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Editorial
A revista Serviço Social & Sociedade apresenta aos seus leitores neste núme‑
ro a centralidade da discussão, em momentos sombrios, sobre manifestações no
mundo do trabalho enfatizando conteúdos que tratam da crise estrutural que con‑
vivemos com modelo de produção capitalista, enfatizando a dimensão inovada da
informalidade no trabalho. Este cenário dá substância para seguirmos nossas leitu‑
ras a respeito de outras dimensões nas relações de emprego e profissão.
A relação da atividade do exercício profissional é apresentada em diferentes
situações: em primeiro momento abrimos a discussão com a condição histórica e
atual do trabalhador em assistente social enquanto assalariado. No exercício pro‑
fissional apresentamos a prática de alguns trabalhadores assistentes sociais que
desenvolvem atividades relacionadas ao processo do capitalismo em criar política
de qualificação profissional, respondendo às demandas de mercado. Na mesma
direção da reflexão, porém com aspectos críticos, os leitores terão a oportunidade
de apreciar a situação dos trabalhadores no que se refere à saúde em detrimento à
relação estabelecida diariamente entre capital‑trabalho.
Pautando o cotidiano dos trabalhadores Assistentes Sociais a Revista dá a
oportunidade de acessarmos as discussões que envolvem o exercício profissional
na área de gestão. Uma atividade desenvolvida historicamente pelos profissionais,
porém, devido às novas demandas colocadas à profissão, esta área tem expressado
reflexões significativas aos enfrentamentos teóricos, técnicos, políticos e éticos em
diferentes situações. Nesta mesma trilha de conteúdos, temos a oportunidade em co‑
nhecer uma experiência de profissionais em seus cotidianos em contextos hospita‑
lares. Diferenciando, mas não distanciando do pensar e fazer profissional trazemos
a discussão sobre o crime em diferentes momentos do processo que envolve aque‑
les que cumprem suas penas, bem como este movimento institucional constitui um
processo de permanência viciada, ou seja, crime‑prisão‑liberdade‑crime. Finalizan‑
do este conjunto de textos que refletem e refrata o pensar‑fazer profissional, a ex‑
periência socioeducativa no campo da institucionalização também criminal revela
os limites e possibilidades que convivemos em nossos exercícios profissionais nos
relacionarmos de forma direta com os usuários e familiares que envolvem as polí‑
ticas em questão, bem como o Estado em suas diferentes representações.
Para finalizar os textos‑artigos que ora apresentamos, temos a oportunidade
em acompanhar a luta diária das instâncias representativas da profissão, em con‑

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junto com inúmeros profissionais em diferentes Estados e áreas de trabalho, para
efetivar no campo legal e real a lei que garante aos assistentes sociais a jornada
semanal de 30 horas de trabalho.
Nesta oportunidade a revista presenteia seus leitores com as resenhas que
tratam das obras Trabalho e desgaste mental: o direito de ser dono de si mesmo,
Edna Maria Goulart Joazeiro e A dimensão ética do trabalho profissional nos hos‑
pitais de custódia e tratamento psiquiátrico, Fátima Grave Ortiz.
Mas, não poderíamos de deixar de fechar este número com os textos que
fazem materializar a história viva do Serviço Social em processo. Por um lado
festejamos e agradecemos à professora Dilséia A. Bonetti pela contribuição cons‑
truída com laços profundos de comprometimento na trajetória do Serviço Social
Brasileiro. Assim destacamos esta homenagem como alguém muito especial pre‑
sente entre nós. Mas, damos adeus à Nobuco Kameyama. Uma mulher conhecida
entre todos pela sua vida pessoal e profissional. Em sua mansidão física, mostrou
à sociedade o seu poder em lutar pela construção de outra sociedade humana. Seus
passos foram profundos e certeiros. Mas na profissão, agarrou com todas as forças
as premissas que coloca‑nos no projeto que exercitamos e defendemos como ho‑
rizonte de partida e de chegada e, numa simples frase podemos afirmar que No‑
buco jamais se serviu do Serviço Social, mas sim, sem medir esforços, sempre
serviu ao Serviço Social.

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ARTIGOS

Os modos de ser da informalidade:


rumo a uma nova era da precarização estrutural do trabalho?*
The ways of being of informality:
towards a new era of structural precarious work?

Ricardo Antunes**

Resumo: Como resultado das transformações e metamorfoses nos


países capitalistas, estamos diante de um intenso e significativo pro‑
cesso de informalização e precarização da classe trabalhadora. Com‑
preender os modos de ser dessa processualidade, seus elementos ex‑
plicativos, bem como suas conexões com a lei do valor é o principal
objetivo deste texto. Em oposição à afirmação do fim do trabalho,
podemos constatar uma expressiva precarização e informalidade do
trabalho, que ocorre nas formas de trabalho parcial, subcontratado e
precarizado.
Palavras‑chave: Informalidade. Precarização do trabalho. Informali‑
dade. Lei do valor.

Abstract: As a result of the transformations and metamorphoses in the capitalist countries, we are
facing an intense and significant process of making the working class informal and precarious. The
aim of this article is to understand the ways of being of that process, its reasons, as well as its connec‑
tions with the law of value. In opposition to the statement related to the end of work, we find out an
expressive precarious and informal character of work, which occurs as partial, subcontracted and
precarious work.
Keywords: Informality. Precarious work. Informality. Law of value.

* Este texto, que foi a base de nossa apresentação no IV Seminário de Serviço Social, em 16 de maio
de 2011 foi, com pequenas alterações, originalmente publicado na Revista Praia Vermelha, v. 20, n. 1, jan./
jun. 2010, UFRJ.
** Professor titular de Sociologia do Trabalho no IFCH/Unicamp/SP, Brasil. É autor, entre outros livros,
de Adeus ao trabalho? (15. ed. rev. ampl., Cortez); Os sentidos do trabalho (12. ed. rev. ampliada, Boitempo)
e Infoproletários (degradação real do trabalho virtual), co‑organização com Ruy Braga (Boitempo). Coor‑
dena as coleções Mundo do Trabalho (Boitempo) e Trabalho e Emancipação (Ed. Expressão Popular). E‑mail:
rantunes@unicamp.br.

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O
mundo do capital, desde sua gênese, estampou um claro sentido des‑
trutivo em relação ao trabalho, sem deixar de acentuar que esse traço
de superfluidade e destrutividade também afetou diretamente a natu‑
reza e, sob a forma ainda mais perversa, a destruição por meio da
guerra, dentre tantos outros elementos que conformam seus traços atuais.
No que concerne mais diretamente ao trabalho, é também evidente que as
formas atuais de valorização do valor trazem embutidos novos modos de geração
da mais valia (quer sob a forma absoluta), ao mesmo tempo em que expulsa da
produção uma infinitude de trabalhos que se tornam sobrantes, descartáveis e cuja
função passa a ser a de expandir o bolsão de desempregados, deprimindo ainda
mais a remuneração da força de trabalho em amplitude global, pela via da retração
do valor necessário à sobrevivência dos trabalhadores e das trabalhadoras.
No volume III de O capital, entre tantas outras partes em que tratou da temá‑
tica, ao discorrer sobre a economia no emprego e a utilização dos resíduos da
produção, Marx pode indicar essa tendência ainda uma vez mais de modo cabal.
Em suas palavras:

O capital tem a tendência a reduzir ao necessário o trabalho vivo diretamente empre‑


gado, a encurtar sempre o trabalho requerido para fabricar um produto — explorando
as forças produtivas sociais do trabalho — e, portanto, a economizar o mais possível
o trabalho vivo diretamente aplicado. Se observamos de perto a produção capitalista,
abstraindo do processo de circulação e da hipertrofia da concorrência, verificamos que
procede de maneira extremamente parcimoniosa com o trabalho efetuado, corporifi‑
cado em mercadorias. Entretanto, mais do que qualquer outro modo de produção,
esbanja seres humanos, desperdiça carne e sangue, dilapida nervos e cérebro. Na
realidade, só malbaratando monstruosamente o desenvolvimento individual assegura‑se
e realiza‑se o desenvolvimento da humanidade na época histórica que precede a fase
em que se reconstituirá conscientemente a sociedade humana. Todas as parcimônias
de que estamos tratando decorrem do caráter social do trabalho, e é de fato esse cará‑
ter diretamente social do trabalho a causa geradora desse desperdício de vida e da
saúde dos trabalhadores. (Marx, 1974, p. 97 e 99)

Premonitória, podemos adicionar que, em plena eclosão da mais recente crise


global, este quadro se amplia ainda mais e nos faz presenciar uma corrosão ainda
maior do trabalho contratado e regulamentado, que foi dominante ao longo do ­século
XX, de matriz taylorista‑fordista. Pautado pela subsunção real do trabalho (Marx,
1978) ao mundo maquínico, seja pela vigência da máquina‑ferramenta autômata

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ou informacional‑digital, esse trabalho relativamente mais formalizado vem sendo
substituído pelos mais distintos e diversificados modos de informalidade e preca‑
rização, de que são exemplo o trabalho atípico (Vasapollo, 2005), os trabalhos
terceirizados (com sua enorme gama e variedade), o “cooperativismo”, o “empreen‑
dedorismo”, o “trabalho voluntário” etc.
Estas modalidades de trabalho — configurando as mais distintas e diferencia‑
das formas de precarização do trabalho e de expansão da informalidade — vêm
ampliando as formas geradoras do valor, ainda que sob a aparência do não valor,
utilizando‑se de novos e velhos mecanismos de intensificação (quando não de
autoexploração do trabalho).
Seria necessário recordar que, em pleno século XXI, há jornadas de trabalho,
em São Paulo, que chegam a dezessete horas diárias, na indústria de confecção, por
parte de trabalhadores imigrantes bolivianos ou peruanos controlados por patrões
coreanos ou chineses, aflorando um traço pouco visível e brutal da chamada “glo‑
balização”, que configura modalidades de trabalho imigrante no limite da condição
degradante?
Ou a profusão de exemplos de trabalho no agronegócios do açúcar, onde
cortar mais de dez toneladas de cana por dia é a média em São Paulo, sendo que no
Nordeste do país esse número pode chegar até dezoito toneladas diárias.
Ou ainda o acintoso exemplo do Japão, onde jovens operários de várias partes
do país e do exterior migram em busca de trabalho nas cidades e dormem em cáp‑
sulas de vidro, do tamanho de um caixão, configurando o que denominei como
operários encapsulados. No outro lado do mundo, aqui na nossa América Latina,
trabalhadoras domésticas chegam a realizar jornadas de noventa horas por semana,
tendo não mais que um dia de folga ao mês, conforme lembrou Mike Davis (2006),
em seu Planeta favela.
Trata‑se, portanto, de uma destrutividade que se expressa intensamente quan‑
do descarta, tornando ainda mais supérflua, parcela significativa da força mundial
de trabalho, onde milhões encontram‑se realizando trabalhos parciais, precarizados,
na informalidade ou desempregados. Isso porque na eliminação/utilização dos re‑
síduos da produção, o capital desemprega cada vez mais trabalho estável, substi‑
tuindo‑os por trabalhos precarizados, que se encontram em enorme expansão no
mundo agrário, industrial e de serviços, bem como nas múltiplas interconexões
existentes entre eles, como na agroindústria, nos serviços industriais ou na indústria
de serviços. A eclosão generalizada do desemprego estrutural em escala transna‑

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cional é a expressão‑limite mais aguda e trágica dessa destrutividade presente no
mundo do trabalho.1
Como, entretanto, o capital não pode valorizar‑se, isto é, gerar mais valor, sem
realizar alguma forma de interação entre trabalho vivo e trabalho morto, ele busca
incessantemente o aumento da produtividade, ampliando os mecanismos de extra‑
ção do sobretrabalho em tempo cada vez menor, por meio da ampliação do traba‑
lho morto corporificado no maquinário tecno‑científico‑informacional.
A informalização do trabalho torna‑se, então, um traço constitutivo e cres‑
cente da acumulação de capital dos nossos dias, uma vez que se torna cada vez
mais permanente na fase da liofilização organizativa, para retomar a sugestão de
Juan J. Castillo (1996). Compreender seus modos de expressão e seus significados
é, então, importante, para que possamos ter uma melhor compreensão dos meca‑
nismos e das engrenagens que impulsionam o mundo do trabalho em direção à
informalidade.

I
Uma fenomenologia preliminar dos modos de ser da informalidade demons‑
tra a ampliação acentuada de trabalhos submetidos a sucessivos contratos tempo‑
rários, sem estabilidade, sem registro em carteira, dentro ou fora do espaço produ‑
tivo das empresas, quer em atividades mais instáveis ou temporárias, quando não
na condição de desempregado.2
Uma primeira modalidade de informalidade remete à figura dos trabalhadores
informais tradicionais, “inseridos nas atividades que requerem baixa capitalização,
buscando obter uma renda para consumo individual e familiar. Nessa atividade,
vivem de sua força de trabalho, podendo se utilizar do auxílio de trabalho familiar
ou de ajudantes temporários” (Alves e Tavares, apud Antunes, 2004).

1. Um traço preocupante deste cenário vimos recentemente em uma manifestação de trabalhadores


britânicos em greve, no início de 2009, que estampava em seus cartazes os seguintes dizeres: “Put British
workers first” (Empreguem primeiro os trabalhadores britânicos), em manifestação contrária à contratação
de italianos e portugueses. Se é justa a consigna de salário igual para trabalho igual, também é muito preo‑
cupante a manifestação que pode conter traços xenofóbicos contra trabalhadores portugueses, italianos ou
poloneses.
2. Em Riqueza e miséria do trabalho no Brasil há um desenho das características principais da infor‑
malidade, que utilizaremos a seguir, feita por Alves e Tavares (Antunes, 2006).

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Nesse universo encontramos “os menos ‘instáveis’, que possuem um mínimo
de conhecimento profissional e os meios de trabalho e, na grande maioria dos casos,
desenvolvem suas atividades no setor de prestação de serviços”, de que são exem‑
plos as costureiras, pedreiros, jardineiros, vendedor ambulante de artigos de con‑
sumo mais imediato, como alimentos, vestuário, calçados e bens de consumo
pessoal, camelôs, empregado doméstico, sapateiros e oficinas de reparos (Idem).
Há também os informais mais “instáveis”, recrutados temporariamente e com
frequência remunerados por peça ou por serviço realizado. Eles realizam trabalhos
eventuais e contingenciais, pautados pela força física e pela realização de atividades
dotadas de baixa qualificação, como carregadores, carroceiros e trabalhadores de
rua e serviços em geral. Esses trabalhadores mais “instáveis” podem inclusive ser
subempregados pelos trabalhadores informais mais “estáveis” (Idem,).
Nesta primeira modalidade — trabalhadores informais tradicionais — pode‑
mos incluir os trabalhadores “ocasionais” ou “temporários”, que realizam ativida‑
des informais quando se encontram desempregados, mas que visam retornar ao
trabalho assalariado. Segundo a caracterização de Alves e Tavares (2006), “são
trabalhadores que ora estão desempregados, ora são absorvidos pelas formas de
trabalho precário, vivendo uma situação que, inicialmente, era provisória e se
transformou em permanente. Há casos que combinam o trabalho regular com o
ocasional, praticando os chamados bicos. Nesses casos obtém‑se um baixo rendi‑
mento com essas atividades”, como os “vendedores de diversos produtos (limpeza,
cosméticos, roupas), digitador, salgadeiras, faxineiras e confecção de artesanato
nas horas de folga”. Ainda neste espectro de atividades informais tradicionais en‑
contram‑se as pequenas oficinas de reparação e concertos, estruturadas e mantidas
pela clientela do bairro ou relações pessoais (Idem,).
Inseridos na divisão social do trabalho capitalista, essa gama de trabalhadores
informais

contribuem para que se efetive a circulação e consumo das mercadorias produzidas


pelas empresas capitalistas. A forma de inserção no trabalho informal é extremamen‑
te precária e se caracteriza por uma renda muito baixa, além de não garantir o acesso
aos direitos sociais e trabalhistas básicos, como aposentadoria, FGTS, auxílio‑doença,
licença‑maternidade; se ficarem doentes são forçados a parar de trabalhar, perdendo
integralmente sua fonte de renda.

Não há horário fixo de trabalho, e as jornadas de trabalho levam frequentemen‑


te ao uso das horas vagas para aumentar a renda oriunda da atividade. Acrescente‑se

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ainda o fato de que, no serviço por conta própria, além do uso de seu trabalho, pode
haver uso da força de outros membros da família, com ou sem remuneração.
Uma segunda modalidade remete à figura dos trabalhadores informais assa‑
lariados sem registro, ao arrepio da legislação trabalhista, uma vez que perderam
o estatuto de contratualidade e que passam da condição de assalariados com cartei‑
ra assinada para a de assalariados sem carteira, excluindo‑se do acesso das resolu‑
ções presentes nos acordos coletivos de sua categoria (Idem). A indústria de têxtil,
de confecções e de calçados, por exemplo, entre tantas outras, têm acentuado essa
tendência (Antunes, 2006).
Isto porque a racionalidade instrumental do capital impulsiona as empresas à
flexibilização do trabalho, da jornada, da remuneração, aumentando a responsabi‑
lização e as competências, criando e recriando novas relações e formas de trabalho
que frequentemente assumem feição informal. Nos exemplos de Alves e Tavares
(idem) encontram‑se “os casos de trabalho em domicílio que se especializam por
áreas de ocupação, prestando serviços às grandes empresas, que também se utilizam
da subcontratação para a montagem de bens, produção de serviços, distribuição de
bens através do comércio de rua ou ambulante”. Muitas vezes este modo de traba‑
lho se realiza também em galpões — como na indústria de calçados —, onde a
informalidade é a norma.
Uma terceira modalidade é encontrada nos trabalhadores informais por con‑
ta própria, que podem ser definidos como uma variante de produtores simples de
mercadorias, contando com sua própria força de trabalho ou de familiares e que
podem inclusive subcontratar força de trabalho assalariada (idem).
Segundo Alves e Tavares (2006), as

formas de inserção do trabalhador por conta própria na economia informal não são
práticas novas, mas foram recriadas pelas empresas capitalistas, como forma de possi‑
bilitar a extração da mais‑valia relativa com a mais‑valia absoluta. Lembramos que há
diferentes formas de inserção do trabalho informal no modo de produção capitalista e,
para sua análise, devemos considerar essa grande heterogeneidade, buscando desven‑
dar quais os vínculos existentes entre esses trabalhadores e o acúmulo de capital.

E acrescentam:

Deste modo, proliferam‑se os pequenos negócios vinculados às grandes corporações,


envolvendo as áreas de produção, comércio e prestação de serviços. Os pequenos

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proprietários informais atuam em áreas que não atraiam investimentos capitalistas de
maior vulto, de modo a atender à demanda por determinados bens e serviços. Esses
trabalhadores adotam essas estratégias porque seus pequenos negócios informais não
têm condições de concorrer com as empresas capitalistas, são elas que definem sua
forma de inserção no mercado. (idem)

Estamos vivenciando, portanto, a erosão do trabalho contratado e regulamen‑


tado, dominante no século XX, e vendo sua substituição pelas diversas formas de
“empreendedorismo”, “cooperativismo”, “trabalho voluntário” etc. O exemplo das
cooperativas talvez seja ainda mais esclarecedor. Em sua origem, elas nasceram
como instrumentos de luta operária contra o desemprego, o fechamento das fábricas,
o despotismo do trabalho etc; como tantas vezes Marx indicou. Hoje, entretanto,
contrariamente a essa autêntica motivação original, os capitais criam falsas coope‑
rativas como instrumental importante para depauperar ainda mais as condições de
remuneração da força de trabalho e aumentar os níveis de exploração da força de
trabalho, fazendo erodir ainda mais os direitos trabalhistas. As “cooperativas” pa‑
tronais tornam‑se, então, contemporaneamente, verdadeiros empreendimentos vi‑
sando aumentar ainda mais a exploração da força de trabalho e a consequente
precarização da classe trabalhadora. Similar é o caso do “empreendedorismo”, que
cada vez mais se configura como forma oculta de trabalho assalariado e que per‑
mite o proliferar das distintas formas de flexibilização salarial, de horário, funcio‑
nal ou organizativa.
É nesse quadro, caracterizado por um processo tendencial de precarização
estrutural do trabalho, em amplitude ainda maior, que os capitais globais estão
exigindo também o desmonte da legislação social protetora do trabalho. E flexibi‑
lizar essa legislação social significa — não é possível ter nenhuma ilusão sobre isso
— aumentar ainda mais os mecanismos de extração do sobretrabalho, ampliar as
formas de precarização e destruição dos direitos sociais que foram arduamente
conquistados pela classe trabalhadora, desde o início da Revolução Industrial, na
Inglaterra, e especialmente pós‑1930, quando se toma o exemplo brasileiro.

II
Feito este esboço inicial, que apresenta algumas modalidades vigentes da
informalidade hoje, vamos indicar analiticamente algumas teses que fundamentam

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esse múltiplo processo de informalização e de precarização da força humana de
trabalho em escala global.
Primeiro, a que discorre sobre a falácia da “qualidade total” sob a vigência da
lei de tendência decrescente do valor de uso das mercadorias e, segundo, a que
apresenta a similitude existente entre o descarte do trabalho e a superfluidade da
produção em geral — tal como apresentamos na formulação marxiana que inicia
este artigo — e que está presente nas práticas de liofilização da chamada “qualida‑
de total”.3
Na presente fase de intensificação da taxa de utilização decrescente do valor
de uso das mercadorias (Mészáros, 2002), a falácia da qualidade torna‑se evidente
e talvez possa ser formulada desse modo: quanto mais “qualidade total” as merca‑
dorias e os produtos que resultam do processo produtivo capitalista alegam ter,
menor é o seu tempo de duração.
A necessidade imperiosa de reduzir o tempo de vida útil dos produtos, visan‑
do aumentar a velocidade do ciclo reprodutivo do capital, faz com que a “qualida‑
de total” seja, na maior parte das vezes, o invólucro, a aparência ou o aprimora‑
mento do supérfluo, uma vez que os produtos devem durar cada vez menos para
que tenham uma reposição ágil no mercado. A “qualidade total”, por isso, deve se
adequar ao sistema de metabolismo sociorreprodutivo do capital, afetando tanto a
produção de bens e serviços, como as instalações, maquinários e a própria força
humana de trabalho (Mészáros, 2002, e Antunes, 2009)
Desse modo, o apregoado desenvolvimento dos processos de “qualidade total”
converte‑se na expressão fenomênica, involucral, aparente e supérflua de um me‑
canismo produtivo gerador do descartável e do supérfluo, real impedimento para a
criação de uma sociedade efetivamente autossustentada, fora dos constrangimentos
da reprodução ampliada do capital e seus imperativos expansionistas e destrutivos.
Além do exemplo emblemático dos fast‑foods (do qual o McDonald’s é exem‑
plar), expressão simbólica da sociedade do entertainment propiciada pelo capital,
podemos lembrar também do tempo médio de vida útil estimada para os automóveis
mundiais, cuja durabilidade é cada vez mais reduzida.
Recentemente, vimos a explosão do recall, que atingiu quase todas as grandes
montadoras, como Ford, GM e Fiat, sem deixar de mencionar o caso mais espetacular,
o recente recall da Toyota, no início de 2010, quando milhares de veículos foram

3. Retomamos aqui duas teses originalmente apresentadas em Os sentidos do trabalho (2009).

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produzidos com uma peça que tinha claro componente propiciador de acidentes
que em certos casos — e não foram poucos — foram letais, ocasionando a amplia‑
ção da crise na “montadora da qualidade total” em sua unidade nos Estados Unidos.
O próprio presidente da Toyota teve que se desculpar no Parlamento norte‑ameri‑
cano, como se isso de alguma forma repusesse as perdas humanas.
Laboratório de uma qualidade que destrói a longevidade, de um invólucro que
converte os consumidores em cobaias dos inventos feitos a qualquer preço, esse
exemplo estampa a tendência destrutiva presente no âmago da chamada “qualidade
total”, que tem que conviver com a redução tendencial do tempo de vida útil das
mercadorias para incrementar (destrutivamente) o processo de valorização do capital.
Portanto, as empresas, na competitividade exacerbada que travam entre si para
avançar na guerra da “produtividade de perfil destrutivo”, são impelidas a reduzir
o tempo entre produção e consumo, incentivando ao limite essa tendência restritiva
do valor de uso das mercadorias.
Tendo que acompanhar — e vencer para sobreviver — a competitividade
existente em seu ramo produtivo, os capitais desencadeiam uma lógica na qual a
busca da “qualidade total” é um mecanismo intrínseco e funcional, redutor do ciclo
de vida útil dos produtos, ainda que tenha a aparência (no sentido dado por Marx)
do avanço real da qualidade (sem aspas).
Podemos também mencionar a indústria de computadores, expressão dessa
tendência depreciativa e decrescente do valor de uso das mercadorias, onde um
sistema de softwares torna‑se obsoleto e desatualizado em tempo reduzido, obri‑
gando o consumidor a adquirir a nova versão ou perder seu maquinário quando tem
que fazer uma reposição, pois o custo de uma peça a ser trocada frequentemente
excede o preço de um novo equipamento, o que leva ao descarte precoce de uma
máquina computacional.
Isso porque os capitais não têm outra opção, para sua sobrevivência, senão
“inovar” ou correr o risco de ser ultrapassados pelas concorrentes, conforme ocor‑
re com as empresas transnacionais de computadores, onde, paralelamente à “ino‑
vação” constante de seu sistema, o tempo de vida útil dos produtos também se reduz
bastante (Kenney, 1997).
Como o capital tem uma tendência expansionista intrínseca ao seu sistema
produtivo, a “qualidade total” deve tornar‑se inteiramente compatível com a lógica
da produção supérflua e destrutiva. Por isso, em seu sentido e tendências mais
gerais, o capitalismo, ao mesmo tempo em que reitera sua suposta capacidade de

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elevação da “qualidade total”, converte‑se de fato em inimigo da durabilidade dos
produtos, desencorajando e mesmo inviabilizando práticas produtivas orientadas
para as reais necessidades humano‑sociais (Mészáros, 2002).
Opõe‑se, portanto, frontalmente à longevidade dos produtos, e a denominada
“qualidade total” acaba por converter‑se no seu contrário, isto é, na negação da
durabilidade das mercadorias.
O resultado é visível quando se dissipa a bruma ideológica que sustenta esse
engenhoso mecanismo: quanto mais “qualidade total” as mercadorias aparentam
ter (e aqui novamente a aparência faz a diferença), mais reduzido é seu tempo de
vida útil e menor é o tempo de duração que elas devem efetivamente conter. O
desperdício, a superfluidade, a destrutividade e a obsolescência programada tor‑
nam‑se características determinantes da produção, seja ela material, ou imaterial.
E o curioso é que, mergulhado nessa lógica destrutiva, nunca os capitais falaram
tanto em sustentabilidade.
Como já pudemos indicar em Os sentidos do trabalho (2009), aqui não se está
questionando o que seria um efetivo avanço tecnocientífico se este fosse pautado
pelos reais imperativos humano‑societais. Exatamente pela vigência da lógica
destrutiva do capital, que plasma a forma da tecnociência contemporânea em sua
razão instrumental, que os mecanismos e as engrenagens do sistema de metabolis‑
mo socioeconômico acabam por converter em descartável e supérfluo tudo o que
poderia ser preservado e reorientado, tanto para o atendimento efetivo dos valores
de usos sociais, quanto para se evitar uma destruição incontrolável e degradante da
natureza, do meio ambiente, da relação metabólica entre trabalho e natureza.
E algo similar vem ocorrendo no universo do trabalho, o que nos permite
avançar na segunda tese, qual seja: a empresa da flexibilidade liofilizada tem uma
impulsão intrínseca em direção ao aumento da superfluidade do trabalho.
Isso porque o sistema de metabolismo social do capital necessita cada vez
menos do trabalho estável e cada vez mais das diversificadas formas de trabalho
parcial ou part‑time, terceirizado, dos trabalhadores hifenizados, do cybertariado
(Huws, 2003), do infoproletariado (Antunes e Braga, 2009), variantes do proleta‑
riado da era cyber, que se encontra em explosiva expansão em todo o mundo
produtivo e de serviços.
Como o tempo e o espaço estão em frequente mutação, nessa fase de mundia‑
lização do capital, a redução do proletariado taylorizado, especialmente nos núcleos
mais avançados da indústria e a paralela ampliação do trabalho intelectual nas

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plantas produtivas onde essa modalidade de trabalho é requerida, caminham em
clara inter‑relação com a ampliação generalizada dos novos proletários, mais
precarizados, terceirizados e informalizados, tanto na indústria quanto na agricul‑
tura e nos serviços, além de suas áreas de evidente conexão, como a agroindústria,
a indústria de serviços e os serviços industriais.
Como o capital só pode reproduzir‑se acentuando seu forte sentido de desper‑
dício, é útil a síntese de Tosel, quando afirma que é a própria “centralidade do
trabalho abstrato que produz a não centralidade do trabalho, presente na massa dos
excluídos do trabalho vivo” que, uma vez (des)socializados e (des)individualizados
pela expulsão do trabalho, “procuram desesperadamente encontrar formas de indi‑
viduação e de socialização nas esferas isoladas do não trabalho (atividade de for‑
mação, de benevolência e de serviços). (Tosel, 1995, p. 210)
Como pude sintetizar recentemente, ao apresentar a revista Katálysis (2009):

Em verdade, intensificaram‑se e ampliaram‑se as formas geradoras do valor, articu‑


lando um maquinário altamente avançado (de que são exemplo as tecnologias de
comunicação e informação que invadiram o mundo da mercadoria) com a exigência,
feita pelos capitais, de buscar maiores “qualificações” e “competências” da força de
trabalho (seja aquela de perfil acentuadamente manual ou a que exercita uma destreza
quase artesanal na era informacional do capital, além do contingente de trabalho
humano fornecedor de maior potencialidade intelectual, aqui entendida em seu res‑
trito sentido dado estritamente pelo mercado, e que se integra no trabalho social
complexo, e combinado, de que falava Marx.

É como se todos os espaços possíveis fossem potencialmente convertidos em


geradores de mais valor, desde aqueles que ainda mantêm laços de formalidade e
contratualidade, até aqueles que se pautam pela mais pura informalidade, na franja
integrada ao sistema, não importa que sejam atividades predominantemente manuais
ou aquelas acentuadamente responsáveis por atividades consideradas (sempre pelo
olhar do mercado) como mais “intelectualizadas”, “dotadas de conhecimento”, o
que deu vitalidade e contemporaneidade, em vez de depauperar, a teoria do va‑
lor‑trabalho.4
Se no século XX presenciamos a vigência da era da degradação do trabalho,
nas últimas décadas do século XX e no início do XXI estamos diante de outras

4. No que segue, retomo algumas ideias apresentadas na minha revista Katálysis, op. cit.

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 107, p. 405-419, jul./set. 2011 415
modalidades e modos de ser da precarização, próprias da fase da flexibilidade
toyotizada, com seus traços de continuidade e descontinuidade em relação à forma
tayloriano‑fordista.
À título de hipótese, que estamos explorando mais recentemente em nossa
pesquisa, podemos sugerir ao menos duas formas mais gerais que desenham o que
venho denominando como precarização estrutural do trabalho.
A primeira, de base tayloriano/fordista, é mais acentuadamente despótica,
embora mais regulamentada e contratualista. O trabalho é mais coisificado e rei‑
ficado, maquinal, embora provido de direitos e de regulamentação social. É uma
modalidade de trabalho coisificado de tipo regulamentado, tão ricamente explorada
por Lukács em sua História e consciência de classe, quanto por Gramsci em seu
ensaio Americanismo e fordismo, ambos seminais.
A segunda forma de degradação do trabalho advém da implantação do que
denomino flexibilidade liofilizada, aparentemente mais “participativa”, mas cujos
traços de estranhamento e reificação são mais interiorizados do que aqueles vigen‑
tes no período precedente. Sem deixar de mencionar o fato de que a era da flexibi‑
lidade liofilizada é responsável pelo desconstrução monumental dos direitos sociais
do trabalho e pela generalização das novas modalidades da precarização.
As “responsabilizações” e as “individualizações”, os “parceiros” ou “consul‑
tores”, os “envolvimentos” dos novos “colaboradores”, as “metas” e “competências”
que povoam o universo discursivo do capital são, portanto, traços fenomênicos,
encobridores de uma acentuada informalização e precarização do trabalho.
Sem querer esboçar uma fenomenologia da subjetividade, que pudesse tornar
mais inteligíveis as bases sócio‑históricas do fenômeno da alienação ou do estra‑
nhamento na empresa capitalista contemporânea, vale ao menos remeter às inúme‑
ras possibilidades analíticas existentes a partir da diferenciação sugerida por Lukács,
na sua obra de maturidade, Ontologia do ser social, e recuperada por Tertulian
entre as reificações “inocentes” e as reificações “alienantes”, que aqui não podemos
desenvolver.5 (ver Tertulian, 1993; Lukács, 1981).

5. As reificações inocentes manifestam‑se quando ocorre a condensação das atividades em um objeto,


em uma coisa, propiciando a “coisificação” das energias humanas, que funcionam como reflexos condicio‑
nados e que acabam por levar às reificações “inocentes”. A subjetividade é reabsorvida no funcionamento do
objeto, sem efetivar‑se uma “alienação” propriamente dita (Tertulian, 1993, p. 441). As reificações “alienadas”
ocorrem quando a subjetividade é transformada em um objeto, em um “sujeito‑objeto, que funciona para a
autoafirmação e a reprodução de uma força estranhada. O indivíduo que chega a autoalienar suas possibili‑

416 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 107, p. 405-419, jul./set. 2011
Estamos, portanto, frente a uma nova fase desconstrução do trabalho sem
precedentes em toda era moderna, ampliando os diversos modos de ser da infor‑
malidade e da precarização do trabalho. Avançando na formulação, no atual con‑
texto de crise estrutural do capital, parece que estamos adentrando uma nova era
de precarização estrutural do trabalho em escala global.6
Ou seja, no movimento pendular do trabalho, preservados os imperativos
destrutivos do capital, oscilamos crescentemente entre a perenidade de um trabalho
cada vez mais reduzido, intensificado e explorado, dotado de direitos, e, de outro,
uma superfluidade crescente, cada vez mais geradora de trabalho precarizado e
informalizado, como via de acesso ao desemprego estrutural.
Em outras palavras, labor mais qualificado para um contingente cada vez mais
reduzido e um labor cada vez mais instável e precarizado para um universo cada
vez mais ampliado de trabalhadores e trabalhadoras, ora intensificando intelectual
e/ou manualmente os trabalhos dos que se encontram no mundo da produção, ora
expulsando enormes contingentes de assalariados que não têm mais possibilidade
real de ser incorporados e absorvidos pelo capital e que se somam às fileiras do
bolsão de desempregados. Que, entretanto, cumprem papel ativo no ciclo de valo‑
rização do valor, em especial pela criação de um enorme excedente de força de
trabalho que subvaloriza quem se mantém no universo do trabalho assalariado.
Por fim, é preciso enfatizar que a informalidade, em seus distintos modos de
ser — que aqui tão somente indicamos alguns exemplos —, supõe sempre a ruptu‑
ra com os laços de contratação e regulação da força de trabalho, tal como se estru‑
turou a relação capital e trabalho especialmente ao longo do século XX, sob a vi‑
gência taylorista‑fordista, quando o trabalho regulamentado tinha prevalência sobre
o desregulamentado.

dades mais próprias, vendendo por exemplo sua força de trabalho sob condições que lhe são impostas, ou
aquele que, em outro plano, sacrifica‑se ao “’consumo de prestígio’, imposto pela lei de mercado” (idem).
6. Uma rápida consulta aos dados acerca do desemprego mundial é sintomática. A OIT projetou mais
de 50 milhões de desempregados ao longo de 2009, em consequência da intensificação da crise que atingiu
especialmente os países do Norte. E acrescentou que aproximadamente 1,5 bilhão de trabalhadores sofreriam
redução em seus salários (Relatório Mundial sobre salários 2008/2009). A América Latina não ficou de fora
desse cenário assustador: a OIT estimou que “até 2,4 milhões de pessoas” poderiam entrar nas filas do de‑
semprego em 2009, somando‑se aos quase 16 milhões hoje desempregados, sem falar do “desemprego
oculto” e outros mecanismos que mascaram as taxas reais de desemprego (Panorama Laboral para América
Latina e Caribe, janeiro de 2009). Nos EUA, Inglaterra, Alemanha, Espanha, Portugal, Japão, dentre tantos
outros países, os índices de desemprego são os maiores das últimas décadas.

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 107, p. 405-419, jul./set. 2011 417
Se a informalidade não é sinônimo direto de precariedade, sua vigência ex‑
pressa formas de trabalho desprovido de direitos e, por isso, encontra clara simili‑
tude com a precarização. Se a boa teoria e a cuidadosa reflexão não devem borrar
conceitos e categorias que são assemelhados e similares (mas não necessariamente
idênticos), apontar suas conexões, suas inter‑relações e suas vinculações torna‑se,
entretanto, imprescindível.
Assim, nesse universo categorial e analítico, poder‑se‑ia concluir acrescen‑
tando que a flexibilização e a informalização da força de trabalho são caminhos
seguros, utilizados pela engenharia do capital, para arquitetar e ampliar a intensi‑
ficação, a exploração e, last but not least, a precarização estrutural do trabalho em
escala global.

Recebido em 20/5/2011  n   Aprovado em 13/6/2011

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Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 107, p. 405-419, jul./set. 2011 419
O assistente social como trabalhador assalariado:
desafios frente às violações de seus direitos*
The social worker as a wage earner:
challenges due to the violations of his rights

Raquel Raichelis**

Resumo: Este artigo tem por objetivo problematizar algumas das


dimensões do processo de precarização do trabalho do assistente social
no contexto das transformações e redefinições do trabalho na contem‑
poraneidade, buscando analisar as novas configurações e demandas
que se expressam nos espaços sócio‑ocupacionais, bem como a viola‑
ção de direitos a que também é submetido o profissional na condição
de trabalhador assalariado.
Palavras‑chave: Serviço Social. Trabalho. Precarização. Trabalhador
assalariado. Violação de direitos.

Abstract: This article aims at questioning some of the dimensions of the process of making the
social worker’s job precarious in the context of the transformations and redefinitions of work in con‑
temporary times. It analyzes the new forms and demands in social‑occupational spaces, as well as the
violation of rights that the professional as a wage earner is submitted to.
Keywords: Social Service. Work. Precarious. Wage earner. Violation of rights

* Artigo baseado na palestra proferida em mesa‑redonda do 4º Seminário Anual de Serviço Social:


Crise do capital, trabalho e lutas de resistência: assistentes sociais no enfrentamento da superexploração e
do desgaste físico e mental, promovido pela Cortez Editora em 16 de maio de 2011, no Tuca, auditório da
PUC‑SP. Agradeço a Bete Borgianni pela troca de ideias e sugestões que inspiraram várias ideias abordadas
neste texto, sendo o seu desenvolvimento de minha inteira responsabilidade.
** Assistente social, mestre e doutora em Serviço Social pela PUC‑SP/São Paulo, Brasil. Coordenado‑
ra do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Trabalho e Profissão do Programa de Estudos Pós‑Graduados em
Serviço Social da PUC‑SP; pesquisadora da Coordenadoria de Estudos e Desenvolvimento de Projetos Es‑
peciais da PUC‑SP (Cedpe); atual coordenadora do Programa de Estudos Pós‑Graduados em Serviço Social
(2011‑13), da mesma universidade. Pesquisadora do CNPq. E-mail: raichelis@uol.com.br.

420 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 107, p. 420-437, jul./set. 2011
Introdução

D
esde a eclosão da crise mundial do capitalismo de base fordista, em
meados dos anos de 1970, a questão social vem assumindo novas
configurações e manifestações, pela sua estreita relação com as trans‑
formações operadas no “mundo do trabalho”, em suas formas de or‑
ganização, regulação e gestão, e com as redefinições no âmbito do Estado e das
políticas públicas.
O processo de flexibilização do trabalho e dos direitos daí derivados são ele‑
mentos centrais da nova morfologia do trabalho (Antunes, 2005), no contexto da
reestruturação produtiva e das políticas neoliberais, a partir do suposto receituário
para enfrentamento da crise do capital diante dos seus processos de mundialização
e financeirização.
Nesse movimento de profundas transformações do trabalho e da vida social,
consolidou‑se “o binômio flexibilização/precarização e a perda da razão social do
trabalho, com a reafirmação do lucro e da competitividade como estruturadores do
mundo do trabalho a despeito do discurso e de programas de responsabilidade social”
(Franco, Druck e Seligman‑Silva, 2010, p. 233).
Ao contrário das ideias que advogam o fim do trabalho e da classe operária,
trata‑se de um processo complexo e multifacetado, que não atingiu apenas a classe
operária, mas, ao contrário, incide fortemente, ainda que de forma desigual, no
conjunto dos assalariados e dos grupos sociais que vivem do trabalho (Hirata e
Pretéceille, 2002).
No caso do Brasil, onde a precarização do trabalho, a rigor, não pode ser
tratada como um fenômeno novo, considerando sua existência desde os primórdios
da sociedade capitalista urbano‑industrial, as diferentes formas de precarização do
trabalho e do emprego assumem na atualidade novas configurações e manifestações,
especialmente a partir dos anos 1990, quando se presenciam mais claramente os
influxos da crise de acumulação, da contrarreforma do Estado e da efetivação das
políticas neoliberais.
Em um contexto societário de transformações no trabalho de tal monta, mar‑
cado pela retração e, mesmo, pela erosão do trabalho contratado e regulamentado,
bem como dos direitos sociais e trabalhistas, ampliam‑se também as relações entre
trabalho e adoecimento, repercutindo na saúde física e mental dos trabalhadores,
nas formas de objetivação e subjetivação do trabalho.

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 107, p. 420-437, jul./set. 2011 421
Essa dinâmica de flexibilização/precarização atinge também o trabalho do
assistente social, nos diferentes espaços institucionais em que se realiza, pela inse‑
gurança do emprego, precárias formas de contratação, intensificação do trabalho,
aviltamento dos salários, pressão pelo aumento da produtividade e de resultados
imediatos, ausência de horizontes profissionais de mais longo prazo, falta de pers‑
pectivas de progressão e ascensão na carreira, ausência de políticas de capacitação
profissional, entre outros.
Analisar as diferentes dimensões do processo de precarização do trabalho do
assistente social no contexto das transformações e redefinições do trabalho na
contemporaneidade, e as novas configurações e demandas que se expressam nos
espaços sócio‑ocupacionais, bem como a violação de direitos a que também é
submetido o profissional na condição de trabalhador assalariado são os objetivos
deste texto.

O Serviço Social na divisão sociotécnica do trabalho e o processo de


assalariamento do assistente social
Nas últimas três décadas presenciou‑se um significativo avanço do Serviço
Social brasileiro, de adensamento e renovação teórico‑metodológica e ético‑polí‑
tica, qualificação da sua produção científica, bem como o fortalecimento de enti‑
dades científicas e de representação política.
É na década de 1980 que se identifica importante inflexão na interpretação
teórica da profissão, com a contribuição de Iamamoto e Carvalho (1982), que nos
brindam, a partir do contributo da teoria social de Marx, com uma análise inaugu‑
ral do Serviço Social no processo de produção e reprodução das relações sociais
capitalistas, particularizando sua inserção na divisão social e técnica do trabalho e
reconhecendo o assistente social como trabalhador assalariado.
É amplamente conhecido o impacto dessa contribuição para a ruptura da pro‑
fissão com o legado conservador de sua origem, a partir da qual a análise do signi‑
ficado social da profissão ganha novos patamares, por meio da ampla interlocução
com a teoria social crítica e o pensamento social clássico e contemporâneo.
Contudo, e as recentes produções de Iamamoto (2007, 2009b) chamam a
atenção para isso, não derivamos dessa análise todas as consequências teóricas e
políticas mais profundas relacionadas ao reconhecimento do assistente social como

422 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 107, p. 420-437, jul./set. 2011
trabalhador assalariado de instituições públicas e privadas, resultante do processo
de profissionalização e institucionalização da profissão nos marcos do capitalismo
monopolista.
Afirmar que o Serviço Social é uma profissão inscrita na divisão social e
técnica do trabalho como uma especialização do trabalho coletivo, e identificar o
seu sujeito vivo como trabalhador assalariado, implica problematizar como se dá
a relação de compra e venda dessa força de trabalho a empregadores diversos,
como o Estado, as organizações privadas empresariais, não governamentais ou
patronais. Trata‑se de uma interpretação da profissão que pretende desvendar suas
particularidades como parte do trabalho coletivo, uma vez que o trabalho não é a
ação isolada de um indivíduo, mas é sempre atividade coletiva de caráter eminen‑
temente social.
O Serviço Social como profissão emerge na sociedade capitalista em seu
estágio monopolista, contexto em que a questão social, pelo seu caráter de classe,
demanda do Estado mecanismos de intervenção não apenas econômicos, mas
também políticos e sociais. Sua institucionalização relaciona‑se assim à progres‑
siva intervenção do Estado no processo de regulação social, momento em que as
sequelas e manifestações da questão social se põem como objeto de políticas so‑
ciais, em dupla perspectiva: seja no sentido de garantir condições adequadas ao
pleno desenvolvimento capitalista e seus processos de acumulação privada em
benefício do grande capital monopolista; e, simultânea e contraditoriamente, no
sentido responder, por vezes antecipar‑se, às pressões de mobilização e organiza‑
ção da classe operária, que exige o atendimento de necessidades sociais coletivas
e individuais derivadas dos processos de produção e reprodução social (cf. entre
outros, Netto, 2005).
Em sua relevante contribuição para a análise do Serviço Social no capitalismo
monopolista, Netto sintetiza esse processo:

O caminho da profissionalização do Serviço Social é, na verdade, o processo pelo qual


seus agentes — ainda que desenvolvendo uma autorrepresentação e um discurso
centrados na autonomia dos seus valores e da sua vontade — se inserem em ativida‑
des interventivas cuja dinâmica, organização, recursos e objetivos são determinados
para além do seu controle. [...], o que [esse] deslocamento altera visceralmente, con‑
cretizando a ruptura, é, objetivamente, a condição do agente e o significado social de
sua ação; o agente passa a inscrever‑se numa relação de assalariamento e a significa‑
ção social de seu fazer passa a ter um sentido novo na malha da reprodução das rela‑
ções sociais. Em síntese: é com esse giro que o Serviço Social se constitui como

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 107, p. 420-437, jul./set. 2011 423
profissão, inserindo‑se no mercado de trabalho, com todas as consequências daí de‑
rivadas (principalmente com o seu agente tornando‑se vendedor da sua força de tra‑
balho). (Netto, 2005, p. 71‑72; grifos do autor)

A conformação dessa ordem societária cria, assim, um novo espaço sócio‑ocu‑


pacional para o assistente social (e para um conjunto de outras profissões) na divi‑
são social e técnica do trabalho, constituindo objetivamente as condições através
das quais a profissão será demandada e legitimada para a execução de um amplo
leque de atribuições profissionais, notadamente no âmbito das diferentes políticas
sociais setoriais.
Contudo, é esse mesmo processo de profissionalização do assistente social e
institucionalização da profissão na divisão social e técnica do trabalho que circuns‑
creve as condições concretas para que o trabalho do assistente social ingresse no
processo de mercantilização e no universo do valor e da valorização do capital,
móvel principal da sociedade capitalista.
Isto porque, para além da análise do Serviço Social como trabalho concreto
(Marx, 1968), dotado de qualidade específica que atende a necessidades sociais a
partir de suportes intelectuais e materiais para sua realização, o exercício profissio‑
nal do assistente social em resposta a demandas sociais passa a ser mediado pelo
mercado, ou seja, pela produção, troca e consumo das mercadorias (bens e serviços)
dentro de uma crescente divisão do trabalho social.
Iamamoto (2007) extrai daí a análise sobre a dupla dimensão do trabalho do
assistente social como um trabalhador assalariado, que vende sua força de trabalho
em troca de um salário. Afirma a autora:

Em decorrência, o caráter social desse trabalho assume uma dupla dimensão: a) enquan‑
to trabalho útil atende a necessidades sociais (que justificam a reprodução da própria
profissão) e efetiva‑se através de relações com outros homens, incorporando o legado
material e intelectual de gerações passadas, ao tempo em que se beneficia das conquistas
atuais das ciências sociais e humanas; b) mas só pode atender às necessidades sociais se
seu trabalho puder ser igualado a qualquer outro enquanto trabalho abstrato1 — mero

1. Nos termos de Marx, trabalho humano abstraído de todas as suas qualidades e características
particulares, indiferenciado, indistinto, desaparecendo o caráter útil dos produtos do trabalho e do trabalho
nele corporificado, e, portanto, também desaparecem as diferentes formas de trabalho concreto, “elas não
mais se distinguem uma das outras, mas reduzem‑se, todas, a uma única espécie de trabalho, o trabalho
humano abstrato (1968, p. 44‑45).

424 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 107, p. 420-437, jul./set. 2011
coágulo de tempo do trabalho social médio2 —, possibilitando que esse trabalho privado
adquira um caráter social. (2007, p. 421)

Nesses termos, o agente profissional contratado pelas instituições emprega‑


doras ingressa no mercado de trabalho como proprietário de sua força de trabalho
especializada, conquistada por meio de formação universitária que o legitima a
exercer um trabalho complexo em termos da divisão social do trabalho, dotado de
qualificação específica para o seu desenvolvimento.
Mas essa mercadoria “força de trabalho” só pode entrar em ação se dispuser
de meios e instrumentos de trabalho que, não sendo de propriedade do assistente
social, devem ser colocados a sua disposição pelos empregadores institucionais:
recursos materiais, humanos, financeiros, para o desenvolvimento de programas,
projetos, serviços, benefícios e de um conjunto de outras atribuições e competências,
de atendimento direto ou em nível de gestão e gerenciamento institucional.
As implicações desse processo são profundas e incidem na autonomia relati‑
va desse profissional, que não possui, como vimos, o poder de definir as prioridades
nem o modo pelo qual pretende desenvolver o trabalho socialmente necessário,
coletivo, combinado e cooperado com os demais trabalhadores sociais nos diferen‑
tes espaços sócio‑ocupacionais que demandam essa capacidade de trabalho espe‑
cializada.
Assim, analisar o significado social da profissão significa inscrever o trabalho
do assistente social no âmbito do trabalho social coletivo na sociedade brasileira
atual, não apenas destacando sua utilidade social e diferencialidade diante de outras
especializações do trabalho social, mas também, e contraditoriamente, “sua unida‑
de enquanto parte do trabalho social médio, comum ao conjunto de trabalhadores
assalariados que produzem valor e/ou mais‑valia” (Iamamoto, 2009b, p. 38).
Problematizar o trabalho do assistente social na sociedade contemporânea
supõe pensá‑lo como parte alíquota do trabalho da classe trabalhadora, que vende
sua força de trabalho em troca de um salário, submetido aos dilemas e constrangi‑

2. Para Marx (1968, p. 44‑46): “Cada uma dessas forças individuais de trabalho se equipara às demais,
na medida em que possua o caráter de uma força média de trabalho social, e atue como essa força social
média, precisando, portanto, apenas do tempo de trabalho em média necessário ou socialmente necessário
para a produção de uma mercadoria. Tempo de trabalho socialmente necessário é o tempo de trabalho reque‑
rido para produzir‑se um valor‑de‑uso qualquer, nas condições de produção socialmente normais, existentes,
e com o grau social médio de destreza e intensidade do trabalho”.

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 107, p. 420-437, jul./set. 2011 425
mentos comuns a todos os trabalhadores assalariados, o que implica ultrapassar a
visão liberal que apreende a prática do assistente social a partir de uma relação dual
e individual entre o profissional e os sujeitos aos quais presta serviços.
Esta análise crítica da dupla dimensão do trabalho do assistente social —
como trabalho concreto e abstrato — e as implicações da mercantilização dessa
força de trabalho especializada na sociedade contemporânea não foram objetos de
problematização aprofundada na literatura profissional, que vem privilegiando os
fundamentos de legitimação social da atividade do assistente social como traba‑
lho concreto, particularizando sua utilidade social na divisão social e técnica do
trabalho institucional, como revela Iamamoto (2007, 2009b) em suas últimas
produções.
Nesse sentido, a temática da superexploração e do desgaste físico e mental no
trabalho profissional3 é um tema novo, pouco debatido, pouco pesquisado, portan‑
to pouco conhecido pelo Serviço Social e seus trabalhadores, e que não apresenta
acúmulo na literatura profissional.
O que se observa com maior frequência — certamente em função da centra‑
lidade da classe operária na produção capitalista e dos inúmeros estudos sobre os
impactos da reestruturação produtiva nas relações e condições de trabalho desta
classe — é o assistente social analisar (e indignar‑se) frente à exploração e ao des‑
gaste a que são submetidos os trabalhadores assalariados, mas estabelecendo com
estes uma relação de exterioridade e de não pertencimento enquanto um segmento
desta mesma classe.
Verifica‑se a mesma tendência no debate sobre a saúde do trabalhador. De
modo geral, as pesquisas e análises sobre trabalho e saúde, ou mais propriamente
sobre o adoecimento dos trabalhadores decorrente das condições em que realiza
seu trabalho, são relações problematizadas a partir da sua incidência na classe
trabalhadora, não incluído aí o assistente social como sujeito vivo do trabalho social,
sendo quase inexistentes estudos e pesquisas que tomam como objeto os próprios
profissionais que sofrem e adoecem a partir do cotidiano de seu trabalho e da vio‑
lação de seus direitos.
Então esta é uma primeira pontuação importante e que remete ao próprio
reconhecimento do assistente social como trabalhador assalariado e as dificuldades
para aprofundar a análise do conjunto de implicações decorrentes dessa relação no

3. Título do Seminário Anual de Serviço Social organizado pela Cortez Editora, em maio de 2011.

426 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 107, p. 420-437, jul./set. 2011
estágio atual do capitalismo contemporâneo, diante dos impactos sobre o trabalho,
os trabalhadores e seus direitos.
Portanto, problematizar a violação dos próprios direitos dos assistentes sociais,
na relação com a violação dos direitos dos trabalhadores, requer a definição de uma
agenda de questões específicas conectada às lutas gerais da classe trabalhadora no
tempo presente. Exige uma pauta mais ampliada, que inclui a organização e as
lutas sindicais e trabalhistas, mas também o enfrentamento das dimensões comple‑
xas envolvidas nos processos e relações de trabalho nos quais os assistentes sociais
estão inseridos.
Os dilemas da alienação são indissociáveis do trabalho assalariado e incidem
no exercício profissional do assistente social de diferentes modos, dependendo de
quem são seus empregadores — o Estado, a empresa privada, as ONGs, as entida‑
des filantrópicas, os organismos de representação política — e da organização e
gestão dos processos e relações de trabalho nos diferentes espaços sócio‑ocupacio‑
nais onde realizam sua atividade.
Se o Serviço Social foi regulamentado historicamente como “profissão liberal”,
o seu exercício se realiza mediatizado por instituições públicas e privadas, tensio‑
nado pelas contradições que atravessam as classes sociais na sociedade do capital
e pela condição de trabalhador assalariado, cuja atividade é submetida a normas
próprias que regulam as relações de trabalho.
Portanto, na assertiva reflexão de Iamamoto (2009a), fazer a passagem da
análise da instituição Serviço Social para a problematização do processamento
concreto e cotidiano do trabalho do assistente social, em suas múltiplas dimensões,
agrega um complexo de novas determinações e mediações que põem em relevo as
contradições entre a direção social que o assistente social pretende imprimir ao seu
trabalho e as exigências impostas pelos empregadores aos trabalhadores assalaria‑
dos. “Em outros termos, estabelece‑se a tensão entre projeto ético‑político e alie‑
nação do trabalho, indissociável do estatuto assalariado” (Iamamoto, 2009a, p. 39).
Essa é uma segunda questão a ser pontuada e que remete ao debate do as‑
sistente social como trabalhador assalariado e à questão da autonomia relativa
desse profissional.
O trabalho profissional, na perspectiva do projeto ético‑politico, exige um
sujeito profissional qualificado capaz de realizar um trabalho complexo, social e
coletivo, que tenha competência para propor, negociar com os empregadores
privados ou públicos, defender projetos que ampliem direitos das classes subal‑

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 107, p. 420-437, jul./set. 2011 427
ternas, seu campo de trabalho e sua autonomia técnica, atribuições e prerrogativas
profissionais.
Isto supõe muito mais do que apenas a realização de rotinas institucionais,
cumprimento de tarefas burocráticas ou a simples reiteração do instituído. Envol‑
ve o assistente social como intelectual capaz de realizar a apreensão crítica da
realidade e do trabalho no contexto dos interesses sociais e da correlação de forças
políticas que o tensionam; a construção de estratégias coletivas e de alianças po‑
líticas que possam reforçar direitos nas diferentes áreas de atuação (Saúde, Previ‑
dência, Assistência Social, Judiciário, organizações empresariais, ONGs etc.), na
perspectiva de ampliar o protagonismo das classes subalternas na esfera pública.
Exige, portanto, um conhecimento mais amplo sobre os processos de trabalho,
os meios de que dispõem o profissional para realizar sua atividade, a matéria sobre
a qual recai a sua intervenção, e também um conhecimento mais profundo sobre o
sujeito vivo responsável por esse trabalho, que é o próprio profissional.
Mas quem é o assistente social hoje? Quem é a força de trabalho em ação, o
elemento vivo e subjetivo do processo de trabalho profissional, nos termos de Marx
(1968)?
Como já observado, ainda que o Serviço Social tenha sido reconhecido como
“profissão liberal” nos estatutos legais e éticos que definem a autonomia teórico‑me‑
todológica, técnica e ético‑política na condução do exercício profissional, o traba‑
lho do assistente social é tensionado pela relação de compra e venda da sua força
de trabalho especializada. A condição de trabalhador assalariado — seja nas insti‑
tuições públicas ou nos espaços empresariais e privados “sem fins lucrativos”, faz
com que os profissionais não disponham nem tenham controle sobre todas as con‑
dições e os meios de trabalho postos à sua disposição no espaço institucional.
São os empregadores que fornecem instrumentos e meios para o desenvol‑
vimento das tarefas profissionais, são as instituições empregadoras que têm o
poder de definir as demandas e as condições em que deve ser exercida a atividade
profissional: o contrato de trabalho, a jornada, o salário, a intensidade, as metas
de produtividade.
Esses organismos empregadores, estatais ou privados, definem também a
matéria (objeto) sobre a qual recai a ação profissional, ou seja, as dimensões,
expressões ou recortes da questão social a serem trabalhadas, as funções e atri‑
buições profissionais, além de oferecerem o suporte material para o desenvolvi‑
mento do trabalho — recursos humanos, técnicos, institucionais e financeiros —,

428 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 107, p. 420-437, jul./set. 2011
decorrendo daí tanto as possibilidades como os limites à materialização do proje‑
to profissional.
Os demais meios de trabalho — conhecimentos e habilidades profissionais
— são propriedade do assistente social, mas cujas possibilidades de pleno desen‑
volvimento também são condicionadas por um conjunto de determinações que, não
sendo externas ao trabalho, incidem diretamente no cotidiano profissional e na
atividade do sujeito vivo, e que vão desde o recorte de classe, gênero, raça, etnia,
passando pelos traços de subalternidade da profissão, sua herança cultural católica,
entre outros.
Ao mesmo tempo, para além das dimensões objetivas que conferem materia‑
lidade ao fazer profissional, é preciso considerar também as dimensões subjetivas,
ou seja, identificar “o modo pelo qual o profissional incorpora na sua consciência
o significado do seu trabalho, as representações que faz da profissão, as justificati‑
vas que elabora para legitimar a sua atividade — que orientam a direção social que
imprime ao seu exercício profissional” (Raichelis, 2010, p. 752).
O trabalho do assistente social é, nesses termos, expressão de um movimento
que articula conhecimentos e luta por espaços no mercado de trabalho; competên‑
cias e atribuições privativas que têm reconhecimento legal nos seus estatutos nor‑
mativos e reguladores (Lei de Regulamentação Profissional, Código de Ética, Di‑
retrizes Curriculares da formação profissional), cujos sujeitos que a exercem,
individual e coletivamente, se subordinam às normas de enquadramento institucio‑
nal, mas também se organizam e se mobilizam no interior de um movimento dinâ‑
mico e dialético de trabalhadores que repensam a si mesmos e a sua intervenção no
campo da ação profissional.
É nesse processo tenso que as profissões constroem seus projetos profissionais
coletivos, no nosso caso, o projeto ético‑político profissional que há pelo menos
três décadas vem sendo posto em marcha coletivamente pelo Serviço Social brasi‑
leiro. E é esse projeto que entra em permanente tensão e contradição com o estatu‑
to de trabalhador assalariado do assistente social, especialmente em tempos de fi‑
nanceirização e de capital fetiche (Iamamoto, 2007).

A própria implementação das políticas sociais também é um jogo complexo de con‑


flitos e tensões, que envolve diferentes protagonistas, interesses, projetos e estratégias,
onde são requisitadas a presença e a intervenção de diferentes categorias profissionais,
que disputam espaços de reconhecimento e poder no interior do aparelho institucional.
(Raichelis, 2010, p. 755)

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 107, p. 420-437, jul./set. 2011 429
Nesses termos, a análise das políticas sociais e dos espaços ocupacionais nos
quais se inserem os assistentes sociais não pode ser apreendida de modo linear e
determinista, ainda mais considerando as formas de enfrentamento do capital às
suas crises de acumulação, que aprofundam e agravam as expressões da questão
social, mas também desencadeiam respostas da sociedade e do conjunto da classe
trabalhadora em seu movimento de resistência e defesa de direitos conquistados
historicamente.

Da autonomia relativa à autonomia controlada — o trabalho do assistente


social em tempos de intensificação e precarização do trabalho
As condições atuais do capitalismo contemporâneo — globalização financei‑
ra dos capitais e sistemas de produção apoiados intensivamente nas tecnologias de
informação — promovem expressivas mudanças nas formas de organização e
gestão do trabalho, decorrendo daí a existência de amplos contingentes de traba‑
lhadores flexibilizados, informalizados, precarizados, pauperizados, desprotegidos
de direitos e desprovidos de organização coletiva (Antunes, 2005).
Druck (2009), em sua pesquisa sobre a construção de indicadores da precari‑
zação do trabalho no Brasil, apresenta cinco grandes tipos de precarização:
a) Das formas de mercantilização da força de trabalho — que produzem um
mercado de trabalho heterogêneo e marcado por uma vulnerabilidade es‑
trutural, configurando formas precárias de inserção dos trabalhadores,
explícitas ou disfarçadas, em todos os setores, atividades e regiões, pro‑
duzindo desestabilização dos trabalhadores estáveis com perda de direitos
e vínculos, por um lado, e uma condição “provisória” de precarização que
se torna permanente, de outro.
b) Do processo de construção das identidades individual e coletiva — a
desvalorização e descartabilidade das pessoas aprofunda o processo de
alienação e estranhamento do trabalho, radicalizando a coisificação das
relações humanas e fragilizando as identidades individual e coletiva e a
dimensão ética do trabalho, principalmente pela situação de desemprego
estrutural.
c) Da organização e das condições de trabalho — ampliação do ritmo do
trabalho, metas inalcançáveis, extensão da jornada, polivalência, rotativi‑

430 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 107, p. 420-437, jul./set. 2011
dade, multiexposição aos agentes físicos, químicos, ergonômicos e orga‑
nizacionais conduzem à intensificação do trabalho, potencializada pelo
desenvolvimento tecnológico da microeletrônica.
d) Das condições de segurança no trabalho — fragilização das condições de
segurança no trabalho, diluição de responsabilidades entre estáveis e ins‑
táveis, precárias condições de trabalho implicam maior exposição a riscos
e sujeição a condições aviltantes de aumento da produtividade, gerando
precarização da saúde e da segurança no trabalho.
e) Das condições de representação e de organização sindical — aumento da
fragilidade sindical e dos efeitos políticos da terceirização, que produz
discriminação, pulverização e competição entre os próprios trabalhadores,
enfraquecendo a representação política da classe trabalhadora.

A reestruturação produtiva do capital, da qual resultam diferentes formas de


precarização do trabalho, atinge o mercado de trabalho do assistente social, inci‑
dindo, contraditoriamente, tanto no movimento de mudança e/ou redução de postos
de trabalho em alguns campos (por exemplo, nas empresas industriais), como tam‑
bém de ampliação, como é o caso das políticas de seguridade social, com destaque
para a política de assistência social, principalmente no âmbito municipal, em função
das novas e intensas demandas aos municípios decorrentes da descentralização dos
serviços sociais públicos.
No âmbito do Serviço Social, intensificam‑se os processos de terceirização,
de subcontratação de serviços individuais dos assistentes sociais por parte de em‑
presas de serviços ou de assessoria (empresas do eu sozinho ou PJs), de “coopera‑
tivas” de trabalhadores, na prestação de serviços aos governos e organizações não
governamentais, acenando para o exercício profissional privado (autônomo), tem‑
porário, por projeto, por tarefa, em função das novas formas de gestão das políticas
sociais.
Os efeitos da tríade flexibilização/precarização/tercerização do trabalho do
assistente social se fazem sentir em níveis e intensidade antes desconhecidas pela
profissão.
Pesquisa realizada por Delgado (2010), com jovens assistentes sociais gra‑
duados no período 2003‑06, nos Estado de Minas Gerais e Rio de Janeiro, revela
que as consequências mais desastrosos das transformações societárias no âmbito
do Serviço Social apontam para a “perda ou precarização do espaço ocupacional

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 107, p. 420-437, jul./set. 2011 431
— sobretudo para aqueles que procuram seu primeiro emprego, uma vez que par‑
cela significativa da categoria, anteriormente empregada, ainda goza de estabilida‑
de no emprego” (2010: 3). Os dados sobre condições de contratação, remuneração
e trabalho dos jovens assistentes sociais permitem constatar para quase 50% dos
respondentes “o aviltamento da precarização dos contratos de trabalho no interior
da profissão, seja por contratos temporários, seja por ausência de vínculo empre‑
gatício, ou travestidos de profissionais autônomos” (idem, p. 3).
Segundo diferentes analistas (Franco, Druck e Seligman‑Silva, 2010, p. 233),

a terceirização é uma das principais formas de flexibilização do trabalho mediante a


transferência da atividade de um “primeiro” — que deveria se responsabilizar pela
relação empregatícia — para um “terceiro”, liberando, assim, o grande capital dos
encargos trabalhistas. [...]. A terceirização lança um manto de invisibilidade sobre o
trabalho real — ocultando a relação capital/trabalho e descaracterizando o vínculo
empregado/empregador que pauta o direito trabalhista — mediante a transferência
de responsabilidades de gestão e de custos para um “terceiro”.

Os efeitos da terceirização para o trabalho social são profundos, pois ela: a)


Desconfigura o significado e a amplitude do trabalho técnico realizado pelos assis‑
tentes sociais e demais trabalhadores sociais; b) Desloca as relações entre a popu‑
lação, suas formas de representação e a gestão governamental, pela intermediação
de empresas e organizações contratadas; c) Subordina as ações desenvolvidas a
prazos contratuais e aos recursos financeiros definidos, implicando descontinuida‑
des, rompimento de vínculos com usuários, descrédito da população para com as
ações públicas; d) Realiza uma cisão entre prestação de serviço e direito, pois o que
preside o trabalho não é a lógica pública, obscurecendo‑se a responsabilidade do
Estado perante seus cidadãos, comprimindo ainda mais as possibilidades de inscre‑
ver as ações públicas no campo do direito.
É importante também evidenciar o que Druck (2009) denomina de dimensão
qualitativa da terceirização, que cria divisão entre os trabalhadores (os de “primei‑
ra” e “segunda” categorias), além da fragmentação entre os trabalhadores com di‑
ferentes formas de contrato e níveis salariais, muitas vezes na mesma equipe, ge‑
rando dificuldades e constrangimentos para o trabalho social e para a luta coletiva.
Outra questão importante que precisa ser mencionada é a crescente informa‑
tização do trabalho, em todos os âmbitos em que ele se desenvolve. No caso do
setor público, a exemplo do setor privado, as mudanças tecnológicas também estão

432 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 107, p. 420-437, jul./set. 2011
sendo profundas em todos os níveis. A incorporação da “cultura do “gerencialismo”
da empresa privada no setor público esvazia os conteúdos mais criativos do traba‑
lho, desencadeando o desgaste criado pela atividade mecânica, repetitiva, que não
instiga a reflexão.
São muitas as pesquisas e estudos que vêm constatando o quanto as tecnolo‑
gias de informação intensificam os processos de trabalho, produzem um efeito mais
controlador sobre o trabalho, organizam e encadeiam as tarefas de modo que desa‑
pareçam os tempos mortos, quantificam as tarefas realizadas e permitem a amplia‑
ção da avaliação fiscalizatória do desempenho do trabalhador.
As estratégias de intensificação do trabalho vão sendo incorporadas gradati‑
vamente e talvez não estejam ainda claramente perceptíveis para o conjunto de
trabalhadores, particularmente na esfera estatal. Mas elas ganham concretude no
ritmo e na velocidade do trabalho, nas cobranças e exigências de produtividade,
no maior volume de tarefas, nas características do trabalho intelectual demandado, no
peso da responsabilidade. E se ampliam na medida em que também no Estado está
em plena construção “a ideologia da gerência e da qualidade total, do erro zero,
do trabalho a tempo justo, da eficiência das metas e dos resultados” (Dal Rosso,
2008, p. 188).
Por isso, por mais que seja imprescindível a incorporação das novas tecnolo‑
gias de informação, é preciso problematizar os efeitos dessa revolução tecnológica
no trabalho do Serviço Social e na relação dos assistentes sociais com os usuários
e a população, via de regra, mediada pelo computador nos espaços de atendimento
profissional.
Também é possível constatar o crescimento de um tipo de demanda dirigida
aos assistentes sociais em diferentes áreas, que afasta o profissional do trabalho
direto com a população, pois são atividades que dificultam o estabelecimento de
relações continuadas,que exigem acompanhamento próximo e sistemático. A título
de exemplo, pode‑se citar o preenchimento de formulários e a realização de cadas‑
tramentos da população, quando assumidos de forma burocrática e repetitiva, que
não agrega conhecimento e reflexão sobre os dados e o trabalho realizado,.
Trata‑se de uma dinâmica institucional que vai transformando insidiosamen‑
te a própria natureza da profissão de Serviço Social, sua episteme de profissão re‑
lacional, fragilizando o trabalho direto com segmentos populares em processos de
mobilização e organização, e o desenvolvimento de trabalho socioeducativo numa
perspectiva emancipatória.

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 107, p. 420-437, jul./set. 2011 433
Considerações finais
Sintetizando nossas reflexões, é possível retomar a hipótese analítica que as
orienta. As transformações contemporâneas que afetam o mundo do trabalho, seus
processos e sujeitos, provocam redefinições profundas no Estado e nas políticas
sociais, desencadeando novas requisições, demandas e possibilidades ao trabalho
do assistente social no âmbito das políticas sociais.
É inegável o alargamento do mercado de trabalho profissional no campo das
políticas sociais, notadamente no âmbito das políticas de Seguridade Social, e mais
ainda na política de Assistência Social, com a implantação do Sistema Único de
Assistência Social, recentemente transformado em lei por sanção presidencial.
Ao mesmo tempo e no mesmo processo, contraditoriamente, aprofunda‑se a
precarização, aberta ou velada, das condições em que esse trabalho se realiza,
considerando o estatuto de trabalhador assalariado do assistente social, subordina‑
do a processos de alienação, restrição de sua autonomia técnica e intensificação do
trabalho a que estão sujeitos os trabalhadores assalariados em seu conjunto.
Diante desse complexo contexto, como enfrentar o desgaste provocado pelo
trabalho e a violação dos direitos do assistente social?
A luta pela conquista das trinta horas é um movimento político dos mais rele‑
vantes, que está pautando inclusive a mobilização de outros profissionais, como os
psicólogos. Mesmo diante de uma conjuntura adversa à ampliação dos direitos do
trabalho, os assistentes sociais conseguiram uma significativa vitória com a aprova‑
ção da jornada de trinta horas de trabalho sem redução salarial. Talvez este seja o
movimento coletivo mais importante desses últimos anos em defesa de direitos do
assistente social como trabalhador assalariado, mas que, como era de esperar, está
sendo objeto de desconstrução por parte dos empregadores, exigindo da categoria
profissional e de suas entidades políticas a adoção de diferentes estratégias coletivas
para fazer valer esse direito para todos(as) os(as) profissionais do país.
Mas certamente outras pautas devem ser associadas a esta, relacionadas aos
desafios do cotidiano profissional do assistente social, que trabalha com as mais
dramáticas expressões da questão social, lidando com a dura realidade enfrentada
pelas classes subalternas na sociedade brasileira.
Trata‑se de uma condição de trabalho que produz um duplo processo contra‑
ditório nos sujeitos assistentes sociais: a) de um lado, o prazer diante da possibili‑
dade de realizar um trabalho comprometido com os direitos dos sujeitos violados

434 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 107, p. 420-437, jul./set. 2011
em seus direitos, na perspectiva de fortalecer seu protagonismo político na esfera
pública; b) ao mesmo tempo, o sofrimento, a dor e o desalento diante da exposição
continuada à impotência frente à ausência de meios e recursos que possam efetiva‑
mente remover as causas estruturais que provocam a pobreza e a desigualdade social.
Para Franco, Druck e Seligman‑Silva (2010), profissionais impedidos de
exercer sua ética profissional adoecem de fato. Trata‑se de uma dinâmica institu‑
cional que desencadeia desgaste e adoecimento físico e mental e que, no caso do
assistente social, precisa ser mais bem conhecido, impondo‑se o imperativo da
pesquisa sobre a condição assalariada do assistente social e os seus impactos na
saúde dos assistentes sociais. Torna‑se urgente, pois, a formulação de uma agenda
de pesquisa que possa produzir conhecimentos sobre essas situações de sofrimento
do assistente social, pois é daí que poderão resultar subsídios fundamentais para a
continuidade das lutas e embasamento de novas reivindicações e direitos que par‑
ticularizem as específicas condições de trabalho do assistente social no conjunto da
classe trabalhadora.
Na ótica do capital e das classes dominantes, o essencial de todos esses pro‑
cessos de intensificação e precarização é o aumento da degradação e da exploração
do trabalho. Ou, em outros termos, reduzir o trabalho pago e ampliar o trabalho
excedente, o que está na raiz do sofrimento do trabalho assalariado.
Esses elementos colocam a necessidade de “estudos e pesquisas concretas
sobre situações concretas”, que desvendem o processamento do trabalho do assis‑
tente social (Iamamoto, 2007) e as formas por ele assumidas nos diferentes espaços
ocupacionais, bem como as diversas atividades que desenvolvem no cotidiano das
instituições públicas e privadas, na relação com os diferentes empregadores insti‑
tucionais, exigindo um diálogo cada vez mais próximo entre formação, exercício
profissional, pesquisa e produção de conhecimento.
Na conjuntura dos grandes desafios a serem enfrentados no mundo do traba‑
lho profissional, mantém‑se a perspectiva de avançar na luta coletiva a partir de
uma multiplicidade de espaços que possam forjar sujeitos coletivos capazes de
fortalecer os espaços de enfrentamento e resistência diante das diferentes formas
de o capital subjugar o trabalho vivo a seus interesses particularistas de acumulação
e centralização crescentes.
No âmbito institucional, torna‑se imprescindível fortalecer a resistência ao
mero produtivismo quantitativo, medido pelo número de reuniões, de visitas domi‑
ciliares, de atendimentos, sem ter clareza do sentido e da direção social ético‑polí‑
tica do trabalho coletivo.

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 107, p. 420-437, jul./set. 2011 435
Por isso a luta pela qualificação e capacitação continuadas, por espaços insti‑
tucionais coletivos de estudo e de reflexão sobre o trabalho desenvolvido, o debate
sobre as concepções que orientam as práticas e os efeitos por elas produzidos nas
condições de vida dos usuários, é parte da luta pela melhoria das relações de traba‑
lho e direito da população de acesso a serviços sociais de qualidade.
Quanto mais qualificados os trabalhadores sociais, menos sujeitos a manipu‑
lação e mais preparados para enfrentar o assédio moral no trabalho, os jogos de
pressão política e de cooptação nos espaços institucionais.
Embora a perspectiva neoliberal se utilize de inúmeros mecanismos para di‑
vidir o conjunto dos trabalhadores e suas entidades representativas, é através da
organização coletiva que se criam condições concretas para a resistência frente à
violação dos direitos, pela melhoria das condições de trabalho e fortalecimento do
compromisso do Serviço Social por uma sociedade emancipada.

Recebido em 1º/7/2011  n   Aprovado em 13/7/2011

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Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 107, p. 420-437, jul./set. 2011 437
Atores locais na implementação da
política de qualificação profissional*
Local actors in the implementation of the policy of professional qualification

Cristina Almeida Cunha Filgueiras**

Resumo: O artigo examina a execução no nível local de programas


de qualificação profissional para trabalhadores urbanos que se encon‑
tram em situação de maior precariedade no mercado de trabalho. A
oferta de cursos de qualificação ampliou‑se desde 2007 no Brasil de‑
vido à diversificação dos programas e à conexão com programas de
investimento em infraestrutura, os programas de assistência social,
transferência de renda, economia solidária, fomento ao empreendedo‑
rismo e inserção de jovens. O texto discute a atuação de atores, tais
como prefeituras, entidades executoras, agências do Sistema Nacional
de Emprego e comissões de emprego.
Palavras-chave: Governo local. Política social. Política de trabalho.
Qualificação profissional.

Abstract: The article discusses the implementation at the local level of professional qualification
programs for urban workers. The provision of training courses has broadened since 2007 in Brazil due
to diversification of programs and connection with investment programmes on infrastructure, social
assistance programs, cash‑transfer, solidarity economy, fostering entrepreneurship and insertion of
young people. The text discusses the work of actors such as prefectures, executing entities, agencies
of the national system of employment and employment committees.
Keywords: Local government. Social policy. Labour policy. Professional qualification.

* Versão revisada do trabalho apresentado no 7º Encontro Nacional da Associação Brasileira de Ciência


Política, em 2010.
** Doutora em Sociologia pela École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS, Paris, França),
professora do Programa de Pós‑Graduação em Ciências Sociais da Pontifícia Universidade Católica de Minas
Gerais, Brasil. E‑mail: cfilgueiras@pucminas.br.

438 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 107, p. 438-460, jul./set. 2011
O
artigo aborda a execução, em nível, local de um eixo importante da
Política Nacional de Trabalho, Emprego e Renda, os programas de
qualificação profissional para trabalhadores urbanos em situação pre‑
cária no mercado de trabalho. A oferta de cursos de qualificação para
esse segmento ampliou‑se no Brasil, em especial nas áreas metropolitanas, devido
à diversificação da política de trabalho e sua articulação com o Programa de Ace‑
leração do Crescimento (PAC), as políticas de assistência social, combate à pobre‑
za e transferência de renda e os programas de inclusão social de jovens.
O propósito do artigo é refletir sobre a presença de atores institucionais do
nível local, considerando que estes, apesar de envolvidos em diferentes iniciativas
de qualificação, raramente são tomados em conta na literatura sobre o tema. Ini‑
cialmente são apresentadas as características gerais do mercado de trabalho brasi‑
leiro e a situação das políticas de qualificação desde 1995. Em seguida, são men‑
cionadas as conexões de ações de qualificação com programas sociais focalizados
sobre segmentos da população em situação social vulnerável e examinada a pre‑
sença de atores do nível local na sua implementação.

A situação dos trabalhadores e a política de trabalho e emprego


Enfrentar o problema do desemprego no Brasil é bastante complexo em razão
da heterogeneidade do mercado de trabalho. Problemas vividos em todo o mundo,
decorrentes do novo paradigma tecnológico, da abertura dos mercados e da globa‑
lização, se superpuseram no Brasil, aos problemas estruturais do alto grau de in‑
formalização e da precariedade das relações de trabalho, da desigualdade social,
das deficiências no sistema de proteção social, do baixo nível de escolaridade da
força de trabalho, além da existência de um sistema educacional deficiente e sem
articulação com o sistema produtivo (Azevedo, 1997, p. 57).
De 1930 a 1980 aconteceu a estruturação incompleta do mercado de trabalho,
havendo o crescimento do segmento organizado nas áreas urbanas brasileiras com
o avanço das ocupações homogêneas baseadas nas empresas tipicamente capitalis‑
tas, na administração pública e nas empresas estatais, com empregos assalariados
regularizados (Pochmann, 2006, p. 124). A partir de 1980 prevaleceu o movimen‑
to de desestruturação, caracterizado pela expansão do segmento não organizado do
mercado de trabalho urbano, cujas formas principais de ocupação são heterogêneas,
isto é, não pertencem às organizações tipicamente capitalistas, administração pú‑

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 107, p. 438-460, jul./set. 2011 439
blica e empresas estatais. Observou‑se a precarização das ocupações e o enfraque‑
cimento do estatuto do trabalho, mudanças que estão relacionadas à adoção de
políticas macroeconômicas de reinserção internacional adotadas pelos governos
brasileiros, principalmente nas décadas de 1980 e 1990.
Ocorreram no Brasil, nos anos 1990, a terceirização das atividades e ocupações
econômicas, a piora na qualidade dos postos de trabalho e a estagnação relativa dos
rendimentos dos trabalhadores. Houve ainda redução percentual da força de traba‑
lho protegida pela legislação. A ação do Estado e as políticas de emprego continua‑
vam dirigidas principalmente à parcela da força de trabalho inserida no setor formal
da economia, ampliando a desigualdade entre esse setor da mão de obra e aquele
que está na informalidade.
Cardoso Jr. (2005, p. 172) afirma, contudo, que paralelamente ao processo de
desestruturação do mercado de trabalho foram se estabelecendo mecanismos pú‑
blicos de emprego que combinam políticas passivas (como o seguro‑desemprego)
e políticas ativas (como a intermediação e a (re)qualificação de mão de obra). No
entanto, até o início dos anos 2000 o impacto desse conjunto de programas sobre
a situação dos trabalhadores foi limitado, devido, entre outros fatores, à combinação
da heterogeneidade do mercado de trabalho no Brasil com o viés recessivo da po‑
lítica econômica.
Na primeira década de 2000, a retomada do crescimento econômico e dos
investimentos produtivos no País repercutiu em aumento de postos de trabalho,
redução das taxas de desemprego aberto e de precarização no mercado de traba‑
lho. Ao analisar o período 2004‑08, Baltar et al. (2010) observam a elevação do
ritmo de crescimento econômico (cerca de 5% ao ano) com impactos positivos
sobre o mercado de trabalho em termos de geração de empregos, redução da taxa
de desemprego, melhoria da estrutura ocupacional e de rendimento, além de au‑
mento da proporção de ocupações sob a proteção da legislação trabalhista. No
entanto, os autores afirmam não ter sido apenas o crescimento econômico o respon‑
sável por tais mudanças, visto que elas resultam também da política de valorização
do salário mínimo, da maior fiscalização do cumprimento da legislação trabalhista,
das pressões e negociações sindicais, bem como de políticas governamentais nas
áreas social e do trabalho.
Apesar das melhoras observadas, persistem problemas estruturais no mercado
de trabalho brasileiro, sobretudo a alta rotatividade da mão de obra, a informalida‑
de, o desemprego estrutural e a forte heterogeneidade da estrutura ocupacional. Em
2008, cerca de 50% das pessoas ocupadas, com idade de quinze anos e mais, não

440 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 107, p. 438-460, jul./set. 2011
tinham um emprego assalariado e/ou em conformidade com as leis trabalhistas no
país (Baltar et al., 2010, p. 14).
O setor de maior destaque em volume de criação de empregos foi o da cons‑
trução civil, o que foi visto pelo governo e pela sociedade como oportunidade para
a ocupação de postos de trabalho pelos setores da população em desemprego crô‑
nico, aqueles com dificuldades para iniciar entrada no mercado e com baixa esco‑
laridade. Viu‑se ainda uma oportunidade para dar emprego aos beneficiários de
programas de assistência social e de combate à pobreza. As perspectivas de cresci‑
mento dos investimentos privados e públicos com expectativa de aumento da de‑
manda por trabalhadores qualificados também motivaram o aumento de verbas
destinadas pelo governo federal às ações do Ministério do Trabalho e Emprego
(MTE) na área de qualificação, o que será abordado mais adiante neste artigo. Os
investimentos públicos em qualificação tiveram impulso primeiro do PAC, progra‑
ma lançado em 2007, composto por investimentos em infraestrutura pública e in‑
centivo ao investimento privado, cujos recursos são destinados às áreas de trans‑
portes, energia, saneamento, habitação, recursos hídricos. Em seguida surgiu o
programa Minha Casa Minha Vida, de produção de moradia para setores de baixa
renda lançado em 2009, para o qual também se preconizou a articulação com as
ações de qualificação.

A qualificação profissional no sistema público de emprego desde 1995


Uma política de qualificação profissional se classifica entre as políticas ativas
de emprego. De acordo com Azevedo (1997, p. 57), tais políticas

têm um importante papel a cumprir em termos de socialização e integração dos ex‑


cluídos do mercado de trabalho, de preservação da qualificação da força de trabalho
desocupada, de geração de atividades à margem do setor moderno da economia, mas
capazes de garantir a sobrevivência de indivíduos e comunidades e, em alguns casos,
de elevação dos padrões de organização e consciência social e, portanto, de cidadania.

Não é tarefa simples definir o que é qualificação. Trata‑se de um conceito


multifacetado, existindo várias acepções para o termo. Além disso, como alertam
Leite e Posthuma (1996), analisar as práticas envolvidas nesse âmbito exige com‑
preender qualificação como uma construção sociocultural. As ações de formação

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 107, p. 438-460, jul./set. 2011 441
se referem aos ambientes dos locais de trabalho nas empresas, mas também às
cadeias produtivas e a elementos comportamentais gerais dos trabalhadores. A
qualificação desempenha funções sociais mais amplas do que apenas o aprendiza‑
do de conhecimentos e habilidades necessárias ao desempenho do trabalho. Ademais,
o campo da qualificação acompanha a divisão do trabalho e a segmentação do
mercado de trabalho.
No Sistema Brasileiro de Proteção Social (Cardoso Jr. e Jaccoud, 2005), a
qualificação para o trabalho se inclui entre as políticas organizadas com base no eixo
emprego e trabalho juntamente com a Previdência Social; previdência e benefícios
de servidores públicos; políticas de apoio ao trabalhador (seguro‑desemprego, inter‑
mediação de mão de obra, qualificação profissional, crédito para geração de empre‑
go e renda, benefícios específicos dirigidos aos servidores públicos); políticas liga‑
das à organização agrária e à política fundiária. Incluem‑se ainda no eixo emprego
e trabalho as ações dirigidas aos trabalhadores desempregados, àqueles pertencentes
ao setor informal da economia, isto é, trabalhadores sem carteira, os autônomos, os
trabalhadores não remunerados e que produzem para autoconsumo.1
As origens do sistema público de emprego no Brasil remontam à década de
1960. Porém somente nos anos 1970, com a unificação dos recursos do PIS/Pasep
e a efetivação do Sistema Nacional de Emprego (Sine), a intermediação de mão de
obra, a qualificação profissional, (re)colocação e assistência financeira aos desem‑
pregados tornaram‑se significativos (Cardoso Jr., 2005). Na década de 1980 o fato
mais destacado foi a instituição do seguro‑desemprego em 1986, o qual em seus
anos iniciais teve uma cobertura muito baixa. Apenas após a instituição do Fundo
de Amparo ao Trabalhador (FAT), em 1990, puderam existir de modo mais consis‑
tente as políticas básicas de um sistema público de emprego no Brasil.
O FAT tornou‑se a primeira fonte de custeio para a gestão e implementação
dos programas de seguro‑desemprego, intermediação de mão de obra e qualificação
profissional, além do financiamento de ações voltadas para a geração de emprego
e renda via concessão de microcrédito. O fundo destinou recursos aos planos na‑
cionais de qualificação, os quais serão apresentados a continuação. Antes, contudo,
é necessário advertir que a política de qualificação profissional no Brasil é muito
mais ampla do que examinamos nestas páginas. Abordar de modo completo a po‑

1. Os outros três eixos do sistema classificados pelos autores são “assistência social e combate à pobre‑
za”, “direitos constitucionais de cidadania social”, que inclui educação fundamental e saúde; e “infraestru‑
tura social”, que abrange habitação e saneamento.

442 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 107, p. 438-460, jul./set. 2011
lítica exigiria mencionar os sistemas de ensino universitário e técnico, bem como
as iniciativas do âmbito empresarial (Manfredi, 2002; Leite e Posthuma, 1996).
Porém essa não é a intenção do presente texto, ao qual interessam em especial as
iniciativas públicas de qualificação dos anos recentes dirigidas ao segmento de
trabalhadores que não têm acesso aos demais sistemas de formação.

Plano Nacional de Qualificação Profissional (Planfor)

Com a criação do Planfor em 1995, o governo brasileiro visava contrapor‑se


ao movimento de desqualificação da mão de obra resultante das alterações na or‑
ganização produtiva e da introdução de novas tecnologias de informação que exigiam
um trabalhador mais qualificado e flexível. Segundo Moretto (2007, p. 165‑166),
o plano tomou como uma premissa que o desemprego é consequência do processo
de reestruturação produtiva combinado à baixa qualificação do trabalhador brasi‑
leiro. Além dos beneficiários do seguro‑desemprego, o Planfor pretendia atender
os trabalhadores desempregados ou com risco de perder o emprego, os beneficiários
de programas de geração de emprego e renda, os trabalhadores autônomos, os
microprodutores do setor informal e os segmentos populacionais em risco social.
O Planfor foi implementado de modo descentralizado, via comissões estaduais
e municipais, tendo como principais instrumentos institucionais os Planos Estaduais
de Qualificação (PEQs), que contemplavam ações de qualificação profissional
elaboradas e geridas pelas Secretarias Estaduais de Trabalho, sob homologação das
Comissões Estaduais de Trabalho, a quem cabia a articulação com as Comissões
Municipais (Barbosa e Porfírio, 2009, p. 7). Os cursos de qualificação, contrata‑
dos pelos governos estaduais, multiplicaram‑se ao longo da segunda metade da
década de 1990. No período 1995 a 2001, o Planfor qualificou mais de 15 milhões
de pessoas, com um custo de mais de 2 bilhões de reais, mobilizando centenas de
entidades executoras públicas e privadas.
Muitos problemas foram identificados na implementação do plano, entre as
quais a baixa qualidade e a curta duração dos cursos; a escassa integração com as
demais políticas públicas, sobretudo aquelas vinculadas às áreas de educação e de
trabalho e renda; a fragilidade do sistema de monitoramento e avaliação dos cursos;
as ações minimalistas do Estado, concentrando‑se apenas na orientação e no finan‑
ciamento do Plano; as irregularidades no uso dos recursos; a fragilidade das comis‑
sões estaduais e municipais como espaços de articulação dos segmentos de empre‑

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 107, p. 438-460, jul./set. 2011 443
sários, trabalhadores e governo para o exercício das funções de elaboração,
acompanhamento e fiscalização da política de qualificação profissional (Barbosa e
Porfírio, 2009, p. 8). Outra crítica frequente feita ao plano se refere à privatização
da educação profissional com a contratação de uma variedade de entidades privadas
para executar os cursos, sendo que muitas delas não possuíam experiência para
ministrá‑los. Ademais, a decisão sobre os cursos de qualificação esteve mais atre‑
lada à oferta existente nas entidades de formação do que à demanda gerada por
empresas ou trabalhadores.
De acordo com Souza (2009, p. 169), a formação oferecida pelo Planfor não
atendeu às demandas do mercado de trabalho, porém cumpriu as funções de assis‑
tir temporariamente o trabalhador e, assim, reduzir a pressão sobre esse mercado.
Por sua vez, Oliveira (2010) considera que o desenvolvimento de uma oferta pú‑
blica de qualificação para os pobres, como aquela do Planfor, foi um dos fatos
destacados na esfera da formação profissional desde meados dos anos 1990: “o
poder público cria o programa de ações de qualificação, na modalidade de formação
básica, localizado no Ministério do Trabalho e Emprego, cuja função era o repasse
de recursos a organizações civis, sindicatos e instituições da área de educação, com
o objetivo de ocupar a mão de obra desempregada e mais vulnerável socialmente,
em atividades marginais de geração de renda e empregos desqualificados”. Poste‑
riormente, continua a autora, o plano foi “reformulado no sentido de definir carga
horária mínima, estabelecer os desempregados como público prioritário, e limitou
sua execução aos governos estaduais e municipais, através de convênios. Perma‑
neceu, contudo, nos marcos do conceito de qualificação para pobres, com forte
conotação assistencial por parte das instituições gestoras dos recursos e executoras”
(Oliveira, 2010, p. 32).
Em 2003, no início do primeiro governo Lula, o Planfor foi substituído por
outro plano. Houve ajustes, mas os fundamentos da política de qualificação não
foram modificados no que se refere a financiamento pelo fundo federal e outras
fontes da União principalmente, execução descentralizada por organismos privados
ou públicos contratados caso a caso ou por blocos de cursos por território.

Plano Nacional de Qualificação (PNQ)

A percepção, pelos agentes sociais e por especialistas, de que parte significa‑


tiva dos planos nacionais de qualificação cumpre papel mais assistencial que de

444 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 107, p. 438-460, jul./set. 2011
ampliação de oportunidades no mercado de trabalho se aprofundou com a adoção
do PNQ. Entre as novidades trazidas pelo plano estavam o aumento da carga horá‑
ria dos cursos (foram estabelecidos carga horária mínima e conteúdos pedagógicos
específicos), a ampliação do controle e monitoramento e a busca de maior integra‑
ção com outras políticas. O plano introduziu a noção de qualificação social, pas‑
sando a se referir a qualificação social e profissional. A qualificação social consis‑
tiria em cursos destinados a jovens e adultos, independente de escolaridade, que
visam despertar o interesse pelo trabalho e preparar para o desempenho de tarefas
básicas e de menor complexidade de uma profissão ou de um conjunto de profissões.
Fazem parte desse grupo os programas de capacitação ligados às ações visando a
geração de renda e a inclusão do indivíduo.
O PNQ previu três modalidades de execução: 1) os Planos de Qualificação
Territorial (PlanTeQ), realizados em convênio com os governos estaduais e, desde
2004, também com municípios ou consórcios intermunicipais; 2) os Projetos Es‑
peciais de Qualificação (ProEsQ), com o propósito de desenvolver metodologias
em qualificação profissional, executados em convênio com instituições de educação
profissional e centrais sindicais; e 3) os Planos Setoriais de Qualificação (PlanSeQ),
para atender demandas de qualificação em cadeias produtivas e setores específicos
de atividade econômica e arranjos produtivos locais, executados em parceria com
entidades públicas e privadas.
Dentro de um conjunto muito vasto de potenciais beneficiários, o PNQ esta‑
belece a prioridade para os trabalhadores desocupados pertencentes aos grupos mais
vulneráveis econômica e socialmente (por fatores como baixa renda, baixa escola‑
ridade e/ou discriminação de gênero, raça/etnia, idade, deficiência).  Veremos a
seguir como esse público, que é também o público prioritário das ações de assis‑
tência social e transferência de renda, é contemplado dentro dos planos de qualifi‑
cação profissional e em especial do PlanSeQ.

Vínculos da qualificação com outras políticas públicas


É conhecida a insuficiente conexão entre os programas do Sistema Público
de Emprego e demais programas voltados para a qualificação profissional dos
trabalhadores existentes em várias iniciativas governamentais. Tal situação per‑
siste após mais de quinze anos de ações executadas no âmbito do FAT. Além
disso, continuam sendo criados programas de qualificação em diferentes ministé‑

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 107, p. 438-460, jul./set. 2011 445
rios, sem que, contudo, a política de qualificação se perceba como um conjunto
coerentemente estruturado.
As políticas tradicionais do sistema público de emprego, entre elas a de qua‑
lificação, não são eficazes para enfrentar a situação de heterogeneidade e precarie‑
dade do mercado de trabalho brasileiro (Cardoso Jr., 2005, p. 171). Este seria um
dos fatores explicativos da estreita vinculação desenvolvida nos anos recentes entre
aquele sistema e as políticas de assistência social. As ações do eixo de política com
base no trabalho associam‑se às políticas do eixo da assistência social e aos pro‑
gramas de transferência condicionada de renda e de combate à pobreza. Tal conexão
está muito evidente na relação entre PlanSeQ, Bolsa Família (programa de trans‑
ferência condicionada a renda, instituído em 2003) e PAC.
Os cursos de qualificação estão entre as ações complementares que buscam
contribuir para a ampliação das oportunidades de inclusão dos beneficiários do
Bolsa Família. Dentro das estratégias traçadas pelo governo federal para as ações
complementares encontra‑se o Plano Setorial de Qualificação e Inserção Profissional
para os beneficiários do Bolsa Família, ou PlanSeQ do Bolsa Família. A articulação
federativa para sua execução envolve no plano local as Secretarias de Trabalho ou
congêneres ou gestor das agências de intermediação de mão de obra e as Secretarias
de Assistência Social e gestores do Bolsa Família (Brasil. MTE/MDS, [2008].
As entidades executoras dos cursos do PlanSeQ são selecionadas por meio de
edital de chamada pública divulgado pelo TEM e, em seguida, contratadas pelo
governo federal. As metas de cobertura a serem cumpridas em cada cidade são
definidas pelo Ministério do Desenvolvimento Social e do Combate à Fome (MDS),
a quem cabe também a definição dos potenciais beneficiários. O ministério classi‑
fica as famílias que recebem o Bolsa Família com base no Índice de Desenvolvi‑
mento Familiar (IDF)2 e dá prioridade àquelas com menor índice para se inscrever
nas ações de qualificação. As famílias selecionadas são comunicadas por meio de
carta enviada pelo gestor federal, informando sobre a possibilidade de inscrever
um dos seus membros em um curso. A partir daí entram em cena os governos mu‑
nicipais e as entidades executoras. Posteriormente as ações definidas no âmbito do

2. O IDF foi criado para uso na focalização dos programas sociais e no monitoramento e avaliação dos
programas sociais. O índice é composto por indicadores de vulnerabilidade decorrente da composição fami‑
liar, acesso ao conhecimento, acesso ao trabalho, disponibilidade de recursos, desenvolvimento infantil,
condições habitacionais. O IDF de cada família é calculado a partir dos dados registrados no Cadastro Único
para Programas Sociais do Governo Federal (CadÚnico).

446 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 107, p. 438-460, jul./set. 2011
PlanSeQ dirigidas ao público do Bolsa Família passaram a chamar‑se Programa
Próximo Passo, sob responsabilidade dos Ministérios do Trabalho e Emprego,
Desenvolvimento Social e Combate à Fome, e do Turismo.
O Próximo Passo é, pois outra denominação dada às ações que já estabeleci‑
das de articulação entre governo federal, empresários e trabalhadores para promo‑
ver qualificação social e profissional para os beneficiários do Bolsa Família. Rea‑
lizado como PlanSeQ Construção Civil e Turismo, teve por objetivo garantir a esse
público o acesso a vagas de qualificação, reconhecendo que ele tende a ser excluí‑
do ou ficar em segundo lugar na ocupação das oportunidades de qualificação. Em
2009 e 2010, o programa ofereceu cursos para ocupações da construção civil, setor
impulsionado principalmente pelas obras do PAC, do programa Minha Casa Minha
Vida e programas da área de turismo.3
Verifica‑se, portanto, que o aumento na oferta de cursos ocorrido no Brasil
desde 2007 decorre das várias frentes programáticas do governo federal que con‑
templam ações de capacitação e qualificação para o trabalho e em especial daque‑
les programas orientados aos segmentos atendidos em programas de combate à
pobreza e mais vulneráveis no mercado de trabalho. Porém a oferta também inclui
iniciativas de alguns governos estaduais e municipais, que não são consideradas
neste artigo.
A partir de 2003 o governo federal estabeleceu ainda duas novas políticas que
incluíram programas com cursos de qualificação e capacitação. A primeira delas é
a política de economia solidária; a segunda é a política para a juventude voltada,
entre outros temas, para inserir no mercado de trabalho os jovens de baixas renda
e escolaridade. No âmbito da política para a juventude, pelo fato de incluir ações
de qualificação profissional e social, merece ser mencionado o Programa Nacio‑
nal de Inclusão de Jovens — Projovem, dirigido a jovens de 15 a 29 anos em situação
de vulnerabilidade social, que tenham terminado a quarta série, não tenham con‑
cluído o Ensino Fundamental e não tenham emprego com carteira assinada. Bene‑
ficiários do Projovem nas localidades onde existem outros cursos de qualificação
dirigidos à população em vulnerabilidade social são encaminhados para tais ações
pela equipe do Centro de Referência da Assistência Social (Cras).

3. As vagas do Próximo Passo se distribuíram entre cursos no setor da construção civil em 249 muni‑
cípios nas regiões metropolitanas e capitais e cursos no setor de turismo em 22 capitais. Na construção civil
são ofertados cursos de pedreiro, pintor, eletricista, encanador, mestre de obras, entre outros. No turismo,
cursos de garçom, cozinheiro, padeiro, mensageiro, camareiro e auxiliar de eventos, entre outros.

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 107, p. 438-460, jul./set. 2011 447
A partir do que foi apresentado, podemos afirmar que durante a última déca‑
da a área de qualificação profissional orientada aos trabalhadores socialmente mais
vulneráveis passou por diversas inovações. Além disso, ocorreram esforços de ar‑
ticulação entre cursos de qualificação, programas de investimento em infraestrutu‑
ra urbana e os programas de transferência de renda.

Visões críticas sobre pressupostos da política pública de qualificação


Antes de nos referirmos aos atores locais dos programas de qualificação,
consideramos necessário destacar críticas feitas por estudiosos dos temas sociais
ao enfoque geral que embasa políticas públicas recentes no Brasil no âmbito do
trabalho.
Como já foi dito, os planos nacionais padecem de várias limitações: falta de
sintonia entre a qualificação requerida e os cursos disponíveis; disparidade entre o
volume de treinandos e a capacidade de absorção da mão de obra qualificada; de‑
sarticulação entre oferta de qualificação e demais instrumentos da política de em‑
prego, por exemplo, o crédito. A maior limitação da política operacionalizada por
meio desses planos consiste, na opinião de Souza (2009, p. 172‑173), em não re‑
conhecer que a causa principal do desemprego não é a falta de qualificação do
trabalhador, mas a lógica da estrutura produtiva. Outra crítica feita aos programas
de capacitação e às políticas de emprego no conjunto é a adoção da lógica do em‑
preendedorismo, com o propósito de transformar o trabalhador em autônomo e dono
do próprio negócio, sem que as condições e apoios necessários lhe sejam oferecidos.
Na década de 2000, o padrão adotado por grande parte das intervenções pú‑
blicas passou a ser o de ajudar a aumentar a empregabilidade dos trabalhadores,
para aqueles que ainda podem vir a entrar no mercado formal e, por outro lado,
fomentar o empreendedorismo naqueles setores que dificilmente encontrariam
oportunidade em postos de trabalho formal. Empregabilidade e empreendedorismo
tornaram‑se estratégias para encobrir novas e velhas fragilidades no mercado de
trabalho. Silva (2003) considera que, além de substituírem o conceito de informa‑
lidade, tais propostas refletem um novo modo de exploração capitalista e dominação
no mundo do trabalho que se baseia na adaptação ao desemprego, ao risco e à in‑
segurança. Esse autor, como outros críticos dos programas de qualificação que
visam aumentar a empregabilidade do trabalhador, considera que tais iniciativas
governamentais encobrem os problemas que a sociedade enfrenta para a geração

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de emprego e renda devido à estrutura econômica existente e à redução dos postos
de trabalho formais. O uso da noção de empregabilidade nas políticas públicas
teria por consequência transferir para o trabalhador a responsabilidade de estar
desempregado. Assim, no novo contexto produtivo onde a reestruturação é perma‑
nente, “a própria efetividade do programa de qualificação é questionada, na medi‑
da em que as empresas tendem a não privilegiar a qualificação de mão de obra. Ou
seja, a qualificação funciona como discurso ideológico, ao oferecer cursos para os
desempregados, acaba por transferir a responsabilidade para a vitima, pois se o
trabalhador não conseguir trabalho mesmo com a ajuda de um curso de qualificação,
o fracasso é somente dele” (Deddeca apud Moretto, 2007, p. 168).
Frente à situação do mercado de trabalho e às suspeitas com relação aos efei‑
tos provocados pela qualificação, ganha relevância a pergunta: “Qualificar para
quê?” Souza avança os seguintes elementos de resposta:

A política de qualificação, ao privilegiar a condição de vulnerabilidade na escolha do


público‑alvo, depara‑se com trabalhadores com baixa escolaridade e posição desvan‑
tajosa no mercado de trabalho. Tal opção não é aleatória. São estes que se submetem
a trabalhos precários e desprotegidos. Logo, se a qualificação oferecida por esta polí‑
tica não atende às demandas do mercado, é na lógica da assistência que vamos encon‑
trar resposta à pergunta: “qualificar para quê?”. Não por acaso os critérios de elegibi‑
lidade para inserção, tanto no Planfor quanto no PNQ são praticamente os mesmos
utilizados pela política de assistência social. Não por acaso as comissões de emprego
são, em muitos lugares, alocadas nas secretarias responsáveis por esta política. (Sou‑
za, 2009, p. 174)

A autora sugere que a política de qualificação do trabalhador contribui para


dar legitimidade às ações estatais frente ao desemprego e, ao mesmo tempo, servi‑
ria como recurso político para os governos subnacionais: “Nos estados, o ganho
político está na relação com as executoras. A gestão de recursos do FAT, para a
aplicação dos antigos Planos Estaduais de Qualificação (PEQs) e atuais Planos
Territoriais de Qualificação (Planteqs), os coloca em condição privilegiada para
negociar com diversos atores, entre os quais sindicatos, “Sistema S” e ONGs.
Quanto aos municípios, mais próximos dos treinandos, a despeito das dificuldades
na relação com os governos estaduais, o maior benefício é a possibilidade de apre‑
sentar alternativas à problemática do desemprego, sem onerar o próprio orçamento.
Como é no município que o trabalhador vive, é dele que mais facilmente cobra
ações, é nele que busca soluções. O financiamento por meio do FAT faz da quali‑

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ficação um excelente negócio. Os cursos representam ações concretas frente ao
desemprego, e os gestores não deixam de tirar vantagens políticas” (Souza, 2009,
p. 174).
As colocações acima nos remetem à implementação da política de qualificação
no nível local. Quais são as motivações e interesses dos atores locais em envolver‑se
na execução dos projetos de qualificação? Quais atribuições assumem? Como se
desempenham?

Os atores locais da execução dos programas de qualificação


Em geral, os estudos sobre os planos nacionais de qualificação estão voltados
para a avaliação global ou para análise do desempenho em alguns estados, sendo
raramente considerado o papel dos governos municipais e outros atores locais nos
programas que incluem cursos de qualificação para os trabalhadores.
O campo das políticas públicas de emprego acompanha as tendências recentes
em outros âmbitos de política social no Brasil, com a descentralização para o nível
municipal e a focalização nos segmentos considerados mais vulneráveis socialmen‑
te. O papel dos governos locais está associado à descentralização iniciada após a
Constituição de 1988. Desde então, em um processo gradual e não linear, verificou‑se
o repasse de atribuições, responsabilidades e recursos do governo federal aos esta‑
dos e municípios para o desempenho de políticas públicas. Contudo, em cada uma
das áreas de política pública a União, os estados e os municípios articulam‑se de
maneira diversa (Almeida, 2005; Arretche, 2004).
Em algumas políticas públicas é evidente o papel indutor exercido nos últimos
anos pelo governo federal para a estruturação do setor nas administrações munici‑
pais. O formato de muitos programas nacionais indica a expectativa de contar com
capacidades operacionais e participação ativa dos governos locais na sua execução,
bem como no financiamento de alguns dos seus componentes e no desenvolvimen‑
to de iniciativas próprias. Um exemplo é a implantação do Sistema Único de As‑
sistência Social (Suas) e a manutenção do CadÚnico,4 bem como a execução dos
programas de transferência de renda, principalmente o Bolsa Família (Filgueiras e

4. O CadÚnico foi instituído 2001 para identificação e registro, em cada um dos municípios do país,
das famílias em situação de pobreza potencialmente beneficiárias dos programas sociais. O cadastro é ali‑

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Caetano, 2008). É importante mencioná‑los aqui porque os programas de qualifi‑
cação profissional dirigidos à população em situação de vulnerabilidade social
também se apoiam no funcionamento de tais mecanismos.

Governos municipais

As prefeituras podem estabelecer convênios com o MTE para desenvolver


ações de qualificação e de intermediação de mão de obra. Algumas delas são res‑
ponsáveis por unidades do Sine ou tem agências próprias de intermediação. Além
disso, há prefeituras de capitais dos estados e cidades de maior porte que têm ini‑
ciativas próprias de formação para o trabalho e oportunidades de geração de renda,
chegando a constituir um programa municipal de qualificação unificando ações
desenvolvidas por diversos órgãos da administração local destinadas a pessoas em
condições de vulnerabilidade social beneficiárias dos programas sociais e desem‑
pregados cadastrados no Sine. Deve ser mencionado também que há estados da
federação que possuem programas de qualificação desenvolvidos com a participa‑
ção das prefeituras.
Na execução do Planfor, as prefeituras não tinham papel claramente estabe‑
lecido, sendo os governos estaduais os responsáveis principais. Já o PNQ incluiu
atribuições para os governos municipais. Uma resolução do MTE de 2005 autorizou
municípios com mais de 300 mil habitantes a estabelecer convênios diretamente
com o ministério para a proposição e execução de projetos de qualificação sem se
submeter a comissões estaduais. Posteriormente, também os municípios com mais
de 200 mil habitantes passaram a ter possibilidade de celebrar convênios para
­executar diretamente a qualificação profissional.
Já foi mencionado que nos programas de qualificação conectados às políticas
de transferência de renda, assistência social e política para jovens, as administrações
municipais desempenham diversos papéis. Com relação ao PlanSeQ para o público
do Bolsa Família, as prefeituras foram convocadas a cumprir as metas decididas
pelo MDS. Em todo o país houve grande dificuldade para que o plano se efetivas‑
se no âmbito local e para que as metas de cobertura das vagas nos cursos fossem
minimamente atingidas. Foram realizados constantes apelos nesse sentido pelo

mentado pelos técnicos dos governos municipais com informação coletada junto às famílias. Periodicamen‑
te, o MDS exige que as prefeituras atualizem os dados dessa base de informações.

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 107, p. 438-460, jul./set. 2011 451
governo federal a prefeitos e equipes municipais, para que mobilizassem a popu‑
lação beneficiária do Bolsa Família para os cursos.
A interação com os beneficiários cabe, no PlanSeQ, às Secretarias Municipais
de Assistência Social, particularmente às equipes do serviço de proteção básica e
do Bolsa Família, ainda que não sejam elas as responsáveis diretas pela entrega do
serviço de qualificação. A participação das equipes das prefeituras pode incluir um
leque amplo de atividades, tais como: execução de ações de abordagem dos poten‑
cialmente beneficiários; entrega de informação às famílias, localização das famílias
cujas cartas enviadas pelo MDS foram devolvidas; mobilização, articulação e
acompanhamento socioassistencial; adoção de medidas para reduzir a evasão e o
abandono dos cursos pelos inscritos; abordagem de beneficiários que abandonem
o curso; monitoramento dos cursos; articulação com as agências do Sine para
acompanhamento dos treinandos. Não podemos afirmar que em todas as cidades
efetivamente as equipes municipais atuem em todo esse elenco de ações ou, ao
contrário, que sua participação se restrinja àquelas apontadas.
Sem o intuito de fazer generalizações sobre a dinâmica dos programas de
qualificação nas cidades brasileiras ou sobre as interações entre os atores institu‑
cionais, reproduzimos a seguir observações de uma técnica da área de Assistência
Social da prefeitura de um município de médio porte na Região Metropolitana de
Belo Horizonte, que revelam situações vivenciadas pelas equipes locais envolvidas
em programas nacionais e estaduais de qualificação:5

A entidade executora está sentindo a dificuldade de “encher sala”, porque nem todo
mundo quer fazer curso para trabalhar em obra. Estamos com a expectativa do Minha
Casa Minha Vida e o nosso público precisa ser qualificado para poder ser aproveitado.
Com o Planseg, que é todo de cursos de construção civil, [nós da secretaria] fazemos
trabalho de formiguinha, de motivação com a população. O Cras também capta o
público para os cursos. Os cursos foram decididos sem consulta no município. [...] O
ministério só consultou os dados do CadÚnico em Brasília. Mesmo assim temos de
realizar o que foi decidido fora, porque senão a prefeitura fica como ineficiente. Nos‑
sa cidade recebeu um número grande de vagas para cursos do Planseg. Mas não tem
gente para tanto, tiveram de reduzir o número. O pessoal daqui não quer fazer os
cursos. Achávamos que seria bacana o curso de mestre de obras, mas tivemos de tirar
porque ele não é para quem tem até 4ª série, exige ter mais escolaridade. [...] Tem um

5. O relato é parte do levantamento de dados realizado através de entrevistas, em setembro de 2009,


para estudo desenvolvido por Filgueiras e Pádua (2010).

452 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 107, p. 438-460, jul./set. 2011
desencontro. Em cursos pensados para o público masculino houve grande número de
inscrição de mulheres. Os cursos que exigiam o Ensino Fundamental completo não
interessaram aos jovens que cumpriam esse requisito, e os adultos que quiseram se
inscrever não tinham a formação escolar exigida. São muitos cursos que vieram para
a cidade nos últimos meses. Mas tem de cuidar para não sobrepor o que está acon‑
tecendo, porque o público é o mesmo. A cidade é uma só, o público é um só, a má‑
quina administrativa é uma só. O ministério contratou uma instituição que veio sei lá
de onde, que não conhece nada da cidade, que está perdida. [...] Porque os coordena‑
dores e instrutores são todos de fora, não conhecem aqui. Questionei sobre a capaci‑
tação dos instrutores. Houve capacitação? Então nós, da prefeitura, temos de suprir a
informação dos instrutoras das entidades. No Planseg, tivemos de colocar uma assis‑
tente social nossa para assessorar a entidade.

No município onde trabalha a entrevistada, os técnicos do órgão gestor da


política de Assistência Social e do Sine foram informados sobre os cursos que seriam
realizados somente quando estes já haviam sido contratados pelos gestores dos
programas nos âmbitos federal e estadual. Os órgãos da administração local foram
procurados pelas entidades executoras quando elas necessitavam de apoio para
encontrar um lugar onde realizar as atividades de alguns cursos ou enfrentaram
dificuldades para preencher as vagas oferecidas.
Apesar de circunscritas a um caso específico e segundo a percepção de uma
pessoa de apenas uma única instituição, o relato nos permite conhecer mais de
perto a execução dos programas, dando concretude ao que aparece de modo gené‑
rico e distante nos planos governamentais. Além disso, ainda que possa conter
vieses devido ao lugar institucional que ocupa a entrevistada, as informações e
opiniões manifestadas evidenciam problemas reais na articulação entre níveis fe‑
deral, estadual e municipal, bem como entre órgãos da administração municipal, e
entre os órgãos públicos e as entidades privadas contratadas para prestação do
serviço aos beneficiários dos programas.

Sine

O Serviço foi criado para possibilitar a inserção e a reinserção do trabalhador


no mercado de emprego mediante intermediação, qualificação e divulgação de
informações, além de apoio a iniciativas de geração de emprego e renda. Seu pro‑
pósito principal é contribuir para melhorar as condições de acesso, permanência e
retorno do trabalhador ao mercado de trabalho.

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 107, p. 438-460, jul./set. 2011 453
De acordo com o PlanSeQ, é atribuição do Sine realizar as ações de divulga‑
ção dos cursos de qualificação contratados e encaminhamento de pessoas para
inscrição; inscrição dos beneficiários do Bolsa Família nos cursos; incorporação ao
cadastro das pessoas que concluíram os cursos; intermediação para a inserção dos
egressos em vagas de emprego. Há programas de qualificação nos quais se espera
que as equipes do Serviço façam a supervisão dos cursos por meio de uma visita
técnica. Os postos e agências do Sine, em sua maioria, não desempenham ativida‑
des relativas à busca ativa de pessoas para os cursos de qualificação de nenhum dos
programas. Essa tarefa é realizada, quando isso ocorre, pelos técnicos das prefei‑
turas, em geral da área de assistência social.
Existe uma defasagem entre os papéis atribuídos e os efetivamente desempe‑
nhados pelo Serviço, a qual se deve a uma série de limitações: escassez de pessoal;
excesso de tarefas a cumprir com atribuições em muitas frentes de ação; agências
vinculadas às prefeituras que sofrem constantemente os efeitos de mudanças nas
administrações municipais, gerando rotatividade de coordenador e de pessoal.
Assim como no caso das prefeituras municipais, parece repetir‑se para o Sine a
suposição dos formuladores da política nacional de que existiria capacidade desses
órgãos públicos para desempenhar funções estratégicas na implementação, porém,
a realidade local nem sempre corresponde a tal condição.

Comissões municipais de emprego

O Conselho Deliberativo do Fundo de Amparo ao Trabalhador (Codefat) esta‑


beleceu, nos anos 1990, critérios para o reconhecimento das comissões de emprego
estaduais, distrital e municipais, consideradas uma condição importante para a parti‑
cipação da sociedade organizada na administração do Sistema Público de Emprego,
adequando‑se assim à Convenção n. 88 da Organização Internacional do Trabalho.
A Comissão Municipal de Emprego é de natureza tripartite e paritária, reunindo re‑
presentação governamental, dos trabalhadores e dos empregadores e tem por objeti‑
vos estabelecer, acompanhar e avaliar a política municipal de emprego, propondo as
medidas que julgar necessárias para o desenvolvimento de seus princípios e diretrizes.
O Ministério do Trabalho e Emprego considera a participação da sociedade
organizada um componente importante para a execução de suas políticas, dadas as
características de ações realizadas de maneira descentralizada, por meio de convê‑
nios com estados e parcerias:

454 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 107, p. 438-460, jul./set. 2011
A descentralização aproxima os executores das ações do seu público. Isso é muito
positivo. Com efeito, a execução centralizada padece de toda sorte de vícios decor‑
rentes da relativa insensibilidade do executor em relação às demandas do público.
Mas a descentralização, que é um passo importante nessa aproximação, deve estar
associada à criação de canais institucionalizados de participação dos atores envolvi‑
dos, desempenhando variados papéis. Esse foi o objetivo do Codefat ao criar as
Comissões de Emprego: possibilitar que, localmente, os atores relevantes tivessem
o papel que têm, efetivamente, no plano nacional por meio da participação no próprio
Conselho.6

O PNQ estabelece que a comissão municipal de emprego atue no levantamen‑


to das demandas por qualificação, planejamento, acompanhamento e fiscalização
de cursos de qualificação. Contudo, a expectativa de desempenho dessas atribuições
corresponde a uma idealização sobre tais instâncias de participação e controle social.
Em estudo realizado em municípios mineiros, Filgueiras e Pádua (2010) encontra‑
ram comissões fragilmente constituídas, com atuação limitada, algumas inclusive
inativas.
Ao examinar as características socioinstitucionais da qualificação profissional
em cidades fluminenses, Souza (2009, p. 175) constatou que “independentemente
do tamanho e da importância do município, a tarefa de apresentar demandas e
acompanhar a qualificação profissional tem sido relegada às comissões locais de
emprego [...] Tal equívoco desobriga os governos de estabelecer suportes para esta
política”.
As comissões não participam na seleção das entidades executora e também
não possuem estrutura para realizar diagnósticos, identificar demandas e fazer
efetivo controle social. Segundo Barbosa e Porfírio (2009), elas enfrentam as
mesmas dificuldades e problemas que conselhos de outras políticas setoriais. São
problemas comuns no funcionamento de comissões municipais: absenteísmo nas
reuniões principalmente de representantes dos trabalhadores; predomínio da
presença de representantes da prefeitura, técnicos de quem depende a dinâmica
das comissões; baixa capacidade para levantamento de demandas de cursos,
discussão sobre a seleção dos cursos, difusão, fiscalização e controle de programas
e cursos.

6. “A criação das Comissões de Emprego”. Disponível em: <http://www.mte.gov.br/Trabalhador/


Fat/ComissoesEst/ComissoesEstaduaisEmprego/ACriacaoComissoes/Conteudo/486.asp>. Acesso em:
18 abr. 2011.

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 107, p. 438-460, jul./set. 2011 455
Entidades executoras

Os cursos da política de qualificação mencionados neste artigo são executados


em sua maioria por entidades privadas contratadas depois de chamada pública. As
entidades precisam estar previamente habilitadas pelas instâncias definidas na le‑
gislação para que possam concorrer às licitações de cursos. Elas não têm atuação
fixa em um município. É comum que estejam presentes em muitas frentes de tra‑
balho e atuem simultaneamente em programas de qualificação promovidos por
diversos órgãos públicos. Muitas entidades possuem experiência na execução de
cursos com recursos do FAT desde a vigência do Planfor.
Apesar da centralidade do trabalho das executoras para a política de qualifi‑
cação profissional, são pouco conhecidas sua atuação, contribuição e dinâmica de
posicionamento no mercado de cursos de qualificação. Existe um mercado estru‑
turado de cursos de qualificação profissional no país, segmentado por tipo de curso
e principalmente de acordo com o público e, dentro dele, uma faixa importante do
mercado que se refere a cursos de formação dirigidos aos setores mais vulneráveis,
financiados com recursos federais, principalmente, mas também recursos dos go‑
vernos estaduais e municipais. Esta faixa tem atraído entidades especializadas em
concorrência pública e que vêm assumindo a responsabilidade pela execução de
uma grande quantidade de cursos, como é o caso dos cursos contratados para o
PlanSeQ. Um dos aspectos menos conhecidos das entidades executoras são os
instrutores. São eles que estabelecem o contato direto com a realidade dos municí‑
pios e com os alunos, conhecem mais de perto o que passa na ponta do processo,
as dificuldades do trabalho e a dinâmica dos cursos. Em grande parte das executo‑
ras os instrutores não pertencem a seu quadro permanente e são contratados por
curso, o que leva à grande rotatividade de instrutores nas entidades.
O que foi assinalado aqui sobre os atores locais mostra que há um campo de
estudos a ser explorado que diz respeito não apenas à implementação de uma par‑
te da política de qualificação profissional, como também à articulação desta com
outros programas nas áreas social e de trabalho.

Considerações finais
É comum no Brasil a percepção de que os cursos de qualificação dirigidos aos
setores socialmente mais vulneráveis dos trabalhadores pobres entregariam uma

456 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 107, p. 438-460, jul./set. 2011
formação de segunda mão, em intervenções de baixa efetividade e escassos resul‑
tados obtidos em relação ao propósito de inserção no mercado em condições mais
favoráveis que o trabalho precário e/ou de remuneração muito baixa. É necessário,
sem dúvida, ter presente que os programas que compõem a atual política de quali‑
ficação profissional e social desenvolvem‑se em contexto social, econômico e po‑
lítico complexo. Foram apontados no artigo diversos elementos desse contexto. Em
primeiro lugar, as características do mercado de trabalho brasileiro, que combina
alta proporção de informalidade com postos de trabalho no mercado formal. Em
segundo, a realização, desde 2007 de investimentos públicos e privados que têm
levado à ampliação da demanda por mão de obra qualificada em alguns setores da
economia. O terceiro é a existência de alta proporção de trabalhadores que precisam
ser qualificados para aumentar sua “empregabilidade”, porém, por possuir baixa
escolaridade, não conseguem aproveitar oportunidades nessa área. O quarto ele‑
mento é a existência de um sistema público de trabalho, emprego e renda em
constante transformação, com componentes que em muitos aspectos não funcionam
articulados. Em quinto lugar, a existência simultânea de vários programas de qua‑
lificação profissional em algumas cidades, havendo cidades onde muitos programas
e instituições se dirigem ao mesmo público e, de modo separado, buscam o apoio
do governo local para a execução das ações. Finalmente, foram mostrados os es‑
forços de articulação da política nacional de qualificação profissional com outras
políticas que priorizam o público beneficiário de programas de assistência social,
de transferência de renda e de inclusão social, e a política para jovens em situação
de risco social.
No rápido panorama apresentado, chamam a atenção as frequentes modificações
na política de qualificação desde os anos 1990. Sucedem‑se ou superpõem‑se órgãos,
siglas, atores e atribuições. Devemos recordar que também é desde o final dessa
década que a descentralização de programas sociais ganhou força, chegando efeti‑
vamente aos municípios. Além disso, deve ser tomada em consideração a reestrutu‑
ração, desde 2003, da institucionalidade no governo federal com relação à política
de assistência social e ao relacionamento entre as unidades federativas envolvidas
na sua implementação. Neste contexto movediço, os governos municipais passaram
a ocupar uma posição antes inexistente. Sobre eles recaem expectativas, atribuições
legais, recursos, incentivos e sanções para que cumpram as funções de execução
local de programas federais e estaduais. Além disso, é esperado que as prefeituras
tenham suas próprias iniciativas na área de trabalho e geração de renda, de modo a
contribuir na inclusão social dos setores pobres e no combate à pobreza.

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 107, p. 438-460, jul./set. 2011 457
No Planfor, os governos estaduais eram os principais responsáveis pelos
planos e pelo relacionamento com as entidades executoras. Já no PNQ, os governos
municipais parecem estar mais presentes, mas não exatamente na frente do cenário,
pois as decisões relacionadas a formulação, cobertura e inclusive tipo de curso e
contratação das entidades nem sempre passam pelas administrações municipais.
A oferta de cursos de qualificação se ampliou nos últimos anos, devido à di‑
versificação dos programas federais e estaduais e à conexão do PlanSeQ (posterior‑
mente Próximo Passo) e do PAC com os programas da política de assistência social,
transferência de renda, economia solidária e fomento ao empreendedorismo. Os
programas aqui destacados são a parte mais frágil na pirâmide de qualificação e
estão direcionados a um público que os outros níveis (Sistema S, cursos privados
de formação de mão de obra) não querem ou não estão preparados para atender.
Seu público‑alvo se insere principalmente no segmento do mercado de trabalho
pouco estruturado, caracterizado, segundo Cardoso (2005, p. 134), “por uma ofer‑
ta abundante de mão de obra, compondo a base geral e ampla do mercado de tra‑
balho, com indivíduos em geral de baixa qualificação técnica, sem organização
sindical, disputando empregos instáveis — portanto de elevada rotatividade —,
baixo nível de qualificação exigida e prometida, que oferecem poucas perspectivas
de ascensão profissional”.
As tensões da centralização‑descentralização se manifestam de modo muito
claro nos programas de qualificação. Os funcionários das Secretarias das prefeitu‑
ras são acionados para responder às exigências do MTE e do MDS. São procurados
também pelas entidades executoras e participam nas ações locais de informação,
seleção e encaminhamento para os cursos. Grande parte das administrações locais
não é bem organizada para responder às demandas da população e dos demais níveis
de governo.
Os atores do nível local — particularmente prefeituras, Sine, entidades
­executoras, comissões de emprego e beneficiários — participam em um conjunto
de iniciativas que apresentam séria defasagem entre os propósitos e os resultados
obtidos. Apesar de as ações relacionadas ao PAC e ao PlanSeQ estarem ajudando
a relativizar as críticas antigas de que a política de qualificação está desarticulada
das demais políticas, a sobreposição de programas públicos é um fato. Em algumas
cidades ou territórios mais visados pelas iniciativas do poder público, há multipli‑
cação da oferta de cursos devido aos diversos projetos existentes.
O artigo problematizou a execução de um segmento da política pública de
qualificação profissional. Para aprofundar nos temas abordados, são necessárias

458 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 107, p. 438-460, jul./set. 2011
mais pesquisas que lancem luzes sobre os elementos envolvidos na equação pro‑
grama federal/execução local e a chegada da política na ponta, isto é, os atores
institucionais que contribuem para a entrega do serviço aos cidadãos.

Recebido em 26/4/2011  n   Aprovado em 13/6/2011

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460 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 107, p. 438-460, jul./set. 2011
Serviço Social e a saúde do trabalhador:
uma dispersa demanda
Social Welfare and health of the worker: a dispersed demand

Jussara Maria Rosa Mendes*


Dolores Sanches Wünsch**

Resumo: O presente artigo tem como objetivo discorrer sobre o


Serviço Social na área da Saúde do Trabalhador, demonstrando como
ao longo dos anos a profissão se aproxima dessa dispersa demanda.
Apontam‑se elementos que historicamente vêm norteando o debate
sobre o trabalho e a saúde, expressando avanços e contradições na área
da saúde do trabalhador. Para o Serviço Social, os desafios dessa área
do conhecimento vêm ampliando a exigência teórica e metodológica,
bem como ética e política para o enfrentamento das confrontações e
manifestações contemporâneas dessas duas categorias centrais: saúde
e trabalho.
Palavras‑chave: Saúde do trabalhador. Serviço Social. Espaços só‑
cio‑ocupacionais

Abstract: The present article has the objective of discuss about Social Work in the field of Worker’s
Health, showing the way Social Work get closer to this disperse demand. Elements that historically
surround the debate concerning work and health are pointed out, expressing the advances and contra‑
dictions within the field of worker´s health. For Social Work, the challenges in this field of knowledge
increase the theoretical and practical requirements for facing these confrontations and manifestations
of these two central categories: health and work.
Keywords: Worker’s health. Social Services. Social‑occupational spaces.

* Assistente social, doutora em Serviço Social (PUC-SP) e professora de Serviço Social da Universi‑
dade Federal do Rio Grande do Sul (UFGRS); Coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Saúde e
Trabalho (NEST/UFRGS) — Porto Alegre-RS, Brasil. E‑mail: jussara.mendes@ufrgs.br.
** Assistente social, doutora em Serviço Social (PUC-RS) e professora de Serviço Social da Universi‑
dade Federal do Rio Grande do Sul (UFGRS); Pesquisadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Saúde e
Trabalho (NEST/UFRGS) — Porto Alegre-RS, Brasi. E‑mail: doloressw@terra.com.br.

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Introdução

A
saúde do trabalhador constitui‑se área do conhecimento, investigação
e intervenção, que condensa um conjunto de determinações que vem
reconfigurando‑a ao longo das últimas décadas. Para o Serviço Social
em particular, a área se constitui numa exigência ética e política fren‑
te aos impactos das transformações sociais e de forma mais precisa no que se refe‑
re às grandes proporções que ocorrem na esfera do trabalho e seus desdobramentos
sobre a sociabilidade humana na atualidade. Observa‑se que a área da saúde do
trabalhador, historicamente, vem representando uma dispersa demanda para a pro‑
fissão, em que vários fatores contribuíram para o mascaramento dessa demanda.
Entre eles pode‑se se apontar questões endógenas à profissão norteada pela pers‑
pectiva conservadora e outros condicionantes que limitaram a compreensão sobre
o tema saúde e trabalho, bem como o pensamento hegemônico da concepção da
saúde do trabalhador presente na área. Esses aspectos foram confrontados com o
contexto social e político ao longo da década de 1990, e nos anos 2000 passam a
se constituir em um emergente campo de atuação profissional. Tal fato significa que
o assistente social é convocado e ao mesmo tempo se convoca a acolher e dar res‑
postas às refrações do trabalho sobre a saúde do trabalhador.
A expansão da área da saúde do trabalhador pode caracterizar‑se por meio de
dupla dimensão: uma decorrente da nova ordem do capital sobre o trabalho; outra
por conta do reconhecimento político da área, representado pela sua inserção, ain‑
da que insuficiente, no conjunto das políticas públicas e intersetoriais, resultante da
capacidade de organização de diferentes agentes políticos. No que se refere à pri‑
meira dimensão, esta assenta‑se no impacto dos novos padrões de acumulação
capitalista, ao se verificar, a partir do complexo da reestruturação produtiva1, uma
reconfiguração do trabalho, sendo cada vez mais indissociável a análise dessas
mutações sem compreender o seu impacto sobre a saúde. Na segunda dimensão, os
avanços políticos‑legais estão associados ao reconhecimento da concepção amplia‑
da de saúde e sua regulação como direito universal e, ainda, à incorporação da

1. “O ‘complexo de reestruturação produtiva’ envolve um sistema de inovações tecnológicas‑organiza‑


cionais no campo da produção social capitalista — por exemplo, a robótica e a automação microeletrônica
aplicada à produção; as novas modalidades de gestão da produção [...]. Além disso, é um importante com‑
ponente do complexo de reestruturação produtiva, dos vários tipos de descentralização produtiva [...]” (Alves,
2005, p. 11).

462 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 107, p. 461-481, jul./set. 2011
saúde do trabalhador no campo da saúde coletiva e em demais políticas públicas.
Tais fatores conjugam‑se ao crescimento da participação social na defesa e no
controle social de políticas públicas, bem como ao fortalecimento da organização
social dos trabalhadores e a incorporação nas pautas coletivas de necessidades
voltadas para a saúde e a proteção social e do trabalho, enquanto conquista da
mobilização de amplos setores da sociedade.
Esse cenário é o solo fértil da profissão, cujo objeto de intervenção comunga
das expressões presentes na saúde do trabalhador e que conforma a questão social
na atualidade. Ao mesmo tempo, a apropriação crítica e teórica do Serviço Social
amplia as possibilidades de compreensão das manifestações que repercutem sobre
o trabalho e a saúde presentes na tensão cotidiana do trabalho do assistente social
frente à questão social. Em diferentes espaços sócio‑ocupacionais, o Serviço Social,
atento à interface saúde e trabalho, vem incorporando essa demanda, embora por
vezes difusa, mas que demarcam e consolidam o seu lugar nessa área. Há de se
considerar, entretanto, que a temática integra a agenda da profissão de forma inci‑
piente. Ausente dos currículos e em grande parte do debate acadêmico, vem reve‑
lando a existência de lacunas na formação profissional em nível de graduação,
muitas vezes supridas pela possibilidade da formação permanente e no âmbito da
pós‑graduação.
Esse conjunto de constatações dão a dimensão dos desafios para o Serviço
Social na área, considerando as exigências no plano teórico e prático, representadas
por meio de questões sobre o contexto societário e indagações sobre os referenciais
teórico‑metodológicos, que fundamentam o trabalho do assistente social e suas
particularidades para o seu processamento, que é compartilhado por diferentes
campos do saber. Ou seja, o Serviço Social é requisitado a responder teórica, téc‑
nica e éticamente aos impactos da confrontação cotidiana presentes nos antigos e
novos contornos do processo de saúde‑doença e sua relação com o trabalho.
Assim, o presente artigo tem como objetivo apresentar e discorrer sobre ques‑
tões que estão sendo colocadas para o Serviço Social na área da saúde do trabalha‑
dor na atualidade. Constitui‑se, inicialmente, de uma breve contextualização sobre
reconhecimento da saúde do trabalhador enquanto campo teórico e político, de‑
monstrando sua evolução conceitual e rupturas como perspectivas unilaterais e
hegemônicas, além de elementos que são colocados no debate sobre o trabalho e o
perfil do trabalhador. Num segundo momento, o artigo trata da dimensão teóri‑
co‑metodológica na interface Serviço Social e saúde do trabalhador, buscando
responder aos processos sociais que vêm impactando a saúde e o trabalho na con‑

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 107, p. 461-481, jul./set. 2011 463
temporaneidade. Na sequência, problematizam‑se os espaços sócio‑ocupacionais
voltados para a área da saúde do trabalhador, os desafios para sua consolidação e
as respostas da profissão. Entende‑se que a abordagem proposta neste artigo sobre
a temática do Serviço Social e saúde do trabalhador expressam inquietações pro‑
fissionais e reflexões teóricas, as quais, acredita-se, são compartilhadas pelo con‑
junto de profissionais que atuam nessa área.

1. Trabalho e a saúde do trabalhador: entre rupturas e conservadorismo


A denominação saúde do trabalhador carrega em si as contradições engendra‑
das na relação capital e trabalho e no reconhecimento do trabalhador como sujeito
político. Ela representa o esgotamento de um modelo hegemônico que atravessou
décadas, e por que não dizer séculos, circunscrito num arcabouço legal e conser‑
vador que reconhecia um risco socialmente aceitável e indenizável à lógica do
capital dos acidentes de trabalho.
O surgimento da relação saúde e trabalho remonta à história social do trabalho
ao longo do tempo. Essa indissociabilidade vem exigindo respostas políticas, teó‑
ricas e sociais, cuja raiz está na compreensão do trabalho, seu significado e meta‑
morfoses. O trabalho, aqui entendido como processo dinâmico, representa para o
trabalhador sua história individual e também coletiva. A centralidade do trabalho2
(Antunes, 1999) nas vidas das pessoas é repleta de antagonismos e contradições,
pois ao mesmo tempo em que é propiciador de qualidade de vida, de satisfação das
necessidades básicas, pode também representar o seu anverso, devido às condições
destrutivas da organização trabalho3 na lógica do capital, que pode determinar a
produção de doenças e mortes.
A construção do conhecimento e a compreensão das múltiplas determinações
que constituem o processo saúde‑doença incorporaram a relação dialética entre o
capital e o trabalho na explicitação do conjunto de manifestações no corpo e na
mente dos indivíduos. Como refere Dias,

2. A centralidade do trabalho decorre do atender a necessidade da sociabilidade através da produção dos


meios de produção e de subsistência, indispensáveis à vida social. Transforma ainda o mundo natural e a
própria natureza humana de maneira permanente, criando possibilidades e necessidades sociais e individuais
objetivas e subjetivas (Lessa, 2007).
3. O trabalho tem uma dúplice e contraditória dimensão na medida em que possibilita criar, mas também
subordinar, humanizar e degradar, libertar e escravizar, emancipar e alienar (Antunes, 2005).

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os trabalhadores vivem, adoecem e morrem de forma compartilhada com a população
de um determinado tempo, lugar, e classe social, mas também, de forma diferenciada,
decorrente de sua inserção particular no processo produtivo, sustenta a proposição de que
esta especificidade deve ser contemplada no atendimento às suas necessidades de
saúde (Dias, 1994, p. 28).

Compreender a saúde nessa dimensão significa entendê‑la na divisão social e


técnica do trabalho. Representa entender “o processo de trabalho como espaço
concreto de exploração [...] e a saúde do trabalhador como expressão, igualmente
concreta, desta exploração” (Laurell e Noriega, 1989, p. 23). Os desafios são de
diferentes ordens, uma vez que o capital procura dissimular seu caráter de explo‑
ração, mas fica cada vez mais difícil esconder sua natureza, ou seja, “a nova ordem
teoriza e pratica, abertamente, as desigualdades como uma necessidade intrínseca
do capital” (Augusto, 2001, p. 170). Assim, fica exposta a estranha lógica na qual
a igualdade tem valor negativo e a desigualdade valor positivo, a fim de naturalizar
a mesma.
A configuração do trabalho no sistema capitalista tem apresentado, em seus
vários ciclos, sistemas gerenciais com evolução crescente da produção, da qua‑
lificação profissional, do ritmo de trabalho e da fragmentação do processo pro‑
dutivo. O contexto é de precarização, flexibilização, trabalho parcial, polivalência
de funções, redução dos postos de trabalho, aceleramento no ritmo da produção
e das ações somado ao desemprego estrutural, à implementação de novas tecno‑
logias, com salários em declínio e/ou instáveis. Ressaltam‑se ainda outras ques‑
tões relacionadas à precarização dos contratos de trabalho, tanto aquelas deno‑
minadas de precariedade objetiva (contrato por prazo determinado, trabalho
temporário) quanto as de precariedade subjetiva, tão ou mais prejudicial à saúde
quanto a anterior, como a instabilidade dos contextos técnicos e organizacionais,
em que se constata a fragilidade das organizações não governamentais e coope‑
rativas que fazem os contratos com os profissionais terceirizados, e a responsa‑
bilização dos assalariados, tornando‑os responsáveis pela sobrevivência das
empresas. Constitui momento predominante da atual produção do capital a bus­-.
ca do envolvimento do trabalhador enquanto disposição intelectual‑afetiva com
a lógica da valorização do capital, portanto para além do “fazer” e do “saber”
(­Alves, 2005).
Todas essas condições de trabalho levam a uma verdadeira sobressolicitação
mental, com uma sobrecarga informacional, um verdadeiro “soterramento” sob

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informações, hipersolicitação e tratamento paralelo de tarefas múltiplas, que pro‑
vocam uma situação que poderíamos chamar de transbordamento cognitivo (Fal‑
zon, 2007). Como uma sensação de transbordamento e saturação, impressão de
fazer o urgente passar na frente do importante, de não conseguir fazer o que se
planificou, sem compreender o porquê, de permanente insatisfação com o trabalho
realizado.
A reestruturação produtiva alterou substancialmente o perfil do trabalho e
dos trabalhadores, assim como os determinantes da saúde‑doença dos trabalha‑
dores. Essas alterações modificaram também o perfil da morbi‑mortalidade rela‑
cionada ao trabalho, assim como a organização e as práticas de saúde e trabalho
(Dias, 1994).
A necessidade de transformações de práticas sociais para uma abordagem
ampliada da saúde, para fazer frente aos crescentes índices de morbidade e morta‑
lidade da população, ocorreu em um momento de efervescência do movimento da
Reforma Sanitária e da democracia brasileira, e resultou na aprovação do Sistema
Único de Saúde (1990) e na reorganização das competências das ações de seguran‑
ça e saúde do trabalhador, na tentativa de superar a histórica fragmentação em três
áreas: saúde, trabalho e previdência.
Em uma retrospectiva histórica situa‑se o movimento de Reforma Sanitária
iniciado no início da década de 1980, como marco da área e da denominação “saú‑
de do trabalhador”. A consolidação do conceito legal pela Lei n. 8.080, de 1990,
do SUS — Sistema Único de Saúde, estabeleceu os procedimentos de orientação
básicos como forma de instrumentalização das ações e dos serviços em saúde do
trabalhador4.
Tradicionalmente, a atenção prestada aos trabalhadores se voltava para o
trabalho formal. Porém em tempos de transformações constata‑se que a precariza‑
ção das relações de trabalho, mudou sem dúvida, a forma de compreender a ques‑
tão, o que exigiu transformações radicais na maneira de se conceber e de se enfren‑
tar os problemas daí decorrentes. A análise, sob uma perspectiva evolutiva e
conceitual, indica que na medicina do trabalho o enfoque principal da determinação
do processo de saúde/doença é individual, biologicista, como demonstra a sistema‑
tização realizada por Mendes e Oliveira (1995), no quadro a seguir.

4. Essa lei foi definida e ampliada em 1998 pela portaria n. 3.908, pela Norma Operacional em Saúde
do Trabalhador — NOST‑SUS.

466 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 107, p. 461-481, jul./set. 2011
Quadro 1  Situando o desenvolvimento conceitual em saúde do trabalhador

Determinantes Ação Caráter Ator Cenário Papel do Campo da


do Processo Principal Principal Principal Usuário Saúde
Saúde/Doença da Ação

1. Biológico Tratamento Técnico Médico Hospital O usuário é Medicina .


da doença o objeto do Trabalho

2. Ambiental Prevenção Técnico Equipe Ambulatório Usuário e Saúde


da doença ambiente ocupacional
são objetos

3. Social Promoção Técnico/ Cidadão Sociedade Sujeito Saúde do


da saúde Político trabalhador

Fonte: Mendes e Oliveira, 1995.

A concepção atual de saúde do trabalhador entende o social como determi‑


nante das condições de saúde, sem negar que o adoecimento deve ser tratado e que
é necessário prevenir novas doenças, privilegiando ações de promoção da saúde.
Tal concepção entende que as múltiplas causas dos acidentes e das doenças do
trabalho têm uma hierarquia entre si, não sendo neutras e iguais, havendo algumas
causas que determinam outras (Mendes e Oliveira, 1995). Diferentemente das visões
dicotomizadas anteriores, propugna‑se que os programas de saúde incluam a pro‑
teção, a recuperação e a promoção da saúde do trabalhador de forma integrada, e
que sejam dirigidos não só aos trabalhadores que sofrem, adoecem ou se acidentam,
mas também ao conjunto deles (Dias, 1994). Essas ações devem ser redirecionadas
para se alcançar as múltiplas mudanças que ocorrem nos processos de trabalho,
sendo realizadas através de uma abordagem transdisciplinar e intersetorial e, ainda,
com a imprescindível participação dos trabalhadores.
Entre os inúmeros desafios, aponta‑se a necessidade de estruturação de uma
abordagem que tenha como meta a realização de ações coletivas, no âmbito da
vigilância, da promoção e da proteção da saúde nas quais o sujeito é parte essencial
dessa ação.
Portanto, a área da saúde do trabalhador na contemporaneidade transcende os
conhecimentos específicos da medicina do trabalho no sentido de compreender a
relação capital‑trabalho, na qual a saúde e o acidente de trabalho tornam‑se expres‑
são máxima das desigualdades geradas por esse conflito (Mendes, 2003). Torna‑se
fundamental, ao estudar a relação da saúde com o trabalho, entender como as so‑

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ciedades constroem a saúde e quais são as possibilidades de sobrevivência individual
e coletiva (Thébaud‑Mony, 2000). O trabalho está, contudo — por meio de sua
presença ou ausência —, totalmente ligado à evolução da questão da saúde, evi‑
denciando a atualidade do nexo produção‑reprodução da força de trabalho‑consu‑
mo‑ambiente‑saúde‑doença, vistos na sua integralidade (freire, 1995).
É importante reconhecer, ainda, na saúde do trabalhador, os desgastes físicos
provocados pela modalidade do trabalho repetitivo, associado agora à característi‑
ca polivalente da produção, e aos fatores psicossociais do desemprego crescente,
pois fornecem as bases para a criação de estratégias ao trabalhador. Se o local de
trabalho é o espaço no qual os processos organizativos estão disponibilizados para
alcançar determinados fins, é importante perceber que os elementos que o integram
não são homogêneos, pois os trabalhadores criam vínculos e regras próprias, e nem
sempre obedecem ao dito, ao mensurável, ao controlável. A observação dessas
práticas de trabalho, bem como das relações delas decorrentes, tornam‑se pertinen‑
tes em estudos que buscam compreender a relação do adoecimento com o trabalho.
Destaca‑se, portanto que a saúde do trabalhador pressupõe uma interface entre
diferentes alternativas de intervenção que contemplem as várias formas de determi‑
nação do processo de saúde‑doença dos trabalhadores (Mendes, 2003). É necessário
pensar a saúde do trabalhador desde a sua organização na sociedade e no trabalho,
compreendendo‑se essa realidade sob uma perspectiva de sujeitos coletivos, conhe‑
cendo‑os e reconhecendo‑os historicamente. Desse modo, é preciso, além do diag‑
nóstico e do tratamento, a implementação simultânea das modificações nos ambien‑
tes de trabalho, bem como o desenvolvimento de outras ações no âmbito da
organização desses ambientes, que devem estar em consonância com as múltiplas
mudanças nos processos de trabalho, as quais retratam a divergência de interesses
entre capital e trabalho, quando emergem as doenças e os acidentes de trabalho.
Os avanços no campo político e teórico sobre a saúde do trabalhador não pode
prescindir da construção de uma base legal e normativa que contemple diretrizes
políticas para a atenção e a promoção da saúde do trabalhador. Destaca‑se, assim,
pela Portaria n. 1.679, de 19 de setembro de 2002, a criação da Rede Nacional de
Atenção Integral à Saúde do Trabalhador (Renast), como estratégia para a elabora‑
ção desse instrumento, com ênfase nas ações assistenciais. Cabe ressaltar que essa
portaria foi apoiada pelos profissionais e técnicos dos Centros de Referência em
Saúde do Trabalhador — Cerest e setores do movimento dos trabalhadores, que
reconheceram na iniciativa as possibilidades de institucionalização e fortalecimen‑
to da saúde do trabalhador, no SUS. Pela primeira vez seria possível contar com

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um financiamento extrateto das ações, vinculado à operacionalização de um Plano
de Trabalho de Saúde do Trabalhador, em nível estadual e municipal. A partir de
2003, a coordenação da Área Técnica de Saúde do Trabalhador do Ministério da
Saúde priorizou a implementação da Renast como a principal estratégia da Política
Nacional de Saúde do Trabalhador (PNST) para o SUS (MS, 2004).
Essas ações são parte do debate em torno da articulação da área e da constru‑
ção da proposta de Política Nacional de Segurança e Saúde do trabalhador — PNSST
contendo importantes proposições e contemplando os papéis a ser desempenhado,
entre outros, pelo Ministério da Saúde (assistência e vigilância), Ministério da
Previdência (benefício por incapacidade e implementação do nexo epidemiológico
presumido) e Ministério do Trabalho (diretrizes e normas de SST). Assim, a segu‑
rança e Saúde do Trabalhador — SST atende o intento de ampliação das ações de
promoção, resultando na ampliação da cobertura dos trabalhadores, na harmoniza‑
ção de normas e articulação de ações; precedência da prevenção sobre a reparação;
estruturação de uma rede integrada em SST; reestruturação da formação em SST;
promoção de uma agenda integrada de estudos e investigação em SST (Lacaz, 2010).
Porém, apesar desse esforço, não há ainda a efetivação da PNSST em decreto pre‑
sidencial, para assim viabilizar efetivamente as ações propostas nelas contidas. Há
de se considerar ainda divergências constantes na proposta da política, as quais
representam questões de concepção travestidas, por vezes, de terminologias que,
na sua essência, ocultam históricas tensões entre as áreas.
Ao demonstrar as implicações do trabalho sobre a saúde e os constantes em‑
bates que delineiam a área de saúde do trabalhador, identificam‑se nas relações sociais
da sociedade capitalista distintas perspectivas no campo ético, político e econômico.
Tal constatação demanda sólido conhecimento teórico‑metodológico e a articulação
com as forças sociais, na defesa da saúde do trabalhador, como direito, e no sentido
da emancipação do trabalhador, rompendo com abordagens conservadoras que
concebe o adoecimento como fenômeno estranho ao processo de produção.

2. Apontamentos sobre a dimensão teórico‑metodológica do Serviço Social


na saúde do trabalhador
Tem‑se na teoria social crítica a apropriação e a possibilidade da mediação da
realidade que perpassa as duas categorias centrais e vitais, que são a saúde e o

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trabalho. Os embates teóricos que fundam o pensamento social frente ao capitalis‑
mo contemporâneo são dilemas que vêm desafiando a profissão, em simetria com
a área da saúde do trabalhador. Ou seja, a mundialização da economia com sua
crescente financeirização, o complexo de reestruturação produtiva, os embates em
torno das políticas sociais e o papel do Estado são processos sociais em curso, que
só podem ser compreendidos no campo teórico‑metodológico, à luz do materialis‑
mo dialético‑histórico.
O Serviço Social e a saúde do trabalhador referenciada na perspectiva da
matriz marxista constituem “o fundamento para análise teórica da produção das
condições materiais da vida social” (Netto, 2009, p. 682). Indissociavelmente, para
entender a estrutura e a dinâmica da sociedade e determinações sobre o objeto
saúde do trabalhador, há necessidade de um conhecimento dotado de força social
e política para assim incidir sobre a realidade concreta circunscrita na saúde e no
trabalho.
Portanto, ao evidenciar, o contexto social e político que envolve a saúde do
trabalhador, é inegável o impacto de suas particularidades nos diferentes e crescen‑
tes espaços sócio‑ocupacionais voltados para a atenção à esse aspecto. Trata‑se,
aqui, da necessidade de ampliar a busca pela compreensão das transformações
sociais para ressignificar a realidade vivenciada pelos profissionais e pelos sujeitos
vinculados à sua ação e, acima de tudo, para compreender como e onde se produz
o processo de saúde‑doença. Além disso é preciso, identificar quais as necessidades
produzidas por ele e como se dá o processamento do trabalho nessa área. São ques‑
tões que vêm demandando respostas, como já mencionado, no deciframento e na
compreensão do contexto sócio‑histórico, mas entendendo que a saúde do traba‑
lhador envolve, necessariamente, outros quatro grandes pilares que representam e
ampliam as mediações no campo ético‑político, teórico‑metodológico e técnico‑ope‑
rativo: a) a concepção de saúde; b) o processo de saúde‑doença e seus determinan‑
tes sociais; c) a proteção social; d) a concepção de saúde do trabalhador. Assim,
identificam‑se categorias teóricas e também constitutivas da realidade com a qual
o assistente social trabalha, fundamentalmente, por traduzir um conjunto de ele‑
mentos que contribuem para o desocultamento e ao mesmo tempo para o enfrenta‑
mento do processo de saúde‑doença por meio da identificação das necessidades de
proteção social nele presentes e que são fundamentais para compreender o concei‑
to de saúde do trabalhador.
Ao trazer inicialmente a base conceitual de categoria saúde objetiva‑se expli‑
citar que a noção ampliada de saúde caracteriza‑se pela sua dimensão social, eco‑

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nômica e política, ou seja, como aponta Thébaud‑Mony e Appay (2000), a saúde é
um processo dinâmico que se insere em diferentes lógicas, ou seja, representa por
onde “o indivíduo se constrói e caminha, se inscreve no trabalho, nas condições de
vida, nos acontecimentos, nas dores, no prazer, no sofrimento e em tudo o que
constitui uma história singular, mas também a história coletiva”.
Nessa perspectiva, a saúde é resultado das possibilidades de satisfação de ne‑
cessidades básicas materializadas em direitos sociais, o que pressupõe a articulação
das diferentes interfaces sociais entre modo de viver e acesso que os indivíduos têm
aos bens e serviços, os quais contribuem para redefinir o binômio saúde/doença
(Mendes, 2003). Entende‑se, dessa maneira, que a saúde representa o acesso a um
conjunto de condições básicas necessárias e um mecanismo de enfrentamento das
desigualdades sociais. Reconhecidamente de forma materializada no plano legal,
pelo conceito contemplado pela Lei n. 8080, que dispõe sobre o Sistema Único de
Saúde no SUS (1990), a saúde é “resultante das condições de alimentação, educa‑
ção, renda, meio ambiente, trabalho, transporte, emprego, lazer e liberdade, acesso
à propriedade privada da terra e dos serviços de saúde” (Brasil, 1990).
Esse conceito representa não apenas um avanço legal, mas o reconhecimento
do acúmulo produzido no campo do conhecimento que rompeu com conceituações
construídas ao longo história social que vinculam saúde a causalidades unilaterais,
conhecimento este incorporado pelo movimento da sociedade e de seus agentes
políticos no bojo da Reforma Sanitária do Brasil em meados da década de 1980.
Assim, os princípios que fundaram o Sistema Único de Saúde no Brasil, a partir da
concepção ampliada de saúde, vão exigir políticas que atendam as diferentes ne‑
cessidades em saúde. São princípios constituídos pela universalidade, integralidade
e equidade e pela defesa da promoção à saúde, participação da população e dever
do Estado. Sua efetivação requer políticas sociais e ações intersetoriais que contri‑
buam para o enfrentamento do processo de saúde e doença.
As determinações sociais do processo de saúde‑doença representam as con‑
dições sociais objetivas de vida e de trabalho da população. Reconhecem, assim, a
saúde e a doença como um processo social, fundamentado na base material de sua
produção e na articulação de processos biológicos e sociais. Isso ficou demonstra‑
do pelos estudos de Laurell (1983), que explicita, fundamentalmente, a relação
trabalho‑saúde. Suas pesquisas mostram as mudanças do perfil epidemiológico
através do tempo e evidenciam o caráter social no estudo comparativo, possibili‑
tando ver que o adoecer/morrer são distintos nas diferentes classes sociais, demons‑
trando que as doenças são socialmente produzidas e historicamente determinadas.

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 107, p. 461-481, jul./set. 2011 471
No que tange ao trabalho, destaca‑se o lugar da organização social da produção,
das expressões do trabalho hoje e as contradições presentes no desenvolvimento
das forças produtivas que impactam sobre a saúde. Traduzem‑se em processos de
adoecimento e de exclusão do “mundo do trabalho”, de perda do reconhecimento
e identidade social do trabalhador, atingindo sua subjetividade e condicionando
formas de ser e de viver.
A compreensão das multicausalidades e diferentes interfaces explicitadas a
partir da concepção de saúde, do processo de saúde e doença na sua relação com o
trabalho, constitutiva de determinações sociais, pressupõe reconhecê‑las como
demandas sociais a serem respondidas pelo Estado. Entretanto, o que a história
recente tem demonstrado é que o atendimento dessas demandas depende da capa‑
cidade de poder dos diferentes agentes sociais e políticos transformarem suas ne‑
cessidades em demandas políticas (Fleury, 1994), levando, assim, o Estado a dar
respostas aos efeitos produzidos pela desigualdade social. Resposta constitutiva da
formatação dos sistemas de proteção social que passa a representar, na perspectiva
da análise explicitada na concepção de saúde, mecanismos de enfrentamento aos
determinantes sociais que incidem no processo de saúde‑doença e trabalho.
Entende‑se, a partir desses apontamentos, que a proteção social representa a
estruturação de um conjunto de políticas sociais que se efetivam pela intervenção
do Estado visando à satisfação das necessidades sociais. Tais políticas resultam do
reconhecimento das contradições existentes na sociedade capitalista e da concen‑
tração da riqueza coletivamente produzida. Esse reconhecimento é, historicamente,
fruto da capacidade da classe trabalhadora de denunciar e de se rebelar contra for‑
mas de opressão e ausência de condições básicas para a sua reprodução. A proteção
social é compreendida como “um conjunto de ações, institucionalizadas ou não,
que visam proteger a sociedade ou parte desta dos impactos de riscos naturais e/ou
sociais que incidem sobre o indivíduo e a coletividade, os quais decorrem funda‑
mentalmente das desigualdades sociais que acompanham os diferentes estágios da
sociedade capitalista” (Mendes, Wünsch e Couto, 2006).
A evolução dessa proteção social representa formas distintas de enfrentamen‑
to da questão social e responde inicialmente à organização do trabalho, avançando
para o reconhecimento dos direitos inerentes à condição de cidadania (Fleury e
Ouverney, 2008). Isso significa uma concepção de proteção social que engloba a
noção de seguridade social (Pereira, 2000) e que vem superando a visão de seguro
social que predominou nas primeiras legislações sociais. A seguridade social via‑
biliza‑se por meio de políticas públicas que atendam, portanto, as mais diferentes

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situações de vulnerabilidade social que atingem os cidadãos, sejam elas decorren‑
tes das relações sociais de produção, sejam consequência das contingências naturais
dos ciclos vitais. A proteção social se afirma como mediações que concretizam
direitos sociais, na inter‑relação entre o político e o econômico na sociedade capi‑
talista, uma vez que expressa a correlação de forças e embates políticos entre as
classes sociais.
Na área da saúde do trabalhador, tem‑se a proteção social como balizadora
dos direitos a ele relacionados. Ela passa a ser definidora das reais e efetivas con‑
dições de garantia e preservação das condições de vida da classe trabalhadora.
Também se constitui um indicador das insuficientes condições de reprodução social
advindas do ofensivo movimento do capitalismo sobre o trabalho humano, ao lon‑
go de seu processo de acumulação.
No Brasil, a Seguridade Social contemplada constitucionalmente institui três
grandes políticas sociais como constitutivas da proteção social: a Saúde, a Previ‑
dência Social e a Assistência Social. Isto representa avanços importantes, funda‑
mentalmente no campo da política de saúde, pela sua universalidade e pelo reco‑
nhecimento da Assistência Social como política pública. Inaugura também uma
nova relação entre Estado e a sociedade pelo seu caráter descentralizado e partici‑
pativo. Entretanto, este modelo, enseja contradições históricas que não foram su‑
peradas, cujos reflexos incidem e se visibilizam na análise que se faz sobre o tra‑
balho e a saúde do trabalhador. Factualmente o que se constata é que as refrações
das expressões do trabalho presentes na saúde do trabalhador são respondidas pelo
Estado de forma insuficiente.
A Previdência Social, que se constitui como núcleo central e histórico do
sistema brasileiro de proteção social, não supera a clivagem entre capazes e inca‑
pazes para o trabalho, reforçando que é o trabalho que define quem tem ou não
direitos (Boschetti, 2008). A natureza contratualista e securitária da Previdência
reafirma, como bem destaca Fleury, “o caráter público do seguro social introduz
uma contradição entre o vínculo individual e a garantia social do benefício” (1994,
p. 154). O modelo de proteção social brasileiro estruturado através do trabalho
assalariado produziu grandes lacunas ao longo de sua evolução, que se ampliaram
a partir das necessidades que emergem das novas formas produtivas, as quais alte‑
ram não só a natureza dos processos de trabalho, mas, principalmente, o emprego
formal e as relações de trabalho, constando‑se assim um incontável número de
trabalhadores desprotegidos socialmente.

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 107, p. 461-481, jul./set. 2011 473
A fronteira entre proteção e desproteção social tensiona cotidianamente a saú‑
de do trabalhador, particularizada no reconhecimento da relação trabalho e saúde.
Tal fronteira situa‑se na arena de conflitos do capital e trabalho, cujas manifestações
principais estão relacionadas às condições em que o trabalho se realiza e à caracte‑
rização de doenças e acidentes relacionados ao trabalho. Ela repercute fundamen‑
talmente no acesso ou não à renda legalmente instituída por meio “benefícios” pelo
modelo de Previdência Social, seja pela ausência do reconhecimento do adoeci‑
mento seja, pela falta de vínculo com o sistema.
Aponta‑se a Previdência Social como política social estratégica no campo da
proteção social e dos direitos sociais, dado ao seu caráter distributivo de renda, sem,
contudo, se dissociar das prerrogativas da política de saúde. Indica‑se, também a
lacuna presente entre Previdência e Assistência, na qual a segunda não consegue
suprir as necessidades representadas pelo contexto do trabalho e de suas caracte‑
rísticas amplamente já referidas.
A direção apontada sobre a proteção social e a saúde do trabalhador situa‑se
na elevação do papel do Estado numa perspectiva contra‑hegemônica dos trabalha‑
dores frente à imposição do capital sobre o Estado. Destaca‑se que os avanços
ocorridos nesse campo são produtos históricos, da permanente busca dos trabalha‑
dores pelos seus direitos, mas atentos que estes, os direitos sociais, “não significam
a superação da desigualdade e nem das formas de opressão vigente na vida cotidia‑
na” (Behring e Santos, 2009 p. 280).
Reafirma‑se, a partir das perspectivas apontadas, a definição de saúde do
trabalhador como um processo dinâmico, social, político e econômico, que envol‑
ve diferentes manifestações de agravos relacionados aos processos de trabalho e
aos processos sociais e que requer a articulação de um conjunto de conhecimentos
e intervenções que possam incidir sobre as condições efetivas do processo de
saúde‑doença e de proteção social.
Essa formulação adquire sentido por meio da mediação teórico‑metodológica,
cuja perspectiva crítica conduz à identificação e à compreensão da construção social
de invisibilização do processo de saúde‑doença no trabalho. O cenário de desigual‑
dade social, ao mesmo tempo em que produz esse processo, o oculta. A invisibili‑
dade é resultante de aspectos objetivos e subjetivos nas relações sociais e que
contribuem para tornar o fenômeno saúde‑doença individualizado, descontextuali‑
zado e naturalizado. Os processos de adoecimento são ocultados frente à precari‑
zação das condições e relações de trabalho, o que vem levando ao não reconheci‑

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mento dos agravos relacionados ao trabalho e à consequente ausência de proteção
social (Wünsch, 2005).
Evidenciar a construção social da invisibilidade do processo de saúde‑doen‑
ça e compreendê‑la significa tornar possível o desvendamento dos mecanismos
sociais que ocultam esse processo e encontrar possibilidades de ação. Isso resulta,
na perspectiva de superação do que vem limitando a área da saúde do trabalhador
a incorporar os seus avanços e, ao mesmo tempo, possibilitar a construção crítica
do conhecimento frente ao já instituído. Entendem‑se os diferentes espaços só‑
cio‑ocupacionais em que a saúde do trabalhador se apresenta como objeto profis‑
sional para o assistente social, com imensos desafios. Porém a contribuição e as
respostas da profissão não podem prescindir da busca e da elucidação da realidade
social, bem como do reconhecimento, do lugar e do papel do trabalhador nesse
contraditório campo de intervenção.

3. Espaços sócio‑ocupacionais e os desafios e respostas do Serviço Social


para a área da saúde do trabalhador
Os espaços sócio‑ocupacionais que requerem a presença do assistente social
na área da saúde do trabalhador representam o conjunto de serviços e programas
que expressam a dinâmica das políticas sociais e da sociedade, bem como dos
processos sociais que incidem nas antigas e novas demandas atendidas nesse cam‑
po. Esses espaços são expressões que conjugam, ao mesmo tempo, os avanços
políticos da área e as refrações do trabalho sobre a saúde. Para o Serviço Social, o
significado é de reconhecimento do papel e perfil profissional para com a área.
Contudo, também se entende que as requisições desse trabalho confrontam‑se com
a condição de trabalhador assalariado, resultando numa tensa relação dessa condi‑
ção com o projeto ético‑político da profissão (Iamamoto, 2007). As contradições
presentes nesses espaços dão a dimensão dos desafios para que sejam efetivados
projetos que qualifiquem as ações profissionais na busca de respostas inovadoras
que repercutam sobre as condições sociais e materiais da população trabalhadora.
O trabalho na área da saúde do trabalhador assume características interdisci‑
plinares e intersetoriais, representado pela sua natureza multidimensional. O traba‑
lho do assistente social é requisitado em diferentes instituições, na prestação direta
de serviços e execução de programas, cujos principais espaços profissionais são:

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atenção básica de saúde, centros regionais de referência em saúde do trabalhador,
hospitais públicos ou privados e serviços ambulatoriais referenciados, previdenciá‑
ria social como espaço específico para o Serviço Social e reabilitação profissional,
institutos próprios de previdência, serviços de medicina e segurança do trabalho
vinculado a empresas e/ou instituições terceirizadas, gestão de recursos humanos
para o desenvolvimento de programas voltados para a saúde do trabalhador, sindi‑
catos que desenvolvem programas de promoção da saúde e defesa de direitos,
serviços de vigilância e educação em saúde, trabalhos de assessoria e consultoria,
organizações de ensino e pesquisa em saúde, entre outras áreas.
Entretanto, essa multiplicidade de espaços de intervenção precisa ser com‑
preendida a partir da clareza dos limites representados pelos diferentes embates
políticos e teóricos que refletem na implementação das políticas de saúde do traba‑
lhador. Em outras palavras, como refere Raichelis (2010), os espaços profissionais
condensam, e são confrontadas concepções, valores, intencionalidades, propostas
de sujeitos individuais e coletivos, articulados em torno de distintos projetos em
disputa no espaço institucional.
Nessa perspectiva, aponta‑se outro dilema colocado para a profissão, que é o
de identificar os nós górdios que vêm historicamente engessando as estruturas e
determinando condutas profissionais e técnicas conservadoras e reprodutoras de
antigas estratégias travestidas de novas. Transformam‑se direitos sociais em “be‑
nefícios” estabelecendo uma tênue relação entre a garantia e/ou assistencialização
desse direito.5
Pensar a intervenção na área da saúde do trabalhador e os diferentes condi‑
cionamentos sobre o processo de trabalho em que se insere o assistente social requer,
portanto, um conjunto de competências e exigências. Assim, alguns elementos
constituem‑se como eixos norteadores para o trabalho. Inicialmente, aponta‑se o

5. Deve‑se registrar, que históricos espaços profissionais nas políticas voltadas para a saúde do traba‑
lhador de natureza pública, como na Previdência Social, e/ou de caráter privado, a exemplo do Serviço Social
da Indústria — SESI, representaram os primórdios da profissão na área. Entretanto, esses também são pro‑
dutos históricos de práticas que oscilam entre o conservadorismo e a busca de rupturas que acompanham o
processo de renovação da profissão nas décadas de 1970 e 1980. Ao mesmo tempo, destaca‑se que ocorreu
um esvaziamento desses espaços na década de 1990, em especial na Previdência Social, recuperados recen‑
temente após ampla mobilização da categoria, que resultou no ingresso de um contingente significativo de
profissionais e que se encontram no momento em franco embate com o racionalismo e o conservadorismo
institucional frente à necessidade de implementação de projetos político‑institucionais e intersetoriais na área
da saúde do trabalhador.

476 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 107, p. 461-481, jul./set. 2011
caráter interdisciplinar do trabalho, demarcando um lugar que conjuga os diferen‑
tes conhecimentos e as especificidades das profissões ali inseridas, conferindo uma
dimensão processual ao trabalho para superar a fragmentação do saber e das limi‑
tações encontradas durante o processo de intervenção e de conhecimento.
A compreensão das diferentes dimensões que envolvem os processos de
saúde‑doença e trabalho potencializa e amplia o próprio espaço profissional no
enfretamento das suas determinações. Para tanto, nessa perspectiva, o trabalho do
assistente social se materializa na capacidade de trabalhar em equipes com forma‑
ção interdisciplinar, buscando a intersetorialidade e a interface da saúde do traba‑
lhador com as demais políticas sociais. Esse trabalho exige uma abordagem inte‑
rinstitucional, de reconhecimento das diferentes instituições e programas que estão
relacionados a esse campo, em particular os vinculados à Seguridade Social, con‑
tribuindo assim para a integralidade das ações e de universalidade no acesso aos
serviços em todos os níveis de proteção social.
Significa, assim, situar o objeto de trabalho do assistente social na saúde do
trabalhador no processo de saúde‑doença e suas expressões decorrentes do trabalho
e diretamente atreladas ao processo de produção e reprodução social que incidem
na vida do trabalhador. Para tal, pressupõe dos profissionais o conhecimento teóri‑
co‑metodológico e requer uma intencionalidade crítica, clareza ética, que se ex‑
pressa no compromisso político com a transformação e a superação do seu objeto.
Portanto, requer um conjunto de competências, as quais perpassam a compreensão
das relações que envolvem o processo de saúde‑doença e trabalho; das múltiplas
vivências dos sujeitos e de como percebem o processo de adoecimento; do conhe‑
cimento das políticas sociais e dos princípios que as norteiam; da capacidade de
leitura crítica da realidade, de análise socioinstitucional e de articulação com a rede
de serviços; da capacidade de desvendamento da questão social dando visibilidade
à mesma a partir da apreensão das suas expressões no processo de saúde‑doença e
trabalho, na demanda institucional, na vida dos sujeitos e nos impactos desse pro‑
cesso na família e no meio social; da postura investigativa, interpretativa, crítica,
ética, de escuta, reflexiva, relacional, propositiva, da capacidade de mobilizar pes‑
soas, profissionais e instituições; da capacidade de trabalhar interdisciplinarmente
no planejamento, na gestão, na execução e na implementação de políticas e na
avaliação delas; da capacidade de avaliação do impacto e da efetividade do trabalho
profissional com vistas a incidir de forma qualitativa no objeto de intervenção; da
sistematização e reflexão acerca do processo de trabalho e disseminação do conhe‑
cimento a partir dele.

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 107, p. 461-481, jul./set. 2011 477
Reitera‑se que as competências evidenciadas são construídas a partir de um
referencial teórico crítico que articula as diferentes dimensões do processo de tra‑
balho na área, mas que deve se aliar à capacidade de esses profissionais estabele‑
cerem mecanismos de formação permanente, — o que implica um aprendizado
sistemático que valorize a experiência profissional e a reflexão sobre a mesma,
resultando em novas estratégias de intervenção, vislumbrando novos “sentidos”
para o trabalho e ao mesmo tempo ampliando o significado social da profissão.

Considerações finais
Os desafios colocados para o assistente social na área da saúde do trabalhador
representam dilemas compartilhados e debatidos pelo conjunto da categoria. Neles
estão presentes questões que remetem ao constante embate entre projetos políticos
e ético‑políticos da profissão.
Nessa área do conhecimento e intervenção, o assistente social é requisitado a
responder a demandas legitimadas pelas contradições produzidas na ofensiva do
capital sobre os trabalhadores. O trabalhador Assistente Social não fica imune às
confrontações advindas desse contexto. Sobre ele impactam também as mesmas
exigências colocadas sobre o trabalho e os agravos sobre a sua saúde do conjunto
dos trabalhadores. Conjugam‑se a essa realidade as condições objetivas para exer‑
cer o trabalho, os limites colocados pelos órgãos empregadores, pelas relações de
poder, pelo estatuto político‑legal e recursos programáticos e financeiros, entre
outras determinantes que interferem nas atribuições profissionais. A concretude do
trabalho profissional oscila entre o reconhecimento do trabalhador, o impacto de
suas ações sobre a saúde e o trabalho e os limites resultantes de múltiplas determi‑
nações sobre o processo de trabalho em que se insere o assistente social.
As diferentes formas de precarização do trabalho e o crescimento dos aciden‑
tes e adoecimento resultantes do trabalho e as necessidades, daí resultantes, são
marcas históricas que sinalizam para a sociedade o lugar desse fenômeno, como
produto das relações sociais da sociedade capitalista. Ao Serviço Social compete
realizar o enfrentamento das diferentes formas e dimensões de como se dá à pro‑
dução e reprodução das relações sociais. Assim, deve a profissão, como bem apon‑
ta Iamamoto (2007), contribuir para a progressiva democratização dessas relações.
A saúde do trabalhador choca‑se com a lógica do capital, onde estão repre‑
sentados distintos interesses de classe e na dimensão dos acidentes e das doenças

478 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 107, p. 461-481, jul./set. 2011
resultantes do trabalho ocorre a ampliação e a visibilidade que marcam essas con‑
tradições existentes. Por isso a necessária ruptura com perspectivas conservadoras,
neoconservadoras e moralizadoras presentes na área, as quais vêm se constituindo
em obstáculos, principalmente, para a promoção de políticas voltadas para a saúde
do trabalhador, que representem a defesa da saúde enquanto direito.
Portanto, as mediações políticas, teóricas e metodológicas processadas pelo
assistente social na sua imersão na área da saúde do trabalhador expressam amplas
possibilidades, as quais devem ser construídas a partir da participação das forças
políticas, de estabelecer mecanismos que superem a fragmentação das políticas
específicas e transversais da saúde do trabalhador, reconhecimento e elevação do
papel do Estado, na ampla necessidade de compreender que só há efetivo desen‑
volvimento social à luz do reconhecimento da defesa do trabalho e da saúde.
Os desafios apontados na interface entre Serviço Social e saúde do trabalhador,
devem orientar novas problematizações para a área, contribuir para o avanço do
conhecimento e, acima de tudo, enfrentar o que se identificou aqui como uma dis‑
persa demanda. Essa demanda é constitutiva da direção ético‑política da profissão
e das exigências impostas pela realidade social.
Nessa perspectiva é que se assinala a necessidade imperiosa da plena apro‑
priação de referenciais teóricos e metodológicos como definidores do trabalho
profissional e da contribuição para área da saúde do trabalhador. Para tanto é im‑
prescindível sua incorporação na agenda política da categoria em articulação com
outras forças políticas comprometidas com a saúde do trabalhador. É preciso pensar
na saúde do trabalhador para além de condição necessária à reprodução social da
classe trabalhadora, mas como um direito social inerente ao homem, condição in‑
dispensável para a vida e a sociabilidade humana.

Recebido em 8/4/2011  n   Aprovado em 13/6/2011

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Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 107, p. 461-481, jul./set. 2011 481
O Serviço Social e a área de gestão de pessoas:
mediações sintonizadas com a Política Nacional
de Humanização no Hospital Giselda Trigueiro*
The Social Services and the area of people management: mediations in tune
with the National Policy of Humanization of Hospital Giselda Trigueiro

Maria Figuerêdo de Araújo Regis**

Resumo: Este artigo socializa possibilidades concretas de atuação


do Serviço Social em processos de trabalho na área de gestão de pessoas
em saúde pública, a partir de experiência no Hospital Giselda Triguei‑
ro, Natal, Rio Grande do Norte. Revela a importância da inserção de
assistentes sociais nesses processos e, particularmente, da opção pelo
projeto ético‑político profissional para o desenvolvimento e ampliação
de atividades coerentes com a Política Nacional de Humanização, que
por sua vez, busca a efetivação dos princípios do Sistema Único de
Saúde, tanto no âmbito da atenção como da gestão em Saúde.
Palavras‑chave: Serviço Social. Gestão de pessoas. Projeto Ético‑Po‑
lítico Profissional. Política Nacional de Humanização. Sistema Único
de Saúde.

Abstract: This article socializes concrete possibilities for action in cases of Social services in the area
of people management in public health, from experience in Hospital Giselda Trigueiro, Natal, Rio Gran‑
de do Norte. Reveals the importance of social workers inclusion of these processes, and particularly, the

* Texto fruto da inserção em processos de trabalho, a partir de 2009, como assistente social, assessora
do Núcleo de Recursos Humanos e coordenadora do colegiado gestor da Unidade de Gestão de Pessoas do
Hospital Giselda Trigueiro, Natal/RN, Brasil.
** Assistente social e mestra em Serviço Social pela UFRN — Natal/RN, Brasil. Professora do Pro‑
grama de Pós‑Graduação Lato Sensu da Facex, Natal (RN), assessora de Recursos Humanos e coordena-
dora do colegiado da Unidade de Gestão de Pessoas do Hospital Giselda Trigueiro, Natal (RN). E‑mail:
marialotus@bol.com.br.

482 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 107, p. 482-496, jul./set. 2011
choice of project ethical political professional development and expansion of activities consistent with
the National Policy of Humanization, which in turn, seeks effectuation of the principles of the Unique
Health System, both under the care and management in Health.
Keywords: Social Work. People management. Project Ethical‑Political Professional. National Policy
of Humanization. Unique Health System.

Introdução

O
s anos 1990 no Brasil despontaram com desafios históricos, que se
referem, entre outros, à concretização de avanços teóricos/legais ex‑
pressos na Constituição de 1988. Um exemplo de tais desafios é a
sistematização de uma política de saúde tratada como um direito social
a ser garantido pelo Estado de forma universal, igualitária e gratuita a todos os
brasileiros, que inclui a criação e a sustentação do Sistema Único de Saúde (SUS).
Como mostra Menicucci (2006, p. 59), esses avanços têm facilitado a defini‑
ção de uma engenharia institucional capaz, entre outras coisas, de

estabelecer arranjos federativos que definam de forma eficaz as relações intergover‑


namentais e resolvam os problemas da coordenação, fundamentais no contexto de
uma política descentralizada e de grandes heterogeneidades regionais e municipais,
tanto em relação às capacidades financeiras, técnicas e organizacionais, quanto no
perfil sanitário e nas características políticas.

Mas, apesar de ganhos no setor de saúde, tanto no trato à cobertura quanto à


qualidade da atenção e gestão, são visíveis as ambiguidades e dificuldades da assis‑
tência na área, em grande parte herdadas dos anos 1960, que contribuiram para a
formatação de um “sistema dual”, ou seja, uma assistência com dupla instituciona‑
lidade, tanto quanto ao acesso, financiamento e produção de serviços de saúde, como
de atuação governamental: uma forma pública — estatal na qual a ação de governo
busca garantir o direito constitucional à saúde, e outra privada que objetiva regular
o mercado, buscando garantir a concorrência, e assim desenvolver esse mercado,
bem como os direitos do consumidor que adquire planos privados de saúde.
Trata‑se de questões que vão além da órbita governamental e do sistema pú‑
blico, e como afirma tal autora, “tem sido negligenciadas, tanto nas análises com
objetivos mais técnicos e práticos, quanto nas pesquisas de caráter mais acadêmico”
(Menicucci, 2006, p. 59), ao contrário do que ocorre quando se trata de estudos

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 107, p. 482-496, jul./set. 2011 483
sobre o funcionamento interno do SUS, principalmente em termos de financiamen‑
to, capacidade de gestão e definição de fluxos assistenciais.
Sem desconsiderarmos a importância de estudarmos tais questões, neste arti‑
go, focaremos aspectos internos do SUS, quando nos voltaremos para a socialização
de modos de produzir a saúde, a partir de processos de trabalho na área de gestão
de pessoas, nos quais se inserem diversos profissionais, entre eles assistentes sociais;
modos esses que não estão desvinculados das questões externas ao Sistema e influem
diretamente no desenvolvimento de uma atenção e gestão de qualidade no âmbito
da saúde pública.
Nesse sentido, faremos no primeiro momento algumas reflexões sobre a Po‑
lítica Nacional de Humanização — PNH e a sua importância para um SUS de
qualidade. Em seguida, trataremos do Serviço Social inserido na área de gestão de
pessoas, com enfoque na Unidade de Gestão de Pessoas — UGP do Hospital Gi‑
selda Trigueiro — HGT, quando socializaremos algumas mediações importantes
para o desenvolvimento da PNH. Busca ainda incentivar a capacitação de estudan‑
tes e profissionais nessa área em expansão, inclusive, para assistentes sociais.

1. A PNH: movimento em prol de mudanças nos modelos de atenção e


gestão da saúde pública
Estratégias no campo de pesquisas e políticas, dentre elas a PNH, criada em
2003 pelo Ministério da Saúde,1 busca superar aspectos como

O despreparo dos profissionais e demais trabalhadores para lidar com a dimensão


subjetiva que toda a prática de saúde pressupõe. Ligado a esse aspecto, um outro que
se destaca é a presença de modelos de gestão centralizados e verticais, desaproprian‑
do o trabalhador de seu próprio processo de trabalho. (PNH, 2009, p. 8)

A humanização passa a ser tratada como política a ser aplicada de forma


transversal na rede SUS (o que inclui os diversos serviços do Sistema), devendo

1. A PNH é fruto da sistematização de ideias e práticas de diversos profissionais no Brasil adeptos ao


Projeto de Reforma Sanitária brasileiro e, portanto, comprometidos com a sustentabilidade de uma política
de saúde pública universal de qualidade. Para um maior aprofundamento sobre esse Projeto, ver Paim (2008),
Bravo (1996) e Teixeira (1989).

484 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 107, p. 482-496, jul./set. 2011
ser entendida como a “valorização dos diferentes sujeitos implicados no processo
de produção de saúde: usuários, trabalhadores e gestores” (PNH, 2009, p. 8).
Os princípios dessa política tocam no âmago de problemas reais no SUS que
são: compartimentalização de saberes, problemas no fluxo da comunicação entre
os trabalhadores, separação entre a atenção e gestão dos serviços de saúde e a falta
de autonomia dos sujeitos, a ponto de não se sentirem corresponsáveis no processo
de cuidar e gerenciar os serviços.
Nesse sentido, a PNH tem três princípios intrínsecos, que são a transversali‑
dade, o que implica o aumento e mudanças na relação e comunicação entre todos
que estão envolvidos na produção de saúde e uma “desestabilização das fronteiras
dos saberes, dos territórios de poder e dos modos instituídos na constituição das
relações de trabalho” (PNH, 2009, p. 23); a indissociabilidade entre atenção e
gestão, inviável se não houver mudanças integradas entre modelos de gestão e de
cuidar nos diferentes processos de trabalho; e o protagonismo, corresponsabilida‑
de e autonomia dos sujeitos e dos coletivos, o que implica a necessidade de que no
cotidiano dos diferentes espaços do SUS haja uma busca pela afirmação da auto‑
nomia dos diferentes sujeitos envolvidos e o envolvimento dos mesmos como
corresponsáveis.
Implementar tais princípios, bem como diretrizes e dispositivos presentes na
PNH, não se apresenta como uma ação simples, ao considerarmos os problemas
enfrentados pelo paradigma sanitário que origina o SUS, visto que esse sistema
“rema contra a maré, já que vem sendo implantado em um contexto cultural e po‑
lítico que dificulta a estruturação de políticas públicas” (Campos, 2006, p. 137).
Trata‑se da expansão de um paradigma liberal.
A formalização de tal sistema se dá num período (anos 1980‑90) em que o
discurso e a prática predominante é o neorreformismo liberal, hegemônico no
mundo, e busca a focalização dos programas sociais; a responsabilização do aten‑
dimento à população ao setor privado ou a organizações não governamentais
(ONGs); restrição do papel do Estado como regulador do mercado e prestador de
alguns serviços considerados “estratégicos”, por antes já serem da alçada da saúde
pública. Portanto, contrário ao ideário do SUS.
Em síntese, o contexto histórico no qual foi construído e alimentado esse
sistema de saúde tem provocado várias dificuldades por se tratar de uma reforma,
no dizer de Campos (2006, p. 144) “incompleta e permeada pelo paradoxo de pre‑
tender implantar uma política universalista em um contexto de ajuste econômico
muito estrito”.

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 107, p. 482-496, jul./set. 2011 485
Explicitam‑se no cotidiano brasileiro problemas no campo do financiamento
do SUS e problemas relativos ao modo de reorganização do que se formalizou
modelo de atenção à saúde. Quanto a essa reorganização, segundo Campos (2006,
p. 144),

Em geral, os conceitos e métodos para reformular o paradigma tradicional da atenção


à saúde no Brasil não foram transformados em leis, havendo, portanto, espaço para
que os municípios expandam a cobertura segundo formas antigas. Nada obriga um
município a incorporar preceitos da promoção à saúde, ou da clínica ampliada, ou do
trabalho em equipe, ou mesmo a adoção de protocolos e programas de educação
continuada, ou sistemas de avaliação, e, em várias localidades, o sistema ainda é
hospitalocêntrico e centrado no atendimento médico de urgência.

Assim, são notórias as dificuldades no processo de reorganização da saúde


pública, inclusive em se concretizar a PNH, o que não elimina a importância da
mesma para a efetivação de um SUS de qualidade.
A seguir, mostraremos algumas ações, as quais consideramos avanços, em‑
bora preliminares, bem como dificuldades e desafios em termos de mudanças no
modo de atenção e gestão no SUS ao retratar a criação e o desenvolvimento da
Unidade de Gestão de Pessoas (UGP) do Hospital Giselda Trigueiro (HGT), bem
como a inserção de assistentes sociais em tais processos.

2. O Serviço Social e a UGP: mediações sintonizadas com a PNH


A questão da atenção e gestão da saúde pública não deve ser vista desfocada
do surgimento e expansão de uma reestruturação na forma de acumulação do capi‑
tal a partir de meados dos anos 1990 no Brasil. Sobre tal reestruturação, Harvey
(2000, p. 135) nos mostra que faz parte de um processo iniciado nos países de
economia capitalista avançada entre 1965 e 1973 e explicitado pela “incapacidade
do fordismo e do keynesianismo de conter as contradições inerentes ao capitalismo”.
Passam a existir formas de “acumulação flexível” que incluem necessaria‑
mente novos processos de gestão. Sobre esses, Pimenta (1999) nos mostra que se
revelam com base em quatro indicadores principais: a mudança do paradigma
taylorista/fordista, a transformação social das empresas, a emergência de um novo
“modelo” de trabalhador e a transformação do trabalho em termos de concepção
e realização.

486 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 107, p. 482-496, jul./set. 2011
Esses indicadores já identificados, inclusive, no Rio Grande do Norte por
Araújo (2005), quando estudou o novo paradigma do Serviço Social da Indústria
(Sesi) a partir de meados dos anos 1990, incluem a necessidade de implantação e
reformulação no que diz respeito à gestão de recursos humanos, no sentido de in‑
vestir em ações voltadas para os trabalhadores envolvidos na produção para que
estes desenvolvam bem suas atividades.
Em outras palavras, “para mobilizar e utilizar plenamente as pessoas em suas
atividades, as organizações estão mudando os seus conceitos e alterando as práticas
gerenciais” (Chiavenato, 1999, p. 4). Se a preocupação até os anos 1990 era muito
mais voltada para a estrutura organizacional, a partir deste ano, o que passa a ser
centro das atenções são os aspectos dinâmicos e, portanto “as pessoas passam a ser
a principal base da nova organização” (Idem).
Essa nova perspectiva tende a provocar uma mudança de nomenclatura: o que
antes era chamado de “Administração de Recursos Humanos” (ARH) passa a ser
chamado de “Gestão de Pessoas”. Atentemos para o fato de que não significa ape‑
nas uma mudança de nomenclatura, uma vez que a mudança para o termo “gestão
de pessoas” surge predominantemente como uma estratégia dos proprietários dos
bens de produção para conseguir maior engajamento dos trabalhadores, os quais
detêm conhecimentos importantes para o maior enriquecimento das organizações.
A tendência é que as empresas deem ênfase ao seu potencial humano e à sua
cultura para, em troca, solicitar maior engajamento de seu pessoal, tanto individual
quanto coletivo, na qualidade do trabalho desenvolvido. Surge, então, a preocupação
com a criação de Programas de Qualidade Total (PQTs), bem como o surgimento de
Círculos de Controle de Qualidade (CCQs), enquanto estratégias apresentadas para
a reestruturação produtiva no Brasil, principalmente a partir dos anos 1990.
Estamos diante de uma reorganização profunda de concepção e realização do
trabalho, que fazem pulular nomenclaturas como gestão de pessoas, planejamento
estratégico, gestão participativa, colaboradores, entre tantas outras, como compe‑
tência, polivalência, flexibilidade e transferibilidade.
Ao trazermos para o foco deste trabalho o termo gestão de pessoas, podemos
afirmar que a questão básica em chamar de gestão de RH ou de pessoas está no
fato de

escolher entre tratar as pessoas como recursos organizacionais ou como parceiros da


organização. [...] como recursos, eles precisam ser administrados, o que envolve

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 107, p. 482-496, jul./set. 2011 487
planejamento, organização, direção e controle de suas atividades, já que são conside‑
rados sujeitos passivos da ação organizacional [...]. Mas as pessoas podem ser visua‑
lizadas como parceiros das organizações. Como tais, elas são fornecedoras de conhe‑
cimentos, habilidades, capacidades e, sobretudo, o mais importante aporte para as
organizações — a inteligência, que proporciona decisões racionais e imprime o sig‑
nificado e rumo aos objetivos globais. Desse modo, as pessoas constituem o capital
intelectual da organização. (Chiavenato, 1999, p. 7)

A citação do autor tem uma carga ideológica, no sentido de imbuir nos traba‑
lhadores uma ideia de parceria, colaboração para um mesmo empreendimento e de
que, assim, todos saem ganhando no processo. Mas tal mudança de ótica não exclui
as contradições entre capital/trabalho que tem se acentuado ao longo da história do
capitalismo.
Ao comparamos essas mudanças paradigmáticas com a formatação ideológi‑
ca da política de saúde no Brasil, consideramos que as mesmas perpassam todo o
sistema de saúde, adquirindo rearranjos reforçadores da dualidade entre o público
e o privado no que diz respeito à forma de utilização das ideias e de modelos de
administração.
No caso específico do SUS e da PNH, há o uso de terminologias que já estão
há mais tempo sendo adotadas nas organizações do âmbito privado capitalista
(gestão de pessoas, gestão participativa, planejamento estratégico, entre outros).
Mas há também um esforço real em reorientá‑las no sentido de garantir uma sinto‑
nia com os princípios universalistas e autonomia dos sujeitos, o que não é fácil,
pois ao mesmo tempo em que fortalece o SUS e o atualiza, põe‑se contrário ao
paradigma do capital, favorecedor da privatização dos serviços públicos e/ou do
enxugamento dos recursos nesse âmbito.
É nesse contexto que foi criada a UGP do HGT, hospital de caráter público,
que surgiu em 1943 em Natal, Rio Grande do Norte, referência no tratamento de
doenças infecciosas, com aproximadamente 800 trabalhadores (estatutários e ter‑
ceirizados), hoje com a missão de “promover atenção integral aos usuários com
doenças infecciosas, garantindo qualidade, resolutividade e humanização na assis‑
tência, com ética e responsabilidade social, de acordo com os princípios do SUS”
(Hospital Giselda Trigueiro, 2010, p. 4).
Pioneiro no estado, desde 2007 tem buscado mudar o modelo de atenção e
gestão para seguir os princípios e dispositivos da PNH, o que inclui o foco na
gestão participativa, a exemplo de alguns hospitais espalhados no Brasil, entre eles

488 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 107, p. 482-496, jul./set. 2011
o Hospital Municipal Odilon Behrens, em Belo Horizonte. Inclui a reorganização
do organograma institucional a partir do delineamento das unidades de produção
(ou unidades funcionais) e seus respectivos colegiados gestores, com o objetivo
de atingir da forma mais democrática possível a missão a qual se propõe.
Conforme Campos, apud Rates (2008, p. 51), essas unidades são espaços
organizados conforme lógicas específicas de cada processo de trabalho que agluti‑
nam “todos os profissionais envolvidos com um mesmo tipo de trabalho, com um
determinado produto ou objetivo identificável”. Podem originar‑se por meio da
fusão de antigos setores que nos moldes da gestão clássica estavam fragmentados,
embora lidassem com objetos comuns e, ao serem criados, devem formar os seus
respectivos colegiados gestores com o objetivo de discutir, avaliar, planejar e deli‑
berar os seus processos de trabalho, além de democraticamente eleger um dos in‑
tegrantes para coordenar tal unidade.
A UGP, criada em 2009, agrupa três setores que desenvolvem processos de
trabalho afins: Setor de Pessoal, Setor de Saúde do Trabalhador e Núcleo de Re‑
cursos Humanos. Tal reordenamento ocasionou, por conseguinte, a criação de uma
missão aglutinadora das finalidades desses três setores, bem como a reorganização
física dos mesmos, de modo que dois desses passaram a ocupar uma mesma sala e
o outro foi posicionado o mais próximo possível para facilitar a troca de informações
e a agilidade para com o tratamento às demandas dos trabalhadores.2
Ocasionou também grandes desafios, entre eles o de desconstrução por parte
de cada membro das equipes da ideia de que uns mandam (chefes) e a maioria só
obedece; uns planejam (os chefes) e outros só executam; a construção e o fortale‑
cimento da perspectiva interdisciplinar capaz de compreender que a saúde deve ser
tratada em suas diversas dimensões e, por isso, os processos de trabalho precisam
ser desenvolvidos de forma articulada com diferentes saberes em busca de maior
poder de resolução e qualidade dos serviços e o consequente fortalecimento da
cidadania de todos os envolvidos.
Nesse contexto, dois profissionais de Serviço Social foram solicitados pela
direção geral do HGT para integrarem a equipe da UGP composta por diferentes

2. É importante destacar que o processo de legitimação da UGP é lento, visto que, como ainda a proposta
do novo organograma não foi aprovada nas devidas instâncias e, portanto, reconhecida pela Secretaria de Saú‑
de Pública do estado, continua para esta não existindo formalmente a UGP, mas sim três setores com três chefes.
Mas entendemos que a partir da construção cotidiana de práticas ressignificadoras de novas nomenclaturas será
possível a mudança no âmbito formal, até porque, pelos trabalhadores, nos parece ter sido aprovada.

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 107, p. 482-496, jul./set. 2011 489
áreas: Terapia Ocupacional, Medicina, Técnico em Segurança no Trabalho, Biologia,
Nutrição, Enfermagem, técnicos administrativos e estagiários, dentre eles de Servi‑
ço Social3 e, juntamente a esses saberes, tem contribuído não só para a criação e
desenvolvimento do colegiado gestor da unidade, mas também, para o alcance da
missão, focada na melhoria da qualidade de vida no ambiente de trabalho, por meio
do estímulo ao processo de educação permanente, relações interpessoais éticas e
respeito ao SUS.
A presença desse profissional na UGP vem reforçar o que Iamamoto (2001,
p. 130) fala sobre o crescimento do espaço ocupacional dos assistentes sociais na
área de Recursos Humanos.

Esses têm sido chamados a atuar em programas de “qualidade de vida no trabalho”,


saúde do trabalhador, gestão de recursos humanos, prevenção de riscos sociais,
círculos de qualidade, gerenciamento participativo, clima social, sindicalismo de
empresa, reengenharia, administração de benefícios estruturados segundo padrões
meritocráticos, elaboração e acompanhamento de orçamentos sociais, entre outros
programas.

Mostra também a necessidade de o assistente social adquirir novas funções e


competências entre elas, as voltadas para planejamento e gestão, “inscritos em
equipes interdisciplinares que tensionam a identidade profissional” (Iamamoto,
2002, p. 37), visto que predominantemente na área de Recursos Humanos não é
requerido, em sua maioria, atribuições privativas4 do assistente social, exceto nos
casos que dizem respeito à matéria do Serviço Social, como, por exemplo, orien‑
tação de estágio curricular para estudantes de Serviço Social e realização de estudos
sociais e pareceres técnicos para a elucidação de expressões da questão social,
entre eles o absenteísmo.
Em sua maioria, são requeridas competências para intermediação e gerencia‑
mento de conflitos, conhecimentos legais no âmbito trabalhista, capacidade de
negociação, estratégias no trato de facilitar a educação permanente dos trabalhado‑

3. Registramos o empenho das estagiárias do curso de Serviço Social da Facex, Elisângela da Silva
Fonseca e Palloma Karla de Medeiros, que, em respostas às demandas apresentadas e/ou apreendidas pela
UGP, construíram, em parceria com os gestores, um guia de serviços, enquanto instrumento contribuidor para
a melhoria do fluxo de informação no HGT.
4. Sobre a diferença entre atribuições privativas e competências profissionais, ver Iamamoto (2002) e
Lei n. 8.662/93.

490 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 107, p. 482-496, jul./set. 2011
res e a valorização destes, o que inclui conhecimento sobre metodologias para a
realização de capacitações, planejamento estratégico, avaliação de desempenho;
enfim, como diz Iamamoto (2002, p. 38), “conhecimento e know‑how na área de
RH e relações de trabalho, entre outros”. Trata‑se da necessidade de uma escuta
qualificada embasada em conhecimentos de disciplinas, principalmente de Admi‑
nistração, Psicologia, Pedagogia e Direito, o que não é sinônimo de o assistente
social exercer a função de tais profissões, mas sim de que o mesmo encontre (ou
facilite) as mediações possíveis para a resolução das questões apresentadas.
Quanto às mediações, são compreendidas como processos presentes na reali‑
dade, mas que nem sempre os profissionais conseguem apreendê‑los, pois necessi‑
ta de uma ação reflexiva, para a qual consideramos muito importantes duas ações:
a pesquisa e a interdisciplinaridade. Como diz Freire (2003, p. 17), mediação é um
processo tanto ontológico como reflexivo, e quanto ao último, se dá no momento
em que se procura “captar processos anteriores e ocultos, com suas múltiplas me‑
diações ontológicas, que estão por trás da aparência imediata”.
Nesta linha de pensamento a UGP é um campo de mediações importante para
a consolidação da PNH e do Projeto Ético Político Profissional,5 suscitadora de
várias outras mediações que estão por trás das demandas espontâneas e dirigidas,
implícitas e explícitas, possíveis de serem desvendadas por meio da ação reflexiva
e interdisciplinar.
O Serviço Social nessa unidade tem contribuído com ações que se alinham
nos quatro grandes eixos descritos nos Parâmetros para Atuação de Assistentes
Sociais na Política de Saúde6 (CFESS, 2010), intermediando processos importantes
para a produção de saúde de forma humanizada, a começar pela coordenação do
colegiado gestor da unidade (já citada anteriormente), formado por 40% dos inte‑
grantes, com a responsabilidade de estar acionando um conjunto de saberes para
que sejam cumpridas as atribuições básicas desse espaço que são:

5. Em relação ao projeto de profissão acima citado, faz‑se necessário citar que, a exemplo da perspecti‑
va de gestão participativa norteadora do HGT, é contrário à lógica privatista e desigual de nossa sociedade e
se propõe a lutar pela liberdade, democracia, eliminação de todas as formas de preconceitos e compromisso
com a qualidade dos serviços, entre outros princípios.
6. Os quatro grandes eixos são: atendimento direto aos usuários (no caso da UGP são todos os traba‑
lhadores do hospital), mobilização, participação e controle social; investigação, planejamento e gestão, as‑
sessoria, qualificação e formação profissional. Para o aprofundamento sobre esses eixos, ver tais parâmetros
(CFESS, 2010).

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 107, p. 482-496, jul./set. 2011 491
Elaborar o projeto de ação; atuar no processo de trabalho da unidade; responsabilizar
os envolvidos; acolher e encaminhar as demandas dos usuários; criar e avaliar os in‑
dicadores; sugerir e elaborar propostas; e criar estratégias para o envolvimento de
todos os membros e equipes do serviço. (PNH, 2006, p.12)

Outras ações importantes são desenvolvidas, como: assessoria aos profissionais


dos setores e/ou unidades de produção para tratar de questões referentes ao plane‑
jamento anual de atividades; subsídios técnicos e teóricos para requisição de recur‑
sos voltados para educação permanente dos profissionais; gestão de conflitos en‑
volvendo profissionais de um mesmo setor ou entre setores diferenciados;
deslocamento de profissionais entre setores do Hospital de acordo com a vontade
do servidor, necessidade e possibilidade do serviço; acolhimento diário de novos
servidores para tratar de procedimentos referentes ao ingresso nos processos de
trabalho, bem como aos veteranos para informá‑los sobre serviços disponíveis aos
mesmos ou encaminhá‑los para os serviços necessários; acompanhamento de ques‑
tões relacionadas à inserção de estagiários no hospital (inclui o acompanhamento
relativo ao dimensionamento dos estudantes de acordo com a capacidade setorial
e de acompanhamento pelos preceptores); avaliação de desempenho; solicitação de
resolutividade de casos de absenteísmo aos demais setores que compõe a UGP
(Saúde do Trabalhador e Setor de Pessoal);7 encaminhamento de servidores para
tratamento ao Núcleo de Assistência ao Servidor (Nasse) ou outro órgão; supervi‑
são de estágio em Serviço Social, entre outras demandas relacionadas ao Núcleo
de Recursos Humanos no âmbito administrativo/burocrático.
Destacamos dentre essas o empenho do Serviço Social para com a efetivação
de uma função precípua do Núcleo, que é a estruturação e a coordenação de um
programa de educação permanente para o HGT, que, apesar de várias dificuldades,
tem se firmado desde o ano passado.8 Tal programa tem como objetivo facilitar e
coordenar o processo de educação permanente dos servidores do HGT, focado na

7. A inserção de um assistente social no setor de Saúde do Trabalhador/UGP em 2010 tem, entre outros
objetivos, facilitar o encaminhamento de medidas relacionadas à promoção de saúde do trabalhador e ques‑
tões do adoecimento no trabalho, causadoras de alto índice de absenteísmo.
8. A partir da qualificação de duas componentes da UGP no Curso de Especialização em Gestão do
Trabalho e da Educação na Saúde, por meio do Programa de Qualificação e Estruturação da Gestão do Tra‑
balho e da Educação no SUS (ProgeSUS), promovido pelo Núcleo de Estudos em Saúde Coletiva/Universi‑
dade Federal do Rio Grande do Norte (Nesc/UFRN), esperamos que o programa de educação permanente no
HGT tenha mais sucesso em termos quantitativos e qualitativos.

492 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 107, p. 482-496, jul./set. 2011
ética profissional, no respeito ao SUS e na melhoria das relações e processos de
trabalho e está estruturado com base em quatro modalidades. A seguir apresenta‑
remos algumas atividades que foram desenvolvidas no ano de 2010:
• Modalidade interna direta: compreende ações a serem efetivadas direta‑
mente pelo Núcleo de RH/UGP a servidores do HGT, a partir da apreensão
de necessidades de capacitação pela equipe ou por demandas dos traba‑
lhadores. Ex.: curso de capacitação em recepção hospitalar; seminário de
integração para os novos servidores, assessoria na construção de planeja‑
mento anual de atividades.
• Modalidade interna indireta: compreende ações desenvolvidas por diver‑
sas coordenações e/ou direções junto aos servidores no HGT, sendo essas
assessoradas pelo Núcleo de RH/UGP. Exemplo: Curso com o setor de
lavanderia e curso de gestão participativa, além de diversas rodas de con‑
versas desenvolvidas nos colegiados gestores das unidades, visando a
melhoria das relações e processos de trabalho.
• Modalidade externa: compreende ações externas ao HGT desenvolvidas
por outras unidades ou programas, facilitadas pelo Núcleo de RH, setores/
UPs ou buscadas pelos próprios servidores, tendo em sua maioria o incen‑
tivo desse Núcleo (por meio da divulgação em quadros de avisos ou pes‑
soalmente) e/ou coordenações de setores.
• Modalidade acadêmica: volta‑se para o acompanhamento aos preceptores
de todos os estagiários que se inserem no HGT, no sentido de melhor di‑
mensionar os estudantes por setor, bem como ter ciência da estadia dos
mesmos no hospital, a fim de contribuir na garantia de uma formação de
profissionais com qualificação ética, técnica e política, de acordo com os
princípios do SUS, o que inclui o respeito aos pacientes e trabalhadores
das diversas equipes de trabalho nas quais se inserem tais estudantes.

Nesse sentido, as contribuições interdisciplinares nos fazem compreender a


educação permanente na ótica de gestão participativa e do projeto ético‑político
profissional como um processo que vai além de simples capacitações técnicas para
que os trabalhadores desenvolvam de forma mais eficiente os processos de trabalho.
Mas sim como uma estratégia para mudanças institucionais, no sentido de melhorias
substantivas no fluxo de comunicação, de pensar e de sentir de todos os envolvidos
na gestão e na assistência dos serviços de saúde, que, embora apresente avanços

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 107, p. 482-496, jul./set. 2011 493
em alguns aspectos, é prestada por trabalhadores com baixos salários, que convivem
com a escassez de equipamentos e de colegas em determinadas áreas/cargos, entre
outros indicadores que emperram o processo de educação permanente por provo‑
carem desencanto, cansaço e descontentamento no cotidiano de trabalho.

Considerações finais
Diante do exposto, podemos perceber que a área de gestão de pessoas produz
um movimento que transpõe as paredes da UGP e, certamente, do Serviço Social,
envolvendo diversas especialidades e sendo transversal a todos os setores/UPs. Daí
residir uma grande possibilidade para os profissionais de Serviço Social que atuam
nesta área, por natureza interdisciplinar, que é garantir uma perspectiva generalis‑
ta em prol do entendimento das mediações voltadas para a melhoria na produção
de saúde e a elaboração de respostas profissionais.
É também uma área que traz desafios importantes, ocasionados, entre outras
razões, pela não especificação, a priori, de atribuições privativas para o Serviço
Social, mas sim por apresentar uma gama de demandas que precisam ser traduzi‑
das e encaminhadas pelos profissionais, sem perder de vista o Projeto Ético‑Polí‑
tico Profissional, no sentido de qualificar os diversos serviços em prol dos traba‑
lhadores, principalmente a partir da melhoria das relações de trabalho que se dá,
entre outras formas, pela atuação direta ou indireta na resolução de conflitos, na
melhoria no fluxo de informação, no fortalecimento do protagonismo, correspon‑
sabilidade e autonomia dos sujeitos no cotidiano do trabalho numa organização
pública que se efetiva entre outras maneiras, pelo incentivo à educação permanen‑
te dos trabalhadores.
Outros desafios são somados, entre eles a construção da cultura interdisciplinar,
capaz de facilitar os momentos de encontros para discutir os problemas em comum
(inclui a presença efetiva nas reuniões do colegiado gestor da UGP), a necessidade
de aumentar o número de profissionais qualificados na área de gestão de pessoas,
principalmente no Núcleo de RH, para não haver sobrecarga de trabalho e garantir
o alargamento de uma assessoria qualificada no HGT, bem como a melhoria do
espaço físico da unidade, de modo que venha a facilitar o processo da escuta sigilo‑
sa e qualificada e o processo de planejamento da educação permanente.
Por fim, faz‑se necessário reafirmar a importância de que desde a academia
haja uma aproximação teórico/prática de estudantes não só com áreas tradicional‑

494 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 107, p. 482-496, jul./set. 2011
mente mais empregadoras do Serviço Social, mas também com a área de gestão de
pessoas, visto que traz inúmeras questões que podem ser trabalhadas muito bem
pelo Serviço Social, embora muitas delas não apenas por esta profissão.

Recebido em 26/4/2011  n   Aprovado em 13/6/2011

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496 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 107, p. 482-496, jul./set. 2011
O trabalho do assistente social
em contextos hospitalares:
desafios cotidianos*
The Social Worker’s job in hospitals: daily challenges

Maria Lúcia Martinelli**

Resumo: Considerando os desafios que se colocam cotidianamen‑


te para o assistente social que atua na área da saúde, especialmente em
contextos hospitalares, no atendimento direto aos usuários, trato neste
artigo das dimensões éticas que estão presentes em seu trabalho e que
são constitutivas da identidade da profissão, expressando‑se em dife‑
rentes níveis desde a ética dos cuidados até a ética militante e de
proteção social. Finalizo indicando a importância da pesquisa para
qualificar o conhecimento e a própria intervenção profissional.
Palavras‑chave: Serviço Social. Saúde. Trabalho profissional. Ética.

Abstract: Taking into consideration the challenges that the social worker acting in the field of ­health
faces everyday, at several aspects, this article treats of the ethical dimensions present in his work and
which constitute the identity of the profession, expressing themselves at different levels from the ethic
of cares up to the active ethic and the social protection. I finish it by pointing out the importance of the
research to qualify the knowledge and the professional intervention itself.
Keywords: Social Work. Health. Professional. Ethical exercise.

* Elaborado com base em artigo publicado na revista Serviço Social e Saúde, ano VI, n. 6, 2007, p. 21‑33.
** Assistente social, doutora em Serviço Social, docente, pesquisadora e coordenadora do Núcleo de
Estudos e Pesquisa sobre Identidade do Programa de Estudos Pós‑Graduados em Serviço Social da Pontifí‑
cia Universidade Católica de São Paulo/SP, Brasil. E-mail: mlmartinelli@terra.com.br.

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 107, p. 497-508, jul./set. 2011 497
O
Serviço Social é uma profissão cuja identidade é marcadamente histó‑
rica. Seu fundamento é a própria realidade social e sua matéria‑prima
de trabalho são as múltiplas expressões da questão social, o que lhe
confere uma forma peculiar de inserção na divisão social e técnica de
trabalho. Como profissão de natureza eminentemente interventiva, que atua nas
dinâmicas que constituem a vida social, participa do processo global de trabalho
e tem, portanto, uma dimensão sócio‑histórica e política que lhe é constitutiva e
constituinte.
Como área de conhecimento e de intervenção profissional, consolida o seu
significado social em suas relações com as demais profissões e com as práticas
societárias mais amplas, especialmente com as que se direcionam para o enfrenta‑
mento das situações de violações de direitos que afetam as condições de vida da
população em geral e, sobretudo, dos setores mais empobrecidos da sociedade.
O exercício profissional, expressão material e concreta do processo de traba‑
lho do assistente social, explicita a dimensão política da profissão e o reconheci‑
mento da condição de sujeitos de direitos daqueles com os quais atua, tendo por
fim último a sua emancipação social.1
Para tanto, em cada ato profissional são mobilizados conhecimentos, saberes
e práticas que, mediante uma ampla cadeia de mediações e do uso adequado de
instrumentais de trabalho, visam alcançar os resultados estabelecidos.
Cada um desses momentos é saturado de determinações políticas, econômicas,
históricas, culturais que estão presentes no atendimento demandado e nas respostas
oferecidas, pautadas sempre em valores éticos que fundamentam a prática do Ser‑
viço Social, com base no Projeto Ético‑Político profissional, como expressão que
é do Código de Ética, aprovado pela Resolução do CFESS n. 273/93, com alterações
posteriores, bem como da Lei n. 8662, de junho de 1993, que regulamenta o exer‑
cício profissional.
A dimensão ética é constitutiva da identidade da profissão, juntamente com
as dimensões técnico‑operativas e teórico‑metodológicas, articulando‑se em termos
de poderes, fazeres e saberes como mediações da prática profissional e expressões
de nossa práxis humana. Há um fim último que buscamos com nossas ações pro‑
fissionais e que configuram a particularidade histórica da profissão. Cada um de

1. É indispensável o aprofundamento do estudo desta categoria por seu uso recorrente no âmbito do
Serviço Social, inclusive no próprio Código de Ética. Recomenda‑se, para tanto, a consulta à obra de Marx,
especialmente, A questão judaica.

498 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 107, p. 497-508, jul./set. 2011
nossos atos profissionais, até mesmo o menor deles, é dimensionado eticamente,
direciona‑se à emancipação humana e, portanto, sua vocação é sempre a humani‑
zação da prática profissional.
Consolidamos a nossa identidade profissional, fortalecemo‑nos enquanto
seres humanos quando somos capazes de humanizar a nossa prática, pois

a substância do existir é a prática [...]. Só se é algo mediante um contínuo processo


de agir; só se é algo mediante a ação. [...] É na prática e pela prática que as coisas
humanas efetivamente acontecem, que a história se faz. [...] Por isso, a esfera básica
da existência humana é a aquela do trabalho propriamente dito, ou seja, é a prática
que alicerça a existência material dos homens. (Severino, 1995, p. 47‑48)

Isto se dá, evidentemente, não apenas como trabalho individual, mas como
expressão necessária de um sujeito coletivo, pois a “espécie humana só é humana
na medida em que se efetiva em sociedade” (idem, p. 48). Na área da saúde, este
é um verdadeiro imperativo, não somente por força da política de humanização,
mas sobretudo porque esta é uma área em que pulsam valores humanos candentes
e onde trabalhamos com a vida em suas múltiplas manifestações, desde o nasci‑
mento, passando pela infância, juventude, vida adulta, processo de envelhecimen‑
to, até a finitude.
No atendimento direto aos usuários, trabalhamos com pessoas fragilizadas
que nos pedem um gesto humano: um olhar, uma palavra, uma escuta atenta, um
acolhimento, para que possam se fortalecer na sua própria humanidade.
A Política Nacional de Assistência Social — PNAS, aprovada pela Resolução
do Conselho Nacional de Assistência Social n. 145, de 15 de outubro de 2004 nos
pede um novo olhar para o social: o da proteção social como direito, como elemen‑
to fundante da cidadania. Da mesma forma, os princípios da Política Nacional de
Saúde Lei n. 8080, de 19 de setembro de 1990, nos direcionam na luta pela vida,
no compromisso pela construção de práticas democráticas, sintonizadas com as
necessidades sociais e de saúde da população.
Assim também a “Carta dos Direitos dos Usuários da Saúde” — Ministério
da Saúde, 2006 — partindo do princípio consagrado na Constituição Federal de
1988, em seu artigo 196, de que a saúde é um direito de todos e dever do Estado,
preconiza
• que todo cidadão tem o direito ao acesso ordenado e organizado aos sis‑
temas de saúde, visando um atendimento mais justo e eficaz;

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 107, p. 497-508, jul./set. 2011 499
• que ao cidadão é assegurado o tratamento adequado e efetivo para seu
problema, visando a melhoria da qualidade dos serviços prestados;
• que ao cidadão é assegurado atendimento acolhedor e livre de discrimina‑
ção, visando a igualdade de tratamento e uma relação mais pessoal e
saudável;
• que ao cidadão é assegurado um atendimento que respeite os valores e
direitos do paciente, visando preservar sua cidadania durante o tratamento.

O assistente social é reconhecidamente um profissional da saúde. As Resoluções


do Conselho Nacional de Saúde n. 218, de 6 de março de 1997, e do Conselho Fe‑
deral de Serviço Social n. 383, de 29 de março de 1999, além da Resolução n. 196,
de 1996, que trata da ética em pesquisa, envolvendo seres humanos. (Rosa et al.,
2006, p. 63‑64) são expressões concretas desta afirmativa.
No âmbito desses marcos legais e normativos, torna‑se indispensável ressaltar
a importância dos Parâmetros para Atuação de Assistentes Sociais na Política de
Saúde, elaborados a partir de ampla participação da categoria profissional e pro‑
mulgados pelo CFESS, com o objetivo de “referenciar a intervenção dos profissio‑
nais na área da saúde” (CFESS, 2010, p. 11).
Tais parâmetros reforçam a importância de reconhecer os usuários da saúde
como sujeitos de direitos, em um contexto de cidadania e de democracia.
Este é o compromisso que nos cabe assumir e que somente pode ser alcança‑
do por meio de práticas interdisciplinares, pautadas em um horizonte ético de hu‑
manização e de respeito à vida. Isto exige um contínuo processo de construção de
conhecimentos, pela via da pesquisa e da intervenção profissional competente,
vigorosa e crítica, alicerçada na Política Nacional de Saúde e no Projeto Ético‑Po‑
lítico do Serviço Social.
Como área de conhecimento e de intervenção na realidade humano social, o
Serviço Social deve mobilizar‑se, cada vez mais intensamente, na perspectiva da
assistência integral à saúde da população atendida.
O trabalho profissional qualificado é o compromisso de cada dia, pois como
bem destaca Critelli (2006, p. 2),

é fonte de sentido para a vida humana, organiza nossa vida diária. Define o tempo e
a história humana [...] O trabalho nos revela para os outros e para nós mesmos. Por
meio dele construímos nossa identidade. A partir dele descobrimos habilidades, po‑

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deres, limites, competências, alegrias, tristezas. Criamos vínculos com as pessoas,
com os ambientes, com a cidade e a nação. O trabalho é o lugar privilegiado onde
descobrimos, inclusive, para que viemos e o que nos compete cuidar nesta vida.

É desse trabalho crítico e competente sob o ponto de vista ético‑político que


estamos falando, pois trata‑se de um trabalho que é ético porque se movimenta no
campo dos valores, porque parte do reconhecimento da condição humana dos su‑
jeitos, e que é político porque aspira sempre à sua emancipação, abrangendo a re‑
lação saúde, doença, cuidados, a população atendida, seus familiares e a própria
comunidade.
Torna‑se evidente, portanto, que necessitamos da ética como do pão para a
boca, pois é ela que nos permite atentar para os fundamentos valorativos de nossos
atos profissionais.
Na área da saúde, as várias dimensões da ética (Chaui, 2000) são imprescin‑
díveis, especialmente no que se refere:
• à ética dos cuidados;
• à ética da proteção social;
• à ética militante.

Porém, precisamos também da vontade política para consolidar a ética, pois


a ausência de determinações políticas rompe com sua completude.
Na verdade, essas dimensões estão em permanente interação e é um dever
ético‑político consolidá‑las mediante um exercício profissional crítico e competen‑
te, capaz de materializar os princípios de nosso Código de Ética, do Projeto Éti‑
co‑Político da profissão e dos Parâmetros para Atuação do Assistente Social na
Política e Saúde.
Na área da saúde, onde há múltiplas identidades em interação, este é um
desafio cotidiano, que se transforma em um verdadeiro imperativo ético, pois o
que está em jogo é a construção de uma prática competente, na qual o valor hu‑
mano, a qualidade de vida e a dignidade da morte, no caso dos pacientes fora de
possibilidades terapêuticas, sejam alicerces fundantes e objetivos comuns para
toda a equipe.
Aliás, para efeito de precisão, é importante esclarecer que para os assistentes
sociais que trabalham em cuidados paliativos, a expressão correta a ser utilizada é
que “o paciente está fora de possibilidade de cura e não fora de possibilidade tera‑

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 107, p. 497-508, jul./set. 2011 501
pêutica — uma alusão à definição macro de cuidados paliativos descritos pelo
Ministério da Saúde: a cura científica para este paciente não existe, mas terapêuti‑
cas de cuidado e tratamento sempre são possíveis para proporcionar‑lhe uma mor‑
te digna” (Sodré, 2005, p. 143).
A atuação do Serviço Social neste momento, no âmbito da terapêutica dos
cuidados, é de fundamental importância, preservando o respeito ético pela vida
humana.
Ao trabalhar nessa perspectiva do cuidado ético, da humanização da prática,
estamos fazendo um uso consciente de conhecimentos, sentimentos, valores, na
busca da qualidade do atendimento de nossos atos profissionais. Daí a importância
da ética dos cuidados, pois se o trabalho é um uso de si,2 pressupõe na mesma
medida um cuidado de si.
Nesta primeira dimensão do trabalho como uso de si, é de se destacar a
importância:
• do sentimento partilhado, de sentir com o outro, não como o outro;
• do espaço da escuta, tanto no diálogo como no silêncio;
• do espaço do acolhimento, de ter a sensibilidade de oferecer o acolhimen‑
to no momento do desconforto, da dor, “abrir a porta quem não bateu”,
como nos lembra o poeta Fernando Pessoa (1965);
• da dignidade no trato, da sensibilidade de perceber a condição do outro
naquele momento tão peculiar de sua vida;
• do reconhecimento do sofrimento psíquico, da tristeza, do desconforto
emocional, que acompanham o adoecimento e o agravamento do quadro
de saúde;
• da ética no trato da informação;
• da verdade como base do diálogo, na justa medida, tanto com o paciente
quanto com seus familiares;
• da responsabilidade social partilhada, criando relações de parceria com o
cuidador e familiares, e estimulando‑os a criar também vínculos de per‑
tencimento.

2. Competente abordagem da concepção de trabalho e uso de si é realizada por Yves Schwartz (2000).
Vale ressaltar, também, a contribuição de Edna Goulart Joazeiro (2002), ao trabalhar com essa temática na
análise do estágio supervisionado em Serviço Social como formação e trabalho.

502 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 107, p. 497-508, jul./set. 2011
Quanto ao trabalho como cuidado de si, é sempre recomendável:
• manter um estado de espírito positivo;
• alimentar a paz de espírito e a tranquilidade;
• dedicar‑se a práticas que permitam o recriar das energias e que estimulem
a criatividade;
• manter acesa a chama da busca do conhecimento, da prática, da pesquisa;
• buscar permanentemente o aprimoramento profissional, tanto na perspecti‑
va multidisciplinar quanto na profissão de origem;
• lembrar‑se, a cada momento, do permanente compromisso que devemos
ter no sentido da consolidação do projeto ético‑político da profissão.

Se assim agirmos, firmemente apoiados nos princípios que regem a profissão,


bem como nas diretrizes políticas que norteiam o Serviço Social na área da saúde,
estaremos praticando uma ética militante no campo dos direitos, com vistas à con‑
solidação dos direitos de cidadania dos usuários do hospital, de seus familiares e
dos próprios trabalhadores da saúde.
É isso que nos pede a ética da proteção social como direito, como elemen‑
to fundante da cidadania, lembrando‑nos da importância de captar as diferenças
sociais, as necessidades dos usuários, mas também as suas capacidades que
podem ser desenvolvidas tanto no contexto hospitalar quanto em sua própria
comunidade por meio das redes de apoio, o que é fundamental para sua proteção
e autonomia.
O alcance do olhar do profissional eticamente comprometido transcende os
muros do hospital, buscando os núcleos de apoio na família, na comunidade, luga‑
res sociais de pertencimento onde se dá o cotidiano de vida das pessoas. É na coti‑
dianidade da vida que a história se faz, é aí que se forjam vulnerabilidades e riscos,
mas se forjam também formas de superação (Martinelli, 1995).
Por outro lado, é também esse compromisso ético‑político que deve nos fazer
avançar na sistematização das ações e na construção de conhecimentos. Se quere‑
mos qualificar a intervenção, temos de fortalecer a produção teórica do conheci‑
mento em Serviço Social, pela mediação da pesquisa, condição indispensável para
subsidiar a construção de saberes comprometidos com a qualidade do exercício
profissional.

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 107, p. 497-508, jul./set. 2011 503
É preciso, portanto, qualificar o conhecimento para qualificar a intervenção,
o que exige:
• realizar a pesquisa a partir da prática;
• construí‑la a partir do lugar da experiência;
• trabalhar a partir de uma proximidade crítica com os sujeitos;
• ter sempre no horizonte o valor social do conhecimento produzido, seu
retorno ao campo da intervenção e aos sujeitos que dele partilham;
• intercambiar experiências, dialogar pela via interdisciplinar, para ser cria‑
tivo na construção do conhecimento;
• ancorar esse modo de produzir conhecimento nas próprias vivências, na
experiência social cotidiana, dando‑lhe visibilidade e transformando o
“conhecimento silencioso” em “conhecimento partilhado” (Polanyi, 1983),
por meio de sua socialização;
• enfim, ter sempre presente que pela construção do conhecimento, de
novos saberes e práticas, buscamos melhorar a intervenção para que,
como expressão de nosso projeto ético‑político possamos nos fortalecer,
produzindo práticas que expressem nossa vontade política e que sejam
capazes de refundar a política como campo de direitos e refundar o
social como espaço de construção de utopias, de invenção de futuros
(Martinelli, 2006).

Ainda que saibamos que, para muitos dos sujeitos com quem trabalhamos no
contexto hospitalar, o crepúsculo da vida se avizinhe, não podemos perder o com‑
promisso com a construção de utopias, com a reinvenção da própria vida.
É isso que nos pede a ética, que humanizemos as nossas ações no trato com
a vida, em todas as suas expressões, incluindo certamente o momento da finitude.
Barchifontaine e Pessini, estudiosos da Bioética, divulgam em seu livro Bioética
e saúde (1989, p. 198‑99) a “Carta dos direitos do paciente terminal”, que resul‑
tou de um seminário realizado em Lansing, Michigan, nos Estados Unidos, sobre
esta temática — Paciente terminal, como ajudá‑lo? —, e cujo princípio é exata‑
mente o seguinte: “Tenho o direito de ser tratado como pessoa humana até que
eu morra”.
Mesmo considerando que hoje a própria expressão paciente terminal sofre
questionamentos por parte dos estudiosos da bioética, da tanatologia e dos profis‑

504 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 107, p. 497-508, jul./set. 2011
sionais que atuam na área dos cuidados paliativos, que falam em termos de pacien‑
tes criticamente enfermos, parece‑nos oportuno situar em anexo a referida Carta,
por sua profunda dimensão ética. O importante é que tenhamos a coragem de fazer
de nossa prática uma expressão plenamente ética e desejante, que pulse com a
própria vida.
Para que tenhamos sempre presente em nosso horizonte o compromisso de
humanizar a nossa prática, aprendamos a evocar, como bem nos ensina Fernando
Pessoa (1965, p. 343):

Torna‑me humano, ó noite,


Torna‑me fraterno e solícito.
Só humanitariamente é que se pode viver.
Só amando os homens, as ações, a banalidade dos trabalhos,
Só assim se pode viver.
Torna‑me humano, ó noite.

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 107, p. 497-508, jul./set. 2011 505
ANEXO

Carta dos Direitos do Paciente Terminal


“Tenho o direito de ser tratado como pessoa até que eu morra.”

“Tenho o direito de ser cuidado por pessoas sensíveis, humanas e competentes


que procurarão compreender e responder às minhas necessidades e me ajudarão
a enfrentar a morte e garantir a minha privacidade.”

“Tenho o direito de ser aliviado na dor e no desconforto.”

“Tenho o direito, ao aceitar minha morte, de receber ajuda de meus familiares e


de que estes também sejam ajudados.”

“Tenho o direito de não morrer sozinho.”

“Tenho o direito de receber cuidados médicos e de enfermagem mesmo que os


objetivos de cura mudem para objetivos de conforto.”

“Tenho o direito de discutir e aprofundar minha religião e/ou experiências reli‑


giosas, seja qual for o seu significado para os demais.”

“Tenho o direito de morrer em paz e com dignidade.”

“Tenho o direito de expressar à minha maneira, sentimentos e emoções frente à


minha morte.”

“Tenho o direito de participar das decisões referentes aos meus cuidados e trata‑
mentos.”

“Tenho o direito de ter esperança, não importa quais mudanças possam acontecer.”

“Tenho o direito de ser cuidado por pessoas que mantêm o sentido da esperança,
mesmo que ocorram mudanças.”

(Barchifontaine; Pessini, 1989, p. 198‑199)

Recebido em 13/6/2011  n   Aprovado em 4/7/2011

506 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 107, p. 497-508, jul./set. 2011
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508 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 107, p. 497-508, jul./set. 2011
Crime‑prisão‑liberdade‑crime
o círculo perverso da reincidência no crime*
Crime‑jail‑free (liberty)‑crime — the wicked circle the crime reincidence

Angelita Rangel Ferreira**

Resumo: Esse artigo objetiva identificar, a partir das vozes e visões


daqueles que a protagonizam — homens e mulheres privados de liber‑
dade no Centro de Remanejamento do Sistema Prisional (Ceresp) de
Ipatinga (MG) —, os fatores sociais, políticos, econômicos, históricos
e culturais que os impelem a reproduzir o percurso crime‑prisão‑liber‑
dade‑crime, num círculo vicioso sem fim. O que importa é realizar tal
análise sem, contudo, se eximir de responsabilidade analítica, teórica
e política.
Palavras‑chave: Reincidência criminal. Sistema prisional. Estratégia
de satisfação de necessidades.

Abstract: This article aims to identify, from the voices and visions of those who are protagonists
— men and women deprived of liberty in the Relocation Center of Prisons (Ceresp) Ipatinga/MG — the
social, political, economic, historical and cultural factors that impel them to reproduce the route
crime‑jail‑free (liberty)‑crime, in an endless vicious circle. What matters is to perform the analysis,
without, exempt (shunning) an analytical, theoretical and political responsibility.
Keywords: Criminal reincidênce. Prision sistem. Strategies that meet their needs.

* Artigo síntese da dissertação de mestrado apresentada ao Programa de Pós‑Graduação em Serviço


Social da Universidade Federal de Juiz de Fora/MG, Brasil, em agosto de 2010, sob orientação da professo‑
ra dra. Carina Berta Moljo.
** Mestre em Serviço Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora/MG, Brasil. E‑mail: angeli‑
ta_rangel@hotmail.com.

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 107, p. 509-534, jul./set. 2011 509
Introdução

E
sse artigo é fruto de uma pesquisa de mestrado onde buscamos identifi‑
car os fatores sociais, políticos, econômicos, culturais e históricos que
“forçam” o envolvimento e a permanência de homens e mulheres em
práticas qualificadas como criminosas, mesmo depois de cumprir pena
de privação de liberdade. O interesse foi realizar a pesquisa com as pessoas que se
encontram privadas de liberdade no Centro de Remanejamento do Sistema Prisio‑
nal (Ceresp) de Ipatinga (MG), em particular aqueles(as) que respondem por dois
ou mais artigos na justiça criminal, já que queremos compreender os motivos da
reincidência no crime.
Para tanto, foram pesquisados 180 processos e realizados nove grupos focais
formados por seis a dez integrantes cada grupo, além entrevistas individuais. No
total foram ouvidas 77 pessoas, sendo 26 nas entrevistas individuais e 65 nos gru‑
pos focais.1 O contato direto com o público pesquisado, por meio de entrevistas,
pode possibilitar uma experiência enriquecedora ao permitir “redescobrir” a trama
do real sobre a ótica dos sujeitos que a vivenciam (Moljo, 2001, p. 96). Além des‑
tes, ouvimos também o diretor do Ceresp/Ipatinga e ainda contamos com a expe‑
riência profissional da pesquisadora como atuante no espaço pesquisado.
O ineditismo desta pesquisa reside no fato de que privilegiamos fazê‑la a
partir da vivência cotidiana e experiência desses atores que a protagonizam, pois
as literaturas que tratam do tema não o fazem a partir das vozes das pessoas que
vivem essa experiência, e geralmente apontam a criminalidade como um fato dado,
natural, e não explicam sua gênese e o movimento no qual se expressam. Isto é, são
perspectivas que negam o movimento histórico que a engendra como expressão
fundamental da sociedade burguesa. Trata‑se, portanto, de trazer à tona e tornar
públicas as vozes e as visões dessas pessoas.
No entanto, antes de entrarmos diretamente no propósito deste artigo, pon‑
tuamos sucintamente o resultado da pesquisa no que tange à temática sistema
prisional, discutida nos grupos focais e nas entrevistas. Ratificamos, então, o que
não é nenhuma novidade: o sistema prisional não tem sido eficaz no tratamento
dispensado aos sujeitos privados de liberdade, o que favorece, inegavelmente, o

1. Cabe lembrar que catorze pessoas que participaram das entrevistas individuais também participaram
dos grupos focais.

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retorno à criminalidade. O que se assiste é um retrocesso histórico no trato da
questão da social, tendo em vista o endurecimento das penas, em vez de alterna‑
tiva à prisão. Retroage‑se aos mecanismos de repressão e controle como único
escopo da pena criminal.
Se, por um lado, grande parte das pessoas envolvidas com a problemática da
criminalidade compreende que a prisão não tem alcançado resultados satisfatórios,
muito pelo contrário, tem contribuído para a segregação daqueles que por ela pas‑
sam, por outro, a entende como “desvio de caráter”, “desajustamento” do indivíduo,
devendo, portanto, a prisão favorecer a “ressocialização” (leia‑se: reajustamento
individual) desses sujeitos para então devolvê‑los à sociedade.
No entanto, a “ressocialização” pretendida é pensada via “trabalho honesto”,
disciplinamento e “boa conduta”. Assim, a prisão aparece como um aparelho para
transformar os indivíduos de “boa índole”, corrigindo‑os para o retorno à socieda‑
de, por meio da imposição do sofrimento e da dor. Essas formulações coincidem
com as conclusões às quais se pode chegar a partir da perspectiva identificada no
Centro de Remanejamento do Sistema Prisional de Ipatinga (MG).
Ratificamos também o que discute Wacquant (2008) quando fala que o Esta‑
do depende cada vez mais da polícia e da utilização da pena de prisão para conter
o caos gerado pelo desemprego, pelo subemprego, pela imposição do trabalho
precário, pela informalidade e pela redução da proteção social, características do
presente período histórico. Assim, opta pela repressão e controle, além de ações
paliativas, porque enfrentar, de fato, a questão social, buscando transformá‑la,
significaria o rompimento com a ordem social vigente.
É sabido que as prisões brasileiras violam quaisquer condições dignas de
sobrevivência, ainda mais quando se somam à privação de liberdade a superlotação,
a ociosidade, a não separação dos presos nas celas, os maus‑tratos, como é carac‑
terístico das prisões brasileiras, em particular o Ceresp Ipatinga (MG). Então não
se justifica falar de ressocialização, uma vez que incita e promove exatamente o
“não ajustamento”, a revolta, e não submissão à ordem, pelos efeitos perversos
que produz.
Todavia, na perspectiva de análise do presente trabalho, jamais será eficaz
em virtude de as pessoas envolvidas com a política de segurança pública ou polí‑
tica penitenciária ou ainda criminal vislumbrarem apenas medidas paliativas e
punitivas que não vão ao cerne dos problemas. Não se trata de construir e/ou re‑
formar presídios, mas de envolver a discussão da reforma agrária, justiça, direitos

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humanos, fiscalização e punição da corrupção, política de emprego, saúde, educa‑
ção, moradia, quando se discute a política prisional. Assim, será possível pensar
em mecanismos que conduzirão a transformações mais profundas, resgatando o
compromisso com a construção de sociedades mais justas, mais iguais, mais livres
e mais solidárias e que conduzirão também à abolição do sistema penal. Porque,
como nos lembra Wacquant (2001) e ratificado neste trabalho popr meio do perfil
de nossos entrevistados, brevemente apresentado adiante, as prisões estão repletas
de sujeitos presos por conta de envolvimento com drogas, furtos e roubos, sujeitos
estes provenientes das camadas mais subalternas da sociedade, e não de crimino‑
sos violentos e perigosos.

Breve apresentação do perfil dos pesquisados


Apresentamos de forma breve o perfil dos sujeitos da pesquisa, conforme os
dados coletados. No que diz respeito à idade, podemos notar que a grande maioria
cobre a faixa etária entre 18 e 35 anos de idade. Ou seja, 45% possui entre 18 e 25
anos e 43% possuem entre 26 e 35 anos. Implica dizer que 88% da população pes‑
quisada possuem entre 18 e 35 anos de idade.
Ao analisarmos os indicadores relacionados ao estado civil e número de filhos
do público pesquisado, concluímos que 50% são solteiros; 32% vivem em união
estável e apenas 9% são casados. Os dados relacionados ao número de filhos indi‑
cam que 31% dos presos não possuem filhos, e um percentual de apenas 11%
possui mais de três filhos, cabendo lembrar que 45% deles possuem entre 18 e 25
anos de idade. Verificamos ainda que, dos presos solteiros, 43% possuem filhos,
fato que demonstra não existir ligação entre casamento e filhos.
Com relação ao uso de drogas, pudemos inferir que 79% deles faziam uso
de drogas no momento em que foram presos ou já fizeram uso em momentos
específicos de suas vidas. Apenas 21% deles declararam que nunca consumiram
drogas.
Quanto à escolaridade, os dados coletados demonstram o baixo grau de ins‑
trução do público pesquisado: 70% possuem o ensino fundamental incompleto,
sendo que a maior parte destes pode ser considerada “analfabeta funcional”, ou
seja, aqueles que mal sabem ler e escrever. Apenas 2% deles possuem o ensino
médio completo e nenhum possui ensino superior, o que nos remete à ótica apre‑
sentada por Ramalho (1984) de que os jovens das classes subalternas são recrutados

512 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 107, p. 509-534, jul./set. 2011
para o sistema prisional. A escola não teve nenhum significado para esses jovens,
por isso optaram ou foram forçados a deixá‑la para realizar outras ações que, na‑
quele momento, lhes pareceram mais significativas, como para exercerem trabalho
infantil, por exemplo.
Como o nível de escolaridade é muito baixo, eles também não possuem
quase nenhuma qualificação profissional que lhe permita viver do exercício dela.2
Os indicadores demonstram que 40% do público pesquisado declarou ter a pro‑
fissão de ajudante de serviços gerais, quase sempre a de ajudante de pedreiro, e
um percentual de 12% a de pedreiro. As demais profissões citadas foram: vaquei‑
ro, garçonete, doméstica, copeiro, açougueiro, jardineiro, salgadeira, vidraceiro,
empacotador, entre outras. Diante desse quadro, trazemos os dados referentes à
inserção no mercado de trabalho: 42% já tiveram inserção no mercado formal de
trabalho, e 39% nunca tiveram um emprego ou se encontravam na informalidade,
e 19% não possuíam esse dado em seus processos. Isso nos remete à discussão
da escassez de políticas públicas que ataquem, de fato, o problema do emprego
no país, assim como políticas efetivas de atendimento ao egresso do sistema
prisional.
Os dados referentes ao artigo são reveladores: 36% já cometeram o crime
qualificado como furto — subtrair, para si ou para outrem, coisa alheia móvel.3 O
percentual de presos que cometeram o crime tipificado como roubo é de 28%, e o
de tráfico de entorpecentes é 21%. Se somamos esses percentuais, temos que 85%
do público do Ceresp de Ipatinga praticaram crimes ligados ao consumo e à posse.
Como a satisfação das “necessidades vitais e necessárias”4 depende de meios ma‑
teriais que, nesta sociedade, são adquiridos por intermédio do dinheiro, daí a justi‑
ficativa pelo envolvimento no furto, roubo e tráfico de drogas, que são crimes que

2. A profissão para eles se caracteriza pelos conhecimentos adquiridos no exercício prático da atividade
desempenhada, não tendo como levar em consideração os saberes adquiridos na esfera da formação porque,
como vimos, nenhum dos entrevistados possui formação escolar técnica. A profissão declarada foi a ativida‑
de laborativa que já exerceram, pois, é a atividade desempenhada ou o conhecimento adquirido, ainda que
sem permanência suficiente para constituir uma profissão, que é a referência que possuem no momento de
busca de inserção no mercado de trabalho.
3. O furto (art. 155 do CPB) é caracterizado pela não violência, enquanto, no roubo (art. 157 do CPB),
já há presença de violência e/ou ameaça à vítima.
4. “Necessidades vitais” são necessidades físicas, fundamentais para a garantia da sobrevivência, como
se alimentar, morar, vestir etc. “Necessidades necessárias” se referem àquelas criadas pela sociedade capita‑
lista que vão para além das necessidades físicas. Para melhor compreensão da categoria necessidades, con‑
ferir Ferreira e Moljo (2010).

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 107, p. 509-534, jul./set. 2011 513
podem possibilitar a aquisição de recursos financeiros que lhes vão garantir a sa‑
tisfação de tais necessidades.
Mas se comparamos esses crimes de menor gravidade com os crimes mais
violentos, vimos uma desproporção muito grande. O percentual de sujeitos presos
em função da prática de homicídio — consumado ou apenas tentado — é de 6%,
já o referente a estupro e/ou atentado violento ao pudor é de apenas 1%, o que
contraria o discurso político e midiático dominante. Notamos, portanto, que as
prisões estão repletas de pessoas que cometeram crimes tipificados como furto,
envolvimento com drogas, roubo ou ainda ameaça e lesão corporal. Esses dados
vêm derrubar o mito constantemente disseminado de que no sistema prisional só
tem homicida e estuprador.
Outro dado interessante de se analisar é o fato de que 31% dos pesquisados
possuem mais de quatro processos na justiça criminal. Se somamos esse percentual
com os que possuem três e quatro processos, perfazemos um total de 75%. Implica
dizer que 75% dos presos do Ceresp/Ipatinga (MG) respondem por três ou mais
processos, novamente cabendo lembrar que estamos falando de uma população
extremamente jovem para ostentar tantos processos.
Enfim, podemos inferir que o perfil dos presos do Ceresp de Ipatinga (MG) é
o perfil da pobreza no Brasil: população jovem, de baixa escolaridade, sem quali‑
ficação profissional, vítima do trabalho infantil, envolvimento com drogas ilícitas
e que ingressou no crime muito cedo e ainda sem possibilidade de entrar no mer‑
cado de trabalho, por isso, muitos permanecem dias, meses e até anos desempre‑
gados, e é nessa oportunidade que muitos voltam a recorrer ao crime, como será
visto mais adiante.
A partir desse perfil e somando‑se a ele a questão do envolvimento em atos
considerados criminosos e a permanência nesse tipo de prática depois de cumprir
pena de privação de liberdade, comungamos com Torres (2005, p. 3), quando expõe
que, há muito, as prisões “servem para causar o sofrimento e a degradação humana,
pelo confinamento e pela punição àqueles que não corresponderam às normas mo‑
rais e as leis e, por isso, devem ser isolados dos que seguem os padrões da ordem
social dominante”.
Diante disso, acreditamos que a não existência de uma rede de proteção social
às famílias, em particular às famílias de egressos prisionais, apenas faz aumentar as
possibilidades de reincidência no crime, pois tendem a repetir o percurso “crime‑pri‑
são‑liberdade‑crime” num processo de busca de sobrevivência à “barbárie social”.

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Refletindo acerca dos fatores que favorecem a permanência no crime
a partir das vozes dos pesquisados
Durante a realização dos grupos focais com homens e mulheres reincidentes
no crime que se encontram privados de liberdade no Centro de Remanejamento de
Presos de Ipatinga (MG), assim como nas entrevistas individuais, foi questionado
sobre os motivos que os levaram a se envolver pela primeira vez em práticas con‑
sideradas criminosas. Em suas respostas, apareceram questões como: crime como
estratégia de satisfação de necessidades,5 sobretudo geradas pelo sistema capitalis‑
ta; desejo de ganhar dinheiro fácil; vontade de consumir os produtos que são ofe‑
recidos no mercado, a que poucos têm acesso; fator relacionado à culpabilização
do local de moradia, geralmente o vinculando à pobreza, dizendo que as “más
companhias” aproveitam um momento de fragilidade deles e acabam por envolvê‑los
em práticas consideradas criminosas; drogas; aprendizado ainda na infância e o fato
de passar a considerar tudo “normal”. Ainda foi citada a ausência de apoio familiar,
o que implica dizer que, na visão do entrevistado, ele e a família são os únicos
responsáveis pelo envolvimento em práticas criminosas.
No entanto, como já mencionamos, o objetivo de nossa pesquisa era identifi‑
car os fatores motivadores da continuidade no crime, mesmo depois de passar pela
experiência da privação de liberdade. Contudo, o que interessa é ouvir, a partir da
vivência cotidiana e da experiência deles, e tornar público os fatores que os “con‑
dicionam” a permanecer no crime.
Assim, foi possível inferir pelo menos oito fatores motivadores da reincidên‑
cia no crime:

1. Dificuldade de se inserirem no mercado de trabalho devido à folha de antecedentes

A questão da discriminação e do preconceito que muitos enfrentam, inclusive


para se inserir no mercado de trabalho, porque a sociedade não abre as portas para
quem já viveu a experiência da privação de liberdade, foi citada em todos os grupos
e entrevistas individuais realizadas. Esse abrir as portas está vinculado ao emprego.

5. Não são as necessidades reais da classe trabalhadora, mas as necessidades alienadas geradas pela
sociedade capitalista.

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Como não conseguem emprego porque possuem antecedente criminal, “optam”
pela continuidade na prática criminosa conforme relato abaixo.

Infelizmente, pra sociedade, preso um dia, sempre será preso. Se a pessoa já passou
pela cadeia uma vez, nunca mais vai ser a mesma coisa. Pra sociedade, você nunca
vai voltar e agir dignamente. Pra sociedade, você vai ser sempre criminoso. Está
manchado pelo resto da vida. (LJC, GF)6
Muitas pessoas não têm oportunidade, vai pra sociedade e volta a fazer a mesma
coisa, porque a própria sociedade não dá oportunidade, discrimina, não aceita. É por
isso que, muitas vezes, a pessoa faz o que sabe fazer: vai matar, vai roubar, vai traficar,
porque a própria sociedade não dá oportunidade. E a sociedade quer que a pessoa
muda, mas como, se ela não dá oportunidade? (HSC GF 7)
Eu já arranjei um trabalho na empreiteira da prefeitura, na hora que eu tava pronto pra
trabalhar, na hora de pegar o crachá, o pessoal falou que eu não podia trabalhar porque
eu tinha antecedente criminal e aí o mundo acabou pra mim. Na hora, eu só pensei em
fazer coisa errada. (MJR, GF 4)

Podemos observar, pelos depoimentos expressos acima, que a folha de ante‑


cedentes impede, em grande parte dos casos, as pessoas de conseguirem um traba‑
lho, ainda que informal. Oprimidos pela condição de desempregados e com neces‑
sidades próprias e da família para serem satisfeitas, muito desses sujeitos optam
por satisfazê‑las via retorno às práticas consideradas ilícitas.
Mas essa presença de preconceitos não é própria apenas da sociedade, como
eles dizem, mas de si próprios, como confirmado pelos depoimentos acima. Signi‑
fica dizer que se consideram pessoas que apenas sabem matar, roubar, furtar, pros‑
tituir etc. Então, se a sociedade não fornece oportunidades, essas serão as práticas
que irão adotar. Não se percebem como pessoas que jamais tiveram oportunidade
de fazer outra coisa, de aprender outra coisa, de seguir uma trajetória diferente.
Como não dão conta de perceber a essência do problema, buscam justificativa na
discriminação e no preconceito vivenciados por eles devido ao fato de possuírem
um histórico criminal.
De fato, há resistência por parte da sociedade em absorver este contingente,
seja por conta do preconceito, da discriminação, seja porque desconhece os motivos
que levam as pessoas a praticar tais atos. Caso contrário, a folha de antecedentes
não seria exigida antes da contratação.

6. Como dito anteriormente, para coleta dos dados foram utilizadas entrevistas individuais e grupos
focais. Portanto, quando aparecer GF, deve‑se ler grupo focal e EI, entrevista individual.

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Para os pesquisados, a justificativa da não inserção no mercado de trabalho é
a folha de antecedentes criminais. No entanto, nos remetemos à questão da aliena‑
ção a que estamos submersos. Nesta sociedade, somos valorizados por aquilo que
temos, e, se não temos aquilo que a sociedade ou o mercado considera como valor,
somos eliminados. No caso dos sujeitos que passam pelo sistema prisional, são
considerados “lixos sociais”, sem moral, sem caráter, portanto, indignos de respei‑
to e de confiança.

2. Em vez de emprego, o crime

Querer consumir os produtos que são oferecidos no mercado, a que poucos


têm acesso, é um fator que apareceu em todos os grupos pesquisados. Esses sujei‑
tos buscam no crime uma forma de garantir a sobrevivência material e social sua e
de sua família, porém, como possuem níveis de escolaridade muito baixos, ausên‑
cia de qualificação profissional e não possuem perspectiva de conseguir bens, di‑
nheiro e consumir os produtos oferecidos no mercado por meio do “trabalho ho‑
nesto”, optam pela vida do crime porque esta lhes parece mais fácil. Tanto que,
aliado a esse querer “melhorar de vida”, “querer uma vida melhor”, “querer crescer”
ou ainda “querer ter mais” como dizem. Salientam também a questão do desem‑
prego, dificuldade financeira, ausência de oportunidade, que, na verdade, como
pode ser observado, nos remetem à questão das desigualdades sociais e à lógica de
organização social capitalista.
Essa busca do “ganhar dinheiro fácil” seduz muitos jovens e adolescentes para
a criminalidade e possui raiz histórica no Brasil, como pontua Zaluar (2004).7 Na
expectativa de obter prazer e poder proporcionado pelo crime, esses jovens sofrem
influências de determinados valores que impelem suas ações nessa direção.

A facilidade que tá o crime hoje de te oferecer muito dinheiro. Um pai de família,


hoje, trabalha trinta dias aí pra ganhar quatrocentos reals, um criminoso hoje ganha
dez, quinze mil com menos de vinte minutos/ou talvez que menos, ganha lá seu mil
real por semana. Então é uma bandeja muito fácil que se torna cara. (SOLP, EI)

7. Para a autora, a corrupção associada ao clientelismo remonta à história republicana do país, perpas‑
sa pela ditadura militar e provoca “atitudes fortemente anticlientelistas e antiestatais nos movimentos sociais
ligados à oposição, além de facilitar o aparecimento das redes e dos circuitos da lavagem do dinheiro do
crime organizado no período da redemocratização” (Zaluar, 2004, p. 152‑153).

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No princípio, as pessoas vai... tem uns que vai pela fama, como se diz, subir de status
no mundo do crime [...] as pessoas entra nessa aí achando: “ah, vou dá tiro, ficar fa‑
moso, vou, como se diz, namorar muita mulher e tal. (SBS, GF 3)

Geralmente, buscam explicação para seu envolvimento na pobreza. Trata‑se,


contudo, não apenas da privação de bens materiais, mas também simbólica, de afir‑
mação de uma identidade. O atrativo para os meninos e jovens é a sensação de
poder e fama ao fazer parte de uma quadrilha, portar armas, participar de roubos
ousados, além da possibilidade de ascender na hierarquia do crime. Uma vez lá
dentro, não conseguem mais sair. Esses valores de querer fazer fama, adquirir
­dinheiro impelem suas ações mesmo depois de cumprir pena. Eles tentam justificar
seu envolvimento na “desestruturação familiar” e, consequentemente, na necessi‑
dade de contribuir para complementar a renda familiar.
Todavia, o comportamento do jovem que se envolve em práticas qualificadas
como crime não se justifica pela pobreza ou ausência de uma figura masculina na
família. Tanto que assumem, posteriormente, durante a entrevista, que o grande
atrativo para sua adesão a práticas dessa natureza é a possibilidade do enriqueci‑
mento rápido.

Ah! Igual eu mesmo, os outros chamam e você acaba indo. Igual eu mesmo, de menor,
procurando emprego e ninguém dá e aí os colegas chamando; você vê que pode ganhar
dinheiro fácil e acaba indo. (SMA, EI)
O que faz a mente revoltar pro crime é o cara ver muito dinheiro entrando no bolso
dele, fácil; ele não precisar de trabalhar, ele só arriscar a pele dele, né! Porque ele pode
ser preso. (SBS, EI)
Então, eu saí de casa e nunca tinha feito programa e aí comecei a fazer programa e a
ganhar dinheiro rápido e fácil. (SJS, EI)

No entanto, vive‑se uma ilusão, pois o “ganhar dinheiro fácil” também o faz
gastar facilmente, o que, por sua vez, contribui para a perpetuação e a repetição
compulsiva do ato criminoso. Como resultado, muitos desses jovens, na maioria
negros e pobres, morrem prematuramente ou acabam por lotar ainda mais o tão
caótico sistema prisional brasileiro.
Nessa perspectiva, conforme salienta Zaluar (2004, p. 162),

ilusão do “dinheiro fácil” revela a sua outra face: o jovem que se encaminha para a
carreira criminosa enriquece não a si próprio, mas outros personagens que quase

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sempre permanecem impunes e ricos: receptadores de produtos roubados, traficantes
de atacado, contrabandistas de armas, policiais corruptos e, por fim, advogados cri‑
minais.

Isso implica dizer que, embora o crime seja praticado por todas as classes,
quem vai para o sistema prisional é aquele inserido na classe subordinada, o que
explicita o caráter classista do sistema prisional brasileiro.

3. Desumanização provocada pela violência institucionalizada no sistema prisional

Torres (2005, p. 3) apud Wacquant (2004), afirma que as prisões são utilizadas
como

“aspirador social” para limpar as escórias das transformações econômicas em curso:


os infratores ocasionais, os jovens autores de pequenos furtos, os desempregados e os
sem‑teto; os toxicômanos e toda ordem de excluídos sociais deixados de lado pela
proteção social. Para estes, o recurso do encarceramento para debelar as desordens
urbanas é um remédio que, em muitos casos, só agrava o mal que pretende sanar.

Portanto, a prisão serve para agravar ainda mais a situação já vulnerável dos
sujeitos que a frequentam, contribuindo para afundá‑los, cada vez mais, na crimi‑
nalidade. Ou seja, nas palavras de Carvalho Filho (2006, p. 9), “a improdutividade
do sistema penitenciário é produtiva! Produz sujeitos objetiva e subjetivamente
sequelados e por isso de alguma forma produz a reincidência criminal e assim
amplia os índices de violência urbana”. Nesse sentido, a prisão os transforma, só
que em pessoas piores, uma vez que o que faz parte da realidade dos estabeleci‑
mentos prisionais são as desassistências jurídicas, psicológicas, sociais, materiais,
de saúde, educacionais; a ociosidade; as torturas físicas, psicológicas, morais; os
espancamentos; o abuso de poder por parte dos agentes do Estado, entre várias
outras, ratificadas abaixo.

A mente da gente fica muito vazia, sem ocupação aqui dentro. Eles taca a gente aqui
e praticamente esquece. [...] Agora, tacar no cárcere no meio de ladrão, traficante,
de homicida, vou te falar pro cê, o cara que num conhece nada da vida do crime,
vira criminoso mesmo, uai! O primário se torna reincidente por causa disso mesmo,
cê entendeu? Porque o primário vem e aprende altas coisas aí dentro da cadeia.
(MSC, GF 5)

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Ele vem pra cadeia, a tendência dele, a mente dele é voltada para o crime, pra prati‑
car coisa ruim, porque ele tá passando muita raiva, neurose, veneno, família aban‑
dona, não é todo mundo que consegue vim num lugar desse, aí a tendência é só
piorar. (PNI, GF 5)
Ele vem num 155, da próxima vez, ele já volta num 157. Aí fala: “157 já num tá bão,
agora vou pro 12”, depois volta num homicídio, cê entendeu? Aqui é a escola do
mundo mesmo! (GAD, GF 5)

Dessa forma, a prisão, justamente por seus malefícios e pela natureza desu‑
mana, “pela ociosidade, pela total desassistência e sujeição à disciplina, ao romper
com a sociabilidade do indivíduo com o mundo livre, contribui para seu embrute‑
cimento e sua incapacitação para o convívio social” (Torres, 2009, p. 114), confor‑
me já visualizado nos depoimentos acima, “forçando” muitos sujeitos ao retorno
ao crime quando em liberdade. Essa violação de direitos é consentida e justificada
porque é feita em nome do Estado. Se for para manter a ordem e a disciplina, ao
Estado é permitido violar direitos, torturar, enganar, matar etc. Tal concepção é
alimentada pela mídia e reproduzida pela sociedade.
No entanto, a prática punitiva de privação de liberdade não tem contribuído
para a redução do índice de criminalidade, muito pelo contrário. Os depoimentos
comprovam que as prisões os tornam “pessoas piores” porque essa é “a escola do
mundo”, é onde se somam conhecimentos e aprendem os mais variados crimes para
praticar quando em liberdade, dada sua forma de organização.
Outro motivo do apontamento da prisão como estímulo à reincidência diz
respeito à ausência de políticas públicas de atendimento às suas famílias duran‑
te o período do encarceramento. Para muitas famílias, o preso era o provedor
do lar e, na ausência deste, suas famílias ficam completamente desassistidas no
que diz respeito à satisfação de suas necessidades. Wacquant (2008, p. 105)
afirma, inclusive, que “o encarceramento é em si uma poderosa máquina de
empobrecimento”.
Dessa forma, o contexto de pobreza, subalternidade, violência e marginaliza‑
ção não se altera após o período de segregação, muito pelo contrário, os depoimen‑
tos demonstram que, durante o período de privação de liberdade, as condições de
vida de seus familiares pioraram e que os presos, após deixarem o sistema prisional,
encontram sua família em condições inferiores às que deixaram e, nessa oportuni‑
dade, tendem a repetir o ato criminoso para suprir o período de ausência como
provedores do lar.

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Isso é com certeza! Não é a mesma vida que tinha quando eu tava na rua. Porque eu
tenho profissão, entendeu? Sou pedreiro, sou mecânico montador e eu tava trabalhan‑
do, cê entendeu? (GGF, EI)
Ah! Mudou muita coisa lá em casa! Agora tá mais mudado ainda porque veio meus
dois irmãos pra cá. Agora que tá mais difícil ainda! (Faz silêncio, se emociona e cho‑
ra). (SAL, EI)

Tendo em vista tudo que foi apresentado até esse momento, vimos a inviabi‑
lidade do sistema prisional porque este apenas contribui para a desumanização de
quem passa por ele. Ali, presenciamos situação de humilhação, injustiças, sofri‑
mento, privações para além da privação de liberdade etc. De fato, viver num am‑
biente marcado pela ausência de trabalho, de recreação, de lazer, de cuidados
adequados à saúde, à educação e de contato com a família — conforme previsto na
LEP em seus artigos 12, 13, 14, 17 ao 21, 24 e 41, afeta cada sujeito na falta de
perspectiva de vida, pois, além de tudo isso, eles ainda estão sujeitos a diversas
formas de transgressão à sua integridade física, psíquica e moral.
Assim, reforçamos a necessidade da construção de uma nova cultura menos
repressiva e mais humana, menos coercitiva e mais democrática para que as pessoas
vivam com dignidade. Uma cultura em que o valor máximo seja a liberdade e o
respeito ao outro.

4. A sucumbência às tentações do crime

Wacquant (2007, p. 462) pontua que a “prisão apresenta a particularidade de


ser uma bomba social que regurgita: quase todos aqueles que são ‘sugados’ por ela
são eventualmente ‘expelidos’ de volta para a sociedade”. Porém a prisão devolve
à sociedade pessoas com sequelas e marcadas para sempre, uma vez que, quando
o sujeito adquire a liberdade, a sociedade o rejeita, o estigmatiza, o repugna e o
força a voltar à criminalidade por ausência de condições dignas de subsistência
material e social.
De acordo com os dados levantados pela pesquisa, os egressos do sistema
prisional não optam facilmente por reincidir no crime e, quando deixam a prisão,
têm mesmo a intenção de buscar ocupação no mercado de trabalho, entretanto
encontram muitas dificuldades, já pontuadas acima. Apesar de uma série de difi‑
culdades, eles não deixam de fazer planos para o futuro. No entanto a capacidade

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de realizá‑los está circunscrita a um rol de possibilidades ditadas pela dinâmica de
acumulação capitalista. Trava‑se uma luta interna entre a busca pelo emprego e pela
realização de seus planos “honestamente” e por sucumbir‑se às tentações do crime.
Essa luta se traduz no depoimento abaixo.

Olha a minha situação: eu, quando sair daqui, vou querer me reintegrar à sociedade,
então, o quê que eu vou fazer? A primeira coisa é correr atrás de um emprego pra
sociedade me ver com um uniforme e me olhar com outros olhos, entendeu? Então,
como é que eu vou sair e não arrumar um emprego? A primeira oportunidade que ocê
vê é outro na rua te oferecendo uma droga, um revólver, te chamando ocê pra meter
o “bico”! Já que a sociedade não tá te dando esta oportunidade, ocê bate numa porta,
bate noutra, e ocê não arruma nada, cê vê seus meninos lá dependendo do grosso que
é o arroz e o feijão, ocê vai fazer tudo por seus filhos. Ocê vai meter um revólver, ocê
vai dar um tiro, ocê vai oprimir os outros. Então, a primeira coisa que eu tenho, que
eu acho que tem que fazer e que eu vou fazer é correr atrás de um emprego, porque,
se a sociedade me ver com um uniforme, ela já vai me ver com outros olhos. Pelo
menos, eu acho. Sabe por quê? Porque o uniforme manda muita coisa “olha lá, oh, o
cidadão de bem!” (risos). (ACS, Gfocal)

Essa procura por emprego implica gastos de “locomoção, o que muitos não
têm como cobrir, resultando na manutenção do egresso na sua própria comunidade,
onde muitas vezes se iniciou na criminalidade e onde é esperado o seu retorno”
(Carvalho Filho, 2006, p. 8). Tanto que eles se utilizaram de uma máxima, durante
a realização dos grupos, que diz o seguinte: “a sociedade descarta, e o crime abra‑
ça”. É nesse sentido que pontuamos que a ausência de condições dignas de sobre‑
vivência faz com que o sujeito reincida. Se não tem um Estado nem, como eles
mesmos dizem, “um particular”, para lhes oferecer uma colocação, o crime os
alicia, o que significa dizer que a saída que encontram é o próprio crime.

A sociedade descarta nós porque temos um pequeno delito, mas o crime só quer abra‑
çar, quer puxar é nós pra eles. (HLJ, GF 8)
Eu acho o seguinte, pela incidência do preso, ele tem dificuldade pra arranjar emprego
e o mundo do crime oferece muitas oportunidades para o cara quando ele sai lá na rua.
O que mais tem é “vão fechar nós dois”. Meter furto na rua, roubar. (ACS, GFINAL)8

8. Questionado sobre o que significa “fechar nós dois”, responde: “por exemplo, ocê tá lá na rua, de‑
sempregado, tá dentro de casa e eu vou e saio da cadeia hoje, estou procurando emprego e não encontro,
então chamo: ‘vão fechar nós dois?’ aí pronto, acabou, foi feito um trato. O que mais acha na rua é isso, é

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Eu sou reincidente porque saí na rua encontrei dificuldade na sociedade, de reintegrar
na sociedade de novo, entendeu. Não arrumei um emprego bão para eu cuidar da
minha família, e é como eu falei o crime me adotou de novo, entendeu? (HLJ, EI)

Podemos observar, pelos depoimentos, que os entrevistados questionam o


papel do Estado, assumindo que, já que não têm como suprir suas necessidades pela
forma considerada normal pela sociedade, que é via políticas públicas, através de
um Estado social presente, então buscam a satisfação de suas necessidades da for‑
ma que encontram naquele momento, ou seja, via criminalidade. Porque, para eles,
o crime está de “braços abertos”, apenas esperando‑os.

Quando ocê sai, você vai numa empresa pedir um emprego eles te pedem o antece‑
dente criminal, e, no crime, quando ocê chega, o crime te financia ocê de uma forma
muita alta, dinheiro, tudo que ocê precisar no momento ele te arruma e ele num pede
bom comportamento não! Ele quer que você tem o pior comportamento que seja.
(MSC, GF 5)

Assim, valendo‑nos da ausência do Estado e da situação de completo aban‑


dono que essa população se encontra, podemos assistir ao florescimento do crime
organizado com atuação dentro e fora das prisões.9 Na verdade, muitos jovens têm
os grupos e gangues como referência em suas vidas e muitos acabam por se envol‑
ver com esses grupos por ele lhes proporcionarem vantagens materiais e financeiras,
além de proteção.

Comecei como avião na boca de fumo na favela em que morava, que é o Morro dos
Prazeres, aonde foi gravado o filme Tropa de Elite. Com isso tudo, na época a facção,
era o 3º Comando, oposto ao Comando Vermelho, e devido ser muitos cara da infân‑
cia, na minha época lá, eu comecei a fazer avião pra eles (GCL, EI).
O quintal lá de casa era três lotes e eles já começou a ficar fumando droga no fundo lá
de casa. Ocê, criança, vai vendo aquilo ali e vai sendo influenciado. Eles pedia eu pra
buscar as coisas pra eles. Eu comecei praticamente como um aviãozinho (LJC, EI).

uma pessoa de reincidência encontra na rua uma outra que tá passando dificuldade e aí pronto, fecha com a
outra” (Dal. GFINAL).
9. O PCC originou‑se nos presídios paulistas, em 1993. “Sua trajetória é a de uma organização crimi‑
nosa que se desenvolveu com o vertiginoso aumento do número de presos no estado e com a piora das
condições de segurança nas cadeias, onde cada vez mais a barbárie vence a ordem” (Abrucio, 2006). Dispo‑
nível em: <http://toligadonapolitica.blog.terra.com.br/depoisdatempestade>. Acesso em: 4 set. 2006.

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De acordo com o Crisp (2006), no geral, esses jovens se organizam em grupos
compostos de oito a doze pessoas, nos quais desponta um líder que se encarrega
de proporcionar vantagens materiais e financeiras ao grupo auferidas do comércio de
drogas. Dessa forma, aos membros do grupo são garantidas, armas, drogas e pro‑
teção. Paradoxal é que, justamente essa busca de proteção irá vitimar a maioria
desses jovens em conflitos com membros de outras gangues ou por dívidas relativas
às drogas. O crime aparece como a forma mais fácil que encontram para resolver
os problemas que surgem, sendo a forma que muitos deles aprenderam a utilizar
desde a infância.

5. Recuperar o tempo perdido — querer “levantar‑se”

De acordo com os entrevistados, quando o sujeito vai preso, ele perde tudo
que conseguiu de bens materiais através dos meios que mobiliza para que não seja
condenado ou que a condenação seja baixa. Quando deixa o sistema prisional,
encontra a família em condições piores do que as que deixou quando entrou para
o sistema. Não querendo viver na situação de miséria, opta por tentar o último
delito, a fim de conseguir algo de valor que vai lhe proporcionar uma vida melhor,
e, como os delitos que garantem a aquisição de maiores recursos, também são mais
arriscados. É nessa oportunidade que muitos voltam para a prisão. Como explicam
os depoimentos a seguir:

Então o quê que acontece? Ao invés de eu ter arrumado um emprego, ter aproveitado
aquele momento, o quê que eu fiz? Voltei pro meio dos meus colegas de novo e já
comecei a praticar meus mesmos delitos ali, pra mim arrumar dinheiro pra mim já me
levantar. É o tal de “levantar”! Ocê sai da cadeia e é o tal de quer arrumar o tal do
“levantar”. Pensa, ah não! Eu tô quebrado, não tenho nada... Foi o que aconteceu
comigo, eu fui querer me levantar e acabei preso de novo! Entendeu? (MSC, EI)
Agora tem muitos aí que não têm nem profissão, não têm serviço garantido, têm difi‑
culdade pra encontrar serviço. Então a mente deles é só aquela: sair daqui eu vou ter
que meter uns três assaltos que é pra mim levantar, arrumar um dinheiro pra poder
começar a vida; ou pensa em pegar uma droga pra vender e aí acontece o que tá acon‑
tecendo, dois meses na rua e volta. (LAR, GF 3)

Existe mesmo um círculo vicioso que os aprisiona. Cada um busca uma jus‑
tificativa para o injustificável, isso porque eles próprios não dão conta de perceber

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que a dinâmica na qual estão inseridos é que os instiga a querer ter cada vez mais
e, se for sem esforços, melhor ainda. Se, como vimos, não possuem quase nenhuma
escolaridade, não possuem profissão que vá lhes possibilitar ter uma “vida boa”, o
que lhes sobra são trabalhos precários, que exigem força física, trabalho mal pago
e que eles não querem, daí preferirem a permanência no crime.
Ainda vivemos numa cultura de que o trabalho dignifica o homem, então é
vergonhoso não trabalhar, por isso o não trabalho é criminalizado. No entanto,
nossos pesquisados não querem o lugar que foi reservado a eles. Eles se identificam
com uma “vida de rico” e é o lugar de ostentação e prazer que querem ocupar,
porém sem grandes esforços. Não querem ficar “por baixo” e como não vislumbram
conquistar isso por intermédio do trabalho, ainda mais depois de terem “sujado a
ficha”, permanecem no crime.
Como síntese dessas trajetórias, podemos dizer que, desde a infância ou ado‑
lescência, começam a se envolver em práticas consideradas criminosas e, quando
atingem a maioridade penal (dezoito anos de idade), são presos pela primeira vez.
Aqueles que conseguiram conquistar alguns bens ou dinheiro gastam o que conse‑
guiram para evitar ou reduzir o tempo de condenação. Quando deixam a prisão,
partem para recuperar aquele dinheiro que perderam e, nessa oportunidade, são
presos novamente. Nesse momento, sua situação já está mais complicada perante
a sociedade, agora o seu nome já está “sujo”, já possui um histórico criminal reco‑
nhecido. Nesse sentido, sentem que necessitam tentar algo mais ousado que lhes
permita viver sem tanta privação. Assim, caem num círculo vicioso sem fim.

6. Em nome da “justiça”, a prática de “injustiças”

A criminalização de certas substâncias, como maconha, cocaína e crack, por


exemplo, conferiu à polícia um enorme poder, por ocasião da criação da antiga lei
de tóxicos (Lei n. 6.368/1976), pois é a polícia que fornece a prova material, prin‑
cipal elemento no momento da condenação. São os policiais que realizam o regis‑
tro do auto de prisão em flagrante (APF) e do boletim de ocorrência (BO). Esses
registros são alvos de denúncias por vários entrevistados, sobretudo aqueles presos
acusados de tráfico de entorpecentes, em função de portarem pequenas quantidades
dessas drogas e responderem por tráfico.
O objetivo, não se sabe ao certo, pode ser por quererem demonstrar eficiência,
ou vingança pessoal, ou ainda para provarem que não fazem parte do esquema de

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corrupção, como pontua Zaluar (2004), mas prendem simples usuários ou “aviões”
(pequenos vendedores ou apenas entregadores da droga). Na fase do inquérito, a
principal testemunha é o policial que efetuou a prisão e deu flagrante. Como geral‑
mente os julgados são recrutados da população mais empobrecida, não podem
contar com a defesa de bons advogados, acabam por ser condenados, o que não
acontece com os grandes distribuidores de drogas e armas, bem como com aqueles
praticantes do chamado “crime do colarinho‑branco”.
Esse fato leva os entrevistados a questionar o papel da própria “justiça” re‑
presentada na figura do policial que deu o flagrante. Tanto no que diz respeito a
forjar uma prova quanto no que se refere à corrupção.

Eu tava fumando, uai! A droga que eu tava era pra eu fumar e aí eles foi e pegou. Eles
colocaram 33,10 né! (MLO, EI)
O cara que usa droga ele gosta de ter um cordão de ouro bonito; uns relojão bonito,
mais é onde a polícia fica de olho nele e não pega ele com nada, então, ela pega um
pedaço de droga desse tamanho assim (mostra com as mãos) e vai lá e faz tudo em
pino e aí dá um pulão nocê e já joga aquele trem perto docê, te forja [...]. (SBS, EI)
Polícia gosta de forjar mesmo, ainda mais a gente que já é um sujo com eles, tem o
nome na praça. Aí vem a revolta do preso, porque pagar pelo que não fez traz mais
revolta pra dentro da cadeia, e o cara sai mais revoltado da cadeia. (BWS, G1)

Nessa mesma linha de raciocínio, aparece a figura do policial que os persegue


por conta de possuírem um “histórico infamante”. Em muitos casos, se sentem
injustiçados no momento da abordagem porque o policial não leva em consideração
o fato presenciado, mas o histórico criminal da pessoa abordada.

Às vezes, você nem fez o delito e eles acabam pondo aquilo mais pelo passado que
você teve. (LJC, EI)
Eu acho que é a própria polícia mesmo que faz você voltar a ser criminoso. A própria
polícia que não gosta de você na rua, te encosta e traz ocê, talvez sem dever nada, eles
mesmo te forja ocê. [...] a pessoa estoura de novo e acaba voltando a praticar o crime.
(ASMF, GF2)

10. O art. 33 da Lei n. 11.343/06 trata do crime de “importar, exportar, remeter, preparar, produzir, fabri‑
car, adquirir, vender, expor à venda, oferecer, ter em depósito, transportar, trazer consigo, guardar, prescrever,
ministrar, entregar a consumo ou fornecer drogas, ainda que gratuitamente, sem autorização ou em desacor‑
do com determinação legal ou regulamentar”.

526 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 107, p. 509-534, jul./set. 2011
Aí eu tava na rua, eu tava trabalhando na rua, ele foi e pegou eu, sem flagrante nem
nada, me deu um 180,11 falou que eu tava comprando produto roubado e aí chegou lá
na delegacia e num apresentou o negócio que eu tava comprando e aí eles voltou
comigo. Eu tô aqui hoje por causa de uma coisa que eu tenho minha consciência
limpa que eu não fiz. Aí eles pôs lá como eu fiz, não apareceu testemunha, nem apa‑
receu nada, as pessoas falando que eu comprei, é só as polícias mesmo que têm recal‑
que de mim. (RRR. EI)

Cabe lembrar que estamos falando de Ipatinga (MG), uma cidade de médio
porte, onde, em muitos casos, os policiais residem no mesmo bairro que o “crimi‑
noso”; onde as pessoas se conhecem, as relações sociais são muito próximas; onde
policiais e “bandidos” se conhecem e se cruzam no dia a dia. A sensação transmi‑
tida é de que os policiais os prendem inocentemente, apenas por vingança pessoal.
Entre acreditar no policial que efetuou o fragrante e no “criminoso”, é claro que a
“justiça” dá credibilidade ao agente do Estado.

7. O uso de drogas

Nossos entrevistados também apontam o vício da droga como fator impulsio‑


nador da criminalidade. De acordo com eles, o dependente químico, muitas vezes,
para manter o vício da droga, se utiliza de práticas delituosas. Implica dizer que,
quando este não consegue, via “trabalho honesto”, manter o vício, pratica furtos e
roubos para mantê‑lo.

O cara se torna dependente dela, então, pra poder ter a droga, o cara acaba roubando,
furtando. Eu tava fichado, ganhando 750 reais por mês, mais, no momento que eu tava
precisando da droga, eu não tinha dinheiro, tava desnorteado, fumava mais de 20 g
por noite de pedra. Como eu não tinha dinheiro, saí pra roubar. (CDD, GF 3)
O que me levou no crime e, em geral, foi a droga. Eu comecei a fumar maconha aos
doze anos, com uns quinze, eu fui conhecer a pedra, eu só nunca apliquei na veia, mais
o resto, já experimentei tudo, cocaína, crack, maconha, já consumi tudo. Então são
coisas que você vende o que tem e o que não tem e faz coisas que jamais, que só Deus
sabe a capacidade de fazer aquilo. (PBW, GF 8)

11. Receptação: “Art. 180 — Adquirir, receber, transportar, conduzir ou ocultar, em proveito próprio
ou alheio, coisa que sabe ser produto de crime, ou influir para que terceiro, de boa‑fé, a adquira, receba ou
oculte” (CPB).

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 107, p. 509-534, jul./set. 2011 527
O cara começa a se envolver com droga, vicia e, às vezes, o dinheiro que ele recebe
no mês não dá pra ele comprar a droga, aí ele começa a roubar, traficar, fazer tudo
errado. (MS, GF 5)

Então, como explicitado, a dependência da droga leva a pessoa tanto a incidir


quanto reincidir no crime. Outra questão relacionada ao fator drogas, que também
apareceu nos grupos, diz respeito ao fato de o uso das drogas influenciar o delito
por provocar determinadas sensações que impelem as pessoas ao delito.

É tipo uma necessidade que dá no organismo da pessoa, na mente, aquela ansiedade.


Principalmente o crack. O crack te dá um aceleramento na mente, no coração assim,
que você fica abafado, [risos] você fica disposto até a matar pra pegar aquilo ali! É,
uai! O crack é cabuloso esse tal de crack! (CAS, GF 5)
Porque, se eu colocar duas, três pinga na cabeça, aquilo me dá uma disposição que
vou falar procê a verdade, eu acho que eu vou até na Lua, entendeu? (GAD, GF 5)

Hygino e Garcia (2003, p. 33) afirmam que a droga não pode ser vista apenas
“como um entorpecente, um componente químico que produz sensações específicas
no corpo biológico, mas como um recurso mediador, ou seja, um artifício por meio
do qual se satisfaz uma necessidade psíquica e social”. O conhecimento que se
produz sobre o produto e o consumidor da droga é ainda muito estigmatizador e
preconceituoso a partir de uma visão farmacológica e epidemiológica. Nessa pers‑
pectiva, as medidas preventivas advertem para as implicações de seu uso abusi‑
vo, assim como para o crescente mercado de produção, distribuição e circulação
da droga.
O que podemos inferir a partir dos dados apresentados é que a droga — ­tanto
o uso quanto o tráfico — é criminalizada. Como diz Batista (2003, p. 84) “aos
jovens de classe média, que a consomem, aplica‑se o estereótipo médico, e aos jovens
pobres, que a comercializam, o estereótipo criminal”. Dissemina‑se que o “inimigo”
é a droga, mas, se examinamos o contexto de aparecimento dela, percebemos que
o inimigo é outro e a este interessa seu autoextermínio.
Em caráter conclusivo, podemos afirmar que, a partir do uso, nossos entrevis‑
tados se envolvem em um círculo vicioso do qual não mais conseguem sair. Temos
que eles iniciam muito cedo no uso de drogas e, não conseguindo sair, entram para
o tráfico e perdem o controle da própria vida. Do uso passam para a criminalidade
como forma de garantir a continuidade do consumo, porque não conseguem cobrir
com os custos dela, o que, para nossos entrevistados e milhares de jovens no mun‑

528 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 107, p. 509-534, jul./set. 2011
do, torna‑se um caminho sem volta. Não conseguindo se livrar do vício, passam a
furtar, roubar ou traficar para se manter. São presos, não são submetidos a nenhum
tipo de tratamento nem dentro das unidades nem fora delas —, muitos continuam
usando drogas no interior das próprias unidades prisionais —, o que acaba por
forçá‑los a repetir o percurso criminoso, sendo que, para muitos, é por toda a vida.

8. Estratégia para satisfação das necessidades materiais e sociais próprias da


sociedade do capital

Todos os entrevistados foram unânimes em relacionar a reincidência no crime


à ausência de condições dignas no retorno à sociedade. Geralmente, atrelam essas
condições ao emprego. Ou seja, pelo fato de não terem conseguido inserção no
mercado formal de trabalho, a grande maioria não vislumbrava alternativas senão
a prática de atos como o roubo, o tráfico de drogas ou o furto. O que se verifica é
uma relação determinista, relacionando a criminalidade a uma questão de pobreza,
sem se entenderem como sujeitos históricos e passíveis de modificar a forma como
está organizada a sociedade.
Deixamos para citar esse fator por último por entendermos que todos os demais
explicitados anteriormente estão vinculados a ele. Ou seja, sem condições de colo‑
car sua força de trabalho em ação por não ter um capitalista que dela necessite —
seja por conta da folha de antecedentes; por sofrer com perseguição policial porque
possuem histórico no crime; porque são usuários de drogas; possuem baixa esco‑
laridade e ainda não possuem nenhuma qualificação profissional etc. —, muitos
sujeitos ficam à mercê da caridade e da benevolência de entidades filantrópicas.
Aqueles que resistem e não se conformam com esta situação são forçados a criar
estratégias para garantir a sobrevivência social e material. Estas estratégias, para
muitos dos sujeitos pesquisados, são o retorno ao mercado ilícito.

A necessidade. Eu tava com cinco meninos pequenos, grávida do sexto. Meu marido
preso, eu não tinha como arrumar serviço para eu trabalhar, a comunidade também
não me ofereceu, procurar eu procurei, eu sou balconista. Não tava encontrando, tava
prestes a ganhar menino e o único meio de ganhar dinheiro era a droga. O meio que
eu encontrei e aí comecei a vender. (PAS, GF 7)
Eu, a única coisa é que eu nunca caí no “33”, é a primeira vez que eu venho presa
nele. E eu tenho muitos filhos, tenho sete filhos. Então, como disse o outro né, não
quero ver meus filhos passando fome, o que precisar fazer eu faço, só não precisei até

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 107, p. 509-534, jul./set. 2011 529
hoje de tirar a vida de ninguém, o resto, o que for preciso de fazer para tratar deles eu
vou fazer. (AFA, GF 7)
O que me leva a voltar ao crime de novo, falta de roupa, alimentação, uma boa cama,
um banho quente, ter uma linda namorada ao lado para dar joia, então porque que isso
me levou ao crime de novo, porque a sociedade não me deu trabalho para eu ocupar
meu tempo e para eu ganhar aquilo com meu suor. (PBW, GF 8)

Veja que não se está dizendo apenas de satisfação das necessidades mínimas
de se alimentar e se vestir, por exemplo, mas também da necessidade criada pelo
próprio sistema capitalista que é a de consumir os produtos que são oferecidos no
mercado, ainda que sejam considerados supérfluos. Esses produtos geralmente
estão vinculados àqueles bens e serviços que lhes fornecem à ilusão de “fugir à
identificação de pobre”: roupas de marca, cordões de ouro, relógios, tênis da moda
etc., pois acreditam que assim garantem o respeito do outro (Zaluar, 1985).
De acordo com Heller (1978), Marx, em O capital, escreve que determinadas
“necessidades sociais” requerem, para sua satisfação, a existência no mercado de
uma série de mercadorias e que a determinação quantitativa desta é algo absoluta‑
mente elástico e flutuante. Sua segurança, então, é pura aparência. Para esse autor,
se os meios de subsistência fossem mais acessíveis e os salários mais elevados, os
trabalhadores poderiam consumir mais e assim ampliar as “necessidades sociais”.
Os limites dentro dos quais a necessidade de mercadorias se representa no mercado
se distinguem quantitativamente da verdadeira necessidade social, variando de
acordo com as diversas mercadorias. Contudo, essas necessidades sociais referen‑
tes à demanda são mera aparência que não expressa as necessidades reais da classe
trabalhadora, mas apenas as demandas da classe dominante. A satisfação das ne‑
cessidades sociais através do mercado, do valor de troca, para o autor, é a forma
mais característica do fenômeno da alienação.
Dessa forma, é possível inferir que os sujeitos pesquisados utilizam o crime
para satisfazer suas necessidades “necessárias”12 que lhes vão garantir não só a
sobrevivência biológica, mas também as necessidades socialmente criadas pelo
próprio modo capitalista de produção.
Como se pode observar, todos os fatores condicionantes da criminalidade
estão ligados à questão estrutural do modo de produção capitalista. Até quando os

12. “Necessidades necessárias” se referem àquelas criadas pela sociedade capitalista que vão para além
das necessidades físicas.

530 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 107, p. 509-534, jul./set. 2011
sujeitos dizem que o crime os recruta, buscam justificativa na ausência de oportu‑
nidades oferecidas a eles quando em liberdade, seja antes de qualquer envolvimen‑
to em atividades consideradas ilícitas ou mesmo depois de já experimentarem a
privação de liberdade.

Assim, a explicação pela opção pelo crime, da classe mais subalternizada, está nas
condições objetivas existentes — superpopulação relativa — que torna o crime uma
alternativa concreta e mais imediata para o atendimento das necessidades seja ela de
sobrevivência ou de consumo “supérfluo”. (Ferreira e Moljo, 2010, p. 134)

Por isso pontuamos, então, o que parece óbvio: para conter esse quadro de
degradação da vida humana, é necessário um investimento real na melhoria da
qualidade de vida da população brasileira. É necessário que se criem políticas
públicas que atendam integralmente essas famílias em suas necessidades de ali‑
mentação, moradia, educação, saúde, transporte, lazer, trabalho etc., antes que se
envolvam em atividades consideradas ilícitas, assim como para aqueles que já
experimentaram a privação de liberdade a fim que rompam com o círculo vicio‑
so da prisão‑crime‑liberdade‑prisão que aprisiona nossos jovens, quando não
famílias inteiras.

Considerações finais
Todos os fatores motivadores do ato qualificado como criminoso elencados
por nossos entrevistados estão relacionados à forma capitalista de organizar a vida
em sociedade. Orso (2008, p. 57) assinala que “as pessoas até podem não querer
explorar e dominar os outros; podem querer ser fraternas e solidárias, mas são
forçadas a fazer o contrário devido ao modo de produção dominante”. Modo de
produção este que é marcado pela exploração, contradição e desigualdades e, para
sobreviver nele, é necessária a mobilização de formas que nem sempre estão de
acordo com o que se tem como padrão normal e aceito, conforme depoimento
abaixo.

Igual eu te falei, ocê é isolado numa comunidade carente. Tipo assim, o prefeito não
vai lá olhar o que que uma família tá precisando pra se manter; quem tá precisando
de trabalho; então, tipo assim. Você acaba sendo esquecido e uma forma que você
arruma pra sobreviver é o crime, uê! (MAR. EI)

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 107, p. 509-534, jul./set. 2011 531
Conhecendo os fatores sociais, políticos, econômicos, históricos e culturais
envolvidos na questão da criminalidade, e, intervindo nas causas do problema, não
há por que permanecer com a pena de prisão. Não significa dizer que não se deve
ignorar o furto, o roubo, o assassinato, mas permitimos e justificamos as guerras;
matar, torturar, espancar torna‑se uma ação legítima se feito contra um “criminoso”;
permitimos e justificamos a violência institucionalizada; ignoramos as milhares de
mortes que ocorrem todos os dias pela fome, pela desnutrição, pela ausência de mo‑
radia segura, ou seja, porque essas pessoas não conseguem garantir sua sobrevi‑
vência; permitimos e justificamos as infrações às leis trabalhistas e aos direitos
sociais. Quem comete esses crimes não vai preso, então, por que prender o pobre
em vez de lhe garantir a satisfação de suas necessidades antes que se envolva em
práticas consideradas criminosas.
Assim, oferecendo uma alternativa econômica, social, de saúde, educacional
etc., estar‑se‑á atacando a raiz do problema e destruindo o círculo vicioso prisão‑cri‑
me‑prisão que aprisiona gerações; estar‑se‑á construindo outra cultura, não a da
punição/prisão, mas a cultura do direito, da participação, da democracia e do exer‑
cício da cidadania.
Como afirma Wacquant (2007, p. 470), “o meio mais eficaz de fazer a prisão
recuar, três séculos e meio depois de seu surgimento, continua sendo e será sempre
fazer avançar os direitos sociais e econômicos”. Assim, temos que os direitos hu‑
manos apenas se materializam a partir da implementação de políticas sociais capa‑
zes de promover a dignidade humana desde que haja possibilidade concreta e ob‑
jetiva de os sujeitos participarem da riqueza espiritual e material criada pela
coletividade.
A partir da construção de uma visão política, crítica e desvinculada de afir‑
mações condizentes com o que o senso comum tem como “normal”, torna‑se
possível pensar sob a possibilidade de construção de uma nova ordem societária
que valorize a vida humana e, em especial, o respeito àqueles que se encontram
desassistidos pelo Estado e excluídos do acesso aos bens socialmente produzidos.
Embora a necessidade de superação da alienação surja no interior desse
modo de produção, a real superação somente vai ocorrer quando se superar tam‑
bém o modo de produção vigente e as necessidades alienadas, como a necessida‑
de do dinheiro, do poder e de possuir e construir uma nova sociedade, em que o
valor máximo seja a verdadeira riqueza humana. Então haverá a possibilidade de
criação de uma sociedade diferente de iguais, a sociedade de homens livres em

532 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 107, p. 509-534, jul./set. 2011
todos os sentidos da palavra e que tenda para a emancipação humana (Ferreira e
Moljo, 2010).
Os resultados da investigação confirmaram a ideia de que o estado de pobre‑
za marca as condições de vida daqueles que passam pelo sistema prisional. Os in‑
dicadores de escolaridade, profissão, artigos a que está submetido etc., que constroem
o perfil desse público, demonstram essa situação, deixando claro o enorme déficit
que o Estado tem com esse contingente populacional. Então sabemos quem são
esses sujeitos, por isso é necessário que se façam políticas sociais diretamente di‑
rigidas para essa população antes de ela ingressar no crime. A partir da análise do
material coletado fica claro que a grande maioria deles foi criada em condições
miseráveis desde a infância, uma infância barbarizada, sem direito a cultura, a lazer,
a educação, sendo esse o marco da sua socialização, e aprenderam, desde cedo, que
o crime pode ser uma estratégia de sobrevivência, ainda que dure pouco. Assim,
não podemos responsabilizar somente esses jovens por um problema que não é
apenas pessoal, mas social.

Recebido em 22/2/2011  n   Aprovado em 13/6/2011

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534 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 107, p. 509-534, jul./set. 2011
Entre monstros e vítimas:
a coerção e a socialização no sistema
socioeducativo de Minas Gerais*
Between monsters and victims: the coercion and the socialization
within the socioeducational system of Minas Gerais

Clarissa Gonçalves Menicucci**


Carla Bronzo Ladeira Carneiro***

Resumo: Este trabalho analisou as formas de implementação do


Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e do Sistema Nacional
de Atendimento Socioeducativo (SINASE) em dois centros socioedu‑
cativos de Minas Gerais e a maneira como esses centros lidam com a
presença de duas lógicas coexistentes na política voltada ao adoles‑
cente em privação de liberdade: a coerção e a socialização. A pesquisa
demonstrou que a implementação e a articulação das lógicas variam
nas unidades, principalmente em função da estrutura física, do perfil
dos internos e da visão dos implementadores sobre as normativas.
Palavras‑chave: Adolescente em conflito com a lei. Adolescente em
privação de liberdade. Centros socioeducativos. Coerção e socialização.
Implementação de políticas públicas.

Abstract: This work analyzed the implementation of the Statute of the Children and Adolescents
(ECA) and of the National System of Socioeducational Service (Sinase) in two socioeducational centers

* Este artigo é fruto de uma dissertação de mestrado associada a uma pesquisa mais ampla.
** Mestre em Administração Pública pela Escola de Governo da Fundação João Pinheiro. Possui gra‑
duação em Comunicação Social — Jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais,
Brasil. E‑mail: cacamenicucci@gmail.com.
*** Doutora em Sociologia e Política pela Universidade Federal de Minas Gerais e mestre em Socio‑
logia pela Universidade Federal de Minas Gerais. Possui graduação em Ciências Sociais pela Universidade
Federal de Minas Gerais, Brasil.

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 107, p. 535-556, jul./set. 2011 535
in Minas Gerais and how these centers deal with the two simultaneous logics in the policy focused
on the adolescents in deprivation of liberty: the coercion and the socialization. The research showed
the implementation and the articulation between the two logics vary mainly due to the physical struc‑
ture, the profile of the adolescents and the visions of the front‑line bureaucrats about the norms.
Keywords: Adolescent in conflict with the law. Adolescent in deprivation of liberty. Socioeducatives
Centers. Coercion and socialization. Public Policies Implementation.

Introdução

D
o Código de Menores (Lei n. 6.697/79) ao Estatuto da Criança e do
Adolescente (Lei n. 8.069/90), a política de atendimento aos adoles‑
centes envolvidos em atos infracionais passou por mudanças marcan‑
tes no Brasil. Se na primeira legislação prevalecia uma lógica mera‑
mente coercitiva, com o ECA foi introduzida na política uma perspectiva
pedagógica de atendimento focada no respeito à singularidade do adolescente
(Frota, 2002; Oliveira e Assis, 1999). Nesse sentido, foram criadas as medidas
socioeducativas — regulamentadas pelo Sistema Nacional de Atendimento Socio‑
educativo (Sinase, 2006) —, com o objetivo de possibilitar a reinserção social
desses jovens.
No que se refere à privação de liberdade, que é a mais severa das medidas, o
novo enfoque das normativas não eliminou os aspectos coercitivos da legislação
anterior. A presença de duas lógicas distintas — a da coerção e a da socialização
— é parte da realidade institucional das unidades de internação de adolescentes e
está ligada à concepção da política e ao seu caráter híbrido, simultaneamente jurí‑
dico e social (Bronzo, 2001).
Além dessa dualidade, a política de atendimento aos adolescentes em privação
de liberdade lida com a possibilidade de reinterpretações de seus princípios, dado
o alto grau de discricionariedade e autonomia de seus implementadores. A influên‑
cia dos street‑level bureaucrats ou funcionários de ponta (Lipsky, 1996), neste caso,
é marcante. Os profissionais responsáveis pelo atendimento têm relativa liberdade
para tomar decisões diante de situações do dia a dia, adaptando suas ações à estru‑
tura física da unidade e ao perfil dos internos, ao mesmo tempo em que têm que
lidar com uma conformação de regras programadas.
Essas questões refletem a complexidade da política e serviram de orientação
para o desenvolvimento deste trabalho. Buscou‑se compreender as formas de im‑

536 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 107, p. 535-556, jul./set. 2011
plementação do ECA e do Sinase em dois centros socioeducativos de Minas Gerais
— aqui denominados Centro 1 e Centro 2 — e a maneira como essas unidades lidam
com as duas lógicas coexistentes na política: a coerção e a socialização. Partiu‑se
da hipótese de que a forma de implementação varia nos centros principalmente em
função da estrutura física, do perfil dos beneficiários e da visão dos implementado‑
res sobre as normativas. Estes três elementos influenciariam a definição de estraté‑
gias e práticas nos centros, as quais espelham as formas de articulação das duas
lógicas.
Os centros foram escolhidos por apresentarem contextos institucionais e tra‑
jetórias diferenciadas, o que permitiu uma comparação entre realidades distintas.
O Centro 1, localizado em Belo Horizonte, foi criado depois do ECA e conta com
funcionários mais recentes, que passaram por treinamentos articulados aos princí‑
pios do estatuto. O Centro 2 está localizado na zonal rural do município de Sete
Lagoas, é o mais antigo do sistema e foi a sede da antiga Fundação Estadual de
Bem‑Estar do Menor (Febem) em Minas Gerais.
Para este estudo, foram realizadas trinta entrevistas semiestruturadas com
secretários, diretores de unidades, técnicos de diversas áreas, agentes socioeduca‑
tivos e adolescentes internos, além de observação direta dos locais. Também foram
utilizados dados de registros das unidades e da Secretaria de Estado de Defesa
Social relativos a 2008. As entrevistas foram feitas no âmbito da pesquisa “Avalia‑
ção da aplicação de medida socioeducativa de internação a adolescentes em con‑
flito com a lei”, realizada pela Fundação João Pinheiro, em 2009, com recursos do
CNPq e da Fapemig.

Especificidades e formas de organização dos serviços


A presença de duas lógicas na política de atendimento ao adolescente em
privação de liberdade e a discricionariedade de seus implementadores fazem com
que a modelagem institucional a partir da qual a política é operada tenha caracte‑
rísticas peculiares.
A relação entre os tipos de políticas e a organização dos serviços foi analisa‑
da por Martinez Nogueira (1998) a partir de duas dimensões: a programabilidade
das tarefas e a interação com os usuários. A partir da combinação dessas dimensões,
o autor definiu quatro tipos de políticas sociais. O primeiro inclui as que têm alta
programabilidade e fraca interação com os usuários. Os projetos não necessitam da

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 107, p. 535-556, jul./set. 2011 537
mobilização de usuários para ser implementados, como os programas de transfe‑
rência de renda. O público‑alvo é considerado homogêneo e recebe benefícios
padronizados. O modelo organizacional é burocrático e os executores da política
seguem tarefas predefinidas em uma estrutura hierarquizada.
A segunda modalidade de política tem alta programabilidade e interação
intensa com os usuários, como os programas de atenção básica à saúde, nos quais
a gestão é central e programada, mas os executores têm que apresentar capacida‑
de de decisão para prestar os serviços. A terceira inclui os projetos de baixa pro‑
gramabilidade e interação fraca com os usuários, como os programas de ajuda
emergencial.
O quarto tipo representa projetos de baixa programabilidade e elevada inte‑
ração com os usuários, que têm suas “ações desenhadas em função das necessida‑
des ou situações particulares do receptor” (Nogueira, 1998, p. 18) e dependem de
atividades de legitimação entre os usuários e entre a sociedade. Há baixa formali‑
zação e rotinização das atividades, contextos técnicos pouco consolidados, alta
discricionariedade do operador e descentralização das ações.
O atendimento ao adolescente em privação de liberdade experimenta a ambi‑
guidade e a tensão decorrente de um modelo que combina as duas situações extre‑
mas descritas. De um lado, o atendimento em unidades de internação tem que lidar
com o problema da coerção e manutenção da ordem, que aponta para uma inter‑
venção com maior programabilidade e interação pouco intensa com o usuário,
procurando garantir rotinas, uniformidade e disciplina. De outro lado, principal‑
mente a partir do ECA, ao lado dos anteriores, colocam‑se os objetivos e estratégias
de socialização e reconstrução de valores, atitudes e identidades. Este tipo de in‑
tervenção situa‑se na situação oposta à anterior, ou seja, de baixa programabilidade
e interação intensa com os destinatários. Deste ponto de vista pode‑se explorar
analiticamente a possível tensão e os conflitos decorrentes da convivência — e até
da competição — dentro de uma mesma unidade, de modelos de intervenção di‑
vergentes, que apontam para marcos institucionais e de gestão muito distintos
(Costa, Bronzo e Menicucci, 2009)
As unidades socioeducativas têm relativa liberdade para operar dentro dos
princípios do ECA e do Sinase. Não há uma linha pedagógica única para lidar com
os jovens, e os profissionais podem ter entendimentos distintos sobre quais ativi‑
dades são adequadas para integrá‑los na sociedade. Embora esse tipo de projeto
demande uma intervenção que requer soluções específicas, a discricionariedade dos

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agentes também impõe riscos de reinterpretação de objetivos, o que pode gerar um
redesenho do projeto.
A complexidade da política e a dificuldade de se estabelecer metodologias de
intervenção únicas e objetivas fazem pensar que não existe apenas uma política,
mas sim várias “políticas” possíveis voltadas para esses adolescentes, em cada
estado, em cada cidade e em cada centro socioeducativo. Em Minas Gerais, o go‑
verno estadual, a quem compete a gestão da medida de privação de liberdade, vem
buscando, nos últimos anos, construir uma política afinada com o ECA, o que não
significa que em todos os centros socioeducativos ela seja implementada de forma
idêntica. Nas 26 unidades que integram o sistema estadual, permanece o desafio de
articular as duas lógicas e adaptar‑se às especificidades dos adolescentes e da es‑
trutura, podendo‑se supor que exista grande variabilidade nesse processo.
A pesquisa nos centros socioeducativos 1 e 2 mostrou que a estrutura física,
o perfil dos beneficiários e a visão dos implementadores oferecem explicações
sobre as disparidades e semelhanças de implementação da política nas unidades de
internação, influenciando as práticas e provando que a possibilidade de adaptação
das diretrizes legais é alta. As lógicas da coerção e da socialização são articuladas
de forma diferenciada nas instituições, dependendo de como as equipes interpretam
a política, lidam com estrutura e com os adolescentes e, a partir disso, organizam
suas rotinas.

A estrutura e os limites impostos ao atendimento


Uma estrutura física adequada ao atendimento pedagógico e à manutenção da
segurança nas unidades de internação para adolescentes é uma das premissas do
ECA. O artigo 94 do Estatuto faz menção à necessidade de as entidades oferecerem
atendimento personalizado, em pequenos grupos, preservando a identidade do in‑
terno e oferecendo um ambiente de respeito e dignidade. As instituições devem
estar em condições adequadas de habitabilidade, higiene, salubridade e segurança
e oferecer atividades pedagógicas, culturais, esportivas, de lazer, escolarização e
profissionalização.
Com isso, o marco legal buscou garantir um atendimento ao adolescente que
levasse em conta sua situação peculiar de desenvolvimento e seu papel enquanto
sujeito de direitos. Ao mesmo tempo, reafirmou a necessidade de se garantir a se‑

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gurança da instituição e dos internos, como explicitado no artigo 125: “É dever do
Estado zelar pela integridade física e mental dos internos, cabendo‑lhe adotar as
medidas adequadas de contenção e segurança”.
No que se refere à estrutura física, os estudos de caso dos centros 1 e 2 indicam
que há uma diferença marcante entre as duas unidades no grau de implementação
das normativas. Essas diferenças se expandem para as formas de organização des‑
sa estrutura, o que inclui os critérios para alocação, circulação e saídas externas dos
adolescentes.
No centro 1, o espaço aberto é propício ao desenvolvimento de práticas pe‑
dagógicas, mas, ao mesmo tempo, impõe riscos à manutenção da segurança da
unidade. Com casas em vez de pavilhões, telhas em vez de concreto e jardins por
todos os cantos, a estrutura do centro é um espaço acolhedor e humanizado, mas
pode oferecer riscos de fugas e rebeliões. Este paradoxo é parte da unidade, e a
partir dele as equipes desenvolvem suas rotinas e projetos.
No centro 2, a estrutura é bem diferente dos parâmetros definidos pela legis‑
lação. O local reúne características típicas por ter sido o primeiro centro de inter‑
nação de adolescentes de Minas Gerais, ainda no tempo da Febem. Verificou‑se a
sobrevivência de traços de funcionamento do centro que ainda seguem a lógica de
presídio. Mesmo com a desativação das antigas instalações e a construção de um
novo núcleo, ocorrida depois de uma rebelião em 1999, o projeto arquitetônico da
instituição manteve a lógica de pavilhões, sem a criação de ambientes propícios a
atividades socioeducativas. Os alojamentos são semelhantes a celas, as paredes são
sujas, a ventilação e iluminação, precárias. As salas de aulas são bastante pequenas,
e o espaço de circulação ao ar livre se restringe à quadra esportiva, não havendo
espaço para uma “vivência com características de moradia”, como é preconizado
pelo Sinase.
Apesar da estrutura diferenciada, os centros apresentam algumas semelhanças
no que se refere à alocação dos adolescentes. Nenhum deles segue à risca o artigo
123 do ECA, que diz que os alojamentos devem obedecer “rigorosa separação por
critérios de idade, compleição física e gravidade da infração”. No centro 1, os in‑
ternos são alocados apenas de acordo com a compleição física e, no centro 2, não
há critério algum, e os adolescentes são alocados de acordo com as disponibilidades
de vagas nos alojamentos.
O tipo de infração não é levado em conta em nenhum dos centros. Os gestores
justificam o fato como uma maneira de não “rotular” o adolescente ao ato cometi‑

540 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 107, p. 535-556, jul./set. 2011
do. No entanto, parece existir nessa opção uma necessidade de adaptar a política
às possibilidades da estrutura da unidade. De fato, poderia ficar inviável seguir esse
critério à risca, dada a variedade de atos infracionais cometidos pelos internos, o
que acabaria demandando a existência de uma grande quantidade de alojamentos
nos centros.
Por outro lado, é preciso lembrar que a legislação buscou considerar cada
adolescente em sua trajetória específica, impedindo um tratamento burocrático e
massificado aos moldes de uma instituição total1 (Goffman, 1987), como aquele
que era desenvolvido pela Febem. A possibilidade de se anular o sujeito dentro das
unidades se choca com a visão do adolescente enquanto sujeito de direitos. Por isso,
o ECA determina a criação de centros pequenos, para que seja possível um atendi‑
mento mais pessoal, que leve em consideração a trajetória de cada adolescente e
sua singularidade. O conhecimento da “matéria‑prima” a ser transformada é im‑
portante para guiar estratégias mais específicas a serem desenvolvidas pela organi‑
zação (Perrow, 1976).
Em relação às regras de circulação dos internos, há diferenças entre as unida‑
des. O Centro 1 apresenta mais possibilidades de circulação pelas áreas abertas,
jardins e quadras, sem algemas. No Centro 2, a circulação no dia a dia é reduzida
aos núcleos de alojamentos, sendo que nos percursos necessários fora desses locais,
é feito o uso de algemas. O fato é justificado pela direção pelo risco de fugas exis‑
tente dado o tamanho da unidade e a falta de muros por todo o terreno. É curioso
observar, no entanto, que no Centro 1 também não há muros nos arredores e o
terreno é grande, o que não impede que os internos circulem no local. E, apesar da
preocupação em conter os adolescentes, o Centro 2 apresenta mais casos de agres‑
sões a funcionários do que o 1, o que indica que a ênfase exagerada na segurança
pode acarretar mais violência do que transformação.
As saídas externas também ocorrem de forma diferenciada nas unidades. Na
primeira, são relatadas parcerias com instituições públicas e privadas para a reali‑
zação de passeios e atividades culturais e esportivas com os adolescentes. Na se‑
gunda, isso não é descrito como uma prática rotineira, o que é justificado por uma
questão estrutural, pelo fato de o centro estar doze quilômetros distante da cidade,
na zona rural, num local onde não há comunidades residentes próximas.

1. Goffman (1987) definiu como instituições totais os estabelecimentos caracterizados pelo fechamen‑
to e pela barreira à relação social com o mundo externo, com proibições à saída dos internos e realização de
atividades em grupo, com horários e tempos estabelecidos, impostos e controlados por funcionários.

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É possível perceber que a estrutura afeta ou até condiciona o funcionamento
das unidades. O Centro 2 é negativamente afetado por sua estrutura antiga, construí‑
da sob referências legais diferentes do ECA. O projeto arquitetônico da unidade e o
seu isolamento do centro urbano trazem dificuldades para a implementação das
premissas legais atuais. No Centro 1, a estrutura parece ser uma aliada da política,
já que propicia maiores possibilidades de uma vivência com caráter de moradia. A
convivência coletiva é facilitada em um ambiente mais acolhedor, com áreas verdes,
casas coloridas e salas de aula similares às de uma escola convencional. As estraté‑
gias e práticas desenvolvidas nos centros apresentam forte ligação com o aspecto
físico, mas não se pode dizer que esse aspecto seja o único determinante, na medida
em que há outros fatores capazes de influenciar a implementação da política.

O perfil dos adolescentes


Outro aspecto capaz de influenciar a política de atendimento ao adolescente
em privação de liberdade é o perfil dos beneficiários. Este ponto é relevante em
dois sentidos. O primeiro está ligado ao fato de que essa política objetiva ressocia‑
lizar os adolescentes, o que obviamente não poderá ser feito se o próprio adoles‑
cente, enquanto sujeito de direitos, não estiver envolvido com a construção de um
novo projeto de vida. O outro sentido refere‑se às possibilidades de reinserção
social que cada menino — dependendo de sua procedência, inserção no crime,
idade, escolaridade e família — poderá obter com a medida socioeducativa.
O perfil geral dos internos, no que se refere à idade, raça, cor, renda familiar,
escolaridade, envolvimento com drogas e infrações cometidas, é bastante similar e
pode ser visto como o elemento que mais aproxima as duas instituições do que as
distancia. No entanto, um ponto mostra‑se bastante diferente nas duas unidades,
que é a localidade de origem dos internos. No Centro 1, a maioria dos meninos
(75,7%) vem de Belo Horizonte, sendo 17,5% da região metropolitana e 2,7% do
interior do estado. Já no Centro 2, mais da metade (50,7%) vem de cidades do in‑
terior de Minas Gerais, seguidos por 31,7% da região metropolitana e 16,9% da
capital (dados de 2008). Esta diferença está ligada à ausência de centros socioedu‑
cativos em diversas cidades do interior do estado, o que faz com que os adolescen‑
tes tenham que ser distribuídos em unidades distantes de suas comunidades. O
Centro 2, por ser o mais antigo do sistema, é tradicionalmente a unidade que mais
recebe meninos de municípios menores.

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A distância das comunidades de origem dos internos pode impactar negativa‑
mente suas possibilidades de inclusão social e vai contra as premissas da política.
O Sinase determina que o atendimento aos adolescentes em privação de liberdade
seja realizado por meio da constituição de redes de apoio nas comunidades, para
que esses jovens, a partir da medida, possam reconstruir suas vidas. A política deve
buscar ligações com outras ações governamentais e não governamentais, articular‑se
com os demais serviços que busquem atender os direitos dos adolescentes e utilizar
equipamentos públicos mais próximos possíveis do local de residência do adoles‑
cente ou de cumprimento da medida.
O Centro 2 ainda enfrenta o desafio de estar distante de um centro urbano, o
que dificulta o desenvolvimento de atividades externas e a interação da população
com a unidade. A instituição foi projetada durante a vigência do Código de Meno‑
res, quando o objetivo do atendimento era o controle social dos “menores infratores”,
e não a ressocialização de sujeitos de direitos. Naquela época, a construção de uma
unidade distante do centro urbano parece ter sido a solução mais adequada aos
objetivos da política. Não havia uma proposta de articulação com a rede externa, e
o atendimento era feito dentro dos limites da unidade, seguindo o modelo de uma
instituição total.
Atualmente, a distância do Centro 2 da cidade influencia negativamente as
possibilidades de articulação das equipes e o acesso dos adolescentes a equipamen‑
tos públicos e a atividades fora dos limites da instituição. Não há transporte cole‑
tivo que chegue até as proximidades do espaço, e toda saída externa tem que ser
feita por meio do ônibus da Secretaria de Defesa Social que leva os funcionários
ao local, ou de carro, sendo esta última opção inviável, já que o centro conta apenas
com um veículo.
No Centro 1, a inserção dos adolescentes em atividades externas não parece
ser tão complicada, o que não quer dizer que a unidade não enfrente desafios nesse
sentido. Os profissionais e os adolescentes relataram a realização de eventos, feiras,
cursos e festas com a participação das comunidades próximas e das famílias. A
equipe também realiza parcerias com organizações para oferta de atividades espor‑
tivas e culturais aos adolescentes. Neste caso, a reinserção pode ser facilitada pela
localização do centro na zona urbana e pelo fato de que a maioria dos internos é de
Belo Horizonte, o que auxilia a integração com a comunidade e o envolvimento
das famílias.
Outras características relativas ao perfil dos adolescentes em conflito com a
lei de um modo geral e que também podem interferir nas possibilidades de sua

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inclusão social estão ligadas às trajetórias de evasão escolar e ao convívio próximo
com a pobreza e a criminalidade. Mais de 80% dos internos dos dois centros, em
2008, contavam com uma renda familiar per capita de um a dois salários mínimos,
e a maioria deles tinha escolaridade restrita ao ensino fundamental. Esses adoles‑
centes vieram de famílias com vulnerabilidade alta e persistente e conviveram com
vários tipos de privação e necessidades insatisfeitas.
A naturalização do ato infracional na vida desses jovens (Calheiros e Soares,
2007), uma consequência de suas trajetórias de exclusão, evasão escolar, falta de
oportunidades e convivência com a criminalidade, pode influenciar negativamente
o atendimento socioeducativo. A vontade de consumir e a busca de afirmação da
masculinidade contribuem para a formação de uma identidade ligada ao crime, já
que este oferece oportunidades rápidas de inserção e status social aos jovens de
comunidades pobres (Assis, 1999; Zaluar, 1994). Algumas explicações dos adoles‑
centes sobre a entrada na criminalidade deixam a entender que este caminho foi
considerado natural na vida deles.

Já trabalhei como ajudante de carpinteiro, mas sem carteira assinada. Era ótimo, mas
ganhava pouco. Aí conheci outra vida e parei de trabalhar.
Todo mundo na minha “quebrada” tinha arma e eu queria ter também.
O tráfico é dinheiro que vem rápido e gasta rápido. Gastava muito com mulher e roupa.
Nunca tive medo de nada, sou homem.

As dificuldades de atingir as expectativas de consumo podem ser ampliadas


pela carência de formação profissional durante a internação, o que diminui as chan‑
ces de inserção social fora da criminalidade (Assis, 1999). Nas duas unidades, as
equipes relataram que a participação dos jovens em cursos profissionalizantes
ainda é muito falha. O fato foi justificado, em grande parte, pela baixa escolaridade
dos meninos que, quase sempre restrita ao ensino fundamental, é incompatível com
a escolaridade exigida pelos cursos profissionalizantes.
Apesar de os internos terem acesso à escola nas unidades, o longo período de
evasão escolar faz com que o tempo da medida seja insuficiente para se obter a
qualificação necessária para participar de um curso profissionalizante. A análise nos
leva a crer que há uma negligência ou inoperância dos órgãos públicos, que não
estiveram presentes na vida desses adolescentes no início de suas trajetórias. Ao
chegar à internação e perversamente em grande parte pelo próprio perfil dos ado‑
lescentes, as chances de mudança são restritas.

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No entanto, assim como a estrutura interfere na política, mas não a determina
totalmente, acredita‑se que o perfil dos adolescentes não seja um determinante final.
Se assim o fosse, o atendimento perderia o sentido, já que estaríamos falando de
adolescentes irrecuperáveis. O desenvolvimento de estratégias para lidar com esse
público está ligado também — ao lado dos fatores estrutura e perfil dos internos
— às visões dos implementadores sobre os princípios da Doutrina de Proteção
Integral.

A perspectiva dos implementadores


Os agentes responsáveis pela execução de uma política também avaliam seu
desenho e a reinterpretam para, a partir disso, se envolver de formas diferenciadas
na prestação dos serviços (Hill, 2006; Lipsky, 1996). No caso da política voltada
para os adolescentes em privação de liberdade, a pesquisa indica que, apesar das
mudanças conceituais do ECA, algumas tecnologias anteriores permanecem nas
estratégias de atendimento. Em grande medida isto está ligado às resistências dos
implementadores, mas também faz parte do caráter adaptativo da política, que, por
buscar alterar trajetórias de um público extremamente vulnerável, é obrigada a se
adequar às possibilidades reais tanto da estrutura como do perfil de seu público‑alvo.
A partir das entrevistas realizadas com os funcionários dos centros sobre as
normativas que balizam o atendimento, é possível traçar algumas considerações.
Não há um entendimento uniforme sobre o ECA e o Sinase e nem mesmo um
compartilhamento de seus princípios entre as equipes, o que traz consequências
para a implementação da política. No centro 2, é notável uma maior presença do
discurso repressivo do Código de Menores, o que pode ser explicado, em parte,
pela permanência de funcionários antigos que ali atuam desde os tempos da Febem.
Como relatado por um diretor, há uma dificuldade, principalmente dos agentes
socioeducativos,2 de aceitar as normas porque elas “diminuem as possibilidades de
controle do adolescente”.
Mesmo no Centro 1, que é mais recente e teoricamente deveria ter funcioná‑
rios mais inseridos nos princípios da Doutrina de Proteção Integral, também foram
relatados entendimentos diferenciados e discordâncias sobre as normativas. Une‑se

2. O agente socioeducativo como é responsável por acompanhar os internos em todas as atividades


programadas, no intuito de manter a ordem e a segurança da unidade.

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 107, p. 535-556, jul./set. 2011 545
a isso a falta de cursos e treinamentos regulares para as equipes, o que também
está previsto no Sinase, mas parece não ocorrer com frequência em nenhuma das
unidades.
A comparação entre o sistema prisional e o sistema socieducativo aparece nos
relatos de alguns funcionários, o que é preocupante, já que os ambos sistemas
apresentam lógicas diferenciadas. Alguns profissionais, notadamente os ligados às
funções de segurança, acreditam que o ECA dificulta o controle dos adolescentes
e restringe as possibilidades de ações consideradas adequadas para o seu atendi‑
mento. No centro 2, as comparações aparecem também no relato de um diretor que,
ao comparar a Lei de Execução Penal ao Sinase, diz que a primeira “funciona me‑
lhor”. Este entendimento poderia justificar um foco maior das ações do centro na
manutenção da segurança em detrimento dos aspectos pedagógicos.
A influência da visão dos implementadores sobre a política é relevante na
medida em que os funcionários que atuam na base dos serviços têm interação
direta com os usuários da política (Lipsky, 1996). É o caso dos agentes socioedu‑
cativos, que, nas duas unidades, relataram ter alto grau de autonomia para deter‑
minar os benefícios que serão ofertados ao público‑alvo da política, assim como
para classificar as indisciplinas e as sanções correspondentes a que esse público
estará sujeito.
A discricionariedade dos agentes não significa que eles não estejam sujeitos
a regras e normas, até porque os centros contam com regulamentos que definem os
tipos de punições apropriadas para determinados comportamentos dos internos.
Mas, diante de uma situação imprevista, que pode ir de um xingamento a uma re‑
belião, eles acabam seguindo as regras de forma seletiva e interpretada por suas
próprias convicções.
Ao mesmo tempo em que essas reinterpretações podem ter um lado negativo,
na medida em que os agentes são capazes de estabelecer resistências ao ECA, elas
também sugerem uma necessidade de adaptação inerente à política. O atendimen‑
to ao adolescente tem que levar em conta sua singularidade, o que exige dos pro‑
fissionais a capacidade de adaptação diante de diferentes situações, além do fato de
que sempre será necessário se adequar à estrutura disponível e ao perfil dos internos.
A eliminação da discricionariedade dos funcionários seria negativa, já que a
política exige dos profissionais o exercício de tarefas complexas, que dificilmente
poderiam ser totalmente previstas pelas premissas legais. A expressão “cada caso
é um caso”, usada por diversos funcionários dos centros, ilustra bem essa questão,

546 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 107, p. 535-556, jul./set. 2011
apontando para o fato de que estratégias diferentes devem ser utilizadas para ado‑
lescentes diferentes, e o que funciona com um não necessariamente funcionará
com outro.
No Centro 1, de acordo com os funcionários, muitas práticas pedagógicas e
punitivas são desenvolvidas sob essa perspectiva da singularidade do adolescente.
Um exemplo disso é o caso do menino que saiu para visitar a família e trouxe dro‑
gas para a unidade. Ele recebeu como punição a tarefa de ministrar uma palestra
sobre o tema para os outros internos, o que demonstra bem como a adaptabilidade
baseada na discricionariedade dos implementadores pode ser benéfica em um pro‑
jeto socioeducativo. Como lembrou uma diretora deste centro: “O segredo da
medida é poder pensar o que vai funcionar para cada caso”.
No centro 2, essa adaptabilidade parece ser mais restrita. A definição das
oficinas ofertadas aos internos, por exemplo, não leva em consideração o interesse
dos adolescentes, e sim as habilidades dos profissionais do centro. Sobre a definição
de punições, alguns funcionários relataram seguir à risca o regulamento, que foi
desenvolvido logo após uma rebelião em 1999 com o auxílio do Exército e está
focado na segurança. Outros já disseram avaliar as punições cabíveis de acordo
com o caso. “Não dá pra levar a ferro e fogo”, disse um agente.
Mesmo que ocorra de forma diferenciada nas unidades, a adaptabilidade das
ações baseada nas visões dos funcionários é inerente à política voltada aos adoles‑
centes em privação de liberdade. Se este aspecto traz riscos de redesenho do pro‑
jeto, ele também indica possibilidades de atendimento que levem em consideração
a singularidade do adolescente.

Coerção e socialização: como operacionalizar lógicas tão distintas?


Viu‑se que um desafio para a implementação da política voltada aos adoles‑
centes em privação de liberdade é o fato de essa política operar a partir da ­articulação
entre duas lógicas distintas: a coerção e a socialização. Esta dualidade está presen‑
te na concepção das unidades de internação, inscrita no ECA e no Sinase. No en‑
tanto, cada centro socioeducativo constrói uma maneira de lidar com estas lógicas,
podendo fazê‑las operar de forma conflituosa, complementar, ou superdimensio‑
nando uma em detrimento da outra. O conflito entre esses dois mundos é parte do
trabalho, ainda que não seja claramente percebido pelos implementadores da polí‑

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 107, p. 535-556, jul./set. 2011 547
tica. A pesquisa indica que três fatores principais interferem na forma como as ló‑
gicas são articuladas em cada instituição.
O primeiro está ligado a uma dependência de trajetória referente à passagem
de uma lógica punitiva e repressiva do Código de Menores para a lógica do ECA,
que considera crianças e adolescentes sujeitos de direitos. Uma unidade antiga,
como o Centro 2, tende a ter mais dificuldades de atribuir à socialização o mesmo
nível de importância conferida à coerção, já que esta última foi a referência con‑
ceitual da instituição durante um longo período anterior às mudanças normativas.
As dificuldades existem pela própria estrutura construída a partir de objetivos me‑
ramente coercitivos (unidade fechada, com circulação restrita e distante do centro
urbano), mas também pelas estratégias de atendimento, ainda influenciadas pelo
Código de Menores, dada a presença de funcionários antigos e a uma dinâmica
institucional mais orientada pela “cultura” da coerção.
O segundo fator não se refere ao legado institucional, mas à natureza da po‑
lítica, que articula aspectos sancionatórios à busca pela ressocialização dos adoles‑
centes. A organização dos serviços passa tanto por uma alta interação do implemen‑
tador com o usuário, dada à necessidade de se pensar a singularidade de cada
adolescente — o que traz à tona a lógica da socialização —, como também pelo
estabelecimento de procedimentos padronizados capazes de garantir a segurança
das unidades — o que remete à lógica da coerção.
Sob esse ponto de vista, a convivência entre as duas lógicas e a tensão entre
elas são inevitáveis, o que não quer dizer que isso ocorra da mesma forma em di‑
ferentes unidades. A pesquisa indica que é possível atenuar a tensão possibilitando
maior articulação entre as equipes. Em grande medida, essa responsabilidade fica
nas mãos do diretor do centro, que é quem poderá desenvolver espaços de troca
entre os profissionais, mas também é alterada pela abertura das equipes ao diálogo.
Segundo o ex‑secretário de Defesa Social:

Precisa de um diretor com sensibilidade para os dois lados e neutralidade para com‑
binar. E precisa de técnicos e agentes socioeducativos desprovidos de preconceitos
recíprocos, porque se eles estiverem muito impregnados de preconceitos em relação
ao outro grupo a interação fica muito difícil.

A tensão entre os funcionários responsáveis pelo atendimento técnico e os


responsáveis pela segurança é apontada também pelo atual subsecretário de Aten‑
dimento às Medidas Socioeducativas, que a vê como parte integrante da política.

548 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 107, p. 535-556, jul./set. 2011
Ele acredita que esta tensão pode ser produtiva se a presença do limite imposto pela
internação for visto com possibilidades pedagógicas por todos os implementadores.

Esses garotos tiveram alguma ausência do pai, da mãe ou da figura paterna do limi‑
te, que impõe, que cerceia, que corrige. No centro socioeducativo é o extremo do
reverso dessa ausência. Precisa da mão do Estado dizer: opa, você precisa parar. Sob
este ponto de vista, estão todos na perspectiva do limite. Se eles (os funcionários)
estiverem dentro dessa perspectiva, você vai construir as formas de se operacionali‑
zar isso melhor.

Uma dinâmica institucional que garanta a horizontalidade na socialização das


informações e dos saberes em uma equipe multiprofissional faz parte dos parâme‑
tros norteadores do atendimento socioeducativo do Sinase, o que demonstra que,
ainda que esse aspecto não seja percebido por todos os implementadores, ele é
parte da política e deve ser trabalhado a partir da equipe de profissionais de cada
unidade.
O Centro 1 desenvolve algumas estratégias para lidar com a questão, já que
conta com espaços de integração entre as equipes técnica e de segurança. Em reu‑
niões e encontros periódicos, os profissionais podem pensar coletivamente estraté‑
gias de atendimento, impedindo que o enfoque seja meramente coercitivo ou, ao
contrário, desconsidere o conflito com a lei. Segundo o ex‑secretário de Defesa
Social, “é bom que um grupo controle o outro, porque um tende a ter uma visão
muito punitiva e o outro tende a vitimizar demais o adolescente”. No Centro 2, a
integração entre as duas lógicas é recente e tem conseguido avanços com o início
de uma articulação entre a equipe de segurança e os técnicos. Mas parece haver
resistências de ambas as partes, que ainda tendem a ver suas tarefas de forma se‑
parada. Como relatado por um técnico: “para integração com equipe de segurança
ainda há muito o que fazer...”.
Um terceiro fator que influencia a forma de articulação das lógicas coercitiva
e socializadora nos centros, que permeia os dois anteriores, refere‑se às interpreta‑
ções dos implementadores sobre as premissas legais e às suas concepções sobre o
que seria uma ação pedagógica e uma ação punitiva. A forma como eles percebem
esses aspectos interfere no desenvolvimento de práticas e relações entre eles e os
adolescentes. Essas interpretações têm faces múltiplas, na medida em que os agen‑
tes são capazes de adaptar a política em busca de soluções específicas para cada
menino — o que é positivo —, mas, ao mesmo tempo, podem reescrever a política
de acordo com seus próprios critérios.

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Percebe‑se, pela análise das entrevistas, que há uma mistura de conceitos
entre o que seria uma ação pedagógica e o que seria uma ação meramente punitiva.
Isso indica que o conflito entre as duas lógicas não é expresso apenas no peso ins‑
titucional conferido às ações pedagógicas e às punitivas, mas também nas formas
como os profissionais entendem as próprias ações. Uma atividade em princípio
pedagógica, dependendo de como é pensada, pode funcionar como algo coercitivo.
E uma ação punitiva pode ter cunho pedagógico, se for avaliada de acordo com a
singularidade do adolescente.
Enquanto a lógica e as práticas advindas da concepção coercitiva são conhe‑
cidas e historicamente experimentadas, a lógica da socialização no atendimento ao
adolescente em conflito com a lei e as ações pedagógicas adequadas para sua efe‑
tivação são ainda emergentes. Não existe um consenso ou mesmo parâmetros bem
estabelecidos sobre o que configura uma ação pedagógica no âmbito da medida de
internação.
Um ponto que ilustra esta discussão refere‑se às formas de “convencimento”
para os adolescentes a participarem das atividades dos centros. Nas duas unidades,
a escolarização é indicada pelos funcionários como um desafio, já que a maioria
dos internos tem trajetória de evasão escolar. No entanto, a forma de incentivar o
envolvimento deles com a escola parece, estar ainda distante de uma proposta pe‑
dagógica. Nos centros 1 e 2 há punições para a falta às aulas, que vão desde um
isolamento de 24 horas até a perda do direito de telefonar para a família.
Ainda que de forma incipiente, no centro 1 busca algumas estratégias para
ampliar o envolvimento dos meninos com a escola, como a oferta de aulas de
reforço particulares para aqueles que têm dificuldades de leitura. Já no Centro 2,
pelo que indicam as entrevistas, a coerção é a forma de incentivo utilizada para a
participação dos adolescentes nas atividades. Como disse um diretor desse centro:
“90% dos adolescentes não tinham escola antes, então eles têm que ser coagidos
mesmo a ir. Certas coisas têm que ser impostas”. O mesmo diretor conta que,
quando um adolescente está em sanção e falta à escola, ele perde sete dias de te‑
lefonema para a família. “Tem gente que diz que isso não é pedagógico. Mas o
adolescente tem que ir para a escola. É igual cortar ponto de trabalho. Tem que ter
sanção para a falta”.
A opinião do diretor revela um entendimento diferenciado sobre o que seja
uma ação meramente punitiva e o que se aproxima de uma ação pedagógica. A
forma de obrigar o adolescente a ir à escola, sob pena de perder um direito garan‑

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tido por lei de manter o contato semanal com sua família, não parece uma ação
pedagógica e muito menos leva em conta a condição peculiar de desenvolvimento
do adolescente.
Em relação às oficinas, no Centro 1, apesar de essas atividades não serem
obrigatórias e existir a possibilidade de os meninos sugerirem cursos específicos,
a não participação é apontada no relatório do interno, que é entregue ao juiz no
momento em que ele avalia o cumprimento da medida. Esta forma de “convenci‑
mento” de os adolescentes para que eles participem das oficinas parece paradoxal
com a liberdade de escolha que eles teoricamente têm em relação aos cursos. Não
parece ser uma estratégia pedagógica, já que o peso no relatório do juiz soa mais
como uma ameaça punitiva do que um incentivo. No Centro 2, as oficinas são
obrigatórias e não há possibilidade dos adolescentes sugerirem cursos. Segundo um
diretor, “a oferta dos cursos depende da disponibilidade de oficineiros”. A trajetória
dos meninos e suas referências culturais não são levadas em consideração.
Sobre as práticas punitivas, a pesquisa indica que o Centro 2 enfoca mais o
aspecto coercitivo do que o pedagógico. Enquanto no centro 1 muitos funcionários
disseram avaliar as punições de acordo com cada caso, no Centro 2 a utilização de
um regulamento disciplinar, que os próprios diretores assumem que é focado apenas
na segurança, parece equivocada em um momento no qual a equipe técnica busca
romper com a dependência de trajetória ligada ao histórico da unidade. Esta situa‑
ção tende a se agravar, na medida em que os agentes podem impor sanções aos
adolescentes de acordo com o regulamento ou mesmo de acordo com suas convicções.
A punição do isolamento é uma prática ainda utilizada com frequência em
ambos os centros, de acordo com os funcionários e os adolescentes entrevistados.
No entanto, foram percebidas algumas contradições entre os relatos das equipes e
dos internos. Enquanto alguns técnicos apresentaram um discurso protetivo, dizen‑
do que o isolamento é um recurso pouco utilizado por períodos longos, sendo mais
um momento de “reflexão” do próprio adolescente, os agentes e os meninos foram
enfáticos ao afirmar o aspecto punitivo do recurso.
No centro 1, as equipes disseram ter a preocupação em dosar essa forma de
sanção, deixando‑a para casos mais graves, como adolescentes que agrediram
funcionários ou internos ou organizaram rebeliões. Já no centro 2, parece haver
uma naturalidade maior no discurso dos funcionários no que se refere ao uso do
isolamento como estratégia punitiva, o que pode estar ligado às origens da unidade.
Isso não quer dizer, no entanto, que a sanção não seja utilizada também no Centro

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1, já que os adolescentes relataram sua existência. Mas mostra que há uma mudan‑
ça de discurso de uma equipe sediada em uma unidade antiga e outra sediada em
uma unidade mais recente.
Muitas vezes o isolamento é usado pelos agentes por parecer o recurso mais
fácil e seguro para lidar com os conflitos dentro da unidade, o que não quer dizer
que seja o mais eficaz do ponto de vista pedagógico. O estímulo apenas à repressão
pode fomentar a desigualdade e a injustiça que marcam as trajetórias desses ado‑
lescentes em vez de auxiliá‑los em um processo de reinserção social (Paiva, 2007).
Entretanto isso não significa defender a total extinção do isolamento. Em algumas
situações ele parece ser a única forma de minimizar os riscos, além de ser necessá‑
rio pelo aspecto protetivo, nos casos em que a segurança dos adolescentes está em
risco por ameaças de outros internos. Porém as entrevistas mostram que casos mais
simples, como xingamentos e problemas na escola, também são encaminhados para
o isolamento, nestes casos, sob um olhar meramente punitivo.
O espaço reservado para o isolamento também é um ponto importante. A
equipe de pesquisa não foi autorizada a conhecer os locais, mas estes foram des‑
critos pelos funcionários como alojamentos comuns e pelos adolescentes como
lugares sem ventilação e luz. Segundo um menino do Centro 1: “lá não é adequado
para uma pessoa, é para cachorro. Não tem nem luz. A pessoa ao invés de melhorar,
revolta”. As saídas durante o período de sanção ocorrem de forma diferenciada nas
duas unidades. Na primeira, o interno continua frequentando a escola durante o
período do isolamento; na segunda ele é autorizado apenas a um banho de sol de
quinze minutos diários. Mas, de acordo com um interno do centro 2, esta regra pode
ser alterada. “Já fiquei de castigo por causa de briga, xinguei o monitor. Também
fiquei três dias na cela porque atrasei para ir para o refeitório. Só saía para a esco‑
la, não tinha banho de sol”.
Não parece pedagógica a ideia de prender um adolescente em um pequeno
espaço, com perda total de contato com as atividades do centro, como a escola, as
oficinas e até mesmo as visitas familiares. Nesse sentido, é interessante lembrar
um questionamento de uma técnica do Centro 1, que não concorda com a punição
do isolamento: “Como disciplinar alguém fechado, com raiva e sem família? O
adolescente gosta de andar, não dá conta de ficar parado, senão fica resistente a
tudo”. Sua fala revela uma preocupação em oferecer um atendimento voltado para
uma pessoa em situação peculiar de desenvolvimento, o que nem sempre parece
ser levado em conta na definição de estratégias para lidar com os internos. Muitas
vezes, a adaptabilidade da política acaba sendo utilizada para encurtar caminhos

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ou para facilitar a dissolução de conflitos de forma repressiva. O adolescente pas‑
sa a ser encaixado apenas nas regras de segurança da instituição, e sua singulari‑
dade tende a ser diluída em uma ótica que privilegia a obediência irrestrita e a
contenção.

Uma articulação possível


A permanência de algumas características de instituição total no centro 2 —
tais como o isolamento ao convívio social externo, a desconsideração das singula‑
ridades dos internos e o enfoque nas regras de segurança — parece estar diretamen‑
te relacionada à sua recente história de ter sido a sede da Febem em Minas Gerais
até 1999. Não se quer dizer com isso que o centro continue nos dias atuais a fun‑
cionar exatamente sob essa lógica. A unidade passou por mudanças significativas
e implementou diversas ações pedagógicas. Mas mesmo que parte dos funcionários
venha trabalhando para romper a lógica do Código de Menores, percebe‑se que a
unidade ainda tem um longo caminho a percorrer, principalmente no que se refere
à distância entre as equipes e a uma clivagem maior entre as duas lógicas.
A coerção parece estar sobreposta à socialização, devido a influências ligadas
à estrutura da unidade, à permanência de parte do corpo de agentes da fase anterior
ao ECA, à procedência da maioria de seus internos e ao afastamento da unidade
do centro urbano. E, apesar da implementação recente de uma gestão participativa
no centro, a articulação entre as equipes técnica e de segurança ainda se mostra
incipiente.
No Centro 1, vários fatores contribuem para que a unidade esteja mais próxi‑
ma da implementação do ECA, como sua estrutura física, a proximidade de um
centro urbano e funcionários mais recentes. Tudo isso abre caminhos para que a
instituição, mesmo com dificuldades e longe da situação ideal, possa articular me‑
lhor as lógicas da coerção e da socialização a partir de uma integração maior entre
as equipes técnica e de segurança.
A possibilidade de se articular saberes para operacionalizar a complemen‑
taridade entre as duas lógicas representa um grande salto na qualidade do aten‑
dimento ao adolescente em conflito com a lei em privação de liberdade. Esta
articulação pode contribuir para que estratégias e práticas sejam construídas le‑
vando em consideração a dualidade inerente à política. Ou seja, práticas punitivas
são necessárias, mas devem ser pensadas a partir da possibilidade de aprendizado,

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 107, p. 535-556, jul./set. 2011 553
e não apenas como algo ligado à humilhação e ao sofrimento. Da mesma forma,
práticas pedagógicas devem ser pensadas no sentido de impor limites à atuação
dos adolescentes e sem perder de vista que há um conflito com a lei. O ponto‑cha‑
ve não é a eliminação de uma das lógicas em detrimento da outra, mas sim a
construção de um modelo capaz de articulá‑las para que o atendimento ao ado‑
lescente seja de fato coerente com seus direitos e possa oferecer chances reais de,
a partir de sua responsabilização pelo ato infracional, reinseri‑lo na sociedade sob
outro ponto de partida.
A maneira que cada centro socioeducativo encontra para lidar com essa dua‑
lidade está longe de ser padronizada. Até porque há um alto grau de adaptabilidade
permitida e desejada na política de atendimento ao adolescente em privação de li‑
berdade, que lida com um público vulnerável e busca alterar trajetórias a partir do
respeito à singularidade. A complexidade do trabalho exige “invenções” por parte
dos profissionais, tanto no sentido de adaptar a política às possibilidades do ado‑
lescente, como também no sentido de se adequar à estrutura existente e às limitações
impostas por ela.
Nesse sentido, a forma como as lógicas da coerção e da socialização são
associadas (ou não) diz muito do modelo construído por determinada unidade
dentro do modelo macro da política de atendimento. Um grande desafio para os
gestores é articular esses dois mundos para que, ainda que suas diferenças existam
e sejam necessárias, eles possam estabelecer conexões de trabalho, capazes de dar
conta da complexidade do sistema socioeducativo. Apenas integrado a um aten‑
dimento técnico consistente e coerente com a dimensão educativa, o limite impos‑
to pelas portas cerradas e pelos muros das unidades de internação será capaz de
propiciar a abertura de portas de saída da criminalidade para esses adolescentes,
marcados pelo descaso, pela invisibilidade social e pela imposição de uma lógica
da violência.

Recebido em 30/3/2011  n   Aprovado em 13/6/2011

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Condições de trabalho e a luta dos(as) assistentes
sociais pela jornada semanal de 30 horas*
Work conditions and the social workers’ struggle
for a thirty‑hour working journey

Ivanete Boschetti**

Resumo: O presente artigo analisa o processo de luta e conquista


da jornada semanal de trinta horas para assistentes sociais no Brasil,
em contexto de crise do capital e expansão dos cursos de graduação
em Serviço Social. A batalha pelas trinta horas se insere na luta do
Conjunto CFESS/Cress por melhores condições de trabalho e pela
garantia de trabalho com qualidade para toda a classe trabalhadora.
Palavras‑chave: Serviço Social. Jornada semanal de trinta horas.
Conjunto CFESS/Cress.

Abstract: This article analyzes the process of struggle and conquest of a thirty‑hour working jour‑
ney by the Brazilian social workers, in the context of crisis of the capital and expansion of Social
Services graduation courses. The struggle for the thirty‑hour working journey is inserted in the struggle
of both the CFESS (Federal Social Services Council) and the CRESS (Regional Social Services Coun‑
cils) for better working conditions and for the guarantee of work and quality for all the working class.
Keywords: Social Services. Thirty‑hour working journey. CFESS/CRESS.

* Artigo elaborado a partir de Conferência realizada no dia 16 de maio de 2011, no Seminário “Crise
do Capital, Trabalho e Lutas de Resistência — assistentes sociais no enfrentamento da super‑exploração e
do desgaste físico e mental”, organizado pela Editora Cortez, no auditório do Tuca/PUC‑SP. O texto resulta
de nossa inserção em duas gestões do CFESS (2005 a 2011) e, embora a responsabilidade pelas reflexões
seja exclusivamente minha, elas se forjaram nessa rica e coletiva experiência proporcionada pela convivên‑
cia militante com companheiros e companheiras a quem agradeço imensamente.
** Assistente Social, Docente do Departamento de Serviço Social e do Programa de Pós‑graduação em
Política Social da UnB, Brasília/DF, Brasil. Doutora em Sociologia pela EHESS/Paris. Presidente do CFESS
no período de janeiro/2008 a maio/2011. E‑mail: ivanete@unb.br.

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 107, p. 557-584, jul./set. 2011 557
Introdução

N
os últimos dez anos, é visível a expansão dos cursos de graduação em
Serviço Social no Brasil e, em decorrência, o acelerado crescimento
dos(as) profissionais registrados nos Conselhos Regionais de Serviço
Social (Cress) que exercem a profissão. Conforme dados do Conselho
Federal de Serviço Social (CFESS), em 2006, quando a profissão completou seten‑
ta anos, havia 65 mil assistentes sociais registrados nos Cress; em março de 2011
esse número havia saltado para 102 mil.1 Ou seja, em cinco anos ocorreu um cres‑
cimento de 56% de profissionais inseridos no mercado de trabalho.
Tal crescimento só pode ser compreendido no contexto da crise do capital,
que busca novos nichos de acumulação, sendo a educação um dos principais cam‑
pos de investimento da ofensiva capitalista. O contexto mais geral de estruturação
do capital sustenta algumas determinações particulares ao contexto brasileiro.
A primeira delas é, certamente, a abertura de cursos presenciais e à distância,
em sua quase totalidade em faculdades privadas, resultante da perversa política de
ensino superior dos últimos governos federais, que estimularam a abertura de cur‑
sos como forma de cumprir acordos assinados com o Fundo Monetário Internacio‑
nal — FMI (Fiúza, 2010; Lima, 2007). A contrarreforma do ensino superior brasi‑
leiro, portanto, nos ajuda a compreender esse fenômeno, que impacta diretamente
nas condições contemporâneas da formação de um modo geral e no Serviço Social
em particular e, evidentemente, traz consequências para as condições de trabalho.
Outra determinação para compreender a expansão do Serviço Social brasilei‑
ro, que não podemos deixar de sinalizar, foi o reconhecimento da seguridade social
como sistema de proteção social pela Constituição Federal. A implantação e a ex‑
pansão do Sistema Único de Saúde (SUS) e do Sistema Único de Assistência (Suas)
foram decisivas para ampliação do mercado de trabalho para assistentes sociais,
sendo estas as políticas sociais que atualmente mais incorporam profissionais nas
três esferas de governo.2 As condições de implementação desses dois sistemas

1. Cf. CFESS, Sobre a incompatibilidade entre graduação à distância e Serviço Social, 2011. O
documento revela que, apesar desse forte crescimento, até março de 2011, o total de bacharéis oriundos
de cursos de graduação à distância que se inscreveram nos Cress era de 4.049.
2. Embora não se tenha uma pesquisa nacional atual sobre esse quadro, os dados referentes aos registros
profissionais nos Cress sinalizam essa tendência. Cf. dados do Sistema Siscafw, utilizado pelo conjunto
CFESS/Cress para registro de profisionais, acessado pelo CFESS em maio de 2011.

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públicos, bem como da política de Previdência Social, são responsáveis, contudo,
por uma forma de expansão do mercado de trabalho que, não necessariamente,
assegura as relações e condições de trabalho defendidas pelo Serviço Social brasi‑
leiro nos últimos trinta anos com base no Projeto Ético, Político Profissional.
Não é coincidência que esse crescimento de profissionais ocorre em contexto
de mais uma crise estrutural do capital, quando a expansão de empregos no setor
de serviços, e, sobretudo, para profissionais ligados a programas sociais, constitui
uma estratégia de minimização dos efeitos da crise, segundo estudo do Escritório
de Estatísticas do Trabalho do Governo Americano3. Não por acaso, esse relatório
indica que as profissões com maior potencial de expansão no mundo são: profis‑
sionais de comunicação, profissionais dedicados a atendimento domiciliar a crian‑
ças, idosos e pessoas com deficiência, engenheiros ligados à informática, veteriná‑
rios, assistentes sociais, fisioterapeutas, entre outros da área de meio ambiente. Essa
demanda de profissionais de “caráter social”, em contexto de crise do capital, con‑
tudo, ocorre em condições de crescente precarização e subtração de direitos do
trabalho.

Crise do capital e precarização do trabalho4


Desde 2008, o capitalismo foi atingido por uma crise mundial cuja profundi‑
dade e consequências só foram comparadas à crise de 1929. Em uma perspectiva
crítica, trata‑se de uma crise estrutural do capitalismo em sua incessante busca por
superlucros (Mandel, 1990).
As crises cíclicas do capitalismo possuem caráter estrutural e não são tópicas,
como tentam nos fazer crer alguns de seus analistas mais otimistas. As medidas
para seu enfrentamento (ou minimização) são determinadas pelo grau de desenvol‑
vimento do capitalismo; forma de organização das classes sociais e formas de
constituição e desenvolvimento do Estado em dado momento histórico (Behring e
Boschetti, 2011). Ainda que as medidas de enfrentamento das crises sejam diferen‑
ciadas, trata‑se de mais crise de superprodução, determinada pelo processo inces‑

3. Cf. jornal O Globo, de 8/3/2009, Caderno Economia, p. 33.


4. As ideias desenvolvidas nesse intem constituem uma essência das reflexões desenvolvidas por mim
em “Crise do capital e custos para a politica social” (2010), sendo que os dados foram atualizados em junho
de 2011.

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 107, p. 557-584, jul./set. 2011 559
sante de busca de superlucros e superacumulação e crescente desigualdade social
em todo o mundo.
A crise atual está longe de ser tópica, pontual ou de efeitos superficiais. Pas‑
sados quase três anos de sua maior expressão, podemos confirmar as sinalizações
efetuadas anteriormente.5 Os antídotos para a crise se confirmaram amargos, e suas
consequências agudizaram a concentração do capital e a precarização das condições
de trabalho.
O tão propagado crescimento econômico está longe de resguardar o Brasil
dos efeitos da crise, e até os mais otimistas analistas já sinalizam seu esgotamen‑
to: em 2007 o crescimento econômico correspondeu a 6,1% do PIB; em 2008 caiu
para 5,2%, em 2009 atingiu o pior índice, de — 0,6% (negativo); em 2010 teve
uma boa recuperação, fechando o ano em 7,5%; a previsão para 2011 é de 4%, já
apresentando ritmo de queda. Estamos longe, portanto, da média anual de 5%
propagado pela política econômica. Sabemos que o crescimento no Brasil não
significa redistribuição da riqueza. A desigualdade continua sendo abissal: dados
recentes divulgados pelo IBGE informam que a despesa média per capita dos
10% das famílias que possuem os maiores rendimentos (R$ 2.844,56) era, em
2009, 9,6 vezes superior à dos 40% com os menores rendimentos (R$ 296,35).
Em 2002‑03, a distância era de 10,1 vezes, ou seja, a distância entre os maiores
e menores rendimentos só vem aumentando.6 A redução da pobreza, anunciada
com pompa pelo governo, é medida apenas pelo pequeno aumento nos rendimen‑
tos, resultado das políticas de transferência de renda como Bolsa Família, Bene‑
fício de Prestação Continuada, Aposentadorias Especiais, e não mede a concen‑
tração de patrimônio, principal determinação da concentração de renda e da
desigualdade social.
Não constitui novidade que a ampliação no consumo do governo (3,7%) e no
consumo das famílias (4,1%) foi fundamental para minorar a crise em 2009, e o
aumento do consumo das famílias decorreu da ampliação dos programas de trans‑
ferência de renda associada à redução de impostos, sobretudo das chamadas mer‑
cadorias brancas — eletrodomésticos. Mas essa política produziu um forte endivi‑
damento das famílias. Segundo dados de maio de 2011, 64,5% das famílias

5. No artigo citado na nota anterior, escrito em fevereiro de 2010, já sinalizávamos os amargos efeitos
que seriam provocados pelas medidas anticrise, confirmados em sua totalidade.
6. Cf. Correio Braziliense, 24 de junho de 2010. Caderno de Economia, p. 15.

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brasileiras estão endividadas e 24,4% (quase 2/3 da população brasileira) estão com
débitos em atraso.7 Os juros altos e a alta da inflação aumentam o endividamento
a incapacidade de as famílias assumirem o pagamento das dívidas contraídas no
acesso ao consumo. Trata‑se de uma bomba‑relógio prestes a explodir, cujas con‑
sequências já podem ser observadas em países como Grécia e Espanha, que vivem
uma situação de falência nunca antes vista.
Apesar do pequeno crescimento econômico anunciado, a dívida líquida do
setor público aumentou, passando de 37,67% do PIB em 2009 para 43,4% do PIB
em 2010. O Brasil é um país endividado, e isso reflete nos investimentos produtivos.
Mesmo com o festejado crescimento do emprego formal de 2010 — crescimento
de 6,9% em relação a 2009 —, apenas 50,7% da PEA tem carteira assinada, ou seja,
ainda temos, no Brasil, 49,3% da PEA sem contrato formal de trabalho e sem aces‑
so aos direitos como previdência, seguro‑desemprego e os demais direitos depen‑
dentes do emprego formal, ou seja, a condição do trabalho no Brasil continua sendo
de forte precarização e informalização. A crise provocou encolhimento no setor
produtivo: ‑5,2% na agricultura e pecuária; ‑5,5% na indústria; + 2,6% no setor de
serviços; ‑11,4% nas importações (Boschetti, 2010)
Embora não se disponha de dados nacionais sobre as condições de trabalho
de assistentes sociais, é óbvio que os efeitos da crise, que impacta de modo des‑
trutivo a vida da classe trabalhadora, atinge igualmente os(as) assistentes sociais.
Tendências como aumento do desemprego, da terceirização, da informalidade e
da prestação de serviços sem nenhum tipo de regulação somam‑se à destruição
de postos de trabalhos tradicionais, com menos empregos na indústria e na agri‑
cultura e manutenção ou leve ampliação apenas no setor de serviços. A crise já
ceifou 51 milhões de empregos em todo o mundo em 2009, e 23 milhões de tra‑
balhadores perderam o emprego na América Latina e Caribe. Outra tendência é
a de reestruturação capitalista com reorganização dos postos de trabalho na dire‑
ção do desaparecimento de cargos e salários estáveis, sobretudo na indústria
(Boschetti, 2010).
Essas tendências já são verificadas nas políticas sociais e, especialmente, nas
condições de trabalho dos(as) assistentes sociais. São fartamente denunciadas nos

7. Cf. Correio Braziliense, 19 de maio de 2911. Caderno de Economia. p. 16.

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Cress e nos eventos organizados pelo Conjunto CFESS/Cress8, as condições pre‑
cárias de trabalho, especialmente na Política de Assistência Social (Suas), nas or‑
ganizações não governamentais e no sistema sociojurídico. Nesses espaços, a não
realização de concursos públicos em conformidade com as demandas do trabalho
tem levado à terceirização do trabalho, à precarização, à superexploração da força
de trabalho, à inserção dos(as) profissionais em dois ou três campos de atuação com
contratos precários, temporários, o que tem causado adoecimento físico e mental.
Especialmente no Suas, dados divulgados recentemente9 mostram que o qua‑
dro de trabalhadores aumentou basante entre 2005 e 2009, com acréscimo de 30,7%:
saltou de 139.549 para 182.436. Esse aumento, contudo, foi acompanhado de in‑
tensa precarização das relações de trabalho, com ampliação de 73,1% de trabalha‑
dores sem vínculo permanente (IBGE, 2009, p. 39). A pesquisa não registra a re‑
presentação de assistentes sociais nesse universo de trabalhadores do Suas, mas a
mesma fonte revela que os gestores municipais sem nível superior correspondem
a 41,1%, e os gestores assistentes sociais totalizavam 29,6%, seguidos por pedago‑
gos (21,7%) e outras profissões (22%).
Em relação ao tipo de contrato de trabalho, os dados são eloquentes na de‑
monstração da precarização. Somente 38,34% são estatutários, 25,04% não têm
vínculo permanente, 19,56% recebem apenas cargos comissionados e 12,84% são
regidos pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), o que revela a extrema
fragilidade nas relações de trabalho.
Esse quadro demonstra as relações precárias de trabalho em um dos principais
campos de atuação dos(as) assistentes sociais e uma das políticas sociais que mais
cresceu no âmbito da Seguridade Social. Somam‑se a isso relações de trabalho que
não garantem as condições técnicas e éticas de trabalho, conforme estabelecido nas
regulamentações profissionais, especialmente a Lei n. 8662/1993, o Código de
Ética Profissional e a Resolução CFESS n. 493, de 21 de agosto de 2006. São
constantes as denúncias profissionais acerca das violações de seus direitos, bem
como a ampliação de situações de adoecimento decorrente dessas condições.

8. Refiro‑me aqui aos cinco seminários organizados pelo CFESS para discutir o trabalho dos(as) assis‑
tentes sociais nas políticas sociais: O trabalho de assistentes sociais no Suas (2009); O trabalho de assisten‑
tes sociais na saúde (2009); O trabalho de assistentes sociais no campo sociojurídico (2009); O trabalho de
assistentes sociais na Previdência (2010). Os anais do Seminário sobre o Suas foi publicado pelo CFESS em
2011 e está disponível em sua página eletrônica.
9. Cf. Censo Cras 2008, Munic 2005 e 2009.

562 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 107, p. 557-584, jul./set. 2011
É nesse contexto que o Serviço Social brasileiro e suas organizações políticas
lutam pela garantia do trabalho com direitos, como princípio ético‑político.

Organização política do Serviço Social e a luta do Conjunto CFESS/Cress


por condições éticas e técnicas de trabalho
Cabe precisar que quando nos referimos à organização política do Serviço
Social não nos referimos apenas à sua forma (estrutura e entidades), mas também
ao seu conteúdo, que remete ao campo programático e ao campo de alianças cons‑
truídas estrategicamente para conduzir suas lutas. Esses elementos, indissociáveis,
abarcam, fundamentam e desencadeiam as ações políticas, estratégias e táticas com
as quais os(as) assistente sociais, coletiva e/ou individualmente, realizam disputas
sociais e políticas, disputas pela hegemonia e disputas para assegurar a direção
teórica e ético‑política na construção e consolidação da profissão e do Projeto
Ético‑Político Profissional (Behring, 2011).
A organização política do Serviço Social brasileiro, representada pelas enti‑
dades como Conjunto CFESS/Cress, Abepss e Enesso, se sustenta e também con‑
solida cotidianamente os princípios e diretrizes ético‑políticos democraticamente
construídos nos últimos trinta anos, por várias gerações de profissionais e estudan‑
tes. Essa organização política protagonizou e protagoniza hoje a articulação que
possibilitou a construção e defesa dos princípios e diretrizes que sustentam nosso
Código de Ética, Lei de Regulamentação da Profissão e as Diretrizes Curriculares,
em sintonia com nosso Projeto Ético‑Político Profissional, e assegurou importantes
conquistas no âmbito dos direitos e condições de trabalho aos assistentes sociais.
Essa organização política se pautou e se pauta no compromisso com as lutas
da classe trabalhadora. Não por acaso, em 2009 o Serviço Social brasileiro se reu‑
niu no Anhembi(SP) para reafirmar o significado do “Congresso da Virada” (de
1979) no processo de construção do nosso Projeto Ético‑Político Profissional. Já
nas comemorações do dia do(a) assistente social, em maio de 2009, o CFESS Ma‑
nifesta proclamava: “Começaria tudo outra vez se preciso fosse”, e o tema adotado
pelo Conjunto CFESS/Cress nessas comemorações foi “Socializar riqueza para
romper desigualdade”. Nessa mesma direção, a campanha da gestão 2008‑11, com
o tema “Direitos humanos, trabalho e riqueza no Brasil”, denunciou a desigualda‑
de imperante no Brasil e conclamou todos(as) para “Lutar por direitos, romper com
a desigualdade”. Também em 2009, o Conjunto CFESS/CRESS adotou o tema

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“Trabalho com direitos pelo fim da Desigualdade”, sintonizado com um dos mais
fundamentais princípios do Código de Ética.
O que queremos sinalizar é que a luta por trabalho com direitos é uma luta
presente cotidianamente nas ações do Conjunto CFESS/Cress, que extrapola a
defesa dos direitos apenas para assistentes sociais. A defesa de condições éticas e
técnicas de trabalho para os(as) assistentes sociais se soma às lutas sociais e ao
fortalecimento dos movimentos sociais da classe trabalhadora. Os desafios postos
ao trabalho profissional não são exclusivos da nossa profissão, e somente as lutas
coletivas em defesa da classe trabalhadora podem provocar mudanças nas condições
de vida e de trabalho daqueles que dependem da venda de sua força de trabalho
para assegurar a produção e a reprodução de suas vidas.
A luta por trabalho com direitos tem sido um dos principais desafios assumidos
pelo Conjunto CFESS/Cress10, e mesmo em contexto de crise do capital, a força das
lutas coletivas assegurou algumas importantes conquistas aos assistentes sociais
brasileiros nos últimos anos. Um dos desafios enfrentado cotidianamente é a luta
contra a precarização das relações de trabalho. Para seu enfrentamento, o Conjunto
CFESS/Cress lançou a Campanha em Defesa do Concurso Público, com diversos
tipos de ações junto a órgãos públicos e privados, entendendo o concurso público
como uma das formas para assegurar o compromisso com a qualidade dos serviços
prestados aos usuários, conforme estabelece nosso Código de Ética Profissional.
Vários concursos foram realizados em órgãos públicos nos últimos anos,
sendo a maior conquista, inegavelmente, a realização do concurso para novecentos
assistentes sociais no INSS, o que foi um feito inédito no âmbito das políticas pú‑
blicas. A realização desse concurso significou muito mais que ampliar o mercado
de trabalho num dos mais antigos órgãos públicos no Brasil. Significou reconstruir
o Serviço Social no INSS, um dos primeiros campos de intervenção profissional, e
contribuiu para fortalecer a Previdência como direito social e política pública. A
luta pelo concurso foi árdua e longa, e muitas estratégias foram desencadeadas.
A defesa do concurso teve início com o movimento desencadeado pelo CFESS,
em conjunto com assistentes sociais do INSS, contra a extinção da estrutura do
Serviço Social no INSS, implementada pelo governo FHC. A manutenção da Di‑
visão Nacional de Serviço Social foi a primeira grande conquista. Seguiu‑se a

10. Um detalhamento das ações do CFESS no período entre 2008‑11 pode ser encontrado no «Relatório
final da gestão Atitude Crítica para Avançar na Luta», que tive a imensa alegria de compor, disponível na
página eletrônica do CFESS.

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constituição de um Grupo de Trabalho com participação do CFESS e assistentes
sociais do INSS, que culminou na elaboração de minuta de decreto de atribuições
dos(as) assistentes sociais.11 A defesa do concurso para 1600 vagas foi fortalecida
pelo Decreto de Regulamentação do BPC, sendo que foram fundamentais as estra‑
tégias do CFESS de articulação com o Legislativo federal e com a Comissão de
Seguridade Social da Câmara dos Deputados, que acatou a solicitação do CFESS
para realização de uma audiência pública, repleta de assistentes sociais. Também
foi fundamental a pressão sobre o Poder Executivo, sobretudo o Ministério do
Desenvolvimento Social, o Ministério da Previdência e o Ministério do Planeja‑
mento, Orçamento e Gestão com diversas reuniões. Finalmente, em 14 de maio de
2008 foi publicado o edital com seiscentas vagas, e no dia 15 de maio o edital foi
retificado para novecentas vagas. O concurso, realizado em 2009, foi prorrogado
por mais dois anos, e permanece o desafio de lutar pela nomeação de, pelo menos,
mais 50% das vagas, o que está previsto em lei. Também permanece um imenso
desafio de lutar pela garantia de condições de trabalho dos(as) profissionais que
ingressaram no INSS e que ainda não têm asseguradas as condições de trabalho
adequadas e necessárias para garantir a qualidade do serviço prestado aos usuários
e à ampliação do acesso à Previdência Social.
Cabe ainda registrar outra estratégia fundamental do CFESS, voltada para a
garantia das condições éticas e técnicas de trabalho aos assistentes sociais: a nor‑
matização e a regulamentação do exercício profissional, na perspectiva de aprofun‑
dar o disposto na Lei de Regulamentação Profissional e em conformidade com os
princípios e diretrizes do Código de Ética Profissional. Estas normatizações resul‑
tam de reflexões e deliberações tomadas coletivamente no âmbito do Conjunto
CFESS/Cress e se materializam em resoluções elaboradas e publicadas pelo CFESS.
Somente nos últimos anos, muitas matérias de interesse de assistentes sociais foram
normatizadas na perspectiva de contribuir no aprimoramento das competências e
atribuições profissionais e na garantia de melhores condições de trabalho: norma‑
tização da supervisão direta de estágio como atribuição privativa dos(as) assisten‑
tes sociais (Resolução n. 533/2008); regulamentação da atuação do assistente social,
na qualidade de perito judicial ou assistente técnico, quando convocado a prestar
depoimento como testemunha (Resolução n. 559/2009); normatização sobre a
emissão de pareceres, laudos e opiniões técnicas conjuntos entre assistentes sociais
e outros profissionais (Resolução n. 557/2009); estabelecimento de procedimentos

11. Até a elaboração deste artigo a minuta, de decreto estava em tramitação no MPOG.

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para lacração de material técnico e material técnico‑sigiloso do Serviço Social
(Resolução n. 556/2009); normatização sobre o não reconhecimento da inquirição
das vítimas crianças e adolescentes no processo judicial, sob a Metodologia do
Depoimento Sem Dano/DSD como atribuição dos(as) assistentes sociais (Resolução
n. 554/2009); regulamentação que veda a realização de terapias associadas ao títu‑
lo e/ou ao exercício profissional do(a) assistente social (Resolução n. 569/2010);
estabelecimento de procedimentos para aplicação de multa às Unidades de Forma‑
ção Acadêmica em caso de descumprimento das normas estabelecidas na Resolução
CFESS n. 533/08, que trata da Supervisão de Estágio (Resolução n. 568/10); esta‑
belecimento da obrigatoriedade de registro nos Cress de assistentes sociais que
exerçam funções ou atividades de atribuição da profissão, mesmo que contratados
sob nomenclatura de “cargos genéricos” (Resolução n. 572/10); revisão da Conso‑
lidação das Resoluções do Conjunto CFESS/Cress, que estabelece novos requisitos
para inscrição nos Cress (Resoluções ns. 582/10 e 588/2010); e alteração do Códi‑
go de Ética do(a) Assistente Social, introduzindo aperfeiçoamentos formais, gra‑
maticais e conceituais em seu texto e garantindo a linguagem de gênero (Resolução
n. 594/2011).12 Algumas dessas normatizações, como as que se referem às “práticas
terapêuticas” e à “metodologia do depoimento sem danos”, foram resultados de
longos e calorosos debates e só foram publicadas depois de aprofundadas discussões
em vários seminários e nos encontros nacionais CFESS/Cress.13

A jornada semanal de trinta horas sem redução salarial: um direito


conquistado na luta14
Merece destaque especial a mais significativa conquista do Serviço Social nos
últimos vinte anos que tem um impacto profundo nas condições de trabalho e de
vida dos(as) assistentes sociais. A redução da jornada de trabalho para trinta horas

12. Todas essas resoluções foram publicadas pelo CFESS na coletânea “Legislação e resoluções sobre
o trabalho do/a assistente social” (2011) e estão disponíveis nos Cress. Também podem ser acessadas em:
<http://www.cfess.org.br/publicacoes_livros.php>.
13. Documentos elaborados como subsídio ao debate podem ser consultados na página eletrônica do
CFESS, disponíveis em: <http://www.cfess.org.br/publicacoes_textos.php>.
14. A luta pela jornada semanal de trinta horas está registrada no livro “Direito se conquista: a luta dos/
as assistentes sociais pelas 30 horas semanais”, publicado pelo CFESS em 2011, que tive o prazer de orga‑
nizar e redigir. Alguns trechos deste artigo, sobretudo os relatos de reuniões e audiências, foram apropriados
do texto do livro, sem indicação expressa, considerando que os dois são de minha autoria. Aqui, analisaremos

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semanais sem redução salarial, ainda que não altere estruturalmente a organização
do trabalho, possibilita diminuir a sobrecarga do trabalho, o que pode melhorar a
saúde do(a) trabalhador(a) e, ainda impor limites à exploração do trabalho pelo
capital. Não por acaso, a implementação desse importante direito vem sendo con‑
testado judicialmente pela Federação Nacional da Saúde junto ao STF, e muitas
instituições públicas resistem à sua implementação.
Não se pode esquecer que o movimento sindical brasileiro luta pelo estabeleci‑
mento de quarenta horas semanais em um país onde a jornada ainda é de quarenta e
quatro horas, e que apenas seis profissões da área da saúde já possuem jornada igual
ou inferior a trinta horas semanais (médicos, auxiliares laboratorista e radiologista,
técnicos em radiologia, fisioterapeutas, fonoaudiólogos e terapeutas ocupacionais).
Outras sete profissões possuem projetos de lei em tramitação no Congresso Nacional
para redução da jornada de trabalho (enfermeiro, técnico de enfermagem, auxiliar de
enfermagem, farmacêutico, nutricionista, odontólogo e psicólogo). A conquista dos(as)
assistentes sociais, portanto, é para ser registrada, contada, cantada, comemorada e
defendida a cada dia e em todos os dias pelo Serviço Social brasileiro.
Quem viveu e/ou acompanhou de perto essa luta não tem nenhuma dúvida em
afirmar com veemência que as trinta horas semanais resultam de conquista forjada
na luta coletiva. Não se trata de concessão das elites e muito menos de “ganho
minimalista”. Uma análise crítica da conjuntura contemporânea em uma perspecti‑
va de totalidade demonstra com objetividade e precisão histórica que esse direito
foi duramente conquistado, com articulação política e pressão coletiva. Se consi‑
derarmos a histórica e longa luta dos(as) trabalhadores pela jornada de quarenta
horas, podemos afirmar que a conquista das trinta horas pelos(as) assistentes sociais
não foi longa, pois entre o início de tramitação do projeto de lei e a sanção presi‑
dencial decorreu pouco mais de três anos.

Jornada de trinta horas para assistentes sociais: compromisso


histórico na luta por direitos do trabalho

A conquista desse direito é resultado da confluência de vários elementos,


sendo determinante a direção política do Conjunto CFESS/Cress, sua firmeza na

alguns dos mais importantes momentos dessa história, com avaliações de nossa inteira responsabilidade, não
registradas no livro. O mesmo pode ser acessado em: http://www.cfess.org.br/publicacoes_livros.php>.

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defesa do projeto de lei e a construção de estratégias em duas direções: pressão
política coletiva sobre os poderes Legislativos e Executivos e articulação com su‑
jeitos determinantes em momentos‑chave em todo o processo.
No âmbito do legislativo federal, essas estratégias tiveram início em 2007,
quando o CFESS manteve o primeiro contato com o deputado Mauro Nazif (PSB/
RO), autor do projeto de lei, e discutiu com o mesmo seu conteúdo. Duas eram as
preocupações do CFESS. A primeira era de que a tramitação do projeto de lei, que
apresentava proposta de inclusão de artigo na Lei de Regulamentação da Profissão
(Lei n. 8662/1993), pudesse abrir a possibilidade de outras alterações na lei que
desconfigurassem ou suprimissem importantes normas ali asseguradas. Esta
­preocupação se fundamentava na análise política dos processos em curso de des‑
regulamentação das profissões e de restrição de direitos. A segunda preocupação
decorria do receio que o estabelecimento da jornada de trinta horas semanais pu‑
desse prejudicar parcela da categoria que já tinha assegurada jornada inferior a
esta, sobretudo na área da saúde. Embora fosse um contingente reduzido de pro‑
fissionais, proporcionalmente ao total de assistentes sociais, o CFESS tinha como
princípio que não poderia assumir nenhuma atitude que pudesse restringir ou re‑
duzir direitos já conquistados.
Mesmo depois da apresentação do PL no Plenário da Câmara dos Deputados,
que recebeu o n. 1890/2007, em 28 de agosto de 2007, o CFESS só se manifestou
publicamente favorável ao projeto e só se engajou na luta pela sua aprovação após
realizar debate público aprofundado com todos os Cress, o autor do PL e a asses‑
sora jurídica do CFESS, dra. Sylvia Terra.15 Esse cuidado foi fundamental para
assegurar aos assistentes sociais que o PL representaria um ganho e não colocaria
em risco a situação daqueles que já tinham essa condição assegurada. A partir des‑
se debate, o Conjunto CFESS/Cress manifestou publicamente os argumentos que
sustentam seu apoio ao PL, em 15 de maio de 2008.16 Sucintamente, os argumentos
apontavam que:

A luta por melhores condições de trabalho para assistentes sociais é um compromisso


histórico do Conjunto CFESS/Cress e se insere na luta pelo direito ao trabalho com

15. Esse debate ocorreu em 23 de abril de 2008, durante o IV Seminário Nacional de Gestão Adminis‑
trativo‑Financeira e V Seminário Nacional de Capacitação das Cofis, em Brasília.
16. As notas públicas do CFESS estão disponíveis na página eletrônica e também no Livro sobre as
trinta horas, já indicado na nota 14.

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qualidade para toda a classe trabalhadora, conforme estabelece nosso Código de Éti‑
ca. Nossa luta pauta‑se pela defesa de concurso público, por salários compatíveis com
a jornada de trabalho, funções e qualificação profissional, estabelecimento de planos
de cargos, carreiras e remuneração em todos os espaços sócio‑ocupacionais, estabili‑
dade no emprego e todos os requisitos inerentes ao trabalho, entendido como direito
da classe trabalhadora. A Resolução CFESS 493/2006 é um instrumento dessa luta ao
estabelecer condições éticas e técnicas para o exercício da profissão.

O documento sinalizava claramente que a jornada de trabalho de trinta horas


para assistentes sociais deveria ser compreendida como uma estratégia num plano
mais geral de lutas por melhores condições de trabalho. Dirimidas as preocupações,
o Conjunto CFESS/Cress se lançou na defesa do que passou a ser chamado “PL das
trinta horas”.

Pressão coletiva e articulação estratégica no Legislativo

Integrava a estratégia da defesa do PL a pressão junto aos parlamentares das


diversas comissões da Câmara dos Deputados pela aprovação do PL sem alteração,
pois o CFESS sabia que qualquer alteração retardaria a tramitação. A diretoria do
CFESS tinha a análise política que se o PL não fosse aprovado na legislatura que se
encerraria em dezembro de 2010, as possibilidades de sua aprovação eram muito
mais remotas. Essa análise orientou as ações do CFESS e foi determinante na apro‑
vação do PL, o que revela a acerto político do CFESS na condução do processo.
A pressão na Câmara dos Deputados foi intensa e sobre todos os parlamenta‑
res de todos os partidos que integravam as duas comissões em que o PL seria
analisado: Comissão de Trabalho, de Administração e Serviço Público (CTASP) e
Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJC). As estratégias de pres‑
são nessas comissões envolviam articulações e reuniões do CFESS com os depu‑
tados — autor e relator do PL e membros das comissões; acompanhamento coti‑
diano das sessões dessas comissões e, principalmente, mobilização dos Cress e
dos(as) assistentes sociais para envio de e‑mail aos parlamentares e participação
nas sessões em que o CFESS tinha a informação de que o PL seria votado. Depois
de mais de vinte sessões e 358 dias de tramitação na Câmara dos Deputados, a
sessão da CCJC de 20 de agosto de 2008, repleta de assistentes sociais, aprovou o
PL por unanimidade, sem alteração. Cabe registrar que, em algumas dessas sessões,
representantes da Federação Nacional de Assistentes Sociais (Fenas) participaram

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com o intuito de solicitar aos parlamentares alteração do PL, o que acabou retar‑
dando um pouco mais sua aprovação na Câmara dos Deputados. Não obstante essa
intervenção com posicionamento contrário ao do Conjunto CFESS/Cress, prevale‑
ceu a articulação realizada anteriormente, e a Câmara dos Deputados aprovou o PL
das trinta horas. Em 4 de setembro de 2008 a Mesa Diretora da Câmara dos Depu‑
tados (Mesa) remete o PL ao Senado Federal, por meio do Ofício n. 487/08/PS‑GSE.
Essa vitória, contudo, era parcial. Ainda seria preciso aprovar o PL no Senado,
cuja tramitação levou mais onze meses. O PL recebeu nova numeração — PLC
n. 152/2008 —, e sua tramitação começou na Comissão de Assuntos Sociais (CAS)
em 15 de setembro de 2008. O CFESS imediatamente solicitou audiência com o
relator designado pela CAS, mas devido a várias mudanças de relatoria, a audiência
ocorreu somente em 26/11/2008. Após recebimento dos argumentos do CFESS em
defesa do PL e mobilização do Cress/MT junto ao seu gabinete local, a senadora
Serys Slhessarenko (PT/MT) apresentou à Comissão de Assuntos Sociais (CAS)
parecer favorável à aprovação do projeto. O CFESS também preparou e distribuiu
aos senadores um documento com informações sobre a inserção de assistentes
sociais no mercado de trabalho, com argumentos em defesa do PLC. Além de sub‑
sidiar os votos dos parlamentares, o documento objetivou contrapor os aspectos
levantados pela Confederação Nacional das Indústrias (CNI), que se manifestou
contrariamente ao PLC. Antes da audiência da CAS, marcada para 10 de dezembro
de 2008, o CFESS encaminhou várias correspondências aos senadores, mobilizou
os Cress e os assistentes para enviarem e‑mail solicitando aprovação. Apesar da
mobilização, a sessão foi adiada e o PLC não foi analisado em 2008.
As articulações foram retomadas em fevereiro, após o fim do recesso parla‑
mentar. A relatoria foi substituída, e a senadora Lúcia Vânia (PSDB‑GO) foi desig‑
nada pela CAS para assumir a relatoria do PL em 5 de março de 2009. O CFESS
entrou imediatamente em contato com a assessoria da senadora e a mesma emitiu
parecer favorável à aprovação no dia 7 de abril. Na sessão da CAS de 15 de abril
de 2009, conselheiras do CFESS e representantes de 4 CRESS (SC, AM/RR, AL e
DF) assessores e assistentes sociais de base compareceram à sessão para pressionar
os senadores a aprovarem o projeto. Mas a votação não ocorreu porque o PLC foi
retirado de pauta pela relatora devido à solicitação da Fenas. Diante de posiciona‑
mentos divergentes, a senadora convidou representantes do CFESS e da Fenas para
uma reunião em seu gabinete, no dia 16 de abril de 2009.
No dia 16/4/2009, o CFESS (representado pelas conselheiras Ivanete Bos‑
chetti e Silvana Mara de Morais dos Santos e pela assessora especial Cristina

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Abreu) e a Fenas (representada pela sua presidente Margareth Dellaruvera e por
outra integrante da direção da entidade) se reuniram com assessores da senadora,
sr. Heldo Mulatinho e Bruno Berg. O CFESS reafirmou sua posição de defesa do
PLC 152/2008, considerando que este beneficiaria mais de 60% da categoria, que
trabalhavam em regime semanal superior a quarenta horas. Questionada por um
dos assessores sobre as razões de ter se manifestado contrária à aprovação do PLC
no dia da votação (15/4/09), a Fenas afirmou que o PLC traria prejuízo aos assis‑
tentes sociais que já tinham conquistado jornada inferior a trinta horas em acordos
coletivos de trabalho em alguns municípios e estados. O CFESS informou que
participou dos debates na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania da Câ‑
mara do Deputados e recebeu informação que a aprovação do PLC não traria
prejuízo a esses profissionais, por se tratar de conquistas expressas em legislações
específicas de estados e municípios, o que foi confirmado pela assessoria da sena‑
dora. O CFESS também manifestou que defendia o PLC sem alteração porque,
após consulta realizada na Câmara e no Senado, foi informado que qualquer alte‑
ração no PLC implicaria seu retorno para a Câmara dos Deputados e sua tramita‑
ção começaria do zero. Durante a reunião, o CFESS defendeu a reinserção do PLC
na pauta da Comissão de Assuntos Sociais (CAS) do Senado para sua apreciação
e aprovação imediata.
Após essa reunião, o CFESS publicou um documento esclarecendo os motivos
pelos quais o Conjunto CFESS/Cress defendia e lutava pela aprovação do PLC e
conclamou os profissionais do Brasil a se engajar na luta pela aprovação do PLC
na CAS. Texto na página do CFESS em 17 de abril de 2009 explicita:

Nossa conquista está muito perto e nós não vamos perdê‑la! Na mensagem aos parla‑
mentares, sugerimos o seguinte texto: Pedimos a (re)inclusão imediata do PLC
152/2008 na pauta da CAS e contamos com seu apoio e voto para aprovação imedia‑
ta sem alteração, pois o mesmo beneficiará aproximadamente 50 mil assistentes sociais
que trabalham em regime de quarenta (ou mais) horas semanais!

Posteriormente os senadores informaram o CFESS que receberam milhares


de e‑mails, o que mostra o desejo e a vontade da categoria na aprovação do PLC.
O CFESS manteve contato permanente com o gabinete da senadora relatora
do PLC e recebeu a informação que ela manteria seu parecer favorável ao PLC sem
alteração e que o mesmo seria votado no dia 30 de abril. O CFESS então mobilizou
os Cress e os assistentes sociais para enviar nova correspondência aos senadores

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pedindo a aprovação; também visitou os gabinetes dos senadores da CAS e entregou
aos mesmos o documento defendendo a aprovação do PLC. O CFESS recebeu
várias manifestações de apoio à luta pela aprovação do PLC 30h de assistentes
sociais de todo o Brasil e de instituições como a Alaeits — Associação Latinoame‑
ricana de Ensino e Pesquisa em Serviço Social e ABEPSS — Associação Brasilei‑
ra de Ensino e Pesquisa em Serviço Social. Muitos assistentes sociais compareceram
no dia 30 de abril, em resposta à convocação do CFESS, que também contou com
uma presença ilustre, o professor Robert Castel, que participava de um evento na
Universidade de Brasília (UnB) e fez questão de acompanhar a sessão e conhecer
a luta dos assistentes sociais.
Quem esteve presente não se esquecerá da emoção vivida naquele momento.
O senador Flávio Arns relatou o projeto a pedido da senadora Lúcia Vânia. Em seu
discurso, destacou que a profissão de assistente social deveria ser mais valorizada
no país, considerando sua importância para a garantia dos direitos e o desgaste
emocional que muitos(as) sofrem no desempenho de suas atribuições. O PLC
n. 152/2008 era apenas o ponto número 8 da pauta, mas a pedido do CFESS, o
senador Paulo Paim, que presidia a sessão, antecipou a votação, “em consideração
à grande representação da categoria presente”. A aprovação unânime do PLC na
CAS marcou nossa segunda grande conquista no processo legislativo.
Após essa aprovação, o passo seguinte era a sua aprovação no Plenário do
Senado. O CFESS, em conjunto com o autor do PLC (deputado Mauro Nazif), rea‑
lizou importante articulação com líderes das bancadas no Senado com vistas à não
apresentação de emendas, o que retardaria o processo. Vencido o prazo regimental
para apresentação de emendas, o PLC finalmente foi incluído na Ordem do Dia em
19 de junho de 2009. A partir daí, poderia ser votado a qualquer momento. Na sessão
de 23 de junho, cerca de sessenta assistentes sociais ocuparam a galeria do Senado.
Com adesivos elaborados pelo CFESS, pediam a aprovação do PLC, mas o mesmo
não foi sequer analisado, devido à crise que envolvia o Senado naquele momento,
devido a denúncias de irregularidades na contratação de serviços por meio de atos
secretos. O grupo de assistentes sociais presentes, incluindo a presidente do Cress‑SP,
Aurea Fuziwara, e a presidente do Cress‑GO, Neimy Batista, além de representantes
do Cress‑DF, da Abepss e profissionais do Distrito Federal e outros estados, visitaram
os gabinetes dos senadores e pressionaram pela análise do PLC. O Cress‑SP também
entregou 3.901 assinaturas colhidas em apoio ao PLC n. 152/2008 mas nenhuma
estratégia surtiu efeito e o PLC não foi votado, frustrando os profissionais presentes
e todos(as) que aguardavam a votação nesse dia.

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Também em 30 de junho de 2009 o PLC n. 152/2008 entrou na ordem do dia
do Plenário do Senado Federal, mas a votação não aconteceu. As discussões sobre
o afastamento do presidente da casa, José Sarney, e as denúncias sobre irregulari‑
dades interromperam a apreciação das matérias em pauta. O senador Flávio Arns,
relator do PLC, informou ao CFESS que várias medidas provisórias (MPs) trancavam
a pauta e que apenas um entendimento entre os líderes poderia resolver o impasse e
retomar a apreciação da pauta de matérias ordinárias. Apesar das articulações do
CFESS junto aos senadores, o PLC permaneceu seis sessões na ordem do dia, sem
ser apreciado. Em 7 de julho o plenário do Senado aprovou o Requerimento n. 834,
de autoria do senador Romero Jucá, líder do governo, solicitando o adiamento da
discussão da matéria por trinta dias. O PLC só retornaria à ordem do dia em 1 de
setembro de 2009. O CFESS novamente mobilizou os Cress e assistentes sociais
para que comparecessem na sessão de votação, e cerca de trinta profissionais do
DF e de GO, além de representações do CFESS, do Cress/DF e Cress/GO estiveram
presentes no Senado Federal e pediram, também, a aprovação do PLC que estabe‑
lece a obrigatoriedade de inserção do Serviço Social na educação (PLC n. 060).
Mais uma vez os dois projetos não foram apreciados.
Apesar de todos os esforços, articulações e pressão do CFESS junto aos líde‑
res dos partidos no Senado, para inclusão do PLC na pauta e submeter à votação,
o PLC foi, seguidamente, retirado da pauta durante, exatamente, 116 sessões,
entre o dia 1 de setembro de 2009 e 3 de agosto de 2010. O CFESS recebeu infor‑
mação que setores do governo haviam se manifestado contrários ao PLC, especial‑
mente o Ministério da Saúde e o Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão,
o que levou o CFESS a buscar outras estratégias: apresentou moção de apoio à
aprovação do PLC durante a VII Conferência Nacional de Assistência Social, ocor‑
rida em novembro de 2009, em Brasília, que foi aprovada e encaminhada para o
Senado. O documento de tramitação legislativa do Senado referente ao PLC regis‑
tra: “22/2/2010 SSCLSF — SUBSEC. COORDENAÇÃO LEGISLATIVA DO
SENADO. Juntei, às fls. 32/37, o Ofício n. 44/2010/CC/PRES/CNAS, de 14/1/10,
da presidente do Conselho Nacional de Assistência Social, Marcia Maria Biondi
Pinheiro, encaminhando moções de apoio aprovadas no âmbito da VII Conferência
Nacional de Assistência Social, realizada de 30/11 a 3/12/09”. O CFESS também
marcou audiência com a então recém‑empossada ministra do Desenvolvimento
Social e Combate à Fome, a assistente social Márcia Helena Carvalho Lopes em
18 de maio de 2010. Representando o Conselho Federal participaram as conselhei‑
ras Ivanete Boschetti, Rosa Helena Stein e Kátia Regina Madeira. Pelo MDS, além

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da ministra, participaram a secretária nacional de Assistência Social, Maria Luiza
Rizotti, e Ana Lígia Gomes, assessora da ministra. O CFESS solicitou ao MDS
apoio público à aprovação dos projetos de lei em tramitação na Câmara e no Sena‑
do e, especialmente, pediu à ministra apoio nas articulações com os parlamentares
para acelerar a tramitação do PLC n. 152/2008 no Senado e apoio à sua aprovação
no âmbito do Executivo Federal. A ministra declarou seu apoio aos projetos e afir‑
mou que o MDS faria esforços para aprová‑los.
Apesar desse importante apoio recebido, a morosidade na tramitação do PLC
continuou. Avaliação política da diretoria do CFESS considerou que as resistências
no âmbito do Executivo impediriam ou retardariam sua aprovação no Senado e que
o mesmo não seria votado sem uma pressão pública mais incisiva.

O decisivo ato público

A partir dessa avaliação política, o CFESS, em conjunto com Cress, Abepss


e Enesso, passou a fortalecer a estratégia de pressão coletiva pública, além de
continuar realizando articulações no âmbito dos poderes Legislativo e Executivo.
Nesse momento, essas entidades nacionais já estavam organizando o XIII CBAS,
que previa a realização de um ato público no último dia do Congresso, com obje‑
tivo de pressioná‑lo a aprovar os projetos de lei em tramitação. Esse ato público
passou a ser concebido com o objetivo mais específico de lutar pela aprovação,
sobretudo, do PLC n. 152/2008, devido à possibilidade de sua aprovação mais
imediata.
No início de julho de 2010 as entidades organizadoras do XIII CBAS lançaram
a Carta Convocatória para o XIII CBAS e para o Dia Nacional de Luta, conclaman‑
do os(as) assistentes sociais a participarem do evento que teve como tema central
“lutas sociais e exercício profissional no contexto da crise do capital: mediações
e consolidação do Projeto Ético‑Político Profissional”. A carta convocava os par‑
ticipantes, profissionais, movimentos sociais e estudantes a fortalecerem o ato
público para pressionar o Congresso a aprovar os projetos de lei que estavam em
tramitação naquele momento. A manifestação tinha sido marcada, inicialmente,
para a quinta‑feira, 5 de agosto, a partir das 9h, pois esse era um dia de sessão do
Plenário do Senado. Mas quando as entidades — CFESS, Cress, Abepss e Enesso
— receberam a informação, pelo gabinete do autor do PLC n. 152/2008, que o
Senado faria uma votação concentrada em 3 de agosto, para limpar a pauta antes

574 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 107, p. 557-584, jul./set. 2011
do recesso legislativo, imediatamente o Dia Nacional de Luta foi antecipado para
esse dia.
Carta distribuída pelas entidades durante o XIII CBAS e enviada a milhares
de profissionais, estudantes e movimentos sociais afirmava:17

Os(as) assistentes sociais trabalham viabilizando direitos, frente a situações por vezes
dramáticas e graves que atingem parcelas significativas da população brasileira. Pes‑
quisas mostram que, depois dos policiais e professores, somos uma das categorias
mais expostas ao stress e riscos para a saúde. Temos, frente a isso, alguns projetos de
lei tramitando no Congresso Nacional exigindo jornada semanal máxima de trinta
horas de trabalho, um piso salarial nacional digno, a exigência e regularização do
Serviço Social nas escolas, dentre outros. São projetos inadiáveis! Eles terão impacto
em serviços de saúde, assistência social, educação e judiciários, dentre outros. Exigi‑
mos dos parlamentares a aprovação desses projetos, que vão atingir os cerca de 93
mil assistentes sociais de todo o país. Mas vamos além das nossas questões como
trabalhadores. Na verdade, queremos que o Brasil deixe de ser o campeão da rotati‑
vidade no trabalho, do desemprego, dos salários irrisórios, de políticas sociais insufi‑
cientes e compensatórias apenas das situações mais graves combinadas à expansão
das prisões e de políticas de criminalização dos pobres. Exigimos o trabalho com
direitos para todos os trabalhadores e trabalhadoras!

Os CFESS intensificou as estratégias em várias frentes. Por um lado, em


conjunto com a Comissão Organizadora do XIII CBAS, se dedicou a organizar
cuidadosamente o ato público e a mobilizar os(as) profissionais presentes no Con‑
gresso, os(as) assistentes sociais e estudantes do Distrito Federal e representação
de movimentos sociais. Era fundamental que o ato público fosse representativo para
mostrar a força da luta coletiva. Ao mesmo tempo, outra frente de ação ocorria nos
corredores e gabinetes do Senado, para assegurar a inclusão do PLC n. 152/2008
na votação da Ordem do Dia em 3 de agosto de 2010, o que não era uma tarefa
fácil, pois muitos outros PLs e matérias estavam previstas, sobretudo por ser a úl‑
tima sessão antes do longo recesso legislativo devido à eleições que se aproximavam.
A terceira frente foi junto ao Executivo Federal, sobretudo com a mediação da
ministra Márcia Lopes, para pressionar os setores governamentais resistentes ao
PLC a não impedirem sua votação.

17. A íntegra da carta está publicada no livro sobre a luta pelas trinta horas e também disponível na
página eletrônica do CFESS.

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Cartas e e‑mails foram enviados aos milhares para os senadores, solicitando
a inclusão do PLC na pauta da Ordem do Dia, com votação e aprovação. Painéis
eletrônicos e outdoors foram espalhados pelas ruas mais movimentadas de Brasília
e, especialmente, em frente ao aeroporto e coloriram o céu azul, com a frase: “30
horas semanais e piso salarial já para assistentes sociais. Aprove PLC 152/2008 e
Pl 5.278/2009”. Painéis foram espalhados pelos canteiros centrais da via que liga
o aeroporto ao Centro, com os dizeres: “Vote e aprove PLC 152/2008. 30 horas
semanais para assistentes sociais. Estão nessa luta: CFESS, Cress, Abepss, Enesso”.
Tudo com intuito de pressionar os senadores a votarem o PLC n. 152/2008 no dia
3 de agosto de 2010. Todos sabíamos que se a votação não ocorresse nesse dia, o
PLC seria retomado apenas em fevereiro de 2011, já em uma nova legislatura, e a
luta teria que recomeçar do zero.
O ato público foi emocionante e inesquecível. A Esplanada dos Ministérios
foi tomada por um colorido alegre de frases, cartazes, faixas, música e palavras de
ordem proferidas pelos participantes. Assistentes sociais, estudantes e representan‑
tes de movimentos sociais começaram a chegar às oito horas da manhã e aguarda‑
vam o início, previsto para as nove horas. As faixas e os pirulitos elaborados pelas
entidades — Conjunto CFESS/CRESS, ABEPSS e ENESSO — expressavam as
bandeiras de lutas fundamentadas no Projeto Ético‑Político Profissional e demons‑
travam que a luta não se resumia aos interesses e direitos exclusivos dos(as) assis‑
tentes sociais e se inseria em nossa luta maior pelos direitos da classe trabalhadora
e por uma sociedade livre de injustiças, opressão, desigualdade, violência. As faixas
preconizavam:
• Trabalho com direitos
• Formação profissional de qualidade
• Os trabalhadores não podem pagar pela crise
• Educação não rima com lucro
• Educação não é mercadoria
• Saúde não é mercadoria
• Contras as fundações de direito privado
• Contra a reforma tributária que ameaça os direitos
• Em defesa da seguridade social pública
• Contra a homofobia
• Jornada de 30 h. para assistentes sociais

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• Pela aprovação imediata do PLC 152/2008! 30 h. Já!
• Pela aprovação do PL 5.278/2009! Piso salarial urgente!
• Pela aprovação do PLC 060/2007!
• Pela aprovação do PL 3507/2008 para regulamentar anuidade dos conselhos!
• Serviço Social nas escolas Já!
• Graduação à distância não garante qualidade!
• Ensino público, laico e de qualidade para todos!

O chamamento das entidades organizadoras do ato público — Conjunto


CFESS/Cress, Abepss e Enesso — foi atendido por assistentes sociais, estudantes
de Serviço Social e também por representantes de diversos movimentos sociais que
acompanharam o ato e se manifestaram em defesa dos direitos, contra a barbárie e
por uma sociedade emancipada. A luta por uma sociedade emancipada expressa um
dos nossos mais ousados e corajosos compromissos ético‑políticos, materializados
no Código de Ética dos(as) assistentes sociais: a opção por um projeto profissional
vinculado ao processo de construção de uma nova ordem societária, sem dominação,
exploração de classe, etnia e gênero. A emancipação a que nos referimos não se
limita à emancipação política, embora a socialização da política e a radicalização
da democracia sejam princípios fundamentais que devem orientar a elaboração de
estratégias de resistência e mediar as lutas sociais em defesa de uma sociedade não
mercantil. A sociedade emancipada que defendemos é esta a qual se refere o Códi‑
go de Ética Profissional: uma sociedade onde homens e mulheres sejam livres e
emancipados(as) de relações sociais que transformam a força de trabalho em uma
mercadoria subjugada pelo capital. Defendemos uma sociedade fundada na igual‑
dade real e substantiva, como condição necessária para o pleno desenvolvimento
da subjetividade, da liberdade e da diversidade humana.
Entre os movimentos sociais presentes no ato público estavam partidos de
esquerda, como PSol, PSTU e PCB, a Liga Brasileira de Lésbicas, o Grupo em
Defesa da Diversidade Afetivo‑Sexual do movimento LGBT, o Movimento dos
Trabalhadores Sem‑Teto, representantes dos indígenas, acampados há nove meses
em frente ao Congresso, sindicatos de diversos segmentos como o Sindjus‑DF (tra‑
balhadores do Judiciário), a Federação Nacional dos Sindicatos de Trabalhadores
em Saúde, Previdência e Assistência Social (Fenasps). Também se somaram à luta
representantes da Consulta Popular e da Associação de Assistentes Sociais e Psicó‑
logos do TJ(SP), que veio para Brasília em caravana e se juntou ao ato público.

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A imagem que se viu foi emocionante: a Esplanada dos Ministérios tomada
por mais de 3 mil assistentes sociais, estudantes e representantes de movimentos
sociais que caminharam mais de duas horas sob o céu azul e o sol forte, com ânimo
e disposição, cantando palavras de ordem, bradando a aprovação do PLC
n. 152/2008, de outros projetos de lei de interesse da categoria, manifestando‑se
em defesa do trabalho e dos direitos, e denunciando a usurpação do fundo público
para custeio da crise do capital. O ato público foi muito mais que a defesa das
trinta horas para assistentes sociais! Foi o firme posicionamento dos(as) assistentes
sociais em defesa do trabalho com direitos e por uma sociedade emancipada.
Após mais de duas horas de caminhada, a manifestação chegou em frente ao
Congresso Nacional e ali permaneceu até o início da tarde. O que se via e ouvia
eram bandeiras que tremulavam, vozes que ecoavam nos microfones do carro de
som, sujeitos individuais e coletivos que se manifestavam e se faziam ouvir, mili‑
tantes que registravam esse momento histórico para o Serviço Social, parlamenta‑
res que eram cercados pelos militantes e convencidos a aprovar o PLC n. 152,
corpos cansados que se sentavam ou deitavam no gramado. A mobilização só se
dispersou após as 14 horas, quando a luta já se travava em outro espaço: o interior
do Senado, onde um grupo se dirigiu para convencer os senadores a colocar o PLC
em pauta e votar sua aprovação.
No interior do Senado, um grupo com representantes do CFESS, dos Cress,
da Abepss e Enesso procuravam os parlamentares, sobretudo os líderes dos parti‑
dos, entregavam um documento e pediam para votar o PLC n. 152/2008 na sessão
que começaria à tarde. Era uma árdua tarefa, uma vez que o PLC estava na ordem
do dia há 116 sessões, entre 1 de setembro de 2009 e 3 de agosto de 2010, sem ser
apreciado. Ao mesmo tempo, representação do CFESS, Abepss e Enesso se reu‑
niram com o presidente do Senado, José Sarney, em audiência previamente mar‑
cada, com intermediação da ministra Márcia Lopes. Essa audiência foi fundamen‑
tal, pois é o presidente do Senado, junto com os líderes dos partidos, que define a
pauta do dia. A audiência ocorreu no final da manhã, e participaram, pelo CFESS,
as conselheiras Ivanete Boschetti e Marinete Moreira; pela Abepss, Elaine Ros‑
setti Behring; pelo Cress/DF, Fernanda Fernandes, e pela Enesso, Mário Pereira
do Nascimento.
Todos os gabinetes de líderes foram visitados, muitos senadores foram parados
nos corredores. Alguns se manifestavam favoráveis, outros queriam mais informa‑
ções, e outros ainda informaram que os líderes do governo eram contrários. Com
essa informação, o CFESS intensificou o contato com os senadores, entrou em

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contato com a assessoria da ministra Márcia Lopes solicitando seu apoio junto aos
líderes do governo, e mobilizou os(as) assistentes sociais que estavam no XIII CBAS
para lotar as galerias do Senado de forma a acompanhar a votação. Vários ônibus
foram colocados à disposição dos participantes, e por volta das 17 horas eles co‑
meçaram a encher a galeria. Essa mobilização, em conjunto com a articulação com
os senadores, foi decisiva para vencer a resistência dos líderes dos partidos e incluir
a votação do PLC na pauta do dia.
Foram mais de três horas de sessão e de conversas entre assistentes sociais e
senadores no Plenário, transmitida ao vivo pela TV Senado, até que, finalmente, as
19h41 o PLC entrou na pauta e começou a ser votado. Quem participou da sessão
do Senado no dia 3 de agosto de 2010 jamais esquecerá as centenas de mãos dos(as)
assistentes sociais que se levantavam em coro silencioso e contundente para “aplau‑
dir” cada manifestação favorável dos senadores em defesa do PLC. O silêncio não
foi mantido quando a presidência da mesa anunciou a aprovação unânime do PL,
e apesar de ferir o protocolo, os(as) assistentes sociais aplaudiram, gritaram palavras
de ordem, se abraçaram, se emocionaram e comemoraram intensamente sua vitória,
resultado inequívoco da mobilização coletiva organizada pelas entidades da cate‑
goria com firmeza e precisão política.18
Após a aprovação do PLC n. 152/2008, por unanimidade, o Plenário só ouvia
o eco de “vitória, vitória...”. Nesse momento, os(as) assistentes sociais sabiam que
estavam mais perto do que nunca dessa importante conquista para melhoria das
condições de trabalho. A saída do Plenário foi marcada por pura emoção: abraços,
fotos, lágrimas, gritos de euforia. Já nas escadas de acesso à galeria, a alegria se
fazia ouvir. Já sob o céu escuro, a rampa do Congresso Nacional foi palco da mais
intensa noite de comemoração, que coroou o dia nacional de luta e reafirmou que
direitos se conquista na luta!

As articulações pela sanção presidencial

O dia 3 de agosto marcou o fim da batalha no Legislativo, mas não o fim da


luta. Essa seguiu intensa para garantir a sanção presidencial, o que só ocorreu em
26 de agosto de 2010.

18. O livro que registra em detalhe e com imagens essa luta, também traz, em sua contracapa, um DVD
com imagens ao vivo do ato público e do momento em que os senadores aprovam o PLC n. 152/2008.

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 107, p. 557-584, jul./set. 2011 579
Muitos profissionais consideravam que a luta estava ganha e que o presiden‑
te Lula sancionaria o PLC sem resistência, sobretudo porque o país estava a poucos
dias das eleições presidenciais. Sem dúvida esse contexto eleitoral foi fundamental
e pesou enormemente, tanto para o Senado votar o projeto de lei, como para o
presidente sancioná‑lo. Mas a sanção não ocorreu tranquilamente. O CFESS não
se acomodou diante do contexto favorável e seguiu formulando estratégias para
vencer as resistências que já eram de seu conhecimento.
A primeira estratégia foi elaborar um abaixo‑assinado virtual na página do
CFESS. A campanha “Lula, sancione o PL 30 horas” recebeu, em menos de vinte
dias, mais de 20 mil assinaturas. O abaixo‑assinado foi enviado à Casa Civil da
Presidência da República. Assistentes sociais também foram estimulados a enviar
e‑mails ao “Fale com o Presidente”, com texto sugerido pelo CFESS. Outra estra‑
tégia foi articular forças com o autor do PLC, deputado federal Mauro Nazif, para
pressionar os ministros e o próprio presidente da República. O deputado também
mediou contatos com ministros para marcar audiência e acompanhou o CFESS
nessas reuniões.
Outra estratégia fundamental foi realizar reuniões com ministros que deveriam
emitir notas técnicas sobre o impacto do projeto de lei e parecer sobre sua aprova‑
ção. Em cada uma dessas reuniões, o CFESS, representado por Ivanete Boschetti
e outras conselheiras e acompanhado pelo CRESS/DF, entregou um documento
com informações sobre o impacto da redução da jornada para as condições de
trabalho e vida dos(as) assistentes sociais brasileiros(as). A jornada de reuniões com
os ministérios começou no dia 17 de agosto, com o ministro das relações Institu‑
cionais, Alexandre Padilha. Ainda no dia 17/8 a representação do CFESS se reuniu
com o diretor adjunto de Gestão e Atendimento da Presidência da República, che‑
fiado por Swedenberger Barbosa. O chefe de gabinete adjunto ressaltou a impor‑
tância de o Conjunto CFESS‑Cress realizar audiências com todos os ministérios,
conforme o CFESS já havia planejado, e informou que os ministros da Saúde, do
Trabalho e do MDS foram suscitados a emitir parecer sobre a aprovação do PLC
n. 152/2008.
Nessa mesma data, à noite, ocorreu a reunião no Ministério da Saúde (MS)
com a diretora de Gestão e Regulação do Ministério, Maria Helena Machado que,
durante o processo legislativo, havia encaminhado nota técnica à Casa Civil, con‑
trária à aprovação do PLC n. 152/2008. Após ouvir os argumentos do CFESS, a
diretora disse que a redução da carga horária de assistentes sociais poderia causar
impacto considerável no orçamento da Saúde dos estados e, principalmente, dos

580 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 107, p. 557-584, jul./set. 2011
municípios. O CFESS reafirmou que a maior parcela de assistentes sociais está no
setor público e que poucos profissionais possuem acordos coletivos que asseguram
jornada igual ou inferior a trinta horas semanais.
Na quarta‑feira, 18 de agosto, o CFESS se reuniu com o deputado Mauro
Nazif e com a consultoria legislativa da Comissão de Constituição e Justiça da
Câmara dos Deputados, que asseguraram a constitucionalidade do PLC n. 152/2008.
No final da manhã, as representantes do Conjunto CFESS‑Cress, acompanhadas
pelo deputado Mauro Nazif, voltaram a se reunir com a secretária executiva do
Ministério da Saúde e sua equipe, foco maior de resistência à aprovação do PLC
no âmbito do Executivo Federal. A equipe expressou claramente que era contrária
à redução de jornada, porque avaliava que isso prejudicaria o SUS e fortaleceria as
lutas por redução de outras categorias, sobretudo enfermagem e técnicos em enfer‑
magem. O CFESS contrapôs esses argumentos e reforçou que a carga horária de
trinta horas contribuiria para a qualidade dos serviços prestados aos usuários do
Serviço Social. Ressaltou que o CFESS defende concurso público e direitos iguais
para toda classe trabalhadora, mas reafirmou a complexidade do trabalho de assis‑
tentes sociais, expostos a situações cotidianas de jornadas extenuantes e alto grau
de estresse decorrentes das pressões sofridas no exercício de seu trabalho junto à
população submetida a situações de pobreza e violação de direitos. Sinalizou que
a categoria é composta, em sua maioria, de mulheres, que, devido à sociedade
machista e sexista, acabam assumindo sozinhas as tarefas domésticas, tendo, por‑
tanto, dupla ou tripla jornada de trabalho.
Também no dia 18 de agosto de 2010, o CFESS, acompanhado do deputado
federal Mauro Nazif, se dirigiu ao Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). O
ministro Carlos Lupi recebeu o grupo e informou que o MTE já havia enviado
parecer favorável à Casa Civil sobre o PLC n. 152/2008. Em seguida, o CFESS
entrou em contato com o Ministério de Desenvolvimento Social e Combate à Fome
(MDS) e recebeu informação de que a ministra Márcia Lopes já havia encaminha‑
do parecer técnico favorável à Casa Civil e reforçaria a importância de sanção do
PLC junto ao presidente da República.
Apesar da resistência expressa pelo Ministério da Saúde, a expectativa da
gestão do CFESS, Atitude Crítica para Avançar na Luta era de aprovação do PL.
Notícia na página do CFESS expressava o motivo:

Tudo isso é resultado da nossa luta e direção política; construímos e realizamos um


grande ato público com mais de 3 mil assistentes sociais e estudantes, realizamos

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um abaixo‑assinado eletrônico com mais de 20 mil assinaturas, visitamos todos os(as)
senadores(as) e lotamos a galeria do Senado no dia 3 de agosto, fundamentamos
nossa defesa com argumentos sólidos e fizemos articulações estratégicas com os
ministérios. Por isso, apostamos que o presidente Lula atenderá ao clamor das(os)
assistentes sociais e sancionará o PLC n. 152/2008, em defesa dos direitos da classe
trabalhadora.

O dia 26 de agosto de 2010 ficará na história do Serviço Social brasileiro, pois


foi quando, o presidente Lula sancionou o PLC n. 152/2008. A assinatura do pro‑
jeto pelo presidente aconteceu no Palácio Itamaraty, exatamente quinze dias úteis
após a entrada do PLC n. 152/2008 na Casa Civil (6/8). No final do dia 26 de agos‑
to, a ministra do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS) telefonou ao
CFESS e repassou a informação diretamente para sua presidente. Em seguida,
também o chefe de gabinete adjunto de Gestão e Atendimento da Presidência da
República, Swendenberger Barbosa, ligou e adiantou que a sanção seria publicada
no Diário Oficial da União no dia seguinte, 27 de agosto. Imediatamente o CFESS
divulgou a notícia em sua página, com a chamada: “Lutamos e conquistamos: PL
30 horas é sancionado”.
Milhares de telefonemas e e‑mails passaram a chegar no CFESS, e logo no
dia 27 de agosto a diretoria do CFESS publicou uma carta aos assistentes sociais,
esclarecendo as dúvidas e orientando os profissionais sobre as estratégias para a
implementação da lei. Sabíamos que a conquista desse importante direito provoca‑
ria resistências, pois se trata de uma luta do trabalho contra o capital.
Muitas resistências se manifestaram sobre diferentes formas. No âmbito do
setor privado, a resistência mais feroz veio da Confederação Nacional de Saúde
(CNS), entidade que representa nacionalmente as empresas prestadoras de serviços
de saúde, que ajuizou uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (Adin 4468) no
Supremo Tribunal Federal, contra a lei. O CFESS respondeu política e judicialmen‑
te e aguarda a audiência do STF para julgamento do mérito da ação. Em 19 de
outubro de 2010, nota pública do CFESS mostrou sua indignação com a Adin, que
revela a inequívoca e violenta reação das forças do capital empresarial contra as
conquistas garantidas de forma legítima e democrática pelos(as) assistentes sociais.
No âmbito do Serviço Público, a resistência se manifestou de diversas formas.
Enquanto muitos órgãos públicos reduziram a jornada semanal para trinta horas
sem redução salarial, o Ministério do Planejamento Orçamento e Gestão e o INSS
reconheceram o direito aos servidores públicos, mas “entenderam” que a redução

582 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 107, p. 557-584, jul./set. 2011
da jornada deveria ser acompanhada de redução salarial. O CFESS lutou e segue
lutando para pressionar os órgãos públicos.
Esta luta só acabará quando todos(as) os(as) assistentes sociais do Brasil ti‑
verem assegurada a jornada semanal de trinta horas com salários compatíveis com
suas atribuições. Esse direito fundamental para as condições de vida deve ser com‑
preendido e contextualizado nas lutas mais gerais por uma sociedade que não
transforme o trabalho e a vida em mercadoria a serviço da acumulação. Essa é uma
luta de quem, como diz a música

“Quem tem consciência pra se ter coragem


quem tem a força de saber que existe
E no centro da própria engrenagem
Inventa a contra mola que resiste
Quem não vacila mesmo derrotado
Quem já perdido nunca desespera
E envolto em tempestade decepado
Entre os dentes segura a primavera
(João Ricardo/João Apolinário)

Recebido em 20/6/2011  n   Aprovado em 4/7/2011

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584 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 107, p. 557-584, jul./set. 2011

homenagem

Dilséa A. Bonetti:
uma especial presença entre nós
Dilséa A. Bonetti: a special presence among us

Prezada Profa. Dilséa Bonetti, que temos a cada dia nesta profissão tão
Tantas palavras e, ao mesmo tempo, marcada pelo fazer.
nenhuma quantidade ou qualidade sufi‑ Nessa empreitada diária, como é bom
cientes para dizer‑lhe o quanto é impor‑ lembrar o que você esteve a nos ensinar sobre
tante para todos nós... Resta apenas o difícil, o complexo, mas também prazero‑
reverenciá‑la, como Riobaldo em Gran‑ so processo de construção do conhecimento.
de sertão, veredas: “O que muito lhe
E tomamos emprestado, mais uma vez, as
agradeço é a sua fineza de atenção”.
palavras de Riobaldo em Grande sertão,
veredas, de Guimarães Rosa, para dizer‑lhe:
“Assim, é como conto. Antes conto as
Estamos aqui hoje, neste lugar especial, coisas que formaram passado para mim com
nesta data especial para dizer‑lhe publica‑ mais pertença. Vou lhe falar. Lhe falo do
mente sobre sua especial presença entre nós. sertão. Do que não sei. Um grande sertão!
Se pudéssemos escolher conjugar os Não sei. Ninguém ainda não sabe. Só umas
verbos mais significativos para homena‑ raríssimas pessoas — e só essas poucas ve‑
geá‑la seriam, talvez, pelo menos três: pes‑ redas, veredazinhas. O que muito lhe agra‑
quisar, conhecer e construir. deço é a sua fineza de atenção”.
A partir destes verbos podemos dizer que
aprendemos com você a singularidade, a Dirce Koga
aventura e a busca incessante naquela sua São Paulo, Teatro Tuca,.
disciplina que continua tão presente: Proces‑ 16 de maio de 2011
so de Construção do Conhecimento.
Tantos caminhos percorridos, tantos que
vislumbramos percorrer ainda, o fato é que Recebido em 23/5/2011
estamos a caminhar... tanto para se conhecer, n

que parece quase nada diante dos desafios Aprovado em 13/6/2011

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 107, p. 585, jul./set. 2011 585
Adeus à Nobuko Kameyama
Good‑bye to Nobuko Kameyama

Depois do adeus, fica aquele vazio imen‑ concluiu seu doutorado em sociologia, es‑
so: a saudade. tudando a mobilização e a organização dos
Tudo se enche com a presença de uma lavradores na região de Jales e procurando
ausência. entender melhor as condições de vida, de
Oh! Como seria bom se não houvesse
trabalho e as lutas sociais dos camponeses.
despedidas…
Esteve presente na criação e organiza‑
Rubem Alves, 2003. ção do Partido dos Trabalhadores em Lins,
pelo qual foi candidata a deputada estadual.
Saindo de Lins, assumiu a escola de
Faleceu na manhã de 8 de junho de 2011 formação política do PT em Cajamar (SP).
em São Paulo, a assistente social, professo‑ Trabalhou na pós‑graduação de Serviço
ra e pesquisadora Nobuko Kameyama, uma Social da PUC de São Paulo e depois assu‑
vida dedicada ao Serviço Social, à pesquisa miu a pós‑graduação nessa mesma área na
e à formação de assistentes sociais, sempre Universidade Federal do Rio de Janeiro.
numa direção comprometida com a cons‑ A professora Nobuko, nossa querida
trução de outra ordem societária. companheira, nos deixou lições de coerência,
Nobuko estudou Serviço Social na Fa‑ humildade, ética e integridade humana, além
de um importante legado intelectual para a
culdade de Serviço Social de Lins (SP), onde
área do Serviço Social, expresso em artigos
foi professora por um longo período. Foi
e ensaios que priorizaram as temáticas dos
ainda nessa cidade a primeira diretora do
movimentos sociais e a pesquisa em Serviço
Instituto Paulista de Promoção Humana
Social. Mas, certamente, sua contribuição
(IPPH), onde iniciou seu trabalho social no
maior encontra‑se na formação acadêmica
campo da organização dos trabalhadores qualificada de várias gerações de assistentes
rurais. Muito lhe devem os cortadores de sociais, mestres e doutores que tiveram o
cana, os sem‑terra, os grupos e movimentos privilégio de desfrutar de seus ensinamentos,
de mulheres, entre elas lavadeiras e empre‑ razão pela qual recebeu uma justa homena‑
gadas domésticas. Por estar sofrendo amea‑ gem no último Encontro Nacional de Pes‑
ças da parte dos militares, Dom Pedro quisadores em Serviço Social, realizado na
Paulo, bispo local, enviou‑a para estudar em Uerj, em dezembro de 2010. “Nobuko pri‑
Louvain, na Bélgica. Depois um tempo na mou por ser uma mulher de poucas palavras,
Bélgica, ela se transferiu para Paris, onde porém de falas certeiras. Quando pensáva‑

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mos que ela estava distante e alheia, com a tempo novo, um tempo de justiça e de
sua costumeira posição de olhos fechados, igualdade.
surpreendia‑nos com suas posições e com a
sua capacidade de formar opinião e redire‑ Maria Carmelita Yazbek
cionar uma decisão coletiva. Ela conseguia
Julho de 2011
dizer “a coisa certa, na hora certa”, afirma
Ana Elizabete Mota nessa homenagem à
companheira. Recebido em 13/6/2011
Que seu exemplo nos acompanhe e n

inspire nossas lutas na construção de um Aprovado em 4/7/2011

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resenha

Trabalho e desgaste sociais do desemprego, dos riscos psicosso‑


ciais derivados da desqualificação, tanto
quanto dos ataques à dignidade dos traba‑
mental: o direito de ser lhadores. Vemos aí verdadeiros atentados à
ética, pois implicam perturbações na estabi‑
dono de si mesmo lidade mental, ao mesmo tempo, que produ‑
zem agravos à saúde.
Work and mental wear: the individual’s Na primeira parte do livro, a autora bus‑
ca delinear um campo ampliado da Saúde
right to be the owner of himself Mental Relacionada ao Trabalho (SMRT) e
o situa como um campo multidisciplinar
ainda em processo de consolidação. Recorre
Edna Maria Goulart Joazeiro* às múltiplas contribuições dos conhecimen‑
tos oriundos de diversas disciplinas. Enfati‑
za a importância dos fundamentos oferecidos
O livro Trabalho e desgaste mental: o pela Filosofia e pela Ética para a SMRT, além
direito de ser dono de si mesmo, de autoria de apontar as contribuições dos seguintes
de Edith Seligmann-Silva, editado pela campos: a Psicopatologia Geral, a Psiquiatria
Cortez, constitui uma efetiva contribuição Clínica, a Psicologia do Trabalho, a Psica‑
para a análise de um tema fundamental na nálise, a Psicodinâmica do Trabalho (PDT).
contemporaneidade: a relação ente saúde No decorrer da obra, preocupa‑se em assina‑
mental e desgaste do trabalho. O livro em‑ lar como o encadeamento da trama de con‑
preende uma reflexão ancorada em um ceitos de cada um dos campos tem contribuí‑
corpo conceitual sólido, fundado em análise do na tessitura de um arcabouço conceitual
densa, que permite ao leitor indagar‑se sobre marcado pela relação de interdependência e
as conexões entre saúde mental e trabalho. de interpenetração do que denomina o cam‑
A autora aponta haver uma unicidade na po ampliado da Saúde Mental Relacionada
relação corpo/mente, que torna indissociável ao Trabalho (SMRT). Desse modo, destacou
a relação entre saúde geral e saúde mental. as contribuições tanto da Psicologia Organi‑
Afirma que há uma inter‑relação entre o zacional quanto da Psicologia do Trabalho,
trabalho e os processos saúde/doença, cuja tendo afirmado que esta última, a princípio,
dinâmica se inscreve de modo mais vigoro‑ centrava sua análise nos aspectos cognitivos,
so nos fenômenos mentais, mesmo quando e que gradualmente se expandiu, aprofun‑
sua natureza seja eminentemente social.
dando tanto o estudo da dimensão cognitiva
Nessa perspectiva, a autora inclui como
quanto o da psicoafetiva, penetrando no
objeto de análise não só o trabalho, mas a
exame da intersubjetividade e, mais recente‑
falta de trabalho e o trabalho precarizado
mente, dos fenômenos microssociais e mi‑
que se materializa sob a forma dos riscos
cropolíticos. Assinalou que não existem
fronteiras, mas sim uma convergência e
* Assistente social, socióloga, doutora em Educação muitas vezes fusões importantes da Psicolo‑
pela Unicamp e docente da PUC‑Campinas/SP, Brasil. gia do Trabalho em relação a outras discipli‑
E-mail: emgoulart@uol.com.br. nas, destacando entre elas a Psicologia So‑

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cial, a Sociologia do Trabalho, a Ergonomia, crises econômicas, bem como da recessão e
a Ergologia, a Antropologia do Trabalho e a o processo de ampliação da sobrecarga de
Psicodinâmica do Trabalho e, em certos es‑ trabalho, o aumento da tensão e da fadiga na
tudos, a Psicanálise. Acrescentou a esse vida laboral dos entrevistados. Assinala que
quadro as contribuições provenientes do o sofrimento mental tem sido ampliado pelo
campo da Saúde do Trabalhador, bem como temor do desemprego, expondo trabalhado‑
das outras abordagens das patologias vincu‑ res a riscos mentais importantes pelo desen‑
ladas ao trabalho; além de conferir destaque volvimento de um tipo de gestão que exerce
à Neurologia Clínica, à Neurociência, à To‑ controle por meio da exploração dos temores
xicologia e à Epidemiologia. de perda do emprego. A precarização do
Na obra, a densidade da análise concei‑ emprego, o temor da perda do emprego faz
tual está enriquecida pela discussão de diver‑ parte do que a autora denominou como a
sos estudos desse campo de conhecimento e desumanização do trabalho contemporâneo
das próprias pesquisas da autora. Essa con‑ e a expansão do desamparo.
figuração da obra deu‑se com o objetivo de Na segunda parte do livro são apresenta‑
permitir um diálogo com aqueles que execu‑ das as transformações do trabalho e o ad‑
tam e vivenciam o trabalho no cotidiano. A vento do uso de políticas e de práticas geren‑
autora utiliza de forma consistente o resulta‑ ciais, cujo uso dá‑se em consonância com os
do de suas próprias pesquisas realizadas objetivos de intensificação do uso do trabalho
entre os anos 1980‑1987;1 ancorada nesse humano. A exacerbação do uso de ferramen‑
rico material, analisa o desgaste mental e as tas gerenciais de controle sobre o trabalhador
repercussões das condições laborais na vida tem levado, segundo a autora, à intensifica‑
e na saúde mental de trabalhadores de diver‑ ção de uma sujeição que, muitas vezes, se
constitui paralelamente a um processo de
sos ramos de atividade, tais como os traba‑
alienação. Na terceira parte, denominada
lhadores industriais da cidade de Cubatão,
— o “trabalho dominado” — a autora anali‑
da siderúrgica da cidade de São Paulo, ban‑
sa e contextualiza a trajetória das metamor‑
cários, funcionários da área operativa do
foses da dominação, da alienação e do sub‑
Metrô de São Paulo, além de analisar a saú‑
metimento nas situações de trabalho sob a
de psicossocial no trabalho em tecnologias
hegemonia do pensamento neoliberal. Nesse
ditas avançadas, em estudo de caso feito com
intrincado de relações, apresenta a confluên‑
digitadores e operadores de console em
cia entre as mutações sociais e as do trabalho
processos computadorizados. Nesse intrin‑
e suas repercussões na vida mental.
cado de análises, a autora assinala algumas
Na quarta parte, foram apresentados es‑
características relacionadas à constituição do
tudos que revelam a constituição e as mani‑
desgaste mental e às defesas e resistências
festações do desgaste mental laboral em di‑
desenvolvidas pelos trabalhadores e suas
versos ramos do trabalho e os impactos
famílias, além de apontar as repercussões de
subjetivos e a vulnerabilização psíquica
acarretada pelos acidentes de trabalho. Abor‑
1. Cf. Seligmann‑Silva, 1981‑83; Seligmann‑Silva, da ainda a importância da dimensão psicos‑
Delía, Sato, 1985 e 1986; Seligmann‑Silva, 1984‑85; social da prevenção dos acidentes e o do
Seligmann‑Silva, 1986‑87. atendimento psicológico aos acidentados. Na

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quinta parte do livro, a autora discute a “in‑ de diversos campos de conhecimento. Essa
terface família‑trabalho”, dando destaque tessitura confere à obra um valor ímpar, à
especial a estudos que assinalam as múltiplas medida que permite ao leitor refletir sobre a
dimensões presentes nas interfaces entre as temática da dominação relacionada às cone‑
novas configurações da família e do trabalho xões entre o trabalho e o processo de desgas‑
e suas repercussões na saúde mental da mu‑ te humano. No decorrer da obra, ela analisa
lher trabalhadora. Dá ênfase aqui ao papel as múltiplas determinações implicadas na
que o Serviço Social tem na dupla dimensão relação saúde/doença vinculadas à vida la‑
na intervenção junto a essa população e na boral, e o faz fundada em eixos de análises
luta pela efetivação de políticas públicas consistentes pautadas em vasta revisão de
voltadas para a prevenção, a proteção e a literatura de diversos campos do saber. Sua
recuperação da saúde do trabalhador. Na análise, fortemente marcada por uma leitura
sexta e na sétima partes, aborda, respectiva‑ ética, tem uma dimensão ao mesmo tempo
mente, as visões e percepções do trabalho profundamente humana e política, posto que
pelo trabalhador e a importância dos suportes propõe um compromisso em defesa da vida.
sociais e afetivos na proteção à saúde mental. Ao longo da obra, a autora aponta que a
Na oitava parte do livro, denominada desumanização do trabalho contemporâneo
“Metamorfoses articuladas: sofrimento so‑ e a expansão do desamparo exigem um en‑
cial, trabalho e desgaste mental”, a autora frentamento, e para fazê‑lo propõe a desmis‑
tece sua análise em três capítulos. No primei‑ tificação por meio da superação do medo
ro, aborda a psicopatologia do trabalho nas veiculado pela ideologia que postula a cren‑
situações de recessão e de desemprego. No ça de que na era da globalização é inexorável
segundo discute a precarização da saúde o aprisionamento sem saída para quem vive
mental no contexto da precarização social e do trabalho. O livro termina expressando,
do trabalho, e no terceiro, focaliza as expres‑ através das “reflexões finais” que estamos
sões clínicas do desgaste mental no trabalho “em busca de caminhos”.
contemporâneo, dando destaque especial à
psicopatologia engendrada pela precarização
e pela violência diuturnamente presentes nas Recebido em 20/6/2011
relações de trabalho e de vida de parte das n
populações na sociedade moderna. Nessa Aprovado em 4/7/2011
análise, a autora dá uma efetiva contribuição
para o entendimento do papel de um geren‑
ciamento transfigurado — o gerencialismo
—, no qual a arte de administrar é degradada Referência bibliográfica
pelo economicismo.
A abrangência e a complexidade do tema SELIGMANN‑SILVA, E. Trabalho e desgaste
levam a autora a tecer uma trama analítica mental: o direito de ser dono de si mesmo. São
ancorada num arcabouço conceitual oriundo Paulo: Cortez, 2011. 624 p.

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A dimensão ética do vado, Conjunto CFAS/Cras, consistiram em
produtos reais do processo da “virada” e da
intenção de ruptura com o chamado Serviço
trabalho profissional nos Social tradicional. Assim, ainda que tenhamos
conseguido apenas em 1993 a sanção de uma
hospitais de custódia e nova lei de regulamentação — a Lei n. 8.662
—, a ética profissional experimentara já nos
tratamento psiquiátrico idos da aguerrida década de 1980 a aprovação
de um novo Código de Ética balizador das
ações profissionais.
The ethical dimension of the professional O Código de Ética de 1986, e posterior‑
work in custody and psychiatric hospitals mente o de 1993, com mais ênfase e maturi‑
dade, inauguraram um renovado dever ser
ao exercício profissional, uma vez que, rom‑
pendo efetivamente com a neutralidade, as‑
Fátima Grave Ortiz* sumiram a dimensão política da intervenção
profissional e colocaram a ética como central
na constituição de um projeto profissional
Fruto da tese de doutorado da autora, a
organicamente vinculado a um alternativo
importante obra que se apresenta nesta rese‑
projeto societário sem exploração e discri‑
nha expressa o acúmulo que o Serviço Social
minação por raça, etnia, gênero, orientação
tem experimentado nos últimos trinta anos,
sexual, condição física e classe social.
mais precisamente com a “virada” do Serviço
Com efeito, o livro que ora se apresenta
Social brasileiro em face de sua trajetória
é herdeiro de todo esse processo de renova‑
e herança conservadora. Como sabemos, a
ção do Serviço Social brasileiro, que tem na
“virada” proporcionou ao Serviço Social a ética — entendida como uma “produção
constituição efetiva de um novo projeto de humana/social, [...] um campo do conheci‑
profissão, com desdobramentos para a orga‑ mento que dá origem a (e se assenta em)
nização política das entidades da categoria, ideias e concepções que indicam deter‑
com impactos sobre a formação e o exercício minadas direções sociais e históricas, condi‑
profissionais. cionadas em suas alternativas pela estrutura
No tocante ao exercício da profissão, os econômica e política na vida social” (p. 3)
debates em torno da constituição de uma nova — a condição central para o exercício e a
lei de regulamentação e de um novo Código formação profissional vinculados ao projeto
de Ética proporcionados pelo então, já reno‑ profissional, a que se aludiu linhas atrás.
Desta forma, com clara influência das
categorias presentes no pensamento marxia‑
* Mestre e doutora em Serviço Social pela Univer‑
no (bem como da tradição marxista, em es‑
sidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Atualmente, é
docente da UFRJ — Rio de Janeiro/RJ, Brasil, e pesqui‑
pecial Lukács), a autora concebe a moral
sadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre os como um “meio de regulação das relações
Fundamentos do Serviço Social na Contemporaneidade. dos homens entre si e destes com a comuni‑
E‑mail: fgrave@oi.com.br. dade” (p.95), que são, por conseguinte, his‑

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tóricas, mutáveis e fundamentadas no traba‑ conceituado como um “contexto institucional
lho como categoria central do processo de bastante complexo, ou seja, focaliza uma
constituição do homem como ser social. Por instituição que articula duas realidades de‑
se dar na esfera ineliminável da vida cotidia‑ primentes das sociedades modernas — o
na, atravessada por sua natureza superficial, ‘abrigo de loucos’ e a prisão [...]” (p. 3), bem
descontínua e imediata (nos termos de Hel‑ como da trajetória do próprio Serviço Social
ler) e por suas contradições e disputas, a nessa área que data da década de 1950.
moralidade suscita a reflexão da ética, esta As conclusões a que chega a autora são
sim capaz de evidenciar a relação entre o ao mesmo tempo instigantes e desafiadoras
sujeito singular que age moralmente e a porque revelam o quanto o fortalecimento
universalidade presente no humano genérico. do projeto ético‑político e principalmente
Tomando como solo tais concepções, a seu caráter hegemônico exige que nós —
autora resgata de forma consistente e inequí‑ assistentes sociais — tenhamos consciência
voca os fundamentos da moral e da ética para de que tal processo não prescinde do resul‑
qualificar a ética profissional como “uma tado efetivo das ações individuais e coletivas
forma particular de materialização — de dos sujeitos profissionais, e que, portanto,
expressão — da vida moral em sociedade.” devem estar além da defesa idealista dos
(p. 98). Assim, a ética das profissões está princípios subjacentes ao projeto. O livro
implicada diretamente com o movimento da demonstra claramente, a partir de seu rigor
sociedade e, consequentemente, com os teórico‑metodológico, que não basta a ade‑
projetos societários que nela gravitam. É com são ideal dos profissionais aos princípios que
tal perspectiva que a autora nos apresenta fundamentam o projeto profissional, mas o
suas preocupações centrais — analisar a desvelamento da realidade social e de suas
possibilidade de concreção do projeto éti‑ contradições, e isso exige investimento
co‑político do Serviço Social a partir da maciço em formação continuada por parte
materialização, pela mediação das ações dos profissionais e de sua mobilização e
profissionais, dos princípios fundamentais organização política enquanto categoria
do Código de Ética de 1993. Para tanto, partícipe de uma classe social determinada
busca captar, mediante a análise das respos‑ — a classe trabalhadora.
tas dos assistentes sociais durante as entre‑
vistas, o caráter ético‑político da intervenção
profissional realizada nos hospitais de cus‑ Recebido em 25/3/2011
tódia e tratamento psiquiátrico do Estado do n
Rio de Janeiro, este concebido pela autora Aprovado em 13/6/2011
como “campo de atuação profissional que
evidencia interseção de diferentes faces da
política social, inserção de diferentes profis‑
sionais e abarca de maneira ‘emblemática’, Referência bibliográfica
[...] camadas pauperizadas [...] que costu‑
mam recorrer às políticas públicas” (p. 121). FORTI,Valeria. Ética, crime e loucura: reflexões
Vale ressaltar que a autora empreende sobre a dimensão ética no trabalho profissional.
vigorosa análise sobre o campo prisional, Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2009. 252 p.

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