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Em busca da Consciência que está por vir DI BIASE, Francisco (Org.

EM BUSCA DA CONSCIÊNCIA
QUE ESTÁ POR VIR

Francisco Di Biase
(Organizador)

André Prudente Clérison Torres

Francisco A. P. Fialho Jeverson Reichow

Maribel Barreto Moacyr Castelani

Mônica Borine Nágila Giesta

Noemi Soares Raimundo Leal

Ricardo Melo Roberto Crema

Ruy Cézar do Espírito Santo Silas Monteiro

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Em busca da Consciência que está por vir DI BIASE, Francisco (Org.)

ÍNDICE

PARTE I
CONSCIÊNCIA, COGNIÇÃO E NEUROCIÊNCIA

CIÊNCIA E CONSCIÊNCIA - o cérebro holoinformacional ......................................... 8


Francisco Di Biase

CIÊNCIA E COGNIÇÃO ............................................................................................ 20


Francisco Antonio Pereira Fialho

PSICOLOGIA DA CONSCIÊNCIA - consciência e inconsciente emocional ............. 34


Monica Silvia Borine

PARTE II
CONSCIÊNCIA, AUTOCONHECIMENTO E TRANSDISCIPLINARIDADE

AUTOCONHECIMENTO E CONSCIÊNCIA .............................................................. 59


Ruy Cezar do Espírito Santo

OS NÍVEIS DO PENSAR E A CONSCIÊNCIA HUMANA ........................................... 70


Clérisson Torres & Renata Torres

O ENEAGRAMA COMO MAPA DA CONSCIÊNCIA ................................................. 87


André Barreto Prudente

PARTE III
CONSCIÊNCIA, EDUCAÇÃO E TRANSPESSOALIDADE

NOVO MILÊNIO, NOVA CONSCIÊNCIA ................................................................ 104


Roberto Crema

CONSCIÊNCIA E EDUCAÇÃO ............................................................................... 126


Maribel Oliveira Barreto

CONSCIÊNCIA E TRANSDISCIPLINARIDADE...................................................... 144


Jeverson Rogério Costa Reichow

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PARTE IV
CONSCIÊNCIA, FILOSOFIA E EDUCAÇÃO

CONTRIBUIÇÕES DA FILOSOFIA PARA A COMPREENSÃO DO CONCEITO DE


CONSCIÊNCIA ....................................................................................................... 159
Silas Borges Monteiro

A CONSCIÊNCIA DA ARTE DE APRENDER PARA O AUTODESENVOLVIMENTO


DO SER HUMANO .................................................................................................. 179
Noemi Salgado Soares

CONSCIÊNCIA, EDUCAÇÃO AMBIENTAL E AÇÕES PEDAGÓGICO-POLÍTICO-


SOCIAIS .................................................................................................................. 200
Nágila Caporlíngua Giesta

PARTE V
CONSCIÊNCIA E GESTÃO ORGANIZACIONAL INTEGRAL

CONSCIÊNCIA E ESTÉTICA ORGANIZACIONAL ................................................. 219


Raimundo Leal

KEN WILBER E A DINÂMICA DA ESPIRAL ........................................................... 243


Moacyr Castellani

EXPANSÃO DA CONSCIÊNCIA - como conciliar uma carreira bem sucedida


com alto nível de qualidade de vida? ...................................................................... 253
Ricardo Melo

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Em busca da Consciência que está por vir DI BIASE, Francisco (Org.)

P R E F Á C IO DO O R G ANIZADO R
Francisco Di Biase, Grand PhD

Esta obra reproduz os trabalhos apresentados pelos autores em forma de


conferências, durante o I Simpósio Nacional sobre Consciência: em busca da
consciência que está por vir, organizado pela Fundação OCIDEMNTE e realizado
no Centro de Convenções da Bahia, em Salvador, no período de 8 a 10 de setembro
de 2006. São abordados, em seu conjunto, diferentes visões científicas e filosóficas
acerca do fenômeno da Consciência, proporcionando uma perspectiva atual,
transdisciplinar e holística sobre este tema tão atual.

O estudo da Consciência fora banido desde o século XVII do domínio da


ciência, quando Descartes separou o homem de seu espírito, relegando o assunto
às discussões teológicas. Com este seu célebre engano Descartes originou um
grave erro de percepção na filosofia ocidental, provocando uma esquizofrenia
cultural geradora de um paradigma materialista em nossa civilização ocidental que
se infiltrou e se disseminou progressivamente, nas áreas acadêmicas de nossas
universidades. Essa dicotomia cartesiana, reforçada pela grande síntese da física
clássica realizada por Sir Isaac Newton no século XVIII, subjaz ainda hoje na visão
de mundo mecanicista e reducionista predominante em nossa época. Além de dividir
o homem em mente e corpo, este paradigma cartesiano-newtoniano separou
também o homem do universo e de sua fonte espiritual.

O psiquiatra Ronald Lang, um dos pais do movimento conhecido em medicina


como anti-psiquiatria, expressou brilhantemente esta crítica em seu diálogo com
Fritjof Capra e Stanislav Grof na conferência de Saragoza:
Essa situação provém de algo que ocorreu na consciência européia na época de
Galileu e Giordano Bruno. Estes dois homens são epítomes de dois paradigmas:
Bruno, torturado e queimado na fogueira por afirmar que havia um número
infinito de mundos, e Galileu, dizendo que o método científico consistia em
estudar este mundo como se nele não houvesse consciência ou criaturas vivas.
Galileu chegou a afirmar que somente os fenômenos quantificáveis eram
admitidos no domínio da ciência. Ele disse: ‘aquilo que não pode ser medido e
quantificado não é científico’; e na ciência pós-galilaica, isso passou a significar
‘o que não pode ser quantificado não é real’. Este foi o mais profundo
corrompimento da concepção grega da natureza como physis, que é algo vivo,
sempre em transformação e não divorciado de nós. O programa de Galileu nos
oferece um mundo morto, desvinculado da visão, da audição, do paladar, do tato
e do olfato – e junto com isso se relegou a sensibilidade e a estética, os valores,
a qualidade, a alma, a consciência, o espírito. É certo que nada modificou tanto
nosso mundo nos últimos quatrocentos anos quanto o audacioso programa de
Galileu. Tivemos de destruir o mundo em teoria, antes que pudéssemos destruí-
lo na prática.
Nos anos 90 do século XX, o surgimento de novas tecnologias digitais de
captação de imagem do cérebro humano em tempo real, reviveram o interesse nas

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pesquisas científicas da mente. Hoje, neurocientistas como o Dr Richard Davidson


da Universidade de Wisconsin, USA, estudam o cérebro de monges tibetanos em
estado de meditação profunda, com modernos sistemas de ressonância magnética
funcional e mapeamento cerebral computadorizado. Em meu laboratório de
mapeamento cerebral computadorizado na Clínica Di Biase, no estado do Rio de
Janeiro, realizo estudos com pacientes em estado meditativo para controle de
doenças psicossomáticas e epilepsia.

O desenvolvimento atual dos estudos sobre a Consciência levou o filósofo


australiano David Chalmers radicado nos Estados Unidos, a dividir o fenômeno da
Consciência em hard problem (prolema difícil), e easy problem (problema fácil). O
hard problem, refere-se ao difícil problema de comprendermos a fenomenologia da
Consciência, ou seja, a qualidade do que vivenciamos ao olhar, tocar e cheirar uma
rosa, por exemplo. Já o easy problem refere-se ao conhecimento do substrato neural
da consciência que hoje estudamos com nossos maravilhosos sistemas digitais de
processamento de imagem. Chalmers afirma com muita propriedade, que não é
possível reduzirmos o hard problem, ou seja, a qualidade da Consciência, somente
aos seus substratos neurais, sendo necessário admitirmos a existência de um
aspecto fenomenológico, além do aspecto físico neural da consciência. Este debate
vem se intensificando nos últimos anos entre neurocientistas, filósofos, médicos,
educadores, psicólogos, físicos, teólogos e religiosos, numa efervescente e
produtiva interação transdisciplinar.

Hoje compreendemos alguns aspectos quânticos e holográficos do


funcionamento do cérebro e da consciência que estão mudando completamente a
abordagem clássica neurocientífica mecanicista cartesiana-newtoniana, sobre o
funcionamento da mente. Aqueles de nós da área de neurociências, sabemos que o
easy problem, o estudo do substrato neural da Consciência, não é tão fácil e
simplista assim, como esta classificação pode dar a entender, mas creio ser ela uma
ótima interpretação didático-filosófica das dificuldades que enfrentamos no dia-a-dia
no estudo da Consciência.

Esta é uma época maravilhosa de se viver, participando da emergência de um


novo paradigma holístico e da criação de um novo mundo, que vem integrando a
ciência, a filosofia, a mitologia e as artes à espiritualidade. Uma época em que
presenciamos o Dalai Lama, papa dos budistas tibetanos laureado com o de Premio
Nobel da Paz, promovendo, simpósios e debates entre neurocientistas americanos e
monges tibetanos especialistas em psicologia e filosofia da mente, e abrindo o
congresso norte-americano de Neurocências. Este tipo de confraternização
científico-espiritual seria inconcebível nos meios científicos, até há poucos anos
atrás.

Aqui no Brasil, a Fundação OCIDEMNTE, ao tomar a iniciativa de promover o


I Simpósio Nacional sobre Consciência que resultou neste livro, demonstra o
desprendimento e a atualidade do pensamento e da visão de mundo de seus
membros.

Esse livro, com suas múltiplas colocações, pretende trazer para o grande
público brasileiro, e para os profissionais e estudantes interessados neste vibrante

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tema, uma visão de como o estudo da Consciência vem sendo abordado na


atualidade, pelos profissionais de ciência de nosso país.

Finalmente, gostaria em nome de todos os autores e conferencistas presentes


no I Simpósio Nacional sobre Consciência, agradecer o empenho e o
desprendimento do presidente, e dos membros da Fundação OCIDEMNTE,
organizadora do evento, que nos receberam na maravilhosa Terra de São Salvador,
com imenso carinho, generosidade, competência e dedicação, nos proporcionando
um agradável ambiente de liberdade de expressão e troca de idéias, e um profundo
e inesquecível debate intelectual.

A todos vocês da Fundação OCIDEMNTE que lutam arduamente por um


mundo mais humanizado, e mais espiritualizado, dedicamos esta obra.

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PARTE I
CONSCIÊNCIA, COGNIÇÃO E NEUROCIÊNCIA

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Capítulo 1

CIÊNCIA E CONSCIÊNCIA
O Cérebro Holoinformacional

Francisco Di Biase 1

Resumo
O autor propõe um modelo quântico-informacional holográfico das interações
cérebro-consciência-universo baseado nas redes neurais holográficas de Karl
Pribram, na teoria quântica de David Bohm, e na lógica da não-localidade do campo
quântico de Umezawa. Este arcabouço conceitual permite desenvolver uma visão da
consciência, em que a dinâmica informacional-holográfica do cérebro humano
interage com a natureza quântico-holográfica do universo. Esta interconexão se faz
otimizando o modo de tratamento holográfico da informação neuronal por meio do
aumento da sincronização das ondas cerebrais. Estados alterados de consciência
geradores de tranquilidade receptiva profunda, como práticas de meditação, oração
e relaxamento comprovadamente aumentam a sincronização e a coerência das
ondas cerebrais no eletroencefalograma com mapeamento cerebral
computadorizado. Estes estados alterados de consciência podem criar um estado de
consciência não-local que interage de modo holoinformacional com o campo
quântico universal, estimulando a interatividade natural entre a consciência humana
e o universo, permitindo à mente humana acessar informação cósmica.

Abstract
The author proposes a quantum-informational holographic model of brain-
consciousness-universe interations based in the holographic neural networks of Karl
Pribram, in the quantum theory of David Bohm, and in the non-locality logics of the
quantum field of Umezawa. From this conceptual framework he develops a vision of
consciousness in which the holographic-informational dynamics of the human brain
interacts with the quantum-holographic nature of the universe by means of the
optimization of the holographic treatment mode of neuronal information that highs the
synchronization of the cerebral waves. Altered states of consciousness that are
generators of profound and receptive tranquility, as practices of meditation, prayer
and relaxation, proved to high the synchronization and coerence of the brain waves

1 Grand PhD Academie Europeènne D’Informatisation, Bélgica. PhD, Full Professor, World

Information Distributed University, Bélgica. Professor Honorário Albert Schweitzer International


University, Suíça. Chefe do Serviço de Neurologia e Neurocirurgia e do Centro de Tomografia
Computadorizada- CICOM, Santa Casa e Clínica Di Biase, RJ , Brasil. Professor de Pós-graduação
em Psicologia Transpessoal, Centro Universitário Geraldo Di Biase UGB/FERP, Volta Redonda-RJ.
E-mail: dibiase@terra.com.br. Homepage: www.biase.com.br

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in EEG and brain mapping. These altered states of consciousness can create a non-
local conciousness state that interacts in a holoinformational mode with the universal
quantum field of the universe stimulating the natural interactivity between the human
consciousness and the cosmos, that allows the human mind to access cosmic
information.
Introdução

Em 1998, apresentamos no congresso Science and the Primacy of


Consciousness, na Universidade de Lisboa em Portugal, a conferência Information
Self-Organization and Consciousness, propondo uma nova visão da consciência
denominada Teoria Holoinformacional da Consciência, na qual o cérebro e o
cosmos são compreendidos como sistemas informacionais interconectados por uma
dinâmica universal instantânea. É uma concepção fundamentada na natureza
holográfica do funcionamento cerebral, de Karl Pribram, na estrutura quântico-
holográfica do universo de David Bohm, e no princípio quântico da não-localidade
desenvolvido por Umezawa, em sua Teoria dos Campos Quânticos. Em 1999, foi
publicada na Europa, na revista World Futures- The Journal of General Evolution,
ligada à UNESCO, editada por Erwin Laszlo, maior autoridade mundial na áreas de
sistemas, e no mesmo ano nos USA, no The Noetic Journal, do Noetic Advanced
Studies Institute. Em 2000, fomos convidados para publicá-la de forma mais
ampliada, nos USA, como co-autor do livro Science and the Primacy of
Consciouness- Intimation of a 21st Century Revolution, publicado pela Noetic
Press, e editado por Richard Amoroso, junto com os pesquisadores da consciência
Karl Pribram, Stanislav Grof, Ruppert Sheldrake, Henry Stapp, Amit Goswami, Ben
Goertzel, Fred Allan Wolf, e outros.
Para facilitar a compreensão do tema, vamos inicialmente especificar o
significado dos termos holográfico e não-localidade.
A não-localidade é uma propriedade fundamental do universo,
exaustivamente comprovada, tanto a nível quântico, quanto a nível macroscópico,
responsável por interações instantâneas entre todos os fenômenos cósmicos. É uma
consequência da Teoria do Campo Quântico desenvolvida por Umezawa que
unificou os campos eletromagnético, nuclear e gravitacional, em uma totalidade
indivisível subjacente.

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A teoria do campo quântico explica os fenômenos subatômicos,


microscópicos e mesmo macroscópicos, como a supercondutividade e o laser,
sendo considerada a mais fundamental teoria física do universo. O campo quântico
não existe fisicamente no espaço-tempo, como os campos gravitacional e
eletromagnético, apesar de ser matematicamente similar a eles, o que lhe dá um
caráter peculiar não-local. Sendo um fenômeno não-local influencia
instantaneamente todas as outras regiões do espaço-tempo, sem necessidade de
qualquer troca de energia. Segundo a física clássica, e a física relativística, seria
impossível existir fenômenos do tipo da não-localidade, o que provocou a famosa
controvérsia de Einstein com Bohr que acabou originando o famoso Paradoxo
Einstein-Podolski-Rosen. Einstein e seus colegas não admitiam que uma partícula
pudesse viajar mais rápido do que a luz, e criaram uma experiência de pensamento,
para demonstrar que a física quântica era consequentemente incompleta. Mas,
contrariamente à proposta inicial de Einstein e seus colaboradores, foi demonstrado
que após um átomo emitir duas partículas com spins opostos, se o spin de uma
delas for alterado, mesmo que elas estejam separadas por uma grande distância,
por exemplo, uma na Terra e outra do outro lado da galáxia, o spin da outra se
modifica instantaneamente, revelando uma interação informacional não-local.
A existência da não-localidade têm sido dramática e convincentemente
comprovada nos experimentos da física moderna. O golpe de misericórdia foi dado
em 1982 pelo físico francês Alain Aspect e col., que comprovou definitivamente a
existência de ações não-locais entre dois fótons emitidos por um átomo. Mais
recentemente, em julho de 1997 (cf. Science, vol.277, pg 481) Nicolas Gisin e col.
comprovaram a existência desta ação quântica não-local instantânea em grande
escala.
Sistemas holográficos são sistemas geradores de imagens tridimensionais,
em que a imagem virtual, ou holograma, é criada quando um laser incide sobre um
objeto, e este o reflete sobre uma placa, e sobre essa placa incide um segundo
laser, produzindo uma mistura das ondas do primeiro laser com as do segundo. Este
padrão de interferência de ondas possui a propriedade de armazenar a informação
acerca da forma e volume do objeto, e ao ser refletido pela placa, gera uma imagem
tridimensional do objeto no espaço. O relevante é que nos sistemas holográficos
cada parte do sistema contém a informação completa sobre todo o sistema; se

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quebrarmos a placa em pedaços, cada pedaço refletirá a imagem tridimensional


completa do objeto no espaço, demonstrando que o todo está nas partes, assim
como cada parte está no todo. Essas transformações da ordem espaço-temporal
para a dimensão espectral de freqüências são dependentes de formulações
matemáticas que foram pioneiramente descritas por Leibniz que criou a concepção
de mônadas. Em nosso século, Dennis Gabor descreveu os princípios matemáticos
da holografia, ganhando o Prêmio Nobel pelo desenvolvimento dos sistemas
holográficos. As formulações matemáticas que descrevem a curva harmônica
resultante das interferências das ondas, são as transformações de Fourier, as quais
Gabor aplicou na criação do holograma, enriquecendo estas transformações com um
modelo em que o padrão de interferência reconstrói a imagem virtual do objeto, pela
aplicação do processo inverso. Ou seja, da dimensão de freqüências reconstrói-se o
objeto em forma virtual, na dimensão espaço-temporal.

AS REDES NEURAIS HOLOGRÁFICAS

A teoria holográfica (ou holonômica) de Karl Pribram demonstrou a existência


de um processo de tratamento holográfico da informação no córtex cerebral,
denominado holograma neural multiplex, dependente dos neurônios de circuitos
locais, que não apresentam fibras longas e não transmitem impulsos nervosos
comuns. “São neurônios que funcionam no modo ondulatório, e são sobretudo
responsáveis pelas conexões horizontais das camadas do tecido neural, conexões
nas quais padrões de interferência holograficóides podem ser construídos”.
Pribram descreveu uma “equação de onda neural”, resultante do
funcionamento das redes neurais holográficas, similar à equação de onda de
Schrödinger da teoria quântica.
O holograma neural é construído pela interação dos campos eletromagnéticos
dos neurônios, de modo similar ao que ocorre durante a interação das ondas
sonoras no piano. Quando tocamos as teclas de um piano, estas percutem as
cordas provocando vibrações que se misturam, gerando um padrão de interferência
de ondas. A mistura das freqüências sonoras é o que cria a harmonia, a música que
ouvimos. Pribram demonstrou que um processo similar ocorre continuamente no
córtex cerebral, por meio da interpenetração dos campos eletromagnéticos dos

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neurônios corticais adjacentes, gerando um campo harmônico de freqüências


eletromagnéticas. Este campo harmônico distribuído simultaneamente por todo o
cérebro, armazena e codifica holograficamente um vastíssimo campo de informação,
e seria o responsável pela emergência da memória, da mente e da consciência no
plano biológico. Tal como a música não pode ser localizada no piano, e sim em todo
o campo ressonante que o circunda, as memórias de um indivíduo não estão
localizadas somente no cérebro, mas também no campo de informação holográfica
que o envolve!
A teoria holonômica do cérebro de Pribram é a mais brilhante e revolucionária
contribuição científica na área das Neurociências nos últimos 100 anos, pois nos
conduz a repensar e ampliar de uma maneira totalmente inédita o processamento da
informação no sistema nervoso.

O UNIVERSO HOLOGRÁFICO

Como vimos, a partir da dimensão de freqüências, pode-se reconstruir


matemática e experimentalmente um objeto, na dimensão espaço-temporal. Este
modo de organização holográfica, é tambem o que David Bohm utiliza em sua teoria
quântica. Neste modelo do universo, o espaço e o tempo são "dobrados" e
reestruturados, como em um holograma, em uma dimensão de freqüências,
constituindo uma ordem oculta, implícita, sem relações espaço-temporais, à qual não
temos acesso em nossa vivência cotidiana. Quando neste campo de freqüências
surgem flutuações, “ondulações” mais intensas, padrões semelhantes aos
holográficos estruturam uma dimensão espaço-temporal, uma ordem explícita, que
corresponderia ao nosso universo manifesto.
Bohm afirma que “na ordem implícita tudo está introjetado em tudo. Todo o
universo está em princípio introjetado em cada parte ativamente, por meio do
holomovimento, assim como tambem as partes... O processo de introjeção não é
meramente superficial ou passivo, e cada parte está num sentido fundamental,
internamente relacionada em suas atividades básicas ao todo, e a todas as
outras partes”.

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RUMO A UMA TEORIA HOLOINFORMACIONAL DA CONSCIÊNCIA

Ao tomar conhecimento da teoria holográfica de Bohm, através de seu filho


que é físico, Pribram inferiu a possibilidade do processamento informacional
holográfico do universo poder se interconectar ao processamento holográfico
neuronal do córtex cerebral, mas não direcionou suas pesquisas por esta vertente.
Vislumbrando a possibilidade, não desenvolvida por Pribram, de uma conexão
dinâmica não-local entre o cérebro e o universo, propusemos que os padrões e a
dinâmica quântica cerebral, e as redes neurais holográficas são parte ativa do
campo quântico-holográfico do universo, e que esta interconexão informacional-
energética é simultaneamente local (mecanicística-newtoniana), e não-local
(holística-quântica), e a denominamos holoinformacional. A não-localidade
quântica permitiria uma interconexão instantânea entre o cérebro e o cosmos.
Estudos experimentais desenvolvidos por Pribram, e outros pesquisadores da
consciência como Hameroff, Penrose, Yassue, Jibu, revelaram a existência de uma
dinâmica cerebral quântica, de uma “mente quântica” (quantum mind), ao nível dos
microtúbulos neurais, das sinapses, e do líquor. Esta dinâmica quântica permite a
formação dos chamados condensados Bose-Einstein que consistem de partículas
subatômicas, que assumem um elevado grau de alinhamento, funcionando como um
estado altamente unificado e ordenado, como ocorre nos lasers e na
supercondutividade. Estados assim informacionalmente unificados poderiam
tambem desencadear o aparecimento do Efeito Frohlich, com moléculas biológicas
assumindo um alinhamento altamente energizado e ordenado. Estes estados
quânticos e moleculares altamente unificados e ordenados estão na verdade
codificando informação quântico-holográfica.
Considerando a propriedade matemática básica dos sistemas informacionais
holográficos, em que cada parte do sistema contém a informação do todo, os dados
matemáticos da física quântica de Bohm, e os dados experimentais da teoria
holonômica de Pribram, propusemos, alem disto, que a interatividade cérebro-
universo nos permite acessar toda a informação existente nos padrões de
interferência de ondas existentes no universo, desde sua origem, pois a natureza
holográfica do universo e do cérebro, proporciona que cada parte, cada cérebro-
consciência, contenha a informação de todo o universo. Agora, e isto é muito

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importante, para que esta conexão cérebro-universo ocorra, é necessário


aquietarmos nosso cérebro agitado do dia a dia, sincronizando o funcionamento dos
hemisférios cerebrais, e permitindo que o modo de tratamento holográfico da
informação neuronal se otimize. Isto se consegue facilmente por meio das práticas
de meditação, relaxamento e oração que comprovadamente sincronizam as ondas
dos hemisférios cerebrais, gerando um estado alterado de consciência de
tranquilidade receptiva profunda (as considerações filosóficas eletroencefalográficas
e clínicas destes estados podem ser encontradas em meus livros, O Homem
Holístico-a unidade mente-natureza, Caminhos da Cura, A Revolução da
Consciência todos da Editora Vozes, e Ciência Espiritualidade e Cura, Editora
Qualitymark).

O CAMPO UNIFICADO DA CONSCIÊNCIA

Matéria vida e consciência são atividades significativas, ordem transmitida


através da evolução cósmica, ou seja, processos informacionais inteligentes. Um
universo estruturado como um campo holoinformacional, é portanto um universo
inteligente, funcionando como uma mente, como o astrônomo Sir James Jeans já
observara: "O universo começa a se parecer cada vez mais com uma grande mente,
do que com uma grande máquina".
Esta rede quântico-holográfica universal pode ser compreendida como uma
mente? Uma Consciência Holográfica Universal? Uma Consciência Cósmica,
como afirmam há milênios, as tradições espirituais da humanidade?
Na concepção holoinformacional, consciência e inteligência são informação,
sendo possível, portanto afirmar que a inteligência-informação sempre esteve
presente em todos os níveis da organização cósmica, constituindo a própria
natureza básica do universo. Matéria, vida e consciência não são
consequentemente entidades separadas, mas uma unidade holística indivisível,
um continuum holoinformacional inteligente auto-organizador permeando todo o
universo, se desdobrando em uma infinita holoarquia cósmica.

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O SUBSTRATO NEURAL DA CONSCIÊNCIA

As redes cibernéticas de reações cíclicas hierárquicas por meio das quais


procuramos caracterizar a vida e a consciência, se interrelacionam em uma dinâmica
multinível de “hiperciclos” (Eigen and Schuster,1979), se auto-organizando em ciclos
“autocatalíticos” (Prigogine1979; Kauffman,1995) no “limite do caos” (Lewin,1992).
Ciclos autocatalíticos se auto-organizam em níveis superiores, por meio de
hiperciclos catalíticos, (e.g. um vírus) capazes de evoluírem para estruturas mais
complexas e mais eficientes, até a “emergência de conjuntos, de conjuntos de... de
conjuntos de neurônios” (Alwin Scott,1995). Deste modo a rede gera “‘loops’
criativos” (Erich Harth,1993) e “hiperestruturas” (Nils Baas,1995), capazes de se
integrarem em sistemas com padrões de conectividade distribuídos e paralelos,
como o “Global Workspace” (Newman and Baars,1993), e o “Extended Reticular-
Talamic Activation System”-ERTAS de James Newman (1997).
No entanto, como matéria, vida e consciência constituem uma totalidade
quântica holística e indivisível, não podemos analisá-las somente por meio deste
arcabouço conceitual cartesiano analítico-reducionista. Em sistemas complexos
não-lineares dinâmicos e auto-organizadores, como o cérebro humano, os correlatos
neurais da consciência não são estruturados somente por estas complexificações
das relações mecanicísticas da matéria, como descreve a neurociência clássica,
mas tambem primordialmente pelo campo quântico holoinformacional não-local auto-
organizador universal, que forma (in-forma) o cérebro e o cosmos, interconectando
ambos de modo não-local e instantâneo.

O CÓDIGO CÓSMICO E A ÉTICA DA VIDA

Esta unidade homem-natureza codificada na própria estrutura e


funcionamento do universo, se auto-organiza durante a evolução cósmica nos níveis
informacionais básicos que regem o universo: o Código Nuclear que organiza e
mantém a energia e a matéria, o Código Genético que organiza e mantém a vida, o

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Código Neural que organiza e mantém o cérebro-mente, e o Código Holográfico


que organiza e mantém a consciência.
Em seu conjunto constituem um Código Holoinformacional Cósmico.
Einstein gostava de dizer que “o importante é conhecer os pensamentos
de Deus... o resto são detalhes”.
Estes códigos informacionais são o verdadeiro pensamento de Deus... o que
nos religa à nossa fonte. Nos foram oferecidos como uma dádiva que não temos
como compreender, tamanha a sua complexidade! A utilização correta desta
informação significativa que permeia o universo pelo homem, imerso neste todo
holoinformacional gerador de vida e consciência, e capaz de acessar a informação
contida nesse todo, deve eticamente estar direcionada para a preservação destes
códigos inteligentes universais, ou seja para a preservação da Vida e da
Consciência!
Esta, a nossa grande responsabilidade ética!
No século XX, a sabedoria do Dr. Albert Schweitzer, médico, teólogo e
músico, laureado com o Prêmio Nobel da Paz em 1952, afirmava:
“O bem consiste em preservar a vida, em lhe dar suporte, em procurar
levá-la ao seu mais alto valor. O mal consiste em destruir a vida, em ferí-la ou
destruí-la em plena florescência”.
Reverência pela Vida, o verdadeiro caminho ético da humanidade!

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REFERÊNCIAS

Amoroso, R. (ed.), Grof,S., Pribram,K., Sheldrake,R, Goswami, Wolf,A.F, Stapp,H. Di


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21st Century Revolution, Noetic Press, California,USA.
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Atlan, H. (1972) L’Organization Biologique et la Théorie de L’Information, Hermann,
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Atlan, H. (1979) Entre Le Cristal et la Fumée, essai sur l’organisation du vivant, Seuil,
Paris.
Baars, B. J. (1997) In the Theater of Consciousness: The Workspace of the Mind,
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Bateson, G. (1979) Mind and Nature: a necessary unity, Dutton, New York.
Bell, J. (1987) Speakable an Unspeakable in Quantum Mechanics, Cambridge Univ.
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Bohm, D. (1983) Wholeness and the Implicate Order, Routledge, New York.
Bohm, D. (1987) Unfolding Meaning, a weekend of dialogue with David Bohm. ARK
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Bohm, D., Hiley, B. J. (1993) The Undivided Universe. Routledge, London.
Bohm, D., and Peat, F. D. (1987) Science Order, and Creativity. A dramatic new look
at the creative roots of science and life, Bantam Books, New York.
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Capítulo 2

CIÊNCIA E COGNIÇÃO
Francisco Antonio Pereira Fialho1

Quem é esse homem que se esforça por derreter o silêncio


unicamente por meio do seu movimento? Esse homem é o mimo. A
dança é filha da música. A pantomima é filha do silêncio [Etienne
Decroux.]. 2

RESUMO
Este artigo pretende tecer considerações sobre as inter relações entre temas como
consciência, cognição e memória. Banidos pela ciência positivista, “mente e
consciência” retornam, com força total, ao cenário das especulações acadêmicas.
Gardner (2000) diz que ensinamos: o que é verdadeiro, uma racionalidade; o que é
certo, uma ética; e o que é belo, uma estética. Libertando a bela da fera,
convidamos a Arte para dialogar com o leitor, sem sofismas, numa busca socrática
pela verdade em si, platônica ou, pelo menos, pela verdade relativa em que a visão
de Leibiniz, e não a de Newton, insiste em que caminho, caminhante e caminhar só
existem juntos, não podendo ser separados.
Palavras-Chave: Consciência, Cognição, Memória e Arte.

ABSTRACT
This article intends to plot considerations about the interrelations between themes
like consciousness, cognition, and memory. Banished from the positive science,
“mind and consciousness” returned in “total strength” to the scenery of academic
speculations. Gardner (2000) established that we teach: the truth, a rationality; the
right, an ethic; and the beauty, an aesthetic. Freeing the beauty from the beast, we
invited Art to dialogue with the reader, without sophism, in a Socratic search for the
platonic truth or, at least, for a relative truth where Leibniz and not Newton insist that
walking pass, walker, and walk exist only together without the possibility of exhisting
apart.
Keywords: Consciousness, Cognition, Memory, and Art.

1 Doutor e Mestre em Engenharia da Produção. Professor do Programa de Pós-graduação em


Engenharia e Gestão do Conhecimento da Universidade Federal de Santa Catarina. Contato:
fapfialho@gmail.com
2 BONFANTI, Jean-Claude. Para saudar Etienne Decroux. Transcrição e tradução do roteiro do filme

de Bonfanti por José Ronaldo Faleiro; p. 3 da tradução. [texto manuscrito].

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) FIALHO, Francisco

INTRODUÇÃO

“Não tenho ensinamentos a transmitir. Apenas aponto algo, indico algo na


realidade, algo não visto ou escassamente avistado. Tomo quem me ouve pela
mão e o encaminho à janela. Escancaro-a e aponto para fora. Não tenho
ensinamento algum, mas lidero um diálogo” (Buber).

A consciência, ao surgir, nos ensina Hegel, permanece prisioneira do mais


pobre dos conhecimentos, o imediato, primeiro movimento ou figura. O segundo é a
percepção, em que o sujeito começa a escapar da tirania do imediato, devorando o
mundo como uma larva em vias de transformação. Nascemos dentro do “campo da
linguagem” do outro. É a Cultura, ao operar a conversão do animal para o humano,
através da regulação do comportamento, quem vai provocar este deslizamento entre
a tirania do absoluto e a tirania do outro. Jung fala de “participation mystique”, uma
identificação com o mundo. Na fase oral, diz Freud, bebemos o mundo pela boca.
Piaget fala da fase sensório-motora.
A apreensão da realidade é muito mais que um ato do pensar. O ato cognitivo
envolve o ser inteiro, em suas múltiplas dimensões.
A nova concepção de cognição, o processo do conhecer, é, pois, muito mais
ampla que a concepção do pensar. Ela envolve percepção, emoção e ação – todo o
processo da vida. No domínio humano, a cognição também inclui a linguagem, o
pensamento conceitual e todos os outros atributos da consciência humana. No
entanto, a concepção geral é muito mais ampla e não envolve necessariamente o
pensar (Capra 1997, p. 145).
Chalmers, escrevendo para o Congresso Toward a Science of
Consciousness, em Elsinore (1997), nos alerta para o fato de que não temos,
sequer, um conceito preciso para o que venha a ser consciência. Skinner, em
Contingencies of Reinforcement ironiza, ao questionar: “A verdadeira pergunta não é
se as maquinas pensam, mas se o homem pensa”. Embora a pessoa que fomos um
segundo atrás tenha morrido, a velocidade da luz, temos essa falsa sensação de
continuidade que chamamos de consciência de nós mesmos. Somos “não um ser”,
mas um “devir a ser”, não uma individualidade, mas milhares de fragmentos que se
justapõe de forma caótica.

21
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) FIALHO, Francisco

O fenômeno da cognição pode ser explicado como sendo, primeiro, uma


função biológica, filogenético, segundo, como um processo pedagógico,
ontogenético, e, por último, por uma episteme.

A função biológica se refere à sensação, a relação de adaptação entre o


sujeito e o objeto a nível neuronal. A função pedagógica é dada pela percepção,
conjunto de mecanismos de codificação e coordenação das diferentes sensações
elementares, visando um significado. A função cognitiva é a episteme de conhecer,
constrói um mundo na mente do observador. É ela que dá o significado.

As memórias fazem nossa história. Como no mito de Perseu, após atos


heróicos, nos tornamos em nossas lembranças, sempre carregadas de emoções, a ir
e vir, desde uma percepção concreta, como querem os empiristas, até as
lembranças puras dos idealistas ou às imagens gravadas na caverna platônica que é
o cérebro humano.

As lembranças vão e vem. Como diz Copeau, mestre do teatro


contemporâneo francês e fundador do Vieux Colombier:

Tudo está mergulhado no deslumbramento da ignorância. Cada um adora a


sua surpresa: o público, que acredita haver concebido o que está
descobrindo e atribui a si mesmo a invenção; o artista, que faz coisas que
não sabe. Sua obra o suplanta a tal ponto que ele a constrói sem vê-la 3.

O fato real é um só. O significado dado pelo observador muda este fato, o
qual passa a ser a síntese do objeto em si com o olho da mente do observador. Essa
síntese permite que o observador veja o que não existe ou não veja o que está
diante dos seus olhos.
Teilhard de Chardin entende a consciência como uma emergência resultante
da complexidade das relações que uma entidade estabelece com outras a sua volta.
Esse conceito de emergentes foi primeiramente utilizado pelos psicólogos da Gestalt
(Kofka, 1935, por exemplo) ao propor que quando um sistema alcança um certo grau
de complexidade efeitos imprevisíveis podem ocorrer, trazendo algo absolutamente
novo, propriedade do todo e não das partes.

3 COPEAU, Jacques. Souvenirs du Vieux-Colombier: 1913-1924 [Lembranças do Velho Pombal;


1913-1924]. Tradução de José Ronaldo Faleiro. Paris: La Compagnie des Quinze/Les Nouvelles
Éditions Latines, 1913. p. 13–67.

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) FIALHO, Francisco

Maturana sustenta que por traz de todo o comportamento estaria um


emocionar. Piaget nos ensina que cognição e emoção são faces de uma mesma
moeda. Pinker vai mais longe, concordando com Maturana e definindo-nos, não
como animais racionais, mas seres guiados por nossas paixões.
De certo forma o que se sustenta, aqui, é a proposta de Morin de substituir o
Penso, logo existo, de Descartes, por um Penso e Sinto, logo existo. Emoções são
fundadoras de comportamentos individuais e grupais, como os evidenciados dentro
das diferentes culturas. A emoção fundadora de nossa cultura é o Medo.

F ÍS IC A E C ONS C IÊ NC IA (S E R É P E NS AR )

Organismos com capacidades exclusivamente reflexivas não são conscientes,


pois têm “mentes pequenas”, declarou Popper. A consciência talvez precise de uma
flexibilidade de ação e uma capacidade de suprimir voluntariamente reações que
não possam ser explicadas por uma hierarquia de reflexos. Dennett e Fodor afirmam
que a mente e a consciência seriam grupos de algoritmos que, em principio,
poderiam ser implementados em qualquer meio, seja computador, latas de
refrigerante, o sistema de esgoto de Paris, ou o cérebro.
Claude Shanon, o criador da Teoria da Informação, ao ser perguntado sobre a
possibilidade de se construir máquinas pensantes, declarou: “You bet. We are
machines and we think. Don´t we?” 4
Em vez de afirmar, preferimos conjeturar. Somos ou não conscientes?
Pensamos ou apenas reagimos com base em algum tipo de condicionamento? Não
sabemos. A despeito disso, acreditamos que é no decifrar o mistério do ser que
encontraremos respostas às nossas ansiedades.
Com a busca do faltante, em que A # A, em que o significante é marcado pela
sua diferença em relação a coisa em si, é que vai surgir a terceira figura Hegeliana,
Verstand, discernimento, muitas vezes mal traduzida por intelecto ou entendimento.
O mundo das coisas vai emergir do primeiro seio que a criança suga para resolver
uma ansiedade, inquietação interna, “algo que ainda não tem nome”. Seio que
jamais reencontrará, ainda que a busque em todos os universos e em todos os aqui

4 Você pode apostar que sim. Somos máquinas e pensamos, não somos?

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e agora. O discernimento implica em separação, análise, decomposição dos


elementos e já marca o início do caminho em busca do conceito.
Para Hume, a mente é primeiramente tela sensível que recebe imagens. À
partir da percepção, a ação do mundo exterior grava-se na mente. À esta marca,
signo ou imagem sensível no espírito humano, Hume denomina Impressão. As
impressões criam, na passividade da mente, uma expectativa de retorno do objeto
da impressão e, esta expectativa é como que a larva de um eu, de um sujeito
passivo que se satisfaz na contemplação da fusão entre a impressão e seu objeto.
Estas impressões formam, sucessivamente, núcleos, segundo os objetos dos quais
elas são impressões. Relacionam-se entre si por associação de impressões.
Estas associações, responsáveis tanto pela formação dos núcleos
impressivos quanto da relação destes núcleos entre si e com o mundo objetivo, se
fazem segundo os princípios de continuidade, semelhança e causalidade. Estes
princípios regulam a memória humana.
Segundo Jung, no (seu) segundo movimento da consciência as projeções se
tornam mais localizadas, Começam a aparecer algumas distinções eu – outro, como
na fase anal em Freud, em que exercitamos o controle, e que se anuncia da
passagem do sensório motor para o simbólico em Piaget.
Bergson descreve um sistema de percepção do qual os objetos fazem parte
do sistema. Primeiramente há as imagens dos objetos. Neste conjunto se recorta
uma imagem central que é o corpo, é central porque ele é um centro de ação. Não
se limita a reagir às ações sofridas, mas elabora as respostas ao mesmo tempo que
constitui uma memória sensório-motora, não de representações, mas de
movimentos articulados. Segundo Hume, a medida que um ser vivo é capaz de, para
uma mesma situação, ter um repertório variado de ações possíveis, além daqueles
que, de fato, são efetuados, nasce uma Zona de Indeterminação que implica na
possibilidade de escolha da resposta neuro-motora a ser dada. Surge, assim, uma
Ação Virtual, a qual é constituída por essa zona de indeterminação, que implica uma
distância, e a possibilidade de uma espera em relação ao objeto (imagem /estímulo).
O terceiro movimento da consciência, em Jung, corresponde a passagem das
operações concretas para as formais, como diria Piaget, quando deslocamos nossas
projeções de coisas concretas para idéias abstratas, como princípios, símbolos,
ensinamentos.

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) FIALHO, Francisco

Ao focalizamos nossa atenção em uma das infinitas possibilidades contidas


no “aqui e agora” provocamos um colapso quântico. Goswami (1998, p. 161) insiste
na questão da não-localidade nos fenômenos da consciência relacionando-os com a
criatividade ao dizer que:

(...)a consciência não-local opera não com continuidade causal, mas com
descontinuidade criativa – de um momento a outro, de um evento a outro,
como acontece quando é gerado um colapso da função da onda do cérebro-
mente. A descontinuidade, o salto quântico, é o componente essencial da
criatividade.

Capra (1997, p. 182) nos lembra que “a força motriz da evolução, de acordo
com a teoria emergente, deve ser encontrada não em eventos casuais de mutações
aleatórias, mas sim, na tendência inerente da vida para criar a novidade, na
emergência espontânea de complexidade e de ordem crescentes”.
Conhecer é criar, insistem Piaget e Varela. Este ser que se percebe inteiro e,
portanto, insiste em (re) criar-se continuamente, também percebe (e cria) o mundo
de uma maneira completamente diferente, sentindo-se sujeito que cria a sua própria
realidade (colapso quântico), assumindo novos valores e responsabilidades frente à
sua própria existência, perante a sociedade onde vive, o planeta e o cosmos.
Perceber-se e perceber o mundo desta maneira inteira leva à criação de
novos significados a partir das vivências em estados ampliados de consciência.
Tudo isto nos leva a pensar em um novo jeito de conhecermos a realidade e a nós
mesmos. Uma maneira não linear, acausal, que não nega o conhecimento racional,
mas o amplia.
De acordo com a teoria dos sistemas vivos, a mente não é uma coisa mas
sim um processo – o próprio processo da vida. Em outras palavras, a atividade
organizadora dos sistemas vivos, em todos os níveis da vida, é a atividade mental.
As interações de um organismo vivo – planta, animal ou ser humano – com seu meio
ambiente são interações cognitivas, ou mentais. Desse modo, a vida e a cognição se
tornam inseparavelmente ligadas. A mente – ou, de maneira mais precisa, o
processo mental – é imanente na matéria em todos os níveis da vida (Bateson e
Maturana, apud Capra, 1997, p. 144).
Em Jung, o quarto movimento da consciência, quinto de Hegel, corresponde à
extinção radical das projeções. Esta extinção leva a um “centro vazio”. O homem de
quarenta perdeu sua alma e está em busca dela. É preciso sair do ciclo persona-

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sombra e penetrar os mistérios de animus-anima. Encetar, enfim, a volta às madres,


partir em busca do “self”. A inflação do EGO nos transforma no Super Homem de
Nieztsche. Loucos sociopatas, criadores das nossas próprias regras absurdas.
Assumindo a morte, a autoconsciência transforma-se em razão (Vernunft),
quinto movimento, somente conquistado quando o sujeito é capaz de olhar a morte
de frente, permanecer na sua vizinhança e suportar a desolação dessa proximidade.

C ONS C IÊ NC IA E A R T E (S E R É S E NT IR – A V IAG E M E M B US C A DO S E L F )

‘Algum dia, quando tivermos dominado os ventos, as ondas, as marés e a


gravidade... utilizaremos as energias do Amor. Então, pela segunda vez na
história do mundo, o homem descobrirá o fogo’ Teilhard de Chardin

O ser humano interage diariamente desde que nasce com outros seres e com
o meio. Parte daí o processo de aprendizagem por imitação para a sobrevivência da
espécie.

Charles Darwin ao estudar as expressões faciais de animais e seres humanos


observou semelhanças que o levou a observar, com mais cuidado, as emoções
ocultas em cada expressão. Determinadas semelhanças de expressão como o medo
e a raiva, por exemplo, articulam os mesmos músculos faciais. A raiva exibe um
olhar direto, boca entreaberta, lábios retraídos verticalmente para mostrar levemente
os dentes. Dessa forma, o ser humano comunica seu lado animal (irracional) sem se
dar conta em um extremo e, no outro, pode expressar beleza através de um sorriso
ou de uma obra de arte.

As idéias em Platão são algo puro e cristalino, nossa própria essência. A arte
verdadeira transcende toda e qualquer forma de conflito interno que o ser humano
possa sentir: “arte como um intermediário especial do espírito para o Absoluto e o
inteligível”, (...) “uma espécie de revelação superior” 5.

Plotino faz referência à arte como uma espécie de revelação divina: a arte era
um meio para conhecer a verdade. A arte intuía as essências. Vai além de uma

5 KONESKI, Anita Prado. Op. et p. cit.

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simples produção. Embora a arte se apresente como material, o que ela representa
é imaterial. Ela possui um significado interior e inteligível 6.

Se somos nossas memórias, é a arte quem as comunica. O mundo interno


(do eu) é refletido no externo (projeção do eu) que por sua vez vai de encontro ao
mundo interno de cada pessoa (outro) que interage com a obra. O que são essas
memórias senão a própria vida?

A arte usa de simbologia. Conforme o tipo de arte percebe-se um uso maior


ou menor de símbolos.

Em determinadas sociedades o uso de símbolos é fortemente marcado e


reconhecido pela população local, em outras, o uso é indiscriminado, foge a
aspectos da própria cultura. Entretanto, independente da decodificação que o
apreciador possa fazer diante de qualquer arte ele interage com ela, mesmo que ele
nem perceba ou consiga expressar verbalmente ou explicar o seu gosto/desgosto; a
comunicação acontece, independente da vontade ou permissão.

A vida é um processo que compreende um ponto de partida na concepção,


seguida de nascimento; uma trajetória de desenvolvimento como meio desse
percurso e, finalmente a morte. A arte como resultado do esforço humano de
manifestação requer também um processo, pela qual passa pelas etapas de:
concepção (um estalo, uma vaga idéia), o nascimento (o passo inicial, a
materialização), o desenvolvimento (normalmente ocorrem interferências, mudanças,
surpresas) e, por fim a morte (quando a obra termina para o artista).

Mesmo nosso padrão de vida reflete lembranças. Podemos escolher nossa


“sorte”, o estilo de nossos companheiros, a forma de nosso trabalho, nosso
mito pessoal, com o objetivo de repetir, e assim recordar o passado.
Reagimos segundo velhos padrões – a “transferência” de Freud – e as
emoções ativam nossas lembranças. Com essas estratégias, repetimos sem
nos darmos conta, a dor e o medo dos primeiros anos, controlando-os e
preservando-os ao mesmo tempo...A memória está lá, mas orienta nossas
vidas sem que nós o saibamos 7.

6 Idem, p. 8.
7 DEIKMAN, Arthur. Liberdade pessoal. Rio de Janeiro: Record; s.d., p. 19.

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As memórias, guardadas ou esquecidas são emoções antigas que conduzem


as vidas. Joseph LeDoux exemplifica com o medo como o processo de emoção
inconsciente se manifesta no ser humano:

Também vimos que as reações ao medo condicionado envolvem processos


inconscientes ou implícitos em dois sentidos importantes: o aprendizado
obtido não depende da percepção consciente e, uma vez realizado esse
aprendizado, o estímulo não precisa ser percebido conscientemente para
produzir as respostas emocionais condicionadas. Podemos tomar
consciência de que o condicionamento pelo medo ocorreu, mas não temos
controle sobre essa ocorrência nem acesso consciente ao seu
funcionamento. 8

É inquestionável a concepção de toda manifestação artística como produto


humano. Entretanto, desconhecemos o verdadeiro impulso que leva alguém a
materializar uma idéia em forma de arte. Teria a arte se perpetuado até os dias de
hoje e despertado tamanho interesse nos seres humanos se não houvesse algo
muito forte em sua comunicação que nos sensibiliza?

De fato, a arte nos toca e nos emociona, ao mudar, continuamente, sua forma
de expressar-se. Comunicação é expressão. Os diversos tipos de arte expressam as
mais variadas formas de comunicação. A própria natureza vem sendo tocada e
transformada. Nos aproximamos dela, sem medo, quando nos remete a lembranças
boas e agradáveis. Pode, também, despertar o oposto, desgosto seguido de
rechaço. Cada obra provoca e estimula sensações no espectador. Quanto mais
profunda a comunicação entre arte e receptor maior o silêncio, menos possibilidade
de palavras, menos explicação.

As emoções que cada ser experimenta e incorpora na vida são registradas e


codificadas pelo homem e expressas no corpo através da fala, do gestual, dos
inúmeros sinais revelados pelo corpo.

Da mesma forma que nossos corpos ensinam as nossas mentes, nossas


mentes ensinam nossos corpos. O desejo pela bola faz com que os olhos
nela se focalizem. O mundo amplo e impressionista se reduz a uma fase
central cujo nítidos detalhes separam a bola do resto, que então se retrai e
passa a segundo plano. Os músculos retesados e os capilares desviam o
sangue do intestino para os músculos; a adrenalina executa a mudança. A
respiração se acelera e o peito cresce. Os olhos, o pescoço e o corpo se
sincronizam, dirigidos para o alvo. O observar a bola rolando, o aprender o

8 LEDOUX, Joseph. O Cérebro Emocional. Os misteriosos alicerces da vida emocional. Rio de


Janeiro: Objetiva; 1998, p. 166.

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) FIALHO, Francisco

que ela faz, ensina a lógica do objeto: A não é B. A idéia do objeto nasce
com a bola que rola. A bola, um objeto; a bola, uma idéia. 9

Através das emoções nos comunicamos e atuamos no palco da vida. Um


palco repleto de símbolos, onde a ação para a vida requer personagens astutos e
flexíveis, no decorrer da imprevisibilidade do tempo e espaço.

Cada ação requer um esforço físico, um preparo emocional que se comunica


com o outro. A arte é um objeto, uma idéia e a maneira como cada um se relaciona
com ela é próprio e particular.

A comunicação entre produtor (artista) e receptor (apreciador) acontece,


provavelmente em muitos níveis não facilmente reconhecíveis. O gosto e desgosto
em relação a um trabalho na maioria das vezes é um processo desconhecido.

O quinto movimento da consciência segundo Jung seria a busca pela função


transcendente, pelo símbolo unificador capaz de unir consciente e inconsciente,
desfragmentar o ser. Aceitar o gosto e o desgosto é aceitar-se, iluminar a sombra.
O movimento contínuo e inevitável que nos condena ao crescimento, a uma
contínua construção, acaba por nos levar à conquista da razão, abrindo caminho
para a sexta e sétima figura do movimento da consciência, segundo Hegel: Geist e
Begriff, espírito e conceito.
O conceito, ou saber absoluto, reconcilia a universalidade da idéia com a
singularidade da coisa. O saber absoluto não é uma quietude definitiva e uma
solidão sem vida, nem tampouco a posição de tudo saber, mas a mobilidade da vida,
que só se realiza através das contingências insuprimíveis da história e da
recordação dos momentos decisivos da experiência, porém exercendo a liberdade
de ir além das determinações.
Aparece o "tornar-se outro", mudança pela qual o sujeito existe. O absoluto é
o sujeito, diz Hegel. Talvez que este absoluto seja o “Há de UM” buscado pelos que
estudam Lacan. É essa possibilidade, a de encontrar (ou construir) o ‘eu real’, a
revelia de um ‘eu ideal’ ou de um ‘ideal do eu’ que restaura a imagem deixada por
Sartre de que ainda que não sejamos responsáveis pelo que fizeram de nós, somos
totalmente responsáveis por aquilo que fazemos com o que fizeram de nós.

9 DEIKMAN, Arthur. Op. cit., p. 32.

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) FIALHO, Francisco

O que Piaget sustenta é a possibilidade de 'vir a ser', de se libertar da


sujeição imposta pelo social, da transição de uma moral coletiva para uma moral
individual que será, necessariamente, ecológica, posto que, em nome do respeito
que exige pela sua própria moral, há que respeitar a moral do outro.
É neste sentido que a razão, sob seu duplo aspecto social e moral, é um
produto coletivo... Isto significa que a vida social é necessária para permitir
ao indivíduo tomar consciência do espírito e para transformar, assim, em
normas propriamente ditas, os simples equilíbrios funcionais imanentes a
toda atividade mental ou mesmo vital (Piaget 1977, p.346).

Para Jung existiriam um sexto e um sétimo movimento da consciência, ainda


que inacessíveis ao Homem ocidental.
O sexto seria uma fusão entre a psique, o “self” e os objetos do mundo. Teria
a ver com os trabalhos que realizou junto com Wolfgang Pauli sobre Sincronicidade.
O nível mais alto da consciência é a 'autonomia', a capacidade de decidir o
próprio destino, de deixar de ser sujeito para devir a ser, como nos diz Deleuze.
Subentende uma maturidade moral e intelectual em que a 'promessa de ser'
se concretiza pelo pleno exercício do livre arbítrio.
O aprendizado da autonomia é, sem sombra de dúvida, uma questão ligada à
educação e a arte. Essa mesma educação desenhada para privar o ser humano de
sua possibilidade de se constituir enquanto singularidade pode, também, trair suas
finalidades e proporcionar ao infans os meios de libertar-se e de fazer-se autônomo
e este libertar-se demanda mais do que engenho, apela ao artista que vive dentro de
cada um de nós.
O Si-mesmo é o centro ordenador e unificador da psique total (consciente e
inconsciente), assim como o ego é o centro da personalidade consciente... O Si-
mesmo constitui, por conseguinte, a autoridade psíquica suprema, mantendo o ego
submetido ao seu domínio. O Si-mesmo é descrito de forma mais simples como a
divindade empírica interna, e equivale à “imago Dei ” (Edinger, 1992).
Para Jung se estamos à procura da alma, devemos buscar antes as imagens
de nossas fantasias, pois é assim que a psique se apresenta diretamente (Hillman,
1998).
A ‘pedra enviada por Deus’ era o ponto de partida e o alvo do opus alquímico,
a pedra que pode transformar todo metal em ouro e que, segundo alguns autores,
está oculta no corpo humano, devendo ser extraída dele. É o mistério de Deus na

30
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) FIALHO, Francisco

matéria, chegando a ser descrita como a ‘pedra que tem um espírito (pneuma)’ que
deve ser extraído dela“ (Jung, 1990).

C ONC L US Ã O

É noite. O teatro está deserto e assombrado. O público foi para casa, bem
abrigado, bem vestido. Aí depôs inúmeros instantes sucessivos cujo
espetáculo durante três horas o revestiu. A sala, onde range uma última
poltrona, ainda vibra apenas com o eco dessa monstruosa batida de
coração coletivo e tende para o mesmo silêncio absoluto que reina no palco,
agora vazio de qualquer ilusão. A sala, como um amontoado de ossos; a
cena, como um cubo enorme e preto (...). O tempo parou. Todo movimento
está bloqueado. Como uma poeira, o ar repousa. 10
Etienne Decroux

O amor é a emoção fundadora dos processos cognitivos e significa o


reconhecimento da legitimidade do outro, dentro de um domínio de condutas
interativas. O caminho da beleza é a trilha de simetria, ordem e harmonia, deixada
por todas as ontogenias possíveis da natureza, e existente num domínio de
experiência estética vivenciada pelo observador.
Nosso planeta está cheio de pessoas que, presas a definições e a verdades,
vivem em permanente luta umas contra as outras. A maioria é presa de fanatismos,
julgando-se melhores que o seu próximo e buscando convertê-lo ao seu conjunto de
crenças. As pessoas não têm Ideologias. São as Ideologias que possuem as
pessoas.
Sintonia é saber pensar e sentir ao mesmo tempo, não perder os passos da
dança e nem impedir que o fluxo do TAO, na corrente do Wu Wei, facilite o seu
movimento.
Toda doutrina que semeia a desunião, e estabelece uma linha de separação
não pode deixar de ser falsa e perniciosa. Anthropos, Socius, Gaia, Cronos e
Uranus, todos de partes e partes de todos, têm as suas autopoiesis inexoravelmente
acopladas.
Romper o que está unido é provocar uma mutilação, ainda que seja
exatamente esta mutilação, resultado dos pactos que estabelecemos enquanto

10 BONFANTI, Jean-Claude. Op. cit., p. 1.

31
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) FIALHO, Francisco

indivíduos ou enquanto espécie, que faz deslizar a consciência, escrava do


movimento.
A vida em sociedade é uma necessidade, um exercício contínuo de união
com o todo. Todos os seres fazem parte de uma única família. Determinismo é o
resultado da ação do Imutável.
Nossas consciências em evolução alteram-se a si e ao cosmos a cada
instante. A infinidade de eus precisa se reunir. Eles coexistem num metaespaço que
desconhece o conceito de tempo. Unir essa infinidade a outras infinidades é atingir a
harmonia.
O relojoeiro cego que dirigiu, até agora, a nossa evolução, está nos
conduzindo ao abismo da destruição do planeta e, por conseguinte, à nossa própria
autodestruição. É hora de tomarmos as rédeas dessa evolução, de contrapormos à
evolução cega, uma evolução consciente. “Só se preserva aquilo que se ama e só
se ama aquilo que se conhece”.
Precisamos conhecer a nós mesmos. O respeito pelo ‘outro’ só se constrói a
partir do respeito por si mesmo. A verdade é sempre um cristal de infinitas faces.
Cada episteme se soma a outras epistemes, ampliando e iluminando a percepção do
todo.
As teorias devem ser ecológicas. A natureza nos ensina a força da
diversidade. Podemos e devemos ter várias teorias, capazes de conviver
harmoniosamente, e se acoplar, dando emergência a meta teorias que se
aproximem cada vez mais do real platônico.
Estamos convencidos que o caminho para construção é o caminho da beleza,
da geometria. Todo acoplamento é geometria. O caminho da beleza é a trilha
deixada pelo próprio Universo em seu evoluir.
A lei que fundamenta todo ‘engenho’ é a lei do amor. É o amor que nos
estimula o caminhar. A energia pura por trás da ação pura, a arma de Sir Galahad
na conquista do Graal. Só o amor pode provocar a transição da competitividade, da
coação, para a cooperação, da heteronomia, para a autonomia, da escravidão dos
regimes totalitários para a liberdade da anarquia.

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) FIALHO, Francisco

R E F E R E NC IAS

BONFANTI, Jean-Claude. Para saudar Etienne Decroux. Transcrição e tradução do


roteiro do filme de Bonfanti por José Ronaldo Faleiro; p. 3 da tradução [texto
manuscrito].

COPEAU, Jacques. Souvenirs du Vieux-Colombier: 1913-1924 [Lembranças do


Velho Pombal; 1913-1924]. Tradução de José Ronaldo Faleiro. Paris : La
Compagnie des Quinze/Les Nouvelles Éditions Latines, 1913. p. 13–67.

DECROUX, Etienne. Le mimme corporel au Vieux-Colmbier (École), in Paroles sur le


mimme [Palavras sobre o mimo]. Pref. De André Veinstein. Col. Pratique du Théâtre
[Prática do teatro]. Paris : Gallimard, 1963. p.18. [Nota de JRF].

DEIKMAN, Arthur. Liberdade pessoal. Rio de Janeiro: Record; s.d., p. 19.

KONESKI, Anita Prado. A questão da arte e suas funções ao longo dos tempos. A
problemática da autonomia da arte (texto apoio). P. 5.

LEDOUX, Joseph. O Cérebro Emocional. Os misteriosos alicerces da vida


emocional. Rio de Janeiro : Objetiva; 1998, p. 166.

RAFF, J. Jung e a imaginação alquímica. São Paulo: Mandarim, 2002

VON FRANZ, M-L. C. G. Jung: Seu mito em nossa época. São Paulo: Cultrix, 1992.

VON FRANZ, M-L. A interpretação dos contos de fada. São Paulo: Paulus, 1990.

ZWEIG, C.; WOLF, S. O jogo das sombras: iluminando o lado escuro da alma. Rio
de Janeiro: Rocco, 2000.

HILLMAN, J. Entre vistas: conversas com Laura Pozzo sobre psicoterapia, biografia,
amor, alma, sonhos, trabalho, imaginação e o estado da cultura. São Paulo:
Summus, 1989.

HILLMAN, J. O livro do Puer: ensaios sobre o arquétipo do Puer aeternus. São


Paulo: Paulus, 1998.

JUNG, C. G. Tipos Psicológicos. Petrópolis, RJ: Vozes, 1991.

JUNG, C. G. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Petrópolis: Vozes, 2000.

JUNG, C. G. Psicologia e Alquimia. Petrópolis: Vozes, 1990.

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) ESPÍRITO SANTO, Ruy Cézar

Capítulo 3

PSICOLOGIA DA CONSCIÊNCIA
Consciência e Inconsciente Emocional

Monica Silvia Borine 1

Resumo
Foram procuradas evidências empíricas de que o priming afetivo não consciente pode afetar a
consciência. Neste experimento foram apresentados estímulos afetivos visuais subliminares,
imagens, para demonstrar o efeito no desempenho na tarefa de atenção. Este fenômeno é chamado
de priming afetivo subliminar. Neste estudo foi escolhida uma amostra composta por vinte pessoas,
estudantes universitários com visão normal. Esta pesquisa tem como objetivo estudar os efeitos do
priming de conteúdo emocional não consciente na consciência e seu efeito no desempenho de
tarefas cognitivas especialmente aquelas que demandam atenção. A coleta dos dados será efetuada
através das tarefas em computador e mensurada em milissegundos com dados de freqüências de
desempenho e com EEG eletroencefalograma de alta resolução.
Palavras-chave: priming afetivo, consciência, inconsciente emocional, tarefa, atenção.

Introdução
A Psicologia da Consciência conceitua o homem de forma integral, um ser
bio-psico-social e espiritual. A emergência atual da humanidade possibilita a
percepção de transição da era do conhecimento para a era da consciência.
Minimizar as cisões criadas dentro das ciências é fator fundamental neste momento
onde a emergência se faz necessária devido a grande mudança de paradigmas pela
qual passa a humanidade. A Psicologia da Consciência percebe a importância das
interdisciplinas, isto é, a integração dos mais avançados estudos da física moderna,
da filosofia, da neurologia, psicofisiologia, psicossomática, psicologia social,
biopsicologia.
Ela baseia-se no principio de que o ser humano é corpo energia e consciência
em constante transformação em processo de desenvolvimento e evolução. Esta
consciência usa como veículo de expressão a energia que no organismo foi
denominada pelo Dr. Sigmund Freud de energia sexual e depois simbolicamente de

1 Doutoranda em Psicologia em Saúde Mental, Testes e Medidas psicológicas. Mestrado em


Psicologia da Saúde, docente e pesquisadora da consciência. E-mail: inic.monica@terra.com.br ou
contato@inic.com.br.

34
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) ESPÍRITO SANTO, Ruy Cézar

libido e elaborada por outros pesquisadores como energia psíquica e mais tarde
bioenergia na abordagem em psicologia corporal. Esta energia que se manifesta de
várias formas, graus e níveis, possibilita que a consciência possa se desenvolver
evolutivamente e se expressar passando por diversas etapas Borine (2006). Em sua
origem a consciência surge como um sentimento Damásio (1998), depois o pensar,
o intuir, os estados psicoenergéticos e os alterados da consciência até o mais
elevado estado da consciência denominado de experiência de pico, cósmica ou
totalidade.
No sentido social a consciência avança com o despertar do Eu, a percepção
do outro, a família, o Estado, a sociedade os níveis transpessoais. O ser humano
precisou passar por diversas escalas evolutivas desde a consciência simples
atingindo a consciência de si mesmo, para poder experimentar o estado de
consciência que chamamos de consciência cósmica. Hoje temos pesquisadores do
cérebro da mente e da consciência, principalmente com o advento de novas
tecnologias e aparelhos de última geração com a intenção de situar e compreender
a consciência como parte do organismo humano.
Com esta conquista de pesquisas mais profundas o ser humano começa a
perceber o planeta Terra e o Universo como um organismo vivo que tem uma
relação direta e sistêmica com sigo mesmo. O ser humano é capaz de transformar e
superar sentimentos e desafios com amplitude como seus processos de crises
pessoais que vivencia no decorrer da existência em várias etapas de sua
maturidade. Sua capacidade de percepção e criatividade se intensifica em qualidade
e profundidade e seu senso ecológico é consequência da expansão da sua
consciência. A Psicologia da Consciência é a integração do ser bio psico social e
cósmico ou ainda a tríade corpo mente e espírito. Ela se fundamenta no princípio de
que o ser humano é energia, isto é, organismo e consciência em contínua
transformação (Borine, 2005).
Esta consciência possui direcionamento autônomo e pessoal num processo
de desenvolvimento, evolutivo e holárquico (WILBER, 1986). A consciência tem
como veículo de expressão a energia psíquica através das manifestações mentais.
O estudo da consciência mostra-nos como é artificial a fragmentação da atividade
psíquica em diferentes partes ou em funções isoladas da consciência. Não existem

35
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) ESPÍRITO SANTO, Ruy Cézar

funções intelectuais, afetivas, cognitivas, independentes do contexto da vida


psíquica.
Acontece na consciência uma série infinita de fenômenos psíquicos que estão
subordinados a leis físicas da causalidade e das funções do cérebro dentro dos
reguladores biológicos e neuro químicos que, ao mesmo tempo interdependem-se e
influenciam-se mutuamente.
A consciência e seus fenômenos sempre foram atribuídos a religiões e
filosofias como se estivessem aquém da natureza humana. Com o surgimento da
Psicologia estes estudos criaram uma perspectiva de maior compreensão sobre a
natureza da consciência. Em psicologia diversas abordagens contribuíram para o a
compreensão da psicologia da consciência desde W. James e seus princípios de
psicologia. S. Freud percebeu a “mente consciente” a “pré-consciente” e a do
“inconsciente“. C. Jung escreveu sobre o “inconsciente coletivo“, R. Assaglioli
acrescentou a ” “superconciência”, C. Tart apresenta um modelo sistêmico de
consciência, Damásio e a neurologia com a ênfase nas emoções e sentimentos.
Os orientais principalmente os de origem tibetana desde muito estudaram a
psicologia da consciência possuindo milhares de textos a respeito de seu
funcionamento e dando nomes a estágios, níveis e fatores.
A decomposição analítica da consciência em fenômenos particulares é feita
apenas, por necessidade de exposição, para facilitar o estudo da atividade da nossa
mente sucedendo-se uma série infinita, os fenômenos psíquicos estão subordinados
á lei da casualidade e, ao mesmo tempo, interdepende-se e influenciam-se. A
consciência é definida como complexo de fenômenos psíquicos ou elementares,
afetivos e intelectivos, que se apresentam na unidade de tempo e que permitem o
conhecimento do próprio eu e do mundo exterior. A consciência é a zona clara da
nossa vida psíquica que se encontra em situação oposta á zona obscura, de
dimensões mais amplas a qual chamamos de inconsciente. No plano psicológico, o
caráter de intencionalidade, convertendo a consciência em projeção em deferência
ao que é mentado e não como algo que é conteúdo.
Os estudos experimentais permitem fazer a distinção entre vigilância e lucidez
e entre sono e coma. Supõe-se que estar acordado é estar consciente e
inconsciente é estar adormecido. A consciência pode ser vista sobre dois aspectos:
o subjetivo e o objetivo. A consciência é objetiva pelo seu conteúdo, que se reflete

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) ESPÍRITO SANTO, Ruy Cézar

no plano subjetivo sob a forma de percepções, representações e conceitos. A


consciência subjetiva é a propriedade de serem os fenômenos conscientes
conhecidos pelo indivíduo. No campo da consciência ocorre uma série de sensações
sinestésicas, que nos orientarão sobre a nossa própria personalidade. A consciência
não é algo estático nem imóvel, ao contrário ela está em perpétuo movimento, e de
maneira contínua as nossas idéias e decisões se desenvolvem se transforma e
dissolve, se reconstituindo sem deixar de influir no resto da vida mental,
acontecendo também com as representações, os sentimentos, as emoções os
anseios e as nossas tendências de personalidade.
A todo o momento chega á nossa consciência novas impressões que
enriquecem o conteúdo, da consciência, dando-se novos processos onde eles
estabelecem uma interdependência com os fenômenos pré-existentes. A
consciência pode ser considerada como um instrumento de coordenação e síntese
das atividades psíquicas podendo ser destacadas a consciência do “eu” como
conhecimento que temos de existirmos como individualidade distinta das demais
coisas do mundo e do outro lado à consciência dos objetos (tudo que é aprendido e
que se encontra no campo da consciência, uma percepção, uma representação, um
conceito, um símbolo). No desenvolvimento da consciência podemos admitir que a
linguagem e a habilidade do trabalho foi o fator mais importante para a
transformação do psiquismo no homem e na consciência humana.
A consciência tem muitos elementos, experiências sensórias como visão e
audição, sensações, volição, emoção, memória, atenção, inteligência, pensamento.
Tudo isso parece estar contido dentro de um campo unificado de experiência. Esta
unidade e integridade é motivo de pesquisa dentro da psicologia da consciência. A
ciência contemporânea tem dado considerável atenção ao cérebro e ao sistema
nervoso central.
A pós-modernidade vem focando a consciência como tema de estudos e
pesquisas dentro da psicologia. O premio “Nobel” Roger Sperri afirma que os
conceitos contemporâneos de mente pressupõem uma ruptura direta com o
materialismo, suas interpretações dão inteiro reconhecimento à importância da
experiência consciente interior como uma realidade causal. Organizações como
Association Scientific for the Study of Conscienciousness em Passadena na

37
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) ESPÍRITO SANTO, Ruy Cézar

Califórnia USA estão pesquisando a consciência dentro de diversas áreas científicas


como a filosofia, a neurociência e a psicologia.
As pesquisas e teorias na área da consciência e a sua efetivação possibilitará
um maior aprofundamento no conhecimento do homem como um ser bio psíco social
e espiritual.
Experimentos efetuados com pacientes em estados alterados da consciência
como os estados de ondas elétricas cerebrais Alfa, Beta, Teta e Delta nos sonhos,
meditação, coma e experiências de quase morte nos mostram as possibilidades da
natureza humana de aprofundamento de realidades além do estado considerado e
denominado vigília.
Atualmente os estudos mais avançados da física quântica com as teorias dos
campos e sistemas dinâmicos e morfogenéticos e as atuais pesquisas referente ao
cérebro humano como sendo holográfico e as atuais descobertas da neurociência,
mostram uma grande abrangência, considerando aspectos como a interatividade, a
historicidade, a imprevisibilidade do ser humano.
Muitos pesquisadores na atualidade questionam a natureza da consciência
Damásio (1998, 2000) que apresenta sua visão da consciência central e a
consciência autobiográfica. Pinker (1998) estudando a linguagem como sendo
instinto humano da consciência e defendendo o processo evolucionário. Le Doux
(1998, 2001) se aprofundou no inconsciente emocional e no questionamento da
cognição e emoção como sendo aspectos distintos, mas que interagem entre si e
Chalmers (2000), nos alerta para o grande problema da consciência e como se dá a
experiência da consciência.
Existem vários níveis dentro do desenvolvimento da consciência humana. A
consciência é um processo que vai se alargando cada vez mais, ampliando e
integrando as experiências externas e internas num processo de assimilação sempre
relacionado com o já vivenciado e armazenado através das memórias. Estudos são
antigos, tiveram origem no oriente, onde eram intuídos; os egípcios cultuavam o Ka,
Ba, La, corpo, mente, espírito, Plotino, Sócrates e Platão foram os primeiros
ocidentais a explorarem estas instancias acrescentando a alma humana e no
ocidente como W. James que instituiu os princípios da psicologia. S. Freud
introduziu a energia libidinal, o ego, id, e tanatos. C. G. Jung introduziu o self, os
mitos, a persona os arquétipos pessoais e coletivos. W. Reich e os psicoterapeutas

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) ESPÍRITO SANTO, Ruy Cézar

corporais a energia “orgônio”, Os comportamentalistas e cognitivos a importância da


dissolução de crenças irracionais e do conhecimento.
O livre fluxo da bioenergia no organismo gera saúde, um amadurecimento e
desenvolvimento da consciência, vários níveis desta bioenergia do mais denso
material e atômico como o corpo físico e biológico, o bioenergético e o sutil, fazem
conexões de funcionabilidade. Estes níveis psicoenergéticos ao que parece, tem a
finalidade de expressar os conteúdos da essência do ser humano, do self, e do
cerne.
Sabemos que o organismo físico é constituído de energia e partículas
atômicas, subatômicas, biológicas e celulares, onde pulsa a vida. O corpo emocional
é constituído de energia Pierrakos (1990), esta energia é livre de massa e peso,
existe em todo o universo inclusive no vácuo e é responsável pela vida Reich (1954).
Esta mesma energia tem a propriedade de sutilizar-se e constitui os outros níveis
mais profundos da consciência no ser humano.
No modelo de cartografia da consciência compilada de Wilber que investigou
as teorias do oriente e ocidente e procurou sintetizar temos: 1-sensório físico; 2-
emocional; 3-mente representativa; 4-mente regra e papel; 5-formal reflexivo; 6-visão
lógica; 7-psíquico; 8-sutil; 9-causal. Ele denomina de fulcros ou fissuras no
desenvolvimento da consciência, bioenergéticamente são denominados bloqueios
Reich (1954) que podem estar na mente a nível traumático que repercutem no
corpo/energia e consequentemente no comportamento. Assim temos as patologias
pré-pessoais: psicoses autistas, psicoses simbióticas infantis, as esquizofrenias de
adulto, psicoses depressivas, os distúrbios das personalidades narcisistas, os
distúrbios das personalidades limítrofes, a neurose limítrofe e as psiconeuróses. As
patologias pessoais segundo ele seriam: A patologia de papéis (script), neurose de
identidade e a patologia existencial. As patologias transpessoais seriam: distúrbios
psíquicos, distúrbios sutis, distúrbios causais.
A idéia dos orientais sobre a consciência vem integrar aos conhecimentos dos
ocidentais mostrando a similaridade dos estudos mais atuais.
A consciência se manifesta na psique dinamicamente de forma espiral num
processo continuo de despertar, evolutivo, ascendente e holárquico, não havendo
transgressão, existindo uma consecução de estágios dentro do desenvolvimento
físico, cognitivo, emocional e energético, assim como acontece com a maturidade e

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) ESPÍRITO SANTO, Ruy Cézar

crescimento do corpo físico, acontece com a energia do corpo emocional, mental,


vontade e espiritual, que seriam os níveis mais sutis da consciência Borine (2001).
Aqui o termo espiritual deve ser compreendido por uma expansão gradativa da
consciência, e estados aprofundados de integração.
Cada etapa deste desenvolvimento é um processo por si mesmo, isto é, tem
um começo meio e fim como no nascimento, crescimento amadurecimento e morte;
sendo assim, podemos notar no corpo de uma criança quando ela está passando de
recém-nascido para bebê, de criança para adolescente e de adulto para a velhice,
estas etapas de desenvolvimento do corpo físico a transformação energética e as
suas transições são representações do desenvolvimento e evolução desta
consciência.
Então, a consciência no decorrer da existência segue a evolução: a- a perda
da essência - energeticamente isso significa as primeiras contrações da energia; b-
aparecimento dos “fulcros” - falta energética e tensões gerando bloqueios
energéticos; c- compensação com os mecanismos de defesas na psique - no corpo
físico, bioenergético e mental; d- a evitação da energia primordial, a do “Ser”, (esta
etapa foi explorada por W. Reich na idéia do caráter genital, focado no circuito
saudável da energia), o medo da entrega, do contato do prazer, do orgasmo pleno.
Na psicoenergética ocorre a integração e fusão consciente com os diversos
níveis da consciência, possibilitando a experiência da realidade, o estar presente no
corpo mente. Este processo facilita a expansão da consciência sem a perda do
contato da realidade, como ocorre nas cisões psicóticas. Na maioria das vezes
dentro destes níveis ou estágios a energia está bloqueada e consequentemente a
consciência esta obscurecida.
A Psicologia da Consciência utiliza o modelo de cartografia trabalhando com
nove principais níveis de desenvolvimento da energia e consciência, cada nível de
forma peculiar na teoria e prática da terapia. Nos primeiros níveis, isto é nos básicos
a terapia é considerada dentro de um processo regressivo de memórias, tendo como
estratégia a energia corporal e nos níveis superiores considerando seu
desenvolvimento e fluxo energético. A terapia mescla despertar a consciência e a
transformação energética. Muitas vezes todos estes estágios da personalidade
acabam sendo comprometidos em função do desajuste que no corpo é denominado

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) ESPÍRITO SANTO, Ruy Cézar

de bloqueios ou couraças e na consciência traumas, fissuras ou fulcros (são como


fios que foram cortados e rompidos nas suas interligações).
A Psicologia da consciência integra estas instâncias de forma a acompanhar
este movimento de desenvolvimento da personalidade. Os traumas muitas vezes
podem se iniciar no feto, dentro do útero materno, numa contração celular,
ocasionada quando o feto se sente ameaçado por alguma razão. F. Navarro (1990)
estudou estes aspectos em sua proposta terapêutica chamada de
somatopsicodinâmica. A Psicologia da Consciência integra aqui aspectos da
psicoterapia cognitiva, corporal energética e transpessoal. Não é possível alterar o
corpo e a energia sem alterar a consciência, porque a consciência e energia são
integradas, elas essencialmente aspectos da unidade.
A Psicologia da Consciência traz uma proposta de "integração" do corpo,
mente, energia e consciência.

UMA PESQUISA EXPERIMENTAL EM PSICOLOGIA DA CONSCIÊNCIA

No sentido de dar base experimental ao estudo da psicologia da consciência


foi escolhido para este estudo o priming afetivo subliminal. Pesquisas com priming
com imagens é um experimento recente, e seu início está nas duas últimas décadas.
A intenção é a exploração do inconsciente emocional. Consciência, inconsciente,
cognição e emoção são temas presentes em neuropsicofisiologia.
Um estudo mais aprofundado sobre estes temas poderá permitir uma maior
compreensão da correlação de aspectos pertinentes a cada uma destas instâncias.
Atenção e emoção são aspectos que estão envolvidos na consciência. É um grande
desafio das ciências psicológicas, neurociências e psicofisiologia relacionar o que
ocorre no cérebro com aquilo que ocorre na mente, ou seja, de encontrar algum tipo
de tradução entre sinais elétricos das células cerebrais e aquilo que se percebe ou
sente como sendo pensamentos próprios.
Dentro da perspectiva em psicologia da saúde considera-se a importância dos
aspectos bio psico e social de maneira correlacional, aspectos estes fundamentais
para a saúde.
Esta pesquisa explorará as possibilidades neuropsicofisiológicas voltada para
a compreensão dos mecanismos da consciência. Estudar como os processos não

41
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) ESPÍRITO SANTO, Ruy Cézar

conscientes acontecem através da apresentação do priming subliminar e como eles


podem afetar a consciência e consequentemente as emoções e atitude auxiliarão na
compreensão do comportamento humano. Seus benefícios para a psicologia da
saúde estão sendo demonstrados em pesquisas em cognição, atenção e com
recuperação da memória, hiperminésia, Erdelry, (1992), na melhora no empenho no
trabalho, facilitação nas relações sociais, ajuda em psicopatologias como
ansiedades, depressão e fobias.
A consciência só será entendida se estudarmos os processos não
conscientes que a viabilizam, Le Doux, (2001). Foram realizadas uma série de
experiências demonstrando que as emoções, atitudes, objetivos e intenções, podem
ser ativados sem a participação da consciência, e podem influenciar o modo de
pensar e agir dos indivíduos em situações sociais Bargh (1992). Conhecer os
aspectos e as possibilidades que o cérebro tem de registrar estímulos subliminares
de forma a fazer com que a consciência seja afetada e consequentemente o
comportamento é um estudo que contribuirá com a psicologia da saúde.
Por volta de 1980, a visão cognitiva das emoções era praticamente a única
disponível mas, isso começou a mudar com a publicação de um trabalho do
psicólogo social Robert Zazonc, sobre sentimento e pensamento. O autor
demonstra, de maneira bastante convincente, que as preferências (simples reações
emocionais) podem ser formadas sem qualquer registro consciente de estímulos. A
emoção tem primazia sobre (pode existir previamente) e independente da (pode
existir sem) cognição. Inúmeras pesquisas sobre avaliação foram realizadas após a
publicação do trabalho de Zazonk, (1985).
As pesquisas estão sendo realizadas com o que se denomina de “priming”,
termo utilizado quando o sujeito é preparado com uma breve exposição preliminar de
um estímulo, antes de medir seu desempenho, gerando um aumento na velocidade
ou precisão de uma decisão, Dixon (1971); Dixon (1981); Wolistiky e Wacthel
91973); Erdelyi (1985); Erdelyi (1985); Erdelyi (1992); Ionesco e Erdelyi; (1992);
Greenwald, (1992). Porém, com o advento de técnicas novas e aperfeiçoadas para o
estudo do funcionamento inconsciente, Mericke (1992); Kihlstrom, Barnhardt e
Tataryn (1992a); Erdelyi (1992); Bargh (1992); Bargh (1990); Jacoby et al. (1992);
Murphy e Zajonc (1993), hoje tem provas da existência que parecem evidentes.

42
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) ESPÍRITO SANTO, Ruy Cézar

Indícios mostram a existência das emoções fora dos limites da percepção


consciente.
Alguns aspectos da pesquisa envolvem a estimulação subliminar e outros
lançam mão de estímulos que não são conscientemente percebidos, mas cujas
implicações emocionais permanecem implícitas e não são identificadas quando o
estímulo é visto como é o caso do priming. Muitos estudos tem sido efetuados com o
paradigma de percepção de correlatos neurais das emoções, IAPS International
Affective Picture System, (IAPS, Lang, Bradley, & Cuthbert, 1999), ANEW Affective
Norms for English Words (Bradley, M.M., & Lang, P.J. (1999).
O inconsciente emocional também tem sido alvo de pesquisas no teste
chamado de impressão emocional subliminar, amplamente utilizado por Zajonc e
vários colegas nos últimos anos, Murphy e Zazonc, (1993). Nesse tipo de
experiência, um estímulo de impressão com determinada conotação emocional,
como por exemplo uma fotografia de um rosto sorridente ou carrancudo, é
apresentado rapidamente (5 milésimos de segundo ou 1/200 de segundo) e seguido
de um estímulo camuflado, o qual elimina a capacidade do sujeito de recordar
conscientemente a impressão, o estímulo camuflado desloca a impressão da
consciência, anulando-a.
A emoção e cognição são melhores compreendidas como funções mentais
interativas, mas distintas, mediadas por sistemas cerebrais interativos, mas distintos,
Le Doux (2001). As emoções tradicionalmente são consideradas como sendo
estados de consciência subjetivos. Sentir medo, irritação ou felicidade é ter a
percepção de que se esta usufruindo de uma forma especifica de experiência e ter a
consciência desta experiência. Podemos verificar como o cérebro processa não
conscientemente o significado emocional dos estímulos fazendo uso desta
informação para controlar atitudes adequadas ao significado emocional dos
estímulos.
Estudando a consciência e verificando como o cérebro processa informações
emocionais, poderemos compreender como ele cria experiências emocionais, Le
Doux (2001). Enquanto alguns consideram a formação reticular como componente
deste sistema, outros seguem o ponto de vista de Mc Lean, Machado (1993), e
outros, como Joseph Le Doux não aceitam a idéia da existência de um grande

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) ESPÍRITO SANTO, Ruy Cézar

sistema cerebral emocional, responsável pela gênese e controle das mais diversas
emoções.
Sabe-se que o hipocampo, estrutura central na gênese da emoção segundo
Paul MacLean, tem uma participação menor nas funções emocionais e autonômicas
que na cognição Le Doux (1998). Alterações no hipocampo, corpos mamilares e
outras regiões do circuito de Papez, como o tálamo anterior, exercem efeitos
relativamente insignificantes sobre as funções emocionais, mas produzem graves
distúrbios na memória. Além disso, outras regiões não incluídas no sistema límbico,
como algumas estruturas mesencefálicas, têm participação fundamental na gênese
e regulação das reações emocionais.
Le Doux (Id. Ibid.) sustenta que as emoções possuem grande valor adaptativo
para o indivíduo. Porém, se diferentes emoções estão associadas a diferentes
funções de sobrevivência como proteção contra o perigo, alimentação, reprodução,
cuidados com a prole, cada uma delas provavelmente requer diferentes sistemas
cerebrais. Emoções diferentes possivelmente são mediadas por redes cerebrais
distintas, módulos diferentes, não havendo assim um único sistema emocional no
cérebro, mas vários. Neste sentido, há fortes indícios da existência de um sistema
cerebral responsável pelo processamento de informações aversivas e organização
das respostas comportamentais a situações de perigo (Graeff, 1981, 1990; Brandão,
1993, 1999; Le Doux, 1994).
Cognição e emoção parecem atuar de forma não consciente e que apenas, o
resultado da atividade cognitiva e emocional é percebido e adentra nossa mente
consciente, mesmo assim apenas em alguns casos.
Não há um único sistema emocional que dá origem às nossas emoções, mas
sim diversos sistemas sendo que cada um deles desenvolveu-se com a finalidade
funcional diferente e produz diferentes espécies de emoção (Borine, 2005). Esses
sistemas operam fora da esfera da consciência e constituem o inconsciente
emocional, Le Doux (2002).

O PRIMING SUBLIMINAR

Os primeiros estudos sobre percepção subliminar foram feitos no final do


século XXI. Naqueles primeiros experimentos os pesquisadores mostravam aos

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) ESPÍRITO SANTO, Ruy Cézar

voluntários relações com letras ou figuras geométricas a uma distância tão grande
que quando perguntados sobre o que viam todos diziam que não conseguiam
distinguir nada além dos borrões. Depois pediam as pessoas que tentassem
adivinhar em um questionário de múltipla escolha as figuras que haviam sido
mostradas. Como o nível de acerto era maior do que o que seria obtido ao acaso, os
pesquisadores concluíram que as pessoas haviam sido afetadas pelas imagens
(Psychological Investigation of Unconscious Perception” Philipe Merikle, Journal of
Counsciousness Studies, 5, 1998). Nos anos 70 pessoas foram submetidas a
estímulos subliminares. Maior quantidade de informação, dividido por menos tempo
de exposição. Exibiram ideogramas chineses aos voluntários e depois pediram a
eles que tentassem adivinhar num teste de múltipla escolha se os ideogramas
tinham significados positivos ou negativos.
Para algumas pessoas as imagens foram precedidas por imagens
subliminares de figuras sorridentes ou tristes de tal maneira que nenhuma pessoa
reportou tê-las visto Zazonc (1980). Pessoas submetidas às imagens subliminares
tiveram maior tendência de classificar positivamente os ideogramas precedidos de
figuras positivas que aquelas que não tinham sido submetidas a elas.
Priming é o termo utilizado quando o sujeito é preparado com uma breve
exposição preliminar de um estímulo (imagem, som, símbolo) antes de medir seu
desempenho, gerando um aumento na velocidade ou precisão de uma decisão. É
encontrado em tarefas, onde a memória para a informação prévia não é requerida, é
comprovado que é um fenômeno não consciente. Nenhum psicólogo duvida que é
possível perceber um estímulo sem estar consciente dele. Os primeiros estudos
sobre percepção subliminar foram feitos no final do século XXI. Naqueles primeiros
experimentos os pesquisadores mostravam aos voluntários algumas fichas com
letras ou figuras geométricas a uma distância tão grande que quando perguntados
sobre o que viam todos diziam que não conseguiam distinguir nada além dos
borrões. Depois pediam as pessoas que tentassem adivinhar em um questionário de
múltipla escolha as figuras que haviam sido mostradas. Como o nível de acerto era
maior do que o que seria obtido ao acaso, os pesquisadores concluíram que as
pessoas haviam sido afetadas por imagens (Psychological Investigation of
Unconscious Perception” Philipe Merikle, Journal of Counsciousness Studies, 5,
1998). A partir do final do final dos anos 70 os pesquisadores passaram a tentar

45
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) ESPÍRITO SANTO, Ruy Cézar

verificar se havia mudanças no comportamento das pessoas submetidas a estímulos


subliminares.
Em um estudo famoso os pesquisadores exibiram ideogramas chineses aos
voluntários e depois pediram a eles que tentassem adivinhar num teste de múltipla
escolha se os ideogramas tinham significados positivos ou negativos. Para algumas
pessoas as imagens foram precedidas por imagens subliminares de figuras
sorridentes ou tristes de tal maneira que nenhuma pessoa reportou tê-las visto. A
conclusão é que as pessoas submetidas às imagens subliminares tiveram maior
tendência de classificar positivamente os ideogramas precedidos de figuras positivas
que aquelas que não tinham sido submetidas a elas. Priming perceptual subliminal é
o efeito da imagem momentaneamente apresentado em nossas preferências em um
teste bem escolhido. Ele é melhor conhecido como “mero efeito da exposição”
Zajonc (1980). As variações emocionais do cérebro, particularmente a amídala, sem
consciência Whalen (1998). Isto tem provavelmente alguma relevância “à condição
clássica” de memórias emocionais.

ESTÍMULOS SUBLIMINARES E INCONSCIENTE EMOCIONAL

Por volta de 1980, a visão cognitiva das emoções era praticamente a única
disponível. Mas isso começou a mudar com a publicação de um trabalho do
psicólogo social Robert Zazonc, intitulado: “Sentimento e Pensamento: Preferências
não exigem inferências”. O autor demonstra, de maneira bastante convincente, que
as preferências (simples reações emocionais) podem ser formadas sem qualquer
registro consciente de estímulos. Segundo ele, isto mostra que a emoção tem
primazia sobre (pode existir previamente) e e independente da (pode existir sem)
cognição. Como resultado, observou-se a intensificação, e não o fim, da abordagem
cognitiva das emoções, pois inúmeras pesquisas sobre avaliação foram realizadas
após a publicação do trabalho de Zajonc. Entretanto, Zajonc exerceu um forre
impacto nessa área de pesquisa, mantendo viva a ideia de que a emoção não é
apenas uma cognição. Zajonc sintetizou uma série de experiências realizadas por
ele e seus colegas servindo-se de um fenómeno psicológico chamado de simples
efeito de exposição, por ele descoberto anteriormente.

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) ESPÍRITO SANTO, Ruy Cézar

Sujeitos são expostos a determinados padrões visuais (como, por exemplo,


ideogramas chineses) e depois convidados a escolher aquele que preferirem: o
padrão exposto anteriormente ou padrões novos; eles mostram uma tendência
constante a preferir os anteriores. A simples exposição ao estímulo é suficiente para
criar preferências. A mudança no novo experimento consistia em apresentar o
estímulo subliminarmente de maneira tão rápida que os sujeitos foram incapazes,
em restes posteriores, de determinar se haviam visto o estímulo antes ou não.
Todavia, o simples efeito da exposição estava presente.
Os sujeitos preferiram os itens expostos anteriormente, em detrimento dos
novos (que não haviam sido vistos antes), não obstante a acanhada capacidade de
identificar e diferenciar conscientemente os padrões que tinham sido vistos daqueles
que eram desconhecidos. Segundo Zajonc, esses resultados vão contra o senso
comum e a suposição bastante difundida na psicologia de que precisamos primeiro
conhecer algo para então podermos determinar se gostamos ou não. Se em
determinadas situações a emoção pode estar presente sem o reconhecimento do
estímulo, então o reconhecimento não pode ser considerado um precursor
indispensável da emoção.
O simples efeito de exposição subliminar tem sido confirmado por muitos
laboratórios diferentes, e a ideia de que preferências podem ser construídas por
estímulos externos à consciência parece bastante sensata Bornstein (1992).
Contudo, a interpretação de Zajonc mostrou-se controvertida. Ele sustentou que a
ausência de reconhecimento consciente significaria que as preferências (emoções)
estavam se formando sem o auxílio da cognição que emoção e cognição são
funções mentais distintas. Um grande número de funções de processamento de
informação, consideradas exemplos típicos de cognição, também acontecem sem a
percepção consciente.
A rigor, a ausência de reconhecimento consciente não constitui uma
justificativa proveitosa para que se exclua a cognição do processamento emocional.
Ao mesmo tempo, conquanto a pesquisa de Zajonc não prove que emoção e
cognição são aspectos separáveis da mente, isso não significa que a recíproca seja
verdadeirairemos. Qualquer que seja a importância dos estudos de Zajonc sobre a
simples exposição subliminar para que seja possível entender se a emoção depende
da cognição, seus experimentos ofereceram evidências indiscutíveis de que podem

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) ESPÍRITO SANTO, Ruy Cézar

ocorrer reações afetivas na ausência de percepção consciente do estímulo. Muito


embora algumas teorias da avaliação aceitem que esta é, ou pode ser, inconsciente,
elas tendem igualmente a sugerir que o indivíduo tem acesso consciente aos
processos subjacentes às avaliações (justificando, assim, o uso de relatórios verbais
para identificar os processos de avaliação que antecedem as emoções). Se fatos
inconscientes tais como aqueles encontrados por Zajonc eram corriqueiros, e não
resultados esotéricos de uma estrutura experimental coerente, as introspecções
conscientes que compõem o conjunto de dados da teoria da avaliação não
constituiriam um alicerce propriamente sólido para o entendimento da mente
emocional. Sem dúvida Zajonc não foi o primeiro psicólogo experimental a
interessar-se peloinconsciente emocional.
Em meados deste século o inconsciente emocional fazia furor na psicologia.
Tudo começou com o movimento “Novo Olhar”, Bruner e Postman (1947);
Erdelry (1974); Greenwald (1992), que veio desafiar a visão esrímulo-resposta da
percepção defendida pelos behavioristas. O “Novo Olhar” sustentava que as
percepções são construções que integram informações sensoriais acerca de
estímulos físicos e fatores internos, tais como necessidades, objetivos, atitudes e
emoções. Quando os psicólogos do ”Novo Olhar” começaram a realizar experiências
demonstrando que os sujeitos podiam apresentar reações do SNA (Sistema nervoso
autonomo) aos estímulos de cunho emocional sem a percepção consciente dos
mesmos estímulos.
A seguir, reproduzimos o experimento sobre priming subliminar que
desenvolvemos no Laboratório de Neurofisiologia do Instituto de Psiquiatria da
Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo – USP.

CONSCIÊNCIA, EMOÇÃO E COGNIÇÃO

1 INTRODUÇÃO
O estudo que hora se apresenta se concentra num estudo psicológico e neurológico e
é de natureza original no que diz respeito à escolha e abordagem do tema proposto. O
objetivo geral foi o de medir e avaliar os efeitos da pré-ativação (priming) com estímulos
visuais afetivos aversivos ou repulsivos em modo subliminar e supraliminar na atenção
humana, através de um experimento baseado em testes de cognição em ambiente
controlado. Partiu-se de duas linhas de pesquisa bem conhecidas na literatura, mas para as
quais não se encontrou algum estudo unificador; para Tulvin & Schacter (2002) a pré-ativação
é uma forma não consciente ou involuntária de memória que se dá através da identificação
perceptiva de palavras e objetos e que somente mais recentemente foi reconhecida como
separada das outras formas ou sistemas de memória, outra linha que tem se dedicado ao

48
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) ESPÍRITO SANTO, Ruy Cézar

estudo da atenção, seus mecanismos e formas de operação. A essas duas linhas


acrescentou-se o elemento emoção, resultando em um estudo multidisciplinar, como sugere a
própria neuropsicologia, no qual se espera contribuir com o conhecimento da inter-relação
entre memória, atenção e emoção. Para Helene & Xavier (2003) é surpreendente que a
literatura dedicada à atenção raramente se refira à memória ou à emoção, diante da clara
influência e interdependência entre memória, atenção e emoção. Declarou-se a pergunta-
problema: Qual é a influência de estímulos visuais de conotação afetiva na consciência em
termos de atenção humana? Para responder a esta pergunta elaborou-se o objetivo de
estudar, medir e avaliar a influência de estímulos visuais afetivos supraliminares e
subliminares com o priming sobre a cognição em termos de atenção humana. Foram
investigados: a) Estudar os efeitos da informação de conteúdo afetivo, apresentado de forma
supraliminar e subliminar, sobre o desempenho de tarefas cognitivas, particularmente a
atenção; b) Realizar um experimento em ambiente controlado, submetendo indivíduos a
testes de atenção sob efeito de pré-estimulação supraliminar e subliminar com estímulos
visuais de conotação aversiva repulsiva, colhidos do IAPS (International Affective Picture
Sistem), LANG; BRADLEY & CUTHBERT (1999); c) No caso de afetar a cognição seria
verificado se os estímulos subliminares ou supraliminares tinham efeitos iguais ou diferentes;
d) Se eles fossem diferentes, se verificaria a influência da ordem das tarefas isto é, se a
prévia estimulação subliminar acentuaria os efeitos da estimulação supraliminar.

1.1 Cognição e emoção


Nos anos 80, tornou-se insustentável a neurologia e psicologia se mantivessem
distantes e alheias às novas e atualizadas possibilidades, e o encontro entre as duas áreas
proporcionou que abrissem um canal de comunicação, como decorrência, surgiram eventos,
publicações e pesquisas em conjunto. Desde então, a parceria denominada Neuropsicologia
Cognitiva tem incrementado a demanda de produções a partir da troca de informações,
material teórico e experiência clínica. (ANDRADE, et al., 2004, p.6). As tarefas de cognição,
especialmente as relacionadas à atenção, são susceptíveis a alterações e interferências
emocionais mensuráveis quantitativamente, de modo a fornecer um perfil de resposta de
indivíduos, com variação de desempenho cognitivo de acordo com seu estado emocional.

1.2 Relevância do tema


O estudo se mostra relevante não apenas por sua originalidade, mas pela
contribuição que pode oferecer para diferentes áreas e aplicações da psicologia da
consciência na atualidade. Demonstrar empiricamente com dados confiáveis a influência
mensurável que estímulos visuais aversivos podem afetar a consciência, sobretudo à
cognição como a atenção, seja de forma supraliminar ou subliminar é de considerável
utilidade para a psicologia do trabalho, para educação corporativa, para a inteligência de
negócios (Business Intelligence) e diversas outras áreas onde o desempenho seja importante.
Os resultados podem ter reflexos no conhecimento e nas técnicas atuais de motivação
humana, dinâmica de grupo, trabalho em equipes e liderança, oferecendo aos estudiosos e
profissionais dessas áreas, subsídios para inclusão de técnicas baseadas em estimulação
visual afetiva. Isso significa oportunidade de aplicação clínica em psicologia, neuropsicologia
e psiquiatria como: ansiedade, depressão, fobias.

1.3 Pré-ativação (priming)


Para a compreensão da pré-ativação segundo Kolby & Wishaw (2003) o termo
“Priming” pode referir diferentes conceitos segundo o jargão específico da área de
conhecimento em que seja utilizado. Em geral, os diferentes conceitos de priming sugerem
alguma forma de preparação. No presente estudo, devido à sua natureza neuropsicológica,
priming assume um conceito sob duas diferentes visões: a psicológica e a neurológica. Os
testes e experimentos envolvendo pré-ativação (priming) se inserem no conceito do Método
Específico, abrindo um leque de estudos experimentais relacionados, sobretudo a atenção,
memória e desempenho, utilizando diferentes instrumentos e métodos em onze ou mais
categorias nesta seqüência de ordem de freqüência dos experimentos: 1- palavras, 2- rostos,
3- letras, 4- localização espacial de objetos, 5- STROOP, 6- cálculos de desempenho tarefa
intelectual, 7- ideogramas: chineses e japoneses associados com rostos, 8- imagens, 9-
números, 10- sinais e setas, 11- pronúncias (sons). O efeito de pré-ativação sobre o sistema
nervoso pode ser obtido de forma supraliminar como por um relato verbal para dois grupos de

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) ESPÍRITO SANTO, Ruy Cézar

pessoas, preparando-as por sugestões pré-elaboradas, que quando assimiladas, induzem ao


comportamento esperado, ou de forma subliminar. Por exemplo, fazendo-se que a pessoa
perceba objetos num ambiente e sofra efeitos destes objetos sobre os seus sonhos, como no
caso da hiperminésia (ERDELYI, 1985). Poderá também ser de detecção direta do que foi
preparado para o reconhecimento, como no caso da detecção dos próprios objetos
previamente apresentados. Existem cinco tipos básicos de fenômenos de estimulação,
denominados de pré-ativação ou priming: I-Efeito de Exposição: Exposição de uma imagem
consciente que se predispõe para preferir uma imagem dentre outras; I - Efeito Poetzl:
Palavras e imagens percebidas na consciência com alteração da resposta da imagem
apresentados posteriormente após a submissão de conteúdo onírico; III - Pré-ativação afetiva:
Exposição de imagens de conteúdo afetivo ou emocional para a consciência supraliminar ou
subliminar causando uma resposta emocional de conhecimento; IV - Pré-ativação semântica:
Exposição de palavras de conotação emocional causando uma resposta de conhecimento; V
- Ativação psicodinâmica: São exposição de imagens fantasiosas ou sugeridas por
associação poderão influenciar os estados psicológicos de adaptação e persistência, como no
caso do comportamento de esperar ou de se apressar num dado comportamento.

1.4 Pré-ativação (priming) subliminar e supraliminar


A pré-ativação subliminar vem sendo definida por uma quantidade de informação,
dividida pelo tempo de exposição. É o termo utilizado quando um sujeito é preparado com
uma breve exposição preliminar de um estímulo (que pode ser imagem, som, símbolos,
objetos) antes de medir seu desempenho em um teste/tarefa. Pode-se ainda compreendê-la
como um aumento na velocidade ou precisão de uma decisão que acontece como
conseqüência de uma exposição anterior a alguma informação relevante para a decisão, sem
qualquer intenção ou tarefa relacionada à motivação. Ela poderá ser apresentada em forma
de estímulos com exposição suficiente 2 para a percepção em nível consciente como pré-
ativação supraliminar ou em exposição insuficiente para a percepção da consciência como a
pré-ativação subliminar. Como o nível de acerto era maior do que o que seria obtido ao
acaso, os pesquisadores concluíram que as pessoas haviam sido afetadas pelas imagens
(MERIKLE, 1998). Beversdorf (2007) apresentou um estudo com evidências de que a tensão
emocional afeta a cognição, sobretudo a capacidade de resolução de problemas, como
associação de palavras. Segundo Volchan (2003), emoção pode ser funcionalmente
considerada como uma disposição à ação que prepara o organismo para comportamentos
relacionados à aproximação e esquiva, elas são experiências referente a reações
neurovegetativas em resposta a um estimulo agradável ou desagradável. “O simples olhar
uma face a sorrir, ou uma face triste, ou ouvir uma palavra como ‘funeral’ ou ‘festa’, parece ter
a capacidade de tornar mais acessível pensamentos com idêntica valência afetiva.”
(MARQUES, 2005, p. 437).

2 EXPERIMENTO
Partindo para uma investigação mais sistemática de como as variáveis de atenção,
emoção, pré-ativação subliminar e supraliminar se comportariam em relação à consciência,
acolheu-se a idéia de combinar a pré-ativação subliminar com a supraliminar para verificação
da possibilidade de alguma espécie de dado que pudesse dar indícios de como se processa a
consciência diante de estímulos combinados. Para isso foi desenvolvido um experimento com
a intenção de testar os sujeitos em sua capacidade atencional quando submetidos ou não a
estímulos visuais (imagens com sugestão de conteúdo repulsivo e aversivo) para isso foram
utilizadas imagens selecionadas do IAPS (International Affective Picture System), série de
imagens testadas em laboratório LANG, BRADLEY, & CUTHBERT (2005).

2.1 Método
2.2 Materiais e Instrumentos
Esta pesquisa experimental foi realizada e delineada com exclusividade em
laboratório controlado e os instrumentos utilizados foram:
1- Um programa comercial de computador (Stim, Neurosoft Inc.);

2 A insuficiência de exposição para a percepção consciente é geralmente baseada em redução a pequenas


frações de tempos, mas também pode ser baseada em menor nitidez, menor definição, menor completude,
volume, no caso de sons, ou outras formas que impeçam ou dificultem a percepção consciente.

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) ESPÍRITO SANTO, Ruy Cézar

2- Um computador com visor e dispositivo com dois botões para indicação do alvo com
os dedos da mão;
3- Estímulos visuais, imagens de fotos, colhidas do IAPS (International Affective Picture
System) criados pelo NIMH (Center of the study of emotion and attention) laboratório
da Universidade da Flórida; imagens coloridas selecionadas com conteúdo afetivo
aversivo e repulsivo, LANG, BRADLEY, & CUTHBERT (1999 - 2005).

2.3 Sujeitos
Foram escolhidos 35 (trinta e cinco) sujeitos saudáveis de ambos os sexos, com
visão normal ou corrigida para normal, na proporção de 50% homens e mulheres, sem
doenças neuropsiquiátricas. Homens e mulheres com idade entre 23 a 49 anos, sem abuso
de drogas ou álcool e sem tratamento com fármacos.

2.4 Local
Laboratório de EEG (Eletroencefalograma) de Alta resolução, departamento de
Neuropsicologia do Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São
Paulo - USP.

2.5 Descrição das tarefas e procedimentos

2.5.1 Experimento 1
Todos os aspectos da tarefa foram controlados por um programa comercial de
computador (Stim, Neurosoft Inc.). Os estímulos visuais que compunham os pares de dica-
alvos (S1-S2) consistiam em pequenos retângulos 8 (excentricidade ± 0.8°, S1: 100 ms de
duração, S2: 17 ms). Em metade dos testes, os retângulos S2 continham um círculo cinza (o
alvo da tarefa) com ±0.3° de excentricidade. S1 foi seguido por S2, com inícios separados no
tempo por 1,6 segundo. Foi instruido aos indivíduos do teste que um retângulo seria
apresentado para indicar que 1,6 ms depois ele acenderia novamente, porém com maior
rapidez, contendo ou não o círculo-alvo. O sujeito decidiria se havia dentro um retângulo S2,
e indicaria a presença do alvo pressionando o botão direito com o polegar direito, ou a
ausência do alvo pressionando o botão esquerdo com o polegar esquerdo. Omitiu-se
deliberadamente nas instruções o tempo de reação e mediu-se o desempenho
exclusivamente pela porcentagem de testes corretos, do total de 96 rodadas ou testes que
compunham o experimento. Um ponto de fixação para os olhos aparecia continuamente no
centro da tela do computador, bem como, um fundo para mascarar estímulos, com o intuito
de impedir imagens posteriores.

2.5.2 Experimento 2
A segunda condição apresentada foi realizada num bloco orientado de modo
randomizado, uma quantidade de sujeitos praticamente 50% do total geral e 50% entre
sujeitos masculinos e femininos. Primeiramente na ordem, a tarefa subliminar e, a outra
quantidade de sujeitos realizou primeiramente a tarefa supraliminar. Houve a inserção de 104
pares de retângulos de uma rodada quanto entre rodadas da tarefa. A diferença foi à duração
dos estímulos onde o tempo do subliminar foi de 50 ms e o supraliminar foi de 500 ms. Para
todos os sujeitos que realizaram o experimento foram realizadas cinco perguntas sobre como
estavam se sentindo pelo experimentador aos sujeitos depois de dadas todas às informações
e instruções necessárias para a realização do experimento.

2.6 Análise dos Resultados


Computamos análise de variância (ANOVA) com medidas repetidas, entre as duas
condições de interesse, das variáveis: detectabilidade, critério (e seus componentes, Hits
(acertos positivos) e falsos positivos), tratando como fatores o sexo dos sujeitos e a ordem
entre as duas condições subliminar e supraliminar. Para isso foram usados índices de
detectabilidade e critério, derivados da teoria de detecção de sinais (MACMILLAN & C. D.
CREELMAN, 2005): 1 - A partir das porcentagens (entre 0 e 1) tanto de Hits (h) quanto de
falsos alarmes (fa); 2 - Calcularam-se a transformada z (inversa da gaussiana) de Hits, z(h), e
de falso-alarmes, z(fa); 3 - A detectabilidade é definida como: d’=z(h) – z(fa); 4 - O critério é
definido como: beta= -0.5 [z(h)0 + z(fa)]. Esperou-se que, comparando-se as duas condições,

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) ESPÍRITO SANTO, Ruy Cézar

onde se supõe que a detectabilidade do individuo fosse a variável modulada, que o d’


variasse e o beta (critério) ficasse aproximadamente constante.

3 RESULTADOS

A partir deste parágrafo, para facilitar a compreensão, serão utilizadas as siglas de


SUB para a palavra subliminar e SUPRA para a palavra supraliminar no decorrer do texto.
Deste experimento, foram eliminados 5 sujeitos por desempenho insuficiente na tarefa base,
abaixo de 56% de respostas corretas, o que estatisticamente deve ser considerado aleatório.
A figura 01 mostra as médias das três variáveis, total de acertos, detectabilidade, e critério.

Figura 01 - Médias para todos os participantes (n = 30) de detectabilidade total de acertos em porcentagem, e
critério, nas três tarefas: (barras indicam ± 1 desvio padrão; rep = repetições: 1 = tarefa base, 2 = distratores
subliminares, 3 = distratores supraliminares).

Quanto ao índice critério, novamente houve um efeito significativo de ordem de


apresentação (P= 0,05 e F=4,21), A figura 06 mostra o índice critério para as condições
SUPRA e SUB, com indivíduos divididos quando à ordem de execução das tarefas.

Os sujeitos que realizaram primeiramente a tarefa SUB, tiveram o índice critério


superior, para as duas condições, demonstrando assim um efeito de ordem. Tal efeito, uma
vez detectado, levou-nos a analisar os componentes, de HITS (acertos) e falso-alarmes. O
falso-alarmes demonstra uma diferença significativa em função da ordem de apresentação
(F=4,97 e P=0,035). A figura 03 mostra o componente “falso-positivo” do critério, para as duas
condições, em função da ordem de apresentação.

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) ESPÍRITO SANTO, Ruy Cézar

Figura 02 - Falso-positivos (± 1 desvio padrão), para as duas condições, com grupos de indivíduos divididos em
função da ordem: 1 = realizou primeiramente a tarefa SUB; 2 = realizaram primeiramente a tarefa SUPRA.

4 DISCUSSÃO

Os sujeitos foram submetidos a efeitos de estímulos subliminares e supraliminares,


usados como distratores repulsivos do IAPS, sobre tarefa de atenção visual. Os resultados
encontrados vieram de encontro com experimentos como o de Bargh (1992), onde se
demonstrou que as emoções, atitudes, objetivos e intenções podem ser ativados sem a
participação da consciência e podem influenciar o modo de pensar e agir dos indivíduos nas
situações sociais. Foram encontrados alguns pontos críticos nos resultados deste
experimento. Os resultados obtidos vão de encontro com os objetivos deste estudo,
demonstrando que a estimulação subliminar afetou o desempenho na tarefa de atenção,
porque a mudança de critério dos sujeitos que iniciaram primeiramente a tarefa subliminar em
relação à próxima tarefa, a supraliminar, demonstraram uma modificação significativa do
índice critério. Em relação aos objetivos específicos também foi demonstrado neste estudo
que os estímulos utilizados do IAPS, quando apresentados de maneira subliminar ou
supraliminar, têm efeitos distintos. Quanto à outra hipótese do estudo, onde a preocupação
era verificar a influência de ordem das tarefas, especificamente, se a estimulação subliminar
prévia acentuaria os efeitos da estimulação supraliminar obteve-se resultados opostos à
expectativa. O índice “critério” que demonstrou um efeito “destruidor” na tarefa SUPRA, isto é,
alterou o resultado “critério” para todos os sujeitos que iniciaram a ordem da tarefa pelos
estímulos SUB. Constatou-se que o efeito de ordem sobre o critério deve-se a falso-alarmes:
quem começou pela tarefa subliminar cometeu significativamente menos falso-alarmes nas

53
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) ESPÍRITO SANTO, Ruy Cézar

duas tarefas de interesse. Isso significa que tal grupo de sujeitos, na ausência do alvo,
rejeitou corretamente relativamente mais que o outro grupo. Além disso, quem iniciou pela
tarefa SUB, “protegeu-se” na tarefa SUPRA a seguir, cometendo menos falso-alarmes nessa
também. Ao contrário, quem começou pela SUPRA, parece haver sofrido efeito “devastador”,
isto é, já cometendo relativamente mais falso-alarmes, e surpreendentemente, mantendo
esse desempenho relativamente pior na tarefa SUB que realizaram a seguir. Apesar de não
significativo o efeito de sexo sobre o desempenho, suspeita-se que com uma amostra maior,
ou mais representada por mulheres, poderíamos observar um prejuízo geral de desempenho,
devido a mais erros de detecção (menor número de HITS).

6 CONCLUSÃO
O desempenho foi superior nas duas condições à tarefa de base de atenção, o que
deve ser devido ao efeito de treinamento, mas o índice “critério” foi significativamente
diferente, aumentando nas duas condições na tarefa SUB e a tarefa SUPRA em relação à
tarefa de base. O achado mais importante foi o efeito da ordem de apresentação das duas
tarefas principais da SUB e a SUPRA, sendo que o grupo que iniciou pela condição
subliminar teve os valores e a “média do critério” superiores em ambas as condições. A
análise dos componentes do índice “critério” revelou um aumento de falso-alarmes no grupo
que iniciou a tarefa na condição supraliminar e que se manteve na condição subliminar, ao
contrário o grupo que iniciou na condição subliminar, que manteve o número menor de falso-
alarmes durante a condição supraliminar. Deve-se considerar que enquanto o hemisfério
direito do cérebro faz a ação o esquerdo tende a explicar com alguma situação relevante que
se encaixe no movimento. Borine (2005) alude sobre o pensamento de Le Doux (2001) que
comportamentos muitas vezes são atitudes sem consciência de suas razões, pois o
comportamento é produzido por sistemas cerebrais de atividades não conscientes, visto que
uma das principais tarefas da consciência é fazer da nossa vida uma história coerente, um
auto-conceito e o cérebro faz isso dando explicações para o comportamento com base em
nossa auto-imagem, em lembranças do passado, em expectativas futuras, na situação social
presente e no meio ambiente físico em que se produz o comportamento, sendo assim, parece
que grande parte da vida mental acontece fora dos limites da percepção consciente. Segundo
Le Doux, (2001), a emoção e cognição parecem atuar de forma não consciente, mas somente
o resultado da atividade cognitiva e emocional é percebido conscientemente; os materiais e
estímulos absorvidos que não ganham forma de conteúdos conscientes poderá ser
armazenado e depois mais tarde passar a influenciar o pensamento e o comportamento. No
presente caso, não se verificou o esperado efeito de estímulos subliminares acentuarem o
efeito, supostamente distrator dos estímulos supraliminares, mas o contrário. Tal efeito
contrário, “protetor”, significa que de fato, os estímulos subliminares influenciaram a tarefa
subseqüente de modo significativo.
A exploração de possibilidades neuropsicológicas voltadas para a compreensão da
inter relação dos aspectos da consciência, emoção e cognição são de fundamental
importância para a psicologia da consciência à medida que os aspectos bio-psico e sociais
determinam o comportamento. Este estudo demonstrando como os estímulos apresentados
subliminarmente afetam a consciência humana no desencadeamento de efeitos emocionais à
luz do desempenho da cognição, especialmente a atenção, pode abrir portas a novos
experimentos que contribuam no auxilio da diminuição de diversas doenças, como ansiedade,
fobias, depressão, e também facilitar a aprendizagem, as relações sociais e de trabalho.

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.)

PARTE II
CONSCIÊNCIA, AUTOCONHECIMENTO E
TRANSDISCIPLINARIDADE

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) ESPÍRITO SANTO, Ruy Cézar

Capítulo 4

AUTOCONHECIMENTO E CONSCIÊNCIA

Ruy Cezar do Espírito Santo 1

O século XX significou o início de uma nova época, especialmente a partir de


1945 quando explodiram as bombas atômicas, no final da segunda guerra mundial.
Era o fim de uma época, que denomino de “adolescência” da humanidade,
sendo certo, que o “adolescente humano” percebeu que podia “destruir o planeta”...
Observe-se que a guerra ocorreu no auge do que denominei de adolescência,
onde o “quem manda sou eu”, cristalizou-se em figuras autoritárias e ditatoriais como
Hitler, Mussolini, Stalin, Tito, Franco, Salazar e isto somente para falar da Europa,”o
mais civilizado continente!”...
Pouco antes da segunda guerra, o filósofo e paleontólogo Teilhard de Chardin
apontava, profeticamente, em sua obra “Fenômeno Humano”, que o ser humano
após percorrer longamente o caminho da análise, chegava finalmente à luminosa
síntese. Ou seja, aquilo que contemporaneamente é denominado, por muitos, de
visão holística da Vida. Nessa mesma obra, em que Teilhard aponta para o
fenômeno de uma nova época, ocorria aquilo que ele denominava como sendo o
início da “conscencialização”, ou seja, uma tomada profunda de consciência do ser
humano, a respeito da Vida: o Ponto Ômega como ele mesmo, assim o definiu.
Curiosamente, outro profeta, desta vez na Educação, que foi Paulo Freire,
afirmava, anos depois, “que antes de alfabetizar era preciso conscientizar”.
Na verdade, as duas afirmativas nos conduzem a perceber que, realmente,
um novo momento tem início na história da humanidade: o desenvolvimento da
consciência.
Por isso o surgimento da Unesco, o avanço da ecologia, as tantas ONGS hoje
presentes, a ênfase nos direitos humanos e mesmo o surgimento desse movimento
em busca da “Consciência”, que organizou este Simpósio.

1 Doutor e Mestre em Educação. Docente da Fundação Armando Alvares Penteado. Contato:

ruycezar@terra.com.br
59
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) ESPÍRITO SANTO, Ruy Cézar

De minha parte, vejo também, o início do Caminho em direção ao


autoconhecimento - a consciência de si mesmo -, ou seja, o desenvolvimento da
secular profecia de Sócrates, que em seu conhecido aforismo, assim dizia: “o
conhece-te a ti mesmo é o princípio de toda a sabedoria”. Constatei dentre outros
sinais, que pela primeira vez numa Universidade, no caso na PUCSP, era aceita a
criação, na área da Educação, de uma cadeira eletiva, que desenvolvi desde os
anos noventa, denominada “o autoconhecimento na formação do educador”.
Se nos voltarmos à história, vamos constatar que a humanidade viveu até o
ano zero, um período que corresponderia à sua infância. Jesus Cristo, que foi o
marco decisivo no reinício da contagem dos tempos, referindo-se ao passado,
afirmava: “os antigos diziam: olho por olho, dente por dente, eu vos digo, amai os
inimigos” (Evangelho de Mateus 20,43). Séculos antes, profeticamente, Sócrates, já
aqui referido, e outros filósofos como Platão, trazem um despertar para a
transcendência do ser humano. Era o início do tempo a que acima me referi, como
sendo o período de “adolescência” do ser humano, que vai até o referido ano de
1.945.
As Tradições surgidas, na sua maior parte, também em torno do ano zero de
nossa época, como o cristianismo, igualmente apontavam para a transcendência do
ser humano. Claro que foram vinte séculos de percurso, até chegar à vivência de
uma conscientização, como anunciado por Paulo Freire, ou da conscencialização
apontada de Chardin.
Nesse momento, sinto que estamos no início de uma nova época, que
denominaria de maturidade do ser humano. Claro que vamos conviver ainda com
muitos adolescentes... Não esqueçamos que foram vinte séculos de
adolescência...Na verdade, o que chamo de maturidade está inserido no contexto
de conscientização ou conscencilização como já referido e, seguramente, isto
implica também num longo Caminhar...
A psicóloga junguiana Jean Houston em sua obra “A Busca do Ser Amado”,
conforme referido em meu livro “Renascimento do Sagrado na Educação”, na página
21/22, assim coloca a questão:

O que está ocorrendo, acredito, está muito longe daquilo que se tem
chamado de ‘mudança de paradigma’. Trata-se de transição de sistema
total, uma mudança na própria realidade. Enquanto uma mudança de
paradigma poderia ser comparada ao girar de um caleidoscópio e observar

60
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) ESPÍRITO SANTO, Ruy Cézar

as peças distribuindo-se de acordo com um novo padrão e com novas


relações entre elas. A transição sistema-total demandaria a inclusão, no
todo, de peças inteiramente novas. Até mesmo o mundo está mudando
num nível profundamente ontológico; estruturas fundamentais não são
mais o que costumavam ser.

Vê-se como Houston distingue o que seria, tão somente, uma mudança
paradigmática, do início de uma nova época!
A simples existência de Organizações Não Governamentais, revelam, por si
só, como o ser humano se organiza, independentemente de uma Igreja, um “partido”
ou “governo”, ou seja, a tomada de consciência individual conduz a pessoa a
organizar ou participar de um organismo, que busque a realização daquilo que
acredita. Em outras palavras, não se fica mais a espera de leis ou ordens que
“devam ser cumpridas”. Seguramente, é uma mudança radical, que como afirma
Houston é “uma mudança da própria realidade”...
Nesse mesmo momento o físico e professor universitário Brian Swimme, em
sua obra “O Universo é um Dragão Verde”, assim se manifesta:

Nossa civilização moderna começou com uma espécie de esquizofrenia


cultural. Nossa pesquisa científica efetivamente desvinculou-se, no início do
período moderno, de nossas tradições humanistas-espirituais, por boas
razões, sem dúvida, mas hoje a neurose se espalhou por diversos
continentes. Emaranhados na mais terrificante patologia da história da
humanidade, talvez possamos nos atrever a perguntar se foi realmente boa
essa idéia, essa fragmentação do universo.
As ciências mostraram-se eficientes em suas formulações mecanicistas e,
assim, se entrincheiravam no mecanicismo. Nossa tradição religiosa,
cautelosamente refugiada numa orientação de redenção e de uma Criação
acabada, não era de seu interesse. A cultura ocidental resolveu trilhar o
caminho que leva a uma enfermidade inevitável e cada vez mais profunda.
No entanto, algo extraordinário está ocorrendo em nossa época; algo que
tem o poder de pôr um fim a esse impasse. Refiro-me à transformação
radical da nossa visão básica do mundo, à medida que a história cósmica
das nossas origens e do nosso desenvolvimento se afirma na consciência
humana.
De que modo a compreensão mais profunda nos dá poderes? Possibilitando-
nos reinventar o homem no contexto da nova história cósmica (páginas
10/11)

Esse desenvolvimento, que se afirma na consciência, como referido por


Swimme, precisa ser trazido para a Educação, como apontado por Freire, mas, não
basta “anunciar” como já foi feito. Agora trata-se de trazer isso para o cotidiano das
escolas ou outros contextos educativos. Trata-se, como apontado acima, de
“reinventar o homem”. É nesse sentido que vejo as questões de conscientização ou
conscencialização aqui mencionadas.
61
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) ESPÍRITO SANTO, Ruy Cézar

Há uma questão de fundo, a ser desvelada, que diz respeito à mensagem


oriunda das Tradições no ano zero, e que chamava o ser humano para uma forma
de crença. Ora, ocorre que curiosa e sincronisticamente, no mesmo ano, de 1945,
em que explodiram as bombas atômicas e que situo como um marco, do fim de uma
época, surgem no deserto de Nag Hamadi, no Egito, os chamados Evangelhos
Apócrifos, que apontam para uma mensagem de dois mil anos atrás, também
relativa às Tradições, com a diferença de apontar não mais na direção de uma
crença, mas sim de um saber. Ou seja, a humanidade caminhou durante o período
aqui denominado de “adolescência” numa linha de “crenças” e agora, numa nova
época, iniciamos o Caminho do Saber.
Não há nada de “errado” nas ocorrências dos vinte séculos passados, sendo
certo, que todo o processo havido foi indispensável para chegarmos ao momento
presente, com as constatações que estamos aqui delineando. É bom lembrar que
errar” é andar, o “errante” é aquele que anda... O desenvolvimento da consciência
humana precisava passar pelas fases já vividas, para chegarmos ao momento que
vivemos. A ciência do século XX, particularmente a partir de Einstein já revelava os
sinais da “maturidade” que sugiro. Evidente que quando enfrentamos as questões
ligadas à transcendência temos que dimensionar o segundo grande aforismo de
Sócrates que nos dizia: “o sábio é aquele que sabe que nada sabe”... Sim, o mistério
do “numinoso”, dos planos do Criador a nosso respeito, sempre escaparão a nossa
pura racionalidade. Aliás hoje, físicos como Fritjof Capra já apontam para uma
“ciência do mistério”. O mesmo Swimme já aqui referido, na mesma obra de onde
transcrevemos texto anterior, assim afirma na página 20/21:

A grande maravilha é que nessa jornada empírica, racional a ciência não


devia ter nenhum contato com as tradições espiritualistas. Contudo, no
nosso século o período mecanicista da ciência permitiu a inclusão de uma
ciência do mistério: o encontro com a supremacia da não existência, que é
simultaneamente, um reino de potencialidade generativa...

Veja-se, que Swimme conduz a ciência, a considerar uma afirmação da


Tradição judaico-cristã, de que “no princípio era o caos...”, ou seja, a Vida teria sido
gerada pelo Verbo Criador a partir do “Nada” ou do “Caos Primordial”...Observe-se a
similitude das afirmações!
Será importante consignar aqui que sempre existiram grupos, chamados
“gnósticos”, ligados à mensagem contida nos Evangelhos Apócrifos, mas, que

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) ESPÍRITO SANTO, Ruy Cézar

sempre foram perseguidos pelas Igrejas dominantes e fundadas na crença,


exclusivamente. Tal crença, já não seria apenas nos seres iluminados do ano zero,
ou, num Deus transcendente, mas nas Igrejas, que se apresentavam como
portadoras da Verdade. Ainda aqui, tratou-se de etapa pertinente ao que denomino
de fase de adolescência da humanidade. Foi o indispensável “errar”...
A perseguição durou quase todo período, do ano zero até o século XX. Assim
os grupos “gnósticos” viveram, em sua maioria, em absoluta clandestinidade. Os que
eram “descobertos”, como os Cátaros, por exemplo, eram eliminados ou
perseguidos.
A ciência no início do século XX, como já aqui mencionado, nos traz
contribuições incríveis para essa visão do “conhecimento” ou da ampliação da
consciência, como algumas já aqui referidas. É o momento que podemos situar
como sendo o “encontro da ciência com a Fé”.
Começando com Freud, no campo da psicologia, que veio apontar para uma
realidade subjetiva ou inconsciente no ser humano, que abrigava o quanto de
sofrimentos reprimidos, especialmente de natureza sexual, e que impediam o pleno
desenvolvimento da consciência. Na seqüência Jung vai mais adiante desvelando a
existência não só de repressões, como as trazidas por Freud, mas, também, de uma
realidade, que ele denominou de “numinosa” (espiritual) também presente no
inconsciente. Seguramente coincidia com aquilo que no Evangelho de João é
apontado como sendo “a Luz verdadeira que habita em cada homem que vem a este
mundo”... (Evangelho de João 1,9) Tal realidade, presente até então somente no
inconsciente, era a causa mais relevante, da dificuldade do pleno desenvolvimento
da consciência humana! Evidente que os traumas anunciados por Freud poderiam
ser resolvidos pelas terapias nascentes, mas e o “numinoso”, a espiritualidade que
Jung afirmava estar presente, também, no inconsciente? Como trazê-la para o
consciente? Aqui é que vamos entender melhor as expressões conscencialização e
conscientização já apontadas nesse artigo. O ser humano começa a ser “liberto” de
seu inconsciente, de suas “sombras”, segundo ainda Jung, e caminha para uma
dimensão de integração do “ego” e do “self”, que simboliza na psicologia junguiana,
a plenitude da pessoa humana. Jung utilizou a expressão “self” para indicar,
exatamente essa dimensão espiritual do ser humano.
O drama apontado por Jung era a inconsciência do “self” ou seja do “si
mesmo”. Ele denominava de processo de individuação, tal integração, o que a meu
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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) ESPÍRITO SANTO, Ruy Cézar

ver é o mesmo que desenvolver o autoconhecimento. O próprio Jung em sua obra


“Memórias Sonhos e Reflexões” afirmava na página 19 “minha vida é a história de
um inconsciente que se realizou”.
Na Tradição cristã essa realização do inconsciente, era denominada o “nascer
de novo” ou “nascer para o Espírito”.
Por ocasião de sua crucifixão, dizem os Evangelhos, que uma das frases
pronunciadas pelo Cristo foi: “Pai perdoa-lhes! Eles não sabem o que estão
fazendo!” (Luc.23,34). Ou seja, aqueles que o matavam eram perdoados por sua
“ignorância”! Sim, o ser humano possui uma dimensão, que quando ignorada, afasta
qualquer juízo de valor quanto a seus atos ! É o “self” que permanece no
inconsciente ! Se o ser humano não desenvolve sua consciência, trazendo do
inconsciente a dimensão numinosa apontada por Jung, ele permanece “ignorante”,
como referido.
Em sua obra “O Absurdo e a Graça”, Jean Yves Leloup, na página 192,
transcreve trecho de Jung onde tal aspecto é assim situado:

“Faz-se depois de algum tempo, uma diferença entre pequena e grande


terapia. Por pequena terapia entendem-se os tratamentos dirigidos às
neuroses e que visam restabelecer a saúde psíquica. Seu objetivo é tornar
um indivíduo apto a fazer seu caminho na sociedade, a trabalhar e nela
criar contatos. A primeira condição é libertá-lo de sua angústia, de sua
culpa, de seu isolamento...É uma terapia puramente pragmática. Mas, às
vezes, o sofrimento humano, físico ou psíquico enraíza-se muito longe,
além do psicologicamente acessível, atinge o núcleo do ser metafísico,
situando-se, portanto a uma profundidade do inconsciente cujas
manifestações têm um caráter numinoso: a vida espiritual está em jogo.
Nesse caso, a cura só é possível se o doente aprende a se perceber nesse
nível. É preciso que ele compreenda seu fracasso no mundo como um
bloqueio de uma realização de si mesmo, através da qual seu próprio Ser
transcendente deveria manifestar-se. Uma tal terapia tende ao testemunho
do Ser essencial no eu profano e, nesse sentido, à realização do self
verdadeiro. Ela se chama a grande terapia. Ela deve ter um sentido
iniciático”.

Vê-se da longa transcrição, como Jung distingue claramente a vinda para o


consciente da dimensão transcendente ou espiritual do ser humano, distinguindo-a
claramente de uma ação psicanalítica. Vejo como a grande tarefa da educação
nesse momento, desenvolver essa ação, de ampliação da consciência a que Jung
da um sentido iniciático
Em outras áreas da ciência também tivemos avanços que conduziram a essa
visão mais ampla da consciência do ser humano. Assim foi com Einstein, que

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) ESPÍRITO SANTO, Ruy Cézar

apontou para a religiosidade do universo e seus seguidores como Heisenberg,


Capra e Swimme, dentre outros, na física, ou Sheldrake na biologia, Grof e Karlfried
Graf Durckheim, ainda na psicologia. Todos eles nos trazem uma visão inteiramente
nova de universo e de matéria, superando definitivamente os paradigmas anteriores.
Na verdade, o apogeu do paradigma, denominado cartesiano, deu-se no
século XIX quando Augusto Comte cria a Igreja da Razão ! Era a tentativa última do
reducionismo. Sim, era levar para o que seria objeto da transcendência, uma visão
materialista, gestada no paradigma cartesiano... Foi quando, na mesma época,
Nietzsche afirmava que “Deus está morto”... Curiosamente e ainda uma vez
sincronisticamente, tivemos no mesmo século XIX, uma visão oposta à Igreja da
Razão, que foi o surgimento do kardecismo, que significou uma visão da
espiritualidade, exatamente, numa linha do “saber” e não da crença...Allan Kardec o
codificador do espiritismo, anunciava uma “Ciência do Espírito”, traduzida em sua
obra maior,”O Livro dos Espíritos”.
Claro, que na época foi considerada”coisa do demônio”, pois contrariava o
poder da Igreja, especialmente a Católica, que sentia-se ameaçada por uma ciência,
dita espiritual, e mesmo por uma releitura dos Evangelhos Canônicos, que foi feita
por Allan Kardec.
Estávamos diante de opostos aparentemente inconciliáveis e que foram
trabalhados intensamente no século XX.
Tenho insistido aqui na questão da sincronicidade. Na verdade, trata-se de
uma expressão criada por Jung, para apontar acontecimentos que não obedeciam à
lei de causa efeito, reinante em seu tempo. Jung afirmava que os eventos
aconteciam, muitas vezes, por razões que transcendiam a materialidade da “lei de
causa e efeito”. Assim foi em 1.945, como já aqui apontado, ou com o kardecismo no
mesmo século, da Igreja da Razão.
A abordagem das três fases da humanidade tem sido enfrentada, por distintos
autores, dentre os quais trago para esta reflexão, Edward Whitmont que em sua obra
“A Busca do Símbolo”, assim situa a questão:

A evolução do ego pode ser dividida em três fases. A infância é a fase de


realização durante a qual uma identidade total não diferenciada começa a
desintegrar-se, a identidade ego-Self gradualmente se separa e elementos
do meio ambiente interagem com potenciais arquetípicos para produzir uma
primeira personagem real. Geralmente, nessa fase, as pessoas e as coisas
são vivenciada como poderes opressores ou ameaçadores ; o ego percebe-

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) ESPÍRITO SANTO, Ruy Cézar

os como se fossem entidades mágicas e, posteriormente, mitológicas. O


segundo estágio estabelece a separação entre o ego e o Self, as pessoas e
as coisas são apenas pessoas e coisas. O único poder reconhecido é do ego
– e isso é expresso no ditado familiar ‘querer é poder’. O terceiro estágio é o
do retorno, o do preenchimento e realização do potencial. da personalidade.
O movimento nesse estágio é em direção a totalidade do individuo. Os
elementos não - racionais pressionam para que haja integração; o ego é
arrastado para o restabelecimento de um relacionamento com o Self, não na
identidade inconsciente, como na infância, mas sob a forma de um encontro
consciente. Em conseqüência essa fase não pode ser explorada até que haja
um ego suficientemente forte para encarar o Self”( p. 236)

Vê-se que a divisão em três etapas no desenvolvimento do ser humano, se


aplicado, como sustento aqui, à própria história da humanidade, veremos que a
infância descrita por Whitmont aplica-se à fase vivida pelo ser humano antes do ano
zero: fase das entidades mágicas e míticas. Mesmo a visão por ele colocada, de que
pessoas e coisas são vivenciadas como poderes opressores ou ameaçadores é bem
evidente ! Na segunda fase que chamei de adolescência, vamos encontrar o que ele
aponta como sendo, um ego que vive o “querer é poder”. Creio que tal foi a
característica do que denominei de adolescência da humanidade, com o surgimento
de ditaduras tanto civis como religiosas.. Finalmente, Whitmont denomina de
“retorno” à terceira fase, porém com uma diferença fundamental: a integração que
era inconsciente na “infância”, agora será consciente! Interessante, que essa visão
do autor encontra similitude com um dos mitos mais tradicionais do cristianismo: o
início mitológico da humanidade dá-se no paraíso, onde a inocência é a
característica fundamental. Pode-se dizer que no paraíso havia a integração plena
do ego com o self, ainda que o self permanecesse no inconsciente, como sustenta
Whitmont, em sua descrição da infância. A segunda fase do mito cristão é a
“expulsão do paraíso” com o experimento do “fruto da ciência do bem e do mal”.
Tem então início a peregrinação “egóica” do ser humano, que com o advento de
Jesus Cristo vê o “anúncio” do “retorno”, como sustentado pelo autor. Curiosamente
uma das parábolas mais conhecidas e significativas trazidas pelos Evangelhos diz
respeito ao Filho Pródigo, que semelhantemente ao acima descrito “deixa a Casa do
Pai e retorna após uma sofrida peregrinação”... Neste retorno insere-se o mistério do
“livre arbítrio” da escolha feita pelo filho de “querer” voltar à casa do Pai. Vê-se
nessas versões como a história do individuo humano é um símbolo do vivido pela
humanidade até o dia de hoje ! Aliás, o mistério da liberdade, ou do livre arbítrio,
permanece como um dos aspectos mais sensíveis da existência !

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) ESPÍRITO SANTO, Ruy Cézar

Claro que toda a temática aqui desenvolvida comportaria abordagem bem


mais extensa, porém os limites do artigo não permitem mais divagações.
Resta um último aspecto que gostaria de trazer, como relevante nessa
chegada à maturidade. Trata-se do retorno do princípio feminino.
Sim, a humanidade viveu em sua adolescência, um patriarcalismo evidente.
Diz um mito babilônico que a deusa do Caos, Thiamat, foi derrotada pelo deus
da Ordem, Marduk, estabelecendo-se, desde então uma “ordem” masculina e uma
conseqüente abominação do “caos”.
Mais uma vez será no século XX, como minuciosamente abordado na obra “O
Caos, a Criatividade e o Retorno ao Sagrado” de autoria de Ralph Abraham,
Terence Mckenna e Rupert Sheldrake, que se dará a recuperação do feminino e a
vinda para uma nova consciência do princípio feminino que havia sido “derrotado”...
Ainda uma vez, “sincronisticamente” também no século XX matemáticos
anunciam a chamada “teoria do caos” em que afirmam não existir um “caos
absoluto”, mas que será o caos sempre a origem de uma nova ordem...
Vemos assim, mais uma vez um retorno a uma unidade perdida...
Claro que ainda temos no oriente de forma mais forte, a discriminação da
mulher como indicativos da marginalização do feminino. É um processo de
maturação...
Para ilustrar o acima apontado, menciono a obra organizada por Richard
Carlson e Benjamim Shield,”Curar, Curar-se” que na p. 62, em artigo de Lynn
Andrews, assim põe a questão:
Quando falamos em reconduzir o equilibro para a terra, referimo-nos ao
elemento ausente, a “consciência feminina”. Ao dizer isso, não estou
afirmando que a mulher seja superior ao homem. Estou me referindo a
‘uma parte do nosso ser interior’.

Ou seja, a integração dos princípios masculino e feminino, ou seja, a “anima”


e o “animus”, como denominava Jung são indispensáveis para o desenvolvimento da
maturidade aqui trazida.
Curiosamente a Grécia clássica nos traz um mito conhecido, que é o do
Minotauro e que aponta para o caminho da integração do feminino e do masculino.
Sim, tal mito nos dá conta que Teseu o herói masculino, resolve enfrentar o
monstro preso no labirinto de Creta – o Minotauro – pois ele era uma permanente
ameaça à população. Armado de sua espada Teseu dirige-se ao labirinto, porém
antes de lá adentrar, sua namorada Ariadne diz que levasse um fio, que ficou
67
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) ESPÍRITO SANTO, Ruy Cézar

conhecido como fio de Ariadne, e que a medida em que entrasse no labirinto fosse
soltando o fio, para poder voltar, não ficando prisioneiro do labirinto... Sabemos
todos que o mito finda dando conta que Teseu mata o Minotauro e graças ao “fio de
Ariadne” consegue sair do labirinto... Não só está aqui inserida a importância da
integração dos princípios masculino e feminino, como também a “prisão” à violência
em que o patriarcalismo se coloca...Sem o principio feminino não há saída...
Para finalizar esse artigo, utilizando também forma mais sutil de reflexão vou
trazer um texto poético que visa expressar, de outra forma, o que trouxe para o
racional. Denomina-se “O Nascer da Consciência” e foi publicado em livro de minha
autoria denominado “Pedagogia da Transgressão”, na página 95/96:
Há um imenso universo à nossa volta
Luminoso
Infinito
Repleto e formas e de sons

Há um microcosmos também infinito à nossa volta


Das belas margaridas do campo
Às incríveis abelhas em suas colméias
Ao prodigioso mundo dos microorganismos

O Homem pensa
E vem pensando que por isso existe
Cria o “seu pequeno mundo”
Terrivelmente “seu” e separado do cosmos
Assim o Homem pensa que existe
Uma existência pequena
Limitada
Inexoravelmente mortal!

Não percebeu o Homem a Luz de sua Consciência


A Luz que brilha nas trevas do pensamento
A Luz que comunga com a energia maior do Universo
A Luz que permite profundas transformações

O Nascer dessa consciência


É a superação dos dualismos
Da ciência do bem e do mal
Da aventura plena da liberdade para a qual foi criado

O nascimento para esse universo infinito


Significa a percepção e a descoberta do mistério da Luz
Mistério sutil
Mistério de Amor

68
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) ESPÍRITO SANTO, Ruy Cézar

R E F E R Ê NC IAS

ABRAHAM, RALPH, MCKENNA, TERENCE e SHELDRAKE, Rupert. O Caos, a


criatividade e o retorno ao sagrado. São Paulo: Cultrix, 1994.

CAPRA, Fritjof. O ponto de mutação. São Paulo: Cultrix, 1990.

CHARDIN, Teilhard. O fenômeno humano. São Paulo: Cultrix, 1989.

EINSTEIN, Albert. Como vejo o mundo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1983.

ESPÍRITO SANTO, Ruy Cezar. Renascimento do sagrado na educação. Campinas:


Papirus, 1998.

_______. Pedagogia da transgressão. Campinas: Papirus, 1996.

_______. Desafios na formação do educador. Campinas: Papirus, 2003.

FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1970.

HOUSTON, Jean. A Busca do bem amado. São Paulo: Cultrix, 1993.

JUNG, C Gustav. Memórias, sonhos e reflexões. Rio de Janeiro: Nova Fronteira,


1975.

LELOUP, Jean Yves. O absurdo e a graça. Campinas: Verus, 2003.

SHIELD, Benjamin e CARLSON, Richard. Curar, curar-se. São Paulo: Cultrix, 1994.

SWIMME, Brian. O universo é um dragão verde. São Paulo: Cultrix, 1996.

WHITMONT, Edward. A busca do símbolo. São Paulo: Cultrix, 1997.

69
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) TORRES, Clérisson

OS NÍVEIS DO PENSAR E A CONSCIÊNCIA HUMANA

Clérisson Torres1
Renata Torres2

RESUMO
As ações humanas historicamente denunciam níveis mais ou menos elevados de razão, bom senso e
boa intenção que são expressões variadas do despertamento da consciência. Atualmente nossa forma de
pensar ainda aponta uma dificuldade de conter, minimizar e, principalmente, de extinguir, de maneira
abreviada e consciente, nossas vicissitudes do dia a dia gerando, por sua vez, em nós, na sociedade e no
mundo conseqüências devastadoras. Eis que o presente artigo tem como objetivo delimitar e discutir a
existência de três níveis do pensar e suas respectivas relações com a consciência e as condutas
humanas. A partir de pesquisa bibliográfica e da práxis clínica e educacional é apresentado um quadro
relacional que articula o pensar com pensamentos fixos/rígidos, o pensar com pensamentos flexíveis e o
pensar sem pensamentos como um conjunto de condutas e estados de consciência humana. Discute-se
os aspectos relevantes e problemáticos do pensar fixo, a importância do pensar flexível e a singularidade
do pensar sem pensamento. Conclui-se que todos os três níveis do pensar são necessários na escalada
evolutiva quer pelo sofrimento, pela razão ou pelo sentimento/intuição; não obstante, a atualidade exige a
emergência de se favorecer e incentivar, no mínimo, o pensar com pensamentos flexíveis na busca do
pensar sem pensamentos em prol da sublimação humana.
Palavras-chave: Pensar; Pensamento Fixo; Pensamento Flexível; Pensar sem Pensamentos;
Imaginação; Inteligência e Consciência.

O presente artigo delimita e discute a existência de três níveis do pensar


humano e suas respectivas relações com a consciência e as condutas humanas.
Refletir sobre as expressões do pensar humano é de essencial importância se
levarmos em conta o fato de que nossas ações são o resultado do que sentimos e
pensamos, quer consciente ou inconscientemente. Portanto, muito importa ponderar
sobre os três tipos de pensar que utilizamos no dia a dia. Parece que esses três

1 Clérisson Torres é Psicólogo, psicoterapeuta e professor universitário. É Mestre em Educação


(UFBA/FACED) tendo como objeto de pesquisa a Análise do Juízo Moral de Docentes e Discentes
Universitários. Especialista em Docência do Ensino Superior dissertou sobre o tema
"Autoconhecimento e a Consciência Moral, Ética e Estética: uma contribuição à formação de
educadores". Leciona a disciplina Conscienciologia em diversos cursos de pós-graduação e
graduação. Coordena a Linha de Pesquisa sobre Inteligenciologia do Núcleo de Estudos Avançados
em Ciências da Educação – NEACE, da Faculdade UNIME, em Lauro de Freitas-Ba. Contato:
clerissontorres@uol.com.br
2 Renata A. Torres, Bacharel em Direito, e Mestranda em Desenvolvimento Humano e

Responsabilidade Social na Fundação Visconde de Cairu e pesquisadora da temática


consciência no Núcleo de Estudos Avançados da Consciência vinculado ao referido mestrado. É
Especialista em direito processual pela Fundação Faculdade de Direito da Bahia, e em direito
tributário pelo Instituto Brasileiro de Estudos Tributários (IBET). É advogada e professora universitária
em cursos de graduação, já tendo lecionado disciplinas como: Conscienciologia, Direito
Constitucional, Direito da criança e do adolescente, Instituições de Direito Público e Privado e Direito
aplicado a administração.

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) TORRES, Clérisson

sintetizam as diversas expressões humanas que vão desde atitudes grosseiras e


rígidas às mais sutis ou inenarráveis.
Saber pensar tem sido objeto de exortação desde os filósofos gregos, em
particular, Sócrates (CLARET, 1996) até os dias atuais com a ciência da educação.
Não obstante, parece ser possível delimitar três formas de pensar que contemplam
os diversos juízos humanos presos ou não à relatividade cultural à que estão
submetidos.
É fato que desde os primeiros hominídeos até o homem atual o pensar sofreu
profundo desenvolvimento e aperfeiçoamento demonstrado externamente no
progresso técno-científico de nossa sociedade (SASAKI, 2006). Não obstante à
comodidade que a tecnologia nos oferece atualmente, ainda não alcançamos uma
comodidade interior, expressa por um equilíbrio dinâmico prudente, responsável e
compromissado consigo, com os outros e com o ambiente planetário.
Ilusoriamente, na idade moderna, o homem supervalorizou uma de suas
dimensões, a razão, bem como, supervalorizou uma das áreas do conhecimento, a
ciência, conforme o paradigma que possuía, fragmentando, assim, a compreensão
de si e do mundo.
Eis que, se o maior desafio humano é compreender a vida e seus ditames na
busca natural de segurança, satisfação e felicidade (TORRES, 2006) parece
importar a integração entre ciência, filosofia e religião, respeitando suas
singularidades, porém buscando fazer dessa diversidade uma unidade, de maneira
não fanática e nem incrédula quanto ao que é verdadeiro, belo e bom às
multidimensões humanas: corpo físico, mente, alma e espírito.
Com efeito, tanto a fragmentação do saber, como a busca de segurança,
satisfação e felicidade a qualquer custo denunciam a deficiência do pensar humano
já implantado, padronizado e disseminado pelos dogmas científicos, filosóficos e/ou
religiosos.
Com base na psicologia transpessoal, o pretenso artigo utiliza-se do método
indutivo e, para tanto, lançou-se mão de pesquisa bibliográfica e da práxis clínica e
educacional.
O corpo do trabalho foi dividido em duas partes. No primeiro momento, de
forma não exaustiva, é definido alguns conceitos básicos, como pensar,
pensamento, imaginação, inteligência e a relação entre eles. Também é discutida a

71
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) TORRES, Clérisson

razão do pensar e do devir que o mesmo pode gerar.


Posteriormente, são caracterizados os níveis do pensar humano, bem como
suas interseções, ponderando quanto às condutas e os níveis de consciência
humana relativos aos mesmos.
Ambas as partes, pretendem responder o objetivo principal desta pesquisa:
delimitar e discutir a existência de três níveis do pensar e suas respectivas relações
com a consciência e as condutas humanas.

D E F ININDO A L G UNS C ONC E IT OS

Entende-se como pensar o ato de refletir, julgar, raciocinar, planejar,


preocupar-se ou lembrar de algo ou alguém, e como pensamento, a faculdade de
pensar, de fantasiar, imaginar, sonhar uma vez que é um ato do espírito ou
operação da inteligência (PENSAR, 1990; PENSAMENTO, 1990).
Ambas as palavras têm sido compreendidas como sinônimo, pois pensar é
combinar idéias, opiniões, ou seja, é formar pensamentos. Portanto, parece
impossível desatrelar o pensar do pensamento.
Não obstante, em toda a filosofia, segundo Abbagnano (2003) há quatro
significados distintos para a palavra pensamento: a) atividade mental ou espiritual; b)
atividade do intelecto ou da razão; c) atividade discursiva; d) atividade intuitiva.
No primeiro caso, o pensamento tem um significado muito amplo, pois
qualquer atividade mental ou espiritual, como desejar, entender, imaginar, bem
como, sentir, amar, são manifestações do pensamento humano. Como
representantes dessa concepção há Descartes (1999) e Spinoza (2005).
Em contraposição ao primeiro significado, o pensamento enquanto atividade
intelectual ou da razão, tem, por exemplo, alguns representantes mores: Platão,
Aristóteles, S. Agostinho e S. Tomás de Aquino, conforme Abbagnano (2003). Nesse
caso, valora-se tanto o pensamento discursivo, ou seja, articulado, indagador,
questionador sobre um objeto de estudo, como o intelecto intuitivo, que busca a
identificação com o objeto de estudo. Aqui o pensamento discursivo e o pensamento
intuitivo coincidem-se, pois o primeiro é um encaminhamento ou preparação para o
segundo.
O terceiro significado valora apenas o pensamento discursivo enquanto
operação que o espírito faz das próprias idéias. Segundo Abbagnano (2203) o

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) TORRES, Clérisson

pensamento discursivo, que prima por conceituar, confrontar, sintetizar, “nunca se


identifica com o seu objeto, mas versa sobre ele, ou seja, caracteriza-o e o
expressa” (p. 752).
Já o quarto significado entende que pensamento e intuição são conceitos
similares. Nesse sentido, o que caracteriza o pensamento intuitivo é a
autoconsciência que o indivíduo apresenta por conceber ou identificar-se
diretamente com o inteligível em sua atividade intelectual. Aliás, parafraseando
Abbagnano (2203) intelectual na época grega era aquele que pensava
intuitivamente, logo contemplava o inteligível, ou seja, a essência das coisas.
Em contrapartida, o racionalismo da Idade Moderna e o desenvolvimento
técno-científico ocidental restringiu o conceito de intelectual às habilidades
lingüísticas e lógico-matemáticas, bem como, desatrelou o intelectual do sentimento,
dos conhecimentos sensíveis ou estéticos do viver (GARDNER, 1999; 2001).
Diante do exposto, é notório que o pensamento está atrelado ao pensar, uma
vez que este combina e forma pensamentos. Não obstante, há um nível muito
diferenciado, sutil e abstrato do pensamento que não é caracterizado pela
combinação de idéias ou opiniões, mas sim pela atividade intuitiva de identificação
com o objeto interno ou externo de estudo, enquanto visão direta, correta e completa
do inteligível (PLATÃO, 1999; ARISTÓTELES, 1999).
Isto norteia a proposição que será feita no capítulo seguinte quanto à
diferenciação entre pensar e pensamento. No momento, importa definirmos dois
outros conceitos fundamentais: imaginação e inteligência.
Segundo o dicionário de psicologia de Doron e Parot (1998) imaginação é a
“aptidão para formar e para ativar imagens mentais” (p. 410) independente da
presença do objeto a que se refere.
Conforme Doron e Parot (1998) a atividade imaginária pode permanecer
estritamente mental como nas fantasias ou sonhos diurnos, como pode constituir-se
em produções concretas nas invenções ou criações intelectuais ou artísticas.
No primeiro caso, devido à falta de controle intelectual ou devido à suposta
dissolução da consciência, a imaginação pode produzir em certos indivíduos um
mundo imaginário “que constitui o mundo real e que encarna os elementos
constitutivos do seu delírio” (DORON e PAROT, 1998, p.410), que é uma forma de
psicose caracterizada pela produção de idéias e discursos extravagantes.

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) TORRES, Clérisson

De maneira menos patológica, porém problemática, Spinoza (2005) que


sempre tende a atribuir à imaginação todos os erros da mente humana, sustenta que
a mente não erra quando imagina, mas erra quando acredita nas coisas imaginadas
que de fato não estão presentes, ou mesmo, quando a mente se fixa a uma idéia ou
pensamento e se deixa levar pelos mesmos.
Portanto, é perceptível que no ato de imaginar o indivíduo não só produz
imagens, mas também idéias ou pensamentos embutidos em tal imaginação.
Em contrapartida atribui-se também à imaginação a capacidade de criar,
produzir, mudar ou implementar novas idéias em todos os campos do saber. Essa
capacidade de imaginação corresponde ao pensamento discursivo. Logo para tal
deve haver uma integridade psíquica que favoreça tais construções.
Tal integridade ou inteireza dos pensamentos demanda e denuncia a
participação ou expressão de outra faculdade humana, a inteligência. Pois a
inteligência é uma faculdade ligada ao entendimento ou apreensão de relações. De
maneira geral, perante diversas definições existentes, a inteligência é a “capacidade
de bem comportar-se em novas situações com base em percepções ou de
solucionar problemas com o auxílio do pensamento [...]” (DORSCH, 2004, p. 494).
Piaget (1998), por exemplo, define inteligência como a capacidade que todo
organismo possui de adaptar e organizar-se perante as exigências das interações
endógenas e exógenas. Ora, quando não nos adaptamos ou organizamo-nos
perante as intempéries do viver, logo não sendo inteligente suficiente para resolver
tais problemáticas, tendemos como sustentou Freud (1976) a lançar mão de
mecanismos egóicos de defesa que em grau maior ou menor são expressões de
nosso imaginário. O excesso desses mecanismos são as nossas expressões
neuróticas.
Gardner (2001) amplia o conceito de inteligência para diversas expressões da
psiquê humana quando sustenta a presença de múltiplas inteligências. Entende
inteligência como “um potencial biopsicológico para processar informações que pode
ser ativado num cenário cultural para solucionar problemas ou criar produtos que
sejam valorizados numa cultura” (p.147).
Portanto, se levarmos em conta que o nosso maior desafio é compreender a
vida em seus eternos ciclos de estabilidade e caos (BARRETO, 2005) parece
primordial e salutar o despertamento e desenvolvimento de tais potenciais

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) TORRES, Clérisson

biopsicológicos.
Eis que cabe à educação tal papel, ou noutras palavras, favorecer o Saber
Pensar, o que pressupõe a habilidade de pensar com a participação da inteligência
gerando atitudes e condutas que expressam de maneira integral e interdependente
razão, bom senso e boa intenção, embasadas em princípios universais dos direitos
humanos ou “antropoéticos” de conduta, conforme Edgard Morin (2000) .
Diante de todo o exposto, é evidente que tanto a faculdade humana de
imaginar, produzir pensamentos, como a de inteligir sobre os mesmos são
essenciais para a compreensão da vida e de seus ditames.
Tal compreensão só é possível através do viver. E viver é ser, é estar em
relação consigo e com o todo do qual fazemos parte, conforme Barreto (2005).
Então, devemos tirar proveito do valor real e genuíno das relações.
Seguindo a mesma linha de raciocínio, Torres (2006) ressalta que o valor
significativo da vida apreendida através das relações não está na busca de
segurança, sucesso e felicidade, mas sim na auto-revelação, ou seja, na percepção
do que a nossa vida interior, quer física, psíquica ou moral (espiritual) nos revela,
como as vicissitudes que apresentamos no dia a dia, a exemplo do ciúme, inveja,
pesar, angústia, ânsia, nervosismo, preguiça, avareza, orgulho e outros que somos
acometidos.
Noutras palavras, racionalizamos quando redefinimos a realidade (FREUD,
1976) dizendo que tal pessoa está nos deixando nervosos, ciumentos ou irritados.
Logo, descomprometemo-nos de perceber que, independente das intenções de tais
pessoas, a vida através delas está nos revelando que ainda reagimos de forma
irritadiça, nervosa ou ciumenta.
Eis que muito importa o saber pensar, pois uma vez contatado com algo ou
alguém estes nos geram sensações objetivas ou subjetivas. Tais sensações
expressas em nós pelo sentir nos impulsionam pela necessidade, a saber, o que é.
É a partir daqui que começa a nossa problemática quando fazemos uso do pensar,
mas ao mesmo tempo a nossa possibilidade de evolução ou aperfeiçoamento, quer
pelo sofrimento, pela razão ou pelo sentimento/intuição. Isto porque quando
labutamos com o pensar podemos expressá-lo por formas diferenciadas de fantasia,
entendimento e/ou compreensão (KRISHINAMURTI, 1999).
Diante do que sentimos buscamos pensar para saber o que é, todavia,

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) TORRES, Clérisson

sempre que pensamos criamos uma imagem ou símbolo de tal sensação. Portanto,
nunca podemos perder de vista que o que dizemos ser não é o que é, mas o que
pensamos ser (SPINOZA,2005).
É natural que busquemos segurança perante o que sentimos. A problemática
está em perdemos o contato direto, correto e completo com o desconhecido, com o
que é tal qual é, a sensação, já que é através dela que pode haver tanto o
surgimento de insights como o despertamento dos nossos sentimentos enquanto
fruto das experiências, ou seja, nossa sabedoria interior.
Ao sentir algo e denominar de ciúmes, por exemplo, é natural que nossa
imaginação evoque lembranças, conhecimentos, idéias, opiniões acerca do
experimentado e assim, por exemplo, produza pensamentos diversos que nos levam
a desejar ser senhor dessa situação, logo de ter controle e ou domínio sobre a
mesma.
Tal desejo de mudar a situação fenomênica caracteriza o devir humano, uma
vez que tal vir-a-ser traz-nos satisfação de ter ou ser aquilo que elimina nosso
incômodo.
Ora, se pensamos na busca de segurança perante o que sentimos, ao sermos
contatados pelo que dizemos ser ciúme, e se desejamos na perspectiva de
satisfação conforme a nossa noção de viver, que reflete nosso maior ou menor grau
de consciência da finalidade da vida e da razão de existirmos, então, tendemos a
procurar o prazer na busca natural de felicidade.
Os transtornos psicossomáticos são possíveis expressões de quem buscou a
qualquer custo tal segurança, satisfação e felicidade. Noutras palavras é quando o
ser humano chega à dor pela frustração perante o infortúnio acometido que é
convidado pela vida à reflexão.
Parece que a vida é o que contatamos, sentimos ou até mesmo o que
pensamos que ela seja; parece que a finalidade da mesma é a evolução,
aperfeiçoamento ou aprimoramento de nossa constituição física, psíquica e moral
quando desejamos e buscamos prazer nos desafios e contingências do viver; mas
parece, também, que a razão ou justificativa da vida é explicitamente exposta
quando experimentamos a dor tanto das conseqüências de nossas ações, como das
expressões, lembranças e desejos não realizados, ou até mesmo como produto
natural da transformação alquímica do nosso ser.

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) TORRES, Clérisson

É nesses momentos de dor que buscamos o método para a solução de


nossas necessidades pelo uso de nossas forças psíquicas como a reflexão,
concentração, meditação, vibração, percepção, contemplação e/ou exaltação
(TORRES, 2001; BARRETO, 2005). É pelo uso de nossas forças mentais que
podemos perceber e, por conseguinte, conceber, através das relações internas e
externas, valores, códigos, princípios ou leis morais, éticas e estéticas mais
elevadas.
Com efeito, são nesses momentos que mais uma vez, consciente ou
inconscientemente, perguntamos: quem somos, de onde viemos e para onde vamos.
De igual forma, são nesses momentos de transformação interior, não apenas pelo
sofrimento, mas pela razão e/ou sentimento/intuição, que melhor concebemos o
princípio criador, a finalidade da vida e a razão de nossa existência.
Conclui-se que é pelo uso de nossas forças psíquicas que aprendemos a
saber pensar à medida que vamos constantemente delineando os métodos,
recursos e as fontes para solucionarmos nossas decepções, dores e sofrimentos no
viver.

OS NÍV E IS DO P E NS AR E A C ONS C IÊ NC IA HUMANA

Neste momento parece razoável pensar na diferenciação entre pensar e


pensamento. Até mesmo porque pensar é verbo, é ação, e pensamento é
substantivo, produto do pensar.
Sustentar a existência de três níveis do pensar não traz nenhuma novidade
quanto às expressões já conhecidas do pensar humano discutidas no início desse
artigo. No entanto, elucida e esclarece melhor tais expressões por apresentar de
maneira didática e dialética suas diferenciações e interconexões.
Delimitam-se aqui três níveis do pensar: o pensar com pensamento
fixo/rígido; o pensar com pensamento flexível e o pensar sem pensamento
(ORGANIZAÇÃO, 2002). Os dois primeiros estão muito relacionados ao pensamento
convergente e divergente, respectivamente, sustentados por Guilford (1967 apud
SPRINTHALL,1993). Porém eles são articulados às condutas e estados da
consciência humana.
Já o pensar sem pensamento aqui exposto elucida melhor o que é esse

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) TORRES, Clérisson

estado de ser humano diretamente relacionado à inteligência uma vez que não há
participação do pensamento, logo da imaginação.
Por sinal, segundo Abbagnano (2003), S. Agostinho e S.Tomás de Aquino
recusavam-se a estender ao pensamento a atividade intuitiva de conceber a
essência das coisas. Afinal, S. Tomás de Aquino pontuava que a imaginação
limitava-se a captar apenas a semelhança e não a essência das coisas.
Em função do contexto existencial deste artigo, prefiro quebrar,
momentaneamente os fundamentos estruturais que constituem um artigo
acadêmico, para, a partir daqui expor de maneira mais coloquial e exemplificada tais
níveis do pensar humano.
A distinção que ora fazemos entre pensar com pensamentos fixos/rígidos;
pensar com pensamento flexível e pensar sem pensamentos é para refletirmos
sobre o poder que o pensamento tem, tanto de forma benéfica, como de forma
maléfica, e as suas respectivas relações com a consciência e as condutas humanas.
Ou seja, o pensamento pode nos ajudar a abreviar o crescimento, a
compreensão de algo, mas também nos inibir. Existem certos pensamentos que nos
inibi, amortece, gera medos, enfim, nos escraviza a certos modelos, a certos
padrões, nos distanciando cada vez mais do sentir, portanto, do real das coisas. Eis
abaixo dois quadros que sintetizam o que será exposto neste tópico.

Quadro 1 – Quadro síntese dos níveis do pensar I.

NÍVEIS DO ESTADO NÍVEL DA


FACULDADE MEMÓRIA PSICOPATOLOGIA
PENSAR MENTAL RAZÃO
Pensar com Psicose
- Técnica
Pensamento Aquém da
Fixo/ Rígido Imaginação - Psicológica Neurose
Razão
(Convergente) Cheia (complexos) Normal

Neurose
Pensar com Imaginação (Busca aproximar-se das
Pensamento Leis da Natureza
Flexível + Razão - Técnica
Aberta conforme sua
Inteligência Consciência)
(Divergente)
Normal

Pensar Inteligência Normal


sem Além da
Não há Memória (Identificação com as
(Insight/Intuição) Vazia Razão
Pensamentos Leis Naturais)

Fonte: Pesquisa direta, 2006.

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) TORRES, Clérisson

O pensar com pensamentos fixos/rígido está diretamente relacionado à


nossa faculdade da imaginação, pois quando assim pensamos criamos uma imagem
de algo ou alguém e a sustentamos em diversos níveis das relações humanas,
agindo com base estritamente nesse padrão imagético. O pensamento fixo, ou
convergente, porque converge a algo, tem, portanto, a tendência de se intensificar
tornando-se rígido, uma vez que ele fica preso à nossa memória começando a fazer
parte de nossos condicionamentos.
A memória técnica que trazemos das coisas como amarrar um sapato,
escrever no caderno, tomar banho, é decorrente do pensamento fixo. Nesse sentido
o compreendemos como algo necessário e até imprescindível para a sobrevivência
humana. O problema decorre de sua intensificação que acontece quando
guardamos uma memória não só técnica, mas psicológica de algo ou alguém.

Quadro 2 – Quadro síntese dos níveis do pensar II.

NÍVEIS DO NÍVEIS DO APRENDI- TENDÊNCIA MEIO DE FORÇA O QUE


PENSAR SABER ZADO EDUCACIONAL ABSORÇÃO PSÍQUICA DESPERTA

Pensar com
Sofriment
Pensamento Concen-
Conhecimento o Tradicional Recebe Vontade
Fixo/ Rígido tração
(+ esforço)
(Convergente)
Pensar com
Conhecimento
Pensamento Razão Constru- Contem-
Flexível
Autoconhecimento Percebe Consciência
(- esforço) tivismo plação
(Divergente)
Pensar Conhecimento Sentimento
Holismo / Exalta-
SEM Autoconhecimento (Sem Concebe Ciência
Criativismo ção
Pensamentos Auto-realização esforço)

Fonte: Pesquisa direta, 2006.

Eis que a memória psicológica, como por exemplo, o medo, o rancor e a


depressão são complexos, ou seja, resquícios psíquicos de situações inacabadas,
indesejáveis, traumáticas. Dessa forma, ficamos presos a algumas idiossincrasias
nossas, ou seja, a algumas maneiras de sentir, pensar e agir ou reagir em certas
circunstâncias utilizando-se dos diversos mecanismos egóicos de defesa.
O pensamento fixo/rígido que gera a memória psicológica tem a tendência,
portanto, de nos aprisionar e impedir a manifestação da inteligência, pois ficamos
atrelados às idéias, imagens de algo ou alguém com a enorme dificuldade de
conseguir suplantá-las tendo em vista a quantidade de pensamentos gerados por

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) TORRES, Clérisson

esse nível do pensar, recebidos por nós e pouco percebidos.


Esse tipo de pensamento demonstra, portanto, uma mente cheia de idéias,
imagens já criadas, levando-nos a agir preponderantemente aquém da razão,
acarretando, por conseqüência, muitos transtornos psíquicos e em alguns casos,
dependendo do nível de intensidade, levando-nos ao surto psicótico, que revela a
intensificação do pensamento fixo ao máximo sem possibilidade de qualquer espaço
para um mínimo de discernimento.
De fato, temos aprendido mais pela dor do que pela razão e
sentimento/intuição, demonstrando que pensamos mais de forma fixa, por receber e
ser susceptível a pensamentos de outros ou nossos, e menos de forma flexível ou
sem pensamentos, que nos leva à percepção e concepção dos mesmos,
respectivamente.
Em verdade, esse nível de pensamento denuncia a nossa dificuldade de
concentração e pouco, ou quase nenhum, conhecimento sobre nós mesmos. Eis
que estamos à mercê das frustrações que nos geram decepções, dores e
sofrimentos que, por sua vez, nos exige refletir e concentrar fazendo com que
aprimoremos a qualidade do querer despertando, assim, a nossa vontade, nosso
desejo consciente.
Ele se propaga também em diversas áreas do nosso viver, a exemplo da
educação tradicional, que ainda predomina em nossa sociedade e prima pela
transmissão de informações buscando moldar o indivíduo à sociedade sem espaço
para a construção/reflexão de suas próprias idéias. Noutras palavras, sem espaço
para os educandos adentrar em outros níveis do pensar na busca do
autoconhecimento.
Assim, o conhecimento que é valorizado é aquele decorrente da transmissão
de informações e não o fruto das indagações e reflexões dos educandos. Longe de
ser um processo de dentro pra fora, o que a educação nos revela mesmo é um
processo de fora para dentro. E nesse sentido somos cada vez mais incentivados
apenas a um desenvolvimento intelectual, a uma habilidade, quando muito, nas
relações interpessoais, pouco nas relações intrapessoais, e nada nas relações
transpessoais, como se o saber fosse condição não só necessária, mas também
suficiente para prevenir ou minimizar o caos em nossa sociedade.
O pensar com pensamento flexível está relacionado à nossa faculdade da

80
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) TORRES, Clérisson

imaginação, uma vez que produzimos pensamentos, mas atrelada à inteligência,


pois nesse caso, a imaginação aparece direcionada pela inteligência. Portanto,
diferentemente do pensar fixo, quando pensamos com inteligência estamos abertos
a rever nossos conceitos, valores, a perceber os nossos próprios pensamentos, a
nos autoconhecer.
Para GARDNER (2001), a inteligência é a capacidade humana de resolver
problemas, de criar produtos culturalmente aceitáveis, necessários e essenciais. Ou
seja, é a capacidade de reconhecer a verdade que se insere em algo, de se adaptar
e se organizar as situações de pressão.
Nessa perspectiva, a inteligência exige de nós uma percepção de nossas
resistências interiores, de nossas dificuldades, de nossos pensamentos, para que
possamos lidar melhor conosco mesmos, e por conseqüência com os outros
também. Com efeito, ser inteligente é apresentar três características: auto-
percepção, adaptação e capacidade de lidar de forma sempre nova com as
circunstâncias da vida, ou seja, criatividade.
Diferentemente do pensamento fixo, nesse nível do pensar, o indivíduo busca
não apenas receber a vida, seus processos e significantes culturais, mas percebe-
los buscando descobrir das coisas a sua real função, a razão de existir.
Portanto, no pensar flexível, o indivíduo ao usar da razão, só guarda as
memórias técnicas e não as psicológicas, como raiva, medo, pois tende a dirimi-las
através da compreensão.
O autoconhecimento predomina no pensar flexível, pois ao invés do indivíduo
permanecer com suas idéias fixas vai se interiorizar na busca de sempre rever os
seus conceitos e valores.
Com efeito, podemos verificar que a moderna tendência educacional
denominada educação construtivista reflete esse tipo de pensamento, pois sua
proposta está inserida na concepção de uma educação interacionista ou sócio-
interacionista onde o educando é convidado a construir e desconstruir o
conhecimento em função não só de sua realidade sócio-histórica, mas existencial e
espiritual (TORRES, 2005)
De outra parte, a relação intrapessoal é acentuada, pois o indivíduo que é
educado a construir e desconstruir o conhecimento aprende a lidar melhor com seus
questionamentos, a descobrir as suas potencialidades, desenvolver a razão, e por

81
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) TORRES, Clérisson

conseqüência, a despertar a sua consciência que, conforme Barreto (2005, p. 49):


é uma das mais importantes faculdades inatas capitais do Ser Humano
que lhe possibilita, além de saber e sentir, suficientemente, acerca da
realidade, segundo não só conhece, mas também se aproximar daquilo
que estabelece aquela moralidade universal que a conduta dos corpos
celestes denuncia, numa perspectiva de identificação.
Portanto, a consciência favorece compreender a realidade, o valor
significativo real das relações e para tal se faz necessário ao homem lançar mão da
contemplação prioritariamente, pois esta se apresenta como uma força psíquica que
lhe oportuniza perceber que a concepção não deixa resíduos psicológicos
(TORRES, 2001; BARRETO, 2005).
O pensar sem pensamentos, por sua vez, é a manifestação da inteligência
pura, sem qualquer produção de pensamentos. É um estado atemporal, que não
deixa qualquer resquício ou lembrança. É um estado que vai além da razão, além do
conhecido. Não obstante a não produção de memória, nesse nível do pensar, o
indivíduo constrói sentimentos, ou seja, sabedoria interior, o fruto de suas
experiências.
Neste momento importa melhor caracterizar o sentimento diferenciando-o da
emoção, pois enquanto esta última é uma manifestação irrefletida, o sentimento é
uma opção consciente.
De igual forma, o sentimento se difere do pensamento, pois enquanto este é
relativo à memória, e prima assim por definições, o primeiro está relacionado apenas
à inteligência que favorece a concepção, que é um estado inconcebível de
concepção, ou seja, inenarrável, indizível.
Deste modo, o pensar sem pensamentos favorece intuições. Neste nível do
pensar a mente está em pleno estado de vazio ou plenitude. É a partir desse estado
que o indivíduo vem perceber que teve (passado) uma intuição, e, por conseguinte,
uma vez perceptível do que concebeu, flexibiliza de imediato o pensamento
fixo/rígido, expressando um outro nível do pensar que é o pensar com pensamentos
flexíveis.
Verificamos, portanto, que a dinâmica das relações favorece ao ser humano a
oportunidade de transitar pelos níveis do pensar, pois como vimos ambos são
necessários em contextos existenciais distintos, fazendo parte assim de nosso
processo de desenvolvimento humano. Por isso muito importa conhecermos os três
níveis do pensar humano para sabermos como melhor aproveita-los, ou seja, de

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) TORRES, Clérisson

forma sempre que possível benéfica.


Ainda no que se refere ao pensar sem pensamentos, importa identificá-lo
como uma ação em que o indivíduo age sem consciência de si, porém com total
vontade, consciência e ciência em si do que faz. Vale dizer, o indivíduo é capaz de
fazer algo sem saber que era capaz de fazer, como por exemplo, salvar a vida de
alguém a nado sem saber nadar, ou pegar o sabão que escorregou da mão de
maneira reflexa, sem saber explicar como assim o fez porque agiu com base na
inteligência objetiva.
Em acréscimo, o pensar sem pensamento pressupõe um estado em que o
indivíduo se contata diretamente com os seus próprios vícios e ou complexos
integrando-se aos mesmos sem tempo e espaço, fazendo com que esse estado de
plena integração transmute tais vicissitudes pela sua dissolvição. Eis uma
concepção transpsicológica em que o indivíduo é capaz de transformar suas
condutas, não pela resignificação de conteúdos, mas pela alquimia de seus
elementos.
A experiência de tal estado de pensar humano favorece a exaltação que é o
momento em que o indivíduo alcança a plenitude do ser apresentando por sua vez
níveis cada vez mais elevados de ludicidade em suas relações do dia a dia.
Eis o estado de uma educação holística, ou melhor, criativista, pois ambas
procuram trabalhar o homem em suas múltiplas dimensões na busca não só de
experiências inter e intrapessoais, mas também transpessoais, numa perspectiva de
transcendência humana.
Esse tipo de educação valora o pensar sem pensamento, pois entende que
esse estado é o estado de ser criatividade que oportuniza por sua vez a divergência
ou flexibilização do pensamento humano.
Assim, a constância em adentrar no pensar sem pensamentos faz com que o
indivíduo comece a conceber que a sua natureza interna é idêntica à natureza
externa, ou seja, a “sua” consciência é a manifestação das Leis Universais,
expressando ele a divindade em si. Eis o estado dos iluminados, dos bem
aventurados, dos imutabilizados.

C ONS IDE R AÇ ÕE S F INAIS

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) TORRES, Clérisson

Tanto o movimento da vida no homem como o movimento do homem na vida


exige, entre outras qualidades, o pensar. E saber pensar é essencial particularmente
à espécie humana, que busca compreender a lógica da vida, a razão de sua
existência em múltiplas dimensões do viver, física, afetivo-emocional, cognitiva,
social, moral, existencial e espiritual.
Portanto, primar em diferenciar o pensamento em três níveis é uma maneira
de sintetizar a expressão destes nas diversas dimensões do viver humano na busca
do autoconhecimento, que é deveras desagradável ou até mesmo desesperador,
porém imprescindível à evolução.
O agir humano embasado no pensar com pensamentos fixos tem a sua
necessidade por razão de ser dentro de uma perspectiva utilitária, logo de economia
psíquica. Todavia, quando temos uma pseudo-necessidade de sustentar uma
imagem ou idéia de algo, de uma situação ou de alguém, negamos a nossa
capacidade de inteligir, ou seja, de evoluir abreviada e, principalmente, consciente,
perante os desafios da vida.
Pensar de maneira flexível, em trocadilho, é reconsiderar as considerações
feitas da coisa considerada. Tal consideração deve estar embasada em princípios
universais, tais como aqueles que as condutas dos corpos celestes denunciam como
referência ou perspectiva e não como dogma, pois merece não só constante reflexão
e concentração, mas primordialmente contemplação.
Pois, é a contemplação que nos aproxima que nos eleva a expressar cada
vez mais beleza, força e sabedoria de maneira justa e perfeita em ambas as
dimensões do ser.
Enquanto o pensamento fixo/rígido nos condiciona a uma realidade, o
pensamento flexível caracteriza-se pela construção e desconstrução de verdades no
propósito de aproximar-se de princípios universais de verdades absolutas. Portanto,
o relativismo cultural, ainda que tenha ontogeneticamente razão de ser, não só
condiciona como limita a visão do inteligível, a identidade com o objeto, a
sensibilidade estética, a noção de alma, de consciência e de lei natural, ou seja, a
experiência transpessoal.
Eis que o pensar sem pensamento é um desafio ousado e salutar da
transpsicologia, uma pretensa abordagem que concebe a possibilidade humana de
dissolver memórias, complexos, vícios capitais, de maneira abreviada e consciente,

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) TORRES, Clérisson

por conceber a possibilidade da alquimia interior, da sublimação, iluminação,


perfeição ou auto-realização pela luz da própria essência imutável que reside em si.

R E F E R Ê NC IAS

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) PRUDENTE, André

Capítulo 6

O ENEAGRAMA COMO MAPA DA CONSCIÊNCIA

André Barreto Prudente 1

RESUMO
Esse artigo apresenta o sistema de compreensão da realidade denominado Eneagrama como um
mapa de consciência. Tendo raízes orientais, o Eneagrama chegou ao ocidente no século XX como
uma poderosa ferramenta de interpretação dos processos de manifestação da consciência no mundo.
Ele é estruturado na forma de um símbolo geométrico composto por um círculo, um triângulo e uma
héxade, e refere-se a nove maneiras básicas de expressão da essência (espírito) na existência
(matéria). A sabedoria do Eneagrama permite indivíduos e grupos perceberem como fragmentam sua
consciência de que são unidades holisticamente integradas por identificarem-se demais com um dos
tipos padrões manifestos, chamados de Traço Principal. Além disso, os auxilia na libertação desse
traço a partir da descoberta do que lhes é essencial.
Palavras-chave: Mapa da Consciência; Símbolos.

INTRODUÇÃO

A melhor maneira de definir o Eneagrama é chamá-lo de um mapa integral da


consciência. Suas variadas nuances mostram como ele pode ser utilizado para a
leitura tanto de realidades individuais quanto coletivas, revelando-se uma excelente
ferramenta hermenêutica.
Maitri (2000, p.21) afirma que o Eneagrama funciona como um símbolo
arquetípico, o qual serve à arte de interpretar os mais diversos processos e
princípios físicos, psicológicos e espirituais. Portanto, ele é um sistema de
autoconhecimento e de entendimento das relações humanas e do mundo, o qual é
representado na forma de uma figura matemática. Trata-se especificamente de uma
arquitetura geométrica na qual é estruturada uma “arquitetura” psicológica e
espiritual: 1) um círculo, um triângulo e uma héxade compõem a arquitetura

1Coordenador geral, psicoterapeuta, facilitador de eneagrama e consultor empresarial do NEHSE –


Núcleo de Evolução Humana de Sergipe. Graduação e Mestrado em Psicologia pela USP/Ribeirão
Preto. Membro Profissional da IEA – International Enneagram Association. Membro Associado da
AETNT - Association of Enneagram Teachers in the Narrative Tradition. E-mail: andre@nehse.com.br

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) PRUDENTE, André

geométrica estruturada na forma de uma estrela de nove pontas2 (ver figura 1) 3;


2) em cada ponto dessa arquitetura geométrica descobrem-se diferentes processos
psicoespirituais (“arquitetura” psicológica e espiritual) encarnados em ações, os
quais podem obstruir ou ampliar a consciência individual e/ou coletiva; 3)o
Eneagrama revela nove processos psicoespirituais como nove formas básicas de
manifestação da essência na existência 4.

O ENEAGRAMA E SUA HISTÓRIA

A sabedoria do Eneagrama não foi criada por um único homem em um único


momento. Remontam a vários mestres e diretores espirituais e há mais de 2.000
anos as suas raízes mais antigas. Esse mapa de consciência foi sendo construído,
durante muito tempo, até chegar a sua forma atual.
Segundo Paterhan (2003) 5, as idéias trazidas pelo Eneagrama já existiam nas
concepções elaboradas pelos pitagóricos, por Platão e seus discípulos (como
Plotino) e no hermetismo. Sobre isso, Riso e Hudson (1999, p.29) 6 dizem:
As origens exatas do símbolo do Eneagrama se perderam na História; não
sabemos de onde ele vem, da mesma forma que não sabemos quem
inventou a roda ou a escrita. Diz-se que surgiu na Babilônia por volta do ano
2500 a.C., mas há poucas provas em favor dessa hipótese. Muitas idéias
abstratas relacionadas ao Eneagrama, para não falar em sua geometria e
derivação matemática, sugerem que ele pode ter origem no pensamento
grego clássico. As teorias a ele subjacentes podem ser encontradas nas
idéias de Pitágoras, Platão e alguns filósofos neoplatônicos. Seja como for,
ele certamente pertence à tradição ocidental que deu origem ao judaísmo,
ao cristianismo e ao islamismo, bem como à filosofia hermética e gnóstica,
cujos indícios podem ser vistos em todas as três grandes religiões
proféticas.

Rohr e Ebert (1992, p.23) 7, afirmam que esse conhecimento foi sintetizado na
forma de um símbolo a partir das descobertas matemáticas dos islâmicos sobre o
valor do zero e o sistema decimal e que o nome Eneagrama só surgiu
posteriormente. A palavra Eneagrama origina-se dos vocábulos gregos Ennea

2 Mais adiante, no tópico “O simbolismo do Eneagrama”, é explicado o significado de cada uma das
partes da figura matemática do eneagrama.
3 A figura 1 está no final do tópico “O simbolismo do Eneagrama”.
4 No corpo do texto são discutidas e explicadas as questões apresentadas nesses itens.
5 PATERHAN, Christian. Eneagrama: um caminho para o seu sucesso individual e
profissional. São Paulo: Madras, 2003.
6 RISO, D. R.; HUDSON, R. A sabedoria do Eneagrama. São Paulo: Cultrix, 1999.
7 ROHR, R; EBERT, A. Eneagrama: as nove faces da alma. Rio de Janeiro: Vozes, 1992.

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) PRUDENTE, André

(nove) e Gramma (pontos, algo escrito, letra, figura ou modelo) 8, recebendo a


tradução literal de “figura de nove pontas”, e fazendo referência à arquitetura
geométrica, psicológica e espiritual revelada pelo símbolo ao qual está atrelada.
O Eneagrama chegou à época moderna por meio da tradição oral, sendo
passado de mestre para discípulo por séculos, e, para Maitri (2000, p.219-20)9, esse
é o motivo de suas origens estarem envoltas em mistérios. Contudo, sabe-se que ele
foi levado do Oriente para o Ocidente pelo caucasiano George Ivanovitch Gurdjieff
(1870-1949) e seus seguidores, na década de 1920, e pelo boliviano Oscar Ichazo,
nas décadas de 1960 e 1970.
Riso e Hudson (1999, p.29) 10 explicam que Gurdjieff viajou por vários
continentes e países, conhecendo monastérios e santuários remotos e aprendendo
acerca das antigas tradições sapienciais da humanidade. Numa dessas viagens,
possivelmente à Turquia ou ao Afeganistão, teria entrado em contato com uma
ordem secreta sufista 11 denominada Fraternidade de Sarmoung (Fraternidade das
Abelhas), com a qual aprendeu sobre o Eneagrama. Este se tornou a base do seu
sistema de transformação da consciência “O Quarto Caminho”, o qual foi ensinado
inicialmente por ele e seus seguidores na década de 1920.
Melendo (2001, p.11)12 esclarece que Gurdjieff referia-se a essa “figura de
nove pontas” como um mapa de processos naturais, sem chamá-lo de Eneagrama, e
que a sua utilização para compreensão de padrões psicológicos obstrutores da
consciência 13 só aconteceu a partir da divulgação das idéias de Oscar Ichazo. Rohr
e Ebert (1992, p.25) 14 afirmam que Ichazo foi a primeira pessoa a fazer uma
correlação entre a espiritualidade e a psicologia do Eneagrama, trazendo esse mapa
de consciência como um “espelho da alma”.
Ichazo aprendeu sobre esse sistema com mestres sufistas em Pamir, no
Afeganistão, antes de tomar conhecimento dos escritos de Gurdjieff. Melendo (2001,

8 Melendo (2001, p.12) afirma que o vocábulo “grama” vem de “grammos”, significando pontos.
Webb (1998, 11) explica que ele vem de “gramma”, sendo interpretado como “algo escrito”.
Palmer (1999, p.18) mostra que sua raiz está no termo “grama” recebendo o sentido de letra,
figura ou modelo. Por isso, várias traduções são possíveis para essa palavra.
9 Ibid., p.219-220.
10 Ibid., p.29.
11 No próximo tópico é explicada a relação entre o Eneagrama e o sufismo.
12 MELENDO, Maite. O Eneagrama. São Paulo: Loyola, 2001.
13 Nos tempos atuais, esse é o maior uso dado ao Eneagrama.
14 Ibid., p.25.

89
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) PRUDENTE, André

p.11)15 diz que, em 1960, ele começou a dar aulas sobre o Eneagrama no Instituto
de Psicologia Aplicada de Santiago do Chile e que, na década de 1970, realizou
treinamentos sobre o seu modelo em Arica (Chile). Em um desses cursos, houve a
participação do Dr. Cláudio Naranjo, psiquiatra do Instituto Esalen, em Big Sur,
Califórnia (EUA), que aprendeu o seu método e ampliou o seu uso como um
instrumento ponte entre a psicologia e a espiritualidade.
Maitri (2000, p.22)16 explica que os Eneagramas conhecidos pela maioria das
pessoas são provenientes dos ensinamentos de Ichazo reelaborados por Naranjo,
os quais dizem respeito à vida interior da psique humana. Entretanto, atualmente,
existe uma série de escolas de Eneagrama, cada uma delas tendo como matriz
original de pensamento as concepções elaboradas por Gurdjieff e/ou Ichazo. Dentre
alguns dos professores de Eneagrama cujos grupos são mais proeminentes no
cenário internacional, pode-se citar: Helen Palmer e David Daniels; Don Richard
Riso e Russ Hudson; Richard Rohr; Sandra Maitri; A H. Almaas. Dentre alguns
professores de Eneagrama brasileiros, que atuam há vários anos em cidades e
estados desse país, pode-se citar: Khristian Paterhan; Urâneo Paes; Marcio Schultz;
Racily.

O ENEAGRAMA E O SUFISMO

A história do Eneagrama está diretamente relacionada com o sufismo,


corrente mística do islamismo. Os sufistas eram homens e mulheres que se
dedicavam ao contato direto com Deus. Por meio de uma série de práticas
espirituais, eles procuravam ampliar a sua consciência individual para a percepção
do divino. Rohr e Ebert (1992, p.23) dizem:

Através da oração e meditação, queriam os sufistas tomar consciência do


amor de Deus. O amor de Deus era tema central do movimento como
demonstra a oração da mestra sufista Rabia al-Adawiyya, do século oitavo:
“Ó Deus, se te adorar por medo do inferno, então lance-me às chamas do
inferno; se te adorar por causa da esperança de alcançar o paraíso, então
não me atendas; mas se te adorar por causa de ti mesmo, então não me
negues tua beleza eterna”.

15 Ibid., p.11.
16 Ibid., p.22.

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) PRUDENTE, André

Faziam parte das comunidades sufistas as ordens dos dervixes e o


movimento dos faquires (faquir = pobre) e também uma tradição de direção espiritual
que visava ajudar as pessoas no caminho para Deus. Esta seria a responsável pelo
desenvolvimento da idéia central do Eneagrama de que existem nove padrões
básicos de manifestação da espiritualidade (do amor de Deus criador) na
materialidade (nas criaturas). Rohr e Ebert (1992, p.23) 17 afirmam:
Nos longos anos em que os mestres sufistas desenvolveram seu método,
descobriram nove padrões constantes, devido aos quais certas pessoas
nunca encontravam Deus, mas só esbarravam continuamente em si
mesmas e eram obstruídas por suas barreiras e bloqueios internos.

Dentro da visão sufista, os nove pontos do Eneagrama representam formas


de expressão naturais (Zuercher, 2003, p.6)18 as quais só se tornam obstáculos ao
crescimento espiritual do indivíduo na medida em que a pessoa se identifica demais
com uma delas e esquece o todo complexo que ela é, que os outros são e a que
realidade é. Quando isso acontece há um processo de fragmentação da consciência
que afasta o ser humano da consciência maior: a consciência de Deus.
Em outras palavras, para os sufistas, o Eneagrama revela nove dons divinos
vividos na existência pelas pessoas, mostrando que cada uma tem um dom
principal. Quando há exagero no uso dessa capacidade primordial ela tende a
transformar-se em uma “armadilha”, limitando a consciência ao invés de ampliar.
Melendo (2001, p.13) 19 diz:

A crença sufi é que nossa qualidade essencial, levada ao extremo, vivida


em excesso, se transforma em nossa armadilha ou nosso defeito mais
característico.
O objetivo é encontrar o meio-termo, o equilíbrio em minha qualidade
essencial ou traço dominante, para não exagerá-la nem por excesso nem
por falta.

O SIMBOLISMO DO ENEAGRAMA

A primeira figura geométrica que compõe o símbolo do Eneagrama é um


círculo 20, o qual consiste em uma mandala universal presente em quase todas as

17 Ibid., p.23.
18 ZUERCHER, S. A espiritualidade do Eneagrama. São Paulo: Paulus, 2003.
19 Ibid., p.13.
20 Ver a representação do círculo na figura 1, no final desse tópico.

91
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) PRUDENTE, André

culturas (Riso e Hudson, 1999, p.30)21. Algumas informações centrais que ele traz
são: 1) cada ser e o universo são todos complexos com infinitas possibilidades de
manifestações; 2) esses todos se constituem em unidades integradas, apesar de se
manifestarem de diversas maneiras particulares na realidade 22; 3) esses processos
de manifestação são expressões concretas da consciência; 4) ser um todo é a
essência de toda individualidade e coletividade e, então, o círculo representa
também a essência.
A segunda figura do Eneagrama é um triângulo eqüilátero 23, cujas pontas
tocam o círculo 24 formando os pontos 9, 6 e 3 desse mapa de consciência. Ele está
relacionado com o que Gurdjieff chamava de “Lei de Três”: tudo resulta da interação
de três forças principais, ou seja, o todo que cada ser e o universo são apresenta
três aspectos centrais. Riso e Hudson (1999, p.31)25 dizem:

Surpreendentemente, quase todas as grandes religiões pregam que o


universo não é a manifestação de uma dualidade, como ensina a lógica
ocidental, mas sim de uma trindade. Nossa forma usual de ver a realidade
baseia-se em pares de opostos, como bom e mau, preto e branco, macho e
fêmea, introvertido e extrovertido, e assim por diante. As antigas tradições,
por sua vez, não vêem o homem e a mulher, mas homem, mulher e criança.
As coisas não são classificáveis segundo o preto ou o branco, mas segundo
o preto, o branco e o cinza.

No simbolismo do Eneagrama, o todo circular “encarna” sua unidade a partir


do triângulo, pois seus três vértices representam expressões relativas dessa
integridade. No cristianismo isso é percebido na trindade Pai-Filho-Espírito Santo:
cada um deles é diferente entre si, mas revelam o mesmo Deus (RISO & HUDSON,
1999, p.30)26. Com relação ao ser humano, ele é um todo holístico unido por três
centros fundamentais (PATERHAN, 2003, p. 43) 27: centro físico; centro emocional e
centro intelectual.
O centro físico está relacionado com a capacidade dos indivíduos de agir no
mundo, delimitando o seu espaço pessoal e colaborando para a construção do

21 Ibid., p.30.
22 Cada ser manifesta-se no mundo de maneira individual e específica, apesar de fazer parte de um
todo maior que a sua individualidade.
23 Triângulo eqüilátero é aquele com três lados iguais. Ver sua representação na figura 1, no final
desse tópico.
24 Ver a representação do triângulo no círculo na figura 1, no final desse tópico.
25 Ibid., p.31.
26 Ibid., p.30.
27 Ibid., p.43.

92
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) PRUDENTE, André

espaço coletivo. Trata-se da parte do ser humano responsável pela transformação


material (em atos) dos seus potenciais inatos.
O centro emocional está ligado à capacidade dos indivíduos de atribuir
valores as experiências cotidianas, percebendo os significados do seu impacto
pessoal na relação com as pessoas e o universo. Trata-se da parte do ser humano
responsável pela motivação dos seus comportamentos verbais e não-verbais.
O centro intelectual está vinculado à capacidade dos indivíduos de explicarem
os fenômenos da realidade, elaborando idéias a respeito da sua existência e
estratégias para lidar com ela. Trata-se da parte do ser humano responsável pela
interpretação de si mesmo, da vida, dos relacionamentos afetivos e profissionais, da
natureza, de Deus.
A terceira figura do Eneagrama é uma héxade 28 cujas seis pontas tocam o
círculo 29, formando os pontos 1, 4, 2, 8, 5 e 7 desse sistema hermenêutico, e
completando o seu símbolo geral 30. Ela está vinculada ao que Gurdjieff chamava de
“Lei de Sete” ou “Lei da Oitava”: “nada é estático, tudo está em movimento e no
processo de tornar-se outra coisa” (Riso e Hudson, 1999, p.31)31. Do mesmo modo
que na escala musical há a progressão Dó-Ré-Mi-Fá-Sol-Lá-Si-Dó, a cada oitava
subindo ou baixando um tom e tornando o som mais grave ou agudo, na héxade há
a progressão 1-4-2-8-5-7-1, mostrando que, a cada ciclo, ocorre um aumento ou
diminuição do nível de consciência.
Juntos, o círculo, o triângulo e a héxade integram o simbolismo desse mapa
de consciência, revelando que: 1) a essência de todo ser manifesta-se na existência
em nove maneiras principais de expressão da consciência em formas concretas;
2) essas nove manifestações derivam de três aspectos básicos que integram a
unidade da essência; 3) a manifestação dessas nove formas se dá num processo de
obstrução ou expressão da consciência.

28 A héxade é uma figura geométrica com seis pontas, ou seja, um hexágono incompleto. Ver a sua
representação na figura 1, no final desse tópico.
29 Ver a representação da héxade no círculo na figura 1, no final desse tópico.
30 Ver o símbolo completo do Eneagrama na figura 1, no final desse tópico.
31 Ibid., p.31.

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) PRUDENTE, André

Figura 1. O símbolo de Eneagrama completo e separado por suas partes específicas

ENEAGRAMA E CONSCIÊNCIA

Na perspectiva do Eneagrama, cada indivíduo ou grupo, é uma totalidade


psicossomática, expressão da essência espiritual 32. Wilber (2001) 33 coloca o espírito
como sinônimo de consciência, trazendo a idéia de que estar em contato com a
essência é perceber a consciência expressando-se num contínuo processo de
transformação e auto-transcendência. Nesse sentido, cada ser está sempre
evoluindo, realizando potenciais, os quais o levam a estar mais completo e
complexo.
Na concepção antropológica eneagramática há uma busca de ver a si
mesmo, aos outros e a realidade como um todo em constante evolução por meio da
consciência manifestando-se em formas concretas. Quando isso acontece há um
contato com a essência criativa do universo - fonte de paz, tranqüilidade e amor –
que possibilita um “agir-no-mundo” contextualizado, flexível e harmonioso. Isto, por
sua vez, colabora para a consciência expandir-se realizando ainda mais
capacidades positivas.

32 A denominação do que é a essência é diferente em cada tradição, podendo ser chamada também
de Deus, Ser, Natureza Búdica; Vazio Criativo; Consciência Superior; Todo Auto-consciente;
Verdadeira Natureza.
33 WILBER, Ken. Uma breve história do universo: de Buda a Freud. Rio de Janeiro: Nova Era,
2001.

94
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) PRUDENTE, André

No âmbito individual, isso significa a pessoa perceber que, apesar de ter um


jeito próprio de ser, pode viver os mais diversos tipos de experiências, a depender
da necessidade real do momento presente. No âmbito coletivo, consiste no grupo
saber ir além do seu modo típico de se articular, recriando-se sempre que preciso.
Quando uma pessoa ou grupo está em contato com a sua essência há fluidez nas
ações e crescimento porque existe a consciência dos estímulos internos e externos
que os afetam, possibilitando uma maior liberdade nas escolhas e tomadas de
decisões.
Entretanto, quando uma pessoa ou grupo afasta-se da sua essência,
esquecendo o todo que é e identificando-se com apenas uma parte sua, inicia-se um
processo de obscurecimento espiritual: perda da experiência do ser a qual gera uma
obstrução da consciência (NARANJO, 1997, p. 22) 34. Em outras palavras, passa-se
a ver a realidade a partir de um foco de atenção específico e limitado para
compreender a vastidão de cada fenômeno que aparece no cotidiano da existência.

A OBSTRUÇÃO DA CONSCIÊNCIA NO TRIÂNGULO DO ENEAGRAMA

A primeira redução de consciência refletida pelo eneagrama se dá pelo apego


maior a um dos três centros fundamentais do ser humano: físico; emocional ou
intelectual.
O indivíduo preso ao centro físico tende a preocupar-se demais com a
autonomia do seu eu, sendo movido pelo sentimento de raiva e tendendo a reagir
instintivamente nas situações diárias. Trata-se de uma reação visceral automática
que o impede de entrar em contato com seus sentimentos na ocasião e de pensar
como realmente gostaria de comportar-se. Um grupo fixado nesse centro pode
querer sempre delimitar o seu espaço social, por exemplo, passando por cima de
outros grupos ou tornando-se indiferente a eles. As pessoas de um grupo desse tipo
poderão ter dificuldade em colocar-se no lugar dos outros e refletirem sobre o
impacto de suas ações.
O indivíduo preso ao centro emocional tende a preocupar-se demais com a
sua imagem perante os outros, sendo movido pelo sentimento de vergonha e

34 NARANJO, Cláudio. Os nove tipos de personalidade: um estudo do caráter humano através


do Eneagrama. Rio de Janeiro: Objetiva, 1997.

95
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) PRUDENTE, André

tendendo a reagir emocionalmente nas situações diárias. Trata-se de uma reação


automática a partir do que se está sentindo no momento, que o leva para um agir
magoado e sem questionamento racional. Um grupo fixado nesse centro pode
querer sempre construir uma imagem social boa, a qual, não necessariamente,
corresponde à realidade. As pessoas de um grupo desse tipo poderão ter dificuldade
em se mostrarem como realmente são contribuindo para um clima grupal de
desconfiança mútua.
O indivíduo preso ao centro mental tende a preocupar-se demais com a
elaboração de estratégias para lidar com a vida, sendo movido pelo sentimento de
medo e tendendo a reagir intelectualmente nas situações diárias. Trata-se de uma
reação automática, protetora, de pensar muito antes de tomar atitudes, a qual o
impede de agir no momento certo conectado com o que está sentindo. Um grupo
fixado nesse centro pode querer sempre traçar antecipadamente regras de conduta
e planos de ação, podando a espontaneidade. As pessoas desse grupo poderão ter
dificuldade em lidar com imprevistos, correndo o risco de não concretizarem seus
objetivos.

A OBSTRUÇÃO DA CONSCIÊNCIA NOS NOVE PONTOS DO ENEAGRAMA

A segunda e principal redução de consciência demonstrada pelo Eneagrama


refere-se ao aprisionamento nos processos de um dos seus nove pontos. Cada
ponto expressa uma manifestação natural da essência na existência a qual cabe em
certos contextos específicos, contudo, quando um indivíduo ou grupo fica preso a
isso fora dessas situações apropriadas, tende a fragmentar a sua visão de si mesmo
e do mundo.
No âmbito individual, a consciência é diminuída pela identificação da pessoa
com a sua personalidade (seu modo típico de sentir, pensar e agir), a qual é
estruturada a partir de um dos nove pontos do Eneagrama. A personalidade de cada
indivíduo é um todo complexo e formado por múltiplos aspectos, mas um deles
torna-se o que Gurdjieff denominava Traço Principal (PATERHAN, 2003, p.50) 35.

35 Ibid., p.50.

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) PRUDENTE, André

Trata-se de um padrão habitual de reação que ele utiliza para lidar com a vida.
Daniels e Price (2000, p.15)36 afirmam:

Cada um dos nove padrões baseia-se numa tendência explícita de


percepção. Essa tendência, ou filtro, determina os objetos aos quais você
presta atenção e o modo pelo qual você dirige o uso da sua energia. Cada
um dos nove padrões é um postulado básico, uma crença, acerca do que é
necessário para a sobrevivência e a satisfação na vida.

O Traço Principal de cada pessoa (assim como seus outros traços) foi
formado para proteger um aspecto particular do seu ser o qual parecia ameaçado
durante a fase de formação da personalidade 37. Ele atua como um “piloto
automático” entrando em ação sempre que o indivíduo afasta-se da sua essência,
perdendo a base de como atuar a partir do seu ser. Embora toda pessoa manifeste-
se pelos nove pontos do Eneagrama, o Traço Principal representa seus maiores
dilemas e dificuldades e o modo que mais obstrui sua consciência.
Para as pessoas identificadas com o Traço 1 a questão que mais afeta é a
procura de um estado ideal de perfeição. Na busca de crescerem e se
transformarem acabam construindo padrões de retidão e conduta moralmente
exigentes, os quais, muitas vezes, são inatingíveis. Reduzem a sua consciência
ficando frustradas, ressentidas e irritadas por não serem como queriam, os outros
não agirem como deveriam e por acharem que o mundo é injusto. Dessa forma,
perdem a serenidade necessária para seguir a dinâmica do cotidiano com
flexibilidade e criatividade.
Para as pessoas identificadas com o Traço 2 a questão que mais afeta é a
tentativa de corresponderem as expectativas dos outros. Na busca de servirem,
atendendo atenciosa e agradavelmente as necessidades alheias, distanciam-se do
que realmente precisam e almejam. Reduzem a sua consciência sentindo-se
orgulhosas por serem úteis e depois ficando magoadas e cobrando porque ninguém

36 DANIELS, D.; PRICE, V. A essência do Eneagrama. São Paulo: Pensamento, 2000.


37 A personalidade é formada durante os 30 primeiros anos de vida do ser humano a partir de três
tipos de influências: genética; ambiental; escolhas da pessoa. A determinação genética predispõe
o indivíduo para certos tipos de temperamentos ao invés de outros. A determinação ambiental o
ensina valores e crenças culturais, as quais são reveladas pelos grupos sociais de sua
convivência. As escolhas da pessoa referem-se a uma autodeterminação, ou seja, cada um reage
as suas circunstâncias de vida de um modo. Seguindo ou não as predisposições genéticas,
aceitando ou refutando os padrões apresentados pelo seu meio e escolhendo comportar-se de
certa maneira diante da existência, o indivíduo vai construindo a sua personalidade, o seu modo
próprio de sentir, pensar e agir.

97
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) PRUDENTE, André

as valoriza como merecem. Dessa forma, perdem a humildade para saber quando
devem doar a si mesmas e quando devem doar-se para os outros.
Para as pessoas identificadas com o Traço 3 a questão que mais afeta é o
desejo de serem reconhecidas. Na busca de obter sucesso naquilo que realizam
apegam-se demais a imagem que os outros têm delas, preocupando-se em se
projetar como alguém de valor. Reduzem a sua consciência fazendo muitas coisas
ao mesmo tempo para atingir resultados com eficiência e ficando impacientes com o
que (ou quem) atrapalha os seus planos de ação. Dessa forma, enganam-se,
identificando-se com suas atividades, e perdem a autenticidade.
Para as pessoas identificadas com o Traço 4 a questão que mais afeta é a
vontade de serem especiais. Na busca de originalidade, sentem-se muito diferentes
dos outros e sofrem por não estarem vivenciando o que gostariam. Reduzem a sua
consciência comparando-se com os outros e imaginando situações de conquista e
realização de objetivos de difícil concretização. Dessa forma, afastam-se do aqui e
agora, entrando num estado de carência afetiva e melancolia.
Para as pessoas identificadas com o Traço 5 a questão que mais afeta é
quererem compreender intelectualmente tudo que acontece a sua volta. Na busca
de serem independentes e preservarem sua privacidade, acumulam conhecimentos
sobre as coisas e pessoas para não precisarem interagir muito. Reduzem a sua
consciência isolando-se socialmente, refugiando-se no seu mundo mental e não
entrando em contato com seus sentimentos. Dessa forma, tornam-se avaras de si
mesmas, não se doando para os outros e tendo dificuldade de receber carinho e
realizar trocas emocionais.
Para as pessoas do Traço 6 a questão que mais afeta é uma incessante
necessidade de apoio e orientação. Na busca de se sentirem seguras, apegam-se a
rotinas, regras e pessoas de uma maneira rígida. Reduzem a sua consciência
preocupando-se demais em como prevenir possíveis problemas futuros. Dessa
forma, ficam presas numa dúvida constante e em um medo paralisante que as
impede de confiar em si mesmas, nos outros e na vida.
Para as pessoas do Traço 7 a questão que mais afeta é um incansável anseio
por experiências positivas e agradáveis. Na busca de serem felizes e se
satisfazerem, estão sempre tentando achar algo novo que lhe trará um prazer
diferente. Reduzem a sua consciência planejando situações idealizadas de auto-

98
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) PRUDENTE, André

realização, as quais dificilmente trazem o que elas esperam. Dessa forma, entram
num processo de euforia e excitação e adquirem uma dificuldade de enfrentar as
rotinas do cotidiano e seus problemas pessoais e de relacionamento com os outros.
Para as pessoas identificadas com o Traço 8 a questão que mais afeta é o
desejo de determinar o curso da própria vida. Na busca de serem “donas do próprio
nariz”, acabam expressando suas crenças e vontades de uma maneira defensiva,
impositiva e agressiva. Reduzem a sua consciência disputando poder, “lutando” e
pressionando para obterem o que querem. Dessa forma, tendem a invadir o espaço
pessoal dos outros, os deixando inibidos para um contato mais estreito e gratificante.
Para as pessoas identificadas com o Traço 9 a questão que mais afeta é o
anseio de manter a paz e o equilíbrio interior. Na busca de não entrarem em conflito,
deixam de lado suas opiniões e vontades, fazendo o que é necessário para manter o
ambiente a sua volta em harmonia. Reduzem a sua consciência, protelando
decisões e ações por realizarem o que é secundário ao invés do mais importante no
momento. Dessa forma, ficam presas a uma preguiça, a uma apatia que as deixa em
uma postura fatalista de indiferença: “Não adianta fazer nada!”.
No âmbito coletivo, a consciência também é diminuída pela identificação do
grupo com um dos nove pontos principais do Eneagrama. O pessoal e o grupal
estão interligados e influenciam-se mutuamente. Quando os padrões de um dos
nove Traços Principais são enfatizados por um grupo, seus participantes tendem a
aprisionar-se a ele. Apesar de cada indivíduo ter o seu Traço Principal, acaba
focando a atenção também nas questões fundamentais do Traço Principal exaltado
pelos grupos sociais nos quais convive.

ENEAGRAMA E TRANSFORMAÇÃO DA CONSCIÊNCIA

Do ponto de vista do triângulo eneagramático, o processo de transformação


da consciência começa quando o indivíduo ou grupo percebe com qual centro está
mais identificado. A fixação em um dos centros gera uma fragmentação da
consciência e compreender isso permite a (s) pessoa (s) transitar também entre os
outros dois.
Trata-se de se movimentar do centro físico para o emocional e mental
livremente e vice-versa, a depender da situação, expressando-se por meio dos

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) PRUDENTE, André

instintos, sentimentos e pensamentos. Dessa forma, o indivíduo ou grupo recupera o


contato com a sua essência de ser um todo integrado (instintivo-emocional-mental) e
sua consciência se expande proporcionando evolução e crescimento.
Com relação aos nove pontos do Eneagrama, há a transformação da
consciência quando o indivíduo ou grupo deixa de se identificar com o seu Traço
Principal. O apego a esse padrão específico tolda a percepção e conhecer como
isso se dá permite ir além dele, revelando outras possibilidades de ação. Consiste
em recuperar o contato com a essência, a qual é caracterizada por um estado de
liberdade, flexibilidade e criatividade de ser o que se é em cada momento da
existência. Assim há a expressão dos dons ligados ao ponto eneagramático em
questão e não os comportamentos compulsivos.
No ponto do 1 do Eneagrama, isso significa perceber que há várias maneiras
de se fazer algo e que perfeição não é atingir um estado específico, mas sim estar
sempre aperfeiçoando-se, respeitando os limites evolutivos do momento. No ponto
2, isso significa perceber que há espaço para as necessidades de todos serem
atendidas e que ser altruísta é doar-se tanto para si mesmo quanto para os outros,
sem cobranças.No ponto 3, isso significa perceber que o sucesso e o valor não vêm
da quantidade de conquistas, mas sim da qualidade do que se é oferecido e da
verdade com que isso é mostrado.
No ponto 4, isso significa perceber que não existe nenhuma manifestação
igual no mundo e que, por isso, tudo tem a sua especialidade e importância. No
ponto 5, isso significa perceber que o conhecimento necessário para a compreensão
e vivência da realidade está dentro de si mesmo e não no acumulo de informações
intelectuais. No ponto 6, isso significa perceber que apesar de existirem riscos na
existência sempre haverão recursos suficientes para se lidar com eles e, por isso,
pode-se confiar em si mesmo, nos outros e na vida.
No ponto 7, isso significa perceber que e a satisfação e a felicidade
verdadeiras só se concretizam quando escolhas são feitas e ações são realizadas
até o fim. No ponto 8, isso significa perceber que tudo está relacionado com tudo e
que, para se alcançar objetivos, é necessário uma interação harmoniosa entre as
pessoas e grupos. No ponto 9, isso significa perceber que para alcançar o que se
quer é fundamental enfrentar obstáculos e conflitos por meio de uma ação firme e
correta, a qual leva em consideração os vários aspectos da situação.

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) PRUDENTE, André

Portanto, o Eneagrama funciona como um excelente mapa de consciência, o


qual auxilia na identificação de processos obstrutores de consciência e na
transformação deles. É como explica Zuercher (2003, p.7):

A medida que estudamos o eneagrama, vamos gradualmente vendo que


frustramos aquilo que mais desejamos para nós mesmos. Tomamos
consciência daquilo que nos tolda a percepção e bloqueia a nossa energia.
Ficamos conhecendo aquilo que instila o medo em nosso coração e o
paralisa, bem como aquilo que o leva a ter uma reação automática,
compulsiva. Passamos a ter conhecimento dos padrões da dinâmica
pessoal e dos temas da vida em sua repetição na experiência. Por meio
dessa percepção, podemos nos reconciliar com o nosso próprio ser e
aprender a fluir com as nossas energias vitais. Descobrimos que talento
nosso constitui uma dádiva para os outros e para nós mesmos. Em outras
palavras, passamos a conhecer cada vez mais a nossa realidade.

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) PRUDENTE, André

REFERÊNCIAS

DANIELS, D.; PRICE, V. A essência do Eneagrama. São Paulo: Pensamento,


2000.

MAITRI, Sandra. A dimensão espiritual do Eneagrama. São Paulo: Cultrix, 2000.

MELENDO, Maite. O Eneagrama. São Paulo: Loyola, 2001.

NARANJO, Cláudio. Os nove tipos de personalidade: um estudo do caráter


humano através do Eneagrama. Rio de Janeiro: Objetiva, 1997.

PALMER, Helen. O Eneagrama no amor e no trabalho. São Paulo: Paulinas, 1999.

PATERHAN, Christian. Eneagrama: um caminho para o seu sucesso individual e


profissional. São Paulo: Madras, 2003.

RISO, D. R.; HUDSON, R. A sabedoria do eneagrama. São Paulo: Cultrix, 1999.

ROHR, R; EBERT, A. Eneagrama: as nove faces da alma. Rio de Janeiro: Vozes,


1992.

ZUERCHER, S. A espiritualidade do Eneagrama. São Paulo: Paulus, 2003.

WILBER, Ken. Uma breve história do universo: de Buda a Freud. Rio de Janeiro:
Nova Era, 2001.

WEBB, Karen. Eneagrama. São Paulo: Avatar, 1998.

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.)

PARTE III
CONSCIÊNCIA, EDUCAÇÃO E
TRANSPESSOALIDADE

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) CREMA, Roberto

Capítulo 7

NOVO MILÊNIO, NOVA CONSCIÊNCIA

Roberto Crema 1

A menor distância entre duas pessoas é o riso e a lágrima e, às vezes, há


determinados momentos onde o riso e a lágrima transcorrem ao mesmo tempo.
Jung, chamaria de momentos numinosos que constelam a luz e a sombra. Parece-
me que nós somos todos muito privilegiados em existir num tempo de passagem,
num tempo numinoso, num tempo de tantos risos e de tantas lágrimas. Parece-me
que é isso que mais pode nos aproximar e eu tenho aprendido ao longo da minha
caminhada que ninguém transforma ninguém e ninguém se transforma sozinho, nós
nos transformamos no encontro e sobretudo quando podemos dar expressão a essa
alegria de existir, a essa biodança do universo; porém, ao mesmo tempo, quando
podemos ter um coração suficientemente sensível para também chorar.

UMA CRISE ABENÇOADA: A CRISE DA CRISÁLIDA

Nós vivemos uma crise abençoada, é uma crise que nos desperta, graças
a Deus e graças à dor. A crise tem uma dimensão instrutiva e é, sempre, uma
oportunidade de aprendizagem, de evolução, de crescimento. Somos muito
privilegiados porque essa é uma grande crise, talvez uma crise sem precedentes na
história da humanidade conhecida. Eu não sei se vocês têm agradecido todos os
dias por existir nesse momento: é um momento de passagem e aquilo que para
algumas pessoas distraídas é a morte da lagarta, para as pessoas mais atentas é o
nascimento da borboleta e é, por isso, que eu gosto de denominar essa crise de
Crise da Crisálida. E, como diz um grande amigo e mestre, Jean Yves Leloup, “não é

1 Psicólogo e antropólogo do Colégio Internacional dos Terapeutas, Vice-Reitor da UNIPAZ e diretor


geral da Associação Holística Internacional – HOLOS Brasil.

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) CREMA, Roberto

esmagando a lagarta que faremos nascer a borboleta”. Nós somos transeuntes,


passageiros de um tempo de transmutação, transmutação consciencial,
transmutação dos nossos valores, dos nossos conceitos e das nossas atitudes. E
todos nós somos convocados para ser aquilo que nós somos. Todos somos líderes
natos; todas as pessoas que eu conheci na minha existência, todas, foram e são
líderes.

(...) Vivemos um tempo absurdo, onde perdemos a escuta. Alguém


perguntou a um índio de 101 anos, um Xamã, um Pajé americano: - O que você faz?
Ele disse:
 Eu ensino meu povo.
 O que você ensina?
 Quatro coisas, ele respondeu: Primeiro, a escutar;
 Segundo: que tudo está ligado com tudo;
 Terceiro: que tudo está em transformação;
 Quarto: que a terra não é nossa, nós é quem somos da terra.

Tudo começa pela escuta. Se você não tem escuta, a crise o que é? É um
azar! E você vai sucumbir porque a única crise intolerável é aquela para a qual você
não tem nenhum sentido para dar; é aquela que você não interpretou e para
interpretar é preciso ter uma escuta. Quando Salomão podia ter pedido tudo, ele
pediu um coração que escuta e tudo o mais lhe foi acrescentado. “Eu ensino meu
povo a escutar”. As escolas deixaram de ensinar os alunos/aprendizes a escutar.
Isso é triste! Nestes tempos sombrios que nós vivemos, talvez esse seja o aspecto
que mais me leva a indignar-me e, também, a chorar: saber que um pé de alface em
qualquer horta é melhor tratado do que os meus filhos, os seus filhos estão sendo
tratados nas escolas. Você pode imaginar um horticultor exigindo de todos os seus
organismos vegetais o mesmo desempenho? Você pode imaginar um horticultor
comparar um tomate com um pepino e desejar que um seja como o outro, apresente
o mesmo resultado? Vocês podem imaginar um jardineiro exigir de todos os
organismos da biodiversidade de um jardim o mesmo currículo? Isso é um absurdo.
Vocês percebem onde nós jogamos na lata de lixo nosso potencial inato de

105
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) CREMA, Roberto

liderança, de maestria? ( ...) O grande problema nesse momento é o que nós na


UNIPAZ chamamos de normose.

A NORMOSE: A GRANDE PRAGA DO NOSSO TEMPO

O normótico é aquela pessoa que não escuta, é aquela pessoa que está
pensando só em si, é aquela pessoa que não se dá conta que tudo está ligado com
tudo; que para diante de um semáforo e vê aquele bando de crianças perdidas e
acha que isto não tem nada a ver com ele. Uns adolescentes matam: no Dia do Índio
comemoramos o triste aniversário do mártir Galdino. Estes filhos de nossa
sociedade não eram bandidos nem psicopatas, são nossos filhos; e o normótico
acha que isto não tem nada a ver consigo; ele lê no jornal e se estiver tudo bem no
seu canteirinho vai para sua vidinha de sempre... A grande praga do nosso tempo se
chama normose. Nós estamos sendo uma espécie vivendo uma crise de quase
extinção; quem diz isso são grandes cientistas que estão fazendo pesquisa de
ponta, são as últimas declarações da UNESCO e do Clube de Roma. Mas o
normótico não está nem aí quando se fala de problema atmosférico, quando se fala
em buraco de ozônio, quando se fala no El Niño que não é mais um niño, já é um
adolescente e vai continuar fazendo suas travessuras... O normótico acha que tudo
isto não tem nada a ver com ele. O normótico pode chegar a ser um ministro, um
governador, é... tem normóticos muito bem sucedidos, e nunca assume a
responsabilidade.

A normose é a patologia da normalidade e, como dizia Jung, "só aspira à


normalidade o medíocre", porque nós não estamos aqui para a normalidade, nós
estamos aqui para realizar uma semente, nós estamos aqui para trazer uma
diferença, nós estamos aqui para liderar e se nós não somos líderes é porque nós
nos perdemos, é porque ouvimos demais papai, mamãe, a sociedade, os
professores e é porque nós nos conformamos. Portanto, para falar em liderança no
século XXI, nós temos que nos perguntar quais são os líderes desse momento? Por
que as ideologias naufragaram? O que é um líder? Eu compreendo que um líder é
sobretudo uma pessoa que aprendeu a liderar a si mesmo: você lidera seus

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) CREMA, Roberto

pensamentos, seus sentimentos, suas atitudes? Você é dono de sua própria casa?
E isso nos traz ao coração dessa contradição da modernidade. Nos últimos séculos
nós temos desenvolvido uma ciência, uma tecnologia fabulosas, espetaculares,
maquininhas fantásticas! Porém, não houve o correlato desenvolvimento das
dimensões psíquica, emocional, valorativa, ética, noética e o despertar espiritual.
Temos uma tecnologia e ciência incríveis, sem alma, sem coração, sem espírito,
como uma espada de Dâmocles presa por um fio de cabelo sobre a cabeça da
humanidade. Portanto, antes de falar sobre liderança é necessário perguntar: o que
é o ser humano?

O QUE É UM SER HUMANO?

Nós não sabemos o que é um ser humano pleno. Não sei se vocês já
conheceram um ser humano pleno, inteiro, verdadeiro. Eu receio ter que dizer que o
ser humano nesse momento é uma grande utopia, não no sentido do irrealizável, no
sentido do irrealizado ou ainda não realizado, aquilo para o qual não há espaço.
Disse o Mestre: "Aos 15 anos orientei meu coração para aprender, aos 30 eu
plantei meus pés firmemente no chão, aos 40 não mais sofria de perplexidade, aos
50 eu sabia quais eram os preceitos do céu, aos 60 eu os ouvia com ouvido dócil,
aos 70 eu podia seguir as indicações do meu próprio coração, porque o que eu
desejava não mais excedia as fronteiras da justiça". Palavras de Confúcio, há 2600
anos. Ele sabia o que era um ser humano. O mesmo que diziam os antigos
Terapeutas de Alexandria, que nos inspiraram a criar, na UNIPAZ, o Colégio
Internacional dos Terapeutas, cujo mentor é o Jean-Yves Leloup : “Você troca de
roupa em dois minutos; leva-se uma existência inteira para trocar de coração".
O que é um ser humano? O ser humano é uma promessa. Os antigos diziam
que o ser humano ainda não nasceu, que nós somos uma possibilidade. O ser
humano é um potencial de florescimento. Se nós investirmos na dimensão do
coração, na dimensão da alma, poderemos nos tornar seres humanos plenos.
Porém, temos feito isso? Quando é que eu inclinei meu coração para aprender,
aprender realmente quem sou... e comprar uma briga, nadar contra a correnteza
muitas vezes. Porém, quando você se coloca no seu caminho, que é o caminho da
sua promessa, o caminho com coração, então o mistério conspira por você e você

107
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) CREMA, Roberto

evolui de uma existência perdida, alienada, para uma existência escolhida, ofertada.
Portanto, essa é uma grande pergunta : "O que é o ser humano”? E antes de falar
sobre a questão específica da liderança, eu gostaria de fazer uns traços a título de
indicação e, inspirando-me nesse grande irmão, Jean-Yves Leloup, para falar de
algumas visões do ser humano. Não é possível saber o que é liderança, nem o que
é educação, nem o que é saúde, se nós não esclarecermos nossos pressupostos
antropológicos, ou seja, a visão que postulamos do ser humano porque é a partir
dessa visão que diremos o que é saúde, o que é patologia, o que é uma liderança
efetiva, o que é excelência humana e o que é miséria humana.
Até onde eu posso enxergar, existem 3 tipos de seres humanos:
 Aqueles que nascem e morrem piores do que nasceram - são os
degenerados;
 Aqueles que nascem e morrem como nasceram - são os que mantiveram a
saúde; e
 Aqueles que nascem e se tornam quem eles são, assim como uma flor se
torna uma flor, uma mangueira se torna uma mangueira - são os que
aceitaram o desafio da evolução.
Quando perguntaram para Krishnamurti - que foi um ser humano pleno! - “Por
que você ensina?”, ele respondeu: “Por que um pássaro canta ?”. Eu gosto muito da
provocação e sempre lembro de Abrahan Maslow, um dos pais da psicologia
humanística, que dizia: "Num certo sentido, apenas os santos são a humanidade”. O
resto não deu certo. Quer saber o que é um ser humano? Estude os santos, não
apenas os da tradição católica; também os da tradição hindu, taoísta, xamanística,
da tradição sufi, todas as tradições; e os agnósticos também (os santos sem
tradição). É preciso estudar seres humanos que deram certo. E aí, lembro-me
sempre dessas palavras de Teresa de Calcutá: "Santidade não é um privilégio de
poucos, é uma necessidade de cada um de nós". E digo mais; nesse momento é
uma obrigação de cada um de nós! Acontece que projetamos o nosso potencial em
algumas pessoas especiais, o que os antigos e o próprio Maslow chamavam de
complexo de Jonas, que o Jean-Yves Leloup interpreta tão bem no seu livro
"Caminhos da realização". Jonas, em hebraico, significa a pomba das asas cortadas.
Jonas é esse ser que nos habita e que tem medo de ser quem ele é, que tem medo
de atender ao chamado. Os antigos estudavam os personagens das escrituras não

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apenas na sua dimensão histórica, mas também como grandes imagens, imagens
estruturantes da nossa psique, da nossa existência, arquétipos diria Jung. Parece-
me que Jonas é o arquétipo que precisamos estudar quando queremos falar sobre
liderança, porque ele nos indica sobre o nosso desejo inconsciente da normose:
como resistimos a investir no nosso potencial máximo.

O COMPLEXO DE JONAS

Jonas é aquele que foi chamado um dia: “Meu filho, desperta e vai para
Nínive, a cidade grande. Lá crianças estão matando crianças, jovens matam
pessoas dormindo de madrugada, pais não estão nem aí com relação à juventude,
todo mundo está pensando só em si... Vai para Nínive; lá a velhacaria é consagrada,
os velhacos são aqueles que têm sucesso; uma pessoa pura, inocente, em Nínive,
se falar num meio político, por exemplo, vai ser ridicularizada; uma pessoa honesta,
pura, de bons sentimentos é motivo de riso... tem que ser esperta, tem que ser
velhaca. Jonas, vai para Nínive, porque lá um jovem, se quiser demonstrar que tem
um coração bom, se quiser ser bondoso, generoso, vai ser ridicularizado; tem que
dar porrada! Jonas, vai para Nínive, porque esse povo está perdido; 40 dias mais e
não haverá mais Nínive!” Vocês notam que essa é uma mensagem muito atual. E
Jonas foi para Nínive? Não! Ele pegou um barco, mas foi para um Társis, um local
tranquilo. Isso mostra, como nós temos uma tendência a fugir de nossas missões.
Primeiro, há uma consciência interna que nos desperta, que nos coloca de pé. Pode
ser uma crise, pode ser um terremoto, pode ser uma perda... há um momento em
que você fica de pé. Porém, há sempre um convite sedutor da covardia e Jonas foge
da sua própria promessa e, então, vem uma grande tempestade. Isso nos ensina
que, quando você foge do seu próprio caminho atrairá tempestades; não só para
você, também para as pessoas que estão ao seu lado.
A doença não é ruim; se você a escuta ela se torna um texto sagrado a ser
interpretado. Ela tem uma mensagem: a doença é um fax que você recebe e que diz:
“Você se desviou do seu caminho”. Eu levei muitos anos para aprender isso: quando
nos desviamos do nosso caminho nós atraímos doenças, acidentes, nós atraímos

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) CREMA, Roberto

infelicidade. Acontece que vivemos num momento tão perdido que dizemos "tomou
doril..." Não interpretamos e o telefone continua tocando; às vezes em outros
números até que pode ficar tarde demais. Então, Jonas que estava dormindo no
porão do navio, novamente foi colocado de pé pelo capitão que indaga por que ele
não está clamando por seu Deus, como todos os outros. Jonas era um fujão, mas
era, também, um homem sincero que me faz lembrar o poeta Omar Khayyan que
inicia o seu Rubaiyat dizendo: "Todos sabem que meus lábios nunca murmuraram
uma oração. Não procurei nunca dissimular os meus pecados. Ignoro se existem
realmente uma Justiça e uma Misericórdia. Mas, se existem, não desespero delas:
fui sempre um homem sincero.” Quem pode dizer isso? Jonas foi sincero e disse :
“Eu sou a contradição, eu estou fugindo do meu Deus, estou fugindo da minha
palavra, estou fugindo da minha voz mais profunda. Podem me atirar no oceano que
a tempestade vai amainar.” Mas, os homens eram generosos e primeiro tiraram a
sorte que apontou para Jonas.
O que é sorte? É o que Jung chama de sincronicidade, mas os antigos,
chamavam de sinais: eles ouviam o trovão, eles ouviam a coruja que pia, eles
ouviam a pedra no meio do caminho, porque sabiam que faziam parte do Universo.
Sabiam que eles não eram destacados do Universo e nós perdemos essa
orientação, essa consciência de participação. Tornamo-nos pobres diabos jogados
num mundo sem sentido... É isso que o normótico crê de si mesmo. Portanto, Jonas
mergulha no oceano. Esse é um outro ensinamento muito importante; como dizia um
grande sábio, mestre Eckart, diante da Inquisição: “Eu posso me enganar mas eu
não posso mais mentir”. Há um momento em que você não pode mais mentir, você
vai sofrer tanto, vai atrair tanta tempestade, que você vai resolver mergulhar mais
cedo ou mais tarde, um dia todos nós mergulharemos no poço de nós mesmos. E aí,
Jonas terminou no ventre do grande peixe e lá ele de novo disse: “Eu vou para a
minha batalha, eu juro de novo, eu faço solene promessa”.
Esses textos são muito antigos e são muito atuais, são muito
contemporâneos. Em seguida, quero apenas ilustrar um pouco, através de alguns
riscos, esse oceano onde Jonas mergulhou, esse poço que podemos chamar de ser
humano.

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QUATRO VISÕES DO SER HUMANO NO MUNDO

Soma ____________

Já os pré-socráticos falavam sobre essas visões e hoje continuamos falando


delas. A primeira consideração é que o ser humano é corpo, é matéria, é soma, é pó
que volta ao pó. Essa é a antropologia materialista muito respeitável, porque de fato
nós somos pó que voltará ao pó; tudo que foi composto será decomposto,
caminhamos para o fim e, nesse caso, qualidade total, você se tornar um ser
humano líder, seria você liderar essa matéria que você está sendo: tomar as
vitaminas certas, fazer movimentos, desenvolver bons reflexos condicionados e
aproveitar o máximo, porque daqui a alguns anos você será um risco no espaço!...
Demócrito já falava sobre isso, o Demócrito dos átomos. Hoje há maneiras muito
sofisticadas de falar sobre esse pressuposto porém, isso talvez não nos ajudará
muito quando estivermos vivendo momentos mais avançados na existência. Você
pode ser materialista na primavera, no verão, mas quando vem se aproximando o
outono e quando o inverno começa a bater na porta, é quando você é lembrado que
caminhou toda sua existência para voltar para sua própria casa de onde você jamais
partiu, então... quem tiver apenas esse pressuposto vai fazer como Freud diante de
sua filha morta que dizia: “Essa é uma ferida narcísica irreparável. O que pode a
ciência em relação a isso?”.

Soma ___________
Psique ___________

Então, há aqueles que colocam outro risco e dizem que nós estamos sendo
matéria sim, mas, não qualquer matéria; nossa matéria é informada, animada.
Somos dotados de uma alma ou psique, psique – alma, ou seja, mente e emoções.
Trata-se, então, de desenvolver a dimensão psíquica. Felizmente hoje, já se fala na
inteligência emocional. No nosso sistema clássico uma pessoa pode chegar a ser

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) CREMA, Roberto

um pós-doutor sendo analfabeto emocional, um bárbaro da vida, um ignorante da


alma. Isto tem trazido grandes conseqüências bastante graves. Quando
Oppenheimer presenciou, estarrecido, as conseqüências de seus estudos: a bomba
atômica explodindo Nagasaki, Hiroshima e a nossa consciência ele quase
enlouqueceu. Depois, afirmou que o pior perigo da humanidade é o cientista
alienado. É premente uma alfabetização psíquica.
A alma é o melhor negócio! O que adianta você ganhar o mundo inteiro se
você perdeu quem você é? Observe que essas palavras são antigas porém, onde
nós aprendemos a desenvolver a psique? Onde há desenvolvimento emocional?
Nas escolas? Há um movimento, nesse momento, dramático e salutar de
reformulação do ensino. E não se trata apenas de fachada, nós temos que conspirar
por uma reformulação radical. Eu me lembro de um educador, num congresso
holístico internacional, que disse ao iniciar sua fala: “Eu quero apenas ler a carta de
um menino, a carta que ele deixou para os pais antes de pular do 15º andar de um
edifício qualquer”. Ele abriu a carta e leu: “Por favor, destruam as escolas!”. Até onde
eu posso compreender, a única escola que merece ser preservada é aquela que
facilita que o aprendiz oriente o coração para aprender. É preciso conspirar por isso,
colocar alma no pré-primário: que as crianças possam aprender sobre emoções,
sentimentos, exercitar relacionamentos enfim, aprender a aprender sobre si mesmo.
Infelizmente, a educação tem se resumido a um triste processo em que a
criança tem que engolir informações, que se tornam obsoletas em quatro anos, e
depois vomitá-las em exames. Perpetua-se esse absurdo, essa técnica de tortura,
que é a comparação. Compara-se uma pessoa com outra pessoa. Cada criança é
um milagre suficiente para não ter que ser comparada com ninguém a não ser
consigo mesma. Mais tarde, num futuro próximo e mais saudável, comparar uma
criança com outra será considerado crime. E por aí, nós podemos nos dar conta de
quanto nós nos perdemos, porque vejo os pais estarrecidos, às vezes, por questões
de mensalidades e outros detalhes, mas não pelo essencial.
Aqui estamos exercitando a antropologia psicosomática: nós assumimos uma
dimensão anímica e aí nossos horizontes se abrem muito. Há uma questão que
precisa ser dita rapidamente: as pesquisas psíquicas de ponta, na parapsicologia, na
psicologia transpessoal, na tanatologia, apontam para uma hipótese da psique ser
transcerebral. Nada nos evidencia, por exemplo, que a psique não possa

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transcender os limites da matéria e, mesmo, sobreviver à morte do corpo. Pelo


contrário, uma pessoa que seja realmente cientista e que se dedique a estudar os
textos recentes dessas abordagens e qualquer terapeuta com uma escuta mais
generosa saberá que, talvez, “morte” seja uma palavra a ser pronunciada no plural.
A primeira morte é a morte do corpo, porém, a psique pode perdurar, num estado
errático, de não apaziguamento. E isso nos traz um imperativo ético: além daquele
“aproveite tudo que você puder”. Uma pessoa que queira suicidar-se, por exemplo;
ela pode matar o seu corpo, naturalmente. Agora, me diga que arma alguém pode
possuir para matar a alma, que é onde está o programa do sofrimento e desespero
como também da felicidade? Quando você estiver se sentindo muito infeliz, olhe
para dentro, que a causa esta aí. Quando você estiver se sentindo no sétimo céu,
olhe para dentro, olhe para sua casa interna, a causa também está aí. Então, nós
somos aqui uma bidimensionalidade corpo – psique e podemos ainda adicionar um
terceiro risco e chamá-lo de NOUS.

Soma __________
Psique __________
Nous __________

Nous, refere-se à dimensão noética, uma consciência pura, sem objeto.


Refere-se a uma dimensão silenciosa, serena e pacífica da psique profunda. Não é
difícil reconhecer que a psique superficial é inquieta e agitada. Buda, um grande
líder e mestre, um paradigma de ser humano que deu certo dizia que a mente, a
alma, é um macaco pulando de galho em galho, em busca do fruto, na selva do
condicionamento humano. Esta definição aponta para esta inquietude da alma
ordinária. Atinge-se nous quando o macaco se aquieta, e há toda uma pedagogia
orientada para este alvo. É importante salientar que todos os seres humanos tem o
potencial de realização búdica. Buda não é um nome; é um termo que significa
desperto, ou seja, alguém que despertou para o seu potencial máximo (o nome era
Sidarta Gautama, um príncipe que viveu há 2.600 anos, na Índia). Buda não queria
que você fosse um budista; ele queria que você se tornasse, também, um Buda. Por
isso há um ditado zen que diz: “Se você encontrar Buda no seu caminho, mate-o”.

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Para você não correr o risco de apenas querer segui-lo. Para que ele possa nascer
em seu próprio coração. Seres como Buda foram os grandes mestres da inteligência
noética.
Você consegue desligar os seus pensamentos? Se você é capaz disso, então
você é um líder na sua mente. Se não conseguir você está sendo levado, está sendo
pensado, você não é o pensador, o sujeito. A NASA, construiu um capacete
fantástico, ligado por eletrodos à cabeça do piloto para que a nave seja comandada
por seus pensamentos. O capacete esta lá, mas, onde está o piloto capacitado para
tal façanha? A dimensão noética é uma dimensão silenciosa, contemplativa, que
penetramos quando silencia os nossos diálogos internos. É como penetrar no fundo
do lago, além do tumulto de sua superfície; aí poderemos encontrar com o Grande
Silêncio, que é mãe de toda palavra justa, de toda virtude e de uma consciência
capaz de apreender a realidade. Tereza de Calcutá dizia: “o fruto do silêncio é a
oração, o fruto da oração é a fé, o fruto da fé é o amor, o fruto do amor é o trabalho”.
Tudo começa pelo silêncio e termina com aquilo que o companheiro Leonardo Boff
denomina de “mística dos olhos abertos e das mãos operosas”.
Portanto, para desenvolver a qualidade noética nós temos tecnologias
milenares que vêm das tradições sapienciais que, na UNIPAZ, denominamos de
holopraxis: o yoga, a oração - que hoje é estudada e já foram evidenciados os seus
efeitos benéficos para a saúde -, a contemplação, enfim, os caminhos meditativos
das tradições orientais e ocidentais. Todas as grandes tradições tribais, por exemplo,
prescrevem a oração. Orar, no sentido mais amplo, é ter uma intenção sagrada.
Qual é a sua intenção sagrada? Para quem você se levantou essa manhã? Para que
você se coloca de pé? Ter uma intenção sagrada é ter um sentido maior. Enfim,
encontraremos as tecnologias de transmutação consciencial no sufismo, nas
diversas modalidades meditativas do budismo, do cristianismo, sobretudo do
cristianismo ortodoxo, no xamanismo e em todos os caminhos de despertar da
consciência sintética. É preciso introduzi-las nas escolas, se quisermos que a
educação abranja a dimensão consciencial.
Se você não sossega o seu corpo, se você não é capaz de sentar e imobilizar
o corpo - que é o mais fácil - como você será capaz de chegar a uma quietude da
mente, a uma quietude do pensamento, do sentimento? As novas escolas que já
estão emergindo, incluem nos seus currículos a psique, levando em consideração,

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) CREMA, Roberto

também, a notável dimensão onírica, a inteligência dos sonhos. Vocês sabiam que
tem professores que nunca perguntaram pelos sonhos dos seus alunos ? O sonho é
um estado de consciência extraordinário que complementa a consciência de vigília.
Nós já temos 100 anos de pesquisa científica dos sonhos e milênios de pesquisa
nas grandes tradições culturais. No entanto, o ocidental ordinário, condicionado pelo
reducionismo racionalista, é como aquele pescador que chegou muito cedo para
pescar, não tendo o sol ainda nascido; para passar o tempo ele jogava pedrinhas
nas águas escuras do rio - e quando ele pegou a última pedrinha, o primeiro raio de
sol da vigília surgiu, e ele viu que a pedrinha era um diamante! E assim fazemos,
jogando nas águas da alienação e do descuido toda a riqueza simbólica dos sonhos.
É fundamental resgatar a pedagogia simbólica dos antigos, se quisermos facilitar a
emergência de seres humanos inteiros.
É preciso, também, desenvolver a dimensão noética para chegarmos na fonte
da criatividade máxima, no manancial da sabedoria da espécie e da liderança
intuitiva e silenciosa. O bom líder, dizia Lao Tsé, é aquele que ninguém sabe que
existe; terminada a tarefa todos dizem: “eu fiz isso por mim mesmo”. Da dimensão
noética surge a mais elevada maestria. Ela tem sido comparada a um espelho que
pode refletir a realidade; é através de nous que podemos espelhar, fidedignamente,
a realidade. Uma pessoa que não tem essa qualidade é como uma pulga saltitante,
uma “barata tonta” que todo o tempo projeta as suas memórias em suas
experiências, cegando-se para a realidade além de suas fantasias. Quando Cristo
indicava: "quem não for adúltero atire a primeira pedra", ele falava com relação aos
olhos. Adulterar a realidade é você projetar na realidade seus pensamentos, seus
conceitos, suas memórias; não adulterar é você ter os olhos abertos. Diz o poeta
Pessoa, no Guardador de Rebanhos:
"O meu olhar é nítido como o girassol; eu não penso... pensar é estar doendo
os olhos, pensar é não compreender. O mundo não foi feito para pensarmos sobre
ele mas, sim, para olharmos para ele e estarmos de acordo. Eu não tenho filosofia,
eu tenho sentidos e se eu falo sobre a natureza não é porque eu saiba o que ela é; é
porque eu a amo e amo-a por isso, porque quem ama nunca sabe o que ama, nem
por que ama, nem o que é amar. Amar é a eterna inocência, e a única inocência,
não pensar.”

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) CREMA, Roberto

Em nous atingimos uma qualidade de mente que transcende o pensamento,


Krishnamurti insistiu nisso ao longo de toda sua existência: o pensamento é o ruído
do passado. Quando estou doente, eu penso. Porém Descartes, um dos pais da
modernidade, vai dizer: penso, logo existo! Poderemos dizer: não penso, logo eu
sou! É a partir dessa dimensão que nós poderemos resgatar uma maestria inata.

Soma ___________
Psique ___________

Nous ___________

Pneuma

E ainda há um último risco, e esse, não pode ser da mesma cor e não pode
ser também no sentido horizontal. Tem que ser vertical. Alguns vão traduzir Nous
por espírito, não é assim como estou traduzindo; eu traduzo Nous por consciência
sem objeto, não por espírito. Se você olha o sol se refletindo no espelho você vai
dizer, olhando para o espelho, que o espelho é o sol? O espelho reflete o sol, assim
como a dimensão noética pode refletir a luz de alguma coisa que está além da
existência, e é isso que os antigos chamavam de pneuma.
Pneuma é uma tradução do hebraico Ruah, que na sua origem é feminino e
significa sopro. Pneuma é neutro em grego e foi traduzido depois como espírito, em
latim, um termo masculino. Isto é uma distorção pois, na sua origem, essa é a
dimensão uterina do feminino-luz. Pneuma é, filosoficamente falando, a essência. Há
um termo ainda menos contaminado e que gosto muito: Pneuma é Vida. Precisamos
diferenciar vida de existência, eu insisto muito nisso. Existência é uma manifestação
da vida, é aquilo que passa: estes riscos horizontais representam a existência. Certa
vez Buda, indagou aos seus discípulos sobre o que era o oposto da morte? “Vida”,
eles disseram, com a mente polar. E Buda respondeu: “Não, é o nascimento, porque
a vida é eterna”. Já dizia Cristo: "Eu sou o caminho, a verdade e a vida". Nós
confundimos muito a vida com a existência. O que nós denominamos, com diversas
palavras, Deus, talvez seja um princípio de vida inerente a todos os universos.

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) CREMA, Roberto

Portanto, essa é a dimensão essencial e, para os antigos como para os novos


terapeutas, uma pessoa em boa saúde é aquela cuja dimensão noética, cuja psique
e cujo corpo ou dimensão somática são habitadas pela essência. Uma pessoa com
saúde plena, no dizer do doutor Graf Durkheim, o criador da terapia iniciática, é
aquela cuja essência se manifesta na existência. É quando o que você pensa
coincide com que você é; é quando o que você fala coincide com o que você pensa;
é quando o que você faz coincide com que você fala; é quando você se torna
congruente, verdadeiro. É quando você se torna aquilo que você é, nem mais nem
menos. E essa, é uma dimensão que não é desenvolvida. Essa palavra
desenvolvimento espiritual é muito contraditória, pois como pode desenvolver-se
aquilo que não nasceu, que não teve início, que não tem fim? Como afirma a
sabedoria Crística: "O espírito está pronto, mas a carne é fraca!”. A carne é tudo que
passa, enquanto a essência é Aquilo Que É.
Acontece que, no Século XVII, foi parida a Idade Moderna, por bons motivos,
já que estávamos superando um tempo no qual a ciência era reprimida em nome de
alguma coisa que, confusamente, era chamada Deus - basta lembrar a diabólica
Inquisição que matou mais seres humanos, proporcionalmente, do que a 2ª Guerra
Mundial! Então, surgiu um Descartes, traumatizado pelos dogmas, que desenvolveu
o método analítico, enaltecendo o racionalismo mecanicista. Bacon, falou dos
sentidos, desenvolvendo o empirismo. Surgiu um Galileu que nos introduziu no
mundo da quantidade e o genial Newton, que fez uma grande síntese que
denominou de física mecânica, entre outros. Todos eles conspiraram na época e
modelaram a obra prima do racionalismo científico que foi um movimento
compensatório, de resgate da objetividade e da razão, que às vezes tem razão...
Com a nossa tendência polar, nós saímos de um extremo para o outro, neste
momento sombrio de uma esgotada modernidade, onde o sagrado, a dimensão
essencial, é reprimida em nome de alguma coisa que, confusamente, chamamos
ciência. Se você viver alguma experiência genuinamente espiritual e procurar um
psicólogo convencional, ele vai lhe rotular de “doente”, porque não há, em sua
antropologia, a categoria do espírito. Se você estiver vivendo aquilo que o notável
psiquiatra Stanislav Grof, e a sua esposa Cristina, denominam de emergência
espiritual - eles criaram, há anos, um movimento internacional que chamam de
emergência espiritual - se você viver uma experiência mística, se a essência bater

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) CREMA, Roberto

em sua porta e você for procurar um psiquiatra convencional, ele vai lhe dar algum
nome esquisito e vai lhe prescrever remédios, também. Agora, talvez o mais
impactante, como afirmou Grof num recente congresso: se você tiver uma legítima
experiência espiritual e procurar um sacerdote convencional, um pastor, ele vai lhe
levar a um psiquiatra! Eles falam de coisas acontecidas há 2000 anos, mas se você
viver uma experiência parecida, você será ouvido com uma escuta suspeita. Onde
podemos encontrar um espaço de escuta da essência e da inteireza humana?... E é
por isso, nesse momento, as pessoas mais revolucionárias, os verdadeiros
conspiradores são aqueles que falam do espírito e que não temem dizer essa
palavra em universidades, em lugares como esse, em lugares públicos, porque
enquanto nós não ousarmos falar em espiritualidade, ainda estaremos muito longe
de uma humanidade plena.
Quando eu falo em espiritualidade, me entendam bem, não estou me
referindo a nenhuma igreja, a nenhuma religião particular, embora respeite todas.
Refiro-me à espiritualidade como o fazia Einstein, apontando para uma vivência
cósmica; ou, ainda, outro físico contemporâneo, que recentemente trouxemos a
Brasília, Fritijof Capra, que denominou o seu penúltimo livro de Pertencendo ao
Universo. Espiritualidade é uma consciência não-dual, uma consciência de
participação, da parte no todo, que na essência é amor, e na prática é solidariedade.
Uma pessoa que despertou para essa dimensão espiritual, é uma pessoa que não
se vê separada do outro, da comunidade e do Universo. Eu pergunto: em sã
consciência, você colocaria fogo no seu corpo? Se você sente-se não-separada do
outro, você jogaria fogo em alguém que está dormindo num banco? E se você se
sente não-separado da natureza, você iria empestá-la, você iria destruir os
ecossistemas por uma neurose de progresso compulsivo, que foi decantada no
século passado por Comte e que, agora, testemunhamos o lado sombrio dessa
religião do progresso a qualquer custo, progresso a custa da hecatombe; você
empestaria a natureza se você se sentisse não-separada dela?
Nós vivemos um momento dramático para aqueles que têm os olhos abertos
e a escuta do inconsciente coletivo; essas pessoas entram em pânico! Sinto-me feliz
por estar sendo um operário, há mais de dez anos, da UNIPAZ, que é um verdadeiro
canteiro de obras, para a edificação de um novo paradigma, onde lutamos com
muita dificuldade e já desenvolvemos programas que foram enviados para o mundo

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inteiro: Japão, Europa, Índia, Canadá, EUA... Nós falamos na tridimensionalidade de


uma ecologia: a ecologia interior, a ecologia social e a ecologia ambiental. Há que
trabalhar com uma visão de ecologia profunda e denunciar a existência dessa
repressão perversa do espírito, da essência, com consequências que se manifestam
através de doenças a nível pessoal, a nível social e a nível ambiental. Gosto de
confiar que o ser humano vai ser descoberto no Século XXI. E se isto não acontecer,
não haverá Século XXI para o ser humano! Portanto, estes riscos são como um
dedo indicando para a lua e a partir dessa imagem do ser humano podemos,
brevemente, falar de liderança.

LIDERANÇA: DO TÉCNICO AO FACILTADOR HOLOCENTRADO

Como falar de liderança sem falar sobre o que é o ser humano? Então, eu me
recordo novamente desse Xamã dizendo: “Primeiro, eu ensino meu povo a escutar",
uma escuta ampla, uma escuta bastante. Depois, se você escuta vai perceber que
tudo está ligado com tudo. “Não há como” - diz o poeta e também o físico -, “arrancar
uma flor no seu jardim sem mexer com as estrelas”. Uma borboleta levanta vôo na
Austrália e um tufão percorre as costas dos E.U.A; tudo está ligado com tudo. Com
esta consciência, o passo seguinte é óbvio : tudo está em transformação, tudo está
em mudança, onde você pisar é ponte, só há mutação; não há o que passa e nem
há aquilo que faz passar, só há passagem. Quando você acorda para esta realidade,
você não mais se sentirá proprietário de terra alguma. Toca-me muito como algumas
sociedades tribais reivindicam a terra: estes sem-terra não reivindicam a terra para
que seja deles; eles dizem: “Nós precisamos da terra por que nós somos da terra.
Como nós vamos viver sem a terra se pertencemos a ela?”

TRÊS ESTÁGIOS DE LIDERANÇA

Quanto à liderança, creio que há três estágios na nossa evolução natural para
realizar a semente da maestria em cada um de nós.

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) CREMA, Roberto

O 1o. estágio: O líder centrado na teoria, na ideologia e na técnica

O primeiro estágio podemos chamar de líder centrado na teoria, na ideologia


ou na técnica e eu diria que essa é a infância do nosso processo de amadurecer a
própria semente desse potencial humano. Para não partir do ensaio-e-erro
precisamos estudar os antigos, os que nos antecederam na busca. Então, nós
aprendemos técnicas, teorias e nelas nos centramos, o que nos traz um pouco de
segurança nas nossas incertezas. Adotamos verdades que não são nossas e
fazemos como aquele boiadeiro, segundo o Dhamapada, que só conta o gado
alheio!... Isso é bastante justo quando somos criancinhas; precisamos da mão dos
antigos, como aquela pessoa que está caminhando e no seu caminho se depara
com um rio. Há uma canoa na sua margem; ele desconhece a profundidade do rio,
as suas ondas. O que você acha que é a atitude sensata: ele utilizar a canoa ou
arriscar-se nadando? Utilizar a canoa, evidentemente. Não foi ele que a construiu
mas ela está ali, disponível. Agora, quando ela termina a travessia do rio de sua
própria insegurança e imaturidade, imagine essa pessoa olhando para a canoa e
dizendo: "Sem isto eu não sou ninguém!"; em seguida colocando-a em cima da
cabeça e continuando, com este fardo, a sua caminhada. Esta imagem bem pode
representar o líder centrado na teoria e na técnica, e é isso que nos traz esse drama
da esclerose metodológica e psíquica.
Participando de uma Universidade da Paz, também venho me perguntando há
muitos anos: “o que é paz ?” Diga-me, então, o que é o oposto à paz? Diga o
primeiro pensamento que vem à sua mente? O que vem primeiro é conflito, é guerra.
Se você busca a tradição, por exemplo, dos antigos chineses, você então vai se
deparar com esse tratado sapiencial – o I Ching – contido em apenas seis riscos, o
hexagrama da paz que representa o céu sustentando a terra:

_____ _____
_____ _____
_____ _____
___________
___________
paz

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) CREMA, Roberto

O hexagrama oposto da paz representa a terra sustentando o céu, e que os


sábios chineses não chamam de guerra e, sim, de estagnação:

____________
____________
____________
_____ ______
_____ ______
_____ ______
estagnação

Onde você estiver estagnado no seu corpo, na sua psique, na sua dimensão
noética, aí você terá perdido a paz e aí você estará adoecendo. Esta é uma
esclerose psíquica que caracteriza um líder centrado, fixado, numa ideologia ou
sistema, seja ele qual for, um líder que recita uma ideologia e quer ser fiel apenas a
uma ideologia. São líderes muito restritos, porque eles ficam seguindo trilhos e
perdem as trilhas; morre o criador, vegeta a criatura; não há inovação nem
criatividade. Tudo está se transformando e necessitamos um permanente processo
de atualização dos conceitos e atitudes. Portanto, a pessoa que permanece nesse
estágio inicial, vive aquilo que na mitologia grega é indicado como a cama de
Procusto. O Procusto é um personagem muito hospitaleiro porém, o seu hóspede é
obrigado a se adaptar à sua cama. Caso seja maior, para se adaptar à cama,
Procusto corta suas pernas, naturalmente. Caso seja menor, terá as suas pernas
espichadas. E assim são as escolas normóticas, com currículos que são genéricos e
rígidos, não centrados no aprendiz. Assim, também, são líderes que tratam os outros
como números ou políticos centrados numa técnica ou teoria que tornam-se
ultrapassadas. Lembro uma estória antiga, que fala de uma pessoa que procurava
um objeto debaixo de um holofote, na rua. Alguém pergunta-lhe: “É aí que você o
perdeu?” E a resposta é: “Não, eu o perdi lá em casa, mas aqui está mais claro!...”
Infelizmente, a maior parte das pessoas fica capturada nesse rede cômoda da
mesmice, jamais assumindo a autoria, o lugar do Sujeito da própria existência.

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) CREMA, Roberto

O 2o. estágio: O líder centrado na pessoa: o facilitador afinado com o processo

Porém, alguns vão contra a correnteza; alguns são teimosos o suficiente. Eis
do que necessitamos: teimosia. Um menino conversava com outro e dizia: "Quando
eu crescer serei um profeta e vou falar coisas que ninguém vai querer ouvir". O
outro, intrigado, perguntou: "Então por que você quer ser um profeta se ninguém vai
querer ouvi-lo?” E o primeiro respondeu: "É que nós, os profetas, somos muito
teimosos!" Sem teimosia você jamais virará essa página; é preciso a disciplina da
busca. Porém, se você for além, entrará numa outra qualidade de liderança que
denomino de líder centrado na pessoa, no problema, no aqui e agora. Esse é um
líder que está disposto a jogar fora as suas tecnologias, as suas metodologias na
lata de lixo, caso estejam interferindo na sua relação com a realidade viva, que não
tem endereço certo, a realidade sempre mutante, o inusitado instante. Para você
estar afinado com o processo da realidade, você também precisa ser mutante! Esse
líder já ilumina um auditório. Um grande profeta desse tipo de liderança foi Carl
Rogers, que partia do princípio que todo ser humano tem uma tendência ao auto-
desenvolvimento, auto-realização e auto-regulação, bastando, para isso, que haja
um terreno fértil. E é aqui que se coloca uma palavra nova : o facilitador. Você facilita
propiciando um terreno fértil, onde cada um possa se tornar aquilo que é, e aqui o
líder encontra-se em sua maturidade.
Durante muito tempo postulei essa abordagem humanística como sendo o fim
do caminho. Porém, há um momento em que, se você olhar bem para os olhos de
um ser humano e se você abrir ainda mais a sua escuta, você vai se dar conta de
que o ser humano é mais do que um ser humano. Lembro como me tocou encerrar
um congresso recente na Universidade de Lisboa; era um congresso que contava
com cientistas como Grof, Sheldrake, Pribran, Amit Goswami, entre outros. Então,
lembrei-me de um filósofo espanhol, Uriol Anguera, que foi convidado também para
encerrar um congresso de cibernética, depois de uma semana discutindo sobre
processos mecânicos, informacionais, sobre toda essa racionalidade da máquina.
Então, o filósofo levantou, tomou a palavra e disse: “Eu vim aqui para falar de uma
trindade diabólica: primeiro veio Darwin e nos ligou a um macaco, depois veio Pavlov
e nos ligou a um cão; então, veio Freud e nos ligou a um falo. E como os três
mosqueteiros eram quatro, veio Norbert Wiener e nos ligou a uma máquina. Eu

122
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) CREMA, Roberto

estou aqui para dizer que pelo menos 1% do homem é Deus!” Este 1% metafórico
aponta para o Mistério. Se você olhar bem para o ser humano e se você de fato
escutá-lo, em algum momento, você vai se deparar com o Grande Mistério; em
algum momento você vai encontrar aquelas palavras de Teilhard de Chardin: “O ser
humano é o sacerdote da Criação. É o espaço onde o próprio Universo pode
aprender a se conhecer, pode aprender a se amar". Portanto, é preciso virar essa
página também, e muito se caminhou para chegar aqui; é um itinerário de realização
que começa sempre com o primeiro passo : inclinar o coração para aprender.

O 3o. estágio: O líder holocentrado: o facilitador conectado à tomada universal

O terceiro estágio - e eu vim aqui para trazer essa notícia final, pois essa é a
nossa conspiração; por isso estamos aqui; por isso existe a UNIPAZ - o terceiro
estágio, que inclui os anteriores, pode ser chamado de excelência: a liderança
holocentrada. O líder holocentrado é o que se conectou, se religou à totalidade,
dando-se conta de que não está dissociado da sociedade, do ambiente, do universo
e do Grande Mistério. É o líder que escuta as sincronicidades: ele volta, à moda dos
antigos, a escutar o trovão, a escutar o cochicho dos eventos que se conectam
numa unidade, sempre a partir de uma unidade indissociável, isso é que é
sincronicidade. É o que Jung juntamente com Pauli, um representante da física
quântica, chamava de princípio de conexões acausais, que alguns vão chamar de
transcausais. É o domínio das coincidências significativas quando os eventos se
conectam pelo significado e não pela causa. Nós existimos numa unidade de
eventos; não estamos separados dessas cadeiras, dos seres humanos que nos
cercam, das maquininhas e de tudo o que nos envolve. Portanto, quando você faz
uma pergunta, você pode acionar uma resposta implícita no mistério da totalidade e
isso é sincronicidade, um conceito já clássico, sustentado numa reflexão científica. É
um líder que está, numa só palavra, "ligado": ele está ligado à tomada universal; é
um líder que conectou os seus dois hemisférios cerebrais: o hemisfério racional,
científico, tecnológico com o hemisfério poético, místico, da comunhão; o hemisfério
analítico com o hemisfério sintético; o hemisfério esquerdo, com o hemisfério direito:
as duas asas que um pássaro necessita para voar, as duas pernas que um ser
humano necessita para empreender uma viagem com coração. Metaforicamente,

123
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) CREMA, Roberto

podemos falar que é um líder centrado no corpo caloso, milhões de neurônios que
conectam os dois hemisférios cerebrais, religando-os.
A holística não é nem analítica, nem sintética; a holística não é nem científica,
nem espiritual; a holística implica uma comunhão, uma sinergia entre essas duas
naturezas e duas formas de apreensão do real. Como diz Capra, "A ciência não
precisa da espiritualidade, pois tem o seu caminho próprio, é o caminho analítico; a
espiritualidade não precisa da ciência, pois tem o seu caminho próprio, o sintético, o
intuitivo. Mas o ser humano necessita de ambos.” O corpo caloso, que gosto de
metaforizar como o chifre do unicórnio, que os antigos denominavam de terceira
visão, é o substrato neurológico da liderança holocentrada. Portanto, esse é um líder
na sua excelência, é um líder que ousou resgatar as suas asas sem perder as suas
raízes, é um líder que pode dizer com o poeta:

"Goza a euforia do vôo do anjo perdido em ti. Não indague se nossas


estradas, tempo e vento desabam no abismo. Que sabes tu do fim? Se temes que
teu mistério seja uma noite, enche-o de estrelas. No deslumbramento da ascensão,
se pressentires que amanhã estarás mudo, esgota, como um pássaro, as canções
que tens na garganta. Canta, canta. Talvez as canções adormeçam a fera que
espera devorar o pássaro. Desde que nasceste não és mais que o vôo no tempo
rumo aos céu? Que importa a rota! Voa e canta enquanto existirem as asas"
(Menotti del Picchia).
Portanto, era isso que eu queria trazer como a essência dessa mensagem.
Há um líder de todos os líderes, o Grande Gurú, que é a essência. Quando você se
deixa guiar por essa essência, é quando você se faz um líder na sua excelência e
plenitude. Então você poderá assumir a autoria de seus passos e não será mais uma
folha levada pelo vento. Esse é um potencial que todos nós possuímos, e não se
trata de desenvolver a espiritualidade, que já está pronta. Trata-se de desenvolver a
nossa dimensão corporal, ou seja, escutar, atender o telefone da doença, da crise,
que nos convoca. Aprender o sentido dos nossos passos. Trata-se de trabalhar com
a psique, introduzindo qualidade em nossa alma e, também, qualidade na dimensão
noética. Assim o sol da essência vai se manifestar, naturalmente. Você já deve ter
ouvido em certos dias cinzentos a expressão: "Hoje não tem sol!” É verdade?
Haverá um dia em que não há sol? Não, a verdade é que hoje tem nuvens! A nuvem

124
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) CREMA, Roberto

da ignorância existencial é aquela que nos mantêm atados a uma corrente e a uma
prisão, aquela que nos tira o sabor da aventura e o gosto da liberdade.
Esse líder se manifesta através da amorosidade. É preciso ousar dizer que o
espírito é amor; o espírito se manifesta através do amor. Se não houver amor então,
para quê viver? Portanto, o amor está no início, está no meio e está no fim. Nós
estamos aqui para aprender a amar - e todo o resto é bobagem. Na medida em que
você aprende a amar, você faz doação, você aprende a doar. Alguns dão do que
têm, outros dão do que sabem. E há aqueles que dão do que são: são os grandes
mestres, são os grandes líderes e a humanidade sempre nos ofereceu o testemunho
de seres humanos plenos que nos convocam a subir a nossa própria montanha.
Quero concluir com uma oração criada por um poeta espanhol, Jimenez,
quando viveu um tempo muito depressivo e sentiu que sua alma estava sendo
roubada. Então ele subiu numa montanha, nos Pirineus, e lá ficou durante um mês
em retiro. Quando desceu, ele tinha uma intenção sagrada que passou a ser sua
oração e que diz:
"Eu não sou eu, eu sou alguém que caminha ao meu lado. Que permanece
em silêncio quando estou falando. Que perdoa e esquece quando estou irado,
esbravejando. Que segue sereno quando estou aflito, sofrendo. E que estará de pé
quando eu estiver morrendo.”
Eu não sou eu, eu sou alguém que caminha ao meu lado. E por esse Alguém,
vale a pena conspirar.

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) BARRETO, Maribel

Capítulo 8

CONSCIÊNCIA E EDUCAÇÃO

Maribel Oliveira Barreto 1

Resumo
O presente artigo tem como objetivo fomentar uma sinergia nacional acerca do estudo da
Consciência, através da educação formal e se apresenta como um convite à reflexão do educador
sobre o seu papel de auxiliar no processo de despertamento, construção, desenvolvimento e/ou
expansão da Consciência dos educandos, incluindo ações que favoreçam a integração do seu sentir,
pensar e agir.
Palavras-chave: Consciência, Educação Formal, Lei Natural.

INTRODUÇÃO

Consciência implica
operação que não deixa resto.
(A Arca)

A temática proposta no presente artigo: “Consciência e Educação” retrata, de


certa forma, a consciência que temos da responsabilidade como dever e da
liberdade como direito, bem como da nossa utilidade individual e social,
especialmente, através da educação, e do fato de buscarmos, no dia-a-dia agir e
interagir com base, não só no conhecimento, mas também no autoconhecimento, em
prol da auto-realização.
Apesar dos estudos sobre Consciência não serem recentes, eles têm sido
aprofundados a partir do século XX, à luz de reflexões e abordagens teórico-práticas
de psicólogos transpessoais, pedagogos, filósofos, físicos quânticos, neucientistas,

1 Pós-doutora em educação (UNB). Doutora em educação (UFBA). Mestre em Educação (UFBA).


Especialista em psicopedagogia (UCSAL). Graduada em Pedagogia (UCSAL) Tem experiência
como diretora acadêmica de graduação e coordenadora pedagógica de pós-graduação, lato e stricto
sensu. Docente de pós-graduação e graduação. Contato: maribelbarreto@terra.com.br

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) BARRETO, Maribel

sociólogos, revelando, direta ou indiretamente, a necessidade de fazermos Ciência


com Consciência.
O estudo da Consciência, por sua vez, nos remete a uma melhor
compreensão da vida, a partir da concepção do Ser Humano como uma totalidade.
Portanto, um Ser que sente, pensa e age, lembrando que os nossos sentimentos,
pensamentos e atos, nada mais são senão expressões de nossa consciência. Com
isso, buscamos ouvir e atender a um apelo contemporâneo por uma educação
integral, transcendendo a visão dual entre ciência e religião.
Até porque enquanto a educação estiver sendo dissociada do corpo, da alma
e da totalidade do Ser Humano significa que as ciências ainda abstêm-se do que
indica a noção exata de Consciência e de Lei Natural, para a evolução abreviada
consciente do gênero humano; e, enquanto assim, os educandos inclinam-se na
busca prioritária da segurança, satisfação e felicidade, sem a razão, o bom senso e
a boa intenção; por conseguinte, sem a sabedoria, a força e a beleza nas ações.
Por isso, não nos cabe mais, por exemplo, buscar fazer Ciência sem
Consciência, ou mesmo buscar promover o desenvolvimento profissional, através da
educação, sem a preocupação com o despertamento, desenvolvimento e
socialização do potencial humano como um todo. Afinal, Ciência sem Consciência
deforma a alma humana e fragmenta o corpo físico.
Nesse contexto, confirmamos a necessidade de uma educação voltada para
o desenvolvimento integral do Ser Humano, fundamentada no estudo da
Consciência, a partir da compreensão de que todo trabalho pedagógico deve, no
mínimo, propor a criação de oportunidades que possibilitem conduzir o educando ao
despertamento, conhecimento, desenvolvimento e expansão de sua consciência, em
função da sua necessidade de conhecer, autoconhecer e auto-realizar,
considerando a Finalidade da Vida e a Razão de Nossa Existência.
Assim sendo e considerando que a prática da reflexão propicia o
discernimento, este, a iniciativa, e toda iniciativa, as realizações, iremos nos dedicar
às reflexões sobre educação e o nosso papel enquanto educadores, com o propósito
de realizações ainda maiores.

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) BARRETO, Maribel

REFLEXÕES SOBRE A EDUCAÇÃO

Inegáveis e inúmeras são as demandas no atual sistema de educação, pois


vivemos em tempo de profundas e significativas transformações, que podem ser
facilmente compreendidas em função do grau de Consciência dos sujeitos
diretamente envolvidos com a nobre causa de educar, conscientemente, o ser
humano.

Tendo em vista essas mudanças aceleradas da civilização humana, urge o


momento de agir conscientemente em relação ao nosso sistema educacional.
Estudos voltados para a prática de uma educação com Consciência envolvem uma
efetiva e peculiar revolução/transformação do modo dualístico de conceber a
realidade humana que incorpora, pensamento e sentimento, objetividade e
subjetividade, individualidade e sociedade, convertendo, dialeticamente, as
dualidades em totalidades, a partir de um referencial integral da existência humana.
Sob esta ótica, a educação deve contribuir para o desenvolvimento pessoal,
profissional e espiritual dos educandos, incluindo as dimensões da intelectualidade,
da objetividade, bem como adentrando nos meandros da subjetividade, de forma
que favoreça o desenvolvimento integral do Ser Humano nos seus aspectos: físico,
intelectual, emocional e, sobretudo, espiritual.
Há os que consideram que apenas instruindo o ser humano, fazendo-o coligir
e correlacionar fatos e técnicas, estão educando-o. É um ledo engano essa idéia de
que as informações, instruções, testes e diplomas devam ser os nossos critérios de
educação.
A educação tem como fim integrar o Ser Humano, torná-lo sensível para
enfrentar os desafios da vida e seus complexos ditames. Torná-lo inteligente não em
um nível circunscrito, mas, sim, em todos os níveis e viver em todos os níveis
conscientemente.
Nota-se, hoje, que tem sido dado mais valor aos sistemas técnicos
educacionais do que propriamente ao Ser Humano. Esqueceu-se que tão somente
ensinar uma técnica ao Ser Humano é a maneira, senão a mais tola, a menos
inteligente e consciente de se educar.
Isto gera novos desafios para o ensino, uma vez que não basta ensinar o que
é conhecido; é também necessário capacitar o educando para questionar, refletir,

128
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) BARRETO, Maribel

transformar e criar, através de um método educativo que prime pelo ensino que
facilita a aprendizagem, bem como toda aprendizagem que desperta o sentimento,
favorecendo novas criações.
Nesse contexto, o conhecimento das teorias sobre a prática educativa, os
melhores métodos para a aprendizagem e o sentimento de responsabilidade para
com o processo de educar subjetividades são fundamentais para todo educador,
comprometido com a educação.
Assim, no amanhecer deste novo milênio, é constatável que já passamos por
diversas experiências individuais e sociais, já abraçamos diversas teorias e o
problema da integração do Ser Humano ainda perdura, nos instigando a questionar
as abordagens educacionais que se dedicam, prioritariamente, à dimensão exterior
do Ser Humano, ou mesmo ao desenvolvimento das dimensões do agir e do pensar,
em detrimento da dimensão do sentir.
Isto não quer dizer que devemos abandonar a ciência e a tecnologia, mas sim
buscar integrá-las com o respaldo de princípios éticos, morais e estéticos elevados.
Afinal, é o despertamento, conhecimento, desenvolvimento e expansão da
Consciência que implica progresso e não o avanço tecnológico.
Não podemos ser ingênuos em acreditar que uma transformação desta
natureza se originará de elites dominantes ou será proveniente de instâncias
superiores figuradas como ordem divina, numa dimensão de fora para dentro, ou da
sociedade para o indivíduo, mas, ocorrerá sim, através de uma transformação que
parta de dentro de cada Ser Humano.
O projeto educativo é, então, integrar e não afastar o Ser Humano de si
mesmo, o que implica ter presente seus valores subjetivos, além dos objetivos,
proporcionando aos educandos condições de uma formação adequada, de tal
maneira que possam descobrir, por si só, suas tendências e valores próprios, bem
como sua finalidade de existir, seus deveres naturais para com a vida, incluindo
valores que envolvam as pessoas, de um modo geral, e o equilíbrio dinâmico nas
relações cotidianas.
Uma prática educativa, a partir de uma visão integral, emerge como um
antídoto, entre outros, para a nossa sociedade, que está alicerçada, até prova em
contrário, no descuido com a formação integral do Ser Humano, demonstrado nas
ações cotidianas, fazendo com que, do ponto de vista pessoal, tornemo-nos

129
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) BARRETO, Maribel

descuidados conosco mesmos e com os outros e, do ponto de vista da educação,


formemos, na maioria das vezes, profissionais e técnicos, mas não seres humanos.
Com isso, denunciamos não só esquecer, mas inobservar que muito antes de
sermos profissionais somos seres humanos.
Cabe ressalvar que estes profissionais podem até ser competentes em suas
ações específicas, mas, a maioria não se sente capaz de compreender a realidade e
agir em função do todo, o que pode garantir uma ação eficiente, porém, nem sempre
adequada do ponto de vista humano, seja ele individual ou coletivo, gerando, por
conseguinte, ações que acabam fomentando o caos social, até porque um Ser
Humano fragmentado, só pode oferecer, à sociedade, fragmentação.
Nessa perspectiva, algo nos chama atenção. Em 1999, a Unesco elaborou
um relatório sobre educação, intitulado: “Educação - um tesouro a descobrir” no qual
o organizador desse relatório reuniu educadores do mundo inteiro que chegaram a
uma síntese que foi divulgada através dos 4 pilares da educação para o século XXI,
a saber: aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a viver juntos e aprender a
ser.
O aprender a ser, inclusive, foi compreendido como o aprendizado basilar. Ou
seja, se a pessoa não aprende a ser as outras aprendizagens ficam comprometidas.
Porém, precisamos parar para refletir que desde o ano de sua publicação (1999) até
os dias atuais (2006) - sete anos se passaram - e continuamos convivendo com
problemas individuais e sociais incalculáveis, em detrimento do equilíbrio dinâmico
nas relações cotidianas. Os índices de corrupção, violência e volúpia se estendem,
quando deveriam estar diminuindo. Estaria faltando alguma coisa? Qual seria a
origem dos referidos problemas?
A nossa proposição, portanto, é incluir a Consciência como a base que
sustenta os quatro pilares da educação, sob pena de estarmos, ainda, expandindo
conflitos. Até porque Consciência significa sem conflito e nos favorece distinguir o
melhor caminho que devemos seguir, em prol do equilíbrio dinâmico do Universo,
através das Leis Naturais que o rege.

130
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) BARRETO, Maribel

CONCEPÇÕES DE CONSCIÊNCIA

Assumimos, portanto, a necessidade da consciência ser a base de


sustentação dos quatro pilares da educação para o século XXI, afinal, ela é a melhor
maneira de conhecermos a nós mesmos, nos conduzindo da fragmentação à
Totalidade, a partir da ampliação da nossa percepção acerca da realidade, como um
todo.
Assim sendo, faremos um breve percurso pelas diferentes, porém
complementares concepções acerca da Consciência, segundo alguns
representantes da psicologia transpessoal, da educação, da filosofia, da sociologia,
da medicina, da física, com o objetivo principal de fazer da diversidade a unidade,
nos capacitando e possibilitando ver melhor a realidade.
A etimologia da palavra, a partir das línguas saxônicas, como o inglês,
permite diferenciar dois tipos de Consciência: conscience, que é a Consciência em
seu sentido moral e consciousness, traduzindo seu sentido psiconeural. O idioma
português dispõe de apenas uma palavra para atender aos dois significados,
indicando a consciência como sinônimo de "Conhecimento, noção do que se passa
em nós [...] Percepção mais ou menos clara dos fenômenos que nos informam a
respeito da nossa própria existência [...]" (Houaiss, 1980, p.219).
Numa dimensão de análise filosófica, Lalande (1999, p. 195) define a
Consciência como a “intuição (mais ou menos completa, mais ou menos clara) que o
espírito tem dos seus estados e atos”. Ela se apresenta como um elemento
fundamental do pensamento anterior à distinção entre o conhecedor e o conhecido,
“é o dado primeiro que a reflexão analisa em sujeito e objeto” (Id. Ibid.).
O físico e teórico de sistemas, Capra (1999), afirma que a Consciência é uma
propriedade da mente caracterizada pela percepção e cognição de si própria. Para
ele, a percepção e a cognição de si mesmo só se manifestam no ser humano,
através da Consciência, isto é, da autoconsciência. Fala ainda de Consciência como
percepção do que acontece à nossa volta.
Damásio (2000), neurologista de formação, entende que, hoje, o último limite
a ser transposto pelas ciências da vida é desvendar a mente, destacando a
Consciência como o mistério supremo a ser esclarecido.

131
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) BARRETO, Maribel

De acordo com os estudos de Morin (2000), um dos principais pensadores


sobre complexidade, que vê o mundo como um todo indissociável, afirma que:
[...] As ciências humanas não têm consciência dos caracteres físicos e
biológicos dos fenômenos humanos. As ciências naturais não têm
consciência de sua inscrição numa cultura, numa sociedade, numa história.
As ciências não tem consciência do seu papel na sociedade. As ciências
não têm consciência dos princípios ocultos que comandam as suas
elucidações. As ciências não têm consciência de que lhes falta uma
consciência [...]

Morin (Id., p. 10-11) nos apresenta a consciência em dois sentidos: moral e


intelectual. No sentido moral, corrobora com o pensamento de Rabelais que diz:
“Ciência sem consciência é apenas ruína da alma”. E no sentido intelectual,
relaciona com a aptidão auto-reflexiva, considerada como qualidade-chave da
consciência. Em 1982, Morin já afirmava que “[...] consciência sem ciência e ciência
sem consciência são radicalmente mutiladas e mutilantes [...]”.

Nesse sentido, a educação assume um papel essencial na condução de


princípios conscientes para a formação integral dos educandos, até porque quando
a educação nos conduz a falsos princípios podemos antecipar que a ciência é
pervertida para servir a objetivos dúbios e destrutivos; bem como a cultura, ao invés
de ampliar, estreita as nossas perspectivas, tempo em que fomenta a corrupção,
violência e volúpia, e com isso demonstramos os efeitos de fazer ciência sem
Consciência. Daí, todos nós corremos riscos e perigos inevitáveis, e de prejuízos
quase que irreparáveis.
Para Grof (2000), psiquiatra e estudioso da psicologia transpessoal, a
Consciência é algo que simplesmente existe e que, em última instância, é a única
realidade; algo que é manifesto em cada ser humano e em tudo a nossa volta. Por
esse motivo, é imprescindível que a Consciência seja desenvolvida em todo o seu
potencial, explorada, expandida, aprofundada no contato consigo, com o que está à
volta e com o universo como um todo. Essa é a condição para alcançar a plenitude
do potencial humano.
Acrescenta afirmando ser a consciência uma “espécie de fenômeno primário
da existência [...] algo que surge da complexidade do sistema nervoso e está lá para
nós, para refletir a existência objetiva” (Id., 2004, p.273).
O neurocientista Karl Pribram (2004, p.271) afirma que a Consciência vem de
“conscire”: fazer ciência em conjunto; adquirir conhecimento em conjunto.

132
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) BARRETO, Maribel

De acordo com Sheldrake (2004, p. 272), biólogo e parapsicólogo:


“Consciência é conhecer com [...] Está relacionada com a esfera de possibilidades
estruturada por campos [...] escolha entre ações possíveis [...]”.
Goswami (2004, p.274), físico quântico que tem buscado correlacionar ciência
e espiritualidade, expressa que nos anos recentes, a física está se aproximando,
rapidamente, do ponto em que terá de lidar, de modo explícito, com a Consciência.
Para ele, Consciência é a base de todo ser.
Por fim, gostaríamos de destacar a concepção de Wilber sobre Consciência.
Ele é bioquímico de formação, porém dedicado à pesquisa da consciência, a partir
dos fundamentos da psicologia e filosofia, tanto Ocidental quanto Oriental, desde os
primórdios da sua vida acadêmica.
Wilber é o autor acadêmico mais traduzido dos EUA. Para Wilber (1997,
1998, 2000, 2001), o Ser Humano integra, em si, “todos os níveis, todos os
quadrantes”, que envolvem os aspectos intencionais, comportamentais, culturais e
sociais. Esses quadrantes também dizem respeito às esferas culturais de valores:
arte, moral e ciência; o Belo, o Bom e a Verdade; estética, ética e verdade; o EU, o
NÓS e o ELE.
A expressão “todos os quadrantes”, por sua vez, conduz a reconhecer que em
cada um dos “níveis” de Consciência (sensório, mente, espírito), há um interior
individual e coletivo, assim como um exterior individual e coletivo, o que possibilita,
em cada nível de ser e de conhecer, uma experiência estética (EU), uma experiência
ética (NÓS), uma “ciência” sobre cada fenômeno individual, bem como uma “ciência”
sobre os sistemas de fenômenos coletivos (ELE). Daí a compreensão de que uma
abordagem integral do Ser Humano deve levar em conta todos os níveis da Grande
Cadeia do Ser, bem como todas as suas dimensões.
De acordo com Wilber (2001), o caminho da preservação da vida,é sobretudo
uma questão de consciência e afirma que uma verdadeira “visão integral [...] deveria
incluir a matéria, o corpo, a mente, a alma e o espírito tal como se apresentam em
seu desdobramento através do eu, a cultura e a natureza. [...] uma visão que
abraçasse a ciência, a arte e a moral” (Id., p. 11).
Outra perspectiva de análise da Consciência é encontrada em Triviños,
sociólogo, (1995, p. 57), que a conceitua como

133
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) BARRETO, Maribel

“[...] um tipo de reflexo, a propriedade mais evoluída de reflexo, peculiar só à


matéria altamente organizada. Desta maneira, a consciência não é matéria
como pensavam os materialistas vulgares. A consciência é uma propriedade
da matéria, a mais altamente organizada que existe na natureza, a do
cérebro humano. Essa peculiaridade surgiu como resultado de um longo
processo de mudança da matéria”.

O estudo da Consciência, portanto, nos dá a chave para abrirmos o tesouro


do entendimento sobre nós mesmos. Hoje, se sabe que a Consciência está
relacionada de tal modo com o cérebro, e, por conseqüência, com a inteligência, que
seria difícil as dissociarmos. O que é importante ressaltar é que a Consciência
precisa ser analisada sob diferentes óticas, da neurobiologia à espiritualidade, de
forma integrada. Segundo nos confirma Campos (1997, p. 2),
A consciência é fruto da evolução do sistema nervoso. Portanto,
percepções, individualidade, linguagem, idéias, significado, cultura, escolha
(ou livre arbítrio), moral e ética, todos existem em decorrência do
funcionamento cerebral. Há, por vezes, receio de que a investigação
científica possa levar a uma "desmistificação" da consciência humana. De
fato, são inúmeras, e não triviais, as consequências da conceituação da
consciência como fenômeno natural. Uma delas, talvez a mais importante,
refere-se à percepção que o ser humano tem de si próprio e de seus
semelhantes: teme-se que a concepção da consciência como resultado de
um processo biológico corresponda a uma “profanação do espírito humano”,
com conseqüente abandono do comportamento moral e ético.

Nessa perspectiva, o processo de despertamento, construção,


desenvolvimento e expansão da Consciência ocorre ao longo de milhões e milhões
de anos até os dias atuais.
A partir dessa análise, torna-se possível refletirmos sobre nossas perspectivas
e estratégias para transformar a realidade, pois ao longo da história, estamos
expandindo a Consciência, através da interação com grupos, pessoas e
movimentos. Afinal, o Ser Humano não é só produto do seu sentir, pensar e agir,
mas também, do meio no qual se insere.
Verificamos ao longo da história que os mais bem adaptados em todos os
contextos, tendem a melhor sobreviver. Fazendo uma analogia com o presente,
continua sendo necessário desenvolvermos a capacidade de lidar com as
intempéries do dia-a-dia do viver, adaptando-nos ao ambiente no qual estamos
inseridos. Fica evidenciado, porém, que apesar de todo avanço biológico, social,
cultural, desde existência da espécie “australopitecus” até a espécie “homo sapiens
sapiens”, demonstramos, ainda, carência de discernimento, nas ações do cotidiano.

134
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) BARRETO, Maribel

Nessa dimensão de análise podemos inferir que a educação tem um papel


primordial. Gostaríamos de anunciar que enquanto educadoras, aprendemos e
sentimos que a Consciência é uma das faculdades inatas, capitais do ser humano,
que o favorece discernir o melhor caminho que deve seguir, conforme o que
estabelecem as Leis Naturais que regem o universo. De acordo com Barreto (2005,
p. 49):
[...] não é demais concebermos a Consciência como uma das propriedades
mais significativas da matéria em hominização. Ela é uma das mais
importantes faculdades inatas capitais do Ser Humano que lhe possibilita,
além de saber e sentir, suficientemente, acerca da realidade, segundo, não
só conhece, mas também se aproxima daquilo que estabelece aquela
moralidade universal que conduta dos corpos celestes denuncia.

Barreto (Ibid.) afirma ainda que devemos buscar saber cada vez mais o que é
ter Consciência clara, pois é com ela que o Ser Humano se eleva na senda da
Iluminação, da bem-aventurança e/ou algo que equivalha.
Dessa forma, precisamos auxiliar, através da educação, no processo de
despertar, construir, desenvolver e expandir a Consciência dos educandos,
considerando que nela repousam as Leis Naturais que regem o Universo. Assim
sendo, Consciência e Leis não têm diferença nem distância.

LEI DE CONSCIÊNCIA

Tratando da Consciência com uma Lei Natural, vale contextualizar,


brevemente, a relação existente entre o ser humano e a própria Lei.
Dejours (1999, p.74) afirma que “quando dizemos que o homem pertence ao
mundo da natureza, indicamos que o funcionamento e, em parte, o comportamento
humano são submetidos a leis. Leis imutáveis, estáveis, universais, que decorrem,
em última instância, das leis da matéria”.
Nessa perspectiva de análise, precisamos esclarecer que se faz necessário
sistematizar a compreensão da Consciência como uma Lei Natural. Afinal, uma Lei
Natural é muito mais do que um símbolo metafísico; ela é uma noção subjetiva, pois
reside no espírito do gênero humano, é abstrata, pois também resulta da síntese de
um considerável número de fatores gerais, e é positiva, pois sua realidade é
inegável, inevitável e auto-sustentável como a dos fatos de que provém e/ou produz.

135
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) BARRETO, Maribel

Enfim, a Lei é o fato tão observável quanto verificável em todos os seres e/ou a que
todos os seres estão sujeitos.
O estudo da Lei, por sua vez, nos favorece exercitar o saber pensar a ponto
de conseguirmos ser capazes de sentir, pensar e agir de maneira que os nossos
sentimentos, pensamentos e atos podem ser, expressar e/ou se converter em Lei
Universal. Ou seja, saber pensar favorece-nos experimentar, de forma, direta,
correta e completa, a real beleza, riqueza e significação da vida.
Por outro lado, quando o Ser Humano não é iniciado na senda do saber
pensar por si mesmo, ele tende a não ser favorecido pelo que indica a noção exata
de Consciência e de Lei Natural, para a sua evolução voluntária; e, com isso,
enfraquece o seu senso de decência, elegância e decorosidade; inclina-se a
desprezar o valor do zelo, principalmente para com o que é frágil; bem como impede
o seu impulso de ousar, paciente, persistente e inteligentemente, na busca do que é
considerado como difícil, improvável ou impossível.
Por isso, um dos maiores desafios do Ser Humano é saber pensar integrando,
em si mesmo, o seu sentir, pensar e agir numa só ação, sob pena de viver
desintegrado e, cada vez mais, desintegrando-se. Nesse contexto, a razão indica
que o saber que mais importa, além do autoconhecimento, é o conhecimento da Lei.
Até porque, a Consciência é a Lei.
E, para pesquisarmos e analisarmos até compreendermos, bem como
praticarmos até sentirmos, significativamente, uma Lei Natural, é imprescindível que
sejam observadas e verificadas, a partir do fenômeno considerado como relativo à
mesma, as evidências das três características fundamentais que demonstram o todo
da sua manifestação: o centro de onde partem todas as ações, o agir e o objeto que
reflete as ações.
Essas características são desdobradas, fundamentando-se nos itens da
metodologia científica: 1) objeto (o que é), 2) finalidade (para que existe),
3) justificativa (porque existe), 4) fundamentação teórica, 5) método (como, quando,
quanto), 6) recursos (com quem e com o que), e 7) fonte (origem). Veja o quadro a
seguir:

136
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) BARRETO, Maribel

Figura 1 – Quadro aprofundamento do pensamento quanto ao desvendamento de valores da


Lei de Consciência

A partir da leitura do quadro, podemos analisar a Consciência com base nas


suas características, segundo aquilo que indica a nossa experiência, senão vejamos:

1. Objeto – O que é Consciência?


Nossa experiência indica e a razão não se recusa a aceitar que a Consciência
pode ser definida como uma das faculdades mais significativas, inatas e capitais do
Ser Humano, uma vez que nela repousam as Leis Divinas, as Leis Universais, as
Leis Naturais que regem o Universo. Logo, Consciência é uma potencialidade.
Nascemos com essa força. Temos a força da inteligência, da imaginação, da ciência
e da Consciência.

2. Finalidade - Para que existe a Consciência?


Facultar ao Ser Humano conhecer, aproximar e identificar sua natureza
interna com a externa. Portanto, saber discernir entre o que é legal e o que não é;
entre o correto e o incorreto, bem e mal, entre o que é bom e ruim e entre o real e o
ilusório, segundo o equilíbrio dinâmico da moralidade que a conduta dos corpos
celestes denuncia.

137
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) BARRETO, Maribel

3. Justificativa - Por que existe a Consciência?


A Consciência existe porque é essencialmente necessário e racionalmente
justificável que o Ser Humano conheça, aproxime e identifique a sua natureza
interna com a externa; o seu universo orgânico individual com o universo orgânico
total e, portanto, com Deus, com a vida das Leis Universais, que é infinito na
duração e na extensão, porém finito na distância.

4. Fundamentos (dentre muitos)


Matéria é energia condensada. Einstein comprovou isso. Quanto mais
sutilizarmos a nossa matéria, maior energia. A física quântica comprovou que tudo
quanto existe na natureza é energia condensada. Portanto, em tudo há vida porque
em tudo há movimento, em tudo existem átomos na sua multiplicidade de formas.
Mas, a vida não é só materialidade. As coisas materiais se demonstram como
energia na sua forma de condensação. Então, precisamos assumir o compromisso
moral conosco próprios e descondensar, ao máximo, essa energia. Afinal, quanto
mais Consciência, menos densidade, menos condensação, menos materialização.
Outro fundamento que justifica a existência da Consciência é lembrarmos que
tudo se transforma, aprimora e evolui. Então, temos que evoluir a ponto de
querermos investigar a nossa vontade própria, ter razão, Consciência, até chegar à
onisciência do Princípio Criador.

5. Método - Como despertar, construir e/ou desenvolver a Consciência?


Para despertar a Consciência existe um trabalho teórico e um trabalho
prático. Dentre vários estudos já realizados, o trabalho teórico da Consciência
envolve estudos e desvendamentos de valores insofismáveis, caracterizados por
códigos perenes e imutáveis das Leis Divinas, das Leis Universais e das Leis
Naturais que regem o Universo. No trabalho prático, temos o desenvolvimento da
qualidade de raciocinar, através da força em domínio da contemplação.

6. Recursos - Com quem, quanto, com o quê despertar, construir e/ou


expandir a Consciência?
Os recursos humanos somos nós, Seres Humanos. O financeiro é o todo
conhecido, possível e disponível, considerando o todo das realizações. Os técnicos

138
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) BARRETO, Maribel

são saber viver, pensar, raciocinar, contemplar, as Leis Divinas, usar as Leis etc. Os
recursos materiais são as energias pensantes, as energias inteligentes e a mente.

7. Fonte – Qual a origem da Consciência?


O centro de onde parte a Consciência é a imutabilidade, ou seja, a moralidade
do Universo que a conduta dos corpos celestes denuncia. Essa é a melhor
bibliografia, a melhor referência para o despertar da Consciência.

A partir do estudo e desvendamento da Lei de Consciência, aprendemos que


quando decidimos estudar e desvendar uma Lei, é porque já sentimos a falta de algo
indispensável; e quando conseguimos realizar isso em grau significativo,
percebemos que faltava algo indispensável para o nosso viver. Enfim, estudar e
desvendar a Lei é resgatar o esforço coletivo de interpretar o Universo e a existência
humana, porquanto quem exercita desvendar a Lei, termina por exercitar o
desvendar de si mesmo, em busca da Consciência que está por vir.

PROPOSIÇÃO FINAL: ESTUDO DA CONSCIÊNCIA NO SISTEMA FORMAL DE


ENSINO

A partir do exposto, sustentamos que nosso caminho natural é o


despertamento, construção, desenvolvimento e expansão da nossa Consciência
como tarefa emergencial, inclusive e principalmente, através da Educação, ainda
que tenhamos limites e/ou obstáculos para tal. Entendemos, pois, a necessidade de
nos relacionarmos, através da educação, não só com o mundo objetivo e empírico
do conhecimento moderno, mas também com o mundo subjetivo e espiritual da
sabedoria.
Afinal, a Educação tem por finalidade auxiliar os educandos no processo de
desenvolvimento dos estados de Consciência, assim como das suas relações com a
realidade e com os valores existenciais. Ela deve ajudar no direcionamento da auto-
integração do gênero humano, possibilitando-lhe conceber da vida, a sua real
beleza, a sua real riqueza, bem como a sua real significação.

139
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) BARRETO, Maribel

Precisamos, assim, de uma pedagogia que esteja de acordo com as


pesquisas contemporâneas acerca da Consciência como um todo, pois qualquer
coisa ao contrário, só aumentamos o caos no qual vivemos.
A educação, portanto, através da ciência, não pode nem deve ensinar ao
educando somente a medir, calcular e dominar, pois assim, não só dificulta, mas
também o impede de alcançar o que indica a noção exata de Consciência e de Lei
Natural, para a sua evolução abreviada consciente; e, com isso, amplia os seus
medos, culpas e apegos, por conseguinte, o inclina a implantar, manter ou ampliar a
corrupção, a violência e a volúpia na sociedade.
Nesse contexto, vislumbramos a possibilidade de uma educação verdadeira,
que contemple a integração das dimensões do Ser Humano como um todo, assim
como de seus níveis de conhecer, fazer, viver juntos e ser, ou seja, a unidade do
conhecimento, a partir do despertamento, cada vez maior, da Consciência, nos
conduzindo da fragmentação à totalidade.
Relembramos, no presente artigo, a necessidade de expansão do estudo da
Consciência na educação formal, porque sustentamos que a Consciência é o
primeiro e último conhecimento que o Ser Humano pode e deve utilizar para saber
bem lidar com as questões da existência da vida, pois esta mais do que cobra, aos
desavisados, a vida que não for vivida.
Assim sendo, socializamos a nossa experiência de favorecer o estudo da
Consciência junto aos educandos, desde a educação infantil até o ensino superior,
em nível de pós-graduação, a saber:
 na educação infantil e no ensino fundamental, propomos a disciplina
Iniciação à Consciência, com a finalidade de favorecer o despertar do
sentir dos educandos, através do estudo de Leis Naturais que regem o
Universo, considerando que os mesmos são dotados de sensibilidade,
criatividade e moralidade;
 no ensino médio, a disciplina Consciência, com a finalidade de
favorecer ao educando o pensar com inteligência, a partir do estudo e
do desvendamento de Leis Naturais;
 no ensino superior, a disciplina Conscienciologia, com a finalidade de
oportunizar ao educando que integre o seu sentir, pensar e agir, de
maneira que lhe seja possibilitado absorver, em si mesmo, o valor

140
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) BARRETO, Maribel

significativo real das relações, a partir do estudo das temáticas: Vida; o


Ser Humano: sua estrutura e seu processo de evolução sócio-
antropológica, bem como a Consciência: conceituação, despertamento,
desenvolvimento e expansão.

Além da proposição das disciplinas, sugerimos que a Consciência seja


trabalhada de forma transdisciplinar, nos espaços educacionais, de forma a envolver
não só os educadores e educandos, mas as demais pessoas que estão vinculadas à
Instituição, nas suas mais diversas funções, especialmente através de práticas
continuadas e permanentes de sensibilização e capacitação quanto à temática, bem
como através de murais interativos, com pensamentos reflexivos diários.
Até porque, a Consciência se pratica através das relações que estabelecemos
no dia-a-dia e faculta ao Ser Humano aptidões, tais como a do discernimento, que o
possibilita compreender, absorvendo, em si mesmo, a natureza real que reside em
todas as coisas, inclusive e principalmente, o valor significativo real das relações.
Que a presente proposição promova uma sinergia nacional em prol do estudo
da Consciência no sistema formal de educação, como um marco da nova
humanidade, caracterizado pelo novo estado de consciência do Ser Humano; até
porque, este tem o dever moral de fazer de si mesmo um Ser Humano mais do que
Humano.

141
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) BARRETO, Maribel

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143
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) REICHOW, Jeverson

Capítulo 9

CONSCIÊNCIA E TRANSDISCIPLINARIDADE

Jeverson Rogério Costa Reichow1

Resumo
Este artigo tem como objetivo estabelecer relações entre a visão de Consciência da Psicologia
Transpessoal e a Transdisciplinaridade a partir de conceitos e pesquisas importantes relacionadas
aos dois temas. Primeiramente são apresentados os conceitos relativos à Consciência, tais como
Estados Ampliados de Consciência, Consciência de Unidade e Consciência, Cérebro e Realidade.
Num segundo momento são desenvolvidos alguns conceitos relacionados com a
Transdisciplinaridade, a saber, o conceito de Níveis de Realidade, de Lógica do Terceiro Incluído e o
conceito de Complexidade. Enquanto os conceitos são desenvolvidos são estabelecidas algumas
relações entre os dois temas. Por último será apresentada a conclusão, ressaltando o nível de
complementaridade que os dois temas possuem entre si e a importância de se aprofundar essas
relações.
Palavras-chave: Consciência, Transdisciplinaridade, Psicologia Transpessoal.

INTRODUÇÃO

O objetivo deste artigo é estabelecer relações entre a visão da Consciência


oriunda da perspectiva da Psicologia Transpessoal e a Transdisciplinaridade. Para
tanto, serão desenvolvidos e relacionados conceitos e algumas pesquisas referentes
aos dois temas citados buscando pontos de convergência, demonstrando que as
experiências de ampliação da consciência levam a uma nova percepção da
realidade e também a uma compreensão do sentido de totalidade que vai ao
encontro da visão transdisciplinar.
Primeiramente serão apresentados conceitos relacionados à Consciência e,
em segundo lugar conceitos relacionados à Transdisciplinaridade. Durante a
apresentação dos conceitos serão estabelecidas relações entre os dois temas. Por
último será apresentada a conclusão.
Entre os conceitos importantes relacionados com a Consciência, a partir da
perspectiva da Psicologia Transpessoal está o conceito de Estados Ampliados de

1 Coordenador do Curso de Psicologia da Universidade do Extremo Sul Catarinense – UNESC,


Mestre em Educação – Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS; Psicólogo graduado
pela Universidade Católica de Pelotas – UCPEL. Contato: jrr@unesc.net

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) REICHOW, Jeverson

Consciência, o conceito de Consciência de Unidade e de Consciência, Cérebro e


Realidade. E, entre os conceitos relacionados com a Transdisciplinaridade temos o
conceito de Níveis de Realidade, de Lógica do Terceiro Incluído e o conceito de
Complexidade.
Como mencionado anteriormente, a visão da Consciência apresentada neste
artigo é decorrente da Psicologia Transpessoal, a qual tem como objeto de estudo
os Estados de Consciência. Segundo Weil (1999, p. 9), “a Psicologia Transpessoal é
um ramo da Psicologia especializada no estudo dos estados de consciência; ela lida
mais especialmente com a ‘experiência cósmica’ ou os estados ditos ‘superiores’ ou
‘ampliados’ da consciência.”
A Psicologia Transpessoal é influenciada por diferentes ramos da psicologia
ocidental, diferentes métodos orientais ou disciplinas da consciência e por outras
ciências como a Física, a Sociologia, a Antropologia, a Hipnologia, a Psiquiatria, a
Neurologia e, mais recentemente, das Neurociências. A seguir serão apresentados
alguns destes conceitos.

ESTADOS AMPLIADOS DE CONSCIÊNCIA

O conceito de Estados Ampliados de Consciência é apresentado por vários


autores. Krippner (1997) faz uma relação dos diferentes estados alterados de
consciência. Para este trabalho será adotado o conceito de Estados Ampliados de
Consciência para diferenciar de estados alterados de consciência, uma vez que,
todo o Estado Ampliado de Consciência é também um estado alterado, mas nem
todo o estado alterado de consciência é necessariamente um estado ampliado.Tart
(1995, p.227) define um Estado Ampliado de Consciência “como uma alteração
qualitativa no padrão de funcionamento mental na qual a pessoa que o experimenta
sente que a sua consciência funciona de maneira radicalmente distinta do seu modo
comum de operação”.
As pesquisas da Psicologia Transpessoal mostraram que, além do estado de
consciência de vigília, o ser humano é capaz de experimentar outros estados de
consciência durante os quais sua percepção da realidade transforma-se muito em
relação aquilo que entendemos como real. Dentre essas transformações, algumas
são muito importantes para este trabalho, a saber, o desaparecimento das fronteiras

145
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) REICHOW, Jeverson

entre sujeito-objeto ou entre o eu que vive e a experiência vivida, a construção de


novos significados do real a partir destas vivências e o conhecimento descontínuo,
isto é, que transcende meios físicos de propagação e o próprio tempo. Outro aspecto
fundamental dessas experiências é a tomada de consciência de si como um ser
multidimensional, um ser físico, energético, emocional, mental e espiritual. Durante
as experiências em estados ampliados de consciência a pessoa se percebe com um
ser total em que corpo, energia, emoções, mente e espírito são aspectos diferentes
deste ser que é, em essência, um ser espiritual. E, mais ainda, este ser total se
percebe profundamente conectado com a natureza, com o planeta e com o cosmos
conforme Walsh (1995).
Quando são superadas as limitações da percepção humana a realidade
parece completamente diferente da realidade cotidiana. De maneira geral, segundo
Walsh (1995, p. 253), as seguintes características definem a realidade do universo
descrita pelas disciplinas da consciência, pela física quântica e por algumas áreas
das neurociências:

não-dualista, em oposição a dicotômico;


um todo unitivo, em oposição a partes não relacionadas entre si;
interligado, em oposição a formado por componentes estanques e
separados;
antes dinâmico e em contínuo movimento ou fluxo, em oposição a estático;
impermanente e efêmero, em oposição a duradouro e permanente;
vazio (constituído em larga medida pelo espaço vazio não-sólido) em vez de
sólido;
acausal (mas não anticausal), isto é, transcende os modelos tradicionais de
causalidade, visto que todo componente entra na determinação de todos os
eventos (onideterminismo);
sem base exterior e autoconsciente, na medida em que, como todos os
componentes e mecanismos são interligados e interdependentes, nenhum
é, em última análise, mais fundamental do que os outros. Por conseguinte,
não se pode explicar o universo em termos de um número limitado de
mecanismos fundamentais;
estatístico e probabilístico em lugar de certo;
paradoxal, e não, em última análise, compreensível, codificável e exprimível
em termos intelectuais;
ligado inextricavelmente com o observador.

De acordo com a psicologia budista existem diferentes níveis de Consciência


ou da Mente. Os níveis mais elevados permitem funções mentais abstratas e os
níveis mais densos levam a impulsos instintivos e a funções da memória. Para
Humphrey (1989, p. 22):

146
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) REICHOW, Jeverson

A psicologia budista também nos oferece um modelo alternativo da mente e


da matéria. Segundo ela, o próprio universo nada mais é do que
consciência, dividida em nove planos: os seis primeiros são a consciência
essencial da visão, da audição, do olfato, do paladar, do tato e do
pensamento. Esses seis planos compreendem, juntos a consciência
individual, que nasce e morre. Os sétimo, oitavo e nono planos não se
acabam com a morte. O sétimo plano é a consciência da autopercepção. O
oitavo plano, a consciência alaya relativa, que recebe todos os dados
sensoriais reunidos nos seis primeiros planos. Eles são aqui coligidos e
registrados com absoluta precisão. Essas impressões ocasionam a próxima
ação, colocando em movimento um constante ciclo de atividades. O nono
plano, a consciência alaya absoluta, é a pura autoconsciência sem forma da
Natureza-Verdade.

Em minha dissertação de mestrado, (Reichow 2002), estabeleço importantes


relações entre os Estados Ampliados de Consciência e o acesso à informação,
sugerindo que é possível atingir outros Níveis de Realidade a partir de experiências
induzidas de ampliação de consciência.
Como se pode perceber, diferentes disciplinas do conhecimento humano
construíram visões bastante semelhantes sobre os diferentes estados de
consciência que podem ser experienciados. Entre esses estados está o Estado de
Consciência de Unidade.

CONSCIÊNCIA DE UNIDADE

O conceito de Consciência de Unidade é encontrado em diferentes correntes


de pensamento, não só científico como também filosófico e em diversas tradições
sapienciais da humanidade. Saldanha (1999, p. 42) refere-se à Unidade como “a
propriedade de não estar dividido. Quando abordamos a unidade cósmica, referimo-
nos ao fim da dualidade, das polaridades. É o todo, o absoluto, a plena luz. Nesse
nível, inexiste tempo e espaço. É um eterno agora, um eterno ser-único, indivisível.”
Weil (1999) salienta que a Unidade é uma das características da Consciência
Cósmica. Entende-se por Consciência Cósmica um estado de consciência no qual o
ser humano percebe a si e a realidade de uma maneira bem diferente da percepção
comum, se sentido conectado com a totalidade do Universo. Segundo Weil (1999, p.
10), as principais características da experiência cósmica são:

Unidade: é o desaparecimento da percepção dual Eu-Mundo.


Inefabilidade: a experiência não pode ser descrita com a semântica usual.
Caráter noético: um senso absoluto de que o que é vivido é real, às vezes
muito mais real do que a vivência quotidiana comum.

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) REICHOW, Jeverson

Transcendência do espaço-tempo: as pessoas entram numa outra


dimensão; o tempo não existe mais e o espaço tridimensional desaparece.
Sentido de sagrado: o senso de que algo grande, respeitável e sagrado está
acontecendo.
Desaparecimento do medo da morte: a vida é percebida como eterna,
mesmo se a existência física é transitória.
Mudança do sistema de valores e de comportamento: muitas pessoas
mudam os seus valores no sentido dos valores B de Maslow (Beleza,
Verdade, Bondade, etc.). Há uma subestimação progressiva dos valores
ditos materiais e do apego ao dinheiro. O “Ser” substitui o “Ter”.

O conceito de Unidade é fundamental dentro do estudo da Consciência


porque resgata a unidade fundamental de todas as coisas, a qual foi perdida com a
fragmentação do conhecimento decorrente da aplicação do paradigma cartesiano na
ciência moderna.

CONSCIÊNCIA, CÉREBRO E REALIDADE

As descobertas da física quântica, através de experimentos que comprovaram


a dualidade onda-partícula, desvendaram dimensões da realidade até então
desconhecidas para a ciência. No entanto, estes mesmos experimentos revelaram
algo mais intrigante, que a consciência do observador interfere no objeto observado.
Dito de outra maneira, a consciência influência na manifestação da partícula
subatômica a qual, dependendo de como é realizado o experimento, manifesta-se
como matéria (partícula) ou como energia (onda). Físicos como Goswami (1998) e
Wolf (2003) constataram a nível microcósmico que a consciência do pesquisador
interfere no resultado da pesquisa. Morin (1996, p. 185), Também confirma esse fato
na seguinte passagem:

[...] o problema do observador não está limitado às ciências antropossociais;


a partir de agora o problema é relativo às ciências físicas; assim, o
observador altera a observação microfísica (Heinsenberg); [...] enfim, a
cosmologia reintroduz o homem, ao menos, no princípio chamado de
“antrópico”- não de entropia, mas de “antropo” – segundo o qual a teoria da
formação do universo precisa explicar a possibilidade da consciência
humana e, obviamente, da vida (Brandon Carter).

Para Morin, nas ciências antropossociais, o observador influencia o objeto


observado mesmo no nível macrocósmico. Os experimentos de Jahn e Dunne
(1987), realizados na Universidade de Princeton no PEAR (Princeton Engineering
Anomalies Research), sugerem a influência da consciência do sujeito (operador) em

148
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) REICHOW, Jeverson

experimentos envolvendo máquinas mecânicas e geradores de números binários


(zeros e uns).
Em outro experimento realizado em Washington D. C. entre sete de junho e
trinta de julho de 1993 o mesmo fenômeno de interferência atingiu dimensões ainda
mais amplas. Este experimento reuniu um grupo de aproximadamente 4000
participantes no Programa de Meditação Transcendental do Yogue Maharishi
Mahesh. A hipótese levantada era a de que, de acordo com Hagelin (1993), os
níveis de crimes violentos no distrito de Columbia cairiam substancialmente durante
o período mencionado acima, como conseqüência do efeito do grupo de aumentar a
coerência e diminuir o stress na consciência coletiva dos habitantes do distrito. Os
resultados do experimento mostraram uma redução dos níveis dos crimes violentos
próxima a 25%.
Outras pesquisas envolvendo Estados Ampliados de Consciência estão
sendo realizadas Richard Davidson e sua equipe na Universidade de Wisconsin.
Davidson está pesquisando os efeitos da meditação sobre os estados emocionais
negativos e constatando que meditadores freqüentes têm menos emoções negativas
como raiva, ódio, cólera e inveja. Além disso, também está ficando evidenciado que
a meditação altera a neuroplasticidade cerebral, alterando as redes de conexões
sinápticas. De acordo com Davidson (2003), os resultados demonstram que um
pequeno treino em meditação produz efeitos demonstráveis no cérebro e na função
imunológica. Estes resultados sugerem que a meditação pode modificar o cérebro e
a função imunológica de maneiras positivas e pontuam a necessidade de se fazer
pesquisa adicional. Em outro estudo recente, Cayuon (2005) conclui em suas
observações clínicas, que o treinamento em meditação promove o aumento da
habilidade perceptual pela plasticidade do cérebro na região pré-frontal e parietal,
tendo como resultado graus maiores de auto-compreensão e de auto-controle.
Percebe-se assim que as experiências em Estados Ampliados de Consciência
apontam para uma visão de realidade que começa a ser repetidamente comprovada
dentro e fora dos laboratórios, ficando evidenciado que é preciso rever o conceito de
realidade.

149
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) REICHOW, Jeverson

NÍVEIS DE REALIDADE

O conceito de Níveis de Realidade está intimamente associado à revolução


quântica na física. De acordo com Nicolescu (1999, p. 31):

Deve-se entender por nível de Realidade um conjunto de sistemas


invariantes sob a ação de um número de leis gerais: por exemplo, as
entidades quânticas submetidas às leis quânticas, as quais estão
radicalmente separadas das leis do mundo macrofísico.

Assim, as leis que empregamos para descrever o Nível da Realidade


macrofísica não podem ser utilizadas para descrever a realidade microfísica ou
subatômica. Da mesma maneira, as leis que utilizamos para descrever como
funciona nossa consciência e percepção da realidade quando estamos em estado
de consciência de vigília não podem ser utilizadas para descrever a realidade
percebida durante Estados Ampliados de Consciência, pois, como vimos, a
percepção do que é real durante esses estados é completamente diferente daquilo
que estamos acostumados a perceber como real. Weil, D’Ambrosio e Crema (1993)
dizem ainda que a vivência do real é uma função do estado de consciência –
VR=(f)EC. Para Walsh (1995, p. 249),

Essa visão pode ser alcançada por meio de todas as modalidades


epistemológicas de aquisição de conhecimento: a percepção sensória, a
análise conceitual intelectiva ou a contemplação(...).Mas pouco importa o
seu modo de obtenção; o aperfeiçoamento da sensibilidade num grau
suficiente revela uma ordem de realidade diferente daquela que nos é
familiar. Além disso, as propriedades assim reveladas serão essencialmente
mais fundamentais e verídicas do que costuma acontecer e vão apresentar
um maior grau de semelhança interdisciplinar. Por isso, à medida que se
desenvolvem e se tornam mais sensíveis as disciplinas empíricas, pode-se
esperar que revelem fenômenos e propriedades que assinalam os
fundamentos comuns e os paralelos entre disciplinas e entre níveis.

Numa visão de mundo materialista, as experiências subjetivas foram e ainda


são, muitas vezes, associadas com fantasias e/ou patologias. A realidade interior de
um indivíduo também é vista como um mero epifenômeno do cérebro. No entanto, a
própria física nos mostra que energia e matéria são, em essência, a mesma energia
ondulando em freqüências diferentes. Podemos pensar então que nossos
pensamentos ou imagens mentais são energia mental atuando sobre ou junto com
os impulsos elétricos de nosso cérebro. Percebe-se assim que, mesmo numa
realidade dita subjetiva, existe uma relação entre energia e matéria.

150
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) REICHOW, Jeverson

Outro aspecto importante da realidade subjetiva é que, como mencionado


anteriormente nas características da consciência cósmica, as experiências
vivenciadas naquele nível de realidade ou de consciência têm um profundo caráter
noético, isto é, são sentidas como absolutamente reais pelo sujeito.

LÓGICA DO TERCEIRO INCLUÍDO

A Lógica do Terceiro Incluído, de Lupasco, refere-se também aos níveis de


Realidade. Nicolescu (1999, p. 32-33) diz que:

Para se chegar a uma imagem clara do sentido do terceiro incluído,


representamos os três termos da nova lógica – A, não-A e T – e seus
dinamismos associados por um triângulo onde um dos ângulos situa-se a
um nível de Realidade e os dois outros a um outro nível de Realidade. Se
permanecermos num único nível de Realidade, toda manifestação aparece
como uma luta entre dois elementos contraditórios (por exemplo: onda A e
corpúsculo não-A). O terceiro dinamismo, o do estado T, exerce-se num
outro nível de Realidade, onde aquilo que parece desunido (onda ou
corpúsculo) está de fato unido (quantum), e aquilo que parece contraditório
é percebido como não-contraditório.

Esse estado T de terceiro incluído, é um terceiro unificador que, de acordo


com Nicolescu (2001) une A e não-A, e não pode ser compreendido sem a noção de
níveis de Realidade. A Figura 1 exemplifica esse conceito.

A Não-A

Figura - 1
Em se tratando da Consciência humana, certos tipos de experiências que são
consideradas impossíveis no estado de consciência de vigília, tornam-se plenamente
possíveis em Estados Ampliados de Consciência. A psicopatologia clássica sempre
considerou estes estados como patológicos por considerar a existência de apenas

151
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) REICHOW, Jeverson

um estado de consciência como normal ou saudável e qualquer outra experiência da


consciência era vista como patológica. Mais recentemente, pesquisas como nos
exemplos mencionados anteriormente, começam a desvendar outros Níveis de
Realidade acessados durante experiências em Estados Ampliados de Consciência.
Como exemplo disso, temos o xamanismo em suas diferentes manifestações no
mundo inteiro, como bem mostra Eliade (2002).

COMPLEXIDADE

De acordo com Silva (2005), a Complexidade vem sendo proposta por


Nicolescu como um dos pilares da Transdisciplinaridade. A apropriação deste
conceito neste trabalho é importante sob o ponto de vista da multidimensionalidade
do conhecimento. Para Morin (1996, p. 176-177):
Num sentido, o pensamento complexo tenta dar conta daquilo que os tipos
de pensamento mutilante se desfaz, excluindo o que eu chamo de
simplificadores e por isso ele luta, não contra a incompletude, mas contra a
mutilação. Por exemplo, se tentarmos pensar no fato de que somos seres
ao mesmo tempo físicos, biológicos, sociais, culturais, psíquicos e
espirituais, é evidente que a complexidade é aquilo que tenta conceber a
articulação, a identidade e a diferença de todos estes aspectos, enquanto o
pensamento simplificante separa esses diferentes aspectos, ou unifica-os
por uma redução mutilante. Portanto, nesse sentido, é evidente que a
ambição da complexidade é prestar contas das articulações despedaçadas
pelos cortes entre disciplinas, entre categorias cognitivas e entre tipos de
conhecimentos. De fato, a aspiração à complexidade tende para o
conhecimento multidimensional.

Por essa passagem de Morin fica clara a importância de uma visão de


Complexidade que percebe a multidimensionalidade humana e da realidade por
meio de um olhar transdisciplinar. O termo Complexidade refere-se neste sentido a
uma visão sistêmica da realidade e da Consciência.
A visão da Consciência humana decorrente da Psicologia Transpessoal é,
neste sentido, complexa, pois, na vivência transpessoal a autopercepção e a
autoconsciência se ampliam, abrangendo outras dimensões do humano, pouco
conhecidas e valorizadas. Durante a experiência transpessoal da consciência da
Unidade, o ser se percebe inteiro, sem divisões entre sensações, sentimentos,
pensamentos e intuições. Essa visão inteira e integrada, juntamente com o
desaparecimento da separatividade entre eu e o mundo, bem como a
transcendência do espaço-tempo linear, leva a um novo tipo de conhecimento dos

152
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) REICHOW, Jeverson

Níveis de Realidade. Também D’Ambrósio (1998, p. 21) traz essa visão ampliada ao
referir-se a autopercepção de um indivíduo como:

 uma realidade individual, nas dimensões sensorial,


intuitiva, emocional, racional;
 uma realidade social, que é o reconhecimento da
essencialidade do outro;
 uma realidade planetária, o que mostra sua dependência
do patrimônio natural e cultural e sua responsabilidade na
sua preservação;
 uma realidade cósmica, levando-o a transcender espaço e
tempo e a própria existência, buscando explicações e
historicidade.

Este ser que se percebe inteiro também percebe o mundo de uma maneira
completamente diferente, sentindo-se sujeito que cria a sua própria realidade -
colapso quântico (GOSWAMI, 1999) e, sendo assim, assumindo novos valores e
responsabilidades frente a sua própria existência, à sociedade onde vive, ao planeta
e ao Cosmos. Perceber-se e perceber o mundo dessa maneira inteira, leva à criação
de novos significados a partir das vivências em Estados Ampliados de Consciência.
A física já demonstrou que matéria e energia têm a mesma essência (E=mc2) e que
matéria é energia em forma densa. Goswami (1999), com sua teoria da Criatividade
Quântica, demonstra que toda a manifestação (atualização na linguagem quântica)
se dá do nível mais sutil para o nível mais denso. Nossa realidade mental, intuitiva e
emocional (sentimentos), é mais sutil do que o nível físico, mas é a partir destes
níveis sutis que criamos nosso mundo físico. As experiências em Estados Ampliados
de Consciência revelam a teia invisível que une todos esses níveis e torna possível
sua interação, isto é, revela a Complexidade do Real.
A apreensão da realidade é muito mais do que um ato do pensar. Assim, o
ato cognitivo envolve o ser inteiro, em suas múltiplas dimensões. Capra (1997)
salienta a cognição inclui a linguagem, o pensamento e todos os outros atributos da
Consciência humana.
Isso tudo nos remete a idéia de rede, trazida pela visão sistêmica. Capra
(1997, p. 48) faz importantes colocações a respeito dessa nova visão do
conhecimento e da realidade nos seguintes trechos:

No novo pensamento sistêmico, a metáfora do conhecimento como um


edifício está sendo substituída pela da rede. Quando percebemos a

153
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) REICHOW, Jeverson

realidade como uma rede de relações, nossas descrições também formam


uma rede interconectada de concepções e de modelos, na qual não há
fundamentos. (...) os fenômenos descritos pela física não são mais
fundamentais do que aqueles descritos, por exemplo, pela biologia ou pela
psicologia. Eles pertencem a diferentes níveis sistêmicos, mas nenhum
desses níveis é mais fundamental que os outros. (...) Outra implicação
importante da visão da realidade como uma rede inseparável de relações
refere-se à concepção tradicional de objetividade científica. No paradigma
científico cartesiano, acredita-se que as descrições são objetivas – isto é,
independentes do observador humano e do processo de conhecimento. O
novo paradigma implica que a epistemologia – a compreensão do processo
de conhecimento – precisa ser explicitamente incluída na descrição dos
fenômenos naturais.

Novamente percebe-se que o ato de observar, como mencionado


anteriormente, interfere na percepção do objeto observado. Alguns físicos, como
Goswami (1998), afirmam que não há fenômeno se não há um observador.

CONCLUSÃO

A Consciência humana deve ser estudada de maneira transdisciplinar, indo


além das disciplinas do conhecimento, mas também integrando conhecimentos de
disciplinas como a psicologia e, particularmente, a Psicologia Transpessoal, as
neurociências, a física quântica, e das grandes tradições sapienciais, como o
budismo, o hinduísmo, o taoísmo, o zen e o xamanismo. Cada uma das visões tem
uma importante contribuição ao estudo da consciência. Além disso, a
Transdisciplinaridade pode contribuir com importantes fundamentos teóricos para o
estudo da Consciência. Por outro lado, as experiências da Consciência
proporcionam o experienciar de diferentes Níveis de Realidade, como os descritos
na cosmovisão xamânica, ou nos diferentes modelos de cartografias da Consciência
descritos a partir das pesquisas da Psicologia Transpessoal.
A ciência ocidental construiu seu conhecimento a partir do estado de
consciência de vigília, no qual a realidade é percebida como fragmentada e, por
isso, criou tantas disciplinas e áreas, perdendo muitas vezes a visão do Todo. O
aporte Transdisciplinar da Consciência possibilita perceber que existem diferentes
Níveis de Consciência. Ao contrário da visão disciplinar que classifica e cria
categorias que, no caso da Consciência, separam o que é normal daquilo que é
patológico. Essa é uma visão ainda bastante comum em algumas correntes
psicológicas.

154
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) REICHOW, Jeverson

Desta maneira, a visão Transdisciplinar tem muito a contribuir para o estudo


da consciência e este, por sua vez tem muito a acrescentar à Transdisciplinaridade.
São áreas de estudo que detém entre si alto nível de complementaridade. Nestes
tempos em que tanto se fala em mudança de paradigma científico, o
aprofundamento destas relações pode ser profundamente fecundo para a Ciência.
Para finalizar, é importante lembrar que o conhecimento nunca está dado nem
acabado e manter a abertura para o novo e não esquecer que a ciência deve estar a
serviço do bem coletivo.

155
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) REICHOW, Jeverson

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157
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.)

PARTE IV
CONSCIÊNCIA, FILOSOFIA E EDUCAÇÃO

158
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) MONTEIRO, Silas

CAPÍTULO 10

CONTRIBUIÇÕES DA FILOSOFIA PARA A COMPREENSÃO


DO CONCEITO DE CONSCIÊNCIA

Silas Borges Monteiro 1

S E NT IDOS G E R AIS DO C ONC E IT O DE C ONS C IÊ NC IA

O vocábulo consciência possui contornos próprios que foram construídos ao


longo da história da filosofia.
Etimologicamente, consciência é palavra de origem latina (conscientìa,ae) que
significa "conhecimento de alguma coisa comum a muitas pessoas, conhecimento,
consciência, senso íntimo”; o verbo latino conscíre significa "ter conhecimento de”. o
termo é composto de “con-“ e “cien(c/t)-“. Historicamente, o uso do termo remonta ao
século XIII. Por sua etimologia, significa o saber algo se dando conta de que se
sabe. Além desse, significa ter uma experiência de modo que o sujeito sabe que a
está tento. Este "saber que se tem" pode ser considerado um tipo de reflexão. Deste
modo, consciência liga-se ao sentido mesmo da filosofia, uma vez que reflexão é o
cerne da tarefa filosófica.
Em termos gerais, podemos entender consciência como a capacidade de
representar os objetos do chamado mundo exterior, mediante uma representação
dos mesmos; esta representação origina-se de intuições (como forma de um
entendimento, ao estilo de Kant) e conceitos (entendido como representação de uma
idéia). Ainda nesta linha de raciocínio, podemos dizer que há uma espécie de
consciência reflexiva, ou seja, a consciência que alguém tem de si mesmo e
consciência representativa, significando apreensão de objetos pela mente.
Costuma-se dizer que é o humano, entre os seres vivos, aquele que possui
consciência num grau mais elevado. Se isso estiver certo, podemos afirmar que: 1)
todo ser humano individual tem consciência, isto é, é capaz de representar

1 Doutor em Educação (USP). Professor do Programa de Pós-graduação em Educação da


Universidade Federal de Mato Grosso.

159
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) MONTEIRO, Silas

mentalmente o mundo e a si mesmo; 2) isso ocorre de um modo tal que é


substancialmente idêntico em todos os seres humanos; daí podermos dizer, nesse
nível, que um sujeito é substancialmente idêntico aos outros; 3) ter consciência pode
ser entendido, na tradição filosófica, como ser sujeito, implicando que existem
objetos conhecidos por esse sujeito. Com estas três afirmações estou dizendo, em
síntese, que a consciência é a capacidade do indivíduo de conhecer o mundo o que
o rodeia, cuja operação é subjetiva na medida em que é própria de quem a tem,
assinalando a inevitável condição de que toda consciência é consciência de algo.
Apesar de não ser essa a defesa que farei neste trabalho, nesse momento devemos
ficar com esse uso e compreensão do termo.
Na história da filosofia atribui-se a Descartes a consideração da consciência
como tema da filosofia; se isso estiver correto, as Meditações Metafísicas de
Descartes marca a constituição do termo na modernidade. Na segunda meditação,
intitulada "Sobre a natureza da mente humana: que ela é mais conhecida do que o
corpo", na §9, se encontra escrito:

Mas, que sou, então? Coisa pensante (Res cogitans). Que é isto? A saber,
coisa que duvida, que entende, que afirma, que nega, que quer, que não
quer, que imagina também e que sente. Não é certamente pouco, se essas
coisas em conjunto me pertencem".

Por essa afirmação, creio ficar claro que o estabelecimento do ser humano
como sujeito do conhecimento, portanto possuidor de consciência, ao modo como
entendemos até hoje, resultou da tarefa cartesiana. Formula, por princípio, distinção
entre o pensamento e o corpo.
Todavia, o termo é apropriado de modos distintos até nossos dias. A primeira
revisão feita desde Descartes (as Meditações foram escritas em 1641) veio da pena
de David Hume, em seu Tratado da Natureza Humana, de 1739; nele se encontra:

Certamente não há na filosofia questão mais abstrusa que aquela


concernente à identidade e natureza do princípio de união que constitui uma
pessoa. Longe de sermos capazes de resolver essa questão apenas por
meio de nossos sentidos, temos de recorrer à mais profunda metafísica
para encontrar para ela uma resposta satisfatória. É evidente que, na vida
corrente, essas idéias de eu e pessoa jamais são muito precisas ou
determinadas. Portanto, é absurdo imaginar que os sentidos alguma vez
sejam capazes de distinguir entre nós e os objetos externos.

160
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) MONTEIRO, Silas

Hume entende que a "identidade e natureza do princípio de união que


constitui uma pessoa" é uma questão que obscurece a compreensão da
peculiaridade humana em conhecer, ou em nossos termos, de sua consciência. Para
o filósofo escocês, "Quando falamos de eu ou substância, devemos ter uma idéia
vinculada esses termos, pois, de outro modo, eles seriam inteiramente ininteligíveis.
Toda idéia deriva de impressões anteriores; e não temos nenhum impressão de eu
ou substância enquanto algo simples e individual. Portanto, não temos nenhuma
idéia de eu ou substância nesse sentido." 2 É certo que Hume tem em mente René
Descartes. Se para Descartes o eu é uma evidência intelectual, para Hume não é
possível sustentar tal idéia na medida em que "Toda idéia deriva de impressões
anteriores"; logo, noções de eu ou substância não são oriundas de impressões.
Esse debate que se constituiu ao final do século XVII e início do século XVIII
definiu a trilha de construção conceitual da noção de consciência na modernidade.
Por um lado, encontramos autores que sustentaram a consciência como constituição
substancial do ser humano; de outro, encontraremos filósofos e pensadores de
modo geral argumentando a favor da idéia de que não se sustenta a noção de um
elemento humano de natureza diferente do seu próprio corpo. Essa questão, longe
de estar fechada, mantém-se na contemporaneidade. Atualmente, o debate é
apresentado da seguinte forma: devemos entender que a mente é distinta do corpo
ou que a mente pode ser reduzida ao cérebro? Apesar da importância do debate,
pois dele depende como vamos compreender a mente e sua relação com o corpo,
essa não será a investigação deste trabalho.

A INDA OUT R AS QUE S T ÕE S ...

Quando tratamos a consciência no campo da teoria do conhecimento (área da


filosofia que investiga as questões dos limites das possibilidades do conhecimento
humano), se entende pelo termo a capacidade humana para conhecer, ou seja, para
saber que conhece e para saber o que sabe que conhece. Nesse sentido, a
consciência é um conhecimento das coisas e de si mesmo. Foi esse o sentido dado
anteriormente.
No decorrer da história da filosofia, a consciência começou a tomar contornos
próximos do que chamamos hoje de psicologia. Do ponto de vista psicológico, a

2 Hume, Tratado da Natureza Humana, Apêndice.

161
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) MONTEIRO, Silas

consciência é consciência de nossa própria identidade; como fluxo temporal de


estados corporais e mentais, é responsável pela retenção do passado na memória, é
percepção presente pela atenção desperta e, finalmente, cria expectativa de futuro
pela imaginação e pelo pensamento. Essa consciência psicológica, ao estilo de
Descartes, pode ser chamada de eu. 3
Costuma-se dizer da filosofia que essa consciência psicológica, ou o eu, é
formada por nossas vivências, ou seja, pela compreensão de nossas experiências
corporais em relação ao mundo que nos rodeia, assim como aquilo que é produzido
subjetivamente. É a maneira idiossincrática da percepção, da imaginação, da
memória, da opinião, do desejo, da ação, dos afetos, sempre tomando posição
diante das coisas e dos outros. Com isso, ser feliz ou infeliz decorre do modo como
sua consciência se põe no mundo.
Outro ponto de vista que podemos agregar a esse é o ético e moral. Para
esse ponto de vista, consciência é a espontaneidade livre e racional para escolher,
deliberar e agir conforme à liberdade, aos direitos dos outros e ao dever. Nesse
sentido, cada pessoa é dotada de vontade livre e de responsabilidade, sendo capaz
de compreender e interpretar sua situação e sua condição, sendo capaz de viver na
companhia de outros segundo normas comuns, assim como se contrapor a valores
de fins estabelecidos socialmente por orientação de sua própria consciência.
Se por um lado podemos estabelecer a consciência psicológica como vivência
individual, na medida em que cada um é afetado de um modo particularmente seu, o
mesmo não pode ser dito, ao menos na tradição moderna, da consciência como
sujeito cognocente. O sujeito do conhecimento é uma formulação filosófica que
procura estabelecer a universalidade da capacidade de conhecer do ser humano;
isso afirma que o conhecimento de determinados conceitos, principalmente aqueles
oriundos da geometria e aritmética, independe das vivências subjetivas de cada um.
O pressuposto disso é que o conhecimento chamado de científico é universal.

3Apesar da forte conotação psicológica que possui o termo, pretendo examinar a questão nos estritos
sensos da filosofia, uma vez que me faltaria competência para navegar nesses outros mares.

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) MONTEIRO, Silas

C ONS C IÊ NC IA E A NOÇ Ã O DE S UJ E IT O : UMA AV A L IAÇ Ã O C R ÍT IC A

A compreensão da consciência, pelo que já vimos, está ligada a noção de


sujeito. Quando trouxe à luz a noção de Descartes, estabeleci que ela está vinculada
à idéia de uma coisa pensante, o sujeito cognoscitivo. Contudo, a noção de sujeito
precisa ser avaliada. É isso que pretendo fazer agora.
A palavra sujeito tem sua origem na língua latina. Sujeito (do latim subjectus)
significa “posto debaixo”; objeto (do latim objectus) “posto diante”, “oposto”. Sujeito
possui correlato no grego: hypokeimenon. No modo como a conhecemos, foi usada
por Aristóteles no livro Metafísica:

Da substância se fala, ao menos, em quatro sentidos principais. Com efeito,


a essência, o universal e o gênero parecem ser substância de cada coisa; e
o quarto deles é o sujeito. E o sujeito é aquele do que se dizem as demais
coisas, sem que ele, por sua parte, se diga de outra 4.

Como elemento da substância, sujeito recebe, das demais coisas, o dito; ele
mesmo, nada diz de outras coisas. Por isso é sujeito, isto é, está sujeito ao que é
dito sobre si. Essa significação remete-nos ao âmbito da lógica, pois, numa
proposição sujeito é aquilo de que se fala; portanto, é passivo das informações
prestadas. Se tomarmos esse sentido, de certa forma o estaremos colocando em
sua posição oposta, isto é, se sujeito é o ser ao qual é atribuído o predicado, o
primeiro torna-se suporte do segundo, pois não havendo predicado inexistirá o
sujeito. É certo que esse é o sentido do que se denomina sujeito gramatical; outros
são considerados no âmbito lógico: “o sujeito a que se poderia chamar propriamente
lógico, isto é, aquilo que constitui a idéia à qual se aplica a asserção” 5 e “o sujeito
real, isto é, no sentido aristotélico, o ser individual que produz os atos ou em que
residem as qualidades que se afirmam dele”, 6 como ilustra a citação anterior da
Metafísica.
Como se vê, o uso é diverso na literatura filosófica. Costuma-se falar, no
âmbito da teoria do conhecimento, sujeito como aquele apto a conhecer. Mas,

4Aristóteles, Metafísica, VII, 3, 36 – 1028b.


5 Lalande, Dicionário técnico e crítico da filosofia.
6 Lalande, Dicionário técnico e crítico da filosofia.

163
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) MONTEIRO, Silas

mesmo nessa abordagem, não se escapa às noções da metafísica aristotélica, que


perduraram pela história da filosofia. Daí vermos essa noção nos filósofos do século
XIII, como Tomás de Aquino e Duns Scot.
No texto O ente e a essência, Tomás de Aquino retoma os princípios
aristotélicos de ser e substância para desenvolver seu argumento de que “a
essência reside própria e verdadeiramente nas substâncias”7. E por substância
entende o ser toda natureza 8. E essência “é aquilo que é significado ou expresso
pela definição de uma coisa”9. Completa dizendo que essência é sinônimo de
sujeito, uma vez que ambos recebem, por meio da definição, contornos particulares
àquilo que é visto imediatamente.
Descartes procura fundar a noção medieval de sujeito em uma relação lógica,
mas de uma que seja aplicável aos fenômenos naturais. Em poucas palavras,
emprega meios para obter uma espécie de naturalização dos registros medievais,
que, até aquele momento, tinham funcionado apenas pela dialética aristotélica relida
por Tomás de Aquino, qual seja: o exame das “questões com o auxílio de uma teoria
do raciocínio”, 10 sabendo que “a dialética também é, ao mesmo tempo, uma
modalidade de crítica 11” 12.
A concepção cartesiana de sujeito será revista a partir de Kant. Ao mesmo
tempo, durante toda a modernidade, elementos da metafísica medieval
permanecerão 13. A proposta kantiana, no que toca à noção de sujeito, pode ser
entendida assim: “O sujeito cognoscente não se submete mais a um objeto pré-
dado, ele o constitui. De outro modo, não se pode conceber como se tem a
possibilidade de conhecer alguma coisa a priori. O objeto gira em torno do sujeito,
como a Terra gira em torno do Sol” 14. A crítica kantiana à razão funda uma teoria
crítica do conhecimento sob o pressuposto metodológico da determinação da
estrutura racional sobre a realidade e, ao mesmo tempo, aquisição do conhecimento

7 Aquino, O ente e a essência, II, 1.


8 Aquino, O ente e a essência, I, 2.
9 Aquino, O ente e a essência, II,3.
10 Aristóteles, Dos argumentos sofísticos, 11 (172a35-40).
11 Para Aristóteles a crítica é a capacidade de formular proposições e objeções. Por isso, diz que “o

dialético é precisamente isso: o homem hábil em propor questões e em levantar objeções” (Tópicos
VIII, 164b1-5), em outras palavras, a compreensão dos limites e possibilidades de algo. Conclui-se
que a dialética, para o filósofo de Estagira, inscreve-se no âmbito da crítica.
12 Aristóteles, Dos argumentos sofísticos, 11 (172a20-25).
13 Lebrun afirma: “A Crítica será então uma mortificação integral da metafísica? Nós já pressentimos

que não.” (Kant e o fim da metafísica, p.34)


14 Crampe-Casnabet, Kant. Uma revolução filosófica, p. 34.

164
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) MONTEIRO, Silas

por meio da experiência. A estrutura do conhecer é a priori, mas o conteúdo


cognitivo é empírico, ou a posteriori.
Podemos notar o avanço de Kant na noção de sujeito, dando-lhe a conotação
psicológica que Descartes não preconizou. Podemos dizer que é a partir de Kant
que são abertas as portas à constituição de um sujeito psicológico. Ao submeter a
razão ao juízo crítico, Kant estabelece as categorias de entendimento, tomadas de
Aristóteles – que as aplica ao ser – para compreender o conhecer. E, de alguma
maneira, põe em questão a continuidade da própria metafísica. Kant afirmará que
todos os juízos sintéticos são obtidos pela experiência, de modo que quando um
sujeito não está “sujeito” necessariamente a um predicado – sob determinação
lógica – “é sobre a experiência que se funda a possibilidade da síntese do
predicado” 15 com o sujeito. Agora, para além da fundamentação lógico-empírico da
possibilidade da enunciação de juízos, Kant escreverá:

Seja de que modo e com que meio um conhecimento possa referir-se a


objetos, o modo como ele se refere imediatamente aos mesmos e ao qual
todo pensamento como meio tende, é a intuição. Esta, contudo, só ocorre
na medida em que o objeto nos for dado; a nós homens pelo menos, isto só
é por sua vez possível pelo fato do objeto afetar a mente de certa
maneira 16.

E aqui reforça o que foi dito sobre a constituição do sujeito psicológico, uma
vez que o conhecimento do objeto está condicionado ao fato de “afetar a mente de
certa maneira”, ou seja, ser intuído como representação da sensibilidade. O que põe
a razão sob limites, uma vez que só se pode conhecer o que for intuído, isto é,
objetos que nos são dados. Aqui podemos notar a transição da relação enunciativa
do conhecimento por meio da síntese lógico-formal, estabelecida na relação sujeito-
objeto, ao estabelecimento de um sujeito cognoscente que compõe a razão humana;
e, conseqüentemente, no caso deste texto, a consciência.
Hegel criticará Kant pelo excesso de subjetivismo, pois julga que no método
crítico de Kant “o problema é saber se esse intuir intelectual não é uma recaída na
simplicidade inerte; se não apresenta, de maneira inefetiva, a efetividade mesma” 17.
Daí sustentar, na abertura dessa sessão da Fenomenologia:

15 Kant, Crítica da razão pura, “Da distinção entre juízos analíticos e sintéticos”, Introdução IV.
16 Kant, Crítica da razão pura, “Estética Transcendental”, §1.
17 Hegel, Fenomenologia do espírito, Prefácio [Es kommt nach] §17.

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) MONTEIRO, Silas

Segundo minha concepção – que só deve ser justificada pela apresentação


do próprio sistema –, tudo decorre de entender e exprimir o verdadeiro não
como substância, mas também, precisamente, como sujeito 18.

Esse passo dado por Hegel procura oferecer uma espécie de


despsicologização do sujeito transcendental de Kant, dando-lhe caráter universal,
querendo com isso estabelecê-lo como “substância viva” que, na verdade, é aquilo
que é “efetivo”. Essa “substância viva”, que é sujeito, é ser efetivo – ou seja, realiza-
se no mundo da efetividade – “só à medida que é o movimento do pôr-se-a-si-
mesmo, ou a mediação consigo mesmo do tornar-se-outro”19. Essa é a forma de vê-
lo como universal, por tanto verdadeiro e histórico. No seu jargão, absoluto. Dirá
ainda:
O verdadeiro é o todo. Mas o todo é somente a essência que se implementa
através de seu desenvolvimento. Sobre o absoluto, deve-se dizer que é
essencialmente resultado; que só no fim é que é na verdade. Sua natureza
consiste justo nisso: em ser algo efetivo, em ser sujeito ou vir-a-ser-de-si-
mesmo. 20
A efetividade do sujeito é “vir-a-ser”, ou, como dirá mais adiante, é histórico.
Não há sujeito sem desenvolvimento histórico, sem efetivar-se seu desenvolvimento.
Para o exame da realidade e da consciência-de-si dessa realidade, Hegel propõe
uma revisão metodológica na antiga dialética grega. Não a toma como faziam, no
sentido de dois pensamentos em diálogo afirmativos e negativos, visando a uma
síntese que afirma nova identidade, ou seja, algo que seja (ser). A dialética, agora,
deveria ser “concebida como a autocrítica autônoma e o autodesenvolvimento do
objeto de estudo, de, por exemplo, uma forma de consciência ou um conceito”. 21 Na
sua Enciclopédia formula a lógica – de certo modo metódica – dessa dialética. Dirá:
“A lógica tem, segundo a forma, três lados: a) o lado abstrato ou de entendimento; b)
o dialético ou negativamente-racional; c) o especulativo ou positivamente racional”.22
Explica que não são partes da Lógica, mas “momentos de todo e qualquer lógico-
real”. O entendimento capta aquilo que é abstrado do objeto, portanto, destituído de
conceito e racionalidade. O uso que faz de abstrato é oposto ao que se costuma
ouvir no senso comum, cujo procedimento metodológico tende a partir do concreto
ao abstrato, ou seja, da coisa à sua idéia. Hegel inverte essa lógica, afirmando que o

18 Hegel, Fenomenologia do espírito, Prefácio [Es kommt nach] §17.


19 Hegel, Fenomenologia do espírito, Prefácio [Die lebendige Substanz] §18.
20 Hegel, Fenomenologia do espírito, Prefácio [Das Wahre ist] § 20.
21 Inwood, Dicionário Hegel, p.99.
22 Hegel, Enciclopédia das Ciências Filosóficas, I, §79.

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) MONTEIRO, Silas

abstrato, ou seja, a intuição do objeto pelo entendimento resulta apenas no concreto,


sem tocar à verdade da realidade. Assim afirmará:
Quando a verdade é abstrata, não é verdade. A razão humana sã tende ao
concreto; só a reflexão do entendimento, é teoria abstrata, não verdadeira,
exata somente na cabeça e, entre outras coisas, não prática; a filosofia foge
do abstrato como de seu grande inimigo e nos faz retornar ao concreto. 23
A leitura de Hegel sob o uso comum que se faz dos termos pode parecer
confuso. Nossa atenção deve estar voltada ao fato de que o concreto é o real, e o
real é racional. A filosofia deve conduzir, portanto, ao concreto, ao real, ao racional.
O segundo momento, o dialético, “é o próprio suprassumir-se de tais determinações
finitas e seu ultrapassar para suas opostas”; deste modo, “constitui, pois a alma
motriz do progredir científico”, na medida em que nela “reside a verdadeira elevação
– não exterior – sobre o finito” 24. A superação da abstração da realidade em direção
à sua compreensão em nível um superior é movida pela dialética. Desta forma,
alcança-se o terceiro momento do positivamente racional, ou seja, “apreende a
unidade das determinações em sua oposição: o afirmativo que está contido em sua
resolução e em sua passagem [a outra coisa]” 25. Por isso, a dialética tem um
resultado positivo por determinar um conteúdo racional, logo, real, aos entes
apreendidos pelo entendimento, que, até esta primeira apreensão, subsistiam como
abstração.
Vejamos que a negação da psicologização kantiana, feita por Hegel, coloca o
sujeito e sua relação com o objeto no âmbito do mais alto idealismo, de modo que
temos certa dificuldade em pensá-los fora do âmbito da lógica, local onde inscreverá
a dialética depois de tê-la pensado na Fenomenologia. Conclui-se que Hegel
desloca o psicologismo kantiano para um procedimento lógico, ou, um método, que,
de acordo com ele, garante o acesso ao conceito.
Uma noção precisa ser posta, na medida em que marca uma ruptura severa
para tradição moderna, portanto metafísica, da noção de sujeito como aquela que
traduz a peculiaridade do humano. Sobre o sujeito, dirá Nietzsche, em resposta
direta a Descartes:
Quanto à superstição dos lógicos, nunca me cansarei de sublinhar um
pequeno fato que esses supersticiosos não admitem de bom grado – a
saber, que um pensamento vem quando “ele” quer, e não quando “eu”
quero; de modo que é um falseamento da realidade efetiva dizer: o sujeito

23 Hegel, Lecciones sobre la historia de la filosofia, I, Introdução, A,2,b), p.29.


24 Hegel, Enciclopédia das ciências filosóficas, § 81.
25 Hegel, Enciclopédia das ciências filosóficas, § 82.

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) MONTEIRO, Silas

“eu” é a condição do predicado “penso”. Isso pensa: mas que este “isso”
seja precisamente o velho e decantado “eu” é, dito de maneira suave,
apenas uma suposição, uma afirmação, e certamente não uma “certeza
imediata”. E mesmo com “isso pensa” já se foi longe demais; já o “isso”
contém uma interpretação do processo, não é parte do processo mesmo.
Aqui se conclui segundo o hábito gramatical: “pensar é uma atividade, toda
atividade requer um agente, logo – “. Mais ou menos segundo esse
esquema o velho atomismo buscou, além da “força” que atua, o pedacinho
da matéria onde ela fica e a partir do qual atua, o átomo; cérebros mais
rigorosos aprenderam finalmente a passar sem esse “resíduo de terra”, e
talvez um dia nos habituemos, e os lógicos também, a passar sem o
pequeno “isso” (a quem se reduziu, volatizando-se, o velho e respeitável
Eu) 26.
Alguns pontos podem ser destacados. O primeiro, é o papel do hábito no
pensamento de Nietzsche 27. Em Humano, demasiado humano (§ 97) explica a
função do hábito e sua relação com o costume. É pelo hábito que se forma o
costume, pois “fazemos o habitual mais facilmente, melhor e por isso de mais bom
grado; sentimos prazer nisso, e sabemos por experiência que o habitual foi
comprovado, e portanto é útil”. O prazer, associado à utilidade, dá sustentação ao
recurso do hábito pelo seres humanos. E aquilo que é feito habitualmente “não pede
reflexão”, se assim o fosse, o viver se tornaria bem mais complexo, e, para alguns,
tremendamente desconfortável. Ainda assim, é inegável a importância do hábito.
Contudo, essa convicção pode conduzir a um erro: “porque nos sentimos bem com
um costume, ou ao menos levamos nossa vida com ele, esse costume é necessário,
pois vale como a única possibilidade na qual nos sentimos bem; o bem-estar da vida
parece vir apenas dele”. Por isso, Nietzsche pondera sobre esse tipo de ignorância,
a de desconhecer outras formas de bem-estar, afinal, “o mesmo grau de bem-estar
pode existir com outros costumes, e que mesmo em graus superiores podem ser
alcançados”. Por conseguinte, o hábito pode ser fonte de bem-estar e conforto para
consolidação de costumes, trazendo junto a si a convicção de que este é o único
meio de bem viver. A crítica de Nietzsche é sobre assentar-se na convicção de que
não há mais alternativas para um modo de ser diferente do habitualmente
encontrado e vivido.

26Nietzsche, Além de bem e mal, § 17.


27Quando apresentei Hume como crítico de Descartes, assinalei, brevemente, que o ponto
fundamental de sua discordância do filósofo do cógito decorre de sua compreensão de que estados
mentais não podem originar se de idéias, a não ser que estas estejam tão intimamente vinculadas a
impressões corporais. Deste modo, parece que Nietzsche filia-se para essa tradição cética de David
Hume.

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) MONTEIRO, Silas

Em segundo lugar, a noção de sujeito não decorre da percepção ou


consciência de si mesmo, mas, como reflexo da norma da língua. Isso quer dizer
que a relação entre a linguagem e a consciência – claramente expresso por
Nietzsche quando afirma que a consciência resulta da necessidade de comunicação:
é fruto do espírito gregário (de auto-conservação). A formalização da comunicação
na linguagem desdobra-se em uma noção de sujeito-agente. Mas, Nietzsche vê
nessa figura a própria base da metafísica ocidental. Ora, se consciência não
apreende um real, mas expressa-se como comunicação-gregária, não será nela que
se apreende o que é efetivo. O pensamento vincula-se a si mesmo por ser originário
do corpo, reflexo dele; pensamentos pensam por si mesmos, por isso, sujeito é uma
caracterização metafísica dos impulsos do corpo.
Aqui se visualiza o encontro que Nietzsche faz de pensamento e corpo –
rompendo com a clássica distinção cartesiana de substância e extensão – dando
relevância à vivência como elemento de constituição do costume e da moral. Em
duas palavras – sugeridas por Scarlett Marton – a filosofia de Nietzsche acolhe uma
dimensão que se apóia nos registros de “reflexão filosófica e vivência”:

Não há, pois, como dissociar vida e obra, biografia e trabalho filosófico.
“Aos poucos se evidenciou para mim o que toda grande filosofia foi até o
momento: a autoconfissão de seu autor, uma espécie de memórias
involuntárias e inadvertidas”, dirá Nietzsche em Para além de Bem e Mal (§
6). No limite, todo escrito é à sua maneira autobiográfico, todo pensamento
traz à luz uma existência 28.

Sob o conceito de reflexão filosófica e vivência, Marton sintetiza o estilo e


pensamento filosófico de Nietzsche, por julgar que esta concepção lhe cabe melhor
do que a análise mais comum que se faz das filosofias na história.

C ONS C IÊ NC IA E A NOÇ Ã O DE V IV Ê NC IAS E M N IE T ZS C HE

Como já afirmado, podemos encontrar em Nietzsche uma vinculação entre


reflexão e vivências. Se entendermos reflexão como consciência de si, não ao estilo
metafísico, podemos entendê-la como atividade pura de constituição de
significações, nesse caso, geneticamente estabelecida nas vivências.

28 Marton, Nietzsche, reflexão filosófica e vivência, p.49.

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) MONTEIRO, Silas

Aqui, nossa tarefa exige um certo esclarecimento da noção de vivências no


pensamento do filósofo alemão Friedrich Nietzsche.
Inicialmente, precisa ser dito que a biografia foi um dos principais pontos de
aproximação de Nietzsche à escrita filosófica. Em carta para Lou Andreas Salomé,
ele escreve:
Sua idéia de reduzir os sistemas filosóficos a atos pessoais de seus
autores, é verdadeiramente a idéia de uma “alma gêmea”. Em Basiléia, eu
mesmo tenho ensinado nesse sentido a história da filosofia antiga e dizia de
bom grado aos meus ouvintes: “Este sistema tem sido refutado e está
morto, porém a personalidade que se acha atrás dele é irrefutável; é
impossível matá-lo” –, por exemplo, Platão 29.
Esse trecho de uma carta escrita em 16 de setembro de 1882 mostra que,
cada vez mais, haverá profunda vinculação, em seus textos, entre a reflexão
filosófica e as vivências. Nietzsche contesta a concepção de que pensamento ou
razão sejam de ordem lógica fundando-as na concretude da vida. Para Derrida “o
nome Nietzsche é talvez hoje, para nós no ocidente, o nome de alguém que (com a
possível exceção de Freud e, de maneira diferente, Kiekegaard) foi único no
tratamento de ambos: filosofia e vida, a ciência e a filosofia da vida, com seu nome e
em seu nome. Ele, talvez, tenha sido o único a pôr seu nome – seus nomes – e suas
biografias na trincheira, correndo deste modo mais do que riscos do que isso requer:
para ‘ele’, para ‘eles’, para suas vidas, seus nomes e seu futuro, e, particularmente,
para a política futura que ele deixou ser assinada”30.
A peculiaridade do pensamento de Nietzsche é que sua investigação, como
filósofo, sempre vai ao encalço de vivências que interpretam e atribuem sentido ao
mundo. Essa é uma outra forma de se interrogar acerca do conhecimento.
Invertendo o questionamento tradicional da filosofia, conhecer é investigar as forças
que atribuem predicado às coisas; não se interroga pela lógica que capta, das coisas
a sua essência, mas sim quais forças atuam, quais afetos são mobilizados para
conhecer.
Mesmo que precipitadamente, podemos dizer que para Nietzsche consciência
é um exercício dos afetos alimentados das vivências. O mundo é cognoscível na
medida em que os impulsos humanos tentam absorvê-lo, resultando em
interpretações, inumeráveis perspectivas. No lugar do intérprete – algo como um
sujeito mobilizando sua racionalidade para apreender o mundo – Nietzsche assevera

29 Carta de Nietzsche a Lou Andreas-Salomé, in Salomé, Nietzsche, p.25.


30 Derrida, Otobiographies, pp.88-89.

170
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) MONTEIRO, Silas

serem as nossas necessidades que interpretam o mundo, alojadas nos nossos


impulsos, que lutam para impor sua perspectiva como norma sobre todos os demais
impulsos, numa espécie de tirania. Assim, “são nossos impulsos que em luta
permanente configuram interpretações”31. O problema hermenêutico é, para
Nietzsche, um problema fisiológico: “A própria interpretação é um sintoma de
determinadas constelações fisiológicas, bem como de um determinado nível
espiritual de juízos dominantes. Quem interpreta? – os nossos afetos” 32. E Azeredo
explicita o sentido de sintoma: “expressão de sucessos ou fracassos fisiológicos
como resultantes das lutas que interagindo ao mesmo tempo compõem o organismo
e impõe sua interpretação, sua perspectiva” 33. Daí a conclusão de que a
interpretação é movimento dos instintos ou impulsos que lutam para exercer
supremacia. Estes, ao tomarem a palavra, buscam impor sua perspectiva.
Em Aurora (§ 119), Nietzsche disserta sobre a relação das vivências
cotidianas com os instintos, perguntando se viver não seria uma forma de inventar
um sentido aos impulsos:
Viver e inventar. – Por muito longe que cada um possa levar o
conhecimento-de-si, nada pode, contudo, ser mais completo que a sua
imagem do conjunto dos instintos (Triebe) que constituem o seu ser. Pode-
se nomear os mais grosseiros: o seu viver e a sua força, o fluxo e o refluxo,
as ações e as reações mútuas e sobretudo as leis da nutrição permanecem
inteiramente desconhecidas para ele. Essa nutrição torna-se pois obra do
acaso: as vivências cotidianas lançam uma presa tanto a este como àquele
instinto que a recebe com voracidade, mas todas estas episódicas
flutuações se mantêm desprovidas de qualquer correlação racional com as
necessidades nutritivas do conjunto dos instintos, de modo que assistir-se-á
sempre a um duplo fenômeno: fome e depauperamento para uns, excesso
de alimento para outros. Cada instante da vida faz crescer em nós alguns
tentáculos e secar alguns outros, conforme a nutrição que este instinto
recebe ou não. Nossas experiências, dizíamos, são nesse sentido,
alimentos, mas distribuídos às cegas, sem sabermos quem tem fome e
quem está satisfeito. (...) Falando mais claramente: admitindo que um
instinto chega ao seu destino quando exige ser satisfeito – ou exercer a sua
força ou liberta-se, preencher uma vazio (para usar imagens) –, considera
cada acontecimento do dia perguntando-se como o utilizar para os seus
próprios fins; (...) Talvez essa crueldade do acaso saltasse mais à vista se
todos os instintos se mostrassem tão intransigentes como a fome: que não
se contenta com alimentos sonhados; mas a maior parte dos instintos ditos
morais satisfaz-se precisamente assim, – isto admitindo a minha suposição
segundo a qual o valor e o sentido dos nossos sonhos consiste justamente
em compensar, até certo ponto, esta acidental falta de alimento durante o
dia. (...) Que as nossa apreciações e juízos de valor morais são sempre
imaginações e variações fantasistas sobre um processo fisiológico que
desconhecemos, uma espécie de linguagem convencional para designar

31 Azeredo, A interpretação em Nietzsche: perspectivas instintuais, p.78.


32 Nietzsche, XII 2[190].
33 Azeredo, A interpretação em Nietzsche: perspectivas instintuais, p.79.

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) MONTEIRO, Silas

certas excitações nervosas? Que toda a nossa pretensa consciência não é


outra coisa do que o comentário mais ou menos fantasista de um texto
desconhecido, talvez incognoscível e apenas sentido? (...) Este instinto
apodera-se do acontecimento como de uma presa: porquê ele,
precisamente? Porque, sequioso e esfomeado, estava à espreita. (...) O que
são pois as nossas vivências? Muito mais o que aí foi posto do que o que aí
se encontra!
As vivências nutrem os instintos, que, com voracidade, as recebem para
incorporá-las, querendo crescer em potência. Em cada instante da vida os instintos
criam meios para apreender o mantimento oriundo das vivências, perguntando, a
cada acontecimento do dia, a forma de o utilizar para os seus próprios fins. Desse
modo, interpretar, ou conhecer, não está além do viver, assim como não está além
do movimento orgânico. A mente, com sua ordenação lógica para a apreensão da
realidade, dá lugar à dominação dos fluxos orgânicos buscando conhecer e avaliar:
eis aí o exercício da interpretação. Conhecer é, portanto, interpretar. Logo, a
consciência, entendida como fluxos de afetos, é interpretação.
O conceito de vivências atravessa a obra de Friedrich Nietzsche. Em seu livro
Sobre o futuro de nossas instituições de ensino, Nietzsche critica a filosofia por essa
ignorar as vivências como real enigma para a reflexão. Assim afirma:
Mas pelo menos aprendi com seu convívio que as experiências mais
admiráveis, mais instrutivas, as experiências decisivas, são exatamente as
vivências, que estas constituem justamente o grande enigma que cada um
tem sob os olhos, mas que poucos compreendem como sendo um enigma,
e que, para um pequeno número de verdadeiros filósofos, são justamente
estes os problemas que permanecem ignorados, abandonados no meio do
caminho e, por assim dizer, pisoteados pela multidão, antes que eles os
recolham cuidadosamente e a partir desses momentos resplandeçam como
pedras preciosas do conhecimento. 34
De certo modo, Nietzsche propõe o projeto socrático, expresso sob o popular
“conhece-te ti mesmo”, entretanto, sobre bases investigativas diferentes. Conhecer a
si mesmo não é examinar suas motivações interiores ou fazer brotar o conhecimento
conservado no pavilhão da memória reminiscente. É trazer em questão aquilo que
se é, a própria individualidade, pois entende que “nossas vivências determinam
nossa individualidade, e elas são de tal modo que após cada impressão emocional,
nossa individualidade é determinada para cada última célula” (VII 19[241]). Não é
por exercício racional, algo como tomada de consciência que reviravolta o sentido
das ações. A radicalidade do pensamento é fisiológica. Em suma, ter consciência é
viver.

34 Nietzsche, Sobre o futuro de nossas instituições de ensino, § 5.

172
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) MONTEIRO, Silas

Num outro momento de sua produção teórica, o sentido de vivências ainda


aparece, basicamente, com a mesma conotação do período anterior, por exemplo,
quando afirma que “geralmente não é a qualidade, mas a quantidade das vivências
que determina o homem baixo ou elevado, no bem e no mal”. 35 Desconfiado da
capacidade racional de regular as ações, entende que “quem pensa muito e pensa
objetivamente, esquece com facilidade as próprias vivências, mas não os
pensamentos por elas suscitados”, 36 pois as vivências impregnam o corpo, não
sendo dissolvidas no esquecimento; atuam no corpo e não apenas na memória.
Entretanto, é enganoso atribuir a Nietzsche a apologia de algum tipo de
irracionalidade. Em outro experimento com seu pensamento cria perspectiva
diferente para a interpretação das vivências, fazendo no momento da denúncia da
irracionalidade do discurso religioso: “Mas nós, os sequiosos de razão, queremos
examinar nossas vivências do modo rigoroso como se faz uma experiência científica,
hora a hora e dia a dia! Queremos ser nossos experimentos e nossas cobaias” 37.
Será no período de 1882 a 1888, denominado de transvaloração dos valores,
que Nietzsche experimentará mais vezes o uso das vivências na sua reflexão
filosófica, dando-lhe papel significativo. Zaratustra fará a seguinte declaração: “Mas
quem for da minha espécie deparará, em abundância, com vivências como as
minhas” 38. As vivências compartilhadas criam vínculos entre pessoas, uma vez que
podem comunicá-las entre si. Para tal

Não basta utilizar as mesmas palavras para compreendermos uns aos


outros; é preciso utilizar as mesmas palavras para a mesma espécie de
vivências interiores, é preciso, enfim, ter a experiência em comum com o
outro. (...) Em todas as almas, um mesmo número de vivências recorrentes
obteve primado sobre aquelas de ocorrência rara: com base nelas as
pessoas se entendem cada vez mais rapidamente 39.

Ainda nota, assim como no Sobre o futuro de nossos estabelecimentos de


ensino, que os filósofos não se dedicam a ouvir as vivências, por isso são, ao
contrário do que dizem de si mesmos, “homens do desconhecimento”:

35 Nietzsche, Humano, demasiado humano, §72.


36 Nietzsche, Humano, demasiado humano, §526.
37 Nietzsche, A gaia ciência, §319.
38 Nietzsche, Assim falava Zaratustra, III, Dos renegados.
39 Nietzsche, Para além de bem e mal, §268.

173
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) MONTEIRO, Silas

Quanto ao mais da vida, as chamadas “vivências”, qual de nós pode levá-


las a sério? Ou ter tempo para elas? Nas vivências presentes, receio,
estamos sempre “ausentes”: nelas não temos nosso coração – para elas
não temos ouvidos. (...) para nós mesmos somos “homens do
desconhecimento”... 40

Continua pondo em relevo a experiência fisiológica produzida pelas vivências,


ao reafirmar que “Um homem forte e bem logrado digere suas vivências (feitos e mal
feitos incluídos) como suas refeições, mesmo quando tem de engolir duros bocados.
Se não ‘dá conta’ de uma vivência, esta espécie de indigestão é tão fisiológica
quanto a outra – e muitas vezes, na verdade, apenas uma conseqüência da outra”. 41
Está seguro da expressão manifesta das vivências, pois “nossas vivências mais
próprias não são nada tagarelas” 42, de modo que ouvi-las significa tomar contato
com algo de significativa consistência. Afinal, são as elas que permitem acesso a
regiões compreensivas que, geralmente, chamamos de teóricas:

Em última instância, ninguém pode ouvir nas coisas, inclusive nos livros,
mais do que já sabe. Para aquilo a que não se tem acesso por vivência, não
se tem ouvido. Pensemos em um caso extremo: que um livro fale de puras
vivências que estão inteiramente fora da possibilidade de uma experiência
freqüente, ou mesmo apenas rara – que seja a primeira linguagem para
uma nova série de experiências. Nesse caso simplesmente nada é ouvido,
com a ilusão acústica de que, onde nada é ouvido, também nada há... Esta
é, por último, minha experiência média, e, se se quiser, a originalidade de
minha experiência 43.

O aprendizado em Nietzsche é obtido na vida. São as vivências que dizem o


que a vida quer. Para o autor de Zaratustra, a vida quer vontade; essa vontade
mostra-se nas vivências. Melhor dito, as vivências são sintomas da vontade de
potência 44. Em Assim falava Zaratustra, o alter ego de Nietzsche afirma:

“Vontade de verdade” é como se chama para vós, ó mais sábios dos


sábios, o que vos impele e vos torna fervorosos? Vontade de que seja
pensável tudo o que é: assim chamo eu vossa vontade! Quereis antes
tornar pensável tudo o que é: pois duvidais, com justa desconfiança, de que
seja pensável. (...) Mas para entenderdes minha palavra de bem e mal: para
isso quero dizer-vos ainda minha palavra da vida, e do modo de todo
vivente. (...) onde encontrei vida, ali encontrei vontade de potência; e até

40 Nietzsche, Genealogia da moral, Prefácio, §1.


41 Nietzsche, Genealogia da moral, Terceira dissertação, §16.
42 Nietzsche, Crepúsculo dos ídolos, Incursões de um extemporâneo, §26.
43 Nietzsche, Ecce Homo, Por que escrevo livros tão bons, §1.
44 Esse termo, vontade de potência, muito comum nos textos de Nietzsche, pode ser compreendido

como sendo a própria vida.

174
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) MONTEIRO, Silas

mesmo na vontade daquele que serve encontrei vontade de ser senhor. (...)
Somente, onde há vida, há também vontade: mas não vontade de vida, e
sim – assim vos ensino – vontade de potência! 45

O termo funciona como operador de sentido. Procura explicar a vida: social,


psicológica, fisiológica. Os termos vida e vontade de potência se identificam,
indicando que vontade de potência é vontade orgânica no sentido mais amplo: de
todo ser vivo. E quanto a isso, é próprio do pensamento de Nietzsche a radicalidade
com que trata o ser humano como ser vivo. A concepção grega antiga da
superioridade humana por dispor do logos – pela figura aristotélica do “animal
racional” –, ou, modernamente, em Marx como “animal político”, Nietzsche torna
mais radicais tais idéias afirmando serem da ordem orgânica. Enxergar, com isso,
superioridade de um sobre outro nada mais é que “vontade de mando”:

Querer é mandar, mas mandar é um afeto particular (esse afeto é uma


repentina explosão de força) – tenso, claro, uma coisa excluindo as outras
em vista, convicção íntima da superioridade, certeza de ser obedecido – a
‘liberdade da vontade’ é o ‘sentimento de superioridade de quem manda’
em relação a quem obedece: ‘eu sou livre, é preciso que ele obedeça” 46.

O pensar e o exercício da racionalidade não operam por princípios lógicos ou


por outros que venham a se sofisticar por um treinamento do cérebro. As formas de
pensamento são expressões orgânicas: “pressupõe-se aqui que todo o organismo
pensa, todas as formas orgânicas tomam parte no pensar, no sentir, no querer – por
conseguinte, o cérebro é apenas um enorme aparelho de centralização” 47. Querer,
pensar, sentir: forças disseminadas pelo corpo. No comentário de Marton: “não é só
o querer mas também o sentir e o pensar estão disseminados pelo organismo; a
relação entre eles é de tal ordem que, no querer, já se acham embutidos o sentir e o
pensar, de modo que no pensamento, sentimento e vontade aparecem como
indissociáveis” 48. Desta forma, o conhecimento é incorporação da vida. No livro A
gaia ciência (§ 110) Nietzsche afirma: “a força do conhecimento não está no seu
grau de verdade, mas na sua antigüidade, no seu grau de incorporação, em seu
caráter de condição para a vida. Quando viver e conhecer pareciam entrar em
contradição, nunca se combateu a sério”. Pelo conceito de vontade de potência
45 Nietzsche, Assim falava Zaratustra, II, Da superação se si.
46 Nietzsche, XI 25[436].
47 Nietzsche, XI 27[19].
48 Marton, Nietzsche, p.32.

175
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) MONTEIRO, Silas

Nietzsche procura explicar as diversas forças que tomam a palavra na vivência


humana 49. Portanto, o que está em questão são as forças implicadas na vontade de
potência que são experimentadas na vida. Ouvi-las é o grande aprendizado. Vivê-las
é o grande desafio. Ter consciência delas, nosso trabalho.

C ONS IDE R AÇ ÕE S F INAIS

Procurei mostrar que o termo consciência, quando entendido no campo da


teoria do conhecimento expressa a capacidade humana para conhecer. Ao longo da
história da filosofia, assumiu o sentido de sujeito do conhecimento cuja conotação
independe das vivências subjetivas de cada um. Na crítica que fizemos acerca do
termo sujeito, estabelecemos que a concepção a ele atribuída decorreu do
desenvolvimento da linguagem: de uma questão meramente gramatical para uma
substancialização humana. Com a corrosiva crítica de Nietzsche ao sentido de
sujeito, pudemos reconfigurar a noção de consciência como experiência psicológica
de uma mente, dando-lhe, agora, a conotação de um fluxo de afetos alimentados
pelas vivências. Isso favoreceu a inversão de perspectiva da consciência como um
núcleo fechado da experiência humana para a dramática abertura vivencial de cada
um de nós. Consciência, conseqüentemente, assinala a constituição da própria vida.
As conseqüências disso são: 1) a consciência, no contexto da teoria do
conhecimento se expressa como passagem da lógica cognoscente à afirmação das
vivências; o elemento operador do pensamento constrói sentido a partir das
vivências: conhecer é mobilizar afetos significativos das vivências; 2) a consciência,
no campo das análises morais, é entendida como afirmação da vida: algo é bom na
medida em que qualifica a vida, na medida em que a vontade de potência se efetiva;
a afirmação executa qualidade na vontade de potência de modo que são as forças
afirmativas da vida aquelas que devem ser cultivadas.

49 Para Marton, “Em Assim falava Zaratustra, Nietzsche apresenta, por vez primeira, sua concepção

de vontade de potência. Identificando-a com a vida, concebe-a como vontade orgânica; ela é própria
não unicamente do homem, mas de todo ser vivo; mais ainda: exerce-se nos órgãos, tecidos e
células, nos numerosos seres vivos microscópicos que constituem o organismo. Atuando em cada
elemento, encontra empecilhos nos que o rodeiam, mas tenta submeter os que a ela se opõem e
colocá-los a seu serviço. Manifestando-se ao deparar resistências, desencadeia uma luta que não
tem pausa ou fim possíveis e permite que se estabeleçam hierarquias jamais definitivas” (Deleuze e
sua sombra, p.237).

176
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) MONTEIRO, Silas

R E F E R Ê NC IAS

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Cultural, 2. ed., 1979.

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inglesa de W.A.Pickard – Cambridge. “Coleção Os Pensadores: Aristóteles (I)”. São
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Meneses com a colaboração de José Machado. São Paulo: Loyola, 1995.

HEGEL, Georg W.F. Lecciones sobre la Historia de la Filosofia. Tradução de


Wenceslao Roces. México: Fondo de Cultura Econômica, 1995.

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) MONTEIRO, Silas

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Paulo: Companhia das Letras. Obras Incompletas, coleção “Os Pensadores”.
Tradução de Rubens Rodrigues Torres Filho. São Paulo: Abril Cultural, 2. edição,
1978. Oeuvres Philosophiques Complètes, 14 tomos. Paris: Gallimard. Werke.
Historisch-kritische Ausgabe (KSA). Edição eletrônica preparada por Malcolm Brown
para Past Maters, baseada na edição organizada por Giorgio Colli e Mazzino
Montinari, 15 volumes. Berlim: Walter de Gruyter & Co., 1994.

SALMOMÉ, Lou Andreas. Nietzsche. Tradução de Luis Pasamar. Madrid: Zero S.A.,
1980.

178
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) SOARES, Noemi

Capítulo 11

A CONSCIÊNCIA DA ARTE DE APRENDER PARA O


AUTODESENVOLVIMENTO DO SER HUMANO

Noemi Salgado Soares 1

RESUMO
Este artigo apresenta algumas reflexões sobre o significado da arte de aprender ou do
autoconhecimento para o processo de ativação da consciência do ser humano planetário. Além de
ressaltar que o eixo pedagógico e epistemológico da educação transdisciplinar é a vivência da arte de
aprender, o conteúdo da sua abordagem, fundamentada em algumas concepções pedagógicas de
Jiddu Krishnamurti, evidencia que, no século XXI, esta vivência é imprescindível para o
autodesenvolvimento humano, também compreendido como o processo de cuidado-cura da doença
psicológica do serhumanohumanidade.
Palavras-chave: Autoconhecimento; desenvolvimento humano; Krishnamurti.

O QUE É ISTO, A VIVÊNCIA DA ARTE DE APRENDER? - diálogo com algumas


perspectivas educacionais de Jiddu Krishnamurti

A realidade do contexto histórico-sócio-cultural da nossa humanidade


planetária, nesta primeira década do século XXI, também foi formatada pela prática
de um sistema educacional, mecânico-fascista, que adestrou e adestra o ser
humano a construir e a escravizar-se a um condicionado processo de inconsciência
existencial. Este processo se baseia em uma ancestral ignorância da natureza e da
estrutura da sua mente, principalmente no que se refere ao funcionamento da
programação de uma das suas modalidades que é velha, mecânica, confusa,
condicionada, pessoal, transmilenarmente egocêntrica.

1 Educadora, Mestre em Letras Vernáculas, Doutora em Filosofia da Educação. Professora da


Universidade Federal da Bahia, coordenadora e docente do curso de Pós-Graduação Educação
transdisciplinar e Desenvolvimento Humano: a arte de aprender. Pesquisadora do Centro de Estudos
Baianos (CEB/UFBA) e do Programa de Pesquisa e Pós-Graduação em Educação (Mestrado e
Doutorado) da Faculdade de Educação da UFBA. Contato: noemi.salgado@terra.com.br

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) SOARES, Noemi

Mente velha condicionada 2 foi a denominação que o educador Jiddu


Krishnamurti (1895-1986) deu a essa modalidade da mente. Na sua concepção, a
mente velha do ser humano, ativada desde há milhões de anos atrás, está
condicionada pela educação, pelas religiões, pelas ideologias, pelos dogmas, pelas
tradições. Esta mente possui uma memória psicológica ancestral, que está
armazenada nas velhas células cerebrais de todos os seres humanos.
É essa mente velha condicionada que produz, sustenta e legitima a ancestral
crueldade, tão visível não apenas nos contextos sócio-político-econômicos das
pessoas que planejam, preparam e gerenciam as ações terroristas e os
bombardeios das antigas e atuais guerras-carnificinas – acontecendo em várias
regiões do planeta – como também nos doentios relacionamentos emocionais,
sexuais, familiares, profissionais, intelectuais, econômicos, religiosos, científicos dos
encontros sociais intersubjetivos dos seres humanos.
Nas suas investigações, esse autor apresentou algumas diferenças
pedagógicas entre os termos educação correta e educação incorreta 3. Para ele, o
objetivo primordial da educação incorreta é tornar o ser humano (o educando e o
educado) incapaz de conhecer o funcionamento da programação da mente velha
condicionada em sua existência. Conseqüentemente, condicioná-lo a ser
inconsciente de si mesmo.

2 “O que o mundo necessita é uma mente toda diferente, uma mente inteiramente livre do medo que
em cada dia a atormenta. E nenhuma possibilidade tendes de encontrar com a velha mente essa
mente nova.” ( KRISHNAMURTI, 1973b: 43, grifo meu).
“A mente está toda condicionada. Não há uma só parte da mente que não esteja condicionada [...] A
mente está toda condicionada, o que é um fato evidente, se refletimos a tal respeito. Isso não é
invenção minha, é um fato. Pertencemos a uma dada sociedade, fomos educados de acordo com
determinada ideologia, certos dogmas, tradições, e a vasta influência da civilização, da sociedade,
condiciona-nos incessantemente o espírito.”(KRISHNAMURTI,1956a:11).
“A mente está condicionada desde a infância, desde o começo da vida, desde há milhões de anos.”
(KRISHNAMURTI, 1977b:36).
Empregamos a palavra “mente velha condicionada” para significar o “processo total” do pensamento-
sentimento condicionado, como memória, conhecimento, e incluindo as células cerebrais [...] O
cérebro é o resultado de milhares de anos de experiência, na luta pela sobrevivência e segurança.
(KRISHNAMURTI, 1973 c: 135).
3 “A educação não é um simples exercício da mente (condicionada). O exercício leva à eficiência, mas

não produz a integração. A mente que foi apenas exercitada é o prolongamento do passado, nunca
pode descobrir o que é novo. Eis porque para averiguarmos o que é educação correta, cumpre-nos
investigar o total significado do viver.” (KRISHNAMURTI,1969a, p.12)
“Educação não significa, apenas, adquirir conhecimentos, nem coligir e correlacionar fatos; é
compreender o significado da vida como um todo. Mas o todo não pode ser alcançado pela parte.”
(KRISHNAMURTI,1969a, p.13)

180
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) SOARES, Noemi

A finalidade principal dessa educação incorreta 4 é ativar e desenvolver,


mecanicamente, o intelecto condicionado do estudante e do professor, para que
possam adquirir e memorizar conhecimentos teóricos e/ou técnicos, que irão
capacitá-los a apropriarem-se de uma “eficiência exterior”, totalmente dissociada da
vivência da arte de aprender ou da arte de autoconhecer-se.

A educação correta 5 foi o termo que Krishnamurti utilizou para se referir à


ação pedagógica que objetiva educar o ser humano não somente para ativar a
capacidade de adquirir conhecimentos filosóficos/científicos/técnicos/
éticos/estéticos/ artísticos/poéticos, como também para que possa ativar a
capacidade de conhecer, através da vivência da arte de aprender ou do
autoconhecimento, o funcionamento da programação da mente velha condicionada
em sua própria existência.
Krishnamurti não compreendia a ação pedagógica da educação correta como
uma ideologia ou uma utopia, nem como uma forma para adestrar/condicionar o
indivíduo a existir dentro de alguns padrões determinados. Também não entendia
esta educação como um processo de modelagem da mente da
criança/adolescente/jovem/adulto/ancião a um padrão idealista de se ser um ser
humano.
Na sua concepção, a educação correta visa ajudar o ser humano a
descondicionar a dimensão psicológica da sua existência, estruturada e controlada
pela programação da mente velha condicionada 6. Os princípios pedagógicos desta
educação sustentam que uma das suas funções é educar o ser humano para

4 “A educação atual (ou educação incorreta) está toda interessada na eficiência exterior, desprezando
inteiramente ou pervertendo, com deliberação, a natureza intrínseca do homem; só cuida de
desenvolver uma parte dele, deixando que o resto se arraste como possa. Nossa interior confusão,
nosso antagonismo e temor acabam sempre por subverter a estrutura exterior da sociedade, por
melhor que ela tenha sido concebida e por mais habilmente que se tenha edificado. Não havendo
educação correta, destruímo-nos uns aos outros, e é-nos negada a segurança física. Educar o
estudante corretamente é ajudá-lo a compreender o processo total de si mesmo; porque só com a
integração da mente e do coração, no agir cotidiano, é que pode haver inteligência e transformação
interior” (KRISHNAMURTI,1969a, p. 44-45).
5 “O objetivo da educação correta é criar entes humanos integrados e, por conseguinte, inteligentes.

Podemos tirar diplomas e ser mecanicamente eficientes, sem ser inteligentes. A inteligência não é
mera cultura intelectual; não provém dos livros, nem consiste em jeitosas reações defensivas e
asserções arrogantes” (KRISHNAMURTI,1969a, p. 13).
6 “Assim, a verdadeira função da educação correta é não só ajudar-vos a descondicionar-vos, mas

também a ajudar-vos a compreender o inteiro processo do viver, dia a dia, para que possais crescer
em liberdade e criar um novo mundo totalmente diferente. [...] Eis porque a educação deve ser um
processo de educar tanto o educador como o estudante” (KRISHNAMURTI, 1973a, p. 28).

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) SOARES, Noemi

vivenciar o processo da arte de aprender 7 ou do autoconhecimento e, através desta


vivência, ajudá-lo a tornar-se um individuo amadurecido e livre para florescer
ricamente em amor e bondade .
Um dos objetivos primordiais dessa educação é libertar a mente do ser
humano das próprias experiências psicológicas condicionadas, para que possa
ativar a dimensão criadora da sua potencialidade amorosa.

A ARTE DE APRENDER COMO UM PRINCÍPIO PEDAGÓGICO DA EDUCAÇÃO CORRETA

Na concepção de Jiddu Krishnamurti, a educação incorreta, ao invés de


despertar a inteligência integral do ser humano, lhe adestra a adaptar-se ao padrão
da programação psicológica da mente velha condicionada, que lhe impede ver e
compreender a si mesmo inserido e circunscrito na existência da vida do
serhumanohumanidade 8.

A educação incorreta condiciona o ser humano a viver a sua existencialidade


dentro de um padrão em que a sua vida interior psicológica, por ser negada –
consequentemente, desordenada, desconhecida e desconsiderada – , tem que estar
radicalmente dissociada do processo de aquisição-acúmulo de conhecimentos.

No entendimento desse autor, a educação incorreta, ao ocupar-se somente


com a aquisição de conhecimento técnico e intelectual, separando-o da
compreensão global da vida, alimenta e legitima o processo de deterioração-
destruição da mente humana, provocada pela crueldade inerente ao funcionamento
da ancestral programação psicológica da mente velha condicionada.

7 “O que queremos dizer com aprendizagem? Há aprendizagem quando apenas se acumulam

conhecimentos, reúnem-se informações? Como aluno de engenharia, você estuda matemática e


outras matérias; você aprende informa-se acerca dessas matérias. Você está acumulando co-
nhecimento a fim de empregá-lo de maneira prática. Essa aprendizagem é cumulativa, aditiva. Ora,
quando a mente está apenas assimilando, acrescentando, adquirindo, estará ela aprendendo? Ou
será a aprendizagem uma coisa completamente diferente? Afirmo que o processo aditivo que hoje
chamamos de aprendizagem não é aprendizagem alguma. É apenas um cultivo da memória, que
se torna mecânica; e uma mente que funciona de modo mecânico, como uma máquina, não tem
capacidade de aprender. Uma maquina só é capaz de aprender no sentido aditivo. Aprender não tem
nada que ver com isso” (KRISHNAMURTI, 1996d, p. 110-111).
8 Criei o neologismo serhumanohumanidade para ressaltar a compreensão semântica de que cada ser

humano representa toda a humanidade. De acordo com Jiddu Krishnamurti, aquilo que um ser humano
faz com a sua existência interfere na existência de toda a humanidade. Para ele, cada ser humano, no
âmbito do condicionamento da programação psicológica, é toda a humanidade.

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) SOARES, Noemi

Um dos equívocos da educação incorreta provém da sua concepção


pedagógica, que alicercia-se na idéia de que educar consiste em ensinar o que
pensar. Uma das conseqüências das graves falhas desta educação expressa-se, por
exemplo, na maneira como ela impede o serhumanohumanidade de apropriar-se do
direito ontológico de vivenciar o processo da arte de aprender 9.

Porque condiciona o ser humano a ser incapaz vivenciar a arte de aprender


ou a arte de autoconhecer-se, a educação incorreta o torna subserviente, mecânico,
interiormente/ontologicamente incompleto, estultificado e estéril, analfabeto
psicológico de si mesmo, incapaz de descobrir e construir diferentes sentidos do
significado da sua vocação espiritual de existir.

Inseridos nos objetivos da educação incorreta, encontram-se os fundamentos


da teoria e da prática de uma pedagogia da crueldade, que fragmenta a
existencialidade do ser humano e lhe condiciona a ser violento e não afetivo. Tal
fragmentação lhe incapacita integrar a sua mente com o seu coração, em ações
conscientes vivenciadas no presente da vida vivente dos diferentes momentos do
seu acontecimento existencial diário.

Os princípios filosóficos da educação incorreta, ao compreenderem a


natureza emocional-psicológico-intelectual do ser humano a partir da ótica de uma
pedagogia da crueldade, sustentam que o mecânico processo de aquisição-acúmulo
de conhecimentos é a finalidade fundamental da aprendizagem escolar.

Uma das evidências que demonstra as falhas da educação incorreta revela-


se, também, no fato dela continuar ser incapaz de promover a cura de um dos
aspectos da doença psicológica humana, expresso, por exemplo, na crueldade, que
dá origem, alimenta e legaliza a violenta e absurda realidade das guerras,
proveniente da ausência da compreensão-diálogo-comunicação entre os seres
humanos.

Ao contrário da ação pedagógica unilateral da educação incorreta, a


educação correta ocupa-se tanto com o processo da aquisição-assimilação-
memorização de conhecimentos teóricos e técnicos, como também com a vivência

9 O que compreendemos por aprender? Geralmente é entendido como memorização, acumulação,


armazenamento para uso especializado ou não, conhecimento de idioma, leitura, escrita,
comunicação etc. Os modernos computadores podem fazê-lo melhor. São extraordináriamente
rápidos. Então qual a diferença entre nós e o computador?

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) SOARES, Noemi

da arte de aprender ou do autoconhecimento do ser humano. A prática desta


educação fundamenta-se em uma proposta pedagógica que não separa o processo
da aquisição de conhecimentos do processo do autoconhecimento inerente à
vivência da arte de aprender ou da arte de viver.
Um dos objetivos primordiais da educação correta é convidar o ser humano a
libertar a sua mente das próprias experiências psicológicas condicionadas, para que
possa ativar a dimensão criadora da sua potencialidade amorosa. Os seus princípios
pedagógicos sustentam que uma das suas funções é educar o ser humano para
vivenciar o processo da arte de aprender ou do autoconhecimento e, através desta
vivência, ajudá-lo a tornar-se consciente de que ele é responsável pela construção
dos diferentes significados da sua vocação espiritual de existir.
Esse objetivo revela que uma das finalidades da educação correta é ajudar o
ser humano a ativar, a partir do conhecimento e da compreensão dos mecanismos
psicológicos da mente velha condicionada em sua existência, as suas
potencialidades ontológicas relacionadas à amorosidade criadora de ser presença
autoconsciente no aqui-agora de cada acontecimento existencial.
Tal objetivo também evidencia que uma das funções da educação correta é
ajudar o ser humano a construir um estado de liberdade de ser aberto para assumir
o seu direito espiritual de viver em intima conexão-comunhão com a Energia Divina
Criadora.

ALGUMAS DIFERENÇAS ENTRE A VIVÊNCIA DA ARTE DE APRENDER E O PROCESSO DE


AQUISIÇÃO-ACÚMULO DE CONHECIMENTOS

Apesar de reconhecer que o processo de construção e aquisição de


conhecimentos teve e tem uma função importante e necessária para a sobrevivência
da humanidade, Jiddu Krishnamurti considera que este processo é totalmente
distinto da vivência da arte de aprender10. Esta vivência sempre implica o

10 “Há, portanto, uma diferença entre a aquisição de conhecimento e o ato de aprender. É preciso ter

conhecimento; do contrário, não vamos saber onde moramos, vamos nos esquecer do nosso próprio
nome, etc. Logo, num dado nível, o conhecimento é imprescindível. Mas quando ele é empregado
para compreender a vida – que é um movimento, uma coisa viva, móvel, dinâmica, que se altera a
cada instante –, quando a pessoa é incapaz de caminhar com a vida, ela vive no passado e tenta
compreender essa coisa extraordinária chamada vida. E para compreender a vida, é preciso
aprender a cada minuto sobre ela e nunca abordá-la já tendo aprendido.” (KRISHNAMURTI,1996d, p.
118).

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) SOARES, Noemi

acontecimento de uma ação-movimento existencial autoconscinte, que se processa


no presente desconhecido de cada momento inusitado da vida vivente do ser
humano.

Em oposição à vivência da arte de aprender, o processo de aquisição de


conhecimento sempre está fora (não participa) do pulsar da Presença Criadora do
aqui-agora do presente ativo da existência do ser humano. Isto acontece porque a
aquisição de conhecimentos também implica o processo de reunir/coletar/organizar
o conjunto das informações adquiridas, construídas em várias épocas da história da
humanidade antiga e atual, que são assimiladas nas diferentes
circunstâncias/experiências vivenciadas pelo ser humano na vida vivida do passado
do tempo cronológico da sua existência. Tal processo, que deixa um resíduo na
forma de conhecimento, é o conjunto da memorização do vivenciado no passado
longínquo ou no passado de um minuto atrás da vida vivida.

Assim, todo conhecimento é sempre conhecimento do passado. Ou seja, todo


conhecimento é passado, pois implica a reunião-organização-assimilação do que foi
experimentado/observado/percebido/construído na vida vivida do ser humano

Nas suas investigações, Jiddu Krishnamurti evidenciou que o processo de


aquisição de conhecimento é uma capacidade que não somente o ser humano tem.
No início dos anos sessenta do século XX, ele ressaltava que os cérebros
eletrônicos dos computadores também podiam adquirir conhecimentos e passar/dar
informações, às vezes, de uma maneira muito mais ágil e sofisticada do que o
próprio cérebro humano. Apesar de reconhecer a capacidade dos cérebros
eletrônicos de acumularem um cabedal enorme de conhecimentos-informações, este
educador reconhecia que eles não podiam aprender ou vivenciar o processo da arte
de aprender 11.

Na sua perspectiva, todo conhecimento supõe alguma autoridade não no


sentido etimológico de autoria, mas como forma de superioridade constituída, ou
como domínio, ou então como poder que exige obediência, subserviência. Ele

11 “A aprendizagem é bem mais importante do que a aquisição de conhecimento. Aprender é uma


arte. O cérebro eletrônico, o computador, pode adquirir conhecimento e dar todo tipo de informações,
mas essas máquinas, por mais espertas que sejam, por mais bem-informadas, não podem aprender.
Só a mente humana é capaz de aprender. Nós fazemos uma distinção radical entre a arte de
aprender e o processo de aquisição do conhecimento.” (KRISHNAMURTI, 1996d, p. 117)

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) SOARES, Noemi

considera que a mente que se fortificou na autoridade de modo nenhum pode


aprender.

Na compreensão desse educador, onde há autoridade, inclusive a autoridade


do conhecimento, não pode acontecer a vivência da arte de aprender, pois esta
vivência implica a ativação de um estado existencial ou de uma dimensão da
realidade ontológica do ser humano em que a sua mente não é oprimida por
nenhum tipo de autoridade: nem a autoridade externa dos conhecimentos dos
professores, pais, ou de qualquer outro ser humano, nem a autoridade dos
conhecimentos das tradições, das crenças religiosas/intelectuais/científicas/
ideológicas e nem a autoridade interna dos seus próprios conhecimentos, adquiridos
na vivência das suas experiências existenciais e gravados nos arquivos da sua
memória.

Para esse autor, a vivência da arte de aprender só é possível acontecer


quando o ser humano ativa o potencial da sua mente nova criadora 12 que, por ser
vazia e sempre nova, é totalmente desapegada ao passado de qualquer forma de
conhecimento. Ele entende que a vivência da arte de aprender só pode acontecer
quando o ser humano vê uma coisa nova ou um fato novo, ou então vivencia um
acontecimento existencial novo e não o traduz em termos do conhecido,
arquivado/estocado no armazém da memória psicológica do seu velho cérebro. Isto
significa dizer que, para aprender, o ser humano precisa ativar a dimensão da sua
mente que, por ser nova e vazia, está livre do peso/autoridade do conhecimento.

A ATIVAÇÃO DA PRESENÇA AUTOCONSCIENTE INERENTE À VIVÊNCIA DA ARTE DE APRENDER

A vivência da arte de aprender, apesar de ser totalmente distinta da vivência


do processo de aquisição/acúmulo de conhecimentos, possibilita o ser humano usar
o conjunto de informações/conhecimentos de uma forma “hábil”, que lhe concede
meios para se localizar existencialmente e viabilizar a sua sobrevivência de maneira
equânime e autoconsciente.
12 “Quando a mente está livre do conhecido, ela é uma mente nova criadora, inocente, purificada.

Acha-se num estado de criação, imensurável, inominável, fora do tempo”. (KRISHNAMURTI, 1981 a:
222).
“A mente inocente, a mente nova criadora é aquela que não pode ser ferida. Uma mente sem
marcas de ferimentos recebidos – eis a verdadeira inocência; temos cicatrizes no cérebro e, com
elas, queremos descobrir um estado mental sem ferimento algum. A mente inocente, não pode ferir-
se, porque nunca transporta um ferimento de dia para dia”. (KRISHNAMURTI, 1975 c : 69).

186
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) SOARES, Noemi

Através da vivência da arte de aprender, o ser humano pode ativar uma


potencialidade existencial, que lhe capacita apropriar-se da possibilidade de
vivenciar o processo aquisitivo-acumulativo sem precisar ficar, psicologicamente,
aprisionado às limitações do conhecimento que, por exemplo, lhe impõem ser
escravo: a) da ânsia de poder sobre o outro; b) da ilusão de se considerar superior a
outro ser humano; c) da busca da certeza e da segurança psicológica inexistentes;
d) do aprisionamento ao medo psicológico; e) da dependência psicológica às ilusões
do desejo; f) da fuga do acontecimento existencial do aqui-agora da vida vivente; g)
da ignorância a respeito da sua vocação espiritual de ser consciente de si mesmo
em íntima conexão com a Energia Divina Criadora.

Ou seja, a vivência da arte de aprender proporciona ao ser humano


possibilidades existenciais para que possa adquirir e usar os seus conhecimentos,
sem ter que submeter-se à condição de prisioneiro-vítima das diferentes
modalidades psicológicas da ativação da programação da mente velha condicionada
em sua existência.

De acordo com Jiddu Krishnamurti, cessa a vivência da arte de aprender


quando o ser humano está aprisionado e identificado com o processo de
acúmulo/aquisição de conhecimento 13. A vivência do aprender desta arte é um
perene fluir, que não acumula absolutamente nada. Ou seja, o aprender da vivência
da arte de aprender não é um movimento acumulador, nem tampouco um processo
aditivo ou aquisitivo.

Ao contrário do conhecimento que é adquirido, a vivência da arte de aprender


não é adquirida, pois acontece no momento presente da vida vivente, que não se
repete. Ou seja, a ação-vivência da arte de aprender sempre acontece no presente
ativo de cada momento desconhecido da vida vivente do ser humano. Esta vivência
não está relacionada com o passado, pois o ato de aprender é uma ação presente,
vivenciada no instante atual irrepetível da vida vivente do ser humano.

Krishnamurti considera que na vivência da arte de aprender não existe o


processo de memorização ou do registro de informações/conhecimentos. Isto não

13 “Não há o “movimento de aprender ” quando há aquisição de conhecimentos; as duas coisas são


incompatíveis, contraditórias. O “movimento do aprender ” implica um estado em que a mente não
tem, guardada como conhecimento, nenhuma experiência.” (KRISHNAMURTI, 1981a, p. 166-167).

187
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) SOARES, Noemi

significa dizer que as informações e os conhecimento não são necessários à


existência do ser humano. Nesta vivência, a pessoa aprende a dar lugar exato às
informações que adquiriu e a agir, consciente e habilmente, de acordo com aquilo
que aprende, sem ficar psicologicamente aprisionado às limitações da programação
psicológica da mente velha condicionada.
O aprender da vivência da arte de aprender é o acontecimento presente do
desconhecido, que dança com o Mistério desconhecido inerente ao pulsar da vida
vivente de cada instante do acontecimento existencial do ser humano. Nesta
dimensão compreensiva, a vivência da arte de aprender também implica a ação do
indivíduo ser, conscientemente, presença no aqui agora da vida vivente.
O estado de ser presença autoconsciente de si mesmo manifesta a
potencialização do acontecimento da plenitude de uma liberdade ontológica, que
possibilita o ser humano estabelecer uma nova aliança entre o Espírito
Autoconsciente da Energia Divina Criadora – pulsando em sua existência – e a
matéria inerente a sua constituição biológica, corpórea, psicológica e emocional,
também movida pelo funcionamento dos sistemas reptiliano, límbico e neocortical do
seu cérebro.

A ARTE DE APRENDER NA EDUCAÇÃO TRANSDISCIPLINAR

Considero que a educação transdisciplinar também pode ser compreendida


como um termo sinônimo da educação correta, preconizada e praticada por Jiddu
Krishnamurti. Ao educar o ser humano para conhecer o funcionamento da mente
velha condicionada em sua própria existência, esta educação objetiva, também,
ajudá-lo a reconhecer e a compreender a realidade existencial da sua vida interior
psicológica. Conseqüentemente, ajudá-lo a encarar, a enfrentar e a solucionar
alguns problemas humanos vitais, originados pela inconsciência
(ignorância/desconhecimento) do funcionamento da programação desta mente em
sua psique.
Entendo que o eixo pedagógico e epistemológico do princípio trans da
educação transdisciplinar é a vivência da arte de aprender ou da arte de
autoconhecer-se. Um dos objetivos desta educação é ajudar o ser humano, através
desta vivência, a conhecer a si mesmo. Ou seja, ajudar o ser humano, nos seus
encontros sócio-relacionais inter e intrasubjetivos, a conhecer e compreender:

188
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) SOARES, Noemi

 o processo de constituição e do funcionamento da sua corporeidade;


 a forma como os diferentes mecanismos de funcionamento dos sistemas
reptiliano, límbico e neocortical do seu cérebro atuam em sua existência;
 a maneira como a programação da mente velha condicionada é ativada
em sua psique (consciência da estrutura e da natureza da dimensão
existencial interior-psicológica das suas emoções, seus pensamentos-
sentimentos, seus afetos, seus desejos, suas feridas psicológicas do
passado, seus apegos, seus medos psicológicos, suas projeções, seus
devaneios, que alimentam o processo de auto-afirmação do eu
psicológico e a ilusão do vir-a-ser, etc);
 a potência criadora da sua vontade de viver;
 a dialogicidade entre a sua respiração e o pulsar da respiração da Vida
Criadora;
 as diferentes dimensões da sua vocação ontológica e do significado
espiritual da sua existência.
A educação transdisciplinar também objetiva ajudar o ser humano a construir
o sentido de uma individuação ontológica, alicerçada e movida pela dinâmica do
processo do conhecimento e da compreensão do funcionamento dos diferentes
mecanismos da programação da mente velha condicionada em sua psique.
Conseqüentemente, ajudá-lo a construir o sentido-significado de uma existência
autoconsciente, responsável, alegre, harmônica, amorosa, criativa, aberta para o
reconhecimento e o respeito pela diferença do outro, livre de dependências
psicológicas, sexuais, emocionais, intelectuais, financeiras, espiritual e outras
dependências.

Outro objetivo da educação transdisciplinar é ajudar o ser humano a


construir-conquistar a vivência de uma genuína liberdade de sersendo, para que
possa tomar consciência e apropriar-se do seu direito de viver em comunhão
ontológico-existencial-espiritual com a Vida Abundante, cheia da Presença do Pulsar
da Energia Divina Criadora em cada movimento do seu existir diário.

Tais objetivos evidenciam que a finalidade primordial da educação


transdisciplinar está direcionada para a vivência da arte de aprender ou da arte de
autoconhecer-se do ser humano. Para os postulados pedagógicos desta educação,

189
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) SOARES, Noemi

o significado essencial de todo processo de aprendizagem não pode estar


dissociado da finalidade da vida mesma de cada estudante-educando-educador.

Para a educação transdisciplinar, a vivência da aprendizagem também implica


o despertar da potência criadora da vontade de vida do ser humano, que lhe
impulsiona a construir-conquistar um estado ontológico de liberdade de sersendo, o
qual lhe permite apropriar-se do direito de ser livre para, diariamente, criar sentidos e
significados, conscientemente amorosos, para a sua vocação de existir.

A ARTE DE APRENDER OU O AUTOCONHECIMENTO COMO PROCESSO DE


AUTODESENVOLVIMENTO HUMANO NO SÉCULO XXI

Compreendo que no processo do desenvolvimento do ser humano, que se


desenrola a partir do seu nascimento até a sua morte, também está implícita a
vivência do autoconhecimento. Esta compreensão sugere que, no século XXI, o
desenvolvimento humano também abarca vivência da arte de aprender ou da arte de
autoconhecer-se.
O desenvolvimento humano na dimensão da vivência do autoconhecimento
tem a finalidade de ajudar o indivíduo a se realizar como um ser integrado (corpo,
emoções, sentimentos-pensamentos, intelecto, sexualidade, sensibilidade,
espiritualidade, criatividade), para que possa apropriar-se da capacidade e do direito
de tomar o seu destino nas próprias mãos e contribuir para o processo do cuidado
com a vida do serhumanohumanidade, a partir de atitudes existenciais baseadas na
consciência da responsabilidade individual direcionadas para a consolidação da
consciência da responsabilidade social.
Nessa dimensão compreensiva, para que desenvolvimento humano aconteça
no século XXI faz-se necessária a vivência do autoconhecimento. Ou seja, sem a
vivência da arte de aprender, ou da arte de autoconhecer-se, é impossível o
acontecimento de um desenvolvimento humano no século XXI, necessário à
sobrevivência do serhumanohumanidade.
Na perspectiva do cuidado, o desenvolvimento humano também refere-se à
possibilidade do indivíduo, através do autoconhecimento ou da arte de aprender, a
vivenciar o processo de construção e de conquista da autoconsciência da sua
responsabilidade social interligada à construção de relacionamentos inter e
intrasubjetivos fundamentados no respeito, na afeição, na ternura, na dialogia, na

190
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) SOARES, Noemi

solidariedade, no serviço ao bem estar comum, na aceitação e no respeito `a


diferença do outro, na equanimidade, na bondade, na consideração e na reverência
pela singularidade de cada pessoa. Esta vivência também implica o processo de
construção do autodesenvolvimento do ser humano.
Ao assumir essa responsabilidade social, o ser humano também pode tornar-
se co-autor da pró-cura da saúde-cuidado com a existência do
serhumanohumanidade, a partir do processo de uma consciente revolução
psicológica em sua psique, produzida pela vivência do autoconhecimento.
Provavelmente, o processo da vivência da sua arte de autoconhecer-se, ou do seu
autodesenvolvimento, poderá lhe oferecer condições para assumir a sua
responsabilidade em relação à violenta crise social, provocada pela doença
psicológica humana, produzida pela ativação obsoleta da mente velha condicionada.
Essa crise social que, nas últimas décadas, assola todos os países do
planeta, também é evidenciada pela pobreza, fome, miséria, desigualdade
econômica, pela formação de diferentes organizações terroristas, pelo
acontecimento de várias guerras e de inúmeros atentados terroristas, pela insana
ânsia de poder da busca da hegemonia militar de uma única superpotência, pela
loucura da pedofilia, pela máfia do narcotráfico, pelos exorbitantes lucros da
economia bélica (fornecidos pelo mercado mundial de armas através da fabricação
de revolver, canhão, metralhadora, bomba atômica, mísseis, armas químicas e
biológicas, e outros armamentos), pela prática de um processo educativo escolar
mecânico-fascista e por tantos outros fatos,
Tal crise social, que retrata o doentio ambiente social “civilizatório” de
descuidado e de descaso com a vida do serhumanohumanidade, revela, por
exemplo, como a doença psicológica da mente velha condicionada do ser humano é
responsável pela absurda idéia do nacionalismo. Esta idéia fomenta e alimenta a
podre ânsia dos enlouquecidos poderes legitimadores do desejo de uma nação ou
algumas nações quererem ser mais poderosas do que as outras.
Atualmente, virou lugar comum o processo de ideação da paz justificar e
legitimar atitudes violentas de assassinato de pessoa ou de um grupo de pessoas de
uma rua, ou de um bairro, ou de uma cidade, ou de um estado ou de um país. Esta
crise, além de evidenciar como a doença psicológica tem elevado o grau de descaso

191
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) SOARES, Noemi

e de descuidado com a vida do ser humano, também revela o quanto a sua


existência perdeu importância.
Tal contexto sócio-planetário evidencia como o desenvolvimento humano, na
perspectiva do cuidado, continua sendo inibido e reprimido pela ativação da
programação da mente velha condicionada, que fomenta e justifica a insana
mentalidade – construída pela doença psicológica do serhumanohumanidade – das
cruéis idéias nacionalistas e do uso do sofrimento alheio para a lucratividade da
economia bélica, da economia do narcotráfico, da economia do terrorismo, da
economia da prostituição de crianças e de tantas outras violentas economias.

O D E S E NV OL V IME NT O H UMANO NA P E R S P E C T IV A DO C UIDADO -C UR A DA D OE NÇ A


P S IC OL ÓG IC A DO S E R HUMANOHUMANIDADE

Diante do atual contexto sócio-histórico-econômico-planetário, movido pela


crueldade da doença psicológica de nós seres humanos, que alimenta e legitima as
violentas e insanas atitudes existenciais, inerentes ao processo de ativação da
mente velha condiconada, considero urgente a prática de uma consciente e vigorosa
ação educativa transdisciplinar a serviço do desenvolvimento humano,
compreendido como vivência do processo de cuidado-cura desta doença
psicológica.
Entendo que o significado do desenvolvimento humano no século XXI implica
não somente o processo de conscientização da gravidade da doença psicológica do
serhumanohumanidade, como também o processo de cuidado-cura desta doença.
Ou seja, o desenvolvimento humano, nesta dimensão compreensiva, implica o
processo de cuidado com a vida do serhumanohumanidade manifesta na existência
de cada pessoa, inserida no montante dos sete bilhões de pessoas habitantes da
Terra.
De acordo com Antenor Nascentes, a etimologia do vocábulo cuidado, deriva
da palavra latina cura. Nas suas pesquisas filológicas ele ressaltou que o cura é o
homem que cuida das almas, pois verificou que a origem do verbo curar tem o
sentido de cuidar. Também esclareceu que de cuidar (por exemplo, de um doente) o
verbo curar passou ao termo do tratamento (sarar). Nesta semântica de cuidado,
este verbo também se associou ao latim cogitare. O vocábulo cuidar, também

192
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) SOARES, Noemi

proveniente do latim cogitare, significa pensar, cuidar. O seu significado evidencia


que naquilo que se cuida a gente sempre pensa. (NASCENTES, 1932: 225 e 229).
Para o filólogo Antonio Geraldo da Cunha, o substantivo feminino cura
significa cuidado, zelo, desvelo. Nas suas investigações ele esclarece que a
etimologia do verbo curar implica o sentido de ter cuidado com, vigiar, cuidar, livrar
da doença e o verbete cuidar significa tratar de, dar atenção, ter cuidado, curar.
(CUNHA, 1982: 234)
Confirmando a perspectiva de Antenor Nascentes e Antonio Geral Cunha, F.
R. dos Santos Saraiva, nos seus estudos etimológicos, apresenta os seguintes
significados para o substantivo feminino cura-ae:
1. cuidado, diligência, aplicação; 2. administração, governo; 3. tratamento,
cura; 4. guardar, vigiar, vigiador, guardador; 5. cuidado, inquietação
amorosa provocada pela necessidade do querer cuidar; 6. amor, objeto
amado, amar a alguém; 7. olhar pelo bem estar de alguém. (SARAIVA, s/d:
326)

A partir desses referenciais etimológicos é possível afirmar que o significado


originário da palavra cura refere-se ao processo do cuidado, do desvelo, da
solicitude, da responsabilidade, da consideração, da atenção amorosa e da pré-
ocupação por uma pessoa.
Cuidar significa considerar, dar atenção, zelar, estar com cuidado, ter
cuidado, tratar com cuidado, ver com cuidado, ouvir com cuidado, ser solícito, ser
amorosamente responsável. Ou seja, um dos sentidos etimológicos originários do
vocábulo cuidado está relacionado com a vivência da cura movida pelo processo
amoroso do cuidar. O cuidado implica o acontecimento de uma atitude afetiva para
com alguém, movida pela energia do amor, desprovida de qualquer intenção de
lucratividade, tanto a psicológica, a emocional, a econômica, a sexual, a intelectual e
outras.
A atitude afetiva do cuidado baseia-se na afetividade, que está alicerçada na
consciência do direito à ternura que todo ser humano possui por inerência
ontológica. A etimologia da palavra afetividade vem do latim affeição, que significa
afeto, amizade, amor, afeiçoamento, conexão, ligação, relação.
Assim, ter cuidado também significa ter afeto. Ser afetivo é ser cuidadoso, é
vivenciar o exercício da não-violência praticado, por exemplo, pelo educador Gandhi,
o qual, com a sua consciente ação educativa, assumiu o seu direito existencial de

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) SOARES, Noemi

vivenciar a amorosa responsabilidade social pelo processo do autodesenvolvimento


do ser humano.
Ser cuidadoso é reconhecer que o(a) outro(a) não é objeto de uso
(econômico,bélico, emocional, psicológico, sexual, espiritual, intelectual, etc), mas
um(a) companheiro(a) na caminhada existencial da vida humana. Ou seja, uma
pessoa afetiva não se relaciona com o outro com o objetivo de lucrar
financeiramente, emocionamente, sexualmente, intelectualmente, psicologicamente,
espiritualmente, ou qualquer intenção de lucro ou usofruto do outro.
O desenvolvimento humano na perspectiva do cuidado, evidencia que a
existência do serhumanohumanidade pode ser construída por laços afetivos
alicerçados e direcionados por uma consciente atitude de cuidado ou de atenção
amorosa pela Vida Criadora, que vive e pulsa na existência de cada pessoa, a partir
de atitudes existenciais não mais movidas pela ignorância do funcionamento da
programação da mente velha condicionada na própria psique.
Martin Heidegger (1889-1976), na sua análise ontológica sobre a existência
humana, ressalta que só o homem é o ser que indaga sobre a questão essencial do
Sentido do Ser. Suas investigações filosóficas evidenciam que, desde os gregos pré-
socráticos, a pergunta fundamental sobre o sentido do ser sempre esteve presente
na filosofia ocidental. Nesta pergunta está inserida a questão da cuidado/cura
enquanto essência do ser-no-mundo. A sua abordagem hermenêutica parte do
princípio que o cuidado significa um fenômeno ontológico-existencial básico da
constituição humana. 14

Fundamentado na história do significado etimológico do vocábulo cura, esse


filósofo considera que o acontecimento do cuidado, enquanto cura, dirige-se para o
sentido de reconduzir o homem de volta à sua essência, para que possa tornar-se
humano. Na sua perspectiva, a interpretação existencial e ontológica da Presença
também é compreendida como cura ou como cuidado com a vida do ser humano.

14 “A analítica da pre-sença que conduz ao fenômeno da cura deverá preparar a problemática

ontológica fundamental, isto é, a questão do sentido do ser.” (HEIDEGGER, 2001, p. 246)


“Porque, em sua essência, o ser-no-mundo é cura, pode-se compreender, nas análises precedentes,
o ser junto ao manual como ocupação e o ser como co-pre-sença dos outros nos encontros dentro do
mundo como preocupação. O ser-junto a é ocupação porque, enquanto modo de ser-em, determina-
se por sua estrutura fundamental que é a cura.” . (HEIDEGGER, 2001, p. 257)
“A expressão ‘cura’ significa um fenômeno ontológico-existencial básico.” (HEIDEGGER, 2001, p.
261)

194
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) SOARES, Noemi

Para ele, a existência humana articula, no próprio ato da sua manifestação, a


questão do cuidado. 15

Esse educador filósofo, entende que a universalidade do fenômeno da cura


pertence à estrutura ontológica da pre-sença, enquanto acontecimento de cuidado
com a existência humana. Ele compreende que o humanismo é curar e cuidar que o
homem seja humano e não inumano, isto é, estranho à sua Essência 16.
Portanto, para Martin Heidegger, o ser humano é humano porque sua
condição existencial constitutiva é o cuidado. Ele compreende que sem o cuidado o
ser humano deixa de ser humano, pois entende que ser um ser humano implica a
condição de ser o cuidado. Assim, mais do que ter cuidado, o ser humano é o
cuidado na sua essência ontológica existencial 17.

O cuidado com a vida, compreendido como desenvolvimento humano,


anuncia o direito de toda pessoa, através da vivência do autoconhecimento ou da
arte de aprender, conhecer as dimensões condicionadas dos sistemas reptiliano,
límbico e neocortical do seu cérebro, as quais produzem e cultivam a doença
psicológica proveniente da programação da crueldade, da violência, do egoísmo,
inerente à estrutura e natureza da mente velha condicionada, que originam e
legitimam a barbárie das guerras, do terrorismo, do narcotráfico, da falta de diálogo
nas relações políticas internacionais, nacionais, estaduais, municipais, profissionais,
bem como da falta de diálogo e de amor nas domésticas relações familiares entre
pais, filhos, irmãos,esposas e esposos, amantes, sogras, genros, nora, etc.
O cuidado com a existência do ser humano, entendido como processo de
cura da grave doença psicológica, também provocada pela ativação indevida da
mente velha condicionada, evidencia a possibilidade de cada indivíduo apropriar-se
do direito de viver uma existência fundamentada em um estado de consciência

15 “A história do significado do conceito ôntico de ‘cura’ permite ainda a visualização de outras


estruturas fundamentais da pre-sença. Burdach chama a atenção para um duplo sentido do termo
“cura” em que ele não significa apenas um ‘esforço angustiado’, mas também o ‘cuidado’ e a
‘dedicação’.” (HEIDEGGER, 2001, p. 264)
16 “Enquanto totalidade originária de sua estrutura, a cura se acha, do ponto de vista existencial a-

priori, ‘antes’ de toda ‘atitude’ e ‘situação’ da presença, o que sempre significa dizer que ela se acha
em toda atitude e situação de fato” (HEIDEGGER, 2001, p. 258).
17 “Faz-se, pois, necessária uma confirmação pré-ontológica da interpretação existencial da pre-sença

como cura. Essa, por sua vez, consiste no fato de que a pre-sença, desde cedo, quando se
pronunciou sobre si mesma, foi interpretada como cura...” (HEIDEGGER, 2001, p. 246).

195
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) SOARES, Noemi

afetiva de ser o cuidado, de ser sensível a si mesmo e ao outro, de sentir-se


responsável pela cura desta doença.
Portanto, falar de desenvolvimento humano na dimensão do cuidado
enquanto processo de cura da supracitada doença psicológica é também falar da
vivência do autodesenvolimento humano, fundamentado na construção e na
conquista da autoconsciência de cada pessoa.
Sem a vivência da arte de aprender, ou da arte de autoconhecer-se, o
cuidado com o acontecimento da saúde da existência do ser humano fica
comprometido pela ignorância do domínio da programação psicológica da mente
velha condicionada. Sem a vivência da arte de aprender é impossível o
acontecimento do autodesenvolvimento do ser humano na atualidade.
Ou seja, sem a vivência do autoconhecimento é impossível o processo de
construção do autodesenvolvimento humano na dimensão do cuidado-cura da
referida doença psicológica. Nesta perspectiva compreensiva, o
autodesenvolvimento humano também implica a vivência pessoal de cuidado com a
saúde da existência do ser humanohumanidade. Este autodesenvolvimento também
se processa através da vivência da arte de aprender ou da arte de autoconhecer-se,
também compreendida como vivência do indivíduo conhecer e compreender o
funcionamento da mente velha condicionada na sua própria existência.
O cuidado compreendido como processo de cura da doença psicológica do
serhumanohumanidade, provocada pela ignorância do funcionamento da
programação da estrutura e da natureza da mente velha condicionada na própria
psique, pode ser reconhecido como um fenômeno da consciência humana.
Enquanto fenômeno da consciência humana, o cuidado como vivência do processo
de pró-cura da saúde humana pode ser compreendido como sinônimo de
autodesenvolvimento humano no século XXI.

A CONSCIÊNCIA DA ARTE DE APRENDER PARA O PROCESSO DE


AUTODESENVOLVIMENTO DO SER HUMANO

A perspectiva semântica do processo do autodesenvolvimento do ser


humano, que apresento neste artigo, compreende que ser cuidadoso é também
sinônimo de ser um ser humano consciente do funcionamento da programação
psicológica desta mente, a partir da vivência da arte de autoconhecer-se ou da arte

196
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) SOARES, Noemi

de aprender. Sem a vivência do autoconhecimento o desenvolvimento humano e a


responsabilidade social com a existência do serhumanohumanidade ficam
totalmente comprometidos.
Assim, o cuidado também é um modo de ser um ser humano consciente da
sua integração no corpo do serhumanohumanidade, a partir da compreensão de que
aquilo que faz com ele mesmo e com o outro interfere na vida de toda a
humanidade.Aquilo que ele faz com ele mesmo pode piorar a doença psicológica do
serhumanohumanidade ou pode contribuir para o processo de sua cura.
Esse cuidado também implica o exercício consciente de uma
responsabilidade social totalmente vinculada à vivência da responsabilidade
individual, direcionada para o desenvolvimento humano, proveniente do processo de
autodesenvolvimento humano de cada pessoa particular.
Considero importante ressaltar que a perspectiva epistemológico-filosófico-
ontológico sobre o processo do desenvolvimento humano, enquanto vivência do
cuidado-cura da doença psicológica humana, que apresento na abordagem deste
artigo, não nega, em hipótese alguma, as concepções interpretativas dos
estudos/pesquisas científicas e das ações sociais nas dimensões econômica,
sociológica, biológica, psicológica, antropológica, historiográfica , ecológica e outras
a serviço do desenvolvimento humano sustentável.

No entanto, apesar de não negar essas concepções, que apresentam


diferentes abordagens que se complementam, entendo que a perspectiva
epistemológico-filosófico-ontológico sobre o desenvolvimento humano,
compreendido como cuidado/pró-cura da saúde psicológica humana, evidencia que,
se o serhumanohumanidade não reconhecer, através da vivência da arte de
aprender ou da arte de autoconhecer-se, que a programação da mente velha
condicionada é responsável pelo fenômeno da sua violência/crueldade psicológica, a
qual produz a miséria, a fome, a desigualdade social, as guerras, os atentados
terroristas, o desiquilíbrio ecológico e tantos outros sofrimentos, os diferentes
estudos econômico, antropológico, sociológico, psicológico, político ecológico,
juntamente com as ações sociais dos governos, das ongs e de outras várias
organizações a serviço do processo do desenvolvimento não poderão tratar da raiz
do problema que inviabiliza a construção de um coerente processo de

197
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) SOARES, Noemi

autodesenvolvimento do ser humano individual, necessário à sobrevivência coletiva


do ser humano humanidade no século XXI.

Entendo que a educação transdisciplinar é, justamente, a realização de


projetos pedagógicos direcionados para o desenvolvimento integrado do ser
humano. Os fundamentos filosóficos e a prática pedagógica desta educação
sustentam que o desenvolvimento humano, no século XXI, precisa ser
compreendido, epistemologicamente e existencialmente, como sinônimo da vivência
do cuidado-cura da doença psicológica do serhumanohumanidade, produzida pela
programação da mente velha condicionada.

O desenvolvimento humano, compreendido como cuidado com a vida do


serhumanohumanidade, é movido pela construção-conquista da autoconsciência da
responsabilidade pessoal integrada à consciência da responsabilidade social. Esta
compreensão evidencia que a responsabilidade social empresarial, tão explorada
nesta primeira década do século XXI, não abarca o significado da responsabilidade
social necessária à sobrevivência da existência do serhumanohumanidade.

O fundamento ontológico, epistemológico e espiritual do desenvolvimento


humano na perspectiva do cuidado também baseia-se na orientação de Jesus
Cristo, que reconhece que o ser humano, ao apropriar-se da consciência amorosa
da Graça Divina Redentora em sua própria existência, através da vivência do NOVO
NASCIMENTO (“nascimento da água e do espírito”), pode acessar a potencialidade
ontológica do amor na dimensão vivencial do amar ao próximo como a si mesmo.
A Nova Lei do Amor e As bem aventuranças, anunciadas e praticadas por
Jesus Cristo, o mestre do processo de ativação da autoconsciência amorosa do
serhumanohumanidade, são alguns dos fundamentos que sustentam a vivência do
desenvolvimento humano como processo de cuidado e pró-cura da saúde da
existência do ser humano.
Sem a prática da Nova Lei do Amor e das Bem aventuranças é impossível o
acontecimento do desenvolvimento humano nessa perspectiva do cuidado-cura da
referida doença psicológica. Esta vivência, provavelmente, poderá ser uma semente
que fará germinar a raiz e o fruto do autodesenvolvimento do ser humano.
Tal germinação, talvez, poderá ajudar o ser humano, não mais dominado pela
ignorância do funcionamento da programação psicológica da mente velha

198
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) SOARES, Noemi

condicionada em sua própria existência, a tornar-se co-responsável pelo


desenvolvimento humano de uma humanidade mais humana, mais espiritualizada,
mais solidária e dialógica, aberta para a ternura do aprendizado do amor na vivência
da construção de responsáveis relações sociais afetivo-amorosas. Ou seja, uma
humanidade menos cruel e violenta, capaz de vivenciar o princípio amoroso da não-
violência praticado e testemunhado por Mahatma Gandhi, um educador
transdisciplinar do século XX, que transformou a ensinança crística do ser humano
amar ao próximo como a si mesmo, em princípio e significado da sua existência e da
sua morte.

REFERÊNCIAS

HEIDEGGER, Martin. O Ser e o tempo. Petropolis, Vozes, 2005

KRISHNAMURTI, Jiddu. Realização sem esforço. Rio de Janeiro, ICK, 1956 a

___________________. A educação e o significado da vida. São Paulo, Cultrix,


1969a.

___________________. A cultura e o problema humano. São Paulo, Cultrix, 1973a

___________________. Viagem por um mar desconhecido. São Paulo, Editora Três,


1973b.

___________________. Fora da violência. São Paulo, Cultrix, 1973c

___________________. O novo ente humano. Rio de Janeiro, ICK, 1975c

___________________. A libertação dos condicionamentos. Rio de Janeiro, ICK,


1977b.

___________________. O homem e seus desejos em conflito. São Paulo: Cultrix,


1981.

___________________. Cartas a las escuelas I. Buenos Aires: Kier, 1996a.

_____________________. Sobre a aprendizagem e o conhecimento. São Paulo:


Cultrix, 1996b.

Vários autores. Bíblia do ministro. Florida, Editora VIDA, 1996, edição contemporânea
de Almeida.

199
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) GIESTA, Nágila

Capítulo 12

CONSCIÊNCIA, EDUCAÇÃO AMBIENTAL E AÇÕES


PEDAGÓGICO-POLÍTICO-SOCIAIS

Nágila Caporlíngua Giesta 1

RESUMO
As relações no meio natural e social provocam reações que interferem no modo de ser e estar dos
seres. A consciência destes atos e concepções implícitas nas decisões tomadas no cotidiano das
pessoas, em seu trabalho e na educação pode favorecer mudanças de atitudes e melhorias na
qualidade de vida de todos. A educação ambiental surge como um dos instrumentos que visa
desencadear mudança de pensamento e renovação de posturas de zelo, afeto, respeito na
convivência sadia em âmbitos sociais e naturais. A valorização do espaço-tempo vivido como
elemento de um processo cumulativo de aperfeiçoamento ou degradação de formas de vida
diversificadas permite a compreensão de que cada indivíduo age, numa interação local e global, de
forma tácita ou consciente no ambiente que constitui e por ele é constituído.
Palavras-chave: consciência ambiental, educação ambiental, papel da escola.

São objetivos fundamentais da educação ambiental: I - o desenvolvimento de


uma compreensão integrada do meio ambiente em suas múltiplas e complexas
relações, envolvendo aspectos: ecológicos, psicológicos, legais, políticos, sociais,
econômicos, científicos, culturais e éticos; II - a garantia de democratização das
informações ambientais; III - o estímulo e o fortalecimento de uma consciência crítica
sobre a problemática ambiental e social; IV - o incentivo à participação individual e
coletiva, permanente e responsável, na preservação do equilíbrio do meio ambiente,
entendendo-se a defesa da qualidade ambiental como um valor inseparável do
exercício da cidadania; V - o estímulo à cooperação entre as diversas regiões do
País, em níveis micro e macrorregionais, com vistas à construção de uma sociedade
ambientalmente equilibrada, fundada nos princípios da liberdade, igualdade,
solidariedade, democracia, justiça social, responsabilidade e sustentabilidade; VI - o
fomento e o fortalecimento da integração com a ciência e a tecnologia; VII - o

1Pedagoga, Professora do Programa de Pós-Graduação em Educação Ambiental da Fundação


Universidade Federal do Rio Grande – FURG/RS. Doutora e Mestre em Educação pela UFRGS. E-
mail: nagiesta@terra.com.br

200
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) GIESTA, Nágila

fortalecimento da cidadania, autodeterminação dos povos e solidariedade como


fundamentos para o futuro da humanidade.
Diante disso e juntando-se a iniciativas nos mais variados âmbitos nacionais e
internacionais são desenvolvidas ações em que se salienta o compromisso de
formação de estruturas cognitivas, procedimentais e atitudinais com vistas à
consciência dos efeitos da relação saudável e afetuosa entre os seres. Vêm sendo
realizados estudos sobre o ambiente visando: (a) apontar e/ou descrever problemas
ambientais de ordem físico-natural ou social no contexto que abriga a humanidade
em tempos e espaços específicos; (b) estimular a reflexão acerca de modos de ser e
estar no meio natural ou social e o compromisso da população na manutenção da
qualidade ambiental para sua e para as próximas gerações; (c) utilizar
conhecimentos produzidos nos mais variados centros acadêmicos, como pesquisa
de base, aplicando em práticas educativas formais, não formais e informais, de
modo a favorecer mudanças de atitudes dos cidadãos na interação com o meio.

CENÁRIOS PARA INVESTIGAÇÃO E A EDUCAÇÃO AMBIENTAL

As interações desenvolvidas pelos humanos assumem dimensões e


repercussões diversificadas na vida particular e no trabalho. Cada um dedica aos
seus espaços de vida importância singular, atribui valores diferentes às relações
pessoais, sociais, profissionais e familiares, provocando sentimentos variados em
relação a seu fazer e ser. Assim, a afirmação pessoal e social de alguns está
relacionada ao êxito na profissão, tal como para outros essa ocupação representa
apenas uma atividade remunerada, ou para outros ainda, significa a possibilidade de
crescimento intelectual, econômico e realização de um ideal.
O indivíduo é constituído de suas relações sociais e é, ao mesmo tempo, ativo
e passivo, portanto ser mais ou menos atuante, na concepção de Lane (1994)
depende do grau de autonomia e de iniciativa que alcança. Assim, ele é história na
medida em que se insere e se define no conjunto de suas relações sociais,
transformando essas relações, o que implica atividade prática e inteligência.
Estudos vêm contemplando tais preceitos onde, por exemplo, após identificar
professores bem-sucedidos no ensino médio foi realizada uma pesquisa (GIESTA,
1998) em que se procurou saber como pensam e agem em seu ambiente de

201
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) GIESTA, Nágila

trabalho, articulando com perspectivas teóricas sobre a prática educativa,


apreendendo a interseção da estrutura social e da ação humana. Representou um
exame da natureza político-social da educação comprometida com a qualidade e
relevância da escola pública, empenhada na construção de saberes e engajada na
edificação da verdadeira democratização da sociedade.
Nesse estudo, ao referirem-se à escola os professores questionados
indicaram dificuldades que enfrentam entre as quais tumulto e indisciplina nos
corredores da escola, dando mostra de pouca (ou falta de) educação, de desrespeito
aos direitos do outro e à instituição escolar. A resposta representou uma
manifestação de desacordo à falta de posições firmes dos educadores e da
comunidade escolar em comprometerem-se com a criação de um espaço
harmonioso, que minimizasse o desconforto no ambiente criado na escola. Implica a
concepção de que saber respeitar o meio escolar, sem que para isso precise estar
restrito à obediência a fiscais, vincula-se ao desenvolvimento da consciência e de
atitudes de consideração às pessoas e de cuidado aos locais freqüentados.
É importante considerar que os educandos vivem um universo de relações
pessoais, na opinião de Snyders (1996), que lhes parece ter uma incidência
essencial sobre suas alegrias e não-alegrias, motivando apego e rejeição ao
educador. Isso, para esse autor, está no cerne da vida escolar e é preciso que
professores e estudantes aprendam a conviver “como diferentes, desiguais e,
simultaneamente, em reciprocidade, porém uma reciprocidade que não suprima, que
não tenha a pretensão de suprimir o fosso que existe entre as idades” (p. 81). Diz ele
que os alunos muitas vezes assumem atitudes de arrogância, difíceis de serem
aceitas pelos professores, traduzidos em oposição ou impaciência, mas que na
verdade representam ansiedade das expectativas de suas vidas que estão em jogo.
A conscientização destas possibilidades pode favorecer uma aproximação
promovida pela ação docente amenizando a disputa de poder docente-discente ou a
fragilização de um desses elementos frente às propostas escolares. A negociação
exitosa pode trazer a ambos alegrias e incentivo à mudança e melhoria do ambiente.
Referindo-se às dificuldades em relação aos colegas, citaram a
desmotivação/acomodação à rotina aliando-se a: despreparo para compreender
adolescentes, divergências no nível de exigência/abordagem dos conteúdos,
irresponsabilidade frente aos alunos, individualismo e falta de profissionalismo. Os

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) GIESTA, Nágila

pesquisados mostraram-se exigentes em relação aos pares, denunciando o descaso


à profissão, ao coletivo e ao compromisso político para com o estudante e a
sociedade, bem como à consciência de seu papel social em âmbito local e global.
Quanto a si mesmo, os professores apontaram como dificuldades: sua
incapacidade para fazer com que os colegas se interessem mais pelo trabalho na
escola; falta de tempo para preparar melhor as aulas; temperamento inquieto; busca
de maior conhecimento com utilização de tecnologia mais moderna; impaciência
diante da indiferença do aluno no que se refere à educação; desgaste na
responsabilidade assumida frente à correção de provas e trabalhos.
Os docentes ao responderem sobre como buscam solucionar seus
problemas, expuseram as idéias de forma particular, diretamente relacionadas às
dificuldades que enfrentam na escola. As soluções ocorrem sem que tenham sido
debatidas no contexto de trabalho. Os professores não se referiram a busca de
ajuda de colegas na superação de suas dificuldades, o que pode estar relacionado
ao fato de que: as ações escolares são predominantemente individualizadas e, as
dificuldades são superadas pelo esforço daquele que as identifica e que se preocupa
em saná-las. Portanto, mesmo fazendo parte de um grupo social, político e
profissional consistente, há docentes que atuam sem sentir-se parte deste todo, com
o qual pode e deve compartilhar sucessos e derrotas, esforços pedagógicos e de
conquista no atingimento de metas e objetivos de uma instituição educativa,
integrante de uma política educacional regional ou nacional. Essa, como espaço
profissional, nem sempre estimula ação coletiva, discussão, avaliação e
planejamento de transformações de realidades indesejadas. É possível neste
ambiente criado formar pessoas com disposição e conhecimento para tomar
consciência e atitude no cotidiano e, especialmente, nas relações estabelecidas no
meio natural e social, que para alguns constitui um cenário que “pertence a todos”,
portanto o indivíduo “não tem obrigação” de se responsabilizar pelo seu zelo?

ESCOLA CENÁRIO DE ESTRUTURA SOCIAL E DE AÇÕES POLÍTICO-AFETIVO-


PEDAGÓGICAS

Num destaque a aspectos relevantes que deterioram o ambiente sócio-


político na escola, vários itens se sobrepõem de acordo com a ótica ou pressupostos

203
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) GIESTA, Nágila

teórico-metodológico que possam ser considerados, mas têm efeito cumulativo no


ânimo de seus integrantes quanto à sua finalidade de difundir informação, cultura,
afetos, de modo a promover conhecimento. Os salários baixos, que há muito vêm
sendo pagos aos docentes, fazem com que alguns destes procurem complementar a
renda em atividades que os distanciam do âmago político-pedagógico no magistério.
Os prédios mal conservados, os recursos materiais (in)disponíveis, as relações
interpessoais e profissionais, em geral, dificultam a efetivação de um ensino que
atenda às pretensões docentes na escola (GIESTA, 2002). Isso pode desfavorecer o
gosto pelo local de trabalho, prostrando a vontade de professores e alunos, tirando o
brilho de ações e esforços daqueles que ainda acreditam e sabem realizar um
trabalho de qualidade pela educação de crianças, jovens e adultos.
As escolas têm uma incumbência específica onde emerge a responsabilidade
de prover os estudantes de condições para que possam lançar mão de ferramentas
que auxiliem a transformar sua realidade e engajar-se em processos de
socialização, profissionalização e cidadania com chances de serem bem-sucedidos.
Estudo junto a professores pode exaltar a preocupação com aqueles que, a
cada ano, vêm “formando” pessoas, cidadãos, futuros profissionais nas mais
variadas áreas de atuação, sem que eles mesmos e seus alunos se percebam
integrantes da natureza e atores sociais comprometidos com ínfimas partes, mas
também com o todo; além de considerar que seu trabalho tem repercussão na ação
e reação de outros elementos da natureza, assim como, entender a origem dos
pressupostos que o levam a decidir e agir numa e não em outra direção.

APRENDER NA ESCOLA: EDUCAÇÃO AMBIENTAL, SABERES E RELAÇÕES

Um saber só tem sentido e valor nas relações que o sujeito estabelece com o
mundo, consigo, com os outros, na opinião de Charlot (2000). Assim, considera que
"se saber é relação, o processo que leva a adotar uma relação de saber com o
mundo é que deve ser objeto de uma educação intelectual e, não, a acumulação de
conteúdos intelectuais" (p. 64). Esse processo não é apenas cognitivo e didático,
como alerta esse autor, exige que se insira o estudante em ligações que podem
proporcionar prazer, mas também, a renúncia de outras formas de vinculação: com o

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) GIESTA, Nágila

mundo, consigo e com os outros. A questão do saber constitui, portanto, uma


questão identitária.
Nesse caso, merece atenção o fato de que o problema da identidade
individual, de acordo com Elias (1994) não pode ser intelectualmente apreendido,
enquanto não for levada em conta a natureza processual do ser humano, dispondo
de instrumentos conceituais adequados, de símbolos lingüísticos para identificar
processos de desenvolvimento. Para ele, é importante que a pesquisa auxilie na
compreensão e explicitação de como aspectos biológicos, psicológicos e
sociológicos se entrelaçam e são representados simbolicamente. Sublinha que:

a imensa capacidade de preservação seletiva das experiências, em todas


as idades, é um dos fatores que desempenham papel decisivo na
individualização das pessoas. Quanto maior a margem de diferenciação nas
experiências gravadas na memória dos indivíduos no curso do
desenvolvimento social, maior a probabilidade de individualização (ELIAS,
1994, p. 154).

Entretanto, considera que não basta indicar a continuidade do


desenvolvimento alicerçado na memória como condição para a identidade-eu
pessoa, pois o desenvolvimento não ocorre na abstração. Já que toda memória tem
um substrato, a identidade-eu tem como base o organismo substrato de um
processo de desenvolvimento por que passa o indivíduo. A identidade-eu das
pessoas, portanto, depende de elas estarem cientes de si como organismos, o que
as possibilita a condição de “se distanciarem de si enquanto organização física ao se
observarem e pensarem a seu próprio respeito” (ELIAS, 1994, p. 154). Essa
peculiaridade lhes permite perceberem-se como imagens espaço-temporais entre
outras imagens similares, estando aptas a caracterizar sua posição, dentre outras
maneiras, mediante o uso simbólico “eu” e caracterizar posição de outros como “ele”,
“você”, “tu”... A capacidade das pessoas de saírem conscientemente de si e se
confrontarem como algo que exista na segunda ou terceira pessoa as mobiliza e, na
ótica de Elias (1994), pode predispor para a construção de instrumento, ou mesmo,
para transmissão de conhecimentos, inclusive do autoconhecimento. E ainda
esclarece que a percepção de si como pessoa distinta das outras ocorre no convívio
e é inseparável da consciência de também ser percebido por outros não apenas
como semelhante, mas, em alguns aspectos como diferente de todos os demais.

205
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) GIESTA, Nágila

Assim, as relações entre os seres merecem: cuidado, afetividade, atenção


aos significados atribuídos e expressos, valorização da troca e dos processos de
comunicação, pois esses elementos constituem conceitos de si, do grupo social, do
ambiente, do tempo, do espaço, de suas capacidades e do potencial grupal, entre
outras informações que serão armazenadas na memória e incorporadas ao processo
de desenvolvimento individual.
Nas relações escolares, como em outros espaços educativos, vale destacar
que o sentido da palavra aprender nem sempre é o mesmo para educando e
educador o que pode gerar inúmeros mal-entendidos. O espaço do aprendizado é
considerado, então, espaço-tempo partilhado com outros homens, o que supõe
atentar para as dimensões epistêmica, identitária e social nas relações do sujeito
com o saber (CHARLOT, 2000). A análise da relação com o saber inclui
consideração a histórias sociais, além de posições ou trajetórias seguidas pelos
indivíduos e/ou por seu grupo social, centrando o debate no aprender como modo de
apropriação do mundo, além do modo de acesso a posições nesse mundo.
A educação nutre-se na convivência respeitosa. Assim, a educação
escolarizada tende a se livrar do acaso de encontros fugazes ou de mediadores
improvisados, segundo Meirieu (1998), cabendo-lhe introduzir um pouco de rigor
naquilo que se passa entre os três parceiros da aprendizagem educando-saber-
educador. De modo que, o aprender advenha com um pouco mais de justiça e de
eficácia compartilhada, onde docente/discentes aprendam a criar situações de
aprendizagem e a ajustar seu desenvolvimento considerando seus efeitos.
O ambiente escolar oportuniza análise da relação com o saber e conviver. O
que nem sempre é feito. Leituras, trabalhos teóricos ou práticos constituem tarefas a
serem cumpridas, sem que se considere que o ambiente natural e social está
impregnado de sentimentos, ares, sons, luzes, cores, linguagens, olhares, conteúdos
que precisam ser integrados nesta relação, de modo a torná-la mais afetuosa e
próxima a uma convivência sadia de valorização do meio e da alegria da troca.
Valadares (1999) ilustra esta idéia ao dizer que o espaço-ambiente é o cenário onde
cada um, ao mesmo tempo ator e expectador, participa da ópera do destino no
quadro da realidade maior, que é a existência. Lugar de encontro com o outro,
companheiro da mesma travessia. O outro, tal como nós, pode optar por
companhias, idéias, gestos e solidões.

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) GIESTA, Nágila

Olhar o aluno, o colega, como outro que busca junto a ele aprender, extraindo
mensagens do entorno físico e natural mobiliza o profissional docente, insinuando a
perceber que a relação com o saber é mais complexa do que a informação de
conteúdos numa abordagem fragmentada e superficial.

CENÁRIOS E ATORES NA EDUCAÇÃO ESCOLARIZADA: VEÍCULOS DE EDUCAÇÃO E AFETO

O espaço-ambiente, para Valadares (1999), comporta estruturas de natureza


biológica, de paisagens geograficamente construídas e de determinantes
institucionais de conduta, como: ordenações, leis, instituições, entre outros.
Corrobora com a idéia de outros autores de que a realização humana se escora na
memória e no convívio, no qual este último dá lugar a possibilidades e
impossibilidades, encontros e desencontros, onde a vida flui, deixando imagens e
metáforas na memória. A educação requer espaços para perceber, apreciar,
valorizar a diversidade da natureza e/ou da sociedade, onde o sujeito assuma
postura frente a aspectos e formas do patrimônio natural, étnico e cultural. O espaço
da educação constitui espaço de criação, por inserir o novo e o externo, desde que
não perca o sentimento do antigo, do que passou, do que foi perdido. Assim,
educação representa espaço de descoberta, invenções, novos gestos e ações.
O contexto educacional implicando ensino básico e superior, como a
formação crítica do profissional docente, expõe sentimentos, saberes e culturas que
provocam crescimento, alegrias, frustrações, agressividades, repercutindo em
atitudes benéficas ou prejudiciais ao meio. A consciência destes efeitos favorece a
mudança e crescimento pessoal e grupal ou desalento diante da inércia.
A atenção cada vez maior à formação humana na formação de professores,
por um lado, e à ampliação e ao aprofundamento de sua capacitação na atividade e
reflexão sobre o que ensinam, por outro, é uma exigência, na opinião de Maturana e
Rezepka (2000). Esses autores afirmam que o respeito a si mesmo reabilita a
integridade de um viver emocional e intelectual autônomo como “um ser social que
não busca a sua identidade fora de si, porque não está em contradição com o
espaço social a que pertence” (p. 28). Consideram, ainda que, as condutas humanas

207
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) GIESTA, Nágila

como modos de interação ocorrem a partir de uma emoção que lhes dá caráter de
ação, o que é válido também para o raciocínio. Alertam que “dar-se conta das
próprias emoções implica dar-se conta do que se quer” (p. 28) o que repercute na
responsabilidade e na liberdade da escolha que venha a fazer.
A consciência de que o profissional docente, cujo trabalho é promover
aprendizagem, atua em um prédio onde se instala uma instituição de caráter
educativo, o qual constitui cenário, recurso didático, espaço de convivência diária
pode fazer com que se transforme a cultura da profissão docente. Neste meio os
atores sociais interagem dando vida, cor, significado diversificados em cada
momento ali vivenciados. Sentidos carregados de emoções, conhecimentos,
sensações emanados daquele meio e de suas histórias individuais, grupais e
organizacionais aí constituídas, dando base a novos saberes, fazeres, ao ambiente.
Portanto, direcionar a visão à instituição escolar, ao que a rodeia e a constitui
tem uma especificidade, pois procura evidenciar através do olhar determinado e
curioso, o conforto e o bem estar físico durante a interação no estudo ou no trabalho.
Sob o ponto de vista pedagógico e político a escola através de sua estrutura física
deveria: favorecer a percepção de cores, cheiros, frescores e calores gerados pelo
sol ou pela sombra, assim como, pelo convívio; produzir aconchego nas
possibilidades de arranjos para formação de grupos e/ou recolhimento a estudos
individuais; valorizar o ambiente como aglutinador, estimulante, seguro e, ao mesmo
tempo, provocador de desequilíbrios e conflitos que gerem novos conhecimentos.
Como a moradia, a escola poderia ser bonita e arrumada, de acordo com
seus habitantes. A identificação com a moradia, entretanto, não significa, que escola
para pobres tenha que ser pobre. Pobreza não significa carência de beleza, higiene,
luminosidade e disposição harmônica do ambiente gerador de bem estar.
Estudantes, professores e funcionários muitas vezes compartilham espaços por
longas horas sem se reconhecerem pertencentes a ele. Usufruem o lugar sem
adaptá-los e melhor utilizá-los, isentando-se de identidade, gosto e cuidado pelo
meio em que vivem e convivem em um tempo significativo de suas existências, que,
inquestionavelmente, faz parte de suas histórias, de suas construções.
A compreensão dos seres em suas características históricas, bem como, o
conhecimento de preceitos da educação ambiental, onde o homem é visto como
integrante da natureza e o ambiente como expressão das interações entre os seres

208
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) GIESTA, Nágila

podem constituir eixos para uma postura que permita auxiliar na percepção de
fenômenos emergentes da convivência entre os seres. Os aspectos históricos estão
implícitos nas concepções e práticas educativas de professores e estudantes, como
apontam estudos no cotidiano escolar (GIESTA, 2005a, 2003).
O espaço e o tempo em que as relações humanas ocorrem podem
representar fator decisivo na maior ou menor motivação pela união de esforços ou
dispersão das atividades. Assim, as escolas, como local de trabalho, promotoras de
desenvolvimento intelectual, cognitivo, social e político têm expressado posturas
diferentes de seus integrantes, através dos tempos e conforme o lugar em que
estejam prestando serviço. Se o ambiente da escola não é percebido, valorizado,
aprimorado, cuidado por seus integrantes, como esperar que as informações ali
veiculadas possam provocar a percepção, a valorização, o aprimoramento, o zelo
por outros âmbitos locais e globais, que não identifiquem explicitamente, mas que
constituem ecossistemas imprescindíveis à vida no planeta?

PROFISSÃO MAGISTÉRIO: AMBIENTE, RELAÇÕES, SABERES E AFETOS

A profissão magistério engajada num compromisso político-social se


desenvolve através de ações solidárias, coletivas, inteligentes, cooperativas,
integradas. Ainda que apenas subentendida, ela pode ser construída em decisão
conjunta tomada no cotidiano da instituição educativa, buscando por caminhos
heterogêneos, resultado homogêneo, como a construção de um homem presente e
atuante no mundo. Propósitos como esses exigem mudanças de conceitos e de
atitudes frente ao trabalho que realiza, à medida que toma consciência das
circunstâncias em que ocorrem as relações pedagógico-político-econômico-sociais.
As tarefas emancipatórias envolvidas numa transição paradigmática exigem
subjetividades individuais e coletivas com capacidade e vontade de realizá-las.
Santos (2000) aponta que o colapso da ordem ou da desordem existente, não
significa barbárie, mas sim “oportunidade de reinventar um compromisso com uma
emancipação autêntica, um compromisso que, além do mais, em vez de ser o
produto de um pensamento vanguardista iluminado, se revela como senso comum
emancipatório” (p. 383). Nas práticas sociais as subjetividades individuais e coletivas
nunca se esgotam numa única unidade de prática ou de organização social. De

209
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) GIESTA, Nágila

acordo com o contexto, a ação do homem ocorre conforme subjetividade de sexo, de


classe, de consumidor, de etnia, de cidadão. Em qualquer contexto o sujeito é
constituído por todas as subjetividades parciais, resultando que as configurações de
subjetividade se tornem internamente contraditórias e rivais, aproximando-se ou
afastando-se de paradigmas emergentes ou dominantes, conforme diferentes
práticas sociais (SANTOS, 2000). Isso enriquece relações e impulsiona a
transformação do pensamento e da atitude diante do mundo.
Importante na formação do profissional atentar a aspectos que influenciam a
modo de ser estar no meio natural e social, tais como: o ambiente e as dinâmicas
que sustentam concepções, valores, atitudes, conhecimentos, direitos, deveres,
poder. A dinâmica do desenvolvimento, segundo Santos (2000), refere-se à ação
social na qual a racionalidade define e gradua relações sociais a um espaço
estrutural particular e a mudança social que ocorre. A dinâmica de desenvolvimento
do espaço de cidadania e a dinâmica do espaço da comunidade funcionam através
da definição de pertença, desenhando círculos de reciprocidades em territórios
físicos ou simbólicos. Por vezes, ações sociais são informadas por lógicas diferentes
e incompatíveis, onde a consideração destas dinâmicas, isoladamente, passa ser
parcial. Cada dinâmica encerra contradições específicas, gerando assimetrias e
desigualdades, expressas em forma de poder, de direito e de conhecimento.
Assim, a escola percebida como ambiente rico, profícuo, aprazível,
desafiador, dinâmico é capaz de promover uma educação interessada na mudança
de comportamentos sociais que incluam o respeito a relações e à reciprocidade
presentes na natureza. Implica conhecimentos sobre: sustentabilidade; diversidades
biológicas, culturais, sociais; ecossistema; ética; saúde; afeto e outros, integrados a
conhecimentos de: legislação e políticas ambientais e educacionais, histórico de
movimentos ambientalistas, ações, pesquisas e projetos já desenvolvidos permitam
valorizar e analisar o que está institucionalizado, sedimentando a consciência do
meio, originando novas práticas no cuidado com o ambiente natural e social.

O ESTUDO DE CONCEPÇÕES E A FORMAÇÃO DE PROFESSORES

A análise de experiências educativas e o consumo de estudos teórico-práticos


divulgados na literatura educacional tendem a constituir procedimentos que norteiam

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) GIESTA, Nágila

a edificação de uma ação que promova efeitos esperados pela educação, quais
sejam: mudança, inserção, autonomia do sujeito e de grupos sociais. A
complexidade e a variedade de fins levam a perspectivas também complexas em
tudo que pretenda compreender e julgar a escolarização obrigatória, na opinião de
Gimeno Sacristán (2001). A diversidade cultural e as múltiplas demandas perpassam
as atividades docentes no cotidiano dessa instituição, originando freqüentes
contradições entre conteúdos a serem veiculados e atividades de ensino; entre o
postulado no currículo oficial e o que requerem as autoridades educativas, as
expectativas dos pais, os valores dominantes na sociedade, os princípios e a
formação do professor, as concepções de aprender que esse implementa na sua
prática pedagógica, bem como, as engrenagens da organização inter e intra-escolar.
Acrescenta-se a isso, a consideração de que os grandes problemas
econômicos, políticos, sociais, culturais, ecológicos, educacionais, monetários, entre
outros são mais ou menos transversais ao mundo todo, na opinião de Japiassu
(1996). Para resolvê-los é preciso atentar para inúmeras dificuldades e obstáculos,
sem abrir mão da liberdade, porque sem ela, se perde a condição de tomar
consciência do sentido da aventura humana. A educação formal é mais diretamente
atingida por esses problemas, passando a lidar com conflitos afetivos, cognitivos,
comportamentais que afetam o equilíbrio psicológico do indivíduo, suas visões e
reações em micro e macro sociedades.
As aceleradas mudanças no mundo provocadas pelos contínuos avanços da
ciência e da tecnologia, imediatamente divulgados por modernos órgãos de
comunicação têm feito com que os modos de produção e de vida se modifiquem,
também, de forma inacreditavelmente rápida. Isso tem feito com que muitas pessoas
fiquem marginalizadas, por vezes imobilizadas tentando entender o que está
ocorrendo e qual a maneira de melhor adaptar-se a esse repentino novo mundo.
Outras pessoas, não chegam a procurar entender o que está se passando e se
deixam levar pela rotina e pela opinião alheia, considerando que as coisas são
assim porque são e, o importante é sobreviver, julgando-se incapaz de poder
transformar “o que está posto”; outras, ainda procuram estar presentes, atualizadas,
inseridas para evitar uma queda brusca ou uma perda irreversível de qualidade de
vida natural, afetiva, social, o que também ocorre com professores (GIESTA, 1999,
2005b). Estas posturas, embora diferentes, geram um elevado grau de ansiedade,

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) GIESTA, Nágila

impotência, insatisfação tornando as pessoas mais individualistas, menos confiantes,


mais facilmente influenciadas pelos meios de comunicação, por mistificações e
caracterizadas por uma ilusória postura crítica baseada em estereótipos e/ou em
concepções já consolidadas, sem que elas tenham, ao menos, pensado sobre o
embasamento destes posicionamentos e crenças.

A DOCÊNCIA E A IDENTIFICAÇÃO DE SUAS CONCEPÇÕES PELO PROFESSOR

As explicações “mais fortemente causais da condição humana não podem


produzir significados plausíveis sem serem interpretadas à luz do mundo simbólico
que constitui a cultura humana” na visão de Bruner (1997, p.116). Ele afirma que os
indivíduos definem seus próprios si-mesmos e sublinha a importância de que se
focalizem os significados em cujos termos o si-mesmo seja definido tanto pelo
indivíduo como pela cultura na qual ele participa e a sintonia com as práticas nas
quais os “significados de si-mesmo” são atingidos e colocados em uso. As vidas e si-
mesmos edificadas são resultados de processos de construção de significado e que
os si-mesmos não são núcleos isolados de consciência, contidos na cabeça das
pessoas, mas são distribuídos interpessoalmente, e adquirem significados através
das circunstâncias históricas que moldam a cultura da qual eles são a expressão.
Solidificando o conceito de educação escolarizada o professor precisa: ter
clareza dos princípios pedagógicos, políticos e profissionais seus, da escola e do
sistema educacional do qual faz parte; construir a sua autonomia, a sua identidade
profissional acreditar na sua capacidade, valorizar a sua formação inicial e
continuada. A baixa auto-estima docente tem feito com que, por vezes, o professor
se escude no desprestígio que a sociedade e os governos de maneira tácita lhe
impõem. A ele são estabelecidas condições de trabalho e salariais impróprias e isto
tem servido de justificativa para omissão de alguns docentes diante do tratamento de
questões inerentes à sua profissão, dada a grande defasagem entre as exigências
do mundo moderno e as possibilidades da ação escolar. Tais atitudes obscurecem
seu saber sobre o que é e faz e suas próprias concepções, seus conhecimentos,
suas crenças, suas ações e as especificidades da profissão docente ficam
ofuscadas, sem que ele mesmo reconheça seu valor e os efeitos de seus atos, suas
decisões e avaliações (GIESTA, 2005a). A consciência do poder que exerce é turva.

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) GIESTA, Nágila

Essas considerações se fazem necessárias na defesa da análise de


concepções como recurso para alavancar a auto-avaliação, o conhecimento de si, a
identificação de saberes, suas construções e ideologias implícitas em atitudes que
promovem melhorias ou retrocessos nas relações entre os seres e na sedimentação
do afeto nas interações em seu trabalho. O estudo de concepções permite tomar
consciência de que podem existir percursos que evoluem paralelamente, situados
em níveis conceituais diferentes e que esses percursos podem não interferir, nem se
juntar nunca, dificultando a aprendizagem ou mudança de atitudes. Esse estudo
permite identificar a maneira com que saberes são construídos, favorecendo a
comunicação formando-formador e a edificação de novos saberes por ambos
(GIORDAN e DE VECCHI, 1996). Desta forma, se reconhece que a valorização da
atividade intelectual e científica da educação escolarizada conscientiza, valoriza e
gratifica a prática escolar, o trabalho do professor.
A reflexão, com base em conhecimentos sólidos que avalie e aprimore o
saber docente e os resultados obtidos na prática, pode alavancar desenvolvimento
de pensamento e de ação que levem a transformações efetivas no ensino que
promove. Isso porque como afirma Japiassu (1999, p.29) “a pulsão do conhecimento
é indissociável do objetivo”. A busca do saber ocorre movida pela intenção de fazer
algo. Portanto, esse conhecimento estará aflorando continuamente se o professor
tiver implícita em sua prática educativa o propósito de promover autênticas
habilidades cognitivas. Práticas estas, que se concretizem em vontade de informar-
se sempre mais sobre o mundo, a vida, a terra, os homens e demais seres, sobre e
si e sobre os outros integrantes de contextos históricos, se entranhado em espaços
e circunstâncias que provocam reações afetivas, sociais e políticas diferenciadas.
Práticas que merecem ser analisadas e compreendidas fornecendo elementos para
conscientização da razão de cada um ser e estar na profissão, em cada grupo
social, no mundo. Práticas que promovam o saber e a atitude digna no ambiente.
O docente pode, então, acreditar em sua capacidade para decidir sobre as
intervenções necessárias às mudanças que deseja, alicerçado na reflexão e na
confiança de se constituírem procedimentos inteligentes. Assim, é destacada a
importância da análise de concepções manifestadas pelos atores das práticas
educativas, bem como, a efetivação da discussão com seus pares dessas
concepções e de novos conhecimentos que podem desencadear motivação e

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) GIESTA, Nágila

elevação da auto-estima, quando este passa a se enxergar como sujeito do


processo de ensinar e aprender, buscando constantes aprofundamentos,
esclarecimentos, reformulações...

A EDUCAÇÃO AMBIENTAL COMO INSTRUMENTOS DE TOMADA DE CONSCIÊNCIA


DE AÇÕES POLÍTICO-SOCIAIS

A prática docente no cotidiano escolar tem se caracterizado, em geral, pela


transmissão de informações, pressionada pelo conteúdo programático a ser
desenvolvido durante o ano letivo (GIESTA, 2003, 2005a, 2005b). A educação
formal e mais especificamente a educação ambiental ainda não têm atendido
preceitos que por si permitam a disseminação de novas visões de mundo (GIESTA,
2006). Os princípios e valores ambientais que promovem uma “pedagogia de
ambiente”, na opinião de Leff (1999, p. 119), “devem ser enriquecidos por uma
pedagogia da complexidade, que induza os alunos a uma visão de multicausalidade
e de interrelações de seu mundo nas diferentes etapas do desenvolvimento
psicogenético, que gerem um pensamento crítico e criativo baseado em novas
capacidades cognitivas”. Para ele, o saber ambiental revaloriza o conhecimento
singular, subjetivo e pessoal, assim, a educação ambiental “promove a construção
de saberes pessoais que são inscrições de subjetividades diversas na complexidade
do mundo” (LEFF, 1999, p. 121). Saberes que contêm capacidades para, a partir do
significado dado à vida de cada pessoa e de cada comunidade, oriente para um
desenvolvimento fundado em bases tecnológicas, de eqüidade social, diversidade
cultural e democracia participativa.
Pesquisas realizadas junto a docentes, analisando suas concepções e
conhecimentos relativos a ambiente, currículo, ensinar, aprender, educação
ambiental indicam que na intervenção pedagógica merecem consideração: a
confrontação de pontos de vista divergentes entre pares; a relevância da
identificação e correção dos erros; a constatação de resultados de atividades
realizadas como ponto de partida para novas ações e/ou para modificar esquemas já
constituídos. Essas pesquisas apontam para a necessidade de os cursos de
licenciaturas, em abordagem interdisciplinar, favorecer ao futuro professor aquisição
de conhecimentos sobre ambiente e o desenvolvimento de valores, atitudes e

214
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) GIESTA, Nágila

habilidades como instrumentos de aperfeiçoamento da ação do homem no seu


tempo e espaço, possibilitando a formação inicial de um profissional capaz de
analisar o contexto natural e social. Esses estudos indicam espaços a serem
preenchidos pela Educação Superior no sentido de promover maior divulgação de
informações oriundas da pesquisa científica ou veiculada na literatura especializada,
fomentando: o reconhecimento do saber, do afeto oriundo das relações que efetiva
com o meio; e a formação/avaliação de movimentos populares, que analisassem
mecanismos básicos que regulam o funcionamento dos meios físico, político e
social, debatendo sobre esse assunto, sobre sua disponibilidade e seus
conhecimentos acerca das temáticas que dele derivam, avaliando as repercussões
da ação das atividades humanas, desencadeando reações na defesa do ambiente
(GIESTA, 2006)
Enfim, espera-se que a Educação Ambiental estimule: a admitir o erro, ouvir e
analisar opiniões e alternativas de ação enfrentando conflitos que gerem
transformação de práticas; pensar nas conseqüências decorrentes das decisões
tomadas que podem assumir dimensões além de pessoais, profissionais, sociais
e/ou políticas; tomar consciência de que forma cada um(a) age diante da situação do
ensino como atividade profissional, política e social, norteando o processo de
aprendizagem, desenvolvendo, como diz Valadares (1999), a capacidade de
perceber fatos e situações sob um ponto de vista ambiental, de maneira crítica,
assumindo posturas respeitosas quanto aos diferentes aspectos e formas do
patrimônio humano, seja ele natural, étnico ou cultural.

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institui a Política Nacional de Educação Ambiental e dá outras providências. Diário
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217
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.)

PARTE V
CONSCIÊNCIA E
GESTÃO ORGANIZACIONAL INTEGRAL

218
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) LEAL, Raimundo

Capítulo 13

CONSCIÊNCIA E ESTÉTICA ORGANIZACIONAL

Raimundo Leal 1

“A compreensão do que é ser e ter


só depende da consciência que os percebe”
A ARCA

RESUMO
O presente capítulo, de natureza teórica, busca refletir acerca das interfaces existentes entre a
dimensão estética inerente ao homem e, conseqüentemente, as organizações e a consciência,
considerada como um estágio elevado de sensibilidade humana, onde as diferentes perspectivas do
sentir e do saber se articulam em prol do ser, ou seja, de tornar o homem àquilo que potencialmente
ele é, um ser humano. Considerando o fato de o homem vive cercado e influenciando por
organizações, cabe então considerar nessa seara, a reflexão acerca de tal possibilidade, ou seja, da
influência com propósitos elevados. O propósito, portanto, é refletir acerca da presença da estética
das organizações, considerando-a um elemento que potencializa o desenvolvimento da consciência
humana, e conseqüentemente, a consciência social ou planetária. Tenciona demonstrar a articulação
existente entre a estética e a consciência. A questão central a nortear o artigo é sobre a possível
relevância e contribuição da estética para compreensão e expansão da consciência humana
envolvendo as interações organizacionais.
Palavras-chave: Ser Humano; Consciência; Estética; Organizações.

I NT R ODUÇ Ã O

Neste início de milênio, como todo início de ciclo, há expectativas, assim


como necessidade, de reais mudanças, seja no âmbito educacional, econômico,
social, político, empresarial e cultural. Considere-se que tecnologias mudam,
costumes mudam, valores mudam, teorias científicas mudam, estruturas
organizacionais mudam e mais que tudo, as pessoas mudam e deflagram todo
contexto de mudança social. A mudança é fato e não se constitui em novidade, ela é
intrínseca à própria vida e a interação humana. O que nos chama a atenção é a
velocidade das mudanças, cada vez mais rápidas, demandando espaços de tempo

1Doutor e Mestre em Administração (UFBA). Graduado em Administração (UEFS) e Filosofia (UFBA).


Atualmente é docente da Universidade Federal da Bahia e Fundação Visconde de Cairu. Tem
experiência na área de Administração, com ênfase em Análise Organizacional, Design
Organizacional, Administração Pública, Cultura Poder e Mudança, Contabilidade e Finanças Públicas
e na área de Filosofia, Estética Organizacional. Contato: leal.r@globo.com

219
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) LEAL, Raimundo

cada vez menores.


Essa crescente necessidade de mudança em períodos de tempo cada vez
menor exige dos seres humanos e das organizações flexibilidade e rapidez na ação,
fazendo uso, para tanto, do potencial criativo inerente ao homem, de modo a superar
os limites, o até então tido como impossível. Quando a necessidade de mudança é
entendida e/ou compreendida em sintonia com as necessidades humanas e sociais,
as mudanças se fazem de maneira efetiva e integrada, abreviando a jornada, caso
contrário o aprendizado exige maior tempo, e quase sempre vem sobre o título de
crise, crise. A consciência favorece a compreensão de que é necessário dar a ação
humana e organizacional um fundamento de moralidade, de elevado padrão, onde
os resultados imediatos ainda que atraentes não são suficientes para assegurar, a
continuidade das organizações, das construções humanas destituídas de princípios
elevados.
Esse período de significativas crises e questionamentos impulsiona o ser
humano e a sociedade a rever os parâmetros e as referências através das quais
tem-se percebido e compreendido o homem, as organizações e a sociedade.
Considere-se que as ações individuais, grupais e sociais devem primar pela busca
de uma interação harmônica, isso só é possível, em razão do despertar e
desenvolver a consciência humana.

A consciência então é o caminho, a possibilidade para um desenvolvimento


integral e integrado, onde o homem não é um meio, mas a razão, o propósito maior
da sociedade e das organizações, melhor dizendo, o desenvolvimento humano é o
propósito que dá razão, sentido a existência das organizações e da sociedade.
A associação entre a estética, tradicionalmente associado à arte, com as
organizações, comumente associado às relações produtivas, certamente já chama a
atenção, mas tal correlação se insere, efetivamente, no intercâmbio com outros
campos do conhecimento humano, proporcionando melhor compreensão das ações
humanas e organizacionais. De modo similar pode ser o espanto entre a articulação
entre consciência e estética, e esse é o principal desafio do artigo.
Enquanto o ambiente organizacional evidencia, de modo geral, princípios,
amplitudes, objetivos, percepções, etc., claramente instrumentais, minorativas,
lógicas, racionais, o campo estético, por sua vez, esteia-se na premissa de que a
percepção de cada indivíduo, acerca de um dado objeto, é única, e deve ser

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) LEAL, Raimundo

respeitada enquanto tal, valorizando, respeitando, estimulando tal percepção, tal


sentimento, e por conseqüência o lado intuitivo, ilógico do convívio organizacional.
É certo que entre os objetos em estudo, no presente artigo - a consciência, a
organização e a estética - há um elemento primordial em comum, o ser humano,
seja como princípio, seja como meio, seja como fim. Este ser humano, tem
diferentes percepções, sentimentos, visões, e, instrumentalmente falando, não se
pode negar a ele, ou mesmo impedir, a possibilidade do mesmo transitar entre
percepções meramente estéticas e percepções objetivas paramentadas, nas
referęncias, nos padrões delineadas pelas diferentes instâncias sociais,
paramentadas em algum grau por uma racionalidade instrumental.
O presente trabalho tem, portanto, como propósito refletir acerca da possível
contribuição da estética para compreensão e expansão da consciência humana no
âmbito dos relacionamentos sociais, considerando as interações organizacionais.
Tenciona demonstrar a articulação existente entre a estética, enquanto componente
essencial para o despertar e desenvolver a consciência, sem ignorar ou
desconsiderar outras possibilidades.
Para evidenciar as influências e nexos entre os elementos supramencionados
buscou-se construir o artigo em quatro momentos. No primeiro momento, é
apresentada uma breve síntese estudos recentes sobre a consciência, em seguida
sobre a estética e seu significado, sua presença na ação cotidiana do homem,
considera-se a articulação entre estética e organizações e por fim entre estética,
consciência e as organizações.

A C ONS C IÊ NC IA
“A consciência é um fenômeno fascinante, porém elusivo; é impossível especificar o
que é, o que faz ou por que evoluiu. Nada digno de ser lido foi escrito sobre ela.”
Stuart Sutherland (1989)1

Refletir sobre a consciência considerando o fato de que as organizações, em


particular, e a sociedade, em geral não primam ou primaram pelo desenvolvimento
humano, considerando que tal desenvolvimento seria ou será fruto do
desenvolvimento social, ou seja, desenvolvendo a sociedade haverá
desenvolvimento humano. Tal leitura ajuda no entendimento do desafio que é
considerar a necessidade de refletir e desenvolver o grau de consciência humana,
de modo que a ação do individuo venha a ser dinamicamente equilibrada.

221
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) LEAL, Raimundo

A frase acima expressa o desafio então de considerar afinal o que é


consciência, alie-se a isso, o fato de que há perspectivas espirituais ou religiosas,
filosóficas e científicas que consideram-na elemento central para análise dos
fenômenos humanos e sociais. Considerar tais perspectivas será o ponto inicial para
as reflexões que se seguirão.
Para Silva et. alii (2003) um ponto de partida para refletir acerca da
consciência é considerar o significado termo, que na língua portuguesa é tido ou
representado por um só palavra, que é expresso na língua inglesa pelos seguintes
termos: wakefulness (estar consciente no sentido de vigília), conscience (consciência
moral, superegóica) e consciousness (sensação de existir e de estar experienciando
um dado momento).
Considera ainda que a “sensação do que acontece”, presente durante o
sonhar e ausente em certos estados de vigília é a propriedade de certos processos
mentais que progressivamente têm se tornado alvo de estudo. Tanto a sensação de
continuidade da consciência quanto a impressão de que ela preceda a tomada de
decisão seriam ilusórias, assim como a antiga crença de que a consciência é uma
função dependente de um funcionamento cortical global. A evolução da consciência,
a partir dos mecanismos de homeostase, como um feed-back sofisticado do estado
corporal, incluindo os processos mentais, que permite a detecção de erros nas
predições realizadas pelo cérebro sobre o self e o ambiente, com a possibilidade de
correções em partes do processo mental sem a necessidade de descartá-lo por
inteiro, é um exemplo das modernas compreensões sobre a consciência.
Segundo Damásio (2000, p.20) a consciência, de fato, é a chave para que se
coloque sob escrutínio uma vida, seja isso bom ou mau; é o bilhete de ingresso,
nossa iniciação em saber tudo sobre fome, sede, sexo, lágrimas, riso, prazer,
intuição (...) Em seu nível mais complexo e elaborado, a consciência ajuda-nos a
cultivar um interesse por outras pessoas e a aperfeiçoar a arte de viver.
Engelmann (1998) considera que a Consciência é uma parte dos seres
humanos e de outros animais, localizada no nível de organismo, ou seja, entre o
nível imediatamente inferior, geralmente órgão, e o nível imediatamente superior,
grupo. Considera ainda outro tipo de consciência totalmente diferente da consciência
parte do organismo. Afirma que ao ver-me, vejo parte de alguém. O ver é algo prévio
ao objeto exterior que é visto. Aponta então para a consciência-imediata e para a

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) LEAL, Raimundo

consciência-mediata. Mediato é aquilo que é conhecido passando através de uma


ou mais coisas.
Cada ser humano têm uma consciência-imediata, ela dura pouco tempo, o
tempo necessário para que a visão de uma flor, o pensamento do caminho a
percorrer se esvai para se tornar memória. Essa consciência-imediata é só de uma
pessoa. É individual. Entretanto, para qualquer pessoa, sem ela o conhecimento
tanto comum quanto científico não existiria.
Engelmann (1998) aponta dois tipos de mediação que dão origem à
consciência-mediata. Um tipo é mediado através da memória. É a consciência-
mediata-do-observador. O outro tipo é mediado, pelo menos, através (1) das vias
eferentes do animal estudado, terminando no que chamo de indicadores de
consciência, (2) da condução no ar e (3) das vias aferentes do observador. É a
consciência-mediata-de-outros.
A consciência que como parte do organismo de animais é a consciência-
mediata-de-outros. A Consciência-imediata é fruto de tudo que conheço agora. Esta
definição vale também para a consciência-mediata-de-outros, com a ressalva que é
não apenas o presente, mas também o passado. A consciência-mediata-de-outros é
uma parte, pequena de acordo com o meu ponto de vista, do organismo. Sua
existência não pressupõe os indicadores de consciência. Pode haver consciência-
mediata-de-outros no organismo animal sem haver qualquer indicador, única
maneira dos observadores comprovarem essa existência.
Chalmers (1996) destaca-se pela tentativa de formular uma teoria abrangente
acerca da consciência, e sob certos aspectos distancia-se dos cientistas cognitivos e
neurocientistas. Seu ponto de partida é aquilo que para muitos constitui o horizonte
intransponível de qualquer teoria científica acerca da natureza da consciência:
reconhecer que não é possível formular uma teoria que explique plenamente como
um sinal cerebral pode dar origem a um estado consciente.
Chalmers (1996) sugere que uma teoria da consciência deve tomar a noção
de experiência consciente como sendo algo primário, um primitivo. Uma teoria da
consciência requer a adição de algo fundamental à nossa ontologia, na medida em
que tudo em teoria física é compatível com a ausência de consciência. A experiência
consciente deve ser considerada como sendo uma característica fundamental do
mundo.

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) LEAL, Raimundo

Para Chalmers (1996), não há nada místico ou espiritual nesta afirmação. É


uma teoria inteiramente naturalista, na medida em que, segundo ela, o universo não
é nada mais do que uma rede de entidades básicas que obedecem um conjunto de
leis e a consciência pode ser explicada a partir destas. Trata-se de um dualismo
naturalista.
Teixeira (1997) considera que o dualismo naturalista permite desenvolver uma
teoria não-reducionista da consciência que consistirá de um conjunto de princípios
psicofísicos, ou seja, princípios que conectam propriedades de processos físicos
com propriedades da experiência. Podemos pensar nestes princípios como
englobando a maneira pela qual a experiência consciente emerge da estrutura física.
Em última análise, esses princípios devem nos dizer que tipos de sistemas físicos
podem gerar experiências e, no caso de sistemas que o fazem, eles devem nos
dizer que tipos de propriedades físicas são relevantes para a emergência da
experiência consciente.
Afirma então Teixeira (1997) que a "Consciência" é um termo polissêmico, e
por vezes ambíguo, que se refere a vários tipos de fenômenos, como por exemplo:
• a habilidade para discriminar, categorizar e reagir a estímulos
ambientais;
• a integração da informação através de um sistema cognitivo;
• a capacidade de relatar a ocorrência de estados mentais;
• a habilidade de um sistema para acessar seus próprios estados
internos;
• o foco da atenção;
• o controle deliberado do comportamento;
• a diferença entre sono e vigília.
Mas para Chalmers (1996) nenhum destes fenômenos - nem tampouco seu
conjunto -caracteriza o verdadeiro problema da consciência: eles constituem apenas
os aspectos funcionais da experiência consciente. Isto significa dizer que, em última
análise, estes fenômenos podem ser explicados cientificamente. Em outras palavras,
nada impede que algum dia eles possam ser explicados seja através de um modelo
computacional seja através da descoberta de mecanismos neurais. Considera que
se explicar a consciência se resumisse a explicar estes fenômenos, então não
haveria um problema filosófico da consciência. Embora estes sejam problemas

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) LEAL, Raimundo

empíricos de difícil solução, eles ainda não caracterizam os verdadeiros problemas


colocados pela consciência.
Concepções acerca de que a consciência é um produto do cérebro, não são
totalmente fora de propósito, mas ainda insuficiente para a compreensão da
consciência, mostra-se necessário ampliar a percepção considerando outras
perspectivas.
Para Pustilnik (2000), por exemplo, a consciência deve ser entendida como a
totalidade da experiência do Ser, na sua integralidade, ou seja, para ela, a
consciência é expressa enquanto totalidade do nosso ser, considerando as suas
diferentes dimensões.
Já para Grof (1987) expressa que os problemas que enfrentamos não são,
em última análise, apenas econômicos, políticos e tecnológicos são reflexos do
estado emocional, moral e espiritual da humanidade contemporânea, da alienação
da humanidade moderna de si mesma, da vida e dos valores espirituais.
O termo consciência deriva do latim conscientia, tendo na filosofia moderna e
contemporânea o significado de expressar a relação da alma consigo mesma, a
relação intrínseca ao homem, “interior” ou “espiritual”, pela qual ele pode conhecer-
se de modo imediato e privilegiado e com isso julgar-se de forma segura e infalível.
Trata-se de uma noção em que o aspecto moral – a possibilidade de autojulgar-se –
tem conexões estreitas com o aspecto teórico, a possibilidade de conhecer-se de
modo direto e infalível.
Considere-se, então, consciência como um fenômeno que se processa no
interior do homem, é justamente em seu interior que deve ser trabalhado - com
dedicação e urgência - para despertá-la do seu torpor, desenvolvendo-a.
Wilber (1977) considera a consciência assemelhada ao espectro
eletromagnético – qualquer radiação eletromagnética caracteriza-se por uma
gradação de aspectos ou níveis. A partir dessa compreensão, para ele, a
Consciência caracteriza-se por diversos níveis, dentre os quais trataremos de quatro
principais: nível do ego; nível existencial, nível transpessoal e nível da mente
(unidade).
No nível do ego trabalha-se, basicamente, com a psique; no nível existencial
trabalha-se com a integração psique/soma; no nível transpessoal o ser humano já
experimenta e reconhece em si mesmo experiências psicoespirituais mais amplas

225
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) LEAL, Raimundo

que o seu próprio e limitado ego – é o nível onde ocorre a percepção extra-sensorial.
Por fim, no nível da mente (unidade) a Consciência é una com a Energia Básica do
Universo – neste estado de Consciência, coloca-se em movimento a energia da
busca e do reconhecimento de sua verdadeira identidade.
Wilber (1998, p.54) expressa que as religiões pré-modernas deram muita
ênfase às modalidades interiores do conhecimento (mental e espiritual), enquanto a
modernidade, tanto na sua dignidade quanto no desastre, deu uma ênfase sem
precedentes aos modos exteriores; é necessário encontrar uma forma para que
ambas essas reivindicações sejam verdadeiras - a transcendental e a empírica, a
interior e a exterior.
Estabelecer a conexão entre as realidades interiores e as realidades
exteriores, na perspectiva de favorecer a tão necessária integração da ciência com a
filosofia e com a espiritualidade por sua buscada através do desenvolvimento,
expansão e/ou despertamento da consciência.
Buscando fazer exatamente esta conexão, Wilber (1998) verificou que tanto a
religião pré-moderna quanto a ciência moderna possuem uma hierarquia definidora,
e ambas são compostas de ninhos de ser envolventes de progressiva abrangência,
formando hierarquias, e que a integração dessas hierarquias com outras hierarquias
existentes vem caracterizar a possibilidade de um mundo moderno, atual, realmente
diferente, não mais dissociado, mas prioritariamente, integrado.
Conforme Wilber (1998) algumas centenas dessas hierarquias, em diversas
visões de mundo, entre elas, a teoria de sistemas, as ciências ecológicas, a cabala,
a psicologia desenvolvimentista, o desenvolvimento moral, a evolução biológica, a
evolução cósmica e estelar, hwa yen, o corpus neoplatônico e toda uma gama de
ninhos pré-modernos, modernos e pós-modernos, que são agrupados em quatro
tipos de hierarquias, denominadas de quatro quadrantes, os quais lidam com o
interior e o exterior com o individual e com o coletivo potencializando a consciência
de si, em si e extra-si.
OCIDEMNTE (2003) considera a consciência como uma das faculdades
inatas capitais do ser humano que o possibilita, além de saber, sentir a realidade,
não apenas com base no que conhece, mas daquilo que se aproxima, ou seja, de
algo moralmente superior.

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) LEAL, Raimundo

O despertar e desenvolver a consciência é o maior desafio do ser humano,


oportunizando-o a compreensão a vida e, para tanto, ele lança mão da sua
consciência, que quanto maior for o seu grau, tanto maior será a sua compreensão
acerca da vida. O despertar da consciência o ajuda o homem a eleger valores
éticos-morais perenes e imutáveis para nortear o seu viver, dando-lhe sentido e
significado, ou seja, identificar-se com o princípio criador, considerar a finalidade da
vida e a da própria razão de sua existência.
Entender a consciência como um caminho que favorece a compreensão do
valor da vida e o sentido das relações, caminho esse que advém de uma força
interior que impele o ser humano a exteriorizá-la sob forma de ação é uma referência
a ser considerada. Tal perspectiva transcende a visão da consciência enquanto fruto
de articulações e associações fisiológicas, ou mesmo psíquicas, sem negar tais
ocorrências, mas que vai além, transcende o homem, ao tempo que o integra a vida.
Para a isso é essencial a integração do sentir – aqui, estabelece-se o nexo
com a estética -, do pensar e do agir. O próximo tópico discorre sobre a estética para
em seguida estabelecer os possíveis nexos.

A E S T É T IC A

Sobre a estética que parece mais distante no agir organizacional pode-se


questionar: O que é a estética? De que se trata? Que contribuição tem para o agir
humano? Como pode a estética contribuir e auxiliar a compreensão das ações nas
organizações?
Afinal o que é a estética? Uma teoria do conhecimento sensível, enquanto
oposição a noética, tida como teoria do conhecimento intelectual ou teórico? A
ciência da beleza abarcando o belo e a sensibilidade? A ciência da arte e do belo?
Preliminarmente, pode-se dizer, que em alguma medida tudo isso e um pouco mais.
Afinal um dos desafios da estética é a definição do seu campo de ação, do seu
objeto, do seu âmbito, do seu escopo.
A palavra estética origina-se do grego aisthésis, significando sentir. A raiz
grega aisth, no verbo aisthanomai, quer dizer sentir, com o coração ou com os
sentimentos, evocando “sensação”, “percepção sensível”, “conhecimento sensível”
ou dos “fatos e objetos sensíveis”, opondo-se a noética traduzido por “conhecimento
intelectual ou teórico” (Platão, 1993).

227
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) LEAL, Raimundo

Por volta de 1750, no livro intitulado Aesthetica, Baumgarten (1993) constrói


as primeiras teorias estéticas sistemática, a que chama também, pela primeira vez,
com nome de “estética” definido-a enquanto uma teoria do saber sensível tomada
como sinônimo de conhecimento através dos sentidos.
Depois de Baumgarten o filósofo que irá dar uma nova conotação quanto à
forma e conteúdo da estética é Kant através da obra Crítica do Julgamento (1991),
nela a noção de existência de uma beleza absoluta e paradigmática será substituído
pela prioridade do juízo do gosto, e o belo é considerado “uma finalidade sem fim”. A
estética para Kant, em especial, a estética transcendental é definida como a ciência
de todos os princípios da sensibilidade a priori, parte integrante no conjunto que é
denominada pelo autor de teoria do conhecimento.
A estética do século XX, período histórico mais ativo e diversificado, vai
apresentar-se marcado por duas grandes tendências referenciais:
a) os que se orientam para a indagação do papel do sujeito e das questões
fundamentais que lhes associam, tais como a percepção, e experiência
estética, a inspiração criadora, como indagações filosóficas que tendem a
resguardar a parte da subjetividade; e
b) os que se orientam para uma estética dotada de uma intenção de
cientificismo, de uma linguagem discursiva, versando a objetividade da
forma/obra, entendendo assim a estética como ciência positiva.
A palavra estética, modernamente, tem sido usada para designar qualquer
análise, investigação ou especulação que tenha por objeto a arte e o belo, quer
enquanto possibilidade de conceituação quer quanto à diversidade de emoções e
sentimentos que suscita no homem, independentemente de doutrinas ou escolas.
Observa em relação as anteriores que tal perspectiva tende a conduzir a estética a
um distanciamento das ações comuns, centrando em uma concepção restrita da
própria arte e da noção do belo.
Fora do âmbito da arte, tem-se considerado a estética como algo secundário,
que pode existir, mas não é indispensável, mas justamente aí reside uma
contradição, pois a estética impõe à nossa atenção, fazendo-se presente nas mais
diversas manifestações da vida e mostrando-se um componente essencial, seja nas
manifestações humanas objetivas, seja nas subjetivas.

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) LEAL, Raimundo

A partir dessas considerações sobre a estética observa-se que o seu


conceito, assim como o objeto e o próprio papel não são congruentes, o que dificulta
a própria adoção dessa dimensão estética como referência para os estudos
organizacionais. Dentre as diferentes definições, a elaborada por Kant será adotado
como referência, onde a estética é tida com ciência de todos os princípios da
sensibilidade a priori, deixando de ser referência para obra de arte, passando a ser
visto como uma das dimensões do juízo humano, portanto presente e inerente às
ações cotidianas. É sobre essa perspectiva que o próximo tópico será desenvolvido.
O agir humano, frente ao mundo que o rodeia, assume diferentes atitudes. A
atitude não é a mesma quando o homem atua de modo prático sobre o mundo ou
procura conhecê-lo de um modo teórico ou científico ou ainda quando, por exemplo,
procura entender segundo uma perspectiva religiosa. Cada uma destas atitudes,
uma vez adaptada pelo homem, apodera-se dele e de todas as capacidades, que
orientam em determinada ação, tornando a verdade que paramenta seu agir.
Mukarovsky (1997) resgata a partir de Kant, a perspectiva onde a noção de
beleza é substituída enquanto axioma metodológico básico pelo conceito de função.
Dos fenômenos naturais tomados como material de análise a estética passa a
considerar e atuar os atos da conduta humana e os seus resultados, a ação humana
passa a ser o objeto de abordagem estética.
Para Mukarovsky (1997) a função prática é fundamental. Nela se baseia o
comportamento, que faz possível a vida humana. Sua importância consiste na
relação entre o sujeito atuante e as coisas. A vontade do sujeito projetada no mundo
das coisas é o objetivo do comportamento e a coisa é um mero recurso, um
instrumento para se alcançar o objetivo. Nesse sentido, do ponto de vista da ação
prática, só percebemos aquelas características das coisas que podem ser aplicadas
com proveito ao esforço de alcançar os objetivos em vista.
Ainda, segundo o mesmo autor, a função teórica, ao contrário da atitude
prática, tende a exclusão do sujeito, haja vista que, o que ele põe em evidência não
são as diversas coisas em si próprias, mas sim as relações mútuas que existem
entre elas. O objetivo último do conhecimento científico é uma lei que exprima a
validade mais geral e incondicional possível de determinada relação, sem ter em
conta as características concretas das coisas que entram nessa relação,

229
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) LEAL, Raimundo

considerando apenas aquela característica que tem importância para a relação


dada.
A terceira função é a estética, e só ela considera a própria coisa, a coisa
como particularidade, como conjunto de características de variedade inesgotável. A
coisa não é concebida nem como recurso para alcançar um objetivo, nem como
mera base de certas relações, mas como um fim em si própria. Por isso se fala de
“autofinalidade” no campo estético. Pelas mesmas razões, o “estético” costuma ser
proclamado como algo de supérfluo, como um luxo que nada tem haver com os
interesses elementares da vida do homem.
A atitude prática reforce-se, simplifica as coisas, tomada em linha de conta
apenas aquelas características aproveitáveis para o fim em vista. Mas, quando é
preciso alcançar um objetivo novo, sem precedentes - e nisso consiste a essência da
criação prática - há que aproveitar novos aspectos da realidade até aí omitidos.
Esses aspectos só podem ser descobertos pela atitude estética.
A estética assim tem como papel preponderante, verificar todos os aspectos e
disfarces do “estético” e investigar a dinâmica das suas relações com a atitude
prática e a atitude teórica. Neste sentido, representa uma grande ampliação da
esfera dos seus interesses e significa a integração direta da estética no ciclo vital,
pois perante seus olhos perpassam a moda, a educação física, as formas das
relações sociais, a produção industrial e artesanal, a ciência, a filosofia e a religião.

A E S T É T IC A E NQUANT O D IME NS Ã O H UMANA

A arte juntamente com a religião, a filosofia e a ciência podem ser


consideradas como as mais elevadas atividades do espírito humano, pois ela, a arte,
tem por objeto a mesma essência das coisas, aquela universal e imutável, presente
na filosofia, na religião e na ciência. Enquanto a filosofia apresenta esse elemento
universal mediante conceitos abstratos numa ordem lógica, a ciência busca através
da precisão dos fatos e do entabular de teorias e leis dar conta desse mesmo
problema. A arte, por sua vez, busca abordar a questão através de imagens que
concretizam o universal racional no particular sensível.
Através da estética pode-se referir a essa percepção humana do universal,
seja de modo relativo ou absoluto, e é sobre as referências básicas para tal
discussão que o presente tópico será desenvolvido.

230
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) LEAL, Raimundo

De logo, deve ser dito que a história da estética apresenta um variado


conjunto de definições, permeando o homem e suas ações desde os seus
primórdios, não sendo algo recente no contexto civilizador. Ainda assim, há de se
pontuar, que o termo vem a ser utilizado enquanto referência para uma abordagem
do conhecimento/ação do ser humano, de modo sistematizado, e próximo ao uso
contemporâneo, a partir do século XVIII.
A palavra estética designa qualquer análise, investigação ou especulação que
tenha por objeto a arte e o belo, quer quanto à possibilidade da sua conceituação,
quer quanto a diversidade de emoções e sentimentos que ele suscita no homem.
Sua raiz etimológica está na Grécia, tendo como referência a palavra aisthésis,
evocando “sensação”, designando inicialmente um horizonte de referência
gnosiológica de “conhecimento sensível” ou dos “fatos e objetos sensíveis”.
O uso corrente do termo estética, designando a ciência (filosófica) da arte e
do belo, foi introduzido por Baumgarten (1993), por volta de 1750, no livro intitulado
Aesthetica, onde evidencia conceitualmente estética como a ciência do
conhecimento sensitivo, cujo fim maior é a perfeição do conhecimento sensitivo
enquanto tal, caracterizando tal perfeição como a beleza e a imperfeição como o
disforme.
Historicamente a estética apresenta duas fases fundamentais: a primeira fase,
preponderantemente normativa, vigora até a sua fundação enquanto ciência, em
1750 (ano do lançamento do livro Aesthética de Baumgarten), onde a estética
conjuga a teoria da beleza com a doutrina normativa da arte.
Esta estética legisladora exigia que todas as impressões particulares da
beleza tivessem como fundamento o inteligível, uma tábua fixa de referência a que
se viam compelidos. A estética reservava assim, por si mesma, a codificação dos
critérios da produção e da apreciação da obra de arte.
Na segunda fase, de Baumgarten até a contemporaneidade, a estética perde
esta aparência legisladora, assim como a noção de existência de uma beleza
absoluta e paradigmática, sendo paulatinamente substituída pela prioridade do juízo
do gosto.
A estética assume então uma postura de análise e de crítica do vivido, já que
o ser do objeto estético remete para o sujeito e para o tipo de atitude que ele lhe
dispensa. Esta segunda tendência não significa dizer que se tenha deixado de

231
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) LEAL, Raimundo

aprofundar a questão do objeto enquanto ele é percebido e experimentado pelo


sujeito. Apenas o enfoque, a prioridade foi alterada.
Para Platão (1993), o belo é a manifestação evidente das idéias (isto é, dos
valores) e é, por isso, a via de acesso mais fácil a tais valores. Considerava que, a
arte é a imitação das coisas sensíveis ou dos eventos que se desenvolvem no
mundo sensível, constituindo, de preferência uma recusa a caminhar para além da
aparência sensível na direção da realidade e dos valores.
A estética do século XX, período histórico mais ativo e diversificado, vai
apresentar-se marcado por duas grandes tendências referenciais: os que se
orientam para a indagação do papel do sujeito e das questões fundamentais que
lhes associam, tais como a percepção, e experiência estética, ou seja, a inspiração
criadora, como indagações filosóficas que tendem a resguardar a parte da
subjetividade. A outra tendência é composta pelos que se orientam para uma
estética dotada de uma intenção de cientificismo, de uma linguagem discursiva,
versando a objetividade da forma/obra, entendendo assim a estética como ciência
positiva. A tendência positivista da estética para analisar com o máximo rigor técnico
a obra de arte, desenvolve-se estabelecendo uma analogia entre a arte e o estado
de civilização.
Kant (1991) vai influenciar fortemente a amplitude do aspecto estético,
contribuindo com a noção de estética transcendental, enquanto ciência de todos os
princípios da sensibilidade a priori. Segundo Kant a estética deve ser uma ciência,
entretanto, não pode ser a ciência do belo, mas apenas uma crítica do gosto. Ela,
estética, é uma teoria dos princípios da sensibilidade, teoria esta que se insere no
conjunto da teoria do conhecimento da filosofia transcendental.
Outro sentido evidenciado por Kant na sua obra Crítica do juízo, é que a
estética intervém no projeto de uma crítica do juízo - exame de valor - para definir o
juízo do gosto pelo qual o sujeito pode distinguir o belo na natureza e no espírito,
evidenciando que “o juízo do gosto não é um juízo do conhecimento; por
conseguinte, não é lógico, mas estético”, seu princípio determinante só pode ser
subjetivo.
Schopenhauer (1991), fortemente influenciado por Kant, parte das idéias do
mesmo e retomando questões anteriormente levantadas por Platão, vai abordar
acerca da elevação da mente à contemplação da verdade sem influência da

232
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) LEAL, Raimundo

vontade, como elemento estético. Argüi que, enquanto o objetivo da ciência é o


universal que contém muitos particulares, a estética teria como objetivo o particular
que contém o universal.
Este mesmo autor considera que a arte é maior que a ciência porque esta
avança através do acúmulo diligente e do raciocínio cauteloso, enquanto aquela
atinge o seu objetivo de imediato, pela intuição e pela apresentação. Considera que
a ciência pode se dar bem com o talento, mas a arte requer gênio.
Outra referência chave na abordagem estética é Benedetto Croce (1866-
1952), um dos mais importantes filósofos deste século, que se destaca pelo
desenvolvimento de uma “filosofia do espírito” inspirada em Hegel. Sua visão é de
que o espírito teria uma dimensão teórica e uma dimensão prática. A dimensão
teórica por sua vez se desdobraria em estética e lógica; e a dimensão prática, em
economia e estética.
A estética, em suma, não classifica objetos, ela os sente e os apresenta, nada
mais. Portanto, pressupõe que a imaginação precede o pensamento e é necessária
a ele, a atividade artística ou formadora de imagens da mente é anterior à atividade
lógica, formadora de conceitos. O homem é um artista tão logo imagina, e muito
antes de raciocinar.
Schiller (1990) discutindo a estética pontua que todas as coisas, que de
algum modo possam ocorrer no fenômeno, são pensáveis sob quatro relações
diferentes. Uma coisa pode referir-se imediatamente a nosso estado sensível (nossa
existência e bem-estar): esta é a sua índole física.
Ela pode, também, referir-se a nosso entendimento, possibilitando-nos
conhecimento: esta é sua índole lógica. Ou ainda, referir-se a nossa vontade e ser
considerada como objeto de escolha para um ser racional: esta é sua índole moral.
Ou, finalmente, ela pode referir-se ao todo de nossas diversas faculdades sem ser
objeto determinado para nenhuma delas isoladamente: esta é sua índole estética.
Schiller (1990) observa, ainda, que assim como existe uma educação para a
saúde, para o pensamento, para a moralidade, há também uma educação para o
gosto e a beleza, e esta tem por fim desenvolver, em máxima harmonia, o todo de
nossas faculdades sensíveis e espirituais.
Assim posto, faz questão de distinguir o falso raciocínio de que o conceito
estético comporta-se de modo arbitrário, afirmando que a mente no estado estético,

233
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) LEAL, Raimundo

embora livre, e livre no mais alto grau de qualquer coerção, de modo algum age livre
de leis, acrescentando ainda que a liberdade estética se distingue da necessidade
lógica no pensamento e da necessidade moral no querer apenas pelo fato de que as
leis, segundo as quais a mente procede, ali não são representadas, e, como não
encontram resistência, não aparecem como constrangimento.

A E S T É T IC A E AS O R G A NIZAÇ ÕE S

Uma das dificuldades comuns aos membros de uma organização em conviver


com o contexto organizacional contemporâneo decorre da ênfase no aspecto
racional, técnico, já presente na formação universitária de tais profissionais, que
acabam por desenvolver uma alta capacidade analítica que, mesmo assim, não tem
se mostrado suficientemente para fazer face às contingências organizacionais
(CHANLAT, 1992).
No contexto acadêmico, mormente as pesquisas, o problema também se
apresenta, à medida que, os estudos convergem majoritariamente para elementos
mensuráveis, objetivos, que por si só não se mostram suficientes, pois ao
concentrar-se nas técnicas e aspectos lógicos não se consegue dar conta dos
elementos subjetivos presente e inerentes ao processo de interação humana e
organizacional.
Strati (1992), no artigo intitulado “aesthetic understanding of organizational
life”, discorre sobre as possibilidades da dimensão estética contribuir na análise
organizacional, numa abordagem que auxiliará no lidar com a complexidade,
ambigüidade e sutileza presente na organização. Faz questão de evidenciar o fato
de que a compreensão estética da vida organizacional é uma metáfora
epistemológica, ou seja, uma forma de aprendizado diverso daqueles baseados em
métodos analíticos.
Strati (1999) destaca a importância da estética enquanto uma das formas de
conhecimento, a necessidade de reconhecê-la enquanto dimensão, aspecto e objeto
da vida organizacional, e que mesmo pouco considerada, enquanto elemento de
pesquisa, tem muito a contribuir no âmbito dos estudos organizacionais. Sobre a
presença da estética na vida organizacional considera-a como uma forma de
conhecimento humano que envolve o julgamento estético considerado como a

234
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) LEAL, Raimundo

faculdade utilizada para avaliar se algo é prazeroso ou, alternativamente, se é


adequado ao nosso gosto ou, ainda, se nos ‘envolve’ ou é indiferente.
Outro autor que utiliza a experiência estética enquanto elemento de análise
organizacional é Gagliardi (1996), apontando inicialmente três definições da
experiência a ser considerada nos estudos organizacionais, a saber: a) enquanto
forma de conhecimento sensível diferente e em contraposição ao conhecimento
intelectual; b) enquanto forma de expressão da ação desinteressada, sem uma
finalidade instrumental explicitada; e c) enquanto forma de comunicação, diferente
da conversa ou diálogo que pode expressar sentimentos que não pode ser
explicitada ou codificado nas bases até então conhecidas.
Ao delinear como cada uma dessas dimensões se faz presente na vida
cotidiana da organização (Gagliardi, 1996) alerta para a profunda influência que a
dimensão estética tem sobre a organização, inclusive sobre a performance da
mesma e que a escassez de estudos que privilegiem o elemento estético decorre da
prevalência de premissas lógicas e ideológicas em detrimento de premissas
intuitivas e estéticas. Uma vez que a dimensão estética exige formas de
entendimento intuitivas, particular, acaba por ser deixada de lado, por métodos
analíticos ditos e tidos como precisos e passíveis de mensuração.
Os trabalhos acima referenciados demonstram as possibilidades concretas de
uso da dimensão estética para análise organizacional, adentrando os aspectos
subjetivo, ilógico, irracional pouco explorado e mesmo ignorado. Naturalmente tal
dimensão não esgota, nem tão pouco busca apontar padrões organizacionais, mas
ampliar a compreensão e entendimento das organizações, dos formatos
organizacionais adotados.
A ênfase no aspecto racional ou meramente técnico tem proporcionado o
desenvolvimento de profissionais para a área de administração, com uma alta
capacidade analítica que, entretanto, não tem se mostrado suficientemente
capacitado, para fazer face ao novo patamar organizacional que se vivencia no final
deste século. No contexto organizacional contemporâneo a dimensão científica da
administração, por si só, não se mostra suficiente, pois ao concentrar-se nas
técnicas e aspectos administrativos, não dá conta das necessidades e
transformações inerentes ao contexto organizacional.
Em função das velozes e sucessivas mudanças no ambiente organizacional,

235
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) LEAL, Raimundo

as empresas vêm buscando cada vez mais rapidamente adaptar-se aos novos
contextos, especialmente aqueles em que a organização não pode antecipadamente
prever. Ainda que, mais intensas sejam as mudanças, elas não são novas, assim
como não é novo o uso da criatividade para superação dos problemas, em especial,
por parte dos administradores.
O administrador criativo de hoje, enfrenta novos desafios, além da
complexidade dos problemas, tem pela frente a escala global dos elementos que
compõe os desafios empresariais, fazendo uso de diferentes recursos, informações
para escolhas e encaminhamentos.
Tead (1970) considera a administração como uma das belas-artes porque
mobiliza um considerável conjunto de dons especiais em prol de um trabalho de
colaboração, indispensável à vida civilizada de hoje. Essa obra de criação, de
ajustamento, de harmonização é que mantém em bom funcionamento, e em
constante progresso, as organizações públicas e particulares, graças às quais
milhões de indivíduos realizam e conquistam muitos de seus objetivos.
Um dos objetivos mais importantes das belas-artes, para Tead (1970), é
realçar e ampliar a percepção de novos aspectos da realidade, aprazíveis aos
sentimentos humanos, logo, o esforço administrativo redunda na criação de relações
humanas conjugadas, que exemplificam uma das belas-artes. Fazendo uma
analogia entre o administrador e o artista, observa que é necessário, em ambos,
tanto o domínio dos princípios gerais como os meios de aplicá-los, havendo assim
uma combinação desses dois aspectos para se obter o alicerce indispensável ao
domínio da arte da administração.
Este mesmo autor considera que o administrador como qualquer outro artista
criador, trabalha num meio característico, possuindo no seu caso três facetas: as
atividades da organização, os entes humanos que a compõem ou com ela se
relacionam e o ambiente social em que estes de movimentam. Assim, uma
organização em funcionamento cria uma entidade real, ainda que subjetiva, com
traços que a identificam, afetando a todos os que se encontram sob sua influência,
ao mesmo tempo, em que é por eles afetada.
Goodsell (1992) partindo das idéias de Tead (1970), com as quais concorda
parcialmente, e resgatando a teoria da arte e a filosofia estética, posiciona-se acerca
da administração afirmando que esta não chega a ser uma arte sublime como a

236
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) LEAL, Raimundo

pintura, a escultura, a literatura, a música ou mesmo a dança, mas considera que


assim como a administração, essas artes geram produtos que possuem valores
intrínsecos e necessita de uma motivação externa para gerarem algo possuidor de
beleza. A administração de modo similar, ainda que não se volte para a beleza, é
também possuidora da preocupação de alcançar princípios e valores que estão além
dos resultados mensuráveis.
Eble (1978) ao escrever acerca da liderança organizacional, tendo por base
estudos em instituições educacionais de nível superior, conclui que a administração
é uma arte, diante da complexidade e sutileza da sua atividade com pessoas,
envolvendo conhecimento, talento e sensibilidade tão necessárias para a gestão
organizacional de modo satisfatório.
Simplicidade, intuição, sensibilidade, percepção, entre outros termos,
elementos consubstanciados na e para a criatividade, passaram a serem
considerados fatores fundamentais para o sucesso organizacional.

C ONS C IÊ NC IA E E S T É T IC A NAS O R G ANIZAÇ ÕE S

As características atuais das organizações exigem a reflexão sobre os


pressupostos que norteiam as estruturas, métodos e técnicas utilizados no processo
de condução e ação das mesmas. A questão fundamental é como nortear tais ações
de modo que elas não sejam, humana e socialmente deletérias, ainda que desejável
em razão do primado dos interesses econômicos, financeiros.
Hoje, as práticas educativas em geral estão, assim, impregnadas por essas
premissas anacrônicas e, não foi diferente no passado. O principal problema sempre
foi a evidente incompatibilidade entre um conhecimento construído dinamicamente e
com uma velocidade crescente, que passava a ser cada vez mais o centro de
desenvolvimento da sociedade e, conseqüentemente, cada vez mais presente no
universo da ação e do trabalho das pessoas, e as estruturas rígidas existentes para
reproduzi-lo.
Portanto, faz-se necessário adentrar ao aspecto da arte e educação voltada à
educação organizacional, onde o valorativo, o emocional, o intuitivo possam ser
contemplados, sem deixar de lado o conhecimento racional, técnico desenvolvido.
Fazer a conexão desses dois aspectos tornou-se crucial e decisivo para a
sobrevivência de muitas organizações, quer tenham isso claro ou não.

237
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) LEAL, Raimundo

Esse nexo, na prática já se dá, individual e coletivamente, inclusive por


estímulo das organizações, através de processos de estímulo da criatividade e
inovação. Percebe-se da sua relevância enquanto elemento auxiliador das
mudanças organizacionais, em tempos de tão intensas mudanças.
Compreender as inter-relações do processo educacional continua sendo
relevante as organizações a conexão com a estética para a compreensão da
dinâmica organizacional que assim, pode ser considerado enquanto processo
decorrente da racionalização, do resultado das experiências, mas também, enquanto
possibilidade de concepção de algo novo. Mas isso só é possível quando aliado a
um conjunto de princípios e valores elevados. Tais princípios elevados, intrínsecos
ao homem, aqui é tratado como consciência.
Desenvolver contextos nas organizações que valorizem ações moralmente
elevadas é um enorme desafio, por duas razões básicas. A primeira em razão de
que os indivíduos não estão habituados a atuarem primando por princípios elevados,
de modo consciente ou não, primam por resultados, os resultados desejados e
alcançados é o que importa. Assim a autonomia e liberalidade na elaboração e
execução das atividades não é uma praxe, desestimulando o desenvolvimento da
habilidade criativa.
A segunda razão advém-se do viés tradicional da nossa formação
educacional, que habitualmente pouco estimula o desenvolvimento do potencial
criador latente no homem, preocupando-se com a reprodução do conhecimento,
centrado no passado, sem de algum modo remetê-lo para o futuro, buscando assim
potencializar suas faculdades e qualidades para a resolução de problemas, os quais
ainda não estão postos ou dados.

C ONS IDE R AÇ ÕE S F INAIS

A gestão organizacional nas últimas décadas tem se voltado para a ênfase na


formação técnico, racional, analítico dos profissionais de administração, entretanto,
tal capacitação não foi e nem tem sido suficiente para fazer face às constantes,
dinâmicas e complexas mudanças que tem ocorrido no campo organizacional.
Faz-se necessário adentrar ao aspecto da arte administrativa, ao ilógico, ao
irracional, ao emocional, ao intuitivo, sem deixar de lado o conhecimento racional.

238
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) LEAL, Raimundo

Fazer a conexão desses dois aspectos tornou-se crucial e decisivo para a


sobrevivência de muitas organizações, quer tenham isso claro ou não.
Esse nexo na prática já se dá, individual e coletivamente, inclusive por
estímulo das organizações, através de processos de estímulo da criatividade e
inovação. A união desses aspectos mostra-se de extrema relevância enquanto
elemento auxiliador das mudanças organizacionais, em tempos de tão intensas
mudanças.
Compreender as inter-relações do processo criativo continua sendo relevante
às organizações, e sua conexão com o campo da estética mostra-se determinante
para o avanço na compreensão da criatividade e inovação, que assim, pode ser
considerado enquanto processo decorrente da racionalização, do resultado das
experiências ou tentativas de acerto, mas também, enquanto possibilidade de
concepção de algo novo.
As investigações estéticas, no campo organizacional, têm se concentrado nas
características do serviço ou produto; no ambiente de trabalho, particularmente nos
equipamentos e acessórios; e mais recentemente nos estudos relativos a cultura
organizacional.
Tem assim deixado de lado a perspectiva auxiliar da dimensão estética,
presente de modo intrínseco nas atividades cotidianas do ser humano, relevante
para o processo de aprendizagem e conhecimento predominante num quadro
organizacional de mudanças e transformações intermitentes.
A perspectiva estética nas organizações pode certamente apresentar, de
modo analítico, contribuições às questões comuns aliadas ao produto e ao ambiente
organizacional. Certamente fica aquém das possibilidades do campo estético, que
como já evidenciado, é uma das três dimensões da ação humana, sendo a menos
considerada no contexto organizacional, ainda que tratada como o âmbito do
irracional, do ilógico.
Abre-se um novo potencial ao considerar a estética e a consciência ainda que
hoje esteja muito associado ao simbolismo organizacional, aos processos cognitivos
restringindo as possibilidades para compreensão do homem e do processo de
mudanças organizacionais e sociais.
Dentre essas perspectivas, a estética mostra-se capaz de contribuir nos
estudos interpretativos, onde através do âmbito estético, aspectos organizacionais

239
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) LEAL, Raimundo

não internalizados na análise organizacional, e que ganhará identidade à medida


que se distingue da teoria da arte, do design, aproximando-se do ambiente
organizacional, não apenas enquanto um tipo de performance artística, de
adequação de gosto.
Tem assim deixado de lado a perspectiva auxiliar da dimensão estética
presente de modo intrínseco nas atividades cotidianas do ser humano, e certamente,
relevante para o processo de aprendizagem e conhecimento num quadro
organizacional de mudanças e transformações intermitentes.
A estética nas organizações apresenta-se ainda, de modo prescrito, à medida
que, busca dar conta de questões aliadas ao produto e ao ambiente organizacional,
o que fica muito aquém das possibilidades do campo estético, evidenciado como
uma das três dimensões da ação humana, intrinsecamente associada às demais
(MUKAROVSKA, 1997).
O potencial que se abre com a estética para os estudos organizacionais,
ainda está por ser explorado, mas sua potencialidade pressupõe rever os próprios
métodos de pesquisa e o referencial conceitual, aproximando-se de uma
fundamentação filosófica enquanto ponto de partida.
O estudo da consciência favorece as organizações e a sociedade em geral a
contribuir no processo de desenvolvimento humano, razão de ser e existir das
organizações e da própria sociedade, de modo que o mesmo venha a compreender
sua constituição física/psíquica/moral e a sua maneira de sentir, pensar e agir, enfim,
de realizar, segundo as exigências de suas necessidades básicas individuais e
sociais. Nesta perspectiva, a finalidade última da consciência é a de facultar ao ser
humano, atitudes e habilidades centradas no discernimento, que o possibilite
compreender absorvendo, em si mesmo, a natureza real que reside em todas as
coisas, inclusive o valor significativo real das relações.
Assim sendo, o desafio é que cada um dos membros da sociedade reflita
acerca de uma conduta norteadora das suas ações que de fato, favoreça o
desenvolvimento humano, em particular da consciência. O desenvolvimento humano
fundamentado no estudo da consciência, inspira outra maneira de ver as coisas em
ciência, filosofia e religião, na medida em que ela lida, ao mesmo tempo, com os
diversos níveis e as diversas dimensões do ser humano.

No presente texto buscou-se refletir acerca da estética, enquanto dimensão

240
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) LEAL, Raimundo

humana esquecida, em particular, pelas organizações, enquanto elemento da atitude


e ação humana. Foi valorizado o entendimento de consciência, enquanto processo
que exige a presença da ética e da estética. Destacar a relevância e contribuição da
estética e da consciência para vislumbrar o desenvolvimento humano através de
atos e ações equilibrados e norteados por princípios moralmente elevados foi outro
propósito do artigo.

R E F E R Ê NC IAS

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242
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) CASTELLANI, Moacyr

Capítulo 14

KEN WILBER E A DINÂMICA DA ESPIRAL

Moacyr Castellani 1

RESUMO
O modelo da “Dinâmica da Espiral” define oito níveis básicos de Consciência e atua como uma lente
que nos faz enxergar a realidade do indivíduo e do grupo de uma forma mais nítida. Quatro conceitos
são fundamentais: 1- as pessoas são diferentes porque possuem valores diferentes; 2-
desentendimentos podem surgir quando diferentes valores entram em conflito; 3- não existe valor
melhor que o outro; 4- um indivíduo ou grupo pode manifestar seu valor predominante: a) de forma
saudável ou b) de forma patológica.
Palavras-chave: Transpessoalidade; Wilber; Gestão Integral.

INTRODUÇÃO

Com 20 livros publicados em 20 países, Ken Wilber é o autor acadêmico


americano mais traduzido no mundo. Seus modelos têm sido utilizados em vários
países por grandes nomes como Bill Clinton, que mencionou a importância da sua
obra no Fórum Econômico Mundial. Considerado o filósofo vivo mais influente da
atualidade, tem sido chamado de "Einstein da Consciência".
Há 15 anos tenho utilizado seus conceitos em meu trabalho e na vida
pessoal. Modelos como “O Espectro da Consciência”, “Os 4 Quadrantes”, “A Falácia
Pré-Trans” e “Os Três Tipos de Ciência” são ferramentas poderosas para
diagnosticar e resolver conflitos em inúmeras áreas.
Há alguns anos, Ken incluiu em seu trabalho o modelo criado pelo também
americano Clare Graves – a “Dinâmica da Espiral”. Poderosa ferramenta que define
de forma simples e ao mesmo tempo profunda os vários níveis de Consciência de
um indivíduo ou grupo, a Espiral se integrou ao “Modelo dos 4 Quadrantes” de
Wilber no que foi chamado TQTN – Todos os Quadrantes, Todos os Níveis - talvez a

1Administrador de empresas, psicólogo e escritor, especialista em Coaching Pessoal, Qualidade de


Vida e Produtividade. Pioneiro na aplicação da abordagem Integral de Ken Wilber. Estudioso do
Taoísmo e Zen Budismo, praticante da Técnica Alexander. Contato: www.metacoaching.com.br

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) CASTELLANI, Moacyr

ferramenta mais completa para a compreensão do composto físico/mente/


cultura/sociedade.
Em abril de 2005 tive o privilégio de ser recebido por Ken em sua casa em
Denver para uma conversa particular. Nas quase 3 horas que estivemos juntos,
discutimos sobre os mais variados temas, desde filosofia e psicologia, às tendências
do mundo corporativo e economia mundial.
Durante a conversa, Ken se mostrou particularmente interessado em obter
informações sobre um assunto que muito nos interessa – a realidade brasileira. Para
isto, escolheu o modelo da “Dinâmica da Espiral” como ferramenta para
compreender melhor o que está acontecendo em nosso país.
Este artigo tem como objetivo identificar os vários níveis de Consciência de
um indivíduo ou grupo e aplicar o modelo da “Dinâmica da Espiral” para desvendar
alguns mistérios da realidade brasileira – seus problemas e desafios atuais -
seguindo o estilo descontraído que acompanha a análise profunda e ao mesmo
tempo objetiva de Ken.

QUANDO UMA FERRAMENTA TRANSFORMA A REALIDADE

É curioso como a vida de uma pessoa pode mudar de repente. Outro dia
aconteceu com o “Seu Reginaldo”. Para quem não o conhece, ele é zelador do
prédio onde moro. Dentre suas várias atividades, diariamente ele esvazia a caixa de
correios e distribui a correspondência aos apartamentos. No geral seu trabalho é
bem feito, embora eu achasse que distribuir correspondências não era o seu forte.
Ele as misturava, ou melhor, se confundia e entregava a carta endereçada ao
vizinho de cima em minha casa, entregava a conta de luz do meu apartamento na
casa do vizinho de baixo, etc. Pensei que fosse a idade, ele não é tão jovem assim.
Mas eu estava enganado.
Certo dia entendi o seu “problema”. Presenciei quando retirava as
correspondências da caixa de correio e tentava descobrir para quem se endereçava
um grande envelope. O que havia de errado? Ele não enxergava, ou melhor, não
conseguia ler de perto. Perguntei se já havia feito um exame de vista.
Imediatamente, respondeu: “Não senhor, nunca consultei um médico de olhos”.
Naquele momento formulei a minha hipótese. Só faltava checar na prática.

244
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) CASTELLANI, Moacyr

Liguei para a Ana Luiza, uma amiga oftalmologista e perguntei se poderia


atendê-lo. Sempre disponível e sabendo das dificuldades em marcar uma consulta
pelo SUS, ela concordou e o atendeu sem custo em seu consultório. Uma semana
depois, a conclusão: “Seu Reginaldo” era míope! Resultado: os próprios moradores
do prédio se reuniram e mandaram fazer seus óculos.
Lentes prontas, armação escolhida, chegou o grande dia. Ele recebeu os
óculos, ajeitou-os no rosto... Sua feição mudou! Como num passe de mágica, ele
enxergou! Tudo se abriu, o mundo se transformou para ele.
Conclusão: pessoas podem sofrer com problemas sem mesmo imaginarem
que existam soluções para suas dificuldades - que possam existir lentes para
enxergar melhor.
O modelo da “Dinâmica da Espiral” é como uma lente que nos faz enxergar a
realidade mais nítida. Três conceitos são fundamentais:
1- as pessoas são diferentes porque possuem valores diferentes (enxergam
a realidade utilizando lentes diferentes);
2- desentendimentos podem surgir quando diferentes valores entram em
conflito (se um indivíduo é míope, pode achar que todos enxergam como
ele e assim não entender que também existam pessoas que sofrem de
astigmatismo);
3- não existe valor melhor que o outro,
4- um indivíduo ou grupo pode manifestar seu valor predominante: a) de
forma saudável ou b) de forma patológica.

A DINÂMICA DA ESPIRAL E O SISTEMA DE VALORES

O modelo da Dinâmica da Espiral é como um conjunto de lentes que você


pode utilizar para enxergar a realidade. Cada lente é um valor que o indivíduo ou
grupo utiliza para interpretar e interagir com a realidade. Cores foram atribuídas a
cada nível de consciência no sentido de facilitar a compreensão de cada nível de
consciência. Os principais níveis são:
BEGE – básico-instintivo: o primeiro nível de consciência surgiu há 100.000
mil anos quando o ser humano era nômade. Sua vida era solitária, seguia os

245
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) CASTELLANI, Moacyr

instintos em busca de alimento e segurança. Às vezes acasalavam. No máximo,


viviam em bandos. A “preocupação” essencial era sobreviver.
Hoje em dia, viver para sobreviver é algo inerente a crianças recém-nascidas,
idosos senis, mendigos, moradores de rua e massas esfomeadas. Todos possuem,
como objetivo específico, a SOBREVIVÊNCIA.
PÚRPURA – mágico-místico: há 50.000 anos , os seres humanos passaram a
viver em grupos (tribos). Aprenderam a dividir suas tarefas e a valorizar as “relações
de sangue”. Diante um mundo “mágico e assustador”, eram temerosos em relação
ao destino que os “Deuses” lhes reservavam. Fiéis aos mais velhos, aos ancestrais e
ao clã, preservavam objetos, lugares sagrados e cumpriam os ritos, ciclos e
costumes tribais.
Nos dias atuais este é o mesmo estilo de valor que guia o pensamento das
famílias tradicionais, pessoas que acreditam em simpatias, soluções mágicas,
juramentos de sangue, amuletos e figuras mitológicas. O princípio do estilo púrpura
guia a essência das gangues, grupos fechados e “tribos” modernas - se proteger
através dos rituais e das tradições do CLÃ.
VERMELHO – poderoso-impulsivo: há 10.000 anos , o indivíduo se “rebelou”.
Cansado de obedecer às ordens e costumes da tribo, tornou-se egoísta e
individualista. Lutar para sobreviver independentemente do que os outros queriam
era o seu ímpeto. Impor o poder sobre o eu, os outros e a natureza, fazer o que se
quer eram as suas leis. No estilo vermelho, o indivíduo deseja atenção, exige
respeito e dita as regras. Certo de que o mundo é uma selva cheia de ameaças e
predadores, conquista, engana e domina os outros sem qualquer culpa ou remorso.
Este é o estilo dos bandidos, pessoas desonestas, políticos corruptos e atitudes
egoístas. Certo de que a vida precisa lhe dar prazer sem limites, o individualista
impõe de forma implacável ao mundo e aos outros o seu DOMÍNIO E PODER.
AZUL – a força da verdade: há 5.000 anos, surgiu um nível de consciência
baseado em uma crença absoluta que levava o indivíduo a sacrificar-se a uma
causa, verdade ou caminho virtuoso que considerava de elevada importância. Certo
da existência de uma “ordem superior”, o indivíduo aceitava se submeter a um
código de conduta que acreditava se basear em princípios eternos e absolutos.
Qualquer impulso ou visão inadequada deveriam ser controlados através da culpa.

246
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) CASTELLANI, Moacyr

Obedecendo com rigor autoridade superior, o indivíduo “azul” seguia as leis,


métodos e disciplinas que acreditava construir o caráter e os valores morais.
Religiões, as forças armadas, o sistema judiciário, associações do tipo
“Rotary”, o fundamentalismo islâmico, os procedimentos rígidos definidos em
manuais de empresas valorizam essencialmente o SIGNIFICADO e a ORDEM
ABSOLUTA.
LARANJA – autonomia e manipulação: há 1.000 anos, empreender tornou-se
fundamental. A preocupação em tornar as coisas melhores, em agir por interesse
pessoal jogando para ganhar, a mudança, o avanço, o progresso e a vida abundante
passaram a ser os valores essenciais para quem avançou a este nível de
consciência que define que pessoas otimistas, autoconfiantes e dispostas a arriscar
merecem o sucesso. Prosperar pela estratégia, desenvolvimento da tecnologia e
competitividade eram as palavras de ordem.
Atualmente o mundo corporativo, o mercado financeiro, as novas tecnologias,
o pensamento capitalista e a classe média emergente definem o que podemos
chamar de EU EMPREENDEDOR.
VERDE – igualdade e comunidade: há 150 anos, surge um novo tipo de
pensamento que valoriza, fundamentalmente, o vínculo humano. Para este estilo, o
bem-estar das pessoas e o consenso têm prioridade e o espírito humano deve ser
liberto da avareza e dos dogmas. Oportunidades devem surgir igualmente entre
todos. Reconciliação, reunir-se em comunidades para experienciar o crescimento
partilhado são os objetivos finais.
O Greenpeace, a ecologia profunda, os movimentos pacifistas, governos
assistencialistas, grupos voluntários e entidades sem fins lucrativos são exemplos de
um estilo que prioriza a ORDEM IGUALITÁRIA e o VÍNCULO HUMANO.
AMARELO – flexibilidade e funcionalidade: surgido há 50 anos, este nível de
consciência tem como ponto central a adaptação flexível às mudanças. Devemos ser
responsáveis pelo que somos e o que aprendemos a ser. A beleza da existência
deve ser valorizada acima das posses materiais. Flexibilidade, espontaneidade e
funcionalidade têm prioridade máxima. Conhecimento e competência deveriam
substituir posição, poder e estatuto. As diferenças podem ser integradas em fluxos
interdependentes e naturais. No estilo amarelo, o indivíduo deve aprender a ser livre
e questionar.

247
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) CASTELLANI, Moacyr

O nível de consciência amarelo está presente nas organizações de Peter


Senge, no pensamento integral de Ken Wilber, nas empresas que aliam alta
produtividade com eficiência, eficácia e qualidade de vida. O ponto central deste
nível de consciência é o FLUXO FLEXÍVEL e o EU INTEGRADO.
TURQUESA – visão global, vida e harmonia: surgido há 30 anos, o
“Turquesa” se define pela experiência do todo da existência pela mente e pelo
espírito, tendo a concepção que o mundo é um único organismo dinâmico com sua
própria mente coletiva. O eu é distinto e ao mesmo tempo parte integrante de um
todo maior, energia e informação atravessam o total ambiente da terra.
O “Turquesa” está presente nas idéias de Gandhi, no “Espectro da
Consciência” de Ken Wilber, na hipótese de Gaia, no pensamento de Teilhard de
Chardin, onde o objetivo crucial é PROCURAR A ORDEM sob o caos aparente da
Terra.

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) CASTELLANI, Moacyr

A DINÂMICA DA ESPIRAL E A REALIDADE BRASILEIRA

Nos últimos anos, três elementos compõem os principais desafios da


realidade brasileira: 1- o desemprego; 2- a miséria; 3- a violência. A solução destes
problemas tem se mostrado complexa, principalmente pela falta de um modelo de
análise apurado para definir as prioridades e os pontos-chave de atuação.
Ao se utilizar o modelo da “Dinâmica da Espiral”, podemos perceber que o
Brasil é uma nação que anseia atingir o mundo “Laranja” (empreendedor,
tecnológico, gerador de riquezas) e que possui, no seu nível “Azul”, o gargalo do seu

249
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) CASTELLANI, Moacyr

crescimento. Temos um “Azul” fraco que se caracteriza pela corrupção, lentidão da


justiça, impunidade, desrespeito às regras, informalidade e descrença nas
instituições.
Este “Azul” patológico impede que o país ascenda a um nível empreendedor,
de crescimento e geração de riqueza porque cria temor para que investidores
apostem na ampliação de empresas, formação de novos negócios e geração de
empregos. A carga tributária gerada pela corrupção e má administração desestimula
o indivíduo empreendedor porque gera insegurança para assumir riscos, gera a
preocupação do surgimento de novos tributos, gera desconfiança porque regras
podem mudar de uma hora para a outra.
Muito se fala que o foco principal para a renovação do país seria a educação,
mas eu discordo. É também um ponto muito importante, mas ainda não é o
prioritário. O ponto chave é o fortalecimento das instituições, a reestruturação do
sistema judiciário e tudo o mais que o cerca para que a punição finalmente supere a
ilegalidade. O compromisso, a responsabilidade e o respeito às regras é que trarão a
tranqüilidade necessária para que investimentos sejam direcionados de forma
eficiente, gerando riqueza e estabilidade para que a nação cresça e se torne justa
para todos.
Os países ricos são países que possuem um nível “Azul” saudável, como os
Estados Unidos. Podemos encontrar falhas em alguns pontos do modelo americano,
mas é unânime afirmar que seu nível “Azul” funciona adequadamente. Quando uma
parenta do presidente foi flagrada consumindo álcool ilegalmente, o policial não teve
dúvida: levou-a para a delegacia para que ela fosse punida de acordo com a lei. Ao
contrário, é difícil imaginar que algo aconteceria se a mesma situação ocorresse no
Brasil.
Quando o estilo “Azul” está em equilíbrio, surgem as condições necessárias
para um estilo empreendedor – o “Laranja”.
Quando o estilo “Azul” está em desequilíbrio, ao invés de avançarmos para o
“Laranja”, regredimos ao “Vermelho”. Foi o que aconteceu com a União Soviética.
Estava migrando para uma realidade “Laranja” mas, com a divisão e o
desmantelamento da nação, regrediu ao “Vermelho” – é fácil perceber o crescimento
do domínio da máfia russa, a venda de armas nucleares a terroristas, a ampliação
descontrolada da violência.

250
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) CASTELLANI, Moacyr

Esta também tem sido a realidade do nosso país – o nível “Azul” brasileiro
está decadente e o nível “Vermelho” continua em plena ascendência.
Para piorar, a onda “vermelha” é estimulada pelos “Verdes”, como por
exemplo: um traficante (vermelho) manda executar cinco pessoas em Copacabana.
Quinhentos integrantes do movimento “Viva Rio” (verde) saem de branco pelas ruas
numa passeata pela paz, lembrando à população que os executados eram chefes de
família, que foi uma grande injustiça tudo o que aconteceu.
É fato que o crime foi claro e totalmente repudiável. Aliás, o objetivo do “Viva
Rio” foi o de sensibilizar os agressores e incentivar o recuo da violência, o que é
respeitável. Mas o problema é que o tiro pode sair pela culatra quando falamos de
níveis de consciência diferentes.
A paz não é tida como “valor” para o “Vermelho”. Para o “Vermelho”, valor é
individualismo e poder. Na cabeça do traficante, o pensamento é o seguinte: “cinco
foram executados, quinhentos formaram uma passeata. Conclusão: se eu ordenar a
execução de dez, mil pessoas sairão pelas ruas! Vejam como eu sou poderoso!”.
Na verdade, é preciso construir soluções eficazes 2 e não apenas eficientes3
para cada dificuldade. Assim, problemas “Vermelhos” precisam de soluções
“Vermelhas”. Problemas “Vermelhos” não conseguem ser resolvidos através de
soluções “Verdes”, por exemplo.
O esporte (Vermelho saudável) pode ser uma boa alternativa como solução
para um problema “Vermelho”. O projeto que criou um torneio de futebol onde os
jogos aconteciam dentro de uma favela à uma hora da manhã dos sábados é um
bom exemplo. Reduziu significativamente a violência nas redondezas porque
direcionou a agressividade “Vermelha” para uma disputa esportiva. A “testosterona”
que estimula o conflito e a “batalha” era direcionada a uma atividade saudável e
aceita pela sociedade.
A certeza da punição imediata é também outro instrumento fundamental para
a transformação do “Vermelho patológico” em “Vermelho Saudável”. Foi o que
aconteceu em Nova Iorque, quando Rudolf Giuliani desenvolveu a chamada
“tolerância zero”. Os delitos eram identificados e punidos imediatamente, inclusive os

2 Eficácia = fazer o que precisa ser feito


3 Eficiência = fazer bem feito

251
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) CASTELLANI, Moacyr

de menor gravidade. Isto desestimulou o “lucro fácil” que a criminalidade “Vermelha”


conseguia obter através da violência.
Inúmeras correlações podem ser feitas através da “Dinâmica da Espiral” para
resolver problemas e dificuldades em torno de todos os níveis de consciência. Este
será o objetivo da apresentação que será realizada em 10 de setembro no I
Simpósio Nacional sobre Consciência: a) apresentar um modelo que explique de
forma mais clara o porquê de nossas dificuldades atuais como indivíduos, grupos,
empresas e nação; b) estimular o desenvolvimento de soluções mais eficientes e
eficazes para os desafios de todos nós.

REFERÊNCIAS

BECK, Don Edward; COWAN, Christopher C. Dinâmica da Espiral: dominar valores,


liderança e mudança. Lisboa: Instituto Piaget, 1996. 403p.

WILBER, Ken. Integral Psychology: consciousness, spirit, psychology, therapy.


Boston: Shambhala, 2000. 289p.

252
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) MELO, Ricardo

CAPÍTULO 15

E XP ANS Ã O DA C ONS C IÊ NC IA
C OMO C ONC IL IAR UMA C AR R E IR A B E M S UC E DIDA C OM A L T O N ÍV E L DE
Q UAL IDADE DE V IDA ?

Ricardo Melo 1

RESUMO
Vivermos em um mundo repleto de paradoxos. O “ter” e o “ser” protagonizam uma batalha homérica
em nossa sociedade moderna. Como nos comportar perante os desafios da vida cotidiana? Como
expandir nossas consciências para encarar essa realidade de maneira objetiva? Quais os passos a
serem dados, a fim de vencermos nossas próprias limitações e caminhar rumo ao equilíbrio entre o
desejo do sucesso material e a conquista da tão almejada qualidade de vida?
Palavras-chave: Coaching; Desenvolvimento Humano; Equilíbrio.

A GRANDE ANGÚSTIA DOS TEMPOS ATUAIS

Vivemos angustiados em um grande paradoxo. Nunca tivemos tantos


recursos à nossa disposição. A ciência nos oferece a cada dia um grande manancial
a fim de tornar a vida na Terra cada mais confortável. São novos equipamentos na
área médica, novos tratamentos para diversas enfermidades, sejam para amenizar
os sintomas que se manifestam gerando grande incômodo, seja mesmo para curar.
São medicamentos que prometem nos dar respostas efetivas para inúmeras
dificuldades que nos acompanharam no decorrer da história humana. Na esfera
agrícola nunca produzimos tantos grãos, nunca tivemos tantas possibilidades para
enfrentar as adversidades climáticas ou dos campos de cultivo como agora. A
tecnologia nos aproxima de outras pessoas em toda parte do mundo, de maneira
jamais vista no decorrer da história. Pela evolução das telecomunicações, através da
televisão via satélite, pela internet ou pela telefonia celular, encurtamos distâncias
físicas continentais. A indústria do entretenimento investe bilhões de dólares
anualmente para estimular o lazer, tanto em viagens, no setor de hotelaria, na

1 Diretor Instituto Ricardo Melo. Consultor em Desenvolvimento Humano, Trainer em Programação


Neurolinguística, Especialista em Coaching. Escritor, autor de seis livros e colunista da revista Você
S.A. Contato: www.institutoricardomelo.com.br

253
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) MELO, Ricardo

produção incessante de inúmeros filmes, peças teatrais ou programas para tv.


Embora haja muitos problemas nas áreas de moradia, indiscutivelmente temos mais
água tratada, luz elétrica que qualquer rei jamais teve em suas épocas de apogeu
durante boa parte da história humana. Entretanto, apesar de tantas possibilidades,
não nos tornamos necessariamente mais felizes. Essa evolução veio acompanhada
de um profundo paradoxo, que nos convida a avaliação de como estamos,
atualmente, conduzindo nossas vidas!
É possível termos caminhado tanto em alguns aspectos e paralisado em
outros? É possível estarmos alinhados com a rapidez evolutiva da ciência e deixado
de compreender algumas verdades atávicas sobre o bem viver em sociedade? São
questões como essas que procuraremos abordar nos tópicos seguintes, quando
paramos para repensar sobre como anda nossa consciência sobre a vida em sua
ampla dimensão em relação a realidade que estamos inseridos!

OS PARADOXOS DA VIDA MODERNA!

É verdade que nunca tivemos tantas oportunidades de entretenimento como


possuímos agora, para nos divertir, mas curiosamente nunca fomos tão deprimidos.
A Organização Mundial da Saúde afirma que 20% da humanidade, calculada hoje
em mais de seis bilhões de pessoas sofreram, sofrem ou sofrerão de depressão. E,
desse espantoso número, aproximadamente 15% são indivíduos com tendências
suicidas.
Quando observamos o passado do planeta Terra fica fácil perceber que o
número de atual de instituições preocupadas em cuidar da natureza é significativo,
entretanto, apesar de tantas pessoas preocupadas com o nosso ecossistema, em
nenhum outro momento houve tanto desmatamento ou tantas espécies com perigos
de extinção. Hoje vivemos um período crítico em relação a água doce de nosso
planeta que pode faltar daqui a algum tempo. Recursos naturais como o petróleo já
estão com os dias contados.
A expectativa de vida média de todos os seres humanos aumentou quando
comparado há dezenas de anos atrás, no entanto, nunca tivemos tanto poder para
aniquilar vidas. Tecnologias que permitem a construção de armamentos cada vez
mais mortais contrastam com máquinas que salvam essas mesmas existências.

254
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) MELO, Ricardo

Batemos recordes da produção de alimentos em todo o planeta, mas ainda temos


mais um bilhão de pessoas que vivem abaixo da linha da pobreza. Há riquezas
colossais de inúmeras pessoas que venceram na vida econômica tradicional
contrastando com um universo de mais de quatrocentos bilhões de dólares, o
negócio paralelo que mais gira cifras em todo o mundo!
Assistimos a shows, programas ou notícias que podem estar acontecendo,
simultaneamente, do outro lado do planeta. Encontramos uma pessoa, independente
da distância, pelo telefone celular ou encontramos com certa facilidade qualquer
informação disponível em mais de três trilhões de páginas nas internet. No entanto,
muitos de nós ainda tem grandes dificuldades em se comunicar com o familiar que
habita o mesmo teto ou o mesmo quarto que nós. Conhecemos pessoas em todo o
mundo, mas não sabemos o nome de nossos vizinhos.
Não custa lembrar que por mais que passemos dificuldades de ordem
econômica, emocional ou social a boa parte da população mundial que tem
condições de viver com dignidade, mesmo tendo apenas uma vida simples, sem
luxo, tem mais conforto que qualquer rei de antigamente.
Como percebemos, o paradoxo atual que vive o ser humano nesse contexto
histórico é indiscutível. Temos tanto a nosso dispor e ao mesmo tempo nos sentimos
com tão pouco. Quanto mais desejamos e mais conquistamos, mais o processo se
repete, ininterruptamente. A angústia da falta, da pseudo-idéia do que chamamos de
necessidades nos distancia de nosso eixo de equilíbrio, da liberdade e da isenção
perante as essenciais necessidades da vida. Sem perceber nos transformamos,
lentamente, em escravos de nossos impulsos, de nossos sentimentos de posse, de
nossa sensação de impotência para lidar com situações que nos desagradem.
Nesse contexto, a frustração é inevitável. Uma verdadeira angústia existencial varre
a mente e o coração de boa parte dos seres humanos que buscam
desesperadamente algo que não sabem explicar exatamente o que seja. É uma
sede que não passa, uma fome que não cessa. Em alguns momentos ainda
conseguimos nos desligar dessa angústia nos envolvendo no véu de ilusões que a o
poder econômico ou o prestígio social nos oferece. Entretanto, tão logo passe o
efeito da fuga, somos convidados a conviver com o vazio que insiste em se fazer
presente em nossas almas.

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) MELO, Ricardo

A GRANDE SÍNTESE

Nesse contexto confuso que passa a humanidade, abre-se espaço para a


busca de uma grande e poderosa síntese que pudesse unificar nosso desejo de
prosperidade econômica, social e cultural com qualidade de vida, com um mundo
melhor, mais justo, mais tranqüilo. Para os mais pessimistas uma combinação
impossível de ocorrer, mas para os otimistas um grande alvo a ser alcançado. Mas
por onde começar essa síntese tão especial e desafiadora?
Dia e noite. Quente e frio. Riqueza e pobreza. Saúde e doença. Alegria e
tristeza. Já observou como o mundo vive cercado por dualidades? Por que será?
Seria uma coincidência ou algum sinal importante que precisamos aprender a
compreender? Embora tenhamos ainda muitas dúvidas sobre esse processo, há
muito tempo várias civilizações tem se dedicado a dar suas contribuições sobre o
assunto, sempre nos mostrando uma realidade bem interessante!
Os chineses foram quem, primeiramente, nos ofereceram uma explicação
muito pertinente que ultrapassou milênios e permanece cada vez mais atual. O
estudo da dualidade que cerca o mundo é a porta que se abre para uma maior
compreensão de nossos conflitos e possíveis estratégias que nos ajudem a
encontrar paz e serenidade, desabrochando ainda mais nossa espiritualidade!
Apenas compreendendo essa dualidade e a forma como essa busca impacta nosso
mundo atual é que expandiremos nossa consciência rumo ao equilíbrio.

AS ENERGIAS YING E YANG – EM BUSCA DO EQUILÍBRIO

As energias Yin e Yang simbolizam a dualidade que rege nosso mundo. São
forças complementares e não contrárias, como se imagina, à primeira vista! Em
algumas tradições espirituais o Yin é apresentado coma a energia feminina e o Yang
a energia masculina. O Yin é o símbolo da intuição, da sensibilidade, da criatividade,
da ousadia, do sentimento. O yang é o símbolo da objetividade, do método, do
pragmatismo, da assertividade, da razão. Ambos são essenciais e precisam andar
em equilíbrio na vida de quem almeja ter verdadeira paz! No entanto o que se
observa é um desbalanceamento nessas energias em nossas vidas. Ora temos
excesso de Yin, ora excesso de Yang.

256
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) MELO, Ricardo

Mergulhar nesses conceitos milenares é muito importante para “ouvir e


entender a melodia da vida” que é tocada em todos os instantes! Dentro dessa linha
de pensamento os opostos que temos na vida não são nem bons nem ruins, são
apenas complementares um do outro. Assim, a alegria não é melhor que a tristeza
ou vice-versa, apenas seu complemento. O mesmo ocorre com a serenidade e a
irritação. Não há, nessa análise, juízo de valor, do que é bom ou ruim, pois bom ou
ruim, sempre depende da maturidade de quem avalia uma situação e sabemos que
nossa maturidade se encontra em constante mutação, evoluindo sem cessar.
Portanto, o que em nossa avaliação atual é considerado bom pode ser considerado
ruim, em breve. Por isso não devemos julgar a vida ou as experiências que temos de
forma determinística, pois estaremos apenas projetando o reflexo momentâneo de
nossa maturidade interior que, provavelmente, pode mudar, em breve, com a
ampliação de nossa visão de como funcionam as leis do universo. A ausência dessa
consciência de equilíbrio nos leva perigosamente a buscarmos nossa realização
pessoal e profissional no excesso de desenvolvimento de um lado em detrimento de
outro. Seria essa uma hipótese para explicar o porque de tantos paradoxos no
mundo atual. É uma humanidade doente, que caminha de forma desgovernada,
invertendo valores, por uma consciência limitada e reducionista, com pouca ou
nenhuma visão do todo que lhe escape a zona de interesse individual.
Mas e o que significa ter excesso de energia yin? E excesso de energia yang?
Basta olhar a seu redor e terá rapidamente essa resposta. Sem nos darmos conta
temos, ainda, uma forte tendência de sempre caminharmos pelos extremos, o que
demonstra nosso desequilíbrio emocional e espiritual em relação a compreensão
das leis que regem a vida. Via de regra é muito comum conhecermos pessoas que
tem comportamentos extremados, seja dotada de um forte lado racional ou de um
forte lado emotivo, seja muito organizado (a) ou muito desorganizado(a). Os
extremos fazem parte da realidade dual. Por isso não é possível compreender um
equilíbrio verdadeiro, em que nossa consciência espiritual e matéria não estejam se
compensando mutuamente em um equilíbrio dinâmico, que jamais cessará!
O norte-americano Ken Wilber, um dos mais espetaculares seres humanos do
século XX, considerado por especialistas de várias áreas da ciência de todo o
mundo como o “Einstein da Consciência” que descreveu um modelo de
compreensão da vida, em uma obra chamada O Espectro da Consciência( 1 ), livro

257
Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) MELO, Ricardo

que escreveu com 23 anos, o que a humanidade demorou centenas de anos para se
elaborar. Wilber montou um esquema reconhecido em todo o mundo que engloba a
forma como o conhecimento humano funciona e como nos comportamentos em
nossa caminhada evolutiva. No modelo Wilberiano tudo é incluído e nada de nossas
experiências de vida é renegado. O que observamos é que cada experiência ou fase
vivida por nós tem seu lugar na lógica evolutiva, o que mais uma vez elimina os
conceitos maniqueístas de certo ou errado! Há um equilíbrio dinâmico entre tudo o
que fazemos ou pensamos. Sempre temos a tendência em nossas ações a
buscarmos a complementaridade energética em nossas vidas. Somos movidos
inconscientemente para buscar o equilíbrio, mesmo que nem nos demos conta
disso!
Quando encontramos alguém muito afetivo, dado a relacionamentos, que
cuida profundamente da intuição e da fé, mas desconsidera a importância do
planejamento, da organização acreditando serem esses sintomas de apego a vida
material, esquecem-se da lei do equilíbrio. Quem, por sua vez, é muito metódico,
excessivamente organizado, pragmático e desconsidera a sensibilidade a o poder da
espontaneidade corre o risco de ver-se prisioneiro de seu próprio excesso. Nos dois
casos observamos a necessidade de complementar a energia dominante com
pensamentos, atitudes e palavras da energia que falta.
Se seguirmos a lógica universal de que tudo que existe no universo tem uma
razão de ser e que há uma força que rege a tudo que tende sempre e buscar o
equilíbrio de tudo que existe, então passaremos a acreditar que as pessoas do
exemplo acima terão vários sinais em sua vida tentando mostrar-lhe a importância
de buscarem seu balanceamento energético, sob pena de experimentarem sempre
uma grande falta em suas vidas! E essa busca do equilíbrio, do balanceamento das
energias yin e yang, sem dúvida alguma, é o desabrochar de uma forma mais
madura de espiritualidade!
Há, na vida, três posições naturais para nos encontrarmos:
1. Excesso de energia Ying e conseqüente carência de energia Yang.
2. Excesso de energia Yang e conseqüente carência de energia Yin.
3. Quantidade adequada de energia Yin e energia Yang em um equilíbrio
dinâmico.

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) MELO, Ricardo

O BALANCEAMENTO DAS ENERGIAS

Como já mencionei, nossa humanidade tem a tendência a estar sempre em


um dos extremos. Essa constatação é válida nas avaliações setorizadas da vida, ou
seja, é possível avaliarmos como estamos caminhando em uma área da existência e
descobrirmos que temos mais equilíbrio ou desequilíbrio que em outra área.
Inclusive é possível que sejamos muito Yang em nossa vida conjugal e muito Yin na
educação dos filhos. Podemos ser muito Yin para as atividades profissionais e muito
Yang para os estudos. Podemos ser Yin em excesso na relação com amigos e muito
Yang no contato com estranhos. O que é importante ressaltar é que não adianta
generalizarmos nossa avaliação energética nos rotulando como muito Yin ou Yang
com base em áreas isoladas da existência. É preciso avaliar a própria vida e nossos
comportamentos de forma setorizada para depois compreendermos o desenho geral
do todo!
Outro conceito importante é entender o que significa o termo excesso de
energia. Ter excesso de uma energia não significa que vamos ter graves problemas
e jamais seremos felizes. Significa que falta o equilíbrio da energia complementar,
com as conseqüentes ausências dos pensamentos, palavras e ações que lhe
servem de sustentação. No entanto, ainda assim muitas pessoas se adaptam a essa
carência da energia complementar e pautam suas vidas nas características da
energia mais abundante.
Para exemplificar, podemos citar o caso de alguém com grande
desenvolvimento de energia Yin, que seja profundamente afetivo, emotivo, sensível,
sempre preocupado com o que os outros irão pensar a seu respeito, alguém com
certa dificuldade em expor o que pensa com receio de ferir os outros. Uma pessoa
assim terá provavelmente bons relacionamentos, será querida por muitos e, inclusive
pode ser razoavelmente feliz, sem dúvida alguma. No entanto terá grande
propensão a adoecer em virtude dos “sapos engolidos” e não digeridos, afinal terá
dificuldades em abrir o coração para se expressar, verdadeiramente. Provavelmente
terá momentos de insegurança constante com receio de não ser aceito ou agradar
pessoas a sua volta. Em casos mais extremos poderá ser uma pessoa muito
melindrosa, tendo grande dificuldade para lidar com críticas ou opiniões contrárias

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) MELO, Ricardo

as suas. Resumo da ópera: terá muitos momentos de alegria e outros tantos de


tormento!
No extremo oposto podemos identificar um ser com grande nível de energia
Yang. Uma pessoa muito organizada, que tem procedimentos para lidar com todas
as situações que lhe rodeiam. Alguém com facilidade de expor sua opinião, sem se
preocupar muito com a opinião alheia. Temos um indivíduo com grande poder de
persistência no que acredita, nos seus raciocínios, na lógica que domina sua vida!
Sem dúvida, virtudes admiráveis que poderão conduzir esse indivíduo a grandes
conquistas e muitos prazeres! No entanto, teremos aqui grande propensão a
encontrarmos uma pessoa isolada do mundo, com poucos amigos e muitas
inimizades, com uma pressão interna muito forte pela necessidade de ter controle
sobre si e sobre os acontecimentos do mundo. Há ainda a forte cobrança pelo
perfeccionismo e a grande decepção com quem não observa a vida com o rigor com
que dá atenção aos detalhes. Da mesma forma de que quem tem excesso de
energia Yin, podemos encontrar aqui alguém com forte possibilidade de adoecer! Em
ambos os casos podemos perceber a necessidade de temperarmos nosso estado de
abundância energética atual com a energia complementar!

O DESEQUILÍBRIO NO MUNDO ATUAL

Ao compreendermos um pouco mais esse processo dual e nossa contínua


busca por harmonia, fica mais fácil compreender o porquê de tantas angústias
vivenciadas em nosso cotidiano. Quando nos distanciamos esse balanceamento
saudável nossas escolhas tendem a se tornar muito individualistas. Perdemos a
visão do todo, pois nossa consciência limita-se ao que, à priori, possa sanar nossas
necessidades aparentes. Daí corremos o risco de agirmos com uma visão limitada
da vida, dando vazão a instintos primários que tendem a satisfazer a sensação de
falta que experimentamos custe o que custar, ainda que seja em mais alta escala
nossa infelicidade ou mesmo danos a própria humanidade.
Temos aqui importante escolha: nos entregar a esse excesso de energia em
determinada área ou procuramos o balanceamento saudável que nos torne seres
humanos melhores, expandindo nossa consciência em relação a nosso papel no
mundo!

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) MELO, Ricardo

O PODER DA CONSCIÊNCIA EXPANDIDA: PRIMEIROS PASSOS!

Para expandir nossa consciência a fim de termos uma visão renovada de


nosso papel no mundo, equilibrando nossa busca por êxito na vida profissional sem
perder de vista a qualidade de vida, trazemos abaixo algumas sugestões:

A – Veja um significado especial em tudo que fizer: Há algumas pessoas


que quando são perguntadas sobre sua profissão preferem responder
baixinho, com vergonha do que fazem, ao passo que outras estufam o peito e
dizem aos quatro ventos o que fazem no dia a dia. Tanto em um caso como
em outro precisamos espiritualizar o significado que damos a nossa profissão.
Quando agimos assim nos sentimos muito mais que uma simples função. Nos
sentimos parte integrante de um todo universal podendo fazer a diferença
naquele momento com nossos esforços. Dentro dessa visão o varredor de rua
passa a ser um profissional responsável pelas condições básicas de higiene
para que a vida aconteça. Os professores se todas as áreas deixam de ser
meros passadores de informação e passam se transformar em semeadores
de almas, conscientes de seu poder de semear e fazer perpetuar
indefinidamente sua influência por tantos que cruzarão os caminhos de seus
alunos. Os engenheiros deixam apenas de construir empreendimentos para
sentirem-se sendo responsáveis por fazer do mundo um local para melhor
para se viver com suas edificações! O mesmo se dá com qualquer profissão.
Comece inspirando fundo, agradecendo a oportunidade que tens, atualmente,
e se perguntando: qual a melhor visão espiritualizante de minha profissão?

B – Pense: Como posso fazer a diferença para melhor? Não importa o que
façamos. Sempre podemos fazer algo para o gasto ou fazer com o coração,
dando nosso melhor, nos realizando no que fazemos! Quem é cozinheiro
pode simplesmente fazer a comida de forma automática, sem muito
sentimento ou sentir-se responsável por ajudar na alimentação das pessoas e
materializar esse novo sentimento cozinhando com mais carinho e
caprichando por ter essa oportunidade. O médico pode simplesmente atender
pacientes ou sentir-se responsável por interferir positivamente na vida das

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) MELO, Ricardo

pessoas, dando-lhes mais que simples informações técnicas e indicação de


remédios: Pode lhes oferecer carinho, compreendo a fragilidade no qual se
encontram quando o procura. Um telefonista pode simplesmente anotar
recados e repetir informações ou sentir-se responsável por despertar no
cliente potencial o desejo de ir além do primeiro contato telefônico e assim
também ajudar a empresa da qual faz parte a crescer. O interessante é que
quem cultiva esse hábito de sempre fazer o melhor, não o faz esperando
reconhecimento externo e por isso se realiza. Quem assim age sempre afirma
que experimenta uma sensação de paz e entusiasmo, para fazer o melhor
pelo prazer de fazer o melhor sem depender de elogios. Todos que agem
assim sentem-se mais realizados em suas funções e são muito mais
preciosos para seus empregadores. Jamais faça nada para o gasto ou
acabará se transformando em um ser humano para o gasto.

C – Seja ético e procure pautar-se em seus valores. Poucas coisas dão


tanto prazer a um ser humano que se sentir íntegro com seus valores. A
sensação de ser coerente com os postulados que adotamos para reger nossa
vida é sempre muito proveitosa. Tanto é real essa importância que muitos
psicólogos e médicos afirmam que a falta de alinhamento de uma pessoa com
seus valores em seu trabalho e, consequentemente em sua vida pode causar
grandes enfermidades psicológicas e físicas, somatizando a insatisfação de
ter que falar ou fazer coisas com as quais não concorda. Espiritualizar o
trabalho é buscar ser coerente com valores universais como respeito aos
outros, sempre. Por isso evite atitudes autoritárias, destratando as pessoas.
Evite dar vazão a posturas de falsidade atuando em favor apenas de quem
possa lhe beneficiar. Não custa lembrar que quanticamente quem age assim
está atraindo do campo quântico energias correspondentes, nesse caso muito
negativas! Algumas pessoas podem sustentar que se não abrir mão de alguns
de seus valores em seu trabalho, acabará sendo despedido(a), em virtude da
política adotada por certos locais. E afirmam que precisam sustentar suas
famílias. Naturalmente não estamos aqui desejando moralizar o mundo, nem
afirmar o que é certo ou errado. Apenas cada um de nós, que vive sua própria
realidade sabe o preço que pode custar cada escolha que é feita. Mas

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) MELO, Ricardo

precisamos sempre ter cuidado para que as justificativas que utilizamos para
explicar alguns comportamentos que temos não encubram nossas fraquezas
éticas e dêem guarita a atitudes nocivas, afetando nossa dignidade e
prejudicando nosso desempenho em todas as áreas da vida, inclusive no
trabalho.

D – Agradeça sempre. Faça da gratidão seu hábito mais poderoso! Já


dissemos três vezes até aqui que nem sempre podemos ter tudo o que
queremos. No entanto sempre podemos agradecer pela aprendizagem que
cada experiência nos proporciona. A gratidão é considerada pelo Dr. Martin
Selingman da Universidade da Pensilvânia em seu vasto trabalho acadêmico
uma das mais importantes atitudes psicológicas em benefício próprio que
podemos cultivar. Quando tornamos a gratidão uma atitude espontânea, nos
sentimos melhores, mesmo quando as coisas não vão bem, ao contrário de
quando damos abrigo ao sentimento revolta ou algo parecido! Ser grato não
significa ser acomodado, como se baixássemos a cabeça para algumas
dificuldades. Ser grato significa entender a sabedoria da não resistência,
premissa tão difundia por Mestres espirituais como Jesus, Buda, Lao Tsé,
dentre outros. Quando aprendemos a ser gratos, inclusive pelo que nos
prejudica estamos barrando a energia destruidora da mágoa ou da raiva que
apenas nos afasta da paz e da felicidade que buscamos na vida! Pense bem:
se um problema não pode ser resolvido com serenidade ele será com
agressividade? Agradeçamos sempre. Eis um dos mais importantes hábitos
espiritualizantes que dispomos! Levar essa postura para os locais de trabalho
é contribuir de forma efetiva para que estejamos mais imunes das oscilações
típicas de nossa atividade remunerada. Muitas discussões ocorrem nesses
ambientes devido a corações rancorosos que vão cultivando o hábito de
guardar mágoas, fazer fofocas e de sempre se sentirem perseguidos, mas
pouco fazendo para mudar, primeiro em si, os comportamentos que deseja
ver refletido nos outros. Por isso a gratidão imuniza. O dono de um coração e
uma mente grata é sempre mais paciente e mais sábio. Consegue, com certa
habilidade contornar instantes que gerariam discussões infrutíferas. Tem
maior capacidade para ouvir os outros sem julgar e sempre tirar as

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) MELO, Ricardo

aprendizagens que cada situação oferece. Outra enorme vantagem de


cultivarmos a gratidão é que quando algumas coisas não dão certo no
trabalho e nem por isso nos entregamos a revolta, protegemos nossa mente e
nossa saúde contra os danos da cólera que somente faz mal! É ou não é uma
atitude poderosa para espiritualizarmos nossas atitudes profissionais? Talvez
você pudesse listar em seu trabalho situações que gostaria de trabalhar a
gratidão. Que tal fazê-lo agora?

E – Sempre busque encontrar a perspectiva mais fortalecedora! Existir é


fazer escolhas a todo o momento e cada escolha é a materialização de uma
possibilidade de viver uma realidade. Quando optamos viver uma situação de
uma forma, deixamos de vivenciar a mesma realidade dentro de outras
perspectivas. Aliás, mais uma vez, os postulados quânticos sempre nos
remontam ao poder da perspectiva. Devemos continuamente nos questionar
em qualquer circunstância: qual a melhor perspectiva para eu encarar essa
situação? Que perspectiva me fortalece mais para passar por essa
experiência? Ao buscarmos sempre as melhores formas de encarar nossas
experiências estamos espiritualizando essa experiência. Ao invés de
deixarmos que perspectivas enfraquecedoras tomem conta de nossa mente,
podemos reverter o processo e algo que parecia nos trazer dor, em nova
perspectiva, pode nos beneficiar.
Para ilustrar: há alguns anos tive uma aluna que iria participar de um
de meus cursos sobre projetos de vida! Ela deveria ter mais ou menos
cinqüenta anos. Durante a apresentação, cada participante contava
rapidamente sua história e o porquê de estar naquele curso. Ele, para a
surpresa geral ela narrou que há menos de seis meses tinha perdido em um
acidente automobilístico o marido, a filha única e a irmão que era como se
fosse uma mãe para ela. Pelo que nos contou ela estava no carro e
milagrosamente nada lhe aconteceu. Disse então que estava no curso porque
desejava se preparar para o futuro dadas as atuais circunstâncias. Enquanto
ela falava, eu e os outros alunos olhávamos para aquela mulher cheia de
dignidade que busca reconstruir sua vida e nos enchíamos de compaixão.
Então lhe perguntei sobre como estava sendo para ela lidar com tantas

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) MELO, Ricardo

perdas, ao mesmo tempo. Jamais vou esquecer sua resposta. Curiosamente


nunca mais a vi depois disso, mas ela e suas sábias palavras estarão
registradas em minha memória para sempre: “Não posso reclamar. Fui uma
privilegiada. Tive o melhor marido que uma mulher pode desejar. Quando
minha mãe morreu Deus deixou um anjo que cuidou de mim durante muitos
anos. E pude conviver por dezesseis anos com uma moça maravilhosa que
nasceu do meu ventre. A saudade é gigante e o buraco no meio peito
também, mas minha gratidão a Deus é bem maior! Não merecia tanto!”. O que
dizer perante uma declaração dessas? Fiquei atônito junto com as outras
pessoas e nunca mais me esqueci do que o poder da perspectiva pode fazer
em nossas vidas!
Jamais se entregue quando se sentir abatido(a). É provável que a
perspectiva atual esteja lhe conduzindo a esse estado de espírito.
Experimente observar essa experiência por outros ângulos, sem pré-
conceitos. Permita-se conhecer novas possibilidades! O que seria do mundo
dos negócios se não fossem termos profissionais que adotam essa forma de
viver? Com certeza teríamos bem menos empresas e indústrias empregando
pessoas, pois muitos teriam desistido diante da primeira perspectiva negativa.
O mesmo se dá com profissionais liberais e pessoas que atuam em outras
áreas. Sempre há outras perspectivas. Lembremos no postulado quântico. O
mundo quântico é o mundo das possibilidades. Quando escolhemos um
caminho abrimos mão se seguirmos por outros, mas nada impede , se
desejarmos, que possamos trilhar as outras estradas.

F - Cultive seu jardim. As borboletas virão até você! Esse é um dos


princípios espiritualizantes que mais acho fantástico. De certa forma já o
mencionei quando falamos sobre sincronicidade no capítulo seis.
Profissionalmente, assim como na vida, vivemos em busca de sucesso e, de
preferência de realização. O problema é que às vezes saímos correndo atrás
de nossos objetivos como alguém que tenta capturar uma borboleta,
enquanto ela voa para mais longe. Já notou como há instantes que por mais
que nos esforcemos os negócios não dão certo? As reuniões dão erradas, o
cliente desmarca em cima da hora, a venda que era certa não acontece,

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) MELO, Ricardo

enfim, até parece que há alguma energia que está barrando nosso êxito. E se
realmente houver essa energia? Lembre-se que não vemos o vento, mas
sentimos seus efeitos. Podemos não ver essa energia, mas sermos
impactados por sua presença! A proposta de construir um jardim e atrair as
borboletas não é nova. Não raro cultivamos pensamentos ou atitudes que são
contrárias à energia de prosperidade. Lutamos todos os dias correndo em
busca de nossas metas sem pararmos para pensar se estamos realmente
preparados para alcançá-las.
Assim, nossas metas parecem correr de nós e irem em direção a quem
está mais preparado. Recordo-me da parábola dos talentos descrita na Bíblia
( Mt 25;25) em que Jesus diz que a quem mais tem, mais ainda lhe será dado
e aquele que pouco possui o pouco que ainda tem lhe será retirado. Em
outras palavras: Se não educamos nossa forma de ser as borboletas que
mais desejamos correrão de nós! Quanto mais as perseguirmos, mais elas
voarão para longe! Mas, ao parar e reeducar o que porventura esteja
equivocado em nossa forma de pensar ou em nossa maneira de agir é como
se começássemos a cultivar um lindo jardim, repleto de belas flores com um
perfume capaz de atraí-las.
Aí, o impensado acontece. Não fazemos tanto esforço, mas os
negócios vêm até nós. São ligações inesperadas, convites interessantes que,
não raro fizemos um esforço imenso para conseguir mas nada acontecia. E, a
partir do momento que deixamos de ir atrás deles, eles misteriosamente vem
até nós! Mas essa realidade apenas ocorre com quem está preparado em
todas as dimensões para alcançar seus objetivos. É uma grande força de
atração que passa a nos acompanhar. Conheço muitos exemplos que dão
credibilidade a essa importante dica. Eu mesmo já me beneficiei muito dessa
força misteriosa que independente do nome, sem sombra de dúvida existe e,
assim como o vento, não pode ser ignorada! Portanto, cuide de sua forma de
pensar e procure agir alinhado(a) com seus valores, ainda que isso signifique
ter que abrir mão de algumas oportunidades. Não tema, pois quem está
vivendo no fluxo do TAO faz com o que o campo quântico, que é infinito em
possibilidades, nos traga exatamente o que estamos precisando e fazendo
por merecer!

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) MELO, Ricardo

Tenho uma amiga muito especial a quem devo muito carinho pelos
ensinamentos que tenho recebido. Ela é dona de algumas pousadas na
cidade de Ouro Branco, em Minas Gerais. Suas pousadas acabaram se
tornando para mim um berço inspirador para que eu escreva livros. Todos os
originais das obras que entrego as editoras tem sido escritos nesses lindos
locais. Dessa maneira, temos convivido muito e tido o prazer de conhecer sua
história. Seu passado é encantador e ilustra bem o principio espiritualizante
do jardim florido! Aliás, Ouro Branco é uma cidade maravilhosa, que fica ao
pé de uma belíssima serra, um verdadeiro poema de amor da natureza pelos
seres humanos!
Quando a conheci há alguns anos, estava iniciando uma nova fase de
sua vida. Recém separada, iniciava uma transição também nos negócios,
passando atuar no ramo de hospedagem. Por “coincidência”, quando foi
buscar um refúgio para escrever meu primeiro livro acabei conhecendo-a em
sua primeira pousada. Foi amor à primeira vista! Um lugar maravilhoso e uma
pessoa maravilhosa. Nos tornamos grande amigos e ela acabou sendo
madrinha de meu casamento.
Com muitas experiências vivenciadas em sua trajetória, contou-me
como chegara até ali e como tudo começou a mudar. Falou-me de como sua
vida era antes e depois de modificar sua forma de pensar. Tudo mudou após
a renovação íntima que começou a fazer e quando começou a colocar seus
pensamentos e crenças para trabalhar em seu favor. De uma hora para outra,
após algumas mudanças interiores, começou a ver oportunidades surgirem
uma a uma. Negócios cada vez mais promissores. Nada surpreendente para
quem já tivesse uma rede montada há muito tempo, mas muito estimulante
para quem acabava de começar em um novo ramo. E é incrível! Tenho
acompanhado de perto seu crescimento e as histórias. Quase sempre nossas
conversas giram em torno da oportunidade de florirmos nosso jardim que as
borboletas virão até nós! Embora possa parecer abstrato para quem tem uma
mente muito concreta, essa é uma realidade poderosa! Casos como o dela,
como do Sr. Joseph Jaworski, autor do livro Sincronicidade que falamos no
capítulo cinco ilustram com perfeição o poder do jardim florido. O que está

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) MELO, Ricardo

esperando? Há lindas borboletas perdidas em busca de um jardim como o


seu!

G – Viva hoje os resultados que tanto espera! Esse é um dos


mandamentos mais difundidos entre os estudiosos da espiritualidade.
Aprender a antecipar na mente os resultados que esperamos alcançar
quando nos lançamos em busca de um objetivo. Assim, se vamos viajar para
visitar um amigo, dias antes já devemos nos permitir antecipar o bem estar
que essa visita fará. Se nos lançamos em algum empreendimento novo nos
negócios, nos envolvemos em novos projetos ou precisamos bater algumas
metas em nossa área devemos visualizar a imagem do êxito e da realização,
antes delas acontecerem. A lógica aqui é inversa do que acredita o senso
comum. Precisamos nos motivar para realizar e não realizar para depois nos
motivar! E, nos instantes de adversidades, ter essa sensação do que a
conquista nos trará é essencial para não fraquejarmos no meio do caminho.
Muitas vezes nossa razão tenta nos dissuadir de continuar lutando pelo alvo
que começamos buscar e somente a mente repleta da sensação viva do que
representará para nós essa conquista é que nos protegerá muitas vezes do
excesso de prudência de nossa razão. Se é certo que não devemos ser
inconseqüentes correndo riscos irresponsáveis é mais certo ainda que não
temos o direito de matar uma idéia que nos dá força interior, que faz nossos
olhos brilharem mais intensamente! Viver hoje o fruto dos resultados que
tanto almejamos é se permitir antecipar o recebimento de créditos que apenas
lá na frente, em algum tempo no futuro, iríamos receber. Talvez você se
pergunte: “Mas e se o que tanto desejei e já comemorei não der certo”? Bem,
aí você pelo menos já se divertiu bastante!

CONCLUSÃO

De tudo o que foi apresentado podemos concluir que não apenas cada um de
nós, mas a humanidade como um todo precisa aprender a equilibrar suas energias
Yin e Yang; Precisamos acompanhar a evolução da tecnologia, das ciências, sem
perder de vista a perspectiva humanizadora no trato do cotidiano. Aliar razão e

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) MELO, Ricardo

emoção, produtividade e sensibilidade, vida pessoal e carreira, matéria e espírito,


“ter” e “ser”. Construir relações balanceadas que nos predisponham a vivenciar uma
experiência humana repleta de significado, com profundidade e plena de alegria e
realizações.
Não confundirmos o que é “meio” com o que é um “fim em si mesmo” talvez
seja um dos maiores desafios a superar na conquista da almejada harmonia.
Lembrando o inesquecível autor do livro O pequeno Príncipe ( 2 ), Saint Exupéri:
“.....O essencial é invisível aos olhos, somente pode-se ver bem com o coração!”

REFERÊNCIAS

EXUPÉRY- Saint. O pequeno Príncipe. 10. ed. Rio de Janeiro: Ediouro, 2002.

WILBER, Ken. O espectro da Consciência. 3. ed. São Paulo: Cultrix, 2001.

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) MELO, Ricardo

LIVRO: DIMENSÕES DA CONSCIÊNCIA

ORELHA DIREITA

Francisco Di Biase, organizador deste livro, é neurocirurgião, neurocientista,


pesquisador da consciência e escritor, com especialização e pós-graduação nos
serviços do Dr. Paulo Niemeyer e PUC-RJ. Único Grand PhD da América do Sul,
título concedido pela Academie Europeènne D’Informatization e World Information
Distributed University da Bélgica. Primeiro brasileiro laureado com a Medalha de
Ciência e Paz Albert Schweitzer. Professor Honorário da Albert Schweitzer
International University da Suíça e terapeuta do Colégio Internacional dos
Terapeutas. Membro da New York Academy of Sciences. Dirige o Centro de Imagem
Computadorizada -CICOM na Santa Casa, e dedica-se à clinica privada na Clínica
Di Biase, em Barra do Piraí, Rio de Janeiro. Professor de Pós-Gradução em
Psicologia Transpessoal e Estudos Holísticos da Consciência, no Centro
Universitário Geraldo Di Biase - UGB/FERP, em Volta Redonda, Rio de Janeiro.
Autor do livro O Homem Holístico (Ed. Vozes). Co-autor de outros 07 livros:
Caminhos da Cura, e A Revolução da Consciência, ambos da Ed. Vozes, Ciência
Espiritualidade e Cura, e Caminhos do Sucesso, ambos da Ed. Qualitymark,
todos com o psicólogo transpessoal Mário Sérgio Rocha. Nos Estados Unidos é co-
autor de Science and the Primacy of Consciousness, Noetic Press, USA,
juntamente com Stanislav Grof, Karl Pribram, Ruppert Sheldrake, Henry Stapp,
Richard Amoroso, Amit Goswami, e Fred Alan Wolf, os dois últimos, físicos
quânticos do filme Quem Somos Nós?. Co-autor ainda de Caminhos para a Paz,
editado pela UGB/FERP juntamente com a Albert Schweitzer University, da
Suiça, e de Diálogos Quânticos, com Richard Amoroso, cosmologista, psicólogo, e
pesquisador da consciência, americano. Organizador do livro Dimensões da
Consciência, Uma Visão Transdisciplinar Holística, no prelo, pela Qualitymark.

ORELHA ESQUERDA

Este livro reproduz os trabalhos apresentados pelos autores em forma de


conferências, durante o I Simpósio Nacional sobre Consciência, organizado pela
Fundação OCIDEMNTE e realizado em Salvador-Bahia, em 2006. Em seu conjunto
aborda diferentes visões científico-filosóficas e educacionais sobre o fenômeno da
Consciência, proporcionando uma perspectiva atual, transdisciplinar e holística
acerca dos estudos atuais sobre o cérebro, a mente e a consciência.
O estudo da Consciência, fora banido desde o século XIX do domínio da
ciência, quando Descartes separou o homem de seu espírito, relegando o assunto
às discussões teológicas. Com este seu célebre insight Descartes originou um grave
erro de percepção na civilização ocidental, provocando uma esquizofrenia cultural e

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Dimensões da Consciência DI BIASE, Francisco (Org.) MELO, Ricardo

gerando um paradigma materialista que se infiltrou e se disseminou


progressivamente, em todas as áreas acadêmicas de nossas universidades. Essa
dicotomia cartesiana, reforçada pela grande síntese da física clássica realizada por
Sir Isaac Newton no século XVIII, subjaz ainda hoje na visão de mundo mecanicista
e reducionista predominante em nossa época. Além de dividir o homem em mente e
corpo, este paradigma cartesiano-newtoniano separou também o homem do
universo e de sua fonte espiritual.
Nos anos 90 do século XX, o surgimento de novas tecnologias digitais de
captação de imagem do cérebro humano em tempo real, reviveram o interesse nas
pesquisas científicas da mente. Hoje cientistas estudam o cérebro de monges em
estado de meditação profunda, com modernos sistemas de ressonância magnética
funcional, mapeamento cerebral computadorizado, PET scan e SPECT.
Este novo desenvolvimento nos estudos da consciência levou o filósofo
australiano David Chalmers, a dividir o fenômeno da consciência em hard problem
(prolema difícil), que se refere à qualidade fenomenológica da consciência e easy
problem (problema fácil) que se refere ao substrato neural da consciência.
Neste livro os autores abordam ambos estes aspectos do estudo da
consciência, demonstrando por exemplo, aspectos quânticos e holográficos do
funcionamento do cérebro e da Consciência que mudaram completamente a
abordagem clássica neurocientífica mecanicista cartesiana-newtoniana sobre o
funcionamento da mente.
Um livro atual e transdisciplinar que revela a importância do novo paradigma
que une ciência, filosofia, mitologia artes e espiritualidade, e uma nova visão de
mundo para homens e mulheres deste milênio.

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