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Salerno

Invasão da Itália

Não havia absolutamente ninguém nas ruas quando os generais Clark e Ridgway entraram, de jipe, em
Nápoles. Mas Clark logo se apercebeu de que muitos olhos os espreitavam por detrás das venezianas. "Eu
sentia que era observado por milhões de pessoas, embora não vislumbrasse um único civil durante todo o
percurso. Era uma sensação arrepiante. Sentia-me como se estivesse atravessando ruas mal-assombradas de
uma cidade fantasma".

Retorno à Europa
Na noite de 8 de setembro de 1943, uma esquadra de invasão aliada navegava pelas águas calmas do Mar
Tirreno, aproximando-se das praias que orlam o Golfo de Salerno, na Itália continental. Os navios que a
integravam provinham de diferentes e distantes portos, como Orã, Bizerta, Tripoli e Palermo, na Sicília. A
bordo, os soldados estavam animados, pois às 18h30 tinham ouvido o comandante-chefe anunciar pelos alto-
falantes dos navios a rendição da Itália.

Se o General Eisenhower pudesse adivinhar a reação dos homens do 5º Exército, de Mark Clark, à
momentosa notícia, teria esperado por oportunidade mais propícia para transmiti-la, pois a tensão, que vinha
aumentando à medida que os navios se aproximavam da costa inimiga, se evaporara rapidamente. Desfeita a
carga emocional de que estava possuída, a tropa entrou em completa descontração, rindo, pilheriando,
arriando inteiramente a guarda, para usar linguagem da crônica do boxe. Aquele estado de espírito estava,
entretanto, em desacordo com o que se iria verificar. Os soldados americanos e britânicos que compunham o
5º Exército em breve descobririam que o aguerrimento da tropa alemã nada sofrera com a perda dos italianos
como aliados.

Todo o planejamento da operação de desembarque (de codinome Avalancha) perto de Nápoles fora entregue
ao 5º Exército dos Estados Unidos. Dois pontos de desembarque foram considerados, um na planície costeira
do Volturno, situada no Golfo de Gaeta, ao norte de Nápoles (preferido por Mark Clark e pelos chefes da
Força Aérea Americana), e o outro ao sul de Nápoles, em Salerno, que dispunha de praias muito favoráveis à
aproximação das barcaças de desembarque, mas com as saídas para Nápoles passando pelo alto e rochoso
Monte Picenti, pois as praias eram cercadas de montanhas. Os britânicos achavam que a área do Golfo de
Gaeta ficava fora do alcance de apoio aéreo eficaz e que mesmo as praias de Salerno seriam de difícil
cobertura, porque o tempo de vôo de um Spitfire baseado na Sicília só lhe permitiria uns 20 minutos so bre a
cabeça-de-praia. Nas discussões realizadas, prevaleceu o ponto de vista dos britânicos, que alimentavam a
esperança de poder conquistar o aeródromo de Montecorvino, situado na área de desembarque, para dar
constante cobertura aérea aos navios que deveriam descarregar suprimentos ao largo da costa.

O 5º Exército consistia de dois corpos, o X Corpo britânico, comandado pelo Tenente-General McCreery, e o
VI Corpo americano, pelo Major-General Dawley; o X Corpo foi encarregado da parte norte da zona de
desembarque e o VI Corpo ficou com o setor sul; o Rio Sele, desaguando no mar, separava os dois corpos.

Os primeiros desembarques ocorreram muito bem; as tropas de assalto americanas avançaram rapidamente
para o interior e capturaram os altos picos de ambos os lados do Passo Chiunzi, enquanto os commandos
britânicos desembarcavam à sua direita, em Vietri sul Mare, e avançaram, contra forte oposição, para a
própria cidade de Salerno.

Mas os desembarques principais, ao norte e sul do Rio Sele, fizeram-se de forma bem diferente um do outro;
ao norte, os navios, antes de se iniciar o assalto, despejaram forte barragem de fogo, para debilitar a oposi-
ção, mas ao sul, as barcaças de, desembarque aproximaram-se da praia, em silêncio e na escuridão, e a tropa
desceu sem problemas, sendo então repentinamente iluminados por foguetes alemães e violentamente
alvejados. Estabeleceu-se certo pânico, mas na manhã seguinte a disciplina e o treinamento predominaram e
os americanos organizaram-se. A razão para que a Força de Ataque Sul abordasse a praia em silêncio deveu-
se à ordem de Mark Clark para que não houvesse barragem pré-desembarque no setor americano, para
ganhar o elemento surpresa, o que, infelizmente, não aconteceu. O ardil fracassou.
Durante os meses imediatamente anteriores às operações aliadas na Itália meridional, os alemães haviam
decidido sobre as providências que tomariam se e quando seu aliado na formação do Eixo resolvesse fazer
um acordo de paz em separado com os Aliados. Há muito tempo os alemães vinham desconfiando das
intenções dos italianos, e embora Kesseiring - Comandante-Chefe, Sul - trabalhasse em estreita cooperação
com os italianos no preparo de planos para repelir qualquer tentativa de invasão por parte das forças aliadas,
já em agosto Hitler decidira ocupar a Itália e deslocara forças adicionais para aquele país, aparentemente para
aumentar as defesas contra uma possível invasão aliada. Seu plano era estabelecer uma linha fortificada no
setor norte dos Apeninos e, se os italianos capitulassem, mandar Rommel para a Itália setentrional,
ordenando a Kesselring que se deslocasse do sul para juntar-se a Rommel, que assumiria o comando-geral.
Caso os Aliados invadissem a Itália antes da capitulação desta, o Coronel-General von Vietinghoff - do 10º
Exército alemão - deveria repelir os desembarques, com apoio dos italianos, para manter abertas as rotas de
retirada para Roma.

Feito o anúncio da rendição da Itália somente na véspera dos desembarques em Salerno, Vietinghoff teve de
decidir o que fazer. Não podendo entrar em contato com Kesselring, mas tranqüilizado pela atitude de muitos
soldados italianos, que se deixaram pacificamente desarmar, ou simplesmente abandonaram uniformes e
armas e desapareceram no interior da Itália, ele preferiu tentar repelir a força invasora para o mar,
concentrando, para tanto, suas forças em Salerno. Kesselring aprovou a medida.

Ao ter início a batalha, o grosso da tropa alemã que dela iria participar foi lançado contra o setor britânico.
Por volta do dia 13 de setembro, Vietinghoff, dando com a brecha existente entre os dois corpos, no Rio Sele,
admitiu que os britânicos e americanos se haviam afastado um do outro para facili tar uma retirada das praias.
Farejando a vitória, ele cabografou a Kesselring, declarando que a resistência dos Aliados a seu 10° Exército
estava desmoronando e anotou em seu diário de guerra que a batalha de Salerno terminara.

O Estado-Maior de Mark Clark organizara planos para, se se fizesse preciso, evacuar a cabeça-de-praia; dois
planos foram preparados, um para cada corpo, embora mais tarde se afirmasse que eles haviam sido feitos
para que um corpo pudesse, numa emergência, ser despachado para reforçar o outro. Seja qual for a verdade,
não há dúvida de que a situação das tropas aliadas em Salerno, no dia 13 de setembro, era crítica. Entretanto,
os homens da 82ª Divisão Aeroterrestre americana saltaram na cabeça-depraia, o bombardeio aéreo e naval
foi intensificado até que se verificasse o envio de reforços ao 5° Exército, que se encontrava em dificuldade.
Por volta de 18 de setembro era evidente que os alemães estavam recuando; seus ataques haviam sido
contidos pelo bombardeio aéreo e pelo fogo preciso dos canhões navais, e o 8° Exército britânico, que vinha
da Calábria, passou a constituir-se para eles, também, uma ameaça.

Durante muitos dias, a batalha de Salerno esteve na balança, e se os alemães houvessem lançado na luta mais
soldados, é possível que tivessem feito voltar ao mar o 5° Exército. Mesmo assim, eles impediram que os
Aliados fizessem lucratividade militar real com a rendição da Itália, e a violência da luta pressagiava as
batalhas ainda a serem travadas, enquanto britânicos e americanos subiam lenta e dificultosamente a pe-
ninsula italiana.

Estratégia
Às 18h30 de 8 de setembro de 1943, o General Dwight D. Eisenhower, Comandante-Chefe das Forças
Aliadas no Mediterrâneo, anunciou pelo rádio que as hostilidades entre as Nações Unidas e a Itália haviam
cessado, por força do armistício assinado.

Na verdade, o documento de rendição havia sido assinado, na recém-conquistada ilha da Sicília, a 3 de


setembro, mas Eisenhower, para dar à tropa aliada o máximo de vantagem com a retirada da Itália, decidiu
silenciar sobre o fato, que afinal praticamente não enfraquecera nada a resistência por ela encontrada.

No momento, porém, em que Eisenhower resolveu fazer a comunicação, alguns desses soldados estavam em
alto-mar, a caminho da planejada área de desembarque, na Baía de Salerno, situada a uns 30 km ao sul do
porto de Nápoles.
O comunicado, retransmitido pelo rádio dos navios, disparou, inevitavelmente, enorme confusão entre os
homens. Alguns puseram-se a imaginar se havia mesmo necessidade da invasão; outros, naturalmente,
achavam que o desembarque não passaria de mera formalidade, pois a oposição seria insignificante. Em
alguns navios, os oficiais mais prudentes falavam a seus comandados sobre os perigos da complacência,
tentando preveni-los para o fato de que o armistício não faria muita diferença, pois só os italia nos estavam
fora da guerra, não os alemães, e que a batalha seria igualmente dura, se não pior, levando-se em conta que o
inimigo seriam soldados alemães bem treinados e livres de ser contagiados pelo desânimo de que eram
portadores os italianos.

Os soldados que deram atenção a esta mensagem e se desfizeram das ilusões foram sensatos e afortunados,
pois, chegado o momento da luta, não seriam desmoralizados pelo choque da sua brutalidade.

A adoção da estratégia que levou à invasão de Salerno ficou estabelecida nos primeiros meses de 1943. Na
Conferência de Casablanca, realizada em janeiro de 1943, em plena campanha tunisina, os Aliados
concordaram que à campanha da África deveria seguir-se a invasão da Sicília, visando a principalmente
garantir as rotas marítimas no Mediterrâneo, para eliminar a necessidade da longa viagem pelo Cabo da Boa
Esperança. Após essas duas operações, que, em termos estratégicos, poderiam ser considera das basicamente
defensivas, começaram a aumentar as perspectivas de uma campanha verdadeiramente ofensiva na frente
européia, o que, para os britânicos, significava, logicamente, um ataque à Itália continental. Para discutir a
questão italiana, entre outras medidas, os britânicos convocaram uma conferência das potências aliadas, que
teve início, em Washington, a 12 de maio de 1943, à qual compareceram o Primeiro-Mi nistro britânico,
Winston Churchill, e o Presidente dos Estados Unidos, Franklin D. Roosevelt, com seus vários chefes de
Estado-Maior e consultores, no "Salão Oval" da Casa Branca. Roosevelt recebeu os participantes da reunião
com um discurso em que salientou a intenção que tinha de empregar contra o inimigo todos os recursos, em
homens, material e munição, que possuíam os Aliados. No seu entender, nada que pudesse contribuir para
levar à lona o inimigo deveria ser poupado. Todos concordaram com a sugestão do supremo magistrado da
grande nação americana.

Em seguida, Winston Churchill iniciou os debates propriamente ditos, focalizando algumas diferenças de
opinião que havia entre os dois Estados-Maiores, ao mesmo tempo que se revelava otimista quanto à
resolução tranqüila de tais diferenças, pois se assentavam em problemas de ênfase e de prioridade. Ele
apresentou vários objetivos, começando com o Mediterrâneo, onde a grande meta seria levar a Itália a retirar-
se da guerra que, na frase pitoresca de Churchill, provocaria um "calafrio de solidão" no povo alemão e
talvez lhe marcasse o começo do fim. E mesmo que a queda da Itália não fosse necessariamente fatal para a
Alemanha, ela teria vários outros efeitos: exerceria favorável influência sobre o governo turco, que talvez
fornecesse bases de bombardeiros para limpar o Mar Egeu; teria repercussões nos Balcãs, pois a retirada de
grande número de soldados italianos faria com que a Alemanha os abandonasse totalmente ou retirasse
tropas da frente russa, aliviando, assim, a pressão sobre a União Soviética; eliminaria a esquadra italiana da
guerra e liberaria os porta-aviões e couraçados britânicos para serviço contra o Japão, na frente do Pacífico
ou na Baía de Bengala.

O segundo objetivo, depois do Mediterrâneo, era tirar peso de cima da Rússia, que estava enfrentando 185
divisões alemãs na Frente Oriental. Ainda neste caso, seria vantajosíssimo tentar a rápida eliminação da Itália
como pais beligerante, para obrigar a Alemanha a enviar grande número de soldados para defender os
Balcãs.

O terceiro objetivo seria, como disse o Presidente, lançar contra o grande inimigo todo o poder de ataque dos
Aliados, para levá-lo a tontear e cair. O que fariam os soldados entre o fim da operação na Sicília, que
possivelmente se realizaria em agosto, e a provável invasão da França pelo Canal da Mancha, marcada para
sete ou oito meses mais tarde? Eles certamente não poderiam ficar ociosos, pois isso teria efeito muito sério
sobre a Rússia.

O Presidente, respondendo a Churchill, disse ser essencial manter o grande exército e as forças navais aliadas
ativamente ocupados, salientando também que era urgente examinar a seguinte questão: "Aonde ire mos
depois da Sicilia?" Porém, depois disso, seus pontos de vista divergiram. O Presidente temia que a ocupação
da Sicília desgastasse muito os recursos dos Aliados ali empregados, prejudicando as futuras operações no
Mediterrâneo, e achava que a ocupação da Itália talvez liberasse soldados alemães para lutar alhures. Ele
achava que talvez fosse melhor levar diretamente a luta à Alemanha, através de operação pelo Canal da
Mancha.
Assim, com Churchill vigorosamente favorável à operação contra a Itália, e os americanos, com Roosevelt,
nada convencidos, seus Estados-Maiores entregaram-se a freqüentes discussões destinadas a eliminar as
diferenças e estabelecer a estratégia a ser adotada. Mas, a despeito dos seus esforços, quando o Presidente e o
Primeiro-Ministro aprovaram o relatório dos Chefes de Estado-Maior Combinados, a 25 de maio, o do-
cumento não fazia qualquer referência a uma possível ação na Itália, após a conquista da Sicília.

O mais que fizeram, no sentido de aparar as arestas, foi a aprovação de um documento declarando que o
Comandante-Chefe Aliado na África do Norte (General Eisenhower) receberia instruções para "planejar
medidas destinadas a fazer da "Husky" (a invasão da Sicília) uma operação que redun dasse na retirada da
Itália da guerra e retivesse o máximo de forças alemãs". Aos Chefes de Estado-Maior Combinados reser-
vava-se o direito de decidir quanto à operação a ser montada.

Churchill ficou profundamente perturbado por não ter conseguido estabelecer o que pretendia, isto é, atacar a
Itália após a Sicília, pois sentia que o Estado-Maior americano preferia uma operação contra a Sardenha. Ele
devia ir a Argel depois dessa visita aos Estados Unidos, para uma consulta com o General Eisenhower, e,
para ir mais além, ele conseguiu do Presidente a permissão de levar consigo o General Marshall, para que
dos debates participasse um representante dos Estados Unidos do mais alto nível, para que não viesse a ser
acusado de haver exercido indevida influência pessoal com o objetivo de modificar a decisão do Estado--
Maior americano.

Churchill e Marshall fizeram uma viagem cordial a Argel, embora não chegassem a abordar a questão
italiana, que Churchill considerava crítica. Decidido a obter a decisão de invadir a Itália antes de partir da
África, ele não encontrou dificuldade alguma em convencer seus colegas britânicos a concordar consigo. O
General Alexander, o Almirante Cunningham, o Marechal-do-Ar Todder e o General Montgomery
encaravam a conquista da Itália como conseqüência natural das operações realizadas na África, desde El
Alamein. O General Marshall, contudo, permaneceu calado e enigmático.

Quando da sua primeira reunião oficial, na tarde de 29 de maio, o General Eisenhower também começou a
mostrar-se favorárl à operação contra a Itália. Após discutir vários outros assuntos, ele chegou à questão da
Itália e declarou que, para retirarem aquele país da guerra, eles deveriam faze-lo imediatamente após a
Sicília, com todas as forças que tivessem à disposição. Se a Sicília fosse uma operação fácil, eles deveriam ir
diretamente para o território continental da Itália que, na sua opinião, daria maiores resultados do que
qualquer ataque às ilhas. Eisenhower já então estava claramente convertido aos planos de Churchill. O
mesmo não acontecia com Marshall, e quando Eisenhower pediu informações sobre o momento em que
deveria apresentar seus planos para levar a Itália à capitulação, Marshall disse-lhe que não se poderia tomar
qualquer medida nesse sentido enquanto os resultados do ataque à Sicília e a situação na Rússia não fossem
conhecidos. Marshall sugeriu a formação de duas equipes de planejamento, uma para preparar o ataque à
Córsega e à Sardenha, e uma para traçar a operação no continente. A escolha só seria feita quando se
aclarasse toda a situação. Então, o equipamento necessário seria despachado para a força encarregada da
execução do plano escolhido. Eisenhower aceitara sem reservas os méritos do plano de ataque à Itália e
delarou que se a Sicília caísse com facilidade, iria diretamente para o continente.

Na reunião seguinte, a 31 de maio, Churchill tornou a frisar que seu grande desejo era invadir a Itália
Meridional, campanha muito mais gloriosa, como ele a descreveu, que uma "mera medida de conveniência"
que seria a operação contra a Sardenha. Mas o General Marshall ainda exercia influência
moderadora. Embora compreendesse os sentimentos de Churchill sobre a operação, ele ainda achava que a
escolha da ação que deveria suceder o ataque à Sicília teria que ser feita com bastante critério, por isso que
era pelo adiamento da decisão para depois de iniciado o ataque à ilha.

Durante todo o período dessas discussões, e no decorrer da operação siciliana propriamente dita, os
acontecimentos na Itália continental desenvolviam-se de tal maneira que também exerceram influência sobre
a questão que se encontrava em debate: a invasão da Itália continental.

Pelos arquivos das discussões realizadas em Washington e Argel, é evidente que, embora os Aliados
estivessem ansiosos por forçar a saída da Itália da guerra, e confiantes em que poderiam faze-lo, achavam
que tal objetivo só seria alcançado através de sucessos militares positivos, como a invasão da própria Sicília,
provavelmente a invasão do continente e possivelmente também a captura de Roma.
Porém, durante os primeiros meses de 1943, os acontecimentos que se verificavam na Itália rumavam para
esse fim. O povo italiano, certo de que a guerra estava perdida, confrontando a perspectiva de uma invasão
aliada e sofrendo crítica escassez de alimentos, à medida que as incursões de bombardeiros destruíam as
comunicações ferroviárias, estavam cada vez mais desiludidos com Mussolini e a liderança fascista. Houve
distúrbios no norte; as greves tornaram-se comuns e palavras duras de dissidência eram ouvidas em público.
Ao povo italiano já não importava, absolutamente, a derrota na guerra, desde que isso os livrasse do
fascismo. Uma figura importante nessa crescente onda de descontentamento era o Marechal Pietro Badoglio,
ex-Chefe do Estado-Maior-Geral italiano, embora na época estivesse reformado. Badoglio solicitou uma
audiência ao Rei Vitório Emanuel e fez-lhe longo relato das condições do país e do esta do de espírito do
povo, depois do que sugeriu providências radicais para dar solução a problemas tão graves. O Rei ouviu-o
com atenção, mas não deu qualquer resposta positiva. Contudo, no devido tempo, com o encorajamento do
Príncipe Herdeiro, Badoglio tomou as providências adequadas para um golpe de estado, consultando
discretamente o Chefe do Estado-Maior-Geral, General Ambrósio, e os líderes dos três principais partidos
políticos do país, buscando apoio para promover a deposição de Mussolini. Pelo final de junho, todo o
trabalho de preparação do golpe estava bem adiantado, tendo inicio então a busca dos meios para se livrarem
dos alemães e declarar um armistício. À medida que se ligavam os diversos segmentos do complô, a pressão
aumentava, com a aproximação do avanço aliado para suas costas. A invasão da Sicília começou a 10 de
julho, e em poucos dias o 8º Exército Britânico e o 7º Exército americano já haviam penetrado bastante na
metade sul da ilha. A 18 de julho, o General Eisenhower pediu permissão dos Chefes de Estad-Maior
Conjuntos para invadir o continente.

Uns cinco dias após iniciado o ataque à Sicília, o General Ambrósio implorou a Mussolini que transmitisse a
Hitler o desejo dos italianos de não mais continuar na guerra. A 18 de julho, Mussolini e Hitler reuniam-se
num "parque fresco e umbroso", em Feltre, perto de Rimini, mas Mussolini, sem dúvida por falta de
coragem, não conseguiu deixar claro a Hitler que os italianos não podiam e não queriam continuar lutando.
Ao retornar a Roma a 20 de julho, Mussolini prometeu escrever uma carta a Hitler expondo seu ponto de
vista, mas não chegou a fazê-lo; e à medida que os bombardeiros aliados realizavam ataques intensos contra
os centros ferroviários e aeródromos das proximidades de Roma, o povo italiano começou a pedir
abertamente ao governo que capitulasse.

Diante de tanta oposição, o governo faszista estava claramente condenado e vários dos membros importantes
do partido fascista estavam sendo privados dos seus cargos ou tentando demitir-se. Nos dias 24 e 25 de julho,
o Grande Conselho Fascista realizou uma reunião de fim de semana, na qual a hostilidade geral a Mussolini
era clara. Ao término dessa reunião, o Conselho apresentou uma resolução, apoiada por 16 dos seus 25
membros, declarando, após longo preâmbulo, que "é essencial a imediata restauração de todos os órgãos do
Estado, de modo que a Coroa, o Grande Conselho, o Governo, o Parlamento e as empresas possam cumprir
as tarefas e responsabilidades a eles atribuídas pela Constituição e leis do país" e resolvendo que o Conselho
"convida o Governo a solicitar ao Rei, para quem toda a nação se volta com lealdade e confiança, que, pela
honra e segurança do país, assuma o comando efetivo do exército, da marinha e da força aérea..." Mussolini
encerrou a sessão com as seguintes palavras: "Os senhores provocaram uma crise no regime". No domingo,
26 de julho, o descontentamento chegara às ruas. Houve arruaças entre adversários políticos e os romanos
que usavam o distintivo fascista eram surrados pelos seus oponentes, já mais confiantes. Na tarde daquele
dia, Mussolini avistou-se com o Rei e o informou de que o Grande Conselho aprovara um voto de censura
contra ele, Mussolini. Este tentou afirmar que a resolução era ilegal, mas o Rei, tomando a iniciativa, e
mostrando a força da sua decisão, observou que o Grande Conselho era um órgão de Estado que o próprio
Mussolini criara; que a sua criação fora ratificada pela Câmara e Senado, e que toda a resolução por ele
tomada era, portanto, válida. A resposta de Mussolini a esta inesperada atitude de oposição foi violenta e ele
vituperou: "Então, na opinião de Vossa Majestade, eu deveria demitir-me?" O Rei, com clareza igualmente
inesperada, respondeu, calmo: "Sim" e disse-lhe que aceitava a sua demissão. Mussolini totalmente abatido
só pôde murmurar: "Então minha desgraça está completa".

Este é, pelo menos, o relato que Badoglio fez dos acontecimentos.

Segundo o próprio Mussolini, o Rei foi muito mais cordial, e quando entravam na sala de recepção, disse:
"Meu caro Duce, não dá mais certo. A Itália está em ruínas... Neste momento, você é o homem mais odiado
da Itália. Não pode contar com mais de um amigo. Só lhe resta um, que sou eu. Eis por que lhe digo, você
não precisa temer por sua segurança pessoal, para a qual assegurarei proteção. Estou certo de que o homem
que deve ocupar seu cargo, agora, é o Marechal Badoglio".
Mussolini discutiu, mas afinal, curvando-se à decisão do soberano, disse-lhe, finalmente: "Desejo felicidades
ao homem designado para enfrentar esta situação".

Daí em diante, as duas narrativas voltam a concordar em todos os pontos essenciais. O Rei levou Mussolini
até a porta, e este desceu os poucos degraus da casa até o carro, que estava à sua espera. Ali deparou com um
capitão dos Carabinieri, que lhe disse: "Sua Majestade encarregou-me da proteção da sua pessoa". Um
pequeno grupo de Carabinieri e da policia secreta levou-o a uma ambulância, que o aguardava, e os homens,
prometendo conduzi-lo a lugar seguro, levaram-no para um quartel dos Carabinieri. Era o fim do governo de
Mussolini. Hitler continuou apoiando o ditador, chegando mesmo a diligenciar no sentido de retirá-lo do
local em que se encontrava preso, num audacioso episódio da guerra. Nada, entretanto pôde restaurar o poder
de Mussolini. Era o fim do fascismo na Itália.

O Feldmarechal Badoglio foi chamado pelo Rei, que lhe entregou a chefia do governo. Daí por diante, não se
viu mais um único distintivo fascista em Roma. A sede do partido foi atacada, saqueada e multidões
percorriam, jubilosos, as ruas da cidade, solicitando a imediata retirada da Itália da guerra.

Havia, no entanto, problemas que impediam ao governo retirar de pronto o país do conflito, e o que mais
preocupação causava era a provável reação dos alemães. Se os italianos abandonassem imediata e unilate-
ralmente a guerra, era quase certo que os alemães ocupassem toda a península itálica e, derrubassem o novo
governo, para criar um regime-títere inteiramente novo, segundo diretrizes nazi-fascistas.

O povo italiano ver-se-ia então envolvido no regime nazista e voltaria à condição de inimigo, ainda que
relutante, dos Aliados, que se aproximavam. Os italianos tampouco teriam meios de impedir que os alemães
ocupassem todo o seu país. Eles possuíam apenas 12 divisões, dispersadas por toda a Itália e virtualmente
sem equipamentos, após as perdas na Líbia, para enfrentar oito divisões alemãs muito bem equipadas.

Não obstante, o povo não conseguia compreender, ou, mais corretamente, não percebia a existência de tais
dificuldades, e bombardeava Badoglio com mensagens, partidas de indivíduos e organizações, implorando-
lhe que declarasse a paz. Quando ele e o Rei, em transmissões radiofônicas, declararam que a guerra
continuaria, o povo sentiu morrer dentro de si toda a ânsia de paz e, desiludido, assistia aflito à atividade da
aviação dos Aliados cercando Roma de escombros. O resultado imediato foi uma sucessão de greves que
causaram sérios danos à economia italiana.

Ao mesmo tempo que afirmava pelo rádio que prosseguiriam as hostilidades contra os Aliados, Badoglio
iniciou negociações para fazer uma paz em separado, e com o prosseguimento destas, o General Eisenho wer
e seus planejadores começaram a examinar, com renovado entusiasmo, as várias possibilidades de invasão do
continente.

Nos primeiros dias da "Operação Husky" na Sicília, quando o 8° Exército se deslocava quase que livremente
pela costa leste da ilha, Montgomery achava que talvez fosse possível alcançar, praticamente sem obstáculos,
a outra margem do Estreito de Messina, penetrando na Calábria, na ponta da "bota" italiana. Porém, a idéia
abruptamente se esfumou, ao chegarem reforços alemães que mantiveram o 8° Exército fora de Catânia,
deixando claro que a Sicília teria de ser conquistada antes que se realizassem desembarques na Calábria.

Pelo dia 17 de julho, embora o 8° Exército, de Montgomery, ainda estivesse detido pelos alemães na planície
diante de Catânia, o 7º Exército, de Patton, fazia progressos suficientes para permitir a ressurreição da idéia e
até para autorizar o planejamento de outras operações. Eisenhower, Alexander, Cunningham e Tedder
concordaram em que a ação principal se fixaria num desembarque em Taranto, no salto da bota, que daria aos
exércitos que subissem a Itália, vindos do sul, uma excelente base naval para abasteci mento. Ainda melhor
que Taranto era o porto de Nápoles, e se a operação na Sicília viesse a demonstrar que a resistência italia na
estava enfraquecendo e, esta a grande esperança, que italianos e alemães recuavam para o norte, acreditava-
se que o porto poderia ser atacado numa operação terrestre de Calábria para o norte. Essa ordem de ênfase
manteve-se ativa até 25 de julho, quando os Aliados receberam a notícia da queda de Mussolini. No dia
seguinte, os Comandantes Supremos reuniram-se em Cartago e concordaram em que seria sensato planejar
numa base mais otimista. Nessa conformidade, o General Mark Clark, cujo 5º Exército fora formado no mês
de janeiro anterior, foi encarregado do planejamento de uma operação inteiramente nova, um de sembarque
anfíbio na região de Nápoles, de codinome "Avalancha".

O General Clark entregou-se ao trabalho com grande entusiasmo, recebendo instruções para apresentar seus
planos para o desembarque a 7 de agosto, ficando estabelecido que a operação se realizaria a 7 de setembro.
Aparentemente, seis semanas era muito tempo para planejar uma invasão que, feita mais cedo, para
aproveitar a confusa situação reinante na Itália, seria muito mais facilmente realizada, mas o atraso foi
imposto pela crítica escassez de homens e barcaças de desembarque. Todos os homens disponíveis estavam
seriamente ocupados na Sicília, e embora houvesse todas as possibilidades de um bom resultado a longo
prazo, ainda se estava em meados de julho e com muitas lutas violentas pela frente. Além disso, as operações
anfíbias em grande escala ainda eram uma técnica nova e todas as barcaças de desembarque estavam
empenhadas no apoio às tropas que lutavam na Sicília. Foram feitas estimativas sobre o tempo necessário à
limpeza integral da ilha, e ao Estado-Maior da marinha dirigiram-se recomendações para que estabelecesse a
data mais próxima, depois da conquista da Sicília, para se fazer o desembarque. Segundo as fases da lua, ele
deveria ocorrer entre 7 e 10 de setembro.

Havia também o problema da localização exata do desembarque. Duas alternativas principais se ofereciam.
Algumas fontes, mal-informadas, sugeriam a própria Baía de Nápoles, mas os táticos anfíbios, mais sérios e
previdentes, achavam que os acessos fortemente minados, os empecilhos à navegação e as redes, além de
número superior a quarenta posições de canhões pesados, eram demais para uma força atacante de três divi-
sões; por isso, a sugestão foi logo posta de lado.

A área mais promissora era a planície costeira do Volturno, ao norte de Nápoles: a única área da região não
cercada de montanhas; o terreno, plano, era ideal para blindados e não havia obstáculos a um avanço veloz
para Nápoles, no sul. Ademais, o desembarque no Golfo de Gaeta lançaria poderosas forças aliadas atrás das
linhas alemãs e bloquearia quaisquer reforços que eles tentassem trazer do norte. O próprio Clark era
favorável a este plano e por duas vezes foi a Argel para discuti-lo com as equipes de planejamento. As
autoridades da marinha não se mostravam muito entusiasmadas com o plano, por não serem as águas da
região tão bem protegidas quanto as que, no outro plano, atuariam as unidades navais, mas os chefes da força
aérea americana estavam plenamente satisfeitos, pois consideravam a área bem dentro do alcance efetivo da
cobertura aérea, com o que não concordavam os britânicos, que alegavam situar-se ela fora do alcance da
cobertura aérea eficaz. Clark abordou a questão com o Comandante-Chefe da Força Aérea no Mediterrâneo,
o Marechal-do-Ar Sir Arthur Tedder, que declarou, obstinadamente, que não se poderia dar apoio aéreo ao
norte de Nápoles. Portanto, Clark concordou em abandonar esse plano e todos os seus esforços passaram a
concentrar-se no plano defendido pelo representante de Eisenhower, General Alexander, para desembarque
ao sul de Nápoles, no Golfo de Salerno. Esta era, em certos aspectos, uma escolha desaconselhável como
local de desembarque. É certo que possuía várias vantagens: as praias dispunham de 30 quilômetros de boa
costa com acesso direto às áreas do interior e o gradiente submarino era ideal para as barcaças de
desembarque irem direto para as praias, sem quaisquer obstruções naturais. Mas havia uma deficiência séria:
o golfo era todo cercado de montanhas que formavam uma barreira quase impenetrável e de fácil defesa
contra uma saída imediata da praia para a planície de Nápoles. O mais importante é que as saídas rodoviárias
da planície costeira para Nápoles passavam pelo Monte Picenti, rochoso e particularmente dificil. A situação
ali era ideal para a defesa. Quaisquer forças que desembarcassem teriam não só de enfrentar um formidável
bombardeio de artilharia, como também o pouco espaço para as manobras necessárias a atravessar as
montanhas e dominar os desfiladeiros. Era evidente que um desembarque de surpresa talvez conseguisse um
ponto de apoio na costa, mas que a batalha dali para Nápoles provavelmente seria de excepcional
dificuldade. Nas circunstâncias, pode parecer estranho que Salerno chegasse a ser considerada área de
desembarque. A chave do plano, porém, era a necessidade de cobertura aérea e Alexander se recusava a
aceitar qualquer plano que não satisfizesse essa exigência. Mas, mesmo neste aspecto, havia problemas:
partindo das bases aéreas mais próximas, situadas na Sicília, um caça Spitfire, com um tanque suplementar,
poderia patrulhar o Golfo de Salerno somente durante uns 20 minutos; além disso, se houvesse chuvas fortes
na Sicilia, as pistas de pouso improvisadas tornar-se-iam inutilizáveis. A única parte do problema da cobertu-
ra de caças que deixava alguma esperança era a existência de uma excelente pista de pouso, o aeródromo de
Montecorvine, quase adjacente às praias da Baía de Salerno. Assim, planejou-se utilizá-la logo no começo da
operação.

Resolvida a questão do local do ataque, o General Clark passou ao detalhamento do plano e apresentou seu
trabalho aos Chefes de Estado-Maior, em Cartago, na reunião de 17 de agosto.

O 5º Exército, de Clark, consistiria de dois corpos, o VI Corpo americano e o X Corpo britânico. O VI


Corpo, sob o comando do General-de-Divisão Ernest J. Dawley, compreenderia a 34ª e a 36ª Divisões de
Infantaria, a 1ª Divisão Blindada e a 82ª Divisão Aeroterrestre. O X Corpo, comandado pelo Tenente-General
Sir Richard McCreery, teria como base a 46ª e a 56ª Divisões de Infantaria, a 7ª Divisão Blindada e a 1ª
Divisão Aeroterrestre.

As forças navais, sob o controle-geral do almirante britânico Sir Andrew Cunningham, seriam comandadas
pelo Almirante H. Kent Hewitt, zarpando com o 5º Exército em sua nave-capitânia, o USS Ancon, que
também seria o Q-G do próprio Clark até os desembarques. Para o desembarque em Salerno, iam sob o
comando de Hewitt uma Força de Ataque Norte, formada sobretudo de navios britânicos, comandada pelo
Comodoro G.N. Oliver. e uma Força de Ataque Sul, principalmente de navios americanos, comandada pelo
Contra-Almirante John L. Hall. Uma pequena força anfíbia foi colocada no flanco esquerdo (norte) do ata-
que, sob o comando do Contra-Almirante Richard L. Connolly, que, embora fosse superior a Oliver,
ofereceu-se para servir sob o seu comando, a fim de participar da operação.

Dentre os muitos problemas que desafiavam os planejadores da "Operação Avalancha", havia a perene
confusão sobre o número de barcaças de desembarque que estariam à disposição. A Sicília fora invadida sem
perdas significativas e aproximadamente dois terços das barcaças de desembarque utilizadas naquela
operação seriam usadas nos desembarques em Salerno. Além disso, o comandante-chefe conseguiu
permissão para incluir na força de ataque 48 torpedeiras cujo retorno à Grã-Bretanha já havia sido ordenado.
Como resultado destas e de outras incertezas, os planejadores, com o comboio já a caminho das praias, no
Dia-"D" menos 1, ainda não sabiam o número exato de navios com que contariam para reforços e
abastecimento.

Desde as questões estratégicas aos problemas logísticos, a operação parecia inteiramente envolvida nas
malhas da conveniência, da incerteza e da improvisação. Porém, a característica mais curiosa do ataque
surgiu em sua fase mais crítica, quando o General Clark, considerando a importância do elemento surpresa,
ordenara que não se fizesse nenhum bombardeio preliminar no setor dos corpos americanos. O Almirante
Levitt tentou dissuadi-lo, apresentando razões para bater previamente o alvo com artilharia, pois, afirmava,
os alemães não deixariam de ver o que estava acontecendo, o que eliminava toda e qualquer possibilidade de
os surpreender. Já a 17 e 18 de agosto eles haviam montado duas incursões, de 80 Ju-88 cada uma, sobre as
concentrações de barcaaças de desembarque em Bizerta; além disso, com um mínimo de informações, eles
poderam perceber claramente que o Golfo e Salerno era o mais provável local para onde se encaminharia a
frota reunida em Bizerta, sendo mais que evidente que os comboios não completariam a viagem até as praias
de Salerno sem serem perseguidos pelos aviões de reconhecimento alemães.

Com o desenrolar dos acontecimentos, tornou-se cada vez mais óbvio que poderoso apoio de fogo de
artilharia naval teria sido imensamente valioso no lançamento do ataque, mas Clark, a despeito dos apelos de
vários comandantes, manteve-se fiel a seu plano e não houve, de fato, bombardeio preliminar.

Quando se chegou a este ponto da operação, os acontecimentos na Itália também haviam alcançado um
estágio critico, à medida que as complexas negociações da rendição da Itália se desenrolavam.

A primeira indicação que os Aliados tiveram de que os italianos ansiavam por dar por encerrada a sua
participação na guerra, pelo menos do lado do Eixo, ocorrera a 16 de agosto, quando um emissário italiano,
General Castellano, procurou o embaixador britânico em Madri e, afirmando estar autorizado a falar em
nome do novo governo italiano, pediu que representantes dos Aliados se encontrassem com ele em Lisboa. O
general parecia sincero, embora não posssuísse credenciais escritas. Como sua informação coincidisse com
as notícias provindas do Vaticano e da Suíça, Eisenhower mandou seu Chefe de Estado-Maior, Gene ral
Bedell Smith, e o Chefe do Serviço de Inteligência, Brigadeiro Kenneth Strong, a Lisboa a fim de debater
com o oficial italiano o problema e talvez providenciar a rendição das forças italianas.

Como o próprio Eisenhower registrou, mais tarde, este foi o começo de uma série de missões secretas e
reuniões clandestinas, de subterfúgios e planos fracassados, que o próprio mundo da ficção teria ignorado.

Castellano não se atreveu a retornar a Roma senão depois de nove dias após a primeira reunião, temeroso de
que os alemães descobrissem que se cogitava de armistício, e passou o tempo oculto à espera de um trem
especial. Nessa primeira reunião, Strong e Bedell Smith disseram a Castellano que os únicos termos que os
Aliados aceitariam eram de rendição incondicional. Castellano achava que isto era demasiado rigoroso e
observou que se deslocara para Lisboa a fim de estudar com as autoridades aliadas a forma de pôr a Itália ao
lado das Nações Unidas, contra a Alemanha.

Na verdade, os Aliados estavam perfeitamente dispostos a abrir mão do rigor da exigência da rendição
incondicional e só a haviam apresentado como base para discussão. Mesmo assim, havia muitas arestas a
aparar, pois cada lado procurava obter para si o melhor possível. Castellano tinha sem pre em mente as
conseqüências da medida para a Itália, o tratamento que receberia dos alemães se se rendesse sem proteção
adequada dos Aliados. Para evitar a tragédia, no seu entender, inevitável, que se abateria sobre a Itália, ele
propôs aguardar que se desse o desembarque aliado para anunciar a rendição e declarar guerra aos alemães
imediatamente. Aos Aliados, a idéia agradava, pois também não queriam dar aos alemães tempo para
reformular o seu sistema defensivo, uma vez fora da guerra os italianos. O problema era que, para tomar
essas providências, Castellano queria saber detalhes dos planos aliados. Estes, naturalmente, não estavam
absolutamente dispostos a prejudicar a segurança, revelando seus planos a quem quer que fosse, muito
menos ao representante do governo de um país com o qual ainda estavam tecnicamente em guerra.

Castellano tinha inclusive recomendações a fazer sobre a força necessária para os desembarques. Ele sugeriu
um desembarque na área de Livorno, com pelo menos 15 divisões, e um segundo desembarque, com igual
massa de forças, no lado oposto da Itália, em Ancona, formando as duas hastes de uma pinça que cortaria a
Itália em dois, a uns 300 km ao norte de Roma. Para os oficiais do Estado-Maior aliado envolvidos nessas
discussões, que estavam planejando desembarcar com três divisões, e que não podiam proporcionar
cobertura de caça nem mesmo até Nápoles, deve ter sido difícil conservarem-se sérios ante tais sugestões,
muito mais ainda manter a ilusão de que promoveriam o desembarque com forças muito grandes.

Os pontos em que mais insistiram os representantes dos Aliados, em todo o transcurso das discussões, foram
que a rendição recebesse a assinatura de alguém autorizado diretamente por Badoglio, e que esses termos
permanecessem secretos. Badoglio receberia então dos Aliados instruções sobre o momento de anunciar a
rendição, o que seria feito um dia antes da invasão. Castellano objetou que seu país estava sendo obrigado a
aceitar termos impossíveis, a trabalhar de olhos vendados, lutando insistentemente para que o anúncio do
armistício fosse feito depois que os Aliados tivessem invadido a Itália continental e estivessem firmemente
estabelecidos em terra. Os negociadores aliados desconfiavam de que os italianos atavam tentando jogar dos
dois lados, para ficar com quem de fato viesse a levar a melhor. Diante disso, negavam-se a concordar com
qualquer sugestão que implicasse a permanência dos italianos na guerra, matando soldados aliados, após
iniciada a invasão, uma vez aceitos os termos de rendição.

Depois de discutidos todos esses arranjos, e depois de passar o tempo necessário ocul to, Castellano voltou a
Roma, no dia 28 de Agosto, e apresentou os termos do armistício a Badoglio. Este os estudou durante um
dia, discutiu-os com o Rei e ordenou a Castellalo que fosse à Sicília, como se concordara, levar aos Aliados a
reação italiana. Ele deveria dizer-lhes que os italianos não estavam em condições de cumprir os termos de ar-
mistício conforme apresentados, porque suas forças armadas eram fracas demais, em comparação com as dos
alemães, e seriam logo eliminadas. O governo italiano celebraria o armistício quando os Aliados tivessem
desembarcado pelo menos 15 divisões na Itália, num local adequado.

Bedell Smith disse-lhe em resposta que os termos oferecidos aos italianos não estavam abertos a novas
discussões, e que o governo italiano podia aceitá-los ou recusá-los. Contudo, para estimular o moral italiano,
ele se prontificou a enviar uma divisão aeroterrestre, a 82ª americana, para tomar os aeródromos de Roma e
defendê-los contra os alemães até que as forças do desembarque anfíbio pudessem juntar-se a ela. Desneces -
sário dizer que quando Eisenhower comunicou a Clark a intenção de lhe retirar a única divisão aeroterrestre
que possuía, este teve um acesso de fúria, alegando que a remoção da divisão, a qual pretendia fazer saltar ao
longo do rio Volturno, para impedir que as divisões Panzer corressem para o sul e bloqueassem as gargantas
entre Salerno e Nápoles, seria o mesmo que lhe cortar o braço esquerdo. Quando Eisenhower lhe garantiu
que a divisão retornaria ao seu controle após o salto, só lhe ocorreu observar, com pitoresco sarcasmo, que a
divisão estaria então a 300 km de distância, o que equivaleria a conceder a alguém o direito à metade,
apenas, da esposa.

Contudo, não tendo sido tocado neste aspecto do plano, reforçou-se o moral dos italianos, esgotando, por
outro lado, os argumentos que apresentavam com o intuito de assinar o armistício depois do desembarque
aliado. Bedell Smith também contribuiu para que os italianos se decidissem, ameaçando, a menos que os
termos fossem aceitos, impor-lhes condições muito mais rigorosas, arrasar as principais cidades da Itália,
inclusive Roma, e destruir a indústria do país.

A 1º de setembro, de volta a Roma, Castellano transmitiu a Badoglio e a dois colegas graduados tudo quanto
foi dito e prometido na reunião com as autoridades aliadas e Badoglio comunicou-os ao Rei. Decidiu-se
então que os termos do armisticio eram aceitáveis e Castellano tornou a ir à Sicília. Neste ponto, nova
complicação surgiu. Castellano, meio incerto quanto aos poderes que tinha, afirmou que não estava
autorizado a assinar pessoalmente o armistício. Aí o General Alexander interveio. Envergou seu melhor
uniforme de gala, para causar a máxima impressão, e passou uma reprimenda muito desagradável em
Castellano. Este comunicou-se imediatamente com Roma, pedindo que lhe dissessem se tinha ou não
autoridade para assinar, e Badoglio respondeu: "A resposta afirmativa dada em nosso telegrama n° 5 contém
implicitamente aceitação das condições do armistício". Esse palavreado oco não ajudou a ninguém, só
aumentou a confusão. Três horas depois entretanto, chegou outro comunicado cancelando a versão ambígua
anterior e declarando claramente que o General Castellano estava "autorizado pelo governo italiano a assinar
a aceitação das condições do armistício".

Às 17h15 de 3 de setembro, ele assinou, e a nação italiana ficou oficialmente fora da guerra.

Naquele mesmo dia, exatamente quatro anos depois que a Grã-Bretanha declarou guerra à Alemanha, as
forças aliadas fizeram sua primeira invasão do continente europeu, quando o 8° Exército, de Montgomery,
apoiado por maciço bombardeio de artilharia, naval e aéreo, cruzou o Estreito de Messina e desembarcou
sem oposição na ponta da bota italiana.

Estava especificado nos documentos chegados a Roma no dia 5 de setembro que o armistício entraria em
vigor entre 10 e 15 de setembro. O General Bedell Smith disse a governo italiano que talvez isso viesse a
ocorrer a 12 de setembro. Entrementes, a atividade de capa-e-espada continuava, às vezes com
conseqüências hilariantes e ridículas. Em determinado momento, Castellno afirmou que precisava de um
Estado-Maior. Um grupo de oficiais foi então reunido e levado de Roma, a bordo de uma lancha-torpedeira
italiana, para uma ilha ao norte da Sicília, de onde foram transferidos para outra lancha que os levaria à
extremidade oeste da ilha e, dali, num avião Dakota, para a África do Norte, onde o Q-G de Alexander estava
sendo estabelecido para a "Operação Avalancha". Quando eles chegaram a Túnis, ninguém ali se encontrava
para recebê-los. O oficial de Estado-Maior britânico encarregado de cuidar deles viu-se então obrigado a um
esforço, dando vàrios telefonemas do aeródromo, para localizar a comissão de boas-vindas. Entrementes, a
tarefa se complicava, e a segurança corria sérios riscos, porque todo o grupo decidira viajar em uniforme de
gala, inclusive dois Alpini e dois Bersaglieri, com seus capacetes magnificamente emplumados, os primeiros
com penas de águia, os segundos com rabos de galo. A medida que subia a temperatura, enquanto o sol
ganhava altura, os infelizes italianos já não agüentavam de tanto suar, dentro do Dakota, com ordem expressa
para que não se aproximassem das janelas, até que o oficial britânico recebeu ordens do Q-G da Força Aliada
para levá-los a Bizerta. Ali, o Chefe do Serviço de Inteligência de Eisenhower, Brigadeiro Strong, os
aguardava, juntamente com o próprio Castellano, submeteu seu novo Estado-Maior a uma violenta invectiva,
que durou cinco longos minutos, pela indiscrição que cometeram, viajando uniformizados.

Uma jornada igualmente fascinante, infinitamente mais perigosa e de muito maior conseqüência, foi feita no
dia anterior ao Dia-"D" pelo Brigadeiro-General Maxwell Taylor. Devido aos perigos excepcionais que
envolviam o plano de desembarque de uma divisão aeroterrestre em Roma, como prelúdio do ataque, julgou-
se essencial enviar um oficial graduado à cidade, para uma avaliação dos problemas e enviar um relatório ao
Q-G. Taylor, Subcomandante da 82ª Divisão Aeroterrestre, foi o escolhido. Ele viajou de torpedeira, subindo
o rio Tibre, chegando à casa de Badoglio às 02 h de 8 de setembro, acompanhado de um oficial ame ricano, o
Coronel William Tudor Gardiner, do Serviço de Inteligência da Força Aérea, e de um oficial italiano, o
General Carboni, que comandava todas as tropas italianas em Roma. Por coincidência, este não era o pri -
meiro encontro entre Taylor e Badoglio, pois Taylor era cadete da Academia de West Point quando, em 1921,
Badoglio fez uma visita àquela escola de formação de oficiais. Conforme Eisenhower veio a registrar, a
missão de Taylor acrescentou mais um capítulo a essa história cheia de aventuras emocionantes. Os riscos
que Taylor correu, observou Eisenhower, foram superiores a todos os enfrentados por qualquer dos
emissários seus durante a guerra. Indiferente ao risco de a qualquer momento ser descolberto, e morto, ele
cumpriu à perfeição as tarefas todas que lhe foram confiadas.

Toda essa tensa missão teve curso dentro das melhores tradições da ficção de espionagem. Taylor levava
consigo uma palavra-código (segundo um observador, era a palavra "certamente"), que deveria incluir em
qualquer mensagem por ele enviada, recomendando o cancelamento do desembarque aeroterrestre. Mesmo
que ele fosse capturado e obrigado a enviar uma mensagem, a não-inclusão da palavra "certamente" a can -
celaria e impediria que a 82ª Divisão Aeroterrestre caísse numa armadilha.

Tão logo chegou à casa de Badoglio, Taylor deixou claro que a divulgação do armistício era iminente e
poderia até ser feita naquele mesmo dia. Compreensivelmente, Badoglio ficou irritado ao descobrir que fora
levado a crer que isso só ocorreria dali a alguns dias: evidentemente, a divisão aero terrestre agora não
poderia desembarcar antes do armistício. Ele implorou por um adiamento nos saltos e na divulgação do
armistício, a fim de se preparar para aquele desembarque. Do contrário, afirmaram ele e Carboni, com
48.000 soldados alemães nas vizinhanças, não poderiam cooperar. Badoglio fez o rascunho de um telegrama
que iria enviar ao General Eisenhower insistindo no adiamento do armisticio até 12 de setembro. Se a
examinarmos do ponto de vista de Badoglio e dos italianos, a insistência no adiamento era perfeitamente
compreensível, embora seja difícil admitir que as suas razões pudessem influenciar os Aliados, que, evi-
dentemente, trabalhavam em obediência a um plano meticuloso e de longo alcance, e que já fora acionado.
Seu telegrama, de fato, chegou ao Q-G aliado, em Bizerta, quase que ao mesmo tempo que a mensagem
cifrada de Taylor que, devido à incerteza da cooperação italiana e aos efetivos, pelo menos aparentes, das
forças alemãs, recomendava o cancelamento da operação aeroterrestre. Aliás, o cancelamento do ataque ae-
roterrestre foi, provavelmente, um erro dos Aliados. Eles estavam erroneamente informados sobre os efetivos
de que dispunham os alemães nos arredores de Roma, enquanto que um ataque de pára-quedistas era o que
mais temia o Feldmarechal Kesselring, Comandante alemão na Itália Meridional, alertado sobre a iminência
do ataque aliado. Tendo apenas dois batalhões defendendo os aeródromos, ele passou a maior parte daquele
dia atento a qualquer salto de páraquedistas aliados. Com a 82ª, a guarnição italiana de Bersaglieri, de cinco
divisões ao todo, poderia ter defendido a cidade e bloqueado eficazmente as comunicações alemãs, tornando
incomparavelmente mais fácil a eventual saída de Salerno para o Norte.

Os apelos de Badoglio, longe de levar os Aliados ao adiamento da "Operação Avalancha", só conseguiram


provocar um violento acesso de fúria em Eisenhower, coisa bastante incomum. Ele e os demais comandantes
reuniram-se numa pequena sala de aula; na sua opinião, o telegrama de Badoglio significava que os italianos
pretendiam mudar de lado somente quando o pulo perdesse qualquer significação de risco, ou seja, quando
os Aliados houvessem desembarcado quantidade de tropa capaz de garantir o sucesso; quando vissem as
pequenas forças que os Aliados iriam desembarcar em Salerno, eles poderiam muito bem não mudar de lado!

Os Aliados eram, entretanto, suficientemente realistas para não confiar em qualquer ajuda efetiva dos
italianos no combate aos alemães, mas consideravam que sua repentina ausência da batalha ajudaria a anular,
durante breve período, os dispositivos defensivos dos alemães.

Eisenhower, normalmente tranqüilo e de atitudes educadas, perdeu por completo a calma e passou violenta
descompostura em Castellano, que se fazia presente à reunião. Após breve discussão, e ainda com o rosto
afogueado, ele exigiu que o levassem a um telefone através do qual ditou, "aos berros", egundo o oficial cujo
telefone ele usou, o seguinte telegrama dirigido a Badoglio: "Pretendo divulgar a existência do armistício na
hora aprazada. Se você, ou qualquer parcela das suas forças armadas, não cooperar, como ficou acordado,
publicarei para o mundo inteiro toda a história deste caso. Hoje é seu Dia-"X" e espero que cumpra a sua
parte".

Depois, Eisenhower acalmou-se e passou a aguardar o efeito do seu telegrama, decidi do a fazer a prometida
transmissão, independente de qualquer providência que viesse a tomar o governo italiano. Este não enviou
qualquer notícia até às 18h30. Eisenhower entrou então no ar e anunciou a rendição.

Na verdade, seu telegrama fora recebido em Roma uma hora antes da transmissão e provocara um rebuliço
entre os italianos. Badoglio reuniu o Ministro da Casa Real, os Ministros das Relações Exteriores, Exército,
Marinha e da Força Aérea, o Chefe do Estado-Maior-Geral, o Subchefe do Estado-Maior-Geral do Exército,
General Carboni, e o Major Marchesi, que fora com Castellano à Sicília para as primeiras negociações. Toda
esta comitiva foi ter com o Rei, ocorrendo uma breve discussão sobre se deveriam ir em frente com o
armistício, arriscando, possivelmente, uma violenta reação alemã, ou repudiar o acordo de 3 de setembro. As
opiniões estavam muito divididas, e foi o próprio Rei, reconhecendo a impossibilidade, naquele momento, de
uma política diferente, quem resolveu a questão.

A esse tempo, a transmissão de Eisenhower fora ouvida e, com o apoio do Rei, Badoglio saiu
apressadamente da reunião, indo para a Rádio de Roma e transmitiu sua proclamação.

"Reconhecendo a impossibilidade de continuar a guerra, diante da força esmagadora do inimigo, e a fim de


salvar a nação de outros desastres ainda maiores, o governo italiano pediu ao General Eisenhower, Co -
mandante-Chefe das Forças Aliadas, um armistício. O pedido foi aceito. Em conseqüência, todas as
hostilidades pelas forças armadas italianas contra as forças britânicas e americanas têm, agora, de cessar.
Elas, contudo, repelirão ataques, venham de onde vierem."
"Aproxime-se a renda-se"
No momento em que Eisenhower fazia a transmissão radiofônica, a maior parte dos soldados envolvidos nos
desembarques de Salerno estava em seus comboios e já a caminho das posições de desembarque no Golfo de
Salerno.

O efeito da transmissão não foi o pretendido por Eisenhower. A tropa, de um modo geral, desarmou o
espírito, começou a relaxar. A tensão que normalmente precede as grandes ações desapareceu, assim como
perderam quase todos a determinação de lutar. Eles acreditavam que, como se dirigiam em direção à Itália, e
como aquele país estava agora fora da guerra, não haveria contra quem combater. Confrontados com essa ló-
gica. aparentemente incontestável, os oficiais ainda tentaram conscientizar a tropa de que ainda teriam de
combater os alemães, mas não conseguiram muita coisa. Como o Almirante Cunningham observou, muitos
ignoraram as advertências. A atmosfera também não desencorajava a atitude dos soldados. Aquela noite foi
bela, límpida e calma. Quando os navios se aproximaram do Golfo de Salerno, do outro lado do Mar Tirreno,
para muitos observadores viajados, uma das mais belas vistas do mundo, os soldados podiam ver luzes em
terra, os lampiões dos pescadores ao largo de Amalfi, e a linha do horizonte, acima da sua área de
desembarque, destacando-se contra o azul do mar e o céu que escurecia. A noite era bem mais de poesia e
romance que de luta e morte.

Quase 600 navios formavam os comboios de invasão e suas escoltas. Eles haviam zarpado dos respectivos
portos em diferentes momentos, a partir das 06h de 3 de setembro; vinham de Trípoli, Palermo, Bizerta,
Termini, Orã e Argel, todos com ordens de chegar ao largo de Salerno em determinado horário, seguindo,
porém, um padrão de procedimento, intricado e minucioso, típico dos desembarques anfíbios.

Ao largo de Salerno, o submarino britânico HMS Shakespeare, que vinha operando naquelas águas há dez
dias, emergiu, e a tripulação instalou uma luz verde na sua torre de comando, para ser vista da direção do
mar, como um farol para orientar os navios que se aproximavam. Pouco depois da meia-noite de 9 de
setembro, os primeiros transportes começaram a aproximar-se dos seus pontos de lançamento, e com um
ruído metálico as barcaças de assalto foram retiradas dos seus turcos e baixadas nas águas calmas. Repletas
de soldados, na maioria com as faces enegrecidas e curvados ao peso do equipamento e das armas, as
barcaças de assalto soltaram amarras e partiram rumo às praias.

Um grupo de soldados altamente especializados tinha a tarefa crítica de tomar, ao norte, o porto de Salerno
propriamente dito, garantir a posse das elevações que dominam o porto e cortar as comunicações rodoviá rias
e ferroviárias entre Salerno e Nápoles, nos pontos em que elas passam pelas montanhas. Três batalhões de
tropas de assalto americanos deviam desembarcar em Maiori, e dois de commandos britânicos em Vietri. As
tropas de assalto, sob o comando do Tenente-Coronel William O. Darby, foram transportadas em duas LSI
(Navio de Desembarque para Infantaria) e cinco LCL (Barcaça de Desembarque para Infantaria), e
começaram a desembarcar às 03h20. Como não encontrassem oposição, e à medida que as levas de
suprimentos as seguiam até a praia, as tropas de assalto avançaram e, em três horas, haviam ocupado as
elevações que dominam a passagem de Chiunzi a Nápoles e as comunicações rodoviárias e ferroviárias entre
Salerno e Nápoles, incluindo a importante rede ferroviária de Nocera. A operação parecia incomumente fácil.

À direita, os commandos britânicos, dirigidos pelo Brigadeiro Robert Laycock, deviam desembarcar em
Vietri, tomar as defesas costeiras e as elevações que dominam o desfiladeiro de Molina, outro caminho que
leva a Nápoles. Mas eles não desfrutariam do desembarque tranqüilo com que foram presenteados seus
colegas americanos. Assim que se aproximaram da costa, exatamente na hora marcada para seu ataque, às
03h30, uma bateria de canhões alemã abriu fogo e os do HMS Blackmore revidaram, para silenciá-la. A
primeira leva da força de assalto os homens do Commando n° 2 do Exército, dirigidos pelo Tenente-Coronel.
Jack Churchill, desembarcou e correu pelas dunas antes que os defensores alemães tomassem consciência da
sua presença. Quando as metralhadoras alemãs foram acionadas, já os commandos estavam no meio delas e,
depois de corpo-a-corpo, seus primeiros prisioneiros estavam sendo levados para a praia. Atrás deles, meia
hora depois, veio o 41º Commando dos Royal Marines, dirigido pelo Tenente-Coronel Bruce Lumsden. Seus
homens logo foram alvejados por fogo de metralhadora e vários deles foram feridos, mas a maior parte dos
commandos desembarcou a salvo e avançou rapidamente. No caminho, encontraram um tanque Tigre,
destruindo-o com uma granada que lhe conseguiram enfiar pela torreta, e partiram céleres para capturar
Vietri, o primeiro objetivo. Ao chegarem ao passo de Molina, onde se entrincheiraram, repeliram um contra-
ataque da infantaria alemã, apoiada por tanques, e ficaram ali aguardando a força principal. Durante essa
luta, as baterias de 88 mm continuaram trocando tiros com os destróieres e cruzadores e, embora os navios
pulverizassem os alvos que conseguiam identificar, várias posições não atingidas por muito bem ocultas,
assim que os navios de abastecimento começaram a tentar a aproximação das praias, por volta das 06h30,
dispararam tão intenso fogo de morteiro e metralhadora, que eles e as barcaças de desembarque foram
repelidos. Na confusão da luta, uma mensagem inteiramente errada chegou ao Q-G dos commandos, dizendo
que os alemães haviam retomado a praia e, assim, eles tinham de passar alguns dias sem receber
suprimentos.

Apesar das dificuldades, os britânicos dominaram o desfiladeiro e, portanto, as comunicações rodoviárias e


ferroviárias; as tropas de assalto americanas também controlavam as passagens na sua área. Vietri e Maiori
foram tomadas e os objetivos situados ao norte, pelo menos, haviam sido alcançados.

Essas duas operações de commando, embora de imenso valor, foram subsidiárias aos desembarques
principais, realizados mais ao sul. O plano do General Clark dividia o ataque principal em duas partes, as
Forças de Assalto Norte e Sul. A cerca de 10 km ao sul de Salerno estavam as praias a serem atacadas pela
Força de Assalto Norte, integrada pela 46ª e pela 56ª Divisões que, juntamente com os commandos e as
tropas de assalto, formavam o X Corpo britânico. A área de desembarque da 46ª Divisão foi designada Uncle
(Tio) e dividida em duas praias, a Vermelha e a Verde. A divisão, sob o comando do Major-General
Hawkesworth, deveria dirigir-se para o norte, após o desembarque, tomar as elevações situadas atrás de
Salerno e dividir-se em duas colunas, uma para tentar a tomada de Salerno e a outra, deslocando-se pelo Vale
de Picentino, para tomar Mercato, situada ao norte de Salerno. O oficial da marinha encarregado dos
desembarques nas praias Uncle, Almirante Conolly, aproximou-se do seu objetivo no USS Biscayne e, por
volta de 01h50, de 9 de setembro, seus navios haviam aberto um canal através do campo minado e ele levara
seus três destróieres da classe Hunt para suas posições, a apenas 1.500 m das praias, prontos para dar
combate a quaisquer instalações terrestres. Os capitães desses navios tinham recebido ordens do Almirante
Hewitt, na noite anterior, para não abrirem fogo contra quaisquer defesas costeiras, a menos que estas
atirassem primeiro, pois as baterias talvez fossem guarnecidas por soldados italianos que, em vista do
armistício, não eram mais inimigos. Mas as baterias de terra abriram fogo, o que levou Conolly a ordenar que
seus destróieres respondessem. Às 02h25, os disparos de terra começaram a rarear e Conolly mandou que se
iniciasse o ataque. Quando a primeira leva de barcaças de assalto se dirigiu para as duas praias Uncle,
canhoneiras se aproximaram da terra, para funcionarem no apoio de fogo, função antes cumprida pelos
destróieres. Na Praia Vermelha, uma barcaça de desembarque, equipada com foguetes, disparou 790 deles
contra a praia, para anular qualquer campo minado, e os primeiros soldados desembarcaram na hora certa, às
03h30. O efeito causado pelos foguetes da barcaça de desembarque, apelidada "cerca viva", foi tremendo. As
explosões lançavam para o alto montes de areia e escombros, por entre os quais se viam soldados alemães
vagando aparentemente atordoados; houve também um pequeno vagalhão formado pelos foguetes. Esse
ataque, contudo, não conseguiu eliminar toda a oposição e, quando os soldados desembarcaram no Setor
Vermelho das praias Uncle, encontraram vigorosa resistência. Todavia, após intensa luta, eles abriram
caminho, as levas sucessivas trouxeram artilharia e munição e, às 06h45, o brigadeiro e seu Estado-Maior
estavam em terra. Sua parte, na operação, saíra perfeitamente de acordo com o plano.

À sua direita, no Setor Verde das praias Uncle, as forças atacantes encontraram problemas muito piores. As
dificuldades começaram guando as barcaças de desembarque dispararam seus foguetes, errando o alvo em
800m, abrindo um caminho pela praia à direita da sua, a praia designada Sugar Amber (Açúcar Ambasr). De
acordo com o plano, as tropas de assalto, se os foguetes errassem o alvo, iriam para onde caíssem os
foguetes, pois se considerava mais importante percorrer o caminho aberto do que obedecer ao plano teórico e
arriscar-se a gandes perdas nos campos minados. A primeira leva de soldados destinada à Uncle Verde,
obedeceu corretamente à ordem e desembarcou na Sugar Amber, sendo seguida, a intervalos de 15 minutos,
por três outras levas. O resultado foi uma confusão que até hoje não ficou bem esclarecida. Alguns soldados
da 46ª Divisão se misturaram aos da 56ª, que foram parcialmente empurrados para fora da sua própria praia.
Ao que parece, dois batalhões de assalto do Regimento Royal Hampshire desembarcaram no lado errado do
Rio Asa e, ao tentarem retornar, uma companhia subiu por um caminho estreito, enfrentando diretamente um
contra-ataque alemão. Dispondo apenas de armas portáteis para enfrentar os tanques alemães, seus
integrantes quase foram eliminados.

Não tendo sido inteiramente perfeito o ataque dos foguetes, um ponto forte ficou intato na Praia Uncle Verde
e os disparos feitos desse ponto forte foram de tal ordem incômodos, que levou Conolly a suspender a
descarga de suprimentos na Uncle Verde pouco antes das 09h e a desviá-los para a Uncle Vermelha. Durante
todo aquele primeiro dia, a Uncle Verde permaneceu inutilizável, numa demonstração dos terríveis
problemas que podem surgir quando ocorre um único erro no complexo plano de um grande desembarque
anfíbio. E, enquanto se desenrolavam esses sangrentos encontros, os navios que manobravam ao largo,
sobretudo os que apoiavam os desembarques na Uncle, duelavam com posições de canhões alemães,
chegando às vezes a disparar contra tanques e grupos de soldados de infantaria que avistavam; além disso,
tiveram também de se pegar com a Luftwaffe. Os aviões alemães montaram seu ataque principal entre as
04h17 e 05h37, acertando em cheio o USS Nauset, e algumas outras bombas caíram nas proximidades.
Quando a tripulação tentava encalhar o navio, com a ajuda de um rebocador, houve tremenda explosão, que
fez em dois o navio e matou ou feriu 59 homens da sua tripulação, de 113 homens.

Todas as LST foram vítimas do fogo das baterias defensivas. Uma delas, ao dirigir-se para a praia Uncle
Verde, sob pesado fogo de artilharia, bateu numa mina, sofrendo 43 baixas. Outra foi atingida por cinco
vezes, mas ainda assim conseguiu desembarcar a tripulação na Uncle Vermelha. Outra, a LST 375, foi
atingida por duas vezes, durante a descarga, e só conseguiu retirar os veículos do seu convés principal depois
que se afastou para reparos. À tarde, já em condições de operar, fez descer os veículos, depois do que,
acertando-a em cheio, uma bomba fê-la explodir.

Em contraste com o que se passava no setor Uncle, a batalha foi relativamente calma, durante o Dia-"D" nos
setores Sugar e Roger, ao sul. A 56ª Divisão, sob o comando do Major-General D. A. Graham, deveria
desembarcar nessas praias e capturar o valioso aeródromo de Montecorvino, o que melhoraria muito o
trabalho dos caças, em sua atividade de cobertura. Em seguida, ela deveria rumar para a Ponte Sele, a 16 km
mais para o interior. A preparação dos desembarques obedecia à direção do Comodoro Oliver, que, depois
que os caça-minas retiraram do caminho cerca de doze minas, mandou que os transportes se aproximassem
da praia. À 01h15, eles começaram a lançar ao mar suas barcaças de assalto e de apoio. No setor Sugar,
dividido em Amber, ao norte, e Green, ao sul, as primeiras levas desembarcaram, com atraso de uns 10 minu-
tos e, quando a segunda leva chegou, a praia em que deveria descer, a Amber, esta va inteiramente tomada
pelos soldados da Uncle, que se haviam desviado do rumo em virtude da imprecisão dos disparos dos fo-
guetes, amontoando-se na praia Verde, contribuindo ainda mais para a confusão geral. Felizmente, o inimigo
não reagira e houve tempo para ajeitar as coisas. Depois do amanhecer, os defensores abriram fogo de
poderosas baterias nas praias Sugar, mas os destróieres Laforey e Lookout aproximaram-se para dar-lhes
combate e continuaram dando valioso apoio durante todo o dia.

O Setor Roger, à direita do Sugar, foi igualmente dividido em duas praias, Ambar e Verde. Também ali houve
um engano na orientação e a primeira leva para a praia Verde desembarcou a uns 1.500 m fora do rumo, mas,
como a praia à qual se destinava realmente estava bem protegida por poderosa bateria alemã, esse erro foi
afortunado. As levas subseqüentes foram vítimas de alguns disparos, mas os desembarques prosseguiram
sem grandes baixas. Além disso, nessas praias, dotadas de alguns dos gradientes mais favoráveis, as
primeiras levas logo foram apoiadas por unidades LST, que desembarcaram suas cargas durante todo o dia e,
antes do anoitecer, já estavam a caminho, em comboio, para uma área segura.

Durante todo o Dia-"D", uma caractecística sem dúvida importante da batalha foi a atividade dos navios,
cuja eficiência permitiu que a artilharia das tropas de desembarque pudesse ser levada para terra. Os
commandos e as tropas de assalto desfrutaram, cada qual, da cobertura de um destróier e de uma barcaça de
desembarque armada de canhões de 4,7 pol., chamados LCG (Launching Craft-Guns, Barcaças de
Desembarque para Canhões). Na Uncle, a 46ª Divisão dispunha de três destróieres e três LCG a dar-lhe
apoio, e nos setores Roger e Sugar a 56ª Divisão tinha três destróieres e quatro LCG. Além disso, todo o X
Corpo tinha à sua disposição, sob o comando direto do Comodoro Oliver, um esquadrão de cruzadores, com
os HMS Mauritius, Uganda, Orion, o monitor Roberts e dois destróieres, mas, devido a dificuldades de
comunicação, não se fez com eficiência o apoio dos cruzadores no Dia-"D", correndo por conta dos
destróieres a maior parte do trabalho. Dos navios de porte, o que atuou de modo realmente proveitoso foi a
capitânia do Almirante Conolly, o USS Biscayne, do qual o próprio Conolly viu uma bateria disparar de uma
colina ao sul de Salerno e mandou que seu navio se aproximasse da costa para atacá-la. Doze salvas dos seus
canhões de 5 pol. fizeram o serviço, depois do que o navio voltou a afastar-se.

Dos destróieres, vários foram atingidos, alguns por granadas de 88 mm, outros por fogo mais fraco, mas a
ajuda que prestaram foi inestimável. Os que se encontravam em terra informaram que seus disparos haviam
reduzido muitos dos canhões alemães a sucata, produzindo também numerosas baixas entre os alemães, não
havendo dúvidas de que, sem o castigo imposto pelos navios, sobretudo pelos destróieres, a atividade dos
defensores poderia muito bem ter impedido que as tropas do X Corpo conseguissem um ponto de apoio.
As praias de desembarque do VI Corpo foram divididas em quatro, designadas pelos nomes Vermelha,
Verde, Amarela e Azul, a partir do norte para o sul. A Praia Vermelha estava, de fato, a 12 km de distância da
area de desembarque mais meridional do X Corpo britânico, o que dava às duas forças muito pouca
esperança de sé apoiarem mutuamente no flanco, mas esta disposição era considerada necessária devido aos
bancos de areia encontrados perto da foz do rio Sele, que dividia em duas partes a cabeça de-praia. As quatro
praias estavam diante dos Templos de Pesto, dois templos gregos perfeitos, e das colunas em ruínas de um
terceiro, quase tudo o que restava da cidade grega de Poseidonia, fundada no século VI a.C. e dedicada ao
deus Netuno. Embora um prazer visual para qualquer entusiasta do clássico, a área era impraticável para a
guerra moderna que em pouco troaria ao seu redor. Situava-se ela a uns 5 km das praias. Mais próximo
destas erguiam-se várias torres de vigia, construídas em tempos mais modernos (cerca de mil anos mais tar-
de), para dar aos habitantes aviso imediato de incursões sarracenas. Estas seriam novamente úteis, por se
constituírem em excelentes pontos de referência para os navegadores das barcaças de desembarque. Atrás de
Pesto, duas montanhas dominavam o campo de batalha, o Monte Soprano com 1.174 m, e o Monte Sottane,
com 686 m; entre eles aninhava-se a pequena cidade de Capaccio. De modo geral, o objetivo do ataque do VI
Corpo era dar proteção ao flanco direito dos Aliados em seu avanço na direção de Nápoles e travar contato
com as unidades avançadas do 8° Exército, de Montgomery, que vinha do sul.

Para o desembarque, o VI Corpo foi dividido em dois grupos regimentais de combate, o 142º GRC, que
desembarcaria nas duas praias mais setentrionais, e o 141º GRC, que desceria nas outras duas; ambos os
grupos pertenciam à 36ª Divisão de Infantaria, sob o comando do Major-General Fred L. Walker. Eles
deviam desembarcar em seis levas de barcos, tomar a ferrovia situada atrás dos templos, deslocar-se para o
sopé dos montes e assenhorear-se da área. A 45ª Divisão de Infantaria, também dividida em dois grupos
regimentais de combate, ficaria como reserva, a bordo, desembarcando no dia seguinte.

Exatamente uma hora antes da Hora-"H", às 02h30, quatro velozes lanchas-canhoneiras, com os motores
equipados com silenciadores, aproximaram-se lentamente no mar calmo e tomaram posição ao largo das suas
respectivas praias. O Segundo-Tenente G. Anderson parou a uns 400 m ao largo da Praia Vermelha e ligou
sua luz vermelha na direção do mar. Ao largo da Praia Verde, depois de orientar-se pela Torre de Pesto,
construída na Idade Média, o Tenente R. Galloway aproximou-se a 100 m da praia e às 03h10 ligou sua luz
verde. O Segundo-Tenente J.G. Donnell também se orientou pela torre para encontrar sua posição ao largo da
Praia Amarela, e o Segundo-Tenente R.E. Schumann acomodou-se, à espera das levas de assalto, na Praia
Azul, depois de orientar-se pelo Monte Sottane.

Atrás deles, os caça-minas trabalhavam na abertura de um canal através de um cam po minado cuja existência
havia sido pouco antes comunicada embora a tarefa fosse excessiva para ser realizada no tempo disponível.
Uma barcaça de desembarque veio a bater numa dessas minas, explodindo.

A seguir, vieram os barcos de assalto e, à parte o ruído surdo dos seus motores, não havia muito barulho e a
estranha calma provocada pela ausência de bombardeio de apoio tornou a suscitar dúvidas quanto à sensatez
de se tentar obter surpresa tática, dúvidas estas intensificadas pelas explosões, ouvidas a distância, do
bombardeio de apoio às tropas britânicas, ao norte.

A decisão de tentar o assalto sem apoio de fogo de artilharia foi uma das mais infeli zes da guerra, pois os
defensores estavam vendo tudo, dedo no gatilho.

Há informes de que, embora se discuta a, sua veracidade, quando o primeiro soldado desceu à praia, ouviu
através de um sistema de alto-falantes dizerem num inglês carregado: "Aproxime-se e renda-se. Você está
sob nossa mira".

O indiscutível é que, quando os barcos de assalto pararam e os soldados começaram a adear as águas, as
defesas começaram a atirar com 88 mm, morteiros, metralhado-as e armas portáteis, enquanto a Luftwafe
realizava bombardeios repetidos e corridas de metralhamento pelas praias.

Os barcos estavam ligeiramente atrasados. Os desembarques se realizavam entre cinco e sete minutos após a
Hora-"H". Nas Praias Vermelha e Verde, o 142º GRC ficou retido por algum tempo pelo fogo disparado da
Torre di Pesto, mas pequenos grupos de soldados, muitas vezes sem oficiais ou suboficiais, conseguiram
avançar, e às 05h30 receberam satisfeitos o apoio de artilharia desembarcada de três LST. Uma vez mais o
congestionamento se constituiu em problema, e quando a reserva do 143º GRC chegou e começou a
desembarcar na Praia Vermelha, às 06h30, os que a integravam acotovelaram-se com os que se encontravam
já nas praias, incapazes de avançar por demasiadamente forte a barragem de fogo do inimigo. Estava difícil
desmanchar a confusão formada, até que os próprios soldados começaram a compreender o problema; assim,
por volta das 07h56, quando seu comandante, o General Walker, desembarcou na Praia Vermelha, eles já
haviam capturado Pesto e se dirigiam para o objetivo que lhes fora designado, o Monte Soprano.

Na Praia Verde, o 2º Batalhão do 142º Grupo Regimental de Combate enredou-se em alambrados e campos
minados da defesa e também encontrou dificuldade em sair da praia. Sua segunda leva de barcaças de de -
sembarque, batendo, algumas, em minas, atrasou-se, mas, por volta das 05h30, cerca de 30 DUKW haviam
desembarcado com obuseiros de 105 mm e munição, o que ajudou os homens a alcançar a área de reunião
usada pelas tropas da Praia Vermelha. Um fator crítico era a captura da torre, pelo 531º de Engenharia de
Costa, com a conseqüente destruição não só das metralhadoras localizadas no alto da torre, mas também dos
tanques posicionados entre as casas existentes em torno dela. Essa unidade de sapadores trabalhou com
eficiência excepcional, abrindo estradas pelas praias e assentando grades de metal, sendo objeto de ataque
provindo das torres durante todo o tempo de trabalho.

As duas outras praias, a Amarela e a Azul, mostraram-se ainda mais difíceis. Os defensores se haviam
entrincheirado muito bem e ambas as praias estavam sob o fogo constante das baterias costeiras de Agropoli.
Na Praia Amarela, o 3º Batalhão do 142º GRC foi retido a uns 400 m da orla marítima, e na Praia Azul as
primeiras levas do 1º Batalhão foram retidas durante 20 horas, em virtude do atraso de suas levas de apoio,
determinado pelo choque de barcaças de desembarque contra minas ou pelas dificuldades de desembarque
impostas pelo pesado fogo da artilharia defensiva. Finalmente, uma barcaça conseguiu desembarcar suas
armas pesadas e um oficial entrou de pronto em ação, com um canhão de 75 mm, destruindo um tanque e um
ninho de metralhadoras. Mas isto não bastava para virar a sorte, e durante a tarde a Praia Azul perma neceu
inteiramente impedida.

Como acontecera no setor britânico, os soldados, dentro das limitações impostas pe la falta de experiência,
haviam lutado bem e corajosamente, mas não teriam, por certo, podido defender suas posições nas praias, e
muito menos fazer qualquer progresso, sem o apoio da artilharia naval.

Durante a primeira parte do Dia-"D", o HMS Abercrombie, operando a mais de 25 km da costa, realizou
inestimável bombardeio das baterias de canhões, das concentrações de tanques inimigos e da cidade de
Capaccio, até que, à tarde, bateu numa mina e adernou, sendo obrigado a retornar a Palermo.
O cruzador USS Savannah atendeu a 11 pedidos de apoio de fogo durante o Dia-"D", disparando 645
granadas de 6 pol. contra formações de infantaria, concentrações de tanques, baterias de artilharia e
novamente contra a cidade de Capaccio. A nave-capitânia Philadelphia entrou em ação durante a manhã,
primeiro contra uma bateria inimiga e, depois, tendo lançado um avião de observação, contra uma ponte da
qual se aproximavam unidades de reforço dos grupamentos panzers. Pouco depois do meio-dia, o
Philadelphia aproximou-se mais da costa, tendo à frente um caça-minas, e atirou contra outra bateria alemã.
Mais tarde, tendo-se colocado a distância menos vulnerável, ele disparou granadas de 6 pol. contra um grupo
de mais de 30 tanques alemães ocultos num bosque e, juntamente com o Savannah, destruiu sete deles, antes
que o restante recuasse para distância mais segura. O Philadelphia também contribuiu para orientar o fogo
dos destróieres contra alvos proveitosos. O Bristol e o Edison operavam eficazmente, à distância de 5.000 a
6.000 m da costa, contra posições de artilharia e tanques, sendo, por sua vez, alvejados por canhões
posicionados em lugares bem dissimulados, mas não foram atingidos. O destróier Ludlow acompanhou um
caça-minas até 1.500 m da costa do flanco direito do VI Corpo, na Praia Azul, e calou uma das baterias que
disparava contra os soldados retidos naquele setor. No transcurso do Dia-"D", o Ludlow disparou 465
cartuchos em apoio da força terrestre.

Esta enérgica ação dos navios, sobretudo dos destróieres, que penetravam as áreas minadas para disparar de
pequena distância, foi muito apreciada pelo exército. O comandante da artilharia divisional da 36ª Divisão
enviou a seguinte mensagem de agradecimento aos tripulantes dos navios que se encarregaram do apoio de
fogo: "Às unidades da Marinha, sem cujo apoio não teríamos saído das praias Azul e Amarela, o nosso eterno
reconhecimento. Formulo a Deus votos de felicidade a esses valorosos batalhadores".

A contagem, no final do Dia-"D", graças sobretudo ao eficiente apoio de fogo dos navios, registrou
vantagem, ainda que modesta, para os Aliados, embora não conseguissem alcançar o que deles esperavam os
planejadores, que pretendiam que a linha da cabeça-de-praia abrangesse Salerno, Battipaglia, Eboli e a Ponte
Sele, onde o X Corpo se teria juntado ao VI Corpo e, então, atravessado as montanhas, indo para bem dis-
tante de Altavilla e Albanella, ultrapassando a cidade de Capaccio e os picos gêmeos do Monte Soprano e do
Monte Sottane. Este plano, ambicioso, sem dúvida, mas não inalcançável, teria dado à força invasora espaço
suficiente para manobrar nas praias e, também, posições dominantes sobre toda a cabeça-de-praia, bem como
uma posição firme para avançar para o norte, na direção de Nápoles. Mas, por vários motivos, inclusive o
resoluto comportamento dos defensores, os acontecimentos não se harmonizaram com os planos, e a linha,
naquela noite, ia de uns 5 km a sudeste de Salerno, cerca de 3 km para o interior, e retornava à costa, a 6 km
da foz do rio Sele. O VI Corpo deslocara-se da cabeça-de-praia para o interior e tomara a cidade de
Cappacio, e uma companhia da 36ª Divisão estava a caminho para tomar o Monte Sottane, embora o flan co
direito da Praia Azul ainda estivesse sob fogo intenso, permanecendo rétido ali. Assim, havia uma brecha de
11 km entre os corpos britânico e americano, por onde pairava a agourenta ameaça de um contra-ataque
alemão. O pior de tudo é que os três mais almejados objetivos do Dia-"D", o aeródromo de Montecorvino, o
porto de Salerno e Battipaglia, não tinham sido tomados.

Não obstante, o General Clark mais tarde registraria que, embora o ataque não alcançasse a velocidade ideal,
fora feito o que, no seu entender, seria possível esperar, no primeiro dia de combate.

Batalha pela cabeça-de-praia


Nos dias seguintes ao Dia-"D" registraram-se lutas confusas, ataques e contra-ataques esporádicos, homens
aprisionados, homens mortos, pontos fortes tomados e abandonados e, às vezes, até retomados.

O único fato evidente era que o grosso dos efetivos alemães estava reunido no flan co esquerdo dos Aliados,
contra o X Corpo britânico.

Respondendo ao desembarque, Kesselring, o comandante alemão no teatro de guerra italiano, logo pedira
reforços. A Divisão Hermann Göring e parte da 15ª Divisão Panzergrenadier deslocaram-se para Salerno e a
3ª Divisão Panzergrenadier foi de Orvieto para o sul, liberada da tarefa de defender Roma. Ao mesmo tempo,
todo o LXXVI Corpo, tendo rompido contato com o 8º Exército de Montgomery, dirigia-se apressadamente
para o norte, sob o comando do General Herr.

Vietinghoff, Comandante do 10º Exército, também deslocara, durante a noite, a 16ª Divisão Panzer do setor
americano, para concentrar-se contra os britânicos, acreditando que a 29ª Divisão Panzergrenadier estava
para chegar e poderia encarregar-se da defesa contra o VI Corpo.

Contra esta defesa formidável, os britânicos começaram a fazer sondagens no dia 10 de setembro bem cedo,
embora soubessem todos, sem qualquer sombra de dúvida, que a crista da montanha que tinham pela frente,
com 660 m de altura e repleta de artilharia alemã bem embasada, dificultaria demais o avanço. Na verdade, o
progresso foi insignificante, pois os alemães contra-atacavam sempre com muito vigor.

A 56ª Divisão de Infantaria, diante de Battipaglia, foi a mais castigada. Os Royal Fusiliers, o tradicional
regimento de infantaria de Londres, enviaram patrulhas ao interior da cidade durante a noite, mas, por
penetrarem sem apoio de tanques, a incursão deixara seus flancos desprotegidos. A 16ª de Panzers, depois de
bombardear violentamente, com canhões de 88 mm, a linha avançada dos britânicos, usando também no
bombardeio fogo de metralhadoras Spandau, avançou com tanques Tigre e Mark IV. Os Royal Marines
assestaram seus canhões antitanques contra eles, mas sem resultado, não demorando muito para que se
reduzissem seus efetivos, por baixas e aprisionamento, ante a fúria dos alemães, decididos e mais bem
equipados. Os fuzileiros tiveram então que recuar seu perímetro defensivo e, depois, dividirem-se em
pequenos grupos, ocultando-se nas casas de Battipaglia, sendo capturados ou mortos no prosseguimento da
luta. Ao lado dos Fusiliers, a 201ª Brigada de Guardas britânica estava enfrentando oposição igualmente
forte, na luta pela posse do aeródromo de Montecorvino e das áreas adjacentes.

Entre Battipaglia e o aeródromo de Montecorvino erguia-se uma fábrica de fumo, local que sobressairia na
luta que era iminente. Os alemães ocupavam fortes posições defensivas ali, e duas unidades da Guarda Real
britânica, os Grenadiers e os Scots Guards montaram um ataque, apoiando-se entre si. Infelizmente para a
imaculada reputação dos Guardas, os tanques e carros blindados alemães contra-atacaram, com apoio da
infantaria, dobraram pelo menos um pelotão e obrigaram a recuar grupos dos demais pelotões. A retirada
transformou-se em pânico e em breve as estradas estavam repletas de soldados a correr para as praias. Com a
propagação do pânico, alguns Fusiliers juntaram-se a eles, até que oficiais, fazendo valer seu poder de
decisão, os reorganizaram em unidades de combate. Deve-se salientar, com toda a justiça, que duas com-
panhias dos Grenadier Guards permaneceram firmes e, com a ajuda dos Royal Scots Greys (o 2º regimento
de dragões, mecanizados) e de tanques Sherman, detiveram o ataque alemão.

Mais tarde, naquela manhã, os Scots Guards receberam ordens de avançar e tentar a tomada da fábrica. Os
alemães, inteligentemente, esperaram que se iniciasse o ataque dos escoceses para então atirar, e depois
abriram fogo, de posições bem ocultas, com Spandaus, morteiros e canhões de 88 mm. Os Guardas, sem se
deixarem abater, e por não verem nenhuma vantagem no recuo, continuaram avançando contra o for te fogo
inimigo e transpuseram a cerca da fábrica. Daí por diante, eles travaram uma batalha cerrada por entre os
prédios do estabelecimento. Porém, com os recursos limitados de que dispunham não conseguiram manter
um ponto de apoio, sendo, por isso, obrigados a recuar, sempre sob fogo intenso e constante.

O ataque britânico fora de novo detido pelo imediato contra-ataque alemão, coisa típica das lutas travadas
nos primeiros dias em terra. Os invasores conquistaram faixa de terreno pequena, e pagaram caro, em baixas,
por ela. O General Clark escreveu, mais tarde: " ... era difícil, mesmo depois do relatório complexo da
batalha, a qualquer um, exceto aos que estavam nela envolvidos, saber a gravidade do desastre que ameaçava
o primeiro ataque aliado ao solo europeu. Mesmo no decorrer da batalha, não tínhamos conhecimento pleno
da grande vantagem dos alemães que defendiam as altas colinas que rodeavam nossa cabeça-de-praia, de
onde nos miravam continuamente. Só meses mais tarde, quando tive ocasião de sobrevoar as posições alemãs
de Salerno, é que percebi que o inimigo, de onde se encontrava, via todos os nossos movimentos, deslocando
assim homens e máquinas para tranqüilamente anular nossos ataques. Neste aspecto, a vantagem alemã era
espantosa".

Por isso é que se debita ao General Clark o erro de não ter procurado senão depois de três meses obter
informações a respeito de tão importante acontecimento. Na verdade, ele desembarcara na manhã seguinte ao
Dia-"D", e provavelmente vira o anel de montanhas que dominava a área. Talvez o ponto crítico é que,
naquele estágio, ele apenas vira as montanhas da praia, e não a praia das montanhas, e a imensa vantagem
que representavam para quem as controlasse.

A principal razão de Clark para descer à praia era encontrar um local de desembarque para a reserva
flutuante do 157º Grupo Regimental de Combate. Ele reconhecia o problema da brecha existente entre os
dois corpos e, após consultar o comandante da 36ª Divisão, General Walker, e o comandante do X Corpo,
General McCreery, decidiu desembarcar o 157º GRC na extrema direita da cabeça-de-praia britânica para
iniciar o fechamento da brecha. Na verdade, devido à terrível escassez de barcos, a ordem de Clark vinha
tarde demais. O Almirante Hewitt fora pressionado pelos seus superiores em Argel para liberar as barcaças
de desembarque para outros usos e fora obrigado a mandar os homens desembarcar. Eles haviam
desembarcado no setor americano ao sul do rio Sele e perdeu-se algum tempo enquanto eram deslocados
para o norte, em obediência às intenções de Clark.

Por estranho que pareça, Clark compreendera tão mal a situação, que enviou uma mensagem ao General
Alexander dizendo que em breve estariam prontos para atacar na direção norte, através do Passo Vietri.
visando a acossar Nápoles. Como declarou mais tarde, houve otimismo excessivo.

Ele talvez fosse levado a tirar essa conclusão pelo relatório de Walker sobre o que se passava no flanco
direito. Ali, o VI Corpo americano desfrutara de relativa calma no Dia-"D", pois a defesa alemã se
concentrara no bloqueio dos acessos a Nápoles. As maiores baixas foram causadas pelos ataques aéreos. Até
o amanhecer, quando desceu uma neblina que impediu os desembarques e os ataques aéreos, bombardeiros e
caças da Luftwafe estiveram ocupados, usando pára-quedas com foguetes luminosos para iluminar os alvos
durante as horas de escuridão.

No flanco esquerdo do VI Corpo, a 45ª Divisão sofreu o impacto da luta, quando seu 179º GRC recebeu
ordens pessoais do General Dawley, quando este fez uma visita de inspeção ao campo de batalha, para
avançar para Eboli. O 2º Batalhão da unidade devia avançar ao sul do rio Calore, e o 3º Batalhão devia
cruzar o rio, atravessar Persano e tomar a ponte chamada Ponte Sele.

Quando a noite se aproximava, as duas colunas puseram-se a caminho. O 2º Batalhão percorreu cerca de 6
km até chegar também a uma posição de onde podia atravessar o rio Calore. Quando ele o cruzava, a 16ª
Divisão Panzer lançou seu 29º Batalhão de Sapadores ao ataque, prejudicando seriamente a sondagem dos
americanos, que se viram forçados a recuar em desordem, para se reorganizarem bem aquém do rio.

Mais feliz foi a tentativa do 3º Batalhão de chegar à Ponte Sele. Ele também foi obrigado a ter de cruzar o
Calore, porque a ponte principal que o transpunha fora queimada pelos alemães. Quando o batalhão se
dirigiu para a Ponte Sele, foi submetido a intenso fogo disparado pelos alemães que ocupavam as elevações
que rodeiam Persano. Contudo, o batalhão chegou à ponte (também destruída) e preparou posições de-
fensivas nas elevações circundantes, enquanto unidades de sapadores eram chamadas a realizar reparos na
ponte, a qual conseguiram restaurar na manhã do dia 11, depois de serem sistematicamente hostilizadas pelos
canhões instalados nas colinas.

No flanco da extrema direita da cabeça-de-praia americana, a 36ª Divisão tentava avançar na área de Pesto.
À sua esquerda, um batalhão do 142° GRC deslocou-se para uma elevação, a Cota 424, e para a cidade de
Altavilla, nas proximidades. Ao alcançar as elevações próximas da cidade, não demorou para ser atacado por
um grupo de cerca de 25 tanques alemães que só foram rechaçados quando a artilharia os submeteu a forte
bombardeio. Outro batalhão do 142° GRC, à direita, ocupou boas posições no Monte Soprano e arredores e,
assim, conseguiu estender a cabeça-de-praia.

A alguns quilômetros ao norte, as duas unidades estabelecidas independentemente, os commandos e as tropas


de assalto, estavam defendendo suas posições, mas a resistência que enfrentavam engrossava à medida que
reforços alemães chegavam. A atividade das duas unidades ficou limitada a conter os ataques alemães,
exaurindo seus parcos suprimentos, que só lhes podiam chegar em lombo de muares que, para que pudessem
galgar as elevações, era preciso que a artilharia naval permanecesse batendo com fogo as estradas e os postos
ocupados pelos alemães, abaixo dos soldados aliados.

E, uma vez mais, a marinha desempenhou papel da maior importância na batalha, dando apoio sistemático e
preciso durante todo o dia. Só no setor britânico, 37 pedidos de fogo foram feitos e atendidos no dia 10 de
setembro. Um navio, o HMS Nubian, disparou 341 salvas dos seus canhões de 4,7 pol., o mesmo sucedendo
com os demais navios que por ali se encontravam. Os alvos eram sobretudo uma concentração de tanques,
uma bateria de canhões, um prédio que parecia estar funcionando como ponto forte, um depósito de munição
e uma concentração de veículos, todos batidos pela artilharia naval com elogiável precisão.

No todo, o Dia-"D" + 1 terminou com o saldo mantido precariamente. Os Aliados haviam obtido pequenos
ganhos em determinados lugares, notadamente no setor americano, mas a concentração de reforços alemães
prosseguia, embora também eles estivessem encontrando dificuldades. Um general alemão, da Divisão
Panzer "Hermann Göring", registrou: "Os tanques eram incapazes de operar com eficiência no vale estreito e
tinham um campo de observação restrito. Houve luta violenta em ambas as encostas do monte, cuja
ocupação era importante para o trabalho de observação de nossa artilharia. No terreno montanhoso, com
sulcos profundos, as companhias se dispersaram, abrindo-se, na frente, brechas através das quais o inimigo
se infiltrava. À custa do sacrificio de pequenos grupos de assalto, estabeleceu-se uma linha de frente
consecutiva, mas tornou-se extremamente difícil manter o controle da situação. A arti lharia naval continua
causando grandes baixas".

No dia seguinte, 11 de setembro, o estado de coisas era o mesmo: a mesma confusão, as mesmas trocas de
território, com ganhos e perdas, o mesmo enrijecimento da resistênca alemã. O setor americano continuava
sendo atingido com menos rigor que o britânico exceto no norte, onde o 179º GRC enfrentava, na área dos
rios Sele e Calore, forte contra-ataque dos alemães. Após intensa luta, com suas posições avançadas sofrendo
escassez de munição, o 3º Batalhão do regimento foi obrigado a recuar e conso lidar-se em torno da Ponte
Sele. Os sapadores haviam conseguido fazer os devidos reparos na ponte a fim de que a artilharia pudesse
atravessar com seus canhões, mas durante o dia somente três canhões da 160ª Bateria de Campanha
conseguiram terminar a viagem e, pelo anoitecer, a posição estava mais perigosa ainda: uma coluna do 179º
foi cercada e quase isolada. A uns quatro quilômetros à sua direita, o 2º Batalhão do 179º GRC cruzara o rio
Calore, onde também sofreram todo o impacto do ataque blindado alemão, que o levou a ceder o ter reno
ganho no dia anterior. Também à sua direita, nas colinas existentes em torno de Altavilla, no dia 11 de
setembro os alemães saíram para violento contra-ataque, impedindo que o 142º avançasse mais.

No setor do X Corpo, onde se fez mais intensa a luta foi pela posse de Battipaglia. Como acontecera no dia
anterior, a Brigada de Guardas, que se encontrava no centro da ação, montou naquela manhã, bem cedo, um
ataque para tentar recuperar a cidade que havia perdido no dia 10. A cidade esta va defendida pelos pára-
quedistas e pelos tanques da 16ª Divisão Panzer e, no começo da manhã, os Grenadier Guards deslocaram-se
pelas estradas e por entre as casas dos arredores. Foi bom o progresso inicialmente feito, mas por volta das
11h os tanques contra-atacaram e repeliram os Guardas da cidade para o sul. Mais tarde, os Scots Guards, à
sua esquerda, enviaram, uma companhia para tentar tomar a fábrica de fumo, alvo importantíssimo porque
ali os alemães tinham excelentes campos de tiro que dominavam as travessias dos rios Sele e Calore, e onde
desfrutavam de certa proteção. Os Panzers mantiveram-se silenciosos até que os Guardas transpuseram o
alambrado que cercava os prédios da fábrica, quando desencadearam todo o seu poder de fogo para esmagar
os atacantes. Vários soldados britânicos foram mortos, e o restante, aprisionado.

O número de prisioneiros feitos no dia 11 de setembro, mais de 1.500, britânicos na maioria, dá bem a
medida do sucesso dos defensores.

Como resultado dos êxitos colhidos pelos alemães, foi-se deteriorando o moral do soldado aliado. No
começo daquela noite, os alemães montaram um ataque combinado de tanque e infantaria contra os Royal
Fusiliers ao sul de Battipaglia, que repeliu as tropas britânicas, quebrou sua formação de combate e os forçou
a uma retirada, áspera e desorganizada, para o mar. Quando os tanques e meias-lagartas irromperam no meio
deles, ao anoitecer, as comunicações entraram em colapso e os soldados sentiram-se individualmente
isolados. Muitos foram feridos, muitos viram tombar mortos numerosos companheiros e, na confusão que se
estabeleceu, o melhor, consideravam todos, era bater em direção às áreas da retaguarda.

Os oficiais mais decididos, sempre que os encontravam, mandavam-nos voltar para a linha de frente, em
alguns casos sob ameaça de morte, se continuassem em retirada. Para reforçar a linha, soldados do setor
burocrático, comandados por suboficiais que nunca haviam sequer admitido a possibilidade de participar da
luta, receberam ordens de se entrincheirarem. Pelo menos numa ocasião, um suboficial britânico, ao ordenar
a um grupo de sapadores que se dirigissem para a linha de frente, chegou a ameaçá-los de fuzi lamento, se se
negassem a participar da luta. Igualmente extraordinário foi um incidente no qual um grupo de soldados
britânicos se rendeu, na escuridão, a soldados que avançavam, verificando, depois, que os supostos inimigos
eram americanos. O moral estava realmente baixo, e tão baixo que não reconhecia fronteiras.

Ao norte da cabeça-de-praia, os commandos e tropas de assalto passaram o dia sob pressão cada vez mais
forte, pois Kesselring, com os reforços que recebia, redobrava as defesas nos passos que conduziam a Nápo-
les, embora o 4º Batalhão das Tropas de Assalto capturasse e defendesse o importan te Monte Pendolo.
Reconhecendo a importância da defesa do terreno que dominava as rotas situadas entre a cabeça-de-praia e
Nápoles, o General Clark mandou que se retirasse um batalhão do 143º de Infantaria do setor do VI Corpo,
no sul, para que fosse, em barcaças de desembarque, levado para reforçar a cabeça-de-praia em Maiori.

No todo, o quadro, do ponto de vista dos Aliados, deixava entrever que se estabelece ra ligeira melhoria sobre
o dia anterior. O perímetro da cabeça-de-praia fora reforçado e Salerno estava oficialmente ocupada, em bora
o porto estivesse tão avariado que era impossível descarregar suprimentos ali. Os soldados nem sequer se
haviam aproximado das suas projetadas linhas (Nápoles fora incluída nas projeções dos planejadores como
captura para aquele dia) e, embora os americanos tivessem, no sul, avançado cerca de 15 km para o interior,
os britânicos, no setor norte, haviam estabelecido um ponto de apoio de apenas 1.500 m de profundidade.
Entretanto, o General Hawkesworth, no comando da 46ª Divisão, conseguiu encontrar otimismo suficiente
para informar que seus soldados estavam em condições de impedir qualquer penetração inimiga.

O dia era sem dúvida de otimismo. Clark tinha a impressão de que a cabeça-de-praia estava tão firme, que
após uma visita ao X Corpo, naquela noite, informou ao General Alexander que em pouco estaria pronto para
lançar um ataque, através de Vietri, para o norte.

Provavelmente, os acontecimentos mais emocionantes e importantes do dia 11 ocorreram no mar. Por volta
das 09h30, estando o General Clark a bordo do Ancon, ouviu-se um ruído forte, estridente, e ele logo supôs
tratar-se de um novo tipo de bomba alemã. Quando o ruído aumentou, Clark já espera va que o navio Q-G
fosse o alvo e, um tanto filosoficamente, preparou-se para o impacto.

O cruzador Savannah passava por perto no momento e, de repente, houve um enorme choque logo à frente
da ponte de comando do Savannah, seguido de uma explosão sob seus conveses. Na verdade, aquele era o
primeiro ataque que a Luftwafe fazia com sua nova bomba-planadora, controlada pelo rádio, a FX 1400, uma
das mais eficientes armas secretas de Hitler. A bomba pesava 1.400 kg, alcançando, pela força da gravidade,
a velocidade, nos momentos finais da queda uns 260 m por segundo, desde que lançada de altura
previamente determinada, e era dirigida pelo rádio, através de um sistema de aletas. Ela prometia ser uma
bomba formidável e, embora os Aliados soubessem da sua existência e esperassem seu emprego em Salerno,
não tinham defesa certa contra ela e nem podiam sair para a evasão, pois, ao :ergo da cabeça-de-praia, a área
estava atravancada.
A bomba que atingiu o Savannah fora lançada por um bombardeiro Dornier 217, de uma altura de 6.000 m.
Ela atingira a torre n° 3 e detonara na sala de manobras, logo abaixo, abrindo um rombo no fundo do navio e
rompendo uma junta nos seus costados. Caldeiras se apagaram, o navio perdeu força e em pouco estava
afundando pela proa com o castelo de proa inundado. Mas os grupos de controle de incêndio logo
minimizaram os efeitos da explosão e o navio foi reequilibrado, ajustando-se a distribuição do seu óleo
combustível. Somente às 18h é que foi possível colocá-lo em condições de poder novamente navegar,
chegando ele a Malta com uma poderosa escolta de quatro destróieres.

Contudo, nem mesmo a queda da bomba-planadora sobre o navio que se encontrava próximo do Ancon,
onde estava Clark, poderia ser para ele mais surpreendente que a informação que recebeu ao retornar ao
Ancon, após breve visita a terra, naquele mesmo dia. Chegara uma mensagem de Alexan der dizendo que a
82ª Divisão Aeroterrester, que Clark fora obrigado a destacar antes dos desembarques de Salerno, não havia
saltado nos aeródromos de Roma e estava concentrada nos aeródromos sicilianos, à sua disposição para usá-
la como melhor lhe aprouvesse.

Pela primeira vez Clark ouvia falar do cancelamento do salto. Taylor, em sua conferência com o Marechal
Badoglio, dera parecer contrário ao salto, sob a alegação de que, uma vez que não haveria ajuda dos soldados
italianos, a 82ª Divisão Aeroterrestre poderia ficar isolada numa operação nos arredores de Roma. Clark
ficou muito satisfeito em ter a 82ª à disposição, para lançá-la em Salerno, em vista do fortalecimento da
resistência alemã, e deu ordens para que ela saltasse, na noite de 13 de setembro, perto da cidade de Avellino,
a fim de operar atrás das linhas alemãs. O salto se daria, portanto, dois dias depois do momento em que ele o
ordenara, mas a situação na cabeça-de-praia mudara tão drasticamente, que a 82ª não chegou a saltar em
Avellino.

A 12 de setembro, unidades alemãs montaram poderosos contra-ataques ao longo de toda a frente. Os


reforços para Kesselring estavam chegando, e ele logo os lançava na linha, com bons resultados. Na
extremidade sul da cabeça-de-praia, ele ordenou que se fizessem ataques com elementos da 26ª Divisão
Panzer, 29ª Divisão Panzergrenadier e 16ª Panzer contra o flanco esquerdo do VI Corpo. Na área de
Montecorvino, os ataques foram montados pela 15ª e pela 3ª Divisões Panzergrenadier e pela Divisão
Hermann Göring, contra o X Corpo britânico.

Em todas as regiões, os Aliados só com extrema dificuldade resistiam a esses decidi dos ataques e, em muitos
casos, eram obrigados a recuar. A 45ª Divisão, que partira em duas colunas para a Ponte Sele, corria o perigo
de ser isolada. Clark mandou que o 157º Grupo Regimental de Combate a fosse reforçar. O Coronel Charles
Ankcorn era o comandante desta unidade, que fora transferida para o flanco britânico depois de desembarcar
no setor errado; ela avançaria ao longo do rio Sele e protegeria o flanco do ataque norte da 45ª Divisão Os
homens de Ankcorn logo sentiram o vigor da resistência alemã, quando disparos das armas dos tanques e de
metralhadoras foram feitos contra eles, das elevações em torno de Persano e da fábrica de fumo, situada nas
proximidades. Os alemães haviam cruzado o rio Sele e ocupado estas importantíssimas posições.
Imediatamente puseram eles fora de combate cinco dos sete tanques de Ankcorn e o 157º GRC foi retido
pelo fogo devastador, incapaz de progredir. O terreno ocupado pelo inimigo formava uma cunha perigosa na
área mal defendida entre as cabeças-de-praia do VI e do X Corpos. A luta era, naquela região ora favorável a
um lado, ora ao outro, até que mais tarde, naquele mesmo dia, o General Dawley montou um ataque com
elementos da 45ª Divisão, que, com a ajuda de fogo de artilharia solicitado do Philadelphia, expulsaram os
alemães da fábrica de fumo e de Persano.

No começo do dia, a situação em torno de Altavilla era séria e, como os Aliados não conseguiam encontrar
solução para o problema, no fim do dia ela piorara ainda mais. De manhã cedo, o 1º Batalhão do 142º de
Infantaria, sob o comando do Coronel Barron, ocupara a Cota 424, atrás da cidade, mas não lhe foi possível
consolidar a posição antes de os soldados alemães do 2º Batalhão do 15° Regimento Panzergrenadier
envolverem toda a elevação e despejarem uma barragem de fogo contínua contra os americanos. Com o
correr do dia, a situação foi-se tornando mais e mais confusa, com linhas de comunicações cortadas e rádios -
postos fora de ação, por dano ou falta de energia. Finalmente, no fim da tarde, a infantaria foi obrigada a
iniciar uma retirada, que logo se transformou em debandada, por se haver tornado mais forte a carga da
artilharia alemã contra os que tentavam retornar às suas linhas. Altavilla foi abandonada.

Em Battipaglia, no norte, a luta do dia trouxe resultado parecido. Os homens da 56ª Divisão começaram o dia
quase sem sinal de presença inimiga, mas pouco depois do nascer do sol, iniciou-se o ataque, precedido de
violento fogo de morteiro e artilharia, e os britânicos foram obrigados a uma retirada em combate. Em
determinado momento, os oficiais foram a um Posto de Ajuda Regimental pedir a todos os soldados que,
embora feridos, pudessem empunhar uma arma que retornassem à luta. A situação era extremamente dificil,
mas o exército britânico, por seus regulamentos, não impunha aos feridos a obrigação de lutar. Por isso, só
cabia aos oficiais pedir, e os que não estavam de todo arriados atenderam ao apelo. Não seria, porém, lícito
esperar desses homens desempenho muito destacado, sobredo porque para os britânicos era muito
desfavorável a situação, mas, não obstante, pequenos atos de bravura tiveram por personagens homens saídos
de leitos de hospital. No fim do dia, a 56ª Divisão fora expulsa de Battipaglia e o General Graham, seu co -
mandante, estava tentando reorganizar uma linha firme a uns 3.000 metros a sudoeste da cidade.

O dia 12 de setembro foi muito desagradável para o General Clark. Ele descera a terra, para estabelecer seu
Q-G bem cedo, naquela manhã. Seu Estado-Maior escolhera uma grande mansão localizada na região de
Pesto, mas, na opinião de Clark, ela sobressaía muito, constituindo-se num convite ao desastre, de modo que
decidiu ficar em seu trailer, instalando-o nos bosques logo ao sul de Pesto. Ele passou o resto do dia
visitando o campo de batalha, em seu jipe, quase sempre por ele mesmo dirigido, com uma escolta de
polícias militares. Naquela paisagem quente, poeirenta, o chão esburacado por bombas e granadas, e sulcado
pelas lagartas dos tanques e pneus dos pesados caminhões, eles eram obrigados, para aliviar as vias res -
piratórias, a amarrar lenços no rosto. Mais tarde, Clark disse que todo aquele descon forto não era nada,
comparado ao que o inimigo estava causando. Um soldado viu Clark parado à margem da estrada com uma
expressão preocupada, vendo os soldados sair de Persano. Nesse momento, quando, segundo Clark, os
apuros eram realmente sérios, começou ele a considerar a possibilidade de serem repelidos de volta para o
mar. Fiel ao procedimento militar ortodoxo, ou seja, sair para um plano alternativo, preparado previamente,
Clark começou a admitir que teria de retirar parte dos soldados do setor americano e colocá-los em luta no
setor britânico. Mas o plano tinha conseqüências que Clark não podia suportar. Se houvesse retirada, seria
preciso fazer planos e ordenar a destruição de suprimentos e equipamentos já descarregados e empilhados
nas praias. Esta era, em última análise, a teoria militar ortodoxa. Mas Clark, após ponderar o acerto de tais
planos, chegou a uma conclusão: "Ao diabo a teoria", e resolveu enfrentar o que quer que viesse a acontecer.
Se os alemães saíssem para expulsá-los da praia, teriam de faze-lo passo a passo, pagando o preço justo da
façanha. Clark registra que no dia seguinte parecia que os alemães iriam tentar exatamente isso, a expulsão.

Revide
Vários fatores pareciam conspirar para fazer crer a Vietinghoff que valia a pena contra-atacar. Vendo abrir-se
a brecha entre os dois flancos aliados, concluiu que estes se haviam separado deliberadamente em duas
seções, preparando-se para evacuar a cabeça-de-praia.

Tendo chegado a essa conclusão, procurou outra prova, que pudesse robustecer a sua convicção. Verificando
que ao golfo haviam chegado mais navios, interpretou mal o fato, achando que seriam usados para retirar os
homens; os navios estavam lançando cortinas de fumaça em torno de Battipaglia e os alemães interceptaram
mensagens radiofônicas confusas. Todos os indícios faziam supor que era iminente a retirada. Vietinghoff
decidiu então lançar um grande contra-ataque para acelerá-la.

O ataque mais vigoroso teve lugar pouco depois do meio-dia de 13 de setembro, quando a 29ª Divisão
Panzer, recém-chegada da Calábria, apoiada por parte da 16ª Panzergrenadier, desceu pela estreita brecha
entre os rios Sele e Calore, uma área defendida por unidades da 45ª Divisão, do General Middleton. Os
tanques e a infantaria alemães forçaram uma travessia do Sele e, com seus flancos fortemente defendidos,
para impedir que os americanos lhes cortassem o abastecimento, empurraram as defesas na direção da
confluência dos dois rios. Eles estavam a 8 km da costa e, ao que parecia, tinham todas as possibilidades de
chegar até lá e abrir a cabeça-de-praia em duas partes.

Às 17h15, Vietinghoff mandou a maior parte da sua força de tanques avançar para a confluência dos dois
rios, evidentemente pretendendo atravessar a ponte e penetrar o setor do VI Corpo até as praias, provavel -
mente perto de Pesto. Os tanques desceram pela estrada, com a artilharia avançando para posições na recém-
capturada Persano, enquanto a infantaria atacava fortemente de ambos os lados da brecha, para mantê-la
escancarada.

Por volta das 18h30, 15 dos tanques estavam no denso matagal existente na margem norte do rio Calore, mas
a ponte que pretendiam usar fora queimada e a eles não seria fácil sair da estrada de terra batida, devido aos
profundos fossos de drenagem que ladeavam a trilha. Havia um vau perto da ponte incendiada e um ataque
decidido, com todos os efetivos disponíveis, talvez desse a vitória a Vietinghoff. Mas ele já havia divi dido
suas forças, enviando parte dela de Persano para o nordeste, não conseguindo, por isso, lançar todo o seu
poderio contra aquele ponto fraco. Os americanos que enfrentavam a ponta-de-lança alemã reconhe ceram
entretanto, o perigo e se haviam preparado para o ataque. Na margem sul do Calore, onde espesso matagal se
estendia até a ponte queimada, dois oficiais de artilharia haiam desenvolvido seus batalhões com energia e
previdência. Eram o Tenente-Coronel Hal L. Muldoon, comandante do 189º Batalhão de Artilharia de
Campanha, e o Tenente-Coronel Russell T. Funk, do 158° Batalhão de Artilharia de Campanha. Eles
reduziram suas guarnições de canhões ao mínimo essencial e mandaram todos os homens disponíveis para as
encostas, onde se deviam entrincheirar com fuzis e metralhadoras. Em seguida, os oficiais foram para as
áreas de retaguarda e, fazendo parar os veículos que passavam, armavam de fuzis os soldados de tais
veículos conduzissem, despachando-os para a linha. Seis canhões de 37 mm foram deslocados em apoio
desses homens. Reuniram-se mecânicos, motoristas e pessoal administrativo para formar uma reserva a ser
despachada para qualquer área que precisasse de reforços. O próprio General Clark examinou a situação e
viu uma elevação que poderia oferecer vantagens aos alemães, se conseguissem tomá-la. Assim, ele mandou
que uma banda do regimento trocasse seus instrumentos musicais por armas e assumisse posições
defensivas. Como não possuísse a elevação um nome que a identificasse, Clark batizou-a com o nome de
Pico do Pícolo, em homenagem aos músicos.

Estando os músicos já em suas posições, os tanques alemães iniciaram a arremetida para o vau e a artilharia
abriu fogo contra eles. A estrada de terra batida e o vau foram obliterados pelo fogo da artilharia, e o mata gal
e os bosques ao norte do Calore foram martelados até não restar mais nenhuma proteção para tanques. As
guarnições dos canhões suavam para manter sua cadência de tiro, chegando, em determinado período, a
imprimir-lhe um ritmo de 8 granadas por minuto; os soldados de infantaria, permanentes e temporários,
puseram em ação desde armas portáteis às mais pesadas metralhadoras que puderam reunir. Os tanques
tentaram abrir caminho até o outro lado do rio, mas, diante dessa recepção, recuaram. Os canhões dos dois
batalhões, ajudados por outros sete do 27º de Artilharia Blindada de Campanha, despejaram 3.950 granadas
sobre os alemães, cujos tanques, ao anoitecer, bateram em retirada. Clark voltou ao seu Q-G, achando que
haviam escapado por pouco, embora ainda não tivessem saído por completo das dificuldades. Aliás, os re-
latórios davam conta de que, ao longo da frente, em vários pontos os alemães por pouco não infligiram
pesados desastres aos Aliados.

Na região da fábrica de fumo de Battipaglia, unidades da 26ª Divisão Panzergrenadier lançaram ataques
contra a 56ª Divisão britânica, mas depois de retiradas limitadas, os britânicos, sabendo que não tinham espa -
ço suficiente para onde recuar, e com alguns sentindo no ar o cheiro de outra Dunquerque, resolveram não
ceder nem mais um centímetro. Montaram ataques de tanques contra as sondas alemãs e evitaram uma
debandada geral. No começo da noite, dois batalhões dos Coldstream Guards e dos Grenadier Guards,
ajudados pela Real Artilharia, surpreenderam uma coluna de tanques alemães que saía dos bosques diante
das suas posições. Os britânicos estavam bem estrincheirados e os disparos dos tanques lhes causaram danos
insignificantes, ao passo que os artilheiros e guardas britânicos, que dispararam mais de 54.000 cartuchos de
armas portáteis, destruíram os tanques e a infantaria que os acompanhava.

Como nos dias anteriores, os navios lhes continuaram dando inestimável apoio, embora sofressem baixas. O
HMS Roberts foi particularmente ativo ao largo do setor britânico, e com três cruzadores e seis destróieres
mantiveram intermitente bombardeio de alvos, indicados pelos oficiais observadores de tiro, durante todo o
dia. Por estranho que pareça, o Philadelphia e vários destróieres não foram chamados a dar apoio de fogo,
mesmo no auge da batalha que tinha lugar na confluência dos rios, onde seus canhões poderiam ter sido bem
aproveitados. A razão disso, ao que parece, foi a falta de grupos de controle de tiro entre os que, em meio a
terrível atribulação, se defendiam do forte ataque dos tanques. Mas o USS Boise disparou 36 salvas de 6 pol.,
que destruíram uma incômoda bateria de retaguarda alemã.

No cômputo geral, a marinha e as forças de terra levaram a pior no dia 13. A Luftwaffe retornara à atividade
com suas novas bombas teleguiadas, lançadas de aviões que sequer eram vistos. O Philadelphia livrou-se de
duas delas, que caíram a 100 m e a 30 m do navio. Mas às 14h40, o cruzador HMS Uganda foi atingido por
uma bomba que lhe atravessou sete conveses e explodiu abaixo do navio, que foi de imediato inundado por
toneladas de agua, mas os grupos de controle de danos conseguiram escorar as anteparas e impedir que o
navio afundasse. Ele foi rebocado pelo USS Narragansett, deixando a área de combate, com uma es colta de
três destróieres, na manhã seguinte, bem cedo. Às 15h30, a Luftwaffe tornou a atacar e os navios HMS
Nubian e HMS Loyal por pouco não foram atingidos. Para substituir os navios danificados e os que, por falta
de munição, tiveram que se afastar, o HMS Aurora e o HMS Penelope foram chamados de Malta e antes do
amanhecer do dia 14 de setembro já estavam em posição.

Uma das coisas mais estimulantes para os Aliados, num dia de sérios reveses e de remédios desesperados,
teve lugar não em Salerno, mas na Sicília, referente não à luta em si, mas à organização de reforços.

Sentindo, a 13 de setembro, a possibilidade de ocorrências adversas, Clark decidiu solicitar com urgência o
concurso de unidades aeroterrestres, para que fizessem um salto em Salerno, a fim de fortalecer a cabeça-de-
praia. Ele dispunha da 82ª Divisão Aeroterrestre, que, liberada do salto previsto para Roma, havia sido
designada para saltar em Avellino, naquela noite. Clark tinha de agir rápido para cancelar o salto sobre Avel -
lino e preparar um desembarque aeroterrestre imediato sobre a cabeça-de-praia. Já então, vários caças
vinham utilizando uma pista de pouso, construída às pressas logo ao sul do rio Sele, e Clark mandou que um
membro do seu Estado-Maior saísse à cata de um voluntário, entre os pilotos, para le var seu pedido ao
General-de-Divisão Ridgway, comandante da 82ª Divisão Aeroterrestre. Quem se apresentou foi o Capitão
Jacob R. Hamilton, que se pôs logo a caminho, levando a mensagem e mapas que mostravam o local onde
Clark queria o salto.

Ao chegar a Lioata, na Sicília, Hamilton soube que Ridgway acabara de decolar num C47, mas ele correu à
torre de controle e conseguiu, num autêntico milagre de persuasão, convencer o pessoal de terra da impor-
tância da sua missão, fazendo-o chamar o chamar o avião de Ridgway de volta. A mensagem de Clark
explicava que a luta em Salerno piorara e estava à beira da catástrofe. Clark frisava que somente no dia
anterior é que soube que o salto em Roma não se realizaria e que a 82ª estava agora à sua disposição. E pros -
seguia: "Quero que aceite o conteúdo da carta como uma ordem. Sei que há normalmente um tempo de
preparação do salto, mas tendo em vista que a situação é de tal modo grave que roça o desastre, desejo que
abra uma exceção e realize esta noite o salto que lhe solicito. É imperioso faze-lo.

Ridgway estudou a mensagem com atenção durante umas duas horas e depois mandou Hamilton para
Salerno, com a resposta que Clark desejava ouvir: "Posso faze-lo. Entretanto, o dia, para Hamilton, estava
carregado de problemas. Quando ia, de jipe, do aeródromo improvisado em Salerno para o Q-G do General
Clark, oito aviões alemães sobrevoaram a estrada, metralhando-a, e Hamilton teve de mergulhar no fosso,
deslocando um ombro. Mesmo assim, ele, mais tarde, levou seu avião de volta à Sicília.

Durante o dia, chegaram outras mensagens de Ridgway e Alexander dizendo que os pára-quedistas da 82ª
Aeroterrestre não só saltariam na cabeça-de-praia naquela noite, como também se encontrava em preparo um
salto em Avellino, a ser feito na noite seguinte, destinado a hostilizar a retaguarda inimiga. Ridgway fazia
uma ressalva, para que não se registrassem acidentes desnecessários: "É vitalmente importante que todas as
forças de terra e navais na sua zona e no Golfo de Salerno, recebam ordens para não abrirem fogo esta noite.
O controle rígido do fogo antiaéreo é absolutamente essencial para o sucesso".

A possibilidade de uma tragédia não passara despercebida a Clark, pois ele sabia que alguns dos homens de
Ridgway haviam sido mortos por artilharia aliada durante o salto na Sicília; antes mesmo de tomar co -
nhecimento da advertência de Ridgway, ele havia ordenado a suspensão do fogo antes da hora do salto,
marcado para meia-noite. Os membros de seu Estado-Maior transmitiram pessoalmente a ordem de Clark aos
comandantes de bateria e, cinco minutos antes da meia-noite, toda a cabeça-de-praia silenciou.

Então, pouco antes da hora marcada, fez-se ouvir o esperado ronco dos motores dos aviões. Entretanto,
ouvidos apurados teriam notado que o ruído vinha de direção errada. É que os alemães haviam escolhido a
meia-noite para atacar a cabeça-de-praia, e durante cinco minutos percorreram as praias de um lado para o
outro, metralhando e bombardeando, sem dúvida atônitos com a total impunidade com que agiam. Nenhum
canhão disparava contra eles, enquanto os soldados se espremiam, indefesos, nas trincheiras, sem chance de
revidar.

Após mais cinco minutos de silenciosa expectativa, ouviu-se novamente o ronco de mais aviões, desta vez,
os certos: 82 C47 e C53 haviam decolado aquela noite dos aeródromos da Sicília e agora os primeiros dos
600 soldados do 504º Regimento de Páraquedistas, sob o comando do Coronel Ruben Tucker, desciam num
salto preciso sobre as praias. Eles estavam atrasados apenas cinco minutos, tendo gasto um só dia no
planejamento de uma operação que em circunstâncias normais envolveria semanas de preparativos. Já na
manhã seguinte, estavam em ação perto de Altavilla, onde foram recebidos pelos integrantes do VI Corpo co-
mo reforços providenciais. Na noite seguinte, mais 1.900 pára-quedistas saltaram na mesma área.
Todavia, ao anoitecer do dia 13, a situação piorara tanto, que levara Clark a temperar sua decisão anterior
com boa dose de cautela; às 20h30 convocou ele uma conferência em seu Q-G de exército, em Pesto, à qual
compareceram o General Dawley e o General Walker, e todos reconheceram que os Aliados se encontravam
em condições piores que no dia anterior. Como Clark observou, por pouco escaparam ao desastre naquele
dia, e ainda estavam em dificuldades ao longo de toda a frente. Na confluência dos dois rios, estavam há
algum tempo à mercê de Vietinghoff, que vinha reunindo seus efetivos blindados e os lançando contra os
Aliados implacavelmente. Agora, tendo sobrevivido àquela ameaça específica, a cabeça-de-praia ainda era
estreita demais e, na verdade, continuava diminuindo, o porto de Salerno ainda lhes era negado e tampouco
podiam usar o aeródromo de Montecorvino.

Clark verificou que os alemães forcejavam por dividir em duas partes a cabeça-de-praia e que não havia
planejado para prever esta eventualidade. Ele voltou atrás quanto à decisão tomada no dia anterior e mandou
uma mensagem urgente ao Almirante Hewitt instando-o a fazer planos para a eventualidade de ter de evacuar
o VI Corpo e desembarca-lo no setor do X Corpo da cabeça-de-praia, e vice-versa, visando a usar o plano
que se mostrasse melhor no momento azado. E por mandar preparar tais planos, Clark seria criticado
severamente, mais tarde.

Durante a noite de 13 para 14 de setembro, os exércitos recuaram as defesas para, reagrupando-as, reforçar
suas linhas, visando, em especial, a fechar a brecha entre os dois corpos. Em alguns lugares, as retiradas
foram drásticas e, ao amanhecer, a linha ia da encruzilhada a oeste da fábrica de fumo, passava pelas
encostas onde a artilharia detivera os tanques, e ao longo da linha montada nos sopés de tais encostas, diante
do VI Corpo americano. Mas a tática deu excelentes resultados.

Como se esperava, os ataques alemães reiniciaram-se na manhã seguinte, bem cedo, 14 de setembro, com
poderosas arremetidas dos tanques e da infantaria. No setor americano, a 45ª Divisão enfrentou outros
choques, no local onde as providências tomadas à noite tinham ajudado a fechar a brecha que havia na linha,
o que parecia indicar que o comandante alemão sentira, dia anterior, o ponto vulnerável, embora fosse
incapaz de lançar os efetivos necessários, em blindados, contra ele para abrir caminho até o mar. A 36ª
Divisão também sofreu bastante, mas a unidade, embora cansada, resistiu em suas posições durante todo o
dia. O próprio General Clark contribuiu para rechaçar um dos ataques. Após uma conferência, realizada às
07h, com o General Dawley, Comandante do VI Corpo, Clark partiu para inspecionar as posições na linha de
frente, com seu ajudante, Capitão Warren Thrasher. Em determinado local, ele desceu do jipe em que viajava
e galgou uma colina próxima da área avançada, esperançoso de encontrar os soldados americanos bem
entrincheirados e resistindo. Mas não havia nenhum dos esperados indícios, apenas a visão de uns 18 tanques
entrando nas linhas americanas. Clark a principio julgou tratar-se de tanques americanos, porém um exame
mais acurado, com o auxílio de binóculos, revelou que eram alemães. Ao que parecia, o inimigo havia
descoberto um ponto fraco nas linhas aliadas, e era provável que os 18 tanques fossem apenas a ponta-de-
lança de um ataque blindado mais poderoso. Na verdade, Clark achava inconcebível que Kesselring não
lançasse poderosa formação blindada contra esse setor e penetrasse até o mar. Diante de tão alarmante
possibilidade, Clark retornou rapidamente às linhas americanas, onde convocou uma unidade antitanques e
uma de sapadores. Estas, logo tomaram posição e dispararam pesado fogo de artilharia contra os tanques,
obrigando-os a recuar. Clark, mais tarde, expressaria espanto diante do fato de Kesselring não haver lançado
ao ataque força muito maior, optando por, repetidamente, jogar ao ataque os blindados aos bocados, quando,
nesta batalha, um golpe vibrado com o grosso dos 600 tanques que tinha em Salerno teria imposto verdadeiro
desastre aos Aliados.

Com ataques de tanques como este ocorrendo ao longo da linha, as tropas de terra passaram o dia pedindo o
auxílio dos navios. O Philadelphia e o Boise dividiram a responsabilidade no setor americano. O primeiro
deles iniciou o dia atacando vários alvos indicados pelos grupos de controle de terra: tanques,
entroncamentos rodoviários, concentrações de tropas e posições de artilharia. Por volta de 09 h de 14 de
setembro, de já havia disparado 921 salvas de granadas de 6 pol. Daquele momento até o começo da tarde,
ele foi substituído pelo Boise, que disparou mais 600 salvas contra 18 alvos diferentes, sem pausa, inclusive
uma concentração de tanques, que sucumbiu ao peso de cerca de 85 salvas de granadas. O Philadelphia
retornou à tarde, atirando até as 21h30, quando o Boise tornou a substitui-lo, continuando a trabalhar durante
toda aquela noite. Quando se localizava movimento de tropas do inimigo, os pedidos de fogo eram
transmitidos aos navios, e o atendimento era inevitável e preciso, o que motivava sempre mensagens de
agradecimentos e congratulações, transmitidas de terra aos navios. O efeito devastador do esforço da
marinha também foi reconhecido pelos soldados que sofreram com ele. Após o bombardeio de 14 de
setembro, Vietinghoff escreveu: "Nosso ataque esta manhã enfrentou resistência muito maior; os soldados,
no avanço que empreenderam, tiveram de suportar o fogo mais severo que até então haviam experimentado;
o grupamento naval que nos atacava se compunha de pelo menos 16 a 18 couraçados, cruzadores e grandes
destróieres ancorados no anteporto. Com espantosa precisão e liberdade de manobra, esses navios atiraram
contra todos os alvos identificáveis com efeito esmagador"

E um historiador alemão, compilando a história da 16ª Divisão Panzer, escreveu, mais tarde: "Sempre que
unidades alemãs atacavam, no dia 14 de setembro, era tão intenso o fogo naval e aéreo contra elas dirigido,
que não conseguiam mais que sucessos locais". Outro apoio muito bem recebido, embora de efeito menos
importante, foi dado pela Força Aérea Tática. A 13 de setembro, Eisenhower mandou que o Marechal-do-Ar
Tedder apoiasse com o ataque aéreo mais forte possível as atribuladas forças que se encontravam em
Salerno. Durante todo o dia 14 de setembro, levas de "Fortalezas", Bostons e Mitchells sobrevoaram a
região. Porém, devido à falta de controle de terra, parte do esforço resultou inútil, mas os pontos sensíveis
foram determinados com precisão e as tripulações dos aviões os destruíram por completo. Ao todo, os aviões
fizeram mais de 700 surtidas, prejudicando seriamente as comunicações dos germânicos, permitindo,
finalmente, que as tropas de terra aliadas tomassem a iniciativa.

Para os comandantes, o dia 14 de setembro foi de certa confusão e discordância. Os planos feitos para
evacuar metade dos que se encontravam na cabeça-de-praia, transferindo-os para outro setor, tinham sido
assentados no dia anterior, mas, de modo geral, foram recebidos com desagrado. Hewitt estivera
diligenciando no sentido de cumprir a ordem e, durante a tarde, pediu ao Comodoro Oliver que fosse ao
Biscayne. Ali, Oliver lhe falou sobre o plano de retirada. Hewitt, protestando que a medida talvez fosse im -
praticável, ou mesmo suicida, disse-lhe que ela custaria aos Aliados todos os suprimentos, armas e munição
descarregados desde o Dia-"D". Além disso, observou, depois de inteiramente recarregados, os navios
mergulhariam mais na água, tornando-se impossível retirá-los das praias, chegando mesmo a prever a
possibilidade de outra Dunquerque. Oliver, raciocinando também realisticamente sobre os problemas do
exército, admitiu que, se fosse bipartida a força ocupante da cabeça-de-praia e evacuada uma de suas partes,
os tanques e artilharia alemães poderiam aproximar-se e bombardeá-los de ambos os flancos. Suas objeções,
contudo, não sensibilizaram Hewitt, que o mandou prosseguir com o planejamento segundo o pedido de
Clark. Oliver retornou obedientemente ao seu navio Q-G e esboçou o pedido ao seu Estado-Maior, mas o
órgão, por não ver com muito bons olhos a idéia, não fez absolutamente nada a respeito. Oliver também
entrou em contato com o Comandante do X Corpo, General McCreery, que ficou furioso não só por não ter
sido consultado sobre a idéia da evacuação, como também por considerá-lo um plano ruim e deixou clara a
intenção de não executá-lo.

O Almirante Hewitt adotou uma opinião muito mais positiva sobre a proposta e entrou em contato com
Cunningham, Almirante da Esquadra, transmitindo-lhe a seguinte mensagem: "Os alemães criaram um
saliente perigosamente próximo da praia. A situação continua insatisfatória. Estou planejando usar todos os
barcos disponíveis para transferir tropas das praias sul para as norte, ou o inverso, se necessário.

A descarga de navios mercantes na seção sul foi suspensa. Precisamos seja feito violento bombardeio aéreo e
naval atrás das posições inimigas, usando couraçados ou outros grandes navios da marinha. Esses navios
estão disponíveis?"

Cunningham atendeu imediatamente ao apelo, enviando três cruzadores leves de Bizerta para Trípoli, a fim
de embarcar mais tropas e levá-las para Salerno. Os couraçados Valiant e Warspite foram despachados de
Malta, naquela noite, com uma escolta de seis destróieres, e Cunningham comunicou que enviara os
couraçados Nelson e Rodney para Augusta, e que eles estariam disponíveis para uso em Salerno, se
necessário; uma resposta boa e imediata a um apelo sensato.

Porém, infelizmente o General Eisenhower recebeu uma cópia truncada do despacho de Hewitt a
Cunningham, concluindo que Clark e Hewitt planejavam realizar uma evacuação completa da cabeça-de-
praia. O que começara com um planejamento de contingência, sensato e cauteloso, do General Clark estava-
se transformando em algo descontrolado, havendo mesmo consternação sobre o plano no Q-G aliado.

Era evidente que Clark ignorava o aparecimento de tais problemas, o mesmo acontecendo com Eisenhower,
que, até se inteirar do confuso texto da mensagem, estava satisfeito com a maneira como a batalha se de-
senrolava. A 14 de setembro ele enviara uma mensagem encorajadora a Clark, rece bida no Q-G do 5°
Exército na noite daquele mesmo dia. "Sabemos que está passando por sérios apertos, mas esteja certo de
que todos estão trabalhando com a máxima rapidez para lhe mandar os reforços de que necessita...
Entrementes, não se esqueça que temos uma Força Aérea por demais ansiosa por participar plenamente em
seu apoio. Espero que sua linha de bombardeio seja traçada com a máxima precisão ao longo da sua frente,
de modo que nossa Força Aérea possa continuar destruindo as forças que tentam concentrar-se contra você.
Tem sido magnífico o trabalho que vêm realizando você e sua gente. Estamos todos muito orgulhosos e,
como o sucesso de toda a operação depende de você e de suas forças, podem ficar tranqüilos de que nada
será esquecido para lhe dar toda a assistência possível".

Clark lembra em suas "Memórias": "É difícil, hoje, descrever como foi importante, naquele momento,
receber tal mensagem e saber que podíamos contar com o apoio de tudo quanto Ike pudesse lançar na
batalha. Estávamos em aperturas, mas, nessas condições, as forças aliadas não podiam permitir que
diferenças de opinião prejudicassem a mais completa cooperação de todos".

Pelo anoitecer de 14 de setembro, as pressões das últimas 48 horas pareciam haver diminuído. A artilharia, o
fogo naval e os ataques aéreos haviam neutralizado o esforço alemão, destruindo as comunicações e o
equipamento da tropa germânica. As tropas invasoras haviam, em geral, resistido. Casos isolados de quebra
de moral eram inevitáveis, na confusão que se estabeleceu, mas, no conjunto, todos se portaram bem. O pro-
prio General Clark, em sua visita de inspeção à cabeça-de-praia, encontrou uma fileira de caminhões
recuando de frente, com todos os motoristas usando máscaras contra gases. Quando ele perguntou a razão
para o fato, um motorista resmungou "Gás", e apontou com o polegar na direção da linha de frente. Clark
perguntou-lhe quem lhe falara sobre gás, mas o motorista não soube responder. Descobriu-se que não havia
gás; tudo não passava de alarma falso e Clark ordenou aos motoristas que retirassem as máscaras. Em geral,
quando o moral parecia abater-se, sempre havia um oficial ou soldado que, pelo exemplo ou pela persuasão,
restaurava a ordem. No fim do dia, Clark começou "a sentir que sairíamos do buraco onde caíramos."

A situação melhorou ainda mais durante a noite de 14 para 15 de setembro, quando os reforços começaram a
chegar, por mar e pelo ar. Os soldados aeroterrestres pertenciam ao 509º Batalhão de Pára-Quedistas, sob o
comando do Tenente-Coronel Doyle R. Yardley, que desembarcou a 30 km atrás das linhas alemãs, perto de
Avellino. Sua missão seria atacar as comunicações alemãs, mas infelizmente eles sofreram pesadas baixas
nos primeiros estágios. Ademais, as forças invasoras estavam impossibilitadas de avançar para se juntarem a
eles, e Clark foi criticado por ter ordenado o desembarque em tais circunstâncias. Ao contrário do salto
realizado na cabeça-de-praia propriamente dita, este salto em Avellino não fora nada preciso, e quando os
defensores alemães souberam que as tropas haviam desembarcado, aproximaram-se rapidamente para atacar
os americanos. Alguns páraquedistas foram ceifados com fogo de metralhadora antes mesmo de tocarem o
solo. Outros foram aprisionados, muitas vezes depois de furioso corpo-a-corpo. Os que sobreviveram,
reuniram-se em pequenos grupos, ocultaram-se nas colinas e realizaram operações hostilizadoras contra as
linhas alemãs. No todo, a operação fracassou, por causa da dispersão do batalhão e por não ter ele podido
juntar-se às tropas de terra; apesar disso, depois de uns dois meses de atividade guerrilheira, cerca de 80 por
cento do pessoal que o integrava conseguiram juntar-se às forças americanas.

Na manhã de 15 de setembro, o General Alexander chegou de Bizerta, num destróier, acompanhado do Vice-
Marechal-do-Ar, Sir Arthur Coningham. Depois de rápida refeição feita no Q-G de Clark, saíram em inspe-
ção à cabeça-de-praia, transferindo-se de um setor para outro numa torpedeira. Tendo consultado os
comandantes naval e do exército, Alexander chegou à conclusão de que a drástica medida que se encontrava
em estudos, ou seja, a retirada das tropas de um setor da cabeça-de-praia para o outro era inviável, e vetou a
idéia. Outra questão importante que discutiram foi a preocupação de Clark sobre a liderança do VI Corpo.
Clark há algum tempo estava preocupado com o desempenho do General Dawley, e trouxera Ridgway para
colocá-lo como seu assistente, a fim de, como o próprio Clark disse, "dar-lhe a máxima ajuda possível".

Alexander concordou em que uma mudança seria do maior interesse de todos os envolvidos na campanha, e
concordou em indicar o General-de-Divisão John P. Lucas para substituir Dawley. Eisenhower aprovou a
proposta, depois de visitar a cabeça-de-praia, a 17 de setembro, e a mudança foi feita alguns dias depois.

Fora o problema de liderança, o moral do 10º Exército demonstrava estar melhorando. Naquela noite,
Alexander enviou um comunicado a Eisenhower, dizendo que, embora não estivesse inteiramente satisfeito,
a situação era melhor do que 24 horas antes, e que, embora estivessem cansados, os solda dos estavam
animados. Ele também pediu que ficasse registrada a gratidão do exército para com a marinha e força aérea
pela ajuda por elas prestada.

Entre as muitas mensagens que cruzaram a Itália naquele dia, houve uma de Montgomery a Clark, na qual
ele sugeria: "... talvez você pudesse fazer um reconhecimento ao longo da estrada de Agropoli, para se
encontrar com o pessoal que despachei para aí e que já partiu de Sapri... Parece-me que você não está
passando por bons momentos. Espero, entretanto, que tudo corra bem. Estamos indo em sua ajuda e será um
grande dia quando realmente nos reunirmos".

A mensagem não poderia dar muita satisfação a Clark, cujas tropas quase tinham sido repelidas para o mar
enquanto aguardavam que o 8º Exército subisse a Itália para travar contato com eles, mas Clark estava
suficientemente feliz com a melhoria da situação para limitar sua resposta, um tanto sarcastica, a duas frases
apenas: "Será um prazer revê-lo breve. A situação aqui está sob controle".

Em terra, foi sobre a 46ª Divisão que se abateu com violência o peso da batalha de 15 de setembro. Embora
não tivesse a intensidade dos verificados dois dias antes, os ataques alemães continuavam a sondar pon tos
fracos nas linhas aliadas. Para Vietinghoff, o dia foi de muita ponderação e ansiedade. Ele modificou o
posicionamento de algumas tropas, notadamente o grupamento de tanques da Divisão Hermann Göring, que
deslocou de Cava para o sul, para as montanhas de onde os alemães dominavam todo o setor britânico da
cabeça-de-praia. A 3ª Divisão Panzergrenadier recebeu ordens de manter contato cerrado, enquanto que a 16ª
Divisão Panzer deveria preparar-se para novo contra-ataque, na noite de 15 para 16 de setembro. Contudo, a
16ª Divisão Panzer, como acontecia com outras unidades que se encontravam na linha, vinha sendo alvo do
bombardeio aliado. As belonaves Valiant e Warspite já haviam chegado e, ao entardecer de 15 de setembro, o
Warspite acrescentara o peso das suas granadas de 15 pol. ao bombardeio. Vinte e nove salvas disparadas
contra alvos em torno de Altavilla, antes que ele e o Valiant se retirassem até o dia seguinte, somadas ao
bombardeio feito pelo Boise e o Philadelphia contra a cidade de Altavilla propriamente dita, levaram o
comando naval alemão a registrar o seguinte em seu diário de guerra: "o ataque teve de parar, para
reorganização, devido ao pesado bombardeio naval inimigo e aos continuos ataques aéreos", e "o efeito do
bombardeio dos grandes navios e o domínio quase completo do ar... pela força aérea inimiga, causaram-nos
terríveis baixas"

Quando a 16ª Divisão Panzer conseguiu reorganizar-se e reiniciar o ataque, na manhã seguinte (16 de
setembro), a luta foi tão violenta quanto as verificadas nas demais batalhas, dando a impressão de que os de-
fensores realizavam um último e desesperado gesto de resistência. O 9º Regimento Panzergrenadier e a 16ª
Divisão Panzer lançaram seu ataque na região de Battipaglia, contra unidades da 56ª Divisão, mas foram
rechaçados pelo poderio do fogo dos Aliados. Segundo seus próprios registros, os britânicos, vez por outra,
usavam artilharia contra soldados, e quando qualquer veículo era avistado, os caças, avisados, corriam-lhe ao
encontro, para eliminá-lo. Os alemães conseguiram, no entanto, varar a espessa cortina de fogo que tinham
pela frente e, ao faze-lo, pegaram-se num violento corpo-a-corpo com os britânicos, que acabaram expulsos
em várias posições. Tudo indicava, entretanto, que a linha dos Aliados resistiria. Eles estavam muito bem
entrincheirados para serem repelidos de volta ao mar, e quanto mais violentamente os alemães tenta vam
contra-atacar, mais forte era a resposta: dos navios, dos aviões em patrulha e da artilharia em terra.

Foi nesse dia, 16 de setembro, que Vietinghoff cedeu e pediu permissão para recuar, informando: "Os ataques
(que haviam sido com tanto entusiasmo preparados, sobretudo pelo XIV Corpo) não conseguiram alcançar os
objetivos visados, devido ao fogo dos canhões navais, à atividade dos aviões inimigos e aos problemas
criados com a lenta mas ininterrupta aproximação do 8º Exército Britânico". Segundo ele, impunha-se a
necessidade de se deslocarem para boas posições defensivas. Kesselring concordou, e mais tarde registrou.
"...a fim de escapar ao bombardeio eficiente das belonaves, autorizei a interrupção do combate na frente
costeira."

Foi sem dúvida devido ao reconhecimento da importantíssima influência das unidades da marinha sobre o
curso da batalha que a Luftwaffe concentrou seus ataques contra elas. No começo da tarde de 16 de
setembro, cinco FW 190 lançaram-se contra os barcos aliados, com as temíveis bombasplanadoras, que
tantos danos já haviam causado. Duas erraram o alvo por pouco, mas uma delas acertou em cheio o Warspite,
enetrando nele até a sala das caldeiras e explodindo. O navio tremeu de ponta a ponta e começou a fazer
água, deixando em todos que o tripulavam a certeza de que, por si mesmo, não teria o barco força para ir
muito longe, tendo de ser rebocado pelos dois rebocadores americanos, Hopi e Moreno. Com uma escolta de
cinco destróieres e três cruzadores, foi ele arrastado lentamente para Malta, aonde chegou no dia 19. Depois
de reparado, o Warspite voltou ao serviço ativo, mas não na operação de Salerno.

Também nesse dia, Clark reconheceu que fora superado o risco de ser expulso da cabeça-de-praia. O
relatório que radiograficamente enviou a Eisenhower, expondo a situação, exsudava confiança: "Já estamos
em boas, condições. Esta manhã recuperamos o saliente entre o rio Sele e o Calore. Estou reforçando as
tropas de Darby. Como de hábito, Darby fez excelente trabalho e estou pronto para atacar Nápoles. Comete -
mos erros e aprendemos através do método mais dificil, mas melhoraremos cada dia mais e, estou certo, não
o desapontaremos".

Sua opinião foi confirmada, por volta das 14h, por um acontecimento importantíssimo verificado no flanco
direito da cabeça-de-praia. Naquele dia, os soldados das forças aliadas haviam percebido indícios de que os
alemães estavam em retirada. Patrulhas de pára-quedistas americanos puderam avançar até Roccadaspide, 13
km a leste de Pesto. Outras patrulhas, abrindo para sudeste, alcançaram uma pequena aldeia, chamada Vallo,
situada a cerca de 24 km de Agropoli, entrando em contato com os elementos avançados do 8º Exército, de
Montgomery, que rumava para o norte. O fato, grandemente ansiado pelos Aliados, eliminava de uma vez
por todas a possibilidade de ser a força de invasão jogada de volta para o mar.

Outra indicação de que as perspectivas sugeriam apenas confiança é que Clark, pela primeira vez durante
toda a invasão, iria divulgar a lista de baixas. Em oito dias de luta, o X Corpo britânico tivera 531 mortos,
1.915 feridos e 1.561 desaparecidos. O VI Corpo americano, que tinha aproximadamente a metade do
contingente britânico envolvido na batalha, sofrera 1.649 baixas: 225 mortos, 835 feridos e 589 desapareci-
dos. Clark, mais tarde, declarou que a maioria dos que foram relacionados como desaparecidos, naquele
momento da guerra, posteriormente reapareceram sãos e salvos.

O avanço para o Volturno


"Kesselring era um mestre da tática de retardamento", comentou Clark ao escrever sobre a retirada alemã e o
avanço aliado que a ela se seguiu. A ordem para que os alemães se deslocassem das posições defensivas em
torno da cabeça-de-praia de Salerno havia chegado à tarde e, durante a noite, eles começaram a cumpri-la,
deixando elementos de retaguarda para cobrir a retirada. O plano previa um recuo organizado, com a linha
alemã pivoteando para a direita. A tropa recuaria para a linha do Volturno, que não deveria ser abandonada
antes de 15 de outubro, por ordem expressa de Kesseiring.

Ao mesmo tempo, o plano aliado estabelecia que seu flanco esquerdo girasse, para endireitar a linha, pois o
avanço Itália acima dos americanos deveria ser feito paralelamente com o 8° Exército. Mas, logo no começo
ficou claro que o avanço exigiria muito tempo e provavelmente haveria muitas baixas. Ainda havia muita
região montanhosa entre o Golfo de Salerno e Nápoles, e nesse terreno, ideal para os alemães se de fenderem,
eles colocaram de maneira tal a artilharia, que um só canhão de 88 mm podia cobrir todo um vale e deter o
avanço aliado durante horas, até que o liquidassem. As retaguardas alemãs, muitas vezes forma das de
soldados montados em motocicletas, instalavam postos de metralhadoras nas colinas e colocavam fuzileiros
em terreno mais alto, acima deles, tática que obrigou americanos e britânicos a fazer manobras militares
demoradas e dispendiosas antes de realizar qualquer avanço significativo. A conquista de cada trecho da
encosta, toda ela muito bem defendida, era um teste rigoroso para os Aliados. Os soldados alemães utili-
zavam com habilidade as minas e destruíam sistematicamente as pontes durante a retirada. Até mesmo o
tempo ajudou os alemães: fortes chuvas caíam sobre o campo de batalha, transformando-o num atoleiro que
detinha os caminhões e obrigava os soldados aliados a levar nas costas ou em lombo de muar os
suprimentos.

Devido à ação decidida das tropas de retaguarda, os Aliados demoraram muito a perceber que o grosso das
forças alemãs estava recuando, sobretudo no setor britânico. Ao sul de Battipaglia, um regimento da 16ª
Divisão Panzer na realidade continuava atacando e, com apoio de artilharia, impôs sérias baixas a uma
companhia dos Scots Guards. Então, no dia seguinte, 18 de setembro, a mesma companhia de Guardas
enviou uma patrulha, recomendando-lhe cautela, à fábrica de fumo de Battipaglia, mas a patrulha,
percebendo o estranho silêncio que a envolvia, informou que ela parecia abandonada. Durante a tarde, a
patrulha continuou progredindo, avançando com crescente confiança à medida que descobria que o
procedimento dos alemães durante os nove últimos dias, retrucando forte diante dos ataques e contra-ataques
dos Aliados, havia sido substituído pelo silêncio. Tudo era desolação, característica do terreno por onde a
guerra acabara de passar; veículos queimados, armas abandonadas e corpos de ambos os contendores jaziam
imóveis, às vezes muito queimados.

No dia seguinte, a confiança dos britânicos cresceu, a ponto de McCreery pensar em planos para se deslocar
rumo a Nápoles. Reforços importantes estavam chegando: mal chegou a 3ª Divisão, do General Lucian R.
Truscott, partiu diretamente para a linha de frente. A Brigada de Guardas era retirada da região agora calma
de Battipaglia, indo para o norte, para a área de Salerno, onde a luta ainda era violenta. Ela logo foi atacada
por um grupo de uns 30 soldados alemães e teve de ceder terreno, retomando horas depois as posições que
havia abandonado, numa colina que dominava o Golfo de Salerno.

No dia 20 de setembro, 11 dias após o Dia-"D", é que a batalha de Salerno foi considerada vencida e perdida.
Winston Churchill enviou mensagens de congratulações a várias pessoas. Para Mark Clark, ele disse:
"Queira aceitar meus sinceros cumprimentos pela batalha difícil mas brilhantemente conduzida por V.Sa. nas
praias de Salerno, na qual soldados britânicos e americanos derramaram juntos muito sangue. Desejo-lhe
sucessos". O General Eisenhower também recebeu uma carta: "Como o Duque de Wellington disse sobre a
Batalha de Waterloo, escapamos por um triz, mas sua política de correr riscos foi bem justificada".

Na euforia que se generalizou, o General McCreery também tomou da pena e divulgou uma ordem do dia a
seu X Corpo: "Após 10 dias de luta intensa, o X Corpo obrigou o inimigo a cair na defensiva e, à nossa
direita, ele está em franca retirada. O objetivo do inimigo era jogar-nos de volta às praias. Para este fim,
concentrou contra nós a 16ª Divisão Panzer e elementos de quatro outras divisões. Ele fracassou, graças à co -
ragem, à resistência e ao espírito de luta de todos vocês, que lhe infligiram enormes baixas e o obrigaram a
perder muito equipamento. Passaremos agora à ofensiva, juntamente com as tropas de assalto americanas, à
nossa esquerda, que têm hostilizado o inimigo continuamente em toda a região montanhosa. Uma vez que o
inimigo bate em retirada, continuaremos a mantê-lo assim. Desejo expressar minha agradecida admiração a
todos os oficiais e soldados do X Corpo, pela coragem e eficiência com que se bateram durante toda essa
operação, em terreno muito variável e difícil".

Ainda assim, o grande objetivo da "Operação Avalancha", o porto de Nápoles, continuava em mãos inimigas.
Era intenção de Kesselring fortificar uma linha através de Mignano, cerca de 80 km ao norte de Ná poles,
para uma defesa vigorosa, enquanto Vietinghoff atrasava o avanço dos Aliados com sua retirada em combate.
A linha através de Cassino, a uns 20 km ao norte da linha de Mignano, oferecia possibilidades ainda
melhores de defesa e Kesseiring estava convencido de que, com a concordância de Hitler, e usando essas
linhas defensivas alternadamente, poderia muito bem deter os Aliados ao sul de Roma.

Para reter os Aliados enquanto preparava o sistema defensivo que tinha em mira, Vietinghoff desenvolveu
seu XIV Corpo Panzer na costa oeste e o LXXVI Corpo Panzer na costa leste, visando a isolar toda a
península com uma frente contínua.

Nos últimos dias de setembro, Clark iniciou seu avanço para Nápoles, com o objetivo de tomar, de
passagem, o porto da cidade e fazer uma varredura até a linha do rio Volturno, para dotar a zona portuária de
proteção contra possíveis reações alemãs. A 20 de setembro, o VI Corpo, agora comandado pelo General
Lucas, saiu do flanco direito da cabeça-de-praia com a intenção de, metendo um gancho pela direita, fazer o
flanqueio de Nápoles e atingir o Volturno acima de Cápua. Contudo, no terreno incrivelmente acidentado,
com a retaguarda alemã em grande atividade e a chuva de outono caindo torrencialmente, o que tornava
difícil o deslocamento da tropa, ele avançou muito lentamente na direção do rio, ao en contro do alvo que
pretendia atingir. Três dias após a saída do VI Corpo, o X Corpo também se pôs em marcha, para tomar as
duas gargantas que varavam as colinas além de Salerno. O progresso feito por este grupamento foi também
reduzido, obrigando Clark a reforçar as tropas de assalto americanas em Chiunzi, colocando a 82ª Divisão
Aeroterrestre sob o comando de McCreery. Com esses reforços, as tropas de assalto atacaram novamente a
28 de setembro e, desta vez, conseguiram passar pelas gargantas e entrar na planície de Nápoles, enquanto o
resto do X Corpo se deslocava para o norte, paralelamente com a 7ª Divisão Blindada, que rodeava o
Vesúvio, tendo a 56ª Divisão em seu flanco direito.

Às 09h30 de 1º de outubro, os primeiros elementos britânicos, homens dos Dragões-Guardas do Rei (King's
Dragoon Guards), penetraram nos arredores da cidade de Nápoles. Nesse dia, o próprio Clark aproximou-se
da frente e, ao constatar que seus soldados haviam entrado na cidade, embarcou num carro blindado, com o
General Ridgway, e, com uma escolta da 82ª Divisão Aeroterrestre, entrou também na cidade. A jornada não
teve nada de triunfal. Como Clark escreveu: "Eu tinha a impressão de estar percorrendo as ruas
fantasmagóricas de uma cidade de fantasmas".

Não havia nas ruas absolutamente ninguém, isto é, nenhum civil, apenas uns poucos carabinieri. Os homens
da 82ª Divisão Aeroterrestre estavam entregues a trabalhos típicos de policiais, embora não houvesse sobre
quem exercer a autoridade policial. Clark é Ridgway foram até a Praça Garibaldi. Tudo continuava deserto,
mas Clark logo percebeu que olhos os espreitavam por trás dos postigos de quase todos os prédios: "Eu tinha
a impressão de que era visto por milhões de pessoas, embora não houvesse encontrado nenhum civil durante
toda a viagem. Era uma sensação estranha".

Não é de espantar que os civis se mantivessem afastados. A cidade se encontrava em ruínas, pois os alemães
haviam realizado com a habitual minúcia o trabalho de destruição das instalações portuárias e de grande
parte das edificações da cidade. Numerosíssimos prédios foram consumidos pelas chamas, que tiveram a
alimentá-las o mobiliário das casas e até mesmo os arquivos da cidade. O pandemônio, na zona portuária, era
total, pois além da pulverização, pelo fogo, dos prédios e armazéns nela existentes, os alemães haviam
bloqueado os acessos aos cais, afundado navios na baía, derrubado guindastes e jogado caminhões nágua e
até mesmo descarrilado locomotivas nas docas. Poluíram a água fornecida à cidade, o abastecimento de
eletricidade entrou em colapso, a rede de esgotos foi arrebentada, o que exigiu do pessoal de reparo dos
Aliados exaustivo esforço no sentido de repará-la com a rapidez possível, para evitar epide mias. Numa
demonstração do ânimo dos alemães contra a população italiana, eles fizeram questão de destruir as fábricas
de espaguete, por saberem da importância de tais fábricas para a população. As comunicações eram
extremamente ruins: o sistema ferroviário fora quase que totalmente destruído e as estradas e linhas férreas
que conduziam à cidade tinham sido bloqueadas por explosivos colocados nos túneis abertos nas colinas
circundantes. O aeroporto, como era de esperar, estava intensamente minado e até que fossem retiradas as
minas, permaneceu fechado, o que obrigou Clark, em suas freqüentes visitas à cidade, a fazer pou so no
Boulevard Carragiola, situado à beira da Baía de Nápoles.

Armadilhas e espoletas de retardamento complicavam os trabalhos de recuperação. No Parker's Hotel, um


dos poucos prédios que não foram incendiados, a marinha americana instalara um Q-G; oculto nas paredes
da adega do hotel, os engenheiros descobriram, a tempo de serem salvas muitas vidas, um dispositivo
preparado para fazer explodir o prédio. Então, no primeiro domingo que os Aliados passavam em Nápoles,
no momento em que Clark, McCreery, seus Estados-Maiores e centenas de soldados estavam saindo da
catedral da cidade, após uma missa de ação de graças pelo êxito da campanha, uma bomba-relógio explodiu
no quartel da artilharia, ocupado pelo Batalhão de Sapadores da 82ª Divisão Aeroterrestre. A explosão
destruiu uma extremidade do prédio, que ficava no coração da cidade, ferindo ou matando numerosos
combatentes que ali se encontravam. O próprio Clark e vários dos seus oficiais correram para o lo cal e
ajudaram a remover corpos de sob os escombros. Mais tarde, no dia 7 de outubro, uma bomba explodiu na
agência central dos correios, quando o prédio estava repleto de civis. Este e muitos outros incidentes seme -
lhantes causaram muitas mortes.

Contudo, apesar da gravidade do problema, a equipe de salvamento, integrada sobretudo por sapadores,
começou a pôr sob controle a situação. A operação era dirigida pelo Comodoro William A. Sullivan, da
marinha americana, auxiliado pelo comando do porto naval britânico, sob o Contra-Almirante John A. V.
Morse, juntamente com alguns engenheiros britânicos e equipes americanas de bombeiros. Os incêndios fo-
ram dominados, água foi bombeada de fontes não poluídas e os escombros, removidos do caminho. Os
grupos de recuperação nem sequer se incomodaram em retirar os navios maiores afundados da baía:
simplesmente os cobriram, transformando-os em trapiches. A 3 de outubro as saídas das docas já estavam
desimpedidas e no dia seguinte o primeiro atracadouro para um Liberty ship (navio de construção rápida, de
placas de cimento) já estava pronto. Atracadouros novos eram inaugurados todos os dias e, à medida que se
restaurava a funcionalidade do porto e que se normalizavam as áreas de retaguarda, o 5° Exército foi
superando os seus obstáculos e compensando o atraso que os alemães pretendiam impor-lhe. Em poucos
dias, 20.000 toneladas de suprimentos começaram a passar diariamente pelo porto de Nápoles, para os
depósitos. Pelo final de outubro, 155.000 toneladas de suprimentos e 37.000 veículos haviam sido desembar-
cados.

Enquanto se recuperava o porto, os dois Corpos do exército de Clark continuavam avançando para o
Volturno, com a participação de 100.000 homens. Infelizmente, com o passar do outono, as condições do
tempo pioraram, fazendo que se evaporasse todo o regozijo oriundo do êxito alcançado na dificil invasão de
Salerno. Ventos frios e tempestuosos submetiam a tropa a duro castigo. Estabelecendo-se tão grandes
dificuldades nas comunicações, não chegaram aos soldados as mochilas com as roupas de frio, de modo que,
com roupas de verão, em meio a tanto frio, o suplício era enorme. Formou-se um lamaçal em que mergulha-
vam homens e máquinas. Uma divisão informou que tinha somente oito jipes ainda em condições de se
moverem, porque todos os demais veículos a ela pertencentes haviam atolado até os eixos. E os alemães,
embora em retirada, não davam trégua aos que pretendiam mantê-los sob pressão, atacando-os sempre com
artilharia. Naqueles primeiros dias de outubro, estando os exércitos alemães tomando as mais estratégicas
posições no terreno montanhoso ao norte do Volturno, e com os Aliados tendo que percorrer, para alcançar o
rio, uma planura praticamente sem qualquer proteção, as perspectivas eram realmente sombrias.

Apesar disso, os Aliados podiam agora lembrar a invasão de Salerno com satisfação. O primeiro grande
ataque anfibio contra a Europa dominada pelo Eixo fora realizado com êxito, apesar da desesperada pressão
exercida pelos defensores. Considerando-se os riscos da operação, não foi, afinal, muito alto o preço cobrado
pela vitória conquistada. O número total de mortes, entre britânicos e americanos do exército e da marinha.
foi de 2.349 homens. Outros 7.366 ficaram feridos, e os desaparecidos chegaram a 4.099, muitos dos quais
foram mais tarde encontrados em campos de prisioneiros de guerra.

Os alemães, por outro lado, tinham por consolo o fato de se haverem batido com muita determinação.
Embora não conseguissem impedir a invasão (o que poderiam ter feito, se Hitler tivesse mandado as tropas
de Rommel para o sul, a fim de se juntarem às de Kesselring), eles, ainda assim, não permi tiram ao 5°
Exército a captura rápida de Nápoles, tinham recuado em boa ordem da Itália Meridional e não consentiram
que os Aliados se beneficiassem da rendição da Itália. Como o General Alexander roconheceu: "Os alemães
podem afirmar, com certa justiça, que conquistaram, se não uma viitória, pelo menos um sucesso importante
sobre os Aliados".

Mas o valor real da "Operação Avalancha" não seria medido em termos de baixas, terreno conquistado ou
realizações táticas. De importância muito mais ampla foi, como disse o Almirante Hewitt em seu relatório, o
fato de haver ela "assinalado o começo do fim do poderio militar alemão".