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João Pedro Tereso

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DE MACRO-RESTOS VEGETAIS

EM SÍTIOS ARQUEOLÓGICOS

João Pedro Tereso INTRODUÇÃO AO ESTUDO DE MACRO-RESTOS VEGETAIS EM SÍTIOS ARQUEOLÓGICOS 1ª Edição Maio 2008
João Pedro Tereso INTRODUÇÃO AO ESTUDO DE MACRO-RESTOS VEGETAIS EM SÍTIOS ARQUEOLÓGICOS 1ª Edição Maio 2008
João Pedro Tereso INTRODUÇÃO AO ESTUDO DE MACRO-RESTOS VEGETAIS EM SÍTIOS ARQUEOLÓGICOS 1ª Edição Maio 2008

1ª Edição

Maio 2008

João Pedro Tereso INTRODUÇÃO AO ESTUDO DE MACRO-RESTOS VEGETAIS EM SÍTIOS ARQUEOLÓGICOS 1ª Edição Maio 2008
João Pedro Tereso INTRODUÇÃO AO ESTUDO DE MACRO-RESTOS VEGETAIS EM SÍTIOS ARQUEOLÓGICOS 1ª Edição Maio 2008
João Pedro Tereso INTRODUÇÃO AO ESTUDO DE MACRO-RESTOS VEGETAIS EM SÍTIOS ARQUEOLÓGICOS 1ª Edição Maio 2008
João Pedro Tereso INTRODUÇÃO AO ESTUDO DE MACRO-RESTOS VEGETAIS EM SÍTIOS ARQUEOLÓGICOS 1ª Edição Maio 2008
João Pedro Tereso INTRODUÇÃO AO ESTUDO DE MACRO-RESTOS VEGETAIS EM SÍTIOS ARQUEOLÓGICOS 1ª Edição Maio 2008

Introdução ao estudo de macro-restos vegetais em sítios arqueológicos

ÍNDICE

Introdução

3

I – Enquadramento

5

1.1. Conceitos gerais

5

1.2. Formas de conservação de macro-restos vegetais

7

1.2.1.

A combustão

7

1.3. Contextos onde surgem

8

1.4. Potencial científico – Paleoecologia e Paleoetnobotânica

9

1.4.1. Antracologia

9

1.4.2. Carpologia

12

II – Recolha de macro-restos vegetais

14

2.1. Estratégias de amostragem e recolha

14

2.2. Tratamento de amostras

18

III – Trabalho laboratorial

21

IV – Bibliografia

25

Introdução ao estudo de macro-restos vegetais em sítios arqueológicos

Introdução

Qual o significado de Arqueobotânica, Carpologia e Antracologia? Como se recolhem e estudam carvões e sementes em sítios arqueológicos? Qual o potencial e as limitações dos estudos arqueobotânicos? Que dados nos fornecem? Que dados devemos fornecer ao especialista em arqueobotânica? Este guia introdutório tem como objectivo enquadrar os estudantes de arqueologia, e todos os interessados na temática, nos estudos de materiais de origem vegetal recolhidos em escavações arqueológicas. Se bem que a recolha – pelo menos a recolha manual – de material carbonizado de origem vegetal em intervenções arqueológicas seja hoje em dia algo comum, nem sempre todos os participantes dessas escavações compreendem verdadeiramente as razões da recolha. E nem sempre todos percebem o verdadeiro alcance das abordagens paleobotânicas, ou o porquê de exigirem recolhas sistemáticas e bem controladas. É neste contexto que surge este guia. Nem todos os seus conteúdos são directamente relacionados com aspectos concretos do trabalho de campo, mas visam esclarecer dúvidas a montante e a jusante deste processo, numa perspectiva englobante que enquadra o trabalho de recolha no campo e a interpretação de resultados.

Os estudos arqueobotânicos são uma fase importante da análise das jazidas arqueológicas e não devem ser entendidos como estudos separados e complementares, mas sim integrantes dos trabalhos arqueológicos. Os dados fornecidos por um estudo desta natureza permitem uma maior compreensão das jazidas e das comunidades que nelas habitaram, mas ao mesmo tempo são grandemente tributários dos estudos arqueológicos. Assim, a sua interpretação deve ser realizada à luz do contexto de recolha, tanto no sentido sedimentar, como no sentido arqueológico (associação a uma estrutura ou depósito e sua posição na sequência de ocupação) e histórico (enquadramento num estádio social e cultural). Os estudos arqueobotânicos, tal como as abordagens de outras arqueociências, deverão constituir mais do que conjuntos de dados anexados e contribuir sim para a síntese de conhecimento produzida acerca da realidade estudada. Uma proposta, entre outras possíveis, de esquematização de um estudo arqueobotânico seguiria a seguinte sequência:

Introdução ao estudo de macro-restos vegetais em sítios arqueológicos

Escavação arqueológica (incorporando abordagens de várias arqueociências, seguindo estratégias previamente
Escavação arqueológica
(incorporando abordagens de várias arqueociências, seguindo estratégias previamente estabelecidas)

Estudo arqueobotânico

(recolha de campo, análise laboratorial, análise de dados)

Estudo paleoetnobotânico e paleoecológico

(estudo ecológico e etnobotânico, em conjunto com contextualização arqueológica)

Análise espacial e eco-territorial

(esboço interpretativo local; proposta de base geográfica, etnográfica e arqueológica)

proposta de base geográfica, etnográfica e arqueológica) Análise de dados (articulação entre os dados de diversas
Análise de dados (articulação entre os dados de diversas origens - Arqueologia e Arqueociências)
Análise de dados
(articulação entre os dados de diversas origens - Arqueologia e Arqueociências)

Produção de síntese e divulgação de resultados

Fig. 1 – Esquema de um estudo arqueobotânico

Introdução ao estudo de macro-restos vegetais em sítios arqueológicos

I – ENQUADRAMENTO

1.1. Conceitos gerais

Em Paleobotânica vários conceitos são usualmente utilizados, seja como sinónimos, como designações de diferentes realidades, ou mesmo como representação de abordagens diferentes a uma mesma realidade. Interessa aqui apresentar os seguintes conceitos: Paleobotânica, Arqueobotânica, Paleoecologia, Paleoetnobotânica, Carpologia, Antracologia e Palinologia. Enquanto que Arqueobotânica é entendido aqui como o estudo de vestígios botânicos antigos recolhidos em jazidas arqueológicas, Paleobotânica é um conceito mais aglutinador que representa o estudo de vestígios botânicos antigos, arqueológicos ou não. Ambos os termos são utilizados independentemente do material botânico estudado, do tipo de abordagem, ou da posição epistemológica adoptada (Tereso, 2007). Paleoecologia é o estudo de evidências – botânicas ou não – no sentido da percepção e compreensão de paleoambientes e dos processos que lhes são inerentes, num dado momento ou numa perspectiva diacrónica. Quando é feito a partir do estudo de vestígios recolhidos em jazidas arqueológicas – ainda que sejam raros os contextos que potenciam este tipo de estudos – permite enveredar por aproximações às características e transformações da envolvente dos locais frequentados pelas comunidades humanas em análise. Vários autores utilizam o termo Arqueobotânica como sinónimo desta descrição de Paleoecologia (Badal et al., 2003; Espino, 2004). Jane Renfrew (1973) definiu Paleoetnobotânica como “the study of the remains of plants cultivated or utilized by man in ancient times, which have survived in archaeological contexts”. Este conceito coloca assim a ênfase nas relações entre os seres humanos e os vestígios de origem vegetal enquanto subprodutos das suas actividades num determinado local e num dado momento. Assume-se, assim, que a presença dos mesmos num contexto arqueológico é passível de ser explicada por aspectos sócio-culturais e funcionais (Espino, 2004). A Carpologia é o estudo de sementes e frutos. Quando recolhidos em sítios arqueológicos estes macro-restos vegetais fornecem importantes informações acerca da economia e hábitos alimentares das comunidades humanas antigas. A Antracologia é o estudo de madeiras carbonizadas. Quando encontrados em sítios arqueológicos, os carvões são passíveis de interpretações culturais, nomeadamente no que respeita às estratégias de obtenção e uso de combustível

Introdução ao estudo de macro-restos vegetais em sítios arqueológicos

ao estudo de macro-restos vegetais em sítios arqueológicos Fig. 2 Género Cistus (esteva, sanganho). Em cima:
ao estudo de macro-restos vegetais em sítios arqueológicos Fig. 2 Género Cistus (esteva, sanganho). Em cima:
ao estudo de macro-restos vegetais em sítios arqueológicos Fig. 2 Género Cistus (esteva, sanganho). Em cima:
ao estudo de macro-restos vegetais em sítios arqueológicos Fig. 2 Género Cistus (esteva, sanganho). Em cima:

Fig. 2 Género Cistus (esteva, sanganho). Em cima: flor e pólen (eixo polar: 59 μm – Deforce, 2006). Em baixo: carvão (imagem SEM) e semente (Tereso, 2007).

doméstico; quando recolhidos em séries sedimentares são passíveis de interpretações ecológicas, referentes à flora local, permitindo ainda o estudo de fogos regionais. A Palinologia é o estudo de pólen e outros micro-fósseis. O pólen é uma estrutura muito resistente que facilmente subsiste em condições ambientais muito específicas, nomeadamente ecossistemas permanentemente alagados, tais como pântanos, lagos, lagunas e turfeiras. Nestes contextos é possível obter colunas sedimentares que são autênticas séries temporais, visto a produção, dispersão e deposição polínica serem fenómenos anuais. A identificação dos pólenes ao nível da espécie, género ou família e a sua contabilização e análise estatística permitem obter uma imagem fiável da paisagem ao longo da coluna estratigráfica, ou seja, ao longo de uma série temporal, possibilitando compreender de que modo evoluiu a paisagem regional e quais os factores que condicionaram essa evolução (Mateus, et al., 2003). A integração numa cronologia mais precisa é conseguida com datações de radiocarbono. Embora os vestígios paleobotânicos possam ser de diversos tipos, esta obra introdutória, irá centrar-se unicamente na recolha e estudo de macro-restos vegetais,

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isto é, os vestígios carpológicos e os tecidos lenhosos (antracológicos caso estejam carbonizados).

1.2. Formas de conservação de macro-restos vegetais

São várias as formas de conservação de tecidos lenhosos e carporrestos em sítios arqueológicos, das quais salientamos, na bibliografia existente (Buxó, 1997 e 1990; Marinval, 1999; Piqué, 2006), os seguintes:

- Carbonização, ou seja, a substituição dos elementos orgânicos por

carbono (fossilização) e o consequente afastamento dos mesmos dos ciclos de degradação biológica (não mecânica).

- Existência de condições anaeróbicas, o que acontece em meios

saturados de água, naturais ou artificialmente criados (por vezes dentro dos locais de ocupação humana, como os poços).

- Existência de condições extremas, de aridez, frio ou gelo.

- Contacto com elementos químicos inibidores da actividade bacteriana,

por exemplo, alguns metais (Piqué, 2006). A título de exemplo, a ferrugem de um utensílio pode garantir a preservação de parte do cabo de madeira do mesmo.

- Mineralização dos carporestos através da formação de depósitos de

sílica que, após a morte e decomposição da planta, se conservam enquanto

esqueletos de sílica, replicando a morfologia das superfícies vegetais (Buxó, 1997; 1990). Contudo, nem todas as espécies possuem capacidade de mineralização (Marinval, 1999).

- Impressão de sementes, folhas e ramos em argilas (e.g. de recipientes ou barro de revestimento).

1.2.1. A combustão

A combustão é uma reacção química que exige a presença de combustível e oxigénio e pode ocorrer de forma natural ou artificial. Processa-se em quatro principais fases que se sucedem de acordo com o aumento da temperatura (Chabal, et al., 1999; Badal et al, 2003; Allué, 2002):

1. Desidratação – até aos170ºC

2. Torrefacção – até aos 270ºC

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3. Carbonização ou pirólise (inicio da fase exotérmica) – até aos 500ºC

4. Combustão completa

Nas duas primeiras fases, o material vegetal seca e dá-se uma perda de 35% do peso, em forma de vapor de água, gás carbónico e outros componentes orgânicos. Num sentido estrito, a combustão compreende somente as duas fases finais. A carbonização (pirólise) é uma reacção térmica que conduz à formação de brasas, implicando a degradação química da celulose e da lignina, enquanto que a fase seguinte corresponde a uma reacção oxidante que conduz à formação de cinzas e poderá acontecer sem a presença de chamas. A interrupção da combustão no final da terceira fase, seja por cessar a alimentação de oxigénio ou pela perda de temperatura, conduz à formação de carvões (por calcinação) que, desta forma, mantêm a estrutura anatómica e a morfologia básica do material vegetal original (Chabal, et al., 1999; Badal et al, 2003; Allué, 2002).

1.3. Contextos onde surgem

Na maioria das jazidas arqueológicas em locais secos caracterizados por ambientes sedimentares oxigenados, as únicas evidências paleobotânicas conservadas e passíveis de identificação encontram-se carbonizadas. Desta forma, os locais mais susceptíveis de fornecer macro-restos vegetais são aqueles associados a actividades de combustão (e.g. lareiras, fornalhas, fornos) ou a momentos de combustão ocasionais (e.g. derrubes com evidências de fogo). Estes macro-restos recolhidos em associação com determinado contexto arqueológico bem delimitado são designados de macro-restos “concentrados”.

são designados de macro-restos “concentrados ”. Fig. 3 – Exemplo de carvões concentrados – estruturas
são designados de macro-restos “concentrados ”. Fig. 3 – Exemplo de carvões concentrados – estruturas

Fig. 3 – Exemplo de carvões concentrados – estruturas de combustão romanas

Introdução ao estudo de macro-restos vegetais em sítios arqueológicos

De igual modo, é usual surgirem fragmentos de carvão ou mesmo frutos ou sementes carbonizadas em depósitos dispersos pelas jazidas arqueológicas. Estes podem também resultar das actividades e momentos descritos acima, ainda que tenham sido disseminados por acção humana, na sua vivência diária do local de habitação, ou por processos pós-deposicionais – erosão e transporte sedimentar. Estes macro-restos são designados de macro-restos “dispersos”.

1.4. Potencial científico – Paleoecologia e Paleoetnobotânica

1.4.1. Antracologia

No plano teórico-metodológico coexistem abordagens distintas pretendendo definir as capacidades e limitações dos estudos antracológicos de jazidas arqueológicas em especial no que concerne ao seu potencial para a realização de reconstruções paisagísticas. A posição de índole paleoecológica apoia-se na distinção entre carvões concentrados e carvões dispersos. Os primeiros devem traduzir um único momento de selecção de combustível/material de construção, tratando-se assim de uma amostra não aleatória da vegetação lenhosa, e sendo passível de uma interpretação eminentemente paleoetnobotânica, para as quais a sincronia dos macro-restos recolhidos demonstra ser uma valência (Figueiral, 1994). Por seu turno, os materiais dispersos deveriam fornecer espectros mais completos da paleovegetação envolvente da jazida arqueológica. Estes corresponderiam a acumulações de vários momentos singulares, espelhando diversos momentos de recolha de combustível e limpeza da área de habitação. Segundo alguns autores a recolha sucessiva de madeira atenuaria o factor selecção aumentando a possibilidade de, entre os carvões dispersos, se encontrarem representadas todas as espécies lenhosas da envolvência do habitat e nas proporções directas, ou não – aqui variam as interpretações – face à composição paisagística (Chabal, et al., 1999; Figueiral, 1994). Contudo, em termos estatísticos, uma amostra composta por uma sucessão de gestos selectivos não passa a ser uma amostra aleatória, por maior que seja a acumulação de gestos incluídos. Diversos autores sustentam que a obtenção de combustível lenhoso seguiria o princípio do mínimo esforço segundo o qual, de forma aleatória e não selectiva, seriam recolhidos ramos caídos, secos, privilegiando-se os materiais mais próximos do

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povoado, independentemente das suas características específicas. Desta forma, todas as espécies lenhosas seriam recolhidas na medida da sua abundância (apud Allué, 2002; Espino, 2004 e Piqué, 2006). Do mesmo modo pressupõem que a exploração da madeira far-se-ia em meios associados a outras actividades como a agricultura e a pastorícia, o que, mediante uma correcta amostragem e recolha durante a escavação arqueológica – distinguindo o material disperso – deveria garantir um reflexo fiel do território de exploração (Chabal, et al, 1999; Figueiral, 1994; Vernet, 1999). A posição de índole paleoetnobotânica contesta esta visão optimista do potencial paleoecológico da antracologia arqueológica negando os princípios que a fundamentam. Estudos etnográficos demonstram que as comunidades rurais têm sólidos conhecimentos de base empírica acerca das propriedades das madeiras enquanto material de construção e combustível. A escolha de materiais lenhosos poderia depender dessas propriedades, tal como da articulação entre necessidades da comunidade, disponibilidade no meio e ainda de factores de ordem cultural. Deste modo, a sua presença na jazida dificilmente seria correlacionável quantitativa e estruturalmente, de forma directa, com a biomassa existente (Piqué, 2006; Allué, 2002; Mateus et al., 2003). De igual modo, a ausência de um elemento no registo antracológico nunca poderá significar a sua inexistência na paisagem envolvente do povoado. Por outro lado, o espectro representado pelos fitoclastos dispersos não pode correctamente ser posicionado num momento bem delimitado, antes num intervalo de tempo correntemente inquantificável – o tempo de formação do depósito estudado – durante o qual podem ter-se verificado alterações paisagísticas, homogeneizadas na leitura das evidências arqueobotânicas como um só momento. Parece claro que, embora faça sentido a nível metodológico e mesmo interpretativo a distinção entre carvões dispersos e concentrados, a selecção antrópica encontra-se inerente a ambos, devendo incluir-se na sua interpretação (Uzquiano, 1997). Dada a natureza dos factores que condicionam o registo antracológico, a percepção do seu significado passa primordialmente pela compreensão da jazida e da sua envolvência (Uzquiano, 1997). Por fim, os processos a que são sujeitas as estruturas vegetais até se tornarem parte do registo arqueológico poderão igualmente condicionar a sua interpretação, enviesando a correlação entre a quantidade de material carbonizado e número de indivíduos representados. O processo de fragmentação depende de factores que não são controláveis, tais como as propriedades de cada espécie, as condições em que ocorreu a sua carbonização e ainda diversos processos pós-deposicionais (Allué,

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2002). Acrescente-se que a redução da massa com o fogo poderá não ser proporcional em todas as espécies, o que deverá afectar de forma muito significativa os espectros antracológicos (Chabal, et al., 1999).

os espectros antracológicos (Chabal, et al., 1999). Fig. 4 – Carvalho de folha caduca: toro queimado
os espectros antracológicos (Chabal, et al., 1999). Fig. 4 – Carvalho de folha caduca: toro queimado

Fig. 4 – Carvalho de folha caduca: toro queimado e imagem de microscópio de um corte transversal

Os estudos antracológicos nos sítios arqueológicos, no entanto e apesar dos argumentos acima expostos, são de grande importância e constituem fonte de informação com muitas possibilidades interpretativas. Ao nível das interpretações etnográficas são diversas as linhas de investigação. Partindo do princípio que existe uma selecção humana das madeiras de acordo com os fins a que se destinam, o que pressupõe um conhecimento profundo das matérias- primas, torna-se determinante tentar aceder ao processo inerente a essa escolha. As madeiras seriam escolhidas de acordo com determinadas propriedades, tais como a rigidez, elasticidade e plasticidade – para a construção e artesanato – e as propriedades calóricas – quando a madeira se destinava a servir como combustível (Chabal, et al., 1999). Não obstante, existe um potencial paleoecológico nas análises antracológicas que começa pela simples nomeação da sua presença na paisagem ou região envolvente. É evidente que a escolha de uma determinada matéria-prima lenhosa estaria condicionada, antes de tudo, pela sua disponibilidade – ou seja, a sua presença – na envolvência do sítio ou na área directa de acção das comunidades. Assim, embora seja possível reconhecer componentes de unidades de vegetação não é linear a interpretação do seu peso na constituição da paisagem.

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1.4.2. Carpologia

As análises carpológicas – que etimologicamente deveriam incidir unicamente

sobre frutos – são aqui entendidas num âmbito alargado, incidindo sobre diferentes tipos de estruturas vegetais, nomeadamente, frutos e infrutescências, sementes, tegumentos, pedúnculos, espigas, espiguetas, glumas e segmentos de raquis (Marinval, 1999; Buxó, 1997).

A carpologia arqueológica é entendida como um estudo paleoetnobotânico por

excelência. Tal acontece porque, por um lado, a detecção desses macro-restos está intimamente relacionada com os modos de confecção e estratégias de armazenagem que lhes são inerentes. Por outro, a presença dos indícios carpológicos normalmente resulta de uma recolha que não se processa de forma aleatória, pressupondo uma

forte selecção e frequentemente implicando o seu cultivo e gestão prévios.

A recolha de frutos e sementes por parte de comunidades antigas cumpria

objectivos específicos: a alimentação, a preparação de fármacos e drogas, a produção têxtil e artesanal, a obtenção de combustível (e.g. o azeite), a ornamentação, a realização de rituais e a troca/comércio. Não obstante, é frequente a presença de

sementes de espécies daninhas que acompanham os cultivos, assim como de espécies existentes na envolvência das habitações ou recolhidas como combustível. Numa análise mais imediata, é possível estabelecer algumas linhas de investigação (ver Marinval, 1999 e Buxó, 1997):

- Compreensão da selecção, consumo e modo de preparação de alimentos

vegetais, selvagens e cultivados, e assim deduzir diversos aspectos das paleo-

dietas;

-

Aproximação às diferentes fases e gestos relacionados com as

actividades agrícolas, em articulação com as capacidades tecnológicas de cada

comunidade de um determinado espaço e tempo (implicando um conhecimento arqueológico e histórico de base);

- Conhecimento dos modos de gestão dos territórios e ecossistemas

envolventes de cada paleo-ocupação humana, de acordo com modelos de

organização e hierarquização do território, teóricos e predefinidos (Mateus, 2004), e implicando conhecimentos de base ecológica e etnográfica;

- Estudo de determinados aspectos relacionados com práticas cultuais – oferendas e depósitos funerários.

Por fim, e apesar de também as interpretações carpológicas serem fortemente tributárias do contexto arqueológico (Marinval, 1999) não se pode deixar de salientar

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que a carpologia poderá ter um papel relevante ao nível das interpretações paleoecológicas, sempre como complemento qualitativo (Buxó, 1997), e na estreita relação com o contexto arqueológico em questão, isto é, o seu território de exploração. É referente a este espaço, em especial na sua componente mais imediata face ao povoado, que se obtêm informações relativas à parte da composição florística que acompanha os campos de cultivo (daninhas de culturas) e estruturas rurais (comunidades ruderais).

de culturas) e estruturas rurais (comunidades ruderais). Fig. 5 – Cereais: seara actual e sementes romanas
de culturas) e estruturas rurais (comunidades ruderais). Fig. 5 – Cereais: seara actual e sementes romanas

Fig. 5 – Cereais: seara actual e sementes romanas carbonizadas (Triticum aestivum/durum).

É necessário, contudo, prudência no que respeita à interpretação de dados referentes a estes vestígios botânicos. Contingências de natureza arqueológica prendem-se com as especificidades de cada contexto escavado e a relatividade da sua expressão ao nível da compreensão da jazida no seu todo (raramente totalmente escavada). Outras limitações devem-se à selectividade do processo de conservação desses mesmos vestígios, a carbonização. Uma conservação diferencial de macro- restos carbonizados privilegia as sementes maiores e as que dispõem de pericarpos lenhosos (Buxó, 1997). Por outro lado, e sendo talvez o aspecto mais relevante, a conservação dependerá igualmente das distintas manipulações culinárias de cada fruto ou semente, potenciando desproporcionalidades (e ausências por não conservação) na listagem carpológica (Buxó, 1997). Outras desproporcionalidades poderão advir de diferenças biológicas entre espécies. Assim, numa interpretação carpológica é determinante conhecer a biologia de cada espécie, em especial a sua diasporologia – um indivíduo de uma determinada espécie pode produzir grandes quantidades de sementes e um de outra espécie pode produzir uma só semente – e incluir esses dados na análise de valores numéricos (Badal, et al., 2003).

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II – RECOLHA DE MACRO-RESTOS VEGETAIS

2.1. Estratégias de amostragem e recolha

Numa escavação arqueológica a recolha de carvões e sementes deve ser encarada como um processo rotineiro, a par da recolha de outros artefactos. No entanto, as suas singularidades exigem estratégias distintas (Martínez, et al., 2003). Estão longamente descritas na bibliografia as correctas metodologias de campo que visam a recolha de macro-restos vegetais (veja-se, em especial, Martínez, et al., 2003; Badal et al., 2003; Buxó, 1997 e 1990) Esta recolha deverá constituir uma amostragem com valor representativo para o tipo de estudo que se almeja realizar. Como Badal et al. (2003) referem, os vestígios arqueológicos são sempre parciais pois representam somente uma parte do que foi utilizado. Dessa parte só se conservaram os mais resistentes ou os que foram depositados num contexto que facilitou a sua conservação. Da parte conservada nem sempre se escava tudo. Por isso, a parte recolhida e a porção estudada – caso seja impossível o seu estudo integral – devem ser representativas do conjunto. Deve-se ter sempre consciência de que os tipos de amostragem adoptados condicionam directamente o resultado que se irá obter (Buxó,

1997).

Para além da recolha fortuita ou pontual existem diversos métodos sistemáticos, com várias valência e também alguns problemas. Estes podem ser adoptados isoladamente ou combinando-se entre si. Salientam-se:

- Recolha integral do depósito. Permite uma fiável caracterização do contexto mas exige muito tempo e amplos meios.

- Recolha localizada. É utilizada em áreas com grande abundância de macro-

restos, mas poderá truncar a leitura das realidades pelo facto de pressupor uma escolha das zonas a amostrar. Pode ser eficaz em concentrações de macro-restos em

estruturas bem definidas e de pequenas/médias dimensões (silos, interior de vasos).

- Amostragem intervalada. Pressupõe que haja uma distribuição uniforme dos macro-restos pelo depósito

- Amostragem em coluna estratigráfica. Para efectuar numa determinada

realidade bem definida, com um significado vertical importante (e.g. fossas de detritos). - Amostragem probabilística ou aleatória. Parte do principio, de difícil demonstração, de que cada amostra reflecte de forma correcta o conjunto total de macro-restos da realidade a ser amostrada. Pode condicionar a representatividade dos

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macro-restos, não tendo em conta a heterogeneidade da sua distribuição pelos contextos. - Amostras de volumes constantes por estrato. Por implicar um volume de amostra constante não tem em conta a heterogeneidade, ou a diferença da riqueza em macro-restos, dos contextos que se encontram numa jazida. - Amostragem por estimativa. Recolha de um volume constante – amostra teste – de forma a testar a riqueza de um determinado contexto, permitindo reequacionar caso a caso a estratégia seguida, aumentando ou diminuindo a quantidade de amostras.

seguida, aumentando ou diminuindo a quantidade de amostras. Fig. 6 – Contextos que devem ser alvo
seguida, aumentando ou diminuindo a quantidade de amostras. Fig. 6 – Contextos que devem ser alvo
seguida, aumentando ou diminuindo a quantidade de amostras. Fig. 6 – Contextos que devem ser alvo

Fig. 6 – Contextos que devem ser alvo de amostragens arqueobotânicas, independentemente da estratégia adoptada: estrutura bem delimitada (à esquerda), recipiente com sedimento (ao centro) e depósito com potenciais vestígios de combustão (à direita).

Aconselha-se a articulação de uma amostragem por estimativa com a recolha integral do sedimento de alguns contextos. A amostragem por estimativa, como foi já referido, pressupõe a recolha e flutuação inicial de um volume constante de terra (para todas as U.E.), como teste, dependendo a continuação da recolha da riqueza em macro-fosseis verificada. As principais vantagens deste método são a sua flexibilidade, a adequação a qualquer tipo de realidade, e o facto de tratar cada depósito de forma individual seguindo princípios comuns (Martínez, et al.,2003). Contudo, como salientam os autores, a aplicação deste modelo implica a presença de uma pessoa que se dedique ao tratamento e recolha de amostras, e ainda infra-estruturas que garantam a execução da tarefa a um ritmo imediato. O volume de sedimento que deve ser analisado é demasiado elevado e só uma máquina de flutuação permite o tratamento das amostras em tempo útil do decorrer dos restantes trabalhos de campo.

Introdução ao estudo de macro-restos vegetais em sítios arqueológicos

Na impossibilidade de criar estas condições, o critério mínimo passa pela recolha de amostras de forma sistemática em todos os estratos que visivelmente apresentem macro-restos vegetais ou que estejam associados a contextos que propiciem a sua

presença ou cuja eventual presença de ecofactos se revista de particular importância áreas na proximidade de estruturas de combustão, interior de recipientes, estruturas de armazenagem ou de moagem, fossas e silos (Martínez, et al., 2003). Deste modo, e como resultado das diferentes estratégias que podem ser adoptadas, distinguem-se quatro tipos de amostras/recolhas passíveis de distintas interpretações (Martínez, et al., 2003):

a) Amostras de materiais dispersos. As recolhas devem ser distribuídas

horizontal e verticalmente pela camada;

b) Amostras de materiais concentrados em contextos que apresentem uma

concentração pontual de macro-restos;

c) Recolhas pontuais, manuais, de materiais de significativas dimensões visíveis

durante a escavação;

d) Recolhas integrais. Recolha da totalidade do sedimento, normalmente quando

associado a uma estrutura bem delimitada e de pequenas/médias dimensões.

A quantidade de amostras que se recolhe de cada contexto, deverá ser a adequada a cada contexto e à capacidade logística de tratar essas mesmas amostras, não havendo um número mínimo ou máximo admitido à partida. Deve ser definido inicialmente o volume mínimo de uma amostra, que, por hipótese de trabalho, poderá corresponder a um balde comum, registando-se o volume transportável pelos baldes utilizados.

CUIDADOS A TER Durante as recolhas de amostras no campo existem alguns procedimentos a ter em atenção, para assegurar uma correcta leitura e interpretação de dados, assim como para facilitar e optimizar os trabalhos laboratoriais ou para simplesmente permitir que estes se realizem.

Controlo de proveniência:

- Assegurar o controlo contextual da proveniência dos macro-restos ou amostras, evitando contaminações com realidades sedimentares adjacentes. - Efectuar sempre uma correcta etiquetagem das amostras sedimentares, das recolhas manuais e dos elementos resultantes das flutuações, em todas as fases de

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trabalho, pois o material sem origem não tem qualquer significado. A etiquetagem deve incluir os seguintes dados de proveniência:

-Nome de jazida;

- Quadrado/quadrante/Ambiente;

- Coordenadas de referência (quando aplicável);

- Camada/Unidade Estratigráfica;

- Número de referência ou inventário.

Significado da amostra:

- Referenciar sempre qual o tipo de amostra/recolha: dispersa, concentrada, pontual ou integral.

- Os macro-restos de maior dimensão ou quebrados in situ e em conexão devem ser

recolhidos manualmente e individualizados, para contarem como um só, facilitando a contagem e identificação. Se surgirem durante a recolha de uma amostra sedimentar, deve-se anotar a sua conexão com essa amostra. - Registar a percentagem de sedimento analisada, em especial para contextos fechados, quando não é possível efectuar recolhas integrais. Por vezes o cálculo

poderá ser aproximado (e.g. através da contagem de baldes de terra).

- Registar o volume da amostra (preferencialmente em litros).

Integridade da amostra:

- Em escavação, a recolha de amostras deve ser efectuada de forma cuidadosa para não aumentar a fragmentação dos macro-restos vegetais (e.g. se o contexto

sedimentar permitir, recolher a terra em torrões, estes irão desagregar-se durante a flutuação);

- Os macro-restos (recolhas manuais ou produto de amostragens, após a flutuação) devem ser guardados em recipientes rígidos de forma a diminuir os riscos de fragmentação dos mesmos.

- Manusear de forma apropriada os sacos de amostras e os recipientes com macro- restos vegetais para evitar o aumento da fragmentação dos v estígios.

para evitar o aumento da fragmentação dos v estígios. Fig. 7 – Exemplos de recipientes utilizados

Fig. 7 – Exemplos de recipientes utilizados em diversas fases dos estudos arqueobotânicos

Introdução ao estudo de macro-restos vegetais em sítios arqueológicos

2.2. Tratamento de amostras Há que definir como, após a recolha das amostras, vão ser separados os

vestígios

lguns métodos sejam

de

origem

vegeta l

do

sedimento.

Embora

a

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videntemente mais ade

quados que outros, a verdade é que a escolha dos mesmos

d

everá ter em c

onta a especifi cidade de cada jazida e as condicionantes logísticas de

cada projecto. Os métodos de recuperação de macro-restos vegetais mais comuns são (Buxó,

1997):

- Cr ivagem a seco da totalidade dos sedimentos no campo, durante os

trabalhos, recolhendo-se manualmente os macro-fosseis. Os fragmentos de m enores dimensões não são identificados e não são retidos nas malhas dos

tradicionalmente utilizados em escavações arqueológicas. Acrescente-se

crivos

que este método aumenta o grau de fragmentação dos vestígios botânicos

devido à fricção produzida pela crivagem;

- Crivagem com água, em coluna de crivos. É particularmente eficaz pois

permite a recolha diferencial por dimensão da malha de cada crivo e não implica

um manuseamento excessivo da amostra , salvaguardando a fragmentação dos vestíg ios em estudo. Contudo, é um procedimento lento que exige grande quantidade de água e um esforço logístico muito grande. - Flutuação de sedimentos. Seguindo o principio de que o material carbonizado é menos denso que a água e por isso flutua, recolhendo-se posteriormente por decantação numa coluna de crivos de diferentes malhas.

Não há qualquer dúvida de que o tratamento de amostras por flutuação de

ção

p ermite recolher de forma sistemática o maior número de macro-restos vegetais em meno r tempo. Entre os métodos de flutuação distinguem-se a flutuação com recurso a uma máquina própria e a flutuação manual simples. A primeira é ideal para o tratamento de grandes volumes de sedimento cumprindo o ritmo exigido pelo decorrer dos trabalhos de escavação. Contudo, nem todas as jazidas são propícias a este tipo de equipamento que exige uma grande quantidade de água e um maior esforço logístico. A segunda é eficaz para pequenos volumes de sedimento, ao mesmo tempo que é mais fácil de instalar nas escavações arqueológicas (Buxo, 1997).

sedim

entos é o método que melhor combina eficácia e rapidez. De facto, a flutua

Introdução ao estudo de macro-restos vegetais em sítios arqueológicos

ao estudo de macro-restos vegetais em sítios arqueológicos Fig. 8 – Flutuação manual simples: ilustração de
ao estudo de macro-restos vegetais em sítios arqueológicos Fig. 8 – Flutuação manual simples: ilustração de
ao estudo de macro-restos vegetais em sítios arqueológicos Fig. 8 – Flutuação manual simples: ilustração de
ao estudo de macro-restos vegetais em sítios arqueológicos Fig. 8 – Flutuação manual simples: ilustração de

Fig. 8 – Flutuação manual simples: ilustração de proced imentos.

Fig. 8 – Flutuação manual simples: ilustração de procedimentos.

AA

flutuação manual simples consiste em depositar o sedimento num recipiente

flutuação manual simples consiste em depositar o sedimento num recipiente

que,que, dede seguida,seguida, éé lentamentelentamente cheiocheio dede água.água. AoAo mesmes mo mo tempo tempo procede-se procede-se à à agitação agitação

manual do sedimento, de forma a desagregar torrões de terra e desprender os macro-

manual do sedimento, de forma a desagregar torrões de terra e desprender os macro-

fosse fosse is is de de menor menor densidade densidade permitindo permitindo que que surjam surjam à à superfície. superfície. Decanta-se, Decanta-se, então, então, o o

liquido liquido para para uma uma coluna coluna de de crivos. crivos. Este Este procedimento procedimento repete-se repete-se sucessivamente sucessivamente até até

não não se se verificar verificar a a deposição deposição de de qualquer qualquer macro-resto macro-resto nas nas malhas malhas das das peneiras. peneiras.

As As colunas colunas podem podem conter conter 3 3 ou ou 4 4 crivos, crivos, com com malhas malhas de de 5/4mm, 5/4mm, 2mm, 2mm, 1mm, 1mm,

0,5mm 0,5mm e e eventualmente, eventualmente, de de 0,25mm. 0,25mm. A A utilização utilização de de diferentes diferentes malhas, malhas, seguida seguida do do

acondicionamento acondicionamento separado separado do do conteúdo conteúdo de de cada cada malha, malha, não não só só salvaguar salvaguar da da os os

eleme eleme ntos ntos de de menores menores dimensões dimensões da da pressão pressão exercida exercida pelos pelos maiores maiores como como também também

separam separam de de forma forma graduada graduada os os macro-restos, macro-restos, optimizando optimizando a a sua sua identificação. identificação.

A A

secagem do conteúdo das malhas deve ser lenta, sem contacto directo com o

secagem do conteúdo das malhas deve ser lenta, sem contacto directo com o

sol, para garantir que o material não sofre mais fragmentação.

Como nem todos os materiais flutuam da mesma forma, o sedimento que resta

da flutuação deve ser recolhido e alvo de triagem (integral ou por amostragem,

Introdução ao estudo de macro-restos vegetais em sítios arqueológicos

depe ndendo da disponibilidade de tempo e recursos), com vista à recolha de materiais e à avaliação e validação do método. Por fim, salienta-se mais uma vez que deve ser efectuada uma escolha correcta de recipientes onde se depositam os macro-restos vegetais. Estes devem ser rígidos,

evitar maior fragmentação de material e devem conter sempre a devida

informação de proveniência, com uma etiquetagem que seja facilmente legível e

bastante duradoura. Se possível repetir etiquetagem.

para

Introdução ao estudo de macro-restos vegetais em sítios arqueológicos

III – TRABALHO LABORATORIAL

Pretendendo-se com este guia fazer uma introdução ao trabalho de campo e

também explicar princípios e conceitos inerentes à disciplina. Não se assume como prioritário a descrição aprofundada da componente laboratorial de um estudo arqueobotânico. Interessa, contudo, introduzir a temática.

A primeira fase do trabalho laboratorial é a triagem do conteúdo de cada malha

da coluna de crivos. Esta tarefa é executada com recurso a uma lupa binocular e consiste na recolha de frutos e sementes – material carpológico – entre o conjunto de material carbonizado. De seguida procede-se ao diagnóstico, ou seja, a identificação botânica dos macro-restos recolhidos, existindo procedimentos distintos para carvões e carporrestos. Ainda assim, de forma comum às duas áreas, a identificação é sempre individual, faz-se a cada pedaço de carvão ou a cada semente. Pode-se identificar com diferentes graus de aproximação: desde o grupo (Angiospérmica ou Gimnospérmica), à espécie. Com alguma frequência não se logra ultrapassar o género ou mesmo a família, dependendo da dificuldade de distinção anatómica de

determinados conjuntos de espécies (Badal, et al., 2003).

ANTRACOLOGIA

O estudo de madeiras carbonizadas – antracologia – consiste na identificação

botânica dos fragmentos através do reconhecimento das suas características anatómicas a um nível microscópico. Os fragmentos de carvão de dimensões superiores a 2mm – recolhidos nas malhas mais largas da coluna de crivos – são seccionados manualmente segundo três secções de diagnóstico: transversal, radial e tangencial. A sua observação é depois realizada com recurso ao microscópio óptico de luz reflectida.

A identificação dos taxa realiza-se com base em comparações com colecções de

referência de material actual, atlas de anatomia (Schweingruber, 1990a, 1990b; Vernet, et al., 2001) e estudos anatómicos detalhados de grupos taxonómicos particulares. Na antracologia o fragmento é a unidade de medida – cada fragmento é uma unidade, independentemente da sua dimensão. Estudos comparativos têm demonstrado que o uso da massa, peso ou do nº de fragmentos oferecem resultados equivalentes (Uzquiano, 1997; Badal et al., 2003). Acrescente-se que o último apresenta uma maior rapidez de análise, sendo assim mais vantajoso para estudos desta natureza.

Introdução ao estudo de macro-restos vegetais em sítios arqueológicos

Deve-se analisar uma quantidade de carvões que seja representativa da unidade

de amostra. Para avaliar quando é possível parar o estudo de uma determinada

amostra, são realizadas curvas de esforço-rendimento (Badal, et al., 2003). A

quantidade varia consoante a riqueza floral do contexto estudado. Alguns autores

defendem um mínimo que oscila entre os 200 e os 500 carvões por Unidade

Estratigráfica.

entre os 200 e os 500 carvões por Unidade Estratigráfica. Secção transversal Secção radial Secção longitudinal
entre os 200 e os 500 carvões por Unidade Estratigráfica. Secção transversal Secção radial Secção longitudinal
entre os 200 e os 500 carvões por Unidade Estratigráfica. Secção transversal Secção radial Secção longitudinal

Secção

transversal

Secção

radial

Secção

longitudinal

Fig. 9 – Esquema de secções de madeira (adaptado de Schweingruber, 1990).

CARPOLOGIA

A observação de sementes e demais carporrestos é realizada à lupa binocular e

o diagnóstico efectua-se por comparação morfológica com elementos actuais, com

recurso a colecções de referência, atlas da especialidade (Berggren, 1981) e estudos

detalhados de determinados grupos morfológicos.

No que respeita aos carporrestos, a base de medida é a unidade – cada

carporresto equivale a uma unidade. Deve-se ter particular atenção à distinção entre

exemplares intactos e exemplares fragmentados. Por vezes é possível identificar o

número mínimo de sementes com base na identificação de um elemento particular

destas – e.g. o hilo da fava.

ANÁLISE DE DADOS

A análise dos resultados das identificações antracológicas e carpológicas passa

pela articulação de diferentes factores, dos quais salientamos: quantidade (quantidade

total de macro-restos de um contexto e quantidade de cada espécie), contexto de

Introdução ao estudo de macro-restos vegetais em sítios arqueológicos

recolha, ecologia das espécies, significado económico das espécies, possível

utilização das espécies, significado cultural das espécies e implicações tecnológicas.

O processamento de alguns destes dados faz-se em virtude das questões que

queremos ver resolvidas, e em virtude daquelas que, de acordo com os pressupostos teóricos destas disciplinas e tendo em conta os contextos estudados, poderão ser respondidos.

O recurso a análises estatísticas é particularmente útil, contudo, é necessário ter

em conta as limitações e potencialidades que estas apresentam.

A análise estatística é particularmente útil para a percepção da frequência de

determinadas espécies e a sua distribuição (vertical) na sequência de ocupação e no espaço (horizontal) da jazida. É, assim, uma preciosa ajuda para a caracterização dos próprios contextos arqueológicos permitindo também associar determinados contextos

a determinadas espécies ou a conjuntos de espécies com determinadas

características (anatómicas, económicas). Por outro lado, uma boa e bem planeada análise estatística permite estudar a variabilidade anatómica de determinadas estruturas vegetais, ajudando inclusive à distinção, por vezes difícil, entre determinadas espécies (e.g. a distinção entre as cariopses de diferentes espécies de

trigo; distinção entre madeiras de diferentes espécies de carvalho). No caso da antracologia, e devido a factores já antes explicados, é necessário ter especiais cautelas. A maior abundância de fragmentos de carvão de uma determinada espécie e a sua frequência relativa no conjunto poderá não ter uma correlação directa com a paisagem envolvente. Por outro lado, a existência de diferentes comportamentos face à carbonização e o facto de desconhecermos as condições de combustão (e.g. uma espécie poderá ser utilizada principalmente na fase inicial de combustão e por isso restarem poucos carvões no final) obriga-nos a ter especiais cautelas até ao interpretar os contextos estruturalmente bem delimitados. No que respeita aos carporrestos, como já mencionámos antes, é necessário conhecer a biologia e a diasporologia de cada espécie antes de interpretar quantitativamente a presença das suas sementes (e.g. uma só planta de Amaranthus pode conter milhares de sementes). Por outro lado, como a carbonização é o meio mais comum de preservação/fossilização, há que ter em conta a maior probabilidade de conservação dos carporrestos mais resistentes ao fogo e das espécies cujos carporrestos, em alguma fase do seu processamento pelo homem, estejam associados a actividades que envolvam o fogo. De facto, muitas espécies só são identificadas em casos de incêndios nas estruturas de armazenagem.

1.0

-1.0

Introdução ao estudo de macro-restos vegetais em sítios arqueológicos

C/E C/L L/E C Ts Tm Td L Ta Tc E E/L*1OO L/C*100 -1.0 1.0
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C Ts Tm Td L Ta Tc E E/L*1OO L/C*100 -1.0 1.0 Fig. 10 – Exemplos

Fig. 10 – Exemplos de análise estatística. PCA com biometria de cariopses diferentes espécies de trigo (à esquerda) e gráfico circular com quantidade relativa de cereais numa U.E.

DATAÇÃO ABSOLUTA O trabalho laboratorial, tanto carpológico como antracológico, não impossibilita a datação radiocarbonica pois no laboratório os fragmentos não recebem qualquer tratamento químico. Pelo contrário, a identificação da espécie, previamente à datação, ajuda na interpretação da data obtida. Deve-se referir que as sementes são os macro-restos mais adequados para as datações de C 14 pois têm a vantagem de corresponder a um ano solar tornando a datação mais precisa (Badal, et al., 2003). Processando-se um carvão é possível estar-se a datar mais do que um anel de crescimento anual. Na verdade, 1cm³ de madeira pode conter 100 anéis, consoante a espécie, correspondendo a 100 anos solares (Badal, et al., 2003). Entre os carvões deve-se privilegiar os de espécies arbustivas pois estas têm períodos de vida mais curtos que a generalidade das espécies arbóreas.

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IV – BIBLIOGRAFIA A negrito assinalam-se as referências de leitura aconselhada para uma primeira abordagem a estes temas.

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