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Pixadores pela cidade: (i)legalidades e ambi-

guidades nas extensas relações da pixação de


Belo Horizonte

RoDRiGo amaRo De caRvalho1


Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil

DOI: 10.11606/issn.2316-9133.v22i22p225-237 Horizonte (CARVALHO, 2013). From participant


observation on the practice and meeting spaces of ta-
resumo O presente artigo objetiva apresentar parte ggers and the analysis of diverse sources of research,
dos resultados fnais da minha dissertação de mes- we can investigate the (il)legal strategies used by the
trado, que consistiu em estabelecer uma etnogra- Military Police and the Government to inhibit and
fa com os pixadores da cidade de Belo Horizonte punish the actions of taggers. Tus, we ethnography
(CARVALHO, 2013). A partir da observação par- some forms of police violence, as well as the strategies
ticipante, em meio à prática e aos espaços de en- used by these taggers to resist and to circumvent the-
contro dos pixadores e, da análise de diversifcadas se coercive mechanisms. Were numerous comments
fontes de pesquisa é que conseguimos investigar as and negative representations, mapped by me, direc-
estratégias (i)legais utilizadas pelos Policiais Mi- ted by these taggers against the various spheres of
litares e pelo Poder Público para inibir e punir as governmental activity. In short, we present that the
ações dos pixadores. Assim, conseguimos etnografar repression acts retroactively, which means, repressing
algumas formas de violência policial, bem como as but also contributing to the practice of tagging.
estratégias utilizadas pelos pixadores para resistir e keywords Taggers; Police; (Il)legalities; Relations;
burlar estes mecanismos coercitivos. Inúmeros fo- Belo Horizonte.
ram os comentários e as representações negativas
por mim mapeadas, desferidas pelos pixadores con-
tra as diversas esferas de atuação do poder público. Apresentação preliminar da pixação
Em suma, apresentaremos como a repressão age de de Belo Horizonte
modo retroativo, isto é, reprimindo, mas também
contribuindo para a prática da pixação. À primeira impressão, a pixação2 pode pa-
palavras-chave Pixadores; Policiais; (I)legalida- recer, para um transeunte desavisado, um fenô-
des; Relações; Belo Horizonte meno simples e homogêneo, mas, ao analisá-la
com certa acuidade, percebemos que ela con-
fgura um todo complexo e diversifcado de
Pixadores in the city: (i)legalities and ambi- práticas simbólicas e signifcações, possuindo
guities in the extensive relationships of pixa- também peculiaridades em suas formas de so-
ção in Belo Horizonte cialidade. Em busca de adrenalina, reconhe-
cimento e, às vezes, como forma de protesto,
abstract Tis article presents part of my Master’s seus praticantes se arriscam em meio à paisa-
thesis fnal results, which consisted in establishing gem da metrópole. Estas motivações, de um
an ethnography with taggers in the city of Belo modo geral, são as mais frequentemente citadas

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nas entrevistas concedidas pelos pixadores, seja Por se tratar de um tipo de escrita de difícil
naquelas efetivadas ao longo desta etnografa, leitura, podemos inferir, de um modo geral,
seja em documentários, revistas especializadas que a pixação de Belo Horizonte caracteriza-se
e, também, nas redes sociais. como um estilo de comunicação fechada, uma
Diferentes são as formas de intervenções vez que os pixadores, embora acabem também
e apropriações que os pixadores estabelecem chamando a atenção da sociedade, pretendem
com a paisagem urbana. Contudo, valoriza- se comunicar, na maioria das vezes, apenas
-se a busca pelo maior número de inscrições, com outros pixadores. Neste sentido, em fun-
independentemente da natureza do suporte ção da difculdade em ler as inscrições grafa-
de que o autor está se apropriando em meio à das nos distintos suportes, podemos concluir
cidade. No entanto, vale lembrar que quanto que a fama e o reconhecimento, ou ibope, uti-
maior a difculdade demandada pelos fato- lizando os termos do vocabulário da pixação,
res limitantes da ação do pixador, tais como, tão presentes nas falas das entrevistas destes
sistemas de segurança privados, cercas elétri- agentes, se restringem ao reconhecimento de
cas, altura do prédio escalado, proximidade seus pares.3 Assim, a pixação, de certo modo,
e patrulhamento da polícia, dentre outros, caracteriza uma forma de escrita e comuni-
maior será o seu reconhecimento em meio cação restrita a quem compartilha dos seus
aos pixadores da sua galera, bem como den- códigos e símbolos culturais, somente sendo
tre as outras galeras de pixação – maior será compreendida pelos atores que fazem parte
o seu ibope. deste circuito (MAGNANI, 2007).

GOMA, SODA, GINK, COISA. BN e MF. (Créditos da Imagem: Rodrigo Amaro)

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As marcas grafadas pelos jovens em meio à dar sistemas estéticos não ocidentais, refetindo
metrópole, em sua grande maioria, contêm o sobre questões relativas ao uso e aplicações de
vulgo que identifca o autor – neste caso, de- conceitos próprios ao ocidente a contextos dis-
signado pela categoria nativa preza –, somado tintos. Assim, para Gell uma verdadeira Antro-
com o nome do grupo ou coletivo, conhecido pologia da Arte se defne como o estudo teórico
pela expressão galera, e em algumas vezes fazem
alusão também à região onde está localizado o das relações sociais na vizinhança dos objetos que
bairro onde o agente reside. Em alguns casos atuam como mediadores da agência social e propus
também os agentes ainda escrevem frases que que, para que a antropologia da arte seja especifca-
podem variar, grosso modo, entre um breve mente antropológica, ela tem que partir da ideia de
relato da intervenção ou, simplesmente, frases que, sob os aspectos teóricos relevantes, os objetos
que contenham alguns lemas famosos entre os de arte equivalem a pessoas, ou, mais precisamente,
pixadores, envolvendo temas como relacionali- a agentes sociais (GELL, [1998] 2009, p. 253).
dades, polícia, ibope, trechos de letras de Rap,
protestos, dentre outros.4 Neste sentido, ao invés de me atentar para
Na imagem destacada acima, na parte mais a questão que polemiza o fato da pixação ser
baixa, temos as inscrições com os nomes abrevia- ou não arte, nos parece aqui ser mais interes-
dos das duas galeras que estavam presentes no rolê, sante investigar a dimensão relacional que tal
quais sejam, a BN (Banca Nervosa) e a MF (Ma- fenômeno comporta. Portanto, a partir de um
lucos do Floresta). Já na parte intermediária que projeto antropológico, com inspirações clara-
compõem o suporte em questão, observamos as mente maussianas, Gell propõe que a teoria
prezas dos pixadores SODA GINK e COISA. Por antropológica da arte é a teoria da arte que
fm, a parte superior foi preenchida pela inscri- “considera os objetos de arte como pessoas”
ção do pixador GOMA - BN. Além das prezas e (GELL, [1998] 2009, p. 255).
das siglas das galeras, ainda podemos observar no Dito isto, podemos concluir que o circuito
interior da letra O que compõe a preza GOMA da pixação deve ser visto tal como um mosaico,
uma letra P que, ao serem conjugadas, resulta no dotado de características e signifcações próprias
símbolo da grife Os Piores. Além disso, é impor- e heterogêneas, possuindo uma dinâmica própria
tante salientar ainda que a sigla OP remete a uma que se relaciona de forma estreita com os fatores
aliança e a uma extensão da grife Os Piores de São relacionados com as próprias regras do espaço
Paulo na capital mineira - diferentemente da grife urbano. Assim, os pixadores estabelecem novas
Os Piores de Belô, que traduz uma união entre formas de apropriação e signifcação da urbe a
galeras/pixadores de Belo Horizonte. partir dos seus próprios códigos simbólicos e de
A partir das categorias nativas atropelar, suas próprias formas de socialidades.
atravessar e quebrar – bem como por meio das
histórias apresentadas por meio da interpreta-
ção e descrição de inúmeras imagens – pode- Quando a pixação está para além
mos perceber como são importantes as relações dos muros: as ambíguas e extensas
estabelecidas entre os pixadores. Por conta dis- relações dos pixadores mineiros
so, sigo aqui as contribuições de Alfred Gell
que, na obra Art and Agency, denuncia o falso No ano de 2010, em específco, no mês de
problema existente no hábito de se tentar eluci- novembro, um acontecimento colocou o fenô-

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meno da pixação em foco em Belo Horizonte, pixador se apropria da propriedade alheia para
qual seja, o fagrante de cinco jovens em um efetuar suas ações.
prédio da região central, seguido da prisão e Com o intuito de combater a pixação, a
enquadramento dos mesmos por crime de for- Prefeitura de Belo Horizonte, na atual gestão
mação de quadrilha.5 Tal acontecimento teve do Prefeito Marcio Lacerda, declarou guerra às
grande repercussão na mídia, especialmente, na ações dos pixadores. Juntamente com a PBH,
mídia eletrônica. Ao investigar as opiniões refe- o Poder Judiciário, a partir do cumprimento
rentes à prisão dos pixadores percebemos uma de inúmeros mandatos de busca e apreensão,
gama diversifcada de juízos, se estes deveriam também vem atuando de forma bastante inci-
ou não ser enquadrados como formação de qua- siva contra os pixadores mais atuantes de Belo
drilha, ou se estes deveriam ser punidos apenas Horizonte.7 Além disso, a PBH também com-
pela prática da pixação. De todo modo, quando bate a pixação estabelecendo uma guerra de
o assunto é pixação, predominantemente, nos tinta contra os pixadores, através do fomento
deparamos com apreciações que relegam os pi- de programas como o Movimento Respeito
xadores às categorias de vândalos e criminosos. por BH, que tem por objetivo cobrir todas as
Dito isto, vale lembrar que, conforme Ho- pixações encontradas pelos agentes da prefeitu-
ward Becker, “todos os grupos sociais fazem ra e por voluntários nas ruas da capital minei-
regras e tentam, em certos momentos e em ra.8 Resumidamente, os objetivos do programa
algumas circunstâncias, impô-las”. As regras supracitado são defnidos da seguinte maneira:
sociais “defnem situações e tipos de compor-
tamento a elas apropriados, especifcando al- O Movimento Respeito por BH visa garantir
gumas ações como ‘certas’ e proibindo outras o ordenamento e a correta utilização do espaço
como ‘erradas’” (BECKER, 2008, p. 15).6 urbano pelo cumprimento e efetiva aplicação
A pixação, juntamente com as outras mo- da legislação vigente. Visando intervir de forma
dalidades de inscrições urbanas, na maioria das efetiva, pautada pela legislação vigente e preser-
vezes põe frente a frente diferentes grupos so- vando os códigos de convivência urbana, foram
ciais, na medida em que coloca em discussão a traçadas três estratégias integradas para comba-
questão paradigmática da propriedade privada, ter a pichação e que podem ser executadas de
bem como a liberdade de expressão. Cliford forma independente: REPRESSÃO QUALIFI-
Geertz (1994) destaca que, de acordo com a CADA, SENSIBILIZAÇÃO e DESPICHE.9
perspectiva funcionalista, as “obras de arte são
mecanismos elaborados para defnir as relações A prefeitura da metrópole mineira inves-
sociais, manter as regras sociais e fortalecer te muitos recursos fnanceiros e materiais para
os valores sociais” (p. 150). Nesse sentido, ao monitorar a cidade por meio de programas e
invés de corroborar para com as regras e valo- sistemas de segurança. Do mesmo modo que o
res sociais, estas práticas “apenas materializam Poder Judiciário, a Polícia Militar, por meio do
uma forma de viver, e trazem um modelo es- programa de monitoramento conhecido como
pecífco de pensar para o mundo dos objetos, “Olho Vivo” intenta inibir a ação dos pixadores
tornando-o visível” (Ibidem). Percebemos que nas principais vias da cidade. Além disso, ma-
esta forma de intervenção põe em discussão, peamos um esforço conjunto entre a iniciativa
dentre outras problemáticas, sobretudo, o es- privada e a iniciativa pública, que através de três
tatuto da propriedade privada, uma vez que o diretrizes de ação, planejadas pelo programa

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Movimento Respeito por BH, visa, igualmente privada, coloca e trata estas práticas de forma
combater a pixação na capital mineira. dicotômica. Contudo, a partir dos dados da
Neste ponto, nos interessa abordar a segun- pesquisa é possível afrmar que os limites en-
da diretriz de ação do programa citado, a saber, tre estas práticas são muito fuidos.11 Por outro
a esfera de atuação intitulada por seus ideali- lado, é importante destacar que, mesmo sendo
zadores como “sensibilização”. Nesse sentido, fuidos os limites entre tais práticas, existem
a SMED – Secretária Municipal de Educação confitos entre os agentes destas manifestações,
de Belo Horizonte – intenta redirecionar o principalmente, por conta dos atropelos. Corri-
foco e a “energia dos jovens da pichação para queiramente ocorrem atropelos de graftes que
atividades de caráter cultural e de responsabi- acabam por sobrepor pixações, ou, até mesmo,
lidade socioambiental.” Para tanto, muitas das outros graftes. Com o
vezes, o grafte é acionado como um vetor de
combate à pixação. Tal estratégia fca patente o grafite tornando-se uma das estratégias ofi-
em uma matéria divulgada no site da emissora ciais de combate à pixação, muitos grafitei-
Alterosa, que começa com a seguinte analise: ros começaram a “atropelar” pixações, o que
“Uma matemática vergonhosa. Trezentas novas provocou a indignação de muitos pixadores
pichações aparecem todos os meses em Belo (PEREIRA, 2007, p. 229).
Horizonte, segundo a Polícia Militar”. Mas o
que mais nos interessa na referida matéria é A este respeito o pixador PAVOR aponta
a alternativa encontrada pelos moradores do que “grafte é bacana, são uns caras bem ta-
Bairro Horto. Eles deram lugar nos muros à lentosos. Mas muitos deles são unidos com o
arte. A frente da serralheria de Geraldo Gali- sistema. E quem é unido com o sistema, nóis
nari fcou mais bonita com o grafte. “Aqui é tamo contra”. Conscientes das estratégias de
pintar uma parede nova e eles picham mesmo, cooptação por parte do Poder Público, que tem
com o grafte eles respeitam.”10 por objetivo arrebanhar grafteiros em prol de
Investigando outras pesquisas que tratam uma guerra de tinta tácita que ocorre pela cida-
desta questão, percebemos que esta estratégia é de, onde o grafteiro é eleito como um vetor de
largamente utilizada. Em São Paulo, Alexandre combate à pixação, é que, então, os pixadores
Pereira aponta que começaram a devolver os atropelos sofridos nes-
ta tentativa de higienização da capital mineira.
ocorre, então, um fenômeno interessante: a pi- Além do programa de combate à pixação cita-
xação, indiretamente, impulsiona a proliferação do anteriormente, em especial, temos em Belo
de um agente de sua própria coerção, ou seja, o Horizonte também o Projeto Guernica.12
grafte. No entanto, é preciso problematizar essa Um ponto interessante que observei em
oposição entre pixação e grafte e entre pixado- alguns muros da cidade, que diz respeito às
res e grafteiros (PEREIRA, 2007, p. 226). relações estabelecidas pelos pixadores com a
cidade como um todo e as tentativas de com-
Retomando a gênese histórica da pixação bate à pixação, se refere à prática dos morado-
e do grafte, vimos que as histórias de ambas res colocarem placas com dizeres que buscam
as práticas remetem a uma gênese comum. Vi- negociar e apresentar razões para os pixadores
sando combater a pixação, podemos perceber não pixarem seus muros. Neste sentido, bus-
que o poder público, juntamente com a esfera cando alternativas para a inefcaz repressão e

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combate estabelecido pelos órgãos públicos, junto de regras, e as pessoas pertencem a mui-
moradores e construtoras se comunicam atra- tos grupos ao mesmo tempo” (p. 21). Podemos
vés dos próprios muros. inferir que o pixador, como qualquer indiví-
duo, por participar de diversos grupos, acaba
Atenção Sr. Pixador, a cada mês que esse muro por “infringir as regras de um grupo pelo pró-
permanecer limpo, a MRV e a Magis doarão prio fato de se ater às regras de outro” (Ibidem),
uma cesta básica para uma creche ou uma insti- neste caso, as próprias regras da pixação. Neste
tuição de caridade da sua cidade. intenso e complexo jogo de classifcações, os
policiais e os guardas municipais fguram de
No entanto, a despeito da estratégia salien- forma extremamente negativa na representação
tada anteriormente, os pixadores pixam os mu- dos pixadores, sendo considerados como os
ros destes locais e, ainda, zombam dos mesmos. seus principais adversários. Além desses perso-
Assim, o pixador DATE marcou sua alcunha e nagens, os pixadores utilizam-se da expressão
deixou a seguinte frase em letras legíveis: “esse herói que se refere a moradores, transeuntes
mês a cesta é por minha conta”. e vigias particulares que assumem o papel do
Segundo a perspectiva dos próprios pixado- Estado, e de alguma forma tentam inibir suas
res, a pixação é uma atividade ilícita, podendo ações. Assim, as categorias nativas porcos, ver-
ser caracterizada, portanto, como uma forma mes e gambés, se referem pejorativamente aos
de delito criminal. Conforme a fala do pixador policiais militares, civis e guardas municipais.
COISA, que argumenta que “a partir do mo- No outro pólo da discussão, o Jornal Estado
mento que você está pixando um patrimônio de Minas, em sua versão online, traz a seguinte
que não é seu, subindo em casas e prédios, está matéria: “Mais de 100 pichadores já foram pre-
fazendo uma coisa errada”. No mesmo sentido, sos desde janeiro em BH”:
transcendendo os limites da capital mineira, o
pixador paulistano CRIPTA reconhece a ilega- Moradores de Belo Horizonte que tiveram facha-
lidade e o caráter de vandalismo presentes nas das e muros de seus imóveis emporcalhados por
práticas exercidas pelos pixadores ao afrmar que pichadores podem comemorar uma estatística
a “pixação é ilegal mesmo, e a essência tá nisso levantada pela Guarda Municipal e repassada ao
cara. Se fosse autorizada, ninguém tava fazen- Estado de Minas com exclusividade: de janeiro a
do. A essência tá aí, na anarquia, tá ligado? Um novembro, a corporação prendeu 114 deles em
bagulho proibido.”13 Dessa maneira, notamos fagrante. Alguns são tão audaciosos que foram
que os próprios agentes da pixação admitem detidos quando sujavam a sede da prefeitura, na
que a pixação é uma intervenção subversiva, e Avenida Afonso Pena, no Centro, e o prédio da
que suas atividades, se julgadas perante as regras própria Guarda Municipal, na Avenida dos An-
normativas da sociedade, são práticas ilegais, na dradas, mas os alvos prediletos dos vândalos são
medida em que os próprios reconhecem que se os monumentos erguidos em pontos estratégi-
apropriam da propriedade alheia. cos, como o obelisco da Praça Sete.
Entretanto, embora reconheçam o caráter
desviante de suas ações mediante as regras da Em resumo, percebemos que ao classifcar a
sociedade, sabemos que, de acordo com Ho- ação dos pixadores como sendo um ato pratica-
ward Becker (2008), a “sociedade em geral tem do por vândalos, os jornalistas somente levam em
muitos grupos, cada qual com seu próprio con- conta o conteúdo das regras normativas de nossa

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sociedade em seus julgamentos acerca das ações lado “Somos todos grupelhos”, Félix Guattari
estabelecidas pelos pixadores, se privando de pro- (1981) aponta que a problemática em torno
blematizar a perspectiva dos pixadores. Sendo das gangues possibilita examinar melhor o
assim, na medida em que o objetivo é “vender problema de onde partir para defnir uma pos-
jornal”, os jornalistas, na busca de satisfazer o an- sível “subcultura”, permitindo colocar em dú-
seio da grande maioria dos seus leitores, apelam vida esse lugar social em relação ao qual fosse
para o desejo de ver os pixadores reprimidos. sempre necessário medir quaisquer outras ma-
Já o portal de notícias G1 traz a matéria in- nifestações ou estilos. Ademais, Janice Caiafa,
titulada: “Governo proíbe venda de tinta spray inspirada pelos escritos do mesmo, aponta,
para menores de 18 anos”. Assim, o tópico em também, que
destaque assinala que a partir da quinta-feira
(26/05/2011), no Diário Ofcial da União a Lei quanto às gangues, marginalidade é uma má
12.408, está proibida a comercialização de tintas palavra, pois implica sempre a ideia de uma de-
em embalagens aerosol a menores de 18 anos. Pela pendência secreta da sociedade pretensamente
lei, sancionada pela presidente Dilma Roussef, normal. A marginalidade chama o recentra-
mento, a recuperação. Vê-las não como uma
a venda de spray em tinta só poderá ser feita periferia em relação a um centro, momentos
a maiores de idade, mediante apresentação de dialéticos no discurso imperial, peripécias no
documento de identidade. O texto obriga o percurso que seguem o Império e sua ideia
comerciante a colocar na nota fscal de venda (CAIAFA, 1987, p. 62).
a identifcação do comprador. As embalagens
terão que conter, de forma legível e destacada, Percebemos o conteúdo estigmatizante lan-
a seguinte expressão: “Pichação é crime” (Art. çado sobre os pixadores pelos leitores e agentes
65 da Lei nº 9.605/98). “Proibida a venda para da esfera pública – e também pela Sociologia e
menores de 18 anos”. pela Antropologia que os vê como marginais,
conforme Caiafa (1987).
No comentário de outra matéria, um de- Erving Gofman defne estigmatização
terminado leitor exprime sua insatisfação para como uma forma de classifcação social pela
com as atividades estabelecidas pelos pixadores qual um “grupo identifca outro de acordo com
e também para com as ações punitivas, afr- certos predicados seletivamente reconhecidos
mando que a pelo indivíduo classifcante como pejorativos
ou desabonadores” (GOFFMAN, 1988, p. 66-
polícia não prende por incompetência e com isso 67). Constantemente, encontramos na fala dos
gera a impunidade. Emporcalham a cidade e não cidadãos as categorias “vândalos”, “crimino-
acontece nada. Os pichadores são uns frustrados, sos”, dentre outras – termos que identifcam a
fracassados e sem perspectiva de futuro. pixação com a destruição e com a sujeira, como
em um determinado trecho anteriormente des-
Nota-se na fala do leitor que a pixação, e, tacado. Em síntese, o pixador RALADO DC
também, de um modo geral, é vista a partir (Distúrbio do Crime) assinala que:
da negativa, ou seja, sempre como uma falta,
como resultado de uma assimetria de acesso à Belo Horizonte tá sendo motivo de piada no
determinadas oportunidades. No texto intitu- mundo. Cria disque denúncia pra pixadores, re-

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gistra fotos pra investigação [para] depois con- ção. Em uma determinada madrugada, em
denar e nos dar prisão. Tudo pra deixar a cidade uma das ações do grupo que acompanhei,
bonita pro estrangeiro. Agora pergunta pro es- ocorreu um fagrante. Enquanto o pixador
trangeiro o que vê de feio no Brasil, pra ver a FAIN escalava uma das janelas e marcava a
resposta dele. Nunca vai abrir a boca pra falar sua preza no segundo andar de um prédio, na
das pixações da cidade, e se falar pode ter certe- Zona Norte de Belo Horizonte, foi notado
za que antes disso ele abriu a boca pra falar de por uma moradora, que prontamente come-
corrupção, descaso com a saúde, miséria e mil e çou a gritar: “pega ladrão, pega ladrão”. As de-
um problemas da cidade. Aí depois ele vai falar clarações por parte da vizinha irritou muito os
sobre a pixação!!! O pixo nunca vai acabar! três integrantes da galera em questão. GINK:
“Nóis volta ainda FAIN”. FAIN: “É, ‘nóis’
De tal modo, a partir da fala do pixador, no- volta ainda Zé. Deixa esse restinho do Jet pra
tamos que este reconhece o estigma projetado mim”. GINK: “Nossa Zé, os caras ‘gritou’
pela sociedade sobre os pixadores. No entan- ladrão, você viu?” FAIN: “É, os caras gritou
to, ao nos reportarmos à sua fala, percebemos ladrão. O cara da janela do GINK apareceu”.
também que ele considera outros agentes como A partir desse pequeno dado de campo, f-
desviantes (BECKER, 2008, p. 15). Além dis- quei intrigado na busca de tentar compreender
so, a partir da fala de RALADO DC, podemos como funciona a noção própria de ética dos
inferir que os pixadores reconhecem o caráter pixadores, pois estes, apesar de reconhecerem
desviante envolvido na prática da pixação, con- ou de estarem conscientes de que a pixação
tudo defnem e fundamentam suas condutas, constitui uma prática desviante aos olhos da
mormente, com base nos atos transgressivos de sociedade, se sentiram muito ofendidos pela
outros grupos, neste caso, os políticos. moradora que os identifcou com ladrões. Por
Ao problematizarmos as entrevistas desta- conta do fagrante, FAIN teve que saltar do
cadas anteriormente e ao analisarmos a preo- segundo andar, e veio correndo em direção ao
cupação legal em conjunto com a criação de carro, juntamente com GINK. Nesse momen-
mecanismos de combate à prática da pixação, to, eu estava sentado no banco de trás do carro,
percebe-se que a todo o momento entra em e rapidamente, abri as portas para que os rapa-
voga o debate acerca do desvio e, nesse senti- zes pudessem entrar. Assim que os jovens aden-
do, abre-se um leque ainda mais amplo relativo traram, COISA arrancou e deu fuga sentido
ao entendimento deste fenômeno (SOUZA, Zona Leste. Durante a fuga, os jovens fcaram
2008, p. 79). Segundo Becker, desvio pode ser bastante apreensivos, pois, além de termos pas-
defnido como a “infração de alguma regra ge- sado em alta velocidade em frente à Delegacia
ralmente aceita”, ou ainda, o termo utilizado de Polícia Civil do bairro da Lagoinha, FAIN
para designar “pessoas que são consideradas estava muito nervoso com um carro que vinha
desviantes por outras, situando-se por isso fora atrás: “Espera aí. Nossa, ao carro ali. Vamos sair
do círculo dos membros ‘normais do grupo’” fora daquele carro. Sai fora daquele carro, sai
(BECKER, 2008, p. 21-27). fora daquele carro que está vindo ali. Vai para
Para cumprir o objetivo do presente artigo o outro lado. Engole os bicos e os fagrantes”.
destacarei alguns dados de campo, retirados A prática de se retirar e, posteriormente,
de uma flmagem feita em uma das minhas engolir o bico, jogá-lo fora, ou ainda escondê-
observações participantes da prática da pixa- -lo da vista dos Policiais é comum entre os

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pixadores. Tal estratégia é exercida com o in- soube desinvestir esses lugares sociais (os jovens,
tuito de não serem pintados pelos Policiais as mulheres e demais rebeldes, os “desviantes”)
Militares, pois ouvi muitos relatos por parte de uma substância que os defniria desde o iní-
dos pixadores contando que ao serem fagra- cio. Eis seu esforço de contextualizar esses fe-
dos pelos PM’s foram pixados pelos mesmos. nômenos, de enfatizar a situação, o processo
Sem o bico na lata, o Policial fca impedido de pelo qual essas fguras se constituem – no que
praticar essa ação agressiva contra o pixador, lhe interessa muito menos um afã classifcatório
uma vez que o pixador deu fm no mecanismo do que o momento que propicia sua aparição
que ao ser acoplado e acionado ao spray é res- (CAIAFA, 1987, p. 61).
ponsável pela emissão do jato de tinta.
Ainda sobre esta prática, GINK relatou Considerando as opiniões antes destacadas,
que, em certa feita, ao ser pego pelos Policiais entendemos que, a partir da perspectiva dos
Militares, em uma cena nas margens da Av. pixadores entrevistados, estes estão conscientes
Cristiano Machado, o PM responsável pela do estigma projetado sobre eles. Desse modo,
equipe que deu o fagrante, antes de tudo já podemos caracterizá-los como o que Howard
disse: “se o bico não aparecer vai todo mundo Becker chama de desviante puro, pois seus
para a Delegacia”. Por conta disso, os rapazes comportamentos, de um modo geral, podem
mostraram para o policial militar aonde ha- ser entendidos como “aquele que desobedece à
viam jogados os bicos das latas e, assim, os PM’s regra e é percebido como tal” (BECKER, 2008,
mandaram que os mesmos esticassem os braços p. 31). Ademais, muitas das vezes, percebe-se,
que, consequentemente, foram pintados pelos nas entrevistas dos indivíduos que fazem parte
mesmos. É importante destacar também que, dos setores que acusam os pixadores como des-
apesar de ser um ato desviante praticado por viantes, que a pixação não tem nenhuma ser-
vários policiais, ao longo da pesquisa, constatei ventia e nenhum sentido, ou que ela é apenas
que inúmeros pixadores preferem esse tipo de uma violência gratuita contra a sociedade, não
punição informal – e, em alguns depoimentos, tendo nenhuma fnalidade prática. Entretanto,
até mesmo ser agredido – do que ir para a dele- dentro deste universo multifacetado, que é a
gacia e ter que assinar o boletim de ocorrência. pixação, encontramos em nossa pesquisa de-
Prova disso é que GINK, sobre este episódio, terminadas galeras/pixadores que não encerram
relatou que, mesmo com o braço todo pinta- a pixação somente dentro de uma intervenção
do em spray preto, se sentiu muito aliviado por urbana apolítica e identitária. Sendo assim,
não ter rodado e não precisar ir para a Deleg14. a atitude de alguns grupos de pixadores em
Neste sentido, vale destacar que não há protesto contra casos, como, por exemplo, de
desvio em si, ou seja, o desviante não possui violência e descaso da justiça, divide a opinião
uma característica que o defna como tal, mas pública e cria novos conceitos para a pixação.
o que se percebe é a existência de um processo Destarte, por um lado, ao mesmo tempo
de acusação mútua, e o desviante passa a ser em que a mídia veicula opiniões que relegam
aquele que, por diferir das regras aceitas pela os pixadores às categorias estigmatizantes, tais
maioria da sociedade, acaba sendo qualifcado como, as de criminosos e vândalos, também
dessa forma. Para Janice Caiafa, a perspectiva contribui para o fenômeno da pixação, pois os
defendida por Howard Becker é relevante para pixadores colecionam todas as matérias que são
estudos deste tipo, pois Becker veiculadas na mídia impressa, na medida em

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que estar na imprensa ajuda a divulgar a sua ponsáveis pela inibição de tal fenômeno, advo-
alcunha individual e a sigla da sua galera, au- gam e defendem a importância do caráter ilegal
mentando, consequentemente, o ibope da ga- da pixação. Inúmeros foram os comentários e
lera no meio da pixação. Concluímos também as representações negativas por mim mapea-
que a imagem de vândalos não os incomoda, e das, desferidas pelos pixadores contra o “Olho
a imprensa em nada os pode prejudicar; pelo Vivo”, a Polícia Militar, a Guarda Municipal
contrário, esta por mais que lhes atribua inú- e a PBH. Todavia, como os mesmos ressaltam
meros qualifcativos estigmatizantes, acaba por constantemente que boa parte da adrenalina
promover e retroalimentar o fenômeno da pi- proporcionada durante o rolê se dá pela ile-
xação. Ademais, vimos que as ambiguidades e galidade, pelo perigo de ser fagrado por um
(i)legalidades são inerentes e cambiantes dentre gambé, podemos concluir que a repressão age
pixadores e policiais. de modo retroativo, logo, reprimindo, mas
também contribuindo para a prática da pixa-
ção. Sendo assim, por mais que os pixadores
“Rabiscando” algumas considerações critiquem os desvios de conduta por parte dos
fnais policiais, estes, em determinadas situações, se
sentem benefciados quando os policiais não
Podemos inferir que o estudo da prática da atuam dentro da lei.
pixação em Belo Horizonte nos permite extrair Por meio desta abordagem mais ampla é
duas conclusões principais, mas que deixam que percebemos, portanto, como este fenôme-
entrever inúmeras outras constatações etno- no deve ser apreendido através das suas mais
gráfcas mais pormenorizadas. Assim, dois te- distintas formas de relação. Isto é, advogamos
mas perpassam todos os tópicos apresentados que para abordar um objeto de pesquisa como
anteriormente, a saber: podemos perceber um este, que pode ser visto como uma forma de
“relacionismo radical” e um modo de conduta desvio social, seja importante mapear, senão
que se contrapõe à ordem vigente, que se efeti- todas, a maior parte das relações estabelecidas
va por meio de distintas práticas, para além do pelos pixadores, tais como podemos observar
simples ato de pixar. A meu ver, foi interessante no esquema abaixo:
constatar como a prática da pixação questio-
na valores como, por exemplo, o estatuto da pixadores x policiais militares
propriedade privada, levando ao limite a pro- pixadores x policiais civis
blemática que tangencia o direito à liberdade pixadores x guarda municipal
de expressão. No entanto, ao mesmo tempo, pixadores x PBH
tal fenômeno reproduz alguns valores caros à pixadores x publicidade
sociedade urbana contemporânea, tais como a pixadores x taxistas
disputa e a individualidade. pixadores x vigilantes particulares
Como salientamos anteriormente, a ambi- pixadores x moradores
guidade parece ser uma característica marcante pixadores x proprietários
e inerente ao fenômeno sobre o qual nos de-
bruçamos. Tal ambiguidade se mostra patente Sendo assim, apreendemos o quão é extensa
quando analisamos as falas dos pixadores que, a rede de relações, inexoravelmente, estabele-
ao mesmo tempo que criticam os órgãos res- cida, ainda que, por vezes, de forma indireta,

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pelos pixadores na Grande Belo Horizonte. portanto, de outras pichações” (PEREIRA, 2005, p.
9). Assim, ao longo deste artigo, as categorias nativas
Pensando à luz de um dos contributos da
serão apresentadas ao leitor em itálico. Já as categorias
antropóloga britânica Marylin Strathern, que analíticas serão colocadas entre aspas.
afrma que as “as pessoas não interagem ‘com’ 3. Na maioria das vezes, os suportes são escolhidos le-
cultura, elas interagem com pessoas com vando em conta a expressão comum utilizada pelos
quem têm relações” (STRATHERN, 2005, meios midiáticos, qual seja, ibope. Tal expressão foi
p. 132), é que afrmamos que não existe uma ressignifcada pelos pixadores, e diz respeito à fama,
reconhecimento e a repercussão das suas ações e do
cultura da pixação mineira em si, como uma
próprio status do pixador entre seus pares.
realidade dada, ou como termo independente. 4. As prezas, geralmente, variam entre três e cinco letras,
Portanto, esta deve ser entendida dentro de podendo chegar a ter até seis letras. Uma preza com
um sistema que coloca em relação não só pes- cinco letras já é considerada pelos pixadores como
soas, mas um conjunto de coisas que possuem sendo uma preza grande. Neste sentido, a maioria das
um poder de agência. Em suma, em todos os prezas contém quatro letras, pois as prezas menores são
feitas em maior velocidade, permitindo que o pixador
âmbitos que analisamos a pixação mineira,
a faça sem gastar muito tempo, livrando-o de um pos-
seja nas suas formas de apropriação e usos do sível fagrante por parte de um policial militar, vigi-
espaço, seja na constituição dos nomes das ga- lante ou por algum transeunte. Já a expressão grife, em
leras e grifes, em suas formas de produzir seus linhas gerais, designa uma aliança entre pixadores de
próprios produtos, ou ainda nas suas peculia- distintas galeras que se unem sob um único nome, so-
res formas de apropriação da mídia, podemos madas ao próprio codinome do autor que a inscreveu.
5. Para ver o mandato de busca e apreensão, na íntegra,
perceber que há todo um modo de ser margi-
acesse o seguinte endereço eletrônico: http://www.iob.
nal, um discurso e uma prática que vão con- com.br/noticiadb.asp?area=juridicas&noticia=166003.
tra a ordem vigente, dentro de um complexo 6. O pixador pego em fagrante pode ser detido con-
contexto relacional. forme a lei ambiental n° 9.605 de 1998, que assinala
que “pichar, graftar ou, por outro meio, conspurcar
edifcação ou monumento urbano é crime passível de
detenção de três meses a um ano e multa”. Ainda cabe
lembrar que o ato de pixar também pode ser enqua-
Notas drado no artigo 163, de acordo com o Código Penal,
o qual prevê que “causar dano, destruir, inutilizar ou
1. Doutorando do Programa de Pós-Graduação em An- deteriorar coisa alheia constitui crime” (SOUZA,
tropologia Social, Museu Nacional, UFRJ. 2008, p. 81). Vale lembrar, ainda, que Becker distin-
2. Conforme o Dicionário Aurélio, o termo pichação é gue dois tipos distintos de regras: as formais, formal-
resumido como “versos, em geral de caráter político, mente promulgadas na forma de lei; das regras que se
escrito em muro de via pública”. Por sua vez, o Dicio- baseiam em acordos, impostas por sanções informais
nário Eletrônico Houaiss da língua portuguesa, defne de diversos tipos. Neste sentido, a prática da pixação,
que pichar é “escrever ou rabiscar dizeres de qualquer perante a lei, confgura uma atividade ilegal, uma vez
espécie em muros, paredes ou fachadas de qualquer que o pixador se apropria de locais públicos ou pri-
espécie”. Diferentemente dos signifcados expressos vados para efetivar suas intervenções em meio à pai-
por ambos os dicionários, a Pixação escrita com “x” sagem urbana. Sendo assim, as pixações, geralmente,
não carrega consigo o estigma social apontado pelos ocorrem durante a madrugada de forma sorrateira.
dicionários, bem como pelo senso comum. Sendo as- Deste modo, podemos inferir que a subversão pode
sim, de acordo com Alexandre Barbosa Pereira, em ser vista como uma de suas características principais,
sua dissertação de Mestrado sobre os pixadores de pois a pixação não é uma prática aceita ou normati-
São Paulo, “é assim que os pixadores escrevem e isso zada pela sociedade.
diferencia esta de outras formas de escrita na parede, 7. A este respeito, destaco um trecho da fala do prefeito

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de Belo Horizonte, um dia após o resultado de sua trimônio Público, da História da Cidade e de práticas
reeleição: “Uma cidade da qualidade de Belo Hori- de cidadania.
zonte não pode conviver com tanta pichação que nós 13. Entrevista concedida por CRIPTA ao documentário
temos nos imóveis pela cidade toda. Nós precisamos Pixo, produzido pelos diretores João Weimar e Ro-
dar um basta, encontrar uma forma de resolver isso, berto T. Oliveira, lançado no mês de dezembro de
que um desrespeito que acaba gerando outros tipos, 2009. Permito-me utilizar aqui a fala do pixador pau-
digamos, de desrespeito às leis. Às vezes, a pichação é listano, pois CRIPTA é uma fgura muito represen-
uma porta de entrada para uma gangue organizada. tativa, não só para a pixação mineira, e também pelo
Depois vai para um pequeno furto, vai para um assal- fato de que este mantém relações de troca e alianças
to, vai para as drogas e assim por diante. Nós temos com pixadores e grupos mineiros.
um crescimento da criminalidade na cidade, e isso 14. A categoria nativa delega é utilizada pelos pixadores de
é inaceitável”. A matéria com a entrevista completa modo pejorativo para designar a Delegacia de Polícia.
pode ser acessada na íntegra no endereço eletrônico:
http://g1.globo.com/minas-gerais/eleicoes/2012/no-
ticia/2012/10/prefeito-de-bh-diz-que-e-cedo-para- Referências bibliográfcas
-relacionar-vitoria-e-eleicoes-de-2014.html.
8. Cabe lembrar que grande parte das capitais brasilei-
BECKER, Howard Saul. Outsiders. Rio de Janeiro: Jorge
ras, incluindo Belo Horizonte, conta com um sistema
Zahar, 2008.
de disque denúncia para que a população, através do
número 181, ajude a polícia no intento de prender CAIAFA, Janice. O movimento punk na cidade. Rio de
pixadores em fagrante. Janeiro: Jorge ZAHAR, 1987.
9. O documento completo pode ser acessado no sítio: CARVALHO, Rodrigo Amaro de. Entre prezas e rolês: pi-
http://www.cidadedemocratica.org.br/topico/1847- xadores e pixações de/em Belo Horizonte. Dissertação
-movimento-respeito-por-bh-combate-a-pichacao. (Mestrado) – FAFICH – UFMG. Programa de Pós
10. A matéria completa pode ser acessada no sítio ele- Graduação em Antropologia Social. Belo Horizonte,
trônico: <http://eusr.wordpress.com/2011/11/25/ 2013.
bh-gasta-r-2-milhoes-por-ano-para-limpar-a-cida- GELL, Alfred. Defnição do problema: a necessidade de
de-da-sujeira-dos-pichadores/>. uma antropologia da arte. In: Revista Poiésis, n. 14, p.
11. Em determinados momentos, os pixadores, devi- 245-261, dez., 2009.
do às dinâmicas das circunstâncias encontradas em
GUATTARI, Félix. Revolução molecular: pulsações políti-
suas práticas cotidianas, acionam diferentes catego-
cas do desejo. São Paulo: Brasiliense, 1981.
rias identitárias para, por exemplo, dialogarem com
as autoridades responsáveis pelo combate à prática GEERTZ, Cliford. O saber local: novos ensaios em an-
da pixação, assim como com outros agentes de um tropologia interpretativa. Petrópolis, RJ: Vozes, 1997.
modo geral. Sendo assim, me deparei com inúmeros GOFFMAN, Erving. Estigma. 4a ed. Rio de Janeiro:
pixadores que fazem graftes e, também, com graf- Guanabara, 1988.
teiros que fazem pixações. Se abordarmos as relações MAGNANI, José Guilherme Cantor, TORRES, Lílian
entre a pixação e o grapixo, veremos que as relações de Lucca. (orgs.) Na metrópole: textos de antropologia
são ainda mais fuidas entre estes agentes e práticas. urbana. São Paulo: EDUSP; Fapesp, 2008.
12. Tal projeto, grosso modo, é um programa da Prefei- PEREIRA, Alexandre Barbosa. De rolê pela cidade. Dis-
tura de Belo Horizonte, em parceria com o Centro sertação (Mestrado). – Faculdade de Filosofa, Letras
Cultural UFMG e a FUNDEP, que desde o ano 2000 e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São
constitui um espaço de estudo e pesquisa, mas que Paulo, 2005.
também tem por intuito implementar uma proposta
______. “Pichando a cidade: apropriações ‘impróprias’
de política pública para a pixação e para o grafte na
do espaço urbano”. In: MAGNANI, José Guilherme
cidade. Nessa proposta, levam-se em consideração as
Cantor, SOUZA, Bruna Mantese de. (org.) Jovens
noções do patrimônio, do urbanismo e da história.
na metrópole: etnografas de circuitos de lazer, encon-
Para tanto, o Projeto Guernica trabalha com ofcinas
tro e sociabilidade. 1ª ed. São Paulo: Editora Terceiro
de formação de grafteiros, debates em torno do Pa-
Nome, 2007.

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SOUZA, David da Costa. “Grafti, Pichação e outras STRATHERN, Marilyn. Kinship, Law and the Unexpec-
modalidades de intervenção urbana: caminhos e des- ted: Relatives are Always a Surprise. Cambridge: Cam-
tinos da arte de rua brasileira”. In: ENFOQUES, v. 7, bridge University Press, 2005.
n. 1 (Março de 2008). Rio de Janeiro: PPGSA, 2008.
Acesso em 15 de outubro de 2012.

autor Rodrigo Amaro de Carvalho


Doutorando em Antropologia Social / Museu Nacional-UFRJ

Recebido em 10/11/2013
Aceito para publicação em 16/12/2013

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