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A importância da doutrina do homem 1

2 CRIADOS À IMAGEM DE DEUS


Copyright © 1986 by Wm. B. Eerdmans Publishing Co.,
255 Jefferson Av. S.E., Grand Rapids, Mich. 49503
All rights reserved.
Traduzido com permissão.
Copyright © 2010, Editora Cultura Cristã.
Todos os direitos são reservados.

2ª edição – 2010
3.000 exemplares

Conselho Editorial
Adão Carlos do Nascimento
Ageu Cirilo de Magalhães Jr Produção Editorial
Cláudio Marra (presidente) Tradução
Fabiano de Oliveira Heber Carlos de Campos
Francisco Solano Portela Neto
Revisão
Heber Carlos de Campos Júnior
Wendell Lessa
Jôer Corrêa Batista
Jailto Lima Editoração
Mauro Fernando Meister Eline Alves Martins
Tarcízio José de Freitas Carvalho Capa
Valdeci da Silva Santos Lela Design

H6937c Hoekema, Anthony


Criados à imagem de Deus / Anthony Hoekema; traduzido
por Heber Carlos de Campos . _ São Paulo: Cultura Cristã,
2010
288 p.: 18x23cm

Tradução Created in God’s image

ISBN 978-85-7622-334-4

1. Antropologia 2. Doutrina 3. Redenção I. Título

CDD 230

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CULTURA CRISTÃ
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Editor: Cláudio Antônio Batista Marra
A imagem de Deus: um resumo teológico 81

CAPÍTULO 5

A imagem de Deus:
um resumo teológico
p
O propósito deste capítulo será dar uma descrição teológica de modo resu-
mido do significado e da importância da doutrina da imagem de Deus. Como já
vimos, é dito somente a respeito do homem – não a respeito de qualquer
outra criatura – que ele foi criado à imagem de Deus. Ser a imagem de Deus,
portanto, deve ser uma indicação do que é singular a respeito da raça humana.
O conceito da imagem de Deus é o coração da antropologia cristã.
Quando a Bíblia diz que Deus criou o homem à sua própria imagem, certa-
mente ela pretende dizer que o homem no tempo de sua criação foi obediente a
Deus e amou a Deus de todo o seu coração (observe, p. ex., Gn 1.31, “E viu
Deus tudo quanto fizera, e eis que era muito bom”.) Mas a afirmação: “Criou
Deus o homem à sua própria imagem” (v.27) obviamente pretende fazer mais
do que descrever a integridade moral e espiritual do homem. Isto é, ela coloca
o homem à parte do restante da criação de Deus, por indicar que ele foi forma-
do de um modo singular. A afirmação não meramente nos diz em qual direção o
homem estava vivendo sua vida no começo (a saber, em obediência a Deus);
ela o descreve na totalidade de sua existência. O homem, segundo essas pala-
vras, é um ser cuja constituição total reflete e espelha Deus.
Em nossa discussão anterior da idéia de Berkouwer a respeito da imagem
de Deus, eu citei Herman Bavinck, que disse que de acordo com a Escritura o
homem não apenas porta ou tem a imagem de Deus, mas ele é a imagem de
Deus, e que a imagem de Deus estende-se ao homem em sua inteireza.1 Tudo
1. Ver acima, pág.80. Cf. Karl Barth, Church Dogmatics, III/1 (Edimburgo: T. & T. Clark, 1958),
pág.184: “Ele [o homem] não seria homem não fosse a imagem de Deus. Ele é a imagem de Deus pelo
fato de que ele é homem”.
82 CRIADOS À IMAGEM DE DEUS
isso sugere que a imagem de Deus não é algo acidental no homem, e que ele
pode perder sem deixar de ser homem, mas é essencial à sua existência.
A principal idéia sob a palavra imagem (tselem e demuth no hebraico) é a
de semelhança; estas palavras nos dizem que o homem, como originalmente
criado, era semelhante a Deus. Gênesis 1.26-28, que descreve a criação do
homem à imagem de Deus, não nos diz exatamente em que esta semelhança a
Deus consiste. Voltaremos a essa questão mais adiante. Mas deveríamos ob-
servar, de início, que a concepção do homem como a imagem ou semelhança
de Deus nos diz que o homem, como originalmente criado, era para espelhar
Deus e para representar Deus.
Primeiro, era para espelhar Deus. Como um espelho reflete, assim o ho-
mem deve refletir Deus. Quando alguém olha para um ser humano, deve ver
nele ou nela um reflexo claro de Deus. Em outras palavras, no homem Deus
deve tornar-se visível na terra. Sem dúvida, outras criaturas e até mesmo os
céus declaram a glória de Deus, mas somente no homem Deus se torna visível.
Os teólogos reformados falam da revelação geral de Deus, na qual revela sua
presença, poder e divindade pelas obras das suas mãos. Mas, na criação do
homem, Deus revelou-se a si mesmo de um modo singular, fazendo alguém que
era uma espécie de imagem de si mesmo refletida no espelho. Honra maior não
poderia ter sido dada ao homem do que o privilégio de ser uma imagem do
Deus que o fez.
Este fato está relacionado à proibição de fazer imagens, encontrada no se-
gundo mandamento do Decálogo: “Não farás para ti imagem de escultura” (Êx
20.4). Deus não quer que suas criaturas façam imagens dele, visto que ele já
criou uma imagem de si mesmo: uma imagem viva, capaz de andar e falar.2 Se
você deseja ver com que me pareço, diz Deus, olhe para a minha criatura mais
nobre: o homem. Isso significa que quando o homem é o que deveria ser, quem
o olha deveria ser capaz de ver algo de Deus nele: algo do amor de Deus, da
bondade de Deus e da benevolência de Deus.
Segundo, o homem também representa Deus. O homem foi criado em con-
dições de fazer isso. Se é verdade que, quando alguém olha para o homem,
deve ver algo de Deus nele, segue-se que o homem representa Deus na terra.
Os monarcas antigos freqüentemente colocavam imagens de si mesmos em re-
giões remotas de seus domínios; uma imagem desse tipo, naquela época, repre-
sentava o monarca, simbolizava a sua autoridade e lembrava a seus súditos que

2. Sobre esse assunto, ver Berkouwer, Man, págs.81,82.


A imagem de Deus: um resumo teológico 83

ele era de fato o rei deles. Em Daniel 3, por exemplo, lemos que o rei Nabuco-
donosor colocou uma imagem na planície de Dura, ordenando aos seus súditos
que se curvassem em adoração diante dela. Embora o texto bíblico não o diga
especificamente, podemos supor que a imagem era uma escultura retratando o
próprio Nabucodonosor e, assim, representava o rei.
O homem, pois, foi criado à imagem de Deus de modo que pudesse repre-
sentar Deus, como um embaixador de um outro país. Como um embaixador
representa a autoridade de seu país, assim o ser humano (o homem e a mulher,
igualmente) deve representar a autoridade de Deus. Como um embaixador está
preocupado em promover os melhores interesses do seu país, assim o homem
deve procurar promover o plano de Deus para este mundo. Como represen-
tantes de Deus, deveríamos apoiar e defender aquilo que Deus apóia e deve-
ríamos promover o que Deus promove. Como representantes de Deus, não
devemos fazer o que queremos, mas o que Deus deseja. Por nosso intermédio,
Deus realiza os seus propósitos na terra. Em nós, as pessoas deveriam poder
encontrar Deus, ouvir sua Palavra e experimentar o seu amor. O homem é
representante de Deus.3
Se é verdade que a pessoa toda é a imagem de Deus, devemos incluir
também o corpo como parte da imagem. Infelizmente, os teólogos geralmente
negaram isso. J. Gresham Machen, por exemplo, diz: “A ‘imagem de Deus’ não
pode propriamente referir-se ao corpo do homem porque Deus é um espírito;
deve, portanto, referir-se à alma do homem”.4 Calvino, como vimos, não era
tão unilateral; embora identificasse a alma como a sede por excelência da ima-
gem de Deus, admitia que “não havia parte alguma do homem, nem mesmo o
próprio corpo, no qual algumas centelhas da imagem não reluzissem”.5 Herman
Bavinck, contudo, claramente afirmou que a imagem abrange também o corpo
humano:
O corpo do homem também pertence à imagem de Deus... O corpo não é uma tumba,
mas uma maravilhosa obra-prima de Deus, constituindo-se a essência do homem tão
plenamente quanto a alma... pertence tão essencialmente ao homem que, embora pelo
pecado seja violentamente removida da alma [na morte], é, no entanto, novamente
unido à alma na ressurreição.6

3. O esboço acima do homem como alguém que espelha e representa Deus descreve os seres humanos
como originalmente criados, antes de sua queda em pecado. Poderia se dizer também que o que foi
apresentado aqui descreve o propósito de Deus para o homem.
4. The Christian View of man (Nova York): Mcmillan, 1937), pág.169.
5. Inst., I.15.3.
6. Dogmatiek, 2:601(citado pelo autor em tradução própria para o inglês). Cf. Berkouwer, Man, págs.
75-77,229-232.
84 CRIADOS À IMAGEM DE DEUS
Quando refletimos sobre o homem levando em consideração os diferentes
relacionamentos nos quais ele atua, vemos confirmada a conclusão de que a
imagem de Deus no homem não diz respeito apenas a uma parte dele (a “alma”
ou o aspecto “espiritual”) mas à pessoa toda.

Os aspectos estrutural e funcional


Em nossa discussão das idéias de Berkouwer, levantei a questão da distin-
ção entre os aspectos estrito e lato da imagem de Deus. Nesse contexto, citei
Louis Berkhof como um proponente da idéia de que a imagem de Deus tem
esses dois aspectos, e discutimos o seu entendimento do que compreendia cada
um desses aspectos. De acordo com essa idéia, a imagem de Deus no sentido
estrito foi completamente perdida pela queda do homem em pecado; a imagem
no sentido lato, contudo, não foi perdida, mas, apenas, corrompida e pervertida.
Essa distinção refere-se à questão da relação entre o que se poderia cha-
mar de os aspectos estrutural e funcional do homem. O problema é este: deve-
mos pensar na imagem de Deus no homem somente em termos do que o ho-
mem é e não do que ele faz, ou somente do que ele faz e não o que ele é, ou de
ambos, do que ele é e do que ele faz? É a “imagem de Deus” apenas uma
descrição do modo como os seres humanos agem ou é, também, uma descri-
ção da natureza de ser que ele é? Alguns teólogos enfatizam principalmente o
aspecto estrutural (que tipo de ser é o homem), outros teólogos, por sua vez,
enfatizam sobretudo o aspecto funcional (o que o homem faz).
É minha convicção que devemos manter ambos os aspectos. Visto que a
imagem de Deus abrange a pessoa toda, deve incluir tanto a estrutura como a
atividade do homem. Ninguém pode agir sem uma certa estrutura. Uma águia,
por exemplo, impele-se no ar voando – esta é uma de suas funções. A águia seria
incapaz de voar, contudo, se não tivesse asas – uma de suas estruturas. De modo
semelhante, os seres humanos foram criados para fazer determinadas coisas: adorar
a Deus, amar o seu semelhante, dominar a natureza e assim por diante. Mas eles
não realizam tais coisas a menos que tenham sido dotados por Deus com as
capacidades estruturais que os habilita a fazê-las. Assim, tanto estrutura como
função estão envolvidas quando concebem o homem como a imagem de Deus.
Nessa questão ocorreu uma mudança positiva na teologia cristã. Teólogos
de outras épocas diziam que a imagem de Deus no homem residia fundamental-
mente nas suas capacidades estruturais (sua posse de razão, da moralidade e
etc.),7 ao passo que seu agir foi entendido como uma espécie de apêndice à sua
7. Ver Capítulo 4, acima, especialmente os conceitos de Irineu e Tomás de Aquino.
A imagem de Deus: um resumo teológico 85

estrutura. Mais recentemente, os teólogos têm afirmado que o agir do homem


(seu adorar, servir, amar, governar, etc.) constitui a essência da imagem de
Deus.8 O perigo que esta última idéia envolve é a tentação de conceber a ima-
gem somente em termos de função – uma concepção tão parcial como aquela
que vê a imagem de Deus somente em termos de estrutura.9
A imagem de Deus envolve tanto estrutura como função. Diversos termos
têm sido usados para descrever estes dois aspectos: imagem em sentido lato e
estrito (H. Bavinck,10 L. Berkhof), imagem formal e material (Brunner), subs-
tância e relacionamentos (Hendrikus Berkhof),11 dom e criatividade (David
Cairns).12 Mas ambas são facetas essenciais da imagem de Deus. Como Her-
man Bavinck o argumenta:
Pela distinção que fazem entre a imagem de Deus no sentido lato e no estrito, os
teólogos reformados mantiveram com clareza a união entre substância e qualidade,
natureza e graça, criação e redenção.13
Mas, poderia se perguntar, o que pertence à imagem de Deus no seu aspec-
to lato, formal ou estrutural? Teólogos têm respondido diferentemente a esta
pergunta. Cedo, na história da teologia cristã, como vimos, as faculdades inte-
lectual e racional foram eleitas como um dos aspectos mais importantes, senão
o mais importante, da imagem de Deus no sentido lato. Inclui-se, evidentemen-
te, na imagem neste sentido o senso moral do homem (sua capacidade de dis-
tinguir entre o certo e o errado) e sua consciência. Inclui-se também a capaci-
dade para o culto religioso (o que Calvino chamou de sensus divinitatis ou
“consciência da divindade”). Uma importante qualidade humana freqüentemen-
te mencionada pelos teólogos mais recentes é a responsabilidade: a capacidade
humana de responder perante Deus e seus semelhantes e o ser considerado
responsável pelo modo como dá essas respostas.
Poderíamos mencionar muitas outras capacidades ou qualidades tais como,
por exemplo, as faculdades volitivas do homem ou sua capacidade de tomar
decisões.14 Uma outra qualidade é o senso estético do homem, pelo qual os

8. Observe, aqui, os conceitos de Barth e Berkouwer.


9. Pelas razões apresentadas acima (págs.78-80), creio que o conceito de Berkouwer sobre a imagem
tende para a parcialidade.
10. Dogmatiek, 2:590-94.
11. De Mens Onderweg (The Hague: Boekencentrum, 1962), págs.46,47.
12. The Image of God in Man, rev. ed., (Londres: Collins, 1973), pág.199.
13. Dogmatieck, 2:594 (citado pelo autor em tradução própria para o inglês). Embora Brunner, com sua
distinção entre a imagem de Deus formal e material, não entenda exatamente a mesma coisa que proposta
pela distinção reformada tradicional entre a imagem lata e estrita, sua discussão da imagem de Deus (ver,
págs.66-72) confirma o argumento de que ambos os aspectos da imagem são essenciais.
14. Leonard Verduin afirma: “Na concepção cristã, o homem é uma criatura de opções, alguém que é
86 CRIADOS À IMAGEM DE DEUS
seres humanos podem não somente apreciar a beleza esbanjada por Deus na
sua criação mas também criar, por si mesmos, beleza artística – na pintura, na
escultura, na poesia e na música. Na verdade, também os dons da fala e do
canto são qualidades humanas que pertencem a este aspecto. Aliás, podería-
mos aumentar muito esta lista. Em suma, pois, podemos dizer que por imagem
de Deus no sentido lato ou estrutural entendemos o conjunto de dons e capaci-
dades dados ao homem e que o habilitam a agir como tal em seus diversos
relacionamentos e vocações.
Pode-se fazer a seguinte pergunta: por que se deveria considerar os dons e
capacidades acima mencionados como parte da imagem de Deus? A resposta é
que em todas essas capacidades o homem é semelhante a Deus e, portanto, o
reflete. As faculdades racionais do homem, por exemplo, refletem a razão de
Deus e capacitam o homem, em certo sentido, a refletir sobre os pensamen-
tos de Deus a seu respeito. O senso moral do homem reflete algo da natureza
moral de Deus, o qual é soberano para determinar o certo e o errado. Nossa
capacidade para comunhão com Deus na adoração reflete a comunhão que o
Pai, o Filho e o Espírito Santo têm um com o outro. Nossa capacidade de
responder perante Deus e perante outros seres humanos reproduz a capacida-
de e a disposição de Deus de responder-nos quando oramos a ele. Nossa
capacidade de tomar decisões reflete de um modo menor o poder soberano de
governar “daquele que faz todas as coisas conforme o conselho da sua vonta-
de” (Ef 1.11). Nossa sensibilidade para o belo é um vago reflexo do Deus que,
em profusão, distribui beleza sobre os picos coroados de neve das montanhas,
sobre os vales ricamente ornados e sobre os ocasos que inspiram à reverência.
Nosso dom da fala é uma imitação daquele que constantemente nos fala, tanto
pela criação como pela Palavra. E nosso dom de cantar ecoa o Deus que se
regozija em nós com cânticos de júbilo (Sf 3.17).
O que, por outro lado, entendemos por imagem de Deus no sentido estrito,
material ou funcional? Tradicionalmente, teólogos reformados têm descrito a
imagem de Deus nesse sentido como consistindo em verdadeiro conhecimento,
justiça e santidade.15 Eles extraíram esta descrição, em parte, de duas passa-
gens da Escritura: Colossenses 3.10 (“e vos revestistes do novo homem que se
refaz para o pleno conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou”) e
constantemente confrontado com alternativas entre as quais ele escolhe, dizendo sim a uma e não à
outra”. (Somewhat less than God [Grand Rapids: Eerdmans, 1970], pág.84). Para uma visão mais
abrangente desse pensamento, ver o capítulo inteiro (págs.84-108).
15. Ver H. Bavinck, Dogmatieck, 2:599; J. G. Machen, The Christian View of Man, págs.174-77; L.
Berkhof, Systematic Theology, ed. rev. e aum. (Grand Rapids: Eerdmans, 1941), pág.207. Cf. também
Catecismo de Heidelberg, Questão 6; Confissão de Westminster, IV.2; Breve Catecismo, Questão 10.
A imagem de Deus: um resumo teológico 87

Efésios 4.24 (“e vos revistais do novo homem, criado segundo Deus, em justiça
e retidão procedentes da verdade”). Diversos teólogos têm descrito esse as-
pecto da imagem de várias maneiras, como a ação do homem no sentido de dar
uma resposta correta a Deus (Brunner);16 viver em amor para com Deus e para
com seu semelhante (Otto Weber);17 viver no relacionamento correto com Deus,
com seu próximo e com a criação (Hendrikus Berkhof);18 ou como ”santifica-
ção concretamente visível” (G. C. Berkouwer).19 Assim, a imagem de Deus no
sentido estrito significa o agir apropriado do homem, em harmonia com a von-
tade de Deus para ele.
Esses dois aspectos da imagem de Deus (lato e estrito, estrutural e funcio-
nal, ou formal e material) nunca podem ser separados. Sempre que olhamos
para a pessoa humana, estes dois aspectos devem sempre ser levados em con-
ta. A queda do homem em pecado, porém, causou dano ao modo em que ele
reflete Deus. Enquanto, antes da Queda refletíamos apropriadamente Deus,
após a Queda, não somos mais capazes de, por nossa própria força, o fazer,
visto que, agora, estamos vivendo em um estado de rebelião contra Deus.
Sendo assim, alguém pode provavelmente pensar que o homem após a
Queda não é mais um portador da imagem de Deus (e, como já vimos, alguns
teólogos têm de fato pensado isso). A partir dos dados da Escritura que exami-
namos anteriormente, contudo, está claro que nós não devemos dizer isso. Se-
gundo a evidência bíblica (como já notamos no Cap. 3), o homem caído ainda
é considerado um portador da imagem de Deus, embora outras evidências mos-
trem que ele não mais reflete Deus apropriadamente e, portanto, deve ser no-
vamente restaurado à imagem de Deus. Assim, há um sentido em que o homem
caído é ainda um portador da imagem de Deus, mas também há um sentido
em que ele deve ser renovado nessa imagem. Nós não devemos entretanto
dizer que a imagem de Deus foi totalmente perdida pela queda do homem em
pecado; nós devemos, ao contrário, dizer que a imagem foi pervertida, foi dis-
torcida pela Queda. Todavia, a imagem ainda está lá. O que torna o pecado tão
sério é exatamente o fato de que o homem está agora usando os poderes e os
dons dados por Deus (e que refletem Deus) para fazer coisas que são uma
afronta ao seu Criador.

16. The Christian Doctrine of Creation and Redemption, trad. de Olive Wyon (Filadélfia; Westminster
Press, 1953), pág.58.
17. Foundations of Dogmatics, vol. 1, trad. de Darell L. Guder (Grand Rapids: Eerdmans, 1981), pág.
574.
18. De Mens Onderweg, págs.31-41.
19. Man, pág.112.
88 CRIADOS À IMAGEM DE DEUS
A distinção entre os aspectos estrutural e funcional da imagem de Deus nos
auxilia a expressar lingüisticamente a condição do homem antes e depois da Que-
da. Quando o homem foi criado, ele possuía a imagem de Deus no sentido estru-
tural ou lato e, ao mesmo tempo, refletia apropriadamente Deus no sentido
funcional ou estrito, visto que ele vivia em perfeita obediência a Deus. Depois
que caiu em pecado, contudo, o homem reteve a imagem de Deus no sentido
estrutural ou lato, mas a perdeu no sentido funcional ou estrito. O que significa
dizer que os seres humanos decaídos ainda possuem os dons e capacidades
dados por Deus, mas, no presente, usam esses dons de maneira pecaminosa e
desobediente.20 No processo de redenção, Deus, por seu Espírito, renova a
imagem nos seres humanos decaídos – isto é, os recapacita a usar seus dons, os
quais refletem Deus, de forma que possam refletir apropriadamente Deus – ao
menos em princípio. Após a ressurreição do corpo, na nova terra, a humanida-
de redimida será outra vez capaz de refletir Deus perfeitamente.
A imagem de Deus no homem deve, portanto, ser vista como envolvendo
tanto aspectos estruturais do homem (seus dons, capacidades e talentos) como
seus aspectos funcionais (suas ações, seu modo de relacionar-se com Deus e
com os outros e a maneira como usa seus dons). Enfatizar qualquer um em
prejuízo do outro é ser unilateral ou parcial. Nós devemos ver os dois, mas
precisamos ver a estrutura do homem como secundária e o seu agir como pri-
mário. Deus nos criou à sua imagem a fim de podermos realizar uma tarefa,
cumprir uma missão e seguir uma vocação. Para nos dar a capacidade de rea-
lizar essa tarefa, Deus nos conferiu muitos dons – dons que refletem parte de
sua grandeza e glória. Ver o homem como a imagem de Deus é ver igualmente
a tarefa e os dons. Mas a tarefa é primária; os dons são secundários. Os dons
são os meios para a realização da tarefa.

Cristo como a verdadeira


imagem de Deus
Ao perguntarmos a respeito do que devemos entender por imagem de Deus,
somos lembrados do fato de que, no Novo Testamento, Cristo é chamado de
imagem de Deus por excelência; ele é a “imagem do Deus invisível” (Cl 1.15).
Se queremos, portanto, realmente saber como é a imagem de Deus no homem,
devemos primeiro olhar para Cristo. Isso significa, entre outras coisas, que o
fundamental na imagem de Deus não são qualidades tais como razão ou inteli-

20. Brunner afirma: “A perda da Imago no sentido material pressupõe a Imago no sentido formal”
(Doctrine of Creation, pág.60).
A imagem de Deus: um resumo teológico 89

gência; mas, pelo contrário, o amor, pois, mais do que tudo, o que se destaca
na vida de Cristo é o seu maravilhoso amor. Em Cristo, portanto, vemos de
forma clara o que está escondido em Gênesis 1, a saber: a imagem perfeita de
Deus que o homem deveria ser.
Observando Jesus Cristo, percebemos haver uma dupla estranheza a res-
peito dele. Há, primeiro, a estranheza de sua divindade. Ele é o Deus-homem,
aquele que se atreve dizer que ele e o Pai são um – uma afirmação que fez os
judeus o acusarem de blasfêmia (Jo 10.31-33). É aquele que perdoa pecados
– algo que somente Deus pode fazer. É aquele que até ousa dizer: “Antes que
Abraão existisse, EU SOU!” (Jo 8.58).
Mas há também a estranheza com relação à sua humanidade. Embora ge-
nuinamente humano, é ímpar em sua humanidade. É totalmente sem pecado.
Sua obediência ao Pai é perfeita; sua vida de oração, incomparável; seu amor
pelas pessoas, insondável. E, de repente, percebemos que essa estranheza
nos faz sentir vergonha, porque ela nos diz o que todos nós deveríamos ser. A
estranheza do Jesus humano é como um espelho colocado diante de nós; é
uma estranheza exemplar, pois nos diz qual a vontade de Deus para cada um
de nós.
Quando observamos mais detalhadamente a vida de Cristo, vemos que ele
era, em primeiro lugar, inteiramente voltado para Deus. No começo de seu
ministério, embora extremamente tentado pelo diabo, Jesus resistiu à tentação,
em obediência ao Pai. Ele costumava passar noites inteiras em oração ao Pai.
Ele disse, uma vez: “A minha comida consiste em fazer a vontade daquele que
me enviou e realizar a sua obra” (Jo 4.34). Ao final de sua vida terrena, quando
defrontava-se com o terrível sofrimento que haveria de suportar como Salva-
dor de seu povo, ele orou: “Meu Pai, se possível, passa de mim esse cálice!
Todavia, não seja como eu quero, e sim como tu queres” (Mt 26.39).
Segundo, notamos que Cristo é inteiramente voltado para o próximo.
Quando as pessoas lhe apresentavam suas necessidades, fossem elas de cura,
de alimento ou perdão, ele estava sempre pronto a socorrê-las. Quando, exausto
de uma longa jornada, Jesus descansava junto a um poço, esqueceu-se pronta-
mente de sua própria fadiga para evangelizar uma mulher samaritana. A Zaqueu,
Jesus disse: “Porque o Filho do Homem veio buscar e salvar o perdido” (Lc
19.10). Noutra ocasião, Jesus disse aos seus discípulos: “Pois o próprio Filho
do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em
resgate por muitos” (Mc 10.45). Certa vez, Jesus indicou qual é o maior amor
que alguém pode demonstrar a outro: “Ninguém tem maior amor do que este:
90 CRIADOS À IMAGEM DE DEUS
de dar a sua própria vida em favor dos seus amigos” (Jo 15.13). Esse é aquele
amor que Jesus mesmo revelou: ele deu a sua vida por seus amigos.
Terceiro, Cristo domina a natureza. Com uma ordem, Jesus acalmou a
tempestade que ameaçava a vida dos seus discípulos no lago da Galiléia. Mais
tarde, andou sobre as águas para mostrar o seu domínio sobre a natureza. Foi
também capaz de proporcionar uma pesca maravilhosa. Multiplicou os pães e
transformou água em vinho. Curou muitas doenças, expulsou muitos demônios,
fez os surdos ouvirem, os cegos verem, os paralíticos andarem e, até mesmo,
ressuscitou mortos.
Foram essas ações miraculosas uma evidência da divindade de Cristo ou
revelações daquilo que Cristo poderia fazer segundo sua humanidade confian-
do em seu Pai nos céus? Não podemos separar as naturezas divina e humana
de Cristo; como o Concílio de Calcedônia expressou, essas duas naturezas
estão sempre unidas, sem confusão, mudança, divisão ou separação. Todavia,
algumas afirmações bíblicas sugerem que Jesus realizou esses milagres segundo
sua humanidade perfeita confiando no poder divino: “Se, porém, eu expulso
demônios pelo Espírito de Deus, certamente é chegado o reino de Deus sobre
vós” (Mt 12.28); “Varões Israelitas, atendei a estas palavras: Jesus, o Nazare-
no, varão aprovado por Deus diante de vós com milagres, prodígios e sinais, os
quais o próprio Deus realizou por intermédio dele entre vós, como vós mesmos
sabeis” (At 2.22, do sermão de Pedro no Pentecoste).
Não se pode ser dogmático quanto a isso, no entanto. Jesus era o Deus-
homem e, portanto, tudo o que fez, o fez como aquele que era, a um só tempo,
divino e humano. Obviamente, não conseguimos fazer milagres como Jesus;
não podemos acalmar a tempestade ou ressuscitar mortos. O que podemos,
porém, é aprender da vida de Cristo que o domínio sobre a natureza é um
aspecto essencial do exercício da imagem de Deus – e nós precisamos encon-
trar nosso próprio modo de exercê-lo.
Em suma, observando Jesus Cristo, que é a imagem perfeita de Deus, apren-
demos que o exercício próprio da imagem inclui o ser voltar-se para Deus, o
voltar-se para o próximo e o domínio sobre a natureza.21

O homem em sua tríplice relação


A exemplo de Cristo, que é a verdadeira imagem de Deus, o homem tam-

21. Para essa apresentação da imagem de Deus como vista na vida e obra de Cristo, baseei-me em
Hendrikus Berkhof, De Mens Onderweg, págs.19-26.
A imagem de Deus: um resumo teológico 91

bém deve exercitar-se em três relacionamentos. Gênesis 1.26-28, descreven-


do a criação do homem à imagem de Deus, diz:
Também disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhan-
ça; tenha ele domínio sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, sobre os animais
domésticos, sobre toda a terra e sobre todos os répteis que rastejam pela terra. Criou
Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os
criou. E Deus os abençoou e lhes disse: Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra
e sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todo
animal que rasteja pela terra.
Deus colocou o homem em uma tríplice relação: entre o homem e Deus, entre
o homem e seu semelhante, entre o homem e a natureza. As referências à criação
do homem por Deus, à bênção de Deus sobre o homem e ao mandato que lhe
foi dado por Deus indicam a primeira e fundamental relação em que o homem
se encontra: seu relacionamento com Deus. A relação do homem com o seu
semelhante é indicado nas palavras “homem e mulher os criou”. A nossa relação
com a natureza é referida no fato de Deus nos dar domínio sobre a terra.
Vejamos agora cada uma dessas relações mais detalhadamente. Em assim
fazendo, descobriremos qual o propósito de Deus para nós, como Deus quer
que vivamos.
Ser um ser humano é estar voltado para Deus. O homem é uma criatura
que deve sua existência a Deus, que é completamente dependente de Deus e
responsável, acima de tudo, perante Deus. Esta é a sua primeira e mais impor-
tante relação. Todas as outras relações do homem devem ser vistas como su-
bordinadas e regidas por esta primeira.
Ser um ser humano no sentido mais verdadeiro, portanto, significa amar a
Deus sobre todas as coisas, confiar nele e obedecer a ele, orar a ele e lhe
agradecer. Visto que estar relacionado com Deus é sua relação fundamental,
a sua vida inteira é para ser vivida coram Deo – como diante da face de Deus.
O homem está preso a Deus como um peixe está preso à água. Quando um
peixe procura se libertar da água, ele perde ao mesmo tempo sua liberdade e
sua vida. Quando nós procuramos nos “libertar” de Deus, tornamo-nos escra-
vos do pecado.
Essa relação vertical do homem para com Deus é básica para uma antropo-
logia cristã, e todas as antropologias que negam esta relação devem ser consi-
deradas não apenas não-cristãs, mas anticristãs. Todas as opiniões acerca do
homem que não têm seu ponto de partida na doutrina da criação e que, portan-
to, o vêem como um ser autônomo que pode chegar ao que é verdadeiro e
justo totalmente à parte de Deus ou da revelação de Deus na Escritura devem
ser rejeitadas como falsas.
92 CRIADOS À IMAGEM DE DEUS
Muitos anos atrás, Agostinho afirmou isso, dizendo: “Tu [Deus] nos fizes-
te para ti mesmo, e nossos corações não descansam até encontrarem o seu
repouso em ti”.22 Calvino expressou um pensamento semelhante quando es-
creveu: “Todos os homens nascem para viver com o fim de que possam conhe-
cer Deus”.23 G. C. Berkouwer tem semelhantemente enfatizado a relação ines-
capável do homem para com Deus: “A Escritura está preocupada com o ho-
mem em sua relação com Deus, na qual ele nunca deve ser visto como homem-
em-si-mesmo”.24
Isso significa, além disso, que nós somos completamente responsáveis diante
de Deus por tudo o que fazemos. O homem foi criado como um indivíduo, como
uma pessoa, capaz de autoconsciência e de autodeterminação,25 capaz, portanto,
de dar resposta a Deus, de perguntar a Deus, de ter comunhão com Deus e de
amar a Deus. Isso tem implicações não somente para a nossa adoração, mas para
a nossa vida total. A intenção de Deus para com o homem é que ele possa fazer
tudo o que faz em obediência a Deus e para a sua glória, de modo que ele use
todas as suas faculdades, seus dons e suas capacidades para servir a Deus.
Ser um ser humano é ser voltado para seus semelhantes. Estamos, outra
vez, em Gênesis 1. Observe a justaposição, no versículo 27, de “à imagem de
Deus o criou” e “homem e mulher os criou”. Trata-se, aqui, de algo mais do que
diferenciação sexual, visto que isso é encontrado também nos animais e a Bíblia
não diz que os animais foram criados à imagem de Deus. O que se diz nesse
versículo é que a pessoa humana não é um ser isolado que é completo em si
mesmo, mas que é um ser que necessita do companheirismo de outros, que não
é completo separado dos outros.
Esse aspecto fica ainda mais nítido em Gênesis 2, que descreve a criação de
Eva: “Disse mais o SENHOR Deus: Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-
ei uma auxiliadora que lhe seja idônea” (v.18). A expressão hebraica traduzida
como “uma auxiliadora que lhe seja idônea” ‘ezer kenegdo. Neged (a palavra
traduzida como “lhe seja idônea”) significa “correspondente a” ou “que respon-
de a”. Literalmente, portanto, a expressão significa “uma ajuda que responda a
ele”. O significado das palavras é que a mulher complementa o homem, suple-
menta-o, completa-o, é forte onde ele pode ser fraco, supre suas deficiências e

22. Confessions, I.1.


23. Inst., I.3.3.
24. Man, págs.59,60.
25. Por autodeterminação, entendo a capacidade de alguém decidir seus atos sem compulsão exterior.
Não quero dizer, com isso, que o homem decaído é capaz, por sua própria força, de mudar sua predileção
fundamental pelo pecado para amar a Deus.
A imagem de Deus: um resumo teológico 93

preenche suas necessidades. O homem é, portanto, incompleto sem a mulher.


Isso é válido tanto para a mulher como para o homem. A mulher também é
incompleta sem o homem; o homem suplementa a mulher, complementa-a, pre-
enche suas necessidades, é forte onde ela é fraca.
O que se acabou de dizer, contudo, não deve ser interpretado como suge-
rindo que somente uma pessoa casada pode experimentar o que significa ser
verdadeira e plenamente humana. O casamento, sem dúvida, revela e ilustra
mais plenamente do que outra instituição humana a polaridade e a interdepen-
dência da relação homem-mulher. Mas não o faz em um sentido exclusivo. Pois
o próprio Jesus, o homem ideal, nunca foi casado. E na vida por vir, quando a
natureza humana for totalmente aperfeiçoada, não haverá casamento (Mt 22.30).
Da relação homem-mulher, portanto, infere-se a necessidade de companhia
entre seres humanos. Mas o que se diz em Gênesis 1 e 2 a respeito dessa
relação tem implicações também para o nosso relacionamento com seres hu-
manos em geral. Não somente é o homem incompleto sem a mulher e a mulher
incompleta sem o homem; o homem é também incompleto sem outros homens
e a mulher é também incompleta sem outras mulheres. Homens e mulheres não
podem alcançar a verdadeira humanidade em isolamento; eles precisam da com-
panhia e do estímulo dos outros. Nós somos seres sociais. O próprio fato de o
homem receber o mandamento de amar seu próximo como a si mesmo de-
monstra que o homem necessita do seu próximo.
O homem não pode ser verdadeiramente humano separado dos outros.
Isso é verdadeiro inclusive no sentido psicológico e social. Quase no final do
século 18, numa região próxima da cidade francesa da Aveyron, um menino
pequeno foi aparentemente abandonado por seus pais e entregue a si mesmo
numa floresta de Lacaune. Anos mais tarde o menino foi encontrado. Ele pare-
cia mais um animal do que um ser humano. Comia nozes e frutos silvestres. Sua
linguagem consistia de grunhidos; ele nunca aprendeu a falar coerentemente.26
Haveria de se concluir que, à parte do contato e comunhão com outros seres
humanos, uma pessoa não pode desenvolver-se em um homem ou mulher
normal.
O fato de que só podemos ser seres humanos completos mediante encontros
com outros seres humanos também é verdadeiro sob outros aspectos. É somente
por meio de contatos com outros que descobrimos quem somos e quais são as
nossas forças e fraquezas. É somente na comunhão com outros que crescemos

26. Quanto à narrativa sobre esse menino e sua subseqüente história, ver Harlan Lane, The Wild Boy of
Aveyron (Cambridge: Harvard Univ. Press, 1976).
94 CRIADOS À IMAGEM DE DEUS
e nos tornamos maduros. É somente em parceria com outros que podemos
desenvolver plenamente nossas potencialidades. Isso é válido para todos os
relacionamentos humanos em que nos encontramos: família, escola, igreja, vo-
cação ou profissão, organizações recreativas, etc.
Enriquecemo-nos uns aos outros. Isso é verdadeiro inclusive no sentido
coletivo. Somos enriquecidos pelas pessoas de outras raças, de várias origens,
de diversos níveis e tipos de educação, de diferentes vocações e profissões,
além das nossas próprias. Não é bom para uma pessoa ter relacionamento
social somente com outros “de seu próprio tipo”.
A relação do homem com outros significa que nenhum ser humano deveria
ver os seus dons e talentos como uma avenida para o desenvolvimento pessoal,
mas como um meio pelo qual pode enriquecer a vida de outros. Significa que
deveríamos estar sequiosos de ajudar os outros, curar suas feridas, suprir suas
necessidades, levar os seus fardos e compartilhar suas alegrias. Significa que
deveríamos amar aos outros como a nós mesmos. Significa que cada ser huma-
no tem o direito de ser aceito por outros, de relacionar-se com outros e de ser
amado por outros. Significa que aceitação e amor recíprocos são um aspecto
essencial de sua humanidade.27
Ser um ser humano é dominar a natureza. Gênesis 1.26-28 também des-
creve o homem como aquele que governa ou que tem domínio sobre a nature-
za. Ao homem é dado domínio sobre toda a terra e sobre tudo o que há na
terra. Os teólogos, todavia, têm diferido sobre o sentido desse domínio. Alguns
têm pensado desse domínio como sendo somente uma conseqüência do fato de
o homem ter sido criado à imagem de Deus, não como aspecto essencial da
imagem.28 A maioria dos intérpretes, contudo, tem crido, corretamente, que o
fato de o homem ter domínio sobre a terra é um aspecto essencial da imagem
de Deus.29 Como Deus é revelado no primeiro capítulo de Gênesis regendo
toda a criação, assim o homem é descrito, nos versículos em questão, como
27. Poderia se acrescentar que a aceitação dos outros necessita primeiramente de uma aceitação de si
mesmo. Existe um amor-próprio indevido, como Agostinho disse há muito, mas existe também um amor-
próprio correto e sadio, que é tanto fruto como fundamento de nosso serviço a Deus e aos outros. Mais
se dirá sobre a questão da auto-imagem humana no Cap. 6.
28. Por exemplo, J. Skinner, Critical and Exegetical Commentary on Genesis (Nova York: Scribner,
1910), pág.32; H. Gunkel, Genesis (Göttingen: Vandenhoeck e Ruprecht, 1902), pág.99; Berkouwer, Man,
págs.70-72. A opinião cautelosa de Calvino sobre esse assunto foi citada acima: “O fato de o homem ter
domínio sobre a terra encerra uma parte, embora pequena, da imagem de Deus” (acima, págs.56,57).
29. Lutero, Lectures on Genesis (St. Louis: Concordia, 1958), pág.64; John Laidlaw, The Bible Doctrine
of Man (Edimburgo: T. & T. Clark, 1905), pág.163; Bavinck, Dogmatiek, 2:569-70, 603; L. Vander
Zanden, De Mens als Beeld Gods (Kampen: Kok, 1939), págs.51-54; L. Berkhof, Systematic Theology,
pág.205; H. Berkhof, De Mens Onderweg, págs.37-41; L. Verduin, Less than God, págs.27-48; Cairns,
The Image of God on Man, pág.28.
A imagem de Deus: um resumo teológico 95

uma espécie de vice-regente de Deus, que domina a natureza como um repre-


sentante de Deus. Ter domínio sobre a terra, portanto, é essencial à existência
do homem. O homem não deve ser concebido à parte desse domínio assim
como não deve ser concebido à parte do seu relacionamento com Deus ou com
seus semelhantes, os outros seres humanos.
Duas palavras são empregadas em Gênesis 1.28 para descrever esse rela-
cionamento do homem com a natureza: subjugar e ter domínio. O verbo tra-
duzido como subjugar está numa forma do hebraico kabash, que significa
“subjugar” ou “escravizar”. Este verbo nos diz que o homem deve explorar os
recursos da terra, cultivar o solo e escavar os seus tesouros enterrados. Não
devemos, porém, pensar simplesmente na terra, nas plantas e nos animais; de-
vemos também pensar na existência humana visto que ela é um aspecto da boa
criação de Deus. O homem é chamado por Deus para desenvolver todas as
potencialidades encontradas na natureza e na humanidade como um todo. Cabe-
lhe desenvolver não somente a agricultura, a horticultura e a criação de animais,
mas também a ciência, a tecnologia e a arte. Em outras palavras, temos aqui o
que freqüentemente se chama de o mandato cultural: o mandamento de de-
senvolver uma cultura que glorifica a Deus. Embora essas palavras ocorram
como parte da bênção de Deus ao homem, a bênção encerrra um mandato.
A outra palavra usada em Gênesis 1.28 para descrever esta relação, traduzi-
da como “ter domínio”, é uma forma do verbo hebraico radah, que significa
“governar” ou “dominar”. É dito especificamente que a humanidade terá domínio
sobre os animais. Observe também, nesse mesmo contexto, Gênesis 9.2, onde
Deus diz a Noé, como representante da humanidade pós-dilúvio, “pavor e medo
de vós virão sobre todos os animais da terra e sobre todas as aves dos céus; tudo
o que se move sobre a terra e todos os peixes do mar nas vossas mãos serão
entregues”. O salmo 8 não somente ecoa como expande esse pensamento:
Fizeste-o, no entanto, por um pouco, menor do que Deus
e de glória e de honra o coroaste.
Deste-lhe domínio sobre as obras da tua mão
e sob os seus pés tudo lhe puseste (vs.5,6).
É importante, portanto, observar que a relação própria do homem com a
natureza não é simplesmente a de governá-la. Passando de Gênesis 1 para
Gênesis 2, vemos que Adão recebeu uma tarefa específica para realizar: cultivar
(‘abad) e guardar (shamar) o jardim do Éden onde Deus o havia colocado
(v.15). A palavra hebraica ‘abad literalmente significa “servir”. A palavra sha-
mar significa “guardar, vigiar, preservar ou cuidar de”. Adão, em outras pala-
vras, não somente recebeu o mandamento de dominar a natureza; foi-lhe dito
96 CRIADOS À IMAGEM DE DEUS
para cultivar e guardar aquele pedaço de terra onde havia sido colocado. Se os
seres humanos tivessem recebido apenas o mandamento de dominar a terra,
esse mandamento poderia facilmente ser erroneamente interpretado como um
convite aberto à exploração irresponsável dos recursos da terra. Mas a ordem
de trabalhar e cuidar do jardim do Éden subentende que devemos servir e
preservar a terra tanto quanto dominá-la.30
Esta terceira relação em que o homem foi colocado por Deus significa que o
homem, embora estando abaixo de Deus, está acima da natureza como seu se-
nhor, como aquele que é convocado a admirar as suas belezas, descobrir os seus
segredos e explorar os seus recursos. Mas o homem – isto é, nós mesmos –,
deve dominar a natureza de tal modo que seja também seu servo. Devemos pre-
servar os recursos naturais e fazer o melhor uso possível deles. Devemos evitar
a erosão do solo, a destruição temerária das florestas, o uso irresponsável da
energia, a poluição dos rios e dos lagos e a poluição do ar que respiramos.
Devemos ser mordomos da terra e de tudo o que há nela e promover tudo o
que venha a preservar a sua utilidade e beleza para a glória de Deus.
Como interagem essas três relações (com Deus, com o próximo e com a
natureza)? Estão desconectadas entre si ou há uma estreita relação entre elas?
É uma delas mais proeminente que as outras? Essas são perguntas importantes.
Por séculos, a igreja cristã tem sustentado que apenas a primeira das três rela-
ções é realmente importante e que as outras duas são importantes somente
como meios para cumprir a primeira. Poderíamos, talvez, chamar essa primeira
de relação vertical. Em tempos recentes, contudo, tem surgido uma espécie de
versão horizontalizadora do Cristianismo. Muitos têm ensinado que o relacio-
namento mais importante é o segundo e que o relacionamento com Deus pode
encontrar expressão apenas no relacionamento do homem com seu próximo. A
isso deve ser acrescentado o fato de que, em nossa era tecnológica, a terceira
relação parece estar eclipsando as outras duas. Nas nações industrializadas, ao
menos, parece que nossa maior energia está sendo devotada a essa terceira
relação – para a manutenção e aprimoramento da tecnologia. Alguns agora
sentem que essa terceira relação está dominando de tal forma nossa vida que o
homem moderno está para se tornar um escravo da máquina e do computador.
Mas foi Deus, aliás, quem colocou o homem nessas três relações. Cada
uma é tão importante e indispensável como as outras duas; não podemos nem
existir nem agir propriamente sem qualquer uma delas. Além disso, estão inter-

30. Para um tratamento adicional desse assunto, ver os capítulos 13-15 (especialmente, págs.208-211)
de Earth-keeping, org. por Loren Wilkinson (Grand Rapids: Eerdmans, 1980).
A imagem de Deus: um resumo teológico 97

relacionadas. O homem está inescapavelmente relacionado com Deus; essa é,


de fato, a primeira e mais importante relação. Mas essa relação não existe sem
as outras duas e não é realizada à parte das outras duas. Nossa relação com o
próximo é uma forma na qual nossa relação com Deus se concretiza; como a
Bíblia freqüentemente ensina, mostramos nosso amor a Deus por meio de nos-
so amor ao próximo. Uma pessoa que não ama a seu próximo é um mentiroso
se diz amar a Deus (1Jo 4.20). Nosso amor a Deus e ao próximo, além disso,
deveria revelar-se também em nosso domínio e zelo pela criação de Deus.
Quando amamos o próximo e lidamos responsavelmente com a criação de
Deus, estamos, ao mesmo tempo, servindo a Deus.31
Devemos observar agora que nenhuma outra criatura vive exatamente na
mesma tríplice relação. Quando dizemos que os seres humanos são responsá-
veis diante de Deus e que suas vidas devem ser conscientemente dirigidas para
ele, atribuímos ao homem uma relação com Deus que não se encontra em ne-
nhuma outra criatura, à exceção dos anjos. Quando dizemos que os seres hu-
manos são capazes de comunhão consciente com seus semelhantes e que suas
vidas devem ser voltadas ao próximo, atribuímos ao homem uma relação que
não se vê em outras criaturas, provavelmente nem mesmo nos anjos, que não
estão ligados uns aos outros como estão os seres humanos. E quando dizemos
que Deus ordenou aos seres humanos dominar e cuidar da terra, atribuímos ao
homem uma relação que não é encontrada em nenhuma outra criatura, nem
mesmo nos anjos.
Além disso, cada uma dessas três relações é um reflexo do próprio ser de
Deus. A responsabilidade do homem diante de Deus e comunhão consciente
com Deus é um reflexo da comunhão e do amor que Deus oferece ao homem.
A comunhão do homem com os seus semelhantes é um reflexo da comunhão
intertrinitária na Divindade (cf. Jo 17.24: “Porque me amaste antes da fundação
do mundo” [O Pai amou o Filho]). Também o domínio do homem sobre a terra
reflete o domínio supremo de Deus, o Criador, sobre tudo o que fez – tanto que
o autor do salmo 8 pode dizer, quanto ao domínio do homem sobre as obras das
mãos de Deus, “fizeste-o, no entanto, por um pouco, menor do que Deus” (v.5).
Já que essa relação tríplice é exclusivamente humana e que o homem reflete
Deus em cada uma dessas relações, podemos concluir, como fizemos quando
vimos Cristo como a verdadeira imagem de Deus, que o exercício próprio da
imagem de Deus deve ser canalizado por estas três relações: com Deus, com o

31. Por essa reflexão sobre a tríplice relação e suas interações, novamente baseei-me em Hendrikus
Berkhof, De Mens Onderweg, págs.41-44.
98 CRIADOS À IMAGEM DE DEUS
próximo e com a natureza. Deus deu ao homem qualidades e dons que o capaci-
tam a exercer seu papel em cada uma dessas três relações. A imagem de Deus
deve ser vista, contudo, não apenas nessas capacidades, por mais importantes
que sejam, mas fundamentalmente no modo como o homem atua nessas relações.

A imagem original
Somos, assim, conduzidos a uma análise mais completa do que já vimos
anteriormente, a saber: que para entender a imagem de Deus em seu conteúdo
bíblico pleno, precisamos vê-la à luz da criação, queda e redenção. O que
vemos no princípio, antes de o homem cair em pecado, é a imagem original.
Embora não saibamos exatamente como a imagem de Deus revelou-se naquele
estágio da história do homem,32 podemos presumir que o primeiro casal huma-
no refletia Deus sem pecado e obedientemente. O homem era então, para citar
Agostinho, “capaz de não pecar”.33 Podemos, portanto, supor também que,
nesse estágio, Adão e Eva agiam sem pecado e obedientemente em todas as
três relações que acabamos de expor: na adoração e no serviço de Deus, no
amor e serviço de um para com o outro, e no domínio e cuidado por aquele
lugar da criação em que Deus os colocou.
Um comentário adicional precisa ser feito, no entanto. Embora o primeiro
casal humano fosse sem pecado, vivendo no que os teólogos antigos costuma-
vam chamar de “o estado de integridade”, eles não perseveraram até o fim
nesse caminho. Ainda não haviam se desenvolvido plenamente como possuido-
res da imagem de Deus; deveriam ter avançado para um estágio superior onde
a sua impecabilidade não se perderia. Bavinck o expressa da seguinte maneira:
Adão, portanto, encontrava-se não no fim, mas no começo do caminho; sua condição
é uma condição provisória e temporária, que poderia não permanecer assim e que
deveria passar ou para um estado de glória mais elevado ou para uma queda em
pecado e morte.34
Bavinck conclui ainda que o fato de que Adão e Eva ainda tinham de viver
com a possibilidade de pecar era, por assim dizer, a fronteira da imagem de Deus:
Adão... tinha o posse non pecare (posso não pecar) mas ainda não o non posse pecare
(não posso pecar). Ele ainda vivia na possibilidade de pecar ...; ainda não tinha o amor
imutável e perfeito que exclui todo o temor. Os teólogos reformados, portanto, corre-
tamente afirmaram que essa possibilidade, essa mutabilidade, esse ainda poder pe-

32. Como esta afirmação evidencia, a posição pressuposta neste livro é que a Queda registrada em
Gênesis 3 foi um evento histórico. Essa questão será vista em maiores detalhes no Cap. 7.
33. On Correction and Grace, pág.33. No original latim, “posse non peccare”.
34. Dogmatiek, 2:606 (citado pelo autor em tradução própria para o inglês).
A imagem de Deus: um resumo teológico 99
car... não era um aspecto ou o conteúdo da imagem de Deus, mas, em vez disso, a
fronteira, a demarcação ou a margem da imagem de Deus.35
Não há dúvida nisto: a integridade em que Adão e Eva viviam antes da
Queda não foi um estado de perfeição consumada e imutável. O homem foi,
evidentemente, criado à imagem de Deus no início, mas ainda não era um “pro-
duto acabado”. Ainda era preciso que ele crescesse e fosse testado. Deus quis
determinar se o homem seria obediente a ele livre e voluntariamente, em face de
uma possibilidade real de desobediência. Por essa razão, Deus deu a Adão um
“mandamento probatório”: “De toda a árvore do jardim comerás livremente,
mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás; porque, no dia
em que dela comeres, certamente morrerás” (Gn 2.16,17). Se Adão e Eva
tivessem guardado esse mandamento, quem sabe o que teria sido a história
subseqüente da raça humana. Mas, infelizmente, eles desobedeceram ao man-
damento e, assim, portanto, submergiram a si mesmos, bem como toda a raça
humana que viria depois, em um estado pecaminoso.

A imagem pervertida
Após a queda do homem em pecado, a imagem de Deus não foi aniquilada,
mas pervertida. A imagem no seu sentido estrutural permaneceu – os dons,
talentos e habilidades humanas não foram destruídas pela Queda, mas o ho-
mem passou, a partir de então, a usar esses dons de modo contrário à vontade
de Deus. O que mudou, em outras palavras, não foi a estrutura do homem, mas
a sua maneira de agir e o rumo de sua vida. Bavinck, outra vez, traduz isso
muito bem:
O homem, pela Queda... não se tornou um demônio que, incapaz de redenção, não
pode mais revelar as feições da imagem de Deus. Mas, embora tenha permanecido
genuína e substancialmente homem e tenha preservado todas as suas faculdades,
capacidades e habilidades humanas, a forma, a natureza, a disposição e orientação de
todos esses poderes foram de tal forma mudadas que, agora, ao invés de fazer a
vontade de Deus, os homens satisfazem a lei da carne.36
Por causa da Queda, portanto, a imagem de Deus no homem, embora não
destruída, foi seriamente corrompida. Calvino, como se viu, descreveu essa
imagem como deformada, viciada, mutilada, aleijada, doentia e desfigurada.37
Herman Bavinck, certa vez, usou até mesmo a palavra devastada (verwoestte)

35. Ibid., pág.617 (citado pelo autor em tradução própria para o inglês). Cf. também Wm. Shedd,
Dogmatic Theology, vol. 2 (1888; Grand Rapids: Zondervan, n.d.), págs.150-152.
36. Dogmatiek, 3:137 (citado pelo autor em tradução própria para o inglês).
37. Ver, acima, págs.56-59.
100 CRIADOS À IMAGEM DE DEUS
para descrever o que o pecado havia feito à imagem de Deus no homem38
(embora não negasse que o homem caído, sob determinado aspecto, ainda
retém a imagem de Deus).
Como essa perversão da imagem afetou a atuação do homem nos três tipos
de relacionamentos em que Deus o colocou? O homem foi criado, como vimos,
para ser propriamente voltado para Deus; ele existe em inescapável relação
com Deus. Mas o homem decaído, em vez de adorar o Deus verdadeiro, adora
os ídolos. No primeiro capítulo de Romanos, Paulo aponta a indesculpabilida-
de dessa perversão da relação do homem com Deus:
Porque os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder, como também a sua
própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo
percebidos por meio das coisas que foram criadas. Tais homens são, por isso, indes-
culpáveis; porquanto, tendo conhecimento de Deus, não o glorificaram como Deus,
nem lhe deram graças, antes, se tornaram nulos em seus próprios raciocínios, obscu-
rescendo-se-lhes o coração insensato. Inculcando-se por sábios, tornaram-se loucos
e mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corrup-
tível, bem como de aves, quadrúpedes e répteis (vs.20-23).
Enquanto o homem primitivo fazia ídolos de madeira e pedra, o homem mo-
derno, procurando alguma coisa para adorar, faz ídolos de um tipo mais sutil: a si
mesmo, a sociedade humana, o estado, dinheiro, fama, bens ou prazer. Tais ido-
latrias são perversões da capacidade do homem de adorar a Deus.
Poderíamos acrescentar que, em vez de usar sua razão como um meio de
louvar a Deus, o homem decaído a usa, agora, como um meio de louvar-se a si
mesmo ou às realizações humanas. O senso moral com o qual o homem foi
dotado ele agora usa de maneira pervertida, chamando o certo de errado e o
errado de certo. O dom de falar é usado para amaldiçoar a Deus em vez de
louvá-lo. Em vez de viver em obediência a Deus, ele é agora “homem em rebel-
dia”, vivendo em desafio a Deus e às leis de Deus.
A perversão da imagem afetou também a segunda das três relações em que
o homem age. Em vez de usar sua capacidade para comunhão que enriquece a
vida dos outros, o homem decaído agora usa esse dom para manipular os ou-
tros como meios para seus propósitos egoístas. Ele usa o dom de falar para
dizer mentiras em lugar da verdade, para ferir seu próximo em vez de ajudá-lo.
Talentos artísticos são freqüentemente prostituídos a serviço da luxúria e os
atributos sexuais dados por Deus são usados com objetivos deturpados e cor-
ruptos. A pornografia e as drogas tornaram-se grande negócios; o propósito

38. Dogmatiek, 2:595.


A imagem de Deus: um resumo teológico 101

deles não é ajudar os outros, mas explorá-los. O lema de muitas pessoas no


mundo de hoje parece ser o seguinte: “Cada um por si e o diabo fique com o
resto”. O homem está ainda inescapavelmente relacionado aos outros, mas, em
vez de amar aos outros, está inclinado a odiá-los.
Na sociedade contemporânea esta tendência de odiar os outros toma mui-
tas vezes a forma de indiferença ou alienação. A indiferença para com os outros
é um fenômeno comum em nossa civilização cada vez mais urbana, onde muitas
pessoas dificilmente conhecem o seu vizinho mais próximo e, o que é pior, não
tem qualquer interesse em conhecê-lo. A alienação, em sua forma extrema, é
bem expressa na famosa frase de Jean-Paul Sartre: “O inferno são os outros”.39
Vê-se esta alienação na sua pior forma no criminoso que odeia tanto o seu
próximo que rouba, brutaliza ou mata para obter o que quer.
A perversão tem também ocorrido na terceira relação, entre o homem e a
natureza. Em vez de dominar a terra em obediência a Deus, o homem, agora,
usa a terra e seus recursos para os seus próprios propósitos egoístas. Esque-
cendo-se que lhe foi dado domínio sobre a terra a fim de glorificar a Deus e
beneficiar os seus semelhantes, o homem, agora, exerce esse domínio de for-
mas pecaminosas. Explora os recursos naturais sem preocupar-se com o futu-
ro: derruba florestas sem reflorestamento, planta sem o rodízio de culturas, dei-
xa de tomar medidas para evitar a erosão do solo. Suas fábricas poluem rios e
lagos, suas chaminés poluem o ar – e ninguém parece se preocupar. Sua desco-
berta do segredo da fissão nuclear, em vez de ser um benefício para a humani-
dade, tornou-se uma ameaça estarrecedora que paira sobre nossas cabeças
como a espada de Damocles. E em suas realizações culturais – sua literatura,
sua arte, sua ciência, sua tecnologia, a meta do homem é engrandecer-se a si
mesmo em vez de louvar a Deus.
De todas essas formas, portanto, corrompeu-se a imagem de Deus no ho-
mem após a Queda. A imagem, agora, é mal-exercida – e, no entanto, ainda
subsiste. A perda da imagem de Deus no sentido funcional pressupõe a reten-
ção da imagem no sentido estrutural. Para ser um pecador é preciso trazer a
imagem de Deus – é preciso ser capaz de raciocinar, querer, tomar decisões;
um cachorro, que não possui a imagem de Deus, não pode pecar. O homem
peca com os dons que o fazem semelhante a Deus.
Na verdade, o que torna o pecado humano realmente grande é o fato de
que o homem ainda é alguém que traz a imagem de Deus. O que faz o pecado

39. No Exit, em No Exit and Three Other Plays (Nova York: Vintage Books, 1949), pág.47.
102 CRIADOS À IMAGEM DE DEUS
tão hediondo é que o homem está prostituindo dons tão esplêndidos. Corrup-
tio optimi pessima: a corrupção do que é ótimo é a pior.

A imagem renovada
Já que a imagem de Deus foi pervertida pela queda do homem em pecado,
ela precisa ser renovada. Esta renovação ou restauração da imagem é o que
acontece no processo de redenção. Seria o sentido dessa restauração que se
devolve uma imagem antes total e completamente perdida? Não. É melhor di-
zer que a imagem de Deus que havia se pervertido, embora não totalmente
perdida, está sendo retificada, está sendo aprumada outra vez. O que acontece
no processo de redenção é que o homem, que usava as faculdades que o fazem
semelhante a Deus de modo errado, agora é capacitado de novo a usar essas
faculdades de modo correto.
No Capítulo 3, observamos o ensino do Novo Testamento a respeito da
restauração da imagem de Deus no processo da redenção.40 Essa restauração
começa na regeneração, algumas vezes chamada de “nascer de novo” – um
evento que poderia ser definido como “aquele ato do Espírito Santo, que não
deve ser separado da pregação e do ensino da Palavra, pelo qual ele primeira-
mente coloca uma pessoa em união viva com Cristo e muda o seu coração de
tal modo que ela que estava espiritualmente morta se torna espiritualmente viva,
a partir de agora pronta e disposta a crer no evangelho e servir ao Senhor”. A
renovação da imagem prossegue no que a Bíblia chama de obra da santificação
– que pode ser definida como “aquela operação graciosa e contínua do Espírito
Santo, envolvendo a participação responsável do homem, pela qual o Espírito
progressivamente liberta a pessoa regenerada da corrupção do pecado e a
capacita a viver para o louvor de Deus”.
Devemos, portanto, notar que a renovação da imagem de Deus no homem
é fundamentalmente obra do Espírito Santo. Visto que o homem, por causa da
sua queda em pecado, é agora espiritualmente morto, é preciso que o Espírito
dê a ele primeiro nova vida espiritual na regeneração.41 Já que o homem de-
caído agora usa seus dons que o fazem refletir Deus de forma pervertida, o
Espírito deve capacitá-lo a usar esses dons de maneira a glorificar a Deus – isso
é o que acontece no processo de santificação. A santificação, portanto, deve
ser entendida como a renovação progressiva do homem à imagem de Deus.

40. Ver, acima, págs.35-41.


41. Cf. Efésios 2.4,5, “Mas Deus... por causa do seu grande amor com que nos amou, e estando nós
mortos em nossos delitos, nos deu vida juntamente com Cristo”.
A imagem de Deus: um resumo teológico 103

Essa renovação, além disso, não acontece à parte da influência, pela pregação,
ensino ou estudo, da palavra de Deus encontrada na Bíblia; por meio dessa
Palavra, o Espírito instrui o povo de Deus sobre como eles devem viver em uma
nova obediência e o capacita a viver desse modo.
Nessa renovação da imagem, somos novamente capacitados a viver em
amor, nas três direções: a Deus, ao próximo e à natureza. Em outras palavras, a
renovação ou restauração da imagem de Deus significa que o homem é nova-
mente capacitado a agir apropriadamente em sua tríplice relação.
A renovação da imagem, portanto, significa primeiro de tudo que o homem,
agora, é capacitado a estar apropriadamente voltado para Deus. Envolve ado-
rar a Deus do modo correto, orar a Deus em todas as suas necessidades e
agradecer a Deus por todas as suas bênçãos. Envolve amar a Deus com todo o
seu coração, com toda a sua alma, com toda a sua mente e com toda a sua
força (Mc 12.30). Uma vez que a nossa mais fundamental relação é com Deus, a
renovação da imagem significa que recebemos força para fazermos tudo o que
fazemos em obediência a Deus e para a glória de Deus. Envolve também o uso de
nossas faculdades racionais em formas que glorificam a Deus: pensar segundo
os pensamentos de Deus, discernir sob as ordens que regem a natureza o pla-
nejamento de um Deus sábio e admirar a sabedoria com que o Criador formou
o universo. Envolve usar nossas faculdades volitivas para desejar o que Deus
quer que desejemos, e para não desejar alguma coisa contrária à vontade de
Deus. Envolve usar nosso senso estético para apreciar a beleza que Deus gene-
rosamente distribui por sua criação e para louvar o autor dessa beleza. Envolve
o uso de nosso dom da fala para glorificar a Deus. Inclui a capacidade de agir
em nossa relação com os nossos semelhantes e em nossa relação com a nature-
za em obediência e louvor a Deus.
A renovação da imagem significa, em segundo lugar, que o homem está
agora capacitado para se voltar apropriadamente a seu próximo. Envolve amar
aos nossos semelhantes como a nós mesmos. Envolve uma prontidão em per-
doar os outros quando pecam contra nós. Envolve orar pelo próximo e interes-
sar-se intensamente por seu bem-estar. Envolve interessar-se por justiça social,
pelos direitos humanos e pelas necessidades dos pobres e dos desamparados.
Envolve até mesmo amar os nossos inimigos, visto que, como Jesus ensinou,
esta é uma atividade na qual refletimos a Deus de forma singular (Mt 5.44,45).
Significa amar o próximo não porque o consideramos digno de ser amado, mas
porque Deus o amou primeiro.
A restauração da imagem nessa segunda relação significa que o homem é
104 CRIADOS À IMAGEM DE DEUS
capacitado a viver em prol de outros e não em prol de si mesmo. Envolve o uso
de todos os seus dons no serviço do seu próximo. Isso significa usar suas facul-
dades racionais e volitivas para ajudá-lo a fazer o que é do melhor interesse do
seu próximo. Significa dar-se a si mesmo em favor de seu próximo: comparti-
lhar de suas alegrias e tristezas, ajudando-o em tempos de necessidade. Envol-
ve o uso do dom da fala não para desacreditar o seu próximo ou para arruinar
sua reputação, mas para manter o seu bom nome e para apoiá-lo. Significa
resistir à tentação de desprezar a pessoa por causa da cor de sua pele e estar
pronto e desejoso de aceitar e respeitar as pessoas de diferentes raças e naci-
onalidades como pessoas que, como nós, trazem em si a imagem de Deus.
Envolve usar suas habilidades criativas e artísticas para criar a beleza em vários
meios artísticos para o enriquecimento da vida de outras pessoas. Como Deus
amou tanto o mundo que deu o seu Filho unigênito, assim devemos amar os
nossos semelhantes para que nos doemos a eles.
A renovação da imagem de Deus significa, em terceiro lugar, que o homem
agora está adequadamente capacitado para dominar e cuidar da criação de
Deus. Ou seja, agora está capacitado a exercer domínio sobre a terra e sobre a
natureza de uma forma responsável, obediente e altruísta. Isso significa que o
homem está, agora, capacitado a ver a si mesmo como um despenseiro da terra
e de tudo que nela existe, e não como um tirano com poder absoluto e comple-
tamente arbitrário. Envolve ter propriedades, arar o solo, cultivar árvores frutí-
feras, extrair carvão e perfurar poços de petróleo não para engrandecimento
pessoal, mas de forma responsável, para o benefício e bem-estar dos seus
semelhantes. Em nosso presente mundo, isso envolve também a preocupação
com a conservação dos recursos naturais e a oposição a toda forma de explo-
ração imprevidente e inconseqüente desses recursos. Envolve o interesse pela
preservação do meio ambiente e a prevenção de qualquer coisa que o venha
danificar: erosão, destruição temerária das espécies animais, poluição do ar e da
água. Envolve a preocupação com uma adequada distribuição de comida, pre-
venção da fome e com melhorias sanitárias. Também abrange o avanço da inves-
tigação, da pesquisa e da experimentação científica, inclusive a conquista contínua
do espaço, de tal modo a honrar os mandamentos de Deus e lhe render louvor.
Ela envolve ainda a busca do desenvolvimento de uma cultura cristã, como
o cumprimento adequado do mandato cultural. Em outras palavras, deveríamos
procurar desenvolver a obra filosófica, científica, histórica e literária de um modo
singularmente cristão. Isso envolve também o interesse pelo desenvolvimento
de uma visão de mundo e de vida que venha a influenciar tudo o que o homem
pensa, diz e faz.
A imagem de Deus: um resumo teológico 105

A renovação da imagem de Deus, portanto, envolve uma visão geral e abran-


gente da concepção cristã do homem. O processo de santificação afeta cada
aspecto da vida: o relacionamento do homem com Deus, com o seu próximo e
com toda a criação. A restauração da imagem não se refere apenas à piedade
religiosa no sentido estrito, o testemunhar às pessoas a respeito de Cristo ou a
atividade de ganhar pessoas para Cristo; no seu sentido mais pleno, envolve o
redirecionamento da vida toda.
A renovação da imagem de Deus é descrita no Novo Testamento de muitas
formas. Uma das quais já vimos: o “despojar-se” da velha natureza e o “reves-
tir-se” da nova natureza.42 Outras imagens, contudo, também são usadas. Essa
nova vida significa apegar-se firmemente à palavra de bom e reto coração,
frutificando com perseverança (cf. Lc 8.15). A nova vida significa ser transforma-
do pela renovação da mente (Rm 12.2). Significa viver pelo Espírito e produzir o
fruto do Espírito (Gl 5.16,22). Significa viver uma vida de amor (Ef 5.2), andar
na verdade (2Jo 4), viver não para si mesmo, mas para Cristo (2Co 5.15).
Ser renovado à imagem de Deus significa, além disso, que nos tornamos mais
e mais semelhantes a Deus, que Deus se torna mais e mais visível em nossas
palavras e ações. Uma vez que Deus é amor (1Jo 4.16), nosso viver em amor
é uma imitação de Deus.
Porque Cristo é a imagem perfeita de Deus, tornar-se mais semelhante a
Deus também significa tornar-se mais semelhante a Cristo – o que significa
seguir o exemplo de Cristo, procurando viver como ele viveu. Mas há mais a
dizer a respeito disso. Gálatas 3.27 chama esse revestir-se do novo eu ou da
nova pessoa de revestir-nos a nós mesmos de Cristo (cf. Rm 13.14). Revestir-
se de Cristo significa uma nova existência como membro do corpo de Cristo
(1Co 12.12,13); o crente, portanto, reflete Deus como aquele que pertence ao
corpo deste Cristo que, de modo ímpar, é a imagem de Deus.43
Entende-se, com isso, que a renovação da imagem possui um aspecto ecle-
siástico. Não diz respeito a indivíduos isoladamente; tem a ver com crentes na
qualidade de membros de Cristo e, portanto, com a igreja que Cristo está san-
tificando (Ef 5.26). Isso indica que, hoje, a imagem de Deus é vista em sua
forma mais rica em Cristo juntamente com sua igreja ou na igreja como corpo
de Cristo.44 Mas isso também implica que a restauração da imagem de Deus no
42. Ver, acima, págs.37-41.
43. Herman Ridderbos, Paul: An Outline of His Theology, trad. de John R. De Witt (Grand Rapids:
Eerdmans, 1975), pág.225. Conf. F. W. Eltester, Eikon im Neuen Testament (Berlim: Töpelmann,
1958), pág.159.
44. Weber, Foundations of Dogmatics, 1:578.
106 CRIADOS À IMAGEM DE DEUS
homem acontece na igreja, pela mútua comunhão dos cristãos. Os crentes apren-
dem o que significa a semelhança com Cristo observando-a nos demais cris-
tãos. Nós vemos o amor de Cristo refletido na vida de outros crentes; somos
enriquecidos por Cristo pelo contato que temos com eles; ouvimos Cristo fa-
lando a nós por seu intermédio. Os crentes são inspirados pelos exemplos de
outros cristãos como eles, são sustentados por suas orações, corrigidos por
suas admoestações caridosas e encorajados pelo seu apoio.
Até aqui, temos discorrido sobre a renovação da imagem de Deus como
resultado da ação capacitadora de Deus, como um fruto da obra do Espírito
Santo no coração e na vida dos crentes. Entretanto, vale lembrar que a renova-
ção da imagem envolve tanto a graciosa operação do Espírito interiormente
como a responsabilidade do homem. Em outras palavras, esta renovação é
igualmente dom de Deus e tarefa nossa.
Já abordamos este ponto. No Capítulo 2, salientei que, por ser o homem
uma criatura, é preciso que Deus, em sua soberana graça, restaure, nele, a
imagem divina; mas, por ser o homem também uma pessoa, tem responsabili-
dade nessa restauração. No Capítulo 3, examinamos a evidência escriturística
que mostrou o sermos transformados à imagem de Deus no processo de santi-
ficação é tanto uma obra do Espírito Santo como algo que envolve nossos
próprios esforços.45
Sem repetir o que se disse antes, podemos observar alguns outros modos
nos quais a Bíblia enfatiza ambas as facetas dessa verdade. Em 1 Tessalonicen-
ses 5.23, Paulo expressa o seguinte desejo para seus leitores crentes: “O mes-
mo Deus da paz vos santifique em tudo”. Mas, em outra carta, escrita aos
coríntios, ele escreve: “Tendo, pois, ó amados, tais promessas, purifiquemo-
nos de toda impureza, tanto da carne como do espírito, aperfeiçoando a nossa
santidade no temor de Deus” (2Co 7.1). O que é interessante a respeito desta
passagem é o sentido literal da última cláusula: “trazendo a santidade à sua
meta” (epitelountes, da palavra telos, significando “meta”). Embora geralmen-
te identificamos Deus como aquele que vai levar a nossa santidade até a sua
meta, aqui os crentes são intimados a fazer exatamente o mesmo. Enquanto, em
Romanos 6.6, Paulo diz: “sabendo isto: que foi crucificado com ele [Cristo] o
nosso velho homem”, em Colossenses 3.9, ele diz: “Não mintais uns aos outros,
uma vez que vos despistes do velho homem com os seus feitos”. A primeira
passagem afirma que a crucificação ou o fazer morrer o nosso velho homem é
algo que foi feito em nosso favor quando Cristo morreu na cruz; a segunda

45. Ver, acima, págs.19-22 e 41-43.


A imagem de Deus: um resumo teológico 107

passagem, porém, nos diz que o despir-se de nosso velho homem é algo que
nós fizemos. Além disso, enquanto Paulo assegura a seus leitores que “nem a
morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as coisas do presen-
te, nem do porvir, nem os poderes, nem a altura, nem a profundidade, nem
qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus, que está em
Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm 8.38,39), o autor da epístola de Judas escre-
ve aos seus leitores cristãos: “guardai-vos no amor de Deus” (v.21).
Aperfeiçoarmos a santidade, despir-nos do velho homem e guardar-nos no
amor de Deus são, cada uma, maneiras como a renovação da imagem de Deus
acontece. Outras injunções do Novo Testamento para viver uma nova vida
revelam igualmente a responsabilidade do cristão nesta renovação: “Assim bri-
lhe também a vossa luz diante dos homens” (Mt 5.16); “que andeis de modo
digno da vocação a que fostes chamados” (Ef 4.1); “Portanto, quer comais,
quer bebais ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus”
(1Co 10.31). A passagem que resume tudo isso já foi citada: “Sede, pois, imi-
tadores de Deus, como filhos amados” (Ef 5.1).
De passagens dessa natureza, surge uma concepção dinâmica, em vez de
estática, da imagem de Deus. A imagem de Deus no Novo Testamento não é
como uma peça de museu que existe apenas para ser admirada; ao contrário,
é muito mais um exemplo vivo que somos instados a seguir – o exemplo de
Cristo. Os ensinos do Novo Testamento a respeito da imagem não se parecem
muito com uma aula expositiva em que o professor fala enquanto tentamos
tomar notas em um caderno; são mais como as palavras de um técnico que está
tentando, durante a partida, nos ajudar a jogar melhor. A imagem de Deus e a
renovação dela nos desafiam a um novo modo de pensar, de falar e de viver. No
centro dessa renovação está uma convocação para amarmos como Deus ama.
A renovação da imagem de Deus, portanto, não é uma experiência em que
permanecemos passivos, mas na qual devemos participar ativamente. Mas – e
isto merece ser enfatizado – essa renovação é ainda fundamentalmente obra
do Espírito Santo. Não somos capazes de nos renovar por nossa própria força.
A imagem de Deus pode ser restaurada em nós somente enquanto permanece-
mos em união com Cristo. Cristo mesmo afirmou muito claramente: “Quem
permanece em mim, e eu, nele, esse dá muito fruto [uma outra figura para a
renovação da imagem]; porque sem mim nada podeis fazer” (Jo 15.5).
Essa renovação da imagem, como observamos antes,46 não é completada
nesta vida. É, porém, um processo que continua durante toda a vida. Jamais
46. Ver, acima, págs.43,44.
108 CRIADOS À IMAGEM DE DEUS
devemos nos esquecer de que, enquanto estão nesta vida presente, os cristãos
são genuinamente novos, mas ainda não são totalmente novos. São novas
pessoas, porém imperfeitas.
Isso implica que ainda não vemos a imagem de Deus no seu sentido pleno
antes da ressurreição final. Sem dúvida, vemos tal imagem plenamente em Jesus
Cristo como nos é revelado nas páginas da Escritura Sagrada. Mas Cristo não
está mais percorrendo a terra. E, nesta terra, mesmo naqueles que estão sendo
renovados, vemos a imagem de Deus somente “como por espelho”, isto é,
obscuramente. O que nós vemos agora são somente pistas e alusões do que
será a imagem de Deus renovada. Somente na vida por vir, enfim, se verá a
plena riqueza da imagem; somente então veremos a Deus perfeita e cintilante-
mente refletido por uma humanidade glorificada. A essa perfeição da imagem
voltamo-nos agora.

A imagem aperfeiçoada
Até a glorificação final do homem, a renovação da imagem de Deus não será
completada. Esta perfeição final da imagem será a culminação do plano de Deus
para o seu povo redimido. Vale lembrarmo-nos, outra vez, de Romanos 8.29:
“aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à
imagem de seu Filho” – conformes em tudo, podemos estar certos. E a semelhan-
ça ao Filho de Deus é nada menos do que a imagem de Deus aperfeiçoada.
Para se ver a concepção cristã do homem em sua total magnificência, por-
tanto, não basta apenas voltar ao homem como ele foi originalmente criado; ao
contrário, é preciso ir à frente, ao homem como ele será algum dia. Devemos
ver o homem à luz de seu destino final. Porque, como anteriormente menciona-
do, Cristo, por meio da sua obra redentora, nos eleva em relação ao que Adão
era antes da Queda. Adão ainda podia perder a sua impecabilidade e bem-
aventurança, mas aos santos glorificados isso não poderá mais ocorrer. Adão
era “capaz de não pecar e morrer” (posse non peccare et mori), os santos na
glória, porém, “não serão capazes de pecar e morrer” (non posse peccare et
mori). Esta perfeição, que não se poderá perder, é aquilo para o qual o homem
foi destinado – e nada menos que isso!
Pode-se fazer a seguinte pergunta: como sabemos que, no estado final, o
homem redimido “não será capaz de pecar e morrer”? A Escritura claramente
ensina que não haverá morte na vida por vir: “Tragará [Deus] a morte para
sempre” (Is 25.8); “Semeia-se o corpo na corrupção, ressuscita na incorrup-
ção” (1Co 15.42); “E, quando este corpo corruptível se revestir da incor-
A imagem de Deus: um resumo teológico 109

ruptibilidade, e o que é mortal se revestir da imortalidade, então, se cumprirá a


palavra que está escrita: Tragada foi a morte pela vitória” (1Co 15.54); “e a
morte já não existirá” (Ap 21.4).
Além disso, várias passagens do Novo Testamento ensinam que os santos
glorificados serão sem pecado na vida por vir. Em Efésios 5.27, Paulo afirma
que o propósito final de Cristo para a igreja é apresentá-la “a si mesmo igreja
gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, porém santa e sem
defeito”. O autor de Hebreus diz aos seus leitores, numa referência óbvia aos
crentes falecidos que estão agora, nos céus, aguardando a ressurreição: “ten-
des chegado... [como tais que também são membros da “igreja dos primo-
gênitos”] aos espíritos dos justos aperfeiçoados” (Hb 12.22,23). João vê a
cidade santa ou a nova Jerusalém descendo do céu da parte de Deus e a des-
creve como “ataviada como noiva adornada para o seu esposo” – uma referên-
cia à perfeição final da igreja glorificada (Ap 21.2). A esta igreja aperfeiçoada,
João diz mais adiante, assistirá o direito de entrar pelas portas da cidade do
povo de Deus glorificado na nova terra, ao passo que aqueles que não foram
aperfeiçoados não terão parte nela: “Fora ficam os cães, os feiticeiros, os impu-
ros, os assassinos, os idólatras e todo aquele que ama e pratica a mentira” (Ap
22.14,15).
A perfeição da imagem de Deus no homem está intimamente relacionada à
glorificação de Cristo. Uma vez que Cristo e seu povo são um, seu povo também
participará da sua glorificação. A perfeição final da imagem, portanto, não somen-
te será efetuada por Cristo como também será modelada em Cristo. Na vida por
vir, “assim traremos também a imagem do celestial” (1Co 15.49; RC, ed. 1995).
Na ressurreição, nosso corpo de humilhação será transformado a fim de que seja
semelhante ao corpo glorioso de Cristo (lit., “ao corpo da sua glória”; Fl 3.21).
Assim, seremos inteiramente semelhantes ao Cristo glorificado, não apenas em
nosso espírito, mas também em nosso corpo. O apóstolo João faz uma síntese de
tudo: “Amados, agora, somos filhos de Deus, e ainda não se manifestou o que
haveremos de ser. Sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes
a ele, porque haveremos de vê-lo como ele é” (1Jo 3.2).
Conforme vamos refletindo sobre a perfeição futura da imagem, percebe-
mos que é impossível visualizarmos de um modo exato ou preciso como será
esta imagem aperfeiçoada. Podemos, sem dúvida, encontrar analogias entre a
nossa vida presente e nossa existência futura. Mas serão apenas analogias e
nada mais. Como podemos saber exatamente como será sermos glorificados –
termos o que Paulo chama de “corpo espiritual” (1Co 15.44)? Só conseguimos
falar a respeito dessa existência futura em linguagem figurada, como a Bíblia o
110 CRIADOS À IMAGEM DE DEUS
faz, especialmente no livro do Apocalipse. Mas, visto que essa linguagem figu-
rada pode ser traduzida em conceitos antropológicos, ela nos dá uma descrição
do homem na qual o seu agir na relação tríplice já mencionada é alçado à sua
perfeição final.
Esta perfeição dirá respeito, em primeiro e mais importante lugar, à nossa
relação com Deus. O homem será, então, totalmente voltado para Deus. Então,
haveremos de adorar, obedecer e servir a Deus sem pecado e livres de qual-
quer imperfeição. Louvor e adoração a Deus serão, então, tão naturais e cons-
tantes como o respirar é hoje. O livro de Apocalipse dá a entender que alguns
desses louvores podem soar mais ou menos assim: “Grandes e admiráveis são
as tuas obras, Senhor Deus, Todo-Poderoso” (15.3);47 “Aleluia! Pois reina o
Senhor, nosso Deus, o Todo-Poderoso. Alegremo-nos, exultemos e demos-lhe
a glória” (19.6,7). As nações (aqui, presumivelmente, os santos glorificados)
andarão mediante a luz de Deus (Ap 21.24), e não mais pelo seu próprio enten-
dimento. Os servos de Deus o servirão (Ap 22.3) – não mais fragmentária,
inadequada e pecaminosamente, mas perfeitamente.
A perfeição da imagem também dirá respeito à nossa relação com os nos-
sos semelhantes. O homem, então, amará os seus companheiros e servirá a eles
perfeitamente; quaisquer impedimentos que hoje existem para tal amor desapa-
recerão. Haverá, então, perfeita comunhão numa sociedade perfeita. Todas as
barreiras que agora separam as pessoas desaparecerão – nacionais, raciais,
lingüísticas, culturais ou religiosas. Haverá, então, somente uma igreja, da qual
Cristo será o cabeça. Haverá, então, somente uma “nação”, da qual Cristo será
o rei. Todos os moradores da nova terra serão membros da família de Deus,
unidos uns aos outros com laços profundos e inquebráveis. No entanto, no
meio desta unidade ainda haverá muitas diferenças. Os crentes glorificados não
serão todos iguais, como ervilhas numa vagem. Reterão, cada qual, os seus
talentos e dons pessoais, purgados de todas as suas imperfeições – talentos que
serão utilizados para o enriquecimento de todos. Como uma orquestra sinfôni-
ca produz um único som de muitos instrumentos diferentes, também a comu-
nhão da vida por vir se distinguirá pela unidade no meio de imensa, mas harmo-
niosa, diversidade.
Em terceiro lugar, a perfeição da imagem dirá respeito à nossa relação com
a natureza. No princípio, o homem recebeu o mandato cultural – o mandamen-
to de dominar a terra e de desenvolver uma cultura que glorifique a Deus. Por

47. Quando minha esposa e eu visitamos a Suíça há alguns anos, ficamos emocionados ao encontrar
essas palavras em uma placa no local de onde se pode ver o majestoso Matterhorn!
A imagem de Deus: um resumo teológico 111

causa da queda do homem em pecado, nem mesmo os crentes têm desenvolvi-


do esse mandato cultural da forma pretendida por Deus. Somente na nova terra
esse mandato será cumprido perfeitamente e sem pecado.
Uma das promessas dadas aos crentes é a de que um dia eles reinarão com
Cristo (2Tm 2.12). Em Apocalipse 22.5 lemos inclusive que os crentes glorifi-
cados reinarão para sempre. E no cântico de redenção no mesmo livro afirma-
se especificamente que esse reinado se dará na terra (Ap 5.10).
Como devemos entender isso? O Catecismo de Heidelberg, talvez o mais
conhecido credo reformado, nos dá uma idéia: será um reino pelos santos glo-
rificados sobre toda a criação.48 Na vida por vir, os santos ressuscitados e
glorificados não voarão de nuvem em nuvem em algum lugar distante no espa-
ço, mas estarão vivendo em uma terra renovada.49 Então, pela primeira vez, o
homem dominará e cuidará da natureza exatamente da forma que Deus preten-
deu que ele o fizesse. Os seres humanos serão, então, mordomos, não explora-
dores, da terra, explorando seus recursos e admirando suas belezas de um
modo que redundará em permanente louvor a Deus.50 Reinaremos, então, per-
feitamente sobre toda a criação, com e sob Cristo.
Apocalipse 21.24-26 nos diz que “os reis da terra lhe [à cidade santa que
se achará na nova terra] trazem a sua glória” e que “lhe trarão a glória e a honra
das nações”. Estas palavras fascinantes sugerem que as mais excelentes con-
tribuições de cada nação enriquecerão a vida na nova terra, e quaisquer potencia-
lidades e dons que tenham sido de valor nesta presente vida serão, de algum
modo, retidos e enriquecidos na vida por vir. Isso implica que haverá tanto conti-
nuidade como descontinuidade entre a presente vida e a vida por vir e que, por-
tanto, nossos esforços culturais e científicos, educacionais e políticos de hoje aju-
dam em nossa preparação para uma vida mais plena e mais rica na nova terra.51
As possibilidades que agora surgem diante de nós confundem a mente. Ha-
verá “melhores Beethovens no céu”, como um autor sugeriu?52 Veremos lá me-
lhores Rembrandts, melhores Rafaéis, melhores Constables? Leremos poesia
melhor, drama melhor ou prosa melhor? Continuarão os cientistas a avançar

48. Catecismo de Heidelberg, Resposta 32: “e para depois reinar com Cristo sobre toda a criação por
toda a eternidade” (trad. de 1975, Christian Reformed Church).
49. Para uma apresentação mais completa do ensino bíblico sobre a nova terra, ver o meu livro A Bíblia
e o Futuro (São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1989), Capítulo 20.
50. Cf. o assim chamado cântico da criação em Apocalipse 4.11.
51. Cf. Hendrickus Berkhof, Christ the Meaning of History, L. Buurman, trad. (Grand Rapids: Baker,
1979), págs.188-192. Para um tratamento mais extenso dessa questão, ver Richard Mouw, When the
Kings Come Marching in (Grand Rapids, Eerdmans, 1983).
52. Edwin H. Palmer, “Better Beethoven in Heaven?”, Christianity Today, 16 de Fev., 1979, pág.29.
112 CRIADOS À IMAGEM DE DEUS
nas suas realizações tecnológicas, os geólogos continuarão a explorar os tesou-
ros da terra e os arquitetos continuarão a construir estruturas imponentes e
atraentes? Não sabemos. Mas o que sabemos é que o domínio do homem
sobre a natureza será, então, perfeito. Deus então será magnificado por nossa
cultura por modos que sobrepujarão mesmo os nossos sonhos mais fantásticos.
Na vida futura, portanto, a tríplice relação para a qual o homem foi criado
será mantida, aprofundada e infinitamente enriquecida. Então, amaremos a Deus
sobre todas as coisas, amaremos os nossos semelhantes como a nós mesmos e
dominaremos a criação de um modo que glorificará a Deus. A imagem de Deus
no homem terá sido, então, aperfeiçoada.
Talvez fosse útil, neste ponto, resumir brevemente em que consiste a ima-
gem de Deus, como uma breve sinopse deste capítulo. A imagem de Deus,
constatamos, descreve não apenas algo que o homem tem, mas algo que o
homem é. Ou seja, os seres humanos tanto refletem como representam Deus.
Portanto, há um aspecto sob o qual a imagem inclui o corpo físico. A imagem de
Deus, vimos ainda, inclui tanto o aspecto estrutural como o funcional (algumas
vezes chamados de a imagem lata e a imagem estrita), embora devemos nos
lembrar de que, na concepção bíblica, a estrutura é secundária, ao passo que a
função é primária. A imagem deve ser vista na tríplice relação do homem: com
Deus, com os outros e com a natureza. Quando, no início, criados, os seres
humanos refletiam Deus sem pecado em todas as três relações. Depois da Que-
da, a imagem de Deus não foi aniquilada, mas pervertida, de modo que os seres
humanos agora erram em seu agir em cada uma dessas três relações. No pro-
cesso da redenção, contudo, a imagem está sendo renovada, de forma que o
homem está agora capacitado a voltar-se apropriadamente a Deus, aos outros
e à natureza. A renovação da imagem de Deus é vista na sua forma mais rica na
igreja. A imagem , portanto, não é estática, mas dinâmica – um desafio constan-
te a uma vida de glorificação a Deus. Na vida por vir, a imagem de Deus será
aperfeiçoada; os seres humanos glorificados viverão, então, perfeitamente em
todas as três relações. Após a ressurreição, o homem redimido estará em um
estado mais elevado do que o homem antes da Queda, já que, então, não será
mais capaz de pecar ou morrer.

Observações finais
Algumas poucas observações finais sobre a imagem de Deus ainda podem
ser feitas. Primeira, devemos ver o homem sempre à luz de seu destino. Esse
é um ponto importante, que se deve ter em mente. Ao refletir sobre o ser huma-
A imagem de Deus: um resumo teológico 113

no, não devemos vê-lo apenas como ele é agora, mas como ele poderá vir a ser
um dia. Até agora nos ocupamos com o futuro da imagem de Deus somente
com relação aos que crêem. A Bíblia ensina claramente que o futuro da pessoa
que está em Cristo é a vida eterna em um corpo ressuscitado e glorificado – a
imagem aperfeiçoada. Mas essa mesma Bíblia também ensina que o futuro de
uma pessoa que rejeita a Cristo e continua a viver em rebelião contra Deus sem
arrependimento ou fé é a perdição eterna.53 Devemos, portanto, tratar a nós
mesmos e uns aos outros à luz desse destino futuro.
A possibilidade da perdição futura para aqueles que não estão em Cristo
deveria constranger-nos a cortar a mão ou a arrancar o olho que nos leva ao
tropeço, como nos recomendou fazer Jesus, em vez de gastar a eternidade no
inferno. A idéia de um destino futuro semelhante para pessoas com quem con-
vivemos deve ser um forte incentivo a que lhes demos testemunho de Cristo e
sua salvação. Ao mesmo tempo, a perspectiva da “glória a ser revelada em
nós” deveria nos ajudar a suportar “os sofrimentos do tempo presente” com
paciência (Rm 8.18) e a encorajar-nos a prosseguir para o alvo (Fp 3.14). E a
expectativa de que nossos irmãos e irmãs em Cristo também estão caminhando
para a perfeição final deveria nos ajudar a não somente vê-los como pobres e
vacilantes pecadores, que nos cansam com seus muitos defeitos, mas, ao con-
trário, como tais que brilharão, um dia, como o Sol.
C. S. Lewis expressa esse pensamento vívida e concretamente:
É uma coisa séria... lembrar que a pessoa mais tediosa e desinteressante com quem se
conversa pode ser, um dia, uma criatura que, se você a pudesse ver agora, seria
fortemente tentado a adorar, ou, do contrário, um horror e uma degradação que, hoje,
você encontra, se tanto, somente em um pesadelo. Passamos o dia inteiro, em certa
medida, ajudando uns aos outros em direção a um ou outro desses destinos. À luz
destas possibilidades irresistíveis, com o temor e a circunspecção que lhe cabem, é
que deveríamos conduzir todos os nossos relacionamentos, toda amizade, todo amor,
toda disputa, toda política ...
É eterno aquele de quem fazemos troça, com quem trabalhamos, com quem casamos, a
quem tratamos com indiferença e a quem exploramos – horrores imortais ou esplendo-
res eternos.54
Uma segunda observação é esta: o homem e a mulher juntos são a ima-
gem de Deus. Já assinalamos, no Capítulo 3, o fato de que, só o ser humano ter
sido criado homem e mulher, é um aspecto essencial da imagem de Deus. Karl
53. Ver, por exemplo, Mateus 5.22,29,30; 10.28; 18.8,9; 25.46; Marcos 9.43; João 3.36; 2 Tessaloni-
censes 1.7-9; Romanos 2.5,8,9; Hebreus 10.28,29,31; 2 Pedro 2.17; Judas 7,13; Apocalipse 14.10,11;
21.8. Para uma análise dessas passagens, ver A Bíblia e o Futuro, Capítulo 19.
54. C. S. Lewis, The Weight of Glory (Grand Rapids: Eerdmans, 1966), págs.14,15.
114 CRIADOS À IMAGEM DE DEUS
Barth, como vimos, dá grande ênfase a este ponto: que a existência do ser
humano como homem e mulher não é algo secundário à imagem, mas está na
essência mesma da imagem de Deus. Isso não se deve apenas à diferença de
sexo entre homem e mulher – já que essa existe também nos animais, mas por
causa das diferenças muito mais profundas em termos de personalidade entre
os dois. A existência humana como homem e mulher significa que o ser humano
do sexo masculino foi criado para associação com outro ser que é essencial-
mente igual a ele e, ao mesmo tempo, misteriosamente diferente dele. Significa
que a mulher é a complementação da própria humanidade do homem e que o
homem é inteiramente ele mesmo somente em seu relacionamento com a mulher.55
Conclui-se disso que o homem não é a imagem de Deus por si mesmo e que
a mulher não pode ser a imagem de Deus por si mesma. Homem e mulher só
podem refletir Deus por meio da comunhão entre si – comunhão que é uma
analogia da comunhão interior com Deus. O Novo Testamento ensina que Deus
existe como uma Trindade de “Pessoas” – Pai, Filho e Espírito Santo.56 A co-
munhão humana, como entre homem e mulher, reflete ou espelha a comunhão
entre Deus o Pai, Deus o Filho e Deus Espírito Santo. E, no entanto, há uma
diferença. Pois as pessoas, como as conhecemos, são seres ou entidades sepa-
radas, ao passo que Deus é três “Pessoas” em um Ser Divino. A comunhão
humana, portanto, é somente uma analogia parcial da comunhão divina – toda-
via, é uma analogia.57
Deve-se lamentar, por isso, que nossa língua não tenha um termo corres-
pondente ao alemão Mensch ou ao holandês mens, que siginificam “ser huma-
no, seja homem ou mulher”. O termo homem tem de servir a duas finalidades:
tanto pode significar (1) “ser humano masculino ou feminino” (no sentido gené-
rico) como (2) “ser humano masculino”. Esse uso ambíguo da palavra homem
parece trair uma espécie de arrogância tipicamente masculina, como se o ser
humano do sexo masculino fosse o portador de tudo o que envolve ser uma
pessoa humana. Mas o homem só pode ser plenamente humano em comunhão
e associação com a mulher; a mulher complementa e completa o homem, como
o homem complementa e completa a mulher.58 Quando usamos o termo ho-
mem no sentido genérico, portanto (como se faz muitas vezes neste livro), pre-
cisamos ter isso sempre em mente.
O fato de homem e mulher juntos refletirem a imagem de Deus continuará
55. Cf. Paul Jewet, Man as Male and Female (Grand Rapids: Eerdmans, 1975), págs.38,39.
56. Cf. Mateus 28.19; 2 Coríntios 13.13.
57. Jewett, Man as Male and Female, pág.45.
58. H. Berkhof, De Mens Onderweg, págs.34,35.
A imagem de Deus: um resumo teológico 115

sendo verdadeiro na vida futura. Jesus, uma vez, disse: “Pois, quando ressusci-
tarem de entre os mortos, nem casarão, nem se darão em casamento; porém,
são como os anjos nos céus” (Mc 12.25). A similaridade aos anjos, contudo,
significa tão-somente que, então, não existirá mais casamento; não significa que
deixarão de existir as diferenças entre homens e mulheres. Na ressurreição fi-
nal, não perderemos nossa individualidade; não só será essa individualidade
retida como enriquecida, e a nossa masculinidade ou feminilidade é da essência
dessa existência individual.59
Na vida por vir, portanto, não só continuaremos a refletir Deus como ho-
mens e mulheres em conjunto como seremos, então, capazes de o fazer perfei-
tamente. Não sabemos como tal comunhão e associação entre homens e mu-
lheres se realizará em um estado em que não existirá mais o casamento. Mas
isso sabemos: que somente então veremos como pode ser o relacionamento
entre homens e mulheres em seu sentido mais rico, pleno e belo.
Terceiro, a doutrina da imagem de Deus tem implicações importantes
para a tarefa evangelística da igreja. Embora, como vimos, a Bíblia ensine
que a queda do homem em pecado corrompeu gravemente a imagem de Deus
nele, ela também ensina que o homem decaído ainda deve ser visto como al-
guém que traz em si a imagem de Deus.60 Esse fato requer que consideremos
cada pessoa, seja ele ou ela quem for, indistintamente de nacionalidade ou raça,
independentemente do status econômico ou social, cristão ou não-cristão, como
uma pessoa que existe à imagem de Deus. É isso que é ímpar nos seres huma-
nos; isso é o que lhes dá a dignidade e valor. Mesmo uma pessoa que está
vivendo uma vida desonrosa, que se tornou um pária da sociedade, que não
tem sequer um amigo neste mundo – mesmo uma pessoa assim ainda traz a
imagem de Deus e essa imagem devemos honrar. Porque cada pessoa que
encontramos possui a imagem de Deus, não podemos jamais amaldiçoá-la (Tg
3.9), mas temos de amar essa pessoa e lhe fazer o bem.
João Calvino, tão extremamente consciente da pecaminosidade e da indig-
nidade do homem como alguém jamais poderia ter sido, expressou idêntica
opinião de forma extraordinária:
Não devemos levar em conta o que os homens merecem por si mesmos, mas conside-
rar a imagem de Deus em todos os homens, à qual devemos toda honra e amor....
Portanto, qualquer que seja o homem que você encontre e que necessite de sua ajuda,
você não tem motivo algum para recusar-se a ajudá-lo.... Diga: “ele é desprezível e
indigno”; mas o Senhor o mostra ser alguém a quem ele dignou-se dar a beleza da sua

59. Jewett, Man as Male and Female. págs.40-43.


60. Ver, acima, págs.27-33.
116 CRIADOS À IMAGEM DE DEUS
imagem.... Diga que ele não merece nem mesmo o seu mínimo esforço a seu favor; mas
a imagem de Deus, a qual o recomenda a você, é digna de você dar-se a si mesmo e
todas as suas posses.61
Ao cumprir sua tarefa evangelística ou missionária, a igreja precisa manter
viva a convicção de que cada pessoa na terra traz a imagem de Deus. Cada
pessoa que encontramos ao levar o evangelho é alguém que traz em si a imagem
de Deus. Essa pessoa merece, por isso, nosso respeito e devemos reconhecer
nela essa imagem. Se esta pessoa não está em Cristo, ela tem usado, a serviço
do pecado, os dons que a assemelham a Deus. Embora essa pessoa seja, no
momento, por causa de seu modo de vida pecaminoso, indigna aos olhos de
Deus, ela não está destituída de valor. Deus ainda pode usar esta pessoa no seu
serviço. Deus pode, pelo poder que tem de mudar as pessoas, capacitá-la para
que use os talentos que refletem Deus para o louvor do seu Criador. Por ter
sido criada à imagem de Deus, há potencialidades fantásticas em tal pessoa.
Por isso, continuamos a levar-lhe o evangelho, conclamando-a a que se recon-
cilie com Deus, na esperança de que tais potencialidades possam ainda produ-
zir frutos para o reino de Deus. Nosso interesse, por conseguinte, em evangeli-
zar pessoas, não é apenas o de “salvar almas”, mas o de restabelecer a imagem
de Deus ao seu exercício que lhe compete na totalidade da vida, para a maior
glória de Deus.
Na vida por vir, os frutos da obra missionária e evangelística da igreja serão
plenamente revelados. Então Deus será honrado na reunião final daqueles, de
toda tribo e nação, a quem Cristo comprou com o seu sangue. Então os dons e
os talentos de todos aqueles comprados pelo sangue de Cristo para serem
santos serão usados eternamente para o louvor de Deus. Nossa obra evange-
lística e missionária deveria ser feita com um olhar para esse grande futuro.
A quarta e última observação é esta: a imagem de Deus em sua totalidade
só pode ser vista na raça humana como um todo. Herman Bavinck afirma
isso de modo eficaz:
Não o homem individual, nem mesmo a mulher e o homem em conjunto, mas a humani-
dade como um todo é a imagem de Deus plenamente revelada... A imagem de Deus é
rica demais para ser completamente representada por um único ser humano, não im-
porta quão dotado ele possa ser. Essa imagem só pode ser exposta em suas riquezas e
profundidade na totalidade da humanidade com seus milhões de membros. Como os
traços de Deus [vestigia Dei] estão dispersos nas muitas obras de Deus, tanto no
espaço como no tempo, a imagem de Deus só pode ser vista na sua totalidade em uma
humanidade cujos membros existem uns após e em seguida aos outros.... A essa

61. Inst., III.7.6.


A imagem de Deus: um resumo teológico 117
humanidade pertence seu desenvolvimento, sua história, seu crescente domínio so-
bre a terra, seu avanço em conhecimento e arte, além de seu domínio sobre todas as
outras criaturas. Tudo isso é um descobrir da imagem e semelhança de Deus segundo
a qual o homem foi criado. Assim como Deus não se revelou somente no tempo da
criação, mas continua e aumenta esta revelação dia a dia e de era em era, também
ocorre com a imagem de Deus: ela não possui magnitude imutável, mas se revela e se
desenvolve nas estruturas do espaço e do tempo.62
Ao que se pode acrescentar um comentário recente de Richard Mouw:
Uma das mais fascinantes propostas já feitas nas discussões teológicas da visão
bíblica da “imagem de Deus” é a de que esta imagem tem uma dimensão “corporativa”.
Isto é, não há sequer um indivíduo humano ou grupo que possa plenamente trazer ou
manifestar tudo o que a imagem de Deus envolve, de forma que essa imagem é, em
determinado sentido, coletivamente possuída. A imagem de Deus é, assim, dividida
entre os vários povos da terra. Observando diferentes indivíduos e grupos, consegui-
mos entrever diversos aspectos da plena imagem de Deus.63
Conclui-se disso que só podemos ver as abundantes riquezas da imagem de
Deus à medida que levamos em conta toda a história humana em todas as
diversas contribuições culturais do homem. Quaisquer grandes artistas, cientis-
tas, filósofos, etc., cujas contribuições se somaram ao nosso depósito de co-
nhecimento, arte e realizações tecnológicas, refletem a grandeza do Deus que
capacitou a humanidade com todos esses dons. Poderíamos, inclusive, afirmar
isso da seguinte maneira: tudo o que há em Deus – suas virtudes, sua sabedoria,
suas perfeições – encontra sua analogia e semelhança no homem, embora em
uma forma finita e limitada. De todas as criaturas de Deus, a pessoa humana é a
mais completa e mais elevada revelação de Deus.64 “O estudo próprio da hu-
manidade é o homem”, disse Alexander Pope; mas quando estudamos o ho-
mem, também aprendemos a respeito da majestade de Deus.
Isso significa que não devemos desdenhar as contribuições dos diferentes
grupos de pessoas das muitas nacionalidades e raças; ao contrário, devemos
acolher tais contribuições como positivas ao nosso enriquecimento. Uma apre-
ciação adequada da doutrina da imagem de Deus, portanto, deveria excluir
toda forma de racismo – todo desmerecimento de raças além da nossa própria,
como se fossem inferiores a nós. Deus criou todos os seres humanos à sua
imagem, e todos podem nos enriquecer e iluminar. “A idéia do homem criado à
imagem de Deus requer... atualmente uma deliberada superação das barreiras
por causa de nacionalidade e classe social.”65
62. Dogmatiek, 2:621-622 (citado pelo autor em tradução própria para o inglês).
63. When the Kings, pág.47.
64. Bavinck, Dogmatiek, 2:603-4.
65. Jürgen Moltmann, Man, John Sturdy, trad. (Filadélfia: Fortress Press, 1974), pág.111.
118 CRIADOS À IMAGEM DE DEUS
Mesmo aqueles que vivem em rebelião contra Deus e que fazem sua obra
cultural sem o propósito de louvar a Deus refletem Deus por meio dos dons que
ele lhes concedeu – dons pelos quais podemos agradecer ao Senhor. Mas aqueles
nos quais a imagem de Deus está sendo renovada revelam esta imagem volun-
tária e conscientemente. Nesta renovação da vida dos que são povo de Deus,
vemos a imagem de Deus de forma muito mais plena do que podemos ver nas
contribuições de não-cristãos. Vemos a imagem de Deus na sua forma mais rica
e em maior esplendor somente quando olhamos para a comunidade cristã ao
longo dos tempos e por todo o mundo – em outras palavras, na igreja univer-
sal.66 Quando olhamos para os grandes santos do passado e do presente – o
apóstolo Paulo, Francisco de Assis, Martinho Lutero, João Calvino, Dietrich
Bonhoeffer, Madre Teresa e Billy Graham, apenas para mencionar alguns –
vemos como Deus se parece. E quando experimentamos as alegrias da comu-
nhão cristã num grupo de cristãos onde há “plena aceitação, partilha honesta e
amor genuíno”,67 vemos um reflexo do amor de Deus por nós.
Na vida por vir, veremos a imagem de Deus não apenas em sua perfeição,
mas também em sua inteireza. Todo o povo de Deus, de toda idade e de todo
o lugar, ressuscitado e glorificado, estará, então, presente na nova terra, com
todos os dons dados por Deus e que refletem Deus. E todos esses dons, puri-
ficados agora de pecado e imperfeição, serão usados pelo ser humano pela
primeira vez com perfeição. Então, por toda a eternidade, Deus será glorificado
pela adoração, serviço e louvor daqueles que trazem a sua imagem em um
reflexo cintilante e perfeito das suas maravilhosas virtudes. E se terá alcançado
o propósito para o qual Deus criou a humanidade.

66. Note, nesse contexto, o comentário de Calvino a João 13.34: “Novo mandamento vos dou: que vos
ameis uns aos outros; assim como eu vos amei, que também vos ameis uns aos outros”. Calvino diz: “O
amor é, de fato, estendido aos de fora, pois somos todos da mesma carne e fomos todos criados à imagem
de Deus. Mas, porque a imagem de Deus brilha mais intensamente nos regenerados, é próprio que o
vínculo de amor seja muito mais estreito entre os discípulos de Cristo” (Comm. On John, trad. Parker
[Grand Rapids: Eerdmans, 1979] ad. loc.).
67. Marion Leach Jacobsen, Saints and Snobs (Wheaton: Tyndale, 1972), págs.28,29.