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Apostila: Heráclito

História da Filosofia I / 2016-01 / noturno / UFMG

Celso Vieira

(trabalho em construção, favor não citar sem consultar)

Capítulo I : Heráclito

Aula 1 I. Heráclito crítico (Defesa do conhecimento de primeira ordem e crítica às tradições)

II. As sensações (Percepções diretas são necessárias, mas insuficientes ao conhecimento)

III. Discurso críptico sobre um objeto críptico (O estilo faz o discurso ser uma experiência direta)

IV. Logos (Todos possuem razão, a maioria não usa, Heráclito ensina)

Aula 2 V. União de opostos em movimento (o cosmos é movimento entre opostos)

VI. Cosmologia (como se organiza um cosmos em mudança permanente)

VII. Antropologia (o ser humano como um microcosmo) VIII. Política (a consequências desse modo de pensar na vida prática)

Introdução

Contexto histórico:

Pré-socráticos: Período arcaico (800-480 aec.). Antes do Clássico (Platão e Aristóteles).

Heráclito de Éfeso e Parmênides de Eleia: ca. 500 aec. (sec. VI).

Obs: Éfeso e Eleia, cada uma está em um lado da Grécia. Hoje ambas estão fora da Grécia. Eleia (onde está Neapolis) fica onde atualmente é a Itália e Éfeso fica na atual Turquia.

Diógenes Laércio, nas Vidas e Doutrinas dos Filósofos Ilustres I, apresenta duas linhas de história

Diógenes Laércio, nas Vidas e Doutrinas dos Filósofos Ilustres I, apresenta duas linhas de história da filosofia grega:

Jônica: com Tales, Anaximandro, Anaxímenes, Anaxágoras, Arquelau, Sócrates, Platão

Italiana: com Ferécides, Pitágoras, Telauges, Xenófanes, Parmênides, Zenão, Leucipo, Demócrito, Epicuro

Notar que Heráclito não aparece, devido a ser tão crítico de seus predecessores e contemporâneos. Segundo Laks (2013), pelo menos nos primeiros representantes, é possível fazer uma divisão entre uma preferência de investigação mais semelhante às ciências naturais nos jônicos e outro mais ligado ao ser humano e questões da alma nos italianos (sem esquecer da matemática pitagórica, mas que viria depois).

I. Heráclito crítico (Heráclito critica bastante seus predecessores e contemporâneos. O problema da multi-instrução (polimatia) seria privilegiar o conhecimento de segunda ordem, ou seja, o 'ouvir falar' em vez de investigar)

B40

(4) Multi-instrução não ensina o pensamento. Se fosse assim, teria ensinado a (1) Hesíodo e a Pitágoras e (2) ainda agora (autis te) a Xenófanes e Hecateu. (3) e (4)

(1) Posiciona-se após Hesíodo (700 aec.), poeta didático, e Pitágoras (600 aec.), filósofo ou sábio.

(2) Junto, ou pouco depois, de e junto com Xenófanes (filósofo ou sábio, uns o colocam como mestre de Heráclito) e Hecateu (historiador)

Obs: Trabalhar com fragmentos parece com uma arqueologia das ideias. É preciso buscar

evidências a partir de pequenos detalhes. Às vezes, até o que não aparece também é importante.

(3) Heráclito não cita Parmênides, por isso viria antes. É verdade que estão geograficamente distantes um do outro, mas cita Pitágoras (apesar de ter nascido em Samos) e Xenófanes que atuam na parte italiana.

(4) Também não cita os milesianos. Com esses, com certeza, teve contato. Éfeso é vizinha a Mileto. Cita Tales em B38, talvez como elogio. Não ser criticado por Heráclito seria já um elogio. Esse é o argumento ex silentio de Vlastos (1955).

(5) Crítica à polimatia. O 'poli' pode se referir a muitos a) assuntos, b) muitas maneiras de explicar as coisas ou c) muitas fontes? Crítica a quem quer saber muitos assuntos já existia, mas Heráclito trata de muitos assuntos, então essa opção parece mais fraca. Veremos que a sua teoria da união de opostos quer dar conta de tudo que acontece no cosmos, isso descarta a) e faz b) uma boa opção. Porém, diante da citação de vários nomes, e da crítica à tradição, parece que o problema é c) ficar repetindo explicações de outros.

Questão: Os pré-socráticos teriam consciência da oposição entre filosofia vs. Mitologia como diz Aristóteles? (cf. Frede, In Curd 2008). Mais importante para nosso assunto: diante da sua postura crítica, como Heráclito pensava de se diferenciar daqueles que ele criticava?

Aristóteles dá a sua versão de começo da filosofia em Metafísica 3.4. Ele opõe mythos vs. apodeixis (demonstração), e estabelece a demonstração (apodeixis) das causas e princípios (aitiai e archê) como o fator que diferencia a filosofia do mito.

Marca o início da filosofia em Tales que, ao inserir causa material, água, e dar explicações sobre o porquê da sua escolha, seria o primeiro filósofo. O opõe a Hesíodo que apresenta intervenção divina como causas das coisas no mundo. (Tales como o primeiro filósofo grego ficou canônico. cf. D.L. I acima.)

Obs: Mas Aristóteles não é sempre coerente nessa definição e divisão. Ao falar do princípio movente cita Hesíodo e o amor na criação do mundo como um predecessor válido.

B35: Pois necessita bem mais de muitas (coisas) (1) serem testemunha ocular (hystôr) homens (2) amantes da sabedoria (3) (philosophos)

(1) Ele se aproxima mais dos testemunhos oculares, dos historiadores que buscam apreensão de primeira ordem (mas ainda assim critica Hecateu).

(2) Primeira ocorrência que se tem de filosofia. Já D.L. diz que o primeiro a usar seria Pitágoras, defendendo que só o deus é sábio, e aos humanos resta amá-la. Mas o consenso entre estudiosos é que se trata de uma anedota espúria (cf. Frede, In Curd 2008).

B104: Qual o pensamento ou a compreensão (1) deles? Por (2) cantores regionais se persuadem e por (3) ensinadores tomam a multidão sem saber que os (3) muitos são ruins e poucos são bons.

(1) Quem seriam eles? Ou os pensadores de B40, ou as todas as pessoas que se enquadram dentro da maioria. (2) Circularidade da tradição. Se aprende com a tradição a fazer cantos que reforçam a tradição. Assim quem ensina o povo, aprende com o povo. (3) Se distancia dos poetas, em conexão com a distinção de Aristóteles. Porém seus motivos seria a apreensão de primeira ordem (cf. a) em B40 acima) somada a explicação de tudo a partir de um princípio (como os milesianos. Cf. b) em B40 acima). Em certa medida, veremos que justamente naquilo que Aristóteles o critica, o seu estilo, é que Heráclito se aproxima da condição aristotélica da filosofia que é oferecer demonstração das suas teorias. Apontar o caminho pelo qual o leitor pode verificar por si mesmo a validade do que é dito no discurso. Esse seria o diferencial do filósofo para Heráclito. Ou, pelo menos, o seu diferencial em relação àqueles que ele critica. (4) Seria uma citação do sábio Bias, elogiado em B39. Como a maioria é ruim, quem aprende com ela e reforça sua opinião é ruim também.

Questão: Heráclito se diferencia da sabedoria tradicional ao defender busca do conhecimento de primeira ordem em associação com o método dos historiadores. Esse conhecimento, então, passa pelas sensações?

II. As sensações (Percepção sensível possui um papel necessário mas insuficiente na epistemologia de Heráclito)

B101 a : Pois (1) olhos (são) testemunhas mais acuradas do que os ouvidos

(1) Tradicionalmente os olhos são vistos como os órgão da sensação de primeira ordem, como em uma testemunha ocular. Já os ouvidos incorporar a percepção de segunda ordem, como em 'ouvi dizer' (cf. Heródoto)*. Assim, em vista da preferência de Heráclito por buscar o conhecimento em vez de repetir opiniões da tradição, essa primazia da visão se justifica.

* “Eu mesmo não tendo visto, então as coisas ditas pelos Caldeus, estas eu digo.” Heródoto, 1.183.3

B55: As (coisas) com (1) visão (2) audição (3) apreensão, estas eu prefiro

(1) Declara preferência de dois tipos de sensação, visão e audição. Visão faz sentido em vista da preferência por apreensão de primeira ordem, que, inclusive, o logos discurso tenta imitar.

(2) Audição seria problemático em vista da crítica aos cantores populares, poetas e filósofos predecessores e de B101 a acima.

(3) Apreensão, mathesis, é o termo chave inserido aqui. Visão e audição servem ainda mais se as suas informações forem apreendidas (ficam disponíveis para uso posterior). Isso parece evocar a memória. Primeira evidência de que é preciso ir além da percepção. A memória permite comparar

dois estados de mundo em tempos diferentes. Isso, se verá, é necessário para se comparar e verificar

a união dos opostos. Ex. Em t1 isso está frio, em t2, está quente, logo é frio-quente (cf. B125)

B107: (1) ruins testemunhas para os homens olhos e ouvidos (2) bárbaras almas tendo

(1) Segunda evidência de que as sensações não bastam. Órgão sensórios estão subordinados à alma, de modo que se a alma não está de acordo, as sensações também serão distorcidas.

(2) Não é claro o que quer dizer 'bárbaras'. Esse adjetivo passa a ser depreciativo no período clássico, no arcaico ainda não. Uma interpretação é a crítica à quem tem sensações, mas não entende o que elas informam. Ou seja, seria como que ouve os barulhos de uma língua estrangeira (bárbara), mas não entende o significado. Vimos que a maioria seria ruim, logo, a maioria, tendo alma bárbara, seria quem vê, mas não entende o que vê. Para ser mais específico é preciso adiantar um assunto. Essa maioria identificaria os opostos, passando pela fase 1 sensória do conhecimento, mas não entende sua união, falham na fase dois que precisa ir além dos sentidos.

B61: Mar água puríssima e sujíssima: aos peixes é potável e saudável, aos humanos, impotável e letal.

(1) Estilo de argumento das sentenças dos sete sábios (cf. Granger). Começa por uma conclusão paradoxal: pura e suja. Depois explica através das premissas qualificadas: pura para os peixes, suja para os humanos.

(2) Mostra que os humanos, no que concerne às sensações, são como os animais. Cada espécie vê as coisas apenas de um lado. Já vimos uma maneira de sair disso. A apreensão (mathesis) como memória é um dos artifícios para vencer essa limitação e construir uma figura total ao permitir comparar estados de mundo em tempos diferentes. Agora surge outra. Seria um tipo de 'teoria da mente' que diferencia humanos de animais. Ao ver outras espécies percebendo aspectos diferentes da realidade os humanos podem completar a nossa percepção da realidade.

Obs: Assim se identifica o que se chama de 'parcialismo' em Heráclito. Ou seja, cada um tem uma visão parcial da realidade, para tentar compor um quadro mais completo é preciso angariar percepções de outros perceptores parciais.

Essa capacidade estaria ligada ao papel da alma. Há pelo menos duas maneiras determinadas de fazê-lo. 1) Apreensão do que foi visto (memória), e 2) ver o que os outros apreendem (teoria da mente).

Questão: Diante da crítica ao conhecimento como repetição de discursos, como Heráclito escapa de ser apenas mais um pretenso sábio oferecendo experiências de segunda ordem?

III. O discurso críptico sobre um objeto críptico (A natureza das coisas é o objeto do conhecimento. Como vimos, as sensações não bastam para compreendê-la. O discurso de Heráclito, então, se propõe a revelar esse um objeto que está escondido.)

B123: (1) Natureza ama (2) se encobrir.

(1) Primeira ocorrência da palavra natureza (physis) no sentido de 'física', essência (movente?) das

coisas.

(2) A natureza (physis) é então o objeto da ciência natural (física). É isso que o discurso de

Heráclito tenta ensinar como compreender.

B54: Que a harmonia aparente a inaparente mais forte

(1) Vai se tornar um lugar-comum na filosofia grega: o ser das coisas, aquilo que é, não é como

parece.

(2) Conhecimento não é somente aquilo que aparece na primeira observação. É preciso ir ao fundo

para ser encontrar a natureza das coisas. Mais especificamente, é preciso ir além do que

aparentemente é contrário para se compreender que são partes unidas de um mesmo processo. Mais

sobre isso na sequência.

Questão: Qual seria o melhor estilo para falar sobre e ensinar a compreender um objeto escondido

como a natureza?

B93: O senhor do qual o oráculo é o em Delfos nem diz nem encobre, (1) mas sinaliza.

(1) Oracularidade: usar um discurso com sentido escondido para ensinar a interpretar o sentido

escondido na natureza. O que Aristóteles critica, é justamente o que Heráclito toma como

diferencial [racional] do seu discurso.

Anedotas: Sócrates teria dito do livro de Heráclito: o pouco que eu entendi é muito bom, o que eu não entendi deve ser melhor ainda. cf. D.L. IX Teofrasto diz que: Metade do que ele escreveu está incompleto, a outra metade é inconsistente. Ésquilo* e Píndaro também são oraculares. Isso revela o espírito da época.

Já no prólogo do Agamenon (vv. 38-39) Ésquilo faz o vigia explicar sua estratégia discursiva:

“assim, deliberadamente, eu/ anuncio aos entendidos e escapo aos não entendidos.”" Por exemplo, em 681 sq., ele diz: “Quem então nomeou assim,/ nisto tão autêntico,/ com presciência do porvir, senão aquele a quem não vemos/ quando atribuímos a linguagem ao azar?/ E àquela que o armado esposo busca, disputada/ Helena (Ἑλέναν) foi propicioso pois/ (ela) Aliena naus (ἑλένας), aliena homens (ἑλανδρος), aliena vilas (ἑλέπτολις)”. Dois níveis de compreensão, o superficial e o escondido. Quem sabe ler sabe desde o início o que de fato vai acontecer.

Estudo de caso em Heráclito:

B32: um o sábio único (1) não quer e quer ser dito pelo (2) nome de Zeus

Texto 3: Exemplo de como Ésquilo esconde a essência da personagem Helena na etimologia do seu nome.

(2) Dessa postura surge a interpretação de B32. Zeus contém, na etimologia hermenêutica (não

histórica), a raiz de zein (viver).

(1) Sendo Zeus a fonte da vida ele quer esse nome, sendo ele também fonte da morte, ele não quer esse nome. Escondido no discurso está a realidade, ou seja, que vida e morte são partes de um mesmo processo.

Obs: Os pré-socráticos estão em um período limítrofe do pensamento ocidental. Estão na transição de uma cultura oral para uma cultura escrita. Também participam da constituição do que virá a ser entendido como o discurso filosófico. Por isso, recorrem a estratégias da oralidade e da escrita bem como da poesia, das sentenças sapienciais para criarem seu estilo. Heráclito é um exemplo disso. Parmênides, veremos, ao escrever em hexâmetro, ritmo da poesia épica, é outro.

Aristóteles critica o estilo de Heráclito na Retórica 3.5: “O que é escrito deveria, em geral, ser fácil de ler e fácil de falar – o que é a mesma coisa. O uso de muitos conectores não tem esta qualidade, nem as frases que não são pontuadas de maneira clara, por exemplo, nos escritos de Heráclito. Pontuar os escritos de Heráclito é uma tarefa difícil porque não fica claro o que segue o quê, se o antecedente ou o procedente. Por exemplo, no começo do seu (1) tratado (sungramma) ele diz (2):

"deste discurso que existe sempre ignorantes são os homens" Não fica claro se (3) 'sempre' vai com o precedente."

(1) Sungramma: Aristóteles fala de compêndio de escritos. Não se sabe se Heráclito chegou a

escrever o que entendemos por um livro. Segundo uma anedota, mais uma vez em D.L., ele teria

escrito um livro e depositado no templo de Ártemis em Éfeso para que ninguém lesse. Há também a

questão do formato desse livro. Uns acham que se tratava de um texto corrido. Outros, como Kirk,

defendem que seria um conjunto de aforismos parecidos aos fragmentos que nos chegaram. Diante

desta dificuldade, o primeiro editor dos seus fragmentos, Diels (1901), do qual usamos a

numeração, os ordenou de maneira alfabética a partir do nome da fonte. Cf. a pretensão de

Mouraviev (1999 e seq.) de reconstruir o livro de Heráclito.

(2) O trecho mostra também como retiramos os fragmentos dos pré-socráticos e como os editores usam dicas nas fontes para verificar se se trata de uma citação direta ou não. Cf. Costa, 2012 para uma tradução dos fragmentos dentro do contexto.

(3) Sobre a dificuldade de se unir o sempre ao antecedente ou precedente, é preciso pensar que os textos gregos eram escritos todos em maiúsculas, sem pontuação e sem espaços entre as palavras. Além disso, o grego antigo não é uma língua em que a estrutura da sentença apresenta uma ordem forte de palavras. Ao contrário do Português, por exemplo, em que a ordem Sujeito-Verbo-Objeto prevalece.

Obs: Eis a propedêutica/ didática do discurso críptico: Quem aprende a decifrar o discurso

obscuro, aprende a decifrar a natureza. Por conseguinte, após aprender, não precisa mais do discurso (cf. B50). Cp. com a imagem da escada usada por Sexto e Wittgenstein. Texto didático como uma escada que se usa para chegar no alto, mas que, uma vez no alto perde o propósito e deve ser abandonada. O texto de Heráclito, para quem aprende a interpretar a natureza das coisas, torna-se redundante.

IV. O logos em Heráclito (após a crítica aos outros pensadores, a necessidade mas insuficiência dos

sentidos, a proposta de um texto cuja obscuridade é estratégia didática, podemos entender o logos

em Heráclito)

B1: "Mas desta (0) razão que é o caso (1)sempre desconjugados se tornam os humanos tanto primeiramente a terem escutado quanto tendo escutado de primeira. Pois em tudo que surge de acordo com essa razão, (2) a inexperientes assemelham-se os experientes, em (3)palavras e fatos, tais quais eu discorro (4)de acordo com a natureza discernindo cada e explanando o que tem. Mas aos outros humanos (5)escapa o que fazem acordados como o que adormecidos esquecem." mostrar pontuação, e partir pro logos segundo a natureza pra mostrar como as coisas são.

(1) Caso de Aristóteles e a dificuldade de pontuar, a solução seria uma ambiguidade intencional. O termo serve de ligação e vale para o antecedente e o procedente. (3) Palavras e fatos: primeiro sinal da pretensão do discurso de Heráclito, valer como os fatos. Ou seja, ser como uma experiência de primeira ordem. Um fato é o caso sempre, portanto a palavra de um discurso racional também o seria. O discurso repete o que acontece na natureza. (4) O discurso é segundo a natureza. Como vimos, uma natureza obscura precisa de um discurso obscuro para que não só seja revelada, mas também que se ensine o método pelo qual se chegou à revelação. É justamente pelo que Aristóteles critica em Heráclito que ele se diferencia dos seus predecessores. O texto filosófico equivale a uma apreensão direta da ordem do mundo.

Obs: Logos, em grego, equivale a várias palavras de um campo semântico amplo em português.

Entre seus significados estão: Discurso, razão, raciocínio, conta, lógica, medida

de Heráclito identificamos três grupos: Logos como 'discurso-razão', como 'raciocínio-palavra',

como 'medida-razão'. Na sequência vamos focalizar no primeiro grupo, que parece ser o mais significativo. A escolha de um termo para traduzir ou interpretar é complexa. Pode se fazer uma analogia com as roupas. Temos três pessoas com biotipos diferentes. Ou escolhemos uma roupa perfeitamente adequada, mas que só serve em cada um, ou escolhemos uma que serve em todos, mas não fica perfeita em nenhum.

(0): Logos: aqui pode ser entendido simplesmente como discurso ou, de maneira mais geral, como razão. No caso de 'razão', pode ser uma razão humana, comum a todos os humanos, ou uma razão divina que governa o mundo, comum a todas as coisas. Eu prefiro interpretação da razão humana. Os motivos ficarão claros na sequência. (2) e (5): Todos são experientes: a razão é comum, mas ninguém a compreende (cf. B72), agem como inexperientes, seja antes de escutarem a Heráclito, seja depois de terem o escutado de primeira. Como se viu, preferência é para experiência de primeira ordem, mas os sentidos não bastam. É preciso aprender a usar a razão para atingir um segundo nível de leitura, despertar do sono, e compreender a natureza.

Nos fragmentos

B2: Por isso é preciso seguir o (1) conjugado. Mas mesmo a razão sendo conjugada, os (2) muitos

vivem como tendo uma particular percepção. (1): A razão é conjugada, comum, todos possuem, e é preciso segui-la. Primeira ocorrência da estipulação de um critério comum segundo o qual todos podem chegar ao mesmo conhecimento por si só. No entanto, a maioria não o procura. (2): A maioria se fixa nas percepções que são particulares. Mais uma veza crítica aos seres humanos que não sabem seguir o comum.

B50: (1) Não de mim, mas da (2) razão escutando, é sábio raciocinar: (3) tudo ser um. (1): Resolve o problema de diferenciar seu discurso ao dos outros. O seu discurso é o mesmo de todos, desde que eles sigam a razão. Não nega ser o autor do texto, mas como é porta-voz da razão comum no caso do discurso racional não faz diferença quem o proclama. O discurso é apenas ferramenta para encorajar percepção de primeira ordem. (2): O agente do discurso é a razão. Para entender basta pensar no texto como uma fórmula matemática. Não se pensa em quem é o autor quando se resolve uma equação. Todos que sigam a razão vão resolver da mesma maneira. A pretensão do discurso de Heráclito seria a mesma. (3): Monismo adianta o tema da união entre opostos. Ou seja, tudo se resolve entre dois opostos e um elemento que os une, a mudança. Veremos adiante.

Obs: Os três fragmentos do logos permitem reunir as suas características: B1: Logos é sempre o caso, B2: é comum, B50: permite ver que tudo é um, B72: está sempre presente, mas humanos não percebem. Assim chegamos ao lado crítico dos fragmentos. Os humanos têm logos, mas B1 mesmo sendo experientes, agem como inexperientes, B2 defendendo uma percepção particular. B50: Essa

particularidade não está presente no texto de Heráclito (não de mim

A desvalorização dos

humanos que não seguem o logos faz crer que trata-se de uma característica humana, daí, a tradução por razão. Mas há quem veja o logos como uma ordem absoluta do mundo (como virá a ser para os Estoicos).

).

V. A união de opostos em movimento (Toda a pluralidade do cosmos se explica por uma mesma estrutura, a mudança permanete entre opostos. É isso que os humanos que seguem o logos comum devem compreender)

B60: (1) A senda, (2) para cima e para baixo, uma e a mesma.

(1) Mais uma observação banal para provar o que escapa à maioria. O caminho de ir para cima e o de ir para baixo parece oposto para quem está em cima e para quem está em baixo. Porém, em face do parcialismo, basta unir as duas partes da verdade parcial para se compreender que tudo é um. Para realizar essa união, ou se usa a teoria da mente, e soma a percepção de um outro que está em uma posição diferente. Ou se usa a memória, e, quando chega no fim do caminho, em baixo, se lembra que é o começo para voltar ao outro extremo, o lado de cima, que antes fora o começo.

(2) Teofrasto (fr.1) e Máximo de Tiro mostram que esse fragmento era usado também em contexto cosmológico. Seriam caminhos de transformação das massas no cosmos, como veremos na cosmologia.

B67: (1) o deus: (2) dia-noite, inverno-verão, guerra-paz, fartura-fome, altera como <fogo> quando se mistura aromas e nomeia-se pelo gosto de cada um.

(1) Atenção ao estilo. Termo principal no começo do fragmento. Isso é estratégia recorrente (como a Odisseia que começa pelo 'homem' e a Ilíada que começa com a 'ira'. Cada um seria o tema central dos poemas).

(2) Pares de opostos sem conectivo, mais um recurso estilístico. Imitando a realidade em que os opostos são unidos sem sincategoremas. O primeiro par dia-noite ecoa a crítica a Hesíodo. O segundo, Inverno verão, complementa o eco (cf. B56 e B104 abaixo). Herácltito quer mostrar que não há positivo nem negativo. Sem um não há o outro. Ambos são parte do mesmo processo.

(3) Nomeia-se pelo gosto de cada. Lembrar do nome de Zeus que dá a vida, mas é incompleto porque com a vida vem também a morte (cf. B20). Gosto de cada perceptor revela uma parte de cada coisa. Tanto na medida que tem as duas qualidades opostas simultâneas (perceptores diferentes em B61) quanto na medida em que uma qualidade vai mudar para seu oposto (tempos diferentes aqui).

B8: o contra-conjugado convergente, e dos divergentes, a mais bela harmonia e tudo segundo a querela se gera

(1) O conjugado, como a razão, une convergente e divergente.

(2) A harmonia (inaparente) vem do conflito. Um oposto gera o outro. Para Heráclito, vir um do outro significa ser o mesmo. Heráclito resolveria assim o problema da criação ex-nihilo, negando, no entanto, o princípio de não-contradição, ao afirmar que os opostos são um.

B51: (1) Não conjugam como (2) o divergente consigo converge, destoante harmonia como a do arco e da lira

(1) Repete crítica humana.

(2) Seu problema é não perceber a união de opostos que gera uma harmonia destoante.

(3) Imagem do arco e da lira, repouso na tensão da corda entre lados opostos.

Exemplo de quem erra: Hesíodo

B57: Educador da maioria é (1) Hesíodo. Este acreditam muitas coisas saber, ele que dia e noite não compreendia, pois são um.

B106: (1) (Hesíodo) fez uns dias belos e outros feios ignorando assim a natureza de todo dia que é única.

(1) Hesíodo, poeta didático, alvo comum da crítica de Heráclito. Há quem diga que os dois fragmentos são corrupções de uma fonte comum. De qualquer maneira repetem a crítica aos cantores populares e à circularidade reforçada pela tradição.

(2) A maior crítica, no entanto, é na incapacidade de identificar a união de opostos. Hesíodo qualificaria os dias segundo a quantidade de luz que reverberaria na fartura agrícola* (cf. Vieira,

2013). Ou seja, permanece no nível sensível de reconhecer opostos, a verdade parcial, e não dão o passo racional de ver que são extremos de um mesmo processo.

*Cf. “pois mês mais difícil este,/ invernoso, difícil para os quadrúpedes, e difícil para os homens,/ nesse momento a metade para os bois, mas aos homens o total permita/ da comida: pois longas precipitadas as benfazejas (noites) são/ essas coisas vigiando tendo acabado um e outro por/ serem igualados noites e dias, até que de novo/ terra de todos mãe fruto misturável nela tenha” Hesíodo, Trabalhos e os Dias 557se.

Obs: Com seu princípio de união de opostos Heráclito estabeleceria dois paradigmas importantes para a sequência da história da filosofia grega. A) Uma resposta para o nada surge do nada embasada pela constatação empírica que opostos saem de opostos. Disso, ele conclui que B) um oposto está unido ao outro e, portanto, são um mesmo processo. Muitos defendem que Parmênides constrói sua visão de mundo em oposição a isso. Aristóteles, na Metafísica, também lidará com esses problemas. Ele inclusive creditará o mobilismo heraclitiano de negar o princípio de não- contradição. Talvez tenha sido a posição de Heráclito que permitiu a Parmênides identificar e postular um princípio de não-contradição. Aristóteles também chega a falar que foi para responder aos problemas da impermanência do mundo sensível identificadas por Heráclito que Platão recorre à teoria das Ideias.

VI. Ontologia (o fogo, fonte de movimento em um cosmos que é movimento)

Obs: Aristóteles desenha uma linha jônica na história da filosofia. Tales postula água como elemento básico, depois Anaxímenes postula o ar e Heráclito, o fogo. Por fim, Empédocles soma a terra mais os outros três, e os coloca como os quatro elementos básicos imutáveis. Assim constrói uma história de maneira conveniente para seu propósito na abertura da Metafísica. Elemento (stoicheion), por exemplo, é um conceito tardio, provavelmente a maioria dos pré-socráticos não teria essa noção. Matéria original, base, origem (archê) pode ser uma noção mais antiga. Talvez Anaximandro* a tenha usado. De qualquer forma, o esforço é de tentar ler os pré-socráticos despindo-os dos conceitos usados pelos filósofos posteriores na interpretação da suas doutrinas. Em Heráclito, eu proponho que o fogo seja entendido como força motriz em um cosmos que é constituído de movimento entre opostos.

*Anaximandro disse que o indeterminado (apeiron) era a base (archê) de tudo.

B30: A (1) ordem do mundo, deste, o mesmo de todos, nenhum dos deuses nem dos humanos criou. Ela (2) era sempre e é e será um (3) fogo sempre-vivente, (4) abrasando em medidas e apagando em medidas. (1) Ordem do mundo = cosmos. Noção de um todo ordenado, portanto compreensível pela razão. (2) 'É, era e será': a fórmula da eternidade é um recurso estilístico muito usado entre poetas e filósofos antigos (cf. Vieira, 2014). Em Heráclito aparece em ordem causal, passado, presente e futuro: era, é e será. O 'sempre' reforça eternidade. cp. com o modelo do caminho para cima e para baixo em B60. Seria uma mudança linear, recíproca e eterna. (3) Fogo sempre-vivente gera a crença de que pra Heáclito tudo é fogo. Elemento mais móvel (cp. Água, ar e terra). O adjetivo 'vivente' (zoein, implicando vida 'animal', diferente do mais comum aei-on 'sempre-existente') mostra que não pensa apenas em um elemento material imutável que

compõe todas as coisas, mas em fonte viva da vida, ou fonte movente do movimento. (Cp. com zein, o viver no nome de Zeus em B32.) (4) É fogo que se acende e apaga em medidas mostrando que tudo é mudança entre opostos e toda mudança pode ser entendida como mudança na quantidade de fogo. Realiza sonho da física moderna: reduzir qualidade a quantidade.

B90: Do fogo se (1) permuta todas as coisas e fogo de todas, como do ouro mercadorias e das mercadorias ouro.

(1) Mais importante é mostrar a primordialidade do fogo. Mas permutar dá noção de 'medidas' mais uma vez. Noção que se encontra na palavra logos. Nesse sentido pode se dizer que há um logos no cosmos.

Organização das massas no cosmos: Após a primordialidade do fogo, viriam água, terra e ar como constituintes ainda basilares da pluralidade.

B36 (Clemente): "(1) Almas morrem ao gerar (2) água, água morre ao gerar terra, da terra água se gera, e d'água (3) alma.(4)" (1) Figura de estilo: composição em arco (cf. Vieira, 2013). Existe uma figura de linguagem tradicional , a composição em anel, em que se repete o mesmo termo no começo e fim do texto para fechar o ciclo (e recomeçar). Heráclito teria subvertido essa noção ao colocar um termo um pouco diferente no começo e no fim, alma e almas, indicando assim que é um movimento retilíneo recíproco entre opostos. (3) A variação entre almas e alma mostraria a variação entre cosmos e indivíduos. Almas representaria a alma na pessoa e o elemento vapor (psyche é sopro). (4): Ausência do fogo vem a calhar pois este haveria um papel primordial entre as massas. (2) Quiasma: a ordem das palavras repete a ordem da mudança do mundo. Harmonia do arco, não fecha um ciclo, mas indica um caminho reto de ida e volta recíproca.

Questão: Se os humanos fazem parte do cosmos, e o cosmos é uma mudança entre opostos redutível a quantidades de fogo, os humanos estão sujeitos às mesmas leis?

VII. Antropologia (a influência do fogo e das massas na constituição dos seres humanos, principalmente em relação à alma)

“Pois não, Teeteto. Visto que também há bastantes indícios, no que dizem, que o movimento transmite o que parece ser e o tornar-se, e o repouso o não ser e o destruir-se, pois o calor e o fogo, que também gera e governa, ele próprio é gerado a partir da mudança e da fricção: pois são ambas movimento. Ou será que não são estas a génese do fogo? [b] TEET. - São elas, certamente. S. — E também a raça dos seres vivos é gerada a partir destas mesmas coisas. TEET. — Como não? S. - O quê? Não se deteriora a condição dos corpos com o repouso e o descanso e, por seu turno, é em muito preservada pelos exercícios e pelo movimento? TEET. - Sim. S. — E a condição da alma não é pela aprendizagem e pela aplicação, que são movimentos, que adquire os conhecimentos, é preservada e se torna melhor, e que através do repouso, que é negligência e ignorância, [c] não aprende nada e esquece o que aprende?” Platão, Teeteto, 153a seq. (trad. Nogueira, A.; Boeri, M.)

Exemplo, dentro da ironia socrática, do fogo como fonte e agente do movimento, da geração das coisas, dos seres humanos, e, por fim, da cognição nos seres humanos.

B101: (1) encontrei a mim mesmo

(1) Seria resposta ao dito délfico: Conhece-te a ti mesmo (gnotheti seauton). Reforça preferência de conhecimento de primeira ordem e aponta o caminho interno. Partir de si mesmo para chegar ao cosmos.

B116: A (1) todos os humanos é permitido (2) conhecer a si mesmo e (3) ser prudente.

(1) Repete o tema do logos comum. Todos podem conhecer, poucos fazem. (2) Repete o tema de conhecimento de si mesmo, alma seria caminho interno para conhecer o cosmos. Lembrar de B36 que mostra o caminho da alma (como massa) às almas (nos indivíduos). Cp. com B115 onde as medidas da alma estariam sempre aumentando por essa ligação entre micro e macrocosmo. (3) Prudência virtude tradicional. A particularidade dependerá do estado da alma (cf. abaixo).

B118: Seca e austera é a alma mais sábia e mais virtuosa. (1) Alma menos seca é melhor para a sabedoria (intelectual) e virtude (prática). Vimos que sua morte é virar água em B36. (2) Em Aristóteles, mas não há citação direta, diz que em Heráclito é pela respiração que se absorve vapor que esquenta e seca a alma.

B43: Insolência é preciso extinguir mais do que (2) incêndio (1) A insolência (hybris), defeito tradicional de Aquiles na Ilíada, explicada por estado do corpo. (2) Comparação com incêndio dá evidência que se gera de excesso de fogo-calor na alma. Portanto, extremo do calor também é ruim. Por isso a guerra entre opostos é que gera harmonia. Também indica que é com água, bebendo, que se esfria o excesso de calor.

B117: Um homem quando está (1) bêbado é conduzido cambaleante por uma (2) criança impúbere. Sem (3) entender por onde anda tem a alma úmida. (1) beber umedece a alma, logo indica que seria método de esfriar o excesso de calor acima. (2) comparação com a criança que é melhor que o homem bêbado. (3) Alma úmida impede de andar (deficiência prática) e de saber o caminho (deficiência cognitiva).

Questão: mas se tudo se reduz a estados físicos, o ser humano está condenado ao determinismo de agir de acordo com o estado em que se encontra?

Aspectos físicos da alma influenciam nos cognitivos (lembrar alma bárbara que impede a sensação de ser boa). Aristóteles acusa os pré-socráticos de tratarem perceber e pensar do mesmo jeito. As mudanças no corpo mudam como se percebe o mundo em Heráclito. Mas isso não quer dizer que conhecer se reduza a perceber (como vimos na parte das sensações acima).

Padrão de pensamento comparativo: Outra estratégia de pensamento em Heráclito. Para entender humanos é preciso comparar com animais e com os deuses.

B82: "É vergonhoso relacionar o (c) mais belo dos macacos à (b) raça dos humanos." B83: "O mais (b) sábio dos humanos frente a um (a) deus parece um macaco em sabedoria, beleza e tudo mais."

A = Deus, B = Humano, C = Animal (Criança): A-B-C, três termos diferentes, mas com o mesmo

tipo de relação. Isso permite igualá-los. Ex. A > B mas B > C, logo B = A na medida em que B está para C assim como A está para B, e vice versa.

(b) Logos, como vimos, é humano, assim como a sensação, é animal. Mas o humano tem sensação

animal, logo deus pode ter razão. Mas assim como sensação animal-humana é apropriada ao humano, razão divina-humana seria apropriada ao humano. O desafio é ver em como retirar animalidade da sensação (hedonismo) e de como usar razão humana (união de opostos) para se aproximar do modo de ver o mundo divino (total).

Animais:

B4: Se (1) felicidade estivesse nos deleites corpóreos diríamos felizes os (2) bois quando encontram

(3)

ervilha para comer.

(1)

Crítica ao hedonismo: a felicidade não está nos prazeres corpóreos.

(2)

Homens que se rendem aos prazeres corpóreos estão se animalizando quando deveriam estar se

divinificando.

(3) Ervilha, na tradição, é alimento que ninguém gostava.

B9: (1) Asnos selecionariam antes palha a (2) ouro.

(1) Mais um exemplo da comparação humano animal. Todos concordariam que humanos em sã

consciência prefeririam ouro. Heráclito talvez achasse que para os asnos palha é mesmo melhor,

para os humanos, ouro é melhor, já que seu parcialismo também tende ao relativismo como em B61 acima.

(2) Porém não dá para afirmar se Heráclito tinha opinião positiva do ouro. Em B90 ele usa o

comércio e a troca por ouro para falar do fogo no cosmos. Mas em B125 ele critica Efésios desejando-lhes riqueza para provar sua ruindade.

B13: (1) Porcos se aprazem mais na (2) lama do que na (3) água pura.

(1) Outra comparação de prazeres diferentes que mostra um lado animal com o que os humanos não

entenderiam como prazer.

(2) Seria uma tentativa de mostrar que se você não vê sentido no hedonismo corpóreo de quem

gosta de lama, não deveria ver no de quem gosta de vinho. O tema da lama volta para quebrar outro costume, esse o religioso de se fazer sacrifício para limpar crimes de sangue.

(3) Vimos que os animais e a maioria dos humanos vive vendo apenas um lado, seu lado, da

experiência da realidade, e que o logos, da alma bem balanceada, permite conhecer os dois opostos e sua união. O tema da água recorre na comparação com animais em B61.

Introduz os humanos na comparação

B29: acolhem (1) um ante a todas os apreçados rumor eterno aos mortais e os muitos abarrotados como tenro rebanho no ventre e vergonhas e nos mais vis deles em mim medindo a boa-venturança

(1) Dentro da tradição cultura da honra, em que se age bem para ser honrado. Em geral se opõe esse

tipo de valor à cultura da vergonha, como a cristã, em que se é valorizado pelo que deixa de fazer de vergonhoso.

(2) Ao usar rebanho talvez reverbere a crítica de Hesíodo que faz dias de inverno serem ruins para

bois e para os humanos.

(3) Em contraposição, humanos só pensam em prazeres corpóreos. Esses são representados aqui por

metonímia: ventres e vergonhas (hedonismo). Erro de medida de boa-venturança. Aliteração é um recurso estilístico poético e mnemônico.

B77ab Para aqueles com as almas úmidas gera-se (1) prazer e (2) não morte.

(1)

Alma úmida perde intelecto e controle prático, mas continua viva.

(2)

Crítica ao hedonismo. Viver por prazer é uma vida não sábia e não virtuosa.

B85: É (1) difícil lutar com o (2) desejo pois ele compra a alma. (1) Anti-hedonismo é tarefa difícil. (2) Desejo e prazer não matam, mas corrompem a alma. A compram ou conquistam. Condena os humanos a uma vida 'animal' em vez de alçar ao divino.

B110: Aos humanos é (1) melhor não acontecer tudo aquilo (2) que querem. (1) Os humanos desejam prazeres corpóreos que seriam a morte da sua alma e lhes fariam piores. (2) Como no exemplo particular de dar riqueza aos Efésios, a quem é hedonista-animal, é, na verdade, uma maldição conseguir tudo o que quer. Parece uma versão primitiva do que hoje se chama de 'esteira hedonista' (hedonic treadmill). Como no caso de um viciado que, se tem oportunidade de satisfazer os seus desejos sem limite, acaba em overdose.

B84b: É laborioso se dedicar e ser dominado (1) pela mesma coisa. (1) Esta mesma coisa seria a alma? Talvez o costume que vira consciência (cf. B119) reforçado na circularidade dos cantores tradicionais (B40)? (2) De qualquer modo é uma versão para: aquilo que você não compreende, te domina.

Deuses:

B102: Aos deuses todas (coisas) bonitas e belas e justas. Os homens supõem umas injustas outras justas (1) Repete a crítica a Hesíodo por distinguir dias bons e ruins. Tínhamos visto também que deus é a união das coisas em B67. (2) Mostra que união de opostos é se aproximar dos deuses e afastar dos animais. Porém, o método de aproximação tem que ser particular aos humanos. Vimos que por memória (B55) e teoria da mente (B61).

B23: da justiça nome não saberiam se estas coisas (injustiças ou leis) não fossem (1) Fica claro que humanos precisam de um oposto para conhecer o outro. Vimos que perceber é perceber opostos, como animais. Vimos que humanos tem que ir além dos animais para se aproximar dos deuses. Vimos que o logos através da memória de coisas que mudam diacronicamente e da teoria da mente para ver outros percebendo outras características das coisas mudando sincronicamente conseguem unir os opostos.

B78: O costume humano não dá dicas, mas o (1) divino dá. (1) Se é pra imitar, que imitemos o costume divino. Como ele é? A indiferenciação entre bom e mau abaixo pode indicar que é, mais uma vez, ver a união dos opostos. Ecoa crítica de quem não segue o comum.

Questão: Mas tem o problema de que se une bom e mau, como prescrever que vida sábia é melhor que a hedonista? Talvez em termos práticos. Humano precisa de estar em boas condições na alma para não precisar ser levado pela criança. Por isso o humano nunca via igualar a visão total divina, pois não sobreviveria. Ex. o humano que vê que a água do mar é saudável e mortal, mesmo depois dessa visão total, não deve bebê-la, senão morrerá. Ainda assim é uma questão em aberto e difícil.

VIII. Política (as consequências práticas em relação aos costumes e a política de um pensamento como o de Heráclito. Defende uma análise racional das práticas religiosas e a mudança-guerra como criadora)

Costumes

B119: O (1) costume é uma (2) consciência para os seres humanos. (1) Costume (Ethos): o hábito, seguir um costume seria problemático como seguir a tradição, pois acaba gerando comportamento sem reflexão. (2) Consciência é uma tradução bem incomum de daimon, literalmente, demônio, normalmente traduzido por 'gênio'. A noção antiga era de algo separado do que julgamos ser nós mesmos, mas que nos compele a agir de alguma maneira. O costume escolhe por nós ações sem refletirmos.

B79: O homem (1) imaturo (2) escuta (3) a consciência como (4) a criança, o homem. (1) imaturo seria análogo às almas bárbaras que não sabem ler a natureza. (2) escutar repete o tema de escutar o logos, mas aqui é o daimon (3) reafirma leitura negativa do daimon sobre certas condições. (4) Método de comparação A-B-C. Homem imaturo está para sua consciência como a criança está para o homem, obedece sem racionalizar sobre.

Religião (crítica ao valor simbólico, defesa das sensações. Humanos que seguem a tradição acham que conhecem os deuses, mas nessa ilusão fazem coisas insensatas que jamais fariam em sã consciência.) B5: (1) Purificam-se em vão manchando-se com sangue como se alguém, (2) tendo andado pela lama, com lama se lavasse. Pareceria estar louco caso algum dos humanos (3) o espiasse fazendo assim. (1) Pensar racionalizante sobre os ritos para perceber sua falta de sentido. Oferecer sacrifício com sangue para se limpar de um crime de sangue. cf. Oresteia, de Ésquilo, onde Orestes é julgado para ser absolvido do assassinato da mãe. (2) Usa a analogia da lama, algo despido de ritos, para mostrar a insensatez. Mas nisso está se aproximando dos animais e não dos deuses, pois advoga seguir o sentido básico, as sensações. (3) Nesse caso os humanos atribuem valores opostos às coisas que são evidentemente as mesmas. Um tipo diferente de erro, portanto, é o de não ver o óbvio e ver o contrário quando não se deve. (4) Coloca um observador de fora que os veria como loucos. Mais um caso para determinar melhor como é a teoria da mente. Ela deve ser capaz de ver comportamento contrário sensato (peixe beber água do mar) e comportamento contrário insensato (orar e sacrificar).

B15: Pois se não fosse a Dioniso que procissão fizessem também entoariam (1) hinos às partes venéreas, vêneras obras tendo realizado. Pois, o mesmo, são, (2) Hades e Dioniso ao qual deliram e celebram ritos. (1) Comportamento obsceno é tolerado quando é sagrado. Mais um exemplo de insensatez. Nesse caso, no entanto, se repete a crítica normal de não ver que os opostos são o mesmo. (2) Mais união de opostos. Hades, deus da morte, e Dioniso, deus do prazer, são o mesmo. Talvez porque vinho umedece a alma, e alma úmida perde a razão (morre no sentido de perder controle cognitivo e motor do corpo). Se pensarmos nas maiores mortes, deviam louvar mais Hades do que Dionisio, ambos são o mesmo, mas dá para valorar um dos lados mais que o outro.

Obs: São exemplos de opiniões, costumes e tradições ruins por não só não verem a união de opostos, mas sequer reconhecerem o óbvio, que não se trata de um oposto simbólico (sangue purificador), mas do oposto óbvio (sangue suja de sangue). Em suma, o conselho é: veja os óbvios e una os opostos.

Influência de Xenófanes: (B15) Se cavalos, bois ou leões tivessem mãos, se eles pudessem desenhar e criar obras como os homens, então os cavalos desenhariam figuras de deuses como cavalos, e os bois como bois, e cada um faria os corpos divinos como os que eles próprios têm.

(B16) Etíopes dizem que seus deuses são negros de narizes largos e os Trácios que eles são ruivos e

de olhos claros.

Obs: Xenófanes usa pra provar razão pra ceticismo de que não dá para afirmar nada de certo sobre os deuses. Heráclito vai mais no sentido de expôr a insensatez do comportamento ritual.

B58: Os médicos, sendo amputadores e cauterizadores, reclamam que não recebem nenhum pagamento por fazerem as mesmas coisas que as doenças. (1) Aplica falta de sentido não só a religião, mas também ao conhecimento técnico. (2) Mais união de opostos, nesse caso quem segue costume de se consultar com médicos, por não ver a união de opostos, não vê que eles fazem o mesmo que as doenças. Defenderia primeira ordem também na busca por equilibrar os humores do corpo?

Política

Breve cronologia de Éfeso no período arcaico (cf. Grote, G. 2010):

>> Fundada em 10 bce, por Androclos, quando se estabeleceram colônias gregas nas 12 cidades jônicas

>> Foi invadida por Cresos, rei Lídio, no século 6. O domínio era brando, apenas exigia impostos. Período de maior riqueza. Pelo lugar estratégico, virou porto de comércio entre Grécia e Ásia menor.

>> Dominada pelo Persas, sob Ciro, ainda por volta de 546 bce. Dessa vez o domínio foi mais duro. Diminuiu comércio, colocaram um persa no governo. Nessa época vive Heráclito.

>> A cidade não aceita participar da revolta organizada pela liga jônica contra o império persa, por isso é poupada da destruição.

Obs: Heráclito é anti-democrático, como qualquer um que acha que a maioria é ruim, oligarca, de família nobre. Teria abdicado do cargo político que sua família tinha direito.

B74: Não convém ser como (1) filhos dos nossos (2) pais

(1) Heráclito repete a posição anti-tradicional. Provavelmente se referindo a viver sob domínio dos estrangeiros. Avós viveram sob os Lídios, pais sob os persas e ele também. (2) Oposição entre crianças e adultos mostra que há esperança que uma nova geração abandone os costumes dos pais. Normalmente, nos fragmentos antropológicos, as crianças são usadas como comparativo negativo. Nos políticos, a coisa reverte.

B33: (1) Lei: ser persuadido pelo (2) desejo de um. (1) Posição aristocrata. Um deve decidir a lei, mas deve ser o melhor. Além disso ela deve seguir a lei divina (cf.B114) e não os seus desejos humanos. Para isso deve seguir a razão comum (cf Marcovich que lê B2 + B114). (2) Democracia levaria a satisfazer o desejo da maioria, que é ruim. Porém, em vista do parcialismo que defende uma visão total composta da união de visões parciais dá para supor a atuação desse 'um' que aplica a lei. Ele deve seguir o comum, ou seja, ver a união de opostos. Assim, haveria de considerar a posição de todos para tomar a melhor decisão. Mas isso já é conjectura.

B49: (1) Um para mim é mil se for (2) o melhor. (1) Contra a valorização da maioria na democracia. Desenvolvendo a conjectura do parcialismo.

Um vale o tanto quanto mil. Assim, ambas opiniões, seja da maioria, seja de um só cidadão, tem o mesmo peso. Porém, pode ser simplesmente defesa da tirania tradicional. (2) Mas com certeza, mesmo no modelo parcialista, não se trata de somar todas as opiniões. Costumes religiosos, hedonismo e outros problemas da maioria deveriam ser evitados.

B121: Valia aos Efésios adultos serem todos enforcados e aos (1) não adultos largarem a cidade. Eles que a (2) Hermodoro, homem dentre eles o mais honorável, expulsaram dizendo: de nós que nenhum seja o (3) mais honorável e se algum for que seja estranho e entre estranhos. (1) A cidade está corrompida de modo que não parece ter solução. Por isso os filhos, que ainda podem não ser como seus pais, só serão salvos se saírem dali. (2) Aplicação prática da crítica aos cidadãos e à democracia. Segundo lenda Hermodoro acabara fazendo as leis de Roma. (3) Medo democrático de que um seja mais poderoso que outro. Quem começa a se destacar deve ser ostracizado. Harmonia seria manter as duas facções em combate para o bem da cidade?

B125a: Que não vos falte (1) riqueza Efésios a fim de que vocês (2) verifiquem sua ruindade. (1) Não diz que riqueza é ruim, mas diante da crítica à maioria hedonista, aos desejos que compram alma, e de humanos que seria melhor não terem o que desejam, a riqueza é o fator que possibilita terem o que desejam e que vai assim revelar a sua ruindade. (2) Parece uma versão inversa da 'sorte moral' de Williams. Williams, seguindo a posição que se encontra em Céfalo na República de Platão segundo a qual ser rico é bom porque permite ser justo, questiona se é uma questão de sorte nascer com as condições de poder ser moral. Aqui, o que acontece é o contrário. A riqueza, diante de uma sociedade hedonista, tem o valor de dar as pessoas condições para viver seus excessos o que vai acabar as prejudicando. (3) Se fomos a B67, volta o problema do fome e fartura ser o mesmo, já que aqui ela é diferente. Para quem não tem limites, é melhor ter fome.

Questão: Talvez uma maneira de unificar seja pensar como uma proto figura do sábio estoico. No caso do sábio, de quem se aproxima do deus, fome e fartura são o mesmo. Mas é difícil de defender isso se pensarmos no caso da água do mar, pois mesmo o sábio que bebe água do mar morrerá.

O que serve de critério para as leis é o comum, o mesmo que era o critério da razão. B114: "Aos que dizem (1) com julgamento (xyn noos) convém firmarem-se no conjugado (xynos) de todos como nas leis (2) uma cidade. A cidade mais firme pois são nutridas todas as humanas leis por uma, a divina. Esta abarca tanto quanto quer, basta a todos e ainda sobra." (1) xyn noos, xynos: seguir o comum. Ecoa razão na composição das leis. Precede Platão ao pressupor mesmo princípio que rege o indivíduo a reger a comunidade. (2) O discurso com julgamento deve se firmar no comum de todos. (3) Lei divina comanda tudo, e a lei humana deveria segui-la. (4) assume pluralidade de leis humanas versus unidade da divina. Ecoa parcialismo da razão humana que deve conjugar várias opiniões diferentes para formar a figura total.

B89: (1) Aos vigilantes Um também comum cosmos é E dos (2) descansados cada um para si (3) próprio se volta (1) Vigilantes, que ecoa defesa da cidade, devem pensar na ordem comum. Sugere ligação cosmos comunidade? Se sim, devem se esforçar para manter harmonia de opostos pela guerra? (2) Em oposição aos descansados, que ecoa os que vivem adormecidos, no seu sonho particular, criticados em outros fragmentos. Cada um se volta para si. A questão é se o voltar para o comum é ver as opiniões opostas todas, ou achar a opinião comum (como Enesidemo diz que é o critério em Heráclito). Porém, em vista do cosmos e dos processos do logos humano de reconhecer a união de opostos que unifica sem comungar (harmonia não pitagórica, em Heráclito os opostos continuariam sendo opostos e guerreando após a unificação). Nesse sentido, dá pra defender a união não

democrática de opiniões diferentes. Heráclito então seria a favor de mudanças permanentes na política também? Se for unir cosmos e comunidade, sim. (3) Vigilantes devem pensar no bem (não no prazer) de todos? Mais austeridade menos afluência. Tampouco devem pensar no conforto individual. Pensando em relação aos cidadãos que aceitam domínio persa e se opõem à liga das cidades contra invasão defendida por Bias?

Guerra B44: (1) O povo necessita combater pela lei tanto quanto pelas muralhas. (1) Defesa da constituição como espécie de patrimônio cultural imaterial da cidade. Ecoa situação de domínio Persa em que há intervenção nas leis da cidade. Diferente dos Lídio que deixavam manter as leis e só cobravam impostos. Tucídides, citando Péricles, vai dizer que a cidade são os cidadãos, não as casas ou as muralhas. Heráclito é ainda mais abstrato dizendo que a cidade são as leis.

B25: mortes maiores maiores sortes recebem

(1) Repete versão tradicional de B24 de louvar mortes em batalha. Estilo aqui é o principal diferencial. Explora a mesma palavra sorte-morte para mostrar união de opostos. Interessante é que opostos se unem, mas a valoração continua. Mortes são sortes, isso os humanos não percebem, mas as grandes são melhores que as pequenas, isso é da tradição, como em B24. Tudo aponta para uma união de opostos que tenta manter alguma valoração relativa a uma perspectiva prática adotada.

cf. também B53 e B80 para defesa da guerra.

Bibliografia sucinta

Edições e traduções dos fragmentos:

COSTA, Alexandre. Heráclito, Fragmentos contextualizados. São Paulo: Odysseus, 2012.

DIELS, Hermann. Herakleitos von Ephesos. Berlin: Weidmannsche, 1901

KAHN, Charles H. A arte e o pensamento de Heráclito: uma edição dos fragmentos com tradução e comentário. São Paulo: Paulus, 2009

MARCOVICH, Miroslav. Heraclitus: Greek text with a short commentary. 2nd ed. Sankt Augustin, Germany: Academia Verlag, 2001

MOURAVIEV, Serge N. Heraclitea : edition critique complete des temoignages sur la vie et l'oeuvre d'Heraclite d'Ephese et des vestiges de son livre. Sankt Augustin Academia Verlag 1999

Introdução aos pré-socráticos

BARNES, Jonathan. Filósofos pré-socráticos. São Paulo: Martins Fontes, 1997.

CASERTANO, Giovanni. Os pré-socráticos. São Paulo: Edições Loyola, 2011.

CURD, P., GRAHAM, D. The Oxford Handbook of Presocratic philosophy

KIRK, Geoffrey Stephen; RAVEN, John Earle. Os filosofos pre-socraticos. 2. ed. Lisboa: Fundação

C. Gulbenkian, 1982

LAKS, André.; PEIXOTO, Miriam Campolina Diniz. Introdução à 'filosofia pré-socrática. São Paulo: Paulus, 2013.

SOUZA, Jose Calvacante de. Os Pre-Socraticos: Fragmentos, Doxografia e Comentarios. São Paulo: 1989.

Sobre Heráclito

BOCAYUVA, Izabela. Parmênides e Heráclito: diferença e sintonia. Kriterion : Revista de Filosofia, Belo Horizonte, MG , v. 51, n. 122, p.399-412, jul. 2010

MONDOLFO, Rodolfo. Heraclito: textos y problemas de su interpretacion. Mexico: Siglo XXI,

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RAMNOUX, Clemence. Heraclite, ou, L'homme entre les choses et les mots. 2e. aug. et corr. Paris:

Les Belles Lettres, 1968

SILVA, Martim Reyes da Costa; ASSUNÇÃO, Teodoro Rennó. Densidade semântica e jogos de linguagem nos fragmentos de Heráclito de Éfeso. 2013.

VLASTOS, G., 1955. “On Heraclitus,” American Journal of Philology, 76: 337–378.

Artigos que embasaram essa apostila

VIEIRA, Celso de Oliveira; PEIXOTO, Miriam Campolina Diniz; Razão, alma e sensação na antropologia de Heráclito. 2010 (dissertação de mestrado)

foi, era e será? A fórmula de eternidade na filosofia pré-socrática, Nuntius Antiquus (UFMG), V.2 n.2, pp.33-54, 2014 Heraclitus' Bow Composition, The Classical Quarterly / Volume 63 / Issue 02 / pp. 473-490, Dec. 2013 Os sentidos em Heráclito, pt.2 O uso indireto, Archai, Unb, n. 13, p. 61-69, 2014 Os sentidos em Heráclito, pt.1 O uso direto, Archai, Unb, n. 12, p. 41-54, 2014 A polêmica entre Heráclito e Hesíodo, Hypnos, Puc-sp, n. 31,p. 285-299, 2013