apiru é comprovada nos mate­
riais de Amarna oriundos de duas regiões do litoral leste do Mediterrâneo
- Síria e Palestina. Visto que a conquista não se estendeu para além da
Palestina, as cartas sírias não possuem relevância imediata. Quanto a al­

24 Greenberg (Habi/piru, p. 74, n. 62) data as cartas da Palestina como que pertencendo aos
primórdios do reinado de Amenotepe IV. Edward F. Campbell, Jr., diz que todas as
cartas datam do trigésimo ano de Amenotepe III até o final do reinado de Akhenaten
("The Amarna Letters and the Amarna Period," BA 23 [I960]: 10).
102 H istória de I srael no A ntigo T estamento

guns textos de origem palestina, existem apenas dezesseis deles que men­
cionam os 'apiru:25

1. EA 243. Biridiya de Megido nota que "a hostilidade dos SA.GAZ


na terra é muito forte".
2. EA 246. Biridiya faz uma reclamação dizendo que os dois filhos de
Lab'ayu de Siquém subornaram SA.GAZ para fazer guerra contra ele.
3. EA 254. Lab'ayu de Siquém diz que ele não sabia que seus dois
filhos tinham feito negociações com os SA.GAZ.
4. AO 7096. Shuwardata, da região montanhosa mais ao sul, diz que a
despeito do fato de todos os seus amigos, com exceção de ER-Heba,
terem-no abandonado, ele havia aniquilado o homem SA.GAZ que
surgiu (ou se levantou) na terra.
5. EA 271. Milkilu de Gezer suplica ajuda contra os SA.GAZ, que pa­
reciam ser seus próprios servos.
6. EA 273. Badat-UR.MAH MES de Sapuna, percebendo que "a terra do
rei" tinha desertado diante de SA.GAZ, insiste com ele para que
envie ajuda.
7. EA 274. Ba'lat-UR.MAHMES apela por socorro para que Sapuna não
seja destruída.
8. EA 286. ER-Heba de Jerusalém diz que toda a terra já tinha caído
nas mãos dos 'apiru. Além disso, todos os governadores já tinham
desertado.
9. EA 287. ER-Heba diz que Gezer, Ascalom e Laquis supriram o ini­
migo com comida, óleo e outras necessidades. O "inimigo" aqui
aparentemente é Milkilu de Gezer, e os filhos de Lab'ayu de Siquém,
que são os colaboradores dos 'apiru.
10. EA 288. ER-Heba faz uma reclamação dizendo que o rei foi omisso
mesmo em face das mortes de Turbazu de Zilu, Zimrida de Laquis
e Yapth-Addu de Zilu, que morreram nas mãos dos 'apiru.

25 Os textos estão publicados por Knudtzon, El-Amarna (EA). William F. Albright identifi­
ca o autor de AO 7096 como sendo Shuwardata (ver em James B. Pritchard, Ancient Near
Eastern Texts Relating to the Old Testament, 2a edição [Princeton: Princeton University
Press, 1955], p. 486, n. 13). E claro que existem muitos outros textos que, da mesma
forma, são oriundos da Palestina e que jamais mencionam os SA.GAZ / 'apiru. O qua­
dro que surge desses relatos em nada é diferente. São mencionadas as mesmas escara­
muças entre as cidades, as mesmas mesquinharias e a mesma subserviência aos reis
egípcios, além de registrarem o mesmo ambiente chafurdado num caos e ilegalidade
que foram o resultado das invasões promovidas por inimigos externos. Ver esta descri­
ção em Campbell, "Amarna Letters," BA (1960): 2-22.
A CosQJiSTA EA O cupação de C anaã 103

11. EA 289. ER-Heba indica que Milkilu tomara Rubutu para si mes­
mo, que o povo de Gath-Carmelo tinha estabelecido uma guarni­
ção em Beth Shan e que Lab'ayu tinha entregado Siquém para os
'apiru.
12. EA 290. Er-Heba reclama que Milkilu e Shuwardata se apoderaram
de Rubutu e que uma cidade próxima a Jerusalém tinha caído nas
mãos do povo de Queila - portanto a terra do rei estava agora no
controle dos 'apiru.
13. EA 298. Yapahi de Gezer diz que seu irmão rendeu-se aos SA.GAZ
em Muhhazi.
14. EA 299. Yapahi diz que os SA.GAZ eram fortes contra ele.
15. EA 305. Shubandu das regiões ao sul da Palestina observa que os
SA.GAZ eram fortes contra ele.
16. EA 318. Dagantakala das regiões ao sul da Palestina descreve a se­
vera imposição que sofrera nas mãos dos SA.GAZ/habbati.

As pessoas mais importantes alistadas nesses textos são Lab'ayu, de


Siquém, e Milkilu, de Gezer. Os filhos de Lab'ayu pagaram aos mercenári­
os 'apiru para atacarem Megido, e eles próprios tornaram-se aliados dos
'apiru quando estes atacaram Jerusalém. E muito interessante o fato de
Siquém não estar alistada como uma das cidades conquistadas por Josué,
mas ter sido o local para a renovação da aliança, que aconteceu próximo à
morte de Josué. Isso daria tempo de sobra para que Lab'ayu e seus filhos
tivessem se rendido completamente aos 'apiru (israelitas), um processo
que teve início no período de Amarna (EA 287, 289).26
Quanto a Megido, seu rei é mencionado como um dentre os trinta e um
reis que foram derrotados por Josué (Js 12.21), porém não há qualquer
narrativa explicando como tal fato sucedeu. E muito provável que o rei de
Megido estivesse descrevendo um ataque israelita no momento em que
falava dos filhos de Lab'ayu assalariando os SA.GAZ (EA 246).27
Milkilu de Gezer aparece em um momento (EA 271) sob o ataque dos
SA.GAZ e, em outro (EA 287), como seu aliado. Segundo Josué 10.33, Horão

26 Edward E Campbell, Jr. E James F. Ross, "The Excavation of Shechem and the Biblical
Tradition," BA 26 (1963): 9-11. Campbell e Ross afirmam que a cidade de Siquém foi
conquistada por Israel "sem o uso de qualquer armamento" e também da "pacífica
simbiose refletida nas narrativas de Jacó". A última observação chega ser estranha por­
que a estória de Jacó e Siquém (Gn 33.18-34.31) pode refletir qualquer coisa, menos
uma relação pacífica. Um forte contraste é visto nos textos de Amarna que, sem sombra
de dúvida, apontam para uma assimilação pacífica de Siquém.
27 H.H. Rowley, Fróm Joseph to Joshua (London: Oxford University Press, 1950), pp. 110-11.
104 H istória de I srael no A ntigo T estamento

de Gezer perdeu sua vida e seu exército28 quando se lançou num ataque
surpresa contra Israel, pois vinha em auxílio de Laquis. Horão muito pro­
vavelmente foi o predecessor de Milkilu, quem primeiro se mostrou hostil
aos SA.GAZ, mas acabou unindo-se a eles. Um fato muito interessante é
Josué 16.10, onde está escrito que os israelitas não expulsaram os cananeus
de Gezer, mas que seus habitantes tornaram-se escravos dos efraimitas.
Isto está perfeitamente de acordo com a reclamação de ER-Heba contra
Milkilu, a qual diz ter este "dado a terra ao rei dos 'apiru" (EA 287).
Ba'lat-UR.MAHMESde Sapuna, um local por outro lado desconhecido,29
fala acerca do perigo iminente vindo dos SA.GAZ, como fazem Shubandu
e Dagan-takala, igualmente de locais desconhecidos. Yapahi30 de Gezer
diz que seu irmão caiu diante dos SA.GAZ em Muhhazi (Tel Mahoz, a
oeste de Gezer).31 Já que este local não é mencionado na narrativa da con­
quista, torna-se pouco relevante para nós.
As cartas provenientes de Jerusalém, entretanto, são de valor inestimá­
vel. O remetente, um homem chamado ER-Heba (Abdi-Hepa), descreve
uma deserção completa diante dos 'apiru. Ele mostra-se particularmente
perturbado diante da grande deslealdade de Gezer, Ascalom e Laquis. Sob
o domínio de Milkilu, a cidade de Gezer, conforme vimos, aparentemente
rendeu-se a Josué sem necessidade de haver uma batalha. Ascalom não
aparece em Josué, mas está presente em Juízes 1.18 como a cidade tomada
pelos filhos de Judá como parte de sua herança. Visto que Ascalom é asso­
ciada a Gezer nos textos de Amarna, e Gezer foi a princípio hostil aos
israelitas antes de submeter-se ao domínio de Josué, não está fora de ques­
tão a hipótese de que Ascalom, como Gezer, após uma hostilidade inicial,
tenha se tornado aliado de Israel (EA 287).
Laquis aparece em Josué 10 como uma das confederadas de Jerusalém
na oposição entre amoritas e israelitas. Depois de Josué haver matado o

28 Rowley (ibid., p. 100) engana-se quando afirma que existe uma inconsistência entre
Josué 10.33 e 16.10, já que a última referência indica que Gezer tinha sido aniquilado e a
primeira diz que ele estava sob a dominação dos Israelitas. Josué 10.33 diz que Horam,
rei de Gezer, morreu em batalha juntamente com os demais reis que se uniram a ele em
guerra contra Josué em Laquis. Isso em hipótese alguma quer dizer que a cidade de
Gezer foi destruída.
29 Campbell, "Amarna Letters," BA 23 (1960): 20, identifica esse Sapuna com Zafon da
região inferior do vale do Jordão, um ponto de vista que não tem sido geralmente acei­
to.
30Ou Yapa'u segundo Shlomo Izre'el, "Two Notes on the Gezer-Amarna Tablets," Tel Aviv
4 (1977): 163. Izre'el oferece aqui um novo estudo de EA 299.
31 Yohanan Aharoni, The Land of the Bible (Philadelphia: Westminster, 1979), p. 440.
A Co.xQuiSTA EA O cupação de C anaã 10 5

rei de Laquis (v. 26), tomou para si a cidade (vv. 31,32), mesmo tendo o rei
de Gezer corrido para auxiliá-la (v. 33).32 Não há razão por que Laquis não
ter se tornado, conforme Gezer, uma colaboradora dos israelitas, como
mencionou ER-Heba (EA 287). Zimrida de Laquis (EA 288) claramente
deve ser distinguido de Jáfia, rei de Laquis (Js 10.3). Contudo, pode ser
que Zimrida tenha sucedido Jáfia após a morte deste em Maquedá.
Em outra carta (EA 289), o rei de Jerusalém diz que Milkilu de Gezer
tomou para si Rubutu (Rabá, próximo à moderna Latrun).33 Josué nada
fala acerca desta captura; assim é possível que Milkilu tenha salvado Isra­
el desse problema. A mesma carta descreve uma guarnição que o rei de
Gate (Shuwardata?) estabelecera em Bete-Seã, bem ao norte. Gate perma­
neceu intocada por Josué (Js 11.22), e Manassés não foi capaz de expulsar
os cananeus de Bete-Seã (Js 17.16; Jz 1.27).
Os textos de Amarna deixam a impressão de que os SA.GAZ/'apiru
lutaram primeiramente contra cidades e povoados que estavam fora da
área de conquista israelita, conforme descrito nas fontes bíblicas. Essas
cartas, que também mencionam locais relacionados com a conquista, não
estão de forma alguma em desacordo com o relato bíblico. De fato, elas o
complementam de forma bastante significativa. É possível distinguir os ~
SA.GAZ/'apiru que operavam fora da região central da Palestina da­
queles que agiam na parte interior, provavelmente os israelitas. Yohanan
Aharoni ficou perplexo ao perceber que apenas quatro das cidades que
existiam naquela região montanhosa, durante a era de Amarna, são men­
cionadas nos documentos de Amarna. Ele atribui isto à completa domi­
nação daquela região pelos habitantes de Siquém e de Jerusalém.34 Não
seria mais sensato admitir que a razão para este silêncio seria o fato de
que todo o interior de Canaã estava nas mãos dos israelitas durante esse
período, com exceção de Siquém e Jerusalém, exatamente segundo a
descrição bíblica?35

52 E verdade que o relato bíblico descreve a população da cidade de Laquis sendo total­
mente destruída. Mas isso em nada impediria que a cidade viesse novamente a ser ha­
bitada, se tornando amigável para com os 'apiru (Israel), conforme está sugerido em EA
287, para que mais tarde viesse novamente a cair em desgraça, como diz em EA 288.
Deve-se dedicar especial atenção ao fato que o texto não diz absolutamente nada com res­
peito à destruição das estruturas físicas da cidade. Ver Eugene H. Merril, "Palestinian
Archaeology and the Date of the Conquest: Do Tels Tel Tales?" GTJ 3 (1982): 114.
22Aharoni, Land ofthe Bible, p. 174.
34 Ibid., p. 175.
" E importante que se saiba que, ao expressarmos nossa própria reconstrução do ambien­
te histórico que permeou os anos da conquista, não descartamos absolutamente os proble-
106 H istória de I srael no A ntigo Testamento

Por fim, não existe absolutamente nada nas correspondências de


Amarna ou no Antigo Testamento que conteste uma data nos primórdios
do décimo quarto século para a conquista. Na verdade, há muitos pontos
a favor. Deve-se reconhecer que a totalidade histórica daquele período
forma o ambiente em que podemos vislumbrar a conquista. Todas as po­
tências internacionais estavam "barradas" quanto aos interesses em Canaã,
deixando assim um vácuo que Israel, pela providência de Jeová, poderia
preencher.

A e s tra té g ia de Jo s u é

A campanha de Jerico

Josué, o sucessor de Moisés como mediador da aliança, já havia se desta­


cado como um homem de sabedoria e um líder militar de coragem. En­
quanto se posicionava no lado oriental do rio Jordão, antecipando-se à
conquista da terra, sua mente já possuía toda uma estratégia militar pre­
parada. Ele percebeu de forma correta que a terra de Canaã dividia-se em
duas grandes áreas que representavam dois elementos étnicos distintos.
Para o sul e na região montanhosa estavam as cidades controladas pelos
amoritas; para o norte, especialmente na planície de Jezreel, estavam as
grandes concentrações de cananeus. Procedendo de acordo com a experi­
mentada estratégia de guerra, Josué sabia que a melhor chance para o su­
cesso baseava-se no princípio "dividir para conquistar".
Para alcançar este propósito ele sentiu necessidade de penetrar em
Canaã pelo norte do mar Morto, seguindo a rota que conduzia ao interior
e que passava por Jericó. Precisamente nesse ponto Josué contemplou seu
maior problema: Jericó estava fortemente armada e preparada para de­
fender-se e impedir a penetração inimiga no interior de Canaã. Além dis­
so, o próprio rio, que nessa época do ano (primavera) estava cheio, consti­
tuía aparentemente uma barreira intransponível contra qualquer avanço
imediato.
Jeová ordenou a Josué que efetuasse a conquista imediatamente (Js
1.2,11), de forma que Josué enviou exploradores para além do rio, a fim de

mas que nosso ponto de vista precisa enfrentar, especialmente no que diz respeito a
falta de correspondência entre os nomes próprios vistos nos textos de Amarna e aqueles
registrados nos livros de Josué e Juízes. Porém, quando nos lembramos de que a con­
quista de Josué já estava há muito tempo terminada na época em que os documentos de
Amarna descrevem o tumulto causado pelos 'apiru, então fica até fácil de se entender
por que alguns nomes são diferentes.
A C O S Q U IS T A E A O C U P A Ç Ã O D E CA NA Ã 107

fazer um levantamento da terra, e especialmente para sondar as possíveis


fraquezas nas defesas de Jericó. Eles descobriram que as notícias acerca
das intenções de Israel já os tinha precedido, e que o povo da terra de
Canaã estava aterrorizado em razão das vitórias dos israelitas no Sinai e
na Transjordânia. Isso produziu um clima extremamente favorável para a
conquista, mas o momento propício estaria perdido caso não encontras­
sem uma maneira de atravessar o Jordão.
Neste instante, Jeová revelou que Ele, o Divino Guerreiro, pelejaria por
Israel da mesma forma que fizera no Egito. Assim como Ele partiu as águas
do mar de Juncos, como um sinal de seu poder cósmico e redentor, agiria
ordenando que as águas do rio parassem de correr. Ele, como o Grande
Rei, iniciaria a conquista começando pelo rio que sempre havia protegido
a terra. Assim o povo compreenderia que a batalha era de Jeová, e que eles
alcançariam vitória sobre vitória reconhecendo que eram parte dos exérci­
tos do Todo-Poderoso.36
E aconteceu que quando a Arca da Aliança - o símbolo da presença de
Jeová - entrou no rio, as águas pararam, submissas a Ele e a Israel, permi­
tindo ao povo passar em terra seca. Como um sinal da natureza redentora
deste feito, Jeová determinou que Josué fizesse a circuncisão de todos os
machos que haviam nascido no deserto, revelando assim a sua identidade
como o povo da aliança; também lhe ordenou que celebrasse a festa da
Páscoa, que havia sido estabelecida pouco antes do êxodo, comemorando
a redenção do povo realizada por Jeová. Por último, Ele apareceu a Josué,
como havia feito com Moisés, confirmando-o como o mediador do con­
certo. Toda esta seqüência - circuncisão, Páscoa e teofania - declarava en­
faticamente que o Israel da conquista era o mesmo do êxodo. O Deus que
tinha salvado seu povo do Egito agora iria salvá-los em Canaã.
Depois de os israelitas terem erigido um altar memorial de pedras para
celebrar sua passagem pelo rio Jordão, os homens de guerra marcharam em
direção sul desde Gilgal (Khirbet el-Mafjar), seu primeiro acampamento em
Canaã, até Jericó (Tel es-Sultan), à distância de apenas três quilômetros. A
cidade é descrita no Antigo Testamento situada em um monte imponente,
que se erguia bastante íngreme desde o riacho adjacente, ao longo do qual
passava "a estrada que subia até Bete-Horon" (Js 10.10), a rota mais impor­
tante para o interior. Relativamente pequena para os padrões da Alta Idade
do Bronze (cerca de dez acres), Jericó era facilmente defensável e pratica­
mente inexpugnável. Josué estava desejoso de conquistar esta cidade não

^ Frank M. Cross, Ccmaanite Myth and Hebrew Epic (Cambridge: Harvard University Press,
1973), pp. 103-5.
108 H istória de Israel no A ntigo T estamento

apenas porque ela guardava a rota que ele intentava tomar, mas também
porque se ele a deixasse intacta, ela se transformaria num bastião da resis­
tência cananéia contra Israel, o que se tornaria uma fonte de problemas ou
mesmo perigo para os exércitos de retaguarda do povo de Deus. Além disso
e por razões não muito bem nítidas, Jeová havia escolhido especialmente
aquela cidade para manifestar o seu julgamento. Quando isso acontecia a
um local ou a um povo, eles eram designados como "consagrados para
Jeová", ou seja, seriam levados ao extermínio. O verbo técnico em hebraico
é haram ("consagrar para destruição"). Objetos debaixo da maldição deveri­
am ser aniquilados (caso estivessem vivos) ou dados a Jeová para seu pró­
prio uso. Em hipótese alguma tal coisa poderia ser guardada sem que para
isso houvesse a expressa permissão de Jeová.37
O primeiro exemplo dessa política foi a destruição dos cananeus e de
suas cidades próximas a Horma (Nm 21.3). De fato, o nome Hormá reflete
a raiz subjacente herem. Essa política foi aplicada de forma semelhante
após a derrota de Seom e dos amoritas na Transjordânia (Dt 3.6). Moisés
também tinha exortado Israel a colocar algumas das cidades cananéias
sob herem, explicando que isso significava que eles não poderiam fazer
acordo nem se unirem em casamento com eles (Dt 7.1-3). Pelo contrário,
Israel deveria destruir seus altares, pedras sagradas, os postes de Aserá e
as imagens (v. 5). A razão era que Israel, mesmo sendo um povo separado
por Deus, poderia retornar ao paganismo através da influência dos
cananeus (Dt 20.17,18).
É óbvio que herem às vezes limitava-se à destruição completa do povo,
não se aplicando às cidades propriamente ditas. E exatamente este o sig­
nificado.das palavras de Moisés quando disse que Jeová entregaria a Isra­
el cidades que eles não haviam edificado, casas cheias de bens e cisternas
que eles não haviam construído (Dt 6.10,11; 19.1). Quando por fim concre­
tizou-se a vitória, Josué relembrou ao povo que Jeová fizera conforme ha­
via prometido - Ele lhes dera cidades que eles não haviam edificado, e
vinhas e olivais que não haviam plantado (Js 24.13).
Um estudo mais cuidadoso revela que durante a conquista, apenas três
cidades cananéias, na realidade, sofreram a totalidade do herem, ou seja, fo­
ram fisicamente destruídas justamente com suas populações. Estas foram
Jerico, Ai e Hazor. Quanto às outras, é dito apenas que foram "tomadas" (lakad)
por Israel e seus habitantes passados ao fio da espada. Por enquanto, pode-se
apenas especular o porquê de Jerico haver sido selecionada para estar sob a
totalidade do herem. É provável que, por ser a primeira cidade cananéia situ­

37 Roland de Vaux, Ancient Israel (New York: McGraw-Hill, 1965), vol. 1, pp. 260-63.
A COXQUISTA E .4 OCUPAÇÃO DE C a NAA 109

ada ao ocidente do Jordão, seu destino servisse como um alerta para todas as
demais cidades, para que levassem em conta que a santidade e o poder de
Jeová é que trabalhavam em favor de seu povo conquistador.
O vilarejo de Jericó vinha sendo ocupado possivelmente desde 7500
a.C.38 Infelizmente a ação deletéria do tempo e das condições climáticas,
combinadas ao trabalho amador e às escavações profissionais, somaram-
se para praticamente impedir a utilização arqueológica e histórica da ci­
dade de Jericó. Baseado em alguns escaravelhos de Amenotepe III, o ar­
queólogo britânico John Garstang datou o nível D em aproximadamente
1400 a.C., e postulou que esta era a cidade destruída por Josué.39 Sendo
assim, Garstand sustentou a data de 1400 para a conquista, e uma mais
antiga correspondente para o êxodo. Suas conclusões foram ainda mais
confirmadas com a descoberta de muralhas que, ao contrário do resultado
normal de um cerco, caíram para o lado de fora, morro abaixo. A isto ele
associou a referência bíblica que descreve a ruína das muralhas de Jericó
como caindo "sob a cidade" (taheta), ou seja, caindo morro abaixo (Js 6.20).40
Contudo, mais recentemente Kathleen Kenyon, outra respeitada arque­
óloga britânica, passou várias estações em Jericó e concluiu, entre outras
coisas, que Garstand havia interpretado as evidências erroneamente, e que
os escaravelhos de Amenotepe pertenciam a um depósito posterior. Seu
nível D, então, tinha de ser remarcado próximo a 1300.41 Se tal reavaliação
já tem trazido problemas para as datas mais primitivas propostas para o
êxodo e a conquista, torna-se ainda pior para uma data mais recente, uma
vez que a conquista de Jericó em 1300 fixaria o êxodo em 1340. Sem dúvi­
da esta reavaliação não beneficia a nenhuma posição. O melhor que se
pode dizer, então, é que a evidência de Jericó é inconclusiva e que, neste
ponto, é de pouco ou nenhum valor para se estabelecer um esboço históri­
co ou cronológico em que se possa visualizar a conquista.

A campanha central

Após Jericó cair e ser destruída - um evento descrito do início ao fim


como um milagre de Deus - Josué enviou espias de Jericó através de uma

:’s Kathleen Kenyon, Archaeology in the Holy Land (New York: Praeger, 1960), p. 42.
39 John Garstang e J.B.E. Garstang, The Story of Jericho (London: Marshall, Morgan and
Scott, 1940), p. 120.
40 Ibid., p. 136.
41 Kathleen Kenyon, Digging Up Jericho (New York: Praeger, 1957), p. 260; idem, "Palestine
in the Time of the Einghteenth Dynasty", em CAH 2.1, p. 545.
no H istória de I srael no A ntigo T estamento

estrada sinuosa até a próxima fortificação cananéia em Ai. Visto que a cida­
de já não mais existia (seu próprio nome significa "ruína"), foi necessário ao
historiador localizá-la como a cidade "que está junto a Bete-Aven, ao orien­
te de Betei" (Js 7.2). Embora Ai seja identificada por muitos estudiosos com
um sítio conhecido simplesmente por et-Tel ("monte de pedras"),42 a me­
nos de quatro quilômetros a leste de Betei (Beitin), esta visão não mais des­
fruta de consenso. De fato, há muitos argumentos convincentes contra ela,
conforme David Livingston e outros estudiosos têm demonstrado.43 É irô­
nico que o segundo dentre os três locais que sofreram o herem seja, como no
caso de Jerico, de valor insignificante para a data da conquista. É preciso
reconhecer que a própria natureza violenta do herem pode ser a própria ra­
zão para que nem Jerico nem a cidade de Ai tivessem condições de produzir
quaisquer evidências arqueológicas significativas.
Depois de uma derrota inicial em sua tentativa de tomar a cidade de Ai
(Js 7.4,5), Josué compreendeu que os termos do herem haviam sido violados
na destruição de Jericó. Um cidadão particular, Acã, tinha se apoderado de
objetos que pertenciam exclusivamente a Jeová; Acã e sua família foram
destruídos como resultado da desobediência (Js 7.22-26). Somente assim
Josué pôde, com um contingente de trinta mil homens, atacar e destruir a
cidade de Ai, por meio de uma estratégia que incluíam emboscadas e arma­
dilhas. Os habitantes de Betei uniram-se aos de Ai na peleja, mas ambos
foram clamorosamente derrotados. Josué então mandou matar os homens e
mulheres da cidade - doze mil ao todo - até que não houve mais nem um
sobrevivente. A própria cidade foi queimada até que tudo se consumiu,
permanecendo apenas uma coluna de fumaça, uma ruína ('ay) no exato sen­
tido da palavra. Somente o gado e alguns tesouros da cidade foram poupa­
dos, e isso segundo as ordens específicas de Jeová (Js 8.27). Ai representa o
exemplo de um herem com especificações bem claras.
Nada mais é dito acerca do encontro de Israel com Betei. A evidência
arqueológica é ambígua, embora pareça ter existido alguns sinais de acam­
pamentos tribais durante o século catorze.44 Pode-se concluir que os

42 Ver especialmente Joseph A. Callaway, "The 1964 'Ai (Et-Tel) Excavations," BASOR 178
(1965): 13-40; "New Evidence on the Conquest of Ai," JBL (1968): 312-20; "The 19688-69
'Ai (Et-Tel) Excavations," BASOR 198 (1970): 7-31.
43David Livingston, "The Location of Biblical Bethel and Ai Reconsidered," WTf 33 (1970):
20-44. Livingston faz a opção por el-Bireh como o sítio de Betei (p. 40) e localiza a cidade
de Ai num pequeno tel localizado nas imediações.
44 Aharoni, Lanei of the Bible, p. 210. Há sinais de habitações na cidade de Beitin no século
catorze mas, conforme a sugestão de Livingston, se Beitin não é a cidade de Betei, esses
sinais são irrelevantes para nossa discussão.
A COXQUISTA EA OCUPAÇÃO DE C a NAÃ 111

betelitas foram destruídos, mas que a sua cidade, como a maioria das ci­
dades cananéias, foi poupada a fim de prover residência para Israel. Em­
bora o livro dos Juízes indique que os efraimitas de fato tomaram Betei,
isto parece ter ocorrido após a morte de Josué.45

Siquém e a renovação da aliança

Havendo atravessado a região montanhosa após a destruição de Ai,


Josué voltou-se para o norte e tomou seu caminho, aparentemente sem
qualquer oposição até a cidade de Siquém (Tel Balatah), cerca de 40 quilô­
metros ao norte de Betei.46 Nesse local tão sagrado devido à associação
com os patriarcas, Josué conduziu o povo numa cerimônia de reafirmação
da aliança, conforme Moisés lhe ordenara (Js 8.30-35; Dt 27.2-8). Anos mais
tarde, bem próximo de sua morte, Josué reuniu novamente o povo de Is­
rael em Siquém para que a nova geração também pudesse comprometer-
se a ser fiel a Jeová (23.1-24.28).47 O fato de Israel ter livre acesso aos mon­
tes Ebal e Gerizim, entre os quais Siquém estava localizada, implica que

45 A passagem de Juízes 1.22-26 é o único relato acerca de uma guerra contra a cidade de
Betei. Um betelita permitiu a entrada de Israel dentro da cidade, resultando com isso
que toda sua população, com exceção desse colaborador, foi destruída. A cidade, contu­
do, foi poupada. Quanto a expressão técnica, "passaram a cidade ao fio da espada", ver
em Merrill, "Palestinian Archaeology", GTJ 3 (1982): 113-14.
46Esse fato ocorreu logo no início da conquista, ou cerca de 1406 a.C. A segunda convoca­
ção em Siquém ocorreu quarenta anos depois (ver pp. 139-140)'. O acesso irrestrito até
Siquém conduz-nos, imediatamente, a duas conclusões: ou os habitantes de Siquém
deram as boas-vindas a Josué, ou já não havia habitantes naquela cidade. Parece que a
primeira hipótese é a mais segura, pois os cananeus de Siquém cooperaram espontane­
amente com os 'apiru dos textos de Amarna (ver p. 102). Mesmo que a assembléia de
Josué 8 tenha ocorrido em cerca de trinta anos antes da mais antiga carta de Amarna, é
totalmente possível que a cordialidade dos siquemitas em relação aos 'apiru / israelitas
tenha sido apenas o resultado de uma política de anos de existência.
47 Muitos estudiosos, é claro, vêem Josué 8 e 24 como sendo tradições variantes de um
mesmo acontecimento. Para uma recente e, ao mesmo tempo, profunda apresentação
dessa posição, ver em J. Alberto Soggin, Joshua: A Commentary (Philadelphia: Westminster,
1972), pp. 220-44. O que essa posição falha em não observar é que havia a necessidade
de que todas as gerações viessem a afirmar seu compromisso com Yahweh. Era mais
apropriado que a assembléia se reunisse no início da conquista e que, de forma seme­
lhante, voltasse a se reunir por mais uma vez na véspera da morte de Josué. Ver em
Marten H. Woudstra, The Book of Joshua, New International Commentary on the Old
Testament (Grand Rapids: Eerdmans, 1981), pp. 148-49; Meredith G. Kline, The Structure
ofBiblical Authority (Grand Rapids: Eerdmans, 172), pp. 54-56.
I ll H istória de I srael no A ntigo T estamento

esta cidade ou estava abandonada nesse tempo ou havia se rendido sem


que acontecesse uma batalha.48 O criticismo tradicional mantém, entre­
tanto, que Siquém sucumbiu depois dos ataques impiedosos promovidos
pelas tribos de Simeão e Levi. A base para essa posição é a crença de que o
relato do estupro de Diná, filha de Jacó, cometido por Siquém, filho de
Hamor (Gn 34), é um relato etiológico, cujo propósito é explicar como Is­
rael veio a dominar Siquém.49
Os problemas dessa posição são muito numerosos para ser considerado
aqui, mas algumas observações precisam ser feitas. Primeiro, a história de
Diná indica que apesar de os siquemitas haverem sido dizimados pelos fi­
lhos de Jacó, este ficou tão temeroso de uma retaliação que decidiu partir
imediatamente para Betei. A narrativa da conquista relata o inverso. Israel
já estava em Betei e partiu em direção a Siquém. Segundo, por que estariam
as tribos de Simeão e Levi envolvidas na conquista de Siquém, uma vez que
a porção de Simeão caíra-lhe na região do Negueve, e Levi era, na época de
Josué, uma tribo religiosa isenta do serviço militar? Terceira e mais fatal
observação contra a interpretação etiológica: não há qualquer sinal de con­
flito em Siquém ou a ela relacionado na narrativa da conquista de Canaã.
Por que Gênesis 34 tem sido utilizado para explicar uma batalha que o livro
de Josué, por seu silêncio, deixa claro nunca haver existido? Apelar para as
cartas de Amama, que mostram o rei de Siquém em sérios apuros, nas mãos
de outros reis cananeus, não traz nenhuma vantagem, pois está fora de ques­
tão que os eventos descritos nos documentos ocorreram entre as duas situ­
ações em Siquém (ou seja, entre 1406 e cerca de 1366).

A campanha em direção sul

A o ficar claro que Josué havia ferido o norte de Canaã a partir do sul, e
que efetivamente instalara a nação de Israel na região montanhosa cen­
tral, os cananeus e outras populações decidiram pôr de lado as diferenças
e formar uma só defesa contra Israel. Os heveus (horitas ou hurrianos?) de
Gibeão (el-Jib),50 situados apenas a onze quilômetros ao sul de Betei, fica­

48 Ver nota 46.


49 Robert G. Boling, Joshua, Anchor Bible (Garden City, N.Y.: Doubleday, 1982), pp. 251-54;
Meek, Hebrew Origins, pp. 124-28.
50 H.A. Hoffner, "The Hitites and Hurrians," em Peoples of Old Testament Times, editado por
D.J. Wiseman (Oxford: Clarendon, 1973), p. 225. Para saber mais acerca da escavação,
história e significação do sítio, ver em James B. Pritchard, Gibeom, Where the Sun Stood Still
(Princeton: Princeton University Press, 1962), especialmente as páginas 24-34.
C onquista e a O cupação de C anaã 113

ram tão apavorados em face do que acontecera a Jerico e a Ai que tenta­


ram uma ação diplomática ao invés de militar. Disfarçados de viajantes
que vinham de muito longe, uma delegação de Gibeão foi a Gilgal - agora
acampamento de Israel - e persuadiu Josué a assinar um pacto de não-
agressão contra eles. Visto que as instruções de Moisés permitiam tais acor­
dos com terras distantes (Dt 20.10-15), Josué não hesitou em assinar o tra­
tado. O acordo requeria que o povo servisse a Israel como escravos, (Dt
20.11; Js 9.15,21,27), uma condição que embora indesejável, era definitiva­
mente melhor do que a morte.51 E claro que os gibeonitas eram alvo do
herem, juntamente com os demais cananeus, e por isso deveriam ser
destruídos (Dt 20.16,17; Js 9.24). Em vez disso, despercebido como estava
Josué, o pacto teve de vigorar, e os gibeonitas com seus amigos heveus de
Quefira (Tel Kefireh), Beerote (Nebi Samwil?) e Quiriate-Jearim (Qiryat
Ye'arim) conseguiram sobreviver, e todas as vilas que ficavam nas oito
quilômetros de Gibeão foram permitidas viver.
Este tratado de não-agressão entre Israel e os heveus foi rapidamente
posto à prova, pois Israel, a parte mais forte do pacto, teve a responsabilida­
de de defender seu novo vassalo contra a ameaça inimiga. A ameaça surgiu
em forma de uma coalisão de reis amorreus que decidiram punir Gibeão
por sua deserção para o lado de Israel (Js 10.1-5). O líder desta coalizão
chamava-se Adoni-Zedeque52 de Jerusalém, então uma fortaleza dos
jebuseus. Sem dúvida os jebuseus eram considerados amorreus, pois Adoni-
Zedeque é contado entre os reis amorreus (Js 10.5). Quanto tempo a cidade
de Jerusalém esteve sob o domínio dos amorreus não pode ser definido,
mas supõe-se que tenha sido desde a sua migração para Canaã, no período
do Bronze Antigo IV (cerca de 2200). Com apenas alguns poucos interlúdios,
a cidade permaneceu sob o domínio dos jebuseus até o tempo em que Davi
a conquistou (1004 a.C.), estabelecendo SQbre ela o seu domínio e transfor­
mando-a em sua capital. Confederados com Adoni-Zedeque estavam Horã,

=1 O ser ou não um tratado entre suserano e vassalo é questionado por F. Charles Fensham,
"The Treaty Between Israel and the Gibeonites", BA 27 (1964): 96-100. Jehoshua M. Grintz,
por outro lado, mantém a posição que estamos diante de um tratado de "proteção". A
diferença encontra-se no nível de servidão, já que o "protégé" tinha muito mais inde­
pendência do que um vassalo comum ("The Treaty of Joshua with the Gibeonites", JAOS
86 [1966]: 114-16,124-26).
:: O fato desse nome não constar das cartas de Amarna como sendo rei de Jerusalém não
deveria em nada nos surpreender, já que esse Adoni-Zedeque teria precedido em cerca
de trinta anos a mais antiga dessas cartas. Portanto, a observação feita por Rowley, que
afirma estarem os nomes pessoais registrados nas duas fontes em total desacordo, é
imprópria para o momento, pelo menos nessa situação (From Joseph to Joshua, pp. 4,42).
1 14 H istória de I srael no A ntigo T estamento

de Hebrom, Pirã, de Jarmute (Khirbet Yarmuk, cerca de 28 quilômetros a


oeste e a sudoeste de Jerusalém), Jafia, de Laquis (Tel ed-Duweir, cerca de 48
quilômetros a sudoeste de Jerusalém) e Debir, de Eglom (Tel el-Hesi, cerca
de 56 quilômetros a sudoeste de Jerusalém). Essas cinco cidades - cujas lo­
calizações formavam uma espécie de triângulo que ocupava toda a porção
ao norte de Judá - eram aparentemente os mais importantes focos de resis­
tência dos amorreus naquele tempo. A sua derrota, portanto, representaria
a abertura de toda a região para a ocupação Israelita.
Quando os cinco reis cercaram Gibeão, a notícia foi logo levada a Josué
em Gilgal dizendo que a cidade estava sob ataque e precisava da ajuda
prometida. Depois de uma noite inteira de marcha Josué chegou a Gibeão,
cerca de 32 quilômetros a oeste de Gilgal. Após uma batalha renhida, os
amorreus bateram em retirada e Israel os perseguiu incansavelmente. Cru­
zando a montanha de Bete-Horom, que passava a oeste de Gibeão, os
amorreus voltaram-se para o sul, rodeando a fronteira oeste de Sefelá,
chegando então até Azeca e Maquedá, aproximadamente a 32 quilôme­
tros de Gibeão. Durante todo o percurso eles sofreram a ira de Jeová, o
Deus guerreiro de Israel, que enviou contra eles uma chuva de grandes
pedras de granizo.53 Os reis conseguiram escapar e acharam refúgio em
uma caverna em Maquedá. Logo que Josué descobriu-lhes o paradeiro,
selou-os dentro da caverna provisoriamente e partiu para liquidar os
amorreus que haviam sobrevivido à chuva de pedras de granizo.
Sua instrução dada aos soldados é deveras interessante: eles não pode­
riam permitir que os amorreus novamente entrassem nas cidades, pois
Josué as queria completamente intactas (Js 10.19). Como já dito, então, o
herem não inclui as estruturas físicas, mas apenas o povo. Portanto, não se
deve tomar a devastação das cidades como prova da conquista e de sua
data, pois a política de Josué, como repetidamente enfatizamos, visava a
poupar as cidades para o próprio uso de Israel. Depois de Josué haver
liquidado completamente os exércitos dos amorreus, voltou até aquela
caverna e retirou os reis ali aprisionados, eliminando-os sumariamente.

53 A erudição crítica nega que haja qualquer historicidade ho milagre descrito nessa estó­
ria, é claro, embora a maioria dos intérpretes concedam, pelo menos, um substrato de
verdade histórica envolvendo tal situação, que foi construída através de uma lingua­
gem poética relatando uma guerra santa. Ver, por exemplo, Trent C. Butler, Joshua, Word
Biblical Commentary (Waco: Word, 1983), pp. 113,115-17. John S. Holladay, Jr., defende
a idéia que a referência à momentânea parada do sol e a lua deve ser relacionada a uma
espécie de consulta astrológica à procura de "bons sinais" vindos dos céus, de forma
que por meio deles Josué teria mais confiança em sua vitória ("The Day(s) the Moon
Stood Still", JBL 87 [1968]: 170,176).
.ACOSQUISTA EA OCUPAÇÃO DE CANAÂ 1 15

Em seguida vê-se o relato da captura de várias cidades dos amorreus e


a matança de seus habitantes. Uma observação cuidadosa dos detalhes
causará a nítida impressão de que as cidades (estrutura física), com talvez
uma exceção, foram poupadas da destruição, ao passo que a população
em cada caso era dizimada. A primeira cidade a sofrer essa destruição foi
Maquedá (Khirbet el-Kheisun?).54 O historiador declara que Josué "tomou-
a" (lakad), um verbo que sempre se refere à captura, e não a uma demoli­
ção.55 Onde subseqüente destruição está envolvida, existem declarações
explícitas a respeito. Outro aspecto a considerar é que Josué "feriu a
Maquedá ao fio da espada". Essa metáfora, aqui traduzida literalmente,
refere-se exclusivamente ao ato de tirar a vida.56 A demolição de mura­
lhas e construções dificilmente são descritas pela expressão "fio da espa­
da". E melhor, então, assumir que o aniquilamento dos cidadãos de
Maquedá é o que está em foco, especialmente porque o autor segue infor­
mando que o estrago causado pela espada incluiu o rei, que com os de­
mais habitantes foi destruído (heherim). Em resumo, Josué tomou Maquedá,
passou os seus habitantes ("a cidade") e o rei ao fio da espada, destruindo-os
totalmente.
Então Josué passou a Libna (possivelmente Tel es-Sâfi, cerca de doze
quilômetros a sudoeste de Maquedá), que sofreu a mesma calamidade vista
em Maquedá. Nessa ocasião Jeová "deu" (nãtan) a cidade e seu rei a Israel, e
Josué passou ela e seus habitantes ao fio da espada, não deixando qualquer
sobrevivente. Laquis foi a próxima a ser atacada. Situada cerca de dezesseis
quilômetros ao sul de Libna, também ela foi entregue nas mãos de Josué, e
aconteceu-lhe o mesmo que o ocorrido a Maquedá e a Libna. Mesmo a in­
terferência de Horão, rei de Gezer, que vivia a mais de 32 quilômetros ao
norte de Laquis, não pôde poupar a cidade e seu povo. A outra cidade,
Eglom, ficava a apenas doze quilômetros a sudoeste de Laquis. Seguindo
ao mesmo estilo monótono de narração, o historiador descreve a queda de
Eglom como ele havia feito com as outras cidades. Hebrom vem a seguir e
parece ser uma exceção à política de preservação da estrutura física da cida­
de. Essa diferença tem sua explicação no fato de Josué haver posto tanto a
cidade quanto seus habitantes sob condenação. Contudo, também aqui a
palavra "cidade" (ou "ela", v. 37) pode significar a população (como aconte­

54 Oxford Bible Atlas, editado por Herbert G. May, 3a edição (New York: Oxford University
Press, 1984), p. 134.
?a Merril, "Palestinian Archaeology," GTJ 3 (1982): 113.
Francis Brown, S.R. Driver and Charles A. Briggs, A Hebrew and English Lexicon of the Old
Testament (Oxford: Clarendon, 1962), pp. 352-53.
116 H istória de I srael no A ntigo T estamento

ce regularmente)57, e a frase seguinte pode ser explicativa - "destruíram a


cidade por completo, ou seja, a todos os que nela habitavam".58 Nesse caso
até a cidade de Hebrom e as vilas que rodeavam-na foram poupadas mate­
rialmente. Seu repovoamento dentro de cinco anos (ver Js 14.6-15)59 certa­
mente sustentaria a idéia de que as muralhas e construções da cidade per­
maneceram, e foram reocupadas pelos israelitas. A última cidade na lista foi
Debir (Tel Beit Mirsim), 24 quilômetros a sudoeste de Hebrom. Seu julga­
mento foi exatamente igual ao das outras cidades já descritas.
O relato da chamada campanha em direção sul está sumariada em Josué
10.40-43. O narrador declara que "feriu Josué toda aquela terra, a região
montanhosa, o Neguebe, as campinas, e as descidas das águas, e a todos
os seus reis; destruiu a tudo o que tinha fôlego, sem deixar nem sequer
um, como ordenara o Senhor Deus de Israel". Note que não houve men­
ção de destruição material das cidades e vilarejos. O estudante objetivo
concluirá então que a razão para tal referência ser omitida no sumário - o
local onde mais se esperaria encontrá-la - é que as estruturas urbanas fo­
ram preservadas intactas, conforme já Moisés havia prescrito.60

57 Num estudo revelador, Rivka Gonen nos diz que a maioria das cidades da Era do Bron­
ze Recente eram cidades não-fortificadas - não havia muralhas para defendê-las e criar
uma barreira contra os que tentassem tomá-las. Ao mesmo tempo houve um rápido
crescimento no número de acampamentos nos séculos décimo quarto e décimo terceiro.
Essas estatísticas batem com o montante da população durante os anos da conquista
("Urban Canaan in the Late Bronze Period", BASOR 253 [1984]: 61-73).
58 Wilhelm Gesenius, Gesenius'Hebrew Grammar, editado por E. Kautzch e A.E. Cowley
(Oxford: Clarendon, 1957), 154a.
59 A vitória contra a liga dos amorreus certamente não ocorreu antes de 1405 e Calebe,
segundo seu próprio testemunho, estava com oitenta e cinco anos quando tomou a ci­
dade de Hebrom como sendo sua herança (Js 14.10, 13,14). Já que ele estava com qua­
renta anos depois que se passaram dois anos do êxodo (v.7), a data da sua aquisição da
cidade de Hebrom deve ter sido por volta de 1399.
60 Até mesmo Manfred Weippert, que interpreta a ocupação de Canaã por Israel como
tendo sido uma espécie de penetração gradual das tribos e que seguiu de perto um
padrão estabelecido de fixação na terra, não acontecendo como que através de uma
operação militar, deve reconhecer que a evidência arqueológica é totalmente silenciosa
a esse respeito (The Settlement ofthe Israelite Tribes in Palestine, traduzido por James Martin
[Naperville, 111.: Allenson, 1971], pp. 128,129). J. Maxwell Miller, que interpreta a ocupa­
ção como tendo sido uma violenta operação militar, deve reconhecer que "os dados
arqueológicos disponíveis simplesmente não se enquadram muito bem com o relato
bíblico da conquista, apesar das datas propostas por algumas pessoas" ("Archaeology
and the Israelite Conquest of Canaan: Some Methodological Observations," PEQ 109
[1977]: 88). É claro que não devemos esperar que as evidências concordem entre si quando
a interpretação dada à conquista é defeituosa.
A COSQUISTA E A OCUPAÇÃO DE C a NAÃ 117

A campanha em direção norte

Com o grande sucesso da campanha militar ao sul, Josué voltou a Gilgal,


a base de Israel durante os primórdios da conquista.61 Mas muito rapida­
mente deu início à fase final de seu plano - a invasão das terras cananéias
no vale de Jezreel e na Galiléia ao norte. Os cananeus por essa época já
estavam cientes de tudo o que havia se passado nas regiões sul e central
da Palestina, e imediatamente formaram uma aliança para resistir o que
sabiam ser um conflito certo com Israel.
O fundador e líder da aliança era Jabim, rei de Hazor (Tel ed-Quedah)
- a maior das cidades do norte e possivelmente de toda a Canaã. Essa
metrópole, cobrindo mais de 110 acres e abrigando talvez mais de quaren­
ta mil habitantes, situava-se estrategicamente sobre uma alta colina, cerca
de 32 quilômetros ao norte do mar da Galiléia, e menos de oito quilôme­
tros a sudoeste do lago Hulé (as águas de Merom).62 Era tradicionalmente
reconhecida por sua liderança na região (Js 11.10), de forma que não foi
difícil para Jabim alistar as demais cidades para apoiá-lo nessa causa. In­
cluía-se na lista Joabe, rei de Madom (Qarn Hattin), cerca de oito quilôme­
tros ao ocidente de Tiberíades, os reis de Simrom (Tel Semuniyeh) e Acsafe
(Tel Keisan).
Simrom situava-se na fronteira norte da planície de Jezreel, perto de 24
quilômetros do Mediterrâneo, e Acsafe cerca de nove quilômetros a sudo­
este de Aco. Portanto, a influência imediata da cidade de Hazor estendia-
se como em um semicírculo que voltava-se para o sul e o oeste, com um
raio de aproximadamente 65 quilômetros. Outros reis que foram alista­
dos, mas não tiveram seus nomes mencionados, reinavam sobre territóri­
os ao norte da Galiléia no vale do Jordão, ao sul de Quinerete (o mar da
Galiléia), nas planícies (a planície de Jezreel) e nas alturas de Dor, prova­
velmente nas encostas-sul da cadeia montanhosa do Carmelo, paralelo ao
Mediterrâneo. Além disso, Jabim solicitou o apoio dos reis cananeus,
amorreus, hititas, ferezeus, jebuseus e heveus de ambos os lados do rio
Jordão e do Hermom, ao norte da região montanhosa de Efraim. Com um
numeroso contingente de infantaria e carros de combate, essas forças com­
binadas esperavam pela vinda de Israel às águas de Merom, um campo de
batalha preparado pela natureza.

61Quanto a Gilgal ser considerado como um centro logístico e estratégico, ver em Abraham
Malamat, "How Inferior Israelite Forces Conquered Fortified Canaanite Cities," BAR 8
(1982): 31.
Quanto a escavação e história desse sítio, ver em Avraham Negev, ed., Archaeological
Encyclopedia ofthe Holy Land (Englewood, N.J.: SBS, 1980), pp. 138-41.
118 H istória d l I srael no A ntigo T estamento

Com um ataque relâmpago Josué caiu sobre os cananeus, abatendo-os


completamente. Os que puderam escaparam e fugiram para o mais longe
possível, chegando a Sidom, que ficava a mais de 64 quilômetros para o
norte; também foram para Misrefote Maim (Khirbet el-Musheirefeh), que
ficava na costa entre o Carmelo e Tiro. Fugiram ainda para o vale de Mispa
(Marj-'Ayyum?),63 próximo ao sul do monte Hermom. Então Josué atacou
a cidade de Hazor e a tomou (lãkad), matando o seu rei e ferindo grande­
mente a população. Então, no que claramente foi uma exceção à política
que vinha seguindo até o momento, ele incendiou a cidade e a demoliu
por completo. Se ainda há necessidade de provar que tomar uma cidade e
passá-la ao fio da espada não é o mesmo que destruí-la materialmente,
note a forma através da qual o historiador descreve o que aconteceu às
cidades que restaram. Israel, ele diz, tomou as cidades que estavam
aliançadas com Hazor, feriu-as ao fio da espada, destruiu-as completa­
mente, mas não queimaram a nenhuma delas com exceção de Hazor (Js 11.12,13).
Tomar uma cidade e passá-la ao fio da espada, mesmo reconhecendo-a
sob a maldição, não é necessariamente reduzi-la a cinzas. Quando é este o
caso, de que Hazor é um exemplo, segue uma afirmação explícita de que
tal cidade foi queimada.

A d a ta d a c o n q u is ta de Jo s u é

A razão por que tem-se enfatizado, e até certo ponto trazido cansaço ao
leitor, que a maioria das cidades cananéias não foram destruídas material­
mente por Josué é que, dentre todos os argumentos utilizados em favor de
uma data apropriada para a'conquista, aquele argumento arqueológico
que atesta uma violenta conflagração das cidades cananéias tem sido vis­
to como o mais importante.64 De fato, sem o argumento arqueológico, pouca
a base resta para uma data mais recente (décimo terceiro século). A destrui­
ção maciça ocorrida no século XIII documentada pela pesquisa arqueoló­

63 Aharoni, Land of the Bible, p. 239.


64 Yigael Yadin, por exemplo, argumenta que a "arqueologia traz uma imensa confirma­
ção que no final da Era do Bronze Recente, alguns israelitas de estilo de vida semi-
nômade destruíram as principais cidades de Canaã; então, gradualmente, construíram
seu novo estilo de vida sedentário sobre as ruínas dessas cidades."("Is the Biblical
Account of the Israelite Conquest of Canaan Historically Reliable?" BAR 8 [1982]: 23). É
surpreendente como Yadim distorce o relato bíblico da conquista e falha em se abrir
para a possibilidade da destruição ocorrida na Era do Bronze Recente ter acontecido
durante a era dos juizes', e não durante a conquista.
\ COSQUISTA E A OCUPAÇÃO DE C a NAÃ 779

gica é atribuída por muitos estudiosos à conquista israelita. Devido à for­


ça deste argumento, a data tradicional para a conquista (princípio do sé­
culo catorze) passou a ser rejeitada. Conseqüentemente, a data mais anti­
ga para o êxodo (1446) também teve de ser ajustada.
x Além de resultar em uma rejeição aviltante e não crítica do claro teste­
munho bíblico, esta visão baseada na arqueologia é apenas uma sugestão,
podendo ser até considerada uma propostãmuito mal fundamentada. Em
‘■'primeiro lugar, não há qualquer documento do décimo terceiro século que
forneça testemunho escrito identificando ou os habitantes das cidades des­
truídas ou seus destruidores. Manter, baseado em artefatos não-literários,
que as cidades destruídas no décimo terceiro século em Canaã eram povoa­
das por cananeus e que foram destruídas por israelitas é presunção. Há tão
pouca diferença entre os sítios arqueológicos cananeus e israelitas, que não
se pode distinguir, baseados em princípios culturais, uns dos outros.65
A devastação de várias cidades por toda a Canaã (ou Israel) no décimo
terceiro século, uma tragédia cuja realidade e quadro geral não podem ser
negados, pode ser explicada como as batalhas de ocupação das cidades e
vilarejos israelitas por seus inimigos, durante o período dos juízes, como
também pode significar a ocupação das cidades cananéias e seus vilarejos
pelos exércitos israelitas durante a conquista. Além disso, a cronologia do
Antigo Testamento requer que o sofrimento de Israel durante, por exem­
plo, o tempo de Débora (ver p. 184) enquadre-se naquele período ligado à
conquista - no décimo terceiro século.
A. A segunda, e a mais veemente razão para se rejeitar a data da conquista
no décimo terceiro século é, ironicamente, a confirmação arqueológica de
um grande número de ruínas naquela época. Se a tese aqui adotada - de
que Josué deliberadamente manteve uma política de preservação das es­
truturas urbanas - está correta, e o registro bíblico consistentemente de­
monstra isto, conclui-se que a evidência de uma destruição ocorrida no
princípio do décimo quarto século se tornaria uma contradição embaraço­
sa com o testemunho bíblico. Assim, os esforços de alguns conservadores
para encontrar nos artefatos arqueológicos uma evidência de uma data
mais antiga devem ser descartados.
Conforme demonstrado anteriormente, apenas três cidades - Jerico, Ai
e Hazor - foram postas sob a condenação do herem e totalmente destruí­
das. Jerico e Ai, por razões já mencionadas, não auxiliam no estabeleci­
mento de uma cronologia. Resta apenas Hazor, sobre a qual infelizmente
ainda existe muita controvérsia. Em sua publicação inicial acerca da cida­

65 Kenyon, Archaeology, p. 209.


120 H istória d e I srael no A ntigo T estamento

de de Hazor, o escavador Yigael Yadin argumentou que a cidade sofrera


várias conflagrações por volta de 1400, exatamente a data sugerida pela
cronologia tradicional.66 Porém, mais tarde, Yadin reviu sua data e dimi­
nuiu 150 anos, de forma que esta encaixou-se no décimo terceiro século,
uma data aceita pela maioria dos estudiosos. Esta revisão, por sua vez,
não permaneceu sem ser desafiada. John Bimson, por exemplo, em uma
meticulosa análise dos dados arqueológicos oriundos de Hazor e das re­
dondezas, concluiu que o ajuste feito por Yadin não apenas foi desne­
cessário como também completamente injustificado. A data inicialmente
proposta por Yadin (1400) está de fato correta. Logo, o único local que
pode ser utilizado nesta discussão - Hazor - apóia inegavelmente uma
data mais antiga para a conquista.67
O resumo das três fases da conquista (Js 11.16-20) confirma a interpre­
tação que vem sendo proposta nesta obra sobre a sua natureza e extensão.
O narrador informa que Josué tomou toda a terra, desde o monte Halaque
(Jebel Halaq), nas profundezas do Neguebe, até Baal-Gade, no vale de Beca,
a oeste do Hermom. Ele capturou e aniquilou todos os reis daquela área,
destruindo totalmente as populações, com exceção dos gibeonitas que, por
meio de uma trapaça, conseguiram que Josué fizesse com eles uma alian­
ça. Nenhuma palavra é mencionada acerca de destruição material, embo­
ra fosse esperada essa informação, uma vez que tal passagem faz uma
recapitulação do procedimento e política então adotados.

A c a m p a n h a c o n tra os e n a q u in s

Quase um adendo ao relato principal da conquista, o historiador agora


refere-se a uma especial campanha de Josué que visava a tratar o proble­
ma dos enaquins (Js 11.21-23). Israel havia encontrado essa raça de gigan­
tes anteriormente, na ocasião em que espionava a terra de Canaã (Nm
13.21-33). O Antigo Testamento atribui sua origem a um certo Enaque (Nm
13.22), um descendente de Arba (Js 15.13), de quem originou o nome da
cidade de Quiriate Arba, conhecida mais tarde como Hebrom (Js 14.15).
No tempo de Josué os enaquins dividiam-se em três principais clãs - os
filhos de Aimã, Sesai e Talmai (Nm 13.22; Js 15.14), a maioria dos quais
vivia nas regiões montanhosas de Judá. O historiador provavelmente des­
taca esta particular operação porque foram estes enaquins que haviam

66Yigael Yadim, "Further Light on Biblical Hazor," BA 20 (1957)-. 44; "The Third Season of
Excavation at Hazor, 1957", BA 21 (1958); 30-47.
67 Bimson, Redating, pp. 185-200.
\ C onquista e a O cupação de C anaà 121

aterrorizado os espias de Israel - exceto Josué e Calebe e que indireta­


mente tinham sido a causa do longo atraso na conquista da terra. Cabia
perfeitamente ao próprio Josué voltar à fortaleza dos gigantes para de­
monstrar a superioridade de Yahweh.
E difícil datar a expedição contra os enaquins, embora a frase "naquele
tempo" (Js 11.21) estabeleça, sem dúvida, uma ligação entre este aconteci­
mento e o relato anterior. Além disso, somos informados de que Calebe foi
agraciado com as cidades de Hebrom e Debir como herança, mas para
adquiri-las seria preciso expulsar os enaquins (Js 15.13-15). Não há dúvi­
da de que a ira de Josué contra os enaquins era a mesma de Calebe - os
dois trabalhavam juntos, com Josué no comando. Essa campanha, obvia­
mente, provinha dos apelos de Calebe para possuir sua herança, um pedi­
do feito quando este estava com oitenta e cinco anos (cerca de 1399 a.C. -
ver em Js 14.7,10). O pedido foi feito especificamente para obter a cidade
de Hebrom, nas regiões montanhosas, para o qual Josué consentiu alegre­
mente. Quanto tempo levou entre o consentimento e a operação militar
que realmente colocou a cidade sob seu controle não pode ser determina­
do, embora, como já mencionado, "naquele tempo" sugere apenas um
pequeno interlúdio.
Os enaquins sobreviventes estavam agora confinados a Gaza, Gate e
Asdode, três dentre as cinco cidades dos filisteus. Talvez Golias e os ou­
tros gigantescos filisteus não fossem de fato verdadeiros filisteus. Eles
podem ter descendido de Enaque, que viveu entre os filisteus e por essa
razão foram assim identificados.

M o d e lo s a lte rn a tiv o s d a c o n q u is ta e o c u p a ç ã o

Josué 12-19 relata essencialmente as alocações das tribos. Uma vez que
a conquista inicial estava completa, uma tarefa que levou aproximada­
mente sete anos (cerca de 1406 a 1399), era necessário iniciar o processo de
ocupação, pois as cidades abandonadas seriam repovoadas rapidamente
pelos habitantes da terra, caso Israel permanecesse por muito tempo fora
delas. Pode-se deduzir que já alguma ocupação estava em andamento
durante aquele tempo, mas está claro que a maioria de Israel ainda se
achava concentrada em Gilgal e sua periferia. De fato, antes que a distri­
buição da terra conquistada fosse feita em lotes e possessões, nenhuma
residência oficial ou permanente poderia ser fixada. Antes de o padrão de
distribuição adotado ser descrito, é importante considerar brevemente duas
formas alternativas de ver a conquista e o estabelecimento de Israel: à vi­
são da tradição crítica e a sociológica. Visto que as duas visões produzi­
122 H istória de I srael no A ntigo T estamento

ram uma variedade de modelos, apenas o mais conhecido ou mais popu­


lar de cada uma será analisado aqui.

O modelo histórico-tradicional

A hipótese documentária e desenvolvimentista da crítica do Antigo Tes­


tamento, que vem dominando a erudição bíblica há dois séculos, produziu
uma abordagem particular sobre a questão das origens e da natureza de
Israel que tem desafiado a pura descrição contida no Antigo Testamento. A
tese dessa obra é que o registro do Antigo Testamento acerca da história de
Israel, incluindo suas origens, deve ser aceito e acatado como um documen­
to prima facie, cuja historiografia é de total confiabilidade, a não ser que haja
fortes razões, internas ou externas, para pensar de maneira diferente. Den­
tre os problemas internos que são levantados, e que levam alguns a questi­
onar a fidedignidade do testemunho bíblico, está o fato de haver supostas
contradições em seu registro, tais como duplicações (registros duplicados
sobre o mesmo relato) e coisa semelhante. As considerações externas con­
sistem em dados arqueológicos e históricos que parecem contradizer o pon­
to de vista bíblico. Mas, se for possível demonstrar que todos os problemas
internos e externos, apontados como motivos para se rejeitar o testemunho
bíblico, são prontamente resolvidos dentro da própria estrutura bíblica tra­
dicional, não mais haverá razão para duvidar do registro do Antigo Testa­
mento. Embora essa tarefa não satisfaça todas as pessoas - pois os pontos
de vista teológicos, filosóficos, e várias outras posições submetem-se a to­
das as disciplinas, inclusive a historiografia - o estudante sem preconceitos
reconhecerá que a construção bíblica da história de Israel possui reivindica­
ções tão fortes quanto qualquer outra. E em nenhum outro lugar essa
confiabilidade pode ser melhor demonstrada do que no caso da conquista e
do estabelecimento de Israel em Canaã.
Nenhum estudioso atual domina tanto o tema das origens e desenvol­
vimento de Israel quanto Martin Noth. Sua análise do assunto irá, portan­
to, servir como representação da principal corrente histórico-tradicional.68

“ Martin Noth, Das system der zw ölf Stämme Israels (Darmstadt: Wissenchaftliche
Buchgesellschaft, 1966): History of Pentateuchal Traditions, traduzido por Bernhard W.
Anderson (Englewood Cliffs, N.J.: Prentice-Hall, 1972); The History of Israel 2a edição
(New York: Harper and Row, 1960), especialmente as pp. 53-163. Para uma apresenta­
ção e crítica ao trabalho de Noth, bem como uma reconstrução alternativa, ver em J.
Liver, "The Israelite Tribes", em World History of the Jewish People, vol. 3, Judges, editado
por Benjamim Mazar (Tel Aviv: Massada, 1971), pp. 193-208.
l. C o S Q U S T A E A OCUPAÇÃO DE C a NAÃ 123

Virtualmente, todos os proponentes dessa escola concordam que houve


uma confederação de doze tribos chamada Israel perto de 1200 a.C. Isto
baseia-se na existência de composições poéticas muito antigas, tais como
o "Cântico de Débora" (Jz 5), que confirma a existência da confederação.
O fato, então, exige uma explicação. Quais fortes razões podem ter criado
a unificação de agrupamentos tribais que, obviamente, em algum tempo
viveram independentes? Aqui há diferença de opiniões. Noth sugere que
é impossível conhecer o motivo da unificação, mas, uma vez concretiza­
da, foi criada uma fé religiosa comum.69 John Bright, por outro lado, man­
tém que o processo foi exatamente o contrário do que normalmente ocor­
reria, ou seja, a fé comum foi o que aproximou as tribos para a unifica­
ção.70 Ambos, porém, concordam que a mistura das tribos produziu a jun­
ção de tradições religiosas e históricas, repassadas para a confederação
pelas próprias tribos, resultando em que cada tradição tornou-se patrimô­
nio comum de todo o Israel. Isto implica em que as tribos, de fato, não
tiveram uma origem comum - certamente não eram descendentes dos doze
filhos de um único pai; ou melhor, o relato do Antigo Testamento a respei­
to de uma origem comum simplesmente reflete o produto final de uma
mistura de tradições.
A confederação é melhor explicada com base nas exigências políticas e
geográficas. As tribos israelitas, conforme defendido, eram primariamen­
te (se não totalmente) não-cananéias, e se uniram em face das ameaças e
pressões dos cananeus e filisteus, a fim de preservar interesses comuns,
evitando assim a destruição ou assimilação. Além disso, muitas das tribos
devem ter compartilhado experiências e tradições históricas semelhantes.
Por exemplo, elas podem ter vivido uma vida de nômades, ou sofrido
debaixo de escravidão opressora, ou podem ter abraçado as mesmas di­
vindades por alguma razão. Esses fatores podem tê-las conduzido a uma
amalgamação, visto que se encontravam na mesma terra.
Pode-se entender como este processo veio a existir através de uma típi­
ca reconstrução. Algumas tribos, ou quem sabe todas, eram descendentes
de imigrantes amorreus que chegaram a Canaã por volta de 2200-2000
a.C., oriundos das regiões mais altas do Eufrates-Balik-Habor. Algumas
delas (Aser, Naftali, Zebulom, Gade e Issacar) foram bem-sucedidas em
sua tentativa de estabelecer-se. Outras, não logrando o mesmo êxito, es­
palharam-se por várias direções. Rúben ficou restrita ao oriente do mar

69 Noth, History o f Israel, pp. 193-208.


John Bright, A History of Israel, 3a edição (Philadelphia: Westminster, 1981), pp. 148-50,
164,165.
12 4 H istória dl I srael no A ntigo T estamento

Morto e começou a desaparecer. Simeão e Levi tentaram tomar Siquém,


mas foram repelidas. Como conseqüência, Simeão passou a diminuir sen­
sivelmente, sendo por fim absorvida pela tribo de Judá. Levi ou foi força­
da a partir para o Egito ou espalhou-se por Canaã; nunca mais voltou a
existir como uma entidade política. José (Efraim e Manassés) partiu e esta­
beleceu-se no Egito. Uma perspectiva alternativa é que Efraim e Manassés
originaram-se no deserto ao oriente de Jerico, entrando em Canaã durante
o período de Amarna, talvez como os detestáveis 'apiru das cartas de
Amarna. Judá residia desde tempos muito antigos no Negueve, provavel­
mente nas imediações de Cades-Barnéia. Dã, a princípio, ficou restrita a
uma minúscula área próxima a planície de Saron e, tempos depois, sob
pressão (filisteus?), foi forçada a restabelecer-se ao norte, em Lais. Por fim,
Benjamim, originalmente ao oeste junto das tribos josefitas, estabeleceu-
se em uma pequena região central em Canaã (próximo a Jerico).
Portanto, o êxodo não envolvera todas as tribos em hipótese alguma,
mas apenas Levi e as tribos de José no máximo, ou talvez somente Levi.
Uma forte e persistente tradição bíblica liga Moisés à tribo de Levi; visto
que Moisés estava no Egito, a tribo de Levi também deve ter estado lá.
Caso haja realmente uma relação histórica entre Josué e Moisés, então
Efraim também deve ser incluída no êxodo, pois Josué era descendente
dessa tribo. É impossível negar a relação de irmãos entre Efraim e Manassés,
logo, Manassés também deve ter se estabelecido no Egito. Esses fatos são
um verdadeiro problema para muitos estudiosos, pois enquanto susten­
tam uma data mais recente para o êxodo, querem identificar os 'apiru como
as tribos de Efraim e Manassés. Em conseqüência, precisam deslocar as
atividades das tribos de José em Canaã para mais de um século antes da
data do êxodo. Isto significa que Josué precedera Moisés cronologicamen­
te, e que se Josué participou de um êxodo, este não pode ter sido o de
Moisés. Talvez, então, as tribos de José estiveram no Egito com Levi, mas
de lá partiram mais de um século antes, sob a liderança de Josué. A lide­
rança de Moisés em seu relacionamento com Josué não reflete necessaria­
mente um fato histórico, mas consolidou-se como uma forte tradição que
caracterizou Moisés como o libertador e o legislador.
Então, alega-se que Moisés conduziu pelo menos a tribo de Levi ao
Sinai, onde foi introduzido ao Jeovismo pelo sacerdote midianita Jetro. Já
conhecedor dos "deuses dos pais" (Elohim, El Shaddai, etc.), por meio de
suas próprias tradições tribais, Moisés fez assim sua maior e mais signifi­
cativa contribuição, ao identificar o Deus Jeová midianita das montanhas
e do deserto como o Deus responsável pela libertação através do êxodo, e
como o Deus de seus ancestrais, o Deus que sempre havia estado com
A C onquista e a O cupação de C anaã 1 25

eles, mas que até então não era conhecido por esse nome. Moisés, portan­
to, tornou-se um missionário de Jeová, e quando ele e sua tribo Levi en­
contraram-se com Judá em Cades-Barnéia, esta então converteu-se ao
Jeovismo. Movendo-se para o norte de Canaã, Judá fez o mesmo a Simeão,
e passou a ser o centro de culto a Jeová. O documento J, a suposta fonte do
pentateuco que enfatiza o nome de Yahweh (Jahve em alemão), por fim foi
criado em Judá e disseminado para todo o Israel, provavelmente nos dias
de Salomão. Quando Moisés chegou a Transjordânia, encontrou-se com
Rúben e Gade. Estas preferiram lá permanecer, mas as duas abraçaram a
fé jeovista e, ao mesmo tempo, passaram para Moisés suas próprias tradi­
ções, que vieram a se transformar na tradição de todo Israel. Então Moisés
morreu. Segundo a opinião de que as tribos de José participaram do êxodo
de Moisés, estas e Levi foram conduzidas por Josué através do Jordão por
volta de 1250. Lá ele estabeleceu suas tribos Efraim e Manassés na região
montanhosa que havia entre as tribos do sul (Judá e Benjamim) e do norte
(Aser, Naftali, Zebulom, Gade e Issacar). Portanto, toda a terra desde Dã
até Berseba veio a ser ocupada por tribos não-cananéias que, por fim, con­
sideravam-se possuidores de uma origem e história comuns.71
A teoria então continua a explicar como ocorreu a fusão das tradi­
ções. E provável que as tribos desde cedo reconhecessem (se com segu­
rança ou não) uma origem araméia comum, bem como divindades e
ancestrais epônimos comuns. Moisés introduziu o Jeovismo em Levi,
José, Judá, Rúben e Gade. Josué, então, o encorajou entre as tribos indí­
genas, e o resultado foi que os costumes tradicionais que distinguiam
as tribos submergiram-se nos interesses de uma comum fé e história
pan-israelita. A criação formal desta ligação pode ser vista na convoca­
ção de Siquém em Josué 24. Entretanto, a questão se foi a "conversão"
que produziu unidade política ou a unidade política que trouxe a con­
versão ainda permanece.
A Voltando a Martin Noth e sua construção de uma liga anfictiônica,72
observamos que ele e muitos críticos da tradição insistem que a confede­
ração baseava-se em uma aceitação comum de várias tradições originais e
independentes:

n Para uma apreciação diferente desse cenário, ver a obra de Benjamim Mazar "The Exodus
and the Conquest", em World History of the Jewish People, vol. 3, pp. 79-93.
Uma definição de "anfictiônico" e um forte protesto contra essa visão de que a união
entre as tribos de Israel era de tal natureza pode ser vista em N. P. Lemche, "The Greek
'Amphictyony' - Could It Be a Prototype for the Israelite Society in the Period of the
Judges?" JSOT 4 (1977): 48-59.
126 H istória de I srael no A ntigo T estamento

1. As promessas feitas aos pais. Algumas tribos entenderam sua exis­


tência em Canaã e seus direitos a esta terra como o cumprimento
das promessas feitas por Deus aos seus ancestrais.
2. Uma libertação miraculosa. O resgate da escravidão foi vivenciado
por algumas tribos, embora Noth não tenha certeza de quais. De for­
ma surpreendente, ele desassocia Moisés do acontecimento original.
3. Uma manifestação de Deus por meio da aliança. Algumas tribos,
mais uma vez não identificadas, contudo provavelmente incluindo
Levi, experimentaram algo profundamente significativo no Sinai,
que para eles ficou claro ter sido uma revelação de Jeová.
4. Uma peregrinação no deserto. Visto que o tema de uma peregrina­
ção no deserto é tão dominante na tradição, algumas tribos devem
ter tido semelhante experiência.
5. Uma conquista ou herança da terra. Uma vez que a conquista tam­
bém é um tema de bastante evidência, pelo menos algumas tribos
devem ter adquirido alguns territórios à força.

Estas cinco principais tradições, distribuídas de alguma forma entre as


doze tribos, foram reformuladas e refinadas, tornando-se assim um estoque
comum para toda a confederação. Sendo assim, a história do pentateuco
(ou hexateuco), conforme encontra-se registrada no Antigo Testamento
canônico, é uma mistura e editoração desses e talvez de outros blocos origi­
nalmente independentes. A redação foi feita de forma tão bem elaborada
que se torna difícil perceber onde se encontram as emendas que caracteri­
zam o arranjo. O leitor leigo, conforme a teoria sugere, não pode sequer
imaginar que, por trás do que à primeira vista é um maravilhoso e consis­
tente relato da história de Israel, existe um intricado complexo de coleção,
edição e montagem de materiais, cujo valor histórico é altamente duvidoso.
Não há como saber absolutamente nada sobre como de fato a história acon­
teceu. Pode-se apenas saber como os redatores perceberam o que seria aquela
história, à medida que apropriaram-se das tradições para seus próprios fins
teológicos, políticos e apologéticos.73

O modelo sociológico

Se o modelo histórico-tradicional é uma reconstrução insatisfatória, o


que dizer acerca de recentes tentativas de considerar a conquista e o esta­

73 Para uma clara apresentação da filosofia e da metodologia subjacente à referida reda­


ção, ver em J. Maxwell, The Olá Testament and the Historian (Philadelphia: Fortress, 1976),
especialmente as pp. 49-69.
A C onquista e a O cupação de C ana 127

belecimento em Canaã seguindo certa abordagem sociológica, especial­


mente como uma espécie de revolta de camponeses?74 Essa abordagem
encontra seu mais poderoso e mais bem esclarecido intérprete na exausti­
va obra de Norman Gottwald, The Tribes o f Yahweh (As Tribos de Javé).
Baseada nas obras de George Mendenhall,75 Robertson Smith76 e Max
Weber,77 a tese de Gottwald expõe que a confederação dos israelitas veio a
existir como resultado de uma revolta organizada de camponeses que de­
safiara o estado de Canaã. Embora sem negar a origem e identificação
não-cananéia das tribos, Gottwald minimiza aquele ponto, concentrando-
se na existência de facto de Israel em Canaã e em seus esforços para lá
estabelecer uma nova ordem social.78
O movimento começou, segundo informa Gottwald, com os 'apiru da
era de Amarna, que serviram de modelo para os camponeses. O próximo
passo foi a unificação dos que eram anteriormente grupos separados por
interesses sociais, políticos, militares e de culto. Gottwald os classifica como
Israel Eloístico. Finalmente, surgiu uma coalizão entre os 'apiru, eloístas e
pastores transumantes de Canaã e do Egito, uma associação que se cha­
mou Israel e que agora adorava Yahweh.79 Em suma, a hipótese de
Gottwald, de qualquer modo, não está relacionada com a noção de con­
quista, mas tem a ver com uma luta de classes entre os camponeses (Isra­
el) e a nobreza de Canaã. O resultado final foi a confederação das tribos e,
como conseqüência, a monarquia.
Não é possível e nem há necessidade de desafiar esse modelo neste
momento. Em primeiro lugar, a tese tem encontrado vigorosas críticas por
parte de estudiosos de várias origens, conforme a referência às revisões de

74 Uma revisão excelente das posições sociológicas mais recentes com respeito a história
de Israel e sua literatura encontra-se em Walter Brueggemann, "Trajectories in O.T.
Literature and the Sociology of Ancient Israel," JBL 98 (1979): 161-85.
75 George E. Mendenhall, The Tenth Generation: The Origins of the Biblical Tradition (Baltimore:
Johns Hopkins University Press, 1973).
76 W. Robertson Smith, Lectures on the Religion o f the Semites (Edinburgh: Adam and Charles
Black, 1889); Kinship and Marriage in Early Arabia (London: Adam and Charles Black,
1903).
77 Max Weber, The Sociology of Religion, traduzido por Ephraim Fischoff (Boston: Beacon,
1963).
78 Gottwald, Tribes of Yahweh, pp. 210-19.
79 Ibid., p. 497. Essa hipótese pressupõe uma conversão religiosa maciça, um fato que
não pode em nada ser comprovado por não haver evidências. Ver Jacob Milgrom,
Religious Conversion and the Revolt Model for the Formation of Israel," ]BL 101 (1982):
169,175-76.
128 H istória de I srael no A ntigo T estamento

The Tribes o f Yahweh poderá demonstrar.80 Em segundo lugar, conforme J.


Maxwell Miller sugere, essa é mais uma "reconstrução moderna que se
impõe à tradição bíblica".81 E, na verdade, uma hipótese (revolta de cam­
poneses) construída sobre uma hipótese (crítica da tradição ao estilo de
Noth e outros), uma abordagem que, na maioria das disciplinas acadêmi­
cas, submeteria seus proponentes ao escárnio e à rejeição como um inves­
tigador científico.
Voltando ao relato do historiador bíblico, impressiona não existir no
texto qualquer tentativa de salvar a sua credibilidade ou mesmo de expli­
car os meios pelos quais a conquista e a ocupação foram concretizadas.
Não há nada improvável no relato de que centenas de milhares de pessoas
estabeleceram-se temporariamente em Gilgal, enquanto seus homens de
guerra empreenderam campanhas militares contra as cidades e vilarejos
por toda a extensão de Canaã. As regiões ao redor de Gilgal, Jerico, e a
parte mais baixa do vale do Jordão são perfeitamente capazes de sustentar
uma população dessa grandeza numérica, seja na questão do espaço físico
ou das terras disponíveis para pastagem, campos cultiváveis ou água. Não
há qualquer indicação no registro acerca de uma ocupação da região em
larga escala, espalhando-se talvez para além das encostas ocidentais do
vale. Também não é de surpreender que Josué e Israel tivessem sido tão
eminentemente bem-sucedidos em suas campanhas militares.
Os cananeus e seus aliados já estavam completamente desmoralizados
devido às notícias das vitórias passadas de Israel e da ameaça de invasão.
Além disso, eles viviam em constantes guerras entre as cidades, ficando
assim totalmente despreparados para efetuar qualquer resistência. Parece
também que Israel os ultrapassava em número de homens de guerra, com
exceção da campanha feita ao norte contra Hazor. Por último, porém não de
menor importância, o próprio Yahweh pelejou por Israel. Essa era uma guerra
santa, e através da intervenção divina muitos feitos foram realizados que,
de outra sorte, não poderiam jamais ter ocorrido. Argumentar que a con­
quista da terra, de acordo com o relato bíblico, não deve ser aceita porque
requer ou pressupõe o sobrenatural é pelejar contra o cerne da fé bíblica:

80 Marvin L. Chaney, JBL 103 (1984): 89-93; Walter R. Wifall, "The Tribes of Yahweh: A
Synchronic Study with a Diachronic Title," ZAW 95 (1983): 197-209; Eugene H. Merril,
Bib Sac 138 (1981): 81-82; Frederic R. Brandfon, "Norman Gottwald on the Tribes of
Yahweh", JSOT 21 (1981): 101-10.
81 J. Maxwell Miller, "The Israelite Occupation of Canaan," em Israelite and Judaean
History, editado por John H. Hayes e J. Maxwell Miller (Philadelphia: Westminster,
1977), p. 279.
A COSQVISTA E A OCUPAÇÃO DE C a NAÃ 129

Deus pôde e verdadeiramente revelou o seu poderoso braço para capacitar


o seu povo a obter vitória contra o impossível. Isto não pode ser desafiado
por meio de argumentos históricos, mas apenas teológicos.

A te rra re p a rtid a e n tre as trib o s

A divisão da terra conquistada e a sua ocupação também não são in­


concebíveis. O processo, é preciso admitir, foi bastante complexo, e alguns
dos relatos parecem contraditórios. Apesar disso, não é impossível imagi­
nar o fato de Josué haver lançado sortes, supervisionado pessoalmente
todos os esforços para a fixação das tribos, e vivido o suficiente para ver
seus objetivos alcançados. Com efeito, todos os estudiosos concordam que
houve um período em Canaã em que não havia israelitas, e que conse-
qüentemente a composição da população ocorreu de modo que toda a
terra foi chamada de Israel.82 A visão crítica da tradição dispõe apenas 200
anos para o acontecimento desta metamorfose, ao passo que a visão tradi­
cional faculta 350 anos, um período sem dúvida bem mais provável para a
complexa e difícil transição do cananeu para o israelita subentendido no
Antigo Testamento e requerido inclusive por hipóteses alternativas.

A distribuição em larga escala

A distribuição da terra feita por Josué é introduzida mediante uma des­


crição geral dos limites que compunham os territórios da Transjordânia
(Js 12.1-6), assim como uma lista das principais cidades que foram toma­
das em Canaã (vv. 7-24). Rúben, Gade e metade da tribo de Manassés pe­
diram e receberam os antigos reinos de Siom e Ogue, reis dos amorreus,
de Hesbom e de Basã respectivamente. Esta posse incluía tudo o que ha­
via entre o rio Arnom, ao sul, e o monte Hermon, no norte; e desde o mar
de Quinerete, o vale do Jordão e o ocidente do mar Morto até os desertos
e o reino de Amom ao oriente. A herança das tribos restantes consistia nas
trinta e uma cidades listadas e, sem dúvida, em muitas outras de menor
importância. A ordem da lista sugere a ordem da conquista, embora um
bom número de cidades não seja mencionado nas narrativas da conquista.
A despeito da aparente grandeza da conquista, houve áreas adjacentes
e mesmo alguns pontos na própria região que não foram tomados por

52 Para uma visão moderadamente crítica e que leva seriamente em conta o relato bíblico,
ver Yohanan Aharoni, "The Settlement of Canaan", em World History of the Jewish People,
editado por Benjamim Mazar, vol. 3, pp. 94-128.
M A R
M E D I TERRÂN
Siquém.
Tanate-Siló
Micmeta
Tapua<

Timnate-Sera•
E F R A I M
Bete-Horom Inferior »Betel
Bete-Horom Superior •Atarote-Adar , . •! a.
. Gibeao Jencb
Geser Aijalom» * Gibeá
Quinate-Jearim* Anatote B E vi
Jerusalém* Én.Semes
Bete-Semes

Hebrom

Debir
Ziclague

OS T E R R I T O R I O S
DAS T R I B O S Horma
13 2 H istória de I srael no A ntigo T estamento

Josué na ocasião (Js 13.1-7). Isto incluía todo o território dos filisteus, des­
de o vadi el-Arish, ao sul, até o Ecrom, ao norte, ou seja, toda a planície
* costeira da Sefelá. Os filisteus viviam sobretudo em suas cinco principais
cidades, mas outros povos como os gesuritas83 e avvim habitavam entre
eles, particularmente nas regiões desérticas ao sul (Js 13.1-4). No norte de
Canaã as regiões não conquistadas estendiam-se desde Mearah (localiza­
ção desconhecida), uma dependência dos sidônios, até o Afeque situado
na fronteira com os amorreus. Este é provavelmente Afeca, um pouco a
sudeste de Biblos, na Fenícia.84 Os "amorreus" aqui não se referem àque­
les de Canaã, mas ao reino de Amurru, que controlava a região central da
Síria. Esta era aparentemente a fronteira do norte da Terra Prometida.85 A
fronteira oriental dos territórios ao norte, ainda fora do controle de Israel,
estendia-se desde Baal-Gade, um pouco ao ocidente do monte Hermon,
até Lebo-Hamate (ou "a entrada de Hamate"), no Beca, pouco ao oriente
de Gebal (Biblos). Naquela época, a fronteira ao noroeste da terra se esten­
dia desde Misrefote-Maim, na costa do Mediterrâneo, cerca de 28 quilô­
metros ao sul de Tiro, até Baal-Gade86. A área envolvida nesses limites
incluía os reinos de Tiro, Sidom e provavelmente parte de Gebal. Geogra­
ficamente, ela cobria toda a cadeia montanhosa do Líbano, desde o vale
do rio Orontes até o sul das montanhas da Galiléia, e tudo desde o Medi­
terrâneo até o vale de Beca. Os acontecimentos subseqüentes mostrarão
que essa fronteira ao norte praticamente nunca esteve sob o domínio dos
israelitas.

A distribuição da terra para cada tribo

A terra que estava de fato sob o poder dos israelitas foi repartida da
seguinte maneira: Rúben recebeu a área ao leste do mar Morto, entre o rio
Arnon, ao sul, e uma linha de aproximadamente 24 quilômetros ao norte
do mar Morto, em algum ponto bem ao sul de Jazer. Gade reivindicou

83 Esses gesuritas, que viviam num local ainda não definido, próximo ao Neguebe, não
deve ser confundido com aqueles do reino de Gesur, situado a leste do mar da Galiléia.
Ver em Soggin, Joshua, p. 132.
84 Aharoni, Land o f the Bible, p. 238.
85M. Liverani, "The Amorites," em Peoples of Old Testament Times, editado por D.J. Wiseman,
pp. 123-26.
86 Yohanan Aharoni e Michael Avi-Yonah, Macmillan Bible Atlas (New York: Macmillan,
1968), mapa 62, que equipara Misrefote-Maim ao rio Litani, que não é mencionado no
Antigo Testamento.
A C onquista e 4 O cupação d e C an aã 13 3

toda a região ao norte de Jazer, beirando ao Jordão, até o mar de Quinerete.


Sua fronteira oriental beirava desde alguns quilômetros a oeste de Rabá,
uma cidade amonita, até o noroeste de Manaim, no rio Jaboque, e d a li'
subia o Jordão até Quinerete. O território oriental de Manassés incluía a
terra entre os amonitas (no oriente) até Gade (no ocidente). A porção sul
mais distante situava-se em Maanaim, e estendia-se para o norte pelo
Iarmuque. Dessa forma, Gade ocupou aproximadamente o sul e o oeste
da Transjordânia, e Manassés o norte e as regiões orientais. A distribuição
que se encontra registrada em Josué 13 parece de alguma forma contradi­
zer o relato em Números 32. Entretanto, há razão para crer que as duas
passagens, ao invés de serem contraditórias, como sugerem muitos estu­
diosos,87 refletem na realidade a distribuição original feita por Moisés e
outra feita por Josué anos mais tarde. A antiga distribuição entremeava as
tribos de Rúben e Gade, dando ensejo a futuras animosidades entre
ambas.88 Josué então pode ter redefinido os territórios de uma e outra para
evitar tal possibilidade.
Josué e o sacerdote Eleazar voltaram-se para a tarefa de delimitar os
territórios designados às demais tribos (Js 14.1-5). Primeiro vieram os lí­
deres de Judá, representados pelo ancião Calebe. Josué foi lembrado das
promessas que Moisés fizera a Calebe de que este receberia uma parte da
terra em que havia estado como espia do povo. Isto, informou Calebe,
havia acontecido quarenta e cinco anos antes, quando ele estava com qua­
renta anos. A missão de espionar a terra tinha se dado no segundo ano
após o êxodo (1445 a.C.); logo, o lembrete de Calebe a Josué deve ser data­
do por volta de 1399, ou seja, sete anos após o início da conquista. Quando
os espias retornaram, Calebe e Josué encorajaram o povo de Israel a entrar
em Canaã, não obstante a presença dos enaquins nas regiões montanho­
sas do sul. Agora, Calebe usava a mesma força contra os mesmos gigan­
tes, e foram-lhe dadas a cidade de Hebrom e outras cidades dos enaquins.
A conquista de Hebrom deve ter sucedido essa requisição (Js 11.21,22; 15.13­
19; Jz 1.9-15).
Depois de expulsar os enaquins de Hebrom, Calebe também tomou
Debir, situada cerca de 24 quilômetros ao sudoeste. Isto ele conseguiu ofe­
recendo sua filha como esposa para qualquer herói que pudesse tomar a
cidade, um feito realizado por seu próprio sobrinho Otniel. Aparentemente
Otniel, mais tarde o primeiro juiz de Israel, estabeleceu-se em Debir - uma

s: Butler, Joshua, pp. 157-63.


ss Eugene H. Merril, "Numbers", em The Bible Knowledge Commentary, editado por John F.
Walvoord e Roy B. Zuck (Wheaton, 111.: Victor, 1985), vol. 1, p. 252.
134 H istória de I srael no A ntigo T estamento

inferência extraída da solicitação de sua esposa por um dote que incluísse


algumas fontes de águas próximas a essa cidade. Tende-se a concluir que
essa conquista de Hebrom e Debir é a mesma descrita em Josué 11.21-23,
já que ambas as cidades são mencionadas também ali. A ligação entre as
duas cidades evidencia-se por terem sido habitadas pelos enaquins, um
povo particularmente detestável para Calebe.
O restante da herança de Judá consistiu em uma vasta área cercada por
uma linha ao sul que corria desde o sudoeste do mar Morto até Cades-
Barnéia, movendo-se daquela região em sentido noroeste até a entrada do
Vadi el-Arish. A fronteira ao oriente era o mar Morto, e ao ocidente, pelo
menos em teoria, o Mediterrâneo. A fronteira ao norte iniciava pouco aci­
ma do desaguamento do Jordão no mar Morto, e estendia-se para o oci­
dente, através de Bete-Hogla ('Ain Hajlah) até as águas de En-Semes ('Ain
el-Hod) e En-Rogel, na junção dos vales de Cedrom e Hinom, em Jerusa­
lém. Sua extensão até o Hinom significa que Jerusalém situava-se ao norte
de Judá, no território de Benjamim. De Jerusalém, o território de Judá con­
tinuava a oeste para Quiriate-Jearim (a morderna Tel el-Azar) e Bete-Semes
(Tel er-Rumeileh). Por fim, passava por dentro de Siquerom (Tel el-Fûl),
pouco ao norte de Ecrom, e para o Mediterrâneo próximo de Jabneel
(Yebna). A lista das cidades que percorrem a delineação da fronteira inclui
somente aquelas que foram conquistadas durante a invasão de Canaã e as
que pertenciam a Judá por promessa. A referência a Jerusalém (Js 15.63)
não implica em que tal cidade houvesse sido destinada à tribo de Judá,
mas apenas que Judá havia feito uma tentativa sem sucesso de expulsar
os jebuseus permanentemente (Jz 1.8).
A herança de Efraim (Js 16.5-10) foi fixada por limites que começavam
em Atarote-Adar (Kefr 'Aqab),89 cerca de 13 quilômetros ao norte de Jeru­
salém. A fronteira ao sul subia até o alto Bete-Horom (Beit 'Ur el-Foqa) e
presumivelmente ao sudoeste para então unir-se com a fronteira de Judá
em algum ponto próximo a Siquerom. Ao norte o ponto inicial era
Micmetate (Khirbet Makhneh el-Foca), menos de 8 quilômetros ao sul de
Siquém. De Micmetate a fronteira corria para o oriente até Tanate-Silo
(Khirbet Ta'na el-Foca) e Janoa (Khirbet Yanum), ao sul, sentido Jerico, e
ao leste para o Jordão. A fronteira mais distante ao sul deve ter começado
no Jordão, dirigindo-se ao oeste, passando por Jerico até chegar a Atarote-
Adar. Novamente, desde Micmetate, a fronteira norte seguia ao oeste para
Tapua (Sheikh Abu Zarad), até o vadi Kanah, seguindo seu curso até o
Mediterrâneo, unindo-se a esse mar na moderna Tel Aviv. Além disso,

89 Oxford Bible Atlas, p. 123.


A COSQUISTA E A OCUPAÇÃO DE C a NAÃ 135

Efraim herdou certas cidades que pertenciam ao território de Manassés


(Js 16.9). Outras cidades permaneceram em poder dos cananeus, notavel­
mente Gezer. E um grande número de cananeus viveu entre os efraimitas
como escravo.
Os clãs de Manassés que não permaneceram na Transjordânia ocuparam
a área próxima ao norte de Efraim, em direção ao vale do Jordão, ao norte. A
fronteira ao sul, então, era o limite norte de Efraim. A cidade de Tapua, que
geograficamente era uma parte da região de Tapua, foi dada por alguma
razão a Efraim (Js 17.8). Por outro lado, Manassés tomou algumas cidades
que geograficamente poderiam ter sido mais apropriadas a Aser e Issacar.
Estas eram Bete-Seã (Tel el-Husn ou Beisan), Ibleã (Khirbet BeTameh), Dor
(Khirbert el-Burj), En-dor (Khirbet Safsâfeh), Tanaque (Tel TTinnik) e Megido
(Tel el-Mutesellim). Devido à grande resistência armada pelos cananeus na
região norte, Manassés não pôde possuir suas cidades de uma só vez, mas
apenas gradualmente subjugou os cananeus, tornando-os seus escravos.
Tanto Efraim quanto Manassés sentiram-se constrangidos com os elemen­
tos cananeus que habitavam nos vales e planícies fronteiriços a seus territó­
rios, de forma que solicitaram a Josué que lhes desse mais terra. Josué repli­
cou que eles deveriam expulsar os cananeus que ainda viviam na subida de
seus bosques; assim, progressivamente se tornariam fortes o suficiente para
removerem os cananeus de Jezreel (Js 17.14-18).
Ainda restavam sete tribos entre as quais seria repartido o restante da
terra. Josué, portanto, reuniu os líderes em Siló (Khirbet Seilun), o novo
centro de culto e política,90 e aconselhou-os a enviar alguns espias às regi­
ões que ainda seriam alocadas. Os espias retornaram com um relatório
que descrevia a terra e indicava a melhor maneira pela qual esta poderia
ser repartida.
Seguindo o relato, Josué resumiu o processo de distribuição. Primeiro,
Benjamim recebeu uma pequena porção entre Judá e Efraim, incluindo as
importantes cidades de Jerico, Betei, Gibeá, Gibeão e Jerusalém. Simeão,
talvez dizimada pelo julgamento de Jeová em Peor, tinha uma população
insuficiente para garantir um distrito para si mesma, tornando-se então
um clã dentro de Judá. Algumas de suas principais cidades foram Berseba,
Hormá e Ziclague, mais tarde muito famosa por seu relacionamento com
o rei Davi.

50 Embora Siló "tenha sido muito desabitada durante a Era do Bronze Recente" (Boling,
Joshua, p. 422), houve ocasiões em que esse fator não era o caso, o que abre a perspectiva
para que ela tenha servido como uma espécie de centro cultural de Israel desde o déci­
mo quarto século em diante.
13 6 H istória de I srael no A ntigo T estamento

Ao norte do vale de Jezreel coube a herança de Zebulom. Desde Saride


(Tel Shadud), menos de 16 quilômetros ao norte de Megido, passando pela
planície de Jezreel; a fronteira sul de Zebulom corria sentido oeste até al­
cançar a Jocneã (Tel Qeimun). Para o oriente de Saride, a fronteira se es­
tendia em direção a Jafia (Yafa), e dali movia-se para o norte até Gate-
Hefer (Khirbet ez-Zurra') e Rimom (Rumaneh). Pouco acima de Rimom, a
fronteira voltava-se para oeste, passando pelo vale de Ipta El (Vadi el-
Malik).
A segunda tribo a receber herança na região da Galiléia foi Issacar. Sua
fronteira ao oeste alinhava-se desde Jezreel (ZerTn) indo para o norte, atra­
vés de Suném (Sôlem), até Quesulote (Chisloth-tabor). Do oriente de Jezreel
a fronteira seguia para Remete (Jarmute),91 quase a 5 quilômetros do Jordão
e 12 quilômetros ao norte de Bete-Seã. Deste ponto seguia em direção nor­
te ao longo do Jordão e para oeste até o monte Tabor. Issacar então herdou
uma porção de terra muito pequena, cuja grande parte era controlada por
cananeus nos primórdios da história.
Aser estabeleceu-se na costa do Mediterrâneo, ao norte do monte
Carmelo. De Helcate (Tel el-Qassis), no Quisom, sua fronteira seguia em
direção norte até Acsafe e provavelmente até Aczibe (ez-Zib). No sul a
fronteira começava na costa do Mediterrâneo e tocava o monte Carmelo e
Shihor-Libnath (Vadi Zerqa),92 voltava-se a noroeste, ao longo da frontei­
ra de Zebulom e do vale Ipta El. De lá estendia-se até o norte para Bete-
Emeque (Tel Mimâs), passando por Neiel (Khirbet Ya'nim) e Cabul (Kã-
bül), estendendo-se muito longe para o norte, até Ebrom (Abdon?), Caná
(Qânã) e Hosa (Usu?) no Mediterrâneo, apenas 6 ou 8 quilômetros ao sul
de Tiro. A fronteira, é claro, seguia a costa sul do Mediterrâneo até Aczibe.
Surgem muitos problemas quando se empreende uma tentativa de
reconstruir as fronteiras de Aser, dos quais o principal é a aparente per­
da do monte Carmelo e a costa do Mediterrâneo de lá até Aczibe. A pri­
meira fronteira mencionada, desde Helcate até Acsafe (e Aczibe?), pare­
ce ser a ocidental, ao passo que a oriental corria desde o vale Ipta El até
a cidade de Tiro. E bem possível que uma população cananéia controlas­
se o Carmelo e a costa ao norte durante a fase inicial. Um segundo pro­
blema é a aparente localização de Dor dentro de Aser, quando já havia
sido anteriormente designada a Manassés. A solução evidentemente é o
fato de que, por razões inespecíficas, Manassés possuiu algumas cida-

51 Oxford Bible Atlas, p. 138.


92 Oxford Bible Atlas, p. 49. Aharoni, Land of the Bible, p. 258, identifica a Shihor-Libnath
com a Kishon, portanto localizando especificamente o Carmelo fora de Aser.
A C onquista f. a O cupação de C anaã 137

des, inclusive Dor, que na verdade estavam dentro das fronteiras de Aser
(Js 17.11).93
A sexta herança distribuída em Siló foi para Naftali. A fronteira ao sul,
começando em Helefe (Khirbet Trbâdeh?), seguia em direção a Jabneel
(Tel en-Na'am) terminando no Jordão. De Helefe, estendia-se para o oeste
e para o norte, passando através de Hukkok (Yakuk), próximo à curva
nordeste de Quinerete. Embora o restante da fronteira a oeste e ao norte
não seja especificada, a soma de toda a extensão das possessões de Naftali
- até Zebulom ao sul, Aser a oeste e o Jordão ao oriente - pressupõe que
esta tribo estendeu seus limites para o norte o máximo que pôde, chegan­
do até Tiro, ao ocidente, e ao Jordão, a oriente. Esse fato é confirmado pela
lista das cidades fortificadas dessa tribo: En-Hazor (Hazzur), Cades (Tel
Qades) e Hazor (Tel el-Qedah), todas elas situadas no norte da Galiléia.
A herança da tribo de Dã caiu para o oeste de Benjamim, entre as tribos
de Judá e Efraim. Mas em conseqüência de Dã ter-se mostrado inapto para
ocupar as terras ao oeste, no Sefelá, e nas planícies costeiras, a tribo imi­
grou para o norte e apoderou-se do pequeno reino de Lessem (Lais), que
ficava ao norte do lago Hulé. Juízes 18 fornece detalhes a respeito dessa
mudança.
A última distribuição de terra coube ao próprio Josué (Js 19.49,50). Como
Calebe, ele havia afirmado a soberania de Jeová sobre a terra da promessa,
e agora herdava a sua possessão. A cidade que ele havia solicitado e rece­
beu chamava-se Timnate-Heres (Khirbet Tibnah), na região montanhosa
ao oeste de Efraim.

As cidades de refúgio

Antes de sua morte, Moisés determinou que seis cidades de refúgio


fossem nomeadas em Canaã, três ao leste e outras três ao oeste do Jordão
(Nm 35.6-34; Dt 4.41; 19.2). O propósito era providenciar um santuário
para alguém culpado de homicídio até que houvesse oportunidade deste
ser imparcialmente julgado. Uma pessoa culpada de homicídio deveria
ser executada, mas alguém que tivesse matado acidentalmente poderia
permanecer na cidade de refúgio, até a morte do sumo sacerdote então em
ofício. As cidades escolhidas foram Cades (Tel Qades), em Naftali, que
distava apenas oito quilômetros do lago Hulé; Siquém (Tel Balâtah), em
Efraim; Hebron, em Judá; Bezer (Umm el-'Amad), em Rúben, a oito quilô-

Outra solução possível é sugerida na nota 92: se Shihor Libnath deve ser identificada
com a Quisom, então Dor deve ser localizada fora de Aser.
138 H istória de I srael no A ntigo T estamento

metros de distância de Hesbom; Ramote (Tel Rãmíth), em Gade; e Golan


(Sahm el-Jõlân), em Manassés, cerca de 32 quilômetros a leste do mar de
Quinerete. Portanto, de qualquer parte da terra, não seria tão distante en­
contrar um santuário.

As cidades dos levitas

As seis cidades de refúgio estavam entre as quarenta e oito que haviam


sido dadas aos levitas como herança (Nm 35.1-8). Como uma tribo separa­
da para Jeová em lugar de todos os primogênitos de Israel (Nm 3.41), e
servindo ao Senhor no que diz respeito ao serviço sagrado, os levitas, di­
ferentemente das outras tribos, não possuíam um território próprio. Em
vez disso, cidades com terras para pastagens em redor lhes foram garanti­
das, onde poderiam viver entre o povo, ministrando-lhes. Embora proibi­
dos de empregar-se em funções seculares, fora-lhes permitido cultivar
pequenas plantações e criar pouca quantidade de gado. Como exatamen­
te eles exerciam as funções em suas cidades não está claro, embora presu­
ma-se que supervisionavam qualquer atividade religiosa que fosse per­
mitida fora do santuário central. E também, é claro, serviam no tabernáculo
e no templo, de acordo com a escala prescrita.94
Os coatitas receberam algumas cidades em Judá, Simeão, Benjamim,
Efraim, Dã e Manassés ocidental. Os sacerdotes (dos quais todos descen­
diam de Arão, assim eram coatitas) foram restritos a Judá, Simeão e
Benjamim. Portanto, as cidades levitas dessas tribos, que ao todo soma­
vam treze, eram totalmente habitadas por sacerdotes. O motivo para tal
alocação é desconhecido, especialmente nesse período primitivo; porém,
quando Jerusalém tomou-se a capital e o centro de adoração, a sabedoria
em ter os sacerdotes habitando nas proximidades de Jerusalém tornou-se
óbvia. As mais famosas cidades dos sacerdotes eram Hebrom, Debir, Bete-
Semes - estas em Judá e Simeão - e Gibeão e Anatote, em Benjamim.
Hebrom e Debir foram dadas a Calebe, um não-levita, mas agora está cla­
ro que a sua reivindicação estendia-se apenas às imediações da cidade, e
que estas verdadeiramente eram habitadas por sacerdotes. Bete-Semes foi
por pouco tempo (e apropriadamente, em vista de ser uma comunidade
sacerdotal) o lar da Arca da Aliança (1 Sm 6), Gibeão era o local do
Tabernáculo de Moisés nos dias de Davi (2 Cr 1.3), e Anatote, o lar do
sacerdote e profeta Jeremias. A ocupação de Gibeão pelos sacerdotes pres­
supõe, obviamente, a expulsão final dos heveus que lá habitavam. Os

94 Roland de Vaux, Ancient Israel (New York: McGraw-Hill, 1965), vol. 2, pp. 358-71.
A C onquista e a O cupação de C anaã 139

coatitas que não eram sacerdotes habitavam em dez cidades, incluindo


Siquém, Gezer, e Bete-Horom, em Efraim; Aijalom em Dã; e Tanaque no
lado ocidental de Manassés.
O clã gersonita de Levi recebeu treze cidades em Issacar, Aser, Naftali e
/ a Manassés oriental. As mais importantes eram Golã, uma cidade de refú-
'y gio; Jarmute e Cades, outra cidade de refúgio. Os meraritas estabelece­
ram-se em doze cidades em Rúben, Gade e Zebulom, incluindo Bezer e
Ramote, duas cidades de refúgio, e Hesbom. Novamente, a distribuição
sábia das cidades levitas garantia pronto acesso para todo israelita que
delas precisasse. ^
Assim que o processo de alocação das tribos chegou ao fim, Josué de­
terminou que todos os homens de guerra das tribos de Rúben, Gade e
Manassés oriental retornassem a seus lares na Transjordânia. Eles haviam
cumprido com a palavra dada a Moisés, segundo a qual ajudariam a seus
irmãos na conquista de Canaã, em troca de permanecerem nas terras ao
leste do Jordão. No caminho de casa, porém, eles erigiram um altar próxi­
mo ao Jordão, cujo propósito, informaram eles, era servir como um monu­
mento comemorativo, um símbolo da unidade perpétua e de fé comum
entre as tribos do oriente e as do ocidente. Antes que o assunto fosse escla­
recido, Josué preparou-se para guerrear, pois entendera que a construção
era um altar em competição com o santuário central em Siló.
A preocupação de Josué refletia a sua compreensão de Deuteronômio
12, que especificava que a adoração comunitária de Israel deveria ser cen­
tralizada. De fato, os altares locais construídos para sacrifícios particula­
res eram permitidos; mas, para todo o Israel, o povo da aliança com Jeová,
somente um local para a adoração era lícito. Josué, portanto, enviou uma
delegação de líderes até as tribos da Transjordânia para informar-se acer­
ca do que significava o altar. Satisfeito por não se tratar de um centro de
culto alternativo, Finéias, o chefe da delegação, voltou a Siló e apresentou
o seu relatório, acalmando assim os ânimos de Israel.

A s e g u n d a re n o v a ç ã o d a a lia n ç a e m S iq u é m

Muitos anos após este episódio, Josué, ciente de que a sua morte estava
próxima, reuniu em Siquém os líderes das tribos para admoestá-los a serem
fiéis à aliança, conduzindo-os em uma cerimônia de reafirmação do pacto.
Em obediência às ordens expressas de Moisés, Josué havia conduzido tal
cerimônia na época em que Israel entrou na terra (Dt 27.1-8; Js 8.30-35). Agora,
ele repetia a ocasião a fim de prevenir qualquer tipo de abandono da alian­
ça, conforme a sua suspeita sobre o altar erguido pelas tribos orientais pró­
14 0 H istória de I srael no A ntigo T estamento

ximo ao Jordão. Além disso, ele agora dirigia-se a uma nova geração de
israelitas, uma geração que, em sua maioria, não havia participado pessoal­
mente da renovação da aliança. Portanto, depois de um período de mais de
trinta anos, a comunidade reafirmou o seu compromisso.95
Josué primeiramente relatou todos os poderosos feitos de Deus em fa­
vor de Israel (Js 23). Ele havia pelejado por eles e lhes dera uma herança na
terra. Ainda que no momento não tivessem possuído toda a terra, Ele as­
segurava o sucesso final. Porém, isto dependeria da obediência do povo e
de uma firme adesão aos princípios da aliança. Qualquer falha a esse res­
peito ocasionaria o juízo de Yahweh, que os removeria da terra.
Assim, em Josué 24 aparece a descrição da renovação da aliança. Era
comum no antigo Oriente Médio que cada nova geração de vassalos ou­
visse e respondesse aos termos da aliança que fora inicialmente firmada
entre seus antepassados e o suserano. Moisés havia inicialmente recebido
a revelação da aliança com Yahweh no Sinai, escrevendo ele mesmo o tex­
to da aliança (essencialmente Êx 20-23) e o contexto histórico no qual ela
foi oferecida (Êx 19) e aceita (Êx 24). Aproximadamente quarenta anos
depois, ele reiterou os termos da aliança nas planícies de Moabe, desta vez
com adornos e emendas apropriados para a nova geração, que estava para
sair do deserto e lançar-se à conquista e à vida sedentária. Josué reafirma­
ra a aliança no início da conquista (Js 8.30-35); agora, vendo que uma nova
geração havia nascido e enfrentado condições completamente novas, mais
uma vez ele reunia o povo para uma renovação da aliança. :
O cerimonial de renovação seguiu o procedimento padrão.96 Josué reu­
niu o povo diante de Yahweh (Js 24.1); então passou a descrever os feitos

95 O cálculo para essa datação reside no fato de Josué, que morreu aos 110 anos de idade
(Js 24.29), haver pronunciado esse discurso bem no fim de sua vida (Js 23.1,2,14). Visto
que ele, sem dúvida alguma, tinha cerca da mesma idade de Calebe (ou talvez um pou­
co mais novo que ele), que estava com oitenta e cinco anos em 1399 a.C. (Js 14.6-12), sua
morte deve ter ocorrido no mínimo por volta de 1375 ou então trinta anos depois da
renovação da aliança descrita em Josué 8. Ver p. 149 para uma argumentação que defen­
de a idéia de que Josué, na verdade, morreu aproximadamente em 1366.
96 Para um comentário de Josué 24 como um texto específico da aliança e registro da ceri­
mônia de renovação, ver Delbert R. Hillers, Covenant: The History o f a Biblical Idea
(Baltimore: Johns Hopkins Press, 1969), pp. 58-66. Hillers com muita precisão indica o
fato de que essa passagem não contém o texto da aliança propriamente dito, mas uma
descrição de como tal aliança foi cumprida (p. 61). Não havia razão para termos áqui
um texto volumoso da aliança, já que é bem provável que Josué estivesse chamando a
atenção do povo para os aspectos essenciais da aliança, conforme vemos delineados em
Deuteronômio.
A C onquista e a O cupação de C akaã 141

de Deus para com Israel, repetindo toda a história sagrada até aquele
momento (vv. 2-13), e os exortou a repudiarem todos os monarcas adver­
sários (outros deuses), sendo fiéis somente a Yahweh (vv. 14,15). O povo
concordou com a interpretação de Josué sobre a história e prometeu total
obediência (vv. 16-18). Josué lembrou-lhes que a guarda da aliança seria
difícil, e que a falha dispararia a ira de um Deus santo (vv. 19,20). Eles, por
sua vez, prometeram servi-lo, rejeitando outros deuses (vv. 21-24).
Após a cerimônia ter-se realizado, deu-se um ritual que incluía o regis­
tro do compromisso e o levantamento de uma esteia comemorativa, que
para sempre serviria de testemunha das promessas feitas (vv. 25-28). Foi
muito apropriado que a cerimônia tivesse ocorrido em Siquém, pois lá o
próprio Abraão, pai de Israel, chamado para uma aliança com Yahweh,
ergueu um altar em celebração da presença teofânica de Deus. O Deus dos
pais era o mesmo Deus de Josué e de sua geração.
Logo em seguida, Josué morreu e foi sepultado em sua cidade, Timnate-
Heres. E assim, como sugerindo o final de uma era - a era patriarcal atra­
vés do cumprimento da promessa patriarcal da terra - o historiador regis­
tra que os ossos de José, miraculosamente preservados por mais de qua­
trocentos anos, foram trazidos e enterrados em Siquém. Assim como essa
região de Siquém (atualmente a cidade de Dotã) marcou o ponto da desci­
da de José ao Egito, em preparação para a salvação do povo de Israel,
agora rrfãrcava o ponto de sua subida em celebração do livramento dado
por Yahweh e o cumprimento de sua promessa. Por último, Eleazar mor­
reu e foi da mesma forma enterrado em Efraim. Era muito evidente que
Israel estava para penetrar em uma nova era de sua experiência histórica.
A ERA D 0 S J UÍ Z E S : A V I O L A Ç Ã O
DA A L I A N Ç A , A N A R Q U I A
E A AUTORIDADE HUMANA
O problem a crítico-literário no livro de Juízes
A cronologia de Juízes
A duração do período
A data inicial
A data de encerramento
Comprimindo a cronologia
O mundo do antigo Oriente Médio
O silêncio do Antigo Testamento
Mesopotâmia
Os hititas
Egito
Os estados siro-cananeus
Os juízes de Israel
O padrão cíclico que caracteriza o período
A natureza da idolatria em Canaã
Otniel
Eúde
Sangar
Débora
Gideão
O reinado malogrado de Abimeleque
Juízes menores
Jefté
Sansão
Samuel
A trilogia de Belém
Mica e o levita
O levita e sua concubina
A história de Rute: ligações patriarcais
Judá e Tamar
Os patriarcas e a monarquia
O papel da donzela moabita

O p ro b le m a c rític o -lite rá rio n o liv ro de Ju íz e s

A maioria dos estudiosos do Antigo Testamento está ciente dos problemas


históricos e literários presentes na transição do livro de Josué para o livro de
Juízes. No centro das dificuldades estão as referências à morte de Josué em
Juízes 1.1 e 2.8, seguidas respectivamente por relatos da conquista e apostasia.
1 44 H istória de I srael no A ntigo T estamento

O procedimento comum dos críticos tem sido, pelo menos, comparar tradi­
ções diferentes que não conseguiram alcançar uma redação satisfatória.1
A solução m ais satisfatória para esta aparente contradição ou
sobreposição de fontes é entender Juízes 1.1-2.9 como uma ponte literária
que conecta o final do relato de Josué ao início das narrativas dos Juízes. O
livro de Josué registra que "Josué, filho de Num, o servo do Senhor, fale­
ceu, sendo da idade de cento e dez anos" (Js 24.29). Exatamente com as
mesmas palavras o autor de Juízes registra a morte de Josué. Para evitar
que o livro iniciasse com a apostasia de Israel e mostrar que esta apostasia
não seguia imediatamente a morte de Josué, o historiador começa com o
relato da campanha de Judá e Simeão contra os cananeus que esporadica­
mente ainda permaneciam na região montanhosa ao sul. E importante notar
que os inimigos não mais são os amorreus, como foi o caso na campanha
inicial liderada por Josué, pois imagina-se que os amorreus tenham sido
expulsos de Judá de uma só vez.2 O rei cananeu especificamente é Adoni-
Bezeque, rei de Bezeque (Khirbet Bezqa), cerca de cinco quilômetros a
nordeste de Gezer.3 Tomando-o como prisioneiro, os homens de Judá le­
varam-no até Jerusalém, onde veio a morrer.

1 Otto Eissfeldt, The Old Testament: An lntroduction, traduzido por Peter R. Ackroyd (New
York: Harper and Row, 1965), pp. 253-55, 257-58; J. Alberto Soggin, lntroduction to the
Old Testament, traduzido por John Bowden (Philadelphia: Westminster, 1980), pp. 166­
70. Uma atitude de cepticismo típica com respeito à historicidade do livro é a que se vê
em Sean Warner: "Parece ser opinião comum entre os historiadores que os dados conti­
dos na primeira parte do livro são historicamente problemáticos, que a estrutura
redacional da segunda parte, a principal deste livro, é definitivamente secundária e de
fato traz pouca ligação entre as histórias contidas no livro, e que a terceira parte tam­
bém é problemática, tornando-se difícil, se não impossível, decidir a favor da autentici­
dade de seus dados" (The Dating ofthe Period ofthe Judges, VT 28 [1978]: 455-56). Devido
a tais suposições infundadas, não é de admirar que o livro-de Juízes tenha se constituí­
do em um problema para a erudição crítica.
2 A campanha na região montanhosa em Judá, sob a liderança de Josué, envolveu os
amorreus (Js 10.6) e, é claro, não estava restrita às tribos de Judá e Simeão. Portanto, esta
não deve ser a batalha em questão. Além disso, Josué estava morto nessa ocasião (Jz
1.1), Judá e Simeão já tinham recebido seus territórios em comum (Jz 15.1; 19.1), e existe
especialmente uma distância entre esse acontecimento e qualquer outro descrito no li­
vro de Josué. Conforme as palavras de Robert G. Boling, Juízes 1 "é uma retrospectiva
do desempenho da geração que sobreviveu a Josué." (Judges, Anchor Bible [Garden City,
N.Y.: Doubleday, 1975], p. 66).
3 Não há qualquer base, textual ou não, para assumir que Adoni-Bezeque seja uma cor­
rupção do nome Adoni-Zedeque (Js 10.1), como sugerido, por exemplo, por George F.
Moore, A Criticai and Exgetical Commentary on Judges (New York: Scribner, 1895), p. 16.
A £>.a dos J uízes : A Violação da A liança , A narquia e a A utoridade H umana 145

A esta altura, o leitor cuidadoso pode perguntar como foi possível aos
homens de Judá obter acesso a Jerusalém, visto que a cidade permaneceu
sob o domínio dos jebuseus até o período de Davi. Antecedendo à ques­
tão, o historiador continua relatando como Jerusalém, pelo menos tempo­
rariamente, veio a ser dominada por Israel. Para isto, o autor utiliza o re­
curso literário deflashback, voltando ao período remoto em que Josué ain­
da era vivo. Portanto, em Juízes 1.8 está contida a descrição da queda de
Jerusalém, um acontecimento explicitamente não relatado em Josué, em­
bora sugerido sem dúvida pela morte do rei de Jerusalém durante a cam­
panha de Josué para o sul (Js 10.22-27). Naqueles dias Jerusalém havia
sido capturada e queimada pelos homens de Judá, mas a população não
foi destruída. De fato, pouco tempo depois, os jebuseus retomaram o con­
trole, e nem Judá (Js 15.63) nem Benjamim (Jz 1.21) puderam desalojá-los
novamente.
O resumo retrospectivo continua com a conquista realizada por Judá
da região montanhosa, o Negueve e a Sefelá, focalizando a tomada de
Hebrom. Provavelmente isto se refere a uma expedição particular contra
Hebrom, em atenção ao pedido de Calebe por sua herança (Js 11.21-23;
14.13-15; 15.13-19), em vez de uma derrota anterior dos reis amorreus
conseguida por Josué e todo o Israel (Js 10.36,37).4 Semelhantemente, a
captura de Debir (Jz 1.11-15; cf. Js 10.38,39) enquadra-se na história da
campanha de Calebe, e não na conquista israelita do sul. E especialmente
apropriado que o historiador repita a história de Calebe e Otniel, uma vez
que Otniel será introduzido como o primeiro dos juízes. Então, vê-se aqui
outra ponte literária e histórica entre os livros de Josué e Juízes.
Essa retrospectiva parentética até o tempo de Josué aparentemente ter­
mina repetindo o relato da entrega de Hebrom e Debir a Calebe. Agora, o
autor retorna à narrativa dos versos 1-7, que diz respeito à conquista efe­
tuada por Judá e Simeão. O autor fala primeiro acerca da assimilação dos
quenitas5 por Judá, e os ataques combinados contra a fortaleza cananéia

4 É mais uma vez importante notar que os inimigos nas campanhas remotas (Js 10) foram
os amorreus, enquanto que na conquista da cidade de Hebrom, com a participação dire­
ta de Calebe, os inimigos foram os enaquins (Js 11) e os cananeus (Jz 1). Parece claro que
os enaquins eram um povo cananeu, e não os amorreus, embora ambos possam ter
coexistido (Nm 13.22; Js 15.13,14).
" O Antigo Testamento identifica os quenitas como midianitas (Jz 1.16), e diz que seu
ancestral foi Hobabe, cunhado de Moisés, que acompanhou o povo de Israel, pelo
menos em parte, do Sinai até Canaã (Nm 10.29-32). Para estudar sobre tal ligação, ver
em H. H. Rowley, From Joseph to Joshua (London: Oxford University Press, 1950), pp.
152-55.
DA

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ISRAEL DURANTE
A ERA DÖS J U Í Z E S
A E ra dos J uízes: A Violação da A liança, A narquia e a A utoridade H umana 147

de Zeftá, um local antigamente conhecido por Hormá (Jz 1.17).6 Então


eles conseguiram tomar três cidades dos filisteus: Gaza, Ascalom e Ecrom.
Finalmente, o historiador relata que Judá e Simeão tomaram todas as ci­
dades montanhosas do sul, incluindo Hebrom, apesar de não ter sido pos­
sível ocupar as planícies porque os seus moradores possuíam carruagens
de ferro.7
Em sintonia com o modelo de conquista descrito no livro de Josué, o
historiador agora volta a atenção para o norte, para a conquista de Betei
pelos homens da tribo de José (Jz 1.22-26). Através de suborno e ameaças
a cidade foi conquistada. Betei tinha sofrido uma considerável perda de
habitantes quando Josué conquistou Ai, mas nada além de uma breve
menção em Josué 12.16 é dito acerca da captura da própria cidade naquele
tempo. O acontecimento em Juízes, então, deve referir-se a um episódio
posterior no qual a tribo de Efraim empreendeu esforços para ocupar o
território herdado (Js 16.1,2). De modo similar, a tribo de Manassés oci­
dental tentou sem êxito reivindicar a sua herança. Com palavras que alta­
mente recordam o relato em Josué, (Jz 1.27,28; cf. Js 17.12), o narrador diz
que Manasses não pôde repelir os cananeus de certas cidades, especial­
mente da planície de Jezreel (Bete-Seã, Tanaque, Ibleam e Megido) e da
planície costeira (Dor). Estas cinco cidades foram por fim habitadas por
Manassés, ainda que tecnicamente pertencessem a Issacar e a Aser (Js 17.11).
A razão é que, em cada caso, elas estavam geograficamente contíguas a
Manassés, e sofriam a intervenção dos cananeus que reivindicavam seus
direitos originais sobre elas.
Ao norte da planície de Jezreel a situação ainda era a mesma. Zebulom
não expulsou os cananeus de Quitron e Naaol; Aser foi frustrado em

6 Israel destruiu certas cidades cananéias quando estava a caminho de Canaã, sendo tais
cidades chamadas coletivamente de Hormá (de herem, "banido; proibido"), em conse-
qüência da sua punição (Nm 21.1-3). Zefate deve ter sido uma cidade reconstruída so­
bre essas ruínas. Ver Yohanan Aharoni, The Land of the Bible (Philadelphia: Westminster,
1979), p. 216.
7 Visto que a Idade do Ferro na Palestina deve ter-se iniciado por volta de 1200 a.C., o uso
do ferro pelos cananeus constituiria um problema para a cronologia adotada neste vo­
lume, que fixaria as campanhas de Judá e Simeão descritas em Juízes 1 em cerca de
1350. Contudo, pelo menos os hititas já dominavam essa tecnologia e usavam o ferro
aproximadamente em 1400; logo, não há razão por que Canaã não poderia ter importa­
do ferragens por volta do século XIV. Ver em Jacquetta Hawkes, The First Great
Civilizations (New York: Knopf, 1973), p. 113; Leonard Cottrell, The Anvil of Civilization
(New York: New American Library, 1957), p. 157; V. Gordon Childe, New Light on the
Most Ancient East (New York: Norton, 1969), p. 157.
14 8 H istória de I srael no A ntigo T estamento

Ac o, Sidon, Aczibe, e em muitos outros lugares; e Naftali foi forçado a


coexistir com os cananeus em Bete-Semes e Bete-Anate. Quanto aos
danitas, no sul, foram duramente resistidos pelos amorreus, que aparen­
temente estabeleceram-se nos vales após a conquista, particularmente
em Aijalom e Shaalbim (Selbit), no vale de Aijalon.8 Os efraimitas saí­
ram em auxílio à tribo de Dã, e puseram os amorreus para além de uma
linha que ia desde a Passagem do Escorpião (a "subida de Acrabim") em
direção norte. Provavelmente isto se refere a uma demarcação entre a
própria região montanhosa e a Sefelá, ou planícies ocidentais. Assim, os
amorreus e os primitivos filisteus provavelmente ocuparam a mesma
área pelo menos até a invasão de uma segunda leva de filisteus, os Po­
vos do Mar, em cerca de 1200.
Talvez em resposta ao compreensível sentimento de frustração que Josué
e Israel devem ter sentido pela incapacidade de conquistar a terra rapida­
mente, o Anjo do Senhor apareceu a Israel em Boquim (localização desco­
nhecida) e lhes disse que a inaptidão para possuir completamente a terra
procedia da violação da aliança feita com Yahweh. Eles haviam feito alian­
ça com alguns nativos (os gibeonitas) e falharam em destruir os seus alta­
res. Como havia ameaçado fazer em caso de tal desobediência, Yahweh
permitiu que os cananeus e seus deuses permanecessem na terra como
instrumentos de disciplina.
Parece que o narrador novamente interrompe seu relato da ocupa­
ção pós-conquista, desta vez para retornar à segunda renovação da ali­
ança feita em Siquém. Isto pode ser lido em Juízes 2.6: "E havendo Josué
despedido o povo... cada um à sua herdade", e Josué 24.28: "Então Josué
despediu o povo, cada um para a sua herdade". Juízes 2.6,7 - "foram-
se os filhos de Israel... para possuírem a terra" - é uma recapitulação
de 1.1-2.5 (com exceção de 1.8-15), um resumo de todos os esforços
subseqüentes durante o estabelecimento na terra. Em seguida a ceri­
mônia em Siquém, o povo assumiu a tarefa de ocupar a terra como
vassalos do soberano Deus. E assim o fizeram fielmente durante os dias
da geração de anciãos que viveram após a morte de Josué. Somente

s A movimentação de Dã para localizar-se mais ao norte (Lais) deve ter ocorrido no perí­
odo remoto dos juízes. Não poderia ter acontecido antes do esforço para estabelecer-se
na terra, descrito em Juízes 1.34-36, visto que foi exatamente a pressão dos amorreus
que iniciara a relocação. Também claramente precedeu a chegada dos Povos do Mar/
filisteus, aproximadamente em 1200 a.C. Conforme indica Roland de Vaux, este é o úni­
co texto em que os amorreus se encontram nas planícies, um fato que poderia confirmar
a opinião de que a conquista da região montanhosa, sob a liderança de Josué, foi um fait
accompli (The Early History of Israel [Philadelphia: Westminster, 1978], p. 133, n. 28).
4 E ra dos J uízes: A Violação da A liança, A narquia e a A utoridade H umana 149

depois disso passaram a adorar Baal e chafurdar a nação no abismo da


apostasia e da anarquia, que constituem a grande marca do livro de
Juízes.9

A c ro n o lo g ia de Ju íz e s

A duração do período

A data inicial
Antes de iniciar o tópico acerca da apostasia de Israel, é necessário que
uma base cronológica e hj^tórica seja instituída para toda a era dos juízes.
Nossa proposta será prinielro considerar a evidência bíblica interna, e em
seguida, pelo menos resumidamente, o mundo do antigo Oriente Médio
naquela época.
Ao determinar a estrutura cronológica do período^ps juízes, o passo
inicial será o estabelecimento de tcrmini a quo e ad quem.^O segundo baseia-
se em dados precisos que serão considerados mais à frente, mas o primeiro
requer uma reconstrução fundamentada em princípios mais subjetivosTEm
primeiro lugar, está claro que jqsué morreu na idade de 110 anos, alguns
anos após o início da conquista1' A data da conquista fixa-se aproximada­
mente entre 1406 e 1399, já que iniciou-se exatamente quarenta anos depois
do êxodo em 1446 (Dt 1.3),% terminou sete anos mais tarde. Isto conforme o
testemunho de Calebe, que informou estar com quarenta anos no momento
em que ele e Josué espiaram a terra, e com oitenta e cinco ao término da
conquista (Js 14.7-10). Os espias foram enviados dois anos após o êxodo;
nessa época Calebe estava com quarenta anos em 1444, e oitenta e cinco em
1399. Pode-se concluir que Josué era da mesma idade. Ele foi um excelente
guerreiro contra os amalequitas em 1446 (Ex 17.10), e foi chamado de "jo­
vem" pouco tempo depois (Ex 33.11). Embora seja um risco especular, uma
idade de trinta anos para Josué na época do êxodo certamente não é
exorbita n tcCTóesta forma, a data de seu nascimento seria por volta de 1476,
e a data de sua morte, 1366. Otniel, o primeiro juiz, iniciou o seu governo
após esta data.

" O período dos juízes foi um tempo em que quase não houve autoridade central, e tam­
bém se caracterizou como um período em que não havia qualquer senso de patriotismo
ou coesão religiosa, um ponto bem discutido por Alan J. Hauser, Unity and Diversity in
Early Israel Befor Samuel, JETS 22 (1979): 289-303.
; Para uma pesquisa sobre as várias abordagens, ver J.H. John Peet, "The Chronology of
the Judges - Some Thoughts", Journal of Christian Reconstruction 9 (1982-1983): 161-81.
150 H istória de I srael no A ntigo T estamento

■ í)
N A segunda consideração é ainda mais notável. Tanto Josué 24.31 quan­
to Juízes 2.7 enfatizam que Israel serviu a Yahweh fielmente não apenas
nos dias de Josué, mas também durante os anos dos anciãos que lhe suce-
[deramJnsto não pode se referir aos anciãos contemporâneos de Josué na
- época do êxodo e da p eregrin ação no d eserto, visto que estes
presumivelmente foram incluídos na geração rebelde de Israel, e que fora
sentenciad a à m orte no deserto (Nm 1 4 .2 6 -3 5 ).iS o m e n te uma
desconsideração total do texto permitirá crer que houve um número sig­
nificativo de homens acima de vinte anos que sobreviveram ao deserto.
Mas, ainda que tenha existido um pequeno número, houve anciãos desig­
nados posteriormente ao julgamento em Cades-Barnéia, e todos deviam
estar com menos de vinte anos na ocasião. Alguns, sem dúvida, deviam
ser consideravelmente jovens. Mesmo na visão mais conservadora, um
ancião elegível para entrar em Canaã não poderia ter nascido antes de
1464, vinte anos antes da rebelião em Cades-Barnéia. Se ele viveu para ser
tão velho quanto Josué, teria vivido até 1354. Se, porém, ele tivesse nasci­
do pouco antes da rebelião, poderia ter vivido até cerca de 1340. A data de
1340 não é improvável para o início da adoração a Baal. De fato, pode até
ser um pouco antes, visto que Juízes 2.10 indica que toda geração de anciãos
havia morrido, e outra geração, que não conhecia nada sobre Yahweh e
seus atos salvíficos, tinha se estabelecido. E, é claro, Otniel, o primeiro
juiz, não exerceu seu ofício até oito anos após o início do julgamento de
Yahweh (Jz 3.8,9).
Contra essas datas mais recentes, porém, temos a propria introdução
feita por Otniel. Depois que Calebe conquistou' as>cidades de Hebrom e
Debir, seu sobrinho Otniel tomou-lhe a filha, chamada Acsa, para ser sua
esposa. Caso isto tenha ocorrido em 1399 ou pouco tempo depois, então
por volta de 1340 Otniel devia estar em idade bastante avançada, mesmo
que na época de seu casamento estivesse ainda muito jovem. Isto é intei­
ramente possível, embora improvável, pois parece que ele morreu qua­
renta anos após ter libertado o povo de Israel (Jz 3.11). Também pode-se
argumentar que os anciãos da idade de Josué tiveram permissão para en­
trar em Canaã; Eleazar, filho de Arão, claramente tinha mais de vinte anos
na época em que a antiga geração foi proibida de entrar em Canaã (Êx
6.23,25). Pode ser que a apostasia e a subseqüente era dos juízes tenha
vindo após a morte desses anciãos.11 Parece que 1360-1350 é uma data
razoável para a transição entre Josué e os juízes.

11 Warner, de fato, está disposto a admitir o ano de 1373 a.C. para o início da era dos juízes
(.Period of the Judges, VT 28 [1978]: 463).
\ E pa dos J uízes: A Violação da A liança, A narquia e a A utoridade H umana 151

A data de encerramento
Como indicado anteriormente, as datas para o final do período dos
juízes podem ser mais precisamente definidas. O argumento, contudo, é
extremamente complexp, e a cada ponto assume a exatidão e a integrida­
de do texto bíblico. Emprimeiro lugar, a data de Juízes 11.26 é de impor­
tância crucial. O juiz Jefté está informando ao rei hostil de Amom que sua
reclamação de que Israel está ilegalmente em território dos amonitas é
inválida: Israel já estava lá por trezentos anos e, na verdade, a terra no
tempo da conquista da Transjordânia não pertencia de forma alguma a
Amom, mas sim aos amorreus. Se, diz Jefté, Amom tem algum legítimo
direito, por que esperaram os amonitas trezentos anos para fazer a recla­
mação?
'V' O ponto que precisa ser enfatizado aqui é o fato de que Jefté comunicou-
se com os amonitas trezentos anos depois da conquista de Siom, um episó­
dio ocorrido em 1406, e dezoito anos após a opressão amonita haver inicia­
do (Jz 10.8). Essa opressão então Começou em 1124 e terminou somente quan­
do Jefté derrotou Amom em 1106, o mesmo ano de sua comunicação com o
rei (Jz 11.33). Deve ser ligada a essas datas a história do governo de Sansão.
Uma leitura cuidadosa de Juízes 10.7,8 mostrará que a opressão amonita
iniciada em 1124 coincidiu com o começo da opressão dos filisteus.12 Po­
rém, o historiador traça apenas um curso de acontecimentos por vez; pri­
meiro escreve sobre a ameaça amonita e seu desfecho (Jz 10.8b - 12.7), e
então trata da opressão dos filisteus e sua resolução (Jz 13.1 - 16.31).
Os filisteus atormentaram Israel popquarenta anos (Jz 13.1), ou desde
1124 até 1084. Sansão nasceu logo no início deste período e julgou Israel
"nos dias dos filisteus, vinte anos" (Jz 15.20). Ou seja, os anos de seu go­
verno caíram exatamente dentro dos quarenta anos de duração da opres­
são dos filisteus (Jz 14.4), mas aparentemente não ultrapassou este tempo,
porque os filisteus parecem ter sido uma ameaça por pouco tempo após
Sansão ter destruído o templo de Dagon (Samuel os subjugou em Mispa).
Muito provavelmente os feitos heróicos de Sansão tenham se iniciado na
metade do período da opressão, quando ele estava com cerca de vinte
anos de idade, e morreu após vinte anos de governo, pouco antes do fim
da opressão.
Procedendo por um outro ângulo, é interessante notar que o golpe fi­
nal contra a opressão filistéia aconteceu sob a liderança de Samuel em

Moore, Judges, p. 277; Abraham Malamat, "The Period of the Judges," em World History
ofthe Jewísh People, vol. 3, Judges, editado por Benjamim Mazar (Tel Aviv: Massada, 1971),
p. 157.
15 2 H istória de I srael no A ntigo T estamento

Mispa (1 Sm 7.11,13), vinte anos após a arca da aliança ter sido levada
pelos filisteus (v. 2).13 O fim da opressão, conforme observado acima, ocor­
reu em 1084, e essa data marca também a batalha de Mispa. A batalha de
Afeque, que resultou na captura da arca, deve ter ocorrido em 1104, ou
seja, na metade do período de quarenta anos de opressão filistéia. Tende-
se a especular que o ataque dos filisteus possa ter sido uma espécie de
retaliação aos feitos heróicos de Sansão contra os adversários. Seja como
for, a cronologia proposta neste trabalho encaixa-se em tudo o que é co­
nhecido acerca da vida e carreira de Samuel, como também de Sansão.
Sem dúvida, o grande profeta ainda era muito jovem na época da batalha
de Afeque, mas "velho" quando Israel exigiu um rei, e ele ungiu Saul (1
Sm 8.1,5; 10.1). Admita-se que "velho" é um termo extremamente subjeti­
vo, mas é a mesma palavra usada para descrever Davi em seus setenta
anos (1 Rs 1.1,15; cf. 2 Sm 5.4).
Saul foi ungido em 1051 a.C., uma data que será defendida no devido
momento (p. 200); logo, se Samuel estava com setenta anos, seu nascimen­
to deve ter sido em 1121. Isto faria concluir que ele estava com dezessete
anos de idade em 1104, quando a arca foi capturada. Sabemos que Samuel
viveu no mínimo vinte e cinco anos após a ascensão de Saul, porque o
juiz-profeta ungiu Davi como rei quando este tinha provavelmente doze
anos. Davi nasceu em 1041, então uma data por volta do ano 1020 para a
sua unção não pode estar distante da realidade. Samuel viveu até Davi
fugir de Saul para o deserto de Parã (1 Sm 25.1), provavelmente no fim
dos anos 20. O profeta então estava próximo dos cem anos, caso tenha
nascido em 1121. É claro que, se a data parece extremamente avançada
(mas compare com Eli, que morrera aos noventa e oito anos), pode-se
mudar em alguns anos a data do nascimento de Samuel. Se, por exemplo,
ele nasceu em 1116, então tinha apenas doze anos quando a arca foi captu­
rada, e cerca de noventa e cinco anos quando veio a falecer.

Comprimindo a cronologia

O propósito desta exaustiva discussão da cronologia da era dos juízes


é mostrar a consistência dos dados bíblicos e responder às perguntas rela­
cionadas a todo o período entre o êxodo e Salomão. Baseando-se em datas
mais recentes que muitos estudiosos assumem para o êxodo e para a con- -
quista (cerca de 1275 -1250), há somente 300 anos para acomodar os juízes,
Saul, Davi e os quatro primeiros anos de Salomão, que começou a cons­

13 Ralph W. Klein, 1 Samuel, World Biblical Commentary (Waco: Word, 1983). Pp. 65,66.
A E fa dos J uízes: A Violação da A liança , A narquia e ,4 A utoridade H umana 153

truir o templo em 966, o quarto ano de seu reinado. Dificilmente se ques­


tiona os quarenta anos de Davi, e quanto a Saul, deve-se creditar pelo
menos vinte anos. Isto faz restar apenas 235 anos para todos os aconteci­
mentos do livro de Juízes. A solução comum é ignorar os números
registrados no livro ou postular uma considerável justaposição dos perío­
dos de opressão e liberdade. Alguma justaposição, conforme será demons­
trado, é necessária em qualquer posição viável.
Mesmo a remota data proposta para o êxodo (1446) apresenta sérios
problemas, considerando que dos 480 anos existentes entre o êxodo e o
quarto ano do rei Salomão (1 Rs 6.1), 4 são necessários para Salomão, 40
para Davi, 40 para Saul, pelo menos 45 para a conquista e a ocupação, e 40
para a peregrinação no deserto. Sobram apenas 311 anos para o período
dos juízes. Mas ao acrescentar os anos registrados em Juízes, que especifi­
cam a duração das opressões, dos juízes, e dos períodos intermediários de
paz, obtém-se um total de 407 anos. Este resultado é claramente incompa­
tível com 1 Reis 6.1 e até mesmo com a data remota proposta para o êxodo,
a menos que se aceite que os números registrados no livro dos Juízes se
sobrepõem.
Outro problema que parece surgir encontra-se em Atos 13.19,20, onde
o apóstolo Paulo, em discurso feito na sinagoga de Antioquia da Psídia,
indica que houve um período de 450 anos entre o final da conquista e a
vinda do profeta Samuel (segundo a King James Version). Embora não
seja possível saber o que Paulo quis dizer em sua referência a Samuel,
parece melhor entendê-la como uma alusão ao início do ministério públi­
co de Samuel como profeta. Ora, Samuel assumiu o lugar de Eli, que mor­
rera ao receber a triste notícia da captura da arca da aliança pelos filisteus,
na batalha de Afeque. Este fato, conforme mencionado acima, deve ser
datado em cerca de 1104. Seguindo Paulo, é necessário uma data em 1554
para o início do governo de Otniel, algo obviamente impossível. De fato, o
número 450 anos não pode encaixar-se em qualquer cronologia que consi­
dere seriamente 1 Reis 6.1. Este é o motivo por que muitos estudiosos op­
tam por uma leitura alternativa do texto de Atos 13.19,20, uma leitura que
sugere que os 450 anos referem-se à permanência no Egito (400 anos), à
peregrinação no deserto (40 anos), e a conquista (7 anos), um total que se
aproxima de 450 anos. Não importando as objeções, o fato é que esta leitu­
ra contradiz explicitamente a passagem de Êxodo 12.40, que declara que a
estadia de Israel no Egito durou 430 anos, e não apenas 400.
Uma solução melhor é a concepção de que Paulo acrescentou alguns
anos aos períodos de opressão, dos juízes e de paz descritos no livro dos
Juízes, que, como já visto, totalizam 407 anos. Os 40 anos de Eli (1 Sm
154 H istória de I srael no A ntigo T estamento

4.18), o juiz que precedeu Samuel, deve também ser incluído, perfazendo
um total de 450 anos.14 Embora este método de reconstrução cronológica
possa não satisfazer ao moderno homem ocidental, Paulo bem pode tê-lo
usado. Ele não era um especialista em cálculos, mas alguém que se baseou
nos dados dos livros de Juízes e de Samuel, organizando-os de forma a
satisfazer melhor as necessidades. O fato de Paulo incorporar sua inter­
pretação desses dados em um discurso público significa que seus ouvin­
tes entenderam e compartilharam com ele seu modo peculiar de compu­
tar a cronologia.
Não há motivo para rejeitar os dados bíblicos referentes à cronologia
dos juízes pois, conforme já visto, os números são capazes de trazer solu­
ção, uma vez que se veja com seriedade os dados cronológicos fornecidos
pelo Antigo Testamento. É somente quando os estudiosos sentem necessi­
dade, sobre bases puramente subjetivas, de rejeitar ou reinterpretar as in­
formações contidas no texto canônico que surgem dificuldades pratica­
mente insuperáveis, requerendo soluções muito mais criativas (e talvez
até mesmo niilistas).

O m u n d o d o a n tig o O rie n te M é d io

O silêncio do Antigo Testamento

Voltando à história da nação de Israel durante o governo dos juízes,


surpreende inicialmente a descoberta de que não existe sequer uma refe­
rência aos desenvolvimentos cruciais que envolviam as nações de maior
importância daqueles dias, nem mesmo as atividades no Egito. Um turbi­
lhão de assuntos de política internacional e várias campanhas militares
parecem ter sido completamente desviados de Israel. É como se a história
de Israel tivesse se tornado numa espécie de cuTde-sac, totalmente remo­
vida do cenário e dos acontecimentos que tumultuaram aqueles dias.
A razão para esse silêncio é dupla. Em primeiro lugar, o silêncio por si
mesmo é uma declaração em alto e bom som de que, devido às superpo­
tências da época estarem envolvidas com outros assuntos, não havia tem­
po ou energia para se gastar com um pequenino estado bastante isolado
das principais rotas de intercâmbio internacional.15 Em segundo lugar, fi­

14 Ver em Eugene H. Merril, "Paul's Use of 'About 450 Years' in Acts 13.20," Bib Sac 138
(1981): 246-57.
15 Abraham Malamat, "The Egyptian Decline in Canaan and the Sea Peoples," em World
History of the Jewish People, vol. 3, p. 23.
A E ra dos J uízes : A Violação da A liança , A narquia e a A utoridade H umana 755

éis ao estilo e ao método de historiografia bíblica, os historiadores sim­


plesmente não tinham qualquer interesse no vasto mundo daquela época.
Seu interesse era a história sagrada, no melhor sentido do termo, coinci­
dindo com os interesses de Yahweh, o Senhor da história, que desejava
contar a história de seu povo como um agente redentor no mundo. So­
mente quando a Babilônia, Assíria ou Egito constituem-se em dados im­
portantes para essa história da salvação é que são incluídas na narrativa
bíblica. Na verdade, até chegar à fase da monarquia, época em que Israel
tomou-se um reino significativo, procura-se em vão por alguma pista acerca
do mundo exterior.

Mesopotâmia

Para entender como a Palestina existiu em um vácuo por trezentos anos,


é necessário falar pelo menos resumidamente sobre a história extrabíblica.
Geograficamente é apropriado iniciar com Mesopotâmia. Conforme indi­
cado anteriormente (p. 92), o Antigo Império Babilónico abriu caminho
para os cassitas por volta de 1595 a.C., que continuaram a dominar a parte
central e mais baixa da Mesopotâmia até cerca de 1150. Esse foi um perío­
do de relativa regressão e inatividade para toda a região, o que resultou
em pouca ou nenhuma ameaça em direção ao oeste naquele tempo. Para o
norte, porém, os assírios tinham se tornado substancialmente fortes, e ti­
nham dado início à sua política imperialista pela qual tornaram-se famo­
sos. Foi graças a Assur-uballit (1365-1330) que os assírios libertaram-se da
antiga dominação imposta pelos hurrianos. Era ele quem se assentava no
trono dos assírios quando Josué finalmente encerrava a fase de conquista,
e também quando a era dos juízes teve seu início. Seus problemas com os
cassitas ao sul e com os hurrianos de Mitani ao ocidente, entretanto, dei­
xaram-no com pouco tempo e sem qualquer interesse por uma campanha
militar em Canaã.
As atividades anti-cassitas ocuparam os assírios por cerca de quarenta
anos, até que Adade-Nirari I (1307-1275) lançou uma série de ataques e
invasões ao reino de Hanigalbat, que era um estado vassalo situado na
porção superior dos vales do Habor e Balik.16 Obviamente essa atitude ia
contra os hititas que a princípio não tiveram condições para tomar qual­
quer medida punitiva contra os opositores, pois temiam consideravelmente

16 J.M. Munn-Rankin, "Assyrian Military Power 1300 - 1200 a.C.," em Cambridge Ancient
History, 3a edição, editado por I.E.S. Edwards et al. (Cambridge: Cambridge University
Press, 1975), vol. 2, parte 2, pp. 276-79.
15 6 H istória de I srael no A ntigo T estamento

o Egito. Por fim, Hattusilis, rei dos hititas, fez um acordo com Ramsés II
do Egito (em 1284) e, com seu moral restabelecido, tomou novamente
Habigalbat das mãos dos assírios.
Tukulti-Ninurta I (1244-1208), mesmo conseguindo resultados sur­
preendentes ao norte, oriente e sul através de suas campanhas militares,
falhou terrivelmente no ocidente quando tentou subjugar os hititas.17
Esse fracasso abalou tão sensivelmente os assírios que acabaram tornan­
do-se fracos e incapazes de controlar até mesmo os cassitas da Babilônia.
De fato, Assur-nirari III (1203 - 1198), neto de Tukulti-Ninurta, tornou-
se subserviente a Adad-suma-usur, rei de Babilônia (que agora não era
cassita). Essas ocorrências persistiram até o reinado de Assur-resi-isi I
(1133 -1116), que derrotou a Babilônia, na ocasião governada pelo ilustre
Nabucodonosor I (1124 - 1103).18 O fato deu início a um período de
ressurgência temporária dos assírios, abrilhantado fundamentalmente
por Tiglate-pileser I (1115-1077).19 Rapidamente ele voltou-se para o oes­
te e derrotou Musri, Tadmor e outros territórios arameus, alcançando
finalmente o Mediterrâneo, onde exigiria e receberia as devidas deferên­
cias do Egito, Fenícia e também dos hititas (que agora situavam-se ao
norte da Síria). Contudo, ele não intentou marchar para o sul, em dire­
ção ao próprio Israel. Note que o final de seu reinado deve ser calculado
por volta de sete anos depois de 1084 que, conforme proposto, seria o
término da era dos juízes.

Os hititas

Nossa atenção agora volta-se para a segunda grande potência daquela


época - os hititas. Esse reino, que havia permanecido em estado de
dormência por algum tempo, ergueu-se até atingir uma posição de pree­
minência sob o governo de Suppiluliumas (1380 - 1346). Mais ou menos
na época da morte de Josué, este Suppiluliumas tinha invadido a Síria, e
sentiu-se no direito de exigir qualquer coisa que estivesse nos territórios
até Gubla (Biblos).20 Ele não se esforçou para penetrar o sul de Canaã por­
que ainda sentia-se inseguro quanto ao poderio militar egípcio. Além dis­
so, ele via-se constantemente atacado e ameaçado em seus flancos pelos

17 Ibid., pp. 284-94.


18 D.J. Wiseman, "Assyria and Babylonia c. 1200-1000 B.C.", em CAH 2.2, pp. 453,54.
19 Ibid., pp. 457-64.
20 Anthony J. Spalinger, "Egyptian-Hitite Relations at the Close of the Amarna Period and
Some Notes on Hitites Military Strategy in North Syria," BES 1 (1979): 55.
A E r.a p o s J uízes: A Violação da A liança , A narquia e a A utoridade H umana 157

homens de Mitani e pelos assírios, preferindo assim permanecer no norte


de Canaã, não se estendendo demais nessas campanhas.
O controle hitita da Síria continuou até o reinado de Muwatallis (1320 -
1294), que começou a resistir o imperialismo do Egito (19a Dinastia).21 Em
1300, Ramsés II do Egito atacou os hititas em Cades, no Orontes, mas en­
controu resistência e, por fim, teve de retirar-se. Os hititas não puderam
manter uma política de guerra contra os egípcios por causa da constante
ameaça dos assírios. Na verdade, Hattusilis dos hititas (1286-1265) foi for­
çado a assinar um tratado de paz com Ramsés II, em 1284, em que um não
invadiria o território do outro.22
Depois da morte de Hattusilis, os hititas continuaram a enfraquecer-se,
e certamente nunca fizeram qualquer tentativa de ataque contra a nação
de Israel. Porém, eram eles que tinham o controle da maior parte da Síria
até o tempo em que o império caiu diante de uma súbita e violenta inva­
são dos Povos do Mar, por volta de 1200.23 Sendo assim, os hititas não se
constituíram em qualquer aspecto negativo durante os anos dos juízes.

Egito

Durante o período dos juízes, o Egito foi governado pela 18a, 19a e 20a
Dinastia. A era de Amarna (cerca de 1379-1350), período em que a con­
quista chegou ao fim, já foi examinada em parte (pp. 95-106). Está claro
que, embora Canaã fosse tecnicamente uma província egípcia, os reis do
Egito não dispensavam qualquer interesse na região, mesmo em face dos
constantes apelos enviados pelos reis vassalos de Canaã.
Porém, somente nos anos do reinado de Seti I (1318-1304), membro da
19a Dinastia, realizou-se uma expedição (muito bem comprovada) até
Canaã.24 Ele descreve em uma esteia em Bete-Seã uma campanha a Jezreel,

21 A. Goetze, "The Hitites and Syria (1300 -1200 B.C.)," em CAH 2.2, pp. 252-56.
22 Ibid., pp. 258,59
23 Para um relato sobre os últimos e desesperadores anos da independência dos hititas,
ver em Itamar Singer, "Western Anatolia in the Thirteenth Century B.C. According to
the Hitite Sources," AS 33 (1983): 205-17, especialmente 216,17.
24 R.O. Faulkner, "Egypt: From the Inception of the Nineteenth Dynasty to the Death of
Ramesses III," em CAH 2.2, pp. 218-21. Há alguma possibilidade de que Horemheb, um
comandante que servia sob as ordens de Tutankhamon, tenha conduzido uma campa­
nha em alguma parte de Canaã no princípio do reino desse monarca (aprox. 1360). Ver
em Cyril Aldred, "Egypt: The Amarna Period and the End of the Eighteenth Dynasty,"
em CAH 2.2, p. 72. Caso seja verdadeiro, não produziu qualquer mudança significativa
no curso dos acontecimentos no interior de Canaã.
158 H istória de I srael no A ntigo T estamento

mencionando a tomada de Rafia (Rapha) e Gaza, ambas cidades costeiras


ao mar Mediterrâneo, assim como Bete-Seã, Acco, Tiro e outras situadas
mais ao norte. Em Bete-Seã, ele encontrou-se com os 'apiru, uma referên­
cia bastante provável a Israel, visto ser um registro ligado a uma data mais
avançada.25 É praticamente impossível não notar que Seti evitou pruden­
temente entrar em contato com qualquer parte de Canaã, exceto as planí­
cies costeiras e o vale de Jezreel, ambos fora da área de ocupação israelita.26
Em sua segunda campanha militar, ele exerceu pressão pelo norte até Cades
e Amurru, e na quarta campanha perdeu o controle sobre Cades, fazendo
um tratado com o hitita Muwatallis.27 Em todas as ocasiões, ele evitou o
interior de Canaã.
Não há necessidade de se falar mais sobre Ramsés II (1304 0 1236).28
Embora desqualificado para obter o título de faraó do êxodo, ele perma­
nece contemporâneo por quase sete décadas da história de Israel, durante
a fase central do período dos juízes. Apesar disso, em nenhuma ocasião
seu nome é mencionado no livro dos Juízes, nem ele também faz qualquer
referência a Israel em seus anais.29 A conclusão é que não houve interesse
de ambas as partes.
A primeira campanha realmente significativa de Ramsés foi contra os
hititas em Nahr el-Kalb, no Líbano, durante seu quarto ano de reinado.
No ano seguinte (1300), ele se encontrou com os hititas em Cades, próxi­
mo ao rio Orontes e, como já visto, sofreu uma humilhante derrota. Isto
deve ter encorajado a rebelião entre os vassalos em Canaã, pois por mui­
tos anos Ramsés teve de atender esses pequenos estados, mas em ne­
nhuma vez ele interveio no interior de Canaã, a região dominada pelos

25 Benjamim Mazar, "The Historical Development," em World History ofthe Jezvish People,
vol. 3, p. 15, descreve essas tribos semíticas como "etnicamente próximas aos israeli­
tas". Na verdade, é muito provável que eles realmente fossem os israelitas.
26 Yohanan Aharoni, "The Settlement of Canaan," em World History of the Jeiuish People,
vol. 3, pp. 94,95.
27 A perda de Cades é explicada pelo fato de Ramsés II ter empreendido grande esforço
para reconquistá-la em seu quarto ano de reinado. Ver em Faulkner, "Nineteenth
Dynasty," em CAH 2.2, p. 221. Quanto ao texto do tratado, ver em James B. Pritchard,
Ancient Near Eastern Texts Relating to the Old Testament, 2a edição (Princeton: Princeton
University Press, 1955), pp. 476-79.
28 Faulkner, "Nineteenth Dynasty," em CAH 2.2, pp. 225-32; Anthony J. Spalinger, "Traces
of the Early Career of Rameses II," JNES 38 (1979): 271-86.
29 Uma exceção é a referência feita aos "Asar", um povo costeiro que tem sido identificado
pelos estudiosos como a tribo de Aser. Essa menção situaria a tribo no norte de Canaã,
pelo menos nos primórdios do décimo terceiro século. Ver em Mazar, "Historical
Development", p. 19.
A £>_a do5 J uízes: A Violação da A liança, A narquia e a A utoridade H umana 159

israelitas. Em 1284 fez um tratado de paridade com Hattusilis, e em 1270


casou-se com a filha do rei hitita, um fato que ele atribuiu à sua própria
superioridade sobre Hattusilis. Todos os demais contatos no norte que
ele deixou registrado são classificados como de pouca importância: em
Moabe, Edom e no Negueve, e nenhum desses envolveu confrontos com
Israel por razões óbvias - Israel não fizera nenhuma reivindicação sobre
aquelas áreas.
Por outro lado, Merneptá (1236-1223) não apenas empreendeu uma
campanha na Palestina (em seu quinto ano, 1231), mas menciona uma
derrota que infligiu aos israelitas.30 Esse ataque surpresa parece ter ficado
restrito à região de Jezreel.31 Já foi visto (p. 62) que essa referência a Israel
é uma prova contra uma data mais recente para o êxodo e para a conquis­
ta, pois é muito difícil imaginar como Israel poderia ter sido o maior ini­
migo de guerra de Merneptá em Canaã, caso o êxodo tenha ocorrido no
início de seu reinado, conforme a evidência em favor de uma data mais
recente parece sugerir.32
O reinado de Merneptá também representou o fim de qualquer
envolvimento significativo do Egito na região Siro-Palestinense, e essa
condição durou até o reinado de Shoshenq (945 - 924) da 22a Dinastia.
Até mesmo Ramsés III (1198 -1166), que teve condições de derrotar e
também repelir os líbios e os Povos do Mar, empreendeu apenas uma
expedição à Palestina, sendo tal campanha limitada devido à oposição
dos edom itas.33 Depois que ele morreu, as províncias da região Siro-
Palestinense foram todas perdidas. Quanto aos demais membros da 20a

30 Faulkner, "Nineteenth Dynasty," em CAH 2.2, pp. 232-35.


31 Malamat, "Egyptian Decline," em World History of the Jezoish People, vol. 3, p. 24.
Malamat sugere que Gezer naquele tempo estava sob o controle egípcio, um fato que
está em sintonia com o registro bíblico, que afirma que a conquista israelita deixou Gezer
sob o comando dos cananeus (Js 16.10).
32 O determinador que tem sido usado para descrever Israel como um "povo" não pode
conduzir à idéia de um corpo desorganizado; pelo contrário, estava tão organizado que
chegou a ocupar totalmente o interior das regiões montanhosas. Essa é a conclusão pro­
duzida pela análise literária-estrutural da esteia de Merneptá, feita por G. W. Ahlstrõm
e D. E. Edelman, "Merneptah's Israel," JNES 44 (1985): 59-61.
33 Faulkner, "Nineteenth Dynasty," em CAH 2.2, p. 244. Pierre Grandet recentemente pro­
pôs que Ramsés construiu fortificações em Bete-Seã, uma teoria que, caso esteja correta,
não modifica o fato de que o Egito não se envolveu absolutamente na região central de
Canaã ("Deux Etablissements de Ramsés III en Nubie et en Palestine," JEA 69 [1983]:
109-14; da mesma forma Malamat em, "Egyptian Decline," em World History ofthe jezoish
People, vol. 3, p. 35).
160 H istória de I srael no A ntigo T estamento

Dinastia (até cerca de 1085), sabe-se que o Egito não teve participação
alguma nos negócios de Israel.34

Os estados siro-cananeus

Finalmente, a situação da Síria e Palestina durante o período dos juízes


deve receber ao menos uma breve atenção.35 Aproximadamente no início
do governo do juiz Otniel, os hititas começaram dominar toda a Síria, en­
tre o Mediterrâneo e o Eufrates, estendendo essa dominação o máximo
para o sul até o Líbano. O pavor que isso causou nos estados cananeus
pode ser percebido, por exemplo, em uma carta escrita por Rib-Adda de
Gubla (Biblos) para seu superior egípcio. Outros reinos na Síria tiveram
rapidamente de escolher ficar do lado dos hititas ou de Mitani. Elalab
(Aleppo), Alalakh e Tunip tornaram-se vassalos dos hititas. Ugarite, com
seu característico estilo de independência, optou por permanecer fiel ao
Egito. Amurru, entretanto, viu neste conflito entre superpotências uma
chance para expandir sua própria influência. Seu rei, 'Abdi-Asirta, amea­
çou Gubla, e seu filho e sucessor, Aziru, por fim conseguiu anexar aquela
importante cidade da Fenícia. Na ocasião ele firmou um acordo com
Niqmaddu, de Ugarite, que serviu apenas para colocar ambos sob o con­
trole dos hititas. Foi durante aqueles dias que Suppiluliumas, rei dos hititas,
acabou com o controle dos mitanitas sobre a Síria e criou seu próprio siste­
ma de estados vassalos, que incluía Ugarite e Amurru.
Com a penetração de Seti I da 19a Dinastia egípcia no interior da Síria,
os habitantes de Amurru quebraram seu pacto de submissão aos hititas,
mas foram novamente postos sob controle depois que os exércitos de
Ramsés II foram clamorosamente destruídos em Cades (1300).36 Próximo
ao fim do Império hitita, os estados da Síria começaram a afirmar sua in­
dependência, mas sabe-se que até a época em que os Povos do Mar vie­
ram e destruíram esse império, a maioria dos estados da Síria permaneceu
sob controle.

34 James M. Weinstein tenta defender a idéia de que, durante os séculos 12 e 13, percebeu-
se um envolvimento egípcio sem precedentes em Canaã. Porém, dentre todos os luga­
res por ele citados como fortalezas dominadas pelos egípcios, nenhum estava situado
nas regiões montanhosas do interior de Canaã, precisamente onde Israel dominava ("The
Egyptian Empire in Palestine: A Reassessment," BASOR 241 [1981]: 17,18).
35 A. Goetze, "The Strugle for the Domination of Syria (1400 - 1300 B.C.)," em CAH 2.2,
pp. 2-16; para uma discussão quanto a maneira como Ugarit via estas coisas, ver em
Anson F. Rainey, "The Kingdom of Ugarit," BA 28 (1965): 107-12.
36 Faulkner, "Nineteenth Dynasty," em CAH 2.2, pp. 220-21.
r
A E ra dos J uízes: A Violação da A liança , A narquia e a A utoridade H umana 161

Os Povos do Mar eram uma confederação de vários grupos étnicos e


nacionalistas originada primariamente na área do mar Egeu, embora al­
guns possam ter vindo das longínquas regiões ao oeste da Sicília e da Itá­
lia.37 E possível que tenham auxiliado o rei Muwatallis em sua vitória con­
tra o faraó Ramsés em Cades. Alguns desses nomes são conhecidos:
Dardani, Masa, Pitassa, Arawanna, Karkisa e Lukka. Eles penetraram pela
primeira vez na Palestina (aprox. 1230) por terra, através da Cilicia, e apa­
rentemente marcharam até chegar ao Egito. O faraó Merneptá diz ter
rechaçado alguns Povos do Mar que, passando pela Líbia, invadiram o
Egito.38 E possível que os seiscentos filisteus feridos por Shamgar (Jz 3.31)
fossem Povos do Mar penetrando através do norte.39
Uma segunda invasão, inclusive registrada nos textos de Ras Shamra e
em outros lugares, foi responsável pela destruição completa da cidade de
Hattusas (Boghazkeui), capital dos hititas, assim como de Tarso, Carquemis,
Sidom, Quitom40 e Ugarite. Nessa época, os Povos do Mar estabeleceram
residência permanente na baixa região da costa do Mediterrâneo, onde
vieram a ser conhecidos pelos israelitas como filisteus. Esses filisteus não
devem ser identificados com aqueles diretamente associados aos patriar­
cas e ao êxodo, embora representem de fato uma segunda leva de mesma
raça daqueles filisteus primitivos.41
Relacionada aos Povos do Mar, está uma invasão feita pelos egípcios,
que tentou estabelecer uma cabeça-de-ponte naquela região. Ramsés III
descreve em alguns relevos em parede descobertos em Medinet Habu,
que essa invasão, ocorrida em seu oitavo ano de reinado (aprox. 1190),
incluía os seguintes componentes: Peleset, Tjekker, Sheklesh, Sherden,
Weshesh e Denyen. Estes, ele informa, já haviam conquistado os hititas e
os amurru anterior mente. Os peleset e os Tjekker buscaram estabelecer-
se em Canaã; estes habitavam na alta região costeira, próximo a Dor, e
aqueles, conhecidos como os filisteus da Bíblia, habitavam na baixa re­

37 Para ganhar mais base sobre esse assunto, consultar em Trude Dothan, The Philistines
and Their Material Culture (New Haven: Yale University Press, 1982), pp. 1-23.
38 Trude Dothan, "What We Know About the Philistines," BAR 8.4 (1982): 25.
39 Ver em Benjamim Mazar, "The Philistines and Their Wars with Israel," em World Hístory
of the Jewish People, vol. 3, pp. 172,324-25, n. 16.
40 Quiton situa-se na ilha de Chipre, que já produziu abundante material que comprova a
conquista dos Povos do Mar. Ver em Vassos Karageorghis, "Exploring Phiistine Origin
on the Island of Cyprus," BAR 10 (1984): 16-28.
41 Para se consultar uma boa e plausível hipótese que afirma terem os filisteus se origina­
do em Canaã, migrado para o Egeu e, mais tarde, voltado como parte dos Povos do Mar,
ver em T.D. Proffit, "Philistines: Aegeanized Semites," NEASB 12 (1978): 5-30.
16 2 H istória de I srael no A ntigo T estamento

gião.42 Os filisteus provaram ser inimigos inveterados de Israel, e 1


Samuel é o livro que trata deste assunto.
Ao concluir essa história panorâmica dos vizinhos de Israel no perí­
odo de 1360 a 1085, deveria estar claro que Israel permaneceu pratica­
mente intocado diante da agitação internacional. Somente a chegada
dos filisteus apresentou um problema maior, fato que está abundante­
mente registrado na Bíblia. Por outro lado, o Antigo Testamento silen­
cia sobre o vasto mundo e seus conflitos, porque eram considerados
irrelevantes para a história de Israel. Vemos a providencial mão de Deus
em ação para incubar seu povo durante esse período crítico de seu de­
senvolvimento.

O s ju íz e s d e Isra e l

O padrão cíclico que caracteriza o período

A seção retrospectiva de Juízes termina com a referência à morte de


Josué em 2.6-9. Então, de 2.10 até 3.6, o autor introduz o padrão cíclico que
caracterizou a história de Israel por mais de trezentos anos. Após a gera­
ção de Josué haver passado, o povo esqueceu-se de Yahweh, trocando-o
pelos deuses de Canaã. Isto provocou a ira de Yahweh, de forma que Ele
enviou inimigos a Israel a fim de puni-lo e despertar-lhe o interesse em
retornar para os caminhos de Deus. Quando Israel se arrependia, Yahweh
levantava juízes que livravam a nação, e assim experimentavam um perí­
odo de paz e de justo governo. Novamente Israel dava as costas para o
Senhor e caía em apostasia, então uma série de eventos desabavam sobre
a nação, reiniciando o ciclo punitivo. Uma importante razão por que os
israelitas não puderam expulsar todos os inimigos cananeus foi, de fato,
que estes poderiam permanecer na terra como instrumentos sempre que
Yahweh precisasse disciplinar seu povo. Também estes inimigos poderi­
am servir como um teste de lealdade a Yahweh, e treinar a nova geração
de israelitas na arte de fazer guerra. Os inimigos que permaneceram na
terra - os filisteus, cananeus, sidônios e heveus - habitavam na planície
costeira ou na região mais baixa do vale de Baca, ao norte da Galiléia.
Além disso, havia vários outros povos (amorreus, hititas e jebuseus) com
os quais Israel se envolveu por meio de casamentos mistos e adoração
religiosa sincretista.

42 Malamat, "Egyptian Decline," World Historyof the Jewish Peolple, vol 3, p. 34.
A E ra dos J uízes: A Violação da A liança, A narquia e a A utoridade H umana 163

A natureza da idolatria em Canaã

A religião cananéia estava para penetrar em todos os níveis da vida


dos israelitas desde o período dos juízes até pelo menos o tempo do cati­
veiro da Babilônia. Graças aos textos cananeus épicos e relativos ao culto
encontrados em Ugarite (Ras Shamra), como também o Antigo Testamen­
to, é possível reconstruir pelo menos as linhas principais do pensamento e
da prática religiosa em Canaã.43
Essencialmente, a religião em Canaã baseava-se no princípio de que as
forças da natureza eram a expressão da presença e atividade divina, e que
o único meio pelo qual alguém poderia sobreviver e prosperar seria iden­
tificar os deuses responsáveis por cada fenômeno e, mediante ritual pró­
prio, encorajá-los a exercer os poderes em seu favor. Isto é a introdução da
mitologia na realidade. Os rituais sempre envolvem a participação huma­
na, particularmente os sacerdotes que são intimamente ligados ao culto, e
as atividades dos deuses conforme descritas nos mitos.44
Não é possível recriar a totalidade do mito cananeu em detalhes, visto
que os textos são incompletos, e falta em todos os casos um harmonioso e
sistemático ponto de vista. Mas o quadro geral parece ser o seguinte: El é o
cabeça do panteão dos deuses. Como seu próprio nome indica, ele é quase
impessoal, um senhor transcendente, poderoso, uma figura paterna com ar
de benevolência, mas com pouco ou nenhum interesse nos negócios dos
homens. Há momentos em que parece estar à beira da senilidade, e por
muitas vezes vê-se vítima da sedução e dos interesses dos deuses mais jo­
vens. Ele se assenta em um local elevado e sublime situado nas montanhas
do norte, na nascente dos rios, onde possui sua corte e entretém os outros
deuses. Sua esposa é Asherah, a deusa mãe, por cuja fertilidade toda a terra

43 Ver em Johannes C. de Moor, "The Semitic Pantheon of Ugarit," UF 2 (1970): 187-228;


Cyras H. Gordon, "Canaanite Mythology," em Mitologies of the Ancient World, editado
por Samuel N. Kramer (Garden City, N.Y.: Doubleday, 1961), pp. 183-218; Arvid S.
Kapelrud, Baal in the Ras Shamra Texts (Copenhagen: G.E.C. Gad, 1952); P.D. Miller,
"Ugarit and the History of Religions," ]NSL 9 (1981): 119-28; Julian Obermann, Ugaritic
Mithology (New Haven: Yale University Press, 1948); Ulf Oldenburg, The Conflict Between
El and Ba'al in Canaanite Religion (Leiden: E.J. Brill, 1969); Helmer Ringgren, Religions of
the Ancient Near East (Philadelphia: Westminster, 1973), pp. 124-76.
44 Para um importante estudo acerca do mito, especialmente quando ele se refere ao Anti­
go Testamento, ver em J. W. Rogerson, Myth in Old Testament Interpretation, BZAW 134
(Berlin: Walter de Gruyter, 1974). O mito de uma forma geral está muito bem elucidado
nos trabalhos de Mircea Eliade, particularmente em seu Cosmos and History: The Myth of
the Eternal Return (New York: Harper, 1959).
164 H istória de I srael no A ntigo T estamento

é vivificada. Na Bíblia é referida como "asherim" ou "arbusto". O símbolo


de sua presença e poder era representado pelas plantas sempre verdes. Por
fim, até um tronco de árvore poderia representar essa deusa, servindo como
um santuário onde pudesse ser realizado um ritual.
Porém, a divindade mais importante era Baal, o "senhor" da terra. De
acordo com muitos estudiosos, Baal era um epíteto do deus Hadad, filho de
Dagan (Dagon), freqüentemente mencionado nos textos de Mari e em ou­
tras fontes da alta Mesopotâmia.45 Esses estudiosos propõem que juntamente
a migração dos amorreus para Canaã, ocorrida em 2200 a.C., entrou na terra
o seu panteão de deuses, inclusive o deus Hadad!'A introdução de novos
deuses em Canaã conduziria ou a uma rejeição dos deuses nativos ou, mais
provavelmente, a uma assimilação dos deuses novos. Assim, o que era Hadad
em Mari tornou-se Baal em Ugarite. Como apoio a esta interpretação tem-se
o próprio mito de Baal, que apresenta esse deus em contenda com várias
outras divindades, incluindo o próprio El. Em geral o processo é o desapa­
recimento de El e a ascendência gradual de Baal.
Hadad era o deus da tempestade dos amorreus, que se manifestava na
chuva, trovão e raios. Baal exercia essa função em Canaã e, visto que a
agricultura cananéia dependia totalmente da chuva, sua importância era
óbvia. Mas Baal precisou lutar para obter reconhecimento e preeminência.
Ele não apenas ameaçou o deus El, considerado até então como a fonte de
toda a virilidade, mas também confrontou-se com outros deuses inimigos
tais como Yammu (o Mar), Naharu (o Rio), e até mesmo Motu (a Morte).
Todos estes, zelosos de suas posições no ciclo da natureza - semeadura,
colheita, umidade e seca, vida e morte - opuseram-se vigorosamente a
Baal, na esperança de impedi-lo de construir um palácio, um puro sinal de
soberania, ou de conduzi-lo à morte.
Baal frustou todos estes intentos. Ele tomou a esposa de El como sua
consorte na ocasião. Também incitou um combate com Yammu e Naharu
e castigou-os sem piedade, provando a superioridade da chuva sobre o
mar e a terra. Mesmo quando assassinado por Motu, voltou à vida com o
auxílio de sua irmã Anat, e finalmente extinguiu ele mesmo a morte. De­
pois de um grande intervalo, alcançou a supremacia e dominou tanto o
panteão quanto o culto.
/ O ritual envolvia a dramatização do mito conforme descrito. Centrava-
se na atividade sexual, uma vez que a chuva atribuída a Baal era tida como
o seu próprio sêmen derramado sobre a terra para a fertilizar, impregnan­
do-a com vida, assim como impregnava Aserá (a deusa da fertilidade) no

45 Detalhes acerca do assunto, ver especialmente em Oldenburg, Conflict, pp. 46-163.


A E ra dos J uízes: A Violação da A liança, A narquia e a A utoridade H umana 165

mito. A religião cananéia era então grosseiramente sensual e perversa,


porque requeria no culto os serviços de homens e mulheres prostitutos
como atores principais no drama.
Diferentemente de Israel, não havia um santuário central. Baal poderia
ser adorado onde houvesse um lugar especialmente visitado pela nume­
rosa presença dos deuses. Esses locais eram originalmente nas colinas (por
isso, "nos altos"), mas tempos depois podiam ser encontrados nos vales
ou até mesmo nas cidades ou vilarejos. Cada local deveria ser marcado
por um poste (áserâ), um pilar (massebâ), ou algum outro símbolo de culto.
Visto que Baal não era onipresente em sentido estrito, cada centro de culto
deveria ter o seu próprio Baal. Assim poderia ser Baal-Peor, Baal-Berite,
Baal-Zebube e outros. Isto também explica por que os deuses de Canaã
eram chamados de Baalim ("os Baals") no Antigo Testamento. Teorica­
mente, havia apenas um Baal, embora fosse senhor de muitos lugares.
Esta descrição bastante simplificada e sintetizada dos mitos e rituais
cananeus agora é suficiente para uma introdução à natureza da apostasia
da de Israel - a sua rejeição de Yahweh, a verdadeira fonte de prosperida­
de e fertilidade, para a adoração do produto da imaginação depravada
que confundia o resultado da bênção divina com sua causa. Foi uma ver­
gonhosa quebra da aliança e uma deslealdade, melhor descrita na frase
"se prostituíram após outros deuses" (Jz 2.17).

Otniel

O primeiro surto de apostasia em larga escala ocorreu após a morte de


Josué, e resultou na invasão de Israel por Cusan-Risatain, de Aram
Naaraim. O escritor revela a atitude que será freqüentemente repetida:
"se esqueceram do Senhor seu Deus; e serviram [adoraram] aos baalins e
a Aserote." (Jz 3.7). Isto implica não apenas um interesse casual na mitolo­
gia, mas também uma participação ativa no ritual, precisamente como foi
no caso em que Israel adorou a Baal-Peor (Nm 25). Cusan-Risatain não
pode ser identificado, mas a segunda parte de seu nome, "Risatain", é
sem dúvida mais um epíteto dado por seus inimigos do que um nome,
pois significa "dupla iniqüidade". Aram Naaraim, literalmente "Aram dos
dois rios", refere-se a uma região elevada do Eufrates ou ao norte da Síria,
que talvez possa ser identificado com o "Kushan-rôm" dos anais de Ramsés
II ou a região "Nhr(y)n" das outras fontes egípcias.46 Nada há em qual-

* Merril F. Unger, Israel and the Aramaeans of Damascus (Grand Rapids: Baker, reedição de
1980), pp. 40,41,134 e 135. '
166 H istória de I srael no A ntigo T estamento

quer parte do nome que rejeite uma data próxima a 1340, visto que
"Naharin" e "Nahrima", pelo menos, consta nos textos egípcios e acadianos
do século quinze.47 É verdade que alguns estudiosos negam o elemento-
prova "Aram", mas Merril Unger tem demonstrado sua existência conti­
da num texto de Naram-Sin, que remonta aos primórdios de 2300 a.C.48
Conforme argumentado (p. 150), o mandato de Otniel deve ser datado
por volta de 1350, que situa a invasão de Cusan-Risatain em 1358, oito anos
antes. Isto é muito possível, visto que naqueles dias Assur-uballit, o podero­
so rei da Assíria, vinha sendo incessantemente atacado por uma tribo araméia
conhecida por Sutu. O rei hitita Suppiluliumas encontrou-se em apuros com
os homens de Mitani e com os assírios; e embora tivesse obtido o controle
do norte da Síria por volta de 1360, os estados-vassalos, incluindo Naharema
(Arã-Naharaim), gozavam de muita liberdade, podendo sem dúvida ter
empreendido conquistas militares independentes, ou simplesmente segui­
do as ordens do próprio rei hitita.49 O Egito naquela época encontrava-se
sem qualquer condição de interferir nesses negócios.
Não é possível saber que tipo de prejuízo Cusan-Risatain causou a Is­
rael, mas certamente os oito anos de ocupação não foram impostos sem
resistência. A expulsão dos arameus pelo juiz Otniel também deve ter cau­
sado algum tipo de destruição, cuja evidência pode ser constatada por
diversas investigações arqueológicas.5051Especular além deste ponto não é
aconselhável.
O que é de mais interessante e importante é a natureza e a função de
um juiz. Está claro que esses indivíduos foram escolhidos e dotados de
poder por Yahweh, a fim de atender a certas emergências, e que este ofício
não era hereditário. Também é aparente que o termo juiz não sugere uma
função jurídica, já que esta responsabilidade recaía sobre os anciãos, mas
significa um ofício de um líder militar e protetor.01 Alguns paralelos nos
textos de Ebla têm sido recentemente apresentados, em que juízes (di-ku),

47 Abraham Malamat, "The Aramaeans," em Peoples of Old Testament Times, editado por
D.J. Wiseman (Oxford: Clarendon, 1973), p. 140.
48 Unger, Israel and the Aramaeans, p. 39.
49 Goetze, "Domination of Syria," em CAH 2.2, p. 16.
50 William E Albright diz que a Palestina no décimo quarto século encontrava-se com
baixo número de habitantes, uma conclusão mantida com base no pequeno número
de cidades fortificadas durante aquele período ("The Amarna Letters From Palestine,"
em CAH 2.2, p. 108). Essa evidência de poucos centros urbanos poderia refletir a des­
truição causada pelos arameus e outros povos predadores durante os dias dos primei­
ros juízes.
51 Malamat, "Period of the Judges," em World History ofthe Jeiuish People, vol. 3, p. 131.
,
A E ra dos J uízes: A Violação da A liança A narquia e a A utoridade H umana J6 7

coexistentes com reis e anciãos, também parecem não ter tido nenhuma
função jurídica.52 Em Israel, no período entre os grandes mediadores
(Moisés e Josué) e os reis, os juízes serviram como uma espécie de gover­
nadores ad hoc e generais encarregados de libertar o povo das mãos de
----- —

Eúde

Após Otniel ter conseguido repelir os arameus, Israel descansou du^


rante quarenta arios. Visto que a opressão de Cusan-Risatain parece ter
afetado toda a nação, pode-se deduzir que nenhuma outra opressão es­
trangeira paralela atingiu Israel, e que apenas Otniel foi juiz nos anos de­
correntes. O período de paz existiu em toda a terra. Baseando-se na data
de 1358 a 1350 para os anos de opressão, o fim do governo de Otniel dá-se
por volta dé 1310. Então este juiz morreu, dando início ao ciclo.
V;A opressão que surgiu em seguida parece ter afligido apenas uma área
restrita, próxima a Jerico - "cidade das palmeiràs" (Jz 3.13). O inimigo era
Eglon, rei de Moabe, cuja existência, apesar de não mencionada em qual­
quer documento extracanônico, dificilmente pode ser questionada.'Alia­
do aos amonitas e aos amalequitas, èle atacou Israel e exerceu uma sobe­
rania local por, no mínimo, dezoito anos. Não há como datar este período,
precisamente porque deve ter havido algum espaço de tempo entre a morte
de Otniel e a nova apostasia de Israel. Uma data no primeiro quartel do
século XIII (1300-1275) não é de qualquer modo ilegítima.53 Em resposta
ao clamor de seu povo, Yahweh levantou Eúde de Benjamim que, sob o
pretexto de oferecèr tributos ao rei,54 assassinou Eglon.’ Eúde então esca­
pou para as regiões montanhosas de Efraim, onde arregimentou as milíci­
as de Israel para segui-lo até as margens do rio Jordão. Quando os moabitas
tentaram retroceder para sua terra, acharam o caminho bloqueado e fo­
ram destruídos completamente. Os oitenta anos de descanso que se segui­
ram devem referir-se à região centro-leste de Israel, sobre a qual Moabe
tinha exercido controle. Passou no mínimo esse tempo antes que a região
no vámente sofresse em mãos inimigas.

- Giovanni Pettinato, "Ebla and the Bible - Observations of the New Epigrapher's
Analysis," BAR 6 (1980): 40.
- Numa disputa contra Norman Glueck, o estudioso Sean Warner diz que os moabitas,
edomitas e amonitas ocuparam a Transjordânia entre 1400 e 1375, e que já estavam no
local na época de Eúde ("Period of the Judges," VT 28 [1978]: 459).
- Malamat, "Period of the Judges," em World Histoty of the Jeiuish People, vol. 3, p. 155.
16 8 H istória de I srael a 'o A ntigo T estamento

Sangar

O terceiro juiz, Sangar, libertou Israel do poder dos filisteus pouco


tempo após a morte de Eúde. Este acontecimento, presumivelmente
um único incidente, pode estar ligado à chegada dos Povos do Mar, em
cerca de 1230.

Débora

Depois da morte de Eúde - um acontecimento que não pode ser data­


do, mas que não necessariamente ocorreu logo no início dos oitenta anos
de paz - , Israel mais uma vez voltou para os caminhos da perversidade.
Nessa ocasião, o julgamento do Senhor concentrou-se no norte, no vale de
Jezreel e acima deste, envolvendo Jabim, rei de Hazor, e seu general Sísera,
de Harosete (Tel el-'Amr), uma cidade situada no ribeiro d e Quisom ao
leste do monte Carmelo. Por vinte longos anos as tribos do norte sofreram
sob a opressão cananéia, e nada podiam fazer em razão da superioridade
militar do adversário. As referências a carruagens de ferro (Jz 4.3) não
apenas enfatizavam esta vantagem estratégica, como também auxiliam a
datar o evento, visto que o ferro não tinha se tornado comum em Canaã
até por volta de 1200. Fixar uma data entre 1240 e 1220 para essa opressão
cananéia não estaria distante da inform ação bíblica ou dos dados
extrabíblicos adquiridos nas escavações arqueológicas.55
O agente da salvação nessa ocasião foi Débora de Efraim, que estabele­
ceu o local de sua administração entre a cidade de Ramá e Betei. Visto que
a área sob ataque estava bem distante deste local, respondeu Débora aos
urgentes apelos encorajando Baraque, de Cades em Naftali, a menos de 16
quilômetros ao norte de Hazor, a assumir ele mesmo o confronto com Jabim
no monte Tabor. Yahweh conduziria Sísera até o ribeiro de Quisom. Baraque
e as tropas de Naftali e Zebulom poderiam assim descer pelo Tabor e avan­
çar sobre o inimigo quando este estivesse no rio. Baraque recusou-se a

55 Ygael Yadin sugere 1230 ("Excavatíons at Hazor, 1955-58," em Biblícal Archaeologíst Reader,
editado por Edward F. Campbell, Jr., e David Noel Freedman [Garden City, N.Y.:
Doubleday,1964], vol. 2, p. 223). Estudiosos que insistem em uma data mais recente
para a conquista têm dificuldades aqui, pois não conseguem explicar a existência de
Hazor no final do décimo terceiro século, já que tal cidade havia sido destruída por
Josué. Se, porém, Hazor só foi destruída por volta de 1400, haveria tempo suficiente
para ser reedificada e então mais tarde ser novamente destruída por Débora em 1230.
Ver em Malamat, "Period of the Judges," em World History ofthe Jewish People, vol. 3, p.
135 que, contrariando a Yadin, data a queda de Hazor entre 1150 e 1125.
A E ra dos J uízes: A Violação da A liança, A narquia e a A utoridade H umana 169

prosseguir sem Débora, porque entendia que a juíza ungida de Israel sim­
bolizava a própria presença de Deus.56 Débora, portanto, juntou-se a ele
no monte Tabor, e Baraque, encorajado por tê-la ali, investiu contra as car­
ruagens de Sísera, que aparentemente ficou imobilizado por uma rápida e
inesperada cheia do Quisom (Jz 5.21).57
Sísera conseguiu escapar para Zaananin, uma cidade próxima de Cades,
na região de Issacar,58 refugiando-se na tenda de Heber, o quenita. Os
quenitas eram aparentados com os midianitas, conforme se deduz pelo
fato de ser o sogro de Moisés chamado de midianita e de quenita (Ex 18.1;
Jz 1.16). Esses nomes refletem uma raiz hebraica com significado de "que
trabalha com metais", indicando que o fato de habitarem em tendas pode
não significar um estilo de vida pastoral e nômade, mas um grupo de pes­
soas que, à medida que empreende suas viagens, muda de trabalho cons­
tantemente.59 A mudança de Heber para o norte e sua afiliação com Jabim
podem de fato ter relação direta com o desenvolvimento da indústria do
ferro pelos filisteus e cananeus. De qualquer modo, a mulher de Heber
(Jael) permitiu que seu senso de lealdade aos israelitas sobrepujasse a hos­
pitalidade dos semitas, pois ela mesma matou Sísera dentro de sua tenda.
A derrota de Sísera e o término da opressão de Jabim (Jz 4.24) foram
celebrados no cântico de Débora e Baraque.60 Com uma referência especi­
al ao encontro decisivo no Quisom, eles recitaram os feitos de Yahweh
desde a conquista da Transjordânia até aquele momento (Jz 5.1-5; cf. Dt
33.2,3; SI 68.7-9; Hc 3.3). Nos dias de Sangar e Jael, ocorridos pouco antes,
as estradas eram inseguras para viagem, pois havia muitos bandidos e

56 A respeito da profetisa Débora como o agente de Yahweh no chamado de Baraque, ver


em James S. Ackerman, "Prophecy and Warfare in Early Israel: A Study of the Deborah/
Bark Story," BASOR 220 (1975): 5-14.
- Visto que esse ataque no Quisom não está registrado em Juízes 4, G. W. Ahlstrõm escre­
veu uma obra afirmando ser a referência ao ribeiro no capítulo 5 puramente mito-poé­
tica, não possuindo qualquer valor histórico. Como "prova" então cita o papel do mar
de Juncos na história do êxodo ("Judges 5.20f. and History," JNES 36 [1977]: 287-88).
Esta opinião, que nega a possibilidade da poesia bíblica ser historiográfica, não possui
qualquer base.
55 Veja o mapa 16 em Aharoni, Land ofthe Bible, p. 222.
^ De Vaux, Early EEstory, pp. 537-38.
' Para análise literária e histórico-tradicional deste importante poema, ver David Noel
Freedman, "Early Israelite History in the Light of Early Israelite Poetry," em Unity and
Diversity, editado por Hans Goedicke e J.J. Roberts (Baltimore: Johns Hopkins University
Press, 1975), pp. 3-35; Richard D. Patterson, "The Song of Deborah," em Tradition and
Testament: Essays in Honor of Charles Lee Feinberg, editado por John S. Feinberg e Paul D.
Feinberg (Chicago: Moody, 1981), pp. 123-60.
17 0 H istória de I sraei. no A ntigo T estamento

salteadores. Essas condições caóticas existiam porque Israel tinha adota­


do novos deuses e estava, portanto, experimentando o juízo divino. Então
Deus levantou Débora, que arregimentou homens dentre todas as tribos e
alcançou uma poderosa vitória no Quisom e em Zaananin.
Mas o poema também revela alguns aspectos da natureza provincial
da opressão e a falta de unidade entre as tribos. Débora parece ter sido
juíza de todo o Israel, mas não conseguiu comandar uma frente unida
contra os cananeus no norte. Ela menciona a participação de certos
efraimitas "amalequitas", Benjamim, Maquir, Zebulom, Issacar e Naftali.
Rúben apenas deliberou a participação; Gileade (Gade) nem mesmo fez
isto; Dã "se deteve em navios", que pode ser uma forma proverbial de
descrever a covardia, e Aser permaneceu em sua terra. E notável a ausên­
cia de Judá e Simeão na lista. Isto não significa, contrariando muitos críti­
cos da tradição,61 que as duas tribos não tenham se envolvido na confede­
ração israelita, mas apenas que os fatores distância e rivalidade regional já
começavam a minar a nação.62 Naquela época Judá já estava sentindo seu
isolamento, e as tribos do leste sem dúvida começavam a tomar seu pró­
prio caminho.

Gideão

Após o triunfo de Débora, a terra descansou por quarenta anos. Isto


precisa incluir pelo menos a região central de Israel, pois a próxima opres­
são está concentrada nesta área. Os quarenta anos seriam os anos de 1230
a 1190, caso a proposta de Yigael Yadin, segundo a qual a destruição de
Hazor deu-se no ano 1230, seja aceita. A servidão sob os midianitas apa­
rentemente ocorreu no período de 1190 a 1180, e foi particularmente vio­
lenta, conforme registra a história. Casas e cidades foram totalmente de­
vastadas, de modo que covas e cavernas foram necessárias para abrigar os
filhos de Israel (Jz 6.2). Todos os rebanhos e plantações eram destruídos, e
a terra experimentou grande destruição.
A extensão do massacre foi grave, alcançando desde o vale do Jordão
até o sudoeste em Gaza, mas a narrativa não indica que tenha atingido

61 Por exemplo, A.D.H. Mayes, "The Period of the Judges and the Rise of the Monarchy,"
em Israelite and Judaean History, editado por John H. Hayes e J. Maxwell Miller
(Philadelphia: Westminster, 1977), p. 310; Freedman, "Early Israelite History," em Unity
and Diversity, p. 15.
62 Aharoni, "Settlement of Canaan," em World History ofthe Jewish People, vol. 3, p. 109; ver
também em Carol L. Meyers, "Of Seasons and Soldiers: A Topological Apprisal of the
Premonarchic Tribes of Galilee," BASOR 252 (1983): 56,57.
A E ra dos J uízes: A Violação da A liança , A narquia e a A utoridade H umana 171

todo o território.63 É importante notar isso, porque freqüentemente argu­


mentam que os midianitas não poderiam ser populosos ou poderosos o
suficiente para devastar todo o Israel. Além de o próprio registro não afir­
mar que Midiã assolou toda a nação, é impossível afirmar qualquer coisa
acerca do tamanho ou da força de Midiã, visto que o Antigo Testamento
não traz informação a esse respeito. O historiador, na verdade, enfatiza
que os midianitas estavam acompanhados pelos amalequitas e por outras
hordas do oriente, e "vinham como gafanhotos, em tanta multidão que
não se podiam contar" (Jz 6.5). Mesmo considerando a descrição como
uma hipérbole, está bem claro que os midianitas eram inimigos bastante
numerosos (cf. Jz 8.10), especialmente se observados à luz da falta de união
entre as tribos de Israel e da falta de força política e liderança militar.
Com infinita paciência, Yahweh levantou um campeão para livrar seu povo,
quando este clamou por seu nome (Jz 6.7). Agora era Gideão, filho de Joás, o
abiesrita, que morava na cidade de Ofra, em Manassés (talvez a moderna
'Affuleh na planície de Jezreel).64 A existência de assentamentos israelitas em
territórios anteriormente dominados pelos cananeus atesta a eficácia da con­
quista sob a liderança da juíza Débora quarenta anos antes. Como havia feito
aos outros, Yahweh manifestou-se como o Anjo do Senhor. Inicialmente,
Gideão resistiu ao chamado de Yahweh, argumentando que Ele havia aban­
donado seu povo nas mãos dos midianitas, e que ele, Gideão, dificilmente
estava qualificado para conduzir o povo, pois vinha de família humilde.
Entretanto, seu protesto foi silenciado quando Yahweh miraculosamente
enviou fogo do céu e consumiu totalmente o sacrifício que Gideão havia
preparado. Naquela mesma noite Gideão desmantelou o altar de Baal e o
poste de Aserá que seu pai havia erguido, construindo no local um altar
em honra a Yahweh. Esta atitude ocasionou a fúria de toda aquela comu­
nidade apóstata e, não fosse a intercessão de seu pai, teria ele morrido nas
mãos dos desobedientes. Se Baal realmente é deus, disse Joás, ele mesmo
se defenda contra o sacrilégio de Gideão.
Os midianitas e seus aliados reuniram-se por uma grande extensão, e
acamparam-se na planície de Jezreel para confrontar Israel. Depois de con­
seguir o apoio de seu próprio clã, Gideão convocou todas as famílias da
tribo de Manassés, Aser, Zebulom e Naftali, preparando-os para a bata­
lha. Essa lista confirma a tese de que os inimigos de Israel naquele período
atacavam apenas em áreas limitadas - nesse caso, em Jezreel e na Galiléia
- e também os juízes eram líderes apenas nestas áreas.

Malamat, "Period of the Judges," em World History ofthe Jewish People, vol. 3, p. 143.
~4 Aharoni, Land ofthe Bible, p. 263.
172 H istória de I srael no A ntigo T estamento

Gideão, após certificar-se de que a presença de Deus o acompanhava


(por meio de sinais envolvendo um velo de lã em um terreno), estabeleceu
sua posição na fonte de Harode, situada ao sul do monte Moré, no acam­
pamento dos midianitas. Lá Yahweh ordenou a Gideão que reduzisse o
seu exército; assim, quando a batalha estivesse ganha, seria evidente para
todos que Yahweh, não Israel, era o vencedor. Naquela noite, mediante
uma estratégia que surpreenderia o inimigo - várias trombetas tocadas e
diversos jarros quebrados - Gideão obteve grande vitória sobre seus ini­
migos com apenas trezentos soldados. Em total pânico e desespero,
midianitas lançaram-se uns sobres os outros; depois de muitos serem mor­
tos nesse tumulto, outros fugiram para o leste em direção aos desertos.
Gideão perseguiu-os até chegarem a Beth Shittah (um local até hoje desco­
nhecido), no caminho para Zererah (Zaretã, a moderna Tel Umm Hamad),65
que se situa no Jaboque oriental do Jordão. A localização aproximada de
Beth Shittah pode ser determinada pela sua associação com Abel-Meolá
(Khirbet Tel el-Hilu), situada pouco ao oeste do Jordão, do outro lado de
Tabate (Ras Abu Tabat), e a noroeste de Zaretã.66
Para evitar a fuga de dois líderes midianitas, Orebe e Zeebe, através do
Jordão, Gideão mandou um recado aos efraimitas para que guardassem a
todos os vaus do Jordão ao sul, até Bete Barah, possivelmente próxima à
entrada do Vadi Far'a, passando pelo Jordão através do Jaboque. Portan­
to, os efraimitas se envolveram no conflito porque as rotas de escape dos
midianitas passavam dentro de seu território. A estratégia foi bem-sucedi­
da, e os efraimitas deram a Gideão as cabeças dos dois comandantes como
prova. Aproveitaram, entretanto, para reclamar o motivo de não haverem
sido incluídos no exército, mas Gideão aplacou-lhes a ira convencendo-os
de que a glória maior da guerra ficara com eles, pois haviam matado os
líderes dos midianitas.
O próprio Gideão cruzou o Jordão em busca de dois outros líderes
midianitas: Zeba e Zalmuna. A princípio, chegou a Suçote (Tel Deir 'Alla)
na parte mais baixa do vale do Jordão, a menos de oito quilômetros ao
leste do Jordão. Lá ele pediu alimento para sua tropa faminta, mas o
povo de Suçote negou-lhe, baseando-se em que Gideão ainda não havia
derrotado o inimigo e por isso não merecia apoio. Mais tarde reconhece­
riam a liderança de Gideão quando este voltasse com a cabeça dos che­
fes midianitas. Os residentes de Peniel (Tulul adh-Dhahab),67 a 11 quilô­

65 Oxford Bible Atlas, editado por Herbert G. May, 3a edição (New York: Oxford University
Press, 1984), p. 143.
66 Aharoni, Land ofthe Bible, p. 284, n. 222.
67 Oxford Bible Atlas, p. 137.
A E ra dos J uízes: A Violação da A liança , A narquia e a A utoridade H umana 173

metros acima do Jaboque, fizeram-lhe o mesmo. Em razão disso Gideão


ameaçou ambas as cidades com punições quando ele retornasse de sua
perseguição.
O que é notável na narrativa dos ataques contra a Transjordânia é o
profundo sentimento de regionalismo desenvolvido em Israel, em quase
150 anos; um espírito que refletia um rompimento da irmandade ou da
coesão entre as tribos. Os homens de Suxote e Peniel eram afinal israelitas,
particularmente da tribo de Gade. A resistência contra Gideão serve pára
ilustrar, mais claramente, a preocupação outrora manifestada por Moisés
e Josué a respeito das tribos estabelecidas ao leste do Jordão (Nm 32.6­
15,20-27; Js 22.13-20). O rio não apenas era uma fronteira física, mas tam­
bém criara uma barreira psicológica e filosófica. As sementes da desinte­
gração israelita começavam a germinar, e não demoraria muito até que as
tribos da Transjordânia se afastassem definitivamente do restante da con­
federação.
Gideão passou adiante dos midianitas em Carcor (Qarqar), entrando
pelo deserto siro-arábico, a mais de 96 quilômetros ao leste do mar Morto.
A despeito do grande número de soldados que compunha o exército ad­
versário (quinze mil midianitas contra trezentos israelitas) Gideão preva­
leceu, espalhando os midianitas e capturarando Zeba e Zalmuna. Retornou
triunfantemente a Peniel, quebrou sua cidadela e feriu de morte todos os
seus habitantes. Então executou os dois reis midianitas como vingança
pelos anos de terror e morticínio infligidos sobre o povo de Manassés.
Quando por fim Gideão chegou à sua cidade natal, Ofra, o povo já o
queria constituir rei, sendo este o primeiro registro de tal sentimento. Tor­
nara-se claro que somente um governo central poderia garantir segurança
e estabilidade. Contudo, Gideão rejeitou a proposta, pois isto violava a
essência do governo teocrático - a eleição divina pela liderança não here­
ditária. Então ele permitiu que uma estola de ouro fosse feita e a pôs em
Ofra, talvez um tipo de paládio ou "manto sagrado",68 mas isto se tornou
em um objeto de adoração que contaminaria o que Gideão havia alcança­
do em favor de Jeová.

O reinado malogrado de Abimeleque

A derrota dos midianitas introduziu quarenta anos de paz, estenden­


do-se de 1180 a 1140. Então, após a morte de Gideão, Israel afastou-se de
Yahweh. A região central da nação passou a adorar no mínimo a divinda-

- Boling, Judges, p. 161.


174 H istória de I srael no A ntigo T estamento

de pagã de Siquém, Baal-Berite. Sem dúvida isto aconteceu porque


Abimeleque (filho de Gideão com uma concubina siquemita) atraiu al­
guns partidários oriundos de Siquém, conseguindo integrar o culto pagão
que lá se desenvolvia com seus próprios interesses monárquicos.
Havia muito tempo que Siquém estava distante da presença de Yahweh.
Neste lugar Abraão construiu o seu primeiro altar, Jacó adquiriu uma pro­
priedade e cavou um poço, José foi enterrado, e Josué conduziu a nação a
uma renovação da aliança. Entretanto, o santuário central fora estabelecido
em Siló, e parece que Siquém foi tomada por elementos anti-javistas, que se
apegaram ao seus velhos deuses estabelecendo um centro de culto a Baal.69
O verdadeiro nome de Baal naquele lugar, Baal-Berite ("Senhor da Alian­
ça"), provavelmente remonta às antigas tradições da aliança feita com
Abraão, continuando até Josué. De acordo com a prática comum, o ato de
fazer aliança com Yahweh foi simplesmente transferido a Baal, até que este,
não Yahweh, foi visto como aquele que fez de Siquém um lugar santo.70
Abimeleque tomou vantagem dessa anti-teocracia e, como filho do he­
rói popular Gideão e a concubina siquemita, atraiu o povo de Siquém para
sua causa política. Afinal, o povo já havia pedido que Gideão fosse o seu
rei. Ele havia declinado a proposta, mas talvez aceitasse seu filho como
seu soberano. Os únicos obstáculos eram os outros filhos de Gideão, então
Abimeleque alugou assassinos para, juntamente com ele, ir à cidade de
Ofra matar seus irmãos. Assim, em Siquém, Abimeleque foi feito rei.
Todavia um dos filhos de Gideão conseguiu escapar àquela chacina. Jotão
predisse que o reinado de Abimeleque não duraria muito tempo, e de fato
dentro de três anos o povo de Siquém voltou-se contra ele. Depois de uma
série de conspirações, Abimeleque achou por bem atacar e destruir a cidade
de Siquém.71 Ele então foi a Tebez (Tubas), cerca de 14 quilômetros ao norte
de Siquém, mas quando tentava incendiar a cidadela, foi morto por uma

69 Ronald E. Clements, "Baal-Berith of Shechem," fSS 13 (1968): 31-32.


70 Essa interpretação opõe-se àquela apresentada pela maioria dos estudiosos, que crêem
que o local foi originalmente dedicado ao culto cananeu, e que mais tarde foi anexado
pelos israelitas e dedicado à adoração de Yahweh. Ver em Martin Noth, The Histoty of
Israel, 2a edição (New York: Harper and Row, 1960), pp. 98-99; G. Ernest Wright,
"Deuteronomy," em Interpreter's Bible, editado por George A. Buttrick (New York:
Abingdon, 1953), vol. 2, p. 326.
71 Bernhard W. Anderson data a destruição de Siquém em 1100 a.C., não divergindo da
cronologia aqui apresentada, a qual determina o período de paz depois da derrota dos
midianitas em 1180 - 1140. Parece que Gideão morreu alguns anos após esse período
pacífico chegar ao fim (Jz 8.28,32,33), talvez em 1120 ("The Place of Shechem in the
Bible," BA 20 [1975]: 16).
£>--* dos J uízes : A Violação da A liança, A narquia e a A utoridade H umana 175

mulher que lançou do telhado uma pedra de moinho sobre sua cabeça. Por­
tanto, a mais remota experiência monárquica de Israel foi abortada.
A lista de lugares na história de Abimeleque deixa claro que seu reina­
do foi limitado não somente nos anos, mas também na extensão geográfi­
ca. Toda sua atividade esteve confinada à região de Manassés; não há qual­
quer sinal de que ele tenha atraído a atenção das demais tribos. Precisa­
mente, Israel como um todo não estava preparado para a monarquia, ou
pelo menos não a que Abimeleque estava disposto a oferecer.

Juízes menores

O reinado de Abimeleque pode ter sido a ocasião para o governo de


Tola, um descendente da tribo de Issacar, a tribo irmã de Manassés, que
situava-se bem ao norte. E fácil imaginar a turbulência criada pelas idéias
mal concebidas de Abimeleque em Manassés. O governo de Tola não en­
volvia um inimigo estrangeiro, mas foi designado para restaurar a paz
dentro de Manassés. Ele vivia em Samir (Samaria?)72 e governou por cerca
de vinte anos. Com base no período de 1180 a 1140 para o período de paz
ocorrido após a derrota dos midianitas (segundo a nossa cronologia),
Gideão pode ter morrido em 1120. Nesse caso Abimeleque reinou de 1120
a 1117, e Tola julgou Israel de 1117 a 1094. Embora não seja possível uma
precisão, como tem sido repetido, as datas apresentadas de forma alguma
são incompatíveis com o que se conhece acerca desse período.
Provavelmente paralelo ou um pouco depois do governo de Tola, le­
vantou-se Jair de Gileade. Esse cidadão abastado de Camon (Qamm), si­
tuada cerca de 19 quilômetros a sudeste do mar de Quinerete, julgou a
Israel (i.e., Gileade) por vinte e dois anos. Admitindo que seu governo
teve início logo que Tola começou a julgar Israel, pode-se datá-lo perto de
1115 - 1093. Mas se for entendido que o governo de Jair iniciou após a
morte de Tola, a data deve avançar para 1094 - 1072. Em qualquer caso é
possível harmonizar o governo de Jair com o governo de Jefté, pois embo­
ra as datas de Jefté sejam quase certo 1106 - 1100, sua administração apa­
rentemente centrou-se em Mispa (JaTad),73 no mínimo 64 quilômetros ao
sul de Camon. Jair limitou-se às cidades de Havote Jair, um distrito mais
ao sul e ao oriente do mar de Quinerete. ’

~ Oxford Bible Atlas, p. 140.


Yohanan Aharoni e Michael Avi-Yonah, Macmillan Bible Atlas (New York: Macmilan,
1968), p. 181; ver também o mapa 78. Martin Noth, contudo, localiza a cidade de Mispa
em el-Mishrefe, dois quilômetros ao norte de Jakad; ver Malamat, "Period of the Judges,"
em World History ofthe Jewísh People, vol. 3, p. 322, n. 78.
176 H istória de I srael no A ntic, o T estamento

Após a ameaça dos midianitas e a curta monarquia imposta por


Abimeleque, Israel mais uma vez deu as costas para Yahweh, e desta vez
foi uma apostasia em larga escala. Começaram a adorar os Baalins e
Astarotes como já faziam de costume, mas agora juntaram os deuses de
Arã, Sidom, Moabe, Amom e Filístia. Conseqüentemente, Yahweh "ven­
deu-os em mão dos filisteus, e em mão dos filhos de Amom... e oprimiram
e vexaram aos filhos de Israel" (Jz 10.7,8). Essa declaração significa que
filisteus e amonitas oprimiram o povo simultaneamente (ver pp. 151,152).
O historiador procede narrando a opressão dos amonitas (Jz 10.8b - 12.7),
e em seguida a dos filisteus (13.1 - 16.31). Este fato é muito importante
para a reconstrução da cronologia desse período.

Jefté

Os amonitas referidos em Juízes 10.8b oprimiram os israelitas da


Transjordânia por dezoito anos. Tentaram inclusive atravessar o Jordão
para também devastarem as tribos de Judá, Benjamim e Efraim. Finalmente,
os israelitas juntaram-se em Mispa e iniciaram uma busca frenética por
um líder capaz de livrá-los. Jefté, filho de Gileade, havia sido forçado ao
exílio em Tobe (et-Taiyibeh), no interior do deserto de Fíauran, onde rapi­
damente ajuntou um grupo marginal. A opressão amonita teve início al­
guns dias depois de seu exílio. Os anciãos de Gileade, que conheciam a
sua força e as suas virtudes de liderança, buscaram-no e o instituíram como
seu comandante. A primeira ação de Jefté foi tentar um entendimento di­
plomático com os amonitas. O inimigo reclamava que as tribos orientais
de Israel estavam ocupando ilegalmente seu território por cerca de trezen­
tos anos. Jefté enviou uma delegação ao rei amonita e lembrou-lhe que
Israel não tinha se apoderado de nenhuma terra dos amonitas na época da
conquista. De fato, o que Amom agora reivindicava como seu território
pertencia naquela época a Siom, rei dos amorreus. Foi a ele que Israel
desapossou, e não aos amonitas. Caso eles realmehte tivessem o direito a
alguma reivindicação, esta não poderia ser legalmente aceita naquele
momento nem no anterior.74 Além disso, Jefté perguntou por que motivo
Amom reclamava os territórios naquele momento, após três séculos da
derrota de Siom (Jz 11.26).

74 Parece que, de fato, a reivindicação dos amonitas era verdadeira e que eles já tinham
sido senhores daquela terra antes do tempo de Seon (Nm 21.26). Ver em Eugene H.
Merrill, "Numbers," em The Bible Knowledge Commentary, editado por John F. Walvoord
e Roy B. Zuck (Wheaton, 111.: Victor, 1985), vol. 1, pp. 240-41.
A E ra dos J uízes: A Violação da A liança, A narquia e .4A utoridade H umana 177

Conforme mencionado anteriormente (pp. 151,152), o número trezen­


tos é importante para a definição não somente das datas do êxodo e da
conquista, mas também dos anos de opressão causados pelos filisteus e
amonitas. A conquista da Transjordânia ocorreu em 1406, exatamente qua­
renta anos depois do êxodo. Portanto, a comunicação entre Jefté e os
amonitas deve ser datada perto de 1106. Não há de fato razão para enten­
der os trezentos anos de outra maneira que não literal. É certo que a vitó­
ria de Jefté sobre os amonitas (que ocorreu logo após Amom não ter dado
ouvidos a Jefté) constituiu o fim de suas ameaças. Uma vez que essa opres­
são durara dezoito anos, seu início pode fixar-se em 1124. Nesse tempo, as
terras em ambos os lados do Jordão desfrutavam um período de paz gra­
ças à eficiente expulsão dos midianitas promovida por Gideão, fato ocor­
rido décadas antes. É possível que as reivindicações dos filhos de Amom
tenham surgido imediatamente após a morte de Gideão, já que não havia
mais motivo para temer a nação de Israel.
Após os amonitas rejeitarem os termos de paz propostos por Jefté, este
os atacou em uma frente desde Aroer (localização desconhecida), situada
em algum ponto ao leste de Rabá (a moderna Amman) até Minnith (loca­
lização desconhecida), também situada em algum lugar ao leste do Jaboque,
chegando a Abel-Keramin (Na'ür?),75 poucos quilômetros a noroeste de
Hesbom. Voltou Jefté para Mispa, onde cumpriu os votos que havia feito
anteriormente solicitando o favor divino.
~ Evidências acerca da desunião contínua e latente hostilidade enjre as
tribos podem ser vistas na reação dos efraimitas ao sucesso de Jefté-^Eles
vinham sofrendo nas mãos dos amonitas e agora cruzavam o Jordão para
encontrar-se com Jefté, a fim de repreendê-lo por não terem sido convoca­
dos para a batalha. Sem pensar nas conseqüências e mantendo o espírito
anarquista da época, os efraimitas ameaçaram incendiar a casa de Jefté.
Então Jefté protestou dizendo que na verdade os havia convocado, mas
não fora atendido (Jz 12.2). Os efraimitas só puderam dizer que os gileaditas
eram renegados por Efraim e Manassés, e assim desleais com Israel.76 Tudo
isto, é claro, refletia problemas originados pela solicitação da Transjordânia
feita pelas tribos de Rúben, Gade e meia-tribo de Manassés oriental. Mais

~ Aharoni, Land of the Bible, p. 429.


Aharoni, "Settlement in Canaan," em World History of the Jewish People, vol. 3, pp. 123­
24. Existe uma forte indicação de que Efraim havia reivindicado uma parte bastante
considerável da Transjordânia, pois há referências acerca da floresta de Efraim (2 Sm
18.6; cí. 17.24). Ver em Malamat, "Period of the Judges," em World History of the Jewish
People, vol. 3, p. 159.
17 8 H istória de I srael a 'o A ntigo T estamento

evidências da alienação das tribos ocidentais e orientais podem ser vistas


na atitude de Jefté de proibir que os efraimitas retornassem ao lado oci­
dental do Jordão depois de pelejarem contra os gileaditas. Ele, inclusive,
posicionou seus homens nos vaus, e qualquer sobrevivente que tentasse
atravessar para o oeste do Jordão, era obrigado a pronunciar "Chibolete"
(,sibbõlet). Caso dissesse "Sibolete", uma peculiaridade fonética do oeste,
automaticamente era identificado como um efraimita, o que culminava
em sua morte.77 Aqui está uma prova de que a distinção lingüística já co­
meçava a marcar a divisão da nação.78
Jefté viveu por mais sessenta anos após a expulsão dos amonitas (1106 -
1100), e foi sucedido três juízes locais. Ibsã, de Belém (provavelmente em
Judá) serviu por sete anos (cerca de 1100 - 1093); Elom, de Aijalom em
Zebulom, julgou por dez anos (cerca de 1093 -1083); e, por último, Abdom,
de Piraton (Far'ata) em Efraim, julgou por oito anos (cerca de 1083 - 1075).
Estes governos podem ter sido simultâneos, totalmente ou em parte, mas
em todo caso não cobriram as áreas afligidas pelos amonitas e pelos filisteus.

Sansão

A opressão causada pelos filisteus iniciou no mesmo ano em que Israel


foi oprimido pelos amonitas (1124), mas é descrita em detalhes somente
após a conclusão do relato de Jefté e os amonitas (p. 151). Este aspecto não
é invalidado pela versão tradicional de Juízes 13.1a - "tornaram a fazer o
que parecia mal aos olhos do Senhor" - pois a palavra "tornaram" não
aparece desta forma no texto hebraico original. Literalmente, o original
quer dizer: "E os israelitas acrescentaram mais à sua maldade," uma ex­
pressão que pode significar "fazer novamente", mas não necessariamen­
te. O verbo yãsap aqui decerto significa "continuar a fazer", mas apenas
acompanhado da partícula ‘ôd significaria "fazer novamente" (Jz 11.14).79
Assim, Israel continuou a fazer males, conforme o narrador registrou em
Juízes 10.6, quando pela primeira vez introduziu a opressão dos filisteus.
Juízes 13.1a serve como uma ponte literária que conduz à primeira refe­
rência, e não pretende sugerir uma seqüência Jefté-Sansão.

77 Ver Ephraim A. Speiser, "The Shibboleth Incident," BASOR 85 (1942): 10-13. Eduard Y.
Kutscher, A History o f the Hebrew Language (Jerusalem: Magnes, 1982), pp. 14-15.
78 Para outras evidências a respeito dessa divisão, ver Malamat, "Period of the Judges,"
em World History of the Jewish People, vol. 3, pp. 160-61, onde o autor declara que Efraim
sempre foi o principal instigador. Ver também Daniel I. Block, "The Role of Language in
Ancient Israelite Perceptions of National Identity," JBL 103 (1984): 339, n. 75.
79 Boling, Judges, p. 85. /
A E m dos J uízes: A Violação da A liança, A narquia e a A utoridade H umana 179

A ameaça dos filisteus afetou a tribo de Dã em particular, embora


Efraim, Benjamim e Judá também tenham sentido seu impacto. Por lon­
gos quarenta anos Israel penou sob a incansável e brutal pressão dos
filisteus até que Yahweh levantou Sansão e mais tarde Samuel para livrá-
los do jugo inimigo. A opressão iniciou em 1124 e continuou até 1084. O
governo de Sansão coincidiu com a opressão (Jz 15.20) mas não a ultra­
passou (1 Sm 7.13,14). Visto que sua liderança se estendeu por vinte anos
(Jz 16.31), ele deve ter iniciado o ministério mais ou menos na metade
dos quarenta anos, em 1104. Não devia ter mais de vinte anos de idade
na ocasião, pois seu nascimento ocorrera logo após o início da opressão
filisteia (Jz 13.5). Para resumir, a opressão durou de 1124 até 1084, Sansão
nasceu por volta de 1123, iniciou seu governo em 1104, e morreu no má­
ximo em 1084.
Nascido de pais piedosos, naturais da tribo de Dã em Zorá (Sar'ah),
situada no vale de Soreque, Sansão foi desde seu nascimento um nazireu
poderosamente revestido pelo Espírito de Deus.80 Que isto não implica
necessariamente em espiritualidade pessoal está claro pelo curso da vida
deste jovem. Ele serve como um testemunho eloqüente da natureza dos
juízes. Não era um ofício para o qual alguém se classificava por meio de
dons naturais, integridade pessoal ou herança, mas apenas pela soberana
atuação de Deus. Os vários romances de Sansão com mulheres filistéias
são suficientes para mostrar que seu sucesso em favor de Israel não era
devido ao seu próprio caráter, mas ao de Deus, que vinha sobre ele e o
fortalecia para ser o salvador de seu povo.
*Q) Sansão apaixonou-se por uma mulher filistéia natural de Timná (Tel
Batash), uma cidade situada na fronteira entre Israel e os filisteus. Na festa
de casamento, Sansão apostou trinta mudas de vestidos que seus compa­
nheiros não seriam capazes de decifrar um enigma. Após descobrir que
fora enganado, partiu para a cidade filistéia de Ascalom, matou trinta ho­
mens e retirou deles as vestes festivas para pagar sua aposta. Isto marcou
seu primeiro ataque contra os filisteus. Em seguida ele foi embora. Quan­
do Sansão retornou a Timná, descobriu que sua mulher havia sido dada a
outro homem. Irado, pegou trezentas raposas e as amarrou umas às ou­
tras pela cauda e, após atear-lhes fogo, enviou os animais direto às searas
dos filisteus, queimando totalmente suas colheitas. Quando, em retalia­
ção, os filisteus mataram sua mulher e seu sogro, Sansão matou um gran­
de número de filisteus, dando-lhes o troco. Então os filisteus armaram-se

Para discussão acerca da natureza e função dos nazireus, ver Roland de Vaux, Ancient
Israel (New York: McGraw-Hill, 1965), vol. 2 pp. 466-67.
180 H istória üe I srael no A ntigo T estamento

contra Judá, cujos habitantes ficaram aterrorizados, visto que por seu pró­
prio consentimento viviam sob a dominação dos filisteus (Jz 15.11). Entre­
garam, portanto, Sansão aos filisteus, mas lá, em Ramate-Leí (local desco­
nhecido), Sansão feriu mil de seus inimigos.
J A segunda mulher na vida de Sansão foi uma prostituta de Gaza. En­
quanto a visitava, Sansão foi descoberto por alguns filisteus que decidi­
ram vigiá-lo toda a noite, armando-lhe uma emboscada ao amanhecer.
Porém, à meia-noite, ele levantou-se, tomou o portão da cidade, e o carre­
gou até Hebrom, a quarenta milhas de distância.
Finalmente, Sansão cedeu aos encantos de Dalila, que o traiu revelan­
do aos filisteus que a força de Sansão residia nos cabelos não cortados.
Ironicamente, ele foi levado a Gaza e forçado a mover um grande moinho.
A cidade de onde ele, em toda a sua força, retirara o portão, agora havia se
constituído em sua própria prisão. No devido tempo Sansão foi trazido ao
templo de Dagom, a principal divindade dos filisteus. Seus cabelos - a
marca de seu nazireado e o poder de Deus sobre sua vida - já haviam
crescido novamente e, em uma última tentativa poderosa, derrubou o tem­
plo de Dagon sobre si e os filisteus, matando em sua morte mais inimigos
do que havia matado em vida.
Os críticos recusam-se a ver a narrativa de Sansão como história real
em virtude dos feitos sobrenaturais do herói. Preferem descrevê-las como
lenda ou saga, cujo propósito era enfatizar a idéia de que Yahweh vence­
ra seus inimigos através de um homem revestido de seu Espírito, e não
mediante o uso de um exército de soldados.81 O problema com esse
cepticismo é que ele interpreta erroneamente a natureza das sagas como
um gênero literário82 e, além disso, baseia-se em uma afirmação não crí­
tica de que tais feitos heróicos por si só não poderiam acontecer, e que de
fato não ocorreram. Mas esse tipo de apelação não encontra lugar de
importância na história escrita. Se alguém admite não existir nada afora
o registro bíblico que o contradiga, e que a história bíblica é sui generis,
ou seja, uma história especial e única, então não há um bom motivo para
se rejeitar as histórias de Sansão. Uniformitarismo histórico não deve
pôr uma camisa de força nos fatos ou predeterminar o que aconteceu no
passado.

81 Para conhecer mais este ponto de vista, ver James L. Crenshaw, Samson (Atlanta: John
Knox, 1978), pp. 19-26.
82 Para uma excelente discussão a respeito de saga, especialmente da imprecisão do termo
como uma tradução do alemão Sage, ver John J. Scullion, "Marchen, Sage, Legende: Towards
a Clarification of Some Literary Terms Used by Old Testament Scholars," VT 34 (1984):
324-31.
A E ra dos J uízes: A Violação da A liança , A narquia e a A utoridade H umana 181

Samuel

Os últimos cinco capítulos de Juízes formam, juntam ente com o


li\rro de Rute, o que poderia ser chamado de trilogia belem ita de his­
tórias, cujo cenário é a era dos juízes. Antes deste fator ser exam ina­
do, é preciso atentar para a narrativa da opressão dos filisteus e todo
o período dos juízes. Isto requer uma atenção aos primeiros capítulos
de 1 Samuel.
Esse livro inicia com a história do nascimento de Samuel, em resposta à
oração de Ana, em Ramatain-Zofim (Rentis), localizada em Efraim, a ape­
nas oito quilômetros a noroeste de Timná Sera - local onde sepultaram o
corpo de Josué, e aproximadamente 29 quilômetros a oeste do tabernáculo
em Siló. Samuel foi dedicado por seus pais para ser um nazireu e servir ao
Senhor em Siló. Embora não fosse um sacerdote de linhagem, era um levi­
ta (1 Cr 6.22-28), um descendente de Coate, e assim poderia ministrar no
tabernáculo e em outros altares locais.
Enquanto Samuel era jovem em Siló, o sumo sacerdote era Eli, um des­
cendente de Itamar, como sugerido pelo fato de mais tarde o sacerdócio
da linhagem de Eli ter sido tomado e entregue a Zadoque, um descenden­
te de Eleazar (1 Rs 2.35; cf. Nm 3.4; 1 Cr 6.8). Embora não haja indícios de
apostasia na vida de Eli, seus filhos efetivamente transformaram a casa de
Yahweh em Siló num santuário cananeu, com toda a corrupção e imorali­
dade associadas ao culto a Baal (1 Sm 2.12-17, 22-25). Foi nesse ambiente
que o jovem Samuel foi chamado por Yahweh e designado para ser profe­
ta e juiz. Também em razão dessas circunstâncias o Senhor trouxe os
filisteus para servirem como instrumento de sua correção.
A presença dos filisteus nos primeiros anos do juizado de Samuel
deve ser a^spciada aos quarenta anos de opressão mencionadas em
Juízes 13.T. Este fato é evidente porque nenhuma cronologia permite
que Samuel tenha sido jovem antes de 1124 (ver pp. 152,153) - o início
da única opressão filistéia conhecida no décimo segundo século - e
também porque está claramente registrado que foi o próprio Samuel
quem finalm ente liquidou os filisteus e permitiu que Israel obtivesse
novamente seus antigos territórios (1 Sm 7.13,14). Esta tarefa realiza­
da por Samuel deve ser datada por volta de 1084, pois a opressão dos
filisteus durou quarenta anos, de 1124 a 1084. A arca da aliança havia
perm anecido em Quiriate-Jearim por vinte anos na época em que
Samuel derrotou os filisteus (1 Sm 7.2). Uma vez que a arca esteve
nessa cidade desde a queda de Siló, com exceção dos sete meses que
182 H istória de I srael no A ntigo T estamento

passou na Filístia (1 Sm 6.1), conclui-se que a data da destruição de


Siló seja por volta de 1104.83
Vejamos mais detalhadamente os eventos ocorridos em 1104. Õ histori­
ador relata que os filisteus tinham se reunido em Afeque, obviamente com
a intenção de batalhar contra os israelitas que estavam acampados em
Ebenézer. Esta Afeque é Râs el-'Ain, situada cerca de 40 quilômetros a
oeste de Siló. Ebenézer ('Izbet Sartah?)84 achava-se a apenas três quilôme­
tros a sudeste de Afeque.85 Quando a batalha travou-se, Israel sofreu uma
terrível derrota. Supersticiosamente, atribuíram o fracasso à ausência da
arca da aliança na batalha. A presença de Yahweh como o Guerreiro de
Israel que conduzia seu exército na guerra santa era simbolizada pela arca.
Mas a guerra santa era sancionada por Yahweh - a mera presença da arca
não era garantia de sua bênção. Apesar disso, a arca foi trazida desde Siló
e, embora tenha aterrorizado os filisteus, que também viam-na como uma
função automática, estes batalharam contra Israel e alcançaram um mag­
nífico triunfo. Os filhos de Eli, Hofni e Finéias, que estavam incumbidos
de guardar a arca, foram mortos e a arca foi levada como um troféu de
guerra. Quando a notícia do desastre chegou a Siló, Eli caiu para trás e
morreu, e a mulher de Finéias deu à luz um filho prematuramente, que foi
chamado de Icabô ("foi-se a glória do Senhor"), uma eloqüente descrição
da perda da arca.
O ataque sobre Israel em Afeque bem pode ter sido uma reação aos
antigos ataques de Sansão contra os filisteus, que começaram mais ou
menos nessa época (1104). Visto que Sansão foi fortalecido miraculosa­
mente pelo Deus de Israel, o que poderia ser melhor do que atacar o
centro religioso israelita em Siló? Entretanto, os filisteus logo aprende­
ram que Yahweh não poderia ser contido dentro de uma caixa, nem seus
poderes eram diminuídos por estar a arca transitando temporariamente

83 Essa data é aproximadamente cinqüenta anos mais antiga do que a usualmente aceita
para a destruição da cidade de Siló; ver, por exemplo, o que diz John Bright em A History
of Israel, 3a edição (Philadelphia: Westminster, 1981), pp. 185-86. Note que o relato bíbli­
co não diz expressamente que Siló fora destruída na época em que a arca foi levada
pelos filisteus. A destruição pode ter ocorrido cinqüenta anos depois de a cidade ter
deixado de ser um centro religioso para Israel. O Salmo 78.60 fala que Jeová abandonou
Siló, um fato confirmado em 1 Samuel 4.11, ao passo que o profeta Jeremias refere-se a
esta destruição (7.12,14; cf. 26.6,9) como conseqüência de sua rejeição como um centro
de adoração a Deus. ,
84 Oxford Bible Atlas, p. 127.
85 Para um excelente gráfico da batalha, ver Aharoni e Avi-Yonah, Macmillian Bible Atlas,
mapa 83, p. 58.
A E ra dos J uízes: A Violação da A liança , A narquia e 4 A utoridade H umana 183

na Filístia. Como um virtual prisioneiro de guerra no templo de Dagom


em Asdode, Yahweh permaneceu em abjeta humilhação (assim pensa­
vam os filisteus) aos pés da divindade filisteia. Mas, pela manhã, Dagom
estava prostrado diante da arca. Seus assistentes levantaram-no, mas a
cena repetiu-se, e desta vez tinha a cabeça e braços arrancados do lugar.
Em termos bem apropriados, a inigualável invencibilidade de Yahweh
estava sendo afirmada.
Dagom não estava sozinho em sua humilhação, pois uma praga de
^hemorroidas veio sobre todo o povo de Asdode. Ao perceberem que es­
tavam sob o juízo de Yahweh, os líderes decidiram enviar a arca de volta
a uma cidade coirmã chamada Gate. Mas a praga também lá se espa­
lhou; então a arca foi enviada para Ecrom, onde o mesmo aconteceu.
Intensamente frustrados, os príncipes dos filisteus decidiram devolver a
arca para Israel e ofereceram os devidos sacrifícios a Yahweh, a fim de
aplacar-lhe a ira e induzi-lo a interromper a terrível praga. Conduzidos
pelo Senhor, a junta de bois que levava a arca sobre o carro chegou até
Bete-Semes, onde um certo Josué dela tomou conta temporariamente. Lá
os levitas ofereceram a Yahweh um sacrifício de animais. Mas alguns do
povo de Bete-Semes olharam para dentro da arca, um ato que violava a
sua santidade, e por isso muitos morreram. Apavorados, os sobreviven­
tes suplicaram aos moradores de Quiriate-Jearim, distante uns 16 quilô­
metros a nordeste, que guardassem a arca. O porquê dos moradores de
Bete-Semes terem sido mortos por desrespeitarem a arca, enquanto os
filisteus puderam fazer o mesmo com relativa impunidade é bem claro:
as expectativas de Yahweh quanto ao seu povo santo não são as mesmas
para os que não são seus. Ou seja, a arca era santa apenas para o povo
santo.
Durante vinte anos a arca permaneceu em Quiriate-Jearim, na casa de
Abinadabe. Somente após este tempo Samuel exortou o povo a desfazer-
se dos ídolos pagãos, a servir a Yahweh, e preparar-se para expulsar os
filisteus de uma vez por todas. Esse repentino impulso de liderança em
Samuel sugere que ele agora era um homem maduro, e não havia outros
líderes preparados para tal tarefa. Sansão já devia estar morto. Ele morre­
ra enquanto destruía o templo de Dagom em Gaza, no final dos seus vinte
anos de juizado, isto por volta de 1084. Então, vinte anos após os filisteus
terem capturado a arca (em 1104), Samuel assumiu a liderança como juiz e
profeta para pôr fim ao problema causado pelos filisteus. Ajuntou o povo
em Mispa (Tel el-Nasbeh), entre Gibeão e Betei, e ofereceu sacrifícios a
Yahweh, encorajando Israel a enfrentar os filisteus, que já estavam a cami­
nho da batalha. Com a ajuda de Yahweh, Israel derrotou poderosamente o
184 H istória de I srael no A ntigo T estamento

inimigo, expulsando-o de volta a Bete-Car. Este local não pode ser identi­
ficado, mas visto que está associado a Sem (Jeshanah ou el-Burj)86, situada
logo ao sul de Siló, devia localizar-se para o norte. Em todo caso, a batalha
pôs fim à ocupação filistéia em Israel. A opressão de quarenta anos havia
finalmente chegado ao fim. A referência à paz com os amorreus (1 Sm
7.14) significa que a vitória de Samuel sobre os filisteus ocasionou um
período de paz e tranqüilidade entre as populações nativas da região mon­
tanhosa.87
Este feito de Samuel o marcou como juiz, o último de uma longa
sucessão de líderes carismáticos que começara com Otniel. Porém,
mesmo a jurisdição de Samuel era limitada, pois seu circuito ia de Betei
a Gilgal, e desta para Mispa, uma área que não ultrapassava 32 quilô­
metros de extensão. Agora ele estava em constante movimento, mas
periodicamente voltava a Ramá (i.e, Ramataim Zofim), local de sua re­
sidência. A era dos juízes estava abrindo caminho para a monarquia;
dentro de trinta e cinco anos Samuel presidiria a coroação do primeiro
rei em Israel.

A trilo g ia d e B e lé m

Antes de examinar a monarquia de Israel, é preciso atentar para a


chamada trilogia de Belém - as três narrativas cujo cenário descreve o
período dos juízes. São assim designadas porque a cidade de Belém
figura proeminentemente em cada uma delas. De fato, as narrativas
contêm outros temas e motivos em comum.88 Estaremos submetendo
as três histórias a uma análisq detalhada porque representam melhor a
narrativa da história escritaAÈlas dizem respeito a indivíduos em con­
texto mais ou menos particular, cujas identidades e atividades são ape­
sar de tudo inseparáveis, e cj^isivas para a compreensão da monar­
quia davídica que os seguiuVdk.elatos de eventos ocorridos na época
dos juízes, foram eles incluídos no registro sagrado com o propósito de
traçar as origens da dinastia davídica e justificar sua existência em opo­
sição à linhagem de Saul.

86 O texto massorético de 1 Samuel 7.12 diz hassen, mas a leitura preferida, baseada na
Septuaginta, é haysanâ, Jeshanah.
87 R Kyle McCarter, Jr., I Samuel, Anchor Bible (Garden City, N.Y.: Doubleday, 1980),
p. 147.
88 Ver Eugene H. Merrill, "The Book of Ruth: Narration and Shared Themes," Bib Sac 142
(1985): 130-41.
A E fu dos J uízes : A Violação da A liança , A narquia e 4 A utoridade H umana 185

Mica e o levita

A primeira narrativa descreve a história de Mica e o levita (Jz 17 -1 8 ).89


Parece que um abastado homem de Efraim, chamado Mica construiu uma
casa de ídolos, instituindo seu próprio filho como sacerdote desse santuá­
rio pagão. Isto, segundo descreve o historiador, era característica daque­
les dias, quando "não havia rei em Israel" e "cada qual fazia o que parecia
direito aos seus olhos" (Jz 17.6). Quando um levita de Belém passou pelo
lugar à procura de emprego, Mica o persuadiu a servir como sacerdote em
lugar de seu filho, que não era levita.
Enquanto isso, a tribo de Dã, que não conseguia ocupar todo o territó­
rio herdado, enviou uma comitiva ao norte em busca de outro território.
Pelo caminho, a delegação encontrou-se com o levita, solicitando-lhe in­
clusive um conselho a respeito de seu empreendimento. Satisfeitos, parti­
ram para Lais (Tel el-Qadi), cerca de 19 quilômetros ao norte do lago Hulé,
e perceberam que os habitantes locais viviam vida pacata e desprotegida.
O relatório da delegação encorajou os danitas a partir em massa para Lais.
A caminho de Lais, seiscentos homens de Dã, incumbidos de vencer
aquele povoado pacato, pararam para visitar Mica e insistiram para que o
levita os acompanhasse, juntando-se a eles na condição de sacerdote de
um novo centro religioso que construiriam em Lais. Chegando ao local,
destruíram completamente a cidade e reedificaram-na com o nome de Dã.
Somente neste ponto da narrativa o nome do levita é revelado - não era
outro senão Jônatas, filho de Gérson, neto do próprio Moisés!90 Esta infor­
mação permite que o ambiente histórico seja mais precisamente definido.
Gérson, filho de Moisés, deve ter morrido antes da conquista, como parte
da geração rebelde. Jônatas tinha de estar com vinte anos ou menos em
1444 para que pudesse entrar na terra. Assim é bem provável que estives­
se com cinqüenta e oito anos no início da conquista, sendo portanto cha­
mado de "jovem" em Juízes 17.7. Apesar de ser este um termo impreciso,
sem dúvida não pode ser aplicado a alguém acima de cinqüenta anos. E
mais certo que ele fosse bem mais novo.91 De grande importância também

“ Frank Anthony Spina, "The Dan Story Historically Reconsidered," JSOT 4 (1977): 60-71.
O nun suspensum do Texto Massorético de Juízes 18.30 reflete apenas considerações
apologéticas, e não pode derrubar a forte evidência de manuscritos que lêem "Moisés"
em vez de "Manassés". Ver Moore, Judges, pp. 401-2. —■
Que Jônatas era muito mais novo é sugerido pela evidência de que Gérson nascera de
Moisés e Zípora depois que estes tinham muitos anos de casados: ele fora circuncidado
por sua mãe quando estavam a caminho do Egito, antes do êxodo (Ex 4.24-26). Não
seria impróprio datar o seu nascimento em 1450. Neste caso, ele estaria entre aqueles
18 6 H istória de I srael no A ntigo T estamento

é a referência em Juízes 18.1 ao fato de Dã ainda não haver tomado posse


de sua herança. Por falta de paciência, a tribo decidiu seguir seu próprio
caminho. Deve-se lembrar que o processo de alocação das tribos já havia
terminado dentro de sete anos após o início da conquista (i.e., em 1399 -
ver p. 132). Ajornada de Dã até Lais não pode ter acontecido muito tempo
depois disso.
Os estudiosos geralmente entendem que a migração de Dã foi conse-
qüência de pressões exercidas pelos nativos da região, conforme sugerido
em Juízes 1.34-36. É preciso observar a passagem de Josué 19.47, que rela­
ta que Dã tomou a cidade de Lais (Lesém), após ter sido o seu termo pe­
queno; Dã estava com dificuldades para ocupar seu território herdado.
Em Juízes 18.8-13 esclarece que a tomada de Lais precedeu a ocupação do
território original. A seqüência, então, mostra que uma parte da tribo, im­
paciente por não poder conquistar seu território, moveu-se para o norte
(Lais) por conta própria; os danitas remanescentes ocuparam as cidades
mencionadas em Josué 19.40-46. Destes danitas surgiu Sansão trezentos
anos mais tarde.

O levita e sua concubina

A segunda história da trilogia é acerca de um levita de Efraim que to­


mara como concubina uma donzela natural de Belém (Jz 19-21).92 A cone­
xão Belém-Efraim é novamente posta em evidência; há obviamente uma
deliberada intenção do autor em ambos os episódios. O levita obteve sua
mulher em Belém (para onde ela havia fugido por razão desconhecida) e
retornou a Efraim via Gibeá (Tel el-Füll), de Benjamim, onde encontrou
abrigo e segurança na casa de um ancião. Infelizmente, a mulher foi vista
por homens malignos de Gibeá, que a violentaram por toda uma noite,
deixando-a morta à porta do homem que os hospedara tão gentilmente. O

que obtiveram a graça de entrar em Canaã, já que devia ter menos de vinte anos (1444).
Além disso, em 1399 ele estaria com cerca de cinqüenta anos, e seu filho Jônatas poderia
ser facilmente descrito como um homem jovem. Embora o hebraico na'ar ("homem jo­
vem") possa também referir-se a um assistente ou ministro, em ambos os casos nunca
dá o sentido de um velho ou ancião. Ver Aharoni, "Settlement of Canaan", em World
History ofthe Jezvish People, vol. 3, p. 308, n. 15.
92 A historicidade desse relato é defendido por Malamat, "Period of the Judges," em World
History ofthe Jezvish People, vol. 3, p. 161, que situa o ocorrido entre o juizado de Jefté e o
ataque amonita contra Jabes-Gileade (1 Sm 11). Mesmo que essa data tão recente seja
impossível (ver n. 95), Malamat corretamente chama a atenção para a ligação existente
entre Benjamim e Jabes-Gileade.
\ E ra dos J uízes: A Violação da A liança, A narquia e a A utoridade H umana 187

levita então expôs sua triste experiência aos anciãos de todo o Israel, pois
haviam se reunido em Mispa. Então foram à cidade de Betei (Jz 20.18)93,
onde buscaram a direção divina para agir.94
Visto que a concubina era oriunda de Belém, estabeleceu-se que os ho­
mens de Judá seriam os primeiros a atacar Benjamim. Depois de dois dias
de atraso, os israelitas decidiram retirar-se para buscar o favor e a bênção
de Deus através do sumo sacerdote Finéias, neto de Arão.95 No terceiro
dia Israel prevaleceu sobre Benjamim, que quase foi aniquilada. Israel reu­
niu-se outra vez para discutir acerca da quase extinção da tribo. A resolu­
ção foi trazer muitas donzelas de Siló e Jabes Gileade, para servirem como
esposas para cerca de seiscentos benjamitas sobreviventes, preservando
assim a tribo.
A referência a Jabes-Gileade não é sem propósito por parte do historia­
dor. A cidade era de certo modo o lar ancestral de Saul. Também está claro
na narrativa que a mulher do benjamita sobrevivente, ancestral de Saul,
veio ou de Siló ou de Jabes-Gileade. O interesse expressado por Saul na
cidade de Jabes-Gileade parece demonstrar que suas origens remontam
àquele lugar. Saul somente tornou-se rei depois que Jabes-Gileade foi cer­
cada pelos amonitas, e não a destruíram justamente por causa de sua in­
tervenção (1 Sm l l . l - l l ) . 96 Além disso, após a morte de Saul e a vergonha

Tem sido sugerido que bêt-el aqui significa "local de Deus" (i.e., Mispa), e não aquela
cidade com esse nome. Essa sugestão põe em evidência a necessidade de explicar o
surgimento de Betei como um centro de culto, coisa que não tem comprovação neste
período de Israel, exceto nessa narrativa. Portanto, as referências a Betei (Jz 20.18,26;
21.2) devem ser entendidas não como o nome de um lugar, mas como um "lugar santo",
isto é, Mispa (ver Boling, Judges, p. 285). Embora Siló tenha sido o local escolhido para
guardar o tabernáculo e a arca da aliança desde tempos antigos (Js 18.1), já não devia
mais desfrutar do mesmo status pelo tempo da rebelião da tribo de Benjamim, um fato
que está bastante claro tanto pela presença da arca em Mispa (Jz 20.18,23,26-28; 21.1-7)
quanto pelo fato de que, aparentemente, a cidade de Siló já tinha caído em desfavor por
essa época (Jz 21.12,19-23). Porém, alguns anos mais tarde, Siló readquiriu seu status de
honra como o centro de culto da nação, conforme 1 Samuel 3-4.
°4 Para um estudo que discorre acerca da função dessas reuniões, ver Hanoch Reviv, "The
Pattern of the Pan-Tribal Assembly in the Old Testament," JNSL 8 (1980): 85-94.
45 Os eventos dessa narrativa, como aqueles da primeira, devem ser posicionados bem
nos primórdios da era dos juízes. O neto de Moisés e um neto de Arão seriam contem­
' porâneos de uma geração depois da conquista.
* A dissecação dos bois feita por Saul é uma reminiscência do tratamento dado à concubina
do levita, que fora brutalmente estuprada até a morte. Esse relato claramente liga o
início do reinado de Saul com suas origens em Jabes-Gileade, e o acontecimento históri­
co referente à situação.
188 H istória de I srael no A ntigo T estamento

diante dos habitantes de Bete-Seã, os homens de Jabes Gileade pegaram


seu corpo e sepultaram-no em sua cidade (1 Sm 31.11-13), de onde Davi
mais tarde o trouxe para sepultá-lo em Zela, cidade de Benjamim (2 Sm
21.12-14).
A motivação para se incluir essa segunda narrativa da trilogia belemita
é evidente. Reflete um mal aspecto dos benjamitas e, indiretamente, dos
ancestrais que constituíram a dinastia de Saul. O sentimento pró-davídico
parece cristalino para o historiador sagrado.

A história de Rute: ligações patriarcais

A terceira história, a de Rute,97 tem como personagem principal uma


donzela moabita, embora a bênção (Rt 4.11-15) e a genealogia (Rt 4.17­
22) no final mostrem claramente que o principal propósito do novelis­
ta98 foi traçar uma ancestralidade ligando o rei Davi à tribo de Judá e à
cidade de Belém. Como nas duas histórias anteriores, houve um homem
que partiu de Belém de Judá (Rt 1.1; cf. Jz 17.7,8; 19.1-10); mas enquanto
os outros dois mancharam a reputação da cidade pelo comportamento,
Elimeleque e sua família levantaram a sua moral. No livro de Rute vê-se
que a cidade de Belém começa a se constituir no local ideal para o nasci­
mento do rei Davi. Na segunda história, os ancestrais de Saul, os
benjamitas, tinham humilhado e desgraçado uma belemita, o que signi­

97 A antiga tradição canônica entre os judeus tradicionalmente tem incluído e considera­


do o livro de Rute como livro dos Juízes, e tal raciocínio tem base nas fortes conside­
rações literárias e históricas. Seu autor coloca os acontecimentos no tempo "quando
os juízes governavam" (Rt 1.1), e o cenário ainda está envolto nas duas últimas narra­
tivas do livro dos Juízes. (Enquanto as outras histórias são do princípio daquela era,
Rute deve ser localizada no final do período, pois esta heroína está separada de Davi
por apenas três gerações). Além disso, a acusação que comumente servia como um
refrão por todo o livro dos Juízes - "Naqueles dias não havia rei em Israel: cada qual
fazia o que achava mais reto" (jz 17.6; 18.1; 19.1; 21.25) - e que lançava toda aquela era
em uma espécie de caos moral e apostasia da Lei, está sem dúvida refletida nas pala­
vras de abertura do livro de Rute - "Nos dias em que julgavam os juízes," ou seja,
quando não havia um rei.
98 Críticos da forma desde a época de Herman Gunkel têm usado esse termo, que é sinôni­
mo de "história curta", para descrever o livro de Rute. Para defesa do termo, ver Edward
F. Campbell, Jr., Ruth, Anchor Bible (Garden City, N.Y.: Doubleday, 1975), pp. 3-6,21.
Jack M. Sasson, contudo, prefere a classificação de "folclore" (Ruth: A New Translation
with a Philological Commentary and a Formalist-Folklorist Interpretation [Baltimore: Johns
Hopkins University Press, 1979], p. 215), sendo o mesmo procedimento seguido por
Oswald Loretz ("The Theme of the Ruth Story," CBQ 22 [1960]: 391-99).
.A E ra dos J uízes: A Violação da A liança, A narquia e a A utoridade H umana 189

ficou para eles muita agonia e sofrimento futuros. Contudo, a cidade de


Belém não apenas sobreviveu a essas crises, mas por fim produziu aque­
le que seria o sucessor de Saul, um homem segundo o coração de Deus.
O papel da cidade de Belém nessas histórias jamais deve ser visto como
de pouca importância.
É bastante significativo que o livro de Rute não trace uma genealogia
do rei Davi até os dias dos juízes. A seção genealógica, na verdade,
inicia com Perez, filho de Judá (Rt 4.18); e a bênção de Boaz pelo povo
de Belém explicitamente liga esta cidade (e, portanto, Davi) a Perez e
Judá:

O Senhor faça a esta mulher, que entra na tua casa, como a Raquel e como
a Léia, que ambas edificaram a casa de Israel; e há-te já valorosam ente em
Efrata, e faze-te nom e afamado em Belém. E seja a tua casa como a casa de
Perez (que Tamá teve de Judá), da sem ente que o Senhor te der desta moça
(Rt 4.11b-12).

Obviamente o uso dos sinônimos Efrata e Belém nessa passagem diz


respeito a uma reminiscência da primeira justaposição dos dois nomes,
que é vista na morte de Raquel e no nascimento de Benjamim (Gn 35.16­
19). É possível que aquele incidente, em que Benjamim torna-se o moti­
vo da morte da mulher favorita de Jacó (Israel), em Belém, estivesse já
antecipando o futuro conflito entre Saul e Davi, onde o benjamita (Saul)
viria a se constituir no antagonista daquele que estaria ligado a Belém
(Davi)? Seja como for, há outros antecedentes patriarcais para a narrati­
va Rute-Davi, que indubitavelmente trarão mais proveito e substância a
este tema.

Judá e Tamar
Uma parte da bênção proferida a Boaz e a Rute era que esta família
seria como "a casa de Perez (que Tamar teve de Judá)" (Rt 4.12). Deve-se
lembrar que Tamar, como Rute, era uma estrangeira que havia se casado
com alguém do povo da aliança (Gn 38.6). Quando seu marido Er (irmão
mais velho de Judá) morreu, a lei do levirato passava a ser válida, e de fato
o foi, e ela casou-se com o segundo filho, Onã. Mas esta alternativa legal
não produziu qualquer fruto verdadeiramente útil. O resultado, é claro,
foi a relação incestuosa entre Judá e Tamar, que culminou no nascimento
dos gêmeos Perez e Zerá (Gn 38.24-30). A lei do levirato também está des­
crita na história de Rute (Rt 4.5), mas desta vez houve resultados bastante
produtivos - Boaz suscitou descendência ao nome do falecido marido de
190 H istória de I srael a 'o A ntigo T estamento

Rute." As circunstâncias que produziram tais relacionamentos foram sur­


preendentemente parecidas. Sob um disfarce, Tamar seduziu seu sogro
(Gn 38.14-16). Rute aproximou-se de Boaz escondida na escuridão da
noite (Rt 3.6-14). Depois de saberem todos que Tamar estava grávida,
Judá despediu-a diante do tribunal local, a fim de acusá-la formalmente
de prostituição, para que também a conduzissem à morte. Mas, ao invés
disto, ele mesmo foi envergonhado e condenado (Gn 38.24-26). Seme­
lhantemente, Boaz e Rute compareceram perante os anciãos para anun­
ciarem a redenção desta mulher e seu casamento imediato. Porém, na
ocasião, o casal foi não só foi elogiado como também abençoado (Rt 4.1­
12). Em cada um dos casos, o homem já era avançado em idade, mas
ainda assim estava fértil o suficiente para ser pai de muitos outros filhos,
embora as perspectivas para isto fossem definitívamente negativas. O
que é mais significativo, é claro, é o fato de tanto Tamar quanto Rute
terem filhos que constam da linhagem messiânica e davídica. Esse é o
elo mais forte entre as duas histórias.
A razão por que a Bíblia esforça-se para traçar uma linhagem da des­
cendência de Davi até Judá é encontrada em Gênesis 49.10, quando Jacó,
no leito de morte, proferiu a seguinte bênção:

O cetro não se arredará de Judá,


nem o bastão de entre seus pés,
até que venha Siló; e a ele
obedecerão os povos.

Fica bem claro, através de muitas passagens, que esta promessa foi re­
alizada em Davi, mas não é tão preciso quanto na história de Rute, parti­
cularmente na questão da genealogia. Seu primeiro nome é Perez, o filho
ilegítimo de Judá e Tamar que afirmou seus direitos reais criando um ca­
minho (peres) para si mesmo (Gn 38.29). Ou seja, contrário a todas as ex-9

99 Instrutivos paralelos (e diferenças) entre as duas situações, ver em A. A. Anderson,


"The Marriage of Ruth," JSS 23 (1978): 171-83. A problemática se a relação entre Rute
e Boaz baseava-se na lei do levirato e/ou era uma espécie de casamento tipo go'el, não
pode ser tratada aqui nesse momento. Ver especialmente a monografia de Donald A.
Leggett, The Levirate and Goel Institutions in the Old Testament zvith Special Attention to
the Book of Ruth (Cherry Hill, N.J.: Mack, 1974). Leggett defende persuasivamente a
idéia de que o casamento de Rute era tanto do tipo go'el quanto levirato (ver esp. pp.
209-53). Mas isso não significa que go'el e levirato precisam sempre estar juntos; pelo
menos é o que Jack M. Sasson procura defender em, "The Issue of Ge'ullah in Ruth,"
JSOT 5 (1978): 60-63.
.4 E ra n o s J uízes: A Violação da A liança, A narquia e a A utoridade H umana 191

pectativas humanas, ele decidiu tomar a iniciativa de estabelecer-se na


linhagem messiânica da promessa.100
Esse método de desviar-se da norma ou tradição comum é, na realida­
de, a maior característica dessa breve genealogia. O processo é repetido
nas circunstâncias que permitiram a inserção de Boaz, visto que ele, con­
forme Mateus, era filho de Salmom com Raabe, a prostituta cananéia (Mt
1.5). Certamente o procedimento não apenas demonstrou ousadia, mas
também provou ser completamente imprevisível, uma mudança no curso
dos eventos. Judá tinha tido um filho de uma mulher, conhecida como
uma prostituta em Canaã; seu descendente, Salmom, fez o mesmo W n
uma outra prostituta cananéia que havia abraçado a fé javista. Pode-se
dizer que até a escolha de Davi foi contrária à convenção, pois ele não era
o filho mais velho de Jessé, senão o mais novo. Além dos limites da pró­
pria genealogia, é significativo o fato de o próprio filho d&.pavi, Salomão,
filho de Bate-Seba, ter nascido de uma mulher que veio a ser a rainha sob
circunstâncias bastante impróprias. Também ele não era o filho mais ve­
lho de Davi, não aquele que teria se tornado seu herdeiro de acordo com
os padrões convencionais. Além disso, ele era filho de uma estrangeira,
uma hitita.
É evidente que o principal objetivo do escritor bíblico foi fazer uma
conexão entre Judá e Tamar, por um lado, e Boaz e Rute, por outro. Essas
ligações seriam o cumprimento da promessa feita a Judá na dinastia de
Davi. Esses fatos não se cumpriram apenas para demonstrar afinidades
entre as histórias de Tamar e Rute, mas também para que os contrastes
mais fortes pudessem ser demonstrados.

Os patriarcas e a monarquia
O segundo propósito da história de Rute é servir de elo entre as eras
patriarcais e a monarquia. O uso das genealogias no Antigo Testamento
tem sido çuidadosamente estudado, e muitos resultados importantes têm
brotado dessas pesquisas.101 Não menos significativo é o reconhecimento
de que os patriarcas, representados por Perez, estão diretamente relacio­
nados com a verdadeira dinastia real de Israel, dinastia representada por

100A imagem é a de uma interdição violenta de seu irmão. Ver em John Skinner, A Criticai
and Exegetical Commentary on Genesis (New York: Scribner,1910), pp. 455-56.
101Robert R. wilson, “The Old Testament Genealogies in Recent Research," JBL 94 (1975):
169-89; idem, Genealogy and History in the Biblical World (New Haven: Yale University
Press, 1977); Marshal D. Johnson, The Purpose of Biblical Genealogies (Cambridge:
Cambridge University Press, 1969).
192 H istória de I srael no A ntigo T estamento

seu cabeça e protótipo messiânico, ou seja, Davi. Nesse contexto, chega a


ser surpreendente o fato de Moisés nem sequer ser mencionado, o que
leva a concluir que esta omissão era intencional porque o principal objeti­
vo era criar uma rápida ponte que ligasse os patriarcas à monarquia, sem
tocar na linha divisória da completa experiência história e teológica de
Israel: o êxodo e a aliança do Sinai.
Ainda que este tema da aliança esteja um pouco fora de nosso alvo
principal, é preciso observar pelo menos que a aliança feita através de
Moisés era diferente das demais alianças descritas na Bíblia, com respei­
to aos aspectos da formalidade e funcionamento.102 Também é aceito que
existem ligações e correspondências im portantes entre as alianças
abraâmica e davídica, que são bem percebidas no livro de Rute. À medi­
da em que escreve, o narrador procura deixar claro que a dinastia de
Davi não surgiu da aliança mosaica, mas, ao contrário, tem suas origens
nas promessas feitas aos patriarcas. Israel, como servo de Yahweh, po­
deria cair ou se levantar, ser abençoado ou amaldiçoado, mas a dinastia
de Davi permaneceria intacta para sempre, pois o próprio Deus decidira
produzir através de Abraão uma linhagem de reis que se encaixariam na
história de Israel, embora sua ramificação se estenderia além das fron­
teiras israelitas. Os reis (plural) prometidos a Abraão (Gn 17.6,16) fundi­
ram-se, mais especificamente, em uma só pessoa, por meio da qual o
cetro real viria a brotar (Gn 49.10). O que brotaria de Judá exerceria além
disso domínio sobre Moabe e Edom (Nm 24.17-19). Quando Samuel foi
enviado a Belém para ungir o sucessor de Saul, foi-lhe dito que Yahweh
já tinha se provido de um outro rei de entre os filhos de Jessé (1 Sm 16.1).
A unção de Davi com óleo, acompanhada com a descida do Espírito San­
to sobre ele, confirmou não apenas a sua escolha dentre os filhos de Jessé,
mas também o cumprimento de uma promessa feita aos patriarcas mui­
tos anos antes.
A justaposição de unção e reinado é marcante em muitas passagens do
Antigo Testamento, não apenas no Salmo 2. Embora este salmo seja anôni­
mo, há boas razões para vê-lo como uma das composições de Davi que
confirmavam ser seu reinado de caráter messiânico, e também para mos­

102A literatura nessa área é vasta, porém, quanto a esse assunto sugerimos especialmente
Moshe Weinfeld, "The Covenant of Grant in the Old Testament and in the Ancient Near
East," JAOS 90 (1970): 184-203; Delbert R. Hillers, Covenant: The History of a Biblical Idea
(Baltimore: Johns Hopkins Press, 1969); e George E. Mendenhall, "Covenant Forms in
Israelite Tradition," em The Biblical Archaeologist Reader, editado por Edward E Campbell
Jr. e David Noel Freedman (Garden City, N.Y.: Doubleday, 1970), vol. 3, pp. 25-53.
A E r. í dos J uízes: A Violação da A liança, A narquia e a A utoridade H umana 193

trar sua posição como filho de Deus.103 O salmo 110 igualmente fala do
reinado de Davi de maneira que transcende o mero ofício político, embora
não seja a sua filiação o fator de maior ênfase aqui, mas seu sacerdócio.104
Digno de nota é sua ligação com Melquisedeque, um contemporâneo dos
patriarcas que, mais uma vez, passa por cima de toda a instituição de cul­
to contida na aliança de Moisés. Davi funciona como rei e sacerdote, não
em razão de qualquer relação com a nação israelita ou por virtude pró­
pria, mas porque ele permanece como um elo entre a promessa feita a
Abraão e seu cumprimento.
A ligação com os patriarcas é claramente vista na iniciação da aliança
davídica (1 Cr 15-17). Depois de Davi preparar todas as estruturas para a
acomodação da arca, e designar o pessoal especializado para cuidar do
culto e de seu serviço como ministros, ele mesmo vestiu um éfode sacer­
dotal e trouxe a arca para seu novo local (lC r 15.25-28). Ele oficiou uma
cerimônia de sacrifício (1 Cr 16.1-3), uma atitude que, da perspectiva
aarónica, constituía-se numa verdadeira agressão, uma vez que o sacer­
dócio era vetado à tribo de Judá.105 Então, em meio à celebração do estabe­
lecimento da arca e trono, Davi canta um cântico de ações de graças (1 Cr
16.8-36), no qual faz uma referência direta à aliança abraâmica (vv. 15-17),
mas com sabedoria evitou qualquer menção à aliança mosaica. Mesmo no
relato da revelação da aliança com a dinastia de Davi e sua contrita res­
posta ao propósito, não há qualquer declaração explícita acerca da aliança
mosaica, embora o tema de Israel como "o povo de Deus" e "a nação de
Davi" permaneça em posição de destaque (1 Cr 17.7,9,22,24).
Outra fato que chama a atenção é a associação que o evangelista, no
Novo Testamento, faz entre os patriarcas e Davi, em que existe a dimen­
são extra do cumprimento da dinastia davídica na pessoa de Jesus Cristo.
Mateus começa sua genealogia dizendo o seguinte: "Livro da genealogia
de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão" (1.1). O objetivo é afirmar

103Ver Artur Weiser, The Psalms: A Commentary (Philadelphia: Westminster, 1962), pp. 110­
14.
1[I4J.W. Bowker, "Psalm CX," VT 17 (1967): 36.
105Essa mesma questão é tratada pelo autor da epístola aos Hebreus, mostrando que o
sacerdócio de Cristo é não-arônico (e, portanto, sem qualquer relação com a aliança
mosaica), visto que Ele veio da tribo de Judá, embora seja assim mesmo superior aos
sacerdotes da linhagem de Arão, já que seu sacerdócio provém da ordem de Melquise­
deque (Hb 7.11-17). Quanto ao sacerdócio Davi-Melquisedeque, ver Aubrey Johnson,
Sacral Kíngship in Ancient Israel (Cardiff: University of Wales Press, 1955), pp. 27-46., que
sem dúvida é uma apresentação bastante equilibrada e sadia, com exceção do que diz
respeito aos aspectos de causas e origens.
194 H istória de I srael no A ntigo T estamento

que o Messias tem suas raízes históricas em Abraão, e que veio como um
rei da dinastia de Davi em resposta às promessas feitas aos patriarcas.
Que essa era a esperança messiânica de Israel fica fácil provar, pois as
multidões aclamaram a Jesus como seu Messias, quando este entrou triun­
fante em Jerusalém: "Hosana ao Filho de Davi! Bendito o que vem em
nome do Senhor!" (Mt 21.9). O próprio Jesus confirmou este sentimento
quando, em resposta direta aos fariseus ali presentes, afirmou que ao iden­
tificar o Messias como o Filho de Davi, as multidões também confirma­
vam a anterioridade deste em relação ao próprio Davi, um ponto clara­
mente registrado no Salmo 110 (Mt 22.41-46). O mesmo salmo messiânico
descreve o rei como um sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque. O
autor de Hebreus trata bastante deste ponto e, embora em parte alguma
mencione o rei Davi nessa conexão, fala do Senhor Jesus Cristo como sen­
do este sacerdote, exatamente como faz o salmo com respeito a Davi. Davi
e Jesus Cristo, como sacerdotes da ordem de Melquisedeque, funciona­
vam fora da ordem estabelecida no sacerdócio mosaico, além de terem o
escopo de seus sacerdócios numa perspectiva universal e muito mais
abrangente, visto que em Hebreus 7.9,10 é dito que até mesmo Levi, que
na ocasião ainda estava "nos lombos" de Abraão, pagou o dízimo a Mel­
quisedeque. Logo, a cadeia que liga Melquisedeque-Davi-Cristo não é de
forma alguma interrompida pelo sacerdócio mosaico, assim como a ca­
deia real Abraão-Davi-Cristo também não é quebrada. O principal propó­
sito de Rute é estabelecer essa mesma continuidade, pelo menos entre
Abraão e Davi.

O papel da donzela moabita


A terceira função do livro de Rute centraliza-se na própria Rute que, do
ponto de vista da revelação e transmissão das verdades divinas, não po­
dia ser considerada um veículo apropriado para manifestar a realeza e
sacerdócio messiânicos. Quando alguém procura entender o papel de Rute
no processo, é fundamental não deixar de lado a questão da nacionalida­
de. Ela era moabita, filha de uma nação descendente de Moabe, filho de
Ló com sua filha mais velha (Gn 19.37). Harold Fisch demonstrou recente­
mente que Ló havia se separado de Abraão, quebrando assim os laços
familiares (Gn 13.11); do mesmo modo, Judá apartou-se de seus irmãos
(Gn 38.1), e Elimeleque deixou a cidade de Belém e seu clã para empreen­
der uma viagem a Moabe (Rt 1.1).106 O desastre ocorreu em cada caso: a
morte deixou ambas as mulheres viúvas. Em ambas as situações, além

106Harold Fisch, "Ruth and the Structure of Covenant History," VT 32 (1982): 429-32.
A E ra dos J uízes: A Violação da A liança, A narquia e .4 A utoridade H umana 195

disso, o problema de perpetuação da família foi resolvido por meio de um


pai, ou a figura deste, embora tenha sido a mulher que dera início ao en­
contro, sempre de forma sutil. Amais notável conexão entre as histórias é
o fato irônico de um descendente do teimoso Ló - a pura e nobre mulher
chamada Rute - efetuar uma reunificação com o clã de Abraão, do qual
anteriormente havia se separado. Ela foi então não apenas um elo vital na
cadeia messiânica de Abraão a Davi (e finalmente Cristo), mas também
um instrumento para unir o abismo entre Judá e Moabe, um típico
paradigma da reconciliação que Deus deseja realizar entre as nações, re­
conciliação que irá cumprir as bênçãos patriarcais.
Ao examinar a lista genealógica em Mateus 1, surpreende o fato de
somente quatro mulheres terem sido ali mencionadas, sendo Rute uma
delas.107 Dessas quatro, duas (Tamar e Raabe) eram cananéias, uma era
moabita (Rute), e a outra, Bate-Seba, presumivelmente hitita. Sem dúvida
elas exemplificam o princípio da soberana graça de Deus, que não apenas
pode usar os estrangeiros (até mesmo o que não possui boa reputação)
para realizar os seus propósitos eternos, como também se deleita em fazê-
lo. E ninguém ilustra tão bem este fato quanto a gentil e fiel Rute. No
cumprimento da bênção profética, ela tornou-se "como a Raquel e como a
Léia, que ambas edificaram a casa de Israel" (Rt 4.11).

ltl7Devemos prestar bastante atenção ao fato de as mulheres terem desempenhado um


papel bastante significativo no ministério de Jesus, particularmente na ocasião de sua
paixão e ressurreição (ver, e.g., Mt 26.6-13; 27.55,56; 28.1-8).
S A U L: A A L I A N Ç A MAL
C OMP R E E ND I D A
A exigência por um reinado
A cronologia do século onze
A escolha de Saul
O primeiro encontro de Saul com Samuel
O profetismo primitivo em Israel
A unção de Saul
O prim eiro desafio de Saul
O declínio de Saul
Desobediência em Gilgal
A ira contra Jônatas
Os inimigos de Saul
Os estados arameus
Os filisteus
Os amalequitas
Considerações teológicas
A intenção divina para com um reinado humano
Falta de entendimento de Saul para com a aliança: violação das prerrogativas sacerdotais
O surgimento de Davi
A unção de Davi
Davi na corte de Saul
Davi e Golias
Davi e Jônatas
A fu ga de Davi
A conspiração de Saul
Davi, o fora-da-lei
O exílio de Davi na Filístia
A morte de Saul

A e x ig ê n c ia p o r u m re in a d o

O refrão do livro dos Juízes: "Naqueles dias não havia rei em Israel"
(17.6; 18.1; 19.1; 21.25) foi finalmente traduzido pelo povo israelita em um
forte clamor a Samuel: "...constitui-nos, pois, agora, um rei sobre nós, para
que ele nos julgue, como o têm todas as nações" (1 Sm 8.5). Embora a
reação esboçada por Samuel tenha sido negativa (v. 6), o problema não
estava no desejo de possuir um rei, mas sim no espírito antiteocrático com
que o pedido foi feito, e em sua prematuridade.
Um reinado, longe de ser considerado antiético para o propósito de
Deus para Israel,C^ra fundamental para se cumprir o plano da salva-
19 8 H istória de I srael ao A ntigo T estamento

ção.1 O homem foi criado segundo a imagem de Deus para que tivesse
domínio "sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre o
gado, e sobre toda a terra, e sobre todo o réptil que se move sobre a
terra". (Gn 1.26-28). Com este fim, o homem foi introduzido no jardim
do Éden para exercer a autoridade sobre a criação e sobre todas as ou­
tras coisas. Abraão e Sara foram informados de que deles surgiriam
reis (Gn 17.6,16), sendo a mesma promessa e aliança reafirmada a Jacó
(Gn 35.11). No momento da bênção patriarcal, Jacó anunciou: "O cetro
não se arredará de Judá, / nem o legislador dentre seus pés, / até que
venha Siló; / e a ele se congregarão os povos" (Gn 49.10). Finalmente,
em Deuteronômio 17.14-20 estão lançadas as regras para a monarquia
que seria instaurada em Israel no tempo de Deus, seguindo os critérios
divinos-^O rei devia ser um homem escolhido por Yahweh (v. 15), e
í) deveria governar o povo de acordo com os princípios contidos na Torá
(vv. 18-20).
Então, a aparente tensão entre a atitude negativa de Samuel (1 Sm 8;
10.17-27) e seu apoio a Saul na época de sua escolha (1 Sm 9.1-10.16) não
tem fundamento histórico.2 De fato, a contenda de Samuel não é por ad­
mitir um reinado em Israel, mas, como já dito, pelo caráter e espírito que
norteavam a decisão do povo - "como o têm as nações" - e pela recusa em
esperar que o próprio Deus fizesse a escolha.
1 A razão para a insistência do povo em possuir um rei é bastante óbvia.
Samuel naquele tempo já era um homem velho, e seus dois filhos, a quem
ele havia designado como juízes para sucedê-lo, eram venais e corruptos.
Além disso, surgiam muitos perigos externos, vindos particularmente das

1 Walter C. Kaiser, Jr. Toward an Old Testament Theology (Grand Rapids: Zondervan, 1978),
pp. 144-49; Claus Westermann, Elements o f Old Testament Theology (Atlanta: John Knox,
1982), pp. 108-9; Shemaryahu Talmon, "The Biblical Idea of Statehood," em The Bible
World, editado por Gary Rendsburg et al. (New York: Ktav, 1980), p. 239.
2 Muitos críticos afirmam que a suposta tensão é resultado de narrativas paralelas
conflitantes; ver, por exemplo, Siegfried Herrmann, A History of Israel in Old Testament
Times, traduzido por John Bowden (Philadelphia: Fortress, 1975), pp. 131-37. Para ler
um tratamento que rebate de forma convincente esses ataques que dizem haver tradi­
ções conflitantes no texto, ver J. Robert Vannoy, Covenant Renewal at Gilgal (Cherry Hill.
N.J.: Mack, 1978), especialmente as páginas 197-239; também em Lyle Eslinger,
"Viewpoints and Point of View in 1 Samuel 8-12," JSOT 26 (1983): 61-76. Um ponto de
vista moderado, segundo o qual o "deuteronomista" integrou e harmonizou as tradi­
ções primitivas com o intuito de prover uma justificação para que a monarquia fosse
introduzida em Israel, é proposto por Dennis J. McCarthy, "The Inauguration of
Monarchy in Israel: A Form-critical Study of 1 Sam. 8-12," Interp. TJ (1973): 401-22.
200 H istória de I srael no A ntigo T estamento

bandas dos arameus ao norte e dos amonitas ao oriente. Aquela época cla­
mava por um líder forte, que não fosse apenas um líder local, mas nacional,
uma função que somente um rei poderia exercer. Por isso, Yahweh atendeu
o pedido do povo; porém afirmou a Samuel que tal pedido era, na verdade,
uma rejeição ao governo teocrático ideal, e que não era Samuel a pessoa que
estava sendo desprezada. Uma vez que desejavam um rei como o tinham as
demais nações, e não podiam mais esperar pelo escolhido de Yahweh, o
pedido seria concedido para futuros sofrimentos.3 O rei escolhido criaria
uma estrutura de autoridade que exigiria que seus jovens fossem alistados
no exército à força, além de sobrecarregar o povo com um excessivo núme­
ro de impostos que os levariam a chorar e protestar em vão (1 Sm 8.11-18).
Não obstante os alertas, o povo confirmou seu pedido, e iniciou toda a mo­
vimentação para o estabelecimento de Saul como rei.

A c ro n o lo g ia d o s é c u lo o n ze

Antes de considerarmos o reinado de Saul, é importante definir a cro­


nologia do século onze. A parte o período dos juízes, talvez não tenha
havido uma outra era em Israel que tenha sido mais complexa a esse res­
peito do que o século onze.
O ponto de partida será os reinados de Salomão e Davi, cujas datas fun­
damentam-se em dados precisos. Edwin Thiele definiu em sua magistral
obra que a divisão do reino teve lugar em 931 a.C. Esta dada coincidiu com
a morte de Salomão, que reinou por quarenta anos (1 Rs 11.42) e, portanto,
deve ter sucedido Davi em 971. Davi, por sua vez, reinou por quarenta anos
e meio (2 Sm 2.11; 5.5), tendo chegado ao poder em cerca de 1011.4
O maior problema diz respeito a duração do reino de Saul. Está claro
que sua morte ocorreu no ano em que Davi começou a reinar em Hebrom
(2 Sm 1.1; 2.1-4), ou seja, em 1011, embora o ano da ascensão de Saul seja
desconhecido. O apóstolo Paulo, em discurso na sinagoga de Antioquia
da Psídia, declarou que Saul reinara por quarenta anos (At 13.21). Isto
dataria seu reinado no período de 1051 a 1011. A maioria dos estudiosos

3 Quanto a vontade permissiva de Deus, ver J. Barton Payne, "Saul and the Changing
Will of God," Bib Sac 129 (1972): 321-25.
4 Edwin R. Thiele, The Mysterious Numbers of the Hebreu) Kings (Grand Rapids: Eerdmans,
1965), pp. 51-52. O conflito entre marcar a coroação de Salomão no ano 971 e seu traba­
lho inicial no templo, o qual se sabe ter ocorrido em seu quarto ano, até 966, é mais
aparente do que real. O assunto é muito complicado e fora de nosso objetivo para ser
tratado aqui nesta obra. Basta dizer que existem vários métodos de registrar os anos de
um reinado, e nem todos estão baseados estritamente no ano da ascensão.
S*.í l : A A liança M al C ompreendida 201

rejeita esses números, e utilizam-se geralmente de argumentos em nada


melhores que os comumente usados.5 Um exame acurado dos dados bí­
blicos levará a concluir que o número quarenta não foi uma criação de
Paulo, nem uma tradição historicamente sem valor a que ele tenha re­
corrido. Na verdade, esse número é parte essencial do texto.
Infelizmente, onde se poderia encontrar a fórmula comum que caracte­
rizava a duração do reinado de um rei - 1 Samuel 13.1 - existe uma cor­
rupção textual: "Saul tinha... <|irps de idade quando se tornou rei, e reinou
sobre Israel dois anos" (NIV)Í Além da óbvia lacuna envolvendo sua ida­
de, é praticamente impossível encaixar todos os acontecimentos do reina­
do de Saul em um período curto de dois anos. Nesse caso, duas soluções
têm sido comumente oferecidas ao estudante: (1) "Saul era da idade de
trinta anos quando começou a reinar, e reinou quarenta e dois anos sobre
Israel"; (2) "Saul era da idade de trinta anos quando se tornou rei. Quando
estava no segundo ano de seu reinado..." A primeira alternativa tem a seu
favor que seguia a fórmula comum da época (cf. 2 Sm 5.4) e concorda em
essência com os quarenta anos citados por Paulo.
^ Entretanto, contra essa argumentação está o fato de que os números
"trinta" e "quarenta e dois" foram preenchidos, o primeiro por alguns
manuscritos da Septuaginta, e o segundo, por pura conjectura. O número
"trinta" parece estar incorreto, visto que Jônatas, filho de Saul, era o líder
de alguns homens no início do reinado de seu pai (1 Sm 13.2,3), o que seria
impossível caso realmente tivesse sido filho de um homem de trinta anos.
Os "quarenta e dois", segundo tem-se defendido, é necessário a fim de
justificar a data fornecida por Paulo e para se explicar o plural pouco co­
mum em vez da fórmula dualista do número "dois" no texto hebraico.
Contudo, a informação de Paulo poderia ser o resultado de um processo
dedutivo, e a forma plural de "dois" possui forte apoio gramatical em
outros lugares.6 Logo, a melhor leitura do texto seria: "Saul estava com
quarenta anos de idade quando começou a reinar. Quando já tinha reina­
do por dois anos..." O "quarenta" é uma sugestão bastante razoável, já
que nessa ocasião ele tinha um filho adulto.7

5Isso é sugerido por J. Alberto Soggin, A History of Ancient Israel (Philadelphia: Westminster,
1984), p. 50.
’ Wilhelm Gesenius, Gesenius' Hebrew Grammar, editado por E. Kautzsch e A.E. Cowley
(Oxford: Clarendon, 1957), parág. 134e.
~Para um argumento adicional em apoio a essa tradução, ver Eugene H. Merrill, "Paul's
Use of 'About 450 Years' em Acts 13.20," Bib Sac 138 (1981): 256, n.19. Uma sugestão
interessante, que não envolve qualquer emenda é a que Robert Althann propôs, basea­
do na preposição ugarítica b(n), que na tradução de: "Saul já reinava a mais de um ano"
202 H istória de I srael no A ntigo T estamento

Em apoio à afirmação de Paulo de que Saul reinara por quarenta anos,


vê-se o fato de Is-bosete, filho de Saul, que o sucedeu como rei, estar com
quarenta anos quando começou a reinar (2 Sm 2.10); dessa forma, ainda
não era nascido até que Saul ascendeu ao trono de Israel. Tais conclusões
provam ser verdadeiras quando se faz uma comparação da lista dos filhos
de Saul no início de seu reinado (1 Sm 14.47-51) com uma outra que inclua
todos os seus filhos (1 Cr 8.33; 9.39). A primeira menciona Jônatas, Isvi e
Malquisua, ao passo que a segunda diz Jônatas, Malquisua, Abinadabe e
Esh-Baal. O nome Esh-Baal é idêntico a Is-bosete, e A binadabe é
presumivelmente um outro nome para Isvi (ver 1 Cr 10.2). Quando Saul
foi morto pelos filisteus, morreram também os seus filhos Jônatas,
Abinadabe e Malquisua (1 Sm 31.2). Sendo Is-Bosete o único sobreviven­
te, obviamente não era Abinadabe8, a quem alguns estudiosos insistem
associar.9
Outro aspecto importante é o aparente intervalo ocorrido entre Saul e
Is-bosete, em que se vê o controle exercido por Abner (2 Sm 2.8-11). Por
razões não explicadas, Is-bosete não sucedeu a seu pai de imediato, con­
forme é evidente pelo fato de haver ele reinado apenas dois anos antes de
ter sido assassinado. No ano da morte de Is-bosete, Davi assumiu o con­
trole do reino de Saul, embora já estivesse reinando por mais de sete anos
em Hebrom (2 Sm 1.1; 2.4; 5.1-5). Isto significa que Abner reteve o poder
do norte durante cinco anos antes de Is-bosete ser recebido como o novo
rei. Is-bosete estava com quarenta anos naquela ocasião, e conclui-se que
nascera trinta e cinco anos antes da morte de Saul, ou cerca de 1046. Esses
dados esclarecem melhor o motivo de seu nome não constar da lista dos
filhos de Saul durante os primeiros anos de seu reinado.
De qualquer forma, se Is-bosete estava com trinta e cinco anos no tem­
po da morte de Saul e ainda não havia nascido até o início do reinado de
seu pai, subentende-se que Saul deve ter reinado por mais de trinta e cin­
co anos, um cálculo inteiramente compatível com o número quarenta for­
necido por Paulo. Uma data de 1051 a 1011 é, portanto, bem próxima do
correto.
Diante destas evidências, deve ter havido um espaço de trinta e três
anos entre a batalha de Mispa, quando Samuel findou a opressão filistéia

diz assim: "já por dois anos ele estava reinando sobre Israel..". Não diz nada acerca da
idade de Saul, mas talvez a passagem nunca tenha tido a intenção de dizer ("1 Sam.
13.1: APoetic Couplet," Biblica 62 [1981]: 241-46).
8 Eugene H. Merrill, "1 Samuel," em The Bible Knowledge Commentary, editado por John E
Walvoord e Roy B. Zuck (Wheaton, 111.: Victor, 1985), vol. 1, p. 446.
9 E.g., Hans W. Hertzberg, I & 11 Samuel (Philadelphia: Westminster, 1964), p. 120.
i i . i : .A A liança M al C ompreendida 203

(ver pp. 151,184), e seu encontro com os anciãos de Israel, quando estes
lhe rogaram por um rei. O profeta já estava velho, conforme a própria
narrativa atesta (1 Sm 8.1,5), talvez com a idade de setenta anos. Não é de
admirar que o povo estivesse preocupado acerca da iminente crise de li­
derança.

A e s c o lh a d e S au l

O primeiro encontro de Saul com Samuel

Conforme muitos estudiosos já observaram, a escolha de Saul foi mais


baseada em dons carismáticos, bem mais ao estilo dos juízes, do que na
linhagem dinástica normal, caracterizada pela entronização e sucessão.101
ó Ele nãcgpertencia a qualquer linhagem especial - veio de uma pequena
tribo, a tribo de Benjamim, e era filho de Quis que, embora sendo "ho­
mem de aparência", certamente não possuía nem podia reivindicar qual­
quer grau de nobreza.1! Torém , Saul possuía uma aparência física que
impressionava (1 Sm 9.1,2) è uma modéstia que cativava, quase uma auto-
abnegação.
O encontro inicial com Samuel ocorreu no dia em que Saul estava à
procura de algumas jumentas perdidas, uma busca infrutífera que o le­
vou a procurar um famoso vidente em Ramá, na terra de Zufe (i.e.,
Ramatain Zofim). O papel de Samuel como vidente (ro'eh) enfatiza o as­
pecto receptivo de seu ministério profético. Ou seja, um profeta era co­
nhecido como vidente quando conseguia entender a mente de Jeová por
meio de sonhos, visões ou alguma outra forma semelhante. Quando ele
proclamava aquela mensagem como porta-voz de Yahweh, particular­
mente em público, cumpria o papel de nãbi ou profeta. Está claro que, no
caso de Samuel, assim como nos outros profetas, uma pessoa podia ser
vidente e profeta ao mesmo tempo, estando a diferença apenas na ênfase
ou função. E apropriado fazer uma digressão nesse ponto para falar acerca

10 Talmon, "Biblical Idea," em Bible World, pp. 244-45.


11 Bruce C. Birch, seguindo Hugo Gressmann e outros estudiosos, desconsidera o texto de
1 Samuel 9.1-13, reputando-o como um conto folclórico revestido de pouca ou nenhu­
ma base histórica ("The Development of the Tradition of the Anointing of Saul in 1 Sam.
9.1-10.16," JBL 90 [1971]: 58). Somente quando alguém, a priori, tenciona desmentir a
historicidade de alguns acontecimentos, é que poderão as características ditas por Birch
ser usadas para provar que a perícope em questão não passa de folclore. Ele falha ao
deixar de reconhecer que fatos históricos podem ser descritos numa linguagem folclóri­
ca, sem que para isso tenha sua historicidade sacrificada.
204 H istória de I srael no A ntigo T estamento

do profetismo, já que seu início é normalmente associado ao profeta


Samuel.12

O profetismo primitivo em Israel

O fenômeno do profetismo foi universal no mundo antigo do Oriente


Médio, pois sempre que as pessoas tentavam discernir os propósitos e
intenções dos deuses, inevitavelmente surgiam os praticantes da arte da
adivinhação. A prática do profetismo na Mesopotâmia está abundante­
mente documentada em um vasto corpo de textos de adivinhação que
estão chegando ao nosso conhecimento.13 De forma semelhante, os infor­
mes colhidos em Mari, Alalaque, Ugarite e Fenícia têm permitido a re­
construção do quadro completo da arte de interpretar agouros e pressági­
os.14 Embora haja uma relação superficial entre o que é conhecido do
profetismo pagão e o que é relatado na Bíblia, referente ao Israel antigo,
deve-se admitir que a origem divina e não-estática da profecia hebraica é
exclusivamente ímpar no mundo antigo. Não havia manipulação de
Yahweh sobre seu profeta - em contraste com a manipulação feita pelos
deuses sobre seus emissários pois o profeta ou vidente de Deus, mesmo
em posição com pletam en te p assiva, era àinda um instrum ento
autoconsciente, que se apresentava como um receptor e anunciador da
revelação divina, conforme o Espírito de Yahweh o dirigia.
Houve um desenvolvimento do ofício profético no Antigo Testamento,
conforme registrado em 1 Samuel 9.9, de forma bastante clara: "(Antiga­
mente em Israel, indo alguém consultar a Deus, dizia assim: Vinde, e va­
mos ao vidente; porque ao profeta de hoje antigamente se chamava viden­
te)". Mais uma vez, isto é uma questão mais relacionada à mudança de

12 Para um tratamento mais apurado acerca do profetismo no Antigo Testamento como


uma instituição e ofício, ver a obra de Willis J. Beecher, ainda hoje considerada de gran­
de autoridade, The Prophets and the Promise (Grand Rapids: Baker, 1963 reedição), pp. 3­
172. Outra obra bastante útil, embora tida como popular, é a de Hobart E. Freeman, An
Introduction to the Old Testament Prophets (Chicago: Moody, 1968).
13 A. Leo Oppenheim, Ancient Mesopotamia (Chicago: University of Chicago Press, 1964),
pp. 207-27.
14 Herbert B. Huffmon, "Prophecy in the Ancient Near East," em Interpreter's Dictionary of
the Bible, suplement, editado por Keith Crim et al. (Nashville: Abington, 1976), pp. 697­
700; idem, "Prophecy in the Mari Letters," em The Biblical Archaeologist Reader, editado
por Edward F. Campbell, Jr. e David Noel Freedman (Garden City, N.Y.: Doubleday,
1970), vol. 3, pp. 119-224; Virgil W. Rabe, "The Origins of Prophecy," BASOR 221 (1976):
125-28.
S ‘.l l : A A liança M al C ompreendida 205

ênfase do que a qualquer outra coisa. Até mesmo Abraão foi chamado de
profeta (nãbi - Gn 20.7), como também o foram Arão (Êx 7.1) e Moisés (Dt
34.10). De fato, Moisés foi chamado o maior dentre todos os profetas. Po­
rém, a função mais importante no ministério desses profetas da fase re­
mota do profetismo em Israel não era a de constituir-se num pregador.
Eles profetizavam por ter algo a dizer, e não por terem em sua vida essa
mensagem em primeiro lugar.
O desenvolvimento mais significativo que se pode perceber no Antigo
Testamento é visto na vida de Samuel, que foi o primeiro profeta profissi­
onal de tempo integral, digamos assim (1 Sm 3.20). O significado dessa
situação está descrito da seguinte maneira: "E continuou o Senhor a apa­
recer em Siló, porquanto o Senhor se manifestava a Samuel, em Siló, pela
palavra do Senhor. E veio a palavra de Samuel a todo o Israel" (1 Sm 3.21 —
4.1a). Além disso, Samuel fundou uma escola de profetas que ele mesmo
treinava em todos os aspectos do profetismo, os quais poderiam ser repar­
tidos pelos homens. Obviamente ninguém poderia ser ensinado sobre como
ser um veículo da revelação divina, senão mediante o recebimento desse
dom de Deus. Já nos dias de Elias e Eliseu, existiam companhias organiza­
das de profetas (2 Rs 2.3). No entanto, pode-se verificar a existência de
videntes e profetas que apareciam esporadicamente, até que se origina­
ram os grandes profetas do nono século, homens que estiveram direta­
mente envolvidos com o processo de escrita dos livros sagrados. Com os
grandes profetas, declinava cada vez mais o profetismo organizado que,
com a formação do cânon israelita do Antigo Testamento, chegou ao com­
pleto desaparecimento.

A unção de Saul

Voltando a narrativa, quando Saul e seu servo chegaram a Ramá, toma­


ram ciência de que Samuel oficiaria uma cerimônia em um dos altos, não
muito distante de onde estavam. Então, juntaram-se a Samuel na caravana
que ia ao cerimonial e à festa, não sabendo que Yahweh já havia revelado a
Samuel que Saul chegaria naquele dia, e se tornaria o líder (nãgídy5 de Isra-15

15 Já que Davi, Salomão e outros reis também são chamados de nãgid, e Saul por sua vez é
chamado de melek ("rei") em uma ocasião, deve-se evitar a maximização do fato de Saul
ter como seu principal epíteto o termo nãgid. Este termo significa apenas "alguém pro­
eminente" ou "o chefe". Ver Francis Brown, S.R. Driver e Charles A. Briggs, A Hebrew
and Englísh Lexicon ofthe Old Testament (Oxford: Clarendon, 1962), pp. 617-18. Albrecht
Alt propõe que o termo nãgid foi aplicado a Saul significando que ele era o escolhido de
Yahweh, e que a nação é que foi a responsável por chamá-lo de melek ("The Formation
206 H istória d e I srael no A ntigo T estamento

el, o homem escolhido que iria deter a nova ameaça trazida pelos filisteus.
Ao chegar no lugar alto, Samuel agradou a Saul oferecendo-lhe um farto
banquete. No outro dia Samuel revelou-lhe que ele seria ungido príncipe de
IsraeJLDe acordo com Samuel, a confirmação viria a seguir mediante três
sinaiSfrrimeiro, Saul encontraria dois homens próximos ao sepulcro de Ra­
quel, em Zelzá (localização desconhecida, embora esteja provavelmente entre
Jerusalém e Belém), assegurando-lhe que suas jumentas perdidas haviam
sido encontradas.16 Em seguida encontraria três homens no carvalho de
Tabor (localização desconhecida, mas certamente não era a montanha em
Jezreel). Estes estariam a caminho de Betei para adorarem, e repartiriam
com ele dois pedaços de pão.
Q Finalmente, ele viria para Gibeá-Eloim (Gibeão; i.e., el-Jib),17 local de uma
fortaleza dos filisteus, onde se juntaria a uma caravana de profetas em pro­
cissão. Surpreendentemente, participaria de canções sem nunca tê-las apren­
dido antes. Isso seria um sinal da bênção do Espírito de Deus que estaria
transformando Saul, o homem comum, no príncipe de seu povo. Mais tar­
de, Samuel afirmou que Saul o encontraria em Gilgal. Como um teste de
obediência, teria de pacientemente esperar por Samuel, que viria para ofici­
ar a cerimônia e oferecer o sacrifício.
Quando os três sinais preditos se cumpriram, Samuel juntou todo o
Israel em Mispa para uma cerimônia pública de coroação e investidura (1
Sm 10.17-27). Sem qualquer pretensão ao cargo, Saul tratou de esconder-
se naquele momento; somente após ser encontrado permitiu que fosse
apresentado à assembléia do povo. Logo, Samuel deu início à cerimônia
tratando dos aspectos formais (v. 24). Depois seguiu-se a aceitação do povo
e a aclamação de "Vida longa ao Rei!". Por fim, Saul aceitou os protocolos
do cargo; ele e Israel ouviram o que Samuel explicara a respeito das regras
da monarquia, que provavelmente refletiam as convenções de Moisés, em

of the Israelite State," em Essays oh Old Testament History and Religion [Garden City, N.Y.:
Dtiubleday, 1968], p. 254). Ver também as observações de Roland de Vaux, Ancient Israel
(New York: McGraw-Hill, 1965), vol. 1, pp. 70, 94. J.J. Glück resolve a tensão existente
entre melek/nãgid ao sugerir que nãgtd é o equivalente de nõcjed ("pastor") e, portanto,
significa o título de realeza ao invés de um sinônimo de rei ("Nagid-Shepherd," VT 13
[1963]: 144-50).
16 Para uma interpretação proposta para o circuito, ver em Yohanan Aharoni e Michael
Avi-Yonah, Macmillan Bible Atlas (New York: Macmillan, 1968), mapa 86.
17 Assim é o pensamento de Aaron Demsky, "Geba, Gibeah, and Gibeon - An Historico-
Geographic Riddle," BASOR 212 (1973): 27. Demsky defende a idéia de que Gibeom era
a cidade natal de Saul e que Gibeá (Tel el-Fül) foi a cidade que ele escolheu mais tarde
como sua capital (p. 28).
208 H istória de I srael no A ntigo T estamento

Deuteronômio 17.14-20. Assim, perante Yahweh e a congregação, uma ali­


ança foi feita constrangendo Saul, o pastor ungido do povo, ao curso da
ação.

O p rim e iro d e s a fio de S au l

A pompa da cerimônia não foi capaz de eclipsar os acontecimentos sub-


seqüentes. Embora Saul tivesse sido levado até sua insignificante capital
em Gibeá por alguns partidários, o fato é que outros zombaram dele, tendo-
o como um candidato pouco provável de ser um bom rei. Ã origem humilde
de sua descendência e seu desdém pelas aparições em público explica as
reações contrárias. Mesmo após ter-se estabelecido em Gibeá, em um "palá­
cio" que a arqueologia provou ter sido de pouca importância e beleza,18
Saul sempre mostrou pouca desenvoltura na realeza. De fato, quando es­
tourou a primeira crise nacional, e seus oficiais o procuraram para que pro­
videnciasse o socorro, encontraram-no arando o campo com seus bois. Tudo
isso estava em sintonia com a transição natural da época dos juízes para a
monarquia, pois, além de não expressar qualquer ambição política em si
mesmo, Saul tinha sido constituído rei sobre um povo cujo interesse mais
urgente não era a formação de um imperialismo esplendoroso e elegante,
mas uma expressão tangível de solidariedade para com os interesses co­
muns da nação. Já por muito tempo a nação vinha se dividindo entre leste e
oeste, norte e sul, permitindo que suas fronteiras fossem alvo de agressão
exterior e de desintegração interior. Ora, mesmo sem considerar o aspecto
primitivo do reinado de Saul, é preciso compreender que ele representava a
esperança de sobrevivência para Israel.
Essa esperança foi colocada à prova quase imediatamente, na forma de
um cerco à cidade de Jabes Gileade, por Naás, rei de Amom. Desde que os
amonitas haviam sido esmagados por Jefté, mais de cinqüenta anos antes,
vinham esperando uma oportunidade pura vingar-se de Israel. A drástica
mudança política em Israel e a escolha de um candidato pouco promissor
para a nação constituíram, sem dúvida, um momento oportuno para os
amonitas fazerem o primeiro movimento. A escolha de Jabes-Gileade tam­

18 Gibeá foi escavada por William E Albright que, baseado nos escombros culturais da
cidade capital de Saul, descreve-o como um "líder de espírito rústico" (From the Stone
Age to Christianity [Garden City, N.Y., 1957], p. 292). O sítio está tão descaracterizado
que outro estudioso, Joseph Blenkinsopp, defende a idéia de que a capital do reino de
Saul, na maior parte de seu governo, não foi Gibeá mas Gibeon ("Did Saul Make Gibeon
His Capital?" VT 24 [1974]: 1-7).
i r . l: .4A liança M al C ompreendida 209

bém foi cuidadosamente estudada, pois, além de situar-se distante de


Gibeá, dificultava uma mudança na estratégia logística do exército de Is­
rael, e era provavelmente o local dos ancestrais não-benjamitas de Saul
(ver p. 187).
É evidente que Jabes-Gileade tanto era um alvo militarmente vulnerável
quanto psicologicamente apropriado para os amonitas. Dessa forma, cerca­
ram a cidade e ameaçaram destruí-la totalmente, a menos que seus habitan­
tes decidissem fazer um pacto de submissão e, além disso, deixassem que
seu olho direito fosse retirado.19 Essa exigência sub-humana tinha como
propósito provar a todos a superioridade do rei Naás e a incapacidade do
rei Saul de oferecer proteção ao povo. Era tanta a confiança dos amonitas
que permitiram alguns mensageiros de Jabes-Gileade partir por todo Israel
à procura de socorro. Isto a fim de mostrar que, mesmo ajuntando todas as
suas forças, Israel não seria capaz de resgatar Jabes-Gileade.20
Mas o desafio não ressoou sem uma resposta. Como nos tempos dos
juízes, o Espírito do Senhor apoderou-se de Saul. Ele tomou uma junta de

Frank M. Cross, baseado em seus estudos do texto 4Q Sama de Qunram diz que os
rubenitas e gaditas, que estavam sujeitos a Naás, e que tinha sido da mesma forma
mutilados por sua traição ao rei amonita, conseguiram escapar de Amom, encontrando
refúgio em Jabes-Gileade. Como os que se rebelaram contra o rei mereceram punição,
da mesma forma os que os acolheram também seriam punidos. Então, como Cross ob­
servou, o fragmento de Qumram clarificou o que, de outra forma, continuaria obscuro
caso dependêssemos apenas do Textus Recepticus de Samuel. Ver Cross, "Original
Biblical Text Reconstructed from Newly Found Fragments," Bible Review 1 (1985): 26-33;
idem, "The Ammonite Oppression of the Tribes of Gad and Reuben: Missing Verses
from 1 Samuel 11 Found in 4Q Samuel," em Histonj, Historiography anã Interpretation,
editado por Hayin Tadmor e Moshe Weinfeld (Jerusalem: Magnes, 1984), pp. 148-58;
Terry L. Eves, "One Ammonite Invasion or Two? 1 Sam. 10:27-11:2 in the Light of 4Q
Sama," WTJ 44 (1982): 308-26.
:o Com base em 2 Samuel 2.4b-7, Diana Edelman afirmou felizmente que Jabes-Gileade
não era parte constituinte de Israel, mas um estado vassalo ("SauFs Rescue of Jabesh-
Gilead [1 Sam. 11:1 - 11]: Sorting Story from History," ZAW 96 [1984]: 195-209). Mas
chegou à conclusão errada de que o resgate feito por Samuel daquela cidade não pode­
ria ser considerado um teste para o seu reinado recentemente estabelecido (embora 1
Sm 11.12-14 claramente sugira isto), uma vez que este estado vassalo não poderia existir
e não poderia esperar ajuda, porque Saul ainda não havia se tornado o monarca de um
Reino da Cisjordânia de enormes proporções. O erro de Edelman consiste em passar
por cima da possibilidade de Jabes-Gileade ter-se tornado um estado vassalo devido ao
fato de Saul ter derrotado os amonitas, e, por último, em não aceitar a historicidade da
ligação ancestral entre Saul e Jabes-Gileade, uma ligação que certamente explicaria o
intenso e grande interesse deste pelo local, além da própria convicção que os habitantes
de Jabes-Gileade possuíam de que ele viria em seu socorro.
210 H istória du I srael no A ntigo T estamento

bois, cortou-os em pedaços e enviou a todos os territórios de Israel. Esse


comportamento bizarro, uma reminiscência da atitude do levita envol­
vendo sua concubina assassinada21, foi na verdade uma atitude para alertar
a nação da gravidade do problema, e para persuadi-los a unir-se como um
só corpo em defesa daquela cidade. Em uma manifestação de grande po­
derio militar, que não se via desde os dias de Josué, trezentos mil israelitas
e trinta mil homens de Judá juntaram-se em Beseque (Khirbet Ibziq), cerca
de 24 quilômetros a oeste de Jabes-Gileade. No outro dia atacaram os
amonitas, destruindo-os completamente. Esta vitória pôs definitivamente
uma pedra em cima de qualquer murmuração quanto à liderança de Saul,
e aos seus direitos reais em Israel.

O d e c lín io d e S au l

Desobediência em Gilgal

Diante de tão incontestável prova de que Saul havia realmente sido


ungido por Yahweh, Samuel reuniu todo o povo, desta vez em Gilgal, a
fim de que a nação - agora unida em apoio a Saul - entrasse em aliança
com Yahweh e o seu rei.22 Como agente mediador do concerto, Samuel
aproveitou a oportunidade para verificar sua própria credibilidade entre
o povo (1 Sm 12.1-5), e então passar a fazer uma espécie de retrospectiva
dos atos poderosos cie Deus em favor de seu povo, desde o êxodo até aquele
momento (vv. 6-13)) Israel exigira um rei, e Yahweh concedeu-lhes Saul.
Ora, se Saul e Israel permanecessem fiéis aos termos estabelecidos na ali­
ança, os protocolos definidos em Deuteronômio 17, tudo culminaria em
bênçãos. Caso contrário, experimentariam o desfavor de Yahweh. Então,
como uma amostra de sua autoridade baseada na autoridade de Yahweh,
Samuel invocou raios e trovões vindos dos céus como testemunhas, o que
imediatamente trouxe pânico e terror sobre toda a congregação, visto que
o milagre ocorrera na época da colheita do trigo, no meio da estação seca.
O Deus de Israel era soberano sobre toda a natureza e sobre toda a histó­

21 Para uma atitude semelhante em Mari, ver Archives royales de Mari, editado por Charles-
F. Jean (Paris: Geuthner, 1950), vol. 2, #48,citada por J. Maxwell Miller, "Saul's Rise to
Power: Some Observations Concerning 1 Sam. 9:1-10:16; 10:26-11:15 and 13:2114:4b,"
CBQ 36 (1974): 168.
22 Para um estudo detalhado acerca da assembléia feita em Gilgal como uma espécie de
convocação para a aliança, ver Vannoy, Covenant Renewal at Gilgal, especialmente as
páginas 132-91.
i-»: l : A A liança M al C ompreendida 2 11

ria. A mensagem era bem clara: Israel, mesmo debaixo da monarquia, ti­
nha de submeter-se a Yahweh.
Encorajado pela campanha defensiva contra os amonitas e pelo espíri­
to de solidariedade e aliança expressado pelos israelitas em Gilgal, Saul
deu início ao processo de ofensas contra seu próprio mandato. Os filisteus
já haviam sido expulsos de Israel havia mais de trinta anos por Samuel,
mas continuaram a ameaçar as fronteiras israelitas, chegando mesmo a
penetrá-la consideravelmente em uma ocasião.23 Saul sentiu que havia
necessidade de dar um basta nessas atividades de uma vez por todas. Seu
primeiro assalto às guarnições dos filisteus foi em Geba (Jeba),24 situada a
menos de oito quilômetros da capital (1 Sm 13.3). Jônatas, filho de Saul,
estava no comando de mil homens em Gibeá enquanto Saul tinha dois mil
em Micmás (Mukhmâs), três quilômetros além de Geba. Jônatas deu iní­
cio ao ataque a Geba dos filisteus, mas isso provocou uma forte reação.
Com um vasto número de homens, os filisteus chegaram a Micmás, for­
çando os habitantes da região a evacuar a cidade, enquanto as tropas isra­
elitas fugiam para o oriente, cerca de 19 quilômetros, chegando mesmo a
cruzar o Jordão em direção a Gileade.
Enquanto estava em Gilgal, Saul lembrou-se das palavras de Samuel,
dois anos antes, segundo as quais chegaria um momento em que teria de
esperar pela chegada do profeta, neste mesmo local, por sete dias.25 Teme­

23 Benjamim Mazar, "The Philistines and Their Wars with Israel," em World History of the
Jeivísh People, vol. 3, Judges, editado por Benjamim Mazar (Tel Aviv: Massada, 1971), pp.
175-76.
24 Porém Demsky sugere em "Geba, Gibeah and Gibeon," BASOR 212 (1973): 29-30, que
Geba foi nomeada depois da Geba original (i.e. Gibeá de Benjamim [Jz 20], conhecida
depois como Gibeá de Saul), e não era outra senão a Gibeão (el-Jib). A "Geba de
Benjamim" na maioria dos manuscritos hebraicos de 1 Samuel 13.16 é a mesma Gibeá
de Benjamim.
2- Muitos estudiosos (e.g. P. Kyle McCarter, Jr., I Samuel, Anchor Bible [Garden City, N.Y.:
Doubleday, 1980), p. 228) assumem uma reconstrução desesperadamente confusa quanto
a estes acontecimentos (1 Sm 13.7b-8). Crêem que o historiador bíblico (ou redator) está
sugerindo em 1 Samuel 10.8 que Saul apareceu em Gilgal uma semana antes de sua
eleição como rei quando, de fato, deveria ter comparecido dois anos depois (ver 1 Sm
13.1). Mas, como Cari F. Keil e Franz Delitzsch mostraram há mais de um século, não
existe nenhuma confusão, uma vez que o estudante admita a natureza da sintaxe hebraica
de 1 Samuel 10.8. O que o profeta está dizendo é que se Saul tivesse de ir a Gilgal,
Samuel precisaria fazer o mesmo. Sempre que isto ocorresse, Saul teria de esperar pelo
menos sete dias até que Samuel chegasse. É secundário o fato de Saul não ter ido a
Gilgal até que se passassem dois anos. Ver Keil e Delitzsch, Biblical Commentary on the
Books of Samuel (Grand Rapids: Eerdmans, 1960 reedição), pp. 101-2.
212 H istória de I srael no A ntigo T estamento

roso do ataque iminente que poderia ser desferido pelos filisteus, o pró­
prio Saul ofereceu sacrifícios a Yahweh, violando, dessa forma, não ape­
nas as expressas ordens dadas por Samuel, mas também todas as prescri­
ções que envolviam o próprio ritual do culto. Quando Samuel chegou ao
local, repreendeu o rei e o informou de que sua dinastia, que poderia sub­
sistir para sempre (1 Sm 13.13), estava com seus dias contados. Também
foi o rei informado de que Deus entregaria o governo a um homem segun­
do o seu coração.

A ira contra Jônatas

Após deixar Gilgal, Saul refugiou-se em Gibeá com apenas seiscentos


homens. Os filisteus estavam acampados próximo a Micmás, mas envia­
ram patrulhas de sua base, algumas para Ofra de Benjamim (et-Tai-yibeh),
pouco ao nordeste de Betei; outras patrulhas foram enviadas a Bete-
Horom, a oeste de Micmás; e ainda outras para Zeboim, a noroeste, em
direção a fronteira dos filisteus.26 A liberdade com que se moviam no
interior da terra testificava o perigo que enfrentava a nação comandada
por Saul. Segundo um historiador (1 Sm 13.19-22), essa liberdade pode
ter ocorrido parcialmente em conseqüência da falta de tecnologia do fer­
ro em Israel, uma vantagem estratégica disponível para os exércitos dos
filisteus.27
Aproximando-se mais de Micmás, Saul tomou conta de uma estância
defensiva em Migrom (Tel Miriam), entre Micmás e Geba.28 Jônatas, por
sua vez, sem que ninguém percebesse, partiu para atacar um destaca­
mento filisteu próximo a Micmás, apenas ele e seu armeiro, matando na
ocasião cerca de vinte homens. Essa investida, juntamente com um ter­
remoto, causou um pânico tão violento entre os filisteus que Saul e seus
homens foram imediatamente avisados de que algo estranho acontecia
com os inimigos. Perceberam então que Jônatas e seu armeiro não dor­
miam no arraial, de forma que Saul convocou Aías, o sumo sacerdote,

26 Aharoni e Avi-Yonah, Macmillan Bible Atlas, mapa da página 171. x


27 Embora a palavra "ferro" (Heb. Barzel) não apareça nessa passagem, fica claro pelas
fontes consultadas que os filisteus foram os dominadores da metalurgia e exploraram
tal domínio o máximo que puderam. Ver também Trude Dothan, The Philistines and Their
Material Cidture (New Haven: Yale University Press, 1982), p. 20; James D. Muhly, "How
Iron Technology Changed the Ancient World and Gave the Philistines a Military Edge,"
BAR 8 (1982): 52-54.
28Assim diz o Oxford Bible Atlas, editado por Herbert G. May, 3aedição (New York: Oxford
University Press, 1984), pp. 73,135.
£*,_ A A liança M al C ompreendida 213

para que trouxesse a arca,29 provavelmente para assegurar a proteção


di\*ina e sua direção. Mas os filisteus estavam em tal alvoroço que aban­
donaram sua posição em Micmás e fugiram para salvar suas vidas. Como
resultado, os m ercenários 'apiru ,30 que tinham sido alugados pelos
filisteus, sentiram-se encorajados a abandonar os fugitivos e unir-se aos
israelitas. Estes mercenários juntaram-se aos israelitas que estavam es­
condidos e àqueles que estavam com Saul para perseguirem os filisteus
em direção nordeste até Bete-Aven (i.e., Betei), e de lá para Aijalom, pró­
ximo à fronteira dos filisteus.
Saul ordenou ao exército que, sob juramento, ninguém comesse abso­
lutamente nada até que Deus desse vitória a Israel. Tal atitude fez com
que seus homens desfalecessem de fome (1 Sm 14.24). Quando os filisteus
fugiram, os israelitas mataram os animais deixados para trás, comendo-os
sem retirarem devidamente o sangue. A quebra do juramento e da lei ceri­
monial de Moisés trouxe um forte pavor sobre Saul, de sorte que resolveu
edificar um altar a fim de oferecer um sacrifício apropriado. Então buscou
ele orientação de Yahweh se deveria ou não insistir na perseguição aos
filisteus, mas nenhuma resposta foi-lhe dada. Saul compreendeu então
que alguém havia cometido alguma falta que desagradara ao Senhor no
juramento por eles feito. Após lançar sortes, soube que seu filho Jônatas
era o culpado, pois, não sabendo do juramento estabelecido para os solda­
dos, havia comido mel no caminho. Somente os apelos do povo impediu
Saul de matar seu próprio filho. Aqui se vê o início da irracionalidade e
loucura de Saul.

29 Assim está registrado no texto massorético de 1 Samuel 14.18. Contudo, parece melhor,
segundo o registro da Septuaginta e outras testemunhas, ler "éfode" em vez de "arca",
pois a arca aparentemente estava ainda em Quireate-Jearim por todo o reinado de Saul.
Além do mais, o contexto técnico indica atividade puramente sacerdotal, pois a narrati­
va sugere que está se recorrendo a um éfode e não à arca (v. 19; cf. vv. 40-42; 23.9; 30.7).
Ver Ralph W. Klein, 1 Samuel, Word Biblical Commentary (Waco: Word, 1983), p. 132,
n.18. G.W. Ahlstrõm, mesmo preferindo adotar o texto massorético nessa passagem,
informa que o éfode aparece nas narrativas de Samuel por todo o período em que a arca
esteve localizada, segundo a tradição, em Quireate-Jearim ("The Traveis of the Ark: A
Religio-Political Composition," JNES 43 [1984]: 145; da mesma forma Antony E Campbell,
"Yahweh and the Ark: A Case Study in Narrative," JBL 98 [1979]: 42-43, n. 32).
30 A visão mais antiga, ou seja, que estes eram os hebreus, é difícil de conciliar com a
mudança de coligação, isto é, com o fato de deixarem os filisteus para aliar-se aos isra­
elitas. É melhor identificá-los, como o faz Norman K. Gottwald, com os 'apiru docu­
mentados nas correspondências de Amarna (The Tribes of Yahweh [Maryknoll, N.Y.: Orbis,
1979), pp. 422-25; ver também o que foi dito acima nas pp. 101-2).
214 H istória de I srael no A ntigo T estamento

Os inimigos de Saul

Pondo temporariamente de lado a ameaça dos filisteus, o narrador vol­


ta a atenção para um resumo de todas as campanhas militares promovi­
das por Saul. Ele havia se envolvido em embates com os amonitas em
Jabes-Gileade, e talvez em outras ocasiões. Também se engajou em cam­
panhas contra os moabitas, edomitas, e contra o reino arameu de Zobá,
nenhum citado pelo escritor detalhadamente. Apesar disso, à luz desses
episódios, é importante que alguma coisa seja dita acerca do mundo ao
redor de Saul, a fim de poder apreciar melhor as tensões externas que
contribuíram para a deterioração de seu governo.

Os estados arameus
Virtualmente nada é conhecido acerca de Moabe e Edom do século onze,
tanto no Antigo Testamento quanto na literatura extrabíblica, de modo que é
infrutífero especular qualquer coisa que não seja a civilização material.31 Quan­
to aos estados arameus, o quadro torna-se substancialmente mais claro gra­
ças ao volumoso material cuneiforme, oriundo primariamente da Assíria. O
nome dado aos arameus, considerado o mais antigo, era Ahlamú.32 Não foi
senão depois de 1100 que o termo 'armaya (Arameus) surgiu, quando no caso
era usado para descrever as populações seminômades que, por aqueles anos,
haviam ocupado toda a Síria superior e o noroeste da Mesopotâmia. Tiglate-
Pileser I (1115-1077) cita-os como um dos inimigos da Assíria, que ele tentava
controlar. Mas eles não apenas resistiram às pressões dos assírios, como tam­
bém começaram a ocupar e controlar vastas áreas centrais e baixas da Meso­
potâmia. Durante os anos de Saul, eles dominaram todo o norte de Damasco,
atingindo o Eufrates, chegando mesmo a ir além desse rio.33

31 John R. Bartlett, "The Moabites and Edomites," em Peoples of Old Testament Times, edita­
do por D.J. Wiseman (Oxford: Clarendon, 1973), pp. 229-34; B. Oded, "Neighbors on the
East," em World History of the Jewish People, vol. 4, parte I, The Age of the Monarchies:
Political History, editado por Abraham Malamat (Jerusalem: Massada, 1979), pp. 252-61.
Dennis Pardee alistou todas as poucas inscrições que restaram de Moabe, Amom e Edom
conhecidas atualmente, nenhuma delas com data inferior a 850 a.C. (a inscrição de Mesha)
("Literary Sources for the History of Palestine and Syria II: Hebrew, Moabite, Ammonite,
and Edomite Inscriptions," AUSS 17 [1979]: 65-69).
32 Albert Kirk Grayson, Assyrian Royal Inscriptions (Wiesbaden: Otto Harrassowitz, 1976),
vol. 2, p. 13 # 1.
33Merril F. Unger, Israel and the Aramaeans of Damascus (Grand Rapids: Baker, 1980 reedição),
pp. 38-44. Abraham Malamat, mesmo negando que os Ahlamú fossem os arameus, con­
corda com o julgamento de Unger com respeito ao domínio dos arameus na Síria e nas
5 »: i : A A liança M al C ompreendida 215

O principal reino dos arameus, durante esse período, foi o de Zoba,


governado pela dinastia de Bete Reobe. Esta nação situava-se bem ao nor­
te do vale de Baca, e efetivamente controlava todas as rotas comerciais
desde a Anatólia e sul da Mesopotâmia até o Egito.34 A decadência interna
e militar do império assírio, depois do reinado de Tiglate-Pileser I, e o
contínuo declínio do Egito em seu Terceiro Período Intermediário, permi­
tiram que Zoba se deslocasse praticamente para todas as direções para
assim expandir sua influência e poder. A expansão também incluía a na­
ção de Israel, o que resultou em medidas de retaliação por parte de Saul
contra Zoba. O reino continuou sendo um obstáculo para Israel até a épo­
ca de Davi e Salomão, e mesmo depois deles.

Os filisteus
Era com a Filístia, entretanto, que Saul estava constantemente envolvi­
do, do início ao fim de seu reinado. Esses sobreviventes dos Povos do
Mar, de origem não-semítica, vieram para Canaã como parte de uma mi­
gração maciça de povos que se dirigiam para a Anatólia, Egito, Síria e
outras áreas ocidentais do Mediterrâneo. Eles destruíram o Império Hitita,
inclusive a destruição de cidades sírias como Ugarite. Após uma tentativa
frustrada de conquistar também o Egito, alguns desses Povos do Mar, par­
ticularmente os Peleset e os Tjekker, estabeleceram-se ao longo da porção
central e mais baixa da costa mediterrânea de Canaã. Os Peleset são os
conhecidos filisteus, tão familiares ao leitor da Bíblia (ver p. 161).
Embora tenha havido filisteus em Canaã por muitos anos antes da che­
gada dos patriarcas (ver p. 31), esse grupo também tinha sido "semitizado"
ou, em outra hipótese, absorvido pela nova leva de invasores. Os "novos"
filisteus estabeleceram uma cabeça-de-ponte no sudoeste de Canaã em
cerca de 1200, estabelecendo-se nas principais cidades da região (ou pró­
ximo a elas): Gaza (Ghazzeh), Ascalom ('Askalon) e Asdode (Esdüd), ao
longo da costa; Ecrom (Khirbet el-Muqanna') e Gate (provavelmente Tel
es-Sâfi), no Sefelá.
Tem sido muito comum descrever a forma de governo dos filisteus como
um tipo de pentápole, em que cada governante (Heb. Serem, "senhor")

partes mais altas da Mesopotâmia na época do rei Saul. ("The Aramaeans/' em Peoples
of Old Testament Times, editado por D.J. Wiseman, pp. 135-38; ver também em Yutaka
Ikeda, "Assyrian Kings and the Mediterranean Sea: The Twelfth to Ninth Centuries
B.C.," Abr-Nahrain 23 [1984-1985]: 29, n.lO).
34 Benjamim Mazar, "The Aramaean Empire and Its Relations with Israel/' em Biblical
Archaeologist Reader, editado por Edward F. Campbell, Jr., e David Noel Freedman (Garden
City,N.Y.: Doubleday, 1964), vol. 2, pp. 131-32.
216 H istória de I srael no A ntigo T estamento

aparentemente possuía o mesmo nível de autoridade dos demais. Nenhum


empreendimento que envolvesse toda a confederação deveria ser aprova­
do sem o voto da maioria (e talvez unânime). Não se pode saber mais que
isso, pois falta a evidência dos textos filisteus.35
A falta de conhecimento com respeito ao vocabulário dos filisteus
limita qualquer tentativa de definir com precisão o idioma do povo,
embora muitos estudiosos acreditem que se originara na região do mar
Egeu, nas ilhas (e.g., Creta) ou na Ásia Menor (Lídia). Até os textos
nativos serem encontrados, as questões filológicas permaneceram sem
respostas.36
Semelhantemente, é impossível saber qualquer coisa relativa à reli­
gião pré-cananéia dos filisteus, porque todas as divindades por eles
adoradas eram de origem semítica. E bem provável que os filisteus te­
nham absorvido os deuses cananeus, inserindo-os em seu sistema reli­
gioso, identificando seus antigos deuses com as novas divindades re­
centemente encontradas. Seu deus principal era Dagon, conhecido no
norte da Mesopotâmia e Síria como Dagan, pai de Hadade ou Baal. Sua
forma metade homem e metade peixe, conforme sugerido em 1 Samuel
5.4,37 pode mesmo estar refletindo o sincretismo religioso mencionado
pouco acima, no qual os filisteus, sendo um povo do mar, provavel­
mente retiveram as características marinhas de seu deus, adaptando-o
ao novo estilo de vida agrícola em Canaã. Portanto, Dagon era uma
divindade relacionada à agricultura, imposta sobre o deus peixe origi­
nal. Outros deuses dos filisteus eram Baal-Zebube e Astarote, uma deusa
do panteão cananeu, que sem dúvida era adorada pelos filisteus em
Bete-Seã (pelo menos ali [1 Sm 31.8-13]). Os detalhes relativos ao culto
também são bastante incertos, embora existam as referências no Anti­
go Testamento quanto à existência de sacerdotes filisteus (1 Sm 5.5; 6.2),
35 Dothan, Philistines, pp. 18-19. Ver também Hanna E. Kassis, "Gath and the Structure of
the 'Philistine' Society," JBL 84 (1965): 259-71. Kassis é de opinião que a cultura dos
filisteus, conforme descrita no Antigo Testamento, era profundamente misturada com
elementos cananeus, especialmente em Gate.
36 Kenneth A. Kitchen, "The Philistines," em Peoples of Old Testament Times, editado por
D.J. Wiseman, pp. 67-68; Mazar, "The Philistines and Their Wars with Israel," em World
History of the Jewish People, vol. 3, pp. 165-66.
37 O hebraico diz: "Somente seu Dagon (dãgôn) foi deixado," uma frase que os estudiosos
desde os dias de Julius Wellhausen têm compreendido como: "Somente sua parte de
peixe (dãg) foi deixada". Para um apanhado abrangente sobre o assunto, consultar Lewis
Spence, Myths and Legends o f Babylonia and Assyria (London: Harrap, 1916), pp. 151-52;
Ulf Oldenburg, The Conflict Between El and B aal in Cayiaanite Religion (Leiden: E.J. Brill,
1969), pp. 56-57; McCarter, I Samuel, pp. 119-20.
S*.-: l : A A liança M al C ompreendida 217

práticas pagãs de adivinhação (1 Sm 6.2) e saltos no pátio de um tem­


plo (1 Sm 5.5).38
Os conflitos entre Israel e os filisteus são tão antigos quanto o governo de
Sangar, o terceiro juiz, que aparentemente resistiu às incursões do adversá­
rio até cerca de 1230 (ver p. 168). Mas foi Sansão quem primeiro empreen­
deu medidas ostensivas de defesa contra os filisteus, pois já vinham ocor­
rendo fortíssimos choques desde 1124. Pode ser que sessenta ou setenta
anos tenham sido suficientes para eles se reorganizarem, atingindo uma
população forte para empreender uma penetração nos territórios altos de
Israel. Por quarenta anos eles perturbaram Israel, a despeito dos feitos he­
róicos de Sansão, até que por volta de 1084 foram finalmente forçados a
render-se e devolver as cidades israelitas que haviam capturado, retirando-
se assim para o oeste do Sefelá. Contudo, daquela região, continuaram a se
aventurar em campanhas para o interior de Israel, principalmente para as
planícies e vales, onde poderiam utilizar suas carruagens largamente. A cons­
tante pressão filistéia também serviu como fator contribuinte para o levan­
tamento de um rei, uma exigência que tornou-se cada vez maior quando
Samuel já estava idoso e sem condições para libertá-los.
Esta era a situação diante de Saul, quando começou o seu reinado. Não
apenas os filisteus estavam fortemente instalados em áreas como Bete-
Seã, na planície de Jezreel, mas também se empenharam na construção e
ocupação de várias fortalezas situadas no meio da terra de Israel, não muito
distantes de Gibeá, a própria capital do reino de Saul (1 Sm 10.5). Confor­
me já dito, Saul esforçou-se em várias campanhas naquela área na inten­
ção de repelir os filisteus, afastando-os e forçando-os de volta ao seu terri­
tório (1 Sm 14.46), mas não há qualquer evidência de que foram sequer
expulsos de Jezreel. Somente nos dias de Davi, depois de 1000 a.C., os
filisteus viram-se forçados a permanecer em seu território original, em
sua pentápole. Mas deve-se reconhecer a tenacidade desse povo, pois, com
exceção de breves períodos em que foram forçados a pagar tributos a Isra­
el, nunca perderam a independência até quando Samaria foi destruída
pelos assírios, em 722 e Judá ficou submissa a essa potência internacional.

Os amalequitas
Outro inimigo de Saul com características e em circunstâncias total­
mente diferentes eram os amalequitas. Esses nômades do deserto esta­
vam sempre surgindo na história de Israel, quase sempre no papel de

55 Dothan, Philistines, pp. 20-21; Kitchen, "The Philistines", em Peoples of Old Testament
Times, editado por D.J. Wiseman, p. 68.
218 H istória de I srael no A ntigo T estamento

adversário. No deserto do Sinai, atacaram Israel pelas costas, em uma


vergonhosa amostra de covardia (Êx 17.8-16; Dt 25.17-19). Por causa
disso, Yahweh os separou para um julgamento especial. Foram eles que
se juntaram aos cananeus numa campanha contra os israelitas, na oca­
sião em que os hebreus tentaram uma invasão prematura em Canaã
pelo sul (Nm 14.45). Mesmo depois desses acontecimentos, o rei Eglon
dos m oabitas, ao descrever sua conquista da porção centro-leste de
Israel, registra os amalequitas como um dos seus associados na guer­
ra (Jz 3.13). Não há dúvida de que os contingentes amalequitas per­
maneceram nas regiões montanhosas de Efraim depois da morte de
Eglon, pois Débora fala acerca deles, dessa vez favoravelmente, como
seus aliados contra Jabim e Sísera (Jz 5.14; cf. 12.15). No princípio do
décimo segundo século, quando os midianitas foram levantados por
Yahweh para disciplinar seu povo, trouxeram os amalequitas como
aliados (Jz 6.3,33).
O quadro que emerge desses dados é que os amalequitas eram adver­
sários inveterados de Israel, que juntavam-se a qualquer um que se dispu­
sesse a atacar e fazer mal aos israelitas. Não há como afirmar as origens
desta aversão a Israel, embora Amaleque, o patriarca dessas tribos, seja
identificado em Gênesis 36.12 como neto de Esaú. Pode ser que a ira de
Esaú contra Jacó relacionada à herança e direito de primogenitura tenha
achado expressão histórica no anti-semitismo manifestado por Amaleque
contra os hebreus.
Com a investidura do primeiro rei de Israel, o tempo havia chegado
segundo o propósito de Deus para que o antigo problema "amalequitas"
fosse de uma vez por todas resolvido (1 Sm 15.1-3). Ironicamente, a des­
truição dos amalequitas também contribuiria para a destruição e ruína
de Saul. Samuel veio a Saul e revelou-lhe as intenções de Yahweh de pôr
os amalequitas sob o herem, o que significaria riscar tanto o povo quanto
suas posses de sobre a face da terra. Sendo assim, Saul ajuntou suas tro­
pas, marchou para o sul em direção ao deserto, e destruiu os amalequi­
tas até as fronteiras do Egito.39 Antes disso, ele mandou avisar aos
quenitas que viviam entre eles que fugissem, pois eram aparentados com
Moisés e não tinham nada a ver com as maldades de Amaleque (Jz 1.16;
4.11). Saul errou por não ter destruído todos os amalequitas, e também
por não ter eliminado todos os animais. Além disso, trouxe Agague, rei
dos amalequitas, vivo para Gilgal, juntamente com um rebanho escolhi­

39 Yohanan Aharoni, "The Negeb and the Southern Borders," em World History ofthe Jewish
People, vol. 4, parte 1, pp. 292-93.
S a íl : A A liança M al C ompreendida 219

do por ele. Foi lá que Samuel condenou severamente sua atitude de de­
sobediência. Mesmo os argumentos de Saul quanto aos animais, que ti­
nham sido trazidos a Gilgal para serem sacrificados a Yahweh, não fo­
ram suficientes para evitar as censuras do profeta, que naquele momen­
to aproveitou para informar ao rei que seu trono tinha sido rejeitado,
pois já havia um outro homem melhor do que ele preparado para assu­
mira a posição.

C o n s id e ra ç õ e s te o ló g ic a s

A intenção divina para com um reinado humano

A falha e a desqualificação de Saul como rei de Israel não apresenta


um problema histórico, já que os registros concernentes aos reis e às
dinastias mostram que tanto o sucesso quanto as falhas, a ascensão e a
queda fizeram parte tradicionalmente de seu contexto. Mas o final trá­
gico da vida de Saul possui algumas implicações teológicas mais pro­
fundas do que seu papel histórico em Israel. O reinado era parte e uma
parcela fundamental no desenvolvimento do programa de Deus em de­
monstrar sua soberania sobre todas as demais nações e sobre toda a
criação.40 De fato, por todo o antigo Oriente Médio, os povos já refleti­
am sobre o reinado como uma forma de trazer para a terra o poder e a
soberania dos deuses que habitavam no céu, de forma que seus propó­
sitos pudessem aqui se cumprir.41 Esta é a razão por que os reis eram
vistos pelo povo de duas maneiras, como um ser considerado divino
(como no Egito), ou, pelo menos, chamado diretamente pelos deuses,
sendo por eles autorizados a exercer o governo. Em algumas socieda­
des havia um acúmulo de funções que tornavam os monarcas homens-
deuses, trazendo a idéia de uma relação filial entre o homem e os deu­
ses, no mínimo pela adoção.42

40 O rei, considerado como o mentor e o mantenedor da ordem debaixo da vontade de


Deus, é um motivo não apenas para a Torá, mas também para os Salmos e literatura de
sabedoria. Ver Helen Ann Kenik, "Code of Conduct for a King: Psalm 101," JBL 95 (1976):
402-3.
41Ver especialmente Sidney Smith, "The Practice of Kingship in Early Semitic Kingdoms,"
em Mith, Ritual and Kingship, editado por Samuel H.Hooke (Oxford: Clarendon, 1958),
pp. 22-73; Henri Frankfort, Kingship and the Gods (Chicago: University of Chicago Press,
1948), pp. 343-44.
42Ivan Engnell, Studíes in Divine Kingship in the Ancient Near East (Uppsala: Almqvist and
Wiksells, 1943), pp. 4.11, 80-81.
220 H istória de I srael no A ntigo T estamento

Esta noção é a mesma do Antigo Testamento, embora a divindade ob­


viamente nunca fosse atribuída ao rei humano.43 Não se deve assumir,
entretanto, como muitos estudiosos fazem, que o reinado em Israel teve
suas bases no pensamento comum das civilizações que o cercavam.44 Pelo
contrário, o que se deve ver no reinado do Oriente Médio é um reflexo do
propósito original de Deus que, infelizmente, foi corrompido no decorrer
dos milênios através de sociedade politeístas, onde, entre outros erros,
havia indivíduos poderosos que usavam a noção de reinado com autori­
zação divina como uma justificação para um despotismo impiedoso.
O reinado em Israel, conforme se tem demonstrado (p. 198), foi expressa­
mente previsto e promulgado por Moisés e pelos patriarcas, muito tempo
antes da instituição entrar verdadeiramente em vigor. Mas até que os hebreus
passassem pela mudança que os transformaria de um agrupamento de indi­
víduos em uma nação (uma transição que ocorreu somente depois da saída
no êxodo e das experiências no Sinai), não estavam propriamente constituí­
dos para formar um importante reinado. Foi somente pela providência de
Deus, mediante a escolha de Davi, o "homem segundo o coração de Deus",
que o cenário foi armado para a iniciação do reinado humano em Israel, em
sua maior expressão de grandeza. Nesse caso, Davi não foi apenas um rei,
mas, em sintonia com os propósitos reais e salvíficos de Deus, foi visto como
o filho de Deus. Ou seja, ele foi adotado por Deus para representá-lo na terra,
para que estabelecesse uma dinastia humana pela qual o próprio Filho de
Deus (que também era Filho de Davi), o próprio Jesus Cristo, viesse a reinar.
Somente Davi, portanto, podia servir adequadamente como um protótipo do
Rei Messias. E, do mesmo modo que o Messias seria um profeta e sacerdote,
além de rei, assim Davi exerceria estas funções entre os hebreus, e de uma
forma que operaria fora dos limites normais daqueles ofícios.45

43 Edmond Jacob, Theology of the Old Testament (New York: Harper and Row, 1958), pp.
234-39; Frankfort, Kingship and the Gods, p. 339. Em nossa opinião, Frankfort foi longe
demais em sua tentativa de negar a centralidade do reinado na ideologia israelita (ver
em seu trabalho nas pp. 337-44).
44 Assim pensa, por exemplo, Engnell, em Studies in Divine Kingship, pp. 174-77, na seção
em que ele antevê seu próximo trabalho acerca da monarquia no Antigo Testamento.
Esse é o ponto de vista da chamada escola do Mito e Ritual, que floresceu uma geração
atrás, e quem tem suas idéias expressadas em algumas publicações, como a que foi
editada por Hooke, intitulada Myth, Ritual and Kingship.
45 Dennis J. McCarthy, "Compact and Kingship: Stimuli for Hebrew Covenant Thinking,"
em Studies in the Period of David and Solomon and Other Essays, editado por Tomoo Ishida
(Winona Lake, Ind.: Eisenbrauns, 1983), p. 82; Talmon, "The Biblical Idea of Statehood,"
em The Bible World, editado por Gary Rendsburg, pp. 247-48.
S a i l : A A liança M al C ompreendida 22 1

Falta de entendimento de Saul para com a aliança:


violação das prerrogativas sacerdotais.

Saul, apesar de tudo, ainda permanece um enigma, pois não apenas


recebeu a permissão de Deus para reinar,46 ainda que por uma espécie de
concessão ao pedido do povo, como também Yahweh o informou de que,
se ele não falhasse em relação aos aspectos do culto, fundaria uma dinas­
tia que reinaria sobre Israel para sempre (1 Sm 13.13). Essa declaração deve
ser tomada literalmente, mas visto que está claro que o reinado messiânico
estava reservado a Davi, deve-se então concluir que a divisão do reino foi
um resultado previsto, e que os sucessores de Saul, sendo este obediente,
reinariam sobre um reino, talvez Israel, ao norte, enquanto os sucessores
de Davi reinariam, conforme de fato aconteceu, sobre Judá, ao sul.47 A
rejeição de Saul em Gilgal e sua conexão com o oferecimento do sacrifício
não é sem significação no aspecto de sua remoção e do anúncio do
surgimento de Davi.
Na primeira vez, Saul falhou em não esperar pela chegada de Samuel
em Gilgal, e com suas próprias mãos ofereceu ofertas queimadas - uma
função proibida para um não-levita, a não ser por uma dispensação espe­
cial de Deus. Mas isto não está sugerido em nenhum ponto da narrativa.
Na segunda ocasião, Saul achou que podia violar o herem ao poupar al­
guns animais dos amalequitas, que tencionava sacrificar ao Senhor. E plau­
sível que Saul planejasse oferecer os sacrifícios pessoalmente. A reprimenda
de Samuel parece favorecer esta interpretação, pois ele disse a Saul que
"obedecer é melhor do que o sacrificar, e o atender melhor é do que a
gordura de carneiros" (1 Sm 15.22). Tal desobediência, disse Samuel, é
rebelião, um pecado tão pernicioso quanto a adivinhação ou idolatria.
O erro de Saul, então, foi apropriar-se das prerrogativas sacerdotais,
um ato possivelmente associado aos reinos pagãos; mas, sem uma sanção
divina específica, era totalmente impróprio para Saul ou qualquer outro
rei de Israel. O papel dos reis nos cultos era, de fato, quase universal, en­

46 Para uma resolução quanto às supostas contradições nas tradições "deuteronomistas",


ou seja, se o reinado de Saul tinha ou não a sanção divina, ver em A.D.H. Mayes, "The
Rise of the Israelite Monarchy," ZAW 90 (1978): 9-10.
47Visto que a promessa messiânica de realeza fora especificamente conferida a Judá, como
vemos claramente declarada em Gênesis 49.10, os propósitos salvíficos de Deus podem
ter sido restritos (como de fato o foram) dentro dos limites do reino do sul até que
chegassem os tempos escatológicos quando os reinos de Israel e Judá seriam novamen­
te unificados.
H istória de I srael no A ntigo T estamento

tão Saul, imitando o procedimento, poderia ser escusado se não estivesse


contrário ao que está escrito na Lei de Deus. O mandamento era explícito
- os negócios sacerdotais e do culto são exclusividade dos levitas e dos
sacerdotes.
Davi, pelo contrário, operou também nos assuntos do culto, pois, como
rei messiânico, transcendeu e foi isento das restrições contidas na lei a
respeito das ofertas (ver pp. 282,283). Como filho de Deus, foi sacerdote
eterno segundo a ordem de Melquisedeque, se também não o fora da or­
dem de Arão. Conforme o autor de Hebreus cuidadosamente mostra (Hb
5.1-10; 6.13-7.28), o sacerdócio de Melquisedeque foi superior ao de Arão,
visto que Arão e Levi submeteram-se a Melquisedeque enquanto ainda
estavam nos lombos de Abraão, seu pai. Davi, então, como herdeiro espi­
ritual de Melquisedeque (SI 110.4), podia oferecer sacrifícios, e assim o
fez, ainda que não fosse da tribo de Levi, da mesma forma que Jesus Cris­
to da tribo de Judá serve neste momento como o Grande Sumo Sacerdote
nos céus, infinitamente superior aos sacerdotes aarônicos.
Saul, embora escolhido para ser rei de Israel, nunca foi chamado de "fi­
lho de Deus", e em nenhum momento recebeu qualquer privilégio sacerdo­
tal em virtude daquele relacionamento. Aqui está o centro de sua desobedi­
ência e rejeição: de forma arrogante e consciente, Saul penetrou além das
fronteiras estabelecidas, em um espaço de seu reinado que teológica e histo­
ricamente estava reservado para Davi e a sua dinastia somente.

O s u rg im e n to de D a v i

A unção de Davi

O declínio de Saul coincide com o aparecimento e a ascensão de Davi.


Samuel - embora tenha se lamentado quanto à tragédia que se abatera
sobre a vida de Saul - foi até Belém, em obediência a Deus e ao seu chama­
do, onde encontrou entre os filhos de Jessé o rei que Deus tinha provido (1
Sm 16.1). O próprio Yahweh indicou claramente a sua escolha (1 Sm 16.3).
Após o final de um processo seletivo, Davi finalmente compareceu à pre­
sença de Samuel que, por ser profeta antigo, conheceu imediatamente que
ali estava aquele que tinha sido divinamente escolhido, um fato confirma­
do pela visitação do Espírito de Deus sobre ele.48

4S E bastante propício o momento para se falar a respeito da cronologia, especialmente


nesse período transitório da história de Israel. Davi, que subiu ao trono de Judá em 1011
na idade de trinta anos (2 Sm 5.4), nascera em 1041, ou seja, alguns anos depois que Saul
S u l : A A liança M al C ompreendida 223

Davi na corte de Saul

Depois que o Espírito de Yahweh veio sobre Davi, foi permitido que
um espírito demoníaco atormentasse Saul até o dia de sua morte (1 Sm
16.14). Para amenizar seus ímpetos de mau humor e fúria, seus servos
decidiram buscar um músico, cujas melodias pudessem ser um bálsamo
sobre o rei. Providencialmente, Davi foi selecionado, um fato que não ape­
nas beneficiou Saul, mas também permitiu que Davi se familiarizasse com
a vida na corte, preparando-o para o papel público que viria a exercer
mais tarde. Saul gostou muito do jovem e logo fez dele seu armeiro e mú­
sico. Por um breve espaço de tempo esteve Davi com Saul, embora no
próximo acontecimento ele já esteja em Belém.49

Davi e Golias

Poucos anos após o desastroso episódio com os amalequitas, Saul mais


uma vez enfrentava o problema dos filisteus. Embora estes esperassem
reconquistar alguns territórios nas regiões centrais de Israel, o melhor que
conseguiram foi chegar a um impasse contra as forças de Saul em Ephes
Dammin, um local não identificado, mas que o narrador diz situar-se en­
tre Sucote (Khirbet 'Abbâd) e Azeca (Tel Zakari-yeh),50 no vále de Elá,
cerca de 32 quilômetros a sudoeste de Jerusalém. Ambos os lados con­
cordaram que o confronto seria decidido por um duelo, em vez de um
combate aberto, de forma que cada um teve de escolher um guerreiro que
representasse seu povo.51 Os filisteus escolheram Golias de Gate, um gi­
gante com cerca de 3 metros que, provavelmente, descendia dos enaquins,

começou a reinar. Certamente era muito jovem quando recebeu a unção de rei, mas não
tão jovem ao ponto de não ser capaz de olhar e cuidar do rebanho de seu pai sozinho.
Não seria absurdo afirmar que ele tinha doze anos na ocasião. Isto fixa uma data no
princípio dos anos 1020 para o tempo em que Saul foi rejeitado e Davi foi ungido como
o novo rei, uma data que se encaixa bem com a idade de Samuel, que nessa ocasião já
estava com cerca de noventa anos.
49Aperícope da unção de Davi (1 Sm 16.1-13), freqüentemente considerada tardia e histo­
ricamente não confiável, recebe brilhante defesa e análise por Martin Kessler, que a vê
como parte integral da narrativa ("Narrative Technique in 1 Sm 16.1-13," CBQ 32 [1970]:
552-53).
50 Para uma identificação destes sítios, ver Yohanan Aharoni, The Land o f the Bible
(Philadelphia: Westminster, 1979), pp. 442,431.
51 Sobre os lutadores guerreiros, ver Roland de Vaux, Ancient Israel (New York: McGraw­
Hill, 1965), vol. 1, p. 218.
224 H istória de I srael no A ntigo T estamento

já que estes fixaram residência nas cidades dos filisteus após serem expul­
sos de Hebrom por Josué (Js 11.21,22). Israel, contudo, não achava alguém
que representasse a nação e também Yahweh.
Finalmente Davi entrou em cena. Havia estado em Belém para ajudar o
pai idoso e servir-lhe de emissário em tempos oportunos (1 Sm 17.15).
Não é necessário concluir, como muitos estudiosos o fazem, que a presen­
te história e aquela sobre a seleção de Davi como músico da corte são rela­
tos conflitantes, somente por Saul não ter reconhecido Davi na ocasião.52
Primeiro, é impossível saber quanto tempo transcorreu desde que Davi
esteve com Saul. E bem conhecido o fato de os adolescentes sofrerem rápi­
das mudanças no aspecto físico dentro de um ou dois anos, sendo perfei­
tamente possível que Davi (aqui ainda muito jovem) tivesse amadurecido
consideravelmente desde que servira a Saul pela última vez. Além disso,
o estado de saúde mental e emocional de Saul, freqüentemente irregular,
certamente agravou-se durante esse forte período de estresse, talvez a ponto
de sequer reconhecer um velho amigo.
Embora Davi tenha sido enviado para a frente de batalha a fim de levar
suprimento aos seus irmãos, ficou tão ofendido com as maldições proferi­
das pelo filisteu que ele mesmo fez-se voluntário para duelar com Golias.
Tomou consigo uma funda e feriu o gigante em nome e pela honra de
Yahweh (1 Sm 17.45-50). Davi, portanto, mostrou desde o início que seu
zelo era santo, como devia ser o zelo do ungido do Senhor. Ele era o rei-
guerreiro que se juntou a Deus contra todos que desafiassem a soberania
de Yahweh.

Davi e Jônatas

O ato de heroísmo impressionou Saul de tal maneira que determinou a


permanência de Davi em sua corte, e procedeu cumprindo sua palavra de
recompensar o herói que ferisse o filisteu (1 Sm 17.25). Isto incluía a isen­
ção das taxas e impostos para sua família (o motivo por que Saul procurou
saber acerca do pai de Davi em 1 Sm 17.56), o casamento com a filha do rei
e muitas riquezas, isto é, uma ascensão súbita e inesperada, mas já previs­
ta para aquele que se tornaria o genro do rei e comandante do seu exérci­
to. Mas dentre todas as coisas, o mais valioso para Davi foi a profunda
amizade de Jônatas, filho de Saul. Este foi um relacionamento notável.
Jônatas era consideravelmente mais velho do que Davi; então é preciso

52 Ver Otto Eissfeldt em The Old Testament: An Introduction, traduzido por Peter R. Ackroyd
(New York: Harper and Row, 1965), p. 274.
S ' : l : A A liança M ai. C ompreendida 225

considerar a amizade como de pai para filho, em vez de apenas uma ami­
zade comum. A diferença na idade é claramente provada pelo fato de Davi,
como já estudado, ter nascido não antes de 1041, enquanto Jônatas já era
líder de vários homens no princípio do reinado de seu pai, por volta de
1050. Talvez Jônatas fosse uns trinta anos mais velho que Davi. Somente
por especulação pode-se dizer que Jônatas não tinha filhos quando conhe­
ceu Davi, ou que ficara tão persuadido acerca da eleição de Davi como rei,
que o abraçou como o ungido de Yahweh, mesmo antes de Davi ter assu­
mido a função de governante.
Em apoio à última hipótese está a própria renúncia de Jônatas. Ele era
o filho mais velho de Saul e certamente sucederia ao pai no reino. Por isso
Saul advertiu ao filho que enquanto Davi estivesse vivo, Jônatas não teria
como assentar-se no trono, dando continuidade à dinastia de Saul (1 Sm
20.31). Mas Jônatas sabia no íntimo o que na verdade seu pai tentava ne­
gar - Davi era um homem segundo o coração de Deus.53 Sendo assim, ele
se despojou de toda ambição política e ascensão social e juntou-se a Davi,
formando um laço de amizade e lealdade indissolúvel. Os dados esclare­
cem melhor a natureza da aliança estabelecida entre Davi e Jônatas. Men­
cionada pela primeira vez em 1 Samuel 18.1-3, a aliança expressava muito
mais do que amizade. Era um contrato formal pelo qual Jônatas não ape­
nas demonstrava amor humano em mais alto nível, mas também pleitea­
va para si mesmo o favor de Davi como seu senhor e ungido de Yahweh.54
Há várias outras indicações de que Jônatas acatou a escolha de Davi por
Yahweh. Primeiro, a aliança foi feita mutuamente, mas foi uma iniciativa de
Jônatas, e não vice-versa (1 Sm 18.1, 3b; 20.8,16,17). Segundo, Jônatas sub­
meteu-se às mais altas reivindicações de um reinado davídico quando ves­
tiu Davi com seu próprio manto (1 Sm 18.4). Depois, reconheceu que Davi
viveria mais do que ele e, como rei, estaria em posição de mostrar favor aos
seus descendentes (1 Sm 20.14,15,42). Também afirmou de maneira clara
que Davi seria o rei, e Jônatas, seu servo (1 Sm 23.17,18). Terceiro, a aliança
foi feita não apenas com Davi pessoalmente, mas também com toda a di-

53 David Jobling defende a idéia de que a seleção de Jônatas como sucessor de Saul já
estava determinada no relato da batalha, em 1 Samuel 14.1-46, onde ele diz que a narra­
tiva é pró-Jônatas, identificando este como o homem segundo o coração de Deus ("Saul's
Fall and Jonathan's Rise: Tradition and Redaction in 1 Sam. 14-1-46," JBL 95 [1976]: 371).
Essa idéia pode ser sustentada somente se for descartada a evidência em 1 Samuel 13.13,
onde está registrado que toda a dinastia de Saul (incluindo Jônatas) seria substituída
por outra.
34 Ver Tryggve N.D. Mettinger, King and Messiah: The Cível and Sacral Legitimation of the
Israelite Kings (Lund: C.W.K. Gleerup, 1976), p. 39.
226 H istória de I srael mo A ntigo Testamento

nastia davídica (1 Sm 20.16). Jônatas decerto conhecia que a eleição de Davi


era mais que uma escolha ad hoc. Era, na verdade, a inauguração de uma
nova dinastia de reis instaurada pelo próprio Yahweh, que não apenas subs­
tituiria a dinastia de Saul, mas também teria ramificações no plano da re­
denção muito difíceis de entender naquele momento.

A fuga de Davi

A conspiração de Saul
A ascensão de Davi ao poder promovida por Saul foi uma atitude polí­
tica astuta, embora provasse mais a fragilidade psicológica do rei contur­
bado. Com grande coragem temperada pela circunspeção e humildade,
Davi saía às guerras, e voltava tão bem-sucedido que não demorou para a
multidão passar a cantar a respeito de seus feitos, quase de forma lendá­
ria. O rei Saul achou-se eclipsado e, a partir daquele momento, traçou al­
gumas estratégias para livrar-se de seu rival.
Em primeiro lugar, sob influência demoníaca, Saul tentou encravar Davi
com uma lança na parede, pelo menos por duas vezes (1 Sm 18.11; 19.10),
mas Yahweh o livrou de suas mãos. Bastante frustrado, Saul dispensou
Davi da corte, deixando-o apenas dedicado ao serviço militar. Depois, o
rei maquinou um plano pelo qual se veria livre de Davi: obrigou-o a pagar
o preço (mõhar) de cem filisteus mortos, em troca da mão de sua filha Mical.
Isto seria o equivalente a uma alta quantia em prata e ouro (1 Sm 18.25).
Davi não se intimidou e buscou a ocasião, ferindo duzentos filisteus. Quan­
do Saul recebeu os relatórios constatando que a tarefa havia sido cumpri­
da, tratou imediatamente de fazer os preparativos para o casamento. Saul
passou a ter como genro o inimigo que tentava destruir.
A partir de então Saul passou a manifestar abertamente a intenção de
destruir Davi, fazendo com que o próprio Jônatas soubesse de seus pla­
nos. Este, consciente sobre a eleição divina de Davi, buscou fazer seu pai
entender que seria tolice derramar sangue inocente (1 Sm 19.4,5). Tais pa­
lavras até ocasionaram uma reconciliação momentânea, mas Saul logo
estava à procura de Davi para o matar; desta vez, enviou alguns assassi­
nos para o atacar enquanto estivesse dormindo. Porém Mical, ao tomar
conhecimento do plano, avisou o marido, dando-lhe tempo para escapar e
refugiar-se em Ramá junto ao profeta Samuel (1 Sm 19.18).
Permanecendo lá por pouco tempo, Davi procurou Jônatas mais uma
vez, e juntos planejaram um meio de Davi saber se teria ou não um futuro
na corte de Saul. Na ocasião, a intercessão de Jônatas por Davi era total­
mente em vão, porque Saul havia posto no coração que Davi precisava ser
S ‘ \l : A A liança M al C ompreendida 2 2 7

eliminado. Saul percebeu que Jônatas havia reconhecido a legitimação do


reino de Davi, e que expressava lealdade ao homem que era segundo o
coração de Deus (1 Sm 20.30,31). Então, não havia outro caminho para
Davi senão fugir, tornar-se um exilado de seu país e de sua família, caso
ainda esperasse sobreviver para reivindicar seu lugar ao trono.

Davi, o fora-da-lei
Davi foi primeiramente para Nobe,55 uma vila no monte das Oliveiras,
onde o sumo sacerdote presidia sobre o tabernáculo. Visto que Aimeleque
(em outra passagem conhecido como Aías; cf. 1 Sm 14.3; 22.9) era bisneto
de Eli, é razoável admitir que ele ou seu pai Aitube removeram o
tabernáculo de Siló e o instalaram em Nobe. Alguns até hoje questionam o
porquê de tal lugar haver sido escolhido. A arca, é claro, ainda estava em
Quireate-Jearim, sob a custódia da família de Abinadabe.
Tendo escapado de Saul apenas com as roupas do corpo, Davi e seus
companheiros estavam famintos e pediram alimento ao sacerdote.
Aimeleque não sabia acerca do desentendimento entre Saul e Davi, de
sorte que lhes providenciou o único alimento disponível: os pães da pro­
posição do tabernáculo. Tomando a espada de Golias - que tinha sido
guardada debaixo do éfode, talvez como símbolo da superioridade de
Yahweh sobre os filisteus - Davi partiu em direção a Gate, a terra natal
de Golias.56 Este ato de loucura, acentuado pelas representações teatrais
de Davi, acabou convencendo Áquis, rei de Gate, de que Davi estava de
fato insano. Os profetas extáticos do mundo pagão agiam da mesma ma­
neira e, tidos como homens santos, eram isentos de punição, como foi
Davi. O herói hebreu que ferira de morte Golias, obteve o direito de aguar­
dar em Gate.57 De fato, Davi procurava um refúgio em Gate, mas o rei
Áquis, por alguma razão, não achou por bem que Davi permanecesse
em seu meio.
Pelos próximos dez anos, Davi viveu uma vida de fugitivo, movendo-
se de um lado para outro, sem nenhuma ajuda visível. Encontrou refúgio

75 Nobe deve ser identificada com a el-'Isãwiyeh (Aharoni e Avi-Yonah, Macmillan Bible
Atlas, p. 181). Entretanto, Denis Baly a identifica com a et-Tor (The Geography of the Bible
[New York: Harper, 1957], p. 162).
56Mazar, "The Philistines and Their Wars with Israel," em World History of the Jewish People,
vol. 3, p. 178, sugere que Gate tenha se tornado um importante centro político dos filisteus,
já que as guerras com os israelitas forçaram os filisteus a proteger muito mais as frontei­
ras orientais com Benjamim.
57 Hertzberg, I & II Samuel, p. 183.
22S H istória de I srael no A ntigo T estamento

na caverna de Adulão, uma cidade situada na Sefelá de Judá, cerca de 24


quilômetros a sudoeste de Belém. Na ocasião, sua família tomou ciência
da situação, e juntou-se a outros sob o comando de Davi. Isto sugere que
emergia um consenso a respeito de que Davi, tendo recebido a unção como
rei, estava prestes a liderar um movimento que resultaria em uma grande
revolução e na deposição de Saul. Até mesmo os filisteus perceberam isto
(1 Sm 21.11). É provável que tivessem poupado Davi em Gate precisamen­
te porque poderiam usá-lo para minar o governo de Saul.
Davi, entretanto, preocupava-se mais com sua sobrevivência, embora fi­
que claro que no curso do exílio estivesse cultivando boas relações com seu
clã judaico, a fim de ganhar apoio quando chegasse o tempo de sua monar­
quia. Estrategicamente, fez uma viagem a Mispa em Moabe (local desco­
nhecido), onde requisitou e recebeu permissão para deixar a família ali, vi­
sando protegê-la. E clara a razão de Davi ter escolhido esse local, visto que
sua bisavó Rute era moabita. Também pode ter havido a intenção de conse­
guir o favor de Moabe, pois Davi sabia bem que viria o tempo em que dis­
putaria com Saul o apoio dos reinos vizinhos. Israel já havia guerreado com
Moabe sob o governo de Saul (1 Sm 14.47), então há razão para supor que o
rei de Moabe, como os filisteus, aproveitasse o conflito entre Saul e Davi
para adquirir vantagens. Qualquer acordo que Davi tenha feito com a Filístia
ou Moabe não durou muito tempo, pois já no início de seu reinado ele redu­
ziu ambas as nações a estados tributários de Israel (2 Sm 8.1,2).
Nesse período, o profeta Gade juntou-se a Davi, e o aconselhou duran­
te o restante de seu exílio. Gade recomendou-lhe que deixasse Adulão, e
se deslocasse para a floresta de Erete (localização desconhecida). Enquan­
to isso, Saul, dominado por sua paranóia, acusou os companheiros
benjamitas de deslealdade por não terem confessado que Jônatas, seu fi­
lho, havia desertado e manifestado solidariedade para com Davi. Para
apaziguar Saul, Doegue, que havia observado como o sacerdote Aimeleque
favorecera Davi em Nobe, decidiu contar ao rei tudo o que lá tinha ocorri­
do. Furioso, Saul reuniu os sacerdotes de Nobe e, acusando-os de traição,
matou sumariamente a todos. Ele mesmo colocou a cidade de Nobe sob
herem, apagando-a definitivamente da terra. Porém, Abiatar, filho de
Aimeleque, conseguiu escapar para junto de Davi, e o serviu durante to­
dos os anos que este esteve no deserto. Mais tarde, tornou-se o sumo sa­
cerdote de Israel juntamente com Zadoque, mantendo esta posição até que
Davi veio a falecer, quando então conspirou com Adonias, filho de Davi,
para que Salomão não se tornasse rei. Tal atitude removeu Abitar do ofício
de sumo sacerdote, e ocasionou seu exílio em Anatote quando Salomão
assumiu o poder.
S u l : A A liança M al C ompreendida 229

Davi podia estar fugindo de Saul, mas permanecia sempre bem infor­
mado das necessidades de sua parentela. Os filisteus, talvez testando as
intenções de Davi, fizeram uma incursão na cidade de Queila (Khirbet
Qilã), um vilarejo de Judá ao sul de Adulão. Buscando cuidadosamente o
Senhor através do éfode que Abiatar havia trazido de Nobe (1 Sm 23.6),
Davi convenceu-se da vitória e partiu para Queila a fim de libertar seus
conterrâneos. Ciente, Saul marchou rapidamente para o sul com intenção
de emboscar Davi e seus homens dentro da cidade. Davi soube da chega­
da de Saul a tempo de escapar, buscando refúgio no deserto de Zife que
ficava pouca coisa ao sul de Hebrom. Ele estava certo de que o povo de
Queila, que ele acabara de salvar dos filisteus, não o defenderia contra
Saul. Uma evidência de que Davi não desfrutava de apoio total nem mes­
mo em Judá.
Também os habitantes de Zife provaram ser traiçoeiros, pois não per­
deram tempo em informar ao rei de que Davi escondia-se no meio deles.
Sempre um passo à frente, Davi partiu depressa para o deserto de Maom.
Saul também chegou ao local, e por pouco não capturou o exército de Davi.
Mas antes de prosseguir, teve de voltar para o norte, a fim de impedir uma
invasão dos filisteus em seu território. Davi partiu para o oriente, até En-
Gedi (Tel ej-Jurn), às margens do mar Morto.
Incansavelmente, depois de resolver o problema filisteu, Saul voltou à
perseguição. Seguiu Davi até En-Gedi, mas desta vez quase perdeu sua
própria vida, pois Davi estava em uma posição que poderia matá-lo, caso
realmente o quisesse. Sem dúvida o instinto humano requeria que Davi se
livrasse do rei e buscasse o trono. Porém, a percepção divina prevaleceu,
porque Davi sabia que até que o próprio Jeová o removesse, Saul perma­
neceria o ungido do Senhor. Ele também reconhecia sua unção divina, mas
isso não significava muito no momento. Tudo o que ele sabia era que Deus,
que o tinha escolhido, o colocaria na posição de poder no tempo dEle.
Temporariamente atraído pela bondade e respeito manifestos por Davi,
Saul decidiu retornar para casa. Davi também partiu de En-Gedi e foi para
o deserto de Parã até o Carmelo (Kirmil), dois ou três quilômetros de Maom
(Khirbet MaTn).
Davi ouvira falar de um homem muito rico chamado Nabal, que vi­
via em Maom e era dono de muito gado e vastos territórios no Carmelo.
De novo à beira da fome, Davi pediu àquele homem alimento para si e
para seus homens, o que não era um pedido injusto se considerado o
hábito da apropriação indevida comum aos indivíduos fora-da-lei. Além
disso, com consentimento dos homens de Nabal, Davi protegeu os reba­
nhos deste sem qualquer remuneração (1 Sm 25.15). Apesar disso, Nabal
230 H istória de Israel no A ntigo T estamento

não concedeu o pedido e, não fosse pela intercessão da sábia e bela


Abigail, mulher de Nabal, aquele homem rapidamente teria experimen­
tado a ira de Davi. Abigail providenciou os suprimentos necessários.
Quando Nabal ficou sabendo do que lhe iria acontecer, ficou tão choca­
do que teve um ataque do coração e morreu. Davi, agradecido a Abigail
e ao mesmo tempo envolvido por sua sabedoria e beleza, providenciou
para que ela se tornasse sua esposa. Ele também se casou com Ainoã, de
Jezreel (Khirbet Terrama?),58 uma cidade a sudoeste de Hebrom. A pri­
meira mulher, Mical, tinha nesse tempo sido tomada de Davi e entregue
a outro marido, Paltiel. Depois de Davi se tornar rei em Hebrom, Ainoã
deu à luz seu primogênito, Amnon, e Abigail deu à luz seu segundo
filho, Quileabe (2 Sm 3.2,3).
Mais uma vez os zifitas, que pareciam ter um incontrolável ódio de
Davi, notificaram a Saul que seu inimigo estava entre eles, em Aquilá (lo­
cal desconhecido). Quando Saul chegou ao local, Davi e seu sobrinho Absai
(ver 1 Cr 2.13-16) penetraram furtivamente no acampamento do rei, du­
rante a noite, e facilmente poderiam tê-lo matado juntamente com seu
general de exército, Abner. Novamente Davi reconheceu a santidade do
reinado em Israel e deixou que o destino de Saul fosse consumado pelas
mãos de Yahweh (1 Sm 26.10). Quando Saul despertou e soube que ainda
estava vivo pela misericórdia de Yahweh e seu servo Davi, confessou ou­
tra vez seu pecado contra Davi e prometeu nunca mais buscar tirar a vida
de Davi. Mas Davi sabia que estes eram apenas surtos de paranóia, e que
em momento oportuno voltaria a caçá-lo.

O exílio de Davi na Filístia

Estava claro para Davi que seria apenas uma questão de tempo para
que Saul o alcançasse, de forma que decidiu uma medida drástica - bus­
cou asilo junto a Aquis, rei de Gate. Decerto alguns fatores contribuíram
para um clima de mútua confiança entre Davi e o rei dos filisteus. Pri­
meiro, não havia coisa melhor para Aquis do que a brecha irreparável
entre Davi e Saul. Sem a presença de Davi, Saul ficava sem um comando
militar forte o suficiente para eliminar os filisteus; sem Saul, Davi ficava
sem uma base local para operar. Segundo, Davi se conduziu entre os
filisteus de modo que m ostrava não haver qualquer interesse em
prejudicá-los. Somente uma vez em seus anos de exílio, em Queila, lutou
contra os filisteus, e assim mesmo foi uma medida defensiva. Terceiro,

58 Oxford Bible Atlas, p. 132.


t » ; i ; A A liança M al C ompreendida 231

Davi deve ter comunicado a Áquis sua disposição para submeter-se ao


comando dos filisteus em troca de proteção. Pode ser que tivesse prome­
tido ao rei filisteu tornar o território de Judá um estado vassalo da Filístia
depois que tomasse Hebrom. Existem fatos subseqüentes que parecem
apontar para essa direção.
De qualquer maneira, Áquis recebeu Davi e seus homens com alegria,
garantindo-lhe inclusive liberdade em Ziclague (Tel esh-Shari'ah).59 Davi
morou nessa cidade por mais de um ano (ca. 1012-1011), deixando-a so­
mente após a morte de Saul e sua ascensão ao trono de Judá. Durante esse
tempo, combateu os gesuritas, girzitas e amalequitas no deserto. Median­
te estratégias diplomáticas, trouxe os despojos das guerras para o rei Áquis,
dizendo que vinham de Judá (1 Sm 27.10)! Não é de espantar que Áquis
tenha visto em Davi um renegado de seu povo e um forte aliado dos
filisteus. Davi estava provando ser um servo bastante devotado.
O disfarce rapidamente assombrou Davi, que se viu lutando do lado
errado no conflito, talvez o mais decisivo dentre as várias guerras tra­
vadas entre filisteus e israelitas. Os filisteus tinham se reunido em
Afeque para desferir o golpe mortal contra Israel. Áquis, é claro, insis­
tiu para que Davi se juntasse a ele a aos demais reis em coup de grâce.
Os outros quatro reis não estavam convencidos da lealdade de Davi e,
de fato, achavam que ele mudaria de lado na hora mais renhida da
guerra, unindo-se novamente a Saul. Com muita relutância, Áquis teve
de comunicar a Davi a decisão tomada pelos reis. Embora Davi tenha
expressado com muita sabedoria seu protesto, voltou para Ziclague
bastante aliviado.
Enquanto isso, Israel já tinha se reunido em Gilboa (Jebel Fuqa'ah), uma
montanha situada cerca de 11 ou 12 quilômetros ao sul de Suném (Sôlem).
Aterrorizado pelo grande número de filisteus que vinham ao seu encon­
tro, Saul recorreu a uma médium próximo a Endor, ao norte do monte
Moriá. Tentou disfarçar-se, pois ele mesmo havia proibido tal prática (1
Sm 28.9), mas quando insistiu para que a mulher lhe chamasse Samuel
dentre os mortos, ela imediatamente reconheceu que se tratava do rei.
Apesar disso, ela continuou na descrição da aparição que Saul reconheceu
ser o profeta Samuel. Pacientemente Samuel explicou mais uma vez que
Saul, por causa da desobediência, perdera o direito de reinar, e que Davi
reinaria em seu lugar. Além disso, Samuel afirmou que Saul e seus filhos
morreriam naquele mesmo dia enquanto Israel cairia em desastrosa der­
rota diante dos filisteus.

~ Aharoni e Avi-Yonah, Macmillan Bible Atlas, p. 184.


232 H istória de I srael no A ntigo T estamento

A morte de Saul

Na manhã seguinte, os filisteus partiram de Afeque e chegaram a


Suném. Depois de uma batalha sangrenta, Israel viu-se em desvantagem e
fugiu, porém Saul e seus filhos não conseguiram escapar. Quando tudo já
estava perdido, e não havia mais como reverter a situação, Saul preferiu o
suicídio a cair nas mãos dos filisteus (1 Sm 31.4). As pessoas abandonaram
as cidades e vilarejos, deixando-os à mercê dos filisteus. No outro dia en­
contraram os corpos de Saul e de seus filhos. Em uma brutal atitude de
vingança, decapitaram o rei de Israel, tomaram sua armadura e levaram-
na ao templo da deusa Astarote; por fim, amarraram seu corpo pelo lado
de fora da muralha de Bete-Seã. Naquela noite, os homens de Jabes-Gileade,
19 quilômetros a sudeste de Bete-Seã, cruzaram o rio Jordão e resgataram
os corpos de Saul e seus filhos. Depois de os queimarem, pois estavam
completamente mutilados, enterraram os ossos em sua cidade. Assim, Saul
voltou para a casa de seus ancestrais.
Após Davi ser despedido do serviço militar pelos príncipes filisteus,
voltou para Ziclague e descobriu que a cidade estava em ruínas, e que sua
família e a população local haviam sido levadas pelos amalequitas. Abiatar,
o sacerdote, consultou o Senhor por Urim e Tumim, e entendeu que era
vontade de Deus que Davi, acompanhado de seiscentos homens, partisse
atrás do inimigo amalequita. Depois de quatro dias de viagem, cerca de
duzentos homens de Davi estavam tão exaustos e famintos que preferi­
ram ficar em Besor Ravine (Vadi Ghazzeh), uns 24 quilômetros ao sul de
Ziclague. Os outros continuaram e encontraram um egípcio que havia sido
abandonado pelos amalequitas que decidiu informar onde exatamente eles
estavam, caso Davi lhe poupasse a vida. Os homens de Davi alcançaram e
dizimaram os amalequitas, trazendo de volta suas famílias. Depois de di­
vidir os despojos entre os quatrocentos que foram à peleja e os duzentos
que não puderam continuar, Davi enviou uma parte do despojo para os
anciãos de Judá, como um presente. Significativamente, a última cidade
para a qual Davi enviou o presente foi Hebrom. Sua generosidade sincera
serviu para pôr um fim na ingratidão daquele povo que em breve o ungi­
ria como o seu rei.
Depois de três dias em Ziclague, Davi recebeu um amalequita fugitivo
que tinha vindo do campo de guerra em Gilboa, trazendo a notícia acerca
da morte de Saul e de seus filhos. O mensageiro declarou que ele próprio
havia matado Saul, como um ato de misericórdia. Como evidência apre­
sentou a Davi a coroa e o bracelete de Saul (2 Sm 1.1-10). O jovem, na
verdade, não tinha matado Saul, mas era provavelmente uma testemu­
Sa l l : A A liança M al C ompreendida 233

nha. Imaginando ser o momento propício para ganhar o favor de Davi,


declarou ter destruído pessoalmente aquele obstáculo à ascensão de Davi
ao trono. Mas Davi não percebia assim o fato. Ele que, por duas vezes,
havia evitado matar Saul por considerá-lo ungido do Senhor, jamais acei­
taria o fato de que outra pessoa viesse a fazê-lo, ainda mais sendo um
amalequita pagão! Imediatamente ordenou que o amalequita mentiroso
fosse executado pelo crime que não havia cometido. Depois, em um dos
mais expressivos lamentos em toda a literatura, Davi chorou pela alma de
Saul e de Jônatas.
Mas a escritura se cumpriu. O reino de Saul chegou ao fim, exatamente
como Samuel lhe havia dito. Davi ficou em uma encruzilhada. Não podia
simplesmente subir a Gibeá e fazer-se rei, pois Saul tinha um filho sobre­
vivente, Is-Bosete, que reivindicaria sem dúvida o direito de sucessão real.
Por outro lado, havia forte pressão para Davi assumir o comando de Judá,
um movimento que vinha crescendo fazia tempo e chegara ao ápice com a
morte de Saul. Judá estava pronta para reconhecer o reinado de Davi, e a
orientação clara de Yahweh indicava que o centro da autoridade estaria
em Hebrom. Dessa forma, Davi partiu para Hebrom em 1011 a.C. e foi
formalmente coroado rei de Judá (2 Sm 2.4).
D A V I : 0 R E I N A 0 0 DA
A L I A N Ç A
A falta de nacionalidade antes de Davi
Davi em Hebrom
Diplomacia inicial
Davi e Abner
Rei de todo o Israel
Crônicas e história teológica
Jerusalém , a capital
O estabelecim ento do poder de Davi
O problema filisteu
A construção do tabernáculo
O centro do culto antes de Jerusalém
A razão para o atraso
Uma introdução à cronologia davídica

A fa lta d e n a c io n a lid a d e an te s d e D av i

O período de oitenta anos dos reinados de Davi e Salomão é em muitos


aspectos a era de ouro da longa história de Israel. Até aquele ponto, mes­
mo nos melhores anos de Saul, Israel dificilmente se denominou reino ou
mesmo estado, porque ainda não havia um reconhecimento significativo
de uma unidade política fundamental. Não porque houvesse um espírito
teocrático em Israel, pois isto não havia sido de fato traduzido em algo
além de um ideal teológico. Todo o peso do livro dos Juízes foi o lamento
por não existir um rei em Israel; o povo nem mesmo via Deus como seu
rei. Conseqüentemente, não havia unidade política.
A falta de nacionalidade que perdurou por aproximadamente 450 anos
- desde o pacto no Sinai até a entronização de Davi em Hebrom - pode ser
explicada de várias maneiras. Em primeiro lugar, por razões práticas, não
era possível para as tribos nômades que estavam a caminho de Canaã existir
em sentido nacional. Havia certamente uma coesão que os tornava uma
federação, um reconhecimento de mesma ancestralidade e etnicismo, e
bases e objetivos teológicos comuns. Havia também uma constituição à
qual a comunidade e os indivíduos eram sujeitos. Mas não havia uma
terra própria, e sem uma terra, nacionalidade é simplesmente um ideal.1

1 Quanto à terra ("espaço") ser uma necessidade fundamental para a nacionalidade, ver
Walter Brueggemann, The Land (Philadelphia: Fortress, 1977), esp. pp. 28-44.
D avi: O R einado da A liança 237

Durante o período de transição até a conquista (o princípio do século


catorze), a identidade tribal ainda prevalecia. Todavia existia também o
reconhecimento progressivo de que Israel era o povo de Deus, cuja inter-
relação ultrapassa todas as diferenças tribais. Tal atitude permitiu que Josué
unisse as tribos em um sentimento de cooperação e interesses comuns a
fim de conquistar e subjugar as populações cananéias, e fazer pelo menos
uma tentativa de ocupação da terra. Já havia sinais de independência na­
quele período, conforme visto no pedido das tribos de Rúben, Gade e
Manassés (Js 1.12-18). Mas, com sabedoria, Josué conseguiu manter a uni­
dade, e o resultado foi que a confederação permaneceu intacta até o dia de
sua morte.
Chamar Israel sob a liderança de Josué de nação, a despeito de tudo o
que se tem dito, seria impróprio. Josué era mais um mediador da aliança e
líder militar do que um político. A verdadeira autoridade estava nas mãos
dos anciãos, que agiam apenas dentro do limite de seu campo de trabalho.
Não havia uma cidade que servisse como capital, de onde a política naci­
onal produzisse seus rumos, a não ser que alguém considere que Gilgal
ou Siló fossem vistas dessa forma. O modo de operação parecia ser ad hoc.
Qualquer emergência que precisasse de uma convocação intertribal era
feita através da solicitação de Josué, sendo que algumas vezes ele não con­
seguia apoio ou sucesso.
O período dos juízes, desde a morte de Josué (ca. 1366) até o reino de
Saul (1051), deu origem a uma ocupação mais ou menos efetiva de alguns
territórios, mas isso geralmente se acompanhava de uma desintegração
da solidariedade das tribos. Os próprios juízes não eram políticos, e na
maioria das vezes fizeram seu juizado em algumas regiões da terra. Mas
eram os únicos líderes em uma escala nacional. Não havia também um
Moisés ou um Josué que pudesse convocar as tribos para uma unidade de
propósitos e ações. A função de ancião ainda existia entre o povo, mas
raramente se vê um deles agindo de forma decisiva na liderança do povo.
Aqueles anos, conforme registrado repetidamente, foram anos de anar­
quia, quase uma quebra total da Lei e da ordem em todos os aspectos.
A principal razão para essa condição caótica, é claro, era a infidelidade
para com a aliança. O povo, desde os líderes até os menos honrados, havia
abandonado Yahweh e se envolvera em um sincretismo religioso e um
paganismo ultrajante. De fato, esta foi a razão por que Israel fora discipli­
nado por meio de vários inimigos, tais como os moabitas e midianitas (Jz
2.11-23). Mas havia outros fatores um pouco mais difíceis de ser identifi­
cados, que não apenas encorajaram mas também aceleraram as tendênci­
as em direção à divisão regional e decomposição nacional.
238 H istória de I srael no A ntigo T estamento

A geografia obviamente era um deles, especialmente durante o perío­


do formativo.2 O rio Jordão, por exemplo, forma uma divisão natural en­
tre as tribos do oeste e do leste. Em certas partes do ano é quase impossí­
vel cruzar o rio, e certamente uma maior intercomunicação era profunda­
mente desestimulada em qualquer tempo. Talvez tenha sido por isso que
Josué ficara preocupado quanto ao estabelecimento ao leste do Jordão (Js
22.13-20). Ele sabia que limites geográficos poderiam criar fronteiras psi­
cológicas e até espirituais. Uma evidência da divisão entre as tribos do
oeste e do leste pode ser vista na indiferença dos líderes do leste quanto ao
pedido de Gideão, que consistia em que perseguissem os midianitas na­
quelas terras (Jz 8.4-9). Jefté, um líder da Transjordânia, enfureceu os
efraimitas: alegaram que foram convocados para participar da subjuga­
ção dos amonitas (Jz 12.1-6). É interessante que, pelo tempo de Jefté (ca.
1100), já houvesse diferenças dialéticas entre as tribos do oeste e do leste
(Jz 12.6).3 E, mesmo que tais diferenças não constituíssem necessariamen­
te um antagonismo, o fato é que serviam para intensificá-lo.
Rupturas no corpo socio-político de Israel também são aparentes em
toda parte. Uma das ocasiões mais nítidas é a história de Débora. Os
cananeus tinham começado uma devastação nas tribos do norte da planí­
cie de Jezreel. Em resposta, Débora solicitou apoio não apenas às tribos do
norte, que mais sofriam com o problema, mas também às demais tribos de
Israel, conforme registrado em seu cântico (Jz 5.12-18). Os resultados sim­
plesmente desencorajavam. Não houve qualquer apoio das tribos do les­
te, nem do sul de Jerusalém; apenas sinais de ajuda, que incluía também a
sua própria tribo de Efraim. Se não houver aqui um reflexo de hostilidade
aberta entre as tribos, pode-se ver pelo menos uma colossal indiferença
entre elas.
Uma melhor visão das rivalidades regionais e tribais é obtida com uma
atenção cuidadosa na história do levita e sua concubina (Jz 19-21). É um
relato significativo por ser remoto, indicando que a ruptura não tardou a
se manifestar, e por revelar uma tendência cismática, que se expressaria
mais tarde em uma total divisão entre Israel e Judá.
Já foi proposto aqui que um dos propósitos da narrativa é chamar a
atenção para um antagonismo entre Gibeá e Belém (ver p. 187). Gibeá,

2 A ligação entre geografia e história é evidente. Para uma importante discussão acerca
da Síria-Palestina, ver o trabalho de George Adam Smith, The Historical Geography of
the Holy Land (London: Hodder and Stoughton, 1900), pp. 43-59.
3 Sobre esse desenvolvimento surpreendente, ver Eduard Y. Kutscher, A History of the
Hebrew Language (Jerusalem: Magnes, 1982), pp. 14-15.
D avi: O R einado da A liança 239

capital de Saul, obviamente representa a monarquia saulida, e Belém a


davídica. O fato de o levita ser de Efraim prende essa tribo (e todas as
outras do reino do norte) à controvérsia. A concubina havia sido humilha­
da em Gibeá e deixada morta do lado de fora da casa onde o levita tinha
passado a noite. O incidente não apenas provou a falta de hospitalidade e
de respeito desde o princípio, mas também revelou uma total ausência de
autoridade em Gibeá e em Benjamim. Para tornar pior a gravidade da
situação, os anciãos de Benjamim recusaram-se a punir os malfeitores pelo
crime, e chegaram ao ponto de pegar em armas para defender os crimino­
sos. Mediante a expressa ordem de Yahweh, as outras tribos se uniram e
pelejaram contra Benjamim, quase aniquilando-a. Além de tudo isso, mes­
mo com as mulheres benjamitas mortas e a sobrevivência da tribo em pe­
rigo, os israelitas recusaram-se a providenciar esposas para os poucos so­
breviventes. Deram-lhes mulheres de Siló e Jabes-Gileade, da forma mais
antiortodoxa já descrita.
E um fato que este terrível incidente ocorreu e foi registrado com inten­
ção de mostrar a transgressão da lei em Israel na era dos juízes. Entretan­
to, o episódio, destacado dentre muitos outros que poderiam servir igual­
mente para ilustração, também foi incluído com propósito de explicar o
mútuo antagonismo existente entre as famílias saulidas e davídicas, e a
fragmentação política do reino mesmo nos tempos de Davi. A hostilidade
entre Benjamim e Judá é aparente durante os primeiros anos do reinado
de Davi. Ironicamente, durou até Benjamim ser absorvido pela tribo de
Judá e tornar-se parte do reino do sul.
O surgimento da monarquia sob Saul fez pouco para curar a crescente
brecha entre Judá e as tribos do norte. Durante o seu reinado, o abismo
entre as tribos tomava proporções consideravelmente grandes. Por exem­
plo, o historiador aponta que, quando Saul fez uma convocação geral para
livrar Jabes-Gileade de Amom, trezentos mil homens vieram de Israel, mas
apenas trinta mil de Judá (1 Sm 11.8). Quando realizou a campanha contra
os amalequitas, Saul contou "duzentos mil homens de pé, e dez mil ho­
mens de Judá" (1 Sm 15.4).4 Os números são reveladores, mostrando que
Judá proveu um número bastante reduzido de soldados em comparação
com Israel, um fato comprometedor para a própria Judá, uma vez que os
amalequitas viveram por muitos anos em sua fronteira ao sul. Estaria Judá
mostrando sinais de uma postura anti-Saul? Além disso, depois de Davi

4 Por causa dessa referência Ralph W. Klein conclui, de forma correta, que "é muito difícil
afirmar que Judá foi, nalguma ocasião, completamente incorporado ao reino de Saul".
(1 Samuel, Word Biblical Commentary [Waco: Word, 1983], p. 149).
240 H istória de I srael no A ntigo T estamento

ter matado o gigante Golias, "os homens de Israel e Judá" perseguiram os


filisteus (1 Sm 17.52) e, quando Davi foi colocado na corte de Saul, "todo o
Israel e Judá amava a Davi" (1 Sm 18.16). Está claro que Israel e Judá eram
tidos como duas entidades particulares que seguiam seus interesses sepa­
radamente.

D a v i em H e b ro m

Diplomacia inicial

Que o reino de Davi teria de iniciar em Hebrom não devia causar sur­
presa. Ele era da tribo de Judá, e construíra o caminho para o trono através
de seu exílio em Judá, mostrando beneficência para com essa tribo naque­
les dias. Reconhecia daramente que Judá era de facto um organismo políti­
co, se não étnico em seu próprio direito. Além disso, ainda não havia che­
gado o tempo para firmar sua autoridade em Israel, pois Saul tinha deixa­
do um filho sobrevivente que, segundo os princípios da dinastia, o suce­
deria. E ainda: Abner, primo de Saul, que no momento era a pessoa mais
poderosa em Israel, opunha-se intensamente a Davi, assim como fazia todo
o reino ao norte. Davi preferiu permanecer em Hebrom, onde esperaria
pela direção divina a respeito de sua liderança em todo o Israel.
O que se seguiu durante sete anos em Hebrom foi uma verdadeira obra
de arte de diplomacia governamental. Davi sabia que estava sendo visto
por Israel e Judá como o inimigo de Saul, mas, logo que soube da morte do
rei, compôs uma canção exaltando-o. Neste chamado Hino do Arco (2 Sm
1.19-27),5 o rei é descrito como "a glória" e "o poder". Segundo a canção
de Davi, o rei foi aquele que tinha vestido Israel de roupas finas e vestidos
caríssimos, e Israel tinha de lamentar a sua morte. Tal atitude, sem dúvida
sincera, demonstrou aos outros que Davi considerava Saul em seu interi­
or. Qualquer hostilidade que tenha existido vinha somente de um lado e
estava fora do controle de Davi.
A seguir, Davi procurou ganhar o favor do povo de Jabes-Gileade, agra­
decendo-lhe pelo gesto de bravura que manifestara ao resgatar os corpos

5 Acerca da autoridade do texto como da autoria de Davi, ver Masao Sekine, "Lyric
Literature in the Davidic-Solomonic Period in the Light of the History of Israelite
Literature," que faz uma análise da forma e conteúdo desses hinos. Em Studies in the
Period of David and Solomon and Other Essays, editado por Tomoo Ishida (Winona
Lake, Ind.: Eiserbrauns, 1983), pp. 2-4. Ver também David Noel Freedman, Pottery, Poetry
and Prophecy (Winona Lake, Ind.: Eisenbrauns, 1980), pp. 263-74.
D av /: O R einado da A liança 241

de Saul e seus filhos, enterrando-os em sua própria cidade (2 Sm 2.4b-7).


O êxito em sua atitude permitiria que Davi pusesse os pés no norte da
Transjordânia, alcançando uma popularidade em larga escala na afastada
porém importante região. Anos depois Davi retirou os ossos de Saul e
Jônatas de Jabes-Gileade a fim de colocá-los na tumba dos pais, em Zelá
(Khirbet Salah)6 de Benjamim (2 Sm 21.12-14).

Davi e Abner

O maior obstáculo para a expansão do domínio de Davi era Abner, pri­


mo de Saul. No princípio do reinado de Saul, Abner serviu como coman­
dante do exército (1 Sm 14.50). Foi ele quem conduziu Davi à presença de
Saul após o combate com Golias (1 Sm 17.55-57) e que, juntamente com
Davi, assentou-se à mesa do rei (1 Sm 20.25). Também ele foi alvo de zomba­
ria depois que Davi passou por ele e Saul enquanto dormiam no deserto de
Zife (1 Sm 26.5,14,15). Agora, com todas as lembranças em mente, Abner
estava em uma grande posição para barganhar. Se não fosse capaz de subir
ele próprio ao trono, no mínimo faria Davi padecer por isto.
Por cinco longos anos Davi permaneceu contente com seu pequeno rei­
no em Judá. Ao norte, Israel estava envolto em uma série de tumultos
insolúveis. Saul era morto e deixara um filho fraco para substituí-lo. Pri­
meiramente chamado de Ish-Baal ("homem de Baal"), o jovem tornou-se
conhecido por Is-Bosete ("homem da vergonha"),7 talvez um testemunho
da tendência sincretista de Saul. Aparentemente, ele não participou do
combate em Gilboa, onde o pai e os irmãos perderam a vida, e agora pro­
vava não ser capaz de ocupar o trono em Israel. Finalmente, o próprio
Abner - talvez depois de ter vencido os filisteus, expelindo-os da terra - o
tornou rei e fez-lhe de fantoche em Manaim (Tel edh-Dhahab el Gharbi),8
terra de Gileade. O reinado de Is-Bosete durou dois anos, e seu fim coinci­
diu com a mudança de Davi de Hebrom para Jerusalém em 1004 a.C.
Não há dúvida de que Abner dava as ordens nesse reinado de aparên­
cias, e os acontecimentos subseqüentes provam este fato. Primeiro, Abner

6 Conforme Oxford Bible Atlas, editado por Herbert G. May, 3a edição (New York: Oxford
University Press, 1984), p. 143.
~ P. Kyle McCarter, Jr., II Samuel, Anchor Bible (Garden City, N.Y.: Doubleday, 1984), p.
86, sugere que o 'is registrado no texto massorético de Samuel é preferível ao 'es em 1
Crônicas 8.33 e 9.39. Araiz em todo caso deve ter sido 'is ("homem"). Os rolos de Qumran
claramente apoiam essa posição.
5 Avraham Negev, ed., Archaeological Encyclopedia of the Holy Land (Englewood, N.J.:
SBS, 1980), pp. 191-92.
242 H istória de I srael \ o A ntigo T estamento

e seus homens foram para Gibeão, onde negociaram com Joabe, um repre­
sentante de Davi, possivelmente para tratar da unificação dos dois reinos
(2 Sm 2.12,13). Sem um acordo pacífico, Abner sugeriu que a questão fosse
decidida em um confronto armado: cada lado escolheria doze homens para
um combate corpo-a-corpo, o vencedor do qual assumiria a soberania de
todo o povo. Os homens de Davi saíram vencedores e Abner teve de fugir
com os inimigos em seu encalço. Infelizmente, Asael, irmão mais novo de
Joabe, escolheu perseguir Abner, o guerreiro experiente que, em defesa
própria, matou o jovem. Joabe e seu irmão Absai continuaram na perse­
guição, mas Abner encontrou refúgio entre seus irmãos benjamitas, fican­
do a salvo. Sua pergunta a Joabe na ocasião é bastante interessante: "Até
quando te demorarás em ordenar ao povo que deixe de perseguir a seus
irmãos?" (2 Sm 2.26). Não há talvez uma tentativa de paz aqui? Não esta­
ria Abner à procura de reconciliação, já que era inevitável a tendência que
conduzia Davi ao trono?
O historiador responde a estas perguntas enfatizando que, durante os sete
anos que reinou em Hebrom, Davi fortalecia-se continuamente, ao passo que
a dinastia saulida enfraquecia-se cada vez mais (2 Sm 3.1). Evidências do for­
talecimento de Davi podem ser vistas na multiplicação de suas esposas e fi­
lhos, uma prática comum aos monarcas do Oriente Médio, embora não san­
cionada pela Lei bíblica. Além dos filhos de Abigail e Ainoã, Davi gerou
Absalão de Maaca, Adonias de Hagite, Sefatias de Abital, e Itreão de Eglá. E
importante observar Maaca, pois ela é identificada como filha de Talmai, rei
de Gesur. É uma sugestão de que alguns casamentos de Davi foram realiza­
dos com fins diplomáticos internacionais.9 Gesur aqui é provavelmente um
reino que ficava ao leste do mar de Quinerete.10 Uma aliança com um reino
desse tipo era extremamente importante para Davi, servindo-lhe de "esta­
do tampão" entre Israel e os crescentes estados arameus do norte.
Proporcional à influência de Davi era a percepção de Abner de que
somente ao lado de Davi poderia esperar algum futuro. Havia feito tudo
para apoderar-se do trono - inclusive apossar-se da concubina de Saul - e
mesmo assim fracassou. Passou a explorar os meios pelos quais usaria sua
influência a fim de entregar Israel a Davi, assegurando pelo menos uma
posição como a que tinha com Saul. O próprio envolvimento com Rispá,

9 Jon D. Levenson e Baruch Halpern, "The Political Import of David's Marriages," JBL 99
(1980): 507-18.
10 Yohanan Aharoni, The Land of the Bible (Philadelphia: Westminster, 1979), p. 38. De­
pois que Absalão matou Amnon, fugiu para Gesur, a terra natal de sua mãe (2 Sm
13.37,38).
D avi: O R einado da A liança 243

concubina de Saul, providenciou a ocasião. Depois de propriamente ser


repreendido por Is-Bosete por tomar um poder que não lhe era devido,
Abner voltou-se contra ele, e justificando-se negou qualquer ambição pes­
soal. Mas, por vingança, deu vários passos em favor do reino de Davi (2
Sm 3.6-11).
Inicialmente, Abner enviou uma delegação até Davi oferecendo-lhe uma
proposta de unificação - uma aliança que garantiria uma transferência
pacífica da dinastia saulida para a davídica. As intenções de Abner po­
dem apenas ser sugeridas, mas certamente ele esperava nada menos que
o comando supremo do exército de Israel. Davi aceitou a proposta com
grande entusiasmo, mas, como sinal da honestidade de Abner, exigiu de
volta sua primeira mulher, Mical, filha de Saul. Isto significaria a unifica­
ção das duas famílias reais.
Depois de Mical retornar para Davi, Abner convenceu os anciãos de
Israel, particularmente os da casa de Benjamim, de que seria mais sábio
submeter-se ao reinado de Davi. Contudo, o apelo não era nada teológico,
mas puramente pragmático - Davi era capaz de libertar Israel de seus
inimigos. A falta da apreciação de Davi como o rei messiânico, o represen­
tante eleito de Yahweh na terra, foi um sério defeito do ponto de vista
político de Israel. Para Abner, Davi era um rei conforme os reis das outras
nações.
De acordo com suas palavras, Abner voltou para Davi em Hebrom com
sólido apoio dos anciãos de Israel. Ambos decidiram então fazer uma ceri­
mônia oficial de coroação, em que todo o Israel prometeria lealdade ao
novo rei. Antes de serem definidos os detalhes da festividade, Abner foi
cruelmente assassinado por joabe e Asael, seu irmão. E provável que Joabe
tenha visto na aliança uma ameaça à sua própria posição de comandante
militar.

Rei de todo o Israel

Davi agora estava com um problema potencialmente devastador, que


ameaçava tudo o que havia sido construído em favor da reunificação do
reino. Certamente os anciãos de Israel julgariam que o assassinato de Abner
havia sido ordenado por Davi, a fim de remover o último obstáculo ao
poder.11 Para desfazer imediatamente a impressão, Davi proclamou um

i: James C. Vanderkam tenta mostrar que os assassinatos de Abner e Is-Bosete foram uma
conspiração armada pelo próprio Davi ("Davidic Complicity in the Deaths of Abner
and Eshbaal: A Historical and Redactional Study," JBL 99 [1980]: 521-39). Essa tese ba-
244 H istória de I srael no A ntigo T estamento

dia nacional de lamento e sepultamento do general Abner em Hebrom,


conferindo-lhe todas as honrarias merecidas. O lamento de Davi foi tão
sincero que Israel e Judá o aceitaram de imediato, isentando-o de qual­
quer relação com o crime (2 Sm 3.36-39).
Um sentimento de instabilidade logo correu por Israel, e medidas enér­
gicas precisariam ser tomadas a fim de evitar a anulação do acordo feito
entre Davi e Abner. Então, dois assassinos partiram para Maanaim e ma­
taram Is-Bosete enquanto este dormia à tarde.12 Levando sua cabeça como
prova, partiram para Davi em Hebrom e anunciaram que finalmente o
caminho estava livre para Davi assumir o trono de Saul. Temeroso de que
seu nome fosse envolvido nessa barbaridade, Davi ordenou sem detença
que os matadores fossem executados e seus corpos pendurados publica­
mente em Hebrom. Tomou a cabeça de Is-Bosete e enterrou-a na sepultura
de Abner. Esperava deixar claro que era a eleição divina e não ambição
pessoal que o estabelecia no trono de Saul.
Sem candidato à sucessão de Saul no trono, os anciãos implementaram
os termos do tratado estabelecido entre Abner e Davi, favorecendo o rei­
nado para Davi. Juntaram-se todos em Hebrom, uma demonstração clara
de submissão e boas intenções, reconhecendo ali os direitos de Davi ao
trono por causa de sua ligação familiar, do registro como herói de guerra
e, por último, pela escolha divina. A cerimônia de coroação seguiu a ceri­
mônia da aliança, cujo propósito era permitir que o rei fizesse um pacto
com o povo e com Yahweh, o verdadeiro soberano.

C rô n ic a s e h is tó ria te o ló g ic a

Neste ponto, o primeiro livro das Crônicas inicia um relato paralelo da


história de Israel. O propósito do livro, de autoria desconhecida, é apre­
sentar a história da perspectiva da dinastia davídica. Não que o reino do
norte seja sobrepujado ou considerado de forma negativa, mas apenas Judá,

seia-se em uma alegação sem fundamento de que a narrativa original incriminava o rei
Davi, mas posteriormente foi profundamente modificada para beneficiar o partido pró-
davídico, de forma que sua cumplicidade é praticamente impossível de ser detectada.
12 Os assassinos são identificados como benjamitas, habitantes de Beerote, situada na fron­
teira do território dos filisteus. Visto que os beerotitas aparentemente tiveram de fugir
de sua tribo natal num determinado tempo passado (2 Sm 4.2b-3), pode ser que Saul os
tivesse perseguido (cf. 2 Sm 21.1,2). O assassinato de Is-Bosete pode ter sido um ato de
vingança. Por outro lado, Hans W. Hertzberg conjectura que a expulsão dos beerotitas
seguiu o assassinato de Is-Bosete (I & II Samuel [Philadelphia: Westminster, 1964], pp.
263-64).
D avi: O R einado da A liança 245

a tribo messiânica de Davi, está em destaque.13 Às vezes a narrativa omite


alguns fatos que poderiam ser embaraçosos para Davi e sua dinastia - o
caso com Bate-Seba é o exemplo mais evidente - mas tais omissões não
necessariamente implicam em que o cronista seja fanaticamente leal a
Davi, reescrevendo a história de modo que se conforme ao partido
davídico. Há incidentes suficientemente embaraçosos para se descartar
tal opinião. Na verdade, 1 Crônicas é uma história que evita as repeti­
ções de fatos já bem conhecidos em 2 Samuel, buscando recontar os fei­
tos de Davi que foram fundamentais para a intenção peculiar do cronis­
ta. Ele está primeiramente interessado em realçar os aspectos do culto
no reino de Davi; ou seja, mostrar que o rei messiânico também exerce a
função de sacerdote ungido de Yahweh. Nesse caso, o cronista é mais
um teólogo do que um contador de histórias. Interessa-se mais pelo sig­
nificado do reino de Davi do que pelos processos políticos e militares
que possibilitaram o seu estabelecimento.14
O propósito do cronista é claro desde o princípio, pois não faz referên­
cia à juventude de Davi ou à sua unção, fatos considerados bem conheci­
dos. Ele inicia com a história da partida dos israelitas a Hebrom para cons­
tituir Davi rei. Não há sequer uma palavra acerca dos sete anos de interva­
lo entre a morte de Saul e a ascensão de Davi. Vendo a ascensão como um
fait accompli, o historiador enfatiza apenas que foi Yahweh quem permitiu
a morte de Saul e concedeu o reino a Davi (1 Cr 10.14).
Por outro lado, o cronista é cuidadoso em indicar que já nos anos do
exílio de Davi havia aqueles em Israel e em Judá que reconheciam nele
uma pessoa escolhida por Deus. Isso está claramente registrado em 1 Crô­
nicas 12.1,2 - parentes de Saul estavam no meio dos que se juntaram a
Davi enquanto este morava em Ziclague. Outros vieram de Gade, na
Transjordânia, e ainda outros eram benjamitas não-saulidas (1 Cr 12.16,17).
A princípio Davi os via com alguma desconfiança, mas depois de lhe pro­
meterem lealdade, recebeu-os com alegria. Além disso, quando Davi veio
com os filisteus combater Saul em Gilboa, alguns israelitas que haviam

13 Uma interpretação excelente da forma e função do trabalho de um cronista pode ser


encontrada em Brevard S. Childs, Introduction to the Old Testament as Scripture
(Philadelphia: Fortress, 1979), pp. 639-55. Para uma avaliação do livro das Crônicas como
um trabalho verdadeiramente histórico, ver Sara Japhet, "The Historical Reliability of
Chronicles," JSOT 33 (1985): 83-107.
14 James D. Newsome, Jr., afirma que. o elemento profético é forte no livro das Crônicas,
servindo para ligar o culto com a monarquia, provendo um caminho para a reinstituição
da adoração no templo pós-exílico e restauração da casa de Davi ("Toward a New
Understanding of the Chronicler and His Purposes," JBL 94 [1975]: 216).
]
246 H istória de I srael no A ntigo T estamento

desertado de Manassés juntaram-se a ele (1 Cr 12.19-22). Fica claro que as


sementes da reunificação de Israel e Judá já tinham sido plantadas antes
de Abner iniciar as negociações formais para seu estabelecimento.
Mais evidência do desejo de mostrar que o reino de Davi foi recebido
com entusiasmo por toda a nação está no embelezamento de 2 Samuel
acerca da delegação enviada a Hebrom. Enquanto 2 Samuel apenas relata
que todas as tribos vieram ao rei em Hebrom (5.1-3), o cronista relaciona
cada tribo por seu nome e o seu número total de homens enviados (1 Cr
12.23-40). Incluídos estavam três mil benjamitas, ainda que tivessem per­
manecido leais a Saul até o último momento. Para descrever o total apoio
a Davi, o narrador informa que as tribos mais distantes não foram remis­
sas em comparecer, e que juntamente com as outras vieram carregadas
com todo tipo de provisões. Por três dias a cerimônia de coroação foi se­
guida de muita festividade e alegria. Sem qualquer dúvida, o reinado de
Davi sobre Israel foi sentido como uma cura que traria benefícios indizí­
veis para o povo de Deus. Finalmente chegara o momento em que o ungi­
do de Deus, esperado por tanto tempo, viria a reinar. Mas a história subse-
qüente revelaria que a pompa da ocasião gloriosa era apenas uma fina
pátina sobre uma estrutura política que não conseguia se desvincular do
faccionismo intertribal.

J e ru s a lé m , a ca p ita l

Enfrentando logo a realidade, Davi tratou de mudar a localização da


capital depois da coroação. Hebrom serviu-lhe apenas enquanto reinava
sobre Judá, mas agora, por diversas razões, não seria apropriada. Primei­
ro, a cidade estava situada muito ao sul e quase inacessível aos habitantes
da Galiléia e da Transjordânia. Segundo, era uma cidade tão importante
na história de Judá que representava praticamente a tribo. Seria impossí­
vel esperar que o restante de Israel desenvolvesse alguma afeição para
com uma cidade fortemente associada à alienação do passado. Terceiro,
Hebrom era uma cidade de levitas; embora não fosse um fator negativo, é
certo que tenderia a corroer a neutralidade nos assuntos religiosos.
Por outro lado, Davi percebeu que não poderia estabelecer a capital
muito para o norte, por exemplo em Siquém ou Siló, porque isto poderia
ser interpretado por Judá como uma traição aberta. Certamente não po­
deria nem pensar em estabelecê-la em Gibeá, porque além de ter sido a
cidade de Saul, lembrava tudo o que trazia repulsa a Judá. A tarefa de
Davi era clara: encontrar um local central que fosse, ao mesmo tempo,
relativamente neutro. Jerusalém, de longe, era a melhor escolha - a mai-
D*m : O R einado da A liança 247

or, mais impressiva e mais estrategicamente situada cidade em toda a


região central.15
Pelo menos por dois mil anos antes de Davi, o monte Ofel tinha sido
chamado por vários nomes, sendo o mais popular Jerusalém ou alguma
forma correlata. A cidade já existia nos tempos de Abraão, o que é confir-

15 G.W. Ahlstrõm oferece uma sugestão interessante, mas biblicamente indefensável. Ele
afirma que Davi era um jebuseu para quem Jerusalém não era uma cidade neutra. Isto
supostamente explicaria a facilidade com que ocupou a cidade, além de alistar como
seu sacerdote o jebuseu Zadoque ("Was David a Jebusite Subject?" ZAW 92 [1980]: 285­
87). George E. Mendenhall não vai tão longe, mas sugere que Davi se apoderou de Jeru­
salém e de outras cidades cananéias a fim de que pudessem prover uma infra-estrutura
urbana necessária para conduzir Israel de seu estágio tribal para um estado monárquico
digno. Porém, ao fazer isso, o rei Davi acabou levando o povo a uma paganização de
seus ideais teocráticos ("The Monarchy," Interp. 29 [1975]: 161-66).
248 H istória de I srael no A ntigo T estamento

mado pelos textos de Ebla16 e, sem dúvida, pela referência a Salem, a cida­
de do rei-sacerdote Melquisedeque (Gn 14.18).17 As Cartas de Amarna
reconhecem Jerusalém como a principal de todas as cidades de Canaã da­
quele período.18 Josué e os israelitas guerrearam contra Adoni Zedeque,
de Jerusalém, durante a campanha para o sul (Js 10). Se naquele tempo a
cidade não conseguiu ser tomada por Josué, é certo que veio a ser con­
quistada após a sua morte (Jz 1.8); apesar de a população de jebuseus ter
recebido permissão para permanecer na cidade, realmente a conquista­
ram pouco tempo depois (Jz 1.21). A cidade viveu praticamente sem se
importar com a dominação israelita, até que Davi finalmente a reconquis­
tou e fez dela sua capital.
A longa história da independência de Jerusalém, como uma ilha no
mar de israelitas, pode ser praticamente atribuída à sua situação geo­
gráfica, que lhe dava grandes condições de defesa. Esta vantagem e as
citadas anteriormente chamaram a atenção de Davi. Mas também in­
cluía um problema real. Como tomariam a cidade sem um longo e cus­
toso cerco?
Como era característico de todas as cidades muradas de Canaã, Jerusa­
lém tinha uma passagem vertical de águas conectada a um túnel ligado a
uma fonte subterrânea fora das muralhas.19 Sendo o sistema necessário
para a sobrevivência de uma cidade cercada, também apresentava o mai­
or perigo, já que providenciava acesso para qualquer um que achasse a
entrada. De alguma forma Joabe encontrou o túnel pelo lado de fora e,
através dele, atacou a cidade. Embora em descrédito por causa da morte
de Abner, ele foi honrado como herói por ter aberto Jerusalém para Davi
efetuar a conquista. Israel possuiu o pequeno monte de Ofel, que veio a
ser conhecido como Sião ou Cidade de Davi. Davi construiu (ou recons­
truiu) as fortalezas para o oriente (i.e., o Milo), expandiu as cidades, mul­
tiplicando dessa forma seu poder defensivo.20

16Jan Jozef Simons, Jerusalem in the Old Testament (Leiden: E.J. Brill, 1952).
17 Gordon J. Wenham, "The Religion of the Patriarchs," em Essays on the Patriarchal
Narratives, editado por A.R. Millard e D.J. Wiseman (Winona Lake, Ind.: Eisenbrauns,
1983), p. 195.
18 Charles F. Pfeiffer, Tel El Amarna and the Bible (Grand Rapids: Baker, 1963), pp. 50-51;
Roland de Vaux, The Early History of Israel (Philadelphia: Westminster, 1978), pp.
103-4.
19 Kathleen Kenyon, Jerusalem (New York: McGraw-Hill, 1967), pp. 19-31. Quanto à natu­
reza e ao curso desse sistema, ver Arie Issar, "The Evolution of the Ancient Water Supply
System in the Region of Jerusalem," IEJ 26 (1976): 131-33.
20 Kenyon, Jerusalem, pp. 49-51.
D avi: O R einado da A liança 249

O e s ta b e le c im e n to d o p o d e r d e D a v i

Neste ponto em 2 Samuel, o narrador deixa a estrutura estritamente


cronológica e passa a fazer uma descrição da história de Davi.21 Isso está
mais definido no início, pelo fato de os ataques dos filisteus contra Davi
serem mencionados somente depois das notas referentes ao seu programa
de construções e crescimento de sua família. O fato de o cronista seguir o
mesmo arranjo significa apenas que ele se utilizou de 2 Samuel como um
modelo nessa situação especial.

O problema filisteu

A pista sobre a prioridade dada aos episódios relativos aos filisteus


encontra-se no fato de terem buscado Davi após este ser ungido rei de
Israel (2 Sm 5.17). Isto aconteceu imediatamente depois da cerimônia de
coroação em Hebrom, e antes de Davi partir para a conquista de Jerusa­
lém. Parece que o objetivo dos filisteus era cortar a reunificação de Israel e
Judá. Por cerca de dez anos os filisteus acreditaram que Davi liderava um
movimento anti-Israel, que não beneficiava outro senão os filisteus. Saul
havia sido um inimigo inveterado desde que se tornara rei e, embora os
filisteus tivessem mantido um ataque contínuo e sistemático, a verdade é
que jamais conseguiram estabelecer uma base no interior do território
israelita. Na verdade, Saul os repeliu, forçando-os a subsistir apenas nos
limites costeiros. Mas com o exílio de Davi a situação mudou. Os filisteus
começaram a olhar Davi, que uma vez havia sido o campeão de Israel e o

21 O que segue é um abandono radical da abordagem tradicional da história de Davi, um


desvio que, apesar de tudo, parece acomodar melhor os dados bíblicos e as evidências
documentais extrabíblicas. Aqui se propõe que o historiador não estava muito interes­
sado em uma seqüência cronológica conforme estava em fazer os principais feitos de
Davi se acomodarem em um tipo de mosaico. Analogias antigas quanto a esse método
historiográfico podem ser encontradas em registros da Mesopotâmia. Ver Hayim Tadmor,
"The Inscriptions of Nabunaid: Historical Arrangement," AS 16 (Chicago: University of
Chicago Press, 1965), pp. 351-63; Mordechai Cogan, "Tendentious Chronology in the
Book of Chronicles," Zion 45 (1980): 165-72 (Hebrew); idem, "Omens and Ideology in
the Babylon Inscription of Esarhaddon," em History, Historiography and Interpretation,
editado por Hayim Tadmor e Moshe Weinfeld (Jerusalem: Magnes, 1984), pp. 85-87;
idem, "The Chronicler's Use of Chronology as Illuminated by Neo-Assyrian Royal
Inscriptions," em Empirical Models for Biblical Criticism, editado por Jeffrey H. Tigay
(Philadelphia: University of Pensylvania Press, 1985), pp. 205-7; G. Frame, "Another
Babylonian Eponym," RA 76 (1982): 157,159.
250 H istória de I srael no A ntigo T estamento

castigo dos filisteus, como um aliado potencial em sua guerra contra Isra­
el. E verdade que Davi não tomou uma atitude ofensiva contra Saul, mas
ele próprio era politicamente um fator divisor que drenava as forças de
Saul, as quais estariam, de outra maneira, direcionadas contra os filisteus.
E provável que os filisteus tenham conseguido maior controle da região
de Jezreel enquanto Saul estava ocupado com Davi no sul.
Em todo caso, Davi não fez nada para desestimular as esperanças dos
filisteus. Deu provas de que estava interessado em aproximar-se deles e
afastar-se de Saul. Isto se expressou na forma da aliança feita com Aquis,
de Gate, na qual se fez de vassalo dos filisteus (1 Sm 27.5-7).22 Assim Davi
garantiu um território inalienável (Ziclague) e segurança contra Saul. O
pacto também o obrigava a combater as guerras dos filisteus, um requisi­
to que quase o levou a lutar contra seu próprio povo.
Parece quase certo que, na ocasião da morte de Saul, Davi retomou a Judá
ainda na condição de servo de Aquis, embora também estivesse na condição
de rei de Judá em potencial. Estava claro para os filisteus que Davi gozava de
uma enorme popularidade entre os habitantes de Judá e, semelhantemente,
que os moradores de Israel ainda o tinham como um inimigo. Seria extrema­
mente vantajoso para os filisteus que as desavenças entre Judá e Israel conti­
nuassem a existir, ficando assim divididos, de forma que Davi se tornasse o
cabeça de um estado que, nominalmente, estaria sob o domínio dos filisteus.
Davi, é claro, queria manter a aliança fictícia com os filisteus, já que tinha o
problema da sucessão real no norte. Pode-se imaginar que Davi tenha se es­
forçado para manter as negociações com Abner em total sigilo.
Não é possível provar se tal hipótese do relacionamento entre Davi e os
filisteus é correta ou não, mas o fato é que os filisteus não perturbaram
Davi até o momento em que souberam da sua coroação em todo o Israel.
Somente então, e tarde demais, descobriram que seu amigo tinha sido um
truque para alcançar o objetivo final - a unificação de Israel. Lançaram-se
então em um ataque contra Davi em Refaim (el-BuqePa), um vale situado
pouco ao sul de Jerusalém. A batalha está descrita em 2 Samuel 23, onde o
narrador informa que Davi fez da caverna de Adulão sua base, enquanto
os filisteus estavam entrincheirados em Belém, 24 quilômetros acima do
vale em direção nordeste.23 Na ocasião, três dos heróis de Davi arriscaram

22 P. Kyle McCarter, Jr., I Samuel, Anchor Bible (Garden City, N.Y.: Doubleday, 1980), pp.
414-15.
23 Isso é o que dá base para a teoria de que o ataque dos filisteus aconteceu antes que Davi
cercasse a cidade de Jerusalém, pois, por que ele estaria em Adulão se já estava moran­
do em Jerusalém? 2 Samuel 5.17 diz que os filisteus "subiram... a procura dele", ou seja,
na caverna de Adulão (cf. 2 Sm 23.13,14).
D avi: O R einado da A liança 251

suas vidas para roubar água para o rei tirada da fonte próxima ao portão.
Como os filisteus chegaram a Belém e como foram desalojados, não está
especificado. Contudo, somos informados de que Davi conseguiu vencê-
los em Baal-Perazim (talvez Sheikh Bedr).24
Audaciosos, os filisteus partiram novamente para lutar no vale de
Refaim, mas outra vez foram derrotados. Davi agora perseverou em ex­
pulsar os filisteus não apenas da região sul e sudoeste de Jerusalém, mas
também do norte e do oeste. Portanto, conseguiu isolar Jerusalém da ame­
aça filistéia de invasão, e isto facilitou em seguida a tomada da cidade do
domínio dos jebuseus.

A construção do tabernáculo

Embora seja impossível a precisão cronológica, nada é virtualmente


conhecido acerca dos primeiros anos de Davi em Jerusalém. As longas
narrativas que seguem a tomada da cidade são baseadas em um breve
relato de suas atividade de construção na cidade, um projeto realizado
por arquitetos e construtores fenícios sob as ordens de Hirão, rei de
Tiro. Hirão (ou Ahiran) era filho de Abibaal e reinou em Tiro de 980 a
947.25 Esse rei foi contemporâneo de Davi (1011-971) e Salomão (971­
931), embora apenas na última década de Davi. Os dados indicam que
o programa de edificações de Davi deve ter ocorrido no final de seu
reinado, e não no princípio.26 Os últimos projetos incluíram o taber­

24 Proposto com alguma hesitação no Oxford Bible Atlas, p. 123.


25 Frank M. Cross, "An Interpretation of the Nora Stone," BASOR 208 (1972): 17, n. 11. Essas
datas são uma variação de outras apresentadas por estudiosos. Mas uma vez que estão
sempre variando paralelamente com o reinado de Davi, os dez anos são constantes e o
argumento desenvolvido aqui não é afetado. Ver William E Albright, Archaeology and
the Religion of Israel, 3ed. (Garden City, N.Y.: Doubleday, 1969), p. 128 (969-936); John
Bright, A History of Israel, 3ed. (Philadelphia: Westminster, 1981), p. 204 (969-936); H.
Jacob Katzenstein, The History of Tyre (Jerusalém: Schocken Institute for Jewish Research,
1973), p. 82 (ca. 970 + 34 anos); Benjamim Mazar, "The Era of David and Solomon," em
World History of the Jewish People, vol. 4, parte 1, The Age of the Monarchies: Political
History, editado por Abraham Malamat (Jerusalém: Massada, 1979), p. 90.
26 Tal conclusão é tão diferente da interpretação tradicional que todos as tentativas de
desfazê-la têm sido propostas. Bright (History, p. 204), reconhecendo que os reinados
de Davi e Hirão se sobrepuseram por apenas alguns anos, sugere que o tratado descrito
em 2 Samuel 5.11,12 possa ter sido entre Davi e Abibaal, pai de Hirão. J. Alberto Soggin
admite que existe uma sobreposição bastante limitada, e que não existe evidências de
que o tratado tenha sido feito com Abibaal ou com um outro Hirão. Sua conclusão é que
"as fontes são muito confusas quando se trata de cronologia" (A History of Ancient
252 H istória de I srael no A ntigo T estamento

náculo, edificado sobre o monte Sião, pois o cronista diz claramente


que foi preparado somente depois que Davi edificou casas para si (1 Cr
15.1). A arca da aliança, então, deve ter retornado para a cidade de Je­
rusalém somente nos últimos anos de Davi, já que o tabernáculo foi
construído com o expresso propósito de guardá-la. E certo também que
o desejo de Davi de construir um templo deve ter surgido durante esse
período.
Essa teoria contesta a visão tradicional do reinado de Davi, além de
levantar sérios problemas que precisam ser resolvidos satisfatoriamente
caso seja digna de crédito. Primeiro, o fato de os escritores de Samuel e
Crônicas parecerem sugerir que a arca foi trazida para Jerusalém imedia­
tamente após a cidade ter se tornado capital de Israel, não deve ser enten­
dido de forma estrita. É fácil demonstrar que os historiógrafos de Israel
nem sempre estiveram preocupados com dados cronológicos precisos.27
Uma objeção ainda mais séria é a que diz ser pouco provável que Davi
tenha esperado vinte e cinco anos para tornar Jerusalém o seu local de
governo e o centro de culto nacional. Onde Israel se reuniu durante todos
esses anos para adorar?

Israel [Philadelphia: Westminster, 1984], p. 56). Porém, visto que todos os estudiosos
concordam que Hirão foi contemporâneo de Davi apenas em seus últimos dez anos,
então por que o tratado e o programa de construções não podem ser encaixados nesse
período (ca. 980)? É preciso ter em mente que Hirão não podia estar reinando durante
os primeiros anos do reinado de Davi em Jerusalém (ca. 1004-1000), pois, uma vez que
seu reinado durou trinta e três anos, não haveria como ainda estar vivo durante os anos
do rei Salomão (971-931); no máximo já teria morrido por volta de 970. O templo de
Salomão foi construído pelos engenheiros de Hirão em 966 (1 Rs 6.1) e, segundo os
registros, este rei ainda estava reinando no décimo segundo ano de Salomão (ca. 951; 1
Rs 9.10-14). E possível sugerir que a data mais remota para o início do reinado de Hirão
foi 984, segundo essa linha de raciocínio. O ano 980, então, parece ser uma opinião
bastante sensata. Herbert Donner desfaz o problema de Davi e Hirão dizendo que a
referência de 2 Samuel 5.11 não é histórica, pois fala de um relacionamento que na ver­
dade existiu entre Hirão e Salomão ("Israel und Tyrus in Zeitalter Davids und Salomos,"
JNSL 10 [1982]; 43-52).
27 Cogan, "Chronicler's Use of Chronology," em Empirical Modles, editado por Jeffrey H.
Tigay, pp. 197-209. Hayim Tadmor tem demonstrado que era muito comum nas inscri­
ções reais dos assírios encontrar registros indicando que as construções nos templos e
restaurações eram feitas no primeiro ano daquele reinado, quando, na realidade, as obras
tinham acontecido muitos anos depois que o rei havia assumido o trono ("History and
Ideology in the Assyrian Royal Inscriptions," em Assyrian Royal Inscriptions: New
Horizons in Literary, Ideological, and Histocial Analysis, editado por F.M. Fales [Roma:
Instituto per L'Oriente, 1981], pp. 21-23).
D a v i: O R einado da A liança 253

O centro do culto antes de Jerusalém


Infelizmente há pouca informação acerca do culto nos primeiros anos de
Davi, e mesmo dos anos após a juventude do profeta Samuel. O santuário
central de Siló tinha se deteriorado moral e espiritualmente, como está claro
nas histórias de Samuel, até que a arca foi capturada pelos filisteus por volta
de 1104, e Siló abandonada pouco tempo depois (ver p. 176). A arca ficou em
Quireate-Jearim depois de voltar da Filístia, e de lá Davi a conduziu para a
ddade de Jerusalém. Por outro lado, o tabernáculo estava, pelo menos por
um tempo, situado em Nobe, onde um descendente de Eli, chamado
Aimeleque, era o sumo sacerdote. Esta é uma afirmação razoável à luz da
referência explícita aos pães da proposição dados a Davi (1 Sm 21.4) e à
designação de Nobe como "a cidade dos sacerdotes" (1 Sm 22.19).
Samuel nesse tempo havia se afastado do tabernáculo, passando a ofe­
recer sacrifícios em lugares sagrados e nos altos das montanhas.28 Será
que isso implica em que, nos dias de Samuel, o tabernáculo já não mais
existia por haver sido destruído em Siló? A luz das informações nas Escri­
turas, que narram o encontro de Davi com Aimeleque, pode-se dizer cate­
goricamente não. A razão do afastamento de Samuel do santuário central
está no fato de Saul ter-se apropriado dele. Depois que Yahweh rejeitou
definitivamente Saul, Samuel procurou fazer o mesmo, rejeitando tudo o
que estava associado a Saul, inclusive o tabernáculo (1 Sm 15.34,35).
Tem-se procurado informações precisas acerca do serviço de culto nos
dias de Saul, mas pouco é encontrado. Entretanto, está claro que havia um
centro religioso de adoração instalado em algum lugar ou próximo do cen­
tro político, em Gibeá. Uma possibilidade é Mispa, que se localizava cerca
de oito quilômetros ao norte da capital. Samuel ofereceu sacrifícios a Deus
naquela cidade (1 Sm 7.9), embora isso não implique, necessariamente, na
presença do tabernáculo. Foi naquela cidade que Samuel intercedeu a
Yahweh em favor do povo, para que Ele lhes concedesse um rei (1 Sm 10.17­
24). Naqueles dias era costume consultar o Senhor usando o éfode sacerdo­
tal, que era na verdade um artigo intimamente ligado com o tabernáculo.
Até mesmo a forma como se deu a escolha de Saul - uma técnica binária
sim-ou-não - sugere o lançar de sorte sagrada feito pelos sacerdotes.29

:s Samuel estava particularmente ligado com Mispa (1 Sm 7.5; 10.17), Gilgal (1 Sm 10.8;
11.14) e Ramá (1 Sm 8.4; 15.34; 16.13), embora não haja evidências de atividade religiosa
e de culto em Ramá.
29 A linguagem da passagem "Saul... foi escolhido" é uma reminiscência da descrição do
processo pelo qual o culpado Acã "foi descoberto" (Js 7.16-19), um processo que estava
ligado ao método de seleção divina (Js 7.14) e da presença de Yahweh (Js 7.23). Que o
254 H istória dt ] srael no. A ntigo T estamento

Outra possibilidade, e provavelmente a mais real, é que o culto estives­


se centrado em Gilgal. Esta satisfaz em muitos aspectos, já que durante os
anos da conquista a cidade serviu a esse propósito (Js 5.10; 9.6-15). Além
disso, tanto no episódio em que Saul ofereceu sacrifícios ilegalmente quan­
do suas tropas eram pressionadas pelos filisteus (1 Sm 13.8-10), quanto na
ocasião em que decidiu poupar os rebanhos dos amalequitas para oferecê-
los em sacrifício a Yahweh (1 Sm 15.10-15), o local registrado foi Gilgal,
que no primeiro caso era o local que Samuel havia escolhido para sacrifi­
car a Deus (1 Sm 10.8). Saul, na realidade, estava certo de ir para Gilgal
buscar Yahweh, mas errou gravemente em arrogar-se o direito de servir
como oficiante da cerimônia.
Seja Mispa ou Gilgal o local do tabernáculo, o fato é que, depois de
Saul ter sido rejeitado, deixou de ser. Parece que o local passou a funcio­
nar em uma região próxima a Jerusalém, provavelmente Nobe, pelo me­
nos desde os tempos em que Davi matara o gigante Golias (ca. 1027).
Isso fica subentendido pelo fato de que Davi tomou a cabeça de Golias e
talvez sua espada, e levou-as para Jerusalém (1 Sm 17.54). Mais tarde,
Davi readquiriu a espada de Golias em Nobe (1 Sm 21.9), um vilarejo
situado do outro lado do Quidron da banda de Jerusalém, considerada
parte da Jerusalém maior. Por razões desconhecidas, Saul autorizou, ou
pelo pelos permitiu, que o tabernáculo fosse erigido em Nobe, ficando
bem próximo do monte Sião, onde Davi mais tarde estabeleceu seu pró­
prio santuário.
O tabernáculo permaneceu em Nobe até que Saul, enfurecido com os
sacerdotes por terem acolhido Davi, destruiu a cidade, e evidentemente
moveu o tabernáculo para outro lugar (1 Sm 22.11-19). Pode ser que o
tenha deslocado para a cidade de Gibeão, cerca de cinco a oito quilôme­
tros a noroeste de Gibeá, pois quando o tabernáculo é novamente citado
(durante o reinado de Davi), está naquela cidade (1 Cr 16.39; 21.29). E
mais tarde, Salomão foi até Gibeão adorar Yahweh no tabernáculo de
Moisés, localizado no grande alto (1 Rs 3.4,5; 2 Cr 1.3-6). O porquê de
Salomão ter-se dirigido àquele tabernáculo e não ao tabernáculo edificado
por Davi no monte Sião não está claro, mas no momento não é relevante.
Contudo, é provável que o santuário de Davi, mesmo contendo a arca da
aliança, fosse considerado tão inovador e problemático que até mesmo
seu filho Salomão persistiu em visitar o santuário de Gibèão. Esse fato

éfode estava envolvido nas duas situações é confirmado por 1 Samuel 14.40-42 onde,
pelo mesmo processo, Jônatas foi descoberto, por causa da violação do mandamento
dado por seu pai. Ver Klein, 1 Samuel, pp. 96-97,140.
D w i: O R einado da A liança 255

apóia a nossa teoria de que a arca não foi trazida a Jerusalém senão nos
últimos dias do reinado de Davi.

A razão para o atraso


O assunto da transferência da arca de Quireate-Jearim para Jerusalém
estava, sem dúvida, relacionado com a existência ou não de um local apro­
priado. Isso está claramente descrito em 2 Samuel 6.17 e 2 Crônicas 1.4. A
questão é: por que motivo Davi esperou tanto tempo para construir um
outro tabernáculo, e assim tornar a cidade de Jerusalém o verdadeiro cen­
tro religioso da nação?
Em primeiro lugar, está claro que a ascensão de Davi ao poder, tão
dramática quanto parece, não foi sem dificuldade, requerendo um longo
período de transição. Uma coisa era receber a aclamação popular como
uma figura política e militar, outra bem diferente era mudar a tradição
religiosa e unir o culto e a coroa nele mesmo em Jerusalém. Na história
de Israel até Davi, as linhas de demarcação entre liderança civil e religi­
osa tinham sido cuidadosamente traçadas. Até mesmo Moisés tinha seu
Arão, e Josué e todos os juízes permaneceram estritamente dentro das
responsabilidades não clericais. Por mais de uma ocasião Saul tentou
roubar as prerrogativas exclusivas dos sacerdotes, o que lhe custou mui­
to caro. E não existe qualquer evidência de que ele tentou firmar o
tabernáculo em Gibeá, sua própria capital. A luz desta tradição, como
Davi poderia estabelecer o centro de culto em Jerusalém sem que antes
houvesse uma longa preparação?
De forma mais prática, Davi tinha em suas mãos duas grandes tarefas:
estabelecer uma estrutura governamental apropriada à sua liderança e,
tão importante quanto essa, defender a nação da ameaça dos exércitos
estrangeiros. Só pôde alcançá-las de forma gradual. Conforme o autor de
Samuel, Davi "ia crescendo em poder cada vez mais, porque o Senhor
Deus dos Exércitos era com ele" (1 Sm 5.10). Ele já tinha se encontrado
com os filisteus antes de tomar a cidade de Jerusalém, mas o embate não
pusera um fim nos conflitos com esses adversários. Em pelo menos outra
ocasião - impossível de datar, mas certamente anterior à construção do
seu tabernáculo - Davi venceu os filisteus (2 Sm 8.1). Essa mesma campa­
nha ou talvez outras são referidas entre as batalhas travadas pelos ho­
mens valentes de Davi (2 Sm 23.9-12). Outros inimigos também tinham de
ser submetidos: Moabe, Zobabe, Damasco, Amom, Amaleque e Edom. Com
muito ou pouco sucesso, Davi ou incorporou tais reinos ao seu império,
ou transformou-os em estados clientes. Em todos os acontecimentos, um
significativo período de tempo era exigido nas campanhas, e somente de­
256 H istória de I srael no A ntigo T estamento

pois que as nações foram realmente tratadas, Davi voltou-se totalmente


para as necessidades religiosas da nação (2 Sm 7.1; 1 Cr 17.1).

U m a in tro d u ç ã o à c ro n o lo g ia d a v íd ic a

Neste ponto será válido atentar para a cronologia dos principais aconte­
cimentos na vida de Davi.30 Não há dúvidas quanto à data da conquista de
Jerusalém (ca. 1004) e de sua morte (971). As demais datas não são tão cla­
ras, mas algumas sugestões podem ser feitas. Primeiramente, embora a ida­
de de Salomão quando assumiu o trono não possa ser datada com precisão,
não resta dúvida de que era ainda muito jovem. Em sua oração feita em
Gibeão, ele se diz "uma criança" e, mesmo considerando aqui a presença de
uma hipérbole, seria um embaraço uma idade além de vinte anos (1 Rs 3.7).31
Além disso, quando Davi estava fazendo planos para construir um templo,
referiu-se a seu filho como "moço e inexperiente" (1 Cr 22.5; 29.1). Se Salomão
não tinha mais de vinte anos quando subiu ao trono, provavelmente então
não passava de dezoito quando Davi tratou com ele acerca da construção
do templo (1 Cr 22.6-16; cf. 23.1). Salomão então deve ter nascido em 991,
treze anos após Davi ter tomado a cidade de Jerusalém.32
O nascimento de Salomão ocorreu um ou dois anos depois que seu pai
envolveu-se num relacionamento adúltero com Bate-Seba. Provavelmente
Salomão nasceu durante a época em que Joabe conduzira Israel na peleja
contra os amonitas em Rabá. Uma data apropriada para essa guerra é 993.
Essa é a última batalha de Davi antes de fugir de Absalão, e há boas razões
para acreditar que também foi cronologicamente a última. Com exceção de
2 Samuel 8, que é um catálogo das conquistas no estrangeiro e não propria­
mente parte da narrativa, os outros episódios militares parecem estar des­
critos exatamente na ordem em que os acontecimentos ocorreram.

30 O que segue é uma breve panorâmica do problema que envolve a cronologia da vida de
Davi e sua resolução. Esse assunto é discutido exaustivamente em Eugene H. Merrill,
"O Ano da Ascensão e a Cronologia de Davi," JANES 19 (1987). A ser publicado.
31 A frase na ar qãtõn foi usada, em outras ocasiões, para descrever o moço que apanhava
as flechas de Jônatas (1 Sm 20.35), a pele de Naamã após sua cura miraculosa (2 Rs 5.14),
a criança escatológica que guiará animais selvagens (Is 11.6), o príncipe edomita Hadade
(1 Rs 11.17) e os rapazinhos que zombaram de Eliseu (2 Rs 2.23). Sem qualquer uma
exceção, o que temos aqui são crianças ou adolescentes. Ver Francis Brown, S.R. Driver
e Charles A. Briggs, A Hebrew and English Lexicon of the Old Testament (Oxford:
Clarendon, 1962), pp. 654-55.
32 Isso está baseado nas datas acerca do reinado de Salomão (971-931) que são universal­
mente aceitas.
D ■!: O R einado da A liança 257

Tabela 5 A vida de Davi

O nascimento de Davi 1041


A unção de Davi por Samuel ca. 1029
Davi exilado por causa de Saul ca. 1020-1011
A unção de Davi como rei sobre Judá 1011
A unção de Davi como rei sobre Israel
e a conquista de Jerusalém 1004
A grande fome ca. 996-993
As guerras contra os amonitas ca. 993-990
O adultério com Bate-Seba ca. 992
O nascimento de Salomão ca. 991
O violação de Tamar ca. 987
A morte de Amnom ca. 985
O exílio de Absalão ca. 985-982
A construção do palácio de Davi ca. 979
A construção do tabernáculo e a transferência
da arca da aliança ca. 977
A rebelião de Absalão e o exílio de Davi ca. 976
O censo ca.975
A co-regência de Salomão ca. 973-971
A coroação de Salomão e a morte de Davi 971

A série de campanhas contra os amonitas foi provocada pelo tratamen­


to vergonhoso que os embaixadores de Davi sofreram nas mãos do rei
Hanum (2 Sm 10.1-5). O episódio deve ter se passado antes de Davi tor­
nar-se poderoso, já que Hanum e seus conselheiros pareciam não saber da
capacidade de retaliação de Davi. Além disso, Hanum era filho de Naás, o
rei amonita que tinha cercado Jabes Gileade nos primeiros anos do rei Saul
(1 Sm 11.1-5). Considerar que Naás havia acabado de morrer implicaria
ou em um reinado extremamente longo para Naás, ou em uma sucessão
de Hanum nos primeiros anos do reino de Davi.
Quando os amonitas perceberam que Davi representava mais do que a
ameaça suposta, decidiram alugar alguns mercenários de Bete-Reobe, Zobá,
Maacá e Tobe, tentando evitar o ataque de Israel sobre Rabá, a capital dos
amonitas. Joabe e Abisai, os generais de Davi, conseguiram ganhar o dia;
embora não tenham conseguido tomar a cidade, pelo menos forçaram o
recuo dos inimigos (2 Sm 10.6-14; 1 Cr 19.6-15). A perda apenas serviu
como estímulo aos arameus para que se reagrupassem e aumentassem as
suas forças visando a um futuro conflito. Dessa vez seria Hadadezer, de
Zobá, quem se lançaria em guerra contra Israel em Elan ('Alma), no deser­
to a oeste do mar de Quinerete; mas ele seria novamente vencido (2 Sm
10.15-19; 1 Cr 19.16-19). Assim encerrava a assistência dos arameus aos
amonitas.
258 H istória de I srael .wo A wtigo T estamento

O cerco de Rabá prolongou-se até a virada do ano, na mesma época em


que aconteceu o envolvimento entre Davi e Bate-Seba (2 Sm 11.1). Logo, o
conflito entre Israel e os arameus, bem como o primeiro ataque contra a
cidade de Rabá, devem ter acontecido entre 1004 e 993, mais provavel­
mente para o final do período.
Outro caminho a ser explorado concerne à rebelião de Absalão e aos
eventos relacionados. Absalão, filho de Davi com Maaca, nasceu em
Hebrom e, portanto, tinha idade suficiente para liderar uma rebelião con­
tra seu pai logo depois do nascimento de Salomão.33 Quanto tempo de­
pois não se pode dizer ao certo, mas é possível garantir que Davi partici­
pou da campanha contra os amonitas após Salomão ter nascido e antes de
Tamar ser violentada. Uma data provável para a defloração de Tamar é
987. Dois anos após o acontecimento, Absalão matou seu meio-irmão
Amnom (2 Sm 13.23), e exilou-se por três anos (985-982; 2 Sm 13.23). Quan­
do finalmente voltou do exílio, ficou por mais dois anos sem ver o rosto de
seu pai (982-980; 2 Sm 14.28). Então gastou mais quatro anos34 ganhando a
confiança do povo (980-976), até que rompeu definitivamente com seu pai
Davi (2 Sm 15.7,13).
Argumentou-se no princípio (pp. 251,252) que, uma vez que o tabernáculo
de Davi, construído para guardar a arca, não foi levantado antes de vários
outros projetos (incluindo o palácio de Davi) serem completados, a histó­
ria da chegada da arca à cidade de Jerusalém deve refletir um período
posterior ao seu reinado. Isso está baseado no fato de Hirão, rei de Tiro -
na verdade, o construtor do palácio - não ter começado a reinar senão a
partir de 980, não podendo envolver-se em projetos de construção antes
disso. Também é preciso ratificar que não há qualquer referência acerca da
arca da aliança ou do tabernáculo em Jerusalém até o tempo da rebelião
de Absalão. Logo, na história do exílio de Davi para a Transjordânia, oca­
sionada por aquela rebelião, o narrador indica que os levitas, com Zadoque,
carregavam a arca (2 Sm 15.24). Davi pediu-lhes para voltar com a arca
para Jerusalém (implicando em que já havia estado lá), expressando a ar­
dente esperança de que pudesse vê-la mais uma vez, assim como o local
de habitação de Yahweh (2 Sm 15.25). Isso pressupõe a presença do
tabernáculo em Jerusalém. A luz dos fatos discutidos com respeito à data

33 Caso tenha nascido nos primeiros dias do reinado de Davi em Hebrom (1008), Absalão
devia estar com dezessete anos quando Salomão nasceu (991).
34 O texto massorético aqui diz "quarenta" ao invés de "quatro". Embora seja uma leitura
mais difícil de aceitar, o hebraico deve ser descartado em favor da tradução da
Septuaginta, o Siríaco, a Vulgata e Josefo. Ver McCarter, II Samuel, p. 355.
D kyi: O R einado da A liança 259

da rebelião de Absalão, a mudança da arca para o novo tabernáculo deve


ter ocorrido em cerca de 977, assim encaixando mais naturalmente com a
data da ascensão do rei Hirão ao trono (980).
E importante reconhecer neste ponto que as datas sob exame não po­
dem ser consideradas inflexíveis, visto que tanto a cronologia de Hirão
quanto a de Absalão estão sujeitas a debate. Contudo, e isto é o mais im­
portante, nenhum estudioso está disposto a datar o reinado de Hirão an­
tes de 980, nem considerar que a rebelião de Absalão tenha ocorrido mais
cedo por qualquer razão extraída da evidência. De fato, a firme e madura
liderança exibida por Absalão em todos os sentidos indicaria uma idade
de trinta ou trinta e cinco anos. Parece plausível datar a rebelião em 976.35
Uma data em 980 para a ascensão de Hirão permitiria que ele construísse
o palácio de Davi, assim como concederia tempo a Davi para trazer a arca
para o tabernáculo que seria construído depois de seu palácio.
Esta nova maneira de considerar a transferência da arca da aliança tem
uma série de vantagens. Primeiro, explica o motivo de o registro antes da
rebelião de Absalão mostrar-se tão estranhamente silencioso com respeito
a Jerusalém ser o local central do santuário. Segundo, ajusta-se bem com a
noção de que a tradição em Israel não seria fácil de ser repentinamente
quebrada por Davi, e que ele, portanto, não tentou imediatamente promo­
ver a unificação do culto e do governo em um local. A reação de Mical (2
Sm 6.16-20) pode ter significado muito mais do que uma reação contra a
alegria de Davi,36 conforme tem sido alegado, já que era a segunda vez
que Davi tentava trazer a arca para Jerusalém; antes havia sido impedido
por causa da irreverência de Uzá. A chegada da arca aconteceu somente
depois de três meses, ocasião em que Davi se vestiu como sacerdote e
oficiou a cerimônia, conduzindo ele mesmo a procissão. Tal atitude deve
ter constrangido não apenas a Mical, mas também a toda população. Tal­
vez tenha sido esse o motivo que o levou a distribuir comida para todos os
que ali estavam, aproveitando também para lembrar à sua mulher que
ele, e não seu pai Saul, tinha sido escolhido por Yahweh. Pode ser que a
insatisfação com a atitude de Davi tenha alcançado uma proporção tal
que Absalão iniciou sua própria revolução.
Terceiro, a visão defendida nesta obra encaixa melhor a história do cul­
to, especialmente como é delineado pelo cronista. Ele inicia o relato com a
arca da aliança, como o faz o autor de 2 Samuel, descrevendo a tentativa

35 Se Absalão tinha nascido em cerca de 1008, como foi proposto acima, ele devia estar no
princípio de seus trinta anos em 976.
36 David F. Payne, I & II Samuel (Philadelphia: Westminster, 1982), p. 185.
260 H istória de I srael no A ntigo T estamento

frustrada de trazê-la para Jerusalém. A tentativa falhou não apenas por


causa de Uzá, mas fundamentalmente porque as pessoas religiosas
especializadas, envolvidas na ocasião, não estavam devidamente prepa­
radas para carregar a arca - elas a puseram num carro de bois ao invés de
carregarem-na erguida pelas varas. Na segunda tentativa de transferir a
arca, Davi tomou cuidado de convocar sacerdotes e levitas, instruindo-os
sobre a forma correta de transportá-la (1 Cr 15.11-15). É digno de nota que
os sacerdotes Zadoque e Abiatar sejam mencionados, sendo Zadoque
mencionado pela primeira vez (v. 11). Visto que depois desse incidente
Zadoque passou a servir como co-sumo sacerdote juntam ente com
Aimeleque, o filho de Abiatar (2 Sm 8.17; 1 Cr 18.16), é provável que ele
fosse bem mais novo que Abiatar, e muito jovem para que em 1004 já ser­
visse como sacerdote (uma data que tem sido normalmente aceita como a
data da transferência da arca), uma vez que ele ainda continuou servindo
como sacerdote no tempo de Salomão (1 Rs 2.35; 4.4).
De maior interesse ainda é a designação de Henã, Asafe, Etã e outros
músicos levitas e pessoal religioso, todos dentro do contexto da transfe­
rência da arca para Jerusalém (1 Cr 15.19). Alguns desses oficiais perma­
neceram a cargo da arca (1 Cr 16.4-6), enquanto outros, como Zadoque,
foram designados por Davi para servirem no tabernáculo de Moisés, que
ainda permanecia em Gibeão (1 Cr 16.39-42). Essa responsabilidade conti­
nuou nos respectivos tabernáculos até que o templo de Salomão foi final­
mente construído em cerca de 959 (1 Cr 6.31,32). E difícil admitir que o
início de seus mandatos tenha sido tão cedo quanto 1004, e que tenha con­
tinuado até 959. Porém, se o ministério no tabernáculo teve seu início em
cerca de 977, o problema é grandemente aliviado.
Tanto o livro de Samuel quanto o de Crônicas indicam que a transferên­
cia da arca para Jerusalém seguiu-se imediatamente ao desejo de Davi de
construir uma estrutura mais permanente para a adoração de Yahweh. Pen­
sar como alguns estudiosos que o desejo expressado por Davi de edificar
uma casa para Deus surgiu logo assim que o Senhor lhe dera descanso de
todos os seus inimigos, tem causado sérios problemas para muitos intérpre­
tes. Mas isso é exatamente o que aconteceu! Davi esteve ocupado com as
atividades militares durante os primeiros anos de seu reinado, e foi somen­
te depois de Rabá ser subjugada que ele transferiu a arca e fez seus planos
para a construção do templo. O cronista leva a identificar o desejo de Davi
em construir um templo com a transferência da arca da aliança para Jerusa­
lém. Depois de descrever todo o cuidado que Davi teve para com o trans­
porte da mesma, o novo tabernáculo em Jerusalém e o tabernáculo em Gibeão
(1 Cr 16.37-42), o cronista diz que Davi, ao voltar para seu palácio, tendo
D avi: O R einado da A liança 2 61

observado sua estabilidade, comparada à temporalidade do tabernáculo,


concebeu o plano de construir um templo (1 Cr 17.1).
Yahweh rejeitou a proposta de Davi, mas depois de um indeterminado
período de tempo, durante o qual ocorreu a rebelião de Absalão e um infe­
liz recenseamento, o Senhor permitiu que Davi desenvolvesse o projeto da
planta do templo, separasse um pessoal apropriado para o serviço sagrado
e coletasse material necessário para sua construção. A rebelião provavel­
mente terminou em 975, apenas quatro anos antes da morte de Davi. Veio
então o recenseamento: Davi bem pôde ter querido saber ao certo qual era o
grau de lealdade e qual era a força militar de que poderia dispor em casos
de levantes internos ou tentativas de invasões do exterior.
De qualquer maneira, o fim da praga enviada por Yahweh em conse-
qüência do recenseamento coincidiu com o desejo renovado de Davi de
edificar um templo (1 Cr 21.14 - 22.1). Ele ofereceu sacrifícios na eira de
Araúna, o jebuseu, que ficava ao norte de Jerusalém. Quando o Senhor o
respondeu naquele lugar, Davi compreendeu que aquele local deveria ser
o lugar onde o templo seria construído. Assim começou a reunir todo o
material necessário para a construção e repartiu seus objetivos com seu
jovem filho Salomão. Por Davi ser um guerreiro e preocupado com negó­
cios da guerra, a obra de construção do templo devia ser deixada para
Salomão, um homem de paz. Para garantir que Israel obedeceria e aceita­
ria seu filho, Davi fez dele um co-regente em seu reino (1 Cr 23.1). Juntos,
designaram os sacerdotes e levitas que serviriam no templo como canto­
res, porteiros e tesoureiros.
O anúncio formal foi feito a toda a nação. Davi enfatizou aos líderes de
Israel que havia sido escolhido por Yahweh para reinar, mas em razão de
ser um guerreiro, foi impedido de construir o templo. O privilégio foi re­
servado a seu filho Salomão. Sendo assim, ele exortou seu filho a que fos­
se fiel e fizesse a vontade de Deus, construindo o templo exatamente como
Yahweh havia revelado (1 Cr 28.9-12). Finalmente, voltou-se mais uma
vez para os líderes e insistiu para que dessem seus recursos em favor do
progresso da obra, um pedido que foi abertamente aceito e acatado. Davi
os conduziu em uma oração de louvor e compromisso e, no dia seguinte,
em uma cerimônia com grandes sacrifícios (1 Cr 29.20-22). Dois anos de­
pois o povo juntou-se para a cerimônia de coroação de Salomão, desta vez
como o único rei em lugar de seu pai (1 Cr 29.22b,23).37

37 Ver 1 Reis 1.32-40 para uma descrição da unção de Salomão. A narrativa de 1 Reis 1
indica que a conspiração de Adonias para impedir a ascensão de Salomão ao trono (vv.
5-10) chegou ao clímax exatamente antes da cerimônia de coroação. Isso foi cerca de
dois anos depois que Salomão tinha sido nomeado co-regente (1 Cr 23.1). Existem vári-
262 H istória de I srael no A ntigo T estamento

Em suma, os últimos anos do reinado de Davi podem ser assim descri- i


tos: Davi trouxe a arca para Jerusalém em cerca de 977, Absalão rebelou-se
em 976, o censo foi realizado no ano seguinte, Salomão tornou-se co-re-
gente por volta de 973 e Davi morreu em 971. Portanto, o tabernáculo de
Davi esteve em uso por apenas seis anos na administração de Davi e por
onze anos com Salomão (1 Rs 6.1,37,38). A adoração no tabernáculo de
Moisés em Gibeão presumivelmente chegou ao fim por esse mesmo tem­
po (c. 959).

os fatores que corroboram nossa teoria dos acontecimentos, que incluem um período de
co-regência e uma clara ligação entre 1 Crônicas 29.22b com 1 Reis 1.32-40: (1) quando
Salomão foi ungido, foi reconhecido como rei "pela segunda vez" (1 Cr 29.22b); (2) A
unção de Salomão é mencionada apenas em 1 Crônicas 29.22b e 1 Reis 1.39, uma refe­
rência que surge exatamente depois da rebelião de Adonias; (3) ambos os relatos da
coroação mencionam Zadoque. Embora não estivesse ligado a qualquer uma das ceri­
mônias de unção, o próprio sacerdote Zadoque é ungido na ocasião quando Salomão
foi ungido (1 Cr 29.22b). De fato, 1 Reis descreve que Zadoque se torna o chefe dos
sacerdotes segundo o mandato de Salomão, depois da morte de Davi (2.35). Para os
problemas que surgem quando alguém deixa de admitir a existência de um intervalo de
tempo entre 1 Crônicas 29.22a e b, ver H. G. M. Williamson, 1 and 2 Chronicles, New
Century Bible Commentary (Grand Rapids: Eerdmans, 1982), pp. 186-87.
0 5 A 0 S
T A
O Egito e a independência de Israel
As guerras contra os amonitas
A fon te histórica: a narrativa da sucessão
Considerações cronológicas
Davi e Mefibosete
A grande fome
A causa do conflito
Os aliados dos amonitas
Os arameus
Moabe e Edom
A derrota dos amonitas
A derrota de Edom
O início dos problem as fam iliares de Davi
A violação de Tamar
A vingança de Absalão
Jerusalém como centro do culto
Mélquiseãeque, Jerusalém e o sacerdócio real
Davi como sacerdote
A rebelião de Absalão
A ocasião
O exílio de Davi
A morte de Absalão
Os esforços de Davi para reconciliação
Proposta a Judá
Apelos feitos a Benjamim
M ais problem as para Davi
A rebelião de Seba
O infeliz recenseamento
O plano de Davi para construir um templo
Os motivos de Davi
A resposta de Yahzveh: a aliança davídica
A singularidade do reinado de Davi
Preparativos para o templo
A sucessão salomônica
A burocracia davídica
Militar
Civil
Religiosa
264 H istória de I srael s o A ntigo T estamento

0 E g ito e a in d e p e n d ê n c ia de Isra e l

Uma importante razão para a rápida ascensão de Davi e seu reino


israelita foi a falta de interferência das principais potências, especialmen­
te os egípcios. O reino do Nilo estava, na ocasião, no período conhecido
por Terceiro Período Intermediário (ca. 1100-650).1 Com apenas poucas
exceções, os reis por toda aquela longa era foram impotentes em relação à
política internacional aventureira. Os registros de Psusennes I (1039-991),
da 21a Dinastia, que foi contemporâneo de Saul e Davi, não falam de ne­
nhuma campanha militar especial na Palestina, embora revelem suas rea­
lizações culturais e domésticas.2 Portanto, Saul e Davi não precisaram te­
mer o Egito e, da mesma forma, os filisteus também assim se sentiam. O
sucessor de Psusennes, Amenemope (993-978), foi ainda menos ativo in­
ternacionalmente, e não pode se comparar ao antecessor Psusennes nas
realizações culturais. Mas pode ser que tenha ele sido o rei que ofereceu
refúgio para Hadade, rei de Edom, o qual Davi forçou a partir para o exí­
lio (1 Rs 11.14-22). A conquista de Edom não pode ser datada com preci­
são. Entretanto, conforme será discutido mais tarde, essa deve ter ocorri­
do antes de 980 e, portanto, dentro do período de Amenemope.3 A rainha
Tahpenes, cuja irmã casou-se com o rei Hadade (1 Rs 11.19) deve ter sido
mulher de Amenemope, ou mais propriamente Siamun, embora seu nome
não esteja claramente registrado.4
Siamun (978-959), um construtor expedito, era mais interessado em
diplomacia do que em explorações militares. Foi provavelmente ele que
deu a filha em casamento a Salomão, algum tempo depois do terceiro ano
do rei de Israel (967 - 1 Rs 2.39; 3.1), presenteando à filha a cidade de
Gezer como seu dote (1 Rs 9.16). Em algum ponto no início de seu reina­
do, ele arrancou a cidade de Gezer das mãos dos filisteus e matou seus
habitantes cananeus. Pode ser que Davi tenha contribuído com os egípci­

1 Para uma discussão mais detalhada acerca do tema, ver Kenneth A. Kitchen, The Third
Intermediate Períod in Egypt (1100-650 B.C.) (Warminster: Aris and Phillips, 1973).
2 Donald B. Redford, "Studies in Relations Between Palestine and Egypt During the First
Millennium B.C. II. The Twenty-second Dynasty," JAOS 93 (1973): 4
3 A cronologia desse período no Egito é extremamente complicada, visto que as fontes
são bastante contraditórias e incompletas. De qualquer forma, é pouco relevante aqui se
o faraó em vista era Amenemope ou Siamum. Ver J. Cerny, "Egypt: From the Death of
Ramesses III to the End of the Twenty-first Dynasty," em Cambridge Ancient History, 3a
ed., editado por I.E.S. Edwards et al. (Cambridge: Cambridge University Press, 1975),
vol. 2, parrte 2, pp. 644-49.
4 Pierre Montet, Egypt and the Bible (Philadephia: Fortress, 1968), pp. 38-39.
0 * . t: O s A nos de L uta 265

os na ocasião para a tomada de Gezer (1 Cr 20.4).5 Caso tenha sido assim,


a ação ocorreu depois de 978, o primeiro ano de Siamun, e também na
mesma época em que a arca da aliança foi levada para Jerusalém. Esta tese
ganha bastante credibilidade quando observado que a atitude de Davi de
ajudar os egípcios na conquista de Gezer indiretamente o beneficiava tam­
bém, pois a destruição dos filisteus seria um fator positivo para que a arca
fosse trazida para Jerusalém. Isso também explica como um rei egípcio
relativamente fraco conseguiu penetrar tão profundamente em Canaã sem
uma oposição israelita.
A parte esse incidente, nada é conhecido acerca de um envolvimento
egípcio na Palestina durante todo o período da unificação da monarquia
israelita. A aparente indiferença não apenas permitiu aos filisteus manter
sua independência, mas também permitiu que Davi e Salomão criassem
uma poderosa política em Israel que, por fim, tornou-se um alvo para qual­
quer competidor internacional.

A s g u e rra s c o n tra os a m o n ita s

A fonte histórica: a narrativa da sucessão

O primeiro conflito de grandes dimensões que envolveu a nação de


Israel, depois da ocupação da cidade de Jerusalém, foi com os amonitas e
seus aliados arameus. O assunto é introduzido logo no início da longa
seção de 2 Samuel, conhecida como a narrativa da sucessão (2 Sm 9-20; 1
Rs 1-2), assim chamada porque o principal tema parece ser a preparação
de Davi para que seu herdeiro o suceda no trono. Virtualmente, todos os
estudiosos concordam que este é um dos exemplos mais elegantes na histó­
ria escrita do Oriente Médio.6 Ele é ao mesmo tempo uma obra de arte da

; Ronald J. Williams, "The Egyptians," em Peoples of Old Testament Times, editado por D.J.
Wiseman (Oxford: Clarendon, 1973), pp. 94-95. Quanto às dificuldades cronológicas
referentes à identidade desse faraó, ver Redford, "Studies in Relations," JAOS 93 (1973):
5. Quanto à possibilidade do faraó ter sido Psusennes II, ver Abraham Malamat, "The
Kingdom of David and Solomon in Its Contact with Egypt and Aram Naharaim," em
Biblical Archaeologist Reader, editado por Edward F. Campbell, Jr. e David Noel Freedman
(Garden City, N.Y.: Doubleday, 1964), vol. 2, p. 93.
' Ver especialmente J.R Fokkelman, Narrative Art and Poetry in the Books of Samuel, vol. 1,
King David (Assen: Van Gorcum, 1981), e a literatura nele citada. A visão com um acerca
da natureza e da extensão da narrativa da sucessão originou-se com Leonhard Rost, Die
Überlieferung von der Thronnachfolge Davids, BWANT 3.6 (Stuttgart: W. Kohlhammer, 1926).
Outros tratamentos bem interessantes do assunto estão em R. A. Carlson, David, the Chosen
266 H istória de I srael no A ntigo T estamento

biografia que combina de forma magistral as muitas intrigas e conspira­


ções, cenas de brilho sem igual, e com muita beleza, culminando com per­
feitas finalizações.7
O centro de toda a narrativa encontra-se no nascimento de Salomão e
nos acontecimentos que marcaram seu surgimento como o herdeiro do
trono de Israel.8 Seu nascimento ocorreu porque Davi, que deveria estar
liderando seus exércitos contra os amonitas, permaneceu em casa, caindo
em um relacionamento adúltero com Bate-Seba. Embora o filho gerado
tenha morrido, Davi e Bate-Seba tiveram mais tarde Salomão. Portanto, os
detalhes que envolvem a campanha dos amonitas em 2 Samuel estão rela-

King (Uppsala: Almquist & Wiksells, 1964); David M. Gunn, The Story of King David:
Genre and Interpretation, JSOT suplemento 6 (Sheffield: University of Sheffield, 1978);
Roger N. Whybray, The Succession Narrative: A Study of II Samuel 9-20 and 1 Kings 1 and 2,
Studies in Biblical Theology, 2a série, vol. 9 (Naperville, 111.: Alec R. Allenson, 1968);
Ernst Würthwein, Die Erzählung von derThronfolge Davis, Theologische Studien (B) 15
(Zurich: Theologischer Verlag, 1974). Nem todos os estudiosos concordam com as teses
e limites traçados por esses pesquisadores. De fato, alguns duvidam que tal unidade
independente sequer realmente existiu. Ver o alerta consciente de Peter R. Ackroyd,
"The Succession Narrative (so-called)," Interp. 35 (1981): 383-96. Tais debates, entretan­
to, em nada afetam o valor do material histórico e da narrativa apresentada nesse traba­
lho. Para uma análise positiva da narrativa como verdadeiramente histórica, ver Moshe
Weinfeld, "Literary Creativity," em World History of the Jewish People, vol. 5, The Age of
the Monarchies: Culture and Society, editado por Abraham Malamat (Jerusalém: Massada,
1979), pp. 41-43.
7 Quanto a um estudo interessante de algumas variedades de gênero dentro do corpus
maior, ver George W. Coats, "Parable, Fable and Anedocte: Storytelling in the
Succession Narrative," Interp. 35 (1981): 368-82. Coats presta uma atenção especial à
parábola de Natã (2 Sm 12.1-4), a qual ele prefere chamar de fábula, e à anedota
contada pela sábia mulher de Tecoa (2 Sm 14.5-7). David M. Gunn afirma que a real
existência de tais gêneros implica em uma base de transmissão oral para toda a com­
posição e, portanto, determina a falta de confiabilidade histórica ("Traditional
Composition in the Succession Narrative," VT 26 [1976]:214-19). Quanto à uma res­
posta convincente a esse argumento, embora bastante cético com respeito aos deta­
lhes, ver John Van Seters, "Problems in the Literary Analysis of the Court History of
David," JSOT 1 (1976):22-29.
8 Whybray, Succession Narrative, pp. 19-21; J. Alberto Soggin, A History of Ancient Israel
(Philadelphia: Westminster, 1984), p. 43; Tomoo Ishida, "Solomon's Succession to the
Throne of David - A Political Analysis," em Studies in the Period of David and Solomon
and Other Essays (Winona Lake, Ind.: Eisenbrauns, 1983), pp. 175-76; P. Kyle McCarter,
Jr. "Plots, True or False: The Succession Narratives as Court Apologetic," Interp. 35
(1981): 355-67. Quanto a pontos de vista contrários, ver Ishida, "Solomon's Succession,"
p. 175, n.2.
0v.;; Os A nos de L uta 267

donados com os principais acontecimentos que seguem a ordem da nar­


rativa e, é claro, com a história de Israel.9

Considerações cronológicas

Davi e Mefíbosete
O cenário cronológico da luta contra os amonitas, descrito em 2 Samuel
10, já foi tratado abreviadamente. Foi sugerido que o acontecimento deve
ter ocorrido logo assim que Davi tomou posse da cidade de Jerusalém
(1004), porque Hanum, filho de Naás, havia recentemente assumido o
poder em Amom. Outra pista cronológica é encontrada em 2 Samuel 9,
que muitos estudiosos consideram ser parte integral na ordem da narrati­
va. O capítulo, que precede imediatamente o relato da guerra diz respeito
ao pedido de Davi quanto à possibilidade de haver algum sobrevivente
da casa de Saul, a fim de que pudesse exercer misericórdia em seu favor
por causa de Jônatas. Tal pedido poderia soar como um cinismo, já que era
do interesse de Davi cultivar uma boa política com os que apoiavam o rei
Saul, os quais ainda perfaziam um grande número em Israel. Mas qual­
quer que tenha sido a intenção de Davi, um servo de Saul chamado Ziba
informou a Davi que o filho de Jônatas, Mefibosete, ainda estava vivo e
morando em Lo-Debar (Umm ed-Dabar?), cerca de dezesseis quilômetros
a sudeste do mar de Quinerete.10 Davi mandou buscá-lo, estabeleceu-lhe
uma pensão pública e instruiu o servo Ziba e sua família que o atendes­
sem em todas as suas necessidades.11
Essa história, além de fundamentar a subseqüente aceitação de Davi
por parte dos benjamitas, auxilia a determinar alguns limites cronológi­
cos. Um texto anterior, quase parentético, mostra que Mefibosete era da
idade de cinco anos quando Jônatas morreu em Gilboa. Naquela ocasião,

Hans W. Hertzberg, 1 & 11 Samuel (Philadelphia: Westminster, 1964), p. 303. A ligação


entre a hostilidade dos amonitas e a narrativa da sucessão como um todo é bem traba­
lhada em John I. Lawlor, "Theology and Art in the Narrative of the Ammonite War (2
Samuel 10-12)," GTJ 3 (1982): 193-205.
Yohanan Aharoni and Michael Avi-Yonah, Macmillan Bible Atlas (New York: Macmillan,
1968), p. 180
Política semelhante a essa provisão para os descendentes de Saul concedidas por Davi,
por suas prerrogativas reais e por sua liberalidade, estão confirmadas nos textos
ugaríticos; ver Anson F. Rainey, "The System of Land Grants at Ugarit in Its Wider
Near Eastern Setting," Fourth World Conference on Jewish Studies (Jerusalem, 1967),
p. 190.
268 H istória de I srael no A ntigo T estamento

a criada, em uma tentativa de fuga, tropeçou e deixou a criança cair no


chão, aleijando-a em suas duas pernas (2 Sm 4.4). A questão aqui é que
Mefibosete estava com cinco anos de idade em 1011; logo, ele nascera em
1016. Em 1004, ano em que Davi tomou a cidade de Jerusalém, Mefibosete
estava apenas com doze anos de idade. Tinha já ele um filho quando o rei
ordenou que fosse assistido em suas necessidades (2 Sm 9.12). E precário
construir um caso sobre uma data subjetiva; mas dado a propensão para
casamentos em idades tenras no antigo Israel, é razoável supor que
Mefibosete estivesse com aproximadamente vinte anos de idade na épo­
ca, e que a data de seu retomo foi aproximadamente 996.

A grande fom e
A metade dos anos 990 parece o cenário perfeito para a terrível fome
que assolou a Palestina da época, e que se encontra registrada em 2 Samuel
21.1- 14. A razão por que tal episódio aparece nesse local do texto, ou seja,
fora da ordem cronológica, é que a história da fome encaixa-se melhor em
um outro acontecimento de natureza semelhante, e que está registrado no
capítulo 24. Tudo o que separa as duas histórias são resumos das guerras
filistinas (21.15-22), o cântico de louvor de Davi (22.1-51), o discurso de
despedida (23.1-7), e a lista de seus heróis (23.8-39). O plano do historia­
dor, mais uma vez, é determinado por tópicos, e não por uma ordem cro­
nológica.
Há várias razões para acreditar que o relato mencionado em 2 Samuel
21.1- 14 encaixa-se melhor entre a chegada de Mefibosete a Jerusalém e o
início das guerras contra os amonitas. Em primeiro lugar, a fome devas­
tou a terra porque Saul feriu terrivelmente os gibeonitas (um evento não
mencionado de outra forma), o que representou uma brecha na aliança
estabelecida entre Josué e aquela cidade séculos antes (Js 9.15-20). Parece
pouco provável que a retribuição tivesse sido adiada até os últimos anos
de Davi. Além disso, o preço que os gibeonitas exigiram de Davi para que
a fome viesse a cessar, seria a morte de sete filhos de Saul ou netos. O
preço incluiria dois filhos de Rizpá, concubina de Saul, e cinco filhos de
sua filha Merabe.12 Os sete foram enforcados pelos gibeonitas no início da
colheita da cevada. Rizpá manteve-se junto aos cadáveres dia e noite até
que voltou a chover e a seca foi quebrada. A não ser que seja aceito aqui

12 O texto massorético aqui está escrito "Mical" em vez de "Merabe" (2 Sm 21.8), talvez,
como S. R. Driver sugere, um lapsus calami (cf. 1 Sm 18.19) (Notes on the Hebrew Text and
the Topography ofthe Books o f Samuel, 2a ed. [Winona Lake, Ind.: Alpha, 1984 reedição] p.
352). ,
D avi: O s A nos de L uta 269

uma senhora idosa que, mui amorosamente guardava os corpos de seus


filhos de meia-idade, uma interpretação que forçaria a datar o incidente
nos últimos dias da vida de Davi, deve-se necessariamente admitir uma
data mais antiga.
A data mais antiga é confirmada também pela reação de Davi à devoção
de Rizpá aos cadáveres de seus filhos - ele mandou buscar em Jabes-Gileade
os ossos de Saul e Jônatas, juntando-os aos corpos dos enforcados, de forma
que pudesse dar-lhes um enterro com todas as honrarias de praxe. É difícil
imaginar que Davi esperaria por quarenta anos depois da morte deles para
então dar-lhes um sepultamento digno, ainda mais sabendo que era hora
do rei tentar ganhar de todas as formas a lealdade dos benjamitas, bem como
das demais tribos do norte. De fato, a retirada dos ossos da cidade de Jabes-
Gileade aconteceu alguns anos depois que o próprio Davi parabenizou aque­
les homens pelo que fizeram ao corpo de Saul, uma mensagem que ele en­
viou logo que passou a reinar em Hebrom (2 Sm 2.4-7).
Mesmo assim, a seca não poderia ter acontecido antes do estabeleci­
mento de Jerusalém como capital da nação e do benefício feito por Davi a
Mefibosete. Isso fica claro pelo fato de que Mefibosete fora poupado por
Davi de ser enforcado pelos gibeonitas, uma circunstância que pressupõe
a presença de Mefibosete com Davi.
O melhor ponto de vista parece ser aquele dos três anos de fome ocor­
ridos por volta de 996-993. Mefibosete, conforme já sugerido, tinha idade
suficiente para ter um filho ainda moço. Além disso, as guerras amonitas,
conforme se verá adiante, tiveram de começar por volta de 993, mas não
muito antes. É provável que os amonitas não estivessem com medo de
Davi por causa da terrível seca que devastara a nação, deixando-a
enfraquecida e empobrecida, embora seja isso tudo mera especulação.
Contudo, uma coisa está clara, isto é, se nossa reconstrução estiver corre­
ta. Quando Davi entregou aqueles sete homens nas mãos dos gibeonitas,
estava, na realidade, minando ainda mais suas tentativas de reconciliação
com os benjamitas. O mínimo que ele pôde fazer foi devolver os corpos de
Saul e Jonatas para Benjamim, na esperança de poder aplacar os senti­
mentos feridos das tribos do norte.

A causa do conflito

Nesse tempo Naás, rei de Amom, morreu e foi sucedido por seu filho
Hanum. Infelizmente nenhum dos dois indivíduos foi registrado em fontes
extrabíblicas, de forma que não se pode conhecer mais nada acerca deles,
senão o que está escrito em Samuel e Crônicas. De fato, a história antiga dos
270 H istória de I srael no A ntigo T estamento

amonitas praticamente só pode ser reconstituída através do Antigo Testa­


mento, a não ser quando alguns artefatos incidentais são encontrados.13 Os
amonitas vinham sendo uns dos opressores do povo de Israel (1124-1106)
mesmo antes dos dias de Jefté (1106-1100), e nos dias deste juiz reivindica­
ram o direito de possuir de volta uma terra que já vinha sendo habitada por
Israel por trezentos anos. Não há dúvidas de que eles já tinham habitado o
leste do Jordão desde tempos imemoráveis, até que foram forçados pelos
amoritas a mudar-se para longe dali. Em todo caso, Jefté levantou-se e for­
çou-os novamente a permanecer nos desertos ao leste. Uma outra tentativa
de reivindicar os territórios no oeste ocorreu na época em que Naás reinava,
durante os primeiros anos de Saul (ca. 1050 - 1 Sm 11). Mais uma vez os
amonitas foram derrotados, embora não haja registros que confirmem sua
expulsão para o leste. Aparentemente, permaneceram ao sul do Jaboque,
tendo estabelecido sua capital em Rabá (a moderna Amman, Jordânia). Lá
concentravam-se nos dias de Davi.
Parece que Davi, quando subiu ao trono de Saul, foi congratulado pelo
rei Naás (2 Sm 10.2). Isto não é de causar surpresa, considerando a animo­
sidade entre Naás e Saul. Talvez o rei Naás esperasse que Israel se com­
portasse de forma amigável, já que o rei era Davi, aparentemente um ad­
versário de Saul. Quando o filho de Naás, Hanum, o substituiu no trono,
Davi retribuiu a cortesia manifestada por Naás, enviando a Rabá uma
missão para congratular-se com aquele novo monarca. Porém, as inten­
ções de Davi foram mal interpretadas, e seus oficiais vergonhosamente
tratados e despachados de volta para casa. Tal atitude não podia ser to­
lerada, de forma que Davi enviou Joabe e seu exército até Rabá para vin­
gar-se da afronta.

Os aliados dos amonitas

Os arameus
Estava mais do que evidente a Hanum que havia ele cometido um gra­
ve erro e que, a partir de agora, teria de buscar ajuda, caso ainda quisesse

13 Quanto a uma síntese geral, ver George M. Landes, "The Material Civilization of the
Ammonites," em Biblical Archaeologist Reader, vol. 2, pp. 69-88. Com respeito aos poucos
textos amonitas que restaram, nenhum é mais antigo do que a época da monarquia no
Israel unificado. Ver Dennis Pardee, "Literary Sources for the History of Palestine and
Syria II: Hebrew, Moabite, Ammonite, and Edomite Inscriptions," AUSS 17 (1979): 66­
69. Ver também B. Oded, "Neighbors on the East," em World History ofthe Jewísh People,
vol. 4, parte 1, pp. 258-62.
D avi: O s A nos de L uta 27]

permanecer vivo. Para isso alugou os serviços dos arameus de Bete-Reobe


e de Zobá, bem como os pequenos reinos de Maaca e Tobe.14
Bete-Reobe era o nome tanto de uma cidade quanto de um estado, sen­
do este impossível de identificar. O reino situava-se no grande vale de
Ba ca, entre as cadeias montanhosas do Líbano e Anti-Líbano, que se es­
tendia de Dã ao sul até o reino de Zobá, no norte.15 A destruição dos hititas
pelos Povos do Mar em cerca de 1200, associada ao rápido declínio da 20a
Dinastia Ramessida, do Egito, tinha deixado a Síria e a alta Mesopotâmia
praticamente nas mãos dos assírios. Devido às necessidades internas de
se tratar com a recentemente imposta Dinastia Babilónica Pós-Cassita e
também com os elamitas, os assírios se viram forçados a permanecer onde
estavam, não se movendo em direção oeste, para tomar proveito do vácuo
político criado na Síria até os dias de Tiglate-pileser I (1115-1077). Ele mar­
chou sobre a Síria para desfazer o crescente reinado político e militar dos
arameus ou qualquer outro que estivesse no caminho.16 Por volta de 1100
os arameus começaram a infiltrar-se na baixa Mesopotâmia de forma mais
forte, e não muito tempo depois um rei de origem araméia assumiu o tro­
no da Babilônia. Esse governante, Ada-apla-iddina (1067-1046), foi o pri­
meiro de uma série de muitos outros arameus que ocupariam os palácios
reais na Mesopotâmia.17 De fato, o grande império caldeu de Nabucodo-
nosor, quinhentos anos depois, teve suas origens na Síria.
Tiglate não pôde dominar as cidades-estados araméias, porque teve de
retirar-se do conflito, em vista da crescente hostilidade babilónica em sua
terra. Ainda que outros reis assírios, como Assur-bel-kala (1074-1057) fi­
zessem esporádicas incursões para o interior da Síria, as cidades-estados
permaneceram na maior parte livres para desenvolver-se, até a ascensão
de Israel sob Davi.18
Zobá parece ter sido o mais forte dos reinos arameus estabelecidos ao
sul. Saul já havia pelejado contra alguns de seus reis (1 Sm 14.47), mas foi
somente durante o reinado de Davi que Zobá, governada na ocasião por

14 Para um relato sucinto sobre o relacionamento de Israel com seus vizinhos ao norte no
período de Davi, ver Benjamim Mazar, "The Aramaean Empire and Its Relations with
Israel," em Biblical Archaeologist Reader, vol. 2, pp. 131-33.
15 Merrill F. Unger, Israel and the Aramaeans of Damascus (Grand Rapids: Baker, 1980,
reedição), p. 42.
16 Albet Kirk Grayson, Assyrian Royal Inscriptions (Wiesbaden: Otto Harrassowitz, 1976),
vol. 2, #4, pp. 89-97.
17 D.J. Wiseman, "Assyria and Babylonia c. 1200-1000 B.C.," em CAH 2.2, pp. 466-67.
18 Yutaka Ikeda, "Assyrian Kings and the Mediterranean Sea: The Twelfth to Ninth
Centuries B.C.," Abr-Nahrain 23 (1984-85): 23.
H istória df. I srael no A ntigo T estamento

Hadadezer, filho de Reobe, alcançou seu zénite. Seu território estendeu-se


desde Bete- Reobe, ao norte, alcançando a Hamate, situada a noroeste da
cadeia montanhosa do Anti-Líbano, até o Tadmor, e ao sul até Damasco.19
Dessa forma, Hadadezer fez-se uma figura notável, e provavelmente a ele
Salmaneser III (858-824) referiu-se como o rei dos "amuru", que havia se
apoderado de territórios assírios que pertenciam ao rei Assur-rabi II (1013-
973).20 Esses dados encaixam-se muito bem com a narrativa bíblica que
informa ter Hadadezer chamado algumas de suas tropas "dalém do rio"
(i.e., o Eufrates) para lutar contra o rei Davi (2 Sm 10.16).
Naqueles anos os reinos de Maaca e Tobe eram pequenos tributários
de Zobá (2 Sm 10.6,19). O primeiro localizava-se ao leste do lago Hulé e
o último ao leste e sudeste do mar de Quinerete. Não há nenhuma outra
informação acerca deles.21 Damasco, embora mencionado no resumo de
2 Samuel 8, não era nessa época um importante reino, apesar de, é claro,
ter sido a principal cidade séculos antes de Davi. Realmente ela tornou-
se o centro do poderio e influência arameus até o fim do reinado de
Salomão.

Moabe e Edom
Moabe, cuja opressão acabou culminando no surgimento do juiz Eúde,
no início do décimo terceiro século (Jz 3.12-30), aparentemente deslocou
ou viveu entre os israelitas da tribo de Rúben e Gade, ao leste do Jordão,
desde aquela época em diante. O território moabita era muito flutuante,
mas geralmente se localizava ao leste do Jordão, ao norte do rio Zerede e
ao sul do Arnom.22 E impossível saber qualquer coisa acerca da força e
estabilidade de Moabe nos anos que antecederam o rei Davi, mas é certo
que Gideão evitou a área sul do Jaboque, imediatamente a leste do Jordão,
quando perseguia os príncipes midianitas, o que talvez possa significar
que ele reconhecia no lugar um território dos moabitas. Davi, no início de
seu exílio (ca. 1020), enviou sua família para encontrar refúgio junto ao rei
de Moabe em Mispa, um local que infelizmente não pode mais ser identi­
ficado (1 Sm 22.3,4). Sem as referências bíblicas, o reino dos moabitas des­
se período permanece um mistério.23

19 Unger, Israel and the Aramaeans, p. 43.


20 J.D. Hawkins, "The Neo-Hitite States in Syria and Anatolia," em CAH 3.1, pp. 391-92.
21 Unger, Israel and the Aramaeans, p. 45.
22 Yohanan Aharoni, The Land of the Bible (Philadelphia: Westminster, 1979), p. 295; Oded,
"Neighbors on the East," em World History of the ]eivish People, vol. 4, parte 1, p. 256.
23 A.H. VanZyl, The Moabites (Leiden: E.J. Brill, 1960).
f
D a v i: O s A nos de L uta 273

Pouca coisa se sabe acerca de Edom.24 Esse reino, localizado nos pla­
naltos relativamente isolados do leste e do sul do mar Morto, tinha sido
governado pela dinastia de reis desde Esaú. Moisés tinha passado pelo
lado de Edom; seus territórios foram postos de lado e não foram conquis­
tados pelos israelitas na ocupação da Terra Prometida. A única referência
a Edom entre o período mosaico e o de Davi é 1 Samuel 14.47 que diz que
Saul lutou com Edom. Saul obteve alguma vantagem sobre os edomitas
porque alugou um assassino edomita chamado Doegue. Não é possível
determinar se isso implica em que Edom tenha sido um estado vassalo de
Israel.

A derrota dos amonitas

Voltando às guerras amonitas travadas por Davi, encontramos Joabe


cercando a cidade de Rabá (2 Sm 10.6-14). As tropas amonitas guardavam
seus portões enquanto os aliados arameus, cerca de trinta e três mil, reuni­
am-se nos campos vizinhos. A distribuição dos adversários acabou encur­
ralando Joabe, de modo que este decidiu dividir seu exército em duas par­
tes: os melhores homens ficaram com ele para atacar os arameus, ao passo
que o restante dos soldados estariam sob as ordens de seu irmão Abisai, e
atacariam os amonitas. A estratégia deu certo: os arameus fugiram para o
norte, e os amonitas recuaram e se abrigaram em cidades muradas. Foi
assim que Joabe desistiu de persegui-los e voltou para Jerusalém.
Em um segundo episódio, o rei Hadadezer mandou chamar seus ho­
mens que estavam além do Eufrates e os enviou para a guerra contra Isra­
el em Elam ('Alma), sob as ordens de seu general Shobach, cerca de 64
quilômetros a leste do mar de Quinerete. Davi conseguiu uma esmagado­
ra vitória, ferindo os exércitos dos arameus, inclusive o general. O resulta­
do foi a capitulação não apenas de Hadadezer, mas também de todos os
estados vassalos a ele ligados. Assim começou Davi a esculpir seu próprio
império, embora esta não pareça ter sido a sua intenção original.
Tanto um resumo quanto uma ampliação das conquistas feitas por Davi
contra os arameus estão registrados em 2 Samuel 8. Nesta passagem o
historiador declara que dos quarenta mil mortos (2 Sm 10.18), vinte mil
eram de Zobá e vinte e dois mil de Damasco.25 Ele acrescenta ainda que

24John R. Bartlett, "The Moabites and Edomites," em Peoples of Old Testament Times, edita­
do por D.J. Wiseman, pp. 229-58.
25 Quanto ao problema de harmonizar as cifras em 2 Samuel 8 e 10 com o registro em 1
Crônicas 18, ver o trabalho de Eugene H. Merrill, "2 Samuel" em The Bible Knowledge
274 H istória de I srael no A ntigo T estamento

Davi tributou a cidade de Damasco e tomou os seus escudos de ouro per­


tencentes aos oficiais do rei, assim como o bronze das cidades que eram
sujeitas a Hadadezer. Os metais, diz o cronista, Salomão utilizou na con­
fecção de artigos para o templo (1 Cr 18.7,8).
A submissão de Hadadezer ocasionou a rendição voluntária de Tou,
rei de Hamate. Inimigo de Hadadezer, talvez Tou tenha se entregado com
vista a obter proteção. A sinceridade de Tou foi expressada através dos
presentes em ouro, prata e bronze, enviados pessoalmente por seu filho
Jorão. Esses metais Davi também guardou para o futuro serviço a Yahweh.
Praticamente todo o Arã estava agora sob a hegemonia de Israel, em­
bora o problema amonita ainda não estivesse totalmente resolvido. Mais
uma vez a cidade de Rabá foi atacada, mas Davi permaneceu em casa.
Enquanto desfrutava da tranqüilidade de Jerusalém, o rei se viu espiando
Bate-Seba, mulher de seu vizinho, que se banhava completamente à vista
do telhado do palácio real. Tomado pela cobiça, mandou trazer a mulher à
sua presença e consumou o adultério. Quando depois soube que a mulher
estava grávida, Davi mandou trazer da batalha o seu marido, Urias, que
pelejava em Rabá, a fim de que parecesse ser o pai da criança. Quando o
plano de trazer Urias para os braços de sua esposa fracassou, Davi imedi­
atamente ordenou ao general que colocasse Urias na linha de frente, onde
a luta estivesse mais árdua para que ali morresse. Depois que a criança
nasceu, o profeta Natã informou ao rei Davi que a espada jamais se afasta­
ria de sua casa. A criança então morreu, como evidência clara do juízo de
Deus, mas Yahweh, por sua graça, permitiu que Salomão nascesse mais
tarde de Bate-Seba e assim preparou o caminho para a sucessão dinástica.
Enquanto isso Joabe derrotava as tropas dos amonitas no campo e, mais
uma vez, sitiou a cidade de Rabá (2 Sm 12.26-31). Não há dúvida de que,
nesse período da história, os moabitas estavam sob o domínio de Israel,
uma vez que Davi, provavelmente, teve de atravessar o território moabita
para alcançar a cidade de Rabá vindo de Jerusalém. A luz do parentesco
com os moabitas, é difícil entender o porquê de Davi ter-lhes dado um
tratamento áspero (2 Sm 8.2,12), ou, da mesma forma, de os moabitas te­
rem se unido aos amonitas contra Israel, interferindo-se nos objetivos mi­
litares de Davi. A queda de Rabá resultou no mesmo tratamento dado aos
amonitas. Davi os tornou escravos e talvez tenha lhes dado uma represá­
lia bastante severa (2 Sm 12.31).

Commentary, editado por John F. Walvoord e Roy B.Zuck (Wheaton, 111.: Victor, 1985),
vol. 1, pp. 465,467; Gleason L. Archer, Jr., Encyclopedia ofBíble Difficulties (Grand Rapids:
Zondervan, 1982), p. 184.
£)*«:: Os A nos de L uta 275

A derrota de Edom

As campanhas militares de Davi contra Edom devem ter sido realiza­


das durante o período que antecedeu o nascimento de Salomão. É prová­
vel que os edomitas tenham feito alianças políticas e militares com os
moabitas e amonitas contra Israel, a fim de poderem impedir a penetração
de Davi no interior da Transjordânia, pois, mesmo sendo a campanha na
ocasião dirigida contra os amonitas, os moabitas e edomitas estariam sen­
do igualmente ameaçados. O tempo pode ser melhor determinado em 1
Reis 11.14-22, que descreve a fuga do príncipe edomita Hadade para o
Egito. No resumo das guerras de Davi, em 2 Samuel 8, o historiador indi­
ca que Davi havia esmagado dezoito mil edomitas no vale do Sal (Vadi el-
Milh), que estava situado no Negueve, próximo a Berseba e Arade. Isto
pode ser uma indicação de que os edomitas se lançaram em uma ofensiva
direta contra Israel vindos do sul, visto que o vale estava sob o controle
israelita. O cronista acrescenta que a vitória israelita, na verdade, só foi
concretizada com a atuação de Abisai, que foi o responsável pelo estabele­
cimento de guarnições em Edom. Foi ele, inclusive, quem obrigou os
edomitas a se tornarem vassalos de Davi (1 Cr 18.12,13).
O relato apresentado em 1 Reis não é uma variação de tudo isso, mas
sim um complemento e um relato de eventos subseqüentes. Depois que
Edom foi reduzido à condição de vassalo, parece que Davi e Joabe parti­
ram para o local a fim de sepultar os mortos e colocar um fim na oposição
que ainda restava. Alguns membros da família real de Edom, incluindo
Hadade, conseguiram escapar rumo ao Egito, onde encontraram uma cor­
dial hospitalidade. Mais tarde Hadade retornou para Edom e mostrou ser
o maior responsável da queda de Salomão. Mas por enquanto só é impor­
tante notar que o autor de Reis descreve Hadade como "apenas um meni­
no" na época de seu exílio. Então, após alcançar a maioridade, casar-se e
tornar-se pai de um menino, voltou para Edom pouco tempo depois da
morte de Davi (1 Rs 11.20-22). Esse período da vida de Hadade deve ser
datado por volta de 969. Uma boa época para se datar sua fuga para o
Egito seria 993, data que tem sido vista como o tempo das guerras amonitas.
Portanto, a campanha edomita pode ter sido o fim das guerras contra os
amonitas e arameus (2 Sm 10).
O cenário pode ser reconstruído da seguinte maneira: Quando Joabe
foi enviado para Rabá a fim de completar o cerco da cidade (2 Sm 12.26­
28), Abisai, seu irmão, foi simultaneamente para o vale do Sal combater
uma invasão edomita (1 Cr 18.12,13). Depois de serem alcançados ambos
os objetivos, Davi, que foi pessoalmente a Rabá com o intuito de supervi­
276 H istória de I srael no A ntigo T estamento

sionar a queda, partiu para Edom com Joabe a fim de completar a con­
quista iniciada por Abisai. Então os edomitas tornaram-se um estado tri­
butário de Israel, mas antes a família real edomita conseguira escapar para
o Egito.

O in ício d o s p ro b le m a s fa m ilia re s d e D a v i

Foi depois de todas as vitórias no exterior, de acordo com 2 Samuel,


que a família de Davi passou a ser um foco de problemas - incluindo um
estupro e um assassinato - que quase custou a Davi sua coroa e compro­
meteu a sucessão de Salomão. Os problemas surgiram depois do nasci­
mento de Salomão, filho de Davi e Bate-Seba, cujo adultério foi a principal
causa do tumulto (2 Sm 12.10-14). Já foi sugerido que Salomão tinha vinte
anos quando começou a reinar, de forma que deve ter nascido em cerca de
991. Depois desta data começaram os problemas familiares de Davi. Uma
implicação de tudo isso é que, se a primeira metade do reinado de Davi foi
caracterizada pela bênção e sucesso, a segunda foi marcada pelas dores de
cabeça e derrota.

A violação de Támar

A primeira evidência de que a espada não se apartaria da casa de Davi (2


Sm 12.10) foi, sem dúvida, a violação cometida por Amnom contra sua meia-
irmã Tamar. Nascido de Ainoã, a jezreelita, Amnom era o filho mais velho
de Davi (2 Sm 3.2). Visto que nascera em Elebrom, era um jovem de apro­
ximadamente vinte anos quando forçou a irmã de Absalão e tirou-lhe a vir­
gindade. Ela, aparentemente, nasceu em Jerusalém (1 Cr 3.4-9); portanto,
era muitos anos mais nova que Amnom. Depois de satisfazer a cobiça, a
paixão desmedida pela jovem tornou-se em desprezo, e Amnom recusou-se
a tomá-la como esposa, conforme a lei exigia em tais circunstâncias. Humi­
lhada, Tamar buscou refúgio e consolo em seu irmão mais velho, Absalão.

A vingança de Absalão

Absalão estava furioso e desejoso de vingança, mas percebeu que a


situação precisava ser resolvida com incomum diplomacia. Não seria nada
bom, certamente ponderou, levar o problema a Davi, pois seu pai já havia
comprometido a própria integridade por ocasião do adultério com Bate-
Seba e do assassinato de Urias e, portanto, não faria nada. Além disso,
Amnom era o herdeiro do trono, um fator que o deixava imune a processo
D avi: O s A nos de L uta 277

ou punições. Sendo assim, Absalão deixou a situação arrefecer até que


pudesse divisar uma ocasião oportuna para vingar-se. Nessa época, o de­
sejo de tomar o trono de Israel surgia em Absalão. Destruir a vida de
Amnom não apenas vingaria a honra de sua irmã, mas também abriria
um espaço para que ele sucedesse ao pai no trono.
Davi tomou conhecimento do crime de Amnom e, embora enraivecido,
mostrou-se paralisado em tomar alguma atitude. Talvez tenha imaginado
que seria hipocrisia punir o filho por um pecado semelhante ao seu. Em
todo caso, Absalão por dois anos elaborou um plano que consistia em um
convite a seu pai Davi para uma festa em Baal-Hazor (Tel 'Asür), que fica­
va entre Betei e Siló. Quando Davi disse não poder comparecer, Absalão
insistiu para que enviasse o sucessor em seu lugar. Após Amnom se em­
briagar nas festividades, os assassinos contratados por Absalão o mata­
ram. Depois, Absalão fugiu para seu avô Talmai, rei de Gesur, com quem
encontrou apoio e proteção por três anos.
Já foi defendida aqui uma data próxima a 987 para a violação de Tamar,
985 para o assassinato de Amnom e 985-982 para o exílio de Absalão em
Gesur. Quando Absalão voltou para Jerusalém, uma engenhosa estratégia
de Joabe, permaneceu por mais dois anos (982-980) sem sequer ver o rosto
de seu pai. Foi durante esse tempo que o jovem e belo filho de Davi tor­
nou-se pai de quatro filhos, incluindo uma filha a quem ele deu o nome de
Tamar, começando assim a dar uma boa impressão ao povo de Israel. Por
fim, Joabe conseguiu fazer com que Absalão e Davi se encontrassem, e
houve reconciliação, pelo menos aparentemente. Porém, o espírito de re­
belião já estava entranhado no coração de Absalão e, dentro de quatro
anos, acenderia as chamas da revolução.

Je ru s a lé m co m o ce n tro d o cu lto

É quase certo que durante esse período (980-976) Davi tenha dado iní­
cio ao seu programa de construções (2 Sm 5.9-12), o que incluiria, depois
de tudo pronto, os planos para a edificação do templo. É óbvio que no
reino de Davi houve construções, palácios e edifícios públicos; porém, os
envolvimentos com a expansão do império e os acontecimentos que asso­
lavam sua família impediram a infra-estrutura impressiva característica
de um monarca de sua estatura. A reconciliação com Absalão deu-lhe a
oportunidade esperada, que era transformar a cidade de Jerusalém no cen­
tro religioso e político.
Davi incumbiu Hirão, que tinha acabado de assumir o trono de Tiro,
uma cidade-estado na Fenícia, de prover os materiais e o pessoal especi-
278 H istória de I srael no A ntigo T estamento

alizado para levar avante os projetos de construção.26 Uma vez que a


cidade passou a ter uma aparência mais apropriada para a capital políti­
ca da nação, Davi tomou as devidas providências para transformar a
cidade em um centro religioso. Isso significaria construir um tabernáculo
temporário para adoração e serviço religioso, e a remoção da arca da
aliança de Quiriate-Jearim,27 local onde havia permanecido por cerca de
130 anos.28
Tais medidas não poderiam ser tomadas sem serem sentidas. Em pri­
meiro lugar, não havia qualquer precedente na história de Israel que de­
monstrasse a união religiosa e política da nação em um só local e sob a
liderança de uma única pessoa, pelo menos no período pós-mosaico. O
antecessor de Davi, o rei Saul, fez da cidade de Gibeá sua capital política,
mas não providenciou para que o tabernáculo, durante todo o seu reina­
do, se estabelecesse ali. Obviamente é verdade que Saul agiu em negócios
religiosos de forma semelhante aos monarcas do antigo Oriente Médio, e
os resultados foram desastrosos. O fato é que, sob a liderança de Saul,
Israel não tinha como visualizar o governo político e religioso em uma só
pessoa. Seria diferente sob a liderança de Davi?
Em segundo lugar, o tabernáculo de Moisés estava localizado em
Gibeão, e lá as pessoas, incluindo o próprio Davi, provavelmente reuni­
ram-se para adoração comunitária durante todos os anos de seu reinado
(1 Cr 16.39; 21.29; 1 Rs 3.1-4). Poderia Davi simplesmente remover o
tabernáculo de Gibeão para Jerusalém sem uma específica revelação de
Deus? Provavelmente o tabernáculo tinha sido posto em Gibeão pelo pró­
prio Saul e, visto que a cidade ficava em Benjamim, tribo de Saul, uma
remoção arbitrária realizada por Davi pareceria mal aos habitantes das
tribos do norte. O melhor que Davi poderia fazer - e na verdade foi o que
fez - era deixar o tabernáculo de Moisés por enquanto no mesmo lugar,
em Gibeão, e construir um outro no monte Sião.

26 Para um estudo detalhado acerca do alcance e proporções do programa de construções


do governo de Davi, ver Yohanan Aharoni, "The Building Activities of David and
Solomon," IEJ 24 (1974): 13-16.
27 Baalim de Judá (2 Sm 6.2) pode significar a própria Quiriate-Jearim ou alguma cidade
próxima (Aharoni, Land ofthe Bible, pp. 350-51). Joseph Blenkinsopp sugere que Quiriate-
Jearim pode estar se referindo a "uma área consideravelmente grande", da qual Baalim
fazia parte ("Kiriath-jearim and the Ark," JBL 88 [1969]: 146-47).
28 Como afirma Antony F. Campbell, o propósito maior das narrativas acerca da arca (1
Sm 4-6; 2 Sm 6) é legitimar "a dinastia davídica, a eleição e a teologia de Sião” bem
como demonstrar a rejeição do velho tribalismo em favor da monarquia davídica
("Yahweh and the Ark: A Case Study in Narrative," JBL 98 [1979]: 42-43).
D *vi: O s A nos de L uta 279

A terceira consideração tinha a ver com a relocação da arca da ali­


ança.29 A arca representava a própria presença de Yahweh entre seu
povo. Sem que houvesse uma autorização direta e específica de
Yahweh (e nesse caso não há um claro registro bíblico de uma autori­
zação), qualquer mudança de local poderia ser considerada uma pre­
sunção do rei Davi. A suspeita de tal presunção parecia crescer mais,
especialmente após o trágico episódio envolvendo Uzá e a arca, pois
este desde o início estava no grupo dos que traziam a arca de Quiriate-
Jearim (2 Sm 6.6-8).
Em quarto lugar, mas de forma alguma menos importante, estava o
fato de a cidade de Jerusalém em momento algum da história ter sido
vista como um centro religioso da nação. Desde os tempos patriarcais
até que Davi a conquistou, tinha ela sido dominada pelos pagãos, habi­
tantes de Canaã, e tida como o seu centro religioso, sendo apenas santi­
ficada intermitentemente quando o povo de Deus ali comparecia. Sem
dúvida, então, Davi se valeu da ligação com os patriarcas para justificar
a presença da arca da aliança e do tabernáculo no novo local. De fato,
deve ter sido a ciência da ligação entre Abraão e Jerusalém que o fez
selecioná-la como sua capital. Essa certeza deu a Davi coragem e intrepi­
dez suficientes para, não obstante a oposição que tal decisão viria sofrer,
estabelecer o monte Sião como o novo local permanente da habitação de
Deus na Terra.30

Muitos estudiosos da escola conhecida como "Mito e Ritual" negam a historicidade da


narrativa acerca da arca (1 Sm 4-6; 2 Sm 6), preferindo tê-las como parte de um comple­
xo de mitos que celebravam os triunfos de Yahweh sobre o caos e outros inimigos. Para
uma breve discussão apoiando tais noções, ver Aage Bentzen, "The Cultic Use of the
Story of the Ark in Samuel," JBL (1948): 37-53. Talvez a historicidade das narrativas não
possam ser provadas, mas a existência de objetos semelhantes à arca nos antigos rituais
semíticos de culto, e que foram contemporâneos do Israel da época de Moisés, sem
dúvida rebatem essa forma teológica de pensar na historicidade do texto como um mero
mito; ver William F. Albright, From the Stone Age to Christianity (Garden City, N.Y.:
Doubleday, 1957), pp. 266.
MDavi mesmo articulou sua consciência da escolha de Sião por parte de Yahweh como o
local para construir o palácio e o templo (SI 78.68; 87.2; 132). Quanto a paralelos, ver
Giorgio Buccellati, "Enthronement of the King and the Capital City in Texts from Ancient
Mesopotamia and Syria," em Studies Presented to A. Leo Oppenheím, editado por Robert
M. Adams (Chicago: University of Chicago Press, 1964), pp. 54-61; Baruch Halpen, The
Constitution of the Monarchy in Israel (Chico, Calif.: Scholars Press, 1981), pp. 17-23;
Shemaryahu Talmon, "The Biblical Idea of Statehood," em The Bible World, editado por
Gary Rendsburg et al. (New York: Ktav, 1980), p. 239.
280 H istória de I srael no A ntigo T estamento

Melquisedeque, Jerusalém e o sacerdócio real

O incidente histórico em vista diz respeito ao encontro de Abraão com


Melquisedeque, descrito em Gênesis 14 e mais tarde interpretado teologi­
camente pelo próprio Davi no Salmo 110. Quando retornava da batalha
com os reis do norte de Damasco, da qual saíra vitorioso, Abraão teve um
encontro com o misterioso Melquisedeque, rei de Salem e sacerdote de El-
Elyon, "Deus Altíssimo" (Gn 14.18). Tendo tomado o despojo da guerra,
Abraão pagou o dízimo de tudo a Melquisedeque depois que o sacerdote
o abençoou em nome de El Elyon.
O Salmo 72 diz que Salém é igual a Sião, ou seja, Salém não é outra
senão Jerusalém. Esta interpretação é comum tanto na tradição judaica
quanto na cristã.31 Por outro lado, a identidade de Melquisedeque é
muito mais problemática.32 Alguns estudiosos descartam completamen­
te a historicidade do personagem e sugerem que o conto seja uma es­
pécie de etiologia destinada a legitimar a cidade de Jerusalém como
um local sagrado para os hebreus.33 Outros vêem essa passagem como
o encontro dos primeiros pais de Israel com um sacerdote cananeu que
os conduziu à fé em El.34 Alguns escritores mais conservadores vêem a
figura de Melquisedeque como uma cristofania, ou seja, uma manifes­
tação pré-encarnada de Jesus Cristo. Esse ponto de vista se baseia no
significado do nome Melquisedeque ("rei de justiça"), na sua associa­
ção com Salém (ele era "rei de Salém" ou "rei de paz") e na compara­
ção explícita de Melquisedeque com Jesus, particularmente na epístola
aos Hebreus (7.3, 15-17, etc.).35

31Ver, por exemplo, Artur Weiser, Psalms: A Commentary (Philadelphia: Westminster, 1962),
pp. 524-26. Isso em nada pretende significar um consenso. John G. Gammie defende a
idéia de que Salém não poderia ser Jerusalém, e que a tradição que envolve a pessoa de
Melquisedeque precisa encontrar suas raízes em outro local, quem sabe em Siquém, de
onde a tradição migrou para Siló, Nobe e, finalmente, Jerusalém ("Loci of the
Melchizedeck Tradition," JBL 90 [1971]: 385-96). Tal idéia vai radicalmente contra o que
está escrito no Salmo 76.2 e em outras passagens.
32Para vários pontos de vista, ver Leopold Sabourin, The Psalms: Their Origin and Meaning
(Staten Island, N.Y.: Alba House, 1974), pp. 360-62
33 Gerhard von Rad, Genesis: A Commentary, traduzido por John H. Marks (London: SCM;
Philadelphia: Westminster, 1961), pp. 173-76.
34 Georg Fohrer, History of Israelite Religion, traduzido por David E. Green (Nashville:
Abingdon, 1972), pp. 104-5.
35 Citado e convincentemente rejeitado por James A. Borland, Christ in the Old Testament
(Chicago: Moody, 1978), pp. 164-74.
D avi: O s A nos de L uta 28 1

Porém, a melhor interpretação é que Melquisedeque é um tipo de Cris­


to.36 Ele prefigurou a vida e o ministério de Cristo em vários aspectos, mas
principalmente no que dizia respeito a ser ele tanto rei quanto sacerdote,
da mesma forma que Jesus Cristo, como Messias, cumpriu os dois papéis.
Além disso, ele igualmente tipificava a vida e ministério de Davi, um fato
que pode ter surpreendido Davi, mas que apesar disso veio a aceitá-lo. No
Salmo 110 Davi expressamente se refere ao Rei messiânico como um sa­
cerdote segundo a ordem de Melquisedeque, por meio de quem o Senhor
irá julgar as nações (vv. 4-6). Não apenas o Messias, mas também o pró­
prio Davi era tal sacerdote.37
A noção de um sacerdócio real não era totalmente estranha no antigo
mundo do Oriente Médio.38 Os reis regularmente tomavam a liderança
nas atividades de culto e eram, às vezes, os principais sacerdotes em
seus sistemas sacerdotais. Nem mesmo em Israel a noção de um sacer­
dócio real era estranha, por causa de sua ideologia e experiências pró­
prias.39 Nos tempos patriarcais, os pais tinham sido líderes civis e religi­
osos de suas famílias e clãs, oferecendo sacrifícios e desempenhando
outras funções de culto conforme sua vontade. Somente com a criação
da ordem sacerdotal, representada na pessoa de Arão, houve uma base
histórica demarcando as funções reais e sacerdotais, e residindo em pes­
soas diferentes. Essa visão prevaleceu por todo o período do Antigo Tes­
tamento, e até mesmo os discípulos de Jesus não puderam entender como
o Filho de Deus poderia ser ao mesmo tempo Rei e Sacerdote, Soberano
e Salvador. A seita judaica de Qumran antecipava dois messias - um
sacerdotal, descendente de Arão, e um real, descendente de Davi.40 Foi o
autor da Carta aos Hebreus quem pela primeira vez articulou o duplo
papel de Jesus Cristo como Rei e Sacerdote. Jesus poderia ser um sacer­
dote a despeito de seus ancestrais não terem sido da descendência de
Arão, porque o seu sacerdócio era de uma ordem superior - da ordem de
Melquisedeque (Hb 7.4-25).

36 Patrick Fairbairn, The Typology of Scripture (Grand Rapids: Baker, 1975 reedição), vol.l,
pp. 302-5.
37 Leslie C. Allen, Psalms 101-50, World Biblical Commentary (Waco: Word, 1983), pp. 78­
87.
38 Sidney Smith, "The Practice of Kingship in Early Semitic Kingdoms," em Myth, Ritual
and Kingship, editado por Samuel H. Hooke (Oxford: Clarendon, 1958), pp. 22-73.
39 Roland de Vaux, Ancient Israel (New York: McGraw-Hill, 1965), vol. 1, pp. 113-14.
40 Helmer Ringgren, The Faith of Qumran (Philadelphia: Fortress, 1963), p. 182.
282 H istória de I srael no A ntigo T estamento

Davi como sacerdote

Ser da ordem de Melquisedeque foi também a base do papel de Davi


como sacerdote real e da sua escolha de Jerusalém como o local para a arca
e para o tabernáculo. Ele entendeu que, assim como Melquisedeque era rei
de Salém, ele, como um sucessor de Melquisedeque, deveria reinar em Jeru­
salém. E assim como Melquisedeque era um sacerdote do Deus Altíssimo,
também ele, como sucessor de Melquisedeque, em uma ordem superior à
de Arão, poderia obter o santo privilégio do sacerdócio diante de Yahweh.41
Portanto, sobre essas bases teológicas, Davi pôde estabelecer a cidade
de Jerusalém como centro religioso e político, mas para isso ele teve de
enfrentar sérias dificuldades práticas. Estaria o povo preparado para este
radical ajuste teológico? Iriam eles tolerar que a tradição religiosa fosse
abalada, tradição que negava ao rei o direito de agir em qualquer área
religiosa da nação?
Não é de espantar que Davi tenha reassumido o cortejo com cuidado
redobrado e, depois de seguir os procedimentos corretos e louvar ao Se­
nhor com toda a alegria, a arca foi finalmente trazida ao monte Sião. O
próprio Davi conduziu a proc