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: Sire, James W. : O universo ao lado : um catdlog IVI 4 Ac, 208129 An il | 3 isao Um catalogo basico sobre cosmov aO Sumario PREFACIO A 4? EDICAO J. TODA A DIFFRENGA NO MUNDO: introdug40 2, UM UNIVERSO PERMEADO DA GRANDEZA DE Deus: tefsmo cristao 3. A PRECISAO DO UNIVERSO: deismo 4, O SILENCIO DO ESPAGO FINITO: naturalismo 5. MARCO ZERO: niilismo 6, ALEM DO NIILISMO: existencialismo 7, JORNADA RUMO AO ORITENTE: Monismo panteista oriental 8. Um universo separano: a Nova Era 9. O HORIZONTE DESVANECIDO: pés-modernismo 10. A vipa EXAMINADA: conclusio Novas INDEX ll 23 55 73 109 141 179 207 263 301 315 373 Prefacio &@ 4% edi¢gao Mi: ANOS SE PASSARAM desde a publicagao da primeira edigdo deste livro, em 1976. Nesse interim, inimeros acontecimentos ocorreram, seja no desenvolvimento das cosmovisées no Ocidente, seja na maneira como eu e muitos outros passamos a compreender a nogao de cosmovisao. Em 1976, a cosmovisao da Nova Era estava apenas se formando e nem nome tinha ainda. Eu a chamei de “a nova consciéncia’, Ao mesmo tempo, o termo pés-moderno estava restrito apenas aos circulos académicos e ainda necessitava de ser reconhecido como uma mudanga intelectual signifi- cante. Agora, no século XXI, a Nova Era jd completou mais de trinta anos, sendo adolescente apenas no cardter, nao em anos, Enquanto isso, 0 pés-modernismo tem penetrado em cada drea da vida intelectual, 0 suficiente para despertar, pelo ¢4o. O pluralisme ¢ o rclativismo que o acompanham tém emudecido a distinta voz de todos menos, uma modesta rea os pontos de vista. Embora a terceira edigao desta obra tenha O universo ao lado observado isso, ha mais hoje sobre as histérias tanto da Nova Era quanto do pés-modernismo. Portanto, cu atualizci o capitulo sobre a Nova Era e revisei, de maneira substancial, © capitulo sobre o pés-modernismo. Igualmente, atualizei as notas de rodapé ao longo do livro, mencionando publicagées recentes que podem ser frutiferas para os que, porventura, estejam realizando uma pesquisa sobre cosmovisdes ou as- suntos de carter espectfico. Hoje em dia, ha uma importante cosmovisao afetando o Ocidente que nao foi abordada em nenhumas das edigdes anteriores, incluindo-se esta. Desde 11 de setembro de 2001, 0 Isla tornou-se o principal fator da vida nao apenas no Oriente Médio, Africa e Asia, mas também na Europa e América do Norte. A cosmovisao islamica (ou calvez, cos- movisdes), exerce sua influéncia sobre as vidas das pessoas em todo o mundo. Além disso, o termo cosmovisao aparece comumente nos jornais, quando jornalistas tentam com- preender e explicar o que esta incentivando os chocantes eventos dos ultimos anos. Infelizmente, nao estou preparado no presente para abordar a cosmovisao islamica da maneira que ela merece. Como tenho dito aos meus amigos coreanos que tém me questionado porque nao discuti as cosmovisdes de Confticio e a xamanista, isso deve ser feito por aqueles que detém uma melhor compreensao do que eu. Qualquer unr que cnfrente esse desafio tem a minha béngao. (ntretante, cu mesmo tenho reavaliado toda a nogao de cos- tmovisitw, O que é isso na realidade? Tem havido contestagdes X definigéo que elaborei em 1976 (a qual mantive inalte- tida nas cdigdes posteriores). Nao é cla muito intelectual? Prefacio a 4* edi¢ao A cosmovisao nao é mais inconsciente que consciente? Por que ela principia com ontologia abstrata (a nogao de ser) em vez de com a questao mais pessoal da epistemologia (como nés sabemos)? Nao precisamos primeiro de ter 0 nosso co- nhecimento justificado para, entéo, comegarmos a fazer afirmacoes sobre a natureza ou a suprema realidade? Minha definicao de cosmovisao nao é dependente do idealismo germanico do século XIX ou, talvez, da verdade da propria cosmovisao crista? E quanto ao papel do comportamento na formagao, avaliagao ou mesmo identificagio da cosmovisao da pessoa? O pds-modernismo nao enfraquece a prépria no- ¢a0 de cosmovisao? Trago esses desafios no coragao, e 0 resultado € duplica- do. O primeiro é um livro que esté sendo publicado pela InterVarsity Press ao mesmo tempo que esta edigao. Nes- sa obra, intitulada Naming the Elephant: Worldview as a Concept [Dando nome ao elefante: cosmovisao como um con- ceito|, abordo uma série de assuntos em torno do conceito de cosmovisao. Leitores interessados na ferramenta inte- lectual que est4 sendo utilizada neste livro irao encontra-la em maior profundidade la. Fui grandemente auxiliado nesta obra pelo trabalho de David Naugle, professor de filosofia da Universidade Batista de Dallas. Em sua obra, Worldview: The History of a Concept |Cosmovisdo: a histéria de um conceito), ele pesquisa a origem, o desenvolvimen- to e as varias versdes do conceito desde Immanuel Kant a Arthur Holmes; além disso, apresenta sua propria defini- a0 da cosmovisao crista. Sua identificagao da cosmovisao com a nogio biblica do coragao é que tem fundamentado O universo ao lado a minha prépria definigdo revisada que aparece no capitulo primeiro do presente livro. Leitores de qualquer uma das edigdes anteriores notarao que a nova definigao faz trés coisas. Primeiro, ela muda o foco de uma cosmovisao como “um conjunto de pressuposicées” para um “compromisso, uma orientagdo fundamental do co- ragao”, concedendo uma énfase maior as raizes pré-tedricas do intelecto, Segundo, expande a forma pela qual as cosmovi- sOes sao expressas, adicionando ao conjunto de pressuposicdes uma nogao de histdria. Terceiro, torna mais explicito que a raiz mais profunda de uma cosmovisao é seu comprometimento © compreensao da “tealidade real”. Quarto, ela reconhece o papel do comportamento em avaliar o que a cosmovisao de uma pessoa realmente é. Nao obstante, as andlises cmpreendidas nas trés edicdes anteriores, em sua maioria, permanecem as mesmas. Apenas mucdangas ocasionais foram feitas na apresentacao ¢ andlise s oito cosmovis6es examinadas. das seis primeiras, dentre A minha esperanga é que o refino de minha definicao, aliado a essas modestas revisdes, possa tornar mais evidente a natu- reza poderosa de cada uma das cosmovisées. O renovado interesse que este livro tem despertado so- bre os leitores, entretanto, continua a me surpreender e a me sath ’. Esta obra foi traduzida para quinze diferentes eer idiomas, ¢ a cada ano que passa ela encontra o seu caminho pelas maos de muitos estudantes, indicada por seus professo- tes, cl cursos tao abrangentes quanto diferentes, tais como apologética, histéria, literatura inglesa, introdugdo & reli- a, introdugio & filosofia e até mesmo sobre as dimensées Prefacio a 4% edicdo humanas da ciéncia. Tal diversidade de interesses sugere que uma das suposig6cs sobre a qual 0 livro se baseia ¢, de fato, verdadeira: os assuntos mais fundamentais que nds, como seres humanos, precisamos de considerar, nao possuem li- mites departamentais. Qual é a realidade primdria? Deus ou 0 cosmo? O que o ser humano é? Que acontece na morte? Como devemos, entao, viver? Tais quest6es sao igualmente relevantes seja para a psicologia, religiao ou ciéncia. Pelo menos em um tépico eu permanego constante: estou convencido de que para qualquer um de nds ser plenamen- te consciente, intelectualmente falando, seria necessdrio nao apenas ser capaz. de detectar as cosmovisées dos outros, como também ter consciéncia da nossa prépria — porque é nossa e porque a luz de tantas outras opgées, cremos ser a verdadeira, Apenas posso esperar que este livro torne-se uma pedra firme e sdlida, da qual cada leitor possa rumar cm direcao ao desen- volvimento e justificagdo de sua autoconsciéncia sobre a sua propria cosmovisao. Somando-se aos muitos reconhecimentos expressados nas notas de rodapé, gostaria, em especial, de agradecer a C. Stephen Board, que muitos anos atrés me convidou a apresentar muito deste material sob a forma de palestras, na Christian Study Project, com o devido apoio da Inter Varsity Christian Fellowship, ministradas no Cedar Campus, em Michigan. Ele e Thomas Trevethan, igualmente presente naquele programa, me forneceram conselhos excelentes no desenvolvimento do material e no continuo questionamento critico de meu pensamento sobre cosmovisio desde a primeira publicacao desta obra. O universo ao lado Outros amigos Icram 0 manuscrito ¢ me ajudaram a po- lir algumas arestas dsperas, como C. Stephen Evans, com sua contribuicao sobre o marxismo, Os Guinness, Charles Hamptom, Keith Yandell, Douglas Groothuis, Richard H. Bube, Rodney Clapp e Gary Deddo. Meu reconhecimento dirige-se também a David Naugle, sem o qual minha defini- ¢40 de cosmovisao permaneceria inalterada. A eles ¢ ao editor, James Hoover, a minha mais sincera estima. Finalmente, gos- taria de mencionar os comentarios de muitos estudantes que discutiram o material em minhas aulas e palestras. Assumo total responsabilidade pelas continuas falhas e erros que, porventura, sejam encontrados neste livro. + 10+ Capitulo um TODAA DIFERENCA DO MUNDO Introdugao Muitas vezes, nas ruas mais agitadas deste mundo, Muitas vezes, em meio a confusao da luta, Surge um desejo inexprimivel De conhecer nossa vida encoberta: Uma ansia de consumir nossa chama c forga impetuosa Para encontrar a pista do nosso curso original; Um desejo de investigar Os mistérios deste coracdo que bare Tao louco, tao profundo dentro de nés — para conhecer De onde nossas vidas vém e para onde elas vio.” Matthew Arnold, The Buried Life [A vida encoberta] ANO FINAL DO SECULO XIX, Stephen Crane havia aprendido a condic’o com que nés, no inicio do século XXI, encara- Mos 0 universo. O universo ao lado Certo homem disse ao universo: “Senhor, eu existo.” “Entretanto”, replicou o universo, “o fato nao criou em mim um senso de obrigagio.”' Quao diferentes s4o as palavras do antigo salmista, que olhou para si mesmo e para Deus e expressou: “Senhor, Senhor nosso, como é majestoso o teu nome em toda a terra! Tu, cuja gloria € cantada nos céus. Dos l4- bios das criangas ¢ dos recém-nascidos firmaste o teu nome como fortaleza, por causa dos teus adversdrios, para silen- ciar o inimigo que busca vinganga. Quando contemplo os teus céus, obras dos ceus dedos, a lua ¢ as estrelas que ali firmaste, pergunto: Que é 0 homem para que com ele te importes? E 0 filho do homem para que com ele te preocu- pes? Tu o fizeste um pouco menor do que os seres celestiais eo coroaste de gléria ¢ de honra. ‘Lu o fizeste dominar sobre as obras das tuas maos; sob os seus pés tudo puseste: Todos os rebanhos e manadas, e até os animais selvagens, as aves do céu, os peixes do mar e tudo o que percorre as veredas dos mares. Senhor, Senhor nosso, como € majestoso 0 teu nome em toda a terra!” (Salmo 8) Hi toda a diferenga do mundo entre as cosmovisdes pre- sentes nesses dois poemas. De fato, eles propdem universos alternativos. Nao obstante, ambos os poemas reverberam na mente ¢ alma das pessoas hoje em dia. Muitos que se postam ao lado de Stephen Crane possuem mais que uma lembranga da grande ¢ gloriosa afirmagio do salmista sobre a mao de Deus no cosmo e seu amor pelas pessoas. Elas anseiam por algo que nao podem mais verdadeiramente aceitar. O vazio deixado pela perda do centro da vida é como o abismo no #126 Toda a diferenca do mundo coragao de uma crianga que perdeu seu pai. Como aqueles que nao creem mais em Deus desejam preencher esse vazio! E muitos que, apesar de estarem do lado do salmista ¢ cuja fé no Senhor Deus Jeova é vital e plena, ainda sentem a luta do poema de Crane. Sim, é exatamente isso 0 que sig- nifica perder a Deus. Sim, é isso 0 que aqueles que nao tém fé no Senhor pessoal e infinito, Criador do universo devem sentir, qual seja, alienagao, solidao e mesmo desespero. Lembramo-nos das lutas com a fé enfrentadas por nossos antepassados do século XIX ¢ sabemos que para muitos a fé perdeu. Como Alfred, Lorde Tennyson, escreveu em respos- ta a morte de seu grande amigo, » sabemos nada; Perceba que ni Posso apenas esperar que o bem falhe Por fim = distante — por fim, a todos E todo inverno se transforme em primavera. Assim caminham os meus sonhos; mas 0 que sou cu? Uma crianga que chora na noite; Uma crianga que chora pela luz; Que nao consegue falar, apenas chorar.”” No caso de Tennyson, a fé, no devido tempo, venceu, mas a sua luta levou anos para ser conclufda. A luta em descobrir a nossa prépria fé, nossa propria cosmovisao, nossas crengas sobre a realidade é 0 assunto so- bre o qual discorre este livro. Formalmente estabelecidos, os propésitos desta obra sao: 1) esbogar as cosmovisoes basicas que estao por tr4s da maneira como nés, no mundo ociden- tal, pensamos sobre nds mesmos, outras pessoas, o mundo natural e Deus ou a realidade suprema; 2) historicamente, 2134 O universo ao lado tragar como tais cosmovisdes se descnvolveram a partir de uma ruptura na cosmovisao tefsta, resultando, por seu turno, no defsmo, no naturalismo, no niilismo, no existen- cialismo, no misticismo oriental e na nova consciéncia do movimento Nova Era; 3) mostrar como o pés-modernismo deu um né nessas cosmovisées; ¢ 4) cncorajar a todos nés a pensar em termos de cosmovisdes, isto é, com uma consci- éncia nao apenas de nossa prépria maneira de pensar, mas também com as das demais pessoas, de modo que possamos primeiramente compreender e, entao, nos comunicarmos de forma genuina com os outros, na sociedade pluralista em que vivemos. Essa ¢ uma ordem abrangente. De fato, ela soa muito similarmente ao projeto de toda uma vida. Minha esperanga € que assim seja para muitos que leiam este livro ¢ Ievem a sério as suas implicag6es. O que se encontra aqui escrito é somente uma introdugdo do que pode muito bem se trans- formar em um modo de viver. Na confecgao deste livro achei especialmente dificil defi- nit o que incluir e o que deixar de fora, porém, pelo fata de considerar todo o livro como uma introdugao, procurei ser rigorosamente breve, de modo a chegar ao 4mago de cada cosmovisio, sugerir seus pontos fortes ¢ fracos ¢ passar ao préximo. Entrctanto, fiz concessdes ao meu préprio inte- resse, incluindo notas de rodapé que, creio eu, levario os leitores a nivcis de profundidade maiores que 0 abordado no respective capitulo. Aqueles cujo interesse primdrio seja o de apenas obter 0 que considero como o coragao da questao podem ignord-las com seguranga. Porém, os que desejam -146 Toda a diferenga do mundo ir mais fundo por conta prépria (que scjam uma Icgiao!), podem achar as notas de rodapé extremamente uteis na su- gestao de leituras adicionais ¢ novos objetos de investigagao. O que é uma cosmovisao? Apesar de nomes de filoséfos como Platao, Aristételes, Sartre, Camus e Nietzsche serem mencionados em suas paginas, este livro nao constitui um trabalho de filosofia profissional. Igualmente, embora faga referéncias, de quan- do cm quando, a conccitos celebrizados por homens como a obra o apéstolo Paulo, Agostinho, Aquino ¢ Calvino, ¢: tampouco ¢ de cunho teoldgico. Pelo contrdrio, €é uma obra de cosmovisées — apresentadas de uma forma mais bdsica ¢ fundamental que os estudos formais, sejam da filosofia sejam da tcologia.’ Expressando de outra maneira, esta é uma obra de universos moldados por palavras e conceitos que traba- Iham juntos, visando prover uma estrutura mais ou menos coerente de referéncia para todo o pensamento ¢ acio.4 Poucas pessoas possuem algo que se aproxime a uma fi- losofia articulada — pelo menos, como demonstrado pelos grandes fildsofos. Menos pessoas ainda, suspeito, possuem uma teologia cuidadosamente construida, porém, todas pas- suem uma cosmovisio. Sempre que refletimos sobre alguma coisa, desde um pensamento casual (Onde sera que deixei o meu reldgio?) até uma quest4o profunda (Quem sou eu?), estamos operando dentro de uma estrutura. De fato, somen- te a hipdtese de uma cosmovisao, ainda que seja bésica ou simples, é que nos permite pensar. +156 O universo ao lado O que, entiio, é essa coisa chamada de cosmovistio, tao im- portante a todos nds? Se jamais ouvi falar de cosmovisio, como posso ter uma? Essa pode muito bem ser a indagacao de mui- tas pessoas. Um exemplo pode ser encontrado em monsieur Jourdain, personagem da pega de Jcan Baptiste Molitre, O Burgués Fidalgo, que repentinamente descobriu falar em prosa durante quarenta anos, sem jamais té-la conhecido. No en- tanto, conhecer a sua prépria cosmovisdo é algo muito mais valioso. Na verdade, é um importante passo rumo a autocons- ciéncia, ao autoconhecimento e ao autoentendimento. Entdo, 0 que € cosmovisao? Em esséncia, é isto: Uma cosmovisiio é um comprometimento, uma orientagiio fun- damental do coragdo, que pode ser expressa como uma histéria ou um conjunto de pressuposic&es (hipdteses que podem ser total ou parcialmente verdadeiras ou totalmente falsds), que detemos (consciente ou subconscientemente, consistente ou inconsistente- mente) sobre a constituigao bdsica da realidade e que fornece 0 alicerce sobre 0 qual vivemos, movemos ¢ possutmos nosso ser. Essa definig&o sucinta precisa ser csmiugada. Cada frase representa uma caracteristica especifica que merece um co- mentério mais elaborado.° Cosmovisio como um comprometimento. A esséncia de uma cosmovisdo repousa nos mais profundos e intimos re- c6nditos do cu humano. Uma cosmovisao cnvolve a mente; porém, é, acima de tudo, um compromisso, uma questao de alma. E uma orientagao espiritual mais que uma questio de mente apenas. Cosmovisées séo, na verdade, uma questéo do cora- ao. Essa nogao seria facil de entender se a palavra coragdo -16- Toda a diferenca do mundo carregasse, no mundo de hoje, 0 mesmo peso que ostenta nas Escrituras. O conceito biblico inclui as nogdes de sa- bedoria (Pv 2.10), de emogao (Ex 4.14; Jo 14.1), desejo e vontade (1Crs 29.18), espiritualidade (At 8.21) e intelecto (Rm 1.21).° Em suma, em termos biblicos, 0 coracao é “o elemento definidor central da pessoa humana”.’ Portanto, uma cosmovisao esta localizada no eu — 0 compartimento central de operagao de todo o ser humano. E desse coragao que procedem todos pensamentos e agées. Expressa como uma historia ou um conjunto de pressuposi- ¢des. Uma cosmovisao nao é uma histéria ou um conjunto de pressuposig6es, mas pode ser expressa dessa maneira. Quando reflito a respeito de onde eu e toda a raga humana viemos ou para onde minha vida ou a prépria humanidade estd indo, minha cosmovisao estd sendo expressa como uma histéria. Uma hist6ria contada pela ciéncia principia com o Big Bang e prossegue pela evolucao do cosmo, a formacao das galaxias, estrelas e planetas, o surgimento da vida na ter- ra e sobre o seu desaparecimento 4 medida que o universo se desvanece. Os cristaos contam a histéria da criacao, da queda, da redencao, da glorificagao — uma histéria na qual © Nascimento, a morte ea ressurreigao de Jesus Cristo consti- tuem o fundamento central. Os cristaos enxergam a sua vida ea das demais pessoas como mintisculos capitulos inseridos na historia principal. O significado dessas pequenas histé- rias nao pode ser divorciado da principal, ¢ alguns desses significados sao proposicionais. Quando, por exemplo, per- gunto-me o que estou realmente presumindo sobre Deus, os seres humanos e 0 universo, 0 resultado é um conjunto 176 O universo ao lado de pressuposicdes que posso expressar sob forma proposi- cional. Quando expressas dessa forma, elas respondem a uma série de quest6es basicas sobre a natureza da realidade fun- damental. Listarei e examinarei essas questGes rapidamente; mas considere primeiro a natureza de tais pressuposi¢6es. Pressuposic6es que sejam verdadeiras, conscientes e consisten- tes. As pressuposigdes que expressam 0 compromcetimento da pessoa podem ser plena ou parcialmente verdadeiras ou to- talmente falsas. Hd, claro, 0 modo como as coisas sao, mas, em. geral, equivocamo-nos quanto a isso. Em outras palavras, a realidade nao ¢ infinitamente plastica. Uma cadeira continua sendo uma cadeira quer a reconhega como tal ou nao. Igual- mente, ou hd um Deus infinitamente pessoal quer nao. No entanto, as pessoas discordam quanto ao que é verdadciro. Alguns presumem uma coisa, enquanto outros, uma distinta. Segundo, algumas vezes nds temos consciéncia dos nos- sos comprometimentos, outras nao. Suspeito que a maioria das pessoas nZo pensa, de maneira consciente, em seus se- melhantes como mdquinas organicas, embora as que nao acreditam em nenhum tipo de Deus, na verdade, estao assu- mindo, conscientemente ou nao, que é isso o que elas sao. Qu elas presumem que realmente possuem algum tipo de alma imaterial e tratam as pessoas dessa maneira e, portanto, simplesmente nao possuem consciéncia de sua cosmovisao. Algumas pessoas que nado creem em nada que seja sobre- natural, se questionam quanto a sua reencarnagao. Assim, terceiro, algumas vezes, nossas cosmovisdes carecem de con- sisténcia. +18. Toda a diferenga do mundo O alicerce sobre o qual vivemos. E importante observar que nossa prépria cosmovisao pode nao ser o que pensamos que seja. Via de regra, ela é 0 que demonstramos por meio de nossas palavras ¢ agdes. Em geral, nossa cosmovisao repou- sa tio profundamente entremeada em nosso subconsciente que, a nao ser que tenhamos refletido longa e arduamente, nao temos consciéncia do que ela é. Mesmo quando acha- mos que sabemos 0 que seja e a expomos claramente em proposigées ordenadas ¢ histérias claras, ¢ possivel que este- jamos equivocados. Nossas prdprias agdes podem desmentir nosso autoentendimento. Pelo fato deste livro focar os principais sistemas de cos- movisao sustentados por um grande contingente de pessoas, a andlise desse elemento privado de cosmovisao nao serd alvo de maiores comentarios. No entanto, se desejamos obter um esclarecimento mais detalhado sobre a nossa prépria cosmo- visio, devemos refletir e considerar profundamente sobre como realmente nos comportamos. Sete quest6es basicas Se uma cosmovisio pode ser expressa sob a forma de propo- sigOcs, quais scriam clas? Em esséncia, sao as nossas respostas mais intimas as seguintes perguntas: 1; O que é¢ a realidade primordial, qual seja, 0 que é real- "mente verdadeiro? A essa quest4o, podemos responder Deus, os deuses ou 0 cosmo material. Nossa resposta aqui ¢ a mais fundamental de todas.* Ela estabelece » O universo ao lado os limites para as respostas que podem ser, consisten- temente, dadas para todas as demais questics. Isso se tornard mais claro 4 medida que avangarmos de uma cosmovisao a outra nos capitulos que se seguem. . Qual a natureza da realidade externa, isto 6, 0 mundo que nos rodeia? Aqui nossas respostas indicam se enxer- gamos o mundo como criado ou auténomo, caético ou organizado, como materia ou espirito ou se enfati- zamos 0 nosso relacionamento pessoal subjective com o mundo ou sua objetividade a parte de nés. O que o ser humano & A essa pergunta podemos res- ponder: uma maquina altamente complexa, um deus adormecido, uma pessoa feita & imagem de Deus, um simio nu. oO que acontece a uma pessoa quando ela morre? Aqui podemos replicar: extingdo pessoal, ou transformacao pata um estado mais elevado, ou reencarnagdo, ou pas- sagem para uma existéncia sombria do “outro lado”. Por que é possivel conhecer alguma coisa? As respostas incluem a ideia de que fomos feitos 4 imagem de um Deus onisciente ou que a consciéncia ¢ a racionalidade se desenvolveram sob as contingéncias da sobrevivén- cia ao longo do processo evolutivo. Como sabemos 0 que é certo e errado? Novamente, tal- vez tenhamos sido criados & imagem de um Deus cujo carater é bom, ou talvez o certo ¢ 0 errado sejam de- terminados apenas pela escolha humana ou talvez pelo que nos faz sentir bem, ou as nogGes se desenvolveram - 20+ Toda a diferencga do mundo simplesmente sob um impeto direcionado a sobrevi- véncia cultural ou fisica. 7. Qual é 0 significado da histéria humana? A essa questao podemos responder: para compreender os propésitos de Deus ou dos deuses, para fazer da terra um paraiso, preparar as pessoas de modo a viverem em comunida- de com um Deus amoroso e santo e assim por diante. Dentre as variadas e distintas cosmovisdes basicas, em geral, surgem outras questdes. Por exemplo: quem est4 no comando deste mundo — Deus, os seres humanos ou ninguém, afinal? Como seres humanos, somos limitados ou livres? Apenas nés € que determinamos os valores? Deus é realmente bom? Deus é pessoal ou impessoal? Afinal de contas, Deus existe? Quando colocadas nessa sequéncia, tais questées dao um né na mente. Das duas uma: ou as respostas sao tao ébvias para nés que nos perguntamos por que alguém teria 0 tra- balho de fazé-las ou nos questionamos sobre como qualquer uma delas pode ser respondida com alguma certeza. Se achar- mos que as respostas sao ébvias demais para consideré-las, ent4o, possuimos uma cosmovisdo, mas nao fazemos ideia de que muitos nao compartilham do mesmo pensamento. Deveriamos compreender que vivemos em meio a um mun- do pluralista. O que nos parece 6bvio pode ser uma “mentira dos infernos” para 0 nosso vizinho. Se nao reconhecermos isso, decerto somos ingénuos e provincianos e temos muito ainda por aprender sobre a vida no presente mundo. Por ou- tro lado, se acharmos que nenhuma das perguntas pode ser respondida sem cometer enganos ou suicidio intelectual, na realidade, adotamos um tipo de cosmovisao — uma forma de ceticismo que, em sua forma extrema, leva ao niilismo, 21s O universo ao lado O fato € que nao conseguimos evitar assumir algumas respostas para tais questécs. Ou adotamos um ponto de vista ou outro. A recusa em se adotar uma cosmovisao explicita, mostrard ser, em si mesma, uma cosmovis4o ou, pelo menos, uma posicao filosdfica. Em resumo, estamos em um beco sem saida. Assim, enquanto durar nossa vida, nds a vive- remos refletida ou irrefletidamente. A pressuposigao deste livro é de que a primeira situagao é a melhor. Portanto, os capitulos seguintes — cada qual examinando uma cosmovisao importante — sdo designados para esclare- cer as possibilidades. Deveremos analisar as respostas que cada cosmovisao fornece a essas sete questdes basicas. Isso nos concedera uma abordagem consistente de cada uma, auxiliar-nos-d a cnxergar as similaridades e diferengas entre elas, sugerindo como cada uma delas deve ser avaliada den- tro de sua prdpria estrutura de referéncia, bem como a partir do ponto de vista das demais cosmovis6es concorrentes. A cosmovisio que adotei ser4 detectada logo no principio da exposigio do argumento. Porém, para evitar qualquer adi- vinhagao, eu a declararei agora, pois ¢ 0 assunto do préximo capitulo. O livro, contudo, nao é uma revelacao da minha cosmovisao, mas uma exposi¢ao critica das opgdes existen- tes. Se no decurso desse exame, os leitores descobrirem, modificarem ou tornarem mais explicita sua cosmoviso, 0 principal alvo desta obra terd sido alcangado. Existem mui- tos universos verbais ou conceituais, alguns h4 muito tempo, enquanto outros acabaram de ser desenvolvidos. Qual é 0 seu universo? Quais so os universos ao lado? -22- Capitulo dois UM UNIVERSO PERMEADO DA GRANDEZA DE Deus Teismo cristao A grandeza de Deus, 0 mundo inteiro admira, Em ouro ou ouropel faisca o scu fulgor; Grandiosa em cada gréo, qual limo em dleo Amottecido. Mas por que nado temem a sua ira? Gerard Manley Hopkins, God’s Grandeur [A grandeza de Deus) A: O FIM DO SECLLO XVII, a cosmovisao tefsta era claramente dominante no mundo ocidental. Os de- bates intelectuais — e havia tantas quantos hi hoje — eram, notadamente, contendas familiares. Os dominicanos po- diam discordar dos jesuitas, estes dos anglicanos que, por seu turno, discordavam dos presbiterianos, ad infinitum, O universo ao lado porém todos eles estavam circunscritos a0 mesmo conjunto de pressuposigées. O Deus biblico, pessoal ¢ trino existia; ele se revelara a nds e poderia ser conhecido; 0 universo era sua criagéo; os seres humanos constituiam sua criagdo especial. Se batalhas eram levadas a efeito, os seus limites eram esta- belecidos dentro do circulo do tcismo. Por exemplo, como nds conhecemos a Deus? Por meio da razao, da revelacao, da fé, pela contemplagao, por procu- rag4o, pelo acesso direto? Essa batalha foi travada em muitas frentes durante dezenas de séculos e permanece sendo uma quest4o entre os remanescentes no campo testa. Ou con- sidere um outro ponto: 0 componente bdsico do universo € somente matéria, apenas forma ou uma combinagao das duas. Os tefstas também divergem sobre isso. Que papel a liberdade humana desempenha em um universo onde Deus reina soberano? Uma vez mais, um debate, por assim dizer, familiar. Durante o perfodo compreendido entre a Idade Média e 0 fim do século XVII, poucos desafiavam a existéncia de Deus, ou defendiam que a realidade suprema era impessoal ou que a morte significava a extingao individual. A razao é dbvia. O cristianismo havia impregnado o mundo ocidental de tal for- ma que, quer as pessoas acreditassem em Cristo quer agissem como deveriam os cristios, todos viviam sob um contexto de ideias transmitidas e influenciadas pela fé cristé. Mesmo os que rejeitavam a fé, em geral, viviam sob o estigma do medo do inferno ou das aflicées do purgatério. Pessoas mds podiam rejeitar a bondade crista, mas elas reconheciam ser mds, basi- camente, com referéncia aos padrdes cristaos — grosseiramente -24- Um universo permeado da grandeza de Deus compreendidos, sem divida, mas cristaos em esséncia. As pressuposigoes tefstas que jaziam por trds de seus valores, j4 vinham com 0 leite materno. Claramente, isso nado é mais verdade. Hoje em dia, nas- cer na parte ocidental do mundo nao garante mais nada. As cosmovisdes proliferaram. Caminhe pelas ruas de qualquer cidade importante da Europa ou dos Estados Unidos e a proxima pessoa que encontrar pela frente pode aderir a qual- quer um dos intimeros padrées distintamente diferentes de compreensao da vida. Quase nada é bizarro para nés, o que apenas torna cada vez. mais dificil a missdo dos apresentado- res de programas de entrevistas em sua tentativa de alavancar a audiéncia de seus programas com declaragdes bombdsticas e chocantes de seus entrevistados. Considere o problema de crescer nos dias de hoje. Jane, como qualquer crianga nascida no final do século XX e co- mego do século XXI, no mundo ocidental, em geral, percebe a realidade definida sob éticas completamente distintas — a da sua mae e de seu pai. Entao, a familia se rompe, e a corte de justica pode entrar com uma terceira definigao da reali- dade humana. ‘lal situagéo coloca um problema distinto de como decidir qual a forma real do mundo. Em contrapartida, Joao, uma crianga do século XVIL, foi embalada em um consenso cultural que lhe concedia um sentido de lugar. O mundo ao redor estava realmente 4 — criado por Deus para estar 14. Como vice-regente de Deus, 0 jovem Joao sentia que ele e os outros seres humanos ha- viam recebido o dominio sobre o mundo. Dele requeria-se 0 culto a Deus, mas ele, eminentemente era digno desse +256 O universo ao lado louvor. De igual sorte, dele exigia-se obediéncia a Deus, mas, entao, obedecer a Deus constitufa a verdadeira liberdade, uma vez que era para isso que as pessoas foram criadas. Além disso, o jugo de Deus era facil e seu fardo leve. Igualmente, as regras divinas eram vistas como primariamente morais, ¢ as pessoas eram livres para ser criativas sobre o universo exterior, para aprender seus segredos, para molda-lo ¢ adapta-lo como mor- domos de Deus, cultivando o jardim de Deus e oferecendo seu trabalho como verdadeiro culto diante de um Deus que honra sua criagio com liberdade e dignidade. Havia um alicerce tanto para o propésito quanto para a moralidade e também para a quest4o da identidade. Os apds- tolos do absurdo ainda estavam por chegar. Mesmo a obra de Shakespeare, Rei Lear (talvez o herdi renascentista inglés mais “perturbado”), nao termina em total desespero. E as suas pegas subsequentes sugerem que cle mesmo havia superado o momento de desespero, encontrando significado no mundo. E adequado, pois, iniciarmos o estudo sobre as cosmo- visdes com o teismo, pois ¢ a visao fundamental, da qual derivam todas as demais que foram desenvolvidas entre os séculos XVII e XX. Seria possivel retornar ao classicismo greco-romano, que precedeu 0 tefsmo, porém mesmo esse, quando renasceu na Renascenga, era visto quase que unica- mente dencro da estrutura teista.' O teismo cristao basico Como o principio de cada capitulo, tentarei expressar a esséncia de cada cosmovisio por meio de um niimero + 26° Um universo permeado da grandeza de Deus minimo de proposigées sucintas. Cada cosmovisao considera a natureza e o carater de Deus as seguintes questées basic: ou suprema realidade, a natureza do universo, a natureza da humanidade, a questao quanto ao que ocorre a uma pessoa quando ela morre, a base do conhecimento humano, a base da ética ¢ o significado da histéria.* No caso do tefsmo, a proposic¢ao primaria concerne a natureza de Deus. Por essa primeira proposicao ser revestida de grande importancia, deter-me-ei nela por mais tempo que nas de- mais. 1. Deus é infmnito e pessoal (trino), transcendente e imanente, onisciente, soberano e bom.’ Separemos as varias afirmagGes: Deus é infinito. Isso significa que ele est4 além de limites, de medidas, no tocante a nés. Nenhum outro ser no uni- verso pode desafiar a Deus em sua natureza. Tudo o mais é secundario. Deus nao possui s € 0 ser-total e o fim-total da existéncia. De fato, Deus é 0 melhante, mas apenas ele unico ser autoexistente.' Como ele mesmo falou a Moisés na sarca ardente: “Eu Sou o que Sou” (Ex 3.14). Ele é de uma forma como ninguém mais. Assim como Moisés pro- clamou: “Ouga, 6 Israel: O Senhor, 0 nosso Deus, € 0 tinico Senhor” (Dt 6.4). Deus é a tinica existéncia primordial, 2 tinica realidade suprema e, como abordaremos detidamente mais adiante, a tinica fonte de toda a realidade. Deus é pessoal. Essa afirmacao significa que Deus nao é uma mera fora, ou energia ou “substancia” existente. Ele é pessoal, e personalidade requer duas caracteristicas basicas: = 276 O universo ao lado autorreflex4o eautodeterminagao. Em outras palavras, Deus € pessoal no sentido de que ele sabe quem é (Deus é auto- consciente) € possui as caractcristicas de autodeterminagao, ou seja, ele “pensa” e “age”. Uma implicagao da personalidade de Deus € que ele é como nés. ‘Tal afirmagao, de certo modo, coloca a carroga na frente dos bois. O correto é afirmar que somos como ele, porém, ser4 conveniente colocar ao contrario, pelo menos, para um breve comentirio. Assim, ele € como nds, 0 que significa que ha alguém supremo que existe para alicergar nossas mais elevadas aspiragdes, a nossa mais preciosa pos- sessao, qual seja, a personalidade. Porém, ha mais sobre isso na proposigao 3. Outra implicagao da personalidade de Deus é que ele nao é uma simples unidade, um numero inteiro, pois Deus pos- sui atributos, caracteristicas. Sim, ele é uma unidade, porém, uma unidade de complexidade. Na verdade, no tefsmo cristao (nao no judaismo ou isla- mismo) Deus ndo é somente pessoal, mas trino. Isto é, “dentro de uma mesma esséncia da Divindade, temos de distinguir trés ‘pessoas’ que, se por um lado no sao trés deuses, por outro também nio sao trés divisdes ou modos de Deus, mas coiguais e coeternos em Deus”.° Certamente, a ‘lrindade constitui um grande mistério ¢, no momento, nao sou capaz nem mesmo de comegar a elucida-lo, O mais importante aqui € observar que a Trindade confirma a natureza “pessoal” e comunitdria do supremo ser. Deus nao esté apenas lf - um ser existente real; ele € pessoal e podemos nos relacionar com ele de uma forma pessoal. Logo, conhecer a Deus significa +286 Um universo permeado da grandeza de Deus ir além do simples reconhecimento de que ele existe, ou seja, conhecé-lo como conhecemos um irmao, ou melhor, 0 nos- so proprio pai. Deus é transcendente. Isso significa que Deus esta além de nés e nosso mundo. Ele é diferente. Veja uma pedra: Deus : Deus nao é ele, mas é muito além dele. Deus, entretanto, nao esta nao é ela, mas é muito além dela. Veja um homer tao além assim de modo a nao permitir qualquer relacio- namento conosco e nosso mundo. E igualmente verdadeiro que Deus € imanente, o que significa que ele esta conosco. Deus um homem: ele Veja uma pedra A presente. Ve esta presente. Entao, temos uma contradigao? O teismo nao faz sentido nesse ponto? Acho que nao. A minha filha, Carol, me ensinou muito, quando tinha apenas cinco anos. A minha esposa e ela conversavam na cozinha sobre Deus estar em todo o lugar. Entao, Carol per- guntou: “Deus est4 na sala?” “Sim”, respondeu sua mi “Ele esta na cozinha?” “Sim”, minha esposa confirmou. “Estou pisando Deus?” Minha esposa ficou sem saber 0 que responder. Mas pres- te atencgao no ponto que foi levantado. Deus esté agui da mesma forma que uma pedra, uma cadeira ou uma cozinha? E claro que nao, pois ele ¢ imanente, aqui, em todo o lugar, em um sentido totalmente alinhado com a sua transcendén- cia. Deus nao é matéria como eu e vocé somos, mas Espirito. E, nao obstante, ele esta aqui. No Novo ‘lestamento lemos +296 O universo ao lado que Jesus est4 “sustentando todas as coisas por sua palavra poderosa” (Hb 1.3). Isto é, Deus esta além de tudo, ainda que em tudo ¢ sustentando tudo. Deus é onisciente. O significado dessa afirmacgao € que Deus conhece tudo. Ele ¢ 0 alfa e o mega e conhece o prin- cipio desde o fim (Ap 22.13). Ele é a fonte suprema de todo o conhecimento e de toda a inteligéncia. E aquele que sabe. O autor do salmo 139 expressa com extrema beleza a sua perplexidade por Deus estar em todos os lugares, preenchen- do-o com sua presenga — conhecendo-o ainda quando ele estava sendo formado no ventre de sua mie. Deus é soberano, Na verdade, essa é uma ramificagao adicio- nal da infinitude de Deus, porém, expressa mais plenamente seu interesse em governar e cuidar de todas as agdes de seu universo. Essa afirmag&o revela o fato de que nada esta além do supremo interesse, controle ¢ autoridade de Deus. Deus é bom. Fssa é a declaragao primordial sobre o cardter de Deus.* Dela derivam todas as outras. Ser bom significa ser bom. Deus ¢ bondade, ou seja, 0 que ele é, é bom. Nao ha nenhum sentido no qual a bondade ultrapasse Deus ou vice-versa. Da mesma forma que o ser é a esséncia de sua natureza, a bondade é a esséncia de seu cardter. A bondade de Deus é expressa de duas maneiras: por meio da santidade e do amor. A primeira enfatiza a sua ab- soluta justiga, que nao suporta nenhuma sombra do mal. Como escreveu 0 apéstolo Joao: “Deus € luz; nele nao ha treva alguma” (1Jo 1.5), A santidade de Deus é sua sepa- ragao de tudo o que apresenta qualquer vestigio do mal. Porém, a bondade de Deus também é expressa em amor. - 30. Um universo permeado da grandeza de Deus De fato, Joao afirma: “Deus ¢ amor” (1Jo 4.16), e isso leva Deus ao autossacrificio e a plena expressao de seu favor ao seu povo, chamado nas Escrituras como “rebanho do seu pastorcio” (S] 100.3). A bondade divina significa, entao, que h4 um padrao absoluto de justiga (encontrado no cardter de Deus) e, se- gundo, que hd esperanga para a humanidade (porque Deus é amor ¢ nao abandonard a sua criagao). A combinagao dessas afirmages tornar-se-d especialmente significante ao investi- garmos os resultados de se rejeitar a cosmovisao teista. 2. Deus criou o cosmos ex-nihilo para operar com uma uniformidade de causa e efeito em um sistema aberto. Deus criou o cosmos ex-nihilo. Deus € aquele que 6, e, portanto, ele ¢ a fonte de tudo o mais. E ainda importante compreender gue Deus nao criou 0 universo de si mesmo, Em vez disso, ele o chamou & existéncia. O universo veio a existir por meio de sua palavra: “Disse Deus: “Haja lu’, e hou- ve luz” (Gn 1.3). Assim, os tedlogos dizem que Deus “criou” (Gn 1.1) 0 cosmo ex-nihilo — do nada, ¢ nao de si mesmo ou de algum caos pré-existente (pois se fosse “pré-existente” teria de ser eterno como Deus). Em segundo lugar, Deus criou 0 universo como uma uni- formidade de causa e efeite em um sistema aberto. Essa frase é um resumo util para duas concepgGes-chave.” Primeira, significa que 0 cosmo nao foi criado para ser caético. Isafas afirma essa verdade de modo magnifico: “Pois assim diz o Senhor, que criou os céus, ele é Deus; que moldou a terra ¢ a fez, ele fundou-a; nao a criou para estar +316 O universo ao lado vazia, mas a formou para ser habitada; ele diz: ‘Eu sou o Senhor, ¢ nao hd nenhum outro. Nao falei secretamente, de algum lugar numa terra de trevas; eu nao disse aos des- cendentes de Jacé: Procurem-me a toa. Eu, o Senhor, falo a verdade; eu anuncio o que é certo.” (Is 45.18,19) O universo é ordenado, e Deus nao o apresenta a nés em confusao, mas em claridade. A natureza do universo de Deus e 0 cardter divino est4o, portanto, intimamente rela- cionados. O mundo é como é em parte porque Deus é como é. Mais adiante, veremos como a queda do homem qualifica essa observacao. No momento, é suficiente observar que ha uma regularidade, uma metodologia, no universo. Podemos esperar que a terra gire em torno de seu prdprio eixo, de modo que 0 sol “se levante” a cada novo amanhecer. Todavia, uma outra nogio importante encontra-se em- butida nessa sucinta frase. O sistema é aberto, o que significa que ele nao é programado. Deus estd constantemente envol- vido no patente padrao da continua operacao do universo. E assim também cstamos nds, seres humanos! O curso da operagao do mundo é aberto ao reordenamento tanto por Deus quanto pelos seres humanos. Desse modo, 0 encon- tramos dramaticamente reordenado por ocasiao da queda. Ad§o e Eva fizeram uma escolha que se revelou de extrema importancia. Deus, porém, fez uma outra escolha ao redimir as pessoas por intermédio de Jesus Cristo. A operacgao do mundo ¢ igualmente reordenada por nos- sa continua atividade apés a queda. ‘loda ¢ qualquer agao rcalizada por cada um de nés, cada decisao em perseguir um curso em detrimento de outro, altera ou, melhor, “produz” o Um universo permeado da grandeza de Deus futuro, Por meio de despejos de poluentes clandestinos em rios cristalinos, impedimos a vida dos peixes ¢ alteramos a maneira como podemos nos alimentar nos anos vindouros. Ao “des- poluirmos” nossos rios, novamente alteramos o nosso futuro. Se 0 universo nao fosse ordenado, nossas decisées nao teriam efeito algum. Se 0 curso dos eventos fosse determinado, nos- sas decis6es nao teriam importancia alguma. Assim, o teismo declara que o universo é ordenado, porém, nao determinado. As implicagaes disso se tornarao mais claras ao considerarmos o lugar ocupado pela humanidade no cosmos. 3.Os seres humanos sao criados a imagem de Deus e, portanto, possuem personalidade, autotranscendéncia, inteligéncia, moralidade, senso gregario e criatividade. A frase-chave aqui é “a imagem de Deus”, uma concep- sao sublinhada pelo fato de ocorrer trés vezes em um curto espago de dois versiculos, no livro de Génesis: “Entio disse Deus: ‘Fagamos 0 homem & nossa imagem, conforme a nossa semelhanga. Domine cle sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre os grandes animais de toda a terra ¢ sobre os pequenos animais que se movem ren- te ao chao, Criou Deus o homem & sua imagem, & imagem de Deus 0 criou; homem ¢ mulher os criou.” (Gn 1.26,27; compare com Gn 5.3; 9.6). O fato de as pessoas serem feitas 4 imagem de Deus signi- fica que somos como Deus. J4 observamos anteriormente que Deus é como nds, porém, as Escrituras, na verdade, afirmam isso de outra forma: “Nds somos como Deus”, coloca a énfase no devido lugar, qual seja, na primazia de Deus. O universo ao lado Somos seres pessoais porque Deus é pessoal, isto é, reconhe- cemos a nossa existéncia (somos autoconscientes) e tomamos decisdes livremente (possuimos autodeterminagao). Somos capazes de agir por conta prépria. Nao apenas reagimos ao nosso ambiente, mas podemos agir conforme nosso préprio carater ¢ nossa prépria natureza. ao existem duas pessoas iguais, dizemos. Isso ocorre ndo apenas porque duas pessoas néo compartilharam exa- tamente a mesma hereditariedade e meio ambiente, mas porque cada um de nés possui um tnico cardter, do qual se originam nossos pensamentos, desejos, nossa avaliacao das consequéncias ou nossa recusa em avalid-las, 0 perd4o ou a recusa em perdoar — em suma, escolhemos agir. Nisso cada ser humano reflete, como uma imagem, a transcendéncia de Deus sobre seu universo. Deus nao esté limitado, de forma alguma, pelo seu ambiente. Ele esta limi- tado (podemos dizer) apenas por seu cardter, pois ele, sendo bom, nao pode mentir, ser enganado, agir com md inten¢ao e assim por diante. No entanto, nada externo a Deus pode restringi-lo. Se cle decidir restaurar um universo arruinado, é porque ele “quer” fazer isso, porque, por exemplo, Deus ama 0 universo e deseja sempre o melhor para ele. Mas ele é livre para agir conforme a sua vontade que, por sua vez, est4 em consonancia com seu cardter (quem ele é). Dessa forma, agimos parcialmente em uma transcendén- cia sobre nosso meio ambiente. Exceto em condigées eriticas de existéncia ~ uma enfermidade ou privagao fisica (inani- ¢40 extrema ou ficar aprisionado durante dias sem-fim na escuridao total, por exemplo) — uma pessoa nao é forgada a nenhuma reagio necessdria. +34. Um universo permeado da grandeza de Deus Se, por acidente, levo um pisfo no dedinho do pé. Sou obrigado a xingar? Eu posso. Sou obrigado a perdoar? Eu posso. Sou obrigado a gritar? Eu posso. Sou obrigado a sor- rir? Eu posso. A minha reacao refletiré o meu cardter, mas sou “eu” que decido agir daquela forma, e nao apenas reagir como uma campainha, quando o botio ¢ acionado. Em suma, as pessoas possuem personalidade, sendo ca- pazes de transcender 0 cosmo no qual est4o, no sentido de que podem conhecer algo sobre aquele cosmo onde se en- contram e agir de maneira significativa de modo a alterar o curso tanto dos eventos humanos quanto césmicos. Essa é uma outra forma de dizer que o sistema césmico criado por Deus estd aberto A reorganizacao pelos seres humanos. A personalidade ¢ a principal caracteristica no tocante aos seres humanos, assim como, acho justo dizer, é a carac- teristica principal sobre Deus, que € infinito tanto na sua personalidade como em seu ser. Nossa personalidade esta fundamentada na personalidade de Deus. Isto ¢, encontra- mos nossa verdadeira morada em Deus e por meio de um intimo relacionamento com ele. “No coragao de todo ho- mem ha um vazio com o formato de Deus”, escreveu Pascal. “Nossos coragGes nao descansam até encontrarem repouso em li”, escreveu Agostinho. Como Deus satisfaz nosso desejo supremo? Ele 0 faz de diversas maneiras: sendo o encaixe perfeito para a nossa propria Natureza 20 satisfazer nossos ans cionamento interpessoal, ao ser, em sua onisciéncia, o fim s por um rela- de nossa busca por conhecimento, ao ser, em seu infinito ser, o refligio para todos os nossos medos, ao ser, em sua +355 O universo ao lado santidade, o alicerce justo de nossa busca por justia, ao scr, em scu infinito amor, a causa da esperanga da nossa salvagao, ao ser, em sua infinita criatividade, tanto a fonte de nossa criativa imaginacao quanto a suprema beleza que buscamos refletir quando criamos algo. Podemos resumir esse conceito da humanidade criada & imagem de Deus, afirmando que, como Deus, possuimos personalidade, autotranscendéncia, inteligéncia (a capacidade da razao e do conhecimento), moralidade (a capacidade de reconhecer e compreender o bem e 0 mal), senso gregdrio ou capacidade social (nossa caracterfstica, anscio fundamental e necessidade por companheirismo humano, de comunidade, em especial representado pelo aspecto “macho” ¢ “fémea’) © criatividade (a capacidade de imaginar coisas novas ou de confcrir um novo significado a coisas antigas). Mais adiante, consideraremos a raiz da inteligéncia hu- mana, porém, agora, quero comentar sobre a criatividade humana — uma caracteristica, em geral, desconsiderada no tefsmo popular. A criatividade do homem nasce como um reflexo da infinita criatividade do préprio Deus. Sir Philip Sidney (1554-1586), certa feita, escreveu sobre © poeta que “foi elevado com o vigor de sua prépria in- vengao que, com efeito, cresceu em uma outra naturcza, tornando as coisas ou melhores que a prépria natureza criada ou totalmente novas, formas tais jamais encontradas na natureza, [...] variando livremente dentro do zodfaco de sua propria sagacidade”. Honrar a criatividade humana, afirmava Sidney, é honrar a Deus, pois cle é “o Criador celestial daquele criador”.* + 36+ Um universo permeado da grandeza de Deus A atividade artistica dentro da cosmovisao teista tem uma solida base para a sua expressao. Nada € mais libertador para 0s artistas do que compreender que, pelo facto de serem cria- dos & semelhanga de Deus, eles podem realmente inventar. A inventividade artistica € um reflexo da ilimitada capacida- de divina de criar. No teismo cristao, os seres humanos sao, de fato, dignifi- cados. Nas palayras do salmista, eles sao “um pouco menor do que os seres celestiais”, pois o préprio Deus os criou daquela forma e os coroou “de gléria e de honra” (SI 8.5). A digni- dade humana, em certo sentido, nao é nossa; contrariando Protdgoras, a humanidade nao é a medida. A dignidade do homem deriva de Deus, porém, embora derivada, as pesso- as a possuem, mesmo se como um dom. Helmut Thielicke afirma com propricdade: “Sua [da humanidade] grandeza repousa apenas € tao somente no fato de que Deus, em sua incompreensivel bondade, concedeu seu amor ao homem. Deus nao nos ama porque somos valiosos; somos valiosos porque Deus nos ama”.” Portanto, a dignidade humana tem dois lados. Como seres humanos, somos dignificados, mas nao devemos nos orgu- lhar disso, pois a nossa dignidade é gerada como um reflexo da dignidade suprema. Mas ela ainda ¢ um reflexo. Assim, as pessoas que sao tefstas, veem a si mesmas como uma es- pécie de ponto central — acima do restante da criagao (por Deus lhes ter concedido 0 dominio sobre cla — Gn 1.28-30; $1 8.6-8) e abaixo de Deus (por nao serem pessoas auténomas, por conta prépria). +376 O universo ao lado Esse ¢, entéo, o equilibria ideal da condigao humana. Qs nossos problemas surgiram em fungao de nossa falha em permanecer nessa condigao de equilibrio, e a histéria de como tudo aconteceu constitui, em grande parte, o teismo cristao. Porém, antes de considerarmos 0 que alterou o estado de equilibrio da humanidade, precisamos compreender uma implicagao adicional de sermos criados 4 imagem de Deus. 4. Os seres humanos podem conhecer tanto 0 mundo que os cerca quanto o proprio Deus, porque ele colocou neles essa capacidade e porque ele desempenha um papel ativo na comunicagdo com eles. A base do conhecimento humano é o cardter de Deus como Criador. Somos criados a sua imagem (Gn 1.27). Por ele ser o onisciente conhecedor de todas as coisas, algumas vezes, podemos ser habeis especialistas em algumas coisas. O evangelho de Joao expressa esse conceito desta forma: “No principio era aquele que é a Palavra. Ele estava com Deus, ¢ cra Deus. Ele estava com Deus no principio. ‘Todas as coisas foram feitas por intermédio dele; sem ele, nada do que existe teria sido feito. Nele estava a vida, e esta era a luz dos homens” {Jo 1.1-4). A Palavra (em grego, Jogos, da qual se origina a pala- vra Iégica, em portugués) é eterna, um aspecto do prdéprio Deus.'" Em suma, a légica, a inceligéncia, a racionalidade € 0 significado sao todos inerentes em Deus. Dessa inteli- géncia é que o mundo, o universo veio a existir e, portanto, em virtude dessa fonte ¢ que o universo possui estrutura, ordem e significado. 138+ Um universo permeado da grandeza de Deus Além disso, na Palavra — essa inteligéncia inerente — esta a “luz dos homens”, luz essa que no livro de Joao é um sim- bolo tanto de capacidade moral quanto de inteligéncia. O versiculo 9 acrescenta que a Palavra é “a verdadeira luz, que ilumina todos os homens”. A prépria inteligéncia de Deus é, portanto, a base da inteligéncia humana. O conhecimento é possivel porque hé algo a ser conhecido (Deus e sua criagao) e alguém para conhecer (o Deus onisciente e os seres huma- nos, criados & sua imagem)."" E dbvio que Deus esté tao além de nés que nao podemos ter uma total compreensao dele. Na verdade, se Deus assim desejasse, poderia permanecer para sempre escondido, mas ele quer que 0 conhegamos e toma iniciativa nessa transfe- réncia de conhecimento. Em termos teoldgicos, essa iniciativa divina é chamada de revelagao. Deus se revela ou expde a si mesmo a nés de duas maneiras bdsicas: por meio da revelagdo geral e por uma revelag4o especial. Na primeira forma, Deus fala atra- vés da ordem criada do universo. O apéstolo Paulo escreveu: “Pois o que de Deus se pode conhecer é manifesto entre eles, porque Deus lhes manifestou. Pois desde a criacgao do mun- do os atributos invisiveis de Deus, seu eterno poder e sua natureza divina, tém sido vistos claramente, sendo compre- endidos por meio das coisas criadas” (Rm 1.19,20). Séculos antes, o salmista escreveu: “Os céus declaram a gloria de Deus; 0 firmamento pro- clama a obra das suas maos. Um dia fala disso a outro dia; uma noite o revela a outra noite” (S] 19.1,2). +39. O universo ao lado Em outras palavras, a existéncia de Deus, bem como sua natureza como Criador e poderoso mantenedor do universo, sao reveladas por meio “das obras de Suas maos”, qual seja, 0 universo. Ao contemplarmos a sua magnitude — sua ordem e beleza — muito podemos aprender sobre Deus. Quando mudamos a nossa visao do imenso universo para focar a humanidade, vemos algo mais, pois os seres humanos acres- centam a dimensao de personalidade. Deus, portanto, deve ser, pelo menos, tao pessoal quanto nds. Assim, por mais que a revelacao geral nos forneca da- dos sobre Deus, ainda é pouco. Como afirmou Tomas de Aquino, nés podemos saber que Deus existe por meio da revelacao geral, mas jamais saberiamos que ele é trino exceto por uma revelacao especial. A revelagio especial é Deus se manifestando de formas sobrenaturais. Ele nao sé se revelou ao aparecer de formas espetaculares como a sarca ardente que nao era consumida, como também falou as pessoas em suas préprias linguas. A Moisés ele se definiu como “Eu sou 0 que Sou”, identifican- do-se como o mesmo Deus que havia agido anteriormente em favor do povo hebreu. Chamou a si mesmo de o Deus de Abraio, Isaque ¢ Jacé (Ex 3.1-17). De fato, Deus manteve um didlogo com Moisés no qual uma genuina conversacao de mao dupla se estabeleceu. Esse foi um dos episédios em que a revelacao especial ocorreu. Mais tarde, Deus deu a Moisés as tabuas contendo os Dez Mandamentos e revelou um extenso cédigo de leis as quais os hebreus deveriam se submeter. Mais adiante ainda, Deus se revelou aos profetas em inumeras situagées diferentes. + 40+