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UNIVERSIDADE METODISTA DE SÃO PAULO

FACULDADE DE HUMANIDADES E DIREITO


PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS DA RELIGIÃO

GLAUBER SOUZA ARAUJO

O CAMINHO DA PERFEIÇÃO:
UM ESTUDO DA TEOLOGIA DA SANTIFICAÇÃO EM
JOHN WESLEY E ELLEN G. WHITE

SÃO BERNARDO DO CAMPO – SP


2011
GLAUBER SOUZA ARAUJO

O CAMINHO DA PERFEIÇÃO:
UM ESTUDO DA TEOLOGIA DA SANTIFICAÇÃO EM
JOHN WESLEY E ELLEN G. WHITE

Dissertação de Mestrado apresentada ao


Programa de Pós-Graduação em Ciências da
Religião, como parte das exigências para
obtenção de título de Mestre

Orientação:
Prof. Dr. Claudio de Oliveira Ribeiro

SÃO BERNARDO DO CAMPO – SP


2011
A dissertação de mestrado sob o título “O caminho da perfeição: um estudo da teologia da

santificação em John Wesley e Ellen G. White”, elaborada por Glauber Souza Araujo foi

apresentada e aprovada em 18 de Outubro de 2011, perante banca examinadora composta por

Prof. Dr. Claudio de Oliveira Ribeiro (Presidente/UMESP,), Prof. Dr. Rui de Souza

Josgrilberg (Titular, UMESP), e Prof. Dr. Adolfo S. Suárez (Titular/UNASP).

__________________________________________________________
Prof. Dr. Claudio de Oliveira Ribeiro
Orientador e Presidente da Banca Examinadora

_________________________________________________________
Prof. Dr. Leonildo Silveira Campos
Coordenador do Programa de Pós-Graduação

Programa: Ciências da Religião


Área de Concentração: Linguagens da Religião
Linha de Pesquisa: Teologia das Religiões e Cultura
É em ti que vou buscar fortaleza.
És tu o meu doce e querido alimento.
Se por acaso me abater o temor, a fraqueza
É de teu amor que então me sustento

À minha esposa, Noemi, pela paciência, compreensão, amor e apoio.


AGRADECIMENTOS

À Deus pelas bênçãos e motivação.

À minha família pela companhia, apoio, persistência e ânimo.

Ao Centro Universitário Adventista São Paulo – Campus Engenheiro Coelho (UNASP-EC)


pela confiança e apoio.

Ao Instituto Ecumênico de Pós-Graduação pela confiança e apoio.

Ao meu orientador (Prof. Dr. Claudio de Oliveira Ribeiro) pela amizade, dedicação, e
profissionalismo.

Aos professores do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da UMESP pela


instrução e inspiração.

Ao Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião e à Universidade Metodista de São


Paulo (UMESP) pela realização deste projeto.

Aos participantes da banca examinadora (Prof. Dr. Adolfo S. Suárez e Prof. Dr. Rui de Souza
Josgrilberg) pelas relevantes considerações.
ARAUJO, Glauber S. O Caminho da Perfeição: Um estudo da teologia da santificação em
John Wesley e Ellen G. White. Dissertação de Mestrado, Programa de Pós-Graduação em
Ciências da Religião. São Bernardo do Campo: Universidade Metodista de São Paulo, 2011.

RESUMO

Este trabalho consiste em um estudo comparativo entre os escritos de John Wesley


(1703-1791) e Ellen G. White (1827-1915) procurando definir os conceitos de santificação de
cada autor. São descritos os fatores que levaram a elaboração desta percepção tanto em John
Wesley como em Ellen G. White e verificadas as congruências entre os autores estudados
como o conceito de amadurecimento contínuo, a negação de impecabilidade, a necessidade de
dependência constante em Deus e obediência à Sua lei entre outros. São verificadas também
as divergências entre ambos os autores, como os conceitos wesleyanos de santificação
instantânea, a segunda obra da graça, e os conceitos whiteanos de perfeição de caráter e
esferas de perfeição. Neste trabalho, também são destacadas algumas contribuições e
implicações para a teologia na atualidade como os conceitos da finitude humana, o pecado e a
natureza humana, a práxis e suas motivações religiosas e a colaboração divino/humana no
desenvolvimento.

PALAVRAS CHAVE: Santificação, Perfeição Cristã, John Wesley, Ellen G. White.


ARAUJO, Glauber S. The Way of Perfection: A Study of the Theology of Sanctification in
John Wesley and Ellen G. White. Master’s Thesis, Postgraduate Program in Sciences of
Religion. São Bernardo do Campo: Methodist University of São Paulo, 2011.

ABSTRACT

This work consists in a comparative study of the writings of John Wesley (1703-1791)
and Ellen G. White (1827-1915) seeking to define the concept of sanctification in each author.
A description may be found of the factors that led to the elaboration of Wesley’s and White’s
perception. Similarities between both authors are verified, such as continuous growth,
negation of sinlessness, the need for constant dependency in God and obedience to His law.
Differences between both authors are also studied, such as Wesley’s concepts of
instantaneous sanctification, the second work of grace, and White’s concepts of character
perfection and spheres of perfection. This work also discusses contributions and implications
that may be presented to the theological debate in today’s theology, such as human finiteness,
sin and human nature, religious motivations for praxis and divine/human collaboration for
development.

KEYWORDS: Sanctification, Christian Perfection, John Wesley, Ellen G. White.


SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ...................................................................................................................... 01

CAPÍTULO 1
VIDA E TEOLOGIA DA SANTIFICAÇÃO EM JOHN WESLEY .................................. 04
INTRODUÇÃO ........................................................................................................................ 04
1. ASPECTOS BIOGRÁFICOS CONCERNENTES AO TEMA DA SANTIFICAÇÃO ....... 04
1.1 John Wesley e a Inglaterra do Séc. XVIII .......................................................................... 05
1.2 O pensamento wesleyano durante o surgimento do metodismo (1725-1739).................... 08
1.3 O pensamento wesleyano durante o reavivamento metodista (1739-1744) ....................... 15
1.4 A consolidação do pensamento wesleyano (1744-1758) .................................................... 18
1.5 Amadurecimento do pensamento de Wesley (1758-1791) ................................................. 20
2. ASPECTOS DA TEOLOGIA WESLEYANA DA SANTIFICAÇÃO ................................. 23
2.1 Natureza do ser humano e pecado ...................................................................................... 23
2.2 Expiação ............................................................................................................................. 26
2.3 Justificação ......................................................................................................................... 27
2.4 Obediência .......................................................................................................................... 29
2.5 Perfeição Cristã ................................................................................................................. 31
2.6 A santificação em síntese .................................................................................................... 32
CONCLUSÃO .......................................................................................................................... 35

CAPÍTULO 2
VIDA E TEOLOGIA DA SANTIFICAÇÃO EM ELLEN G. WHITE .............................. 37
INTRODUÇÃO ........................................................................................................................ 37
1 ASPECTOS BIOGRÁFICOS CONCERNENTES AO TEMA ............................................ 37
1.1 Ellen White e os Estados Unidos do Séc. XIX ................................................................... 38
1.2 O pensamento whiteano durante o movimento millerita (1840 – 1844) ............................ 44
1.3 O pensamento whiteano durante o desenvolvimento doutrinário
adventista (1844-1848) ............................................................................................................ 47
1.4 Ellen White durante o desenvolvimento organizacional adventista (1848-1888) .............. 50
1.5 Maturidade e expansão do pensamento whiteano (1888-1915) ......................................... 53
2 ASPECTOS DA TEOLOGIA WHITEANA DA SANTIFICAÇÃO ..................................... 56
2.1 Natureza do homem e pecado............................................................................................. 56
2.2 Expiação ............................................................................................................................. 58
2.3 Justificação ......................................................................................................................... 59
2.4 Obediência .......................................................................................................................... 60
2.5 Perfeição Cristã ................................................................................................................. 61
2.6 Santificação em síntese....................................................................................................... 64
CONCLUSÃO .......................................................................................................................... 65

CAPÍTULO 3
JOHN WESLEY E ELLEN G. WHITE: TEOLOGIAS EM DISCUSSÃO ...................... 67
INTRODUÇÃO ........................................................................................................................ 67
1 APROXIMAÇÕES ................................................................................................................ 68
1.1 Amadurecimento contínuo ................................................................................................. 68
1.2 Santificação individual e social .......................................................................................... 69
1.3 Negação da impecabilidade ................................................................................................ 69
1.4 Possibilidade de “cair da graça” ........................................................................................ 70
1.5 Sinergia divino/humana ...................................................................................................... 70
1.6 Santificação como obediência a Deus ................................................................................ 71
1.7 Santificação e o amor ......................................................................................................... 72
1.8 Jesus Cristo – o padrão de perfeição .................................................................................. 72
2 DISTANCIAMENTOS.......................................................................................................... 73
2.1 Motivação para santificação ............................................................................................... 73
2.2 Santificação instantânea ..................................................................................................... 73
2.3 Segunda obra da graça ........................................................................................................ 74
2.4 Libertação da habitação do pecado ..................................................................................... 74
2.5 O lugar da emoção e do entusiasmo na santificação humana............................................. 75
2.6 Perfeição de caráter ............................................................................................................ 76
2.7 Esferas de perfeição ............................................................................................................ 76
3 WESLEY E WHITE HOJE: CONTRIBUIÇÕES PARA A TEOLOGIA NA
ATUALIDADE ........................................................................................................................ 77
3.1 O ser humano e sua finitude ............................................................................................... 77
3.2 O pecado e a natureza humana ........................................................................................... 78
3.3 A relação entre o divino e o humano .................................................................................. 79
3.4 A santificação diviniza? ...................................................................................................... 79
3.5 A necessidade de obediência............................................................................................... 80
3.6 Práxis e suas motivações religiosas .................................................................................... 80
3.7 Amadurecimento para o serviço ......................................................................................... 81
3.8 A colaboração divino/humana no desenvolvimento ........................................................... 82
CONCLUSÃO .......................................................................................................................... 82

CONCLUSÃO......................................................................................................................... 84

BIBLIOGRAFIA .................................................................................................................... 88
INTRODUÇÃO
Santificação tem sido uma preocupação do cristão desde os primórdios da era cristã. O
exemplo de pessoas retratadas na Bíblia e a ordem de Cristo “sede vós perfeitos como perfeito
é o vosso Pai celeste” (Mt. 5:48) gerou preocupação e muita discussão sobre o significado das
palavras perfeição e santificação. O termo “santificação” possui o mesmo sentido que a
palavra em hebraica qadosh e em grego `agios (ELWELL, 1992, p. 969). Em soteriologia,
este termo tem sido utilizado de diversas formas e entendido de diversas maneiras,
provocando até hoje debates acalorados.
Tanto no meio evangélico brasileiro atual como no adventista, no qual me integro, há
discussões relacionadas ao tema da santificação. Por um lado, há aqueles que enfatizam o
tema da justificação em detrimento da santificação. Alguns enfatizam a salvação pela fé sem
as obras, entendendo que o cristão não precisa viver qualquer tipo de moralidade para se
salvar, caindo assim em uma teologia antinominiana. Por outro lado, há aqueles que exaltam a
santificação, o crescimento cristão, a necessidade de obras, esquecendo-se do aspecto gratuito
da salvação. No próprio meio adventista pode-se notar a presença destas tendências
pendulares. Há aqueles que só tratam da justificação e daquilo que Cristo faz “por nós”,
acreditando que qualquer obra seja desnecessária; e há aqueles que valorizam o
comportamento externo do cristão, levando muitos a reproduzir uma santificação considerada
por alguns grupos como artificial, ou até mesmo falsa. As mesmas tensões se dão no meio
metodista. Este estudo se torna importante no sentido de entender o que é a santificação e o
que não é aos olhos de John Wesley (1703-1791) e Ellen G. White (1827-1915), duas grandes
figuras da denominação metodista e adventista respectivamente.
Estas questões levantam os seguintes problemas: Qual seria o resultado de um estudo
comparativo entre John Wesley e Ellen G. White? Como entender o processo de santificação?
A santificação é posicional, instantânea ou é um processo duradouro? Ou talvez algo que
acontece apenas no momento da glorificação? É ela separada da justificação? Atua ela apenas
na dimensão religiosa, ou também no aspecto físico, social e intelectual? Apesar de ambos os
autores terem vivido em tempos e contextos diferentes, como eles retratam a santificação e
seus temas relacionados? Quais são suas contribuições e implicações para a teologia na
atualidade?
Tanto John Wesley como Ellen G. White se interessavam pelo tema da santificação,
procurando baseá-lo na Sola Scriptura, um princípio de interpretação que toma a Bíblia como
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fundamento principal da verdade. Ambos escreveram profusamente, deixando cartas, livros,


sermões e diários. Eles foram líderes dentro de seus respectivos movimentos, viajaram e
pregaram com intensidade, foram amados, rejeitados, criticados, influenciando e marcando
gerações futuras.
Torna-se, portanto, útil para os dias de hoje estudar tais pensamentos, oferecendo as
seguintes hipóteses: 1) existe um conceito definido de santificação em John Wesley e Ellen G.
White, 2) houve fatores que levaram a elaboração desta percepção tanto em John Wesley
como em Ellen G. White, 3) existem congruências e divergências entre John Wesley e Ellen
G. White quanto ao tema da santificação, 4) elementos wesleyanos sobre santificação em
Ellen G. White podem ser encontrados, os quais ela os reconstrói dando enfoques específicos
e particulares, e, 5) de tal estudo, contribuições e implicações para a teologia na atualidade
poderão ser levantados.
Como metodologia, o presente estudo procurará realizar um estudo comparado entre
John Wesley e Ellen G. White procurando obter uma compreensão do conceito de
santificação em ambos os autores, buscando identificar as semelhanças e diferenças
(TERRIN, 2003). Como resultado deste estudo comparativo, oferecemos algumas
contribuições para os atuais debates teológicos. Este trabalho será dividido em três capítulos.
Inicialmente, apresentaremos uma breve biografia de Wesley, considerando o contexto na
qual a Inglaterra se encontrava no século XVIII e, especialmente, os objetivos de nossa
pesquisa. Fatores históricos e movimentos teológicos que existiam na época de Wesley e que
influenciaram a teologia wesleyana serão aqui tratados. Pretende-se também fazer um
levantamento do desenvolvimento teológico de Wesley quanto ao tema da santificação,
abordando temas que estão ligados, como a natureza humana, o pecado, a expiação, a
justificação, a obediência e a perfeição cristã.
No segundo capítulo, o estudo se volverá para Ellen G. White na busca de sua
compreensão do tema da santificação. Aqui, haverá novamente uma revisão história de sua
vida, descrevendo o contexto social, político e religioso dos Estados Unidos do século XIX,
focando em especial fenômenos sociais ou religiosos que contribuíram para a elaboração de
seu pensamento relativo ao tema estudado. Mais uma vez, será feito um levantamento do
desenvolvimento teológico de White e os temas ligados ao assunto em questão serão
abordados (a natureza humana, o pecado, a expiação, a justificação, a obediência e a perfeição
cristã).
3

Por fim, na terceira parte de nosso trabalho, seguindo a contextualização histórica e a


análise do pensamento dos autores em questão, serão comparadas as exposições de Wesley e
White, procurando encontrar a semelhanças (aproximações) e diferenças (distanciamentos)
entre ambos autores. Finalizando o capítulo, serão apresentados temas e conceitos teológicos
em Wesley e White que possam contribuir para as discussões teológicas na atualidade.
Dessa forma, levando em conta o objeto de estudo deste trabalho, a pesquisa será
teórica e se caracterizará por um levantamento bibliográfico. Como John Wesley e Ellen
White não escreveram seus pensamentos de forma sistemática, torna-se difícil listar as obras
que serão utilizadas neste estudo. Seus pensamentos estão espalhados por seus escritos e tais
fontes (sermões, livros, cartas e diários) serão utilizadas. No caso de Wesley, seus escritos
foram reunidos em uma coleção de 26 volumes, intitulado Works of John Wesley. Em
contrapartida, os escritos de White foram publicados em mais de sessenta obras e não foram
reunidos em uma coleção, como no caso de Wesley.
Devido à abrangência do tema de santificação, nosso estudo se limitará à análise do
que ambos autores escreveram sobre o tema. Intérpretes serão consultados, mas apenas
quando contribuírem na elucidação do contexto sócio, econômico, teológico e cultural da
época em que ambos viveram. Poderá ser feita referência a intérpretes quando estes também
ajudarem na compreensão do pensamento sendo analisado. Este trabalho procura analisar os
autores originais, e não a teologia ou movimentos que se sucederam. Este estudo não se
envolverá em uma preocupação apologética com o problema da verdade ou falsidade de
qualquer teoria sobre santificação senão apresentar de forma aprofundada a compreensão que
ambos autores tiveram do tema em questão.
CAPÍTULO I – VIDA E TEOLOGIA DA SANTIFICAÇÃO EM JOHN WESLEY

Introdução
Neste capítulo, procuraremos abordar alguns aspectos da vida de Wesley em conexão
com o tema da santificação. Embora o ministério todo de Wesley estava, de alguma forma,
relacionado ao tema da santificação e da perfeição cristã, procuraremos destacar os momentos
mais significativos para o nosso estudo. Utilizaremos a estrutura proposta por Heitzenrater em
Wesley e o povo chamado metodista, procurando dividir o aspecto histórico de nosso trabalho
em cinco momentos: 1) John Wesley e a Inglaterra do Séc. XVIII, 2) o pensamento wesleyano
durante o surgimento do metodismo (1725-1739), 3) o pensamento wesleyano durante o
reavivamento metodista (1739-1744), 4) a consolidação do pensamento wesleyano (1744-
1758) e, 5) amadurecimento do pensamento de Wesley (1758-1791).
Em seguida, abordaremos os aspectos teológicos do pensamento de Wesley.
Estudando o conceito de santificação em Wesley, procuraremos compreender sua construção
em relação a outros aspectos como 1) a natureza do ser humano e o pecado, 2) expiação, 3)
justificação, 4) obediência, e 5) perfeição Cristã. Finalmente, uma síntese do pensamento
wesleyano sobre a santificação concluirá nosso capítulo.

1. Aspectos biográficos concernentes ao tema da santificação


Existem várias formas de desenvolver uma biografia sobre uma pessoa. No caso de
John Wesley, várias tentativas já foram propostas, na busca de compreender a vida deste
homem que influenciou o cristianismo inglês durante o século XVIII. De um ponto de vista
psicológico, Grace Harrison procurou estudar a vida de John Wesley numa perspectiva
freudiana, enquanto que James W. Fowler procurou enfatizar os estágios do desenvolvimento
de Wesley a partir de uma perspectiva psicossocial. Entre os historiadores, temos Martin
Schmidt, Duncan Reily, Henry Rack, John Turner e Richard Heitzenrater, entre outros – cada
um procurando estudar Wesley através de uma metodologia específica ou oferecer elementos
novos e desconhecidos.
Concernente a teologia de Wesley, um movimento crescente de teólogos tem
procurado entender e sistematizar o pensamento do fundador wesleyano, com menção
especial à sua soteriologia. W. B. Cannon e Franz Hildebrandt trabalharam em John Wesley a
justificação, enquanto que A. S. Yates discutiu a certeza cristã e Harald Lindström
sistematizou o tema da santificação. Muitos teólogos estudaram o pensamento wesleyano a
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luz de um tema central. Cobb e Maddox utilizam o tema da graça responsável, Günter o
“amor divino”, Runyon a “nova criação”, Renders e Josgrilberg a “salvação social”. Para uma
revisão bibliográfica de estudos importantes sobre Wesley, indicamos a lista oferecida por
Maddox no fim de sua obra Responsible Grace.

1.1 John Wesley e a Inglaterra do Séc. XVIII


Durante o século XVIII, o século da ciência e da criação do mundo moderno, muitos
chegaram a elaborar novas teorias para explicar e alimentar as diferentes transformações pelas
quais a sociedade estava passando. O comércio e o novo capitalismo necessitavam de novos
paradigmas para seu próprio desenvolvimento. Os antigos conceitos de comércio, ética e
sociedade não bastavam mais para direcionar as mudanças da época. Novos conceitos e
teorias precisavam ser desenvolvidos.
Em 1723, por exemplo, encontramos a publicação da obra de Bernard Mandeville
intitulada A fábula das abelhas: ou paixões privadas, benefícios públicos, promovendo o
conceito de que para que o comércio e a economia crescessem, os interesses particulares
deveriam tomar conta e governar o ser humano. Mandeville procurou ilustrar esta nova ética,
mostrando que se uma nação quisesse ser virtuosa, seria necessário que as pessoas se
contentassem em ser pobres e endurecidas no trabalho. Se eles quisessem viver na
comodidade, gozar dos prazeres da vida e formar uma nação opulenta, poderosa, florescente e
guerreira, eles deveriam abandonar as qualidades consideradas “virtuosas”. Mandeville
defendia que a virtude privada conduz à ruína da sociedade. Desfrutar os confortos da vida,
ser famoso na guerra e ainda viver comodamente, sem grandes vícios, é uma vã utopia
radicada no cérebro. A fraude, o luxo e o orgulho deveriam existir para que pudessem receber
seus benefícios. Os efeitos destas teorias eram visíveis na sociedade inglesa. Os pobres se
tornavam mais pobres, marginalizados, alienados e desumanizados (LIMA, 2001, p. 189).
Muitos ingleses passaram por sofrimentos e privações devido às mudanças que
estavam ocorrendo em seu país. Muitos tiveram de migrar para as zonas urbanas em busca de
sustento. “O estado precário da medicina, a crueldade ‘classista’ da justiça, a morte e
invalidez causadas pelas guerras e até os imprevistos da agricultura tornaram-se, para muitas
pessoas, uma questão de vida ou morte” (RENDERS, 2010, p. 151). Revoltas e distúrbios
locais explodiam diante da insensibilidade e incapacidade dos lideres da nação para
resolverem os problemas desta nação. Wesley, diante da condição humana descrita acima,
procurou através de sua teologia, encontrar caminhos diferentes para aliviar a aflição humana.
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Sua soteriologia social se torna compreensível diante do contexto no qual viveu. Para ele, “a
visitação dos pobres não é uma desgraça, mas uma fonte de graça, um exercício necessário
para crescer na própria santificação” (Ibid., p. 166). Seu objetivo não era criar uma nova seita
ou denominação, mas um povo que estivesse sintonizado com as necessidades e clamores
daquela nação.
Wesley viveu, portanto, em um momento singular da Inglaterra. Por um lado, o
racionalismo imperava em sua época. O ser humano deveria ser regido e controlado por sua
razão e pela lógica, não pelas emoções e sentimentos. Diante dos ensinos de Wesley, alguns
acreditam que sua teologia seja uma reação ao deísmo e racionalismo da época. Enquanto que
deísmo e racionalismo enfatizavam o natural e o intelectualismo, Wesley e outros grupos
enfatizavam a dimensão mística e a necessidade de uma revelação divina. Ele acreditava que
o ser humano é capaz de “experimentar” a comunhão com Deus. “Sua insistência na
experiência cristã significa que ele não só se conformou como também superou o
Iluminismo” (LINDSTRÖM, 1956, p. 2). Esta era uma forma de ver a religião à luz da
experiência. Sua “divindade prática é o recurso gracioso por meio do qual as pessoas ‘podem
testar as verdades da Escritura por si mesmas’” (COLLINS, 2010, p. 16).
Um exemplo disto vem de 1766, quando Wesley, comentando sobre o padrão de
perfeição estabelecido por seu irmão Carlos, afirma que seu conceito de perfeição, é
confirmado pela experiência e testemunho de muitos. “Esta perfeição que creio, posso pregá-
la poderosamente, pois vejo quinhentas testemunhas dela” (TELFORD, 1931, p. 5:20). O
aspecto experimental da religião possuía valor e relevância. A autoridade última é a Escritura,
sendo esta “verificada” pela experiência. Wesley define seu cristianismo experimental como a
união do conhecimento “bíblico e racional e a concordância prática com essa momentosa
verdade” (WESLEY, 1986, p. 5:124). Nesta linha de pensamento, Dieter acredita que
a convicção de que o verdadeiro cristianismo bíblico encontra a mais alta
expressão e o teste decisivo de autenticidade na experiência prática e ética
do indivíduo cristão e da igreja e, apenas de forma secundária, nas definições
e proposições doutrinárias (2006, p. 13).

Em sua época ainda imperava certo sentimento anti-católico resultante da perseguição


promovida pela rainha católica Maria e alimentado pela igreja anglicana e por literaturas anti-
católicas, como O livro dos mártires de John Foxe (HEITZENRATER, 2006, p. 7). O
surgimento do Deísmo e do abandono da fé levaram muitos a entender estas como sendo as
causas do “decréscimo dos valores morais tradicionais na sociedade”. Como reação, surge na
Inglaterra um movimento “contra a letargia espiritual e a lassidão moral”, provocando um
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reavivamento cuja ênfase era “a piedade e uma vida santa entre pequenos grupos de cristãos”.
Devido às semelhanças entre este movimento e outro paralelo que estava ocorrendo na
Alemanha, ambos receberam o nome de “Pietismo” (Ibid., p. 19). Enquanto que o Pietismo
alemão procurava “renovar” a Igreja Luterana, o movimento inglês se preocupava com a
Igreja Anglicana.
Além destes, havia os puritanos (calvinistas), que buscavam a promoção da piedade
individual. Eles não estimulavam as obras de piedade com o propósito de salvação, mas para
obter o reconhecimento de seu status de “eleito” pela sociedade. Esta seria uma resposta
humana à graça irresistível de Deus. Estes rejeitavam os pietistas (arminianos) com sua
teologia “neonomianistas” (novo legalismo) e acusavam a sua proposta arminiana do livre
arbítrio de dar “muita ênfase à necessidade de obediência à lei de Deus”, sendo assim um tipo
de justificação pelas obras (Ibid., p. 18).
Os pietistas (arminianos), de seu lado, não alegavam valor meritório em suas obras.
Porém, eles destacavam a capacidade humana de receber a salvação como graça de Deus,
defendendo uma sinergia divino/humana. Os pietistas também acusavam os puritanos de
“antinominianos” (anti-legalistas), entendendo a proposta calvinista da predestinação e
eleição como “uma dispensa da obrigação da obediência [...] e conseqüentemente à lassidão
moral” (Ibid., p. 18).
O movimento pietista se desenvolveu na Inglaterra como também pelo continente,
procurando reformar a Igreja e promovendo a vida santa. Os pietistas ingleses “viam o
aumento da imoralidade e da irreligiosidade como uma crise que deveria ser enfrentada como
o rejuvenescimento da vida religiosa dentro da Igreja” (Ibid., p. 21). Sociedades religiosas
começaram a surgir pelo país, formadas por pequenos grupos de leigos que, ainda ligados à
Igreja, procuravam promover a “real santidade no coração e na vida”.
As sociedades religiosas atacaram o problema da imoralidade numa base
pessoal e individualista. Os seus membros não tinham um programa social
para reformar a Inglaterra de um só golpe. A intenção, pelo contrario, era
trabalhar para a transformação da sociedade mudando uma pessoa de cada
vez (Ibid., p. 21).

Eles procuravam trabalhar com todos, mas em especial com os pobres. Eles
estimulavam as causas de caridade, ajudando regularmente conforme as suas possibilidades.
Eles procuravam, além de doar dinheiro, alimentar os famintos e visitar os doentes e
prisioneiros. Tinham interesse em instruir e ensinar os analfabetos, ensinar diversos trabalhos,
esperando assim promover a melhora do país e das futuras gerações. Através de tais métodos,
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a população tinha oportunidades de crescer, não apenas socialmente, mas moralmente


também.
Nesta época, muitos que não se conformavam (não-conformistas) com os Trinta e
Nove Artigos oficiais da Igreja Anglicana, conseguiam proteção debaixo do Ato de
Tolerância (1689), podendo assim expressar sua religiosidade, mas de forma limitada.
Enquanto que tal Ato “tolerava” a existência de dissidentes, ela diminuía sua liberdade
política e religiosa, retirando-lhes o direito de se matricular em universidades, obter cargos
públicos ou votar em eleições (Ibid., p. 16-17).

1.2 O pensamento wesleyano durante o surgimento do metodismo (1725-1739)


Estudar a história do metodismo é estudar a história de John Wesley, o inverso
também é verdadeiro. Como o próprio Wesley afirmara em 1777, estudar a história do
metodismo é estudar a história de sua própria busca da santidade (Ibid., p. 271). John Wesley
(1703-1791) nasceu em uma família anglicana e em 1720 ingressou na Universidade de
Oxford, sendo ordenado oito anos depois. Ele se tornou o líder do “Clube Santo”, um grupo
de rapazes que logo foram chamados pejorativamente de “metodistas”, devido ao seu estilo de
“estudo bíblico metódico, seus hábitos de oração e suas iniciativas freqüentes de ação social”
(STONE, 2001, p. 329). Este exemplo foi seguido por muitos, levando-os a serem
considerados muitas vezes como “extremistas” ou mesmo “fanáticos”. A preocupação deles
estava voltada para o crescimento espiritual do indivíduo e não para o crescimento numérico.
“A proposta deles estava mais dirigida para a qualidade do que para quantidade, e estava
fundamentada mais no processo da educação do que na conversão” (HEITZENRATER, p.
21).
Em 1724, Wesley já havia terminado seu bacharelado em Teologia na Christ Church e
planejava continuar estudando até ser ordenado. Em 1725, seus estudos começaram a se
direcionar aos pietistas e sua ênfase no viver santo. É a partir deste ano que podemos obter
maiores evidências quanto ao envolvimento de Wesley com a teologia da santificação. Foi
nesta época em que Wesley passou a ler as obras de Thomas à Kempis, em especial A
imitação de Cristo e O padrão cristão que já tinham se tornado clássicos do século XVIII
(COLLINS, 2003, p. 31). Tratando-se desta leitura, Wesley nos deixa seus pensamentos:

A natureza e extensão da religião interna, a religião do coração me parecia


sob uma luz mais forte do que nunca havia aparecido antes. Eu vi que
mesmo dando toda minha vida a Deus (supondo que isso seja possível) e
parar ali não seria de nenhum proveito para mim, a menos que eu desse todo
9

meu coração, sim, todo meu coração a Ele. Vi que “simplicidade de intenção
e pureza de afeição”, uma só maneira de falar ou agir e um único desejo
controlando todos os nossos sentimentos, são as “asas da alma”, sem a qual
ela não conseguirá alcançar o monte de Deus (WESLEY, v. 11, p. 366-67).

Neste mesmo período, Wesley também entrou em contato com as obras de Jeremy
Taylor, especialmente sua obra Regras de exercícios do viver santo e morrer santo
(COLLINS, p. 33). Wesley afirma que tal obra lhe auxiliou bastante na luta por pureza de
intenções. “Instantaneamente, resolvi dedicar toda minha vida a Deus, meus pensamentos,
palavras e ações; estando completamente convicto de que não havia meio termo: cada parte de
minha vida (não apenas algumas) deveria ser um sacrifício a Deus ou a mim mesmo, sendo
assim ao diabo” (WESLEY, v. 11, p. 366). Talvez a maior influência visível de Taylor sobre
Wesley foi o habito que Wesley passou a ter em manter um diário como registro e cálculo de
seu progresso no viver santo (WARD e HEITZENRATER, 1995, v. 1, p. 35-36).
Além de Thomas à Kempis e Jeremy Taylor, devemos mencionar Robert Nelson com
sua A prática da verdadeira devoção, William Beveridge em Pensamentos particulares a
respeito de religião e William Law em Perfeição Cristã e Sério chamado a uma vida devota e
santa (COLLINS, p. 35). Sobre estas duas últimas obras, Wesley comenta que ambas “me
convenceram mais do que nunca da impossibilidade de ser meio cristão. Me determinei, pela
Sua graça (a necessidade absoluta a qual estava profundamente sensibilizado) a ser
completamente devoto a Deus, dando-lhe toda minha alma, meu corpo e meu ser” (WESLEY,
v. 11, p. 367). Mesmo que Wesley, posteriormente, tenha criticado as idéias de Law, não
podemos negar sua influência sobre o desenvolvimento espiritual de Wesley, assim como
suas idéias sobre casamento e pobreza. “Law procurava se afastar de recreações inocentes,
pois eram consideradas perda de tempo. Ele permitia pouco espaço para o apreço da beleza e
gozo, e lançava dúvidas sobre o aprendizado como sendo um objetivo digno de uma vida
dedicada… [ele] enfatizava a necessidade de atos de renúncia e mortificação, alguns que eram
bastante duros e severos, uma ênfase … que eventualmente passou para Wesley” (COLLINS,
p. 41). Collins nos lembra que esta lista de autores representa uma visão ocidental da teologia,
em contraste com a compreensão dos “Pais Orientais” que muitas vezes é defendido (Ibid., p.
42).
O ano de 1725 foi certamente importante para as idéias de Wesley sobre a
santificação. Neste ano, Wesley compreendeu pela primeira vez que santificação é “o fim ou
alvo da religião”. Ele percebeu que a verdadeira religião abrangia “não só a prática externa,
como também os temperamentos e afeições do coração; não apenas as obras de misericórdia,
10

como também as obras de piedade; e que o cristianismo bíblico não alcançava apenas as
práticas, obras e deveres externos como também a transformação interna em termos de
devoção e dedicação à Deus” (Ibid., p. 35). Posteriormente, em sua obra Um simples relato da
perfeição cristã, Wesley ressalta o ano de 1725 como o início da formulação de seus
conceitos sobre perfeição cristã, e que estes não haviam sofrido mudanças desde então
(WESLEY, v. 11, p. 444).
Alguns acreditam que as classes ou grupos metodistas nas quais Wesley participava de
1729 a 1735 influenciaram no seu interesse pela teologia da santificação. John Wright, por
exemplo, afirma que “o pensamento de Wesley cresceu dentro do contexto da prática
metodista” (WRIGHT, 2000, p. 9). Mais adiante, ele afirma que “a importância da prática dos
metodistas se torna evidente na relação entre as reuniões metodistas e a doutrina wesleyana da
santificação. Tanto doutrina e reuniões se desenvolveram em sua forma clássica metodista no
mesmo período” (Ibid., p. 21).
Há também aqueles que discordam, como Collins, afirmando que “a doutrina sobre
santificação ou santidade de Wesley, a meta da religião, já estava pronta por meio das suas
leituras de Kempis, Taylor e Law”. As reuniões metodistas posteriores, portanto, não
acrescentaram ou alteraram em substância, mas “permitiram sua instanciação conforme
Wesley empregava meios corretos para espalhar a santidade bíblica pelo país” (COLLINS, p.
49).
Por outro lado, não podemos negar que o grupo de oração e estudos em Oxford no
qual Wesley participava, contribuiu no aspecto externo, ou talvez até “social” da compreensão
wesleyana da santificação, através de suas práticas metodológicas de jejum, visitas a doentes
e prisioneiros, como também ajuda aos pobres.
Seu primeiro interesse era a pureza interior do coração estimulada pela
meditação sobre as virtudes, mas ele e seus amigos eram freqüentemente
caracterizados pela preocupação com as manifestações externas dessas
virtudes de acordo com certas regras e métodos (HEITZENRATER, p. 43).

Três anos após sua entrada no grupo, um evento lastimável aconteceu ao grupo.
William Morgan, que era um dos membros do “Clube santo”, morreu, após estar doente por
meses. Seu pai culpou o grupo pela morte do filho. Ele alegou que os “excessos” praticados
pelo grupo tinham levado seu filho até a loucura e finalmente a morte. Mesmo tendo mudado
de opinião apenas dez dias depois deste trágico evento, os boatos se espalharam afirmando
que os “metodistas” haviam matado William Morgan. Em Janeiro de 1733, em resposta a um
artigo lançado na Fog’s Journal criticando o suposto “fanatismo” dos metodistas, Wesley
11

respondeu com um sermão pregado na Universidade de Oxford sobre santificação. Ali, ele
“não apenas insistiu na importância vital da busca pela santidade sem reservas, como
proclamou pela primeira vez a sua doutrina mais singular, e de certa forma, a mais
controversa – santificação total e perfeição” (WESLEY In: OUTLER, 1984, v. 1, p. 398).
Seu sermão Circuncisão do Coração (Nº 17) se tornou uma das peças centrais na
apresentação do tema da perfeição na perspectiva wesleyana. Apesar de ter sido composto em
1733, Wesley recordaria em diferentes ocasiões posteriores que sua opinião não havia
mudado desde a primeira vez que pregara este sermão. Em uma carta para John Newton em
maio de 1765, Wesley afirmou que este sermão pregado em 1733 “contém tudo que agora
prego concernente a salvação de todo pecado, e amar a Deus com um coração integro”. Anos
depois, em 1778, Wesley reforçaria esta idéia afirmando que “não poderia escrever um
melhor [sermão] sobre ‘A circuncisão do coração’ do que o fiz a quarenta e cinco anos atrás.
[...] Eu sabia e pregava à quarenta anos atrás as mesmas doutrinas cristãs que agora prego”
(Ibid., p. 398).
Nele, Wesley apresenta os fundamentos da perfeição cristã, o “verdadeiro significado
da santificação”. Wesley defende que santificação implica “em purificação de pecados, ‘de
toda impureza da carne e do espírito’, e, em conseqüência, ser homem dotado das virtudes que
também havia em Cristo Jesus”. A santificação habilita o ser humano a ser “renovado no
espírito” de sua “mente”, de modo a ser “perfeito como nosso Pai celestial é perfeito” (Ibid.,
p. 403). Ele utiliza o símbolo da “circuncisão do coração” como forma de descrever a
perfeição cristã. Esta circuncisão do coração implica em humildade, fé, esperança e caridade.
A humildade
convence-nos de que somos, por natureza, mesmo em nossa melhor
condição, pecado e vaidade; que a confusão, a ignorância e o erro reinam em
nosso entendimento; que as paixões irracionais, terrenas, sensuais e
diabólicas usurpam o domínio de nossa vontade; numa palavra: que não há
nenhuma parte sã em nossa alma, estando subvertidos todos os fundamentos
de nossa natureza (Ibid., p. 403).

Neste pormenor, podemos captar sua percepção da depravação ou pecaminosidade


humana. A outra implicação – a fé – fortalece o ser humano na certeza que o poder que
“levantou a Cristo dentre os mortos, é também capaz de vivificar-nos, a nós que estamos
mortos em pecados, ‘pelo seu Espírito que habita em nós’” (Ibid., p. 405). Por sua vez, a
esperança guarda o cristão “firme em meio às ondas tempestuosas do mundo, sendo libertado
do perigo de lançar-se contra um destes escolhos fatais: a presunção ou o desespero”. O
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cristão esperançoso não considera as dificuldades da carreira que lhe está proposta como
sendo “maiores do que suas forças lhe permitam vencer, nem espera que elas sejam tão curtas
que as possa vencer antes de esgotar todas as suas energias” (Ibid., p. 406). E por fim, o amor,
que é interpretado por Wesley como a súmula da lei perfeita: “esta é a verdadeira circuncisão
do coração”. Este é o alvo supremo da perfeição cristã.
Volte o espírito para Deus que o criou, com todo o séqüito de suas afeições.
Subam, estas “para o lugar aonde todos os rios vão ter” e de lá jorrem de
novo. [...] Que o homem se ofereça continuamente a Deus através de Cristo,
em chamas de vivo amor. [...] Nenhum desígnio, nenhum desejo se admita,
que não tenha a Deus como derradeiro alvo (Ibid., p. 413).

Este amor não exclui a possibilidade de se amar outras coisas ou pessoas. Mas estas deverão
ser amadas “na medida que elas tendem para esse fim [união com Deus]. Amar a criatura
conforme ela te conduza ao Criador” (Ibid., p. 408). Tal perfeição é possível e real. Afirmar o
contrário seria
uma censura a Deus, como se Ele fora um duro Senhor, exigindo de seus
servos mais do que os habilita a cumprir? Como se Ele zombasse das obras
inermes de suas mãos, enredando-as em possibilidades; mandando que
vençam, quando nem sua própria força, nem sua graça sejam suficientes à
vitória?” (Ibid., p. 411-412)

Seu sermão é significativo por dois motivos. Em primeiro lugar, por sua ênfase na
religião “interior” ou “solitária”, assim como também a disposição correta do coração e
temperamentos. “As marcas distintivas do verdadeiro seguidor de Cristo, do que está na
condição de ser aceito por Deus, não são nem a circuncisão exterior, ou batismo, ou qualquer
outra forma externa, mas um reto estado da alma, a mente e o espírito renovados á imagem
daquele que os criou” (Ibid., p. 402). Em segundo lugar, por equiparar a verdadeira perfeição
com o amor: “tudo se acha compreendido numa só palavra: - o Amor. Nele está a perfeição, a
glória e a felicidade” (Ibid., p. 407). Esta comparação é feita não apenas neste sermão, mas é
encontrada em diversos outros momentos de sua vida.
Enquanto que a religião “interior” possui seu espaço e relevância no pensamento
wesleyano, Rui de Souza Josgrilberg relembra o outro lado da religião promovido por Wesley
– a religião social. Josgrilberg ressalta que em 1729, Wesley, indeciso diante da possibilidade
de assumir a paróquia de seu pai ou trabalhar na Universidade de Oxford, procurou conselho
com uma pessoa cujo nome até hoje não foi identificado, mas é referido por Wesley como o
“homem sério”. A resposta, apesar de não atender à aquela necessidade específica, com
certeza ajudou a equilibrar o ministério de Wesley nos anos que se seguiram para uma religião
13

não meramente “solitária”, mas especialmente social. “O senhor deseja servir a Deus e ir para
o Céu. Lembre-se de que o senhor não poderá servi-Lo sozinho. Por isso, o senhor deve
encontrar seus companheiros; ou então, fazê-los. A Bíblia não sabe nada de uma religião
solitária” (2003, p. 110). Anos depois, encontramos Wesley ecoando este pensamento em seu
sermão 24.
Primeiro, tratarei de demonstrar que o Cristianismo é essencialmente uma
religião social, e tratar de torná-lo uma religião solitária é, na verdade,
destruí-lo [...] Por Cristianismo, quero dizer esse método de adorar ao Deus
que Jesus Cristo revelou à humanidade. Quando digo que esta é
essencialmente uma religião social, quero dizer que não apenas não pode
substituir, mas de nenhuma maneira pode existir sem a sociedade, sem viver
e misturar-se com os seres humanos (WESLEY In: OUTLER, v. 1, p. 533-
534).

Se colocarmos as afirmações citadas acima defendendo a religião interior ao lado das


afirmações relativas à religião exterior, uma aparente contradição poderá ser percebida. Tal
“contradição”, no entanto, poderá ser resolvida se as considerarmos como uma relação
dialética – meras ênfases em momentos diferentes, sobre assuntos diferentes; dois lados de
uma mesma moeda. A verdadeira religião deveria santificar o coração humano (interior),
enquanto movê-lo para expressar o amor a Deus e ao próximo (exterior). Um, de forma
alguma, deveria excluir o outro.
Não é difícil notar que, mesmo neste primeiro período de sua vida ministerial, a busca
pelo “viver santo” já marcava de forma significativa as decisões de Wesley. Um exemplo
disto é sua resposta a um convite de seu pai para trabalhar em Epworth. Wesley recusou o
convite responsabilizando sua busca pela santidade. “A glória de Deus e os diferentes modos
de promovê-la devem ser a nossa única preocupação. [...] o curso da vida se inclina mais à
glória de Deus onde quer que possamos promover a santidade em nós mesmos e nos outros”.
Um mês antes, Wesley já havia exposto seus motivos, como nos relata Heitzenrater: “A
questão não é se eu poderia fazer mais o bem aos outros aqui ou lá, mas se eu poderia fazer
mais o bem para mim mesmo; visto que, onde eu possa ser mais santo, tenho certeza, nesse
lugar posso promover a santidade nos outros” (Ibid., p. 54). Anos mais tarde, diante do
convite para ir à Geórgia, a santificação pessoal continuou motivando sua resposta ao aceitar
o convite. No entanto, apesar de ter viajado para Geórgia para evangelizar os habitantes que lá
moravam, Wesley apresentava dificuldades com o tema da fé e sua relação com santificação.
Foi somente anos depois que ele conseguiu entender a relação entre estes dois elementos da
salvação.
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Em 1738, Wesley teve a oportunidade de conhecer Peter Böhler, um missionário


morávio que estava hospedado em Londres. Ele havia crescido no meio pietista e havia
estudado em Herrnhut sob a direção de August Spangenberg, a quem Wesley já havia
conhecido enquanto estava na Geórgia. Em seus encontros com Wesley, Böhler explorou a
natureza da fé salvífica, indicando os dois frutos que dela brotam: santidade (liberdade do
pecado) e alegria (que surge do perdão obtido). Böhler ajudou Wesley a ligar a fé não apenas
à justificação, mas também à regeneração, ou santificação (COLLINS, 2003, p. 82). Da
mesma forma que a justificação pela fé era instantânea, a santificação, por meio da mesma fé,
também o seria. Estes dois momentos poderiam ser distintos, mas ambos ocorriam por meio
da fé. Aqui encontramos o distintivo protestante. Justificação e santificação não ocorrem por
esforço próprio ou vontade humana, é um dom, uma graça oferecida por Deus, por meio da fé.
“Da mesma forma que somos justificados pela fé, também somos santificados pela fé. Fé é a
condição, e a única condição para santificação, assim como o é a justificação” (WESLEY In:
OUTLER, v. 2, p. 163).
Neste mesmo ano em que Wesley teve estes encontros com Böhler, Wesley pregou o
sermão A salvação pela fé (Nº 1). Nele, Wesley apresenta que tipo de fé deve o cristão ter
para ser salvo. Tal fé é, primeiro, “a fé em Cristo: Cristo e Deus através de Cristo são os
próprios fundamentos dessa fé”. Tal fé também “não é uma coisa meramente especulativa,
racional, um assentimento frio e morto, uma série de idéias que se amontoam na cabeça, mas
uma disposição do coração” (WESLEY In: OUTLER, v. 1, p. 120). Tendo esta fé, o cristão
pode obter a salvação. Esta salvação não é um conceito místico ou puramente escatológico,
“ela é uma salvação presente. É alguma coisa atingível desde já, atualmente atingível na terra,
pelos que são participantes dessa fé”. Sendo assim, tanto justificação como santificação e
perfeição cristã não deveriam ser entendidos como realizados apenas após a glorificação. Eles
podem ser experimentados pelo cristão nesta vida terrena (Ibid., p. 121).
Uma vez obtida esta salvação, o cristão é salvo “do poder do pecado e, bem assim, da
culpa inerente ao pecado”. Isto quer dizer que ele não peca mais. O termo “pecado” ou
“pecar” é entendido aqui de quatro formas:
(1) Por pecado habitual: porque todo pecado habitual é pecado dominante,
— mas o pecado não pode dominar a qualquer que creia; nem (2) por pecado
voluntário: porque, enquanto permanece na fé, sua vontade tenazmente se
opõe a todo pecado, aborrecendo-o como se fora veneno mortal; nem (3) por
qualquer desejo pecaminoso, porque almeja constantemente a santa e
perfeita vontade de Deus — e qualquer tendência para o desejo profano ele a
sufoca desde o inicio, pela graça de Deus; nem (4) peca por enfermidade,
quer pela prática de qualquer ato, quer por palavra ou pensamento, porque
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suas fraquezas não têm o concurso da vontade; e, sem tal concurso, não há,
propriamente pecado (Ibid., p. 124).

Este sermão foi escrito como resultado de suas conversas com Peter Böhler. No entanto, nem
todos se entusiasmaram com as novas idéias de Wesley, levando-o a ser proibido de pregar em
várias igrejas de Londres (Ibid., p. 110).

1.3 O pensamento wesleyano durante o reavivamento metodista (1739-1744)


Heiztenrater aparenta indicar o começo desta segunda fase com as pregações de John
Wesley ao ar livre. Este costume não foi originado por Wesley, mas foi adotado por ele ao ver
George Whitefield (1714-1770) pregando nos campos perto de Bristol em fevereiro de 1739.
Convidado para substituí-lo em Bristol, Wesley foi até lá com o objetivo também de criar
novas bands e quem sabe novas sociedades. Este foi um período de sua vida em que enfrentou
várias disputas sobre diferentes temas. Talvez o fato de sua pregação se tornar mais “pública”
tornou seus conceitos mais conhecidos e seus oponentes mais numerosos.
Em abril de 1739, Wesley pregou um sermão intitulado A Livre Graça (Nº 128). Este
sermão tratou exatamente do ponto básico de discordância com Whitefield – a doutrina da
graça irresistível. Junto com este tema, havia implicações quanto à questão da obediência da
lei, santificação e perfeição cristã. Whitefield era o principal líder calvinista entre os
reavivalistas evangélicos e havia ficado chocado pela controvérsia iniciada. Conforme os anos
se passaram, Wesley continuou fazendo pressão contra a doutrina calvinista, pois via nela o
perigo implícito do antinominiasmo.
A controvérsia cresceu até o ponto de chegar aos ouvidos do bispo de Londres,
Edmund Gibson, que em uma reunião com os dois oponentes, aconselhou Wesley a publicar
seu recente sermão A Perfeição Cristã (Nº 40). Naturalmente, este sermão aguçou a
preocupação que alguns tinham de que tal sermão alimentaria o auto-perfecionismo já
proposto por antigos pietistas (WESLEY In: OUTLER, v. 2, p. 97).
Este texto, baseado em Filipenses 3:12, procurou apresentar o que a perfeição é e não
é. Wesley começou com uma lista do que perfeição não significa. Em primeiro lugar, ser
perfeito não quer dizer que o individuo (1) se torna perfeito em conhecimento. Ele não passa a
ser onisciente, mas é passível de ignorância em diversos aspectos. Como conseqüência direta
da ignorância, o indivíduo também (2) não está livre de erros. Ele pode errar em coisas
corriqueiras da vida, porém não em assuntos essenciais à salvação. Ser perfeito (3) não
significa estar livre de doenças. Neste último caso, por “doenças”, Wesley entende
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todas aquelas imperfeições interiores e exteriores, que não são de uma


natureza moral. Tal é a fraqueza ou morosidade de entendimento;
embotamento ou confusão de apreensão; incoerência de pensamento;
atividade ou opressão irregular da imaginação. Tal é a necessidade (para não
mencionar mais deste tipo) de uma memória pronta ou retentiva. Tais, em
outro tipo, são aquelas que são comumente, em alguma medida,
conseqüentes à estas; ou seja, lentidão de discurso; impropriedade da
linguagem; falta de elegância na pronunciação; aos quais, alguém
acrescentaria milhares de imperfeições desconhecidas, quer na conversação
ou comportamento. Essas são as enfermidades que são encontradas nos
melhores homens; em uma proporção maior ou menor. E dessas ninguém
pode esperar estar perfeitamente livres, até que o espírito retorne para Deus
que o deu (Ibid., p. 103).

Ser perfeito também não quer dizer (4) estar livre da tentação. A tentação desaparecerá
apenas quando houver a glorificação. No entanto, Wesley afirma que pode haver casos onde a
pessoa estará longe do alcance da tentação por um período de tempo, podendo este ser até de
meses. Concluindo este pensamento, Wesley defende que (5) não há perfeição absoluta nesta
terra. Fortalecendo seu argumento, Wesley compara perfeição com santidade, defendendo que
o primeiro é apenas um “nome designativo” do outro. Os dois nomes representam a mesma
coisa. “Deste modo, todo aquele que é santo é, no sentido da Escritura, perfeito. [...] Não há
perfeição em grau como se diz; nenhuma há que não admita crescimento. Quanto mais alto
tenha subido o homem, por mais elevado que seja o grau de sua perfeição, ele ainda tem
necessidade de ‘crescer em graça’” (Ibid., p. 104-105).
Mas então, o que representa “ser perfeito”? Wesley acredita que quando o cristão
nasce no reino de Deus, ele é liberto de pecados “externos”, relativos ao comportamento e
atos. É possível que em algum momento, o cristão venha a pecar, mas isto não quer dizer que
ele deve pecar. O cristão converso está liberto de pensamentos pecaminosos, refletindo assim
o coração sem pecado de Cristo. Se o coração do cristão é bom, ele só possui bons
pensamentos. Usando a ilustração dada por Cristo: se a arvore é ruim, ela produzirá frutos
ruins; se por outro lado, a arvore for boa, então haverá frutos bons (Ibid., p. 117). Não só está
o cristão convertido livre de pensamentos pecaminosos, mas também de um “temperamento
pecaminoso”. Isto nos indica que além da liberdade do pecado “externo”, o cristão converso
também está livre do pecado “interno”. Esta é uma realidade que não há de se cumprir
escatologicamente no futuro, após a glorificação, e sim enquanto estivermos “neste mundo”
(Ibid., p. 119).
No mês de setembro de 1741, Wesley teve um encontro com o Conde de Zinzendorf.
Naquele encontro, ambos entraram em um desacordo quanto à questão da justificação e a
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santificação. De acordo com Zinzendorf, o momento em que uma pessoa é justificada, ela
também é totalmente santificada. Wesley se espantou com esta conclusão: “Como? Não é
verdade que cada fiel, enquanto cresce em amor, também cresce em santidade?... Não é um
pai em Cristo mais santo do que um cristão recém nascido?” (WARD e HEITZENRATER, v.
2, p. 213). Wesley discordava da posição de Zinzendorf. Existe crescimento na vida do
cristão, crescimento em amor como também em santidade. Conforme ele vai mortificando o
pecado na sua vida, ele cresce em santidade.
As discussões que Wesley teve com os morávios naqueles anos ajudaram muito a
definir e esclarecer seu pensamento. Um ano após seu encontro com Zinzendorf, Wesley
publicou O caráter de um Metodista, o qual ele, anos depois, afirmou ser o primeiro tratado
que ele já havia escrito tratando expressamente do assunto da perfeição (WESLEY, v. 11, p.
370). Este era um texto onde Wesley procurava mostrar que o metodismo era tão cristão como
qualquer outro grupo. Ele pretendia também apresentar seu conceito de perfeição cristã de
forma mais bíblica, e caracterizar os metodistas de acordo com aquilo que eles realmente
acreditavam, e não, a partir de acusações que lhes eram levantadas. Neste trabalho, Wesley
destaca os diferentes aspectos que definem um verdadeiro metodista. Um referencial
importante para a santidade e para a vida do metodista é Jesus Cristo – a imagem perfeita de
Deus. “Sua [do metodista] alma é renovada após a imagem de Deus, em justiça e em toda
santidade. Tendo a mente que estava em Cristo, ele também anda como Cristo andou”
(WESLEY, v. 8, p. 346).
No mesmo ano, ele publicou Os princípios do metodista como resposta às acusações
de Josia Tucker alegando que Wesley pregava justificação pela fé somente, perfeição sem
pecado, e certas inconsistências (COLLINS, 2003, p. 118). Diante da segunda acusação,
Wesley procurou identificar o que ele entendia pelo conceito e o que muitas vezes é
erroneamente atribuído ao conceito. Perfeição é entendida equivocadamente como “uma
dispensação de fazer o bem e participar das ordenanças de Deus, ou como uma liberdade da
ignorância, erro, tentação e doenças que estejam ligadas à carne e ao sangue” (WESLEY, v. 8,
p. 364). Tal conceito foi totalmente rejeitado. Tanto infantes como adultos em Cristo devem
praticar o bem como participar das ordenanças estabelecidas por Cristo. Tentações, doenças e
erros também podem ocorrer na vida daquele que é perfeito em Cristo. Neste texto, Wesley,
mais uma vez, compara o cristão perfeito como aquele que possui 1) “a mente que estava em
Cristo” e aquele que 2) anda “como Cristo andou”. Além disto, Wesley acrescenta que o
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cristão perfeito 3) possui “mãos puras”, 4) é puro de coração, 5) é puro de toda imundice de
carne e espírito, 6) não há tropeço, e 7) não comete pecado.

1.4 A consolidação do pensamento wesleyano (1744-1758)


Durante este fase de sua vida, Wesley se envolveu ativamente com o crescimento e a
consolidação do movimento e da doutrina metodista. Uma das áreas em que podemos ver a
atuação intencional de Wesley é de publicações. Em 1750, por exemplo, Wesley já havia
terminado a publicação do terceiro volume de Sermões. Nestes três volumes, Wesley procurou
apresentar temas básicos e a ênfase doutrinária que “estava emergindo em sua própria vida e
pensamento – um foco no ‘caminho da salvação’” (HEITZENRATER, p. 178). Conforme o
movimento ia crescendo, Wesley percebeu que, para manter a unidade doutrinária, deveria
difundir seus conceitos através de publicações. Podemos encontrar consecutivamente nesta
compilação de trinta e seis sermões, um desenvolvimento cuidadosamente elaborado de cada
degrau do caminho pelo qual o cristão passa em seu caminho para a salvação: graça
preveniente, convicção do pecado, arrependimento, justificação, segurança, regeneração,
santificação, perfeição cristã e finalmente salvação final. Diante das diferentes controvérsias e
discussões que se levantavam, Wesley achou por bem expandir sua influência através de suas
publicações.
Destacamos aqui seu sermão intitulado O caminho do reino (Nº 7) que ele havia
preparado em 1746. Neste, Wesley procurou mostrar que a verdadeira religião não deve ser
um caminho de apenas ações externas. A religião não deve se limitar apenas a aquilo que pode
ou não pode fazer. A natureza da verdadeira religião é muito mais íntima, alcançando
“profundidade ainda maior, isto é, visa ‘o homem oculto no coração’” (WESLEY In:
OUTLER, v. 1, p. 220). Aquele que sabe que deve fazer o bem, mas se limita apenas a um
conjunto de regulamentos e leis não possui a verdadeira religião. Tal religião também não se
define pelos credos aceitos pelo fiel. Ele pode aceitar todas as doutrinas pregadas, aceitar
todos os ensinamentos propostos pela igreja e continuar na mesma situação que alguém que
não possui religião. A verdadeira religião se caracteriza por três elementos: justiça, paz e gozo
no Espírito Santo (Ibid., p. 221).
Por justiça, Wesley entende como amor a Deus e ao próximo, pois assim somos
possuídos da mais “profunda e cordial afeição, os mais calorosos desejos de prevenir ou
remover todo o mal e de lhe assegurar todo bem possível”. A verdadeira religião também é
caracterizada pela paz,
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uma paz que dissipa todas as dúvidas, toda incerteza angustiosa, dando o
Espírito de Deus testemunho com o espírito do cristão, de que ele “é filho de
Deus”. Ela afugenta o temor, todo o temor que atormenta: o temor da ira de
Deus, o temor do inferno, o temor do diabo, e, em particular, o temor da
morte: o que tem paz com Deus deseja, se esta for a vontade; do Senhor,
“partir e estar com Cristo” (Ibid., p. 223).

E em terceiro lugar, a verdadeira religião é caracterizada pelo gozo no Espírito Santo, pois
este confirma em nós a alegria da salvação e do perdão dos pecados em Jesus Cristo. Em seu
sermão, Wesley mostra que conceitos como reino de Deus, verdadeira religião, nada mais são
do que a verdadeira santificação, pois é nesta condição que Deus assume a completa
soberania da vida do ser humano (Ibid., p. 224).
Posteriormente, em 1748, Wesley pregou O grande privilégio dos que são nascidos de
Deus (Nº 19), onde ele procura marcar uma distinção entre a justificação e o novo
nascimento. Enquanto que a justificação é apenas uma mudança relativa, mudando a nossa
relação exterior com Deus, o novo nascimento muda nossa relação interior com Deus, nos
fazendo santos. “Um dom restaura-nos a favor de Deus; o outro nos reintegra na sua imagem.
Um representa o cancelamento da culpa do pecado; o outro vem a ser a supressão do domínio
do pecado” (Ibid., p. 432). O novo nascimento proporciona um privilégio que a justificação
não conhece – a possibilidade de não pecar. Este pecado, Wesley identifica como “uma
transgressão atual, voluntária, da lei, da lei de Deus revelada e escrita, de qualquer
mandamento de Deus, reconhecido como tal ao tempo da transgressão” (Ibid., p. 436).
Para tanto, o cristão precisa permanecer na fé, caso contrário, ele pode acabar caindo
em pecado. Ele precisa manter seus olhos em Deus constantemente. Em momento algum pode
ele esquecer-se de Deus, achando que possa resistir à tentação. Em uma “aparente”
contradição, Wesley resume seu pensamento: “é absolutamente certo que, o que é nascido de
Deus não peca, não pode pecar, e que, se não se guarda, pode cometer com avidez toda sorte
de pecados” (Ibid., p. 441). Entendemos que por “não pode pecar”, Wesley não estaria
afirmando a incapacidade do nascido de Deus de pecar; mas diante de toda a disposição e
graça de Deus, ele não possui desculpa para pecar. Como conclusão, Wesley apresenta o
caminho para nunca mais pecar: “Vigia sempre, para que sempre ouças a voz de Deus. Vigia,
para que ores sem cessar, em todos os tempos e em todos os lugares, abrindo teu coração
diante de Deus. Deste modo sempre terás fé, sempre terás amor – e não pecarás jamais!”
(Ibid., p. 443).
20

Perto do final deste terceiro período do metodismo, Wesley publicou O caminho


bíblico para a salvação onde ele completa o pensamento do sermão analisado acima. Este
sermão que foi publicado em 1756 e permanece sendo “o melhor sumário homilético de sua
soteriologia” (HEITZENRATER, p. 220). Aqui, salvação não é apenas entendida como “ir
para o Céu”, mas é a obra completa de Deus no indivíduo, onde a santificação se torna a
“salvação completa de todos os nossos pecados”. A perfeição elimina todo o pecado e
preenche o coração com o amor.

1.5 Amadurecimento do pensamento de Wesley (1758-1791)


Kenneth Collins afirma que a década de 1760 realmente pertenceu à doutrina da
perfeição cristã (2003, p. 193). Durante este período, encontramos Wesley enfrentando
grandes lutas para manter seu equilíbrio teológico assim como também a unidade teológica de
todo o movimento. Em agosto de 1758, na Conferência de Bristol, encontramos Wesley
discutindo longamente com seus clérigos sobre o tema da perfeição. Havia muita desunião,
dúvidas e opiniões diferentes relativas à este tema. Aparentemente, alguns acreditavam que já
tinham alcançado a perfeição, e possivelmente estariam advogando impecabilidade. Neste
contexto, ele define novamente perfeição como “amar a Deus de todo o coração, mente, alma
e forças. Isto significa que qualquer mau temperamento contrário ao amor, permanece na
alma; e que todo pensamento, palavra e ação são conduzidos pelo puro amor (WESLEY,
1986, v. 11, p. 394). Mesmo assim, em conferências posteriores, muitos pregadores passaram
a expressar sua preocupação e dúvida quanto à teologia que Wesley estava propondo. Peter
Jaco, um dos pregadores, enviou um relatório da conferência de 1761 para Carlos Wesley, que
estivera ausente. Nesta carta, encontramos a seguinte decisão da conferência: “Está
determinado que não há nas Escrituras nenhum texto que definitivamente apóie a perfeição
instantânea; que não há situação neste mundo que isente as pessoas do pecado, e que,
portanto, elas têm necessidade de cautela, etc” (HEITZENRATER, p. 209). Vemos aqui, mais
uma vez, a preocupação com o conceito da impecabilidade, que estava surgindo no
testemunho de alguns pregadores.
Entre estes, estava Thomas Maxfield, um dos primeiros pregadores leigos de Wesley, e
George Bell. Ambos aderiram a este conceito, e começaram a propagar a idéia de que uma
vez perfeitos, eles estariam sem pecado, e poderiam permanecer neste estado indefinidamente.
Como resultado disto, alguns passaram a acreditar que estavam imunes às tentações, haviam
se tornado infalíveis, ou até alcançado a imortalidade, assim como os anjos. Bell, alegando
21

que era a “obra de Deus”, passou a praticar curas pela fé e falar em línguas. Este conceito de
perfeição era considerado por Wesley como “antinominiana”. Maxfield, em contrapartida,
repudiava o conceito wesleyano de justificação, especialmente a de santificação instantânea
(COLLINS, 2003, p. 203-204).
Em sua carta de novembro de 1762 à Maxfield, Wesley deixou claro que, apesar de se
identificar com alguns de seus conceitos, ele não acreditava que o ser humano seria capaz de
alcançar, nesta vida, a perfeição de um anjo (HEITZENRATER, p. 210). Os apelos não foram
ouvidos, e ambos os pregadores persistiram no seu caminho. Mais adiante, em 1763, George
Bell chegou a proclamar o fim do mundo, marcando a data para 28 de fevereiro daquele ano.
Ambos não atendiam aos apelos de Wesley. Em resposta, “oravam” para que Wesley pudesse
ver a verdadeira luz que havia nos seus ensinos e pudesse se libertar de seus preconceitos. A
cisma que havia começado entre Wesley e estes pregadores, alcançou também os membros
leigos, levando muitos a abandonar o movimento. Maxfield seguiu o exemplo e passou a se
reunir com seus seguidores.
Nos anos que se sucederam ao episódio de Maxfield e Bell, observamos a maturidade
da teologia de Wesley. Em seus sermões e publicações, “ele estava mais seguro nos detalhes
de suas idéias teológicas e ao mesmo tempo mais desejoso de declarar, sem equívocos, sua
posição, com menos preocupação a respeito das reações do clero que poderia discordar”
(Ibid., p. 223). Seu principal objetivo se tornou a unidade e a santidade entre o povo
metodista. Dez anos depois da conferência de Bristol, mencionada acima, podemos ver os
resultados do trabalho árduo desenvolvido por Wesley. Todo seu trabalho, a organização do
povo chamado metodista, as publicações, os sermões, promoviam e insistiam na unidade do
movimento e na busca pela perfeição cristã. Na conferência de 1768, Wesley voltou a tratar
do assunto, levantando a pergunta: “Eu indago, uma vez por todas, devemos defender essa
perfeição ou desistir dela?” A resposta positiva dos pregadores nos indica que sua luta estava
obtendo os resultados desejados e que seus objetivos estavam sendo alcançados (Ibid., p.
242).
Durante esta faze de amadurecimento, encontramos também Wesley solidificando sua
opinião quanto à ausência do pecado no ser humano que alcançou a perfeição. Já em maio de
1738 encontramos em seu diário sua convicção de que a santificação libertava o ser humano
não apenas do poder do pecado como também de sua própria existência no indivíduo: “Desejo
aquela fé que nenhum pode obter sem saber que ele a possui. [...] Pois quem a tem, está ‘livre
do pecado’; ‘o corpo inteiro do pecado é destruído’ nele” (WARD e HEIZENRATER, v. 1, p.
22

216). Contudo, em seu sermão Sobre o pecado nos crentes (Nº 13) de 1763, Wesley defendeu
que, após a justificação, o pecado “permanece, porém não mais domina”. “Decerto que Cristo
não pode reinar, onde o pecado reina; nem Ele irá habitar onde algum pecado é permitido.
Mas Jesus está e habita no coração de todo crente que esteja lutando contra todo o pecado;
embora não seja ainda purificado, de acordo com a purificação do santuário” (WESLEY In:
OUTLER, v. 1, p. 323).
Enquanto o crente estiver lutando para vencer o pecado, inclusive sua natureza
pecaminosa, Cristo habitará nele e o auxiliará neste processo, pois a essência do pecado ainda
permanece nele. Esta citação apresenta uma mudança no pensamento de Wesley. No entanto,
ela simplesmente retrata sua rejeição da perfeição instantânea proposta por Zinzendorf, no
momento da justificação. Segundo Wesley, libertação da “habitação” do pecado ocorre apenas
em um segundo momento, o que fez com que alguns intérpretes se referissem a uma “segunda
benção”1. O cristão deve aguardá-la, sem obrigatoriamente recebê-la. É uma segunda obra da
graça divina. Destacamos este pensamento em seu sermão O arrependimento dos crentes (Nº
14) de 1767.
Por mais que vigiemos e oremos, não podemos purificar nem nossos
corações, nem nossas mãos. O certo é que não podemos conseguir isso até
que seja do agrado de nosso Senhor falar outra vez a nossos corações, falar
pela segunda vez: “Sê limpo”; e então, e somente então, o leproso se
purificará. Somente então a raiz do mal, a mente carnal, se destrói: o pecado
inato não mais subsiste (Ibid., p. 346).

Sendo assim, Wesley defende a santificação como sendo tanto um processo como algo
instantâneo. “A partir do momento em que somos justificados, pode haver uma santificação
gradual, um crescer na graça, um avanço diário no conhecimento e amor de Deus. E se o
pecado cessar antes da morte, deve haver, por natureza, uma mudança instantânea”
(WESLEY, v. 8, p. 329). Tanto justificação como santificação são “instantâneas”, pois
representam atos da graça de Deus por meio da fé. “Exatamente como somos justificados pela
fé, assim somos santificados pela fé. Fé é a condição, a única condição para santificação,
exatamente como o é a justificação” (WESLEY In: OUTLER, v. 2, p. 163).
No mesmo ano, ele escreveu dois outros sermões, A vida no deserto (Nº 46) e
Afligidos através de várias tentações (Nº 47). Neles, Wesley insiste que nosso coração não é
totalmente santificado no momento da justificação e na necessidade de uma profunda
convicção de nossa completa incapacidade, levando-nos a vivermos dependendo, pela fé, de
1
Enquanto que esta não é uma expressão que aparece nos sermões de Wesley, ela, contudo, aparece em suas
cartas. Ver COLLINS, 2010, p. 371.
23

Cristo. Um dos caminhos que Deus pode usar para obter um coração totalmente santificado
pode ser através de provações ou aflições. Ao permitir aflições, Deus procura purificar
o coração do orgulho, da obstinação, da paixão; do amor ao mundo, de
desejos maus e insensatos; das afeições vis e profanas. Ao lado disso, as
aflições santificadas têm, pela graça de Deus, uma tendência imediata e
direta para a santidade. Através da operação de seu Espírito, eles se
humilham cada vez mais e dobram a alma diante de Deus. Elas acalmam e
pacificam nosso espírito sofrido, amansam o furor de nossa natureza,
abrandam nossa obstinação e voluntariedade, crucificam-nos para o mundo e
levam-nos a esperar de Deus toda nossa fortaleza e a buscar nele toda nossa
felicidade (Ibid., p. 232-233).

A partir da década de 1770, não encontramos Wesley desenvolvendo alguma teologia


nova relativa à perfeição cristã, mas fica notável as novas aplicações dadas ao conceito de
santidade. Através de textos como Pensamentos sobre a origem do poder, Pensamentos sobre
a presente escassez de alimentos, Pensamentos sobre a escravidão, Pensamentos sobre a
liberdade, Sobre a insensatez do mundo, O perigo do aumento das riquezas (Nº 87), e Sobre a
visita a enfermos (Nº 98), sua preocupação pela santidade social é claramente percebida.
González lembra que não há nada de novo em “sua crítica à ordem econômica, ao sistema
colonial, à escravidão, e até à revolução norte-americana – Wesley simplesmente está
aplicando o que disse [...]: O evangelho não reconhece nenhuma religião que não seja social,
nenhuma outra santidade que não seja santidade social” (2003, p. 63).

2. Aspectos da teologia wesleyana da santificação


O conceito de santificação ou perfeição cristã wesleyana não é uma ilha remota no
oceano teológico. Ele pode ser melhor comparado a um hub – um dispositivo interconectado
a vários computadores permitindo-os trocar informação entre si, formando assim uma rede. A
teologia de santificação em Wesley está ligada de várias formas a diferentes conceitos
teológicos relativos ao ser humano, o pecado, expiação, justificação e a obediência à Lei,
entre outros. Estes são apenas alguns dos segmentos dentro da teologia que afetam e são
afetados pela santificação em Wesley. A seguir, estaremos explorando esta “cadeia de
verdades bíblicas” e sua relação com a teologia da santificação em Wesley.

2.1 Natureza do ser humano e pecado


A doutrina do pecado original, assim como o da justificação pela fé e da santificação
eram consideradas essenciais para a religião (WARD e HEIZENRATER, v. 4, p. 456).
Wesley seguia a interpretação reformista do pecado original, colocando o homem em seu
24

estado natural como totalmente corrompido. “Como que fará o pecador propiciação pelo
menor de seus pecados? Com suas obras? Não. Ainda que estas sejam muitas e sejam santas,
não lhe pertencem, mas são de Deus. Na verdade todas essas obras são ímpias e pecaminosas,
reclamando nova propiciação. Somente frutos corrompidos pendem de uma árvore corrupta”
(WESLEY In: OUTLER, v. 1, p. 118). Sendo assim, o homem em seu estado natural,
pecaminoso, não reflete mais a imagem de Deus. A expressão “Imagem de Deus” pode ser
entendida de três formas: a imagem moral, a natural e a política.
A “imagem de Deus”, na qual Adão foi criado, consistia basicamente em
justiça e verdadeira santidade. Mas aquela parte da “imagem de Deus” que
permaneceu após a queda e permanece em todos os homens até hoje é a
imagem natural de Deus, expressamente, a natureza espiritual e a
imortalidade da alma; sem excluir a imagem política de Deus, ou um grau de
domínio sobre as criaturas que ainda permanecem (WESLEY, v. 9, p. 381).

Das três, a imagem moral é a que se encontra hoje a mais apagada, deixando de refletir a
Deus, e refletindo a própria “imagem do diabo” (WESLEY In: OUTLER, v. 2, p. 190).
Segundo Wesley, não havia apenas uma natureza corrupta inerente ao homem. Este
era também culpado. Pela sua própria natureza, ele se tornava culpado, e desta forma, um
filho da ira de Deus. Para que o homem possa ser salvo, é crucial haver uma “profunda
convicção de sua pecaminosidade”. Esta convicção também deveria incluir a culpa. “Tal
consciência profunda do pecado e convicção da culpa é impossível a menos que ele saiba que
sua natureza é corrupta” (LINDSTRÖM, p. 34). Neste aspecto, Wesley parece divergir da
visão agostiniana, no sentido que a culpa possui dois aspectos. Há uma culpa que é hereditária
e outra que é pessoal. A diferença se percebe nas conseqüências. Enquanto que a culpa
hereditária provoca a morte temporária e espiritual do homem, a culpa pessoal resulta na
morte eternal. Se alguém morre para a eternidade, acreditava Wesley, era por suas próprias
ações (Ibid., p. 35). “Creio que ninguém morreu ou um dia morrerá eternamente,
simplesmente por causa do pecado de nossos pais” (WESLEY, v. 9, p. 315). Ele rejeitava a
idéia calvinista de predestinação e enfatizava a escolha humana como o elemento que
determina o destino humano. Se o homem for condenado, é devido às suas próprias escolhas e
ações. Estas escolhas pecaminosas podem se revelar através de pecados internos ou externos
(visíveis).
A hamartologia de Wesley reflete, em parte, os Artigos da Fé da Igreja Anglicana. No
entanto, em distinção com estes artigos, Wesley omite a expressão “cada pessoa nascida neste
mundo merece [...] a condenação divina” (RENDERS, p. 200). O pecado original, apesar de
25

não condenar o ser humano, o influencia em cada aspecto do relacionamento humano, seja ele
privado ou público. Este também impossibilita a idéia de mérito por parte do ser humano. Em
Princípios de um Metodista, Wesley afirma: “Como, pelo pecado original, a nossa corrupção
é tão grande, toda nossa fé, caridade, palavras e obras não podem se tornar um mérito [...] de
qualquer parte da salvação para nós” (WESLEY In: OUTLER, v. 9, p. 52). O ser humano,
apesar de ser totalmente corrupto, possui “uma medida de livre escolha e certo poder de
discernimento” (LINDSTRÖM, p. 45). Tal liberdade está baseada na graça, não é irresistível,
pois o homem possui a capacidade de escolher e assim, trabalhar com ou contra Deus. A
graça preveniente capacita o homem a escolher qual caminho ele seguirá. Bonino identifica
aqui uma sinergia divino/humana (1988, p. 21-23). Este conceito é ampliado em
Desenvolvendo nossa salvação (Nº 85), publicado na Arminian Magazine em 1785. Neste
trabalho, Wesley parte do texto “porque Deus é quem efetua em vós, tanto o querer como o
realizar”, de Filipenses 2:13. A partir deste verso, dois conceitos são desenvolvidos: o do
querer e o do realizar.
Primeiro, o querer, abarcaria a religião interior, e o fazer, a religião exterior.
E, se for assim entendida, essa interpretação implica que é Deus quem opera
tanto a santidade interior, quanto à exterior. Segundo, o querer referir-se-ia
a todo o bom desejo; o fazer, o que quer que disso resulte. E, então, a
sentença significa que Deus inspira em nós todo o bom desejo, e faz com
que todo bom desejo produza bom resultado (WESLEY, 1986, v. 6, p. 508).

Deus inicia o processo transmitindo para o crente a vontade de ser santificado. Este,
por sua vez, precisa “fazer”, “operar”, “participar” da santificação iniciada por Deus. Wesley
lembra que é porque Deus inicia o processo, que nós podemos participar. Portanto, a
participação humana no processo de santificação consiste em “cessar de fazer o mal e
aprender a fazer o bem”. Usando as palavras de Santo Agostinho, “aquele que nos fez sem
nós, não nos salvará sem nós”. Deus não nos salvará, a menos que
“nós mesmos nos salvemos desta geração perversa”; a menos que nós
mesmos “lutemos o bom combate da fé, e tomemos posse da vida eterna”; a
menos que “nos esforcemos por entrar pela porta estreita”, “nos neguemos a
nós mesmos, e tomemos nossa cruz a cada dia”, e trabalhemos, por todos os
meios possíveis, para “confirmar nosso próprio chamado e eleição” (Ibid., p.
513).

Diante dos pensamentos de Wesley, William Cannon acerta no ponto quando afirma
que Wesley “segue junto a Calvino, Lutero e Agostinho em sua insistência de que o homem é,
por natureza, totalmente destituído de justiça e sujeito ao juízo e ira de Deus” (CANNON,
26

1946, p. 200). Pecado, portanto, normalmente é tido por Wesley como o pecado inerente
(LINDSTRÖM, p. 41). Tal pecado inerente é tido como uma doença que pode ser erradicada
da pessoa (WESLEY, v. 6, p. 64). Sendo assim, o alvo da santificação é a erradicação total da
natureza pecaminosa no ser humano. Negar a pecaminosidade humana seria tornar o
evangelho sem sentido, pois sem doença (pecado) não há necessidade de cura (salvação)
(COBB, 1995, p. 81).
Em seu sermão Sermão do Monte I (Nº 21), Wesley compara a natureza pecaminosa a
uma doença (lepra) que acompanha o ser humano desde seu nascimento.
Em mim, - diz ele [o pecador] – “não há nenhum bem”, mas, sim, tudo que é
mau e abominável. Possui sentimento profundo da lepra asquerosa do
pecado, que trouxe consigo desde o ventre de sua mãe, espalhando-se por
toda sua alma e totalmente corrompendo todos os seus poderes e faculdades.
Vê cada vez mais nitidamente as inclinações más que resultam daquela raiz
perversa: o orgulho e a altivez de espírito, a constante tendência para pensar
de si mesmo mais altamente do que convém; a vaidade, a sede de estima e de
honras da parte dos homens; o ódio ou a inveja, o ciúme ou a vingança, a ira,
a malícia ou a amargura; a inata inimizade tanto contra Deus como contra o
homem, que se exterioriza de mil modos; o amor do mundo, o egoísmo, os
desejos loucos e insensatos que se lhe apegam ao íntimo da alma (WESLEY
In: OUTLER, v. 1, p. 477).

A partir deste pensamento, entendemos que os diferentes atos ou atitudes são meros
sintomas da raiz, a verdadeira doença, que existe em todo ser humano. Doença não deveria ser
entendida apenas como estas meras expressões externas, mas sim como a própria raiz que jaz
silenciosa por detrás de cada ato pecaminoso. Esta é a raiz que deveria ser erradicada do ser
humano. Ela causa separação entre Deus e a humanidade (Ibid., p. 185), levando-a a produzir
atos, palavras e pensamentos pecaminosos. Maddox enfatiza a preferência de Wesley pelo
conceito de “pecado inato” em contraste com o conceito agostiniano de “pecado original”,
sendo que o primeiro enfatiza a necessidade de cura, da graça restauradora, e da erradicação
do pecado; enquanto que o segundo enfatiza a necessidade de justificação (forense)
(MADDOX, 1994, p. 82).

2.2 Expiação
A expiação pode ser entendida de forma geral como um ato ou dom que ajuda em
reconciliar dois partidos separados um do outro (Ibid., p. 97). Para Wesley, expiação em
Cristo era um tema de bastante importância, pois apenas através da expiação da culpa do
pecado, que o ser humano poderia se libertar do poder do pecado. A expiação pela culpa
literalmente libertava o pecador do poder do pecado (WESLEY, 1976, p. 517-518).
27

Wesley acreditava que Cristo era a única fonte para a salvação do homem. Era através
da justiça de Cristo que o homem podia ser tido como justo perante Deus. Nossos pecados
foram pagos pelo sacrifício expiatório de Cristo. Sua justiça se torna nossa. Em seu sermão de
1765, O Senhor justiça nossa (Nº 20), Wesley defende que
Nossa justificação procede livremente da simples misericórdia de Deus.
Porque, quando o mundo inteiro não era capaz de pagar sequer uma parte de
nosso resgate, aprouve a Deus, sem nenhuma intervenção de nossos
merecimentos, preparar-nos o corpo e o sangue de Cristo, para que por eles
fosse pago nosso resgate e satisfeita sua justiça. [...] Em consideração a isto
– que o Filho de Deus provou a morte por todos os homens, Deus agora
reconciliou o mundo consigo mesmo, não lhe imputando seus primitivos
pecados. De modo que, em atenção a seu bem-amado Filho, ao que Ele
sofreu por nós, Deus agora nos outorga, sob uma única condição (que Ele
próprio também nos habilita a preencher), tanto a remissão da pena merecida
pelos nossos pecados, como nossa restauração em seu favor e a recondução
de nossas almas mortas à vida espiritual, como penhor da vida eterna
(WESLEY, 1986, v. 5, p. 239-240).

Wesley entendia que a morte de Cristo satisfazia a justiça de Deus e a penalidade de


nossos pecados. Este conceito não fora inventado por ele, mas adotado do anglicanismo.
Cristo havia vivido uma vida de justiça, e sua morte tomava o lugar da morte do pecador. A
justiça de Cristo poderia ser nossa também. Ele a oferece a todos e não nos é forçada ou
irresistível, como o afirmavam os calvinistas. Ele evitava afirmar que a perfeição de Cristo era
transferida para o pecador, sendo que este já seria considerado perfeito e não necessitaria de
santificação. Se assim fosse, Cristo imputaria sua justiça ao pecador, e este, por sua vez, seria
considerado justo independentemente de seu comportamento (MADDOX, p. 104).

2.3 Justificação
Wesley reconhece que o termo “justificação” pode, na Bíblia, ser tão amplo a ponto de
abarcar a santificação também (WESLEY In: OUTLER, v. 1, p. 187). Por “justificação”
intencionamos identificar aqui o primeiro momento do processo da salvação, aquele em que
os pecados do ser humano são perdoados e ele é visto por Deus como justo. Como vimos
anteriormente, Wesley defende, no caminho da salvação, uma sinergia humana/divina. Não
aplicamos este conceito apenas ao tema da santificação, mas também ao da justificação. Cada
um, o Pai, o Filho, o Espírito Santo e o pecador estão presentes no momento em que ocorre a
justificação. A participação do pecador não deve ser considerada como possuindo mérito em
si, mas ela é necessária. Deus, de sua parte, participa “com sua misericórdia e graça; a parte
28

de Cristo satisfazendo a justiça de Deus, oferecendo seu corpo, derramando seu sangue; e de
nossa parte, fé verdadeira e viva nos méritos de Jesus Cristo” (WESLEY, v. 8, p. 361).
O pecador também deve anteceder o momento da justificação com seu
arrependimento. Tal arrependimento não é possível apenas por parte do ser humano. Ele
também é um dom de Deus, capacitando-o a entender sua condição lastimável e levando-o a
um “profundo sentimento da ausência de todo bem e da presença de todo mal” (WESLEY In:
OUTLER, v. 1, p. 194). A justificação não marca o começo da obra de Deus no coração do
homem, pois Ele já está atuando, através de sua graça preveniente, muito tempo antes deste
momento.
Salvação começa com o que é usualmente denominada (e muito
apropriadamente) graça preveniente, inclusive o primeiro desejo de agradar a
Deus, o primeiro alvorecer da luz concernente à sua vontade, e a primeira
leve e passageira convicção de se ter pecado contra Deus. Tudo isso implica
em alguma tendência com respeito à vida, algum grau de salvação, o começo
da libertação de um coração cego e insensível, totalmente insensível a Deus
e às coisas de Deus. Esta salvação é continuada pela graça convincente,
usualmente, denominada, nas Escrituras, de arrependimento, a qual produz
um autoconhecimento maior, para alcançar a mais completa libertação do
coração de pedra (WESLEY In: OUTLER, v. 3, p. 203).

Justificação, além de alterar a forma como Deus nos vê, também afeta a forma como nós
vemos a Deus. Ela transforma nosso relacionamento com Deus. A partir da justificação, Deus
nos vê como filhos, e nós passamos a vê-lo como Pai. De inimigo, Ele passa a ser visto como
Pai.
Wesley nem sempre compreendeu justificação da mesma forma. Em Um apelo
adicional para homens de razão e religião, Wesley admite que “ignorava totalmente a
natureza e a condição da justificação. Às vezes, eu a confundia com a santificação”
(WESLEY, v. 8, p. 111). Em 1730, por exemplo, Wesley chegou a escrever para sua mãe
comentando sua leitura de Jeremy Taylor e o que aprendeu: “No evangelho, o perdão dos
pecados é a santificação” (BAKER, 1980, v. 1, p. 245). É apenas em 1938, em seus encontros
com Peter Böhler, que Wesley passou a entender justificação e seu relacionamento com a fé, o
perdão e a santificação.
Em seu sermão A justificação pela fé (Nº 5), Wesley defende que justificação não deve
ser entendida como uma negação das acusações de Satanás ou mesmo da Lei de Deus. A
justificação do pecador de forma alguma cala a voz da Lei se este vier a infringi-la novamente
(WESLEY In: OUTLER, v. 1, p. 187-188). O ato justificador de Deus também não O engana
a ponto de levá-Lo a nos ver de forma que não somos. A justificação não nos “maquia” diante
29

de Deus a fim de sermos vistos santos e justos, quando na realidade não somos. Pela
justificação Deus não nos confunde com Cristo, Davi ou Abraão (Ibid., p. 188). Wesley rejeita
a possibilidade de haver alguma obra boa, ou a possibilidade de alguém se tornar santo antes
da justificação. Ao justificar, a graça de Deus é oferecida gratuitamente ao pecador, e não ao
santo. “A própria suposição não é apenas completamente impossível […] mas também
grosseiramente, e intrinsecamente absurda, e contraditória em si mesma. Porque não é um
santo, mas um pecador que é perdoado, e sob a noção de um pecador. Deus não justifica o
devoto; não aqueles que já são santos, mas o ímpio”. Ele termina seu pensamento, lembrando
que “afirmar a precedência da santidade é dizer que o Cordeiro de Deus tira somente os
pecados que previamente tenham sido tirados” (Ibid., p. 191).
No entanto, Maddox no lembra que existe um tipo de justificação que requer
anteriormente a santificação: a justificação final (Ibid., p. 171). Na conferência de 1770,
Wesley argumentou que tanto as boas obras internas e externas são necessárias na vida do
cristão como “condição” para salvação final. Aparentemente, Wesley não estaria defendendo
um tipo de salvação por mérito, mas apenas estabelecendo “pré-requisitos” para a aceitação
divina final (WESLEY, v. 8, p. 337).

2.4 Obediência
Por obediência, entendemos aqui como obediência à Lei de Deus. Para Wesley, a Lei
de Deus é boa e santa. Neste caso, Wesley se refere à lei moral. Ela é
um retrato incorruptível do Alto e Santo Ser que habita a eternidade. É a
manifestação visível a homens e anjos daquele que, em sua essência,
nenhum homem jamais viu nem pode ver. É a face de Deus descoberta; Deus
revelado a suas criaturas de modo acessível a elas; Deus manifestado para
dar vida, e não para a destruir, – para que os homens possam ver a Deus e
viver. É o coração de Deus patenteado ao homem (WESLEY, v. 5, p. 438).

Em seu sermão A origem, a natureza, características e funções da Lei (Nº 34), Wesley
aponta para a origem da lei moral como sendo muito antes de Moisés, Noé ou Adão.
Conforme ele defende, a Lei de Deus foi estabelecida “nos anais da eternidade” mesmo antes
da criação dos anjos (WESLEY In: OUTLER, v. 2, p. 6). Esta lei era gravada no coração dos
seres criados. Mas, conforme o homem desobedeceu a Deus, esta Lei apagou-se de seu
coração, “obscurecendo-se a visão de seu entendimento à medida que sua alma se tornava
‘alienada de Deus’”. O ser humano hoje, em seu estado decaído, é incapaz de compreender a
altura, a profundidade, a extensão e a largura dessa lei. Somente através do Espírito de Deus é
30

que este pode alcançar a compreensão da Lei de Deus. Ela nos fornece o padrão de
comportamento e vida, levando o pecador até Cristo.
Para ele, uma das características fundamentais de um metodista e daquele que está
experimentando a santificação é a obediência à Lei de Deus e aos seus mandamentos. Para tal
cristão,
não há uma moção em seu coração que não seja conforme Sua vontade.
Todo pensamento levantado aponta para Ele, e está em obediência com a lei
de Cristo. A arvore é conhecida por seus frutos. Ele ama a Deus, portanto
guarda seus mandamentos; não apenas alguns, ou a maioria, mas todos,
desde o menor até o maior. [...] Ele é “percorre os caminhos dos
mandamentos de Deus”, colocando seu coração em liberdade. Esta é a sua
glória; esta é a sua coroa diária de alegria, “fazer a vontade de Deus na terra,
assim como é feita nos céus”. [...] Ele guarda todos os mandamentos de
Deus com toda sua força. Sua obediência é proporcional ao seu amor, a fonte
de onde ele flui. Amando a Deus com todo seu coração, ele O serve com
todas as suas forças (WESLEY, v. 8, p. 344).

Wesley retoma este último pensamento em A justificação pela fé (Nº 5), defendendo
que a obediência à lei deve brotar do amor plantado por Deus em nós. Nenhuma obra é
considerada boa se esta não for gerada pelo amor. Isto significa que não é possível obedecer
ou fazer obras boas antes da justificação, pois o amor do Pai ainda não foi plantado no
coração do pecador. É a partir da justificação que o ser humano é capacitado para obedecer a
Lei de Deus (WESLEY In: OUTLER, v. 1, p. 193).
Mais adiante, em A Lei estabelecida pela fé (Nº 35 e 36), ele procura mostrar que a
obediência à Lei de Deus não está em contradição com a fé. Ela é fundamental para o
processo de santificação e achar que a fé anula a lei simplesmente destrói todo o processo de
santificação (Ibid., p. 26). De certa forma, santificação acaba sendo equiparada à obediência.
Conforme ele afirma, é incorreto o conceito de que uma vez debaixo da graça, estamos
“livres” da Lei. O ser humano não era mais obrigado a obedecer a Lei do que o somos agora.
Se assim o fora, a fé substituiria a santidade.
A observância da Lei não é um meio de salvação, mas ela deve seguir à justificação.
“O apóstolo assevera que a santidade não pode preceder à justificação, mas não que esta não
tenha necessidade de ser seguida por aquela” (Ibid., p. 28). O que o ser humano não
conseguia fazer antes para ser salvo, isto é, obediência à Lei, agora o faz livremente.
“Obedece, não por motivo de medo servil, mas por um mais nobre princípio, que é o da graça
de Deus predominando em seu coração e determinando que todas as suas obras sejam
operadas em amor” (Ibid., p. 29).
31

2.5 Perfeição Cristã


Salvação, segundo a definição wesleyana está muito além de apenas manter um
conjunto de crenças e rituais.
Por salvação, eu intento dizer não apenas libertação do inferno ou ir para o
Céu, como vulgarmente consideramos; mas uma libertação presente do
pecado, uma restauração da alma à saúde primordial, à sua pureza original;
uma recoberta da natureza divina; uma renovação de nossas almas após a
imagem de Deus, em retidão, verdadeira santidade, justiça, misericórdia e
verdade. Isto implica todos os temperamentos santos e celestiais e, por
conseqüência, toda santidade de conversão” (WESLEY, v. 8, p. 47).

Para que tudo isto se concretize na vida do cristão, Wesley acreditava na necessidade
de uma santificação completa (perfeição cristã). A forma de esperar até esta segunda
santificação é “em obediência vigorosa e universal, em observância zelosa de todos os
mandamentos, em vigilância e em aflição, em negação de nós mesmos e tomando nossa cruz
todos os dias” (WESLEY, v. 11, p. 402). Tais não seriam formas de obter salvação, mas
seriam “canais comuns por meio dos quais Deus transmite a graça da santificação completa
aos crentes” (COLLINS, 2010, p. 374). Sendo assim, o fiel não pode se contentar com a
primeira benção, mas buscar e aguardar a segunda obra de graça no cristão. “Então, e somente
então, o leproso se purificará. Somente então a raiz do mal, a mente carnal, se destrói: o
pecado inato não mais subsiste” (WESLEY, v. 5, p. 165).
Esta “segunda mudança” não seria estática. Mesmo sendo perfeito, o fiel continua
crescendo. É impossível o cristão perfeito permanecer inerte.
Sim, e quando você tiver obtido a medida do amor perfeito, quando Deus
tiver circuncidado seu coração, e te permitido a amá-Lo, com todo seu
coração e com toda sua alma, não pensem em descansar. Isto é impossível.
Vocês não podem sustentar-se ainda; você pode tanto levantar-se quando
cair; levanta-se mais alto ou cair mais baixo. Portanto, a voz de Deus, para
os filhos de Israel, os filhos de Deus, é, ‘Prossiga!` ‘Esquecendo-se das
coisas que ficaram para trás, e siga, para frente com aqueles que avançam
para o alvo, para o prêmio de seu alto chamado de Deus em Jesus Cristo!’”
(WESLEY, v. 7, p. 202).

Portanto, até para aquele que é um cristão santificado existe a possibilidade de se


perder. Lindström acredita que o pensamento em graus é o elemento mais característico de
Wesley. Lindström encontra no pensamento de Wesley graus de bem, mal, inimizade contra
Deus, sinceridade, paz, alegria, amor, santificação interna e externa. Segundo ele existem
graus de fé, graus de contemplação de Deus, graus no favor ou descontento de Deus.
32

Conforme ele comenta, Wesley acreditava que haveria graus maiores de perfeição a serem
atingidos após a morte (LINDSTRÖM, p. 120-121). Diante de tal compreensão, podemos
captar melhor a junção que Wesley fazia da santificação contínua e instantânea, onde era um
processo que sempre continuaria, mas que cada nível ou cada nova fase era “alcançado”
instantaneamente. Todo o processo (contínuo) é composto por etapas (instantâneo),
procurando alcançar a perfeição do homem, porém nunca parando.
Com isto em mente, Lindström acerta o ponto quando critica a associação limitada que
é feita, por estudiosos do pensamento de Wesley, entre santificação e o aspecto instantâneo,
isto é, a “segunda benção”. Muitos deixam de considerar a ênfase wesleyana no processo de
santificação que tira a pessoa do estado de pecador condenado, passa pelo arrependimento,
purificação, vitória sobre o pecado, erradicação da natureza pecaminosa e crescimento
constante. A “segunda benção” só pode ser corretamente interpretada tendo uma visão
panorâmica do pensamento de Wesley (Ibid., p. 120-125).
Outra forma de entender a perfeição cristã é estudando aquilo que Wesley afirmou não
ser santificação completa. Na perfeição cristã: 1) o crente não é perfeito em conhecimento; 2)
nenhuma condição de graça é tão elevada que a pessoa não possa cair de novo em pecado; 3)
a perfeição do cristão não está livre de fraquezas, fragilidades, e pensamentos confusos; 4) o
amor perfeito não elimina as tentações, e; 5) não é estática, sem admitir uma melhoria e
progresso contínuo do crente (COLLINS, p. 388-391).
Além do mais, Wesley acrescenta em Um simples relato da perfeição cristã:
Creio que não há perfeição nesta vida que exclua transgressões
involuntárias, as quais entendo ser conseqüência natural da ignorância e
erros inseparáveis da mortalidade. Portanto, perfeição sem pecado (sinless
perfection) é uma frase que nunca uso, a menos que venha a me contradizer.
Creio que uma pessoa preenchida pelo amor de Deus ainda é passível de tais
transgressões involuntárias (WESLEY, 1986, v. 11, p. 396).

2.6 A santificação em síntese


Conforme foi visto neste capítulo, em Wesley encontramos um caminho da salvação:
O homem se encontra em seu estado natural, possuindo a natureza do pecado e escravo deste.
Ele recebe o conhecimento da lei, da ira de Deus e de sua perdição. Ao perceber sua total
incapacidade de salvar-se, lhe é apresentado a justiça de Cristo e seu sacrifício. O pecador
aceita, pela fé, a justiça de Cristo é então justificado. Seus pecados são perdoados e sua culpa
é removida. Logo em seguida, o Espírito Santo passa a trabalhar na purificação daquele ser,
dirigindo-o ao alvo da religião: Libertação total do pecado e uma vida de inteira justiça. A
33

obra de regeneração iniciada na vida do ser humano marca o começo da santificação.


Enquanto que justificação é entendida como “libertação do pecado e a recuperação do favor
divino”, santificação é vista como “libertação do poder inerente e da raiz do pecado e a
restauração da imagem de Deus” (LINDSTRÖM, p. 19).
Na justificação, o pecador recebe perdão pelos seus pecados e lhe é eliminada a culpa.
A partir da libertação de sua culpa, o pecador recebe a liberdade do domínio do pecado
inerente:
Se alcançarmos o primeiro resultado, o segundo naturalmente se lhe seguirá:
se nossas dívidas nos são perdoadas, as cadeias se nos desprendem dos pés e
dos pulsos. No mesmo instante em que, pela livre graça de Deus em Cristo,
‘recebemos o perdão dos pecados’, também recebemos ‘herança entre os que
são santificados , pela fé que nele há’. O pecado perdeu seu poder: não mais
tem domínio sobre os que estão debaixo da graça, isto é, no favor de Deus
(WESLEY, v. 5, p. 339-340).

Apesar de haver um arrependimento antes do momento da justificação, o


conhecimento e o arrependimento de pecado precisa continuar todos os dias para que o
caminho da santificação possa prosseguir. Santificação completa não pode ser alcançada se
não houver arrependimento. “Não há lugar para arrependimento naquele que crê não possuir
pecado em sua vida ou coração. Conseqüentemente, não é possível haver aperfeiçoamento no
amor, para o qual o arrependimento é necessário” (WESLEY, v. 6, p. 51).
Em seu sermão Sobre a perfeição (Nº 76), Wesley indica que “perfeição é outro nome
para a santidade universal: retidão interior e exterior: Santidade de vida, surgindo da santidade
de coração”. Neste sermão, ele enumera diversas características da santificação. Em primeiro
lugar, santificação é “amar a Deus de todo coração e o próximo como a si mesmo”
(WESLEY, v. 6, p. 413). Klaiber e Marquardt mostram quatro identificações da santificação
com o amor: 1) “Santificação é dom de Deus, assim como o amor de Deus o é”. Para Wesley,
este é o “cumprimento do novo nascimento e princípio da santificação, bem como única e
verdadeira marca de todo ‘metodista’”. 2) “Santificação e santidade recebem do amor a marca
que a define”. Viver a santidade é uma resposta à santidade de Deus e de seu amor. Esta
característica não se define no negativo, ou seja, por aquilo que o cristão não é ou não faz,
mas no positivo, levando a uma atitude ativa. 3) Santificação é amor, portanto, ela é
“necessariamente santificação social”. A santificação possui sempre seu horizonte na
comunicidade, incluindo o correto relacionamento com as pessoas. 4) Já dizia Wesley, “quem
ama vive a vida eterna”. (KLAIBER e MARQUARDT, 2006, p. 301-302).
34

Além da santificação ser entendida como “amar a Deus de todo o coração e o próximo
como a si mesmo”, Wesley continua mostrando que santificação também é
2) ter a mente de Cristo; 3) produzir o fruto do espírito (de acordo com
Gálatas 5); 4) restauração da imagem de Deus na alma, recuperação da
imagem moral de Deus, que consiste em “retidão e santidade genuínas”; 5)
ter retidão interior e exterior, “santidade de vida que brota da santidade de
coração”; 6) santificação divina no corpo, na alma e no espírito; 7) perfeita
consagração individual à Deus; 8) entrega contínua, por intermédio de Jesus,
dos pensamentos, palavras e ações do indivíduo como sacrifício de louvor e
ações de graça à Deus e 9) salvação de todo o pecado (WESLEY, v. 6, p.
413-415).

Devido às muitas objeções levantadas à última característica de santificação


mencionada acima (salvação de todo pecado), Wesley passou a maior parte do seu sermão
argumentando em favor desta posição. No entanto, ele lembra que “esta salvação do pecado,
de todo o pecado, é outra descrição da perfeição: embora, na verdade, ela expressa apenas o
menor, o ramo mais inferior dela, apenas a parte negativa da grande salvação” (Ibid., p. 415).
Santificação é muito mais do que apenas a remoção do pecado no crente.
Em outro sermão – Sobre a vinha de Deus (Nº 107) – Wesley explica que na
santificação, existe um “dualismo”: a combinação de pureza externa, através de atos de amor
santo, e pureza interna, através da fé. Os cristãos deveriam ser “tão obstinados da santidade
interior, como qualquer místico; e, da exterior, como qualquer fariseu” (Ibid., p. 205). Ele
adverte, no entanto, contra a tendência de enfatizar apenas um destes aspectos em detrimento
do outro. Aqui encontramos uma perfeição interna, de caráter, personalidade, paixões, fé e
motivação; como também uma perfeição externa, de atos, amor, obediência. É um
crescimento equilibrado e harmonioso.
Outro dualismo que podemos encontrar na teologia de Wesley, é aquela popularizada
por George Croft Cell. Cell nota que a teologia de Wesley acarreta a “necessária síntese da
ética protestante de graça com a ética católica de santidade” (1984, p. 361). Um exemplo que
podemos dar desta percepção “católica” de graça em Wesley é quando ele escreve em seu
diário, em 1765 que “é impossível alguém reter o que recebe sem melhorar o que recebeu”,
enfatizando a necessidade de trabalhar a graça concedida por Deus (WARD E
REITZENRATER, v. 4, p. 499). Wesley, em outro momento, escrevendo para uma moça de
nome March, diz: “Usar a graça recebida é o caminho correto para obter mais graça. Usar
toda fé que você tem traz um aumento de fé” (TELFORD, v. 5, p. 200).
Por outro lado, percebemos em outras instâncias a compreensão “protestante” da
graça, como por exemplo, quando Wesley afirma que: “O autor da fé e da salvação é somente
35

Deus. Ele é o único Doador de todo bom dom” (CRAGG, 1989, p. 11:107-108). Além do
mais, Wesley chega a afirmar que Deus, às vezes, “faz o trabalho de anos em apenas algumas
semanas, talvez em uma semana, um dia, uma hora. Ele justifica ou santifica aqueles que não
fizeram nada, nem sofreram nada e aqueles que não tiveram tempo para o crescimento
gradual, quer em luz quer em graça” (WESLEY, v. 11, p. 423). Collins também identifica tal
dualismo e conclui que para compreendermos a teologia da santificação em Wesley,
“primeiro, temos de distinguir santificação, como um processo [elemento católico] que leva à
santificação completa, da própria santificação completa, como uma realização instantânea
[elemento protestante] da graça” (COLLINS, 2010, p. 384). Entretanto, tal compreensão não é
consensual entre os demais interpretes de Wesley, uma vez que indicam que Wesley não
afirma a santificação completa.
Existe momentos em que, em uma frase somente, Wesley une ambas as visões da
graça. Em uma carta para Sarah Rutter, Wesley afirma “A santificação gradual pode aumentar
a partir do momento em que você é justificada; mas acredito que a libertação total do pecado
sempre é instantânea – pelo menos, ainda não encontrei uma exceção” (TELFORD, v. 8, p.
190).

Conclusão
Neste capítulo, procuramos apresentar o tema da santificação e da perfeição cristã no
pensamento de Wesley. Num primeiro momento, uma breve revisão histórica sobre Wesley
foi oferecida. Nela procuramos mostrar um pouco como que seus conceitos se desenvolveram
e foram expressos no decorrer dos anos. Procuramos, através de seus sermões, cartas e obras,
captar seu pensamento e seus conceitos sobre santificação. Os diversos eventos com os quais
ele interagiu também nos ofereceram uma janela para as suas idéias. Esta parte do trabalho foi
dividida em cinco partes: 1) John Wesley e a Inglaterra do Séc. XVIII, 2) o pensamento
wesleyano durante o surgimento do metodismo (1725-1739), 3) o pensamento wesleyano
durante o reavivamento metodista (1739-1744), 4) a consolidação do pensamento wesleyano
(1744-1758) e, 5) amadurecimento do pensamento de Wesley (1758-1791).
Num segundo momento, observamos que sua compreensão de santificação cristã está
intimamente interconectada com outros temas como o pecado e a natureza humana, a
expiação, a justificação, a obediência à Lei de Deus e finalmente a perfeição cristã. Enquanto
que santificação só começa a partir da justificação, ela segue o cristão durante toda a sua vida,
e nunca acaba. É um caminho composto por diferentes etapas que permite ao cristão crescer
36

até alcançar a perfeição cristã. Enquanto que a santificação permite a remoção da presença e
do poder do pecado no ser humano, contudo, não é eliminada a possibilidade para erros,
doenças, tentações e até a possibilidade de uma recaída em pecado. Mas ela habilita o ser
humano a novamente “amar a Deus de todo o coração e o próximo como a si mesmo”,
tornando a santificação um processo que afeta o indivíduo e se manifesta socialmente.
No entanto, para que tal obra possa ser realizada, deve haver um esforço por parte do
ser humano em colaboração com a atuação divina. Este esforço se manifesta na forma de
obediência à vontade e lei de Deus. Santificação possui como objetivo habilitar o ser humano
das virtudes que também havia em Cristo Jesus.
CAPÍTULO II – VIDA E TEOLOGIA DA SANTIFICAÇÃO EM ELLEN G. WHITE

Introdução
Neste capítulo, estaremos abordando alguns aspectos da vida de Ellen G. White (1827-
1915) em conexão com o tema da santificação. Os eventos que mais se aproximam e se
relacionam com o tema da santificação e da perfeição cristã serão estudados, procurando
assim, oferecer uma compreensão do pensamento whiteano sobre estes temas. Utilizaremos a
estrutura proposta por Knight em Uma igreja mundial, adaptando-o para este trabalho em
cinco momentos: 1) Ellen White e os Estados Unidos do séc. XIX, 2) o pensamento whiteano
durante o movimento millerita (1840–1844), 3) o pensamento whiteano durante o
desenvolvimento doutrinário adventista (1844-1848), 4) Ellen White durante o
desenvolvimento organizacional adventista (1848-1888), e 5) maturidade e expansão do
pensamento whiteano (1888-1915).
Em seguida, abordaremos aspectos teológicos do pensamento de White ligados ao
conceito de santificação. Neste sentido, procuraremos compreender sua conexão com outros
aspectos como 1) a natureza do ser humano e o pecado, 2) a expiação, 3) a justificação, 4) a
obediência, e 5) a perfeição cristã. Finalmente, uma síntese do pensamento whiteano sobre a
santificação concluirá nosso capítulo.

1 Aspectos biográficos concernentes ao tema


De 1830 a 1844 surgiu nos Estados Unidos um grupo de cristãos advindos de
diferentes denominações cristãs que anunciavam o segundo advento de Jesus Cristo para o
ano de 1844. Era enfatizada a segunda vinda de Cristo e a necessidade do povo se santificar
para esta vinda. Este movimento passou a ser chamado de “millerita”, após um de seus
principais pregadores, William Miller (FROOM, 1982, v. 4, p. 429-827). O ano de 1844
chegou e Cristo não veio, deixando o grupo extremamente decepcionado, desmotivado e
desmembrado. Desta grande decepção, um pequeno grupo decidiu retomar as forças e voltar a
estudar as Escrituras a fim de descobrir o que havia realmente acontecido naquele ano. Dentre
os que pertenciam a este pequeno grupo, se encontrava uma moça de dezessete anos chamada
Ellen Gould Harmon. Através de sua atuação, influência, direção e guia, Ellen Gould Harmon
(após seu casamento, Ellen Gould White) ajudou aquele pequeno grupo desmotivado e
espalhado pelos Estados Unidos a se unir e se tornar uma igreja forte, viva e crescente.
38

Seu legado é uma quantia considerável de livros, artigos e cartas (chamados de “testemunhos”
no meio adventista) ajudando a direcionar o caminho que esta igreja tomou desde seu
surgimento. Apesar de não definir a doutrina adventista, White, através de seus escritos,
influenciou de forma marcante o comportamento, pensamento e estilo de vida dos membros
desta denominação. Seus escritos, abrangem uma gama de assuntos desde a vida particular
como espiritualidade pessoal, saúde e higiene pessoal, até tópicos como sociologia, política,
educação, como também a questões administrativas e econômicas deste movimento
emergente. A presente seção tem como objetivo apresentar uma breve biografia da vida e
escritos de Ellen White, enfocando os momentos que ela se deparou com o tema da
santificação.

1.1 Ellen White e os Estados Unidos do Séc. XIX


O período em que Ellen White viveu nos Estados Unidos foi um período de profundas
mudanças para o país. Tais mudanças podem ser destacadas no desenvolvimento social do
país, no desenvolvimento religioso e nas mudanças intelectuais.
Durante os primeiros anos de vida de White, os Estados Unidos experimentava um
constante crescimento para o oeste. Novos estados, como Arkansas, Michigan, Iowa, Florida e
Wisconsin, eram agregados à União. A revolução industrial também havia alcançado os
Estados Unidos, levando-os a deixar a posição de um país produtivo de segunda categoria
para o primeiro lugar em produção de bens. Enquanto que grande parte do transporte terrestre
era feito por cavalos e carruagem, o país construiu uma malha ferroviária que unia o país de
leste a oeste, norte a sul, auxiliando no crescimento e tornando-se o símbolo do período pós-
guerra civil (LAND, 1987, p. 63-76).
Além do acúmulo de territórios ao país, os Estados Unidos experimentou um
crescimento populacional tremendo. “A população dos Estados Unidos elevou-se de cerca de
5 milhões em 1800 para mais de 20 milhões em 1850”. Imigrantes chegavam aos Estados
Unidos diariamente aos milhares, trazendo consigo todo tipo de religião, filosofia e prática,
ameaçando a “homogeneidade religiosa” característica de uma America protestante
(DOUGLASS, 2001, p. 46). No fim da vida de White, os Estados Unidos já mantinha um
total de quase nove milhões de imigrantes, elevando a população total do país a mais de 100
milhões (KNIGHT, 1998, p. 77). Este crescimento naturalmente levou milhares a se
aglomerarem em cidades, tornando as condições de vida paradoxais.
39

Enquanto que as cidades ofereciam novas tecnologias como o telefone, bondes


elétricos, livrarias públicas, e oportunidades de emprego, muitos estudiosos destacam os
aspectos negativos da vida urbana americana no século XIX (LAND, 1987, p. 80). Só em
Nova Iorque, estima-se que “11 toneladas de estrume e 227 mil litros de urina” eram
depositados nas ruas pelos cavalos e animais de transporte. Junto a isto, as toneladas diárias
de lixo atraíam enxames de moscas, mosquitos e insetos (Ibid., p. 81). A maioria das cidades
não possuía um sistema de saneamento público, abrindo as portas para ameaças constantes de
cólera, malária, febre tifóide, caxumba e outras doenças.
Na medicina, uma linha de tratamento bastante divergente dos conceitos defendidos
hoje era divulgada entre a alta cúpula de médicos americanos do século XIX. Muitos dos
métodos propostos eram muitas vezes mais prejudiciais do que benéficos, mostrando a
distância entre a medicina daquela época e a medicina atual. Entre os vários métodos de tratar
doentes, encontramos a medicina “heróica” promovida por Bejamin Rush (1745-1813),
bastante divulgada naquela época. Os pacientes eram submetidos a estes tratamentos,
passando por violentos purgantes e vomitórios.
Rush copiosamente sangrava seus pacientes para relaxar a tensão vascular, a
qual ele acreditava ser o responsável primário por elas [febres]. O controle
deste fluido corporal... era a chave para uma intervenção positiva. Sob sua
influência, uma geração de médicos passaram a sangrar americanos, muitas
vezes suprindo o trabalho com doses de um purgante poderoso – Calomel
(SCHOEPFLIN, 1987, p.145).

No âmbito religioso, DOUGLASS descreve que “revivalistas e milenialistas,


comunitários e utopistas, espiritualistas e prognosticadores, celibatários e polígamos,
perfeccionistas e transcendentalistas [...] adicionavam tempero ao cenário religioso
anteriormente dominado pelas organizações religiosas convencionais” (Ibid., p. 47).
Encontramos neste século o crescimento do segundo grande reavivamento que havia se
iniciado em meados de 1790. Este reavivamento era caracterizado no início por sua
“uniformidade em quase todas suas aparições”. A intenção original era a pregação da
“verdade simples do evangelho”, sendo ela “a soberania absoluta de Deus, a depravação total
do homem, e o amor expiatório de Cristo” (AHLSTROM, 1979, p.417). No entanto, com o
passar do tempo, este reavivamento passou a assumir uma forma mais entusiasta.
Uma das características principais deste reavivamento era a prática de encontros em
camp meetings (reuniões campais), propagada por James McGready, um pregador
presbiteriano (HUDSON, 1987, p. 131). Estes encontros podiam atrair milhares de pessoas,
40

chegando muitas vezes a um total de 25 mil participantes. James Finley retrata um pouco a
agitação que podia ser testemunhada nestes camp meetings.
O barulho [...] era como o rugir do Niágara. O vasto mar de seres humanos
parecia ser agitado por uma tempestade. Eu contei sete ministros pregando
todos ao mesmo tempo, alguns sobre palanques, outros sobre vagões, e
outro... em pé sobre uma arvore que, ao cair, havia se apoiado sobre outra.
Algumas pessoas estavam cantando, outros orando, outros clamando por
misericórdia nos tons mais pietistas, enquanto que outros gritavam
freneticamente. [...] Eu cheguei a ver em uma só vez quinhentos caírem
[“mortos no Espírito”] em só um momento, como se uma bateria de milhares
de armas tivessem atirado sobre eles, sendo seguido imediatamente por
gritos e guinchos que alcançavam os céus (KNIGHT, 1998, p. 24).

Em conseqüência a este reavivamento, uma onda de entusiasmo missionário varreu


toda America protestante. Conforme os Estados Unidos crescia para o ocidente, os metodistas
e batistas acompanhavam o avanço com seus pregadores itinerantes. Conforme cada nova
conferência era estabelecida, novos pregadores itinerantes eram recrutados para visitar cada
família e cada lar. Um missionário presbiteriano no estado de Kentucky comentou da eficácia
demonstrada por estes pregadores: “Fico ambicioso ao encontrar uma família cuja casa não
fora visitada por um pregador metodista. [...] Tenho viajado de colônia em colônia [...] mas
em cada casa que entro, descubro que um missionário metodista já havia passado por ali”
(HUDSON, p. 141). Junto com o avanço missionário, novas sociedades também foram
construídas, como a American Bible Society em 1816; a American Sunday School Union, em
1824; e a American Home Missionary Society em 1826 (KNIGHT, 1998, p. 27).
Apesar do crescimento do território americano, muitos achavam que isto não era
suficiente. Sendo assim, muitos se ofereciam a iniciar novas missões em países fora de sua
pátria. Em 1812, aparecem os primeiros cinco missionários americanos que viajaram para a
India sob a tutela da American Board of Commissioners of Foreign Missions, fundada em
1810. Milhares de americanos atendiam ao apelo de dedicar sua vida às missões e à pregação
do evangelho em países estrangeiros. Este movimento cresceu até alcançar, em 1850, um
gasto anual de 650 mil dólares em missões estrangeiras (HUDSON, p. 149).
Um dos fenômenos observados no segundo grande reavivamento foi a efervescência
do milenialismo religioso e político. Muitos passaram a se interessar por, e estudar, passagens
bíblicas com caráter apocalíptico e a proclamar o advento do milênio. Para alguns, este
milênio era de caráter espiritual, enfatizando a segunda vinda de Cristo; enquanto que outros
defendiam um milênio secular, acreditando que os Estados Unidos, como uma república
protestante democrática, seria o novo Israel de Deus (KNIGHT, 1998, p. 13-18). Inspirados
41

por estas teologias, movimentos sociais cresciam dentro do país na tentativa de direcionar o
povo americano à reforma e ao reavivamento.
Outra marca deixada pelo segundo grande reavivamento foi a emancipação dos
escravos. “O reavivamento dos anos de 1820 e 1830 enfatizavam a liberdade de todo pecado,
e muitos viam a escravatura como um pecado” (Ibid., p. 46). Esta discussão gerou muita
confusão levando o país a um estado de guerra, culminando com a guerra civil em 1861.
Muitas igrejas acabaram se dividindo entre norte (os que apoiavam a abolição) e sul (os que
rejeitavam a abolição), como no caso da Igreja Batista (AHLSTROM, p. 648-669). O motivo
para o sul se apegar à escravatura estava diretamente ligado à economia. Muitos acreditavam
que o bem estar da economia e da produção de algodão dependia do trabalho escravo. Outros,
usando o argumento religioso, afirmavam que a escravatura havia sido estabelecida pela
autoridade divina e que lutar contra esta causa significava rejeitar a Palavra de Deus
(HUDSON, p. 190).
A guerra civil (1861-1865) foi um divisor na história dos Estados Unidos. Muitos
livros analisam a história dos Estados Unidos antes e depois da guerra civil. Durante o novo
período que sucedeu a guerra, “o povo americano se tornou muito mais heterogêneo. O
advento da ciência moderna alterou drasticamente o clima intelectual. E o passo acelerado da
industrialização criou novos centros de poder na vida nacional” (Ibid., p. 197). Havia uma
nova massa de homens e mulheres livres que precisavam de alimentação, trabalho, estadia e
educação. Novas organizações e movimentos se levantaram para atender às novas
necessidades do povo americano. Igrejas se uniram neste propósito, pregando um evangelho
que atendesse às necessidades de milhares de escravos recém libertos. No entanto, foi um
processo difícil e doloroso. Apesar do governo americano ter abolido a escravatura, concedido
direitos de cidadania e direito a voto a todos os negros, muitos permaneciam em situações
idênticas à quando eram escravos.
Além da emancipação de escravos, o segundo grande reavivamento proporcionou um
terreno propício para o surgimento de uma nova entidade religiosa chamada denominação.
Neste novo território onde todos eram considerados iguais e nenhuma mantinha “união” com
o governo, qualquer denominação poderia crescer e “vender” seu produto no mercado aberto.
Conforme Philip Schaff comentou em 1844:
Tendências que não haviam encontrado espaço político para se desenvolver
em outras terras crescem aqui sem restrição. [...] Todo vagabundo e infante
teológico pode trazer seu negócio [religioso], sem necessidade de passaporte
ou licença, e vender sua falsa mercadoria como quiser. (KNIGHT, 1998, p.
51).
42

Uma das igrejas que surgiu neste período foi a Igreja dos santos dos últimos dias,
também conhecida como a Igreja Mormon, fundada por Joseph Smith em Fayette, Nova
Iorque. Smith alegava receber visitas angelicais, a partir das quais ele publicou o Livro de
Mórmon (CLARK, 1968, vol. 1, p. 108-109). Em 1830, missionários foram enviados pelos
diferentes estados para proclamar a doutrina mórmon. Seus novos conceitos sobre religião,
salvação, história e vida cotidiana receberam muita rejeição por parte de protestantes. Após o
assassinato de Smith em 1844, Brigham Yound liderou o grupo de 16 mil mórmons através
das planícies de Salt Lake até chegar no que hoje é conhecido como o estado de Utah. A sede
de sua igreja foi estabelecida em Salt Lake, onde permanece até hoje.
Outro movimento religioso que surgiu nesta época é o espiritismo moderno. Em
fevereiro de 1848, as irmãs Margaret e Katie Fox passaram a ouvir batidas misteriosas no
chão da casa e, a partir destas batidas, se comunicaram com o espírito que supostamente
produzia essas batidas. Elas desenvolveram um sistema de comunicação com os espíritos,
podendo estes responder a qualquer pergunta que elas fizessem. Elas se tornaram,
eventualmente, médiuns profissionais, “mantendo encontros públicos e cobrando quantias de
dinheiro conforme apresentavam revelação após revelação sobre o mundo sobrenatural”
(KNIGHT, 1998, p. 61-62).
O espiritismo cresceu em várias cidades e outros médiuns surgiram em conseqüência.
A partir daquela técnica desenvolvida pelas irmãs, o movimento de mesas, psicografia,
comunicações com os mortos e outros fenômenos se tornaram comuns dentro do movimento
espírita. Em 1857, já havia 67 periódicos espíritas nos Estados Unidos, divulgando a
mensagem espírita. Muitos se envolviam com o espiritismo por questões puramente
emocionais, sem reconhecer neste movimento seu lado religioso (MOORE, 1974, p. 81). Um
dos espíritas mais famosos desta época foi Andrew Jackson Davis, que entre os vários livros
publicados, psicografou Os princípios da Natureza, sua revelação divina, e uma voz à
humanidade. Este livro é o principal responsável por formar o vocabulário e a teologia do
espiritismo moderno (CLARK, p. 359-361).
Apesar dos Estados Unidos oferecerem um território fértil para o surgimento e
acomodação de várias denominações e igrejas, havia uma que era discriminada de forma
pública: a Igreja Católica. Muitas das igrejas que eram perseguidas no continente europeu
encontraram um lugar seguro nas Américas para se instalar e crescer. Quando perceberam que
a Igreja Católica acompanhava seus movimentos e estava se instalando nos Estados Unidos
também, muitas igrejas temeram por sua liberdade.
43

Dos imigrantes que chegavam aos Estados Unidos diariamente, muitos eram de
confissão católica e eram interpretados como agentes enviados por governos europeus a fim
de derrubar a democracia americana (KNIGHT, 1998, p. 63). Uma enxurrada de literatura
anti-católica se espalhou pelo país advertindo os protestantes dos perigos que a Igreja Católica
poderia trazer para a liberdade americana. Esta era uma nação protestante, ou seja, que
“protestava” contra a teologia católica e suas práticas. Mas enquanto que os primeiros
protestantes protestavam contra conceitos e práticas católicas como a infalibilidade papal, a
confissão para padres, a intercessão dos santos, o purgatório, os livros apócrifos, a mudança
da santidade do sábado para o domingo e a transubstanciação do pão para o corpo de Cristo,
os protestantes americanos se opunham às pessoas e famílias que eram católicas e que não
pertenciam ao clero da igreja. “O anti-catolicismo daquele período tomou a forma de protesto
contra a imigração, especialmente de áreas católicas na Irlanda e no sul da Europa; e oposição
à escolas católicas” (CLARK, p. 204).
A última mudança que gostaríamos de destacar se encontra no campo intelectual. Foi
perto dos anos finais de White que percebemos o crescimento do liberalismo cristão. O
liberalismo cristão pode ser considerado como uma tentativa de adequar a proposta cristã ao
novo mundo que estava se desenvolvendo. Com a publicação de A origem das espécies de
Charles Darwin, muitos acharam um meio de explicar o humano sem precisar se referir ao
divino. “Uma década após a Guerra Civil, praticamente cada cientista americano importante
tinha se convertido para a teoria darwinista da evolução biológica e ao ‘socialismo darwinista’
de Herbert Spencer” (HUDSON, p. 247). Os que aderiram a esta nova forma de ver o mundo
natural mas mantinham sua aderência à religião afirmavam que Deus se revelava através do
processo da história e da cultura, trabalhando através de leis naturais, inclusive da evolução.
Muitos, ao adotarem métodos científicos em suas interpretações, abandonaram crenças
fundamentais para o cristianismo da época, como a inspiração divina da Bíblia, a queda do
homem em pecado, a possibilidade de milagres, a encarnação e a ressurreição de Jesus. Sua
antropologia passou a ver positivamente o ser humano como capaz de si e capaz de realizar o
bem. O pecado não era mais visto como uma rebelião contra Deus, mas como o resultado da
ignorância e resquício do processo evolutivo. Se o ser humano pudesse ser educado e
“reformado”, ele poderia resolver os problemas sociais e instaurar a paz. Finalmente, Jesus
não era mais aceito como um sacrifício substitutivo, mas como um exemplo de vida e
conduta. “Teólogos liberais desejavam ‘libertar’ a religião do obscurantismo e da escravidão
dos credos, a fim de dar ao homem poderes morais e racionais com maior amplitude”
44

(AHLSTROM, p.779). Também foi na segunda metade da vida de White que a Alta Crítica
alcançou sua maturidade com as obras de Julius Wellhausen. Seus princípios desenvolvidos
na interpretação do Antigo Testamento também foram aplicados pela escola de Tübigen ao
interpretar o Novo Testamento (CLARK, p. 287-289).

1.2 O pensamento whiteano durante o movimento millerita (1840 – 1844)


Ellen Harmon e sua irmã gêmea Elizabeth nasceram em Gorham, no estado do Maine,
Estados Unidos em 26 de novembro de 1827. Ellen cresceu em uma família metodista junto
com seus sete irmãos e irmãs. À idade de nove anos, ela sofreu um acidente que a deixou
muito debilitada. Uma de suas colegas de escola, por algum motivo, lançou uma pedra e
acabou acertando o rosto de Ellen. Devido à este acidente, por algum tempo, Ellen ficou entre
a vida e a morte, e sua família duvidou que ela conseguisse sobreviver àquela traumática
experiência. A recuperação foi lenta e dolorosa. Aos doze anos ela procurou voltar à escola,
mas logo percebeu que sua vida escolar não teria sucesso e parou seus estudos.
Em março de 1840, Ellen teve a oportunidade de participar de uma série de reuniões
onde William Miller, um pregador itinerante, pregava sobre as profecias de Daniel 8 e a
segunda vinda de Jesus Cristo. Miller mostrava a importância da população estar preparada
para a segunda vinda de Cristo. Muitos que participavam dessas reuniões saiam de lá temendo
por sua salvação, pois não se consideravam prontos para este grande evento. “Realizavam-se
reuniões de oração e havia um despertamento geral entre as várias denominações; pois todos
sentiam, uns mais e outros menos, a influência do ensino da próxima vinda de Cristo”. Nestas
reuniões, White relata que muitos eram “convidados a ir à frente, para o lugar daqueles que
desejavam auxílio cristão especial, centenas atenderam o apelo. E eu me coloquei entre os que
buscavam aquele auxílio” (WHITE, 2000, vol. 1, p. 16-17). No entanto, White não se
considerava “digna de ser chamada por Deus”. Pairava em seus pensamentos o sentimento de
que seus pecados não seriam perdoados e caso Jesus aparecesse naquele instante, ela não seria
salva.
Este sentimento permaneceu durante alguns meses. Um ano depois, White teve a
oportunidade de participar de uma reunião campal em Boston, no estado de Maine. Ali, suas
incertezas foram acalmadas por um sermão que ouviu, mostrando que se as pessoas “se
entregassem a Deus, e sem mais demora confiassem em Sua misericórdia”, elas encontrariam
um Salvador “compassivo, pronto para lhes apresentar o cetro da misericórdia. Tudo que se
exigia do pecador, trêmulo ante a presença de seu Senhor, era que estendesse a mão da fé e
45

tocasse no cetro de Sua graça. Aquele toque asseguraria perdão e paz” (Ibid., p. 16). White
descobriu que era um erro tentar tornar-se mais digna do favor divino antes de arriscar
alcançar a promessa de Deus.
Somente Jesus purifica do pecado; apenas Ele pode perdoar nossas
transgressões. Ele assumiu o compromisso de ouvir as petições e deferir as
orações dos que pela fé a Ele recorrem. Muitos têm uma idéia vaga de que
devem fazer algum esforço extraordinário a fim de alcançar o favor de Deus.
Toda confiança própria, porém, é vã. É unicamente ligando-se a Jesus pela
fé, que o pecador se torna filho de Deus, cheio de esperança e crença (Ibid.,
p. 17).

Essas palavras a consolaram, e deram-lhe uma visão do que devia fazer para ser salva.
White procurou então obter perdão de seus pecados e se entregar inteiramente a Deus.
Contudo, ela continuava confusa quanto à natureza da conversão, pois não “experimentava o
êxtase espiritual que considerava ser a prova de minha aceitação da parte de Deus”. Seus
comentários nos mostram a sua incessante busca por segurança e por uma experiência
extática, prática comum no metodismo americano do século XIX (WHIDDEN, 1989, p. 30).
Estas reuniões tiveram um forte impacto em sua vida espiritual, levando-a ao batismo
por imersão na Igreja Metodista em 1842. Neste contexto, White também começou a se
interessar pelo tema da santificação. Havia interesse e frustração ao mesmo tempo:
Eu assistia freqüentemente às reuniões e cria que Jesus devia logo vir nas
nuvens do Céu; o que me preocupava, porém, era estar pronta para O
encontrar. Eu pensava constantemente no assunto da santidade do coração.
[...] Ouvi muito a respeito da santificação entre os metodistas. Vi muitas
pessoas perderem sua força física sob a influência de forte agitação mental, e
ouvi falar que isso era positiva evidência de santificação. Mas não pude
compreender o que era necessário para ser plenamente consagrada a Deus.
[...] Minhas idéias a respeito da justificação e santificação eram confusas.
Esses dois estados foram-me apresentados como sendo separados e distintos
um do outro. Não pude compreender a diferença ou o significado dos
termos, e todas as explicações dos pregadores aumentavam minhas
dificuldades (WHITE, 2000, vol. 1, p. 22-23).

Mais uma vez, podemos identificar aqui o conceito metodista de perfeição. Não devemos
esquecer que a esta altura, nem todos os pregadores metodistas defendiam o mesmo conceito
de perfeição, especialmente o da “segunda benção” (PETERS, 1956, p. 133-181). O próprio
Wesley havia orientado aos pregadores metodistas a não se referirem ao tema da “segunda
benção.
O elemento da instantaneidade no conceito metodista de santificação também pode ser
identificado no convite que os amigos de White faziam: “Creia em Jesus agora! Creia que Ele
46

a aceita agora”. “Tentei fazer como me disseram, mas descobri ser impossível acreditar que
eu recebera a bênção, a qual, eu julgava, deveria eletrizar todo o meu ser. Admirei-me de
minha própria dureza de coração ao ser incapaz de experimentar a exaltação de espírito que
outros haviam manifestado” (WHITE, 2000, vol. 1, p. 22-23).
Além de suas próprias lutas pessoais, o comportamento de muitos que alegavam
perfeição a deixava confusa. White relata que observava pessoas que se diziam santificadas,
mas que demonstravam um “espírito amargurado quando o assunto da breve volta de Jesus
era apresentado. Isso não me parecia uma manifestação da santidade que professavam” (Ibid.,
p. 23). O que ela ouvia dizer sobre a perfeição cristã e o que ela via e experimentava eram
duas coisas diferentes. A santificação era apresentada como algo instantâneo e experimental,
mas ela não conseguia experimentar esta santificação. Devemos ressaltar neste momento a
relação apresentada por White entre santificação e a “volta de Jesus”.
Está é uma percepção que ocorre não apenas aqui, mas que a segue até seus últimos
dias. Sua busca pela santificação não era caracterizada pelo reavivamento, como no caso do
movimento wesleyano, mas no contexto da expectativa da vinda escatológica de Jesus Cristo.
Whidden mostra que podemos encontrar diversos elementos metodistas no relato da
conversão de White. Um elemento interessante que ele aponta, é a necessidade de
testemunho. Phoebe Palmar enfatizava a necessidade de, uma vez que o crente experimenta a
segunda benção, testemunhar de sua experiência para outros (WHIDDEN, p. 43). Além disto,
como veremos mais adiante, White usou expressões que eram caracteristicamente wesleyanas,
como “a santidade de coração e vida” (WHITE, 2000, v. 1, p. 335-340). No entanto, mesmo
que em diversos momentos ela use uma terminologia metodista, a motivação por detrás da
busca era inteiramente millerita.
Foi apenas através de uma conversa com um pastor metodista, adepto da mensagem
millerita, que White conseguiu obter paz de espírito e compreensão sobre este assunto. A sua
própria luta, disse este pastor, era uma evidência de que Deus estava lutando por sua vida.
Deus não a abandonara, mas a estava conduzindo. A partir deste encontro, White relata que
seus conceitos sobre Deus e a salvação mudaram. Sua fé, apesar de infantil, motivou-a a
contar sua história em diversos lugares, convidando seus ouvintes a se prepararem para a
segunda vinda de Cristo. O entusiasmo pela mensagem do segundo advento de Jesus Cristo,
no entanto, não era aceito por muitos, e especialmente por sua igreja. Muitos pregadores
milleritas eram expulsos do púlpito de muitas igrejas por pregarem esta mensagem. White e
sua família acabaram, eventualmente, sendo desligados da Igreja Metodista em 1843 (Ibid., p.
47

43). Mas a rejeição por parte de muitos não a desanimou, pois seu maior anseio era ver Jesus
voltando no ano 1844.
Suas esperanças, contudo, não se concretizaram. O ano de 1844 passou e Cristo não
voltou. Um grande desapontamento brotou no coração de todos que pertenciam ao movimento
millerita. É no contexto do desapontamento do movimento millerita que surge o dom
profético em Ellen G. White2. Em dezembro daquele mesmo ano, ela recebeu sua primeira
visão, fenômeno que a seguiu até o fim de sua vida em 1915 (Ibid., p. 23).

1.3 O pensamento whiteano durante o desenvolvimento doutrinário adventista (1844-


1848)
Em 1846, Ellen se casou com James White, com quem teve 4 filhos: Henry, Edson,
William e John Herbert (que morreu com três meses de vida, vítima de erisipela)
(DOUGLAS, 2001, p. 57). James também era pregador e gostava de acompanhar Ellen pelos
Estados Unidos pregando as mensagens do adventismo.
“Conhecido por sua persistência e são juízo, James era considerado um líder
de confiança por parte dos seus irmãos adventistas do sétimo dia. Era não
apenas um estrategista, mas lutava como um guerreiro no campo de batalha.
Ele iniciou a obra de publicações da igreja a partir do zero, fomentou a
organização da igreja e desenvolveu o sistema educacional quando outros
viam nisso apenas um sonho. Sua robusta fé e contagiosa alegria comoviam
o público ouvinte. Fundos e apoio apareciam. Seu extraordinário talento
comercial salvou a denominação de muitas dificuldades” (DOUGLAS, p.
53).

Esta pode ser considerada uma descrição um tanto apaixonada, mas não deixa de
ressaltar a influência e importância deste casal no movimento adventista. Ellen e James se
tornaram pioneiros fundamentais e ajudaram a moldar o adventismo que hoje conhecemos.
Apesar de serem de contextos religiosos diferentes (Ellen era metodista e James era da
Conexão Cristã), a mensagem da segunda vinda de Cristo achou aceitação na mente de
ambos, que passaram o resto de sua vida promovendo-a.

2
Por “dom profético” entende-se à alegação de revelações especiais de Deus. Tais “revelações” muitas vezes
aconteciam através de sonhos e visões. Estas visões, muitas vezes, aconteciam quando Ellen se encontrava na
companhia de outras pessoas. Era também possível receber “sonhos” contendo mensagens especiais enquanto ela
dormia a noite. Apesar da Igreja Adventista do Sétimo Dia a aceitar como uma mulher que tinha o dom profético
com uma mensagem profética para os “últimos dias”, pode-se encontrar também aqueles que discordam de tal
posição e se tornaram críticos de Ellen White. Entre as diferentes críticas, alega-se que Ellen White sofria de
epilepsias e transes. Ver Delbert H. Hodder, “Visions or Partial-Complex Seizures?” Evangelica. Vol. 2, N. 5,
Novembro 1981; Ronald D. Graybill, The Power of Prophecy: Ellen G. White and the Women Religious
Founders of the Nineteenth Century. Tese de doutorado pela John Hopkins University, Baltimore, MD, 1983.
48

A luta por uma compreensão equilibrada da santificação não ocorreu apenas nos
primeiros anos após o batismo de Ellen White. Como lembra Whidden (Ibid., p. 53), White
teve que lidar pelo menos seis vezes nos primeiros dez anos de seu ministério com o assunto
de santificação e especialmente a do perfeccionismo.
A primeira situação em que White se defrontou com pessoas que apresentavam,
conforme ela definiu, um conceito “fanático” da santificação, foi logo após o desapontamento
millerita, em 1845. Após o desapontamento de 1844, o grupo millerita acabou se
desintegrando em quatro grupos (SCHARWZ e GREENLEAF, 2000, p. 55-56). Entre estes,
um grupo referido como “espiritualistas” se levantou, afirmando que o evento que eles
estavam aguardando (a segunda vinda de Cristo), havia realmente ocorrido e que eles estavam
no céu, tendo assim, ultrapassado o estágio de pecar. Eles acreditavam que haviam alcançado
tamanho estágio de santificação que não poderiam mais pecar; que tudo que fizessem, era
puro e santo. Conforme as palavras de White, eles defendiam que “eram santificados, que não
podiam pecar, que haviam sido selados e santificados, e que todos os seus pensamentos e
conceitos eram da mente de Deus” (WHITE, 1985, v. 1, p. 71). Todo o evento esperado não
passava de uma alegoria e Cristo havia, na verdade, vindo de forma espiritual. Conforme
Cristo viesse a esta terra, ele viria no coração de cada crente (Ibid., p. 79). Como resultado,
eles acreditavam que poderiam manter “esposas espirituais”, desde que amassem uns aos
outros como cristãos. Muitos mantinham reuniões de forma completamente nua e outros
compartilhavam suas esposas entre o grupo. Tudo isto era considerado por ela como um
“falso entusiasmo” (Ibid., p. 82-83).
A segunda situação ocorreu no estado de New Hampshire. Em Claremont, White
visitou os lares de duas famílias: Bennett e Bellings. Em sua visita, ela descobriu que eles
professavam ser santificados e que haviam alcançado um estado de impecabilidade. Os dois
senhores destas famílias afirmavam que já haviam superado a preocupação por coisas
“terrenas”. Durante sua visita, White percebeu o pobre estado no qual estas famílias se
encontravam. As crianças andavam mal vestidas e em condições deploráveis e as esposas
sobrecarregadas de responsabilidades. “Sua santificação [professada pelos dois maridos]
perdeu seu charme aos meus olhos. Envolvido em oração e meditação, deixando de lado as
preocupações e responsabilidades desta vida,” estes homens estavam falhando em prover
pelas verdadeiras necessidades de sua família. Enquanto que o resto da família se preocupava
com as tarefas e responsabilidades do cotidiano, estes homens “mantinham seus pensamentos
acima das coisas deste mundo”. Foi nesta ocasião que White teve a oportunidade de observar
49

os resultados do que ela chamava de “magnetismo espiritual” (Ibid., p. 79). Ahlstrom


reconhece esse fenômeno como “magnetismo animal” e o define como um tipo de
hipnotismo. Segundo ele, este fenômeno “acrescentava uma nova dimensão ao conceito
popular da consciência humana” (Ibid., p. 477).
Neste contexto, White nos relembra que santificação não é definida por “inatividade e
meditação abstrata” e que “quanto maior for nosso amor por Deus, mais forte será nosso amor
e cuidado por aqueles que Deus nos confiou. O Salvador nunca ensinou inatividade e
meditação abstrata, negligenciando assim as responsabilidades que se levantam em nosso
caminho”. White também relembra que santificação se manifesta por “atos de bondade e
misericórdia” e através do “amor que leva homens e mulheres a tratar outros melhor do que a
si mesmos” (WHITE, 1943, p. 80). White percebeu que apesar de professarem grande
humildade, eles “se orgulhavam de sua sofisticada santificação e resistiam qualquer apelo à
razão”. Toda tentativa de dissuadi-los de sua posição resultava em frustração.
Posteriormente, em New Hampshire, White encontrou estes conceitos sobre
santificação sendo repetidos. Outras pessoas também apoiavam o conceito de que “aqueles
que são santificados não podem pecar. Isto, naturalmente levou à crença de que as afeições e
desejos daqueles que são santificados estão sempre certos e nunca estão no perigo de levá-los
a pecar. Em harmonia com estes sofismas, eles praticavam os piores pecados sob o manto da
santificação” (Ibid., p. 83). White rejeitava completamente o conceito de que a “alegação” de
santificação automaticamente inocentava o ser humano de qualquer ato praticado.
Neste contexto, White reflete:
Aqueles que triunfalmente advogam impecabilidade, mostram por sua
própria jactância que estão longe de não serem manchados pelo pecado.
Quanto mais claramente o pecador compreender o caráter de Cristo, mais
desconfiado será de si mesmo. Também mais imperfeitos serão seus atos em
seu ver, em contraste com aqueles que marcaram a vida do Redentor
imaculado. Mas aqueles que estão longe de Jesus, aqueles cujas percepções
espirituais estão tão obscurecidas pelo erro que não conseguem compreender
o caráter do grande Exemplo, consideram-nO como se fosse igual a eles, e
ousam tratar de sua própria perfeição de santidade. Mas estão longe de Deus;
pouco conhecem de si mesmos, e menos ainda de Cristo (Ibid., p. 84).

Ao voltar para o estado de Portland, White se alarmou pelos crescentes efeitos do


“fanatismo” mencionado acima. Muitos ali “pensavam que a religião consiste em excitamento
e barulho” (WHITE, 1988, p. 73). Outros professavam “grande humildade, e advogavam o
arrastar-se no chão, quais crianças, como prova de humildade. [...] Costumavam arrastar-se
50

em redor de suas casas, nas ruas, nas pontes e na própria igreja”, interpretando de forma
literal o texto de Mateus 18:1-6 (Ibid., p. 73-74).

1.4 Ellen White durante o desenvolvimento organizacional adventista (1848-1888)


O terceiro incidente onde White se deparou com o tema da santificação ocorreu em
1850, quando White visitou a cidade de Camden, Nova Iorque. Ali ela conheceu uma mulher
que testemunhava publicamente ter “perfeito amor e gozava santidade de coração, que não
tinha provas, nem tentações, mas fruía perfeita paz e se submetia à vontade de Deus”.
Posteriormente, sua verdadeira vida acabou vindo à tona quando ela foi levada a confessar um
relacionamento adúltero que mantinha com outro homem (Ibid., p. 132-133).
Outra situação descrita por White foi em Vermont, quando dois homens passaram a
“ensinar a doutrina da extrema santificação, pretendendo não poderem pecar e estarem
preparados para a trasladação. Praticavam o magnetismo e pretendiam receber iluminação
divina ao estarem numa espécie de êxtase”. Estes homens “não se ocupavam com o trabalho
regular, mas em companhia de duas mulheres, que não eram suas esposas, viajavam de um
lugar para o outro [...] vestidas de alvo linho e com os longos cabelos negros soltos sobre os
ombros. Os vestidos de linho branco deveriam simbolizar a justiça dos santos” (Ibid., p. 138).
Refletindo sobre estas experiências que White teve com afirmações de santificação e
perfeição cristã, Whidden acerta no ponto quando mostra que um dos motivos para ela ter se
distanciado dos aspectos mais importantes da morfologia americana da
santidade e perfeição foi o impacto destas experiências negativas. Ela
rejeitava especialmente a necessidade do crente professar uma experiência
“instantânea” e as expectativas emocionais ligadas à experiência da
santificação que parecia estar em alta durante sua época (Ibid., p. 58).

Em 1862, James e Ellen foram convidados a viajar para o estado de Wisconsin para
lidar com um movimento que promovia idéias acerca da santificação. Ellen White considerou
este movimento como “estranho fanatismo” (WHITE, 2000, v. 1, p. 322). Foi durante esta
época que encontramos uma de suas declarações mais conhecidas sobre santificação:
A santificação não é obra de um momento, uma hora, ou um dia. É um
contínuo crescimento na graça. Não sabemos em um dia quão forte será
nossa luta no dia seguinte... Enquanto Satanás reinar, teremos de subjugar o
próprio eu, teremos assaltos a vencer, e não há lugar de parada, nenhum
ponto a que possamos chegar e dizer que o atingimos plenamente (Ibid., p.
340).
51

Durante a década de 1880, também podemos observar um desenvolvimento na


teologia da santificação em Ellen White. Durante este período, encontramos uma série de
artigos sendo publicados a partir de 1881 na Review & Herald, o principal periódico
denominacional. Estes artigos foram publicados em 1889, em forma de livreto, intitulado
Bible Sanctification. Posteriormente, foi publicado como The Sanctified Life em 1937 (sua
tradução para o português aparece em 1949 como Santificação). Nesta obra, White procura
apresentar seus conceitos sobre santificação analisando a vida de Daniel e o discípulo João.
White abre sua obra defendendo que “a santificação exposta nas Sagradas Escrituras
tem que ver com o ser todo – as partes espiritual, física e moral” (WHITE, 1980, p. 7). Muitos
professam santificação sem, no entanto, possuir a genuína santificação. O cristão que busca o
perfeito caráter cristão jamais afirmará estar sem pecado. “Sua vida pode ser irrepreensível;
podem estar vivendo como representantes da verdade que aceitaram; porém, quanto mais
consagram a mente para se demorar no caráter de Cristo e mais se aproximam de Sua divina
imagem, tanto mais claramente discernirão Sua imaculada perfeição e mais profundamente
sentirão seus próprios defeitos” (Ibid., p. 7-8).
Ela relembra que a verdadeira santificação significa “inteira conformidade com a
vontade de Deus. Pensamentos e sentimentos de rebelião são vencidos e a voz de Jesus suscita
uma nova vida, que penetra todo o ser”. Estes não devem se estabelecer como norma ou
exemplo a ser seguido (Ibid., p. 9). Ela rejeita novamente a relação entre santificação e
emoção. Segundo White, muitos erram neste conceito. “Fazem dos sentimentos o seu critério.
Quando se sentem elevados ou felizes, julgam-se santificados. Sentimentos de felicidade ou a
ausência de gozo não é evidência de que a pessoa esteja ou não santificada” (Ibid., p. 10).
O conceito de santificação instantânea é completamente rejeitado em White. “A
verdadeira santificação é obra diária, continuando por tanto tempo quanto dure a vida”. Deve
ser uma batalha constante “contra tentações diárias, vencendo as próprias tendências
pecaminosas e buscando santidade do coração e da vida” (Ibid., p. 11). Os frutos da
verdadeira santificação podem ser observados durante os momentos de dificuldade e luta.
Enquanto que os que professam falsamente a perfeição em suas vidas são traídos por seu
comportamento nos momentos de dificuldade, aqueles que verdadeiramente “cobrem-se do
manto da justiça de Cristo” refletem a verdadeira perfeição tanto “na prosperidade como na
adversidade”. Aquele que está experimentando a verdadeira santificação demonstra “renúncia
própria, sacrifício pessoal, benevolência, bondade, amor, paciência, magnanimidade e
confiança cristã” diariamente. “Seus atos podem não ser publicados ao mundo, mas eles
52

mesmos estão diariamente lutando contra o mundo e ganhando preciosas vitórias sobre a
tentação e o mal”. Os resultados da verdadeira santificação não aparecem instantaneamente,
“é preciso o tempo probante para revelar no caráter o ouro puro do amor e da fé” (Ibid., p.
12).
Devido aos diferentes exemplos negativos observados por White de “falsa
santificação”, é comum notar sua ênfase na religião interior. Para ela, existe um contraste
marcante entre aquele que se dá “ao trabalho de chamar a atenção para suas boas obras,
constantemente falando de seu estado sem pecado e esforçando-se por salientar suas
consecuções religiosas” e o homem verdadeiramente santificado que “anda inconsciente de
sua bondade e piedade” (Ibid., p. 13-14). O fruto que distingue um do outro é a mansidão. Um
exemplo bíblico que ela oferece é o de Daniel.
Daniel possuía a graça da genuína mansidão. Era verdadeiro, firme e nobre.
Procurava viver em paz com todos, ao mesmo tempo que era inflexível
como o cedro altaneiro, no que quer que envolvesse princípio. [...] O caráter
de Daniel é apresentado ao mundo como um admirável exemplo do que a
graça de Deus pode fazer de homens caídos por natureza e corrompidos pelo
pecado (Ibid., p. 22).

Em sua obra, White apresenta um aspecto peculiar sobre a santificação. Ela relaciona
ao processo da santificação o aspecto do apetite e da temperança. Segundo ela, os hábitos
alimentares afetam diretamente o processo de santificação. “Qualquer hábito que não
promova a saúde, degrada as mais elevadas e nobres faculdades. Hábitos errôneos no comer e
beber, conduzem a erros no pensar e agir. A condescendência com o apetite fortalece as
propensões animais, dando-lhes a ascendência sobre as faculdades mentais e espirituais”.
White acredita que seja “impossível a qualquer pessoa gozar da benção da santificação
enquanto é egoísta e glutona” (Ibid., p. 27). Conforme ela defende, erros alimentares podem
prejudicar, enfraquecer e diminuir a força física, mental e moral do indivíduo. Para ela,
santificação envolve o ser humano de forma holística, abrangendo assim os aspectos físicos
da individualidade humana.
Ela também adverte contra a separação que pode ser feita entre santificação e a
obediência à Lei de Deus.
Ninguém se engane a si mesmo com a suposição de que Deus o perdoará e
abençoará, enquanto está pisando um de Seus mandamentos. A prática
voluntária de um pecado conhecido silencia a testemunhadora voz do
Espírito e separa de Deus a alma. Quaisquer que sejam os êxtases do
sentimento religioso, Jesus não pode habitar no coração que desrespeita a lei
divina. Deus apenas honrará àqueles que O honram (Ibid., p. 102-103).
53

Ellen White costumava viajar muito com seu esposo, porém sempre dentro dos
Estados Unidos. Foi apenas após a morte de seu esposo, em 1881, que ela começou a viajar
para fora do país e espalhar seus conselhos e Testemunhos além mar. Em 1885 ela viajou para
a Europa, passando pela Inglaterra, Dinamarca, Suécia, Noruega, Itália, França e Suíça, onde
fixou residência em Basiléia. Ela ficou ali por dois anos ajudando no desenvolvimento da
igreja (WHITE, 1984, p. 3:316-373). Durante este período, foi lançado The Great
Controversy between Christ and Satan (1888; traduzido para o português em 1921 como O
Grande Conflito). Este é considerado por muitos como um dos livros mais influentes entre
todas as obras que ela escreveu. Trata-se de um desenvolvimento cronológico e temático do
grande conflito entre o bem e o mal (Cristo e Satanás). Nesta obra, White desenvolve a
história da luta entre o bem e o mal pelos séculos, passando pela igreja cristã primitiva, a
Idade Média, os reformadores e finalmente o movimento millerita. Na ultima seção do livro
ela apresenta as mensagens destinadas à humanidade que vive nos “últimos dias”, concluindo
com a vitória do bem sobre o mal e a erradicação do pecado do universo. Apenas na língua
portuguesa, este livro já teve 43 edições, tendo mais de um milhão e meio de cópias vendidas
(WHITE, 2006, p. i).

1.5 Maturidade e expansão do pensamento whiteano (1888-1915)


Um dos eventos fundamentais na vida de Ellen White, relativo à sua soteriologia, foi a
Conferência Geral3 de Minneapolis, em 1888. Esta conferência se tornou o divisor de águas
nas discussões soteriológicas da igreja. Muitos dos tópicos tratados naquela conferência
produziram uma divisão entre os líderes da igreja. Enquanto que, até este momento, a ênfase
da pregação adventista era caracterizada por um tipo de “farisaísmo”, enfatizando o esforço
próprio e a necessidade da observância da lei de Deus para salvação, a conferência de
Minneapolis procurou redirecionar o foco da pregação adventista para uma mensagem mais
cristocêntrica. Nos três anos que se seguiram a esta conferência, White manteve viagens
contínuas pelo país em apoio à ênfase do tema “justiça pela fé”, proposto em Minneapolis. A
década que se seguiu testemunhou o período de maior produtividade literária em White.
Como resumiu White, “devocão, piedade e santificação de todo o ser vêm por meio de Jesus
Cristo nossa justiça” (WHITE, 1987, v. 2, p. 668). Esta preocupação na centralidade de Cristo

3
Este termo é utilizado para designar os encontros gerais da Igreja Adventista do Sétimo Dia, onde
representantes da igreja mundial são reunidos para tratar de assuntos administrativos, financeiros, doutrinários e
etc. O termo possui sua origem no conceito metodista de “conferência geral”.
54

no processo de santificação também pode ser observada em uma carta que escreveu em 1892
para seus sobrinhos, enquanto estava morando na Austrália.
A santificação da alma é realizada contemplando-O pela fé como o unigênito
Filho de Deus, cheio de graça e verdade. O poder da verdade transforma o
coração e o caráter. Seu efeito não é como uma pincelada de cor aqui e ali
numa tela; todo o caráter deve ser transformado; a imagem de Cristo deve
ser revelada em palavras e atos. Uma nova natureza é imputada. O ser
humano é renovado após a imagem de Cristo em justiça e verdadeira
santidade (WHITE, 1987, v. 3, p. 1065).

Em 1891, White viajou para a Austrália, onde permaneceu por quase 10 anos. Ali,
entre algumas contribuições, ela ajudou a fundar o colégio de Avondale, que existe até hoje
(WHITE, 1983, p. 4:304-314). Durante este último período, podemos também encontrar as
suas obras mais cristológicas. Entre elas, encontramos Caminho a Cristo (1892) que é um
desenvolvimento no tema da justificação pela fé; O maior discurso de Cristo (1896) que é um
comentário a partir dos pronunciamentos de Jesus enquanto estava no monte das oliveiras,
relatados em Mateus 5 a 7. Nesta seqüência, encontramos O Desejado de Todas as Nações
(1898), uma obra extensa tratando da vida de Jesus como relatada nos evangelhos. É nesta
obra que podemos encontrar suas melhores observações e percepções cristológicas. Ao
estudar esta obra, podemos entender um pouco mais do processo de escrita empregado por
White. Este livro foi um “derivado”, como afirma Herbert Douglas, de outras obras que ela já
havia publicado (DOUGLAS, p. 451). Artigos, manuscritos e diários foram reutilizados para a
publicação deste livro. White também fazia uso de assistentes de redação. Ela empregava
pessoas para ajudar-la na elaboração de suas obras. Muitas vezes, devido às suas limitações
educacionais e físicas, as suas inúmeras viagens e atividades constantes, seu texto podia ficar
debilitado. Para tanto, ela utilizava a ajuda de editores para tornar suas idéias mais
compreensíveis (DOUGLAS, p. 109-110). Eles também ajudavam a catalogar os materiais
escritos ou idéias que ela encontrava em outras obras que costumava ler.
Finalmente, em 1900, White volta para os Estados Unidos e estabelece sua residência
em Elmshaven, Califórnia, onde fica até sua morte em 1915. Um dos fatores que motivou sua
volta aos Estados Unidos foi a notícia de um movimento que promovia a “carne santa”.
Conforme Arthur White descreve,
Em 1898 e 1899, o irmão S. S. Davis, evangelista da associação4 de
Indiana, desenvolveu e promulgou ensinamentos que incentivaram o

4
“Associação” é um termo empregado por adventistas para identificar uma unidade administrativa da
organização da Igreja Adventista do Sétimo Dia composta de igrejas locais dentro de uma área específica, como
por exemplo um estado (NEUFELD, 1996, vol. 10, p. 404).
55

surgimento deste movimento. As características básicas desta estranha


doutrina, que era chamada de “a mensagem purificadora”, eram que quando
Jesus passou pelo Jardim do Getsemani, ele teve uma experiência em que
todos que O seguem devem ter. Era ensinado que Jesus tinha carne santa, e
que aqueles que O seguissem através desta experiência do Jardim,
igualmente teriam carne santa. Eles eram então filhos “nascidos” de Deus e
tinham a fé para “trasladação”. Tendo carne santa como Cristo, eles não
podiam experimentar a corrupção mais do que Ele experimentou (WHITE,
1981, v. 5, p. 100-101).

As reuniões daqueles que procuravam a experiência da “carne santa” eram marcadas


por longas orações, música alta e confusa, pregações “agitadas, extensas e histéricas”. Esta
experiência religiosa culminava em êxtase e esgotamento físico. As pessoas que caiam ao
chão em êxtase eram levadas até a plataforma onde uma dúzia de pessoas se reuniam ao redor
do corpo prostrado e oravam, cantavam e proferiam exclamações. Quando a pessoa
finalmente recobrava a consciência, “era afirmado que ela havia passado pela experiência do
Jardim – ela possuía carne santa e a fé para trasladação” (Ibid., p. 101).
Este foi um movimento que varreu as igrejas da Associação de Indiana, sendo que um
dos maiores defensores deste movimento era o próprio presidente da Associação – R. S.
Donnell. Qualquer pessoa que ousasse criticar ou pregar contra as idéias relacionadas à “carne
santa” era rejeitada e tida como ignorante, pois ela não havia passado por esta “experiência”
e, portanto, não sabia do que estava falando. Era uma experiência que muitos almejavam ter e
grandes multidões eram atraídas.
White não deixou isto passar desapercebidamente. Na próxima reunião da Conferência
Geral em 1901, diante da presença dos pastores da igreja, incluindo R. S. Donnell e os
pastores de sua associação, White proferiu um discurso apontando os conceitos que, segundo
ela, eram incorretos e iludiam os membros da igreja.
O ensino dado com relação ao que é denominado de “carne santa” é um erro.
Todos podem obter agora corações puros, mas não é correto pretender nesta
vida possuir carne santa. Aos que tem procurado tão afanosamente obter pela
fé a chamada carne santa, quero dizer: não a podeis obter. Nem uma alma
dentre vós tem agora carne santa. Ser humano algum na terra tem carne
santa. É uma impossibilidade. [...] Seja esse aspecto de doutrina levado um
pouco mais longe, e conduzirá à pretensão de que seus defensores não
podem pecar; de que uma vez que tenham carne santa, suas ações são todas
santas (WHITE, 2009, v. 2, p. 32).

White continua, mostrando que em sua obra de santificação, Deus procura santificar
“corpo, alma e espírito”. Deus procura restaurar Sua imagem moral no homem através das
faculdades físicas, mentais e morais. Isto acontece através da obediência às leis de Deus,
56

sejam elas morais, físicas ou biológicas. Apesar de negar a possibilidade de obter “perfeição
na carne”, White reconhece o alvo da santificação, que é “perfeição cristã da alma”. Nossos
pecados podem ser perfeitamente perdoados e nossa consciência pode ser libertada da
condenação. No entanto, as conseqüências do pecado nos acompanharão até o fim da vida. É
apenas quando Deus levar seus filhos aos céus que este finalmente receberão “carne santa”.
Cristo, por ocasião de sua segunda vinda, transformará “nosso corpo batido, para ser
conforme o Seu corpo glorioso” (Ibid., p. 33). O conceito que ela matinha de santificação e
perfeição cristã era distintamente diferente daquele promovido por R. S. Donnell em sua
associação.
A maneira por que têm sido dirigidas as reuniões em Indiana, com
barulho e confusão, não as recomendam a espíritos refletidos e inteligentes.
Nada existe nessas demonstrações que convença o mundo de que possuímos
a verdade. Mero ruído e gritos não são sinal de santificação, ou da descida
do Espírito Santo. Vossas desenfreadas demonstrações só criam desagrado
no espírito dos incrédulos. [...] A excitação não é favorável ao crescimento
na graça, à genuína pureza e santificação do espírito. [...] Deus chama Seu
povo a andar com sobriedade e santa coerência. Eles devem ser muito
cuidadosos de não representar mal e nem desonrar as santas doutrinas da
verdade mediante estranhas exibições, por confusão e tumulto (Ibid., p. 35-
36).

Depois da morte de Ellen G. White, em 1915, foi organizado um depósito dos seus
escritos em Elmshavem, origem do que hoje é conhecido por Ellen G. White Estate
(Patrimônio Literário Ellen G. White) que se encontra em Washington DC, na sede
administrativa da igreja. Tal patrimônio tem como objetivo manter e disponibilizar os
materiais de Ellen White, procurando também promover sua tradução para outras línguas.
Depois de 1915, foram publicados outros cinqüenta livros contendo compilações de seus
escritos. Após o inglês, a língua portuguesa é a que possui maior quantidade de livros
traduzidos. Seus pensamentos e escritos continuam influenciando a Igreja Adventista do
Sétimo Dia até hoje. “A história de sua vida”, escreveu F. M. Wilcox, “é a história deste
movimento. Os dois se misturam na experiência” (1913, p. 8).

2 Aspectos da teologia whiteana da santificação


Da mesma forma que em Wesley, o conceito whiteano sobre santificação não se
apresenta desligado de outros temas da teologia. Nesta próxima seção, veremos como White
entendia a santificação e seu relacionamento com 1) a natureza do homem e o pecado, 2) a
expiação, 3) a justificação, 4) a obediência à Deus, e 5) a perfeição cristã.
57

2.1 Natureza do homem e pecado


White entendia o pecado como sendo, conforme as palavras de 1 João, “a transgressão
da lei”. Em um discurso que ela proferiu na Conferência de Minneapolis, White chegou a
afirmar que esta é “a única definição de pecado” (WHITE, 1987, v. 1, p. 128). É uma
definição que ela utiliza inúmeras vezes em seus escritos. Dois anos depois de Minneapolis,
por exemplo, ela volta a tocar neste assunto afirmando que não existe outra definição para
transgressão (pecado), que não seja “transgressão da lei” (Ibid., p. 537). Devemos entender
que, transgressão e pecado são termos utilizados para se referir à mesma coisa; e que por “lei
de Deus”, ela não se limita apenas aos dez mandamentos. Toda ordem, mandamento,
ordenança que venha de Deus deve ser considerada como “lei de Deus”.
No entanto, muitos intérpretes de Ellen White observam em suas obras uma segunda
forma de ver o pecado, sendo esta a condição de depravação no qual o homem se encontra
(KNIGHT, 2008, p. 39-40). Isto inclui propensões inerentes, inclinações e tendências para o
mal. “Há em sua [do ser humano] natureza um pendor para o mal, uma força à qual, sem
auxílio, não poderá ele resistir” (WHITE, 1998, p. 29).
Hábitos maus se formam mais facilmente do que bons hábitos, e os hábitos
maus são abandonados com mais dificuldade. A depravação natural do
coração é responsável por esse fato muito conhecido: que dá muito menos
trabalho desmoralizar os jovens, corromper suas idéias sobre moral e
religião, do que incutir-lhes no caráter esses duradouros, puros e incorruptos
hábitos de justiça e verdade. A condescendência consigo mesmo, o amor dos
prazeres, a inimizade, o orgulho, presunção, inveja, ciúme, crescem
espontaneamente, sem exemplo nem ensino. Em nosso presente estado
decaído, tudo que é necessário é abandonar às suas tendências naturais a
mente e o caráter (WHITE, 1968, p. 195).

O motivo para o atual estado da humanidade se encontra na queda de Adão e Eva. Seu
pecado levou à humanidade a herdar propensões inerentes para desobediência. Obedecer a
Deus não é algo natural ao ser humano. “O ser humano foi corrompido em sua própria fonte.
Desde então têm o pecado desenvolvido sua obra odiosa, alcançando mente após mente. Cada
pecado cometido relembra os ecos do pecado original” (WHITE, 1901, p. 1). Esta última
expressão nos leva à questão do conceito de pecado original levantado por Agostinho. Existe
certo debate dentro da Igreja Adventista quanto ao posicionamento de Ellen White sobre o
assunto (WHIDDEN, p. 129-132). Em certos momentos, White aparenta defender que o ser
humano herdou a culpa de Adão, além de sua natureza e condenação: “Com relação ao
primeiro Adão, os homens nada receberam dele senão a culpa e a sentença de morte”
58

(WHITE, 1996, p. 475). Nesta citação, ela parece ser bastante agostiniana. Por outro lado, há
aqueles que sustentam que White se distanciava do conceito agostiniano enfatizando textos
como este: “É inevitável que os filhos sofram as conseqüências das más ações dos pais, mas
não castigados pela culpa deles, a não ser que participem de seus pecados” (WHITE, 2009, p.
305). Nesta citação, White se aproxima mais de Wesley. Ela talvez não negue que herdamos a
culpa, mas rejeita que os filhos paguem pela culpa dos pais.
White reconhecia a inclinação que o ser humano possui para o mal, mas
aparentemente não se preocupou em perscrutar os detalhes teológicos relacionados à culpa
herdada. Woodrow Whidden interpreta a preocupação de White como sendo de natureza
prática. Já que o ser humano já se encontra nesta situação, o que fazer daqui em diante (Ibid.,
p. 131)?

2.2 Expiação
O tema da expiação era tão importante para White que ela escreveu: “o sacrifício de
Cristo como expiação pelo pecado, é a grande verdade em torno da qual se agrupam as
outras” (WHITE, 1993, p. 315). Expiação só se faz necessária porque a lei de Deus foi
quebrada pela humanidade. Uma vez que surgiu o pecado no coração da humanidade, houve
separação entre ela e o criador (WHITE, v. 1, 2009, p. 232). Para White, expiação esta
relacionada ao conceito da “re-união” da humanidade para com seu criador. O termo
empregado por White em inglês (atonement), permite uma compreensão mais extensiva do
que na língua portuguesa. “At-one-ment” é utilizado para representar o processo de unir aquilo
que estava separado. O objetivo era manter a união entre “a lei e o governo divino. [...] O
pecador é perdoado através do arrependimento para com Deus e a fé em nosso Senhor e
Salvador Jesus Cristo. Há perdão do pecado, e a lei de Deus ainda permanece imutável e
eterna como o Seu trono” (IGREJA ADVENTISTA, 2009, p. 479).
Lesher enfatiza que em White, a expiação procura restaurar a humanidade à sua
“perfeição original” transformando o caráter de cada indivíduo. Ele indica que no pensamento
whiteano, santificação e expiação possuem o mesmo propósito. Assim sendo, “santificação é
a aplicação prática da expiação” (1970, p. 165). Whidden, por outro lado, acredita que o
conceito de expiação em White é muito mais amplo, e anda de mãos dadas com seu tema do
“grande conflito”. A visão de White sobre os esforços de Deus na sua reconciliação com a
humanidade envolvia muito mais do que a morte de Cristo na cruz. Enquanto que a expiação
foi completa através do sacrifício de Cristo na cruz, o processo continua até o pecado ser
59

extirpado do universo e a harmonia novamente instalada. Segundo ele, expiação também


envolve o
pecado, provisão para o perdão (resultando na transformação do caráter),
intercessão por pecadores como Sumo Sacerdote, glorificação dos remidos,
juízo (tanto antes de sua vinda como depois) do pecado e pecadores, a
revisão milenar das decisões tomadas durante o juízo pré-advento, destruição
final através de um juízo executivo sobre os pecadores impenitentes (no final
do milênio), e a criação de um novo céu e uma nova terra (Ibid., p. 150-151).

Whidden continua, mostrando que, enquanto White dialoga com as diferentes teorias
sobre expiação (resgate, satisfação, influência moral, exemplo, Cristo vitorioso e substituição
penal), sua percepção não envolve apenas a “reconciliação de pecadores, mas o tema da
vindicação de Deus perante o Universo” (Ibid., p. 120). A expiação, no entanto, possui
implicações experimentais que resultam de realizações legais: o conceito de penalidade,
substituição e satisfação também se tornam o fundamento de toda vitória significativa sobre o
pecado e a pecaminosidade. Em outras palavras, “o coração de seu [White] pensamento sobre
a expiação girava em torno da dialética da lei e da graça, justiça e misericórdia e a
demonstração de sua correta relação na vida de Cristo – e em última instância – no crente”.
Desta forma, a morte de Cristo se torna a base da vindicação cósmica de Deus. “Esta dialética
de justiça e misericórdia é revelada em tudo que Deus faz para trazer a reconciliação através
da expiação” (at-one-ment) (Ibid., p. 125-126).

2.3 Justificação
Em White, a única forma do pecador poder ser justificado é “mediante a fé no
sacrifício expiatório feito pelo amado Filho de Deus, que Se tornou um sacrifício pelos
pecados do mundo culpado”. Ninguém pode ser justificado por qualquer “obra própria” ou
tentativa própria. “Só pode ser liberto da culpa do pecado, da condenação da lei, da pena da
transgressão, pela virtude do sofrimento, morte e ressurreição de Cristo. A fé é a condição
única de obter a justificação”. Uma vez que a fé é a “única condição” para a justificação, o
pecador precisa manter esta fé para manter sua salvação. Ao contrário de Calvino, White não
acreditava em “uma vez salvo, salvo para sempre”. White enfatiza, no entanto, que esta fé
“abrange não só a crença mas também a confiança” (WHITE, v. 1, 2009, p. 389). Ou seja, não
basta apenas um assentimento intelectual de doutrinas cristãs, faz-se necessário uma vida de
fé e confiança na obra de Cristo pelo pecador.
Discutindo a relação da justificação com santificação e como estas são transmitidas ao
pecador, White mostra que a justiça pela qual somos justificados é imputada, enquanto que
60

“aquela pela qual somos santificados, é comunicada. A primeira é nosso título para o Céu; a
segunda, nossa adaptação para ele” (WHITE, 2002, p. 35). Para que esta primeira obra de
justificação possa ser realizada, o pecador precisa se arrepender e se entregar a Cristo. Wesley
indica que antes da graça justificadora, há uma graça preveniente que habilita o pecador a se
arrepender, pois este não é capaz de fazê-lo por si mesmo. Apesar de não usar o termo
“preveniente”, White concorda com Wesley: “o pecador não pode produzir em si o
arrependimento, ou preparar-se para ir a Cristo. [...] O primeiro passo em direção de Cristo é
dado graças à atração do Espírito de Deus; ao atender o homem a esse atrair, vai ter com
Cristo a fim de que se arrependa” (WHITE, 2009, v. 1, p. 390).

2.4 Obediência
Dentro da discussão sobre santificação, White se refere muitas vezes à “obediência”,
indicando o objeto desta obediência como sendo Deus e suas leis, instruções, palavra,
vontade, preceitos, mandamentos, verdade e termos parecidos. Devido ao espaço
proporcionado para este estudo, nos ateremos apenas à lei de Deus, embora todos estes termos
podem, em algum momento ou outro, ser sinônimos.
Para White, um conceito equilibrado e correto da lei de Deus é fundamental para o
desenvolvimento harmônico do cristão.
A lei de Deus, como é apresentada nas Escrituras, é ampla em suas
reivindicações. Cada um de seus princípios é santo, justo e bom. A lei coloca
os homens sob obrigação a Deus; alcança os pensamentos e a sensibilidade;
e produzirá convicção de pecado em todo aquele que tenha ciência de ter
transgredido suas reivindicações. Se a lei alcançasse apenas a conduta
exterior, os homens não seriam culpados em seus maus pensamentos,
desejos e desígnios. Mas a lei requer que a própria alma seja pura e a mente
santa, para que os pensamentos e a sensibilidade estejam de acordo com a
norma de amor e justiça (WHITE, 2009, v. 1, p. 211).

White reconhece a pré-existência da lei de Deus ao evento no monte Sinai. Esta lei
poderia ser encontrada, inclusive, antes da criação e queda de Adão e Eva.
A lei de Deus existia antes de o homem ser criado. Os anjos eram
governados por ela. [...] Os princípios dos Dez Mandamentos existiam antes
da queda e eram de caráter apropriado à condição de uma santa ordem de
seres. Depois da queda os princípios desses preceitos não foram mudados,
mas foram dados preceitos adicionais que viessem ao encontro do homem
em seu estado decaído (WHITE, 2008, p. 145).

Os princípios encontrados na lei de Deus não são inventados ou distintos dele, mas são
“a expressão da sua própria natureza”. Eles são uma “personificação do grande princípio do
61

amor, sendo, por isso, o fundamento do Seu governo no Céu e na Terra” (WHITE, 2005, p.
60). Sendo assim, da mesma forma que Deus não muda, sua lei é “imutável, inalterável,
infinita e eterna” (WHITE, 2009, v. 1, p. 240).
Conforme ela defende, a lei de Deus requer obediência perfeita. Nada é amenizado ou
passado por cima. Deus de forma alguma trata o pecador de forma “paternalista”, isto é,
fechando os olhos aos erros que a humanidade comete. O mínimo desvio das reivindicações
da Sua lei, “por negligência ou transgressão deliberada, é pecado, e todo pecado expõe o
pecador à ira de Deus” (Ibid., p. 218). Portanto, para aquele que busca a perfeição, a
obediência à lei de Deus é extremamente importante, pois é através da lei que o pecador toma
conhecimento de seu pecado. “A santificação é o resultado de uma obediência que dura a vida
toda”. Algumas páginas adiante, ela complementa este pensamento: “A verdadeira
santificação significa perfeito amor, perfeita obediência, perfeita conformidade com a vontade
de Deus. Devemos santificar-nos para Deus mediante a obediência à verdade” (WHITE, 2004,
p. 561, 564-565).
É importante lembrarmos que a obediência à lei de Deus, de forma alguma, concede
salvação ao ser humano. Caso assim fosse, seria considerada salvação pelas obras. O ser
humano que já está justificado obedece a Deus pois o ama e deseja se assemelhar a Cristo. “A
vida de Cristo na terra foi uma expressão perfeita da lei de Deus, e quando os que professam
ser Seus filhos receberem caráter semelhante ao de Cristo, obedecerão aos mandamentos de
Deus. Então o Senhor pode contá-los com toda a confiança entre os que formarão a família do
Céu” (WHITE, 2007, p. 315). Portanto, a obediência a Deus não concede ao pecador o direito
ao céu, mas pode lhe tirar a oportunidade: “Se falhares em obter a vida eterna, foi porque
falhastes em guardar os mandamentos de Deus” (WHITE, 1905, p. 8).

2.5 Perfeição Cristã


Como já vimos em uma das seções anteriores, “a lei exige obediência perfeita,
inamovível” (WHITE, 2001, p. 440). Se esta é a exigência, White acredita que tal perfeição é
possível. Em vários momentos podemos encontrá-la defendendo esta posição. “Podemos
vencer. Sim, plena e inteiramente. Jesus morreu a fim de prover-nos um caminho de escape,
de modo a podermos vencer todo mau temperamento, todo pecado, toda tentação, e por fim,
sentar-nos com Ele” (WHITE, 2000, v. 1, p. 144). “Nós devemos ter como alvo essa
perfeição, e vencer como Ele venceu” (v. 3, p. 336).
Estes são apenas alguns exemplos de uma multidão de textos onde ela incentiva o
cristão a crescer no processo da santificação em busca da perfeição cristã. Este é um processo
62

que não acontece instantaneamente, mas dura a vida inteira e alcança a eternidade. “Deve ser
a obra de nossa vida estar constantemente procurando avançar adiante para a perfeição de
caráter cristão, sempre almejando alcançar conformidade com a vontade de Deus. Os esforços
iniciados aqui continuarão pela eternidade” (WHITE, 1956, p. 327). No entanto, White
adverte aqueles que estão no caminho da perfeição lembrando que estes não devem se exaltar
afirmando serem perfeitos ou estarem libertos da tentação ou do pecado. “Os que mais perto
vivem de Jesus, mais claramente discernem a fragilidade e pecaminosidade do ser humano, e
sua única esperança está nos méritos de um Salvador crucificado e ressurgido” (2006, p. 471).
Para White, o modelo de perfeição é Jesus Cristo. Todo cristão deve procurar seguir o
exemplo deixado por Cristo enquanto esteve nesta terra. Nesta discussão, Whidden relembra
que era “o exemplo de Cristo que se tornou o argumento principal de Ellen White ao
combater os desafios levantados por seus oponentes, afirmando que é impossível para
pecadores obedecerem perfeitamente à lei de Deus” (Ibid., p. 335). Se Cristo, humano como
nós, conseguiu vencer, nós também o podemos. Contudo, deve ser enfatizado que, apesar de
Cristo ser um exemplo a ser seguido e imitado, ele não pode ser igualado. “Ele é um perfeito e
santo Exemplo, dado a nós para imitação. Não podemos nos igualar ao Modelo; mas não
seremos aprovados por Deus se não O imitarmos e nos assemelharmos a Ele, de acordo com a
capacidade que o Senhor nos dá” (2000, v. 2, p. 549).
Diante desta citação e outras que poderiam ser mencionadas, percebemos que em
White, encontramos “níveis” de perfeição. Um dos termos empregados por White para
descrever este conceito é “esfera”. “Assim como Deus é perfeito em sua própria esfera, assim
devem Seus filhos ser perfeitos na humilde esfera em que se encontram” (WHITE, 1969, v. 2,
p. 225). Aparentemente, existem esferas diferentes, pois até os anjos, que não caíram em
pecado, possuem um tipo de perfeição diferente que a de Deus. No quarto volume de
Testemunhos para Igreja, White admoesta seus leitores a buscar a perfeição “até que chegue à
perfeição da inteligência e a uma pureza de caráter apenas um pouco inferiores às dos anjos”
(2000, v. 4, p. 93).
Para White, um dos fatores que deveria motivar o crente a buscar a perfeição é a volta
de Jesus e o juízo que é realizado antes de sua vinda. Adventistas do Sétimo Dia, assim como
White, acreditam que ocorrerá um juízo antes da segunda vinda de Cristo. Este juízo
“investigativo” analisará a vida de cada ser humano e ali a sorte de cada ser humano será
decidida. Enquanto que é através da fé na morte expiatória de Jesus Cristo que o pecador é
perdoado e justificado, ele precisa viver em conformidade com a vontade de Deus. Uma vez
63

salvo, não significa salvo para sempre. Este juízo investigativo, realizado pelo próprio Jesus,
verificará se o crente tomou para si os méritos salvíficos de Cristo, e viveu uma vida de
acordo com a vontade de Deus. Enquanto que é pela fé que o pecador é salvo, é pelas suas
obras que ele é julgado.
Desta forma, o cristão deve estar constantemente avançando em santificação. Ele não
deve ser motivado pelo medo ou egoísmo (WHITE, 1992, p. 99), mas pela aproximação de
seu salvador. Da mesma forma que a expectativa pela volta de Cristo motivava White e os
milleritas a buscar a santificação, tal esperança deve também motivar cada crente a crescer em
perfeição.
Outro fator distintivo em White é a ligação que ela faz entre as lutas e angústias que
Jesus passou enquanto viveu nesta terra e aqueles que viverão nos dias logo antes da segunda
vinda de Cristo. Da mesma forma que Cristo passou por provações e por um tempo de
angústia, aqueles que estiverem seguindo o exemplo de Cristo experimentarão o mesmo. Da
mesma forma que Cristo venceu as tentações de Satanás, aqueles que viverem nos últimos
dias desta terra repetirão a vitória de Cristo. “Satanás nada pôde achar no Filho de Deus que o
habilitasse a alcançar a vitória. Tinha guardado os mandamentos de Seu Pai, e não havia nEle
pecado que Satanás pudesse usar para a sua vantagem. Essa é a condição em que devem
encontrar-se os que subsistirão no tempo de angústia” (2006, p. 623). Uma de suas
declarações mais famosas nesta linha de pensamento se encontra em Parábolas de Jesus onde
ela afirma: “Quando o caráter de Cristo se reproduzir perfeitamente em Seu povo, então virá
para reclamá-los como Seus” (WHITE, 2007, p. 69).
Um dos conceitos bastante repetidos por White era a perfeição de caráter. “O Senhor
requer perfeição de sua família remida. Ele convida para perfeição na formação do caráter”
(WHITE, 1986, p. 172). Para ela, o caráter é composto de pensamentos e sentimentos. Se
estes forem bons, haverá um bom caráter. “Se os pensamentos forem maus, maus serão
também os sentimentos; e os pensamentos e os sentimentos, combinados, constituem o caráter
moral” (WHITE, 1996, vol. 1, p. 660). Conforme estes pensamentos são manifestos em atos e
hábitos, o caráter da pessoa é formado. Por isso, o cristão precisa sempre cuidar com seus
pensamentos, pois estes podem gerar ações, hábitos e moldar seu caráter.
White fala de perfeição de caráter, não perfeição de natureza (WHIDDEN, p. 134).
Enquanto que apenas a glorificação transformará a natureza física do ser humano, é o caráter
que é transformado pela santificação. Aqueles que almejam estar prontos para a segunda
vinda de Cristo devem buscar perfeição de caráter: “todos os que entrarão no Céu devem ter
64

um caráter perfeito, a fim de encontrarem o Senhor em paz” (WHITE, 1994, p. 112). Nesta
linha de pensamento, White afirma que
Deus somente aceitará os que estão decididos a ter um alvo elevado. Coloca
cada agente humano sob a obrigação de fazer o melhor. De todos é requerido
perfeição moral. Nunca devemos abaixar a norma de justiça com o fim de
acomodar à prática do mal, tendências herdadas ou cultivadas. Precisamos
compreender que imperfeição de caráter é pecado (WHITE, 2007, p. 330).

2.6 Santificação em síntese


No momento em que o pecador é justificado, começa o processo de santificação em
sua vida. A mudança básica que ocorre no ser humano através do processo da santificação é o
redirecionamento do “amor supremo para si mesmo” para “amor supremo para Deus e Cristo”
(WHITE, 1974, p. 118). Nas próprias palavras de White, “amar a Deus de forma suprema e ao
próximo como a si mesmo é a genuína santificação” (WHITE, 1959, p. 120). Este amor se
manifesta na observação dos mandamentos de Deus, que são a representação do caráter de
Deus. “Verdadeira santificação será evidenciada por uma consideração consciente de todos os
mandamentos de Deus” (WHITE, 1981, p. 53). Uma vez que o amor é desviado de si e
redirecionado para o outro, o cristão deixa de olhar para si mesmo e passa buscar entender as
necessidades daqueles que estão ao seu redor. Santificação não produz cristãos centrados em
si mesmos, mas os habilita para o serviço.
À medida que os que foram purificados e santificados através do
conhecimento da verdade bíblica se empenham de coração na obra de
salvação das almas, tornar-se-ão sem dúvida um cheiro de vida para a vida.
E ao beberem diariamente das inesgotáveis fontes da graça e conhecimento,
verificarão que seu próprio coração está a transbordar com o Espírito de seu
Mestre, e que através de seu nobre ministério muitos são beneficiados física,
mental e espiritualmente. Os cansados são refrigerados, é restaurada a saúde
ao enfermo, e o carregado de pecados é libertado (WHITE, 1995, p. 234).

Todo este processo de santificação acontece durante a vida do cristão onde este vai
“amadurecendo”. Como já foi dito antes, é um processo. Mas dentro deste processo, podemos
perceber estágios do amadurecimento. White exemplifica este conceito fazendo um paralelo
com o crescimento de uma planta.
A germinação da semente representa o começo da vida espiritual, e o
desenvolvimento da planta é uma figura do desenvolvimento do caráter. Não
pode haver vida sem crescimento. A planta ou deve crescer ou morrer. Assim
como o seu crescimento é silencioso e imperceptível, mas contínuo, assim é
o crescimento do caráter. Nossa vida pode ser perfeita em cada estágio de
seu desenvolvimento; contudo, se o propósito de Deus para conosco se
cumpre, haverá constante progresso (WHITE, 1998, p. 105-106).
65

Em cada estágio do crescimento da planta, ela pode ser considerada “perfeita”. Mesmo que
uma planta ainda esteja pequena, e não tenha produzido frutos, podemos considerá-la
“perfeita”. Se a cada estágio de seu crescimento, a planta seguir seu processo de
desenvolvimento de forma normal, ela será considerada como “perfeita”. Segundo White, esta
é uma forma de desenvolvimento espiritual que pode ser considerado “perfeito” mesmo que a
pessoa não tenha alcançado o “topo” da perfeição. Este objetivo – o caráter perfeito – é
alcançado quando “o impulso para auxiliar e abençoar a outros brota constantemente do
íntimo” (WHITE, 2004, p. 551).
Para que este desenvolvimento ocorra, no entanto, deve haver uma participação
divino/humana. Por um lado, o Espírito Santo atua no coração humano. “Essa obra
unicamente pode ser efetuada pela fé em Cristo, pelo poder do Espírito de Deus habitando em
nós” (WHITE, 2006, p. 469). Por outro lado, White destaca o aspecto humano dentro do
processo da santificação.
Podemos orar pela santificação, mas se a obteremos ou não depende de nós
andarmos na luz, refletindo luz para os que estão ao nosso redor. Irmãos e
irmãs, a salvação de nossas almas depende da direção que tomamos. Se
falhares em obter a vida eterna, foi porque falhastes em guardar os
mandamentos de Deus (WHITE, 1905, p. 8).

Além de sua fé no poder transformador, aqueles que estão trilhando o caminho para perfeição
devem procurar manter a Bíblia como seu padrão e guardar os mandamentos de Deus, pelo
poder do Espírito Santo. Estes mandamentos abarcam não apenas os aspectos morais, como
também físicos, sociais, intelectuais e emocionais (WHITE, 2006, p. 473).

Conclusão
Neste capítulo, procuramos apresentar o tema da santificação e da perfeição cristã no
pensamento de Ellen G. White. Num primeiro momento, uma breve revisão histórica sobre
White foi oferecida. Nela procuramos mostrar como seus pensamentos e conceitos se
desenvolveram, sendo articulados em sua vida no decorrer dos anos. Procuramos captar e
contextualizar seus pensamentos e seus conceitos sobre santificação dentro de suas
experiências. Os diversos eventos com os quais ela interagiu também nos ofereceram uma
janela para as suas idéias. Esta parte do trabalho foi dividida em cinco momentos: 1) Ellen
White e os Estados Unidos do séc. XIX, 2) o pensamento whiteano durante o movimento
millerita, 3) o pensamento whiteano durante o desenvolvimento doutrinário adventista, 4)
66

Ellen White durante o desenvolvimento organizacional adventista, e 5) maturidade e expansão


do pensamento whiteano.
Num segundo momento, observamos que sua compreensão de santificação cristã está
intimamente interconectada com outros temas como o pecado e a natureza humana, a
expiação, a justificação, a obediência à Lei de Deus e finalmente a perfeição cristã. Foi
mostrado que seus conceitos sobre santificação estão intimamente relacionados à sua
expectativa da segunda vinda de Cristo. Este era o tema motivador para sua busca de
santificação assim como também para os adventistas que a sucederam. Sendo assim,
santificação é um preparo contínuo para este grande evento. Santificação não é instantânea e
emocional. Cada momento em que White se deparou com alguma alegação de santificação
que valorizasse o aspecto emocional, ela rejeitou tal alegação. E em seu tempo, não foram
poucas as situações.
Para White, santificação trabalha o caráter do indivíduo, preparando-o para amar a
Deus acima de tudo e ao seu próximo. É uma habilitação para o serviço, levando o cristão a se
interessar e buscar atender às necessidades daqueles que estão ao seu redor. Este processo
deve direcionar corretamente todos os pensamentos, atos, sentimentos e hábitos a fim que um
caráter perfeito seja desenvolvido. Perfeição não significa alcançar um patamar de
impecabilidade. Ninguém que esteja andando pelo caminho da perfeição deve afirmar ser
perfeito ou alegar impecabilidade. Quanto mais próximo a pessoa está de Cristo, mais ela
percebe suas falhas. Desta forma, a possibilidade de cair em pecado novamente está sempre
espreitando o crente.
Isto não quer dizer que é possível ser perfeito como Cristo foi. Cada um pode ser
perfeito em seu próprio patamar, ou sua própria esfera. Da mesma forma que Cristo é perfeito
em sua esfera, o ser humano, com sua natureza pecaminosa, pode ser na sua. Cristo serve
como modelo que deve ser constantemente imitado, sem que ele possa ser necessariamente
igualado. Faz-se necessário uma colaboração entre a atuação divina e a participação humana
no processo da santificação. Neste sentido, é importante que o ser humano se mantenha fiel e
obediente à lei de Deus. Se à cada estágio do amadurecimento cristão, a pessoa se
desenvolver conforme é o intencionado por Deus, esta pessoa pode ser considerada como
“perfeita”.
CAPÍTULO III – JOHN WESLEY E ELLEN G. WHITE: TEOLOGIAS EM
DISCUSSÃO

Introdução
John Wesley (1703-1791) viveu durante o “século da ciência e da criação do mundo
moderno”. A Inglaterra foi uma das primeiras a passar pela revolução industrial. O avanço
tecnológico decorrente produziu imenso sofrimento para as pessoas que estavam envolvidas
com este crescimento. Um dos resultados da revolução industrial foi o aumento da pobreza,
da alienação e desumanização dos ingleses do século XVIII. Há aqueles que acreditavam que
Deus havia abandonado o planeta e virado suas costas para a humanidade. A igreja nacional
parecia inerte diante do sofrimento que presenciava a cada dia. Wesley entendia que a
santificação e a verdadeira religião deveriam encontrar sua autenticidade na experiência
prática em meio à população e ao seu sofrimento.
Por sua vez, Ellen G. White (1827-1915) surgiu em meio à efervescência religiosa e
social do século XIX. O país crescia economicamente graças à revolução industrial. Milhares
de pessoas afluíam ao novo país recém emancipado da Inglaterra. O sonho de crescimento e
de prosperidade alimentava milhares que traziam consigo suas peculiaridades religiosas.
Novas denominações e teologias afloravam constantemente em todo país, acrescentando
sabor ao cenário religioso tradicional de organizações religiosas convencionais. Foi um século
em que perfeccionistas e liberais compartilharam o palco do debate teológico.
John Wesley e Ellen G. White viveram em séculos, países e contextos diferentes.
Wesley era um pregador itinerante na Inglaterra do século XVIII. White foi uma mulher,
pioneira do adventismo na America do século XIX. Muito pode ser apresentado para destacar
as diferenças entre ambos. Contudo, ambos contribuíram no surgimento de um novo
movimento religioso. Ambos participaram ativamente na pregação e elaboração teológica de
seus respectivos movimentos. Para ambos, a teologia da santificação moldava seu pensamento
teológico.
Tendo analisado a compreensão wesleyana e whiteana sobre santificação,
prosseguiremos neste capítulo para a comparação do pensamento de ambos os autores. Em
um primeiro momento, apontaremos para aproximações entre o pensamento de ambos os
autores. Em um segundo momento, os distanciamentos entre o pensamento de ambos os
autores serão considerados. Por fim, verificaremos as contribuições que ambos os autores
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podem oferecer para a teologia na atualidade considerando suas perspectivas e singularidades


sobre o tema da santificação e temas relacionados.

1 Aproximações
Uma análise comparativa sobre o conceito de santificação em John Wesley e Ellen G.
White verificará que existem “aproximações” ou semelhanças no pensamento de ambos os
autores. Neste momento, verificaremos as seguintes semelhanças: 1) santificação como um
amadurecimento contínuo, 2) santificação individual e social, 3) negação da impecabilidade,
4) possibilidade de “cair da graça”, 5) sinergia divino/humana, 6) santificação como
obediência a Deus, 7) santificação e o amor, e 8) Jesus Cristo – o padrão de perfeição.

1.1 Amadurecimento contínuo


Tanto Wesley como White concordam que santificação é um processo cujo objetivo é
a perfeição cristã. Tal perfeição é possível de ser alcançada. Afirmar o contrário seria
considerado uma forma de censura a Deus, como se Ele estabelecesse requisitos impossíveis
de serem cumpridos. Ninguém pode corretamente afirmar que é impossível alcançar a
perfeição esperada por Deus na Bíblia. Tudo que é exigido por Deus pode ser cumprido
através da atuação do Espírito Santo na vida do ser humano. Se Deus exige perfeição, é
porque esta é possível de ser alcançada. Isto não surge da capacidade humana, mas da
combinação do esforço humano com a graça divina. Deus fornece vontade, força e capacidade
para a realização da tarefa; o ser humano colabora fazendo uso de sua habilidade volitiva e
aplicando força e capacidades concedidas por Deus em sua vida para a realização desta obra
conjunta.
Apesar de leves diferenças, o processo de santificação é interpretado por ambos com
sendo “contínuo”, isto é, uma vez que começa, nunca mais termina. É um “amadurecimento”
que não possui fim. Há crescimento constante. Quanto mais alto tenha crescido o ser humano
em santificação, por mais elevado que seja o grau de sua perfeição, ele ainda tem necessidade
de crescer na graça. A santificação não é obra de um momento, uma hora, ou um dia. É um
contínuo crescimento na graça. Sempre existe a necessidade de subjugar o próprio eu. Em
momento algum o ser humano deve parar. Jamais deve ele achar que tenha plenamente
atingido o ponto máximo da perfeição. O crescimento é constante, tanto nesta vida como na
vida após a morte.
69

1.2 Santificação individual e social


Como já foi visto neste estudo, santificação possui um aspecto “interno” e “externo”.
O aspecto “interno” ou “individual” da santificação pode ser entendido como sendo um reto
estado da alma, a mente e o espírito, conforme estes são renovados á imagem de Deus. Sua
vida interior é renovada. O ser humano verdadeiramente santificado anda inconsciente de sua
bondade e piedade, demonstrando verdadeira mansidão.
No entanto, santificação não se limita a apenas ao “interior”. Ela possui seu aspecto
social ou “externo”. Religião e santificação não podem existir sem a sociedade, sem viver e
misturar-se com o outro. Nas palavras de Wesley, “o evangelho de Cristo não reconhece
nenhuma religião que não seja social, nenhuma outra santidade que não seja santidade social”
(WESLEY, 1986, v. 14, p.321). Sendo assim, através da santificação, o cristão deixa de olhar
para si mesmo e passa buscar entender as necessidades daqueles que estão ao seu redor.
Santificação não produz cristãos centrados em si mesmos, mas os habilita para o
serviço. À medida que o ser humano é santificado através do conhecimento da verdade bíblica
ele se envolve ativamente na salvação de outros. Muitos são assim beneficiados física, mental
e espiritualmente. As angústias, dúvidas, pesos e sofrimentos que são carregados pela
humanidade são aliviados e muitos são libertos de seus pecados.

1.3 Negação da impecabilidade


Estar no processo de santificação ou alcançar a perfeição indica que o ser humano está
se tornando cada vez mais semelhante à imagem de Deus e menos à do mal. Conforme ele vai
avançando para a perfeição, o cristão vai aos poucos abandonando o pecado em sua vida. Ele
cria hábitos corretos, alimenta pensamentos e hábitos saudáveis, constrói um caráter mais
perfeito e se aproxima cada vez mais do exemplo deixado por Jesus Cristo enquanto esteve
nesta terra.
É tentador afirmar que, uma vez alcançada a perfeição, o cristão atinge o nível da
impecabilidade. Neste sentido, impecabilidade é a total ausência de pecado na vida da pessoa
como também a incapacidade de pecar. O ser humano nunca mais é tentado e nunca mais cai
em tentação. Tal posição era totalmente rejeitada por Wesley e White. Ambos acreditavam
que ser perfeito não significa se tornar impecável. Quando o cristão amadurece na perfeição
cristã, ele avança, de vitória em vitória, sobre o pecado em sua vida. Atitudes erradas, hábitos
prejudiciais, pensamentos nocivos e emoções pervertidas são gradualmente abandonados e
substituídos por outros que produzem liberdade e vida. Perfeição não elimina a possibilidade
70

de ocasionais “transgressões involuntárias”. Tais pecados podem surgir da conseqüência


natural da ignorância e erros inseparáveis da mortalidade. Portanto, perfeição sem pecado
(sinless perfection) é uma expressão que ambos os autores evitam usar para não criar mal
entendidos. Uma pessoa preenchida pelo amor de Deus ainda é passível de tais transgressões
involuntárias.
Quanto mais claramente o pecador compreender o caráter de Cristo, mais desconfiado
será de si mesmo. Também mais imperfeitos serão seus atos a seu ver, em contraste com a
vida exemplar deixada por Jesus Cristo. O cristão que busca a perfeição cristã jamais deve
afirmar estar sem pecado; não por falsa humildade, mas porque quanto mais se aproxima de
Deus, discerne mais claramente Sua infinita perfeição e sente mais profundamente seus
próprios defeitos.

1.4 Possibilidade de “cair da graça”


Para que o cristão possa alcançar a perfeição, ele deve manter constante dependência
de Deus. Nenhum ser humano consegue amadurecer espiritualmente por suas próprias forças.
Ele deve sim, participar ativamente no processo, mas tudo deve ser feito através da graça de
Deus. Portanto, enquanto o cristão é dependente da graça de Deus, ele pode ser vitorioso
sobre o pecado. Mas caso ele abandone esta dependência, ele sempre poderá “cometer com
avidez toda sorte de pecado”.
Wesley e White rejeitavam o conceito de “uma vez salvo, salvo para sempre”. O
conceito calvinista de que Deus escolhe aqueles a quem Ele salva e nada os pode afastar da
salvação era tido por ambos como um dos maiores erros no cristianismo. Tanto Wesley como
White acreditavam que a salvação é um dom de Deus, mas que era recebido pelo ser humano
mediante a fé. Este podia rejeitar o dom da graça divina caso o desejasse. A soberania de
Deus não infringe a liberdade humana. Portanto, para que o ser humano possa manter sua
salvação, ele deve colaborar constantemente com a graça divina. A dependência no poder
divino deve ser constante. Abandonar momentaneamente o auxílio divino poderia significar
em perda da salvação. Desta forma, mesmo que o cristão esteja no processo da santificação e
haja alcançado a perfeição cristã, ele deve, mesmo assim, continuar dependendo da graça de
Cristo, pois ele sempre poderá “cair da graça”.

1.5 Sinergia divino/humana


Como já foi visto anteriormente neste capítulo, o ser humano deve colaborar com a
graça divina no processo da santificação. A humanidade recebeu da parte de Deus liberdade
71

para fazer suas escolhas e agir como desejar. Para que o ser humano possa escolher, Deus
concede o que Wesley chama de “graça preveniente”. Em seu estado “natural”, a humanidade
é escrava do pecado e incapaz de se aproximar de Deus. A graça preveniente liberta o
indivíduo para escolher qual caminho ele deseja seguir. Ela não é irresistível, pois o ser
humano possui a capacidade de escolher e assim, trabalhar com ou contra Deus.
Deus atrai o ser humano a Si. Aceitando a salvação oferecida por Deus, o ser humano
é levado a se arrepender e mudar sua conduta. Tal mudança deve ser realizada com o auxílio
do Espírito Santo e com a decisão do indivíduo. Uma vez iniciado o processo de santificação,
o ser humano continua participando. Tal participação consiste em cessar de fazer o mal e
aprender a fazer o bem. Cada passo dado em direção à perfeição cristã é realizado pelo cristão
que colabora com Deus. Tanto em Wesley como em White, a participação humana nesta
sinergia da salvação ocorre através da obediência aos mandamentos de Deus.

1.6 Santificação como obediência a Deus


Para Wesley, uma das características fundamentais de um metodista e daquele que está
experimentando a santificação é a obediência à Lei de Deus e aos seus mandamentos. Para
White, obediência possui igual importância, pois é através da lei que o pecador toma
conhecimento de seu pecado. “A santificação é o resultado de uma obediência que dura a vida
toda”. A verdadeira santificação significa perfeito amor, perfeita obediência, perfeita
conformidade com a vontade de Deus. O cristão que está no caminho da perfeição ama a
Deus e guarda seus mandamentos; não apenas alguns, ou a maioria, mas todos, desde o menor
até o maior. Isto é realizado com toda sua força. Sua obediência é proporcional ao seu amor.
O que o ser humano não conseguia fazer antes de ser salvo, isto é, obediência à Lei,
agora o faz livremente. A graça de Deus domina o coração do cristão e este é levado a
obedecer à Sua lei movido pelo amor. Pensamentos e sentimentos de rebelião são vencidos e a
voz de Jesus suscita uma nova vida que penetra todo o ser.
A lei de Deus possui princípios santos, justos e bons. Ela coloca o ser humano em
obrigação para com Deus, alcança os pensamentos, a sensibilidade e produz convicção do
pecado. A lei não alcança apenas a conduta exterior, mas também pensamentos, desejos e
desígnios. Ela requer que a própria alma seja pura e a mente santa, para que os pensamentos e
a sensibilidade estejam de acordo com a norma de amor e justiça divina. Ela é a própria
representação do caráter de Deus. Portanto, para aquele que busca a perfeição, a obediência à
72

lei de Deus é extremamente importante. A santificação é o resultado de uma obediência que


dura a vida toda.

1.7 Santificação e amor


Santificação é entendida como “amar a Deus de todo coração e o próximo como a si
mesmo”. Este é o cumprimento do novo nascimento e o princípio da santificação, bem como
a única e verdadeira marca de todo de que está no caminho da perfeição. Viver a santidade é
uma resposta à santidade de Deus e de seu amor. Esta característica não se define no negativo,
ou seja, por aquilo que o cristão não é ou não faz, mas positivo, levando-o a uma atitude ativa.
Santificação não representa unicamente o abandono total de qualquer pecado, mas a
manifestação do amor divino implantado no coração e mente do cristão.
No momento em que o pecador é justificado, começa o processo de santificação em
sua vida. Como já foi mencionado, a mudança básica que ocorre no ser humano através do
processo da santificação é o redirecionamento do “amor supremo direcionado a si mesmo”
para “amor supremo” direcionado a Deus e ao restante da humanidade. Amar a Deus de forma
suprema e ao próximo como a si mesmo é a genuína evidência de santificação.

1.8 Jesus Cristo – o padrão de perfeição


Para ambos os autores, uma vez que o ser humano perdeu sua semelhança com a
imagem de Deus, um novo modelo precisava ser apresentado. Este modelo foi Jesus Cristo.
Através de sua vida nesta terra, Cristo deixou para o cristão um modelo de como este deveria
conduzir sua vida em direção à perfeição. Conforme a vida de Cristo é estudada e analisada, o
cristão é levado a reproduzir o comportamento e caráter de Cristo em sua própria vida. Uma
vez que a vida de Cristo na terra foi uma expressão perfeita da lei de Deus, o cristão pode usar
o exemplo deixado por Jesus Cristo para seguir seu caminho rumo à perfeição cristã.
Sendo assim, o cristão é purificado de seus pecados e de toda “impureza da carne e do
espírito”. Outra conseqüência é que o ser humano passa a ser dotado das virtudes que também
havia em Cristo Jesus. Jesus Cristo é, portanto, a imagem perfeita de Deus. Conforme este
referencial da santidade é seguido, a vida do cristão é renovada após a imagem de Deus, em
justiça e em toda santidade. O cristão passa a ter a mente e os sentimentos que estavam em
Cristo e passa também a andar como Cristo andou.
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2 Distanciamentos
Uma análise comparativa sobre o conceito de santificação em John Wesley e Ellen G.
White também verificará “distanciamentos” ou diferenças no pensamento de ambos os
autores.
Neste momento, verificaremos as seguintes distinções: 1) motivação para santificação,
2) santificação instantânea, 3) segunda benção da santificação, 4) libertação da habitação do
pecado, 5) o lugar da emoção e do entusiasmo na santificação humana, 6) perfeição de
caráter, e 7) esferas de perfeição.
Devemos destacar que em muitos casos, o distanciamento não passa de ênfases de
certos temas onde o outro autor deixa o tema passar desapercebidamente.

2.1 Motivação para santificação


Como já foi visto, John Wesley viveu durante um século de grandes avanços
tecnológicos, mas também de grande sofrimento e injustiça. Enquanto que o avanço
tecnológico possuía seus benefícios, este também produziu imenso sofrimento para as pessoas
que estavam envolvidas no processo. O aumento da pobreza, da alienação e desumanização
de milhares são apenas algumas das conseqüências observadas por Wesley em seu tempo. A
igreja nacional parecia inerte diante do sofrimento que presenciava a cada dia. O
reavivamento promovido por Wesley e sua ênfase na santificação do ser podem ser
considerados como uma “indignação” diante das condições sociais e religiosas da época.
De seu lado, White acreditava que um dos fatores que deveria motivar o crente a
buscar a perfeição era a concepção escatológica da volta de Jesus e o juízo que seria realizado
antes de sua vinda. White defendia que ocorrerá um juízo antes da segunda vinda de Cristo.
Este juízo “investigativo” analisará a vida de cada ser humano e ali a sorte de cada ser
humano será finalmente decidida. Sendo assim, o cristão deve estar constantemente
avançando em santificação. Ele não deve ser movido pelo medo ou o egoísmo, mas pela
aproximação de seu Salvador.

2.2 Santificação instantânea


Enquanto que ambos os autores concordavam que não existe santificação instantânea,
Wesley enfatizava um pouco mais o elemento instantâneo dentro do processo da santificação
– o da perfeição cristã. Este é o momento exato onde o cristão se torna perfeito. Este evento
pode ocorrer logo no começo de sua caminhada cristã, como até alguns instantes antes de sua
74

morte. Independentemente de quando, Wesley é enfático em afirmar que o cristão passa por
um instante onde ele se torna perfeito.
O conceito de santificação instantânea é completamente rejeitado em White. Para ela,
santificação é um processo diário, acontecendo por tanto tempo quanto dure a vida. Deve ser
uma batalha constante contra tentações diárias, vencendo as próprias tendências pecaminosas
e buscando santidade do coração e da vida. Mesmo que a pessoa tenha alcançado a perfeição,
existe um longo caminho de amadurecimento e crescimento pela frente. Mesmo que o cristão
já esteja no céu, ele ainda continuará crescendo em perfeição.

2.3 Segunda obra da graça


Quando o ser humano aceita a graça de Deus, ele recebe sua primeira benção e é assim
justificado e iniciado no processo de santificação. Wesley acreditava que ninguém deveria se
contentar apenas com a primeira benção, mas deveria buscar e aguardar a “segunda obra de
graça”. Segundo Wesley, o cristão deve vigiar e participar no processo de santificação. Ele
não consegue se purificar de seus pecados. Apenas Deus pode realizar esta obra de
purificação na vida da pessoa. Isto é feito quando Deus decide: “Sê limpo”. É a partir de então
que, de forma semelhante ao leproso que foi purificado de sua doença, o pecador é purificado
de seus pecados. Neste exato momento, a raiz do mal, a mente carnal, é destruída: o pecado
inato não mais subsiste e o cristão pode ser considerado sem pecado e perfeito.
A santificação pode ser gradual, levando o cristão a crescer e amadurecer a partir do
momento em que foi justificado. Contudo a libertação total do pecado sempre é instantânea. O
pecado não é tirado por etapas, mas de um instante para o outro.
Neste aspecto, relembramos o pensamento divergente de Ellen White. Para ela, não
existe uma “segunda obra”. Santificação é um processo que se inicia na justificação do
indivíduo e continua mesmo após a perfeição ter sido alcançada. A santificação não é marcada
por “momentos”. Não existe este aspecto instantâneo dentro do pensamento whiteano, a não
ser, obviamente, no começo do processo de santificação.

2.4 Libertação da habitação do pecado


Segundo Wesley, a libertação da “habitação” do pecado ocorre apenas na segunda obra
da graça divina. O pecado, para Wesley, parece ser entendido como uma doença que
contaminou o ser humano e deve ser totalmente removida. Outra comparação oferecida por
Wesley para o pecado é a de uma raiz, que deve ser desarraigada do solo.
75

Uma vez que o ser humano é curado desta doença, o pecado é totalmente removido de
seu corpo e mente. O pecado já não domina mais o cristão pois não existe mais nele. A doença
foi totalmente curada e não afeta mais a pessoa. Esta cura é realizada no segundo momento da
graça, onde o cristão se torna perfeito. Isto não quer dizer que a possibilidade de ele cair em
pecado novamente seja removida. Sempre haverá a possibilidade, porém não a probabilidade.
Não é porque o cristão pode pecar que ele deve pecar.
Por sua vez, White acredita que perfeição cristã oferece vitória sobre o pecado, mas a
natureza pecaminosa continua presente na pessoa, sempre lutando para dominar novamente a
sua vida. A vitória sobre o pecado não ocorre em um instante, mas é um processo que envolve
o abandono de hábitos e tendências pecaminosos. Para ela, o pecado continua “habitando” no
indivíduo caracterizado como “natureza pecaminosa”. Esta natureza acompanha o ser humano
desde seu nascimento até sua morte. É apenas no momento da glorificação, que o ser humano
poderá finalmente se sentir totalmente livre da natureza e presença do pecado.

2.5 O lugar da emoção e do entusiasmo na santificação humana


Embora Wesley não enfatizasse a necessidade da emoção, do entusiasmo e do êxtase
no processo da santificação, suas pregações possuíam certo teor emocional, embora ele
mesmo tenha feito restrições a isso. Devemos nos lembrar que ele era considerado por seus
contemporâneos como “entusiasta”. Contudo, é possível encontrar certo elemento emocional
em sua teologia, especialmente quando ele afirma que cristão poderia “sentir” o momento da
perfeição. Este conceito, embora presente na experiência de Wesley, se desenvolveu
posteriormente, especialmente na época de Ellen White.
Tal necessidade de “sentir” os efeitos da santificação na vida do cristão eram
totalmente rejeitadas por Ellen White. Qualquer tentativa de valorizar o aspecto emotivo
como prova de religiosidade era visto de forma negativa por White. Ela rejeitava
especialmente a necessidade do crente professar uma experiência “instantânea” e as
expectativas emocionais ligadas à experiência da santificação que pareciam estar em alta
durante sua época. Para ela, os sentimentos não deveriam ser o critério para a santificação.
Sentir-se feliz ou extático não era evidência de santificação, da mesma forma que a ausência
de tais sentimentos indicaria uma ausência de santificação.
Em diversos momentos, White se deparou com tais conceitos e rejeito-os
categoricamente. Para ela, a religiosidade cristã deveria ser caracterizada por uma conduta de
76

sobriedade e santa coerência. Apresentar reações emocionais como prova de santificação


apenas afastaria aqueles que se interessam pelas verdades da Bíblia.

2.6 Perfeição de caráter


Uma das características principais de White era o conceito de perfeição de caráter.
Segundo ela, o objetivo da perfeição cristã era a construção de um caráter perfeito. Para
White, o caráter é composto de pensamentos e sentimentos. Se estes forem bons, haverá um
caráter bom. Sendo assim, os pensamentos e os sentimentos, combinados, constituem o
caráter moral. Conforme estes pensamentos são manifestos em atos e hábitos, o caráter da
pessoa é formado. Por isso, o cristão precisa sempre cuidar com seus pensamentos, pois estes
podem gerar ações, criar hábitos e moldar seu caráter. Segundo ela, o caráter perfeito é apenas
alcançado quando o impulso para auxiliar e ajudar a outros brota constantemente do íntimo do
ser. Cada ser humano deve procurar fazer o melhor para a construção de seu caráter, na busca
de perfeição moral. Se acomodar a qualquer tipo de imperfeição de caráter é interpretado por
White como pecado.
Portanto, o cristão deveria procurar perfeição de caráter e não perfeição de natureza.
Enquanto que apenas a glorificação transformará a natureza física do ser humano, é o caráter
que é transformado pela santificação. Para White, apenas aqueles que tiverem perfeição de
caráter entrarão no Céu. Deus aceita somente os que estão decididos a ter um alvo elevado.
Embora o conceito de perfeição cristão esteja presente em Wesley também, este
conceito não é relacionado à perfeição de caráter como o é em White. Embora Wesley possa
concordar com a necessidade de se ter um bom caráter, ele não chegou a afirmar que
perfeição cristã era perfeição de caráter.

2.7 Esferas de perfeição


Além da busca da perfeição de caráter, White também apresenta uma característica
distintiva: a de “esferas” de perfeição. Assim como Deus é perfeito em sua própria esfera,
assim também deve o cristão ser perfeito em sua própria esfera. Para ela, existem esferas
diferentes, pois até os anjos, que não caíram em pecado, possuem um tipo de perfeição
diferente da de Deus.
Já que o processo de santificação é interpretado como um amadurecimento contínuo,
White indica que da mesma forma que o crescimento humano possui estágios, o crescimento
espiritual também é marcado por estágios, embora ela não defina quais são estes estágios. O
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mesmo se dá com plantas; da mesma forma que a planta deve passar por cada estágio do
crescimento – desde a semente até a planta adulta – o cristão deve passar por cada estágio do
crescimento. Em cada estágio, ele pode alcançar a perfeição daquele estágio. Se cada etapa é
alcançada da forma correta, haverá constante progresso. Segundo White, esta é uma forma de
desenvolvimento espiritual que pode ser considerado “perfeito” mesmo que a pessoa não
tenha alcançado o “topo” da perfeição.
Mais uma vez, este é um conceito desenvolvido por White e não aparece em Wesley.
Para ele, a santificação é um processo marcado pelo momento da perfeição cristã. Enquanto
este momento não acontecer na vida do cristão, ele não pode ser considerado “perfeito”.

3 Wesley e White hoje: contribuições para a teologia na atualidade


Após analisarmos as aproximações e distanciamentos entre John Wesley e Ellen
White, prosseguiremos na verificação das contribuições que ambos os autores tem para
oferecer à teologia na atualidade, considerando suas perspectivas e singularidades sobre o
tema da santificação e temas relacionados.
Nesta seção, estaremos apresentando as seguintes contribuições: 1) o ser humano e sua
finitude, 2) o pecado e a natureza humana, 3) a relação entre o divino e o humano, 4) a
santificação diviniza?, 5) a necessidade de obediência, 6) práxis e suas motivações religiosas,
7) amadurecimento para o serviço, e 8) a colaboração divino/humana no desenvolvimento.

3.1 O humano e sua finitude


Incrustado no pensamento de Wesley e White encontramos o conceito da distinção
entre o ser humano criado e o divino Criador. Enquanto que o ser humano pertence ao resto
da criação, Deus é o criador de todo o universo. O ser humano, portanto, em seu estado de
criatura, é limitado pelo espaço e tempo que o circunda. O ser humano é marcado por sua
finitude e suas limitações. Além disto, ele é aprisionado pelo pecado que molda seus
sentimentos, pensamentos e atos. Além das limitações que lhe são impostas pela criação, seu
estado é ainda mais limitado pelo pecado. Sua capacidade de escolha e livre arbítrio são
cativas de sua natureza pecaminosa.
Este, no entanto, não precisa ser seu estado final. São colocados à disposição da
humanidade liberdade e força de escolha através do poder santificador do Espírito Santo. Uma
vez que o ser humano aceita a salvação em Cristo, lhe é oferecida a oportunidade de se
libertar das correntes do pecado e crescer como indivíduo. O ser humano é então iniciado em
78

um processo de amadurecimento que o pode levar até as mais altas esferas do


desenvolvimento humano. Ele é tido como perfeito e livre do poder do pecado. Isto, no
entanto, não significa que a humanidade pode deixar seu estado de finitude e se tornar
“infinita”. Enquanto que seu crescimento e potencial aumentam constantemente, o ser
humano sempre deverá continuar dependente dAquele que é infinito. O ser humano, para que
possa continuar neste processo de crescimento e amadurecimento, sempre precisará alimentar
sua dependência em Deus. Ser humano representa ser finito e depender constantemente do
Infinito. Ele não se torna um super homem que se emancipa de seu criador e soluciona todos
os seus problemas. Apesar de estar livre do pecado, ele continua cercado pela finitude e pelos
limites que lhes são impostos pela criação. Ele pode continuar se desenvolvendo, mas para
que isto aconteça, deverá sempre manter sua dependência de Deus.

3.2 O pecado e a natureza humana


Ao estudarmos a compreensão de Wesley e White sobre o ser humano, torna-se
evidente que para ambos, o ser humano, em seu estado natural, é depravado e carente da graça
de Deus. Isto significa que a humanidade é totalmente incapaz de praticar qualquer ato
genuinamente correto, bom, puro e que venha retirá-la de seu estado de depravação. Todo
amor que pode ser expresso por parte da humanidade é voltado para si mesmo. Nascida com
uma natureza corrupta, a humanidade é alimentada por sentimentos e pensamentos incorretos,
contrários à própria natureza e imagem de Deus. A imago Dei não se encontra mais
perfeitamente representada na humanidade. Portanto, mesmo que o ser humano procure
realizar atos de bondade e caridade, tais atos estão mergulhados em motivações e
pensamentos egoístas e pecaminosos. Qualquer ato verdadeiramente bom deve ser motivado
pela graça de Deus, da qual o ser humano está destituído.
Tal conceito se distancia do conceito positivista humanista, onde a capacidade humana
é valorizada na solução de seus problemas e na sua própria evolução e desenvolvimento. O
ser humano não é senhor de si e de seu destino. Ele é escravo de suas paixões e do pecado que
jaz em sua própria natureza. No entanto, seu destino ainda não está traçado. Ele pode reverter
o seu quadro de fugitivo de Deus. Apesar de totalmente depravado, o ser humano, sob a graça
preveniente de Deus, ainda possui a liberdade de escolha, habilitando-o a abandonar o pecado
e suas conseqüências, e a se dedicar a uma vida de amor altruísta e santidade. Ao invés de
direcionar o amor para si mesmo, ele passa a amar a Deus e ao resto da humanidade mais do
79

que a si mesmo. A natureza pecaminosa, mesmo que latente, continua presente no indivíduo
até o momento da glorificação.

3.3 A relação entre o divino e o humano


Uma vez liberto da escravidão do pecado, o ser humano pode andar em verdadeira
liberdade. Através da graça divina, ele pode abandonar seu estado anterior de submissão ao
pecado e se tornar um vitorioso sobre o pecado. Esta graça, no entanto, não é irresistível.
Deus não passa por cima da liberdade humana. Deus oferece sua graça e ela é aplicada na
vida do ser humano apenas quando este a aceita. A salvação do pecado, portanto, não é
imposta somente sobre certos indivíduos, mas está à disposição de todos que a desejarem e a
aceitarem.
Por outro lado, a vitória sobre o pecado não é realizada por capacidade própria. A
humanidade é incapaz de se libertar das tentações e ciladas do pecado. Tal libertação é
resultado de uma obra em conjunto com a graça divina. Sem a presença constante da graça de
Deus, o ser humano pode recair constantemente em pecado. Sua dependência de Deus deve
ser constante, pois o pecado sempre poderá tentar obter o controle novamente. Isto significa
que, qualquer progresso ou amadurecimento feito por parte do cristão, deve ser feita com a
participação do divino. Abandonar o apoio divino não representa obter total liberdade, e sim,
voltar à escravidão do pecado.

3.4 A santificação diviniza?


Uma vez santificado, deixa o indivíduo de ser humano para se tornar outra coisa? Se
torna a humanidade uma “super” humanidade? Tem a santificação o potencial de “divinizar” a
humanidade? Para Wesley e White, não. Mesmo passando pelo processo de santificação e
alcançando a perfeição, o ser humano continua humano. Ele mantém seus limites e sua
finitude, sem, contudo, permanecer escravo do pecado. Apesar de crescer constantemente em
direção à perfeição, o ser humano nunca alcança um estado de “perfeição absoluta”, como se
fosse uma escala com um topo a ser alcançado.
O cristão que cresce em santificação pode ser considerado “perfeito” por Deus, mas
aos seus próprios olhos, o indivíduo perceberá a distância que existe entre si mesmo e Deus.
Cada vez que ele se aproxima mais da pureza de Deus, ele percebe a impureza que permeia
seus pensamentos e atos. Ele percebe o contraste entre pecado que jaz em si, e a santidade que
permeia a divindade. Mesmo o modelo apresentado como padrão de perfeição – Jesus Cristo
80

– não poderá ser igualado deste lado da glorificação. O ser humano pode ser perfeito, mas
apenas em sua própria esfera – a humana.

3.5 A necessidade de obediência


Para que possa haver crescimento, amadurecimento e desenvolvimento do ser humano
e para que este reflita a imago Dei, é importante que este seja obediente à Deus. Deus
estabeleceu um conjunto de preceitos e regras que devem reger a conduta e ética humana.
Santificação e perfeição não ocorrem na ausência das leis que Deus estabeleceu. Para que o
cristão possa crescer em santificação, buscando alcançar a perfeição, ele deve trilhar o
caminho da obediência. Apenas obedecendo às leis de Deus é que a humanidade poderá
usufruir da liberdade que Deus promete. A verdadeira liberdade deve ser entendida como
sendo dentro da proteção oferecida por uma vida de obediência a Deus. Liberdade não
significa libertinagem.
Sendo assim, para que possa haver ordem e progresso em uma sociedade, faz-se
necessário um conjunto de leis. Da mesma forma que uma sociedade precisa de um conjunto
de leis que regem a vida de seus cidadãos para que todos possam viver em paz e harmonia, a
vida cristã também é marcada pelas leis divinas, que contribuem para o crescimento
harmônico e saudável do indivíduo em sua caminhada para a perfeição. Se o cristão deixar de
seguir as leis estabelecidas por Deus, ele deixará de crescer em santificação e “cairá da graça”
também. Devemos lembrar, contudo, que a observância das leis de Deus não é realizada por
mero esforço humano, mas é auxiliada pela ajuda divina. Deus estabelece as leis que devem
ser guardadas e também fornece a força e a capacidade para que a humanidade possa guardá-
las.

3.6 A práxis e suas motivações religiosas


O ser humano é levado, muitas vezes, a apresentar certos comportamentos ou manter
certos costumes, simplesmente porque outras pessoas agem da mesma forma, ou por que “está
na moda”. Por isto, queremos dizer que ele não analisa os motivos que o levaram a se vestir,
alimentar ou agir da forma como o faz, mas é apenas um refletor do comportamento alheio.
Suas ações seguem às do resto da população na qual ele se encontra inserido. Há aqueles que
consomem certos alimentos, bebidas ou produtos, se envolvem em ações de caridade e
participam de projetos de assistência social simplesmente porque viram ou ouviram falar que
alguém de destaque na sociedade agia da mesma forma. Outras pessoas são levadas a manter
81

tal estilo de vida na tentativa de se tornarem pessoas “aceitáveis” perante a sociedade. A


opinião pública se torna um grande motivador nas escolhas do comportamento do indivíduo e
seu estilo de vida.
Wesley e White, através de sua teologia, procuram incentivar o ser humano a buscar
outra motivação, um sentido mais profundo para a vida. O estilo de vida e o comportamento
humano devem ser regidos não pela opinião da maioria, ou porque “está na moda”, e sim
porque contribui para o desenvolvimento e crescimento de cada indivíduo. Um estilo de vida
saudável deve ser mantido visando os efeitos benéficos que este produz na saúde, mente,
sociabilidade e espiritualidade do indivíduo. Uma vez que o ser humano se encontra neste
estado de plenitude e bem estar, ele estará mais inclinado a melhorar e aprimorar seus
relacionamentos com Deus e as pessoas que o circundam. Sendo assim, suas escolhas quanto
ao que come, bebe, compra, consome e promove serão motivadas visando seu próprio bem
estar, como também o efeito que terão sobre seus relacionamentos com Deus e seus
semelhantes. Ele não será apenas movido por um sentimento egoísta de auto-satisfação, mas
procurará se tornar um ser humano melhor para sua sociedade e para o Reino de Deus.

3.7 O amadurecimento para o Serviço


O conceito de santificação para Wesley e White possui um aspecto tanto interior
(pietista) como também social. Apesar de ênfases diferentes, tanto Wesley como White
concordam que santificação não deveria ser um fim em si mesmo. O crescimento ou
amadurecimento não deve se tornar um objetivo em si mesmo, mas deve levar o indivíduo ao
serviço. Sendo assim, a verdadeira religião não motiva seus fiéis a permanecerem dentro de
seu próprio casulo. O cristão que está crescendo em santificação não deve se fechar para
mundo e para os outros, em busca de proteção. O amadurecimento que é proporcionado pelo
processo de santificação incentiva o cristão a sair de seu meio de conforto em busca daquele
que se encontra necessitado. Como dizia Wesley, santificação é social.
Santificação, portanto, possui dois aspectos. Por um lado, o processo de santificação
procura levar o cristão a abandonar o pecado (aspecto negativo). Neste sentido, o cristão é
incentivado a deixar de praticar aquilo que prejudica a si mesmo, seu relacionamento com
Deus, como também aquilo que trás prejuízo ao resto da sociedade. Mas santificação também
motiva o cristão a praticar aquilo que é correto diante da necessidade alheia (aspecto
positivo). Neste sentido, ele é animado a procurar entender a realidade na qual outras pessoas
vivem e as necessidades pelas quais elas passam. À medida que o ser humano é santificado
82

através do conhecimento da verdade bíblica ele se envolve ativamente na salvação de outros.


O cristão é, portanto, movido a servir o outro, buscando aliviar o peso e os problemas que
muitas vezes sobrecarregam a existência humana. Mas para que isso ocorra, o ser humano
precisa “ser melhorado” (santificação) para então poder “salvar” as pessoas dentro da
condição na qual estão inseridos. Antes de poder libertar outros de suas limitações e
problemas, o cristão precisa assegurar que ele mesmo se encontre em um estado de liberdade.

3.8 A colaboração divino/humana no desenvolvimento


O ser humano recebeu das mãos de Deus a capacidade de escolher o destino que
deseja tomar para sua vida. Ele não é forçado a aceitar um destino que lhe é imposto pela
divindade. Seus atos, pensamentos, atitudes e hábitos são dirigidos pela capacidade volitiva
que Deus concedeu a cada ser humano. O ser humano é, portanto, livre para fazer suas
escolhas e agir como desejar. A graça de Deus, conforme Wesley e White, não é irresistível,
mas pode ser rejeitada pelo ser humano, se este o desejar. A soberania divina não interfere na
liberdade de escolha humana.
Deus atrai o ser humano a Si. Sentindo-se atraído para a salvação, o ser humano é
levado a se arrepender e mudar sua conduta. Qualquer mudança ou progresso deve ser
realizado com o auxílio do Espírito Santo e com a decisão do indivíduo. Cada passo dado em
direção ao amadurecimento do indivíduo é realizado pelo cristão que colabora com Deus.
Aqui devem ser evitados dois extremos: por um lado, uma atitude de laissez faire – como se
tudo ficasse nas mãos de Deus; e por outro, acreditar que tudo é responsabilidade humana,
colocando Deus de fora de nossos problemas. Deus é soberano sobre o universo, mas ele
optou trabalhar em conjunto com a humanidade. Ele permite que o ser humano participe de
Seus planos e abre espaço para a atuação (ou não) humana. Por um lado, Deus não mantém
uma soberania “absoluta”, como se cada minúsculo detalhe que acontece na vida do ser
humano fosse de Sua responsabilidade. Por outro, Ele não largou tudo nas mãos do ser
humano e abandonou o cenário. É nesta tensão provocada entre a atuação divina e a
participação humana que a vida se desenvolve.

Conclusão
Como proposto neste capítulo, foi realizado uma comparação do pensamento de John
Wesley e Ellen White. Em um primeiro momento, as aproximações entre o pensamento de
ambos os autores foram consideradas. Oito semelhanças foram levantadas e analisadas: 1)
83

santificação como um amadurecimento contínuo, 2) santificação possui um aspecto individual


como também social, 3) ser perfeito não significa alcançar a impecabilidade, 4) embora
perfeito, o cristão pode “cair da graça”, 5) santificação ocorre em uma sinergia
divino/humana, 6) santificação é apenas possível se houver obediência a Deus, 7) santificação
é amor, e 8) Jesus Cristo é o padrão de perfeição.
Em um segundo momento, os distanciamentos entre o pensamento de ambos os
autores foram destacados. Oito distinções foram apresentadas: 1) enquanto que a busca pela
perfeição, em Wesley, estava relacionada ao reavivamento, para White, estava relacionado à
sua expectativa escatológica da segunda vinda de Cristo. 2) Para Wesley, santificação é
instantânea, 3) há um segundo momento da graça no processo da santificação, 4) e o pecado
deixa de habitar no ser humano. Enquanto isso, White acreditava que, 5) a emoção e o
entusiasmo não deveriam servir como evidência de santificação, 6) ser perfeito significa
possuir perfeição de caráter, e 7) a perfeição pode ser alcançada dentro de diferentes esferas
da experiência humana.
Diante de tais considerações, foram propostas oito contribuições que ambos os autores
podem oferecer para a teologia na atualidade, considerando suas perspectivas e singularidades
sobre o tema da santificação e temas relacionados: 1) o ser humano, mesmo perfeito, não se
torna “infinito” mas continua marcado por suas limitações; 2) o ser humano, em seu estado
natural é escravo do pecado, mas pode obter sua liberdade através de sua dependência na
graça de Deus; 3) o ser humano precisa se manter dependente da graça divina tanto para
continuar livre do pecado como para crescer em perfeição; 4) a santificação não diviniza o
humano; 5) para que a humanidade possa evoluir e se desenvolver, é preciso que ela obedeça
às leis de Deus; 6) toda práxis deve ser motivada por algo além do egoísmo e auto-satisfação,
como, por exemplo, o amor ao outro e a Deus; 7) santificação deve ser entendida como um
amadurecimento para o serviço ao outro e a Deus, e não como exclusão da sociedade; e 8)
para que haja desenvolvimento do indivíduo como também do resto da humanidade, estes
devem participar em colaboração com a atuação divina no mundo.
CONCLUSÃO
Este trabalho consistiu em um estudo comparativo entre os escritos de John Wesley
(1703-1791), líder do movimento metodista na Inglaterra, e Ellen G. White (1827-1915),
pioneira do movimento adventista nos Estados Unidos, procurando definir os seus conceitos
de santificação. Procuramos descrever os fatores que levaram a elaboração desta percepção
nos dois autores e verificar congruências e divergências entre eles quanto ao tema da
santificação.
A problemática levantada neste este trabalho partia de um estudo comparativo entre
John Wesley e Ellen G. White. O que é santificação para ambos os autores? É ela posicional,
instantânea ou é um processo duradouro? É a santificação distinta da justificação? Atua ela
apenas na dimensão religiosa, ou também no aspecto físico, social e intelectual? Como que
ambos os autores retratam a santificação, considerando que ambos os autores viveram em
tempos e contextos diferentes? Quais são suas contribuições e implicações para a teologia na
atualidade?
Conseqüentemente, as hipóteses levantadas por tal comparação sugerem que: 1) existe
um conceito definido de santificação em John Wesley e Ellen G. White, 2) houve fatores que
levaram a elaboração desta percepção tanto em John Wesley como em Ellen G. White, 3)
existem congruências e divergências entre John Wesley e Ellen G. White quanto ao tema da
santificação, 4) elementos wesleyanos sobre santificação em Ellen G. White podem ser
encontrados, os quais ela os reconstrói dando enfoques específicos e particulares, e, 5) de tal
estudo, contribuições e implicações para a teologia na atualidade poderão ser levantados.
O método empregado neste trabalho é o de estudos comparados, sendo que este se
deteve apenas na comparação dos escritos de dois autores, pioneiros de dois movimentos
evangélicos, procurando entender suas percepções quanto ao tema da santificação. Como
resultado, apresentamos as semelhanças e diferenças entre ambos autores, como também
oferecemos propostas para as discussões teológicas na atualidade.
No primeiro capítulo deste trabalho, o tema da santificação e da perfeição cristã no
pensamento de Wesley foi discutido. Para contextualizar tal discussão, uma breve revisão
histórica sobre Wesley foi oferecida. Nela procuramos mostrar um pouco a maneira em que
seus conceitos se desenvolveram e foram expressos no decorrer dos anos. Procuramos, através
de seus sermões, cartas e obras, captar seu pensamento e seus conceitos sobre santificação. Os
diversos eventos com os quais ele interagiu também nos ofereceram uma janela para as suas
idéias.
85

Em seguida, dentro da discussão teológica sobre santificação e perfeição cristã,


observamos que sua compreensão de santificação cristã está intimamente interconectada com
outros temas como o pecado e a natureza humana, a expiação, a justificação, a obediência à
Lei de Deus e finalmente a perfeição cristã. Enquanto que santificação só começa a partir da
justificação, ela segue o cristão durante toda a sua vida, e nunca acaba. É um caminho
composto por diferentes etapas que permite ao cristão crescer até alcançar a perfeição cristã.
Enquanto que a santificação permite a remoção da presença e do poder do pecado no ser
humano, contudo, não é eliminada a possibilidade para erros, doenças, tentações e até a
possibilidade de uma recaída em pecado. Mas ela habilita o ser humano a novamente “amar a
Deus de todo o coração e o próximo como a si mesmo”, tornando a santificação um processo
que afeta o indivíduo e se manifesta socialmente.
No entanto, para que tal obra possa ser realizada, deve haver um esforço por parte do
ser humano em colaboração com a atuação divina. Este esforço se manifesta na forma de
obediência à vontade e lei de Deus. Santificação possui como objetivo habilitar o ser humano
com as virtudes que também havia em Cristo Jesus.
No segundo capítulo, o tema da santificação e da perfeição cristã no pensamento de
Ellen G. White foram analisados. Seguindo o modelo estabelecido no primeiro capítulo, uma
breve revisão histórica sobre White foi oferecida. Nela procuramos mostrar como que seus
pensamentos e conceitos se desenvolveram, sendo articulados em sua vida no decorrer dos
anos. Procuramos captar e contextualizar seus pensamentos e seus conceitos sobre
santificação dentro de suas experiências. Os diversos eventos com os quais ela interagiu
também nos ofereceram uma janela para as suas idéias.
Num segundo momento, observamos que sua compreensão de santificação cristã está
intimamente interconectada com outros temas como o pecado e a natureza humana, a
expiação, a justificação, a obediência à Lei de Deus e finalmente a perfeição cristã. Foi
mostrado que seus conceitos sobre santificação estão intimamente relacionados à sua
expectativa da segunda vinda de Cristo. Este era o tema motivador para sua busca de
santificação assim como também para os adventistas que a sucederam. Sendo assim,
santificação é um preparo contínuo para este grande evento. Santificação não é instantânea e
emocional. Cada momento em que White se deparou com alguma alegação de santificação
que valorizasse o aspecto emocional, ela rejeitou tal alegação. E em seu tempo, não foram
poucas as situações.
86

Para White, santificação trabalha o caráter do indivíduo, preparando-o para amar a


Deus acima de tudo e ao seu próximo. É uma habilitação para o serviço, levando o cristão a se
interessar e buscar atender às necessidades daqueles que estão ao seu redor. Este processo
deve direcionar corretamente todos os pensamentos, atos, sentimentos e hábitos a fim de que
um caráter perfeito seja desenvolvido. Perfeição não significa alcançar um patamar de
impecabilidade. Ninguém que esteja andando pelo caminho da perfeição deve afirmar ser
perfeito ou alegar impecabilidade. Quanto mais próximo a pessoa está de Cristo, mais ela
percebe suas falhas.
Cristo serve como modelo que deve ser constantemente imitado, sem que ele possa ser
necessariamente igualado. Faz-se necessário uma colaboração entre a atuação divina e a
participação humana no processo da santificação. Neste sentido, é importante que o ser
humano se mantenha fiel e obediente à lei de Deus. Se à cada estágio do amadurecimento
cristão, a pessoa se desenvolver conforme é o intencionado por Deus, esta pessoa pode ser
considerada como “perfeita”.
No último capítulo, foi realizado uma comparação do pensamento de John Wesley e
Ellen White. Em um primeiro momento, as aproximações entre o pensamento de ambos os
autores foram consideradas. As seguintes semelhanças foram levantadas e analisadas: 1)
santificação como um amadurecimento contínuo, 2) santificação possui um aspecto individual
como também social, 3) ser perfeito não significa alcançar a impecabilidade, 4) embora
perfeito, o cristão pode “cair da graça”, 5) santificação ocorre em uma sinergia
divino/humana, 6) santificação é apenas possível se houver obediência a Deus, 7) santificação
é amor, e 8) Jesus Cristo é o padrão de perfeição.
Em um segundo momento, os distanciamentos entre o pensamento de ambos os
autores foram destacados. As seguintes distinções foram apresentadas: 1) enquanto que a
busca pela perfeição, em Wesley, estava relacionada ao reavivamento, para White, estava
relacionado à sua expectativa escatológica da segunda vinda de Cristo. 2) Para Wesley,
santificação é instantânea, 3) há um segundo momento da graça no processo da santificação,
4) e o pecado deixa de habitar no ser humano. Enquanto isso, White acreditava que 5) a
emoção e o entusiasmo não deveriam servir como evidência de santificação, 6) ser perfeito
significa possuir perfeição de caráter, e 7) a perfeição pode ser alcançada dentro de diferentes
esferas da experiência humana.
Diante de tais considerações, foram propostas oito contribuições que ambos os autores
podem oferecer para a teologia na atualidade, considerando suas perspectivas e singularidades
87

sobre o tema da santificação e temas relacionados: 1) o ser humano, mesmo perfeito, não se
torna “infinito” mas continua marcado por suas limitações; 2) o ser humano, em seu estado
natural é escravo do pecado, mas pode obter sua liberdade através de sua dependência na
graça de Deus; 3) o ser humano precisa se manter dependente da graça divina tanto para
continuar livre do pecado como para crescer em perfeição; 4) a santificação não diviniza o
humano; 5) para que a humanidade possa evoluir e se desenvolver, é preciso que ela obedeça
às leis de Deus; 6) toda práxis deve ser motivada por algo além do egoísmo e auto-satisfação,
como, por exemplo, o amor ao outro e a Deus; 7) santificação deve ser entendida como um
amadurecimento para o serviço ao outro e a Deus, e não como exclusão da sociedade; e 8)
para que haja desenvolvimento do indivíduo como também do resto da humanidade, estes
devem participar em colaboração com a atuação divina no mundo.
Considerando que o presente trabalho representou apenas uma tentativa de estudo
comparativo dos conceitos wesleyanos e whiteanos sobre santificação e perfeição cristã, as
considerações e intuições aqui apresentadas são preliminares e incipientes, que poderão ser
ampliadas e aprofundadas posteriormente. Como tema para estudos posteriores, sugerimos
algumas questões que poderiam ser analisadas em futuras pesquisas: Qual é a relação entre o
conceito de santificação e perfeição entre White e os movimentos de santidade americanos do
século XIX e XX? Os conceitos whiteanos de santificação estão mais próximos de Wesley ou
dos movimentos de santidade americanos? Existe diferença entre “vitória sobre o pecado” e
“libertação da habitação do pecado”? Como entender o conceito whiteano de “esferas de
perfeição”? Pode isto ser considerado como “graus” de perfeição? Como que o conceito de
santificação se relaciona com assuntos como saúde, educação, alimentação, comportamento,
liberdade cristã, responsabilidades cívicas e serviço social, entre outros. Qual é o lugar do
sentimento e entusiasmo no processo de santificação? Tem ambos movimentos (metodista e
adventista) mantido os conceitos originalmente apresentados por seus pioneiros ou houve
alguma mudança significativa? Se houve mudanças significativas, de que natureza seriam?
Esperamos que as tradições religiosas que possuem como base o pensamento de um ou
outro dos autores estudados possam ser, de alguma forma, beneficiadas pelas conclusões
dessa pesquisa.
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