Sei sulla pagina 1di 47

3.ªediçãorevista,atualizadaeampliada

Luiz Fltavio Gomes

Eba<harelemDireitodesde1979;mestreemDireitoPenalpela

FaculdadedeDireitodaUniversidadedeSãoPaulo(1989);e

doutorandoemDireitoPenalnaFaculdadedeDireitoda Un~-ersidade(omplutensedeMadrid;profossordeDireitoPenale

ProcessoPenalnoComplexoJurídicoDamásiodeJesusdesde1986

edevárioscursosdepós.graduação,dentreeles:Facultadde DerechodelaUniversidad.Austral,BuenosAires,Argentina; FaculdadedeDireitodaUnisul,SantaCatarina.Foipromotorde

j1.1StiçaemSãoPaulode1980a1983ejuizdeDireitoemSãoPaulo

de 1983a 1998.

Éautorouco-autordevárioslivrospublicadospelaEditoraRevi~a dosTribunais,assimcomoorganizadordoCódigoPenal.Códigode

Pr0<essoPenaleConrutuiçàoFederaldaColeçãoRTMiniCódigos.

Ecolaboradorassiduodediversasrevistasjurídicasespecializadase co-fundatroreprimeiropresidentedoln~itutoBrasileirode GênciasCriminais.IntegrouoConselhoDiretordaRevistaBrasileira

deCiêndasCriminaisnosanosde1993e1994,assímcomoo

ConselhoFiSlaldaAssociaçãoPaulistadeMagistrados.Émembro daAcademiaBrasileiradeDireitoúiminaledaAssociação lnternadonaldeDireitoPenal.ParticipoudaComissãodeReforma doCódigodeProcessoPenalcriadapeloMinistériodaJustiçaem

\992eintegraaatualComissãocomamesmafinalidade.

Antonio Garcfa-PablosdeMolina

ÉcatedráticodeDireitoPenalediretordoInstitutoUniversitário

'eCriminologiadaUniversidadeComplutensedeMadrideumdos

maisrenomadosemodemmcultivadoresdasGêndasCriminaisno

continenteeuropeucontemporâneo,oquesepodeconstatarfaál-

mentenãosópelasólidaformaçãojurídica,comcursosinclusive

nmEstadosUnidosenaAlemanha,senãotambémpelasuavasta,

profícuaereconhecidaproduçãocientíficaquecompreende,além

dedemoseatualizadoslivroseartigm,maisdeduascentenasde

cooferénciasproferidas,grandepartenoestrangeiro,participação

eintervençãoemdezenasdecongressospenaisecriminológicose,

dentreoutras,extensaededicadaatividadedocente.

EDITORAlli1

REVISTA DOS TRIBUNAIS

ATENDIMENTOAO CONSUMIDOR

Tel.: 0800-11-2t33 http://www.rt.con ""r

CRIMINOLOGIA

Dados lotemacionals de Catalogação na Publicação (CJP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Garcfa-Pablos de Molina, Antonio Criminologia : introdução a seus fundamentos teóricos : introdução às bases criminológicas da Lei 9.099/95, lei dos juizados especiais criminais / Antonio García-Pablo de Molina, Luiz Ftãvio Gomes. 3. ed. rev., atual. e ampl. - São Paulo : Editora Revista dos Tribunais, 2000.

Tradução e notas. da primeira parte: Luiz. Flávio Gomes.

Bibliografia.

ISBN 85-203-1940-8

1. Criminologia l. Gomes, Luiz Flávio. li. Título.

00-3689

Índices para catálogo sl.5temático: L Criminologia

Ciência penais 343.9

CDU-343.9

ANTONIOGARCÍA-PABLOSDEMOLINA LUIZ FLÁVIO GOMES

CRI·MINOLOGIA

• INTRODUÇÃO A SEUS FUNDAMENTOS TEÓRICOS

• INTRODUÇÃO ÀS BASES CRIMINOLÓGICAS DA LEI 9.099/95 - LEI DOS JUIZADOS ESPECIAIS CRIMINAIS

3.ª edição revista, atualizada e ampliada

EDITORAm REVISTA DOSTRIBUNAIS

CRIMINOLOGIA

• INTRODUÇÃOA SEUS FUNDAMENTOS TEÓRICOS

• INTRODUÇÃO ÀS BASES CRIMINOLÓGICAS DA LEI 9.099195

' - LEI DOS JUTZADOS ESPECIAIS CRIMTNAIS

3.ª edição revista, atualizada e ampliada

ANTONIO GARCfA-PABLOS DE MOLINA

LUIZ FLÁVIO GoMES

Tradução e noras da primeira parte: Luiz Flávio Gomes

1.•edição: tradução e notas de Luiz. Flávio Gomes da obra de Antonio García-Pablos de

Molina, Criminologia - una introducciân a sus fundamentos teóricos para juristas,

Valência: Ed, Tirant lo Blanch, 1992. São Paulo: RT, 1993 - 2.•edição: São Paulo:

RT, 1997.

00112a

©destaedição: 2000

EDITORAREVISTADOSTRIBUNAISLTDA.

Diretor Responsável: CA&ws HENRIQUE DE CARVALHO Fano

CENTRO DE A1ENDIMENTO AO CONSUMIDOR: Tet. 0800-11-2433

Rua Tabatinguera, 140, Térreo, Loja 01 • Caixa Postal 678 Tel. (11) 3115-2433 • Fax (11) 3106-3772 CEP 01020-901 • São Paulo, SP, Brasil

TODOS OS DIREITOS RESERVADOS. Proibida a reprodução total ou parcial, por qualquer meio ou processo, especialmente por sistemas gráficos, microffimicos, fotográficos, reprográficos, fonográficos, videogrãfícos. Vedada a memorização e/ou a recuperação total' ou parcial, bem corno a inclusão de qualquer parte desta obra em qualquer sistema de processamento de dados. Essas proibições aplicam-se também às características gráficas da obra e à sua editoração. A violação dos direitos autorais é punível como crime (art. 184 e parágrafos do Código Penal) com pena de prisão e multa, busca e apreensão e indenizações diversas {arts. 101 a 110 da Lei 9.610, de 19.02.1998, Lei dos Direitos Autorais).

impresso no Brasil (09-20Q9)

ISBN 85-203-,.1940-8

A

RENATE

14

CRIMINOLOGIA

utro lado, questiona os dispositivos constitucionais que consagram a ressocialização do condenado (como é o caso do artigo 25 da Cons- tituição Espanhola), que não constituem uma mera declaração de "boa ontade" do legislador, senão uma norma jurídica obrigatória que vincula todos os poderes do Estado. m conseqüência - e para garantir uma intervenção reabilitadora do delinqüente - à Criminologia correspondem três metas:

Primeira: esclarecer qual é o impacto real da pena em quem a cumpre; quais os efeitos que produz, dadas suas atuais condições de cumprimento, não os fins e funções "ideais" que lhes são assinalados pelosteóricosapartirdeposições"normativas".Esclareceredesmitificar referido impacto real para neutralizá-lo, para que a inevitável poten- cialidade destrutiva inerente a toda privação de liberdade não se tome irreversível, indelével. Para que a privação de liberdade seja somente privaçãode liberdadeenadamaisqueisso.Dequalquermodo,privação de liberdade digna, de acordo com os parâmetros culturais muito mais exigentes do nosso tempo. Que não tome incapaz definitivamente o condenado,demodo que inviabilize seuposterior retomo àcomunidade uma vez cumprido o castigo.

Segunda:desenhare avaliarprogramasde reinserção,entendendo- ª não no sentido clínico e individualista (modificação qualitativa da personalidade do infrator), senão no funcional; programas que permi- tam uma efetiva incorporação sem traumas para o ex-condenado à comunidadejurídica. removendo obstáculo, promovendo uma recípro- cacomunicaçãoeinteração entre o indivíduo easociedade (nãose trata de intervir somente no primeiro), concretizando uma rica gama de prestações positivas em favor do ex-condenado, assim como das pessoas de seu re1acionamento, quando este retorne ao seu mundo familiar, laboral e social (a possível intervenção não deve terminar no dia em que o condenado é liberado, porque a própria pena prolonga seusefeitos reais muito além deste momento e tampouco cabedissociar o ex-condenado do seu meio).

Terceira: fazer a sociedade perceber que o crime não é um problema exclusivo do sistema legal, senão de todos. Para que ela - sociedade - assuma a responsabilidade que 1he corresponda e se comprometa com a reinserção do ex-condenado. De sorte que o crime

A CRIMINOLOGIA COMO Cl~NCIA EMPÍRICA E INTERDISCIPLINAR

149

seja "compreendido" em termos "comunitários", como problema nas- cido naedacomunidade àqual o infrator pertence. E que se busquem mecanismos eficazes para que essa mesma comunidade receba digna- menteum dos seus membros. A chamada "Psicologia Comunitária"já contacom alguma experiência sobre a viabilidade de tais programas."

(!)criminologia, Política Criminal e Direito Penal. Elas mantêm,~ ' conceitualmente, relações muito estreitas, pois as três disciplinasÍ~ cuidam do delito, embora selecionem seu objeto com critérios autônol ,:;1 mos e tenham seus respectivos métodos e pretensões"

G)Relações entre Criminologia, Política CriminaleDireito Penal. Comefeito, oDireito Penaléuma ciênciajurídica, cultural, normativa:

uma ciência do "dever ser", enquanto a Criminologia é uma ciência empírica, fática, do "ser". A ciência penal, em sentido amplo, cuida da delimitação, interpretação e análise teórico-sistemática do delito (conceito formal, assim como dos pressupostos de sua persecução e suas conseqüências). O objeto da ciência penal tem por base a própria norma legal (objeto "normativo") e os juristas empregam um método dedutivo-sistemático para analisar o fato delitivo, que é concebido por eles como realidade legal,jurídica, cuja compreensão reclama pontos de vista axiológicos, valorativos. A Criminologia, pelo contrário, encara o delito como fenômeno real e se serve de métodos empíricos para examiná-lo. Os critérios jurídico-penais, como já foi afirmado, nãopermitemumadelimitaçãoprecisado objeto da Criminologia,pela mesma razão que aqueles tampouco esgotam o significado ''total do crime como fato real".

As relações entre Direito Penal (Dogmática Penal), Política Criminal e Criminologia, no entanto, não foram historicamente muito

Sobre Psicologia Comunitária e prevenção do delito, vide Favard, A. M. "Participation communautaire et prevention de la délinquencc. Concepts et models", em Livro homenagem aA. Beristain, San Sebastiân, 1989, p. 157 e ss.; Castaignede, J., "Participation cornrnunautaire et prevention de la délinquence: apports d'une recherche sur ce thême",em Livro homenagem a A. Beristain, cit., p. 115 e ss.; Clemente Díaz, M., "La oricntación comunitária en el estudio de Ia delincuencia", cit., p. 384 e

( 271 Uma referência sobre a inabarcãvel bibliografia existente sobre o tema, em García-Pablos, A., Manual de Criminologia, cit., p. 118, nota 41.

ª 6 >

158

CRJMINOLOOIA

Nesta longa evolução das idéias e teorias sobre o crime e 0 delinqüente pode-se constatar um certo deslocamento dos centros de interesses e do próprio método empregado desde a Biologia à Psico- logia e àPsiquiatria, edesde estas à Sociologia, predominandohojeem dia esta ültima.? Mas há uma grande diferença na consideração deste terna entre Europa e Estados Unidos. Na Europa existiu uma dilatada e fecunda tradição "biológica", da qual não se liberou a Psicologia nem aprópria Psicoanálise. NosEstados Unidos, pelo contrário, a análise sociológica mediatiza e orienta todas as investigações, até o ponto em que a Criminologia nasceu como mero apêndice ou Capítulo da Sociologia.

O certo éque ocorreu uma progressiva maturação do pensamento criminológico. Em seu início se formulam teorias, depois genuínos modelos, que no princípio eram simples e mais tarde se tomaramcada vez mais complexos e integrados.

a, Neste sentido, Kaiser, G.• Krimtnologie. cít., p. 154-159.

II

A ETAPA "PRÉ-CIENTÍFICA,, DA CRIMINOLOGIA'

Antesdapublicaçãodafamosaobralombrosiana,quecostumaser citada como "certidão de nascimento" da Criminologia empírica "científica", já existiam numerosas "teorias" sobre a criminalidade. Teorias dotadas de um certo rigor e pretensões de generalização, que transcendem as meras concepções ou representações populares, fruto dosaberedaexperiênciacotidianos. Nesta"etapapré-científica"havia dois enfoques claramente distintos, em razão do método dos seus patrocinadores: por um lado, o que se pode denominar "clássico" (produto das idéias do Iluminismo, dos Reformadores e do Direito Penal"clássico": modeloque se valede ummétodo abstrato, dedutivo eformal); de outro, o que se pode qualificar de "empírico", por ser desta classe as investigações sobre o crime, realizadas de forma fragmentária por especialistas das mais diversas procedências (fisionomistas, frenõlogos, antropólogos, psiquiatras etc.), tendo todos eles emcomum o fato de que substituem a especulação, a intuição e a dedução pela análise, observação e indução (método empírico- indutivo). Ambas concepções coincidem, como é lógico, no tempo e inclusive se prolongam até nossos dias.

oi Sobreos antecedentes mais remotos do pensamento criminológico, vide

Rodríguez Manzanera, L., Criminologta, cit., p. 143 e ss.; Hering, K. H., Der Weg der Kriminologie zur setbstãnâigen Wissenschaft, Band

23, 1966, Kriminalistik Verlag Hamburg, p. 13 e ss.: Bonger, W.,

lntrod11cci611 a la Criminotogta, 1943, México, Fondo de Cultura Económica, p. 72 e ss.

160

CRIMINOLOGIA

L A denominada "Criminologia Clássica'" assumiu o legado liberal, racionalista e humanista do Iluminismo,' especialmente sua

orientação iusnaturalista.

Deduz os postulados que a caracteriza do iusnaturalismo, Conce- be o crime como fato individual, isolado, como mera infração à lei: é a contradição com a normajurídica' que dá sentido ao delito, semque Ja necessária uma referência à personalidade do autor (mero sujeito ativo do fato) ou à sua realidade social, paracompreendê-lo. Odecisivo é mesmo o fato, não o autor. 5 A determinação semprejustada lei,igual para todos e acertada, é infringida pelo delinqüente em uma decisão livre e soberana. Falta na Escola Clássica uma preocupação inequivo- camente "etiológica" (preocupação em indagar as "causas" do compor- tamento criminoso), já que sua premissa iusnaturalista a conduz a atribuir a origem do ato delitivo a uma decisão "livre" do seu autor, incompatível com a existência de outros fatores ou causas quepudes- sem influir no seu comportamento. É, pois, uma concepção mais "reativa" que "etiológica" e, como conclusão, só pode oferecer uma explicação "situacional" dodelito. 6 Opróprio iusnaturalismodaEscola Clássica é inconciliável com as supostas diferenças qualitativas entre os homens honestos e os delinqüentes (tese, pelo contrário, que seria

C2> Sobre aEscola Clássica, videVold, G. B., Theoretical Criminology, cit,p.

18 e ss.: Siegel, L. J., Criminology, p. 92 e ss.; Verter, H. J. e Silvennan,l. J., Criminology and Crime, cit., p. 239 e ss. e 254 e ss.; Schneider,H. J., Kriminologie, cit., p. 92ess.; Lamnek, S., Teoriasde la criminalidad, 1980, México,SéculoXXI,p. 18ess.; García-Pablos,A.,ManualdeCriminología,

cit., p. 197 e ss.

m Neste sentido, Lamnek, S., Teorias de la criminalidad, cit., p. 18. Pelo contrário,AntónOnecaJ. ressaltaainfluênciaiusnaturalistacomodominante

(Derecho Penal, P. G., 1949, p. 35).

< 4 1 Por isso, como diz Vold, G. B., A Criminologia "clássica" oferece uma

"imagem administrativa e legal" (Theoretical Criminology, cit., p. 26).

iSl A pessoa do autor passa a um segundo plano (Larnnek, S., Teoriasdela criminalidad, cit., p. 18 e ss.); mas, em todo caso, trata-se do delinqüente em abstrato, não do homem concreto e real. ' 1 Neste sentido, Matz.a, D., Delinquency and Drift, 1967, NewYork, P· 11; Lamnek, S., Teorias de la criminalidad, cit., p. 18 e ss.; García-Pablos,A.,

Manual de Criminologia, cit., p. 99 e ss.

A CONSOLIDAÇÃO DA CR1MINOL00IA COMO Cl~NCIA

161

mantida pelo positivismo)":" suas premissas filosóficas levam-lhe, assim, a sustentar o dogma da "equipotencíalidade".

Aimagem do homem como ser racional, igual e livre, a teoria do pacto social, como fundamento da sociedade civil e do poder, assim como aconcepção utilitária do castigo, não desprovida de apoio ético, constituem os três sõlidos pilares do pensamento clássico. 8 A Escola Clássica simboliza o trânsito do pensamento mágico, sobrenatural, ao pensamento abstrato, do mesmo modo que o positivismo representará a passagem ulterior para o mundo naturalístico e concreto. 9

Seu ponto débil não foi tanto a carência de uma genuína teoria dacriminalidade (etiologia), senão o intento de abordar o problema do crimemenosprezando o exame da pessoa do delinqüente, assim como do seu meio ou relacionamento social, como se pudesse conceber o delito como uma abstração jurídico-formal. Por outro lado, e com fidelidade aos postulados do liberalismo individualista do seu tempo (legalista e humanitário), foi absolutamente incapaz de oferecer aos poderespúblicos asbases e informações necessárias para um programa político-criminal de prevenção e luta contra o crime, embora fosse um objetivo de especial importância em um momento de crise econômica esocial e de insegurança generalizada. Optou pela especulação, pelos sistemasfilosóficose metafísicos, pelos dogmas (liberdade e igualdade do homem, bondade das leis etc.), deduzindo dos mesmos seus principais postulados. 10

2. Orientação criminológica (pré-positivista) opera no marco das "ciênciasnaturais", não no das "ciências do espírito", embora se deva reconhecer que não se trata de um marco unitário, homogêneo e

(7) ParaaEscolaClássicanãoexistemdiferenças "qualitativas" entre o homem

delinqüenteeonão-delinqüente. Cf. Larnnek, S., Teortas de la criminalidad,

México, Siglo XXI, 1980, p. 18.

11 > Cf. Vold, G. B., Theoretical Criminology, cit., p. 20 e ss.; Mir Puig, S., lntroduccióna lasbases deiderechopenal, Barcelona, Bosch, 1982, p. 175 e ss.

~ 1 > Neste sentido, Vold, G. B., Theoreticol Criminology, cit., p. 31. tiO) A Escola Clássica enfrentou demasiadamente tarde o problema criminal. Limitou-se a responder ao delito com uma penajusta, proporcionada e útil (enfoque reativo), porém não se interessou pela gênese e etiologia daquele nem por sua prevenção.

162

CRIMINOLOGIA

circunscrito em si mesmo, senão do emprego fragmentado e setorial de 1ml novo método: o empírico-indutivo, baseado na observação da pessoado delinqüenteedo seu meio. Estemétodo, como precursordo

positivismocriminológico,antecedeu-lheemanos.Asprincipaisinves-

tigações foram realizadas nos mais diversos campos do saber.

a) Na incipiente "ciência penitenciária", por exemplo, seus

pioneiros Howard (1726-1790) e Bentham (1748-1832) analisaram, descreveram e denunciaram a realidade penitenciária européia do éculo XVIII, conseguindo importantes reformas legais (Howard)" ou formulando a tese da reforma do delinqüente como fim prioritárioda Administração, assim como danecessidade de se valerdo empregode estatísticas (Bentham). 12

b) Tendo em conta a Fisionomia, Della Porta (1535-1616) 13 e

Lavater (1741-1801) preocuparam-se com o estudo da aparência externa do indivíduo, ressaltando a inter-relação entre o somático (corpo)eopsíquico.Aobservaçãoeaanálise (visitaareclusos,prática denecrópsias etc.) foram os métodos empregados pelos fisionomistas.

< 11 > Sua obraSltuaciân de lasprisiones en Inglaterra y Gales (1777) constituiu

um genuíno informe sobre ageografia da dor, segundo Bernaldo deQuirõz. Howard reuniu umvalioso materialempírico sobrearealidadepenitenciária para o legisladorbritânico, obtido mediante a visita nos presídios europeus eoestudodascondições de vidadosreclusos (cf. RodríguezManzanera,L., Criminologia, cit., p. 193; Schneider, K., Kriminologie, cit., p. 93). cm Comopenitenciarista,destacaseu "Panóptico"- prisãocelular (Panopticon. orthelnspection.House), 1791,cujomodelofoi seguidoemalgunspresídios norte-americanos(Vetter,H. J., Silverman,I. J., Criminologyand Crime,cit., p. 244). Como filósofo, é muito conhecida sua fundamentação "utilitarista"

do castigo (em lntroduction to the Principies of Morais and Legisíatio«;

1780)eamensagemdenunciadoraquerealizouem relaçãoàarcaicaebrutal legislação inglesa do seu tempo. Cf. Siegel, L. J., Criminology, cit., p. 95. <1 3 > A obra de Della Porta, De humana physiognomia, 1586. Sorrent, o autor italiano, artista, elaborou uma autêntica técnica da observação, pondo especial ênfase no estudo da expressão corporal: olhos, riso, pranto etc. Algumascaracterísticassomáticas,aseujuízo,teriamrelevânciacriminógena (v.g., anomalias na cabeça, fronte, orelhas, nariz etc.). Cf. Rodríguez Manzanera, L., Criminologia, cit., p. 179.

A CONSOLIDAÇÃO DA CRIMINOLOGIA COMO CiêNCIA

163

Particularmente conhecido é o "retrato robot" que ofereceu Lavater, denominado "homem de maldade natural", baseado nas suas supostas característicassomáticas. E, napráxis, o conhecido "Éditode Valério" ("quando se tem dúvida entre dois presumidos culpados, condena-se 0 mais feio") ou a forma processual que, ao que parece, foi imposta no século XVIII por um juiz napolitano, o marquês de Moscardi ("ouvidas as testemunhas de acusação e de defesa e visto o rosto e a

que se vinculam a tais concepções

fisionômicas, de escasso rigor teórico-científico, porém com grande apoio nas convicções populares e na práxis criminológica. 14 Antecipando-se aos conhecimentos frenológicos, sustentou Lavater" que existe uma correlação entre determinadas qualidades do indivíduo e os órgãos ou partes do seu corpo onde se supõe que têm suasedeeconcentraçãofísicaeascorrespondentespotênciashumanas. A vida intelectual podia ser observada na fronte (testa); a moral e sensitivanosolhose no nariz; aanimale vegetativa nomento (maxilar inferior). Referindo-se ao homem delinqüente "de maldade natural", autêntico precursor do delinqüente nato de Lombroso, dizia Lavater. "temonariz oblíquo em relaçãocom orosto, que é disforme, pequeno eamarelado; não tem abarbapontiaguda; tem apalavranegligente; os ombroscansadosepontiagudos; os olhos grandeseferozes, brilhantes, sempre iracundos (coléricos), as pálpebras abertas, ao redor dos olhos pequenas manchas amarelas e, dentro, pequenos grãos de sangue brilhante como fogo, envolvidos por outros brancos, círculos de um vermelho sombrio rodeiam a pupila, olhos brilhantes e pérfidos e uma lágrima colocada nos ângulos interiores; as sombrancelhas rudes, as pálpebras direitas, a mirada feroz e às vezes atravessada". 16

cabeçado acusado, condeno-o

"),

1141 Sobre o tdito de Valério e a fórmula processual atribuída ao Marquês de Moscardi, vide Rodríguez Manzanera, L., Criminologta, México, Porrua,

1982, p. 180-181.

<rs) Lavater,J. C., teólogosuíço, éautordeDiephysionomischen Fragmentewr BeforderimgderMenschenkennmisundMenschenliebe; 1775-1778,Leipzig-

Winterthur.ParaLavaterapróprianaturezaépurafisionomia.Tudoquantosuced naalmadohomemsemanifestaemseurosto:suabelezaoufeiuracorrespondem comabondadeouamaldadedaquela(ob. cit.,p. 19 ess., 63ess.). llfil Cf RodríguezManzanera, L., Criminologia, México, Porrua, 1982, p. 180;

García-Pablos,A., Manualde Criminologta, Madri, Bspasa, 1988, p. 208e ss.

164

CRIMINOL001A

e) A Frenologia, precursora da moderna Neurofisiologia e da Neuropsiquiatria, deu também uma importante contribuiçãonestaetapa de aproximação empírica, ao tratar de localizar no cérebro humanoas diversas funções psíquicas do homem e explicar o comportamento criminoso como conseqüência das malformações cerebrais. Destaca-se a obra de Gall (1758-1828), 17 autor de um conhecido mapa cerebral dividido em trinta e oito regiões, Spurzheim, 18 Lauvergne" e outros.

Para Gallocrimeécausado por um desenvolvimentoparcial enão compensado docérebro,que ocasiona umahiperfunção de determinado sentimento. De fato, este autor acreditou haver podido localizar em diversos pontos do cérebro um instinto de agressividade, um instinto homicida, um sentido de patrimônio, um sentido moral etc."

Menção especial requer também a obra de CubíY Soler, quetrês décadas antes de Lombroso antecipara uma de suas teses.

A contribuição mais significativa de Cubí Y Soler 21 reside no âmbito metodológico, que foi um dos poucos autores que utilizou

U7> GaU era médico, nacionalizado francês. Publicou em 1810 sua obra "De craneologia"(ou"craneoscopia"),naqualdesenhaumateoriacompletasobre · as possíveis malformações cerebrais e cranianas: tipos, subtipos, variantes etc.Cf.García-Pablos,A.,Manualde Criminología, cit., p. 211 (reproduzin- do o mapa cerebral de Gall). <H> Spurzheirn (1776-1832), discípulo de Gall, difundiu na Inglaterra a obra deste, sustentando que muitas enfermidades mentais são afecções cerebrais. Sobre o autor, vide Tejos Canales, M., que reproduz o mapa cerebral desenhado por Spurzheim (Las ideas penales y criminológicas de M. Cubí Y Soler, Madrid, 1984, Tese de doutoramento, p. 103). <•9l Lauvergne (1797-1859), médico de prisões, francês, sustentou que acausa daconduta delitivaradicavaemum defeituosodesenvolvimentodocerebelo, seguindoatese deVoisin. Traçou, também, seu autêntico retrato "robot"do delinqüente,queéprecursordodelinqüentenatolombrosíano. Suaobra:ln

forcaisconsidéréssouslerapportphysiologique, moral, intellectuel, observét à la bagne de Toulon, Paris, 1841.

ClOl Sobrea contribuiçãodeGall, vide Hering, K. H., Der Weg derKriminologie

zur selbstãndigen Wissenschaft, cit., p. 35; Rodríguez Manzanera, L., Criminologia, cit., p. 183.

ai, Cubf Y Soler, M., (1801-1875), natural de Maiorca, autor de Manual de

Frenolcgia, o sea, Filosofia de entendimiento humano, fundada sobre la

filosofia dei cérebro, 1843, Barcelona, referiu-se explícitamente ao "crimi- noso nato", antes de Lombroso, e caracterizou este "subtipo humano" não

A CONSOLIDAÇÃO DA CRIMINOLOGIA COMO ClêNCIA

165

ummétodo positivo experimental, chegando a realizar inclusive reco- nhecidos trabalhos de campo em determinadas comarcas nas quais haviam elevadas taxas de bócio e imbecilidade. 22 Cubí Y Soler considerava o delinqüente como um enfermo que necessitava de tratamento. 23 Optando, em termos político-criminais, por fórmulas claramente prevencionistas, como bom frenólogo que era, tratou de localizarem diversos lugares do cérebro as faculdades e potências do ser humano, incluídas as criminais." E assim antecipou algumas contribuições genuinamente antropológicas ao associar o delinqüente "nato" com o denominado "tipo hipoevolurivo"."

d) Omesmo sucede com as investigações no campo da Psiquia- tria, 26 cujo fundador, Pinel (1745-1826), 27 realizou os primeiros diag-

só pelos estigmas físicos, senão também pelos traços psicológicos de sua personalidade. Sobre "mapa craniano" em García-Pablos, A., Manual de Criminologia, cit., p. 214. < 22 1 Cf. Castejón, F., Cubí, precursor de Lombroso, em Revista Espaiiola de

CriminologíayPsiquiatria Forense, I, n. ll eIV; Il, n. V,VI eVlll,Madrid,

1929-1930, p. 173 e ss.

<2 3 > CubíY Soler, M., Sistema completo de Frenologia, cit., p.

417 e ss.

<2 4 > ParaCubíYSoler, acausadocomportamentodelitivoresidenasorganizações cerebrais: na hipertrofia de determinados instintos animais - incorrigível - ecorrelativacarênciadesentimentosmorais(SistemacompletodeFrenologta cit., p. 364 e ss.). Certas protuberâncias "nas partes laterais da cabeça" muito mais "avultadas que nas superiores" - dizia o autor - produzem uma tendência incontida para o crime (ob. cit., p. 335 e ss.),

,

(llJ Nestesentido,TejosCanales,Las ideaspenalesycriminolâgicas deM. Cubí

ySoler, Tesis Doctoral, Madri, 1984, p. 282. ll6> APsiquiatriaseconsolidouaolongodoséculoXIXcomodisciplinacientífica

autônoma,peloimpulsodoracionalismootimistacaracterísticodoIluminismo. Ela soterrou velhos mitos e superstições sobre a enfermidade mental e sua incurabilidade, tomando possível uma análise científica e diversificadora da mesma, comose se tratassedequalquer doença somática. No finaldoséculo

XVIII,seuspioneiroscomeçamdistinguirosenfermosmentaisdosdelinqüen-

tes.EnoséculoXIXcriamasprincipaiscategorias.Cf.Hering,K.H.•DerWeg

derKriminologie zurselbstiindigen Wissenschaft, cit., p. 36 ess.

izn Pinel, P. H., médico francês, éconsiderado um dos fundadores da moderna Psiquiatria, por seu trabalho técnico e humanitário. Seu Traité médico-

philosophiq11e sur l'alienatton menta/e (180!, aparecido sob o título Traité

166

CRIMINOLOGIA

nósticos clínicos separando os delinqüentes dos enfermos mentais· devemos também recordar a obra de Esquirol (1772-1840),28 que elaborou as categorias clínicas oficiais vigentes no séculoXIX;também a de Prichardê eDespine." que formularam a tese da "loucura moral" do delinqüente; por último, adeMore! (1809-1873), para quemocrime uma forma determinada de degeneração hereditária, de regressão, ea "loucura moral" um mero déficit do substrato moral da personalidade,"

de la manie) marca o coroamento do sabor psiquiátrico do século XIX. O autor iniciou uma nova era no diagnóstico e tratamento da enfermidade mental, fundando genuínos asilos e centros psiquiátricos para os alienados mentais. Foi um trabalho semelhante ao realizado por Tuke, na Inglaterra, Ch.iarug, na Itália (Toscana) e Langermann naAlemanha (Baviera). 1 21 > Esquirol, o grande teórico da Psiquiatria do séculoXIX, discípulodePinel, assumiu o enfoque frenológico quando estudou as "manias" - loucuras parciais, setoriais - distinguindo três classes delas: intelectivas, afetivase instintivas. Assimcomo seu mestre, tevequeenfrentar aconvicçãodaépoca que via nestes e noutros transtornos o reflexo de uma personalidade demoníaca, absolutamente alienadaeincurável. Cf. Hering, K. H.,DerWeg derKriminologiezurselbstãndigen Wissenschaft,Hamburg,Kriminologische Schriftenreihe, 1966, p. 37. (19) Prichard, J. C., psiquiatra inglês, autor de Treatise on insanity and other disordersajfectingthemind,London, 1835,criouaexpressãomoralinsanity, livre inicialmente de toda conotação ética ou moral. Consistiria em''uma perversãomórbidados sentimentosnaturais,dosafetos disposiçõesmorais eimpulsos naturais, semtranstorno algum dignode menção, nemdefeitode seu intelectoouemsuas faculdades de percepção eraciocínio, e, particular· mente, sem fantasias ou alucinações típicas de enfermidades". OOl Despine, P., Psychologie naturelle, Paris, 1869. Para o autor, o delinqüente éumindivíduosem livre arbítrionemaberturaao mundodosvaloreséticos:

um "louco moral". ( 31 > Morei, médico alemão educado na França, é autor de um Traité des dégénerescenses physiques intetectuelíes et morales de l'especie humaine, Paris, 1857.Aseujuízo, diversosestigmas físicose psíquicosdegenerativos explicariamasdeformidadesdetectadaspelo mesmoem loucosedelinqücn· tes, Referidadegeneração, por sua vez, daria lugar a distintas enfermidades mentais: epilepsia, debilidade, loucura e, inclusive, ao comportamento delitivo. Loucura, crimeedegeneração seriam realidades significativamente associadas. Cf. Hering, K. H., Der Weg der Kriminologie zur selbsta11digen

A CONSOLIDAÇÃO DA CRIMINOLOGIA COMO cr~NCIA

167

e) A Antropologia aparece estreitamente unida às origens da Críminologia, destacando os estudos sobre crânios de assassinos de Broca32ouWilson 33 easinvestigaçõesdeThompson" sobre numerosos reclusos. Emabono delas veio atese deNicholson" no sentido deque 0 criminoso éuma variedade mórbida da espécie humana. Devemos também mencionar Lucas (1805-J885), que enunciou o conceito de atavismo," Virgílio," que dois anos antes de Lornbroso utilizou a expressão "criminoso nato", Dally (1836-1887), 38 Maudsley (1835-

C3lJ Broca(1824-1880), neurologista e patologista, acreditou ter detectado ano- malias nos crânios dos delinquentes. Cf. Bonger, W., Introducciân a la Criminologia, cit., p. 111. C33J Wilson, médico de prisões escocês, depois de estudar cerca de quinhentos crâniosdedelinqüentes,chegouà mesma tesedeThompsoneNicholson: La

transmulônhereditaria de las tendencias criminales, 1869. Cf. Gôppinger,

H., Criminologia, cit., p. 23. iJ,1) Thompson (1810-1873) é autor de: "The hereditary nature of crime" em

Journalofmentalscience, London, 1870, v.XV,p.487ess. edePsychology

ofcriminais, London, 1875. Sustentou o caráter hereditário dadegeneração, acreditando terencontradoestigmas congênitos físicos (na fala, na audição, navisãoetc.) e mentais (epilepsia etc.) nos delinqüentes habituais, que ele qualificou de "subespécie inferior". i 3 i, Nicholson(1845-1907), ''The morbid psychologyofcriminais", emJoumal of mental science, London, 1873 (julho-outubro), 1874 (abril-julho) e 1875 (janeiro-abril-julho). Cf. Rodríguez Manzanera, L., Criminologla, cit., p. 205.

(ló) Lucas,P.,Traitéphilosophiqueetphysiologiquedel'héréditénaturelle, Paris,

1847.Oautorfezreferência auma tendênciacriminal transmissível pela via hereditáriae presentedesde o momento do nascimento do indivíduo. Cf.

Hering, K. H., Der Weg der Kriminologie zur selbstãndigen Wissenschaft,

Hamburg, Kriminologische Schriftenreihe, 1966, p. 39.

()ll Virgflio,A. (1836-1907), autorde Sulla natura morbosa dei delito, realizou umexameantropológico de quasetrezentos condenados, analisando anoma- liascongênitas,estigmas corporais eenfermidadesorgânicas (especialmente dosistema nervoso).

<llll Dally assumiu a teoria da degeneração em sua obra Considérations SLII" les ctiminels att point de vue de {a responsabilité, afirmando que "o delito e a loucura são duas formas de decadência orgânica cerebromentais".

}68

CRlM[NOLOGIA

1918), 39 Manouvrier (1880-1927), Quatrefages (1810- 1892) e ou-

tros.40

Particularrelevância teve aobrade Darwin (1809-1882). Trêsde suas teses foram assumidas em seu momento pela Escola Positiva: a concepção do delinqüente como espécie atávica, não evolucionada; a máxima significação concedida à carga ou legado que um indivíduo recebepormeiodahereditariedadeeumanovaimagemdoserhumano, privadoda importância edo protagonismo que lhe conferira o mundo clássico." ~ Para repetir as palavras de Ferri: "O darwinista sabe e senteque o homem não é o rei da criação, como a Terra não é o centro do universo; o darwinista sabe, sente e mostra que o homem não é mais que uma combinação transitória, infinitesimal da vida; porém uma combinação química que pode lançarraios de loucura ou de crimina- lidade,que podedara irradiação da virtude, da piedade, do gênio,mas não pode ser mais que um átomo de toda a universalidade da vida". 42

3. Especial interesse possui a chamada Estatística Moral ou Escola Cartográfica, cujos principais representantes são Quetelet (1796-1874), Guerry (1802-1866), V. Mair, Fregier e Maygew, genu- ínos precursores do positivismo sociológico e do método estatístico,

(J9J Para Maudsley, o delinqüente é "uma variedade degenerada do gênero humano" (em Crime and insanity, p. 32): uma classe especial de ser vivo, inferior, degenerado; uma subespécie mórbidacujos estigmas se perpetuam pelaviahereditária. Carecedesentidomoralecostumaevidenciartranstornos mentais e outras taras que padece sua família, que mediante o delitoo delinqüente exterioriza seus impulsos típicos de enfermidade. Conforme Maudsley, a falta de sentido moral poderia derivar de um déficit congênito na organização da mente. <40) Em geral, sobre a Antropologia criminal, vide Hering, K. H., Der Wegder

Kriminologie zur selbstãndigen Wissenschaft, cit., p. 44 e ss.; Rodríguez

Manzanera, L., Criminologfa. México, Porrua, 1982, p. 205 e ss.: Bonger, W., Introducciõna la Criminologia, México, Fondo de Cultura Económica, 1943, p. no e ss. e p. 112, nota 31. ( 41 > Em 1895 publicou Darwin, Ch. R.• El origen de las especiespormediode la selecciôn natural, e vinte anos depois, ELorigen del hombre. ,m Perri, E., "li dinamismo biológico di Darwin", em Arringhe e Discorsi, Mílano, Dall'Oglio, 1958, p. 35l.

A CONSOLIDAÇÃO DA CRlMINOLOOIA COMO Cl~NCIA

169

quecriamaconcepçãododelitocomo fenômenocoletivo e fato social _ regular e normal -, regido por leis naturais, como qualquer outro acontecimento, e que deve ser submetido a uma análise quantitativa." No começo do século XIX já não preocupavam na Europa os excessos do sistema penal, senão o incremento da criminalidade e os preocupantes problemas sociais derivados da revolução industrial, que entravam em conflito com o diagnóstico otimista e esperançoso do Iluminismo." Era imprescindível, pois, analisar e explicar de outro modo a preocupante desorganização social e adotar medidas, em conseqüência, baseadas no conhecimento empírico, que restabeleces- semobem-estarsocialemoraldacomunidade. O trânsitodaestatística primitiva, rudimentar, à estatística científica teve lugar no final do séculoXVIIIeprincípiodoséculoXIX,sendodecisivo onovomodelo de Estado - moderno e centralizado - que introduz os registros do estado civil, cujos dados serviram de base aos censos populacionais. O espírito reformador, pois, dos primeiros cientistas sociais, que se sentiram na obrigação moral de dar uma nova resposta aos graves problemassociaisdeproverdaoportunabasecientíficaapolíticasocial e, de outro lado, a progressiva identificação do paradigma científico comos métodos quantitativos e estatísticos, o surgimento dos censos populacionais, os estudos demográficos e registros, cada vez mais perfeitos e complexos, até a generalizada institucionalização dos mesmos, terminariam por impor um novo enfoque do problema criminal: o estatístico"

( 43 > Sobre a Estatística Moral, vide Mannheirn, H., Comparative Criminology,

London, Routledge-Kegan Paul, 1965, I, p. 95 e ss.; V. Õttingen, A., Die Moralstatistik i11 ihrerBedeutungfüreineSozialethick, 188l, p. 20 ess.;Van

Kan,J.,Lescauses économiquesdela Criminalité,Paris,Lyon, 1903, p. 373

ess.; John, V., Geschichte der Statistik, I, 1884, Stuttgart; Schneider, H. J., Kriminologie, Berlin-NewYork, W. de Gruyter, 1987, p. 97 e ss.; Garcia- Pablos,A., Manualde Criminolog(a,Madrid,Ed.EspasaCalpe, 1988, p. 223 e ss.

('4) Assim,Pitch,T., Teoríadeladesviaciônsocial, 1984,MéxicoeditorialNueva

Imagen, p. 40-4I; Morris, T., The CriminalArea. A Study i11 social Ecology,

1957, London, Rutledge Kegan Paul, p. 38 e ss. Hl) Nestesentido: Bongcr,W., lntroducciâtia lei Criminologia, cit., p. 101 e ss.:

Mortis, T., The criminal area, cit., p. 38-43; cf. García-Pablos, A., Ma1111a/

de Criminolog[a, cit., p. 228 e ss.

170

CRIMlNOLOGlA

A Estatística Moral ou Escola Cartográfica representa, para uns,

a inevitável ponte entre a Criminologia Clássica e a Positiva; para

outros o começo genuíno da moderna Sociologia Criminal científica,"

Em todocaso, opoderosomitoLombrosiano" obscureceu injustamente

a valiosa contribuição desta Escola, pouco estudada na Criminologia.

Para a Escola Cartográfica ou Estatística Moral o crime é um fenômeno social, de massas, não um acontecimento individual; o delinqüente concreto, com sua eventual decisão, não altera em termos

estatisticamente significativos o volume e a estrutura da criminalidade. A liberdade individual, em última análise, é um problema psicológico, subjetivo, sem transcendência estatística. Para a Escola Cartográfica, em segundo lugar, o crime é uma magnitude assombrosamente regular

e constante. Repete com absoluta periodicidade, com precisão mecâ-

nica, pois é produto de leis sociais que o investigador deve descobrir

e

formular. Como qualquer outro fenômeno natural, os fatos humanos

e

sociais - o crime é um deles - são regidos, em conseqüência, por

leisnaturais, que amecânicaeafísica socialconhecem. De acordocom esta análise estatística, interessa averiguar não somente as causas do delito, senão também observar sua freqüência média relativa, sua distribuição serial, e identificar suas principais variáveis. O delito, em terceiro lugar, é um fenômeno normal, isto é, inevitável, constante, regular,necessário. Cada sociedadetem suataxadecriminalidadeanual tão inexorável como a taxa de nascimentos ou falecimentos. Qualquer sociedade, em todo momento, deve pagar esse tributo, inseparável de sua organização, fatal. Finalmente, para aEscola Cartográfica, o único método adequado para a investigação do crime como fenômeno social

e sua magnitude é o método estatístico."

Quetelet" sustenta que os fatos humanos e sociais são regidos também pelas leis que governam os fatos naturais, por leis físicas, e

<~, Sobre as diversas opiniões, cf. Rodríguez Manzanera, L., Criminotogta. cit.,

p. 316 e ss. c•rJ Sobre o "mito lornbrosiano", vide Lindesmith, A., e Levin, Y., "The

Lombrossian Myth in Criminology", em American Journal of Criminologt, n. 42, 1937, p. 669 e ss,

< 4 B> García-Pablos, A., Manual de Criminología, cit., p. 225.

t 49 i Quetelet, J. A., (l796-1874), matemático belga, demógrafo, astrônomo e sociólogo, publicou várias obras: Sur l'homme et le développement de ses

A CONSOLIDAÇÃO DA CRTMINOLOGIA COMO CJ#lNCIA

171

propugnaporumanovadisciplina("Mecânicasocial"), assimcomopor um novo método (o estatístico) para analisar citados fenômenos, buscando afreqüência média relativa deles, suadistribuição serial etc. Antecipando-se às conhecidas leis da "saturação" de Ferri, ressaltou este autor a absoluta regularidade com que ano a ano se repetem os delitos, 50 afirmando que se conhecêssemos as complexas leis que regulam o fenômeno social do crime, assim como sua dinâmica, estaríamos em condições de antecipar o número exato e inclusivea classe de delitos que se produziriam em uma sociedade em um dado momento." São conhecidas também as famosas "leis térmicas" deste autor(interdependênciaentreosfatorestérmicoseclínicoseasdiversas classes de criminalidade), assim como seus estudos comparativos da criminalidade masculina e feminina e da influência da idade na delinqüência.V Guerry, 53 por sua parte, realizou os primeiros mapas da crimina- lidade na Europa, conferindo também especial importância ao fator

facultés, ou essai de physique sociale, Paris, 1835; Recherches sur te penchant au crime aux différent ãges", 1831; Du systême social et des lois quilerégissent; 1848.Ao autor sedeve afamosa expressãobudgetdescrime e a conhecida "Curva de Quetelet" (de distribuição do crime). Cf. Garcia- Pablos, A., Manual de Criminología, cit., p. 229 e ss.

< 50 > Sobre a "assombrosa regularidade e constância" do crime, vide Quetelet, 1. A., Phisique Social, cit., I, p. 95-97. Quetelet participou de um rigoroso determinismo científico, mas politicamente foi um reformista. De qualquer modo, seu otimismo realista e a fé nas reformas sociais distam muito da fé cegae ingênua na razão e no progresso que professavam os iluministas. Cf. Garcfa-Pablos, A., Manual de Criminologia, cit., p. 230.

( 511 Quanto à "Curva de Quetelet" (distribuição do crime com apoio na Lei de Gauss),videGarcía-Pablos, A., Manualde Criminologia, cit., p. 231 (fig. l).

< 51 > Sobre todos estes pontos, p. 318-320.

(JJI Guerry, A., (1802-1866), francês, reuniu durante trinta anos as estatísticas européias aplicando ao estudo das mesmas o método cartográfico. Sua obra Essai sur la Statistique Mora/e de la France" (1833), mais descritiva que valorativa, revisa a importância do fator climatológico e submete adistribui- ção do crime na França a uma análise geográfica que lhe permite rebater algumas crenças e convicções muito arraigadas em sua época. Cf. García- Pablos, A., Manual de Criminologia, cit., p. 233 e ss.

vide Rodríguez Manzanera, L., Criminologia, cit.,

172

CRlMINOLOGIA

térmico. Observou, também, o volume constante da criminalidadeem um país, assim como a necessidade de explicá-la não a partir de leis metafisicas ou abstratas, senão com um método (estatístico) que contemple o homem real em situações históricas concretas e determi- nadas, capaz de formular cientificamente as leis naturais - leis do ser, não do dever ser -, que governam o fenômeno coletivo e social da criminalidade.>' Aestatística social teve, ao longo do tempo, um duplo âmbitode influência: porum lado, inspirou a direção sociológica do positivismo europeu, como se pode observar no pensamento de Ferri; de outro, provocou decisivo impacto na moderna Sociologia Criminal norte- americana, cujo pontode partidafoi adenominadaEscola deChicago. Paraos representantes da Estatística Moral, assim, o crime éuma magnitude estável, é dizer, existe um volume constante e regular de criminalidade na sociedade. Essa premissa, sem embargo, seria poste- riormente debatida e questionada por autores que optaram por uma análise dinâmica do comportamentocriminal, os quais ressaltaramnão só os movimentos da criminalidade, senão a conexão entre eles e as principais transformações sociais ocorridas: guerras, modificação dos preços de certos produtos de primeira necessidade, crises socio- econômicas etc. 55 Cabecitar, comestaorientação,Moreau-Cristophe(1791-1898), 56 que destacou a conexão existente entre o desenvolvimento industrial inglês durante os anos 1814 e 1848, de uma parte, e o agudo crescimento da pobreza, que traria consigo superiores índices de criminalidade. Também a obra de V. Õttingen, que ressaltou o movi- mento da criminalidade e sua conexão com a guerra, com os preços decertosprodutos, aépocado ano, oclima, aprofissão etc. Deacordo com seu juízo, as estatísticas comprovam que em tempo de crise

o,i, Apreciação de Guerry muito similar aos pontos de vista de Ferri. Cf. Radzinowicz, L., King, J., The Growth of Crime, cit., p. 75.

0 j 1 Sobre a posterior evolução da

Manual de Criminologia, cit., p. 235 e ss. 1 s 61 AutordeDuproblême de lamisereetde la solution chez lespeuplesanciens etmodernes.Num sentido semelhante, Ducpétiaux (l084-1868), na sua obra LepaupérismedanslesFlandres,relacionouaagudacriseindustrialeaperda da colheita de batata com a criminalidade.

Estatística Moral, vide García-Pablos, A.,

A CONSOLIDAÇÃO DA CR.IMlNOLOOIA COMO Cl~NCIA

173

aumentaodelitoderouboe, de maneiraespecial, os delitos cometidos por mulheres e crianças; enquanto cm tempo de prosperidade se incrementaria a criminalidade violenta e agressiva/" G. V. Mayr," questionou a chamada freqüência relativa do delito por considerar insustentávelatese de Queteletdo vo1umeconstantedacriminalidade. Segundo seu ponto de vista, pelo contrário, as oscilações ambientais e temporais - e as espaciais - seriam muito significativas. De modo muitoparticular, volume e movimento da criminalidade seriam fatal e necessariamentecondicionadosporfatores sociais, que fogemda livre decisãohumana. V. Mayr sustentou também aexistênciade uma cláia correlaçãoestatísticaentreos delitos contraopatrimônioeopreçodo grãos e sementes da época. 59 Cabe citar ainda Rawson W. Rawson, representante genuíno da ecologia social, que formulou uma análise comparativa da criminalidade nos diversos distritos (agrícolas, fabris, minerais e metropolitanos) e chegou à conclusão de que o emprego seria um fator decisivo; e junto com o emprego o processo de concentração urbana, mais importante que a própria densidade da população.f Por último, merece menção Mayhew 61 por seu caráter

< 5 )) V Õttingen (1827-1905), teólogo alemão, é autor de DieMoral-Statistik in

inherBedeutungfüreineSozialethik. Cf. Schneider, H. J., Kriminologie,cit.,

p. 99 e ss. r 51 > G. V. Mayr (1841-1925), alemão, foi autor de numerosas publicações que aparecem ao longo de quarenta anos: Statistlk der gerichtlichen Polizei im

Kõnigsreich Bayern, Statistik und Gessellschaftslehere, Kriminalistik und

Kriminalãtiologie.Sobresuacontribuição,cf. Schneider, H. J.,Kriminologie,

cit., p. 100 e ss. <l 9 > Vide Beitrãge zur Statistik der Kõnigsreicli Bayern, cit., p. 249. Sobre o

diagramadeV. Mayrrelacionandoosdelitos deroubo eopreçodassemente deBaviera, vide García-Pablos,A., Manualde Criminologia,cit., p. '237 (fig.

3); cf. Bonger, W., Introducciõn a la Criminologia, cit., p. 108.

(t,(l) Autor de "An lnquiry into the Statistics of Crime in England and Wales",

1839, publicou em Journal Stattsttcat Society London, 1839, vol. 2. Cf.

Mortis, T., The Criminal Area, cit., p. 53-54. Um influente sucessor do mesmo foi J. Fletcher, que publicou seu "Moral and Educational Statistic ofEngland and Wales" (1848-1849) relacionando instrução e criminalidade

cmIournalStatisticalSocietyLondon, 1848, v. TI, p. 344-366; ev. 12, 1849,

p. 151-335.

rin Suas duas obras principais: London Labour and tire London Poor (1862) e

The Criminal Prisons of Lo11do11 and Scenesfrom Prisons Life.

174

CRIMlNOLOGlA

reformador e por sua intensa atividade investigadora que conferem à ua obra um perfil muito singular. Diferentemente dos outros autores, não se limitou a interpretar as estatísticas oficiais, senão queconseguiu pessoalmente a informação e os dados necessários insitu, é dizer, nas ruas e casas comerciais de Londres. Seu propósito era demonstrarque ocrime éum fenômeno que se perpetua através de atitudes anti-sociais e pautas decondutas transmitidas de geração ageração em umcontexto social caracterizado pela pobreza, pelo álcool, pelas deficientes condi- çõesde moradiaepela segurança econômica. Segundo Mayhew,contra posturas academicistas e moralizantes de sua época, o crime não procede da mera flacidez moral nem de forças sobrenaturais, senãode condições sociais do momento. Sua obra é um excelente documento sobre a cidade de Londres na época vitoriana, que está acompanhado de mapas e tabelas que refletem a distribuição delitiva de acordo com quinze variáveis e por regiões."

c~n Mayhew é um genuíno precursor da Ecologia social e sua obra contém sugestivas análises de áreas. Vide Morris, T., The CriminalArea, cit., P·

60-63.

m

A ETAPA CIENTÍFICA DA CRIMINOLOGIA

A etapa científica, em sentido estrito, da nossa disciplina começa nofinaldoséculopassadocom o positivismo criminológico, isto é,com aScuola Positiva italiana que foi encabeçada por Lombroso, Garófalo e Ferri. Surge como crítica e alternativa à denominada Criminologia clássica, dando lugar a uma polêmica doutrinária conhecidíssima, que é, em última análise, uma polêmica sobre métodos e paradigmas do científico (o método abstrato e dedutivo dos clássicos, baseado no silogismo,frente aométodo empírico-indutivo dos positivistas, baseado na observação dos fatos, dos dados). A Scuola Positiva italiana, no entanto, apresentaduas direções opostas: a antropológica deLombroso e asociológica de Ferri, que acentuam a relevância etiológica do fator individual e do fator social em suas respectivas explicações do delito. De qualquer maneira, esta Escola, enquanto ponto de partida da Criminologia "empírica", inaugura o debate contemporâneo sobre o crime e a polêmica entre as diversas Escolas.

Para o efeito da presente exposição, distinguiremos dois momen- tos: o da Escola Positiva e o posterior da "luta" de Escolas.

1. A Escola (Scuola) Positiva 1

O fator aglutinante do positivismo criminológico foi o método empírico-indutivo ou indutivo-experimental que era sustentado pelo

u> Sobre a Escola Positiva, vide Mannheim, H., Pioneers in Criminology, cit. (Introducción); Sicgel, L. J. Criminology, cit., p. 123 e ss.: Vold, G. B.,

176

CRIMINOLOGIA

eus representantes frente à análise filosófico-metafísica que reprova- amnaCriminologiaClássica. Referido método seajustavaaoesquema "causal-explicativo", que o positivismo propôs como modelo ou paradigma de "ciência". Os postulados da Escola Positiva, em contraposição aos da Escola Clássica, 2 podem ser sintetizados desta maneira: €>delito é concebido como um fato real e histórico, natural, não como uma fictícia abstraçãojurídica: sua nocividade deriva nãoda mera contradição com a lei que ele significa, senão das exigências da vida social, que é incompatível com certas agressões que põem em perigo suas bases; seu estudo ecompreensão são inseparáveis doexame do delinqüente e da sua realidade social; interessa ao positivismo a etiologia do crime, isto é, a identificação das suas causas como fenômeno, e não simplesmente a sua gênese, pois o decisivo será combatê-lo em sua própria raiz, com eficácia e, sendo possível, com programas de prevenção realistas ecientíficos; a finalidade da leipenal não é restabelecer a ordemjurídica, senão combater o fenômeno social do crime, defender a sociedade; o positivismo concede prioridade ao estudo do delinqüente, que está acima do exame do próprio fato, razão pela qual ganha particular significação os estudos tipológicos e a própria concepção do criminoso como subtipo humano, diferente dos demais cidadãos honestos, constituindo esta diversidade a própria explicação da conduta delitiva.

positivismo é determinista, qualifica de ficção a liberdade

- t,O

humana e fundamenta o castigo na idéia da responsabilidade socialou na do mero fato de se viver em comunidade. Por último, ao contrário da Criminologia Clássica, que tinha conotações com o pensamento iluminista e que adotou uma postura crítica frente ao ius puniendi estatal, o positivismo criminológico carece de tais raízes liberais, é dizer, propugna por um claro antiindividualismo inclinado a criar

obstáculos à ordem social, e se caracteriza adernais por sobrepor a rigorosa defesa da ordem social frente aos direitos do indivíduo e por

Theoretical Crimlnologv, cit., p. 35-47; Hering, H. K., Der Weg der

Kriminologte zur selbstãndigen Wissenschaft, cit., p. 27-87; Marro, A., Precursorieprimordideli'antropologiacriminale, 1908,Turin;Bonger,W., Introducciôna la Criminologta, cit., p. 110e ss.; García-Pablos,A.,Manual

de Criminologia, cit., p. 241 e ss. m Cf. Garcfa-Pablos, A., Manual de Criminologia, cit., p. 243 e ss. (especial- mente p. 267 e ss.),

A CONSOLIDAÇÃO DA CRIMINOLOGIA COMO Cf~NCIA

177

diagnosticar o mal do delito com simplistas atribuições a fatores patológicos (individuais) que exculpam de antemão a sociedade.

a) A antropologia de Lombroso. 3 Lombroso (1835-1909) repre- sentouadiretrizantropológica. Sua obra TratadoAntropológico Expe- rimentaldoHomem Delinqüente, publicadaem 1876,marcaasorigens da Criminologia científica, e ele é considerado o seu fundador. Médico, psiquiatra, antropólogo, político, foi um homem polifacético e genial, como demonstra sua extensa obra que aba~ca

temas médicos (v.g., Medicina legal), psiquiátricos (Os avanços da Psiquiatria), psicológicos (0 gênio e a loucura), demográficos (Geo-

grafiamédica), criminológicos (L'uomo delincuente),políticos(osdois volumes aparecidos emAvanti, órgão de divulgação do Partido Soci- alistaitalianodostrabalhadores,aoqualpertenceu),assimcomooutros históricos, astrológicos e espíritas. No total, mais de seiscentas publi- cações." A contribuição principal de Lombroso para a Criminologia não reside tanto em sua famosa tipologia (onde destaca a categoria do "delinqüente nato") ou em sua teoriacriminológica, 5 senão no método que utilizou em suas investigações: o método empírico. Sua teoria do "delinqüente nato" foi formulada com base em resultados de mais de

quatrocentasautópsiasdedelinqüenteseseismilanálisesdedelinqüen-

tes vivos; e o atavismo que, conforme seu ponto de vista, caracteriza

o tipo criminoso - ao que parece -, contou com o estudo minucioso

de vinte e cinco

mil reclusos de prisões européias. 6

( 3 > Para uma resenha bibliográfica sobre C. Lombroso, vide Garcfa-Pablos, A., Manual de Criminologia, Madri, Espasa, 1988, p. 251; também Marvin E. Wolfgang, "Cesare Lombroso", em Pioneers in Criminology, cit., p. 168 e W · ( 4 > UmasistematizaçãodaprolixaobradeLombroso,emRodríguezManzanera, L., Criminologia, cit., p. 254; Marvin E. Wolfgang, em "Cesare Lombroso", cit., p. 225-226. <l> Nopensamentolombrosianoinfluíram váriosautores,especialmente:Comte, Darwin,Virchowe Haeckel.Mas, emtodocaso, Lornbrososofreu influência do clima científico e cultural de sua época: do positivismo francês, do materialismoalemãoedoevolucionismoinglês.Cf. MarvinE. Wolfgang,em "Cesarc Lornbroso", Pioneers, cit. p. 170-182. < 6 > Vide Rodríguez Manzanera, L., Criminologia, cit., p. 274.

17

CRIMINOLOGIA

Do ponto de vista tipológico,"distinguia Lombroso seis gruposde delinqüentes: o "nato" (atávico), o louco moral (doente), o epilético, o louco, o ocasional e o passional. Essa tipologia seria enriquecida, posteriormente, com o exame da criminalidade feminina (la Donna

deiincuente) 8 edodelito político (Elcrimenpollticoylasrevoluciones).

Emtodocaso,Lombrosomitigariasuas iniciaisclassificaçõestipológicas em sua obra. - escrita em época mais madura - El crimen, causas y remedias, que implica o reconhecimento da transcendência dos fatores ociais e exógenos no delito."

Dentro da teoria lornbrosiana da criminalidade ocupa um lugar destacado'? a categoria do delinqüente "nato", isto é, uma subespécie

m A tipologia lombrosiana consolida-se na 4.• edição do l 'uomo delincuenu, 1889, Torino, Bocca, dois volumes (l." edição, 1876, Milano, Hoepli, um volume).

li> Lombroso,C. eFerrem, G.,LaDormaDelincuente,LaProstitutaeLaDonna

Normale, Torino, Bocca, 1903. Lombroso, ao que parece, não concebeu a mulher delinquente como um subtipo autônomo e sui generis, porém suas idéias a respeito eram muito significativas. Conforme esse autor, a forma natura) de regressão na mulher é a prostituição, não o crime. A prostituição seriaum fenômeno atávico específico da mulher, sucedâneo esubstitutivoda criminalidade. Os estigmasdegenerativos do delinquente "nato" são, confor- me Lombroso, muito mais temíveis que seu homônimo masculino. Cf. Ma.rvin E. Wolfgang, "Cesare Lornbroso", em Pioneers, cit., p. 191-192.

C9l Lornbroso deu importância, também, ao fator "classe social", contrapondo a criminalidade "violenta" das classes sociais baixas à criminalidade astuta, fraudulenta, própriadas classesprivilegiadas. Uma célebrepassagemdaobra citada- dificilmenteconciliável com a ideologiapolítica (socialista)doautor -justificatalcontraposição invocando asuperioridadedaquelas últimas- por ser classes hiperevoluídas -. enquanto as classes sociais oprimidas represen- tariam o passado e a brutalidade atávica. Semelhante contradição se verifica, também, no socialista Ferri (vide o notável paralelismo entre Elcrimen, sus causas y remedios, Boston, 1913, Little Brown, p. 52, e Los Nuevos

Horizontes del Derecho ee! Procedimiento Penal, cit., p. X. 6 e 250-252).

,,ri) Nãoobstante-e porinfluênciadeFerri -,Lombroso foi diminuindoprogres- sivamenteaimportânciadotipode"delinquentenato".Noprincípiosustentava

queestetiporepresentariade65%a70%dototaldacriminalidade.Opercentual

foi reduzido a40% na últimaedição de L/uomo delincuenre. Em suaobrade sua fase madura (E!crimen; sus causasy remedias) sustentou o autorque 1/3 dos delinqüentes pertenciam à categoria de "delinquentes natos".

A CONSOLIDAÇÃO DA CRIMINOLOGIA COMO Cl~NCIA

179

ou subtipo humano (dentre os seres vivos superiores, porém sem alcançar o nível superior do "homo sapiens'í'i, degenerado, atávico 11 (produtodaregressão, nãodaevoluçãodasespécies),marcadoporuma sériede"estigmas", que lhe delatameidentificam e se transmitempor via hereditária. Lombroso iniciou suas investigações antropológicas a partir do que supôs encontrar ao examinar o crânio de um conhecido delinqüente ("uma grande série de anomalias atávicas, sobretudo uma enormefosseta occipital média euma hipertrofia do lóbulo cerebeloso mediano (vermis), análoga à que se encontra nos vertebrados inferio- res")." E baseou o "atavismo" ou caráter regressivo do tipo criminoso noexamedo comportamento de certos animais e plantas, no de tribos primitivas e selvagens de civilizações indígenas e, inclusive, emcertas atitudes da psicologia infantil profunda. 13

acordo com o seu ponto de vista, o delinqüente padece urna

série de estigmas degenerativos comportamentais, psicológicos e so- ciais (fronte esquiva e baixa, grande desenvolvimento dos arcos supraciliais, assimetrias cranianas, fusão dos ossos atlas e occipital, grandedesenvolvimento das maçãs do rosto, orelhasem forma de asa, tubérculo de Darwin, uso freqüente de tatuagens, notável insensibili- dade à dor, instabilidade afetiva, uso freqüente de um determinado jargão, altos índices de reincidência etc.). 14

pDe

< 11 > Adescriçãodo delinqüente"nato"comotipoinferior, atávico edegenerado, emL'uomo delincuente, Torino, Fratelli Bocca, 1889, 4.ª ed., I, p. 59 e ss., e 62-68. A obra termina com esta afirmação: "Portanto, o delito se nos apresenta como um fenômeno natural". A idéia do "atavismo" ou regressão das espécies a um nível filogenético do desenvolvimento muito anteriorhaviasidoformulada, dentre outros, porDarwin (Descent ofMan, 1881, 2.ª ed., p. 137) e é retomada por Lombroso por ocasião de certos estudos antropométricos realizados por este. < 12 l Lombroso, C., "Discours d'Ouverture du VI Congres d'Antropologie

Criminellc", emAnnales Iniemationales de Criminologie, 6 Anne, 2. Sem.,

Paris, 1967, p. 557 ess. Como acreditou confirmareste "descubrimento" ao estudar,depois,aVerzcni(umsádicoeviolador)eaMisdea(soldadoepiléptico eassassino), cm Marvin E. Wolfgang, "CesareLombroso", cit., p. l84~185. U 3 > Paraumaexposiçãoecríticadosingular "evolucionismo" lombrosiano, vide

Bonger, W., Introducciõn a la Criminologia, cit., p. 116 e ss.

0 ~> Lombroso, C., L'uomo deltncuente, cit., l897, 5." ed., 1, p. J osestigmas e retrato "robot" lombrosiano do delinqüente nato, videMarvin E. Wolfgang, "Cesarc Lombroso", cit., p. 186 e ss.; Martín Garcfa, Alicia,

•••••

180

RIMINOLOGIA

Em sua teoria da criminalidade Lombroso inter-relaciona 0 atavismo, a loucura mora! e a epilepsia: o criminoso nato é um ser inferior, atávico, que não evolucionou, igual a uma criança ou a um louco moral, que ainda necessita de uma abertura ao mundo do valores; é um indivíduo que, ademais, sofre algumaforma de epilepsia, com suas correspondentes lesões cerebrais. 15

A tese Lombrosiana foi muito criticada desde os mais variados pontosdevista. 16 Censura-seemLombroso seuparticularevolucionismo, carente de toda base empírica,já que nem o comportamento de outros ercs vivos é extrapolável ao do homem, nem se demonstrou a existência de taxas superiores de criminalidade dentre as tribos primi- tivas, senão o contrário. 17 Costuma-se reprovar, também, o suposto caráter atávico do delinqüente nato e o significado que Lombroso atribui aos "estigmas", em seu entender, degenerativos. Não pareceque existacorrelação necessária alguma entre os estigmas e uma tendência criminosa.'! Não é difícil encontrar em qualquer indivíduo alguns desses traços, sem que isso tenha uma explicação atávica e ancestral, nem muito menos criminógena. Pelo contrário, é uma evidência que nem todos os delinqüentes apresentam tais anomalias e, de outro lado, nem os não-delinqüentes estão livres delas. Não existe, pois, o "tipo criminoso", de caráter antropológico, diferente de qualquer outro indivíduo não-delinqüente, dotado de determinadas características de identidade que o revelem. Não é correto, ademais, examinar o crime sob a ótica exclusiva do autor, menosprezando a relevância dos fatores exógenos, sociais etc.

b) A sociologia criminal de Ferri. Ferri (1856-1929), por sua

parte, representa a diretriz sociológica do posítivismo."

"Antecedentes enel estudio de ladelincuencia", em Delincuencia. Teorfae

lnvestigaclôn, cit., p. 34 e ss.

cui Sobreateoria lombrosiana, videRodríguezManzanera, L., Criminología,cit., p. 271. Cf. García-Pablos, A., Manual de Criminologia, cit., p. 259 e ss. 061 Umresumodascitadascríticas,emGarcía-Pablos,A.,ManualdeCriminologia, cír., p. 262 e ss.

íl7J Vide Bonger, W., lntroducciân a la Crlminologta, cit., p. J16-120. l"J Vide Bonger, W., Introducciõn a la Criminologia, cit., p, 123 e ss.

ci 9 t Uma resenha bibliográfica sobre Ferri, em García-Pablos, A., Manual de Criminología, cit., p. 266, nota 146.

A CONSOLIDAÇÃO DA CRIMINOLOGIA COMO CIBNCIA

181

Professoruniversitário, advogado célebre, político militante (tam- bém do Partido Socialista dos Trabalhadores, do qual foi fundador) e reputado cientista, costuma ser considerado o "pai da moderna Soci- ologiaCriminal". Fundou arevistaLaScuolaPositiva,6rgãodedifusão dopositivismo criminológico italiano, assim como a conhecidaAvanti, que era porta-voz do ideal socialista. A mentalidade positivista apareceu na primeira obra de Ferri, sua tese de doutoramento, na qual rechaça o livre arbítrio, qualificando-o

de mera "ficção"." Mas tal determinismo, incompatível com o ensi- namentodeseu mestreCarrara(um clássico), não mereceu ainda o total reconhecimento por parte de Lombroso, que não o considerou sufici- entemente positivista." Faltava-lhe, segundo seu ponto de vista, domi- nar um determinado método de investigação. A permanência de Ferri em Paris, com o antropólogo Quatrefages, permitiu-lhe analisar o extenso trabalho e materiais dos "estatísticos morais", assim como familiarizar-se com as concepções antropológicas, que tomaram viva

sua admiração por Lombroso. A partir daí passou a visitar prisões e

examinarcrânios, como este, compreendendo aimportânciado método "positivo", isto é, da observação empírica, da análise dos fatos, da experimentação, único método, segundo seu juízo, "científico", que deveria substituir o silogismo e adedução acadêmicados "clássicos". 22

Ferri éjustamente conhecido por sua equilibrada teoria da crimi-

nalidade (equilibrada apesar do seu particular ênfase sociológico), por

seu programa ambicioso político-criminal (substitutivos penais) e por

suatipologia criminal, assumida pela Scuola PositivaP Ferri censurou

(lOJ La negazione del libero arbimo e la teoria dell'imptüabilità, 1877.

an Vide Ferri, E., "Polémica in difesa della Scuola criminaJe positiva", 1886.

ReimpressãoemStudi sulla criminalitã ed altri saggi, cit., p. 234-239e245

e ss. Depois de sua estada em Paris, Ferri reconheceu "haver digerido e assimiladoquilosdeestatísticascriminaisederealizar,ademais,osoportunos

estudos antropológicos cit., p. 149).

isto é, sua "conversão ao método positivo" (ob.

'',

mi Ferri éumdos principais teóricos do método positivo ecrítico comrespeito ao pensamento abstrato-formal e dedutivo dos clássicos. Vide, do autor, "Il mctodo ncl Diritto Criminale", em La Scuola Positiva. 1929, p. 116

mi O próprio Ferri, E. sintetizou assim sua contribuição à Criminologia: vid. Principi di Diritto Criminale, 1928, Torino, Utet, XVI. Cf. García-Pablos, A., Manual de Criminología, cit., p. 269 e ss.

]82

CR[MINOLOOIA

os "cléssicos" porque renunciaram a uma teoria sobre a gênese da criminalidade, conformaadn-se em partir da constatação fática desta, umavezocorrida. Propugnava,emseulugar,porumestudo"etiológico" do crime, orientado à busca científica de suas "causas"." Odelito,paraFerri,nãoéprodutoexclusivodenenhumapatologia individual (o que contraria a tese antropológica de Lornbroso), senão - comoqualquer outro acontecimento natural ou social.- resultadoda contribuição de diversos fatores: individuais, físicos e sociais. Distin- guiu, assim, fatores antropológicos ou individuais (constituição orgâ- nica do indivíduo, sua constituição psíquica, características pessoais como raça, idade, sexo, estado civil etc.), fatores físicos ou telúricos (clima, estações, temperatura. etc.) e fatores sociais (densidade da população, opinião pública, família, moral, religião, educação, alcoo- lismoetc.)." Entende, pois, que acriminalidade éum fenômenosocial como outros, que se rege por sua própria dinârnica, 26 de modo que o cientistapoderia antecipar o número exato dedelitos, e aclassedeles, em uma determinada sociedade e em um momento concreto, se contassecomtodososfatoresindividuais,físicosesociaisantescitados efossecapazdequantificara incidênciadecadaumdeles. Porque,sob tais premissas, não se comete um delito mais nem menos (lei da "saturação criminal")." ão menos célebre é a teoria dos "substitutivos penais", com a qual sugere Ferri um ambicioso programa político-criminal de lutae prevenção ao delito, m.enosprezando e dispensando o Direito Penal."

124) Ferri,E., Losnuevoshorizontesdel Derecho Penal ede Procedimienio,cit., (futrcxlucción), IX e p. 248-249. Por isso proclama sua célebre "oração fúnebre pelo Direito Penal clássico" (ob. cit., p. 23). CUl Vide Perri, E., Los nuevos horizontes, cit., p. 217,219. Ferrí, não obstante, acentua os fatores sociais em razão da maior relevância "etiológica" dos mesmoseportratar-sedosmaisacessíveisao legisladorquepodeneutralizá- los (ob. cit., p, 220-221). 126 l Ferri, E., Los nuevos horizontes, cit., p. 233 e ss, mi Sobrereferida"Leida.saturação", seguindoemparte atese deQuctelet,vide Ferri, E., los n.uevos horizontes, cít., p. 228 e ss. uii Vide Ferri, E., "Dei sosmutívi pcnalí", em Archivio di Psichtatria. I, 1880 (Lição inaugural); também, em Los nuevos horizontes, cit., p. 247 e ss, (especialmente, 270a303). Cf. García-Pablos,A.,Manualde Críminología, cit., p. 273 e ss.

A CONSOLIDAÇÃO DA CRIMINOLOGIA COMO Cl~NCIA

183

Suateseéaseguinte: o delito éum fenômeno social,com umadinâmica própriaeetiologia específica, na qual predominam os fatores "sociais". Emconseqüência, a Juta e a prevenção do delito devem ser concreti- zadas por meio de uma ação realista e científica dos poderes públicos que se antecipe a ele e que incida com eficácia nos fatores (especial- mente nos fatores sociais) criminógenos que o produzem, nas mais diversas esferas (econômica, política, científica, legislativa, religiosa. familiar, educativa, administrativa etc.), neutralizando-os.

A pena, conforme Ferri, seria, por si só, ineficaz, se não vem precedidaouacompanhadadas oportunas reformas econômicas, sociais etc., orientadas por uma análise científica e etiológica do delito. Por isso é que ele propugnava, como instrumento de luta contra o delito, não o Direito Penal convencional, senão uma Sociologia Criminal integrada, cujos pilares seriam a Psicologia Positiva. a Antropologia Criminal e a Estatística Social." Quanto à "tipologia" de Ferri, basta recordar que parte da existência ideal de cinco tipos básicos de delinqüentes ("nato", "louco", "habitual", "ocasional" e "passional") - aos quais acrescentaria a categoria do delinqüente "involuntário" ("imprudente" em nossa terminologia atual)." Mas também admitia a freqüente combinação na vida cotidiana de características dos respec- tivos tipos em uma mesma pessoa, o que outorga a sua tipologia uma saudável flexibilidade.

< 19 l Ferri, E., Los nuevos horizontes, cit., p. 400. "A Justiça Criminal do futuro

- dizia o autor - deve ser administrada por juízes que tenham suficientes conhecimentos não de Direito Civil ou Romano, senão de Psicologia, de AntropologiaedePsiquiatria. Que possam realizar uma profundadiscussão científicasobreocasoconcreto,emlugar de invocarbrilhanteslogomaquias.

A análise e solução de cada caso real é um problema 'científico' que deve

serabordadocomcritérios desta classe (psiquiátricos, antropológicos etc.) e nãojurídico-formais, como se de um contrato privado se tratasse", conclui

Ferri (vide Studi sulla criminalitã ad altri saggi, cít., p. 216-233).

< 301 O legado lombrosiano é patente na teoria de Ferri. Assim, e conforme este autor, as investigações antropológicas teriam demonstrado que "o homem "

constitui "uma variedade antropolõgica., completamente

"umselvagem

que reproduz as características orgânicas e

psíquicasda humanidadeprimitiva" (videLos 1111evos horizontes, cit.,p. 127- 128). Defato,Ferrisustentouaexistência deestigmas físícosepsíquicos no

delinqüente

diversadotipo normaldo homem são, adultoecivilizado";

perdido em nossa civilização

diversos subtipos de delinqüentes (ob. cit., p. 130-132).

184

CRIMINOLOOIA

Uma última reflexão política obriga ressaltar as contradições e debHidades de Ferri, autor que disse ter se sentido "marxista"," e a inclinação totalitária de algumas teses positivistas. Ferri lamentou empre o excessivo "individualismo" dos clássicos e sua contínua remissão aos "direitos do individuo" (delinqüente), em detrimento da defesa eficaz. da sociedade. Propugnou, como bom positivista, pela justiça da ordem social (da ordem social da burguesia que estava nascendo, emúltima análise) e pela necessidade de sua defesa atodo custo, 32 incluindo o sacrifício dos direitos individuais, da segurança jurídicaedaprópriahumanidadedaspenas. Daí suaingênuaconfiança no regime fascista (que reforçaria o princípio de autoridade, freio do individualismo liberal), sua preferência pelo sistema de medidas de egurança (livres do formalismo e da obsessão pelas garantias indivi- duais dosjuristas)" e pela sentença indetenninada; suahostilidadeem relação aosjurados (N. doT.: juízes não profissionais) (pois pretendia uma administração técnica e profissionalizada)" (N. do T.: juízes de 'bata", nãode"toga" )einclusive aadmissão, aindaque sóemalguns casos, da pena de morte. 35

e) O positivismo moderado de Garófalo. Garófalo (1852-1934) ustentou um positivismo moderado. Boa parte do êxito e da difusão

(3l) Ferri, E., Difesa penali, I, p. 8. Cf. Sellin, Th., "E. Ferri", em Pioneers in Criminology, London, 1960, Steven/Sons Limited, p. 289 e ss. mi Precisamente, a eficaz defesa da sociedade, a todo custo, seria a "razão histórica"daEscolaPositiva. Vuie Ferri, E., Los nuevos horizontes, ciL,X. O autor contrapõe a"lutacontraodelito" (missão do positivismo) à"lutacontra o castigo" (tarefa histórica do "garantismo" clássico) (ob. cit., p. 4 e ss.). <3Ji FerrierapartidáriodeumCódigopreventivo"amédioea longoprazomuito

"porque aestatísticanos provaque

, as penas têmumaresistênciainfinitesimalcontraochoquedacriminalidade, "

(Los nuevos

maiseficazqueos arsenais punitivos"

quando no ambiente social se desenvolveram os germes

horizontes, cit., p. 303).

<341 Perri, E., Los nuevos horizontes, cit., p. 239. García-Pablos,A., Manual de Criminología, cit., p. 271. De idéias semelhantes participava Lombroso. os, Fcrri,comoLombroso,erapartidáriodapenademorte,tantopelasuafunção exemplar,comode"seleção"aoeliminara"raçacriminal". Porémlamentava seu escasso impacto dissuasório ou intimidatório devido à sua pouca

aplicação. Vide Los nuevos horizontes, cit., p. 378 e 381.

A CONSOLIDAÇÃO DA CRIMINOLOGIA COMO Cl~NCIA

185

da Scuola Positiva deve-se à prudência deste autor, que foi jurista, magistrado, politicamente conservador, e que soube reformular os postulados da referida escola pensando, antes de tudo, na melhor difusãodosmesmosena possibilidade de suarecepçãopelas leis, sem dogmatismos nem excessos doutrinários. 36 Embora fosse fiel às premissas metodológicas do positivismo (método empírico), caracterizaram-no, não obstante, a moderação e o equilíbrio,queodistanciaramtantodaAntropologialombrosianacomo dosociologismodeFerri.Vejamosostrêsaspectosfundamentaisdeseu penssamento: seu conceito de "delito natural", sua "teoria da crim!pa- lidade" e o "fundamento do castigo ou teoria da pena". ParaGarófalo 37 ospositivistas, atéentão,haviamseesforçadopara descreveras características do delinqüente, do criminoso, em lugar de definir opróprio conceito de "crime" corno objeto específico danova disciplina (Criminologia). Por isso, ele pretendeu criar uma categoria, exclusivadaCriminologia, quepermitisse, segundoseujuízo,delimitar autonomamente o seu objeto, mais além da exclusiva referência ao sujeito ou às definições legais. Referida categoria consiste no "delito natural", com o qual se distingue uma série de condutas nocivas per se,emqualquersociedadeeemqualquermomento,comindependência inclusive das próprias valorações legais mutantes. 38 Sua definição, no entanto,decepcionou,jáquedificilmentesepodeelaborarumcatálogo absolutoeuniversal de crimes, sobretudo quando se valede conceitos

1 36 > Para uma resenha bibliográfica sobre Garófalo, vide García-Pablos, A.,

Manual de Criminologfa, cit., p. 276, nota 212.

P7l AsprincipaisobrasdeGarõfalo, R., são: Criminología, 1885, Nápoles (cita-

se a 2.ª ed., Turin, 1891); Di un criterio positivo dei/a penalità, Nápoles,

1880; Cio che dovrebbe essere un giudizio penale, Turin, 1882, Loescher;

Riparazione alle vittime del delito, Turin, 1887, Bocca; IA superstitione

socialista, 1895, Paris. F. Alcan. 01 > Garõfalo,R., Criminologia (2.ª ed.), p. 5ess. (especialmente: 30)

"a lesão

daquela parte do sentido moral que consiste nos sentimentos altruísta fundamentais:apiedadeeaprobidade.Ademais,alesãodeveser namedida médiaemquesãopossuídosporumacomunidadeeque éindispensávelpara aadaptaçãodoindivíduoàSociedade".Ossentimentosde"piedade"(rechaço da causação voluntária de sofrimento aos demais) e o de "probidade" (respeito aos direitos de propriedade alheios) integrariam a sensibilidad moral de uma sociedade.

CRIMINOLOGIA

orado Montero (1861-1919) concilia os postulados positivistas com a filosofia correcionalista de grande tradição na Espanha (Giner de Los Rios, Concepción Arenal, Luís Silvela etc.).? Esta filosofia evita, precisamente, que a utopia do autor incorra nos excessos defensistas deoutros positivistas. Dorado Montero propugnou porum Direito "protetor dos criminosos", um novo Direito "tutelar", não repressivo." dirigido a modificar e corrigir a vontade delitiva indivi- dual,"cujascausasdeviamseranalisadas,cientificamente, casoacaso, com a ajuda da Psicologia. Em sua "Pedagogia correcional", os magistrados e os advogados seriam substituídos por funcionários especializados que assumiriam competênciasjudiciais, administrativas epoliciais; e, logicamente, a pena seria substituída por um tratamento individualizador, 50 Rafael Salillas, médico, foi o representante mais genuíno do positivismo criminológico espanhol, de orientação sociológica." Mais que comaanáliseempírica dapessoadodelinqüente, ele sepreocupou comoestudo do meio social deste, servindo-se de enfoques preferen- temente psicológicos e sociológicos. Para Salillas, o delinqüente não é um subtipo humano, atávico e degenerado, senão uma criatura do meioemque vive, produtodeste; a"raizimediata" dodelito, afirmava,

< 4 7l Como adverte RivacobaY Rivacoba, M., em El centenario dei nacimiemo de Dorado Montero, 1962, Santa Fé, p. 85 e ss. C4'J ConformeDoradoMontero,aJustiçaPenalseachaemcriseeoDireitoPenal retributivo a "caminho de sua tumba". É necessário um novo Direito "preventivo", correcional, constituído sobre bases positivistas "Dei Derecho Penalrepresivo aipreventivo",emDerechoprotectordeloscriminales, 1915, Madrid, L p. 316 e ss. C49l Para o autor - e diferentemente das teses positivistas - o delinqilente nãoé um animal selvagem e temível senão um menor, um ser débil e necessitado de tutela. Razão pela qual a "odiosa" função penal deveria tomar-se preventiva, correcional, educadora e protetora do mesmo (Bases para un nuevo Derecho Penal, Barcelona, Manuales Gallada, p. 13-18 e 36 e ss.).

~ Na"Utopia"deDoradoMonteroojuiz seconverteem um autêntico"médico penal" que exerce a "cura de almas" (Basespara un nuevo Derecho Penal,

cít., p. 95 e ss.),

csi> Em Salillas, como adverte Cerezo Mir, J., (Curso de Derecho Penal, cit., 107, nota 110)émais acentuada ainfluênciapositivista queacorrecionalista.

A CONSOLIDAÇÃO DA CRIMINOLOGIA COMO Ctê.NCJA

189

acha-se naconstituiçãopsíquicae orgânica do delinqüente, porém sua "raizmediata" ou "causafundamental"está nomeiofísicoe soda) que conforma aprópria psique daquele.P De suas obras cabe destacar: La.

vida penal en Espaiia, El delincuente espaiiol: el linguaje e Hampa.

Sua teoria básica foi a biossociologia. Por último, C. Bemaldo de Quiróz, mais criminólogo que jurista," foi discípulo de Giner de Los Rios, em cujo laboratório de Criminologia iniciou sua atividade; colaborou depois nos Anales dirigido por Salillas. Empregou um método de trabalho inequivoca- mente empírico em suas investigações sobre a criminalidade de seu tempo e, de modo muito particular, sobre o crime dos bajosfondos (N.doT.: crimes organizados submersamentepor grupos "mafiosos"), o "bandoleirismo andaluz" e a "delinqüência de sangue", destacando a:importância dos fatores antropológicos e sociológicos. Dentre suas obrasmerecemmençãoespecial: Lasnuevas teorias dela criminalidod, La mala vida em Madrid, Criminología de los delitos de sangre en Espaii.a, Criminologia dei campo andaluz: el bando/erismo en Andalucía etc.

2. Escolas intermediárias e teorias ambientais

Os"estatísticosmorais"eopensamentodeFerri inauguraram uma nova concepção criminológica, que se entroncaria com a moderna Sociologia Crimioal, depois de numerosas transformações. Seguindo umcntéffci'l'ógico e cronológico, merecem menção especial, em primeiro lugar, a denominad(E~ola de "Lyon5(do milieu), radical- mente oposta às teses lombrosianas e crítica do positivismo; em segundo lugar os pensamentos ecléticos da:gerzW ,w~ italiana, da Jovem Escola Alemã sociológica ou de Pon ca rimina e da deno- minada "Defesa Social", que significam um dualismo moderado de base sociológica.

(.ll> Salillas, R., Hampa (Antropologia picaresca], 1898, p. 375 e

01 > SobreConstancioBcrnaldo de Quirõz, vide, Jiménez deAsúa, L., "La larga Y ejemplar vida de Constancio Bernaldo de Quiróz", em E/ Criminalista, 2.• série, V, 1961, Buenos Aires, Editorial la Rey, p. 231 e

190

RIMlNOLOGIA

ar\A Escola de "Lyon" e as teorias ambientais S4

Também chamadaEscolaAntropossocial ou Criminal-socioló~ estava integrada fundamentalmente por médicos. Recebeu influência decisiva da Escola do químico Pasteur, daí que seus representantes (Lacassagne,Aubryetc.)" utilizam com freqüência o símil do micróbio pruxplicar a transcendental importância do meio sociaJ 56 na gênese da delinqüência:

"O micróbio é o criminoso, um ser que permanece sem impor- tância até o dia em que encontra o caldo de cultivo que lhe permite

brotar".57

Lacassagne (1843-1924), a quem se atribui a frase ''As sociedades têm os criminosos que merecem" 58 (para ressaltar a importância do meio social), distinguiu duas classes de fatores crirninógenos: 59 os

<>'> SobreaEscolade"Lyon", videBonger,W., lntroducciôn a la Criminotogia,

cit., p. 137ess.; Hering, K. H.,Der Weg derKriminologie zurselbstãndigen

Wissenschaft, cit., p. 93 ess.: RodríguezManzanera, L., Criminología, cit., ~ p. 324 e ss.: García-Pablos, A, Manual de Criminología, cit., p. 290e ss. 'Ç/ São considerados, também, como representantes desta escola: Martín Y Locard,BoumetYChassinand,Coutagne,Massenet,Manouvrier,Letomeau, Topinard etc. O órgão difusor desta Escola foi a revista Archives de

L'Antropologie criminelle et des sciences penales, fundada por Lacassagne

e~ em 1886 (que apareceria sob diversos títulos). Escola de "Lyon", que nada tem que ver com os sociólogos estatísticos, demonstrouumgrandeconhecimentodas"causassociais"docrime,embora sob a influência de um acentuado realismo radical ou materialismo social. Cf. García-Pablos, A., Manual de Criminologia, cit., p. 290, nota 5.

1 >[Lacassagne, A, Actes du Premier Congrês /ntemational d'Antropologie

Criminelle, p. 166."Cremos- acrescentavaoautor- queodelinqüente,com suas características antropométricas e as demais, só tem uma importância muitosecundária.Ademaistodasessascaracterísticaspodemserencontradas em pessoas absolutamente honestas."

deLacassagne, acrescen-

taria:"associedadestêmapolíciaquemerecem". Cf. RodríguezManzanera,

L., Criminolog(a, 3t., p. 325.

cassagne,A., ibidem, p. 167.~ ,

discípulo

(.f'}>\Lacassagne,A., "Lacriminalité comparée des villes ct des campagnes",em

Bulletínde laSociétéd'Antropologie deLyon,Lyon, 1882, p. 7ess. Segundo

o autor, odelinqüente apresenta mais "anomalias" físicas e psíquicas queo

A CONSOLIDAÇÃO DA CRIMINOLOGIA COMO CltNCIA

191

''predisponentes" (por exemplo, de caráter somático - corporal) e os "determinantes" (os "sociais", decisivosl/" Essa classificação corresponde à realizada por Aubry (fatores predisponentes, como a hereditariedade, e fatores transmissores do "contágio", como a educa- ção. a família etc.). 61

b) As denominad

Trata-se de uma série dep~ol!!que pretendem harmonizar os postulados do positivismo com os dogmas clássicos, tanto no plano metodológico como no ideológico. Não contêm nenhuma teoria criminológica (etiológica) original (valem-se da conhecidafórmula de combinar a predisposição individual e o meio ambiente), porém interessam porque abordam problemas essenciais para a reflexão criminológica. Assim, por exemplo: o livre arbítrio, finalidade do castigo e daAdministração Penal, relação entre disciplinas empíricas edisciplinas normativas, conflito entre as exigências formais e garan- tiasdoindivíduoeasdadefesadaordemsocial(DireitoPenalePolítica Criminal), funções e limites da luta e prevenção ao crime etc.

não-delinqüente, mas umas e outras seriam conseqüências do meio social (vide Atas do I Congresso Internacional de Antropologia, p. 165-166).

cr,oJ Lacassagne estudou, também, a incidência criminógena das condições socioeconômicas, "Marche de la criminalité en France de 1825 a 1880", em Revue Scienufique, 28, 1881, p. 674 e ss., sustentando que existiria uma

correlaçãoestatísticaclaraentre as mudançasnas estruturaseconômicas (v.g., preços de produtos de primeira necessidade) e a criminalidade patrimonial.

cit., examinou adistinta etiologia

Emoutra obraLa criminaiuécomparée da criminalidade rural e urbana.

,

<MJ A importância que a Escola de "Lyon" confere ao meio social não deve ser confundidacom a teoriasltuacional que esgrime a chamada EscolaClássica. Para esta última não existe diferença qualitativa alguma entre delinqüentes e não-delinqüentes, enquanto a Escola de "Lyon" reconhece um fundo patológico ou estado mórbido individual na delinqüência, embora de muito inferiorgrauetiológico (criminógeno)queo meio social. Distinguindoambos enfoques (teoria clássica da ocasião e teoria do meio): Bemaldo de Quiróz. Cf. Rodríguez Manzanera, L., Criminologia, cit., p.• 325 e ss.

< 62 ) Vide, em geral, Mannheim, H., em Pioneers, cit, (Introducción), p. 29 e ss.; Garc(a-Pablos, A., Manual de Criminologia, cit., p. 299 e

l92

CRlMINOLOGlA

'''ATerz,aScugla (seus representantes mais significativos foram:

a,Carnevare',Ipallomeni etc.) serve de exemploparaestaatitude Intese ou compromisso e eram os seguintes os seus postulados-' nítida distinção entre disciplinas empíricas (método experimental) e disciplinas normativas (que requeriam um método abstrato ededutivo); contemplação do delito como produto de uma pluralidade muito complexa de fatores endógenos e exógenos; substituição da tipologia positivista por outra mais simplificada, que distingue os delinqüentes em "ocasionais", "habituais" e "anormais"; dualismo penal ou uso complementário de penas e medidas de segurança, frente ao monismo clássico (monopólio da pena retributiva) ou ao positivismo (exclusivi- dadedas medidas de segurança); atitudeeclética arespeito doproblema do livre arbítrio, conservando a idéia da responsabilidade moral como fundamento da pena, e a de temibilidade como fundamento da medida; atitude de compromisso, também, quanto aos fins da pena, conjugando as exigências de retribuição com as de correção do delinqüente.

O positivismo "crítico" de Alimena reflete de modo significativo

o papel que a Terza Scuola confere à Criminologia, assim como a

autocompreensãoda nossa disciplinaem suas relações com outras;para

o referido autor, oDireito Penal não pode serabsorvido pelaSociologia

(contra a tese de Ferri e outros positivistas), porém convém enriquecer

o exame dogmático da criminalidade com a perspectiva de disciplinas

não-jurídicas, como a Antropologia, a Sociologia, a Estatística e a

Psicologia. 64

/ ' /

-

VImportante é também aEscoladeMarburgo ou Jovem Escola Alema de Política Criminal (seu porta-voz mais conheciao foi F.von Liszt, fundadorjunto com Prins e Van ~ da Associação Interna- cionâI cie "{;nminalística que, desligada das disputas de "escolas", pretendeu "ressaltar a necessidade, para o criminalista, de investigações sociológicas e antropológicas", tomando como tarefa comum "a investi- gação científica do crime, de suas causas edos meios para combatê-lo"). 65

< 611 Carnevale, E., "Una terza Scuola di Diritto Penale in Itália", em Rivistadi discipline carcerarie, 1891. Cf. Mannheim, H., em Ploneers, cit., p. 29.

(f>4l Alimena. B., Note di un criminalista, 1911, Módena. r.s> Uma resenha bibliográfica sobre esta Escola, em García-Pablos, A., Manual de Criminologia, cit., p. 300, nota 69.

A CONSOLIDAÇÃO DA CRIMINOLOGIA COMO c1eNCIA

193

Os postulados desta Escola, em síntese, são os seguintes: análise científicadarealidadecriminal,dirigidaàbuscadascausasdocrime,em lugar de uma contemplação filosófica ou jurídica deste, pois a ótica jurídica,dogmática,écomplementãriaporémnãosubstitutivadaempírica;

?desdramatização e relativização do problfmª <lE!i.YK amítrio, que

cÕõãUzaumdualismopçnalquecompatibilizaaspenaseasmedidasde s:; ;~ asead~ re~ectivamente,naoulpabilidádce napericulosi- dadej adefesa socig] apresenta-se como objetivo prioritário da função

o

§l"al 1 embo ra fil:~

ntue a importânciadaprevençãoespecial. 66

Particular interesse revela a contribuição deF. von Liszt, contida emseu famoso "ProgramadeMarburgo" (1872), sobretudo no âmbito da Política Criminal e suas bases, porque mantém um saudável equilíbrio entre os sistemas clássicos e liberais e a necessária abertura aométodopositivista.Ateoriacriminológicadesteautor, 67 paradigmática desdesuaformulação, nãoéoriginal: é uma teseplurifatorial, eclética, que concede importância à predisposição individual e ao meio ná gênesedodelito(''odelito- afirmaLiszt- éoresultadodaidiossincrasia do infrator no momento do fato e das circunstâncias externas que lhe rodeiam nesse preciso instante"). 68 A idéia mais sugestiva do pensamento de F. von Liszt reside no âmbito metodológico e no político-criminal. O autor sugere uma "Ciênciatotaloutotalizadora"doDireitoPenal,daqual deveriamfazer parte, ademais, a Antropologia Criminal, a Psicologia Criminal e a EstatísticaCriminal (não só a dogmáticajurídica) com o fim de obter e coordenar um conhecimento científico das causas do crime e combatê-lo eficazmente em sua própria raiz. 69 Afasta-se, assim. dos

C6ól Vide Mir Puig, S., Introducciân a las bases del Derecho Penal, cit., p. 216 e ss.

c&n F.V.LisztrechaçouateoriaIombrosiana(KriminalpolitischeAufgaben, 1889,

p.308)eaambientaldeTarde,sugerindoumateseecléticaqueponderetanto

a influência do meio como a predisposição individual: uma análise, poi empírico-biológicaesociológica(Aufsarze undAuftriige, cit.,TI,p.234ess.). (C>SI VideF. V. Liszt, "Das Vcrbrechen als soziopathologischeErscheinung", em StrafrechtllcheAufsãtt»undYortrãge, cit., li, p.234(seguindoateseeclética deFcrri);eLehrbuchdesDeutschenStrafrechts, 1932,2. 1 ed.,Berlin-Leipzig, p. 11-12.

C6'J> F. V. Liszt, Strafrechtliche Aufsiitze und Vorrrcige, cit., I, p. 291. "O século

XVíll queria combater o delito sem estudá-lo. O século XIX. ao contrãri

194

RIMINOLOGIA

que pretenderam lutar contra o crime sem analisar cientifi- camente suas "causas"; e se afasta também dos positivistas na medida em que conserva intactas as garantias individuais e os direitos dos idadãos que, a seu juízo, representa o Direito Penal ("como barreira intransponíveldequalquerPolíticaCriminal")." F. vonLisztpropugnou, também, por uma concepção "finalista" da pena (não meramente retributiva), influenciado pelo pensamento evolucionista. 71

EscolaouMovimentodaDefesaSocial 72 (representada por

Graniãtic~. Mark Ancel etc.) possui certas semelhanças com as ante- ~~eLúecitadàs."'Íimpouco traça uma nova teoria da criminalidade, nem é uma Escola Sociológica em sentido estrito, senão uma filosofia penal, uma política criminal. A idéia da "defesa social" é mais antiga, pois surgiu na época do Iluminismo e foi formulada, posteriormente, por Prins." O específico desta Escola ("movimento", conforme M. Ancel) é o modo de articular referida defesa da sociedade mediantea oportuna ação coordenada do Direito Penal, da Criminologia e da CiênciaPenitenciária, sobrebases científicasehumanitárias,aomesmo tempo, e a nova imagem do homem delinqüente, realista porémdigna, da que parte. 74 De acordo com M.Ancel, a meta desejada não deve ser o castigo do delinqüente, senão aproteção eficazda sociedadepormeio

(diria o autor), se apóia na Estatística criminal e na Antropologia criminal, é dizer, na investigação científica do delito". (70) F. V. Liszt, "Über den Einfluss der soziologischen Forschungen", cit., em Strafrechtliche Aufsiitze und Vortriige, II, p. 80-81 (O Direito Penal como "Magna Carta" do delinqüente frente ao Leviatã, e como "barreira intransponível" de todo programa social). n,1 F.V. Lisztassume as teses deterministas do positivismoe, porisso, propugna por uma pena que se ajuste à fase atual de evolução biológica da espécie humana. E sempre no novo marco do Estado "intervencionista". Ibidem.

mi Sobre esta "Escola", vide Beristain Ipiãa, A., "Estructuración ideológicade

la nuevadefensa social", cmAnuario de Derecho Penal y Ciencias Penales,

1961, p. 410 e ss.; cf. García-Pablos, A., Manual de Criminologia, cit.,

303 e ss. 03J Vuie M Ancel, em A nova defesa social. Rio de Janeiro, Forense, 1979.

mi Ressaltando as diferenças entre os postulados desta Escola e o positivismo criminológico: M. Ancel, em La DéfenseSocialenouvelle, 1954,Paris, 57

e ss. Cf. Mannheim, H., Pioneers, cit., p. 35 e ss,

A CONSOLIDAÇÃO DA CRIMINOLOGIA COMO Cl~NCIA

195

deestratégias não necessariamente penais, que partam do conhecimen- to científico da personalidade daquele e sejam capazes de neutralizar sua eventual periculosidade de modo humanitário e indivídualizado.

O propósito de "retirar do mundo jurídico" parcelas do Direito

Penal em função de uma eficaz Política Criminal significa negar-lhe 0 monopólio da luta e prevenção do delito, tarefas que deve compartir com outras disciplinas: não se trata de questionar por completo sua importância e sua competência, como fizeram os positivistas quando postulavam a substituição da pena pela medida de segurança e do Direito Penal pela Sociologia, Antropologia etc. A "nova" Defesa Social potencia, poroutro lado, afinalidade ressocializadora do castigo, compatível com a finalidade protetora da sociedade, precisamente porque acolhe uma imagem do delinqüente, do homem-delinqüente, como membro da sociedade, chamado a nela se reincorporar, o que obriga a respeitar sua identidade e dignidade. 75 É uma imagem bem distinta da do "pecador" (dos clássicos), da "fera perigosa" (dos positivistas), da do "inválido" (dos correcionalistas) ou da "vítima" (do

marxismo).

e) Por último, maior interesse tem o pensamento de Tarde, que poderia serqualificado depsicossociolâgico. Ele se antecipou a alguns postulados da Sociologia norte-americana (concretamente à teoria da aprendizagem de Sutherland e às teorias subculturais e conflituais), a partir de uma postura de aberto enfrentamento com o positivismo.

Tarde (1843-1904) 76 era jurista, francês e diretor de Estatística Criminal do Ministério de Justiça, atividade certamente pioneira na Europa." Fez oposição às teses antropológicas de Lombroso e ao

< 75 > VideSainzCantero,J.S.,LeccionesdeDerechoPenal,P. G., 1979,Barcelona, Bosch, p. 150-155. Oõl UmaresenhabibliográficasobreTarde,G., emGarcfa-Pablos, A., Manualde Criminologta. Madri, Espasa, 1988, p. 294, nota 29.

< 7 1) AlgumasdasobrasdeTarde:Lacriminalitécomparée (1886);La Philosophie

Pénale(1S{)O); Ét11despénalesetsoeiales (1891); LasLeyes de la imitacíân (1890); u, Leyes sociales (1898); La lógica social (1893); Las

transformacionesdeiDerecho(1893);Lastransformacionesdeipoder(1899)

etc. Tarde foi um dos mais combativos contraditores do positivismo criminológico naEuropa. Sua inimizade pessoal com Durkheím afastou-lhe

do mundo acadêmico universitário.

196

RIM1NOL0GlA

determinismo social, propugnando por uma teoria da criminalidadena qual ostentam particular relevância os fatores sociais; fatores físicos e biológicos podem ter alguma incidência na gênese do comportamento delitivo, porém nunca a decisiva que tem o meio social. Criticou, por isso. a tese lombrosiana do delinqüente nato, como indivíduo atávico e degenerado, invocando as investigações deMarro, semelhantes àsde Goring, que desvirtuavam aquela concepção antropológica." Porém evitou,aomesmotempo, odeterminismo socialpositivista, aoconceder relevância e significação à decisão (livre) do homem. De fato, preferiu ubstituir a tese positivista da responsabilidade "social" por umanova teoriaquefundamentariaareprovação, seconcorriam no indivíduodois pressupostos: sua "identidade" ou "conceito de si mesmo" e a "seme- lhança" ou "identidade social" dele como seu meio. 79

A explicação sociológica de Tarde tem uma particular conotação psicológica, que lhe caracteriza como precursor da teoria da aprendi- zagem de Sutherland. Para Tarde, o delinqüente é um tipo profissio- nal,80 que necessita de um longo período de aprendizagem, como os médicos, advogados e outros profissionais, em um meio particular: o criminal, e de particulares técnicas de intercomunicação e convivência com seus camaradas. A célebre frase que se atribui a Tarde (''Todo mundo é culpável, exceto o criminoso") reflete não só a crítica ao positivismo antropológico, senão a convicção de que a sociedade, ao propagar suas idéias e valores, influi mais eficazmente no comporta- mento delitivo que o clima, a hereditariedade, a enfermidade corporal

ou a epilepsia."

São muito significativas a respeito as "leis da imitação" deTarde. Para o autor, o delito, como qualquer outro comportamento social,

nSJ A criminalidade, a seu juízo, não é um fenômeno "antropológico", senão "social". possível quese nasça delinqüente, dizia, mas, desde logo,é seguro que a pessoa se faça delinqüente" (Atas do U Congresso de Antro- pologia, p. 253). 091 Tarde, G., Atas dom CongressoInternacional deAntropologia, p. 83 ess.;

do mesmo: Philosophie Pénale cit., p. IX a XVII.l.

roo, Tarde, G., "La criminalité professionelle", em Archive d'Antropologie criminelle, 1896, t 1. Cf. Schneider, H. J., Kriminologie, cit., p. 99 e ss. •M 11 Tarde,O., Lacriminalidadcomparada, La Espaiiamoderna, s.d., p. 27ess, Cf. García-Pablos, A., Manual de Criminologia, cit., p. 296.

A CONSOLIDAÇÃO DA CRIMfNOLOGIA COMO ClÊNCIA

197

começa sendo "moda", e toma-se depois um hábito ou costume; e, como em qualquer outro fenômeno social, o mimetismo - a imitação _joga um papel decisivo. O delinqüente é, consciente ou inconscien- temente, um imitador. 82 O pensamento de Ta ·de, ademais, já contém o germe das posteriores concepções subculturaís, quando contrapõe o delinqüente urbano ao rural e analisa a gênese da criminalidade derivada do progresso tecnológico e da moderna civilização: não em vão atribui o incremento daquela àquebrada moral tradicional, ao desenvolvimento de um desejo de prosperidade da classe média e baixa, que determina umagrandemobilidade geográficacom o correlativo debilitamento dos valores familiares, ao êxodo do campo para a cidade, à formação de subculturas desviadas como conseqüência da mudança social e, por último, a perda de segurança em si mesmas que experimentariam as classes sociais dominantes, incapazes de seguir servindo de guia e modelo. 83 De outro lado, Tarde, consciente do efeito preventivo da pena, mostrou-se partidário da pena de morte (precisamente por entender imprescindível em qualquer programa científico de luta contra o crime uma sólida base psicológica); e se opôs ao sistema de jurado (N. do T.: juízes não profissionais), mostrando-se partidário de umajustiça profissionalizada e técnica 84 (N. do T.: juízes de "bata", não de "toga").

<S 2 J Tarde,

G., Philosophie Pénale, 1890, p. 323.

(SJ> Tarde, G., Estudios penales y sociales, La Espaiia moderna. s. d., p. 267.

(8-IJ Vide Wilson M. S., "G. Tarde", cm Pioneers, cit., p. 236.